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<DOCNO>PUBLICO-19950215-045</DOCNO>
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<DATE>19950215</DATE>
<CATEGORY>Cien_Tecn_Educ</CATEGORY>
<AUTHOR>IS</AUTHOR>
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Robô americano-russo treina-se no vulcão
Marte no Havai
Isabel Salema*
É um exemplo das possibilidades da junção da tecnologia ocidental e russa e é um precursor dos aparelhos que irão explorar Marte nos próximos anos. Para simular o ambiente agressivo da exploração espacial, a NASA mandou-o para a beira do mais activo vulcão da Terra.
A partir de um laboratório na Califórnia (Estados Unidos), uma equipa de cientistas da NASA está a manobrar um veículo em redor do mais activo vulcão da Terra. Os testes começaram anteontem no Parque Nacional de Vulcões do Havai e terminarão no próximo sábado.
A missão do Ames Research Center da NASA recorreu a um veículo russo ligeiramente modificado e tem como objectivo simular «a exploração, por controlo remoto, da Lua e de Marte a partir de um laboratório na Terra», escreve a NASA num comunicado de imprensa sobre o assunto.
O veículo russo chama-se Marsokhod -- «caminhante de Marte» em russo -- e tem seis rodas de titânio em forma de cone, cada uma com o seu próprio motor. O Marsokhod é capaz de escalar rochas com cerca de 90 centímetros de altura. É alimentado a pilhas e a empresa norte-americana McDonnell Douglas Aerospace adaptou-lhe um braço robotizado, que o torna capaz de recolher e largar objectos, e colocou-lhe câmaras vídeo capazes de captar imagens estereoscópicas em directo, que anteontem foram capazes de transmitir as primeiras filmagens. O veículo, com 137 quilos de peso, trabalhou durante quatro horas no primeiro dia.
Os testes no terreno fazem parte de um esforço de cooperação entre a empresa norte-americana McDonnell Douglas Aerospace, a Arizona State University e a Universidade do Havai. Do lado russo, participam o Instituto Lavochkin -- que fez o Marsokhod --, o Instituto para a Investigação Espacial (IKI) e a VNITTransMash, uma organização da Agência Espacial Russa. O projecto, com um custo de 400 mil dólares, conta ainda com a colaboração da Planetary Society, em Pasadena.
O local escolhido para os testes foi a cratera do vulcão Kilauea, localizada a cerca de 48 quilómetros da cidade de Hilo. Este árido terreno vulcânico é semelhante ao que os cientistas esperam encontrar noutros planetas. A uma altitude de 1200 metros, o terreno tem pouca vegetação e é composto por depósito de cinzas, lava em desintegração e rochas irregulares e soltas.
Durante os três primeiros dias de testes, os cientistas controlaram o Marsokhod utilizando um programa que simula uma missão a Marte. Depois, o veículo, capaz de suportar temperaturas entre os 10 e os 60 graus centígrados, irá ser transportado para um sítio do parque onde a lava chega ao mar.
«A combinação do `chassis' do `rover' russo com a aviónica ocidental é um excelente exemplo dos benefícios possíveis da cooperação internacional», diz John Garvey, director de projecto da equipa da McDonnell Douglas, que patrocinou o uso dos «chassis» russos no estudo no Havai. A contribuição ocidental, segundo nos explicou o director-executivo da Planetary Society, Louis Friedman, foi a incorporação de sofisiticados sensores e da computação. Friedman considerou também o primeiro dia de testes um sucesso.
«O `rover' tira partido das novas tecnologias de outros programas como a missão [da sonda] Clementina à Lua, no ano passado, e da futura missão Mars Pathfinder», acrescenta o comunicado da NASA.
A Mars Pathfinder é uma missão em que está previsto o lançamento de uma sonda não tripulada e de um veículo-robô em direcção a Marte em 1996. Trata-se de um veículo muito simples de seis rodas, alimentado a energia solar e com apenas 9 quilos de peso e uma autonomia limitada a quatro centenas de metros da nave-mãe. Um verdadeiro peso-pluma -- como manda a nova política espacial da NASA, que privilegia o desenvolvimento e a construção de engenhos leves, pequenos e baratos --, o «rover» terá apenas 68 centímetros de comprimento por 48 centímetros de largura, graças a uma miniaturização significativa de todos os seus componentes.
Louis Friedman disse-nos que «está fora de questão» o teste do Marsokhod modificado na missão a Marte, sendo provável que este seja utilizado, pela primeira vez, na superfície lunar, embora nada esteja agendado neste momento.
Mais pesado e maior que os «rovers» americanos, o Marsokhod encontra-se actualmente na fase final de testes no Instituto Lavochkine, perto de Moscovo, mas, ao contrário do que estava previsto, só deverá ser lançado em direcção ao planeta vermelho em 1998, devido à crise económica que se vive na Rússia e que afecta igualmente o programa espacial russo. Além da Rússia, participam também nesta missão a França, a Hungria e a Alemanha. A missão Marte-96 está orçada em 840 milhões de dólares (134 milhões de contos), cabendo aos russos 700 milhões e aos europeus 140 milhões.
*com José Augusto Matos
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