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<DOCNO>PUBLICO-19950303-055</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19950303-055</DOCID>
<DATE>19950303</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>MSL</AUTHOR>
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A -- Imagens incómodas marcam o Verão de 1992 num mundo ocidental que vê a má consciência intrometer-se na sua despreocupação estival. São colhidas em Baidoa, a «cidade da morte», como é o caso desta, ou em Mogadíscio, Bardera, Kismayu, tanto faz. Estes nomes, até então ignorados, transformam-se subitamente em símbolos de horror. Morre-se de fome na Somália mergulhada no caos e que desapareceu como Estado. Ao certo nunca se saberá quantos morreram -- algumas estimativas falam de dois milhões.
B -- Na noite de 9 de Dezembro de 1992 é como se Hollywood se tivesse mudado para Mogadíscio. Começa o desembarque de milhares de marines norte-americanos ordenado por George Bush, já derrotado nas presidenciais, para Restaurar a Esperança. A chegada é mediática, sob holofotes, captada em pormenor por câmaras de tv. Como nos filmes, como nalguns filmes, os «bons» -- os soldados -- resgatam a população à sorte que lhes foi imposta pelos «maus» -- os «senhores da guerra». Recebem sorrisos.
C -- Não passam mais de cinco dias até ao primeiro sinal de derrapagem. Acusada de ter dormido com um soldado francês, uma mulher somali é perseguida pela população, defende-se como uma faca, é dada sucessivamente como tendo sido morta e estando a salvo -- nunca se soube. O filme, estava-se a ver, não era «Dormindo com o Salvador» e sim «Dormindo com o Inimigo». Alguns recordam então, mas já tarde, o aviso do «papa» Kissinger que passara ignorado: «Estas coisas sabe-se sempre como começam e nunca como acabam».
D -- Na Primavera e Verão de 1993, os «senhores da guerra» abandonam todas as aparências de colaboração com a força internacional. Sucedem-se os recontros, há massacres de capacetes azuis, de milicianos somalis, de jornalistas, e tudo culmina, no primeiro domingo de Outubro, com a morte de 18 soldados americanos. Uns são feitos reféns, outros arrastados mortos pelas ruas da capital. Nesta foto, somalis exibem o que disseram ser «restos» de um soldado. Um ano depois, a América choca-se de novo. Bill Clinton ordena a retirada.
E -- Março de 95. «Operação Escudo Unido». Unido para proteger a retaguarda dos últimos soldados da ONU na Somália e garantir que eles saiam em segurança. Butros-Ghali, secretário-geral da ONU, reconhece: «É uma situação nova. Até agora, a ONU só se retirava de um país depois de ter cumprido a sua tarefa. Tentámos durante três anos e não conseguimos». Outra visão, optimista, de outros quadrantes, de quem tenta dizer que nem tudo foi perdido, sublinha: salvaram-se as vidas de 250 mil somalis.
F -- A ser assim, foi o outro objectivo da intervenção que ficou por cumprir: restaurar um esqueleto de Estado, de ordem. A Somália fica entregue a ela mesma. Dividida entre os «senhores da guerra» e os clãs. Impossível garantir que novas imagens de horror em Baidoa, em Bardera, em Kismayu, não voltem a repetir-se. Mas dificilmente haverá nova intervenção. Pelo menos nestes moldes. A África é diferente? Jung dizia: «Pessoas diferentes habitam séculos diferentes».
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