<DOC>
<DOCNO>PUBLICO-19950327-122</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19950327-122</DOCID>
<DATE>19950327</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>LP</AUTHOR>
<TEXT>
A noite dos Óscares chegou
Corre, Forrest, corre
Da nossa enviada
Leonor Pinhão, em Los Angeles
Toda a gente espera que esta seja a noite da consagração pela Academia de «Forrest Gump», Robert Zemeckis e Tom Hanks. Entre certezas, favoritos e algum «suspense», Tarantino e «Pulp Fiction» partem para a cerimónia com alguma desvantagem. Se Martin Landau e Dianne Weist são vencedores certos na categoria dos «secundários», ninguém leva a sério a candidatura de John Travolta.
A ABC, a estação de televisão norte-americana com o exclusivo da transmissão em directo da 67ª cerimónia da entrega dos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, vendeu durante uma semana no Verão os 43 espaços de publicidade de 30 segundos disponíveis para os intervalos do espectáculo televisivo da noite dos Óscares. O preço? Qualquer coisa como 700 mil dólares por anúncio, cem mil contos em moeda portuguesa, ou seja, já há quem esteja a ganhar e a cerimónia, marcada para as 18h de hoje em Los Angeles, ainda não começou.
Quando começar, antes mesmo que o primeiro envelope seja aberto, não há ninguém que duvide do nome dos vencedores nas categorias de melhor actor secundário e de melhor actriz secundária -- Martin Landau e Dianne Weist. E se outros nomes, que não estes, forem pronunciados, o efeito será arrasador e a surpresa muito mal recebida. Martin Landau é um ícone nacional nos EUA -- o que se deve muito mais, infelizmente, à sua participação na série televisiva Missão Impossível do que, por exemplo, à sua perturbadora presença em «Intriga Internacional» de Alfred Hitchcock -- e, em 1994, o seu regresso à ribalta hollywoodesca no filme «Ed Wood» de Tim Burton tem-lhe valido uma colecção de prémios, como os do New York Critics Circle, Los Angeles Film Critics, National Society of Film Critics e o Globo de Ouro da associação de críticos estrangeiros de Hollywood.
Dianne Weist, pela sua interpretação, em «Bullets over Broadway» de Woody Allen, de uma actriz entrada na idade, decadente, insuportável e alcoólica, é a mais do que certa vencedora do Óscar para a melhor secundária. Desde a estreia do filme de Allen, Dianne Weist mereceu já distinções do New York Film Critics, Los Angeles Filme Critics, National Society of Film Critics, para além do Globo de Ouro e, ontem mesmo, foi contemplada com o Spirit Award do cinema independente.
Estas são as certezas que toda a gente tem. No capítulo dos favoritos para os prémios da Academia apenas numa categoria -- a do melhor filme -- se aceitam apostas. «Forrest Gump» é, até prova em contrário, o único concorrente a sério. Numa sondagem levada a cabo, em associação, pela «USA Today»-CNN, o filme de Robert Zemeckis tem 59 por cento da simpatia dos cidadãos norte-americanos e nenhum dos seus quatro adversários consegue reunir mais do que 5 por cento. A verdade é que Hollywood e a Academia estão gratos a «Forrest Gump» porque o filme sobre o idiota iluminado que sabe correr fez trezentos milhões de dólares de receitas e não é preciso dizer mais nada para justificar um sincero agradecimento.
Concorrentes com «Forrest Gump» são «Pulp Fiction» -- o eleito na votação dos críticos de Los Angeles e de Nova Iorque, vencedor da Palma de Ouro do último Festival de Cannes, mas para a Academia um «objecto» repulsivo e pretensioso --, «Quizz Show» e «The Shawskank Redemption». Estes não merecem muitos mais elogios do que os que lhes cabem pela maneira como contam as suas histórias «à antiga». «Quatro Casamentos e Um Funeral» é uma comédia e a Academia nunca levou muito a sério as comédias. Desde «Annie Hall», em 1977, o género tem sido banido do palmarés do concurso.
Quanto ao Óscar para o melhor realizador, e tendo em conta a forte corrente anti-Tarantino que se pressente, Robert Zemeckis, autor de «Forrest Gump», e Robert Redford, autor de «Quizz Show», parecem ser os maiores candidatos, já que nem Woody Allen, que faz gala em exibir o seu desprezo por Hollywood e é pago na mesma moeda, nem Krzysztof Kieslowski, muito «intelectual» nesta região, são, aparentemente, concorrentes sérios à estatueta de ouro.
Hanks como Spencer Tracy?
O Óscar para o melhor actor tem três pretendentes fortes. Tom Hanks, o menino querido da América, pode beneficiar do fenómeno «Forrest Gump» e conquistar pelo segundo ano consecutivo o Óscar, depois de em 1994 ter sido premiado por «Philadelphia». Mas esse é exactamente o problema de Hanks. O único actor que, nos 66 anos de história dos prémios da Academia, venceu por dois anos consecutivos chamava-se Spencer Tracy, que, em 1937 e 1938, ganhou o Óscar com «Captain Courageous» e «Boys Town». E o igualar desta marca por Hanks pode ser considerado um «bocadinho de mais», pese embora que, na sondagem «USA Today»-CNN, os norte-americanos tenham dado 53 por cento dos seus votos a Hanks, contra 18 por cento para Paul Newman por «Nobody's Fool», 7 por cento a Morgan Freeman por «The Shawskank Redemption», 6 por cento a John Travolta por «Pulp Fiction» e 2 por cento a Nigel Hawthorne por «The Madness of King George».
Mas não são os cidadãos comuns norte-americanos que votam e decidem para quem vão os Óscares. São os cinco mil membros da Academia, os profissionais da indústria cinematográfica do país. E, às vezes, nem são estes. Henry Fonda disse uma vez a um jornalista que quem preenchia o seu boletim de voto era a mulher e as amigas.
Para a melhor actriz ninguém arrisca prognósticos convictos. É a única categoria onde o «suspense» existe. Jodie Foster seria, normalmente, a vencedora pelo seu desempenho em «Nell», mas aos 32 anos não será excessivo receber o seu terceiro Óscar? Katherine Hepburn teve o seu terceiro Óscar aos 60 anos e há limites que, para os conservadores, têm de se respeitar.
Jessica Lange com «Blue Sky» e Miranda Richardson com «Tom e Viv» são, aparentemente, as mais sérias concorrentes de Jodie Foster. O «Los Angeles Village News» dizia ontem que «Miranda Richardson é quem merece ganhar e só por esta razão é que vai perder». Susan Sarandon tem o azar de ter sido nomeada por um filme mau de mais e tem contra ela o facto de ainda ninguém se ter esquecido do seu discurso em 1993 sobre as minorias espezinhadas e os haitianos vítimas da sida. Dar-lhe um Óscar era dar-lhe oportunidade de voltar a discursar. Winona Ryder, nomeada pela sua interpretação em «Mulherzinhas», pode ser uma surpresa, caso os membros da Academia resolvam compensá-la da desilusão do ano passado quando, favorita ao Óscar da melhor secundária, viu o troféu ir para às mãos da criança neo-zelandesa de «O Piano», Ana Pasquin.
De «Pulp Fiction» diz-se que, com um pouco de sorte, poderá ganhar o Óscar para o melhor argumento. A melhor canção deverá ser «Can you feel the love tonight» de Elton John, da banda sonora do filme «Rei Leão», se os membros da Academia deixarem os filhos ou os netos preencher os seus boletins de voto.
Nas categorias menores, praticamente certo é o Óscar dos efeitos visuais, que recompensará o aperto de mão entre Forrest Gump e John F. Kennedy, e o Óscar do melhor som para «Speed», na convicção de que quanto mais barulho melhor.
Três prémios especiais serão também entregues: Quincy Jones vai receber o Jean Hersholt Humanitarium Award, a Clint Eastwood vai ser conferido o Irving Thalberg Award pelo seu trabalho como produtor e Michelangelo Antonioni vai ser homenageado com o prémio que recompensa toda uma carreira.
</TEXT>
</DOC>