<DOC>
<DOCNO>PUBLICO-19950420-147</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19950420-147</DOCID>
<DATE>19950420</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
<AUTHOR>AG</AUTHOR>
<TEXT>
O fim do Império
Entre 25 de Abril de 1974 e 11 de Novembro de 1975, os portugueses de aquém e de além-mar viveram num turbilhão de euforias e pânicos, desilusões e esperança. Dois fotógrafos, hoje no PÚBLICO, fixaram as imagens do desmoronamento do Império e do nascimento de algumas das novas nações. Dezoito meses num documento repassado de tristeza, alegria, orgulho, desalento.
Fotos de Alfredo Cunha e Luís Vasconcelos
Texto de Adelino Gomes
«Fosse acaso, ou Vontade, ou Temporal/ A mão que ergueu o facho que luziu,/ Foi Deus a alma e o corpo Portugal/ Da mão que o conduziu.» Mensagem, 1935, Fernando Pessoa
«Às casas, às nossas lavras/ Às praias, aos nossos campos/ Havemos de voltar.» Agostinho Neto, Cadeia do Aljube, Outubro de 1960.
Um homem de meia-idade, carão fechado por mil rugas de desesperança, ampara o corpo à bagagem, no aeroporto do Figo Maduro, em Lisboa. Uma mala, dois sacos de viagem, um outro de plástico, a geleira, uma boneca de pernas para o ar -- eis o espólio de colono que o acompanha de Angola.
Num outro extremo da cidade, rente às margens do estuário do Tejo, sob um céu carregado de nuvens, caixotes de madeira amontoam-se, escondendo-o, em volta do monumento que assinala a partida, há cinco séculos, dos primeiros soldados, marinheiros e frades da histórica gesta marítima de um povo implantado no extremo ocidental da Europa e que logrou chegar ainda além da Taprobana.
Duas décadas mais tarde, quando se comemorar os 400 anos da descoberta do Novo Mundo, a correcção política mandará substituir por um mais apropriado «Encontro de Culturas» a palavra «Descobrimentos», e já terão desaparecido quase todos os fantasmas que ensombraram o difícil relacionamento entre antigo colonizador e antigo colonizado. Mas por agora e durante algum tempo os acontecimentos galgam indomáveis, dramáticos, as margens de um e do outro lado, rompido que foi, em 25 de Abril de 1974, por um movimento de capitães, o dique que atrasou por 48 anos a democracia e por 13 arrastados anos a marcha da história da descolonização.
Não passaram ainda cinco meses sobre a queda da ditadura e já o comandante do PAIGC Pedro Pires posa em Belém, sob os óleos de Carmona e Craveiro Lopes, após a breve cerimónia em que a sua assinatura e a do antigo comandante em chefe das forças armadas portuguesas na Guiné, António de Spínola, conferiram reconhecimento formal à primeira das cinco independências, unilateralmente proclamada um ano antes e reconhecida entretanto por mais de oito dezenas de países.
Manifestações de rua em Lisboa, no Porto e nas principais cidades da metrópole pedem o fim da guerra, em consonância com as movimentações de soldados e oficiais subalternos que, nas frentes de batalha, levantam a bandeira branca, confraternizam com os terroristas de há momentos e abandonam os quartéis onde meninos-guerrilheiros lhes ocupam o lugar e mimam a pose.
Com o aproximar do Verão de 75, o tempo chegou em definitivo de se apearem os brasões, apagarem e desmontarem os néones da velha ordem. Samora Machel desembarca, triunfante, entre os seus guerrilheiros, no mesmo aeroporto donde Cunhal, Soares, Magalhães Mota, Pereira de Moura -- representantes civis do novo regime que os militares fundaram -- partirão não tarda, cumprida a missão de dar baptismo oficial à República de Moçambique, independente do Rovuma ao Maputo.
Sobe no mastro de S. Tomé, como dias antes acontecera em Moçambique e em Cabo Verde (e se passará em Luanda, também em Carmona e em Nova Lisboa, mas essa é uma outra e trágica história a evocar em circunstância jornalística diferente), o símbolo do novo poder. Recolhem-se as bandeiras das quinas. Um marinheiro beija uma delas, num estremecimento, antes de a dobrar e trazer de volta.
Santo António permanece ainda na constelação dos devotos são-tomenses, mas o momento aproxima-se a passos largos em que, num misto de euforia, protesto e radicalismo nacionalistas, se deitarão por terra, feitas em pedaços, as estátuas dos João de Santarém e dos Pero Escobar que a cada uma daquelas ilhas e costas africanas aportaram em nome da dilatação da fé cristã e do império de El-Rei de Portugal e dos Algarves.
</TEXT>
</DOC>