<DOC>
<DOCNO>PUBLICO-19950502-081</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19950502-081</DOCID>
<DATE>19950502</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<TEXT>
Um quinto da humanidade vive na extrema miséria
OMS lança manifesto contra a pobreza
Rui Pereira Martins, em Genebra
A OMS denuncia: a pobreza constitui a principal causa de mortalidade, de doença e de sofrimento. E constata que é cada vez maior a desigualdade entre países ricos e países pobres. No mundo morrem três vezes mais pessoas pobres que ricas, sendo que a vida destas é duas vezes mais longa.
O relatório sobre a Saúde no mundo divulgado ontem na Suíça pela Organização Mundial da Saúde (OMS), sob o título «Reduzir as Desigualdades», é um verdadeiro manifesto social contra a pobreza, apontada como causa principal das doenças e da mortalidade no mundo. O levantamento, distribuído na abertura da Assembleia Mundial da Saúde que decorre em Genebra, revela um aumento das desigualdades entre os países ricos -- onde a esperança de vida será de 79 anos no ano 2000 -- e os países pobres -- onde essa esperança diminuirá para 42 anos.
A pobreza dos pobres dos países não desenvolvidos está em progressão e, diz o relatório, hoje um quinto da humanidade vive numa extrema miséria. Nos capítulos em que vai além das considerações medico-sanitárias, o relatório aponta certos factores responsáveis pelo enriquecimento de alguns países e o empobrecimento dos outros. Assim, critica-se a situação em que se encontram numerosos países, obrigados a pagar a dívida externa com juros, enquanto os preços de suas matérias-primas favorecem os países desenvolvidos.
Para isto contribuem também as políticas de «ajustamento estrutural» exigidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) aos países com as finanças em dificuldades que a ele recorrem. Sucede, porém, que estes «ajustes», apesar de destinados a melhorar o estado económico dos países pobres, em numerosos casos fizeram piorar ainda mais a situação.
Além disso, o crescimento demográfico e a urbanização galopante e caótica das megalópolis criam problemas de higiene em habitações insalubres, que favorecem a propagação das doenças infecciosas. Os dados do relatório acrescentam ainda a agravação do desemprego, a degradação do meio-ambiente, a poluição, a falta de controle para os lixos químicos e a redução da camada de ozono.
Um terrível requisitório
«Não quero ser o portador de más notícias», disse, aparentemente sem ironia, o director-geral da OMS, Hiroshi Nakajima. «Porém», continuou, «este relatório não é um simples levantamento estatístico, mas um terrível requisitório contra nossa época. Ele mostra que a pobreza é a mais mortífera das doenças. Para milhões de pessoas que lutam para sobreviver, a perspectiva de uma vida mais longa pode parecer mais uma punição que uma benção».
Para Nakajima, a Saúde tornou-se uma questão política, económica e social e, por conseguinte, o modelo de intervenção medico-sanitária deve alterar-se profundamente. «A principal missão da OMS é [agora] a de persuadir a comunidade internacional a realizar um engajamento politico que coloque a Saúde e o ser humano no centro do desenvolvimento, como investimentos úteis».
Apesar do senso-comum tender a considerar que a morte é igual para todos, o relatório faz uma sombria revelação: o numero de mortos é três vezes maior nos países do terceiro-mundo do que nos desenvolvidos. E certas doenças mortais são típicas de países pobres, como as infecções, as doenças respiratórias, as parasitárias e as que afectam mães e crianças antes e depois do nascimento. A própria sida progride muitos mais rapidamente na África e na Ásia, empurrada pela falta de recursos para a prevenção.
Em contraste com o longo rosário de doenças dos países pobres, como a lepra, a malária, o dengue e a doença de Chagas, o mundo desenvolvido morre sobretudo de doenças da civilização e do modo de vida consumista, como as doenças circulatórias e os cancros.
«Soluções existem», afirmou Nakajima, «mas falta a vontade e os meios para as aplicar». E relembrou que existem vacinas e remédios capazes de eliminar muitas doenças, como é o caso da vacina contra a poliomielite, só que nem todos os países têm recursos para vacinações em massa. O director-geral da OMS falou ainda noutras vacinas em fase avançada de pesquisa, como é o caso de diversas experiências com vacinas anticoléricas, algumas delas com resultados encorajadores.
Só que nem todos as descobertas são prontamente aplicadas. É o caso da lepra, contra a qual a aplicação combinada de certos antibióticos dá resultados eficazes, como já se está a verificar na Índia. O Brasil rejeitou durante dez anos esses remédios e, ainda hoje, é o único país do mundo que regista um aumento dos casos de lepra.
«No limiar do novo século, poderíamos viver num mundo sem paralisia infantil, sem lepra, sem mortes por tétano neonatal, sem sarampo e sem dracunculose», acentua o relatório. «Mas», conclui, «em 1993, o sarampo matou 1,2 milhões de crianças; a poliomielite matou 5500 pessoas e tornou paralíticas 10 milhões; a lepra matou 2400 e infectou 600 mil; o tétano neonatal matou 560 mil recém-nascidos e a dracunculose infectou dois milhões de pessoas».
</TEXT>
</DOC>