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<DOCNO>PUBLICO-19950618-135</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19950618-135</DOCID>
<DATE>19950618</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
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Espanha: fenómeno de conjuntura
No Verão passado, os residentes de alguns bairros do centro de Madrid trouxeram de novo às primeiras páginas de jornais as patrulhas de cidadãos. Cansados de as suas ruas e praças serem espaço para todos -- de prostitutas a traficantes de droga, passando por noctívagos -- menos para si, mantiveram durante 15 dias a pressão. Só os arquivos permitem recordar estas deambulações nocturnas, bem longe da amplitude dos acontecimentos de 1991, que, vistos a quatro anos de distância, têm um indiscutível sabor de conjuntura.
«Só queremos acabar com a droga e, como a polícia não vem, aqui estamos nós», diziam então, armados com paus e vassouras, donas-de-casa, reformados e trabalhadores habitantes de áreas próximas da «chabola» (bairro de lata) de Pies Negros, na capital espanhola. Foi nessa zona que, na Primavera de 1991, os cidadãos decidiram «tomar o pulso» à rua, entre agressões a possíveis «camellos» (pequenos traficantes), balbúrdias de intransigência e insultos a ciganos.
Como um rastilho, a iniciativa chegou a outras cidades: Barcelona, Bilbau ou Valência passaram a conhecer noites sem lei, em que a cor da pele, a etnia ou o sotaque transformavam um transeunte em suspeito e, se confirmado qualquer indício, o convertiam em alvo de ira. A Espanha vivia em clima pré-eleitoral, aproximavam-se as eleições autonómicas e municipais de 91, e o protesto foi «encaminhado»: a polícia passou a estar mais presente nas «calles» e, no discurso dos partidos políticos, a segurança foi tema obrigatório, de denúncias fáceis e aplausos garantidos.
Segurança depois do ambiente
Não ficou por aqui a acção política. José Luis Corcuera, então ministro do Interior, apresenta uma Lei de Segurança facultando aos agentes policiais novas e mais substanciais margens de manobra. Era a resposta do poder às aspirações da rua, num contexto de alguma xenofobia e com medidas mais ditadas pela urgência dos comícios do que pela reflexão. Um dos artigos da lei previa buscas domiciliárias sem autorização judicial em caso de suspeita de narcotráfico, o que o Tribunal Constitucional declararia, mais tarde, não conforme com o texto fundamental e levaria à demissão do ministro Corcuera.
Foram meses de agitação, intranquilidade e injustiça. Associações de Direitos Humanos não compreendiam como os socialistas propunham uma lei tão polémica -- classificada ironicamente como a da «patada na porta» --, as organizações anti-racistas desdobravam-se em manifestações e a comunidade cigana, com o estigma de traficantes, tentava que o simples exercício do bom senso fizesse parar a «bola de neve» das sempre perigosas generalizações.
Insistiam em que nem todos os 500 mil ciganos que residem em Espanha se dedicam ao narcotráfico. Nas «chabolas», com as televisões de testemunha, os patriarcas ciganos expulsavam os que se dedicavam à droga, nalguns bairros de Barcelona as patrulhas eram ciganas e, em Madrid, impotente para fazer ouvir a sua voz, um patriarca insinuou a «lei da faca» contra os «camellos».
Só que as mesmas câmaras que acompanhavam este reforço da autoridade dos clãs também seguiam o boicote dos moradores do bairro de Villaverde à construção de habitação social para ciganos porque, diziam os moradores, eles levavam a droga.
Paulatinamente, a segurança, que só em Madrid envolve mais de dez mil polícias e que desde Janeiro foi reforçada com mais mil agentes, deixou de ser «pivot» de reivindicações para constituir um dos muitos problemas da grande urbe.
Numa recente sondagem, a preocupação dos madrilenos pela segurança era apenas referida por 34 por cento dos inquiridos, bem mais abaixo do tráfico caótico (40 pontos), da conservação do ambiente ou da limpeza. As patrulhas populares, ainda que ocasionalmente ressuscitem, passaram à história como um fenómeno de conjuntura, embora os estigmas que lançaram perdurem.
Nuno Ribeiro, em Madrid
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