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<DOCNO>PUBLICO-19950620-139</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19950620-139</DOCID>
<DATE>19950620</DATE>
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O mais tenebroso de quantos centros de reeducação existiram em Moçambique foi, sem dúvida, o de M'telela. De 1800 prisioneiros que lá entraram, saíram com vida menos de cem, segundo acusações muito recentes que a Frelimo não desmentiu.
O campo de M'telela ocupou as antigas instalações do quartel português de Nova Viseu, em Majune, na província do Niassa, a Sibéria de Samora Machel. Reciclado em centro de reeducação, recebeu em Novembro de 1975 os prisioneiros políticos da Frelimo, transferidos do centro de instrução da guerrilha em Nachingweia, na Tanzânia, onde se encontravam encarcerados sem julgamento com a cumplicidade das autoridades locais.
Era o chamado «grupo dos reaccionários», que incluía fundadores da Frelimo opostos à orientação comunista de Machel, como o reverendo Uria Simango, e dirigentes de movimentos nacionalistas rivais, como Joana Simeão. Chegados a M'telela, foram mantidos durante um ano e meio em isolamento, fechados em celas individuais de onde apenas saíam duas vezes por semana, das oito às onze, para apanhar sol, estritamente vigiados por sentinelas.
No dia 25 de Junho de 1977, segundo aniversário da independência moçambicana, uma caravana de jipes chegou ao campo, rodeada de pesadas medidas de segurança. Da comitiva faziam parte o comissário político do Serviço Nacional de Segurança Popular, o chefe da Contra-Inteligência militar e o governador do Niassa. Os visitantes comunicaram ao «grupo dos reaccionários» que o Presidente Machel decidira convocá-los a Maputo para discutir a sua libertação.
Oito importantes prisioneiros foram destacados para alegadamente seguirem com a coluna de jipes até à capital provincial, Lichinga, onde deveriam tomar um avião para Maputo: Joana Simeão, Lázaro Nkavandame, Raul Casal Ribeiro, Arcanjo Kambeu, Júlio Nihia, Paulo Gumane, o reverendo Uria Simango e o padre Mateus Gwengere. A caravana arrancou, mas estacionou perto dali, por alturas da terceira ponte na picada M'telela-Lichinga.
Na berma da estrada, os soldados tinham aberto com uma escavadora mecânica uma grande vala e tinham-na enchido parcialmente de lenha. Amarraram os prisioneiros, atiraram-nos para dentro da vala e regaram-nos com gasolina, antes de lhes tocar fogo. Os prisioneiros políticos da Frelimo foram queimados vivos, enquanto os soldados entoavam hinos revolucionários em redor da vala.
Durante 18 anos, os sucessivos governos da Frelimo negaram-se sistematicamente a fornecer informações sobre o paradeiro daquelas personalidades. Quando, há semanas, vieram a lume os macabros pormenores do massacre, a Frelimo remeteu-se ao silêncio. Candidamente.
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