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<DOCNO>PUBLICO-19950823-036</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19950823-036</DOCID>
<DATE>19950823</DATE>
<CATEGORY>Cien_Tecn_Educ</CATEGORY>
<AUTHOR>AGRS</AUTHOR>
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Morreu o «pai» dos buracos negros
O astrofísico Subrahmanyan Chandrasekhar, cujas pesquisas contribuíram para a descoberta dos «buracos negros», morreu anteontem em Chicago na sequência de um enfarte, anunciou ontem um porta-voz da Universidade de Chicago, à qual o cientista esteve ligado durante 50 anos. Chandrasekhar, que recebeu o Prémio Nobel da Física em 1983, tinha 84 anos de idade.
Nascido em Lahore, na Índia, durante a colonização britânica, Chandrasekhar foi o primeiro a subscrever a teoria da existência de objectos celestes de muito elevada densidade, cujo campo gravitacional é tal que retêm todas as radiações e toda a matéria que passa na sua vizinhança. Assim nasceu o conceito de «buraco negro», o tipo de astro mais estranho que há no Universo.
Com os buracos negros, as leis da gravitação clássica deixam de se aplicar -- só a teoria da relatividade geral permite descrever as deformações do espaço em torno deste tipo de objectos. Chama-se «horizonte» do buraco negro à fronteira para além da qual a luz já não consegue fugir à atracção gravítica. Ninguém sabe o que se passa para além desse limite, visto que nenhuma comunicação é possível entre o interior do «horizonte» e o exterior. Porém, os astrónomos podem calcular a enorme influência do buraco negro sobre o meio próximo.
Chandrasekhar foi também o «pai» de um fenómeno que tem o seu nome e que diz respeito ao destino das estrelas quando elas chegam ao fim da sua vida «visível». Mais precisamente, o cientista mostrou que só as estrelas cuja massa é inferior a 1,4 vezes a massa do nosso Sol podem então dar origem a um tipo de estrelas chamadas «anãs brancas» -- estrelas compactas, de temperatura superficial relativamente elevada, cujo tamanho é semelhante ao de um planeta. Este limite de massa é conhecido sob o nome de «limite de Chandrasekhar». As pesquisas de outros cientistas, como J. Robert Oppenheimer -- o «pai» da bomba atómica norte-americana --, sobre o que advinha das estrelas, também contribuíram para a formação do conceito de buraco negro.
Chandrasekhar, que tinha sido desde a adolescência um matemático brilhante, pertencia a uma «linhagem» de cientistas: o seu tio, Sir Chandrasekhar Venkata Raman, tinha recebido o Prémio Nobel em 1930.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Chandrasekhar, que tinha adquirido a nacionalidade americana em 1953, recusou juntar-se aos cientistas reunidos em Los Alamos, no Novo México (EUA), que iriam desenvolver as primeiras bombas atómicas. Alimentou durante toda a vida uma paixão pela literatura e pela música clássica, escolhendo como tema de uma conferência, em 1975, «Shakespeare, Newton e Beethoven ou os modelos da criatividade».
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