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<DOCNO>PUBLICO-19951014-090</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19951014-090</DOCID>
<DATE>19951014</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
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Fora do lugar
Quando conheci o padre Henrique, estavam três ou quatro crianças lá em casa, passaram dois jovens, sentou-se por um momento à porta uma senhora de idade e houve um jovem que entrou e lhe pediu para usar o telefone, pagando a chamada.
Havia uma coisa engraçada na casa do padre Henrique, é que era uma casa igual à dos vizinhos, o mesmo ar de levantada do chão sem conforto nem planeamento, que é como moram aqueles que não têm dinheiro para morar em casas feitas por outras mãos. Havia outra coisa engraçada, era que, por obra do padre Henrique, ou lá do que fosse, as pessoas que lá se encontravam pareciam não ter aquelas características que são visíveis em tantos outros sítios, a classe, a cor, essas pequenas diferenças que levam a que, por mais que se proclame a igualdade entre os homens, alguns se salientem imediatamente como mais iguais que outros...
Quero dizer, é claro que todos tínhamos cor, aliás era por isso mesmo que a Teresa e eu estávamos ali, porque a Europa de vez em quando (nos intervalos de assinar acordos de exclusão) tem crises de má consciência e então quer saber como é isso de ser-se mulato ou negro e ir à escola em terra de brancos, mas naquela casa a cor não se notava, porque não era uma casa para se dizer da importância de cada um, antes uma casa onde se podia estar, sentar-se num banco, fazer um telefonema, conversar, sem que entre os que entravam e saíam houvesse diferença outra que a idade ou os gestos que faziam.
Pouco tempo antes, na sequência de um artigo publicado num jornal -- daqueles que um jornalista escreve sem pensar e que serve, depois, para uma série de doentes justificarem acções sem justificação, obsessões, ideias feitas --, nas caixas de correio dos prédios ao redor do bairro tinham aparecido panfletos a protestar pela presença, ali, daquelas pessoas de pele escura, mas só uma das meninas que falava connosco é que tinha uma amiga cujo pai não a deixava brincar com ela, mas ela percebia, porque «ele esteve na guerra e mataram-lhe uma pessoa de família e por isso ele não gosta de pretos», e lembravam, a rir, as duas meninas, que as únicas pessoas que lhes chamavam «pretas» eram as colegas de outra escola, quando perdiam um jogo contra elas -- assim, exactamente, «quando perdiam», e precisavam de desabafar... E o riso das meninas, e a seriedade com que eram capazes de falar, nos seus escassos doze, treze anos de idade, da sua dupla cultura cabo-verdiana e portuguesa parecia-me, de alguma forma, ligar-se à tranquilidade que se sentia naquela casa, nas pessoas que entravam e saíam dando recados ou trocando duas palavras, à simples ideia que havia um branco, um padre, um homem que poderia, talvez, viver noutra casa, noutro local, e que partilhava com eles a mesma vida, não com condescendência, não com sacrifício, mas com alegria e boa disposição.
Quando nos despedimos, o padre Henrique falou-me de um outro padre, sobre quem me deu um papel que cedo se perdeu entre milhares de outros papéis, explicando-me que esse, sim, tinha feito qualquer coisa que valia a pena relatar, salvo erro viver entre leprosos, no tempo em que a lepra guardava ainda todo o seu mistério e o seu horror, partilhar com eles a discriminação de que eram alvo.
Da vez seguinte que ouvi falar do padre Henrique estava ele no centro de uma história curiosa, porque os seus vizinhos iam ser realojados, aparentemente era uma coisa boa, só que eles pareciam achar que não seria assim tão bom, se com eles não fosse o padre Henrique. E por uma dessas minudências em que a burocracia é fértil, o padre não podia ir com eles, ainda que quisesse, porque eles iam ser realojados precisamente porque se viviam naquele bairro era por falta de possibilidades de irem para outro e o padre, esse, estava ali porque queria, mas nada justificava que não vivesse noutro sítio, alugasse uma casa, arranjasse nova habitação, afinal que fazia um padre ali, e porque haveria de seguir os antigos vizinhos para as suas novas moradas?
Imagina-se as perplexidades das autoridades envolvidas, com o padre Henrique entre as mãos e sem saber o que fazer-lhe, e os habitantes a realojar a reclamarem que o padre fosse consigo, «ingratos», terá eventualmente pensado a hierarquia, como me lembro de, há muitos, muitos anos, ainda nem sequer era a Primavera marcelista, ter pensado um responsável por outro plano de erradicação de barracas, esse no Porto, quando os ciganos que ele tão zelosamente realojara em prédios de habitação protestavam com saudades do seu espaço, da sua vida na horizontal, até das suas tendas. Tive sinceramente pena dele por isso, tive a certeza, jovem jornalista que era, que o fazia por bem, que não era culpa sua, mas da educação que o formara, não ser capaz de compreender aquilo que considerava falta de gratidão dos seus realojados, ainda me lembro de me explicar, sobre outros, esses não ciganos, mas vindos de barracas que as autoridades, sempre desejosas de as substituir por cimento, tinham destruído, «veja isto, minha senhora!», dizia ele, fiado na cumplicidade de classe da jornalista de 21 anos, «então não é que eles criam galinhas nas banheiras?» O padre Henrique era um pouco uma história assim, então quer uma autarquia resolver o problema de um bairro degradado, e os realojados, em vez de agradecer, fazem exigências?
Depois deixei de ouvir falar do padre Henrique, e convenci-me de que o problema se teria resolvido, que as autoridades teriam descoberto uma forma de ladear a burocracia, e ele continuaria a ter uma casa junto dos amigos, uma casa mais sólida, talvez, mas com a porta ainda aberta e o telefone disponível, e pessoas a entrar e a sair.
Depois, no outro dia, ouvi de relance, numa televisão, que a história não acabara assim. A hierarquia interviera e mudara entretanto o padre Henrique. Não pudera mudar com os seus vizinhos. Não cheguei a saber para onde ia, afinal -- mas quem pode criticar uma autarquia que quer pôr fim à Pedreira dos Húngaros?
Diana Andringa
Destaque:
Havia uma coisa engraçada na casa do padre Henrique, era que, por obra do padre Henrique, ou lá do que fosse, as pessoas que lá se encontravam pareciam não ter aquelas características que são visíveis em tantos outros sítios, a classe, a cor, essas pequenas diferenças que levam a que, por mais que se proclame a igualdade entre os homens, alguns se salientem imediatamente como mais iguais que outros...
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