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<DOCNO>PUBLICO-19951021-150</DOCNO>
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<DATE>19951021</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>RCM</AUTHOR>
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Os cegos já não são «ceguinhos»
Rui Cardoso Martins
A Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (Acapo) termina hoje, em Lisboa, o seu I Congresso. Centena e meia de delegados, incluindo representantes de Espanha, Itália e de países lusófonos, discutiram durante três dias a «superação de barreiras sociais à integração». Uma oportunidade para, no PÚBLICO, se falar dos obstáculos que os cegos e amblíopes portugueses (cerca de 20 mil) têm que ultrapassar todos os dias: desde o carro que entope o passeio aos buracos no chão, à ignorância das pessoas, à falta de emprego, aos preços do material. Mas, também, as novas hipóteses que o ensino e a tecnologia oferecem contra o histórico inimigo do cego: não ter acesso à informação. Os «ceguinhos» estão a acabar.
Em casa de Fátima e Vítor Chaves, não existem quadros e só há duas «imagens» à vista. Na parede da sala, a grande fotografia dos noivos, em 1983, à porta da Igreja de Arroios, que eles nunca viram. E, em cima de um móvel, um quadrado de vidro e plástico que começa imediatamente a falar e a mexer-se quando, ao fim da tarde, Fátima volta do trabalho e arruma a bengala: a televisão. Quando abriram a porta, Fátima e Vítor, «maluquinhos por futebol, pelo Benfica», estavam a assistir ao FC Porto-Panathinaikos e, por sinal, a torcer alegremente pelos gregos.
Colocaram a televisão num sítio alto, com o vídeo mais abaixo. Ao lado da mesa e do móvel das loiças, feitos de madeira com pormenores talhados, como Fátima e Vítor escolheram (para lhes tocarem com gosto), estão uma colecção de discos compactos e livros áudio como «E Tudo o Vento Levou», gravado em 26 cassetes de 90 minutos.
Na casa-de-banho, há uma balança que fala, para lhes dizer o peso e, sempre à mão, um relógio que sabe espanhol, se perguntado. Noutro quarto, Vítor tem uma belíssima aparelhagem e uma biblioteca em braille, além da máquina de calcular falante. Na cozinha, que Fátima utiliza muito para fazer bifes ou mesmo tartes (quando se sente muito cansada ou sem paciência, agradece ao mundo moderno a grande descoberta da comida ao domicílio), estão a maquineta de cortar legumes, o microndas e as máquinas de lavar-- modelos com botões «à antiga».
Ela saiu às 17h00 do seu emprego de telefonista na Escola Superior de Educação de Lisboa, em Benfica, foi ensaiar no coro e depois apanhou o autocarro 24 para a Pontinha. Ele, como todos os dias, deu a última aula de braille na Associação Promotora e Emprego para Deficientes Visuais, em Chelas, foi ao Estádio Universitário correr uns quilómetros com os amigos António Nunes (cego) e Vítor Reino (amblíope), antes de seguir para Sete Rios e, daí, para casa.
Normalmente, Vítor Chaves senta-se na sala da aparelhagem, a ouvir discos ou a ler com os dedos na quase penumbra, pois consegue captar um pouquinho das «cores claras» e instalou luzes psicadélicas. Por hábito, Fátima liga a televisão e o vídeo, que todas manhãs prepara, com o comando, para gravar os programas que mais aprecia: informação, documentários falados em português e uma ou outra telenovela. Comprar o vídeo foi um autêntico folhetim, pois o homem da loja perguntou várias vezes para que é que queriam um vídeo e se era mesmo para eles, até que que se convenceu e ficou comovido e simpático. Fátima também pode ler ou ouvir um bom policial. Está sempre a trocar com outros as gravações.
Mas como desta vez havia futebol e não recebiam a visita de casais amigos -- cegos ou não cegos --, estavam ambos na sala, a ver se o Porto não marcava golos. Fátima nasceu completamente cega há 36 anos, provavelmente em consequência da rubéola que a mãe contraiu na gravidez. Tem uma ideia esbatida do que são as cores, mas só lhes dá uma ligeira importância. Por exemplo, sabe que fica mal o verde com o vermelho e nunca junta essas cores na roupa (conhece todas as peças pelo tacto). Mas gosta é da suavidade e dos pormenores. «Por isso é que muitos cegos usam bordados e as pessoas julgam foleiro... mas eu, para mim, bom... eu gosto de ser sóbria, mas gosto do tacto de um bordado! Eu preocupo-me. Uma pessoa qualquer que vá na rua e vá com a roupa suja, não se repara. Mas, se for cega, pensam logo `Coitadinho, nem sabe que está sujo...'»
«Nos perfumes é que sou completamente independente. E na música», acrescentou Fátima.
Quanto a Vítor, que tem a mesma idade, teve cataratas aos 15 meses e, de operação em operação, aos cinco anos entrara definitivamente na cegueira: «As imagens que eu tenho são aquelas que fui criando com o meu resíduo visual.» E Fátima acrescentou: «No meu caso, dizem `Ela anda às escuras'. Não é verdade. Eu não tenho qualquer resíduo visual, portanto nunca andei `às escuras'!»
Conheceram-se quando tinham sete anos, na primária, e estavam, naturalmente, muito longe da ideia de um dia se casarem.
«Dávamo-nos bem, muito, muito bem», disse Fátima, divertida. «Éramos cão e gato», explicou Vítor.
«Eu tinha grandes tranças. E ele estava-me sempre a puxar as tranças, com os colegas dele!» «Eu só puxava quando era necessário.»
Fizeram o liceu juntos, mas depois separaram-se e só voltaram a encontrar-se seis ou sete anos depois e apaixonaram-se. Decidiram ser melhor não terem filhos. Há vários anos num apartamento da Pontinha, partilham os incidentes do dia. Normalmente, não há grande novidade: ambos gostam do emprego e dos colegas de trabalho, mas ser cego em Portugal é muito pior que noutros países.
Por exemplo, a maior parte das manhãs têm que fazer uma perigosa gincana, a tentar tornear os carros estupidamente arrumados em cima dos passeios, colados ao prédios. No trajecto do autocarro, não há grande novidade, a não ser terem que manter a atenção, pois os motoristas não dizem o nome das paragens. Outras vezes, têm que aturar alguns chatos que gostam de ajudar «o ceguinho» e só estragam tudo: em vez de darem o braço, para o cego os seguir, empurram o cego à sua frente e fazem-no tropeçar. O cego que protesta é um cego «ingrato e mal-educado».
Nunca sabem, também, quando é que vão esbarrar num toldo baixo ou partir o nariz num dessas peças de «design» urbano que são os telefones «orelhões». A bengala passa por baixo e lá em cima está uma bola de plástico duro, à espera. Cair num buraco, dos muitos que aparecem e não são assinalados é o grande terror. Perder a bengala outro. Fátima diz que não consegue dar «dois passos sem ela». Um dia, caiu de uma ribanceira, perto da escola. Ficou muito magoada mas a grande aflição, na altura, foi descobrir a bengala.
A revolução informática
Francisco Alves, presidente da Acapo (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal), cujo I Congresso termina hoje em Lisboa, sobre a superação das barreiras sociais à integração, já tinha dado exemplos semelhantes. A Acapo surgiu há seis anos, na junção das historicamente desavindas Associação de Cegos Luís Braille, Liga de Cegos João de Deus e Associação de Cegos do Norte de Portugal. Francisco Alves, professor de Filosofia, orgulha-se de ter conseguido duplicar o número de sócios, e de dizer que, em Portugal, há cegos na miséria mas também operários, fisioterapeutas, artesãos, telefonistas, músicos, afinadores de pianos, cientistas, advogados...
Mantêm-se, no entanto, entre os portugueses, as velhas e ignorantes ideias gerais do «ceguinho» de rua, que não sabe onde fica este mundo nem para onde vai. Na revista da Acapo, criou um pseudónimo -- Jeremias Bengalada -- e a sua rubrica Humor Cego, que mostra situações reais. Uma vez, Jeremias Bengalada ia no autocarro a ler um livro em braille quando foi vítima de «assédio visual» de uma vidente: uma senhora fez-lhe reparar que estava a ler o livro ao contrário.
Em Portugal, continuam a ser enormes as dificuldades. Tem sempre falhado a utilização de cães-guias: são demasiado caros (só dez em cada cem cães ficam aptos depois do treino) e, na Alemanha, custam quatro mil contos. Cá, de qualquer modo, não podem entrar nos transportes públicos. Dificuldades que começam na orientação e na mobilidade, num terreno minado «pela falta de civismo». Depois, o acesso à informação. Para já, porque qualquer livro impresso a tinta dá três ou seis em braille. «Os Maias», de Eça de Queirós, são 11 volumes. Muitos cegos, quando estudam, dependem da boa vontade dos colegas que lhes gravam livros ou sebentas imprescindíveis em casa. Está, no entanto, a acontecer a grande «revolução informática», tão grande, para Francisco Alves, como quando Luís Braille inventou um sistema que provou que ser cego não implicava nenhuma limitação intelectual.
Hoje há computadores que lêem e escrevem em braille, o problema são os preços. Os cegos têm que gastar muitas centenas de contos para além do custo base do computador. Uma linha de teclado braille custa entre 500 a 3000 contos, um sintetizador de voz cerca de 150, uma impressora entre 300 a 600 contos, e por aí adiante.
Um investimento que Victor Calha, de 29 anos, não teve que fazer, pois conseguiu a sua linha braille através de um programa de incentivo ao primeiro emprego. Victor Calha, advogado, é de Portalegre. Aos oito anos foi atropelado e cegou em seis meses, devido a uma hipertensão craniana que pressionou o nervo óptico. Num ano, no Instituto Branco Rodrigues, na Parede, aprendeu o braille e a orientação e mobilidade. Fez o liceu em Portalegre e curso de Direito na Faculdade de Letras de Lisboa -- um curso conseguido, em grande parte, com as aulas gravadas e as transcrições que os colegas faziam dos manuais. Para vários exames, só conseguiu a matéria na véspera.
Victor Calha casou há quatro meses com Helena, 26 anos, colega de curso, depois de sete anos de conflito com os pais dela, em que «foi preciso muito tacto» para que Helena não tivesse «um rompimento total com os pais». «Fazia-lhes muita confusão um cego saber ler, quanto mais com estudos e a casar com a filha», disse Victor, enquanto entrava rapidamente na sua base de dados. «Hoje gostam muito de mim e eu deles. Sempre gostei.»
O casal trabalha em conjunto no contencioso de um «stand» de automóveis, constituindo uma equipa que tenta recuperar dívidas de cheques sem cobertura -- um trabalho «um pouco de detective». Victor descobre qualquer nome e indicação de dívida em poucos segundos. Lembra-se do silêncio dos juízes e dos colegas advogados nas primeiras vezes que entrou na barra de um tribunal e de como eles depois se habituaram. Lembra-se, também, das janelas quadradas da sua escola de Portalegre, dos limoeiros e das vinhas nos campos em Setembro. «Tenho perfeita noção da minha terra. Ela é que talvez já não corresponda à minha ideia visual.»
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