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<DOCNO>PUBLICO-19951124-027</DOCNO>
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<DATE>19951124</DATE>
<CATEGORY>Desporto</CATEGORY>
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Peixe de novo em Alvalade e por mais três anos
«Despesa de investimento»
José J. Mateus
Esperavam-se novidades de Mauro Soares ou acerca da contratação de um avançado para colmatar a saída de Cadete e a lesão de Ouattara. Até se admitia que houvesse mais revelações sobre a presença de um vice-presidente do FC Porto junto ao árbitro do Guimarães-Sporting. Mas Santana Lopes surpreendeu todos e apareceu com Peixe, que já assinou por três anos.
Apesar da grave crise financeira que revelou existir no Sporting, Pedro Santana Lopes não hesitou em abrir os «cordões à bolsa» para ir buscar mais um jogador para o plantel. Trata-se de Emílio Peixe, o médio que o Sporting deixara fugir para o Sevilha no final da época passada. Com uma justificação: «É uma despesa de investimento.» Santana Lopes até anunciou que Peixe custava ao Sporting «o mesmo que o Sevilha pagou por ele há quatro meses». Com uma diferença: os espanhóis pagaram logo e o Sporting terá quase dois anos para devolver o dinheiro.
Poucos se admiraram quando, no final da época passada, Peixe disse que ia sair do Sporting para o Sevilha. Tal como Figo, Peixe cansara-se das promessas antigas da presidência de Sousa Cintra e não hesitou em dar o salto para o futebol espanhol. Agora regressa, mesmo quando ainda há pouco tempo Santana Lopes dissera esperar não ter que vender nenhum jogador para atenuar a crise financeira.
A entrada de Peixe ontem em Alvalade foi rodeada de grande encenação. A porta da sala de imprensa foi fechada para manter em suspenso as razões da convocatória de uma conferência de imprensa para as 10h30m da manhã. Peixe chegou, rodeado de parte do «staff» leonino, e atrasou a partida dos seus futuros companheiros para Valência, onde ontem à noite realizavam um jogo particular. Em dois carros, chegaram também Carlos Janela, Norton de Matos, Santana Lopes e o empresário José Veiga.
Estavam desfeitas as dúvidas, quando se julgava que a conferência de imprensa giraria em torno da presença do vice-presidente do FC Porto Joaquim Pinheiro nas instalações do V. Guimarães, da reacção de Pinto da Costa às queixas do Sporting ou da decisão do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, que condenou novamente o Sporting a pagar cerca de 700 mil contos ao Benfica por Paulo Sousa.
Peixe viajou durante a noite na companhia de Norton de Matos, director desportivo leonino, que tratou dos últimos pormenores da desvinculação com os responsáveis do Sevilha, e de José Veiga, que, depois de algum afastamento, volta a ter protagonismo em Alvalade. Já na sala, o presidente do Sporting começou por «confirmar que o plantel vai mesmo ser reforçado». A seu lado estava Emílio Peixe, «um dos filhos desta casa, que após bastantes insistências e um aproveitamento feliz das circunstâncias, pode estar aqui», como referiu.
O acordo de princípio foi estabelecido em casa de Santana Lopes, como o próprio confirmou, um dia depois da vitória portuguesa sobre a Irlanda (Europeu de sub-21), obtida a 14 de Novembro. «Este regresso, que teve o acordo da equipa técnica, simboliza aquela que tem de ser cada vez mais a política do Sporting: apostar em jogadores portugueses e valorizá-los. Estes são os principais reforços. Já o tinha dito com o Dani», explicou, satisfeito, o presidente dos «leões».
O contrato vai ter a duração de três anos e os encargos da transferência são semelhantes aos que o Sevilha já liquidou -- cerca de 320 mil contos, embora com uma diferença substancial na forma de pagamento, que tem um prazo de quase dois anos para ser concluído, conforme o PÚBLICO apurou. «Obriga à libertação desses recursos em alturas em que a tesouraria esteja mais desafogada. E nem que tivesse de bater à porta de todos os sportinguistas, ia sempre buscar o Peixe. Nem olhava para trás», garantiu Santana Lopes.
As questões legais foram tratadas ontem, o que levou à permanência do secretário-técnico Carlos Janela em Lisboa, por troca com Norton de Matos, que viajou para Valência. O Sporting aguarda agora o envio rápido do passe internacional do jogador para poder contar com ele antes talvez do Belenenses-Sporting (10 de Dezembro), da 13ª jornada do campeonato.
O problema da inscrição está intimamente ligado ao caso Paulo Sousa, já que o Sporting ficará impedido de inscrever jogadores 30 dias após a recepção da notificação -- e tudo indica, pelas palavras de Santana Lopes, que o Sporting procura contornar esse prazo para resolver agora algumas situações. «Apesar dos problemas que nos tentam criar, nós não desistimos. Ainda não fomos notificados e o problema da inscrição não se põe», salientou. Reacção à decisão do Conselho de Justiça é que não haverá antes da chegada a Alvalade da notificação.
Quanto às prioridades, Santana Lopes não considerou as verbas dispendidas com o regresso de Peixe lesivas para o clube. «Há as despesas de consumo e as de investimento. Esta é de investimento. É sempre um ganho. As despesas correntes é que têm de ser reduzidas», disse. E também se falou de Figo. «Aos jogadores que não estão no clube damos o devido acompanhamento. Ele sabe que mal o apanhemos distraído vamos trazê-lo para cá», ironizou o presidente.
A respeito da eventual contratação de Mauro Soares, médio defensivo como Peixe, Santana Lopes diz que ainda é uma hipótese: «Isto não quer dizer que não venha. Eu não sou técnico e não sei se o lugar é o mesmo», disse o presidente. E o PÚBLICO sabe que a vinda do brasileiro que já representou o Belenenses para Alvalade está apenas dependente de uma tomada de posição do Organismo Autónomo sobre o pedido de rescisão do contrato com o clube do Restelo, esgotada que ficou a via do diálogo após as elevadas exigências financeiras feitas por José António Matias, o presidente «azul».
Sobre dispensas, optou por não falar para, disse, «não surgirem mais rescisões». Essa possibilidade foi contudo desmentida porque, alega, «ninguém tem razão para isso, os salários estão em dia e os prémios também». Quanto à contratação de um avançado -- julgada por muitos mais urgente --, Santana Lopes prometeu que «está a ser estudada e nada está decidido». Em relação a Cadete, salientou que já lhe foi enviada a resposta à carta de rescisão, da mesma forma que a contestação seguiu para os órgãos competentes.
De volta está Peixe, de 22 anos, após uma curta e mal sucedida experiência na Andaluzia. A lesão, os castigos (duas expulsões) e as opções do técnico levaram-no a ser pouco utilizado no Sevilha. «Foi difícil ambientar-me mas foi positivo pela experiência e negativo em termos de objectivos pessoais», disse sem rodeios. Negou ainda que a saída de Toni tenha apressado a vontade de voltar. «Eu sempre a expressei. Toda a renovação do Sporting em termos de ambição e de projecto levou-me a voltar o mais rapidamente que pude. Agora sou mais uma opção de Queiroz.»
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