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<DOCNO>PUBLICO-19951211-036</DOCNO>
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<DATE>19951211</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>FS</AUTHOR>
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A quatro dias da assinatura do acordo de paz
Sérvios bósnios ignoram ultimato de Paris
As autoridades sérvias da Bósnia mantiveram o silêncio durante o dia de ontem face ao ultimato da França, que ameaçou os sérvios com «medidas de retaliação» não especificadas caso não fosse obtida até domingo a libertação dos seus dois pilotos capturados a 30 de Agosto.
Na véspera, durante a conferência de Londres sobre a reconstrução da ex-Jugoslávia, o vice-presidente da auto-proclamada República Sérvia da Bósnia (Republika Srpska, RS, Nikola Koljevic -- apontado como um possível sucessor de Radovan Karadzic, acusado de «crimes de guerra» pelo Tribunal penal internacional de Haia -- admitiu que no domingo poderiam surgir «novidades» sobre o paradeiro do capitão Frédéric Chiffot e do tenente José Souvignet. «Adoptámos medidas muito sérias para encontrar os pilotos e esperamos obter resultados», disse em entrevista à BBC.
No entanto, nada de concreto foi anunciado, enquanto se aproximava do seu termo o ultimato imposto por Paris a Belgrado. Nenhum dos principais dirigentes políticos dos sérvios bósnios se encontrava no seu bastião de Pale, arredores de Sarajevo. O líder Radovan Karadzic, e o seu «número dois», Momcilo Krajisnik, deslocaram-se a Banja Luka onde presidiram sábado a uma reunião do seu Partido Democrático Sérvio (SDS). Uma oportunidade para Karadzic afirmar que a RS «jamais reconhecerá» o Estado da Bósnia-Herzegovina e argumentar que, segundo a análise que faz dos acordos de Dayton, «a União da Bósnia-Herzegovina [que deverá ser integrada pela RS e pela Federação croato-muçulmana] não possui nada de um Estado sólido nem qualquer atributo de um Estado».
A questão «chave» dos refugiados
Apesar deste impasse, nenhum dos responsáveis políticos que estiveram durante dois dias em Londres na conferência para a reconstrução da ex-Jugoslávia, incluindo os representantes da França, ousou questionar a assinatura final dos acordos de paz, marcada para a próxima quinta-feira em Paris.
O chefe da diplomacia francesa, Hervé de Charette, ainda afirmou que o processo de paz estava em «perigo» se os sérvios não libertassem até domingo os dois aviadores. Charette discutiu pessoalmente esta questão em Londres com o primeiro-ministro John Major, e por telefone com o secretário de Estado norte-americano, Warren Christopher. No entanto, a margem de resposta da França permanece curta, podendo situar-se entre uma atitude «simbólica» e o risco de comprometer todo o processo com soluções drásticas, o que sem dúvida não será permitido pelos seus parceiros.
Este assunto, que dominou a conferência de Londres, demonstra as fragilidades com que ainda se debate a aplicação do processo de paz nos Balcãs. Nesta perspectiva, diversos responsáveis políticos presentes na capital britânica não deixaram de alertar para a necessidade de fazer acompanhar a instalação no terreno dos 60 mil soldados da NATO com um conjunto de «sucessos civis», porque o seu falhanço poderá comprometer todo o processo de paz.
O estatuto de Sarajevo e a questão dos refugiados constituem os principais desafios para Carl Bildt, confirmado em Londres Alto Comissário para a coordenação do esforço civil de reconstrução. Mais que o futuro destino da população sérvia da capital bósnia, que recusa ser administrada por autoridades muçulmanas, o complexo problema do regresso dos quase três milhões de refugiados constitui a «chave» do processo de paz.
Sadako Ogata, Alta Comissária da ONU para os Refugiados, declarou ter «ficado impressionada com a imensidade e complexidade» da tarefa a realizar. A responsável nipónica efectuou recentemente uma vista a Zagreb, Belgrado e Sarajevo, para se inteirar no terreno dos planos de cada um dos governos para a repatriação dos refugiados.
No entanto, é difícil imaginar que dentro de seis a nove meses, a data prevista para a realização de «eleições livres na Bósnia, seja possível assegurar o regresso maciço de milhões de refugiados, expulsos à força de suas casas ou que fugiram do terror da «limpeza étnica», praticado em maior ou menor escala por sérvios, croatas e muçulmanos bósnios.
E o que actualmente se passa no terreno é sintomático destas dificuldades. As populações camponesas sérvias estão a deslocar-se para as regiões que lhes foram cedidas na «partilha geográfica» de Dayton, mas que antes eram maioritariamente habitadas por muçulmanos. E o inverso também está a acontecer: zonas desde há séculos habitadas pelos sérvios bósnios estão agora na posse de croatas ou muçulmanos. Mas todos recusam de facto voltar a conviver, em óbvia contradição com o desejável regresso de uma Bósnia «multiétnica e multicultural», que figura nos papéis rubricados em Dayton.
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