<DOC>
<DOCNO>PUBLICO-19951215-129</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19951215-129</DOCID>
<DATE>19951215</DATE>
<CATEGORY>Economia</CATEGORY>
<TEXT>
Bailarina clássica
Uma profissão onde o espelho é o principal guia e o maior inimigo e onde o corpo é o património mais importante. Onde a sensação de que «as palavras não conseguem explicar» é o motivo mais forte que empurra o profissional sempre em frente, e o impede de desistir perante as dificuldades. A bailarina clássica precisa de dançar dentro do rigor da música e da dedicação. Afinal, esta é «uma vida de constantes opções» entre a carreira e o que se passa do lado de fora dos palcos.
Christiana Martins
Cristina Maciel, a bailarina principal mais antiga da Companhia Nacional de Bailado (CNB), ingressou cedo no mundo das sapatilhas. Com seis anos dava já os primeiros passos no que, mais tarde, se transformaria na sua maior vocação. Sim, porque para se ser bailarina é preciso bem mais do que vontade: «É precisa muita dedicação.»
Mas Portugal não foi o seu único horizonte. Com 18 anos partiu rumo a Londres, onde permaneceu durante dois anos como bolseira da Fundação Gulbenkian. Outro porto foi Frankfurt, onde trabalhou durante um ano. Enquanto Cristina estava na Alemanha, nascia em Lisboa a CNB e, «como sempre gostou muito da terra natal», este foi um bom pretexto para voltar «para casa» e não mais sair. Até porque «agora já é tarde»: com 37 anos não é fácil ser recebida por outras companhias.
Um dia de trabalho normal começa às nove da manhã, quando chega ao edifício da CNB, em Lisboa. A primeira atitude é prender bem firme o cabelo, para não impedir os movimentos, e trocar de roupa. O figurino escolhido é desconexo para os leigos: são «collants» que se transformam em blusas, são meias e casacos de lã com cores que não combinam. É todo um universo profissional que começa a compor-se. No período de espectáculos, no entanto, a rotina é toda alterada, e quem estava acostumado a dormir cedo só sai do teatro à meia-noite.
Na sala de aula, cerca de 50 bailarinos suam durante uma hora e meia para manterem a forma física e técnica. A aula diária é uma prática quase religiosa: os exercícios repetem-se e os músculos, muitas vezes doridos, queixam-se, mas em vão. A aula é sagrada e não pode parar. A seguir, quase sem intervalo, começam os ensaios e, para conseguir entrar na pele das personagens do repertório clássico, Cristina procura inspiração nas biografias das grandes bailarinas.
O papel que desempenhou no «Lago dos Cisnes» foi o que mais a emocionou no repertório clássico. Após um período especialmente difícil da sua vida, quando há dez anos sofreu uma lesão que a impediu de dançar durante três meses, esse bailado revelou-se um verdadeiro desafio. Vestida de branco, Cristina sente-se uma mulher romântica, mas madura. Vestida de negro, é a perfeita sedutora. É nestes momentos que sente o prazer maior em ser bailarina, «algo que as palavras não conseguem explicar» e que só «o contacto com o público» é capaz de revelar. Na verdade, o que importa é «transmitir prazer às pessoas através da dança».
Disciplinada por essência, Cristina acostumou-se às opções que a sua carreira impõe. Cuidadosa com a alimentação, não se permite exageros para não romper em curvas uma linha que precisa ser recta. Os exames médicos que faz periodicamente também a ajudam a cuidar do corpo: «um instrumento de trabalho» que não tem direito a falhas, mas que está sempre ameaçado pelas constantes lesões. Apesar de afirmar que «não foi a profissão» que a levou a não ter filhos, afirma convicta que «não se pode ter tudo» e que, «para ser mãe, precisaria de parar de dançar durante pelo menos um ano».
Entre as lutas que os bailarinos portugueses ainda precisam de travar está o reconhecimento do estatuto de profissão com desgaste rápido e, por isso, com direito a reforma antecipada aos 45 anos -- regalia que os colegas franceses já alcançaram. Um dos problemas mais graves enfrentados pelos bailarinos é a quase total falta de opções quando a carreira chega ao fim, «por razões de saúde ou de idade». Afinal, um salário de 190 contos para o nível mais alto da profissão não permite grandes economias ou extravagâncias e é preciso encontrar alternativas.
Como a profissão exige dedicação total e precoce, não sobra tempo para estudar e são muitos os bailarinos que desistem cedo. Há dois anos, Cristina voltou à escola para terminar o décimo segundo ano e este «foi um período duro», mas que «valeu à pena». Até porque, depois disso, mesmo as conversas mais simples assumiram uma nova coloração e profundidade que só «a actividade intelectual» consegue dar.
O futuro sem os palcos não a assusta, e Cristina já começa a fazer planos. Pensa em fazer um curso no Royal Ballet para adquirir os conhecimentos necessários para um professor de dança, profissão que lhe daria grande prazer. «Não basta ter tido uma carreira longa» para se ser um bom «maitre», são precisos conhecimentos de anatomia e pedagogia para educar os futuros bailarinos e encaminhá-los na direcção correcta.
Cristina vive há três anos com um colega de profissão, e o que gosta mesmo de fazer, quando está fora da CNB, é «ficar em casa, conversar com os amigos, que não são só bailarinos, e ler». É preciso descansar de tanto exercício físico e recuperar dos exageros cometidos com o corpo, muitas vezes com aplicações de gelo no local magoado. Mas nas férias, depois de quinze dias, o corpo começa «a reclamar», a pedir para voltar à actividade. E, para não o contradizer, Cristina faz exercícios de manutenção. Viajar já não lhe enche os olhos, depois de tantas terras vistas através da companhia.
A experiência de não poder dançar é sempre dramática. «Foi um choque quando aconteceu», mas Cristina aprendeu «a abrir os olhos para uma realidade exterior ao mundo da dança» e a aceitar as coisas que acontecem, tentando perceber o que há de positivo em todas as situações. Até a sua interpretação se modificou depois do susto: «As pessoas notaram que algo de indefinível mudara a minha forma de dançar.» Hoje, Cristina não se deixa «afundar» por qualquer contrariedade e aprendeu a viver movida pela esperança.
Actualmente, Cristina está envolvida com a montagem do «Quebra Nozes», um bailado de 1892, típico do período do Natal e que agrada sobretudo às crianças, que não só assistem como participam no espectáculo: ou como «ratinhos» ou como «bombons». Cristina vai representar a «Rainha das Neves», que lidera uma suave tempestade de flocos brancos, e a célebre «Valsa das Flores». Um reino de açúcar a condizer com a delicadeza dos passos da dança.
</TEXT>
</DOC>