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<DOCNO>PUBLICO-19951223-030</DOCNO>
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<DATE>19951223</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>JCS</AUTHOR>
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Bósnia
Havel foi ontem, Clinton iria «literalmente amanhã»
O presidente da República Checa, Vaclav Havel, depôs ontem uma coroa de flores brancas no Cemitério do Leão, o mais conhecido de Sarajevo, prestando homenagem aos mortos da guerra na Bósnia. «Estou muito sensibilizado, é muito triste», foram as únicas palavras do Presidente. Bill Clinton também gostaria de ir. Ontem mesmo afirmou que, se dependesse dele e não dos conselhos do Pentágono, estaria em Sarajevo, «já amanhã, literalmente amanhã».
Vaclav Havel deslocou-se a Sarajevo para uma visita oficial de dois dias, numa demonstração de solidariedade para com a cidade que esteve cercada durante três anos e meio pelos sérvios bósnios. Precisamente ontem, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Klaus Kinkel, congratulou-se por o Conselho de Segurança das Nações Unidas ter, pela primeira vez, responsabilizado pessoalmente os líderes sérvios bósnios Radovan Karadzic e Ratko Mladic de genocídio, pelos massacres de Srebrenica.
Num comunicado emitido em Bona, Klaus Kinkel classificou de «notável» a resolução -- que também condena os croatas bósnios pela destruição de duas cidades que pelos acordos de Dayton iriam passar para os sérvios bósnios. A acusação dos dois líderes «segue a orientação expressa no acordo de Dayton segundo a qual as pessoas acusadas pelo Tribunal Internacional de Haya sobre a ex-Jugoslávia não podem exercer nenhum cargo». Numa resolução paralela, a ONU decidiu também o envio de mais de 1700 polícias civis, a maior força do género jamais enviada pela organização.
Em Bruxelas, o ministro belga da Defesa, Jean-Pol Poncelet anunciou uma visita natalícia aos cerca de setecentos capacetes azuis belgas em missão na Eslavónia oriental, que passará depois por Zagreb. E em Helsínquia, o presidente finlandês Martti Ahtisaari ratificou a participação de 450 soldados finlandeses na força multinacional de paz da NATO na Bósnia, IFOR.
No quarto dia da «Operação Esforço Concertado», o Alto-representante civil na Bósnia-Herzegovina, o sueco Carl Bildt, visitou pela primeira vez Pale, a «capital» da República Sérvia (entidade sérvia na Bósnia-Herzegovina). Carl Bildt insistiu na necessidade de «reestabelecer a confiança» entre sérvios, croatas e muçulmanos em Sarajevo. «Houve a guerra, agora estamos em paz. Será muito difícil tratar o inimigo de ontem como parceiro de amanhã», acrescentou Bildt, «mas essa é a primeira condição para que a paz dê certo».
No terreno, unidades norte-americanas começaram a instalação da sua base em Zupanja (leste da Croácia), nas margens do Sava, onde preparam a construção de uma primeira ponte flutuante entre a Croácia e a Bósnia (quase todas as que existiam sobre esta fronteira natural entre as duas repúblicas foram destruídas).
Um batalhão de infantaria britânica tomou o controlo da central hidroeléctrica de Bocac, 30 quilómetros a sul de Banja Luka, com o objectivo de a entregar à parte sérvia da Bósnia -- que acusa as forças croatas de terem danificado um gerador antes da sua partida. Segundo a agência sérvia bósnia SRNA, a central de Bocac ficará amanhã sob a alçada da Elektropriveda, a companhia de electricidade da República Sérvia. A SRNA acusou ainda as forças croato-muçulmanas de violar o cessar-fogo, atacando as linhas de defesa sérvias nessa zona do norte da Bósnia.
Símbolo dos obstáculos que espera a IFOR na Bósnia, Mostar, no sul da Bósnia-Herzegovina, continua sob o ruído dos morteiros. Nesta cidade dividida, nem a comunidade muçulmana nem a croata parecem dar um sinal de querer viver novamente juntas. «Podemos ficar aqui vinte anos mas isso não mudará nada porque eles detestam-se», afirmava um oficial de ligação das Nações Unidas em Mostar ao enviado da AFP. «Há que esperar várias gerações para esta cidade ficar reunificada pois como todos se conhecem, não se tratou de uma guerra anónima».
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