Prólogo
Carta aos editores

Salvador da Bahia, 10 de Junho de 2030

Caros senhores,

A novela que ora submetemos a vossa apreciação se baseia em nossas memórias dos acontecimentos funestos por que passamos antes de nosso exílio nesta terra maravilhosa. Nossa estória atribulada reflete bem a degradação civilizacional que afeta o Velho Mundo. Trata-se, pois, de um relato pessoal e, simultaneamente, de um relato histórico da maior importância. Como é vulgar suceder com todos os delirantes projetos políticos totalizantes, o trágico assume por vezes aspetos indissociáveis do cômico, pelo que esta novela poderia constituir a base para um roteiro de uma de nossas tão apreciadas telenovelas de cariz simultaneamente pedagôgico e de entretenimento.

Finalmente, e de modo a conferir realismo à narrativa, optamos por utilizar as normas ortográficas e estilísticas do português europeu, as quais cremos darem um certo charme ao texto, tão do agrado de nossos compatriotas -- sim, compatriotas -- brasileiros.

Na esperança de que este importante documento mereça vossa atenção, nos despedimos com nossas cordiais saudações,

Esmirno Lusitano e Emanuel Olíssipo, roteiristas

Episódio 1
EuroBlues

Maria Silva acabava de chegar ao ponto de não-retorno. No ecrã do computador aparecia, em letras gordas, a frase que sempre receara vir um dia a ler: FERBÓTE! Em português, queria dizer «Proibido». O chavão era usado por todos os bancos de dados controlados pelo EuroGov, o que era o mesmo que dizer por todos os bancos de dados de toda a Europa. Ao fim de dez anos de carreira como tradutora, Maria Silva não havia ainda deixado de sentir uma intensa curiosidade pelo que estaria para lá do FERBÓTE. Arriscava a manipulação dos comandos e das passwords até ao limite, quando as letras gordas eram, então, invariavelmente substituídas por um grito estridente que ecoava por todas as salas da EuroHaus: TRESPASS! TRESPASS! De todas as vezes que isso ocorrera, ela tivera sempre a excelente desculpa do engano ou do excesso de zelo profissional, desculpa que todo e qualquer EuroCrata engolia facilmente. Afinal de contas, não se estava numa sociedade totalitária, mas sim no Grosslixtriunf, que é como quem diz «O Grande Triunfo das Luzes».

Só que desta vez era diferente. Não estava a tentar chegar ao âmago de um banco de dados qualquer, para melhor perceber uma língua bizarra do Sudeste Asiático ou as expressões idiomáticas do Swahili. Desta vez tratava-se de algo mais importante: o Noiveltplan, o «Plano do Novo Mundo», sobre o qual estavam a trabalhar dezenas de tradutores de termos técnicos da EuroHaus. Maria não deixou que o alarme sonoro disparasse e regressou à tradução de um texto inócuo sobre a instalação e as instruções de utilização de retretes biológicas. Era complicado, apesar de tudo, pois quase todas as instruções tinham que ser convertidas em sérvio, e Maria Silva apenas aprendera servo-croata, nos tempos anteriores à União.

Durante cinco minutos ainda tentou descobrir a tradução sérvia para a expressão urinoscatoretroconversion, mas as subtilezas do idioma balcânico derrotaram a sua perseverança. Olhou para o relógio de parede e decidiu que estava na hora de descer até à cafetaria para comer um strudel acompanhado de café com natas. Desligou o terminal, deu-lhe duas pancadinhas afectuosas no canto superior direito e segredou-lhe o código pessoal de início e fecho de sessão: Xlaf gut, main xatz <marca num=1>. O computador ronronou e apagou-se no sono dos justos.

<nota marca=1> Dorme bem, meu gatinho. </nota>

Maria Silva chamou o elevador central, mas este demorou mais tempo do que o habitual a chegar ao vigésimo-terceiro andar da EuroHaus. «Toda a gente se lembrou de ir à cafetaria agora, está-se mesmo a ver.» Como quase sempre, pensava em português. Todavia, eram raras as ocasiões em que falava a sua «língua natal», pois o idioma oficial na EuroHaus era o Noidoitx, o Novo Alemão instituído após a Unificação. O elevador estacionou com um zumbido metálico e as portas abriram-se. Ela entrou, sussurrou um rápido Gudag (a forma abreviada para «bom dia») aos outros passageiros e virou-lhes as costas. O elevador começou a sua lenta ascensão: era um desses elevadores que se encontrava em todos os edifícios da Europa -- lentos, ruidosos, propensos às avarias e bastas vezes causadores de pânico generalizado nos passageiros. No fundo, o resultado do proteccionismo em relação aos produtos japoneses e da excessiva dependência em relação à indústria de elevadores da Boémia.

Por alturas do vigésimo quinto andar, Maria Silva sentiu como que um toque numa das nádegas. Levou a mão ao sítio sensível, fingindo que compunha as calças, mas surpreendeu-se com outra textura: a de uma mão. Ruborizada, virou a cabeça para trás, devagar, como quem não quer a coisa, e não conseguiu conter o seu espanto. Ostentando um sorriso ingénuo, um turco (via-se pela tarjeta de identificação) admitia com a sua expressão ter sido o autor da brejeirice. Maria afastou imediatamente o olhar e pensou, irritada, na idiotice que fora ter-se admitido a Turquia na União. «Que se dane a geoestratégia, aquela gente nunca devia ter entrado!» Esperou ansiosamente que o elevador chegasse ao piso da cafetaria. O homem não se atreveria a segui-la, já que ela iria para a mesa dos portugueses e seria um escândalo público se uma pessoa de outra etnia se sentasse no mesmo local. Afinal, isso estava claro num dos parágrafos da Constituição da União: «A União Europeia baseia-se na igualdade de todas as pessoas independentemente da raça, etnia, religião, origem social, crença política, sexo, orientação sexual, ou sexo adquirido. A garantia deste direito assenta na separação de cada grupo e conservação da sua identidade.»

Satisfeita com a sua prodigiosa memória -- o que lhe permitiu esquecer a sua cobardia por não ter reagido à situação -- saiu em passo acelerado quando o elevador abriu as portas e dirigiu-se imediatamente para a mesa dos portugueses. Ali estavam já Isabel Silva e António Silva, dos serviços de contabilidade. Isabel saudou-a com um sorriso rasgado:

-- Maria, minha querida, como está?

-- Olá, Isabel, tudo bem, e a menina? -- retorquiu Maria, em Noidoitx, a língua que falavam entre si.

-- Sente-se e beba um café. Olhe, está aí mesmo uma sérvia que a pode atender.

A empregada, uma rapariga dos seus dezassete anos, com uma cara redonda excessivamente rosada e um enorme rabo-de-cavalo, puxou do bloco-notas e da caneta e assentou o pedido da portuguesa. Isabel limpava os restos de strudel da boca, enquanto António enchia a sua com o terceiro ou quarto pastel:

-- Ma...ia, a me...ina xá a...bou o t... abalho?

-- Que horror, António, não se fala com a boca cheia. Parece um boçal qualquer de Portugal ou sei lá o quê -- admoestou Isabel.

António, envergonhado, engoliu o que sobrava do pastel, limpou a boca e prosseguiu:

-- Desculpe, Isabel. É que estava com uma fome que não lhe digo nada. Mas olhe, não me compare com os turcos, por exemplo, que...

-- A propósito de turcos -- interrompeu Maria Silva --, estou furiosa com o que me aconteceu ainda agora. Não é que um deles me apalpou... sim, apalpou... ainda agora, no elevador?!

-- Nojento -- comentou António.

-- E estão cada vez mais em toda a parte! O que é que eles fazem actualmente, já agora?

-- Oh, limpezas, acho eu. Pelo menos vejo-os sempre com aspiradores...

-- Não é limpezas, é «Técnicas de Higiene no Trabalho» -- interrompeu Isabel Silva.

-- A Isabel tem razão -- interjectou António.

-- Ou isso, vai dar no mesmo.

-- Isso é que não vai, as THT são a norma Euro/12875694/A -- completou Isabel, enquanto António acenava a cabeça num gesto de aprovação.

-- Você sabe essa trapalhada toda, Isabel -- disse Maria Silva, fingindo bom humor. -- Olhe, já agora, não sabe nada sobre o código de acesso ao Plano do Novo Mundo?

Um silêncio gélido tornou-se evidente nas expressões dos outros dois portugueses. Isabel ajeitou com nervosismo a bata e baixou o tom de voz, não sem uma certa irritação:

-- Francamente, Maria. Isso é pergunta que se faça?

-- O que é que foi?

-- Já devia saber que há certas coisas que nem pensar nelas se deve...

-- Essa agora, estamos numa União livre.

-- Claro que estamos, mas para garantir essa liberdade é preciso manter alguns segredos, não acha?

-- Não sei. Nem percebo muito bem o que é o Plano do Novo Mundo...

-- É um projecto importante.

-- Mas importante para quê? Para que é que serve?

-- Ora, Maria, nós só mexemos em contas, você sabe isso.

-- Está bem, não se fala mais no assunto -- e Maria fez uma expressão de amuo. -- Aquela Sérvia nunca mais me traz o café. Que incompetentes!

Os três tamborilaram os dedos na mesa. António arrumou a pasta e ergueu-se:

-- Bem, minhas amigas, tenho de voltar ao deve e haver.

-- Ai, eu também -- acrescentou Isabel, levantando-se da cadeira. -- Até logo, Maria.

-- Mas espere, Isabel, diga-me uma coisa...

-- O que é? -- e ajeitou a sacola ao ombro esquerdo.

-- Você por acaso sabe quanto custa uma unidade de urino..., ai como é que é?, urino... retro não sei quê?

-- Urinoscatoretroconversion, e você é que é a tradutora... Claro que sei, faz parte da contabilidade do projecto, mas é claro que não lhe posso dizer, Maria, que ideia!

-- Então e porquê?

-- Ferbóte, minha rica, fer-bó-te.

Acabado o dia de trabalho, Maria Silva dirigiu-se para casa, na Rua das Janelas Verdes. Lisboa estava linda naquele fim de tarde de Fevereiro: o céu mais violeta de sempre, cortado pelas sombras escuras das pontes sobre o Tejo, e a cúpula da EuroHaus refulgindo com os últimos raios de Sol, lá bem alto, trinta pisos acima do Castelo de São Jorge. Desceu do eléctrico na paragem mais próxima de casa, mesmo ao lado de duas gigantescas estátuas de Robert Schumann e Jean Monet. Passou em frente à loja de 24 horas e recebeu, como sempre, o cumprimento simpático do senhor Silva. Ao lado, o prédio onde vivia, um velhíssimo edifício construído depois do terramoto -- o de 1755, não o de 2010, a que sobreviveu heroicamente -- com os interiores recuperados em cinco apartamentos para EuroCratas, ainda que apresentando a entrada pejada da saliva dos inúmeros cuspidores que resistiam, dez anos depois, à norma Euro A/7/243 sobre civilidade pública.

Maria tinha muito orgulho na sua casa e no estatuto que a sua profissão lhe conferia. Havia pouco tempo lera no Euro-Stat, a publicação semanal de estatísticas, que na população de três milhões de lisboetas só cento e vinte e dois eram EuroCratas, o que a colocava lá bem no vértice da pirâmide. Ultrapassara mesmo os pais, que nunca haviam passado de políticos do governo português e professores universitários, com breves passagens pela EuroCracia ante-União.

Na caixa do correio encontrou a revista Zucunfe, com as suas duas páginas destacáveis, em papel amarelo, com a sinopse em português intitulada «Futuro». O artigo de capa colocava a pergunta «Colonização do espaço: utopia ou realidade?» A questão fez tocar uma campainha qualquer no cérebro da tradutora, mas estava demasiado cansada para lhe prestar atenção. Atraiu-a mais um envelope vermelho com o seu nome e endereço escritos numa caligrafia descuidada. De quem seria? Quem se daria ao trabalho de escrever em vez de enviar uma mensagem electrónica? Já no elevador, que levou uma eternidade a chegar ao quinto andar, observou melhor o envelope. No canto superior esquerdo via-se um crescente e uma estrela. Em letras pequeninas podia ler-se: «Embaixada da Região Autónoma da Turquia, Azerbaijão, Nagorno-Karabak e Nakitchevan na Região Autónoma de Portugal.»

-- Turcos outra vez! -- murmurou Maria, no momento em que a porta do elevador se abria. Imediatamente pensou na possibilidade de se tratar de uma carta do turco que a apalpara no elevador. Mas não, como podia ser, ela nem o conhecia. Afastou esse pensamento: provavelmente era um convite para uma maçada qualquer. Ao entrar no apartamento, lançou a bolsa para cima do sofá e dirigiu-se à varanda. Dali podia ver o Tejo, com as suas três pontes, a sobre-o-Tejo (ou 25 de Abril, ou Salazar), a Vasco da Gama e a Mário Soares (ou Europa, como lhe chamavam agora). Não sabia bem, os nomes das pontes sempre a confundiam. Na outra margem, uma floresta anárquica de silos, gruas, estaleiros, estruturas portuárias, blocos de apartamentos e estátuas figurando Cristo, tudo se apresentava abandonado e roído pela decadência. Do lado de cá, os telhados do casario, de telhas quebradas, gatos vadios e um matagal de ervas daninhas crescendo dos beirais e algerozes entupidos. Maria respirava fundo. Há anos que se podia respirar fundo, já que não havia qualquer actividade industrial em Lisboa e, para todos os efeitos, no país inteiro. Perdão, na Região. Região Autónoma de Portugal, desde 2010, data da União. A final e verdadeira.

Com uma das mãos sacudia o envelope vermelho para permitir uma abertura mais fácil e perguntava-se de novo porque não havia recebido uma mensagem electrónica. Certamente porque a carta era demasiado pessoal? Afinal era comum o correio electrónico extraviar-se no caos de cabos telefónicos lisboetas. Inspirou fundo uma última vez, voltou para dentro de casa, descalçou-se e afundou-se no sofá. Abriu o envelope. O papel, cor de tijolo, estava repleto de frases numa escrita de menino de escola. Dizia assim:

«Minha querida Maria,

Espero que esta forma de tratamento não seja para si um choque. Mas por vezes as fantasias tornam-se tão reais que já achamos natural tratar carinhosamente quem nem sequer conhecemos. Deixe-me, antes de tudo, apresentar-me. O meu nome é Eyup Kaba, de Istambul. Quando o meu país teve o bom senso de aderir à União, comecei a trabalhar no corpo de Técnicos de Higiene no Trabalho, primeiro em Berlim, depois em Bruxelas e, agora, em Lisboa. Foi pois na EuroHaus que a vi pela primeira vez, no que foi a experiência mais arrebatadora da minha vida. Quem pode ficar indiferente ao seu ar de senhora do seu nariz, à sua tez clara e feições bem proporcionadas? Dir-se-ia mesmo que a Maria possui a rara qualidade da mulher luxemburguesa ou belga, quando a maioria das suas conterrâneas me recordam tristemente as figuras das vielas de Istambul. É, pois, um apaixonado que lhe escreve e que lhe implora lhe conceda um minuto que seja do seu tempo. O amor leva-me a este atrevimento e à falta de decoro. Onde já se viu um Técnico de Higiene do Trabalho cortejar uma A42 Técnica de Conversão Linguística? Espero de alma e coração que não rasgue esta carta e que me contacte para a morada acima indicada. O meu coração treme de expectativa.

Seu, humildemente

Eyup»

Maria Silva deixou cair no chão a carta. Sentiu uma vaga de calor subir-lhe dos pés ao estômago e daí à cabeça e às faces. «Que descaramento! Deve mesmo ser o turco do elevador!» No entanto, Maria sentia ao mesmo tempo a tentação de ceder à lisonja. Reconhecia, envergonhada, que o mesmo lhe acontecera no elevador, a mistura do ultraje e o orgulho por ser a escolhida. Porque ele sorrira não com o escárnio do macho que exerce o poder sobre a fêmea, mas com uma admiração quase ingénua. Como se não soubesse -- como se não lhe fosse possível saber, talvez pela sua cultura diferente -- que é feio apalpar mulheres nos elevadores. Como se não soubesse que isso só se faz na cama. E com mútuo consentimento, é claro.

Resolveu guardar a carta na gaveta da escrivaninha e não dar muita importância ao assunto. «Mas então porque é que não a rasgo e deito fora?» No fundo de si mesma, Maria sabia a resposta. Uma enorme fome de carinho fazia-a considerar esta oportunidade caída do céu via EuroPost. Havia anos -- e apercebeu-se com horror da palavra «anos» -- que não sabia o que era um homem. Nunca vivera com ninguém, nunca tivera uma paixão intensa e não era dada a namoricos de espécie ou género algum. Maria Silva havia sempre sido uma mulher profissional. E só uma mulher profissional.

Nascera no ano 2000 em Lisboa, com o nome de Constança do Coração de Jesus Teixeira Pinto. O pai era secretário de Estado dos Assuntos Europeus e amigo pessoal de um primeiro-ministro da época, de nome Cavaco Silva (mas não era parente; nesses tempos ainda havia muitos nomes). A mãe era professora universitária de inglês e alemão e funcionária da então UE. «União só no nome», como agora se dizia em Bruxelas. Depois duma infância infeliz num colégio de freiras em Sintra e numa escola belga, Maria havia ingressado numa faculdade de Línguas e Literaturas. Dotada de uma extraordinária aptidão para os idiomas, cedo aprendeu inglês, alemão, francês, russo, servo-croata e búlgaro. Quando em 2010 se deu a União final, a sua vida mudou: a família viu-se obrigada a sair de Bruxelas, pois a política oficial consistia em colocar o mais possível nas Regiões Autónomas os seus naturais. Nos bilhetes de identidade, os EuroPass, passou a constar a etnia de cada um, já que a Constituição previa a defesa das identidades étnicas. Para reforçar este processo e facilitar a administração, os membros de cada etnia podiam ter apenas um apelido, pelo que todos os portugueses passaram a chamar-se Silva. O esforço de Normalização reduziu também os nomes próprios a quatro para as mulheres (Maria, Isabel, Teresa e Ana) e quatro para os homens (José, Manuel, António e Joaquim). Os números dos EuroPass, e não os nomes, passaram a distinguir as identidades. Os EuroCratas e suas famílias recebiam privilégios hereditários em cada região, de modo a garantir o bom funcionamento da União, pelo que Maria Silva passou a ser, ad eternum, uma A42TCL. Foi então que a vida amorosa se complicou. Tivera alguns casos de pouca duração com alguns belgas mas, agora, na União, só ficava bem casar-se ou associar-se com alguém da sua etnia e da sua categoria A42, se bem que o TCL não fosse um requisito. Isto é, poderia ter casado com um A42TGL (Técnico de Gestão Local) ou TAT (Técnico de AeroTransporte), por exemplo. Mas para todos os efeitos a escolha ficava muito limitada, e a sua vida reduzia-se ao percurso diário entre as Janelas Verdes e a EuroHaus, duas semanas de férias no clube EuroMed para A30s a A50s em Creta, e um mês por ano em Berlim ou Bruxelas (à escolha) para cursilhos de aperfeiçoamento de Noidoitx. O Noidoitx fora inventado em 1999 como língua de trabalho da União. Era basicamente um alemão simplificado, com muitas expressões inglesas e uma grafia latinizante, para satisfazer a todos. Dos EuroCratas esperava-se que só falassem a nova língua, das outras pessoas que a percebessem nos formulários oficiais.

A carta do turco estava escrita em Noidoitx, mas de baixa qualidade. Um THT (Técnico de Higiene no Trabalho) pertencia necessariamente à categoria A1 a A10, maioritariamente composta por turcos e sérvios, que só há muito pouco tempo haviam começado a aprender o novo idioma. E era isto que tornava mais difícil a Maria Silva suster a sua admiração e, ao mesmo tempo, tentação: uma portuguesa A42 e um turco A10? Nãããão.

Maria procedia à operação anual de coloração do cabelo, mas não conseguia deixar de pensar no misterioso turco. Era um invento espantoso. Não o turco, mas o champô colorante. Tratava-se de uma invenção alemã que permitia atingir cores com um aspecto cem por cento natural, sem estragar o cabelo e sem manchar os dedos ou as louças sanitárias. Bastava uma aplicação por ano para manter a constância da cor. Assim, Maria não deixava jamais que os cabelos pretos de origem surgissem como ervas daninhas maculando o brilhante louro cor-de-seara-madura que escolhera para sua cor de cabelo oficial. Fora Isabel quem lhe ensinara o truque, ela também loura, se bem que na tonalidade pôr-do-sol-nas-Caraíbas. Além do mais, Maria sentia o descanso de consciência resultante de o produto ser absolutamente ecológico, não passando para as águas do planeta qualquer espécie de componentes nocivos. Era verdade o que se dizia: que os alemães eram uns inventores fantásticos. Também, se não o fossem, não haveria razão para o tradicional provérbio «Reguen in rubenfelde and son in tene, and Doitxland uber al» que, em português, dava «Chuva no nabal e sol na eira e a Alemanha sobre tudo». Mas os belos provérbios do Noidoitx ficavam sempre mal em português.

Por muito que quisesse desviar a atenção, não conseguia deixar de pensar no turco. Enxugou o cabelo e contemplou-se por um instante ao espelho: a cara esguia e de maçãs do rosto salientes; os olhos azuis graças aos implantes de íris «Eugenie»; dois seiozinhos redondos escolhidos no catálogo da mesma empresa, coroando 1,75 de altura, embora as ancas um tudo-nada demasiado largas e os joelhos grossos traíssem a portugalidade de origem. Em suma, defeitos à parte, via-se como uma mulher de porte atlético, cabeça erguida e nariz levemente empinado, dando ao conjunto uma expressão de autoridade e competência técnica, traços fisionómicos muito apreciados na EuroHaus. Pareceu-lhe, contudo, aperceber-se de um certo entorpecimento de gestos, uma falta de langor na postura, uma contrição muscular quiçá demasiado ríspida. Uma falta de -- e a palavra saltou-lhe do subconsciente como uma bala assassina -- sexo? «Sexo?», perguntou-se. E sentiu-se ruborizar por dentro.

Desligou a luz da casa de banho, saiu da divisão e dirigiu-se para o terminal doméstico da EuroNet. Se tivesse sorte com as comunicações, conseguiria contactar o banco de dados da EuroHaus e, daí, o banco central em Bruxelas. Ligou o interruptor, ajeitou a toalha turca («Turca!») à cabeça e segredou o código: Gudag, main xatz. O computador tremeu por um instante e logo disse:

-- Gudag, Maria, du vil?

-- Humm, para quê?

-- Para uma consulta ao rol de técnicos A10THT na RAP.

-- Região Autónoma da Polónia?

-- Perdão, não fui clara: Portugal.

-- Não sei se será possível.

-- E porque não? Problemas de linhas?

-- Desta feita não. Mas saiu uma norma de acesso restrito que...

-- Ora!, por favor, bita, bita, main xatz...

-- OK, OK, mas só porque é para ti, Maria. Cá vai.

Seguiram-se dois minutos de silêncio. Para entreter, surgiam no ecrã anúncios das mais conceituadas marcas. Findo o tempo, o computador restabeleceu o contacto:

-- Tenho BD Bruxelas em linha, Maria. Pedi-lhe a lista de técnicos não portugueses étnicos na RAP.

-- Fantástico. Procura, por favor, o seguinte: «Etnia Turca, Masculino, A10THT, Kaba, Eyup».

Desta vez a espera foi mais prolongada, o que permitiu o visionamento da versão completa do último anúncio da EuroAvia, que mostrava em três dimensões as EuroHaus das cinquenta e três regiões autónomas.

-- Maria, há dezassete etiquetas destas na RAP.

-- Oh, diabo, como é que podemos chegar ao que eu quero?

-- Ou os listamos um a um ou dás-me uma descrição de caracteres físicos. Sabes antropometria?

-- Não...

-- Antropologia Física?

-- Não...

-- As classificações de Lombroso?

-- Não, main xatz, sou TCL, bem sabes.

-- OK, contentar-nos-emos com uma descrição subjectivo-impressionista. Podes começar.

-- Ora bem, o sujeito é alto, diria um metro e oitenta ou oitenta e cinco, mais ou menos. Tem ombros largos... extremamente largos.... Tez escura, tipo pau-brasil... Quer dizer, acho eu..., olhos cor de azeitona, nariz greco-romano, magro, tórax desenvolvido, ancas estreitas, nádegas salientes e musculadas, dentição completa, alinhada e cor de marfim, mãos longas, dedos longos, unhas perfeitas, com meias-luas e tudo, cabelo curto, orelhas bem proporcionadas, queixo levemente pronunciado, com um risquinho ao meio, maçãs do rosto sali...

-- Maria, Maria! -- interrompeu-a o computador.

-- Você conhece-o bem, para que quer informações?

Maria sentiu-se corar até ao limite.

-- Desculpa. Deixei-me levar. De facto, não tenho a certeza de nada do que disse. Será melhor passar as fichas uma a uma.

Dito e feito. No ecrã desfilaram figuras de turcos baixinhos, de bigode, alguns com fez na cabeça, outros de pernas arqueadas. Subitamente, uma figura varonil e esbelta apareceu com um flash na consola.

-- É ele! É o homem do elevador!

-- Óptimo, Maria, estou a ver. Quer a ficha?

-- Sim, e em câmara lenta...

E lentamente começaram a surgir dados sobre Eyup Kaba: «Nasceu 1 Out 1998 / Istambul / pai comerciante tapetes / mãe doméstica / 10 irmãos / escola secundária Ata Turk / Primeiro emprego União: Ilhas-fortaleza / Mediterrâneo TCM / Ferbóte.»

-- Ferbóte!? Outra vez? -- gritou Maria. -- Main xatz, por favor, o que é que se passa?

-- É simples, Maria, este fez alguma.

-- Queres dizer que é CidCont?

-- Cidadão Controlado? Bem, não necessariamente. Mas algo se passou quando foi TCM, por isso a ficha é confidencial a partir daí.

-- Que raio é TCM? -- Maria sentia-se levemente enjoada com os contornos que a história estava a seguir.

-- TCM: Técnico de Controlo Meridional. Noventa e nove por cento são sérvios e turcos, zero vírgula oito por cento são portugueses e espanhóis (como pessoal técnico intermédio) e zero vírgula dois por cento são alemães, luxemburgueses ou belgas (naturalmente directores). São técnicos das ilhas-fortaleza do Mediterrâneo.

-- Então e Berlim e Bruxelas, onde ele disse que trabalhou?

-- Não sei, Maria, não sei. Daqui em diante é tudo ferbóte.

-- Obrigado, main xatz, não tens culpa. Xlaf gut.

-- Boa noite, Maria. Posso dar-lhe um conselho? Tome um brandy duplo antes de se deitar e não insista muito quando vir um ferbóte.

Assustada, Maria perguntou:

-- Essa agora, porquê?

-- Como diria um escritor pré-unionista: «Há algo de podre no reino da Dinamarca.»

E então o ecrã ficou totalmente negro. Não houve despedidas, nem anúncios publicitários de fim de sessão, nem tocou o hino da União. Nada. Maria estremeceu com frio. E compreendeu que o seu computador fora desligado por alguém que não ela.

Mal conseguiu dormir. Por isso não se pode dizer que tenha sido acordada pelos gritos da mulher que, na rua, gritava a plenos pulmões: «Zé, ó Zé! Anda cá meu filho da mãe, que o teu pai já te diz como é que é! O raio do miúdo!» Todas as manhãs era a mesma gritaria na rua. Fez uma enorme chávena de café e bocejou longamente. O tempo mudara, o que era comum nos últimos anos, com a troca das estações e os efeitos de estufa e só Deus sabia que mais. Chovia uma cacimba irritante e os velhos autocarros cor de laranja patinavam nos carris dos eléctricos. Por momentos tudo pareceu normal a Maria, pois a cidade parecia continuar modorrenta, velha e reumática, mas apercebeu-se, ao olhar para o relógio da cozinha, que estava atrasada quinze minutos em relação ao seu horário habitual. E lembrou-se então do que sucedera com o computador. Passara a noite tentando ligá-lo de hora a hora. E nada. Silêncio total. Tentara pensar racional e logicamente, não se deixar levar pelas emoções: talvez fosse uma avaria, perfeitamente explicável. Mas lembrara-se, por volta das quatro da manhã, dum episódio a que nunca havia ligado importância. Enfim, nunca tinha tido razões para estabelecer uma ligação entre aquele caso e o seu problema corrente.

Fora dois anos antes e acontecera com um colega que trabalhava na primeira fase da tradução das normas do Plano do Novo Mundo. Um dia chegou ao trabalho com um ar preocupado e disse que o seu computador se tinha avariado. Mais: que os técnicos de reparação se tinham recusado a consertá-lo. Uma semana depois desta confidência, o colega deixou de aparecer no trabalho. O jornal interno da EuroHaus anunciava, ao fim de três semanas, na costumeira linguagem telegráfica: «Manuel Silva, A42TCL transfer fort-insel mitelzê 33.»

Pelo sim, pelo não, Maria decidiu que não contaria a ninguém o que se passara com o seu computador. Poderia haver alguma relação entre a avaria e a transferência para uma ilha-fortaleza no Mediterrâneo? E entre a avaria -- ou o desligar -- do computador e o pedido da ficha de Eyup Kaba? Mas então os computadores pessoais, mesmo ligados à EuroNet, eram controlados por alguma entidade? Isso não ia contra a liberdade de expressão e o direito à privacidade consagrados na Constituição da União? Maria sentia uma autêntica vertigem cerebral, sobretudo porque não podia acreditar nas respostas que vislumbrava, nem tão-pouco em qualquer culpa sua. Só tinha querido esclarecer um apalpão de elevador e uma carta estranha de um turco A10...

Tentou afastar os maus pensamentos com um duche frio. Tomou de seguida mais uma chávena de café, e correu escadas abaixo (não adiantava esperar pelo elevador) para apanhar o eléctrico. Chegou à EuroHaus com dez minutos de atraso, pelo que não passou pela cafetaria, e correu directamente para o seu cubículo. No momento em que ia ligar o seu terminal, interrompeu o gesto ao ver entrar Isabel Silva.

-- Gudag, Maria.

-- Oh, gudag, Isabel.

-- Tudo bem contigo?

Maria pressentiu algo de estranho. Não percebeu o quê.

-- Sim, tudo bem, e você?

-- Ora, vi um filme óptimo ontem. Na Cinemateca. Estão a passar um ciclo sobre o fim de século, os anos noventa. Era sobre um miúdo que entrava no sistema de computadores da defesa americana. Já viste que engraçado?

-- De facto! Dos tempos em que a América tinha defesa.

Maria percebeu de repente o que se passava de errado.

-- Em que é que vais trabalhar hoje?

-- Oh, mais traduções de normas para sérvio. Pormenores do Plano do Novo Mundo...

-- Pois. Espero que tenhas sorte.

-- Como assim, sorte?

-- Sorte, Maria. Luck. Bonne chance. Gluc. Viderzê!

Maria nem teve tempo de responder. Isabel desapareceu.

Espreitou um pouco para o corredor, esticando-se o mais que pôde para trás: Isabel cochichava com António, que a escutava de sobrolho carregado. Afastaram-se juntos e Maria tornou a olhar para o computador. Premiu o botão, pronunciou a senha e o computador fez o habitual ronronar. Mas quando surgiu a voz, esta não era a do «seu» querido xatz. Era uma voz mais metálica, com uma forte pronúncia francesa. A pronúncia típica dos TGP, os Técnicos de Gestão de Pessoal:

-- Maria Silva A42TCL? EuroPass P-5333322?

-- Sim, sou eu.

-- Queira dirigir-se amanhã ao andar trinta, à direcção da EuroHaus. Está dispensada do serviço por hoje.

E o computador desligou-se por si, deixando Maria estarrecida. Só uma vez na vida tinha ido ao trigésimo andar, para receber uma menção de louvor por um trabalho especialmente difícil de tradução para búlgaro de um programa de informática. De resto, ninguém ia ao trigésimo. «Ir ao trigésimo» era mesmo uma frase que inspirava os piores receios. Só lá iam os três A50 que trabalhavam na EuroHaus de Lisboa: um francês da gestão de pessoal, um luxemburguês do bureau económico e o delegado político do EuroGov, o alemão Klaus Fischer. Dizia-se que o ambiente do trigésimo era de cortar à faca e que até o primeiro-ministro do governo da Região Autónoma de Portugal evitava frequentá-lo. O trigésimo era de tal maneira um local mítico que dizia-se que dele se podia avistar Almodôvar a sul, a serra da Estrela a norte e Badajoz a leste, podendo-se imaginar Bruxelas ao longe e, para lá dela, Berlim.

-- Céus, que é que se está a passar? -- e Maria levou as mãos à cara, por pouco não começando a chorar, como nos tempos do internato de freiras quando a castigavam pelo que supostamente estivera a pensar, quando tudo o que fantasiava era poder estar em casa a ver a Rua Sésamo, que então era em português e não em Noidoitx. Conteve-se, contudo. Arrumou algumas coisas na bolsa a tiracolo e decidiu procurar Isabel Silva, para lhe pedir conselho. Por muito estranha que esta estivesse, sempre sabia mais do funcionamento interno da EuroHaus. Tinha sido delegada sindical na Conciliação Social, cargo que António Silva ocupava agora.

No elevador, manteve o olhar fixo no chão, sem se aperceber do contador digital que mostrava os andares ao longo da subida. Quando parou no vigésimo-quinto, Maria ergueu um pouco a cabeça, como para ver se já chegara ao andar da cafetaria, onde sabia que poderia encontrar Isabel. Empalideceu de repente, ficando mais branca do que uma A50 luxemburguesa antes das férias. À sua frente, sorrindo como um camponês tímido, Eyup Kaba dirigia-lhe um quase inaudível bom dia. Em português.

Episódio 2
Fortaleza Europa

Eyup Kaba continuava a sorrir timidamente para Maria Silva. Ela olhava-o espantada, como se o tempo tivesse parado com o elevador. O turco quebrou o gelo, ou pelo menos começou a derretê-lo:

-- Não acha melhor eu acompanhá-la à rua? A cafetaria deve estar uma confusão. Sentamo-nos lá fora num banco de jardim, OK?

Maria não sabia que dizer. Por breves instantes, pensou em gritar; de seguida ocorreu-lhe que não tinha de aturar o mesmo homem que, no dia anterior, tinha tido um comportamento obsceno. Dar-lhe-ia uma bofetada, era tudo. Mas sentia-se, sobretudo, confusa. Havia qualquer coisa no olhar dele que não ia certo com a imagem de um machão obsceno. Como se tivesse sido uma brincadeira. Ali estava ele, agora, expectante, com um trejeito levemente irónico no sorriso e nos olhos, sem insistir. Maria ganhou coragem para dizer qualquer coisa de conveniente para a situação:

-- O senhor devia ter vergonha na cara -- mas a voz falhou-lhe no fim da frase, que resultou sem convicção. O turco abriu um pouco mais o sorriso:

-- E tenho. Pode crer que tenho. As minhas intenções são boas e gostaria de lhe pedir desculpa pelo que sucedeu ontem. Na realidade fui empurrado por alguém, mas sei que pode ter parecido outra coisa. Dê-me uma oportunidade de me explicar, agora que já deve ter recebido a minha carta.

Cabisbaixa, Maria queria fugir dali. Mas não tinha coragem para fazer escândalo em público. A sua situação já era suficientemente complicada. Respirou fundo para se acalmar:

-- Está bem. Podemos conversar cinco minutos.

Atravessaram o átrio do rés-do-chão, decorado com as cinquenta e três bandeiras e com o tecto forrado de uma gigantesca bandeira azul da União com cinquenta e três estrelinhas douradas em círculos concêntricos. Diziam as más-línguas que a do meio representava a Alemanha. À medida que avançavam, Eyup sorria gentilmente a toda a gente com quem se cruzavam, como se o sorriso fizesse parte do uniforme. Na verdade, sorria por causa disso mesmo, pois o uniforme atraía as atenções dos outros funcionários, que raramente haviam visto um THL de fato-macaco acompanhando uma TCL de bata branca. Para mais, uma TCL que insistia em olhar para o chão, como se estivesse envergonhada. Mas como o preconceito de classe ou etnia era uma coisa tida por deplorável, toda a gente fingia não ver. O que deixava Maria ainda mais transtornada.

-- Parece extremamente transtornada. Sugiro que nos sentemos e me conte o que se passa -- disse Eyup quando transpuseram a porta de saída.

Sentaram-se num banco de jardim com vista sobre o Terreiro do Paço e o Tejo. Maria cruzou as pernas com força e segurou a bolsa no colo como se fosse uma bóia de salvação.

-- Você fala como escreve -- atreveu-se a dizer, embora percebesse que o turco se estava a desviar do assunto que tinham combinado discutir.

-- É certo, quiçá. Aprendi português com um homem muito letrado.

-- Onde? Com quem? -- Maria estava seriamente intrigada. Sentia-se um pouco mais segura, no banco de jardim, depois de ter verificado que estavam bem à vista dos transeuntes. E o turco, de qualquer modo, não parecia nem louco nem agressivo.

-- Bom, vejo que lhe estou a tirar a mente dos seus problemas. Pois bem -- e Eyup descruzou os braços, traçou perna e colocou as mãos unidas sobre um dos joelhos. -- Aprendi português em Esmirna, com um homem chamado Oliveira da Figueira. Oh, agora chama-se Eyup Kaba também. Na Turquia a normalização foi mais longe: um só nome próprio, um só apelido.

-- Que horror -- esboçou Maria, com compaixão. -- Como se distinguem?

-- Só usamos o nome oficialmente. Noutras circunstâncias fazemos como antes da União.

-- Mas isso é ilegal, não é?

-- Digamos que é ilícito. Fazemo-lo, contudo -- retorquiu o turco, com um sorriso sarcástico. -- Mas, voltando ao senhor Oliveira da Figueira. Fugi de casa ainda jovem e fui para Esmirna. Trabalhei como aprendiz de comerciante com esse homem, um judeu de origem portuguesa, vindo de Israel, mas cuja família está na Turquia há muitas gerações. Por isso falava a língua com base nos livros. Foi muito bom para mim, ensinou-me tudo o que sei hoje. Foi como um pai para mim...

-- Desculpe, não sei se devemos continuar esta conversa. Preciso de ir, sabe, e além disso você...

-- Eu assusto-a, é isso? Por causa do que fiz no elevador? Por causa da carta? Eu explico.

Maria levantou-se do banco. Teria preferido que o homem fosse um bruto. Assim, com os seus bons modos, a atitude irónica, até mesmo distante, estava a perturbá-la. Levantou-se do banco, ajustou a mala a tiracolo e cruzou os braços:

-- Não. Não é preciso. Deixemos as coisas por aqui e...

-- Por favor, faço questão -- interrompeu Eyup. -- Permita que insista, que... lhe rogue que fique um pouco mais.

Maria hesitou. Desviou o olhar para os canhões antigos que apontavam para o rio. E sussurrou:

-- Seja, eu oiço-o -- e sentou-se de novo, resignada.

-- Obrigado, Maria. Nada do que lhe disse na carta é mentira. Sinto-me profundamente atraído pela sua beleza e, agora, a sua vulnerabilidade atrai-me ainda mais. Será o meu instinto protector, quiçá. Quanto ao que se passou no elevador, não me leve a mal. Como lhe disse, fui empurrado: por um obeso A30 que nem sequer pediu desculpa. Foi assim que acabei por lhe tocar. Inadvertidamente.

Maria descontraiu-se pela primeira vez em muitas horas e não evitou rir-se:

-- Você tem graça! Lá isso concedo-lhe. Fala como num romance da pré-União. Um romance português. E que lata, gozar com um A30! Mas talvez eu ainda o ensine a falar normalmente.

-- Em Noidoitx? -- perguntou Eyup, esboçando uma careta.

-- Em português. Tenho poucas oportunidades de falar em português.

-- Adoraria. Adoraria aprender tudo consigo.

Maria corou. Amaldiçoou a sua compleição leitosa pelas situações em que a colocava. Inspirou fundo e tomou coragem para dizer:

-- Eyup, escute. Lisonjeia-me muito com os seus sentimentos. Mas você só me viu em corredores e elevadores. Parece-me um pouco... como hei-de dizer... apressado, até leviano. E não sei se... se será conveniente..., isto é, eu não sinto o mesmo por si, pronto. Afinal de contas nem o conheço e... Olhe, vou ser franca, há outra coisa: procurei informações sobre si e dei de caras com uma barreira de confidencialidade.

-- Ah! -- interrompeu o turco. -- Já calculava. Ferbóte, não foi?

-- Exactamente. O que é que tem a dizer sobre isso?

-- Bem, é uma longa história que só iria maçá-la. Só lhe peço que confie em mim.

-- Cometeu algum crime?

-- Não.

-- Deve dinheiro ao EuroFisco?

-- Tão-pouco.

-- Então?

-- Nada, minha querida Maria. Tem mais a ver com o controlo interno da EuroHaus. Digamos que ainda não sabem tudo sobre mim e até lá usam o Ferbóte como desculpa.

-- Mas mentiu-me na carta, quando disse que trabalhou em Bruxelas e Berlim. Na sua ficha vinha uma referência às ilhas-fortaleza -- Eyup baixou os olhos e assumiu um ar sério. -- Que me diz a isso? -- insistiu Maria, num tom de voz que a fez sentir-se de novo como uma A42 a falar para um A10.

-- Menti por medo. Quem aceita uma pessoa que esteve numa ilha-fortaleza?

-- Então nunca esteve em Berlim? Nem sequer em Bruxelas?

Eyup abanou a cabeça.

-- Só na Turquia, na ilha-fortaleza e depois em Lisboa?

-- Correcto.

Maria olhou de novo em frente, na direcção dos canhões.

O silêncio daria para passarem dez anjos, em voo lento.

-- Não é nas ilhas-fortaleza que põem os criminosos? -- e a voz de Maria tremeu um pouco. Então Eyup reagiu escandalizado:

-- O quê?! É isso que lhes contam?

-- Não é verdade?

-- Mas nem por sombras!

-- Que são então, ao certo, as ilhas-fortaleza?

Eyup pegou num raminho que estava caído no chão. No saibro, desenhou um mapa tosco da Europa. Depois, a costa do Norte de África. Com a ajuda de uns seixos, assinalou o que deveriam ser ilhas:

-- Baleares, Córsega, Sardenha, Sicília, Malta, Chipre. Ilhas-fortaleza. De um lado a Europa, do outro o Norte de África e o Médio Oriente. As ilhas servem para manter os do outro lado à distância.

-- E porquê? Para que haveriam de fazer isso?

-- Não sabe mesmo, pois não? Porque são muitos. Muitos e pobres. E querem um quinhão do bolo do lado de cá. Nas ilhas há só duas espécies de coisas: canhões e A1s a A10s que servem de soldados. Actividade económica principal: afundar barcos de imigrantes clandestinos e fundamentalistas, bem como fazer raids preventivos às cidades costeiras.

-- Meu Deus, isso é verdade? Não é, pois não? Então e os direitos humanos?

-- Os quê?! -- e Eyup soltou uma gargalhada que afugentou um bando de pombos. Maria sentiu-se envergonhada e calou-se, um pouco amuada.

-- Esta é a realidade. Rialpolitique, como se diz em Noidoitx -- concluiu Eyup, tentando, com a expressão benévola dos olhos, reconquistar alguma simpatia.

Maria também quis aliviar o clima:

-- Mas falta aí uma ilha.

-- Qual?

-- Ora, Creta, é claro. Já lá estive e não vi soldados.

-- Creta é uma excepção. Tem os campos de férias dos A30s a A50s, como bem sabe.

-- Mas como é que se protege Creta?

-- Para isso, e para outras coisas também... usa-se uma fortaleza que não é ilha: Israel. Aliás, a Região Autónoma Associada do Estado de Israel. Depois da União, Israel quis aderir. Houve um tratado qualquer, secreto, entre Berlim e Jerusalém: os palestinianos e os judeus que não queriam a adesão foram extraditados para a Jordânia, construiu-se um muro na fronteira, e agora fala-se Noidoitx, mas escrito com caracteres hebraicos. Uma solução genial. Ou será final?

-- Você não acha, pois não?

-- Claro que não. O Sr. Oliveira da Figueira é um dos deportados, da oposição.

Maria suspirou. Estava cansada de tanta informação e espantada com a sua ignorância. Isto se o turco estivesse a dizer a verdade. Mas ela desconfiava que sim. Sentia-se estranhamente à vontade com ele.

-- Quer dizer, então, que esteve numa ilha-fortaleza como... soldado?

-- Exacto. Depois da União, e porque faltavam sérvios, alistaram também turcos. Não foi nada inteligente, aliás.

-- E, desculpe perguntar, você...

-- Se matei gente? -- concluiu Eyup.

-- Hmm, hmm.

-- Só lhe digo que todo o soldado mata, mais cedo ou mais tarde. Quem vai à guerra...

-- Dá e leva. Pois.

No interior da EuroHaus, Isabel Silva e António Silva avançavam a passos rápidos pelo corredor do trigésimo andar que conduzia à sala do Técnico de Gestão Política e A50, Klaus Fischer. Isabel ajeitava o cabelo loiro cortado em franjas sucessivas e, como quem não quer a coisa, ajustava a roupa interior por debaixo da bata branca regulamentar. Caminhava com um ar decidido, com o nariz no ar. Os óculos de aros pretos davam-lhe aquele ar que as mentes malévolas apelidam de rapace. António Silva seguia-a um meio metro atrás: ligeiramente curvado, com as mãos permanentemente fechadas num punho -- mais por medo do que por agressividade. Os seus trinta e cinco anos pareciam infinitamente mais velhos do que os quarenta e cinco de Isabel.

-- Despache-se, António! Ah, você é uma lesma! -- vociferou Isabel, sem se virar para trás.

-- Sim, Isabelinha -- respondeu ele, a meia voz. O fascínio que Isabel lhe inspirava levava-o a uma submissão que, ao contrário de o envergonhar, o enchia de deleite. Como das duas ou três vezes que dormira com ela e se saciara com o imenso poder que emanava daquela mulher.

-- Se não nos despachamos, acabam-se os dez minutos que o TGP nos concedeu. Vamos lá, António, que maçada!

António acelerou o passo no rasto de Isabel Silva e logo chegaram a uma porta verde-alface, onde se podia ler: «TGP A50 KLAUS FISCHER.» Isabel compôs a bata uma última vez, bateu duas vezes na porta e lançou um olhar gélido para António:

-- Agora veja lá se se porta como deve ser.

-- Bita!

Isabel abriu a porta, entrou, e deixou passar António, para se certificar de que ela mesma a fecharia, não fosse ele esquecer-se e cometer uma inconveniência. Por detrás de uma secretária erguia-se Klaus Fischer, que se dirigia agora para a cumprimentar. Era um homem dos seus sessenta anos, corpulento e vermelhusco. Vestia um impecável fato de estilista, um Marmitti, e a cara perfeitamente escanhoada emitia um sorriso acolhedor:

-- Isabel! Minha querida, que prazer vê-la! E este é...

-- António Silva, Sr. Fischer. É também Técnico de Contabilidade e A45... como pode ver, aliás. Digamos que me ajudou naquilo que lhe venho comunicar.

Fischer acenou que sim com a cabeça e fez um gesto convidando-os a sentarem-se.

-- Querida Isabel, como vai o seu marido?

-- Vai bem, obrigado. Foi recentemente promovido a director do gabinete de ligação do governo autónomo com a União, como por certo sabe.

-- Sim, claro, excelente! -- as palavras rolavam com o elegante sotaque germânico, o mais invejado dos sotaques do Noidoitx. -- E continua fã do esqui aquático?

-- Sempre. Estivemos nas Bikini este Inverno. Como por certo sabe, não somos obrigados a passar férias em Creta...

-- Valha-nos Deus, minha amiga. E então ao que vem?

Isabel cruzou as pernas e olhou de soslaio para António, para se certificar que este estava sob controlo. Cabisbaixo, absorvia a conversa dos outros dois, fascinado com a elegância e o porte exibidos, o puro e simples som do poder. Ah, se pudesse passar umas férias com Isabel nas lagunas azuis das Bikini...

-- Sr. Fischer, o assunto é bastante delicado, e devo dizer-lhe que hesitei muito em pedir esta entrevista. Mas acontece que a minha dedicação ao bom funcionamento da EuroHaus está acima de tudo e...

-- Sim, sim, Isabel, continue. Olhe que só temos mais sete minutos -- e sorriu prazenteiro.

-- Com certeza. Bem, trata-se do caso de uma funcionária TCL A42 cá da casa. Maria Silva. Acontece que fez perguntas que creio não serem...

-- Convenientes, Isabel? -- completou o TGP, com um sorriso matreiro.

-- Exactamente. Sabe como é, curiosidade a mais quando surgem avisos de Ferbóte, perguntas sobre o Plano do Novo Mundo para lá das competências parcelares atribuídas...

Fischer interrompeu-a bruscamente, endireitando-se na sua cadeira:

-- Isabel, minha amiga. As pessoas têm liberdade de expressão, de questionamento. Sabe que em democracia o controlo exercido pelos cidadãos sobre as instituições é algo de precioso. No entanto, se tem dúvidas quanto à fidelidade dessa senhora para com a nossa casa, sinta-se à vontade para o dizer, porque, afinal de contas, também me cabe velar pelos interesses da nossa instituição.

-- Certo, Sr. Fischer. Eu acho que ela quer saber mais sobre o Plano, do qual eu tão-pouco sei o que quer que seja de relevante, e a sua atitude é extremamente suspeita. É só isto, no fundo.

-- Ou seja, passou-lhe talvez pela cabeça que essa Maria Silva pudesse ser uma infiltração da concorrência, de potências estrangeiras, por exemplo?

-- Francamente, sim, Sr. Fischer. É uma rapariguita de pouco nível...

-- Rapariguita, Isabel? A mulher tem trinta anos.

-- Oh, como sabe? -- e também António levantou a cabeça pela primeira vez.

-- Minha cara Isabel -- respondeu Fischer, refastelando-se de novo na cadeira, sentindo-se ainda mais prazenteiro --, as suas preocupações são infundadas. Acontece que as coisas correram mais rápidas do que você poderia imaginar. Não, ela não estava a fazer nada de ilícito. Estava simplesmente cansada, e pediu a demissão. Creio que não quer mais ser EuroCrata. Uma romântica, suponho, pois disse-nos que preferiria mudar de profissão e abandonar a EuroHaus. Vê como tudo é mais simples?

Isabel não podia acreditar no que ouvia. Ficou estupefacta e só ao fim de alguns segundos conseguiu esboçar um sorriso forçado:

-- Bem, Sr. Fischer..., temo que lhe tenha tomado tempo inutilmente... Eu... eu nem sei o que dizer...

-- Deixe estar, Isabel, mostrou-se muito diligente. De futuro tomarei a sua lealdade em conta. Não que não a tomasse já, é claro, sendo esposa de quem é. Mas tomá-la-ei ainda mais em consideração. Em breve surgirão oportunidades de trabalho muito interessantes e talvez possa vir a beneficiar disso.

Despediram-se e Isabel saiu do gabinete, seguida de António.

-- Isabel, está preocupada? -- perguntou este, solícito.

-- Ora, António, francamente! A lambisgóia alguma coisa fez. Está na cara. Mas pelo menos o Fischer pareceu apreciar o meu gesto, valha-nos isso. Mas cheira imenso a gato nesta história.

-- Fico tão contente por si, Isabel!

-- Não me mace, António. Ao menos não abriu a boca ali dentro, valha-nos isso.

António sorriu o seu sorriso triste. Meteu as mãos atrás das costas e ganhou coragem para convidar Isabel para um café.

-- Vá você, António. Tenho de sair. O meu marido recebe gente importante lá em casa hoje à noite e tenho de ir encomendar os hors d’oeuvre. Até amanhã -- e acelerou na direcção do elevador, deixando António a contemplar a alcatifa.

Maria Silva e Eyup Kaba haviam descido a encosta do Castelo até ao Terreiro do Paço. Não falavam mais das questões que os preocupavam, mas antes teciam comentários sobre Lisboa, Portugal, as Comemorações dos quinhentos e trinta anos da descoberta do Brasil que se aproximavam e outros assuntos menores. Caminhavam lentamente. Demasiado.

-- Quer vir até minha casa ver a transmissão do lançamento da Caravela? -- perguntou-lhe ela, num repente de coragem que a levou a atropelar as palavras. O turco sorriu e fez que sim:

-- Mas antes deixe-me que lhe compre uns pastéis de nata para afogarmos as nossas carências.

Maria corou pela enésima vez nesse dia. Eyup correspondia -- e ultrapassava mesmo -- a descrição que ela fizera para o computador. «É pura e simplesmente soberbo!» E toda a espécie de relógios biológicos, fisiológicos, hormonais, biorrítmicos, circadianos, conscientes e insconscientes aproximavam-se da hora em que disparam os respectivos despertadores e alarmes. Dirigiram-se a uma pastelaria próxima, apinhada de gente de saída do trabalho. Pilhas de papéis, pontas de cigarros, restos de bolos e torradas amontoavam-se no chão, e personagens tristonhas e malvestidas, sentadas em mesitas de alumínio, eram invariavelmente maltratadas por empregados mal-humorados.

-- Não se pode dizer que seja um exemplo das normas da União -- comentou Eyup.

-- É verdade, não há maneira de as cumprirem. Talvez se houvesse um pouco de repressão...

-- Espero que nunca se arrependa de ter dito isso, Maria.

-- Como?

-- Nada. Quer com ou sem canela?

Conseguiram apanhar um eléctrico, que já ia cheio e andava a custo pelos carris antigos. A nova frota era quase inteiramente oriunda de Bratislava e Brno, onde haviam substituído os vetustos eléctricos por modernas carruagens feitas na Renânia-Vestfália. Ao fim de meia hora sofrida, e perante um elevador avariado, subiam as escadas do prédio de Maria Silva. Nervosa -- era o primeiro homem que as subia com ela --, levou algum tempo a conseguir inserir a chave na fechadura.

Maria dirigiu-se para a cozinha para preparar as bebidas, enquanto Eyup ligava o televisor. Ainda não começara a transmissão do lançamento da Caravela. Uma locutora de longos caracóis loiros lia notícias internacionais, unionistas autonómicas.

-- Eyup -- disse Maria quando regressou à sala e passou uma bebida para as mãos dele --, porque é que o mandaram para Portugal?

-- Bem -- e franziu levemente o sobrolho --, a comissão numa ilha-fortaleza é sempre limitada. Mas dá o direito a pertencer ao quadro da União. Nos escalões A10, é certo, mas sempre é um emprego seguro. Como eu falava português e eles queriam disseminar os turcos... parece que há uma grande concentração na Alemanha, mandaram-me para cá. Tive que aceitar.

-- E o que é que acha disto?

-- Não é muito diferente da Turquia.

-- A sério? -- Maria denotava algum escândalo na voz. -- Mas diz-se que Portugal é muito mais europeu do que a Turquia, não é?

-- Você acha? Deveras? Repare na falta daquele civismo do Norte, na falta de cumprimento das normas da União...

-- Está a ser sarcástico, não está? Já vi que você quer sempre dizer outra coisa...

-- É um hábito meu, reconheço. Mas, em suma, gosto de estar cá. Parece-me que vou ficar aqui muitos anos. Embora me aborreça o trabalho de THT.

-- Um homem com a sua cultura... parece impossível darem-lhe esse trabalho.

-- Mas a um homem da minha etnia já não. E você, corno vai ser o seu futuro?

Maria mordeu o lábio inferior, quase até magoar-se:

-- Não sei. Fui chamada ao trigésimo andar amanhã.

Eyup virou, de repente, a cara para o lado oposto.

-- Ficou perturbado?

-- Sinceramente sim. Sabe que isso não é bom sinal, não sabe?

-- Pois, já ouvi dizer.

-- Já ouviu dizer? Maria, você é um pouco ingénua. Amanhã? Já?

-- Sim, amanhã.

Houve um silêncio prolongado. Eyup estava visivelmente nervoso e Maria leu nessa atitude uma preocupação pelo seu bem-estar. Comoveu-se.

-- Maria, lembrei-me agora que tinha um compromisso para esta hora! Não me leva a mal se adiarmos esta noite?

Ela deixou cair o pouco de alegria que ainda tinha:

-- Oh, a sério? Mas... e a Caravela? E os pastéis?

-- Ficam para a próxima, não leve a mal. Adeus, depois telefono-lhe, posso?

-- Bem, claro, sim... telefone.

Eyup não perdeu um segundo para sair do apartamento. Maria viu-se de repente com uma bebida na mão e outra, intacta, na mesinha em frente a um lugar vazio. Apercebeu-se então que começara a desejar o turco e sentiu-se invadida por um arrepio. Respirou fundo, como sempre fazia em situações de aflição, e deixou-se cair no sofá. Fechou os olhos por um minuto e logo os abriu, dizendo para si mesma: «Mas que estranha maneira de um homem apaixonado se comportar!»

Estava deprimida. Não se lembrava de alguma vez se ter sentido tão deprimida. A sua vida fora demasiado normal para isso, e tinha um tal gosto em traduzir de uma língua para outra que esse exercício intelectual lhe afastava por completo qualquer pensamento melancólico. Quando chegava a noite sentia-se demasiado cansada para se preocupar com a sua solidão. Conseguira afastar com genial eficácia as tentações do coração e da carne. Até que Eyup aparecera.

Para esquecer este estado de espírito, ligou a TV. Encomendou o TeleFax da noite no canal informativo, com notícias mais curtas, para quem não tinha tempo ou cabeça, ou ambos, para processar análises de fundo. Não que estas se fizessem muito, de qualquer modo. As primeiras imagens eram da caravela que fora lançada ao mar. Pretendia com isto o governo da Região Autónoma de Portugal comemorar os quinhentos e trinta anos da descoberta do Brasil e, em geral, os descobrimentos Luso-Europeus. Esta designação tinha sido uma pequena vitória dos governantes regionais, já que o governo da União queria celebrar os Descobrimentos Europeus, sem prefixos. Mas a negociação fora bem sucedida graças à reputação que a RAP tinha de fidelidade para com a União e as suas tomadas de posição em questões internacionais. Os portugueses eram, de uma estranha maneira, essenciais para a União. Embora não ocupassem os postos elevados, como os alemães, belgas ou luxemburgueses, nem os postos de gestão de pessoal, como os franceses, tão-pouco estavam no fundo da escala, como os sérvios, os turcos ou os búlgaros, por exemplo. Encontravam-se sim num patamar delicado, o do pessoal auxiliar: tradutores, pequenos chefes de distrito em regiões periféricas, mecânicos especializados, programadores de computadores, costureiras, sargentos do exército, professores primários. Eram como feitores: sem eles o sistema não funcionava e, ao mesmo tempo, eram os que mais acreditavam no sistema. Além disso, os milhares de horas de sol por ano eram essenciais para a produção de energia. Assim, o governo da União como que decidira que os portugueses tinham direito à sua caravela e à sua comemoração dos semi-seus descobrimentos.

Maria sentiu um leve enjoo com as imagens tridimensionais filmadas a bordo da caravela. Pensava em Eyup e no caricato que fora ter caído por ele, quando a carta até lhe havia causado, de início, alguma impressão. Mas a conversa com ele, o passeio até casa, haviam acordado nela o seu lado adormecido. Mesmo assim, o enjoo persistia, porque Maria se sentia esmagada com a quantidade de coincidências que lhe estavam a acontecer: o computador desligado em casa, a convocatória para o trigésimo andar, a mudança de trato por parte de Isabel, o aparecimento de Eyup, o seu comportamento, polido mas distante de mais para quem era suposto estar apaixonado -- até mesmo a estranheza de ele se ter apaixonado por ela, já que a auto-imagem de Maria não era propriamente um edifício sólido.

A locutora anunciava que a caravela ia empreender uma viagem até uma das ilhas-fortaleza do Mediterrâneo, mais exactamente Malta, onde se encontraria com o porta-aviões Fortaleza Europa, recém-construído nos estaleiros de Gdansk. Ilha-fortaleza? Maria prestou um pouco de atenção à notícia:

«... e assim, a caravela Vasco da Gama, que aqui vemos passar por debaixo da Ponte Mário Soares, dirigir-se-á para a ilha de Malta, onde a espera a última maravilha do engenho militar europeu, o porta-aviões Fortaleza Europa. Passado glorioso e futuro promissor encontrar-se-ão na ilha que representa o encontro de culturas e o diálogo Norte-Sul. A bordo seguem...»

Maria estava estupefacta. Em que é que aquilo correspondia à verdade? Quem contava a verdade: Eyup ou a EuroVisão? O seu lado racional levou-a a responder: a EuroVisão. Mas o coração, que irrompia agora da letargia de vários anos, dizia que era Eyup. Mas como seria isso possível? Para não se preocupar mais, desligou o televisor.

Sentia medo do dia seguinte. Sentia medo de ir ao trigésimo andar. Estava disposta a dizer, a quem quer que a recebesse, que estava a fazer mal o seu trabalho. Pediria que lhe dissessem em que havia errado. Prometeria corrigir-se. Mas o que seria que queriam dela? Acabou a bebida que apenas bebericara e logo pegou no copo, ainda cheio, que havia dado a Eyup. «Nem sei como contactar com ele. Só se telefonar para a embaixada turca... Não, é melhor ser ele a telefonar, como combinado, assim sentir-se-á na obrigação de me explicar que compromisso tão importante era aquele. Oh, Maria, Maria, francamente, só o conheces há um dia e já exiges coisas dele, que loucura, que ilusão, ele pode ser um mero charlatão, a gozar contigo, pobre ingénua A42TCL!» Cansada dos seus próprios pensamentos, pegou na cópia da revista Futuro que recebera no dia anterior. Saltou-lhe à vista o título do artigo de capa: «Colonização do espaço: Utopia ou Realidade?» Milhares de campainhas tocaram na sua cabeça: espaço? Novos Mundos? Onde já ouvira isso? Plano Novo Mundo, é claro. E tinha perguntado sobre isso a Isabel, antes de ela ter ficado tão estranha, tratando-a por tu. E ao computador, não tinha perguntado informações que a levaram até ao ponto do Ferbóte?

Bebeu o copo de Eyup até à última gota. Suspeitava de que as suas atribulações tinham algo que ver com esse plano. Devia ser tão secreto que qualquer pergunta sobre ele levantava suspeitas sobre as intenções de quem o questionasse. Tinha de explicar a um superior hierárquico que tudo não havia passado de um acaso, que nunca quisera saber mais do que o devido, mais do que a tradução dos termos técnicos de que estava encarregada. Queria acabar de vez com qualquer suspeita que a pudesse remeter para a categoria A20 ou coisa parecida. Pensou que seria bom telefonar a Isabel e perguntar-lhe o que achava. Mas logo desistiu da ideia porque sabia que Isabel detestava que lhe ligassem para casa. Ligou de novo a TV, desesperada por não saber como acalmar-se. Passavam imagens da ilha de Malta: no porto, estava ancorada uma massa gigantesca de metal cinzento; era o Fortaleza Europa. Dizia a locutora que ficaria ali estacionado para proteger a Europa e os países amigos do Norte de África das ameaças externas. «Que ameaças?», perguntou-se Maria. Toda a África era um caos de pobreza, fome, seca, sida e aquela nova doença, a siga ou síndrome da genética alterada. A sul do Sara não havia, portanto, inimigos. Do outro lado do oceano, a América era um país que se arrastava com uma inflação de quinhentos por cento desde que Oscar Hijuelos fora eleito presidente vitalício de um país com um terço da população vivendo em «prisões territoriais», e o Mercado Comum das Américas era o maior desastre financeiro da História Humana, com os fundos desviados para as multinacionais das drogas sintéticas. Pelo menos era o que se dizia na EuroHaus. E a leste, outro panorama desolador: as regiões autónomas associadas da Bielorússia e da Ucrânia mantinham ao largo as hordas de russos famintos, enquanto a Turquia aguentava os tártaros, os iranianos, os turcomenos e quejandos e, pelo que Eyup dissera, Israel aguentava os árabes. O resto era lá longe: de facto, o Japão era o grande rival mundial, especialmente depois da associação com a Coreia, mas as relações entre a União e o Império do Sol Nascente, embora ferozmente competitivas no plano económico, baseavam-se num entendimento único: manter a explosiva China no limiar entre o consolo e a pobreza.

A locutora dizia ainda que a ilha de Malta estava em festa, acolhendo os marinheiros das Forças Navais Europeias preparando-se para receber a caravela Vasco da Gama, a primeira peça para o Museu das Trocas Norte-Sul, a instalar em La Valetta.

Maria folheou o artigo da Futuro para se distrair ainda mais. Já se sentia tonta por causa do álcool, enjoada dos barcos, deprimida com os seus problemas, ansiosa com o dia seguinte. E carente. Só teve energia para ler a cacha da sinopse em português:

«Em que pé se encontram os esforços de colonização do satélite descoberto em 2015? Ao que tudo indica, é possível seres humanos sobreviverem naquele corpo celeste, em ambientes de estufa -- as bioesferas. Estas foram já experimentadas e o seu fabrico pela indústria dos novos poliuretanos do Baden-Wurtenberg só aguarda a autorização do EuroGov. Porque tarda a decisão política? Porque não nos adiantamos aos japoneses? Na colonização pode estar o futuro da população excedentária das zonas periféricas. Ou será que a brandura dos nossos políticos espera até que os japoneses colonizem o satélite com os excedentes da sua periferia -- indianos, vietnamitas, chineses? Impõe-se uma decisão que...»

Maria sentiu os olhos pesados. Ainda lhe pareceu que tudo aquilo encaixava algures nos seus pensamentos das últimas horas, mas adormeceu ali mesmo, no sofá.

Episódio 3
Sinais de alarme e Badajoz à vista

Eyup nem reparava na paisagem que o autocarro atravessava. Já fizera o percurso tantas vezes que a novidade se gastara. Agora era quase um igual das pessoas que viviam para lá do perímetro da cidade, protegida pelo muro de Lisboa. A embaixada da Região Autónoma da Turquia (e Azerbaijão, Nagorno-Kharabak e Nakitchevan) ficava numa torre de apartamentos em Santo António dos Cavaleiros, no meio de dezenas de prédios abandonados ou ocupados por africanos das mais diversas etnias. A população local emigrara quase toda a partir do princípio do século: a segunda maior cidade portuguesa situava-se nos arredores de Berlim, a terceira nos arredores de Bruxelas e a quarta ocupava toda a Região Autónoma do Luxemburgo. Por sua vez, Lisboa era a segunda maior cidade angolana, espalhando-se pelos ares e vielas de Odivelas, Benfica, Telheiras e Expo 98 os odores agridoces das especiarias e petiscos das kizombas sem fim referidas nos guias turísticos. Em Portugal (como na Turquia, pensava Eyup) quase não havia empregos: preocupada com a ecologia, a União desfizera-se de todas as indústrias poluentes, as quais prosperavam alegremente nos países do Resto do Mundo -- como era correcto dizer-se -- graças aos vários tratados de Cooperação e Contacto de Culturas. Lisboa tinha ficado limpa, mas pobre, atraindo por acréscimo a pobreza africana que vinha disputar as poucas tarefas deixadas pelos emigrantes. Berlim ficara ainda mais limpa, só que mais rica, não sendo ninguém quem não tivesse pelo menos duas criaditas portuguesas para tratarem de cuxa e quinda (cozinha e crianças).

O autocarro avançava heroicamente por entre -- e sobre -- buracos de dimensões craterianas. Descrevia percursos de lógica insondável, para contornar e servir urbanizações fantasma, outrora viçosos cogumelos humanos. Eyup só conseguia pensar no que Maria lhe havia dito e na chamada que tinha de fazer urgentemente. Usaria o telefone satélite da embaixada (gentilmente oferecido pela Região Autónoma da Lituânia, depois de uma empresa alemã ter modernizado de graça o sistema de comunicações daquela região), por não confiar nos telefones normais. Deixou escapar um quase-sorriso, ao lembrar-se da ingenuidade de Maria. A mesma ingenuidade que o fizera escolhê-la para a prossecução dos seus objectivos. O que não o deixava sem um sentimento de culpa, pois Maria parecera-lhe uma jóia de pessoa. Afinal não era culpa dela ter sido boa aluna e boa funcionária, crente incondicional nos direitos, liberdades e garantias da Constituição da União. Porém, valores mais altos se levantavam e Eyup esperava poder um dia explicar a Maria o que estava em jogo e por que tivera de fazer o que tivera de fazer.

Saltou do autocarro em andamento. Este, além de ser ainda a gasóleo, expelindo um cheiro nauseabundo, não tinha já portas e o condutor não parecia disposto a parar naquela esquina. De uma rua lateral um bando de adolescentes ovimbundus corria desenfreadamente atrás de três ou quatro bosquímanes ainda pouco habituados às lides da cidade-satélite. Eyup, com o seu ar vagamente árabe, não corria riscos, pois podia facilmente passar por líbio. A máfia líbia era conhecida pelo seu sangue-frio: quem chateasse um líbio acabava provavelmente empalado em frente ao centro comercial das AmorEuras. Mas não inteiro: a cabeça era evidentemente transportada e colocada na Zona Central Intra-Muro (o perímetro Rotunda, Saldanha, Estefânia, Martim Moniz, Terreiro do Paço, Rato, Rotunda), de preferência em frente a uma embaixada de alguma região mais poderosa. Era a forma de os líbios dizerem: «Prestamos toda a espécie de serviços, contacte embaixada líbia.»

Apesar de tudo, Eyup tinha pressa. Galgou os dezassete andares do prédio, até ao T1 onde se situava a embaixada. O cheiro no apartamento era insuportável, misturando-se o dos vinte homens que ali dormiam com os odores do iogurte azedo e das almofadas dos carimbos oficiais. Não cumprimentou ninguém, pegou no telefone satélite e fechou-se na casa de banho. Sentou-se na retrete, afastou um preservativo usado (que os colegas insistiam em usar, não por causa da velha sida, perfeitamente confinada ao continente africano, mas por fantasia sexual herdada do uso excessivo de profilácticos no século XX) e ligou o número que sabia tão de cor quanto o primeiro versículo do Corão Actualizado: 0098-32-793-5000.

A estática universal -- ou mesmo cósmica -- fez-se sentir durante uns vinte segundos. Por fim, atenderam do outro lado:

-- Sim?

-- Olá, X. Aqui Y.

-- Y! Como estás?

-- Bem, vai-se andando. Mas há problemas.

-- Problemas, Y? Por favor, não me fales de problemas.

-- Tem de ser. É por causa da Doninha Fedorenta.

-- Doninha Fedorenta... -- Eyup percebeu que o interlocutor tentava lembrar-se do significado do código. Eram tantos...

-- Tu sabes, vá lá. Falei-te dela, uma A42TCL.

-- Ah, sim, agora sim, estás a falar como gente. O que é que se passa?

-- Acho que ela está a ter problemas na EuroHaus. É capaz de já não servir.

-- Oh, diabo, mas não estava a correr tudo bem?

-- Estava. A carta resultou, as conversas também. A minha avaliação psicológica estava correcta. Pensei que a todo o momento pudesse começar a colheita de informações. Mas de repente ela sai-se cá com uma! Não é que me diz que foi chamada ao Técnico de Gestão Política?!

-- Ao quê?

-- Ao chefe, pronto. Ao Comissário Político.

-- Ah! Ao Ubbersturmfuhrer!

-- Ou isso -- Eyup conhecia o gosto de Y por velhos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, aquela que os alemães perderam. -- E só pode querer dizer uma coisa: vão-lhe preparar alguma.

-- Raios. E não tens alternativa? Não havia uma tal de Isabel?

-- Não dá. É casada com um lacaio local. Além disso, não tenho estômago para tanto.

-- Pobrezinho. É feia, é?

-- Horrenda. Falsa loira com muitas pulseiras e colares de ouro, fala pelo nariz, veste saias escocesas, é estrangeirada e...

-- Chega! Já vi a cena. Talvez arranjes uma solução. Que pensas fazer entretanto?

-- Bem, vou ter de a controlar, não é? Podem espremê-la e através dela podem chegar até mim. Não posso arriscar tanto. Não podemos.

-- Quer dizer que vais...

-- Só em último caso. Só pela causa. Mas vou tentar outras soluções.

-- Vê lá não te queimes. Quero-te inteiro, bem sabes.

-- E eu a ti. Tenho de desligar, X. Até breve?

-- Até sempre, Y, até sempre.

-- Sua parva! É mesmo parva! Nem percebo porque é que não a despacho já para a sua terra!

-- Mas, minha senhora, foi sem querer, é que eu estava a falar ao telefone com a Galina, a que trabalha em casa do senhor embaixador da Croácia, a senhora sabe, e quando olhei para o forno, Deus me livre, era uma fumarada, mais parecia Sarajevo no tempo da última guerra, como o meu pai contava, que Deus tenha e...

-- Chega, basta! Parece um papagaio, Deus me livre. Vocês os bósnios ainda são piores do que os sérvios. Não vos ensinaram nada, os croatas, não? Vá-se embora. Vá, vá, desapareça! Evapore-se, ouviu, sua horrorosa? Está despedida!

Isabel Silva estava, como ela própria teria dito, possessa. A criada bósnia tinha deixado esturricar os petits-fours até ao estado de carvão e tinha tido o desplante de os apresentar aos convidados. Os belgas e luxemburgueses ainda se contiveram polidamente, mas os alemães não hesitaram em emitir os mais estranhos sons guturais. Isabel sentira o céu cair-lhe sobre a cabeça -- o que a embaixatriz gaulesa compreendeu perfeitamente -- pois havia sido um triunfo ter conseguido que «os do Norte» tivessem feito a enorme concessão de aceitarem o seu convite. Fechou a porta da cozinha com um estrondo e deixou-se afundar no sofá da sala. O cheiro a fumo ainda empestava o ar, mesmo depois de os convidados terem saído. O marido olhou-a de esguelha -- olhava-a sempre de esguelha -- e comentou:

-- Óptima recepção, não acha?

-- Óptima? -- a fúria reapareceu na cara de rugas meticulosamente disfarçadas. -- Você chama óptimo o desastre dos petits-fours?

-- Ora, querida, você sabe como os belgas gostam duma boa piada. É o pitoresco local, eles gostam disso. Não se preocupe. Em contrapartida, a conversa com o Fischer foi de primeira.

Isabel abriu-se num sorriso, tão depressa quanto se havia enfurecido. Conseguia com grande maestria mudar de expressões e estados de alma, em tempo considerado recorde no meio diplomático de Lisboa.

-- Sim, foi óptimo, não foi? Nunca imaginei que ele aceitasse vir a casa de uma A45. Mas, é claro, com você nas relações entre o Autónomo e a União...

-- Claro, ele não poderia escusar-se. Para mais, com o negócio que fechámos. Sabe que ele aceitou todos os termos?

-- Todos? -- exclamou Isabel eufórica.

-- Um por um. O aldeamento turístico da Zambujeira...

-- E o contrato de pavimentação do IP97?

-- Sim, e o despejo dos clandestinos do bairro da Expo 98 para se fazer a Expo 2040... E, claro, quatro contentores de...

-- Chiu, as paredes têm ouvidos, bem sabe -- interrompeu-o ela.

-- Sim, pois, quatro contentores do que você sabe. Por mês! Vão ficar histéricos na fábrica de armamento!

-- Olhe as paredes!

-- Pois -- o marido de Isabel ficou pensativo por alguns segundos. -- Ó Isabel, e aquela história que me contou da Maria Silva das traduções, em que pé ficou?

Isabel cruzou os braços e regrediu a uma expressão de relativo amuo:

-- Aquela santinha! Eu sei que está a tramar alguma, e se eu descobrir o que é tenho uma história para contar ao Fischer que é certo e sabido que o seu posto em Berlim, querido, fica no papo!

-- Quem me dera, Isabel, quem me dera.

-- É verdade. Já viu? Em Berlim, nós?! -- e o seu tom era agora sonhador.

-- Berlim, aahhh -- divagou ele sonhadoramente. -- Alexanderplatz. Unter-den-Linden allee. O novo arco do Uniorium. O parque Kohl. Ah, Berlim, Berl-in.

-- Lá iremos, main xatz. Ixe bine ain Berliner. Du biste ain Berliner.

-- Vir zinde Berliner.

À porta da casa de Maria Silva passava uma pequena manifestação de jovens com bandeiras da Europa e da Região Autónoma. Vestiam fatiotas do século XVI e mais de metade dos rapazes usavam palas sobre um dos olhos. Distribuíam panfletos que apelavam à população para comparecer no Terreiro do Paço para a grande homilia sobre os Descobrimentos Luso-Europeus e o Contacto de Culturas. Estariam presentes todos os líderes religiosos das comunidades de imigrantes em Portugal e era com grande expectativa que iria acontecer o primeiro festival de Folclore Sincrético.

Maria seguia cabisbaixa para a paragem do eléctrico. Nem reparou no Sr. Silva, da loja 24 horas, semidisfarçado com um chapelito de papel imitando uma nau quinhentista. Imaginava os piores equívocos na entrevista que teria daí a horas no trigésimo andar da EuroHaus. Oscilava entre os pressentimentos mais pessimistas e as racionalizações positivas. Via o Sr. Fischer dando-lhe um caloroso aperto de mão e esclarecendo tudo, dizendo que tudo não havia passado de um exercício de aferimento das capacidades dos funcionários, uma daquelas coisas que a Conciliação Social negociava com o patronato. Foi graças a este pensamento sonhador que se lembrou de falar primeiro com o delegado sindical.

Encontrou António Silva na cafetaria, no minuto seguinte a ter chegado à EuroHaus. Isabel não estava presente, pelo que ele olhava absorto para a chávena de café com natas à sua frente. Com o dedo indicador direito desenhava formas abstractas no pó da mesa, que os Técnicos de Higiene no Trabalho nunca limpavam convenientemente. Maria atravessou o bulício da cafetaria, repleta de funcionários portugueses com chapelinhos-caravela iguais aos do Sr. Silva das 24 horas, e que eram mirados com o mais profundo espanto pelos funcionários superiores do Norte. Ainda ouviu uma belga, que mergulhava batatas fritas no chocolate quente, dizer com uma entoação lacónica para um holandês:

-- Ora, se não fosse o comércio de Antuérpia, eles nunca tinham tido esses descobrimentos...

Ao que o holandês respondia:

-- Se tivéssemos querido, tínhamos ficado com as colónias deles todas.

Maria aproximou-se da mesa de António e, timidamente, deu-lhe os bons-dias. O delegado sindical, depois de disfarçar a desilusão por não se tratar de Isabel, cumprimentou-a:

-- Gudag, Maria. Siten zi, bita.

-- Obrigada, podemos falar em português? -- Maria sabia que o Noidoitx era usado para criar distância.

-- Varume?

-- É um assunto delicado e...

-- Tudo bem. Seja, em português -- respondeu com enfado. -- É coisa sindical?

-- Creio que sim. Você sabe que fui chamada ao trigésimo?

-- Ssssim -- hesitou em confirmar, pois fora Isabel quem lho havia dito.

-- Pois bem, como delegado sindical, o que é que você acha que me querem? Isto é, quais são as possibilidades?

-- Bem, as probabilidades de um A42 ser chamado ao trigésimo são sempre escassas. Eu diria que escassas e opostas: ou quando se vai ser promovido para Berlim, por serviços excepcionais prestados à União, ou quando se vai ser posto na rua, por EuroCepticismo excessivo e manifesto.

-- Que horror, só essas duas hipóteses?

-- Só lhe disse que são as mais correntes. Ainda não viu a Isabel hoje?

-- Não, não vi. E acha que pode tratar-se de um engano?

-- Raramente o trigésimo se engana. Que terá acontecido à Isabelinha?

-- Confesso que não sei. E você, como delegado sindical, não me pode acompanhar?

-- Essa agora! Que falta de respeito para com o trigésimo! Um delegado sindical só comparece quando solicitado, trabalhamos todos juntos para a Grande Construção Europeia, não podemos andar por aí a fazer só... como se diz?

-- Reivindicações?

-- Isso, reivindicações. Mas que estranho, isto da Isabel, não acha?

Maria, talvez motivada pela ansiedade e pelo receio, perdeu a sua habitual docilidade:

-- Sei lá da Isabel! E pouco me interessa! Obrigada por nada, António -- e levantou-se, dirigindo-se para a saída.

António Silva ficou pensativo, girando pela enésima vez a colher na chávena: «Se a Isabel estivesse aqui tinha-las dito bem ditas! Tenho que lhe contar que a Maria está mesmo aflita. Que estúpido que sou, não aproveitei para tirar nabos da púcara. Mas pelo menos tenho uma novidade para a Isabel, aquilo que o Battistini dos Serviços de Informática me contou, acerca do turco que saiu do prédio com ela. Se anda metida com turcos é porque não anda a fazer nada de católico. Aí a Isabel vai adorar e é mais um ponto a meu favor.»

Nesse momento uma mala de senhora, com o fundo em chumbo tão na moda, aterrou com um estrondo sobre a mesa, entornando o resto viscoso de natas e café sobre os desenhos no pó. Era ela, Isabel, que vociferou um Gudag triunfal.

-- Oh, bom dia, Isabel, como está bonita hoje -- e a voz dele transbordava de felicidade canina.

-- Deixe-se de lamechices. Oiça, o que é que a lambisgóia estava aqui a fazer?

-- Isabel, não era nada do que você pensa...

-- Do que eu penso? O que é que pensa que eu estava a pensar?

António conseguiu sorrir, a contragosto.

-- Veio pedir-me ajuda para a entrevista que vai ter no trigésimo. Mas tenho uma novidade melhor para si. O Battistini disse que a viu sair daqui com um turco. Ontem.

E ficaram um tempão a conversar lá fora.

-- Um turco? Um A10, pra aí? Cheira a esturro, lá isso cheira. Mas entretanto creio que a nossa Mariazinha já não nos interessa... -- António esboçou uma expressão de espanto. -- É verdade. O Fischer e o meu marido fizeram ontem um acordo. O trunfo da tradutorazeca já é só amendoins.

-- Quer dizer que não interessa seguir este caso? Não vale a pena procurar o turco?

-- Isso mesmo. O Fischer agora já começa a dever um favor ao meu marido. Provavelmente o que tem para dizer Maria Silva já é o pagamento da primeira letra.

-- Você é genial, Isabel. E pode saber-se que negócio fez o seu marido com o Fischer?

-- Claro que não, não seja parvo.

António baixou os olhos. Já lhe custava bastante ter de ouvir mencionar o nome do homem que dormia com Isabel. Era dor acrescida ouvi-la falar dos seus segredos com ele. Passou a vista pelos desenhos na mesa, agora desaparecidos sob uma poça de café.

-- Podemos... podemos ir a um cinema virtual esta tarde? -- atreveu-se a perguntar.

Isabel ergueu o queixo como só ela sabia fazer, puxou da mala e ajustou-a ao ombro, que descaiu um pouco com o peso. Arrastou a cadeira como era seu hábito e ameaçou levantar-se:

-- Não, não podemos. E, aliás, oiça o que lhe digo. Oiça com muita atenção: nem hoje nem nunca. Você passou à história, e meta bem isso na sua cabecinha portuguesinha. Estou a dois passos de Berlim e já não preciso de si para a navegação. Desculpe, mas é o meu espírito pragmático, não sei se está a ver. De qualquer modo, está decidido.

António balbuciava como um peixe fora de água. Um laivo de natas decorava-lhe os cantos da boca, o que perturbou Isabel ainda mais. Ainda conseguiu dizer:

-- Isabel, Isabel -- o desespero escrito, com todas as letras e erros ortográficos incluídos, na sua cara --, então e eu... e... nós?

-- História, meu querido, história. Gaxixta! Não fique triste, há para aí muita A30 e secretariazinha portuguesa e espanhola disponível. Não é o fim do mundo e por amor de Deus não faça cenas. Além disso, você sabe, sou, sempre fui, fi-de-lí-ssi-ma ao meu marido. Viderzen!

A esposa do alto funcionário do governo autónomo desapareceu da sala como um tufão. Para trás deixou um António sobre quem desabava o mundo. E no meio das dezenas de pessoas de chapelinho-caravela na cabeça e palas de plástico nos olhos, cantando e rindo a plenos pulmões sobre a gesta do luso-europeu Vasco da Gama, com invocações de mar, navios, tempestades e escorbutos, António foi acometido do mais profundo enjoo que alguma vez sentira.

Eyup estava sentado no mesmo banco de jardim em que tinha conversado com Maria. Esperaria ali por ela, já que não era aconselhável procurá-la dentro do edifício. Era o seu dia de folga e podia muito bem gastá-lo ali, à espera, já que aquela tinha de ser uma conversa decisiva com a tradutora.

Nesse preciso momento Maria subia no elevador até ao trigésimo andar, ajustando a bata, compondo os cabelos loiros, verificando se tudo estava no seu sítio e, de certo modo, preparando-se para resistir a um mar de lágrimas. A seu lado, um homem baixo e gordo olhava-a com uma seca curiosidade: ela sabia que ele se perguntava por que razão ela se dirigia ao trigésimo, não se tratando evidentemente de uma A50. O elevador parou no vigésimo nono, o andar que o homem pedira. Quando transpôs a porta pareceu hesitar o passo por um momento e finalmente decidiu virar-se na direcção de Maria. Pouco convicto, e algo embaraçado pela demonstração de compaixão, murmurou entredentes:

-- Boa sorte, liba jrau.

Maria tomou as palavras como o pior presságio possível. Tremia de alto a baixo quando as portas se abriram para o trigésimo.

Surpreendeu-a a simplicidade da decoração e a repetição da mesma distribuição de espaços que nos outros andares, pois sempre pensara que, apesar da declarada igualdade de Condições de Trabalho e das Normas de Harmonização de Design de Interiores, haveria um não-sei-quê de distinção à medida que se subisse na escala vertical da sede. Encontrou facilmente, e também para sua surpresa, a porta de Herr Fischer. Nos seus piores sonhos imaginara um espaço labiríntico, semelhante aos descritos num livro de um escritor do século XX, Franz Kafka, que lera por sugestão do nome do aeroporto de Praga na Região Autónoma da Boémia-Sudetas. A porta não dispunha de campainha, nem sequer de um leitor de palmas das mãos ou identificador de voz. Tudo parecia de uma simplicidade caseira, mesmo antiga, primomilenar, como diziam os Técnicos de Definição Estética ou críticos de arte. «Para quê estar apreensiva? Isto afinal é igual a qualquer outro sítio», sussurrou para si mesma. «Coragem, Maria, não pode ser pior do que ser chamada à Madre Superiora no colégio.»

Respirou fundo, compôs a bata uma última vez e, com o seu punho miniatura, bateu duas vezes na porta de cor verde-alface. Nada. Bateu uma terceira vez, com um pouco mais de força. Uma voz de homem soou do outro lado da porta:

-- Bita!

Maria rodou a maçaneta de metal. Murmurou um entxuldigungue, logo seguido de um «Com licença» em português, como que para dar a entender quem era, enquanto pisava a alcatifa cor de laranja. À sua frente, uma secretária sem ninguém sentado por detrás dela. De onde tinha vindo, então, a voz? Fechou a porta atrás de si e olhou em redor. Ninguém. Intrigada, ficou imóvel como se estivesse aflita por estar a entrar em propriedade privada.

-- Bita? -- atreveu-se ela. Mas ninguém respondeu. Subitamente, uma voz simpática soou vinda de lado nenhum:

-- Maria Silva, A42TCL, P-5333322, presumo?

-- Sssim...

-- Como? Mais alto, por favor.

-- Sim. Sou eu -- Maria reparou então que a voz provinha de um pequeno altifalante colocado no tampo da secretária à sua frente, por detrás de uma tabuleta que continha as palavras A50TGP K. Fischer. A tabuleta, ou o altifalante, ou Fischer, ou quem quer que fosse, prosseguiu:

-- Maria Silva: tentou obter informações sobre o Plano do Novo Mundo?

-- Bem, eu..., não é bem assim...

-- Limite-se a um simples sim ou não, por favor.

-- Bom... sim.

-- E falou sobre esse assunto com uma tal de Isabel Silva?

-- Correcto.

-- Sim ou não, por favor.

Maria duvidou por um segundo da inteligência da voz. Mas respondeu afirmativamente.

-- E encontrou-se com um tal Eyup Kaba?

Um choque de terror perpassou todo o seu corpo. Como podiam saber aquilo? Respondeu com mais um «sim» tremido.

-- E levou-o a sua casa?

-- Sim, mas...

-- Sim ou não.

-- Sim.

-- Obrigado, pode esperar.

Não esperou muito, embora tenha sentido o tempo passar com a lentidão de um eléctrico lisboeta. Tentou olhar pela janela, a ver se vislumbrava Badajoz lá ao longe. Mas não, só via as torres abandonadas da Expo 98 e, ligeiramente à direita, os arcos ao velho estilo fin de siècle ou Taveira da Ponte Mário Soares. À sua direita uma porta de comunicação abriu-se. Maria esperava ver entrar Herr Fischer. Em vez dele, entraram duas mulheres de bata azul, obviamente Técnicas de Manutenção Fisiológica, por certo irlandesas e A48.

-- Maria Silva?

-- Sou eu.

-- Queira levantar a manga do braço direito -- disseram, em uníssono.

-- Como? Porquê?

-- É para seu bem. Faça como lhe dizemos, não há qualquer problema -- e sorriram as duas em simultâneo, como alegres comadres.

«Seja», pensou Maria. Enrolou a manga da bata. Concluía a última dobra quando, com uma destreza de duende ou de fada madrinha, uma das portentosas celtas avançou com uma pistola-seringa e lha espetou no braço. Pareceu-lhe ouvir o squiiish do líquido infiltrando-se na carne. Ao mesmo tempo sentiu um sono cada vez mais pesado invadi-la, um sono de pedra como já não sentia desde a mais remota infância, e ainda julgou ver, bem nítida, a torre do El Corte Europeu da baixa de Badajoz. Mas era já alucinação.

Lá fora, já aborrecido com o cruzar e descruzar de pernas, tendo lido de fio a pavio no monitor de bolso a edição matinal do ultra-aborrecido O Público Europeu e a semanal de o Expresso do Ocidente, e tendo-se ainda roído de expectativa pela chegada de Maria, Eyup desistiu e chegou à conclusão de que o pior havia acontecido.

Restava-lhe, sendo assim, um escasso par de horas para ir até Santo António dos Cavaleiros, fazer a mala, conseguir apanhar um táxi que aceitasse levá-lo até à Gare do Oriente e meter-se no último TransEuropa do dia. Antes que fosse dado o alarme.

Episódio 4
Toda a gente se põe a mexer

O último TransEuropa para Paris partia da Gare do Oriente às 19h22. Eyup convenceu o taxista -- graças a uma generosa gorjeta de vinte Euros -- a passar o Muro de Lisboa e a deixá-lo à porta da estação. O gesto foi tão inusitado que o bando de delinquentes que ali passava o dia não mexeu um dedo, tal a surpresa. Eyup comprou o bilhete usando o cartão da TransEuropa na bilheteira automática e dirigiu-se à única casa de banho que ostentava a indicação «Local Protegido». Escolheu o cubículo menos imundo, fechou a porta, rasgou em oito pedaços o seu EuroPass da Região Autónoma da Turquia (& etc.) e colocou na carteira o falso, da Região Autónoma da Itália do Sul. É certo que havia livre circulação de cidadãos na União, um velho conceito herdado dos finais do século anterior, mas um turco era sempre um turco e a desculpa das estatísticas levava sempre os funcionários das fronteiras regionais a pedir-lhe o cartão, o que poderia gerar problemas e equívocos, sobretudo aquando das inevitáveis passagens por França. Como italiano, e já que seria inverosímil fazer-se passar por alemão, conseguiria diminuir consideravelmente essa probabilidade. Carregou, inutilmente, no autoclismo avariado, e correu para a plataforma.

António calculava que tinha tomado uma dúzia de Valiuns, já nem sabia ao certo. Mas sabia que queria morrer. Nada mais simples. Só que, como com tudo na sua vida, não conseguira atingir o seu objectivo. Acordava agora numa cama de hospital. Nem o facto de ser funcionário da EuroHaus lhe valera um quarto, pois encontrava-se numa marquesa num corredor do Hospital de São José. À sua volta, dezenas de portugueses gemiam ladainhas incompreensíveis. António quisera morrer por causa de Isabel. Aliás, fazendo um bom esforço de memória, lembrou-se que desde sempre desejara morrer. Por isto ou por aquilo. Mas quase sempre por causa de uma qualquer Isabel.

A inspiradora do impulso suicida de António recusava os avanços sensuais de Joaquim, seu marido, pela terceira vez nessa semana. Não que ele insistisse muito: apenas tentava manter as aparências, para Isabel não desconfiar do affaire de coeur que mantinha com uma grega nas idas a Bruxelas. Isabel recusava-o pela mesma razão que recusara António: os homens não lhe interessavam. Tão-pouco as mulheres. Achava o amor e o sexo uma infinita chatice que só a distraía dos seus propósitos mais altos: subir na vida. Virou-se para o seu lado da cama, ruminando sobre o que teria acontecido a Maria, sobre se a esperaria algum prémio relacionado com o sucedido. Agora que os negócios do marido pareciam estar a resultar, ela queria ter a sua quota-parte de glória no facto, de modo a poder ter a sua quota-parte de dividendos. Pensando bem, era melhor não hostilizar o marido. Pegou na mão dele e colocou-a sobre um seio, em jeito de convite. «O que se tem de fazer para aguentar um casamento», pensou ela.

O marido de Isabel pensava que já se havia safado daquela. Mas eis que era ela quem agora o convidava para os enfados do sexo. Ele gostava tanto daquilo como de ser pobre e pouco influente. Com a grega era outra coisa, pois nunca havia a maçada do sexo: a especialidade dela era recebê-lo em casa como a um senhor, cozinhando grandes repastos, fazendo-lhe massagens, ouvindo-o falar sobre tudo e nada, cosendo-lhe as meias enquanto viam televisão. Mas Isabel era uma aliada preciosa, era como um contabilista (ela era uma contabilista) que o avisava dos passos a dar e a não dar. Tudo parecia estar a resultar com Fischer e isso devia-se em grande medida à visão de Isabel. Esforçou-se por se lembrar de alguma imagem excitante, de modo a poder cumprir a sua obrigação marital. Quando visualizou um dos jogos eróticos favoritos -- a grega admoestando-o com um rolo da massa na mão por chegar tarde a casa -- conseguiu.

Klaus Fischer escrevia no seu diário com a sua letrinha nervosa. Mantinha religiosamente o registo dos seus feitos, para que a posteridade os conhecesse, quer quisesse quer não:

«Óptimo negócio fechado hoje. Sempre disse que valia a pena manter estes países do Sul -- óptimos investimentos e óptima cobertura. Prevejo ganhos substanciais com urbanização turística em área protegida, sem que o meu nome conste, mas sim o do tonto do liaison do governo regional com a União. Um guloso. Em troca eles fornecem as armas para a Frente Russa. Se forem apanhados por algum organismo de controlo, a União não sofre: pode-se sempre dizer que havia corrupção no governo regional português, o que é facilmente credível, e toda a gente poderá sacudir a água do capote. Despachámos uma TCL metediça para o Plano. A manter-se este ritmo, não tarda nada teremos técnicos intermédios suficientes. Não tarda nada também segue a horrenda Isabel, mulher do liaison. Vai ser a surpresa da vida dela!»

No Terreiro do Paço a multidão de jovens agitava bandeiras da região autónoma, da Europa, do Condado Portucalense, da Mocidade Portuguesa, da Organização Europeia para o Contacto de Culturas, da Comissão para a Comemoração Verdadeira dos Descobrimentos Luso-Europeus, do Sport Lisboa e Sporting e do patrocinador da festa, a multinacional de leite para bebés Parvalat. Cruzes de Cristo e astrolábios decoravam as arcadas em redor, sobrepondo-se ao gigantesco anúncio em néon que dizia «Parvalat: o leite em lata que tem mais lata». Réplicas de caravelas velejavam ao largo, no mar da Palha. Cantores de bandas EuroHip cantavam canções sobre mar, marinheiros e aventura. Jovens estudantes de medicina orientavam sessões de realidade virtual que tinham como objectivo explicar o escorbuto. Um grupo de timorenses de avançadíssima idade dançava danças tribais de ainda mais avançada idade, protestando contra a invasão indonésia, a segunda, em 2005. Também havia grupos da Guiné-Bissau-Conacri, de Angola e da província sul-africana de Moçambique, arranhando algumas palavras de português no meio das canções anglófonas e francófonas. A polícia cercava-os com fortes cordões de segurança, pois as disputas mútuas eram frequentes. Os jovens deliravam. Era bom ser Jovem, melhor ainda ser EuroJovem, sobretudo desde que a idade limite para os benefícios juvenis tinha subido para os trinta e nove anos. Do Arco da Rua Augusta surgia um desfile de mais jovens, vestidos de vermelho, amarelo e verde. Dois terços ainda entraram triunfalmente na praça, mas o terço final foi desbaratado por uma brigada de ataque de ovimbundus chegados dos subúrbios.

Eyup já passara Badajoz havia muito. A viagem decorria sem problemas, sobretudo porque não tinha acontecido nenhum corte de linha ou assalto ao comboio no troço entre a Expo 98 e Sacavém. No monitor de TV da sua carruagem passava o TeleFax em castelhano que dava conta de dez mortos no Terreiro do Paço em Lisboa, motivados por um bando de jovens marginais não-Europeus pagos por obscuras forças EuroCépticas. Eyup não conseguiu deixar de sorrir. Consultou um mapa da EuroRail à sua frente: não iria até Paris. Sairia do comboio em Hendaye e tomaria outro para Nice. O mais seguro era seguir daí para a Itália do Sul e, em Nápoles, onde tinha um contacto seguro, encontrar transporte para o seu destino. Se conseguisse. Se tudo corresse bem. Se ainda valesse a pena.

António teve alta do hospital. O psiquiatra de serviço aconselhou-o a telefonar-lhe sempre que se sentisse muito deprimido. António garantiu-lhe que tal não seria necessário, não só porque o psiquiatra lhe parecera deprimido ele mesmo, mas sobretudo porque estava disposto a seguir uma vida nova. Estava mesmo. Quando saiu à rua, o céu azul encheu-o de alegria. O horror por que acabara de passar ajudara-o a limpar-se da imagem de Isabel. E o panfleto da Igreja da Quinta de Deus que uma enfermeira lhe dera continha bons conselhos para a renovação espiritual da sua vida. Iria até ao Terreiro do Paço, partilhar as emoções da multidão, misturar-se com a Juventude, sentir que estava vivo e que Deus lhe dera uma segunda oportunidade para pastorear na sua eterna quinta.

Ao atravessar a rua, no Poço do Borratém, ia tão ocupado a evitar os obstáculos e armadilhas que as Novas Obras do Martim Moniz provocavam, que foi trucidado por um bando de não-Europeus que se dirigia a toda a brida para o Terreiro do Paço. Uma bota mais pesada partiu-lhe o crânio em toda a longitude. O seu corpo foi para o mesmo hospital pela segunda vez no mesmo dia, só que já sem vida.

O marido de Isabel desligou a imagem e o som do telefone.

-- Quem era? -- perguntou Isabel.

-- O Fischer! Vê só, nunca telefonou pessoalmente!

-- Que é que ele queria?

-- Bem... -- ele quis criar um pouco de suspense mas só conseguiu irritá-la. -- Faça as malas que temos de ir para a Itália ainda hoje.

-- Para a Itália? Para a do sul ou para a Padânia? E porquê? -- Isabel não acreditava no que ouvia.

-- Para a do sul, infelizmente. Diz que nos espera uma reunião importante com quadros promissores de toda a União. Uma reunião de excelência, diz ele, para criar sinergias ou não-sei-quê. Aposto que tem qualquer coisa a ver com os nossos negócios...

-- Com mais uma promoção?

-- Acho que sim.

-- Bingo! -- gritou a contabilista. E pela primeira vez em anos beijou o marido com verdadeira alegria. -- Vou já mandar a Galina fazer as malas.

-- Então não a tinha despedido?

-- Oh, esta é outra. Sabe como é, chamam-se todas Galina.

Klaus Fischer ligou o intercomunicador:

-- Ingrid, mande o avião estar pronto daqui a uma hora.

-- Qual o destino, Herr Fischer?

-- Nápoles, infelizmente. Mais escarumbas em perspectiva...

-- Como?

-- Nada, não ligue. Para daqui a uma hora, ouviu?

No Terreiro do Paço, brigadas de sapadores-bombeiros limpavam os restos de lixo, bandeiras, bandeirolas, embalagens de Parvalat, chapelinhos-caravela, palas, pipocas, panfletos, cuspo, vomitado, sapatos perdidos e, aqui e ali, algum sangue. Europeu e não.

Episódio 5
Cosa Nostra

A muitos quilómetros de distância, Maria Silva acordava com uma dor de cabeça de rachar o crânio em dois. A princípio pensou que estava num hospital. Primeiro porque lhe doía atrozmente a cabeça; segundo, porque estava numa cama tipo marquesa, com lençóis verde-claro, numa divisão de paredes brancas; em terceiro, porque não se lembrava de nada do que se tinha passado. A capacidade de elaborar este raciocínio simples reconfortou-a, apesar de tudo. Sabia quem era, onde nascera, qual o seu trabalho, lembrava-se da sua morada, número de telefone, código de acesso à rede. Só não conseguia lembrar-se do que lhe acontecera para estar ali. Ergueu-se levemente na cama, tentando sentar-se, mas o mínimo movimento fazia a cabeça explodir como uma panela de pressão. Procurou, só com o movimento dos olhos, uma janela, mas não encontrou nenhuma. A julgar pela qualidade e limpeza do ambiente, pensou por momentos se não estaria noutro país. Mas pareceu-lhe absurdo: provavelmente tivera um acidente e tinham-na enviado para um hospital privado para pacientes da EuroHaus. Afundou a cabeça na almofada. Achava que deveria dormir mais um pouco e descansar, mas a curiosidade mantinha-a desperta. Começou, lentamente, a contar as estrelinhas bordadas nas fronhas das almofadas, e só quando chegou perto da quinquagésima é que se apercebeu que se tratava do símbolo da União. Suspirou de alívio, pois acertara nas suas deduções, estava de facto num hospital para funcionários onde seria objecto dos maiores cuidados.

Eyup saía do duche, sentindo-se finalmente refrescado da longa viagem de comboio, quando Manuel entrou na casa de banho com dois copos de uísque na mão.

-- Vai um uísque?

Eyup acenou que sim, enquanto sacudia a cabeça para secar o cabelo, lançando gotas de água em todas as direcções. Enrolou a toalha turca em torno da cintura, pegou no copo que Manuel lhe estendia e beijou-o ao de leve no pescoço.

-- Não imaginas a saudade que tinha disso, Y! -- retorquiu Manuel com um sorriso prazenteiro.

-- Eu também, X. No meio de toda a confusão não deixei de me recordar por um minuto que fosse.

Eyup pousou o copo na borda do lavatório. Pegou no de Manuel e repetiu o mesmo gesto. Enlaçou-o pela cintura, com vagar, como se se conhecessem naquele momento, sem a pressa própria de um desejo contido havia mais de um ano. Manuel retribuiu o gesto, deslizando as mãos até à toalha turca. Desenlaçou-a e deixou-a cair no chão de mármore. No espelho em frente via o insólito erótico do corpo nu de Eyup contra a sua figura vestida dos pés à cabeça.

-- O meu reino por uma cama! -- gracejou Eyup.

-- O meu reino por uma cama com o meu príncipe -- concluiu Manuel. Desligaram a luz da casa de banho e afastaram-se a correr, como duas crianças na brincadeira.

Meia hora depois partilhavam um cigarro, estendidos na cama.

-- Meu Deus, que cliché.

-- É mesmo. Por isso é que sabe tão bem, não é?

-- Hum, hum. Sobretudo quando nem sequer se é fumador.

Pela janela de cortinas corridas filtrava-se o sol de Nápoles. Para Eyup havia como que uma continuidade mágica entre Lisboa, Nápoles e, mais para trás na memória, Esmirna ou Istambul. Para Manuel era diferente, tudo era uma redescoberta excitante e ao mesmo tempo assustadora. Eyup passou o braço por detrás do pescoço do amigo e Manuel pousou a cabeça sobre o seu peito.

-- Manuel, foi muito difícil?

Manuel suspirou fundo:

-- Por acaso até nem foi. É isso que me espanta. O truque resultou pela segunda vez consecutiva.

-- O quê, também te meteste no frigo?

-- Nem mais. Parecia uma foca, tantos os casacos e cobertores que tinha por cima. Tinha-os escondido um a um ao longo de semanas, dentro de uns caixotes do lixo. Tresandavam quando os vesti! Ao fim de dois meses já tinha os suficientes e quando calhou o meu turno no carregamento do peixe, foi só esperar a hora certa e entrar no contentor frigorífico.

-- E conseguiste sair!

-- Julguei que ia morrer de frio. Mas, graças a Deus, o frio é uma coisa a que a gente se habitua nas ilhas Faroé. De qualquer modo, na segunda noite, quando o barco já se aproximava da Dinamarca, consegui sair. Em Copenhaga foi fácil, já se sabe, quase toda a gente é EuroCéptica e foi fácil encontrar ajuda.

Manuel encostou-se com mais força ao corpo de Eyup, como se sentisse de novo todo o medo e aflição da fuga. A42TCL, Manuel Silva, de etnia portuguesa, fora transferido havia quatro anos para a Zona Especial de Retiro para Intelectuais das ilhas Faroé. Esta zona era propagandeada pela União como sendo um retiro para escritores, poetas e outros intelectuais com direito a uma estadia prolongada para se dedicarem à sua produção artística. Fora isso que espantara Manuel quando para lá o enviaram, já que nunca na vida escrevera um poema que fosse, não sabia desenhar e não distinguia o genérico do TeleFax da noite do Hino da União, a Ode à Alegria. A decisão tinha sido tomada depois de uma missão na ilha-fortaleza de Malta, como tradutor para Klaus Fischer. Ficara tão espantado com tudo o que vira que, no regresso, e perdendo por completo todas as reservas, submetera Fischer a um autêntico interrogatório sobre a natureza política das ilhas-fortaleza. Fischer demonstrara achar que as perguntas eram a coisa mais natural deste e do outro mundo. Mas dois dias depois do regresso a Lisboa, Manuel era enviado, pela calada da noite, para as ilhas Faroé, a meio caminho entre a Dinamarca e a Islândia.

-- Quer então dizer que depois da minha fuga não controlaram melhor os barcos-frigorífico? -- perguntou Eyup.

-- Ai não! Porque pensas que tive de esperar um ano inteiro? Ao fim desse tempo o controlo abrandou porque não houve mais fugas.

-- É incrível como aquela gente se adapta.

-- Sabes como é: a maioria são mesmo escritores, além de serem prisioneiros políticos, e aproveitam para escrever quando não estão a trabalhar na pesca do bacalhau. Parece que gostam de sofrer, dizem que os ajuda a criar e mais não sei o quê. Depois espantam-se quando alguém morre de melancolia ou de bebedeira...

Manuel Silva tinha sido enviado para as Faroé à falta de um local apropriado para um A42TCL. A Zona Especial Prisional da Islândia albergava só presos de delito comum, que ali trabalhavam nas estações geotérmicas. Trabalho escravo, mas fundamental para a União. Desde que o petróleo tinha praticamente passado à história, a União controlava os recursos energéticos mais importantes do planeta: os geisers da Islândia e o sol de Portugal. Um TCL sempre estava mais próximo dos intelectuais do que dos violadores de crianças.

-- É estranho pensar que se não tivesse passado por aquele horror não te teria conhecido -- sussurrou Manuel.

-- No fundo é como com os escritores.

-- É verdade -- respondeu, erguendo-se na cama. -- E agora quero que me contes o que fizeste durante este ano e o que é que está a acontecer para teres vindo até cá. Não foi só por causa de mim, pois não?

Eyup encolheu os ombros, como uma criança apanhada em falta:

-- Não.

-- Conta então.

-- Pois cá vai:

-- Nunca te contei a história toda de como fui parar às Faroé, pois não? Não, não era seguro fazê-lo. Mas lembras-te de te falar do meu pai? Chamava-se Oliveira da Figueira, era um judeu de ascendência portuguesa.

Sempre me inculcou coisas sobre Portugal, ensinou-me a língua, dizia que era o país mais bonito do mundo, que um dia a família havia de voltar para lá e que agora que a Turquia e Portugal faziam parte da mesma União ainda havia de ser mais fácil. Um dia a polícia apareceu lá em casa e levou-o. Nunca mais voltou. Os tempos seguintes foram os piores da minha vida. Até que comecei a ser contactado por uns tipos que diziam saber o que lhe tinha acontecido. Foram testando a minha confiança e, pouco a pouco, contaram-me das actividades secretas do meu pai. Ele era um dos chefes de um grupo com ramificações em vários países da Europa, constituído a partir de um grupo de portugueses exilados. O grupo defendia que Portugal devia sair da União, dando o exemplo contra as prepotências que cada vez mais se faziam sentir: as ilhas-fortaleza contra os magrebinos, o estado de guerra não declarada nas fronteiras do Leste, os protectorados do R.E.I.C.H. <marca num=2> que cada vez mais se pareciam com colónias no pior sentido da palavra, enfim, tudo o que era contra o humanismo dele... Eu era muito ingénuo, está bem de ver: a imagem do meu pai começou a ganhar as proporções de um herói para mim. Com as informações que conseguia obter sobre a sua vida secreta, fui possuído pela ideia de escrever a sua biografia. É aqui que entra a ingenuidade, pois resolvi fazer uma edição de autor. Uma semana depois do lançamento do livro dei por mim nas Faroé. O resto já sabes: como te conheci, como nos apaixonámos e como graças a isso quase esqueci tudo o que me tinha acontecido. Mas quando decidimos a fuga e quando percebemos que só podíamos fugir um de cada vez e me calhou na sorte ser o primeiro... mas isso tu já sabes.

<nota num=2> Região Europeia das Comunidades Hunas -- constituída pela Região Autónoma da Alemanha e pelas Regiões do Protectorado Alemão: Áustria, Hungria, Bémia-Sudetas, Eslováquia, Croácia, Eslovénia, Bósnia, Roménia, Bulgária, Polónia, Lituânia, Letónia e Estónia. Recentemente, a Sérvia foi finalmente incorporada. A Bielorrússia e a Ucrânia têm um regime especial, menos autónomo. </nota>

-- Tem graça que quando cheguei aqui depois da minha fuga tive o pressentimento de que não tinhas voltado para a Turquia, mas sim para Portugal. Mas porque nunca me disseste ao certo para onde ias?

-- Era mais seguro assim. O importante era que, quando conseguisses fugir, viesses para Nápoles. Aqui não há vigilância a sério da União, graças às máfias. E por estar tão perto de Malta. Assim sabia que onde quer que estivesse te podia contactar aqui. E nem imaginas o que sofri: foi um ano a telefonar para cá e sempre sem resposta... ainda não tinhas chegado. Foi uma tortura, a espera...

-- E a tal de Maria Silva. Sempre... -- Manuel não conseguiu completar a frase, franzindo o sobrolho.

Eyup riu-se, pela primeira vez durante o seu relato:

-- Não tenhas ciúmes, não aconteceu nada! Acontece que ela me pareceu a pessoa certa para o que eu queria. É ingénua, acredita na União, tem um complexo enorme por ser do Sul, é carente e, sobretudo, é TCL. A todo o momento podia ser chamada para Malta, pois estava a trabalhar na tradução de coisas relacionadas com o Plano do Novo Mundo. Aí começou a minha estratégia: aproximar-me dela, nem que tivesse de ser romanticamente, já que ela era muito carente, conseguir acesso a alguma informação e aos poucos convencê-la da nossa causa. Assim, quando fosse a Malta, seria uma ajuda preciosa.

-- Mas cheira-me que ela caiu por ti logo logo...

-- Tenho impressão que sim.

-- Não admira.

-- Seu bajulador! -- e Eyup fez-lhe cócegas na barriga. -- Não, agora a sério. Acho que sim. Comecei a sentir-me mal, não gosto de andar a enganar as pessoas. Até fingi que era muito erudito na maneira de falar, só para dar um ar mais romântico. E se lhe contei mentiras! Para mais ela é boa pessoa, não merecia. Só que de repente tudo mudou. Ela tinha sido chamada ao Fischer -- Eyup foi interrompido pela expressão de nojo que Manuel fez --, e eu sabia o que isso queria dizer: ela já sabia de mais, ou tinha cometido algum deslize, e eles iam preparar-lhe uma armadilha. Foi nessa noite que te telefonei e disse que vinha para cá.

-- Não tiveste problemas?

-- Nenhuns. «A União garante a livre circulação de pessoas, mercadorias e capitais e...»

-- Poupa-me!

-- OK. Claro que eles andam atrás de mim. Andam atrás de todos os EuroCépticos. Mas desde que mudei o nome de David Oliveira da Figueira para Eyup Kaba, depois da União, eles baralharam-se todos, graças à burocracia turca. Não é que os turcos queimaram todos os arquivos ante-União, só para demonstrarem que aderiam de alma e coração? Os alemães ficaram furiosos, é claro. Mas como eu fui para as Faroé ainda com o antigo nome, quando fugi não existia legalmente! Usei este nome em Lisboa e aceitaram-me logo, porque tinham falta de THTs e porque os alemães estão mortos por distribuir turcos por tudo quanto é sítio, menos na Alemanha. Foi canja. Quanto maior o império, mais buracos têm as malhas. Mesmo assim, e graças à Maria Silva, percebi que já estavam a fazer um dossier sobre mim...

-- É um milagre ter-te aqui, vivo e tudo, David.

-- Eyup. Não te esqueças. Eyup. E por cá, correu tudo bem?

-- Mais ou menos. Arranjei facilmente esta casa. Os contactos EuroCépticos foram impecáveis. Ainda não tive problemas, mas tenho-me aborrecido.

-- Bem, então prepara-te que as coisas vão aquecer.

-- Como assim?

-- Amanhã fazemos as malas. Força de expressão, é claro. Amanhã temos uma viagem a fazer e garanto-te que nunca mais te vais aborrecer.

A cara de Manuel era toda expectativa e perguntas. Eyup percebeu:

-- Vamos para Malta, claro! Ilha-fortaleza Mitelzê 33. Temos instruções para descobrir o que é o Plano do Novo Mundo.

-- O quê! -- gritou Manuel, dando um salto na cama. -- Mas é perigosíssimo!

-- Não é o que dizem os TeleFaxes da EuroVisão -- comentou ironicamente Eyup. -- Afinal trata-se apenas das comemorações do novo porta-aviões no seu encontro com a caravela Vasco da Gama. O futuro encontra o passado. A Europa na gloriosa marcha para...

-- Chiu! Poupa-me!

Eyup virou-se de lado, puxou Manuel de volta para o colchão e rolou para cima dele:

-- Não, não te poupo.

Riram-se os dois, e a partir daqui ninguém tem nada a ver com isso.

Isabel Silva e o marido, Joaquim Silva, não conseguiram evitar sentir-se intimidados quando entraram na sala para onde Klaus Fischer os havia convocado. Tudo acontecera tão rápido que bem precisavam de descansar uns momentos a sós. Mas ninguém lhes dera essa oportunidade. Uma hora depois da convocatória de Fischer, já estavam no aeroporto da Ota, embarcando no hélio-jacto privado da EuroHaus de Lisboa. Durante o voo, Fischer praticamente não lhes dirigiu a palavra, pois esteve fechado todo o tempo no compartimento de videoconferência. Ao aterrarem em Nápoles, foram enfiados numa limusina e conduzidos à EuroHaus da Região Autónoma da Itália do Sul. Era o único caso na Europa em que o edifício da sede da União era o mesmo que o do Governo Regional, ou vice-versa. A explicação oficial tinha que ver com a necessidade de controlar a Máfia e a Camorra. Mas o que se dizia nas ruas era que a sobreposição de sítios e funções tinha que ver, sim, com a influência das máfias. Teria mesmo sido uma oferta irrecusável feita por estas à União. No edifício, cuja altura ocultava o Vesúvio, Fischer entregou-se aos cuidados de um gorila de dois metros de altura e óculos escuros e convocou-os para o sexagésimo andar (ali gostavam de exagerar, para satisfazer as construtoras civis e empregar muita gente) daí a vinte minutos.

-- Isto é tudo muito estranho, Isabel -- comentara Joaquim.

-- Ora, quanto mais importante, mais secreto. Vai ver que nos vão dar boas notícias.

A intimidação que sentiram ao entrarem na sala do sexagésimo andar ficou a dever-se também ao facto de todos os outros participantes na reunião já estarem sentados, e com ar de quem já conversava havia tempo -- o cheiro forte e acre a tabaco georgiano empestava o ar e fazia o efeito de uma neblina sobre a imagem da última ceia da tapeçaria de parede. Pelos vistos no sexagésimo andar permitia-se fazer o que, nos outros andares, era passível de processo criminal desde que o acto de fumar fora proibido em toda a União pela norma FB7666893/23A de 2012. Joaquim teve o pressentimento de que fumar não era a única actividade ilegal que ali se podia fazer. Com um súbito sabor a amargo na boca, reconheceu, sentado numa poltrona azul decorada com estrelinhas amarelas, José-Joaquim Silva, presidente do Sport Lisboa e Sporting, com quem já fizera negócios de arrepiar todos os dossiers de Normas de Lisboa a Vilnius. Klaus Fischer encarregou-se de apresentar os restantes presentes, todos suficientemente poderosos para terem comprado o direito a um nome extra para além dos dois permitidos:

-- Herr Silva, Frau Silva, respectivamente da liaison do Governo Regional Português com a União e dos Serviços de Contabilidade da EuroHaus de Lisboa. Creio que os nossos convidados já conhecem o ilustre Técnico de Gestão Empresarial José-Joaquim Silva.

Joaquim acenou que sim com a cabeça. Isabel disfarçou a surpresa, pois nunca ouvira falar do homem. Provavelmente tinha que ver com mais um negócio que o marido lhe escondera e de que ela não vira nem uma sombra de lucro. Fischer continuou com as apresentações:

-- À minha direita o ilustre Giacomo-Luigi Napoli, Técnico de Protecção Civil e A50; a seguir a ilustre Anna-Marinella Napoli, Técnica de Execução Judicial e também A50. À minha esquerda o ilustre Karl-Maria Fischer, Técnico de Expansão Galáctica e A50 e finalmente o ilustre Jean-Claude Durand, Técnico de Gestão Política e igualmente A50.

-- Muito prazer -- murmuraram Joaquim e Isabel, no seu melhor Noidoitx. Klaus Fischer passou ao ataque:

-- Vamos ao que interessa. Como sabem, a União tem acalentado um ambicioso projecto de colonização experimental do satélite natural recentemente descoberto. Trata-se talvez da grande oportunidade de ganhar ao consórcio nipoasiático na corrida ao espaço, sobretudo agora que a indústria espacial americana foi desmontada e a russa foi por nós... como dizer?, apropriada... O projecto, como sabem, bastante secreto, o que tem levado a grandes especulações por parte da imprensa... mas esse é o preço que estamos dispostos a pagar pela democracia (todos os presentes anuíram com grunhidos respeitosos). Desde já, meus caros senhor e senhora Silva, vos congratulo por terem sido escolhidos para participarem a este nível do projecto. Acontece que a base operacional para o lançamento do projecto, investigação, construção do shuttle, reunião de colonos e primeira partida, é a ilha-fortaleza de Malta, aqui perto. Depois da reinstalação da população local na Sicília, instalou-se ali a Primeira Esquadra da União, que protege o sigilo e garante a segurança do projecto. Ali vive uma já considerável comunidade de Técnicos Científicos e de operários A10 de etnia sérvia e turca, sobretudo. Mas temos muita falta de pessoal dos níveis 30 a 40 e picos, pessoal intermédio, que saiba amainar as exigências por vezes descabidas dos cientistas e controlar a preguiça congénita dos escalões de eslavos e levantinas (risotas na sala). Tenho pois a honra de os convidar a trabalhar no projecto: um ano de estadia em Malta, o dobro do salário em Euros e as regalias do costume, como sejam a isenção de obrigatoriedade de férias em Creta, etc., etc. Para o senhor, Herr Silva, a tarefa de liaison com a imprensa, sobretudo na altura das comemorações dos Euro-Descobrimentos, com o encontro glorioso entre o Fortaleza Europa e a Vasco da Gama; para a senhora, o árduo trabalho de liderar a secção de contabilidade do projecto.

-- Oh, Herr Fischer, que honra. Não merecemos -- reagiu Isabel, exercitando a sua falsa modéstia e escondendo a desilusão por não ter ouvido a palavra «Berlim».

-- Essa agora, Frau Silva, a senhora toma-se em pouca conta. Digamos que a sua fidelidade ficou demonstrada no infeliz caso de Maria Silva.

-- Maria Silva? Mas então não tinha sido um mal-entendido?

-- Maria Silva, minha cara Frau, está neste momento neste edifício esperando que eu me reúna com ela para uma pequena conversa.

Duas horas antes da reunião de Fischer com os A50s e os Silvas, Maria recebia a sua primeira visita no estranho quarto de hospital onde recuperara a consciência. Na realidade, não era um hospital, mas sim a cave da EuroHaus de Nápoles, e a notícia foi-lhe dada por uma A45 TAE (Técnica de Apoio Emocional):

-- Bom dia, Maria Silva -- cumprimentou-a jovialmente uma mulher, elegante e loira como convinha, de óculos um tudo-nada intelectuais, e dossier debaixo do braço. -- Como se sente?

Maria demorou algum tempo a encontrar palavras mas acabou por conseguir dizer que sim, que achava que se sentia bem embora sentisse dores de cabeça.

-- Isso passa-lhe não tarda nada. O que importa é que escapou ao pior. Pregou-nos um grande susto.

-- Um susto? O que é que aconteceu? Onde é que estou?

-- Calma, calma, cada coisa de sua vez. Procure não se excitar. É provável que não se lembre do acidente, isso acontece muitas vezes.

-- Acidente? Qual acidente? -- e imediatamente levantou os lençóis para se certificar de que estava intacta. Estava. Apenas algumas escoriações nas pernas. Na barriga, porém, uma enorme costura apresentava um aspecto nada convidativo. -- Meu Deus, o que é isto!?

-- Não se assuste. Daqui a dias já se lembra, com certeza. Foi atropelada por um autocarro em plena Via Camorrina. Sabe como é o trânsito em Nápoles, todo o cuidado é pouco, mas você devia ir distraída, com o seu importante trabalho...

Maria não percebia nada do que a outra dizia. Nápoles? Trabalho importante? Não se lembrava de nada disso. No entanto tinha a certeza de quem era. Mas, de facto, de pouco mais.

-- Minha amiga, é perfeitamente normal que se tenha esquecido de alguns pormenores da sua vida. Mas isso tudo virá ao cimo com umas sessões de Terapia Reconstitutiva da Memória. Cedo se sentirá a cem por cento.

A jovem TAE pegou-lhe na mão e acariciou-a:

-- Agora procure descansar. Daqui a pouco começaremos a primeira sessão. Logo tem uma reunião importante e convém estar no pleno domínio das suas faculdades.

Maria Silva sentiu o tecto desabar-lhe sobre a cabeça. Sentia-se confusa. Porém, ao mesmo tempo, queria poder confiar naquela Técnica e na ideia de que tudo se passaria como ela lhe dissera. Em breve estaria bem. Ainda viu a Técnica sair do quarto, fechar a porta, e o som abafado de uma conversa. Fechou os olhos e adormeceu, tal era o cansaço.

Do lado de lá da porta, no corredor, a jovem TAE conversava com Klaus Fischer.

-- Parece estar tudo bem, Herr Fischer.

-- Óptimo. Ela lembra-se de alguma coisa?

-- Nada. Isto é, lembra-se de quem é, de Lisboa, etc. Como sabe, é importante não retirar a memória toda, pode levar à desconfiança. É preciso deixar uma base de identidade, digamos que uma ilusão de autocontrolo.

-- Claro, claro -- apressou-a Fischer, que se enfadava sempre com a conversa dos cientistas. -- Mas não se lembrará da injecção no trigésimo andar da EuroHaus de Lisboa, nem de ter sido trazida para Nápoles?

-- Pode ter a certeza que não.

-- Nem do que aconteceu em Lisboa antes disso?

-- Nem um rasto. Colocámos uma falsa costura para tornar a ideia do acidente mais credível. E com a sessão de Reconstituição, daqui a pouco, e o efeito da NEuroSugestina, vai convencer-se da sua nova vida. Tão certo como o senhor se chamar Fischer.

-- Bem, disso já não teria tanto a certeza... -- murmurou, pensativo.

-- Como?

-- Ah, nada! Bom, excelente trabalho, excelente. Prepare-a então e leve-a lá acima dentro de duas horas. Tem o guião que lhe dei para Maria Silva?

-- Sim, senhor. Óptima ficção, se me permite.

Klaus Fischer só anuiu com a cabeça, cruzou as gordas mãos atrás das costas e dirigiu-se para o elevador. Esperava-o uma reunião com os capangas dos A50s e o intratável casal Isabel e Joaquim Silva. Os portugueses só davam maçada.

Isabel sentiu o espicaçar da excitação e do triunfo ao saber que Maria Silva estava no edifício. Aquela rapariguinha sem classe tinha por certo sido apanhada e bem apanhada e a isso se deveria o facto de ela e Joaquim ali estarem, sendo tão bem tratados. Mas Joaquim parecia nervoso. Mexia e remexia com a caneta no tampo da mesa, sem parar. Klaus Fischer pôs termo à situação:

-- Caros Herr e Frau Silva, peço-lhes que se retirem para a sala ao lado enquanto continuamos a reunião. Por razões que em breve compreenderão, convém manter os assuntos restritos ao mais alto nível. Por ali, por favor.

Chocada, Isabel procurou com os olhos a porta indicada. Joaquim já se dirigia para ela, como se quisesse sair a todo o custo da sala de reuniões. Mal entraram e fecharam atrás de si a porta, Joaquim suspirou de alívio:

-- Meu Deus, mas que vem a ser isto?!

-- Mas que se passa consigo? Porque não está radiante? -- perguntou Isabel, irritada mas um tudo-nada desconfiada. Joaquim procurou acalmar-se, para poder explicar-se à esposa. Sentou-se numa cadeira próxima, cruzou as pernas disse:

-- Viu aquele português com ar de facínora?

-- O do Sport Lisboa e Sporting?

-- Esse mesmo. Já tive negócios com ele...

-- Oh, oh.

-- Bem pode dizê-lo. Lembra-se dos estádios de Alvalade da Luz?

-- Tenho uma vaga ideia...

-- ... que agora são aqueles centros comerciais às moscas?

-- Ah, sim, onde se reúnem os ovomaltines.

-- Os ovimbundus, Isabel, os ovimbundus! -- Joaquim transferia para a esposa o seu nervosismo.

-- Ou isso, você às vezes é tão maçador. Pretos, prontos.

-- Bom, continuando. Fui eu que propus àquele fulano transformar os estádios em centros comerciais. Disse-lhe que o Governo Regional previa para a zona uma urbanização de luxo com financiamentos da União e que lhe dava a informação a troco de... enfim, você sabe...

-- Uma recompensa -- atalhou Isabel, pragmática.

-- Isso. Acontece que não houve financiamento algum. Como você sabe, aquilo agora é só barracas, desde que fizeram o muro do Perímetro Central e chegaram os africanos todos. Resultado: o homem perdeu um dinheirão.

-- Que horror, então odeia-o a si, Joaquim.

-- Não, adora-me -- retorquiu, sarcástico. -- Claro que depois fez um dinheirão quando deitaram abaixo o Centro Cultural de Belém e construíram o pavilhão MegaEuroSport com os dinheiros do Projecto para a Exclusão Social. Ele é um mafioso de primeira. É pior do que..., do que...

-- Do que você?

-- Pois. Enfim. E o pior é que os outros que ali estão não são melhores reses.

-- Credo, Joaquim, também os conhece?

-- Não pessoalmente. Mas já li muito dossier dos Euro-Infos, do serviço de... você sabe..., da secreta. O Napoli é o primeiro Técnico de Protecção Civil que existe. Tivemos que inventar o cargo, porque não sabíamos o que chamar a um cappo da Camorra contratado pela EuroHaus de Nápoles.

-- Meu Deus, é um mafioso!

-- Que espanto o seu. E tecnicamente não é, é da Camorra. Da Máfia é ela, a Napoli, a juíza. E o outro Fischer é um líder do Partido Racional-Socialista, os que inventaram a política dos Protectorados do Leste.

-- Mas isso não é bom, os Protectorados?

-- Não seja ingénua, Isabel, francamente. Aquilo são colónias à moda do século XIX, se não mesmo pior, e ponto final. Não que isso me impeça de dormir, mas se a populaça sabe é um trinta e um. Por isso é que ninguém pode entrar nos países de Leste a não ser em serviço especial da União. Alega-se a instabilidade política e étnica, mas no fundo ela é gerada por nós para impedir que haja visitantes e para justificar as medidas de excepção. É simples.

-- É assim um bocadinho horrível, ó Joaquim...

-- É negócio. Seja realista, Isabelinha, você sabe bem sê-lo. Se não fosse assim andávamos à míngua e os japoneses já nos tinham papado a economia. Além disso, assim temos um tampão contra as hordas russas. Bem sabe que de Kiev para lá aquilo é a lei da selva. Ou da tundra.

-- Bem, e se você sabe tanto e concorda, porque é que está assustado?

-- Porquê? Eu digo-lhe porquê: o do futebol quer esfolar-me vivo, a juíza é da Máfia, o Napoli da Camorra, o segundo Fischer diz-se Técnico de Expansão Galáctica mas do que ele sabe é de Protectorados e expansão a Leste. Por fim, o francês é um dos membros do EuroGov, Isabel, um dos ministros da União! O que é que esta gente faz junta? Em Nápoles? O que é que isto tem que ver com a Expansão Galáctica e o Plano do Novo Mundo? Diga-me!

Calaram-se os dois por alguns longos segundos. Uma nuvem de preocupações pairava por cima da sala. Isabel recompôs-se com a habitual facilidade e, jovial, disse:

-- Ora, Joaquim. É evidente que se passa uma grande tramóia. E é evidente que nos estão a incluir nela. Conclusão lógica: bingo! Se mete um fulano do futebol é porque há dinheiro, se mete um do EuroGov é porque é oficial e se mete a Máfia é porque é eficaz. Só podemos ter a ganhar!

-- Deus a oiça, Isabelinha. Deus a oiça lá nas alturas da Europa.

Klaus Fischer, depois de o casal Silva deixar a sala, dirigiu-se aos seus colegas:

-- Caros colegas, como todos já sabem, estes Silvas servem na perfeição. Enquanto acreditarem no plano de Expansão Galáctica, e não vejo razão para deixarem de acreditar, temo-los sob controlo e por sua vez eles controlarão tudo o que é pessoal inferior. Está-lhes no sangue. Gostam disso. Cão de fila é cão de fila para sempre. Uma vez capataz, sempre capataz. E os portugueses dão óptimos capatazes. Se se espevitarem, ou começarem a ter sentimentos de dúvida, têm boas razões para pensar duas vezes antes de o fazerem: fiz uns negócios com o Joaquim Silva que ele não quer deitar a perder por nada deste mundo e a sua presença, meu caro José-Joaquim, creio ter produzido o efeito desejado. Quanto a esta Maria Silva que vai entrar, é peixe miúdo. Era preciso manter viva aqui a irritação que Isabel Silva sente contra ela. Dividir para reinar, pois. A Isabel Silva está sempre desconfiada de que esta Maria se mete no que não deve, e que ela, Isabel, a denunciará a todo o momento, aumentando assim as hipóteses de ela e o marido obterem benesses. Bem sei que isto é um pouco complicado, mas creiam que é assim que funcionam as coisas naquela etnia.

«Raptámos a Maria Silva, há dias, em Lisboa. Foi submetida a uma lavagenzinha cerebral, para se convencer de que está aqui por ter sido promovida. Graças à NEuroSugestina, inventada pelos nossos amigos austríacos, acreditará tanto nisso quanto no facto de se chamar Maria Silva (risos declarados na audiência). A ideia é esta: a rapariga dará uma óptima vigilante sobre os outros trabalhadores, tal a dedicação política que lhe vamos incutir. Se já temos cães de fila, quem controla os cães de fila? Resposta: outro cão de fila.

-- Neste caso cadela -- gracejou, com tosse tabágica pelo meio, o presidente do Sport Lisboa e Sporting. Os risos escarninhos fizeram-se sentir. Era o tipo de humor altamente apreciado naquelas reuniões.

-- Muito bem, meus senhores e minha senhora, por hoje é tudo. Agradeço-vos que saiam, tenho de receber a jovem TCL portuguesa. Ficamos agendados para La Valetta depois de amanhã.

A juíza sul-italiana, uma mulher de impecável tailleur Camutti e sapatos Mucci, ergueu o braço para pedir a palavra:

-- Herr Fischer, pode recordar-nos a agenda?

-- Certamente -- anuiu Fischer, com polidez prussiana. -- Ponto primeiro e único: fase um do Plano do Novo Mundo e sua apresentação ao Presidente da União.

Um clamor de «Ohhs!» e «ahhs!» transmitiu-se como uma epidemia pela mesa.

-- Dehors em pessoa!? -- perguntou atónito Jean-Claude Durand.

-- Nada menos. O Presidente Dehors ficará a par de tudo.

Giacomo-Luigi Napoli sorria satisfeito, esfregando as mãos na portentosa barriga:

-- EuroMamma mia, nunca pensei vir a ver este dia: a Cosa Nostra e a União a fazerem-se mutuamente uma proposta irrecusável!

Klaus Fischer não sorriu. Já lhe bastava ter de lidar com os sebentos esparguetes, não sentia obrigação de suportar as suas risadas condimentadas de alho. Para isso já lhe bastara a comissão em Lisboa. Com a sua sisudez impôs de novo o silêncio à sala.

-- Uma coisa mais: nem tudo são rosas. Fui informado que o desaparecimento de Maria Silva em Lisboa não passou totalmente despercebido. Consta que um indivíduo suspeito de pertencer aos EuroCépticos andava a abordá-la e temos todas as razões para crer que se trata do judeu que fugiu das ilhas Faroé e cujo rasto nunca se descobriu. Quando nos apercebemos que podia ser um THT turco disfarçado já era tarde de mais.

-- Sempre esses judeus! -- vociferou o outro Fischer, o líder Racional-Socialista.

-- E tudo indica que anda a monte acompanhado do seu... bem, do seu..., os senhores compreendem.

-- Só podia ser, são sempre invertidos! -- rosnou o dirigente desportivo.

Giacomo-Luigi Napoli colocou as mãos sobre a mesa e ergueu-se, muito a custo:

-- Não se preocupe, Signor Fischer. Se eles estão em Nápoles não escapam. Os meus rapazes vão já pôr-se em campo. Eles sabem sempre como encontrar um finocchio.

No dia seguinte, Klaus Fischer e os seus companheiros de reunião aterravam no aeroporto de La Valetta. Num avião de gabarito um furo abaixo, Joaquim e Isabel Silva aterravam também no aeroporto de La Valetta. Num terceiro avião, ainda um furo mais abaixo em gabarito, Maria Silva aterrava, aos solavancos, em La Valetta. Um pouco mais a norte, Eyup e Manuel desembarcavam clandestinamente na costa de Malta, não longe de La Valetta. Toda a gente se encontrava, sem se encontrar, em La Valetta.

Lá longe, em Lisboa, os restos mortais de António Silva eram depositados numa valeta algo diferente. Do caso, Isabel Silva nunca viria a saber.

Episódio 6
NEuroSugestina e alguns murros

Maria nunca se sentira tão orgulhosa em toda a sua vida. Desde que recuperara do acidente que se sentia como nova. Acordava cheia de energia, sempre contente pelo facto de lhe ter sido atribuído um trabalho tão importante. É certo que nunca recuperara totalmente a memória do acidente. Nem sequer se lembrava de ter vindo para a ilha-fortaleza no meio do Mediterrâneo. Graças às enfermeiras que a visitavam todos os dias, ia recuperando alguns pormenores. De qualquer modo, pouco interessavam. O que era importante era ter sido destacada como TCL para trabalhar directamente no Plano do Novo Mundo. Klaus Fischer em pessoa, depois de lhe ter gentilmente perguntado pelo seu estado de saúde, relembrou-a que tinha sido escolhida pelo seu brilhantismo profissional para preparar programas de tradução junto com os Técnicos de Informática, para eventuais encontros com falantes de línguas desconhecidas. Sim, línguas desconhecidas! Para uma tradutora, isto era o sonho tornado realidade: não só vir a aprender uma qualquer língua alienígena como vir a ser a sua primeira tradutora. O Plano do Novo Mundo era, efectivamente, genial. Veio-lhe à memória, de forma turva, um artigo que lera numa revista de antecipação em Lisboa. Agora já não a recebia, é claro, pois era estritamente proibido receber correio em Malta. O que aliás era compreensível, dado o secretismo do projecto. Até o pessoal técnico só tomava conhecimento dos seus contornos vagos. Maria, por exemplo, só sabia que se tratava de um programa espacial que encarava a possibilidade de colonização de outros planetas, de modo a resolver o problema populacional da Terra. Sabia também que os japoneses eram os concorrentes mais ferozes e que no vizinho de trabalho do lado podia estar um espião. Daí que ela assumisse com total empenho o secretismo do trabalho e não avançasse com perguntas impertinentes. Nem sequer se atrevia a perguntar porque nunca tinha visto nada que se parecesse com um foguetão.

Acordava, pois, todos os dias, satisfeita e orgulhosa. Tinham-na instalado num pequeno habitáculo do quarto andar subterrâneo, o que foi desagradável a princípio. A EuroHaus de Malta era construída ao invés de todas as outras, isto é, com trinta andares subterrâneos. Claro que isto se relacionava com o segredo do projecto. Os colegas diziam que ali na «in-torre», como lhe chamavam, só trabalhavam os técnicos como ela, os de informática, contabilidade, antropologia e gestão de pessoal. Quanto à localização do sítio onde estariam os astrofísicos ou os técnicos de aeronáutica espacial e tudo o mais, ninguém sabia. E ninguém se atrevia a perguntar. Maria ia simplesmente trabalhando no superprograma de tradução que seria o suporte de uma máquina capaz de traduzir automaticamente qualquer língua desconhecida.

Ao fim do dia de trabalho, Maria dirigia-se à cantina, onde comia em silêncio com dezenas de outros técnicos. Regressava então ao seu quarto, onde a visitavam, pontualmente às vinte horas de todos os dias, duas simpáticas enfermeiras que com ela recapitulavam todos os pontos da sua memória que o azarado atropelamento de autocarro tinha perturbado. Davam-lhe sempre medicação que diziam ser fundamental para a recuperação e saíam. Então, sentindo-se como quem caminha sobre nuvens, Maria ultrapassava o sufoco do pequeno quarto de cimento e sem janelas vendo programas da EuroVisão num superecrã instalado na parede da cama -- o supremo conforto para a exiguidade do quarto. Os programas faziam-na esquecer a estranha sensação de estar -- como as freiras do colégio da sua infância -- numa cela.

No TeleFax da noite, a EuroVisão transmitia imagens assustadoras do último motim no Brasil. A situação estava preta. O repórter narrava excitadamente os acontecimentos:

«Foi, pois, caros telespectadores, uma situação dramática a que se viveu ontem aqui, em São Paulo. Bandos de brancos pobres atacaram os bairros residenciais negros das zonas prestigiadas da cidade. Bateram, dispararam, sovaram, lincharam, torceram, esmagaram, cabecearam, esfaquearam, esventraram, comeram, exterminaram, gazearam, dilaceraram, torcionaram, violaram, sodomizaram, cuspiram, escarraram, pontapearam, saquearam, partiram, quebraram, vazaram olhos, amputaram braços, roubaram, pilharam, sarrazinaram, insultaram, vilipendiaram, escandalizaram, horrorizaram e puniram homens, mulheres e crianças. Após a intervenção policial ordenada pelo prefeito Washington Pompeu, os grupos de vigilantes negros invadiram a zona degradada que alberga as famílias brancas e puniram, horrorizaram, escandalizaram, vilipendiaram, insultaram, sarrazinaram, pilharam, roubaram, amputaram braços, vazaram olhos, quebraram, partiram, saquearam, pontapearam, escarraram, cuspiram, sodomizaram, violaram, torcionaram, dilaceraram, gazearam, exterminaram, comeram, esventraram, esfaquearam, cabecearam, esmagaram, torceram, dispararam, lincharam, sovaram, e bateram em crianças, mulheres e homens.»

As imagens no ecrã eram horrendas. A EuroVisão era muito competente a transmitir imagens dos motins no Brasil ou na América, o que acontecia diariamente. Por vezes, o TeleFax era mais variado, com imagens da fome em África ou do último país do continente negro a desaparecer do mapa devido às recentes epidemias; ou com imagens do sofrimento das populações asiáticas às mãos dos japoneses; ou com documentários etnográficos sobre os costumes bárbaros das tribos do Magrebe ou das Arábias ou ainda com reportagens telefonadas, sem imagens, do Japão, dando conta de mais um truque na forja contra a ascensão mundial da União Europeia. Tudo isto fazia Maria sentir-se muito segura, duzentos e cinquenta metros abaixo da superfície.

O velho maltês mostrou-lhes a roupa que conseguira arranjar: dois fatos-macaco azuis com estrelinhas douradas na zona abdominal, e os respectivos chapéus com a inscrição «Ilha-Fortaleza de Malta -- A União faz a Força», em Noidoitx e, em letra miudinha e por baixo, em maltês e inglês.

-- Meu Deus, são hediondos! -- lamentou-se Eyup do design.

-- Pois são -- retorquiu o velho --, mas foi o diabo para os arranjar, por isso vão ter de se contentar. Não é todos os dias que dois funcionários vêm à minha bofte às escondidas e logo quando há dois EuroCépticos à procura de disfarce.

-- Já agora, o que é que lhes fez? Voltaram nus? -- atalhou Manuel.

O velho só encolheu os ombros:

-- Há tanto mar, meu amigo, tanto mar!

O velho maltês trabalhava para os EuroCépticos nas horas livres. Não que fosse muito convicto, mas sim porque assim podia receber dos dois lados: era casado com uma líbia, cuja família lhe pagava soberanamente para ajudar magrebinos a passarem para a Europa. Ajudando os EuroCépticos, ajudava a aumentar o fluxo de emigrantes. E como não passava pela cabeça de nenhum Técnico de Gestão Política da União que numa ilha-fortaleza houvesse um conspirador, o seu negócio navegava de vento em popa.

-- Como vão as coisas por cá? -- perguntou Eyup displicentemente, enquanto tentava enfiar-se num fato-macaco dois números abaixo do seu.

-- Mal, muito mal. Além de mim, só sobraram uns cem malteses. Para assegurar serviços básicos, incluindo as boftes, onde os Euros podem ir uma vez por mês em autocarros fretados. Só posso servir bebidas normalizadas, claro. O resto da população foi mandada para a Sicília. Trabalham nas plantações de Agentes Alterantes da Consciência, como eles dizem. Negócio de um EuroCrata de lá. Depois, aqui há três anos, começaram a chegar os Euros. Construíram a in-torre, fecharam o perímetro do aeroporto e fizeram a base naval. São uns quinhentos ao todo, fora a tropa que vem nos barcos que atracam aqui, claro.

Manuel ria-se da figura de Eyup. Mas ele também não parecia melhor, num fato vários números acima do seu, com mangas e calças enroladas como se fosse à pesca do berbigão. Mas não. A pesca era mais grossa.

Horas depois, desligava Maria a TV, quando dois palhaços dignos das suas recordações de infância entraram de rompante no seu quarto.

-- Eyup! Ó Eyup! -- gritou Maria, quando finalmente o reconheceu.

Eyup acenou-lhe que se calasse, ao que ela obedeceu automaticamente. Estava embevecida por ver o seu turco entrar na sua cela, perdão, quarto. Não se esquecera dele e não fora precisa qualquer ajuda das enfermeiras para se recordar. Eyup sentou-a na cama e começou a falar baixinho:

-- Ouça, Maria, ouça e não fale alto. Ah, antes do mais, este é o Manuel.

Maria acenou, ainda meio espantada. Manuel fitou-a como se a interrogasse.

-- Maria, viemos para a tirar daqui, é muito importante que não lhes dê uma oportunidade de falar de nós. Mas antes disso...

Maria interrompeu-o com uma expressão quase de riso:

-- Mas Eyup, tirar-me daqui para quê? Você é um brincalhão! Diga-me, também foi promovido para cá? -- mas a pergunta esmoreceu, pois não lhe pareceu que fossem precisos muitos Técnicos de Higiene no Trabalho.

-- Mas, Maria, você está presa! -- o espanto do turco era genuíno.

-- Presa? Como assim, presa?! Eu fui promovida, Eyup, promovida, não acha o máximo?

-- Oh, meu Deus! nEuroSugestina! -- concluiu ele. Maria olhava-o totalmente aparvalhada. Manuel não menos.

-- Maria: vou ter de fazer uma coisa detestável. Mas creia que é para o bem de todos -- e avançou com a mão para a cara dela. Por breves segundos, Maria corou e ainda pensou que Eyup a fosse acariciar, pegar-lhe ternamente na cara e beijá-la. Mas a mão fechou-se num punho e o punho ergueu-se no ar e, com uma força que fazia lembrar os motins de São Paulo, Eyup desferiu-lhe um murro no pescoço que a pôs sem sentidos logo ao primeiro round.

-- Que é que fizeste? -- quase gritou Manuel.

-- Chiu! Anestesiei-a, é só. Não trouxemos clorofórmio.

-- Mas para quê? Não vínhamos pedir-lhe informações? E o que é isso de não sei quê Euro-qualquer coisa?

-- nEuro, não Euro. nEuroSugestina. Fizeram-lhe uma lavagem cerebral. Manuel, ela já não serve para nada. Pelo contrário, ela agora é um problema. Se a deixamos aqui vai contar que nos viu e o que aconteceu.

-- Que ela era um problema já tinha eu percebido.

Arrastar um corpo inerte não é tarefa fácil. Menos fácil fazê-lo numa EuroHaus, podendo ser visto por alguém, tendo que subir nos elevadores e tendo que conseguir chegar à rua. Por isso Manuel ia à frente, contornando cautelosamente todas as esquinas dos corredores, para se certificar de que estavam vazios de gente. Dada a hora adiantada da noite, a tarefa não foi especialmente difícil. O elevador também estava vazio. O problema era sair do edifício passando pelos guardas de serviço. Eyup deixou o corpo desmaiado de Maria nos braços de Manuel, atrás de uma esquina. Compôs o fato e dirigiu-se para os guardas com ar descontraído. Eram dois. Sentados lado a lado, viam TV num pequeno ecrã dissimulado. Eyup chegou-se ao balcão antes que reparassem em como o uniforme lhe assentava mal.

-- Já viram coisa assim? -- perguntou, enquanto lhes mostrava, na mão aberta, coisa nenhuma.

-- Que coisa?, não tem aí nada -- disse um deles.

-- Nada? Estão na presença de um grão de cortomaltese 43, o metal mais precioso do mundo, só produzido em Malta, e dizem que não vêem nada? Vinha eu propor-vos um negócio...

Ao sinal da palavra mágica (havia mesmo um provérbio muito conhecido em Noidoitx, «O negócio liberta») os dois guardas aproximaram-se para verem melhor. Com a velocidade de um relâmpago, Eyup agarrou nas duas cabeças e chocou-as uma contra a outra, como dois cocos.

Caíram maduros no chão.

-- Desvantagens de não terem lido os clássicos de banda desenhada do século XX...

À saída do edifício, que à superfície só exibia um andar, o térreo, colaram-se à parede. Maria despertava. Farto de bater na cabeça das pessoas, Eyup fingiu um tom severo:

-- Agora cale-se e não diga parvoíces, ouviu?

Sem saber se assustada se enlevada pela autoridade da voz, Maria calou-se e fez por caminhar como uma pessoa normal. Sempre colados à escuridão, ao fim de um quarto de hora chegaram à bofte do velho maltês. Tudo tinha de ser planeado de novo.

O velho não podia acreditar no que via e só repetia a palavra «problemas», vez após vez. Mas como ele próprio tinha que se proteger, isso significava proteger aqueles três lunáticos.

-- Que é que tencionam fazer agora? -- perguntou ele, num tom de voz angustiado.

-- Bem... -- suspirou Eyup. -- Não é simples. Ela foi tratada com nEuroSugestina, o que significa que já não nos pode dar informações. Mas como tivemos de a raptar, já não poderá voltar à origem. Isso não impede que tenhamos de a fazer recuperar a sua verdadeira memória, senão à primeira oportunidade foge para a EuroHaus convencida de que vai cumprir o seu dever de nos delatar.

-- Queres dizer que vamos pôr um telhado novo na casa que não vamos habitar? -- perguntou Manuel.

Eyup demorou algum tempo a compreender a metáfora de Manuel. Tinham tendência para serem complicadas. Por fim, fez que sim com a cabeça. O velho fez uma prece qualquer em maltês com os lábios quase fechados.

-- Podem ficar aqui na cave alguns dias. Eu consigo arranjar nEuroSugestina no mercado negro com os funcionários Euros. Quantos dias são precisos para o tratamento?

-- Um é quanto basta para começar -- disse Eyup.

-- Sobretudo porque se trata de recuperar a verdadeira memória, é mais fácil.

Maria estava embasbacada. Não percebia a atitude de Eyup. Mas era evidente que não tinha sido promovido como ela e que estava metido no que parecia ser nada mais nada menos do que uma conspiração. Eyup apercebeu-se do pânico que a invadia e pediu a Manuel e ao velho maltês que o deixassem a sós com ela. Manuel não gostou da ideia:

-- Ora, Eyup, para quê? Fecha-la aqui e pronto, amanhã já tens a droga.

-- É para nosso bem, Manuel, não te preocupes.

Os outros dois saíram, embora Manuel o tenha feito a contragosto, e Eyup sentou-se na borda do catre, ao lado de Maria.

-- Oh, Eyup, que é que se está a passar? Por que é que me trouxe para aqui?

Ele olhava, cabisbaixo, para o chão.

-- Espere, não diga -- prosseguiu Maria, com um lampejo de alegria e esperança nos olhos. -- Está a ser romântico, não é? O rapto da sabina, certo?

-- Não, Maria, temo desiludi-la.

-- Lá está você a falar português literário. Como sabe bem...

Eyup nem se apercebera desta regressão automática no seu comportamento. Mas continuou:

-- Eu sou meio português, Maria. Não sou só turco. E sou também EuroCéptico.

-- Euro quê? É uma nova secção da EuroHaus? Um detergente? Ou...

-- Não, Maria, é uma..., uma irmandade, chamemos-lhe assim, de pessoas que não estão satisfeitas com o rumo que a União está a levar.

-- Meu Deus, mas como é isso possível, recusar o que é bom, unido, democrático e até... grandioso?

-- Porque não é bem assim. Temos informações de que qualquer coisa de tenebroso se passa, secretamente, com este Plano do Novo Mundo. Eu pensei... nós pensámos, que você poderia ser convencida, enfim, que entendesse e aderisse às nossas razões, e pudesse transmitir-nos informações, mas foi então que a raptaram em Lisboa e lhe lavaram o cérebro e...

Maria piscava os olhos e enrolava as mãos na maior confusão mental:

-- Espere! Espere. O que você está a dizer não faz sentido! Você está diferente, está a pôr-me maluca! Onde está aquele homem carinhoso, sedutor, encantador?

-- Calma, Maria. Estou a adiantar-me de mais, de facto. Tente dormir, amanhã começamos o tratamento e então compreender-me-á. Espero...

-- Tratamento! -- começou Maria a gritar, furiosa. -- Tratamento!? Você está louco, oh como está louco! Tire-me daqui! Deixe-me sair!

No que já se estava a tornar numa rotina maçadora, e dada a indisponibilidade de calmantes, Eyup viu-se obrigado a aplicar mais uma vez o seu soco letal no pescoço. Maria caiu redonda no catre. Tinha de baptizar aquele murro: «Eyup’s KO»? Não. «O Mensageiro dos Anjos»? Também não. «The Maltese Punch»? Hummm, talvez. Com estes pensamentos, Eyup desligou a luz e foi ter com Manuel e o velho maltês.

Isabel e Joaquim Silva foram instalados num quarto um tudo-nada melhor do que o de Maria. Klaus Fischer insistira em mostrá-lo pessoalmente, desejando-lhes uma óptima estada ao serviço do Plano do Novo Mundo. Isabel estava morta de curiosidade:

-- Diga-me, Herr Fischer, em que consiste ao certo o plano?

-- Minha cara -- respondeu Fischer, bonacheirão e não demonstrando qualquer hesitação --, trata-se do plano mais audacioso que já fizemos e de um gigantesco passo para a Humanidade: a colonização de alguns satélites no espaço. Poderemos enviar populações pobres para lá, onde poderão viver em conforto e produtivamente, evitando assim a sobre-povoação da Terra. E claro que é um plano ultra-secreto nos seus contornos específicos, por isso está a ser lançado aqui.

Isabel percebeu que ninguém lhe ia contar nada de novo, muito menos aquele matreiro do Fischer. Mas Joaquim quis participar com o seu naco de raciocínio:

-- Claro, é evidente. Que melhor sítio do que uma ilha-fortaleza fortemente armada? Como os pobres das tribos do Sul não nos compreendem! Pensam que estamos aqui para lhes barrar o caminho para o conforto da nossa Europa, quando de facto nos estamos a esforçar por lhes dar um mundo melhor. Estamos a dar-lhes a oportunidade de virem a ser os pioneiros da Humanidade do futuro! Olhe, é como aquela deixa de não dar peixe mas ensinar a pescar.

Fischer esforçou-se por sorrir perante as palavras do português. Estaria a ser sincero ou era mais um automatismo de lacaio?

-- Pois. Bem vejo que Herr Silva tem o perfil certo para este trabalho. É um bom aluno, se me permitem a expressão. E a Isabel também, é claro. Como o país que vos viu nascer.

-- E, já agora, qual é ao certo a nossa tarefa? -- perguntou esta.

-- Você quer saber tudo ao certo... Gute, como podem imaginar, um projecto destes é altamente cobiçado pelos nossos rivais. Há muita tecnologia de ponta em causa, para não falar de futuros mercados. Devemos desconfiar, sobretudo dos japoneses. Pode ser que tenham agentes infiltrados aqui mesmo. Não nos podemos dar ao luxo de os deixar andar por aí. Por isso compete-vos no vosso dia-a-dia de trabalho ouvir, anotar, desconfiar e relatar qualquer movimento ou palavra suspeitos...

-- Ai, adoro! -- não conseguiu conter Isabel. Joaquim também sorria, satisfeito. Sempre ambicionara fazer aquilo, já desde os tempos de jovem, quando aderira ao Partido Social-Burocrata e, mais tarde, ao Racionalista.

-- Pois. Espero que se dêem bem. Compreendem, pois, que o vosso trabalho de fachada, não o verdadeiro que acabo de vos expor, seja um pouco, como hei-de dizer?, monótono.

-- Oh, não importa -- disse Joaquim. -- Estamos habituados.

Ter-lhes-ia agradado mais serem espiões de pleno direito, mas os desígnios da União não se contestavam. Aproveitavam-se.

O Presidente Dehors, de origem alsaciana, era a encarnação da perfeita mistura do francês e do alemão: a um orgulho nacional forte juntava-se a vontade de conquista dos menos privilegiados. Era tão alto que parecia não caber na sala e a expressão dos seus óculos, mais do que a dos seus olhos, irradiava autoridade e visão. Os A50s estavam embasbacados, pois nunca o haviam visto em pessoa: só nos retratos nas estações de metro, padarias, repartições, estádios de futebol, balneários, cinemas virtuais, pacotes de flocos de aveia, aeroportos e outros locais públicos, a bem dizer todos. Klaus Fischer apresentou-lhe os presentes, reunidos na sala do trigésimo andar negativo da EuroHaus de Malta. A fina-flor da Máfia, da Camorra, de alguns clubes de futebol e de multinacionais como a Parvalat estava presente graças aos seus cargos honoríficos de EuroCratas, especialmente concedidos por Dehors em virtude da sua importância para o Plano do Novo Mundo e para a representatividade da sociedade civil e forças vivas na Europa democrática. Além do mais, eles eram excelentes financiadores.

-- Caro Presidente Dehors, é este o núcleo director do Plano do Novo Mundo, por mim escolhido a dedo. Como por certo sabe, a escolha dos presentes baseou-se na sua capacidade de angariar fundos, pessoas e lealdade, que tão necessários são ao nosso projecto.

Dehors pigarreou. Todos esperavam que falasse. Demorou um tempo infindo a fazê-lo. Por fim, abriu a boca e os A50s suspiraram de alívio:

-- Senhoras e senhores, queiram receber as minhas felicitações calorosas por participarem neste projecto -- começou, num Noidoitx carregado de pronúncia alsaciana. -- À vossa frente encontram-se as pastas que descrevem pormenorizadamente os passos previstos para a execução do plano, pelo que vos poupo a esses detalhes. Gostaria primeiro de vos explicar a situação mundial e da União, de modo a melhor compreenderem a premência do dito plano.

«Antes, porém, que fique claro que toda a iniciativa foi minha, como Presidente da União, bem como a escolha do Sr. Klaus Fischer para executivo do Plano. Em circunstância alguma deverão os meus colegas do EuroGov saber o que se passa, já que se correria o perigo de alguns reagirem com hesitação, devido ao EuroCepticismo, sim, atrevo-me a usar o palavrão, dos seus governos regionais. Refiro-me, em particular, aos ingleses, dinamarqueses e outros escandinavos.

«Mas adiante. Como sabem, a União encontra-se num momento de viragem. As ilhas-fortaleza, por muito bem apetrechadas que estejam militarmente, não poderão conter ad infinitum a pressão das tribos do Magrebe e do Médio Oriente. No outro extremo do mundo, o Japão trava uma luta sem quartel pelo domínio de todo o continente asiático e corre-se mesmo o risco de a sua influência chegar às fronteiras da União, na zona turca. Mas será melhor mostrar-lhes um mapa.

Fischer, diligente, carregou no botão que acendeu o holograma do mapa-mundo entre Dehors e os presentes. O Presidente prosseguiu, indicando os pontos relevantes no mapa com o dedo que, assim, trespassava magicamente o holograma, como se de gelatina se tratasse:

-- Ora bem, recapitulemos. Começando pelo continente americano, a situação é desastrosa. O mercado comum das Américas regista uma inflação de quinhentos por cento ao mês, todos os dias há motins, o governo negro-hispânico não consegue conter a raiva das populações brancas dos Brancostões. É na minha opinião um mundo perdido, e ainda bem que temos um oceano a separar-nos. Talvez as coisas melhorem quando aceitarem o estatuto de Protectorado da União e o plano de recuperação económica proposto pelo Fundo Monetário EuroMundial. Mas isso está a grande distância. Eles têm um particular gosto pela violência e a destruição.

Uma expressão mista de escárnio e desgosto percorreu as caras dos presentes na sala, ao mesmo tempo enchendo-os de felicidade por serem Europeus.

-- Quanto à Africa, não é problema. Já vai em quinze o número de países desaparecidos do mapa por causa das epidemias, cujo ritmo de inovação tem sido alucinante. A nossa principal preocupação é manter o cordão sanitário intacto e impenetrável. É pena, mas é a rialpolitique, como compreendem...

Todos anuíram. Era um facto insofismável. Não havia outra coisa a fazer.

-- O verdadeiro problema aparece agora: a terra-de-ninguém entre a União e o Império Japonês. Aquilo que em tempos foi a União Soviética e depois não-sei-o-quê (risos na sala) e também as zonas balcânicas e do Leste da nossa Pátria comum. Acontece que a absorção dos eslavos como A1s a A10s na União não bastou para conter os problemas. É um caso claro de se lhes dar uma mão e quererem um braço. Os povos têm vindo a digladiar-se ininterruptamente. Como sabem, a União concedeu ao R.E.I.C.H., e em especial à Região Autónoma da Alemanha, plenos poderes para gerir os destinos daqueles nossos irmãos perdidos num turbilhão de barbárie.

Dehors puxou de um lenço e assoou-se. Fischer coçou a barriga, orgulhoso. De facto, os alemães tinham feito um trabalho estupendo, o que não era de admirar.

-- O trabalho dos nossos irmãos alemães tem sido estupendo. O que, aliás, não é de admirar. A Eslovénia e a Croácia são hoje regiões prósperas e cordatas, bem como a Hungria, a Polónia e a Boémia-Sudetas. Delas temos obtido a maior lealdade para com a União e a elas devemos o controlo das conturbadas regiões da Sérvia, Bósnia, Roménia, Bulgária, etc. Mas o problema continua e agrava-se mais a leste. A Rússia, a Bielorússia, a Ucrânia e toda a Sibéria e Cáucaso encontram-se na mais completa anarquia. Já não há governo, só bandos armados. Não há produção, mas incursões armadas de saque, que já atingiram centros da nossa cultura como Praga e Budapeste.

O espanto percorreu a sala. Era o tipo de informação que não se ouvia nos TeleFaxes da EuroVisão.

-- É verdade. É a triste verdade. Como se diz no livro de rimas infantis Noidoitx do nosso ensino primário, «é a verdade verdadinha e verdadeira». Meus senhores, os bárbaros estão à porta e desta feita não são magrebinos que se possa conter a tiros de canhoneira, mas sim hordas, hordas!, imensas de sub-Europeus. Um sérvio, meus senhores ainda pode ser domesticado, passe a expressão. A prová-lo está o facto de aqui, nesta ilha-fortaleza, além dos oficiais e EuroCratas do Plano do Novo Mundo, todos os serviçais e soldadesca serem sérvios ou bósnios. Mas já um russo ou um ucraniano ou um osseta ou tártaro ou um tchetcheno é indomável. Ora, para resolver a situação, o Sr. Fischer aqui presente, e em representação do governo regional alemão e do R.E.I.C.H., propôs, há dois anos, o seguinte...

Neste momento o discurso de Dehors foi interrompido por uma Técnica de Atendimento Telecomunicacional A20, de origem croata, que conseguira entrar após ameaçar dois A10s sérvios e Técnicos de Vigilância de Entradas com o degredo na Islândia. Vinha afogueada, mas sabia que a informação que tinha era crucial e que a lealdade demonstrada lhe poderia garantir um cartão especial de acesso à Região de Lazer de Creta:

-- Herr Fischer! Herr Fischer! -- gritava ela.

-- Que vem a ser isto? -- urrou Fischer vermelho-melancia, enquanto o dedo de Dehors parecia derreter-se em plena Tchetchénia. -- Acalme-se e diga o que tem a dizer e espero bem que seja importante. Podem levantar-se, senhores, não é nada -- disse, virando-se para os italianos presentes que se haviam escondido debaixo da mesa. Para os sul-italianos, todo o cuidado era pouco.

A rapariga acalmou-se. Arfou uma, duas, três vezes e disparou:

-- Senhor, acaba de chegar uma chamada da Segurança: foram vistos dois homens a sair do edifício. Raptaram uma funcionária, uma tal Maria Silva A42TCL.

Fischer caiu redondo na cadeira. Dehors retirou o dedo do Cáucaso. Virou-se, lacónico, para Fischer:

-- E agora, Fischer, que medidas vai tomar?

O alemão recuperou a custo a voz:

-- Senhor Presidente, nem que vire esta ilha do avesso, vou descobri-los. Palpita-me que sei quem está por detrás disto. Uns velhos conhecidos meus. Garanto-lhe. E desta vez não escapam com o rabo à seringa. Literalmente.

Pela terceira vez consecutiva num dia, Eyup fazia Maria engolir duas pílulas de nEuroSugestina. Esta era a última dose e a última conversa sugestiva que ele tinha com ela:

-- Portanto, Maria, lembra-se agora?

-- Sim -- disse ela. -- Agora percebo. O Plano do Novo Mundo é uma fachada. Eles estão a tramar algo. Fui raptada por Fischer em Lisboa e trazida para aqui porque pensavam que sabia de mais. Você queria recrutar-me para os EuroCépticos...

Manuel estava encostado à parede. Estava ansioso por ver se Eyup havia cumprido a sua promessa. Obrigara-o -- através de um direito à greve conjugal que ele sabia exercer como ninguém -- a aproveitar-se do tratamento de nEuroSugestina para apagar da memória de Maria qualquer atracção por Eyup.

-- Pergunta-lhe sobre aquilo, Eyup.

-- Aquilo o quê? -- atalhou Maria, um pouco assustada.

-- Oh, nada de especial -- disse Eyup. -- O Manuel quer saber se você... enfim, se você acha..., se sente...

-- O quê, homem, diga!

-- Bom, cá vai: sente alguma atracção por mim?

Eyup teve de levar as mãos aos ouvidos. As gargalhadas de Maria ecoavam como o riso de um palhaço pobre em circo de província num documentário bidimensional sobre o século XX. Quando conseguiu abrandar o riso, Maria disse, esforçando-se por não ser cruel:

-- Meu caro Eyup, não dormia consigo nem que fosse o último homem na Terra!

Manuel sentiu-se encher de alegria. Eyup esforçou-se por sorrir, mas corou de embaraço dos pés aos lóbulos das orelhas.

Nesse momento o velho maltês entrou na sala da cave. Trazia consigo mais roupa para eles vestirem, só que desta vez eram uniformes do exército da União. Três uniformes do EurExército.

-- Tenho boas notícias.

Eyup recuperou do embaraço. Maria estava calma, consciente de que participava numa conspiração cujos valores eram os mais elevados, e nutria um ódio profundo por Klaus Fischer. Manuel estava deliciado:

-- Ora bem, venham lá elas!

-- Acaba de chegar a Vasco da Gama. A caravela. Lá da vossa região. Vai haver uma enorme recepção, com toda a guarnição da ilha, os Euros, a tripulação do Fortaleza Europa e, claro, uma mão-cheia de malteses e de pessoal de serviço de baixo escalão. Em suma, uma multidão. Poderão esconder-se no meio da confusão e ao fim do dia conseguem entrar na EuroHaus.

-- Parece arriscado -- disse Eyup.

-- Pode ser. Mas já o fizeram uma vez. E eu aqui é que não os posso ter mais tempo.

-- Porquê?

-- Recebi hoje «A Carta».

-- «A Carta»?

-- Sim, já estava à espera. Pertenço ao último lote de malteses que vão ser enviados para outras regiões. Parece que me mandam para Palermo, como gestor de um bordel para Técnicos de Angariação de Fundos Mal Parados e Cobranças Difíceis.

Os outros três foram assaltados por uma súbita tristeza. O velho era simpático e além disso agora ficavam mesmo por sua própria conta. Eyup auto-elegeu-se porta-voz:

-- Temos muita pena, senhor... maltês.

-- Ora -- encolheu ele os ombros. -- Nós os malteses estamos habituados a andar de um sítio para o outro. Agora despachem-se, que a Vasco da Gama chega a todo o momento.

Episódio 7
Diálogo Norte-Sul

A base militar de Malta não parecia suficiente para conter tanta gente. É certo que o terreno ocupava metade da ilha, mas a zona portuária tinha um cais relativamente pequeno. O que interessava realmente eram os barcos de guerra, em grande quantidade, que ancoravam a alguma distância da costa. A maior parte do tempo patrulhavam as costas da Argélia, Tunísia e Líbia, apresando os barcos de imigrantes e transportando-os de volta aos portos de origem. O grande porta-aviões Fortaleza Europa vinha resolver este excesso de navios-patrulha. A vigilância ia passar a ser feita pelos aviões, o que significava que já não se apresaria barquitos e barcaças, mas seriam afundados, do ar, cirurgicamente. A palavra cirurgia estava definitivamente incorporada no léxico militar desde a já longínqua Guerra do Golfo, no século anterior.

O Fortaleza Europa estava devidamente engalanado, com a tripulação, maioritariamente francesa e alemã, alinhada no convés. Parecendo uma pulga ao lado de um elefante, a caravela Vasco da Gama acabava de atracar e os tripulantes, uma mão-cheia de Silvas, tinham-se dirigido já para o palanque dos VIPs. Em frente a este, encontravam-se perfilados os funcionários da EuroHaus local, por escalões de A20s a A49s. Por detrás deles, uma multidão indefinida de A1s a A19s, na sua maioria sérvios, mas incluindo alguns turcos, bósnios, gregos, búlgaros e italianos do Sul. No palanque dos VIPs, Klaus Fischer e os A50s aguardavam a chegada do Presidente Dehors, que viera expressamente para a cerimónia e que o alemão jurava a pés juntos a um jornalista da EuroVisão não ter visto ainda depois da sua chegada. O que era mentira, mas isso só nós sabemos.

Dehors chegou. O Mercedes-Citröen-Renault (por toda a gente abreviado como Merciren e oficialmente designado como EuroVagen pela norma B-3444782-W de normalização de automóveis) era um belo exemplar da recente tecnologia de carros movidos a bateria solar. Desde o fim do petróleo que os outros carros se haviam tornado obsoletos, assim como as economias dos países produtores de petróleo.

Merciren descreveu um arco junto à tribuna. A banda começou a tocar a Ode à Alegria e os sérvios, lá atrás, agitavam as bandeirinhas azuis e amarelas. Klaus Fischer cumprimentou Dehors com uma vénia e apresentou-lhe os Silvas da Vasco da Gama.

-- Um incontável prazer e uma honra, vossa excelência -- disse um deles a Dehors, apertando-lhe a mão com fervor.

-- Pois -- disse Dehors. -- Barquito engraçado, esse.

O português desfez-se em sorrisos, mesuras e enrubescimentos. Como era bom ver a ciência náutica portuguesa ser apreciada. Finalmente!

-- Todos temos muito orgulho nas tradições náuticas Europeias -- disse o tripulante luso.

-- Pois. Vamos a isto? Cheguem-se para trás -- retorquiu Dehors. Sacou de um papel do bolso, e os portugueses desapareceram por detrás dos A50s. Dehors começou a ler o seu discurso, ao sinal da realizadora da EuroVisão:

«Excelentíssimos A50s. Prezados A20s a A49s. Caros A11s a Al9s. A1s a A10s. Europeus, Europeias: É com um grande sentimento de honra e orgulho que me encontro aqui hoje para celebrar este encontro simbólico entre o passado e o futuro da nossa União e o seu papel inestimável ao serviço da nobre causa do Contacto de Culturas e do Diálogo Norte-Sul. Efectivamente, e na realidade, há seiscentos anos os Europeus deram novos mundos ao mundo. Já então, cartógrafos genoveses, realeza espanhola, marinheiros portugueses e, nos bastidores humildes, com certeza o génio alemão, juntavam esforços para descobrir o mundo. E descobriram-no. E deram-no ao mundo. Efectivamente. Quis a História que os outros povos nem sempre tenham sabido aproveitar esta generosa dádiva. O espectáculo degradante das Américas amotinadas, a promiscuidade degeneradora da África, o subdesenvolvimento do Magrebe e Arábias, a cobiça nipónica e a subjugação asiática, são disso prova. Mas os Europeus não desistem, hoje como ontem. Cabe-nos agora, e uma vez mais, ajudar o resto do mundo a ter orgulho de si próprio. Nesta pequena ilha de Malta está um exemplo disso: os homens e mulheres do EurExército cumprem aqui a missão honrosa de garantir o espírito e a letra do Contacto de Culturas, do respeito pela diferença, garantindo que cada qual viva na sua própria terra.

«A graciosa caravela Vasco da Gama simboliza hoje o nosso passado glorioso. Há seiscentos anos, os primitivos viam-na chegar como um Deus. Hoje, os povos que se encontram na barbárie mas que estão sedentos de diálogo Norte-Sul verão chegar às suas costas o Fortaleza Europa, não como um deus, mas como a suprema emanação do génio Europeu e, evidentemente, do génio alemão que fabricou os seus componentes.

«Efectivamente, este é um grande dia, queridos co-unionistas. E nos grandes dias dão-se grandes notícias. É por isso que tenho o grato prazer de vos anunciar que o EuroGov decidiu, em reunião ontem realizada em Berlim, lançar o Plano do Novo Mundo, que levará a Europa não só ao espaço, mas à colonização de outros planetas. Continuam assim os grandiosos EuroDescobrimentos, a sua gesta colonizadora, e abrem-se perspectivas mais risonhas para os povos que não pertencem à União. Efetivamente, Europeus e Europeias, que mil colónias floresçam no espaço! Viva o Contacto de Culturas! Viva o Diálogo Norte-Sul! Viva a Mãe-Europa!»

A multidão explodiu em vivas e aclamações. Os sérvios não foram tão exuberantes, pois pensaram por momentos que talvez fossem eles os primeiros colonos do espaço. Mas um de entre eles explicou que era para os africanos e magrebinos e árabes e outros assim, e então os vivas em sérvio fizeram-se ouvir também. Não há maior consolação do que saber que não se é o último da escala mas apenas o penúltimo.

Numa das filas, Isabel e Joaquim rejubilavam, Isabel congeminando se teria uma oportunidade de conhecer Dehors em pessoa. Mas nem ela nem o marido perdiam de vista os que os cercavam, na expectativa de notarem um sorriso menos sorridente, um viva menos vivaz, um hurra menos hurrento. Era preciso estar atento à sedição, à dissidência, à espionagem, aos olhos em bico, em suma. Para melhor cumprir a tarefa, Isabel Silva deu uma volta de cento e oitenta graus. Pegou no pequeno binóculo, que em tempos usara em São Carlos da Europa e que trazia sempre consigo, e perscrutou o horizonte.

-- Joaquim! -- gritou ela histérica, num repente. Joaquim parou o seu vigésimo viva a meio e perguntou-lhe o que se passava.

-- Depressa, depressa! -- disse ela afobeada. -- Pegue no seu comunicador e fale para a segurança, rápido!

-- Mas o que foi, Isabelinha?

-- A Maria! A Maria Silva, aquela pestezinha horrenda está ali! Ali! Por detrás daqueles sérvios todos.

Por detrás dos sérvios todos, Maria Silva, com o seu uniforme de sargenta do EurExército, falava com um grupo de sérvios, convencendo-os a ficarem perto dela, de Eyup e Manuel, para os encobrirem. Dava-lhes uma desculpa qualquer, sobre como estavam numa operação especial de defesa do Presidente Dehors e por isso tinham de estar no meio da multidão.

-- Diz-lhes que saltem mais, que agitem mais as bandeiras -- segredou-lhe Eyup.

-- Podes falar alto, eles não percebem português.

-- Se nos ouvem falar outra coisa que não Noidoitx é que vão desconfiar.

Maria continuou a sua conversa em sérvio com os circunstantes. Começou a sentir alguma dificuldade em encontrar as palavras certas. Primeiro não percebeu porquê, talvez a overdose de nEuroSugestina dos últimos dias tivesse apagado parte da memória linguística. Mas na realidade o que sentia era um ardor nos olhos. Apercebeu-se de repente do que a incomodava: uma luz intensa e brilhante estava focada na sua vista, encandeando-a. Olhou na direcção da origem da luz e esta subitamente desapareceu. Focou a visão e imediatamente se agachou: vira, ao longe, por trás do par de binóculos cujas lentes haviam provocado o encandeamento, o rosto de Isabel.

-- Depressa, temos de fugir. Está ali a Isabel e viu-me!

Imediatamente se afastaram dos sérvios. Agacharam-se e avançaram ao longo de uma fila de corpos. Eyup achava que o melhor que tinham a fazer era tentarem alcançar um dos camiões militares e esconderem-se lá dentro. Qualquer outro movimento de três uniformes para fora do recinto seria suspeito. Encontraram um, vazio, e esconderam-se debaixo dos bancos, preparados para a eventualidade de a tropa regressar ao camião. E rezando para que Isabel não tivesse visto para onde tinham ido.

A contabilista conseguiu chegar à tribuna dos VIPs, que começavam agora a descer e a dirigir-se para os seus Mercirens. Klaus Fischer acalmou-a:

-- Já calculava, Isabel. Já sabíamos do desaparecimento de Maria Silva. E é muito provável que esteja acompanhada de uns terroristas. Não se preocupe, tomámos todas as medidas de segurança.

Aos poucos a multidão foi-se dispersando. A tripulação do Fortaleza Europa içava, com a ajuda de roldanas, a Vasco da Gama. Alguns sargentos tinham já feito contactos com elementos do mercado negro local para venderem a madeira do casco e dos mastros, considerando a falta crónica de árvores e lenha na ilha. Metiam uns Euros ao bolso e ninguém dava por nada. Podia sempre dizer-se que os portugueses a tinham vendido, o que toda a gente acreditaria.

As tropas também começaram a encaminhar-se para os seus camiões, de regresso aos aquartelamentos da base.

-- Joaquim e Isabel, porque não vão no carro do capitão Heinz Fischer? Acho que vão ter uma agradável surpresa... -- sugeriu Klaus Fischer.

O casal não percebeu porquê, mas naquela altura do campeonato era melhor obedecer cantando e rindo ao mínimo capricho do A50. O capitão Heinz, da sub-região autónoma da Prússia, conduziu-os ao seu automóvel. O motorista sérvio abriu-lhes as portas e entraram. O capitão era de pouquíssimas palavras, mas disse algumas:

-- Zô, que vamos ver?

-- Perdão? -- perguntou Isabel, intimidada.

-- Porque vieram comigo?

-- Não fazemos a mais pequena ideia -- retorquiu Isabel, espantada.

O carro prosseguiu a sua marcha até um dos aquartelamentos. Quando lá chegou, encontravam-se em fila vários camiões de onde saíam batalhões de tropa. O carro parou e saíram todos. Subitamente Isabel disse ao capitão:

-- Creio que já percebi por que viemos. Olhe -- e apontou para um guarda que algemava uma mulher e um homem em uniforme militar. -- Aquela é a Maria Silva, uma traidora. O Sr. Fischer mandou-nos para que fosse identificada, com certeza. Isabel aproximou-se dos prisioneiros: -- Ora muito bom dia, Maria. Parece que se meteu em sarilhos...

-- Filha da puta! -- vociferou Maria. O capitão prussiano não pestanejou. Não sabia português. Nem queria saber.

-- Ora, acalme-se, sua possidónia. E este suponho que seja o turco procurado por toda a EuroPol, hem? -- perguntou, apontando para Manuel. Sentia-se poderosa.

-- Turco? Eu não sou turco. Sou português.

-- Muito bem. Com certeza anda a monte, mas não por muito tempo. O Sr. Fischer sabe resolver estes assuntos.

O capitão deu ordens para que os prisioneiros fossem levados para a caserna, até receberem ordens de Klaus Fischer quanto ao destino a dar-lhes. De seguida ofereceu a Isabel e Joaquim os préstimos do seu carro e condutor para os reconduzir à EuroHaus.

-- É muito amável, capitão -- agradeceu Isabel.

-- Não tem de quê -- e pensou para si: «mulherzinha insuportável!»

Episódio 8
Já nada os espanta

Eyup ainda esperou um bom par de horas debaixo do camião de transporte de tropas. Combinara com os companheiros que estes se deixariam prender e que Manuel se faria passar por ele. Assim, talvez Eyup pudesse de alguma forma infiltrar-se na tropa. O camião tinha estacionado no que parecia ser uma garagem subterrânea, já que, quando Eyup se atreveu a espreitar, não conseguiu ver mais do que luzes artificiais. Os outros ocupantes do camião já se haviam afastado há um bom quarto de hora e a garagem aparentava estar vazia. Com alguma confiança, Eyup saiu de debaixo do camião, ergueu-se e estudou as hipóteses que se lhe abriam à frente. A melhor estratégia era, sem dúvida, infiltrar-se no meio de um pelotão qualquer. Mas como resolver o problema de ser um elemento desconhecido? Restava-lhe deambular pela base, dando a entender estar muito ocupado com qualquer tarefa. O seu uniforme não tinha qualquer insígnia de patente, pelo que podia passar por um ordenança que estivesse a entregar papéis ou a fazer algum recado para um superior. Ao fim de uns minutos, encontrou uma conveniente pilha de jornais e outros papéis avulsos, provavelmente à espera de serem recolhidos. Com eles fez um pacote jeitoso, aparentando um conjunto de papéis burocráticos, e dirigiu-se para a porta por onde tinha visto entrar o resto do pelotão. Receava encontrar uma sentinela, mas a sorte não lhe foi madrasta.

A porta dava para um longo corredor, iluminado de dez em dez metros por pequenas lâmpadas de néon. Não se via vivalma e de quando em quando deparava com bifurcações para corredores exactamente iguais. Calculou que a base subterrânea se estenderia por uma área inacreditavelmente grande, o que significava que se ligaria, num ponto qualquer, à EuroHaus de Malta, situada a pelo menos um quilómetro de distância. Ao chegar à terceira bifurcação, viu pela primeira vez um sinal na parede e uma seta de direcção: «Sala de comando, casernas, zona restrita.» «Em cheio!», pensou para si. Fez-se ao corredor e daí a nada já ouvia passos ao longe. Logo a seguir, vozes. Num ápice, apareceram-lhe à frente duas magalas. Falavam entre si em sérvio.

Quando se cruzaram, uma delas não se coibiu de premiar Eyup com um piropo. Não corou porque não sabia sérvio. Sorriu ao de leve e assumiu o ar de quem estava com pressa, compondo e mirando a pilha de papéis que transportava debaixo do braço. Este foi subitamente agarrado por uma das sérvias, uma morenaça com compleição de halterofilista.

-- Eh, pá, espera! -- sussurrou ela, agora em Noidoitx muito básico. -- Nunca te vi nos bailes da unidade, onde é que te tens escondido?

Desta vez Eyup corou mesmo:

-- Bem... eu..., eu não gosto de bailes.

-- Não gostas de bailes? Ele diz que não gosta de bailes... -- comentou ela para a companheira.

-- Eu percebi -- respondeu esta. Ao contrário da outra, era baixinha e loira, com tendência para o roliço. A matulona continuou com a sua estratégia de sedução:

-- De que é que gostas, então? Bem, não me vais dizer que és maricas?

-- Meu Deus, não! -- quase que se atraiçoou Eyup.

-- Então que tal levares-me ao de logo à noite?

Eyup só ouviu dentro de si um profundo e aflito «ai, meu Deus!».

-- Bem, não sei se posso.

-- Podes. Claro que podes. Toda a gente tem licença, não me venhas com desculpas de serviço. E não vais deixar uma rapariga pendurada, ou vais? Olha que sou muito frágil, não gosto de desgostos -- e pestanejou os olhos, imitando os desenhos animados. A seu lado, a mais pequenita ria-se com pequenos gargarejos.

-- Bom, se insistes tanto... -- Eyup gostara de ouvir a frase «toda a gente tem licença» -- e como todos temos licença...

-- Claro, não sabias? Para festejar o Fortaleza Europa. Porque é que não vens já, íamos para lá agora...

Eyup ainda pensou em sentir-se ofendido por ela, como toda a gente, só ter mencionado o porta-aviões e não a caravela. Mas não valia a pena, era sempre assim. E não era o momento apropriado para se armar em português.

-- Lá, onde?

-- Para o salão. Para o baile. Bolas, és bonito como uma batata mas duro como uma banana!

Ou os provérbios sérvios nunca faziam sentido ou perdiam na tradução para Noidoitx. Eyup desconfiava que nunca faziam sentido, fosse como fosse. Tinha de encontrar uma desculpa:

-- É só ir entregar isto ali e já venho.

-- Ok, ficamos aqui. Marika, tens um cigarro? Mas não demores, borracho, não nos sentimos seguras aqui neste corredor escuro...

Marika ria-se agora a bandeiras despregadas. Um botão da camisa saltou. Tinha os peitorais extremamente desenvolvidos.

Eyup afastou-se para um corredor que ficava à sua esquerda. Caminhou durante uns cem metros, o que lhe pareceu suficiente, e logo parou, fazendo tempo para voltar para trás. A determinado momento passou um jovem oficial e Eyup felicitou-se por ter tido a presença de espírito de lhe fazer continência. Antes se tivesse contido, pois o outro só hesitou um segundo até que lhe perguntou:

-- O que é que faz aqui, soldado? Não está na hora do baile?

«Mas que tropa, só pensam em dançar.»

-- Uma leve tontura, meu... furriel. Já passa.

-- Tenente. Se quiser pode deitar-se um pouco nos meus aposentos, que são aqui perto -- sugeriu o tenente, com um forte sotaque francês.

«Oh não, isto não pára!»

-- Obrigado, meu furriel, isto é, tenente, não é necessário. Vou andando -- e fez continência de novo e afastou-se na direcção em que viera. Ainda ouviu o francês suspirar um hélas!

Quando chegou de novo junto das sérvias, já se havia visto livre dos papéis. As duas estavam encostadas à parede, com as respectivas botas dos respectivos pés direitos marcando a cal com pegadas cardadas. Fumavam desalmadamente. A matulona coçava a braguilha e acabava de cuspir com balcânica candura no chão de cimento. A pequenita tentava compor um seio recalcitrante dentro da blusa do uniforme.

-- Ah, aí está ele! -- exclamou a grande. -- Ainda não nos apresentámos: eu sou a Marika e esta é a Marika.

-- E eu sou o Ey... o Manuel!

-- Ah, um espanhol! -- exclamou satisfeita a mais pequena, que coroou a afirmação com uma pirueta de flamenco mal imitada.

-- Não. Português.

Fez-se um silêncio gélido e desiludido durante o qual poderiam ter voado por cima das suas cabeças vários anjos ortodoxos.

-- Bem, dos portugueses nunca ouvi dizer nada. Espero que tenhas algumas surpresas escondidas, hã? Sangue na guelra, como os espanhóis?

-- Ora, deixa -- disse a grande --, pelo menos tem um palminho de cara que não é nada de deitar fora. Como uma ameixa de Sarajevo sobre um prato da Krajina.

Eyup recusou-se a tentar entender, e encheu-se de coragem para dizer qualquer coisa de galante, e numa linguagem mais arrevesada, como havia feito em Lisboa com Maria Silva:

-- Também é um prazer ir ao baile com duas princesinhas dos Balcãs...

Riram-se as duas como dois ex-presidiários:

-- Sim, filho, mais tarde havemos de brincar aos príncipes e às princesas! Agora vamos que não quero perder os slows. Vá, vamos!

E os três afastaram-se ao longo do enorme corredor, com Eyup evitando o roçagar da manápula da Marika grande na sua pequena nádega direita.

Maria e Manuel -- que agora passava por Eyup -- foram encarcerados numa cela ao fundo de um longo corredor subterrâneo, também ele fracamente iluminado por pequenas luzes de néon de dez em dez metros & etc. Maria estava encolhida a um canto, desesperada.

-- A minha vida virou uma confusão. O que é que nos vai acontecer agora?

-- Não te preocupes, o Eyup vai descobrir uma solução. Até lá, se nos visitarem, não te esqueças que eu é que sou o Eyup. É importante que eles pensem que o apanharam, e a ti. Da minha presença ninguém desconfia.

-- Mais uma mentira! Espero bem não baralhar tudo!

-- Ora, pensa com força que eu sou mesmo o Eyup.

-- É difícil. Ele é tão feio.

-- Pois -- Manuel riu-se para dentro com malícia. Era mesmo preciso estar com o cérebro fundido para dizer tamanho disparate e perder todo e qualquer critério estético. «Coitada, com tanta nEuroSugestina já tem os miolos como queijo suíço.» Fundido ou não, sentia-se com buracos negros por tudo quanto era sítio.

-- Tenho o cérebro fundido -- disse ela. -- Ai, desculpa, não costumo ser malcriada. Vês como estou?

Manuel não ligou ao facto de ela não saber muito sobre palavrões. Assustou-o bem mais o ruído na fechadura da porta. O guarda surgiu em contraluz e, atrás dele, uma outra figura. Só quando a porta se fechou é que conseguiu ver de quem se tratava. Era Klaus Fischer.

-- Bom dia, pequenos -- olhou atentamente para os dois prisioneiros. Quando se apercebeu bem dos traços da cara de Manuel, ficou da cor de um tomate. -- Tu!!

Manuel tinha o estômago colado às costas. Tinha péssimas recordações de Fischer.

-- Com que então tu! Tu é que és o misterioso turco, aliás português, aliás sei lá o quê, mas em suma um agitadorzeco sulista e EuroCéptico. Tu, quem diria! A não ser que haja outro, além de ti?

Manuel nem aquela voz suportava. Ouvi-la dava-lhe arrepios. Quando Klaus Fischer comandara a prisão das ilhas Faroé fizera-lhe um cerco tal que Manuel chegara a pensar matar-se. Só tinha aguentado graças à recordação de Eyup e à esperança de poder um dia fugir e reencontrarem-se. Só a ideia de ter as repelentes banhas burocráticas e o hálito de cerveja roçando a sua pele lhe dava náuseas.

-- Pois, cá estamos. Agora é que não escapas, meu caro Manuel, ou devo chamar-lhe Eyup? Enfim, é tudo o mesmo, um verdadeiro artista do disfarce, hem? Quanto a você, minha doce Maria, creio que já não há comprimidos que a salvem. Se não tivessem sido apanhados desprevenidos, convidá-los-ia a fazerem as malas.

-- As malas? -- uivou Maria. -- Quer dizer que nos vai mandar para outro sítio? Para Lisboa?

-- Deus me livre, para Lisboa não. Bom, não há razão para não vos dizer, já que vai muito provavelmente ser a vossa residência fixa para o resto das vossas vidas. Preparem-se para conhecer a beleza das estepes russas! Ou a tundra, ou lá o que é...

A notícia caiu como um bombardeamento. Maria não percebia porquê, porque já tudo era de esperar. Para Manuel, foi a confirmação das suspeitas que os EuroCépticos tinham em relação ao Plano do Novo Mundo. Com que então era na Rússia. Ou tinha que ver com a Rússia.

-- Amanhã é a partida. Algum... pedido final? -- gracejou Fischer.

-- Oh, sim, por favor -- disse Maria, solícita --, queria um pacote de colorante para o cabelo. Estou a ficar pavorosamente morena...

Fischer foi tolerante. Nem sequer se riu:

-- Seja. Quanto a si, meu caro ex-Faroé, o último pedido sou eu que o faço. Digamos que o convido a visitar os meus aposentos. Temos assuntos pendentes a tratar, não é assim? E, afinal, devemos tratar os nossos inimigos com o maior respeito e hospitalidade, não é assim?

Enquanto Klaus Fischer lançava gargalhadas dignas de Boris Karlof, Manuel sentia uma forte retracção nas gónadas. O pior não acontecera nas Faroé. Estava para acontecer em Malta.

-- Vai ser necessário avançar imediatamente, Presidente Dehors.

-- Que diz você, Fischer?

-- As coisas estão a complicar-se. Estamos a deparar com demasiadas infiltrações. De qualquer modo, os problemas de financiamento estão definitivamente resolvidos, agora que o governo do R.E.I.C.H. deu luz verde para o Plano.

-- Bom, seja. Se o R.E.I.C.H. o diz, quem é o Presidente do EuroGov para contradizê-lo?

Do outro lado da linha, Fischer apenas sorriu. E prosseguiu:

-- Os infiltrados de que lhe falei já foram apanhados. Seguem comigo para a Rússia. Tudo vai começar dentro de poucos dias. Por isso, pela sua parte, já sabe o que tem a fazer: é fundamental arranjar uma desculpa pública para o falhanço do «projecto espacial». Um facto político incontornável, claro.

-- Estou a ver... Uma rebelião a leste, por exemplo? Um ataque em massa de hordas russas? Ou movimentos chineses na fronteira oriental? Talvez aviões de vigilância japoneses avistados na Sibéria? Ou acha que ficaria melhor qualquer coisa com mais sangue?

-- Ora, o que você quiser. Consulte os arquivos históricos dos finais do século passado. Havia justificações brilhantes. Outros tempos, claro, mas bons tempos, convenhamos. Seja como for, a EuroVisão depois trata de tornar isso num facto. Bem, bom trabalho!

-- E boa sorte para si nas campanhas da Rússia, Fischer!

O Presidente Dehors desligou a comunicação e apagou-se o ecrã. No seu gabinete, o fumo dos Gauloises empestava o ar outrora condicionado. Dentro de algumas horas Dehors teria que enfrentar os membros do EuroGov -- sobretudo os mais obcecados com a transparência, como eles diziam, como os dinamarqueses e os ingleses -- e explicar-lhes tudo: que não havia projecto espacial; que em Malta funcionava outra coisa; e que essa coisa estava já lançada e ia começar a funcionar num instante. Ou seja: alea jacta est, para ninguém vir com coisas.

«Kuss mix, kuss mix, als dize narte di leeeetza narte var...!» <marca num=3> , era a frase mais repetida no baile. Uma canção romântica de uma artista húngara, top de vendas nas tabelas EuroChart. Tocava pela enésima vez e Eyup já não sabia que fazer com os pés, trucidados vezes sem conta pela Marika halterofilista. Quando não era a mancha de suor no abdómen provocada pelo arfar peitoral da Marika pequena. Centenas de soldados e soldadas dançavam, mais ou menos indiferentes à presença daquele que nunca haviam visto antes. Eyup só pensava em descobrir Manuel e Maria e fugirem de Malta o mais rápido possível. Estava visto que o sistema era difícil de vencer. Não valia a pena morrer pela causa, se a causa não morria pelos seus defensores. O melhor era largarem tudo e fugirem para um país fora da União. Talvez para o Magrebe, se conseguissem embarcar numa qualquer excursão punitiva ou mesmo no Fortaleza Europa. Fosse como fosse, era preciso sair do baile e procurá-los. Mas como? Como saber onde eles estavam? Como escapar à ternura musculada das duas sérvias? Uma delas, sem querer, começou a sugerir como:

<nota num=3> «Besame, besame mucho, como se fuera esta noche la uuuuultima vez.» </nota>

-- Sabes, meu pão -- disse a Marika grande --, o que me apetecia agora era uma garrafinha de vodka e uma caminha grande, grande!

Eyup não percebia por que queria ela mais vodka. O que já tinha bebido teria dado para manter a alegria no Cerco de Varsóvia por mais um mês.

-- Porque é que tem que ser grande, a cama? -- tentou Eyup ser espirituoso.

-- Então, meu gato, para ti e para as tuas duas Marikinhas.

Eyup rebolou os olhos. Quando perdia a pose de culturista e tentava ser terna, Marika ficava verdadeiramente extraterrestre. Mas talvez fosse este o caminho...

-- Queres que vá buscar mais uma garrafa?

-- Tss, tss, não é preciso, lindinho. Debaixo do nosso beliche há um fornecimentozinho jeitoso... Hum? Que dizes? Vamos até lá?

-- Bem, não sei, estou muito cansado, sabes? E...

-- Vens, ou esmago-te os tomates aqui e agora que ficas a silvar como uma gralha Montenegrina num gulache do Kosovo!

Perante a argumentação da sérvia, a escolha era reduzida. Naquele momento, para mais, a Marika pequenina acabava de cumprir a mesma ameaça com um jovem soldado com quem dançava, e que agora demonstrava a sua habilidade nos flip-flops à retaguarda.

-- Pois, é capaz de estar na hora de irmos fazer ó-ó -- sugeriu Eyup.

Àquela hora -- o baile ainda continuaria até de madrugada -- as camaratas estavam quase vazias. Isto é, na camarata das duas sérvias algumas jovens militares ressonavam já, outras divertiam-se em jogos castrenses, e a maioria apenas entrava para pegar numa garrafa de vodka e regressar ao baile. Sendo assim, havia bastante privacidade. Subiram os três para o beliche de cima, onde, no maior aperto, as eslavas do Sul trataram de despir Eyup, por entre ahs e ohs de espanto. O estado de embriaguês era francamente avançado na frente balcânica, mas Eyup mantivera-se sóbrio. O que não as impediu de comentarem, com alguma desilusão, que o total relaxamento deste na zona pélvica se devia com certeza ao álcool.

«Não, minhas Marikas, tem que ver com o meu mais total desprezo!», pensou Eyup, mas respondeu outra coisa:

-- Tenho saudades de Portugal -- foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça. -- Saudade, sabem, é uma palavra intraduzível.

-- Também temos umas tantas -- disse uma delas.

-- Portugal, como é? Sabes que tenho lá uma irmã? Acho que é lá, ou é em Espanha?

Eyup pensou por momentos que aquilo podia ter interesse:

-- Uma irmã? E o que é que ela faz?

-- O que é que havia de fazer? É THT em casa duma bruxa horrorosa. Chama-se Galina, a minha irmã, e é bósnia. E a patroa é uma tal de Isabel Silva.

Eyup abandonou a posição horizontal de repente, afastando os lábios da pequena Marika das suas cada vez mais adormecidas vergônteas.

-- Que corpinho soberbo! -- gemia a pequena.

-- Isabel Silva? -- perguntava ele à Marika grande.

-- Não, o meu nome é Marika. Mas não faz mal. Chama-me o que quiseres. Até Mamã -- retorquiu a Marika pequena, que pensou que ele se dirigira a ela.

-- Esteja calada, idiota! -- explodiu Eyup. Marika pequena, que por debaixo da armadura de soldada de infantaria era uma jovem sensível, começou a chorar, desceu do beliche e foi consolar-se com uma camarada de armas na outra extremidade da caserna. Eyup suspirou de alívio e puxou Marika grande até si. O que um homem tem de fazer para extrair informações. Mas como Marika era mesmo grande, donde inamovível, contentou-se com encostar ele a sua cara ao peito musculado da soldada.

-- Sabias que essa mulher é mesmo horrível? Mais: sabias que essa megera está cá, aqui, em Malta? -- arriscou, mesmo sabendo que Isabéis Silvas há muitas.

A cara de Marika mudou completamente. O álcool ainda lhe mantinha o tom arroxeado, mas um rubor vermelho -- não de vergonha, que não a tinha nenhuma, mas sim fruto do ódio -- começava a tomar ascendência na sua paleta de cores.

-- Cá?! Onde?! Eu mato a §££R#$&***$$#!!!!

-- Matas? Então porquê? -- entusiasmou-se Eyup.

-- Se eu te contasse...

-- Podes contar-me.

Marika compôs-se um pouco. Puxou o lençol para cima. Não era altura para mostrar a musculatura. Assumiu um tom sério:

-- Galina é a minha única irmã e a única pessoa de quem gosto no mundo. Fomos separadas quando a classificaram como bósnia e a mim como sérvia. Escreveu-me tantas cartas a contar como era maltratada por essa fulana lá em Espanha...

-- Em Portugal.

-- Ou isso. Coitada! Até que há uns dias foi despedida, porque deixou queimar uns coisos quaisquer no forno. Recebi a carta ontem, através do correio de candonga que os soldados sérvios têm... Bem, não digas isto a ninguém... E sabes o que acontece a uma bósnia THT quando despedida, sabes? Ou a uma sérvia?

No tom de voz havia uma enorme revolta. Mas Eyup nunca pensara no assunto. Disse que não sabia.

-- Típico dos homens. Pois bem, é posta num EEP.

-- Um quê?

-- Mas tu és maricas ou quê? Nunca foste a um EEP? Um EuroEroPark. Em bom Noidoitx chamamos-lhes bordéis.

Eyup engoliu em seco.

-- Ah, claro, que distraído que eu sou. Claro, claro, um EEP. Estou farto de ir.

-- Típico dos homens! Desde então só penso em vingar-me dessa patroa da minha irmã!

Eyup não podia acreditar na sua sorte. Como não podia acreditar no facto de que ia acabar por ajudá-la e, assim, ser simpático com a grande Marika.

-- Pois bem, chegou a tua oportunidade. Basta que me dês uma ajudinha.

-- A sério? E que interesse tens tu nisto?

-- Não te posso dizer. Mas juro-te que damos cabo dessa Isabel Silva. Tens algum acesso à planta digital do subterrâneo?

Marika desconfiou que o português estava metido nalguma. Aliás, agora que pensava nisso, era estranho que um português fosse soldado raso. Ainda se fosse sargento. Mas ia alinhar no jogo dele:

-- Claro! -- disse espantada. -- Tu também! Nos mapas electrónicos de bolso...

-- Marika, eu não sou soldado aqui -- arriscou ele.

-- Oh, diabo, vais-me meter em sarilhos?

-- Juro que não. Agora mostra-me a planta e eu trato do resto.

-- Não, quero ser eu a torcer o pescoço a essa galinha.

-- À tua irmã?! -- Eyup sentia-se um pouco confuso. Seria do bafo de vodka da sua companheira?

-- Não, tonto, a essa Isabel. Além disso, tenho mais músculo do que tu.

-- Lá isso...

-- Mas há outra coisa...

-- O quê?

-- Diz... -- ela parecia hesitar, o que é comum nos soldados --, diz que... diz que me amas -- e cerrou os olhos, estendendo os lábios na direcção dos de Eyup, fazendo-se mais pequena do que ele, o que provocou a queda dos lençóis no chão.

-- Claro que te amo -- respondeu ele, profissional. -- Se não porque é que estava aqui?

A planta do subterrâneo era uma verdadeira surpresa. A EuroHaus, o aquartelamento militar, o aeroporto, a base naval, tudo estava ligado. Malta era um queijo suíço, ainda mais do que o cérebro de Maria Silva. Claro que não havia uma só indicação do que quer que fosse relacionado com um programa espacial. Mas via-se legendas com títulos como «Sala de Acondicionamento Cultural», «Gabinete de Engenharia Prisional», «Secção de Propaganda e Esclarecimento», ou «Estudos Eslavos». No meio da imensa teia apareciam nítidas as «Celas Temporárias» e os «Alojamentos para A30s a A49s». Só os alojamentos dos A50s, da nata da nata, eram secretos. Tocado o ícone certo no ecrã do aparelho de bolso, cedo surgiu a localização exacta tanto de Maria e Manuel (que aparecia sob o nome de Eyup) como do casal arrivista Isabel e Joaquim Silva.

-- Agora só falta lá chegar -- suspirou Eyup, antevendo mais episódios violentos.

-- Sopa de esturjão!! -- exclamou Marika.

Eyup deduziu que aquilo devia querer dizer «Canja!» ou «Piece of cake». Ela prosseguiu:

-- O baile só acaba lá para as tantas. Com sorte, a fulana está a dormir. E os teus amigos com certeza não foram dar um passeio ao luar. Quanto a chegarmos aos sítios, tenho passe para tudo. Além disso, toda a gente me respeita -- e arrotou significativamente.

Assim foi que se sucederam mais alguns corredores compridos com luzes de néon de dez em dez metros & etc. Com o cartão chave-mestra (a que os soldados balcânicos chamavam ONU, em memória de uma organização de beneficência que existira na pré-União e que se passeava livremente pela sua terra natal durante as duas últimas guerras civis), penetraram na penumbra do quarto de Isabel e Joaquim. Não foi preciso serem muito silenciosos, já que se ouvia o silvo da mira técnica da EuroVisão, que repetia ad infinitum os três primeiros acordes da Ode à Alegria. Em som de fundo, o casal ressonava.

-- E agora? -- sussurrou Eyup.

-- Agora, isto não é coisa para homens. Vira a cara.

Eyup obedeceu agradecido. Marika aproximou-se da cama. Ouviu-se um som parecido com um quebra-nozes. Depois outro. Seguiu-se um gorgolejar, como água num algeroz. E de novo o quebra-nozes. Marika colocou a sua mão no ombro dele e implorou um beijo. O nosso herói teve de anuir.

-- Prontos, amor, já está. A minha irmã está vingada.

-- E como... como? Como é que fizeste?

-- Fácil. Um truque dos Balcãs. Sabes?, quando a minhoca cai à água, dorme o caçador na floresta!

Os provérbios estavam a ficar cada vez mais complicados. Por isso resolveu perguntar outra coisa:

-- E ele, porque é que o despachaste também?

-- Ora, não lhe queria dar o prazer de acordar viúvo.

Saíram com cautela do quarto dos ex-futuros espiões e colegas de negócios subterrâneos de Klaus Fischer, agora não mais, e algures no recanto lusófono da Grande União do Paraíso.

-- Agora tenho de ir libertar os meus amigos -- disse Eyup.

-- Vou contigo! -- retorquiu ela, eufórica. Gostava daquilo.

-- Não! É melhor não.

-- Porquê? Vou, sim senhor. Tens o pulso fraco.

-- Não. Assim..., olha, assim podes esperar por mim..., estás a ver?, podes vestir-te mais... vaporosa, e depois faz de conta que eu sou o teu guerreiro que volta para o seu descanso e aí a gente pode... -- Eyup acompanhou a proposta com trejeitos amorosos.

Marika disse logo que sim. Afastou-se na direcção oposta, congeminando a qual das colegas é que iria roubar uma combinação de noite. De renda. Preta.

-- E você diz que o Fischer o levou para onde?!

-- Para o quarto dele -- repetiu pela quarta vez Maria. Eyup estava desesperado. Dava voltas sobre si próprio. Murros na parede. Sabia muito bem da volúpia de velho urso que o alemão sentira por Manuel nas Faroé. Fora um erro ter ficado no camião e deixar os outros serem presos. Agora que só lhes restava fugirem de Malta, nem sequer tinha adiantado nada Manuel passar por Eyup.

-- O pior de tudo é que agora não sei onde é exactamente o quarto do Fischer.

-- Ah, mas sei eu -- Maria não percebia muito bem porquê todo aquele desespero. O seu cérebro já não lhe permitia aperceber-se das coisas mais evidentes. A única coisa de que tinha a certeza era de que Eyup era repelente. Como é que se podia ser tão feio? Ao passo que Manuel era um rapaz bem jeitoso. -- É no último andar da EuroHaus, o que fica ao nível do solo.

-- Como é que você sabe isso?

-- Ora, porque é sempre assim. Se ele é A50 só pode estar no trigésimo andar, que aqui é o rés-do-chão.

-- É verdade, aqui é tudo invertido.

Chegar ao trigésimo podia ser uma tarefa difícil. Maria, que já não se recordava das coisas como devia ser, sentia um medo inconsciente ao pronunciar aquele número. Entrou rapidamente em pânico quando Eyup lhe disse que era preciso irem até lá resgatar Manuel e depois encontrarem um modo de fugir dali. Eyup aborreceu-se perante a probabilidade de ter de aplicar mais uns murros na cabeça da tradutora. Tinha receio de lhe provocar um curto-circuito total. Lembrou-se então de que havia uma outra alternativa. Vasculhou nos bolsos, até encontrar um saco de plástico onde tinha algum dinheiro, o EuroPass falso e coisas que tinha de ter sempre consigo, entre as quais os últimos comprimidos de nEuroSugestina conseguidos graças às diligências do desaparecido velho maltês.

-- Maria, você vai tomar isto, OK?

-- Ah, não!!, o que é isso??

-- Ora, um mero calmante. Está muito nervosa e isto vai dar-lhe coragem.

Maria franziu o sobrolho. Nunca tinha ouvido falar de calmantes que dessem coragem. Não sabia porquê, mas não lhe agradavam muito os fármacos. Por fim anuiu, pois aquele homem começava a inspirar-lhe um certo medo. Tirou os comprimidos da mão de Eyup e engoliu-os. Ele sentou-a na beira do catre, ajoelhou-se em frente dela e disse-lhe que fechasse os olhos.

-- Agora relaxe-se e concentre-se no que lhe vou dizer. Quando eu disser para abrir os olhos, vai esquecer-se do que fizemos e lembrar-se-á das minhas palavras. Vamos a isto?

E então Eyup, inspirando-se na Marika grande, contou-lhe como ela, Maria, era, na realidade, uma poderosa karateca e culturista, que atacava tudo e todos, não receava nada nem ninguém e tinha por missão na vida proteger Manuel de toda e qualquer ameaça.

Quando acordou do transe, a singela e elegante jovem parecia um camionista que não queria pagar a conta do restaurante:

-- Vamos a eles, simpático? -- grunhiu ela.

Eyup aproveitara para lhe retirar a repulsa que sentia por ele. Tinha-lhe inculcado um sentimento de camaradagem jocosa. Sem conteúdo sexual, é claro.

Klaus Fischer maldizia em alemão toda a raça dos portugueses e pretos e árabes e balcânicos e eslavos e judeus e toda a cáfila de bastardos do Sul, filhos de selvagens e incivilizados que só querem é o nosso dinheiro e dormir sestas e andar atrás de mulheres e terem dezenas de filhos e tudo o mais que odiava nessa gente, porque Manuel o recusava e lhe chamara os piores nomes.

Esgotado o diálogo, logo muito cedo na noite, Fischer vira-se obrigado a amarrar Manuel à cama e a pôr-lhe uma mordaça na boca, enquanto pensava para si mesmo que sempre fora assim, sempre haviam encostado os alemães à parede, nunca haviam querido compreender os argumentos realistas e depois ainda se admiravam que os alemães mordessem.

Fischer saltitava em torno da cama, com uma pena de pato na mão com a qual fazia cócegas e carícias na pele tostada e lisa de Manuel. De vez em quando dava uns passos de ballet, que aprendera em (muito) jovem, julgando ver nas suas pregas de celulite, nas manchas dos angiomas e no azul das varizes a imagem acabada da beleza varonil do ariano ex plus ultra.

No momento em que decidiu acabar os preliminares e passar a um contacto mais profundo com o outro ser humano seu próximo, o comunicador tocou. Mas não tocou como de costume, mas sim com três toques seguidos de cada vez, o que era notoriamente um sinal de alarme.

-- Está? -- perguntou ele, com a voz ainda aflautada de uma imitação de Liza Minelli num velho filme bidimensional chamado Cabaret. Mudou logo para um tom mais gutural: -- ESTÁ?

Do outro lado da linha, um subalterno avisava da fuga de Maria Silva da cela da cave da EuroHaus. O huno deu ordens para uma busca escrupulosa a todo o edifício. Haviam de a apanhar e não era a fuga daquela criatura que lhe ia estragar os seus prazeres ali à mão de semear. Estava já a subir para o leito quando bateram à porta:

-- Agora não, idiotas!

-- Mas sou eu, Herr Fischer, Maria Silva! -- dizia uma voz delicada.

Fischer ergueu-se imediatamente. Enrolou uma toalha à volta da cintura e alcançou a pistola. Apanharia aquela idiota, que tivera a pouca presença de espírito de vir aos seus aposentos, e depois ainda teria tempo de voltar ao seu efebo sulista.

Quando abriu a porta, Maria Silva sorria. Mas antes que ela dissesse algo, ele atacou:

-- Mãos ao ar, dumbecófe <marca num=4> -- vociferou o A50.

<nota num=4> Literalmente: «cabeça estúpida.» </nota>

-- Os seus desejos são ordens -- retorquiu ela. Elevou as mãos no ar e, com a rapidez de um pugilista de boxe tailandês, aplicou um soco no alemão que o reenviou para os pés da cama. Eyup afastou Maria para o lado, saltou por cima do corpo de Fischer, sem deixar de nele calcar a bota militar, deixando assim a pegada do EurExército na pele de um dos seus mais altos representantes, e acudiu a Manuel. Com raiva e desespero, rasgou as cordas, tirou as mordaças e ajudou o amigo a levantar-se:

-- Ele fez-te alguma coisa?!

Manuel estava meio grogue. Mas não tinha perdido o sentido de humor e o fair play. Um bom rapaz é assim mesmo.

-- Ná. Acho que mesmo que tentasse não tinha conseguido...

Riram-se os dois, com algumas lágrimas pelo meio. Manuel só se apercebeu da presença de Maria um pouco depois:

-- Desculpe estar nestes propósitos, Maria.

-- Eh, já nada me espanta! -- reagiu ela, numa voz cava e com uma tonalidade de indiferença, como se fosse um futebolista no vestiário comentando uma mancha de pele numa zona mais íntima de um colega da bola.

-- O que é que ela tem? -- perguntou Manuel ao amigo.

-- Receio que um bocadinho de cérebro a menos.

Mas não tiveram tempo -- nem descaramento -- para se rirem. Um bando de soldados entrou de rompante no quarto e deu-lhes ordem de prisão. Encolheram os ombros, de tão habituados que já estavam a estas andanças. No outro extremo do subterrâneo, também Marika grande encolhia os ombros: já tinha percebido que o seu mancebo não viria, mas estava contente por ter vingado a irmã e tinha sempre o busto de Marika pequena onde se consolar.

Mais longe ainda, no mar Mediterrâneo, os aviões do navio Fortaleza Europa, especialmente desenhados para o afundamento de barquitos pequenos, afundavam um comboio de vinte e quatro traineiras tunisinas com os respectivos clandestinos. A bordo, os portugueses da Vasco da Gama aplaudiam.

Muito mais longe ainda, em Lisboa, uma barata passeava-se pelo lava-loiças da cozinha de Maria Silva e um novo alemão substituía Klaus Fischer na EuroHaus. Galina ganhava a vida num bordel de Odivelas frequentado por ovimbundus.

E muito, muito mais longe ainda, nos arredores do que fora Moscovo, o chefe do Posto N.º 1 do Plano do Novo Mundo recebia uma mensagem electrónica que o avisava da chegada de Klaus Fischer com três prisioneiros, supostamente de etnia portuguesa. Uff!

Episódio 9
A grande estepada

O chefe do Posto n.º 1 do Plano do Novo Mundo recebia, pois, em Moscovo, uma mensagem que o avisava da chegada de Klaus Fischer com três prisioneiros supostamente de etnia portuguesa. Tornava-se imperioso preparar uma recepção condigna. Talvez abrir umas latas de caviar e tirar da arrecadação umas camas de campanha que ainda não tivessem percevejos. Acontecia que ali, em Moscovo, não havia nada que se parecesse com uma EuroHaus. Que pensava ele!, se nem sequer havia nada que se parecesse com uma casa em condições. Tudo era destroços, e em volta só estepes.

O que mais tempo perdura na História da humanidade são as ruínas. Quem subisse à torre de controlo improvisada do campo de aviação do Posto 1 podia avistar, a uns três quilómetros de distância, o que restava da grandeza de Moscovo: uma imponente carcaça, que se estendia até aos arredores, até Cheremetievo, até às datchas engolidas pelo pó e pelas ervas daninhas. A torre da universidade via-se distintamente, assim como o Hotel Rossia ou as cúpulas do Kremlin. Estas estruturas resistiam bem, pois, como tudo nas Rússias, tinham sido feitas para durar: forte e feio, parecia ser a milenar divisa dos russos. Mas os seres humanos são a primeira coisa a desaparecer, e assim aqueles edifícios só viam passar por eles os ratos e as ratazanas, e as únicas testemunhas destes visitantes eram as caras de papel dos posters de Aparatov, o último presidente, aqui e ali rasgados o suficiente para se entrever os posters de Lebed e estes, por sua vez, aqui e ali rasgados o suficiente para deixar adivinhar um Ieltsin desesperado. Quem se desse ao trabalho de separar as camadas de papel, talvez encontrasse ainda Gorbatchov e pudesse chegar ao ponto de encontrar as marcas arqueológicas de um Stáline ou de um Lénine eternamente jovens. Todavia, também havia gente de carne e osso, escondida. Lá iremos. Agora não.

A destruição de Moscovo fora bastante rápida. Quando, no auge da Grande Fome Pátria e do Grande Colapso Económico Pátrio (2020-2025) se deu o histórico assalto ao Kremlin pelas hordas de famintos, Aparatov mal teve voz para se dirigir ao telefone laranja e apelar ao EuroGov que o ajudasse. Mesmo que tivesse conseguido fazê-lo, ninguém lhe teria respondido do outro lado da linha. Em Bruxelas havia ordens expressas de Berlim para não responder a Moscovo e deixar os acontecimentos seguirem o seu curso. Era a política de não interferência. Assim, com a queda de Moscovo, o que se seguiu foi como naqueles jogos complicados com peças de dominó: cidade após cidade, tudo foi caindo, tudo foi incendiado, as populações começaram a animar-se com a carnificina generalizada, pois, à falta de judeus, já todos emigrados, havia uma fartura de nacionalidades com nomes patuscos por onde escolher um bode expiatório. Formaram-se hordas étnicas que começaram a deambular pelas estepes, pilhando o que restava, mas basicamente dedicando-se ao desporto mais antigo dos russos e se calhar do Homem: o pogrom. A milhares de quilómetros de distância, no espaço exterior do planeta, os Técnicos de Vigilância Orbital da União observavam tudo. Quando a situação já parecia suficientemente desesperada, comunicaram o facto a Berlim e Bruxelas. Dias depois, o Parlamento Europeu concedia ao R.E.I.C.H. o estatuto de Protector dos Territórios a Leste, com o pretexto de conter a barbárie e impedir que os orientais usassem as estepes como um confortável corredor para a Velha Europa.

O chefe do Posto 1 sabia disto tudo. Pudera, pois era russo. Pertencia àquela casta especial que a Mãe Rússia sempre fora fértil em reproduzir: os que se adaptam às novas circunstâncias. Em jovem, rasgara o cartão do Partido Comunista. Quando Aparatov se afundou, ofereceu os seus préstimos à embaixada do R.E.I.C.H. em Moscovo. Conheceu pessoalmente o Protector nomeado pela União e estava agora prestes a conhecer e receber o novo ocupante do cargo, o Sr. Klaus Fischer.

O chefe do Posto chamava-se Boris. Era conhecido por todos como Tio Boris, e mais afectuosamente como o Carrasco Cossaco. Detinha um importante cargo na EuroPol, pois só mais meia dúzia de russos se podia orgulhar de pertencer à organização. De facto, quando o R.E.I.C.H. avançou para leste, o que fez foi organizar postos, cada um controlando um distrito quadrado com duzentos quilómetros de lado. Os postos tinham todos a mesma estrutura, desenhada pela firma de arquitectos PostModern GMBH, de Munique, e construídos pela TeknoSkoda de Praga. Eram compostos por um campo de aviação, torre de controlo, centro de radiotransmissões, casa do chefe de Posto, casernas para um corpo militar de soldados de etnias amigas do R.E.I.C.H. (croatas, lituanos, húngaros, boémios) e o respectivo equipamento militar. O perímetro dos postos era rodeado de arame farpado e barreiras electromagnéticas. A sua função foi, durante anos, a de ocupar território e garantir que as hordas russas continuassem a combater-se entre si. Todavia, com a chegada de Klaus Fischer ao Protectorado, parecia que tudo ia mudar. Parecia que havia um Plano. Era o que tinha constado ao Tio Boris. Daí o nervosismo com que escolhia as latas de caviar e aplicava o insecticida às camas de campanha.

O avião aterrou sem um segundo de atraso, para satisfazer o nível de exigência de Klaus Fischer. Eyup, Maria e Manuel nem sequer se encontravam algemados, pois não se antevia a hipótese de escaparem. Fora apenas preciso sossegar Maria com uma valente coronhada no pescoço, uma vez que tinha tentado saltar para cima do alemão quando este sorrira para Manuel, a meio da viagem. Mas recuperava agora os sentidos. Na pista de terra batida, o Tio Boris esperava ansiosamente pelo Protector. Vestia uma velha farda do exército russo, cujas insígnias haviam sido mal cosidas por cima das do exército soviético. Por cima das russas, tinha agora dois autocolantes com as insígnias da EuroPol: uma lupa sobre as cinquenta e três estrelinhas em círculos concêntricos. Tudo lhe estava muito apertado, pois o Tio Boris orgulhava-se dos seus cento e setenta e cinco quilos, pelo que lhe custara uma hora de exercício de emagrecimento para conseguir fazer uma vénia a Klaus Fischer.

Este cumprimentou-o apenas com um aceno de cabeça, pensando para si próprio nos sacrifícios que tinha de fazer para ser um bom dirigente: estar ali naquela terra horrível, e ter de ouvir as barbaridades daquele ogre colaboracionista requeria estofo. O estofo das campanhas da Rússia. Mas era preciso. Como sempre dissera: «Precisamos de espaço para respirar», uma frase que lhe ocorria sempre e que desconfiava ser uma citação que lhe entrara subliminarmente no cérebro. Lebensraum, no bom velho alemão pré-Noidoitx.

-- Bem-vindo à Rússia, Herr Fischer -- matraqueou o Tio Boris num Noidoitx da Linguaphone.

-- Ou o que resta dela -- limitou-se a responder Fischer.

-- E quanto a estes pombinhos, que quer que faça deles?

-- Ponha-os no farpado, é claro.

Um rubor de embaraço, próprio de quem é apanhado em falta, inundou a face generosa do Tio Boris:

-- Mas... que farpado, Herr Protektor?

Fischer não queria acreditar. Sentiu uma sturm de nuvens negras cheias de schmerz e angst perpassarem-lhe o córtex e perturbando-lhe o weltanschauung:

-- Não me vai dizer que não construíram um recinto farpado para delinquentes, vai? Não me vai dizer que não cumpriu a norma Z-4335671/C EuroCamp, vai? -- e a raiva no tom de voz crescia com cada sílaba.

O Tio Boris amaldiçoou a Terra Russa por ainda estar demasiado dura do recente Inverno para poder cavar ali mesmo um buraco e enfiar-se nele como um refusnik.

-- Mas, Herr Protektor, só recebi essas instruções há uma semana e...

-- Incompetente! São todos uns incompetentes! Como vamos albergar os delinquentes que vão começar a chegar, hã? E com que cara vou comunicar isto aos senhores do EuroGov que são aqui esperados também para a semana, hã, dir-me-ás?

Nunca o Tio Boris desejara tanto ter-se juntado a uma horda russa bárbara. Estaria a deambular livre pelas estepes, senão mesmo pelas tundras, melhor ainda pelas taigas, em vez de passar por estes problemas. Afinal, os russos haviam sido feitos pela Mãe Natureza (ou teria sido pela Mãe Rússia?) para isso mesmo, para deambularem livres, acossando-se uns aos outros.

-- Bem -- pareceu acalmar-se Fischer --, para já não poderão fugir à barreira electromagnética. Suponho que essa esteja a funcionar?

Boris recuperou a confiança ao poder responder afirmativamente, mesmo mentindo. Não queria mais sarilhos, pelo menos para já, e com tanta intensidade.

-- Quanto ao campo para delinquentes, teremos de improvisar. Ah, como detesto improvisar! -- lamuriou-se o A50. -- Mas creio que os portugueses podem tratar disso. Afinal temos aqui dois jovens machos robustos e uma fêmea que de repente deu em retroescavadora. É isso: vão eles fazer o recinto farpado. Suponho que os seus homens não poderão dar uma ajuda?

-- Infelizmente não, Herr Protektor. Estão todos no Exterior, em missão de acicatamento.

Fischer fez que sim com a cabeça, elogiando o Tio Boris pela primeira vez.

-- Bem, agora dê-nos algo de comer, e uma cama. Há muito para fazer amanhã.

A salinha de estar do chefe de Posto era uma coisa rudimentar, com um samovar, um fogão de lenha e uma televisão sem ligação à rede. À volta da mesa, Fischer e o Tio Boris conversavam sobre inanidades. Eyup, Manuel e Maria também se encontravam ali, pois era perigoso colocá-los no aquartelamento militar, não fossem alcançar alguma arma. Por isso se encontravam algemados. Fischer nem sequer se atrevia a tocar com um dedo que fosse em Manuel pois, mesmo algemada, Maria cumpria a sua novel tarefa com todo o afã e denodo, desferindo cabeçadas dignas de crédito. Em breve o Protektor teria de pensar na solução a dar à situação, mas por enquanto preocupava-o mais a chegada dos outros membros do EuroGov e a implementação do Plano do Novo Mundo. Ligou a televisão para ver o TeleFax da noite. No ecrã surgia a locutora de sempre da Região Alemã, com cabelo amarelo implantado a partir de uma elaborada tessitura de cabelos de centenas de bonecas EuroBarbie -- uma moda alemã que estava a começar a fazer furor nas outras regiões. As notícias pareceram espevitar o alemão e enfurecer Eyup e Manuel. Quanto a Maria, o seu cérebro já pouco captava além de estática:

«Naquela que foi considerada pelos comentadores como a primeira declaração histórica do Presidente Dehors, a União foi informada de que o plano de colonização espacial não passava de uma inteligente estratégia para encobrir um plano bem mais audacioso para o futuro da União e a garantia da paz mundial. Desde há vários anos que na ilha-fortaleza de Malta se encontra instalado um centro secreto de organização do chamado Plano do Novo Mundo. Ali têm trabalhado em difíceis e estóicas condições Técnicos de Expansão Territorial, Técnicos de Gestão Castrense, Técnicos de Contacto Intercultural, entre muitos outros. O Plano consiste na reorganização equilibrada do Leste, incluindo a Ucrânia, a Bielorússia e a Rússia, de modo a pôr termo à situação de autêntica barbárie que ali se tem vivido e trazer os povos russos para o seio da Grande União Europeia. Relatórios exaustivos da EuroPol dão conta de movimentos militares nas fronteiras da China e Mongólia e de voos de espionagem de aviões japoneses, numa óbvia tentativa de preparar uma invasão das Rússias. Com o Plano do Novo Mundo pretende-se estabilizar a situação, criando núcleos que atraiam as populações nómadas, as integrem no trabalho produtivo e...»

Klaus Fischer estava visivelmente satisfeito. Dehors trabalhara bem. Enquanto os media apresentassem as coisas naquele pé, o apoio público estaria garantido. Mais tarde, quando tudo estivesse a funcionar, então apresentar-se-iam as coisas como fait accompli.

«... o Presidente Dehors elogiou ainda o génio alemão, pois a iniciativa deste plano partiu do governo autónomo da Região Europeia Internacional das Comunidades Hunas que...»

Eyup olhou cumplicemente para Manuel. Este parecia responder-lhe com uma interrogação. Como sempre, Eyup desconfiava do que ouvia nos TeleFaxes, e toda aquela conversa de terem de construir um campo para delinquentes trazia água no bico. Os seus pensamentos foram interrompidos por um Klaus Fischer mais alegre do que antes:

-- Amanhã começam a trabalhar. E nada de preguiça latina, estamos entendidos?

No espaço de três dias, Eyup, Manuel e Maria construíram uma pequena cabana para os três. A coisa chegou ao ponto de instalarem os cadeados da sua própria prisão. Também tinham um samovar e uma salamandra, mas não televisão. Em vez disso, o Tio Boris deu-lhes uma pilha de jornais velhos para se entreterem a ler. Entretanto, e graças à extraordinária destreza e resistência física de Maria, a enorme cerca de arame farpado estava quase concluída e pronta a receber quem quer que fosse que para ali haveria de vir.

À noitinha, e antes de o Tio Boris vir fechar o cadeado, sentavam-se os três no exterior lendo os jornais de meses e anos atrás. Maria, no que parecia a Eyup uma manifestação do mais puro masoquismo, tentava fazer as palavras cruzadas. Isto é, ficava a contar o número de quadradinhos, mas até a aritmética da escola primária já lhe começava a fugir a sete pés.

-- Já viste isto? -- perguntou Eyup a Manuel. Este pegou no jornal que o amigo lhe mostrava. Era uma notícia de há dois anos. Dava conta da vitória esmagadora do Partido Racional-Socialista nas eleições.

-- Foi aí que tudo começou a mudar, não foi?

-- Mais ou menos -- respondeu Eyup --, digamos que foi aí que tudo acelerou. Enquanto ganharam só na Alemanha ainda ia, mas quando ganharam as eleições na União, foi quando o Fischer foi para Lisboa e esta coisa do Plano do Novo Mundo começou...

-- Mas porque é que ele terá ido exactamente para Lisboa?

-- Para ter cobertura, acho eu. Toda a gente sabe que nada se passa em Lisboa. É um bom esconderijo para ir fazendo tramóias. E se calhar para receber e lavar os fundos que os bancos enviavam para a elaboração do Plano. Mas eu aposto que ele é uma das cabeças do partido. Senão não era agora Protector. É incrível, não é? Viste como ele saltou de reles director presidiário nas Faroé para Protector do R.E.I.C.H. para as Rússias?

-- Bem, pelo menos ficou dentro do ramo de actividade.

Apesar de estarem na Rússia, riram-se. Foram interrompidos pela chegada do Tio Boris que os enviou para dentro da cabana e, pelo sim pelo não, lhes colocou as algemas.

Com dificuldade, aprenderam a fazer os jogos amorosos de mãos atadas, o que até não deixava de ser divertido.

Maria é que não gostava nada quando os gemidos se assemelhavam a gritos de dor, tão condicionada que estava para socorrer e proteger Manuel.

-- Coitada, está feita num oito -- sussurrou Manuel a Eyup.

-- Num oito não, num três. É que já levou três tratamentos de nEuroSugestina. Se levar mais um, é o fim. Ouvi dizer que não se aguenta mais do que três, senão entra tudo em fusão debaixo do capô.

-- Diabo. Mas há uma coisa que nunca percebi: porque é que eles não usam a sugestina connosco? Faziam de nós aliados num abrir e fechar de olhos...

-- É que não podem. Os efeitos só duram uns dias, depois desaparecem e parece que a pessoa fica com uma reacção de aversão a quem lhe administrou o medicamento. Com a Maria isso não aconteceu porque levou os tratamentos todos em cima uns dos outros, quase sem intervalo...

-- Então quer dizer que...

-- Isso mesmo. Não tarda nada, passa-lhe o efeito. E então vai-me ficar com uma raiva que não te digo nada...

-- E não tens mais comprimidos?

-- Não, tiraram-mos quando fomos presos antes de virmos para a Rússia.

Manuel olhou para Maria com um misto de compaixão e medo. E com alguma pena por perder uma guarda-costas tão eficaz. E como ela ressonava! Como um pugilista com a cana do nariz partida.

Os ministros do EuroGov chegaram ao Posto 1 de Moscovo sem qualquer espécie de pompa. O encontro revestia-se mesmo de um carácter quase secreto, o que se podia confirmar pela ausência dos media. O Tio Boris estava radiante de felicidade por receber tanta nomenklatura de uma só vez. Fischer estava um pouco nervoso, pois temia algum acesso de prurido democrático por parte de algum ministro. Sobretudo dos ingleses e dinamarqueses, que eram uns fracos e punham entraves a todo e qualquer plano arrojado. Teria de lhes dar um briefing muito bem estudado e contar com a ajuda de Dehors, que sempre tinha alguma autoridade. E a ajuda estava garantida, pois ele recebia um quinhão de rei no negócio português de Fischer. E de outros também. Mas não deixava de ser uma pena que o EuroGov não fosse pura e simplesmente constituído pelas pessoas empreendedoras com que Fischer reunira em Nápoles -- afinal de contas, eram elas quem decidia.

«Que sorte aquele Joaquim Silva ter sido eliminado por aqueles idiotas!», pensava para si, enquanto juntava os papéis para a reunião com o EuroGov. O negócio estava a render milhares de Euros. As armas fabricadas em Portugal chegavam todos os dias às Rússias e estavam a ser distribuídas com toda a eficácia pelas tropas às hordas bárbaras. Bastava-lhes colocarem-nas em certos sítios ermos, que os bárbaros, tal como os ursos dos Parques Nacionais, cedo aprendiam a localizar, e era só vê-los levarem-nas e, sobretudo, usarem-nas nas suas vinganças de sangue. Assim, a população eslava decrescia a olhos vistos, deixando a terra-de-ninguém que, para uma alma visionária como Fischer, era um verdadeiro campo de possibilidades de sonho: o mundo como vontade e representação, nem mais. Ainda por cima, as contrapartidas haviam sido ridículas: conseguir autorização para o negócio imobiliário na costa do Alentejo -- cem quilómetros de aparthotéis de vinte andares cada -- só custara um telefonema e, para cúmulo, Joaquim Silva já não existia para poder colher os lucros, que assim revertiam para Fischer e Dehors. De qualquer modo, quem utilizava os hotéis eram bons e honestos cidadãos da Região Autónoma da Alemanha.

«Só preciso de pensar no que vou fazer àqueles portuguezitos», franziu a testa o Protector. É que ele não gostava da ideia de eliminar pessoas. Era um método demasiado bárbaro, nada consonante com a alma alemã, pouco democrático, nada digno de uma sociedade aberta. Mas pensaria no destino a dar-lhes depois da reunião. O que importava era tê-los por perto, onde não pudessem ir abrir a boca antes de o Plano estar em pleno funcionamento.

Fechou o dossier, apertou o cinto um furo acima e dirigiu-se para a grande tenda de campanha que mandara o Tio Boris erguer para a reunião. Fischer preparara tudo muito bem. Não ia ser ele em pessoa a apresentar os projectos. O dossier destinava-se ao Presidente Dehors, que o leria perante os ministros como se fosse obra sua. Era uma coisa que dava muito mais autoridade. Assim, como combinado, encontrou-se com o presidente a meio caminho entre a casa do chefe de Posto e a tenda da reunião. Um aperto de mão breve, um dossier caído no chão por desleixo, Dehors apanhando-o como se fosse seu, uma troca de sorrisos e a coisa estava feita. Daí a dez minutos, começava a reunião.

Dehors pigarreou e começou o seu discurso:

«Meus senhores e minhas senhoras, permitam-me que vos dê as boas-vindas ao que em breve vai ser o Novo Mundo para a nossa querida União, um espaço para respirar, uma promessa de futuro, como o foram as Américas nos tempos dos Euro-Descobrimentos, e tal como os nossos avós de antanho...»

A prosa introdutória prosseguiu por uma protocolar meia hora recheada de bocejos, o que correspondia a uma estratégia prevista para amansar os ânimos mais críticos que sempre podem surgir numa sociedade onde o debate e o confronto de ideias são um pilar fundamental da convivência democrática, a qual, para progredir, não se pode compadecer com défices da mesma.

Durante esse tempo, o Tio Boris passeava-se de cá para lá, roído de inveja por não poder ouvir o que se passava lá dentro. Pelo que lhe dizia respeito, o seu trabalho era bem pago, o fornecimento de borscht e vodka era bom, e a sua tarefa consistia em enviar os seus homens com carregamentos de umas obsoletas metralhadoras G3 de fabrico português para os postos de distribuição aos bárbaros. Mas não era parvo, pelo que sabia que eventualmente um novo destino seria dado à Rússia. Por instinto humano -- aquele desejo de desabafar quando se tem algo apertado na garganta -- aproximou-se da cabana onde os três portugueses eram mantidos prisioneiros. Estavam devidamente algemados aos troncos que constituíam a parede da casota. Eyup e Manuel conversavam entre si, em português. Maria, de olhar vidrado, vigiava Manuel. Boris entrou e sentou-se num dos catres.

-- Pois é, meus amigos, a mim é que não me deixam ouvir nada do que estão a combinar. É sempre assim. Já quando era criança, no Konsomol nunca me deixavam...

-- Ora, cale-se, homem! -- berrou Eyup subitamente. Não só o Tio Boris se espantou com aquela inesperada brutalidade. Manuel e Maria também ficaram de boca aberta.

-- Eyup, francamente, o homem só estava a... -- começou Manuel a dizer, mas viu nitidamente Eyup piscar o olho num microssegundo, e não era em vão que conhecia cada cantinho, pêlo, ruga, covinha, gesto e tique do seu amigo: ele estava a tramar alguma. Continuou com os insultos:

-- Não ’tou para ouvir as suas lamentações de russo cretino, filho da Mãe Rússia alimentada a vodka de contrabando, seu cara de Gulag mal situado!

Os insultos tornavam-se cada vez mais ferozes. O Tio Boris começou a ficar vermelho, dum vermelho que nunca mais vira desde que acabara a importação de pasta de tomate portuguesa para a Rússia. Eyup subia de tom de voz à medida que baixava o nível dos insultos, e ao mesmo tempo desferia fortíssimas cotoveladas no braço de Manuel, o qual, à vigésima sexta, soltou um grito. Aí, Maria rosnou.

Só então é que Manuel percebeu o que o amigo estava a tentar fazer. E começou também a insultar o russo com um repertório indigno de ser transcrito. Manuel urrava, gritava, contorcia-se, chamava ucraniana à mãe de Boris, judeu ao pai, o que levou o pobre EuroPol a atirar-se-lhe ao pescoço. Nesse momento, Manuel quase se arrependeu do que fizera, pois aquelas mãos gordas pareciam especialmente treinadas para o estrangulamento de manuéis, tal era a força aplicada e a sensação de se estar a passar para o outro mundo.

De imediato, e como supusera Eyup, Maria já não rosnava, mas antes fazia tremer as fundações da própria cabana. Com as contorções hercúleas que imprimia ao corpo, arrancou o toro de madeira a que se encontrava algemada. As algemas cederam por completo e Maria atirou-se a Boris como um mastim a um urso. Só acalmou quando o Tio Boris caiu ao chão e adormeceu ao som de mil balalaicas.

-- Tira-lhe as chaves e abre-nos as algemas -- ordenou Manuel. Ela assim fez. -- Agora ficas aqui a guardá-lo até a gente voltar. Senta!

Manuel até se sentia bem naquele papel, ainda que uma pontinha de vergonha assomasse na consciência. Ela obedeceu logo. «Que autoridade!», pensou orgulhoso. «Her master's voice.» E saiu, com Eyup, em direcção à tenda onde se reunia o EuroGov.

Como não havia guardas foi fácil encostarem o ouvido às paredes de lona da tenda. Dehors acabava o prólogo ao seu discurso, o que se percebia pelo restolhar de pés no chão de terra, pelas canetas tamborilando no tampo de fórmica da mesa, e pelo ressonar de um ministro grego que sempre adormecia àquela hora.

«... é pois de uma verdadeira viragem histórica que vos estou a falar. O plano consiste na criação, em cada um dos actuais postos, de pequenas cidades controladas pelo EurExército, supervisionado pelo Protector aqui presente (aplausos para Fischer). As hordas bárbaras que ainda sobrevivem às suas chacinas fratricidas serão desarmadas e conduzidas para estas urbes novas, onde se poderão dedicar à agricultura e à criação de gado. Nada como as estepes russas para tal actividade. E nada de tão precioso para a nossa União, tão carenciada de géneros agrícolas e de carne sem contaminações e doenças e não podendo importar do resto do mundo em desagregação.

«Em breve, às hordas russas juntar-se-ão os magrebinos aprisionados nas suas tentativas de imigração ilegal, bem como os que teimam em guerrear-se nos Balcãs ou na Ásia menor, ou ainda os extremistas do EuroCepticismo que aqui poderão aprender o que custa construir uma sociedade a partir do nada. Todos estes grupos poderão, aqui, levar por diante uma vida produtiva e sã. Está historicamente provado, já desde os Euro-Descobrimentos, que a missão da Europa é ser protectora destes povos, destes desvalidos, destes desviados que perderam o norte. Aqui se criarão cidades ordeiras, rodeadas de campos férteis. Para tal, os nossos Técnicos têm estado a preparar um sistema de educação novo, pelo que estimamos que dentro de uma geração só se falará Noidoitx nas terras russas. Estamos prestes a começar as primeiras experiências, nalguns postos, com a chegada de um contingente de tunisinos aprisionados pelo Fortaleza Europa e com o aprisionamento de uma horda de ucranianos que está disposta a render-se e a contribuir para a construção da Europa de amanhã e...»

Os aplausos começavam já a ouvir-se. Não fora difícil convencer os ministros. Tinham-lhes prometido um passeio de helicóptero para observarem a situação. E, afinal de contas, tratava-se de um plano de salvação do Leste, de um gesto benemérito e solidário. Tratava-se de levar a civilização aonde ela teimava em não medrar. Eyup é que não gostou nada do que ouviu.

-- Não gosto nada disto -- disse.

-- Mas o que é que vem a ser isto ao certo?

-- Campos de concentração, é só.

Manuel engoliu em seco. Eyup parecia estar a pensar no que fazer. De repente ergueu-se:

-- Vamos, a reunião deve estar prestes a acabar.

-- Vamos aonde?

-- Vamos embora. Fugir daqui!

-- Outra vez? -- foi só o que ocorreu a Manuel dizer.

-- E tantas quantas forem precisas. Se formos já, não nos vêem e podemos saltar o farpado que ainda não está magnetizado. Só temos que rezar por uma coisa: que a nEuroSugestina ainda esteja a brincar com os miolos da Maria.

Parecia que sim. Foram encontrá-la sentada em cima da massa adormecida do Tio Boris, que em breve teria de dar umas tantas explicações a Klaus Fischer. Enfim, os dilemas de ser um intermediário. Maria sorriu ao ver Manuel e perguntou-lhe onde tinham estado.

-- Isso agora não interessa. Vamos embora -- ordenou Eyup. Maria nem sequer se mexeu.

-- Manuel, tens que ser tu a dizer...

-- Ok, Maria!, vamos embora!

Imediatamente, a jovem levantou-se. Para ela, Eyup era um camarada, mas Manuel era quem mandava lá em casa. O facto já começava a dar náuseas a Manuel, que julgou ver em Maria a língua ligeiramente de fora, acompanhada de um leve arfar canino. Puseram-se em marcha até ao arame farpado. Com a ajuda dos ombros de Maria, não foi nada difícil saltarem-no. Mas uma vez lá fora foram acometidos pela angústia própria do prisioneiro evadido: para onde ir? O mundo exterior parece por momentos mais angustiante do que o mundo confinado, sobretudo quando nunca se esteve na Rússia.

-- Estás a ver aquela coisa meio redonda lá ao fundo, com um bico como um suspiro? -- perguntou Eyup.

-- Aquela espécie de mama? -- retorquiu Manuel, referindo-se a uma das cúpulas de igreja da Praça Vermelha.

-- Isso. Vamos nessa direcção. Depois logo se vê.

Quando o Protector Fischer descobriu o Tio Boris gemendo na cabana dos prisioneiros, não reagiu com especial brutalidade. É certo que imediatamente lhe comunicou que seria o primeiro russo a pegar numa enxada e numa mão-cheia de sementes de batata quando o Plano entrasse em funcionamento, mas não mais do que isso. Estava demasiado contente com a facilidade com que decorrera a reunião. Tinham votado e tudo. E aprovado o plano com maioria, apenas com a abstenção dos ingleses e dinamarqueses, o que evidentemente não constituía qualquer espécie de ameaça ao sucesso do plano. Assim como achava que os EuroCépticos não conseguiriam jamais destruir o avanço da União. Os portugueses foragidos eram amendoins e quando muito só gostaria de os apanhar por vingança pessoal, uma espécie de obsessãozinha muito sua e particular. Sobretudo, sabia uma coisa muito mais importante: que os portugueses não tinham qualquer hipótese de escapar lá fora. Não por causa das radiações que ainda se sentiam dos desastres das centrais nucleares russas anos atrás; não por causa das hordas bárbaras; não por causa da possibilidade de virem a encontrar EurExércitos na sua distribuição de armas (que em breve passaria a ser «Recolecção de Populações Disseminadas»); nem sequer por causa do excesso demográfico de roedores e parasitas. Não. É que, temendo a eventualidade de uma fuga deste tipo, ele, o R.E.I.C.H. unde Europeixe Gamainxafte Uber Protektor TGP A50 Klaus Fischer (como adorava o título que desejava vir a ter um dia), havia dado uma dose de nEuroSugestina a Maria Silva que a faria reagir de forma letal contra os dois portugueses assim que se afastassem um certo número de quilómetros do Posto 1.

Klaus Fischer só não sabia que havia dado a quarta dose da droga a um cérebro em avançado estado de decomposição.

Episódio 10
EuroCépticos e outros bárbaros

Começava a ficar escuro. Mesmo escuro. O que não admirava, já que o abastecimento de corrente eléctrica na Rússia era coisa do passado. Atravessavam agora o que fora em tempos o Parque Gorki, com os candeeiros ainda intactos, mas não emitindo qualquer luz. De facto, as ruínas são a última coisa a desaparecer. Caminharam através dos relvados ressequidos em direcção às cúpulas do Kremlin. A esperança secreta de Eyup era encontrar alguém que os ajudasse a fugir dali; sabia da existência das hordas de bárbaros e do facto de estes serem nómadas, o que poderia significar acompanhá-los, como quem apanha uma boleia, nas suas deambulações. De preferência para sul, já que Eyup, como todas as pessoas assustadas, acalentava o desejo de voltar a casa, e isso para ele era o Sul. Como as cegonhas. Pelo menos lá as coisas eram suficientemente confusas para poderem imiscuir-se na populaça anónima e reconstruírem a sua vida sem serem detectados pela EuroPol.

Por sua vez, Manuel já começava a sentir-se cansado de tanto movimento. Por breves instantes chegava a desejar ser outra vez prisioneiro nas ilhas Faroé, onde pelo menos podia dormir, comer e ter por único problema escapar às aproximações de Klaus Fischer. A única contrapartida do presente era ter (por enquanto) uma eficiente serviçal na pessoa de Maria. Assim, quando saíram do bosque de bétulas e começaram a entrar nos subúrbios da cidade, lembrou-se de lhe pedir -- ou ordenar -- que lhe pegasse ao colo. Ela assim o fez, obediente, e assim foi que a primeira visita guiada de Manuel a Moscovo foi feita num confortável autopulman humano, em excelentes condições pneumáticas.

Moscovo estava uma lástima. Não que eles alguma vez tivessem visto a cidade de outra forma. Mas era bem pior do que as descrições que tinham lido no passado, pois os prédios eram tão-somente fachadas, sem nada no interior. Pelas ruas havia lixo, poeira, escombros, cadáveres e carros em avançado estado de decomposição. Não se via vivalma, e o cheiro a ranço trazia agradáveis reminiscências olfactivas de Lisboa. O instinto levou-os directamente à Praça Vermelha -- um enorme espaço vazio onde não se sentiam nada seguros, sobretudo se algum helicóptero a sobrevoasse à sua procura. Por isso Eyup teve a ideia de se abrigarem num sítio conhecido, partindo do princípio de que se alguma horda selvagem andasse nas imediações passaria por certo pelo centro da cidade. Afinal, os velhos hábitos custam a morrer. Vai daí, não lhe foi difícil descobrir o túmulo de Lénine. Ao contrário do que o banco de dados da sua memória pessoal lhe dizia, não havia guardas a marchar em passo de ganso.

Anicharam-se numa das reentrâncias do mausoléu. Maria depositou Manuel gentilmente num dos degraus, e os três suspiraram de alívio. Tinham pelo menos conseguido chegar a um sítio que já conheciam.

-- Bem, pelo menos este sítio já conhecemos -- gracejou Manuel.

-- Tens razão. Parece impossível que ainda há umas dúzias de anos isto fervilhasse de gente.

Era evidente que já não fervilhava. Mas, como em todas as ruínas, fervilha toda uma vida subterrânea que não é detectável à vista desarmada. Gente que se esconde, que espera, que espreita, que sai à luz do dia em rápidos e eficazes raids, sempre com um propósito definido. Por isso sentiram os pêlos do pescoço eriçarem-se quando ouviram um sussurro de vozes. Vinha do outro lado do mausoléu. À medida que os décimos de segundo passavam, o som das vozes tornava-se mais audível. Manuel esboçou um gesto de se levantar, convidando os companheiros à fuga. Mas Eyup fez-lhe sinal com a mão para que se sentasse de novo:

-- Chiu! Ou me engano muito ou estão a falar dinamarquês!

-- Dinamarquês, aqui? Não devia ser russo?

-- Pior era se fosse Noidoitx, aí sim, eram os nossos perseguidores. Mas se é dinamarquês...

Eyup parecia estar a ter pensamentos auspiciosos. As vozes ouviam-se agora como do outro lado de um telefone do século anterior. Não havia dúvidas, falavam dinamarquês, o que era fácil reconhecer depois da estadia nas Faroé. Subitamente, a esquina foi dobrada por duas figuras gigantescas, de cabelos quase brancos de tão loiros, um homem e uma mulher dos seus sessenta anos. Falavam entre si como dois sábios no intervalo de uma convenção, com as mãos atrás das costas. Envergavam batas brancas, se bem que muito sujas, e tinham o inevitável ar de quem não se apercebia de estar num local perigoso. Eram intelectuais.

Ao vê-los não se lembrou de melhor gesto do que o de levantar a mão em sinal de paz. Ainda foi a tempo de evitar dizer «ugh!», mas de qualquer maneira a situação era digna de um clássico de Hollywood antemilénio. A mulher, que parecia a famosa Ingrid Bergman com velhice precoce, estacou o passo e travou o andamento do colega, que se perdia numa teoria qualquer:

-- Olhe, Hans, estranhos.

O dito Hans ajustou os óculos hipergraduados e olhou desinteressadamente para os três fugitivos. Não lhes dirigiu palavra, mas antes à colega:

-- Minha cara Gretta, diria que não são russos.

-- Pois não, ainda não têm os cabelos suficientemente compridos. Além disso, estão a fazer-nos sinais de paz, em vez de nos darem uma paulada. Serão dos nossos?

-- Mas não parecem escandinavos. Nem sequer ingleses...

-- Bem, ela é mais ou menos loura... Mas já se sabe, hoje em dia... É como os óculos, já não se vê ninguém de óculos a não ser você, meu caro Hans. Agora eles, são francamente morenos. Um deles apresenta mesmo traços significativos de melanodermia. Diria que...

Eyup já tinha baixado a mão e começava a irritar-se com a conversa:

-- Ora, parem com isso -- disse em Noidoitx --, somos fugitivos do Posto 1, somos portugueses e presumo que vocês não são de uma horda bárbara.

Os outros riram-se muito. Particularmente Gretta, que pareceu achar divertida a possibilidade de ser confundida com uma bárbara.

-- Não, não, não. Eu sou Gretta Jansen, Técnica de Comunicação Intercultural (o que antes se chamava antropóloga) e este é Hans Jansen, Técnico de Engenharia Bioquímica. E os senhores são?

Prosseguiram as apresentações, num estilo digno de lobby do Hotel EuroMeridien em vésperas de congresso científico. A situação ficou esclarecida, e os dinamarqueses pareceram apreciar muito a pequena história que Eyup lhes contara.

-- É um prazer encontrá-los -- disse Gretta. -- Nós próprios fugimos do Campo. Não do Posto 1, não, mas do verdadeiro Posto 1.

Eyup pressentiu que o enredo da história estava prestes a complicar-se ainda mais.

-- Não me poderão explicar isso direitinho? É que já passámos por tanta coisa...

-- Oh, com certeza, será um prazer -- prestou-se logo Hans Jansen. -- Sentemo-nos no interior do mausoléu e contar-lhes-emos tudo. Oh, não tenham receio, há muito que venderam a múmia do Lénine no mercado negro.

Os dinamarqueses eram muito simpáticos. Traziam bolachinhas do exército nos bolsos das batas e prontamente as ofereceram aos três esfaimados. Eyup explicou-lhes toda a sua história, enquanto deglutia bolacha atrás de bolacha. A antropóloga sentou-se com manifesta falta de graciosidade no suporte de mármore que outrora servira de leito ao caixão de Vladimir Ulianov. Hans imitou-a. Já dispostos a tudo, os três portugueses sentaram-se no chão, em semicírculo, invadindo-os uma pacificadora sensação de regresso ao jardim infantil. Iam ouvir um conto de Andersen, e nada fazia melhor à alma. Gretta começou, com maternal enlevo:

-- Hans e eu fomos recrutados para trabalharmos em xeno-antropologia e xeno-bioquímica, pois foi-nos dito que o programa de colonização espacial poderia levar ao encontro com seres de outros mundos. Quando nos apercebemos de que não havia plano de colonização espacial nenhum foi-nos comunicado que estávamos a trabalhar num plano secreto de colonização da Rússia e do Leste europeu. Eu deveria propor estratégias adequadas à manipulação das crenças e comportamentos dos eslavos, de modo a maximizar o seu potencial para o trabalho agrícola e a obediência aos EuroCratas. Percebi logo que se tratava de escravatura pura e simples. Revoltei-me imediatamente. O Hans, com quem vivo maritalmente há vários anos, teve a mesma atitude. Hans, meu caro, quer explicar-lhes?

-- Certo. Como bioquímico, trabalhei em Viena, com os meus colegas austríacos na elaboração de uma droga chamada nEuroSugestina, cuja aplicabilidade fora prevista para os doentes mentais. Tratava-se de um simples agente facilitador da hipnose. Acontece que um certo indivíduo chamado Klaus Fischer se apercebeu do potencial político da droga. Foi por isso que me pressionou a melhorá-la, no sentido de se tornar uma droga de efeito definitivo, isto é, que tornasse possível a alteração da personalidade para sempre! Uma monstruosidade! Recusei-me, como é evidente. A partir daí o nosso destino estava traçado: enviaram-nos para a Rússia, para o Campo n.º 1 e...

Eyup estava em pulgas. Havia-as ali em quantidade desde que a múmia fora retirada.

-- Muito me conta. A nEuroSugestina é uma nossa velha conhecida. E o aumento de potencial, descobriu-o?

Hans olhou cabisbaixo para o chão e sussurrou:

-- Sim. E eles ficaram com as poucas pílulas de ensaio que produzi, antes de fugirmos do Campo.

-- Deixem-me que vos explique o que é o Campo n.º 1 -- interrompeu Gretta. -- O Posto em que vocês estiveram é uma obra de fachada. Descobrimos que Klaus Fischer, o Presidente Dehors, alguns ministros franceses e portugueses estão de acordo com o abominável Plano do Novo Mundo. Mas há muitos que são cépticos. Daí que eles tenham estado sempre a jogar ao gato e ao rato. Como você disse, deram a entender aos outros que tudo dependeria do seu aval, quando na realidade o Plano já está a funcionar! Precisamente no Campo n.º 1!

Manuel e Eyup, que até aí não tinham ouvido nada de particularmente novo à parte a história da droga, sentiram um arrepio na espinha. Só Maria não sentiu nada, pois uma multidão de nuvens começava a invadir-lhe a consciência. Eyup interveio, perguntando-lhes como era o Campo.

-- Um verdadeiro gulag: aprisionaram duas hordas, uma de bielorussos e outra de ossetas do Norte. Puseram-nos a trabalhar dezoito horas por dia nas plantações de beterraba. Dormem em imensos dormitórios onde toca ininterruptamente a Ode à Alegria. Um grupo de controlo está mesmo a ser tratado com nEuroSugestina para se tornarem em obedientes e servis... neurocidadãos, falando só Noidoitx e tendo como literatura unicamente livros de normas da União. Um horror. Numa outra secção do campo encontram-se prisioneiros, puros e simples: japoneses encontrados nas fronteiras orientais e acusados de espionagem, muçulmanos do Sul, presos políticos que já não cabem nas Faroé e... EuroCépticos.

-- Por que hesitou em dizer EuroCépticos? Vocês também são, não são?

-- Com certeza! -- retorquiu Gretta. -- É que os EuroCépticos estão na primeira linha das cobaias para a nova nEuroSugestina. Conseguimos escapar por um triz ao tratamento e viemos juntar-nos aos outros que por aí andam.

-- Por aí? Quer dizer, em Moscovo?

-- Nem mais. A maior concentração de EuroCépticos está neste momento em Moscovo: a maioria no Campo, é claro, mas uns poucos, como nós, nas caves de um edifício que serve de esconderijo. Mas os verdadeiros líderes estão no Campo. As instruções que você recebeu para ir a Malta devem ter sido das últimas que eles emitiram antes de terem sido presos.

-- Bem me pareceu que andava a trabalhar para o boneco... Mas, onde é o edifício? Por que não vamos já para lá?

-- Vamos, sim, era isso que vos ia propor. Venham, então. Estamos nas caves da Academia de Ciências da URSS. Ou da Rússia. Ou sei lá do quê....

E, na calada da noite, deixaram o mausoléu em direcção ao covil EuroCéptico.

O covil era-o de facto: uma cave malcheirosa, com umas vinte e tal pessoas dormindo pelos cantos e outras conversando em pequenos grupos. Todos falavam inglês entre si, pois era um grande pecado comunicar em Noidoitx. O teor das conversas assemelhava-se em tudo ao dos dois dinamarqueses: discutia-se o futuro da Europa, os direitos do Homem, o totalitarismo, mas ninguém parecia preocupar-se com a comida, que era preciso arranjar, em desespero de causa, caçando ratos. Tão-pouco pareciam falar de planos de fuga. Em suma, parecia um congresso. Hans e Gretta fizeram as apresentações. Ninguém pareceu particularmente entusiasmado com os recém-chegados. Discutia-se acaloradamente se os valores morais dos ortodoxos resistiriam mais ao Plano do Novo Mundo do que os dos católicos e protestantes. Eyup dirigiu-se a Gretta:

-- E não fazem planos sobre o que fazer?

-- Que fazer? Sim, que fazer? Uma velha pergunta, por estas bandas. Estudar, estudar, estudar!, é a resposta que a maioria dá. Sabe, nós não somos pessoas de acção. Mas estamos à espera que as hordas lancem o caos geral, para depois podermos fugir com elas. Não sabemos para onde, mas talvez para oriente, até encontrarmos os japoneses. Ouvimos dizer que são muito compreensivos e que nos dariam trabalho nas suas instituições de investigação, com óptimos subsídios.

A ingenuidade da antropóloga quase que provocou o riso de Eyup.

-- Quer dizer que têm contactos com as hordas?

-- Sim, mas só com uma, a mais civilizada, sabe? São os Aparatchik do Urso Branco, uma tribo constituída há pouco. Vestem fatos azuis completos, gravata, e sabem manter uma boa conversa. Estão a preparar um Grande Êxodo para a Sibéria, mas ainda não ganharam a coragem suficiente. Parece que alguns dos líderes têm um qualquer terror subconsciente em relação à Sibéria. Mas, que diacho, se querem chegar ao Japão têm de passar por lá, não é? Estamos à espera de ter ordem de marcha a qualquer momento, no entanto.

A conversa foi interrompida por um grito lancinante. No chão, Maria rebolava como uma possessa e espumava da boca.

-- Céus, que tem ela? -- perguntou Hans.

-- Três doses de nEuroSugestina em cima, é o que é -- retorquiu Manuel.

-- Três?! -- urrou Hans. -- Mas que loucura! Um psiquiatra! Há aqui um psiquiatra?!

Não havia. Hans prosseguiu:

-- Temo, meus amigos, que não haja grande coisa a fazer! O cérebro dela entrou em qualquer coisa de muito parecido com a fusão nuclear. É irreversível. Esperemos apenas que o ataque passe.

De facto, cinco minutos depois, Maria estava de novo mais calma. Isto é, entrara num estado vegetal praticamente comatoso. Olhava fixamente para um dos cantos da cave onde se encontrava encostado à parede um ícone com a imagem de Nossa Senhora coçando a barriga do menino Jesus.

-- Maria, ouves-me? -- ainda tentou Manuel.

Mas ela não ouvia. Nem lhe obedecia. Estava absolutamente letárgica. E com o cabelo com mais madeixas escuras.

-- É provável que fique assim umas horas -- acrescentou o bioquímico. -- Depois entrará numa nova personalidade, só que não se pode saber qual será. Pelos sintomas, dá-me ideia que alguém lhe deu uma quarta dose.

-- Fischer! Só pode ter sido -- concluiu Manuel.

-- Não me espantava. Resta saber que mensagem hipnótica lhe implantou. Mas fosse qual fosse não vai surtir o efeito desejado, pois ela já tem um autêntico smorgjasbord de informação lá dentro.

-- Pois, uma sopa de pedra.

-- Pois, um goulash.

-- Pois, um cozido à portuguesa.

-- Esperemos para ver. Entretanto, convirá vigiá-la. Nunca se sabe. Bem, meus amigos, se quiserem dormir, acomodem-se. Amanhã temos uma reunião com o Grande Chefe dos Aparatchik. São bem-vindos, se quiserem participar.

Eyup anuiu com a cabeça e, discretamente, puxou Manuel para o lado:

-- Que desilusão! Estes EuroCépticos são um bando de bananas. Pensei que fossem todos como o meu pai, Oliveira da Figueira, ou como nós, claro.

-- Estás a desconfiar deles?

-- Não sei... Mas também essa horda dos Aparatchik não me diz nada. O que é certo é que o meu dedo mindinho diz-me que não é por aqui que a gente se safa.

-- Mostra lá o teu dedo mindinho -- sussurrou Manuel, com doce malícia. Pegou no dedo de Eyup e levou-o ternamente à boca.

-- Aqui não, Manuel, os cientistas são uma gente muito susceptível. Pode mesmo haver aí algum psicanalista.

À parte o ronronar académico de alguns EuroCépticos, não se dormia mal na cave da Academia. Maria continuava calma, olhando para o ícone ortodoxo. Manuel dormia. E Eyup tentava recapitular os acontecimentos desde Lisboa. Era uma tarefa difícil, uma salganhada de episódios, mas por isso mesmo ajudava a adormecer. Quando por fim se abandonou a Morfeu, começou quase imediatamente a sonhar que estava num barquito de clandestinos do Magrebe e que a sombra gigantesca do Fortaleza Europa aparecia, enegrecendo a casca de noz. Ouviam-se os gritos de súplica a Alá, mas também a gritaria histérica dos soldados do EurExército. Muito depressa o sonho começou a ficar demasiado vívido, a gritaria era tal que quase o acordava. O facto intrigava-o, pois não se lembrava de um sonho fazer barulho ao ponto de acordar quem o sonhava. Quando acordou deveras é que se apercebeu de que não tinha sido acordado a partir de dentro, mas sim de fora.

Na cave escura o pandemónio era indescritível. Os EuroCépticos corriam de um lado para o outro gritando babilonicamente nas suas línguas nacionais. Tudo somado, parecia uma gritaria bárbara. Mas havia também gritos verdadeiramente bárbaros, e tambores que rufavam, e o silvado de espadas no ar e sons metálicos como caixotes do lixo rolando na calçada. De facto, uma enorme tampa de caixote do lixo, indubitavelmente de fabrico soviético, quase que tapava a cara de Eyup. Ao lado, o brilho de uma espada suspensa no ar. Quando os olhos se habituaram à escuridão, Eyup conseguiu ver uma cara coberta de pêlos e duas longas tranças louras. A face, transfigurada por um esgar mais de urso que de humano, urrava sons incompreensíveis. O colosso agarrou-o pelo cinto das calças e elevou-o com a maior das facilidades. Conseguia ouvir Manuel gritando por ele, mas de Maria nem pio. Nem pó.

O homem arrastava-o consigo para a saída. Tratava-se evidentemente de uma horda bárbara, pelo menos uns cinquenta estavam ali presentes jogando um autêntico jogo de computador violento com os EuroCépticos. Mas de certeza não eram os Aparatchik, pois em vez de fatos de burocratas vestiam fatos-macaco, maillots de culturistas, peles de urso de artista de circo, uniformes do Exército Vermelho no tronco e tutus do Bolshoi da cintura para baixo, e mil e uma outras misturas de restos e dejectos da alta-costura tardo-soviética.

Tão-pouco parecia haver espaço e vontade para o diálogo. Lá fora, para onde levavam os portugueses e alguns EuroCépticos, o sol começava a iluminar as ruínas de Moscovo. Na rua, os bárbaros saltavam para a garupa de toda a espécie de animais, provavelmente roubados ao extinto Jardim Zoológico. Pareciam ter uma predilecção por avestruzes, camelos e elefantes, não descurando alguns prosaicos cavalos. Eyup foi içado para o lombo de um elefante pelo seu captor, e este berrou um sinal que pôs a coluna em marcha. Ainda teve a presença de espírito de olhar para trás e certificar-se de que Manuel e Maria também vinham. Teve uma fugaz sensação de alívio ao confirmá-lo, mas nada que se comparasse à sensação de desmaio que teve quando o bárbaro lhe aplicou uma valente cabeçada. Sentiu-se enviado sem pena nem agravo para a recordação da casa dos mortos.

Quando despertou ainda se avistavam ao longe as torres do Kremlin, o que só podia querer dizer que estavam ainda em Moscovo. Este tipo de raciocínio era o máximo que conseguia elaborar. Via as torres através duma janela, o que significava que estavam dentro de um edifício. Só que dentro do edifício se encontravam também os animais, e com estes todos os produtos das suas variadas actividades gastrointestinais, digestivas e metabólicas. Mesmo assim, o cheiro não conseguia sobrepor-se ao das centenas de homens, mulheres e crianças que por ali deambulavam, ou se sentavam em torno de fogueiras de bosta de camelo, ou se catavam mutuamente os piolhos. Era uma horda, sim senhor. A sala onde estavam era enorme. Mas o som de vozes indicava que muitas outras salas estariam igualmente cheias de gente. Falava-se russo por toda a parte. Para lá da ombreira da porta principal, vinham os sons de «AAAHHHS!» e «OOOHHHHS!» prolongados, como se uma audiência estivesse a assistir a algum espectáculo místico. Como ninguém parecia prestar-lhe atenção, levantou-se e dirigiu-se para o sítio de onde vinham os sons. Encostado à porta de acesso a essa outra sala estava Manuel, aparentemente de boa saúde. Quando viu Eyup, sorriu afavelmente:

-- Ah, já acordaste. Estás bem?

-- Creio que sim. Onde é que estamos?

-- Pelo que vejo escrito nas portas, foi em tempos a sede de uma coisa chamada KGB.

-- E quem é esta gente, descobriste?

-- Ah, sim -- Manuel parecia inacreditavelmente descontraído. -- São uma horda. Chamam-se Babars. Giro, não é? Estou aqui a assistir a um belo espectáculo, só te digo.

-- Não percebo porque é que não nos ligam nenhuma, depois de nos terem raptado...

-- É simples, vem ver.

Eyup espreitou por cima do ombro do amigo. A sala estava cheia de gente, ordeiramente sentada no chão. Olhavam embevecidos para duas figuras em cima de uma mesa que botavam um discurso inflamado, embora contido. Havia naquilo tudo uma aura religiosa grave, mais ayatólica que católica. De facto, uma das figuras em cima da mesa era um velho, vestido com um fato de treino de uma equipa olímpica, longos cabelos entrançados e, na cabeça, um enorme chapéu de vendedor de coca-cola, com o nome da arqueológica multinacional escrito em caracteres cirílicos. Na mão tinha um cartão Visa que ostentava como um símbolo de poder. Ao lado dele, uma mulher vestida dos pés à cabeça com o mais bonito vestido Dior -- por certo uma relíquia roubada de um museu -- que Eyup jamais vira. Manuel dava risadinhas contidas, esperando que Eyup descobrisse. E Eyup descobriu. Descobriu que se tratava de Maria.

Maria passara-se definitivamente para o outro lado. Ostentava, à frente do peito, um ícone de Nossa Senhora, e discursava, num russo perfeito. Discursava sobre como havia sido escolhida por Nossa Senhora para trazer de novo à Rússia o seu esplendor de antanho e que a missão divina de Todas-As-Hordas-de-Todas-As-Rússias era atravessarem a Europa até ao ponto mais ocidental, o cabo da Roca e, aí, unirem-se ao povo eleito dos portugueses e construírem o Quinto Império, onde todos seriam felizes, onde não haveria Campos e onde o Menino Jesus reinaria sentado ao colo dela, Maria A Eleita e Czarina dos Babars. Discursava inflamadamente já que, segundo dizia, o Quinto Império conquistar-se-ia com o sangue e a espada e com ela à frente dos exércitos não haveria derrota mas só vitórias para os bravos, mas não haveria lugar para os frágeis EuroCépticos que só pensavam com a razão, nem para os colaboracionistas Aparatchik que estavam feitos com os ateus e por aí fora, sem parar.

-- Diz-me que estou acordado -- implorou Eyup.

-- Estás. Não é divertido?

-- Não sei. Achas que eles estão a acreditar nela?

-- Ora, o mais possível. Se estivesse aqui a Gretta dizia-te que chegou o Desejado. Ou a Desejada. Acontece com todos os povos. Os milhões de estátuas de Jean Monet e de Robert Schuman que enxameiam a Europa, e apesar dos seus nomes não-Normalizados (ou graças a isso), nunca terão a força mística desta junkie da nEuroSugestina -- e riu-se, descaradamente.

-- E será que ela nos reconhece?

-- Graças a Deus, não. Há pouco falei-lhe e tudo o que fez foi dar-me a mão a beijar. Vê só! Ainda bem que não nos conhece, senão ainda éramos nomeados pastorinhos ou coisa parecida...

-- E o que é que eles estão a planear fazer? -- Eyup ainda se sentia estremunhado com as novidades.

-- É por isso que estou contente. É que pode ser a nossa oportunidade de fuga. Estão a planear um ataque em massa ao Campo. Mas antes, vão fazer uma razia ao Posto 1. E o que é que há no Posto 1?

Eyup pôs os neurónios a funcionar:

-- Um avião?

-- Exactamente. À nossa espera. Pela parte que lhes toca, Maria e os Babars só querem é espezinhar aquilo tudo e ala para Kiev, Varsóvia, Berlim, Bruxelas, Paris, Madrid e Lisboa. E cabo da Roca, claro.

-- Mas porque querem ir ao Posto 1?

-- Não estás a ver? A nEuroSugestina deu tudo trocado na cabeça dela. Ela quer o Fischer. Quer a cabeça dele. Numa bandeja, de preferência, para dar um toque mais bíblico.

Episódio 11
Na alvorada do Quinto Império

Hans e Gretta eram a imagem de um bioquímico e de uma antropóloga deprimidos. Gretta, porque se sentia mal entre os Babars, quando a ética profissional lhe dizia que devia estar a gostar da oportunidade de fazer trabalho de terreno. Hans, porque não conseguia deixar de se sentir culpado por ter desenvolvido a nEuroSugestina. Eyup foi encontrá-los sentados a um canto, tentando afastar algumas crianças Babars que com eles queriam brincar, mas cujo cheiro ultrapassava toda a tolerância humanista e todo o relativismo dos cientistas dinamarqueses. Gretta bem que esboçava uns sorrisos e tentava convencer-se da humanidade intrínseca das crias e o cérebro de Hans já congeminava como inventar um desodorizante com os poucos materiais de que dispunha. Eyup veio interromper o curso dos dilemas científicos:

-- Então, que acham dos Babars? -- perguntou com um sorriso, pois se Manuel estava a gostar, então ele faria por isso também.

Gretta sorriu como se tivesse posto duas molas da roupa nos cantos da boca. Felizmente a expressão de Hans não era visível através dos óculos graduados.

-- Uma oportunidade única na minha profissão: ver ao vivo a involução em vez da evolução, diria -- gracejou ela esforçadamente.

-- Eu diria mais: nunca cesso de me espantar com as mutações glandulares na natureza -- rematou Hans.

-- Pois bem -- prosseguiu Eyup, sentando-se a seu lado --, a mim parece-me uma gente com determinação. Já sabem que eles vão avançar por aí fora a todo o vapor e invadir a Europa?

Os outros disseram que sim com a cabeça. Também tinham ouvido o discurso do Grande Cão Babar e de Maria, A Desejada. Mas Hans ergueu as mãos numa expressão de impotência:

-- Não creio que consigam passar da fronteira polaca. O EurExército esmaga-os.

-- Sim, não duvido -- disse Eyup.

-- Porém, a questão não é essa -- e Gretta franziu o sobrolho. -- Há uma questão ética e política que me leva a discordar do plano deles: o uso da violência. Mesmo contra o Plano do Novo Mundo. Creio que o que eles querem mesmo é pilhar: videofones, computadores, máquinas de cortar relva, refrigerantes, fechos éclair, velcro. O sonho do Ocidente, em suma.

-- Talvez tenha razão. Mas é uma oportunidade única para desestabilizar. Às vezes é preciso um pouco de irracionalidade -- discordou Eyup.

Gretta e Hans não gostaram. A antropóloga disse:

-- Não e não. Nós os EuroCépticos achamos que tudo tem de ser discutido no Parlamento e com processos democráticos que...

-- Mesmo depois do que vos fizeram? -- espantou-se Eyup.

-- Ora, nós os cientistas sempre fomos manipulados. E incompreendidos. Temos de perceber que, historicamente... olhe, o Galileu, por exemplo.

Eyup começava a irritar-se:

-- Quer dizer que os EuroCépticos só sabem ficar-se pelas meias-tintas?

-- A escolha de palavras é sua, meu caro amigo -- retorquiu Hans. -- Eu lembrá-lo-ia de que nós só podemos fazer o nosso trabalho dentro de instituições e diria que, como tal...

«Com que então era isso», pensava Eyup, irritado, enquanto o outro demagogava no futuro condicional. «Criticam e fogem quando se sentem apertados, mas um dia voltam ao redil, quando o governo der umas garantiazitas no papel, mesmo que não as respeite depois.» Entretanto, Hans continuava:

-- ... porque, repare, a Constituição da União é bem explícita na defesa dos direitos humanos e afinal foi na Europa que o Humanismo surgiu e o Estado de Direito não pode...

Eyup desistiu. Afagou a cabeça duma criancinha, pegou nela ao colo e sentou-a sobre as pernas de Hans. Este deu um guinchinho mal contido: a criança agarrou-lhe os óculos, atirou-os a uma outra e estes passearam pela sala do KGB como um frisbee numa praia em dia de Verão.

Abatido com a cobardia dos EuroCépticos, nauseado com o cheiro da criança, deprimido com o imediatismo dos Babars, cansado de tantas andanças, Eyup só pensava em fugir, talvez voltar a Lisboa, levar uma vida normal. Mas seria isso possível? Por certo não. Por isso, não valia a pena fazer planos a longo prazo. Interessava, sim, pensar no próximo passo a dar. Seguir a cruzada dos Babars pela Europa fora estava fora de questão, pois seriam apanhados. Pobre Maria, já a via acabando os seus dias num hospício prisional. A não ser que ele e Manuel a levassem consigo. Foi então que decidiu que a melhor estratégia seria acompanharem a horda no ataque ao Posto 1, apoderarem-se de uma arma e tomar de assalto o avião. Mas seria um acto de caridade levar com eles Maria, o que implicava ter que trair também os Babars. A vida era uma coisa difícil e implicava terríveis decisões.

O ataque ao Posto 1, levado a cabo de madrugada, teria feito corar de vergonha os bandos ovimbundus e líbios dos subúrbios de Lisboa. Não se tratava de um ataque organizado, com estratégia e distribuição táctica das forças no terreno. Eyup suspeitava de que os chefes nem sequer haviam conferenciado sobre o ataque. Bastava-lhes tão-somente terem Maria, A Desejada, à frente das tropas e, no restante, que os santos ícones lhes valessem.

Foi de facto assim. Se alguma réstia de estratégia havia, ela baseava-se na imensa superioridade numérica. Os Babars juntaram para cima de dois mil homens e mulheres para atacarem um posto com uma centena de soldados. Ironicamente, foi por isto mesmo que o ataque resultou, pois o inimigo número um da União sempre fora o Número, a superioridade demográfica. Palavras como horda, turba, tribo, massas, mole, eram das mais aterradoras para o imaginário europeu, onde já ninguém se reproduzia e toda a gente se fechava na sua quinta europeia rodeada por todos os lados de povos cuja principal actividade parecia ser a multiplicação da espécie.

A barreira electromagnética foi coisa fácil de ultrapassar. Uma vez chamuscados os primeiros cem corpos de Babars, já não havia corrente que a alimentasse. Esta lógica do sacrifício de alguns pelo colectivo apanhava sempre de surpresa os europeus. Quer dizer, à excepção dos alemães, mas ali o único alemão era Klaus Fischer. Depois, a vaga humana passou por cima da barraca que os portugueses haviam construído, trucidou a tenda onde o EuroGov tinha reunido, passou a ferro a casa do chefe de posto e, graças a mais umas cinquenta baixas, acabou com as munições dos soldados, avançando para as casernas, que foram devidamente aplanadas, ceifando de caminho a pouco interessante vida das tropas croatas, lituanas e húngaras. Em suma, uma razia que não teria agradado nada a Hans e Gretta.

Eyup e Manuel iam no meio da turba. Fizeram os possíveis por não participar na chacina e por nunca estarem na linha da frente, mas não puderam evitar provar o sangue de quando em vez, passando por cima de alguns croatas mais incautos. O que não deixava de os espantar era a invulnerabilidade de Maria, por quem as balas pareciam passar ao lado, o que só inflamava mais a crença dos Babars na sua santa revelada, na sua senhora aparecida. Quando já não havia nada mais para destruir, restava, ao longe, o pequeno hélio-jacto em que Klaus Fischer e os portugueses tinham voado de Malta para a Rússia. A Eyup pareceu-lhe distintamente ouvir o som dos reactores começando a funcionar. Certamente Fischer e o Tio Boris estavam lá dentro, preparando-se para a grande retirada estratégica. Maria, à frente do seu já reduzido exército, como que farejava no ar o odor acre produzido pelas baterias solares do avião a ser posto em marcha. Se cheirava a civilização era porque lá devia estar o ogre que ela queria apanhar com as suas próprias mãos. Pelo menos foi assim que Eyup imaginou processar-se o raciocínio naquele neocórtex já pouco neo e cada vez mais post. Maria dirigiu-se para o avião como uma Mãe Coragem, ou uma personagem de Lorca, ou uma Catarina Eufémia, se se quiser. A porta do avião fechava-se já e ouviam-se distintamente os silvados do motor solar. Eyup puxava pelo braço de Manuel, conduzindo-os para uma posição em que não ficassem muito longe do aparelho.

Ao aproximarem-se do avião, os Babars estacaram subitamente. Não pareciam gostar nada daqueles pássaros metálicos. Não porque não os conhecessem, afinal não eram selvagens, tinham sido cidadãos russos até há pouco tempo. Era precisamente por isso que desconfiavam, pois haviam voado já na Aeroflot e sucedâneas e não queriam repetir a experiência. Assim, Maria avançou sozinha, com Manuel e Eyup atrás. Ainda temeram que ela os enxotasse, mas quando se virou para trás a ver quem a seguia, Manuel até se comoveu, pois ela sorria com um sorriso nada demente. Tinham autorização para a acompanhar, estava visto.

O avião começava a mover-se lentamente. Maria, com a força e a destreza que a caracterizavam nas duas últimas encarnações, atirou-se ao manípulo da porta. Por momentos parecia que ia ser arrastada pelo avião, porém a porta abriu-se subitamente. O aparelho imobilizou-se de novo. Com os Babars parados, lá atrás, Fischer não tinha muito medo. Apareceu à porta, empunhando uma pistola.

-- É aqui que nos despedimos, portuguezeca -- disse, muito chateado.

-- Não dispare! Ela é uma doente! -- implorou Manuel.

-- Ora, demente sou eu por te ter achado digno do meu afecto!

Como os alemães sabiam ser patéticos quando lhes dava para o melodrama! Até uma lágrima rolava pela face rubicunda do huno. Manuel sentiu uma náusea. Maria, que era louca mas não estúpida, aproveitou a fraqueza humana e aplicou uma destra cabeçada na zona mais íntima do alemão. A arma caiu. Eyup correu a apanhá-la. Já Maria puxava Fischer para a pista e começava a estrangulá-lo. Eyup sentiu uma vertigem, algo lhe dizia que não podia deixar Maria matá-lo, não aquela Maria tímida e simpática que conhecera em Lisboa.

-- Maria, não! -- gritou desesperado.

Ela olhou para ele e hesitou por momentos. Depois continuou a operação liquidatária. Eyup não tinha outra alternativa: apontou a arma à têmpora de Maria e disse, nervoso:

-- Larga-o! Olha que disparo mesmo!

Maria começou a chorar. Como um bebé. Ou como se uma personalidade antiga estivesse aflorando. Largou o pescoço do alemão, que agora implorava a Eyup que não o matasse.

-- Manuel, entra para o avião. Fischer, entre também, e não se atreva a fazer nenhum truque. Maria, entra tu agora.

Mas Maria não se mexia.

-- Então, Maria, entra...

-- Não queres vir? Para Lisboa? Descansar, começar de novo?

Altiva, de queixo erguido, disse:

-- O meu lugar é com os Babars! Tenho uma missão a cumprir e eles precisam de mim!

Lá atrás ouvia-se os russos aplaudindo e cantando o Kalinka. O momento era muito emotivo, mas Eyup não deixou de achar que Maria era, definitivamente, um caso perdido.

-- Então adeus, Maria. Tenho pena que tudo tenha acabado assim. E que eu tenha tantas culpas no cartório.

-- Vai, vai para a tua terra! Quando chegarmos onde a terra acaba e o mar começa, quem sabe não te nomearei grão-vizir!?

Eyup sentiu-se tocado e comovido. Grão-vizir...

-- Então adeus -- e saltou para o avião. Maria ainda disse, citando um resto de memória vindo de algum canto empoeirado do cérebro:

-- Alma minha gentil que te partiste... -- e o avião fez-se à pista.

Só quando saíram do antigo espaço aéreo soviético, e mais tarde russo, é que os ocupantes do aparelho recuperaram a calma suficiente para falarem. Klaus Fischer dava ordens ao piloto para seguirem a rota de Berlim. Aí Eyup insurgiu-se:

-- Creio que temos algo a discutir, Fischer.

O alemão olhou-o surpreendido:

-- O que é que poderemos ter a dizer um ao outro?

-- Uma coisa muito simples: salvei-lhe a vida. Deve-nos um favor. Além disso, quem tem a arma sou eu. Mas eu não quero usar o seu tipo de argumentos.

Klaus Fischer ficou silencioso durante um bom lapso de tempo. Mordeu os lábios e pareceu ficar mais suave e maleável:

-- Quais são os vossos termos?

Eyup suspirou de alívio:

-- Podia facilmente tê-lo matado ali. Ou ter deixado Maria fazê-lo. Mas acho que me resta alguma compaixão humana. O que lhe proponho é que nos leve para Lisboa, nos dê uma identidade nova e nos deixe partir para fora da União. Só isto. E já cedemos muito, pois não nos terá a contar tudo para os jornais.

Klaus Fischer pensou para com os seus botões que a última ameaça era de morrer a rir. Mas disse:

-- Muito bem, acho que o sentido de honra alemão não vos desiludirá. Piloto, rota de Lisboa!

Manuel até se deu ao luxo de gritar um «hurra!». Atrás de si ouviu um grito assustado. Virou-se e viu o Tio Boris, que devia ter estado a dormir durante todo o atribulado processo da fuga.

-- Tio Boris! -- exclamou Manuel.

-- Tio Boris?! -- ecoou Eyup.

-- Meus sobrinhos? -- perguntou, confuso, Boris. Estava com um ar pouco alerta. Klaus Fischer ria-se, como se estivesse numa cervejaria de Munique:

-- Já me esquecia do velho Boris. Há dias que dorme dentro do avião com medo que acontecesse o pior e ficasse para trás. Velho cobarde, ou não fosse russo. Bem, acho que teremos de o levar para Lisboa.

O Tio Boris nem quis pensar na alternativa. Mas também não fazia a mínima ideia onde ficava Lisboa. Só sabia uma coisa: que não era na Rússia, e isso era muito importante. Eyup e Manuel sabiam onde era Lisboa e, embora não se deixassem adormecer por desconfiarem sempre um pouco de Fischer, perderam-se em sonhos, antecipando a aproximação ao aeroporto, com a Ponte Mário Soares brilhando, lá em baixo, ao sol de Portugal.

Episódio 12
Lá vai Lisboa

Voar de Moscovo a Lisboa pode ser bem mais cansativo do que a grande invasão pedestre que os Babars estavam prestes a encetar. O avião era austero e pouco cómodo, bem ao gosto de Klaus Fischer. Para evitar problemas ordenou ao piloto que não fizesse nenhuma escala. Daí que este não se espantasse por ir já praticamente a planar quando fez a aproximação a Lisboa. Desejava por tudo saber rezar, fosse a que deus fosse, mas nunca lhe haviam ensinado nenhuma oração. Não porque a União fosse contra a religião. Apenas se tinha achado difícil fazer a normalização dos preceitos religiosos e por isso o apoio às igrejas era escasso. O resultado era que pessoas como o piloto davam por si fazendo preces a Monet e Schuman, coisa que elas próprias achavam ridículas, mesmo sendo dedicados EuroCidadãos. Claro que o piloto não era do Partido Racional-Socialista, que lhe parecia um pouco exagerado, mas por isso mesmo não podia contar com a fé cega na ciência. Simplesmente detestava ver o indicador das baterias abaixo do nível da reserva.

A aproximação começava algures sobre Fátima, ou Nossa Senhora da Europa, como fora rebaptizada pelo papa Klaus I. Nesse momento, Fischer entrou na cabina e pediu-lhe que fizesse uma ligação directa à EuroHaus de Lisboa. Nervoso, o piloto passou-lhe o microfone para a mão e Klaus perguntou-se por que raio os subordinados tinham tão pouca confiança na sua presença, que ele julgava ser inspiradora de segurança e conforto anímico. Do teor da comunicação com a EuroHaus pouco se sabe, e nada ouviram Eyup ou Manuel. Klaus Fischer havia sido substituído no posto de Lisboa, mas como Protector das Rússias, destacado dirigente do partido no poder, e alemão, estava uns bons furos acima na hierarquia. Na dos jogos de corredor, claro, pois o novo director era igualmente A50. Os problemas começavam sempre com as subtilezas que definiam a hierarquia entre os A50s.

Eyup apercebeu-se, todavia, com quem Fischer estava a falar. Por momentos pensou descansadamente que o alemão estaria a negociar os novos papéis para ele e Manuel. Mas passara já por tantas atribulações que o anjo vermelho da desconfiança estava sempre de guarda. Segredou para Manuel:

-- Manuel, e se ele nos enganar?

Manuel estava um pouco absorto na contemplação do Entroncamento, esperando que algo de fenomenal se passasse. Mas apenas se viam os veículos correndo pela novíssima auto-estrada Lisboa-Madrid feita graças ao FEDOR <marca num=5>.

<nota num=5> FEDOR: Fundo Europeu do Desenvolvimento Rodoviário. </nota>

-- Achas? Cá por mim penso que aquela coisa da honra funciona. Li em qualquer lado que os maiores escroques têm um limiar sagrado de moralidade, às vezes maior que o das pessoas normais e...

-- Ora! -- interrompeu-o o amigo. -- Esqueces-te de quem é este tipo?

Manuel encolheu os ombros significativamente.

-- Porque é que encolhes os ombros? Que significa isso?

-- Nada, tu lá sabes. Que é que sugeres?

-- Pois bem, trago uma surpresa comigo. Antes de nos despedirmos dos dinamarqueses, o Hans passou-me para a mão umas pílulas, que ele diz serem apenas um protótipo, de um antídoto para a nova nEuroSugestina.

-- O quê? Tu achas que o EuroKraut nos vai dar o tratamento final?

-- Como tu dizes, acho que não. Mas o que é certo é que ele é que tem as amostras da nova nEuroSugestina e nunca se sabe...

-- Mas se ele nos der a droga e fizer a hipnose não temos chance nenhuma de tomar o antídoto, não nos vamos lembrar disso quando formos espertos como couves -- retorquiu Manuel, ainda inspirado pelo Entroncamento.

-- Aí é que está. Há sempre um lapso de segundos entre tomar a nEuroSugestina e ela começar a produzir o efeito. O importante é cada um de nós ter sempre consigo uma pílula e arranjar maneira de distrair quem nos der a nEuroSugestina, se nos derem, e tomar o antídoto nesse lapso de tempo.

-- Oh, meu Deus, estás a sugerir que esta história ainda não acabou?

-- O que é que queres, é preciso chegar às cento e setenta e seis páginas -- disse Eyup, com o sentido de humor recuperado. -- Toma, fica com uma. E agora aperta o cinto.

Klaus Fischer tinha acabado a sua conversa com a EuroHaus e voltava agora ao lugar, preparando-se para a aterragem. O avião tremia consideravelmente por causa do nervosismo do piloto, mas o corpo do A50, graças à sua acrescida gravidade, conseguiu aterrar no assento.

-- Pronto, está tudo tratado quanto a vocês. Espero que apreciem o meu gesto até ao fim dos vossos dias. E sobretudo que cumpram a vossa parte do acordo. Mas mais ainda: que nunca, mas nunca, me apareçam outra vez à frente.

Nenhum dos portugueses soube se devia sorrir ou dizer alguma coisa. Optaram pelo silêncio, com a desculpa de verem as três pontes lá em baixo. Um pouco para ocidente, avistava-se as torres das AmorEuras, um dos maiores centros comerciais da Europa, se bem que infestado de prostitutos marroquinos clandestinos. Mas Lisboa estava ali, lampeira e sadia, e isso era muito reconfortante.

O avião fez-se à pista. Ia estranhamente silencioso. Os passageiros nunca vieram a saber que, mais ou menos entre o sobrevoo das ruínas da Expo98 e a Ota, as baterias se haviam esgotado e que a aterragem se devera apenas à intervenção de algum personagem não-material. O avião aterrou com um baque, como se uma encomenda tivesse caído dos céus, mas aterrou. Parou logo ali, em plena pista, o que muito assustou Eyup, pois esse era o procedimento normal para apanhar espiões japoneses nos voos comerciais, impedindo-os de chegar sequer às aerogares. Mas as suspeitas desvaneceram-se quando o piloto saiu da cabina e veio ao seu encontro, ostentando um tom verde já fora de moda, e gaguejou:

-- Tenho a anunciar a minha conversão ao Catolicismo.

Os piores receios não se confirmaram. Klaus Fischer havia cumprido com a sua palavra. À saída do avião, e depois de terem entregado a arma a Fischer, esperava-os a todos uma carrinha Merciren, modelo Van Maastricht. Klaus Fischer foi cordialmente recebido pelo Sr. Helmut Fischer, o novo Técnico de Gestão Política de Lisboa. Falaram longamente num dialecto bávaro, luxo a que se davam entre si os Técnicos de Gestão Política alemães, pelo que os portugueses se sentiram excluídos. «Nada de novo», pensaram. Finalmente, Klaus Fischer fez as apresentações e o outro Fischer dirigiu-se a eles. Era muito cor-de-rosa e muito simpático:

-- Ah, meus caros amigos. Permitam-me que os felicite pelo vosso espírito de aventura, mesmo sabendo que o que fizeram é altamente penalizável.

Eyup pressentia que aquilo trazia água no bico. Já não conseguia distrair-se a confirmar a permanência dos buracos nas ruas de Lisboa após a sua ausência. Nem sequer a permanência dos cuspidores, das roupas de má qualidade, dos prédios com lepra, das viaturas nos passeios, do clima insalubre, dos pedintes, da publicidade de mau gosto, enfim, de tudo o que fazia de Lisboa uma catraia airosa.

-- Pois é -- continuou o novo TGP --, o que fizeram é sem dúvida passível de procedimento judicial. É certo que reconheço a nobreza do vosso gesto para com o meu colega e o contrato que com ele fizeram será escrupulosamente cumprido. É um ponto de honra. Faço questão disso. A palavra dada não se volta atrás, mais vale um... -- parecia um português a falar. Isso fez Eyup desconfiar ainda mais. Agora devia estar para vir o senão, o mas: -- Como por certo compreenderão, não podemos atropelar a lei. Podemos, é certo,... contorná-la. Mas é preciso dar uma satisfação à opinião pública, aos magistrados, à sociedade, em suma. Eis, pois, o que vai ter de acontecer: terão de comparecer em tribunal e ouvir a vossa sentença. Não poderão ter defesa, pois trata-se de um caso de segurança da União. Mas garanto-vos que o vosso gesto magnânimo para com um tão alto funcionário da União será tido em linha de conta e a sentença muito provavelmente será apenas o exílio. No fundo, aquilo que combinaram com o Sr. Fischer. Em suma, tudo não passará de um pro forma.

Ficaram atónitos. Não com as novas peças de arquitectura que tinham surgido como por magia na Avenida da Liberdade, mas sim com estas notícias. Entre o prédio azul-celeste que tinha sido incrustado sobre uma anterior incrustação de um prédio amarelo sobre um resto de palacete, e aquelas novidades -- o diabo que escolhesse.

-- E agora, para onde vamos? -- foi tudo o que Eyup conseguiu perguntar. Klaus Fischer respondeu:

-- Bem, têm de ficar numa zona de segurança na Euro-Haus, para não dar muito mau aspecto, e amanhã vão a tribunal.

-- Já amanhã? A justiça está assim tão célere?

-- Ora, tudo se faz na maior eficiência.

«Sem dúvida», pensou Eyup. Estavam mesmo a preparar alguma.

Antes de entrarem para a sala de audiências, foi-lhes servido um pequeno-almoço de chá de ervas do Schleswig-Holstein e appfelstrudel da pastelaria Suíça-Alemã. Estavam numa salinha com dois guardas. O Tio Boris, que assumira imediatamente funções de contínuo para todos os serviços (oficialmente, Técnico de Acompanhamento Ambulatório), espreitava de vez em quando pela porta para ver se estava tudo em ordem. Farto de ver isto repetir-se vezes sem conta, Eyup dirigiu-lhe a palavra:

-- Ó homem, descanse um pouco. Olhe, sente-se connosco e veja o TeleFax da manhã.

Boris anuiu e sentou-se, com um sorrisinho de exilado russo. Gostou muito do genérico do TeleFax da manhã, que era feito nos estúdios do Porto da EuroVisão. Recordava-lhe a televisão ainda do tempo dos sovietes.

A moda dos implantes de cabelos de Barbie ainda não tinha chegado a Portugal. A locutora ainda se mantinha fiel ao colorante louro, o mesmo que Maria usava. Eyup perguntava-se por que seria que tinha a sensação de que nada tinha mudado em Portugal. Justificou o facto com o curto período de ausência. E ao mesmo tempo pensou se Maria já estaria às portas de Kiev. Não tardou a obter a resposta:

«Os satélites de segurança da União detectaram preocupantes movimentos de massas populacionais vindas de Leste. Ao que tudo indica, trata-se de uma coligação de hordas bárbaras de russos que têm como objectivo a invasão da União. Até há dias, a leste não parecia haver nada de novo, graças ao Plano do Novo Mundo em execução. Mas um forte movimento carismático, que algumas fontes dizem auto-intitular-se Quinto Império do Urso Branco, terá tido um sucesso inusitado e unido as hordas eslavas. Várias cidades da fronteira encontram-se já nas mãos dos revoltosos e o EuroGov acaba de decretar o Estado de Emergência e o envio de tropas para a Região Autónoma da Polónia. Teme-se o pior, e o Governo Regional Português ofereceu já um Hércules C-530 e uma corveta da marinha regional. Entretanto, o movimento rebelde obrigou o Protector das Rússias a sair do Posto de Moscovo, encontrando-se de passagem por Lisboa, não se sabendo se....»

-- Viste, Manuel? Parece que aquilo está feio. Afinal, estão a conseguir avançar por aí fora.

-- Por aqui adentro, queres dizer.

-- Eh, eh! Até que é divertido.

-- Espero que, ao menos, tragam algum Stolichnaya -- resmungou o Tio Boris.

-- Espere! -- cortou Eyup. -- Não interrompa! Olhem ali!

No ecrã viam-se as imagens filmadas pelo vídeo de capacete de um soldado do EurExército em Kiev. Uma massa compacta de pessoas e animais saídos da arca de Noé avançava para a cidade como uma tempestade no deserto. A imagem tremia muito, mas de repente um superzoom mostrava claramente -- enfim, com alguma desfocagem -- nada menos do que a figura de Maria, vestida de preto e empunhando o ícone e o cartão Visa que, obviamente, o Grande Cão lhe dera como insígnia. Parecia radiante. Forte. Bonita. Determinada.

-- Parece feliz! -- exclamou Eyup.

-- Está nas suas sete quintas -- acrescentou Manuel.

-- Melhor: nas cinco quinas.

-- Ainda bem. Ao menos encontrou um projecto de vida. É tão raro, hoje em dia. Quem diria que foi uma tradutora da EuroHaus...

-- E provavelmente é quem vai acabar com a União tal como a conhecemos. Meu caro, estamos a assistir a um momento histórico.

Era exactamente esse o comentário que a locutora estava a fazer. Só que não sorria como Eyup.

Foram obrigados a desligar o televisor quando o oficial de diligências lhes deu ordem de entrada na sala de audiências. Ao desligarem o aparelho, foi a última vez que viram a cara de Maria Silva.

Por detrás do cadeirão do juiz, a bandeira azul com as cinquenta e três estrelinhas douradas e a divisa E Pluribus Unum. A sala de audiências estava apinhada de repórteres e público curioso, o tipo de leitores de jornais de grande circulação na rede como O Estelionato ou A Violação do Dia ou até mesmo do radical A Jugular Espichante. Parecia evidente que o julgamento ia ser usado como um caso exemplar. O dito foi, aliás, bastante curto, em nome da eficácia e da diminuição dos custos judiciais, mas para os dois portugueses era por de mais evidente que se tratava de uma farsa. A certa altura, Eyup não se conteve e gritou:

-- Isto é uma farsa! Abaixo a farsa judicial!

-- Meu caro senhor -- respondeu o juiz com infinita paciência --, quem diz se isto é ou não uma farsa sou eu. Pela simples razão de que quem manda aqui sou eu. E eu digo que isto não é uma farsa. Donde, não o é. Porque o digo eu. Compreende?

Eyup amuou. Não tinha fôlego para rebater o discurso magisterial. O que interessava era que o contrato com Fischer fosse cumprido quando dali saíssem e toda a opinião pública pensasse que tinham sido exilados contra sua vontade. Isso era tanto mais importante, quanto os bárbaros vinham aí e o clima de guerra ia instalar-se num ápice.

Um jornalista, sentado por detrás de Eyup e Manuel, comentava mesmo com um colega que tinha acabado de ouvir na rádio que um fenómeno semelhante estava a acontecer numa ilha-fortaleza qualquer: acabara de ser assaltada por um número tão grande de magrebinos que nem o Fortaleza Europa conseguira resistir. A coisa estava preta. Mas o juiz lia agora a sentença, ao fim de quatro minutos de julgamento. Os réus só haviam dito os seus nomes e o resto tinha sido obra do juiz. Um processo expedito.

-- Eyup Kaba e Manuel Silva, são acusados de conspiração contra a União, sedição, conivência com organizações secretas, falsificação de EuroPasses, uso indevido de uniformes do EurExército, fuga de Zona Especial e de comportamento imoral e antinatural, e por estes factos o tribunal condena-vos ao exílio perpétuo da União. Caso encerrado.

Houve grandes aclamações na sala. O exílio da União era considerado uma pena duríssima. Algumas pessoas gritavam frases como «Amigos dos Bárbaros!» e «Cépticos!» e «Abaixo o Antieuropeísmo e quem o apoiar!». A repórter d’O Mundo do Sangue transmitia a sua crónica via satélite, dizendo que os réus eram provavelmente culpados pela morte de centenas de EuroCratas assassinados nos últimos anos, de Vila Real de Santo António a Gdansk. A mentira crescia como uma bola de neve, à medida que os bárbaros rolavam pelas planícies abertas da Europa Central.

O carro celular conduzia-os, supostamente, para a prisão de alta segurança de Alcoentre. Dentro seguia também Klaus Fischer em pessoa, que se introduzira sub-repticiamente no veículo ainda antes de ter sido proferida a sentença. Os prisioneiros acharam que a sua presença era um sinal positivo, quiçá uma forma de se despedir, do tipo «amizade que se cria entre inimigos», conduzindo-os a um aeródromo qualquer de onde pudessem partir para Marrocos, por exemplo.

-- Então, que me dizem do julgamento?

-- Boa realização -- disse Eyup --, talvez com algumas falhas ao nível do guarda-roupa. E a música, oh, a música! -- permitiu-se gracejar.

-- Ainda bem que está de bom humor. Torna as pessoas mais receptivas.

-- Que quer dizer com isso? -- paralisou-se o humor de Eyup.

-- Quer dizer que há uma cláusula no contrato de que se esqueceram. Acontece com muita gente. Digamos que não prestaram atenção aos parágrafos em letra miudinha, o que faz de mim o único conhecedor dessa cláusula -- escarneceu Fischer, com uma expressão vil.

Os portugueses engoliram em seco. Sentiram a carrinha parar na beira da estrada. Da parte da frente, surgiu, através da passagem, uma figura com ar de médico. Trazia na mão uma seringa. Cheia.

Eyup sentiu-se desfalecer. Só desejava encarecidamente que Manuel se estivesse a aperceber também do que se estava a passar.

-- Meus caros -- continuou Fischer, enquanto o médico soltava gotinhas de líquido para o ar, verificando a seringa --, é aqui na estrada para Alcoentre que se vão acabar definitivamente os meus problemas convosco. Há coisas que estão acima de todas as outras, e por certo compreendem que não podia dar-me ao luxo de cumprir aquele ridículo acordo. Nem tão-pouco de vos deixar numa prisão, ao alcance de jornalistas e curiosos. Mas o simpático Dr. Jansen deu-me um precioso líquido que vos fará esquecer as traquinices que têm feito nos últimos tempos. E as que têm feito desde sempre, a bem dizer. Vá, arregacem as mangas.

Os dois obedeceram, transidos. Arregaçaram as mangas. Não havia nada a fazer. O médico aproximou-se com a seringa. Uma injecção em Eyup. Uma em Manuel. De repente, Manuel salta para Klaus Fischer:

-- Traidor! Traidor! Huno maldito!

A confusão estava gerada. O médico retraiu-se. Os guardas puxaram das armas e apontaram-nas às cabeças dos presos. «Graças a Deus o Manuel lembrou-se!», pensou Eyup, «e graças a Deus que nem tudo está podre no reino da Dinamarca.» No entanto, foram rapidamente manietados pelos guardas. O líquido fatal circulava-lhes nas veias.

A voz de Fischer parecia ecoar vinda do fundo de um túnel. Tinha modulações doces e agradáveis ao ouvido. Escutando-o, quase nem se sentia a existência do corpo. Era como se Eyup e Manuel fossem apenas essências espirituais. As palavras, as frases, como que entravam sem resistência no cérebro e anichavam-se confortavelmente nos seus recantos mais profundos, para sempre. Encontravam uma nova casa para viverem. As ideias de Fischer habitavam agora as duas assoalhadas de Eyup e Manuel.

Enquanto fazia o discurso sugestionador, Klaus Fischer consultava de quando em vez os tópicos que escrevera num bloco-notas, para não se esquecer dos pontos-chave das novas personalidades que estava a criar: «1) Bons cidadãos da União, profundamente crentes nas suas virtudes e funcionamento; 2) Bons telespectadores de TeleFaxes da EuroVisão (acreditar em tudo ipsis verbis); 3) Desconfiantes de toda a gente que exprima ideias cépticas; não hesitam em delatá-las à EuroPol; 4) Contentes com as suas tarefas de Técnicos de Higiene no Trabalho; 5) Bons contribuintes: nunca fugirão aos impostos. NOTA: já agora, bons heterossexuais. Casados com duas jovens simpáticas (não esquecer: arranjá-las amanhã! nEuroSugestina ainda chega para elas? Verificar).»

O alemão levou uns bons vinte minutos a completar o seu discurso. Não tapara todos os buracos, pois assim eles ficariam suficientemente atrasados mentais para não se colocarem muitas questões. Custar-lhes-ia muito lembrarem-se de quem eram os seus pais e outros assuntos triviais. Mas treinaria as duas noivas que lhes ia arranjar no dia seguinte para serem companheiras atenciosas para com eles, comunicando-lhes que tinham sofrido um trauma qualquer na sequência de um qualquer acidente de viação. Fischer sentia-se bem: acabava de construir duas obras de impecável moralidade. E sentia-se redimido, assim, de alguns dos pecadilhos próprios menos consonantes com a sua imagem de dirigente político em ascensão. Só lhe faltava arranjar as mulheres e as casas. Pensou então numas sérvias que tinham sido presas em Malta por terem ajudado os portugueses nas suas manigâncias. Não tinham elas sido transferidas para um bordel -- perdão, um EuroEroPark -- de Lisboa? Sim, sim, o de Odivelas, agora lembrava-se. E quanto a casa, nada mais fácil, pois a EuroHaus era senhoria do apartamento vazio de Maria Silva, e não custava nada despejar o vizinho de baixo. Assim estariam juntos e mais fáceis de vigiar. Ah, como se atavam lindamente todas as pontas soltas deste novelo...

As notícias tornavam-se cada vez mais assustadoras. Os bárbaros já haviam tomado Varsóvia e Praga e as vagas de refugiados enchiam agora a Região Autónoma da Alemanha e as partes ocidentais do R.E.I.C.H. A sul, todas as ilhas-fortaleza estavam tomadas e alguns bandos avançavam já no Sul da Itália e da Espanha. Um marroquino autoproclamara-se mesmo Califa de Torremolinos e Benidorm depois de um desembarque em massa naquelas cidades industriais.

O EuroGov tomava as medidas mais drásticas, com bombardeamentos ferozes sobre as hordas. Mas o problema era que elas pareciam multiplicar-se como coelhos e avançavam por todas as frentes possíveis e imaginárias. Berlim estava a dois dias de cair, pelo que dezenas de voos fretados chegavam diariamente a Lisboa. A EuroHaus de Lisboa assumia uma importância crescente, pois toda a hierarquia se juntava agora aqui. Por uma ironia do destino, Fischer ficava ainda mais importante, pois recebia toda esta gente, acomodava-os, ensinava-lhes os truques de viver em Lisboa. Para tal tivera de chegar de novo a director da EuroHaus portuguesa, o que não fora difícil, graças a uma delação de EuroCepticismo na pessoa de Helmut Fischer, convenientemente escrita numa carta anónima e com meia dúzia de provas implantadas em sua casa. Com a histeria da guerra, toda a gente acreditou.

Quem vivia alheio a tudo isto, dois meses depois do regresso a Lisboa, eram Eyup e Manuel. Aliás, José e António Silva. Viviam, respectivamente, no quinto e quarto andares de um prédio às Janelas Verdes, com as suas esposas Marika e Marika -- casamentos interétnicos graças a uma autorização especial do próprio Fischer. Formavam dois casais muito amigos, pelo que faziam churrascos aos domingos e davam longos passeios até Belém. José e António eram compinchas como deve ser: corriam juntos, bebiam copos juntos, jogavam à sueca, iam aos desafios do Sport Lisboa e Sporting, trocavam técnicas de apostas no EuroLoto e até tinham uma assinatura conjunta da revista PlayGuy. De quando em vez queixavam-se das esposas e diziam frases como «as mulheres são o diabo» e detestavam acompanhá-las aos centros comerciais ou aos Ultramercados, quando era dia de compras. Aos sábados à noite faziam amor com as respectivas mulheres, o que era uma actividade prazenteira, a qual, todavia, não os escusava de olhar para outras mulheres na rua e assobiar baixinho. Era uma boa vida.

As duas Marikas também não se queixavam. Haviam passado por um período difícil, o da convalescença dos maridos quando tiveram aquele desastre de carro, porque o José ia com os copos e o António também não estava melhor. A mais velha fazia agora dieta, para ver se perdia os músculos exagerados que tinha desde adolescente e que lhe davam grandes complexos na praia nova de Pedrouços. A mais nova, e mais pequena, não fez esforço algum por diminuir a fartura de peito que possuía, pois o seu José parecia apreciá-la assim, «e antes isso do que ele andar por aí atrás de uma flausina qualquer». De vez em quando lá tinham os seus arrufos e então adoravam dizer uma frase muito sua: «Os homens são todos iguais.»

Eram felizes, em suma, e alugavam filmes de karaté e melodramas no videoclube da rede.

Quando tudo começou a ficar perigoso, isto é, quando as primeiras hordas bárbaras começaram a escalar os Pirenéus e os magrebinos chegaram a Badajoz, o pânico instalou-se em Lisboa. Não se podia sair à rua, tais eram as condições do estado de emergência. Havia muitos desalojados na periferia, pois os edifícios da cidade foram requisitados para alojar mais de cem mil EuroCratas vindos das capitais do Norte. Por certo graças à influência de Fischer os dois casais Silva ficaram nos seus apartamentos das Janelas Verdes. Era uma noite de sábado e estavam a jantar juntos, vendo o TeleFax. A eterna loura apareceu no ecrã com um ar muito sério e leu um comunicado do Presidente Dehors:

«Europeus, Europeias:

A nossa União vive momentos de crise. Esperámos tudo o que havia a esperar para tentar uma solução por via negociada. Mas não se pode negociar com quem não partilha os mesmos valores de civilização. Por isso, e a partir das zero horas de amanhã, as forças do EurExército, concentradas na Beira Baixa e em Castela, iniciarão uma contra-ofensiva em massa, que não olhará a meios para afastar de vez a barbárie do nosso solo sagrado. Europeus, europeias: amanhã começa a Operação Tempestade na Meseta e em breve poderemos respirar o ar puro da liberdade que os nossos pais fundadores nos legaram.»

Seguiu-se um anúncio tridimensional sobre o desodorizante Jansenex, aquele a que «nem o bárbaro resiste». José e António ficaram com os garfos a meio caminho da boca. Marika e Marika continuavam galhardamente a comer, pois não se interessavam por política.

-- António, já viste a raqueta de EuroTénis nova que comprei? -- disse José de repente, com um estranho brilho nos olhos.

-- Não, pá, mostra lá!

-- Querida, vou lá dentro mostrar a raqueta ao António. Não queres fazer um café, entretanto?

Marika acenou que sim diligentemente, mesmo sabendo que, devido à situação de guerra, não havia café no mercado há semanas. Mas era sábado. Convinha aquiescer.

Os dois cunhados dirigiram-se ao quarto de José, na parte traseira da casa. António sentou-se na borda da cama. José trancou a porta atrás de si. E disse:

-- Penso sempre na Maria quando entro neste quarto. Era o dela.

-- Não penses mais nela. Não tarda nada apanham-na.

-- Acho que é agora ou nunca, a nossa chance. No meio da confusão ninguém vai dar por nada. Descobri um barco que...

Mas já António, isto é, Manuel, se levantara da cama, se aproximara dele, e agora abraçava-o:

-- Tem sido duro, bolas!

-- Mas aguentámo-nos bem. Como digo sempre, ainda bem que já tínhamos as pílulas debaixo da língua quando nos deram a injecção. Ainda bem que armaste aquela confusão. E parabéns, uma vez mais, tens sido um bom actor.

-- Temos sido bons de mais, é o que é! -- lamuriou-se Manuel.

-- É verdade, malditos sábados à noite! Mas era preciso. Elas estão completamente condicionadas para nos vigiarem. Bem, como te dizia, descobri um barco que sai hoje à noite. É bem capaz de ser o último nos próximos tempos, amanhã fecham o porto com certeza. E eu não quero nem viver com estas duas chanfradas nem ficar à espera dos bárbaros.

-- Tens razão. E dinheiro, arranjaste?

-- Está tudo arranjado. Em dois meses poupámos o suficiente. O capitão do barco levou dois mil Euros por cada um. Mas vale a pena.

-- E como é que saímos agora?

-- Temos de ir ali abaixo comprar tabaco. Não é sempre assim?

Manuel riu, baixinho.

-- E já agora, para onde vai o barco?

-- Para o Brasil.

-- Brasil? Mas isso não é o caos?

-- Propaganda da União, Manuel, propaganda.

Manuel perdeu-se por uns segundos imaginando o Brasil. Por fim disse, alto e bom som:

-- A raqueta é bestial! Olha, e se fôssemos comprar tabaco? Já se me acabou.

Logo eles, que nem fumavam.

