Título

mISTério@Tagus

 

 

Autora (inspiradíssima)

Luísa Marques da Silva

 

 

Todos os direitos reservados ©2010 Luísa Marques da Silva

 

Capa

Luísa Marques da Silva

 

1ª edição on-line

Lisboa, Setembro de 2015

 

2ª edição em papel (desculpem, árvores)

Lisboa, Setembro de 2017

 

Outros livros da autora via WNFE

http://wnfe.my-free.website

 

 

Esta edição pode e deve ser loucamente distribuída por todas os corajosos que a quiserem ler. Comentários, em especial os porreiros, podem ser enviados para wnfe@sapo.pt. Mais livros da autora podem ser encontrados em http://wnfe.my-free.website.

Para a minha Mãe

 

Agradecimentos:

H450 G463 e P000

C623 M300

C365 M660

M600 J000 S365

P612 G465 A620

J000 C642 M362

C642 P450

J000 P400 C614

T620 V200

A500 M532

I214 T652

A524 e M240

A500 M600 S532

R000 P630

S536 S000

V500 M535

C640 B600

F652 e I214 M400

J620 B132

J500 M635

J000 B130

F410

C365

T520

P652

H200 R362

A524 e M240

L300 P530

R263 R000

Q630 A500 S236

Crime@Tagus

LOCAL: campus do Técnico no Taguspark, átrio central

DATA: 11 de Abril

HORA: 12h 10

 

Pequenos grupos de estudantes coloriam o gigantesco átrio central do edifício do Instituto Superior Técnico, no Taguspark. Uns dirigiam-se para as aulas, outros preparavam-se para ir almoçar, estudar ou trabalhar num projecto; alguns simplesmente conversavam, sem rumo certo.

- Então, como é que é? – perguntou Simão, na sua voz calma.      

Encostado a um distribuidor de bolos e refrigerantes, observava um rapaz baixinho a introduzir moeda após moeda na ranhura e fascinava-se com a quantidade de peças de cinco cêntimos que desaparecia nos confins da máquina.

Do outro lado do distribuidor, Diogo, seu melhor amigo e colega no curso, tinha o telemóvel colado à orelha direita.

- Puto, espera lá um bocado... – pediu-lhe entre o impaciente e o preocupado.

Simão encolheu os ombros indicando que não tinha pressas – raramente tinha – e manteve-se a observar a actividade do rapaz dos cinco cêntimos, que continuava a fazer as pequenas moedas afluir às mãos com a arte de um mágico profissional.

Entretanto, aproximou-se deles João, companheiro na maioria dos turnos. Numa voz bastante tensa perguntou:

- Simão, também recebeste o email com o subject “cova”? – Normalmente uma pessoa corada, sorridente e bem disposta, João estava pálido e parecia muito angustiado.

- Sim e o Diogo também – respondeu Simão.

- Parece que... tipo... todos os alunos do Tagus... tipo... receberam esses emails. E parece que são todos... tipo... diferentes. O meu dizia... dizia... espera lá... – João depositou uma enorme mochila no chão e abriu um dos compartimentos. – Não é aqui... Aqui também não... espera lá... – ia ele resmungando, enquanto abria e fechava fechos, e espalhava à sua volta folhas de papel, cadernos, livros, pratas de chocolates e de rebuçados, cabos e canetas.

- Encontrei! – gritou de repente, puxando com brusquidão uma folha de um bolso da mochila, rasgando-a em duas. Desajeitado, juntou os pedaços de papel o melhor que conseguiu e leu:

- “Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta”... Não achas que é assustador? – perguntou, olhando para Simão com ar de enjoo.

Este, sem tirar os olhos do distribuidor, encolheu os ombros num gesto despreocupado. Depois, apercebeu-se que João continuava a olhar para ele e acrescentou:

- Tem calma. Não é nada assustador.

João abanou a cabeça em desacordo e formulou a pergunta à qual tinha esperado que Simão respondesse espontaneamente:

- E o que dizia o teu email “cova”?

- “Que o vento te desfigure o rosto como um ácido em chama”.

João esqueceu-se de respirar, tentando assimilar o que acabara de ouvir. Mas os pulmões lá o chamaram à razão, pelo que inspirou fundo. Depois perguntou, quase a medo:

- E o do Diogo?

- “Que te apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos”.

Se ainda havia alguma réstia de cor no rosto de João, desapareceu de vez. E a voz saiu-lhe alterada, quase esganiçada, quando disse:

- Meu Deus! Como é que podes estar... tipo... tão calmo? É altamente perturbador! Todos os alunos do Tagus... tipo... que eu conheço receberam... tipo... um email horrível, com o subject “cova” e uma frase que faz arrepiar os pelos dos braços e os do...

- Tem calma.

- Mas...

Simão fez-lhe um sorriso despreocupado.

- Esquece. Certamente que...

- O meu pai continua a não atender – interrompeu Diogo subitamente. – Deve ter acontecido qualquer coisa...

- É o teu pai que é da polícia, não é? Estás a tentar falar com ele por causa dos emails de hoje? – no ar ansioso de João lia-se que queria muito ouvir um “sim”.

- Ora, João, esses emails não passam de spam. Tão assustador como os emails do Viagra – respondeu Diogo bruscamente. – Na verdade... se calhar, até menos assustadores – acrescentou uns segundos depois.

- E o que fazemos? – repetiu Simão, que entretanto voltara a observar o rapaz baixinho e que era capaz de jurar que a trigésima sétima moeda de cinco cêntimos tinha sido servida à distribuidora de comida.

- Não sei... A ideia era irmos almoçar com o meu pai a algum sítio diferente... Agora também já não me apetece ir à cantina, não é?

- Então vamos ao Central... Queres vir, João?

- Não, obrigado. Já combinei ir almoçar à cantina com a Clarissa e com o Pedro. Aliás, já estou atrasado. Adeus...

João foi-se embora deixando uma pen e um molho de folhas espalhadas no chão. Simão ainda o chamou, mas o colega já tinha desaparecido nas escadas que levavam à cantina.

- Este João é tão coerente na sua desorganização: tem sempre de deixar metade dos cadernos em qualquer lado. E o mais grave é que nem dá conta. O ano passado perdeu dois relatórios e uns apontamentos magníficos que fiz e que, estupidamente, lhe confiei.

- O mais grave é ver estes gajos ficarem todos stressados com a porra de um email spamoso – comentou Diogo, ajudando Simão a apanhar a papelada de João. – É incrível como é que...

- Por acaso nenhum de vocês tem uma moeda de cinco cêntimos, não? – interrompeu o rapaz baixinho que se esforçava por equilibrar várias sandes de atum e latas de cola enquanto tentava, ao mesmo tempo, revistar os bolsos.

- Não, mas posso-te arranjar uma de dez cêntimos – disse Simão. – A máquina dá troco, não é?

- Não, preciso mesmo de moedas de cinco cêntimos.

Simão e Diogo olharam para ele espantados.

- Estamos a tentar perceber como é que foi implementada a máquina – explicou-lhes. – Os meus colegas e eu estamos a dar-lhe uma barrigada de cinco cêntimos... Queremos ver quantas é que suporta... E pelos vistos são muitas...

- Mas porque é que não contactam os tipos que a fizeram? São capazes de vos dizer... – sugeriu Simão.

- Não tinha piada. Nós queremos chegar empiricamente ao modelo formal da máquina. Estão a perceber? Apenas recorrendo à experimentação... E agora faltam-me uns malditos cinco cêntimos para ter a porcaria do... Ei, professor Aguiar Mota... tem cinco cêntimos?

- Eu sempre te disse que o Técnico não era saudável. Devíamos ter ido para Psicologia – comentou baixinho Diogo abanando a cabeça. – E ainda tínhamos o bónus de ter só mulheres à nossa volta. Era a tua sorte grande, bicho feio: dava-te todas as minhas sobras.

Mas Simão não estava a ouvir, pois encontrava-se complemente focado na produção de uma das suas piadas:

- Será que o professor Aguiar Mota tem carta de mota? – disse, com um sorriso.

- Simão, essa é a tua piada mais seca de sempre. Dramaticamente pouco original. Aposto que o prof. a ouve mais de mil vezes por dia...

Logo a seguir, Simão arrepiou-se todo quando apercebeu que tinha falado alto demais e quase lhe parou o coração quando ouviu o professor dar uma gargalhada e responder à sua pergunta:

- Infelizmente, jovem, só tenho carta de condução de ligeiros.

E o docente, um senhor na casa dos sessenta, muito alto e gordo, voltou a gargalhar, bem humorado, enquanto tentava encontrar a carteira no meio de um casaco cheio de bolsos. Ao seu lado, um homem uns dez anos mais novo, com cabelo encaracolado e grisalho, e uma pala no olho, sorriu-lhes também, enquanto procurava nas profundezas da sua canadiana azul escura uma misericordiosa moeda de cinco cêntimos.

- Ehh... – Simão ficou vermelho como um pimentão (dos vermelhos, que também os há verdes e amarelos) e não se lembrou de nada para dizer.

Foi Diogo quem tomou a iniciativa.

- Boa tarde, professor. Não leve a mal aqui o Simão: costuma dizer as piadas mais secas do universo.

Para espanto dos dois, o professor respondeu que a tinha achado hilariante e que a ia partilhar com a mulher ao jantar. Depois começou a dissertar sobre a importância das refeições em família, deixando os rapazes sem saber o que dizer. Felizmente, o senhor da pala encontrou uma moeda de cinco cêntimos. Visivelmente satisfeito entregou-a ao aluno que a pedira e declamou em tom dramático:

 

“E que quanto for meu, é tudo vosso:

Porque é tamanha bem aventurança

O dar-vos quanto tenho e quanto posso”

Diogo ficou a olhar para ele, sem saber se se devia rir ou não, quando Simão, com um aceno de despedida, conduziu o amigo em direcção às escadas que davam para a porta da rua.

- Diogo... sabes quem era o senhor que estava com o Aguiar Mota?

- Deixa lá ver... com uma pala no olho... hum... o pirata da Olá?

- Não.

- Então... o Luís de Camões?

- Exacto.

- Ora, vai gozar com outro.

- Era ele. Tenho a certeza. Tenho a certeza de que era o Luís de Camões. E aquilo que declamou faz parte de um dos seus “Sonetos Amorosos”.

Diogo parou a meio da escadas pensativo.

- Estás mesmo a falar a sério... O que estará um poeta tão bem cotado a fazer no meio de engenheiros?

- Não sei, mas tenho de telefonar à minha irmã para lhe dizer. Há uns anos fomos ouvi-lo declamar várias das suas poesias quando a selecção regressou, vitoriosa, do Europeu de 2016. Foi brilhante. A minha mãe e a Sofia até choraram...

- Vá, meu piegas, confessa que tu também choraste baba e ranho. Muita, muita baba...

 

***

 

Saíram do Técnico e subiram as escadarias que os aproximou do edifício onde se encontravam vários restaurantes: o Núcleo Central. Quando se preparavam para atravessar a estrada, um carro passou a alta velocidade e Diogo reconheceu o condutor:

- Pai! Paaaaai! Paaaaaaaaaaai!...

O carro não parou, mas também não se dirigiu para o edifício do Técnico: continuou em frente.

- Tens a certeza de que era o teu pai?

- Absoluta.

- Olha... parou lá ao fundo, ao pé daquelas pessoas... Que estranho, o que é que estará aquela gente toda a fazer naquele descampado?

- Hum... realmente é estranho... Vamos ver?

Meteram-se a caminho e, quando estavam a menos de cinquenta metros, Diogo estacou de repente:

- Simão, estão pelo menos cinco polícias ali, sem contar com o meu pai, e... e parece que... parece que está uma pessoa deitada no chão.

- O quê? – Simão parou também. – O que é que... ei... acho que tens razão. E... é uma mulher... estou a ver cabelo comprido e... um vestido... vermelho. Será que...?

Simão teve de se controlar para não fazer meia-volta. Até o cadáver de uma formiga o fazia suar, desde que esborrachara um mosquito com o nariz, aos seis anos, enquanto dormia. Acordara com o insecto quase enfiado na narina direita e, a partir daí, desenvolvera uma verdadeira fobia a corpos mortos inteiros.

Diogo não disse nada e limitou-se a recomeçar a andar. Depois de uns segundos de hesitação, Simão encheu o peito de ar e seguiu-o de olhos no chão. Pararam a uns metros do cordão policial que agora estava concluído, sem saberem muito bem o que fazer. Mas o foi o próprio inspector Ferreira, pai de Diogo, que os chamou:

- Jovens, faziam o obséquio de se abeirar da minha pessoa?

Os dois rapazes cumprimentaram os restantes polícias com um breve aceno de cabeça e aproximaram-se do inspector. Era um senhor de cinquenta e poucos anos, estatura média, magro, com um grande nariz adunco e os cabelos precocemente brancos, cortados muito curtos. Uns óculos redondos, sempre muito limpos e de forte graduação escondiam uns olhos pequenos, muito escuros, e umas olheiras monumentais. Tinha sido educado pelos bisavós, pelo que se exprimia sempre de um modo muito próprio. Nenhum traço o relacionava com o filho Diogo.

- De bom grado vos pouparia a penosa visão, mas, dado que labutam por aqui, gostaria de saber se, quiçá, alguma vez terão avistado esta infeliz moça.

Diogo e Simão aproximaram-se cautelosamente, e ambos se forçaram a olhar para o cadáver. Durante uns segundos estudaram a imagem que lhes era oferecida: o corpo de uma mulher jovem, particularmente bonita, jazia deitado de costas, com o vestido vermelho sujo de terra. Não devia ter mais de trinta anos, muito alta, magra e loira. Os olhos azuis ainda fitavam o céu. Marcas vermelhas à volta do pescoço indicavam um potencial estrangulamento. Uma mala preta encontrava-se a menos de um metro.

- Nunca a vi – disse Diogo. – E olha que se a tivesse visto, lembrar-me-ia.

O pai fez um aceno e depois olhou para Simão, que não tirava os olhos da rapariga, e que o informou, depois de engolir a seco:

- Eu vi-a uma vez, a lanchar, num dos bares do Técnico.

- E não me chamaste?

Simão deitou um olhar chocado a Diogo e ia responder quando o inspector Ferreira o interrompeu:

- Então... terá sido esta jovem aprendiz no Técnico?

Simão hesitou uns segundos e depois respondeu.

- Penso que não. Só a vi uma vez e... parece mais velha. Penso que estaria de passagem…

- Já vamos confirmar ou refutar essa elemento hipotético...

O inspector Ferreira calçou umas luvas, pegou na mala preta e extraiu desta uma carteira, onde encontrou vários cartões de crédito bem arrumados, em nome de Anne Wildspitze. Enquanto procurava um cartão de estudante ou algo que a relacionasse com o Técnico, um papel dobrado em quatro caiu ao chão. Baixou-se, apanhou o papel e desdobrou-o cuidadosamente. Os dois rapazes não se controlaram e colaram-se atrás dele. O papel continha um email:

 

From:             cova@gmail.com

Subject:      cova

Date:             7:10:42 AM GMT+01:00

To:             anne.wildspitze_123@gmail.com

 

“Seu corpo liso e belo que vivera

Como as papoilas acres, dorme agora.

E seu olhar azul é uma estrela

Que a terra, que o sepulta,

Ignora”

 

Diogo e Simão olharam um para o outro, perturbados. Depois viraram-se para o inspector Ferreira, que tinha os olhos fechados e a testa franzida e se encontrava em profunda meditação. Diogo sabia que não devia interromper o pai naqueles momentos, mas Simão, não.

- Ehh... nós... todos... hoje... o pessoal do Tagus... recebemos uns emails um bocado... estranhos, com o subject “cova” e com um conteúdo um bocado... hum... aterrador. Bem... para ser franco... na altura não me parecia muito aterrador, mas agora...

- Aterrador? Como assim, Simão? Ser-te-ia possível contribuir com um discurso semanticamente mais transparente, por favor? – pediu-lhe o inspector Ferreira, entre o aborrecido por ter sido interrompido e o curioso.

- O meu email dizia “Que o vento te desfigure o rosto como um ácido em chama” e o do Diogo “Que te apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos”.

O inspector ficou a olhar para eles como se não quisesse acreditar no que tinha ouvido. Depois ajeitou os óculos, fechou os olhos e umas profundas rugas traçaram-se na sua testa. Toda a gente ficou calada, em suspenso, à espera de um comentário sábio. Subitamente, o seu rosto descontrai-se, fixou os olhos num ponto para além dos rapazes, um raio de luz percorreu-lhe o corpo que se libertou de todo o peso, os pés deixaram de tocar no chão e, levitando a dez centímetros do solo, declamou:

 

“Que a terra lhe seja pesada.

Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,

Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta

E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento

...”

 

Todos olhavam para ele boquiabertos, incluindo os restantes polícias. Uns segundos depois, quando os pés do inspector Ferreira voltaram à terra, este explicou, calmamente:

- Apesar do declínio da minha memória, ainda recordo um verso que refere a acção de “desfigurar” e o substantivo “ácido”... Sabeis quem deu existência a esta extraordinária poesia?

Diogo olhou para Simão como se este tivesse obrigação de saber: era ele quem gostava de poesia. Ou pelo menos a irmã e a mãe gostavam... Mas o rosto de Simão indicava total ignorância.

- Caros, esta é uma poesia do grande José Carlos Ary dos Santos. Chama-se “In Memoriam”. E o email da Anne, é igualmente parte de um poema da sua autoria. Encontrava-me exactamente a reflectir sobre a sua proveniência... Compreendo que vocês sejam todos engenheiros, mas ser-vos-ia imensamente benéfico se na vossa posse se encontrassem pequenos laivos de cultura geral.


Colegas@Tagus

LOCAL: Centro de Oeiras

DATA: 12 de Abril

HORA: 7h 35

 

- Puto, estive para te telefonar às três de manhã para me chibar com as novidades que o meu pai me deu ontem – informou Diogo, mal Simão entrou no carro velho e ferrugento do amigo.

- Bem, obrigado por não teres telefonado... – Simão voltou-se para pôr a mochila no banco de trás e os olhos pousaram num vaso com um cacto sem muita graça, colocado numa caixa de sapatos presa pelo cinto de segurança. Uma ruga de preocupação desenhou-se-lhe na testa, mas apagou-a rapidamente e, virando-se de novo para a frente, continuou:

- Sabes o que eu penso do soninho do guerreiro, não é? Oito horinhas por noite e só me devem acordar se a casa estiver a arder... muito.

Simão dava muito valor ao sono. Não apenas porque já tinha lido muitos livros sobre esse tema e sabia quão importante era honrar as horas de sono necessárias para que o seu corpo mantivesse a performance óptima, mas também porque entre o dia que fizera dezoito anos e o dia em que festejara os dezanove, o pai passara a acordá-lo, de duas em duas horas, retribuindo assim o facto de, durante o seu primeiro ano de vida, Simão não o ter deixado pregar olho. Ficara à espera que o filho atingisse a maioridade e vingara-se impiedosamente. Desde essa altura, Simão matava por uma noite bem dormida.

- Queres saber ou não?

- Claro que quero, Diogo. Na verdade, estou ansioso por saber, mas estava só a controlar-me. Sabes o que penso do autocontrolo, não sabes?

- Pá... antes que consigas pôr-me mal disposto, vou contar-te o que aconteceu: pouco depois de se saber do assassinato da Anne, o meu pai mandou recolher os vídeos das câmaras de todos os edifícios da vizinhança que pudessem ter alguma imagem potencialmente interessante. Depois começou a entrevistar, uma a uma, todas as pessoas que se encontram habitualmente por aquelas bandas entre as sete e meia e as onze. Segundo ele, o crime terá ocorrido neste período, dado que o email data das sete da manhã e o corpo foi descoberto pouco depois das onze horas... e parece que as primeiras informações do médico-legista confirmam esta hipótese. E estava nisto, a fazer o CSI óbvio, quando recebeu um impensável telefonema. Adivinha de quem?

- Diogo, vais contar ou vais pôr-me a adivinhar?

- Hum... não sei... gostava de te ver perder esse patético pseudo-auto-controlo... hum... se calhar, vou pôr-te a adivinhar...

- Vá lá, desenvolve... a sério...

- Ok, ok... Não ias mesmo adivinhar: o meu pai recebeu uma chamada do nosso querido e bem amado professor Aguiar Mota.

- Quê?

- Sim, ouviste bem, apesar do cotão que deves ter nessas orelhas peludas, sebosas e cerosas... Lembras-te que ele estava a organizar aqueles encontros de literatura no Tagus, a que ninguém ia...? Agora tudo faz sentido, não achas?

- Diogo, não faz sentido nenhum. Podes ser mais explícito, se fazes favor?

- Ok, ok, tinha-me esquecido que não tens cérebro... O tipo está a organizar aqueles encontros de literatura que não têm tido muito sucesso, para não dizer que são uma desgraça total, e o próximo, que é já para a semana, vai ser sobre poesia... E agora, já estás a topar?

- Não.

- Ai, puto... Como é possível que sejas assim tão lentinho e tenhas tão boas notas? Adivinha quem é um dos convidados?

- Eh... o Ary dos Santos?

- Iá.

- E...? – interrogou Simão, sem perceber onde Diogo queria chegar.

- E o Luís de Camões e a Florbela Espanca.

- Não foi isso que eu perguntei. Disse “e” no sentido de “e então?” e não no sentido de “e mais quem?”... É que ainda não percebi qual é que é a relação entre os emails e o encontro de literatura…

- Simão, desiludes-me a cada segundo: os emails “cova” são obra do Aguiar Mota. Eram um modo bem inteligente de fazer publicidade ao próximo encontro de literatura. Enviava um verso a cada estudante e ficava toda a gente histérica. Depois desvendava o mistério, mas a curiosidade ficava lá: “afinal, a poesia pode ser mesmo boa”, pensariam os estudantes, com a pulguinha atrás da orelha. E ficariam com vontade de ir assistir ao encontro de poesia.... Há que dizer que o Aguiar Mota foi de facto mestre nas escolhas poéticas que fez... Compreendes agora, compadre?

Simão ficou um bocado de tempo a olhar para os sapatos, o que indicava normalmente que estava a pensar. No entanto, por vezes, estava mesmo só a olhar para os sapatos. Desta vez estava a pensar.

- Bem visto, mas então... e o email para a Anne?

- Já lá vou: ele jura a pés juntos que não enviou nada para esse endereço e o meu pai já mandou alguém que confirmou que o email para a Anne não saiu do mesmo servidor que todos os outros emails dos alunos.

- Então voltamos à estaca zero...

- Sim...

- E não... Na verdade, não estamos mesmo na estaca zero, não é, Diogo? Pelo menos sabemos que os emails que nos enviaram não eram uma ameaça real...

- Mas alguma vez pensaste que eram a sério? Ai, eu sempre soube que eras um medricas, Simão. Burro e medricas! Como é que eu consigo ser teu amigo?

- Ora, não sejas parvo. Depois do que aconteceu ontem... tu também não estavas tranquilo.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Estava tranquilo.

Houve um minuto de silêncio e depois Simão disse:

- Para contrabalançar o facto de as mensagens já não representarem uma ameaça, ficámos a saber que anda por aí um assassino em carne e osso…

Diogo ia responder qualquer coisa quando Simão o interrompeu:

- Olha, pára aí! Estão ali a Clarissa e o João, naquela paragem de autocarro.

Diogo travou em frente dos colegas.

- Vão para o Técnico?

- Sim, vocês também?

- Entrem.

E antes que Clarissa conseguisse abrir a porta traseira, Simão saiu do carro e abriu-a.

- Bolas, já não me lembrava que para além de bronco, eras cavalheiro – grunhiu Diogo. – Cuidado aí com o cacto, Clarissa, se fazes favor.

- Andas com um cacto no carro, Diogo? – perguntou Clarissa curiosa, pegando na caixa com jeitinho e sentando-se no seu lugar com esta ao colo.

- Sim – respondeu Diogo num tom que não deixava dúvidas de que não queria falar mais sobre o assunto.

Clarissa levou as unhas à boca e roeu-as um bocadinho, o que fazia sempre que tinha de se controlar para não dizer qualquer coisa. Desta vez teve de roer um bom bocado, especialmente porque percebeu pelo olhar que Simão lhe deitou pelo espelho que o cacto era realmente assunto tabu.

- Vocês têm mochilas iguais? – perguntou Simão, mudando de assunto ao aperceber-se que Clarissa começava a perder a luta contra a interrogação que teimava em fugir-lhe dos lábios.

- Não me digam que são daqueles namorados que também se vestem de igual – acrescentou Diogo, entre o divertido e o horrorizado.

Clarissa e João deram uma gargalhada.

- Nós não somos… tipo… namorados. – disse João.

- Por muito espantoso que vos pareça, – acrescentou Clarissa – somos gémeos.

Simão e Diogo olharam para ambos pelo espelho, com ar de dúvida.

- Sim, – continuou Clarissa a rir-se – eu sei que é difícil de acreditar. Na verdade, as únicas coisas que temos em comum são os telemóveis, as mochilas e os computadores. Em tudo o resto somos diferentes. É que eu sou gira, magra, inteligente, culta e educada, e o João é feio como um sapo, gordo como um porco, burro como uma galinha, ignorante como um hipopótamo e grosseiro como um macaco.

João olhou para ela divertido.

- Sim, pois é, mas pelo menos eu não... tipo... pinto o cabelo de ruivo, nem... tipo... passo a vida em dieta, nem... tipo... ignoro quem é... tipo... o Hubert Reeves, nem tenho de roer as unhas para... tipo... controlar uma língua... tipo... de víbora.

Clarissa continuou com o seu sorriso:

- Ora, eu sei quem é o Keanu Reeves e só fiz dieta...

- Olha, está ali o Pedro. Pára aí o carro, Diogo, se fazes favor.

- Olá Pedro, queres boleia para o Tagus?

- Claro.

Pedro entrou no carro e comentou logo:

- Andas a passear um cacto, Clarissa?

- É do Diogo.

- Andas a passear um cacto, Diogo?

- Sim e não é da tua conta.

- Eh... também tens uma mochila igual à da Clarissa e do João – apercebeu-se Simão mudando de assunto ao ver Pedro começar a roer as unhas.

- Sim e também temos velhos, mas maravilhosos, telemóveis iguais.

- Uau, também és gémeo?

- Não Simão, mas esta aberração que está agora aqui no carro é também da minha família: na verdade, o Pedro é nosso primo direito (apesar de ser completamente tortinho). Claro que o Pedro é da estirpe do João. Porque uma combinação perfeita de genes como os meus, só mesmo para alguns eleitos.

Pedro ia responder, bem-disposto, quando algo de fora do carro lhe atraiu a atenção:

- Cuidado aí, Diogo! Topo Gigio em alucinante ultrapassagem.

Olharam todos na mesma direcção, mas o carro que continha a pessoa que Pedro baptizara com o nome do rato italiano, já estava à frente deles.

- Topo Gigio, Pedro?

- Correcto, foi a alcunha que lhe pus, Simão: como é ruivo e tem aquelas orelhas gigantes faz-me lembrar imenso aquele ratinho meloso do tempo dos nossos pais, o Topo Gigio.

- Realmente, Pedro, és perfeito no teu papel de parvo em full-time – comentou Clarissa, que depois informou. – Esse tipo é aluno de doutoramento e está a fazer a tese no grupo do Aguiar Mota. É francês e chama-se François.

- E, realmente, nada como tu para saberes... tipo... tudo, sobre toda a gente – resmungou João.

- Ora, estive a falar com ele anteontem, depois daquela malfadada aula de dúvidas onde, graças a ti, jamais nos atribuirão uma tese de mestrado naquele grupo de investigação.

- Até parece que fiz alguma coisa de mal.

- Até parece? A secretária do pobre professor Rui Trindade ficou virada do avesso devido à tua pessoa. Deitaste tudo ao chão e pelo menos três vezes. Ele estava em pânico. E isto para tirarmos uma dúvida ridícula de um exercício.

- Ora, o Ruindade está sempre com cara de pânico.

- Ruindade, Pedro?

- Rui Trindade. A alcunha mais óbvia: Ruindade. Concordarás certamente, Diogo...

- Cool. Mas olhem, antes que a família aí atrás se comece a digladiar e me suje o carro com sangue, o que me dizem ao assassinato de ontem?

Mas Clarissa, João e Pedro não podiam dizer nada porque não sabiam dos acontecimentos da véspera. Como tinham ficado razoavelmente enervados com a história dos emails “cova”, tinham ido, depois do almoço, para uma esplanada em Carcavelos, trabalhar num projecto e tinham chegado a casa tarde e a más horas, rabugentos e prontos para ir dormir. O assassinato passara-lhes completamente ao lado.

Diogo pô-los rapidamente ao corrente dos últimos acontecimentos.

- Grande ideia a do Aguiar Mota. Merecia... tipo... um prémio na área da publicidade.

- Merecia era um soco por nos ter metido medo.

- Então, Clarissa, afinal tiveste medo ou não?

- Eh pá, grande aventura! Grande Mistério no IST-Tagus! Isso dava uma boa história, sim senhor. Até se podia chamar “mISTério"... M pequeno, I, S, T maiúsculas e o resto em minúsculas de novo. Perceberam a piada?

- Não, Pedro, não percebi.

- Também não vou explicar, Simão. Mas fiquem a saber que gostava de escrever uma história sobre este assunto.

- Tu escreves? – perguntou Diogo curioso. – O Simão também te vai dizer que escreve, mas a realidade é que só sabe concatenar palavras de modo mais ou menos aleatório. Sabes, segue aquela teoria do “não sei quantos macacos em tempo infinito a teclar numa máquina de escrever, conseguem reproduzir as obras do Shakespeare”...

- És muito engraçadinho, és. Tu até gostas do que eu escrevo. E depois, já ganhei prémios literários, não é?

- Ora, Simão, ganhaste um prémio literário num concurso da primeira classe. Eras o queridinho da directora, o único puto da escola que não comia macacos do nariz nem se peidava nas aulas, portanto foi...

- Vocês também são irmãos? – interrompeu João.

- Ou namorados? – acrescentou Clarissa.

Simão e Diogo olharam para eles com ar de tédio.

- Somos amigos desde os dois anos – explicou Simão, forçando uma careta de infelicidade.

- Disseste “amigos”? Olha que eu sempre te odiei. Depois de ficares o teu primeiro ano de betinho, quer dizer, de vida, em casa com uma ama riquinha alocada só para ti, apareces todo lavadinho e a cheirar a colónia de bebé, e invades os meus domínios na creche da...

- CUIDADO! AHHHHHHHHH! – gritou Clarissa, de repente. Diogo só teve tempo de travar a fundo.

Um carrão desportivo travou também do outro lado e apenas um milagre evitou a colisão.

Diogo ia começar a praguejar como um bom português e em bom Português, quando uma cabeça saiu de fora do carro desportivo: era o professor Aguiar Mota.

- Desculpem rapazes, estava a ouvir o David Mourão Ferreira a declamar e distraí-me. Vocês estão todos bem?

Diogo engoliu dois ou três palavrões que, antes de serem completamente digeridos e assimilados no fel do corpo, lhe queimaram a língua durante uns segundos.

- Eh... estamos professor. Não há problema. Mas veja lá se não se desgraça. Aqui o Simão ainda quer fazer a sua disciplina de Língua Natural no mestrado.

O docente riu-se e seguiu caminho.

- Bolas, grande carrão – comentou João. – Não sabia que os professores universitários ganhavam tão bem.

- Bem, estamos quase a chegar e ainda faltam dez minutos para o início de mais uma intensa jornada de aulas. Antes de termos de passar pela amiga planta denominada Amorphophallus Titanum e ir trabalhar, deixem-me oferecer-vos um momento de prazer total e deixem-me partilhar convosco uma ideia para uma história que tive ontem, pode ser? – Pedro olhava para eles com um ar suplicante.

Diogo estacionou e deixaram-se ficar todos no carro, com as janelas bem fechadas por causa do cheiro, curiosos em relação à história e sem muita coragem para passarem pela planta. Três anos antes, os professores do Tagus tinham lançado a ideia de que os alunos podiam contribuir para um campus mais ecológico, colaborando na construção de uma área de estacionamento verde. No início, a iniciativa tinha sido louvada por todos: lindas buganvílias, roseiras e tantas outras plantas transformaram as três grandes áreas exteriores em coloridos “jardins de estacionamento”. Mas um dia, um grupo de alunos tinha decidido instalar uma Amorphophallus Titanum, a planta responsável pela maior flor do mundo, mesmo ao lado da porta da entrada nascente do edifício. A impressionante flor, com mais de um metro de diâmetro era motivo de romaria até ao momento da primeira inspiradela. Aí, o seu cheiro a carne podre, fazia desaparecer qualquer vontade de contemplação. E como ninguém se conseguia aproximar muito da planta, nem mesmo os alunos que ali a tinham plantado, esta ali ficara, acabando por ser tornar uma das coqueluches do campus. Pelo menos à distância, sempre impressionava pela positiva. De qualquer maneira, era sempre uma maçada quando não havia lugar para estacionar nos outros estacionamentos e quando se tinha de entrar pela porta nascente.

- Vamos lá então... Relaxem, imaginação a trabalhar. Inspirem fundo. Soltem o ar. Devagarinho. Vamos lá, então. Comecem por criar a imagem de um professor de meia idade a dar aulas no A4. O A4 não é tão grande como o A1, mas é um anfiteatro razoável... Imaginem a sala a cinquenta por cento. Um número decente de alunos. Setenta? Por aí. De repente, batem à porta. Estranho... Normalmente os alunos entram. Nunca batem à porta. Mas desta vez... A turma toda fica em silêncio e voltam-se a ouvir duas pancadas. Educadas, mas firmes. O professor fica uns segundos sem saber o que fazer. Depois, quando batem pela terceira vez, sobe as escadas relutante e abre a porta. Surpresa das surpresas: duas velhinhas, com ar inofensivo, daquelas com caracóis brancos e reflexos roxos. “Bom dia, senhor professor. Gostaríamos que contribuísse para a Irmandade do Fim do Mundo.”, diz a mais baixinha. “É para seu bem” acrescenta a segunda velhinha. O professor fica a olhar para elas, atarantado. Depois, com um ar aborrecido, diz: “Minhas senhoras, estou a dar uma aula, não é altura”. E acrescenta “Se me dão licença”, antes de fechar a porta. O docente volta-se para os alunos – alguns já se riam da caricata situação – e começa a descer as escadas do anfiteatro. Ultrapassados quatro degraus e... novo bater na porta. O professor volta para trás, desta vez mesmo aborrecido. “Minhas senhoras, peço que não insistam.” – diz ao abrir a porta. “Voltamos a insistir, dado que é para seu bem”, explica a velhinha mais alta. Desta vez o “com licença” mal se ouve, cortado pelo barulho da porta a fechar-se. O professor desce as escadas, rapidamente, sem se rir, sempre à espera de ouvir nova pancada. Mas nada acontece até chegar de novo à mesa e ao seu computador. Uns alunos riem, outros sorriem, alguns estão incomodados. “Bem, vamos voltar à nossa aula e esquecer este incidente patético”, começa o professor. Muda o slide e observa, espantado, o horror na cara dos seus alunos. Vira-se e os seus olhos fixam-se no slide que ocupa agora a tela. Também ele muda de registo expressivo, agora sintonizado no medo. Um líquido vermelho escuro, grosso (sangue?) escorre na sua projecção; letras gordas, desenhadas nesse líquido, escarrapachadas mesmo por cima de uma complicada fórmula matemática, desenham a frase “Vais morrer”. O barulho que se ouve a seguir, deixa-o a ele e aos alunos de cabelos em pé: as portas do anfiteatro acabaram de ser trancadas.

Pedro calou-se e ficaram todos a olhar para ele.

- E...? – perguntou Diogo.

- E ainda não sei o que vai acontecer a seguir – informou Pedro.

- Bolas, vou agora mesmo ter aulas no A4 – comentou Clarissa franzindo o nariz.

- Clarissa, isto é ficção. E da má – retorquiu Pedro, agora muito sério. – Infelizmente, o que aconteceu ontem àquela pobre tipa já não é.


 
Poesia@Tagus

LOCAL: campus do Técnico no Taguspark, átrio central

DATA: 19 de Abril

HORA: 17h 30

 

Uma semana depois não havia nenhuma novidade a acrescentar ao dramático caso de Anne Wildspitze. No entanto, este acabara por multiplicar por mil a divulgação do encontro de poesia, pois, mesmo tendo sido provado que o email “cova” dirigido a Anne não tinha sido enviado com os restantes emails que tinham o mesmo assunto, estes dois acontecimentos tinham ficado fortemente ligados e o destaque dado pelos media ao crime ocorrido no Taguspark servira também para tornar amplamente difundida a iniciativa do professor Aguiar Mota. Este passara a semana em entrevistas, a falar dos seus encontros de literatura, a assumir-se responsável por todos os emails “cova” com a excepção do de Anne e a declinar qualquer responsabilidade no seu assassinato.

Prestes a ter início o encontro que reunia Florbela Espanca, Luís de Camões e Ary dos Santos, o ambiente no Técnico era de excitação total: os estudantes tinham aderido, finalmente, aos encontros organizados pelo professor, juntamente com várias cadeias de televisão e jornais. Assim, à hora do lanche, perante a fortíssima presença de alunos e funcionários do IST, jornalistas e público em geral, o stock de merendinhas do campus tinha acabado por sucumbir.

- Olá, Sofia.

- Olá, Simão. Olá, Diogo.

- Sofia, esta é a Clarissa... este é o João... Clarissa e João, a Sofia.

- Não és cá do Tagus, pois não, Sofia?

- Não, Clarissa. Nem sou do Técnico. Estou no quarto ano de medicina.

- És irmã do Simão, não é? É que és tão parecida... Claro que tens cara de rapariga e ele...

- ... também – cortou Diogo. – Vá lá, Clarissa, têm de facto alguma coisa em comum, mas há que admitir que a Sofia é bem bonita e que o Simão... ehh...

- Olhem, e se entrássemos já? – sugeriu Simão.

- As portas ainda estão fechadas.

- E se entrássemos no A2 e aproveitássemos a ligação entre os anfiteatros?

- Os anfiteatros estão ligados, Simão?

- O A1, onde vai ser o encontro, está ligado ao A2 por uma espécie de corredor.

- Desde que tenhamos cuidado com o Minotauro...

- Há um Minotauro na ligação entre os anfiteatros? – perguntou Sofia espantada.

- Sim, para além de uma planta que cheira a carne podre, há um Minotauro entre o A1 e o A2. É assim, o nosso campus...

- Mas existe mesmo? Já o viram?

- Existem vários relatos de alunos e funcionários – explicou Clarissa. – Uma vez até ouvi dois professores falarem sobre o assunto e um deles estava completamente convencido da existência do Minotauro. É que vários dos seus alunos de mestrado tinham desaparecido e não davam sinais de vida, mesmo depois de lhes ter enviado vários emails. O professor tinha concluído que tinham sido comidos pela fera. A outra hipótese era terem começado a trabalhar numa empresa qualquer e terem simplesmente desistido do mestrado, mas essa possibilidade parecia-lhe menos verosímil.

- Vamos arriscar o Minotauro – sugeriu Diogo.

Os cinco estudantes entraram pelo A2, desceram as escadas do anfiteatro e dirigiram-se à porta de ligação com o A1. Simão abriu a porta devagarinho, a medo.

- Não me digas que acreditas mesmo que esteja aí um Minotauro – Diogo fez um ar chocado, deu-lhe um empurrão e entrou no corredor que ligava as duas salas. A porta do A1 estava mesmo à frente, a menos de três metros, mas o corredor estendia-se para um dos lados e o fim perdia-se na escuridão.

- MINOTAURO, OLÁ! – gritou Diogo.

- VEM COMER-NOS, PÁ! – ajuntou Clarissa aos berros.

- Mas vocês são... tipo... parvos? – perguntou João muito sério. – Se quiserem brincar com o fogo estejam à vontade. Eu não tenho vontade nenhuma de ser devorado por uma porcaria de um Minotauro.

E, dito isto, João entrou no corredor sombrio, ultrapassou Diogo e avançou para a porta do A1. Quando já estava com a mão na maçaneta, um respirar fortíssimo, fez-se sentir. Durante uns segundos, todos ficaram pregados ao chão, a processar lentamente a informação de que tinham sido atingidos por vários bafos fortes, com um cheiro estranhíssimo a açúcar queimado. Depois, Diogo deu o tom:

- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Clarissa, Simão e Sofia estavam ainda à porta do A2, pelo que se limitaram a recuar. Como não ficou ninguém a agarrá-la, a porta do A2 fechou-se com estrondo. Completamente às escuras, Diogo, que estava mais perto da porta do A1 do que do A2, deu o passo que faltava nessa direcção, mas acabou por esbarrar em João, petrificado, ainda agarrado à maçaneta do A1 e incapaz de se mexer. Diogo ia empurrar o colega para o lado, quando uma mão gigantesca e pesadíssima pousou no seu ombro. Para seu grande espanto e horror, no meio de baforadas de ar quente directamente apontadas ao seu pescoço, soou uma voz, estranhamente parecida com a do Darth Vader (ou, para ser mais preciso, pensou Diogo, espantando-se por conseguir ter um pensamento tão lúcido no meio de tanto terror, estranhamente parecida com a do James Earl Jones). Essa voz repetiu várias vezes a mesma coisa que Diogo não compreendeu logo, logo. Ou melhor, compreendeu à primeira, mas dada a improbabilidade de a voz repetir continuamente “pastilhas Gorila”, só à quarta vez que as palavras foram pronunciadas naquela voz grave e assustadora é que Diogo assumiu que o Minotauro (ou quem quer que fosse que estava atrás dele, dado que não tinha tido coragem para se voltar), queria comer pastilhas elásticas. Revistou os bolsos à procura de algum exemplar, mas logo se lembrou que tinha dado cabo da última antes do almoço. Assim, sem se atrever a olhar para trás, para a criatura que lhe transformava a penugem do pescoço em algodão doce, devido ao enjoativo bafo açucarado, deu uma volta larga sobre o seu potencial predador, aproximou-se da porta do A2 e gritou para os colegas que ali estavam:

- Amigos... uma pastilha Gorila... alguém tem? Dava-nos jeitinho.

Em três segundos que lhe pareceram uma aula inteira, a porta que dava para o A2 abriu-se e uma mão – a de Simão. – apareceu, empunhando uma pastilha de sabor a banana.

Diogo agarrou-a e preparou-se para enfrentar o Minotauro, quando a mão de Simão voltou a aparecer com uma de menta, deixando a porta entreaberta e dando um bocadinho de luz ao corredor. Assim, com alguma esperança de a sua vida se poder prolongar pelo menos mais uns minutos, Diogo agarrou nas pastilhas elásticas, respirou fundo e virou-se para o Minotauro, que continuava colado às suas costas.

Só que Diogo não estava preparado para o que os seus olhos lhe ofereceram: um Minotauro que parecia exactamente... um Minotauro. Assustador, claro. Tinha corpo de homem e cabeça de touro, mas o mais arrepiante era ultrapassar largamente os dois metros de altura e, provavelmente, estimou Diogo, pesar mais de duzentos quilos. Curiosidades? Apesar da penumbra, Diogo conseguiu distinguir nitidamente uma tatuagem da Hello Kitty no braço brutalmente musculado do monstro, dado que a tatuagem era rosa florescente.

Engolindo a seco e sentindo os joelhos a tremer, Diogo deu as duas pastilhas ao Minotauro e ficou à espera que este as metesse na boca, com papel e tudo. O Minotauro agradeceu, na sua voz de Darth Vader, e começou lentamente a mastigá-las.

Assim ficaram uns bons segundos, a olhar um para o outro, Diogo sem pinga de sangue, quando, de repente, começou a forma-se um enorme balão na boca da fera. Quando este atingiu os vinte centímetros de diâmetro, o Minotauro começou a gargalhar histericamente, num riso assustador que, apesar de quase ter feito Diogo desmaiar, teve o efeito positivo de despertar João do seu torpor.

- Agora! – gritou Diogo. Sentido a porta do A2 a abrir-se de novo e que João começava a abrir a do A1, Diogo avançou para o colega, ajudou-o a abrir a porta e empurrou-o para dentro do anfiteatro, passando também ele de seguida. Um segundo depois, Simão, Clarissa e Sofia, entravam no A1 e fechavam a porta atrás de si, com algum estrondo.

***

 

O anfiteatro não estava completamente vazio: uma mulher encontrava-se no meio do palco, que se situava mesmo à direita da porta por onde tinham entrado. Apesar de terem feito imenso barulho, ela não pareceu ter dado conta da sua presença e não se voltou para eles, continuando voltada para as cadeiras solitárias. Sem terem combinado e ainda com o coração a bater descontroladamente, ficaram calados a olhar para ela, em silêncio, pois perceberam que se ia iniciar qualquer coisa. Após uns bons segundos em que tiveram a sensação de viver numa fotografia, a mulher começou a declamar:

 

“Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer!

…”

 

A sua voz era clara e forte, e Simão, sem saber porquê, sentiu-se de novo muuuuuuuito calmo. Como habitualmente.

 

“...

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!”

 

Seria da voz, seria do poema? João não saberia explicar, mas achou que voltava à vida. O sangue começou de novo a circular-lhe no corpo, que praticamente tinha gangrenado havia uns minutos.

 

“Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!”

 

De repente, virou-se para eles e, fixando uns lindos olhos em Diogo, concluiu lentamente:

 

“Amo-te tanto! E nunca te beijei ...

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!”

 

- É a Florbela Espanca – disse baixinho Sofia, com uma voz emocionada. – A poesia que está a declamar chama-se “Os versos que te fiz”. É tão linda.

Mas Diogo nem a ouviu. O episódio do Minotauro já tinha sido apagado do seu cérebro. Apetecia-lhe ir para casa tomar um duche gelado e depois ir viver para a Gronelândia, dentro de um frigorífico.

 

***

 

A sessão de poesia foi um sucesso, com o anfiteatro completamente à cunha. O professor Aguiar Mota foi um mestre de cerimónias extremamente eficiente. Começou por pedir um minuto de silêncio em homenagem a Anne e, depois de uma curta biografia, deu palavra a cada um dos três poetas.

Florbela Espanca e Ary dos Santos declamaram as suas próprias poesias e levaram o anfiteatro ao rubro; Luís de Camões, levou uma bailarina e uma actriz profissional que declamou com ele alguns dos seus sonetos de amor, tendo o resultado sido igualmente brilhante. No fim da sua intervenção, Camões ainda aproveitou para chamar a atenção da importância dos backups. Assim, explicou à audiência que há uns anos tinha alugado uma cave numa rua inclinada na velha Lisboa, onde passara semanas e semanas a escrever. Um dia começara a chover torrencialmente e, em menos de dez minutos, a cave ficara inundada e Camões tivera de fugir. Graças ao backup que fizera numa pen, conseguira sair para a rua, nadar apenas com um braço e manter a pen afastada da água até à chegada dos bombeiros. Apenas assim conseguira salvar a sua última versão de “Os Lusíadas”. Concluiu a explicação dizendo:

 

“O backup dá-me a firme segurança:

Que, posto que me mate o meu tormento,

Pelas águas do eterno esquecimento

Segura passará minha lembrança.”

 

No fim, Florbela Espanca levantou-se e declamou uma última poesia. A sessão terminou com o anfiteatro de pé, num aplauso que durou mais de dois minutos e com uma Sofia em soluços, que só eram superados pelos de um homem de aparência germânica, que tinha ficado sentado ao seu lado. No seu conjunto, o barulho foi tanto que Simão ainda pensou por uns segundos no que se iria passar se o Minotauro resolvesse aparecer. Mas, felizmente, isso não aconteceu.

Cá fora, todos falavam excitadamente uns com os outros:

- Como é que, de entre tantas combinações possíveis de palavras que podiam ser usadas para expressar uma ideia, estes tipos conseguem encontrar sequências tão perfeitas? – perguntava Simão abismado.

- Na verdade, é essa a arte de um poeta: querer transmitir qualquer coisa e ser capaz de escolher as palavras certas e de as combinar na medida exacta. E alguns ainda são capazes de as declamar no tom perfeito – explicou Clarissa.

- Eu estou muito impressionado – confessou Simão. – Apesar dos esforços da minha mãe e irmã, nunca tinha achado muita piada a poesia, mas estes tipos... Nem infinitos macacos em tempo infinito.

- Eu também nunca tinha achado muita piada a poesia – concordou Diogo. – Mas hoje à noite, acho que vou ler poesia... Eh.... se calhar hoje à noite, não, dado que, depois dessa bomba que foi a Florbela Espanca, apetece-me companhia feminina. Clarissa, queres ir ao cinema?

Mas Clarissa tinha-se entretanto voltado para Topo e já tagarelava animadamente com o Francês sobre a possibilidade de se desenvolver um gerador automático de poesia, pelo que nem o ouviu.

- Parece que não vais ter sorte com a Clarissa – opinou Simão com o sobrolho franzido.

- Onde é que está a Sofia? – perguntou-lhe Diogo.

- Vou ignorar o facto de te estares a referir à minha irmã, reprimir o desejo de te espancar e informar-te que a Sofia está ali ao fundo, e que também não me parece muito disponível.

Diogo voltou-se na direcção que Simão indicava. Sofia conversava com o homem que se sentara ao seu lado, cada um com os olhos mais inchados que o outro. Este era comparável ao Minotauro em envergadura e, apesar de as lágrimas lhe darem um toque humano, os traços do seu rosto eram extremamente duros.

Simão e Diogo olharam para os dois com um ar aborrecido.

- Bem, a minha irmã é maior e vacinada e o tipo, apesar daquele aspecto assustador, parece ser ... ehhh... hum... sensível.

- Pois, deve ser imensamente sensível – Diogo estava céptico.

- Baptizei-o de Rammstein – informou Pedro, aparecendo de repente. – É chapadinho o Till Lindemann, o vocalista dos Rammstein. Quando o vi pela primeira vez até pensei, por momentos, que era mesmo ele. Claro que me ia borrando todo, dado que entrou no elevador comigo.

- Pedro, és mestre na invenção de alcunhas – comentou Simão.

- Então... tipo... gostaram? – perguntou João, surgindo atrás de Pedro. Ambos arrumavam carinhosamente os computadores gémeos nas mochilas também iguais.

- Claro, terá havido alguém que não gostou? – perguntou Simão.

- Dão-me um minuto...? Vou só fazer uma chamada. – Diogo procurava um número na agenda do seu telemóvel. – Patrícia? Diogo. Sim, sim, desculpa nunca mais ter dito nada, mas... queres ir jantar fora, hoje?... Sim? Ok, óptimo! Vou aí ter às nove.

Diogo desligou o telefone e fez um ar vitorioso:

- Não estava à espera de tanta receptividade, confesso. Deixei-a pendurada na última vez que combinámos jantar juntos. Uhm... vais ver que ainda guarda carinhosamente a minha escova de dentes – afirmou fazendo um ar muito macho.

- Diogo, desde quando é que tens uma escova de dentes em casa da Patrícia?

- Tenho. Ou pelo menos, tive.

Simão olhou para ele com um ar céptico. Diogo suspirou.

- Ok, ok, confesso que calhou. Fui lanchar a casa dela e esqueci-me da escova de dentes que costumo ter na minha mochila. Ainda lá deve estar.

De repente, fez um ar apreensivo.

- Bolas, não tenho carro para ir para Lisboa e o jantar é ao pé do Campo Pequeno.

- Ora, apanhas o shuttle comigo – sugeriu o Pedro. – Como deves saber, burguês nojento, existem vários autocarros do Técnico que ligam os campi da Alameda e do Tagus... Arranca um daqui a dez minutos.

- Eu também vou apanhar esse autocarro – disse Topo num português quase perfeito. Ele e Clarissa tinham-se aproximado do grupo.

- Então, vai toda a gente para Lisboa, é? – perguntou Clarissa.

- Eu não – respondeu João à irmã. – Aliás, hoje tenho râguebi e vou precisar do carro da mãe.

Clarissa suspirou:

- Depois de tanta arte, não me apetecia nada ir para casa.

- Clarissa, queres vir jantar comigo? – perguntou Simão.

- Eh...! – refilou Diogo.

- Adorava! – respondeu Clarissa.

Diogo deitou a Simão um ar furioso. Mas Simão continuou a sorrir e nem se virou para ele.

De repente apareceu Sofia, toda entusiasmada.

- Simão, Diogo, este é o Hans – disse apresentando-lhes Rammstein. – Acreditam que está a aprender Português desde o dia em que leu Fernando Pessoa? A vontade de o ler no original foi tanta que começou a aprender a nossa magnífica língua.

- Parece que tenho um autocarro para apanhar... – Diogo não estava muito contente.

 
Crime@Alameda

LOCAL: Oeiras

DATA: 20 de Abril

HORA: 8h 45

 

- Sabes o que fiz ontem? – perguntou Simão, ao entrar no carro de Diogo. Antes de se sentar e pôr o cinto deitou uma olhadela ao banco de trás, não conseguindo evitar que uma máscara de consternação se lhe agarrasse ao rosto durante uns segundos: o cacto continuava na caixa de sapatos, esta bem presa com o cinto. Tinha sido regado, pois ainda se viam duas gotas de água, brilhantes, na sua base.

- Sim, foste jantar com a Clarissa.

- De facto fui jantar com a Clarissa... e com a minha irmã e com o Rammstein. Olha que o tipo é bem simpático e a Sofia pareceu-me bastante entusiasmada com o personagem... – Simão calou-se quando viu o ar aborrecido de Diogo. – Está a fazer o doutoramento com o Aguiar Mota e o tema da tese é, imagina, detectar se dois poemas são ou não da mesma pessoa. Desafiante, não concordas?

- Brutal... e deduzo que correu bem o jantar com a Clarissa.

- Sim, foi muito agradável o jantar com a Clarissa... com a minha irmã e com o Rammstein. Falámos sobre poesia o tempo todo. Mas, na verdade, o melhor de tudo foi o que me aconteceu a seguir. Fui para casa com um desejo louco de escrever. É que a Clarissa e eu resolvemos fazer uma pequena competição: cada um tem de fazer uma poesia dedicada a CDI, a nossa bem amada disciplina de Cálculo Diferencial e Integral.

- Ai, parece-me extremamente romântico – disse Diogo, ilustrando o comentário com uma careta repugnada. – E escreveste alguma coisa?

- Claro. Queres ouvi-la?

- Não, mas acho que a vais declamar na mesma... Sempre tiveste uma falta de respeito monstruosa pelos que te rodeiam e não querem saber de ti e das tuas coisas.

Simão sorriu, olhou para a ponta dos sapatos enquanto carregava mentalmente a poesia que tinha inventado e declamou:

 

Estudava programação

À noite,

Com grande concentração.

O assassino veio por trás e...

Zás...

a minha cabeça rolou no chão.

 

Fiquei a ver o meu corpo tombado,

sobre a mesa de estudo.

Tanto sangue derramado,

meu Deus, sujou-me tudo:

tantos apontamentos encharcados,

com o meu sangue inutilizados...

 

Fiquei furioso!

Maldito bandido odioso,

grande sacana,

e o teste da próxima semana?

 

De repente, sorri:

Já não tinha de estudar CDI.

 

Diogo fez pisca e encostou o carro. Ficou a olhar para Simão com um ar preocupado.

- Júlio de Matos? Miguel Bombarda? Escolhe... Espera, terei de te levar para o Júlio de Matos, dado que acho que é único hospital psiquiátrico em funções...

Simão riu-se.

- Gostaste, não é? Também estou extremamente orgulhoso de mim. Dificilmente a Clarissa terá produzido material de tanta qualidade.

Diogo arrancou outra vez, com um sorriso.

- Agora estou curioso: o que é que a Clarissa terá escrito?

- Olha, mudando de assunto, como é que te correu a noite ontem, com a Patrícia?

- Ehhh... na verdade não correu muito bem. Ela, de facto, tinha a minha escova de dentes, mas estava a usá-la para limpar o ralo da banheira e do lavatório. Devia ter desconfiado... Resumindo: tinha um rottweiler em casa, que atiçou contra mim quando cheguei.

- Credo! E como é que te escapaste?

- Olha, fechei a porta da rua no exacto momento em que ele saltou. Ainda ouvi o estrondo do cão a esborrachar-se contra a porta e corri escadas abaixo.

- Coitado.

- Coitado? Nem se magoou e ainda veio atrás de mim. A minha sorte foi que, quando saí para a rua, estava um caixote de lixo à frente da porta. Deitei-o abaixo e quando a Patrícia abriu a porta para o cão sair (completamente excitado e sedento de sangue, há que dizer), este entrou a correr no caixote de lixo. Empurrei-o contra a parede e a partir daí foi fácil, que só tive de me proteger das dentadas... da Patrícia. O cão estava feito louco a fazer uma alarvidade dentro do caixote de lixo, mas não conseguia soltar-se.

- Coitado do bicho.

- Mas coitado, como? Estamos a falar de uma fera sanguinária.

- Estava a referir-me a ti.

- Tens muita piada, tens. Sabes o que...

Mas Simão já não o ouvia:

- Olha: estão ali a Clarissa e o João... Malta, entrai no carro do poeta, entrai.

- Bom dia, Simão e Diogo. Ah, o cacto ainda cá está – comentou Clarissa sem conseguir evitar. Na véspera, ao jantar, Simão tinha-lhe explicado que o cacto era a planta favorita da mãe de Diogo, que o adorava, ao contrário de todo o restante universo, que o achava pavoroso. É que o cacto só dava flor uma vez por ano: uma linda flor com um cheiro maravilhoso, que perfumava divinalmente a casa mais de uma semana. No resto do tempo, o cacto esmerava-se em ser uma planta muito feia, labutando arduamente o ano inteiro para tornar imensamente sortudos os olhos e os narizes que tinham a sorte de conviver com ele na sua fase bela, com a sua flor bem-cheirosa. A mãe de Diogo fascinava-se com este facto e dizia muitas vezes que o mal da sociedade era toda a gente estar à espera do êxito imediato em qualquer tarefa que realizasse, quando, na verdade, grande parte das obras de valor demoravam tempo a montar, e eram fruto de um imenso e longo trabalho continuado. Aquele cacto simbolizava, assim, uma metodologia de trabalho em vias de extinção, que envolvia dedicação, perfeccionismo e resistência, valores que deveriam ser de novo reabilitados. Desde que a mãe morrera, há quase um ano, que Diogo se tornara guardião do cacto e, quando as saudades apertavam demasiado, andava com ele para todo o lado.

- Alguma novidade em relação à investigação? – perguntou João. – O teu pai descobriu alguma coisa? Tipo… algum suspeito?

- Acho que não. Mas, na verdade, não vi ontem o meu pai, porque chegou muito tarde e saiu muito cedo.

- Olha, o Pedro hoje não está – comentou Simão quando passaram pelo sítio onde tinham apanhado o amigo na véspera.

- Eh pá, esse nosso primo é completamente alucinado. Ontem enviou-me uma cena... completamente estranha – disse Clarissa pegando no telemóvel e começando a procurar a mensagem do primo.

- Eh, a mim também... – comentou João espantado.

- Olhem-me isto: “auiiar mot” – Clarissa olhava para o telemóvel ainda meio incrédula.

- Pois, eu também recebi isso – disse João.

- O que é que quererá dizer? – perguntou Diogo curioso, olhando para os irmão através do espelho retrovisor.

- Será que o Pedro queria escrever “Aguiar Mota”? Os nossos telemóveis são antigos, com teclados físicos numéricos. Daqueles que têm o “a”, “b” e “c” na mesma tecla. Na primeira sequência bastava ter falhado um “g” e escrito um “i” a mais; na segunda, falta-lhe um “a”. Salta à vista, não? – sugeriu Clarissa.

- Pois, é possível – concordou João pensativo. – Mas, ainda assim, o que é que ele quer dizer com “Aguiar Mota”?

- Lembram-se de termos estudado aquele algoritmo da distância de Levenhstein? – perguntou de repente Simão.

Diogo olhou para ele com um ar chateado.

- Puto, estamos a pensar nisto, não nos vamos pôr a trabalhar agora. Se não te importas...

- Não, não é trabalho... Lembram-se como é que funciona?

Diogo levantou a sobrancelha, sem perceber onde é que aquela conversa ia dar.

- Serve para comparar duas palavras, pois diz-nos quão longe em termos de caracteres uma está da outra – respondeu prontamente Clarissa.

- Sim, por exemplo, “pum” e “atum” têm uma distância de dois, dado que para transformar “pum” em “atum” há que acrescentar uma letra e trocar outra letra. E “traque” e “fraque” têm uma distância de um, dado que basta trocar o “t” pelo “f”. E “cocó” e “popó” têm uma...

- Ok, ok, podes parar... ainda me lembro como funciona... Tenho, no entanto, de acrescentar que fiquei maravilhado com a profundidade e elegância dos teus exemplos.

- Para tua informação, Diogo, os exemplos foram criteriosamente escolhidos de modo a que as palavras em jogo fizessem parte desse teu vocabulário limitado – explicou Simão. – Mas onde eu quero realmente chegar é que posso fazer um programa que procure num dicionário as palavras mais “próximas”, de acordo com a distância de Levenshtein, das palavras da mensagem do Pedro. Somos informáticos, não é?

Diogo ficou uns segundos a pensar.

- Mas a distância de Levenshtein não tem em conta as especificidades do teclado do telemóvel, não é? É que num telemóvel como os vossos é mais provável trocar um “a” por um “b” do que um “a” por um “z”. Ah, e espero que tenhas reparado que disse “especificidades”. E dizes tu que tenho um vocabulário limitado... Hás-de engolir essa observação profana.

- Mantenho que tens um vocabulário paupérrimo, mas sim, podia-se alterar o algoritmo para ter em conta o facto de se estar a trabalhar com um telemóvel com um teclado particular.

- Isso tudo é muito bonito, mas que tal perguntar-lhe? Vamos ter aulas todos juntos daqui a... vinte minutos – disse Clarissa olhando para o relógio.

- Sim, Clarissa, e antes de abraçarmos mais um maravilhoso dia de aulas: não tens nada para nos contar?

- Ah, sim, a poesia dedicada a CDI. Claro que tenho. Dez segundos... – Clarissa começou a procurar na mochila. – É que ainda não a decorei.

Finalmente, encontrou um papel dobrado em quatro que desdobrou e leu:

 

Quando a terra tremeu naquele dia,

estudava eu muito concentrada,

e sob a parede que caía,

fiquei completamente soterrada.

 

Com as vísceras espalhadas pelo chão,

esmagada e a agonizar,

a Morte estendeu a mão,

e veio-me buscar.

 

Tentei em vão fazer-lhe ver

que tinha exame na segunda.

Replicou que não,

que não podia ser,

que estando assim moribunda,

eu tinha mesmo de morrer.

 

Desisti de a convencer,

Desalentada.

Mas eu tinha de reconhecer

que já não era mais do que carne picada.

E que mesmo que não tivesse chegado a minha hora,

com as tripas de fora,

e toda partida,

a época de exames estava

definitivamente comprometida.

 

E quando ia para o outro mundo,

aborrecida com a minha morte,

pensei bem e achei

que no fundo

até tinha tido sorte...

 

E no caminho para o além,

eu sorri,

ao lembrar

que já não tinha de estudar

CDI.

 

Diogo e Simão olharam um para o outro.

- Acho que perdi – comentou Simão.

- Acho que o nosso destino hoje passa mesmo pelo Júlio de Matos ou pelo Miguel Bombarda – respondeu Diogo com ar muito preocupado.

- Esperem, ainda não acabou – informou Clarissa que continuou:

 

Sentado a uma mesa de cedro,

estava S. Pedro,

com um carimbo na mão:

- Nome e profissão?

- Chamo-me Clarissa e sou estudante universitária.

- Estudava o quê?

- Engenharia Informática no IST.

E com um sorriso de orelha a orelha,

S. Pedro exclamou:

- Nosso Senhor vai ter uma nova ovelha!

Por muito que tenha pecado,

se foi no Técnico que estudou,

fica tudo perdoado!

E sem perder aquele sorriso,

carimbou na minha ficha:

"ACESSO AUTORIZADO AO PARAÍSO!"

 

Diogo e Simão olharam um para o outro e disseram ao mesmo tempo:

- Bolas!

 

***

 

Diogo já tinha estacionado e já se preparavam todos para sair do carro depois de encherem o peito de ar, dado que iam passar pela flor mal cheirosa, quando o telemóvel de Clarissa tocou.

- A tia Amélia, a esta hora da manhã...? – Clarissa empalideceu imediatamente e, mesmo antes de começar a falar com a tia, já todos tinham percebido que vinham aí más notícias. Uns segundos depois, João entrou praticamente em pânico quando Clarissa começou a chorar ao telefone.

- É o Pedro – explicou ela entre soluços, perante a consternação geral. – Foi atropelado ontem à noite. Está em Santa Maria. Em coma.

 

***

 

Diogo e Simão foram levar os amigos, muito preocupados e infelizes, ao hospital. Pedro estava em coma devido a um traumatismo craniano.

Depois de os deixarem com a família, ambos concordaram que não iam regressar ao Tagus imediatamente, dado que não seriam capazes de se concentrar nas aulas.

- Vamos tomar um café à Mexicana? – sugeriu Simão. Durante uns anos tinham vivido ambos em Lisboa e gostavam muito daquela velha pastelaria, com a sua esplanada na Guerra Junqueiro.

Quando lá chegaram, perante dois cafés e duas torradas, começaram a tentar assimilar os últimos acontecimentos.

- Há que dizer que a mensagem que a Clarissa e o João receberam torna-se agora francamente arrepiante... – comentou Simão – Estou com a sensação que o que aconteceu ao Pedro não foi apenas um... atropelamento... ehh... normal. Se é que um atropelamento pode ser “normal”...

- Sim, mas antes de ficarmos mais stressadinhos, que tal analisarmos os factos? É o que o meu pai diz sempre.

- E tem toda a razão, Diogo – Simão tirou uma caneta da mochila, pegou num guardanapo e escreveu a palavra “factos”. Depois foi tirando umas notas enquanto verbalizava o que lhe ia na cabeça – Sabemos que o Pedro chegou a Lisboa no mesmo autocarro que tu, uns minutos antes das nove. Sabemos que ele enviou aquela mensagem aos primos às nove e onze e que, pouco depois, foi atropelado ao pé das vivendas por detrás do Técnico... O que é que sabemos mais?

- Hum... Pelo que disseram os pais do Pedro, o condutor jura a pés juntos que ele atravessou a rua a correr. Mas isso não é um facto.

- Pois, mas sabemos que não o fez na passadeira. Nisso os peritos estão de acordo. É outro facto – disse Simão acrescentando uma linha no seu guardanapo. – E não achas estranho a mochila do Pedro ter desaparecido? Segundo a Clarissa o dono do carro disse que reparou que o Pedro trazia um saco ao ombro e que sentiu um segundo embate no carro, mais fraco, que ele pensa que era o saco... E que depois de chegar a ambulância ainda se lembrou de o ir procurar, para o entregar, mas não encontrou nada.

- Sabes, Simão, isso ainda deve ter uma explicação mais simples e perversa: alguém se aproveitou para roubar a mochila. É nojento, mas...

Entretanto, tocou o telemóvel de Diogo.

- É o meu pai. Dá-me um segundo – pediu a Simão, enquanto procurava uma parede para ir encostar a cabeça.

Passados uns segundos regressou, cheio de pó na testa, mas todo entusiasmado.

- Nem imaginas o que o meu pai acabou de me contar: uns seguranças encontraram um vídeo do dia do crime em que se vê a Anne a sair de um dos pavilhões à volta do Núcleo Central e, passados uns bons segundos, é seguida por um homem de óculos escuros e... – Diogo fez uma pausa dramática. – ... ruivo. Infelizmente não se lhe consegue ver a cara.

- O Topo? Não pode ser! Tem um ar completamente inofensivo – comentou Simão, lembrando-se do colega francês das grandes orelhas e cabeleira ruiva.

- Pois, também me lembrei logo dele... Afinal quantos ruivos se cruzam nos nossos caminhos? O meu pai perguntou-me se havia alguém com essas características lá pelo Tagus e o Topo saltou-me à vista. Claro que também lhe disse que achava pouco provável que fosse ele o assassino, pois não deve passar de um inofensivo aluno de doutoramento, cujas acções mais violentas devem ser imaginar-se a torturar cruelmente o orientador ou alguém que lhe rejeitou um artigo.

- E o que disse o teu pai?

- Disse que ia investigar, obviamente.

 
Noite@Tagus

LOCAL: Oeiras

DATA: 2 de Maio

HORA: 7h 32

 

Duas semanas depois, as coisas continuavam exactamente na mesma: Pedro permanecia em coma e Anne continuava morta. Apesar de terem entrado numa fase em que o trabalho era imenso, entre aulas, testes e projectos, Diogo, Simão e os restantes colegas revezavam-se nas visitas a Pedro. Uns contavam-lhe as últimas novidades das suas séries favoritas, fazendo figas para que os spoilers não estivessem a perturbar-lhe o sono; outros falavam-lhe de banalidades; Clarissa explicava-lhe a matéria que andavam a dar e descobriu que nesse processo aprendia imenso, apesar de se sentir sempre frustrada por não saber se a mensagem estava, de algum modo, a chegar ao primo.

Suavizando levemente o stress das avaliações, tinha pegado a moda da poesia e não era pouco usual encontrar alguém a declamar ao virar de uma esquina ou a assistir a uma aula com uma pala no olho. Aliás, estas eram agora a última tendência e podiam encontrar-se à venda em quase todas as lojas de roupa, em várias cores e materiais.

Desta vez, vamos encontrar Diogo e Simão, não no velho carro do primeiro, mas na cama voadora do segundo: um sofisticado modelo cromado, preto, que acomodava com imenso conforto os passageiros, em particular os que tivessem o privilégio de viajar no lado da cabeceira, ricamente trabalhada e coberta na base por duas grandes almofadas fofas. Simão fazia manobras para aterrar e apanhar Clarissa e João, que os esperavam, pacientemente, no sítio do costume.

- Entrem, entrem. Novidades do Pedro?

- Não, Simão. Infelizmente, nada de novo.

- Eh pá, isto é mesmo... tipo... uma bela máquina – comentou João, recostando-se num dos enormes travesseiros e afagando, maravilhado, a fina carroçaria.

- É da minha mãe.

- E vocês, alguma novidade...?

- Não, Clarissa – respondeu Simão fingindo algum aborrecimento. Na verdade não se importava absolutamente nada que não existissem novidades. Num momento em que as avaliações pareciam reproduzir-se como coelhos, não queria ter o seu cérebro a dispersar-se em acontecimentos extra-curriculares.

- Espera lá, eu tenho montes de novidades – anunciou Diogo.

- Então e não me disseste nada? – o cérebro de Simão grunhiu “ai ai” e começou a limpar da memória mais algumas recordações, de modo a arranjar espaço para a informação que aí viria. Simão tinha horror à ideia de um dia vir a esquecer-se de alguns factos importantes da sua vida, pelo que alocava um duplo espaço na sua memória para eles. Assim, ficava com um espaço limitado para novas informações e tinha de libertar memórias antigas. Por exemplo, as recordações dos nove meses em que vivera na barriga da mãe e de algumas fases particularmente complexas da sua adolescência tinham sido todas eliminadas para dar lugar às matérias que tinha tido que aprender desde que entrara no Técnico.

- Assim aproveito para contar a todos e não tenho de estar a repetir a mesma história várias vezes. E depois... bem sabes que o ódio imenso que nutro por ti sofre incrementos brutais quando ando na tua cama voadora. Faz-me lembrar quão beto tu és e quão infeliz eu sou por te ter como amigo.

Simão fez uma curva apertada à direita, quase lançando Diogo para fora da cama.

- Ups, foi sem querer – desculpou-se, com um sorriso.

- Vê lá se aprendes a conduzir. Ou então não te conto nenhuma novidade.

Simão manteve o sorriso.

- Parem lá com as parvoíces. O João e eu somos todos ouvidos – resmungou Clarissa do banco de trás, enquanto tentava, sem grande sucesso, apanhar o cabelo para este não ficar ainda mais despenteado devido ao vento.

- Ontem à noite, o meu pai comentou com um colega, ao telefone, que continua a investigar o Topo. Descobriram que ele é um jornalista francês e que, antes de vir para Portugal, escrevia sobre literatura para uma revista. Parece que se despediu e veio para cá fazer doutoramento. O tema da tese dele é a detecção semi-automática de plágios. Estranho, não acham?

Clarissa deu uma gargalhada.

- Não era preciso estares armado em mete-nojo, à escuta do teu pai, Diogo. Bastava teres lido o blog do François, onde ele explica que, como jornalista/crítico literário, teve de se confrontar várias vezes com livros que ele considerava plágios de outros e que isto levou a que resolvesse fazer um doutoramento no assunto.

- Esclarece-me só uma coisa: o François é o Topo?

- Sim, já te tinha dito.

- Ahh – Diogo estava desiludido. – Bolas, e eu que estava tão entusiasmado com esta informação... Mas... espera, ainda tenho mais uma carta na manga: acho que o meu pai vai mesmo mandar chamá-lo para falar com ele. Aposto que isso não vem no blog.

- De facto, não vem, mas compreendes que isso não vai levar a nada. O François é impecável. Não anda para aí a matar pessoas.

- Quem vê caras, não vê corações. Os teus pais nunca te ensinaram esta, Clarissa? – perguntou Diogo, virando-se para trás.

- Ensinaram. E é por isso que ainda aceito as tuas boleias.

- Não estou bem a ver onde queres chegar...

- Já agora, por falar em caras e corações, sabem porque é que o Hans está cá em Portugal? – continuou Clarissa, ignorando-o.

- Porque queria ler Fernando Pessoa no original – respondeu Simão. – Essa sabemos. E sem ler nenhum blog.

- Sim, mas há outra razão. Ele também já trabalhava: era professor de literatura na Alemanha, numa universidade qualquer cujo nome não conseguiria pronunciar, mesmo que tivesse cem anos para praticar. O pai dele era um escritor muito famoso que publicou um livro que foi um grande êxito, aí há uns dois anos. Depois, no pico da fama... suicidou-se. Nunca ninguém percebeu porquê. Foi isso que levou Hans a decidir-se vir para cá fazer o doutoramento. Já tinha pensado que era uma coisa que queria fazer, isso de aprender português para ler Fernando Pessoa no original, mas foi a morte do pai que realmente o levou a vir. Queria mudar de ambiente. Radicalmente.

- E como é que sabes isso tudo? O Rammstein, para além de ter coração e sistema lacrimal, também tem um blog? – perguntou Simão, curioso.

- Não, foi a tua irmã Sofia que me contou, ontem. Aqui entre nós, acho que eles andam.

Desta vez Simão guinou sem querer para a direita. Diogo não reclamou porque ficou a pensar que, se fosse ele ao volante, ter-se-ia mesmo despistado.

 

***

 

- Finalmente! – gritou Diogo, levantando-se de repente, fazendo tombar a cadeira e assustando de tal modo Clarissa, ao seu lado e a beber café, que esta entornou umas gotas no teclado do seu portátil.

- Ehh... já corre – disse-lhe Diogo à laia de desculpa.

Como Clarissa continuava a olhar para ele com um ar aborrecido, Diogo estendeu-lhe um lenço de papel. Não havendo alteração ao estado de desagrado, perguntou-lhe:

- Queres ir jantar comigo, hoje?

Desde vez Clarissa reagiu. Durante um milésimo de segundo, o seu rosto espelhou alguma surpresa; depois reforçou o ar carrancudo.

- Não: tenho a primeira entrega do projecto para acabar. E, neste momento, odeio-te. Primeiro, porque já acabaste o teu projecto e eu odeio os meus colegas que se antecipam; segundo, porque por tua causa fiquei, muito provavelmente, sem o meu computador adorado que tanto suor me custou. Foram pelo menos dois anos a poupar a mesada e mais de um ano de explicações de matemática.

- Ora... foram só uns pingos... tens a certeza de que não queres ir jantar comigo?

Clarissa ia responder, mas o seu olhar recaiu para a porta da sala, por detrás de Diogo. O que viu fê-la soltar um grito que, reza a história, esteve prestes a matar do coração todos os que se encontravam numa vizinhança de cinquenta metros da sala 0.7, incluindo a causa do grito: um Uruk-hai de quase dois metros de altura que, assustado, desapareceu no bar, mesmo em frente da sala.

Diogo foi atrás dele para confirmar que os seus olhos não o tinham enganado e que estava um Uruk-hai no IST-Tagus, quando esbarrou numa trupe, encabeçada por Simão e João, que se dirigia agitadamente para o mesmo destino.

- Simão, está um... um Uruk-hai aqui no Tagus – balbuciou Diogo.

- Eu sei... ia agora observá-lo melhor. É igualzinho ao do filme. E já reparaste como fede? É fantástico.

- Simão... como é que hei-de dizer isto de outro modo?... Está um Uruk-hai no Tagus. Achas isso normal? Só nos falta isto ser invadidos por Orcs.

- Não olhes agora, mas está um Orc naquela mesa, a tomar café e a comer uma merendinha prensada.

- Quê?

Diogo olhou para a direcção indicada por Simão e ficou de boca aberta: um Orc tomava café, com o dedo mindinho espetado, comia uma merenda e lia o Diário de Notícias.

- Mas...

- Diogo, pensa um segundo... – Simão deu-lhe uma palmada nas costas.

- Mas...

- É publicidade para o próximo escritor que cá vem...

- Mas...

- Exacto, vem cá o Tolkien! Ao Tagus! O Professor Aguiar Mota deve ter conseguido. Pelo menos é isso que o João e eu pensamos...

- Mas...

- Já viste? O Tolkien... no Técnico!!!! É absolutamente genial!

Simão virou-lhe as costas e entrou finalmente no bar para observar de perto o Uruk-hai que estava agora sentado no meio de vários estudantes, a rir-se, exibindo uma dentição repugnante, a tomar uma bica e a comer um bolo de arroz.

- Simão, – chamou Diogo. – o projecto já corre.

Mas não foi ouvido.

 

***

 

Estavam todos na sala 0.7 e já eram quase sete da tarde quando a voz aguda de Clarissa subiu de tom. Estava a gritar com João, numa posse francamente assustadora, em bicos de pés e com a cara a menos de dez centímetros da do irmão. Simão e Diogo pararam de conversar e ficaram a olhar para a rapariga, sem saberem muito bem o que fazer, quando esta se virou para eles no mesmo tom de voz:

- Estou furiosa, dado que hoje vamos ficar aqui a fazer uma noitada porque temos o projecto para acabar e o meu irmãozinho bandalho anda atrás de Orcs mal-cheirosos em vez de fazer o que lhe compete. E, ainda por cima, tem um treino muito importante, pelo que só vai atacar a sua parte bem tarde. É por isso que estou a gritar. Algum problema?

- Ehhhh... Porque é que vocês nunca trabalham em casa? – perguntou Diogo, tentando mudar de assunto. De qualquer maneira, era algo que sempre o intrigara: as pessoas iam para a faculdade labutar com os restantes elementos do grupo, mas quando estes viviam todos juntos... – Sendo irmãos, partilhando o mesmo “lar doce lar”, não compreendo porque insistem em vir para cá...?!

- Porque foi o que fizemos no primeiro ano do curso e... engordámos uma tonelada. A minha mãe é uma boss da culinária e todos os dez minutos estávamos na cozinha – explicou Clarissa, cada vez mais enervada. De repente, num impulso incontrolável, pegou numa folha de papel e rasgou-a em mil bocadinhos, acompanhando o processo com breves rugidos, carregados de raiva.

- Eu também devia fazer o mesmo – comentou Diogo, entredentes.

- Grunhir ou esventrar uma pobre folha?

- Muito engraçadinho. Falo em despejar o meu balde de ódio em cima de ti. Nem consigo perceber como é que ainda me mantenho tão calmo. Despachei a minha parte do projecto, mas a parte que era suposto TU acabares e cujo prazo de entrega é, também, amanhã, ainda não corre e, ainda por cima, tens de ir ao aniversário da gorducha da titi Augusta, comer como se o mundo não tivesse amanhã, pelo que só vais poder começar a trabalhar a partir da meia-noite. O que se passa contigo? Foste tu quem me ensinou a gerir o tempo – por muito que me custe a admitir – e agora estamos um bocadinho lixados, não é?

- Ok, ok, estava à espera de acabar o que faltava hoje à tarde, que não é assim muita coisa, e confesso que me entusiasmei com a presença do universo Tolkiano aqui no nosso campus. Mas mal me libertar da overdose de doces e bombons de ginja da titi Augusta, venho cá ter para acabar o que falta. Isto supondo que o excesso de açúcar de sangue não me mata antes.

- Pronto, o meu bom fundo voltou ao de cima e vou facilitar-te a vida: não farei mais nenhum comentário... desde que me tragas um sortido de bombons.

Simão franziu o sobrolho.

- Apenas isso? Deixas-me ir assim, sem sangue, sem os teus habituais roncos histéricos, acompanhados da tua miserável prosa? Algo de estranho se passa...

Diogo sorriu.

- É que eu vou ficar cá, a adiantar o trabalho que o cretinóide do meu colega não fez... e vou ficar... com a Clarissa... sozinho... com a Clarissa.. sozinho... com a Clarissa... sozinho. Repeti três vezes para perceberes melhor. Topas?

Depois, virando-se para João, ainda encolhido num canto, como que aprisionado naquele espaço pelas malhas invisíveis do raspanete da irmã, Diogo falou bem alto e com um sorriso de orelha a orelha:

- João, precisavas de boleia para o teu treino de grunhos, não era? O Simão terá todo o prazer em dar-ta... Sim, sim, ele depois pode trazer-te para cá de novo, de madrugada. Não, não se preocupem... tenho a certeza de que a Clarissa e eu vamos dar um bom avanço aos projectos. Demorem o tempo que for preciso.

 

***

 

Diogo ia realmente começar a trabalhar quando Clarissa soltou um palavrão bem condimentado. Diogo olhou para ela, curioso.

- Aquela besta do João levou o meu computador e deixou-me o seu, o computador mais infeliz do mundo, com os directórios mais mal arrumados do universo, com uns nomes de ficheiros tão estúpidos que, se não fossem as extensões, nunca saberias se ias abrir um ficheiro de código ou dar início a um filme de bonecos animados japoneses semi-eróticos. Sabes quantos icons estão no desktop do martirizado portátil? Mais de duzentos e cinquenta...

- É o que dá todos terem computadores iguais – observou Diogo, com um sorriso, dando-lhe uma palmadinha no ombro. Depois viu Clarissa pegar numa borracha e desfazê-la violentamente e achou melhor deixá-la acalmar-se antes de a voltar a convidar para jantar. De qualquer maneira ainda era cedo...

Assim, com algum custo controlou os seus instintos primários e esteve uma hora a trabalhar, muito concentrado. Os seus esforços foram recompensados e rapidamente conseguiu tirar um bug que tinha detectado no projecto. E pronto, só faltava fazer mais uns testes, acabar de escrever o relatório e a entrega estaria concluída! Eram quase sete e meia e já podia convidar a colega para jantar. Infelizmente, Clarissa ainda não tinha conseguido resolver os dois cenários que falhavam no projecto e estava de muito mau humor. Diogo sentou-se a seu lado e vestiu o ar mais simpático que os músculos faciais lhe permitiam.

- Vá, eu ajudo-te.

- Quem disse que eu precisava da tua ajuda, senhor convencido?

- Provavelmente não precisas, mas eu gostava que viesses jantar comigo e penso que só vais jantar quando tiveres resolvido o teu problema, pelo que ajudar-te é apenas uma questão egoísta da minha parte. Como deixar as vaquinhas viveram felizes, para depois poder comer uma carnoca mais tenrinha.

Clarissa ficou uns segundos a olhar para Diogo, com a suspeita bem marcada no rosto.

– E quem te disse que eu vou querer jantar contigo quando o meu projecto correr? – perguntou. – Andas mesmo atrás de mim, ou quê?

- Claro que ando atrás de ti.

- Então pára, que não vais a nenhum lado.

- Isso pensas tu.

- És sempre tão asquerosamente convencido?

- Claro.

- E consegues alguma coisa de quando em quando?

- Sempre.

- Hum... parece-me que vais ter de te confrontar com uma excepção.

- Comigo, excepções, só as do Java.

- És sempre tão asquerosamente convencido?

- Claro.

- Meu Deus, estamos a entrar em ciclo. Espero que tenhas uma boa condição de paragem.

- Tenho. Quando aceitares que te ajude a tirar esse bug e quando fores jantar comigo.

- Bem, então parece-me que estamos perante um ciclo infinito.

Apesar de tudo, Clarissa chegou-se levemente para o lado, para deixar Diogo ver melhor o seu ecrã. Diogo leu o nome do ficheiro em que Clarissa trabalhava e não conseguiu deixar escapar uma gargalhada.

- O João não sabe que escolher nomes de ficheiros, funções e variáveis apropriados faz parte da arte do informático. No meu primeiro ano as variáveis que usei eram todas palavrões e quando entreguei o projecto deixei escapar uma “merda” e uma “merda-aux”. E vá lá que foi o menos mau que podia ter acontecido. O professor descobriu, tivemos menos dois valores no projecto e o Simão não me falou uma semana. Claro que esse segundo efeito até foi positivo.

- Vais ajudar-me ou vais ficar a relembrar os teus tempos ridículos de caloiro imberbe?

 

***

 

Eram quase nove e meia da noite quando descobriram o problema do código de Clarissa.

- É melhor não dizeres ao Simão que os teus testes correm todos agora em menos de um segundo – comentou Diogo já a imaginar-se a ter de refazer o projecto todo para melhorar a performance do seu programa.

- Claro que vou dizer. Gosto de provocar inveja nas pessoas. Mas, em tua honra, talvez só diga depois de vocês entregarem o projecto, quando já não houver nada a fazer. Também gosto de provocar raiva. Sou naturalmente má.

- Uuuu, adoro mulheres más. Vamos jantar?

Clarissa olhou para ele com o sobrolho franzido e tentou manter o ar de quem achava que jantar era algo dispensável. No entanto, a sua barriga pronunciou-se em desacordo. Sim, tinha fome. Muita fome.

- Ok, ok. Então, onde é que vamos?

- Cantina, boa?

 

***

 

Mesmo àquela hora, o espaço de refeições não estava tão vazio quanto seria de supor e vários grupos de alunos atacavam o seu jantar, alguns em animada cavaqueira, outros demasiado cansados para grandes conversas. Num dos cantos, um aluno ressonava ao lado de um prato de sopa, mas ainda ninguém tinha tido coragem de o ir acordar.

- Quando acabares a licenciatura vais fazer mestrado? – começou Diogo, a fazer conversa, perante um prato a transbordar de febras de porco.

- Claro que vou. Tu, não?

- Não.

- Porquê?

- Porque não quero que o meu pai me continue a sustentar.

- Mas já pensaste que se calhar ele não se importa? Ou já pensaste que podes trabalhar nas férias para pagar as propinas? Trabalhaste nas férias para comprar o teu carro, não foi? Enfim... aquela coisa que se arrasta, que tem três ou quatro rodas e um volante...

- Hum...

- Eu quero mesmo fazer mestrado, só ainda não decidi as áreas. Há dias falei com o François que me esteve a tentar convencer a fazer a minha tese em Processamento da Língua Natural. Apesar de achar que deve ser engraçado aprender o que fazem os computadores para tentar compreender o que nós dizemos, ainda não estou convencida... Olha, e por falar em Processamento de Língua Natural, já viste quem chegou? O Ruindade, como lhe chamava o Pedro. É o co-orientador do François.

De facto, o professor Rui Trindade, com um ar mais esgotado que o mais esgotado dos alunos presentes, com a sua tez de cadáver e olheiras profundas, acabara de entrar na sala e dirigia-se, arrastando os pés, para o carrinho dos tabuleiros. Parecia que carregava as próprias costas, de tal modo caminhava curvado; o cabelo preto, longo e fino, escorria-lhe pelos ombros, confundindo-se com o casaco escuro, comprido e puído, que envergava.

- Este tipo é uma versão mais nova do Snape, do Harry Potter – deixou Clarissa escapar entre dentes.

- Eu diria que uma mistura entre o Snape e o Corcunda de Notre Damme. Mas com duas corcundas.

- Concordo. E depois de uma tortura do sono de vinte e seis anos.

- Cinquenta e cinco anos e sete meses, pelo menos, mas que tal voltar à nossa fascinante conversa e deixar de comentar pessoas, miss cusca? Estávamos a falar de...?

- Processamento de Língua Natural.

- Ah, sim... Bolas, Clarissa, não deve haver área que me interesse menos... A nossa língua é tão complexa... Se nós próprios mal nos compreendemos, imagina o raio de um computador.

Ficaram uns minutos em silêncio, a comer. Depois Clarissa avançou, após uma breve hesitação:

- Sabes, eu concordo que a linguagem que usamos é muito complexa, mas, ao mesmo tempo, é tão... limitada.

- Limitada?

- Repara... há conceitos que não conseguimos definir com palavras.

- Não conseguimos definir como?

- Bem... – Clarissa corou ligeiramente, o que não passou despercebido a Diogo que parou de comer, curioso com a conversa emergente. – uma vez estava a ler uma dessas revistas muito más... daquelas que têm um consultório sentimental.... Sabes...? Em que as pessoas escrevem para lá a contar um problema amoroso ou afim e eles respondem...?

Diogo ofereceu à colega o ar mais chocado que conseguiu produzir.

- Clarissa, tu lês essas coisas?

Clarissa respondeu na defensiva:

- Foi só uma vez, no cabeleireiro...

- Sou todo ouvidos.

- Bem, era uma rapariga que dizia que tinha estado com o namorado e que tinha sentido uma coisa diferente e perguntava se isso poderia ter sido um orgasmo.

- Ora, se fosse um orgasmo ela saberia que tinha sido um orgasmo.

- Pois, foi exactamente isso que a jornalista, ou lá o que era a responsável pelo correio sentimental, respondeu.

- E não estás de acordo? – perguntou Diogo maliciosamente.

- Sim, claro que estou. Mas a questão é: como é que defines um orgasmo?

- Então, é uma sensação que... não é um... bem, se... é quando... e... depois... bem... sente-se um... quando... – Diogo calou-se subitamente e ficou com a testa muito franzida, a pensar. Passados uns longos segundos deu-se por vencido. – Ok, ok, não consigo arranjar palavras.

- Pois é, há muitos conceitos que não conseguimos definir. Como é que caracterizas um sabor? A que sabe o café? E um estado de espírito? O que se sente quando se está apaixonado? Camões bem tentou arranjar uma definição para “amor”, o “fogo que arde sem se ver”, mas é apenas uma linda imagem, muito pouco concreta.

Ficaram uns segundos calados, Diogo mastigando mais uma febras, até Clarissa voltar a atacar com um reforço do seu ponto de vista.

- Um dia li num livro, acho que do Paul Auster, que um ricaço cego pagava a um tipo para este lhe descrever coisas tão fascinantes como uma parede branca. E este passava tardes a fazê-lo. Na altura dei-me conta que não teria vocabulário para tal... Como é que se pinta em palavras uma porra de uma parede branca? Repara que mesmo sem pensarmos nas texturas, as cores, globalmente, são um problema... Como é que temos a certeza de que vemos todos a mesma coisa? Para mim o vermelho é a cor desta minha camisola e tu também concordarás que é vermelha, mas quem nos garante que vemos a mesma cor?

- Lá isso...

- Portanto, eu acho que a língua natural, apesar de toda a sua expressividade, apesar de todas as combinações possíveis de palavras, algumas tão fantásticas que dão uma beleza incrível a um texto, é extremamente limitada.

- Confesso que nunca me tinham ocorrido estas reflexões profundas e... coloridas. E deixa-me dizer-te, Clarissa, que eu queria engatar-te durante o jantar, mas agora fizeste-me pensar e quando penso... hum... com o meu cérebro iluminado... o meu modo de engate desliga-se quase na totalidade.

Clarissa começou a esboçar um sorriso, mas depois Diogo continuou:

- Por outro lado disseste a palavra “orgasmo” várias vezes. Sabes, essa é a palavra-chave que desperta o monstro sexual que existe em mim.

Clarissa fez um ar enjoado.

- Se já acabaste de comer essa alarvidade de febras, vamos voltar ao trabalho, se fazes favor. Ainda tenho de confirmar os testes todos e de escrever o relatório.

 

***

 

A noite escura espreitava pelo imenso tecto envidraçado que acompanhava o edifício na sua totalidade. Quando se dirigiam à sala de estudo do primeiro andar, Clarissa informou que tinha de passar pela casa de banho. Assim, Diogo entrou sozinho na sala onde costumavam fazer os seus projectos e espalhou a mochila, cadernos e computador por várias mesas, dado que a sala estava vazia. Depois sentou-se, foi ver qual o modelo do relatório a seguir e tinha acabado de começar a trabalhar quando Clarissa regressou, bastante pálida.

- Que ridículo, tive medo...

- Medo?

- Sim, não estava ninguém à vista e tive a sensação de estar a ser observada. Devo andar a ver demasiado o National Geographic, mas senti-me uma pobre gazela que um grupo de leões marcou para caçar. Olhei à volta, mas...

- Nenhum leão.

- Nenhum leão, mas quando entrei na casa de banho e tranquei a porta, pareceu-me que alguém tinha entrado também, mesmo antes da porta principal da casa de banho fechar. Mas depois... silêncio. Total. Aí já não me senti um gazela, mas mais uma personagem de um filme que está escondida na casa de banho, com um assassino à solta.

- Andas a ver filmes a mais.

- Ou realidade a mais. Estive a pensar na pobre da rapariga assassinada. A Anne. É lixado. A única certeza que temos é esta existência e roubar a vida a alguém, tão novo ainda, com tantos... tantos dias de sol pela frente...

- Clarissa, adorava discutir esse assunto, até porque, acredita, é um assunto sobre o qual tenho muito a dizer, dado que a minha mãe morreu há menos de um ano, mas vamos tentar focar-nos nos projectos, pode ser? As entregas são amanhã e nós ainda temos muito que fazer... E quanto a teres medo... há sempre seguranças durante a noite... certo?

Clarissa abanou a cabeça em concordância.

- Sim, tens razão, vamos trabalhar e despachar isto de uma vez.

Diogo voltou a atacar o projecto, cheio de genica, quando Clarissa reclamou alto:

- O João já tinha começado a escrever a porcaria do relatório, mas agora não o consigo encontrar.

Pegou no telemóvel e fugiu-lhe dos lábios mais um palavrão bem gordinho.

- Porra, tenho menos de um cêntimo.

- Liga do meu.

- Não, deixa estar. De qualquer maneira vou ter de carregar o telemóvel, já que detesto não ter saldo. Vou lá abaixo ao multibanco...

- Vê lá se não és seguida por nenhum zombie.

- Ah, ah, ah, engraçadinho.

Clarissa saiu porta fora e Diogo voltou a focar-se no seu trabalho. Tinha acabado de escrever o número do grupo no relatório quando tocou o telefone: era Simão, avisando que ainda não tinham cantado os parabéns à tia Augusta, pelo que só lá pela meia-noite e meia é que chegaria. Diogo aproveitou para o lembrar dos bombons e para lhe tecer mais meia dúzia de ofensas, antes de regressar ao trabalho. Tinha escrito o nome de ambos quando o telemóvel voltou a dar sinais de vida, avisando que tinha uma mensagem. Esta provinha de um número anónimo, mas o que leu fê-lo dar um pulo da cadeira: “vem ter comigo à 0.15. Depressa. Clarissa”.

Por uns segundos ficou todo excitado, a achar que afinal a colega não era tão... ehhh... Mas logo um novo pensamento o assaltou: e se Clarissa estivesse com algum problema? E se estivesse mesmo a ser seguida por um tarado qualquer? Desceu as escadas a correr e dirigiu-se o mais depressa que pôde à 0.15, encontrando a porta fechada. Estava ali parado a pensar no que fazer quando ouviu uma voz atrás dele:

- O que é que estás aqui a fazer?

Clarissa observava-o curiosa.

- Então, enviaste-me uma mensagem a dizer que estavas aqui.

- Diogo, sabes que fui carregar o telemóvel do outro lado do edifício...

Confusos e algo apreensivos, voltaram a subir ao primeiro andar e dirigiram-se para a sala onde tinham estado a trabalhar. Aperceberam-se logo que algo de estranho se passava quando viram que esta estava às escuras. Entraram, alerta, e rapidamente constataram que alguém tinha deixado os computadores no mesmo sítio, mas tinha levado a mala do portátil de Clarissa.

- As nossas malas são lindas, mas também não são assim tão especiais – comentou Clarissa, nervosa. – A do Pedro desapareceu quando foi atropelado, na semana passada roubaram a do João, durante um treino, e agora... a minha. O que é que se passa com esta gente?

 

***

 

Os dois colegas, depois de terem verificado que mais nada lhes faltava, foram avisar os seguranças.

- O que me custa mais é o telefonema... Alguém queria mesmo tirar-me daquela sala e eu, estúpido, caí que nem um patinho.

- Pior: alguém que sabia o teu número e o meu nome.

Clarissa calou-se quando avistou Simão que regressava com João.

- Estás três quilos mais gordo, Simão – comentou Diogo.

- Pelo menos uns dez. Mas com esta caixa de chocolates belgas, vocês também estarão em breve.

- Sim, bem precisamos de chocolates, depois do que se passou...

E, em menos de cinco minutos, puseram os dois rapazes a par dos últimos acontecimentos.

- Mas então, alguém... tipo... rouba... tipo... a tua mochila e não toca no computador que está... tipo... ao lado?

- Sim, e também ninguém tocou no meu computador.

- Diogo, sem querer ser ofensivo, ninguém quereria o teu computador.

- Queres levar um soco, Simão?

- Nem por isso. Com o que comi, não ia correr bem.

- Isto é tudo um grande mistério, mas temos de voltar ao trabalho. Os seguranças já foram informados e vão contactar a polícia... Três mochilas roubadas em tão pouco tempo... E aquela mensagem... Será que conseguimos identificar o número?

- Era anónima.

- Vou falar com o meu pai e contar-lhe o que aconteceu.

- Agradecia, Diogo. Se ele achar melhor, vamos lá depor.

Ficaram os quatro em silêncio.

- E agora? – perguntou João.

Clarissa fez uma careta.

- Agora, tu, horrível criatura que tenho como irmão, vais-me dizer qual o nome do relatório que já tinhas começado a escrever. E para teu bem, espero que não seja Starbuck, Daenerys, Arwen, ou algo do género.

 

***

 

Eram nove horas da manhã quando os quatro levantaram os olhos dos respectivos computadores e sorriram uns para os outros, cansados, mas com a sensação de missão cumprida.

- Pronto, só temos de submeter o projecto e o relatório e as entregas já eram.

- Espera Diogo, antes de submeter o relatório preciso de confirmar aqui uma coisa na bibliografia. A sala central da biblioteca acabou de abrir e vou lá num instantinho, pedir para consultar um livro.

- Boa, Simão! Vou contigo porque também tenho de confirmar uma coisa que o João escreveu.

Clarissa e Simão levantaram-se e dirigiram-se ao espaço onde se encontravam expostos os livros que procuravam.

Estavam quase a terminar a consulta quando Clarissa sussurrou:

- Eh pá, esta colecção de livros de Fantasia e de Ficção Científica tem sido a minha perdição. Bendita Simetria, que nos doou estes livros não técnicos.

Simão abanou com a cabeça em concordância, pegando em vários livros de Ray Bradbury. Ia comentar o génio do escritor, quando algo na prateleira lhe chamou a atenção. Enfiou a mão no espaço deixado vago pelos livros e ficou de boca aberta, quando a retirou com uma peruca ruiva e uns óculos escuros.


Tolkien@Tagus

LOCAL: campus do Técnico no Taguspark, Sala 0.5

DATA: 26 de Maio

HORA: 18h

 

Quase um mês depois, a época de exames aproximava-se vertiginosamente e acabavam-se os últimos projectos. Estavam todos estoirados. A peruca e os óculos escuros não tinham levado a polícia a nenhum suspeito. Apenas uma coisa ficara clara para os quatro amigos: alguém tentara incriminar Topo ao esconder a peruca e os óculos num sítio onde seriam descobertos mais cedo ou mais tarde. A grande questão era: porquê Topo?

Outra coisa que lhes dava a volta à cabeça nos escassos momentos em que não estavam a trabalhar era o desaparecimento das mochilas de Clarissa e João. O inspector Ferreira ficara mais preocupado com o acontecimento do que o filho, levando Diogo a questionar-se se poderia haver alguma relação entre o desaparecimento das mochilas de Clarissa e João, e o desaparecimento da mochila de Pedro aquando do seu atropelamento. Tudo apontava agora para que o acidente fosse mais do que o fruto de um acaso infeliz, mas nada se tinha conseguido adiantar a esse respeito, dado que Pedro continuava em coma, apesar dos médicos estarem esperançados de que despertaria em breve. Quanto à mensagem anónima deixada no telemóvel de Diogo, não tinha sido possível localizá-la.

Nesse fim de dia, os dois amigos olhavam aborrecidos para os dois irmãos.

- Então, ainda não está acabado? – perguntou Diogo sem conseguir esconder a sua impaciência. Era suposto os colegas terem concluído o projecto à hora do almoço, mas mesmo com a tarde a dar os seus últimos suspiros este ainda estava longe de poder ser entregue.

- Não! Mais uma vez o João esteve a jogar 2048 enquanto devia estar a fazer a sua parte do projecto – o tom de voz de Clarissa não deixava dúvidas de que vinha aí uma tempestade de raiva.

- Só joguei um bocadinho... – defendeu-se o rapaz, pouco convicto.

- Achas que quatro horas é um bocadinho? E eu a pensar que estavas a trabalhar...

- Quatro horas? Pareceram-me... tipo... cinco minutos...

- Cala-te, desgraçado! – Clarissa avançou na sua direcção e, como sempre, pôs-se em bicos de pés e invadiu-lhe escandalosamente o espaço próprio. – A mãe faz anos hoje, de modo que vamos a casa jantar e depois, como o senhor meu irmão é um atraso de vida, vamos ter de voltar para acabarmos esta porcaria – ainda não estava a gritar, mas o tom de voz era suficientemente assustador para fazer várias cabeças girar na sua direcção.

- Sempre podemos telefonar à mãe e...

- Nem penses – Mesmo na natação sincronizada, as pernas, braços e corpos nunca eram tão perfeitamente sincronizadas como a frase que Diogo e Clarissa dispararam em coro.

- E voltam a que horas? – perguntou Simão que estava naquele momento a pensar no seu ex-sagrado soninho de guerreiro; sentia-se levemente zonzo e não conseguia perceber porquê. Tinha apenas uma leve percepção que o cenário envolvente estava algo modificado, sendo a causa do seu mal-estar.

- Sei lá... De qualquer maneira, o que é que tens a ver com isso? – esganiçou Clarissa. – O vosso trabalhinho já está pronto, não é? O que é vos interessa se o nosso está ou não?

- Sim, o nosso projecto está de facto acabado, o código já foi submetido e o relatório já foi entregue também. E, modéstia à parte, está absolutamente excelente – o rapaz fez um sorriso, orgulhoso, esquecendo-se da sua má disposição. – Conseguimos resolver todos os casos que nos foram dados para teste em menos de três segundos. Mesmo os mais difíceis. É que a nossa heurística é... – Simão interrompeu-se quando reparou que Clarissa o observava com a mesma expressão que a prima Vera tinha na cara quando se lançara sobre ele e lhe partira os dois dentes da frente depois de ele ter passado com a bicicleta suja de lama por cima da sua colecção quase completa de cromos do Nobita. Na altura contavam ambos cinco anos e tinham-se apenas perdido dentes de leite, naturalmente repostos no ano seguinte; agora um processo paralelo envolveria certamente várias idas ao dentista, pensou Simão deixando cair o seu sorriso. – Ehh... se quiseres podemos ajudar...

- Não, não queremos. O nosso trabalho fazemos nós. A bem ou a mal – a voz de Clarissa soou aguda. Sempre em bicos de pés, Clarissa aproximou-se perigosamente do rapaz. – E, se queres saber, senhor Simão sabichão, conseguimos resolver os casos mais difíceis em menos de um segundo. Temos é um problema com dois dos cenários mais fáceis, em que o programa rebenta... Mas não respondeste à minha pergunta: qual é o vosso interesse no nosso trabalho?

- Ehh... – Simão não sabia bem o que dizer. Ele e Diogo, preocupados com a reacção do inspector Ferreira ao roubo das malas e não esquecendo a hipótese de Clarissa ter sido seguida, haviam decidido tentar manter os dois irmãos debaixo de olho. Deste modo, tinham adoptado os seus horários. No entanto, começavam a estar fartos, pois estes, graças a João, nunca conseguiam ter os projectos prontos a horas normais.

Bendita organização espartana aquela que Simão lhe incutira desde que tinham começado a trabalhar juntos, na pré-primária: um bocadinho de trabalho todos os dias e excessos só pontualmente – pensava Diogo. – Mas claro, não podia dizer isso em voz alta. Jamais em tempo algum elogiar o amigo... Enfim... talvez um dia, um elogio fúnebre.

- Mas... – Clarissa olhou de repente à volta, confusa. São sete da noite e isto está minado de gente. Quem são estes tipos todos?

Foi então que Diogo e Simão se aperceberam que a população no campus devia ter triplicado em relação ao que era habitual àquela hora. E que este último compreendeu que essa era a causa da sua má disposição. Tinha horror a multidões desde o dia em que se perdera da sua mãezinha na praia de Carcavelos. Tinha três anos na altura e deixara de ver a progenitora durante quase dez segundos, devido ao aglomerado humano. Desde aí que odiava estar em qualquer sítio onde estivessem mais de duas pessoas por metro quadrado, com fatos de banho, óculos escuros, chinelos e chapéu de sol. Dava-se graças a Deus todos os dias por os colegas não levarem chapéus de sol para as salas de aula.

- E grande parte desta gente não é de cá...

- Olha, não está ali... tipo... o Emplastro?

- João, nem que fosse o David Fonseca. Vamos a casa dar um beijo à mãe. Vá...!

Finalmente, Clarissa e João foram-se embora. Diogo virou-se para Simão:

- E nós, o que fazemos? Não me apetece nada ficar mais uma noite acordado.

- Eu posso ficar a proteger os dois – sugeriu Simão, pouco convencido, dado que estava realmente cansado e farto de noitadas. – Se bem que está cá tanta gente...

De repente olharam um para o outro e começaram a rir às gargalhadas.

- Que ridículos que nós somos... – Diogo agarrava a barriga com as mãos. – parecemos aqueles putos dos livros da Enid Blyton que acham que toda a gente está em perigo e que são eles que têm de as salvar.

- Esse é o drama do homem aranha. Na verdade, nós somos o homem aranha, mas sem collants e super-poderes.

- Ora, eu tenho super-poderes.

- Super-podres, queres tu dizer.

- Vamos mas é para casa dormir.

Estavam a pôr as mochilas ao ombro quando Clarissa e João regressaram.

- Uma porra! – Clarissa estava furiosa. – Como o Tolkien vem amanhã, já não se consegue sair do campus. O parque de estacionamento está completamente cheio e as filas de trânsito perdem-se de vista. Um horror! Nem consigo perceber onde terminam. Já telefonei à minha mãe a explicar que não conseguíamos sair daqui e imaginem que, quando lhe contei, disse que se ia meter na bicha.

- A tua mãe gosta de estar em bichas? – Diogo estava surpreendido.

- Não, idiota, a minha mãe também é uma grande fã do Tolkien e quando soube que já estava tudo um caos decidiu vir para cá. Meu Deus, se até a minha mãe, que é tão razoável, enlouqueceu com isto...

- Se agora ainda nem oito horas são e já está assim, sempre gostava de saber como é que o Tolkien chega cá amanhã... – comentou Simão pensativo, olhando para a ponta dos sapatos.

- Vamos lá começar a trabalhar e despachar isto – Clarissa dirigiu-se, energeticamente, para uma secretária vazia. A meio do caminho voltou-se e ficou a olhar para eles com cara de quem tinha um grande grito de desespero para soltar. No entanto, sem desviar o olhar, limitou-se a tirar uma caneta de um bolso e parti-la ao meio, com ambas as mãos. Depois fechou os olhos, respirou fundo, arrumou a caneta no estojo, voltou-se e foi acabar o projecto.

Diogo e Simão aproveitaram para ir jantar à cantina. Felizmente não estava muito cheia. Aliás, dada a quantidade anormal de gente que se passeava pelo Técnico, ficaram surpreendidos por encontrar apenas meia dúzia de colegas a alimentar-se.

- Já que temos de cá ficar, vou começar por dar uma arrumação de fundo à minha mochila – informou Simão mais tarde, olhando-a desgostoso quando, já com a barriga cheia, se preparavam para decidir o que iam fazer. – Sim, porque com todos estes projectos, nunca mais tive tempo para lhe dar alguma ordem e, tenho de confessar, já me sinto um bocado João, com tanta papelada de que desconheço a proveniência.

- “... Tanta papelada de que desconheço a proveniência”... – Repetiu Diogo franzindo o nariz. – Como podes tu usar expressões tão pomposas para dizer pura e simplesmente que a tua mochila está um esterco?

- Pronto, se isso te faz feliz: a minha mochila está um esterco.

- Pior que a minha, não pode estar – desafiou Diogo, começando a despejar alegremente o conteúdo do seu saco em cima de uma secretária. Entre dois cadernos estavam umas cuecas de senhora, encarnadas com bolinhas pretas, modelo fio-dental.

- Humm... Normalmente isto poderia ter o seu encanto. O problema é que não sei bem de quem são ou se.... eh... estão usadas.

- Vá lá, Diogo, assume de uma vez que são tuas! Liberta-te desse peso. Vá!

- Estás muito engraçadinho, tu... Com muita piada, sim senhor...

- É a privação de sono. Liberta o Diogo que há em mim.

- Ai senhores, que gracinha. Vê lá se não queres levar um soco.

- Seria um prazer. Depois teria uma boa razão para te espancar e para te fazer engolir todas as imbecilidades que me despejas em cima desde sempre.

- Um lingrinhas como tu?

- Não sou lingrinhas. Sou alto, belo e maravilhoso.

Diogo deu uma gargalhada e ficou a olhar fascinado para Simão.

- Puto, essa frase é minha, tem copyrights: eu é que sou alto, belo e maravilhoso. Tu és muito alto e muito lingrinhas e muito feio.

- Tu não és alto. E és quadrado.

- Sou alto.

- Não és.

- Sou alto.

- Não és.

- Sou alto.

- Não és.

- Sou alto.

Simão encolheu os ombros e pegou em duas folhas de papel. Ficou uns segundos a analisá-las e depois perguntou espantado a Diogo:

- Isto é teu?

Diogo olhou para a primeira folha de papel que dizia:

 

“Eu sei tudo sobre o projecto ABG e tenho a lista dos escritores. Prepara-te para pagar 10.000€ ou o projecto e a lista vão ser públicos. Tu tens uma semana para juntar o dinheiro e depois avisar para : chantagem@gmail.com.”

 

Espantadíssimo, Diogo estudou a segunda folha, que continha, na mesma fonte, uma lista de escritores mundialmente conhecidos.

- Não, não é meu. De onde é que isto virá?

- Estavam no meio destas folhas... Na verdade... – Simão olhava curiosíssimo para as folhas que tinha nas mãos. – estes outros papéis são do João... reconheço a letra caótica, as manchas de gordura, o cotão... enfim o...

- ... o inferno, não é? – Diogo continuava a observar as duas folhas de papel, atentamente. – Realmente, só mesmo o João para ter estes apontamentos nojentos... Mas como é que esta papelada foi parar às tuas coisas?

Simão reflectiu uns segundos.

- A essa pergunta, eu acho que consigo responder... O João espalha tudo por todo o lado e, em paralelo, como que para garantir uma espécie de equilíbrio universal, recolhe tudo de todo o lado, certo? Na verdade, não deve ter sido difícil recolher essa folha de... sabe-se lá de onde... e tê-la misturado com os seus apontamentos. Quanto ao estar na minha mochila... Também não é preciso pensar muito. Lembras-te do dia dos emails “cova”? O João falou connosco, espalhou o seu lixo no chão para nos mostrar o email que tinha recebido e foi-se embora deixando metade das suas coisas a conspurcar a bela calçada portuguesa do nosso querido IST-Tagus. Eu guardei as coisas dele, para lhe devolver mais tarde, mas... esqueci-me. E esta foi apenas uma de tantas vezes, este semestre, em que andei a recolher os despojos do João. Sabe-se lá quando é que estas folhas vieram habitar a minha mochila...

Ficaram os dois calados até que Simão disse, subitamente, num modo muito mais excitado do que lhe era habitual:

- Já viste bem...? Uma folha de chantagem... Isso pode explicar muita coisa... Pode ser uma nova pista. Pode estar ligada ao assassinato da Anne ou ao atropelamento do Pedro... – fez uma pausa dramática. – Acho que temos de falar com o teu pai.

- Eh... já viste como estou agarrado à folha? Devo ter destruído qualquer impressão digital que pudesse existir... O meu pai...

- Acho que, ainda assim, devemos falar com o teu pai.

Diogo levantou-se, ligou ao Inspector Ferreira e ficou à espera de ser atendido encostando a testa a uma parede. Foi a irmã quem atendeu o telemóvel do pai. Disse-lhe que este tinha saído para a casinha que a família tinha em Ferreira do Alentejo e que tinha pedido para não ser incomodado até quinta-feira da outra semana.

- Então, o que é que se passa com o teu pai? Ele não costuma ausentar-se assim, de repente...

- O meu pai tem as suas razões – respondeu Diogo bruscamente. Parecia perturbado.

Simão olhou para o amigo, surpreendido.

- Claro, certamente. E a quem terá ele deixado os casos que está a investigar? Imagino que não tenham ficado parados...

No entanto, mal acabou de fazer a pergunta, Simão soube logo a resposta:

- Ah, não, o Inspector Morcela com a sua parvoíce sem limites.

- Pois – Diogo continuava cabisbaixo.

- Bem... Os papéis já estiveram na minha mochila este tempo todo... Podem continuar mais uns tempos...

Subitamente, Diogo animou-se:

- Então, vamos lá armar-nos em Sherlock Holmes durante uns dias.

- Seja, mas, já agora, antes em Harry Dickson, versão do Jean Ray, o tradutor mais criativo do universo. A minha melhor colecção incompleta de sempre. Uma borla na feira do livro e conseguia devorar dois por noite. Absolutamente geniais.

- Seja. Eu sou o Harry Dickson e tu és o Tom Wills.

- Devia ser ao contrário, dado que eu é que sou o inteligente, não é Diogo?

- Eh pá, continuas tão engraçadinho... Vê lá se te curas depressa, dado que és insuportável com as tuas gracinhas pseudo-Dioguescas.

- Ok, vou parar de descer ao teu nível tão reles. Vamos investigar. Para começar, temos de perceber de onde é que isto vem. Perguntamos directamente ao João onde é que ele arranjou a papelada? Ou achas que... – Simão hesitou uns segundos – ele é suspeito?

Olharam um para o outro e deram uma gargalhada.

- Se a mensagem de chantagem fosse do João seria “Eu tipo sei tipo tudo sobre tipo o projecto tipo “ABG” tipo” – concluiu Simão ainda a rir.

- Agora estiveste bem... Mas olha que seria fascinante descobrir que, afinal, o João sempre era o Voldemort....

- Vai então falar com ele, Diogo, para ver se sabe onde terá arranjado a papelada. Eu vou à net ver o que encontro sobre o “ABG”.

- Não, espera, fazemos antes assim: eu vou falar com o João para ver se sabe onde terá arranjado a papelada. Tu vais à net ver o que encontras sobre o “ABG”.

- Mas... foi isso que eu disse...?!

- Sim, Simão, mas tenho de ser eu a dizer, dado que eu é que sou o Harry Dickson e sou eu quem dá as ordens.

 

***

 

Passados uns minutos, Diogo voltou a encontrar-se com Simão.

- Espero que tenhas tido mais sorte do que eu, Simão. Encontrei a Clarissa e contei-lhe tudo. Para além de estar certamente com o período e de me ter tratado como uma ratazana de esgoto, o terceiro facto é que não sabe de nada. Diz que o João tem a mania de ir a todas as aulas de dúvidas que existem, que espalha sempre os apontamentos por todo o lado, quer esteja no bar ou numa aula, que leva todos os dias para casa metade das folhas dela e de outros colegas (para não falar do telemóvel e mesmo do computador, que já foram trocados várias vezes). Parece que até no autocarro ele espalha papéis... Portanto, por aí, não vamos lá...

- Pois, mas por aqui vamos a algum lado. Escrevi projecto “ABG” e imagina o que me veio parar às mãos? – Simão virou o ecrã na direcção de Diogo, ao mesmo tempo que lhe explicava:

- “ABG”: Automatic Book Generation. Isso é um artigo do nosso bem amado Aguiar Mota e do Rui Trindade, mais conhecido por Ruindade, o nome atribuído pelo pobre do Pedro.

Diogo puxou a cadeira para o lado do amigo e esteve uns segundos calado a estudar o texto que tinha à frente. Finalmente, disse:

- Um artigo dos dois, que data de há dez anos, sobre geração automática de livros... Estranho... Leste-o todo?

- Sim, ainda tenho de o ler de novo, com mais atenção, mas só pela introdução já percebi umas coisas: parece que o objectivo do projecto era desenvolver um sistema (o “ABG”) que, dado um conjunto de livros de um autor e meia dúzia de palavras chave, fosse capaz de escrever, automaticamente, outro livro, respeitando o estilo próprio desse autor – Simão estava entusiasmado. – Como se fosse um novo livro escrito por ele! Pelo que eu percebi, neste artigo apresentam uns testes que fizeram com livros do Emílio Salgari e com a colecção Aventura da Isabel Alçada e da Ana Maria Magalhães. Geraram automaticamente um livro do Sandokan e da Aventura, corrigiram manualmente algumas – diz aqui que ainda bastantes – inconsistências sintácticas, cronológicas e espaciais, e deram os livros a ler a várias pessoas. Aparentemente, o contentamento foi geral, mas ainda tenho de ler a secção da avaliação, para perceber quais foram os resultados exactos.... – O rapaz avançou umas páginas no texto. – Olha... lindo!... Quanto aos livros da Aventura, foram vinte os miúdos que leram... vê lá estes resultados: doze acharam o livro pior que os outros, sete acharam semelhante e um até achou que era o melhor da colecção.

- Eh pá, mas isso é muito à frente.

- Pois é, Diogo... E o que é estranho é que o artigo já tem dez anos e não há mais nenhuma referência ao projecto na web. Eh... e olha aqui... na bibliografia... encontrei uma referência à tese de doutoramento do Ruindade... parece que, pelos vistos, estava a fazer o doutoramento nessa altura... O nome da tese era “Geração automática de livros infantis”...

- Uhm... começa-me a parecer que a chantagem não é nenhuma brincadeira. Realmente... começamos a ter aqui muitas coisas... misteriosas... como diriam os “famosos cinco”. O assassinato da Anne, o atropelamento do Pedro mais a mensagem que enviou, o desaparecimento das mochilas, a peruca ruiva, a mensagem que recebi e agora... estes documentos e este projecto.

- Exacto, Diogo. Mas, neste momento, o importante será descobrir quais os acontecimentos que estarão ligados. Será que são todos? Será que há alguma relação entre a chantagem e o que aconteceu à Anne e ao Pedro? Uma coisa que salta à vista é que o Aguiar Mota está mesmo metido neste assunto até às orelhas... Provavelmente o Ruindade também. Também temos de perceber o que é que aconteceu ao projecto “ABG". Porque é que não se fala mais dele? Parecia algo de muito prometedor. E porque estará alguém a fazer chantagem com base no projecto. E que lista de escritores é que será esta? E porquê a cabeleira postiça?

- Temos de falar com o Aguiar Mota, Simão. Urgentemente.

- Temos é de falar com o teu pai.

- Simão, acredita em mim, que o conheço desde que nasci: o meu pai não está para ninguém neste momento. E como foi o Aguiar Mota quem organizou a vinda do Tolkien, vamos poder certamente contar com a sua ilustre presença amanhã. Temos de aproveitar para o confrontar com isto tudo. Assim, quando o meu pai descer à terra, teremos mais informação para lhe dar.

- Mas...

- Não há mas, nem meio mas, Simão. O meu pai está out e, a não ser que queiras ir falar com o nosso adorado Inspector Morcela, o trabalho de casa está nas nossas mãos... E agora... que tal arranjar um cantinho para dormir? Estou mesmo muito cansado, acho que não vou conseguir trabalhar grande coisa... e estou com um feeling de que o dia de amanhã vai ser duro...

 

***

 

Eram seis da manhã quando acordaram com o barulho de mesas e cadeiras a serem arrastadas. Na noite anterior, tinham ambos adormecido nos pufes do átrio central, com as mochilas a servirem de almofadas. Ninguém os tinha incomodado, mas não tinham dormido maravilhosamente. Simão, em particular, tinha sonhado que era um quadro de ardósia e que os seus professores o iam riscando dolorosamente, enquanto leccionavam as aulas e escreviam na superfície escura que era o seu corpo.

- Estão a pilhar o campus? – perguntou Diogo esfregando os olhos, estremunhado.

- Claro que não – respondeu uma rapariga alta, loira e elegante, de grandes olhos escuros, que levava duas cadeiras nos braços. – Somos do Lage2 e estamos a ajudar a área técnica a levar todas as cadeiras e mesas para o átrio central, para as pessoas se poderem sentar e ver o Tolkien. Na televisão estão a falar em mais de cem mil pessoas a dirigirem-se para cá e a bicha vai até Lisboa, Cascais, Amadora, etc.

- Mas não cabem cá cem mil pessoas... – balbuciou Simão sem conseguir conter o receio. Odiava mesmo confusões e aglomerados populacionais densos. Era esta a grande razão que o levava a não andar de transportes públicos em hora de ponta e não conseguir ir a jogos de futebol, manifestações, serviços de finanças, discotecas, Rock in Rio, lojas no geral no primeiro dia de saldos, e à Baixa e ao Colombo no Natal.

- Claro que não, por isso vão estar vários ecrãs gigantes espalhados pelo campus, incluindo nos parques de estacionamento.... E, olhem lá, não nos querem ajudar com as mesas e cadeiras?

- Pelo Lage2 e por esses teus olhos, farei o que pedires, mas primeiro tenho de dar mimos ao meu querido estômago... – disse Diogo, presenteando-a com um sorriso apaixonado.

A estudante encolheu os ombros, balbuciou qualquer coisa cuja sonoridade se aproximava da palavra “cretino” e foi-se embora, deixando Simão a olhar para a ponta dos sapatos e a pensar como é que o amigo conseguia ter o cérebro a correr em modo de engate mal acordava.

- Gira a miúda, mas o meu corpo atlético está a suplicar-me que me alimente e que tome um café e, como sabes, é ele quem manda. Mesmo que tenha de deixar escapar uma potencial fonte de entretenimento.

- Agora falas do teu corpo como um ser independente?

- E é. E está-me a sugerir uma merendinha prensada e eu vou fazer o que ele diz que estou cheio de fomeca. Ah, e antes de irmos carregar cadeiras, temos de ir lavar os dentes. Espero que andes com uma escova de dentes na tua mochila que não te emprestaria a minha, mesmo que a minha vida de tal dependesse. Compreendes que não me quero arriscar a apanhar pé de atleta, não é?

Diogo abalou, deixando Simão mais uns segundos em contemplação dos sapatos, por um lado a controlar o vómito perante a ideia de usar uma escova de dentes de outra pessoa, por outro a meditar sobre a capacidade do amigo em despertar tão verborreico e com tanta energia. Depois lembrou-se que também ele acordava cheio de pica, em tempos idos, quando respeitava o seu soninho de guerreiro. Suspirou profundamente, espreguiçou-se tentando libertar-se das canetadas dos professores que ainda lhe martirizavam o corpo, e foi atrás de Diogo.

 

***

 

Estiveram a manhã inteira e parte da tarde a ajudar o Lage2 a preparar as instalações para o grande evento. Às quinze horas em ponto foi preciso afastar um conjunto de carros de um dos parques de estacionamento porque tinham acabado de ser avisados que Tolkien chegaria de helicóptero às dezasseis. Depois de muita confusão, Simão juntou-se a uns alunos de Informática do terceiro ano e adaptaram em tempo recorde uma versão do Rush Hour, de modo a encontrar uma maneira óptima de arrumar os carros. Aproveitando os ecrãs gigantes, deram ao parque de estacionamento um estilo drive in, e lá conseguiram libertar o espaço necessário para a chegada do grande escritor. Às quinze e trinta foram avisados de que os mais de cem seguranças que tinham sido contratados para o evento vinham a pé de Carcavelos, pelo que foram os alunos do Técnico que fizeram o cordão humano que protegeria Tolkien da multidão. Esta parecia que duplicava a cada segundo e o cordão seria a única barreira que a separaria da passadeira vermelha que conduziria o escritor até à entrada norte do edifício, onde teria lugar a palestra. Todo o espaço central estava coberto de cadeiras de uma ponta à outra, estrategicamente colocadas à frente de televisores pregados às principais colunas do átrio. Não havia uma cadeira livre, assim como já quase não havia “chão” livre, com a excepção de um pequeno caminho deixado aberto para a passagem do escritor até ao topo das escadas, muito próximo da entrada, onde estava montado um pequeno estrado onde faria o seu discurso. A outra entrada, a entrada Nascente, tinha sido posta de lado devido à Amorphophallus Titanum. Ninguém queria confrontar o velho Tolkien com uma flor de um metro, a cheirar pior que um Orc.

- Só não sei é se me vou conseguir controlar e se não vou abraçá-lo e dar-lhe um beijinho – comentou Clarissa, que se tinha juntado a eles quando, finalmente, terminara o projecto.

- Não faças isso, senão eu também não me controlo e também o vou abraçar – comentou Simão que apertava a mão esquerda de Clarissa no cordão humano. O rapaz estava dividido entre a alegria máxima de ir ver por perto uma pessoa que considerava um Deus na terra e o pavor de se sentir um grão numa praia de areia humana.

- Vocês são dois elos muito fracos – resmungou Diogo, do outro lado de Clarissa. Uma ruga de preocupação vincava-lhe a testa. – Não façam nenhuma estupidez. Se o cordão rebenta, morre gente espezinhada. Acho que o Aguiar Mota não previu bem a dimensão da coisa. Até eu que gosto de wrestling e que aos dois anos me fascinava com o poço da morte na saudosa feira popular acho que isto está perigoso. Francamente, não gostava nada de aparecer no Correio da Manhã.

Eram dezasseis horas em ponto quando o helicóptero aterrou. Dele saíram três enormes guarda costas, todos vestidos de Orcs, o professor Aguiar Mota e, finalmente, Tolkien. A multidão começou a gritar e a aplaudir, completamente eufórica. Simão teve mesmo de se controlar para não largar o cordão e começar a aplaudir também. Clarissa chorava emocionada.

Tolkien foi-se dirigindo, lentamente, em direcção ao edifício do Técnico. Acenava simpaticamente à esquerda e à direita. As pessoas empurravam-se e todos os alunos do Técnico que participavam no cordão já tinham as mãos a doer. Estava Tolkien a dois metros da entrada, quando uma mulher conseguiu passar o cordão e, a correr e a gritar histericamente “um autógrafo”, dirigiu-se para o escritor. Os guarda costas puxaram-no imediatamente para dentro do edifício e Diogo, sem pensar duas vezes, saltou sobre a mulher, fazendo-a cair sobre o seu peso.

- Calma aí, minha senhora, não é altura de autógrafos.

Só que, tendo rebentado o cordão, a confusão foi imensa e as pessoas começaram a correr em direcção à entrada. Diogo e a sua presa teriam sido espezinhados se naquele exacto momento o painel gigante não tivesse começado a transmitir imagens do evento. Assim, como por milagre, a multidão afastou-se da porta do edifício e começou a procurar posicionar-se nos diferentes pontos no parque de estacionamento onde conseguiria ver o que se estava a passar dentro deste.

Diogo permaneceu deitado em cima da senhora, até o espaço à volta dele ficar menos compacto. Um pontapé pouco convicto nas costas, fê-lo olhar para cima. Clarissa, olhava para ele com um ar aborrecido.

- Sai de cima da minha mãe.

 

***

 

Apesar da excitação global, o resto do dia passou-se sem grandes novidades. Clarissa, João e a mãe, Simão e Diogo foram todos para o velho jipe da progenitora dos gémeos assistir à palestra. Com a excepção desta, todos adormeceram e perderam a cerimónia de uma ponta à outra. Só acordaram quando a rapariga loura do Lage2 que tinham conhecido de manhã, os foi chamar, com umas pancadinhas no vidro, pedindo-lhes para voltarem a ocupar as suas posições no cordão humano que permitiria ao escritor voltar a entrar no helicóptero e regressar a Lisboa. Entre lágrimas, a mãe de Clarissa prometeu-lhes que não voltaria a tentar obter um autógrafo de Tolkien.

Quando este regressava ao helicóptero, entre vivas de uma multidão ainda mais ruidosa, Simão e Diogo olharam um para o outro, frustrados e impotentes, ao verem que o professor Aguiar Mota o acompanhava. Ainda não era desta que iam conseguir falar com o docente.

 

***

 

Era quase meia-noite quando acabaram de arrumar o Técnico e devolver mesas e cadeiras ao seu habitat natural. Foi também só por essa altura que o trânsito normalizou.

- Porra, amanhã é Sábado, quando é que vamos conseguir falar com o Aguiar Mota? – Diogo estava de muito mau humor.

- O professor volta na quarta à noite, pelo que só deve cá estar na quinta – respondeu uma voz. Era o professor Rui Trindade que vinha carregado com uma pilha de livros do Tolkien. Apesar do peso dos livros, era a primeira vez que os rapazes o viam quase direito. Mais ainda: parecia ter quase alguma cor nas bochechas pálidas e os olhos escuros brilhavam de felicidade.

- Na quinta? – Diogo empalideceu. – Porque é que tudo converge para quinta? – murmurou quase entre dentes.

- Sim, quinta está cá de certeza porque tem pelo menos uma reunião relativa à organização do próximo encontro de escritores, que está para muito breve.

- Para breve? Mas o Tolkien ainda mal se foi embora... – comentou Simão que não conseguia tirar os olhos da pilha de livros do professor.

- Sim, mas vocês vão entrar em exames... Assim, ou o encontro era já a seguir ou não se realizaria este ano. Penso que terão noção de que a participação dos estudantes aqui do Tagus em eventos culturais é miserável quando estão aflitos com exames... e até quando não estão... Na verdade, acho que Deus até podia vir à terra e ninguém viria ouvi-lo... Mas se é por causa dos mestrados, posso recebê-los na segunda ou terça.

- Não, deixe estar professor, obrigado. Era mesmo com o professor Aguiar Mota que queríamos falar... Ehh... Esses livros estão todos autografados? – perguntou Simão, sem conseguir disfarçar um toque de inveja na voz.

- Todos. O Hobbit, os três Senhor dos Anéis e o Silmarillion.

O professor Rui Trindade abriu este último e mostrou, feliz, a primeira página a Simão.

Pela primeira vez na vida, este teve vontade de dar uma cabeçada a alguém e roubar.

 

Rosa@Tagus

LOCAL: Algures em Oeiras

DATA: 2 de Junho

HORA: 7h 38

 

- Finalmente quinta-feira! Esta semana custou horrivelmente a passar. Espero que consigamos mesmo falar com o Aguiar Mota hoje – comentou Simão entrando no carro de Diogo e deitando uma olhadela ao cacto. Este tinha agora uma grande flor branca, ainda fechada. – Será que é desta?

Diogo encolheu os ombros. Perecia de muito mau humor. Tinha olheiras profundas e estava pálido. Até as costas estavam ligeiramente vergadas, o que normalmente nunca lhe acontecia.

- E o teu pai, já regressou?

- Já.

- Contaste-lhe?

- Não.

- Então, não tínhamos combinado que...

O tom ríspido com que Diogo falou deixou Simão chocado. Nunca o tinha ouvido assim:

- O meu pai tem, neste momento, mais em que pensar. Não me chateies com isso. Conto-lhe quando achar que posso contar. De acordo?

Simão observou-o preocupado. O que é que se passaria?

- Mas...

- Não me apetece falar, ok?

Ficaram finalmente os dois calados. Simão teve de se esforçar para não dar início a mais nenhuma tentativa de diálogo. E foi em silêncio que Diogo parou o carro à frente de Clarissa e João.

- Olá, sabem o que é que se ouve por aí? – começou Clarissa ao entrar no carro. Sem esperar pela resposta continuou:

- Que as próximas convidadas do professor Aguiar Mota vão ser escritoras ultra-românticas.

- Uau! – comentou Simão fixando os olhos na ponta dos sapatos e fazendo uma pesquisa mental a ver se algum nome com aquelas características lhe vinha à cabeça. Mas nada.

- A minha mãe leu uma vez um livro da Barbara Cartland e adorou-o – comentou Diogo com um ligeiro sorriso. – Dizia que era a escritora mais deliciosamente pirosa que tinha lido alguma vez na vida. E até tem uma fotografia tirada ao lado da sua estátua, em Londres, no museu de cera.

- Eh pá, isso parece interessante. Não me arranjas o livro? – perguntou Clarissa.

- Há-de estar lá para casa, algures... posso procurar. A minha mãe ficava sempre contente quando alguém lia livros da sua biblioteca. Tinha a teoria que não havia nada mais triste do que um livro que nunca é lido.

- Bem, eu consigo imaginar coisas mais tristes – comentou Clarissa. – Mas realmente, um livro que nunca ninguém lê é, de facto, deprimente.

- É... tipo... como as pessoas que nascem com um dom e não lhe dão uso – opinou João.

- Eh pá, João, estás a tocar com o dedo na ferida – exclamou Diogo começando a mostrar-se, de repente, entusiasmado. – Esse era exactamente o ponto de vista da minha mãe. Achava que cada um de nós tem uma capacidade especial e que tem a obrigação de a honrar: a dos livros é serem lidos e, preferencialmente, proporcionaram bons momentos a quem os lê; a de cada um de nós é dar o litro para honrar o seu dom – fez uma pausa e depois terminou com uma risada. – Claro que a minha mãe, no meu caso, não sabia o que é que eu que devia fazer, dado que tenho milhares de dons e não consigo honrá-los todos em tempo real, pois o dia só tem vinte e quatro horas.

Simão riu-se também, mais aliviado por ver Diogo gracejar. No entanto, ainda assim, algo se passava e não estava mesmo a ver o que poderia ser...

Entretanto chegaram ao Técnico e, mais uma vez, constataram que o parque norte estava cheio, pelo que tiveram que se dirigir ao parque nascente e estacionaram mesmo ao pé da fedorenta Amorphophallus Titanum. Quando saíram do carro, Simão esqueceu-se de não respirar e sentiu-se próximo do vómito.

- Ups, parece que cheira sempre pior – comentou, repugnado. Mas Diogo voltara a ostentar o mesmo ar amorfo que tinha quando entrara no seu carro e não reagiu.

Ao entrarem no Técnico tiveram a surpresa das suas vidas. O elegante edifício que fazia lembrar um barco, com os tectos todos envidraçados deixando entrar luz natural, o solo em calçada portuguesa e um lindíssimo jardim interior, parecia agora... a casa da Barbie.

- Eh... mas o que é que se passa aqui? Que decoração é esta? Está tudo rosa, branco e vermelho... – quase gritou Diogo no segundo seguinte – O que é que aconteceu ao nosso viril campus?

E o estudante tinha razão para estar espantado: o chão estava coberto de tapetes vermelhos e rosas, e grandes arranjos de flores brancas, rosa e vermelhas pendiam do segundo andar até ao chão.

- E ainda não viste tudo... repara ali... no primeiro andar, mesmo em cima da 0.21...

Diogo espreitou na direcção que Simão lhe indicava. Um grupo de pessoas, posicionadas no andar de baixo e olhando bem para cima, indicava onde havia acção.

- Puto, são duas bailarinas vestidas de branco e um tipo vestido de vermelho aos saltinhos, não é?

- Sim. Que cena...

- E olha ali do outro lado: estão duas gajas vestidas de princesa a distribuir malmequeres. Para que é que um gajo quer um malmequer? E ali...

Diogo não teve tempo de acabar a frase, pois uma rapariga com um grande véu, num trapézio, passou rente à sua cabeça. Dava gargalhadinhas.

- Assustador... deve ser obra do Aguiar Mota. Deve ser a sua maneira de anunciar o próximo encontro de escritoras de livros cor-de-rosa.

- Pois, falando em Aguiar Mota, vamos lá falar com ele... Ainda temos uns minutos antes de começar a aula. Olha, o elevador está aqui. Vamos ser burgueses. Anda.

Os dois rapazes meteram-se no elevador e só quando a porta de fechou é que repararam que uma das paredes estava toda preenchida com posters de casais abraçados ou mesmo a beijar-se. Pior, mal a porta se fechou, começaram a ouvir o “Love is in the air” de John Paul Young.

- Meu Deus, música no elevador... Como é que o IST, uma casa cheia de gajos de pêlo na venta, suporta que...? Nós somos engenheiros, diabo...

Chegaram ao gabinete do professor Aguiar Mota, depois de passarem por uma passadeira de margaridas. Era dos poucos gabinetes que não tinha uma janela de vidro a dar para o corredor e, como era impossível saber se ele lá estava ou não, bateram à porta. Nenhum barulho veio do gabinete, mas a porta do gabinete do lado abriu-se e apareceu a cabeça desgrenhada do professor Rui Trindade. Tinha voltado aos seus tempos de Snape de Notre Damme e apresentava o seu habitual ar taciturno e esgotado.

- O professor ainda não chegou – informou na sua voz educada e levemente irónica. – Mas, não deve faltar muito...

Diogo agradeceu e ambos viraram costas, desanimados. Quando é que conseguiriam falar com ele? Foi nesse instante que se esbarraram com o grande e gordo docente que, apesar da sua estatura, vinha quase camuflado por dois gigantescos ramos de rosas.

- Professor, precisávamos muito de falar consigo – começou Diogo.

- Jovens, lamento imenso, mas agora não vai ser possível, pois estou a todo o momento à espera da grande diva portuguesa, a escritora dos mais belos e intricados romances Lusos – informou Aguiar Mota que quase não conseguia esconder a sua excitação. Depois, parou um bocado, à porta do gabinete, e ficou em pausa à espera que os dois rapazes reagissem às suas palavras. Como Simão e Diogo continuavam a olhar para ele interrogativamente, acrescentou um pouco desiludido:

- Estou a falar da Bárbara Vinhais.

De novo nenhuma reacção da parte do estudantes. Parecendo desiludido, o professor suspirou.

- Ok, ok, vocês não gostam de novelas cor-de-rosa. Tudo bem. Mas aposto que as vossas namoradas gostam. E espero que as tragam aqui, daqui a uns dias, para o grande encontro de escritores de novelas. Para além da incrível Bárbara Vinhais vamos ter a fantástica Barbara Cartland.

- Sempre se pode dizer que vai ser um encontro bárbaro – comentou de repente Simão sem se conseguir conter.

Diogo olhou horrorizado para o amigo. Estava cada vez pior. Mais seco que Simão só mesmo o ano 2013. Simão ia baixar os olhos envergonhado, quando recebeu uma grande palmada nas costas.

- Boa piada, jovem! – comentou o docente soltando uma forte gargalhada.

Depois parou abruptamente de se rir e informou-os:

- Como já vos disse, agora não posso dar-vos atenção. Lamento mesmo imenso. Tenho uma reunião com a Bárbara Vinhais que deve acabar lá para a hora do almoço. Depois vou almoçar nuns dez minutos, dado que tenho três discussões de mestrado por sobremesa. Lá pelas dezoito e trinta passem por cá e terei todo o gosto em falar convosco sobre os vossos mestrados. Desde já obrigada pelo vosso interesse.

- Mas...

- Não há mas, nem meio mas... Mais tarde. Lamento.

 

***

 

Os dois amigos assistiram às aulas da manhã, mostrando-se Diogo sempre muito impaciente. Não parava quieto e era bastante óbvio que não estava nada concentrado.

Um pouco antes do almoço, dirigiram-se à biblioteca. Sentaram-se e ainda começaram a preparar uns trabalhos para um laboratório que se avizinhava, mas poucos minutos depois Diogo levantou-se e, sem dar explicações, pegou no computador e foi-se embora. Simão foi atrás dele.

- O que é que se passa contigo, hoje?

- Sabes que mais, estou farto disto. Vou criar uma conta no gmail com o nome “respondechantagem” e vou mandar um email para o chantagem e ver o que dá.

- Não vais, não.

- Vou. Preciso de o fazer... Vais-me perdoar, mas preciso mesmo.

- Mas... não vejo a necessidade de fazer uma estupidez tão grande...

- Simão, somos amigos há anos, certo? Acredita que não há nada que possas fazer para o evitar. Vou mandar o email e ponto final. Tenho pena se é contra a tua vontade, mas é o que vai acontecer.

Diogo sentou-se no primeiro banco que encontrou, voltou a tirar o computador da mochila e começou a teclar. Passados uns minutos redigiu o seguinte email:

 

Já tenho o dinheiro. Quando falamos?

 

- Estás louco? Compreendes que podemos estar mesmo a lidar com um assassino?

- Estou-me nas tintas.

E antes que Simão conseguisse evitar, Diogo enviou o email.

- Tu...

- Olha e sabes que mais? Vou para casa. Ou vou para a praia. Não me apetece estar aqui. Não consigo estar aqui. Volto às seis e meia para falar com o Aguiar Mota.

Simão ficou boquiaberto a vê-lo ir-se embora. O que se passava com o amigo? Ele era seu amigo desde sempre, devia conseguir perceber o que era. Incomodado, foi ao bar, pediu uma sandes de queijo e um café, e sentou-se numa mesa a olhar para a ponta dos sapatos. De repente, fez-se luz na sua cabeça e Simão quase entornou o café quando se lembrou que fazia exactamente um ano que a mãe de Diogo tinha morrido. Estava explicado o comportamento do amigo e... estava explicada a ausência do pai. Simão sentiu o coração encher-se de tristeza, ao recordar a simpática e calorosa mãe de Diogo e, ao mesmo tempo, sentiu-se mirrar de remorso por não se ter lembrado logo.

 

***

 

Já passava das dezoito quando Diogo regressou à biblioteca. Continuava pálido e com os olhos muito brilhantes e avermelhados, mas parecia calmo.

- Posso dar-te uma palavrinha?

- Desculpa não me ter apercebido mais cedo que hoje...

Um “shiu” fê-lo calar-se. A biblioteca não era o sítio ideal para discursos.

- Ofereço-te um café – murmurou, levantando-se e arrastando o colega para fora da acolhedora sala.

- Não há stress – começou Diogo quando se sentaram no bar em frente a dois cafés e, claro, duas merendinhas prensadas. – É que estava mesmo triste hoje de manhã. Aliás, esta semana foi mesmo muito dura. Para o meu pai e para a minha irmã também. Ainda pior que as outras. Foi por isso que o meu pai se isolou e... Bem, para não te dar mais seca e resumindo, estava mesmo à nora hoje, como se a saudade acumulada ao longo do ano estivesse quase a fazer-me explodir e, quando fui para casa, aconteceu uma coisa bué bonita. É que quando entrei no carro, este cheirava maravilhosamente: a flor do cacto estava aberta. Imaginas? Faz hoje exactamente um ano. O cacto que a minha mãe adorava escolheu o dia de hoje para dar a sua flor. Levei-o para casa, a minha irmã estava lá e o meu pai já tinha regressado de Ferreira do Alentejo. Ficámos todos, mais de uma hora, sentados à mesa a olhar para o cacto e... eh puto, quem pode chorar sou eu, não tu, meu mariquinhas.

Simão levantou-se e preparou-se para dar um grande abraço ao seu amigo.

- Pois, é realmente incrível – balbuciou, esforçando-se por não soluçar. – Isto merece uma ida à “5 cents”, boa?

- Iá. Vamos lá rapidamente que depois temos de ir falar com o Aguiar Mota. Já não falta muito para as seis e meia.

Foram à máquina e tiraram ambos um doce imenso, com chocolate em todos os poros, e sentaram-se num degrau das escadas, à frente da máquina, enquanto faziam tempo para falarem com o professor.

- Simão, não vais acreditar... – chamou Diogo que tinha ido consultar os emails.

- O que se passa?

- Vê o que acabei de receber...

Simão olhou para o computador e sentiu o sangue gelar. Ou seria o coração a parar? Ou, eventualmente, os tomates a caírem ao chão... Bem, sentiu uma daquelas impressões que são tipicamente descritas em literatura pouco sofisticada por uma destas expressões. E a causa do congelamento do seu sangue (ou da sua paragem cardíaca ou da queda dos seus testículos), devia-se ao facto de Diogo ter recebido um email com o subject “cova” com o seguinte texto:

 

“Meu caro, prepara-te para uma morte bem dolorosa.”

 

CSI@Tagus

LOCAL: Edifício do Técnico, campus do Taguspark, núcleo nove

DATA: 2 de Junho

HORA: 18h 30

 

Simão ainda tentou convencer Diogo a telefonar ao pai, mas este argumentou que o pai tinha voltado a sair: tinha ido para a praia, sem telemóvel e, portanto, não estava contactável. E, depois, sabendo que era um dia muito doloroso para o pai, queria deixá-lo em paz. Ia fazer-lhe bem passear na praia, enfiar os pés na areia, ver, cheirar, tocar e ouvir o mar, e era importante que não o incomodassem.

Subiram ao segundo andar, onde se encontravam os gabinetes de quase todos os professores, e Diogo nem se deu ao trabalho de bater à porta do professor Aguiar Mota. Simplesmente entrou pelo espaço adentro e disparou:

- Professor, temos mesmo de falar!

Simão seguiu-lhe os passos, incomodado com a entrada intempestiva do amigo. A mãe e o pai sempre lhe tinham ensinado que se devia bater à porta das pessoas e aguardar pacientemente que estas verbalizassem algo que soasse a ordem para abrir a porta e entrar. Na verdade, Diogo também tinha tido essa lição, mas, ao contrário do amigo, nunca se tinha deparado com um tio-avô de noventa anos e cento e vinte quilos a tentar apertar um soutien na primeira vez que a desrespeitara. Assim, Diogo por vezes esquecia-se de bater à porta; Simão até tremia com a ideia de entrar numa sala sem o cortês toc-toc.

O professor olhou com ar muito aborrecido para os dois:

- Não vos posso receber agora. Lamento, mas acabei por não conseguir reunir-me de manhã e, como podem ver, estou em reunião agora.

De facto, Bárbara Vinhais, num fato completo, rosa pálido, estava sentada à frente do professor. Era uma mulher perto dos setenta anos e se uma olhadela rápida a poderia definir com uma avó querida, um segundo olhar mais cuidado revelaria o conceito antagónico. Na verdade, a escritora parecia rodeada por vários rolos de gordura, incluindo uns imponentes pneus na zona da cintura, que pareciam querer fugir-lhe do corpo, aparentemente revoltados pelo cruel abraço de um escanzelado cinto violeta, que os apertava para lá do possível. Apesar da indumentária em doces tons pastel e do próprio cabelo branco oferecer reflexos púrpura, as super-finas sobrancelhas da escritora, certamente aliadas do seu cinto castrador, transmitiam uma fúria mal contida, dando à senhora um ar de predador. Até a enorme rosa roxa que usava com um gancho no cabelo parecia gritar por carne humana.

Diogo hesitou um segundo. Não estava à espera que o professor estivesse acompanhado, dado que lhes tinha dito para aparecerem àquela hora, e a sua avaliação de Bárbara Vinhais provocou-lhe um nó na garganta. Ia abrir a boca para se justificar quando esta se levantou com uma agilidade espantosa, fazendo saltar violentamente as maminhas copa H.

- Volto a repetir que foi exactamente isso que aconteceu: não mexeu um dedo e o livro foi considerado o seu melhor de sempre. Se o professor continua a negar tudo e não me quer ajudar, informo-o que apenas as minhas personagens são cândidas e boazinhas; eu sou ruim e diabólica – fez uma careta que gelou o sangue de Simão. – E acrescento que se mantiver a sua indisponibilidade em ajudar-me, vai sofrer as consequências.

- Bárbara, já lhe disse que...

- Não me interessa. Vou-me embora, mas fique a saber que estou muito, muito aborrecida com a situação.

E, sem mais palavras, virou as costas ao professor e foi-se embora, batendo estrondosamente com a porta.

O professor ficou uns segundos a olhar para as mãos. Era algo que fazia quando estava chateado com alguma coisa. No entanto, às vezes, quando estava a olhar para as mãos estava realmente apenas a observá-las. Naquele momento, estava mesmo chateado.

- Bem, jovens, vou ignorar a vossa notória falta de educação e não vos vou pôr imediatamente no olho da rua. Têm dois minutos para me dizerem que mestrado é que escolheram. Também devo avisar que se vierem fazer o mestrado comigo devem aprender a ter maneiras e respeitar regras simples como bater à porta antes de entrar. Não suporto alunos mal-educados.

- Não é sobre nenhum mestrado que queremos falar, professor. E pedimos desde já desculpa por termos entrado sem bater – informou Simão.

- Não? Então não vejo nenhuma razão para estarem no meu gabinete a esta hora. Tenho mesmo muito que fazer e agradecia que...

- O que é o projecto “ABG”? – cortou Diogo.

O professor mostrou-se muito espantado, exibindo uns olhos tão completamente esbugalhados que Simão pensou que iam saltar de órbita. E, por uns segundos, pensou que efeito fariam os dois globos oculares a rolarem na secretária do professor. Tinha este problema com globos oculares desde o dia em que um bisavô deixara cair um olho de vidro numa panela de sopa fumegante. Simão, na altura com quatro anos, chorara durante duas horas, apavorado com a ideia de também poder perder um olho, assim, sem mais nem menos. Desde aí, estava sempre a imaginar órbitas a saltarem por todo o lado. Talvez por isso, sempre se recusara a brincar com berlindes. Mesmo quando fora a brincadeira mais in entre os seus colegas.

O professor indicou que se sentassem.

- Devo começar por dizer que faz quase dez anos que esse projecto foi cancelado e hoje são os segundos que aqui aparecem a falar dele. Antes de começar: como é que se chamam?

- Este é o Simão e eu sou o Diogo.

O professor ficou mais uns segundos a olhar para eles, como se estivesse a tentar arranjar as palavras certas para começar. Depois suspirou, como se o que ia contar lhe trouxesse más recordações, e explicou:

- O “ABG” – Automatic Book Generation – foi um projecto meu, que terminou há uns anos... e, na verdade, como disse, pensava que estava bem morto e enterrado. Não sei como é que vos chegou aos ouvidos ou aos da Bárbara... Se a ideia é voltarem a trabalhar nele, esqueçam. Foi o meu projecto com mais potencial de sempre, mas mal deu os seus primeiros frutos, estes começaram logo a apodrecer e resolvi cortar o mal pela raiz. Não sei que interesse é que podem ter neste tema, mas tal como disse à querida Bárbara, que saiu daqui tão furiosa, esse projecto está encerrado e está fora de questão pô-lo de novo em cima da mesa. Se o queriam para tópico dos vossos mestrados, esqueçam, dado que nada no mundo me fará pegar nele outra vez.

O professor cruzou os braços e fitou-os com o ar determinado de quem dava a conversa por terminada.

Diogo e Simão olharam um para o outro. Simão fez um subtil gesto com a cabeça indicando que sabia como dirigir a conversa de modo a obter mais informações. Normalmente era mestre nisso e considerava-se uma espécie de sumidade dos micados verbais. Diogo assentiu ainda mais imperceptivelmente. Sabia que só conseguiria os mesmos resultados se metesse uns estalos e murros ao barulho, o que, naquele contexto, não fazia sentido.

- Professor, de facto as nossas questões estão relacionadas com a escolha dos temas dos nossos mestrados, a iniciar para o ano – começou Simão. – É que a minha irmã esteve a falar com um dos seus alunos de doutoramento, o Ramm... ehh... aquele senhor alemão, o Hans, e contou-nos que ele estava a trabalhar num sistema que detectava automaticamente se um poema tinha sido escrito ou não pela mesma pessoa. Achámos piada ao tema, fizemos umas pesquisas e demos de caras com um artigo sobre o projecto “ABG” e ficámos fascinados.

Diogo olhava para ele com os olhos muito abertos que suplicavam por um desenvolvimento mais rápido. Mas Diogo não tinha percebido como é que o professor “funcionava” e Simão sim. As coisas tinham de ir com calma. E, eventualmente, com uma piada sequíssima algures.

- Já percebemos que os temas das nossas teses de mestrado não podem estar na linha do “ABG”, mas ficaríamos muito agradecidos se nos contasse mais coisas sobre o projecto. Aliás, achamos incrível a área de Processamento da Língua Natural.

O professor olhou para o rapaz muito sério, tentando medir potenciais segundas intenções por detrás do pedido, mas Simão fez a cara trinta e dois, que começara a desenvolver no dia em que a avó o apanhara a colorir as plantas com guache e que muito tinha evoluído desde aí, deixando o professor convencido.

- Ok, ok, de acordo, eu conto-vos tudo sobre o projecto, mas mantenho que não o vou reactivar.

Depois, fixando os olhos ora num, ora noutro, iniciou as explicações.

- O projecto “ABG” tinha um objectivo muito simples: criar um sistema capaz de gerar automaticamente livros com base noutros livros. E isto com várias opções. Por exemplo, imaginem que dávamos ao sistema vários livros do Zafón. O ABG deveria ser capaz de gerar um livro ao estilo deste escritor. Mas também poderíamos dar-lhe livros de vários autores e aí o estilo do livro não ficaria associado a nenhum autor em particular. Outra coisa engraçada: poderíamos inserir um conjunto de requisitos em relação ao novo livro, isto é, características das personagens principais, se queríamos um romance histórico, um conto de horror ou fantasia, uma novela, e mais um número impressionante de parâmetros.

- Professor, desculpe estar a interrompê-lo – disse Simão fazendo a sua voz mais educada. - Mas disse qualquer coisa como “o sistema deveria”. O sistema estava a funcionar, não estava? No artigo que lemos o...

- Sim, claro que estava a funcionar. Mas a verdade é que só conseguíamos ter um resultado razoável quando tínhamos muitos livros para dar ao sistema. Dito de outro modo, para o treinar. A colecção Aventura, por exemplo, foi muito boa para testes: como é dirigido a crianças e jovens, o vocabulário e a sintaxe não são muito complicados, as personagens principais são sempre as mesmas e existem imensos volumes da colecção. Normalmente os livros resultantes eram surpreendentes. Claro que tinham de ser revistos e muita coisa – mesmo, mesmo muita coisa – tinha de ser manualmente corrigida, mas a verdade é que a qualidade final obtida, com um projecto tão no seu início, era já muito interessante...

- Professor, está a dizer-me que se eu treinasse o seu sistema com uma enormidade de livros de que gosto e se definisse as personagens, o “ABG” escreveria o livro por mim? – perguntou Simão maravilhado.

- Exacto – respondeu o professor com um sorriso. Depois fez uma careta. – O pior era a falta de coerência lógica e espaço-tempo que por vezes ocorria nos textos gerados.

- Coerência lógica e espaço-tempo? O que é que isso quer dizer? – inquiriu Diogo.

- É a parte do sistema que te garante que não tens alguém a pintar uma sala de amarelo em 1980, e quando sai da sala estamos em 1500 e esta passou a roxa. Ou que não tens um romance do Ian Flamming em que o 007 está a tomar o seu Martini e lhe aparece a Cleópatra pela frente.

Diogo olhava impressionado para o professor e não resistiu em comentar:

- Não que o 007 se importasse...

- E, professor, como é que isso se faz? – continuou Simão. Estava a conseguir que este lhes contasse imensas coisas interessantes, mas tinha a sensação que ainda estava longe de ter toda a informação. – Que tecnologias estão por detrás do sistema? Deve ser algo muito complexo.

- De facto, é. Combinava técnicas mais tradicionais de Processamento de Língua Natural com Aprendizagem Automática. Basicamente, demos-lhe com tudo em cima. Para atacar a Língua Natural não há cá esquisitices na escolha dos paradigmas.

- Eh... seria possível gerar um livro para nós vermos? – perguntou Simão timidamente.

O professor hesitou. Mas a verdade é que gostara demasiado do “ABG”. Suspirou, puxou o portátil que estava na sua secretária, garatujou umas coisas e disse:

- Ainda tenho aqui a última versão do software que data de há quase dez anos e desde aí que não lhe mexo. Espero que corra neste meu computador que é recente. A probabilidade de que corra tudo bem, como devem calcular é quase zero.

Esteve uns segundos a teclar e depois virou-se para os estudantes com um grande sorriso:

- Milagre.

Com um brilho nos olhos, apontou para uma janela no ecrã e pediu-lhes:

- Desta lista, escolham os escritores cujos livros querem usar para treino. Eu vou desde já seleccionar todos estes livros juvenis, dado que quanto maior for a base para o treino, melhor. E como não temos como objectivo recriar um livro de um autor específico...

Diogo e Simão escolheram da lista, entusiasmados, uns vinte escritores de quem gostavam particularmente.

- E não esquecer uma referência, algures, ao Gabriel Garcia Marques e ao Eduardo Mendonça – suplicou Simão.

- E não esquecer o Montalban, nem o John Irving... E que tal misturar grandes clássicos? Que tal a Odisseia? E que tal a Divina Comédia?

- Boa ideia, Diogo, mas aviso-te que vai ficar uma salganhada.

- Não faz mal.

- E um cheirinho de Erico Veríssimo?

- Done.

- E podemos pôr livros de poesia à mistura?

- Podem. Não sei muito bem o que vai resultar do cozinhado, mas podem pôr tudo o que quiserem.

- Então, em homenagem ao dia em que a poesia portuguesa triplicou de adeptos, vou seleccionar obras da Florbela Espanca, do Camões e do Ary dos Santos, se o professor estiver de acordo.

- Ok, claro que estou... E vai ser um livro de fantasia? Um policial? Ficção científica?

- Pode ser um mistério? Ou pode ter vários estilos?

- Com tudo o que já lhe meteram em cima... pode. É apenas mais um factor de caos.

- Ok, então uma mistura de géneros, mas com um mistério. Como o que estamos a viver agora: uns crimes, uma rapariga estrangulada, um amigo atropelado... umas coisas nessa onda – Diogo estava a ficar francamente entusiasmado com todo o processo.

- Não me apetece fazer nenhum juízo de valor agora, mas espero que tenhas noção que o que aconteceu é muito triste, Diogo – o professor deixara de sorrir e olhava-o muito sério.

- Eh... claro – Diogo corou ligeiramente.

Aguiar Mota abanou a cabeça, pensou uns segundos e voltou a teclar.

- Ok. Feito. Personagens principais?

- Ehhh... podem ser dois alunos... como o Simão e eu... Quer dizer, dois tipos como nós: um giro e brilhante como eu, e o outro lingrinhas e burro como o Simão. Como os personagens dos livros do Frank Gruber: o Johnny Fletcher e o Sam Cragg.

- Infelizmente, Diogo, não tenho na base de dados livros do Frank Gruber.

- Então, professor, e podem-se ir buscar personagens a séries?

O professor olhou espantado para Diogo.

- É possível, mas não tenho informação nenhuma sobre séries recentes. O que eu tenho aqui data de há pelo menos dez anos... tínhamos uma base de dados onde íamos guardando tudo o que encontrávamos. Vamos lá ver se ainda está acessível. Pode ser que se lembrem de algum filme mais antigo com personagens semelhantes às que desejam.

O professor carregou num link.

- Incrível, ainda está activo. Olhem, que engraçado, o Rui manteve isto actualizado. Estão aqui filmes e séries recentes.

Teclou mais um bocado, satisfazendo alguns pedidos dos estudantes.

- Mais personagens secundárias?

- Podemos meter personagens de uma banda desenhada à mistura?

- Banda desenhada?

- Corto Maltese.

- Ok.

O docente voltou a atacar o teclado durante uns bons segundos.

- Pronto, está concluído o processo de parametrização. Rapazes, o livro vai ser enviado por email (um de vós, por favor, escreva aí para onde querem que envie o livro), daqui a exactamente trinta e dois dias, catorze horas e vinte segundos.

Diogo tinha um ar desanimado enquanto escrevia o seu endereço de correio electrónico no sítio indicado pelo professor.

- Tanto tempo? Não há maneira de ser mais rápido? Por exemplo, se for só com uma personagem principal ou só com um estilo literário?

- Posso acelerar o processo de treino, apagando filtros de verificação de coerências, mas, como é óbvio, o livro resultante terá muitos daqueles problemas de que vos falei há pouco. E como os dados que vocês introduziram já são bastante... hum... alargados, temo pelo resultado final.

- Por mim, pode ser bastante incoerente que nem me importo – assentiu Diogo, ao que Simão concordou. – Gostava é de poder ver um livro gerado automaticamente em pouco tempo. Morro de curiosidade.

O professor voltou a olhar para o ecrã.

- Ok. Então podem contar com o livro exactamente às... deixa lá ver... hum... está indicado para a meia-noite e trinta e quatro de hoje. Mas não fiquem à espera de uma coisa muito brilhante. Na verdade, nem deve ser bem um livro. Deve ser uma amálgama de parágrafos. O correspondente a uns... quatro macacos em três horas.

Diogo riu-se. Ia responder que certamente seria melhor que qualquer obra de Simão, mas lembrou-se que o professor não partilhava o seu humor e disse apenas:

- Ok, vou ficar em frente do computador, à espera, ansioso.

- Pronto, está compreendido agora o que era o projecto “ABG”?

Os rapaz olharam de novo um para o outro. Diogo estava tão excitado com a ideia de ir receber um livro criado por computador na sua mailbox que não se lembrava de mais nada que quisesse perguntar ao professor. Aliás as suas explicações pareciam genuínas. No entanto, Simão ainda tinha uma pergunta importantíssima a fazer:

- Professor, só mais uma coisa e depois prometemos que o deixamos em paz: porque é que desistiu do projecto?

O professor baixou os braços e fez um ar infeliz. Essa era a pergunta à qual não queria realmente responder. Suspirou profundamente antes de começar a falar:

- O que aconteceu foi que, logo após o primeiro artigo, fui contactado por vários agentes de escritores mundialmente conhecidos que queriam pura e simplesmente usar o meu software para criar os próximos livros destes escritores. Conseguem imaginar? As máquinas a escreverem por nós. A minha perspectiva, quando dei início ao projecto era outra e era nobre: criar novos livros de escritores já mortos e fazer brincadeiras como a que fizemos com a série “Aventura”. Jamais, em tempo algum, usar o sistema em substituição dos verdadeiros escritores. Na altura fiquei muito transtornado com a ideia e, com medo de estar a criar um monstro, abandonei o projecto ”ABG”. Custou-me imenso, dado que era a menina dos meus olhos e também custou imenso ao pobre do vosso professor Rui Trindade, meu aluno na altura, que devido a esta decisão teve de mudar o tema da tese de doutoramento. Mas, como devem compreender, não ia permitir que se criasse algo que depois fosse dar numa máquina de produzir livros em nome de escritores preguiçosos. Percebem o problema, penso eu?

Simão e Diogo fizeram que sim com a cabeça.

Aguiar Mota ajeitou os óculos e fez um ar pensativo.

- O que é estranho é que hoje, e espero que esta conversa fique entre nós, a adorável Bárbara Vinhais veio-me com uma conversa de que um escritor cujo nome não vou revelar, lhe tinha dito que tinha usado um software semelhante para criar o seu último livro e ela, não sei porquê, achou que tinha sido obra minha e veio-me pedir para criar artificialmente a sua próxima obra, para ela poder ir de férias durante um ano. Imaginam?

- Terrível! – comentou Simão.

- Bárbaro – ajuntou Diogo com um sorriso.

Mas Aguiar Mota não se riu e pareceu ligeiramente aborrecido por alguém estar a fazer pouco de um assunto tão sério. Simão aproveitou para fazer a pergunta que não lhe saía da cabeça:

- Acha que pode haver alguém no mundo a desenvolver um software semelhante? O seu código era público?

- Não chegámos a disponibilizar o código mas, claro, é sempre possível. O que vos posso garantir é que, sob o ponto de vista de investigação, ninguém publicou nada nos últimos anos que se aproximasse do “ABG”. Nem pouco mais ou menos.

- Ok, obrigado, já não lhe vamos roubar mais tempo... – disse Simão levantando-se.

Quando estavam a abrir a porta, Diogo comentou:

- Ah, é verdade, belo carro, professor...

O professor sorriu:

- Herança de um tio rico – respondeu.

Quando a porta se estava mesmo a fechar, ainda lhes gritou:

- Eh, se quiserem saber mais sobre os mestrados nesta área, falem amanhã com o professor Rui Trindade, o meu auxiliar.

Já no corredor, Diogo começou a andar e disse baixinho:

- Pobre Aguiar Mota. Se soubesse que não tenciono fazer mestrado... – depois olhou para o lado e viu que Simão não o seguia, e que estava em pé, parado, à porta do professor, a olhar para a ponta dos sapatos. – Eh puto, o que é que se passa?

- É que... é que... Não estás a perceber Diogo? A mensagem do Pedro para Clarissa e João, antes de ser atropelado, “Auiiar Mot”. Não era “Aguiar Mota”. Era “Auxiliar Mota”. É só acrescentar um “x” e um “l” à primeira palavra. Em stress não é muito difícil falhar duas letras. O Pedro não se referia ao professor, mas ao Ruindade.

 

Stress@Tagus

LOCAL: Edifício do Técnico no Taguspark, átrio central

DATA: 2 de Junho

HORA: 22h

 

Os dois rapazes reuniram-se de emergência à frente da “5 cents”.

- É uma boa hipótese, sim senhor, mas o professor não deixa de ser suspeito – começou Diogo.

- Depois de todo o seu discurso, achas mesmo que pode estar envolvido nisto?

- Na verdade... não acho, não. Fiquei bastante convencido que ele abandonou o projecto há dez anos. Mas o meu pai já me ensinou que existem verdadeiros mestres na arte de aldrabar.

- Diogo, vamos supor que o professor Aguiar Mota não está a mentir. Então, como já tínhamos percebido, alguém continuou o projecto e provavelmente ganhou muito dinheiro a vender obras geradas automaticamente a certos escritores com preguicite aguda. Será que aquela lista com nomes sonantes que encontrámos juntamente com o papel da chantagem contém os nomes dos escritores envolvidos nesta história? Fico parvo só de pensar que o CENSURADO, a CENSURADO ou o CENSURADO poderão ter pago para um programa lhes escrever um livro.

- Sim, é vergonhoso. Mas, sabes, de qualquer maneira, nem me espanta assim tanto. Quantos destes escritores são realmente bons? Muitos ainda tiveram o mérito de escrever um bom primeiro livro, mas depois limitaram-se a copiar as velhas fórmulas; outros, nem isso, e publicam apenas porque... francamente... não sei.

- Sem falar no outro lado da moeda, em que livros absolutamente geniais, deixam de poder ser comprados... Bem me lembro do que lutei para conseguir encontrar “A Fraude”... Mas não nos vamos perder em considerações literárias, Diogo. Tínhamos partido da premissa de que o Aguiar Mota dizia a verdade, que alguém continuou o projecto e que esse alguém fazia dinheiro com ele... O Ruindade é a hipótese mais provável.

- E provavelmente tudo ia de vento em popa, quando começaram as chantagens.

- Pois, tenho estado a pensar nesse ponto. Creio que nos permite envolver a Anne ao barulho. Lembras-te que trabalhava numa editora? Aposto que a sua vinda está relacionada com isso.

- Sim, apesar de vir de ti e do teu cérebro de lapa, faz sentido. Confesso que nunca mais me tinha lembrado que a Anne trabalhava numa editora...

Ficaram mais uns segundos em silêncio, a meditar.

- E o Ruindade? – perguntou Diogo. – Como achas que está envolvido?

- Parece-me que concordamos que é o primeiro suspeito, dado que é a pessoa que reúne todas as condições para ter continuado a desenvolver o projecto. Era a tese dele, certo?

- Sim, concordo. E uma prova de que ainda o deve estar a fazer é que o projecto tinha o repositório de livros actualizado, tal como o professor comentou.

Simão começou a andar de um lado para o outro, sem tirar os olhos da ponta dos sapatos. Desta vez não os via: estava a pensar.

- Eu diria que a Anne fez chantagem com o Ruidade e ele matou-a para a calar.

- Sim, Simão, essa também me pareceu uma boa hipótese, mas, nesse caso quem respondeu ao meu email? A Anne morreu, de modo que não foi ela. Portanto tem de haver uma terceira pessoa envolvida na história. E olha, supondo que tudo isto é verdade (repara que começámos com a premissa inicial de que o professor Aguiar Mota não estava a mentir), ainda nos falta compreender como é que se encaixa o Pedro na história...

Simão sentou-se. Ficaram de novo calados, a olhar para os pés. Passados quase dois minutos, Simão falou:

- Na verdade, até tenho uma explicação muito simples, Diogo...

- Então?

- A papelada da chantagem veio parar às nossas mãos através do João porque quem a tinha recebido simplesmente... a perdeu. E como? Terá sido naquela aula de dúvidas com o Ruindade, de que a Clarissa falou há pouco mais de um mês atrás. Lembras-te?

- Não. Como é que tu te lembras dessas coisas?

- A Clarissa contou-nos que o João deitou abaixo tudo o que estava na secretária do Ruindade e que este ficou todo nervoso.

- Ah, já não me lembrava nada disso. O que estás a dizer é que alguém fez chantagem com o Ruindade, ele tinha as folhas em cima da sua secretária e o João, com as suas confusões, acabou por ficar com elas no meio dos seus apontamentos. Isso dá-nos uma explicação para o outro assunto.

- Qual assunto? O desaparecimento das mochilas do João, Clarissa e Pedro?

- Exacto, Simão.

- O Ruindade deve ter querido recuperar os papéis e foi atrás das mochilas. Como eram todas iguais aconteceu o que aconteceu. Diogo, se estamos de acordo, parece-me que “só” nos falta perceber o que aconteceu ao Pedro...

- Sabes Simão, eu inclino-me para uma explicação muito simples: eles os três têm malas iguais e ele deve ter visto uma delas no seu gabinete na aula de dúvidas. Começou por seguir o Pedro. Este é atropelado e rouba-lhe a mala. Depois rouba a do João e, finalmente, faz aquela chamada para ti, e rouba a da Clarissa.

- E o Pedro deve ter-se apercebido de alguma coisa e tentou avisar os primos.

- Sim.

- Boa Diogo. Parece-me uma boa hipótese.

- Bem, só nos resta ir falar com o Ruidade e confrontá-lo.

- Não queres ir antes falar com o teu pai? Já deve estar em casa, não?

- Provavelmente sim, mas só em caso de emergência é que o quero incomodar hoje. Acho que devo falar com o Ruindade primeiro.

- Não sei se acho boa ideia. Gostava que o teu pai soubesse da ameaça que recebeste via email.

- Simão, como é que quem quer que seja pode saber que fui eu? Lembra-te que criei uma conta no gmail. Foi apenas uma ameaça atirada ao calhas a ver se pegava. Pegou.

- Pegou mal. Não gostei. E se, por alguma razão, o chantagista sabe quem és tu?

- Vá, não sejas menino da mamã. Vamos os dois falar com o Ruindade. O que pode ele fazer contra dois tipos. Ainda por cima é um magricelas.

- Ok, mas antes de ires, uma última revisão à nossa teoria, para ver se não nos está a escapar algo.

Diogo sorriu:

- Ok, ok, como fazemos antes dos testes e exames. Eu acho que...

De repente, Diogo calou-se e esbugalhou os olhos perante os novos clientes da “5 cents”. Por um segundo, voltou a passar pela cabeça de Simão a imagem de dois globos oculares a rolarem na calçada portuguesa. Depois, voltou-se e também ele ficou pasmado com o que viu: dois soldados, armados até aos dentes inseriam moedas na máquina. Um era sardento e arruivado e tinha umas mãos despropositadamente grandes, o outro, de feições orientais, tinha um impressionante pescoço de girafa.

- Mas o próximo encontro não é de novelas cor-de-rosa? – perguntou Diogo entre dentes.

- Confesso que desde que vi um Orc a comer uma merendinha prensada cá no Tagus, quase mais nada me espanta.

Os dois homens tiraram palmiers cobertos da máquina.

- Isto já deve ser propaganda para o próximo encontro de literatura. O tema deve ser... guerra? – continuou Diogo no mesmo tom.

- Mutantes?

- Vamos perguntar-lhes?

- Não tens coragem, Simão.

Simão, olhou para Diogo com um ar de desafio, avançou um passo e cumprimentou os dois homens que tiravam desajeitadamente os plásticos que cobriam os bolos.

- Boa noite. Estava a pensar: os senhores estão obviamente a fazer propaganda para o próximo encontro literário. Estamos a falar de um encontro com que tema? Guerra?

Os homens olharam um para o outro com ar de quem não tinha percebido nada. O mais arruivado pegou no palmier e enfiou-o na boca de uma só vez. Depois, deixando Simão e Diogo com os cabelos em pé, deu uma gargalhada brutal, mostrando uma boca cheia de palmier semi-triturado, ao que se seguiu uma gargalhada igualmente assustadora do colega. Finalmente, viraram as costas e foram-se embora.

- O que é que o Aguiar Mota estará a magicar... E eu que achei que o Tagus em tons rosa era assustador – comentou Simão.

- Bem, vamos lá falar com o Ruindade – disse Diogo que ainda estava espantado por o amigo ter ousado dirigir-se às criaturas. – Dez e meia da noite... como se ele fosse estar no seu gabinete alguma vez.

 

***

 

Diogo e Simão aperceberam-se que havia confusão no segundo andar quando ainda estavam no rés-do-chão e, ao subirem ao primeiro andar, esbarraram-se com o professor Aguiar Mota que vinha a descer as escadas muito nervoso:

- Um de vocês, por favor, depressa, vá lá abaixo pedir aos seguranças a chave da casa de banho das senhora entre os núcleos nove e onze. A Bárbara Vinhais enlouqueceu. Fechou-se lá dentro e ameaça pegar fogo ao papel higiénico. Eu vou tentar demovê-la, mas... Ai, nem sei se não deva chamar já a policia...

E, ainda muito nervoso, o professor virou-se e voltou a subir as escadas.

- Vai tu lá abaixo buscar as chaves, se fazes favor – pediu Diogo. – Eu vou só ver se o Ruindade está no seu gabinete.

Simão fez um ar aborrecido, mas acatou o pedido e começou a descer as escadas: primeiro, o problema da Bárbara Vinhais parecia prioritário; depois, achava que era pouco provável o Ruindade ainda estar a trabalhar.

Infelizmente, achou mal, dado que o Ruindade trabalhava no seu gabinete e era a única pessoa do seu núcleo que não tinha ido ver o que se passava na casa de banho das senhoras. Isto devia-se ao facto de estar a trabalhar com música aos berros e não se ter apercebido da agitação nas salas do lado. Ao entrar no núcleo nove, Diogo ainda cumprimentou Topo, que se dirigia também ele à casa de banho das senhoras, com a curiosidade estampada na cara. Diogo comentou que estava espantado por encontrar ali tanta gente àquela hora, mas Topo explicou-lhe que a deadline para a submissão de artigos a uma conferência importante da área era no dia seguinte e, portanto, estava lá o grupo quase todo a trabalhar.

Diogo entrou no gabinete sem bater e, como o professor estava de costas para a porta, não o ouviu entrar. O estudante contornou a secretária e sentou-se na cadeira à frente desta, sobressaltando o professor Rui Trindade que quase caiu da sua própria cadeira com o susto.

- Isso é que são maneiras? Bater à porta e aguardar, já alguém lhe ensinou?

Diogo disparou a matar:

- Professor, sabemos tudo sobre o projecto “ABG”. Sabemos o que fez e sabemos que foi chantageado. Agora explique-nos porque matou a Anne e o que fez para que o Pedro fosse atropelado.

Apesar de não gostar de admitir que tinha visto “O diário de Bridget Jones”, Diogo ainda gostava menos de aceitar que tinha adorado a cena de pancadaria ao som do “It’s raining men” e, no momento em que se desviou do soco que o auxiliar lançou na sua direcção, foi com alguma vergonha que ouviu nitidamente, na sua cabeça, o início da versão de Geri Halliwell, baseada na canção original das Weather Girls.

 

Humidity is rising

Barometer's getting low

 

Diogo teve apenas tempo de se desviar, sentindo a mão ossuda de Ruindade passar-lhe a uns escassos milímetros do rosto. Como estava habituado às cadeiras com rodas dos laboratórios de informática, esperava que o impulso que deu o fizesse afastar mais da mesa, mas como a cadeira onde estava sentado não deslizava, o máximo que conseguiu foi limitar a agressão a uma tangente. A deslocação de ar que o atingiu não lhe deixou dúvidas: Rui Trindade era um lingrinhas, mas sabia bater com força.

 

Cause' tonight for the first time

Just about half past ten

For the first time in history

It's gonna start raining men

 

Sem muito tempo para meditações profundas, Diogo atirou-se com todo o seu peso contra a secretária do professor que, tendo falhado o seu soco, se encontrava numa posição de desequilíbrio. A mesa bateu-lhe com força nas pernas e atirou-o para trás, sobre a sua cadeira, esta sim com rodas, fazendo-o embater na parede. Diogo aproveitou para agarrar o teclado do professor e, com toda a sua força, atirou-lho à cabeça. Infelizmente Rui Trindade tinha um passado de ruas e, mesmo sentado, agachou-se num reflexo rápido que Diogo teria admirado num outro combatente que não fosse seu adversário. Desta feita foi ele quem se desequilibrou, ficando quase deitado em cima da secretária do professor. Este não perdeu a oportunidade para socar violentamente o nariz do estudante, que caiu para trás.

 

It's raining men

Hallejulah

It's raining men

Amen

 

Sentindo o sangue a começar a jorrar do nariz, Diogo agarrou-se à primeira coisa a que pode deitar as mãos: os cabos que saíam do portátil do Rui Trindade, os quais ligavam as duas colunas de som e o rato ao computador do auxiliar. Enquanto se estatelava no chão, o seu peso arrastou o leve e frágil portátil que cambaleou perigosamente à beira da secretária. Meio estonteado, deitado de costas no chão, Diogo ainda recebeu uma ligeira pancada na testa, que percebeu rapidamente ser o rato, que tinha acabado por tombar. Antes que as colunas seguissem o mesmo trajecto e fizessem estragos consideráveis na sua cabeça, dado que eram velhas e pesadas, Diogo rolou sobre si e levantou-se de um salto, mantendo o rato na mão.

 

It's raining men

Hallejulah

It's raining men

Amen

 

O quadro que lhe foi dado a ver era a oportunidade que precisava: Rui Trindade, tinha as duas mãos e grande parte da atenção direccionadas sobre o seu querido portátil que estava literalmente à beira do abismo. Diogo nem teve de pensar muito: empurrou com toda a força a tampa do portátil, entalando os dedos de Ruindade que gritou de dor. Em menos de dez segundos, uma sequência de quatro potentes socos de rato na mão atingiram o auxiliar do professor Mota no rosto e fizeram-no cair para trás, próximo do KO.

 

***

 

Simão entrou no exacto segundo em Diogo começava a amarrar as mãos de Rui Trindade com o fio do rato.

- Perdeste a missa, mas chegas a tempo do copo de água – comentou Diogo.

- Estou a ver que a missa foi feroz. Estás a deitar sangue do nariz e o professor de vários sítios – constatou Simão passando-lhe um lenço de papel. – Trata disso que eu acabo de o amarrar.

- E a Bárbara Vinhais?

- Ainda fechada na casa de banho. Está uma feira à porta: o Aguiar Mota à beira da histeria e mais umas dez pessoas entre o apreensivo e o divertido. Confesso que ainda não percebi se me devo rir ou chorar da situação. Quanto à que encontro aqui, também estou a hesitar.

Rui Trindade, de costas, tentava virar-se para ver quem tinha chegado. Quando conseguiu fixar os olhos em Simão, disse-lhe furioso:

- Vocês vão ver o que vos vai acontecer por agredirem um docente.

- Professor, com o devido respeito, foi o professor que começou – disse Diogo fazendo dois finos cones com o lenço de papel e enfiando-os no nariz. – E agora, podia começar por nos explicar o seu envolvimento no projecto “ABG”...

- E porque é que eu havia de vos dizer?

- Porque... – começou Diogo. Depois olhou para Simão, perturbado. Na verdade, porque é que o auxiliar lhes havia de contar o que quer que fosse? Podia sempre ameaçar formatar-lhe o disco rígido, mas isso seria uma solução bastante idiota.

Foi Simão quem salvou o momento:

- Porque olhando bem para aquele canto, debaixo da sua secretária, encontra-se a mala do Pedro ou então a da Clarissa ou, eventualmente, a do João – Simão deu um passo, agarrou na mala e abriu-a. – Exacto, é a do Pedro, até cá está o nome e a morada.

Ruindade praguejou entre dentes e após bater duas vezes com a testa no chão, assentiu num tom de voz colorido com um misto de raiva e de desespero:

- Ok, ok, eu conto-vos tudo. Por favor, não chamem a polícia.

- Claro que vamos chamar a polícia, a não ser que tenha uma explicação maravilhosa para isto, o que considero improvável... Pode começar por nos explicar o que realmente aconteceu ao projecto “ABG”.

O professor conseguiu endireitar-se, encostou-se à parede e encolheu os ombros, frustrado:

- O projecto “ABG” tinha como objectivo a geração automática de livros e...

- Isso nós sabemos. Pode acelerar e explicar-nos porque é que o projecto não foi encerrado como desejava o professor Aguiar Mota?

- O que é que vocês acham? Para o Mota foi apenas desistir de um projecto com muito potencial. Para mim foi isso e mudar de tese. E o Mota é todo riquinho porque herdou uma pipa de massa de um tio qualquer; eu nunca tive um tusto. Ele ainda se podia dar ao luxo de vir com preconceitos morais; para mim era a minha única oportunidade de enriquecer. E foi o que fiz. Não acho que tenha feito nada de mal. No meu tempo livre esfalfei-me para melhorar o software, enquanto trabalhava numa tese completamente ao lado e, apesar de ainda agora ser precisa muita correcção manual dos livros gerados, o que acontece é que estes são normalmente muito, muito, muito bons. As deep nets ajudaram imenso. Claro que, para alguns autores, dependendo do seu estilo literário e da sua capacidade de inovação, os livros saem melhor que para outros. Mas mesmo assim...

- Então, arranjou um primeiro cliente e depois o vírus espalhou-se. É isso? – perguntou Diogo.

- Sim, comecei por contactar o CENSURADO para quem gerei o melhor best seller da sua carreira. Depois vários escritores como o CENSURADO, a CENSURADO e o CENSURADO foram contactados e como os livros gerados resultavam em fenómenos literários, estes escritores foram passando palavra uns aos outros e acabei por ter um leque bastante interessante de clientes. E tudo correu bem durante estes anos todos, até que, há pouco mais de dois meses recebi aquele maldito email a chantagear-me. E o mais grave é que alguém sabia realmente sobre o assunto, dado que os livros que vinham na lista correspondiam aos mais recentes trabalhos do meu software. Entrei em pânico e enviei um email ao chantagista a dizer que precisava de tempo para reunir esse dinheiro. É que de facto ganhei muito papel, mas... gastei a grande parte... ehhh... a jogar poker on-line – Ruindade abanou a cabeça envergonhado. – Esse é talvez o meu maior “crime”, se é que se pode chamar assim. Escusam de perguntar, porque vos digo já que nunca toquei num cabelo que fosse daquela rapariga, a Anne. Soube apenas que uma tipa tinha sido assassinada e depois soube que trabalhava numa editora. Investiguei um bocadinho e conclui que o crime devia estar relacionado com o “ABG”. Entretanto, para complicar as coisas, fiz a estupidez de mandar imprimir o maldito email de chantagem, para o estudar com atenção. Estava na minha secretária e durante uma aula de dúvidas... desapareceu. Percebi logo que tinham sido aqueles vossos colegas, dado que um deles era caótico, a espalhar tudo por todo o lado. Sei que não o fizeram por mal...

- E então andou a revistar-lhes as mochilas – acusou Simão.

- Sim. Era demasiado arriscado deixar esse email a circular por aí. Se caísse nas mãos erradas... o que, pelos vistos, foi o caso... – O professor Rui Trindade deitou-lhes um olhar de ódio.

- E seguiu o Pedro até Lisboa...

- Pois, e o idiota do miúdo deu conta que alguém andava atrás dele e escondeu-se. Durante uns minutos perdi-o de vista naquele bairro de vivendas; depois ficámos cara a cara. Tentei fingir que não o conhecia, mas ele pareceu assustado e desapareceu outra vez. Voltei a procurá-lo e, de repente, vejo-o sair por detrás de um carro e atravessar a rua a correr. Foi então que foi atropelado.

– E o professor, em vez de o socorrer, roubou-lhe a mala.

– O senhor que o atropelou chamou logo uma ambulância e começou a socorrê-lo. Eu não era preciso para nada. E como a mochila que ele levava ao ombro, com o embate, me veio praticamente parar aos pés... Acho que não cometi nenhum crime, também aí.

– Professor, primeiro foi o responsável por assustar o Pedro...

– Não é minha culpa que ele tenha atravessado a rua como um estúpido.

– Roubar uma mochila é um crime.

– Ora, quando o miúdo sair do coma, hei-de lhe devolver a mochila. Se tivesse lá ficado, provavelmente agora é que ele nunca a recuperaria. E quantos aos outros: eles é que levaram papéis que eram meus. Estava apenas a procurá-los.

O professor Rui Trindade calou-se e ficou uns momentos a olhar para eles em desafio.

– Podem libertar-me agora? – pediu de mau modo.

– Uma última pergunta: tem alguma suspeita de quem está a fazer chantagem consigo?

O docente abanou a cabeça e fez, novamente, um ar de frustração.

– Penso que tem de ser alguém aqui de dentro. Provavelmente até alguém do grupo. Aquela lista estava no meu portátil e, um belo dia, tive a sensação de que alguém tinha estado no meu gabinete. Mas não tenho nenhuma ideia de quem possa ser.

– Ok, professor, nós vamos libertá-lo, mas acho que vai ter de falar com o ...

Simão não teve tempo para acabar a frase: tinha uma pistola encostada à nuca e Diogo também. Agarrados às duas pistolas, com os dedaços nos respectivos gatilhos, estavam os militares que tinham encontrado na máquina “5 cents”.

 

***

 

- Mas... – balbuciou Simão mais surpreendido que assustado.

- Ehh... – Diogo não sabia bem o que dizer. – Mandaste vir os amiguinhos? Foi, Rui Trindade? – disse, mais para se ouvir e ter a certeza de que não tinha morrido já.

- Ehh... nunca vi estes... ehh... senhores – respondeu Rui Trindade com uma voz assustada.

- Boa noite – saudou Diogo tentando estabelecer diálogo. – Se tivesse a amabilidade de afastar esse... objecto... da minha nuca, tenho a certeza de que seríamos capazes de nos entender.

Mas os dois homens permaneciam imóveis, aparentemente à espera de alguém.

E de facto, dez segundos depois que pareceram todas as teóricas de um semestre, a porta do gabinete do professor voltou a abrir-se e entrou um homem magro, com barbas e cabelos pretos muito compridos.

- Rasputine, monge louco! – quase gritou Simão. – Eu sabia que tinhas de estar por detrás disto!

Diogo e Rui Trindade olharam para Simão com ar incrédulo.

- Rasputine? Sabias? Como é que sabias, Simão? – perguntou Diogo, completamente às cegas.

Simão fez um sorriso completamente desapropriado, dadas as circunstâncias.

- Claro que não sabia, mas achei que era uma boa frase patética para dizer. Sabes, ter uma arma apontada à nuca estimula o meu sentido de humor.

O homem a quem Simão chamara Rasputine aproximou-se dele com um ar furioso.

- Muito graça – disse com um sotaque péssimo e impossível de identificar. – Vamos ver se rirás-te muita tempo.

- Caro Rasputine, deixe-me informá-lo de que o seu português é lamentável.

O homem aproximou a sua cara perigosamente da de Simão, fazendo-o pensar em Clarissa. Constatou que esta mantinha o top da agressividade, mas que Rasputine era imbatível no hálito fedorento:

- Dá rapidamente boa razão para não matar-te, jovem.

- Bem, a autora deste livro quer ter público de várias faixas etárias e não se pode matar uma das personagens principais num livro que vai ser lido por crianças de dois anos... huff, deixe-me dizer-lhe que para além do seu português, o seu bafo também é lamentável.

- Jovem, crianças de dois anos não saber ler.

- Pronto, então para aí de uns catorze anos. Alguns já sabem ler, não?

O cano de uma arma bateu violentamente na cana de nariz de Simão que só não caiu ao chão por ter o cano de outra arma a amparar-lhe a nuca. No entanto, ainda produziu mentalmente um trocadilho que envolvia a palavra cana, nas suas combinatórias “cana do nariz”, “cano da arma” e “ir de cana”. Felizmente, não o partilhou.

- Crianças de catorze anos gostar de nariz partida – riu-se Rasputine, exibindo uma dentição de fazer inveja ao Orc mais nauseabundo.

- Bolas, agora também vou precisar de dois tampões para enfiar na penca – comentou Simão ao levar a mão ao nariz e ao vê-la encher-se de sangue.

Diogo olhava para o amigo quase em estado de choque e, de repente, veio-lhe à cabeça a imagem de D. Carlos de Espanha, sem que percebesse bem porquê. Até que lhe saiu uma frase que o fez compreender:

- Porque não te calas? – suplicou a Simão. É que se ele próprio fosse Rasputine teria acabado de transformar o livro numa obra para maiores de dezoito, devido ao modo como daria cabo de Simão. O que se passaria com o amigo para estar tão verborreico?

– Ok, ok, eu calo-me. Desde que aqui o amigo-hálito-fedorento-e-sotaque-ridículo me explique porque é que temos estes palhaços a apontar armas aos nossos queridos pescoços.

- Sim, até porque já estar farto da conversa. Nós vir em nome de grande escrevinhador. Vir buscar professor Rui Trindade para trabalhar para escrevinhador até à eternidade com seu software. Ficar preso para sempre num torre, como Rapunzel, mas sem trancinhas loiraças. Boas regalias. Vós não dever tentar encontrar professor. Ser muito periculoso.

E, sem mais explicações, o homem que apontava a arma a Diogo, atirou-o ao chão e amarrou-lhe as mãos e os pés. Depois pôs praticamente Rui Trindade ao ombro, prendeu um gancho com uma corda à parede e abriu a janela. O outro prendeu igualmente as pernas e mãos de Simão, guardou o portátil de Rui Trindade numa enorme mochila de onde tirou um garrafão com que começou a encharcar toda a sala, para grande horror dos dois amigos, dado que tresandava a gasolina. De seguida, também ele prendeu um gancho à parede e tomou posição. Finalmente, Rasputine colocou uma pequena caixa em cima da secretária.

- Pequena bombita. Vinte minutas. Bum. Suficiente para foguinho doloroso. Adeusito.

E dito isto, também ele sacou de uma corda com um gancho e preparou-se para descer. Num segundo, os três homens e Rui Trindade – que olhava incrédulo para os dois estudantes – desapareceram do outro lado das janelas. Simão e Diogo focaram a sua atenção na bomba: as coisas estavam a correr mesmo mal.

 

***

 

Os dois rapazes encontravam-se numa posição terrível, a tentar desamarrar-se mutuamente e sem muito sucesso, quando a porta do gabinete se abriu mais uma vez e apareceu... François, o colega francês, alcunhado de Topo por Pedro.

- O que se passa aqui? – perguntou, espantado por ver os dois rapazes amarrados e por sentir um cheiro tão forte a gasolina.

- Por favor, Top... François, liberta-nos e logo te explicaremos. Não temos muito tempo.

O rapaz assim fez e dois minutos depois já os dois amigos massajavam os pulsos magoados. Diogo pegou imediatamente no telemóvel e ligou ao pai.

- O meu pai não atende. Espera, tenho duas mensagens...

- Neste momento dramático, vais telefonar ao teu papá? – perguntou François incomodado. – Não deveríamos fugir? Aquilo é uma bomba, não é?

- Sim, sai daqui e pede para evacuarem o edifício.

- Mas...

- Porreiro, a primeira mensagem é da Clarissa: o Pedro saiu do coma. Ficaria eufórico se não estivéssemos nós em situação de pré-coma. Quanto à outra mensagem... – Diogo teclava furiosamente no telemóvel.

De repente, Simão sentiu um grande puxão no braço. Diogo mostrava-lhe o ecrã e, pela primeira vez na sua vida, Simão leu-lhe o verdadeiro pânico no rosto: neste podia ver-se uma fotografia de Sofia, amordaçada e amarrada; pior: atrás dela, não muito longe, o Minotauro. Por baixo a mensagem:

 

Eu quero o dinheiro daqui a vinte minutos na garagem ... ou ...

 

Simão sentiu o corpo a gelar. Sofia? Como é que Sofia estava metida na história? Onde é que ela estaria? O que lhe teriam feito? O que lhe iriam fazer?

Naquele segundo, o telemóvel começou a tocar. Diogo respondeu quase histérico:

- Pai, preciso de ajuda, tenho um problema. Aliás dois problemas. Aliás...

 
Stress++@Tagus

LOCAL: Edifício do Técnico no Taguspark, Cave

DATA: 3 de Junho

HORA: 00 h 01

 

Depois de muito rapidamente terem posto o francês ao corrente dos acontecimentos, Simão e Diogo decidiram que deviam separar-se: Simão iria com François tentar encontrar Sofia e Diogo ficaria a desmantelar a bomba. Os dois primeiros dirigiram-se à cave o mais depressa que puderam: desceram as escadas a correr até ao nível térreo do edifício e, logo de seguida, as escadas que levavam à garagem. À frente da pesada porta que dava entrada directa para a gigantesca área que servia de parque de estacionamento subterrâneo e de cave, e que acompanhava o imenso edifício em toda a sua extensão, estacaram uns segundos. Não queriam fazer barulho e, com isso, alertar para a sua presença quem quer que fosse que tivesse colocado Sofia naquela situação de perigo.

Simão abriu a porta o mais silenciosamente que conseguiu e passaram os dois para o outro lado. A escuridão era praticamente total. Apenas uma luzes fraquitas, aqui e ali, permitiam determinar onde se encontravam.

- O Minotauro estava entre os anfiteatros A1 e o A2 que são naquela direcção. Supondo que não se afastou muito do seu espaço... – sussurrou Simão.

- Se nós não temos nenhuma pista melhor... – concordou François.

Caminharam os dois, literalmente em bicos de pés, tentando dissimular o corpo na penumbra das colunas existentes. O silêncio era total.

Quando já tinham avançado mais de cinquenta metros, ouviram ambos, distintamente, a porta por onde tinham entrado a abrir-se devagarinho. François empurrou Simão contra uma parede e fez-lhe sinal para se manter em silêncio. Assim permaneceram uns bons segundos até verem quem tinha chegado. Para grande surpresa de ambos (ou não), era Hans, também conhecido por Rammstein. O alemão, que se dirigia para o mesmo sítio que os dois rapazes, seguia igualmente em pontas dos pés, tentando deslocar-se o mais discretamente que lhe era possível. Na mente de Simão fez-se luz: claro, só podia ser Hans. Namorado de Sofia, a trabalhar com o Aguiar Mota e com o Ruindade... Simão preparava-se para lhe saltar em cima quando François o puxou para trás e lhe fez sinal para que o deixassem passar.

O germântico continuou o seu percurso e parou em frente de uma entrada que ficava exactamente por debaixo dos anfiteatros A1 e A2. Pareceu hesitar uns instantes e depois, com cuidado, empurrou a pesada porta que rangeu ligeiramente ao abrir-se. Voltou a hesitar uns segundos e, de seguida, entrou, deixando a estrutura fechar-se atrás de si, devagarinho.

Simão e François dirigiam-se para o mesmo local, quase em passo de corrida, mas tentando não fazer barulho, quando um rugido aterrador se fez ouvir. Por uns instantes Simão pensou que tinha sido Hans a soltar tamanho uivo, mas logo se lembrou do Minotauro. No instante seguinte os sons de uma luta violenta fizeram-se ouvir.

Simão, em pânico pela irmã, abriu imediatamente a porta. Esta dava para uma sala não muito grande, onde, apesar da parca luz, Simão conseguiu ver o Minotauro e Hans, envolvidos num combate brutal e, num canto da sala, com os pés e as mãos amarrados e amordaçada, a sua irmã Sofia, que chorava e gritava desalmadamente o mais que o pano que lhe tapava a boca lhe permitia.

Simão correu para a irmã e, a meio do percurso, teve de se desviar do corpo de Hans lançado pelo Minotauro, contra uma parede. O alemão pareceu bastante atordoado, mas depois de deitar uma olhadela gelada a Sofia, com uma resistência que pareceu sobre-humana a Simão, abanou a cabeça e voltou ao ataque. Tinha-lhe saído o tiro pela culatra: tinha usado o Minotauro, mas agora este virava-se contra ele. Simão ainda o viu tirar do bolso um pacote de pastilhas Gorila, antes de se voltar a concentrar no processo que tinha iniciado havia uns segundos: alcançar a irmã.

Quando chegou ao pé desta, Simão apercebeu-se que François o seguia, quase colado a ele, com um ar assustado, sem desviar o olhar do Minotauro.

Sem pensar duas vezes e sem perder tempo a desamarrar a irmã ou a tirar-lhe a mordaça, Simão pegou nela ao colo e começou a dirigir-se para a porta, sempre seguido por François. Teve de parar uma vez, dado que o Minotauro e Hans tinham voltado a lutar corpo a corpo e rolavam agora, perigosamente, de um lado para o outro, no meio do chão. Teve de parar uma segunda vez, dado que Sofia gritava e se mexia tanto que quase a deixou cair. François, que continuava colado aos seus calcanhares, ajudou-o a equilibrar-se. Simão preparava-se para completar os dois metros que os separavam da porta quando uma punhalada nas costas, mesmo ao nível do coração, paralisou-lhe o corpo de dor. Uma segunda punhalada, poucos centímetros abaixo da primeira, fizeram-lhe experimentar um nível de sofrimento que não pensava ser possível. Os joelhos cederam e Simão tombou, ainda com a irmã, cada vez mais histérica, nos braços. Uns segundos antes do coração parar e de morrer, Simão, apercebeu-se que a irmã, no meio de um choro descontrolado, entoava a Marselhesa.

 

***

 

- Pai, qual é a porra do fio.

- Diogo, tens de me descrever o mecanismo.

- Pai, é uma merda, cheia de fios de merda de várias cores merdosas: vermelho, verde e cor de caca – Diogo tentava manter-se calmo, mas a contagem decrescente estava nos cinquenta segundos.

A voz do pai fez-se ouvir, muito calma, quase anestesiante.

- Diogo, sabes que odeio essa linguagem pouco própria. Vê se te controlas, se fazes favor. Como deves saber, cada bombista faz as bombas à sua maneira, com o seu estilo próprio. Sem saber mais sobre o mecanismo não te posso ajudar. Acalma-te e diz-me o que estás a ver.

- Pai, estou a ver a merda de um contador que já vai nos trinta e cinco segundos.

- Diogo, já te disse para não praguejares. Se já vai nos trinta e cinco segundos...

- Trinta.

- Ok, Diogo, trinta.

- Vinte e oito.

- Ok, Diogo, vinte e oito.

- Vinte e seis.

- Diogo, não me interrompas, se fazes favor. Se já falta tão pouco tempo, sugiro veementemente que te retires dessa sala e que te afastes o mais depressa que te for possível desse dispositivo.

- Não posso pai, há gente aqui ao lado. Eles disseram que a bomba era pequena, mas se não for... Tenho de arriscar.

- Diogo, não sejas teimoso – a voz do pai ficou subitamente muito tensa. – Sai já daí!

- Pai, sempre odiei o Benfica! – esganiçou Diogo. E logo a seguir cortou o fio vermelho com uma tesoura que encontrara em cima da secretária do Ruindade, enquanto berrava estrondosamente:

- “BAAAAANNNNNNNNZZZZZZZZAAAAAAAAAAIIIIIII!!!!!!!!!!!!!”.

 

***

 

Simão abriu os olhos e viu a cara de um homem, que se debruçava sobre ele, com uma expressão de grande preocupação.

- Onde estou? – perguntou Simão.

- Bem, sem te querer desanimar, no inferno.

Porra, inferno, ele que sempre fora tão amável para toda a gente! Se calhar tinha sido por não ter lavado os dentes quatro dias seguidos, quando tinha três anos, em desafio à autoridade maternal. Ou então... ? Se calhar mais valia não pensar nisso...

- Quem és tu? – perguntou, sentindo-se muito infeliz.

- Chamo-me Dante... Por acaso não viste a Beatriz?

- Beatriz?

- Desculpa, se calhar és de outra história. Desculpa o incómodo.

Nova escuridão.

Desta vez Simão tinha um extraterrestre, que comia churros atrás de churros, a olhar para ele.

- Já não estou no Inferno?

- Estás em Barcelona. Diz-me, nesse sítio de onde vens, não encontraste um tipo chamado Gurp, não?

Logo a seguir tudo voltou a ficar escuro e Simão sentiu água a escorrer-lhe na face. Voltou a abrir os olhos. Estava deitado no chão e Diogo olhava para ele, angustiado.

- Água? Porque é que me atiraste água?

- Simão, estás farto de gritar “atirem-me água fria” e também “água benta”. A fria ainda conseguimos arranjar...

- O que foi que aconteceu?

- Acho que morreste durante uns minutos. Basicamente durante os minutos em que eu tive de dar cabo dos maus sozinho e salvar a miúda gira. Muito conveniente da tua parte morreres nesta altura. E depois... não sei, ressuscitaste e começaste a gritar pela água.

- Mas...

- Levaste duas punhaladas, mas já não tens marcas. Parece que regenerou tudo – informou uma voz feminina. – Não sabia que o meu irmãozinho partilhava a genética da Claire Bennet... ou o potencial do Wolverine – terminou, com uma risada nervosa.

Foi quando Simão se deu conta que tinha a cabeça pousada nos joelhos da irmã e que Hans, com o cabelo desgrenhado e coberto de sangue quase da cabeça aos pés, se encontrava sentado no chão, um pouco atrás dela.

- Sofia, estás bem? E o que é que o Ramm... o Hans está ali a fazer?

- Estou bem. E o Hans também. Mas há que dizer que és um bocado burro. Como é que ainda não percebeste que o Hans me estava a proteger e que o François é que era o mau da fita?

- Mas afinal...

- Vamos lá para cima, sentar-nos e comer qualquer coisa. Especialmente algo que tenha chocolate e engorde – pediu Sofia. – Isto aqui é assustador.

Diogo e Sofia ajudaram-no a levantar, apesar de ele realmente não precisar, dado que se sentia melhor que nunca. Só então reparou que François estava amarrado a um canto da sala, com um ar muito infeliz, e que o Minotauro estava sentado ao seu lado, mascando pastilhas elásticas.

 

***

 

Passados uns minutos estavam todos instalados nos pufes, depois de terem ido à caixa distribuidora “5 cents” e terem comprado tudo o que tivesse gordura.

- O meu pai deve estar mesmo a chegar – disse Diogo num voz ligeiramente alterada. A ideia de ver Simão morto, nem que fosse por uns minutos, tinha sido um choque brutal. Não que o pudesse admitir, claro. Sem saber porquê, ficou a pensar nos gémeos do Harry Potter.

- Acham boa ideia ter deixado o François com o Minotauro, lá em baixo? – a ideia de irem mais tarde deparar-se com o corpo do Francês estava a deixar Simão nervoso.

- Esperro que o Minotaurrro acabe as pastilhas Gorrrila e se torne péssimou – comentou Hans.

- E então, o que foi que vos aconteceu? – perguntou Diogo ignorando a preocupação do amigo.

- Vocês já sabem da geração automática de livros? – perguntou Sofia.

- Sim.

- Bem, é que o pai do Hans era um escritor alemão relativamente desconhecido. Um dia deixou-se vencer pela curiosidade e pagou para ter um livro gerado automaticamente. Ora o livro foi um estrondoso sucesso. O senhor ficou muito traumatizado por uma máquina ser capaz de gerar livros com mais sucesso do que os dele próprio.

- Sofia, há que acrescentarrr que os livrros do meu pai errram todos muito prrrofundos e este último, o que teve sucesso, um lixo.

Sofia concordou com um breve aceno e continuou:

- O Hans não sabia da história, mas desconfiou que algo de anormal se tinha passado. Então começou a investigar e percebeu que todos os indícios apontavam para Portugal, para o Técnico, campus do Taguspark. Veio para cá com a desculpa do doutoramento (que na verdade até queria fazer) e continuou a investigar. Já desconfiávamos do Topo, mas a prova veio esta tarde. Eu estava à espera que o Hans acabasse uma coisa para irmos jantar e reparei que o François estava muito agitado. Não consegui resistir e espreitei o ecrã do seu computador e vi uma mensagem de chantagem. Quando ele voltou, confrontámo-lo, mas ele sacou de uma arma e ameaçou-nos. Prendeu o Hans e levou-me para as caves. Depois acho que ficou preocupado com o que vocês poderiam saber e foi atrás de vocês.

- Mas porque é que não deu logo cabo de nós?

- Acho que ele queria que fosse o Minotauro a fazê-lo.

- E foi o François quem matou a Anne?

- Foi. Ele contou-me tudo enquanto me amarrava lá em baixo. Disse-me que era crítico literário de um jornal francês e, dada altura, apercebeu-se de que algo não estava bem. Alguns sucessos inesperados e alguns padrões sintácticos e semânticos comuns a escritores com obras literárias completamente distintas. Tal como o Hans, as suas investigações trouxeram-no aqui. Mas quando descobriu o que se passava, achou melhor aproveitar-se da situação e fazer chantagem sobre a pessoa que fazia a geração automática de livros – Sofia fez uma pausa dramática. – Vocês não vão acreditar, mas um vosso professor Rui Trindade é quem está por detrás de...

- Sofia, isso nós sabemos – disse Simão com um sorriso sábio. – Aliás, toma nota Diogo, que temos de pensar um dia destes em ir salvá-lo.

- Ehh... então já sabem tudo? – Sofia parecia levemente desapontada.

- Não, não sabemos porque é que Anne morreu... ou porque é que estava uma peruca ruiva numa estante da biblioteca.

- Bem, a Anne, tal como o teu pai já tinha contado, trabalhava para um editora e também eles se tinham apercebido que algo estava mal. Escritores normalmente neuróticos e com habituais crises da folha em branco, que apresentavam de repente obras de setecentas páginas; escritores a tirar grandes férias e a regressar com livros prontinhos... e os tais padrões. Difíceis de definir, mas comuns a alguns livros. A Anne percebeu quem era o culpado e confrontou o Rui Trindade. Foi aí que este se abriu e lhe mostrou o email de chantagem.

- Eh pá, isso ele não nos contou.

- Claro, estava apavorado. Ele conhecia Anne e podia ser suspeito da sua morte. Na verdade, a Anne percebeu logo quem era o chantagista envolvido pelo próprio texto do email. A Anne tinha passado cá a sua infância e falava fluentemente a nossa maravilhosa língua. Assim, deu-se conta de que quem tinha escrito a carta, falava português muito bem, mas não tinha conseguido evitar deixar alguns traços da língua original: o Francês. O François era o óbvio suspeito.

- Traços da língua original? Mas nós lemos essa mensagem e não demos conta de nada. O que é que o denunciou?

- Pelo que o François me explicou, duas coisas denunciaram-no perante a Anne. Os franceses deixam um espaço antes e depois de escreverem o sinal de dois pontos “:”. Nesse email isso também acontecia. Também parece que ele escreveu um sujeito num sítio onde ele não seria preciso em português. Penso que os franceses não têm casos de sujeito omisso, como nós.

- Espera, tenho aqui uma foto da carta – disse Diogo tirando o telemóvel do bolso.

 

“Eu sei tudo sobre o projecto ABG e tenho a lista dos escritores. Prepara-te para pagar 10.000€ ou o projecto e a lista vão ser públicos. Tu tens uma semana para juntar o dinheiro e depois avisar para : chantagem@gmail.com.”

 

- Ah, lá estão os dois pontos com o espaço atrás.

- De facto, nenhum Tuga escreveria “Eu sei tudo” ou “Tu tens”. Escreveria “Sei tudo” e “Tens uma semana” – comentou Diogo.

- Pois, mas os franceses não podem omitir o sujeito nestas orações – reforçou Sofia.

- Incrível, tínhamos a solução à frente dos olhos e.... Estou mesmo impressionado – comentou Diogo. – A Clarissa faria agora uma dissertação sobre o Processamento da Língua Natural e os traços pessoais que cada um deixa nos textos que faz. Incrível.

- E quanto à peruca? – perguntou Simão.

- Ora, nada de especial: foi uma bela maneira que o próprio François arranjou para lançar a falsa hipótese de que alguém o estava a tentar incriminar. Penso que todo o seu plano era conseguir que as culpas caíssem sobre o Hans.

- Exacto. Eu ficava com as culpas e ele com o dinheirro. Como vocês costumam dizerrr “metia dois coelhos numa chungada”.

- Quererás, porventura, dizer: matava dois coelhos de uma cajadada?

- Isso.

Subitamente, uma grande explosão, vinda do segundo andar, fez tremer o chão.

- Ups... eu pensava que tinha desactivado a bomba – comentou Diogo, muito pálido, levantando-se de um salto.

- Bolas, quando tudo parecia terminado – suspirou Simão, levantando-se também, com a preocupação bem marcada no rosto.

- Deve ser a Bárbara Vinhais – avançou Diogo, começando a correr em direcção às escadas.

- O que é que a Bárbara Vinhais tem a ver com isto? – perguntou Sofia, juntando-se à corrida, sem conseguir perceber como é que uma senhora que escrevia livros sobre o amor e lindos moçoilos rosados podia estar envolvida numa explosão.

Ainda não tinham chegado ao primeiro andar e já viam chamas a sair da casa de banho entre os núcleos nove e onze; já quase no segundo andar, cruzaram-se com o professor Aguiar Mota que gritava descontrolado:

- A Bárbara Vinhais... pegou fogo ao gabinete do Rui que se propagou aos nossos! O meu trabalho de toda a vida! Não tinha backups! Devia ter dado ouvidos ao Luís Camões.

E abraçou-se, a soluçar, a Simão que, sem saber o que fazer, lhe deu umas palmadinhas amigalhaças nas costas.

Foi então que um grupo de quinze policias, com o pai de Diogo à cabeça, seguidos de uns vinte bombeiros irrompeu, pela porta nascente, com grande espalhafato.

Logo de seguida, uma gargalhada que quase matou toda a gente de pavor, fez-se ouvir do meio das chamas. As portas da casa de banho abriram-se, deixando passar uma Bárbara Vinhais ilesa, e, para grande horror de todos, completamente nua. A escritora começou a correr ao longo do corredor do segundo andar, com as banhas aos saltinhos, soltando gargalhadas de demente.

Os olhos de Diogo caíram num dos inúmeros relógios do edifício e, assumindo como certas as horas que indicava, passavam trinta e cinco minutos da meia-noite. Logo a seguir, presenciou algo que o espantou mais do que tudo o que acabava de presenciar. O seu educadíssimo pai, acabando de avistar Bárbara Vinhais, não conseguiu evitar soltar um sonoro:

- DIACHO!

 
Epílogo

 

- Então, não gostavas que tivesse sido o teu último exame?

- Não, não gostava. E tu, Diogo, não tens pena de ter feito o teu último exame?

Diogo e Simão estavam num dos bares, refastelados, quase deitados nas cadeiras. Apesar de estarem no interior do edifício, a luz entrava a jorros pelo tecto envidraçado, pelo que usavam ambos óculos de sol. Ambos vestiam calções e Diogo calçava umas chinelas de praia.

- Já te tinha dito que achava nojento vires para a faculdade de chinelos? – provocou Simão.

- Já te tinha dito que te achava nojento? – respondeu Diogo bem-humorado.

Simão sorriu e bebeu mais um gole do café.

- Vais ter saudades disto, meu porco, vais sim senhor...

- Não vou, não senhor, minha vaca... e sabes porquê?

Simão abanou a cabeça.

- Porque afinal sempre vou fazer mestrado.

Simão engasgou-se no café.

- Quê?

- Vá, não fiques demasiado excitado que se vê daqui. Decidi que vou fazer mestrado, é só isso.

Simão sorria enquanto limpava a mesa dos pingos de café.

- Conta... o que te fez mudar de ideias?

Diogo tirou os óculos de sol, fez uma pausa dramática e disse a Simão.

- Não te quero deixar a sós com a Clarissa.

Simão deu uma gargalhada.

- Vá lá... agora a sério.

Diogo olhou para ele e ficou uns segundos calado antes de anunciar:

- Fiquei fascinado com os livros gerados automaticamente.

- Diogo, a ideia é de facto brutal, mas já vimos que não é muito segura e que tem muitas contra-indicações. O Aguiar Mota foi muito claro quando disse que nunca vai aceitar voltar a pegar nessa linha de investigação.

- Acho que vai. Há coisas bué interessantes que se podem fazer nessa linha, sem andar a gerar livros à séria. Por exemplo, fazer o trabalho inverso: pegar num livro e tentar perceber quais os livros/personagens que o influenciam...

- Talvez o convenças. Ainda para mais dado que ele está numa de começar do zero, cheio de energia, dado que perdeu todo o software do grupo. Lixado...

- Realmente, coisa mais parva. O Camões bem avisou quando fez aquele discurso sobre os backups. O Aguiar Mota devia ter seguido as sugestões de um dos seus mais ilustres convidados...

- Mudando de assunto, como é que vais resolver o problema das propinas. Ou já não te importas que o teu pai as pague?

Diogo deu uma gargalhada.

- Essa é a parte melhor...

- O que é que me estás a esconder, porco fedorento?

Diogo continuou a olhar para Simão e a rir-se. Depois anunciou, colocando de novo os óculos escuros:

- Vou escrever um livro.

Simão fixou-o longamente. De repente, percebeu:

- Não vais escrever nada. Tu recebeste foi o livro gerado automaticamente que “encomendaste” ao Aguiar Mota!

- Iá! Foi enviado uns segundos antes de ter explodido. Foi uma sorte.

Simão deu também uma gargalhada.

- E como é que é o livro? É fixe?

Diogo ficou uns segundos a pensar no que ia dizer. Depois respondeu:

- Não é exactamente um Gonçalo M. Tavares, um José Luís Peixoto, um Paulo Kellerman, uma Raquel Ochoa, um Gabriel Magalhães, um João Ricardo Pedro, uma Gabriela Ruivo Trindade, um Afonso Reis Cabral ou um João Tordo, como podes imaginar...

- Claro, óbvio, não esperaria que fosse... Mas ainda assim queres torná-lo público. Porquê?

Diogo assentiu e acrescentou:

- O que é que estás à espera de um livro gerado automaticamente? É infantil, estúpido, idiota, incoerente, cheio de disparates sem sentido. Tem personagens reles com discursos irrealistas e um enredo cretino. É uma macacada pegada. O Aguiar Mota até foi optimista, quando fez as suas estimativas à lá Dogbert, pois na minha opinião: “Dois macacos em meia hora”. Na verdade, só mesmo um leitor com um sentido de humor bem torcido é que talvez, remotamente, seja capaz de achar um mínimo de graça à coisa. Em resumo, pessoalmente acho-o mesmo tão fixe que o vou tentar publicar. Provavelmente vou simplesmente pô-lo on-line e arranjo dinheiro a trabalhar nas férias.

- O quê? Estás doido! O Aguiar Mota nunca te vai deixar.

- Puto, ele não tem de saber que é o livro dele. Vou publicar com um pseudónimo.

- E as dedicatórias. Certamente que o vais dedicar a alguém e ele vai descobrir.

- Dedicar, vou dedicar à minha mãe, claro, e isso não lhe vai dar pista nenhuma. Depois há um conjunto de amigos (não estás incluído nesse conjunto) e familiares a quem quero agradecer por variadas razões e não posso pespegar os seus nomes explicitamente. Até para não os envergonhar, dada a qualidade do livro. Mas já arranjei uma solução para esse problema... Lembras-te daquele algoritmo que aprendemos, o Soundex?

- Diogo, estamos de férias e a falar de livros, queres mesmo falar do Soundex?

- Lembras-te ou não?

- Sim, claro. Guarda a primeira letra de cada nome e depois letras que soam da mesma maneira são associadas a um número. A sequência gerada tem, no final, uma letra e três dígitos. Era um algoritmo usado, por exemplo, em bibliotecas para ajudar a encontrar livros de escritores cujos nomes sabemos como soam, mas não como se escrevem. Normalmente, nomes que soem do mesmo modo devem ficar associados à mesma sequência de dígitos. Por exemplo...

- Ok, ok, já mostraste que te lembras. Pronto. Respondendo à tua questão, os nomes das pessoas a quem dedico o livro vão estar codificados de acordo com o Soundex.

- Ideia interessante. Mas o que te faz pensar que alguém vai querer ler o livro, já que ele é assim tão... hum... especial?

- Já pensei nisso e tive duas ideias absolutamente geniais.

- Vejo que a modéstia continua a ser uma das tuas características mais vincadas...

Mas Diogo nem respondeu à provocação, dada a pressa em partilhar as suas estratégias de marketing.

- Primeiro, se chegar à versão em papel, dez dos livros vendidos vão ter um prémio: dentro dos livros encontra-se uma senha que vale uma merendinha prensada aqui no bar velho. Segundo, vou criar um Wiki onde farei propaganda ao livro e onde espero ter muitos acessos, pois consiste em desafiar as pessoas a definir conceitos como orgasmo, amor, etc. Lindo, não é?

Simão fez um sorriso forçado que apagou o entusiasmo de Diogo. Este resmungou:

- És um animal não criativo. Vais ver o sucesso que vai ter...

Ficaram uns segundos calados, com Simão a olhar para os sapatos e a pensar quem é que iria comprar um livro para ter uma hipótese remota de comer uma merendinha à borla; Diogo meditava no nome do Wiki.

- E com que nome é que o vais publicar? – perguntou de repente Simão.

- É a única coisa que me falta. Estava a pensar publicar com o nome de solteira da minha mãe. O que te parece “Luísa Marques”?

- Achas que o Aguiar Mota não vai desconfiar? Acrescenta uma pista falsa a esse nome. Um apelido banal.

- Hum... Que tal “Luísa Marques Pinto”? Ou “Luísa Marques Costa”? Ou “Luísa Marques Ferreira”? “Pinto”, “Costa” e “Ferreira” são os apelidos mais comuns, não?

- Acho que nada bate o “Silva”.

- “Luísa Marques Silva”?

- Muito melhor, mas ainda não está perfeito. E que tal se lhe acrescentasses um singelo “de”? “Luísa Marques da Silva”, o que te parece?

- Boa! Parece-me bem. Ninguém vai desconfiar.

Diogo ficou uns segundo a saborear o momento.

- E como é que se vai chamar o livro? – perguntou Simão.

- Põe lá esse cérebro de galinha a adivinhar, se fazes favor. Acho que até tu chegas lá.

- mISTério@Tagus?

- Exacto!

- Perfeito!

 

BRONCAS DO LIVRO

(The BEST BOOK BLOOPERS)

 

Cena 1:

- Simão, estão pelo menos cinco polícias ali, sem contar com o meu pai, e... e parece que... parece que está uma pessoa deitada no chão.

- O quê? – Simão parou também. – O que é que... ei... acho que tens razão. E é uma mulher... estou a ver cabelo vestido... quer dizer... cabelo comprido.

- Ah! Ah! Ah! “Cabelo vestido”, essa foi boa.

- Ah! Ah! Ah!

Cena 2:

- Mas alguma vez pensaste que eram a sério? Ai, eu sempre soube que eras um medricas, Simão. Burro e medricas! Como é que eu consigo ser teu amigo?

- Ora, não sejas parvo. Depois do que aconteceu ontem... tu também não estavas tranquilo.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Estava tranquilo.

- Não estavas.

- Porra, Simão, não era suposto dizeres qualquer coisas mais inteligente?

- Esqueci-me do texto. Ah! Ah! Ah!

 

 

 

Cena 3:

Assim, sem se atrever a olhar para trás, para a criatura que lhe transformava a penugem do pescoço em algodão doce, devido ao enjoativo bafo açucarado, deu uma volta larga sobre o seu potencial predador, aproximou-se da porta do A2 e gritou para os colegas que ali estavam:
- Amigos... uma pastilha Gorila... alguém tem? Dava-nos jeitinho.

Nada aconteceu durante dez longos segundos.
- Amigos... uma pastilha Gorila... alguém tem? Dava-nos jeitinho – repetiu Diogo.

De novo, nenhuma resposta.
- Amigos... uma pastilha Gorila... alguém tem? Dava-nos jeitinho – tornou Diogo pela terceira vez.

Silêncio.
- Oh, cambada de anormais, é suposto vocês abrirem a porta e darem-me uma pastilha – grita Diogo irritado.

A porta abre-se e ouvem-se gargalhadas. Clarissa explica, no meio de risos

- Comemos as pastilhas todas. Desculpem. Podemos ir de novo ao bar comprar mais?

- Ah, ah, ah! Muito engraçadinhos... Palhaços.

 

Cena 4:

Diogo entrou no gabinete sem bater e, como o professor estava de costas para a porta, não o ouviu entrar. O estudante contornou a secretária e sentou-se na cadeira à frente desta, sobressaltando o professor Rui Trindade que caiu da sua própria cadeira com o susto. Ouvem-se gargalhadas atrás da secretaria de Ruindade e Diogo vai ajudá-lo a levantar-se.

- Desculpem, exagerei no sobressalto. Esqueci-me que estava numa cadeira que tinha rodas.

 

Cena 5:

Sem pensar duas vezes e sem perder tempo a desamarrar a irmã ou a tirar-lhe a mordaça, Simão pegou nela ao colo e começou a dirigir-se para a porta, sempre seguido por François. Teve de parar uma vez, dado que o Minotauro e Hans tinham voltado a lutar corpo a corpo e rolavam agora, perigosamente, de um lado para o outro, no meio do chão. Sofia gritava e mexia-se tanto que Simão acabou por cair ao chão com ela nos braços. François, que caminhava colado a Simão, foi apanhado desprevenido, e caiu também sobre eles. Hans e o Minotauro, que lutavam na sala, não deram conta que os três se encontravam estatelados no chão e acabaram em cima deles.

- Eh pá, tirem-me estes tipos de cima – gritava François, que parecia estar a sufocar.

- Vocês estão bem? – perguntou Diogo, ajudando o Minotauro a erguer-se.

- Eu acho que parti um chifre – gemeu este.

- Sim, Miguel, já vamos ver isso. E vocês malta, estão todos bem?

Gargalhadas.

- Iá, todos bem. Mas deixa-me dizer ao senhor Hans que ele é um grandessíssimo gordo – disse Sofia entre risadas.

 Bibliografia:

 

    As poesias de Ary dos Santos podem ser encontradas no livro: “Obra Poética”. Edições Avante. 2000.

 

    A poesia de Camões é adaptadas do poema “Mais há de perder quem mais alcança”, “Sonetos Amorosos”, Estante Editora.

 

    A poesia recitada pela Florbela Espanca é do livro “Sonetos”, 4ª edição, Estante Editora.

Cenas do próximo episódio

 

 

Simão levantou as pernas e passou por cima de um colega que tinha adormecido à porta da sala. Cada vez lhe parecia mais ridícula a experiência de mudanças de padrões sono que estava em curso no campus, na qual Diogo depositava tanto entusiasmo.
- E o que estamos a fazer, agora?
- Estamos a ir salvar o Ruindade, Simão.
- Mas...
- Acho que já sei onde está.
- Mas...
- Enquanto tu dormias, guerreiro fedorento, estive a investigar...
- E estás em condições de conduzir?
- Como um Paul Walker, Ayrton Senna ou Michael Schumacher.
- Eh... não podias arranjar uma metáfora com um final mais feliz?
- Como o Vin Diesel?
- Ok, vamos.

 
 


 

 

 


 

 
 



 

 

 

 


 

