Ao Illmo. Snr. Dr. Marcos Antonio Rodrigues de Souza

CAVALHEIRO DA ORDEM D E CHRISTO, JUIZ DE DIREITO DA COMARCA DE SANTOS,

(Ao primeiro amigo a primeira obra) em signal de profundo respeito, alta estima e eterna gratidão, O.D.C.

O Autor

O romance que se vae ler foi escripto em 1875 na cidade do Recife, quando o autor cursava o quarto anno da Faculdade de Direito.

Fazendo parte da collecção -- SCENAS DA VIDA DO AMAZONAS -- não é completo, como verá o leitor, e os episódios que n'elle se narram hão de ter o seo complemento no Coronel Sangrado, romance que brevemente sahirá á luz.

Ao Autor não é desconhecido nenhum dos defeitos d'este seo primeiro escripto, e certamente não se animaria a publical-o em volume, expondo-o assim a maior luz, se não tivesse sido animado por amigos benevolos, e pela imprensa da Côrte e das provincias.

Entregando-o no estado em que foi escripto ao juizo da critica, o autor entende sujeitar-se á apreciação dos competentes, por mais severa que ella seja.



Santos 23 de Dezembro de 1876.

Luiz Dolzani

<t> O CACÁOLISTA </t>



<div "CAPÍTULO I"> I



Algumas milhas acima da cidade de Óbidos, á margem do Paraná-mery, existia ainda em 1866 a fazenda chamada de S Miguel, bonito sitio em que se plantava o cacáo, e se creavam algumas cabeças de gado, limitada industria de um proprietário pouco laborioso. A grande casa de vivenda, bastante afastada do porto, por causa das enchentes, o terreiro, o tendal, as larangeiras e mangueiras onde cantavam constantemente os alegres japiins (chechéos), tudo isto tinha um aspecto agradavel, ainda que melancholico. A' esquerda da casa, e a cem passos della ficava o curral, onde todas as tardes se recolhia o gado, e para o Norte se estendia a perder de vista o campo, onde apenas uma ou outra embaúba se erguia aqui e alli. O sombrio cacáoal communicava o sitio com as outras propriedades visinhas, e por traz da casa uma lagoa de agua negra, creada por um braço do Amazonas, e cercada de aningáes cerrados, formava o fundo do quadro.

Por toda parte o capim crescia quasi tão alto como um homem e á excepção do pequeno espaço em frente da casa, que se chama terreiro, nenhum lugar havia que estivesse limpo de matto bravo e inculto.

O Paraná-mery é neste lugar mais estreito do que em outro qualquer, e uma pessoa, collocada em uma das margens, póde ser ouvida da outra elevando um pouco a voz.

Este sitio era em 186o propriedade de d.Anna, respeitável viuva do portuguez João Faria.

Fora este um homem, que soubera à força de trabalho intelligente assegurar uma vida tranquilla á sua familia.

Tendo vindo, como tantos outros filhos de Portugal, engajado para a malfadada colonia militar de Óbidos, que devia morrer em breve pela negligencina do governo e má gerencia dos directores, cedo conheceu que não lhes convinha continuar alli; e por isso logo que poude obter o dinheiro para o seu resgate e algumas mercadorias, a credito dos seus patricios já estabelecidos no Amazonas, começou a fazer o commercio de regatão, commercio que antigamente dava alguns lucros, mas que hoje está completamente cahido. Foi nas suas frequentes viagens ao Paran amery de cima, que Faria travou relações de amisade com o capitão Miguel Fernandes, possuidor de um cacáoal de tres mil pés e de dous ou tres escravos, pequena propriedade que o capitão qualificava orgulhosamente de Fazenda de São Miguel.

Em breve poude Fernandes apreciar o caracter e intelligencia de João Faria, e não tardou em propòr-lhe sociedade no sitio, que o proprietário, por andar sempre occupado com a politica não podia administrar devidamente; um anno depois o portuguez obtinha a mão da filha do seu socio, e quando sobreveio a morte de Miguel Fernandes o modesto cacáoal se tornara uma propriedade de dez mil pés, com cento e poucas cabeças de gado.

Quando João Faria se vio senhor da herança da mulher, poude dar largas ao seu genio emprehendedor, e em doze annos de casado, que viveu, era dos mais abastados proprietários do Paraná-mery, e dos mais importantes da comarca. Infelizmente porém, quando a grande cheia de 1859 reduziu a maior parte dos lavradores do Baixo-Amazonas à penúria, o activo portuguez soffreu grandes perdas, e tentava de novo lutar contra a fortuna quando a morte, resultado das doenças que adquirira no tempo de regatão, e do trabalho constante a que se entregava, veio impedil-o de continuar a obra que tão bem encetara.

Se João Faria não deixou, por occasião do seu fallecimento em 1861, a fortuna que possuia antes de 1859, ao menos poude morrer com a certeza de que a mulher e o filho, unico que tivera, estavam ao abrigo da necessidade, e abençoariam a sua memória.

Por muito activo e laborioso que era, o marido de D.Anna não consentia que pessoa alguma, nem mesmo a mulher, se intromettesse em dirigir-lhe os negocios. Reduziu em breve a companheira' á passividade completa, e deixou-a totalmente entregue ás suas orações e ás suas mulatas. A principio a filha do capitão tomára a liberdade de dar alguns conselhos ao marido, e fazer-lhe algumas observações; mas a isto respondia Faria sempre com alguma grosseria, dizendo que o papel da mulher neste mundo é resar e remendar meias; por isso D.Anna resignou-se à completa inactividade, tanto mais quanto este modo de proceder do marido quadrava perfeitamente á sua indole.

João Faria depois da morte do sogro, não quis mais um associado e nem siquer caixeiro; era homem que fazia tudo por si, e que bastava conceber um projecto qualquer para pol-o em pratica. De baixa extracção, grosseiro, mal sabendo assignar o nome, era este homem dotado de tal energia de caracter, firmeza de vontade e honradez que se tornara respeitado de todo o districto, e era costume dizer-se naquelle tempo de alguma cousa que não podia deixar de acontecer: «E' como se o João Faria o dissesse.»

D.Anna tinha um irmão, o padre José Fernandes, que foi por algum tempo vigário de Óbidos; era elle que depois da morte de Faria, administrava os bens da viuva e do orphão, a quem promettera proteger quanto podesse.

A irmã tinha nelle uma céga confiança, de que o padre, ainda que pouco regrado na vida, usava com toda a moderação de que era susceptivel.

A dona da fazenda S.Miguel poderia ter na epocha em que começa a nossa historia 44 a 45 annos, e era de estatura regular e fornida de carnes; as mulheres do lugar invejavam-lhe a alva tez e as delicadas mãos que nunca trabalho algum tinha estragado. Lia-se-lhe no semblante uma serenidade admiravel, serenidade de matrona, conscia da sua importância, e a voz doce, meiga, com que fallava a todos dava-lhe um atractivo poderoso sobre os que a ouviam.

Jamais uma mulher, ainda mesmo no Amazonas, terra de madraços, levou vida mais despida de fadigas do que a respeitável viuva de João Faria; a regularidade dos seus hábitos, a placidez, a montonia com que descorriam os dias no sitio de D.Anna, só eram quebradas de anno em anno pela chegada do mano padre que vinha dizer a missa do Natal, ou festejar o dia de reis na fazenda, e votar á morte as galinhas e capados da mana.

Quando, o digno sacerdote voltava para Óbidos, recahia tudo no seu antigo estado; as mulatas retomavam a agulha e o tear, sentadas na esteira ao pé da senhora, que fumava estoicamente o cachimbo, embalando-se de mansinho, e com um pé só na maqueira da varanda.

Um moleque de onze a doze annos, completamente nú enchotava com um galho de arvore os cherimbabos que invadiam a sala; ouvia-se apenas o cochichar das mulatas entre si, e ao longe; no cacáoal a algazarra que faziam os papagaios e a voz monotona da guariba.. A's vezes por cima do tecto ouvia-se o lugubre canto do acauan agoureiro, que passava; as mulatas entreolhavam-se com terror e calavam se por um momento; D.Anna fechava os olhos, como se receasse ver o passaro, mensageiro da desgraça; mas este susto inspirado pelo acauan era passageiro, e a serenidade restabelecia-se no rosto da respeitavel senhora.

Era alli, naquella varanda aberta para o Nascente que a viuva de João Faria passava a maior

parte dos seus dias depois da morte do marido; ahi a encontrava sempre o filho quando voltava da caça, da pesca, ou de algum passeio nos arredores.

Emquanto seu pae viveu foi Miguel creado á lei da natureza; nunca conseguira o padre licença de João Faria para ensinar sequer uma palavra latina ao sobrinho; o portuguez, como homem ignorante que era, votava profundo desprezo ás lettras, e costumava dizer que o cacáo para crescer, e o gado para produzir não precisavam de padres nem de doutores. Por isso o pequeno Miguel passava o dia inteiro a frechar lagartixas e a pescar de caniço na beira do rio, a montar nos bezerros, que frequentemente faziam-no cahir no meio do capinzal. Quando o pae era testemunha d 'algum destes infortúnios do filho, não deixava de gritar-lhe entre zangado e alegre:

« Anda, mariola, quem te mandou montar a cavallo nos bezerros? »

Mas depois da morte do fazendeiro, o padre soube convencer a irmã da utilidade de levar o sobrinho para Óbidos, e ainda que isto custasse muito á viuva, e o filho berrasse como um endemoninhado, lá se foi o padre todo ufano com a sua presa, caminho da cidade.

A principio Miguel achava a vida da casa do seu tio insupportavel; privado da liberdade de correr todo o dia, e obrigado a metter na cachola umas regras de grammatica abstruzas, o rapaz emagrecia á olhos vistos; mas foi-se habituando áquelle novo regimen, e o prazer inexcedivel de vestir uma opa encarnada e de repicar gostosamente os sinos da matriz, fizeram-no esquecer pouco a pouco os quadros da infancia.

D. Anna ardia por ver o filho; mas como para obter isso do padre José era preciso uma altercação, ou uma viagem a Óbidos, a pobre mãe sofria calada, temendo com prometter o seu socego de espírito. Comtudo algumas vezes as lagrimas corriam lhe a fio pela face ao lembrar-se do pequeno; mandava buscar o arco e as frechas do filho e deitava-se horas e horas a contemplar aquelles mudos companheiros dos prazeres do seu querido.

Mais de tres annos esteve Miguel na companhia do tio; o padre esforçava-se na sua educação, fazia-o ajudar as suas missas, e não esquecia a palmatória para moderar o genio indócil do sobrinho. José Fernandes presava-se de saber quebrar genios.

Mas o fogo da liberdade selvagem não estava extincto no coração do pupillo do padre; não ha prazeres duradouros nesta vida, e mesmo a opa mais bonita e os sinos mais sonoros aborrecem por fim.

Foi o que experimentou Miguel.

O pequeno recahiu na tristeza do principio, sem que nementerros, nem baptisados podessem distrahil-o della. Um dia Miguel, tendo acompanhado sem saber como nem porque uma passeata, organizada por alguns rapazes da terra, que sabiam o seu bocado de musica, achou-se á noutinha longe de casa e só. Tratou de voltar depressa antes que o tio desse pela sua falta, mas ao aproximar-se do largo da egreja parou, dominado pelo medo. Com a cabeça baixa, e os olhos fitos no chão, o filho de D.Anna, via em mente as palmatoadas que ia levar ao chegar em casa, o enorme sermão do tio, a privação de todo o alimento durante o resto da noute, e talvez durante o dia seguinte; e emfim sentiu se dominado pelas saudades do sitio; uma grossa lagrima rolou-lhe pela face morena. Neste momento revelava-se nelle as suas primeiras inclinações, com toda a força do natural. Figurava-se longe dalli: parecia-lhe ouvir o mugido do gado no curral, o cantar do japiim e o latido alegre do seu cão de caça. Como que sentia a montaria deslisar rapida no rio, impellida pelo seu remo redondo; via perfeitamente boiarem á pequena distancia enormes tartarugas e monstruosos peixes-bois. Nisto a voz do padre José veio despertal-o e lembrar-lhe a realidade; ergueu os olhos e viu o terrivel tio que lhe acenava furiosamenle com o lenço da porta da egreja. Miguel hesitou, quiz adiantar-se para o padre, mas tomado de súbita resolução, deitou a correr para o lado opposto e enfiando pela rua que segue a frente do templo, em breve desappareceu nas mattas que medeiam entre o cemiterio e a cidade.

José Fernandes ficou embasbacado.

</div>



<div "CAPÍTULO II">



II



Por uma manhã de Janeiro estava D.Anna, sentada na maqueira da varanda, embalando-se levemente, e sorvendo a pequenos tragos o café costumeiro. As mulatas todas mettidas na cozinha, cuidavam de diversos mysteres. A viuva estava só com o filho; Miguel, sentado em um banco de páu, tinha junto a si um grande feixe de paxiúbas,e acabava de dar a ultima demão n'um grande arco que destinava á pesca da tartaruga.

O filho de João Faria teria então de desasete a desoito annos, era alto, magro, de tez morena e cabellos castanhos; tinha os pés e as mãos grandes, e um balançar de braços, quando andava, que fazia as delicias de todas as raparigas do Curumú curiy e Sapucuá. Lia-se-lhe nos olhos grandes e vivos a franqueza e a energia de que era dotado e a voz áspera e forte casava bem com aquelle todo. Vestia naquella occasião calças e camisa de riscado azul, e calçava pequenos chinellos de couro crú que mal lhe chegavam a meio pé. A camisa desabotoada no collarinho deixava-lhe descoberto o pescoço grosso e robusto. Os cabellos bastos, compridos e corredios cahiam-lhe desmazeladamente sobre a fronte.

-- «Veremos o que dirà o mano padre -- resmungava D.Anna sem olhar para o filho -- aquillo sempre é alguma patifaria do Ribeiro!

-- Olá, se é! -- acudia Miguel, sem interromper o trabalho -- aquella cara nunca me enganou; meu pae, que Deus haja, é que fez mal em não tel o ensinado. Pois já se viu tamanho atrevimento? -- accrescentou o rapaz com os olhos brilhantes. -- Mas é porque elle julga que encontra cá uma creança...

-- Só queria que elle me dissesse qual foi o mal que eu lhe fiz. Até fui sempre muito boa visinha, não é para me gabar; quando o seu gado passava para o meu cacàoal, nunca o mandei matar, como faz agora ao meu por qualquer cousa. Esta gente, meu Deus perdoae-me, não quer ser bem tratada!»

E D.Anna, dando um suspiro, abaixou-se, descançou a chavena no chão, tomou do cachimbo e começou a enchel-o de excellente tabaco do Tapajóz, gritando ao mesmo tempo, quanto lhe era possível gritar:

-- «Gertrudes, traze fogo.»

Uma mulatinha de doze annos appareceu trazendo um enorme tição, e chegando-se à senhora poz-se em posição de accender-lhe o cachimbo. A viuva depois desta importante operação tirou duas fumaças, e continuou;

-- «Uma noite, (e quem me contou isto foi o compadre Capucho, que não mente) o seu tenente vae com dous negros ao lugar do marco, arranca-o, e vementerral-o tres braças pelas nossas terras a dentro; ora isto ninguém soffre, e eu soffri para não brigar... --

-- Nisto é que vmc. não andou bem. Olhe, ahi està a razão porque elle se atreveu a mais. »

D. Anna não replicou ao filho; continuou a embalar-se e aspirar o cheiroso fumo. Miguel continuou:

-- «Manda o tapuyo pescar aqui no lago, não se lhe faz nada, e ainda em cima ameaça duramente uma escrava nossa, só porque lhe furtou duas libras de cacáo... Olhe eu, por mim, hei de remediar este negocio como puder. Havemos de ver quem tem direito ao terreno do Uricurizal; estou só á espera da resposta do tio José...

-- Mas o que então tu queres fazer, rapazinho?

-- E ha de elle continuar a incommodar-nos, sem que se lhe possa dizer nada, só porque é o sr.tenente Ribeiro? Ora esta é boa! Afinal de contas elle não é nem rei nem principe, e até esta bem longe disso.

-- Este Miguel tem um genio...

-- Não é genio, minha mãe, não é; o que eu não quero é que o mulato pense que a gente tem medo delle.» Nisto foi o rapaz interrompido pela chegada de um moleque, que lhe veio annunciar que se avistara uma canôa.

-- «Uma canôa? E vem de baixo ou de cima?

-- «Vem debaixo» -- respondeu o moleque.

Miguel sahiu para o terreiro, subiu a uma pequena elevação, e amparando a vista com as mãos, deitou se a olhar para o rio; minutos depois estava de novo na varanda, onde a mãe o interrogou:

-- «Então?

-- E' gente do padre José -- respondeu -- conheci o Ambrosio; a canôa é do José Pequeno, e traz dous remeiros.

-- Ora graças!» -- acudiu D.Anna. E voltando-se para o lado da cosinha disse:

-- «Gertrudes, traze fogo.»

Pouco depois a canôa annunciada encostou na ponte do sitio; saltou della um caboclo baixo e gordo, vestindo calças e camisa de algodão tinto de murixi, e coberto com um grande chapéo de palha de tucuman. Endireitou pelo caminho acima sem dizer palavra, e só veio parar junto á maqueira de D. Anna.

-- <estrang lingua="LGA"> «Eanecuêma, nhâ branca» </estrang>- disse então tirando o chapéo.

-- <estrang lingua="LGA"> «Eanecuêma (bom dia) » </estrang> -- respondeu a viúva de João Faria.

O caboclo appresentou-lhe uma carta fechada, que tirara do bolso: 

-- «Aqui està que o patrão mandou para vuncé.»

D. Anna tomou a carta da mão do portador, mirou-a e remirou-a, e acabou por entregal-a ao filho, que se approximàra.

-- «Toma -- disse-lhe -- vè o que diz teu tio.»

Miguel abriu o papel e levou algum tempo a lel-o mentalmente; depois como a mãe o interrogasse, o rapaz poz-se a dizer sem tirar os olhos da carta:

-- «Disque (°) o dr. Abreu encarrega-se da questão, que tem certeza de ganhal-a, mas que é preciso gastar muito dinheiro. Disque também,eu devo fallar ao velho Capucho, ao Ignacio Antunes e ao Martinho Mendes para servirem de testemunhas como os moradores mais antigos do lugar. Manda lembranças a todos de casa.

-- E' preciso gastar muito dinheiro» -- observou a respeitável viuva.

-- «E' sim, redarguiu o filho, -- mas ao menos o patife ha de conhecer que nós não somos a velha Eufrasia, a quem roubou escandalosamente o anno passado.

-- Este Miguel! Mas olha, meu filho, que o Ribeiro é homem de manhas... aquillo só sendo protegido pelo inimigo.

-Pois agora ha de conhecer. Ora que já não se póde fazer nada neste Paranà-mery sem licença do tenente! Um preguiçoso que leva todo o santo dia no fundo da rêde, e que anda de meias pelo cacáoal...

Minha mãe, vmc. deixe-me dirigir este negocio, não se metta nelle que ha de ver o bonito.»

E o resoluto rapaz poz-se a passear pela varanda.

-- «Meu Deus, meu Deus -- suspirou a mãe -- quem viu Óbidos e quem o vê! Ah! se o sr. João fosso vivo!

-- «Não é, -- acudiu Miguel, mas cá está o filho que é tão bom como elle.»

A viuva esteve calada algum tempo como olhar fixo n'uma gallinha que ciscava ali perto, e com o labio inferior destendido com ares de quem medita. Miguel sentára-se e continuára a tarefa interrompida pela chegada da canôa. O caboclo velho, encostado n 'um esteio, esperava mudo que lhe dessem alguma cousa. Minutos depois, D. Anna voltou-se para o filho e disse como que a medo:

-- «Pois sim, Miguel, faze lá o que quizeres, mas consulta teu tio.»

D. Anna era mulher que estimava a sua tranquilidade de espirito acima de outra qualquer cousa.

Já dissemos que até a ir vèr o filho no tempo em que este estivera em casa do padre, a viuva de João Faria não se resolvera nunca, apezar do amor que lhe votava; preferia chorar só no fundo da maqueira e soffrer saudades á correr o incommodo de uma viagem de algumas horas pelo Amazonas abaixo. Costumava ella por isso supportar as offensas mais ou menos graves que lhe faziam os visinhos, respondendo invariavelmente aos amigos que a incitavam à alguma questão: «eu não quero brigar.»

A' vista disto era para admirar que a mãe de Miguel se resolvesse afinal a propor uma demanda ao tenente Ribeiro, proprietário visinho; mas é, que outros motivos que não o interesse de conservar o terreno que lhe disputava Ribeiro, a levavam a isso.

O tenente fôra um dos rapazes que haviam pretendido a mão de D. Anna, quando ella ainda era solteira; recusado pelo pae em razão dos seus poucos haveres e da sua origem, e pela filha em razão talvez da côr. Ribeiro não se mostrara muito sentido por isso, ainda que o seu orgulho tivesse sido profundamente ferido pela recusa. Esta indifferença affectada não tinha agradado á filha do capitão Fernandes, que não podia avistar o rosto sempre alegre de Ribeiro e ouvir a sua voz zombeteira sem sentir um intimo despeito.

Desde o casamento de João Faria que o pretendente desprezado não cuidara senão em enriquecer; todos os meios licitos lhe serviam . Sagaz e intelligente, ainda que mal educado e cheio de vícios conseguira assumir na comarca uma posição importante. Era temido e respeitado. Por occasião da sua viuvez D. Anna julgara que o tenente lhe viria de novo bater á porta, lisongeára-se antecipadamente com a idéa de recuzar ainda uma vez a mão do orgulhoso mulato, mas o despeito subiu de ponto quando viu que Ribeiro parecia mais indifférente do que nunca aos seus atractivos, e que até se mostrava verdadeiramente afílicto pela morte do portuguez.

Ahi está porque D. Anna, a boa senhora, tão pacifica e socegada de costume, prezando sobretudo o seu repouso, consentia agora na demanda contra o visinho; desejava que ao menos uma vez este lhe reconhecesse a superioridade. O amor próprio offendido fallava mais alto que todas as suas affeiçoes.

Miguel, natureza virgem, caracter indomável, difficilmente veria com tranquillidade as insolências do mulato; por isso quando a mãe disse-lhe consentir na demanda, atirou os arcos para um lado, e deitou a correr pelo terreiro como uma creança; precisava significar a alegria de que estava possuído por algum acto exterior; pegou n'uma pedra, e arremessou-a contra uma piassoca (jaçanam), que voava perto do curral. O pobre passaro ferido na cabeça cahiu immediatamente.

-- «Vou já fallar ao Capucho -- disse o rapaz voltando para junto da mãe -- é preciso aviar.

-- E' cèdo -- observou D. Anna -- espera pelo almoço.

-- Pois sim, tenho ainda tempo. Você, mestre Ambrozio, quando volta para a cidade? Interrogou dirigindo-se ao tapuyo.

-- O patrão disse que voltasse amanhã ao mais tardar.

-- Pois então pódé descançar que só irá amanhã. Vá para a cozinha e diga á Thereza que lhe dê de almoçar deve estar com fome. Quando sahiu da cidade?

-- Sahimos hontem de tarde.

-- Pois olhe que andaram bem. Neste tempo o rio já corre bastante. Vá descançar, ande.»

Ambrozio retirou-se. Miguel espichou-se em cima de um banco, e gritou:

-- «Moleque! »

Appareceu o moleque que annunciára a chegada da gente do padre.

-- «Dize a tua mãe que tire o almoço. Anda, canalha! »

O apostrophado desappareceu. Meia hora depois almoçavam a mãe e o filho. D. Anna não sahira da maqueira; comia com o prato sobre os joelhos, e não uzava do talher nem de guardanapos.

As suas mulatas predilectas almoçavam tambem, sentadas na esteira que estava debaixo da maqueira. Miguel comia sobre a mesa grande da varanda servido por dous moleques, cujas orelhas puxava alternativamente por qualquer ninharia.

</div>



<div "CAPÍTULO III">



III



Eram duas horas da tarde, quando Miguel, coberto com um chapéo do Chili, ornado de uma larga fita negra, cujas pontas lhe cahiam sobre a orelha esquerda, e armado de um enorme terçado americano, encaminhou-se para o cacáoal. O calor do sol abrazava; tudo estava silencioso, nem a menor aragem balouçava as folhas das arvores; o gado repousava á sombra das embaúbas, e só ao longe nos aningaes se ouvia a voz do unicorne, de espaço a espaço cortando o silencio.

Em casa começara a sésta. D. Anna dormia na varanda, as mulatas cochilavam, e até os moleques, tão barulhentos de ordinário, deitavam-se calados no regaço das mães, que sentadas no chão da cosinha, conversavam em voz baixa e preguiçosa.

No Amazonas o tempo que medeia entre as doze horas do dia, e as très e meia da tarde é tempo perdido; o calor acabrunha, homens e animaes entregam-se ao somno ou ao menos á immobilidade e ao silencio.

Porém Miguel era moço, vivo, e estava empenhadíssimo na contenda com o tenente; pouco lhe importava a hora. E' verdade que o caminho que tinha de seguir até a casa do Capucho era pelos cacaoaes, onde o sol não penetra e onde mesmo nas horas de maior calma sempre ha algum fresco. Assim quando se sahe da área, onde está a casa, e onde a claridade é vivissima e o calor intenso, e se entra no cacáoal, sente-se uma mudança grande, mas agradavel.

Miguel ia de vagar;parava de vez em quando para arrancar os ramos seccos dos cacáoeiros, e destruir as enormes casas de cupins e periquitos que cobrem estas arvores. Os seus pés enterravam-se no montão de folhas seccas e húmidas que lastravam a terra, e por diversas vezes tivera elle de dar voltas para evitar os grandes charcos, originados das primeiras agoas de Dezembro.

O rapaz não podia deixar de pensar constantemente no facto que o levava áquella hora ao sitio do Capucho; afinal ia ter elle uma questão com o seu visinho. Offèrecia-se uma occasião de quebrar o gênio ao mulato, e o filho de D. Anna não calculava os riscos da empreza.

A primeira vez que se tinham encontrado os dous cacáolistas, depois que Miguel fugira da casa do tio, fora em Juruty, no dia da festa do Padroeiro, que cahe em dous de Fevereiro, se não me engano.

Primeiro desapontamento. Miguel fora á paisana, porque não era senão um paisano, e Ribeiro envergara a sua brilhante farda de tenente da guarda nacional da reserva, e tinha na cabeça uma daquellas grandes barretinas empenachadas, de forma alta e cylindrica, que d 'antes se usavam. Depois como, por fim de contas, Miguel não passava de uma creança e o tenente era um dos principaes lavradores de Óbidos, homem importante na política, que se correspondia com um deputado geral, todas as attenções e Côrtezias foram para elle. No jantar do dia da festa, poseram-no à cabeceira da mesa, e o Theodoro Mulatinho, juiz do Padroeiro e inspector do quarteirão, fez-lhe duas saudes; até o padre José chamou-o honestus vir, e apertou-lhe a mão.

O filho do João Faria esperava tirar a desforra na occasião do baile; contava como certo que a sua mocidade lhe daria facil victoria sobre o tenente. Mas ahi o esperava a segunda decepção.

Ribeiro foi o primeiro a escolher par, ninguém ousou adiantar-se-lhe. Os homens solicitavam a honra de servir-lhe de vis-á-vis, e as moças brigavam por causa delle. Não deixou de dansar nem quadrilhas nem polkas, e uma mattutinha atrevida pregou uma taboca no nosso rapaz para agradar ao tenente.

Era demais.

Miguel, despeitado, retirou-se antes de acabar a dansa; nem mais quiz demorar-se em Juruty, metteu-se na canôa e mandou remar. Quando se achou deitado sob a tolda, desatou a chorar; contivéra-se por muito tempo.

Desd'essa occasião a custo reprimia o moço a sua aversão ao visinho; fugia de encontral-o, e era para elle um supplicio o ter de tratar pessoalmente com Ribeiro.

Avalie pois o leitor que empenho não tinha Miguel na demanda do Uricurizal.

Era embebido nestes pensamentos que caminhava pelo cacáoal. Seguia a principio a vereda pela qual communicam entre si os sitios, mas quando tinha transposto o limite da sua propriedade foi obrigado a desviar-se por causa de um grande charco que não poderia galgar pulando. Internara se mais pela floresta dos'cacaoeiros, e continuara o caminho, quando uma gargalhada argentina, vinda do alto, dispertou-o bruscamente da sua meditação, ao mesmo tempo que uma chuva de cascas de goiabas lhe cahia sobre a cabeça.

Miguel ergueu os olhos e sorriu dizendo:

-- «Ah! é você? »

Trepada n'uma goiabeira estava uma rapariga, que poderia ter desaseis annos; tinha as saias presas entre as pernas, e os chinellos haviam ficado ao pé da arvore; a moça comia goiabas e desfazia-se em risos.

De um pulo Miguel subira para junto della. Pelos modos eram conhecidos velhos. O rapaz sentou-se no ramo mais grosso da arvore, e sem cerimonia começou a fazer o que fazia a companheira, a comer fructas. Estiveram assim a olhar-se rindo, e por fim Miguel interrogou:

-- Que faz você, Ritinha?

-- Não vê? Meu padrinho não está em casa, a Benedicta está dormindo. . nas horas da sésta gosto mais do cacáoal; é mais fresco.

E a travessa rapariga tendo avistado uma penca das suas fructas predilectas no galho mais alto, lá se foi ligeira colhel-a.

Quando voltou disse ao filho de João Faria:

-- Então você esquece se assim da gente?

Não sei que milagre foi vel-o eu hoje... tem apparecido tão poucas vezes depois que voltou da cidade... não e mais como d 'antes que nos víamos todos os dias.

-- E acha que mudei muito?

-- Mudou em tudo, até era mais bonito em pequeno.

-- Ora, qual!

-- E' certo; agora pode ser que quando lhe crescer a barba fique outra vez mais lindo. Tenha cuidado em deixar toda a barba; não gosto de caras pelladas.

-- Então não gosta da minha?

-- E não mesmo.

Miguel fingiu-se amuado, e aproveitou-se disto para beliscar o braço da companheira, dizendo:

-- Falladora...

A moça soltou um gritozinho, mas não ficou sem vingar-se; dous dos seus pequenos dedos apertaram com força a pelle do braço de Miguel, que ficou impassível. Então subiu ella pela arvore acima, e quando chegou á estremidade de um galho fino e fiexivel, sem mostrar o menor receio de que este quebrasse com o seu pezo, debruçou-se para o amigo e atirou-lhe com accento amuado esta palavra:

-- Feio!

-- Tome cuidado, respondeu elle, olhe que vou pegal-a...

-- Duvido!

Quando Miguel, que subira rápido, julgou poder segurar-lho na orla do vestido, já a moça estava no chão; pulára intrepidamente daquella altura. Elle também não hesitou;atirou-se lá de cima e deitou-se a correr atraz della. Afinal pararam de cançados, e de commum acordo foram sentar-se no tronco de uma arvore cahida alli perto.

Miguel esquecera-se completamente do que viera fazer alli, mas Rita chamou-o á realidade, perguntando-lhe:

-- Como lembrou-se de vir hoje aqui?

-- Ah! eu ia a casa do Capucho.

-- Fazer o que?

-- Nada... negocios do tio José. Cousas lá deles de que eu não entendo.

-- Do padre José... que queria fazer o Miguel sachristão... E rio-se.

-- Queria, queria, mas eu também tenho querer...metti-me n 'uma canôa e disse adeus a Óbidos.

-- Fez muito bem ... isto de ser padre não serve, porque depois a gente não pôde casar-se... não há nada como ser official.

Miguel franzio os sobro'lhos e calou-se; depois como que recordando-se:

-- Você disse que o tenente tinha sahido...

-- Sahiu; foi ao sitio da velha Rosa buscar um moço do Pará que lhe veio recommendado, e que não poude chegar aqui hontem por via da chuva.

-- Um moço, quem?

-- Eu sei lá... meu padrinho não me disse nada, quem me contou foi a Benedicta. O que eu sei é que lá em casa está-se preparando tudo para a chegada delle... ha de haver um baile. Agora me lembro que estou aqui conversando e não sei se a Andreza encanudou o meu vestido... e  até ainda não me vesti; o padrinho não póde tardar... vou já m'embora.

Nisto calou-se, e deitou-so a escutar um rumor que lhe parecia ouvir do lado do rio.

-- E' uma canôa, ha de ser elle.

E levantando-se estendeo a mão ao rapaz: -- Adeus Miguel, appareça, não seja ingrato.

-- Então já vae? sou capaz de apostar que não é o tenente.

-- E', sim: ainda não estou penteada... você tem de ir á casa do Capucho, e já é tarde. Depois não pôde voltar com a noite.

O rapaz espinhou-se com o dito; ergueo a cabeça

e replicou:

-- A noite? E eu tenho lá medo de andar de noite pelo cacáoal?

-- Olhem só o valentão...

-- Ora, eu quando vim de Obidos vinha só, remando uma canóa dia e noite... e era mais pequeno.

-- Jà se sabe, pávulo.

-- Não duvide...

-- Pois sim, na volta, não deixe de ir ver o baile...olhe lá! E estendendo de novo a mão ao rapaz disse com impaciência:

-- Adeus.

-- Adeus, Ritinha, adeus, já que está com tanta pressa...

-- Estou sim, respondeu a rapariga, calçando os chinellos- quero ver o moço que está para chegar. E deitou a correr.

Miguel ficára assentado, a vél-a desaparecer por entre as arvores.

Rita poderia ter, como já dissem os, desaseis annos; era baixa e robusta, mas elegante, dessa elegancia paraense que consiste principalmente numa desenvoltura de modos e num certo menear do corpo. Era morena, mas desse moreno pallido, que é proprio aos filhos do Amazonas; os cabellos negros e caracolados estavam presos no l to da cabeça pequena e bem feita por um pente de borracha; os olhos não eram grandes, mas vivissimos e húmidos.

Tinha a moça dentes de deslumbrante alvura que appareciam sem a menor falha, quando dous lábios grossos, frescos e vermelhos se separavam num sorriso, o que acontecia frequentes vezes. O nariz pequeno e grosso, a bocca regular. Os pés e as mãos de uma pequenhez admiravei, as accentuadas formas do corpo de uma rigidez que se percebia quando a rapariga andava: pois não tinha ella esse pisar macio das beldades cidadans, mas o andar firme, duro, da moça do campo.

Tremiam lhe os seios com o movimento do corpo, e as cadeiras embalançavam-se brandamente.

Rita era viva e esperta; tratada pelo tenente Ribeiro como filha, e assim considerada por todos, acostumára-se cedo a nadar, remar e trepar nas arvores, como qualquer coromim dos arredores. Em casa nada fasia, senão nos dias em que o pae estava de máo humor; as mulatas não descançavam nunca dos seus beliscões; e nem os moleques das palmadas.

Tinha desasseis annos e parecia ter treze, tal era a sua leviandade. Também ninguém se occupara de modificar-lhe o caracter, ou de dar-lhe juizo; só a Benedicta fallava, e isso debalde.



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<div "CAPÍTULO IV">



IV



Quando Miguel chegou ao sitio do velho Capucho, eram quasi cinco horas da tarde. Os cães sahiram-lhe ao encontro ladrando, e pouco depois appareceu o dono da casa, com a camisa por fóra das calças, e descalço.

Capucho era homem dos seus sessenta o cinco annos; baixo, magro, mas robusto, de cabellos completamente brancos e de tez baça; quando fallava tinha ares de mascar alguma cousa, e fumava constantemente n'um comprido cachimbo de taquary.

O seu sitio era como todos os sitios daquelles lugares; cacáoal, pequeno terreiro com a sua larangeira, a casa de vivenda, coberta de pindoba, e cujas paredes eram de barro negro batido, o tendal, o gallinheiro, onde dormiam duas ou tres gallinhas, e um velho forno, que já nenhum serviço prestava.

A um canto da varanda um alto banco de páo, cheio de buracos redondos nos quaes assentavam os baldes de agua fresca, e das traves do tecto pendiam os tipitis, as cuiambúcas, e outros utensilios caseiros.

A' chegada de Miguel o velho esforçou-se por conter os cães com a palavra, emquanto com uma das mãos segurava o cachimbo e com a outra arranhava o nariz. O rapaz saudou-o assim:

-- Boa tarde, tio Capucho .

-- Ora Deus lhe dè as mesm as, meu menino, que bem merece. Então aqui por esta sua casa...Apertaram -se as mãos. O velho voltou-se para o interior da casa e bradou:

-- Traze o banco, Picapáo.

Um coromim de oito annos, sujo e guedelhudo trouxe um mocho de madeira com assento de couro.

-- Queira sentar-se...

-- E então você, tio Capucho?

-- Eu já estou arrumado;- respondeu o velho, sentando-se n 'um tronco de cedro derribado junto á porta.

Miguel tomou conta do banco e depois de acomodado tornou:

-- Muito cacáo por aqui?

-- Hum, hum!- disse Capucho com esse accento guttural daquella gente quando quer exprimir uma negativa.- Este Amazonas vae cada vez a peior; não se póde mais contar com cousa algum a; eu sei lá- continuou tirando uma fumaça e com o olhar fito no cimo da larangeira, onde dois bemtevis cantavam- mas olhe que em Camutá não é assim . Não, senhor. Ainda não ha muito tempo que là estive, e tudo ia muito bem.

-- Isto ha de melhorar.

-- Deus e quem sabe. O que é verdade é que antigamente tudo era differente. No tempo do seu avô, o Amazonas era uma grande cousa; vinha gente até do Ceará e do Maranhão para Óbidos, por signal que ainda ahi então o João Corrêa e a mulher, o Joaquim do Lago, o Xico Cearà e outros; mas hoje...

-- Hoje tudo está mudado, o mesmo diz minha mãe.

-- Sua mãe não viu nada, porque ainda é uma creança. Creio até que ella nasceu no tempo da chegada do coronel Roso na Gentil Americana; eu já era homem feito e estava na capital... foi uma festa grande! A junta parecia estar muito contente com a nomeação do Coronel. Em Camutá. .

-- A como tem comprado a farinha, tio Capucho?- perguntou bruscamente Miguel, que provavelmente não gostava de ouvir historias do tempo da Junta.

-- Hontem vendeu-me o Martins a quatro mil réis aqui no porto. Em Camutá nunca passa de dous a tres mil réis.

E' por esse preço que nós temos comprado, e do mocambo.

-- Ora vejam só... a minha é do Maranhão, que não presta para nada.

Aqui foi a palestra dos dous interrompida pela chegada do Picapáo, que trazia duas grandes tigelas de café com farinha d 'agua.

-- Veja se quer assucar, meu menino, -- disse o velho tomando uma tigela para si e dando a outra a Miguel- Eu cá não gosto disso, em Camutá muita gente boa toma café amargoso.

-- Eu, é cousa que não posso soffrer, respondeu o filho de D. Anna- prefiro passar sem elle. E entregou o café ao coromim.

-- Dize a tua mestra que bote assucar.

Picapáo foi e voltou. Os dous começaram a apreciar a deleitosa bebida.

-- Ainda não lhe disse o que me trouxe aqui, tio Capucho.

-- Eu estava pensando nisso.

-- Você sabe que o Ribeiro quer ser á força senhor do Uricurizal?

-- Não admira, aquelle ladrão não dispensa cousa alguma. Todos os dias está a roubar cacáo e terreno dos visinhos. Valha-nos Deus! Este Óbidos! Pois olhe que em Camutá ha poucos assim...

-- Pois sim, senhor, tio Capucho, aquelle ladrão como vosmincê muito bem diz, quer que o Uricurizal seja delle, e mandou queimar as plantações que nós fizemos lá, o tio José fallou ao dr. Abreu, a minha mãe está decidida a demandar. De sorte que como o tio Capucho é um dos homens mais antigos do lugar...

-- Já sei, quer que eu vá jurar? Pois não, ora essa é boa! Com todo o gosto. Depois, eu já tenho jurado em outros processos.., ainda ha pouco tempo, quando eu fui a Igarapé-Mirim tive de jurar n'um do Catá.

-- O tio Capucho ha de conhecer bem o Uricurizal?

-- Ora se conheço...como as palmas desta mão. Em 1823 ou 24, eu era ainda moço, tinha chegado da capital de fresco, quando o padre Raymundo, que Deus haja, mandou levantar uma palhoça alli... alguns mezes depois começou a crear um gadosinho miri-miri, que nunca augmentou porque o lugar é ruim. Quando elle morreu em 1840 seu avô tomou conta do lugar, depois seu pae continuou a entreter alli um restosinho de gado que desappareceu de uma vez com a cheia de 51. Ficou o terreno abandonado até que o Ribeiro entendeu de si para si que devia também levantar alli uma palhoça, que não durou dous mezes por via de ter sido elle recrutado por um desaforo que fez ao defunto coronel José Gama.

-- E quando voltou continuou a occupar o Uricurizal?

-- Quais! Que se importa elle com o Uricurizal...aquillo foi só para moer a D. Anna, que só agora é que se lembrou de dizer que o terreno é seu .

-- Patife!

-- Ah! meu caro, agora elle é um grande! Todos lhe tiram o chapéo! Já se foi o tempo em que elle podia ser recrutado...hoje todos tem-lhe medo. Não estão mais neste mundo o João Faria e o capitão para quebrar-lhe a proa... dá as cartas e joga de mão. Assim quiz fazer o Catá no Igarapé-Mirim, mas achou quem o pegasse.

Miguel levantára-se irritado; faziam-lhe mal as palavras do velho. Fôra uma punhalada aquella phrase de Capucho: «Hoje todos têm-lhe mêdo.»

Feria-o sobretudo a idéa de que o homem que hoje ditava leis no Paraná-mery, e até em Óbidos, era o mesmo que alguns annos antes fora perseguido pela sua familia. Afigurava-se-lhe ver o Ribeiro pobre, humilhado, preso, escarnecido, e logo rico, altivo, Respeitado e até mesmo temido. Esta grande mudança na situação do tenente parecia-lhe um ameaço constante a si e á sua mãe, os descendentes dos perseguidores do visinho. Cada vez mais crescia a sua aversão ao Ribeiro; sentia uma grande necessidade de dominal-o, «quebrar-lhe a proa», como pittorescamente dizia o velho Capucho. Offerecia-se uma occasião, a demanda sobre Uricurizal, agarrava-se a ella desesperadamente; daria tudo para vel-a começar logo, queria vencer.

Não era que ligasse grande importância ao tereno disputado; já deve ter percebido o leitor que mãe e filho eram levados pelo desejo de humilhar o audacioso mulato.

Era uma questão de capricho, como sóe dizer-se. Depois de ter dado alguns passos agitados pelo terreiro, Miguel voltou a sentar-se junto do velho, que parecia não dar pela sua agitação, e coçava tranquillamente o nariz.

-- Então vmc. está prompto, tio Capucho?

-- Conte comigo, menino... e olhe que eu não sou desses que se vendem ... não sou como o Felippe Arruda que foi depor contra o pobre do Formiga, porque lhe deram cincoenta mil réis... não, isso não, nem por cem. Eu cá digo o que sei e o que penso. O primeiro que tomou conta do Uricurizal foi o padre Raymundo, lá isso foi, o Ribeiro só veio depois, e por pouco tempo, por via do recrutamento. Olhe que eu apezar de não ser daqui, sei bem como isto vae.

-- O Ignacio Antunes e o Martinho Mendes se prestarão a depôr?

-- Isso não sei; o Ignacio Antunes, apezar de marinheiro, é homem honrado, mas o Martinho Mendes...é creatura dos valentes, é vasilha muito ruim. Comtudo não duvido que se preste, porque não há trez mezes que andava aperreado por uns roubos que lhe fazia o tenente.

-- E eu heide convencel-o.

-- Cáhia com o cobre, menino, que esta gente toda morre de fome por aqui.

E sacudindo a cabeça melancholicamente, emquanto enchia de novo o cachimbo e matava as pragas, que chegavam com o declinar do dia, poz-se o velho Capucho a murmurar:

-- Oh! os Camutauáras não são assim!

-- E' já muito tarde para ir fallar ao Antunes e ao Mendes, -- disse Miguel, levantando-se de novo -- demorei-me muito no caminho, e a noute está em baixo... Se vmc. me quizesse fazer esse favor, tio Capucho, vmc. que é visinho...

-- Pois não, meu menino, ate com muito gosto.

-- Se isto não o incommoda...

-- Não, senhor. O Ignacio passa todos os dias por aqui para ir á pesca, e o Mendes vem ás vezes conversar comigo. Esteja certo de que eu lhes fallarei.

-- Quanto ao Mendes só quero que lhe diga que me procure, que tem em que ganhar. Prefiro fal-lar-lhe em pessoa.

-- Como quizer, meu menino, como quizer...

A conversação dos dous fôra longa. O dia ia; acabar, e já as portas da casa estavam fechadas por causa dos Carapanans; o velho Capucho tirára a camisa e pozera-se a dar grandes palmadas pelo corpo, para ver se assim se via livre daquelles insectos malfazejos.

O sol escondia-se por traz dos aningaes que formam o fundo dos cacàoaes no Paraná-mery,quando Miguel pensou em despedir-se do velho. A saracura, a guariba, e de vez em quando o agoureiro acauan pareciam acompanhar com o canto a retirada do astro-rei; os papagaios faziam uma grande algazarra, e ao longe, na outra margem, as barulhentas ciganas procuravam aninhar-se.

O crepúsculo dura pouco nas regiões equatoriaes; a noute invadio o céu.

-- Menino,- disse o velho Capucho- você não pode ir a estas horas pelos cacáoaes; vou leval-o eu mesmo na montaria.

E voltando-se para dentro gritou:

-- Picapáo.

O Coromim veio, tomou-lhe a benção assim como a Miguel e esperou.

-- Vae desencalhar a montaria, e leva para o porto o remo grande.

-- Traze dous remos, acrescentou Miguel, eu também sei remar.

Picapáo entrou na casa, cuja porta abriu-se para dar-lhe passagem, fechando-se logo, e pouco depoi sahiu trazendo ao hombro dous grandes remos redondos, desses que se usam no Amazonas; encaminou-se para o porto seguido pelos dous cacáoalislas.

Desencalharam a canôa, botaram dentro os remos, e o velho disse ao coromim:

-- Dize á tua mestra, que eu vou até o S Miguel, e já volto.

Mas no momento de embarcar, Miguel lembrou-se da conversa que tivera naquella tarde com a Ritinha, e estacou; veio-ihe á mente aquella phrase que dissera á amiga:

-- «Eu tenho lá medo de andar de noite pelo cacáoal...» E pareceu-lhe que era covardia valer-se do offerecimento de Capucho.

-- Se ella soubesse que eu voltei embarcado -- murmurou, e logo sentiu desejos de afrontar a escuridão e o máo caminho. Lisongeava-se de que Rita saberia que elle fôra á noite pelo cacáoal desde o sitio de Capucho até a sua casa, e que não somente a ella mas ainda a todos os conhecidos, o velho contaria a sua imprudência.

-- Desculpe, tio Capucho, mas prefiro ir por terra.

-- Como por terra! A estas horas?!

-- Sim, prefiro ir pelo cacáoal.

-- Mas se D. Anna souber?

-- Descanse, não saberá.

-- Menino, isso é uma tolice. Não vê o que está se armando para aquelle lado? -- E o velho apontava par a uma pequena nuvem negra que apparecia no céu.

-- Aquillo não é nada -- respondeu Miguel sacudindo os hombros.

O velho insistiu:

-- Tome cuidado. Olhe se tem algum máo encontro...

-- Qual máo encontro nem pera máo encontro! Pois que quer vmc. que eu encontre?

-- Eu sei lá.

Miguel estava decidido, acceitou como único favor do Capucho um archote e partiu. O velho voltou para a casa acompanhado de Picapáo, não sem ir murmurando de espaço a espaço:

-- Esta gente de Obidos... Nunca vi disto em Camutà, e outras phrases deste genero.



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<div "CAPÍTULO V">



V



Nada ha mais triste do que a noite nos sitios; a casa fecha-se e em breve as ultimas luzes se apagam; o terreiro fica deserto, os passaros calam-se, e o cão uiva melancholicamente; as rans da beira do rio, e os sapos dos capinzáes começam o seo concerto alternado, e o grillo canta desenxabidamente no tecto da casa.

Era uma noite escura; Miguel internara-se pelo cacàoal e caminhava silencioso; a luz vacillante do archote apenas clareava alguns passos adeante delle; as aves adormecidas nos galhos das arvores fugiam espavoridas á sua aproximação; por vezes o agudo sibilar das cobras e o uivo longiquo da onça faziam-no apressar o passo: apezar da sua coragem Miguel não tinha a indifferença do tapuyo.

O rapaz passara por diversas casas, que todas estavam silenciosas, escuras e desertas, e onde só os cães, espantados d 'aquella visita inesperada, o recebiam com furiosos latidos. Por duas vezes mesmo Miguel tivera de defender-se da raiva daquelles guardas fieis.

Os ramos entrelaçados dos cacàoeiros, a espécie de aboboda que elles formam, augmentavam a escuridão da noite, e só de espaço a espaço n 'alguma clareira é que apparecia o céo negro e carregado. Nesses lugares o vento soprava mais forte, e o moço vira por vezes a sua luz protectora quasi a apagar-se.

Os carapanans, atrahidos pela claridade, atormentavam-no com a constância que lhes é propria, e a cabeça do nosso caminhante estava cercada de uma nuvem delles. Apezar disto ia Miguel com toda a presença de espirito, que podia ter numa tal occasião; empenhado naquella caminhada nocturna por vontade propria e para satisfação da sua vaidade, não via os dissabores da viagem, mas somente pensava no que diriam delle . Para elle os carapanans e as cobras eram cousas de todos os dias, e não seria isso que havia de fazel-o recuar.

Mas em breve uma chuva fina e penetrante, de que a principio foi preservado pelas folhas dos cacáoeiros, tornou-se grossa e forte, e veio mudar a face das cousas; os galhos húmidos e os cipós agitados pelo vento bateram -lhe a miúdo no rosto, os pés escorregaram no terreno alagado, ou tropeçaram nos tócos de páo, que encontravam aqui e alli; a luz apagou-se com uma rajada de vento e Miguel ficou numa escuridão completa.

Depois de ter caminhado por algum tempo ao accaso, batendo com a cabeça de encontro a uma arvore, atolando-se até aos tornozelos nos charcos do cacáoal, ou parando para orientar-se ao clarão rápido de um relampago, resolveo pedir agasalho em um dos sitios do caminho; mas em encontral-os é que estava a difficuldade. O rapaz não sabia mais onde estava.

Com effeito, a vereda por onde communicam os sitios entre si, vereda que fica á pequena distancia dos mangues da margem do rio, é sempre um caminho estreito e mal aberto, que a incúria dos lavradores deixa entregue á naturesa . Assim não é raro que um grosso tronco de arvore, derribado pela tempestade, impeça a passagem, e obrigue o viandante a fazer enormes rodeios; muitas vezes mesmo a vegetação vigorosa e rapida das terras alagadiças do Amazonas obstrue completamente o caminho pouco frequentado, e que a ninguém importa.

Desviado pelos muitos charcos, de que já fallamos, Miguel internara-so pelo cacáoal; distrahido pelos embaraços da viagem, não se lembrava mais o rapaz em que terras estava, pois esquecera-se de contar os sitios que havia deixado atraz. De dia, e por pouco que se esteja habituado aquelles lugares, é facil ao caminhante orientar-se, mas de noite, com a chuva e a escuridão, e uma vez desviado da batida, como fazel-o?

Miguel arregaçara as calças, tirara oschinellos ensopados d agua e caminhava sempre; succedia-lhe porém que ora adiantava-se até a beira dos aningaes, ora se achava no centro dos cacáoeiros, sem poder devisar uma casa, um porto que lhe mostrasse onde estava.

Tinham-se calado as vozes da floresta, e só se ouvia o ruido monotono que fazia a chuva batendo nas folhas; os relâmpagos cruzavam-se a miudo, e o trovão estrugia ao longe com a medonha força natural áquelles climas.

O rapaz estava seriamenteembaraçado; tinha deante de si a perspectiva de passar a noite alli, sem poder ao menos abrigar-se da chuva. Parecia-lhe que o céo quizera castigal-o da sua vaidade, madando aquella tempestade, quando menos a esperava.

Não reflectia que aquella mudança repentina é cousa muito commum nas regiões equatoriaes.

E' verdade que esta consideração, quando por ventura a fizesse, não o livrava da chuva, da fadiga e de outros desgostos desta ordem, mas ter-lhe-hia servido para dar-lhe a presença de espirito necessária para procurar o caminho.

Havia já duas ou très horas que elle ia e vinha quando pareceo-lhe ouvir um som confuso; parou e escutou; reconheceo que os ouvidos não haviam-no enganado. Poz-se a correr, quanto lhe era possível fazel-o nas condições em que estava, para o lado d'onde lhe vinha aquella esperança, mas depois de algum tempo parou angustiado; o som calara-se. Esforçava-se por percebel-o de novo no meio do ruído da tempestade, quando o ouvio mais distincto. Correo de novo e depois de alguns minutos os acordes de uma rabeca causaram-lhe a mais agradavel impressão; repentinamente achou-se em um grande terreiro alumiado pela claridade que sahia das janellas abertas da casa.

Parou. Reconhecera o sitio do tenente Ribeiro.



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<div "CAPÍTULO VI">



VI



Em casa dansava-se uma quadrilha. Os pares estavam possuídos de uma alegria ruidosa, e o dono da casa crusava-a em todos os sentidos dando ordens, trocando uma chalaça com um convidado, repreendendo um moleque e exhortando o unico musico que compunha a orchestra. As chicaras de café, as cuias de mingáo, os copos de cerveja encontravam-se em todos os cantos, e na cosinha uma cabocla escorria no tipiti uma porção de cacáo, do qual sabia um vinho grosso e espumante.

Miguel lembrou-se do que lhe dissera a Rita; via agora perfeitamenteas pessoas que estavam na sala da festa; julgou reconhecel-as todas e suppoz logo que um moço alto e barbado, que dansava naquella occasião com a moça fosse o recommendado do tenente.

Rita mostrava estar muito contente; tinha as faces rubras, o seio anciando de cansaço e o penteado levemente desarranjado; desfazia-se em risos e comprimentos para o cavalheiro.

Miguel sentio que o ciume lhe mordia o coração.

-- O tal recommendado! -- murmurou -- não é lá muito bonito apezar da barba.

O rapaz ficara de pé junto de um dos primeiros cacàoeiros do sitio, e assim á vista das pessoas da casa, que se lembrassem de olhar para aquelle lado; pensava no meio de atravessar o terreiro sem dispertar a attenção dos cães. que o denunciariam infallivelmente ao tenente, e não lhe vinha á mente que podia ser descoberto no lugar em que estava.

A chuva continuava a cahir mas o filho de d.Anna já não a sentia: estava tão molhado, que já nada tinha que molhar.

Rita e o seo cavalheiro continuavam dansando, mas quando acabou a quadrilha a rapariga fallou-lhe ao ouvido e depois dirigio-se para outra sala. Querendo seguil-a com a vista, Miguel adiantou-se, mas tropeçando numas cascas de cacáo podres, cahio, e na queda foi descoberto por um dos cães, que se atirou ladrando contra elle. Levantou se o moço e quiz esconder-se por traz das arvores, mas já todas as janellas e portas da casa estavam cheias de gente. Minutos depois o tenente acompanhado de alguns dos convidados, armados de chapéos de sol, chegavam-se ao nosso rapaz, e reconheciam-no.

-- Como! Pois è você seo Miguel! -- exclamou o dono da casa- Então o que faz aqui por estas horas e por um tempo destes?

-- Eu venho da casa do Capucho. -- Respondeo Miguel sem poder dissimular a satisfação que sentia ao ver o espanto dos outros.

Com effeito! -- disse o tenente -- isto é que é coragem! -- Mas como é que aquelle velho tonto consentio nisso?

-- Eu quiz.

-- Ora vamos para casa, é preciso mudar essa roupa, você està n'um estado desgraçado, seo Miguel.

E com effeito o rapaz estava sujo e horrivelmente molhado.

-- Vamos para a casa -- insistio Ribeiro.

Miguel hesitou.

--  Então o que é isso? Que quer você ficar fazendo aqui? Não consinto que passe pela minha casa sem entrar, e principalmenle no estado em que está. Venha tom ar um calix de genebra,,

E voltando-se para os convidados que o haviam acompanhado:

-- Ora já viram cousa semelhante?

O filho do João Faria conheceo bem que não lhe era possível resistir por mais mas tempo, mas a cordialidade com que lhe fallava o seo visinho naquelle momento que não era possivel que Ribeiro ignorasse o motivo da sua ida ao sitio do Capucho, não lhe agradava muito. Preferia ser maltratado para poder vingar-se francamente; via-se ainda uma vez vencido pelo mulato, e sabe Deus quanto isto lhe custava.

Mas o que fazer? Não tinha motivo algum plausível para recusar, e fazel-o era dar uma prova de selvageria. E' preciso que se saiba que Miguel não  queria parecer selvagem, principalmente para o recommendado de Ribeiro que se achava prezente e que o via pela primeira vez.

Não lhe era além disso desagradavel ver o effeito que havia de produzir sobre Rita a noticia da sua excursão nocturna pela floresta, o ouvir os commentarios que a ella faria a Benedicta, caseira do tenente, a quem Miguel tinha alguma affeição.

Por estas razões deixou-se condusir para a casa, entrando pela cosinha para um quarto próximo onde Ribeiro fel-o m udar de roupa, e beber um bom copo de excellente genebra.

O tenente murmurava a miudo:

-- Ora que rapaz! que imprudência!

A Miguel aquellas exclamações lisongeavam immensamente; foi um triumpho para elle a chegada á sala e Rita, Benedicta e as demais pessoas cercaram-no, e pozeram-se a lançar-lhe em rosto aquella loucura e a descompor o velho Capucho.

-- Aquelle preguiçoso -- disse a Benedicta -- só para não ter o trabalho de remar um bocadinho.

E ninguém se lembrava de perguntar-lhe o que fora fazer ao sitio do velho.

O bale continuava. Dizemos baile, porque no Amazonas qualquer reunião em que se dansa denomina-se vaidosamente baile.

Miguel dansou uma quadrilha com a Rita. O rapaz estava radiante; julgava ter produzido um grande effeito no espirito de todos. Esperava-o uma decepção.

Numa occasião em que não se dansava o moço do Pará, nome por que era conhecido o recommendao do tenente, conversava com a Rita e duas moças mais.

Fallou-se de Miguel, que sem que fosse visto, escutava sentado a um canto.

--  Quem é aquelle moço que ainda agora entrou? perguntou o cavalheiro.

-- E' Miguel, respondeo a Rita.

Mas quem é esse Miguel, insistio elle.

-- E' um vizinho nosso; como acha, seo Moreira?

-- Parece-me uma creança adoidada.

Neste momento aprezentava a Miguel uma grande cuia de magnifico vinho de cacáo; o rapaz recebeo-a com as mãos tremulas, e apenas provou.

Amargara-lhe.

A noite ia já muito adiantada; as lamparinas de casca de laranja da terra (laranja amarga) estavam seccas, e o rabequista cochillava; a fadiga parecia apoderar-se dos convidados, e o proprio dono da casa parecia ter vontade de dormir. Só a Rita estava esperta e disposta a dansar a semana inteira, se possivel fosse.

Era com tudo forçoso que o baile durasse até o romper d'alva; ninguém se sujeitaria a ir para a casa aquellas horas, e a habitação do tenente não podia accommodar a todos.

A gente que enchia agora a casa de Ribeiro era composta na sua quasi totalidade de cacáoalistas vizinhos, que (não perdendo uma occasião de dansar custa alheia) tinham vindo com suas mulheres, filhos, mulatas e moleques mais queridos, e traziam trouxas de roupa necessária para mudar durante a noite, o cachimbo da senhora velha, e uma ou dous redes conforme o numero de creanças que tinham.

Além dos vizinhos lá estavam dois sujeitos de Óbidos, que tinham vindo acompanhar o Moreira; um delles, o Chico Oliveira, era um enorme rapaz de ares abrutalhados e de cara redonda e imberbe; o outro, Manoel Amancio, era um velhinho magro e descarnado, sempre a rir. Estes dous figurões exerciam o commercio de regatão, e eram afamadíssimos pelo seo genio folgazão; sem elles não havia festa que prestasse, também elles não perdiam occasião de divertir-se.

Lá pelas quatro da madrugada propoz o Manoel Amaneio que se brincasse a vuwa, jogo em que entra um numero impar de pessoas; todos acceitaram com alegria e formou se a roda . Rita offereceo-se para ir em primeiro lugar para o centro. Em um momento dado a pessoa que está dentro da roda formada pelos jogadores, corre a abraçar uma das pessoas do sexo differente que a cercam, e os outros tratam de agarrar-se cada um ao seo escolhido formando pares, de sorte que forçosamente hade ficar um viuvo. Começou a brincadeira, e quando chegou a occasião, a travessa Rita atirou-se ao pescoço do Moreira; Miguel, que tinha lá as suas razões de contar com o abraço, descuidara-se de procurar uma dama, e por isso ficou viuvo.

O rapaz cavaqueou com a historia; não sabia explicar o procedimento da moça, e soffreo despeitado as gargalhadas, que celebravam a sua derrota.

Não lhe escapou o ar com que fora dado e recebido o abraço.

Quando chegou a sua vez de escolher a dama, atirou-se a uma velha gorda, que lhe pareceo a mais feia da roda; depois pretextou um incommodo qualquer e deixou o jogo, indo sentar-se a um canto de cara franzida, e taciturno. Os outros continuavam o jogo sem embargo disso, porque mandavam a velha fazer companhia ao cavalheiro.

O rapaz não perdoou á Rita o tel-o deixado sahir do brinquedo sem instar muito para que ficasse; decididamente era aquella uma noite mal aventurada.



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<div "CAPÍTULO VII">



VII



Eram seis horas da manhã, a chuva tinha passado, quando os convidados, depois de terem tomado café e terem feito a sua trouxa, despediram-se dos donos da casa. O tenente Ribeiro e Rita acompanharam os amigos até a porta; todos á excepção de Moreira, embarcaram nas differentes canôas de todas as formas e tamanhos que alli estavam, e prepararam-se para dizer adeus ao hospitaleiro sitio do abastado proprietario. Reinava grande confusão: as senhoras recommendavam ás creadas que nada esquecessem, estas tomavam este pretexto para andar de casa para o porto e do porto para a casa; as brancas beijavam-se e abraçavam-se no porto, e na cosinha as creadas faziam a mesma cousa; as moças iam carregadas de flores, as velhas de fructas, e as creanças de bolos; minutos depois se tinham as canôas feito ao largo.

Miguel tomava lugar na igarité de um dos seus vizinhos, que se tinha offerecido para tocar na fazenda. Era este vizinho um tal José Lopes, sujeito de cincoenta annos, que tinha duas filhas solteiras. As raparigas não cessaram de faltar durante a viagem do baile do tenente Ribeiro, e sobre tudo do Moreira, com quem sympathizavam extraordinariamente.

Notavam-lhe o andar, o penteado, a barba, o trajar, admiravam-lhe a dança, repetiam as chalaças que lhe tinham ouvido, e terminavam por uma indirecta a Miguel, que como matuto, que era, estava longe de ter todas as perfeições do cidadão.

A este tagarellar das filhas respondia invariavelmente o José Lopes:

-- E' um moço honrado.

Faça o leitor idéa dos soffrimentos de Miguel; outro que não elle teria sido ferido ao vivo com os exagerados elogios que as raparigas faziam ao moço de fóra, depreciando os rapazes da terra; despeitado como estava pelo que ouvira a Moreira, e ainda mais pelo que fizera a Rita, as palavras das duas irmas erão para Miguel um verdadeiro supplicio. Assim não se poude ter que não dissesse, interrompendo a ladainha:

Acham-no tão boa cousa? Casem com elle. As moças entreolharam -se sorrindo, e a mais velha respondeu:

-- Póde se achar um moço bonito e bem educado, sem querer logo casar com elle; bem se vê que o Miguel não gosta do sr. Moreira- acrescentou voltando-se para o pae, que redarguio olhando para o rapaz:

Pois olhe que é um moço honrado.

-- Não duvido -- disse o filho de D. Anna -- mas isso não é uma razão para eleval-o ás nuvens, só porque dança bem. Afinal de contas vão ver que hade ser um maricas.

Maricas, -- acudiu uma das moças -- pode ser, mas é um homem, e não uma creança adoidada como muita gente que eu conheço.

Era demais; a intenção de offender apparecia claramente. Os olhos de Miguel brilharam com um fogo vivo.

Elle que tome cuidado com a creança -- disse em tom de ameaça.

A rapariga que fallara sorriu com desprezo.

O seu Moreira é official, -- disse a outra.

-- Que lhe faça muito bom proveito; -- respondeu Miguel, e estirando-se em cima de um dos bancos poz-se a assobiar, para dessimular a cólera.

Alguns momentos estiveram calados; afinal a mais moça das filhas do José Lopes interrogou:

-- Que tal achou você, Miguel, o baile do tenente?

-- Não sei, pergunte ao seu namorado.

A rapariga enfiou, mas a irmã veio em seu auxilio.

-- Em todo o caso -- disse -- antes elle do que outro.

-- Não ha duvida, o que eu não sei é como vocês duas se hão de arranjar sem briga.

Aqui o velho interveio;

-- Eh, eh! havia de ser engraçado!

E deu uma gostosa gargalhada.

Nisto encostou a igarité no porto da fazenda S.Miguel; Miguel saltou e despediu-se friamente da familia do vizinho: o José Lopes queria que fossem todos á terra dizer adeus a D. Anna, mas as filhas oppozeram-se pretextando cançaço. Miguel levou mesmo a grosseria ao ponto de dizer com um riso forçado:

-- Sim... não é bom ... depois o que ir iam ellas buscar lá em casa... não temos aqui oficiaes.

Decididamente o rapaz estava fóra de si.

-- Dè lembranças á comadre -- disse o velho e empurrou a canôa.

Quando Miguel chegou á varanda já os moleques que estão sempre a vagar pelo porto, tinham ido dar á mãe-sinhara a noticia da sua volta.

A viuva fumava sentada na maqueira do costume.

-- Ora este Miguel! -- disse dando-lhe a mão a beijar -- Aque horas volta este rapasinho!

-- Foi a chuva que não me deixou vir mais cedo; -- desculpou-se o moço.

-- Elle veio na igarité do seu Zé Lopes! -- gritou um moleque de oito annos.

-- E' verdade, minha mãe, o seu compadre me offereceu a canòa e eu acceitei.

-- Mas onde então estavas tú?

-- Em casa do Ribeiro, houve hontem lá um baile.

-- Ah! então é por isso que logo depois da tua sahida hontem passou por aqui a gente delle. Foi para convidar o compadre.

-- Havia de ser.

-- Mas agora reparo, -- tornou a viuva estranhando o facto do filho -- que roupa é essa?

-- E' ahi uma roupa que pedi emprestada, porque a minha estava muito molhada... Mas então hoje não me dão café?

-- Gertrudes, traze o café para o teu senhor-moço, rapariga -- bradou D. Anna com a sua doce voz.

Veio o café; quando acabou de tomal-o, Miguel entrou para o seu quarto com o fim de mudar de roupa: na volta a mãe interrogou:

-- O que disse o Capucho?

-- O Capucho está prompto para tudo; prometteu-me fallar ao Penha e ao Martinho Mendes. Qnanto a este ultimo disque é um tratante, ficou de mandal-o cá; disque e preciso dar-lhe alguma cousa.

-- Ainda mais dinheiro... Miguel, onde vamos parar com isto?

A viuva hesitava de novo, mas o filho estava mais do que nunca disposto a lutar com o tenente, por isso respondeu bruscamente:

-- Oral vmc. já me tinha dado permissão para tomar conta deste negocio. Não sei porque quer mudar agora... ahi está porque o mulato anda dizendo por toda a parte que nós temos medo, que nunca nos atrevemos a incommodal-o.

E a voz do rapaz ficara lhe presa na garganta; esteve quasi a chorar; com effeito as aventuras da noute passada não eram proprias para fazel-o desistir de uma questão que devia dar-lhe uma certa importância no destricto, e fazel-o respeitado.

Mas a hesitação que a avareza de D. Anna fizera sobrevir naquella occasião, durou pouco; renasceu o antigo ressentimento com as palavras do filho, e a fazendeira disse sorrindo:

-- Não te zangues, menino, podes fazer o que bem te parecer.

-- Ainda bem: creia que vmc. não se hade arrepender de ter tentado esta demanda; temos por nós o dr.Abreu, que é um homem entendido, e que é amigo intimo do juiz municipal; os homens mais antigos do lugar asseguram que o Uricurizal nos pertence, e estão promptos a jurar; o que mais falta? Lá por um bocado de dinheiro não é que havemos de ficar parados.

D. Anna calara-se: a viuva percebia com o seu bom senso ordinário que aquella demanda não tinha razão de ser, e exprobava-se a si mesma o deixar-se levar por um motivo pessoal que poderia trazer ao filho sérios embaraços.

-- E' para fazer a vontade do Miguel -- dizia dentro em si para tranquillizar a consciência. E continuava a aspirar o fumo do cachimbo e a dar ordens para o governo da casa com a voz inalterável e a fronte limpa de rugas.

Quando o caboclo Ambrozio apresentou-se a receber as ordens para a cidade, Miguel, entregou-lhe uma carta para o padre. O portador recebeu a da mesma forma porque tinha entregado a outra, despediu-se e partiu.

Pouco depois o filho de D. Anna sahiu para a pesca no rio; voltou á tarde trazendo um enorme pirarucú, que foi a ceia daquelle dia.

As negras, as mulatas e os moleques, que eram todos em grande numero, fizeram circulo em torno do peixe, e pasmaram do tamanho e da qualidade delle; Miguel que orgulhava-se sempre de ser o mais destro pescador do lugar, e ouvia com summo prazer elogiar os seus feitos, ficou desta vez impassível aos louvores dos escravos; pensava em cousa diversa; durante todo o tempo que estivera immovel à proa da montaria esperando o piracucú, tinha o rapaz o pensamento fixo nos acontecimentos da noite anterior, e parecia-lhe ver ainda a Ritinha sorrir para o moço do Pará; nem elle mesmo sabia explicar como podéra arpoar aquella preza; decididamente a fortuna quizera indemnizal-o do que soffrera.

Apezar de não ter dormido durante toda a noite Miguel não sentia somno algum, as horas da sésta, apezar das recommendações da mãe, passara-as no rio, e sem se importar nem um momento com o calor do sol. O rapaz era forte, e não era qualquer cousa que o abatia.

Pelas seis horas da tarde vieram dizer-lhe que o Martinho o procurava; estava então ceiando, e mandand chamar o vizinho fel-o sentar á mesa e participar da refeição.

Mendes era um homem velho, conhecia-se, mas seria impossivel determinar-lhe uma edade; tinha os cabellos negros de ébano, e poucas rugas sulcavam-lhe a fronte; suppunham alguns que teria setenta annos, outros porém chegavam até a dizel-o mais velho que um século. Era baixo e robusto, os cabellos ásperos e corredios, a tez côr de cobre e as feições grosseiras indicavam bem a sua origem; os olhos pequenos e vivos giravam-lhe constantemente nas órbitas; a desconfiança estava-lhe estereotypada na phisionomia, e as palavras raras e malsoantes contribuíam para formar-lhe um exterior pouco attrahente. Vestia nessa occasião calça e camisa de riscado azul, cobria-o um grande chapéo de palha, e a camisa entreaberta no collarinho deixava ver pendente do pescoço uma multidão de bentinhos. Martinho Mendes era cacáoalista e tinha fama de velhaco: morava em um pequeno sitio pouco acima do de Capucho, e vivia em companhia de uma negra, que fora antigamente escrava do capitão Fernandes, e da qual tivera um filho unico, que fora recrutado alguns dez annos antes, e nunca mais voltara para a companhia do pae, que delle não sabia. Quando se precisava de uma testemunha falsa, procurava-se o Mendes do Paraná miri, como o chamavam em Obidos; elle nunca se recusava, mas contassem que teriam de pagar caro; nas eleições estava o tapuyo sempre disposto a pegar no páo pró ou contra qualquer partido, e como o seu braço era vigoroso, nunca deixava de ser procurado.

Mendes estivera por diversas vezes preso, e para isso bastava que desagradasse a alguma das pessoas influentes do lugar, porque motivos para sel-o é que não lhe faltavam; o tapuyo sahia sempre da cadêa perfeitamente calmo, impassível, como se nada lhe tivesse acontecido, e mettia-se no seu sitio sem proferir uma palavra de desaggravo contra o autor do seu encarceramento.

Poucos mezes depois de lhe ter sido recrutado o filho, Mendes fizera uma viagem e desapparecera por algum tempo, sem que ninguém tivesse podido dizer com certeza qual o lugar para onde se dirigira.

A curiosidade adormeceu sobre o facto e Martinho continuou a colher o seu cacáo e a jurar falso sem que pessoa alguma o incommodasse mais por isso.

Era tal o homem que acabava de sentar-se á mesa com o fazendeiro de S.Miguel.

-- <estrang lingua="LGA"> Indauè, cariua puranga... </estrang> disse affectando fallar a língua geral, expediente de que se servia quando se tratava de algum negocio delicado.

-- <estrang lingua="LGA"> Indauè, </estrang> tio Martinho, como vae isso?

-- Assim, <estrang lingua="LGA"> namàsque. </estrang>

-- O Capucho fallou-lhe?

-- <estrang lingua="LGA"> intimaan, </estrang> tornou o tapuyo com essa palavra cheia de duvidas e incertezas, de que usa a gente baixa do Amazonas quando quer responder negativamente a uma pergunta ou pedido.

-- Como? Pois o Capucho não lhe disse nada?

-- Disse, mas não disse tudo. Mandou-me vir aqui; eu vim; não sei para que.

Miguel comprehendeu que o Martinho mentia; o velhaco fingia nada saber para ter tempo de estudar a proposta do rapaz.

-- Conhece o Uricurizal?

O tapuyo esteve calado por algum tempo e depois respondeu:

-- Conheço.

-- A quem pertence?

-- Ao seu tenente Ribeiro.

-- Que está você dizendo? Pois não sabe que um tio de minha mãe, o padre Raymundo foi o primeiro que là construiu uma palhoça, ha já muitos annos?

-- <estrang lingua="LGA"> Intimaan. </estrang>

 -- Não sabe que depois da morte do padre, meu avo e depois meu pae crearam gado naquelle terreno?

-- <estrang lingua="LGA"> Intimaan. </estrang>

-.... e que o tenente Ribeiro só veio muito tarde e por pouco tempo?

-- <estrang lingua="LGA"> Intimaan. </estrang> -- respondia obstinadamente o tapuyo a todas as perguntas do rapaz. Mas Miguel estava prevenido; sabia que o Martinho fazia aquillo para fazer acreditar que o juramento que exigiam delle era um juramento falso, e que por tanto deviam pagar-lhe muito bem. Por isso o moço tornou-lhe amuado:

-- Ora vamos, tio Martinho, deixe de negar a verdade...

-- <estrang lingua="LGA"> Cariua... </estrang>

-- Descance que não me engana; posso lá acreditar que um homem velho, que, como você, foi nascido e creado em Óbidos, não saiba de cousas que todos sabem?

O velho não respondeu; Miguel tornou:

-- Eu preciso que você vá jurar que o Uricurizal me pertence, e para isso pago bem; é uma cousa que não ha de lhe custar muito, porque é a verdade. Quanto quer?

-- O branco é que sabe...

Dou-lhe vinte mil réis, serve-lhe?

O tapuyo poz-se a olhar desconfiado para Miguel, que interpretando mal aquelles modos:

-- Dou-lhe quarenta -- disse -- serve?

Martinho Mendes sorriu.

-- Ora vamos, está feito o negocio, dou-lhe os quarenta mil réis, e você prepare-se para quando eu o avisar.

E gritando para dentro:

-- Moleque! Traze um porre para o tio Martinho.

O tapuyo bebeu silenciosamente a caxaça que lhe trouxe o moleque, e retirando-se para um canto da varanda poz-se a rezar fervorosarnente esperando que o branco o m andasse embora.

Nisto vieram dizer a Miguel que o pescador do tenente Ribeiro voltava agora mesmo do lago e que levava duas grandes tartarugas.

-- Ahi está! -- exclamou o filho do João Faria, levantando-se arrebatadamente da mesa -- tem o arrojo de mandar pescar num lago que pertence somente á fazenda de S.Miguel, e querem que eu o deixe roubar-me livremente!

E passados alguns momentos:

-- Elle me toma por uma creança, incapaz de energia...

Fez um cigarro e accendeu-o; emquanto tirava as primeiras fumaças, murmurava:

-- Meu pae, que Deus haja, era decidido, e por isso ninguém se atrevia com elle...

E cruzando a varanda a passos largos:

-- Se eu tivesse mandado quebrar a canôa em que o tapuyo daquelle patife pesca, já ha muito que estaria livre disso.

Esta idéa agradava-lhe.

-- Sou um tolo, pensava, em ter tido até agora considerações para com quem não as têm para comigo...

-- Esteve ainda assim algum tempo, assaltado por estes pensamentos, e mordendo os beiços com ar carrancudo; afinal parece que o genio prompto e decidido do pae despertou-lhe n'alma, porque parando subitamente bradou:

-- Moleque! Chama o Thomaz!

E continuou passeando:

-- Sim, era isto que eu devia ter feito desde que elle começou a incommodar-me. E' preciso mostrar-lhes de quanto sou capaz.

A quem se referiria o plural que griphàmos?

O negro Thomaz chegou-se a elle e saudou-o:

Seja louvado Nosso Senhor Jesus-Christo.

-- Pera todo o sempre. Vae ver trez machados bons, e traze-os.

-- Sim, senhor, meu senhor.

Miguel voltou-se para o tapuyoe disse-lhe:

-- Tiu Martinho, você vae ajudar-me aqui n'um negocio. E' cousa muito simples e facil. Moleque? traze outro porre para o tiu Martinho.

Alguns momentos depois Miguel, seguido do Mendes e do negro Thomaz, armados todos trez de machados, e precedido de um moleque que levava um archote, encaminhava-se para a beira do lago.

Quando chegaram ao lugar da ponte de lavar roupa, o senhor perguntou ao escravo:

-- Sabes onde é que o Pedro do tenente amarra a canôa?

-- Sei, sim, senhor, é naqueile pé de ingazeiro. E o negro apontava para uma arvore já quazi derribada pela agua que lhe arrancara a terra que cobria as raizes; com effeito amarrada junto dela estava uma pequena canôa de pesca de dous bancos. Chegaram -se os tres á canôa, pucharam-na para a terra, e começaram a quebral-a com os machados.

Os golpes echoavam na floresta da outra margem do lago, e os passaros aninhados na velha arvore fugiam, acordados pelo barulho e pela luz.

De longe aquelle grupo produziria um effeito estranho.

Quando terminou-se a destruição da inocente montaria, soltaram silenciosos pelo caminho da casa: a raiva de Miguel estava satisfeita, e aos outros pouco se lhes dava o que acabavam de fazer.

-- Thomaz, disse o fazendeiro ao chegar à varanda -- guarda os machados e dize á Joaquina que venha armar uma rêde para o tio Martinho; amanhã bem cedo vae com o José ao cacáoal da outra banda apanhar o cacáo que lá houver, e de passagem pergunta em casa do Mestre Amandio em que estado está a galeota que encommendei.

O escravo retirou-se dizendo «Já, sim, senhor,» e pouco depois preparava-se na varanda uma rêde para o Martinho Mendes, que não queria voltar a aquella hora para a casa.

D. Anna e as suas mulatas predilectas já estavam deitadas e de luzes apagadas. Só a Joaquina, escrava sobre quem pesava quasi todo o serviço, andava pela casa a cuidar em tudo.

Em breve Miguel recolheu-se, apagou a luz e adormeceu contente do que fizera.

Tudo ficou deserto e mudo Só na varanda, aberta para todos os lados, o tapuyo velho resava sentado na rêde.

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<div "CAPÍTULO VIII">



VIII



A casa de d. Anna, coberta de telha, por exepção, nada tinha, além desta particularidade, que a differençasse das outras casas de vivenda nos sitios dos arredores, e até de todo o districto; grande varanda na frente, onde estão os potes de agua fresca, a maqueira da senhora, e a mesa de jantar de que a dona só se serve nos grandes dias; nenhuma cadeira, nenhum outro movel além de dous bancos de páo que ladeam a mesa, e d'um ou outro tamborete, forrado de couro: grande sala com um esteio no meio, donde se armam rêdes para todos os cantos; é aqui que dormem a senhora e as suas mulatas favoritas; tem por unico movel um grande oratório de madeira, movel de familia: um quarto para bahús e deposito de comestiveis, um ou dous quartos para escravos e a cosinha: com a porta abrindo para o exterior, e a esquerda da sala da senhora estava um pequeno gabinete occupado pela rêde de Miguel, suas armas de caça e pesca, e por alguns saccos de cacáo secco. As paredes da casa de barro negro batido não são rebocadas, o chão não é ladrilhado e as cabas ou moribondos esvoaçam por toda a parte. De noite os morcegos chamados pela vizinhança do gado rendiam as cabas na tarefa de cruzar o ar em todas as direcções.

Alguns dias depois dos acontecimentos que narramos no capitulo precedente, o padre José Fernandes achava-se na fazenda da irman, e preparava-se a casa para a missa que tinha o padre de dizer no dia seguinte (dia de reis).

As mulatas iam e vinham com uns ares de occupadas, os moleques corriam pelo cacáoal a procura de ramos seccos que deviam alimentar a fogueira que se tinha de fazer á noite no terreiro, onde os escravos haviam obtido permissão de dançar. O Thomaz queimava os ninhos de cabas da varanda com um grande facho de palhas de milho, e os bois choravam ruidosamente a morte de um companheiro immolado ao apetite do padre que, sentado na tranqueira do curral, parecia indiferente áquella algazarra, e conversava tranquillamente com 
o sobrinho.

O padre José Fernandes era um homemzinho magro, de olhos pequenos e vivos e de rosto comido de signaes de bexigas. Tinha uma voz admirável, e ufanava-se de ser o primeiro cantor e o melhor tocador de violão de toda a comarca; por isso se uma pessoa queria agradar-lhe dava-lhe noticia das cantigas em voga no Pará ou em Manáos. Era o sacerdote bastante commodista, e não se afadigava muito no seo ministério, e ainda que com as creanças confiadas á sua guarda se mostrasse severo até o despotismo, tornava-se franco e espansivo quando se via cercado de pessoas que não lhe levariam em couta a severidade. Não primava por interessar-se pelos negocios alheios, nem mesmo pelos da irman ou do sobrinho, de sorte que ainda que não fosse destituído de intelligencia e de certo bom senso, o seo auxilio em qualquer contenda era sempre um fraco auxilio.

José Fernandes custára a perdoar ao sobrinho a deserção da sua casa, deserção que reputava um gravissimo insulto feito ao latim e ás cerimônias religiosas, mas quando depois de alguns mezes de amúo reciproco o padre conheceo que Miguel nunca seria um discípulo obediente, e que era de natureza independente e altiva, tornou-se ás boas ou para não perder completamente o império que havia adquirido sobre o animo do moço, ou porque o seo bom coração não lhe consentisse mostrar por mais tempo cára feia ao filho da sua irman.

Miguel não deixava de querer bem ao tio, mas soubera estabelecer nas suas relações uma franqueza e sem-cerimonia, que o padre acceitava mordendo o beiço, principalmente quando se achavam deante de gente.

Eram cinco horas da tarde, uma dessas tardes magnificas em que o céo é límpido e sereno, o ar fresco e agradavel.

O padre conversava com o sobrinho e dava-lhe parte do estado da questão do Uricurizal.

-- Tudo vae bem -- dissia -- o dr.Abréo tem mostrado a actividade que eu lhe suppunha. O tenente recusou conciliiar-se, mas em breve ha de arrepender-se de ter querido apoderar-se do que não lhe pertence. Fur! E tu estás seguro das testemunhas?

-- Estou seguro do Capucho e do Ignacio Antunes, como lhe mandei dizer; o Martinho ficou justo comigo pelos quarenta mil réis, mas tenho medo que na occasião faça alguma das suas.

-- Não ha perigo. Elle deve andar furioso com o tenente, e comtanto que lhe tenhas sempre a vista em cima, para que não ponha o pé em ramo verde, tudo irá bem. o Abreo é um moco intelligente, e além disso amigo do juiz, como sabes. Não ha portanto nada a recear.

-- Sim, creio que desta vez o Ribeiro não poderá fazer o que tem feito com os outros...

-- Tudo por não ter encontrado quem o impeça; sabes que é uma influencia politica, e que no momento em que quizer tem cem ou dusentos caboclos a sua disposição; aqui no Amazonas, tudo é ter um bocadinho de dinheiro no fundo do bahú...pois se a maior parte da gente morre de fome, como não ha de ser assim! Depois, ou porque o governo não se importa comnosco ou porque não há quem queira vir para cá, o que é verdade é que esta falta de juizes lettrados, que nós sentimos, é um grande mal.

-- Ora qual, tio José, pois nós lá precisamos de estrangeiros...

-- Precisamos, sim, precisamos de gente de fora! Os filhos da terra todos de grosseira educação, têm além disso os laços de familia que os prendem, e o interesse de suas propriedades e dos negócios que todos têm, prejudica á justiça.

-- E os filhos de fóra não são também interesseiros?

-- Podem ser, não digo que não, mas é certo que como vêm por pouco tempo, a maioria procura bem desempenhar os seus deveres, porque o seo interesse é fazer carreira... São além disso moços mais bem educados do que aquelles que nunca sahiram destes matos... e até sabem latim!

Miguel não gostava de ouvir o padre fallar daquela maneira; parecia-lhe que o tio enthusiasmava-se demais pelos estrangeiros, como elle dizia.

O padre proseguio:

-- Ora vejam lá se fazem do Ribeiro Juiz Municipal... havia de ser bonito...

-- Mas ha outros melhores do que elle.

-- Hum, hum! <estrang lingua="latim"> Quod probandum ... </estrang> creio que não ha muitos.

Desta vez Miguel zangou-se seriamente.

Ora, tio José, o que está vmc. ahi dizendo? tem cousas... pois agora dizer que não ha muitos homens em Óbidos melhores do que o Ribeiro...um patife! um ladrão! um preguiçoso...

-- Será lá o que quizeres, tornou José Fernandes sem abalar-se muito com a cólera do sobrinho será lá o que quizeres, mas não me mostras...

-- Era só o que faltava! Era que vmc. fosse tomar o partido do tenente contra nós...

-- Que demonio estás tu ahi a dizer, menino? Pois então eu tomei o partido do Ribeiro contra vocés? Agora se por não se gostar de um homem, não se lhe ha de reconhecer as qualidades... isso é outra cousa.

-- Não quero dizer isso. Eu é que não posso ver elogiar um homem como aquelle e dizer que não ha muitos melhores no Paraná-miri.

Nisto entrava o gado para o curral; très vaqueiros a cavallo seguiam-no acoroçoando-o, tangendo o, com o gesto e com a voz; um delles que exercia as funcções de capataz apeou-se e veio ter com Miguel.

-- Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo; disse e pedio a bençam ao padre, que respondeo:

-- Deus te abençoe.

-- Antonio, acrecentou Miguel -- prende dez bezerros, que nós queremos ter muito leite amanhã.

-- Já, sim, senhor -- respondeo o negro e foi ajudar a recolher o gado e a executar as ordens do senhor-moço.

O padre e o sobrinho dirigiram-se para a casa, onde encontraram toda a escravaria alinhada rezando a salve-rainha defronte de D. Anna, que a ouvia gravemente, sentada na maqueira.

A chegada dos dous brancos não interrompeo a reza, mas apenas a ultima palavra fora pronunciada, debandaram-se os escravos e foram pedir a bençam aos senhores. Os velhos diziam a phrase do costume:

-- Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo.

A que o saudado respondia invariavelmente:

-- Pera sempre.

N'aquella noite fez-se uma grande fogueira e os negros o negras dançaram em torno della até a meia noite; as mulatas porém chamadas de casa não tomaram parte no folguedo; estavam de longe assistindo por traz da senhora; um africano velho e cégo tocava uma gaita acompanhando-se com um pequeno tambor, e um creoulo dos mais sabidos botava os versos que os outros repetiam em côro.

Tinham os bailadores duas cantigas predilectas o Tarnburù-pará e o Cururú, cuja melodia era monótona e pouco distincta.

O creoulo cantava:



<poesia>

Esta villa já foi villa

Tamburú-pará

A que o còro respondia:

Tamburú-pará.

E o creoulo:

Agora já é cidade

O côro: Tamburú-pará.

O creoulo: Como não queres que eu chore

Se de ti tenho saudade?

O côro: Tamburú-pará.

Ou então

Vamos dar a despedida

O côro

O creoulo

O côro

O creoulo

E o côro

C u-rú-rú-

Como deo o pass'ro carão

Cu-rú-rú.

Bateo azas, foi se embora,

Ai que dor de coração!

Cu-rú-rú.

</poesia>



E tomavam variadas posições, formando figuras estranhas.

A caxaça, que a liberalidade do padre pozera á disposição dos negros, passava de mão em mão, e os escravos tomados de um ardor inextinguível cada vez mais berravam e mais pulavam.

No dia seguinte pela manhã ás seis horas, na sala em que dormia a senhora de ordinário e agora transformada em capella, já estavam o padre José, o sobrinho servindo de acolyto e alguns moradores vizinhos entre os quaes Capucho, que não perdiam occasião de ouvir missa, visto ser cousa rara por aquellas paragens.

Deante do oratorio aberto tinham posto uma mesa coberta com uma rica toalha de renda e sobre ella estavam o calix e os mais utensílios do sacrifricio, que se ia celebrar, que tudo tinha D. Anna do melhor ouro. No chão haviam estendido algumas esteiras, onde se deviam sentar as mulheres; os homens ficariam de pé, como é costume nas nossas igrejas, encostando-se os mais preguiçosos aos humbraes da porta.

Appareceo um moleque batendo com um ferro n'um taxo velho, e logo D. Anna, que tinha consentido que naquelle dia lhe abotoassem o vestido, poz-se á frente das mulatas e mais escravas, de vestidos novos e grandes collares de contas e de ouro falso, e dirigio-se o cortejo para a sala do oratorio.

A missa foi dicta com rapidez e ouvida com attenção por todos excepto por D. Anna, que ainda que os lábios se mexessem, estava entretida a seguir todos os movimentos do filho, que, segundo ella, ficava lindo de opa. Quando terminou procedeo o padre e a benzedura de vinte e quatro registros de santos que a irman havia trocado na vespera com um regatão por algum dinheiro.

Finda esta segunda cerimônia José Fernandes foi o primeiro a lembrar que o almoço tardava. Foi-se para a mesa da varanda, onde estava toda a prata que possuia a viuva de João Faria, daquella boa prata velha, que d'antes era comum no Amazonas, e que hoje vae se tornando rara.

Depois do almoço o padre, D. Anna, Miguel, Capucho e mais um vizinho sentaram-se nas redes, preparadas para aquelle fim, e todos á excepção de Miguel acenderam cachimbos.

Tirando uma fumaça gostosa, o Capucho contava uma porção de historias.

-- Foi em 1828 -- dizia -- que o capitão começou esta casa, mas naquelle tempo ainda não era coberta de telha, que è negocio de hontem; tudo isto aqui -- continuou indicando com a mão o campo e o cacáoal -- tudo isto era mato brabo... não havia nem um só pé de cacáo para remedio. O capitão tinha vindo da Capital por causa dos barulhos em que se metteo, pelo que quasi vae prezo, e poz uma taberninha em Obidos, que nesse tempo ainda não era o que é. Quando elle quiz fazer o sitio me disse: Capucho, você ha de ajudar-m e, conto com você? e eu não puz a menor duvida. Em Camutá é assim, a gente ajuda-se. A D. Anna ainda sujava os coeiros... o padre-mestre era um pequeno travesso com quem ninguém podia... mas muita terra carregou elle para fazer esta casa.

E o velhote desatou a rir.

-- O tio Capucho lembra-se disso tudo?

-- Ora, ora, menino, como se fosse hontem ..por signal que o capitão dizia sempre que queria fazer deste sitio a melhor fazenda do Amazonas...aquelle era um homem ás direitas... como aquelle poucos ha, é verdade que teve um bom genro, um genro que não envergonhava o sogro... é pena que fosse marinheiro... se o Faria não fosse marinheiro era perfeito.

-- Esta é boa... então um homem não pode ser portuguez e ser bom homem ...

-- Quaes! Menino, olhe, em Camutá não ha um marinheiro que preste. O unico homem desses que prestava aqui no destricto era seo pae. O mais é historia dos lettrados que querem comer dinheiro.

E o velho Capucho parecia seguro do que avançava.

A conversa ou antes as historias do vizinho continuavam por muito tempo; afinal o padre levantou-se e poz-se a passear pelo terreiro, provavelmente para não continuar a ouvir o desencadeamento das reminiscências do Capucho; subito parou e gritou para dentro:

-- Oh! Miguel, vem cá.

O rapaz foi.

-- Olha, disse-lhe o tio -- lá vão o Ribeiro e o Moreira; vão com certeza-para Obidos!

Com effeito n'um a montaria de dous remos iam os dous homens descendo o Paraná-miri em busca da cidade.

--  E o que irão fazer? indagou Miguel do padre.

-- Ora essa é boa! O tenente vae provavelmente constituir o outro seo procurador na questão do Uricurizal; isso não admira... faz até muito bem em escolher o genro.

-- O genro...?!

-- E então?

-- Como, o genro?!

-- De certo. Pois o que fazes, que sendo vizinho ignoras uma cousa que todo o mundo sabe em Óbidos!

-- Mas o que? o que é que se sabe?

-- E que tal? Sabe-se que o Moreira hade casar com a Rita, e que é por isso que o tenente o tem em casa.

-- Ora, não acredito.

-- Pois fazes mal, é uma cousa que não pode deixar de acontecer. Mas -- continuou o padre reparando na palidez do sobrinho -- que diabo tens tu que estás tão amarello?

-- Ora o que hei de eu ter, pois se eu até estimo muito.

-- O que?

-- O que... o que... que elles se casem, que o Moreira seja genro do tenente.

-- Ora isto! E então não estás fingindo comigo!

-- Eu não finjo.

-- Finges; pois não vejo que estás muito namorado pela Rita, e que não podes aturar o official...

-- E' mentira!

-- Qual, mentira, e depois mentira não se diz.

-- Não é verdade.

-- E'; pois ha lá quem ignore os teus passeios pelo cacáoal nos arredores da casa do tenente? Pois ha lá quem não saiba que confessaste tudo á Benedicta? Queres dizer que não davas á pequena todos os passaros que pegavas nos gapós e nos aningaes...

Miguel conheceo que o tio estava bem informado, quiz balbuciar uma negativa, mas não teve forças. O padre continuou:

-- Pois se tudo isto é verdade, se gostas da Rita, para que fazes guerra au pae!

-- O pae é um patife...

-- Bem sei, mas por amor da rapariga devias poupal-o. Foste uma creança, o outro que é mais esperto ha de vencer-te.

-- Vencer, vencer -- murmurou o filho de João Faria -- estes moços de fóra prestam lá para nada...

Aposto que a Rita não gosta delle.

-- Eu não aposto... sabes lá o que é isso de mulheres...vem um rapaz da cidade...

-- Isso é bom para as filhas do José Lopes!

-- Está bom, está bom, eu não te quero tirar a esperança, embora pense que é uma asneira tua gostar da pequena... pode ser que a rapariga realmente te tenha affeição. No teo caso tratava de averiguar isso. Digo-te isto só para teres certeza, para conheceres que tenho razão.

-- Mas se ella me tem dito tantas vezes...

-- Antes de ver o Moreira? não basta, é preciso que diga depois, e assim mesmo...

Decididamente o padre não acreditava nas mulheres.

Os dous separarara-se. Miguel encaminhou-se para o porto, desamarrou uma canôa, em purrou-a para o largo e saltou dentro com o projecto de ir inspeccionar o serviço feito durante a semana nos cacáoaes da outra banda. Quando chegou ao meio do rio, deixou a montaria descer com a correnteza, e descançando o remo, não poude ter que não repetisse as palavras do padre:

-- Pois se tu gostas da Rita para que fazes guerra ao pae?

Ao rapaz parecia impossivel que a afilhada do tenente lhe preferisse o official; tudo o que elle a vira fazer ao Moreira e que tanto ciume lhe havia causado, explicava agora como um capricho, uma vaidade, ou puro desejo de se mostrar desembaraçada e nada matuta com um moço que viera da Capital, onde ha de haver muita moça desembaraçada.

E' que Miguel tinha lá as suas razões para pensar assim; como elle proprio dissera ao tio a moça tinha-lhe repetido lantas vezes que gostava delle, e até por duas vezes o chamara de noivo á vista da Benedicta, tinha-lhe mostrado sempre tanto agrado e feito tanta festa, que era impossivel ter mudado tanto em tão pouco tempo.

Agora passavam-lhe pela mente alguns episódios da sua vida depois que conhecera a Rita; vira-a pela primeira vez em casa do José Lopes, alguns mezes antes da sua ida para Óbidos: a menina tinha ido colher umas fructas, e na volta distribuia-as pelas pessoas presentes sem querer dar a ultima e a melhor, que conservava no seio; perguntaram -lhe para quem a guardava, e ella offerecendo-a ao Miguel dissera: «E' para o meo noivo». O filho de D. Anna ficara envergonhado e recusara e mimo que lhe fazia a pequena.

Continuara Miguel a encontrar-se com a filha do tenente, em diversos lugares quasi todos os dias e nem sempre se mostrara tão acanhado, como da primeira vez; já vimos em que posto estavam as suas relações dos dous meninos.

Conscio pois de que a moça o amava, o nosso rapaz hesitava entre os dous sentimentos, o amor, e o odio que votava ao tenente Ribeiro; parecia-lhe duro o ter de renunciar á Rita, mas mais duro ainda o ter de humilhar-se deante do orgulhoso mulato.

E então só isto... mulato!

A menina era filha do tenente, ao menos a voz publica o dizia, e elle um rapaz de boa familia... um filho de portuguez, um branco legitimo... como era possivel conciliar tantas cousas de si inconciliáveis?

Estava neste ponto das suas reflecções, quando reparou que passara havia muito tempo o porto em que tinha de desembarcar; tomou do remo e começou a remar contra a corrente; era forte e excellente remador, em pouco tempo tocou em terra e saltou, amarrando a canôa num tronco de cedro derribado; correo pela terra a dentro. Depois de uma visita breve aos cacáoaes, dirigio-se de novo para porto, e no caminho encontrou-o Martinho Mendes que caçava papagaios. Quando chegou á canôa pareceo-lhe ouvir ainda a voz do padre que lhe dizia:

-- Se gostas da Rita para que fazes guerra ao pae?



</div>



<div "CAPÍTULO IX">



IX



A canòa em que iam o tenente e Moreira descia rapidamente o Paraná-miri, remada por dous negros vigorosos; um tapuyo segurava o jacuman, e Ribeiro e o hospede, abrigados por uma tolda falsa de japá, conversavam preguiçosamente. O official penteava as barbas; e arrancava de quando em quando uma palha da tolda para limpar as unhas ou tirar a cêra do ouvido.

O tenente Ribeiro era um homem alto e magro, mas de largas espaduas e braços musculosos; os olhos grandes, o nariz chato e a boca regular e ornada de magnificos dentes; usava cavaignac e bigode, e trazia constantemente os cabellos cortados á escovinha.

-- O padrinho de Rita poderia ter então cincoenta annos; apenas um ou outro fio branco apparecia-lhe na cabeça, e uma ou outra ruga sulcava-lhe a fronte escura; os sobr'olhos tinha-os carregados, e os lábios roxos e grossos; a voz clara e vibrante, rápido e incisivo o fallar, zombeteiro e sarcástico sempre. Longe de ser franco, como o supunham alguns, parecia estar sempre previnido, e nunca lhe sahia uma palavra ou um gesto que não fosse maduramente pesado; pelos ares agradava aos descuidados, mas não havia muito que fiar nelle. Era uma entidade; temido e respeitado, como um potentado, e talvez por isso mesmo pouco estimado, embora lhe fizessem todos as maiores cortezias e zumbaias.

Chamavam-no os seus desaffectos -- preguiçoso -- mas o facto de andar de meias pelo cacáoal não nos parece sufficiente para provar a justiça desta imputação, tanto mais quanto o tenente soubera crear posição e fortuna, cousas, que, principalmente a ultima, não se adquirem facilmente no Amazonas, onde a vida de um homem é pouca para levantar uma influencia; assim as que lá existem são, geralmente, transmittidas de paes a filhos, e apontado é o homem que a deve ao seo esforço pessoal. Mas o geral daquella boa gente desconhece o trabalho das combinações, a actividade da intelligencia, e, para ella, o homem que não tem lidas physicas é um ocioso, o que não se expõe á chuva e ao sol um preguiçoso.

E isto dizem elles apezar de serem sofrivelmente amigos do fundo da rêde e da immobilidade.

Ahi está porque Miguel julgava que para desmoralizar o vizinho era bastante lembrar o facto de andar elle de meias pelo cacáoal, signal, segundo o rpiaz, infallivel, da sua nenhuma actividade.

E de feito a vida que levava o tenente era propria para despertar a indignação dos vizinhos.

Entendamo nos: isto porque a fortuna crescia-lhe rapidamente, porque se fosse pobre, nada havia que dizer; estava na regra.

Passava Ribeiro grande parte do dia na rêde, e o dia inteiro em casa; só em algumas tardes, quando o céo não ameaçava chuva, dava elle o seo passeio, a vizitar os cacáoaes ou a inspeccionar o milho. De mez em mez, salvos as occasiões extraordinárias ia a Óbidos liquidar os seus negocios com o correspondente, e receber noticias mais circumstanciadas, do que aquellas que lhe davam os regatões, da Capital ou de Manáos. Mas como não lhe agradava a estada em Óbidos, voltava mais cedo que podia, e mettia-se de novo na rêde a conceber meios de despojar astuciosamente os vizinhos.

Tal era a sua principal occupação, e tal a origem da sua rapida fortuna.

Mas o Amazonense, fatalista como é, ainda que conhecesse todas as tramóias de que usava o tenente contra os incautos, não podia e não queria attribuir somente a isso a sua riqueza, e portanto dizia que era sorte.

-- O que!- exclamava o escrivão Ferreira, uma das melhores pessoas de Óbidos.- O que! Pois o Manso, que trabalha como um mouro desde a edade de doze annos, e que anda pelos setenta, tem alguma cousa, mas deve muito, e apezar disso ainda rema na popa da montaria; e o Ribeiro, que é homem de hontem e que nunca fez cousa alguma, passa como um fidalgo ou como um doutor! Quem não vè logo que aqui anda a sorte?

E assim os mais.

O tenente continuava a usar meias, e a lograr os que lhe cahiam nas unhas, sem lhe importar o que corria a seo respeito; os seus haveres cresciam sempre, e já o tenente-coronel lhe havia fallado n'uma proxima patente de capitão.

Havia comtudo um homem, a quem Ribeiro nunca conseguira enganar: era o Martinho Mendes.

O astucioso tapuyo respondia <estrang lingua="LGA"> intimaan </estrang> a todas as palavras do abastado cacáoalista, que mordia os beiços despeitado, e retorcia o bigode, conhecendo bem que com aquelle freguez perdiam-se todas as suas labias costumadas.

Um dia impacientou-se, e recorreo á violência; longe de queixar-se Mendes, que sabia que o tenente com uma palavra podia mettel-o na cadea, fingira-se resignado e respondera invariavelmente aos que o incitavam a protestar:

-- Ora, ora, o para que?

Sempre que se encontrava com Ribeiro, Martinho Mendes tirava-lhe o chapéo, desde que o via, e cortejando-o:

-- Seo capitão... dizia.

Ribeiro não acreditava na humildade do tapuyo, mas fingira esquecer o que se passara. Mendes é que era incapaz de esquecer. Um dia recebeo o tenente uma carta do Pará, em que lhe annunciavam a viagem do alferes Pedro Moreira Rentes, que ia vizitar o Amazonas na esperança de melhorar de alguns incommodos de saúde; o correspondente não se esquecera de dizer que o seo recommendado era moço de excellentes qualidades e muito boa familia; seo pae fallecera pobre, mas elle era, acrescentava o oficioso amigo, «grandemente protegido pelo dr.B ..., chefe do partido liberal do Pará.»

Se viera bem recommendado, mais bem acolhido foi o moço em casa de Ribeiro; já vimos como até fora o tenente ao seo encontro em casa da velha Rosa, e festejara a sua chegada ao sitio, dando um baile.

Em breve sentio o cacáoalista toda a importância que lhe viria do facto de casar a filha natural, a afilhada, com um moço da classe de Moreira, protegido do chefe do partido politico a que pertencia, e pesadas bem todas as consequências de um tal facto, começou a obrar conforme aos seus planos. Entendido como era, em vez de declarar-se a este respeito, deixou que os dous jovens fizessem tudo por si, contando com a impressão que Moreira faria infallivelmente sobre o coração de Rita, e com a importância dos seus haveres, que não duvidava que influissem no animo de um moço pobre.

Levado por estas razões, soubera o mulato estreitar as relações que a união ao moço, e vindo a

saber um dia que este fora em algum tempo escrevente do dr.B..., advogado, resolveo confiar-lhe a questão do Uricurizal, pretextando ignorância dos negocios do foro, e impossibilidade de se demorar na cidade todo o tempo preciso para a demanda.

Era pois com o fim de constituir Moreira seo procurador, como adivinhara o padre, que o tenente seguia agora para Óbidos, e que ao dobrar a ponta que fica fronteira ao sitio do Cypó, dizia ao official:

-- E' um sabido o dr. Abreo, é um sabido!

Mas se você precisar de conselhos vá sem receio ao Valle, que é velho no officio.

-- Espero que me hei de aproveitar delles... o menor numero de vezes que puder.

-- Isso também eu o espero; sei que você é moço intelligente, que já foi quasi doutor.

-- Não tanto... mas enfim... sempre sei como se fazem umas razões... depois, não acredito muito nestes lettrados da roça. Por mais que um homem seja intelligente, mettendo-se por estes matos, acabou-se.

-- Tem muita razão, olá se tem!

-- Pois não é? Aqui não tem uma pessoa muitas occasiões de exercitar o que apprendeo .

-- E até desapprende!

-- Sim, senhor, e até desapprende. Dizia o dr.B... que antes queria morrer do que habitar longe dos centros populosos, onde não encontrasse gente pensadora.

-- Ora... mas o que hão de fazer os desgraçados condemnados a este deserto? disse o tenente Ribeiro com voz lamentosa- Vivem desconhecidos, calumniados... e se valem um pouco mais do que o geral, não encontram quem os intenda.

Nisto chegavam defronte da embocadura do Trombetas. Eram quatro horas da tarde. Ao longe apparecia a colina em que está sita Óbidos, e o Amazonas, correndo manso, offerecia uma travessia excellente.

-- Antes de duas horas tocaremos no porto de cima,- observou o tenente-temos feito uma viagem magnifica; também tivemos um excellente dia, e os nossos remadores merecem bem um porre.

E continuou com o gesto e com a voz, animando-os:

-- Vamos, rapazes! Descançam quando chegarmos.

A montaria correo de novo sobre a agua, porém desta vez com mais vagar, porque atravessava o rio.

Em breve Óbidos offereceo um lindo panorama: á cima corre o Trombetas, perto de cuja foz ficava a malfadada Colonia Militar, e a baixo da cidade uma montanha eleva-se dominando as casinhas que a cercam.

E' alli o Amazonas mais estreito do que em outra qualquer parte: oitocentas e poucas braças medeam entre uma margem e outra, e a corrente rápida é, no inverno e nos dias em que ha tempestade, um perigo eminente para as fracas embarcações que tentam forçal-a. Os nossos viajantes porém tiveram uma soberba tarde, e não tardaram em encostar no porto chamado de cima.

Saltaram, e depois de ter o tenente dado algumas ordens ao caboclo do jacuman, encaminharam-se para a cidade, e subiram a ribanceira que fica pouco abaixo do que hoje se chama deposito de lenha.

Em alguns minutos chegavam á porta de uma casa do principio da rua que a Camara Municipal denomina de S. Francisco, mas que o povo teima em chamar do Bacuri. A porta aberta de par em par deixava ver grande parte do interior da casa: no copiar um homem fazia umas contas, sentado á mesa de jantar... era o correspondente de Ribeiro.

-- O' de casa, dá licença?

-- Quem é? E' você, tenente? Então precisa essa ceremonia...

E o negociante, gordo sujeito de trinta e cinco annos, quasi calvo e de olhos pequenos, poz-se a abraçar os vizitantes, como se os não visse ha annos.

-- Já sei que vem para esta damnada questão do Uricurizal... pois olhe que ainda agora mesmo sahio-me daqui o Abreo.

-- E o que disse?

-- Disse que conta tirar muito dinheiro deste negocio... e veio pedir-me por emquanto vinte mil réis.

-- Ah!

Entraram os tres para a sala, onde lhes foi servido café com tapioca e manteiga; uma linda mulata de vinte annos, de vestido decotado e mangas curtas, segundo a intranzigente moda das mulatas paraenses, calçando uns pequeninos chinellos de marroquim encarnado, e recendendo a trevo e a mangerona, segurava a bandeija sobre que estava o assucareiro. Redes novas foram armadas, um moleque trouxe uma grande porção de tabaco moido, e quatro ou seis cachimbos de taquary com cabeças de barro. De noite sahiram o tenente e Moreira, recolhendo-se pela volta das nove horas.

Depois de uma larga conversa com o negociante Ribeiro disse ao moço official:

-- Está tudo fallado; amanhã iremos ao Valle.



</div>



<div "CAPÍTULO X">



X



Miguel custara a familiarisar-se com a idéa da preferencia que dava a Rita ao Moreira; o rapaz ora acreditava nella, ora lhe parecia impossivel que a afilhada do tenente renegasse assim as affeições da sua infancia. Para elle o jovem oficial era um intruso, um estrangeiro, que apparecia quando menos se esperava para perturbar a felicidade do um filho da terra; a sua qualidade de estranho a Óbidos, os elogios immoderados que lhe faziam as filhas do José Lopes, e sobretudo o amor que diziam dedicar-lhe a Rita, eram títulos valiosos que tinha o protegido do dr.B.. á aversão do filho de João Faria.

-- Pois não é lá muito bonito, -- repetia constantemente este- creio mesmo que se lhe tirassem a barba ficaria de todo feio.

E Miguel não deixava de pensar nisto quer caçasse, pescasse, ou lavrasse arcos, sentado no banco de páo da varanda.

Afinal aquella duvida continua tornou-se insupportavel. O rapaz affagava a idéa de que se fallasse á Rita, esta não poderia deixar de explicar-lhe tudo, e de dar-lhe as maiores seguranças para o futuro. Comtudo a questão do Uricurizal embaraçava-o.

Como obter o consentimento do tenente naquellas conjuncturas, e sobre tudo, como pedil-o?

Miguel queria gostar da Rita, e que esta gostasse delle, mas não podia admittir que o tenente continuasse a humilhal-o por qualquer forma que fosse.

E para elle conceder-lhe Ribeiro a filha era humilhal-o.

Pois não era o cacáoalista mulato? Não era Rita sua filha natural?

Mas em nada disto havia elle pensado, antes da chegada do Moreira; achava que podia ser grande inimigo do pae, e continuar a encontrar-se com a filha no cacáoal.

Talvez nem elle mesmo soubesse antes da noite do baile que amava a rapariga. Estava acostumado a gostar della, dizia comsigo. Aquellas attençoes para com o official, aquelle cíume sentido durante a noite toda, vieram transformar a affeição calma que votava á filha do tenente naquelle sentimento desconhecido que o trazia tanto agitado.

Foi só depois disto que lhe veio á idéa o casamento. As palavras do padre lançaram-lhe a duvida no coração, duvida misturada de despeito. Ora só o ser vencido pelo estrangeiro!

Um dia, á tardinha, achou-se no terreiro do sitio de Ribeiro. A Benedicta sentada na soleira da porta fumava o seo cachimbo, com os anelados cabellos soltos sobre os hombros nús. Era uma bonita mulher a caseira do tenente: alta e fornida de carnes, de tentadores olhos negros, aos quaes os seus trinta e cinco annos não tinham ainda feito perder o brilho. Os braços tinha-os soberbos, o tom de voz arrastado e carinhoso.

Miguel porém não parecia reparar nas perfeiçoes da mulata, e disse-lhe com o tom de familiar indifferença:

-- Boa tarde, Benedicta...

-- Vou mandar dizer uma missa á Senhora Sant'Anna... com effeito! Então é assim que se quer bem a gente? Depois daquella noite, nunca mais appáreceo!

-- Tenho andado sempre occupado.

-- Assim será! Ora vejam só... morando tão pertinho... ingrato!

-- Não sou ingrato, Benedicta, não sou, mas o que queres tu? Já estou um homem, preciso cuidar nos negocios da fazenda, bem sabes que não sobra tempo.

-- Sim, eu sei, todos vocês são assim mesmo, quanto mais a gente os quer bem, mais fogem. Mas onde está a Ritinha? Rita, Rita! Quaes! Anda ahi trepada nas arvores, ou então está tomando banho.

E' uma travêssa...!

-- Deixa a Rita, Benedicta, deixa-a correr que nem sempre ha de ter tempo para isso.

-- Quaes! pois isto tem lá geito? Eu não sei mesmo como é este senhor tenente... parece que nem se importa com a afilhada.

-- Não é isso que lhe ha de fazer mal... mas como está elle?

-- Assim, <estrang lingua="LGA"> miri miri </estrang>. Foi antes de hontem para Óbidos com o sr. Moreira... para um negocio...nem eu sei o que...um barulho com você, Miguel, parêsque. Também não sei porque vocês brigam tanto.

-- Não sou eu, é elle quem quer. Não sabe que o Uricurizal é da nossa familia.

--  Mas então por via disso era preciso brigar? Um terreno que não presta para nada .. Eu digo sempre ao senhor tenente; Não quero brigas com o meo filho Miguel.

E tomando com ambas as mãos a cabeça do rapaz, que se sentara junto della, a mulata obrigou-o a deital-a no reg aço, e revolvendo-lhe os cabellos continuou:

-- Não quero, não quero! O senhor tenente gosta tanto de você, Miguel...

-- Não gosta...

-- Gosta! E depois como é que um homem serio ha de abusar da sua força contra uma creança que não sabe nada deste mundo?

Miguel forcejou por tirar a cabeça do regaço de Benedicta, e conseguindo poz-se de pé e replicou ao dito da caseira:

-- Pois não tenho medo do senhor tenente... havemos de ver quem póde mais.

-- Adivinha, quem é? -- disse uma voz fresca e alegre por detraz delle, ao mesmo tempo que duas mãos gordas e macias tapavam-lhe os olhos.

-- E' a Rita -- respondeo o rapaz mudando repentinamente de tom e tacteando os cabellos, o rosto e os hombros da moça sob o pretexto de verificar quem era.

-- Ella mesma.

E a travessa rapariga poz-se a correr pelo terreiro com um pé só, segurando o outro com uma das mãos.

-- Onde estavas tu, Ritinha? interrogou a Benedicta.

-- Em parte nenhuma... estava tomando banho.

-- Pois a esta hora. Olhem que esta menina não tem medo de defluxo. Leva o dia inteiro mettida n'agua.

-- Pois o que eu hei de estar fazendo?

Um moloque trouxe uma grande tigella de vinho de tucuman com farinha e offereceo a Miguel.

-- Beba, Miguel, dizia entretanto a Benedicta, porque o rapaz parecia querer recuzar, -- beba senão fico zangada.

Rita avançou para o moleque, tirou-lhe a tigela da mão, e depois de ter bebido uma boa porção entregou-a a Miguel dizendo:

-- Não quer saber dos meus segredos?

O rapaz esgotou a tigella.

Dez ou doze minutos depois o rumor cadenciado dos remos annunciava uma canôa.

-- E' meo padrinho!

-- E' o senhor tenente!

Miguel quiz retirar-se, mas tentou em vão. As duas mulheres impediam-no, ora pedindo ora exigindo.

Era com effeito Ribeiro que chegava da cidade, deixara provavelmente o Moreira em Óbidos para tratar da questão. Subindo o caminho estreito e escorregadio que vae do porto ao terreiro, o tenente dava algumas ordens aos escravos, e ralhava com alguns moleques. Benedicta levantara-se e Rita correra a pedir-lhe a benção. Miguel ficara de pé sem saber o que devia fazer, mas Ribeiro veio ter com elle.

-- Boa tarde seo Miguel; ainda bem que o encontro por aqui. Estimo muito. Como está a d.Anna?

-- Boa, obrigado.

-- E o padre José?

-- Está bom, obrigado.

-- Estimo, estimo muito.

E o tenente entrou em casa fazendo com o gesto signal a Miguel que o acompanhasse. Servida a ceia, que se compunha de pirarucú assado e de tambaqui moqueado, as duas mulheres retiraram-se, e os cacáoalistas ficaram sós.

-- Não tardará muito, -- começou o mulato -- que saberemos a quem pertence o Uricurizal...

-- Eu sei desde já.

-- E' o que lhe parece.

E o tenente accendeo um cigarro com toda a pachorra.

-- Sabe que vae gastar muito dinheiro nesta demanda?

-- Sei

-- Pois eu também.

-- Está bom, disse o moço.

Decididamente Miguel não era tão fraco como o vizinho julgava.

-- Você sabe tudo.

O Ribeiro mostrava um sangue frio e uma indifferença que desagradava summamente ao filho de D. Anna. O rapaz preferia vel-o zangado.

-- Então.. com que? não desiste? -- indagou o padrinho de Rita, assim com uns ares de quem queria chacotear.

-- Ora, pois eu hei de consentir que me roubem o que e meo! -- respondeo Miguel em tom muito differente.

-- Eh, eh! o que é seo... tornou Ribeiro.

-- O que é meo -- affirmou o outro.

Calaram-se. O tenente teimava em accender o cigarro já acceso, e Miguel de braços cruzados sobre a mesa perecia não estar muito disposto em que quer que fosse a favor do vizinho.

Começou de novo.

-- Eu bem sei o que é a mocidade... tambem eu fui moço. A gente agarra-se a uma idea, não pensa, e lá vae de cabeça baixa dar em cheio na parede. Quando vem o arrependimento já é tarde, e o choro não serve de nada. Quem me avisa meo amigo é...

O tenente parecia fallar comsigo mesmo, pois tinha os olhos pregados ora no ininflammavel cigarro, ora na luz mortiça da candeia de barro. Miguel calou-se e Ribeiro continuou:

-- Eu bem sei o que isto tudo quer dizer, por que não sou nenhum tôlo... o terreno aqui não é nada. Mas infelizmente eu não nasci para desmamar creanças ou amansar potros.

-- Seo tenente! -- exclamou o moço ferido ao vivo -- tome cuidado!

Luziram os olhos do mulato, mas logo fechou-os, e rindo forçadamente:

-- Ora ahi está o seo Miguel zangado!

-- Ora qual! -- tornou o filho de D. Anna, imitando o tom de voz de Ribeiro -- eu só me zango com gente da minha iguala.

O tenente acompanhou-o a té á porta alumiando-o, e pronunciou:

-- Tem razão. Você até fez mal em lidar com gente que não é fina. E' bom deixar isso para os moços da cidade, que são menos escrupulosos. Adeus seo Miguel.



</div>



<div "CAPÍTULO XI">



XI



O tenente fechou a porta, accendeo um novo cigarro, apagou a luz, por causa das pragas e deitou-se; mas os seus familiares ouviram durante toda a noite o ranger das cordas da rêde na madeira, sem que podessem explicar a insomnia do dono da casa.

Mal apparecia o dia e o Ribeiro já estava de pé. Cobrio a cabeça com um lenço, precavendo-se assim do orvalho que a aquellas horas cahe abundantemente, e poz-se a passear no terreiro. Depois de ter andado um bom quarto de hora, encaminhou-se para o porto, subio no cedro que servia de ponte, tirou a roupa, e metteo-se n'agua até o pescoço, permanecendo alli uma grande porção de tempo.

A final á chegada dos moleques e molecotas, que vinham em baldes de cuia encher agua para o gasto diário da casa, e que arregaçando as camisas e saias mettiam-se no rio até a cintura, foi sahindo para a terra, dando com uma mão a benção aos escravinhos, que a pediam ruidosamente. Quando chegou de novo ao terreiro a Rita e a Benedicta, desgadelhadas, esperavam sentadas na soleira a sua volta, para irem por seo turno tomar o banho quotidiano.

E levantou se.

A's sete horas trouxeram -lhe, segundo o costume, uma boa cuia de mingáo de banana verde, ao mesmo tempo que a Rita e a Benedicta distribuíam a ração do mesmo alimento a uma multidão de meninos de todas as cores e de ambos os sexos, que faziam uma algazarra formidável, de pé, em torno da mesa da varanda.

O tenente não estava naquelle dia de bom humor. Em vez de por-se a ler o Archivo Pittoresco, segundo o seo habito, crusava a casa em todos os sentidos, e levava a pontapés e bofetadas os moleques que encontrava no caminho. Por isso se, quando as creanças estavam a brincar trepadas nas madeiras do deposito, rolando por sobre o cacáo do paiol, sentadas em roda da panella que fervia no fogão, a disputarem sobre quem a lambería, apparecia o irascivel senhor, lá se iam poeiranado, e voavam pelas arvores do terreiro a cima, prevendo os pouco desejados pontapés.

A Rita, essa tremia sempre que via o pae naquelle estado. Nem mais se lembrava de beliscar as mulatas, que, resentindo também a influencia do máo humor do senhor, cosiam caladas, sentadas no topê. Só a Benedicta conservava toda a liberdade de lingua e de gestos.

-- Aquillo foi por força zanga com o Miguel; -- dizia ella á Rita; -- ora para que haviam de dar estes homens! Brigam por causa de um terreno que eu não queria de graça!  E elle então a quem nós queremos tanto bem ... ainda se fosse o Mendes! Eu aposto que o sr. tenente fez tudo para não brigar...mas aquelle Miguel é um menino muito teimoso.

A esta hora já deve ter começado a questão lá na cidade... o que terá feito o seo Moreira?

-- Quem sabe?

-- Ora só quero ver o que elle ha de fazer....lá por ser moço de cidade, não é que ha de prestar

para tudo.

-- Aposto que elle vae dar capote em toda aquella gente...meo padrinho gosta muito delle. Que differença da dansa delle para a do Miguel!

-- Ahi vamos...! deixa lá, Rita, eu gosto mais do Miguel. sempre é um menino que a gente já conhece.

-- Mas é matuto.

-- Olhem quem falla! Então tu não és matuta, teo padrinho não é?

A moça não respondeo por que o tenente chegava-se ao grupo. Ribeiro poz-se a examinar a filha por algum tempo, como quem desejava encontrar alguma cousa, e disse depois do exame em tom de zanga:

-- O que quer dizer esta maneira aberta, menina? E ainda não fecha?

A rapariga obedeceo promptamente.

O tenente esteve assim todo o dia. A' noite porém acalmou-se, e foi já sem ralhar muito com os negros, que deo-lhes as ordens para o dia seguinte.

Na manhã do seguinte dia estava Ribeiro passeando no cacáoal, do lado por onde se communica o seo sitio com o de d.Anna, quando encontrou-se cára a cára com o padre José, que, pelos modos, viera vizitar a propriedade do pupillo.

-- Oh! por aqui, padre mestre?

-- Deus soja louvado! Parece que tivemos ambos a idéa de vir ver a estas horas como ia a safra.

-- Parece... Como tem passado a D. Anna? E o seo menino?

-- Vão todos indo com a graça de Deus, graças á Mãe Santíssima...

-- Fazia-o em Óbidos.

-- Já devia estar lá, ha muito tempo, mas demorei-me nem eu sei mesm o porque... A mana quando me pega, custa a deixar-me. Depois o sitio é tão agradavel...

-- Não ha de gostar disso o sobrinho... queria tel-o antes na cidade para zelar-lhe a causa...

-- Ora... o Miguel que se afomente! Por mais que fizesse não consegui arredal-o da questão. Depois o maroto soube convencer a mãe, que é quem reprezenta neste negocio. Prometti ao pae, que Deus haja, deixal-o fazer tudo o que lhe aprouvesse quando completasse dezoito annos, e embora a lei me dê certos poderes sobre elle, não quero faltar á minha palavra... Conselhos é que não lhe faltam:

-- O pequeno é muito orgulhoso... e atrevido! Acredita que hontem foi á minha casa, só para insultar-me?

-- O que está dizendo, tenente?

-- A verdade. Você sabe que eu quero ser amigo do filho, como fui do pae... mas compreende que não hei de estar aturando desaforos.

-- Homem... olhe que está me contando novidades!

-- Pois, padre mestre, aqui me vê muito sentido, porque realmente eu não esperava tal de um moço que foi sempre muito bem recebido em minha casa, sempre tratado como se fosse da familia.

 -- Com effeito!

-- Já, outro dia, mandou quebrar, ou foi elle mesmo quebrar uma canôa de pesca que eu tinha no lago, com o pretexto de que o lago lhe pertence, quando desde o avô, que eu pesco alli...

-- Isso é verdade.

-- Você bem vê, padre mestre, qual é a minha posição neste negocio. E' impossível que isto continue....

-- E', eu reconheço que é!

-- Se é!

O padre esteve algum tempo a coçar o queixo e afinal estendendo a mão ao tenente:

-- Descance, hei de fazer o que estiver ao meo alcance para por o Miguel no caminho direito, recta via. Conte comigo.

Separaram-se. De volta para o S.Miguel, ia o José Fernandes murmurando:

-- E que tal? Sahe-se-me o rapaz peor que o pae! E o Ribeiro que julga que eu me interesso muito pela sua pessoa... que eu hei de estabelecer a concordia entre os dois... Mas, qual! Aquillo é mina. Tão bom é um como o outro, e o tenente é mais esperto. Finge-se offendido para poder dar de cima. Elles provocam-se mutuamente, por que,o Paraná miri e pequeno para as suas ambições.

Mas o que terá feito o estonteado do meo sobrinho ao mulato? Aposto que lhe foi fallar no casamento da filha com o Moreira... pois se elle está apaixonado por aquella cabrocha! Mas como conciliar as duas cousas? Isto é de fazer quebrar a cabeça! Ora lá se avenham.

Quando chegou ao sitio encontrou o padre José o sobrinho a limpar uma espingarda. Miguel levantou-se, saudou-o, porque ainda não o vira'naquelle dia, e continuou o serviço.

-- Bellas cousas acabo de saber, começou o padre.

-- O que?

-- Queixou-se-me o Ribeiro de que o foste descompor em sua casa...

-- Ah! queixou-se?

-- Queixou-se, sim. Disse que estranhava muito isso da tua parte, porque sempre te recebeo bem, e outras mil cousas mais... que sei?

-- E o que quer elle!

-- Ora, o que quer? Pedio-me que te reprehendesse, que te aconselhasse...

-- E' isso, como a uma creança malcreada, que me amansasse como se amansa um potro! E vmc disse que sim?

-- O' rapaz, pois eu havia de prometter isso? Não vês logo que eu não me importo com o que diz o Ribeiro? Mas enfim, acabou o padre com voz adocicada.

-- Olhe, meo tio, disse o rapaz levantando-se- não me falle mais nisto. Eu sei o que hei de fazer com aquelle mulato.

-- Deixa-te de imprudências...olha que o Ribeiro...

-- Já olhei, e olhei de mais. Tenho dito cem vezes que não me mette medo.

-- Não é isso, mas é que...

O padre interrompeo-se como quem não sabia mais o que dizer. Mas de repente veio-lhe á lembrança observar:

-- E a Rita?

-- A Rita... Que case lá com o seo official, que isso não me importa.

-- Rapaz, essa agora...

-- Pois é verdade. Já gostei muito della, quando era tolo... mas hoje! Que seja muito feliz com as barbas do marido, é só o que lhe desejo.

-- Tu estás despeitado..

-- Não estou, meo tio, não estou. Pensei bastante, e vi que era tolice estar a gente a sofrer por causa de uma moça, que não é mais do que muito faceira.

-- Bravo! Afinal creaste juizo! Conheceste que a rapariga não é senão a filha bastarda do Ribeiro, que todos sabem ser filho da velha Monica, mãe preta do José Lopes. Olha, estou tão contente com isto que até sou capaz de gostar que faças guerra ao tenente...

E no seo enthusiasmo o padre atirou-se na rede, e gritou para dentro:

-- Joaquina, manda um porre!



</div>



<div "CAPÍTULO XII">



XII



Na noite do dia do encontro do tenente com o padre no cacáoal, depois de ter arranjado tudo em casa, depois de estarem recolhidas as mulatas e adormecidas as creanças, a Benedicta dirigio-se para o quarto da Rita, onde a encontrou já deitada, mas ainda acordada, embalando-se com um pé, e assoviando o- Negro já tem carrinho.

Ribeiro não estava em casa. Fôra á tardinha para o sitio da velha Rosa, e declarara que não voltaria senão no dia seguinte pela manhã, porque tinha muito que conversar com o filho da velha cacáoalista.

Rita dormia com uma mulata no quarto. As moças do Amazonas, ao menos as matutas, não temem a cobra, nem bicho algum, mas em compensação tremem só ao ouvir o nome de alma de outro mundo ou de ladrão, e por isso teem o costume de metterem-se quatro e cinco n'um quarto, para poderem dormir tranquillas. Rita tinha uma creada comsigo. Era portanto mais animosa do que o geral das suas companheiras.

Em nada differia dos outros o quarto da afilhada do tenente. Paredes de barro negro, mal unido, deixando fendas por onde entrava a claridade das estrellas. Chão de terra batida, que o tempo tinha cavado em diversos lugares, e grandes escapolas de madeira, pregadas nas paredes. Tinha por moveis unicos um grande bahú de madeira e um oratorio. Uma corda de corauá armada em um canto sustentava a roupa de muda da menina, e um espelho quebrado, suspenso na parede completava os ornamentos desta camara rústica. Também Rita só entrava no quarto para dormir ou mudar de roupa durante o dia.

A boa Benedicta viera dormir naquella noite no quarto da Rita, substituindo a companheira ordinária da menina . Preparavam -se as duas para conversar em quanto não lhes desse o somno, e era a mulata quem devia entreter a conversação.

A caseira do tenente atara a sua rede ao pé da de de Ritinha e depois de se ter despido, de ter accendido o cachimbo, sentou-se na beira da rede da menina e começou:

-- Estás com somno?

-- Não. Mas has de me contar hoje muitas historias.

-- Está bom ... não sei mais que historias hei de contar. Já contei todas.

-- Não faz mal, conta de novo, senão durmo já.

-- Ora, que teimosa! Então não ém elhorcon-

-- Não quero.

E que historia queres?

-- Qualquer uma.

-- Qualquer uma... o Passaro azul?

-- Não, essa não.

-- A do Imperador d'Áustria?

-- Também não.

-- Então, qual? Imperatriz Porcini, a Fèra encantada, Dão Barão?

-- Sim, essa sim, conta a historia do Dão Barão.

-- Era uma vez um rei, -- começou a mulata -- que tinha tres filhas femeas, e nenhum filho macho... Ora os carapanans, -- disse interrompendo-se -- é que não são da historia. Espera ahi.

E levantando-se, foi para junto da candeia, moeu; às pressas uma porção de tabaco, que embrulhou n'um papel, tomou uma caixa de phosphoros, apagou a luz com um sopro, e foi deitar-se dizendo:

-- Agora elles não vêm... não me enxergam no escuro. D'aqui da minha rede conto melhor.

-- Mas não durmas.

-- Não durmo.

A mulata tirou uma fumaça e começou de novo a historia do Dão Barão, contando com admiravel facilidade, e como se fosse cousa que ella tivesse prezenciado.

Depois do Dão Barão veio o Dão Carlos de Montalvão, depois os Figos da Figueira, sem que a Benedicta conseguisse adormecer a Rita. Vencida afinal pelo somno e pela fadiga, a mulata dormio, esquecendo-se do estipulado. Lá pela madrugada acordou e sentio que a menina se agitava na rêde.

-- Ritinha! chamou.

-- O que é?

-- Ainda estás acordada?

-- Estou, sim. Tu é que dormiste, apezar do que tinhas promettido.

-- Mas, menina, olha que isto já é de madrugada.

-- Mas se eu não tenho somno ..

-- Agora!...

-- Serio, não tenho.

E passados alguns minutos:

-- Oh! Benedicta, a quem achas mais bonito ao seo Moreira, ou ao Miguel?

-- Ora, que lembrança!

-- Dize sempre.

-- Ao Miguel, e tu?

Não respondeo.

-- E' ao seo Moreira? perguntou de novo a mulata.

-- E bem, disse a Rita.

-- Ao seo Moreira?

-- E bem.

-- Ora sahe te d 'ahi.

Calaram-se; de novo começou a rapariga:

-- A Josepha e a Joanna gostam muito do seo Moreira...

-- Essas gostam de todo o mundo. E elle gosta d'alguma dellas?

Novo silencio da menina. Afinal respondeo:

-- Duvido.

-- Elle deve ter deixado namorada no Pará.

Rita agitou-se na rede.

-- Estes moços da cidade, -- tornou a Benedicta -- desde que têm dez annos já namoram, e mudam de namorada. Uma não agrada muito tempo.

-- Mas ha alguns que são serios.

Quaes! todos são a mesma cousa

-- Seo Moreira é?

-- Seo Moreira parece um moço serio, mas há de ser santinho de páo occo ... os sonsos são os peores. --

A Josepha disque reza todos os dias um padrenosso a Santo Antonio para que não a case com matuto.

-- E qual é o moço da cidade que ha de querer casar com ella?

-- A Joanna disque antes quer ser solteira toda a vida do que ser mulher de roceiro!

-- E então o que tem ser mulher de roceiro? E' algum peccado?

-- E' a Joanna quem diz, não sou eu.

-- Tomara ella pilhar um roceiro.

-- Outro dia seo Moreira contou uma porção de historias de roceiros, que iam pela primeira vez á cidade. Eu já não podia de me rir.

-- Ora ahi está... não vejo nada de admirar.

Minutos depois a Rita recomeçava a conversa que o ultimo dito da mulata finalizara.

-- Seo Moreira disque tem cinco calças de cazimira.

-- Cinco?!

-- Cinco, sim. O Miguel não tem nenhuma.

E depois de uma pequena pausa;

-- Eu se fosse homem, queria ser official. Acho tão bonito...

-- Bonito é, mas é arriscado quando se vae para a guerra.

-- Seo Moreira disque não vae para a guerra porque esta doente, e porque o medico disse que elle morria se sahisse do Pará.

-- Então fez bem em não ir...primeiro que tudo a saúde.

-- Mas elle já está bom, disque.

-- Então não há de tardar em voltar para a terra delle.

A rêde da filha do tenente agitou-se desta vez mais violentamente do que das outras vezes, tanto que chamou a attenção da Benedicta.

-- Mas o que é que tu tens, rapariguinha?

-- Nada.

-- E para que estás assim sacudindo a rede?

-- E' .... caimbra. Estou com o pé dormente.

-- Pois se ficas todo o tempo com a perna de fora...

-- E para poder embalar-me.

Já o dia começava a clarear. As gallinhas, acordadas pelos primeiros raios do sol, desciam dos poleiros, e ciscavam cacarejando no terreiro. Ouvia-se já abrir uma ou outra porta da casa pelos escravos madrugadores, e ao longe, no cacáoal, a araponga saudava a aurora.

-- Levaste a noite toda acordada Ritinha, pois isto tem geito?

-- Ora, o que tem? Se eu não tenho somno. Estou até com vontade de ir tomar banho...

-- Deus me livre ... era capaz de morrer de frio!

-- Então vae acordar a Martinha para fazer café.

-- Espera um pouco, é muito cedo.



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<div "CAPÍTULO XIII">



XIII



As dez horas do dia estava o tenente de volta do sitio da velha Rosa, e mais calmo do que nos dias precedentes, e até alegre, dava gostosas gargalhadas, quando encontrava motivo para isso no seo querido Archivo Pittoresco... e o tenente não era difficil de contentar.

Os moleques corriam da casa para o porto e do porto para casa, fazendo uma algazarra formidável e desforrando-se assim das vexações dos dias anteriores; Rita desapparecera no cacàoal, e as mulatas iam e vinham pela varanda, como se nada tivessem que fazer!

Quando mais estava Ribeiro interessado na leitura, ouviam-se os sons compassados de uma Zabumba,ao mesmo tempo que uma chusma de moleques vinha correndo do porto e gritando alegremente:

-- Os foliões, os foliões! O divino!

Uma canôa che'ia de homens, m ulheres e creanças subia o Paraná-miri em direcção ao sitio do tenente. Um caboclo alto e magro, sentado no fogão agitava uma grande bandeira branca, em que estava pintada uma pomba, fazendo-a por vezes beijar a superficie d 'agua. Outro batia pausadamente n 'uma caixa.

Encostaram na ponte, e saltaram. As mulheres e creanças, pela maior parte caboclos, tinham a cabeça coberta com um lenço branco, e traziam em uma das mãos um pires coberto com um panno, o qual lhes servia de sacco de pedir esmolas. Uma carafusa gorda e alta segurava em uma salva a coroa de prata do Divino Espirito-Sancto, e uma velha aprezentava aos olhos dos fieis uma grande estampa, reprezentando o Baptismo de Christo, e o céo entreaberto.

Quando chegaram á casa, pozeram-se em ordem na varanda, ficando na primeira tinha o homem da zabumba, o da bandeira e mais tres cantores. O caboclo alto fazia correr o pavilhão sagrado por sobre a cabeça dos circumstantes,como que para abençoal-os, e os cantores entoaram em voz horrivelmente fanhosa a saudação:

<poesia>
Deus te salve, casa sancta

Onde Deus fez sua morada
</poesia>

A que respondia o prolongado Ah!... dos companheiros, e que acompanhava a caixa.

Os moleques em grupos extasiavam-se diante daquelle expectaculo, Rita distribuía esmolas pelos pires das devotas, e as mulatas e negras beijavam uma de cada vez a coroa do Divino, convocando-a por alguns momentos na cabeça, como que para invocar-lhe a protecção.

Depois da cantarola o tenente mandou servir caxaça aos foliões, e os visitantes espalharam-se pelos diversos cantos da casa. Um caboclo ficou de guarda á zabumba e á bandeira, na qual teimavam os moleques em bolir, e outros pozeram-se a visitar o sitio internando-se alguns pelo cacáoal.

A Margarida, depois de ter guardado a coroa no oratorio do quarto de Rita, poz-se a conversar com a Benedicta, que era sua amiga velha:

-- Ora esta comadre... cada vez está mais gorda e mais bonita.

-- Quaes! Vuncê, comadre Margarida, é que faz inveja!

-- Esta comadre! E como está o sr. tenente?

-- <estrang lingua="LGA"> Miri miri, namásque </estrang>, graças a Deus Nosso Senhor. Então foi alguma promessa que fez de tirar esmolas para o Divino?

-- Em-em, comadre, foi. Eu estava com uma coroara muito forte. Dei um dez réis para Santo Antonio... e nada. Foi então que fiz esta promessa ao Divino, e fiquei boa.

-- Ora vejam só...

-- Pois sim, senhora, comadre!

-- Por onde começaram a tirar esmola?

-- Pelo sitio do nhô aquelle, do nhô Jose Lopes.

-- Ah!, e como estão elles?

-- Estão bons. Domingo a nhá Josepha faz annos, e querem dar uma festa. Você ha de ir, comadre.

-- Quem sabe é o sr. tenente.

-- Pois ha de que a nhá Josepha me disse que ia pedir muito ao sr. tenente.

-- Quem mais vae?

-- A d.Rosa, a familia do Amaral, e aquelle moço que esteve aqui.

-- O Moço do Pará.

-- Em-em.

-- Mas se elle está na cidade...

-- Manda-se buscar. Nh'Aquella disse que a festa não tem graça, se elle não for, disque.

-- Olhem lá... e quem toca?

-- Já mandaram fallar a Dionisio para tocar flauta e ao Joaquim Bexiga para a rebeca. O José Lopes comprou hontem uma vacca da fazenda S.Miguel para matar no domingo.

-- Então é dia grande...

-- Parésque.

-- E vuncê não tocou lá?

-- Lá adonde, gente?

-- No S.Miguel, comadre?

-- Toquei, sim . Foi até a D. Anna que deo aquelles ovos.

-- E o filho?

-- O Miguel estava na outra banda caçando.

-- E foram convidados para a festa do José Lopes?

-- Parésque foram.

-- Mas se elles estavam zangados...

-- Quaes zangados nem pera zangado! Aquillo era historia de creanças Nhá Josepha me disse que convidava mesmo para mostrar que não se importa com a zanga delle, disque.

Então elle não vae.

-- Ora quaes que não vae! Pois agora o menino ha de perder uma occasião de brincar?

-- Mas olhe, comadre aquella, que elle se zanga por tudo!

-- Creancice!

E levantando-se, disse a carafusa:

-- Aré, aré, comadre, deixe-me já ir indo, que ainda temos de correr muitos sitios.

-- Mas ainda é cedo!

-- Quaes cedo, nem pera cedo! Vuncê sabe que eu fiz uma promessa ao Divino, e não quero faltar.

--Espere para comer com agente...

-Não é por má vontade... perdoe, comadre, não posso.

E sahio.

Dez minutos depois os foliões tomavam o caminho do porto, acompanhados por toda a gente de casa. Metteram se na canôa e ao som da zabumba continuaram a subir o rio. A gente de casa acenava com as mãos, em signal de despedida, e o tenente, fazendo das mãos porta voz, gritou para o sujeito da bandeira: -- Ah! seo Felippe, na volta não deixe de procurar-me!

Era assim que o tenente Ribeiro sabia agradar a todos que o procuravam . Tratava os como melhor lhe era possivel, e ainda instava para que o procurassem de novo. Também, apezar de não perdoar aos que o contrariavam, e ter sempre os olhos abertos sobre o que os vizinhos possuiam, procurando um meio á havel-o, era considerado no Paraná-miri, e dispunha de uma influencia que poucos ou nenhum outro possuía.

Mas a razão é que tinha dinheiro, como dissera o padre, e pagando-lhe um jurozinho de seis por cento, tinha qualquer lavrador ou negociante estabelecido a certeza de obter delle algum dinheiro emprestado.

E está entendido que o empréstimo não era assim tratado de igual para igual, como outra qualquer transacção; pelo contrario, era um favor que o Ribeiro fazia, e era implorado como tal.

A falta de dinheiro no Amazonas é grande. Um fazendeiro de tres mil cabeças de gado e de vinte escravos, anda muitas vezes a pedir vinte mil réis emprestado. A' vista disto imagine o leitor qual e importância de um homem, que podia dispor de alguns contos de réis, em moeda.

</div>



<div "CAPÍTULO XIV">



XIV



O padre voltara para Óbidos. O sitio recahira na sua habitual monotonia, e d.Anna embalava-se de mansinho na maqueira da varanda.

Miguel parecia esquecido da Rita e do Moreira; continuava a antiga vida, caçando papagaios, arpoando pirarucús e tartarugas, e fazendo arcos e frechas nas horas vagas. Fallava até menos vezes na queslão do Uricurizal. Comtudo o rapaz, nutria cada vez maior aversão ao vizinho; n'uma occasião que o Capucho quizéra não sei a que proposito obrigal-o a ouvir palavras de paz, o moço respondera com um tom que não admittia replica:

-- Tio Capucho, não me falle nessa tranca!

Por cartas do padre José soubera Miguel que a acção se adiantava, e nas suas respostas o filho de d.Anna, exhortava o tio a velar cuidadosamente sobre o dr. Abreo, de quem o rapaz não tinha lá muitas razões para estar seguro.

Sem fallar pois, tanto como d'antes, das suas rixas com o tenente, Miguel não deixava por isso de pôr tudo em pratica para vingar-se conforme podesse dos insultos de Ribeiro. Queria que o vizinho conhecesse que tratava com um homem energico.

Uma tarde estava elle sentado na tranqueira do curral, quando vio atravessar o teso, que separa o lago do rio, o velho Estevão, carregando nos hombros uma enorme tartaruga, que pescara.

Era o velho Estevão possuidor de uma braça de terra, encravada no campo da fazenda S.Miguel, e que dava a unica passagem para o lago (sem ser pelas terras da familia de João Faria). Não quizéra o pescador por dinheiro algum desfazer-se da sua passagem, como elle chamava, porque lhe era precioso o direito de pescar naquelle lago; porém os moradores da vizinhança aproveitavam-se da braça do Estevão, e invadiam o lago de S.Miguel, apezar de incorrerem na cólera do proprietário da fazenda.

O tenente Ribeiro era um que não perdia occasião de pescar alli.

Depois que Miguel tornara o expediente de quebrar as canôas haviam todos desistido, com excepção do Estevam por consciência do direito que lhe assistia, e ainda mais porque do lago tirava o necessario para a sua subsistência.

A Miguel repugnava usar de violência contra o velho, legitimo possuidor da braça de terra; mas era lhe impossível consentir que o tenente continuasse a pescar no lago. Por isso quando o velho atravessava com a tartaruga que pescara naquelle dia, Miguel mandou que um moleque corresse a chamar o pescador.

Este não se fez esperar, e levando a mão ao chapéo:

-- <estrang lingua="LGA"> Indaué </estrang> (boa tarde ), começou.

-- Boa tarde, tio Estevão; então teve hoje boa pesca?

-- Assim, <estrang lingua="LGA"> namásque </estrang>.

-- Ainda não está resolvido a vender a sua braça?

-- Não posso, branco!

-- Está bom, eu não quero obrigar...mas venha cá. Para que consente que o pescador do tenente passe por ella?

-- Huê, branco! e o que é que eu hei de fazer?

-- E você não perde com isso? Pois fique sabendo que não quero mais que elle passe por aqui. Tenho o meo gado, e não quero que, dizendo que vae pescar, me furte alguma vacca ou algum carneiro. Não estou disposto a isso. Entendeo?

-- E se elle quizer passar?

-- Eu não deixarei. Se for se queixar a você, diga que se entenda comigo.

-- Mas...

-- Isto é se quizer assim, pois se não quizer, mando quebrar todas as canôas que você trouxer

para cá e quem soffre? Não sou eu. Se quiser ir por bem, é isto. Você póde passar quantas vezes quizer, mas ninguém mais. Adeus.

O velho retirou-se sem dizer palavra, e desde esse dia Miguel poz em pratica as suas determinações. Quantas canôas punha o tenente no lago, tantas elle quebrava.

Na sexta-feira pela manhã estava Miguel almoçando quando chegou uma caboclinha de doze annos da casa do José Lopes. A rapariguinha dirigio-se á D. Anna, e estendendo a mão direita disse:

-- Sua bençam?

-- Deus le abençòe, Antonica, respondeo a matrona com a sua voz meilliflua.

-- Nhá Zepha mandou saber como vuncê passou.

-- Estou boa, muito obrigada; o compadre está bom?

-- Está, sim senhora.

-- E as meninas?

-- Também.

-- Dá lembranças.

Antonia foi ter com Miguel e com a mesma pantomima:

-- Sua bençam, disse.

-- Deus te abençoe.

-- Nha Zépha mandou saber como vuncê passou.

-- Passei bem, obrigado; todos estão bons?

-- Estão sim senhor. Ella disque vuncê fosse lá domingo, disque para vuncê não faltar...

-- Domingo? e o que ha lá?

-- Nao sei. Nhá Zepha faz annos, disque.

-- Ah! está bom. E quem mais vae?

--  Parêsque é seo Amaral, d. Rosa.

-- O tenente vae?

-- Parèsque vae, e vae aquelle moço também.

Aquelle moço era o Moreira.

Miguel esteve para recusar; ainda se lembrava do que lhe haviam dito as filhas do José Lopes na volta do baile do Ribeiro; mas pensou que haviam de julgar que elle tivera medo de se achar em concurrencia com o official. Além disto não lhe agradava a idea de saber que o tenente se acharia n 'uma festa, dançaria, faria figura, em quanto que elle ficava no cacáoal, como uma pessoa de quem não se fazia caso algum. A idéa que iria contrariar com a sua presença o Ribeiro, o Moreira e talvez a Rita agradava-lhe, e por isso decidio-se a ir. Sabia que ia lutar, e isto era bastante para dispol-o a comparecer na festa da filha do José Lopes. Dirigio-se a rapariga, que esperava a resposta, e disse-lhe:

-- Dize-lhe que vou.

-- Já, sim senhor. Eu já vou...sua bençam?

-- Vae, Deus te abençoe.

A Antonia encaminhou-se para o lado opposto á aquelle porque viéra.

-- Vae ao sitio do Ribeiro... pensou Miguel.



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<div "CAPÍTULO XV">



XV



No domingo pela manhã estava o sitio do José Lopes em reboliço. Desd'as seis horas que as duas irmans lavavam-se em aguas cheirosas, e tresandavam a trevo e a peperioca. O velho assistia com prazer, rodeado dos seus coromins, á morte da rez comprada na fazenda S.Miguel, as negras lavavam as panellas e areavam os talheres, os negros faziam lenha e enchiam agoa. Um caboclo velho dava de hora em hora um tiro de polvora secca, e a Antonia, condemnada naquelle dia a estar sentada, concertava ás pressas o vestido com que tinha de servir á mesa.

Na cosinha as panellas em grande numero chiavam no fogo, e a cosinheira pellava um porco; a tia Thomazia, tapuya afamada em doces nos arredores, preparava fatias douradas e sequilhos, provando de vez em quando o chocolate.

A casa estava varrida, e limpa dos maribondos; dous grandes bancos de páo ornavam a varanda, além dos que ladeavam a mesa, e uma rêde nova, com varandas de renda, substituía a maqueira velha e desfiada do dono da casa. Haviam espalhado arêa pelo caminho do porto, com o fim de encobrir a lama feita pelas chuvas, e alguns moleques tinham arrancado com as mãos a gramma que crescia no terreiro.

Tudo tinha um aspecto risonho. A natureza parecia tomar parte na lesta: o dia estava soberbo, e os japiins cantavam na mangueira.

As escravas traziam o collar de ouro ou de pedras, e vestiam os vestidos mais novos; os moleques enfiavam-se em camizões de chita pirarucú, e os negros aprezentavam suas calças e camizas brancas, cingindo a cintura com uma especie de banda encarnada.

As duas moças, penteadas com todo o esmero, vestiam roupas de cassa branca, e calçavam sapatos de marroquim verde. Traziam no dedo memoria de tucuman, e ao pescoço uma pequena cruz de coral falso. Andavam por toda a parte com a cara franzida a dar as ultimas ordens, contradizendo-se sempre e não se sentavam nunca para não amarrotar os vestidos.

As filhas do José Lopes eram duas raparigas baixas e morenas, que se assemelhavam extraordinariamente; distinguia-se comtudo a Josepha da Joanna pela calvice nascente, e esta d 'aquella pelo incrível arrebitamento do nariz. Tinham ambas os dentes talhados em ponta, segundo a moda do Paraná-miri, de forma que quando riam a dentadura cerrada, deixando apparecer pelos intervallos a lingua, parecia querer ameaçar a gente.

Eram duas boas raparigas a Josepha e a Joanna! Tratavam a todos com muita ambilidade, quando não se lembrava alguém de desagradar-lhes, e não perdiam uma occasião de dançar, o que faziam com um gosto e desembaraço, que admirava atè mesmo ás pessoas que vinham do Pará ou da Barra. Por isso também eram estimadas e os convidados corriam pressurosos a festejar os annos da mais velha. As sete horas chegou a primeira canôa: trazia a família do vizinho Amaral, composta de pae, mãe e filha. As sete e meia veio a velha d. Rosa com o filho e uma chusma inúmera de mulatas, carafusas, pardas, negras, caboclas, mamelucas, moleques e coromins, que invadiram o sitio e estabeleceram a alegria e o ruido por toda a parte.

-- <estrang lingua="LGA"> Aré </estrang>, minha gente, dizia a velha cacáoalista, ao abraçar as duas irmans, -- me deem já a minha rêde, que estou muito cansada.

Logo depois da d. Rosa chegou a canôa do tenente: vinham nella Ribeir, Moreira, a Rita e a Benedicta. Estava quasi completo o numero dos convidados: só faltava Miguel, que não tardou em apparecer pelo cacáoal. Ao velho Capucho ninguém se lembrara de convidar, e ainda menos se sabia como elle viera: o facto é que elle ahi estava contando historias da Junta á d. Rosa, que as conhecia tão bem como elle.

Depois dos comprimentos, beijos e abraços dados e recebidos, depois das perguntas sobre a saúde dos auzentes, e depois da primeira conversação sobre o tempo, a saíra, a cheia (isto os velhos), a festa de Juruthy, que se aproximava, sobre Óbidos, a vida publica e privada do Paraná miri de cima (isto os moços), foi servido o almoço, que constou de vacca, porco e papagaios, e de chocolate com bolos, para rebater os assados.

Emquanto faziam a digestão sentáram-se em circulo na varanda; os velhos fumavam, e as moças conversavam baixinho entre si, dando de vez em quando gostosas gargalhadas, que faziam sorrir os homens, curiosos do motivo de tal alegria.

A Josepha era uma moça prendada, tanto quanto se pode sel-o no Paraná-miri; depois de ter preludiado no violão, que um a creada lhe apresentara, com todo o desembaraço pedio ao Moreira que cantasse uma modinha. A Joanna, que temeo ficar na sombra, insístio:

-- Ora, cante, sim?

-- Mas, d. Joanna, que modinha quer a senhora que eu cante?

-- Qualquer uma...

-- Cante a Nas horas mortas da noite, disse a Josepha.

-- Sim, Nas horas mortas da noite.

O official não se fez rogar por mais tempo; abrio a boca e, acompanhado pela filha mais velha do José Lopes, cantou a modinha pedida. Foi applaudido com enthusiasmo, embora Miguel murmurasse:

-- O tio José canta muito melhor.

Quando Moreira acabou de cantar, entendeo dever retribuir a fineza da Josepha com outra igual e disse-lhe tomando-lhe o violão:

-- Agora você d. Josepha?

-- Ora qual! Eu não sei cantar...

-- Ella canta, disse a Rita.

-- Canta muito bem, acrescentou Miguel.

-- Cante, menina, interveio o pae.

Mas a moça abaixára o rosto, e embalava-se na rêde, em que estava sentada, murmurando sempre:

-- Vão rir de mim.

-- Oh! d. Josepha, o que está dizendo? Pois nós haviamos de rir?! Ouço dizer que a senhora até canta muito bem ... todos a elogiam.

Estas palavras eram do Moreira.

Afinal a moça resolveo-se. Afinou a garganta e perguntou á irman:

-- Qual ha de ser, Joanninha?

A Joanna correo a sentar-se na mesma rêde em que estava a irman, mas do outro lado, dando as costas aos circumstantes, e disse afinando também a garganta, e lambendo os beiços:

-- A flor dos meus sonhos.

E as duas moças pozeram-se a cantar, sempre embalando-se na rêde, com tom lastimoso, a modinha que diz assim:



<poesia>

Eu tenho uns am ores- quem é que os não tinha

Nos tempos antigos?- Amar não faz mal.

As armas (as almas) que sentem paixões como a minha

Que o digam, que fallem em regra geral.

A flor dos meus sonhos é moço bonito

Qual flor entre aberto do dia ao raiar;

Mas onde elle mora, que casa elle habita,

Não quero, não posso, não devo contar.

</poesia>



Aquelle moço bonito, que as duas irmans substituíam ao moça e bonita da poesia -- Segredos-de Cazimiro de Abreo, referia-se indubitavelmente ao moço official, mesmo porque um olhar e um meio sorriso acompanhavam a mudança de sexo. As moças continuaram:



<poesia>

Seo rosto é formoso, seo talhe elegante,

Seus lábios de rosa, a falla é de mel,

As tranças cortadas, qual linda bacchante,

O pé de creança, cintura de anel (!)
</poesia>


E depois:


<poesia>
Oli! hontem no baile com elle walsando,

Senti as delicias dos anjos do céo!

Na dança ligeiro, qual sylpho voando

Cahio lhe do rosto seo cândido véo.

</poesia>



E assim por diante.

O velho José Lopes, que percebera tudo, ria-se roçando a barba; as velhas cochichavam, Miguel mordia os beiços e voltava o rosto para não rir,e a Rita admirava sinceramente o meio de que haviam lançado mão as suas amigas para fazerem uma declaração ao Moreira, que continuava acompanhando no violão, sem mostrar ter entendido.

Depois da cantoria formaram a quadrilha, porque já tinha chegado a musica; tiraram-se as rêdes da varanda, e formaram quatro pares: Moreira dançava com a Josepha, e tinha por visa-vis o Ribeiro com a Joanna; Miguel dançava com a filha do Amaral, e o filho da velha Rosa com a Rita. Moreira conversava a miudo com a sua dama; a rapariga por sua parte fallava pelos cotovelos e criticava a dança dos outros; a Joanna não tirava os olhos do par fronteiro, e nada respondia ás amabilidades do tenente, que consolava-se disso fumando cigarros sobre cigarros.

Miguel fazia todo possivel para dançar bem; mas tendo prestado attenção demasiada á conversa da Josepha com o Moreira, julgou ver uns olhares malignos do official, e uns rizinhos zombeteiros; desorientou-se, e por diversas vezes a filha do Amaral advertio o de que dançasse melhor. O filho de d.Anna estava rubro de despeito, suava em bicas, lançando olhares furibundos sobre o par caçoador.

</div>



<div "CAPÍTULO XVI">



XVI



A dança durou até a hora do jantar. Os pares não tiveram descanço algum, e nem os musicos; por isso estavam grandemente cançados. Ao irem para a mesa a Rita e a Josepha acharam occasião de trocar as seguintes palavras:

-- Você conversou hoje muito, Josepha!

-- Pois se seo Moreira pergunta tanta cousa!

-- E se você gosta de responder.

Depois do jantar que em nada differio do almoço senão na sôpa e nos doces da tia Thomazia, que foram elogiados e devorados, iam de novo sentar-se em circulo na varanda, quando a Joanna sahio-se com esta proposta:

-- Vamos dar um passeio até o sitio da Maria Mocoim?

-- Era tão bom... observou a filha do Amaral.

-- Pois vamos, -- disse a Josepha ao Moreira -- não acha bom?

-- Até com muita gosto, d. Josepha.

-- A senhora vae, d. Rosa?

-- Está bom ... pois eu agora hei de me abalar para ir tão longe? Não, não, vocês que são moços..

-- Pois não -- disse o José Lopes -- vão vocês que são moços, nós ficamos.

Moreira, Miguel, o tenente, a Josepha, a Rita, a Joanna e a filha do Amaral pozeram se a caminho para o cacáoal.

Todos iam alegres, cantando, á excepção de Rita e Miguel.

As duas irmans haviam se apoderado do Moreira, e entretinham -no fallando tanto, que o official era obrigado a estar sempre calado, pois quando calava uma, fallava a outra. O tenente seguia na frente com a filha do Amaral. Rita quizera a principio acompanhar o grupo em que ia o Moreira, mas conhecendo com grande magoa que o moço não lhe podia prestar attenção, e enfadando-se sumamente com as faceirices das filhas do José Lopes, deixou-se ficar atraz por despeito e ficou assim fazendo companhia a Miguel, que não sabia dizer porque viera até alli, pois não estava lá muito contente com o dia, e ainda menos com os donos da casa.

Rita tambem estivera todo o dia amuada. Não lhe passara desapercebido o procedimento do Moreira para com a Josepha, e até lhe parecia que o official havia esquecido completamente a sua presença alli. Entendia que nos termos em que o official estava nas suas relações com ella, (e tinha là as suas razões para pensar assim) devia ligar menor importância ás outras moças, e não proceder como procedia. Depois... a Josepha não era lá muito bonita, apezar deter os dentes apontados. O que significava pois a demasiada amabilidade do moço do Pará? Seria que a sua vaidade tivesse sido lisongeada pela mudança que as duas irmans tinham feito em algumas palavras da modinha? A menina atribuia a este facto a rapida mudança de Moreira, e é escusado dizer que isso a indignava. Achava que a Josepha era uma aprezentada, e o Moreira um inconstante. Começava mesmo a acreditar no que se diz dos moços da cidade.

Mas logo lhe vinha á lembrança que podia ser que não estivesse como nos outros dias. Mirava-se, remirava-se, e não podia deixar de reconhecer dentro em si que se era por isso, o Moreira não tinha razão. E com effeito a rapariga estava encantadora. O vestido de moussellina branca, justo no corpinho e amplo nas saias, ficava-lhe a matar. O basto e caracolado cabello, preso no alto da cabeça por um pente de casco, dava lhe á physionomia um ar faceiro e petulante, que dizia perfeitamente com o andar sacudido e o pisar forte. Trazia ao pescoço um medalhão preso n'um pequeno trancelim de ouro, nos braços nús pulseiras de contas, no dedo anel de diamante. A saia deixava-lhe ver o pé pequeno de raça, calçado em meias de algodão branco, n'uns sapatos de marroquim encarnado.

Convencida por esta analyse, á que ella mentalmente se submettia, da injustiça das inconstâncias do Moreira, a menina ia demorando o andar, com o fim de se deixar alcançar por Miguel, e não tardou em travar com elle o seguinte dialogo:

-- Aquella gente vae muito depressa!

-- E você porque não vae com elles, Rita?

-- Porque o chão está húmido, e não quero molhar os pés -- e com uma mão levantava as saias até acima dos tornozellos.

-- Ellas não sentem.

A moça calou-se; mas depois de alguns momentos:

-- Miguel, disse, você está zangado comigo?

-- Zangado com você, Rita! E porque?

-- Porque?... Eu sei lá; mas tenho reparado que você não falla com a gente... não apparece mais lá por casa...

-- Pois eu hei de apparecer onde não me querem bem?

-- Não lhe querem bem ...? quem foi que lhe disse isso?

-- Eu é que tenho visto . Não ha muito tempo que seo padrinho me disse um desaforo.

-- E eu? e a Benedicta?

-- Não digo a mesma cousa. A Benedicta sempre gostou muito de mim, e por isso também lhe pago na mesma moeda.

A rapariga esteve calada alguns instantes, e de repente, parando e pondo a mão no hombro do moço disse-lhe com um sorriso tentador:

-- De mim, o que diz?

Miguel ficou enleiado, e apenas poude balbuciar:

-- Ora... de você...

-- De mim, e então?

-- Não sei .. mas você vae ficar zangada comigo.

-- Qual! se eu não fico...

-- Pois então... acho que já não é a mesma para comigo, Rita.

-- Não sou a mesm a, e porque?

-- Eu sei lá...

-- Mas, diga sempre.

-- Acho que você deixa os amigos velhos pelos novos.

A moça corou levemente, e continuou a caminhar, mas silenciosa. Miguel percebendo que ferira em cheio observou com voz amargurada:

-- E o que dizia eu? Ficou zangada!

-- Eu? Não. Respondeo a moça fingindo sorpreza.

-- Pois olhe, parece.

-- Pois não é!

-- Você foi quem quiz, eu bem não queria dizer.

-- Mas se eu não estou zangada!

-- Está, sim.

-- Qual está! Depois eu não tinha razão para me zangar... o que foi que você disse?

-- Que deixava os amigos velhos pelos novos.

-- Isso é mentira !

-- Olhe, Rita, deixe de querer enganar-me, que eu tenho bons olhos! Quem não vê logo que depois que chegou aquelle moço, nunca mais você fez caso de mim?

-- Ah... am! Miguel! -- disse a rapariga em tom de exprobação.

-- E' a verdade. Vocês d'aqui pensam que um homem do Pará vale mais do que outro qualquer, e só porque seo Moreira dança bem.

-- Mas quem foi que lhe contou que eu gostava delle, heim?

-- Quem me contou, quem me contou... foi você mesma.

-- Agora.

-- Foi, porque conheci que eu já era desprezado, que não faziam mais caso de mim.

-- Ora, ora, este Miguel! Mas você está sonhando?

-- Estou bem acordado, infelizmente. Na noite d'aquelle baile em sua casa, levou toda a noite a conversar com elle...

-- Porque não sou matuta.

-- E aquelle abraço?

-- Que abraço, meo Deus?

-- Aquelle abraço que voce deo no brinquedo da viuva...

-- Pois em quem eu havia de dar? Se desse a você, todos desconfiavam.

-- E delle não desconfiavam?

-- Delle não, porque sabiam que era a primeira vez que eu o via, e portanto ....

-- Portanto?

-- Sabe o que mais? -- tornou Rita com uma volubilidade admiravel -- Pois para mostrar-lhe que não gosto mais delle do que de você, Miguel, ahi está um beijo.

E antes que o rapaz sorprehendido e encantado podesse responder uma palavra, recebia um beijo em cheio na face. Miguel estremeceo, corou e sentio correr-lhe pelo corpo um estremecimento de gozo; estendoo o braço, enlaçou a moça pela cintura, e ia pagar lhe na mesma moeda, quando appareceo por entre as arvores o terreiro do sitio da Maria Mocoim, e sahiram ao encontro dos visitantes dous cães ladrando furiosamente.

A Rita ria como uma perdida do abalo que o beijo causára em Miguel, e disse-lhe deitando a correr para alcançar os outros:

-- Está satisfeito?

</div>



<div "CAPÍTULO XVII">



XVII



A Maria Mocoim era uma velha magra e quebrada pelos annos, de cabellos grisalhos, olhos pequenos, maçans salientes, e boca, que quando ria deixava ver um dente comprido e negro; vestia saia de chita e camisa de americano, pisava descalça, e do pescoço pendia-lhe, presa n'um cordão escuro, uma multidão de bentinhos e figas de todas as cores e tamanhos. Os dedos longos e magros estavam cobertos de memórias, e a rara cabelleira, aspera e corredia, presa no alto da cabeça, em forma de periquito, por um enorme pente de tartaruga, como esses que ainda se encontravam até pouco tempo no Maranhão, e que são communs no interior das duasprovincias ribeirinhas do Amazonas.

Quando os cães lhe annunciaram a chegada dos convidados do José Lopes, a velha, sentada na soleira da porta da casa, parecia em contemplação diante do espectáculo que lhe offerecia o sol escondendo-se por traz dos aningaes. Com a cabeça erguida, e as mãos enlaçadas em torno dos joelhos, a Maria Mocoim parecia não sentir os ataques dos carapanans importunos. Só ella estava em casa, e isto porque só ella morava alli naquella cabana, cercada e coberta de pindoba secca e gasta, cujas portas eram de japá, que se prendia á soleira por embiras. Junto da casa, e sob um tecto tambem de palha trez pedras, tostadas pelo fogo, reunidas em uma espécie de triângulo, annunciavam um fogão, agora extincto e coberto de cinzas. Pendiam da cumieira folhas de tabacco, dous ou trez baldes de cuia, um tipiti; uma panella e uma chocolateira de barro, atiradas a um canto, completavam a mobília da cosinha, na qual dormia uma capivara domestica. Perto da casa o mato crescia espesso e bravo, e parecia acabar alli a communicação entre os cacáoaes.

A qualquer hora, e em qualquer dia que se vizite um destes miseráveis sitios, sempre se encontra o fogão apagado, a casa silenciosa, o mato crescido e o dono da casa fumando, sentado na batente ou embalando-se na rêde de americano. Se tiver o vizitante necessidade de qualquer cousa, embora prometta pagar bem, nada pôde obter, e trava-se invariavelmente o seguinte dialogo:

-- Ô...ô...ô..ô, de casa! diz o recem-chegado do porto.

-- Adè... ê... ê ...us! responde o dono da casa.

As casas são todas sitas longe do porto por causa da cheia, como já dissemos, e para se ouvirem melhor de grande distancia, usam as pessoas d'aquellas regiões de um tom de voz prolongado e echoico impossível de transcrever:

O dialogo continua:

-- Tem pacova verde?

-- Agora há...não há!

-- E gallinha?

-- Não ha milho.

-- Me venda um bocado de pirarucu.

-- Eh, branco, o tempo está caro!...Não há.

-- Nem uma tartaruguinha, ou um bocado de piracuí ou piráem?

-- Não há.

-- Então venda-me ao menos um alqueire de farinha.

-- A saúba matou toda a maniva... agora só quando tornar a plantar.

-- Mas você ha de ter ao menos para o seo gasto, venda-me uma cuia de farinha.

-- Havéra, branco, não há.

-- Qual não ha... você é que não quer vender...

O dono ou dona da casa olha sorrindo maliciosamente para a familia, se a tem, com ares de quem diz: -- O branco está caçoando, e afinal resolve-se a falar ao supplicante:

--  Sócco! branco! não ha mesmo.

Se o viajante chega ao terreiro, e, por um acaso raro, ahi encontra seis ou oito bicos, desejando comprar, tem quasi sempre esta resposta:

-- Aquella franga é da'nhá neta.

-- E onde está sua neta?

-- Está no Cromocory.

-- Venda-me então aquella gallinha...

-- Aquella nanica é da'nhá mana.

-- Onde está ella?

-- No Sapucuá.

-- Ora...venda-me ao menos aquello pinto.

-- E' do meo filho.

-- E onde está elle?

-- Está na cidade.

E afinal sahe a gente sem poder obter cousa alguma. Isto a maior parte das vezes.

Não tendo rendas, não trabalhando em cousa alguma, sem a menor industria, parece que deveria esta gente morrer de fome. Ella anda com effeito magra, pallida, abatida, mas isso de morrer, não; vive até muitos annos. Uma prova é a Maria Mocoim.

A tia Maria não creava gallinhas, nem patos, não roçava, não fiava...possuia apenas a capivara, os cães de guarda (?), e uns trezentos pés de cacáoeiros, que podiam dar-lhe mal para o tabacco e a farinha do chibê.  Como se arranjava no mais, isso não sabemos; somente podemos affirm ar que era muito procurada nos arredores, porque ninguém melhor do que ella tirava quebranto, ninguém preparava melhor beberagens para fazer uma pessoa gostar da outra, ninguém matava melhor um cobreiro.

Objecto de curiosidade não despida de certo terror, ao menos na gente moça, acreditavam seriamente no Paraná miri que era feiticeira, e alguns chegavam mesmo a affirm ar que a velha transformava-se em lobishomem, revestindo a figura de uma pata chóca, porque tivéra em outro tempo relações com o padre vigário; estes boatos ou não lhe tinhão chegado aos ouvidos, ou ella lhes ligava pouca importância, tanto mais quanto a gente sensata limitava-se a ver na Maria Mocoim uma curandeira como outra qualquer.

Só o Capucho teimava em assegurar que por uma noite de inverno a vira transformada em pata, cousa tanto mais extraordinária quanto a velha não creara nunca bipedes d'aquella especie.

-- Não me engana -- dizia o Camutauara, mastigando -- não me engana porque bem a conheço.....

No Igarapé também ha lobishomem... não ha muito que o Catá foi visto com um por traz da igreja....cousas lá delles. No tempo da Junta, quando se dizia que uma pessoa era, tratava-se logo de averiguar, e não se ficava olhando, como agora. Que eu vi, vi, isto ninguém me tira... Tambem diziam que o Judeo não era, o quando se vio foi elle arrebentar bem no meio do baile do Pechincha em Villabella...Com estas cousas não brinco, que são cousas da religião...

E benzia-se.

Apezar do que dizia o Capucho ou talvez por causa disso mesmo, os alegres convidados do José Lopes se tinham lembrado de ir ao sitio da Maria Mocoim, e gritavam todos sem o menor signal de medo, sem comtudo afastarem-se uns dos outros:

-- Boa tarde, tia Maria.

-- Ara, Deus Nosso Senhor lhes dè as mesmas, Nossa Senhora Santissima os abençoe, Santa Anna os tome debaixo da sua santa guarda, respondeo a tapuya

-- Como tem passado, tia Maria?

-- <estrang lingua="LGA"> Miri-miri </estrang>, nhô tenente, como uma pobre velha que S. Bom Jesus dos Passos ainda deixa andar por este mundo...

-- Mas você ainda está forte, tia velha, observou o Moreira.

A velha poz-se a olhar para elle, e reparando que a Josepha estava ao lado do official, sorrio beatamente, e abençôando-os com a mão, disse:

-- Mas, meo menino Deus, como estão bons um para o outro, que é mesmo um gosto! Nosso Senhor os fez, e Nossa Senhora os ajuntou. Tomara que sejam felizes!

O rapaz sorrio e a Josepha corou, mas sorrio também; a Joanna correo a collocar-se mais perto de Moreira, esperando que a sorte cahisse sobre ella. Rita não disse palavra, mas poz-se a brincar com um dos cães da velha. Miguel e o tenente conservaram-se estranhos á palestra: Miguel encostado em um dos esteios, que sustentavam o tecto da cozinha, devorava a Rita com os olhos; o tenente examinava o cacáoal.

A Maria Mocoim continuou:

-- Pois sim, senhor, não vae este mundo lá muito bem. A caroára não me deixa, e eu não sei mais o que hei de fazer...

-- Quando você não souber, quem ha de saber?

-- Ora, ora, pois eu tenho trabalhado...

-- Também que idade tem você? perguntou indiscretameme a filha mais moça do José Lopes.

A velha esteve calada por algum tempo com a cabeça baixa, como se procurasse lembrar-se de alguma cousa, depois disse, fazendo um gesto de indifferença:

-- Nem eu mesmo sei... mas quando o Cacáoal Imperial passou para o reis, eu já era moça, e tinha um filho que depois morreo de ar de vento. Nós moravamos no cacáoal mesmo... minha mãe era a moça do capataz... nem eu sei mesmo mais.

E a velha rio-se, deixando ver o único dente.

-- Com effeito! -- disse o Moreira para não ficar calado, mostrando que ficára na mesma a respeito da idade da velha -- com effeito!

Conversaram assim por algum tempo. A velha não se fartava de olhar para o official, e para os vestidos da Josepha, e dizer:

-- Nasceram um para o outro...

-- Vamos já interrompeo a Rita, aborrecida de brincar com o cachorro -- não tarda a noite.

Depois de algumas hesitações pozeram-se todos a caminho, despedindo-se da velha, que murmurava:

Até... <estrang lingua="LGA"> curi! Miri-miri </estrang> (logo). São Bom Jesus os proteja,

Nossa Senhora os abençoe, Senhora Santa Anna os tenha debaixo da sua santa guarda!

Na volta bem quizera Miguel caminhar junto á Rita, mas o tenente ou porque desconfiasse de alguma cousa, ou por outra qualquer razão, tomou a mão da filha e da Joanna, a qual, porque dispensaria de bom coração essa honra, não deixava de voltar continuamente os olhos para ver a irman e o Moreira, que vinham atraz, seguidos de Miguel e da filha do Amaral. A Josepha requebrava-se toda e fallava da Maria Mocoim.

-- Ora, que velha! Pois já viram o que ella disse? E dizer que algumas vezes sahe certo... Já sei que hoje não durmo.

-- Hoje mesmo creio que não... porque ha de se dançar provavelmente até de manhã.

-- Não...quero dizer, amanhã não durmo.

-- E porque, d. Josepha?

-- Eu sei lá... a tia Maria ha de me apperecer em sonho.

-- Ah! sonha muito?...

-- Quasi todas as noites.

-- E com que sonha?

-- Sempre com a mesma cousa...

-- Pode-se saber o que é?

-- Não...

-- Para que ha de ser má...ora, conte...

-- Só se o senhor jurar que não caçôa...

-- Juro, pelas almas!

-- Pois bem ... mas eu tenho vergonha...

-- Ora diga, diga...

-- Me apparece sempre um moço alto, cheio de corpo, barbado e vestido de official; depois eu e meo pae vamos com elle para a cidade, e...

-- E ... o resto?

-- E nós nos casamos.

O nosso par que havia esquecido que á pequena distancia seguiam-no Miguel e a fiiha do Amaral, foi neste ponto interrompido por duas estrepitosas gargalhadas; o tenente, Rita e Joanna pararam, e esta ultima indagou, voltando atraz:

-- O que foi, o que foi?

A Josepha estava rubra de colera, o lançava olhares furibundos aos dous caçoadores. Moreira coçava a barba um pouco atrapalhado, e a Joanna indagava sempre:

-- Mas o que foi?

-- Ora, o que havia de ser? -- respondeo a filha do Amaral -- a Josepha que sonhou com um official alto e barbado, muito parecido com seo Moreira.

-- Esta Josepha... -- disse a Joanna -- agora isso não admira porque eu também sonhei...

-- Com o seo Moreira

-- E bem.

Decididamente o official triumphava.

-- E' um moço feliz -- observou Miguel.

-- Oh! se é..., confirmou a filha do Amaral.

-- Mas mesmo muito...

-- Todas as moças sonham com elle!

E continuaram neste andar até o sitio do José Lopes, onde chegaram á noitinha.

Pouco depois recomeçou a dança, e então animados pela alegria dos moços, os velhos, em ar de caçoada, foram tomando parte nas quadrilhas, e principalmente no chorado ou lundu, que era a especialidade da mulher do Amaral; a Josepha e a Joanna distinguiram-se muito nesta dança, e a Rita não deixou de substituil-as dignamente, quando cançaram.

O tenente fazia frente a todas. De cigarro na boca e em mangas de camisa, depois que toda a cerimonia havia desapparecido, o Ribeiro provocava applausos geraes com as rodas e piruetas. A velha d. Rosa dizia a miudo:

-- Ora este sr. tenente! Meo Deus, que homem!

Miguel conseguira dançar uma vez com a Rita, apezar do pae fazer todo o possível para que isto não succedesse A rapariga mostrava-se amavel, faceira mesmo, mas Miguel notava que ella tirava por muito tempo os olhos da Josepha e do Moreira.

A's cinco horas da manhã acabou-se a festa por falta de quem dançasse e de quem tocasse. Os músicos haviam adormecido na rêde, em que se haviam sentado para maior commodidade,e os pares dançantes a custo resistiam ao somno, provocado pelo cançaço e pelo frescor da madrugada. Pouco depois despediam-se todos os convidados, e a Josepha dizia ao Moreira, no porto:

-- Adeus, seo Moreira, lembre-se da gente!

Ao que a irman acrescentou.

--....que lhe quer bem.

A Rita sentio um grande alivio ao ver o moço official embarcar na mesma canôa que devia leval-a. Afinal a Josepha tinha de deixal-o, e conhecia bem a afilhada do tenente que, feitas as contas, o Moreira tinha de lidar muito mais tempo a sós com ella, do que lidara á vista de todos com a filha do José Lopes. Por isso disse ao pae que partisse quanto antes, allegando o frio e o somno de que estava possuída.

</div>



<div "CAPÍTULO XVIII">



XVIII



A afilhada do tenente não poude dormir tranquilla; não lhe sahia da idéa a attenção que o Moreira prestára durante todo o domingo á Josepha. A rapariga era vaidosa; custava a acostumar-se 'á idéa de que um moço da cidade lhe preferisse a careca da Josepha, como ella dizia. Depois julgava que, sendo ella a primeira que vira o official, morando elle em sua casa muitos dias, era uma vergonha ser vencida. Além disso se o Moreira casasse com a Josepha, quem lhe restaria? O Miguel... um rapasinho de quem ninguém fazia caso, um matuto, que nem sequer tinha uma calça de cazimira,um homem que não sabia dançar. E' verdade que, antes da chegada do protegido do dr. B ..., o filho de João Faria não deixava de ser procurado, mas então a Rita nunca vira um verdadeiro moço da cidade, senão muito creança, ou um ou outro negociante ou doutor...cazado. E então a rivalidade das filhas do José Lopes? Não era motivo para mais se empenhar na luta?

E' preciso dizer que Rita nunca vira uma cidade, nem sequer Óbidos; ardia por isso, e como o tenente nunca quizera fazer-lhe essa vontade, adiava ella ingenuamente que o meio mais simples era casar com um moço cidadão.

Ora o Moreira preenchia estas condições. O Moreira era um official a quem todos procuravam agradar, que impunha respeito ao Miguel, e a quem até o tenente acatava. Era portanto um homem superior a todos os outros. Rita lembrava-se de que o official se mostrara muito namorado della, e lhe dissera palavras, que não se dizem a qualquer pessoa; mas isto não era garantia do seo amor (ella dizia da sua amisade), uma vez que procedia da mesma forma com a Josepha, e quem sabe com quem mais, acrescentava a rapariga pensando na viagem do alferes a Óbidos.

Era preciso portanto obrigar o official a declarar-se, obrigar a Josepha a reconhecer-se vencida. Pensando nisto esteve a moça a revolver-se na rede e a embalar-se; não tinha porém desta vez a Benedicta que lhe notasse a insomnia, e a distrahisse dos pensamentos inquietos que a dominavam. A sua companheira de quarto roncava como uma bem aventurada.

Afinal a moça adormeceo.

Quando levantou-se era meio dia. Já o tenente e o Moreira conversavam na varanda, saboreando o café e o cigarro.

A rapariga beijou a mão do padrinho, e comprimentou sorrindo o hospede.

-- Dormio bem, d. Rita?

-- E bem, respondeo a moça.

-- Divertio se muito hontem?

-- Como sempre.

-- Ah! esta é uma doidinha, que não pensa senão em dançar!-observou o tenente.

-- Está na idade!- tornou o Moreira.

-- Pois, nem por isso; -- replicou o dono da casa

-- já fez deseseis annos e é tempo de cuidar em outra cousa...

-- E o que quer vmc. que eu faça, meo padrinho?

-- Ora esta é boa! E' preciso pensar em arrumar-se. Deve casar, ter a sua casa, criar os seus filhos. O official ria.. Rita abaixara o rosto, envergonhada.

-- Estava mesmo a pensar nisso -- continuou o tenente sorrindo- mesmo porque hontem, fallou-me um sujeito a teo respeito....

-- E quem foi?

-- O filho da d. Rosa.

-- Achi! fez a moça desdenhosamente.

-- Ahi vamos... e porque diz achi?

-- Ora, meo padrinho, um homem gago...

-- E o que tem isso?

-- Tôlo...

-- Quem lhe disse?

-- Matuto...

O Ribeiro deo uma gargalhada, e respondeo á moça, já envergonhada do que dissera:

-- Homem, esta! Matuto! Então a quem é que tu queres, rapariguinha! Provavelmente procuras um principe encantado?

-- Não, mas...

Rita estava visivelmente embaraçada com as caçoadas do tenente. Não sabia como sahir da meada em que se mettera. O Moreira torcia o bigode sorrindo, e o tenente continuava no mesmo tom:

-- E que tal? A sra. d.Rita que acha o filho da d. Rosa matuto! Um rapaz que esteve muito tempo em Óbidos, onde ella nunca foi! Ao menos não poderá dizer a mesma cousa do velho Capucho, que já esteve no Pará, e que vio a Junta.

-- Ara, meo padrinho, vmc. está brincando .....

-- Brincando, e porque? Acha que ainda não e tempo de casar? Responda, menina.

A Rita correo a esconder-se no quarto em que estava a Benedicta costurando, e o tenente voltando-se para o Moreira disse:

-- Que tal acha esta cunhantan, seo alferes?

-- Tenente, como quer que a ache, senão que é uma boa menina, muito viva e esperta?

-- Só?

-- E bonita, isso ninguém lhe tira.

-- E não acha que era uma pena casal-a com o filho da d. Rosa, ou com aquelle patife do Miguel?

-- ...do Miguel?

-- Sim. Pois então não sabe que aquelle fedelho teve o atrevimento de querer namorar a Rita?

-- Homem, esta!

-- Pois, sim senhor. O marôto esquece-se de que a familia sempre perseguio-me, e que elle não tem deixado de fazer-me toda a especie de desaforos...Deixa-te estar, mijão, que a questão do Uricurizal te ha de quebrar o orgulho!

-- Além disso, se ella não gosta delle...

-- Isso é que é... a rapariga não gosta dos matutos, só quer moços da cidade, como se eu podesse desencaval-os, ou se elles andassem ahi aos montões. Eu cá por mim, contanto que ella escolha um moço de bem, intelligente, pouco se me dá que não tenha um vintém de seo... tenho bastante para dous, e todos sabem que a Rita é a minha unica herdeira.

Moreira calou-se, e pouco depois sahio da varanda e punha-se a passear por traz da casa, n'um logar abrigado do sol, perto da cosinha. Minutos depois chegava se a elle Rita com grande ramalhete de rosas e jasmins na mão, rindo como uma douda.

-- De que ri-se tanto, d. Rita?

-- Ara, pois não hei de rir ... aposto que não sabe para quem são estas flores?

-- Não adivinho.

-- Pois são para o senhor.

-- Para mim? e quem m andou-as?

-- Ahi é que está a historia... foi a Josepha.

-- O que está dizendo?!

-- Isso mesmo.

-- Mas porque mandou-as ella?

-- Ora, porquê... o senhor deve saber melhor do que eu...

-- Qual, não sei!

-- Sabe; pensa que ninguém vio o que o senhor fez hontem com ella?...

-- E o que é que eu fiz? Nada de mais..

-- E' isso, nada de mais .. tem muita razão a Benedicta quando diz que os moços da cidade são muito inconstantes!

-- Inconstantes! Ora, ora, ora!

-- Não tem ora nem meia ora. Todos sabem que o senhor é namorado da Josepha.

-- Qual namorado nem pera namorado! Pois se eu nem gosto della.

-- Bôa...

-- Serio, é uma careca.

-- Por isso conversavam tanto.

-- Tem os dentes pontudos...

-- E então o que tem isso? Se é para não apodrecerem

-- No Pará ninguém usa dentes apontados....

-- Pode dizer o que quizer, que não acredito. Quem não gosta de uma pessoa não leva todo o dia e toda a noite só conversando com ella, dando na vista de todos.

-- Por isso mesmo. Se era para caçoar...

-- Para caçoar....?

-- Lhe juro. d. Rita, que nem por sombras gosto da filha do José I.opes.

-- Então que historia foi aquella do sonho?

-- Ah, ah, ah! Você faz-me rir só com a lembrança!

-- Agora ri...

-- De certo, pois não quer que eu ria das tolices da Josepha!

-- Eu... sei... -- disse a Rita com ar pensativo que exprimia duvida. O rapaz esteve a olhar por algum tempo para ella, e depois estendendo a mão para receber o ramo, que a Josepha lhe mandara, exclamou em tom resoluto:

-- Vae ver que caso eu faço das dores daquela namoradeira.

-- O que é que você quer fazer? -- interrogou-a moça retrahindo a mão, que segurava o ramalhele e, escondendo-a atraz das costas.

-- Vou pizal-as.

-- Não, isso não. Primeiro quero saber o que vem no meio das flores...

-- Como?

-- Espere um pouco.

A moça quebrou o cabello que prendia as flores, e disse:

-- Está vendo? Veio amarrado com o cabello dela!

-- Ora, ora, que moça!

-- Vamos ver o que tem mais -- tornou a Rita, separando uma por uma as flores, e deparando com um pedaço de carvão no meio do ramo, disse quase irritada:

-- E então? Ora. já se vio cousa igual?

-- O que é?

-- O que ha de se r? Um pedaço de carvão...

-- Ahi está... a culpa não é minha.

-- Aquella Josepba sempre é muito presumida!

-- Isso vè se logo.

-- Não tem vergonha de andar mandando flores para uma pessoa que quasi não conhece! isto é que é ser namoradeira!

-- De que serve? Eu não faço caso della...

-- Sim, todos os homens dizem isso quando estão longe.... aposto que se eu não tivesse tomado o presente 'a mão da Antonia, o senhor havia de gostar de recebel-o.

-- Não diga isso, Rita. .creia, eu não gosto da Josepha, mesmo porque gosto de outra.

-- E quem é essa outra?

O rapaz não respondeo logo e poz-se a sorrir; afinal disse com bastante desembaraço:

-- E' você...

O seio de Rita agitou-se fremente, mas a raparigo tentou desfarçar a emoção, fingindo não acreditar.

-- Eu bem sei que você está caçoando comigo, seo Moreira, mas  eu não sou tôla...

-- Não diga isso de mim, Rita, não pense que eu seria capaz de enganal-a. Desde aquelle dia da minha chegada que você me pareceo a moça mais bonita do Paraná-miri... e até de Óbidos!

-- Não negue... você tem namorada no Pará....

-- Qual, não tenho! Pois se eu até não gosto das moças de lá, porque são muito falsas e namoradeiras...

Vendo que a rapariga duvidava ainda ou fingia duvidar, Moreira entendeo dever também fingir ciúmes.

-- E' certo que o Miguel -- disse elle -- gosta muito de você?

-- Não sei.

-- Sim.... não sabe ..

-- Não sei, serio... Elle parêsque gosta, mas agora está zangado, ponjue disque eu deixo os amigos eêlhos pelos novos.

-- Você?

-- Ora... eu gosto delle, porque foi creado quase comigo, mas..é ainda um menino, muito tôlo, acanhado.

Nisto á janella do quarto de Rita assomou a Benedicta, que vendo os dous jovens reunidos, não se poude ter que não dissesse:

-- Ora, ora, pois então não estão apanhando mormaço? Que gente esta! Só para estar conversando! Rita, vae para dentro!- continuou amuada -- tu não vês que teo padrinho ha de querer ser catado?

A rapariga deitou a correr para a casa sem responder. Quando chegou á varanda, o tenente deitado na maqueira, embalado por um moleque de sete annos, dormia á sesta. A moça fez parar a rêde, sentou-se em um banquinho, e poz-se a catar o padrinho, que acordando perguntou:

-- Onde estavas tu?

-- Eu... não estava fazendo nada.

-- Vadia... e o alferes?

-- Não sei, não senhor.

O tenente nada mais perguntou, e fechando os olhos adormeceo de novo com a branda fricção que a filha lhe fazia na cabeça.



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<div "CAPÍTULO XIX">



XIX



O Moreira demorou-se trez dias no sitio do Ribeiro, e por duas ou trez vezes neste tempo encontron-se com a Rita no cacàoal on no porto. O que os dous conversavam ninguém sabia. Só a Benedicta parecia andar preoccupada, e espiava constantementea afilhada do tenente. Rita mudara muito; já não trepava nas arvores, e as mulatas podiam cozer descançadas, que os antigos beliscões não as atormentavam mais. A moça levava horas inteiras sentada ao pé da Benedicta, ouvindo-a fallar dos vizinhos, e contar as historias que mais lhe agradavam. Tinha maior cuidado no vestuário, e nunca mais tivera o pae occasião de dizer-lhe:

-- O que quer dizer esta maneira aberta? E ainda não fecha?

Quando ia ao banho, longe de ir desgadelhada e descalça, como d 'antes costumava, sahia já penteada e prompta do quarto. Nadava sempre, e atravessava o rio, mas silenciosa, e sem fazer chorar os moleques de cinco annos, que tinha por habito ensinar a nadar á força. Se no meio do banho passava algum cedro levado pela corrente, limitava-se a segurar-se a elle e trazel-o puxando-o para beira, mas não trepava em cima, fazendo delle canôa, segundo os seus costumes anteriores; e até quando alguma das rapariguinhas que se banhavam em sua companhia, punha-se de pé sobre o madeiro, passeando em toda a sua extensão com ares de commandante que dá ordens em um navio, não deixava Rita de dizer-lhe:

-- E ainda não desces? Podem te ver lá de casa!

Até as gallinhas andavam descançadas. A Rita parecia renunciar a quasi todos os seus antigos prazeres, Moreira por sua parte procurava todos as occasiões de achar-se só com ella; o rapaz parecia decidido a fazer-se genro do tenente. Qual fosse o verdadeiro motivo por que elle, um moço do Pará, por cujas estrellas tanto se enthusiasmam os oficiaes da nossa armada, se mostrava apaixonado por uma roceira sem educação, isso não poderiamos dizel-o; o que é. certo é que, ou o amor o sorprehendesse, ou os trinta mil pés de cacáoeiros, as seis legoas de terra e os escravos do tenente lhe dançassem na cabeça, os trez dias passados no sitio depois da festa do José Lopes foram sufficientes para determinar o triumpho completo da Rita.

Na manhã do quarto dia, ás seis horas, o official embarcava-se de volta para Obidos, e o tenente dizia lhe, ao despedir-se:

-- Olhe o Uricurizal... você sabe que importância eu ligo á questão...

-- Não tenha susto, respondeo o moço, não tenha susto, que o Abreo desta vez vae receber uma lição!

-- E' isso mesmo que eu espero. .e conte com o meo reconhecimento. Depois a cousa é fácil, se você fizer o que eu lhe disse. Conte com o meo reconhecimento.

-- Só quero a sua amisade.

Os adeuses de Rita tinham sido differentes; não lhe recommendára a rapariga a questão do terreno disputado, mas sim que não tocasse no porto do José Lopes.

-- Olhe que eu sei tudo, -- dissera -- se se esquecer de mim lá em Óbidos, tenho quem me diga.

-- Pois acredita que eu posso esquecel-a?

-- Sim, o dizer é bom ... mas acabe logo com o que tem de fazer em Óbidos. Não vá valer-se da questão para demorar-se muito tempo, senão...

-- Em menos de quinze dias estou devolta.

-- Ih... ih! -- fez a rapariga -- é tempo de sobra.

-- Creia que não é... o tenente que o diga.

Separaram-se com a chegada da Benedicta, que não podia occultar a alegria que sentia pela partida do alferes. O moço disse-lhe rindo:

-- Adeus, Benedicta; então ainda tem muita raiva de mim?

-- Credo, nhô aquelle, quem foi que lhe disse isso?

-- Ora quem me disse... eu é que vejo...

-- E porque haver a de ter raiva de vuncê? Nunca me fez mal...

-- Eu sei lá... ás vezes a gente faz mal sem querer!

Quando a canôa largou do porto, o tenente empé no cedro, que servia de ponte de embarque, acomparihava com a vista o seo rápido deslizar; a Rita fôra ás carreiras postar-se em um logar alto, donde se via o rio até grande distancia, e de lá contemplava o Moreira, que sentado na proa da canôa fumava um cigarro. A Benedicta andava pela casa dando ordens, arrumando tudo, e de vez em quando murmurava:

-- Quaes! Digam lá o que quizerem ... o Miguel sempre é mais bonito. Agora aquella tonta que só quer moço da cidade!

Na noite desse mesmo dia o tenente deitado na rêde conversava com a mulata, sentada em um banquinho e fumando, á pequena distancia. A Benedicta dizia:

-- Pois é assim mesmo, sr. tenente, não sou capaz de adivinhar o que tem a Rita. Tem mudado que é um Deus nos accuda!

-- Ora qual, mulher, que estás tu dizendo?

-- Sócco, sr. tenente! Pois olhe que é verdade.

-- Mas então o que há?

-- Não púla mais como d 'antes, não dá nos moleques, não sobe nas arvores, não anda de pé no chão...

-- Isso até é melhor, tem ares de menina, e não de tapuya...

-- Havéra! A mim é que não m'engana.

-- O que é então, mulher de Deus?

-- Quem não vê logo que aquillo é por cauza do seo Moreira?

-- Qual! A Rita ainda é creança...

-- Vuncé é que diz...

-- Então achas que o alferes agradou á menina, e que ella quererá casar com elle?

-- Quem não havia de querer... só se fosse eu; pois se ella está doida por isso...

-- Quem sabe? Estas meninas...

-- Pois se está ... Olhe, sr. tenente, vuncê fez muito mal em ter trazido aqui para o sitio o moço do Pará, que é um namorador de mão cheia. Era melhor que elle nunca tivesse apparecido aqui!

-- E então porque? Que mal ha em que elle case com a Rita?

-- Que mal? Gostava mais que fosse um homem mesmo d'aqui do Paraná-miri, e depois parêsque elle não ha de querer casar com uma rapariguinha, como a Rita...

-- E porque? Ora deixa-te de asneiras. Has de ver que é elle mesmo quem me pede a rapariga. Quando casarem vão lá para onde quizerem, e passem muito bem.

-- E o Miguel!

-- O Miguel! E o que tem elle neste negocio, que me importa o Miguel? Faço lá caso delle? Pois não ves que não vou dar a minha filha a um sujeito teimoso, e que me faz toda a especie de desaforos! Ah!- continuou o tenente levantando-se, e pondo-se a passear no quarto- Aqui mesmo é que eu queria pilhal-o, seo troca-tintas! Pensava que eu não sabia da historia toda? Pensava que eu não sabia dos seus passeios no meo cacáoal? Mas, está enganado! Você é muito fino para casar com uma mulata. Procure a Josepha ou a Joanna, que são da sua igualha. Bem dizia o patife do João Faria, que Deus haja, que quem teimasse comigo havia de no cabo ser vencido... pois ha de ser o filho mesmo que há de provar!

O tenente estava agitado, a boa Benedicta procurava acalmal-o.

-- Agora também vuncè, sr. tenente! Pois não vê que o Miguel é uma creança?

-- Creança, creança malcreada, potro bravo! -- bradou o tenente, e abaixando-se para falar de mais perto á caseira:

-- Tu pensas, Benedicta, que aquillo é só do Miguel? Pois estás enganada, alli anda também a D. Anna...

-- Ara, o que! Uma mulher tão descançada!

-- Pois fica sabendo que não gosta de mim, e que mesmo só gosta da sua pessoa! Ainda não me esqueci do não que me deo quando eu era tão pateta para querer casar com ella. Também quando pensou que eu havia de voltar... nicles... já não era tôlo. Por isso é que ella incita o filho a guerrear me... oh! eu bem os conheço... desd'o capitão até o maroto do Miguel!

O tenente deitou-se de novo, e embalou-se fortemente com' o pé. A Benedicta não se atreveo a responder-lhe, cousa alguma, e Ribeiro continuou, como fallando comsigo mesmo:

-- Elles pensavam que haviam de ser os senhores do Paraná-miri para sempre... mas ahi estava o mulato Ribeiro; que os havia de ensinar. Por isso não deixaram de perseguir-me, metteram-me na cadeia, recrutaram-me, fizeram o diabo comigo, e querem que eu esqueça... vão esperando. O bonito é aquelle padre maluco acreditar que eu queria a amizade do sobrinho, porque fingia ter amizade ao João Faria... depois o João Faria era outro homem! Foram-me ferindo, foram-me ferindo, agora aguentem, que mulato tambem tem orgulho.

O tenente continuou assim zangado e murmurando ameaças á familia de João Faria, durante grande parte da noite. A Benedicta que, apezar de toda a sua franqueza e importância, não deixava de temer o tenente, quando via que a raiva era grande, continuava a aspirar o fumo do cachimbo, mas calada.

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<div "CAPÍTULO XX">



XX



Miguel voltára da festa do José Lopes encantado com o procedimento da Rita, ainda que não deixasse de estranhar a attenção que a moça prestava aos movimentos do alfères, durante o resto do baile. Pensava elle que afinal conseguira vencer o moço do Pará, obrigando-a a explicar-se a este respeito, e obtendo tão excellente resultado. Acreditava que o ganho da causa do Uricurizal viria acabar a derrota do tenente, e que elle chegaria a este esplendido resultado: abater o orgulho do mulato, e assegurar-se do amor de Rita. Não deixava de ser contradictorio o rapaz, mas vão lá explicar estas naturezas.

Foi até sem ciúmes que o filho de João Faria vio o Moreira em barcar na mesma canôa que a Rita; até gostava de saber que o oficial tinha sobre elle a vantagem de morar no sitio do tenente, e de ter a amizade deste. Chegou até a dizer rindo á Josepha e a Joanna:

-- Chuparam no dedo! Lá se vae a Rita com elle!

D. Anna notou que o filho tinha alguma cousa de novo; o rapaz não parava n'um logar; andava pela cozinha, pelos quartos, trepava nas arvores, corria atraz dos bois; sahia para a pesca, annunciando que demorar-se-hia o dia inteiro, e meia hora depois voltava; preparava a espingarda e partia para a caça. As mulatas e os moleques viam-se aperreados e por diversas vezes a respeitável senhora fora obrigada a dizer semi-seria:

-- Socega, rapazinho! Mas o que então tem parêsque este Miguel!

Até o Capucho soffrera da mudança que se operara repentinamente no jovem amigo, Uma vez estava o velho a contar historias de Camutá, e a repizar o que tantas vezes dissera, quando Miguel sahio-se com esta:

-- Você, tio Capucho. não se farta de contar historias da Junta e do Catá... era melhor que fallasse menos.

E desatou a rir. O velho enfiou, e queixou-se à D. Anna, que limitou-se a dizer com a voz do costume:

-- Ora este menino... pois já se vio?

Por diversas vezes tentara o rapaz ir á casa do tenente, a ver se fallava com a Rita, mas o Ribeiro parecia que adivinhava o seo intento, porque não arredava pé da varanda. Miguel punha a espingarda ao hombro e mettia-se pelo cacáoal com o fim, dizia, de matar alguns papagaios que estragavam o cacáo; mas só o que queria era ver se lhe era possivel encontrar a menina trepada n'alguma arvore, como d 'antes lhe acontecia. Porem as suas escursões eram vans, o moço voltava sem ter dado um tiro, e triste por não ter visto a amiga.

Não sabia elle que Rita já não gostava de trepar nas arvores, e que, pelo contrario, estava muito acommodada.

Uma tarde o filho de D. Anna resolveo aproxima- se do terreiro do sitio do tenente, do qual ficava sempre a grande distancia, temendo ser visto; levava-o a esperança de verificar o que se passava na casa, e foi a furto, e procurando diminuir o ruído que seus passos faziam quebrando as folhas seccas de que estava lastrada a terra, que chegou ás ultimas arvores do cacáoal, e avistou o terreiro.

A Benedicta fumava como sempre sentada á soleira da porta, e a Rita com a cabeça deitada no collo da mulata, conversava baixinho com ella, a rapariga estava seria e não tinha mais aquella viveza de outr'ora.

Miguel, depois de ter espreitado por algum tempo, afastou com as mãos alguns ramos de arvores, e ia fallar para annunciar-se baixinho ás duas mulheres, quando deparou com o tenente, em pé, a vinte passos de distancia delle, encostado a um cacáoeiro, com um terçado na mão, e fitando-o com aquelles olhos, cheios de um brilho vivo, que mais de uma vez lhe fizera abaixar os seus. O rapaz ficou a principio sem saber o que devia fazer, mas logo, reassumindo a sua presença de espirito, que o orgulho trazia em seo auxilio, poz-se a caminhar direito ao dono do sitio Este, vendo que o rapaz se dirigia para o seo lado, começou a assobiar de um certo modo e logo os cães de guarda se lançaram furiosamente sobre o moço, que mal teve tempo de abrigar-se do primeiro choque, subindo a uma arvore.

O tenente continuava a fital-o e a assobiár, os cães ladravam em torno da arvore; o rapaz engatilhou a espingarda de caça, que trazia, o com um tiro matou um d'aquelles animaes; os outros fugiram, e pozeram-se a ladrar de longe. Decididamente a guerra estava aberta entre os dous vizinhos.

Quando Miguel poude descer da arvore com a debandada dos seus aggressores, o Ribeiro adiantou-se até onde elle estava e disse sorrindo, sem tirar os olhos do cão morto a pequena distancia:

-- Desculpe, seo Miguel, mas o que quer? Os cachorros não o conhecem mais e bem comprehende você que elles, vendo-o aqui do repente, se espantassem... tenha a certeza de que não mordem nunca... são mansos como cordeiros.

O senhor da fazenda S.Miguel não respondeo; as faces estavam vermellias de cólera e de vergonha de ter fugido deante do tenente; os olhos injectados de sangue giravam desmedidamente nas órbitas, e a boca contrahida demonstrava que o rapaz fazia grandes esforços para não chorar.

Chorar! Miguel tinha ainda muito de creança...quando a raiva era grande, chorava.

Agora porem os olhos não derramaram lagrimas, e o filho de João Faria poz-se de volta para a casa, sem dar uma palavra ao vizinho, que o via retirar-se sorrindo com aquelle sorriso com que dias antes se despedira delle na noite em que voltara do sitio da velha Rosa, e o encontrára no terreiro da sua casa.

D. Anna bem conheceo que tinha acontecido alguma coisa ao filho; indagou com muita instancia do tiro, que ouvira, e teve esta resposta, dada por Miguel com a voz suffocada.

-- O que havia de ser? Aquelle filh.... do Ribeiro que acuou os cachorros contra mim ... mas lá deixei um estirado... e ha de pagar-me aquelle negro!

D. Anna quasi deixou cahir o cachimbo, tão grande foi o espanto que se apoderou della; a honrada viuva não comprehendia o atrevimento do vizinho e foi com a voz alterada que disse:

-- Mas, como então?!

-- Ahi está -- tornou o filho -- e vmc. não quer que eu ensine aquelle cachorro!

-- Pois aquelle não sei que diga meo Deus, perdoae-me, está assim? -- tornou a viuva, e logo voltando-se para dentro gritou:

-- Gertrudes, traze agoa para o teo senhor-moço! Depressa, rapariguinha!

Mas o filho repellio indignado a cuia que lhe apresentava a mulatinha, e foi se deitar na rêde do seo quarto...,

Neste momento o acáuan voava por cima da casa, e cantava agoreiramente: Acauan! Acauan! D. Anna estremeceo, e unindo as mãos rezou.



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<div "CAPÍTULO XXI">



XXI



Cinco ou seis dias depois da festa no sitio do José Lopes, o tapuyo Ambrosio chegava á fazenda S.Miguel, e entregava a D. Anna uma missiva do padre, da qual Miguel tomou logo conhecimento.

O padre occupava se principalmente da questão do Uricurizal, e dizia ao sobrinho que, já tendo sido aberta a dilação para as provas, tratasse de mandar quanto antes as trez testemunhas para Óbidos. José Fernandes lembrava mais ao sobrinho que se assegurasse bem do Martinho Mendes, visto como corria na cidade que o tenente Ribeiro tentava corrompel-o. Depois de ler a carta o filho de João Faria voltou se para o portador e disse-lhe:

-- Mestre Ambrozio, você é capaz de fazer-me um favor?

O tapuyo não respondeo.

E muito simples, -- continuou Miguel -- trata-se de ir por agua ao sitio do Capucho, e de dizer-lhe que amanhã bem cedo esteja aqui com Ignacio Antunes e o Martinho Mendes.

E como o mestre Ambrozio nada dissesse, o rapaz acrescentou, batendo-lhe no hombro:

-- Vá, ande, que na volta terá um bom porre.

O tapuyo velho encaminhou-se para o porto, desamarrou a canôa, empurrou-a para o largo, e tomando a direcção do sitio do Capucho, poz se a remar vigorosamente no  jauaman. Os remeiros que tinham vindo com elle, agora acocorados na cozinha, saboreavam uma grande lasca de pirarucu assado e um bom pirão de farinha com agoa fria.

No dia seguinte pela manhã o velho Capucho chegou á varanda da fazenda, acompanhado pelas outras duas testemunhas, e Miguel mandou dar-lhes café com bolachas, caxaça e tabaco. O Camutauára foi o primeiroa fallar.

-- Menino -- disse -- aqui estamos todos trez promptos para jurarmos que o terreno do Uricurizal pertenceo sempre á sua familia... pôde contar que ha de ganhar a causa, ainda que o tenente faça artes do demonio. Em Camutá quando as testemunhas juram uma cousa, todos creem. E' impossível que o juiz municipal não conheça que a justiça está do seo lado... afinal de contas, não é por ser o sr.tenente que ha de ter razão! No Igarapé muitas vezes o Catà perdeo processos apezar de ser commendador. Fique portanto descançado, que haverá da sua vida estar segura como está esta questão.

-- Eu agradeço -- respondeo o filho da D. Anna -- eu agradeço, tio Capucho, o serviço que agora me fazem e fiquem certos de que não hei de esquecer.

-- Não faça caso, em Camutá faz-se disto todos os dias.

-- Bem sei o que lhes fico devendo. Também contem que teem um amigo na vida e na morte.

-- Patrão, disse o Ignacio Antunes quando precisarmos de você, você ha de servir-nos.

-- Com toda a certeza -- respondeo o moço -- e até com muito gosto. Você, seu Antunes, já está informado de tudo pelo tio Capucho?

-- Nem precisava, cadête, nem precisava, que eu sei tanto como elle. Também sou morador velho do Paraná miri, e ninguém me conta como foi a historia do Uricurizal. Eu ainda era coromim, mas já m 'entendia, quando o padre Raymundo, que Deus tenha na sua sancta gloria, fez a palhoça, para os vaqueiros.

-- Está bom, confio em você.

E o rapaz gritando para dentro disse:

-- Moleque! Dize á tua mãe que faça o balaio do tio Ambrozio.

Depois chamou de parte o Capucho, e disse-lhe:

-- Tio Capucho, cuidado com esta gente. Logo que desembarcarem vá direito á casa do tio José. Não deixe os homens fallarem com pessoa alguma.

-- Esteja descançado que pelo Antunes respondo eu; agora o Martinho...

-- Vou fallar lhe já.

E chamou o velho cacáoalista:

-- Oh! tio Martinho, venha provar de um tabaco que recebi hontern de Irituia?

Quando se achou só com o Mendes, Miguel disse entregando-lhe algumas sedulas:

-- Então você está disposto a jurar?

-- Estou, branco.

-- Olhe lá... não vá mudar na occasião!

-- <estrang lingua="LGA"> Ayora </estrang>, branco!

-- Não tenha medo do tenente, que elle não pode fazer lhe mal algum. Depois lembre-se que elle roubou-o....

-- E' mesmo; interrompeo o Mendes.

-- Ahi estão vinte mil réis, dou-lhe o resto quando você acabar de jurar.

-- Podia dar antes.

-- Antes não, dou depois. Quando desembarcar vá procurar o tio José, que é quem ha de dizer o que você deve fazer. Não seja tolo, não fie-se no Ribeiro, e quando o Moreira, aquelle moço do Pará quizer fallar-lhe, encha os ouvidos de algodão. Você comigo tem tudo a ganhar, e com elle tudo a perder.

O Mendes não respondeo. Uma hora depois embarcavam as trez testemunhas na canòa do Ambrozio, e tomavam o caminho da cidade.

Alguns dias depois sahira Miguel para a pesca no rio, e tendo encalhado a canôa n'uma mouta de canarana, esperava de pé, com o arpão alçado, e silencioso, que apparecesse algum peixe, quando vio ao longe o Martinho Mendes em uma pequena montaria. O tapuyo vinha só, e remava vigorosamente para vencer a corrente.

-- Ao rapaz pareceo estranho que a sua testemunha voltasse assim só da cidade, emquanto que elle ainda não havia recebido noticia alguma do que se passára em Óbidos depois da partida dos trez velhos. Por isso apenas o tapuyo poude ouvir-lhe a voz, Miguel gritou:

-- Eh! tio Martinho!

-- Adê...ê... us, branco!

-- Então o que é isso? Volta só?

Mendes fazendo um esforço aproximou-se de Miguel, e respondeo:

-- Já acabou!

-- O que, homem de Deus!?

-- Já jurei.

-- E os outros?

-- Estão lá na cidade.

-- Fazendo o que?

-- Estão bebendo caxaça.

-- E o que foi que houve?

-- Nada, branco. Nós juramos que o Uricurizal era seo, e depois, como eu estava com pressa, pedi esta montaria emprestada ao seo Figueiredo, e vim.

-- E porque o Capucho não veio logo?

-- Havéra de vir! Estava lá com o moço do Pará!

-- Com o Moreira?!

-- Pois sim, senhor, branco. O moço está disque arrumando a casa para o cazamento, e o Capucho foi ajudar.

-- Casamento, e que casamento?

-- Então o branco não sabe? Disque vae casar com a nhá Rita.

-- Isso é mentira! Ella não quer!

-- Havéra! Disque foi ella que quiz!

Continuaram assim conversando. Miguel impressionado com a noticia que o caboclo lhe dava, desencalhou a canôa, e poz-se a remar, subindo o rio; em pouco tempo chegou ao seo porto, despedio-se do tapuyo, que apenas quiz esperar para receber o dinheiro ajustado, partindo logo. Miguel amarrou a canôa no mara, e subio pensativo o caminho da casa.

O rapaz passou agitado todo o dia. Pela tarde tendo visto o tenente descer o rio, provavelmente em demanda do sitio da velha d.Rosa, onde ia sempre conversar com o Raymundo, não se poude ter que não se dirigisse para a casa do vizinho, apezar do que lhe havia acontecido alguns dias antes.

Quando lá chegou, a Rita passeava no terreiro de meias e sapatos, e colhia umas flores n'um pequeno canteiro, que havia perto da casa; apenas a moça avistou Miguel gritou para dentro:

-- Benedicta, Benedicta, olha uma cousa!

A mulata appareceo, e abrio os braços ao rapaz.

-- Ainda bem, ainda bem, Miguel, que você lembrou-se hoje da gente!

A Rita estava alegre. Ria e olhava para Miguel e para a Benedicta. Via-se que não se animava. Afinal não se poude conter:

-- Sabe, Miguel, que seo Moreira me pedio?

-- Não, Rita, não sabia; então é certo?

-- E bem.

-- E você o que disse? -- tornou o rapaz fitando os olhos anciosos na moça.

-- Ara, o que eu havia de dizer? --respondeu ella com affectada indifferença -- meo padrinho queria, e dizia que ficava zangado se eu recusasse... eu sou uma pobre moça sem familia... elle parece ser bom moço... ninguém mais faz caso de mim... E vae acceitei.

Miguel muito dificilmente conteve-se. Estava pallido, um suor frio banhava-lhe a fronte, e as pernas tremiam-lhe; mal poude balbuciar:

-- E fez bem, Rita.

-- Pois não é? -- tornou a moça sem reparar na pallidez do amigo -- ao menos assim a Josepha não ha de dizer que seo Moreira gosta della. Sabe? Não deixe de ir ao meo casamento? Seo Moreira já está preparando a casa na cidade...desta vez vou para a cidade. Elle disse que não queria morar no mato.

A moça fallava com uma volubilidade espantosa; a Benedicta, essa estava séria, e parecia reprovar pelo seo silencio a união que se ia effectuar. Miguel, atordoado, com a vista turva e a voz tremula, nem parecia ouvir mais as palavras de Rita, que continuou, colhendo umas açucenas:

-- Eu já disse ao seo Moreira que queria que elle fosse para a igreja fardado, e não de sobrecazaca, como andam os outros. Meo padrinho tambem ha de ir de farda, que é mais bonito. Ha de se dar um baile e dançar até de manhã... mas não quero convidar as filhas do José Lopes... ou não ..é melhor convidar para ver a cara dellas. Ah, ah, ah! só quero ver a cara de certas sujeitinhas! As Printes é que estão preparando o meo vestido; foi hontem o molde para lá... Lá na cidade hei de andar todo o dia de sapato e meias, se me faz favor, e até do vestido de cassa ou mousselina nos domingos, que não quero que pensem que eu sou matuta, que não sei me vestir. Como você acha esta chita? Pois foi Seo Moreira que escolheo.

Miguel nem se despedio. Deitou a correr pelo cacàoal como um doido, sem querer ouvir a Rita, que lhe gritava:

-- Meo padrinho diz que ha de se comprar uma vacca da sua fazenda!

O rapaz ia desesperado, porque amava a filha do tenente. E depois do que se passara na festa do José Lopes, não era de esperar tão grande e tão repentina mudança.

Dizia a Rita que tinha sido um pouco obrigada... mas qual! pois se ella até estava tão contente, que todos viam!

Não havia que duvidar, o rapaz tinha má sina!

Quando conseguia acalmar-se um pouco lhe apparecia esta terrivel idéa:

-- Vencido, despresado por um maricas da cidade!

Mas isto era horrível!

E' impossivel dizer o que se passava no animo do moço. O ciume, o despeito, a cólera dominavam-no. Via as filhas do José Lopes a rirem se delle... via o tenente satisfeito de lhe ter dado uma licção. Mas o rapaz soffria realmente com a daslealdade da Rita... apezar de tudo elle amava-a, e não era só o orgulho offendido que o martyrisava, era principalmente o ciume.

Foi entregue a estes pensamentos, dominado por estes sentimentos que á boca da noite chegou á fazenda; encontrou lá o Capucho e o Antunes que o esperavam .

O Capucho fallou-lhe assim que o vio:

-- O que dizia eu? Aquelle patife do Martinho Mendes logrou-nos. O maroto foi jurar o contrario do que tinha promettido, e disse com a cara mais deslavada deste mundo que o Uricurizal pertencia ao tenente!

-- Pois se eu digo -- accrescentou o Antunes -- que aquelle Ribeiro é o diabo em pessoa! offereceo dinheiro ao tapuyo, ameaçou-o, quem sabe? O gaiato é que ninguém vio quando o Moreira fallou ao Martinho.

-- Em Camutá -- tornou o Capucho -- não ha tanto quem jure falso como aqui... o padre José é que está furioso! Mas que Martinho Mendes! Vão lá contar com uma cousa destas...

-- E poz-se logo ao fresco o patife...

-- Aquillo foi que teve medo que nós contássemos aqui ao menino...

A noticia da traição do Mendes pareceo não abalar o Miguel. A verdade é que o moço não ouvia o que lhe contavam os dous velhos.



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<div "CAPÍTULO XXII">



XXII



Na cidade havia cousa nova; as janellas enclhiam-se de gente, os moleques atulhavam as portas da rua, os rapazes, as mulatas, caboclas e negras dirigiam-se em grupos para a igreja de Sant'Anna. O largo da Matriz de ordinario deserto e silencioso continha agora trinta ou quarenta curiosos, e na porta aberta de par em par apparecia de vez em quando a figura do sachristtão, que se offerecia com impostura para mitigar a sède dos expectadores. Óbidos tinha o ar estranho das pequenas povoaçoes em dia de festa; as lojas, onde de ordinário se reune a gente para a palestra estavam desertas, e abandonados estavam todos os cantos da cidade com excepção dos da praça da igreja.

Um grupo de homens, formado de quatro ou cinco das pessoas mais importantes do logar, taes como o escrivão Ferreira, o boticário Anselmo, o capitão Mathias e outros, conversava sobre o acontecimento do dia, na esquina da rua que conduz ao cemiterio; o acontecimento era o cazamento de Rita, afilhada do tenente Ribeiro, com o alferes Pedro Moreira Bentes, que entre os seus titulos contava o de ser protegido do dr. B..., chefe do partido liberal do Pará.

-- Disque elle é pobre, -- dizia o capitão Mathias -- por isso é até uma felicidade.

-- E o que tem isso? -- perguntava com o ar descontente o boticário Anselmo -- e o que tem isso, se ella não é de boa familia?

-- Estes homens de fóra são assim, observou o escrivão Ferreira.

-- Quaes! replicou o primeiro -- me parece que quem ganha não é o Ribeiro. O que é verdade é que a rapariguinha ha de ter um dia mais de trinta mil pés de cacáoeiro, seis legoas de terra, casa, escravos, e por este tempo em que ninguém sabe como ha de viver, não é para se dizer: fim!

-- Mas um homem deve saber prezar-se! -- tornava o intranzigente boticário -- Não é só de dinheiro que se vive!

-- Diga lá o que quizer, compadre, mas a isca não é para desprezar...

-- E' sina, disse o escrivão -- é sina! Pois quando havia de pensar o Ribeiro que lhe cahiria do céo um genro quando menos esperava? E um genro branco!

-- O que dirão os parentes?

-- E' boa, respodeo o capitão impacientado -- E' boa! Hão de dizer o que bem lhes parecer que não ha perigo que por isso o moço desfaça o cazamento. Eu sei muito bem em que dão todas estas soberbias.

-- Não é soberbía, isso agora não é! Mas um moço branco deve saber prezar-se, e não comportar-se como qualquer negro!

Estas palavras do boticário fizeram com que o capitão encolhesse os hombros.

A' pequena distancia outro grupo estava formado, mas de mulatas e negras.

-- Quem vae não gostar -- dizia uma chibante mulata de desoito annos -- é nhá Mariquinha do seo Ferreira. O moço já tinha disque promettido cazar com ella.

-- Mas elles eram namorados? -- perguntou uma creoula.

-- Parêsque, nhá comadre. Eu sei lá, elles lá se entendem:

-- Vuncê vae ver o baile, nhá comadre?

-- E bem, nhá comadre. Disque se dança até de manhã?

-- Assim será, parêsque?

-- Hum, hum.

-- Mas olhe que é mesmo feliz, aquella nhá Rita!

Como veem os leitores o casamento da Rita encontrava as opiniões divididas. A chegada dos noivos e dos padrinhos fez diversão á palestra dos curiosos, e na multidão correo a phrase.

-- Ahi vèm, ahi vèm já!

Eram cinco horas da tarde quando o Côrtejo entrou na igreja. Rita, vestida de branco, e com a coroa de flores de laranja estava admiravel. O tenente e o Moreira, satisfazendo o desejo da moça, traziam as suas brilhantes fardas da Guarda Nacional, e arrastavam as espadas pelas lages do templo.

O correspondente do Ribeiro e o escrivão Valle traziam a comprida sobrecazaca de panno,fechada na frente por um trespasse, a gravata larga de seda preta, e o alto chapéo de pello; só nas calças differiam porque as do negociante eram pretas, e as do escrivão de ganga amarella.

Duas ou trez senhoras acompanhavam a noiva, e uma muitidão de moleques e negras seguiam-nas.

Quem celebrou o sacramento foi o padre José; o sacerdote havia vestido a sua capa magna, e sorria-se para os noivos com ar de bondade paterna. O sim sacramental foi dito de parte a parte com firmeza; duas dúzias de foguetes subiram ao ar, e os recem-cazados, acompanhados por todos os curiosos tomaram o caminho da casa que lhes fora preparada e na qual reinava já a velha Rufina, a doceira mais acreditada de Óbidos, ajudada pela Margarida Preguiça, celebre pelo excellente chocolate, que preparava.

A festa esteve explendida. A orchestra compunha-se de seis musicos, e dançou-se desde que anouteceo; os moços conversavam rindo, os velhos teciam elogios ao novo casal, e o tenente Ribeiro, tendo despido a farda, porque fazia muito calor, andava em  angas de camisa de um para outro lado, dizendo chalaças, ralhando com um moleque curioso e intromettido, servindo chocolate ás damas.

Rita cahira em poder das amigas velhas, que lhe faziam mil observações e comprimentos; o Moreira era constantemente preza do escrivão Ferreira, que fora convidado para o baile, e que lhe explicava como era poderosa a sorte, e como eram os dous noivos nascidos um para o outro.

As filhas do José Lopes não tinham vindo, apezar das instancias de Ribeiro, movido pela filha, e a moça sentia realmente a falta das duas irmans; queria que presenciassem o seo triumpho. Todos pareciam contentes. N'uma occasião em que o sogro encontrou-se com o genro n'uma sala afastada, disse-lhe:

-- Heim? O Miguel chuchou no dedo!

-- Ora o que... pois acredita que elle tivesse a esperança?

-- Tenho a certeza, aquelle pirralho é assim ...pensava que a rapariga gostava delle, e embora fosse meo inimigo, não deixava de namorar-me a filha.

-- E' uma creança atoleimada... Ninguém sabe o que elle quer. Afinal de contas quem soffre com aquelle orgulho desmedido é elle proprio. Verá quando souber do rezultado da questão do Uricurizal.

-- Desta vez dei-lhe um golpe-mestre... Hão de reconhecer que o tenente Ribeiro é gente. Ah, ah, ah! Pensa que sou algum basbaque? que não sei como se fazem as cousas? que não é nada mais do que dizer: eu tenho razão... e ah, ah, ah!

E o tenente ria gostosamente.

Comeo-se, bebeo-se e dançou-se até as seis horas da manhã. O chocolate, a cerveja, o vinho branco, o café corriam em rios, e os sequilhos, os bonsbocados, as fatias douradas abarrotavam.

Moços, velhos e meninos enchiam os lenços de bolos, conforme o costume da terra, e os rapazes passavam-nos das bandeijas para a mão das mulatas, e negras que enchiam o corredor e atulhavam asjanellas, formando o que em Pernambuco se chama o sereno, mas que no Amazonas não tem nome proprio.

Lá pela meia noite, e a rogos reiteirados dos convidados a mulher do escrivão Ferreira dançou um lundú com o tenente; uma moça alta e magra cantou uma modinha conhecida; «Era uma nuvem de ouro», que ella pronunciava, segundo a prosódia paraense: «Era uma novemduro», acompanhada no violão pelo alferes Moreira.

Achava-se naquella sala reunida a sociedade mais illustre do logar: o Juiz Municipal, o Commandante da Guarda Nacional, e o do Forte, o Collector, o Agente da Companhia do Amazonas, o subdelegado, o Presidente e diversos Vereadores da Camara Municipal, o Commandante e o Immediato de um dos vapores particulares que sobem e descem constantemente o Amazonas, e que estava fundado no porto de Óbidos, e os mais importantes negociantes tinham vindo honrar com a sua presença as bodas da filha do tenente, e do protegido do dr.B ..., chefe do partido liberal da provincia.

Quando rompeo o dia dançava-se a ultima quadrilha. Os músicos cochilando tiravam dos instrumentos desafinadissimas notas, as luzes vacillavam, e o escrivão Ferreira seguia a sua sina dormindo estirado n'um sophá, e roncando como um porco.

Despediram-se todos, e ficaram sós o tenente, Moreira, Rita e algumas escravas que haviam trazido do Paraná-miri.

O capitão Mathias ia murmurando:

-- Que diacho de tenente este! Tem ouro em pó!

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<div "CAPÍTULO XXIII">



XXIII



Eram seis horas da tarde, e o padre José passeava no copiar da sua casa do largo da igreja, e parecia impaciente. De vez em quando ia até á porta da rua, e olhava para um e outro lado, a ver se avistava alguém; mas a rua continuava deserta, e o padre continuava cruzando a sala em todos os sentidos, e murmurando:

-- Eu já previa tudo isto... creio mesmo que não foi de todo máo, porque tira da cabeça do rapaz certas caraminholas. Mas onde demonio estará elle?

Afinal ás sete para as oito horas, quando já o padre estava disposto a fechar a porta e dormir, alguém bateo, e logo depois entrou. Era Miguel.

O rapaz vinha pallido, mas altivo, e mostrando que estiva possuido de uma resolução firme. Não tinha mais aquella contracção da boca de quem está prestes a chorar, contracção que lhe era habitual, quando alguma cousa o contrariava. Tudo nelle revelava grande mudança; era já agora um homem.

Trazia vestido um largo paletot pardo, que lhe ia pessimamente; cobria o um grande chapèo de Manilha, e a mão segurava uma bengala. Em vez dos chinellos do costume tinha grandes sapatos de couro branco, e meias de algodão. Assim vestido era feio porque não tinha aquella liberdade e desenvoltura que o caracterisavam.

O padre começou por estranhar o vestuário do sobrinho.

-- D'onde vens tu com tudo isso?

-- Não venho de parte nenhuma, meo tio, só estive em casa do commandante do Ligeiro.

-- Que diabo andas tu fazendo ha tempos para cá com esse commandante? Que négocios tem vocês?

-- Pura amizade.

-- Pura amizade... resmungou o padre, e encarando firme:

-- Já sabes que perdemos a questão?

-- Já.

-- Pois é verdade! Aquelle endiabrado Ribeiro sahe-se bem em tudo o que tenta. O Martinho Mendes trahio-nos, e o juiz esteve hontem no baile do cazamento. Creio tambem que o Abreo não deixava de estar peitado... é uma caipora! Pois ha alguém que ignore em todo o Amazonas que o Uricurizal pertence á familia Fernandes desd'o padre Raymundo, que Deus haja? Pois ha alguém que ignore que o mulato nunca pretendeo aquelle terreno senão há pouco tempo, e por despique? Não ha mais em que fiar, neste damnado Obidos, e desgraçado é aquelle que é obrigado a viver aqui!

E o padre continuou depois de pequena pausa:

-- E eu que estava tão seguro de que ganhávamos a questão! Pois se parecia tão evidente! Tambem o que esperar quando de um lado estavam um padre, uma mulher o uma creança, e do outro o tenente Ribeiro? O que admira é ter elle minado tudo tão surdamente que nem um mais esperto do que nós era capaz de descobrir... bem fez o Mendes que já recebeo o que lhe havia roubado o tenente!

E voltando-se para Miguel que ouvia de pé:

-- Então o que fazes? Vae já despir-te, e trata de dormir, que é melhor.

-- Não, senhor, meo tio, ainda tenho de sahir...

-- Sahir, e para que.

-- Prometti ir fallar com um rapaz, mas volto ja nesta meia hora.

-- Pois anda. Amanhã bem cedo acho bom que voltes para o Paraná-miri... e vae viver descançado.

E o padre passando a mão pela cabeça do rapaz, disse-lhe carinhosamente:

-- E deixa-te de intrigas, rapaz, vive descançado e contente na paz do Senhor; põe o coração á larga, que é isso que faz bem á gente.

-- Dê-me a sua benção, meo tio, porque é provável que quando eu voltar vmc. já esteja deitado.

-- Deus te abençoe, Miguel.

Miguel sahio.

A rua estava deserta, e as ultimas lojas fechavam-se. O rapaz poz-se a andar vagarosamente, cosido ás paredes até o logar em que está hoje edificada a capellinha do Bom Jesus, que é o logar mais elevado da cidade. Alguns bois soltos naquella campina vagavam por alli, ou ruminavam deitados na relva. O luar estava magnifico; do logar em que parara Miguel, goza-se de um panoram a soberbo.

A seos pés tinha elle a cidade, em que só se ouvia o latir de um ou outro cão ou o som melancholico da flauta do alfaiate Rebello; deante de si o Amazonas, como um lençol grande, corria mansamente com as agoas prateadas pela lua, e abria-se em certo ponto, parecendo rodear toda a cidade; perto a montanha que domina Óbidos, e por traz, por entre as arvores appareciam as agoas do pequeno lago, formado pelo rio, em cujas margens estão algumas casinhas de pescadores, com o seo tecto de pindoba, e suas paredes de barro escuro.

Miguel depois de ter parado um instante, como que para orientar-se, poz-se a descer pelo lado opposto do pelo qual viera, até que chegou junto de uma casa agora toda fechada.

Era a casa do alferes Moreira, em que se dera o baile que acabara na manhã desse dia. O rapaz depois de verificar que ninguém o via, chegou-se á parede lateral, tirou o chapéo e unindo o ouvido á caliça, poz se a escutar; esteve por alguns minutos assim, até que nada ouvindo, continuou andando até o quintal, arrancou duas estacas, entrou devagar, chegou-se á porta do copiar, agora fechada, e poz-se de novo á escuta, estando immovel bastante tempo. Afinal afastou-se d'alli e reganhou o logar do cercado por onde entrara, sahio e poz as estacas no seo logar. Ao voltar-se a lua dava-lhe em cheio no rosto angustiado; provavelmente ouvira alguma cousa que lhe despertara uma ideia má porque passava constantemente a mão pela fronte, como para afastar um pensamento.

Quando ia continuar o seo caminho deparou o moço com um moleque de doze annos que olhava para elle admirado ao mesm o tempo que dizia:

-- Ué, seo Miguel, o que vosmincê está fazendo?

Miguel ficou horrivelmente contrariado por ter sido descoberto, mas conhecendo que o melhor meio de remediar o mal era fazer calar o moleque, tirou dez tostões do bolso, e dando-os ao importuno, disse:

-- Toma, cala a boca.

O pretinho recebeo o dinheiro e disse, mettendo-o no bolso:

-- Pois se eu até nem vi paresque!

Depois foi-se correndo e cantando:



<poesia>

A mulher do Eduardo

Não come senão gallinha;

Ainda nunca foi princeza

Já quer ser senhora rainha.

</poesia>



Miguel desceo para o porto por um caminho pouco praticado e com dobrada precaução. Chegando ao logar chamado -Porto de cima,- soltou uma pequena montaria que lá estava, metteo-se dentro, remou de manso, e em breve encostou no vapor Ligeiro, que de caldeira accesa e fumegando, estava prestes a sahir.

Quando saltou na escada veio-lhe ao encontro o commandante:

-- Muito bem, meo amigo -- disse-lhe o velho marinheiro -- mostrou agora que é um homem, e cedo hão de elles conhecer que você vale mais do que todos os Moreiras do mundo. Estimo muito que seja de palavra, e conte que nada nos demoraremos; está tudo prompto, não ha ninguém de terra a bordo, e só esperavamos por você. Tenha coragem, não desanime, que espero vel-o em breve de volta a Óbidos. Então será a sua vez.

Miguel não respondeo, e seguio o commandante á camara onde lhe mostraram o seo camarote.

Meia hora depois o vapor Ligeiro descia o Amazonas.



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<div "CAPÍTULO XXIV">



XXIV



A tristeza reinava na fazenda S. Miguel. D. Anna, sentada na maqueira da varanda, embalava-se de leve, mas não com aquella doce serenidade dos outros tempos. O cachimbo ficava horas e horas apagado, e quando delle se lembrava a respeitável senhora apanhava-o dando um sospiro, e gritava com a voz repassada de angustia:

-- Gertrudes, traze fogo.

As mulatas coziam sentadas na esteira e cochichavam mas sem aquellas risadinhas de outr'ora. Os moleques vagavam pela casa, sem animo de folgar, e ao longe, no cacáoal, a voz monotona da guariba e o canto agoureiro do acauan. Só os japiins pareciam alegres cantando na mangueira.

O padre José viera vizitar a irman e contar-lhe a partida do sobrinho, declarando não saber explicar aquella cabeçada. D. Anna ouvia-o parecendo seguir attentamente os movimentos de uma gallinha, que ciscava alli perto. José Fernandes voltara no dia seguinte para Óbidos, e todos pareciam resignados á ausência do rapaz.

O velho Capucho vinha como d'antes passar algumas tardes na fazenda, e não deixava de exclamar mastigando:

-- Ora, pois se aquillo foi sorte da Maria Mocoim ... Em Camutá nunca acontece d'isto, apezar do Catá.

E o velho cacáoalista parecia seguro do que affirmva.





Recife -- 24 de Junho de 1875.



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NOTAS
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OBIDOS é uma pequena cidade da Província do Pará, situada a 180 ou 200 legoas da Capital na margem esquerda do Amazonas, a uma legoa pouco mais ou menos da foz do Trombetas. Julga-se que occupa o logar da antiga aldeia dos indios Pauxis. Exporta principalmente cacáo e peixe secco, e poderá ter até mil e duzentas almas; com um forte e um fortim; está edificada n'uma pequena collina, na parte mais estreita do Amazonas, que forma ahi uma angustura, e logo depois abre-se, parecendo assim cercar a cidade. Óbidos foi elevada à cidade em 1854, e a comarca só foi creada em 1867, de forma que na epocha em que se passa a nossa historia, ainda era um termo da comarca de Santarém. O seo clima é secco e sadio, e é a ultima povoação da Província do Parà, confinando com a Província do Alto Amazonas. Faz parte da Vigararia Geral do Baixo Amazonas, cuja sede é Santarém; é também pertencente ao Commando Superior de Santarém.



O Paraná-meri (Pará, mar-nhanhe(?)  correr-miri, pequeno-rio pequeno) não é um rio áparte, mas o mesmo Amazonas. Chamam no logar Paraná-miri a um furo ou antes a porção das agoas que se acha apertada entre duas ilhas ou a terra firme e uma ilha. No districto de Óbidos ha dous Paraná-miris principaes: o de baixo e o de cima (que é o do nosso romance). Nas suas margens ha sitios ou plantações de cacáo.



TENDAL é uma especie de giráo quasi sempre coberto, onde se põe a seccar o cacáo. A cobertura é em forma de tecto de casa.



EMBAU'BA embá-, ubá- páo; por corrupção embaúba. E' portanto errado dizer embaubeira, o que significaria arvore de arvore de embá). E' uma grande arvore que abunda nas margens do Amazonas. E' a Cecropia peltata de Linneo.

ANINGAES. A aninga é uma arvore de 2 a 3 metros de comprimento, de côr verde tirando para cinzento, que abunda nas margeus dos rios e lagos do Amazonas. Aningaes chamam-se os logares pantanosos, porque ahi crescem em grande numero as aningas, que pelo inverno ficam com as raizes n 'agoa.



MAQUEIRA OU maquiira. E' uma rêde feita de tucum, que é a fibra extrahida da palmeira astrocarium vulgare.



CHERIMBABOS. Animaes domésticos.



ACAUAN OU O acauán é uma ave grande, que a gente do Amazonas diz ser agoureira. E' inimiga das cobras.



VARANDA. E' uma casa grande e aberta, onde esta a meza de jantar. Fica na frente das habitações.



MONTARIA significa uma canôa feita de uma peça só. O que no Maranhão se chama-casco.



PAXIU'BAS. Palmeira de que se fazem arcos.



CROMOCORY e Sapucuá são dous lagos na terra firme, em cujas margens habitam pescadores e fabricantes de farinha. Deve ser antes Curumúcury.



TAPUYO. Segundo o sr. Alencar esta palavra deriva-se de taba e puir (o que foge da casa). No Amazonas dá-se este nome a todo e qualquer homem de côr vermelha.



URICURIZAL ou melhor Urucurizal (de urucú, vermelho). O urucurí é uma palmeira, com cujo caroço, de côr vermelha, se defuma o leite da borracha para o fazer coalhar.



PONTE. Nos sitios do Paraná-miri de cima não há o quo se chama propriamente ponte; um cedro amarrado a uma arvore da beirada, serve d'isso.



MURIXI ou muruxi é uma arvore de cuja casca se faz uma tinta avermelhada, com a qual tingem algumas pessoas as roupas, para as tornar mais duradouras, e consistentes.



TUCUMAN. E' uma palmeira do Pará. Da palha se fazem chapéos, e dos cocos aneis.



UNICORNE. E' um grande passaro (talvez o maior do Amazonas.) E' de côr cinzenta. Tira o nome de uma especie de corno que tem na testa.



TAQUARY. Diz o sr. Gomes de Amorim que se deveria escrever taquara-hy, porque a palavra è composta e significa canna d'agoa. Não cremos porem que assim seja não só porque na lingua tupy sempre o complemento vem antes do nome que rege, exemplo: Tupanoca, casa de Deus, Mucauácui, farinha de espingarda (polvora) etc., e assim taquara-hy significaria agoa de taquara, como também porque não nos consta que o taquary seja d'agoa. E' um arbusto de que se fazem tubos para os cachimbos. Taquara é frecha ou canna, taquary talvez canna fina ou pequena.



PINDOBA ou pindova é uma palmeira de cujas folhas se cobrem as habitações.



TIPITIS são tubos de talas tecidas com uma alça de cada lado, que depois de cheios de mandioca ralada ou de caroços (com polpa de cacáo, se penduram por um lado e puchando pelo outro para baixo, se extrae o liquido da massa que está dentro delle.



CUIAMIBU'CAS. São baldes de cuia, onde se guardam algumas provisões ou se enche agoa.



CORONEL ROSO. José de Araujo Roso, primeiro Prezidente da Provincia do Pará, nomeado por carta imperial de 23 de Novembro de 1823; chegou a Belem na charrua Gentil-Americana no dia 30 de Abril de 1824.



MOCAMBO. Aldeiamento de escravos fugidos. Há muitos annos que existe um no rio Trombetas, e os negros vêm vender o tabacco e a farinha que fabricam em Obidos.



FARINHA D'AGOA. E' farinha de mandioca amarella, a mais commummente usada no Pará e Amazonas.



IGARAPE -MIRIM (de igara, canôa.-apé, caminho ou como querem alguns agoa e mirim ou miri-pequeno. Caminho ou agoa necessária para uma canôa; riacho-pequeno.) E' uma villa da Provinda do Pará.



ANINGAS. Vid. Not. 4.



SARACURA. Eis O que diz Baèna: «Anda pelas margens dos rios, come peixinhos, bichinhos e arroz; fabrica o ninho sobre os arvoredos; é verduenga no corpo, nas pernas verde e os olhos pretos e mui scintillantes de maneira que parece ter cores differentes. A carne é saborosa. Os indianos chamão a esta ave gallinha do mato, porque o macho canta ás mesmas horas que o gallo; e dizem que as saracuras prognosticam chuva quando cantam, e que também cantam na reponta da maré. »



GUARIBA . E' uma especie de macaco.



CIGANAS. São passaros excessivamente barulhentos que enchem as arvores ribeirinhas do Amazonas.



EDUARDO. Eduardo Angelim, celebre rebelde de 1835, vivo ainda.



ERRATUM



O leitor corrigirá facilmente os erros typographicos que se acham n'este livro, e de que elle não poude ser expurgado.

A' pagina 60 (quasi no fim ) em Ingar da palavra «Indaué»» deve ser « eanêcaruca», que significa « boa tarde ». «Indaué» é a resposta que se dá à saudação, e corresponde ao « Deos lhe dê as mesmas» dos portugueses.
