<t> Arca açoriana </t>
<div "Arca - I">
Benita, vem aqui ao pé de mim, a debulhar saudades esquecidas no fundo deste baú. Nele mora e nele bate o coração da lembrança da nossa gente de antanho. Foi trazido na viagem pela minha bisavó Maria Amália, que tanto cuidado lhe teve a ponto de vê-lo desmantelado e perdido nos mal-tratos da maruja. Mas inteiro ele chegou, ela mesma é que se perdeu no desmantelo da morte que muitas vidas roubou em asperezas de dor no balanço da nau ingrata. A triste desventurada! Olha, repara, toca, a arca dos seus desvelos está inda rija e firme, só o fecho e as cantoneiras se cobriram de ferrugem. Também envelheceu nas rugas dos arranhões. Tenho os olhos cansados, que já se querem cerrar, é assim hora de te fazer guardiã desta herança da alma. Vamos ao rol, minha neta, das coisas aqui guardadas desde as terras d'além-mar, aviventando memórias. Este rico atoalhado desprendendo alfazema poucas vezes foi usado, só em festas, casamentos, natais, um batizado. Veio lá da outra banda do mundo, das ilhas açorianas, lá onde cedo tiveram seu bonito amor cativo minha avó rapariguinha, meu avô rapazola. Ela chegou na primeira, ele na segunda leva, aqui logo se casaram e sesmaria ganharam rente ao sítio dos pais dela, no Saco dos Limões. Agora espia que lindos lençóis de linho! Quantas noites de amor nos seus vales madrugaram... A touca que tens nas mãos parecendo um capuz de freira, era de uso nas searas terceirenses pelas mulheres do povo. Do sol decerto abrigou as bisavós de outrora. E esta pedrinha branca? Lê se puderes o que aí foi escrito, mas sei bem que não podes, que pela força do tempo as letras desmereceram. Um dia minha avó Nanda me confiou o segredo: dum lado as duas palavras eram -- SEMPRE CONSTANTE -- e do outro, revira, ela gravou -- DUDA-NANDA-1748. Esse amor durou toda a vida e nunca, nunca, se acabou. Lembro deles bem velhinhos, os dois juntinhos sentados lá no banco da cozinha. Sempre fiéis eles foram a um juramento feito de constância e lealdade, e ajustaram que o quebrador da palavra não voltasse para o outro nunca mais os olhos falsos. Cumpriram pela vida toda essa jura da juventude. Conheci os dois velhinhos. O vô Duda, muito teso e teimoso, só fazia o que queria, rejeitava, não tomava as mezinhices que a mulher lhe preparava. Às vezes embirrava de não dormir, e caso houve de amanhecer em pleno campo no frio. Ninguém podia com ele. A vó Nanda, um serafim de encanto, enrugadinha e formosa, era um anjo de bondade e meiguice. Está no Céu com Nossa Senhora. E agora esta faiança, uma desfalcada pilha de pratos tão delicados, um lavor de porcelana trabalhada no Reino, sempre ouvi dizer que foi legado da bisavó que morreu na travessia. O chapéu amarrotado que puxaste desse canto foi pertence do bisavô Jordelino, que com ele ia à Câmara, com este alto chapéu preto de abas largas abarracadas. Estes botões dourados guarneceram uma farda de garboso soldado do Regimento de Linha, um traje do meu pai José Maria, aquele que sozinho combateu e desfeiteou a milícia espanhola, uns dez mil homens armados em mais de cem navios de guerra! Cada vez que considero... Foi uma tormenta que nesta Ilha se abateu como se fosse uma tempestade de chuva e vento.

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<t> Tempestade na Ilha </t>

<div "I">

Nossa Senhora do Desterro, 24 de fevereiro de 1777.

FOI UM DESESPERO. A medonha notícia rompeu a noite espavorindo toda a gente, do Rapa aos Naufragados, como se o mundo fosse acabar. Fora do juízo, muitos se embrenharam nos matagais, outros escaparam para terra firme, e o demais povo tratou de esconder-se do invasor castelhano desembarcado em armas na Praia da Ponta Grossa. A caminho de casa, o soldado do Regimento de Linha tarda os passos, avexado pelo acontecido. Deveriam ter lutado -- reflete -- mesmo sem condições de vitória, em defesa da terra e da honra dos ilhéus, que preferível seria a derrota e a morte à vergonha de uma rendição sem glória. José Maria varava a passagem sombreada pelo arvoredo quando o negrinho trepado num alto galho de garapuvu, gritou:

-- Tá tudo escondido no engenho do nhô Jordelino!

-- Por quê?

-- Os espanhóis, ora! Tô aqui de espia. Você me deu um susto, pensei que fosse um deles.

Toma a vereda entre o cafezal, passando de largo pela sua e pela morada da tia. Avista a casa do avô. Como as outras, conserva trancadas janelas e portas, mas a chaminé expele fumaça. Contorna-a e se dirige à atafona. Bate. Alguém espreita por uma fresta e logo a vasta porta é aberta.

-- Ah, és tu? Vieste fugido dos castelhanos ou do vento?

Não dá ouvidos à caçoada do pai e joga-se num banco ao comprido da parede de barro, contra a qual descansa o cano da carabina. Arranca da cabeça o gorro e larga-o sobre o banco num gesto brusco.

-- Donde vens? -- pergunta o avô.

-- De Santo Antônio.

Nanda acerca-se do filho, sorri-lhe, toma-lhe as mãos:

-- Estás com fome, meu filho?

-- Morro de sede.

Ele desabotoa a túnica manchada de suor, enquanto a mãe em passadas ligeiras alcança a porta que comunica a casa da farinha com a morada dos velhos. Na cozinha apanha uma caneca e mergulha-a no pote. Acocorada junto ao fogão, a negra Dominícia reza:

<poesia>

Minha Santa Catarina,

vós sois a flor divina,

em sexta-feira da paixão

fostes a casa de Adão,

encontrastes três mil homens

bravos como um leão,

todos eles abrandastes

com a palavra da razão,

assim vos peço que abrandeis

dos espanhóis o coração.

</poesia>

Ao retornar com a água, Nanda ouve a mãe dizer:

-- Esta soleira do meio-dia é má companheira de jornada, mas pior que ela no corpo é beber água cansado e ainda por cima suado.

José pega a caneca que a mãe hesita em entregar-lhe, e com avidez a esvazia dum sorvo só; depois, enxugando com os punhos a barba gotejante, procura identificar as pessoas em torno, os olhos mais afeiçoados à penumbra. E indaga expressando uma estranheza a que não falta uma ponta de troça:

-- Por que este trancamento todo?

Do seu posto, trepado num barril, o pai replica com azedume:

-- Por quê? Porque vocês ofereceram a ilha ao inimigo, não souberam defendê-la como soldados que são!

Rijo em seus oitenta anos bem curtidos, a calva cor de cobre circundada por uma coroa branca sobre as têmporas, olhos vivos, largos gestos, Jordelino quebra o constrangido silêncio que se fez:

-- A gente corre perigo, meu neto, muito povo vai morrer nesta mal-aventurada ilha.

-- Isto até me lembra -- ajunta a avó -- o que se deu lá na ilha Terceira por obra dum terremoto.

Nanda indaga:

-- Quem sabe, Zé, queres um café com broa?

Ele diz que sim; o avô prossegue:

-- É grande o perigo, tudo por causa dos mandões. Acabo de chegar da vila, estive na Casa do Governo, segui todo o sucedido ali hoje. Eu vi com os meus olhos, ouvi com os meus ouvidos, ninguém me contou. Ainda há pouco eu falava que os nossos soldados não têm culpa.

Duda rebate:

-- Como não têm? Uma força de homens armados que se rende sem um tiro! E agora que é que vão fazer? Piar na roca?

O velho incita o rapaz à defensiva:

-- Dize lá, Zé, por que vocês não lutaram?

-- Foram ordens... por mim lutava de qualquer modo.

-- Eu não disse?

O pai volta à carga:

-- Se quisessem lutar, lutavam com ordens ou sem ordens.

-- Não, não se pode culpar o Regimento.

-- Então quem culpar? O Brigadeiro José, que fortificou toda a ilha? E para que todo esse trabalho e o dinheiro que se gastou?

Jordelino empertiga-se, repuxa a escova branca do queixo e desata:

-- Olhem, eu já disse que sei como foi que aprontaram a coisa. Vou esmiuçar o acontecido. Sou escrivão da Câmara, vocês sabem disso...

Era escrivão de fato. Após muitos anos de assédio perseverante, acabou impondo sua presença e por fim se viu nomeado para o cargo que, bem ou mal, mas com unção, vinha há tempo desempenhando. Sua ronda à Casa da Câmara remonta aos dias do desembarque, em 1748, quando se lançou à batalha pela concessão dos prometimentos do Conselho Ultramarino. Já se estabelecera no Saco dos Limões ao chegar a segunda leva, no ano seguinte, e houve o caso de amor da filha com o rapaz Duda. Embora contrariado, pois sonhava com genro de outra grandeza, teve de tolerar e mesmo encorajar aquela estimação por causa da saúde abalada da rapariga. E enfim foi obrigado a conformar-se com aquele destino menor e se pôs de novo a frequentar a gente camareira na diligência da sesmaria a que tinham direito os nubentes.

Neste ponto foi que se atravessou em seu caminho a peça do André Jacinto, que ganharia a disputa da terra se Jordelino não tivesse apressado o casamento da filha. Em suas alegações aos maiorais costumava repetir que «eles também formam casal de número, descendentes que são de famílias desembarcadas», e virou um dos seus incansáveis refrões este dizer: «Nós, os da primeira viajada, sempre fomos mais felizes, recebemos quase tudo o prometido; demorou mas se recebeu». Duda, que da Companhia de Ordenanças -- na qual eram forçados a alistar-se todos os homens válidos, solteiros ou casados -- transferira-se por livre vontade para o Batalhão de Linha, conseguiu dar baixa a instâncias do futuro sogro, que lograva o que queria à custa de muito importunar as autoridades.

No dia seguinte ao casamento, Jordelino pôs o genro a trabalhar em sua roça; mais tarde, sendo a este concedida a gleba confinante, só aos domingos Duda podia dispor de tempo para cuidar do seu sítio, para ir desmatando-o e destocando-o, no preparo do terreno da casa a ser levantada e da lavoura a ser amanhada. A bem da verdade, no seu obstinado propósito de conquistar a terra, de fazer frutificar o seu chão, não foi só nas mãos de Duda que Jordelino colocou a enxada e a rabiça. Disso apenas a filha foi dispensada, nem a mulher escapou, nem mesmo a irmã e o pai de Duda.

O caso de Ricardo chegou a inquietar o filho. É que os três -- Duda, o pai e a irmã -- haviam-se recolhido ao alojamento dos casais, na vila, mas depois que se desembaraçou o linho da trama amorosa de Nanda e Duda, Jordelino aconselhou-o a ir buscar os seus:

-- Aquilo não é lugar para vocês, precisam de mais conforto.

Então, o rapaz nem sempre aparecia no pouso dos casais, passando muitas noites sob um telheiro em pleno. Ao despedir-se, noite fechada, saía como a caminho da vila, porém dormia ali a dois passos e cedo estava ao lado da amada. Tempos passados, num sarrabalho, recordaria esse momento de sua vida ao ouvir cantarem:

<poesia>

Dorme na porta da rua

quem quer bem ao seu amor;

do sereno faz a cama;

das estrelas cobertor.

</poesia>

Ricardo a princípio resistiu ao convite do amigo de outros tempos, concordando afinal para não continuar vivendo longe do filho:

-- Está bem, vamos, mas Deus queira que ninguém venha a se arrepender.

Ambicioso e dispondo de escassos recursos, Jordelino não se conteve de pôr Ricardo no trabalho. Por gratidão à acolhida e por amor ao filho, o convalescente da malina contraída em viagem desmediu-se no esforço que lhe exigiam, levando Duda a, preocupado, interpelar o pai da namorada, que lhe deu toda a razão e chegou a recomendar repouso ao combalido. Contudo, entendendo que devia favores e queria pagá-los, Ricardo continuou a afadigar-se entre as leivas abertas no chão bruto. Por certo arrependeu-se bastante de ter voltado àquele teto, entretanto nunca se queixou.

Enquanto o solo era desmatado e arroteado, a lavoura plantada, debeladas as insidiosas formigas que devoravam os tenros brotos, os galpões erguidos, o engenho de farinha começando a ser montado, Jordelino orbitava os senhores camaristas, a pedinchar, a farejar concessões. Jamais lhe deram cargos nem comendas, mas ao fim de muita importunação conferiram a sesmaria ao novo casal. Com o tempo, foi-se tornando figura conhecida na Casa da Câmara, e útil, servil, gratuita. Após tantos anos de serviços não remunerados, veio a nomeação e chegou o inditoso dia da posse.

-- Sou escrivão, vi tudo, ouvi tudo. Manhãzinha rompendo, segui para a vila, que hoje tinha reunião marcada, eu ia ser recebido. Encontrei tudo muito diferente, num corre-corre danado, o povo num desatino. Com o coração na mão, alcancei a Casa da Câmara, que achei toda fechada e em frente um oficial à espera dos camareiros e servidores.

-- Para que, para prender vocês? -- indaga Quirino, um assustado vizinho ali refugiado ao lado da mulher, ambos ajoucados ao pé da cevadeira.

-- Não, gente, que bobagem! Para nos encaminhar à Casa do Governo, por ordem do senhor juiz de fora. Subi a Praça da Matriz e de longe vi as varas vermelhas dos vereadores: era o corpo municipal que em fila entrava no Palácio. Corri a me juntar a eles. Ali se fez a reunião -- era a segunda, que a primeira foi na madrugada -- com o governador da Capitania e o comandante militar, dela resultando o assentamento de pedra e cal do que se resolvera antes, a não resistência, uma decisão prudente, como lá disseram.

-- A covardia agora tem outro nome... -- ironiza Duda.

-- Não penso assim.

-- Pois eu penso que tudo isto não passou de covardia, nada mais. O que eu custo a acreditar é na rendição do Forte da Ponta Grossa sem disparar uma bala!

-- Eles avisaram o Governo que o ataque ia acontecer e pediram instruções.

-- Não tinham de pedir instruções, tinham de agir.

-- Mesmo com forças insuficientes?

-- Mesmo. A honra exigia isso. Afinal, fugiram sem dar um tiro! Agachado no centro da engenhoca, o escravo Romão resmunga:

-- Sem um tiro dos brancos... os canhões dispararam quatro vezes, foi o recado de dois negros, dois sujeitos de vergonha na cara.

Jordelino ignora o aparte; reenceta a discussão:

-- Fugiram, não, se retiraram.

-- É a mesma coisa.

-- Não, é diferente, eles não podiam esperar que o inimigo lhes cortassem a retirada, e sem outra ordem, abandonaram a fortaleza para não caírem prisioneiros em sua própria praça de guerra.

-- Ah, historiadas! Veja, e estes -- aponta para o filho -- estes debandaram por quê?

José Maria baixa a cabeça; o avô explica:

-- Ele já disse, receberam ordens, cumpriram, soldado não decide nada.

-- Se eu em vez de 46 tivesse uns 30 anos ou mesmo um pouco mais, ia lutar nem que fosse sozinho, do telhado das casas, da copa das árvores... e, pensando bem, sei lá, sou ainda capaz... não vou ficar aqui a fazer farinha e a secar peixe! -- exclama Duda e estala um chicotaço com uma tira de couro sobre um cocho virado, como se este fosse o lombo de um castelhano.

A mulher arrefece a fervura:

-- Ó homem, ninguém te está obrigando a fazer nada, só ficar assossegado no teu canto. Basta ouvires falar em guerra para te pores todo alvoroçado! Deixei a chaleira no fogo, vou passar o café.

Nanda toca-se para a cozinha enquanto o marido rosna qualquer coisa e por um pouco se aquieta. Abre-se então um intervalo de trégua em que os recolhidos na atafona só escutam os ruídos que vêm da cozinha.

Ensimesmado a ruminar ideias, José Maria custa a perceber a aproximação da prima, rapariga recatada de alma e desenvolta de corpo, lenço à cabeça, amplo vestido de pano feito pela avó em seu tear. Seus olhos se encontram. Ele lê descontentamento em suas pupilas luminosas.

-- A tia está te chamando -- diz-lhe a Rita em tom débil, meio rouco, e fazendo lugar no banco para sentar-se, arreda o seu gorro militar de modo que lhe parece desdenhoso, como se significasse o seu menosprezo a toda a desonrada milícia.

Ele pega o gorro e a carabina, e dirige-se para a cozinha. Duda reinicia as hostilidades:

-- O que ainda não entendi foi como entregaram esta ilha aos espanhóis assim de presente, sem mais aquela.

-- É até fácil de entender -- expõe Jordelino -- o que se passou. Olha, numa casa em que o marido manda por um lado e a mulher por outro, o que é que vem a acontecer? Desmantela-se na desordem, não é? Um diz é assim, vem outro e diz é assado, no que é que resulta?

-- Só malfeitorias -- responde o Quirino, quase num gemido.

-- Só malfeitorias -- repete Jordelino. Pois foi o que se deu aqui: a casa era mandada por dois, por El Rei em Lisboa e pelo Vice-Rei no Rio de Janeiro, cada um para o seu lado. A Corte de Portugal tinha aqui um representante que era o comandante militar, o brigadeiro Furtado de Mendonça, e a Corte do Brasil, vamos dizer assim, tinha aqui também o seu homem que era o coronel Gama Freitas, governador da Capitania, protegido do Vice-Rei.

-- E daí? A bandeira deles era a mesma... -- objeta Duda.

-- Daí que os dois homens não se entendiam, aí é que está a questão. Enquanto o comandante militar queria aumentar as fortificações, o governador contrariava as ordens. Assim foi indo tudo até que as naus inimigas apareceram na enseada de Canasvieiras. Eles se reuniram para resolver o que fazer, e discutiram, discutiram, se acusaram um ao outro, se farpearam... e nada resolveram, e os espanhóis chegando, e os espanhóis desembarcando...

-- E os espanhóis me desgraçando... -- lamúria Quirino -- esses infames me desgraçaram a vida!

-- Não foram eles, foi o teu coração -- considera a mulher encolhida a seu lado, num fio de voz compassivo, a mão descarnada dando-lhe pancadinhas na perna cruzada, e arremata: -- Foi o teu coração de ouro, meu velho.

-- Um coração de ouro é riqueza de Deus -- conceitua o negro Romão.

Quirino rompe o choro, a repuxar os ralos fios de cabelos grisalhos; Jordelino procura atalhar:

-- Que é isso de te descabelares por causa dumas patacas? E sem se importar com o que nos aconteceu mesmo de desgraçado?

O outro, a voz fininha:

-- É que me ficou maior a desgraça sem o dinheirinho que podia remediar!

-- Seja tolo, homem, dinheiro não remedeia nada agora. Olha, esquece essa bobice de dinheiro e trata de rogar a Deus que te salve das mãos dessa canalha. Temos a ilha debaixo do poder deles, isto é que é de maior.

-- Ah, para mim isto seria o de menos se eu tivesse o meu dinheirinho para me governar na vida! Ia agora para o lado que quisesse.

Foi o seu coração, certo que foi. Tinha vendido ao vizinho Cloraldino o trato de terra, resolvido que estava a mudar-se para perto da filha casada em São Miguel. Eram só os dois ali sozinhos, e agora sem vintém e doentes, de modo que acharam aquela a melhor solução. Apalavrado o negócio, foram os dois a São Miguel, escolheram uma casinha não muito longe dos campos do genro, fecharam o ajuste, mandaram aprontar os papéis aqui e lá. Hoje de manhã, conforme o combinado, Quirino bateu à porta do Cloraldino para receber o dinheiro, assinados os documentos, sendo surpreendido com esta negativa:

-- Não podemos mais fazer negócio.

-- O quê? Como é lá isso? O negócio está fechado, é só assinar a papelada e receber o dinheiro. Ontem de noite...

-- Pois é, se você me tivesse deixado pegar o dinheiro teríamos ultimado tudo ontem.

Quirino olha para a arca, lembra-se: a filha do Bernardino dormira sobre a caixa, e para retirar o dinheiro guardado o pai teria de remover dali a pequena; explica:

-- Mas a menina dormia!

-- Pois eu lhe digo: se você não tivesse sentido tanta pena...

-- Tive pena, tive... mas por que não podemos hoje...?

-- Será que você não sabe o que está acontecendo nesta nossa ilha? O que aconteceu de ontem para hoje?

-- Não, o que aconteceu?

-- Pois nesta noite a ilha foi tomada pelos castelhanos, pela armada real. Hoje todas as glebas desta terra não valem um tostão, e pior, os soldados vão arrasar com tudo, quem quiser livrar a pele que se retire para o continente. Eu e mais a família estamos nos aviando, você e dona Rosinha também deviam fazer o mesmo.

-- Mas, olha em que enrascada me meti eu...

-- Você só, não, toda essa gente. O negócio é sair daqui antes que a bernarda ronque. Então, entendeu tudo?

-- É, estou pondo tento... mas você não podia me pagar pelas terras?

-- Ó senhor! Não lhe expliquei tudo? Como é que vou lhe pagar por umas terras que, a bem dizer, já têm outro dono? Eu, que nem posso conservar como minha, no meu poder, a sesmaria que o governo me deu?

-- Mas nós tínhamos tudo tão bem ajustado...

-- Paciência, meu velho, a roda da vida às vezes desanda para trás.

José Maria termina a refeição apressadamente, absorto em seus pensamentos, mal respondendo às perguntas da mãe. De cócoras diante do fogo, Dominícia prossegue em suas rezas:

Bárbara virgem, aonde vais?

Vou ao céu, Senhor,

abrandar estes trovões.

O rapaz sai da mesa a mastigar e, sem uma palavra, encaminha-se para a porta. Nanda acorre.

-- Para onde te botas?

-- Vou em casa -- diz num resmoneio, sem conter os passos.

-- Menino, tira essa farda e vem te esconder aqui.

Não parece tê-la ouvido. Segue pela trilha no meio do mato, que passando pela casa dos titios, leva até a sua. Empurra a porta dos fundos escorada por uma pesada pedra. No quarto, retira da canastra uma calça de algodão e uma camisa de riscadinho, trocando o fardamento por elas. Descarrega a carabina e guarda-a sob o colchão. Esconde na cintura um facão de mato e agarra um gibão de pele de mula que estava pendurado na parede. Ao deixar a casa, esbarra com a irmã que, a mando da mãe, vem saber dele.

-- Onde é que vais?

-- Vou por aí.

-- Por aí? A mãe mandou te chamar.

Ele sorri, acena-lhe um adeus; Maria José insiste:

-- Para onde vais, me diz!

-- Por aí, matando os castelhanos que encontrar! -- grita já a sumir no rumo da estrada que leva à vila.

Acha a vila num tumulto desenfreado. A praia em frente ao descampado da igreja repleta de gente que clama, gesticula, zaranza entontecida, disputando os barcos ancorados. A baía está repleta de embarcações que a singram em direção ao continente. Uma boiada atravessa o canal a nado, conduzida por homens que, de suas canoas, bradam e batem com os remos nas ancas dos animais. José sobe a Praça da Matriz, ao contrário do povo que, desarvorado, se precipita para a orla do mar. Passa pela Casa da Câmara em construção há anos e ainda não de todo concluída, em cujo mastro tremula a bandeira real de Castela, que também percebe a ondular no topo da frontaria da Casa do Governo. Transpõe um charco e, após este, ladeia um ajuntamento diante do hospício dos jesuítas. Um sujeito com ar de quem se diverte diz-lhe que muitas pessoas se refugiaram ali e na capelinha, e quanto ao povo aglomerado na rua, uns estão querendo forçar uma entrada impossível, outros, paralisados pelo choque, permanecem à espera não se sabe de quê. Embora fechado desde 1760, quando da expulsão dos jesuítas do País, o estabelecimento abriga alguns padres mandados pelo bispo do Rio de Janeiro, os quais, atarantados, a princípio tentaram impedir a invasão, mas foram impotentes para conter os mais desatinados. Apesar da advertência dos sacerdotes, de que não dispunham de alojamentos nem de comida, um magote lá se instalou, na maioria mulheres com filhos pequenos.

Segue caminho e alcança a rua do Espírito Santo à procura da casa do Otaviano, companheiro de farda que, na hora do debandar, mostrara-se inconformado por não combater. Encontrada a moradia, bate à porta repetidas vezes com a aldrava de metal em forma de mão, e enfim um escravo assustado espia através da rótula. Em pouco, vem atendê-lo o colega, que lhe confessa não poder sair à luta contra os invasores devido à oposição dos padrinhos. Acrescenta contudo que o alferes quartel-mestre Ebrantino está organizando a guerrilha. A figura do alferes desenha-se na sua mente a gesticular, a esbravejar -- «Eu vou lutar nem que seja sozinho, quem quiser que venha se juntar a mim! A gente não vai vencer, mas dá uma resposta a esses atrevidos, faz um estrago neles!» -- disparando a arma para o alto, rasgando a bandeira do Regimento. Indaga:

-- Onde?

-- No Estreito, é lá que está reunindo os voluntários.

-- Em que lugar?

-- Num capão de árvores com muito abricoteiro-do-mato, no sopé dum morro arredondado, depois de passar uma légua de campo raso. Toma pela estrada geral até achar a várzea. Não tens como errar, mas cuidado com as feras, um dia desses uma onça matou um homem por aquelas bandas.

A retirar-se, pergunta:

-- E vocês, a família, vão ficar aqui?

-- Não, estamos de partida para São Miguel, e já devíamos ter abalado, mas o padre está nos atrasando. -- O padrinho, provedor da Fazenda Real, há mais de meia hora ouve as lamúrias do pároco, que entre amedrontado e indignado veio pedir orientação à maior autoridade que pôde encontrar na emergência. -- Não vê que os espanhóis mandaram prevenir o padre de que hoje de tarde vão cantar Te Deum na Matriz pela vitória das armas, e para aumentar o seu desespero, o sacristão e o sineiro fugiram!

José Maria acha graça, acena em despedida e desce a rua em direção ao Largo; contorna a igreja e, lembrando-se do sineiro fujão, ergue os olhos para os sinos quietos e mudos em suas torres que terminam em fusos pontiagudos. Quem irá fazê-los soar festivos pelo sucesso do inimigo? Evoca o tempo em que, por desfastio, andara a ajudar o preto Dedé a puxar as cordas do campanário e, sem querer, imagina-se no absurdo papel de substituto do sineiro naquela circunstância vexatória. Prossegue a caminhada, atinge a praça. Famílias em bandos, com trouxas e baús, desembocam de toda parte dirigindo-se para a praia. Uma senhora descabelada que vai sendo conduzida numa rede, exclama:

-- Valha-nos Nossa Senhora do Desterro!

A ideia ousada surge-lhe em meio à trilha sinuosa que leva a rampa do atracadouro. Estaca. Retorna sobre os passos, apressa a andada, alcança a rua da Trindade, galga-a, chega à capela do Rosário, cuja escadaria de pedra bruta sobe em ligeiras pernadas. Empurra a pesada folha de madeira lavrada. O templo está repleto de semblantes atemorizados. Vozes abafadas, choro de crianças. Sem deter-se, encaminha-se para a porta que, ao lado do altar principal, abre para a sacristia. Encontra o padre Jordão ajoelhado ao pé de uma imagem de Cristo crucificado, mãos postas, olhos fechados. Cuidando para não interromper a oração, posta-se em silêncio à ombreira da porta.

Tendo viajado com a segunda leva, o jesuíta faialense desceu à praia do Desterro junto aos doentes mais necessitados de assistência e consolo, os padecentes de escorbuto, febres, verminoses, internando-se com eles no Hospital Real da Ilha, onde permaneceu por quase dois anos todo dedicado aos enfermos. Não recebeu nem reclamou os prometimentos da Coroa: um quarto de légua em quadro para os passais de sua igreja, dez mil réis de ajuda-de-custo e sessenta mil réis de côngrua. Depois foi designado para servir no hospício, uma espécie de asilo que recolhia pessoas desvalidas, ao pé duma capelinha, na Praça da Matriz, entre a Casa do Quartel e a Câmara. Dedicou-se a obras caritativas e a trabalhos braçais no afã de melhorar as condições dos agasalhados.

Seu propósito maior, o ideal a que se devotou com força de alma, foi a instalação do Colégio da Missão, destinado a educar meninos. Batalhou em vão, defrontando obstáculos intransponíveis, dentre os quais o mais grave não constituiu a falta de dinheiro e sim o ceticismo, a indiferença geral. Em 1753 a situação já estava péssima, os donativos paroquiais atrasados de nove meses, enquanto o atendimento aos indigentes exigia sempre mais recursos. No ano seguinte aconteceu o que poderia parecer impossível: tudo piorou. Provisão de outubro mandou suspender a entrega de mantimentos aos eclesiásticos até que se fundasse o colégio, dando-se-lhes apenas oitenta mil réis de côngrua. Subiu de ponto a aflição do padre e de seus companheiros, tendo de despedir em muitos dos abrigados. Jordão redobrou esforços no malogrado projeto da escola, procurou o apoio das autoridades, de pessoas abonadas, obtendo, porém, tão insuficiente auxílio que não pôde abrir o colégio.

José Maria impacienta-se com a demora. Para dar sinal de sua presença, gira a folha da porta, que range nos gonzos. Barba e cabelos brancos, tez amarelenta, cor de açafrão, o sacerdote continua imóvel, só movimentando os lábios numa prece interminável. Certo momento, volve-lhe rápido olhar. Ao fim de alguns minutos, ergue-se com dificuldade e é ajudado pelo rapaz. Aparentando idade mais avançada que os seus 66 anos, padre Jordão está avelhantado, ressequido. Um homem marcado pela dor. De todos os golpes que o destino lhe desferiu, o que mais fundo cortou foi o sofrido aos 44 anos, quando o desânimo e a desesperança se aliaram contra a sua fé.

Em 1755, a notícia do terremoto de Lisboa, os detalhes do sismo, desestabilizaram-lhe a crença. Não podia entender aquele massacre de fiéis no interior das igrejas, esmagados sob os escombros dos templos que aflitos procuraram como segura proteção. Sua teologia vacilou, densa nuvem escura desceu sobre o seu espírito. Salvou-o da crise a graça de um sonho prodigioso por meio do qual, dizia, Deus lhe revelara a verdade.

Viu-se numa ilha solitária no oceano imensa em companhia de outros náufragos. Como a praia não oferecesse defesa contra as intempéries, um grupo se internou nas matas em busca de segurança e sustento, enquanto os que permaneceram no litoral mantinham os olhos fitos no horizonte e a levantar fumo, na esperança de que surgisse um barco salvador. De fato, pouco depois surge um navio e recolhe todos os que se encontravam na praia, sendo impossível resgatar os que estavam no interior. Jordão também é salvo e sente-se bastante feliz, mas sua alegria é obscurecida pela lembrança daqueles que ficaram na ilha, perdida a oportunidade de salvamento, talvez a única. Então lhe é dado ver o desespero deles e as lamentações a que se entregam, a ir e vir pela praia, não por terem perdido a nau libertadora, mas por suporem que os amigos e parentes desaparecidos tivessem sido vítimas do vendaval que, dias antes, se abatera sobre a ilha arrasando a orla marítima. Ao acordar-se, reflete: do ponto de vista dos que se embrenharam na mata, os que ficaram na praia teriam sucumbido arrebatados pelo furacão que varrera a costa. A evidente similitude de situações clareou-lhe o entendimento para aceitar os fatos e reconciliar-se com o Céu.

O desacordo do padre ao intento de José faz-se imediato e palavroso, contudo ele percebe no tom um frouxo inconvincente:

-- É uma loucura isto, não dou o meu consentimento! Provocar a sanha deles para quê? Para morrer como mártir, como herói? Que ideia mais despropositada!

-- Não vou morrer, eu escapo.

-- É arriscado demais, eu não autorizo.

-- Sim, padre; o que me preocupa é esse povo aqui abrigado.

-- Essa gente não vai ficar aqui, está indo aos poucos para a Capela do Outeiro, lá estarão todos mais protegidos. Para lá também me vou com os últimos.

-- O senhor devia era dar um sumiço. Sabe o que eles poderão fazer a um jesuíta? Os espanhóis também não entraram nessa perseguição?

-- Há muitos anos.

-- E então? Tem de se esconder melhor, pelo menos até saber como vai ser tratado. E se é deportado para a Espanha?

-- Deus Nosso Senhor não permita!

-- O mais acertado é meter-se lá no nosso sítio.

-- Outra vez? Não, vou para a Capela do Menino Deus.

Padre Jordão relembra sem mágoa e sem saudade aqueles anos em que andou foragido como um malfeitor. Atingiu-o em cheio, em 1759, o alvará que ordenou a expulsão dos jesuítas dos domínios da Coroa portuguesa. Sentiu-se destruído, sua vida inteira negada, nula a sua missão, repelido o seu amor aos humildes e sofredores. Avisado de que seria preso e enviado ao Rio de Janeiro, escapuliu à noite carregando num baú todos os seus pertences, e rumou para o Saco dos Limões à procura de Duda, cujo casamento celebrara há dez anos, tempo a que remontava a amizade que os unia, sem falar-se nos incidentes de bordo. Após a cerimônia na Matriz, compareceu à festa em casa de Jordelino, que desde então passou a frequentar dominicalmente, saboreando a boa mesa e a boa prosa.

Quadra houve, porém, em que sua presença ali foi motivo de desassossego para Jordelino, gerando desentendimento entre este e o genro. É que, em 1751, tendo os padres entrado em choque com a Câmara -- à qual Jordelino se agregara, a rodear e bajular as autoridades camareiras -- impedindo a estas de ocuparem na Matriz os lugares às mesmas tradicionalmente reservados, quando dos funerais de D. João V, Jordelino, sentindo-se também ferido, quis opor-se à presença de Jordão em sua casa, em solidariedade aos mandões da vila. Duda discordou, houve séria discussão, mas no final, com o mulherio a seu lado, acabou vencendo a questão e o sacerdote continuou suas visitas dominicais, embora o chefe da casa se mostrasse por algum tempo carrancudo e desatento.

O incidente não teve consequências, o relacionamento se firmou e, ao ver-se ameaçado de expulsão, o padre foi bater à porta do Jordelino, entendendo-se primeiro com o Duda. Aceita a hospitalidade que lhe ofereceram, ali se deixou ficar açoitado, a vagar pelos campos, só retornando à noite para a reza, a ceia e a dormida sobre um pelego no chão do engenho de farinha.

Confinado numa comunidade com cerca de doze moradias, depois de certo período conseguiu de forma muito modesta realizar seu velho sonho: abriu uma escolinha para a criançada da vizinhança. Dedicou-se aos pequenos com a maior humildade. José Maria, Rita de Jesus, Vilarinho e até a pequena Maria José foram seus alunos.

-- Não me escondo nunca mais. Vou para a Capela do Menino Deus a ajudar Dona Joana de Gusmão no atendimento do povaréu que acorreu à colina... -- dizia o clérigo ao rapaz quando invadiu a sacristia, aos gritos, uma mulher esquálida e bexigosa, feições transtornadas, a clamar:

-- Ai, meu anjo divino, não quero me arredar daqui para lugar nenhum, não me separo mais do senhor!

Arrojada ao chão, abraçada à sotaina, ela soluça enquanto o marido, da porta, olha apalermado, nos braços um pequerrucho e três mais taludos ao redor.

-- Minha filha, levante-se, acalme-se -- admoesta com doçura o padre; a mulher põe-se a lamuriar:

-- O senhor hoje não me conhece mais, estou uma velha, tive a varíola há dois anos, peguei o andaço que me deixou neste estado, mas já fui moça, já fui faceira... O senhor lembra de mim? Tinha só 17 anos quando fiz a travessia com os meus pais, que Deus os tenha na sua glória! Padre, lembra-se daquela mocinha que eu fui? Foi o senhor quem me valeu, os seus cuidados, as suas rezas me salvaram da morte pelas febres!

Forçando a memória, em sua mente delineia-se graciosa estampa de rapariga, e recorda uns olhos luminosos de sôfrega vontade de existir que costumavam fitá-lo risonhamente sonhadores. Curvando-se para auxiliá-la a erguer-se, conforta-a:

-- A beleza vem da alma, está nela, a minha filha continua formosa; levante-se, siga com os seus queridos para a Capela do Menino Deus, lá terão agasalho.

-- Queremos ficar aqui com o senhor! -- choraminga, agarrando-se mais às pernas do padre.

-- Cá também não vou ficar, eu também para lá me vou.

Foi difícil fazê-la desprender-se do sacerdote, mas enfim acedeu em ir juntar-se ao marido e filhos para esperá-lo à porta da igreja, então quase vazia.

Jordão arrecada sua parca equipagem, prepara mais uma vez a bagagem na incerteza dos dias futuros. José Maria, a seu pedido, tranca portas e janelas, feito o que volta à sacristia encontrando o padre em oração, baú ao lado; ao cabo de instantes Jordão está pronto para partir. Descansando a mão fina e descorada no ombro do rapaz, convida:

-- Vamos, meu filho, vem comigo para o outeiro.

-- Não, eu não posso, tenho de fazer o que lhe disse.

-- Ah, aquela loucura! Perdeste o juízo...

Atravessam a nave; José o detém:

-- O senhor deve cortar pela rua do Vigário, passar o rio da Fonte Grande, pegar a Tronqueira e os campos adiante do Caminho do Curral d'El Rei, é mais seguro. -- Sem transição, à queima-roupa, ele pergunta: -- Como é mesmo o toque de finados?

O bom velho tem um gesto de resignação e o instrui, um sorriso a repuxar-lhe o canto da boca. Quando ele já se encaminhava para a saída, onde a família da pobre angustiada permanecia a sua espera, foi que José atentou na sua veste:

-- Esta batina... tire, padre, será mais prudente.

-- Não, seja tudo por amor de Deus, isso não. Tirei-a por medo um dia e sofri muito; num outro dia, sem saber a razão, mas Deus sabia, tornei a vesti-la, e desde então vivo livre. Nunca mais vou repetir o que fiz.

Em certa manhã do ano de 1764, todos no sítio de Jordelino lhe estranharam o comportamento. Desencafua do baú a batina há muito guardada e, mandando para casa a pequenada em aula, toma o rumo da vila. Em vão os hospedeiros tentam dissuadi-lo do intento temerário. Diz que precisa ir, que logo estará de volta, mas não esclarece por que tem de fazê-lo. Cedendo a um misterioso desígnio, numa ação compulsiva, ganha a estrada. Ao defrontar a praia de Santa Bárbara, estaca na contemplação do panorama, a baía calma, de azul luzente salpicado aqui e ali do branco das velas ligeiramente agitadas pela brisa. Deixa-se ficar comungando com a paisagem de beleza e paz. Dado momento, um bote se aproxima e abica a praia diante dele. Enquanto alguns marujos desembarcados puxam a embarcação para a areia acima da linha das ondas, um companheiro corre ao seu encontro e diz-lhe:

--Padre, foi Nosso Senhor que trouxe o senhor aqui. Sou tripulante daquele patacho que lá se vê com mastro de brigue. Vim em terra só para buscar um sacerdote e encontro o senhor como se estivesse me esperando! -- Jordão sonda-o silencioso; o marinheiro prossegue: -- É que estão acontecendo coisas espantosas. Por três vezes levantamos ferro deste porto e tentamos alcançar o Rio Grande, mas não conseguimos atravessar a barra por causa de pampeiros e temporais. E por três vezes voltamos a arribar aqui. Já da segunda vez eu fiz ver ao comandante que era bom chamar um padre para benzer o barco, mas não fui levado a sério; agora ele consentiu que viesse buscar um, embora não tenha nenhuma crença, contrariado que está, sem saber o que fazer. Peço que o senhor venha conosco a bordo e benza o barco.

-- Faltam-me os objetos da liturgia.

-- É tão importante...?

-- Sim, não tenho nada comigo, nem água benta.

-- Mesmo assim, venha, lhe peço, não o achei aqui por acaso.

-- Vamos.

Seguiu no escaler. O comandante recebeu-o com um sorriso zombeteiro. O padre indaga:

-- Que levam para o Sul?

-- Açúcar, aguardente, coco...

-- Mais nada?

-- Outras mercadorias em menor volume. Ah, levamos também uma imagem sacra!

-- Quero ver essa imagem, pode mostrar-me?

Sob a risota sarcástica do capitão e de alguns oficiais-tripulantes, o padre é conduzido ao piso inferior onde, aberta enorme caixa, dentre as palhas surge uma escultura em madeira, um Cristo sofredor de expressão impressionante, em destaque os olhos profundos e dolorosos. O comandante informa:

-- É do artista baiano Francisco das Chagas, conhecido como «O Cobra»...

Jordão mira a imagem por longo tempo, ajoelha-se, fecha os olhos e se mantém estático sob as vistas desdenhosas dos circunstantes, que fazem coro às chufas mal disfarçadas do comandante. Ao fim, o padre assevera:

-- Esta imagem não quer ir para o Rio Grande, quer ficar aqui, é por isto que o barco voltou três vezes.

Não foi fácil convencer o comandante a deixar a encomenda, só aquiescendo depois de bem calculado o preço da escultura e do frete, e desde que se respeitasse o prazo máximo de poucos dias para ultimar-se o negócio. Acertadas as condições, inicia-se a penosa romagem do sacerdote. Há muito sumido de vista, enfrenta o perigo de ser apanhado pelas autoridades andando acima e abaixo à procura dos clérigos, dos membros das Irmandades e de pessoas abastadas do seu círculo de relações. No período aprazado consegue levantar a quantia estipulada. Dias depois, a imagem é recebida na praia por grande número de fiéis e levada em procissão para a Matriz. Ao amparo da mesma, no ano seguinte é criada, na Capela do Menino Deus, a Irmandade do Senhor dos Passos, que convida o padre Jordão para seu dirigente. Ali permanece até 1772, quando, atendendo o apelo da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, assume o vicariato da igreja que o invasor espanhol agora o obriga a deixar, menos por si que pelo anseio de estar onde possa ser útil.

Do campanário, José Maria observa a chegada dos navios de guerra, acompanha o desembarque das tropas e a tranquila tomada da Praça pela soldadesca. Túnicas pretas e azuis, culotes de cores claras, gorros simples e bonés empenachados sobem em colunas por ambos os flancos do largo deserto de povo, até que as vanguardas se encontram diante da Matriz. Dentro do vasto quadrilátero humano, a cinquenta passos da igreja, perfilam-se pelotões de infantaria e artilharia, o corpo da banda marcial, comandantes e oficiais graduados. Puxados por juntas de bois, vindos por terra, chegam ao local dois canhões de campanha que são dispostos à direita e à esquerda do mastro da bandeira.

Um clarim fere a tarde que declina, rompem tambores, faíscam baionetas, estalam os acordes do hino espanhol, o pavilhão real de Castela começa a ser içado. No exato momento que finda a cerimônia, soam os primeiros toques do sino da Capela do Rosário. A curtos intervalos, vibra sobre Desterro o lúgubre lamento metálico, sonorização da dor dos ilhéus. Encolerizado, o comandante-em-chefe ordena a um oficial que faça calar o sino a bala de canhão. Reúnem-se homens, distribuem-se tarefas, um grupo é mandado rodar o canhão a muque lombada acima, o que se faz com presteza, não sem dificuldade. Outro contingente é enviado a cercar a capela de onde parte a insolência dos protestos bimbalhados.

Em meio à rua da Trindade, instala-se o canhão. Preparam-no. Atiram. A bala atinge a torre, esburaca a parede, tangencia o sino rebelado, que continua a retinir insultos. Mas o segundo balaço alcança a boca de bronze, calando-a com o ribombo de um ponto final. Então, um piquete força a entrada do templo, arromba a porta e passa a vasculhar todo o seu interior à procura do audacioso sineiro, enquanto na Matriz os sinos abrem a repicar aleluias anunciando o Te Deum dos vitoriosos.

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<div "II">

São Miguel e Nossa Senhora do Desterro, 28 de fevereiro de 1777.

Um ratão do banhado corre-lhe pelo pescoço. Soergue-se assustado. Amanhece. A mata entreabre os olhos à luz indecisa que a passarada começa a saudar. Os camaradas dormem ao pé das cinzas da fogueira que os manteve acordados até tarde, após o suculento assado de carne de lontra. Recorda desgostoso as confidências que fez à roda do fogo.

José Maria integra um grupo de guerrilheiros em operações na zona continental norte, sob o comando do alferes Ebrantino, cujo paradeiro custara a encontrar depois da precipitada fuga da capela. Quando o piquete invadiu a igreja, ele esgueirou-se para o pátio interno separado do terreno contíguo por um muro de pedra que ágil escalou, ganhando o matagal, e, daí, transpondo colinas, atravessando pântanos, vadeando córregos, chegou à Praia de Fora, onde conseguiu pela manhã lugar numa canoa dentre as muitas que abandonavam a Ilha.

A turma já cumprira várias missões com êxito. Na véspera levou a bom termo ousada ação. Serraram na calada da noite uma ponte de madeira, provocando a perda de materiais de guerra e ferimentos entre a milícia inimiga. Após a operação, a coluna voltou ao esconderijo num recanto na encosta dum morro em São Miguel, junto a uma furna e a um filete d'água.

Ele torna a estender-se sobre a rala vegetação que lhe serve de cama, rente ao paredão de pedra ao longo do qual se rasga a enorme boca da furna. Sem retomar o sono, repassa a noitada alegre com certo descontentamento.

A ação bem sucedida e o delicioso repasto deram causa à boa disposição, que uns litros de aguardente ampliaram, para algumas horas de estreita camaradagem, a que não faltaram cantorias facetas e confissões pessoais. Em dado momento, a pedido dos companheiros, José Maria conta:

-- Tinha catorze anos... foi a minha primeira aventura: meti-me com um bando de rapazes mais velhos do que eu que fugiam do recrutamento, a bordo de um navio estrangeiro; éramos uns oito numa canoa e fomos todos recolhidos pelo patacho prestes a zarpar para o norte, um patacho inglês. O comandante nos fez saber que nos desembarcaria em Santos, todos acharam bom, eu não, queria conhecer mais mundo, pedi que me levassem em seu cruzeiro pelos sete mares... mas o capitão não concordou, decerto não quis se complicar com as autoridades, afinal eu era pouco mais que um menino. Fez-me descer em Santos com os outros. Não gostei, queria ir mais longe...

-- O mais longe que nós fomos foi Laguna, para o sul, e São Francisco, para o norte! Santos... és o mais viajado de nós! -- exclama um dos guerrilheiros.

-- Lá me iniciei na vida -- prossegue -- nos quatro anos que lá passei; trabalhava na pesca, dormia num rancho de canoas, tive o primeiro dinheiro ganho, a primeira mulher e as primeiras complicações. Comprei uma viola e me esmerei na praticagem, era depois muito convidado para festas e fandangos; uma vez me vi metido numa briga feia, quase morri e quase matei por causa duma rapariga; doutra feita, por um triz não fui preso e fuzilado por causa duma linda formosura que ainda hoje trago na mente.

-- Como lá foi isso? Ela era mulher casada? Tu que idade tinhas? -- indaga um companheiro, acesos os olhos lúbricos.

-- Tinha dezessete, e ela era casada, sim.

-- Dezessete? Eras uma criança!

-- Mas ela era ainda mais criança... tinha só quinze anos!

Explodem gargalhadas.

-- E o marido? -- alguém pergunta.

-- O marido tinha idade, aí pelos quarenta, era Capitão de Milícias.

-- Logo onde fosse cair!

-- E como foi a coisa?

-- Eu tocava bem viola, e ainda toco, e canto também um pouco, modinhas, redondilhas, cantigas de bailar, sarrabalhos. Conheci a mulher e o marido na festa dos Santos Reis; depois ele me convidou a tocar na festança dos anos dela, numa noite de São João. Daí em diante amiudaram-se os convites para ir espairecer a noite com o meu canto, e muitas vezes, a mando dela, o capitão me saiu à cata pelas tabernas do cais para me buscar, até que não foram mais precisos convites nem chamamentos, passava lá a maior parte do tempo livre, lá jantava...

-- Comias-lhe os pirões e a mulher!

-- Não no princípio... comecei a conviver com o pessoal do galpão, depois era recebido na cozinha, daí passei para a sala, até que...

-- Já sabemos: o capitão chegou em casa e te pilhou no quarto!

-- Pois foi...

-- E num enlevo de música e dança!

-- Bom, e aí, que fizeste?

-- Aí, escapei pela janela enquanto ele foi buscar uma arma. Escapei, me escondi, e depois soube que estava sendo procurado pelos milicianos para ser metido nas masmorras da Casa da Câmara. Com a ajuda de amigos, embarquei num brigue que rumava para cá. Voltei, safei-me daquela, mas me meti noutras aqui... -- sorve um bom gole de cachaça e afirma: -- Eu, quando esta campanha acabar, se ela não acabar comigo, vou me casar e sossegar; já tenho vinte e seis anos, chega de tanto desacerto de vida.

O camarada que, acocorado, revirava os espetos do assado, provoca:

-- Já escolheste a noiva?

-- Há muito tempo... é minha prima -- responde de pronto.

-- Conta como se deu o pedido -- inventam de especular.

-- Que pedido?

-- Ó homem, o pedido de casamento!

-- Não fiz nenhum pedido -- resmunga -- nós nunca falamos nessas coisas... sabem como é, uma coisa em que não se precisa falar, entendem?

-- Não, não entendemos. Vocês acertaram casamento sem falar disso? Nunca se viu coisa igual!

A risada é geral. Meio encabulado, José Maria não diz mais nada, nada mais dele arrancam na alegre noitada.

A manhã afasta aos poucos o crepe que envolve a mataria próxima e a floresta mais além. Esgotado o sono, levanta-se do leito verde. Sente-se descontente consigo por ter aberto a alma àqueles brutos, enquanto caminha à meia-luz da aurora em direção ao riacho, onde uma serpentina d'água saltita por entre seixos. É dia quando, lavado e reconciliado, regressa à companhia dos camaradas de armas, o pensamento na prima, que naquele momento se abeira do córrego nos fundos do sítio.

Rita de Jesus larga a trouxa ao lado da pedra de lavar e, ajoelhada, curva-se para mergulhar a mão na límpida e mansa corrente que atravessa os limites da gleba do seu tio Duda, terreno em que Timóteo, o pai, ergueu sua casa de pau a pique. Era este um rapazola quando chegaram os primeiros açorianos, tendo então ajudado seu pai, hábil construtor de casas, a levantar a morada de Jordelino. Na ocasião em que Das Dores, sua mãe, ali chegou com o irmão Duda e o pai Ricardo, trabalhavam ambos na construção do rancho dos apeiros e do paiol de farinha. Das Dores e Timóteo conheceram-se, puseram-se de conversas, gostaram-se e, em pouco, ajoujaram-se em casório, tendo Duda cedido o chão para armarem o ninho de taquara e barro.

Tem na mente o primo, que só viu de raspão naquele dia do medo. Que andará fazendo? Parece-lhe que ninguém em casa se preocupa, pois a vida toda se conduziu assim, passando às vezes largo tempo desaparecido, até anos, como daquela feita em que fugiu num navio estrangeiro. Saudosa e remorseada, recrimina-se por ter afiançado a palavra a Vilarinho, o rapaz da vizinhança bem apessoado e de posses que a assedia desde pequenota.

Nascido e criado ali na comunidade formada em redor da casa e da autoridade de Jordelino, Vilarinho é filho do falecido André Jacinto, o açoriano indesejável, o malfeitor, o fugitivo de cárceres, o que foi deportado pelos magistrados das Ilhas para se livrarem de uma carga pesada, fonte de contínuos incômodos, sujeito sem remissão. Logo ao desembarcar em Nossa Senhora do Desterro, André Jacinto Vilar, que em viagem fora posto a ferros por mau comportamento, entrou em conflito com as autoridades, exigindo de modo desabusado o cumprimento das promessas d'El Rei. Entendeu de requerer também sua sesmaria. Informado de que a ela só tinham direito os casais desembarcados ou constituídos no período de um ano, tratou de arranjar esposa apressada e levianamente. Em seguida escolheu exatamente a gleba que Jordelino «havia assegurado» para Nanda e Duda, lindeira à sua e em que corria a tão necessária aguada. O pai de Nanda teve de sustentar com o rixento uma luta áspera e longa para não deixar perder terras tão adequadas, e dentre as providências que adotou alinhou-se a antecipação do casamento da filha. André Jacinto teve de contentar-se, não sem insultos e ameaças, com uma sesmaria confinante à de Jordelino, porém do lado oposto ao manancial d'água. Desde que se instalou, foi-se dali a tranquilidade e começaram as incomodações por motivos de divisa, de águas, de pasto, por apossamento de animais e aves que lhe pisavam as terras, por estragos causados em lavouras por gente sua ou gado seu. Também criava problemas tanto por acoitamento de negros fugidos como por sua crueldade em relação aos mesmos, isto principalmente depois que conseguiu patente de capitão-de-mato. Por sinal que essa truculência foi que o levou à morte de maneira dramática. Ao deixar este mundo, legou sucessor quase à altura do seu porte na pessoa de André Jacinto Vilar Filho, o Vilarinho, que se diferençava do pai menos pelo caráter que pelo disfarce das ações, sempre amenizadas pelo véu de estudada polidez, pelas aparências enganosas.

Foi mesmo por essas qualidades falaciosas que Rita de Jesus lhe deu, por fim, o consentimento do seu coração. E agora está arrependida. Culpado também fora o primo -- reflete -- pois nunca lhe disse uma palavra de amor, uma palavra que selasse a certeza de ser amada. «Só nas brincadeiras e nos desafios ao sarrabalho, que enfim não passam de brincadeiras» -- ressalva e acaba admitindo: «Ele gosta de mim, eu sei... mas assim, sem um comprometimento... afinal estou ficando velha, já vou fazer vinte e quatro anos!» Retira do cesto as peças que trouxe para lavar sem perceber sua aproximação. Quando se alertou, ele estava a poucos passos e sorria-lhe. Vilarinho viu-a entrar no capinzal a caminho do córrego, ao sair para a cavalgada matinal pelos campos, a fiscalizar os negros no eito.

Desmontado, a trazer o cavalo pela rédea, acerca-se e endereça-lhe um cumprimento jovial. Ela retrai-se, sobe-lhe ao rosto um fogacho, procura esconder sob as largas saias as roupas íntimas que estão à vista num montículo. O rapaz chega-se-lhe mais, a rapariga o despacha:

-- É melhor que te vás, estou sozinha aqui, não quero que nos vejam.

-- Então é este o teu amor? Quem ama não fala assim...-- diz com maciez tocando-lhe de leve o braço nu abaixo da manga arregaçada.

-- Que amor? Sai daqui, eu gosto mesmo é do Zé.

Não se deixando impressionar pelo que ouve, ele pergunta:

-- E de mim?

-- De ti eu não desgosto... mas ele está em primeiro na minha afeição.

-- E o nosso casamento, lindeza? Não queres mais casar comigo?

-- Não, pensei bem... eu só casava contigo se não existisse o Zé.

-- Que ideia a tua! Casar com aquele maluco... um cabeça-de-vento, um pé-rapado! O que ele tem? Nada! O que ele é? Um soldado raso! -- Solta uma risada e prossegue: -- Eu posso te dar um futuro, um futuro de abastança, de vida sossegada.

Distinguem gritos diluídos na distância. Entreolham-se apreensivos. Logo, abrindo caminho por entre a galhada do moitedo, surge-lhes a escrava Cipriana, olhos esbugalhados de pavor. De tão aterrorizada, perde a voz. Só depois de sentada no barranco, assoprada e borrifada com água de riacho, pôde dizer que os espanhóis estavam no pátio reunindo toda gente, e dar seu recado!

-- Tão chamando a nhazinha e mandaram também chamar o nhonhô na sua casa!

-- A mim? -- pergunta Vilarinho, atemorizado.

-- É sim, o Romão foi lhe buscar.

Vilarinho pensa em fugir, mas domina-se e dá o braço à moça que, pálida de susto, suplica o seu amparo. Seguem pela trilha do pasto e, para cortar caminho, no desgoverno da ânsia, cruzam a lavoura de mandioca. Na área em frente à casa de Jordelino encontram uma coluna espanhola de arma em punho contra a fileira de gente. Ali se acham os velhos Jordelino e Conceição, esta a chorar abraçada à filha, Nanda. Duda, grisalho, dois sulcos profundos no rosto magro, mantém o olhar parado, a fisionomia dura, enquanto nele se arrima tremelicante a filha, Maria José. Das Dores aperta o braço do marido, Timóteo, que ri de nervoso. Completam o quadro alguns empregados e agregados, todos brancos, que os escravos foram dispensados da convocação. Vilarinho e Rita juntam-se à turma ao tempo em que o capitão da escolta interrompe a parlenga enunciada num espanhol mesclado de português. Retomando o discurso, o oficial por fim exige que todos jurem <estrang lingua="espanhol"> «fidelidad a Suya Majestad Fidelisima, nuestro Rey Don Carlos III». </estrang>

-- Nosso rei é Dom José! -- profere Duda.

-- Ahora es Don Carlos! -- vocifera o chefe espanhol e parte para as ameaças, avisando que todos quantos não reconheceram Dom Carlos como seu rei perderão as terras e seus bens em geral. Ao fim do falatório, pôs-se a consultar um a um. O primeiro a ser ouvido foi Jordelino, que declarou:

-- Eu juro por Dom Carlos.

A mulher repetiu-lhe as palavras e todos os demais fizeram o mesmo, exceto Duda, o pai, a mulher e a filha, apesar da carga de intimidações do castelhano que, chamando o oficial que trazia sob o braço um volumoso livro de capa preta, o qual desde algum tempo mantinha os olhos fixos em Maria José, manda-o anotar os nomes e outros dados tanto dos fiéis como dos insubmissos. A Duda pergunta onde mora. Ele aponta para a mataria e o capitão vê um beiral de palha por entre a copa das árvores. Com rispidez previne-o de que no dia seguinte o oficial encarregado das anotações irá a sua casa para, entre diversos procedimentos, recolher a carta de escritura. Concluído o rol de nomes e posses, inclusive gadaria e escravatura, e tendo recebido o juramento dos concordantes, feito de joelhos, mão sobre a Bíblia, o capitão ordena a retirada do piquete. Antes de afastar-se, porém, admoesta Duda de que deve no outro dia ter presente o documento de propriedade.

Pouco depois, Duda e Ricardo conversam com Jordelino, que censura a atitude tomada pelo genro e seguida pelo pai deste. Ricardo justifica-se com humildade e emoção:

-- Ai, Deus Nosso Senhor é testemunha do que me custou e à falecida, que se finou na viagem, o que nos custou deixar a nossa terra açoriana! E era para trocar por esta, que afinal também é chão português. Por tudo isto, quanto sofri e o que sofreu Amália! Agora, velho e acabado, passar-me para os espanhóis? Vejam só! Isso nunca, morro até, mas só quero viver debaixo da cruz de Cristo!

Desconcertado com as razões invocadas e de certo modo melindrado, Jordelino contrapõe:

-- Ó, homem, também não é assim! Portugueses e espanhóis, somos todos irmãos, todos são povos de Nosso Senhor Jesus Cristo, filhos do mesmo Deus.

-- Pode ser, mas estou muito velho para mudar.

-- Pois foi por isso mesmo que me sujeitei, por me ver velho demais para começar tudo de novo. Tanto sacrifício que fiz, e pôr tudo a perder duma hora para outra, e no fim da vida? Não, nunca! O melhor que vocês têm a fazer é, como eu baixar a cabeça e conservar o pouco que tanto custaram a juntar.

-- Isto eu não faço, não vou trair os meus maiorais nem os meus antigos que jazem nas suas sepulturas.

-- Isto não é trair, é sobreviver.

Calado até então, Duda intervém de modo brando:

-- O pai tem razão.

-- Não queria viver com tamanha mancha em minh'alma -- acrescenta Ricardo; o filho reforça:

-- Às vezes é melhor perder tudo, até mesmo a vida.

Jordelino volta zombeteiro e sagaz:

-- Vocês parecem duas crianças de peito, cheios de derretimentos pela pátria, pelos maiorais, pelos antepassados, tontices que soam bonito quando se está bem de vida e a barriga não reclama. A pátria... ah, a pátria é a que nos dá a terra e o sustento! Se agora tudo isto é do rei d'Espanha, paciência, a gente passa a ser espanhol!

-- Não sou desse pensar... -- remata Ricardo mansamente e, temendo que a discussão se agrave, trata de ir saindo dali, e ganha o quintal em passos trôpegos.

-- Coitado do teu pai, está velhinho! -- observa Jordelino, e conclui: -- Mas bem, eu o entendo, posso até desculpar, visto sua idade, sua saúde sempre tão abalada... o que me é difícil é te desculpar.

Duda se encrespa:

-- Que história é essa de me desculpar, de desculpar meu pai? Ou não ouvi bem ou as coisas andam pelo avesso.

-- Andam pelo avesso, não, vês pelo avesso. Não me admira também tu... o caso está que vocês não lutaram pela terra, quem lutou fui eu, eu que sofri, que me esfalfei, que gastei horas, dias, esperando em antessalas, que falei, requeri, pedi, implorei... se não fosse eu, nem tu terias um palmo de terra, aí está!

-- Tudo isso é verdade, mas por isso mesmo o senhor devia ser mais fiel a esta terra.

-- E estou sendo fiel, quero conservar comigo a terra...

-- Mas a fidelidade a quem lha deu a ganhar?

-- Ah, parvoíces! Já tenho oitenta anos, não posso bancar o tolo.

-- E de espertinho passa-se para a Espanha assim dum dia para o outro, como quem come peixe com farinha?

-- Não é melhor do que ficar nu?

-- Pode ser, mas deixe que lhe pergunte, meu sogro, como vai se haver amanhã, quando a frota de Dom José vier retomar a Ilha?

-- Ó, que bobagem! Dom José está muito doente, a morrer no fundo duma cama, e eu te digo, meu genro, que ninguém vai mandar frota nenhuma para cá retomar nada. Isto ficará para sempre na posse de Castela, podes escrever.

Duda torna a malhar:

-- Já disse e repito: se tivesse menos idade, eu ia lutar nem que fosse sozinho, não me conformava com esta afrontação, que enjeito de todo modo.

Jordelino suaviza a contenda;

-- Sempre o mesmo cabeça-dura, sempre o mesmo criançalho rebelde! E por falar nisso, onde se meteu o outro, o desmiolado do teu filho?

Igual pergunta é feita pela avó à mãe do rapaz. Estão as mulheres na ampla cozinha de chão batido, Nanda a lidar no fogão de tijolos soltos, Conceição descascando batatas à mesa larga, onde a velha escrava Dominícia escolhe feijão usando mais o tato que a vista, quase cega que está, além de surda. Nanda responde:

-- Ele disse à irmã que ia lutar.

-- Lutar? Sozinho? -- estranha a senhora que, apesar dos 77 anos, conserva o rosto liso e rosado; a neta conversa com a prima junto à janela que abre para o verde cafezal e de onde se avista, ao fundo, cimos do Morro do Antão Lourenço Rebolo; indaga-lhe: -- Que foi que o Zé te disse, Mariazinha?

Ausente dali, Maria José confidencia à Rita a impressão que lhe causou um oficial espanhol. Nanda levanta a voz:

-- Maria, tua avó está falando contigo.

-- Que é, vovó?

-- Que foi que o teu irmão te disse quando foi embora?

-- Disse... disse que ia lutar.

-- Como? Sozinho?

-- Não sei, acho que sim.

-- Ah, minha Nossa Senhora! -- geme Conceição, e desatando as lágrimas: -- Coitadinho do meu neto, decerto já morreu!

Rita sente um arrepio e busca atalhar:

-- Credo em cruz, vovó! Isto pode até chamar desgraça... o Zé sempre soube se guiar no meio do perigo. A senhora não devia... -- e a abraçá-la em ponto de chorar: -- Ele está bem, está protegido pela Santa Catarina!

Maria José corta a emoção das duas com uma gargalhada, e ainda a rir aproxima-se escarninhando:

-- Vejam só as patetinhas, as patetinhás! as patetinhás!

Dançando e sapateando, repete o estribilho, e a pantomima desanuvia o ambiente, desoprime os corações no riso contagiante. Nanda, ao fim das momices, adverte:

-- Tudo agora está melhor, afinal... vimos a cara deles! E seja como for, o diabo não é tão feio...

-- Tem uma aqui que até achou um muito lindo... -- denuncia Rita, e detalha: -- Aquele do livrão preto, o que ia anotando as coisas.

Maria José reclama:

-- Tu és uma não-sei-que-diga, boca-de-sabão! Nunca mais te conto nada!

A preta velha aparteia, sem interromper a peleja com os feijões:

-- Cipriana é uma boa rapariga, o que lhe aconteceu não teve culpa.

-- Dominícia, ninguém está falando na Cipriana -- explica Nanda enquanto as raparigas caem na risada; não a tendo ouvido, a escrava continua:

-- Ela está prenha dum macho cobridor que teve de receber.

-- Sabemos disso, negra, não se está falando da Cipriana, que coisa! -- exclama Conceição um tanto agastada.

Pela manhã e ao cair da noite, dava-se o ajuntamento de negros cativos, soldados e malandros de toda espécie na Fonte do Ramos, no campo da Figueira. Os escravos andavam seminus, os homens usando uma tanga sumária e as mulheres apenas um leve saiote sobre os quadris. Elas iam e vinham, à cabeça o pote d'água, as nádegas bamboleantes, os seios soltos balançando ao ritmo do caminhar. Ponto de encontro, a aguada servia aos ajustes de acasalamentos e, não raro, era cenário de sérias rixas.

Cipriana, neta de Dominícia, cria moça duma casa abastada à rua dos Moinhos de Vento, frequentava o local várias vezes por dia na busca de água. Crioulinha bonita e recatada, que além da saia vestia uma blusa, despertou o interesse de Togo, um preto jovem. E começaram os encontros, os entendimentos para uma união permanente. Nesse meio tempo, chegou à vila, precisamente à casa dos patrões de Cipriana, o negro reprodutor que ali aparecia de tempos em tempos, no cumprimento de contrato com o senhor para cobrir as crioulas em idade de procriar. Eis que aquela é incluída no grupo das que, certa manhã, são mandadas para o rancho nos fundos da chácara onde o negro exercia o seu ofício discretamente, a portas fechadas. Embora gritasse e esperneasse, foi arrastada ao local e ali deflorada.

Dias depois, reaparece na bica de olhos no chão, sem reboleios. Togo, que a aguardava, pergunta-lhe se é verdade o que ouviu dizer. Ela sacode a cabeça em assentimento. O namorado aplica-lhe um bofetão e, aos gritos de «Vou matar ele!», dispara em direção à casa dos Moinhos de Vento. Alcança o rancho sem qualquer embaraço, conhecido que era da escravaria. Bate à porta. Pela frincha da folha semiaberta, espia-o a encarregada do serviço, a que despe e examina as raparigas, dá as ordens e, uma a uma, as faz passar para a esteira do homem, a intervalos durante os quais ele consome jarros de leite e broas de milho com mel. Sem dar-lhe tempo de trancar a porta, Togo empurra-a com violência e invade o compartimento em que estavam algumas mulheres que aguardavam sua vez. Entre os gritos de susto destas, ele põe abaixo a porta do quarto. Surpreendido em pleno serviço, o reprodutor leva a pior, mas em pouco o agressor é contido pelo capataz e seus homens, chamados a acudir. Levado para fora, Togo foi amarrado ao cepo e, por ordem do patrão, recebeu trinta chibatadas no lombo antes de ser restituído a seu dono.

Machucada e desolada, Cipriana fugiu para o Saco dos Limões, atrás da avó, a quem pediu e rogou que conseguisse por interferência da Sinhá Conceição, sua compra pelo nhô Jordelino, que ao cabo de dias aquiesceu com relutância, pois a peça era jovem, saudável e de alto preço.

Dominícia empaca na cisma de que estão debicando a neta. Nanda grita-lhe:

-- A Ritinha estava falando da Mariazinha, burra velha!

-- Que foi que essa menina fez?

-- Nada! coisas aí da cabeça dessas tontas que não têm o que fazer...

-- Ela namorou um soldado espanhol! -- anuncia Rita, ao que a prima salta a puxar-lhe os cabelos e se atracam as duas às risadas.

Nisso, Conceição recai na choradeira; a filha tenta sossegá-la:

-- São bobagens de raparigas, minha mãe, não se incomode ...

A custo, Conceição aclara:

-- Não é por isso! Eu choro por vocês, que será de vocês agora? Não quiseram jurar por eles! o que eles vão fazer com vocês meu Deus?

-- Não vão fazer nada, isso é só fanfarrice, diz o Duda, só que...

-- Quê?

-- A gente decerto vai perder a terra, só isso.

Duda surge à porta, a cara amarrada, um papel na mão:

-- Ninguém vai perder terra nenhuma! Isto que está acontecendo é por pouco tempo, logo El Rei Dom José cá chega com suas naves de guerra e põe a correr essa espanholada desabusada. -- E entregando à sogra o papel: -- A senhora me faça o favor de guardar isto bem guardado na arca, é a carta de sesmaria das minhas terras que eu não vou dar para essa canalha castelhana.

Entronizada num nicho aberto na parede do corredor, a imagem de Nossa Senhora do Desterro brilha à luz de velas acendidas pela Cipriana por ordens da sinhá. É hora da novena que se repete ao anoitecer, uma tradição que vem dos Açores, onde as famílias já se congregavam para a comunhão da reza ao fim de cada dia de labuta. Estão todos ajoelhados em oração silenciosa, os escravos respeitosamente postados a pouca distância. Timóteo e Dominícia atrasam-se. Ambos na cozinha, ele aproveita a oportunidade para pedir à velha que encontre a botija da cachaça que às pressas em vão procurou. A preta vai sorridente buscar, detrás dumas latas, o desejado vasilhame, do qual despeja dois dedos numa caneca, mas antes de passá-la ao outro sorve um bom gole. E encaminha-se ao oratório meio renga. Quanto a Timóteo, ficou-se ali a bebericar e, não fosse a desconfiança da mulher, que o flagrou em pleno delito, teria-se embebedado. O marido a reboque, Das Dores retorna às preces em que todos se empenham no petitório pela paz, pela vitória final das armas portuguesas, da Cruz de Cristo. Todos, exceto Maria José e Cipriana. Aquela ora pelo militante espanhol cuja imagem não lhe sai da mente, esta pede à Corte Celeste que faça o seu crioulo voltar para o seu amor.

</div>

<div "III">

Nossa Senhora do Desterro, 3 de março de 1777.

A casa fica ao fundo de um terreiro em que ciscam galinhas e patos-do-mato. Na parede caiada de branco, a porta com ombreiras azuis e nela a moça de joelhos faz renda numa almofada. O oficial ordena ao piquete que se detenha, avança alguns passos e para a contemplá-la. Ao surpreendê-lo, Maria José enrubesce, baixa os olhos, interrompe a tarefa. Ele aproxima-se, cumprimenta-a em português. Ela não responde e, de repente, ergue-se e desaparece no interior da casa. Algum tempo decorre antes que retorne escoltada pela mãe. Nanda ouve com ar altivo o oficial que, sem arrogância, expressa o propósito de falar a seu marido, cujo nome lê no imenso livro de capa preta, tudo dito num espanhol que se esforça em aportuguesar-se.

-- Meu marido está na lavoura -- informa seca e breve.

Enquanto o chefe do grupo despacha um homem armado para buscar o dono da casa, as duas fazem meia-volta e vão para dentro. Aquele e seus soldados permanecem à espera. Ele anda daqui para ali, espia pela porta, admira a renda em execução. De algum canto surge um cachorro a rosnar, um soldado dá-lhe um pontapés, ele corre ganiçando mas torna a provocar. Maria José mostra a cabeça à janela, ralha com o cão, que se aquieta. Nesse instante troca rápido olhar com o oficial.

Duda chega a passos lentos, mãos nos bolsos, olhos em fogo, cara fechada. Interpelado, reitera sua posição recusando-se mais uma vez a prestar vassalagem ao rei espanhol. O militar abranda a voz, argumenta paciente, insiste, porfia em convencê-lo, só desistindo disto ao perceber a inutilidade do seu empenho. Pede-lhe a certidão de propriedade. Duda nega que a tenha, replicando o capitão que se ele é proprietário deve ter documento.

-- Documento eu tenho, mas perdi, isto é, não pude achar.

O chefe meneia a cabeça e manda um soldado pregar no portal da casa uma chapinha acobreada com as armas de Castela, sinal de que o prédio passava a próprio da Fazenda Real de Espanha.

Feito isto, o oficial comanda a retirada da coluna, após advertir o insubmisso de que, no caso de ser consentido continuar na posse da terra, será sob vigilância e impedido de comercializar os frutos da mesma sem pagar o devido tributo à Fazenda do Rei. Termina por conceder-lhe vinte e quatro horas para apresentar a carta de escritura.

-- <estrang lingua="espanhol"> Mañana volverei acá </estrang>... -- avisa, lançando um dúbio sorriso à rapariga que o observa da janela.

Depois que os pais a deixam a sós, Maria José sente-se presa de uma incontrolável tremedeira. Diante da almofada, experimenta prosseguir a trama rendada, contudo os dedos não lhe obedecem, de modo a fazer e desmanchar carreiras inteiras. Certo momento, irrompe o pai de martelo em punho e desprende o sinete cravado no seu portal, arremessando-o para longe. Nisso, chegam os avós, a tia Das Dores e a prima Rita, todos aflitos por saber o que ali estiveram fazendo os milicianos. Enquanto os demais somem para dentro de casa, Rita deixa-se ficar ao lado de Maria José, que lhe confessa a perturbação em que se vê, provocada pelo «formoso capitão, aquele de ontem...» A prima adora a história, caçoa, ri e, subitamente séria, pergunta:

-- Sabes o que aconteceu à Leonor?

Como a outra não soubesse, conta-lhe que a amiguinha de ambas, moradora nas vizinhanças, tentou matar-se. E ante o espanto de Maria José, narra:

-- O pai dela não fazia gosto naquele casamento, então eles combinaram fugir. No dia antes de rebentar esta guerra, ele lhe disse: «Leonor, passo aqui amanhã pela meia-noite, deixa a candeia acesa na janela, prepara a tua trouxa... o cavalo é bom, deixo ele ali na encruzilhada para não ouvirem o tropel». No dia seguinte estalou esta bernarda, e ele não apareceu: disseram que ele fugiu sozinho para o Continente... Ficou tão desesperada que não quis mais viver, cortou os pulsos com um caco de vidro, e ainda bem que foi acudida a tempo e se salvou de morrer. -- Rita conclui comentando: -- Estes homens não prestam mesmo!

-- Nem todos, minha prenda, nem todos! -- exclama Vilarinho avançando para elas.

-- Pode ser que nem todos, mas tu é que não escapas, tenho certeza! torna com vivacidade Rita de Jesus e, ao vê-lo aproximar-se demais com uma chispa maligna nos olhos, enxota-o: -- E sai daqui, seu atrevido!

Empurrado, o rapaz simula perder o equilíbrio e cai sobre o degrau de pedra.

-- Que mulherzinha má! -- queixa-se em tom fingido e, a endireitar-se, pergunta-lhe: -- Então, meu bem, já te decidiste por mim?

A rapariga dá de ombros:

-- Quando me deixas em paz?

-- Quando tiver a paz que também me tiras...

Ela chama-o de embusteiro; voltando-se para Maria José, ele indaga o que ali fez o piquete espanhol.

-- Não sei, estiveram aqui...

-- Não viste nem ouviste nada?

-- Ela viu e ouviu só um deles... -- diz a prima e, arrependida da inconfidência, desvia a atenção de Vilarinho:

-- Mariazinha, o tio continuou na teima?

-- Continuou.

-- Não jurou por eles?

-- Pelos espanhóis? Não.

-- Que cabeçudo! Eu jurei ligeiro... -- observa trocista o rapaz.

-- Tu eras capaz de jurar até pelo demônio! -- ajunta Rita.

-- Era, se fosse obrigado. Eu não podia perder, assim do pé para a mão, as terras que o meu pai tanto custou a ganhar e por elas morreu até. Olha, queres saber de uma coisa? Se não fossem os meus bens, fugia para terra firme como fez o Geraldo.

-- E deixavas a noiva no meio do fogo, como ele fez?

-- Bem, isto não... -- resmunga meio desconcertado; malha-o Rita novamente:

-- Isto sim! É o que até me parece estar te vendo fazer... mas não fiques tristinho, eu gosto de ti assim mesmo como és.

-- Já sei, gostas em segundo lugar...

Do interior da casa levanta-se então violento bate-boca, percebendo-se as vozes de Jordelino e Duda. A isso, Vilarinho raspa-se dali mais-que-depressa. As duas moças ficam a olhar-se aparvalhadas. Conceição e Jordelino aparecem -- aquela a puxar este, que continua aos gritos -- e saem precipitadamente.

Naquela noite, em meio ao serão na vasta cozinha agasalhadeira de Jordelino, Rita de Jesus repete o que disse Vilarindo a propósito da herança paterna, mencionando a afirmativa de que o pai lutou e morreu por suas terras. A um canto, folheando grosso volume pertencente à Câmara intitulado «História da América Portuguesa desde 1500 a 1724», de Sebastião da Rocha Pitta, Jordelino ouve e sorri.

André Jacinto Vilar, pouco depois do desembarque, seduziu uma rapariguinha de família desterrense. Ao sabê-la grávida, caiu fora. Tendo guardado segredo por algum tempo, ela enfim não pôde deixar de revelar a verdade aos pais, que a mandaram para um sítio até o secreto nascimento da criança. Esta, com uma semana de vida, foi colocada à porta do abastado comerciante Bonâncio, estabelecido à rua do Livramento e residente na Tronqueira, em chácara que se estendia à rua das Olarias e onde se viam, além da casa-grande, extensos campos de lavoura, senzalas e um magnífico engenho de farinha adquirido desmontado, por bom preço, de colono que o trouxe das Ilhas.

Certa manhã, Bonâncio tem uma surpresa: a família aumentara. Ao colo de uma mucama chora um pequerrucho por ela recolhido da soleira da porta.

-- Não tinhas de recolher esta criança! -- reprova o patrão, furioso; a negra arregala os olhos e ganha fôlego para se defender:

-- Mas, sinhô, a lei obriga!

-- Obriga, sim, obriga a recolher o que fica na porta até o clarear do dia para todo o mundo ver. Por que não arriaste o inocente noutra porta, como toda gente faz?

-- Ah, eu não sinhô, que pecado!

Intervém a esposa:

-- Não te rales por isto, Bonâncio. A Clarimunda está com cria nova, amamenta este também, e pronto. Vê só que belezinha é ele!

Naquele mesmo dia o comerciante compareceu à Câmara para relatar que, por piedade, acolhera um enjeitado exposto na sua porta.

-- Cumpriu o que reza o Livro dos Provimentos -- corrige o camarista.

-- Conheço as ordenações, senhor, e é bem por causa disto que me vejo diante da Câmara. Como estou pagando ama para criar o exposto, e os provimentos mandam que a Fazenda Real arque com as despesas...

-- Os provimentos não mandam que a Fazenda pague todas as despesas, só que auxilie no que puder.

-- Pois é isso que espero. E além da criação tem as roupas.

O pleito termina com a estipulação de 10 tostões de salário mensal mediante ordem ao Provedor, previsto ainda o pagamento de 2 mil e 400 réis a título de indenização pelo vestuário durante o primeiro ano.

Criado na senzala como se fosse um negrinho, o bastardo do André Jacinto afeiçoou-se a um escravo, o único pai que conheceu, de modo que, quando este resolveu fugir, acompanhou-o resoluto. Contava 15 anos. Sendo o negro capturado, o rapaz presenciou o seu bárbaro trucidamento e decapitação pelo capitão-de-mato que não era outro senão o próprio pai que ele jamais vira. Jurou vingar o bom companheiro. Dias depois apanhou de surpresa o facínora e matou-o da mesma forma, pondo fim à vida aventurosa do indesejável açoriano que, não se adaptando às atividades impostas pela nova situação, procurou algo mais de acordo com o seu temperamento forte, fazendo-se capitão-de-mato.

As desavenças daquela tarde levaram Duda e os seus a deixarem de participar do Angelus ao pé do oratório na casa dos velhos. Depois do jantar, Maria José mete-se no quarto a ler deliciada os romances rezados transcritos em papel do Reino que Leonor lhe deu horas antes, ao visitá-la em seu leito de convalescente chorosa e desesperançada. Os pais permanecem à mesa calados no alheamento das cismas, enquanto a candeia traça arabescos rubros na escuridão que se vai adensando. De inesperado, Nanda fere o silêncio.

-- Por que não juras duma vez esse juramento?

-- Eu? Jurar para não cumprir?

Nanda afirma o olhar nele e desfere:

-- Não seria a primeira vez...

Duda não sustenta o olhar. Lembra-se. Há treze anos.

Em 1764, na procissão que conduzia a imagem do Senhor dos Passos do trapiche para a Matriz, Das Dores reencontrou Mariana, que viajara para o Continente de São Pedro doze anos antes, a fim de reunir-se à família. Foi um alegrão. Apresentou-a a Timóteo, o marido, e mostrou-lhe a pequena Rita. Por seu lado, Mariana apresentou os pais, Manuel e Marocas. E contou que há cerca de um ano voltou à Ilha na companhia dos pais, fugindo da invasão castelhana em Rio Grande. Depois da romagem religiosa, demoraram-se a cavaquear na esquina da rua da Cadeia, defronte à Casa da Câmara em construção. Duda, Nanda e os dois filhos, o rapaz já taludo, juntaram-se ao rancho palrador. Das Dores saltitava de contente festejando o reencontro com a amiguinha de viagem que lhe fora tão querida naquele transe amargoso. Duda achou-a mais bela em seus 33 anos do que na tenra juventude. Dentre os fatos narrados por Mariana, de atropelo, figurou seu casamento, amarração que durou poucos anos.

Lico e Belinha também se achegaram à roda. A tia de Mariana e Das Dores relembraram os amores de Duda e a «amalucada». Nanda não gostou dessas reminiscências, menos ainda dos modos do marido para com a antiga namorada. Era visível seu encantamento. Causou-lhe por fim grande desagrado o convite da cunhada, ao despedirem-se, para que fossem passar uns dias com eles no Saco dos Limões.

Em casa -- ainda era a casa de Jordelino, pois Duda estava construindo a sua -- Nanda recrimina o procedimento do marido:

-- Todo derretido para ela!

Duda não respondeu, emburrou. Sem querer saber de rezas nem de jantas, rumou para a casa em construção e ali passou a noite sozinho, a ruminar a mágoa. Acordou-se muito cedo; quando Timóteo e os ajudantes chegaram já o encontraram trabalhando. O almoço foi-lhe levado pelo filho, como de hábito. À noite não buscou a casa, pernoitando outra vez entre cavacos, tábuas e areia. Na manhã que se seguiu, Mariana e a mãe apareceram «para passar o dia». Nanda respirou aliviada por estar o marido longe de casa. A visita foi transcorrendo amena, a conversação animada pelas lembranças pitorescas, não faltando o tempero das risadas, a que até Nanda se rendeu, condescendendo com a rival de outrora por sentir-se inteiramente segura.

Após o almoço -- almoçava-se às 10 horas -- Das Dores arrastou Mariana a conhecer sua casa, o que deixou Nanda em alerta, compelindo-a a acompanhá-las. Dali, como previra, saíram a passear pelos campos, e ela continuou junto, além das meninas Rita de Jesus e Maria José. Realizando os seus receios, acabaram inventando de dar uma espiada na casa em construção. Lá encontram um Duda macambúzio, que nenhuma atenção lhes dá, não interrompendo o serviço nem por instante. Mariana observa o jeito do casal e, a um canto, pergunta a Das Dores:

-- Que há com eles? O grande amor já se acabou?

-- É por causa de ti... -- sussurra a outra.

Mariana solta uma gargalhada, Nanda morde os lábios, Duda acelera o vaivém do serrote. Apesar da alheação deste, a mulher não se lhe arreda de perto enquanto dura a visita. Enfim, deixam a casa. Nanda viu quando a «descarada» endereçou, de longe, um matreiro adeusinho de mão ao marido. Desceram uma encosta coberta de capim alto e, enveredando pelo caminho sombreado de pitangueiras -- um túnel de verde espesso varado por finas lâminas de sol -- desembocaram à margem do córrego. As crianças puseram-se a brincar atirando pedrinhas na água corrente. Nanda deixou-as então, voltando de espírito descansado para casa. Pouco depois, estando à janela, vê passar Das Dores sozinha no carreiro do seu casinholo. Chama-a, pergunta pela turma.

-- Ficaram lá no riacho, estão se divertindo com as tartarugas. Tive de vir embora, elas não vão se demorar.

Ao cabo de bom tempo, surgem as duas pequenas; Nanda indaga apreensiva:

-- Quede a Mariana?

Rita explica:

-- Não sabemos, tia, ela sumiu, nos deixou lá sozinhas...

Por mais não precisou ouvir. Em fúria arrancou-se para a construção, transtornada pela certeza do que estava acontecendo. Nesse mesmo instante, a sós, que os trabalhadores já haviam-se retirado, Duda e Mariana, olhos nos olhos, mediam-se como dois lutadores prestes a se engalfinharem. Ela sussurra oferecendo-lhe os lábios carnudos e trêmulos:

-- Pelo menos vamos dar a ela alguma razão...

Fruíram um beijo sôfrego, longamente desejado. E foi assim que em cheio os pilhou Nanda, saltando sobre os dois adoidada, aos gritos. Mariana correu apavorada, como se lhe aparecesse o demo. Duda procurou conter a enfurecida segurando os pulsos, os braços, porém ela se desvencilha, é ágil, apanha uma pesada marreta que vê encostada à parede. Enquanto isto, Mariana chega esbaforida junto à mãe que, tranquila, toma uma limonada.

-- Vamos embora já!

-- Que foi que aconteceu, meu Deus Nosso Senhor?

-- Ela está louca, quer me matar, vamos sair já daqui!

-- Quem é que quer te matar?

-- Ela, a mulher... depois eu conto, vamos duma vez! -- exclama afobada, a puxá-la pelo braço.

-- Espera aí, temos de pegar as nossas coisas, e como ir daqui assim, sem carro nem cavalo? O Lico só vem nos buscar de tardinha -- alega a Marocas resistindo aos puxões da filha para fazê-la levantar da esteira; aquela insiste:

-- Venha! Vamos mesmo a pé, ela está louca, quer me matar!

Naquele momento, a marretaços Nanda despedaça paredes de barro ainda úmidas, quebra e deita abaixo esquadrias mal seguras, possuída de incontrolável ira. De longe, entre o matagal, o marido espia assustado. Num desespero de vida, desatinada, ela retorna a casa, sendo logo acudida pela Dominícia com os seus chás e suas benzeduras.

Duda embrenha-se no mato à procura dum lugar sossegado onde possa reunir o pensamento tresmalhado. Sente-se destroçado junto com a casa. Em catorze anos de matrimônio, nunca tiveram um desentendimento, unidos num amor verdadeiro, inalterável. Sempre contou com o seu apoio, mesmo quando das suas discussões com o sogro, não raras e até por vezes brabas. E agora aquela bruteza! Nanda era de fácil e agradável convivência, mantendo disposição alegre diante da vida, como se em constante deslumbramento por tudo e encantada com o mundo. Enlevavam-na o bucolismo da paisagem, a aragem do mar, a balada de um ribeiro, o sol e mesmo a chuva. Para ela não havia problema insolúvel ou dificuldade maior, que pudessem apagar o sorriso em seu rosto. Daí a desmedida do que aconteceu.

Ao cair da noite, desceu a trilha que levava à estrada para a vila. Na ponte do Vinagre cruzou com Jurando, pescador e dono de um curtume de pelame na desembocadura do rio da Fonte Grande. Ia de tarrafa ao ombro, a caminho da praia de Santa Bárbara. Conhecera-o dois anos antes, quando foi preso por se rebelar ao cumprimento das ordens do Governador da Província que obrigava a exercícios militares todos os homens válidos, até mesmo os lavradores, não tendo deles escapado nem os camaristas, que por sinal representaram à Corte, tendo esta «mandado sustar a violência». Recolhido ao Quartel da Tropa, na esquina da rua dos Quartéis Novos com a da Fonte do Ramos, ali conheceu Jurando, trancafiado pelo mesmo motivo, datando de então uma robusta amizade.

A Jurando nada disse do seu problema íntimo -- nem este lhe perguntou coisa alguma -- simplesmente aderiu à pescaria do amigo e em sua companhia passou dias a bordejar a baía sul até a Ponta dos Naufragados. Pernoitavam onde mais calhasse, às vezes em plena praia, ao relento. Tempo não lhe faltou para meditar, ordenar as ideias, recompor-se com a vida, porém obstinou-se em não aceitar a situação. Na manhã em que, de retorno à vila, se despediu do amigo, já tomara uma firme decisão.

Cortou extenso campo, transpôs o rio da Fonte Grande e, vencida a rua das Olarias, demandou a estrada. Ouvira dizer que o Lico continuava morando na mesma casa dos tempos da sua chegada. Crendo não ser difícil encontrá-la, meteu-se de marcha para a Trindade procurando não pensar no seu ato, sem querer medir-lhe as consequências, sabendo apenas que tinha de ir. No começo da tarde conseguiu localizar a casa, o estuque vermelho sobre o fundo verde da paisagem. Sem jeito de chegar, bater palmas, mostrar a cara assim sem mais nem menos, diante do acontecido, resolveu ficar ali por perto, a ver se avistava o Lico. Galgando uma elevação do terreno, amoitou-se e ficou a espiar a casa: ao lado o pasto, cabras, um cavalo, duas vacas, roupas num varal. Longo tempo passou até que viu o Lico cruzando o pasto, arreios nas mãos. Assobiou. O outro voltou-se, fixou a vista, e espantado reconheceu-o. Vagaroso, a cabeça de banda, veio ter com ele junto à cerca.

-- Que vieste fazer cá? -- lasca-lhe em tom áspero carregado de censura.

Duda engrolou uma resposta indecifrável. Lico mirou-o desconfiado e embatucou carrancudo. À espera do convite para entrar, Duda emendava parolagem, embora a visível impaciência do parceiro.

-- E o negócio dos macacos? -- pergunta ao fim de breve silêncio incômodo.

-- Macacos? Agora mesmo ia encilhar o cavalo... Adiante dos mangues tem muito.

-- Custa a caçar?

-- Custa, tudo custa na vida... a gente não pode é perder tempo... -- ele torna evidente o estorvamento, mas Duda finge não perceber:

-- Tu mesmo é que vendes a carne na vila?

-- Não, o arrematador vem aqui buscar.

-- E paga na hora?

-- Paga.

-- Quanto dá?

-- Depende da peça, umas valem mais, outras menos.

-- Por libra de peso?

-- É.

-- Quanto?

-- Olha, não repara, mais vale a gente trabalhar do que taramelar...

-- Pois vamos trabalhar! Eu vou junto, sempre quis conhecer isso de caçar macaco.

Tocaram-se a cavalo para um sítio que os índios chamavam de Itacorubi. Varando pantanais com o lameiro a roçar-lhes as canelas, alcançaram a floresta, onde Lico abateu três bugios, dois de bom porte. Durante todo o tempo Duda se mostrou loquaz, amigável, e Lico se abrandou um pouco, não tendo ambos mencionado o nome de Mariana. Ao voltarem, Duda foi entrando atrás do dono da casa, sem esperar convite. Estavam todos na cozinha -- Mariana, os pais e a tia Belinha -- abancados à mesa do jantar já terminado, e a surpresa deixou-os perplexos, exceto à Mariana, que não demonstrou espanto nem perdeu o rumo, recebendo-o efusivamente e para logo fazendo-o sentar-se. Enquanto os outros guardavam certo embaraço, num mutismo inamistoso, os dois entretinham conversa animada sob o olhar aflito de Marocas (Esta menina não toma juízo! Depois de toda aquela vergonha que me fez passar...) que suspira de consumida.

-- Sabes que estamos de malas para o Rio Grande? -- lança-lhe Mariana de supetão.

-- Outra vez? -- admira-se Duda.

-- Outra vez! O pai não quer ficar aqui, eu por mim ficava...

-- Não é questão de querer ou não querer... é que lá ficaram as minhas terras e haveres -- explica Manuel.

-- Quando é que viajam?

-- Numa semana ou no mais em duas -- informa a moça.

-- Estamos à espera duma escuna que traz gado do Sul -- aclara o pai.

A parolice de Duda e Mariana encompridou-se noite adentro, às vezes contraponteada pelos secos apartes de Manuel, ao tempo em que Belinha e Marocas pareciam cochilar quando não estavam trocando sinais de desaprovação. Lico desaparecera assim que esvaziara o prato. A certa hora, Manuel sorveu uma talagada de aguardente e levantou-se:

-- Toco a recolher.

Retirou-se para o quarto seguido da mulher que, ao passar junto à filha, pressionou-lhe o braço chamando-a de parte. A um canto do corredor, adverte-a:

-- Não te mete mais com este homem! Achas pouco o que lá fizeste a ponto da mulher querer te matar?

-- Eu lá não fiz nada, já disse, e é melhor a senhora não se meter nisso, eu sei o que faço! -- a réplica malcriada explode em tom que obriga Marocas pôr fim à prédica, não fosse chegar aos ouvidos do visitante.

De volta à cozinha, Mariana reenceta a animada prosa, enquanto Belinha anda em roda a bocejar acintosa. Dado instante, não se contém:

-- Nós não temos aqui como acomodar...

Mariana salta de pronto:

-- Não se incomoda, tia, Duda é de casa, ele dorme em qualquer lugar, aqui mesmo na cozinha até.

Ele ratifica:

-- Aqui está bem, sim, Belinha, em qualquer canto eu me ajeito.

Belinha retoma a andança nervosa, e de repente empurra com violência para dentro do fogão as pontas das achas que ainda ardem sob as cinzas, fazendo faiscar estrelas na penumbra. Subitamente, decide:

-- Vou buscar a roupa para fazer a cama no chão.

-- Feita a cama, pôs a sobrinha adiante de si: -- Vamos nos deitar, boa-noite, Duda.

Ambas deixam-no a sós dentro da escuridão atenuada pelo rubor que se desprende do borralho. No silêncio cheio do solfejo dos grilos, Duda reordena as ideias (Só há uma coisa capaz de me curar, de dar razão àquele estrago... amanhã me quito... onde? na roça, no mato, onde for...) na certeza do inevitável. Quase adormecido, alerta-o um estalo no assoalho, e percebe-lhe o vulto a se adiantar com cautela na obscuridade cortada pela faixa avermelhada que escapa do fogão. Vai ao seu encontro, sente-lhe o corpo tépido, ondulante, trêmulo, nu por baixo da leve camisola, os seios frementes bicando o tecido ornado de rendas. No catre improvisado, amam-se num arrebatado delírio com o ímpeto dos temporais que tardam a cair.

Treze anos se passaram. Nunca mais soube da quente e doce Mariana. Recorda-se de que no dia seguinte voltou para casa de mansinho e, nas caladas, meteu-se na construção meio desmantelada. No outro dia se pôs a trabalhar, e para os de casa «Papai voltou, papai voltou!». Nanda correu certa hora o filho apareceu por ali. Saiu correndo a gritar a vê-lo e, naquela tarde, teve café com beijus.

Tornando a fitá-la, nota que o seu olhar perdeu a dureza, o amargor. Ela insiste, agora a modo de súplica:

-- Jura esse juramento, te peço, vamos todos jurar e ficar em paz. Ele mantém a opinião:

-- Não, não vou ser infiel à nossa gente, à Cruz de Cristo.

-- Mas os espanhóis são também cristãos e, ao cabo de tudo, formamos uma só família. E Dona Mariana Vitória, a esposa do nosso Dom José, não é irmã do rei d'Espanha?

Há ruídos de passos, range a porta e surgem Das Dores e o marido. Enquanto a mulher vai entrando e se abancando, Timóteo dá as boas-noites e mal avança um passo dentro de casa. Conhecendo-lhe os gostos e esquisitices, Duda leva-o a cavaquear no terreiro onde um luar moderado tempera a noite e uma aragem sopra agradável. Das Dores, tão logo chega, desabafa:

--Nanda, eu já chorei muito hoje por causa dessa birra do Duda. O pai, depois de tanto que falei, já se dobrou à razão e está comigo. Vocês têm de mudar de pensar, nós todos temos de estar juntos, como sempre. Afinal, nhô Jordelino é como um chefe e sabe o que faz.

-- Conheces o teu irmão... ele é teimoso. Agora mesmo quando vocês chegavam eu lhe dizia para acabar com isso, que cedesse, mas já sabendo que era tempo perdido. Ele não volta atrás.

Das Dores contradita com veemência, a bater com os pés:

-- Mas tem de voltar! Tem de voltar, não compreendes? Pedi ao Timóteo que lhe falasse, afinal alguém tem de abrir-lhe os olhos.

Nanda não contém o riso:

-- O Timóteo? Ah, só mesmo ele!

A cunhada pica-se com aquilo:

-- Ué, que é que vocês pensam do Timóteo? Estão muito enganados com ele, sempre fizeram pouco caso dele, mas fica sabendo que ele tem um pensamento muito bom, muito certo!

-- Não é nada disso, mulher! -- Nanda tenta apaziguá-la. -- Eu até gosto muito do Timóteo, é uma criatura boa, não faz mal a ninguém nem tem boca para nada. Estou dizendo é que, por isto mesmo, não será ele que vai fazer o teu irmão mudar de ideia.

-- Eu sei que vocês todos malham o pobre só porque ele gostava de um copinho de vez em quando, mas ele deixou de beber -- reincide a outra, os lábios trêmulos, a ponto de chorar.

-- Aqui todos gostamos muito dele, é melhor te acalmares, deixa de ser boba, ora que coisa mais sem pé nem cabeça!

Nanda percebe que, da porta, o marido lhe acena chamando-a; ao aproximar-se, ele indaga:

-- Onde foi que guardei aquela botija de aguardente que ganhei do Salustiano?

-- Para quê?

-- É o Timóteo... pediu, tenho pena de negar ao coitado.

Achada a botija, Duda carrega-a para fora sem que a irmã veja. Enche uma caneca e entrega ao cunhado que, sorvido um bom gole, destrava a língua...

-- Eu tenho para mim que a razão está contigo não querendo jurar pelos espanhóis. Se pudesse, eu tinha feito o mesmo... a mulher... o que ela azucrinou o velho hoje, coitado!

Duda, a quem já desgostava o assunto, conduziu a conversa para o tema predileto do amigo: bichos, mistérios e mitos da natureza. E passou a degustar suas fantasias:

-- Um dia eu estava só de olho num sapo que mugia como boi, criado debaixo dum agrião-d'água, quando notei uns galhos secos se mexendo ao pé do bananal, fui espiar e que vi? Os galhos se retorciam transformando-se em gafanhotos! Firmaram-se nas pernas, abriram as asinhas e subiram numa revoada... -- narrava o Timóteo, algum tempo depois, no momento em que Duda vê aproximar-se a irmã de modo sorrateiro. Ágil, arrebata a caneca das mãos daquele e coloca-a a seu lado. Das Dores chega, queixo levantado, olhos inspecionadores, avista a caneca, apanha-a, cheira-a e volta-se para o irmão, vitoriosa:

-- Hum, heis? Depois o Timóteo é que é o beberrão...

-- Duda limita-se a sorrir; ela supõe o instante azado para investir: -- Precisas resolver duma vez essa tua situação com os espanhóis!

Duda enfrenta-a embravecido:

-- É melhor não te meteres!

Das Dores avança mais:

-- Me meto, sim! Não é justo que a gente pague por tua teimosia. Não te esquece que, se eles te confiscam os bens, nós também ficamos sem casa.

-- E é justo que agora eu pague por um favor que fiz um dia? -- replicava-lhe Duda, irado, quando Rita de Jesus surgiu do escuro, a correr:

-- Tio, o vovô está te chamando!

A mãe adianta-se com um risinho de mofa:

-- Ah, já sei, quer se queixar de mim...

Duda pergunta à sobrinha como está o pai, ao que ela informa:

-- Não está bem, acho até que está malzinho, quase não pode respirar!

Apressam-se todos a acudir. Encontram Ricardo arquejante, em estertores que asserenam e cessam de vez. Rendera a alma vivente.

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<div "IV">

Nossa Senhora do Desterro, 5 de abril de 1777.

Dia de feira na praia em frente ao Largo da Matriz. A freguesia, reduzida pela ocupação armada, zanza em meio às mercadorias expostas nas esteiras colocadas de um e outro lado do quartel da gente da marinha, um barraco de palha sobre pequeno trapiche. Duda negocia as hortaliças que trouxe pela madrugada em seirões balançantes no lombo do seu cavalo de arar. Veio arreliado. Na véspera, quando se sentia mais confiante, parecendo-lhe que a espanholada o esquecera, um bando de soldados assaltou-lhe a roça e talou-a quase por completo. Embora não tivesse entregue a escritura, perdera as terras de qualquer modo, daí a pilhagem praticada. Vendo-se roubado, tratou de salvar as sobras carregando-as para a vila na calma da noite.

Sob o olhar atento dos patrulheiros castelhanos, compradores e vendedores atracam-se em pregões e regateios. Certa hora, um fuzileiro acerca-se-lhe, ordena que se perfile, e mirando-o de alto a baixo, pergunta pela razão do luto; ao ser informado de que era «em memória do pai», balançou a cabeça e reencetou a ronda. Sem entender o incidente, o ilhéu volta aos chuchus e às abóboras. Tão logo se desembaraça das mercadorias arrasta os seirões vazios e, esteira enrolada sob o braço, dirige-se para as canoas embicadas onde o pescado fresco atrai alguma gente. Junto a uma embarcação em que se vendem tainhotas, uma mulher lamenta:

-- Que pecado matar essas pobrezinhas agora, tão crianças!

Trazendo nos cestos uns peixes, sobe a praia, passa pelo toldo das negras quitandeiras e encaminha-se para o largo em busca do cavalo que deixara pastando num matagal bem defronte à Casa da Câmara. Ladeia um trecho de águas empoladas e, mais além, uma fieira de couros estaqueados curtindo ao sol, batendo o mato lombada acima à procura do animal, que enfim acha no campo entre a rua do Vigário e a Casa do Quartel, a erguer-se à esquina da rua da Pedreira. O cavalo pelo cabresto, desce à orla da praia, não sem antes recolher dentre a galharia de uma árvore folhuda as peças do arreamento que ali guardava, em meio a uma espécie de potreiro em que até porcos se rebolcam num lamaçal. Preparada a montaria para a volta, sai à cata dumas folhas de hortaliça, na praia, com que proteger o pescado durante a viajada. Ao passar pelo renque das louças de barro, dá de cara com o Isauro, velho companheiro de armas nas lutas do sul.

-- Não costumo vir fazer a feira, tive de vir hoje... Não vê que o meu empregado fugiu, meteu-se nos matos, de medo dos espanhóis! Que remédio, fui obrigado a vir eu mesmo trazer essas louças... -- explica Isauro esticando o queixo para as pilhas de alguidares, pratos, vasos, enquanto aperta e sacode com vigor a mão do antigo camarada.

Estabelecido com morada e negócio no continente, em área ainda não pisada pela tropa invasora, Isauro fez-se de canoa à ilha cheio de susto. Da conversa entabulada, Duda depreende que ele está bem instalado na vida, com olaria e varejo de secos e molhados em São José da Terra Firme. Em contraste, narra-lhe o desespero da situação em que se vê, despojado dos bens. E arremata:

-- Nem posso olhar para as minhas terras agora, que me corta o coração!

-- Que tristeza! Ganhas no meu respeito por seres fiel, mas lastimo a tua sorte.

-- Nunca pensei que no começo da minha velhice semelhante coisa me fosse acontecer. Eles me ameaçaram de prisão e expulsão por não lhes ter jurado nem entregue a minha carta de propriedade, e não sei o que vão fazer comigo se vierem a saber que vendi, sem licença, o que restou da razia.

Tomado de assombro, Isauro reprova com vigor e trocadilha sem querer:

-- Ó rapaz, isto não devias ter feito! São bem capazes de te acabarem com a raça assim como te acabaram com a roça.

-- É, poder, podem... -- Duda sorri amarelo e acrescenta: -- Tenho é vontade de deixar esta ilha mal-aventurada.

-- Pois, por que não? Até que vem a calhar, homem! Muda para São José.

Ele coça a barba:

-- Que é que vou fazer lá?

-- Não te disse que o meu encarregado se foi? Ele cuidava da olaria e vinha fazer a feira.

-- De olarias não entenda nada.

-- Nem é preciso, disso entendem os escravos que tenho no serviço. Teu trabalho vai ser trazê-los debaixo da vista, não deixar a coisa por conta deles, porque do contrário acabam matando o tempo a mandriar.

Após ligeira hesitação, assentadas algumas condições, aceita o oferecimento:

-- Assim como assim, será por pouco tempo, até que Dom José chegue com a sua frota.

Isauro espanta-se:

-- Dom José? Ó homem, será que ainda não sabes que o rei é morto? -- E ante o ar apatetado do amigo: -- Pois morreu, pois morreu! Foi mesmo no dia que os espanhóis tomavam esta ilha, até parece uma coisa estudada...

-- Ah, agora é que estou entendendo o fuzileiro... pensou que o meu luto fosse pelo rei. E quem é que reina agora?

-- Ora, a filha, Dona Maria.

-- Hum, temos rainha... não sei, não sei... eu me mudo mesmo.

A viagem foi marcada para semana seguinte, quando Isauro tornaria à feira trazendo sua mercadoria num batelão grande, em que transportaria na volta a família do novo feitor das louças e de seus pertences de maior necessidade.

Quando Duda se pôs na estrada a caminho de casa, menos desanimado, esperançoso de sossego, a filha mais uma vez se encontrava com o capitão espanhol. No dia em que o piquete sob as suas ordens ali esteve pela primeira vez, Maria José trocou com ele uns olhares ariscos e uns tímidos sorrisinhos. O oficial prometeu retornar no outro dia, o que cumpriu à risca, mas retirou-se discreto e respeitoso ao saber do falecimento do avô da rapariga. Voltou dias depois, achando-a sozinha, ajoelhada à porta fazendo renda, parecendo-lhe mais linda em seu traje negro. Ao levantar a vista do almofadão em que ia trançando os fios ao baralhar dos bilros, surpreendeu-a a figura dele junto à cerca. Chamada com um gesto afável, ela -- o coração em disparada -- devagar ergueu-se e assim caminhou para ele, que lhe perguntou pelo pai como quem fala por falar, perdido o nexo das palavras. Não deu importância o miliciano à resposta balbuciada que ouviu, olhos cravados nela. Em mútua contemplação permaneceram um tempo sem conta, os dedos do moço mal tocando a mão trêmula pousada sobre a trave do cercado. Daí por diante passaram a se avistar e falar quase diariamente, em ocasiões para ela inesperadas, sempre contudo quando estava só.

Agora conversam ao pé do abacateiro que ensombra a vereda entre a estrada e a moradia. Maria José confia-lhe:

-- Todo o tempo meu é pensando em ti; quando a tarde desce e a noite se vem fechando, quando nenhuma esperança me resta de te ver ainda, no meu peito aperta uma tristeza irmã da morte.

De parte a parte, sucedem-se as confissões de amor; ao despedir-se, pesaroso, ele informa que foi designado para missão no sul da ilha, finda a qual voltará a vê-la. A alegria que lhe ilumina o rosto apaga-se de súbito para volver em seguida, num breve lampejo, ao receber pequeno embrulho atado com delicada fita. Então, dá-se ele pressa em sumir por entre as ramagens do caminho, momento em que Maria José ouve a mãe a chamá-la, e voltando-se a vê correndo em sua direção. -- Alcançando-a, Nanda pergunta, ofegante:

-- Que estás fazendo? Falavas com quem? Pareceu-me ver um homem, de farda! -- Maria José baixa os olhos, nada responde; a mãe repete a pergunta, a sacudir-lhe os braços: -- Falavas com quem? Vi a ponta duma túnica preta, um punho vermelho...

-- Era ele -- diz a rapariga, a voz num fio, os beiços a tremer.

-- Ele quem?

-- Hernández... eu gosto dele, muito, muito!

-- De quem é que falas? Daquele oficial espanhol? -- Ela confirma com a cabeça enquanto aperta contra o peito o pacotinho; Nanda reluta em entender: -- Mas o que é que estás me dizendo? O homem daquelas brincadeiras da Rita?

-- Era brincadeira só no princípio... depois nós conversamos, acho que ele também gosta de mim...

-- Quer dizer que vocês têm-se encontrado e conversado? -- inquire a mãe em tom de voz que sobe na escala do exaspero.

-- Temos.

A resposta franca e cândida mais impacienta Nanda, que exclama:

-- Ah, minha Nossa Senhora! Só nos faltava esta! Tu de namoro com o nosso inimigo!

-- Ele é amigo, a gente se gosta...

-- Como é que pode ser amigo? Não vês o que estão fazendo conosco? O que eles fizeram com a nossa lavoura? Como deixaram desesperado o teu pai, a ponto dele ir escondido vender na vila o que sobrou?

-- Foram os soldados, mãe, ele nem sabia disso.

-- Quem não sabia? Tu não tens um pingo de juízo? Será que estás louca? -- Perdendo a tramontana, empurra-a aos pescoções pela vereda acima e a faz entrar em casa sob fogo cerrado: -- Vai para o quarto e não me sai mais! Ora, onde se viu coisa mais disparatada! Não me faz isso outra vez, nunca mais!

Nanda deixa-se cair na cadeira de palha, peça confortável, de braços, esmerado trabalho do Timóteo; abatida, fica a cismar em tudo aquilo por longo tempo, entre suspiros. Aos poucos, o coração foi-se aquietando, levando-a a ir ter com a filha. Acha-a imersa em melancolia. Ante o seu olhar compassivo, repassado de serena dor, sentou-se ao seu lado, na cama, e falou-lhe de jeito carinhoso:

-- Minha filhinha, és tão criança... aos dezenove anos a gente pode se enganar tanto! Pode até tomar um candeeiro pelo próprio Sol... Estás iludida com esse homem, que decerto te impressionou pela farda vistosa, pela boniteza...

-- Mãe, não estou enganada, o que sinto é amor mesmo.

-- Amor? Que é que sabes disso?

-- Eu não sei, eu só sinto. Para mim não há nem nunca haverá ninguém igual a ele no mundo... eu só comparo ele a Jesus!

-- Credo, menina, benza-te Deus! E o que é que conheces do mundo, tu nascida e criada aqui neste lugarejo?

Maria José guarda breve silêncio, ao fim declara:

-- Assim vejo ele, mãe. Eu queria me deixar morrer por ele, eu só vivo com o pensamento nele... isto não é amar?

-- O falso pode te parecer verdadeiro, é o que estou te dizendo. E quem é ele afinal?

A rapariga anima-se, e é com vivacidade que desenrola:

-- Hernández é tão bom, tão bonito! Tem 25 anos, sabe, mãe, ele está se fazendo cirurgião, faltam só dois anos para ter a letra de formado, a carta de doutor. Meteram ele nesta impiedade de guerra contra a sua vontade, obrigaram... ele gosta de versos, me fez um muito lindo, quer ouvir?

Suprida de paciência e compreensão, Nanda admoesta:

-- Mariazinha, minha filha, escuta, ele pode ser bom, ele podia até ser um santo, entendes? Mas para ti está baldado, não te serve de modo nenhum, porque estamos sofrendo esta guerra e ele é nosso inimigo, aí está.

Ela volve os olhos lacrimosos para a mãe, que então observa sobre a cama uma caixinha semiaberta e pergunta-lhe o que vem a ser aquilo. A filha apanha a caixa e desta retira uma joia:

-- Ah, é o meu cordão de ouro que ele me deu! É bonito, não é?

Nanda examina a corrente que a filha a sorrir lhe exibe.

-- É de ouro! e tem uma pedra preciosa pendurada! -- exclama num entusiasmo espontâneo que se apressa em retificar: -- É bonito, sim, mas não pode ser teu, não devias ter aceitado, tens de devolver, não sei como, mas tens... -- Interrompe-se ao ouvir uma voz que vem dos fundos da casa, e segreda à filha: -- Esconde bem isto, que ninguém veja, que ninguém saiba, não conta nada nem à Rita, ouviste? Teu pai também não pode saber de nada, nada mesmo. E vê se tira esse homem da cabeça.

Logo que Rita, em seus modos estabanados, entrou no quarto da prima, percebeu algo estranho no ar e, perscrutando o rosto de Maria José, indagou se ela havia chorado. A tia adianta-se em explicar os fatos, reduzindo-os à expressão mais inconsequente:

-- Tua prima é uma tontinha e tu também não ficas atrás, és outra desmiolada... aquela história do oficial espanhol, aquelas brincadeirinhas de vocês, vê bem no que deu, ela ia levando a sério, vê só!

-- Eu sempre levei a sério, a Rita sabe... -- interpõe Maria José apontando para a prima que, assumindo expressão circunspecta, assevera:

-- Sei que com o amor não se brinca.

De repente, tudo aquilo lhe pareceu cômodo, e Nanda desatou a rir descontrolada, quase a finar-se, fazendo-lhe coro as raparigas. Ao cabo das risadas, o coração mais desoprimido, deixa-as a sós, recomendando por gestos «bico calado» à filha. Assim que a tia se afasta, Rita pergunta:

-- Ela já sabe de tudo?

-- Sabe... ela nos pegou hoje, ele estava se despedindo.

-- Hi, que azar! Mas ela não parece ter ligado muito...

-- Rita, ele foi mandado para outros lados, vou ficar sem ver ele por uns tempos.

-- É, minha rica, vai te acostumando.

-- Estás sendo má! Eu sei que o nosso amor é impossível, mas não posso deixar de sentir o que sinto. Queria viver noutro mundo com ele...

-- Neste mundo mesmo estava bom, se deixassem esta estimação durar.

-- Não vão deixar, eu sei...

-- Deixar, não deixam, é mais que certo... mas o amor é tão forte que às vezes vence tudo, quando tem de ser, acaba sendo, contra todos os atravancos.

Mais tarde, chamadas para o almoço, aparecem de bom ânimo, que Nanda cuida em manter vivo, não viesse o marido, ao chegar, ter nova incomodação. Quase a servir a comida, ela escuta o tropel do cavalo e corre a encontrar Duda na porteira. Disfarçando a sua alegria, recrimina-o pelo malfeito, «ainda mais sem me avisar», numa seriedade duvidosa, acrescentando, como se o desculpasse, haver adivinhado o que se passara. As gurias surgem e serelepes o abraçam. Ele descarrega os seirões, entrega à mulher alguns peixes, outros à sobrinha, que logo os leva à mãe, e ainda outros à filha para que os dê aos avós. Só muito depois, quando na cozinha de chão batido saboreavam o caldo de peixe, decidiu-se Duda a contar sobre a resolução tomada, começando com rodeios, a pintar os perigos a que se expunham se ali continuassem, e terminou, um tanto inseguro, revelando o trato com Isauro, a mudança para São José da Terra Firme. Receava que Nanda lhe desaprovasse o passo, que se fechasse em amuos ou caísse em prantos, porém ela o surpreendeu sancionando:

-- É o melhor para nós.

Admiração maior veio em seguida ao ver a filha desmanchar-se em choro. Levantou-se e, afagando-lhe a cabeça, pôs-se a consolá-la:

-- Minha filha, Mariazinha, que é isso? Vamos sair daqui por pouco tempo, depois voltamos para a nossa casa!

A rapariga continuou em sua choradeira emendada e, por fim, correu a refugiar-se no quarto, desabando sobre a cama. A mãe saiu-lhe no rasto, depois de aquietar o marido!

-- Não é nada, podes comer sossegado, eu vou lá, isso já passa, são coisas de mocinha...

Ao cabo de muita lida para estancar aquela pranteação, ouve da filha um lamento sentido:

-- Nunca mais vou ver ele!

-- Até foi melhor assim, minha filha, não devias mesmo ver outra vez aquele homem, não te lembras do que conversamos?

Agarrando-se a um detalhe, replica astuta:

-- A senhora disse que eu tinha de devolver o cordãozinho... agora nem isso!

-- Deixa, eu mesmo vou tratar disso.

-- Tratar como? Ele agora está longe, e quando voltar não vai me encontrar. Nunca mais vou ver ele!

-- Ele foi para longe? Filha, não vês que assim tudo ficou mais fácil? Deus Nosso Senhor dispôs as coisas com certo, tu vais esquecer dele mais depressa.

Maria José não quis dizer nem ouvir mais nada, reatando o choro.

Nesse momento, acompanhada de Vilarinho, Rita passava pelo Jordelino, que descascava uma laranja assentado num tronco caído. O velho não se aguentou de perguntar:

-- Menina, o que é que vocês estão fazendo?

-- Nós, nada.

-- Aonde é que vão?

-- A lugar nenhum.

-- Hum, olha o que te digo, esse rapaz não é de fiança -- aconselhou-a ao ouvido.

Ela riu-lhe na cara e se afastou com o parceiro para os lados do cafezal; ali, num sítio que achou apropriado, o rapaz lhe armou um bote há muito arquitetado. De repente, segurando-a pelos ombros, investiu bruto e desajeitado para beijá-la na boca, entretanto lhe malogrou o intento a ligeira reação da rapariga. Depois, esta endireitou-se molestada e, sem olhá-lo, caminhou para o bosquete no limite das plantações de Jordelino. Ele seguiu-a. Estavam os dois sob uma árvore, contrafeitos, mudos, e escolhia ele as palavras com que consertar o desatino, quando soou pelo vale o nome dela, agudo como um toque de clarim. Era a mãe que a chamava. Rita de Jesus arrancou-se dali sem mais esperas.

Ao fim da tarde, mãe e filha seguem pela vereda da casa dos velhos, para a reza familiar. Já encontram os outros imersos em suas preces. Ajoelhadas diante do oratório, ao lado de Conceição, Nanda e Maria José perpassam o rosário. Quanto a Duda, deixou de frequentar a casa do sogro desde o desaguisado daquele dia em que teimara em não submeter-se às exigências do invasor. Das Dores e Rita cruzam por Jordelino, colocado junto ao portal à frente do grupo de escravos, e vão pôr-se de joelhos perto do oratório. Acabada a reza, reúne-se a família na vasta e acolhedora cozinha. Conceição pergunta a Das Dores:

-- Que dele o Timóteo?

-- Ele não está bem -- responde aquela em tom velado e solta fundo suspiro.

Atenta à desfiguração da neta -- descorada, as pálpebras roxas e inchadas -- a velha desvia a atenção para esta e, a abraçá-la, indaga:

-- Que tens tu, menina, tão tristinha, tão fanadinha?

Nanda adianta-se:

-- Isto é por causa de uma coisa que agora eu vou contar a todos, mas escutem sem susto, que não me parece o fim do mundo. O Duda resolveu que a gente vai sair daqui por um tempo, é de prudência... vocês estão vendo o que está acontecendo conosco...

-- Por culpa de quem? -- pula ouriçado Jordelino, enquanto a mulher exclama:

-- Ó, minha Nossa Senhora da Misericórdia!

Não tendo assuntado o que se falava, Das Dores interroga uns e outros:

-- Que foi mesmo, que não entendi bem?

-- Para onde é que se botam? -- quer saber o velho.

-- Para São José da Terra Firme. Um amigo dele, bem arranjado lá, fez-lhe convite... tem trabalho para ele, casa para nós três... que é que o senhor diz, meu pai?

-- Eu? Eu digo que preciso me livrar deste bicho-de-pé... -- E desamarrando os cadarços do cano da ceroula ao redor dos tornozelos, Jordelino pede à Rita, que na ocasião é toda vivacidade, ao contrário da neta: -- Ritinha, me vê uns bons espinhos do espinheiro da cacimba, sim?

Nanda, que tem a filha nela enroscada semelhando um parasito, porfia no desejo de obter a opinião do pai:

-- Ora, fale sério, ande, o que é que o senhor acha?

-- Olha, minha filha, eu não me meto mais com o teu marido, é um cabeça-dura, não ouve ninguém, faz as coisas a seu modo e pelo seu bestunto, e depois temos de arcar com as consequências.

-- Pois é, mas agora...

-- Agora essa mudança quem sabe se até vem por Deus? Mas eu não digo nada, nem quero saber de nada. Ó mulher, me ferve uma panela d'água e me arranja uma tira de pano, ah, bichinho, hoje ajustamos nossas contas!

-- Vamos para casa, mãe! -- bale Maria José, os olhinhos suplicantes de ovelha degolada.

Fechava-se a noite quando as duas se foram, deixando Jordelino de pés mergulhados na água quente que Conceição despejava numa bacia, e ordenando:

-- Pretinha, traze o barrilete de querosene.

Cumprida a sua tarefa, a velha acomodou-se junto à Das Dores e perguntou-lhe:

-- Afinal, o que tem o Timóteo? -- Como a outra começasse a gaguejar, desferiu certeira: -- Ele voltou a beber?

Rita de Jesus retornou lépida e estendeu para o velho a mão aberta cheia de espinhos pontudos de variado tamanho.

-- Ah, que bom, é disto mesmo que preciso, põe aí em cima deste mocho, obrigado, menina.

Jordelino tinha os olhos fechados, na volúpia da quentura nos pés sofridos, e prelibava o gozo de esfuracar o apostema cosquento, quando Das Dores se aproximou dele:

-- Nhô Jordelino, ele ouve muito o seu conselho... se o senhor fosse lá e lhe falasse...

Entreabre os olhos e promete:

-- Pois sim, eu vou, mas deixa primeiro tirar este bicho-de-pé, depois eu vou lá, já sei o que se passa.

Ao concluir enfim a operação, a noite baixara de todo, suavizada por um leve luar. A mulher tentou impedi-lo de sair «Já não tens mais idade para apanhar o sereno da noite» -- mas ele não fez caso. No rodear da casa do Timóteo, ouve a voz de Duda: «Se quiserem ir conosco, eu arranjo lugar lá, por enquanto não, depois de me assentar, não é ir junto que eu digo». Chega-lhe também a voz de Das Dores: «Não, não quero sair daqui, agora mesmo nada me importa mais depois que o pai morreu...» Escuta Duda perguntar: «E tu, Timóteo, que é que pensas?» e a resposta que alcança: «Hein, daqui? Tenho aqui os passarinhos que cantam de manhãzinha...» Embora de relações cortadas com o genro, Jordelino segue em frente, que não é homem de recuar de ninguém. Entrepara no limiar da porta. Duda e Timóteo estão sentados no comprido banco abaixo da janela, Das Dores coa café e Rita lava pratos agachada diante de um alguidar de barro. Timóteo levanta-se:

-- Mas não é o nhô Jordelino? Por quem é, meu nhô, para dentro, para dentro, entre, ora ficar aí parado, que graça! Abanque-se aqui, faça o favor.

O dono da casa oferece-lhe o lugar que ocupava ao lado de Duda, porém ele prefere acomodar-se junto à mesa grande. Das Dores sorri-lhe:

-- O nhô chegou na horinha do café novo! E depois, solícita, servindo-o: -- Quer com melado ou gomo de cana?

-- A cana espremida sabe-me melhor.

Enquanto o café é bebido, Jordelino conversa com a mulher sobre as virtudes do eucalipto, a moça continua o seu trabalho e Duda aparenta prestar atenção à parolagem do Timóteo a propósito de um guará que, tem certeza, não passa do encantamento de um conhecido seu, sujeito ruim, que morreu afogado num pantanal. Das Dores sai-se com esta:

-- O nhô é que não está contente, decerto?

-- Com o quê?

-- Com essa mudança deles para terra firme.

Jordelino demonstra completo desconhecimento do assunto:

-- Mudança? Eu não sei de nada... já não me contam as coisas! -- exclama enviesando rápido olhar para Duda (Anda, rapaz, fala, quero fazer as pazes contigo) e arremata lastimoso: -- Eu até acho que já morri e não sei!

Duda, um sorriso a crispar-lhe os cantos da boca, ergue-se do banco, espreguiça-se e confessa estar cansado e com sono. Só então percebendo a inabilidade praticada, Das Dores suspira:

-- Ai, minha Nossa Senhora do Desterro, esta guerra vai acabar com a gente! Vem D. José, amado rei, vem depressa nos acudir!

O irmão, que se encaminhava para a porta, estaca e diz:

-- Esse já não nos pode valer mais, está morto.

Golpeado pela notícia, Jordelino esquece as reservas para com o genro e inquire:

-- O quê? Dom José morreu? Tens certeza disso?

-- Soube hoje lá na vila. Ele morreu no mesmo dia em que fomos invadidos.

Rita interrompe a tarefa, os olhos esbugalhados, o pai observa o brilho de uma estrela no recorte de céu através da janela, a mãe torce as mãos e lança numa pergunta toda a sua angústia:

-- E agora que vai ser de nós sem rei?

-- Agora temos uma rainha -- declara Duda com tranquilidade.

-- A filha... -- ajunta Jordelino, pensativo, e Duda completa:

-- Já é reinante como Dona Maria I.

-- E nós sem poder botar luto -- deplora o velho -- nem mesmo uma tira de pano no chapéu! E tínhamos de guardar luto por um ano, fechado por seis meses, mais aliviado na outra metade.

Duda, que tornara a sentar-se, conta:

-- Quando me viu assim de luto, lá na vila, um pulha dum soldado espanhol me fez levantar das cócoras, eu me assustei, pensei: já me mandaram prender, mas foi só para saber por quem eu estava de luto, e me deixou em paz quando lhe disse que era pelo meu pai.

O sogro concluiu:

-- Ele pensou que fosse por Dom José. Dom José, coitadinho, temos de orar por ele.

-- E por Dona Maria, que mande logo escorraçar daqui essa peste castelhana -- acrescenta Duda, e em seguida se retira com «boas-noites para todos», às quais Jordelino responde com entonação enfática.

Nisso e sem mais aquela, de improviso, Das Dores grita para a filha:

-- Que rasgão é esse na gola do teu vestido?

A rapariga sobe-lhe o sangue ao rosto, puxa e mira a ponta do rendilhado branco aplicado sobre o vestido preto que a afoga, lembra-se do atração do Vilarinho.

-- Hein? Minha Nossa, nem tinha visto! -- profere atrapalhada, a excogitar uma desculpa, que acaba por encontrar: -- Ah, já sei, me rasguei nos espinhos... busquei uma porção deles para o nhô, não foi?

Ele confirma:

-- Foi, é verdade, lhe pedi... precisei deles para tirar o danado do bicho-de-pé. -- Seu testemunho asserena a mãe da guria, ele entretanto não deixa de associar o fato às andanças desta com o rapaz da vizinhança, e por isso larga a advertência: -- Vocês precisam incutir mais juízo na cabecinha duma rapariga linda que eu vejo a andar acima e abaixo com um tal de Vilarinho.

Das Dores, no rosto uma chispa de júbilo, rebate:

-- Olhe, não digo que ande com ele acima e abaixo, como lá diz o senhor, mas que o rapaz não é de se desprezar, não é... afinal é um bom partido, um herdeiro de burra cheia.

-- Que bom partido? Nem diga semelhante coisa! É herdeiro das malas artes do bom pai que teve.

Jordelino levanta-se, ajeita na calva o barrete, vê o Timóteo a ressonar sentado no banco. Dá-se conta do motivo da visita e olha com desalento para a mulher, que minimiza o acontecido:

-- Não faz mal, fica para outro dia o conselho.

</div>

<div "V">

Nossa Senhora do Desterro e São José da Terra Firme, de 16 de junho a 2 de julho de 1777.

Desgarrado dos companheiros, doente, a cair de fadiga, José Maria chega enfim em casa. Vem de uma jornada difícil, de lutas e privações, começada há cerca de quatro meses, ao lado de doze defensores voluntários do território ilhéu comandados pelo alferes Ebrantino. Em inícios de junho, resolveram transferir as operações para a ilha enfrentar o inimigo onde ele se concentrava cada vez mais, desde o insucesso de Vila Nova, quando da surtida do capitão Cipriano Cardozo e seus bravos, os quais desbarataram a força de Cevallos despachada para tomar Laguna. Eram já apenas nove os combatentes que fizeram a travessia do mar, de Biguaçu à ponta do Cacupé, local em que aportaram na calada da noite e de onde, de emboscada em emboscada, abatendo aqui e ali um que outro castelhano desprevenido, progrediram em direção ao sul. Entrincheirado no Morro do Cantagalo, o piquete causou não pequenas baixas, motivo por que a tropa espanhola enviou uma força aguerrida e bem municiada com o objetivo de desalojar os rebeldes e dizimá-los. Em consequência, os guerrilheiros tiveram de avançar rumo a Itacorubi e dali, vadeando rios e volteando mangues, para a Trindade, sempre protegidos pelo povo e acobertados pelo denso arvoredo. Daí em diante, devido aos êxitos da ação de emboscada, recrudesceu o ímpeto do invasor, pondo-se este em campo com fúria e aparato que, apavorando os pacatos moradores, fê-los abandonar suas casas à medida que o ruído guerreiro se aproximava.

Toda a população de Atrás do Morro fugiu espavorida ante as notícias do avanço espanhol, inclusive Jordelino, Timóteo, Vilarinho e sua gente, com duas exceções: o escravo Romão, que se negou a deixar a senzala, e um cativo de Vilarinho, obrigado a ali permanecer para cuidar dos bens do seu senhor. Depois, a situação dos guerrilheiros agravou-se de tal modo que, ao atingirem as abas do morro do açoriano Antão, dispersaram-se exaustos e inermes.

José Maria perscruta em volta, não vê vivalma nas cercanias. A casa está fechada, rodeia-a forçando as aberturas e acaba entrando por uma janela mal segura. Segue direto para o seu quartinho, ansiando por sua cama, que acha preparada -- «A mãe adivinhou que eu vinha» -- para aquecer, aconchegar e embalar o seu corpo castigado. O sono não demorou a chegar.

De prosa com Isauro no negócio de secos e molhados deste em São José, Duda repisa sua estranheza a respeito do procedimento do anterior morador da casa que agora habita:

-- Ele deixou tanta coisa, camas, uma caixa de guardar roupas, o paiol com um pouco de farinha, até panelas, talheres...

-- Deixou porque não pôde levar.

-- Nem os talheres?

-- Nem os talheres eu consenti que levasse, cheguei a tempo de impedir, assim diminuí meus prejuízos. Ele me devia muito dinheiro, já te contei isso.

De fato contara logo ao chegarem à morada nova, uma construção recente, de barro e pau a pique, coberta de telhas, de regular tamanho, com sala e cozinha, três quartos de dormir, puxado com telheiro para o forno. Pouco distante do prédio de residência e armazém do Isauro, no caminho de quem vai para a bica, ao lado da igreja, a casa lhes pareceu muito boa, mas o que causou espanto a Duda e Nanda foi constatar que a mesma estava quase toda trastejada. E diante da surpresa demonstrada por ambos, Isauro explicou:

-- A pessoa que aqui morava também fugiu com medo dos espanhóis, como muitos, tanto aqui como na ilha. Teve de deixar esses pertences porque me devia dinheiro grosso que até nem esses teréns chegam a cobrir. Estas terras, esta casa e tudo o que se contém nela, tudo é meu, podem usar à vontade.

Agora Isauro se repete com um acréscimo:

-- É tudo meu, usa de tudo como bem te calhar, depois acertamos conta quando quiseres ser dono.

Duda resolve aclarar as coisas:

-- Isauro, nós não vamos ficar aqui por muito tempo, não quero me fazer dono de nada, só vou ficar aqui o tempo que durar esta invasão.

-- Então vais ficar muito mais tempo que estás pensando.

-- Não... pode ser que me engane, mas tenho para mim que Portugal já está apresentando a esquadra que virá expulsar essa gente.

-- Que esperança! O rei é morto, a rainha-mãe, irmã do rei d'Espanha... que se pode esperar disso? Que é que vai fazer Dona Maria, sobrinha do rei D. Carlos? Vai lutar contra o tio, contra a mãe? Está claro que não! O que vai acontecer é sermos espanhóis para sempre. Eles não vão brigar entre si por causa de uma ilha pequenina nos confins de uma terra de índios. Ainda digo mais: os espanhóis não só não vão se retirar daqui -- ouve bem o que estás escutando hoje -- como também vão ganhar cada vez mais terreno nestas paragens, até tomar todo o sul do Brasil.

Duda extravasa sua incredulidade e desdém:

-- Se não conseguiram nem tomar Laguna...

Isauro soqueia o balcão:

-- Ah, a história de Laguna! É até de fazer rir essa patranha!

-- Não é patranha, é um fato o feito do capitão Cipriano Cardozo, que com dezesseis homens rechaçou o inimigo e cortou-lhe a retirada.

-- Pode alguém em são juízo acreditar nisso?

-- É a verdade, mesmo que não queiras.

-- Que verdade? Há muita mentira nesta guerra, como em todas, aliás. O pior é o que dizem dos castelhanos, que afinal não são os capetas que fazem, e é por isso que o povo foge pros matos, a morrer de fome, de frio, de cobras, de doenças, de medo... e é por causa desses poltrões que aqui estou com o negócio parado, as mercadorias se estragando, os compromissos vencendo. -- Depois do desabafo, ele faz uma pausa, sorri e acrescenta: -- Ainda bem que vieste para tocar a olaria... e por falar nisso, estás contente por ter vindo?

A resposta de Duda soa pouco convincente:

-- Estou contente, até estou aprendendo a modelar o barro...

Poderia sentir-se um tanto contente, porém uma sombra tolda a sua alegria. Sem notícias do filho, sem saber se é vivo ou morto, preocupa-o também a esquisitice da filha, que embarcou e viajou como se fizesse parte da bagagem, num tristonho mutismo e inquietante alheamento que perduram intermináveis.

Acorda-se no escuro. Cambaleia em direção à cozinha, onde às apalpadelas procura os petrechos de fazer fogo. Acha-os e, aceso o pavio, põe lume numa candeia e vasculha à cata de qualquer coisa que lhe desembrulhe o estômago, alivie a zonzeira da cabeça, o quebranto do corpo. Topa umas folhas de losna, com as quais prepara um chá. Sorvido este, um líquido turvo e amargo a que adiciona uma colher de melaço, volta ao quarto, e ao sentar-se na beira da cama é acometido de câimbra numa das pernas, tendo de forcejar para não gritar de dor. Mais tarde, torna a escarafunchar entre as ervas secas pendentes de um cordel, na cozinha, e apanha umas folhas de eucalipto que põe em infusão com álcool. Depois de esfregar a perna com a solução e de sentir-se mais aliviado, deita-se na cama de barriga para cima, sobre esta descansa o fuzil, sopra a candeia e readormece.

Um leve ruído desperta-o e, de súbito desperto, sai a espiar pelas frinchas de janelas e portas. Já é dia. Por uma fresta na folha de madeira da porta da sala, avista a tão conhecida e odiada farda. Entreabre a janela ao lado e atira no oficial espanhol que está se retirando do terreiro. Um estampido e o inimigo desaparece entre as árvores. José fica de tocaia por algum tempo. De repente faz-se um estrondo nos fundos da casa, percebe que a porta da cozinha foi posta abaixo, corre para o local manquejando, a arma em posição de tiro. Defrontam-se num breve instante. O intruso com uma pistola «de roda», ele com o velho fuzil que, acionado, falha na ignição, negando faísca a pederneira. Atingido pelo tiro da pistola, ele cai. A bota sobre o seu peito, a arma apontada para a sua cabeça, finca no adversário olhar rancoroso, e rosna, pleno do destemor que se nutre da raiva mais profunda:

-- Que está esperando?

O miliciano olha-o fixamente numa expressão neutra. Passa-se longo tempo num só momento. Retira o pé de sobre o vencido, guarda a pistola no coldre, apanha do chão o fuzil e o coloca na vertical contra a parede, longe do alcance do baleado, que se mantém estendido, imóvel. Acerca-se e diz-lhe em seu espanhol aportuguesado:

-- Vamos ver este <estrang lingua="espanhol"> herimiento, Hermano </estrang>.

José Maria reage brutamente:

-- Não me toque!

Sorri, dá uns passos até a janela, abre-a, a luz do sol invade a peça. Posta-se diante do rapaz, cuja camisa se vai tingindo de vermelho.

-- <estrang lingua="espanhol"> Quiero te ajudar, soy cirujano </estrang>.

Observa que o ferido tem os olhos fechados, que empalidece de repente e, inclinando-se para auscultá-lo, constata que desfaleceu. Rasga-lhe a camisa, examina o ferimento: o projétil perfurou o ombro e estraçalhou a omoplata. Com pedaços da camisa rompida, prepara um tampão para a fonte de sangue. Antes de sair, fecha a janela e encosta na esquadria a porta derrubada.

De volta da missão no sul da Ilha, Hernández pretendeu avistar-se com a amada. Entretanto, ao pisar na área cuja população desertou, perde as esperanças de encontrá-la, mas segue em frente, visita os sítios em que conversavam, remira a casa, aproxima-se e tem a mais inesperada recepção. A bala quase o atinge. Corre para o arvoredo e retorna rastejando, contorna a moradia e chega à porta dos fundos, que deita abaixo disposto a eliminar o combatente ali entrincheirado. Depois de tê-lo subjugado, sob a bota e na mira da sua arma, é que pôde identificá-lo. Não o conhecia, nunca o tinha visto, mas era sem dúvida aquele o irmão da sua namorada, o irmão tão mencionado, tão querido. O <estrang lingua="espanhol"> indomable </estrang> Zé.

Além da preocupação pelos filhos, havia o desagrado em que lhe ia caindo o ex-companheiro de campanhas devido às maneiras inamistosas e até desabusadas com que encarava e tratava as pessoas e a vida em geral, sua ganância desenfreada, seu pessimismo, suas ideias políticas tacanhas e interesseiras.

-- Então, no teu entender, o que se deve fazer? -- esporeou-o na véspera, em meio à nova pendência sobre a invasão.

-- O que se deve fazer -- disse com ostensivo cinismo -- é colaborar, é mostrar-se amigo dos espanhóis, nada se ganha em resistir, em fugir, muito pelo contrário só se tem a perder! Olha o Inácio, ele...

Interrompeu-se como se tivesse começado a dizer o que não devia, emendando meio desajeitado outras considerações em torno do tema.

Duda cisma naquilo agora, na manhã que inicia, enquanto tenta pela quinta vez moldar uma bilha ao lado do mestre-artífice Venâncio, um preto circunspecto e exímio oleiro.

-- Acho que nunca vou aprender a fazer isso direito... -- confessa ao cativo e, de chofre, indaga-lhe: -- Ó Venâncio, esse tal de senhor Inácio, o que morava lá onde moro, era um homem bom ou mau?

-- Homem bom estava ali -- assevera o negro com firmeza.

Provocado, declara que aquele não era de dever a ninguém, «às direitas como poucos». Ignorando as advertências do Isauro -- «Não dá conversa aos negros, dá-lhes relho, são mentirosos, mistificadores, mentem por vício, têm prazer em mentir, mentem sempre» -- achega-se ao escravo que traz o barro num carrinho de mão, e lhe faz as mesmas perguntas, obtendo respostas concordantes. Com Tié, o que amassa o barro, apurou mais: que tão logo Inácio partiu com a família, Isauro mandou retirar a cerca que separava as duas propriedades.

À mesa do almoço, confiou à mulher sua desconfiança:

-- Nanda, estou intrigado com isto. Será que o Isauro tomou a casa e as terras do homem?

-- É capaz, ele não presta, já te disse.

-- Não pode ser... ou pode? Pensando bem, pode, sim... Apoderou-se de tudo, ele acredita que os espanhóis não sairão mais daqui...

-- Mas não te rales por isso. Não temos nada a ver se o homem era bom, se era mau, se devia ou não devia, ninguém lhe pilhou as coisas, estamos aqui de provisório, como dizes... quando voltarmos para a nossa casa -- ah, a minha rica casinha! -- deixamos tudo como encontramos e pronto, o mais não será conosco.

-- É, mais isto mexe comigo, me dá um mal-estar só em pensar que estamos no uso de coisas decerto roubadas.

-- Não é o que me preocupa... o que me preocupa mesmo são os filhos... e agora essa menina...

-- Que foi que houve?

-- Ela, que quase não falava, entrou agora a falar demais.

Duda exaspera-se:

-- Oh, por Deus, mulher! Se não fala, é porque não fala, se fala é porque fala!

Nanda conserva a serenidade:

-- Passou de um extremo a outro, Duda, não é normal, ela desgovernou-se na fala, no pensamento, em tudo...

Ele procura simplificar:

-- Afinal, isso é bom, sinal de que voltou à vida depois daquela quietação de morte.

Ela gostaria de aceitar a explicação otimista, sente porém que é preciso encarar a verdade:

-- Não, não é bom, eu sei... só quem vê agora como está, toda agitada, falastrona, numa animação que não é dela... saiu ainda há pouco toda alvoroçada.

-- Deixaste ela sair assim por aí?

-- Não foi sozinha, a Floriana foi junto, ela disse que tinha de ir rezar na lapinha da estrada do Maruim.

Duda larga a colher no prato de folha em que o pirão lhe parece o barro do oleiro, e encomprida o olhar além da janela fixando-o no azul distante como se anelasse alcançar a sua paz. A mulher gruda-se-lhe num abraço e por certo tempo ambos calam as palavras na expressão dos sentimentos, até que ela não pôde contê-las mais:

-- Ah, meu bem, o que temos passado! E o nosso filho? Tenho um pressentimento no coração... O que foi feito dele?

José Maria volta à consciência e ao suplício da dor. Munido de instrumentos, bandagens, drogas, Hernández aplica-se em extrair a bala que lhe despedaçou a omoplata. Suspende a operação para dar-lhe a beber uns goles de cachaça.

Torna ao trabalho e completa-o apesar dos protestos do paciente. Ainda contra a vontade deste, carrega-o em seus braços e o instala em sua cama. O rapaz lança um gemido e interpela o benfeitor em tom de irritação.

-- Por que fizeste isto em vez de me matar ou me deixar morrer?

-- Porque <estrang lingua="espanhol"> eres... (eres hermano de la mia amada) moço como yo... no estoy nesta guerra por gusto </estrang>...

-- Pois eu estou por gosto!

-- <estrang lingua="espanhol"> Nuestras posiciones são diferentes, soy invasor </estrang>.

Ao retirar-se, o capitão diz-lhe que, se puder, virá todos os dias fazer os curativos e trazer-lhe alguma comida. Ainda lhe pergunta se sente muita fome ou sede. A resposta vem num furor de indignação:

-- Tenho é ódio de ti porque não me mataste, não quero que me ajudes, vai embora!

Ao fim de alguns dias, Duda verificou que era verdadeiro tudo quanto ouvira dos escravos, pelo testemunho de pessoas boas do lugar. Ademais, conseguiu prova material de ao menos um dos fatos. É que, examinando o terreno, deparou com os sinais deixados no pasto pela cerca que por ali deveria ter passado em data recente. De novo não se contendo, inquire com severidade o Isauro, e a resposta vem firme e sobranceira:

-- Quem que lhe disse isso? Ah, esses negros decerto... A cerca? Claro que retirei ela, pois não lhe falei que a propriedade me ficou nas mãos em pagamento das dívidas? Andas que pareces desconfiado comigo? homem? Está tudo certo, não dês ouvido a essa negrada que só sabe intrujar.

Tem de engolir a justificativa, que porém não o convence. O outro aproveita a ocasião para cobrar maior rigor com a «negrada sem-vergonha», pondo-se depois a clamar contra os covardes que fugiram para o mato em vez de enfrentar o inimigo, a exemplo de si mesmo, terminando por lamentar-se:

-- Vê só como esta póvoa virou deserto! Estou perdendo um dinheirão à míngua de freguesia, e se não fosse o negócio das louças nas feiras da ilha, nem sei o que seria de mim.

A caminho da olaria, tendo deixado o ex-companheiro de campanhas a rabujar, Duda resolve entrar em casa para um gole de café. Bebia-o quando ouviu soar a voz da filha, aguda e cascateante:

-- Estes gerânios estão cada vez mais bonitos mesmo sem o sol que não bate deste lado -- vem dizendo aproximando-se da porta, e prossegue: -- Acho que a terra úmida faz bem para eles, devem gostar do frio e não do calor como aquelas roseiras junto do cercado... -- e dando com os pais ali sentados à mesa, exulta: -- Olá, vocês aí! Que bom encontrar os dois agora! Quero contar a vocês, estou tão contente!

-- Esta menina continua a andar por aí sozinha? -- inquire acusador, cara amarrada para a esposa.

-- Ela sai sempre com a Floriana -- tranquiliza-o Nanda e dirige-se à filha com enternecimento: -- Que foi que te deixou tão contentinha?

-- Ai, que bom! Falei com ele hoje!

-- Ele quem? -- o pai indaga ressabiado.

-- O Hernández, ora! Ele estava tão lindo, o colete vermelho, a túnica preta...

-- Quem é esse sujeito? -- interroga Duda, a voz crescendo em aspereza.

-- As polainas estavam tão branquinhas que até reluziam! -- a rapariga continua no mesmo tom sereno e deslumbrado; responde-lhe: -- O senhor sabe, ele é um oficial espanhol, cirurgião do Regimento, o meu amor querido!

Tomado de brabeza, ele quer saber «que história é essa». Com a maior franqueza e animação, a filha lhe revela tudo em frases atropeladas. Seu enfurecimento sobe além das medidas ao ouvi-la dizer:

-- O meu amor querido estava numa galanteza de príncipe, falamos do nosso casamento...

Nesse ponto o pai salta, os olhos injetados de ira, e a sacudi-la pelos ombros, berra:

-- Que amor querido? Que casamento? Que loucura é essa?

A voz também alteada, a guria faz-lhe frente destemerosa, mas acaba saindo a correr para o quarto sob os bofetões e os gritos do pai:

-- Onde se viu? E ainda mais com um soldado espanhol! Não me sai mais de casa!

Malgrado toda a hostilidade do paciente, a assistência do castelhano se fez constante em visitas diárias, quase sempre à noite. Além de pensar-lhe o ferimento, medicá-lo, levava-lhe comida e cuidava para que ficasse ao alcance da mão a caneca e a bilha de água fresca. Após a tarefa, costumava demorar-se ao lado da cama, sentado num mocho, e em vão tentava dialogar. Certo dia, vendo-o com melhor disposição, perguntou:

-- Entonces, amigos?

-- Não! Não posso ser teu amigo, nunca, tenho de ser teu inimigo. Devias ter-me matado, porque agora eu é que vou te matar assim que puder. Só espero melhorar, criar forças para te fuzilar.

Hernández ponderou com tranquilidade:

-- <estrang lingua="espanhol"> La fuerza </estrang> que te faço volver...

José Maria trancou-se no silêncio inamistoso que o capitão pretendeu quebrar:

-- Aonde foi a tua gente? (<estrang lingua="espanhol"> Habla de Maria, tuya hermana que yo amo </estrang>) Sabes?

-- Não, não sei -- ele respondeu com dureza e em seguida virou o rosto para o lado oposto, assim permanecendo.

Frustrado no seu intento de uma conversa amigável, o miliciano ergueu-se e saiu. Ao passar pela sala, retirou as balas e o sílex do fuzil encostado à parede.

Ao fechar-se a noite, e antes que a escuridão tome conta do aposento, José apanha de sobre a cadeira colocada junto à cama o avio de fogo que Hernández lhe dera. Acende o candil, o pensamento nele -- inimigo e protetor. «Sem o seu socorro eu estaria morto, mas seria melhor estar morto do que ter de matá-lo». Um barulho de súbito lhe corta o fio das ideias. Veio abaixo com estrondo a porta que o espanhol arrombara e tinha a preocupação de manter arrimada nos batentes. Passadas fortes ressoam e avançam pela casa acompanhadas de uma claridade trêmula. Numa reação automática, indiferente à dor, apruma-se no leito, sem atentar no que pode fazer para enfrentar o estranho que agora atinge o portal do quarto. Então o reconhece e com alívio relaxa o corpo retomando a posição de repouso:

-- Ah, eras tu!

Vilarinho, candeia à mão, um ricto zombeteiro no canto da boca, observa-o com incredulidade. Naquela manhã abandonou o esconderijo no Canto da Lagoa para vir saber do andamento das coisas na sua propriedade, e ouviu do Marcelino -- o escravo que deixara de guarda -- o estranho caso:

-- Tenho avistado luz na casa do nhô Duda, não sei se é alma penada...

Resolveu investigar à noite, e ali estava diante do mistério desvendado, que lhe parece um fato cômico. Trocadas as primeiras palavras com o enfermo, entre risotas, acomoda-se no mocho e pousa a candeia no chão. José Maria conta-lhe aos poucos -- a narrativa intervalada por gemidos -- o que lhe sucedera e o que acontecia, sem omitir o incrível papel do oficial espanhol, que o deixou assombrado, e mais ainda ao saber da sua decisão de eliminá-lo. Ao fim da longa prosa, diz em tom compungido:

-- Podia te levar para casa, mas não tem ninguém lá, só o Marcelino. Estou aqui só de passagem, a gente toda foi embora por causa da tropa que apareceu queimando casas, destruindo tudo, pilhando, matando. Podia também te levar para o hospital da vila, mas receio o que os espanhóis iam fazer contigo quando descobrissem...

Aquieta-lhe os escrúpulos o infeliz rival:

-- Podes deixar... ele é cirurgião, até comida me traz...

Vilarinho segura a candeia e vai saindo de fino, entretanto se volta para indagar:

-- Queres que avise o teu avô? O teu pai não vai ser possível, passou-se para terra firme... Mando recado para o teu avô no Campeche, que é onde se meteu com o resto da família, queres?

-- Quero.

-- Pois vou mandar avisar. E olha, muito cuidado com a luz, pode ser vista por algum espanhol diferente desse...

José Maria ficou só com a sua dor e a sua angústia.

Adianta-se a noite. No fogão a janta pronta desde o fim da tarde, Nanda espera pelo marido. Em seu quarto, a filha continua dormindo, sono que se seguiu às lágrimas sob a carga paterna. Estava imersa em cismas amargas considerando as ciladas que a vida prepara, quando de repente surgiu à porta o rostinho risonho da pequena Floriana, a vizinha esperta, rebento tardio da Emerenciana lavadeira. Acolhe-a com afeição, oferece-lhe beijus e submete-a a cerrado interrogatório:

-- Vocês duas foram hoje até onde? Que foi que fizeram?

-- Até o caminho do Maruim, lá a gente rezou para a santa da lapinha... é o que fazemos sempre.

-- Ficaram todo o tempo juntas? Vocês não se separaram nem um poucochinho de tempo?

-- Não, sinhá, saímos e voltamos sempre juntinhas toda a vida.

-- Com quem vocês falaram?

-- Não sei.

-- Falaram com algum homem?

-- Não.

-- Viram um soldado espanhol?

-- Vimos, sim, eram dois, parados no encruzo da estrada.

-- Que foi que vocês falaram?

-- Com eles ninguém falou, ai, mais não! Só vimos eles de longe, não chegamos nem perto, de medo...

Em pouco, a meninota raspava-se dali com as mãos cheias de bolinhos. Nanda descascava laranjas no momento em que Maria José irrompeu plena de vitalidade e alegria:

-- Ó mãe querida, dormi demais! Onde está o papai? Ainda não chegou? Ah, quem sabe... ? Pode estar no nhô Isauro, vou lá ter com ele...

Seu aspecto e modos em tudo iguais à disposição anterior ao incidente com o pai, fato que parece ter-se apagado em sua mente, surpreendem a mãe e a fazem agir com presteza:

-- Minha filha, assenta-te aqui, me conta... que é que tens a dizer ao teu pai assim com tanta pressa?

-- Quero avisar que o Hernández vem daqui a pouco conversar com ele... o pedido, mãe!

Maria José abraça-a em incontido excitamento; Nanda enlaça-a pela cintura e, retendo-a:

-- Vamos a um cavaco, filhinha...

-- Agora não posso, tenho de falar com papai.

-- Filha, tudo isto são invencionices da tua cabeça... tu não viste, não falaste com ele nesse passeio de hoje.

A rapariga encrespa-se e, desprendendo-se dos braços que a cingem, replica:

-- Falei, sim, não estou inventando nada, a Floriana sabe, ela viu. Ouve bem, nós vamos nos casar depois desta guerra, depois dele voltar para a sua terra e tirar a letra de doutor, então vem uma nau me buscar. Agora vou lá com o meu pai.

Nanda tenta segurá-la:

-- Espera, fica aqui, deixa que eu vou prevenir o teu pai.

-- Não, eu vou -- teima a filha, ao que a mãe rebate com suavidade e brandura:

-- Mariazinha, me atende, eu vou lá... tu ficas aqui descascando estas laranjas, quero fazer um doce gostoso... vamos nós duas fazer, hein?

A moça levanta a voz, irritada:

-- Para com isso, mãe, eu é que vou!

A Nanda acode uma ideia:

-- Está bem, vai... Já pensaste se o capitão te encontra vagando par aí nessa escuridão? Ele vai gostar?

Ela titubeia e por fim aquiesce:

-- É, a senhora acha? Isso pode ser mau... a noite está muito escura, então sim, vá, diz que venha logo, que não se demore, o melhor é vir com ele.

Ágil, Nanda recobre a cabeça com a mantilha e, candil em punho, sai para a noite um tanto fria. À réstia de luz que lhe vai abrindo caminho aos passos, depara o marido acocorado rente ao portão da cerca.

-- Duda, que estás fazendo aí?

Imóvel, a mão no rosto, os olhos fechados, ele resmoneia:

-- Deixa-me, estou sem vontade de entrar em casa, o que aconteceu hoje me arrasou a vida.

A mulher pousa a mão em seu ombro e diz-lhe em tom lastimoso:

-- Te arrasou? Ah, se soubesses o que está acontecendo!

A voz carregada de tristeza, conta-lhe toda a verdade que descobriu acerca da filha, fazendo-o ver em palavras singelas que a mesma substituíra a realidade adversa pela ditosa fantasia, vivendo num mundo de parte, construído à feição do seu sonho tornado impossível. Ao fim, as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto, Duda balbucia:

-- Coitadinha, e eu bati nela! Como fui bruto!

Acabrunhado, ansioso por se redimir do procedimento, levanta-se e corre para casa, onde entra de braços abertos para a filha, desbordante de carinho, paciência e compreensão.

Vilarinho não esperou pelo amanhecer para pôr em prática o seu plano engendrado desde a noite anterior. Ignorando a hora em que o espanhol costumava ir ver o enfermo, e temendo encontrá-lo, madrugou na execução do imaginado para ajudar o destino a remover do seu caminho aquele estorvo que não podia vencer. Encontra-o já desperto e melhor disposto, as dores abrandadas, mas bastante surpreso:

-- Que é que queres aqui?

-- Eu quero te ajudar, Zé. A que horas ele costuma vir aqui?

-- Não tem hora certa.

-- De manhã ou de tarde?

-- De manhã, nunca.

-- Então podemos conversar à vontade?

José Maria olha-o com desconfiança:

-- Conversar o quê?

Vilarinho senta-se na banqueta, estica as pernas e diz com certo sarcasmo:

-- O que te interessar... ou não queres a minha companhia? -- Como o outro permanece calado, insiste: -- Queres que me vá?

-- Fica -- murmura o doente em tom frouxo.

Ao fim de pequena pausa, o visitante começa:

-- Estive pensando no que me disseste, Zé...

-- Que foi?

-- Acho que é isso mesmo que deves fazer... afinal é uma questão de honra...

-- O quê?

-- O teu desejo de matar o espanhol.

-- Não desejo, preciso fazer.

-- Pois é, tens de fazer... e eu vou te ajudar nisso, podes contar comigo.

-- Como?

-- Já vais ver. De princípio, tens de mudar daqui para a salinha da frente.

-- Ele disse para não me mexer.

-- E quem falou em te mexeres? Eu te levo. Tens de ficar perto da janela... e lá mesmo ficas melhor, com mais ar, mais luz.

-- Não sei, ele recomendou...

-- Para ele, quanto menos te mexeres melhor! Olha, eu carrego o colchão contigo em cima, não tem perigo. -- Assim disse, assim fez. Instalando-o contra a parede da frente, sob uma janela, assegurou: -- Daqui é fácil atirar nele.

-- Hum, sim, é...

Examina Vilarinho o fuzil deixando de pé junto à parede, e exclama contrariado:

-- Ih, faltam as balas e a pederneira!

José Maria informa, a voz arrastada, aos arrancos:

-- Na cartucheira tem munição, guardei umas pedras na canastra, no quarto.

Achado o necessário para recarregar a arma e pô-la em condições de tiro, Vilarinho retira o facão do cinto e com ele esfuraca o barro da parede na altura da cabeceira do leito improvisado. Depois de alguns minutos de trabalho, introduz o cano do fuzil no orifício recém-aberto e, a seguir, passa a instruí-lo:

-- Vê como é, a ponta do cano fica metida aqui, pronta para o disparo, te ergue, homem, segura esta arma, espia.

Com esforço e sofrimento, José -- que em consequência da remoção sente agudas dores no ombro e nas pernas -- soergue-se, pega o fuzil, lança rápida mirada e abate-se sobre o colchão:

-- Ai, estas cãibras!

Vilarinho ignora o queixume, prossegue:

-- Viste como é que deves fazer? E eu me coloco ali atrás da frincha daquela janela e te aviso quando ele chegar, quando for para atirares.

E continua os preparativos, incitando à ação e atordoando o sofrido e debilitado rapaz que, ao cabo, pergunta:

-- E depois?

-- Depois?

-- Depois dele morto?

-- Bom, depois, eu escondo o corpo e de noite o Marcelino joga ele no fosso da ponta da várzea.

-- E eu?

-- Tu?

-- Quem vai me tratar, me cuidar?

-- O Romão vai te tratar e cuidar melhor do que esse doutor de soldados.

-- O negro está aí?

-- Está, mando ele para cá enquanto aviso o teu avô.

Escoam-se muitas horas antes que, enfim, do seu posto de observação, Vilarinho dê o aviso de espanhol à vista. O alarma, porém, não tira da imobilidade o enfermo, que confessa:

-- Não posso atirar nele.

Nervoso, exasperado, Vilarinho apodera-se da arma:

-- Deixa que eu faço isto por ti, meu valente!

Acionado o gatilho, corre para os fundos da casa, transpõe a porta da cozinha e, agachado, alcança uns arbustos, de onde ansioso acompanha os passos do espanhol, que avança de pistola em punho, entrepara, hesita e acaba retrocedendo até sumir-se no matagal. Grande é o seu desapontamento, pois imaginara que o tiro, mesmo desferido sem mira, o levaria a dar cabo da vida do seu ingrato protegido. Cortando caminho pela mataria no rumo de casa, reflete: «Ele se foi e não volta nunca mais; assim como assim, temos o rapaz morto, bem morto, sem sustento nem medicação». Passa pela morada num pé-de-vento, chama o Marcelino, a quem manda selar rápido o cavalo, que precisa retornar como uma flecha a sua toca no Canto da Lagoa:

-- Os castelhanos andam por aqui outra vez, não ouviste os tiros?

O escravo treme de susto -- «O negro não ouviu nada, sinhô» -- mas não demora a trazer-lhe a montaria aprestada para a jornada. Contra seus hábitos, Vilarinho presenteia o negro com uma pataca e enceta a troteada.

</div>

<div "VI">

São José da Terra Firme e Nossa Senhora do Desterro, de 8 a 19 de julho de 1777.

Em puro contentamento, as roxas e nuas gengivas à mostra, Venâncio ri para ele. Duda finalmente acerta a moldagem da moringa. Glorioso, ergue-a para o alto nas duas mãos como se fosse um troféu. O feito devolve-lhe por instantes a alegria perdida desde que tomou ciência do estado delirante da filha, a quem passou a cumular de atenções e agrados, carinho e compreensão, a ponto de integrar-se ao seu mundo imaginário. Acompanha-a quase todos os dias em intermináveis caminhadas pelos arredores da póvoa na perseguição de uma quimera, para um encontro que jamais acontecerá. Cantava ainda vitória quando chegou a mulher, esbaforida, aos gritos:

-- Acode, Duda! -- Este pensa logo na filha; ela prossegue: -- Tem uns homens armados lá, estão jogando fora tudo que é nosso!

Duda obriga-a a repetir e, em seguida, chamando os negros a acompanhá-lo, sai na disparada. Encontra tudo em rebordosa, alguns pretos entrando e outros saindo carregando coisas e empilhando-as no pastinho em frente à porta da rua. Tudo sob o comando de um homenzinho feroz que, ao vê-lo aproximar-se, suspende o trabalho e o aguarda com insolência junto ao bando, agora ostensivamente armado de facas.

-- Que é isto aqui? -- tomado de fúria, Duda interpela o tipo.

-- É o que está vendo, é o despejo duma gente sem-vergonha que se meteu num teto alheio! -- responde o tal, áspero e forte, fitando-o desafiador.

Duda investe sobre ele, mas é contido pelos negros da olaria; exclama:

-- Dobre a língua, veja lá como fala!

-- E menos posso dizer de quem se apossa do que é dos outros? Esta casa, com tudo dentro, é do meu tio Elesbão, que se foi açoitar com a família na serra por causa desta luta.

Duda observa os negros que o rodeiam: todos de cabeça baixa parecem concordar. Volta ao diálogo mais acalmado:

-- Pode ser como você diz, mas eu não me apossei de nada, vim para cá tomar conta da olaria do Isauro, foi ele que me pôs a morar aqui, disse que a casa era dele.

-- Esse é um ladrão conhecido, um sujeito muito ordinário, um tratante!

-- Pois, como vê, eu não sabia de nada...

-- Se não sabia, é tempo de ficar sabendo, oras! -- retruca o baixote sem diminuir o diapasão da brabeza.

Duda exalta-se de novo:

-- Espere aí, criatura do diabo! Cá ninguém é sem-vergonha, nem ladrão, nem tratante, é melhor amansar a voz! Mando chamar o Isauro e já aclaramos isto -- A seu lado, Nanda aperta-lhe o braço como a aconselhar serenidade; ele se volta para o preto amassador de barro: -- Tié, vai depressa chamar o Isauro!

Timóteo teve a sorte de fazer a jornada aboletado num carro de bois que demandava a vila, para onde foi mandado a fim de, numa canoa, alcançar São José da Terra Firme. A incumbência era avisar os pais de José Maria -- talvez chegasse a tempo -- da situação injuriada em que se encontrava o rapaz, prestes a finar-se. -- Ele foi achado quase a morrer pelo velho Romão, por força da curiosidade despertada.

Mal deixara a casa o patrão Vilarinho, apressado em fugir dos espanhóis que teriam recaído nas surtidas, o escravo Marcelino foi à procura do negro Romão na propriedade vizinha. Topou-o a dormitar no galpão. Contou-lhe o acontecido com o seu senhor e o que dele ouviu. O escravo de Jordelino comentou:

-- É verdade, também escutei um tiro, foi perto, não foi longe, pareceu-me lá pros lados do nhô Duda.

Marcelino exclamou, os olhos saltados, a voz em baixo profundo:

-- Naquela casa tem coisa! Avistei uma luz lá, juro que vi uma luz dentro se movendo... ali tem assombração, tesconjuro!

Romão pôs a riso os temores do outro, mas no íntimo abrigava um pressentimento que o impelia a ir investigar, o que fez ao cair da noite. Entrando na casa pela porta arrombada, deu logo com o rapaz estendido. A princípio considerou-o morto, à falta de sinais de vida. Descobrindo-o ainda existente por debaixo daquele entorpecimento, tratou de reanimá-lo com as mezinhas em que era mestre, logrando tímido sucesso à custa de muitos chás e não poucas rezas.

Pela manhã, embora sem obter palavra do padecente, mas diante do ferimento de bala, da porta derrubada, do esfuracamento na parede e de toda a desordem reinante, disse-lhe decompondo os vocábulos como se falasse a uma criança:

-- Aqui o nhonhô não fica, corre perigo, quem atirou antes pode voltar, né? -- José Maria não respondeu; o escravo continuou: -- Eu mesmo lhe levo pra casa do sinhô seu avô, lá vai ficar mais melhor de cuidar do nhonhô, e lá se tem as vitualhas que se precisa, hein?

Mesmo sem o consentimento expresso do agonizante, Romão carregou-o para a espaçosa e mais abastecida moradia do seu senhor, a quem mandou aviso, logo que pôde, do sucedido. Em poucos dias, a cavalo, em carroças e carros de bois, retorna do Campeche toda a gente do Jordelino em precipitada viagem cheia de ansiedade e aflição. Chegados, cercaram de pronto o leito do moribundo, que mal acusou a presença de alguém a seu lado. Jordelino interrogou Romão sobre o doente e os medicamentos aplicados; não satisfeito, resolveu enviar recado à filha e ao genro.

A espera alongou-se mais que o razoável, ao menos pareceu assim a Duda. Naqueles constrangidos minutos em que se estatelaram uns diante dos outros, desenxabidos, ele considerou que, na vida, nunca passara por lance tão humilhante e cabuloso. Percebeu a falta da filha, e a mulher lhe disse que saíra com a Floriana. Certo momento, Nanda avança para a porta, apanha uma peça do montículo de roupa largado nos degraus da entrada e grita:

-- Esta toalha não é minha!

Atira o pano aos pés de um dos negros mal-encarados na hora em que Tié reaparece com a notícia:

-- Nhô Isauro picou a mula não se sabe pronde.

Duda salta desafrontado:

-- Está vendo? O velhaco fugiu! -- E depois, mais sereno: -- Eu agora acredito no que você está dizendo, mas quero que se chame alguém para confirmar tudo.

O homenzinho replica, menos agitado:

-- Pois chame quem quiser. O meu tio Elesbão Inácio Pontes da Luz é por demais conhecido aqui, morador desde a fundação da póvoa, é pessoa de bom berço da Ilha Terceira.

Como se lhe houvessem surripiado a naturalidade, Duda encrespa-se e bate no peito:

-- Da Ilha Terceira sou eu!

O riso desanuviou o ambiente e, sem discussão, as partes acordaram em chamar uma autoridade do antigo governo luso, o capitão-mor José Felipe Olivedo, que não tardou a comparecer todo embrulhado num cobertor «por causa da constipação», assistido por um neto. Sem titubeios nem delongas, o ancião atestou a veracidade do fato.

Duda coça a barba esbranquiçada a cismar; o velho pergunta em tom de comiseração:

-- E agora, para onde vai?

Ele descreve um gesto largo e, com os olhos postos no horizonte, desabafa:

-- Ele, se pudesse, ia-me embora daqui já, metia tudo isto numa canoa e seja o que Deus quiser! Tocava-me para a ilha.

O neto do capitão-mor intervém:

-- Eu lhe posso emprestar uma canoa, a mesma que o Isauro usa para ir fazer a feira no Desterro.

Nos olhos um brilho de alegria, Duda exclama:

-- Pois é a mesma em que eu vim!

Nanda assanha-se, a saltitar:

-- Vamos, Duda, vamos para casa, que bom voltar!

Continuaram o despejo sob as vistas do casal, e os negros da olaria ajudaram a transportar a bagagem para a canoa. Novo contratempo ocorreu quando Maria José voltou do passeio. Foi difícil convencê-la a embarcar, pois dizia e repetia:

-- Não, não posso ir, tenho de me encontrar com ele, nós ajustamos...

Timóteo tratou de molhar a goela ao apear do carro de bois à rua do Menino Deus. Entrou numa taberna e dali saiu meio cambaleante e alegroso. Tudo estava bom para ele, exceto o temor da viagem marítima, que punha uma pitada de travo no mel do seu prazer, além da tremedeira que sentia quando avistava uma farda espanhola. Desembocou no Largo da Matriz e desceu à praia, a ver se achava uma embarcação para a travessia do braço de mar. Também muito tempo consumiu ocioso, a pervagar a orla praiana mergulhado em divagações. Após indagar aqui e ali a uns e outros, acertou enfim a viajada por trinta réis num batel de pesca que só partiria ao entardecer, dando-lhe azo a repetidas visitas à bodega.

No momento do embarque, as pernas da calça arregaçadas, os pés medrosos tocando a água, ouviu seu nome bradado. Era o Duda, que aportava. Atarantado, voltou atrás e disparou para o ponto a que a canoa se dirigia, deixando de cara comprida o bateleiro. Descendo em terra de modo precipitado, Duda pergunta-lhe:

-- Aonde ias, homem de Deus?

-- Ia para a outra banda te procurar.

-- A mim? Para quê?

-- Nada.

-- Nada? Como é lá isso? Anda, podes dizer, o que houve por lá?

-- É o Zé...

-- Ele morreu?

Então, Nanda e Maria José se acercavam, e aquela interpelou Timóteo em timbre agudo, um repuxo no rosto empalidecido:

-- Que foi que aconteceu ao meu filho?

-- Ele está, está... está quebrantado.

-- Quebrantado? Fala direito, homem, o que foi?

Não querendo dizer aquilo a que veio e sendo pressionado a fazê-lo, vê-se em talas, a cabeça numa tonteira. Esquiva-se à pergunta, aduzindo:

-- Ele vai melhor agora com a Dominícia.

-- Ele está muito mal? -- Duda indaga.

-- Muito, muito, não... mas está ...

-- Está o quê?

-- Mal, malzinho... mas tão bem de parecença! A barba preta, negrinha, cerrada, a cara desmerecida... lembra um camafeu de marfim!

-- Um camafeu! Ó Timóteo, andaste bebendo?

Antes que o cunhado responda, percebe a inutilidade da pergunta ao acusar o forte bafo de cana; aquele porém nega:

-- Eu? Não, rapaz, nem diz uma coisa dessa!

Em desespero, Nanda, a quem também a evidência é clara, inquire com firmeza sacudindo-o pelos ombros:

-- O que foi mesmo que aconteceu? Fala, fala, homem!

Timóteo decide-se pela verdade:

-- Foi furado de bala.

-- Ah, Deus de piedade, minha Nossa Senhora! Ele morreu, eu sei, morreu o meu filhinho!

A esse descontrole, Timóteo contrapõe maljeitoso:

-- Não, não, credo! O Zé vive ainda, respira, só está molestado.

Interrompe-os a presença do negro canoeiro:

-- Sinhô, as coisas botei lá em cima no seco da praia, posso voltar com a canoa? O mar não demora a se encrespar no vento do sul que já dá sinal pelo voo das gaivotas.

Duda agradece o préstimo do escravo, dá-lhe uma pequena moeda e o despede; depois, mirando a bagagem colocada contra a encosta da praia, resmoneia:

-- Temos de arranjar um carro, uma carroça...

Ligeiro, Timóteo propõe:

-- Vamos lá para a taberna, sempre ali aparece essa gente, os carreteiros.

Corta-o com veemência o Duda:

-- Não! Eu vou lá, tu ficas aqui tomando conta delas e da equipagem.

Afasta-se subindo a rampa coberta por uns tufos de mato. Até ali imóvel, o rosto branco de cera, os olhos saltados, a boca aberta, Maria José parecia alheia ao que se passava ao redor. Rompeu a chorar e tombou nos braços da mãe, que por sua vez não pôde mais reter as lágrimas.

José Maria não melhorava aos chás, rezas e defumações de Dominícia e Romão, mantendo-se em febre alta e inalterável desfalecimento. Ao chegar, Nanda encontrou Rita ajoelhada à cabeceira, umedecendo de pranto a mão hirta do enfermo; tentou arrancar o filho da prostração, despertá-lo para que a ouvisse, para que vivesse. Em vão pelejavam todos por ele, motivo por que Duda resolveu ir à vila buscar um boticário capacitado. Nessa empresa foi auxiliado pelo Vilarinho que, sabedor do retorno da gente do Jordelino e do estado agonizante do vizinho, decidiu também regressar afagando douradas esperanças e adotando atitudes elogiáveis. Excedendo-se em prestimosidade, fazendo-se útil em tudo e até se antecipando em providências a favor do doente, ao saber do propósito de Duda em buscar os recursos da medicina, prontificou-se a acompanhá-lo.

Ao amanhecer fizeram-se os dois de viagem em seus cavalos, levando ainda Vilarinho um tordilho pelo cabresto para servir de montaria ao boticário. Na vila, ele mesmo fez questão de entender-se com os homens em cuja porta bateram, voltando repetidamente a abanar a cabeça, desolado. Depois de muitas negativas colhidas, já estavam a ponto de tornar atrás na maior frustração, quando Duda teve uma lembrança. Ocorreu-lhe procurar o padre Jordão. À ideia de irem procurar o sacerdote, Vilarinho concordou com viveza:

-- Um padre? É o mais acertado... longe de mim agourar, mas é mesmo o de que ele mais precisa.

A Duda deram-lhe ganas de bater no rapaz, mas se limitou a fitá-lo com dureza e a roncar-lhe:

-- Não seja burro! O padre é para ajudar a encontrar um cirurgião que tenha alma.

Vilarinho sentiu-se descontente consigo, de modo que no trajeto para a Capela do Rosário tentou corrigir:

-- Só falei aquilo porque me pareceu.

Duda costurou-lhe a boca com rispidez:

-- É melhor não falar mais nisso.

Calou-se por algum tempo. Não se perdoava do erro cometido, porém contava em recompor-se no papel; adiante, ao subirem a ladeira do Largo da Matriz, puxou novo assunto:

-- Essa Igreja do Rosário não é só de escravos?

A inflexão exprimia a boa índole do moço prestativo, e Duda respondeu-lhe em melhor tom:

-- É, sim, é dos pretos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Venciam a lomba enlameada, já na rua da Trindade, e Vilarinho achou outra coisa para dizer:

-- Esse padre Jordão eu conheço, não é aquele que morou lá no sítio?

-- É esse mesmo, um homem bom, um homem santo.

-- Ele me deu aulas de latim e gramática.

Abeiravam-se das casas baixas à esquina da rua do Rosário, e dali divisaram o templo e logo repararam que estava fechado, agarrando-se Duda à hipótese de que o padre o atenderia se batesse. Na encosta barrenta apearam e amarraram os cavalos nos moirões ao pé da escadaria cujos degraus galgaram. Bateram com força na larga e pesada porta de entrada, sem qualquer resultado. Duda sentou-se numa pedra, desanimado, enquanto o acompanhante esquadrinhava o terreno e espionava pelos cantos. Levantando o olhar para a torre, estranhou:

-- Olhe, veja aquele sino todo partido, como se tivesse levado um balaço de canhão!

Duda observa desinteressado, meneia a cabeça, o pensamento distante. Um preto velho vem passando no caminho, a arrastar os pés embrulhados em palhas de milho. Duda desce para pedir-lhe informações:

-- Conheces o padre Jordão?

O negro abre franco sorriso, afirma conhecer e estimar o pároco e, à pergunta onde poderia ser encontrado, declara que o mesmo assiste na Capela do Menino Deus. Seguiram os dois, então, para o outeiro tomando a rua do Menino Deus e atravessando a Ponte do Vinagre. No alto, alcançaram a capela e, atrás desta, uma espécie de galpão coberto de folhas. Ali deram com o padre a ensinar uma gurizada barulhenta, que redobrou a algazarra ao ser deixada a sós. Jordão vem falar-lhes no pequeno pátio, abraça-os e, inteirado do motivo da visita, lastima:

-- Que tristeza! Um rapaz de coragem, de muito valor... Sabem que ele teve o topete de subir na torre da Capela do Rosário e tocar a finados justamente na hora em que a milícia espanhola rezava o <estrang lingua="latim"> Te Deum Laudemus </estrang> na Igreja Matriz?

Vilarinho adianta-se prazenteiro:

-- E eles abriram fogo de canhão contra o sino?

-- Pois foi o que aconteceu, e o Zé conseguiu escapar!-- exclama o sacerdote, um vivo brilho nos olhos mortiços.

Meio pasmo, meio orgulhoso, Duda menoscaba o feito:

-- Ora, ele fez isso? Sempre peralta...

Vilarinho sublinha o dito com uma risada, enquanto o padre repõe os louros na fronte do seu bravo:

-- Não, tens um filho valente, um herói até... Eu estava lá, quis tirar-lhe a ideia da cabeça, mas qual!

Duda desafoga-se:

-- Pois é, e agora está lá quase morto... nem sei se vou vê-lo ainda com vida!

Padre Jordão cruza os braços, baixa a cabeça e nessa posição permanece estático por alguns minutos, depois levanta o rosto banhado em luminosidade, pousa num e noutro o olhar profundo e diz em súbita decisão:

-- Vamos lá ao boticário.

Libera a meninada, que se dispersa guizalhante. Pouco depois, os três desciam a colina. Na rua do Príncipe, batem numa meia-porta e são convidados a entrar e esperar num banco de pau o sinhô que estava saindo da mesa do almoço. Em breve tempo vem a eles, cheio de gentilezas, o boticário Antônio da Costa Paes, estabelecido na vila «com licença para sangrar, sarjar, aplicar bichas e ventosas, curar feridas e contusões, tratar de luxações e fraturas». Homem sensível e generoso, concorda de boa-mente em ir ver o enfermo, para o que se põe desde logo a arrumar sua maleta de físico, onde também acomoda umas peças de roupa, sem esquecer o gorro de dormir.

Duda insta com o padre, ao despedirem-se, para que os acompanhe, e ele promete:

-- Eu vou lá passar uma grande semanada com vocês, podem-me esperar, daqui a uns dias...

Quando os três lhe acenavam de suas montarias, prestes a iniciar viagem, Jordão disse a Duda:

-- Não desespera, amigo, tem confiança em Deus, que nos ama e protege. -- E para Vilarinho: -- Deus também te proteja, meu filho.

Ministrando cataplasmas de farinha e seus sais e suas drogas, o boticário logrou trazer o padecente da inconsciência e recobrá-lo para a vida. Em alguns dias de medicação, não de todo excluídas as mezinhas dos pretos, intensificaram-se as melhoras, mais acentuadas após a chegada do padre Jordão e de sua terapêutica de fé. Todos os que cercavam o doente de cuidados e carinhos puderam, enfim, começar a quitar-se da angústia, da estafa e das horas de sono sacrificadas.

Naquela noite, prontificou-se Timóteo a ficar de vigília em companhia do sacerdote. É aceito o alvitre, de vez que assim Nanda e Duda, além do exausto licenciado, poderão repousar por umas horas. Retirados estes a seus cômodos, permanecem os vigilantes ao lado do enfermo, o padre sentado numa banqueta, o outro acocorado junto à parede. Desde certo momento, Timóteo -- escapo do patrulhamento da mulher -- levanta-se a espaços regulares para uma visita à cozinha e ao barrilete de aguardente. Numa das vezes é flagrado pelo religioso no momento em que enche o copito e, atrapalhado, só lhe ocorre oferecer-lhe a bebida. Aquele olha-o compassivo e apenas lhe diz:

-- Não, não quero sair do meu juízo.

Ficando a sós, ele mira e remira com dois corações a branquinha, cismarento, até que, num impulso, entorna-a no de água servida. De retorno a seu canto, ali se amocha dentro do silêncio comprido, enquanto o padre reza e o doente ressona acalmado. Minutos passam vagarosos. Ele espia o que dorme e o que ora. Este parece cochilar, e ele regressa à cozinha, ao beberico. Mas o gosto não é mais o mesmo.

Pela manhã, rendidas as sentinelas pela gente habitual, o licenciado vem fazer o curativo diário. Como de costume, Vilarinho acerca-se para soerguer o doente e assim mantê-lo durante a operação. Verifica-se então o fato espantoso: ao aproximar-se do enfermo, este o repele com gestos imperiosos e roncos de protesto. O rapaz recua surpreendido e afasta-se desconcertado. Todos ficam pasmos. Padre Jordão interrompe a leitura do breviário e para-se com o olhar distante, a boca aberta.

Nanda despacha a filha a chamar o Timóteo. Maria José custa a entender o que lhe é pedido. Ficava ao lado do irmão quase todo o tempo, ajoelhada no chão a um passo da cama, imóvel e calada. Quando a tarde começava a declinar, toda se animava e dizia, ajeitando-se com faceirice: «É hora de ir, Hernández está me esperando, o meu anjo! Não quero que fique esperando por mim, estamos noivos, ele já se apalavrou com o meu pai... Ele disse que viaja agora a sua terra para receber a letra de doutor, e depois embarca num veleiro lindo só para me buscar!» Prendida uma flor nos cabelos, seguia para o local em que costumavam encontrar-se, para um idílio que se concretizava na fantasia da sua mente.

Tarda a compreender, mas enfim levanta-se e sai. Em muito menos tempo que o esperado, retorna despreocupada, os passinhos miúdos e saltitantes, um rubor no rosto mirrado. Nanda pergunta:

-- E o Timóteo, que dele?

-- O Timóteo? Não sei...

A mãe não insiste; envolvendo-a num olhar carinhoso, tranquiliza-a.

-- Está bem, minha filha, não é nada, fica sossegadinha.

Rita de Jesus se oferece:

-- Eu vou chamar o pai, decerto está na roça com o tio.

Padre Jordão contém-lhe os passos:

-- Não, não é preciso chamar ninguém, eu mesmo posso fazer isso.

Ela entrepara hesitante; o sacerdote de 66 anos tenta, mas não consegue erguer o enfermo, e termina aquiescendo:

-- É melhor chamar o Timóteo.

A rapariga raspa-se ligeiro em direção à lavoura, onde encontra o pai e o tio na lida da semeadura do milho. A pouca distância entre si, em linhas paralelas, vão abrindo covas na terra afofada e nelas depositando os grãos de milho. Rita dá o recado, Timóteo estranha:

-- E o Vilarinho não está lá?

-- Estava... o Zé não deixou que ele lhe tocasse.

Duda, que interrompe o trabalho, observa:

-- Então ele já está ficando bom.

Timóteo enxuga o suor que lhe escorre pelo pescoço com a fralda da camisa e põe-se a caminhar no seu trote picado; a filha apanha o bornal dos grãos e continua o serviço por algum tempo; de repente abandona tudo e corre a retomar seu posto à cabeceira do primo. Na trilha rente ao bambuzal cruza com Vilarinho, que lhe diz queixoso:

-- Viste o que ele fez, depois de tudo?

-- Ah, coitado...

-- Que coitado? Ele está melhorando, e bem, até já me sentou os cascos!

-- Vou para lá, vens comigo?

-- Eu? Nunca mais que vou lá, já cansei, não ajudo a mais ninguém. Sabes o que é que me parece? Ele eu penso que, lá nos seus delírios, deve ter sonhado alguma coisa comigo e acredita que é verdade... está que nem a outra!

Ele solta uma risadinha e segura-a, puxa-a para si.

-- Ui, me deixa, tenho de ir! -- ela desvencilha-se e escapa ágil como uma cabrita.

-- Vai, vai apaparicar o maroto, amanhã está te chutando também... Ritinha, vem cá!

Rita de Jesus não se deteve nem lhe deu ouvidos.

</div>

<div "VII">

Nossa Senhora do Desterro, de 29 de outubro a 6 de novembro de 1777.

No seu giro matutino pelo sítio, Vilarinho encontra um moleque dormindo num feixe de palha e acorda-o sob chicotaços para largá-lo meio morto no terreiro, a fim de que os outros nele se exemplem. Guiando o cavalo por diante, corta por entre pés de café e surpreende dois escravos de meia-idade assentados na sombra a pitar num canudo de bambu. Levanta-os e leva debaixo de relho até o ponto em que o guri jaz gemente. Aos brados reclama a presença do Marcelino e passa-lhe bruta reprimenda a brandir o cabo do chicote:

-- Por que não diriges essa negrada?

-- Eu dirijo, sinhô...

-- Diriges o quê? Eles só pensam em comer, dormir, folgar, enquanto a terra está esperando preparo para as semeaduras, o potreiro cai aos pedaços, ninguém arruma!

-- Ó, sinhô, eu hôs...

-- Cala a boca! Se isso continua assim, vou botar um feitor aqui, e dos malvados, quero ver como vão se haver todos vocês!

Mais tarde, tratando das feridas dos açoitados, Marcelino considera:

-- Esse homem nunca foi bom, mas agora está pior. Não sei que bicho mordeu ele...

Mordeu-lhe a certeza amarga da perda de Rita, que nem lhe concede uma palavra, um olhar. Desde as melhoras do Zé, ela se tornou mais esquiva e arisca, e ainda mais ficou após a sua partida.

Deu-se a viagem por causa de um parecer do padre Jordão ao despedir-se o boticário. Este apertou a mão de cada um antes de aboletar-se no carro de bois atochado de presentes recebidos em paga dos seus serviços profissionais. Em meio a hortaliças, frutas, sacos de farinha, viam-se um peru, galinhas, patos e marrecos. Uma pipa de aguardente de cana e um barril de melaço escoravam o carregamento na retaguarda. Tudo oferta de Jordelino e Duda. Nanda e Maria José ofereceram um jogo de toalhas de renda por elas mesmas trabalhadas, Conceição um tecido de linho trazido dos Açores, Das Dores e Rita um conjunto de louça portuguesa antiga, Timóteo uma pele de veado curtida.

Ao soltar a mão do padre, este lhe perguntou:

-- Que acha o senhor? Não seria bom que ele fosse completar a cura num lugar de melhores ares, mais saudável? Eu penso que ele devia ir convalescer, ganhar forças e cores à beira do mar, o senhor não acha?

Antônio da Costa Paes aceitou a sugestão com entusiasmo, tendo-a como muito apropriada às circunstâncias, de maneira que, ao abraçar o rapaz, aconselhou-o com reiteradas palavras a cumprir o que já assumira a importância de uma prescrição médica. Assim, em poucos dias, José Maria decidiu partir, escolhendo para restabelecer-se a Armação da Lagoinha, local onde, aos 19 anos andara metido nos negócios da pesca da baleia e em que conseguira amealhar dinheiro graúdo, todo gasto nas tabernas e no meretrício do cais do porto do Desterro.

Já montado com a ajuda do Romão num cavalo emprestado pelo avô, feitas as despedidas a todos, menos à Rita, que se escondeu a chorar, a avó chamou sua atenção para o Vilarinho, daquele ponto a ser avistado numa colina do seu sítio dando ordens a uns escravos empenhados a desbastar o terreno em volta:

-- Ó filho, vai te despedir dele, vai, foi tão bom para ti...

A mãe reforçou a advertência:

-- Fez-se muito prestante na tua doença, até foi com teu pai à vila buscar o licenciado.

Ele não respondeu. Firmou a vista na figura odiada e recordou-se de que, naquele dia, quando da fuga depois do tiro, ele a custo espiou pela frincha e não viu ninguém nem escutou coisa alguma além do distante mugido de uma vaca. Então percebeu-lhe as verdadeiras intenções e teve a certeza de que estava irremissivelmente sozinho, com as suas dores, sua angústia, sua morte.

Desviou os olhos e, ao esporear o animal, acertou consigo: «Eu me vingo de ti, eu juro que hei de me vingar um dia!»

A alma ressecada pela rejeição da rapariga, Vilarinho galopa pelos campos, colinas e vales, arvoredos e atoleiros, indo desembocar na póvoa da Santíssima Trindade Detrás do Morro. Apeia defronte a uma taberna de secos e molhados entre um moinho de farinha e copado cajueiro, em meio ao largo nu e barrento. Ali encontra bebericando, numa pausa de jornada, o Dilermino, antigo conhecido, dono de extensa gleba na Lagoa, com atafona, escravaria, plantações de trigo e linho, gado leiteiro do melhor. Põem-se a cavaquear. A certa altura, mencionando os desmandos do filho moço com as fêmeas da senzala, comenta:

-- Tem-me estragado as pretinhas, caindo nelas sem tirte nem guarte volta e meia emprenhando uma. Você sabe, essa mistura não esmera a raça, e elas ficam amolecidas para o trabalho, confiadas. Um dia desses, arreliado com o que fez uma peça que eu tinha apartado para boa cobertura, destratei ele a valer e lhe gritei: «Tu mesmo só serves para as negras!»

Esta admoestação ficou-lhe na mente, com ela se recrimina e se rebaixa, afeito que é a cevar os sentidos no couro das escravas. A princípio tênue, contornos imprecisos, uma ideia se foi delineando, encorpando e fincando estacas na sua vontade. Mal chegado a casa, despacha o Marcelino a chamar a Engrácia, velha escrava dos tempos do pai. A larga boca sem dentes rasgada num sorriso, veio esta logo dizendo:

-- O sinhô me chamou, quer que a velha lhe traga uma negra?

Vilarinho brada:

-- Não quero negra nenhuma!

A negra insta, nos olhos uma flama lasciva:

-- Eu podia trazer uma pretinha de doze anos, já bem arredondadinha de ancas, os peitinhos de enche-mão...

Ele sapateia:

-- Já disse que não quero negra nenhuma, nem negra nem negrinhas! Achas que só sirvo para as negras?

-- Não, sinhô... pensei que fosse pra isso que me chamou -- justifica-se a escrava, e em tom suavizado o senhor lhe ordena:

-- Quero que tragas aqui a dona Rita.

Engrácia enche-se de escrúpulos:

-- Não, isso não posso! O sinhô me manda pro tronco, me açoita, me estraçalha, se quiser, mas isso não posso fazer.

-- Podes, como é que não podes? Se eu estou mandando! Vem cá, entra aqui, quero te mostrar umas coisas.

Faz a velha passar ao seu aposento de dormir. Um baú revestido de couro jaz a um canto sobre cavaletes. Ele o abre e exibe ao olhar deslumbrado da preta vestidos de seda e veludo ornados de finas rendas, mantilhas de brocado, joias faiscantes. A escrava admira-se ante as maravilhas:

-- Que lindo, que lindo!

Vilarinho fecha a caixa e instrui:

-- Diz a ela que tens umas coisas lindas para mostrar-lhe, que eu estou por longe, em viagem... ela virá contigo e, quando estiver entretida com o baú, tu sais de mansinho, entendes?

-- E o sinhô, escondido aqui dentro...

-- Isso mesmo, tão fácil, não é?

Engrácia aparenta hesitar, contudo uma expressão de malícia e cumplicidade alumia-lhe o negrume encorreado das faces escaveiradas:

-- Não sei se... mas se eu... o sinhô me dá uma dessas coisas lindas? Eu ganho alguma...?

-- Ganhas, garanto que ganhas -- promete-lhe o senhor, empurrando-a porta afora para que se pusesse em ação.

Ao saber da assinatura, pelas cortes de Portugal e Espanha, do Tratado de Santo Ildefonso, pelo qual a Ilha de Santa Catarina deveria ser devolvida aos lusos, o capitão Juan Hernández não resistiu ao anseio de, talvez pela última vez, rever o sítio em que fora feliz, de eventualmente reencontrar a amada, de informar-se do fim que tivera o irmão desta. Absteve-se até ali de tornar a vê-la, impedido por um suposto cadáver. Agora, celebrada a paz, a chispa de uma esperança realenta o sonho e questiona o seu conformado malogro de amor.

À beira da estrada, no encruzo do caminho aberto no matagal e que leva às casotas tão conhecidas, é advertido por uma patrulha do seu Regimento:

-- <estrang lingua="espanhol"> El capitán adonde se encamina solitário? É peligroso ! </estrang>

-- <estrang lingua="espanhol"> Non hay peligro, conozco mucho a éstos </estrang>.

Antes de subir a trilha em meio ao bosque viçoso, demora-se em conversa com os subalternos comentando e minudenciando o ajuste pacificador. Depois galga a encosta verdejante e planta-se de sentinela no alto de uma colina, semioculto pelas folhagens, de onde avista o conjunto de vivendas, os terreiros, parte das glebas, as gentes que p0r ali circulam.

Engrácia percorre ociosa o quintal de nhô Jordelino, ciscando aqui umas folhas secas à procura de coisa nenhuma, colhendo ali uma fruta, uma flor. Acerca-se do poço à borda do qual, à sombra, Cipriana descansa com a cria ao colo. A velha puxa um cavaco a propósito de ninharias e, à falta de melhor assunto, pergunta àquela pelo seu homem.

Embalando o filho que o reprodutor lhe semeou nas entranhas, a preta suspira:

-- Que saudade que me dá o meu negrinho! Será que o Togo volta para mim, Engrácia?

-- Eu penso que ele volta, vai voltar, sim...

Nesse instante Rita de Jesus surge do cafezal e a preta velha corre ao seu encontro; compondo ar de mistério, sussurra-lhe:

-- Quero lhe mostrar umas coisas lindas, sinhazinha, venha comigo.

Travando-lhe do braço, tenta levá-la com suavidade. A princípio a rapariga embatuca mirando-a desconfiada, mas deixa-se conduzir por uma distância sobre o capim ralo acreditando esteja ali perto o que-quer-que-seja a ser-lhe mostrado. Na divisa, intentando a escrava fazê-la transpor uma aberta na carcomida cerca de paus, nega-se a prosseguir, porém a outra lhe assegura que o seu senhor está fora, que viajou para o sítio do Canto da Lagoa, e então ela a acompanha, embora relutante.

Debruçada sobre o baú, absorta, embasbacada, Rita aprecia as «ricas belezas» a sua frente, acariciando-as com mãos trêmulas, experimentando no rosto a maciez das sedas. De repente, ele irrompe no aposento e procura aquietá-la com blandícia:

-- Não te assustes, prenda querida, não te vou fazer mal. Gostaste dessas coisas bonitas? Pode ser tudo teu, se quiseres...

-- Eu não quero nada, quero é sair daqui! -- ela esbraveja e tenta escapar-lhe dos braços.

Lutando e gritando por socorro, e debatendo-se, é derrubada e tem as saias erguidas. Desnuda desde a cintura, continua a gritar; enquanto esperneia sob ele, sente a roçar-lhe as carnes algo abrasante.

Cipriana, que cautelosa seguiu os passos da sinhá-moça junto à escrava, com muita curiosidade e certo receio as viu entrar na casa, a pequeno intervalo, percebeu que a velha reaparecia sozinha e, furtiva, escondia-se entre as árvores do pomar. Adiantou-se mais, o <estrang lingua="espanhol"> querrucho </estrang> nos braços, e com desconfiança rondava a morada, parecendo-lhe tudo de má feição, quando ouviu os gritos da rapariga. Presumindo o que se passava no interior da casa, bateu à porta, forçou-a e, não conseguindo abri-la, passou a clamar por socorro.

Do seu posto de observação, Hernández ouve o alarido e apressa-se em acudir. Chegando ao local, cruza por duas negras que altercam, a velha a berrar:

-- Não te mete nisso, nega tola, e cala essa boca!

Atento aos gritos abafados que vêm de dentro da casa, o capitão lentamente força e transpõe a porta; sacando da pistola, alcança a sala escurecida no momento em que, tendo largado a presa e apanhado uma espingarda, Vilarinho avança para ele a disparar a arma. Ao fim de breve tiroteio, Hernández jaz por terra e aquele, ante o rumor de gente que se aproxima, corre a montar o cavalo que deixou encilhado para qualquer emergência, e galopa campo afora.

Alertada pelo berreiro e pelos estampidos, aflui a vizinhança. Brancos e negros interrompem a sesta, cheios os pandulhos, cansados da labuta na roça ao sol forte; as mulheres largam suas lidas na cozinha, no fuso, no tear, na almofada de bilros. Os primeiros a aparecer veem o rapaz safar-se num tropel sem atinar com o motivo e, entrados na casa, deparam com o oficial espanhol caído, a golfar sangue, e depois com a rapariga, os olhos saltados, apavorada. Logo esta é acometida de choro convulso abraçada à mãe, enquanto o pessoal se acerca do homem estendido nas tábuas do soalho.

-- Que se deu aqui? -- Das Dores indaga em voz alta e nervosa, e insiste: -- Que aconteceu contigo, minha filha?

-- O Vilarinho ia me desgraçando! -- a moça balbucia, toda tremuras; a mãe emite um uivo doloroso, partido do fundo da alma; o pai estaca apalermado; ela prossegue: -- O soldado aí me livrou das suas garras... eles trocaram tiros... depois o Vilarinho fugiu.

-- Está morto -- diz o Jordelino, abaixado a examinar o castelhano; Duda junta-se ao sogro e, atentando para as feições do homem, acaba por declarar:

-- Eu conheço este homem... é o mesmo que quis por força que eu me bandeasse para o seu lado, que me ameaçou os bens...

Com o coração na mão, Rita espia o semblante do morto e exclama:

-- Meu Deus, é o querido da Mariazinha!

Duda, Nanda e os demais observam detidamente o rosto sereno, de feições regulares, a que uma barbicha ruiva manchada de sangue confere um toque místico.

-- Não se conta nada a ela, ouviram? A Maria não deve saber disso nunca, nunca mesmo -- recomenda a todos Duda, enquanto a mulher leva as mãos à cabeça:

-- Ih, minha Nossa Senhora, vou lá ter com ela... pode ter acordado e vir por aí!

Por sua vez, Jordelino dá-se conta do perigo que correm:

-- Não é de prudência a gente ficar aqui com este capitão morto. Se descobrem o que houve e nos acham cá dentro? Vamos sair para logo daqui.

Percebido o risco, tratam todos de safar-se. Em pouco, no interior da casa ficou só o defunto e, do lado de fora, a zanzar pelo quintal, a negrada. Solitários ou em grupos, ressabiados, mal-intencionados uns, desnorteados outros, rondam a casa-grande inquietos.

-- O meu negro escapuliu pros matos -- segreda uma escrava à outra, que aprova:

-- Bem que ele fez, devias ter escapado com ele.

-- Cá temos uma combinação nossa... Não sei por que o teu, tão sofrido no chicote, também não fugiu.

-- O Gro vai, mas antes quer fazer uma coisa.

Apontava então a patrulha espanhola no cimo da colina. Andava a vasculhar os arredores, trazida pelo tiroteio, à procura do capitão que se aventurara sozinho por aquelas bandas. Com os braços erguidos, um negro sobe a encosta em disparada e, no alto, de joelhos diante dos soldados, indica a casa do patrão e informa:

-- Lá dentro tem um espanhol morto, meu dono matou ele e fugiu a cavalo.

Conduzindo o escravo a laço, despacham-se os patrulheiros rumo à morada, dispersando e espavorindo o enxame de pretos em redor. Engrácia, que carrega um baú ajudada por um moleque, larga assustada a preciosa carga e dispara atrás do garoto para o meio do arvoredo. Encontrado o corpo do companheiro, divide-se o grupamento: dois homens são deixados de guarda, um é mandado a avisar o comando e pedir reforço, e os poucos restantes, servindo-se de animais da cavalariça do perseguido, encetam sua caça acompanhados do Gro.

Arrumada e enfeitada para sair, Maria José é retida pela mãe, que para tanto inventa pretextos que a impacientam. Dado momento, notando-se os olhos avermelhados, pergunta:

-- Esteve chorando, mãe?

De fato, vinha de chorar junto a Das Dores e Rita, as três abraçadas na lamentação das infelicidades acontecidas, tanto à rapariga -- «Quase me estraga a vida... eu ia ficar de um jeito que o Zé não me havia de querer mais!» -- como ao bonito moço espanhol -- «Razão tinha a Maria em dizer que ele lembrava Nosso Senhor...» -- e à própria Maria José -- «A coitada nunca mais vai pôr-lhe os olhos amorosos!»

-- Eu chorando? Ora, não...

-- Até que parece; abom, eu vou...

Recomeça a teimar em sair e a mãe em não deixar.

-- Fica, filha, só hoje, eu te peço.

-- Não posso, logo hoje não posso faltar, ele está me esperando, mãe.

-- Por que hoje é tão importante?

-- Hoje ele vai se despedir de mim, volta numa nau para a Espanha a buscar a letra de cirurgião.

-- Ele disse que hoje vinha se despedir?

-- Disse.

Nanda comove-se e cede:

-- Então está bem, eu vou contigo.

Ela saltita de contente:

-- Vamos, venha comigo! Quero mesmo que a senhora conheça ele, o pai já conhece, já conversaram...

No local dos costumeiros encontros, reais no passado, fictícios hoje, sob as ramagens de copada perobeira, Maria José parece dialogar com alguém. Observando-a a certa distância, Nanda sente um arrepio. Ao fim do misterioso colóquio, que a mãe acompanha estupefata, Maria lhe pergunta:

-- A senhora viu como ele é bonito?

-- Vi, é bonito, muito bonito.

-- Ele se foi embora, disse que ia fazer uma viagem tão longa! Que ia se demorar, mas um dia voltava para mim, para sempre!

Regressou a casa abraçada à mãe, melancólica, a suspirar. Ao transporem o portão, para-se a indagar:

-- A Espanha é mais longe que Portugal, que os Açores?

-- Não sei, filha, só sei que fica também muito longe daqui, do outro lado do mar.

A rapariga mantém-se um momento pensativa, depois torna a interrogar:

-- Ele vai demorar, mãe, mas volta, não é mesmo?

-- Volta, sim, querida, volta, podes sossegar.

Durante toda a noite ouviram-se os rumores da soldadesca. Pela manhã a milícia começa a arrebanhar nas cercanias as testemunhas para o relatório ao comando do Regimento. Enquanto muitos tentam esquivar-se, Jordelino comparece de livre vontade. Deixa a casa a passo firme, atravessa a horta e o macegal, traspassa a abertura na divisa das glebas. Esbarra com o escravo Marcelino, que em prantos lhe participa:

-- Mataram o patrãozinho, nhô! O cavalo voltou sem ele...

-- Se foi morto, teve o que bem merecia, não carece choro -- repreende-o o velho e segue em frente.

Adiante é impedido pelas sentinelas, diz a que vem, mandam-no esperar. Por largo tempo fica aguardando ordens, e enfim o recebe o capitão-chefe, que ouve enfastiado o seu prolixo depoimento e ordena a transcrição abreviada. Dispensado, Jordelino ganha coragem para ferir o assunto a que na verdade veio:

-- Saiba vossenhoria que jurei fidelidade a El-Rei Dom Carlos III, assim pode confiar em mim como fiel súdito de sua majestade fidelíssima... -- Abre uma pausa, a estudar o efeito da declaração; o oficial permanece impassível, e ele continua: -- Eu me ofereço para ficar responsável por esta propriedade que se tornou devoluta e que confina com a minha, até que a Justiça resolva a sua destinação. Posso manter tudo resguardado, casa, bens, gado, roça, escravaria... Que me diz, capitão?

-- <estrang lingua="espanhol"> Lo digo que a nosotros na interesa </estrang>.

O encanecido ilhéu surpreende-se:

-- Não interessa? Como? Não lhes interessa o direito, a ordem? Vão deixar que esses negros se assenhorem de tudo isto, desmantelem e arrasem com tudo em pouco tempo? Ou fujam e carreguem o que quiserem? E tem mais: o falecido deixou outro sítio com roça lá no Canto da Lagoa... também ali a negrada vai devorar tudo, acabar com tudo! E vossenhoria diz que não interessa?

-- <estrang lingua="espanhol"> Dejemos éso para las autoridades portuguesas, sí llegaren a tiempo </estrang>...

Jordelino cada vez entende menos:

-- Autoridades portuguesas?

-- <estrang lingua="espanhol"> Es, hombre, Hespaña y Portugal pactaran la paz, vamos dejar ésta isla con brevidad </estrang>.

A notícia põe-no aturdido. Um frio perpassa-lhe o espinhaço, e agarra-o um medo pungente que o faz tremer.

</div>

<div "VIII">

Nossa Senhora do Desterro, 4 de agosto de 1778.

Duda calcula a hora guiando-se pela posição do sol. Larga o serviço, recolhe o boi e o arado de madeira com ponta de ferro. De passagem pelo Timóteo, que passa a grade num trato de terra, grita-lhe. É tempo de suspenderem. Por causa do Te Deum na Matriz da vila em ação de graças pela retirada dos invasores, para o qual viera convidá-los o padre Jordão, porfiando em que ninguém faltasse, grandes e pequenos, senhores e escravos. Todos param a lida, na eira, na estrebaria, no chiqueiro, dirigindo-se ao córrego, a se lavarem Marcelino e Togo também.

Marcelino, sua negra e dois filhos menores foram recolhidos pelo Duda, apiedado ante o abandono em que se viram depois do descalabro praticado no sítio do falecido Vilarinho. Foi o caso que, tão logo a milícia espanhola deixou o local, a negrada sem rei nem roque entrou a apoderar-se de tudo que sobrara à pilhagem da soldadesca. Em vão, Duda tentou sustar os danos, a rapina, os desatinos dos cativos desarvorados. Acabaram fugindo levando consigo o que puderam carregar, dos trastes às alfaias, das roupas aos sacos de mantimentos. Só ficaram, em meio ao desmantelo, Marcelino e os seus, cheios de sustos, acuados no fundo da senzala vazia, de onde Duda os buscou e pô-los no seu chão até que as autoridades restauradas chegassem e resolvessem o destino deles e da propriedade despojada.

Conceição apressa a Cipriana no preparo do almoço e comenta:

-- É engraçado, a tua mãe, tão apoucada de vida, tão surdinha, tão ceguinha, está como uma criança influída para ir a essas cantorias. Eu por meu gosto não ia, vou pela imploração do padre, coitado, tanto rogou! Desde que me pus viúva, não me agrada mais sair de casa.

Sua viuvez data daqueles dias de triste lembrança:

Jordelino sentiu-se mal na presença do capitão espanhol, mas não quis dar a perceber, voltando para casa ainda de passo firme, a remoer -- «... não sei o que será de nós que juramos fidelidade...» -- a notícia que vinha de saber. Sua indisposição agravou-se depois que se assentou no rebato da porta. A mulher notou-lhe os sinais do incômodo que ele procurava esconder, e mandou Cipriana chamar o genro na roça. Quando este chegou, assustado, encontrou o velho rachando lenha:

-- Nunca estive tão bem nestes meus oitenta anos que eu não troco por muita mocidade comida de cupim. Ainda hei de ver morrer muitos tipos ordinários, como esse tal de Vilarinho!

Duda retornou ao trabalho. Conceição ficou por ali a rezingar com o «velho sem juízo», terminando por vencer-lhe a teimosia fazendo-o largar a machadinha e entrar em casa. Enquanto lhe preparava um chá de ervas, perguntou:

-- Então, conseguiste alguma coisa com os espanhóis?

-- Qual nada! Vão deixar tudo de mão... eles se retiram, disseram que foi feito acordo entre os reinos.

Ela se alvorotou:

-- Mas o que é que dizes, homem de Deus? Quer dizer que é a paz?

-- Pode ser...

-- Que bom, então! Eles deixam a ilha de vez?

-- Olha, escuta bem, eles disseram lá isto, mas não sei se foi mangação, que esses castelhanos são cheios de perfídias.

A mulher não se manteve:

-- Vou mandar a Cipriana levar a boa notícia a Nanda e a todos os nossos.

Jordelino levantou a esquelética mão espalmada:

-- Espera, mulher, ninguém sabe nada de certeza. Agora tem uma coisa, me ouve só: se for verdade, tudo volta ao tempo dantes e será como se nunca a gente tivesse jurado fidelidade nenhuma a estrangeiros nenhuns. Nunca se jurou nada a essa gentalha, ouviste bem?

Nanda apareceu à porta, preocupada com o que, de passagem para o campo, o marido lhe contou por alto. Jordelino tranquilizou-a:

-- Não foi nada, minha filha, foi só uma tonteira de cabeça, coisa à toa.

-- Pois não é que teve essa tonteira e se botou a rachar lenha? -- contrapôs Conceição.

-- O Duda me disse... mas que doidice!

O velho grunhiu uma risadinha sacudida; a mulher não se pôde conter:

-- Olha, temos uma novidade boa: os espanhóis disseram a teu pai que foi ajustada a paz... essa espanholada abusada se vai daqui duma vez.

Jordelino apressurou-se em atalhar a expansão de alegria da filha, a que se juntou o até ali contido regozijo da mulher:

-- Devagar com o andor... isso tudo pode não ser verdade, essa gente afinal não é de se pegar pela palavra. E tem mais uma coisa que me rala cá por dentro...

-- Que é, pai?

-- A desinfeliz jura de fidelidade... ah, se eu soubesse que não era para sempre! Abom... se de fato acontecer a desviragem de tudo, aquele juramento que nós juramos ninguém jurou, hein, entenderam?

Nanda intentou sossegá-lo:

-- Ora, pai, não lhe dê cuidado isso, todo mundo jurou ... quase todo mundo.

-- É, quase todos juraram, mas acontece que o camarista da Coroa sou eu! -- As duas trocam olhares de condescendente compreensão; ele rematou: -- Não se esqueçam que eu ia tomar posse naquele infortunado dia, e não quero que essa história de juramento venha a ser conhecida lá na vila.

Nanda pousou a mão em seu ombro:

-- E não será, pode ficar descansado.

Abalou para casa tranquila e contente; ouviu-lhe ainda a fanfarrice:

-- Eu ainda vou durar muito!

Jordelino levantou-se e, sob o olhar vigilante da mulher, foi sentar-se do lado de fora, no banco tosco encostado à parede de estuque. Quando a mulher lhe levou o chá, encontrou-o morto, embora parecesse adormecido.

Duda e Timóteo, a cavalo, seguem à frente do rancho em marcha para a vila. As mulheres vão aboletadas em dois carros de bois, A pé, fechando o acompanhamento, cumprem a jornada os escravos maiores e menores, exceto a velha Dominícia, alegremente aninhada no segundo carro. Entre os negros, caminham juntos Togo e Cipriana, esta com a cria ao colo.

A volta do seu homem deixou-a numa felicidade meio aparvalhada. Aconteceu há alguns meses, de inesperado. Um dia Togo apareceu no sítio e, antes mesmo de avistá-la, procurou falar com Duda para rogar que o comprasse. Numa de suas idas à vila, este foi à casa do seu dono e lhe propôs o negócio, recebendo em resposta uma rajada de desaforos que teve de revidar. Além do mais, o senhor de maus bofes ameaçou mandar atrás do negro um capitão-de-mato. Em resultado disso, Togo andou foragido pelos arredores por uns tempos, escapando à caçada que não tardou a efetivar-se. Depois, tendo por irrecuperável a peça, o senhor propôs a Duda a sua venda por baixo preço.

Em meio à viagem, Conceição queixa-se:

-- Ai, minha Nossa Senhora, que sofrimento! Não atino por que o padre quis tanto nós nesse Te Deum... e não me dizem por causa de que havia de querer lá o Zé?

-- Isso também me intriga quando penso... é até uma coisa esquisita, não é mesmo? Qual a razão? Ele nunca foi muito beato... -- diz a filha, e demora-se a cismar naquilo.

Procurado no sítio pelo padre Jordão, José Maria estava mesmo na vila do Desterro, depois de andanças e incidentes que começaram quando, pelo Natal, resolveu voltar para casa. Recuperado, fortalecido, tostado de sol e curtido de mar, achou que era tempo de tornar ao conchego dos seus e ao amor constante de Rita. A caminho, na estrada do Rio Tavares, apeou à porta duma taberna para um gole de café com tapioca. Ajoucado à entrada, um crioulo ergueu-se e todo se curvou diante dele:

-- A bênção, nhonhô! Dá uns réis pro negro comprar um pouquinho de fumo?

Pareceu-lhe um dos escravos do seu vizinho e desafeto:

-- Tu não és o Bocarra?

-- Sou, nhô, sim.

-- Que fazes aqui? Fugiste?

-- Mais ou menos, nhonhô.

-- Como mais ou menos?

-- De um jeito, sim, doutro, não...

-- Explica-me lá isso.

-- Ficamos sem dono...

-- Sem dono? Que foi feito do Vilarinho?

-- Foi morto, os espanhóis... o sítio ficou sozinho e nós também, não se podia ficar lá sem dono, né?

-- Mataram o Vilarinho?

-- Mataram ele, nhonhô. Os soldados foram atrás, plac-plac-plac, e carnearam ele nos matos... o cavalo voltou pra baia sozinho!

-- Por que foi que mataram ele?

-- Por causa que desfrutou a sinhazinha da vizinhança.

-- Quem?

-- Dona Rita.

José Maria deu uma moeda ao preto e o fez contar tudo bem esmiuçado, segundo o seu conhecimento ou a sua fantasia. Depois, reconcentrado, montou e saiu a trote lento, adiante estacou a remoer os fatos. Pensou em regressar à Armação, quebrada a vontade de vê-la, de falar-lhe. Entretanto, fosse como fosse, decidiu tocar em frente, sem pressa, sem gosto.

Logo à chegada, deparou com a ausência pungente do avô, que abafou tudo o mais, a tristeza maior encobrindo a menor. Em meio ao luto e à dor, a vida e as pessoas mudadas, o caso Vilarinho foi poucas vezes mencionado, e a medo e de atropelo -- «...ele agarrou ela, ela gritou, Cipriana acudiu, chamou ajuda, um capitão espanhol que andava por perto socorreu...» -- contado ao de cima, com reticências e silêncios contrafeitos. Ao lado disso, os modos de Rita eram tão envergonhados, portava-se ela diante dele com tanto constrangimento, que ele viu em tudo o evidente testemunho da verdade a confirmar-lhe a versão do Bocarra. Ademais, todos o afagavam com tão doloroso olhar, cercavam-no de tanto compadecimento, que era como se velassem o acontecido com a sua querida, embora às vezes entrasse em dúvida se o motivo daquilo não seria o pesar pelo avô. Pouco parava em casa e por dias seguidos ninguém nele punha os olhos, que vivia a cavalgar pelas matas em passeios e caçadas sem fim. Tarde da noite, recolhia-se ao seu quarto solitário na casa dos pais que, com a morte do avô, haviam se mudado para a morada maior, a fazer companhia à avó. E então sucedeu o Natal.

Sucedeu porque tinha de suceder, não foi esperado nem chamado pelos corações feridos com a perda do velho chefe, que se vivo fosse estaria completando 81 anos rijos e operosos. Nesse estado de espírito fechado às alegrias, não quiseram receber os Ternos de Reis e também não se animaram a demandar a vila para a Missa do Galo e o beija-mão ao Menino Jesus. No dia 24, às ave-marias, por lá apareceu a confortá-los o padre Jordão, a tempo de dirigir as preces ante o oratório familiar. Após, passaram todos à cozinha, onde ia sendo preparada a cabidela, enchendo-a com suspiros pesarosos e mutismos descontentes, às vezes violados pelas risadas despropositadas de Maria José, que vexavam e melindravam, menos ao pai. Este sorria-lhe como se a aprovasse. Em dado instante, Duda resolve aliviar aquele carregamento de alma:

-- Gente, vamos desoprimir o peito, nos alegrar um pouco... afinal, ele viveu bastante, viveu bem, criou família, teve o que sonhou ter, até a nomeação camareira.

-- Mas não tomou posse -- lastima a viúva, a um canto da mesa, enxugando os olhos.

-- Teve tudo -- reafirma Duda.

-- Só não teve a comenda... -- observa Nanda, recordando antiga aspiração do pai, que remonta aos primeiros tempos na nova terra.

Duda rebate:

-- Pois é, nem a comenda nem a escrivania sacramentada, mas fez muito e muito alcançou, por isto vamos nos alegrar um pouco nesta noite feliz, vamos afrouxar as mágoas. Ó Timóteo, onde é que estás que não buscas uma bebidinha?

Das Dores suspende o descascamento das batatas e dardeja um olhar de advertência ao marido, que sorri desajeitado:

-- Eu não...

-- O quê, rapaz? Agora podes, é com a bênção da Igreja, que o padre também vai tomar uns goles, hein, meu amigo?

-- Só um golinho para aquecer o coração, como dizem as Escrituras... -- Jordão aquiesce, enquanto, sem que ninguém mandasse, Dominícia traz um garrafão de vinho:

-- Aqui tem, sinhô, pelo amor do Menino Jesus, que não quer hoje triste nenhuma criatura sua.

Duda exclama abraçando a velha escrava:

-- Alma santa, Deus te guarde, este vinho vem a calhar! As canecas, minha negra, as canecas!

Aparecem as canecas e o vinho começa a ser degustado. Dentre os que dele provaram não se contam Conceição, Das Dores, Maria José e Timóteo, este desculpando-se ante a insistência do cunhado:

-- Eu não quero desfeitear os presentes, ainda mais o senhor padre, mas sou uma ruindade que não pode beber nem um pouco porque não sabe beber só um pouco, aí está, entendem? De pouco em pouco, vou acabar fora o meu juízo... -- disse com sinceridade de espírito endereçando um olhar significativo para o sacerdote, que concordou de cabeça, meio a sorrir, ao tempo em que a mulher o afrontava:

-- É isso mesmo! Já te curaste da bebida, mas podes recair nessa desgraça... ninguém se fie em ti, eu que sei!

Já se punha na mesa a louça fina trazida das Ilhas, os desgostos estavam um pouco desatrelados do pensamento, quando assomou à janela-porta o José Maria, vindo do negrume da noite, o rosto emoldurado na barba espessa. O pai regozijou-se:

-- Ó meu filho, chegaste em boa hora! Vem festejar conosco o Natal, entre para dentro, vem sentir o dom deste vinhozito velho!

Entrou mudo, sem um gesto amistoso. Maria José, que no momento colocava a seu lado, na mesa, destinado ao espanhol, um talher de prata dos retirados da arca pela avó, acorreu à entrada supondo tratar-se do amado que chegava e era recebido por efusiva saudação. Constatado o engano, retraiu-se e voltou de lábios trêmulos, o que ninguém percebeu. Quando mais tarde a ceia foi servida, fazia-se no ambiente aquele destrancamento de alma que predispõe à conversação solta e leve, tendente ao interessante, ao confessional. Em meio à refeição farta e apetitosa, vindo à baila o nome de Vilarinho, José Maria surpreendeu a todos:

-- Ele tentou me matar -- declarou e, diante do pasmo geral, prosseguiu: -- Agora vou contar... ele me achou lá em casa sozinho, bem mal, ferido pelo capitão espanhol, mas estava sendo assistido e tratado por esse mesmo homem, que era cirurgião e que foi bom e paciente comigo. Bem, o Vilarinho me encontrou ali deitado na cama, fraco, sem quase força para me mexer, e que fez ele? Deu uns tiros de dentro de casa quando o castelhano chegava, só para provocar a sua ira, fazer com que ele fosse acabar comigo duma vez... depois, vendo que ele em vez de fazer isso se contentou em ir-se embora, resolveu me deixar abandonado para morrer como um cachorro sem dono. Graças que o Romão me achou a tempo de me salvar!

-- Graças ao Bom Jesus Nosso Pai! -- corrigiu o preto velho que, com os demais escravos, participava da ceia do lado de fora da casa, toda escancarada para a noite clara e quente.

-- Agora é que estou entendendo a tua fúria contra ele ainda quando nem podias falar -- diz a Rita.

-- O meu tormento era ver aquele demônio ali enganando a todos. Que raiva me dava, que gana de cair-lhe em cima, de enxotá-lo a pontapés!

-- E eu que acreditei na prestança dele -- ajunta o Duda após novo gole de vinho -- eu, que fui com ele à vila atrás dum médico para ti... e por sinal que, vejam só, agora é que atino com a coisa! Toda vez que chegávamos numa casa, a tratar com o doutor, ele se adiantava para falar e o resultado era sempre um não que nunca ouvi da boca deles! O patifinho me tapeou bonito, sim senhor...

Padre Jordão intervém:

-- Logrou-te bem, até que me foste procurar.

-- Pois foi... então daí em diante tudo se acertou -- enuncia Duda e sorve mais uma golada de vinho; em seguida, pondo os olhos em Timóteo, nota-o muito quieto, ao contrário dele, buliçoso e loquaz. Insiste novamente em fazê-lo bebericar da aguardente ou do vinho, ao que o cunhado lhe segreda que só sabe beber escondido. Com sorriso matreiro, piscando-lhe o olho, Duda disfarçadamente deita dois dedos de cachaça no seu suco de uva.

O sacerdote retoma a conversação:

-- Já que se está para confidências, também vou fazer a minha. -- Abre-se um silêncio de expectativa, e ele inicia dirigindo-se a Duda: -- Quando me procuraste na Capela do Menino Deus, junto contigo estava, como mesmo acabas de dizer, esse infeliz moço Vilarinho, que eu conhecia de pequeno, pois chegou a ser meu discípulo aqui mesmo, no tempo do meu acoitamento.

-- A minha filha Rita de Jesus também foi guiada pela sua mão nas letrinhas da escrita -- intercala Timóteo, todo sorridente.

A esposa repara o desconcerto:

-- Timóteo, ele sabe disso, todos nós aqui sabemos, não precisas chover no molhado. O senhor continue, padre.

Murcha-lhe o ar prazenteiro, Timóteo encabula. Jordão prossegue, depois de envolvê-lo num vivo olhar de simpatia humana:

-- Duda, tu e o rapaz estavam na minha frente lá no alto da colina, e eu me senti meio angustiado, e rezei ao lado de vocês, lembras-te? Foi então que eu vi num repente, com a ligeireza do relâmpago, esse Vilarinho estendido no chão, arquejante, e tu -- o padre volta-se para o Zé -- a bater nele, o sangue a espirrar. A cena que vislumbrei me deu ali a certeza de que irias sarar, mas deu-me também preocupação pelo outro. Foi por isso que, assim que começaste a te recuperar, e pondo eu reparo no teu ódio fundo, embora não atinasse com a razão, aventei aquela tua viagem para longe. Queria separá-los quanto antes.

-- O senhor estava certo -- confessa o rapaz -- eu só pensava em vingança, só queria me fortalecer para a desforra. Quando voltei, trazia esse intento bem arraigado, a primeira coisa que eu queria fazer era desancá-lo a valer. Eu ainda hoje não me curei dessa vontade. Por Deus que lhe tinha moído os ossos se o tivesse encontrado com vida, por tudo que me fez e... -- José baixa os olhos e a voz -- por outros motivos a mais... A sua visão, padre, teria acontecido se, quando cheguei, já não lhe tivessem feito justiça.

-- Que o malvado esteja cozinhando nas chamas do melhor braseiro do inferno! -- brada o pai, agitado.

-- Que Deus Nosso Senhor se apiede da sua alma -- contrapõe o clérigo.

-- Como era esse capitão espanhol que tanto te ajudou? -- pergunta Rita.

-- Esta galinha não pude ver a Cipriana degolar. Sabem que ela era mãe daquele meu amigo, o frango pelado? -- Timóteo atravessa a conversa brandindo a coxa da genitora do seu amigo.

Duda interpela-o a rir:

-- Mas estás comendo ela, isso podes?

Enquanto o pai rebusca a resposta um tanto confundido, Rita continua a interrogar o primo com os olhos parados nele, e José Maria põe-se a descrever o estrangeiro de modo apreciativo, a que não falta cálida e tardia admiração:

-- Era tão bom que, mesmo depois dos tiros que o Vilarinho lhe desfechou para parecerem meus -- a intenção foi essa por força -- assim mesmo ele me poupou a vida... e não foi uma só vez! Às vezes penso: que soldado era esse? que homem era esse?

-- Como se chamava ele? -- indaga a rapariga.

--Não sei, nunca disse o nome nem eu lhe perguntei.

Rita de Jesus olha de viés para Maria José que, mais distante, juntando grãos de milho, desenha uma nau sobre a toalha. E quis saber como era o espanhol de porte, de feições, retratando-se-lhe os dados a figura do capitão Hernández. Quase num sussurro, diz:

-- Foi o mesmo que morreu para me salvar do Vilarinho! Era o querido da Mariazinha.

Há um vozeio de espanto, Maria José volta o rosto cândido para eles, interrogativa. Buscando disfarçar, Rita provoca o pai:

-- E o teu amigo frango pelado... ?

Tomando-se de renovada vivacidade, Timóteo passa a discorrer sobre o «querido rapazinho amorável», enquanto os outros, sem prestar-lhe atenção, comentam em voz baixa a digna personalidade do espanhol.

-- Ele decerto sabia que eu era irmão dela -- considera José em atitude pensativa.

-- Isto quer dizer que ele amava a minha Mariazinha de verdade -- assevera a mãe, os olhos úmidos.

-- Ele me acudiu sem saber quem eu era -- adverte Rita.

E assim foi pelo restante da noite até o fim da ceia, o espanhol feito o mote da conversação, exceto para Maria José e Timóteo, extraviados em seus próprios temas. Rita e José trocaram palavras e olhares como ainda não acontecera desde a volta do rapaz, que até lhe deu a mão ao atravessarem o parreiral folhudo, noite alta, os dois juntos atrás dos pais da rapariga. Ia esta radiante e recolheu-se banhando-se em águas de rosas pelo reatamento da namoração. Sua alegria, contudo, apenas durou a magia daquela noite.

Na manhã seguinte, José Maria a todos surpreendeu metendo outra vez o pé no mundo, isto é, tocando-se para Laguna e Vila Nova. De lá, após longa permanência, empreendeu o retorno de calcanho, numa vagabundagem folgazã e musical, parando onde encontrava acolhida, pernoitando onde calhava, tudo em emendada pândega com a cumplicidade da viola, que lhe abria fácil as portas das casas festeiras, de fandangos e sarrabalhos. E foi subindo a costa. De passagem por São José da Terra Firme, cobrou do Isauro dez patacas que este ficara devendo ao pai, façanha que só conseguiu sob a ameaça dos punhos vigorosos. Dali, depois de semanas de vadiagens, pulou numa canoa e desembarcou na praia da Figueira, na vila do Desterro, onde se instalou na Taberna do Brigue Velho, passando todo o tempo na companhia de marujos, cavalariços, arrieiros e meretrizes, pernoitando numa água-furtada a oito réis por dormida. Ali, sobranceiro à sordidez do ambiente, foi achá-lo o padre Jordão.

Chegaram com mais de uma hora de antecedência. Apearam-se defronte à Matriz que Duda ajudara a construir no alto do promontório, a cavaleiro do Largo. Coqueiros esguios ladeavam a subida em rampa e adejavam suas palmas verdes ao vento. Enquanto os escravos recolhiam as montarias e os carros, deixando-os entre tufos de mato num sítio da praça, entrava no templo a gente do falecido Jordelino. A igreja ainda permanecia deserta, a não contar-se as mulheres de mantilha preta que ornamentavam os altares e os grupos de cativos que se amontoavam pelos cantos e ao longo das paredes, no chão de tijolos justapostos. Em meio aos suspiros de Conceição e à inquietude paroleira de Maria José, a família acomodou-se num dos compridos bancos de tábuas brutas.

Desatenta à tagarelice da prima, a seu lado, Rita de Jesus mantém os olhos fixos na imagem da padroeira. Coroada de prata, inclinado o rosto sereno, a expressão melancólica e doce. Santa Catarina de Alexandria parece abençoar os que a martirizam. As vestes alvas bordadas em ouro, aos pés a roda de tortura na qual sacrificou a vida para preservar a virgindade, é toda oferenda de piedade aos verdugos. A resistência que a donzela opusera aos intentos do mal -- reflete Rita -- roubara-lhe a vida, salvara-lhe a alma, fizera-a mártir e santa, ungindo-a para o amor universal, ao passo que a sua própria recusa ao pecado lhe havia salvo a pureza e a vida para o tormento da humilhação e do desprezo.

Padre Jordão aproxima-se do altar do Santíssimo e ali se põe de joelhos. Observando-lhe a figura alquebrada e encanecida, Duda considera de si para si que o bom pastor «está velhinho, mas também já conta idade, renteando os seus setenta». E o vê erguer-se e caminhar em direção a eles, um sorriso plácido a cintilar no semblante. Um a um, faz questão de cumprimentar, agradecido, demorando-se mais junto à Rita, a quem segreda:

-- Ele prometeu vir...

A face macilenta da rapariga tinge-se de rubro, o coração cabriteia, e ela baixa a cabeça, encabulada. Deixando-os com um gesto de bênção, o sacerdote encaminha-se para a entrada do templo. À beira do último banco, uma mulher pequena e roliça levanta-se para implorar-lhe que ponha a sua «mão santa» sobre o seu papo, dia a dia mais avantajado. Atende-a com cordura e adianta-se para o pórtico que fiéis em penca atravessam. Sai para o adro e, a um ângulo do outeiro, circunvaga o olhar pela praça. A Casa do Governo, embandeirada, ostenta grinaldas e tapetes nas sacadas; na Casa da Câmara também tremula a bandeira lusa e suas janelas estão adornadas de ramalhetes. O padre procura avistar José Maria ao longe e em meio aos que sobem a lomba da igreja. Decerto não faltará, conforme lhe prometeu quando o encontrou «na taberna nos confins da rua do Príncipe, na praia da Figueira», como bem alvitrou o Duda na derradeira vez em que foi ver o pessoal do Saco dos Limões. Essa visita deveu-se a uma ideia que lhe ocorreu ao saber dos preparativos do Te Deum pela libertação do jugo castelhano. Recordou-se do Te Deum dos invasores, no ano anterior, associando-o ao episódio do sino da Igreja do Rosário, acudindo-lhes um propósito que, submetido ao vigário da Matriz, dele obteve plena aprovação. Feito isso, rumou para o sítio dos amigos, a fazer os convites, especialmente ao José Maria que, para seu desapontamento, lá não se encontrava. Mas deu-lhe Duda, em segredo, a pista certa, e pôde achar o rapaz e dele conseguir a promessa de sua presença na cerimônia, embora não lhe revelasse o verdadeiro motivo do convite.

Agora o espera ansioso. Enquanto isto, engrossa o ror do povo que sobe a encosta para a louvação, bandos alegres passam batucando, ouvem-se cantorias para os lados da rua do Vigário. E os sinos rompem festivos.

Na Taberna do Brigue Velho, o bimbalhar dos sinos lembra a José Maria o compromisso assumido. Ergue-se de súbito, surpreendendo os embarcadiços com os quais bebe e cavaqueia em torno duma larga mesa enodoada, num compartimento baixo e mal alumiado por lamparinas penduradas das traves por espessas correntes cobertas de ferrugem e detritos de muitas gerações de moscas. Corre porta afora. Sua atenção volta-se, na rua da Fonte do Ramos, para um bando airado que pula ao compasso de um tambor, à frente o pavilhão português e bandeirolas coloridas. Cedendo a um impulso instintivo, cai na folia incorporando-se ao rancho que se encaminha para o Largo da Matriz. A turma buliçosa detém-se diante do pelourinho da praça e circunda o tronco a que amarraram um boneco feito de trapos e vestido com uma enxovalhada túnica militar espanhola. Munidos de varas buscadas no mato próximo, comparsas mais exaltados começam a malhar o judas castelhano soltando pesados palavrões.

José Maria estremece. Um arrepio perpassa-lhe a espinha, os cabelos como que se inteiriçam, e ele para a fitar o outro sem poder acreditar no que seus olhos veem. É o Vilarinho! Assombrosamente, é ele quem, a bradar impropérios contra as damas de Castela, desfere vergastadas valentes no bruxo atado ao poste. Fosse por mera coincidência ou pela força do pensamento, nesse instante os olhares de ambos se cruzam. Vilarinho abre-se numa risada malévola e, ato contínuo, parte para cima dele, a bradar:

-- Olha um traidor, minha gente!

Consciente do perigo a que está sujeito, José dispara por entre o ajuntamento, enquanto um dos foliões tenta aplacar a sanha do perseguidor:

-- É o Zé do Duda, homem, eu conheço este rapaz!

Sem parar, Vilarinho replica aos gritos:

-- Eu também conheço, e melhor! Vamos a ele! Esse maroto foi amigo dum oficial espanhol que lhe levava sopinhas! Atrás dele, pessoal!

<estrang lingua="latim"> Te Deum Laudamus, te Dominus confitemur </estrang>... Sobe do coro o cântico de ação de graças, acompanhado de pé por toda a comunidade. Os maiorais civis e militares ocupam as primeiras bancadas, estes em fardamento de gala, aqueles de fraque, camisa de peitilho rendado, calções entufados, meias compridas e botinas rasas. A maior parte dos homens veste casaca, exibe colete de cor berrante e tem nas mãos um chapéu de copa alta e, não raro, uma bengala de castão trabalhado. Há também os que, como Duda e Timóteo, trajam-se de riscapinho e calçam tamancos, não sendo poucos, tal como aqueles, a ostentar por sobre as camisas tecidas no sítio, velhas casacas há gerações guardadas no fundo do baú. As mulheres quase todas embiocam-se em longos sobretudos escuros que, envolvendo-lhes a cabeça em forma de capuz, cobrem-nas até os pés.

<estrang lingua="latim"> Multum oppugnaverunt me a juventute mea, sed non devicerunt me </estrang>... O vigário recita o Salmo 128 -- «Demasiado me têm oprimido desde a mocidade, mas não prevaleceram... lavradores lavraram-me o dorso e abriram nele grandes sulcos, mas Jeová, o Justo, despedaçou a apeiragem dos ímpios...» -- e passa a predicar sobre a servidão do povo de Deus, comparando-a à servidão dos ilhéus ao jugo espanhol e à das almas sob o poder das Trevas, enfatizando por fim a libertação que virá no Dia do Senhor. <estrang lingua="latim"> Benedicamus Domino, Deo gratias </estrang>... Louvores, agradecimentos, preces e cantos elevam-se dos corações contritos.

Iniciava-se o canto da bem-aventurada quando o sacerdote deixou o púlpito, e pouco depois, dos fundos da nave principal, surgiu a figura algo eterizada do padre Jordão. Ao chegar diante dos fiéis, estacou de cabeça baixa, a atitude humilde, concentrado em orações, findas as quais pôs-se a narrar em tom coloquial o feito de José Maria, «quando as hostes invasoras tomaram a nossa amada Ilha e celebraram um sacrílego Te Deum nesta mesma Casa de Deus». E referiu-se à «voz do sino da nossa inconformidade, que foi calada pela bombarda das forças do opressor, que danificaram o santo bronze e tentaram arrancar a vida ao intrépido moço, o qual foi protegido pelo Todo Poderoso com sua mão poderosa». Prosseguiu aduzindo que pretendera homenageá-lo «de pessoa presente, para que todos conhecessem um rapaz brioso como poucos», mas que talvez a modéstia, «se a notícia deste preito lhe foi manifesta», constituísse a razão da sua ausência. E declarou que «o destemido jovem, valor puro da nossa gente ilhoa, é-me caro desde o berço, sendo seus pais e avós meus companheiros de travessia do oceano, com eles partilhando do sofrimento no mar e em terra, todas as vicissitudes passadas na viagem e no estabelecimento neste mundo novo neste paraíso terreno, que há de ser assim ao menos para as gerações que se vão suceder». Já a concluir, disse:

-- Estão presentes os pais, a avó, os tios e a prima do destemeroso...

O profundo silêncio com que era ouvido foi de repente cortado pela irrequieta Maria José que, alto e bom som, exclamou:

-- E a irmã! O Zé é meu irmão!

O inopinado aparte provocou risadas e aliviou a emoção da família. Sorridente, o padre corrigiu a inadvertida omissão e finalizou sua fala:

Gloria <estrang lingua="latim"> Patri et Filio et Spiritui Sancto </estrang>.

Escondido entre moitas de capim-limão à beira do charco a estender-se do meio do Largo até o potreiro, José Maria espia o movimento dos perseguidores. Vê quando, desamarrado do pelourinho, o boneco é arrastado em direção à rua do Menino Deus, num alvoroço de malhação. Para a matula desabalada refluem aqueles que se desgarraram em seu encalço, entre os tais o Vilarinho. Dá um tempo aos escabreados e sai-lhes no rastro. Ao chegar à esquina da Casa da Câmara, a gentalha já alcançara o começo da outra quadra e, ali, apedrejava o sobrado do Navarra, espanhol, ferreiro de profissão. Presencia de longe o estilhaçar de vidraças em meio à gritaria. Depois o grupo deriva para a rua da Nossa Senhora da Lapa e segue em frente na maior bagunçada; no fim daquela via sem saída, introduz-se por quintais e pastos, vindo a desembocar na rua da Pedreira, sempre seguido à distância por José Maria, que percebe quando a malta entra numa taberna de duas portas e uma tabuleta preta com o letreiro em amarelo: «A Aldrava Celeste». Após longa espera atrás de um muro fronteiro, durante a qual a surriada no interior da baiuca foi-se fazendo grossa, ele observa punhados de airados esparsos abandonarem a tasca em algazarra. Em pouco, Vilarinho sai à rua acompanhado de dois parceiros, aos uivos, em ganidos aloucados, na pândega destrambelhada, rumo à Praça da Matriz. Na esquina, em frente à Casa do Quartel, aquele briga com os companheiros por causa de uma botija de aguardente e, ao fim, fogem estes com o objeto da disputa. Do terreno baldio que se encomprida até a rua do Vigário, José continua a espreitar o Vilarinho que, despojado da bebida, senta-se em desalento num barranco, desabotoa a jaqueta, dobra o cano das calças como se estivesse encalorado, e coça os pés. Decide que chegou a hora do ajuste e abandona o esconderijo.

Retiram-se os fiéis ao fim da solenidade. Cumprimentando o padre Jordão, pede-lhe o novo governador da Capitania:

-- Faça-me o favor de escrever um relato do episódio do sino para que o envie ao excelentíssimo Vice-rei e à Corte de Lisboa. É mister que o nosso querido Marquês e a nossa amada Rainha conheçam o gesto heroico desse mancebo.

Descem os negros a rampa em busca dos carros e das montarias. Duda e os seus demoram-se na despedida ao padre, agradecidos e emocionados, exceto Maria José, desatenta e buliçosa. Nanda balbucia ao ouvido daquele:

-- Desculpe o Zé, meu padre, desculpe... reze por ele.

-- Ora, não precisa me pedir isso. Ele é um rapaz primoroso, um pouco rebelde às vezes, mas de muito valor... que ainda terá tempo de se despedir de algumas doidices próprias da mocidade.

-- Já estava em tempo...

-- É, já estava... -- Jordão sorri para a Rita -- mas tudo virá a seu tempo... Ele não veio porque decerto soube do meu intento. Foi pena o traje que guardei para ele lá na sacristia!

A família retira-se com a alma balançando em sentimentos opostos, a modo de quem não sabe se tem razões para rir ou chorar. Chegavam todos ao sopé da colina quando lhes correu ao encontro, na disparada trôpega das velhas pernas, o negro Romão. Surge transtornado, o pavor faiscando nos olhos saltados:

-- O sinhô-moço está atracado com o falecido!

Como ninguém o entendesse, teve de repetir seguidamente o dito, aclarando o sentido de cada vez, até que se tornou compreensível o espantoso fato: Zé e o redivivo Vilarinho lutavam ali no Largo! Ele ainda informou:

-- Estão ali rolando no capim, se estraçalhando! O Togo e o Marcelino acudiram a apartar, ó meu Jesus, misericórdia!

Acompanhados do padre Jordão -- que a eles se juntara por ter percebido, do alto do adro, que algo de anormal ocorria -- seguem todos depressa para o ponto onde se vê um ajuntamento de povo, na lado esquerdo de quem desce a praça, num trecho de mato ralo, sítio das barraquinhas e festas religiosas em geral. Com os cotovelos do Duda e a voz profunda do escravo, abrem passagem entre os curiosos e, enfim, dão com o Vilarinho derrubado, banhado em sangue, enquanto José Maria o espanca a valer. O padre revê, atônito, a cena da sua visão já quase esquecida. Os negros que tentam conter o enfurecido conseguem por um pouco afastá-lo da presa, que jaz todo lanhado e arfante. Dentre o populacho, ouvem-se comentários:

-- Mais um minuto e ele dá cabo do outro!

-- Vieram para aqui rolando aos sopapos desde a esquina da rua da Pedreira, pareciam dois cachorros raivosos.

Duda e Rita são os primeiros a acercar-se do Zé, mas não chegam a falar-lhe, pois num instante ele se desvencilha dos apartadores e avança em nova arremetida, rugindo:

-- Ainda não acabei! Isto foi pelo que fizeste a mim, agora é pelo que fizeste à Rita!

Rita acode, num salto, e detendo o punho erguido para o golpe, grita-lhe:

-- Chega! Ele não me fez mal nenhum!

Ele arrefece o ímpeto e encarara-a duvidoso:

-- Não fez?

Sustenta-lhe ela o olhar feroz e repete com firmeza:

-- Não, já disse que não!

No seu rosto congestionado pela ira e manchado de sangue desabotoa um tênue sorriso.

--Vamos daqui, vem, filho -- Nanda trava-lhe do braço e, com a ajuda do marido e da sobrinha, tira-o dali.

Ao cair da tarde a caravana põe-se a caminho. Atrás dos carros de bois, a boa distância, numa rede carregada por dois negros, viaja o Vilarinho, gemendo, tão contundido que mal pode se mexer. Timóteo aboleta-se no carro junto à Dominícia, pois emprestou seu cavalo a José Maria, que se largou a toda a brida levando a prima na garupa. Ganham os dois larga dianteira do grupo e, na curva da Ponta do José Mendes, apeiam, amarram a montaria num toco e escalam a vertente pedregosa do morro. No alto, assentam-se sobre a macega, servindo de espaldar o tronco anoso duma perobeira. Rita pergunta:

-- Como foi que achaste o triste?

-- Ia indo para a igreja, tinha prometido ao padre Jordão ...

Ele conta como se deu o encontro com o falecido e narra o começo da briga; ela o informa da homenagem prestada pelo padre.

-- De boa me livrei eu!

-- Mas caíste numa pior... vou limpar este sangue do teu rosto -- diz e levanta-se ágil.

-- Não, aquilo eu tinha de fazer!

A rapariga corre para uma cascata gorgolejante que se despenha do alto da fraga, retirando um lencinho de dentro do justilho que lhe oprime os peitos. Do ponto em que está, vê passar o tio no caminho lá embaixo. Parece-lhe que ele a viu num relance, mas prosseguiu no trote compassado do tordilho.

-- Tinha de fazer o que fiz... só que, pelo que dizes, os motivos eram menos...

Rita volta e remove-lhe o sangue coagulado no queixo e no bigode. Juntos como nunca, ficam a contemplar o pôr do sol sobre a vila, as rubras e esguias torres da igreja, o altaneiro sobrado da Casa do Governo, os acinzentados morros coroados de ouro, os esparsos casebres entre clareiras na mata. O mar sereno que se ia tingindo de vermelho. José lança a pergunta que continua a espicaçá-lo na ânsia de uma palavra que lhe traga a certeza definitiva:

-- Ele então não te tocou?

O chiado dos carros desponta no silêncio. Rita observa:

-- Eles vêm vindo... será que vão notar o nosso cavalo preso?

-- Deixa eles, pensa em nós, me responde.

A rapariga faz um muxoxo e diz:

-- Já te falei, ele quis, forçou, mas gritei... o resto tu sabes.

Ao ouvir mais uma vez a afirmativa tranquilizadora, ele declara:

-- Isto me põe tão feliz, que me dá vontade de gritar, de cantar! Ah, se tivesse aqui a minha viola...

Rita fecha-se em súbita meditação, imobilizam-se-lhe os dedos que acarinham a mecha dos cabelos negros do rapaz.

-- E se ele tivesse conseguido o seu intento -- indaga muito séria e perturbada, enquanto Zé cantarola uma pastoril; volta a interrogá-lo: -- Foi por isso que ficaste tão diferente comigo?

Ele procura desconversar:

-- O pessoal está passando lá embaixo.

-- Deixa eles, pensa em nós -- devolve-lhe em timbre meio trêmulo, nervoso, e resolve sondar mais fundo: Não me querias mais?

-- Não, acho que não... -- confessa numa franqueza displicente e avança a mão para acariciar-lhe os seios mal dissimulados sob as roupas.

Ela retrai-se e, erguendo-se num rompante:

-- Agora eu é que não te quero!

Ato contínuo, refaz o caminho de volta à estrada, e de longe, antes de desaparecer entre pedras e arbustos, desfere-lhe:

-- Olha, vai a pé para casa ou volta para as tuas mulheres da Taberna do Brigue Velho! Estão inteiras para ti...

José Maria não responde nem se move. Escuta, abaixo, o bater dos cascos do cavalo afastando-se. O sol esconde-se de todo por trás das montanhas além da ilha. Encomprida-se um tempo perdido no tempo até que ele ouve um patear que vem aumentando e de repente estaca. Fica atento. Do fundo da grota sobe a voz modulada em susto e desamparo:

-- Zé, estás aí? Tenho medo da noite, vou me perder nos caminhos!

Desce a encosta assobiando a modinha de amor que cantarolava quando ela calou a poesia em seu coração.

</div>

<div "Arca - II">

Repara, Benita, neste castão de bengala, é obra de escultura do meu avô Timóteo, que lavrava a madeira como artista de mão-cheia. Ele e Das Dores, minha avó, para aqui vieram morar logo depois do casório dos meus pais. Lá no Saco dos Limões, no sítio do velho Duda, deixaram a sua morada e cá outra levantaram ao lado da nossa casa. Dele me ficou pouca lembrança, contava-me muitas histórias de bichos, de encantamentos, de bruxas, era quieto e calado, mas quando sozinho comigo abria fala corrida nos passeios pelo campo ou pela beira da praia. Esta mantilha de seda, de rendas tão pregueada, foi véstia da avó Nanda; ela para aqui veio de muda com a tia Maria José, pela morte do vovô Duda, quando eu era pequenota. Vendeu todo o seu sítio, duas sesmarias juntas, uma herança do pai, outra do marido. Nanda, essa avó muito querida, morreu bastante depois, eu já me tinha feito mulher casada, mãe de quatro filhos e prenda do meu falecido Marturino. Era um bravo homem do mar esse teu avô que não conheceste, tanto, tanto, dele era, que nele acabou se finando. Passava dias sumido no mar grosso e um dia não voltou. Fiquei dois dias na praia na espera mais aflita, e quando acharam o seu corpo, não quis vê-lo, não, não fui... Ele sabia fazer as melhores redes de pesca, traçando com ligeireza as malhas que se iam formando, sabia lançar uma rede e abrir com mão certeira a mais rodada tarrafa. Era bem um criançalho parecido com o meu pai por ser do mundo largado. Dizia-se filho duma gente embarcada em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel. Tão gracioso esse sininho miúdo que estás fazendo tocar! Foi oferta da Câmara ao meu pai José Maria pelo seu feito de coragem pondo a dobrar a finados os sinos da igreja quando os castelhanos cantavam ali o Te Deum. Sempre ouvi contarem isso, mas eu, Ritoca, filha da senhora Rita de Jesus Lourenço Ramada, afirmo que do meu pai nunca ouvi uma só palavra dita. Também foi agraciado por Dona Maria I, a rainha piedosa, com a Grã Cruz da Ordem de Cristo no posto de Cavaleiro. Vê, aqui está a comenda, a fita vermelha, a fivela dourada, a cruz escarlate debruada de ouro. Nessa mesma ocasião ganhou esta sesmaria aqui nas Canasvieiras por ordenação da Corte. Recebeu as homenagens numa brilhante sessão da Câmara ante altos figurões, até do governador. Ele era então noivo da sua priminha Rita. Isto agora é um relicário, nota bem, parece uma pequenina torre sineira, todo rendilhado com relevos, frisos e floreios. Por dentro ouro batido, por fora prata lavrada. Veio da Praia da Vitória, lá na Ilha Terceira, coisa dos antepassados dum tempo desmemoriado. O que nele está guardado vamos nós mexericar. Aqui primeiro nós temos um lindo cordão de ouro e sua pedra preciosa, joia da maior estima da minha tia Maria, presente que lhe fez um oficial das tropas espanholas que ela amou até a morte. Tia Maria José morreu solteira com sessenta anos de idade, era doente da cabeça. Todas as tardes, me lembro, ela se embonecrava e no portão se quedava, a noite a cair, à espera do seu amado. Esperava, ela dizia, o noivo de terras d'Espanha, um infante de Dom Carlos já há muitos anos morto nas lutas aqui travadas. Ela expirou contentinha recolhida no hospital onde visitei ela; lembro-me de ouvir ela dizer: «Ritoca, vê que beleza esta alcova encortinada, estas paredes luzidas, este chão alcatifado, esta é a nossa casa fidalga em que somos tão felizes, eu e o meu querido amor». Minha Santa Catarina! Deus misericordioso poupou a coitadinha, que na sua dor teve gozo, era uma triste desgraçada e disso nunca nada soube... O medalhão que apanhaste e estás admirando a minha boa vó Nanda sempre no peito trazia. Aí dentro da caixinha tem um feixe de cabelos, memória dum filho que no mundo não vingou. Ainda temos outros mimos: esta medalha de D. João V, um crucifixo de prata e um belo trancelim, tudo isto fica entregue à tua guarda zelosa. Se podes usar. Podes, minha neta, tudo por herança é teu, mas usa e acautela bem para que, por tua vez, um dia venhas a confiar estas prendas a uma filha ou, quem sabe, a uma neta? Esta colcha com lavores foi dos meus amados pais, presente de casamento daquele mesmo Vilarinho, o das más contendas. Eles se casaram no Natal do ano setenta e oito na Matriz do Desterro; casou-os o padre Jordão, um velhinho muito bom que não cheguei a conhecer, mas de quem só ouvi louvarem a santidade. Por que o tal Vilarinho deu esse presente? Pois é, tudo se explica. Depois das brigas com o meu pai, assossegou-se, o mau gênio arrefeceu, tanto que não teve ele o topete de propor casamento a minha tia Maria? Coisa que ninguém consentiu, nem ela ia querer vivendo como vivia um amor todo de sonho. De que modo se fez isso dele ressuscitar naquele dia de festa? Diziam os mais velhos que ele matou ou feriu um soldado castelhano, então fugiu pros matos a cavalgar seu cavalo e se escondeu numa furna soltando pra trás a montaria que sozinha apareceu no seu potreiro; então se anunciou e todos acreditaram que ele fora agarrado. Se ele se casou? Mais tarde ele se casou com uma mulher da Lagoa, e nunca mais se soube dele, tirante isso, des que toda a família se mudou pra estas bandas de cá. Esse papel que achaste no fundo da arca, vamos a ver... é a carta de sesmaria que a Rainha ordenou fosse passada ao meu pai, é o alvará com a letra do Vice-rei, Marquês do Lavradio. As terras são estas que hoje formam a nossa freguesia das Canasvieiras; então tudo era mato, deste outeiro até as praias, só tinha aberto um caminho que levava ao Forte de São José da Ponta Grossa. A casa grande ficava neste cabeço de terra, na colina onde agora se assenta a igreja. Deixa-me ver esse bordado desmerecido pelo tempo. Um barco azul nas ondas verdes... Bordei ele eu em pequena sem pensar na nossa vida, que semelha uma vela no meio do mar vogando. Agora desvira o pano, olha pelo avesso: tudo é linha desencontrada, fios se cruzam e entrecruzam em feixes embaraçados, como numa roca emaranhada. Esta vida, minha neta, é que nem este bordado: vista pelo nosso lado aqui do mundo, às vezes não têm sentido e carecem de motivo as coisas que acontecem, mas pelo lado de Deus, que tudo vê do direito, nada há emaranhado, tudo é claro, certo, e tem sua razão de ser, pois no outro lado forma o bordado do Senhor. Quem tem fé em Deus nada no mundo acontece que não seja pro seu bem. A gente sofre, se aflige, chora, pena, se agonia, passa necessidade, mas também se ri e sonha e, não raro, até se goza...

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