<t> O paroara </t>


A ' memoria de Minha Mãe 

<div "CAPÍTULO I">

I

A floresta, que mezes antes, se conservava opulentamente vestida de verde-escuro, ostentando a uberdade das terras do equador, agora como um pedaço de flora das regiões frias em pleno inverno, se apresenta despida de folhagem, e os grandes esqueletos de suas arvores colossães, perfilados, bracejam no espaço.

Os calores do estio, que ia em meio no sertão cearense, haviam amarellado o manto verdoengo, que cobria os arvoredos; e o vento de leste, remoinhando dia e noite, despia as arvores o chão alastrando de folhas mortas. Das tristezas daquela queimada emergiam pontos verdes: eram as poucas arvores que haviam resistido ao hálito quente do verão e bem enfolhadas, davam áquella paisagem de floresta desfallecida uns tons alegres de vida, cobrindo com sua sombra um pedaço de solo, onde o gado esbofado pela soalheira, se recolhia e malhava até que abrandasse a canicula. Os troncos, apparentemente mortos, tristemente vestidos de preto, tinham um quê de lúgubre, de mortuario. A vida, que se via ali no inverno emergir por toda parte, estava agora tão latente como na hibernação dos animaes. 

Se não fossem os tufos verdes que mosqueavam aquelle manto preto, o espirito do viajor que atravessasse aquella exquisita estancia, cahiria em profunda melancholia, tão suggestivo era o acabamento da floresta em sua triste perspectiva. De espaço a espaço apparecia a copa virente de um joazeiro, de uma oiticica, e nestes pequenos oasis se resumia a vida daquelles sitios. A verdura e o frescor dos massiços attrahiam os animaes: as aves pousavam nas frondes e os gados malhavam na sombra.

O solo, resequido como uma solfatara, nos terrenos de massapê gretava-se, e nas fendas que se abriam retalhando-o, azylavam-se aranhas e lacraus.

Uma rede de valletas cortava o chão alterando-lhe o relevo. Estas largas sargetas caracolavam, meio entopidas de folhas seccas, de terra em fóra, até desemboccarem em canaes mais largos, os rios, cujos leitos nús recebiam na grossa e ruiva areia os raios do sol, arrancando-lhes dasfacetas de mica, fulvas scintilações de incendio. 

De longe a longe esta serpente de saibro guardada por empinadas e altas ribanceiras, desapparecia, e um poço, um pequeno lago de aguas claras, via-se a transbordar de cheio, reflectindo em sua superficie argentea, os perfis dos fetos que cresciam nas margens. Das impetuosas correntes, que na estação invernosa seguiam em rumo do mar, movidas pelo declive dos terrenos, ora rectas, ora dobrando-se em curvas mais ou menos fechadas, apenas ficaram retidos nas depressões dos leitos estes mananciaes, que no verão são os bebedouros dos rebanhos e as aguadas dos homens. O espaço se arqueava azul como em poucas regiões do mundo e a seccura do ar o fazia tão transparente que os olhos fitando-o, achavam o céo mais alto e os horizontes mais vastos. A luz descendo das alturas sem nuvens que lhe empanassem o brilho, cahia numa pulverização offuscante sobre a terra, que a recebia amortecendo-a ou refrangindo-a; naquelle banho de claridade a floresta apparecia mais negra, mais triste. A reverberação das rochas e a superficie metálica de algumas arvores têm esmaecimentos, que não são produzidos pelo empanamento do disco solar, por nuvens de vapor interpostas entre elle e a terra. Os vapores que se geram, nas poucas aguas estagnadas nas depressões do solo, sobem accelerados pelo calor d'aquelles corpos quentes, sobem e pairam no firmamento até se reunirem em nuvens; assim rarefeitos não turvam a transparencia do céo. 

E no entanto a claridade tem interrupções, o sol tem eclipses, que não são muito passageiros.

O astro é de repente obumbrado por uma espessa nuvem de fumo, que seus raios atravessando inundam a terra de uma onda creme.

Tudo amarellece até onde chega aquella sombra côr de palha. 

As facetas dos crystaes de rocha encrustadas nos granitos estão apagadas, já não esfuzilam banhadas por aquelle clarão mortiço.

A superficie das aguas já não retrata, com a precisa nitidez, os contornos arrendados das folhas dos fetos; mal esboçam um pedaço do nimbo de fumaça que serve de mortecôr a bastes mal desenhadas. Aos animaes mesmo não passa despercebido aquelle esmorecimento da luz; instinctivamente voltam a cabeça para o céo e a, nambú, que é o relogio dos ermos, vendo escurecer, toca Trindades, solta de seu larynge de aço a sua gamma de notas tão agudas e altas que custam a se perder no espaço. 

Mas não é a noite que vem, este crepúsculo vespertino é falso. A nuvem de fumo espessa e inteiriça que subia a toldar a tela azulina do céo, era gerada pelo incendio que devastava a matta. De diversos pontos da floresta se erguiam espiraes de fumo, ennovelando-se e subindo até se fundirem em immensa mole, no meteoro vaporoso que assim empanava o brilho do sol. 

Este fumo que tanto escurece o céo sabe das queimas dos roçados, que por toda a matta se accendem como pequenos incendios. O vento, que sopra de leste, atufa de espaço a dentro para as bandas do poente, o nimbo de fumaça e varrendo a terra traz aos ouvidos do viajor, que por ali passa, o som de um cerrado crepitar, os seccos estalos do fogo, reduzindo a carvão os troncos resinosos que o braço imprevidente do sertanejo havia abatido no fazimento de suas lavras. O calor que sahe das fogueiras, augmenta a temperatura do ar já muito quente pelo reverbero das rochas, nas quaes os raios do sol se enterram desde o nascer do astro. A atmosphera afoga de calida.

As lufadas dos alizeos são que mitigam um pouco as ardencias do ambiente. 

Mesmo assim os animaes não têm animo de deixar as sombras e malham preguiçosos, arfando como se tivessem corrido. Os cavallos suam parados e se espreguiçam bocejando. 

A tudo a canicula enerva. Destaregião, assim causticada pelo estio equatorial, dir-se-ia impossivel uma resurreição, se não se vissem algumas plantas virentes e abotoados na ramaria das que parecem mortas, gommos entumecidos esperando somente as primeiras chuvas do inverno para se desabrocharem em verdes e viçosas folhas. 



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<div "CAPÍTULO II">



II 



João das Neves morava nesse sertão quente do Ceará, onde nascera havia trinta annos.

A secca de 1877 ou antes a deshumanidade de um capitão de navio fel-o orphão muito creança ainda. Nunca mais esquecera o exodo dos famintos e os primeiros instantes de seu abandono nas praias de Fortaleza; sua alma, vinte annos depois, ainda o sentia, tão funda fora aquella magua. Quando o commissario, encarregado do embarque dos retirantes ordenou o transporte para o lanchão e João das Neves viu que lhe levavam os pais, os irmãos e pensou que o deixavam atoa, quasi morreu de chorar.

Os echos de sua grande dôr eram confundidos na vozeria, na grita dos homens que embarcavam os famintos, na galhofa que faziam da magreza dos corpos que carregavam.

Afinal o levaram tambem e o atiraram dentro da embarcação. Julgou-se amparado; estava com os seus. 

Esta consolação durou pouco tempo. A lancha atracou no paquete, que era, nunca mais o esquecera, o «Pernambuco,» e começou a baldeação, mas num atropelamento ainda mais vexativo do que o do embarque.

Aqui não era mais a galhofa, o dito obsceno, a troça canalha; mas a praga do marinheiro a baldear a empuchões as creanças e os enjoados. João das Neves, mesmo tonto como estava, observava aquellas scenas; viu subirem para o vapor os pais, os irmãos e esperava que o viessem buscar. 

Nesta esperança estava com muitos outros, quando a um signal de bordo a lancha se afasta do paquete, guindam-se as escadas, fecham-se os portalós, suspende-se a ancora, o navio aprôa para o norte e segue. As manobras foram executadas em pouco tempo e vistas do lanchão pelos passageiros, que não atinavam o valor dellas.

Um grito do alarma partiu da prôa do «Pernambuco» quando este virando de bombordo passou a cem metros da prôa da lancha.

Um alarido estridente de prantos e de ais partido das duas porções de infelizes que seguiam e que ficavam se fundiu sobre a vasta superfície do mar num profundo e angustiado gemido. Todos choravam a perda de uma affeição, a separação de uma creatura amada. 

João das Neves comprehendeu a situação e com os outros acenava para o vapor, soluçando e gritando pelos pais, emquanto o bojo negro do navio se afastava apagando a distancia os acenos que se faaiam na prôa e abafando as lamentações que os acompanhavam. A lancha voltou e quando a leva de retirantes chegou a terra, rara era a familia que havia seguido ou ficado completa; o desbaratamento havia sido quasi geral. 

Saccudidos na praia gritavam e choravam olhando o vapor, que os últimos raios do sol poente deixavam perceber, como uma mancha negra a sumir-se nas brumas do horizonte.

João das Neves sentiu-se anniquilado com tamanho infortunio. Tinha dez annos e comprehendia a grande desgraça que havia soffrido perdendo os pais. Em companhia delles a vida era trabalhosa, quanto mais só e desamparado, perdido nos abarracamentos dos retirantes!

Quasi morreu de medo quando pensou na sorte que o esperava. A noite veio e parece que elle e os companheiros só esperavam que ella cahisse e lhes apagasse da vista o vulto negro do vapor, que muito além sulcava . as ondas, para dizerem com um olhar empanado de pranto o derradeiro adeus aos que seguiam e ragressarem ao abarracamento.

João das Neves voltou com elles. A sua vida até o começo de 1880, quando se acabou a secca, foi quasi uma mizeria.

Quando cahiram as primeiras chuvas e o governo internou os retirantes elle reuniu-se aos que tornavam á sua terra e em breves dias viu se outra vez no sertão, que havia deixado numa desolação de campo incendiado e agora via em plena louçania de farta primavera. 

Rapazinho já acostou-se a um fazendeiro abastado de quem em pouco tempo conquistou a estima e confiança por seu genio activo e trabalhador. Embora fosse bem tratado pelo amo, nunca esquecia os pais.

Se os podesse rehaver e morar com elles quanto os ajudaria, elle que já estava quasi homem, que tinha botado corpo e podia bem com o machado. Esta saudade não o deixava.

Muitos dos que haviam emigrado para A Amazonia, játinham voltado e só os seus não vinham, ninguem dava novas delles. Quanto lhe custava ver o abandono em que tinha ficado a casa paterna ! 

Nem gostava de passar pelos sitios onde nascera e se creara só para não vel-a assim feita uma tapera. No pateo tinham crescido arvores e engrossado que para cortal-as, só a machado. O chiqueiro das cabras havia cahido e cobrindo os restos delle via-se um enorme balseiro de melão S. Caetano, uma virente moita salpicada de mimozas corollas amarellas. Até no telhado cresciam parásitas e trepadeiras, que desciam pelos beirães, pendentes como lambrequins 

Aquelle abandono João das Neves sentia-o deveras. 

Já estava homem e cada vez lhe causava mais pena o desamparo da casa, uma morada tão bôa, que tinha custado tanto trabalho ao avô , agora se acabar, cahir, e elle, que podia viver nella, á morar pela casa dos outros. De toda a familia era o único que restava; herdeiro da vivenda e da posse de terra lá ia uma vez por outra vistoreal-a.

Contentava-se em vel-a por fóra com as paredes cada vez mais encardidas pelo tempo, as portas em preto sarapiritadas de mofo. Em uma dessas vizitas, João teve desejos de rever os aposentos, os movéis, pôr-se em contacto com aquelle meio tão amado outr'ora e de que nunca se havia esquecido, o recordando sempre com saudades. As qualidades affectivas que o faziam entrestecer perante as ruinas dos logares onde passara a infancia eram completamente desconhecidas na raça vermelha da qual elle quasi exclusivamente descendia. Um caboclo com tão apurada sensibilidade moral, com nervos para sentir uma saudade, para chorar a separação de um amigo, seria um salto da Natureza, que jamais viola as suas leis.

Quem com alguns conhecimentos de anthropologia observasse detidamente o typo de João das Neves havia de descobrir nelle, embora meio apagados, vestigios de uma outra raça que não era a que predominava em suas formas e feições. A adolescencia em plena maturidade havia completado o desenvolvimento de sua carnação em todo vigor de vida e de saúde. A musculatura de seus ascendentes indios salientava-se na pujança de todas as suas linhas. 



A natureza havia sido grandemente prodiga e tão prodiga que não esquecera de dar a sua creação alem de todas as qualidades hereditarias algumas atávicas physico-psychicas. Assim, naquelle caboclo entruncado, <marca num="1" pag="20"> haviam alguns traços que não eram do indígena brazileiro, eram da raça branca. O seu todo era de indio; mas descendo-se a um exame apurado, aos detalhes, via-se que a côr de cobre de sua pelle era um pouco mais desmaiada do que a do caboclo verdadeiro; os seos olhos mais rasgados, menos obliquos e com o iris de um castanho quasi negro; os cabellos, embora de um preto intenso, corridos, não eram tão duros como os do tapuia e no rosto havia barba, falhada é verdade, mas occupando todo o sitio peloso das faces. 



<nota num="1" pag="20"> Fornido </nota>



O elemento branco se denunciava nestes pequenos detalhes, porem mais se accentuava na forma e tamanho das mãos e na desegualdade dos dedos.

A estas manifestações da raça branca comprovando a lei do atavismo, se juntavam 

outros psychicas de não menos valor: João das Neves tinha alma affectiva, era capaz de amar. 

Tinha outros nervos que não tem o selvagem, que ama os pais somente emquanto precisa delles. 

Este modo de sentir da raça vermelha, perfeitamente animal, a sua psychologia fazem com grande eloquencia e verdade estes dois versos populares : 



<poesia>

Pai e mãe é muito bom, 

Barriga cheia é melhor. 

</poesia>



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<div "CAPÍTULO III">



III



João das Neves estava homem ; já vivia do pão que ganhava como suor do rosto e no entanto a saudade dos paes não se acabava nelle. Não gostava de ver o abandono da casa paterna e no entanto de quando em vez la ia vel-o e sentado em alguma pedra mirava as encardidas paredes, evocando recordações do passado, que o consolavam um pouco. Em uma destas visitas teve desejos de entrar, de rever os movéis e quartos, que haviam ficado fechados. Atravessou o torreiro rompendo um cerrado de malvas e de marmeleiros e achou-se em frente a porta de entrada. Para chegar ao batente teve de escalar um formigueiro que se arranchara ali e esfuracara 

tanto o chão, fazendo socavas, levantando montículos em forma de pequenas crateras, que quasi não se enchergava a porta do meio para baixo.

Esta cidade de formigas devia de ser antiga pelo numero e diametro de seus olhos; talvez datasse o seu estabelecimento do primeiro anno de secca em que a vivenda ficou sem gente.

João das Neves perfilou-se em frente a porta e a olhava com certa reverencia. A madeira de cedro se conservava perfeita e forte. Até os signaes dos ferros das fazendas proximas, gravados a carvão estavam ali tão vivos como quando foram feitos, e respeitados pelo tempo e pela mão dos transeuntes. Aquella pagina de symbolos que nada diria a um homem que não fosse sertanejo, accordou em João das Neves vivas reminiscencias de seu viver de então. Cada marca daquellas lhe recordava um facto, uma data, uma pessôa. 

Assim esteve por algum tempo mirando aquelles exquisitos signaes, cavando o passado, reconstruindo em parte a historia de sua meninice. Se estas simples garatujas o prendiam tanto, faziam reviver tantas scenas de então o que não sentiria vendo os aposentos onde nascera e vivera em companhia dos pais! Ancioso por se ver dentro da vivenda approximou-se da porta e empurrou-a. As taboas estalaram, os gonzos rangiram, mas ella se conservou fechada. 

A violencia fôra pouca e João das Neves empregou toda a força de sua musculatura mettendo o hombro na porta e forçando-a. A lingueta da fechadura, comida em parte pela ferrugem, não resistiu o choque e partiu-se entrando João de cambalhotas, as quedas de sala a dentro com um jorro de luz que tudo alumiou na abandonada estancia. 

Quando elle pode equilibrar-se ficou atordoado dentro de uma nuvem de morcegos, que a claridade havia despregado das vigas da coberta, e agora voejavam doudamente, como um bando de pombas bravas que fossem surprehendidas no poiso pelo clarão offuscante de um facho. Quanto mais os bichos remoinhavam no ar, mais se acendia o cheiro de bolor, de casa fechada, cahindo do ambiente numa neblina de poeira as teias das aranhas reduzidas a pó. A entrada da luz naquelle escuro recinto, havia revolucionado a bicharia que nelle se azylava desde a pacata largatixa até o corujão de igreja, que esvoaçava abaixo da comieira como uma ave bravia em estreita gaiola.

De todas as fendas das paredes de taipa sahiam rumores, zumbidos, gritosinhos agudos dos insectos, que offuscados pela claridade se enterravam nas tocas até toparem a escuridão.

Os morcegos depois de fazerem. muitas evoluções na sala desappareceram pelo corredor.

João das Neves pôde então abrir os olhos, que conservava fechados temendo os argueiros suspensos no ar e movidos em todas as direcções por algumas dezenas de azas a voejar doudamente. Era a mesma sala espaçosa e tosca, sem ladrilho, com o taipado em preto.

Os poucos objectos que os seus haviam deixado estavam ali, ninguem havia bolido nelles: dois chocalhos pendurados pelas amarras, uma espingarda, uma corda de laçar, uma tripeça e nada mais. 

João das Neves não se satisfez em olhar aquellas reliquias, approximou-se de cada uma dellas e tirando-as do logar examinava-as com grande attenção e amor. Quando chegou a vez da espingarda se recolheu mais, como se aquelles objectos de todos fosse o mais digno de respeito. Aquella arma quasi comida de ferrugem e ali encostada havia quarenta annos, tinha uma triste historia. Seu avô a havia recebido de um retirante na secca de 1845 e a tinha em deposito até que este voltasse de Fortaleza para onde emigrara. 

O proprio dono foi quem a collocou no mesmo logar em que ainda se acha hoje a espera que elle volte. João das Neves approximou-se da arma, mas não a tocou.

Lembrou-se da sua historia, e lhe pareceu ouvir esta advertencia que sua mãe lhe fizera muitas vezes quando creança:

-- Não bulas com a espingarda, menino, que é alheia. 

Aquelle modo de proceder com os bens do proximo confiados a sua guarda dava uma idea tão verdadeira quanto consoladora do viver deste povo de simples. Honesto e hospitaleiro como bem poucos do Brazil dá poiso ao caminheiro e quando este continúa a jornada augmenta-lhe as provisões dos alfoges e na despedida roga-lhe que passando por ali não esqueça de tomar aquelle pobre rancho. O furto e o roubo são quasi desconhecidos entre essa rude gente. O negociante leva aos confins do sertão as suas mercadorias, atravessa exquisitos e deshabitados caminhos, dorme a sombra das arvores sem o mínimo receio de ser atacado e roubados os seus haveres.

João das Neves educado neste meio, não admirou a honestidade dos visinhos e nem tampouco a dos passageiros por não violarem a casa abandonada: tinha cumprido o seu dever apenas e não praticado uma acção meritoria. 

Era precizo rever todos os aposentos, matar aquella saudade antiga, saciar os desejos de tantos annos eo visitante entrou de habitação a dentro. O abandono havia estragado tudo. Embora o sol rutilasse fóra os aposentos internos da vivenda pouca claridade recebiam da sala de entrada, onde a luz viva do astro se embebia no tosco taipado das paredes.

João das Neves entrou na alcova, uma espaçosa camarinha a direita do corredor. Era o quarto nobre da casa, allumiado frouxamente pelos raios luminosos que vinham da sala dando a estancia um clarão mortiço de crepúsculo.

Naquella penumbra um pouco densa não se destacavam com a precisa nitidez de contornos os objectos envoltos nella. Poucos eram elles, porem os mais reverentes do lar. Ali estava o tosco leito maternal, pobre estrado de talos de carnahubeira onde João das Neves nascera e todos os seus irmãos. Junto a rude cama, suspenso na escabrosa parede pendia um quadro, um registro da Virgem do Bom Parto encaxilhado em madeira preta. Encimando o painel, a guisa de trophéo, se arqueava um feixe de palhas seccas, um ramo bento, que a dona daquella casa, na ultima quaresma que passara na freguesia, recebera das mãos do vigario, finda a missa de Ramos, e ali guardava para queimar nas grandes trovoadas e livrar-se do fogo do raio. 

João das Neves quando deu com a vista no quadro descobriu-se instinctivamente. Não foi a lembrança de sua mãe, crente fervorosa e grande devota da Virgem que o fez tirar o chapéo, mas o respeito que se entranhara em sua alma, que bebera com o leite materno, respeito que lhe incutiram no espirito desde que balbuciera as primeiras syllabas, desde que lhe ensinaram as primeiras orações!

Quando teve entendimento lhe mostraram aquella imagem, e lhe disseram ser a mãe do céo, a senhora do mundo. Não o enganavam, via todos a reverenciarem, se prostrarem deante della; até o avô, que era um velho, se ajoelhava, contricto, de mãos postas e resava.

E não eram só os seus que a adoravam, todos os visinnos, todas as pessoas que a viam lhe prestavam culto. Devia ser muito poderosa aquella senhora que fazia ajoelhar até os velhos deante da sombra de seu corpo, racciocinava elle admirando o poder da Virgem. Quantas vezes vieram-na buscar de longe para dar sáude aos enfermos, como se ella fosso o medico mais afamado da terra! E a santa ia, depois os que vieram buscal-a chorando, vinhan trazel-a, rindo; ella havia curado o enfermo. Sua mãe ficava muito contente com os milagres da Virgem e agradecia por Ella quando recebia as fitas e as velas de cera branca que lhe traziam os doentes restabelecidos. 

João das Neves approximou-se do quadro para ver melhor a imagem: um veo de teias de aranha a cobria inteira. O rapaz censurando o desrespeito dos bichos arrancou a escura cortina e appareceu o vulto altivo da Senhora em um pedestal de creanças, pequenos anjos em toda a nudez pagã. No lusco-fusco do quarto havia agora claridade bastante para salientar da mortecor parda do painel o rosto adoravel da santa com os labios em um carinhoso sorriso e os olhos numa expressão toda ternura a fitarem-se inteiros na loura creança que tinha sentada no braço. 

Era a mesma figura com seu manto de purpura e sua corôa de ouro, rainha dos corações dos crentes, que elle vira logo que seu espirito teve comprehensão e que respeitara logo que lhe ensinaram a resar deante della. A derradeira vez que a vira, havia muito tempo, mas não esquecera nunca, nem podia fazel-o, fora na hora angustiada da partida para Fortaleza. 

Todos prostrados em frente á imagem se despediam della num inconsolavel pranto.

Fugiam da secca á ultima hora, como os que dormem e despertam quasi sitiados por um incendio, e por isso a Senhora, a padroeira da casa, deixavam, mas deixavam partidos de magua, tanto lhes doia aquella separação.

Sua mãe foi arrancada da camarinha, elle ainda se lembrava, quasi a força; não podia deixar a sua rainha, a sua protectora.

João das Neves não se conteve perante aquella resurreição e instinctivamente chegou-se mais ao quadro e depoz em sua moldura preta um respeitoso beijo. O ramo bento se desfez em poeira, mal os labios do rapaz toca-ram a madeira,como se as vibrações do osculo, tão leves, tão suaves, podessem separar as suas mirradas cellulas. 

João das Neves recebeu em cheio na fronte aquelle baptismo de pó. Quando sua mãe depositou o ramo ali virente e loução, como uma palma de triumpho, um louro apanhado nas ruas de Jeruzalem a entrada de Christo, mal sabia ella, como mal sabia o Mestre, que estava proxima a sua paixão. Aquelle ramo verde havia sido o prenuncio de grandes desgraças. Para Christo a cruz; para a familia de João das Neves, para a população sertaneja, a fome, a expatriação. 

O rapaz sahiu da alcova percorrendo o resto da casa de quarto em quarto até a cozinha. 

Todos os objectos que haviam deixado embora bastante estragados pelo tempo, estavam ali. 

Pensando naquelle desamparo da vivenda, na ausencia dos seus e no meio de restaurar a casa paterna deixou aquelle sitio triste e voltou a fazenda do amo. Pelo caminho entre as muitas ideas que se lhe atropelavam na cabeça, lembrou-se de casar ; estava homem e só assim a casa do avô deixaria de vir abaixo.



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<div "CAPÍTULO IV">



IV 



O padre Francisco Mourão era vigario encommendado desde que tomou ordens, na freguezia em que morava a familia de João das Neves. Foi um dos primeiros ordenados pelo santo bispo D. Luiz no seminario de Fortaleza. No apascentamento de seu rebanho, que não era pequeno, revelou o jovem sacerdote desde os primeiros dias raras aptidões, uma piedade tão edifficante, que o impozeram immediatamente ao respeito e confianza de seus freguezes. O reitor do seminario, um padre lazarista de grande perspicacia e bom psychologo, concedeu de muito boa vontade o seu beneplacito para a ordenação de Mourão. Não se illudiu. Elle deu um padre que attingiu o ideal de Christo.

O padre Mourão descendia de uma das mais antigas familias do sertão do Ceará, abastada e celebre na historia da provincia por terem alguns de seus membros se tornado grandes criminosos. E quem diria que na ascendencia de tão santo sacerdote havia typos cuja perversidade assombrara os homens de seu tempo?

O seu trisavô matava por devoção e tinha mais mortes nas costas do que cabellos na cabeça, dizia o povo em seu costumado exagero. Era um assassino e ao mesmo tempo um devoto. As suas victimas podiam ficar sem cova, mas sem um terço resado inteiro sem faltar um padre nosso isso é que não. Cria piamente na immortalidade d'alma e contam que em seu embornal de munições de guerra conduzia sernpre uma pequena cruz de páo e um coto de vela de cera branca e benta. Quando a victima cahia varada pela bala de seu bacamarte elle se achegava a ella e com toda a piedade e uncção a ajudava a bem morrer, mostrando-lhe a cruz e pondo-lhe a vela acceza na mão. Ahi já não era mais o assassino feroz, era o devoto que pedia a Deos perdão para o moribundo a quem exortava o arropendimento das culpas.

Cazado com uma mulher quasi tão má quanto elle, teve filhos, que não degeneraram e foram dignos rebentos seus.

Desta raça de devotos matadores sahiu o padre Mourão. A civilisação e o tempo haviam por sua vez modificado tambem a indole carniceira da familia Mourão, de sorte que o pai do padre Francisco tinha morto muito menos gente do que o avô e bisavô. As leis de repressão feitas cumprir pelos primeiros governos do segundo reinado, as medidas enérgicas tomadas por elles, afim de reprimir os abusos dos senhores feudaes do alto sertão, concorreram grandemente para o decrescimento da estatistica criminal. O primeiro destes senhores de baraço e cutelo que cahiu em poder da justiça foi severamente punido e onde chegava a noticia de seu castigo os outros iam se commedindo tementes das mazmorras e da forca. Quando o padre Mourão se entendeu, a epocha do bacamarte estava em seu declinio: apenas matava se em luctas políticas, ou, caso raro, em questões de honra. Ouvia entretanto, celebrarem-se as façanhas de seos ascendentes, fanfarrões e malvados. Não o enthusiasmavam as bravatas delles e muito menos as suas atrocidades. Dos irmãos era a exepção em materia de valentia. Mesmo os mais novos do que elle, o excediam em agilidade, força muscular, emfimem todo e qualquer exercicio physico.

Na matança dos cordeiros, executada pelos meninos, não tomava parte. Escondia-se para não vêl-a. A tarde se estava no pateo da fazenda e ouvia balir o rebanho de volta para o chiqueiro, recolhia-se para não assistir a um espetaculo que bastante o affligia. As ovelhas vinham acompanhadas dos filhos e uma vez dentro do estabulo entrava a meninada numa algazarra dos diabos á vistorear os cordeiros para ver de quaes o carcará havia comido a lingua. E os pobres animaesinhos mutilados pelas aves de rapina, que se em corporavam ao rebanho no pasto esperando o momento de se cevarem das linguas dos borreguinhos, que cortavam de uma bicada quando as boccas delles se abriam para berrar, eram atirados para fóra do chiqueiro e os meninos os matavam a pauladas.

Em praticas religiosas é que nenhum o igualava. Aos doze annos tirava um terço melhor do que os velhos resadores e no officio de Nossa Senhora a sua voz ganhou fama e a sua memoria decorando os versos em mui pouco tempo. As cinco horas da manhã era o primeiro de casa que se levantava para o officio. Elle era quem tirava a reza e de seu larynge ainda incompleto, sahia uma voz aflautada cantando o versiculo: 



<poesia>

Agora labios meus, dizei e annunciae

Os grandes louvores da Virgem mãe de Deos 



Mal ondulavam no ar as derradeiras notas do canto, ouvia-se um coro de vozes finas e grossas, agudas e graves a cantar: 



Sede em meu favor, Virgem soberana, 

Livrae-nos do inimigo com vosso valor. 

</poesia>



Esta supplica a Mãe do Céo ouvia-se todos os dias ao alvorecer em todas as casas do sertão. Invocavam cantando a protecção da Senhora, mas em um tom cadenciado que extasiava o espirito embevecendo-o com a sua muzica. Lá fóra accordavam tambem os cantores das selvas ao primeiro raio d'alva que lhes alcançava os poisos. A graúna pouzada na fronde da mais alta carnahubeira soltava de seu larynge de aço as estridulas notas de seu agudo canto, os primeiros accordes da orchestra que em breve ondularia no espaço, saudando o sol, que se annunciava proximo num diluculo côr de rosa. Os gallos de campina estalavam tambem na ramaria dos joazeiros a já das árapongas ouviam-se as primeiras martelladas lá do cimo das crescidas oiticicas. Em breve no espaço vibravam em uma onda só os cantos dos homens e das aves. 

Francisco Mourão foi crescendo e com a idade mais se accentuavam nelle os sentimentos piedosos. No meio em que se formava o seu caracter eram bastante communs as scenas de crueldade. 

Quantas vezes na impossibilidade de livrar o escravo do açoite não foi esconder-se no matto para não lhe testemunhar o castigo! O pai e os irmãos mais velhos chamavam-no -- o molengas, porque elle chorava por tudo.

-- Ter pena de sangue de negro só o Chico porque é doente de fulato, dizia a propria mãe delle muito convencida de que proferia uma verdade. 

A benignidade do menino por ser um sentimento extranho entre os seos era considerada uma doença. Um Mourão se amofinar com os soffrimentos do proximo era um absurdo. E o Chico fazia mais, padecia até pelos escravos. Quando os captivos eram mettidos no tronco elle não socegava mais, a chorar e a pedir até obter a soltura do infeliz. Nem sempre o atendiam logo, e tornava-se as vezes tão importuno que os pais o surravam para se verem livres delle, mas o menino não descoroçoava, e passadas as dores das pancadas voltava a implorar a liberdade do preso.

O Chico era doente do fulato, não havia duvida, pensavam todos que o conheciam. 



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<div "CAPÍTULO V">



V 



O alvitre da ordenação de Francisco Mourão partio do avô delle. -- E'uma honra para a familia ter um padre e o Chico é só para o que dá, tem o coração muito mole para lidar com negros, dizia o velho. 

Foi um deslumbramento para o rapazinho a sua entrada no seminario. A Fortaleza com a sua casaria e praças arborisadas não o impressionaram tanto como o altar-mor da igreja da Prainha. Para maior gozo de seus sentidos celebrava-se a festa da padroeira e a imagem da Virgem era esbatida por uma nuvem de gaze azul claro, mosqueada de lantejoilas que tremeluziam feridas pelos raios das cem luzes, que scintillavam nos altares.

A sua, alma de devoto se embebia inteira na doce contemplação daquelle quadro suggestionada por todos os explendores daquelle céo aberto. Nunca os seos olhos haviam apanhado uma imagem que tanto o deleitasse, que tão acarinhada fosse por sua alma de crente. Elle havia assistido em plena natureza ás mais imponentes scenas do clima tropical. Creado nas selvas tinha tido deslumbramientos, éxtasis mesmo, deante da grande tela da creação. As verdes florestas sertanejas, garridas e perfumadas, ao alvorccer de uma dessas bellas manhãs de Maio, com todos os seus cantores, sarapintada de borboletas e de beija-flores, nunca lhe arrancaram dos nervos as trepidações que sentia agora deante daquelle altar illuminado. Os seos arroubos começaram por uma suggestão dos olhos e chegaram ao paroxismo, quasi a uma crise de nervos, quando nos ouvidos lhe vibraram as notas dos cantos sacros acompanhadas pelos sons harmoniosos do orgão. Em sua pertubação pensou que cantavam o officio de N. Senhora; esteve para soltar a voz respondendo com o estribilho, mas a estancia não se terminava, nem a lettra e o som eram os do officio. Quedou-se, e todo abysmado nos melodiosos accordes daquelle cantar esteve até se terminar a missa. 

Francisco Mourão não extranhou a reclusão, nem tampouco a disciplina do seminario. Dominado inteiramente pelo mysticismo christão que lhe abocanhava o espirito, não apreciara a differença dos meios era que viveu e em que vivia agora. A' vida material não dava muito apreço, tanto que deixando a sadia e frugal alimentação sertaneja, pouco extranhou a comida anemica do internato, saturada dos temperos picantes com que se desperta e se illude ao mesmo tempo o paladar.Tão engolphado estava o seu espirito na contemplação de todas aquellas scenas religiosas, que seu corpo acostumado ás docilidades da rede, não se revoltou com as asperezas da cama nem com a visita dos percevejos a noite a mordel-o e a chupal-o. Quando as contingencias da vida humana o faziam sahir um pouco daquelle abandono de si mesmo, era por um momento somente, e depois de murmurar convencido -- N. S. Jesus Christo soffreu mais por nós -- recahia em seu habitual enlevamento. 

A sua primeira communhão acabou de submettel-o de todo a nevrose mystica que por atavismo tinha chegado a elle, a mesma que em modalidade diversa, fazia o seu trisavô resar um terço pela alma da pessôa que havia assassinado. 

O padre que o confessou ficou receiozo do seu juiso quando vio o penitente aeccuzar estrangulado de soluços os mais leves peccados veniaes. 

Mourão cem seu desequilibrio psychico fazia ainda maiores as penas do inferno, e mais graves as offensas que elle havia feito a Deus. A religião professada no meio que deixara, era a religião do terror, resumia-se no monstruoso dogma das penas eternas. Havia crescido, ouvindo o missionario pregar a inclemencia de Deus castigando os peccadores. Nunca mais esquecera a derradeira missão a que assistiu em sua aldeia. Foi um horror!...O missionario depois de fazer do alto do pulpito a enumeração dos castigos do inferno desde o lendário espeto quente até as caldeiras de chumbo derretido, arreava o corpo da batina e deixando exposto o busto apenas vestido por uma justa camisa de ponto de meia disciplinava-se. O som da primeira chicotada dada pelo azorrague ferino, cujas correias em numero de cinco se terminavam em curtas e amoladas laminas de aço, ouvido pelo auditorio que beatamente se ajoelhava cercando o pulpito, começou a penitencia. Cada devoto sacou o seu instrumento de castigo a exemplo do padre, cujo sangue rubro espirrava pelos talhos da camiza, retalhava as costas, emquanto alternando com o ruido metálico das disciplinas, espalhava-se no ar num tom plangente de gemido a supplica -- Senhor Deus mizericordia -- .

Em uma ancia de martyrio, de tortura, os que não tinham azorrague tiravam as alpercatas e com ellas contundiam o rosto até espirrar sangue dos beiços. 

Era uma febre de sangue. Emquanto o precioso liquido não lhes saiha das veias, não se julgavam remidos, não tinhão conseguido aplacar a colera celeste como se Deus fosse um chacal faminto e procurassem sacial-o a custa das proprias carnes. 

A penitencia durou uma hora inteira. Em os últimos momentos ella assumiu um carácter trágico e aterrador. O que se ouvia não era mais uma prece articulada, mas um uivo agoureiro, amalgamado de soluços, de gemidos, de palavras e de ais. 

Se esta lúgubre melopéa os abatia incitando-os á penitencia, mais ainda os desorientava a visão daquelle espectáculo sangrento. Homens e mulheres, com os semblantes lívidos numa crispação de assombro, de joelhos, com os bustos ensanguentados, olhavam supplices para a imagem de Christo, que o padre havia, em signal de aggravo, collocado de costas para o auditorio. O clarão mortiço das poucas velas que ardiam no altar-mór, iluminava tétricamente aquella estancia, destacando da morte -- côr escura do pavimento sangrentas figuras, como creações de um conto phantastico. 

O pánico gerado por todas aquellas scenas deprimentes tocou ao paroxismo produzindo o infanticidio e a loucura.

Mais de uma mulher abortou, e ao terminar a missão, uma gargalhada aguda e pavorosa retumbou no templo dada por uma rapariga que se erguera desvairada e sahiu correndo de igreja a fóra. 

Mourão não esqueceu mais esta pobre victima do fanatismo sertanejo. Era a Paula da velha Benta, que endoideceu de medo do inferno e nunca mais recuperou a rasão. 

A força que a impellia para longe da multidão que com tanta impiedade rasgava as carnes era tal, que a fez passar por cima dos devotos que por penitencia jaziam no adro amortalhados e deitados como se estivessem mortos, sem os machucar. Grande era a obcecação daquelles fanáticos que por humildade se deixavam pisar pelos devotos que sahiam do templo. E a turba de penitentes atravessava o adro sem desviar-se dos corpos, que pisava a torto e a direito, porque entendia ser isso agradavel a Deus, porque acreditava que assim seriam remidos os peccados daquelles que ali se deitavam para serem pisados.

A missão durou dias e sempre as mesmas scenas de sangue praticadas em honra de um Deus que é o symbolo da paz e da misericordia. 



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<div "CAPÍTULO VI">



VI 



Era o dia da ordenação. 

O velho Baptista, procurador da irmandade de N. S. da Conceição da Prainha, marchava tão lepido que não parecia um sexagenario. Barbeado de fresco, envergando a sua comprida opa de seda côr de creme, com ampla gola azul, andava, desde que começou a clarear o dia, como um corropio pela capella providenceando no sentido de nada faltar para o abrilhantamento da ceremonia. O seu rosto vermelho e raspado coroado por uma cabelleira tão branca que parecia de prata, via-se assomar por toda parte, no côro, nos desvães das portas, por traz de uma cortina, do pedestal dos altares, a examinar tudo, avaliando o effeito dos ornatos e a perspectiva interna do templo. 

Em suas idas e vindas embora com a attenção presa completamente áquelle minuncioso exame, não esquecia as genuflexões, que tinha por habito fazer, humilhissimas, quando passava deante dos altares. Estivesse elle na maior azafama, corresse mesmo para salvar uma pessôa a affogar-se, e passasse em frente de uma imagem, havia de parar e curvar-se com a maior reverencia e sem a menor pressa.

Isso nelle era uma questão de nervos e de habito. Votara-se desde moço áquelle serviço, e houve-se com tanto geito na procuradoria da irmandade que trazia a capella ornada e decente, vivendo tambem a custa della, diziam os maldizentes, os falladores. Espirito pratico, não se molestava com o juízo pouco favoravel que faziam de sua honestidade e conhecendo bem o meio em que vivia explorava como nunca houve quem melhor fizesse, a vaidade dos presumidos. Era a festa da padroeira a mais despendiosa, porem tambem a que mais lucros dava.

O velho Baptista com sua clara intuição creou logares honorificos, uma hierarchia especial, especie de dynnastia annual, um juiz e uma juiza da festa, que não chamou rei e rainha, porque então os negros tinham essas magestades que de sceptro e corôa se apresentavam acompanhadas de todos os captivos de Fortaleza, no diade Rêis na capella do Rosario a assistir a sua missa votiva. Era um dia determinado reunia-se na sachristia da capella a meza da irmandade e sob proposta do procurador eram nomeados os juizes da festa. A escolha nunca recahia nos mais virtuosos irmãos, porem nos mais abastados e presumpçosos.

O velho Baptista notando que havia certa ciumada entre os confrades e a rasão era haver muitos tolos presumidos na irmandade e apenas dois logares honoríficos, tratou de augmentar os juizes contentando assim mais alguns daquelles pobres imbecis, verdadeiros pedaços de impostura humana. Elevado o numero dos patronos a oito, quatro de cada sexo, a honra chegaria para maior numero, graças ao sabio alvitre do procurador.

Os juizes desse tempo eram os paranymphos de hoje, differença somente de vocabulo. O velho Baptista estava radiante de contentamento. A ceremonia da ordenação devia começar as oito horas da manhã e já as sete e meia elle havia estendido em duas alas no corpo da igreja duas duzias de irmãos devidamente paramentados, com brandões, a guiza de assistentes de encomendação de defunto, e feitos chefe de uma das filas, esperava pelo repique annunciando a chegada do prelado diocesano. As oito horas menos um quarto repicou o campanario. Uma serie de sons agudos e graves desceu da torre numa onda ligeira, inundou a capella e se derrameu no espaço. 

O sacristão procurava mostrar toda a sua pericia arrancando do metal, que badalava, accordes de uma cadencia, que só elle e o velho Baptista percebiam. Com uma corda em cada mão bamboleava-se como um boneco de engonços, orgulhoso da symphonia que acreditava só elle ter a magia de tirar com uma tão suave melodia. Um dobre por finado não tinha em Fortaleza quem tocasse melhor; o sino gemia, mas gemia de arrepiar a gente, de commover, de atterrar.

O procurador havia muito recomendado o repique da chegada do bispo ; queria que cada nota que sahisse do bronze fosse de uma harmonia tão doce como as cantadas pelos anjos na corte celeste. Assim, todo ouvidos, não perdia nemhuma das ondas sonoras que se esbarravam nas paredes internas do templo, reflectindo-se ou fundindo-se numa gamma mais aguda que se escapava pela primeira abertura que encontrava em sea caminho. Embebido em avaliar o valor muzical do repique, desvirtuado em parte pela acústica da capella, estava o velho Baptista, quando parou em frente ao adro o coche do diocesano. Não tardou a assomar á porta principal a figura grave do senhor D. Luiz, acompanhado do seu secretario.

O procurador logo que percebeu a batina rôxa do bispo perfilou-se, e, duro como um cataleptico, olhava de soslaio as filas de irmãos suggestionando a todos com seu olhar o mais profundo recolhimento.

Quando o prelado enfrentou-se com elle, a sua tesa carcassa dobrou-se somente nos joelhos em uma genuflexão, que foi imitada pelas duas alas de confrades.

D. Luiz atravessou o corpo da capella com passo cadenciado e firme e o rosto em sua habitual serenidade sempre com um que de taciturno. Seguiu até a escadaria do altar-mór, onde se ajoelhou e orou por algum tempo. A imagem da Virgem emergia de uma nuvem de gaze anil-claro sarapintada de pontos metálicos, fingindo estrellas, em cujas superficies douradas batiam os raios das luzes que o sacristão começavaa accender em todos os altares. 

Pela porta da capella que communicava com o seminario entrou um ruido surdo de passos que ondulou na atmosphera quieta do templo, e segundos depois, chegava a procissão dos seminarista?. A fila, de formigões, como uma cobra preta, serpenteou de igreja adentro até tomar posição. Uma vez accommodados, mas de pé, o estilo de uma castanhola fel-os ajoelhar todos a um tempo.

A ceremonia da ordenação ia começar.

Já o senhor D. Luiz esteva sentado em seu throno, sob um rico docel de damasco, paramentado de baculo e mitra. 

Eram tres os ordinandos, que esperavam na sachristia o momento de sua apresentação. Todos estavam tristes, com especial idade o diácono Francisco Mourão, que, com as mãos crusadas sobre o peito, olhava com tamanha tristesa e piedade para as sangrentas chagas de uma imagem de Christo, que lhe ficava em frente, como se fosse aquelle corpo o verdadeiro, e aquelle sangue o do Mestre. A alma de Mourão estava atribulada. Havia passado a noite inteira em orações, prostrado deante de um Crucifixo a implorar a graça da Fé e a consultar pela ultima vez a sua vocação. A noite de Christo no horto não foi mais tormentosa. O seu apurado exame de consciencia, desde o dia em que chegou ao seminario e durante os nove annos de sua estada ali, dizia que elle á noite nunca deixara de pedir em suas orações á Virgem, que lhe concedesse no serviço de Deus muito fervor e devoção. E no entanto á ultima hora, no momento de fazer o derradeiro voto, sentia-se tibio !! Bem podia ser que não estivesse em estado de graça. 

Se assim era, como entraria para o presbyterado ? 

Chegara aquella edade tão puro que nunca levou ao seu confessor um acto deshonesto, em pensamento ou em simples desejo. Não bastava isso, não o satisfazia a certeza de sua innocencia baptismal, queria sentir-se abrasado pelos ardores da Fé.Para maior atribulação lhe parecia estar menos em graça do que no dia em que recebera primeira ordem menor, a Tonsura. Quando o bispo o tonsurou separando-o assim do mundo dos outros homens, para o serviço eclesiástico, e lhe collocou no braço uma sobrepeliz symbolisando as vestes de Christo e na mão uma vela acceza como symbolo da caridade com que devia consumir-se no serviço de Deus, sentiu que todo elle vibrava de amor pela ordem, na qual se iniciava. Agora que devia estar todo abrazado daquelle amor sentia-o meio arrefecido. Quem sabe se o demonio não aguardava aquelle momento tão especial e solemne para tental-o, pensava. Christo não escapou a seu atrevimemto, quanto mais elle pobre peccador!

O anjo máo , cujo poder centuplicado pelo seu excessivo fervor religioso e pela superexcitação em que se achava, apparecia para lhe dar combate e o venceria talvez ! A oração pelos ordinandos e que elle sabia de cór devia alental-o e filando no crucifixo os olhos rasos de lagrimas, recitou-a mentalmente: 

« Divino Jesus, Senhor Nosso, Chefe e Esposo da Santa, Egreja Catholica, não deixeis entrar em vosso sancturio senão os que Vós chamastes e que hão de glorificar Vosso Nome.

Mandae á vossa vinha obreiros valiosos, revestidos de sciencia e virtudes, de prudencia e de zelo, que unam á humana actividade o espirito de Deus, que se apresentem possuidos de temor e respeito, fiéis ministros dos vossos mysterios, promptos a todos os sacrificios por amor de Vós e do proximo; dai-lhes coração puro, palavra efficaz, que Vos representem irreprehensiveis á Vossa vista e de todo o povo christão.» 

Mourão ia orando e meditando. As palavras da prece, sincera; e eloquentes, calaram no animo delle de modo a abatel-o mais e mais, a persuadil-o de que elle era indigno do sacerdocio. 

A solidão da cella, pobremente alumiada pela claridade de um lampeão, que esfuzilava no corredor fronteiro, a solidão que naquelles momentos de angustiada duvida, era o maior dissolvente das energias d'alma atribulada do ordinando, era perturbada somente pelo gemer do vento, coando-se pelas frinchas das portas a se alternar com os ais doridos do diácono em seu abandono moral.

Pela madrugada Francisco Mourão não tinha mais lagrimas para chorar a sua desventura, a sua falta de Fé. Em seu foro intimo tudo se erguia a accusal-o. Ouvia os arestos, que suppunha da consciencia, vedando-lhe as portas da egreja de Christo e, pusilanime como um assombrado, Julgava-se incapaz do menor sacrificio pelo amor de Deus e do proximo.

O silencio, esse silencio nocturno e tétrico dos conventos, era o maior factor da frouxidão e do abatimento do ordinando. Era elle quem creava as ideas, quem dava corpo aos phantasmas que desfilavam em fúnebre cortejo pela imaginação doentia do diácono. Deste penoso marasmo, deste exgottamento, que só avalia o espirito que passou por elle,desta comprida noite de visões e de terrores foram epilogo o primeiro clarão d'aurora eos primeiros rumores do despertar da communidade.

O ordinando sentiu que não estava tão só e tão desamparado.

A figura do crucificado já tinha mais vida nas feições e não via o sangue lhe correr com tanta abundancia das feridas. Elle mesmo que se julgava um espectro, chegou em uma de suas crises a sentir-se insubstancial, ligeiro e immaterial como uma sombra, se humanava, tomava corpo, e essa encarnação era obra da luz, que havia soprado nelle a vida que lhe havia resuscitado todos os sentidos e as prerogativas de sua animalidade. Com a claridade augmentavam os rumores que se erguiam de todos os apartamentos do seminario. Esses ruidos da vida que o dia levantava, restituíram em parte no espirito de Mourão a sua perdida energia. Devia ou não devia ordenar-se, reuniria em si ou não a actividade humana ao espirito de Deus? Este questionario absorvia agora toda a sua actividade mental. Sem meios de por si só decidir-se, foi ter com o reitor. 

O padre o recebeu com a sua habitual austeridade.

Mourão ainda acobardado, como a creança que desperta no escuro de um somno em que sonhava com almas do outro mundo, ajoelhou-se e o sacerdote ouvio-o de confissão.

Ao espirito atribulado do diácono, a mais leve falta era um peccado mortal. 

Comparecia naquelle momento ao tribunal da penitencia não para se desobrigar de um preceito imposto pela egreja, mas para fazer uma confissão geral como se fosse morrer. A sua vida inteira desde que tivera uso de razão, até aquelle instante, devia contar ao confessor. 

Em sua existencia, pura como a de todo obsecado por uma idea boa, não havia um acto que podesse ser considerado máo, e no entanto elle se julgava um grande peccador. 

As primeiras palavras, recitando o <estrang lingua="latim"> Confiteor </estrang> , foram ditas tão a medo, que quasi o reitor não as percebeu.

Todo elle tremia. Não estava menos aterrado hoje que tinha o espirito um pouco cultivado, do que no tempo das missões em sua terra. 

O dogma era o mesmo; havia differença somente no modo de faze-lo comprehender pelos fiéis. Os castigos dos máos, deviam ser mostrados de accordo com a psychologia d'elles e assim aqui em vez de ser o lendario espeto e caldeiras de chumbo derretido, era a morada nas trevas, a ouvir, mas a ouvir eternamente, choros e ranger de dentes. Esta eternidade de penas e que apavorava Mourão. Quem sabe se elle não estaria condemnado ?

Ató os seus proprios soffrimentos, pensara, não seriam levados em conta de seus erros. Os seus escrúpulos chegavam a um grão pouco observado, até nos mais obcecados devotos. A sua humildade, supportando como novato que os veteranos o chamassem - o matador , acreditara ser uma manifestação de orgulho e talvez um motivo de condemnação eterna! 

Mourão era um martyr de seus nervos, era um subjugado. 

O reitor conhecendo-o de perto, tratou de confortal-o, do levantal-o d'aquelle estado deprimente, o que obteve com grande custo.

Já nãoeram os peccados que affligiam o ordinando, estes haviam sido perdoados ; no que se obstinava agora para não tomar as ultimas ordens era na sua falta de Fé, na ausencia da graça, na tibieza que lhe arrefecia o coração, que devia naquelle momento estar abrazado do amor divino. A graça da Fé queria sentil-a, queria percebel-a, palpal-a, como se ella fosse substancial, como elle percebia o ar, e por isso a suppunha ausente de sua alma.

O reitor custou a convencel-o de que devia se ordenar, a persuadil-o da firmeza de suas crenças. As palavras do padre, ungidas de amor e ao mesmo tempo vibrantes de auctoridade, levantaram de todo o espirito abatido do diacono. 

Durante sua tribulação não teve um momento de duvida : cria piamente em todos os mysterios a religião christã, mas cria como o ensinaram a crer, como se crê nos dogmas, sem racciocinar, de olhos fechados. Mourão duvidava de seu fervor, de suas aptidões para o sacerdocio. 

A ceremonia da ordenação correu na melhor ordem, sendo observados escrupulosamente todos os preceitos do ritual romano.

Os ordinandos se mostravam commovidos, com especialidade o diácono. Francisco Mourão cujo maceramento de espirito se traduzia claramente na pisadura dos olhos, que de tanto chorar, se estagnavam dentro de uma aureola roxa como uma ecchymose. 

A sua cabeça, um perfeito exemplar da lendaria cabeça chata cearense, se inclinava para o chão, em uma intermina venia, deixando ver no alto a corôa, recentemente feita, como um disco de prata, boiando n'um pequeno lago preto.

De todas as ceremonias, a que mais tocou ao ordinando Mourão foi a da prostração.

Amortalhado em longa alva e deitado de bruços, no pavimento da capella, suppunha-se, defuncto e a ladainha de todos os santos, que cantavam parecial-he o seu requiem.

Aquella scena de acabamento, impressionante como o mais trágico melodrama, trouxe-lhe á lembrança as missões em sua aldeia e viu os devotos deitados envoltos em mortalhas brancas no adro da egreja e ouvia a gargalhada da louca correndo de templo a fóra. 

Os fanáticos, por penitencia, offereciam as suas carnes aos pés dos transeuntes e elle maior sacrificio ainda fazia, morrendo para o mundo, renunciando absolutamente a todos os gozos, a todos os deleites carnaes.

Francisco Mourão era padre aos vinte e poucos annos e com as praticas religiosas, o mysticismo christão, que chegara a elle por atavismo, se desenvolveu de modo a tornal-o o mais escrupuloso dos sacerdotes da diocese. 



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<div "CAPÍTULO VII">



VII 



A casa abandonada seria em breves tempos uma tapera, se não fosse o casamento de João das Neves. Para tornal-a habitavel, o rapaz moirejou algumas semanas. Compensava-lhe as fadigas a satisfação de ver a casa paterna se levantar garrida dos escombros da destruição.

Não parecia a mesma. 

Já tinha pateo, e o bamburral que a encobria, roçado rente á terra, tinha sido ciscado para longe. O telhado despido das parasitas e trepadeiras se mostrava ao sol com as telhas tão denegridas pelo mofo, como se estivesse num fumeiro. 

O chiqueiro das cabras havia sido reformado e restabelecidas as veredas que iam ter ao rio e á villa. 

A casa por dentro estava outra ; varrida e espanada,não parecia ter sido por longos annos um azylo de morcegos e de corujas. Da época do seu abandono apenas conservava um bafio, que fazia lembrar o interior das igrejas mal arejadas das povoações matutas, mas que perderia com o tempo. Dos fechados aposentos sahiu esterqueira para adubar um hectare de terreno o mais esfalfado.

O pavimento foi o que mais trabalho deu ao João das Neve ; estava todo solapado de formigas. 

A casa não cahio por ser de taipa; se fosse de tijollo teria vindo abaixo.

O terreno estava todo fôfo.

Era preciso aplainal-o, socal-o e nestas operações o Neves viu-se mais de uma vez enterrado até á cintura, n'uma dellas em perigo de vida, porque se afundou o chão e da socava em que cahiu espirrou uma jararaca, que por milagre o não picou.

Prompta a casa, a noiva não faltaria. 

Havia na parochia mais de uma dezena de moças boas de casar e que não engeitariam João das Neves, que alem de bem apessoado tinha já. começo de vida : uma vacca, uma egua e uma posse de terra com casa dentro.

O que preoccupava agora o pretendente, era a escolha da rapariga. Conhecia pessoalmente os chefes de familia do logar, era quanto bastava. A moça não sendo torta nem aleijada, tendo corpo para o trabalho e de dote um ou dois bichinhos, era bom partido. Entrou mentalmente em todas as casas da freguesia e no fim de um apurado exame achou-se embarazado na escolha. 

Encontrou mais de seis raparigas no caso de serem amparadas casando-se com elle.

Todas eram mais ou menos arranjadas para a terra; a que menos tinha possuia uma garrota <marca num="1" pag="61"> , dadiva da madrinha. Estava indeciso. 

Se conhecesse a todas ellas, talvez lhe fosse mais fácil a preferencia. A algumas apenas conhecia de nome.

Sentiu então um desejo vago de vel-as, uma ancia de possuir, não a mais bella, porem a mais possante dellas.

A mulher do pobre devia ser como o quartau <marca num="1" pag="61"> delle, forte e manteuda, pensava. Para julgal-as de visu, comparal-as mesmo, havia uma occasião muito opportuna, a missa do gallo. A esse acto religioso, o mais concorrido e popular do Brazil, não faltariam ellas em seus vestidos novos, penteadas e perfumadas com patchouly. Era da bôa pragmática sertaneja ir á missa do Natal, mas em traje novo; quem fosse ouvil-a em roupas usadas, seria beliscado pelo gallo.

João das Neves respeitando todos os preconceitos do seu meio, envergaria na noite do Nascimento umas calças de brim pardo e uma camisa engomada, salpicada de chuvisquinhos vermelhos. Cobrindo-lhe a farta cabelleira negra traria um chapéu de couro, pendido um pouco para a direita, como divisa de rapaz solteiro, e assim vestido, entraria no povoado ao pôr do sol, montado em um dos melhores cavallos do amo. 



<nota num="1" pag="61"> Cria da vacoa com dois annos de idade. </nota>

<nota num="2" pag="61"> Cavallo castrado. </nota>



A villa de uma perspectiva feia, como toda povoação sertaneja, tinha na vespera da festa do Natal um certo encanto, uma vida que não lhe era propria e uma alegria inteiramente desusada. 

As ruas, que nos outros dias eram soturnas e quasi desertas, começaram do meio dia para a tarde a se encher de passageiros, que formigavam em todos os rumos, com pressa de quem chega e quer tomar logo rancho. Todas as casas se abriam na mais franca hospitalidade. Dos frades das esquinas já todos occupados passaram os cavallos a ser amarrados nas estacas das cercas dos quintaes. 

Das estradas que na villa desemboccavam sahia gente a pé e montada e a grande procisção de traseuntes seguia de ruas a fóra.

A proverbial hospitalidade do camponez cearense via-se por toda a parte. A mais pobre cabana tinha um hospede e estava contente disso. 

Todos agasalhavam um conhecido, um amigo, um parente.

O vicario era quem tinha maior numero de compadres, de parentes espirituaes e por isso era quem hospedava mais gente. A porta delle parecia uma commissão de soccorros públicos em tempo de secca.

João das Neves, em attenção ao cura, que o havia baptisado e a quem chamava padrinho e tomava abenção, arranchou-se em casa delle.

A vivenda do vigario Francisco Mourão era uma das maiores da villa, e no entanto estava litteralmente cheia de gente. Na sala de entrada, que era bastante espaçosa, se reuniam os compadres mais abastados, todos fazendeiros, com suas familias.

No corredor, sala de jantar e varanda se apinhavam os mais familiares e pobres e até na cosinha esperavam pela missa os intimos da cosinheira.

Todas as moradas da villa estavam mais ou menos cheias como a do cura.

João das Neves apeiou-se e depois de prender o cavallo em uma cerca proxima, approximou-se da porta do padrinho.

O cordão da calçada, que era bastante alto, estava occupado como um comprido banco; não havia mais assento para uma pessoa.

Era seu dever entrar e pedir abenção ao padrinho, que todo hospitaleiro naquella turbamulta, com grande bondade inqueria da saude de seus amados freguezes, sem distincção de casta nem de fortuna.

Para todos tinha uma palavra amavel. A's afilhadas moças acarinhava, dando-lhes palmadinhas nas faces, mas isso paternalmente, sem laivos de maldade. A's créanças beijava com tamanha caricia como se seus proprios filhos fossem. Destribuia affectos profusamente sem attender á posição social de quem os recebia. Eram todos ovelhas de seu rebabanho, tanto bastava ao pastor.

Tinha sempre uma consolação para alliviar as penas dos que se queixavam. E assim ia aquelle santo homem recebendo as visitas dos que procuravam a sua casa para esperar a missa do gallo.

João das Neves entrou na sala do padrinho e ficou embatucado quando viu a elite sertaneja ali reunida.

Estacou a dois passos da porta de entrada e de chapeu na mão,olhava embasbacado para o auditorio, cujas figuras não se divulgavam muito bem na pouca claridade da sala, parcamente allumiada por uma fraca lamparina de kerozene.

Havia muita gente e quasi toda de pé, porque a paupérrima mobilia do vigario apenas se compunha de dois mochos, um banco e um canapé.

João das Neves occulto na meia penumbra, já mais senhor de si, espiava as matutas solteiras, que confronte a elle se sentavam, tesas, como se o espinhaço dellas não tivesse juntas. 

Todas tinham os cabellos reunidos num cócó trepado no occiput. As mais faceiras cercavam-no de uma aureola amarella de cravos de defuncto.

Não falavam, não se mechiam e só davam signal de vida quando tinham de limpar o suor, que lhes escorria do rosto por todos os furos da pello. Então a mão carnuda e grossa armada de lenço de cambraia, sarapintado de pontos de marca azues o vermelhos passava ligeira no rosto inteiro enxugando-o e afogueando-o ainda mais.

Nestes lencinhos perfumados do patchouly e jacaré <marca num="1" num="65"> via-se em versos ou em simples emblemas o viver dellas, cheio de esperanzas ou de desillusões. Nessas quadras é que desabafavam os seus sentimentos. Escreviam-nas com lagrimas ou com risos.



<nota num="1" pag="65"> Alcoolatura de almiscar </nota>



<poesia>

Desde o dia em que te vi

Nunca mais eu vida tive; 

Passo as noites mais os dias

Como o morto que não vive.

</poesia>



Em cada lado do lengo estava escripto um destes versos.

Differentes eram os emblemas que se viam marcados á linha de côr no centro do pequeno quadro de cambraia. Em um, dois corações traspassados por settas ; em outro, duas aves juntas acorrentadas, em outro um cupido com a sua flecha a disparar; em todos, emfim, via-se o eterno drama do amor representado pela palavra escripta ou pela allegoria.

João das Neves estava todo embebido em avaliar as qualidades physicas das moças, que lhe ficavam confronte, quando o vigario lhe bateu no hombro:

-- Como vai o meu afilhado ?

-- Minha abenção, meu padrinho, respondeu o rapaz fazendo uma humilde genuflexão 

e estendendo a mão direita aberta para o lado do cura.

Mourão o abençoou riscando no ar uma cruz com a dextra e foi seguindo; ainda havia muitos freguezes á saudar.

João das Neves continuou no seu exame e agora seus olhos se embebiam na figura de uma mocetona que andava abaixo e acima como pessoa da casa. 

Aquella creatura não lhe era extranha; estava a entreconhecendo. Até que afinal a reconheceu, poude unir o nome á pessoa.

Era a Chiquinha da defuncta Benta, que o padrinho tinha trazido para a casa no dia em que lhe morrera a mãe. E fitando a moça, a sua triste historia recordava, triste como a de todo orphão desamparado, e tambem a boa acção de Mourão abrigando sob seu tecto a creança abandonada. 

Como poderia o Neves conhecer Chiquinha se ella estava tão mudada ! De um anno para outro fazia uma diferença que enganaria a qualquer.

Na ultima festa do Natal ella era já frangota, mas ainda estava meio empalemada e com as cores da terra que comia em pequena. Agora estava rechonchuda, rosada, manteúda como um quartau de pobre. Foi a musculatura forte e bem desenvolvida da moça o que mais prendeu a attenção do Neves. A formosura della que se ostentava em um perfeito typo de morena oôr de canella poucas cocegas fez a sua sensualidade.

Faria negocio quem desposasse aquella mulher. Tinha um corpo mesmo de ajudar marido. Embebido em avaliar os proventos que tiraria o homem da força de Chiquinha, pensou: porque não seria elle? E philosophava. Era um bom partido aquelle casamento, embora a noiva não tivesse dote.

Teriam a protecção do vigario, que era tão pobre ou mais ainda do que elles, mas era um homem de respeito que teriam por si em qualquer contratempo da vida.

Alem de outras qualidades Chiquinha tinha a de não ter parentes. Era só no mundo. Filha de um portuguez artista sapateiro, que por excepção da regra geral, chegando ao Brazil deixou de abrir taverna e fazer fortuna para trabalhar pelo officio, com uma mulher pernambucana, ficaria pela morte dos pais no meio da rua se a caridade de Mourão não a agazalhasse. E que agonia não teria sentido ella quando lhe morreu a mãi!...

O pai, que quasi não conhecera, levara vinte annos a tossir e a fazer sapatos, doente da tisica que trouxera de Portugal e que mui lentamente aqui o consumiu graças ao ar puro e sadio do sertão cearense. 

A mãi, que era uma cabocla forte e entruncada, com pulmões de aço, parecendo refractaria como uma cabra ao bacillus da tuberculose, começou a tossir, a tossir, a emmagrecer, tendo uma ponta de febre todas as tardes e cinco annos depois de ter morrido o sapateiro, ella se finava hectica como elle.

A scena commovedora da morte da mãe de Chiquinha, não viu o Neves, mas lh'a contaram. Foi na occasião de levarem o viatico. A doente estava reduzida a uma magreza esquelética ; só tinha na caveira vivos os olhos que apezar do estado de abatimento da enferma, se conservavam accezos e penetrantes.

Daquella luz que bruxoleava prestes á se extinguir, scintillou um lampejo mais fulgente; daquelle espirito cujas forças a doença parecia haver anniquilado, houve um esforzo, mais um milagre de energia operou o amor.

A moribunda depois de receber o Senhor, radiante de resignação e de coragem poz as mãos em postura supplice e em nomedo Deus dos fracos, dos desamparados, dos afflictos pediu ao vigario Mourão que lhe recolhesse a filha, duas vezes orphã, que sem pae e sem mãe fícava abandonada no mundo. E morreu sem um gesto, sem um tregeito, finou-se num suspiro, que mal se ouviu no silencio profundo, que as ultimas palavras doridas da extincta haviam imposto no auditorio.

Mourão todo piedade prometteu a moribunda lhe amparar a filba levando-a para a 

a companhia delle. E fiel a sua promessa, logo depois de feito o enterramento conduziu Chiquinha para casa.

Mourão morava com uma irmã muito mais velha do que elle e com uma mulher já bem idosa, beata, chamada Merencia, que lhe fazia a cosinha. 

As duas velhas não viram com muito bons olhos o acto de Mourão trazendo mais uma pessoa para casa, que, além de ser uma bocca demais era de uma familia em que todos morriam da molestia magra.

D. Ignacia, quando o irmão lhe deu parte da vinda da menina, disse depois de alguns muxoxos: 

-- Credo !... o mano padre faz coizas !.. 

A Merencia, esta foi quem mais se intrigou com a nova.

Não era somente o sustento á rapariga e a roupa que a ella dariam, mais a peste que traria para casa.

Chiquinha entrava a fazer parte de uma familia, que quasi a desconhecia e que, a excepção do vigario, a não sympathisava.

A sua figura empanturrada de terra causou má impressão ás velhas, que já muito prevenidas com a herança da molestia magra acabaram de se indispor com a orphã. 

Na occasião em que Mourão, com summa bondad e e palavras ungidas de toda compaixão entregou Chiquinha a D. Ignacia, esta se mostrou tão fria, acolheu com tão má vontade a creaturinha desprotegida que o irmão num rasgo de abnegação recebera e vinha confiar nos seus cuidados, que este tudo comprehendendo teve grande magua e deixou-as indo quasi chorando.

Merencia, que da porta da cosinha assistia a recepção, quando o vigario se recolheu, levando uma lagrima em cada face, ella se aproximou da orphã e de mãos nos quadris, depois de miral-a da cabeça aos pés disso a Ignacia: 

-- Alem do mais, viçosa!... <marca num="1" pag="71">



<nota num="1" pag="71"> Comedora de terra </nota>



</div>



<div "CAPÍTULO VIII">



VIII 



A missa do Natal trazia a villa num reboliço folgazão. Todas as casas abertas e illuminadas estavam em festa. Nas ruas formigava gente em todos os rumos, emquanto a burguezia resfestelada em cadeiras do espaldar de sola nas salas ou nos passeios das casas esperava que o sino tocasse a terceira chamada da missa.

A arraia-miuda, na loucura do deboche divertia-se de diversas maneiras. Um zum-zum de toques misturado a um sussurro de vozes, de passos, se amalgamando tudo numa onda sonora, de um diapasão especial se espraiava e enchia toda a villa numa toada de vaga, mas de vaga humana.

A missa começaria a meia noite em ponto e para matar o tempo lançavam mão dos divertimentos na altura de sua civilisação.

As danças populares, os legendarios sambas se organisaram em pleno ar em diversos bairros da povoação. A lua em plenilunio clara como o dia, enchia a villa de uma luz tão suave que fazia vontade para melhor gozal-a andar leguas em estradas de areias brancas.

Já a brisa que de manso perpassava trazia as notas do baião, o soluçar da viola e o gemer da harmonica; os sambas começavam. Chorava a viola e gemia a harmonica nostalgicamente como carpindo as saudades da grande Amazonia de onde viera e aqui se exilara. 

Em vez da Arvore do Natal faziam o Bumba meu boi. O boi era a entidade de que mais se occupavam na sua vida pastoril. Era elle o symbolo da força e da prosperidade, a figura obrigada de seus torneios, sagrando heroes, ou amesquinhando covardes. Não satisfeitos de tel-o real, valente, audacioso, faziam-no artificial para os seus divertimentos do Natal.

Pelas oito horas da noite sahiu o boi do bairro mais canalha da villa.

Os maracás estrugiram e o populacho o seguiu, acompanhado de duas violas que chriamingavam um saudoso baião. Uma guarda avançada de garotos precedia as figuras allegoricas, que em compacto bando subiam pela rua principal, onde divertiriam por dinheiro os burguezes abastados.

Vinha na frente o caga-p'ra-ti ou prevelegio um phantasma de forma humana, esguio, encolhendo-se até ser annão e estirando-se até ficar da altura de dois homens. Seguia-o a ema, uma imitação grosseira, mas que dava mais ou menos uma idea desta ave. No centro do bando vinha o boi, uma ficção  desenvolvida com muito geito e arte. A cabeça feita de uma caveira natural, com seu bem talhado par de cornos, se articulava a um pescoço curto que se implantava num corpo bovino, sem pernas, mas modelado numa carnação soberba. A pelle era representada por um branco lençol de algodão, onde se desenhavam manchas negras, admiravelmente dispostas para bem representar um boi lavrado. A arca do corpo oca e espaçosa tinha logar de sobra para nella se mover o homem que havia de fazer dançar o bumba meu boi. Na trazeira do bicho vinha a burrinha tocando o seu maracá. Era esta a figura em que mais se esmeravam quanto aos adornos. Representava um cavallinho sem pernas, montado por um rapaz vestido de saia. A cabeça, pescoço e anca, do animal, as únicas partes visiveis, estavam ornadas de guizos e laços de fita. Na garupa escanchava-se uma boneca muito bem vestida e enfeitada.

A o lado da burrinha caminhava o caipora, um caboclinho muito pequeno, magro, apenas de tanga, com o corpo pintado de urucú e com uma urupema na cabeça. A sua direita vinha o babau, a figura mais exotica do bando. Era um homem alto, de camisa e ceroilas, com cabeça de cavallo. Este phantasma exquisito andava num saracotear constante, expondo a caveira, cujas maxilas fazia bater uma na outra numa bulha de matraca. Ao taco-ta-taco das dentaduras respondia a besta humana que fazia de espectro de cavallo com um rincho de ensurdecer. Fechando o bando marchavam as figuras complementares do folguedo: o vaqueiro, o Matheus e a Catirina. O boi parou a porta do vigario e formou roda. Em um instante esvaziou-se a casa. João das Neves foi um dos primeiros a sahir para o meio da rua. As mulheres se estenderam em linha de calçada á fóra e o cura agradecido aquella attenção do seu compadre Flamino, o dono do boi, que vinha em primeiro logar a sua casa e sem ser por dinheiro, apresentou-se prasenteiro em uma das janellas. 

A farça começou pela exhibição do caga-pr'a-ti, que entrou em scena encolhendo-se e estirando-se, querendo abracar as moças e isso ao som da hilaridade do populacho. Nada mais insulso do que este prevelegio que o povo gostosamente applaudia, com tanto ardor, como fazem as plateas dos centros civilisados a actores de grande nomeada. 

Entraram depois na arena o babau, a ema, o caipora e estas tres figuras, brazileiras todas, occuparam a attenção do publico durante dez minutos com o seu saracotear, seus rinchos e assobios.

Chegou a vez da burrinha, que entrou de estrada tocando maracá e cantando: 



<poesia>

Zabelinha come pão, 

Que daremos Zabelão. 

</poesia>



O mestiço que representava este papel era um rapazola, imberbe, com cara de moça. No fim de poucos minutos de dança o banho de suor era tal que lhe dissolvia o urucú com que pintara o rosto e aquellas lagrimas vermelhas cahiam como gottas de sangue no branco peito da camisa engommada.

Dançava num compasso certo e sem nunca voltar as costas ao vigario.

Quando estava prestes a concluir atirou sortes a diversos dos cricunstantes dos mais abastados. 

Danzando sacudia o lenço, que era apanhado e em uma das pontas amarrada a esportula e assim dado ao vaqueiro, que corria a entregal-o. Feita a colheita que orçou em algumas patacas, a burrinha cedeu o seu logar ao boi.

Ia entrar a scena principal do folguedo.

O povo abriu mais a roda alargando assim a arena onde devia se realisar a farça representando uma toirada. A animação tornou-se geral. A voz cheia do vaqueiro, que era um cabra fornido e com uma mascara ainda mais feia do que elle, fez ouvir alguns segundos as notas melodiosas e de uma saudade selvagem da toada do boiadeiro.

D'aquelle peito rude sahiam accordes de uma harmonia tão doce; n'aquelle larynge ignaro se formavam combinações de notas de uma nostalgia tão intensa, que a alma se deixando atravessar por ellas cahia em funda melancholia. auditorio quedou-se logo aos primeiros accordes da toada. Todos se recolheram dentro de si mesmos para melhor sentirem o espirito se saturar d'aquella música triste, cuja harmonia embebedava os sentidos e fazia chorar de gozo.

O vaqueiro calou a sua gamma de saudades e chamou o auditorio, que se suspendia nas azas do éxtasis, á realidade, á vida, com seu grito de desafio ao boi, que malhava fóra da roda:

-- He bumba, bumba meu boi!... He bum -- ba, bumba meu boi!...

De repente o caboclo que faria dançar o boi e que fumava em pé na trazeira deste, sacudiu o cigarro fóra e mergulhou pelas ancas do bicho a dentro. E levantou-se o lavrado e se peneirando todo acompanhou o vaqueiro que armado de uma vara de ferrão gritava entrando na arena: 

-- Hê bumba meu boi lavrado!...Hê bumba, meu boi bonito!...

Os rapazes dominados; ela loucura da topação estavam contentes do divertimento, embora fosse elle uma copia muitissimo infiel das toiradas hespanholas. Desconheciam completamente a tauromachia. As noticias de combates com touros chegadas a elles por via de Portugal lhe despertaram a idéa de um folguedo representando uma toirada, e ao mesmo tempo uma comedia com typos brazileiros e scenas todas nossas.

O vaqueiro antes de começara toirear fez o boi dançar correndo diversas vezes a roda, ao som de seus gritos: 

-- Hê bumba, meu boi bonito!... Hê bumba meu boi ligeiro!... 

Quando todos estavam assim entretidos vendo o boi se peneirar, gritou o vaqueiro: 

-- Hê bumba, espalha esta gente!!.. 

O boi investiu a cornadas contra o populacho, que recuando alargou demasiadamente o circulo. Era chegado o momento das sortes. O cabra açulou o touro batendo-lhe no mucubú. Este voltou-se ligeiro como se fosse um bicho vivo e arremetteu para o vaqueiro, e o teria estrepado, se este não desse uma sorte de recorte, tão bem executada como se fosse o melhor toureiro. Depois de multas sortes, todas freneticamente applaudidas pelo auditorio, veio a derradeira, a de topa carneiro em que o toureiro preacou o boi em pleno peito e este se abateu morto. Houve um alarido infernal. Soaram maracas e sibilaram apitos; uma confuzão de gritos de ensordecer. A burrinha, que era a dona do boi, chamou a contas o vaqueiro, o Matheus, a Catirina, emfim tomaram parte na farça todas as figuras do bando. Veio o cirurgião e achou que o boi não estava de todo morto, que podia escapar tomando uma ajuda. 

Era neste clyster que estava todo o burlesco, todo o ridiculo da comedia. Logo que o medico acabou a prescripção sahiram o Matheus e o vaqueiro; mas a meninada que já sabia que ella seria agarrada para o remedio, escafedeu-se. Um menino de fóra, que assistia pela primeira vez o brinquedo, foi pegado e gritando e estrebuchando nas mãos do Matheus foi levado até a trazeira do boi, onde lhe metteram a cabeça, servindo de ajuda.

A gargalhada foi geral. 

O proprio vigario sempre grave e taciturno sacudia-se num riso nervoso, impossivel de reprimir. 

A velha Merencia, que por traz do cura espiava o brinquedo, já enfronhada na roupa da missa, um habito preto e um cordão de S.Francisco amarrado a centura, se suffocava de rir parecendo engasgada. 

A hilaridade tocou ao delirio quando sahiu a cabeça do rapazinho de dentro do boi. Vinha borrada que fazia lastima. Uma bosta meio fresca tinham lhe plantado no rosto, como para 

lhe tirar o molde da veronica.

E riam, e riam perdidamente d' aquelle burlesco, como riem as plateas dos centros civilisados applaudindo scenas cômicas bastante apimentadas e mesmo licenciosas no mais alto gráo.

Com o clyster o bicho levantou-se e seguiu o bando de rua a fóra puchado pelo caga-p'ra-ti.



</div>



<div "CAPÍTULO IX">



IX 



O altar em que seria celebrada a missa do gallo levantaram do lado de fóra da igreja, em frente ao vão da porta principal. Era bem singelo. Uma meza, apenas coberta com uma branca toalha de labyrintho e sobre ella .um crucifixo entre duas velas de cêra branca, emergia de um tufo de verdura matisado com as mais bonitas e cheirosas flores compezinas A verdura ali, aquelle cheiro de folhas frescas, dava o tom alegre, festivo mesmo ao quadro; eram as faxas do berço emmoldurando a tela da Paixão. Mosqueando a alvura do panno viam-se pontos verdegaio, arrozaes em miniatura, que as devotas haviam trazido e posto ali para honrar Deus menino. Nunca altar algum havia tido uma cupula como a deste céo tropical. 

As estrellas picavam o firmamento em todos os sentidos. A via láctea desmaiava ao clarão argentino da lua e a sua faixa esbranquiçada, cingia menos á esphera celeste que em noites escuras e serenas.

Nem uma nuvem errava amortecendo o brilho dos astros, que mettidos nas profundezas do espaço mandavam a sua luz á terra. O zimborio das mais ricas cathedraes do mundo com suas allegorias e decorações, com seu ouro e pedrarias, a refrangirem a luz de milhares de velas, o esplendor dos esplendores da terra desmaiaria obumbrado pelo esplendor deste céo estrellado, pela suave claridade deste luar de prata. E as noites, estas bellas noites de estio do sertão cearense, tranquillas e serenas, que encantariam a qualquer habitante das outras regiões do mundo, acostumados a ella, indifferentes os sertanejos as gosam, ao relento, ao som dos maviosos accordes da viola.

A' meia noite mais ou menos o campanario soou a terceira e ultima chamada.

Já o adro da igreja e suas adjacencias estavam apinhados de gente ; mas ainda não estava todo o povo ali. Das ruas vinha um zumzum de vozes; era o boi que andava a folgar ainda. Chegado que foi a elles o avizo do sino, interromperam o brinquedo, que estava precisamente na ajuda.

Todos vieram para a missa. 

O padre subiu ao altar. 

As suas primeiras palavras  <estrang lingua="latim"> In nomine Patris </estrang> etc, que o sacristão respondeu: <estrang lingua="latim"> Ad um Dei </estrang> etc. fizeram ajoelhar o auditorio. 

O ruido das conversas que se espalhava como um rouco arrulho de rola brava calou-- se, e agora os dizeres do cura em bom latim, que não era comprehendido pelos que ali estavam só interrompia o choramingar das créanlas, que as mães procuravam calar mettendo-lhes as tetas nas boccas.

A claridade da lua derramava-se sobre aquelle rebanho humano, reunido ali mais pelo fanatismo do que pela Fé. Mais de um hectare de chão se eriçava de bustos e a maior parte delles de mulheres envolvidas em alvos lenções, tendo a cara somente descoberta.

Mourão celebrava com grande piedade e respeito. Pelo seu recolhimento sabia-se que elle era um crente. Na occasião da consagração, este grande mysterio no qual acreditava cegamente, ficou tão enlevado que parecia em éxtasis. Começou a ceremonia estendendo com grande respeito e contricção as mãos sobre a hostia e cálice murmurando:

<estrang lingua="latim"> -- Haue igitur </estrang> etc. Pedindo a Deus que acceitasse a offerta que fazia, que lhe desse a gosar a paz celestial e o livrasse da eterna condemnação.

Feito o milagre da consagração convertendo a hostia em corpo e o vinho em sangue do Redemptor, o sacerdote com a maior veneração tomou a hostia nas extremidades do polegar e indicador de suas mãos e ajoe-lhando-se apresentou o corpo do Mestre subindo a cruz á adoração do povo. Aquellas centenas de bustos se inclinaram, como as hastes de um cerrado capinzal batidas pelo vento. 

Todos se prostraram adorando a hostia que lá no altar se erguia das mãos do padre, na claridade da lua, tão branca como um disco de prata. E o povo de joelhos batia nos peitos, e aquella esterroada cava de centenas de mãos a esmurrar o thorax, se espalhava pela villa a fôra, no silencio daquella serena e tranquilla noite.

Descera o corpo, que jazia agora com toda a sua alvura de pão azymo, pondo no dourado da patena uma mancha de neve.

Subia agora o sangue de Christo no cálice, cuja superficie metálica fulgurava ao clarão argentado do luar. 

A campainha tilintava o toque da elevação e o povo prostrado batia nos peitos.

No rosto de Mourão transparecia o recolhimento de sua alma. Acreditando piamente no dogma da Eucharistia eram n'aquelle momento grandes o seu respeito e a sua piedade.

Descido o cálice o padre fez a fracção da hostia dizendo : 

<estrang lingua="latim"> -- Pax Domine sit semper vobiscum.  </estrang>

Depois tira della um pequeno fragmento, que deita no cálice. A particula branca boia no vinho e elle contemplando-a diz: 

<estrang lingua="latim"> -- Hoee commixtio, est. </estrang> 

Approximando-se o momento solemne da communhão o sacerdote sente-se cada vez mais commovido. O habito não arrefecia nelle a sensação de fervor; cria estar ali o corpo e sangue de Christo e que ia recebel-os em sua indigna morada. 

Adora a hostia que tem segura na mão esquerda e com toda a contricção diz: 

-- Receberei o Pão celestial e invocarei o nome do Senhor. Depois curva-se reverente sobre o altar dizendo tres vezes, batendo no peito: 

<estrang lingua="latim"> -- Domine, non sum dignus, etc. </estrang>

-- Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, porem basta uma palavra vossa para que a minha alma seja salva. Dito isto leva á bocca a hostia dividida em dois semi-circulos e consumindo-a lentamente, aos poucos, com uma commoção tal que não ha uma linha no semblante que não inspire devoção. 

Mourão estava transfigurado pelo mysticismo christão. O seu rosto moreno tinha um ar de santidade que mais accentuava, o abaixamento das palpebras, que cerrava, para mais se recolher e assim se por em contacto mais intimo com o seu Deus. Consumida a particula ficou alguns instantes ainda enlevado nos doces arroubos de sua grande Fé.

Depois accordando daquelle ledo sonho continuou o sacrificio que concluiu proferindo com voz ainda bastante tremula as palavras sacramentees: 

<estrang lingua="latim"> -- Ite Missa est. </estrang>

Logo que Mourão se recolheu á igreja, começou a debandada dos fiéis. Um ruido surdo de centenas de carcassas a se erguerem, com todas as suas juntas a estalarem, os pés a rasparem o chão, encheu toda a área da matriz e foi espalhando-se de villa a fôra n'uma onda cavernosa e mansa.

A'quelle ruido ôco, que começou uniforme, agora se misturavam notas agudas do choro de creanças, que despertavam no acto de passarem do regaço materno para o hombro do pai.

A brisa que vinha da matta, tão mansa que mal arrepiava a zona brilhante da chamma das velas que ardiam no altar, toda impregnada do aroma suave das flores silvestres, agora perpassava mais ligeira saturada de um cheiro acre de suor humano, de sebo e de patchouly.

A lua em pleno azul enchia a villa de sua claridade argentina. O silencio, que reinava havia alguns instantes, tinha desapparecido, e agora uma algazarra infernal sahia do rebanho de gente que se espalhava em todos os rumos. 

As vendedeiras de taboleiros mercavam de volta para casa uns restos de bolos, que mesmo refugos achavam compradores. Os potes de aluá deitados de banda voltavam vasios nas cabeças dos donos.No meio daquelle zum-zum de povo que se debanda, ouviam-se de quando em quando gritos agudos : 

-- Ou João ! 

-- Ou Francisco, meu pae está aqui. 

-- Ou José, minha mãe está te chamando. 

-- Ou Pedro, nos já vai !... 

E assim se dissolvia o ajuntamento da missa do gallo. Nem todos iam para casa; mais de metade ficava nos sambas ou vendo dansar o boi, que já marchava pela rua principal da villa guiado pelo vaqueiro, que gritava : 

-- Hê bumba meu boi bonito!... Hê bumba, meu boi ligeiro!... 



</div>



<div "CAPÍTULO X">



X 



João das Neves não resistiu ao feitiço das formas de Chiquinha. O que o captivou não foi a esthetica, não foi a suavidade das linhas, dos contornos, mas a fortaleza da musculatura, o vigor do pulso da rapariga: um quartáu de pobre na mais rigorosa accepção da giria sertaneja.

Resolvido a se casar com ella, a pediu ao padrinho, sem a consultar, antes mesmo do mais innocente derriço.

Foi um dia atribulado para o Neves o do pedido de casamento. Quando se viu na sala do vigario suou que parecia estar no ultimo periodo de um accesso de maleitas.

O ar bondoso com que o cura o recebeu reanimou-o e poude então meio encalistrado dizer a que ia.

Mourão acolheu de muito boa vontade a pretenção do afilhado. 

Deu-lhe immediatamente o sim sem ouvir a moça, isso de perfeito accordo com a pragmática e usos sertanejos.

Outras que tinham pai e mãe e meios com que viver acceitavam o marido que lhe impunha a familia, quanto mais ella que nada tinha e vivia pela casa dos outros.

Alem do mais o Neves estava no caso de casar com dote e se a queria era por sympathia.

Mourão em pouco tempo preparou os papéis exigidos pela igreja para o casamento.

Os nubentes haviam nascido na freguezia, não eram parentes e, portanto, poucos eram os documentos precisos. 

O processo preparatorio á celebração do sacramento do matrimonio se resumia na certidão da edade e nos proclamas.

Quanto ao parentesco dos conjuges, esta parte de uma importancia capital para as especies animaes, se não era de todo descurada, era pelo menos tolerada, uma vez que a igreja permittia a celebração de casamentos n'um grão de consanguinidade quasi de irmãos. 

O processo neste caso era um pouco mais complicado, precisava da licença do poder ecclesiastico superior, cuja alçada subia até o summo pontifice conforme o grão de parentesco, como se o seu beneplácito podesse pagando o peccado, melhorar o fructo da uniao de consanguineos muito aproximados.

Não se cogitava disso.

O vigario achando excellente a união do Neves com Chiquinha, ambos novos e ella apparentemente sadia não relanciou os olhos sobre a ascendencia delles. Pensou apenas no pai do afilhado, que era um homem trabalhador e não se falou nunca que tivesse tido camarada. <marca num="1" pag="93"> Devia o filho ser como elle, o que seria uma felicidade para a sua pupilla.

Ignorando as leis fataes da hereditariedade e do atavismo não cuidou dos ascendentes da afilhada, nem mesmo pensou que ella nascera de um tisico e de uma mulher que morrera tisica tambem.

A igreja não entrava nestas indagações. Unia os alcoolicos, os leprosos, os epilépticos, os tuberculosos sem attentar no mal que fazia á semente humana. Nem cogitava que dessas uniões condemnadas sabiam os miseraveis de todas as especies que se arrastam no mundo numa existencia de abjecções, que passam na vida de infortunios que levam, por todas as etapas do sofrimento e depois vão apodrecer nos hospitaes, vegetar nos azylos de alienados, morrer nas penitenciarias ou vagabundar nas ruas como verdadeiros cães de monturo. 



<nota num="1" pag="93"> Amasia. </nota>



Mourão desconhecia o valor do atavismo e da hereditariedade não obstante os livros santos falarem da punição dos vicios do homem até a quinta geração.

Não sabia interpretar este castigo tremendo, esta pena cruel, que persegue o delinquente até em sua afastada descendencia. Pensava como os doutores da igreja que o delicto punido é o moral, é o peccado, e se assim não interpretasse,o sacramento do matrimonio não seria administrado aos bebados que produzem filhos epileticos, aos epileticos que geram os criminosos natos, a parentes em muito próximo grão de consanguinidade que procream idiotas, degenerados, aleijões.

Mourão nunca reflectiu sobre estes factores da degeneração da especie humana.

Considerava o casamento de consanguineos como um peccado, que a igreja por um punhado de dinheiro perdôa e auctorisa, mas nunca como um crime de lesa humanidade, que deveria ser impedido pelos tribunaes civis e punido como o roubo, o assassinato e todos os demais attentados á boa moral, á paz e prosperidade do genero humano. Na ancia de fazer bem, devorado pela sede ardente da immortalidade no céo, cuidava em preparar os papéis do casamento na convicção de que ia amparar a sua pupilla, unil-a pelos indissoluveis e sagrados laços do matrimonio; que della sahiriam filhos que multiplicariam a especie para gloria do Creador. Era bem santa a sua intenção.

Em vez dos proclamas que o cura de tão boa vontade preparava para apregoar na primeira missa conventual, em vez do pregão feito tres vezes no templo, mais proveitoso e útil seria para humanidade que os nubentes, dos quaes se anunciava a união, fossem submettidos a uma rigorosa inspecção de saude.

Em vez dessa folha corrida em publico indagando dos impedimentos que por ventura os noivos podessem ter, não seria mais producente um attestado de validade dos nubentes e um rigoroso exame sanitario nos mais proximos ascendentes, a começar dos trisavôs!? 

Este processo, que será o do futuro, evitaria a união de enfermos e a propagação de diatheses que tanto acabrunham, dizimam e degeneram a especie humana já por si tão fraca, tão miseravel. 

Os papéis já estavam promptos e Chiquinha ainda não sabia que iam casal-a.

Mourão cuidava dos banhos e esquecia o enxoval, para o qual precisava dinheiro e elle não o tinha por ser a sua receita muito inferior á sua despeza. 

A congrua e os rendimentos da matriz davam para comer mal e isso mesmo graças á D. Ignacia que governavá á casa e era uma fera era materia de economia.

Nos primeiros annos de, vigararia passou mais folgado gastando a legitima que herdara dos pais. Estes haveres, que não eram grandes, em breve gastou-os. O rendimento certo que tinha era acongrua, porque os emolumentos da matriz só recebia, de quem papagava espontaneamente.

A irmã é quem lhe dava roupa, porque elle não podia comprar. Pouco se lhe dava vestir uma batina surrada ou verde de usada, se elle nenhum caso fazia dos bens temporaes. Os seus olhos estavam sempre fitos no céo e o seu espirito embebido naquelle ledo sonho -- a immortalidade, um mundo de gozos eternos promettido por Deus aos mansos, aos humildes de coração. 

Elle seria um dos escolhidos, chegaria a essa eternidade, para elle tão certa como a luz do sol e. para tantos outros tão dubia, tão incerta, embora em seu foro intimo se julgasse pouco digno da bem aventurança. 

Era preciso preparar Chiquinha e Mourão não tinha com que comprar o mais pobre vestido. 

Em casa ninguem sabia do casamento. 

No dia em que correu o primeiro banho, D. Ignacia, e a velha Merencia estavam na missa e ouviram claramente os proclamas de João das Neves Marinho e Francisca Maria da Conceição. Pelo sobrenome -- Maria da Conceição, nada teriam sabido, este é o velacho da quasi totalidade das mulheres do povo, mas a filiação e sobre tndo o appellido do pai da nubente, o muito conhecido marinheiro, fazedor de sapatos, fez com que o auditorio unisse o nome á pessoa da pupilla do vigario. 

A velha Merencia tossiu, benzeu-se e lançou uma olhadela para D. Ignacia, a quem o pregão havia muito surprehendido.

Chiquinha estava tambem ouvindo missa ao lado das velhas.

Grande foi a sua admiração quando viu apregoado o seu casamento, e só soube que se tratava de sua pessoa pelo velacho do pai:Francisca Maria da Conceição podia ser ella como podia ser qualquer outra. De facto iam casal-a, mas com quem, inqueria de si para si passada que foi a primeira impressão. Ao sahir da igreja as moças suas conhecidas a felicitaram, e as mãis que tinham filhas em edade de tomar estado diziam, com uma ponta de inveja, que a rapariga era boa, mas que não tinha arranjo. <marca num="1" pag="97">



<nota num="1" pag="97"> Dote. </nota>



Ao chegarem em casa a velha Merencia foi quem primeiro manifestou a satisfação que sentia com a nova do casamento. Era uma fortuna uma pobre de Christo achar amparo, mas isso só podia ser milagre do senhor vigario, que era um santo, dizia a beata, fitando Chiquinha que toda encalistrada a ouviu e entrou para a camarinha a despir-se.

D. Ignacia não estava menos contente do que a velha Merencia. Era uma bocca que sahia de casa e alem disso não era pouca felicidade verem-se livres de uma creatura que devia ter guardada nos couros a molestia magra. E que molestia, uma molestia tão contagiosa, que pega tanto que até se agarra nas fechaduras das portas.

Ainda estava lembrada de um caso que os antigos contavam succedido em sua terra: um tisico havia empestado uma rua. Este horror de D. Ignacia á tuberculoso fez Chiquinha soffrer grandes dissabores.

Receberam-na, mas uma das condições impostas pela irma do vigario foi de aceita-la com a roupa do corpo.

Da casa da defuncta nem o bahú da menina veria porque nelle podia vir a peste da tisica. Isso muito custou a orphã. Não era pelo prejuiso da pouca vestimenta que tinha, mas pela sua boneca, uma bruxa de panno e algodão, um monstrengo em forma de gente, que a madrinha lhe havia dado, e que era o sea maior divertimento infantil.

D. Ignacia tinha. pressa de se ver livre della e por isso tratava do enxoval, que, embora pobre, para compral-o foi preciso ir á combuca <marca num="1" pag="99"> de seus ouros velhos e vender um cordão. <marca num="2" pag="99"> O desejo que tinha de ver a moça fóra de casa fez com que, extremamente uzuraria, não sentisse muito a venda da joia.

Chiquinha nada disse e nada perguntou sobre o seu casamento. 

A' noite, quando se deitou, a primeira idea que lhe veio foi a de seu enlace. Pensou no noivo, no homem com .quem iam casal-a, mas que não conhecia. 

Como seria elle, onde moraria, e uma serie de pensamentos a absorveram. Devia ser bom, pensou, 'pelo que' ouvia ao sahir da igreja em conversa as matronas do logar. Se podesse se informar, seria um allivio para o seu espirito torturado por; aquella ignorancia absoluta. Mas não tinha a quem pedir novas e se tivesse não o faria por seu genio reservado. Era uma loucura a sua, insistir era taes indagações; o marido que lhe iam dar sempre a trataria melhor do que a velha Merencia. Esta conclusão imposta pelo impossivel a socegou e trouxe-lhe vivas recordações dos máos tratos que recebera da beata quando entrou naquella casa.



<nota num="1" pag="99"> Vaso feito do fructo secco da cabaceira. </nota>

<nota num="2" pag="99"> Trancelim. </nota>



Cada passagem de sua vida, evocada agora, fazia com que recebesse a nova de seu casamento como uma promessa de liberdade. Deixaria aquella casa onde fôra tão maltratada sem o menor constrangimento. 

Só do padre não levaria queixas ; elle, em sua perenne enlevação, não via as judiarias que faziam com ella, porem tambem não a escornava. Outro tanto não podia dizer das duas velhas. Quanto não tinha soffrido dellas por causa da doença que a fazia comer terra !... A beata Merencia não se contentava em batel-a até cansar, em surral-a com o pé no pescoço, não, fazia peior, dava-lhe a comer com terra quanta cousa nojenta havia, o seu proprio excremento della, para que deixasse o vicio. Já fazia annos e ainda se lhe embrulhava o estomago, quando se lembrava da beberagem de urina da beata, com terra e bastante pimenta que a obrigavam a beber todos os dias pela manhã em jejum!.. 

E apesar de todas as judiadas e castigos a doença não a deixava.

Parecia uma tentação do diabo, como as velhas acreditavam, aquelle maldicto vicio. 

Não podia ficar só onde houvesse terra; havia de comel-a por força.

Depois de alguns mezes em casa do vigario, tendo uma alimentação melhor, começou a se fortalecer, e a diminuir sensivelmente a pobreza do sangue, o maior factor da nevrose que a impellia aquella perversão do apetite.

Uma vez por outra se lembrava do vicio e comia, mas não gulosamente até encher a barriga, como nos primeiros tempos, até que deixou de todo. 

Merencia muito lisongeada atribuia a cura á suas meisinhas e ás surras e gabava-se a D.Ignacia de ter sido o terror das creanças viçosas de sua terra. Nenhum menino papista continuava no vicio depois de tomar tres doses das suas. E Chiquinha estava ali para attestar o poder das suas beberagens e do seu chicote, dizia, muito senhora de si. 

Uma das qualidades da menina com que mais implicava a beata era o genio emperrado della. Por tudo se entufava; <marca num="1" pag="101"> tinha herdado do pai todas as renhas do povo da outra banda. Em parte era justa esta apreciação de Merencia; Chiquinha era bastante reservada e muifissimo odienta. 



<nota num="1" pag="101"> Amuava. </nota>



</div>



<div "CAPÍTULO XI">



XI 



O casamento de João das Neves celebrou-se na matriz da freguezia em um domingo á tarde. De accordo com os usos sertanejos compareceram ao acto as pessoas mais gradas da parochia. 

Mourão ficou muito penhorado com esta prova de estima que lhe davam os seus parochianos vindo abrilhantar o acto e depois acompanhando os noivos á sua morada, uma legua distante da villa.

Foi um delirio a partida da comitiva, finda a ceremonia religiosa. 

Os matutos pareciam endemoniados. Perto de cem cavalleiros, todos em animaes escolhidos a quererem melhor se exhibir na equitação, a mostrar a habilidade de seus corseis, formavam o prestito que acompanhava os noivos.

Logo que João das Neves se montou lhe puzeram a mulher á garupa e gritaram que desse linha.

O matuto não se fez esperar, pregou as esporas no cavallo, que sahiu genetiando. Chiquinha se conservava tão aprumada nas ancas do animal que parecia estar nellas aparafuzada. O cavallo depois de passarinhar <marca num="1" pag="104"> um pouco, de satisfazer os caprichos do noivo naquella exhibição a mostrar toda a sua bizarria, sahiu encapotado num esquipado veloz de estrada á fóra. 

O séquito não se mexeu ; mas quando os noivos iam a um kilômetro de distancia, quando o vulto delles começava a querer se apagar no caminho, um grito -- viva os noivos -- dado por cem vozes retumbou no espaço e a comitiva partiu desenfreadamente n'um arranco de boiada que dispara.

Uma nuvem de poeira se levantou do chão e envolveu o grupo de cavalleiros, que partiu inteiriço, mas em breve se fracturou e agora n'uma debandada completa se estirava de estrada afora, a disputar o pareo, cada qual mais empenhado na corrida, mais desejoso de vencer, de ganhar a partida, de chegar primeiro e tirar o chapeo do noivo.



<nota num="1" pag="104"> Gingar. </nota> 



João das Neves quando presentiu que estavam perto os que o seguiam, desparou numa carreira de pegar boi.

Chiquinha que até então se sentava galhardamente na garupa mal segurando-se com as pontas dos dedos no hombro do noivo, abraçou-se-lhe á cintura com toda a força de seus possantes braços.

Nada se via nitidamente dentro da nuvem de pó levantada pelos cascos dos cavallos, ouvia-se somente estrugirem da onda rumurosa, que erguia o tropel dos animaes, gritos e risadas, cortando o monótono ruido que acompanhava os cavalleiros em plena desfilada.

Alguns minutos durou a corrida, que se teria terminado somente no pateo da casa do Neves se um dos convivas ao avistar a vivenda não conseguisse se emparelhar com o noivo e lhe tirar o chapeo.

Estava finda a corrida, agora cercando os noivos o séquito se reunia e em prolongados vivas acclamava o héroe da festa, victoriava calorosamente o cavallo e o cavalleiro, enquanto este, um sertanejo fornido e quasi velho, muito cheio de si, acceitava com ares de grande satisfação todas aquellas ovações. 

O chapeo do noivo tecido de alvas e finas palhas de carnahubeira, andou aos boleos como uma peteca pelos ares, ao som de estridentes vivas, até que os sertanejos esbofados de gritar pousaram o chapeo na cabeça do Neves.

Animava a folia, a loucura da corrida, não só a ambição de ganhar o pareo, mas ainda as apostas que haviam feito. Todos haviam mais ou menos apostado e alguns sommas 

avultadas para a terra e posse delles. 

O velho Pedro da Imbiguda o maior apostador da freguezia, sexagenario, porem forte e esperto como um quati, montava o seu favorito, um cardão rodado, e corria parelhas com um matuto que ia em um dos cavallos mais corredores da ribeira. Partiram emparelhados, mas em dois tempos o velho da Imbiguda ficou em uma bagagem desgraçada e quando o chapeo do noivo foi tirado mal se via o vulto delle na estrada a correr desesperadamente, porem já convencido de que tinha perdido a aposta e que ficaria sem o seu querido cavallo. 

Todos discutiam agora acaloradamente. Os que haviam perdido se justificavam. Commentavam os menores incidentes, mas com toda a lealdade, sem ponta de machiavelismo. Os que tinham ganho não humilhavam o vencido, ao contrario, ajudavam a justifical-o levando o desastre á conta da cavalgadura, que era excellente, mas havia fraqueado por estar poltrona ou pouco milhada. 

João das Neves marchava na frente ufano como um triumphador.

No séquito ninguem ia calado. Falavam commentando ainda os incidentes da corrida.

A nuvem de pó levantada pela andadura dos cavallos a lhes entrar pela bocca e ventas titilava os gorgomilhos e fazia que a conversa fosse cortada de accessos de tosse e de espirros.

O sol começava a se esconder no poente quando chegaram á fazenda. Uma onda de luz vespertina, côr de palha, inundava tudo, cahindo num esmaecimento de chamma que esfuzila e bruxolêa sobre a sumptuosa tela da natureza tropical. Uns tons de saudade, de melancholia a tudo dava aquelle suave clarão crepuscular. 

O astro rei se engolfou de todo nas profundezas do occaso precisamente no momento em que João das Neves riscou á porta da vivenda. 

O velho Pedro da Imbiguda, de todos o mais entendido em usanças e pragmática do sertão apeou-se, ligeiro como um rapaz, e agarrando Chiquinha por baixo dos braços a tirou da garúpa e collocou no chão.

Um viva á noiva reboou unisono e rouco, como um uivo de fera, e foi ondulando e quebrando-se de oiteiro em oiteiro até que se extinguiu de todo nos confins da matta.

O silencio voltou e a passarada que aquelle extranho brado havia assustado em caminho dos poisos, agora se quedava nos ninhos e nos poleiros. A ultima nota aguda do toque de Trindades, dado pela nambú, se acabara e entrava a noite constellada e fresca, que em breve faria sahir das tocas os animaes noctivagos.

Já se ouviam em diversos pontos da matta os pios dos caborés. Eram estes os primeiros accordes da orchestra que se fariam ouvir no correr da noite, e aos quaes a mãi-da-lua daria a nota mais apavorante e tétrica, com a sua gargalhada nervosa. 

João dasNeves e os seus convivas, passado que foi o instante de recolhimento que o por do sol infunde em todos os viventes da terra, voltaram á vida e á festa. 

A tosca sala de visitas, parcamente alumiada por uma lamparina de kerosene, em breve regorgitou de gente. 

O aluá e a cachaça eram a todos offerecidos pelo noivo, que todo hospitaleiro andava de grupo em grupo, pedindo que se servissem daquellas bebidas. 

A's oito horas da noite o velho da Imbiguda deu signal de retirada e voltaram de estrada a fôra a apostar carreiras emquanto os noivos ficavam sosinhos, entregues aos seus amores, na solitaria vivenda encravada no seio da matta virgem. 



</div>



<div "CAPÍTULO XII">



XII 



Foi um idyllio de aves bravas a lua de mel de João das Neves.

Os noivos fortes e sadios,em plena juventude, obedeciam ao seu temperamento excitado pelo clima e sosinhos naquelle casarão, como o primeiro par no edén, gosaram á farta todas as delicias do amor.

Chiquinha acceitara a primeira caricia de João, caricia selvagem, mas que sua alma achou toda affectiva e de uma sensualidade tal que a fez vibrar de desejos. Amaram-se, mas como se amam as rolas.

A vida matrimonial começou para elles cheia de surprezas e de encantos.

Julgavam-se felizes, tanto é possivel neste vale de lagrimas. João exultava de contente por se ver chefe de familia e ter conseguido restaurar a casa paterna. 

Chiquinha não cabia em si com a satisfação de ser dona de casa e ainda mais por se ter visto livre da velha Merencia.

Foi uma dita a sua, pensava, achar marido e um rapagão como aquelle, ella, que para se livrar do aperreio em que vivia, quasi acceitou a mão do Chico Santinho de quem tinha nojo por ser, alem de horrendo, sacrystão e coveiro. 

O Santinho era na verdade um typo repellente.

Tinha uma lividez de defuncto e tresandava á cera branca e a incensó. Por preguiça somente fez-se sacrystão e vivia das magras esportulas que entre mãos lhe cahiam, vegetando naquelle completo ocio de sacrystia de aldeia. 

Chiquinha fôra feliz não havia duvida; se não possuia fortuna tambem não soffria miseria. O trabalho é a riqueza do pobre, bem sabia ella disso e nunca deixou de labutar embora para os outros.

Em casa do vigario moireijava de sol a sol e sempre satisfeita, quanto mais agora que trabalhava para ella e mais para alguem que já sentia viver dentro de si e de quem muito lhe interessava o futuro. 

João das Neves estava contentissimo com a mulher. Não se illudira; achara o que pensara: um magnifico quartau de pobre.

Chiquinha era na verdade um mouro de serviço. Não deixava de labutar nem nos dias de parir. Logo nos primeiros tempos provou ao marido a sua incomparavel actividade.

Mesmo grávida se atirava a tudo e João das Neves nunca conseguiu botar na limpa do roçado uma carreira primeiro que ella.

No dia em que se completavam nove mezes 

de casada nasceu-lhe o primeiro filho e quasi vem ao mundo no caminho da fonte, tal era a sua solicitude no cumprimento de seus deveres domésticos. Cumpriu o resguardo do parto não como ordenara a parteira, de quarenta dias como filho varão, mas só emquanto as entranhas voltaram ao que eram. Antes de quinze dias estava no roçado apanhando feijão. Prolifera como toda a mulher cearense, tinha um filho todos os annos, o que de algum modo a aborrecia, não pelas dores do parto que quasi não as tinha, mas pela obrigação de ficar recolhida tres dias sem poder trabalhar. 

Esta quadra popular dá uma idea perfeita da fecundidade da mulher, no Ceará, onde a media de filhos por casal se eleva a seis:



<poesia>

Cabocla do Ceará 

Ou está prenha ou parida. 

Duvido, não sendo moça <marca num="1" pag="112">

Que passe um mez assistida <marca num="2" pag="112">

</poesia>



A familia crescia annualmente e ella e o marido, cada qual mais trabalhador, não conseguiam fazer economia, accumular reservas para o futuro. 

A pequena lavoura mal lhes dava para viver sem grande abastanza. Tinham quatro filhos e duzentos passos de roçado embora as plantas vingassem bem quasi não chegava para comer de um anno para outro. A fartura era só emquanto havia legume verde; logo que se fazia a colheita ficavam á ração. 

João das Neves não media sacrificio para obter um fundo de reserva que o garantisse de um anno critico, mas sem resultado algum. A terra não o ajudava, nem tampouco compensava os seus esforços. Nunca conseguiu uma colheita de toda a sementeira feita. Quando tinha milho não tinha arroz ; quando tinha mandioca o algodão era máo e assim vivia n'uma dolorosa luta com o solo, senão esfalfado ao menos estéril pela inconstancia das chuvas, quando se resolveu a dar um derradeiro combate, fazer mais uma tentativa afim de arrancar daquella terra ingrata a custa de muito suor, um fundo de reserva, que mais ou menos garantisse o futuro dos filhos. 



<nota num="1" pag="112"> Donzella. </nota> 

<nota num="2" pag="112"> Periodo do fluxo cataminal. </nota> 



Chiquinha approvou-lhe a idea promettendo o seu valioso auxilio na sementeira e nas limpas. Até o Manoel, seu primogenito, dizia ella, havia de ajudar a plantar o roçado; quanto mais não fosse serveria para cobrir as covas.

O plano delles era fazerem um adjunto e abrirem uma lavra de quinhentos passos.

Se pegassem um anno bom, estariam felizes.

Para reunirem os visinhos, entretanto, era necessario dar-lhes o sustento nos dias em que trabalhassem. Era a verba para esta despeza que estava embarazando agora os planos do casal. 

Os bens de f'olego que possuiam eram duas vaccas, uma egua e um porco. Não lhes convinha vender o gado de crear. O porco bem aproveitado com feijão daria para quatro refeições, isto é, para os dois dias do adjunto. A aguardente, que tinha de animal-os no insano trabalho da derruba, seria comprada a crédito na villa a um dos compadres taverneiros.

Feitos os convites aos visinhos mais próximos, que eram uns doze homens novos, possantes e trabalhadores marcou-se o adjunto para uma segunda-feira, embora Chiquinha se tivesse de algum modo opposto á escolha do dia por ser das almas. 

Todos os que foram convidados, se mostraram summamente desvanecidos por terem occasião de se apresentar naquella grande e bonita festa de auxilio mutuo. No dia e hora lá estariam ao primeiro clarão d'alva, á porta do visinho com a foice ao hombro, para no mais fraternal convivio ajudal-o a preparar a terra, que lhe daria, regada com o orvalho abençoado do céo, o pão de cada dia.



</div>



<div "CAPÍTULO XIII">



XIII 



Era o dia do adjunto. João das Neves já tinha acerado o roçado. Quatro largas picadas faceavam o quadrilatero separando-o do resto da matta, que se começava a vestir de uns tons outomnaes. 

A folhagem que se sarapintava de amarello, sentia os primeiros desfallecimentos produzidos pelo verão, que a estiolaria, tornando a sua queda mais proxima.

O terreno da futura lavra havia sido escolhido com accerto. Nelle se encontravam rochas diversas adubadas por boa quantidade de humus e fertilisadas por um riacho que no inverno dobrando-se em zigue zague, serpenteava por toda a area do roçado. Era um pedaço de solo uberrimo. A vegetação que o vestia era variada, sadia e luxuriánte. Arvores e arbustos só perdiam as folhas do meio para o fim do verão quando a floresta em outros sitios já estava de ha muito tempo núa, só tendo verdes e viçosos os joazeiros. Em tão excellente terreno João das Neves poderia fazer todas as suas plantações. Baixas para arroz, ariscos para mandioca, altos pedregosos para algodão, enfim, não faltava ali terra para cultura alguma.

Chiquinha, a instancias do marido, foi ver o logar do roçado. Entendida em agricultura ficou maravilhada com a escolha do local.

Só por um castigo não teriam uma colheita de assombrar. Se o inverno fosse escasso as baixas dariam, se fosse farto dariam os altos, e sendo moderno, isto é, temperado, então a colheita seria de assombrar, tres messes daria o arroz e se perderia legume. 

Animados pela esperança de um grande successo anceavam pelo dia do adjunto.

Chiquinha estava tão enthusiasta do roçado que lastimava ser mulhere não poder espanar a foice na broca ao lado do melhor roceiro.

Sentia deveras as prerogativas do sexo que a privavam de ir ao adjunto e mostrar a força do seu braço.

Qualquer homem não a venceria no machado. Conformou-se emfim com o seu papel de dona de casa e se preparava para receber e tratar com a maior hospitalidade os visinhos, que presurosos vinham ajudar o marido.

Não faltou um só dos convidados. No dia 

marcado quando o sol enviara á terra a primeira luz do seu crepúsculo, começaram as pessoas do adjunto a chegar á porta do Neves. Alegres como se fossem para um samba, chalaçavam no mais fraternal convivio. 

Quando o dono do adjunto presentiu que lhe falavam á porta sahiu ao terreiro. Trocaram-se amistosos comprimentos, rudes como elles, mas sinceros.

Chiquinha não veio fóra, porque seria infringir o ritual sertanejo muito severo neste tanto de costumes e usanças; mas de dentro, espiava por uma greta do taipado o copiar onde o marido palestrava com os amigos. 

O sol não tardava á apparecer e não era da boa pragmática entre lavradores, que se presam, o dia encontral-os em caminho do serviço. Assim depois de uma ligeira libação de aguardente partiram para a matta.

lira uma alegre procissão aquella.

Uma turmade homens fortes, caminhando um após outro de vereda a fóra, com a foice ao hombro e pendente della uma cabaça d'agua, marchavam cheios de saude e de contentamento. 

O Chico Piaba, um caboclo novo e bom cantador, caminhava na guia improvisando versos: 



<poesia>

Camaradas mais depressa 

Que o sol não tarda apontar ; 

P'ra ser bom o adjunto 

Deve cedo começar, 

Quando os gallos amiudam, 

Antes da barra quebrar. 

</poesia>



João das Neves que tambem tinha fama de cantador acceitou o desafio e respondeu ao pé da lettra :



<poesia>

Antes da barra quebrar 

Sabe da cova o caitatú. 

Todo cabra de serviço 

Se levanta com a nambú... 

que fica na tipoia <marca num="1" pag="118">

Nasceu de jacurutú. 

</poesia>



E assim foram cantando até toparem o aceiro do roçado, onde, á sombra de uma copuda emburana se arrancharam, demorando-se somente emquanto penduraram as cabaças ao abrigo do sol entre a folhagem.



<nota num="1" pag="118"> Rede de dormir. </nota> 



Depois despiram os bustos, amarraram a camisa na cintura e transpuzeram a picada.

A broca foi iniciada no aceiro do nascente.

A foice ceifaria o matto fino para depois o machado derribaras arvores, seculares em sua maioria, erguidas a grande altura numa aduniavel promiscuidade de especies e de formas. Toda a arca do roçado estava cheia destes colossos da vegetação tropical. Os trabalhadores logo que transpuzeram o aceiro tomaram posição. O gesto resoluto que lhes animava as feições, o faiscar dos ferros e a pujunçada musculatura daquelles corpos sémi-nús, davam á turma um aspecto cyclopico. 

O sol assomava no levante. já esbatido por um cumulus meio fulvo via-se um crescente de fogo, o disco incompleto do astro quando se ouviram as primeiras foiçadas dos brocadores. 

A lucta começava. 

Em um momento a solidão da matta e o silencio daquelles ermos desappareceram; agora uma vaga rumorosa e ligeira se espraiava de espaço afora indo quebrar-se ao longe nos mais empinados oiteiros.

Os golpes dos ferros manejados por aquelles possantes pulsos se succediam a curtos intervallos. No chão, uma esteira de ramos decepados, de cipos torcidos ou dobrados em espiral como cobras, se alastrara e ia ficando atraz da turma que seguia devastando.

Por baixo da matta já se começava a abrir uma clareira, eriçada apenas dos grossos troncos, que a foice havia respeitado.

Do folhiço que se empastava sob os pés dos brocadores evolava-se um cheiro acre, um perfume selvagem de folhas verdes, pisadas, que se misturava as vezes ao odor balsamico de plantas aromáticas recentemente cortadas.

As foices não paravam. 

Aquelles homens pareciam atacados da loucura da devastação. 

De um só golpe decepavam as arvores finas, e quando o corpo do vegetal se arreava em terra, mal a carcassa se ageitava no chão, já o ferro a mutilava separando o esqueleto em partes pequenas, que se podessem arrumar formando bem a cama, que mais tarde seria queimada. 

Emquanto estes destroços juncavamo solo, uma multidão de aves e de insectos voava assombrada desalojada dos poisos. Pios medrosos se ouviam e zumbidos tão agudos que pareciam jactos de vapor atravessando estreitas frinchas de metal. Todos estes alados fugiam espavoridos receiosos do homem ou da luz que lhes invadia as tocas.

A não ser algum maribondo que aggredia o braço, que lhe derribava a casa, ferroando-o á vontade,o mais fugia para os sitios afastados. De quando em vez ouvia-se por entre o folhiço a disparatada carreira de um tejuassú ou de um preá.

Os raios do sol, longe ainda do zenith, porem menos obliquos cahiam numa pulverisação offuscante sobre a terra illuminando-a e aquecendo-a ao mesmo tempo. 

Os brocadores que duas horas antes espanavam a foice sem fadiga, offegavam agora, estafados mais pela soalheira que lhes mordia o dorso arrancando-lhe dos poros um banho de suor do que pelo esforço muscular.

Ainda era cedo e o sol já estava tão quente, que a pelle vermelha dos trabalhadores, acostumada a suas ardencias, pegava fogo.

O calor era tão intenso que as folhas das plantas decepadas se estiolavam rápidamente.

A folhagem delicada das trepadeiras, das mimosas, mal cahia no solo se enroscava como 

se rolasse sobre um rescaldo. 

O sol ainda não estava a pino e já intensa era a canicula. 

Ao meio dia precisamente João das Neves depois de fitar a altura em que ia o sol deixou de trabalhar o disse :

-- São horas de rancho. 

Nem mais um golpe se ouviu e seguindo o dono do adjunto os trabalhadores se dirigiram á sombra da emburana.

Lá já estava Chiquinha esperando-os com o almoço. Cortados de fome, mal enfiaram as camizas, encostaram as foices, deram batalha ao alguidar da comida. Acocoraram-se todos cercando o vaso de barro, que alem de grande vinha cheio de cogulo de uma gorda feijoada de porco. O apetite delles era brutal. As horas daquelle trabalho rude lhes havia estimulado o apparelho digestivo como o melhor dos aperitivos. De faca em punho completavam o talher com uma colher de sopa estanhada. Comiam alarvemente. Ainda bem o bolo não estava devidamente mastigado e prompto já elles o engoliam com uma pressa de quem está faminto ou receia ser bigodeado na partilha. Em poucos minutos toparam o fundo do alguidar. Estavam mais ou menos saciados e gosavam do doce bem estar, que sente o organismo são ao encher o estomago de alimento.

Notava-se na physionomia, mesmo na dos mais feios, um certo ar de beatitude, que mais se acentuou, quando finda a refeição se perfilaram e de mãos postas resaram o bemdito. Esta scena ali, no seio daquella matta virgem foi tão imponente, tão suggestiva, que Chiquinha, que não tomara parte no almoço se puzera de pé e commovida assistia a oração sahir fervorosa dos labios daquelles simples, rendendo graças a Deus, que acreditavam os ouvir de alem dos espaços azues, que os olhos delles cheios de Fé fitavam atravez do massiço verde da floresta.

Finda a resa voltaram a labuta e trabalharam até as Ave-Maria quando largaram e foram á casa do Neves para tomarem a segunda e ultima refeição do dia.



</div>



<div "CAPÍTULO XIV">



XIV 



A's seis horas da manhã os homens do adjunto estavam a postos. Não faltou nem um; pelo contrario, o numero havia augmentado com o Pedro das Marrecas, cabra bom de machado e eximio caçador de abelhas. Nas derrubas elle se achava sempre, mais pelo interesse do mel, do que por amor aquella labuta insana. Haviam feito as manhãn s á hora em que as corujas se recolhem. 

João das Neves lhes reforçou a ração de aguardente, por sor muito pesado o trabalho naquelle dia. E lá se foram caminho do roçado cantando em desafio, seguidos de alguns cães de caça. Em vez de foices conduziam machados cujos ferros espelhavam de amolados. Quando a araponga soltou a priméira martelada matinal, no cimo da mais crescida arvore, respondeu-lhe o primeiro golpe do machado ferindoo lenho de um colossal angico. O roçado tinha aspecto entristecedor: uma extensa superficie, tendo quinhentos covados em cada face, inteiramente despida do seu matto baixo, se eriçava de troncos que subiam rectos indivisos a uma grande altura para então se dividirem, e subdivirem em um sem-numero de galhos, de ramos, que, entrelazados, formavam a cúpula verde da floresta.

No chão, uma cama espessa de vegetaes picados estava no primeiro periodo da fermentação, e dir-se-ia que aquelles membros mutilados ardiam em febre, tal o calor que emittiam, muito embora a noite os borrifasse com seu frio orvalho. Cada trabalhador tomou conta de uma arvore, e dispersos, naquella grande area golpeavam com o machado num compasso certo. As vibrações do ferro se espalhavam pela madeira da arvore ácima até os mais delgados ramusculos e desarticulavam as folhas meio estioladas, que peneirando no ar numa revoada mansa, caiam depois alastrando o solo. Uma nuvem de insectos, tontos daquel-la bulha, pairava no espaço num zum-zum de ensurdecer. Ao longe o echo repetia nas quebradas dos oiteiros todos aquelles sons que o tom plangente da repercussão e o silencio do ermo faziam mais monotonos e mais emocionantes. 

Os trabalhadores moirejavam, cada qual mais desejoso de ser o primeiro a dar a queda no pau. A arvore que o Chico Piaba derribava era uma aroeira bem criada, vetusta e san. Não tardava a cair. Já umas cerradas crepitações de lenho a dentro, uma serie de estalidos seccos de fios que se partem, se ouviam nos intervalos do som cavo dos golpes. O caboclo, empenhado de ver as naquella porfia, empregava toda a força de sua musculatura, de forma que o gume do machado se enterrava na entalha, fazendo voar estilhaços rijos do lenho, como si entrasse na haste mole de uma maniçoba. A arvore começou a cair e trepidar e o caboclo, todo attenção, não tirava a vista do corte e da copa. Estava distando a cair, e para apressar o baque, o cortador preparou-se para dar o golpe decisivo. 

Erguido nas pontas dos pés, com o machado suspenso no ar, via-se-lhe o esforço dos músculos nos camalhões que levantavam os tendões dos braços, pernas e tronco. Antes do ferro descer para se embeber na entalha, ouviu-se a voz de João das Neves, que perto golpeava um frei -- Jorge. 



<poesia>

Desvia o corpo a direita, 

Olha pau que vai cahir, 

Não quero ver sangue humano 

meu roçado tingir. 

</poesia>



As ultimas notas do verso foram tragadas por um estrondo medonho; um cerrado tiroteio de estalos que depois se fundiram num estampido unisono e cavo, foi reboando de mato em fóra até diluir-se de todo no ar, numa onda tranquilla e cadenciosa, como um gemido profundo e longo. O colosso vegetal havia-se abatido. Em uma área de um hectare via-se somente um montão de destrozos, uma tulha de pedacos de madeira de todas as formas e tamanhos. E daquellas ruinas feitas pelos braços do lavrador ignorante, saiam lamentos : era o pipilar das aves novas que dentro dos ninhos cairam com a arvore. Muitas morreram com o choque e as que escaparam piavam pelos pais, que no momento do desastre, valeram-se das azas e sem rumo voavam pelo o azul, aturdidas com a queda da aroeira, para elles um grande cataclysmo. O baque da arvore veio contaminar mais os trabalhadores da loucura da devastação. Os golpes se amiudaram a ponto de só se ouvir um cerrado tiroteio dos ferros contra o lenho duro das arvores. Poucos minutos depois da queda do pau ouvia-se um segundo estouro precedido de forte estalajadura; era mais um colosso que a mão imprevidente do homem rustico abatia, destruindo em instantes a obra da vida em séculos.

O pau que Pedro das Marrecas derrubava foi o quinto que veio abaixo. Não foi por ser elle peior derrubador que os outros, mas por ter escolhido um angico morto,que só tinha miolo, da grossura de uma pipa. Tinha percebido uma jandahyra frechando no primeiro esgalho e d'ahi sua escolha. O cabra golpeava com vontade. Que a abelha estava gorda, tinha certeza, pelo modo por que os seus habitantes frechavam no buraco. Logo as primeiras machadadas a colméa ficou vazia. As abelhas desalojadas por aquelles repetidos choques pairavam na visinhança zumbindo num compacto enxame. O pau veio abaixo arrazando tudo que topou na queda. Foi um estrondo que abalou montes e vales, como um trovão em quebradas de serra. Quando o angico acabou de estatelar-se no chão, o Pedro das Marrecas que espiava o baque, mettido atraz do tronco de uma oiticica, receiando algum estilhaço, veiu direito ao lugar da abelha. O cabra de alegre estava fulo. Não teve demora, percutiu o pau abaixo da bocca da colméa e, sciente da extensão do ôco começou a cortal-o para separar a parte habitada pela jandayra. Trabalhava com tal azafama que não parecia estar fatigado. O machado sacudia incessantemente cavacos, que voavam em todas as direcções. Em poucos minutos ficou fóra da haste principal um toro de mais de um metro de extensão. O cabra mirou o rolo, ageitou-o o melhor que poude numa cama de ramas e affastando o pé para traz deu-lhe tão certeiro golpe de machado que o abriu em duas bandas. A luz alumiou pela primeira vez aquelles exquisitos e interessantes recônditos. Um sem-numero de compartimentos, de alvéolos dispostos em andares, com arte e symetria, enchiam todo o ôco da madeira. 

Dentro daquella grande cidade não se encontrava um vivente adulto, apenas seres recem-nascidos e larvas a dormir nas crysalidas. Pedro das Marrecas tinha deveras paixão por aquelle genero de caçada. Logo que descobriu o interior do cortiço e relanceou a sua vista amestrada pelos andares de favos, ficou num contentamento infantil. Quasi nenhum saborá havia ! tudo era mel! Já um fio côr de ouro escorria por baixo daquellas construcções de cera, aproveitando o declive das bicas. O cabra acocorou-se e em poucos instantes reduziu toda a colméa a um bolão de cera e a dois litros de mel, que guardou em uma cabaça. Nenhum dos trabalhadores soube da abelha. 

A labuta progredia. Não se passavam dez minutos sem se ouvir o baque de um pau. João das Neves moirejava perto do Chico Piaba para com elle amenisar o rude serviço, improvisando versos. O sol estava bastante alto e dardejava tão intensos raios, que a vista doia quando alcançava uma superficie que não fosse escura. 

O Piaba acabava de derribar uma emburana de espinho e marchava direito a um vetusto pau-branco, quando ao pisar num balseiro, recuou n'um pulo formidavel. Depois se aproximou cauteloso do sitio suspeito e espreitando de pescoço estirado cantou para o Neves: 



<poesia>

Credo ! que molle rodia 

Debaixo dos pés topei ! 

É cascavel, e dormia, 

Por isso della escapei. 

</poesia>



João das Neves, ouvindo o companheiro largar por um momento o trabalho e vendo que elle se preparava para dar com o olho do machado na serpente, que continuava enrolada a dormir profundamente disse-lhe:



<poesia>

Malhe a cabeça da cobra, 

Não de pancada no chão. 

</poesia>



Chico Piaba, com um golpe certeiro e forte esmigalhou a cabeça da cascavel, que se desenrolou com as ultimas convulsões da morte e se estirou no solo, numa extensão do quasi dois metros. Vendo que a serpente morria, acabou assim a quadra começada pelo Neves: 



<poesia>

Se estique bem á vontade, 

Assuste agora a christão. 

</poesia>



O apparecimento de uma cobra cascavel, embora coisa muito commum no sertão, é sempre um facto notavel, pelo perigo em que põe a vida do homem. O adjunto em breve estava reunido no lugar do successo e todos commentavam o acontecido. O repertorio dos sertanejos em casos de cobra é inexgottavel. Ha lendas extravagantes, episodios inverosimeis, mas que, relatados como factos verdadeiros, a gente se arripia em ouvil-os. 

Um caboclo de meia idade, depois de escutar a conversa alguns instantes, deu um muxoxo e cantou: 



<poesia>

P'ra mim -- curado de cobra, 

Cascavel não tem valia, 

Tenha a venta esburacada, 

Ande na muda ou vadia. 

</poesia>



Esta asserção, que em um meio mais culto seria impugnada, passou sem protesto. Todos que a ouviram affirmavam terem sido testemunhas oculares de verdadeiras resurreições, feitas por curadores em mordidas de cobra já descangotados nas ancias da morte. Não era só em christão que tinham visto curas milagrosas, porém tambem em bichos brutos. 

E contou um delles que um curador afamado das bandas do Piancó, passando um dia numa encruzilhada, ao por do sol, saiu-lhe na frente, de uma vereda, um preá andando a custo, quasi trambecanda. O homem, que era entendido, viu pelos cabellos arripiados do animal, que elle estava picado e que não tardaria a cair. Aproximou-se e apanhou-o. O bichinho tremia como si estivesse com maleitas. A serpente não tardaria, sabia-o o curador, e antes que ella chegasse, medicou o preá cuspindo-lhe na bocca. O remedio foi prompto. Um minuto depois, o animal, de manso que estava, tornou-se bravo e estrebuchava, querendo livrar-se das mãos que o prendiam. O matuto tirou uma das correias do seu chapeu de couro e amarrou o preá pelo pescoço em um pequeno esteio, que fincou no meio da vereda. A cascavel não se demorou; vinha com fome na batida do bichinho. As folhas seccas chiaram mais perto,e afinal appareceu a cobra. Era uma serpente monstruosa, macho, pois tinha o chocalho em pé e não deitado. O curador, logo que a presentiu, escondeu-se numa moita. A cascavel estacou a um metro do preá, dir-se-ia que surprehendida por não encontral-o morto. Confiando no poder do seu veneno, tinha picado a victima com a certeza de achal-a morta não muito longe. O preá, logo que sentiu a cobra, empregou toda a força que tinha para se livrar e correr. Baldados foram os seus esforços, a tira de couro não se partira e nem se arrancara o esteio. Conscio de sua fraqueza e atemorisado com o reptil, encolheu-se quanto pode, dobrou-se e reduzindo o corpo a um pequeno embrulho informe e escuro, onde se viam dois grandes olhos accesos, negros como duas contas d'onyx.

A cascavel não demorou o ataque. Enroscou-se e sacudindo a extremidade da cauda fez vibrar os arméis do seu maracá em uma serie de estalidos seccos, tão agudos que se ouviam ao longe. Armou o bote, fazendo um S da cabeça e parte do corpo, e com a rapidez de flecha disparada, voou o mortifero dardo, que, caindo certeiro sobre a victima, nella embebeu suas presas recurvadas e repletas de veneno. Foi tal a presteza desta manobra, que ninguem podia affirmar que o preá fora picado. Sabia-o o curador, porque o pobre animal gritara na 

occasião de ser ferido e se mijara todo. A cobra, com a rapidez com que desarmou o bote, o armou de novo. Voltou á posição aggressiva, com a velocidade com que se dobra outra vez em espiral o cabello de um relogio, deixando de ser esticado. 

O preá tremia de medo mas não parecia doente. 

Passados poucos minutos a cobra, cada vez mais assanhada e tocando nervosamente o cascavel, dá segundo bote e pica em cheio o animal. A victima grita com a dor do ferimento, mas fica de pé.

A serpente enraivecida, não demora a terceira aggressão e desta vez prolongou um pouco o acto de picar, como para dar tempo a escorrer pelos seus dentes ocos todo o veneno contido em suas vesiculas. O curador viu perfeitamente que tinha sido picada a cabeça do animal. Desarmado o bote, a cobra não o arma como das outras vezes e vai affastando-se da victima, vagarosamente, num rastejar doentio. Não chega a se arrastar dois metros, para, vibra depois em repetidos espasmos, estica-se como si quizesse desconjuntar-se, rola o dorso para a terra, vira a barriga para o ar, e morre. 

Outros casos tão estupendos quanto este seriam relatados si o Neves, adiando que a conversa sobre tal assumpto não teria fim, não cantasse para o dono da cobra: 



<poesia>

«Eu compro as banhas da cobra, 

De fumo dou quarta e meia 

P'ra fomentar uma perna 

Que me doe na lua cheia.» 

</poesia>



O Chico Piaba, desdenhando da offerta respondeu ao companheiro:



<poesia>

«Só quero desta malvada 

cascudo maracá 

P'ra curar a dor de ouvido 

Que pelo inverno me dá. » 

</poesia>



O sol estava a pino, e o almoço devia estar servido no rancho. O dono do adjunto deu de marcha para a sombra da emburana cantando : 



</poesia>

«O povo do Ceará 

Todo tem cabeça chata, 

No adjunto é reimoso 

Pega fixe sem bravata; 

O sol pendeu, camaradas, 

Vamos matar quem nos mata.» 

</poesia>



E foram todos almoçar.

Chiquinha já lá estava com a refeição prompta. O appetite dos trabalhadores era brutal. O Pedro das Marrecas era quem comia com algum fastio, por ter na barriga talvez meia canada de mel. Assim mesmo comeu a valer. Findo o almoço deram Graças a Deus, rezando o bemdito. João das Neves, em attenção ao serviço pesado da derruba, deu a todos um bom trago de aguardente. Animados com o alcool, voltaram immediatamente ao trabalho. E continuaram a derribar as arvores, ainda azafamados, mais cheios de coragem. 

Como era digno de inveja o estomago desses homens, que, repletos como um odre, não pesava e nem sequer os esmorecia! Como os invejaria o dispeptico, o intellectual que assim os visse cheios de valor depois de uma refeição tão lauta ! Como não se julgaria miseravel comparando-se com elles, cotejando as suas energias, elle que depois da leve refeição de um beef, caia desfallecido, numa cadeira de descanço, incapaz de todo o esforço, entorpecido como a giboia que engole um boi! E' que estes sadios brutos que assim moirejavam sem conhecer o ocio da sésta, que faziam o chilo em tão pesado labutar, não sabiam ler e habitavam o campo. 

O sol tinia de quente. A reverberação era tal, que não se podia fitar um corpo mais claro sem se ficar encandeado. O calor não era menos intenso. As arvores, abatidas pela manhãn, já estavam de todo murchas e de algumas evolava-se um bafio acre de plantas virosas machucadas. A onda luminosa e calida que se espraiava na terra, onda de calor tropical que insolaria habitantes de climas mais frios, caia em cheio sobre o dorso nú dos derrubadores, sem que a pelle delles, cortida do sol, siquer se ruborisasse. A labuta andou sem incidentes até á tarde. Para não acabar de todo em paz, aconteceu a. Pedro das Marrecas um contra-tempo, mesmo no officio delle. Era impossivel tambem que um dia tão cheio como aquelle se findasse sem uma nota desagradavel. O caboclo já não tinha mais onde botar mel. Tinha tirado seis abelhas todas gordas, com especialidade uma moça branca e um canudo. A ultima que ia tirar frechava muito alta e tão em sombra que elle não podia conhecer-lhe a casta ; mas, ambicionando mais alguns favos descarregou com vontade o machado no pau d'arco. Mal abalaram a colmêa, ás primeiras vibrações dos golpes ouviu-se um ruido oco dentro do pão e um enxame de abelhas precipitado, como por encanto, do cortiço formou nuvem abaixo da copa da arvore.

Quando Pedro ouviu o zum-zum da abelha e conheceu a tatahyra, parou o corte e ia-se esgueirando mui cautelosamente para longe, mas era tarde. O enxame avançou sobre elle e cortou-lhe a marcha. O caboclo, doido, dentro da nuvem de insectos que lhe picavam e queimavam ao mesmo tempo os olhos, os ouvidos, os beiços, emfim o corpo todo, sahiu desembestado pela mata a fóra. Quando passou pelo Chico Piaba este gritou-lhe:



<poesia>

Seu Pedrinho das Marrecas, 

Quero ver sua valia; 

Com tal tropa nas garupas 

Vai bater lá na Bahia. 

</poesia>



O caboclo, atordoado como ia, não ouviu que lhe falavam e muito menos entendeu a quadra. Correu até se ver livre da derradeira abelha. Quando deixou de ser perseguido, parou, mas estava num estado lastimoso. O rosto não tinha feitio de cara de gente! As orelhas pareciam de pau, os beiços tromba de porco e os olhos tão inchados, que mal se abriam emquanto penetrasse uma restea de claridade. Toda a superficie do corpo atacada pelas abelhas estava coberta de papocas d'agua, verdadeiras bolhas de queimadura. 

Ainda bem não se terminava este incidente, já outro tinha lugar com Chico Piaba, na derriba de um jatobá. O caboclo, todo despreocupado, golpeava a arvore ainda em começo de entalha, quando o Violento arrancou atraz de um bicho que espirrou do oco do pau que estava sendo derribado. O cão não correu dez passos; a maritacaca fel-o parar como se tivesse quebrado as pernas. O sol, que accendia no poente um fulvo e coruscante incendio, reflectiu os seus derradeiros raios num jacto de gotinhas amarellas, semelhantes a ouro fundido que o animal perseguido, erguendo a perna, atirou de si sobre o focinho do cachorro. Mal o liquido dourado esguichou da vesicula e caiu nas ventas do cão volatilisou-se tão rápidamente como uma gotta d'agua que caisse na superficie de um metal candente. O ambiente numa quietação de calmaria podre, rescendendo havia pouco tempo somente o aroma selvagem das plantas cortadas, carregou-se subitamente de um cheiro nauseabundo de carniça. 

O cão escabujava no chão, ganindo bebedo com a fedentina, fossando a terra num desespero hydrophobico. E o liquido fulvo, cor de labareda com o aspecto das mais finas e olorosas essencias, ia-se diluindo na massa inteira do ambiente e infectando-a com a sua podridão. O Chico Piaba é quem estava mais proximo á maritacaca e foi quem primeiro recebeu nas ventas o fedor della. Affastou-se correndo mais depressa que o Pedro das Marrecas. Em poucos segundos, quieto mesmo como estava o ar, a onda fétida havia invadido todo o roçado e se espraiava pela matta vizinha.

Um dos trabalhadores, que era asthmatico, já ao findar do dia sentiu-se ameaçado do mal e com o peito a inchar golpeava já á vara e a remo. Quando lhe chegaram ao nariz as primeiras particulas da catinga ficou amedrontado receiando asphyxiar-se, elle que custava a respirar aquelle ar puro e balsámico e se suffocava quando fazia uma inspiração mais profunda. Quasi acovardado, ia retendo o folego ; porém vendo que se asphyxiava mais, abriu a bocca, dilatou as ventas e respirou largamente. O ar entrou não gargarejando, mas de peito a dentro e penetrou até as ultimas vesiculas, erguendo o thorax numa inspiração completa. O doente ficou surprehendido com o facto e continuou a respirar perfeitamente bem, com o peito livre como quando estava bom. 

Findou-se o adjunto. Poucos páos haviam ficado para o Neves derribar no correr da semana. Si não fora os incidentes, teriam deixado a terra limpa. 

O crepúsculo se espessava, annunciando a vinda proxima da noite. Os trabalhadores seguiam uns após outros caminho da casa do Neves, tendo por guia o Piaba, que improvisava celebrando os factos da derruba.



<poesia>

«Tatahira é abelha braba, 

gamba não é melhor, 

Cada qual tem mais lambança 

Tem sua arma mais peior, 

Um mija fogo na gente, 

Faz o outro coisa maior;

Empesta o ar c'uma bufa 

Do Crato <marca num="1" pag="141"> até Monte-mór» 

</poesia>



<nota num="1" pag="141"> Cidade do interior do Ceará, fica a cem léguas de Monte-mór, villa do littoral. </nota> 



E assim seguiam ao som da voz forte e entoada do cantador.

Ao passarem pela vereda da casa do Pedro das Marrecas este, que ia desatinado de dor de cabeça e ardendo em febre, mal podendo com a trouxa de cabaças de mel que conduzia penduradas no cabo do machado, entrou dando boa noite aos companheiros. 

O Neves correspondeu ao comprimento dizendo:

-- Si você se encamarinhar, mande-me dizer que eu vou rever o gado de sua entrega.

Não satisfeito com o offerecimento, antes que o doente se affastasse e não pudesse mais ouvil-o, gritou-lhe : 

-- Hein, Pedrinho, você chegando em casa mande chamar a velha Bernardina para lhe benzer de esipra, que é o que você tem.

O Pedro não ouviu talvez, porque não respondeu. 

Antes de sete horas da noite, assim mesmo fedorentos a maritacaca, jantavam juntos no mais fraternal convivio em casa do Neves. Beberam depoisum bom trago de cachaça á saude do adjunto e uma chicara de café, que veiu completar a refeição e restaurar-lhes as forças. Concluiram o jantar cheios de bom humor. A acção antispasmodica do almiscar da maritacaca e o bem estar do estomago são e repleto, os fazia cada vez mais cordiaes e communicativos.

A lua estava clara como o dia, e seria grande desamor á sua claridade e á frescura secca daquelle ambiente sadio recolher-se a gente cedo, privar-se do luar e de ouvir o caboré repetir, de espaço a espaço, o seu sol, sol, sol no olho das grandes oiticicas.

João das Neves e seus convivas, sem somno e sem enfado, sairam ao terreiroe acocorados no chão formaram palestra. Gostosas gargalhadas em breve estrugiram pela calada da noite. Os acontecimentos do dia foram celebrados e commentados. O João Camoquem, o asthmatico, é quem mais falava e ria, contente de estar bom, elle que se suppunha estar derribado, por ser vespera de lua cheia. A proposito desta cura foram narrados casos semelhantes, que deixaram ver que o milagre não era único no genero.

Riram e troçaram até muito tarde.

Quando se dissolveu o ajuntamento já o gallo tinha cantado a primeira vez. Despediram-se do dono da casa, que disse a todos numa entoação firme de quem fala com toda a sinceridade de uma alma pura de simples:

-- Quando tambem percizarem de seu caboclo, é só mandarem dizer.

E assim firmava o debito para com a vizinhança amiga que o viera ajudar e que elle pagaria mais tarde em identica moeda. 



</div>



<div "CAPÍTULO XV">



XV 



Poucos dias de sol bastaram para seccar o pedaço de floresta, que a mão do lavrador ignaro tinha reduzido a um montão de destroços. 

O aspecto do roçado era o de um campo depois de renhida batalha. Ramos mutilados se empilhavam sobre os vetustos troncos, que se estendiam de chão a fóra na inercia da morte. Aquella ruina encravada na matta parecia uma chaga na superficie de um membro são. As feridas de muitos tocos sangravam um liquido ambarino, que preguiçoso escorria em lagrimas, como estalactites fulvas e suspenso dos bordos da cepa faiscava mordido pelos raios do sol. Um bando de saguins pulava de tronco em tronco num alarido de assobios finos e gulosamente comia as excreções resinosas, que ainda molles lhes grudavam os dentes. 

Um magote de rezes gordas enchia os aceiros, malhadas umas e outras comendo pelos bordos da picada os olhos dos ervanços que apprehendiam com a lingua estirando-a por entre a rede de garranchos.

O sol cahia sem piedade sobre aquellas ruinas, e sem uma copa que lhe amortecesse os raios dardejava em cheio enterrando nellas o seu calor tropical. 

João das Neves passados dias, veio visitar o roçado. 

Percorreu-o de nascente a poente; examinou a cama que achou boa mas ainda zarolha. Revistando os restos das victimas de seu braço imprevidente, inconsciente do mal que havia feito, pizava os esqueletos e sem conhecimentos que o fizessem avaliar aquelle enorme crime, limitava-se a indagar quando seria tempo de queimal-os, quando o incendio os desorganisaria para sempre.

Chegou o dia da queimação. 

João das Neves muito de accordo com a crendice popular havia escollado o dia de S.

Bartholomeu, o senhor do vento, para fazer a queima. 

Agosto, havia entrado como sempre com dias claros e quentes e um vento rijo que varria tudo. A calmaria do inverno tão placida que não mexia com as folhas das arvores havia completamente desapparecido. 

Agora amanhecia o dia, e uma lufada esfuziava e depois outra e mais outra e a medida que o sol alteava ellas se repetiam mais a miudo, até se fundirem num pé de vento que uivava de mundo a fóra, levantando nuvens de poeira, derribando arvores e aborrecendo ao viandante de quem atiravam ao chão o chapeo. 

Foi em um destes dias luminosos e de vento forte que o Neves queimou o roçado. Do éxito deste acto todo selvagem dependia a futura colheita. 

Se a terra ficasse encruada custaria uma grande somma de trabalho o seu amanho, o fazimento de corvaras. E não era só isso, ficaria sempre fraca, crearia mal as plantas e não se venceriam as limpas dos vegetaes maninhos, que cresceriam por toda parte.

João das Neves temia mais um roçado crú do que uma peste. 

Assim, empregava toda a sua actividade cerebral em combinar o modo de atear um incendio forte e violento naquelle campo secco, mas de maneira a ser tudo reduzido a cinzas, menos a madeira grossa, que seria aproveitada nas cercas.

No dia marcado lá foi elle para o roçado de machado ao hombro ecom uma boa provisão d'agua numa cabaça. Era a hora do meio dia e o sol descia a pino sobre a torra inundando-a com uma onda luminosa e quente. As mala-cachetas encrustadas nos seixos do caminho chispavam naquelle banho de luz e reverberando no ambiente, mais calido o tornavam. Sentia-se um bafio morno por toda parte. Mesmo á sombra das grandes oiticicas a viração era tepida como se viesse de perpassar sobre uma superficie abrazada.

O dia estava óptimo para uma queima. A cama do roçado estava torrada de secca; apenas os galhos grossos e os pesados madeiros se conservavam ainda cheios de seiva e meio vivos.

João das Neves deixou a cabaça d'agua á sombra da emburana e foi cuidar do serviço.

Em pouco tempo arranjou quatro fachos dos páos mais combustiveis que encontrou e escolhia agora o local melhor para lançar o fogo. Do nascente para o poente, ao sabor do vento de leste collocou aquellas mechas de gravetos, uma em cada extremidade do aceiro o as outras duas no intervallo. Ellas fariam o papel do estopim que conduz o fogo e faz estoirara mina.

Tudo prompto, os aceiros limpos e ciscados, o caboclo incendiou a mecha do norte, depois a do sul e em seguida as intermediarias.

As labaredas depressa se enroscaram pelos feixes de garranchos a dentro, sahindo depois em linguas de fogo no ar precedidas de espiraes de fumo. Depressa devoraram os molhos de gravetos e se enterraram na cama do roçado.

O vento em açoites rijos soprava como um folle a chamma, que se atufava pelos intersticios da tulha de matto picado, depois esfuzilava lá adeante torcendo-se como uma serpente de fogo, desapparecia, e uma corôa de fumaca subia dilatando-se mais e mais até se apagar de todo no espaço.

João das Neves alimentava a combustão facilitando com um espeque a entrada do ar, revolvendo a cama. Em pouco tempo quatro grandes fogueiras se altearam da terra e o clarão de seus rubros fogaréos esmaecia n'outro da innundação do sol que corruscava no zenith, sem uma nuvem que lhe velasse o disco.

O fogo foi alastrando-se, caminhando os quatro incendios, até que se fundiram num só, numa columna cujas labaredas no acto de se reunirem elevaram ao céo um jacto abrazado, como o vomito de chammas que sabe da cratera dos vulcões. Um enorme penacho de fumo corôava o incendio e subia impellido pelo vento para as regiões do ether. O dia de claro que era se tornou pardacento.

A luz que vinha do sol se amortecia nas camadas escuras do espesso nimbo de fumaça e atravessando-as alumiava a terra com a claridade creme de um crepúsculo de inverno.

Todos os objectos pareciam amarellos. 

João das Neves, meio chamuscado, dentro daquella atmosphera afogadiça espiava de peto a devastação do fogo. Em seu rosto rubro de calor, aljofrado de bagas de suor via-se a satisfação que lhe enchia a alma contemplando a excellente marcha do incendio. A grandeza daquelle espectáculo sublime esquecia para só observar o caminho dar, alterosas labaredas. E a montanha de chammas batida pelo vento se inclinava um instante sobre a cama do roçado e se erguia depois deixando naquelle curto contacto, disseminados pequenos, incendios, que corruscavam como fogos de artificio. As labaredas tomavam todas as formas e todas as cores. Cambiavam incessantemente. Uma chuva des centelhas fugazes estrellava a nuvem de fumo emquanto na terra a gramma chamuscada ardia como pólvora em camalhões phosphorescentes por baixo da cama. 

O sol diminuia a magestade do espectáculo com sua luz intensa. A penumbra de fumaça não era sufficiente para salientar da claridad e solar todas as scintilações do incendio. Só em uma noite escura podia-se gozar bem desta grande scena, que produziria o effeito de uma aurora boreal.

O fogo lavrava cada vez mais intenso e acompanhando o seu pavoroso ulular, ouvia-se de espaço a espaço um tiroteio de estalos ou um grande estoiro. Era o ar aquecido dentro dos internos de cortas hastes que assim detonava. 

O contentamente de João das Neves vendo que o roçado não ficaria encruado era tal que o fazia supportar com certo prazer aquelle ambiente cuja temperatura não devia ser inferior a 45 gráos centigrados.

O incendio lavrava pavoroso, alimentado pelas rajadas infrenes dos alizeos. Após delle via-se uma larga esteira de brazas e cinzas e deitados nella, grossos esqueletos que por estarem verdes não foram carbonisados. 

As quatro horas da tarde mais ou menos não restava daquelle sitio, que um mez antes tinha os encantos das florestas tropicaes, com flores, fructos, louras abelhas, aves de gorgeios maviosos e plumagem multicor, mais do que as ruinas de um incendio. O fogo havia reduzido tudo a um montão de cinzas que alvejavam como um lençol branco mosqueado de pontos negros.

João das Neves tinha alcançado uma victoria completa; a queima estava muito de seu gosto. 



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<div "CAPÍTULO XVI">



XVI



O mez de Janeiro ia em meio. Já tinham cahido alguns aguaceiros por conta do inverno, mas apenas haviam dado para apagar a poeira levantada pelo verão. Nem as folhas tiraram dos riachos.

João das Neves estava com o seu roçado prompto. Só esperava por uma chuva, que molhasse bem a terra para plantal-o.

Chiquinha havia lembrado o alvitre de semearem no secco. Seria bom, porem arriscado. Já uma vez tinham perdido as sementes; quizeram atalhar e rodearam. Fizeram a semeadura, cahiu uma chuva, que molhou o chão, mas não deu para nascer.

A terra escaldou e os grãos mal incharam, não tiveram forças para vir fóra os grelos, assim apodreceram. Era mais seguro esperar que o inverno começasse franco para enterrarem as sementes.

Depois de um dia e uma noite de intensa calmaria, de uma quietação da atmosphera tão grande que se podia andar pelas estradas com uma vela acceza sem que'a chamma se derreasse de leve, cahiu pela madrugada uma chuya de encher lagoa, um pé d'agua de arregaçar caminho.

Logo que João das Neves se levantou e sahiu tora viu as estradas enxurradas. Mais de um palmo de chão a dentro estava molhado. Communicou a Chiquinha a feliz nova e rindo de satisfeitos foram plantar o roçado. Manoel, o mais velho dos filhos, foi tambem com elles. Só tinha cinco annos, mas já servia para cofarir as covas. 

Em uma extensão de leguas a chuva havia sido copiosa. Por toda a parte os lavradores sahiam das casas em rumo dos roçados. 

E que álacre romaria aquella!.. Formigava gente em todas as direeções. Fazia coro com ella a passarada, numa festival de harmoniosos accordes. 

Alados cantores voavam pelo azul em fóra saudando o inverno, porque o instincto lhes dizia que em breve os campos se cobririam de flores, as arvores de fructos, e a larva com que alimentariam os filhos não tardaria a se arrastar pelas searas. 

E juntos numa harmonia de pensamentos e de sensações festejavam a estação das chuvas, este grande acontecimento na região das scccas, onde o homem está, condemnado desde que entra Janeiro, a viver com os olhos pregados no céo, a investigar o desconhecido, a fazer prognostico, como se fosse uma cousa real a previsão do tempo. 

Cantavam as aves no espaço e cantavam os semeadores na terra. 

João das Neves, a mulher e o filho, numa alegria toda natural, iam caminho do roçado. Elle marchava com pé firme, de enchada ás costas e um sacco de sementes na cabeça.

Chiquinha conduzia tambem o seu sementeiro trepado no cocoruto.

Manoel para não ir de mãos abanando levava uma cuia emborcada na cabeça e em cima della uma cabaça dagua.

Os vultos dos caminhantes em breve foram esbatidos pelo negrume da queimada. Na tela preta alvejavam as roupas delles por entre os troncos encarvoados como flocos de algodão em pluma boiando num lago de tinta. 

João das Neves cheio de esperança e de coragem começou a semeadura, Com o busto nú seguia em linha recta abrindo as covas, cuja distancia uma da outra media com uma larga passada.

Chiquinha o acompanhava semeando, deitando trez sementes em cada buraco, que aterrava com o pé.

João das Neves cavava tão ligeiro, num compasso tão certo, que a enxada parecia não descer, estar sempre suspensa no ar. Com uma só enxadada a cova ficava aberta. E tanto que Chiquinha para acompanhal-o cobria uma cova e outra não. Manoel cujo pé ainda era pequeno para fazer de pá,vinha de costas, atraz da mãi aterrando com as mãos as socavas em que havia sementes expostas.

Isso foi assim emquanto o Neves cavou o arisco. <marca num="1" pag="156"> Quando topou com o massapé Chiquinha tomou folego. Agora o ferro batia duas e trez vezes na argila para abril-a e mal. A resistencia do terreno não fazia o trabalhador esmorecer, pelo contrario o tornava mais aguçoso. Via-se-lhe o esforço masculo nos camalhões de músculos que se levantavam do corpo quando vibrava o golpe contra o chão, que tinia de duro e resistia.

Nos braços do caboclo a musculatura se erguia em novellos do tamanho de uma laranja quando a enxada batia em alguma pedra enterrada no barro. 



<nota num="1" pag="156"> Terreno arenoso. </nota> 



Do manto preto da queimada emergiam em diversos pontos brotos verde-gaio, frescos rebéntos que sahiam de algumas sepas ecresciam encostados a ellas num contraste perfeito de cores.

João das Neves passando por ellas não as deixava de pé. Golpeava-as rente ao chão com o gume da enxada e os atirava para longe.

Labutaram até o sol pender, com a mesma faina sem tomarem alimento algum. Até o menino, digno rebento delles, não pediu para voltar a casa nem tão pouco se queixou de fome.

Pouco depois de meio dia voltaram a vivenda mais pela necessidade de revistarem as creanças que haviam ficado sós do que para almoçar.

Depressa se aviaram e voltaram ao roçado.

O dia continuava carrancudo. Os alizeos haviam se calado de todo. Nem mais uma rajada sua, estas fataes rajadas que carregam a chuva para longe e deixam a terra cearense na seccura deu m Sahara. O céo estava todo coberto do um vapor acinzentado e espesso que amortecia o disco fulgente do sol a ponto de se poder fital-o. Dentro de dois circulos concentricos, que cambiavam com as cores do iris via-sea imagem prateada do astro.

João das Neves vendo-a chamou para ella a attenção de Chiquinha dizendo-lhe que -- lagôa no sol era signal de chuva na terra.

O halo continuou a ornar com uma aureola multicor a gaze <estrang lingua="frances"> gris-perle </estrang>que velava o disco solar, ainda por algumas horas.

Ao sul pesados e vermelhos cumulus se levantavam barrando o horizonte como uma muralha de cobre. As formigas mudavam os filhos ainda brancos como farinha, para os altos. 

A João das Neves não passavam despercebidos todos estes signaes de grande e proximo inverno e cada vez mais cheio de esperanzas e de animo semeava a terra na crença de ser mais tarde recompensado o seu trabalho com fartas messes de louros e sasonados fructos. 

Fortalecido por esta consoladora idea, levou o casal uma semana inteira num moirejar sem treguas a semear um solo, que tantas vezes o fizera ingrato a inconstancia e escassez das chuvas.

Nem uma duvida, nem uma desconfiança assaltava o espirito dos laboriosos lavradores sobre a estação que tão promettedora se anunciava. 



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<div "CAPÍTULO XVII">



XVII



O inverno, o bemfazejo inverno havia quinze dias regava a terra quase sem interrupção.

Os riachos enxurravam e os rios com os poços emendados, cheios, deslisavam preguiçosos ao sabor do declive do solo.

A floresta, que no rigor do verão; parecia mrta, toda nua, reduzida aos pretos esqueletos, começava a se vestir da folhagem miuda e tenra dos rebentos.

Os gommos de que o estio paralisara o desenvolvimento, conservando-se como escuras verrugas abotoados na pelle das plantas, agora se desmanchava em folhas, cujo limbo fresco e lustroso se expandia ás carreiras. Por toda a parte via-se a natureza numa anciã de fecundação admiravel.

O scenario agora era outro. A chuva havia resurgido a terra cearense, que o verão tinha amortalhado no sudario tristonho e preto de uma queimada, formosa e louçã, como bem poucas regiões do mundo.

A vida borbulhava por toda a parte. O solo caldeado pela passada soalheira, com o aspecto de um rochedo escalvado, quarenta e oito horas depois da primeira chuva, cobria-se de um manto verdoengo, das pequeninas gemmulas que nasciam.

As rosas de Jerichó que se enroscavam mirradas e abatidas no pó dos carrascos, enverdecidas e louçãs já alcatifavam com suas folhas arrendadas aquelle chão, que pela aridez do aspecto ninguem nelle suspeitaria a vida e muito menos uma resurreição.

Pela rapidez com que germinavam os embryões avaliava-se a força vegetativa da terra. 

Nos campos assim enverdecidos, os rebanhos, áridos do verde, enfarados da insipidez das folhas seccas, raspavam a babugem, da qual mal apontavam os grelos. 

Magotes ele bois, de cavallos, de cabras, de ovelhas pastavam, aparando difficil e custosamente as recemnasciclas gramineas. Esta mortificante apprehensão do alimento, os repetidos esforços musculares, mormente aos cavallos faziam mal e tanto que no fim de poucos dias de andarem á babugem, ficavam com os pés dos o ouvidos inchados como se tivessem papeiras.

As aves e as borboletas adejavam aos beijos em um perfeito idyllio pelo azul a fóra.

Já dos galhos das arvores, enfolhados de novo, pendiam os primeiros ninhos.

João das Neves poucos dias depois de plantado o roçado, veio vél-o. As sementes haviam nascido todas; não se perdeu uma cova. As hasticulas do milho se espigavam enroladas em cartucho de um amarello crisolita.

O feijão se erguia num caule curto terminado por duas folhas oppostas tendo ainda os dois cotyledones em forma de rins agarrados á hastilha logo abaixo dellas.

O arroz tambem estava nascido e enfeitava com suas folhas, finas como cabellos, uma boa parte da queimada. Outras plantas vinham se desenvolvendo mais a vagar, como o algodão, o gergelim, o gerimum, a cabaça.

A mandioca eriçava com suas estacas a parte ariusca do roçado, começava a brotar e em alguns páos os renovos já tinham folhas bem crescidas. 

João das Neves não se cançavade mirar as plantas e gabar o vigor desta terra ubérrima. Percorria toda a lavoura, carreira ácima, carreira abaixo, num contentamento que se via estampado em todas as linhas do seo rosto. Se tudo crescesse e fructifícasse estaria rico, dizia o Neves vendo o viço do roçado.

O que mais lhe agradou na seara foi a falta de vegetaes maninhos. Raramente via-se um pé de gitirana, crescendo aos pulos, com uma pressa de quem quer ganhar terreno, de braços estendidos e as gavinhas abertas á se agarrar aos tocos e formar estes lindos caramancheis, que mais tarde seriam um encanto vel-os com as moitas verde-canna salpicadas de grandes corollas côr de lilaz. 

A limpa <marca num="1" pag="162"> seria fácil; Pai Luiz <marca num="2" pag="162"> não daria que fazer este anno.

Foi em dias de Fevereiro que o Neves e Chiquinha limparam o roçado. O mestiço admirou-se do crescimento das plantas e a mulher, que ainda não as tinha visto, ficou abysmada deante do estupendo quadro, que só se encontra em terras tropicaes.

Cada qual trabalhava mais esperanzoso na indemnisação que lhes faria a terra.

Chiquinha de saia arregazada espanava a enxada como o melhor roceiro. Nunca ficou atraz do marido; ia sempre á elle emparelhada. 



<nota num="1" pag="162"> Monda. </nota> 

<nota num="2" pag="162"> Vegetaes maninhos que nascem nos roçados. </nota> 



Manoel tinha vindo tambem á limpa para se acostumar de pequeno ao serviço. O Neves encabou uma enxada, que pouco mais tinha do que o olho, e deu ao filho dizendo-lhe:

-- Você vai tambem nos ajudar home. O trabalho é a riqueza do pobre.

O menino tomou posse da carreira e manejava o ferro com um certo geito. Seria um bom capineiro. 

Poucos dias gastaram para expurgar o roçado dos vegetaes damninhos.

A boa  queima tinha lhes poupado o trabalho da limpa. A lavoura era toda um jardim. Não se vi a mais terra descoberta, uma alcatifa de relva, um vergel virente, cobria inteiramente o chão preto da queimada. 

Chiquinha em uma das vezes que encostou a carreira no aceiro relanceou a vista pelo corpo do roçado e extasiada exclamou:

-- Benza-o Deus!.. Máos olhos não podem vêl-o!....

Não exagerava. viço das plantas era tamanho que se fitando bem uma folha parece que a gente a via crescer.

João das Neves não cessava de gabar a terra e a sua optima queimação.

Só com uma limpa colheriam o que haviam semeado. Em começo não tinha nascido muito matto quanto mais agora que o chão estava todo tomado com as plantações. Assim o casal esperava uma farta messe, que lhe recompensasse das fadigas, que lhe indemnisasse do suor abundantemente derramado lavrando uma terra que havia tantas vezes sido ingrata. 



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<div "CAPÍTULO XVIII">



XVIII 



A estação invernosa, que tão bem começara, se transtornou um pouco. O costumado veranico de Fevereiro appareceu antes das plantações estarem livres das pragas que elle crearia.

O vento de leste, que se calara dias antes da entrada do inverno, soprava agora, não com a furia de Agosto, porem com intensidade precisa para impedir a condensação dos vapores, que se elevavam da superficie tranquilla das aguas. 

A atmosphera, que dias antes se conservava velada por tenue nevoeiro, cinzenta.de vapores, tinha agora uma transparencia de crystal de rocha e resplandecia illuminada pelo sol, que dardejava nas alturas inundando a terra de uma claridade argentina. 

As noites, de quentes e abafadiças que eram, se tornaram frias.

As manhãs pareciam de Junho. Os campos amanheciam aljofrados de orvalho.

As sericoias <marca num="1" pag="166">  não cantavam mais a hora 

das Ave-Marias e os cururús <marca num="2" pag="166"> nos charcos tambem se haviam calado.

João das Neves, no primeiro dia do veranico, accordou com a friagem e logo que clareou veio fóra. Seu coração fechou-se quando viu a relva molhada e algum tempo depois assistiu o sahir do sol, precedido de um crepúsculo cor de labareda.

O céo, diaphano como um diamante, parecia mais alto e de um azul tão puro como nos mais bellos dias de verão. Apenas no zenith algumas nuvens pequeninas pairavam como delicados arabescos de gelo esbatidos pela tela azulina do firmamento.

Aquelle banho de luz depois de muitos dias de chuva vivificava tudo. A natureza inteira cheia de alacridade cantava hosannas ao sol, a fonte da vida.

Emquanto tudo se alegrava com aquelle dia claro João das Neves possuido de grande tristeza meditava. Aquelle contentamento espalhado por toda a parte em ondas álacres, que desciam do céo no cantar das aves e que subiam da terra na bailada dos rebanhos, chegava a elle e mais o desalentava. A alegria das plantas e dos animaes era toda insctintiva e o insctinto não se illude nunca.



<nota num="1" pag="166"> Ave ribeirinha.  </nota> 

<nota num="1" pag="166"> Sapo grande.  </nota> 



O gado deixava as malhadas e corria escaramuçando de cauda erguida pelo campo a fóra emquanto a passarada voejava no espaço seccando as pennas encharcadas pela invernia.

Para mais apprehensivo tornar-se o Neves um enxame de tanajuras <marca num="1" pag="167"> sahiu de um antigo formigueiro do pateo da casa e voava zumbindo pelos ares. Um bando de andorinhas,em numero de fazer verão, perseguia estes insectos barrigudos para lhes comer o abdomem cheio de uma gordura côr de pus.

As folhas das arvores arreadas com o peso da chuva se endireitavam e de foliolos erectos e expandidos se baloiçavam nos galhos ao sabor da romurosa aragem. 

João das Neves muito pensativo seguia caminho do roçado. Ia ver a sua lavoura que havia dias não revistava. Achou-a mais bella e mais viçosa que uma semana antes. Já o feijão emmoitava <marca num="2" pag="167">e o milho cobria a cova. O verde das folhas mais intenso fazia a luz daquelle dia claro.



<nota num="1" pag="167"> Formiga alada muito grande. </nota> 

<nota num="2" pag="167"> Fazer moita. </nota> 



Sobre o tapete de verdura um enxame de borboletas volitava travesso celebrando suas nupcias. Estes insectos de azas multicores iriadasde tons metallicos longe de embevecerem o lavrador, de extasial-o na contemplação de um dos quadros mais bellos da natureza tropical, o desalentou de todo. Viu nestas joias aladas do clima do Brazil os mensageiros de uma grande desgraça. Se podesse apanhar o bando das formosas nymphas tão galantemente ornadas o teria anniquilado, porque o fructo de seus amores seria a perdição delle. E debruçado na cerca do roçado com alma afogada numa multidão de pensamentos tristes seguia com o olhar vasio as borboletas, que adejavam de planta em planta cada qual mais bella e mais travessa. Nesses adejos ora céleres, ora mansos como os de uma penna a oscillar num ambiente quieto, desciam á terra, poisavam um instante, depois levantavam o voo expandindo as azas de gaze á luz num matiz tão fresco e variado como jamais tirou da palheta o mais celebre pintor do mundo. Na breve poisada cahia da extremidade do abdomen do insecto uma infinidade de ovos, que ficavam entregues ao acaso para perpetuar a especie, continual-a, uma vez que os progenitores se acabariam terminadas que fossem as bodas. Era esta semente nefasta lançada assim profusamente no solo do roçado que enchia de justas apprehensões o espirito timorato do Neves. Meio anniquilado com a idea de uma catastrophe proxima, voltou o lavrador á casa. 

Chiquinha percebendo o abatimento do marido e sabendo a causa tratou de animal-o. Era uma loucura a delle julgar que o verão de um dia perderia tudo. Quantas vezes tinham visto o veranico de Fevereiro não crear lagartas ? Mesmo nascendo a praga já não se tinha visto cahir a chuva encima e destruil-a? Nem era bom a gente se amofinar com esses máos pensamentos. 

E Chiquinha toda esperanzosa tratava de convencer o Neves que elle era um visionario. 



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<div "CAPÍTULO XIX">



XIX 



Poucos dias depois da postura dos insectos o roçado estava reduzido á primitiva queimada!

A terra estava núa, mas completamente núa. João das Neves ainda lhe fez uma segunda visita do meio para o fim do veranico e voltou tão acabrunhado que não teve mais animo de lá tornar.

Chiquinha é quem acompanhada do Manoel foi um dia ver o estrago da praga. Quando viu a devastação, que todos os seus sonhos de felicidade tinham sido reduzidos a nada, que o trabalho de tantas semanas, o suor de tantos dias uma vil e desprezivel larva havia tornado estéril, rebellou-se. Com o semblante numa crispação assombrosa blasfemou irada o nome de Deus por ter creado a praga para perseguir o homem.O ar daquella mulher no auge do mais justo desespero tinha uma certa magestade. Trepada na cerca do roçado com a queimada inteira debaixo dos olhos irada ameaçava os céos com gestos e palavras. Nem uma lagrima se lhe viu descer dos olhos! Emquanto blasphemava de Deus por ter creado a praga que lhe devastou a seara e com esta o futuro pão da familia, as aves conduziam aos ninhos para alimentar os filhos esta mesma larva que o mesmo Deus entendeu crear em sua alta sabedoria. 

Chiquinha voltou para a casa a estoirar de colera. O marido vendo-a tão enraivecida não lhe deu palavra. 

O veranico prolongou-se quasi uma quinzena. Não se via no céo o mais leve signal de chuva proxima, quando entrou Março farto de promessas. Logo no primeiro dia do mez ao cahir da tarde ergueram-se no levante pesados cúmulos rubros e ao anoitecer aquelles castellos côr de cobre polido eram riscados sem grandes intervallos pelo fogo azulado do relampago. Pela noite adeante o espaço começou a vestir-se de um denso e escuro nimbo, que subindo do nascente ia embuçando o céo e apagando a luz das estrellas

O vento soprava do norte numa doce briza que mal baloiçava as folhas das arvores. Pela madrugada um aguaceiro estalou no telhado, curto, mas tão pesado que parecia que a nuvem se havia condensado a pouca altura das telhas. As biqueiras mal davam evasão as aguas.

A chuva em breve serenou ficando um chuvisco graúdo, pausado, fustigando o telhado como uma saraivada.

João das Neves e Chiquinha acordaram com o barulho da pancada d'agua. Sentados nas redes esperavam que a chuva continuasse quando ella se acabou deixando nos aposentos da casa um cheiro activo de barro molhado.

A atmosphera continuava afogadiça, com grande baixa de pressão, annunciando tempestade proxima. A trovoada explodiu súbita sem previas e pequenas descargas. Um trovão medonho estourou precedido de um relampagoque incendiou a abobada celeste e foi sacudindo as camadas da atmosphera em repetidas bombardas.

Ainda bem não se tinha perdido de todo no espaço a ultima detonação, outro relampago fusilou seguido de um trovão ainda maior.

As nuvens eletricas parecia que se chocavam na visinhanca do solo tal era a intensidade das descargas. Em breve o fogo do raio tornou-se incessante e os estampidos dos trovões, fundidos nun ribombo único, estrondeavam de mundo a fóra fazendo trepidar a terra como se um terremoto a sacudisse. 

Uma chuva torrencial despejava-se do céo e batia em cheio nas arvores e no solo num ruido torvo, que se amalgamava ao bombardeio da trovoada.

João das Neves embora meio atemorisado e aturdido com a borrasca sentia um bem estar gerado pela chuva, que o reanimava, lhe promettendo restituir a energia de outrora e as passadas alegrias.

Não ha muzica mais harmoniosa para o ouvido do cearense do que a da chuva tamborilando nos telhados. Acossado pelos flagellos das seccas que em todos os tempos o tem perseguido, a saudam sempre como o mais justo dos enthusiasmos.

Chiquinha estava aterrada. Logo que a trovoada começou lembrou-se da scena do roçado, não com remorsos do seu acto, porem com medo do castigo. O Deus de quem ella tinha blasphemado era o senhor do raio, dos ventos e da chuva ; tinha poder para arrazar o mundo quanto mais a ella que deante das grandezas do universo não era mais do que uma cellula de miseravel verme. Quasi convencida de que seria punido o seu crime, que o fogo do céo a fulminaria levantou-se e foi ao quadro da Virgem do Bom Parto, não para pedir a intersecção della, mas para lhe tirar dos pés um ramo bento. Crendo aplacar a colera de Deus e assim livrar-se do castigo, queimou o ramo. As palhas depressa arderam como se fossem de pólvora e a trovoada continuou a atroar os ares com as suas descargas. Assim se passou o resto da noite. 

Pela madrugada os relampagos foram se espaçando, os ribombos se pondo mais longe até que se acabaram ele todo, ouvindo-se agora somente o estalar da chuva e o marulhar do aguaçal que se precipitava pelo declive do solo até topar os leitos dos riachos e dos rios.

Pela manhã quando João das Neves veio fóra ainda chuvia copiosamente e toda a terra que a vista delle alcançava estava debaixo dagua. 

O mestiço quando viu o diluvio sentiu uma sensação de alegria tamanha que quasi cahiu. Não cessava de mirar a superficie prateada do aguaçal e ao mesmo tempo lastimar que a invernia não tivesse vindo um dia depois da postura das borboletas. 

Ah se o roçado delle ainda fosse vivo, como não estaria o arroz afogado nas baixas e os outros legumes rindo nos altos !..

A lembrança do desastre já não o entrestecia; a chuva o havia curado. Tanta agua, tanta terra limpa e cercada ficar sem semente ainda em começo de Março!.. Não, isso não podia ser, Deus não se servia disso. E assim João das Neves discorria mentalmente boquiaberto, fitando o deslizar das correntes, elle que ainda hontem dizia á mulher que embora chuvesse a ponto de afogar os sapos não replantaria o roçado.

Logo que o tempo alliviou, isso depois do meio dia, o Neves seguia para a villa. Ia ver se contrahia um emprestimo para comprar comida e sementes. Bateu em diversas portas, mas embalde. O padre Mourão foi o único que se condoeu da situação delle, e o teria largamente soccorrido se pudesse. Ainda fez uma avançada para a irmã, mas recuou. D. Ignacia não esquecia de relembrar uma vez por outra a venda do seu cordão de ouro para comprar o enxoval de Chiquinha.

Andou pela villa de compadre em compadre, e embora o momento psychologico fosse o melhor possivel por causa da volta do inverno, as gavetas não se abriram: para os forretas não ha momento psychologico para dar dinheiro. 

João das Neves ia voltar com as mãos abanando quando se lembrou de que quem tem bens não padece e logo assentou de vender um de seus bichinhos. Qual seria delles? Eram tão poucos e todos tão bons!.. A escolha finalmente recahiu na Amorosa, vacca muito boa de leite e que dava cria todos os annos. Só ella daria a quantia que elle necessitava para o serviço. Estava amojada, em dias de parir. Assim vendeu-a a um dos compadres, negociante abastado, um dos que não tiveram dinheiro para lhe emprestar e receber depois na safra do algodão.

A tardinha voltava o Neves batendo agua pelos caminhos com a egua carregada de sementes e mantimentos.

Chiquinha quando viu a arrumação do marido e soube do negocio botou para cima numa estalada medonha. Vender a sua vacca Amorosa, o bicho a que ella mais queria bem para dar comer ás lagartas! E vociferou até lhe faltar o folego. 

João das Neves nada respondeu á mulher temendo azedal-a mais. Soffreu com paciencia o seu destampatorio na esperanza de que ella fosse ajudal-o á replantar o roçado.

Na manhã do dia seguinte não houve quem a fizesse acompanhar o marido para o serviço. Obstinada, num accesso de macreação recusou-se e foi o João das Neves com o Manoel para aquella pesada tarefa imposta quasi todos os annos ao lavrador cearense pela irregularidade das estações. 



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<div "CAPÍTULO XX">



XX 



O inverno continuou sem fazer interrupções até começo de Junho. 

O Ceará desde as praias ao sertão estava em plena primavera. Uma alcatifa verdoença  sarapintada de flores de todos os matizes cobria o solo, ensombrada pela floresta que numa plethora de vida ostentava o vigor equatorial em sua luxuriante vegetação.

O subsolo regorgitava d'agua, e tanto que os logares baixos estavam alagados. Desde o meiado de Abril que a chuva que cahia não era mais embebida pelo chão: ou ficava brejando a terra ou descia para os rios, que movimentados por ingremes declives iam ter ao mar com uma rapidez incrivel.

Os roçados estavam a maior parte seguros. Em alguns logares a praga da lagarta tinha destruido a primeira plantação e a segunda planta agora é que começava a florir.

O roçado de João das Neves era um destes.

O milho penduado começava a boneclar. <marca num="1" pag="180">

O feijão de corda alastrava o chão e a sua verde rama mosqueavam exquisitas corollas rôxas 

e brancas. Nem uma vagem ainda fructificava.

O arrozal occupava mais de cem passos de terra em ambas as margens do riacho e havia cresciclo fora do commum. Agora é que começava a embuchar. Se fosse vermelho já teria parido, mas era Carolina, em menos de quatro mezes não soltaria o cacho. 

A mandioca que havia plantada era muito pouca, talvez não chegasse a quinhentas covas, mas estava tão grande e viçosa que parecia ter mais de um inverno. 

A lavoura estava neste pé quando se acabaram as chuvas. Vieram as manhãs frias de Junho com um terral que cahia pela madrugada e doia nos ossos.

Os rios com a mesma prestesa com que encheram, vasaram. Corriam nos leitos mui socegadamente. O excesso d'agua que se via inundando as baixas desapparecia de um dia para o outro levado pela evaporação, que a quentura do sol activava cahindo em cheio sobre a terra. 



<nota num="1" pag="180"> Deitar flores femininas. </nota>



João das Neves comprehendeu com grande desgosto que o inverno se havia acabado. Esta certeza não o abateu de vez porque as terras estavam fartas d'agua e qualquer chuveiro mais seguraria os legumes. Não seria provavel que Junho se acabasse sem darem ao menos algumas neblinas, pensava, para afastar de seu espirito uma idea que evitava, que desterrava da imaginação como perturbadora de sua paz e até de sua razao. E Junho continuava com um céo tãolimpo que não parecia aquelle que se tinha conservado embuçado em escuros nimbus talvez durante tres mezes.

João das Neves depois da entrada do verão ia todos os dias ao roçado.

As primeras visitas não o inquietara, pelo contrario, animaram-no; as plantações estavam mais viçosas com o sol. 

A sede que tinham de luz saciou-se em breve e agora o calor já começava a estiolar os orgãos mais delicados dellas. Dentro do roçado não havia mais uma gotta d'agua. A soalheira cortou o riacho em tres dias e uma semana depois as piabas que elle creava morreram no secco.

O arrozal tinha parido e corôavam as suas flexiveis bastes ciciosas fartos cachos de flores louras. 

Quando João das Neves chegou no roçado pela manhã e viu que o arroz tinha soltado o cacho e o céo não promettia ao menos um chuveiro, ficou desalentado. O seu esmorecimento foi ainda maior quando se aproximou das flores, depois de lhes ver o vigor e o tamanho enorme dos cachos, viu que as folhas de verdes que eram, iam se tornando avermelhadas.

Já os bordos dos limbos começavam a se crestar e uma côr de ferrugem os coloria de um tom mortuario. João das Neves acocorou-se e escarvou o chão. Nem parecia a terra brejada de quinze dias atraz ! A agua tinha se sumido para as profundezas da terra. Estava tudo perdido, só uma chuva podia salvar a seara. Que pena fazia ver as flores louras de polen se inclinarem umas sobre as outras fecundando-se, mas improficuamente, sem esperança de semente!

O milho já tinha florescido, mas ao sol.

As flores masculinas se expandiam em conicas panículas e deixavam cahir dos estames o dourado polen sobre a crespa cabelleira fulva das flores femeninas que occultas numa túnica de folhas verde gaioexpunham somente os fios delgados de seus cabellos louros. E pelas fartas madeixas desatadas, aos bafejos da aragem,em amorosas caricias era levado o noivo a camara nupcial e tinham logar as bodas.

Foi uma uniao sem fructo aquella. Mal se havia operado a fecundação; o leito conjugal, que se transformaria em sementes cor de ouro, fana-se a mingua d'agua e o embryao se atrophia, como mirrado.feto nas entranhas uterinas.

A seccura da terra no periodo mais importante da reproducção fazia aquelles amores sem fructos.

O feijão, cujas ramas verdes bracejavam de terra a fóra, murcho, começava a se enrolar coberto de vagensinhas bem fecundadas, mas que iam morrer porque a suavida era de feto, e a planta mãi não tardava a finar-se.

João das Neves estava profundamente commovido com a sorte dos pobres vegetaes. Não que tivesse uma noção sequer de sua biologia, que soubesse que elles eram seres vivos, e que até alguns pareciam sentir, mas pela certeza de que se acabariam prematuramente. Assim sentindo por todos elles uma angustia que lhe dilacerava a alma, angustia que tocou ao paroxismo depois que a aridez do solo o convenceu de que só agua do céo poderia salvar a vida a se extinguir n'aquellas infelizes plantas, instinctivamente procurou com o olhar nas alturas o creador do homem e da larva, o senhor do raio e da chuva e uma prece talvez entoasse o seu espirito, mas que não foi articulada. 

A figura d'aquelle homem rude, de pe, descoberto, em meio de milhares de viventes que morriam de sede, sem poderem soltar uma queixa, um ai, era de uma grande e profunda magestade. Mudo interprete d'aquelles mudos seres concentrou na vastidão do olhar toda a piedade que o commovia e fitava o céo procurando assim chamar para aquelle mizeravel campo a vista do Deus dos desamparados e a sua misericordia. 

Para tocar a Divindade e attrahir a sua graça cahiu de joelhos e elevando as mãos supplicantes evocava a bondade divina pedindo mentalmente uma sede d'agua para as pobres plantas que se mirravam aos raios de um sol abrazador. 

Os olhos do camponeo pouco tempo estiveram levantados, baixaram-se ao peso das lagrimas, que corriam céleres e se embebiam na terra árida que tanto suor já tinha tragado durante o seu pesado amanho e agora lhe bebia o pranto !... 

E chorava o pobre homem num desconsolo que fazia dó! Para maior desillusão sua, o sol faiscava no céo e nem uma nuvem pairava na vastidão do espaço.

Abatido com o desastre que não evitaria o esforço humano, nem tampouco as maiores potestades terrenas, deixou aquelles tristes logares e voltou a casa. Seguia pelo caminho como um lerdo.

A idea fixa que o absorvia inteiro era o aniquilamento da lavoura.

E tanto que de quando em vez parava, olhava os horizontes para ver se Deus o havia attendido, se já assomava no oriente algum escuro nimbo 

Nada, nem um trapo de nuvem se via na linha que parece unir a terra ao céo. João das Neves, embora essas repetidas decepções, não estava de todo desilludido ; a proporção que se afastava do roçado, cobrava animo, sentia nascer uma esperança. Todo aquelle desconforto que lhe abatia o espirito era suggerido pelo tristonho espectáculo que tinha deante dos olhos. Longe delle, já não achava o desastre tão falto de remedio, tão inevitavel. O roçado ainda não estava perdido, podia esperar oito dias sem morrer de todo. Seria possivel que durante este tempo não cahisse uma chuva, que Junho fosse completamente secco ? E intencionalmente olhava para o céo a ver se o tempo mudava. 

O sol era o mesmo, fuzilante e quente. Com a vinda da noite bem podia ser que se condensassem os vapores e cahisse algum aguaceiro. 

João das Neves cheio de esperanças chegou a casa e cheio de esperanças viveu oito dias. As noites passava accordado esperando que a chuva estalasse no telhado.

Não veio de noite, virá de dia; e antes de amanhecer de todo, sahia de casa a investigar com seus olhares sequiosos de promessas o espaço inteiro. Não era só no céo que procurava bons prognosticos era tambem em diversas manifestações do instincto dos brutos. Um grillo de inverno havia cantado a noite, a maritacaca tinha mudado os filhos do leito de um riacho para as ribanceiras, o carão solfejára ao por do sol na coroa do rio -- um sem numero de signaes de chuva que nunca tinham falhado e eram fructos da observação de muitas gerações extinctas.

Tudo falhou; não houve previsão boa que servisse, para maior desgraça de João das Neves. 

No fim de oito dias o roçado só tinha verdes as mandiocas e algumas gitiranas, que formando caramanchel, estavam cobertas de flores de um roxo claro, cor de lilaz. Tudo mais estava secco torrado!

O vento de sudeste, que soprava pela manhã, arrancava dos cachos as flores das gramíneas e ia espalhandode terra a fóra as mirradas e cinzentas corollas, que dias antes eram o adorno, o encanto do roçado.



</div>



<div "CAPÍTULO XXI">



XXI 



O lar de João das Neves não tinha mais a alegria das habitações felizes.

Sujeito as contingencias da vida, como povo algum do mundo, o cearense não pode contar com o dia de amanhã; e raro é o solar que tem habitado a mesma familia em algumas gerações. O nomadismo da raça vermelha, transmittido por atavismo á população mestiça, a qual constitue talvez quatro quintos dos habitantes do Ceará, é o factor principal do despovoamento da terra cearense. Este instincto de vagabundagem innato no mestizo é alimentado por causas secundarias, entre as quaes as seccas e as irregularidades das estações occupam o primeiro logar.

João das Neves crescera ouvindo relatar as migrações de seus antepassados. Creança ainda, acompanhára o pae á Fortaleza na secca de 1877. O avô e o bisavô sabia que tambem tinham feito parte do éxodo de famintos nos tempos de fome, que vem de annos em annos deslocar a população sertaneja. Contavam até que um de seus ascendentes, em uma destas migrações, embarcara para a Amazonia e que vivia lá muito rico e feliz, dono de grandes seringaes. 

João das Neves vivia numa desconsolação que o inhabilitava para todo e qualquer commettimento. Passava os dias matutando na sua vida sem encontar um meio de enfrentar as difficuldades, que lhe traria aquelle anno máo. 

Despeitado deveras com o solo ingrato de sua terra, nunca mais fôra ao roçado onde a mandioca, que ha muito tempo pedia limpa, se afogava no matto. Assim deixava se perder um pouco de pão certo que teria lá para o fim do verão.

Chiquinha, que estivera sempre a seu lado nos momentos mais criticos da vida, agora se esquivava d'elle, muito reservada em suas conversas, tudo por causa da venda da vacca Amorosa.

A mulher não podia conformar-se com aquelle prejuizo. No dia em que ella a viu sahir mascarada de pasto afóra para o poder do outro dono, quasi se acabou de chorar.

E todas as suas recriminações cahiam sobre o marido que sacrificara o animal melhor e mais bonito que tinham para encher a barriga das lagartas.

João das Neves cada vez mais se abatia com essas desavenças. A casa tornou-se para elle um logar de tortura.

Si a mulher, ao menos, não o criminasse, si lhe désse animo, ainda podia resistir, luctar e mesmo vencer a grande batalha, que em breve seria travada.

Mas assim, nem gosto tinha de viver. O que sentia deveras era o desamor com que Chiquinha o accusava de uma falta toda involuntaria. Querer criminal-o pelos castigos de Deus é que elle não podia tolerar sem revolta.

Si a mulher estivesse a seu lado, aquelle desastre não teria consequencias. Os poços do rio, as ipueiras e lagoas estavam cheias de peixe. A mandioquinha, embora pouca, sempre daria alguma farinha, e um anno depressa se passa.

Tudo era a Chiquinha estar aluada. <marca num="1" pag="189">

Birras do pai, que era da outra banda, portanto teimoso como burro.

O verão apertou, e com elle as necessidades da casa. 



<nota num="1" pag="189"> Synonimo de amuada. </nota>



Chiquinha não esmoreceu em face das eventualidades climatéricas que surgiam, e, com um valor indomito de leôa, poz-se na defeza dos filhos. A seára estava perdida, Deus havia permettido que as plantas morressem de sede, mas este mesmo Deus havia feito os peixes produzirem assombrosamente, impondo assim ao homem a crença na lei fatal das compensações.

João das Neves, quando presentiu que a fome se aproximava dos filhos, desterrou de vez de sua mente todas as ideas que o amolleciam, apagou de sua alma todos os resentimentos da mulher, e poz-se, ao lado d'ella, trabalhando na mesma obra de salvação.

Chiquinha, embora o seu estado adiantado de gravidez, ia todas as manhãs, de landoá <marca num="1" pag="190"> ás costas, pescar nas ipueiras. E que sagacidade atávica tinha ella!

Conhecia os poços piscosos só pela tona d'agua. Ainda mais: sabia a casta de peixe que habitava os rios e as lagoas pelo borbulhar da superficie destes aquarios.

Nunca se enganava, quando mergulhava o landoá era em cima da cama dos peixes, e a rede vinha cheia. Em toda aquella ribeira era a mulher mais pescadeira que havia.



<nota num="1" pag="190"> Pequena rede de pescar. </nota>



João das Neves, pelo seu lado, não perdia tempo, aproveitava todos os recursos naturaes que se lhe apresentavam. Já tinha feito o grande sacrificio de limpar a mandioca, trabalho este que fez, só Deus sabe com que constrangimento! só o amor aos filhos seria capaz de fazel-o voltar ao roçado, de por a mão outra vez naquella terra, de lavral-a, quando elle tinha jurado no auge do mais justo desespero, derramando as mais sentidas e abundantes lagrimas, que nunca mais sua enxada cavaria aquella terra ingrata, que jamais o suor de seu rosto a tornaria fecunda. Por amor dos filhos elle quebrou o juramento.

A discordia entre elle e a mulher havia-se acabado de todo. A aproximação do perígo os tinha unificado, e a communiclade de obrigações, de ideas, tornado mais amigos do que eram dantes.

João das Neves explorava a caça com excellentes resultados. Furava a matta em todos os rumos, como umselvagem. As suas armadilhas, feitas com muito engenho e astucia, pagavam-lhe bem o trabalho. Raro era o dia em que não amanheciam preás o tatús nos fojos. Os quebra-cabeça, mondés e arapucas lhe davam quotidianamente juritys e nambús. Este novo genero de vida desenvolveu no mestiço qualidades que até então não se tinhan revelado. A sagacidade dos seus avôs indios, aquelle faro do selvagem egual ao do cão, resuscitaram n'elle e fizeram-no em pouco tempo o mais astuto caçador d aquellas paragens. Vivia contente não só porque trazia farta a familia, como pelo constante entretenimento de seu espirito. Não tinha tempo de relembrar o desastre passado e nem tão pouco se lembrava das eventualidades do futuro.

Absorvido de todo, ou antes, dominado pela paixão da caça, só cuidava no presente tão farto de emoções, que tanto lhe deleitavam a alma e tão de accordo com os seus nervos de indio. Assim embebido nesse viver, passava semanas inteiras guardando somente os domingos e dias santificados para ir á missa na villa, mais pela necessidade de fumo para o cachimbo do que para servir a Deus. 

Em um desses passeios a novidade que encontrou, a ponto de alarmar a freguezia inteira, foi a chegada do paroara <marca num="1" pag="192"> José Simão. Elle o viu na egreja na occasião da missa e não o teria reconhecido si não lhe dissessem. Nada parecia com o retirantesinho magro e maltrapilho que embarcou na secca de 77 para o Amazonas. Agora estava um caboclo entruncado e bem vestido como um homem de respeito. 



<nota num="1" pag="192"> Cearense que emigra para a Amazonia, e volta depois ao Ceará. </nota>



João das Neves, logo que lhe contaram no patamar a historia do paroara, e o mostraram, não o perdeu mais de vista. Fazia-lhe uma confuzão no juizo aquella transfiguração. Um molengas de um empalemado, que nunca foi homem para elle, estar assim vestido de roupa boa, correntão de ouro, chapeo de sol, era um facto que o desorientava.

Como elle, todos da villa estavam espantados. Já tinha ouvido diversos commentarios que muito abonavam a riqueza do paroara e a sua posição.

E não exaggeravam, reparara que o vigario tinha vindo com elle para a egreja, ambos conversando de hombro a hombro. Quem se atreveria a privar assim com o cura, não por elle, que era humilde como um santo, mas pelo mundo, a não ser um homem de grandes cabedaes?... 

José Simão ouvira missa ajoelhado nos degráos da pequena escada que sobe para o altar-mor, onde elle só viu se ajoelhar o senhor bispo quando andou ahi em visita á frcguezia. Os seus ares de importancia e o seu correntão de ouro attrahiam sobre a sua pessôa todas as vistas e todos os pensamentos. Um murmurio de cochichos se espalhava em todos os angulos da egreja numa onda de um sussurro tão doce, como o tranquillo ressonar de uma creança. E aquelles commentarios, que mal sahiam dos labios e quase nãotocavam o ouvido do visinho, se completavam com os olhares, que cahiam em cheio sobre a figura do paroara. 

João das Neves, que nunca havia tido inveja,começou a sentir que o ar de importancia e sobretudo a vestimenta de José Simão estavam lhe fazendo mal.

Acabada a missa, como arrastado por uma força occulta, acompanhou o paroara que ia levar ao baptismo uma creança.

Durante a ceremonia, não tirou os olhos delle, numa rigorosa analyse.

As attenções do sachristão offerecendo ao padrinho uma vela muito enfeitada, e a capa de asperges que Mourão vestia para dar mais solemnidade ao acto, e isso somente em consideração ao José Simão, acabaram de rallal-o de inveja.

Concluido o baptismo, o paroara sacou do bolso da calça um rolo de notas do Thesouro, que abriu de um modo ostentoso, e folheava muito a vagar procurando naquelle livro de cédulas grandes uma de menor valor.

João das Neves quasi se assombrou quando viu a riqueza do patricio. Os curiosos, que se haviam reunido em roda da pia somente para mirar o paroara, ficaram todos boquiabertos vendo tanto dinheiro.

Si a sua admiração era grande, maior foi ainda quando José Simão pagou dez mil reis pelo baptisado e deu mais dois de gorgeta ao sachristão.

Esta generosidade não era nada comparada com as muitas que se contavam na villa. Só ao vigario, para comprar uma lampada para alumiar o Santissimo, havia dado duzentos mil reis! Esmolas de dez tostões a pobres de porta não tinham numero. Ao compadre novo acabava de situar, com vinte vaccas paridas, e um lote de bestas. E ao afilhado, para começo de vida, mandara ferrar quatro garrotas famosas. Tudo fazia elle sem ser por interesse ou parentesco. Na freguezia não tinha siquer adherentes. Viera a terra por ter saudades d'ella e mesmo para ver si achava gente que quizesse ir com elle, dizia a quem lhe extranhava a visita a um logar onde já nem tinha parentes.



</div>



<div "CAPÍTULO XXII">



XXII 



O samba do baptisado corria animado. José Simão não desmentia a fama de generosos, de gastadores, que muito justamente gozam os paroaras. As despesas da festa corriam por sua conta. Quando o baptisado sahiu da igreja foi a sua vaidade muito lisongeada com a procissão que desfilou acompanhando-o. Até o vigario lhe dera a honra de ir a seu lado levar o baptismo á casa.

José Simão não cabia em si de contente. Para abrigar a creança ia de chapeo de sol aberto, o que bastante captivou o compadre e admirou a todos do acompanhamento. Era um rico sem bondade, <marca num="1" pag="197"> diziam como o maior elogio áquelle acto. 



<nota num="1" pag="197"> Preconceito. </nota>



Ao chegarem a casa, uma pequena morada de porta e janella nos suburbios da villa, o paroara teve a mais agradavel das surprczas. Ouviu-se um ronco de bombo e a música do logar choramingou uma walsa, meio estropeada, peloscinco instrumentos que compunham a banda, todos desafinados. Alguns foguetes subiam e estouravam no ar. Os guinchos do clarinete de quando em vez quebravam a já pouca harmonia da peça e o mestre da orchestra, que soprava o baixo revirava para o companheiro os seus olhos esbugalhados num olhar de enforcado.

José Simão estava contentissimo. Aquella ovação meio encomendada o lisongeou tanto que se enfrentando com a música os olhos se lhe marejaram, d'agua. Era uma alta e significativa prova de apreço aquella, que o confundia commovendo-o ao mesmo tempo.

A salinha tão depressa se encheu como se esquentou com o vapor que sahia dáquelles corpos quentes do exercicio e do sol. Um cheiro picante de suor de gente mal asseiada e mestiza, misturado a catinga de gordura rançosa e levemente aromatisada de patchouly fundia-se num fartum nauseante, que enjoaria a qualquer creatura medianamente educada.

José Simão todo obsequioso despensava attenções como se fóra o dono da casa.

Na falta de melhor assento trouxe uma tripeça para o vigario sentar-se, mas que este recusou bondosamente temeroso de afogar-se na onda tepida da sala mais densa na visinhança do chão.

João das Neves encorporado ao ajuntamento e imprensado na multidão num canto não tirava os olhos do paroara. As manifestações de apreço que o patricio recebia o desorientavam. Era baratear muito as honradas, pensava. Se a um paroara prestavam aquellas homenagens, o que fariam ao senhor bispo, quando viesse fazer a sua visita?!

Mourão não aguentando mais a quentura da sala e o fartum della despediu-se e sahiu. 

José Simão acompanhou-o até a porta significando-lhe a sua gratidão pela bondade que tivera acompanhando o baptisado.

O pateo da casa ensombrado por uma latada de folhas de catolé regorgitava de gente, que ali estava mais com o interesse do privar com o paroara do que mesmo de beber e de sambar.

Quando o vigario passou todos só descobriram e a música estropeou um dobrado. Manifestavam assim a veneração que tinham por aquelle santo homem, que para todos ainda os mais desgrasados tinha sempre uma palavra de consolo. 

Logo que o cura se encobriu no caminho a festa animou-se.

José Simão com uma garrafa e um copo servia vinho, um zurrapa muito ordinario, mas que os convidados achavam excellente e bebiam de um sorvo.

A música foi servida em primeiro logar.

O dia estava tão quente que o mormaço entrava até pelas camarínhas. O telhado baixo e fortemente aquecido reverberava uma onda tão calida que a sentiam ardente aquelles rostos esbrazeados pelo vinho e pelo ajuntamento. O effeito do alcool nos estômagos vasios não se demorou muito. A mó de gente fracturou-se e se espalhou em grupos por dentro e por fóra da casa. A loquacidade contamiou-os e ouvia-se de todos os cantos um pairar continuo mesclado de gostosas gargalhadas.

Ninguem se entendia naquella turba-multa uma hora depois de terem bebido a saude do padrinho.

O mestre da música querendo retirar-se tocou a peça da despedida ainda mais estropeada do que as outras, e no fim soltou os vivas do estylo, ao capitão José Simão.

Um uivo rouco da multidão, um vivo cheio e prolongado acompanhava a saudação e ia echoando de floresta a fóra até se acabar de todo nos confins da matta.

O paroara assim acclamado não se demorou em sahir fóra. Appareceu radiante de contentamento. Nesses momentos de intima satisfação perdoava as agruras do clima do Amazonas, as angustias que lá padeceu, supplicios de toda a casta, uma vez que tinha a bolsa cheia e via incensada a sua vaidade de tolo presumido. Deante de semelhante apotheose a sua philantropia não podia ficar indifferente. Ainda uma vez o dinheiro mais lhe firmaria o crédito entre os seus compatriotas. Tirou do bolso com um gesto de grande ufania o rolo de cédulas, aquelle rolo que tanto seduzia o povo, e o folheou a vagar até que encontrou uma nota de vinte mil reis. Tirou-a e deu-a ao mestre da música a quem agradeceu o favor e louvou a bizarria.

João das Neves, que estava um pouco quente de vinho não se conteve com a segunda exhibição do maço de cédulas; chegou-se ao paroara e batendo-lhe familiarmente no hombro perguntou-lhe:

-- Hein, José Simão, você a mode que não me conhece, o João, filho do Chico das Neves morador lá na Fermoza?!..

-- Home é você?! perguntou o paroara apertando com effuzão a mão do patricio.

-- Todo inteiro...

Em roda dos camaradas que se haviam reconhecido formou-se immediatamente um ajuntamento. 

José Simão achou o momento opportuno para dar começo ao negocio único que o havia trazido ao torrão natal, agenciar seringueiros. Mestizo bastante intelligente, descendia de um italiano vendedor de tachos e de uma cabra brazileira, mulher da vida airada. Havia perto de vinte annos que estava auzente; tendo resistido ao paludismo do Amazonas apenas se queixava de uma taboa, dizia elle, que o tomava da bocca do estomago até debaixo das arcas. <marca num="1" pag="202">. Para saber-se que elle era doente do baço ou do figado bastava olhar-lhe a côr terrosa da pelle, mormente a do rosto, que se communicava ao branco do olho de leve o amarellecendo. No mais parecia sadio. O andar é que era um pouco pesado e tinha os hombros um tanto arcatuzados. <marca num="2" pag="202">

Fitando o Neves com interesse José Simão perguntou-lhe :

-- Como vai você por aqui?

João com uma eloquencia desusada relatou os desastres de que havia sido victima e em algumas passagens deu a sua narrativa tal intensidade de colorido, imagens tão bem achadas, expressas em uma linguagem toda pittoresca, que não pareciam geradas em tão inculto cerebro. Apostrophou o sol, com tanta vehemencia, que assombrou os ouvintes. Invectivou a terra chamando-a de madrasta, peior ainda do que a cascavel. Esta cobra come os filhos ao nascer, pequeninos, e o Ceará faz peior do que ella, deixa crescer os filhos para comel-os depois de grandes. 



<nota num="1" pag="202"> Falsas costellas. </nota>

<nota num="2" pag="202"> Levantados. </nota>



José Simão ouviu-o meneando a cabeça com ar commovido. Quando o Neves calou-se, quando acabou a sua amargurada queixa, o paroara fez uma curta narrativa de sua vida no Amazonas. Maior apotheose não se podia fazer a uma terra. Em sua linguagem rude começou a glorificar o clima e a uberdade do solo. Aqui, a secca torrando as plantas, esgotando as fontes; lá, agua por toda a parte, o rio-mar correndo com uma estupenda magestade centenas e centenas de leguas, alimentado por milhares de tributarios, que serpejam á sombra de crescidas e copudas arvores e se lançam nelle, que, como um océano fluviátil rola indolente até topar com o mar. Os recursos naturaes acham-se profusamente espalhados. O homem para comer não precisava trabalhar. A caça não era miuda como a d'aqui, era grande e em tal abundancia que não se dava vencimento.

Havia tatús do tamanho de bois e veados grandes como cavallos. O peixe boiava em cardumes á tona d'agua nos mais mesquinhos igarapés. Bastava um lance de uma tarrafa pequena para dar comer á uma familia grande. A terra não tinha canceiras, nem precisava das chuvas do céo para produzir. Dava todo o anno. O milho, o feijão, o arroz colhiam-se de secca e de inverno. A mandioca em tres mezes tinha raiz boa de desmanchar em farinha.

Qualquer espogeiro <marca num="1" pag="204">. lá dava mais futuro do que uma lavra de quinhentos passos aqui. Não era isso ainda tudo. Ter a barriga cheia era bom, mas a bolsa tambem ainda era melhor. Qualquer caboclo ruim de serviço, mesmo lombando, tirava na roda do dia cinco kilogrammas de borracha, que o patrão, embora estradeiro, <marca num="2" pag="204"> comprava por vinte mil reis. Aqui o trabalhador mais famanaz, <marca num="3" pag="204"> alugado, o maior jornal que ganhava, era oitocentos reis e isso a secco.

A fartura do Amazonas debaixo do ponto de vista da alimentaçãoe mais ainda a diaria de vinte mil reis aos maiores preguiçosos, teve um poder suggestivo tal sobre os homens que ouviam o paroara, que este ao terminar a narrativa, sem lhes dirigir o menor convite já os tinha promptos para seguirem para o Amazonas. 



<nota num="1" pag="204"> Roçado pequeno. </nota>

<nota num="2" pag="204"> Velhaco. </nota>

<nota num="3" pag="204"> Famoso. </nota>



José Simão passou o resto do dia aobsequiar os convivas com aguardente, aluá <marca num="1" pag="205">e café. Nos intervalos das libações contava algum facto alegre da terra da borracha tendo sempre por norma o mesmo thema, a glorificação della. Os casos de rapazes pobres que haviam enriquecido em pouco tempo, eram sem conta. As horriveis tragedias representadas diariamente á sombra daquella floresta secular, as luctas de morte entre o cearense e o indigena, as doenças de toda a casta, tendo por causa o paludismo, as offensas á liberdade em uma região afastada dos centros civilisados, onde a lei é a vontade do forte, as pragas de toda a natureza a flagellar o seringueiro dia e noite, José Simão que tudo isso havia soffrido, calava, na esperanza de obter pessoal que o acompanhasse.

A narrativa fiel de todas as desgraças a que se expõem os emigrantes que vão tentar fortuna nos seringaes, entretanto, não influiria absolutamente no animo da gente que o ouvia fascinada como estava pelo rolo de notas do thezouro ganho tirando borracha.

A idea de adoecer por lá, de morrer mesmo, nem sequer lhes incommodava o espirito.



<nota num="1" pag="205"> Bebida fermentada de milho. </nota>



Aferrados sectarios do fatalismo, quando alguem ponderava sobre a insalubridade do clima, respondiam convictos -- tanto se morre aqui como lá.

Assim o que poderia contel-os? A patria, a familia? Não. Da terra tinham amarguradas queixas por lhes negar o pão. Em seu egoismo brutal abandonavam a esposa, os filhos, cuja crueldade do acto não avaliavam tal era a obcecação do espirito delles.

João das Neves não deixou mais José Simão; acompanhava-o como a propria sombra.

Logo que se fechou a noite, começaram os preparativos do samba. Tres tocadores de viola sentaram-se sob a latada e afinaram os instrumentos. José Simão completaria a orchestra com a sua harmonica. Antes de oito horas da noite quasi toda a população da villa se achava na festa do paroara. Umas cincoenta caboclas novas, de Côcos enfeitados de cravos de defuncto, com casacos de cassa de flores de côr, a élite plebéa emfim, sentadas em bancos formando um quadrado, davam áquella festa campezina um realce de uma belleza toda indigena.

José Simão de quando em vez relanceava os olhos para as caboclas e comparava a abundancia de mulheres aqui com a pobreza dellas no Amazonas. Se esta fartura fosse lá as agruras daquelle viver de selvagem seriam um pouco mitigadas pelas caricias femininas, pensava, fitando as morenas, cujos olhos pretos e travessos o olhavam a furto.

José Simão, como o dono da festa, havia comprado, alem de outras cousas, uma ancoreta de vinho branco P R R, um zurrapa que difficilmente seria tragado por gente civilisada, mas que elles saboreavam como um néctar divino. Depois de fartas libações de vinho, servidas cortezmente pelo paroara o samba começou.

As violas espalharam as suas harmonias num saudoso baião acompanhadas pela harmonica. As notas da música popular vibraram nos nervos de toda aquella multidão despertando o mesmo sentimento, um desejo imperioso de dançar. As caboclas remexiam-se nos assentos e os homens gingavam num pé e noutro.

João das Neves meio quente de vinho, derreou o chapeo para atraz e entrou na roda estalando castanholas e sapateando no compasso da música em frente aos tocadores. Dançou alguns minutos saracateando-se todo num meneio airoso e depois relanceando os olhos para as caboclas sahiu sapateando para perto dellas e atirou duas castanholas na morena que havia escolhido mentalmente para com elle dançar.

A cabocla, acceitando o convite, levantou-se com donaire e suspendendo um pouco a saia no cós, com requebros nos olhos acompanhou o par, peneirando-se toda e estalando castanholas. 

Os cantadores sentados, tendo a harmonica de permeio, principiaram a louvar. Um delles começou por esta quadra :



<poesia>

De Salomão a sciencia 

Eu seio <marca num="1" pag="208"> toda de cor. 

Pai e mái é muíto bom, 

Barriga cheia é melhor. 

</poesia>



O outro respondeu-lhe immediatamente com uma voz não menos entoada e cheia: 



<poesia>

O ovo tem duas gemmas, 

Uma branca e outra amarella;

A pinta que o gallo tem,

O pinto nasce com ella.

</poesia>



Depois de cantarem mais algumas quadras começaram a louvaminhar José Simão. Emprestaram-lhe todas as virtudes dos bons e todas as energias dos fortes. 

O paroara nessa festa de aldeia entre gente inculta que o cobria de adulações, era uma miniatura perfeitissima dos presumidos cultos, porem futeis, dos centros civilisados, que empavonados em seu throno de impostura se deixam incensar pelos bajuladores, que lhes conhecendo o fraco, exploram proveitosamente essa qualidade tão commum na besta humana. 



<nota num="1" pag="208"> Corrupção de sei. </nota>



João das Neves depois de dançar alguns minutos sentou-se e a cabocla com quem bailava procurou par atirando no primeiro homem que os seus olhos encontraram na roda.

O mestiço, assim convidado, entrou sapateando e estalando a castanhola.

A dança continuou se revesando as figuras de modo que em frente aos tocadores esteve sempre um par dançante até o fim do samba.

Da meia noite para o dia cresceu a animação.

O alcool era o principal factor daquelle subdelirio.

O sapatear já não tinha a antiga cadencia; as patas dos dansadores batiam pesadamente no chão. Tinham perdido os meneios graciosos de seu saracotear. As proprias caboclas, que tinham bebido menos, não se peneiravam com aquelle donaire do começo da festa, fosse por cançasso ou por suggestão.

Os cantadores, já muito babosos, com a voz limito irrastada, recitavam a casto as quadras, que estropeavam, não improvisando mais.

Os tocadores quasi bebedos, não sahiam do compasso mais pelo habito de tocar aquella música do que pela consciencia do que estavam fazendo.

Assim levaram até que chegou o dia. A luz do sol trouxe aos raros que estavam em estado de pensar a noção do dever. Calaram-se as violas, os cantadores, e deu o ultimo sopro a harmonica do José Simão.

O paroara agradeceu a todos e a quasi todos lembrou o dia da viagem, que seria sem falta na proxima quarta-feira pela manhã. Aos casados adeantava dinheiro e aos solteiros offerecia roupa.

Assim se acabou a festa que perpetuaria na memoria daquella gente a generosidade de José Simão e iniciava a emigração dos habitantes dessa freguezia dos confins do Ceará para a ubérrima e pestífera Amazonia.



</div>



<div "CAPÍTULO XXIII">



XXIII 



U ma manhã clara e quente, sem nuvens no céo, gosavam os festeiros, que meio embriagados de alcool e de somno seguiam caminho de casa.

João das Neves estropeado de dançar caminhava ainda aturdido com as riquezas do paroara , a quem promettera acompanhar. Pensava agora no caso, que era muito serio. Tinha que abandonar a familia, deixar os filhos, todos pequeninos, á guarda de uma mulher, que estava no mez de parir e portanto precisava ella propria ter quem della cuidasse e lhe d ésse comer, 

O mesmo pensamento, que enchia a cabeça de João das Neves, tinham os companheiros que se haviam engajado para trabalhar no Amazonas.

Os casados estavam todos nas mesmas condições do Neves, com igual fortuna e os encargos de familia; nem por isso pensavam na miseria que em sua ausencia lhes entraria em casa.

Os solteiros, muitos delles de casamento justo, pensavam na viagem com muita satisfação, com grande desamor á terra e ás noivas, que ficavam.

Na loucura de emigrar, de chegar depressa ao eldorado, de enriquecer sem trabalho, seguiam completamente indifferentes a todas as bellezas do torrão do berço, a todos os affectos d'alma. Muitos tinham acerado os roçados, que abandonavam, olhando agora com desdem para as picadas abertas onde o mato derribado se estorricava mordido pela soalheira. Passavam pelas capoeiras onde o algodoeiro em flor salpicava de corollas amarellas os seus massiços de folhagem, onde a mandioca verdecia levantando camalhões da cova, radiando a terra com o dorso das raizes ; todas essas promessas de abastança eram nada comparadas com as riquezas que os esperavam no rio-mar.

Aquellas plantas amigas que tantas vezes lhes tinham dado o fio com que teciam o panno dos vestidos, que eram o pão quotidiano da meza delles, agora recebiam um olhar de mordaz ironia!..

Dominados pelos ideaos das grandezas da Amazonia suggeridas pela narrativa do paroara, em uma completa cegueira do espirito, já não podiam viver na terra delles tão cheia de bellezas, desdenhosos olhavam o eco, que achavam feio e triste, e a floresta egual a uma enfezada capoeira!..

João das Neves chegou a casa já dia alto.

Chiquinha veio ao encontro delle cheia de cuidados á indagar a causa de sua demora.

-- Não foi nada, mulher, disse-lhe olhando-a com uns olhos medonhos, cujo branco era uma posta de sangue.

E sahiu caminhando para a camarinha, onde se deitou e adormeceu profundamente logo que se estirou na rede. O resto do dia e a noite inteira não deu accordo de si. Pela manhã de terça-feira despertou com as ideas ainda um pouco baralhados. Os episodios do samba, os seringaes do Amazonas, o rolo de cédulas de José Simão se confundiam num quadro só, que lhe ficou bem gravado na mente. Ergueu-se da rede e sahiu fora. O corpo lhe doia todo; estava tão moído de enfado que lhe parecia vir chegando de uma jornada longa e a pé. Espreguiçou-se repetidas vezes, bocejou, pigarrou para desentopir a garganta meio fechada por uma mucosidade peganhenta e escura, que uma vez escariada se grudou no taipado fronteiro.

Chiquinha apressou-se em trazer ao marido uma chicara de café de mangirioba, bebida de que havia tempos faziam uso por não poderem comprar o verdadeiro café.

João das Neves logo que bebeu o liquido sentiu o seu effeito tônico. Uma onda de bem estar lhe partiu do estomago e se espalhou pelo corpo inteiro dissipando-lhe a atonia dos músculos, restaurando-lhe a tonalidade dos nervos e restituindo-lhe ao cerebro a clareza do entendimento. De todo em si pensou na viagem com mais calma e menos enthusiasmo. O desejo infrene de tentar fortuna na terra alheia era agora um tanto soffreado por um sentimento, o amor á terra e á familia, que parecia extincto ou pelo menos adormecido nos mestiços pelo nomadismo.

João das Neves lembrou-se da viagem; que deixaria no dia seguinte, quem sabe se para sempre a mulher e os filhos, que ignorando o seu desamor, a sua traição, se reuniam agora em roda delle acarinhando-o as creanças, que tão innocentes lhe subiam pelos joelhos e se lhe abraçavam ao pescoço. Sentiu-se um pouco commovido com as caricias dos filhos e dentro de si revoltarem-se com a sua ingratidão algumas gottas de sangue de outra raça que não era a vermelha. Meio envergonhado da acção que ia commetter, olhava a companheira, aquella boa e valorosa mulher, que havia estado sempre ao lado delle na hora dos, maiores perigos, nos dias das grandes provações que elle ia covardemente abandonar, quando ella mais precisava do seu soccorro, da sua companhia !..

Vendo a innocencia dos filhos, que nem suspeitavam as dores, e a miseria que lhes-ia legar emigrando sentiu que os olhos se lhe marejavam de lagrimas. Uma lucta daquelle ceitil, daquella partícula de sentimento affectivo perdida e desperccbida em meio de paixões, ardentes e tumultuosas, proprias do temperamento do mestiço brazileiro, travou-se nos recessos daquelle espirito inculto. A lagrima tão depressa lhe apontou nos olhos desappareceu e seccou. Vencia ainda uma vez o egoísmo brutal de seus avôs indigenas. A baga de pranto foi um lampejo fulgente das qualidades afectivas; durou um instante como o raio ultimo de uma luz que se extingue.

João das Neves agora nada mais via a não ser o quadro attrahente da bella e opulenta Amazonia com o seu rio-mar a correr magestoso fertilisando centenas de leguas, e a vida feliz á sombra de uma soberba floresta prodiga de fructos e rica de encantos.

Era preciso partir. Antes do sol vindouro alumiar a terra tinha de dizer a familia o adeus da despedida. Lembrou-se de sahir fugido, de anoitecer e não amanhecer, mas repelliu esta idea como incompatível com os seus brios de homem livre. Assim para fazer a mulher sabedora de seu projecto de viagem disse-lhe sem rodeios:

-- Chiquinha, você sabe que eu vou me embarcar ?

-- Credo, João, que doidiça ! !... 

-- Doidiça é um caboclo famanaz como eu morrer de fome aqui !.. Você sabe quem chegou das Almazonas rico de fazer medo? Foi o José Simão, o fílho da Chica Voluntaria. Nem parece o empalemado que embarcou daqui em 77. Está um homem de respeito, de chapeo de sol e correntão de ouro. As Almazonas aquillo é que é terral.. Qualquer cabra mesmo de ruim sahida lá fica rico em pouco tempo. A comida não se compra, vive se perdendo no rio e na matta. O peixe lá é tanto e tão grande que um só uma familia por maior que seja não acaba. Não é esta porqueira <marca num="1" pag="216"> daqui que a gente pega um cento num landoá. Disse-me o José Simão que em certo tempo lá os cardumes são tamanhos que não cabem n'agua e o peixe morre porção tinguijado.

Chiquinha que tinha verdadeira paixão pela pesca e um pendor accentuado para aventuras, herdado do pai, que atraz do eldorado brazileiro tinha deixado a terra delle, escutava enthusiasmada a narração do marido.



<nota num="1" pag="216"> Cousa de pouco valor. </nota>



-- E porque não se vai todos nós, João?

-- Porque mulher não entra lá assim. Primeiro eu vou fazer conhecimento com as gentes, ganho dinheiro, faço casa e volto para levar voceis. Disse o José Simão, que eu, cabra atirado <marca num="1" pag="217"> como sou, em roda de um anno posso ficar meio rico e com posses para vir buscar a familia.

-- E lá ha tanto dinheiro assim, João?

-- Não ha pé de dinheiro, mulher, mas ha pé de borracha que é o mesmo. Um cabra lombeiro <marca num="2" pag="217"> lá faz vinte mil reis por dia na seringa. Agora cuida você que eu só farei vinte ?!. De cem p'ra riba, Chiquinha. Quando eu voltar para levar voceis, com um rolo de cédulas no bolso mais grosso do que o do José Simão, que festa não farão na villa! Vestido de roupa de panno fino, chapeo de sol, brozeguins; correntão de ouro e uma memoria <marca num="3" pag="217"> no dedo até meu padrinho vigario me tirará o chapeo.

-- Eu tambem queria ir com você, papai, disse Manoel, que todo attenção escutava o pai.

-- Você vai, mas é quando eu voltar, agora não que a viagem é amanhã. 



<nota num="1" pag="217"> Activo. </nota>

<nota num="2" pag="217"> Preguicoso.  </nota>

<nota num="3" pag="217"> Annel de pedra.  </nota>



-- Amanhã, João?!...

-- Estamos apalavrados, para sahir amanhã. Você pensa que sou eu só quem vai? está enganada. A fulou <marca num="1" pag="218" > dos homens da freguezia embarca toda com o José Simão.Aquillo é que é um rico sem bondade. Foi padrinho de um baptisado e levou o afilhado em casa debaixo do chapeo de sol delle. A homaria o acompanhou e lá elle deu vinho até correr pelo chão. A noite o samba não foi deste mundo. Sentado junto das violas elle acompanhava com o seu instrumento, a harmonica, chorando fino e chorando grosso. As caboclas atiravam nelle, e você pensa que elle se desprezava de dançar com ellas ? Está enganada, sahia sapateando e tocando ao mesmo tempo que era um gosto.

-- De quem era o baptisado ? perguntou Chiquinha.

-- Do Chico Ferreira lá do Bagaço. Caboclo feliz. Em mentes José Simão foi convidado para padrinho o situou logo no Bouqueirão do Vento com vinte vaccas paridas e um lote de eguas. E não foi tudo, mandou ferrar para o afilhado quatro garrotas de boa sahida. 

Chiquinha deu um fundo suspiro, que resumia toda o sentimento de inveja com que naquelle instante semelhante nova lhe espicaçava o coração.



<nota num="1" pag="218"> Corrupção de flor. </nota>



A João das Neves não passou despercebida aquella manifestação vil do carácter da mulher e continuou:

-- Elle tambem embarcaria meu compadre se você já tivesse parido. Mas já está falado para quando voltarmos para o anno fazer-se o baptisado.

Assim levaram marido e mulher conversando o resto do dia na viagem. A situação de Chiquinha era por demais critica, mas ella não se apercebia de seu estado e animava o marido na esperanza de vel-o em breve regressar muito rico.

O adiantamento de cincoenta mil reis que fizera o paroara e que João das Neves a ella entregara sem gastar um real, dizendo-lhe que guardasse para comer durante o resguardo do parto, daria outro destino, o resgate da sua nunca esquecida vacca Amorosa.

A noite agazalharam-se mui tranquilamente como se elle não tivesse de partir pela madrugada para uma viagem de centenas de leguas, cheia de perigos, e ella não ficasse no maior desamparo, cercada de filhos pequenos sem recursos e em dias de dar a luz.

Dormiram até a primeira cantada do gallo. Quando o crista de rosa soltou pela terceira vez da comieira da casa o seu cocóróco já João das Neves tinha desarmado a rede, que arrumou com a pouca roupa que possuia em uma maca de couro de carneiro.

Chiquinha havia tambem se levantado e fazia fogo na casinha para coar uma chicara de cafe de mangirioba.

Quando o marido acabou de se arrumar, o cafe estava prompto.

João das Neves calçou as alpercatas, metteu a faca nos cós das ceroilas, pendurou a maca na extremidade de um cacete curto que.poz ao hombro, e assim equipado estava prompto para" furar mundo, tirar até vinte leguas por dia caso fosse preciso.

Chiquinha vendo-o preparado para a jornada, trouxe-lhe a bebida fumegando de quente.

O mestizo recebeu o vaso, mas antes de 1eval-o a bocca cuspinhou por entre a sua dentadura de piranha uma saliva escura, emquanto os queixos e a lingua num movimento rápido escondiam entre os dentese a bochecha de um dos lados a mecha de fumo meio mascada. De alguns sorvos bebeu o café e mui placidamente entregou a chicara a mulher dizendo-lhe sem a mais leve commoção na voz:

-- Adeus, Chiquinha.

-- Adeus, João, respondeu-lhe a mulher meio engasgada por um soluço, que precedeu a umas quatro escassas lagrimas.

João das Neves sahiu ás topadas de estrada a fóra em rumo da villa. Obcecado pelas fabulosas riquezas do Amazonas não pensava senão em encurtar a viagem, diminuir o tempo, e apressaro momento feliz de pisar aquella abençoada terra, que ubérrima e prodiga não nega os fructos de suas entranhas ao cultivador, nem tem canceiras, nem ingratidões. Dominado por estes pensamentos, o caboclo marchava a passos largos na treva, que envolvia tudo, procurando afastar-se mais e mais da terra que o havia creado, amaldiçoando-a em seu foro intimo como a uma madrasta desalmada. 



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<div "CAPÍTULO XXIV">



XXIV



Ao quebrar das barras, quando os primeiros rubores da aurora nacaravam o oriente, José Simão acompanhado de sua leva de engajados deixava a villa em que nascera.

Montado em um quartau possante, com ares de soberano acarinhava a idea do seu triumpho transviando aquelles espiritos simples, muitos dos quaes tinham sido seus companheiros de infancia, e elle, como um fratricida, seduzira com falsas promessas e os levava, não para lhes dar o que promettera, mas para captival-os.

Nas physionomias de todos aquelles cincuenta homens não transparecia um vislumbre de constrangimento, de saudade! Todos elles haviam deixado familia e partiram se despedindo della como fizera João das Neves.

A pé, de maca ás costas, seguiam cercando o paroara, que refestelado na sella continuava a sua propaganda narrando as maravilhas da bella Amazonia.

Nos espiritos obcecados dos ouvintes não se levantava uma duvida sobre e el-dorado, nem tampouco podia medrar uma saudade da familia, nem da terra que deixavam.

José Simão dizia-lhes ser lá o maior propietario de seringaes. Possuia mais de vinte centros com perto de quinhentas estradas. E que campos tinha elle em suas terras!

Varzeas extensas como as daqui, porem mais bellas porque são ornadas de popunhas, palmeiras mais bonitas do que a carnahubeira cearense onde a tarde o yrapurú solfeja e a passarada se reúne a roda delle attrahida pelo seu cantar.

João das Neves e os companheiros tão enthusiasmados estavam com as popunhas e com o yrapurú que o canto da graúna já não achavam harmonioso e nem bellezas tinham os carnahubaes. 

Entravam em uma varzea precisamente quando José Simão falava nas campinas do Amazonas.

A perspectiva daquelle campo subitamente aberto no coração da matta foi bastante para deslumbrar o paroara.

Que formosa varzea ! como é differente da escura e soturna floresta de lá! Absorto na contemplação daquella primorosa paizagem, que deixara de ver desde que sahiu do Ceará, mal poude concluir a glorificação do yrapurú. Para maior embevecimento de seu espirito rumorejava a brisa docemente nos leques do palmeiral, dedilhando as abertas ventarolas, das quaes tirava um murmurio suave de garoa, que numa onda harmoniosa e ligeira enchia a veiga toda.

Uma graúna pousada na ponta da lança da mais alta carnahubeira se embalava cantando a sua gamma aguda de trinados.

O paroara todo embebido escutava o canto e mirava a ave ,que vista do chão parecia uma estrella negra vacillando no azul do céo.

José Simão em seu foro intimo, lá onde ninguem podia penetrar e ouvil-o, deificava sua formosa terra, onde o firmamento é sempre anilino e claro, as varzeas tem carnahubaes e graúnas que as alegram com os seus cantares. Possuido de enthusiasmo pelas bellezas campezinas daquella natureza agreste exclamou mentalmente:

-- Ah ! minha terra !... como eu te quero bem !...

Se não fosse a difficuldade de ganhar o pão aqui, dizia comsigo, quem deixaria este paraíso por aquellas brenhas onde tudo é triste como um cemiterio!.. Acreditava não amar a terra porque a tinha deixado creança, mas as bellezas della reviviam nelle a affeição, que julgava não existir. Voltava ainda aos seringaes, áquelles sorvedoiros de gente, porque precisava ganhar mais alguma cousa para voltar de vez e se estabelccer aqui. Emquanto atravessaram a varzea, José Simão esteve calado.

João das Neves, que caminhava atraz delle com a mão na garupa do cavallo, de quando em vez lhe fazia uma pergunta sobre o Amazonas, mas elle ou deixava sem resposta ou respondia com um monosyllabo.

Quando entraram de novo na matta o paroara animou-se um pouco e proseguiu em sua obra, não com o ardor com que havia começado. 

Tinham que andar quarenta leguas até Baturité, onde, para economizar gastos em passagens, iria José Simão tomar o trem da via-ferrea para a capital.

Em quatro dias fariam esta viagem, que não era puchada, pelo contrario era bem regular. Qualquer tangerino <marca num="1" pag="226"> tira dez leguas por dia sem se cançar. A travessia fizeram sem incidentes. Quando não encontravam casa a hora de pernoitar, dormiam no matto. Iam contentes porque José Simão levava boa e farta matalotagem e elles de barriga cheia não pensavam naquella vexada migração.



<nota num="1" pag="226"> Homem queconduz boiada. </nota>



O repertorio do paroara em casos felizes na terra da borracha era inexgotavel. Sempre no meio da historia o maravilhoso, isso para Ficar mais ao gosto delles.

No ultimo dia de viagem testemunharam uma scena na fazenda Cafundó, que os teria moralmente anniquilado, se elles podessem comprehender a antithese della. O fazendeiro receioso da vida de seus rebanhos pediu retirada a um visinho, onde os campos estavam de engordar. Depois de alguns dias de vaquejada <marca num="1" pag="227">foi o gado preso no cercado e os vaqueiros promptos á leval-o aos novos pastos á uma dezena deleguas dahi.

José Simão e os companheiros pernoitaram no Cafundó e pela manhã assistiram a retirada, a migração do gado.

Os vaqueiros amanheceram na manga. <marca num="2" pag="227"> Mais de uma centena de rezes de todas as edades, machos e femeas, tinham que reunir no curral.



<nota num="1" pag="227"> Acção de botar o gado do campo para o curral. </nota>

<nota num="2" pag="227"> Cercado de grande extenção. </nota>



A grande boiada, perseguida por aquelles homens destemidos, encoirados, a cavallo, não tardou a embocar na porteira, que communicava o curral com a manga. As rezes, magras em sua maioria, de pello arrepiado, arfavam de cançadas. Nos garrotes é que mais se accentuava a miseria da pastagem: todos barrigudos, pareciam hydropicos.

Começaram os aprestos da partida. Alguns vaqueiros sahiram do curral e tomaram 

posição.

O guia tomou o seu logar e deu o signal de marcha soltando do rude peito a saudosa toada do boiadeiro. Corridos os páos da porteira o gado se precipitou em borbotão para o pateo, ouvindo-se um som cavernoso, todo especial, o embate dos cornos uns nos outros. Em sua ancia de liberdade teria corrido de catinga a fóra se os vaqueiros não tivessem impedido, tomando a frente e ladeando a boiada.

Mesmo com todas essas precauções e cuidados uma rez das mais ariscas espirrou, porem não chegou á entrar na catinga ; um vaqueiro derribou-a ainda no pateo obrigando-a a voltar á manada. 

O rebanho desenganado de illudir a vigilancia dos vaqueiros aquietou-se e de todo submettido acompanhou o guia, que marchava a passo embriagando-o com a sua saudosa toada.

Aquella muzica, de tão dolentes accordes, não tardou em ser acompanhada pelo pranto do gado. As rezes todas de cabeça inclinada cheiravam a terra se despedindo della gemendo em coro numa tristonha urradeira. O instincto lhes dizia que iam caminho do exilio, e suas almas de brutos sentiam tanto aquella separação, uma saudade tão funda dos patrios campos, que as lagrimas lhes cahiram dos olhos. Aquelle gemer longo e fundo em meio da solidão da matta fazendo coro com a tristonha toada do boiadeiro, era de uma melancolia tão intensa que até as aves se entristeciam e se calavam ouvindo-o.

A boiada seguiu soltando o seu lamentoso urro,dizendo aos campos onde nasceu e creou-se o seu triste adeus de despedida até sahir do pasto. Quando passaram pela derradeira arvore das terras da fazenda, foi serenando o pranto e o gemer das rezes.

Calaram-se, e agora só a toada monótona do guia se fazia ouvir, ainda mais repassada de tristeza, mais commovedora e saudosa. As dores daquelles brutos carpindo tão sentidamente as saudades da terra do berço, teve um poder suggestivo tamanho nos vaqueiros, os commoveu tanto, que elles não podendo reter as lagrimas choravam tambem.

O gado completamente resignado, submettido, como se tivesse entendimento e consciencia, seguia cabisbaixo, dir-se-ia que pensando nas agruras do proximo exilio. A passividade delles, a atonia do instincto deixando-se levar sem resistencia dispensou da tarefa os vaqueiros, que entregando a retirada ao guia e a dois tangerinos voltaram ao Cafundó. Uma creança conduziriaa manada de rezes a qualquer parte, uma vez que assim abatida pelas saudades do pasto nem mais vontade tinha.



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<div "CAPÍTULO XXV">



XXV 



Um berro de locomotiva estrugiu os ares e foi repetido pelas covoadas das serras proximas até se acabar de todo. Um pennacho de vapor vomitado pela valvulada caldeira subia como uma espiral de arminho se ennpvelando na atmosphera.

A machina arfou, rangeram os para-choques afastando-se, os pinos morderam as maniIhas e frouxos os freios moveram-se as rodas e o trem, como uma serpente foi se arrastando preguiçoso nas linhas de ferro, que se estiravam parallelas de chão a fóra. Os arquejos da locomotiva se amiudavam accelerando a marcha do comboio.

Pelo chaminé sahiam baforadas de fumo negro, que ao sabor do vento formavam uma fita preta ao longo dos wagões. Em poucos segundos a velocidade do trem era tal que as arvores e objectos exteriores á margem da linha offereciam á vista a perspectiva de corpos cabriolando em vertigens, que não deixavam destinguil-os. 

José Simão e os companheiros occupavam um wagón de segunda classe. A excepção do paroara nenhum tinha ainda viajado em estrada de ferro. Pelas portinholas do carro espiavam a matta, que a velocidade da corrida empastava numa paisagem esverdeada, sem cortonos e sem graça.

Em breve tontearam e recolhidos evitavam olhar para fóra.

Boquiabertos olhavam uns para os outros e matutavam no caso daquella viagem ligeira, sem ser a cavallo. Na plataforma da estação ja tinham mirado a locomotiva e assustados, quasi correram, quando inexperadamente ella apitou iniciando uma manobra. Os matutos tiveram um estremeção tão forte que os ergueu do chão um palmo.

O que se passava no wagon de José Simão passava-se tambem nos outros wações de segunda classe apinhados de seringueiros com destino á Amazonia.

A propaganda da emigração lavrava por todo o Ceará. Em todas as localidades haviam chegado paroaras dinheirosos, que se conduziam como José Simão, com a mesma linguagem e os mesmos intentos. 

Precisamente ao meio dia o trem chegou á Fortaleza. Logo que entrou nas ruas da cidade a sineta da machina fez ouvir o seu badalar apressado, um toque de rebate annunciando incendio.

Minutos depois a comprida fila de carros se encostava ao longo da plataforma da estação central e abertas as portinholas, uma onda compacta de passageiros mundou a extensa galeria. Aquella mó de gente remoinhava acotovelando-se, querendo sahir toda a um tempo pelas tres portas que davam para o vestíbulo.

Gritos e empurrões, diabos rasgados á bocca cheia, contendo a sucia de garotos, que misturada á turbamulta assediava os passageiros e queriam dois e tres tomarem-lhe a malota para conduzir, era a nota predominante daquella confuza vozeria.

José Semão deixou que esvasiasse um pouco a plataforma para sahir com os companheiros. 

Logo que poz o pé fóra, foi atracado pelos carregadores de bagagem e por tres hospedeiros que vendo-o dentro do wagon e reconhecendo nelle um paroara, gananciosos lhe aguardavam a sahida.

José Simão viu-se abarbado com aquella atracação. Um puchava-o num braço, outro pelo palitot, emfim eram puxões de todos os lados.

Os hospedeiros falavam todos a um tempo disputando a posse do freguez.

Quasi chegaram a vias de facto. Afínal, João Basofia, o mais ladino e esperto delles, conseguiu dar o braço ao paroara e o arrastou para fóra da galeria, lembrando-lhe antigos conhecimentos e a promessa que lhe havia feito de na volta tomar a sua hospedarla.

-- Agora é que tem accommodações decentes para pessoas de respeito como V. S.a.  

Augmentei o numero de quartos para o povo ribabú e fiz alcovas de luxo para hospedes de posição como o capitão. Temos um banheiro de choque do systema moderno como o que se usa em Paris. O serviço da cosinha está esplendido, graças a um cosinheiro que mandei vir da Capital Federal. No dia em que inaugurei as novas accommodações foi uma festa nesta cidade. Dei no salão de honra um banquete a que assistiu o presidente do Estado e toda a elite desta capital. Há de gostar, garanto-lho, do tratamento agora. A sua gente não ficará menos satisfeita, tem espaço para estar a vontade.

E João Basofia, neste diapasão levou o paroara até a hospedaria, acompanhado dos seringueiros. 

Ponciano e José da Hora logo que viram tomado o freguez engolfaram-se na multidão, para a cauda do trem, á cata de paroaras, de que, segundo telegramma recebido, vinha cheio o comboio. 

O movimento continuo de cearenses para a Amazonia e da Amazonia para o Céará desenvolveu a industria dos freges em Fortaleza de um modo extraordinario. O local escolhido para o seu estabelecimento foi as adjacencias da estação central da estrada de ferro de Baturité. Começou por um acanhado botequim onde se vendia café, aguardente, gengibirra <marca num="1" pag="235"> e aos domingos gorda panellada. Pouco tempo depois era um frege com quatro portas, que se abriam em plena praça da Estação, com mesa comprida coberta de oleado na sala da frente e este distico em lettras gordas -- Hospedaria Central -- logo abaixo da cimalha.

O local foi magistralmente escolhido; estava proximo a rampa que vem do porto de desembarque para a cidade e da Estação da Estrada de Ferro. A freguezia era enorme. Em dias de chegada e sahida de vapor a concurrencia era tal que o hospedeiro via-se obrigado a pedir aos visinhos dormida para os hospedes.



<nota num="1" pag="235"> Bebida fermentada, feita com farinha do trigo e gengibre. </nota>



O grande negocio que estava fazendo a «Hospedaria Central» trouxe em breve a concurrencia. O quarteirão ao nascente e o da travessa da Misericordia, que faz ángulo com elle, se encheram defreges, de todas as castas. Alguns asseiados, porem outros immundos, verdadeiros coitos de vagubundos e devassos.

João Basofia, que nesse tempo era barbeiro e eleitor do partido operario, não podendo ficar indifferente aos progressos materiaes da terra de seu berço, dizia elle, deixou a tesoira e a navalha e fez-se hospedeiro.

Abriu o seu frege e desenvolveu em angariar freguezia toda a sua actividade de mestizo ladino e intelligente.

Pernostico e maneiroso captivou em breve as sympathias dos paroaras e a sua hospedaria vivia cheia. Esta preferencia nãotardou a lhe trazer desavenças. O Ponciano foi o primeiro que se azedou com a concurrencia. E dizia muito offendido: 

-- O diabo de um cabra deixar o seu officio para tomar o negocio de antigos e conhecidos hoteleiros!..

João Basofia se mordia com o insulto, mas troçava: 

-- Tinha que ver, um cidadão brazileiro, eleitor do grande e nobre partido operario deixar de acompanhar o progresso de sua terra, deixar de abrir uma hospedaria modelo para receber os seus dignos irmãos que voltam de uma lucta titanica com as febres e as feras da Amazonia, por causa de um negrinho malacafento que eu conheci vendendo taboleiro! Tinha que ver, negar as minhas luzes á terra de Iracema ! E viva a República!...

Os mexericos ferviam entre os hospedeiros augmentando a intriga. João Basofia collocava-se acima de todas estas miserias não queria nivelar-se com a canalha, a qual, dizia com grande philaucia, detestava por não ter ella educação. 



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<div "CAPÍTULO XXVI">



XXVI 



O vapor do Lloyd Brazileiro que vinha do sul devia amanhecer no porto.

João Basofia havia se encarregado de comprar as passagens e de volta da agencia, dizia a José Simão: 

-- E´ um horror qualquer negocio hoje nesta terra. Para tudo é preciso empenho. Se não sou tão amigo do agente, o Guilherme, V. S. a não embarcaria amanhã. Ha mais de seiscentos passageiros para seguir e o paquete só pode receber quinhentos. Vi o negocio perdido, já tinha gente adiantada, mas o chefe me viu e lembrou-se que fui eu e o grande partido operario quem o elegemos vereador da Intendencia Municipal e não teve demora mandou-me servir.

O paroara mostrou-se agradecido e crente da importancia política do João Basofia, que todo serviçal o cercava de cuidados e attenções.

-- Passagens já temos ; e como V.S.a se verá livre do imposto creado pelo nosso antepatriotico governo ?

-- Imposto?!... disse muito admirado José Simão.

-- Não sabe que para fechar os portos a emigração, crearam uma lei <marca num="1" pag="240"> anticonstitucional?! O cidadão cearense não pode mais sahir de sua terra sem pagar uma taxa ao fisco. A sua leva de seringueiros consta de cincoenta homens, pois bem, V.S.a. pagará trinta mil reis por cabeça.

Esta nova fulminou o paroara. Não contava com esta despeza e o dinheiro que tinha em caixa mal chegava até Manáos, onde o correspondente do patrão delle daria a quantia necessaria ao transporte para o interior.

Era isso um desastre de consequencias terriveis. José Simão, que tinha nas veias sangue italiano, astuciou o caso explorando em favor de sua bolsa a philaucia de João Basofia. Se tivesse dinheiro pagaria o imposto á bocca do cofre pois seria lançado a debito dos seringueiros, mas não tendo valeu-se da artimanha e disse: 



<nota num="1" pag="240"> Cada agenciador de seringueiros pagará o imposto de um conto e quinhentos mil reis. </nota>



-- E'um imposto de matar!... não é possivel o senhor arranjar?..

-- Mas é lei do Estado. O nosso partido operario por intermedio de seu representante na assembléa combateu o projecto; mas o que quer? uma andorinha só não faz verão ; passou porque as leis eram feitas em palacio e á vontade do governador. Nos nos oppozemos a esta barbaridade, mas a maioria venceu, e é lei. Um governo que fecha os portos á emigração ao mesmo tempo que consente a destruição de reservatorios importantes como os da Barra-Nova, <marca num="1" pag="241"> Cauhipe e Catú ! Exigencias de amigos políticos que o presidente não poude deixar de satisfazer. Seccar mananciaes daquelles na terra das seccas é um crime, que o governo que o commettesse em um paiz onde o cidadão tivesse noções de seus direitos, onde o povo tivesse soberania seria deposto e linchado. Mas que quer, actos destes acham apoio e são aconselhados por homens illustres, pelos sabios da terra de Alencar!... 



<nota num="1" pag="241"> A Barra-Nova era um lago enorme e muito piscoso a cinco leguas de Fortaleza, feito pelo fechamento da foz do rio Juá. uma barragem de dunas, que os alizeos começaram a fazer nos annos seccos de 1888 e 1889. A massa d'agua crescendo todos os invernos não tardou a adquirir proporções de um grande reservatorio e inundou os terrenos circumvisinhos. Os proprietarios dos sitios ribeirinhos grandemente prejudicados com a invasão d'agua, que a alguns chegou a tomar as casas e afogar os cannaviaes solicitaram do governo do Estado a desapropriação dos seus terrenos mediante indemnisação, que não excederla ao todo acincoenta contos de reis. Este alvitre grandemente proveitoso para o Ceará, pois o dotava com um reservatorio superior em extencão ao do Quixadá, foi combatido na imprensa pelo Dr. Thomaz Pompeu de Souza Brazil, por não se prestar o lago a irrigação. ser um foco de paludismo e os terrenos marginaes esteréis.

Estas opiniões calaram no espirito do presidente de então Coronel José Freire Bezerril Fontenelle, que, sem medir as consequencias d'este grande erro administrativo, som reflectir no attentado de lesa-humanidáde que ia commetter, auctorizou o arrombamento dos lagos, contra a vontade do povo expressa até em <estrang lingua="ingles"> meetings </estrang> e plebiscitos.

Alem do arrombamento dos lagos da Barra-Nova u Catú deu-se o do lagamar do Cauhipe, formado pela barragem feita pelas dunas na foz deste rio.

Accresse que havia no thezouro estadoal saldo de mais de dois mil contos de reis, acumulado graças á economia e honestidade do governo e tambem aos pesados imposto por elle creados. 

Antes de ser commetlido no Ceará o maior attentado deste fim de seculo, o arrombamento dos reservatorios, o Sr. Alfredo de Miranda, agricultor em Cuhipe, procurou o presidente do Estado a quem se offereceu para obter dos proprietários dos terrenos alagados cessão dos mesmos com uma indemnização, que não excederia a quarenta contos de reis. O Coronel Bezerril recusou a proposta, não porque deseonhecesse as vantagens dela, porem medroso de desfalcar o erario que havia enchido, guardava com o mais avaro zelo e a maior gloria do seu governo consistia em entregal-o repleto ao seu successor. </nota>



-- Não apoiado ! berrou do limiar da porta da hospedada o Olho de Boi, um vagabundo, borracho que vinha a cata de boros <marca num="1" pag="242"> dos pairaras. 



<nota num="1" pag="242"> Assim baptisaram os vales emittidos pelas intendencias do Ceará e particulares. </nota>



-- Vá embora, carga d'agua, gritou João Basofia, olhando com desdem para o bebado, que perfilado movia os seus grandes olhos de boi relanceando a vista pela sala toda.

João Basofia, que havia começado a conferencia com José Simão em um canto e em voz baixa, foi se enthusiasmando e agora declamava com uma das mãos no quadril e a outra no ar em postura de mimica.

-- As hospedarias são logares públicos e nellas pode entrar qualquer cidadão, uma vez que não offenda as leis da boa moral, disse o borracho com uma entoação segura, uma enphase que bem mostrava que aquelle espirito inculto possuia dotes innatos de intelligencia e sobretudo de oratoria. 

-- Não quero discursos, ponha-se na rua, senão chamo a policia.

João Basofia ia apitar quando um dos hospedes que almoçava na cabeceira da meza do frege levantou-se e disse:

-- Se for preso, requeiro habeas-corpus. 

E sentou-se.

-- Perdão, doutor, pensei que a presença deste homem incommodava a pessoa de V.S.a, disse o hospedeiro.

-- Das almas grandes a nobreza é esta! disse o Olho de Boi, fitando no doutor os seus olhos de enforcado, e esgueirando-se depois para o fundo da hospedaria.

Era aquella hora a de maior concurrencia no frege. Almoçava-se cá fóra e lá por dentro. Um cheiro de gordura frita enchia a casa toda e derramava-se pela rua.

A comprida mesa da sala da frente estava cheia de paroaras, emigrantes e caxeiros de taverna. Além do crescido numero de hospedes uma malta de pedintes, de vendedores de bilhetes de loteria, de engraxadores, de negociantes de joias, de vendedores de quinquilharias e até um homeopatha com a sua carteira vendendo doses, estorvava o serviço da creadagem, que além de pouca, era bastante lerda e sem pratica do officio.

João Basofia ajudava a servir, mas de preferencia aos paroaras.

Era uma balburdia de entontecer. De quando em vez surgia deante dos olhos dos que estavam á mesa um papel na mão de um pedinte. O ensebado documento aberto oscillava á vista do hospede, deixando bem patentes as suas pretas garatujas, e só era retirado quando o caixeiro da taverna despachava dizendo -- vá adeante -- ou o paroara deferia dando borós. Este modo de pedir, de fazer subscripção era somente das mulheres. Todas se diziam viuvas honestas e traziam no alto de sua petição um attestado do cura da freguezin, que comprovava o dizer da requerente, mas não subscrevia quantia alguma. 

Na porta da hospedaria a curtos intervallos ouvia-se a desafinada cantiga dos cegos esmoléres, que pediam e agradeciam cantando.

Estes patifes exploravam tambem a generosidade dos paroaras, tanto que davam uma volta pela cidade e vinhanr cantar á porta da hospedaria.

Assim quasi sempre se ouvia alli aquella toada antipathica, porque os cegos estavam certos de que não cantariam embalde, dois borós pelo menos receberiam de cada descante.

Exploravam de todas os modos a vaidade fofa dos paroaras, que despendiam até o ultimo vintem comtanto que não fizessem figura triste em sua terra. Alguns gastavam largamente, como se aquelle dinheiro não fosse ganho a custa dos mais arduos sacrificios, sem patria e sem familia, em uma terra de selvagens onde a propria vida estava sempre no mais imminente perigo. Não pensavam nisso. Esbanjavam, com a sua imprevidencia nativa, embora dias depois vendessem a roupa do corpo para comprar passagem de regresso á Amazonia.

Eram tartuficados de mil manciras. Mulheres pedindo esmolas para o casamento de filhas, para o enterraraento de mortos, para alimentação de doentes, e por cumulo de astuta gatunagem, velhos, com cara de frade, pediam dinheiro para pagar portes de cartas a filhos ausentes. Apresentavam o doloso documento fechado num já meio encardido involucro, e recebida a esportula, iam adeante passar nova finta.

José Simão dos que estavam a mesa era a maior victima dos pedintes. Sentado á direita do doutor Vasconcellos, o protector do Olho de Boi e que ainda comia, não levava a faca á bocca tres vezes seguidas. A mão andava-lhe mais para o bolso do que para a bocca. A's mulheres das subscripções dava mil reis, porem depois que ferrava com todo vagar e paxorra o nome delle no papel, cujo sebo fazia o lapis escorregar sem largar tinta. 

José Simão molhava repetidas vezes o lapis na lingua até deixar impresso o seu nome e velacho no documento. Esta operação demorada é que o livrava ele ser alvo de todos os ataques; emquanto escrevia, os pedintes iam adeante.

O doutor Vasconcellos estava admirado da prodigalidade do visinho e do rolo de notas do Thesouro que de quando em vez exhibia. Incontestavelmente a terra da borracha era o el-dorado.A sua pretenção de ir ao Amazonas tentar fortuna cada vez mais se avigorava com as riquezas que de lá traziam esses homens ignorantes e sem a mais ligeira noção de economia. Entendido nas tricas do foro e com uma longa pratica não podia deixar de adquirir uma clientela, que o enrequeceria em pouco tempo. Sem collocação no Ceará ficaria eternamente e quando chegasse a morrer, a mulher e os filhos pediriam esmolas.

Assim ia até Manáos onde lhe diziam haver logar para todos. Uma cidade de aventureiros para onde se encaminhavam os. que se viam sem pão e os ambiciosos. As questões eram sem numero entre os proprietarios de terrenos.

Que gordas prebendas teria! Uma demanda lá por pequena que fosse custaria muito dinheiro. As vezes a justiça comia dez vezes o valor da terra em litigio. Os demandistas eram sempre cabeçudos, e encontrando um advogado ronhoso, qualidade esta peculiar ao officio, a questão não teria fim.

O doutor Vasconcellos era um typo esgrouviado, de luneta, intelligente, mas pobre como um rato de igreja.

Os rolos de notas do Thesouro que os paroaras ostentosamente exhibiam a cada instante o deslumbraram, fazendo-o suspirar pela terra da borracha.

Era preciso começar o tirocinio, privar desde logo com aquella gente, que bem podia ser, tivesse questões no foro.

Para apresentar-se como advogado travou uma discussão com João Basofia sobre o Olho de Boi.

Depois de uma ligeira preliminar, dizendo quem era e para onde ia, entrou no assumpto -- a illegalidade da prisão do vagabundo. Esteve eloquente, porem bestiario.

Os paroaras ouviam-no com attenção e no fim do discurso, ao se retirarem da mesa, diziam uns para os outros: fala com um despreso das lettras que é uma cousa pelo maior!...

Assim firmou o doutor Vasconcellos entre aquella gente a sua fama de bom advogado.



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<div "CAPÍTULO XXVII">



XXVII 



Logo que José Simão sahiu da sala de jantar, foi para o quarto de dormir acompanhado pelo hospedeiro. A questão de que iam tratar pedia grande reserva.

-- Então o que se faz? perguntou João Basofia.

-- Aqui não se usa rachar como em Manáos? em vez de responder, interrogou José Simão.

-- Rachar, isto é, serrar, não é? perguntou o hospedeiro passando a mão direita aberta verticalmente na palma da esquerda. 

-- Sim...

-- Não, os empregados aqui são geralmente honestos. Fazem seus favores, fecham os olhos, mas por amizade e nunca por interesse. Não comem bola como os de lá, não, senhor! A gente é que os agrada, querendo. No caso presente o fiscal do fisco na praia faz que não vé que V.S.a é um agenciador de seringueiros e muito menos que vai embarcar com cincoenta homens para fóra do Estado. Eu que já estou apalavrado com elle, não por peita, já se sabe, quando sua gente começar a ir para bordo, me encosto a elle e metto-lhe na mão uma bruta de duzentos para comprar charutos. E viva a República!...

José Simão estava maravilhado do engenho do João Basofia. Achou que o expediente era bom e auctorizou o hospedeiro a agir conforme os usos da terra. Não procurou saber se realmente existia aquelle imposto, se já tinha sido alguma vez arrecadado e entrado para os cofres públicos e muito menos se os duzentos mil reis para o fiscal não seriam uma patranha do Basofia. O que queria era que o deixassem embarcar, embora o depennassem desde o mendigo das ruas até os poderes públicos com os seus impostos anticonstitucionaes. 

João das Neves e os companheiros ainda se conservavam sob a impressão das fabulosas riquezas do Amazonas suggestionada pelo paroara. A successão de novos quadros em um scenario todo novo, como Fortaleza, não infiuiu nelles, nem tão pouco os arrancou daquelle ditoso sonhar.

Esperam-os, entretanto, dias bem amargos, que talvez os despertem daquelle sonambulismo, com as suas acerbas dores. 

Logo no embarque começaram a se aperceber que o caminho do el-dorado não era a larga estrada de areias brancas, como pensavam, mas uma estreita vereda na crista de agudos alcantis e juncada de espinhos.

O mar furioso se espojava na costa bramindo como uma féra.

Deante daquella iracundia das ondas, que se revolviam na areia desfazendo-se em espumas ; ante a vastidão azulina das aguas sentiram elles o primeiro esmorecimento da saudade, o germinar da nostalgia, de que dir-se-ia estavam isentos, pelo desamor com que haviam deixado esposa, filhos e a terra em que nasceram. Em meio de vexações e de temores tomaram os botes que os levariam ao paquete.

O embarque foi uma lucta com aquelle mar indomavel de costa núa e brava. Empolado erguia vagalhões, que rolavam de praia a fóra, levando de rojo tudo que encontravam em seu caminho. Os remadores, quasi no secco, aguentavam os botes, que a maré forcejava para atirar sobre a praia. 

Emquanto uns guardavam os bateis, outros embarcavam os passageiros,que levavam montados nos hombros.

Os botes carregados ácima da lotação largaram. Foi uma labuta sem treguas de um instante a passagem da arrebentação.

As embarcações andaram bem uns quinze minutos aos trambulhões trepadas na crista dos vagalhões, até que se safaram, menos a em que ia João das Neves. Esta recebeu um rolo de mar que se lhe acaçapou na prôa inundando-a e pondo-a no fundo. Os passageiros todos sertanejos e bons nadadores, metteram o braço n'agua e chegaram em terra primeiro do que os remadores. Salvaram-se, porem com a roupa do corpo. Nem uma maca veio á tona d'agua!

João das Neves e os companheiros, molhados, tiritantes, olhavam amedrontados para o oceano e quiçá sentindo os primeiros laivos do arrependimento.

João Basofia, que dirigia o embarque, muito acostumado a ver estes desastres tão communs no porto do Ceará, limitou-se a dizer ao Pedro Embarcadiço:

-- Por uma não se perder, as outras não deixam de navegar; leve a gente p'ra bordo na sua lancha que o vapor não tarda a pedir malas. 

E renovou-se a manobra, a lucta com as vagas, mas com felicidade, que o bote safou-se da arrebentação sem soçobrar.

José Simão ignorava o desastre. Muito admirado ficou quando viu chegarem João das Neves e os companheiros em tão lastimoso estado.

A perda da roupa era um transe terrivel pelos soffrimentos que lhes traria. Que padecessem, mas que chegassem vivos á casa do patrão, era o que queria. Eram doze os náufragos e chegaram a bordo pouco tempo antes do vapor largar.

José Simão levou-os á prôa onde já tinha sua rede armada em um logar dos mais commodos, que lhe cedera por dez mil reis um passageiro que vinha do sul.Custou a romper a multidão, que se acotovelava naquelle escasso e immundo compartimento. Perto de mil pessoas procuravam accommodar-se em um recinto cuja lotação seria quando muito para duzentas creaturas humanas.

Alem da falta de espaço, pisavam uma esterqueira, iam viajar com variada bicharia. Bois, carneiros, porcos, galhinhas, reunidos ali em numero sufficiente para provisão a algumas centenas de pessoas em uma viagem de muitos dias. O cheiro fétido, que se levantava deste immundo estabulo, sentia-se em toda a embarcação.

Das cavernas do porão de prôa até o tombadilho se apinhava gente numa compacta mó. No mastro, desde a base até a altura da amurada não cabia mais um punho de rede. Algumas dezenas de andares de leitos um após outro, se suspendiam no ar e tão proximos ás vezes uns dos outros, que o dorso do passageiro de cima tocava a barriga do visinho de baixo. Não havendo absolutamente mais onde armar redes começaram a se alojar de prôa á fora, a se empilhar mesmo, quasi uns em cima dos outros. Só queriam um espaço para descançar a maca e nella apoiar a cabeça, que na maioria delles já principiava a tontear.

João das Neves e os companheiros de naufragio sem redes, e mesmo se as tivessem sem logar onde armal-as, custaram a encontrar um pedaço de chão para se estatelarem.O espaço desoccupado que restava era muito proximo da bicharia. Além do inconveniente da fedentina mais ainda os excrementos, que escorriam pelo pavimento á mercé do declive que faziam os tombos do navio inclinando-o de bombordo para estebordo e vice-versa. O taboado estava encharcado de urina nas adjacencias do estabulo. Os passageiros que iam occupal-o tinham ainda as roupas molhadas e as cabeças governando mal, apressaram-se em se estirar por cima de toda aquella immundice.

O Dr. Vasconscellos chegou á ultima hora. A sua má estrella fizera com que não encontrasse um amigo que 1he promettera uma recommendação para o immediato do vapor e assim perdesse de chegar cedo e de achar uma accommodação menos má naquella estribaria.

Estacou deante daquelle quadro todo original, e de luneta assestada, pasmava em frente da promiscuidaele de homens e de bestas e horrorisado com a idea de passar dez dias naquelle convez ia voltar para terra, quando o vapor largou. Fulminado com o contratempo, encostou-se á amurada e numa pusilanimidade de fazer dó, olhava o scenario cujo esboço não ha pincel que o copie.

O navio arfou, retiniram ferros, após a melopéa nostálgica da maruja suspendendo a ancora, e as primeiras lentas evoluções da helice se mostraram á tona d'agua aljofrando de espumas a face verde-mar do oceano.

Vasconcellos continuava na impassibilidade de um vencido fitando a prôa do vapor sem coragem de se misturar com aquelles brutos.

O navio singrava para o norte o ia pouco a pouco se afastando das praias da Fortaleza, que  o crepúsculo vespertino começava a velar com uma pulverisação diffuza e ia escondendo assim em seu véo mate a bella cidade, que hana pouco tempo parecia incendiada pelos raios do sol poente a se reflectirem em suas vidraças.

Aquellas tristezas da tarde e os primeiros symptomas da doença do mar trouxeram ao doutor Vasconcellos um esmorecimento tal que não poude conter as lagrimas. Com os olhos afogados em pranto olhava os alojamentos da prôa e horrorisado lembrava-se que forzosamente não tardaria á cahir nelles, em breve se veria misturado com uma manada de brutos e com homens que eram quasi bestas. Aquella tullia de creaturas fazia compaixão e nojo ao mesmo tempo. A maioria dos passageiros, homens fortes e sadios, aquelles mesmos que moirejavam de manhã á noite na mais afanosa labuta sem um esmorecimento sequer deixavam-se derribar pelo enjôo, e macilentos, frios, aterrados pareciam moribundos. Uma serie de engulhos anciava-os produzindo uma agonia que os trespassava, e depois vinham os vomitos que sabidos em borbotões por toda a abertura da bocca, os molhava e ia tambem lavando os companheiros que estavam ali por perto.

O doutor Vasconcellos, contaminado tambem pelo mal, cada vez se acovardava mais ante o progresso da doença nos seus companheiros de proa. As pernas lhe começavam a bambear, a vista a fugir, e a cabeça numa crescente tontura acabara obrigando-o a se agachar e por fim se estirar resupino no tombadilho. Logo que se deitou a vertigem moderou e a nauzea, que já o agoniava bastante, não se desfes em vomito.

De papo para o ar mirava o céo, que um luar argentino alumiava, substituindo o crepúsculo creme da tarde.

Ali derribado ao relento, esquecido como um ninguem, pensava nas agruras da vida e nas injustiças dos homens. Não era a febre de emigrar, esta endemia do Ceará, que o havia atacado mas a necessidade imperiosa de sahir para não morrerde fome. O navio que o conduzia ia cheio de aventureiros que seguiam caminho doel-dorado, mas também levava victimas, como elle, que a miseria expatriava. Pensou no dia de amanhã até adormecer; a sua ultima idea não foi uma supplica, porem uma blasphemia.

E o navio singrava de vento em poupa caminho da Amazonia, e quem o visse assim navegar em tão serena e enluarada noite, não pensava nas miserias que iam nelle.



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<div "CAPÍTULO XXVIII">



XXVIII 



Belem, o emporio do commercio da Amazonia, assente á margem da bahia de Guajará, surgia ao amanhecer do quinto dia de viagem. Algumas horas antes de se esboçarem no horisonte as lanças das torres das cathedraes, de se avistar a mastreação dos navios, que cobriam as aguas com os negros bôjos ondulantes entaipando o espaço com uma floresta de mastros, o vapor deixou de jogar e quieto navegava sem uma guinada.

A quietação do navio resuscitou os passageiros de proa. Mexeram-se nos leitos e pouco a pouco as figuras esqualidas dos enjoados assomavam de todo convéz francamente illuminado pela luz suave do sol nascente.

Pareciam defunteos sahidos das covas. De um dos botes ergueu-se o busto do Dr. Vasconcellos, que de luneta assestada espiava o borborinho que se levantava no tombadilho. Ia deixar aquelle asylo onde se refugiara logo na primeira manhã de viagem. Que boa guarida lhe foi o escaler! Suspenso sobre as ondas havia feito a travessia e nem se lembrou que os cabos se podiam partir e o mar engulil-o para sempre.

No momento em que procurou aquelle refugio, não cogitou de perigos eventuaes e sim de um retiro onde podesse repousar a cabeça oca pelo enjóo, e fixando uma idea somente, fugir do contacto das bostas de proa. Agora que estava melhor, que via a terra próxima, examinava o seu leito pensil. Nunca viajor algum obtivera um beliche egual.

Jonas no ventre da baleia ou Diogenes na cuba não estariam em mais segurança.

Sentou-se, alisou o mais que poude a roupa amarrotada e foi se agarrando ás amarras do bote, ainda meio tonto, até cahir no convez.

A baldeação começava. Alguns marinheiros estupidamente baldeavam agua a torto e a direito na faina de lavar o pavimento coberto com uma camada inteiriça de corpos humanos.

Iam molhando tudo e escovando as amuradas, únicos logares em que não havia gente.

Vasconcellos á distancia observava a lavagem, deveras indignado com o modo porque era feita. Eram uns cannibaes os taes marujos. E muito pallido e muito escaveirado, olhando atravez dos vidros de sua luneta a balburdia da baldeação, lamentava comsigo a sorte daquella pobre gente. Se a elle que era um doutor de collete e oculos fizeram despertar no primeiro dia que ali dormiu com uma batega d'agua na cabeça, que por pouco o não afogou, quanto mais áquelles pobres diabos de camisa e ceroilas!

Não era só a falta de segurança, mas as poucas vergonhas que tinha presenciado! Agora que estava quasi bom do enjóo e com terra á vista, sentia reviver a sua energia. Não era assim que os fortes deviam tratar os fracos! A bordo não tinha visto mais do que o abuso da autoridade, da prepotencia, e elle como advogado devia erguer-se e fazer valer os direitos dos opprimidos. Era uma bella licção de civismo que daria, e quem sabe se não firmaria ella a sua reputação de grande jurista? Lembrou-se de ir ao commandante e estygmatizar a sua disciplina, a sua crueldade para com os passageiros de convéz, mas reflectindo, se convenceu de que, o seu brado pedindo justiça, não devia soltal-o no acanhado recinto da cámara de um navio, mas em pleno mundo, e pela voz poderosa da imprensa. Era mais prudente fazer o seu protesto, terminada a viagem. Assim, logo que chegasse a Manáos, escreveria uma serie de artigos verberando o procedimento dos commandantes de vapor, a sua disciplina e pedindo ao governo uma seria reforma no regulamento de bordo para evitar abusos inqualificaveis como os que acabava de testemunhar. Assim discorria mentalmente encostado a amurada de bombórdo olhando para o formigar de passageiros que se aprestavam para o desembarque. 

O navio depois de uma evolução lenta atravessando o ancoradouro deu fundo e atracou.

Vasconcellos no meio do borborinho, que se levantava de poupa a proa, quando todos se moviam e corriam ao passadiço, elle parecia petrificado.

Olhava a turbamulta, mas sem vel-a.

A sua imaginação trabalhava, porem, na composição do libello que traria a reforma dos regulamentos de bordo e a sua fama de jurista. Descobrira o meio de sahir da obscuridade. Não seria só a nomeada, mas os proventos materiaes que usufruiria de suas luminosas paginas de jurisprudencia.

No correr da discussão, como uma idea suggére outra idea, tratada do povoamento da Amazonia. Com um plano todo seu era poucos annos faria habitada toda aquella immensa zona tornando-a ao mesmo tempo salubre, destruindo a sua maior endemia -- o paludismo. O colono seria não o chim, mas o cearense, que além de trabalhador se multiplica como os peixes.

O successo depende da opportunidade. Homens ha que se celebrisaram apenas com uma phrase, quanto mais elle que em momento opportuno escreveria algumas duzias de periodos, pensava.

A gloria e a riqueza lhe acenavam de perto, não havia duvida.

A imprensa de todo Brazil transcreveria as suas palavras vibrantes de civismo e de saber e a sua fama correria o mundo inteiro. A Capital Federal fatalmente o attrahiria, não como o azylo dos talentos desprotegidos, mas como um mundo estellar onde brilham os astros de primeira grandeza. E que de ovações não o esperavam na sociedade fluminense, sempre ávida de novidades e de escándalos ! Os sabios o levariam ao seu areopago e os tolos o incensariam com o thuribulo da lisonja. O mundo official cortejando-o e o chefe da nação investindo-o no mais elevado cargo da magistratura brazileira.

Estava em meio desse sonho, desfructando os honradas de ministro do supremo tribunal de justiça, quando sentiu que lhe batiam ao hombro; voltou-se e qual não foi a sua surpresa quando se viu em frente de um antigo condiscípulo, o Veritas!

Havia annos que não se viam, mas se reconheceram immediatamente. Um feliz encontro para Vasconcellos.

O Veritas era commissario a bordo, logar este que seria mais útil a elle, bacharel, na presente condição do que o de presidente de Estado ou mesmo da República.

Olharam-se por algum tempo contemplando-se.

Veritas achou que o collega era uma ruina.

De lettrado só tinha a luneta e a pallidez do jejum e do enjóo.

Vasconcellos tambem extranhava, não a decadencia physica do amigo, que era um rapagão desempenado, porem a social. Julgava-o formado e já desembargador da República e o encontrava leigo e commissario de paquete. Antes assim, peior a sorte havia feito a outros de seu tempo de collegio. Tinha encontrado um feito soldado de policia e outro bolieiro de bond. Cousas do mundo.

-- Onde você se metteu que não o vi durante a viagem?! Não foi a mesa?...

-- No meu camarote, e apontou para o escaler.

-- Então não vinha á ré? 

-- Viajo incógnito estudando costumes e planejando reformas. Já se vê que não é por falta de dinheiro...

-- Comprehendo a sua philosophia. Para onde se bota?

-- Para Manáos.

-- Pois bem, de Fortaleza á Belem estudou o povo na sua esterqueira ; de Belem á Manáos irá em meu camarote estudando a nobreza em sua élite. E vamos tomar alguma cousa. E desceram para a camara. 



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<div "CAPÍTULO XXIX">



XXIX 



Era o rio-mar que navegavam em demanda de Manáos.

O vapor corria sereno deixando na face barrenta das aguas uma faíxa branca de espumas. 

O rio ora se alargava num océano, ora se apertava num estreito, offerecendo uma variedade de panoramas devéras admiraveis. A floresta se afastava indo confundir-se alem com o azul do céo ou se approximava tanto que a mastreação do navio quasi tocava na folhagem das arvores. Ilhas surgiam enfeitando o rio, que se estirava de terra a dentro numa linha recta ou numa serie de curvas mais ou menos fechadas.

Os passageiros, que pela primeira vez faziam aquella travessia não se fartavam de admirar a pujança da natureza sempre bella em seus differentes aspectos. Passavam horas esquecidas nas amuradas contemplando o scenario a se mudar constantemente.

Em breve os sentidos se cansaram da magestade do panorama e os olhos, que nas primeiras horas se abriam querendo devorar as paizagens, se amorteciam saciados num vago olhar de scisma.

Poucos eram agora os espectadores presos aos passadiços.

Vasconcellos, esquecido dos dias do escaler, já se não lembrava dos soffrimentos de seus antigos companheiros de convez. Na primeira noite que dormiu com o Veritas ainda disse a este o seu projecto de advogar pela imprensa a sorte dos desventurados passageiros de proa a bordo dos vapores do Lloyd. Falou com certo ardor que parecia resolvido a empreender semelhante tarefa.

Veritas troçou de suas ideas dizendo-lhe, para encerrar a discussão que, quem ouvia o mundo e se dispunha a emendal-o carregava o burro.

O pessimismo de Vasconcellos foi arrefecendo com o correr da viagem em bom beliche e excelente mesa. De mãos nos bolsos, passeava as vezes pelo tombadilho de luneta assestada, e vendo as miserias da proa, já não lhe pareciam tão cruas, nem tão dignas de serem attendidas. Estavam de accordo com a sensibilidade moral dos que as soffriam. A dôr, a dôr physica mesmo. impressiona menos o homem ignorante do que o civilisado, pensava passeando os olhos por cima daquella tulha de infelizes. Quanto ao padecimento moral, rombos deviam ser e eram, sabia, porque convivera com elles na mesma esterqueira e nunca lhes descobrira nas feições um traço de pesar por aquelle aviltamento. Não valeria a pena advocar a causa de semelhantes bestas.Se ao menos ellas fossem susceptiveis de piedade, mas nem esse sentimento tão humano tinham ellas. Convencera-o disso a morte de um delles em consequencia de um desastre.

E o bacharel discorria mentalmente sobre a psychologia da gente do povo exaggerando-lhe os defeitos e negando alguma virtude que podesse ter. De volta a camara, de um destes passeios, metteu se em uma discussão sobre a revolta de 6 de Setembro e ia-se sahindo muito mal se o Veritas não o arranca da arena para o beliche. Vasconcellos tinha a mania da exhibição e por causa desta doença é que se metteu na conversa de uns cadetes, que por insubordinados haviam sido desligados da escola militar do Ceará e seguiam para a guarnição de Manáos. 

A discussão tão depressa animou-se como azedou-se. Do Marechal de Ferro voltaram ao Deodoro e á proclamação da república. Vasconcellos quando falava em publico era sempre em tom dogmático. Esquecido de que si dirigia a uma assembléa de cadetes, externou conceitos bem justos, mas desagradaveis á classe de seus ouvintes. Não era monarchista, dizia, mas tambem não podia admittir a república para um povo analphabeto, que nem sequer conhecia os seus deveres. Demais, esta forma de governo das populações civilisadas tem dado máos fructos nas nações de origem latina. Nós ainda estamos muito longe de merecermos um governo democrata; somos um povo em via de formação. Para provar que não temos noções de nossos direitos e que nos arrefece a indifferença da ignorancia, basta lembrar a nossa attitude em face dos maiores acontecimentos que tiveram logar no segundo reinado. Todos nós somos contemporaneos delles, que foram a abolição, a proclamação da república e a separação da igreja do estado.

Nemhuma voz se ergueu para protestar contra estes actos que muito directamente influiram em nossas condições economicas, políticas e moraes. O rei acabou por um decreto com a propriedade escrava, e o soldado em nome do povo, monarchista quasi em sua totalidade, derribou o throno e desterrou o rei...

Estas verdades ditas á queima roupa exasperaram os militares, que cobriram Vasconcellos de injurias e mesmo o moeriam de pancadas se Veritas não interviesse arrastando dahi o amigo.

Antes de perdel-os de vista o baeharel os apostrophou assim:

-- A república sahiu dos quarteis e não do povo, que a ella se submetteu como uma generalissima besta.

No camarote Veritas exprobou a temeridade do amigo discutindo um assumpto tão melindroso.

Vasconcellos, para se justificar, revolveu a historia dos povos civilisados, e concluiu condemnando, a exemplo de todos os historiadores, -- o militarismo. Não se convencia de que tinha sido inconveniente, pelo contrario, mais mereciam que lhes tivesse dito. Ainda havia de ter occasião de dizer-lhes todas as verdades, mas nunca diria, mesmo em confidencia, que em uma daquellas celebres arruaças á praça do Ferreira os cadetes, por troça, fizeram-no subir a um palanque de caixões vazios e obrigaram-o, elle que tremia como um maleitoso, a dar vivas a república e a todas as potestades militares.

-- Mas não aqui a bordo, ponderou o Veritas, que nos podemos sahir mal.

-- Em terra. Hei de mostrara estes generas de brigada que se todos os cearenses fossem como eu, elles não teriam sahido de Fortaleza esgravatando os dentes.

-- E onde estavas que não sahiste a campo e com tua palavra não levantaste o animo daquella gente contra o vandalismo dos cadetes?

-- Em Fortaleza ; mas uma andorinha só não faz verão. Ainda hoje me revolta a pusilanimidade da populacho da Capital. Um cento de meninotes trazer alarmada uma cidade que tinha mais de cinco mil homens em estado de pegar em armas !...E' uma vergonha e na qual confesso tenho o meu quinhão. O terror panico de que estavam possuidos foi o factor de tanta covardia. Peza-me dizer que eu fazia parte de uma população que era aviltada todos os dias na praça publica em sua élite e que não repellia o ultraje!... Um cadete valia um batalhão para essa gente amedrontada.

Assim conversavam os amigos sobre os primeiros tempos da república, já tarde da noite quando um choque repentino e forte abalou todo o navio.

Ao escurecer tinham entrado no Estreito de Breves, perigosa travessia em que gastariam a noite inteira. O rio ahi era profundíssimo, mas de uma margem a outra media poucas dezenas de metros. 

Para maior perigo da navegação dobrava-se em curvas, em cotovellos repetidas vezes.

Em alguns passos era tão estreito que as arvores das margens quasi entrelaçavam as copas formando arcadas de verduras.

Tudo ahi era sombrio e pavoroso. Via-se do céo apenas uma nesga, como olhado do fundo de uma cisterna. A luz das estrellas não se reflectia nas aguas turvas do rio. A escuridão dominava tudo, interrompendo-a somente a claridade dos pharões de bordo por onde ia passando o navio.

Um cochilo do homem do leme desviara o vapor da rota e metteu-o dentro do matto. O desastre começou por uma estalajadura secca das amuradas de bombórdo a se partirem de encontró as arvores.

Um attrito brando, que logo se transformou num estremecção violento sacudiu tudo a bordo. Despertaram os que dormiam e os que estavam acordados a ré inquiriam a causa de semelhantes abalos, quando um choque enorme e repentino lançou o terror a bordo.

Já na prôa a desordem era horrivel.

Os galhos das arvores entrando de navio a dentro iam derribando e escalavrando tudo. As redes eram rotase os passageiros atirados fóra ás vezes com a cabeça quebrada ou ferido em outra parte do corpo. O alarma que enchia o navio era de ensurdecer.

Logo ás primeiras trepidações o homem do leme despertou e notando o desvio manobrou em sentido contrario, mas já fóra de tempo. O navio afocinhou na ribanceira enganchando a prôa nas arvores da margem do rio.

A tripolação á postos manobrava para o safar quando avistou os pharões de um navio que descia e que se em tempo não fosse avisado viria fatalmente escanchar-se no bôjo do vapor esbarrado.

Os barcos que subiam navegavam pela margem direita, e os que desciam pela esquerda, por causa da estreiteza da passagem, mas o logar ali era o mais apertado do rio e o vapor havia se atravessado quasi barrando com o casco o profundo canal.

Alarmaram a solidão da noite com gritos e toques.

Repicavam as sinetas, estrugiam as buzinas, guinchavam as válvulas; porem nenhum destes avisos era percebido pelo homem do leme do navio que descia e mais perto estava o desastre.

Quasi já não havia mais esperanzas de conjurar a catastrophe quando o commandante jogou a ultima cartada num grande tiro de peça.

Nunca estampido algum melhor se fez ouvir e achou mais echos para repetil-o! A detonação abalou tudo desde a superficie quieta das aguas até a serena atmosphera muito ácima da floresta. A medida que o estrondo se enterrava de matto a dentro os animaes fugiam espavoridos.

Os toques de soccorro continuavam a se ouvir no meio da gritaria, que o pânico levantava.

No vapor que descia o tiro havia chamado á postos os tripolantes e já se via nas obras mortas um movimento desusado de pharões. Espreitavam, porem ainda não tinham descoberto a causa do aviso e tanto que continuavam a navegar rio abaixo. A uma centena de metros ouviu-se um silvo estridulo de contra vapor e o monstro negro mosqueado de luminarias coloridas, que sereno vogava ao sabor da correnteza, parou repentinamente o hélice e agora descia arrastado pelo rio e ainda movimentado pela forca impulsiva que o fazia marchar.

Nas obras mortas de ambos os vasos passageiros e tripolantes se aglomeravam e atroavam os ares com as suas exclamações.

Os mais medrosos haviam se refugiado na proa e poupa e esperavam somente o abalroamento para se despejarem em terra. Não indagavam o sitio em que cahiriam, nem cuidavam que nos apaúlados das margens centenas de jacarés viviam e que por elles seriam mortos e comidos mal chegassem á sua morada.

Se a luz de um holophote varresse a escuridão tornaria um horror a situação dos navegantes. Viriam que aquella treva inteiriça e densa cobria um bando de jacarés e serpentes, que atolados no paúl só mostravam as asquerosas cabeças.

A grita, que se levantava no tombadilho dos dois navios, augmentava com a approximação do encontro.

Viam-se já passageiros dependurados nas amuradas, promptos a escorregarem pelo bôjo da embarcação abaixo, quando o navio que descia virou de bombórdo e atravessando-se no canal vogou arfando a mercé da corrente até abordar o outro. Sem um choque uniram-se numa attração doce, como dois pedaços de cortina que se encontrassem nadando num meio liquido. 



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<div "CAPÍTULO XXX">



XXX 



Depois de uma viagem cheia de vexames e de temores chegaram ao porto de Manáos.

Os momentos angustiosos do Estreito do Breves cada um recordava no resto da viagem, depois do perigo, exaltando a sua presença de animo. Louvavam a pericia dos commandantes na derradeira manobra em tão apertada paragem. Só profundos conhecimentos de náutica, favorecidos por um feliz acaso, fariam os dois navios se safarem sem avaria, desabordarem-se em tão estreita garganta!

Vasconcellos era o único que divergia da opinião corrente. Fechado no camarote com o Veritas vociferava contra a marinha mercante brazileira e fazia a apologia de outras marinhas estrangeiras. Em um navio inglez pode-se viajar sem medo, os desastres podem se dar, mas não por cochilos do homem do leme, dizia.

No covéz commentavam o acontecimento, porem com menos ardor.

A fome que soffriam desde o Ceará os amollecia de todo. Eram poucos os que tinham forças para falar. A maioria estava bestificada ainda pelo enjôo e pelo jejum. A doença do mar foi-lhes, entretanto, de alguma utilidade; marasmou-os até Belem, e assim passaram quasi como animaes hibernados.

Se assim não fora, maior seria o clamor por falta de alimentos. Os que não estavam derribados e que não tinham trazido matalotagem se acabavam de fome.

O rancho além de insufficiente era mal destribúido e preparado de modo a fazer vomitar as tripas a quem tivesse estomago pouco seguro.

Os que viajavam á re não viam as porcarias que iam pela cosinha.

O gado abatido além de magro e doente mal chegava para um quinto do pessoal de bordo e tanto que aproveitavam tudo do boi a excepção dos cornos, unhas e, couro. Os intestinos eram apenas escorridos e os estómagos abertos e sacudidos iam para o fogo. Esta panellada aferventada atresandar excremento era servida e devorada pelos esfomeados. A carne, embora pessima, não chegava para a proa; e era convertida pelo mestre cosinheiro a custa de adubos que lhe davam um certo tom de boa iguaria, em comidas que illudiam o paladar.

João das Neves depois que o navio deixou de jogar foi cahindo em si. Até então não sabia se estava morto ou vivo.

Enterrado naquella vermina, havia tantos dias, só agora cameçava a sentir os primeiros travos da desconfiança. Aquelle céo escuro tão differente do céo de sua terra, azul e claro, lhe creava duvidas sobre a felicidade do el-dorado.

Desperto agora sentia as fadigas do corpo e os esmorecimentos d'alma.

Doiam-lhes os membros, acostumados ás doçuras da rede, como se as taboas do convéz os tivessem largamente contundido. 

Espreguiçava-se para sacudir aquelle torpor que o avassalava e levantando-se ia aos tombos até a amurada onde encostado passava horas inteiras olhando as margens do rio, cuja largura as approximava ou afastava.

Assim como elle, procediam os companheiros de convéz. Entre toda aquella gente que emigrava fascinada pelas fabulosas riquezas do Amazonas não havia um só a quem os soffrimentos de bordo não tivessem feito nascer duvidas sobre o futuro lisongeiro que o patrão lhes tinha promettido. 

A vista do porto do destino alentou-os. Era a decantada Manáos, que viam como sahida das aguas do Rio Negro.

Saudavam-na com effusão; e ávidos de um meio onde podessem prover mais fácilmente as necessidades da vida, preparavam-se para saltar num acodamento que estava na razão directa da pressa que tinham de deixar aquella penitenciaria.

Uma hora depois de fundeado, o vapor começou a despejar gente.

Pela quantidade, superior a mil e quinhentas pessoas, podia-se avaliar os padecimentos delles empilhados em um navio, cuja tonelagem não excedia á mil e novecentas.

Em terra a mé de passageiros em breve dividiu-se pela cidade a procura de poiso.

As levas de seringueiros devidamente captaneadas pelos patrões, que as traziam engajadas, seguiam rumo das hospedarias.

José Simão caminhava com seu troço, vigiando-o com todos os sentidos, medroso de que algum patrão esperto, mais velhaco e ambicioso, o seduzisse.

Chegando á hospedaria, procedeu a contagem de seus homens; não faltava um só. Outros, entretanto, não haviam sido tão felizes. Rara era a leva que estava completa.

José Simão por muito favor poude obter commodos na « Hospedaria Cearense », um frege muito concorrido, mas cujo proprietario, um cearense, recebia de braços abertos o pessoal que vinha dos seringaes e muito mal o que regressava da terra, porque, dizia elle, não gostava de gente sangrada.

A casa de pasto estava litteralmente cheia de seringueiros que desciam.

Era uma balburdia a todas as horas, uma confusão diabólica que ia da sala á cosinha.

A <estrang lingua="frances"> mise-en-scene </estrang>era a mesma das hospedarias do Ceará, mas a exploração differente.

Em Fortaleza era a miseria, em Manáos o vicio. 

Os seringueiros esgrovinhados, mesmo com ares enfermiços, eram cubiçados pelo bando de prostitutas que se atiravam sobre elles a sugar-lhes a bolsa com o mais requintado desbragamento.

Entre aquellas mulheres se encontravam todos os typos e quasi todas as nacionalidades.

A crapula e o deboche em todas as suas modalidades praticavam as meretrizes para incendiar mais os homens, como se cada um daquelles mestiços cortados de abstinencia não fosse um satyro.

O dinheiro sahia dos cintos delles para as bolsas das perdidas tirado pelos mais ignobeis artificios. As mulheres, os creados, e o hospedeiro formavam uma quadrilha de depennadores.

A orgia fervia em todos os cantos e a exploração tambem. Homens quentes de vinho satisfaziam todos os caprichos das perdidas que pediam as mais finas bebidas e os industriados servos traziam-nas e entre ellas garrafas esvaziadas que os seringueiros ao fazer-se a conta dos gastos as teriam de pagar como se as tivessem bebido no pagode.

João das Neves pasmava á vista daquelle extranho espectáculo.

As desconfianzas que lhe assaltaram o espirito a bordo todas se haviam dissipado em face dos grossos maços de notas que os seringueiros sacavam do bolso a cada momento. Se um único rolo de cédulas foi capaz de transtornal-o a ponto de abandonar a mulher em dias de parir e os filhos todos pequenos, o que faria uma centena de massos ainda maiores expostos como uma tentação á sua inveja?

Aquellas mulheres, algumas alvas como leite e bonitas como imagens a se enroscarem lascivamente ao pescoço dos seringueiros, a beijarem impudicamente as faces terrosas daquelles cabras hepáticos, o desorientavam quasi como uma scena sobrenatural. Tudo aquillo era milagre da arvore da borracha, pensava.

Um dia havia de chegar a vez delle quando voltasse dos seringaes.

Teria tambem aquelles afagos de moça branca que sem dinheiro nunca os gosaria.

A bacchanal ferveu até o dia em que regressou o vapor. Embarcados os seringueiros, a hospedaria foi pouco a pouco se despovoando de meretrizes e de jogadores. Ficou só o pessoal que tinha de seguir para os rios, mas este não attrahia os depennadores.

Vasconcellos no mesmo dia em que o Veritas regressou, veio ter a «Hospedaria Cearense». Já não vinha tão esgaivotado.

Vestia um facto novo, estava barbeado e trazia nas feições uns certos ares de importancia. 

Havia dois dias que estava em Manáos e já conhecia tudo.

Não lhe foi muito custoso entrar no conhecimento da sociedade daquella Babel.

O que devéras o abysmava era o cosmopolitismo della.

Havia ali gente de quasi todas as terras do mundo. Os navios lançavam diariamente na cidade avalanches de aventureiros, que, a não ser os cearenses que seguiam para os seringães, ficavam a tentar fortuna.

Vasconcellos nunca pensou que fosse tão caudal a torrente da emigração para o Amazonas. Quando em viagem, já perto de Manáos, o Veritas lhe mostrou a ilhade Marapatá, onde, dizia elle, os emigrantes deixam a consciência e a vergonha e que a ilha não tardava a se afondar, pois mais de um milhão de creaturas lhe tinham confiado tal deposito, pensou ser troça do amigo.

Agora pelo que via não achava exaggerado o calculo de Veritas.

Achou que a sociedade ali era uma amalgama de elementos heterogeneos, desordenada, como todos os núcleos que se formam rapidamente em volta de um el-dorado e com um único fim enriquecer, mas enriquecer por todos os meios, abandonados pela consciencia e pela vergonha, na phrase do Veritas.

Estava ali havia apenas dois dias e o seu espirito atilado já tinha uma noção nítida daquella sociedade de mercenarios. Pouco lhe bastou para comprehender o combate terrivel em que se empenhavam homens de quasi todas as nacionalidades do mundo.

A pugna pela posse do erario, cheio á custa do trabalho do seringueiro cearense nos mortíferos rios do Amazonas, absorvia toda a actividade dos aventureiros.

Naquella justa não se empenhariam somente os gananciosos, bem o sabia avaliar por si. 

Havia homens cultos e honestos, lettrados em diversos conhecimentos humanos que sem pão em sua terra corriam para ali procurando uma collocação e ficavam envolvidos naquella barafunda de intrigas e perfidias.

Destes bem poucos conseguindo vencer a odiosidade dos nullos enthronisados pela politica, se collocavam, mas não ficavam livres dos botes dos invejosos e do ataque das mediocridades.

Vasconcellos tudo havia comprehendido.

Emigrara para não morrer de fome em sua pobre terra e chegando a Manáos, sentiu-se mal em presença de todas as suas riquezas e de todas as suas miserias. De longe nunca suppoz que o revoltasse tanto aquelle viver de traições e de embustes; que seu carácter resistisse as tentações do vicio quando as algibeiras estavam vasias e a familia ausente quasi sem pão! Mortificavam-no os exemplos de homens mais bem nascidos do que elle, com igual cultura e uma probidade immaculada, derribados, pisados e escarnecidos por uma turba de mercenarios cada qual mais ignobil, mais vicioso.

Receiava sorte igual e lastimava que o pai, que fora um burguez abastado, o houvesse mandado formar, impossibilitando-o agora de ser um bom seringueiro. Lembrou-se de se engajar na leva de José Simão, mas este de certo não o acceitaria por causa do seu physico e da sua luneta. Ficaria chafurdado naquella vermina moral esperando que se operasse nelle o contagio e se cumprisse a lei fatal da adaptação ao meio.

Ao tempo deixou a resolução do difficil problema de sua vida, graças aos recursos que lhe havia deixado o Veritas. 



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<div "CAPÍTULO XXXI">



XXXI 



José Simão tomou passagem com a sua leva em um dos vapores gaiolas da companhia fluvial do Amazonas, que ia para o Rio Acre.

O navio era menor do que os do Lloyd, porem não ia menos cheio.

Um toldo cobria as obras mortas, para abrigo dos passageiros, que quasi empilhados suffocavam naquella atmosphera abaladiça que a mais leve aragem não punha em movimento. O passadio era máo; porem o que mais incommodava os viajantes era o calor mesclado de humidade de dia e de noite, a todas as horas emfim.

Os panoramas das margens que em principio tanto os tinham deleitado, acabaram por se fazer monótonos, cansando-os por sua magestade mesmo.

A viagem a continuar por muitos dias em semelhante apertão daria cabo da vida dos mais fracos. Assim não aconteceu porque o navio foi deixando passageiros pelos barracões desde o rio Negro.

Quando entraram no Solimões já a mó de gente não era tão compacta, nem o viver a bordo tão monótono. As paradas se repetiam diariamente tres e mais vezes, o que era uma boa diversão para os viajantes. Emquanto o navio estava atracado, elles andavam de bordo para a terra, commerciando bagatellas.

Para chegarem ao Acre tinham de navegar no Purús mais de uma quinzena. Neste rio os barracões eram mais numerosos e as paradas tornavam-se mais frequentes. Em cada um destes pequenos burgos agricolas o navio parava para deixar seringueiros e mercadorias. Entraram afinal no Acre e depois de navegarem nelle quatro dias o vapor atracou no barracão Deus te ajude, onde José Simão tinha de ficar com a sua leva. O desembarque do pessoal e bagagem fez-se depressa e a pé enchuto. Era um passo na ponte e outro em terra. Fóra os passageiros mudaram a prancha para o pórtalo e começaram a desembarcar as mercadorias. 

Um enxame de homens do barracão ia para o navio e voltava carregado de fardos de todos os tamanhos e feitios. Em terra o caxeiro do estabelecimento, um rapazola imberbe, de factura na mão recebia as mercadorias conferindo-as. Ao lado delle um velho gordo, dono do estabelecimento, cearense, mas domiciliado ahi, havia mais de trinta annos, fiscalisava o servido que accelerava, berrando zangado, descompondo os trabalhadores por qualquer nonada.

O Deus te ajude era uma das casas mais afreguezadas daquelles centros. Bernardo das Ipueiras, que chegara ali rapazinho, fora-o construindo á medida que ia tendo dinheiro.

Agora era um barracão de grandes acommodações. Construido todo de madeira, suspenso em grossos e fortes esteios a uma alturaque o livrasse de ser inundado nas enchentes do rio, parecia um verdadeiro trapiche. Em falta de telhas de barro era coberto de telhas de zinco. Logo na frente estava o compartimento do negocio.

Armazem de viveres e mercearia ao mesmo tempo tinha todos os artigos de commercio e quasi todos estrangeiros.

Pela variedade e quantidade dos géneros importados via-se que aquella grande e ubérrima região não era cultivada. Os legumes. e cereais que produziriam ali todo o anuo, vinham de fóra como tudo de que precizavam os seringueiros. Latas com todas as qualidades de conservas enchiam as prateleiras. As bebidas alcoolicas abundavam tambem ali; não só a aguardente de canna, mas tambem vinhos de diversas qualidades e até cerveja de algumas procedencias.

Bernardo das Ipueiras era o maior aviado do rio Acre. Gosava de grande crédito nas praças de Manáos e Belém e governava em toda a zona de seus grandes seringaes, mas de um modo absoluto, como um senhor de baraço e cutello. A sua vivenda, que era vasta, embora tivesse sobre a porta de entrada o distico -- Deus te ajude -- não era mais do que uma penitenciaria. Tinha uma sala de armas bem provida e abundantes munições de guerra. Estes petrechos bellicos Bernardo possuia e conservava mais para uma satisfação de seu genio guerreiro do que para defender-se dos selvagens no caso de ser atacado o seu barracão.

Para ter-se uma idea de seu poder discrecionario em tão longinquas e exquisitas paragens bastava visitar o calaboiço, que elle tinha dentro da propria casa, os instrumentos de tortura que guardava. Dois troncos, algumas gargalheiras, algemas, muitas vergastas e palmatorias estavam ali como um vehemente atestado do seu governo dictatorial, constituindo os seus dominios um estado autonomo dentro do estado, cujas leis eram simples e únicamente a sua vontade. Se elle fosse um homem bom, os seus subditos viveriam felizes, mas era máo por índole. Os soffrimentos em mais de trinta annos n'aquellas regiões pestilentas, empenhado sempre numa lucta de morte com o indio traiçoeiro e com a não menos traiçoeira endemia palustre, acabaram de empedernil-o de todo. Sem cultura de ordem alguma, completamente analphabeto e bastante rico para o logar, entregava-se cegamente a sua vaidade de mandão. A vida em familia, a ligação com uma mulher boa teria modificado muito os seus instinctos perversos e refreado as suas más paixões.

Muito custoso seria encontrar n'aquella população verminada de vicios uma companheira que fosse indigna de seus dotes moraes. Depois de inveterado chafurdeiro, de ter tido mais de dez concubinas e algumas tomadas de outros á bala, metteu-se com uma boliviana, e com ella vivia agora socegado e maritalmente porque a idade lhe havia arrefecido o fogo da concupiscencia. A amasia era uma harpia, velha e podre de vicios. A maldade era um de seus menores defeitos. Instigava sempre que podia o amasio para maltratar os freguezes e elle que tinha máos instinctos filava como um cão açulado.

Aos cearenses votava odio, mas odio de morte. Esta aversão era em grande parte motivada por terem sido elles os colonisadores do Amazonas, estarem de posse de quasi todos os seringaes com prejuizo dos patricios della, os bolivianos. Assim não perdia vasa de fazcr todo o mal que podia aos cearás, como os chamava.

Bernardo das Ipueiras depois que o vapor zarpou foí visitar os cincoenta engajados trazidos por José Simão. A' vista d'aquella gente vinda de sua terra não lhe produziu o menor abalo. Nem uma reminiscencia dos dias de lá e muito menos uma saudade lhe trouxe aquelle pedaco da patria tão bem representado por aquelles caboclos fortes, de cabeça chata. Examinou com interesse um por um, sem um laivo siquer daquella doce emoção, que sentem os conterraneos ao se abraçarem num paiz extranhoj pois outro era o seu sentir.

Não tinha coração para saudades e todo ganancia avaliava somente a força daquellas cincoenta machinas que em breve internaria pelos seringaes á augmentar os seus crescidos haveres. Achou a leva magnifica, Não havia um homem d'aquelles que não fosse forte e sadio, e nenhum delles tinha mais de trinta annos. Estavam um tanto amarroados em consequencia da comprida viagem e pessimo tratamento a bórdo; porem com uma semana de bom passadio no barracão recuperariam o vigor perdido.

Depois da revista á leva Bernardo chamou José Simão a contas. Entraram os dois para um cubículo, que chamavam escriptorio, onde já se achava o caixeiro da casa.

José Simão sacou o seu caderno de notas e começou a operação. O primeiro inscripto foi João das Neves, cujo titulo se abria com um debito de oito centos e tantos mil réis até aquella data. Esta quantia representava todas as despezas de viagem aggravadas com 50% em favor do barracão e mais a commissão de cincoenta mil reis a José Simão. Inscripto este, foram depois os outros e do mesmo modo. Todos aguentaram com o agio de 50 °/ em favor de Bernardo e mais cincoenta mil réis para José Simão.

Concluidas as contas, o dono do barracão ordenou ao caixeiro que aviasse os freguezes com víveres para um mez, os aprestos necessarios á extracção e preparação da borracha, utensilios para cosinha, roupas, armas, munições, e que antes da noite fornecesse a cada um o indispensavel mosquiteiro, e redes aos que tinham ficado sem ellas no porto do Ceará.



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<div "CAPÍTULO XXXII">



XXXII 



Os recem-chegados vinham de surpresa em surpresa. A primeira foi a frieza com que José Simão começou a tratal-os logo que desembarcaram em Manáos. 

De communicativo que era, tornou-se reservado e taciturno. Isto fez que fossem desconfiando delle o resto da viagem.

Confirmaram-se-lhes as suspeitas quando chegaram ao barracão.

Elle lhes havia promettido uma recepção festiva e no entanto chegaram e por timbales e oboés tinham os berros de Bernardo e da boliviana apressando á descarga do navio. Desconfiados como estavam, não perdiam Simão de vista e notaram que elle entrara no barracão como extranho e não como dono.

Elle os evitava o mais que podia e tanto se afastou que ao anoitecer o tinham perdido de vista.

José Simão tinha concluido a sua commissão. Para poupar explicações aos patricios e evitar suas recriminações, logo que prestou contas tomou uma montaria e foi para o Centro da Felícidade, um seringal de mais de cem estradas, cada uma com perto de cento e cincoenta madeiras.

Este centro pertencia a Bernardo; mas Simão trabalhava nelle em duas estradas havia muitos annos.

O pessoal recem-vindo abandonado pelo patrão que o trouxera do Ceará, dirigiu-se ao dono do barracão afim de pedir esclarecimentos sobre o destino delles. 

Bernardo prometteu-lhes mundos e fundos e garantiu-lhes que depois de oito dias de descanso seriam localisados todos no Centro do Bom Futuro, logar, dizia elle, muito sadio, onde havia caça e peixe em abundancia, as madeiras tão ricas de leite que um freguez esperto tirava para mais de oito kilos de borracha por dia. Não se arrependeriam, haviam de ver, de serem aviados do Bernardo das Ipueiras, disse-lhes depois de empanzina-los com promessas.

Os simplorios freguezes acreditaram nas labias do patrão com a mesma boa-fé com que tinham crido nas de José Simão.

O homem parecia mesmo bom, diziam comsigo, pois no rancho haviam enchido a barriga.

A physionomia dos novos freguezes com todos os tons da saude destoava inteiramente dos rostos enfermizos da gente do barracão. Este ar doentio impressionou os recem-chegados, tanto que diziam em segredo uns aos outros -- este povo daqui todo tem cara de come longe. <marca num="1" pag="297">

A terra e a gente nada se parecia com o Ceará.

Conheciam somente de bordo e do barração a natureza.O céo achavam triste e sombrio, porque a abobada do firmamento se fechava muito baixo e não era tão illuminada como o céo cearense, que elles tanto conheciam, acostumados como estavam á fital-o indagando do inverno.

Qual o filho das regiões das seccas, nascido nas praias ou nos sertões, que todos os annos não começa a investigar o espaço logo em Janeiro para saber se está proxima a estação das chuvas?

Quantas vezes os olhos cançam de olhar o céo e a chuva não vem? Quantas vezes o lavrador com acolheita a perder-se por falta de um aguaceiro, numa ancia de previsão mergulha repetidos olhares pela vastidão do espaço, procurando nas alturas um trapo de nuvem, que descendo se transforme em um nimbo, conservando-se, entretanto, o céo sereno e limpo e baixando-se para terra empanados de lagrimas, os olhos que erguidos o fitavam.



<nota num="1" pag="297"> Sugeito amarello comedor de terra. </nota>



Das usanças da terra a que primeiro os admirou foi o mosquiteiro.

Ao anoitecer quando armaram as redes, vieram alguns commensaes de Bernardo as cobriram com aquellas cortinas e lhes disseram, para que ellas se destinavam e como deviam ser conservadas. Acharam original aquelle modo de dormir e ainda mais extranharam a covardia daquella gente ensacando-se com medo de moriçoca.

Obedientes aos usos da terra entraram para os mosquiteiros; mas um pouco constrangidos.

Parecia que lhes faltava o folego. Um delles mais teimoso deixou erguida uma cortina, porem antes de meia noite foi obrigado a descel-a, tão atormentado se viu com as carapanãs, que zumbiam num compacto enxame em cima delle, ferroando-o desesperadamente em todas as partes do corpo.

Fechado, não ficou livre do ferrão das que tinham ficado dentro do mosquiteiro. Pela manhã estava com a pelle inchada como um doente de sarampo.

Os oito dias de espera no barracão não se passaram inútilmente para elles. Em breve se relacionaram com o pessoal, todo elle cearense, e um tanto atravessado com o patrão por causa de seu despotismo e ladroices. Informaram-os de tudo, mas com muita reserva.

Contaram-lhes a vida ali como era e lhes abriram os olhos aos perigos que se topam a cada instante.

João das Neves seguia naquelle escuro caminho, de decepção em decepção. Ainda não tinha esmorecido porque vivia a sua maior esperança e continuava a ser alimentada ali mesmo pelos proprios que exaggeravam os perigos dos seringaes.

Era ella as riquezas do Amazonas, esta visão que o tentara no torrão do berço e vivia dentro delle, inseparavel como parte integrante de seu eu. 

Até os mais infortunados, não negavam a existencia do el-dorado e levavam á conta da doença não terem enriquecido. 

Estas asserções cada vez mais o encorajavam.

Fatalista obstinado affrontaria todos os perigos porque só se morre na hora marcada, dizia. 

Na vespera da viagem para o Centro, Bernardo, que era analphabeto, mandou o caixeiro ler á cada um delles o total do debito. Aquella satisfacção do patrão era uma farça. Elles tambem não sabiam ler e se soubessem o que lhes adeantaria o conhecimento das parcellas que sommadas davam o total da conta? Quanto ao agio de Bernardo, a commissão de José Simão e o preço exorbitante das mercadorias nada podiam oppor e assim acceitaram os débitos civados de furtos. O que devéras maravilhava aos devedores era a confiança do patrão fiando a elles, que não tinham onde cahir mortos, mais de um conto de réis.

Era uma terra enorme aquella onde ninguem fazia caso de dinheiro.

No sertão onde moravam, todos juntos não valiam um conto de reis. 

João das Neves ainda se lembrava que lhe fora preciso vender a sua vacca Amorosa, tão boa parideira,porque não teve crédito no commercio da villa para quarenta mil reis, elle que possuia uma posse de terra e alguns bichinhos. Não era elle só, eram todos os de lá. Pedro das Marrecas não achava quem fiasse delle um peso de carne por pequeno que fosse.

Agora na terra da borracha todos tinham crédito para contos de reis. 

Que importava que o patrão, que arriscava os seus cabedaes vendendo-lhes fiado, ganhasse muito nos generos. Tudo era negocio. E demais podiam morrer e elle era quem perdia o seu dinheiro. 



Satisfeitos por terem crédito embarcaram para o Centro do Bom Futuro já no fim de Maio. Quanto mais depressa chegassem aos seringaes, melhor seria. O tamanho da conta não os incommodava; em breve a pagariam e tirariam saldo.

Muito poucos delles sabiam o valor de um conto de réis e, mais de dois terços, em tal quantia nunca tinham ouvido falar.



</div>



<div "CAPÍTULO XXXIII">



XXXIII 



Algumas canoas conduzindo João das Neves e os companheiros, sahiram ao amanhecer para o Centro do Bom Futuro. Navegaram o Acre algumas horas e depois entraram no igarapé da Anta, subindo até o escurecer, quando fundearam em frente da barraca do preposto de Bernardo, chamado o corregedor pelos seringueiros.

O por do sol naquellas pairagens não embebia o espirito em melancholica e doce contemplação, mas impressionava mal com as suas tristezas. A floresta, aquella hora, já por si sotuma, carregada de sombras, tinha um aspecto apavorante, que mais accentuava o silencio tumular que rcinava nesse pedaço de terra virgem.

Encostadas as canoas, começou o desembarque.

Salvatierra, o corregedor, trepado na ribanceira do igarapé, berrava e praguejava contra Bernardo que lhe mandava em tão mal escolhida hora freguezes para accommodar.

Emquanto durou o transporte das mercadorias para terra o boliviano praguejou. A sua colera explodindo em gritos que atroavam até o coração da matta não apressava a descarga e muito menos afugentava o enxame de carapanas e muruins. Essas pragas em compacta nuvem cahiam sobre os homens atanazando-os com as suas dolorosas picadas. Muitos já tinham as orelhas crescidas de inchadas e o rosto todo coberto de empolas. Os mais sensiveis aos insectos eram os recem-chegados. Os outros soffriam, mas não tanto. A Salvatierra incommodavam pouco porque não tinha o sangue doce. Assim mesmo o boliviano só tirava o cachimbo da bocca quando gritava; estava sempre envolto numa columna de fumo, que o protegia das pragas.

A's nove horas da noite mais ou menos estavam todos recolhidos á barraca e sabe Deus como empilhados para passarem até o dia amanhecer.

O corregedor pouco ou nada se importava que estivessem a commodo; o que queria era que pela manhã estivessem todos vivos. Para serenar a balburdia, que se levantava de todos os cantos da pequena barraca, já tinha berrado-- uma noite depressa se passa, sucia de diabos. 

Mal o dia clareou, toda aquella gente, que se recolhera, mas não dormira, ergueu-se e sahiu da barraca. 



O crepúsculo matutino tão cheio de encantos em outras regiões da terra era quasi tão triste e feio como o por do sol. A floresta, a proporção qu se ia individualisando naquelle manto de sombras, a que a luz ia dando forma, salientando os contornos de suas arvores, adquiria os tons de uma paizagem tristonha.

Os assomos do sol no seio daquella natureza virgem era de uma magestade tal que o espirito em vez de se expandir, se recolhia. Uma neblina brancacenta, que a luz começava a irizar e a desfazer, toucava a cupola da floresta. Nem uma ave saudava ali a vinda da claridade.

Os cantores dos bosques atrozmente perseguidos pelo homem fugiam da vizinhança de suas tendas.

O dia amanhecia ali na mesma placidez com que havia na vespera desapparecido no occaso.

Nem as aguas do igarapé murmuravam; desciam silenciosas, sotumas sem um marulho sequer.

João das Neves e os companheiros ansiosos por conhecerem o el-dorado não se fartavam de investigar com a vista tudo que os cercava.

Um riosinho estreito, mas comprido, caracolava de floresta a dentro ensombrado por enormes e copudas arvores. Nas margens, de ambos os lados, fóra do alcance das enchentes, erguiam-se as barracas dos seringueiros, aqui e acola. Daquellas moradas subia atravessando a neblina da manhã uma espiral azul de fumo, que se emmaranhando pelos galhos da matta sahia fóra no espaço como um farrapo de nuvem. Eram em grande numero os fogos e estavam disseminados na grande área do Centro do Bom Futuro.

Este grande seringal se compunha de perto de quatrocentas estradas e tinha mais de cincoenta barracas. 

Salvatierra logo que o dia alteou depois de dar um ligeiro almoço aos freguezes foi localisal-os. Os que tinham de morar na margem oppostado igarapé tomaram canoas e os outros entraram de matta a dentro, levando a bagagem que podiam carregar. Estes eram em maior numero e iam acompanhados pelo corregedor. Os outros eram guiados por um preposto de Salvatierra.

O dia gastaram em arrumações. 

João das Neves escolheu para companheiro de barraca Pedro das Marrecas. A palhoça que lhes coube era como as outras d'ali, um problema de habitação, em um logar que não era muito apaúlado, porem a uma boa meia legua do igarapé. Até á tardinha levaram a transportar a bagagem. 

Quando a noite se fechou, estavam de fogo accezo no terreno e mettidos nos mosquiteiros. Era apavorante o silencio da floresta quebrado de onde em onde pelos uivos dos animaes noctivagos. A barraca era uma palhoça de folhas de jacy, aberta nos oitões, e trepada num tablado de paxíúba erguido a um metro do solo. As suas azas desciam até o soalho do lado que o sol nascia. Excellente poisada, mas pessima vivenda.

Para melhor abrigal-a tinham-na collocado á sombra de uma vetusta sumuhumeira, cuja altura e copa causaram grande admiração aos novos inquilinos.

Uma arvore tamanha nunca tinham visto. Acharam-na parecida com a barriguda do Ceará na casca e na folha. Miraram a arvore de cima a baixo, mas quando o exame chegou ao tronco viram uma cousa que os espantou, tão extranha era para elles. A haste a pouca distancia do solo estava guarnecida de sapupemas, grandes e largas pranchas, que sahidas da arvore, rodeando o tronco, como os raios o cubo de uma roda, iam-se implantando no solo. Estas taboas sahiam fóra da terra da altura de um homem, formando entre uma e outra, compartimentos em que cabiam algumas pessoas.

João das Neves e o companheiro levaram muito tempo examinando as sapupemas sem atinarem o fim da natureza creando aquelles contrafortes. 

O Neves não se conteve. Sem poder o seu espirito inculto entrar no conhecimento de tão notavel phenomeno e muito menos explical-o disse ao companheiro:

-- Hein, Pedrinho, então os pés de páo d'aqui têm camarinhas no tronco !...

E de facto havia, formadas por aquelles espeques que a natureza creou para amparar as grandes arvores do clima tropical nos terrenos alagadiços, pouco consistentes e falsos, bem espaçosas alcovas.

A primeira noite de barraca passaram-na em claro. Aquelles homens destemidos, acostumados a caçar veados em sua terra, mettidos dentro de esperas no cimo de crescidas arvores em noites tenebrosas de inverno, sentiram-se mal na solidão daquella floresta erma. De espaço a espaço um guincho desconhecido ou um assobio agudo quebrando o silencio profundo chegava até elles e lhes arrancava dos nervos estremeções de espanto.

Nas mattas do Ceará tinham ouvido na calada da noite, o urro cavo da onça, o ladro das raposas ao cio, a gargalhada hysterica da mãi da lua, mas nenhuma dessas vozes lúgubres e aterradoras os apovorára tanto. 

Deram graças a Deus quando os primeiros clarões do dia chegaram a terra.

Com o sol desappareceu o grito dos animaes nocturnos.

O cimo da floresta radiava, e a luz que o innundava, se coando atravez da ramaria espessa das arvores, a custo chegava á terra, illuminando-a com uma claridade diffuza. O disco do astro já tinha transposto a linba do horizonte e debaixo da matta havia o clarão crepuscular de uma tarde de inverno em um campo aberto.

Pozeram-se fóra dos mosquiteiros e sahiram ao terreiro da barraca. Da copa da sumuhumeira um trinado argentino numa gamma dos mais melodiosos accordes desceu numa onda mansa até os seringueiros.

Encantados com as notas harmoniosas procuraram saber quem as desferia. Muito tempo os seus olhares se mergulharam embalde atravez da folhagem verde-escuro da arvore. Quanto mais buscavam o cantor das selvas, mas elle os embevecia executando em sua afinada e canora flauta, melodias tão suaves que não pareciám moduladas por vivente da terra.

Depois de muito pesquisar, viram o instrumento que melodiava tão mellifluas notas. Era p yrapurú, avesinha débil e franzina, feiamente vestida de pardo, como as garridas, de bico longo e fino, sem belleza e sem donaire, que saudava o dia com o seu cantar divino. Em volta delle, o soberano cantor das florestas virgens do Amazonas, reunia-se a passarada attrahida pelos seus gorgeios.

Todos, embora mais lindos em plumagem, em porte, em tudo, não se atreviam a soltar um trillo quando o yrapurú cantava.

Os seringueiros embriagados de música fitavam a canora avesinha, desconhecida delles, a qual tinha com a doçura de seu canto creado extranhas lendas naquellas solitarias paragens; mais logo haviam de conhecel-a, de desejal-a, não para ouvil-a cantar, mas como um talisman de amor, uma fada encantada que daria ventura a todo aquelle que tivesse a dita de possuir bastava uma penna de sua vestimenta. Uma lenda dizia que ella não era ave, mas a alma de uma india, filha de pagé, a mais formoza donzella de sua tribu, que morrera de amores por um branco e agora cantava o seu malogrado idyllio na erma e solitaria matta. Mas o que todos affirmavam sem descrepancia é que o passarinho era encantado, que jamais houve quem lhe visse o ninho, e muito menos o apanhasse para tel-o domesticado em gaiola.

O yrapurú depois de muito trinar abriu as asas e voou de espaçoa fora seguido da passarada que attentamente o ouvia. 

João das Neves e o companheiro voltaram á barraca á tratar da vida. A bagagem estava toda por arrumar. Começaram pondo em ordem os objectos, localisando-os. A proporção que os collocavam, os examinavam. De muitos ignoravam a serventia.

Os víveres eram xarque, feijão, café, farinha, assucar, sal. As vitualhas davam para um mez e seriam repetidas, findo este praso.

Dos instrumentos o que mais mereceu a galhofa dos novos seringueiros foram as maehadinhas de cortar seringa. 

Pedro das Marrecas, mirando a lamina dellas, de dez centimetros de comprimento e cinco de largura, disse ironicamente para o companheiro:

-- Para uma bruta d'aquellas, apontando á sumuhumeirá, só um bruto destes !...

De tudo que tinha vindo do barracão o que mais lhes agradou foi o armamento: duas boas espingardas lazarinas, que preferiram aos rifles porque estavam acostumados somente com armas de carregar pela bocca com pólvora, chumbo ou balla, á vontade. Armas de fogo de carregar pela culatra nunca tinham visto e não tinham fé nellas.

Chamaram-nos matutos no barracão porque pediam lazarinas de pedra, espingardas antigas, e que ali ninguem queria por preço algum.

As que haviam no, armazem restavam encostadas como alcaide ha um bom par de annos.

Vieram além de outros utensilios dois magníficos terçados com bainha e centurão. 

Assim armados não havia indio, nem fera que podesse com elles.

-- Está tudo muito bom, Joãosinho, mas da branca nem uma terça <marca num="1" pag="312"> disse o Pedro das Marrecas.

De facto, nem uma frasqueira <marca num="2" pag="312"> de aguardente tinha vindo.

A barraca não era grande e ficou cheia de víveres e aprestos. 

Tudo arrumado, depois de uma boa libação de café com farinha, sahiram para as adjacencias da vivenda a vistoriar o sitio. Agora, que não tinham as horas contadas, como no dia do transporte da bagagem, observavam minuciosamente tudo. Extranhavam a falta de claridade em baixo da floresta, embora fóra o sol dardejasse alto.

A folhagem se emmaranhava de tal modo que era impossivel um raio de luz, cahido mesmo verticalmente, atravessal-a e vir resvalar na terra.



<nota num="1" pag="312"> Medida equivalente a quarta parte de uma garrafa </nota>

<nota num="2" pag="312"> Garrafão. </nota>



Rara era a clareira aberta pela queda de uma arvore, que dava entrada a uma onda do sol. Por essa claraboia, que parecia encastoada no céo, via-se um pedazo de firmamento enfumaçado e triste.

Porto da barraca, osbrabos <marca num="1" pag="313"> descobriram outra barraca menor e construida de outro modo. Os dois lances da coberta uniam-se na cumieira em angulo muito agudo e depois desciam até o chão. Os oitões completamente fechados, tinham somente uma entrada em um delles, esta mesmo estreita, baixa e aberta a sotavento.

Os seringueiros curiosos se approximaram e afastando um resposteiro de esteira servindo de porta, entraram.

Estavam num defumador. Olharam boquiabertos para os aprestos do preparo da borracha, para o borralho apagado e sem entenderem patavina do que viam, sahiram. Queriam explorar o sitio, mas que direcção haviam do seguir? O caminho mais trilhado era o que ia ter ao igarapé na barraca do Salvatierra. Não quizeram tomal-o. Depois de algum tempo de pesquizas notaram umas oito boccas de veredas de gado meio apagadas que sahiam circulando o terreiro. Aventuraram-se por uma dellas. A trilha entrava caracolando de matta a dentro. Como era differente das veredas de areias brancas do sertão delles, naquele mesmo mez, marginadas de arbustos em flor!



<nota num="1" pag="313"> Corrupção de bravo e porque eram conhecidos os seringueiros recém-chegados. </nota>



Comprehenderam pela estreitura do caminho e pelo rumo que levava indo de uma arvore muito parecida com a maniçoba cearense a outra arvore semelhante, estarem numa estrada de seringueiras. Devia ser, porque o caminhosinho só procurava as borracheiras, embora se dobrasse em repetidos cotovellos, pensaram. Além disso o lenho d'aquellas crescidas arvores, na altura de um homem estava todo coberto de espaço a espaço de pequenas cicatrizes.

Caminhavam um pouco receiosos vendo a hora que lhes sahia um indio ou uma fera.

Um bafo quente e humido ao mesmo tempo, se exalava da terra inteiramente coberta por uma camada de folhas podres. Não se via o chão. Embora o estio já tivesse começado recolhendo-se aos igapós e igarapés as aguas que alastravam a planicie, estava tudo ainda tão encharcado que o solo chiava debaixo dos pés, que o marcavam com pequenas poças.

Esta fartura d'agua é que invejavam para o Ceará flagellado por amiudadas seccas. Lá, era a aridez da terra esterilisada pela falta de chuvas que os matava, que os enxotava para as terras alheias; aqui mal o sabiam, era a excessiva abundancia desse elemento a mingua de que morriam lá, o maior inimigo da vida del-les, o factor de quasi todos os seus tormentos.

Andaram muitas horas e quando lhes parecia que aquella vereda não tinha fim, sahiram no terreiro da barraca.

Effectivamente elles haviam percorrido uma extensa estrada, que como todas ellas tomam a forma em arco, de ferradura. 

De novo na barraca cuidaram das necessidades do estomago, e não sahiram mais porque estavam avisados que chegaria a tarde um manso, <marca num="1" pag="315"> enviado por Salvatierra para ensinar-lhes o processo da extracção da borracha. 



<nota num="1" pag="315"> Seringueiro veterano. </nota>



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<div "CAPÍTULO XXXIV">



XXXIV



Quasi ao por do sol chegou o manso, caboclo de meia idade, cearense, como a quasi totalidade dos seringueiros da Amazonia, com cara de pouca saude e côr de come longe,.e foi recebido pelo Neves e Pedro das Marrecas, de braços abertos, com aquella lhaneza e bizarria, que tão bem caracterisam o hospitaleiro matuto do Ceará.

A' noite ceiaram já como amigos velhos.

Agasalhados nos mosquiteiros deram á lingua.

Joaquim dos Côcos, desterrado ali havia desoito annos, pedia aos patricios noticias de sua terra, o Cariry.

Não eram de lá; apenas lhe disseram que o inverno para aquellas bandas tinha sido bom e que tinha havido muito legume e muita rapadura. 

Mais ou menos satisfeito com tão laconicas novas poz-se inteiramente á disposição dos companheiros. Possuia uma longa pratica da vida dos seringaes, e o seu manancial de informações, quasi inexgotavel, de boa vontade o offerecia áquelles seus infelizes irmãos que sequiosos o procuravam.

Contou-lhes os perigos e as miserias de toda a casta a que estavam sujeitos ali. Avaliassem por elle que trabalhava havia mais de desoito annos e nunca tinha feito nada. Chegára no rio Juruá com a esposa, tres filhos pequenos e seis companheiros de trabalho. Em menos de seis mezes perdeu os filhos e os companheiros, de febres, e a mulher um boliviano raptou-a á força d'armas e vivia mettido com ella nas barbas delle.

Por esse começo de vida tirassem o que tinha padecido. Já não eram as maleitas que lhe davam um dia e outro não, o que mais o martyrisava era ser obrigado a ser testemunha das poucas vergonhas da mulher sem se poder vingar ou fugir para evitar a presença daquelle escandalo. Duas vezes tentou evadir-se, mas embalde. Os mestres de lancha de parceria com o dono do barracão lhe negaram passagem. Isso não foi nada; avisaram ao patrão e elle foi surrado e mettido no tronco oito dias.

Tres annos durou esse captiveiro horrivel com toda a sorte de tormentos e vexações. Poude então no fim desse tempo saldar a conta, na qual os juros representavam quatro vezes mais do que o capital. Por grande favor o patrão lhe concedeu liberdade, deu-lhe um passe, como qual conseguiu safar-se d'ahi e veio ter ao barracão de Bernardo das Ipueiras, onde foi aviado logo para este logar, o Centro do Bom Futuro. Aqui alem de pegar borracha de quatro mil réis o kilogramma no Pará, a doença não o deixava. Não passava um mez sem que as maleitas o visitassem quatro e cinco vezes.

Raro era o anno que não ficava devendo. Agora é que com a alta da borracha poude tirar um saldo de um contó de réis. Este dinheiro, pretendia com o que lhe rendesse a presente safra, levar para o Ceará, onde irá de passeio, mais com o fim de pagar uma promessa a S. Francisco das Chagas, de Canindé, do que ver a terra e os parentes. Essa divida ao santo que tão bom fora para elle, livrando-o do captiveiro não podia deixar de pagar, e se assim não procedesse estaria certo de que morrendo não se salvaria.

Tinha mesmo gosto de levar as suas duas arrobas de cera branca, nas costas até sua igreja, mandar dizer uma missa e ouvil-a.

Fazendo assim, quando morresse não andaria a alma delle penando e assombrando os outros a rogar que lhe fossem pagar a promessa.

Joaquim dos Côcos discorreu largamente sobre as usanças da terra abrindo os olhos dos patricios ás artimanhas dos patrões.

Quasi pela madrugada foi que se calou e deixou dormir os companheiros. Aquelle desejo insaciavel de desabafar as penas, de queixar-se de sua má estrella, não o deixava e por isso falou até cançar.

Ao alvorecer quando o yrapurú modulou o seu primeiro trinado do alto da sumuhumeira já elles o ouviram de pé preparando-se para o serviço.

Joaquim dos Côcos instruia-os e de quando em vez contava um caso dos seringaes.

Vestidos de calga, blusa, sapatos de borracha, e gorro, conduzindo machadinhas, tijellinhas e baldes tomaram uma das estradas que ficava pertencendo ao João das Neves e nella iniciaram o tiramento da borracha.

Joaquim dos Côcos, seringueiro experimentado, ensinava praticamente o processo, accrescentando algumas licções que a experiencia lhe havia dictado.

Na bocca da vereda numa alta e grossa seringueira deu começo ao serviço.

De machadinha erguida, suspenso no bico dos sapatos, descarregou o primeiro golpe na arvore na  maior altura que lhe alcançou o braço. O ferro apenas se embebeu na casca da madeira; chegando ao lenho, seria prejudicial, disse elle. Estava iniciada a primeira arreação. Uma tigelinha foi pregada á arvore pelos bordos, que se enterraram nos beiços da ferida. Seguro o vaso, Joaquim dos Côcos continuou as incisões circulando a haste até encontrar o primeiro talho. A grossura da seringueira admittiu dez arreações, tantas foram as tigelinhas pregadas. 

Mal o ferro sahia da entrecasca assomavam no labio superior da incisão as primeiras gottas de leite, branco como leite de vacca.

As pequenas espheras lactescentes vacilaram e cahiram na superficie metálica do vaso e em seu declive abrupto deslisavam precipites em finos arroios e em breve no fundo da bacia se reuniram e formaram um pequeno lago branco. As feridas já não gottejavam, deixavam o látex escorrer em fios pelos bordos dellas.

Joaquim dos Côcos, logo que pregou a ultima tigelinha na primeira arvore seguiu de vereda afora até topar outra seringueira. Esta era um pouco mais fina e só aguentou seis arreações.

João das Neves e Pedro das Marrecas com a máxima attenção seguiam o mentor e ouviam as suas regras e prescripções.

Joaquim dos Côcos depois de ter cortado umas dez madeiras entregou o machadinho ao Neves e mandou que elle manobrasse. O caboclo não se embaraçou; tomou o ferro e golpeou o páo com mão segura dando á incisão a profundidade devida, que o mestre ficou pasmado.

As tigelinhas collocou depressa e bem como se fosse veterano naquelle officio.

Chegou a vez do Pedro das Marrecas. Um pouco enfiado pegou no machadinho e fez as arreações muito devagar e mal feitas.

Joaquim dos Côcos, depois que elle pregou a derradeira tigelinha deu um muxóxo e disse:

-- A mode <marca num="1" pag="322"> que você ha de ser sempre brabo, seu Pedro ? !...

Pedro das Marrecas não respondeu, porem pelo rosto delle via-se que não tinha ficado muito gostoso com o prognostico.

Joaquim dos Côcos presentindo isso lhe fez ver que não levasse a mal as suas palavras, que a gente neste mundo para tudo precisava ter cabeça. Elle, por exemplo, não tinha cabeça de borracha ; estava velho naquelle serviço e as seringueiras cortadas por elle davam pouco leite. Conhecera no Juruá um caboclinho empalemado que não havia estrada ruim na mão delle; as madeiras se desmanchavam em leite cortadas pelo seu machadinho. 



<nota num="1" pag="322"> Corrupção de a modo. </nota>



Ora, quem não o sabe, dizia, que para fazer azeite é preciso ter cabeça. 

Não tendo cabeça de azeite não se metta em fazel-o, que no acto de apural-o mingua tanto que não dá nada.

Joaquim dos Côcos ia conversando e cortando as borracheiras ao mesmo tempo.

Em meio da estrada, ao atravessar de uma seringueira para outra, foi esbarrado por uma braçada de ramos cortados de fresco e que entupia a estreita vereda. O mestiço parou repentinamente e de susto se lhe transformaram as feições.

Os companheiros não se alteraram com a moita que lhes embargava o passo ; não sabiam o que tinha de máo e muito menos perceberam o sobresalto, que ella havia causado no mentor. Trataram de desobstruir o caminho, o que conseguiram com facilidade por serem poucos os ramos.

Joaquim dos Côcos não dera palavra durante a remoção do obstáculo; estava sarapantado. A sua vista não parava, andava de um lado para outro. A perturbação que tão claramente se lhe via nas feições e que em começo passou despercebida aos companheiros, agora enxergavam, tanto que Pedro das Marrecas perguntou-lhe: 

-- Hein, seu Joaquim a mode que você está com medo ?!...

-- Enhor <marca num="1" pag="324"> não... 

Não dizia a verdade. 

O seu espirito errava muito longe daquelle sitio. Continuava a cortar as madeiras de estrada afora, automaticamente sem prestar attenção ao que estava fazendo. Uma idea o obcecava completamente enchendo-o de temores e de receios. A braçada de ramos entupindo a vereda não lhe sahia da cabeça. Era um aviso dos selvagens, que despresado daria em resultado as scenas trágicas de que fora testemunha no rio Juruá. 

A evocação dessas reminiscencias cada vez mais o desalentava.

Fôra tres dias depois de um aviso semelhante diariamente repetido no mesmo logar da estrada, que os parintintins atacaram a barraca em que elle morava com alguns companhéiros. Nunca mais esquecera a fereza dos selvagens e sua ousadia.

Dos sitiados pelos indios só elle escapara porem por um milagre, para contar a historia. Agora aquella scena de sangue, que o tempo havia apagado um pouco, renovava-se com tal intensidade de colorido que o espantava. Seus olhos, voltados para dentro de si, viam a horda de barbaros tripudiando sobre os cadáveres das victimas e depois o desfilar della, atroando os ares com os seus cantos de guerra, levando como trophéos as cabeças dos assassinados espetadas em fortes varapáus. Depois os corpos, numa mutilação de arripiar as carnes, resupinos, num lago de sangue que o fulvo e mortiço clarão do. incendio alastrando-se e devorando a coberta da barraca, allumiava com uma claridade rubra destacando da mortecór vermelha aquellas figuras decapitadas em toda a sua hediondez !... E todo esse cortejo de um espectáculo tão sinistro lhe desfilava pela mente e elle o contemplava mudo e taciturno, cortando as madeiras de estrada a fora.



<nota num="1" pag="324"> Corrupção de senhor. </nota>



Ao meio dia mais ou menos, percorrendo o meio circulo da ferradura, chegavam a outra boccada vereda no terreiro da barraca. 

Entraram na vivenda. 

Joaquim dos Côcos sentiu uma certa animação, como se aquella palhoça o podésse valer no caso de uma investida dos indios. O seu rifle e as lazarinas dos brabos lhe deram uma certa coragem. Convidou os companheiros a tomar um chibé <marca num="1" pag="325">, uma beberagem do farinha, assucar e agua, para lhes illudir a fome até a noite, quando deveriam comer.



<nota num="1" pag="325"> No sul do Brasil, jacuba, no Ceará tiquara </nota>



Voltaram á estrada a colher o leite das seringueiras.

A primeira arvore cortada estava com as dez tigelinhas quasi cheias.

-- Boa madeira ! quando chegar a arreação no toco as tigelinhas não caberão o leite, disse o mestre despregando os vasos e despejando o liquido no balde. 

A colheita durou até duas horas da tarde mais ou menos, quando sahiram no terreiro da barraca. O balde vinha cheio até os beiços. João das Neves como dono do precioso liquido era quem o carregava e foi quem o conduziu até o defumador.



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<div "CAPÍTULO XXXV">



XXXV



Estavam no defumador, acanhado e selvagem laboratorio, onde a borracha era preparada por um processo ainda muito rudimentar ensinado somente pela pratica e pela experiencia.

Pelos utensilios de tão importante industria agricola avaliava-se de sua miseria scientifica. Não havia ali um apresto que tivesse o cunho do progresso. Todos eram grosseiros e toscos á excepção dos vasos metálicos que continham o leite.

Joaquim dos Côcos entrou com os companheiros no defumador.

O vão da palhoça, pouco espaçoso, quasi ficou cheio com as pessoas delles. Em breve foi accezo um pequeno fogo no meio da barraca. Uma fita de azulado fumo levantava-se da tulha de cascas de ouricury que crepitavam comidas pelas labaredas. O fogaréo pouco tempo esteve exposto : cobriram-no com um boião do tamanho e do molde de uma forma de assucar, tendo como esta um orificio largo no vértice do cone. O fogo assim meio abalado, mal se fazendo a combustão com o ar que escassamente entrava pela base do vaso em falso no chão, produzia uma fumaça espessa e abundante, que do ápice do boião se elevava em serena e inteiriça columna até topar a coberta palhiça onde se alastrava coando-se depois pelos pequenos intersticios em demanda do espaço. 

Joaquim dos Côcos depois de uma succinta explicação sobre o modo de fazer o fogo e escolha do combustivel, começou a operação da defumação.

A bacia com o leite foi collocada na visinhança do boiao. De um lado estavam fincadas no chão duas pequenas forquilhas, na distancia de meio metro mais ou menos uma da outra e recebendo entre as curtas orelhas uma travessa; era o guindaste.

Joaquim dos Côcos tomou um páo, que tinha a forma de um remo, chamado cavador e que estava em um dos cantos da barraca, e aguentando-ó pelo cabo mergulhou a pá na bacia de leite. Molhada que foi retirou-a daquelle banho e suspendeu-a pouco ácima do orificio do boião quebrando a columna de fumo, que se alastrou pela pá do remo, coagulando o leite, que de repente se mudou numa pellicula escura e tensa vestindo a superficie da madeira. Voltada a outra face para o jacto de fumaça formou-se outra pelle de borracha que se unindo pelas bordas á primeira fez um envolucro, uma bainha que escondeu a pá do remo. Esta operação durou instantes; voltou o cavador ao banho e depois ao fumo. Nova camada de gomma elástica se formou e adheriu a primeira.

A atmosphera daquelle apertado recinto afogava Joaquim dos Côcos, e os companheiros, se alagavam de suor. Não era o calor asphixiante que mais os torturava, era a fumaça que lhes fustigava os olhos inundando-os de lagrimas; era o suor que lhes escorria de todos os poros do corpo assanhando os carrapatos pulgas, que se lhes enterravam na carne, o coaxy <marca num="1" pag="329"> que lhes queimava a pelle produzindo uma comichão tão impertinente que lhes dava vontade de coçar até arrancar o couro. 



<nota num="1" pag="329"> Nateiro que se forma a superficie do aguaçal no tempo das enchentes e que se agarra aos troncos e depois de secco vóa e se difunde no ambiente. </nota>



João dasNeves e Pedro das Marrecas estavam desoccupados, podiam se esfregar a vontade, porem outro tanto não acontecia a Joaquim dos Côcos, que com as mãos occupadas aguentava fazendo das tripas coração, aquelle prurido desesperado que lhe irritava a pelle como se tivesse sofrido uma fricção de urtigas.

Mal podia ás vezes soltar uma das mãos emquanto batia na cabo-verde <marca num="1" pag="330"> que lhe ferroava nas pernas produzindo uma dor tão aguda como se a tromba della fosse um estylête de aço. A mosca esmagada cahia, mas do ponto em que sugava descia um fio de sangue.

Era uma verdadeira flagelação aquelle labutar na defumadura.

Joaquim dos Côcos estava tão afadigado que a côr terroza de seu rosto tinha assumido uns ligeiros tons róseos, uns rubores de saude. 

Do meio para o fim da operação o peso da borracha impedia de manobrar o cavador sem um apoio. Foi então que aproveitou o guindaste descançando neste a parte do remo de forma que ficasse mais ou menos em equilibrio.

Do tecto da palhoça descia uma corda, que se terminava em uma laçada e isso na visinhança do cabo do remo.

Joaquim dos Côcos fel-a entrar na extremidade do cavador ; o que deu a este a estabilidade necessaria para ser continuada a operação.



<nota num="1" pag="330"> Mosca damninha. </nota>



Não havendo mais liquido em quantidade para mergulhar a prancha <marca num="1" pag="331"> esta foi sendo lavada com o leite que apanhado com uma cuia lhe deitava por cima o seringueiro. 

Defumada a ultima gotta estava concluido o trabalho e tinham no cavador uma pelle com cinco kilogrammas de peso, que foi tirada da pá e levada a face de um liso pranchão, onde foi amassada para que as capas formadas uma á uma ao contacto do fumo, ficassem bem adheridas umas ás outras.

Na superficie d'aquelle páo escuro, João das Neves a mandado de Joaquim dos Côcos em falta de assignatura, gravou o seu ferro de gado, com um dente de peixe já ali posto á mão para aquelle mister. Firmava assim a sua propriedade com aquelle signal, que a borracha ainda fresca recebia e conservava.

Era a tardinha quando afastaram o reposteiro do defumador e sahiram os seringueiros não em rumo da barraca, mas de um igapó que ficava perto dali. Com os rostos escaldados como se sahissem de uma fornalha e o corpo a arder como se estivesse sob a acção de um caustico iam com pressa de se metterem n'agua para alliviarem as dores da queimadura.

Em breve mataram o desejo entrando de brejo a dentro até a cintura. A agua estava morna, mas sentiram-na gelada, tal era a quentura que tinham no corpo.



<nota num="1" pag="331"> Borracha que está no cavador. </nota>



Lavaram-se até matar a comichão, até arrancar o ultimo Carrapato que os mordia.

Esfregavam-se com a lama do brejo, inoculando assim pela pelle mais paludismo, como se as outras vias já não fossem bastantes para enchel-os dos miasmas dos pantanos, ali tão abundantemente espalhados.

Refrigerados pelo banho, voltaram para a barraca em trajes de Adão.

A roupa de trabalho devia estar empestada de pragas e por isso não quizeram vestil-a.

Em casa tomaram vestimenta e cuidaram immediatamente da comida. Uma boa trincha 

de jabá <marca num="1" pag="332">, mal lavada e apenas chamuscada, com pirão frio de farinha e agua, foi-lhes a principal refeição daquelle dia. Uma chicara de café pela manhã, um chibé mais tarde e agora aquella comida de carne salgada, cujo valor alimenticio era pequeno, e a digestão penosa, constituiram a receita do organismo em vinte e quatro horas. Os gastos eram grandes e o déficit o corpo accusaria em breves tempos.

Cançados, estropeados mesmo, mal enguliram o derradeiro boccado, cahiram nas redes. 



<nota num="1" pag="332"> Xarque. </nota>



O somno não se fez esperar; adormeceram profundamente. O proprio Joaquim dos Côcos que tinha o espirito tribulado, desterrou as apprehensões e dormiu como os outros.

A hora do yrapurú cantar já estavam de café no estomago e de caminho para o seringal.

Pedro das Marrecas ia ser empossado em uma boa estrada de mais de um cento de madeiras.

Joaquim dos Côcos com o aprendiz iniciou o serviço; emquanto João das Neves, que se considerava mestre no officio, tomou conta da outra sua estrada e nella foi cortar.



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<div "CAPÍTULO XXXVI">



XXXVI 



Tomem bem a semtoma <marca num="1" pag="335"> do que lhes digo: os diabos são traiçoeiros como as onças, mas não atacam sem avisar tres vezes, dizia Joaquim dos Côcos, na occasião de despedir-se dos companheiros de volta para a barraca de Salvatierra.

Esta recommendação poz os brabos em verdadeiro sobresalto.

Com a cabeça cheia das mais sanguinolentas historias dos indios, a maior parte dellas contadas e exaggeradas ao sabor da lenda, não podiam deixar de ficar aniquilados tendo recebido uma intimação dos selvagens. 

João das Neves era o mais apprehensivo. 

Na sua estrada é que havia sido o aviso. 



<nota num="1" pag="335"> Syn. de sentido. </nota>



Ao amanhecer, quando Joaquim dos Côcos retirou-se, elles foram para o serviço, mas sabe Deus com que medo.

Para maior segurança de suas pessoas levaram os terçados e as lazarinas.

Separaram-se no terreiro entrando cada um em sua vereda.

João das Neves ainda ia mais sarapantado do que Pedro das Marrecas.

Qualquer rumor que ouvia o assustava. No silencio sepulchral daquella matta secular e virgem a queda de uma folha, qualquer som emfim, adqueria a intensidade de um ruido forte. Desconfiado de tudo seguia golpeando as seringueiras e pregando as tigelinhas, sempre com o ouvido alerta e examinando com a vista repetidas vezes a estrada adeante e atraz.

Antes de chegar ao perigoso logar do aviso começou a ouvir um gemido rouco e longo semelhante ao arrulho da jurity, porem muito mais intenso e muito mais vibrante.

Quem gemeria assim tão fundo na calada selva, interrogava o seu amedrontado espirto ?... E o gemido cada vez mais cavo e mais longo se avisinhava.

Quem sabe se não era a horda de homens nús, comedores de gente que vinha e em breve não tripudiaria sobre o seu cadáver, pensava.

Aquelles indios agigantados cujas medonhas figuras tão bem desenhara Joaquim dos Côcos, ficaram nitidamente gravados em sua mente e agora evocados por aquelle extranho som desfilavam pela imaginação delle a fóra como um cortejo sinistro de phantasmas. E o gemido cada vez mais rouco e mais fundo se fazia. 

João das Neves quedou-se para escutar melhor. Despediu a vista e ella pouco caminhou, esbarrou-se na floresta espessa e nada descobriu !...Nenhum som mais, a não ser o daquelle trovão surdo que parecia vir se arrastando pela terra a fóra, ondeava naquelles logares ermos.

Se o rumor que agita o ar em tão exquisita gamma éo canto de guerra dos selvagens muito perto devia vir a horda e no emtanto nenhum tropel se ouvia perturbar o silencio mortal da matta, assim João das Neves reflectia em sua medroza quietação. 

O gemido veio vindo até que reboou em cheio pela estreita vereda e se encanou por ella como por um tubo, e foi echoando de curva em curva pela estrada a dentro.

Quando o caboclo se viu envolto na grande onda sonora não discorreu mais, marinhou pelo páo que lhe ficava mais proximo. Trepado nos últimos ramos de uma alta seringueira, olhava para baixo esperando a passagem do bicho, que tinha um urro tão possante que fazia estremecer a terra. 

João das Neves contava ver passar em frente de seus olhos um indio ou um animal do tamanho de um touro, quando com grande assombro seu assomou na vereda uma pequena ave, parecida com o capote <marca num="1" pag="338">, andando de cabeça baixa, gemendo em procura do bando, que tinha perdido.

Era o jacamín, que assim atroava os ares com o seu exquisito canto, tão alto e tão vibrante que não se acreditava fosse modulado pelo seu pequeno larynge.

O baixo profundo desappareceu na vereda e o ar ficou tremendo com as suas notas graves. 

João das Neves, assombrado com mais aquella maravilha da terra da borracha desceu da arvore e continuou o serviço. Ao chegar ao logar do aviso esbarrou; a vereda estava entopida. O caboclo sentiu eriçarem-se-lhes os poucos pellos do corpo e a tremer como se estivesse num forte accesso de paludismo caminhou para a improvisada moita e removeu-a. Todas as visões das pavorosas historias de Joaquim dos Côcos acudiram-lhe á mente. Sabe Deus com que constrangimento continuou a trabalhar. Espantado como um veado, ia golpeando as seringueiras, com o olho no páo e o olho na matta. Qualquer ruido o assustava.



<nota num="1" pag="338"> Gallinha da Angola. </nota>



Via os caboclos nús, comedores de gente, sahindo de todos os cantos!

Com a cabeça toda cheia de selvagens e de trucidações chegou no terreiro da barraca. Entrou na palhoça, preparou e tomou o chibé e estava procurando coragem para voltar á estrada, quando chegou Pedro das Marrecas.

O mestiço entrou com precipitação e afadigado como quem vinha perseguido.

João das Neves, extranhando-he os modos e as feições, perguntou-lhe o que lhe havia acontecido na matta.

Desenvencilhando-se dos aprestos do trabalho e das armas, mudando de roupas informou ao companheiro que havia sido picado na perna por uma formiga <marca num="1" pag="339"> preta, grande, quando fóra da estrada distrahidamente olhava para uma abelha que frechava no tronco de um angico. E mostrou-lhe a perna já inchada e vermelha com um aspecto erysipelatoso, listrada de vergões escarlates que subiam para a virilha. A dor da mordedura agora já não era nada comparada com a da cabeça que o desatinava como se lhe estivessem arrancando os miolos, dizia.

Pedro das Marrecas todo contrafeito e sentindo os primeiros arrepios do grande tremor de frio que lhe havia de sacudir o corpo todo dando entrada a febre que o desaccordaria, procurou a rede, pensando estar com maleitas.



<nota num="1" pag="339"> Tucandeiro. </nota>



Em breve o veneno da tucandeira, e não o do paludismo, se alastrava pelo corpo delle todo, fazendo-o tremer tanto que a rede não parava e os movimentos della iam até a coberta palhiça da barraca. 

Ao periodo de frio succedeu uma febre de 40 graos que o desaccordou.

João das Neves achou que o companheiro estava doente, porem que era inútil a sua presença ali, uma vez que elle só morrena si tivesse de morrer. Adepto fervoroso deste fatalismo estupido e tendo muito que fazer voltou ao seringal.

A doença do Pedro lhe havia augmentado a tarefa; alem do leite de sua estrada tinha que aproveitar o que o companheiro tinha tirado antes de ser picado pela tucandeira.



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<div "CAPÍTULO XXXVII">



XXXVII 



Era a terceira vez que João dasNeves entrava na estrada do aviso para tirar borracha. Um vago temor o esmorecia desde a vespera; seu espirito como que presentia um máo successo.

A noite não poude dormir; passou-a quasi em claro. Uma ou outra madorna e esta mesmo atribulada de pesadelos. Os selvagens comedores de gente não o deixavam um instante.

Foi nesta afflictiva insomnia que sentiu deveras, saudades de sua terra. Deixar a placidez, o quieto remanso de sua casa, onde vivia pobre, mas tranquillo, para viver desassossegado ali, vendo a hora de ser comido pelos indios, fora uma loucura, pensava.

Depois destes pensamentos vinham outros que não o desalentavam menos. Uma ponta de remorso o feria agora.

Nunca pensou se arrepender tão depressa de deixar o Ceará pelo Amazonas, ainda que por pouco tempo. Chiquinha e os filhos como estariam passando? A mulher era muito vivedora, mas tinha ficado com a barriga á bocca. Quem a trataria na cama e quem sustentaria as creanças ? Agora é que pensava em tudo isso.

Fascinado pelo rolo de dinheiro de José Simão havia esquecido as pessimas condições em que ficara a familia. Nem saudades teve della deixando-a tão desamparada. Foram necessarias as agruras daquelle viver de bicho, sugeito a todas as intemperies de um clima ruim e a todos os perigos de uma região deshabitada, para lhe despertarem n'alma a lembrança da familia e a piedade della. Aquelles sentimentos, que se não fosse o soffrimento não teriam accordado nelle, chegavam muito tarde. Estava a muitas centenas de leguas de seu lar, tão longe e tão bem degredado entre feras e selvagens que era quasi certo mais nunca lá voltar. Agora todos os sonhos de riqueza que a ambição creara, suggerida pelo dinheiro dos pairaras que lá chegavam contando somente as maravilhas do el-dorado e calando as desgraças de toda a casta que a todos os instantes aconteciam aos emigrantes, desappareciam, deixando-o aniquilado. José Simão era um falsario. Nunca lhe dera a entender o perigo que corre a vida de quem por essas paragens se aventura.

Se podesse fugir, atravessar voando os mares iria ter ao seu sertão e uma vez lá ao lado da mulher e dos filhos se contentaria com o pouco que aterra lhe désse, nunca mais se rebellaria contra Deus pela falta de chuvas, nem juraria negar ao solo o suor do rosto.

Com a cabeça cheia de todas estas mortificantes ideas viu amanhecer o dia e tão intrigado estava com aquella terra de selvagens que o melodioso canto do yrapurú, que tão bonito achava, tinha agora notas desafinadas que lhe molestavam o ouvido.

O sol estava fóra e era preciso não perder um só minuto de tão precioso tempo. Só o trabalho poderia libertal-o, só o trabalho lhe restituiria a patria, que elle pensou não amar tão perdidamente.

Preparou-se e sahiu com Pedro das Marrecas, que havia sarado depois de vinte e quatro horas de febre da mordedura da tucandeira.

No terreiro da barraca combinaram ir juntos ao logar do aviso a ver se os indios tinham feito a terceira intimação.

E lá se foram de vereda a fóra armados de lazarina e terçado.

Cada qual ia mais sarapantado. Em caminho um bando de macacos que encontraram e que fugiu aterrado gritando e aos pulos de arvore em arvore quasi os matou de medo no primeiro momento, antes de se convencerem de que não eram indios.

Pelo passo incerto do caminhar delles via-se que seguiam vacillantes. Um animal que desparasse de matta a dentro seria bastante para que voltassem correndo assombrados.

Ainda que quizessem reagir, ser fortes, não podiam. O meio e sobretudo as pavorosas historias de Joaquim dos Côcos lhes haviam amedrontado tanto o espirito, que lhes era impossível qualquer acto de coragem, de energia.

Chegaram ao logar; estava entupida avereda. Quasi os fulminou a certeza d'aquelle acontecimento. Sem mais indagares desembestaram para traz atroando os ares com os mais exquisitos e vibrantes gritos. Corriam n'um assombramento que claramente se lhes pintava no rosto, que se havia tornado de uma lividez cadavérica.

Viram os ramos e só uma idea germinou no cerebro delles já bastante fatigado por pensamentos sinistros-- o de um proximo ataque dos selvagens. Corriam completamente convencidos de que eram perseguidos pelos indios. O vento, que lhes zunia de ouvidos a dentro, pensavam no atordoamento do medo ser o sibilar da flexa indigena.

A carreira era vertiginosa. Cavallos desembestados não correriam mais. Passaram pela barraca e nem a viram; ella havia ficado confundida no pastel esverdeado que os olhos delles faziam das imagens que apanhavam.

E foram assim correndo até o terreiro da barraca de Salvatierra, onde cahiram extenuados. 

O boliviano vendo-os chegar e cahir botou-se para elles exclamando:

-- Caramba ! o que foi ?!

Os derribados arquejavam como se estivessem se acabando. Nos olhos as pupilas estavam meio apagadas. Atordoados não ouviam o interlocutor e se o ouvissem não lhe poderiam responder, tal era o affrontamento e tão grande o susto que assim os estarrecia.

De narinas accezas resfolegavam num estertor rofenho de quem se está afogando.

Em breve ao redor delles se formou um circulo de curiosos, de toda a gente que se achava na barraca. O que veria a ser aquillo, qual a causa de tamanho assombramento? perguntavam uns aos outros. 

Joaquim dos Côcos, que tambem viera attrahido pelos gritos e pelo motim, contou ao boliviano o caso do aviso. Estava tudo explicado. Era preciso saber dos brabos se tinham sido atacados ou se haviam corrido sem ver de que. Foi necessario esperar ainda algum tempo para que elles podessem falar. Estavam devoras affrontados.

Salvatierra depois de exhortar-lhes a coragem, mas sem resultado, lembrou-se de reanimal-os com aguardente.

O alvitre foi magnifico. Só o cheiro da cachaça deu-lhes logo tanto animo que se sentaram. Os primeiros tragos ainda enguliram espacadamente temendo algum engasgo. Depois de alguns sorvos esvasiaram os copos, que eram de terça. Nunca estimulante o mais enérgico teve acção mais prompta. Levantaram-se e pouco tempo depois relatavam ao boliviano o acontecido. 

Salvatierra, que era guerreiro por índole e malvado ao mesmo tempo, exultou por ter occasião de exterminar mais algumas dezenas de indios. Era um inimigo figadal dos selvagens. Não perdia ensejo de matal-os como animaes damninhos.

Até mesmo os domesticados com quem negociava, podendo exterminava. Não fazia mysterio de seu odio aos caboclos bravos, pelo contrario alardeava-o. Gabava se sempre do seo estratagema, dizia, matando de variola uma maloca <marca num="1" pag="346"> inteira. A bexiga havia assolado o seu centro em um anno, não havia ainda muito tempo, e Salvatierra por perversidade reuniu as roupas empestadas dos que haviam perecido e deu-as de presente aos indios de uma maloca já meio civilisada e com que elle commerceava. Os selvagens se mostraram muito satisfeitos recebendo a dadiva, que levaram para assuas tabas. Usaram desde logo as vestimentas e as redes mesmo impregnadas, como estavam de pus variólico e alguns dias depois a peste explodia derribando quasi todos os habitantes da maloca. A febre intensa que os queimava e a quebreira que os amollecia procuravam curar nos igarapés, onde se mettiam com agua pelo pescoço.



<nota num="1" pag="346"> Pequena tribu. </nota>



Raros foram os que escaparam do contagio e não houve um só doente que não morresse. No fim da epidemia as tabas estavam quasi sem gente. 

Tendo um semelhante scelerado como inimigo, os indios daquellas paragens estavam com a vida sempre em perigo.

Assim, logo que Salvatierra foi sabedor do aviso alarmou o centro inteiro fazendo descargas de rifles.

Mal chegou as barracas e as estradas o signal de alarma, correram os seringueiros a vivenda do corregedor, que com tanta instancia pedia soccorro.

Com mais de cem homens todos muito bem armados e bastante quentes de cachaça partiu Salvatierra para o logar do aviso.

Uma algazarra infernal atroava os ares espantando os animaes bravios por onde passava a horda de homens aguardentados. A quieta solidão da matta perturbava o extranho borborinho, que ondeava de espaço a fóra.

De todos os cantos onde chegava aquelle rumor confuzo espirravam veados e outras caças. Só os jacarés não se assustavam,vinham sorrateiros ás margens dos igarapés tomar fé na esperança de alguma preza.

Salvatierra, meio aguardentado tambem, marchava entre os seringueiros ameaçando céos e terra com as suas hespanholadas. Desta feita iria ao Perú, dizia, e em tão longa travessia jurava que não havia de deixar um indio para semente.

João das Neves e Pedro das Marrecas não pareciam os mesmos. A cachaça lhes havia dado tanto animo e tanto desambaraço, que se destinguiam entre os mais berradores e pirueteiros. Ao entrarem na estrada foram elles os chefes-de-fila marchando tão aprumados e cheios de si que não pareciam os mesmos que pouco tempo antes por ali tinham passado desembestados espantando com pavorosos gritos a pacata bicharia em seus poisos.

Chegando ao logar do aviso Salvatierra como o mais graduado do bando e mesmo o mais versado em negocios de caboclos bravos se adeantou e depois de rigorosa vistoria declarou furente, numa colera que parecia lhe querer estoirar as veias do pescoço, que aquillo era tramoia de algum perro e não aviso de indio. Que reparassem que os ramos haviam sido cortados a terçado e postos de um modo differente do que usam nesses casos os selvagens. 

Desentopiram a vereda e a vozear como uns possessos lá se foram de estrada a fóra em demanda da barraca do boliviano. 



</div>



<div "CAPÍTULO XXXVIII">



XXXVIII 



A trese de Junho pela madrugada despertaram João das Neves e o companheiro transidos de frió. O ar que vinha de fóra era gelado; passava a rede, o cobertor, e chegando ao corpo cortava-o com a sua frialdade, mas uma frialdade de doer, como nunca tinham sentido nem nas manhãs frigidas de S. João em sua terra.

Por mais que se encolhessem, que se embrulhassem, o frió não passava. Não podendo mais aguental-o deitados se levantaram e fizeram fogo.

O yrapurú havia já gorgeado o seu canto matinal, mas a luz do sol, aquella hora, era muito mais fraca que nos outros dias. Apenas uma claridade baça de crepúsculo vesperal inundava a terra. O sol havia transposto a linha do horisonte e no entanto não mostrava o disco, que se conservava de todo velado por uma neblina cinzenta. Apenas a imagem do astro se divulgava meio apagada envolta naquelle lençol de vapores.

Os seringueiros extranhando a pouca claridade sahiram para o terreiro e dahi procuraram uma clareira de onde podessem ver o céo. Acharam-na com difficuldade, porem pouco tempo examinaram o espaço tão bem vestido daquella exquisita cerração. O frio fel-os recolher tiritantes. Amedrontados com o phenomeno não achavam meio de explical-o.

Joaquim dos Côcos não lhes havia falado delle.

Em que daria semelhante frio, que não deixava a gente sahir de perto do fogo?

A falta de aguardente lastimavam, mormente Pedro das Marrecas, que suspirando dizia -- quem me dera ao menos uma terça da branca!

Com semelhante tempo era-lhes impossivel ir para o serviço. Se dentro da barraca ao pé de uma fogueira o ar cortava a pelle, quanto mais no descampado! Quando o dia alteasse o Nevoeiro se desfaria e então o sol chegando vivo á terra lhe restituiria o calor perdido, pensavam.

O astro levantou-se, chegou ao zenith e não desfez a neblina, que lhe velava o disco. 

Quanto mais crescia o dia mais augmentava a friagem.

Matutavam no caso enroscados á beira do fogo, mas sem poder explical-o. Tudo naquella terra era exquisito. Ainda não tinham visto nada, lhes diziam os mansos. Pelo pouco que haviam observado, avaliavamo resto. Nos dias que ali estavam e que não eram muitos já tinham passado por boas. A tramoia do José Canindé se fazendo de indio e pondo aviso na estrada os ia matando de medo. Mas custou-lhe caro a graça. Salvatierra, que não perdia occasião de cevar a sua maldade, não quiz saber se foi por troçã ou se para afugentar os brabos que o caboclo fizera o espantalho na estrada que havia sido delle e lh'a tomaram porque não dava conta. Prendeu-o e o mandou amarrado, como um scelerado, para o barracão, onde, disseram os que o escoltaram, foi por ordem de Bernardo barbaramente açoitado e mettido no tronco. Tudo se havia de ver naquella terra. Tinham se deitado suando de calor e accordavam pela manhã tremendo de frio.

Para expertar o corpo Pedro das Marrecas lembrou antigas usanças ao companheiro e accordes no remedio foram tomar banho no proximo igapó. O lago raso e pequeno tinha quieta a superficie escura mosqueada de pontos brancos. Não repararam nisso; tiraram a roupa e se metteram n'agua. Para reagirem contra a frialdade agitavam-se em repetidas cambalhotas; mas não havia calor humano que resistisse á temperatura gelada do banho.

Iam sahir quando viram que na face lisa do lago boiavam centos de peixes mortos. Apanharam alguns de bom tamanho, que lhes ficavam mais proximos; não tinham lezão alguma no corpo, nem uma escama arrancada, haviam morrido de frio. 

João das Neves e os companheiros, rôxos, engelhados, tiritantes, se vestiram e voltaram á barraca conduzindo uma ínfima parte da pescaria da friagem. Em casa ao calor do lume escamavam o peixe e commentavam o caso.

Custavam a acreditar no que viram. Era para elles tão extraordinario peixe morrer de frio como sapo morrer afogado.

Contra a verdade do facto nada se podia dizer. Aquella mortandade, que quasi cobriu de cadáveres a superficie do ígapó, só podia ter sido feita por um tingui, mas não havia signal algum de plantas n'agua e esta o menor cheiro tinha viroso e acre. Convencidos de que os peixes tinham morrido de frió, e não envenenados, ficaram amedrontados com a friagem temendo que ella augmentasse a ponto de matal-os tambem.

O dia se acabou e a temperatura se conservou sempre baixa. De quando em vez uma lufada de vento mais gelado ainda do que o ambiente, esfuziava; vinha talvez dos Andes, da região das neves eternas onde se saturara de tão intensa frialdade.

Tres dias durou o phenomeno meteorológico. Já os brabos estavam bastante apprehensivos e dispostos a irem á barraca do corregedor quando no quarto dia o sol appareceu rutilo sem uma poeira de neblina que lhe mareasse o brilho.

A luz benéfica do astro desceu dos espatos celestes até aos abysmos da terra, enchendó-os de claridade, e saudaram-na jubilosos, desde o verme rastejante até o homem, desde a humilde herva á soberba e colossal sumuhumeira.



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<div "CAPÍTULO XXXIX">



XXXIX 



O barracão de Bernardo das Ipueiras estava em festa. Todos os annos festejava-se ali S. João Baptista, o santo da devoção da boliviana.

Ao alvorecer do dia 23 de Junho uma salva de tiros de roqueira ribombou nos ares e foi estrondeando pela floresta. Era o começo dos festejos. Desde a vespera que chegavam convidados. O porto estava coalhado de canoas e continuavam a chegar montarias.

Todos os freguezes do barracão Deus te ajude compareceriam á festa ; era uma exigencia esta do patrão, mais com o fim de revistar o pessoal de seus seringaes do que de proporcionar a elle ensejo de se divertir.

A casa estava toda em revolução. 

Conchita não parava, arrumando e desarrumando, dando uma ordem e outra, e para não perder o alento de quando em vez fazia uma visita a frasqueira de aguardente.

Bernardo, em traje domingueiro, recebia as visitas no porto e as acompanhava á casa. Estava sempre fóra com o olho no rio, não para receber os seringueiros, porem certas pessoas de consideração, que havia convidado. Cada canôa, que apontava, não a perdia de vista até encostar. Ao meio dia mais ou menos avistou um grande batelão, que descia ao sabor da correnteza. Olhava com interesse o batel até que sob o tejupá lobrigou o vulto de um padre. Esta nova, que lhe deram os olhos, o alegrou tanto que foi communical-a a amazia pedindo-lhe alviçaras.

Voltou de novo ao porto. Já a embarcação estava tão perto que claramente se viam e conheciam as pessoas que vinham nella. Impellida por quatro remos e governada por um patrão hábil deslisou galhardamente por entre amultidão de cascos, sem roçar em nenhum, até que encostou.

Bernardo de chapéo na mão recebeu o cura fazendo-lhe repetidas venias.

O padre inclinou-se com um paternal e velhaco sorriso em seus labios finos.

Entraram no barracão. No compartimento destinado ás visitas de cerimonia estava Conchita acompanhada de suas damas de honor, umas quatro caboclas feias, porem douradas e vestidas de seda. 

O sacerdote, um homem ainda novo, bem apessoado e grande aventureiro, fez vista gorda entrando naquelle gyneceu do vicio. Conhecedor da influencia que Conchita exercia sobre o amazio, o qual possuia uma das melhores fortunas daquellas paragens, entrou respeitoso, descoberto, e se dirigindo a boliviana cumprimentou-a com o maior acatamento, indagando da preciosa saude della.

A cabocla agradecida, estendeu a mão ao padre, uma mão chata, feia, parecida com uma barbatana de tartaruga, mas luzente de anneis de ouro, alguns com brilhantes, e com as cravações de todos os tamanhos e feitios. Dos dedos só os polegares não estavam ornados.

O padre Bibiano, todo cortezia, apertou entre as suas macias e polpudas mãos a garra de Conchita.

Sentaram-se, mas Bernardo voltou ao porto.

A gente do Centro do Bom Futuro acabava de chegar.

Salvatierra, logo que avistou o patrão, correu para elle e foram rasgados os mais amistosos cumprimentos.

Dos corregedores era este o mais estimado de Bernardo. Era o seu homem. Não o distinguia porque elle fosse irmão de Conchita, mas pelo dom que Salvatierra possuia de fazer a borracha augmentar de peso no armazem depois de recebida dos freguezes; crescia em vez de diminuir.

João das Neves, Pedro das Marrecas e os demais companheiros trazidos por José Simão tambem tinham vindo á festa. Desses cincoenta homens que havia um mez trabalhavam nos seringaes, que tinham seguido sãos e robustos, apenas um gosava saude. Os outros ninguem diria que fossem os mesmos caboclos fortes que para lá foram, tal era a decomposição das feições delles. Aquelles rostos côr de cobre polido haviam amarellado tanto em tão pouco tempo que pareciam caras de defuncto. Todos, a excepção de um, estavam atacados de paludismo. Afora Pedro das Marrecas, que estava bom e João das Neves, que o paludismo minava sorrateiramente, os outros eram derribados diariamente em accessos de maleitas tremedeiras durante quatro e seis horas.

Com a vida que levavam nos seringaes, em que eram descurados os mais rudimentares preceitos de hygiene, com uma alimentação insufficiente aos gastos do corpo, cercados por todos os lados do miasma dos pantanos, era um milagre ainda de cincoenta creaturas escapar uma, deixar de contrahir o paludismo!...

A medicina delles corria parelhas com a hygiene. Limitava-se ao uso de panaceas que os mercadores de remedios levavam ao barração. A maioria dos medicamentos era de sulfato de quinina ; tomavam, mas não conseguiam sarar, embora em muitos a febre intermitiente se tornasse quartan. Como adjuvantes usavam de beberagens de diversas plantas, algumas venenosas, que os matavam em pouco tempo. Alem disso para enrijar o corpo e afugentar as bichas, <marca num="1" pag="361"> antes do sol sahir mettiam-se nos igarapés e tomavam compridos banhos. Dos doentes só João das Neves não tinha accessos de febre. O paludismo se inoculava nelle sem produzir perturbações alarmantes. Sabia-se que elle não era o mesmo homem porque tinha a pelle meio açafroada, se queixava de uma constante quebreira no corpo, uma preguiça nas pernas e um duro debaixo das costellas do lado esquerdo. No mais parecia bom. 

Pedro das Marrecas de todos era o immune. Era o mesmo cabra musculoso e agil como um gato. Vivia como os outros no foco do paludismo, com o mesmo leito, a mesma alimentação e o microbio palustre não conseguia viver no sangue delle. Se não estava mais nutrido é porque trabalhava mais do que comia. A sua cara alegre fazia um contraste com as dos companheiros fechadas por uma tristeza mortal!... 



<nota num="1" pag="361"> Sesões. </nota>



O barracão recebeu gente durante todo o dia. Não eram só os freguezes que vinham á festa do patrão, mas tambem os amigos de Bernardo. Os mercadores a aproveitavam para impingirem aos seringueiros as suas bugigangas.

Os mascates judeus cada qual mais sujo e mais velhaco, eram duas vezes mais numerosos do que os das outras nacionalidades. Talvez não fossem mais de uma dezena, porem tão astutos, tão matreiros que bastariam elles para enganar uma cidade, lograr um mundo. Mercavam toda a sorte de quinquilharias desde as obras de ouro falso até as navalhas para curar sarna. O judeu cuteleiro era um refinado tratante. Apregoava as virtudes de seus ferros eletricos. Tinha navalhas que curavam todas as molestias do sitio piloso do rosto. Bastava uzal-as para se ficar bom. Este mesmo patife vendia anneis com maiores virtudes ainda, pois saravam de enfermedades, que a propria medicina reputava incuraveis. No paludismo eram de um effeito maravilhoso: curavam os doentes e premuniam os sãos.

Aquella festa em honra ao grande apostólo S. João Baptista era uma feira onde se mercadejava tudo, onde o ignorante seringueiro pagava o mais pesado tributo.

Os macates para poderem livremente traficar cobriam Conchita de presentes.

O dia passou-se em comes e bebes : o populacho nas alpendradas do barracão e a elite dos convivas, que se compunha de alguns lettrados, numa sala interna um tanto confortavel. Estes homens eram tambem mercadores, mas de uma outra especie. Affluiram para ali na esperança de alguma prebenda. Pasmava ver em tão inhóspitas e exquisitas paragens homens de uma certa cultura. A necessidade ou a ambição os arrastara até ali. Todos os ramos de conhecimentos humanos estavam mais ou menos representados na festa de Bernardo das Ipueiras.

O proprio padre não andava por aquellas brenhas por amor de Deus e do proximo. Era um mercador como os outros. Como os demais aventureiros expunha a vida atravessando aquelles ermos em risco de ser flechado por um indio ou comido por uma fera. Não era pela gloria de Deus nem tampouco pela salvação dos homens que a tanto se arriscava, era em seu proveito proprio.

Dava os soccorros espirituaes, administrava os sacramentos da igreja e como paga exigia esportulas exaggeradas emdinheiro ou mesmo em borracha. Descia do Alto Acre e a sua embarcação não parecia de um apostólo de Christo que vinha dos ermos, de pregar a doutrina do Mestre, de catechisar os gentios, de perdoar os peccados aos contrictos, mas sim o de um mercador ganancioso. O seu batelão vinha de lotação completa, cheio de borracha que havia recebido em pagamento dos sacramentos que havia ministrado.

Todos aquelles typos que se reuniam na sala nobre do barracão eram extranhos uns dos outros. Na occasião do jantar a collocação á meza determinada pelo dono da casa, comprehenderam a hierarchia de cada um.

O padre Bibiano como ministro de Christo occupou uma das cabeceiras, a outra foi designada a um dos doutores, não pela edade, haviam muitos mais velhos, porem pelo cargo na magistratura,o juizado de direito da comarca em que Bernardo das Ipueiras tinha o seu barracão e todos os seus seringaes.

Foram se relacionando, apresentando-se uns aos outros, logo que tomaram assento, o visinho da direita com o da esquerdae assim poucotempodepois sabiam que ali havia médicos, bachareis em direito, engenheiros, pharmaceuticos, agrimensores, dentistas, rábulas, solicitadores, um licenceado em philosophia e um doutor homeopatha com a sua carteira.

As mulheres não vieram á meza. O jantar correu animado. Bernardo sentado no meio dos doutores se desmanchava em agrados offerecendo e gabando as iguarias da lauta refeição. As comidas eram as mais estrambóticas que se podiam imaginar. A não ser os peixes, legumes e fructas em conserva, o mais era intragavel para um paladar que não estivesse affeito a taes comedorias. O que era da terra era selvagem como ella. O serviço começou por uma sopa de tracajá, <marca num="1" pag="365"> que no dizer do dono do barracão era o primeiro prato da Amazonia. Seguiram-se conservas estrangeiras e algumas indígenas. Entre estas, a mais estimada era a mixira <marca num="2 " pag="365"> de peixe-boi e que havia em maior profusão. Algumas terrinas cheias desta indigesta comida faziam as honras do banquete, porem tinham um aspecto pouco convidativo. A mixira era de uma vista em nada appetecivel. A um paladar que não fosse muito rombo não podia tentar aquelles pedaços de carne escura afogados em gordura coalhada.

Bernardo depois de gabar aquella iguaria serviu uma trincha ao padre Bibiano. O aspecto da carne por dentro era melhor; tinha uma fibra alva como a do porco. O sacerdote habituado aquella alimentação saboreou a mixira, da qual elogiou o preparo.



<nota num="1" pag="365"> Tartaruga pequena d'agua doce. </nota>

<nota num="2" pag="365"> Conserva indígena de peixe-boi, Manatus americanus, -- feita com a carne deste cetaceo, que assam e depois deitam em vasos, potes &, que acabam de encher com a gordura do próprio animal. </nota>



Outro tanto não fizeram os convivas, que ainda não tinham provado semelhante comida. Acharam-na áspera e desenxabida como palha secca. A refeição foi largamente regada com vinhos portuguezes. Na sobremeza, que constou de compotas francezas e de goiabada cearense, um dos doutores, já meio bebado, ergueu-se e brindou as selectas virtudes de Bernardo das Ipueiras; mas antes de ser correspondida a saudação, foi proposto pelo padre que se incluisse no brinde o nome respeitavel da exellentissima consorte de seu cavalheiroso hospedeiro, senhora de raras virtudes. 

Na alpendrada do barracão a arraia miuda jantava tambem. Era farta a comezaina. O pirarucú <marca num="1" pag="366"> preparado de diversos modos, fresco e secco, enchia grandes pratos, que se espalhavam em toda meza. Havia terrinas de tracajá tambaqui e tucunaré.

Do meio para o fim do jantar ninguem se entendia naquella reunião de comilões.

Algumas frasqueiras de aguardente tinham esvasiado.

Poucas mulheres haviam e estas mesmo, a não ser uma que ia casar,ou eram esposas ou concubinas.

Quando o jantar se findou, o sol ainda estava fóra. 



<nota num="1" pag="366"> Vastres gigas. </nota>



Fartos de comer e beber se reuniram nas immediações do barracão. A elite deixou o salão e se misturou com o populacho. Naquella turba de homens mal trajados, ninguem diria que estavam proprietarios de grandes seringaes e possuidores de fortunas bem regulares. Estes se confundiam com os demais seringueiros. Regeitaram o convite de Bernardo para a meza dos brancos, como elles designavam os homens de certo trato, porque seria para elles uma tortura comer no meio de gente fina. Ali estavam mais a vontade e eram soberanos pelo dinheiro. 

Os doutores de muito bom grado se misturaram com esta gente grosseira e rude na esperanza do captar-lhe a sympatia e arrancar-lhe alguns valores.

O medico, o doutor Práxedes, fazia preleções sobre as endemias do Amazonas e gabava-se das curas maravilhosas que havia feito, arrancando das guelas da morte individuos já moribundos.

Os seringueiros ouviam-no abysmados do saber delle. 

O doutor examinava com um olhar a todos que o cercavam e dizia-- receitem-se, tratem-se que a molestia entra ás braçadas o sahe as polegadas.

Deante deste novo Christo que sarava os Lazaros e resuscitava os mortos, os enfermos não hesitavam em lhes entregar os pulsos e pedirem as suas prescripções. Não admirava que assim procedessem estes imbecis, quando ha tanta gente culta que consulta e paga curandeiros. 

O doutor Práxedes recebia vinte mil reis de cada receita, afora os remedios, que vendia por pregos exorbitantes.

O homeopatha, meio escorraçado á distancia, vendia tambem as suas doses por bom dinheiro, não se cansando de recommendar aos clientes que se abstivessem do café.

Tudo que era meio de cura, de comprar a saude tão precaria naquellas regiões, não regeitavam nem regateavam.

Adeante um judeu mercava anneis contra maleitas. Não era pequeno o numero de freguezes que o cercava. Muitos já tinham no indicador uma alliança de aço polido, que no dizer do máscate, os livraria dos ataques do paludismo. Na ancia de salvação, de immunidade contra as febres mortiferas dos rios, não reparavam a cara do judeu, que tinha os mais claros signaes pathognomonicos da intoxicação pelo microbio dos pantanos.

Os rábulas tambem não perdiam tempo; farejavam demandas. Viam-se elles formigando pela multidão a indagar de uns e de outros se tinham questões e exaltando ao mesmo tempo o seu repertorio de tricas. Não havia um só que tivesse perdido causas, tães eram os seus conhecimentos jurídicos, diziam.

Os advogados acharam logo clientes. O que era de extranhar é que todas as demandas fossem por causa de terra. Na immensa Amazonia, despovoada, sem dono, litigavam por um palmo de terreno, por uma seringueira, quando havia centenas de leguas sem possuidor, cobertas por seringaes por explorar.

Demandistas por indole, cabeçudos por atavismo, questionavam por um pedaço de estrada, gastando com a justiça sommas avultadas que dariam para a fabricação de um centro. Quando se encontravam dois caprichosos o litigio não tinha fim; e os advogados presentindo a teimosia delles, faziam a questão render emquanto as partes tinham o que gastar.

Ao lado dos rábulas estavam os engenheiros, alguns de curso completo, outros apenas agrimensores, para fazer as demarcações. Iam de bussola e theodolito tirar linhas divisorias, extremar propriedades, como em uma região grandemente povoada onde uma pollegada de terreno custa muito dinheiro e é motivo de demanda.

A chusma de lettrados explorava desbragadamente aquella gente ignara.

Até o dentista e o licenceado em philosophia acharam occupação. Aquelle não encontrou poucos dentes á extrahir, e com um estúpido ferro, a chave, que uma vez segurando o dente este vinha fora ainda que fosse com um pedaço do queixo do paciente.

O licenciado, em falta de cousa melhor, fez-se copista e trasladava a quinhentos réis por linha orações fortes, responsos, algumas obras em verso como o Rabicho da Geralda e outras. Escrevia tambem cartas a cinco mil réis. Era uma fortuna para aquelles desterrados analphabetos encontrar naquelles ermos quem désse noticias delles á familia ausente.

O padre, que no seu ministerio era um regatão, não ficou inactivo.

Das profissões ali era a sua a mais rendosa. Aproveitando-se do fanatismo do povo abriu o seu balção e começou a vender os sacramentos da igreja por muito bom dinheiro. Até para perdoar os peccados precisava que o penitente lhe pagasse.

A' bocca da noite foi acceza a grande e legendaria fogueira em honra ao discípulo amado de Christo e servido profusamente o caxiry, <marca num="1" pag="370"> que os brabos regeitavam por intragável. O aluá cearense feito tambem de milho, mas por outro processo, nem se comparava em sabor com esta beberagem agreste de caboclo bravo, diziam. 



<nota num="1" pag="370"> Bebida indigena fermentada de milho ou mandioca. </nota>



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<div "CAPÍTULO XL">



XL 



A festa do barracão -- Deus te ajude continuou ao entrar da noite com um terço tirado pelo padre Bibiano. Em frente do oratorio de Conchita, um caixão pintado de azul com porta de vidro e uma cruz em cima, ajoelhou-se o sacerdote e de mãos postas, fitando a imagem de Christo, entoou em voz clara e cheia o primeiro Padre-nosso até o meio.

As vozes de todos os convivas, ali prostrados, concluiram a oração. Mal soou o -- amen nos ouvidos do padre, elle começou a rezar a Ave-Maria, parando na primeira parte, para que os devotos terminassem entoando a supplica. No fim do primeiro mysterio, resadas dez Ave-Marias, Bibiano murmurou <estrang lingua="latim"> Gloria Patris </estrang> benzendo-se, no que foi por todos acompanhado. 

Seguiu-se um Padre-nosso e depois entrou a serie das dez Ave-Marias.

Concluidos os cinco mysterios, nos quaes gastaram uma boa meia hora, o padre para dar mais solemnidade ao acto e fazer jús a melhor esportula, cantou um latinorio, que foi muito apreciado por Conchita e augmentou o valor do terço.

Finda a reza dissolveu-se o ajuntamento dos rezadores.

Nas alpendradas formaram-se grupos e não tardou que se ouvissem os primeiros sons de uma harmonica, que, nas mãos de um mameluco cearense, enchia os ares com a música das festas populares, o baião.

Outro aviso não foi preciso dar. Vibraram outras notas da mesma especie os instrumentos e logo uma orchestra de seis harmônicas se formou e foi cercada dos convivas do barracão.

la começar, o samba cearense, entre aquella gente, cearense quasi toda, que ao exilio trazia e conservava os uzos do torrão do berço.

Faltava-lhe entretanto o enthusiasmo, que a saude e o socego do espirito geram.

Esse mesmo baião, que na terra natal vibrado por uma viola os electrisava, aqui, auxihado pelo alcool pouco arrebatava-os. Têm o corpo enfermo e a alma cheia de apprehensões.

Conchita e Salvatierra á custa de muita aguardente conseguirám dar uma certa animação á festa. Assim mesmo excitados, triste e feio era o seu dançar. Os seus meneios, de forçados perdiam a graça.

Entravam na roda não com o pisar leve e gracil, mas com um passo grave e pesado, como se entrassem numa sala de audiencias.

As caboclas dançavam sem donaire. Não tinham requebros voluptuosos nem tampouco os seus olhos pretos despediam raios a provocar amores.

A alegria de seu folgar era toda ficticia. Pelas trovas dos cantadores avaliava-se o seu estado de nostalgia. Todos os seus versos eram repassados de uma saudade tão pungente, de um soffrer tão fundo que não se podia os ouvir sem se ficar com o coração triste. Não havia unia trova que não tivesse a melodia de um gemido e não produzisse o desconforto de um ai! Cantavam entoando uma gamma de suspiros, cada qual mais fundo, mais nostálgico.

Assim carpiam as suas maguas. Todos os seus cantares eram relembrando os dias de creança nas aprasiveis varzeas do sertão cearense, onde a graúna trina desde o nascer ate o por do sol. Recordavam as aventuras da mocidade nas caçadas de onças ou nas vaquejadas. Transportavam-se em espirito á sua terra e assim matavam um pouco as saudades que tinham della.

A meia noite, mais ou menos, uma causa toda material veio augmentar a animação do samba. 

Chegava a celebre friagem de S. João. Um vento gelado esfuziou pelas alpendradas enchendo de fumo as chaminés dos candieiros de petróleo e esfriando tudo em que tocava. O eco cobriu-se de uma pesada cerração empannando os astros que em começo da noite luziam com grande brilho na abobada do firmamento. Uma neblina finissima de vapores se condensava a grandes alturas e cahia como um orvalho subtil e gelado á superficie da terra.

Conchita e Salvatierra abriram mais algumas frasqueiras de aguardente e distribuiram com os sambistas. Agora, com o frió, mais do que nunca foi apetecida e saboreada.

Pela madrugada cresceu mais o frio e os festeiros para melhor supportal-o sapateavam desesperadamente como se quizessem arrancar a sola dos pés. Do ajuntamento não sahia mais aquelle bafo quente, aquella onda de calor humano, como em começo da noite, porem um pituim nauseoso de suor e sebo misturado a um cheiro não menos desagrasavel de alcool meio digerido. Este fartum enjoativo de aldehyde predominava sobre os demais. 

Bernardo das Ipueiras, o padre, os lettrados e alguns seringueiros dos mais ricos se entregavam a outro genero de diversão: jogavam, mas jogavam sorte. Para supportarem 

o frio, embora estivessem na parte mais abrigada da casa, bebiam para embriagar.

Bibiano ia jogando e bebendo; nem cuidava de consultar o relogio, elle que tinha de pela manhã celebrar o santo sacrificio da missa!...

Um amanhecer cheio de todas as tristezas de um céo emmascarado em uma bruma plúmbea, fazia a floresta amazonica ainda mais sotuma em sua magestade de matta virgem. O sol empannado pela cerração chegava a terra com uma claridade baça, como se o seu disco estivesse meio consumido por um eclipse.

A luz atravessando aquelle fosco céo pouco allumiava a terra. Assim, primeiro que ella entrasse na sala fechada dos jogadores e obscurecesse os focos luminosos a esclarecendo, o disco do astro-rei já andaria muito ácima da linha do horisonte.

Entretidos com o jogo e meio bebedos esqueceram-se das horas e só se lembraram dellas quando o dia lhes entrou de sala a dentro. 

Bibiano foi quem primeiro se levantou saccudindo a batina, abotoando a volta e dando piparotes no peito para levantar o pó cahido das pitadas que havia tomado na caixa de Bernardo depois de algum azar.

-- A' missa, disse Bibiano para o dono do barracão.



</div>



<div "CAPÍTULO XLI">



XLI 



A friagem continuava. Ao tempo não se podia estar, tal era a intensidade da geada.

Bibiano havia esquecido a chave do bahú dos ornamentos e teve de ir ao batelão. Pouco se demorou. Ajudado pelo acolyto, que era um dos remadores de sua canoa, armou depressa o altar em uma das alpendradas. Da pequena caixa quadrada de folhas de Flandres, pintada de verde, sahiu o indispensavel á cerimonia da missa. A presteza com que o padre dispunha os objectos sobre a meza, que lhe serveria de altar, bem provava a grande pratica que tinha daquelle servico. Em breve, sobre uma única toalha, com plena infracção da lithurgia, ergueu um crucifixo portátil de metal, que ficou collocado no meio de uma fila de seis castiçaes do mesmo tamanho e com as suas velas de cera branca reduzidas a cotos de um palmo.

Preparado o altar, Bibiano revestiu-se ali mesmo e começou a missa. O extenso recinto estava apinhado de gente, que se prostrára logo ás primeiras palavras do padre, com um recolhimento, que se lhe via claramente nas feições. O fervor delles, a uncção com que levantavam o olhar para o crucificado, faziam avaliar as angustias que lhes dilaceravam a alma. A maioria dos ouvintes eram verdadeiros parias, grandes desgracados. Exules e enfermos imploravam a misericordia divina e crentes no valimento della, cada vez mais contrictos se mostravam.

Algum tempo depois da missa o padre entrou para o confissionario. Nunca um sacramento foi mais procurado, tão mal administrado e mais illegalmente estipendiado. Crentes se lançavam aos pés do sacerdote para se purificarem dos peccados e assim agradarem a Deus. Aquelle fervor religioso, que tanto os animava, era em grande parte devido aos padecimentos de toda a casta que os torturavam. Desamparados nessas paragens tão sem conforto, felizes ainda os que criam, pediam e confiavam na protecção de um ser sobrenatural que acima de tudo rege os destinos dos mundos. Qual o espirito, mesmo culto, que nas horas angustiosas das rudes provações da vida nas assombrosas crises das miserias humanas, não pede, não supplica, e instinctivamente não ergue os olhos para o alto, onde, lhe dizem, não sabe quem, habita Aquelle que tirou do nada o universo, que creou o homem?!...

Assim, esses ignaros sertanejos, sem os esmorecimentos, que a duvida gera impondo racciocinios, que tanto abalam a crença, na mesma communhão de pensamentos formavam um quadro de edificante piedade.

A festa do barracão terminou-se nesse dia pelo casamento de uma pupila de Conchita e alguns baptisados.

A' noite continuaram o samba, o jogo e a friagem. Os noivos tiveramde assistir a dança popular e tomar parte nella até o dia amanhecer.

A claridade do sol continuava a chegar á terra como se viesse de atravessar uma claraboia de vidro despolido. Embora fosse muito baixa a temperatura do ar ao tempo, estando a festa acabada, tinham que regressar ás suas barracas.

Salvatierra já tinha berrado no meio de sua gente-- festas acabadas, músicos a pé.

Os mascates judeus foram os que primeiro se aprestaram e partiram. Iam contentes do festim; haviam ganho muito dinheiro. só o da cutelaria levava perto de dois contos de reis. 

Seguiu-se a partida do padre, que foi solemnisada pelo acompanhamento de todo pessoal do barracão até o porto. Bibiano ia radiante de satisfação não por aquella prova de apreço mas pelas esportulas que havia recebido. As propinas tinham sido muitas e gordas.

O que mais agradou ao padre foi ter recebido tudo em moeda corrente. Se fosse em borracha, como acontecia quasi sempre, seria preciso fretar uma canoa, causando-lhe assim transtorno.

Após a partida do padre seguiu-se a dos lettrados, cada qual em sua montaria. Todos iam mais ou menos arranjados. A arvore da borracha dava para tudo.

Os noivos puzeram-se de viagem nessa mesma manhã. Conchita e suas damas os acompanharam até o porto. Quando a canoa largou, Pedro das Marrecas, que era um dos mais influidos da festa, soltou um retumbante viva aos noivos. A saudação foi acompanhada por muito poucos, e o seu echo, que rolaria como um trovão se a voz de todos a repetissem, perdeu-se logo adeante na espessura da floresta.

Pedro das Marrecas estava devéras intrigado com aquella despedida dos noivos.

-- Para o diabo os costumes desta terra, dizia com os seus botões.

Acostumado com as cavalhadas do seu sertão no -- tira o chapéo do noivo, achava ali a festa do casamento muito desenxabida. Se não tinham cavallos e logar proprio para correr, ao menos dessem repetidos vivas e fizessem apostas com os seus animaes de páo correndo de rio á fóra atraz da montaria dos noivos a ver quem passava os outros. Tudo era parelha. Assim teriam um divertimento que animaria a gente e não acabaria a festa numa tristeza que parecia um agouro.

A' tarde o barracão Deus te ajude estava ôco.

O ultimo pessoal que se retirou foi o do Bom Futuro.

Bernardo das Ipueiras e Conchita acompanharam Salvatierra até o logar do embarque, onde se despediram delle trocando os mais amistosos cumprimentos.

A boliviana estimava muito o irmão, mas havia quem affirmasse que elles nem parentes eram. Um peruano, que foi seringueiro no Bom Futuro contava muito em reserva que conhecera no rio Jundiahy, Salvatierra vivendo amaziado com Conchita.

Vasio o barracão o seu pessoal começou a restabelecer a ordem que a festa havia alterado. 

Bernardo e o caixeiro do estabelecimento calculavam os gastos da patuscada, os quaes seriam divididos egualmente por todos os seringueiros e levados a debito destes. Todas as despezas da pandega aquelles pobres diabos pagariam sem saber.

A friagem durou tres dias, findos os quaes o sol apparecendo dardejou raios tão quentes como se quizesse assar a terra. A neblina que toldava o espaço desappareceu fundida em orvalho ou reduzida a vapor. Agora descobria a abobada celeste sem um retalho de nuvem, uma espuma de cirrus, que lhe velasse o azul em toda a extensão de sua cúpula. O banho de claridade em que nadava a natureza amazonica, depois de tantas e tão longas horas de um clarão diffuzo e triste tinha os encantos de uma resurreição. Até as pedras em seu mutismo de rocha, augmentavam o rumor alviçareiro, a hosanna da creação ao seu Deus, não com estrophes, mas com os fulgores de suas fagulhas cambiantes, arrancadas pela luz das facetas dos crystaes encravados em suas superficies.

A passarada, com seus cantares argentinos e os macacos hilares e irrequietos enchiam a floresta de uma viva e febril alacridade.

Por toda a parte a vida sahia a se encontrar com o sol, quando este não podia ir procural-a lá no fundo dos abysmos, no mais recóndito das tocas.

Os peixes vinham á tona d'agua e expunham o dorso á luz, que fazia scintillar suas escamas prateadas. 

Os amphibios, sahiam se arrastando á margem dos igarapés, dos igapós, e se arrepiavam naquelle banho de morna claridade.

Aquelle dia quente e luminoso reanimava os seres que a friagem havia esmorecido.

Até a floresta estava mais viva, mais bem vestida e louçã. Os tojos floridos deixavam pender os cachos de exquisitas coróllas côr de ouro, onde pousavam borboletas de azas ligeiras como gaze, coradas como gemmas, e se aqueciam á luz bemfazeja do sol.



</div>



<div "CAPÍTULO XLII">



XLII 



A faina dos seringueiros, interrompida pela festa de S. João, recomeçava.

Em todos os Centros a vida era a mesma, trabalhada, num desconforto eterno.

João das Neves continuava a labutar na extracção da borracha com grande prejuiso para a sua saude. Pela manhã quando se levantava da rede já era cançado. 

Elle que nunca tivera preguiça, que os trabalhos, ainda os mais pesados, nunca o atemorisaram, agora se quebrantava por tudo.

As arreações, que em começo fazia sem fadiga, agora o cançavam bastante. Na defumadura da borracha é que notava como estava enfraquecido; não era o mesmo homem. Já não podia manobrar o cavador, mesmo secco, sem ser no guindaste. Ainda assim o movimento continuo dos braços fazia-lhe doer muito a passarinha <marca num="1" pag="386"> que, arqueada, fóra das arcas, esticava tanto a pelle que a fazia lustrosa. Acabava sempre a operação bastante affrontado.

Não era sem interrupções que a concluia. Esbarrava duas e tres vezes para tomar folego; mas o ar parecia que não lhe entrava até o fundo do peito; estava todo tomado por dentro.

Observava ainda que tinha uma sede que não se saciava, embora bebesse elle toda a agua de um igarapé.

A agua, entretanto, quasi não lhe sahia do corpo. O suor tinha de todo seccado nelle, tanto que o calor excessivo e asphixiante do defumador não fazia sequer uma baga lhe apontar nos poros.

As outras vias de eliminação estavam tambem quasi entupidas. A urina, que dantes era abundante e clara, tornou-se escassa, fétida e escura. A sua ignorancia não era tamanha que o fizesse desconhecer o estado pathologico do seu organismo. Não estava bom, sabia. Outro symptoma de doença era um fastio terrivel que o atormentava. 



<nota num="1" pag="386"> Baço. </nota>



Para aborrecer aquellas agrestes comidas, o chibé e o jaba, não era preciso ter o paladar submisso dos caprichos de uma enfermidade grave, qualquer incommodo as faria enjoar.

Todos os alimentos da barraca lhe fediam. Já não os supportava. Uma idiopathia se accentuava mais com a inappetencia, o appetecimento de comidas acidas.

Só desejava ter limões para comer, mas não os tendo valia-se de todos os fructos silvestres azedos que encontrava nas margens de suas estradas.

Já estava com os dentes embotados de comer assahy, patoába, abacaba, e outros fructos ácidos.

Devorava-os as vezes com casca e tudo, tal era a sofreguidão de seu apetite.

O moral de João das Neves soffria e não pouco. Uma tristeza mortal lhe fechava inteiramente o semblante. Nunca mais um sorrizo lhe assomou aos labios. Reservado e taciturno passava dias inteiros sem falar. A noite levava horas com o olhar fito em um ponto do tecto e o pensamento fixo na familia, a qual não esquecia agora porque elle não tinha saude.

Já algumas vezes Pedro das Marrecas, que nada soffria e gozando uma saude de ferro nem se lembrava da mulher e dos filhos, o tinha surprehendido chorando.

-- A mode que você não é homem, Joãosinho?!... Quem chora é mulher.

O enfermo enxugava os olhos meio corrido de sua fraqueza.

Pedro das Marrecas não acreditava em doença sem febre e sem dór de cabeça. Para elle a molestia do companheiro só podia ser máo olhado e botado no barracão por uma das caboclas da amizade de Conchita.

E de facto era, porque João das Neves definhava a olhos vistos e quasi não comia, pensava o matuto. As enfermidades do Amazonas não podiam ser, uma vez que elle estava curado com o annel do mascate judeu. O tal annel tinha muita força, jurava, porque desde que o mettera no dedo, nunca mais tivera incommodo algum, nem uma azia velha que o atanasava desde menino.

Vendo entretanto, que o companheiro se acabava de fome, que não tocava mais no chibé nem no jabá, propoz caçar para elle nos domingos, único dia em que não iam á seringa. Neste dia, que diziam de descanso, trabalhavam e muito. Era destinado a lavagem da roupa e a acquisição do côco do ouricuri <marca num="1" pag="388"> empregado no fabrico da borracha. 



João das Neves embora a sua inappetencia fosse grande, não appetecesse comida que não fosse acida, acceitou a proposta do companheiro.



<nota num="1" pag="388"> Palmeira. </nota>



Logo no primeiro domingo, que se seguiu ao accordo, Pedro das Marrecas de lazarina e terçado sahiu ao clarear do dia para a caçada.

João das Neves ficou espreguigando-se, bocejando sem animo de se levantar.

Mas o sol alteando obrigou-o a por-se de pé e cuidar de sua tarefa, que não era pequena para um homem são quanto mais para um doente. Tomou café, aos engulhos, e sahiu com a trouxa de roupa para o igapó mais proximo.

Essa nova occupação revoltava os seus nervos já muito irritados pela doença. Eram bem tristes as suas condições!.. Um caboclo, forte como um novilho, o rei dos machados de sua terra, estar condemnado a fazer serviço de mulher!... Se Chiquinha o visse feito lavadeira ficaria pasmada, e que dó não teria delle se soubesse que se sugeitou aquella humilhação porque seus músculos estavam como os de um cavallo velho estafado!

Assim pensando, chegou á margem do igapó e ia dar começo a tarefa quando viu a beira d'agua, estirado, um animal do feitio de cobra, parecido com o muçú. <marca num="1" pag="389">

João das Neves esqueceu a molestia, o serviço de mulher, e só via agora, hábil e amestrado pescador, o peixe ali na cama. 



<nota num="1" pag="389"> Especie de enguia. </nota>



Empertigou-se, como havia muito tempo não fazia, e marchou pé ante pé para o logar onde descansava o bicho, com muita cautela para que a sombra do corpo delle não desse n'agua e o muçú fugisse. Aquelle estava na panella, dizia com os seus botões, sentindo desejos de comel-o, cómo havia tempos nada tanto appetecia. Com a mão direita aberta se abeirou do lago. O peixe immovel não se arredou do logar, o que o pescador pensou ser devido a sua pericia em tomar chegada. Uma vez com o animal ao alcance do braço, precipitou-se sobre a cabeça delle para estrangulal-o.

Mal o puraqué lhe sente a garra descarrega todo o fluido eletrico de seu corpo, que o mestiço recebe sentindo uma violenta commoção que o faz emborcar de ventas n'agua. Aturdido, desorientado, João das Neves se ergueu quase tão depressa como tinha cahido e na margem do igapó pensava no caso. Mirava a mão para ver se estava ferida e o braço por onde lhe havia subido um formigamento de finas alfinetadas, que num abrir e fechar d'olhos lhe tomou o corpo todo botando-o abaixo, como se um corisco lhe tivesse cahido em cima. O caso achava extranho e mais ainda a mansidão do muçú, que estava estirado um pouco adeante em um logar ainda mais raso.

Intrigado com o acontecimento para o qual não achava explicação a não ser pelo maravilhoso, um encantamento, observava de longe o peixe com vontade de ir outra vez a elle. Não havia de ficar empulhado. Abeirou-se do igapó e com o terçado procurou bater no puraqué. Mal o ferro roçou na pelle do peixe um estremeção violento vibrou e se propagou a todo corpo do Neves, quasi o sacudindo no chão.

O seringeiro recuou e o seu espirito eivado de abusões e viciado pela crendice popular viu naquelle exquisito peixe um preposto de Satanaz. Afastou-se e foi cuidar da lavagem da roupa. 



</div>



<div "CAPÍTULO XLIII">



XLIII 



A fauna do Amazonas, maravilhosa por suas innúmeras especies, Pedro das Marrecas começou a apreciar cheio de assombro logo no dia de sua primeira caçada.

Se as aguas eram ricas de toda a qualidade de pescado, as mattas não eram menos em animaes de toda a casta.

Deixando a estrada embrenhou-se pela floresta, que se perdia de terra a fora num cerrado de arvores cada qual mais frondosa e mais crescida. Um cipoal espessose enredava pelo tronco ácima dos vetustos arvoredos e depois duma promiscuidade de folhagem nas alterosas copas pendia para a terra em fios delgados como cabellos, ou grossos como amarras. Uma rede de virentes trepadeiras, de exquisitas aristolochias, cobria o cimo de algumas leguminosas mosqueando-o dos tons vivos de suas coróllas multicores, semelhantes a aranhas, e que uma multidão de insectos cercavam zumbindo ávidos do mel dos seus nectarios.

Agarrados aos carunchosos troncos floriam uma variedade infindade orchideas cada qual mais bella e mais cheirosa. Estas joias, capazes de estontear um botánico europeu pelo exquisito de suas caprichosas formas semelhantes a colibris, á borboletas, pela delicadeza dos perfumes inebriantes e subtis, passavam despercebidas a Pedro das Marrecas,que não tinha olhos para ver os opulentos thesouros da flora amazonica esquecidos ali e ignorados. Nem via estes primores nem tão pouco o seu olfacto se deleitava com o odor suave que exalavam as flores embalsamando a atmosphera daquelle quieto remanso.

Pedro das Marrecas em breve se viu attonito n'aquelle meio tal foi a abundancia da caça, que por toda aparte se antojava.

Desde o chão até os últimos ramusculos das arvores havia em que atirar. O primeiro animal que viu e lhe passou ao alcance da espingarda foi um grande veado de pello cinzento. Nem se lembrou de levar a arma ao rosto, tal foi a admiração que lhe causou aquelle specimen, que não conhecia.

Revoadas de araras, de papagaios, de periquitos irrequietos e hilares palravam pousados nas arvores fructíferas comendo gulosamente e atirando ao chão as sobras do repasto.

Bandos de jacús enormes, de garganta vermelha, se fartavam de fructos carcarejando monótonamente.

De quando em vez uma nambú esfuziava rente ao chão, como uma bala, e ia pousar muito longe enterrando a cabeça no folhiço.

Pacas e cutias andavam lestas procurando raizes para roer ou algum fructo silvestre.

Alguns pica-páus percutiam á bicadas o rijo lenho dos madeiros, marinhando por elles ácima, e tirando um som massiço, que ondulava pelo ámbito da matta.

O mestiço estava atado. Não sabia em que mirar a sua lazarina. Estava nesta perplexidade quando ouviu quebrar matto em sua direcção. Em tão suspeitas paragens toda a cautela era pouca; assim, encostou-se a uma arvore prompto a subir por ella tal fosse o perigo e a casta do bicho que apparecesse. Não esperou muito para lhe sahir perto um animal de pello curto, ruivo e lustroso, muito parecido com o porco. Era uma anta, ainda novilha, caça muito apreciada, porem que Pedro das Marrecas nunca tinha visto.

O animal parou um pouco espantado, de peito para o caçador, com os olhos muito pequenos e scintillantes, movendo a tromba repetidas vezes para o ar, resfolegava, quando o estampido de um tiro estrugiu de matta a dentro e uma bala lhe entrou no coração acabando-a repentinamente. Nunca a detonação de uma simples espingarda estrondeou tão forte e por tão longo tempo. Ondeou pela calada da floresta como o tiro de um canhão de Krupp. Em começo rimbombou como um trovão, depois foi esmorecendo até o repetirem somente os últimos echos dos confins da matta, num vagido de vaga escutado de longe. A'quelle som, que ia adeante, acompanhava um ruido intenso e alto em que se fundiam os differentes rumores levantados pelo susto que o tiro produziu na pacata bicharia. A floresta moveu-se de cima a baixo como se um terremoto a sacudisse. Gritos, carreiras, vôos se amalgamaram numa onda sonora que se espraiou em breve por aquella região soturna. Foi tal o alarido, a confuzão que Pedro das Marrecas pensou que o mundo vinha abaixo e trepou-se. Serenado o rumor desceu e mirava a anta, que estirada no chão nem arquejava mais. Era um bicho bonito, de olhos pequenos e focinho de porco. O mestiço acocorou-se e não se fartava de admirar o animal alizando-lhe os pellos fulvos e planejando fazer daquelle tão vistoso couro um gorro e um embornal. Depois viu-lhe o sexo: era femea e ainda innupta. Bôa caça devia ser, pensava. Era o porco do Amazonas. Embora a carne não prestasse valia a pena tirar a pelle. Assim discorrendo, agarrou a anta, pol-a ás costas e voltou a barraca. Depois de uma boa legua de caminho, a maior parte alagado, chegou ao rancho.

João das Neves já era velho em casa e de tarefa acabada.

No meio da barraca foi estendido o cadaver e o caçador ufano da veação, relatava ao companheiro, com o costumado exaggero, o numero espantoso e a variedade de animaes, que havia encontrado. A sua pontaria tinha sido diffícil, porque mal lobrigou o vulto do animal dentro do matto ; mas pela sombra mesmo atirou e viu a queda, dizia. Isso não foi nada a vista da tribusana que o tiro levantou.

-- A bichada arrancou que nem boiada no sertão quando se espanta, e eu Joãosinho para escapar tive de me sungar de páo á riba.

João das Neves que havia ficado mais esperto e de melhor humor depois dos choques do puraque, não cessava de mirar a anta. Era um bicho novo para elle. O que mais o impressionava era a tromba, que nunca tinha visto ero animal algum. E que couro tinha ella egal a um veludo dourado!

O dia estava á acabar e era preciso tratar da caça. Mas que processo empregariam elles, consultavam. Por fim accordaram tratal-a como bode e não como porco. Pelo menos aproveitariam a pelle. Assim, dependuraram a anta por um pé, de cabeça para baixo, em um dos caibro do tecto. Pelas ventas e bocca do animal, logo que o suspenderam, começou a escorrer um fio de sangue meio coalhado e negro.

Os seringueiros de faca em punho combinavam qual dos dois tiraria o couro.

João das Neves era o mais entendido, mas cedeu o seu logar ao companheiro por ser o dono da caça.

Pedro das Marrecas de mangas arregaçadas iniciou o esfolamento dando um longo talho de alto a baixo, que começou na entreperna e acabou no beiço da queixada inferior do animal. Pelos bordos da ferida, que se abriam em toucinho, viram quanto era grosso o couro; se na barriga era assim quanto mais nas costas!. ..Depois de jarretados todos os quatro membros, logo ácima dos machinhos, uma incisura foi feita ao longo de cada um até encontrar o talho mestre. A faca trabalhava entre o couro e a carne, e para facilitar e apressar a esfola de quando em quando Pedro das Marrecas introduzia o punho, que entrava rangindo na ferida despregando a pelle do toucinho.

Em pouco tempo o corpo da anta ficou em toda nudez ebrancurade um porco bem pellado com agua fervendo. O couro preso pelo cogote cahia como uma bandeira meio desfraldada e tocava a paxiúba da barraca com as garras trazeiras.

Pedro das Marrecas com um profundo corte separou da cabeça do animal a pelle, atirando-a no assoalho de carnal <marca num="1" pag="399"> para baixo gabava-lhe a espessura e a boniteza. Era preciso espichal-a, mas varinhas era só o que não havia ali por perto naquella matta de grossos madeiros. Seria mais fácil encontrar cem mastros para navio do que uma varinha da grossurade um canniço. Se podessem cortil-a seria uma fortuna. Havia tanto angico colossal para tirar casca e fazer golda, porem não havia nem banguê, nem coxo e muito menos tempo para tal occupação. Assim deixaram a espicha para o dia seguinte e esquartejaram a anta.

Dissecado o animal discutiam sobre a casta delle. Pela gordura era porco, mas tinha a carne mais escura e os pellos completamente differentes. Apellaram para o paladar e foram com um bom naco ao espeto. Em breve o toucinho fumegou nas brazas enchendo o ambito da barraca de um cheiro appetitoso de churrasco.

João das Neves, havia muito tempo fastiento, sentiu que o paladar se aguçava, se despertava e a bocca se lhe enchia de saliva.



<nota num="1" pag="399"> A parte do couro que está em contacto com a carne. </nota>



Ao cahir da noite acocorados a beira do fogo ceiavam carne da anta com farinha d'agua achando-a devéras saborosa.

Pedro das Marrecas estava maravilhado do apetite do companheiro e da sua animação moral. Gabava-se da sua boa lembrança trocando as occupações.

João das Neves contou-lhe então o caso do puraqué, cujos choques lhe deram um certo tom.

Pedro das Marrecas extranhou o acontecimento e accordaram que seria elle quem na primeira occasião desencantaria o bicho com a sua faca pequena.



</div>



<div "CAPÍTULO XLIV">



XLIV



João dasNeves, graças ás caçadas de Pedro das Marrccas, ia melhor do fastio, mas não da doença.

O paludismo continuava a sua marcha insidiosa, minando-o sorrateiramente, sem alarma. 

Dias havia em que o doente passava melhor, tinha menos quebreira, o baço não lhe doia tanto.

Lá uma vez por quinzena contara um allivio destes. O seu estado habitual entretanto, era viver cançado. Pela manhã quando se levantava da rede já era of'fegando. Outro que não tivesse tanta energia, tanta sede de dinheiro para regressar a patria, se teria já deixado vencer pela enfermidade.

Bufando de fadiga lá ia todos os dias á seringa. Não faltava á obrigação. A custa de muito sacrificio cortava as suas cento e cincoenta madeiras.

Quando entrava em casa, á hora de tomar o chibé, era se acocorando logo sem animo de fícar de pé.

Quasi nunca tomava a refeição e sabe Deus como deixava a barraca para voltar ao serviço.

Durante a defumadura parava algumas vezes e sentia-se tão afadigado dentro daquella fumaça irritante, sem folego, picado pelas cabo-verdes, que, elle que desejava tanto viver, tinha crises de pusilanimidade e nessa covardia moral lembrava-se da morte com um certo contentamento, porque o livraria daquelle soffrer em demasia para as forças delle. Concluida a tarefa em vez de voltar á barraca para descansar, ia se arrastando para o igapó porque alem das consumições do serviço e dos tormentos da doença, mais as pragas que lhe empestavam o corpo e era preciso arrancal-as da pelle esfregando-a com a lama e agua dos brejos. Quando conseguia limpar-se e voltar á barraca estava tão sem alento como um moribundo.

Assim, nú mesmo, vinha para á casa fazendo de um pé dois rastos. Pedro das Marrecas o acompanhava e troçava delle, dizendo quando lhe presentia um passo em falso:

-- Aguenta o banzeiro, Joãozinho!..

A ignorancia de Pedro não lhe permettia avaliar o estado de molestia do companheiro.

Não tinha febre, nem dôr de cabeça, sempre comia, não estava doente, pensava elle.

João das Neves fazia outro tanto se se invertessem os papéis. Ambos estupidamente fatalistas não criam em medicina quando era chegado o dia de morrer.

Para elles, homens do povo, a morte é um facto todo natural.

Tem um modo especial, todo seu, de morrer.

Não os aterra a idea do acabamento e nem tão pouco cogitam da vida de alem tumulo.

Se amam o mundo, se deixam affeições ninguem suspeitaria pela frieza com que recebem a morte.

Acabam-se sem que externem o menor pezar, a mais leve saudade da vida e dos que ficam aqui ainda penando nessa penitenciaria.

Pedro das Marrecas não extranhava que um companheiro desse pouca importancia as suas doenças delle. Tinha tido sobejas provas disso. Não fazia muito tempo que João das Neves deixou-o para morrer e foi cortar seringa. O caso foi assim : Pedro das Marrecas, apaixonado caçador de abelhas e guloso comedor de mel, havia muito tempo que, por não ter machado, não saboreava um favo. Quando voltou da festa do barracão, trouxe um tumba, <marca num="1" pag="404"> que encabou de rija madeira e aguardava occasião azada para assaltar as colméias do Amazonas. Nos primeiros domingos entretido com a abundancia e variedade da caça esqueceu as abelhas. Em breve saciou-se. A fartura de veação tão mansa que não temia a gente já o estava enjoando. Eram muito bestas os bichos ali e tão bestas que todos comiam barro, dizia. Em sua terra para um caçador matar um veado é preciso não só ser bom escupeteiro, mas ainda fazer tocaia. O bicho é tão arisco que só come de noite e mesmo no escuro caminha de orelha em pé <marca num="2" pag="404">  prompto á disparar ao menor ruido. Assim o caçador é obrigado a fazer espera no olho da mais crescida arvore, e escanchado na rede esperar que o demo do veado venha á comida, o que acontece as vezes pela madrugada, dizia comsigo o Pedro.

Não havia necessidade de estar matando a bicharia só pelo gosto de ver a queda. A barraca jánão tinha mais onde estender carne de caça. Só de uma feita haviam sido mortos trinta e tantos jacús-assú e mais de vinte mutuns.



<nota num="1" pag="404"> Machado fabricado nos Estados Unidos da America do Norte. </nota>

<nota num="2" pag="404"> Desconfiado. </nota>



O jabá, ruivo, coberto de bolor era abandonado á polia como um couro ruim e sem prestimo. Tudo isso justificava a sua caçada de mel. Em um domingo madrugou na matta com o tumba as costas e em falta de cabaças levava o balde de leite que pretendia encher só com o tiramento de um cortiço. O dia apanhou-o a sombra da floresta, descogotado, olhando para cima, a ver onde frechava alguma abeíha. Nada viam osseus olhos amestrados naquelle officio. A pouca luz talvez impedisse de ver o desfilar dos operarios para o trabalho. Depois de muito pesquizar, quando o sol alteou, descobriu uma abelha frechando no primeiro esgalho de uma arvore de grossura enorme. Attentava os insectos, que, pelo vóo, lhe eram extranhos. De que casta seriam? Bom era que fossem mansos. Não podiam ser mais bravos nem mais temiveis do que a taiahyra, que com o seu mijo de fogo já o havia queimado todo e nem porisso o matára.

Pedro das Marrecas mirava o páo, que tinha na base do tronco um diametro de mais de dois metros e não se arreceiavade ir á elle e derribal-o.

Havia muito tempo que os músculos de seus braços não sentiam o peso de um tumba. O machadinho de cortar seringa estava lhe embotando a força. Já o novello de musculos que se levantava quando dobrava o braço estava molle e pequeno. O páo havia de vir abaixo golpeasse embora até escurecer. Já tinha tirado a camisa e amarrado na cintura quando lobrigou por entre a cerrada ramaria de uma arvore um objecto pendurado, que tinha a forma e o tamanho de uma cabeça humana. O que veria ser aquillo ? pensou. Podia muito bem ser que aquella cabeça trepada no olho do páu tosse casa de arapuá <marca num="1" pag="406"> do Amazonas. E não era outra cousa. Discorrendo assim approximou-se da arvore, um taxyseíro, <marca num="2" pag="406"> de grossura media, e sem mais reflexão marinhou por ella acima. A' medida que ia subindo assanhava-se o formigueiro arranchado na casca carunchosa do páo. Em breve o madeiro ficou coberto de formiguinhas vermelhas, quasi microscópicas, assanhadas, movendo nervosamente as antenas, promptas a morder e a deixar na ferida um acido tão caustico que seria capaz de empolar a pelle de um elephante.



<nota num="1" pag="406"> Abelha negra do Ceará. </nota>

<nota num="2" pag="406"> Arvore em cuja casca mora uma formiga muito caustica. </nota>



Pedro das Marrecas na pressa com que subia não sentiu as formigas, que aos milhares deixavam a arvore e se alastravam pelo corpo delle. Parou no ultimo esgalho na visinhança do qual estava a cabaça. Ao alcance do braço mirava aquella obra tão bem architectada em muito boa argila, com reflexos marmóreos e tão lisa que parecia ter sido brunida e envernisada. No meio do bójo abria-se uma fenda vertical de dez centimetros de comprimento e um de largura, que dava entrada a esquisita morada e por onde o olhar penetrando descobria um bem disposto amphiteatro com uma serie de andares compostos de alveolos feitos do mesmo barro que a parte externa do edificio. Pedro das Marrecas estava devoras abysmado com aconstrução do tamatiá-caba. Para ser obra de bicho era uma grande maravilha ! Que casta de animal seria que possuia tão vastos e profundos conhecimentos de architectura, de hydraulica, a ponto de fabricar uma argamassa, um cimento, que resiste annos e annos aos invernos diluvianos do Amazonas ?!... Da habitação pensil nem um sópro de vida sahia; parecia deshabitada.

Pedro das Marrecas, para saber se nella havia morador e de que especie, deu alguns piparotes na argila que soaram como se elle tivesse percutido uma cabaça. Nunca um -- oh de casa foi mais promptamente respondido. Uma nuvem de maribondos pretos precipitou-se pela porta comprida e estreita da casa e cahiu sobre o caçador, que doido dentro do enxame de vespas, que o ferrroavam desesperadamente pelo tronco nú e rosto, escorregou de páo abaixo, desatinado de dores.

Logo que pisou em terra, sahiu correndo de matta a fora como um possesso, em busca da barraca. Mal lhe deram as forças para chegar ao terreiro; estatelou-se no chão.

João das Neves, á tarde, de volta de sua tárefa do domingo, veio encontral-o ainda derribado. Fazia lastima vel-o. Estava desaccordado e tão inchado tinha o rosto que os olhos se tinham arrasado e as ventas se esparrinhavam informes pelas bochechas balofas de inchação. A pelle do tronco não era de gente ; estava tão grossa que parecia doente de bexiga couro de lixa.

Pontos brancos aureolados de roxo sarapintavam a rubefação, que as formigas tinham produzido. 

Eram os signaes deixados pelo ferrão aguçado e venenoso das vespas.

As pragas aproveitavam a immobilidade do corpo do caçador para espicaçal-o.

Piuns e cabo-verde, carapanans e oiras pairavam sobre elle e de quando em vez desciam para lhe furacar a carne. Umas picavam só pelo gosto de ferir e se alteavam logo, mas outras se grudavam á mordedura e chupavam até se encher de sangue.

A oíra, á medida que sugava deixava na ferida incubado o ovo que se transformaria em nojenta larva, cujo parasitismo traria dolorosa enfermidade. A pelle do animal ou do homem lhe serveria de chrysallida.

João das Neves extranhou o estado lastimoso em que encontrou o companheiro.

Olhou-o e com toda a fleugma foi deixar a trouxa de roupa na barraca para depois voltar e ver o que faria com o Pedro.

De novo ao lado do companheiro custou-lhe muito fazel-o tornar. Chamou-o repetidas vezes, balançou-o com força, chegou mesmo á soerguel-o um pouco para fazel-o voltar á vida.

João das Neves notou que o corpo do derribado estava quente como uma braza. Depois que conseguiu sental-o indagou delle como lhe acontecera semelhante naufragio. 

O doente tresvariava. 

As palavras percebiveis, as que não eram labiaes, deixavam ver que elle dizia cousas sem nexo. Os beiços reduzidos á trombas não permettiam a articulação de grande numero de vocabulos do aranzel ditado pelo delirio da febre. Só uma palavra ouvia-se clara, distincta e repetidas vezes, era -- Ceará.

Com muito trabalho João das Neves conseguiu dar com Pedro das Marrecas na rede. A tipoia não esteve quieta muito tempo. Um tremor de frio violento fazia tiritar o enfermo estremecendo a rede até o tecto da palhoça.

O doente tresvariava e gemia como se uma dor aguda o tivesse angustiando.

João das Neves muito calmo tratava de ceiar entregando á Deus e á natureza a doença do companheiro. Já o tinha visto quasi assim com a mordedura da tucandeira. Se tiver de ficar bom sem remedio mesmo fica. A molestia havia de ser esipra <marca num="1" pag="410"> e não tendo quem benzesse, duraria mais, porem acabaria.

Pedro das Marrecas cortiu febre alguns dias, mas afinal levantou-se.

João das Neves nem no periodo mais agudo da doença do companheiro deixou de ir cortar seringa. Deixava o Pedro entregue á sorte. Se tivessse de morrer não seria a presenga delle nem a de todos as cirurgiões do mundo que lhe daria a vida, pensava. 

Pedro das Marrecas já estava bom do envenenamento das vespas. Já tinha ido a matta em busca do seu tumba e do balde, que felizmente encontrou. As pragas lhe tinham feito cahir a pelle do corpo, mas isso não o incommnodava tanto como dois caroços que estavam lhe nascendo um na palpebra superior de um dos olhos e o outro no labio do bigode.

As postemas, como elle chamava, cresceram a ponto de lhe tomar o olho e a bocca. Produziam dores atrozes. 



<nota num="1" pag="410"> Erysipela. </nota>



Queixava-se que latejavam, que já tinham peçonha <marca num="1" pag="411"> e uma manhã não supportando mais as ferroadas que sentia nas carnes pediu ao companheiro para furar os tumores. 

João das Neves não teve duvidas, afiou a ponta da faca e como um cirurgião emérito, senhor do seu officio, perito em anatomia, achegou-se ao companheiro. Com a ponta da lamina apertada entre o polegar e o indicador oi ao olho do doente e sem procurar logar fez uma incisão profunda, que teria chegado e roto a esclerótica se não tivesse embebido o ferro no corpo da larva. Pelos beiços do talho espirrou uma massa esbranquiçada como um 

carnição.

Pedro das Marrecas não se mexeu, nem tam pouco deu um gemido.

O operador ajudou a sahida da larva da oira expremendo brutalmente o tumor.

O mal do beiço foi tratado pelo mesmo processo.

Aliviado o doente louvava a pericia do companheiro, que podia tel-o cegado com a sua estupida audacia. 



<nota num="1" pag="411"> Pus. </nota>



</div>



<div "CAPÍTULO XLV">



XLV 



O inverno começava. Uma calmaria de alguns dias e tão intensa que mesmo ao tempo a gente se abafava, que trazia as folhas das arvores tão immoveis como se fossem de pedra, precedeu a uma tempestade de vento, chuva e trovões, tão forte que parecia querer acabar o mundo.

Era ao escurecer quando se desencadeou o temporal. Uma brisa esfuziou primeiro tão sorrateira que passando pela face dos lagos nem sequer a enrugava, que tocando as flores lanaginosas das sumuhumeiras não as levava comsigo ; depois transformou-se n'um tufão, 

que desenfreiado reboava pela calada da alterosa malta , torcendo a ramaria dos arvoredos e arrancando as lanças das palmeiras. Uma escuridão abysmal enchia o espaço desde o céo á terra. A luz vermelha dos pequenos fogos que ardiam nas choupanas dos seringueiros mal chegavam ao terreiro das barracas.

Nem um raio de estrella luzia na pretidão da cúpula celeste. Muito tempo não ficaram confundidos céo e terra no negror da tormentosa noite. O fogo do raio riscou em zigue-zague a juba dos cúmulos e o trovão seguiu-se instantáneo estrondeando pela floresta a fóra numa cerrada bombardada de medonhos estampidos.

A chuva cahia continua em grossas bagas sobre a copa espessa dos arvoredos numa chiadeira tristonha e importuna.

Os gritos dos. animaes noctivagos fugindo á tormenta, em busca de abrigo, mal eram articulados, tragava-os o vozear estridulo do temporal.

Os igarapés que tardos deslisavam para os grandes rios, arfavam com as aguas novas num sussurrante marulhar de enchente.

As cachoeiras mugiam num fragor de encapelladas vagas a se quebrarem em ingremes penedias. Eram caudaes as torrentes engrossadas pela chuva. Raro era o rio que corria sereno sem se precipitar de altissimos saltos.

Quando o fogo do céo tirava por um instante a terra da negrura da noite via-se o espectacolo masgestoso das cataractas! Uma bruma subtil e resplandecente d'agua pulveri-sada cambiava atravessada pela luz azulada dos relampagos.

As cachoeiras mugiam, ululava o tufão e os trovões estalavam tão perto que as descargas pareciam á flor da terra.

Pedro das Marrecas e João das Neves estavam aterrados com a meteorologia do Amazonas.

Mettidos nos mosquiteiros escutavam o temporal que lá fóra queria tudo destruir. Dentro da barraca chovia tanto como no campo. O vento arrepanhando ás palhas dava entrada a agua em tal quantidade que apagou o fogo. Ficaram de todo no escuro.

Quando abria o relampago é que viam a innundação da casa: a paxiuba estava coberta d'agua. A trovoada era tão forte que a barraca estremecia como se estivesse fincada num chão a tremer.

Os seringueiros estavam devéras amedrontados.

Acostumados com as trovoadas mansas de sua terra, com os invernos que começavam sem destemperos, extranhavam aquelles exaggeros da natureza.

Tudo ali era descommunal! Para nutrir arvores tão colossaes só chuvas diluviannas. O logo do céo, que ali era mais intenso do que nas outras regiões da terra era talvez um beneficio. Sem elle assim forte bem podia ser que as legiões de animaculos que vivem no ar fossem mais nocivos.

Os brabos não comprehendiam a harmonia sublime da creação, os prós e contras das cousas. Queriam climas quentes, terrenos alagados e ensombrados por seculares e alterosas florestas sem o miasma dos pantanos?

O temporal durou até amanhecer o dia. Quando o yrapurú gorgeou o seu canto matinal, estrondeou a ultima bombardada eletrica, soprou a derradeira lufada de vento e com ella cahiram as ultimas gottas d'agua em finissima neblina.

Logo que o dia clareou de todo, os seringueiros se levantaram e foram ao terreiro na supposição de encontrarem tudo arrasado, tão medonha se lhes afigurou a tempestade.

A floresta estava quieta e perfilada; apenas em alguns pontos tinha esgarçada a ramaria.

As grandes sumuhumeiras haviam resistido a furia do vento, graças ao apoio de suas largas sapupemas.

Em alguns sitios, entretanto, haviam arvores esfatiadas pelo fogo do raio. Grossos madeiros de estatura colossal estavam fendidos de alto a baixo em finas estilhas.

A terra estava toda coberta por uma camada liquida de alguns millimetros de espessura.

Aquella abundancia d'agua fel-os recordar immediatamente o Ceará.

Quem dera lá ao menos metade para não andarem penando os seus filhos pela terra alheia!

Lá era a falta d'agua que os fazia soffrer, aqui era o excesso della. Começava o inverno e elles não poderiam mais trabalhar. A chuva não consentiria que cortassemas seringueiras, cujo leite baptisado por ella jamais se coagularia. Assim estava suspenso o fabrico da borracha pelo menos por quatro mezes emquanto voltavao verão.

João das Neves com grande pena rccebia a intimação do inverno, porque deixar de trabalhar era augmentar o tempo do seu captiveiro ali.

Pedro das Marrecas pelo contrario até estimou as ferias. Continuando a gozar a melhor saúde teria todo tempo para caçar e pescar. Havia de furar a matta de nortea sul, ir até topar com as outras terras, <marca num="1" pag="417"> dizia elle.

Depois do grande temporal, que iniciou o inverno, seguiram-se alguns dias de estiagem.

Era uma interrupção passageira, dizia o aspecto do céo, que permanecia sombrio, e o fuzilar dos relampagos a noite. Os rios continuavam a engrossar, a crescer com a agua que lhes vinha das cabeceiras.



<nota num="1" pag="417"> Paizes estrangeiros. </nota>



A camada que a chuva produziu sobre a terra custou a escoar; tão farto era o chão que parecia ter um mar no subsolo.

Suspenso o fabrico da borracha, tiveram os seringueiros em sua maioria de se retirarem dos centros, que naquella estação eram alagadiços, para terra firme. <marca num="1" pag="418">

A totalidade das estradas do Bom Futuro estava em terrenos baixos, que antes do meio do inverno estariam cobertos d'agua. Assim o pessoal que nellas trabalhava, tinha de se recolher ao barracão Deus te ajude antes de ficarem sitiados pelo ajuntamento dos igarapés, rios e igapós.

A retirada começou das barracas para o porto do embarque, o estabelecimento do corregedor. A borracha era transportada por agua quando era possivel.

Das estradas mais centraes vinha nas costas de animaes, o que era raro, ou dos proprios seringueiros.

No centro do Bom Futuro não havendo alimarias o dono da seringa tinha de leval-a ao armazem de Salvatierra, para d'ahi seguir embarcada para o barracão de Bernardo das lpueiras. 



<nota num="1" pag="418"> Logar não sugeito a inundação. </nota>



A João das Neves e ao companheiro cabia uma pesadissima tarefa de transporte. Uma boa tirada tinham que andar carregados como burros. Para Pedro das Marrecas não era labuta esta de estafar, mas outro tanto não acontecia com o Neves, que continuava minado pela sorrateira cachechia palustre. Alem disso as pelles <marca num="1" pag="419"> deste eram em maior numero.

Assim mesmo doente, passou o companheiro no tiramento da borracha graças á pericia com que cortava e á constancia no serviço. 

Alguns dias levaram a transportar a gomma elástica. Foi nesse doloroso caminho, que João das Neves percorreu sentindo a fadiga da morte, suando bagas de sangue, elevando ás costas o fardo que o restituiria á patria, á esposa, aos filhos, que Pedro das Marrecas mostrou quanto é grande o sentimento da fraternidade, o auxilio mutuo nos simples e rudes camponezes.

Na patria se reuniam para ajudar o irmão no fazimento do roçado; exules se fraternisavam mais ainda ajudando o companheiro a levar o fardo, superior as forças delle, quebrantado muita vez pela doença.

Pedro das Marrecas foi quasi quem transportou a borracha do João das Neves para a barraca de Salvatierra.



<nota num="1" pag="419"> Pão de borracha. </nota>



Durante este penoso trabalho não proferiu uma queixa, e quando o companheiro cansado, esbaforido, teimava em ajudal-o, elle o continha dizendo-lhe:

-- Deixa estar, Joãosinho, que eu só dou conta do reccado. Se eu estivesse nas suas posses você não fazia outro tanto por mim?

-- Fazia, Pedrinho, respondia o enfermo lançando-lhe um olhar doentio, mas repassado de reconhecimento.



</div>



<div "CAPÍTULO XLVI">



XLVI 



As estradas em terrenos alagaveis estavam desertas. Em muitos logares com poucos dias de chuva a agua tocava apaxíúba das barracas.

Pedro das Marrecas e o companheiro já se tinham passado para a casa do corregedor, onde esperavam monção de se retirarem para o barracão Deus te ajude.

Em todos os Centros se viam preparativos de viagem. Batelões e montarias partiam cheios da gente, que o inverno havia desoccupado. Todos embarcavam contentes, porque assim ficariam livres da invernia ali, presos nas barracas como verdadeiros condemnados em ilhas presidiadas.

Daquella multidão de homens que tinham entrado para os seringaes, sadios, robustos, raro era o que sahia sem estar atacado de paludismo.

A miseria da saude delles, claramente se lhes via nas feições. Amarellentos como os comedores de terra, carregavam o pesado fardo da doença em meio das mais fundas agonias.

Felizes os que diziam áquelles logares de supplicio o derradeiro adeus ! Os que se despediam de volta a patria sem estarem de todo envenenados pelo miasma dos pantanos! Felizes os que escapavam daquella lucta infernal com algum alento e podiam fazer a longa travessia ao torrão do berço e pisar as brancas areias de sua terra. Estes estavam salvos. Mas, quantos succumbiam com a certeza de que marchavam para a morte, verdadeiros parias, sem direitos nem garantias, em uma terra ainda selvagem, onde a lei era a vontade do dono do barracão, para quem o seringueiro não era um homem digno de compaixão e de caridade, porem simples e únicamente uma besta de carga.

Estes morriam á mingua de todo e qualquer soccorro. Finavam-se nesse doloroso abandono e muitos nem cova tinham, eram atirados á gula eterna dos jacarés.

João das . Neves continuava a cortir a molestia que lentamente o ia roendo.

Agora passava os dias deitado como uma velha rheumatica.

Outro tanto não fazia Pedro das Marrecas; furava o mundo em todos os rumos como havia promettido.

Os companheiros se admiravam da sagacidade delle. Remexia a matta em grandes distancias e não se perdia. Tinha um tino de caboclo bravo.

Agora andava allucinado pela caçada dos macacos. Havia morto algumas duzias de varias qualidades, e entre estas seis guaribas de um tamanho fóra do commum.

Salvatierra, que era veterano ali, já tinha dito que Pedro das Marrecas era um grande atirador. 

O mestiço passava os dias na matta. As ciladas em que havia cahido e que lhe custaram boa dose de incommodos quando chegou logo, o fizeram precavido, e mesmo desconfiado com os animaes e coisas do Amazonas.

Por mais prevenido que estivesse com a opulenta fauna d'aquella terra, quasi ficou assombrado duma feita em presença de um tatú canastra.

Se visse na floresta um daquelles dragões voadores, com bico armado de dentes, especie hoje perdida, grande como um navio, talvez Pedro das Marrecas ficasse menos sarapantado.

O inoffensivo desdentado só tinha de extraordinario o tamanho, que era o de um garrote.

O caçador se encontrou com elle a beira de um igapó. A primeira idea que teve quando o avistou foi a de uma pequena barraca; depois viu pela couraça que era um tatú, porem cem vezes maior do que os pebas e verdadeiros do Ceará.

Tremendo de commoção em presença de tão grande e extraordinaria caça occultou-se por traz de um páo e esperou que o animal passasse ao alcance de sua arma. O tatú veio caminhando pesada e vagarosamente, fossando de quando em vez a terra brejada do igapo, na esperança de alguma raiz comestivel ou verme, e sem faro que o advertisse do caçador tão perto emboscado, ia passando encostado a arvore da espera, quando detonou um tiro e certeira bala entrando-lhe por uma das axilas acabou-o instantáneamente!

Pedro das Marrecas de pé ao lado da caça que se havia abatido e tinha no chão a forma e aspecto de um monticulo, estava admirado perante aquella maravilha da fauna do Amazonas. Tatús do tamanho de bois, só levando as unhas e o casco para mostrar, dizia com os seus botões.

Alegre com a preza teve um desejo vehemente de leval-a aos hombros para barraca como o mais valioso trophéo de caça. Ainda experimentou o peso do animal tentando suspendel-o pela aba da couraga, mas nem sequer aluiu o corpo do tatú. Victorioso voltou a casa a communicar o feito e trazer quem o ajudasse a conduzir a caça.

Foi uma festa entre os seringueiros a nova da morte do tatú canastra.

Mais de cincoenta curiosos acompanharam o caçador e horas depois entrava em triumpho na barraca de Salvatierra, o morto ajoujado a páo e corda.

A posse das unhas do bicho para levarem como reliquia para o Ceará foi bastante disputada. 

Pedro das Marrecas viu-se abarbado na distribuição. Por muito favor lhe concederam que ficasse com duas, uma para si e outro para João das Neves.

A carne foi espostejada e depois de vasio o casco avaliaram que nelle podia caber um alqueire <marca num="1" pag="425">  de farinha!

Era grande o movimento da barraca de Salvatierra para o barracão de Bernardo das Ipueiras. As embarcações navegavam de um para o outro porto de lotação completa. A borracha foi transportada em primeiro logar, depois a gente. 



<nota num="1" pag="425"> Medida do seccos no Ceará, de 128 litros. </nota>



Os batelões, de cheios, iam com as bordas quasi rentes a agua.

Era grande o açodámento dos seringueiros nos aprestos da partida. Tinham pressa de sahir, de se por longe, mormente os que tinham saldo e iam visitar a terra, de onde eram filhos.

A migração dos habitantes do Centro do Bom Futuro terminou com um desastre que a todos entresteceu.

Na ultima viagem do batelão, já ao lusco-fusco, entre os passageiros vinha um, cujo semblante nadava em satisfação. 

Havia chegado nos seringaes na era dos tres oito, <marca num="1" pag="426"> como elle dizia, e trabalhado alguns annos, sempre sadio, sem ter ao menos uma dor de cabeça. Agora que contava possuir perto de dez contos de réis em mão do patrão ia devez para o Ceará, onde tinha mulher e fílhos que havia abandonado, por não poder mais supportar os repiquetes de secca tão frequentes lá.

Recostado em um sacco perto da proa, dava á lingua, contando aos outros os seus projectos.

Havia de comprar uma posse de terra e um gadinho logo que chegasse. O mais velho dos filhos, que já estava homem seria o vaqueiro. A filha moça trataria de casal-a logo com o melhor rapaz da freguezia, para isso lhe daria um dote de quinhentos mil réis.



<nota num="1" pag="426"> Anno de 1888. </nota>



O batelão singrava sereno quando um descuido do homem do leme deixa-o ir de encontro, abalroar com um madeiro que descia ao sabor da corrente. O choque não foi muito grande, mas foi sufficiente para desequilibrar os passageiros, mesmo os que iam sentados.

O seringueiro que tão bellos castellos fazia no ar, que já se julgava tão feliz em seu amado sertão cercado da mulher e dos filhos foi quem mais se desaprumou com o choque, e tanto que o sacco que lhe servia de encosto cahiu n'agua. Naquella sacola de panno de algodão, impermiavel por uma camada tenue de borracha ennegrecida pelo fumo do ouricury não iam valores, mas preciosas reliquias da fauna, flora e mineralogia do Amazonas. Eram amostras das coisas mais exquisitas e raras e que mais tinham impressionado o aventureiro.

Entre ellas ia um talismán, o cadáver mumificado de um yrapurú.

De todas era a que mais venerava o possuidor pela crença que tinha nas virtudes bemfazejas della.

Contava a lenda amazonica que ella dava ventura e uma vez enterrada no batente da porta de entrada de uma habitação a felicidade ficaria ali. Assim, quando elle viu desapparecer n'agua o sacco em que ia o poderoso talismán, não pensou senão em salval-o e sem mais reflexão deitou-se ao rio.

Eximio mergulhador, afundou-se de cabega para baixo na corrente, cuja superficie ainda marulhava com o choque do primeiro corpo que atinha aberto.

O batelão parou e os passageiros de olhos cravados no logar onde havia-se submergido o seringueiro esperavam que elle subisse a tona d'agua para victorial-o, e recebel-o de novo a bordo. Aquelles olhares anciosos viram em breve surgir a face do rio, não o mergulhador, porém uma onda de sangue, que borbulhou e tingiu uma grande área da corrente. Todos immediatamente tiveram o mesmo pensamento, uma desgraça tinha acontecido. A certeza do lamentavel desastre tiveram quando emergiram da onda de sangue a cabeça e tronco do seringueiro, que mal assomaram a flor d'agua, se afundaram de novo puchados para baixo com tanta violencia que a corrente se abriu n'uma larga fenda.

O corpo do infeliz havia sido cortado pela cintura.

A voraz pirahyba, <marca num="1" pag="428"> que o decepou, engoliu as pernas e parte da barriga emquanto a metade do corpo subiu a tona. Receiosa de algum logro, ainda bem o pedaço do cadáver não chegava em cima, já ella o puchava para baixo começando a tragal-o!



<nota num="1" pag="428"> Cação feroz. </nota>



Do batelão ouvia-se perfeitamente um ruido surdo no seio do rio, uma agitação que chegava a superficie em uma serie de ondulações, de pequeninas maretas, que iam arfando até as margens, onde se desmanchavam em sanguinolentas espumas.

O sangue era a causa da agitação das aguas.

Havia attrahido as feras mais vorazes do rio. Cardumes de piranhas negras acudiram a primeira tinta rubra que sua vista fina e ávida da cor vermelha percebeu colorindo o sitio do desastre. Já ellas davam as primeiras dentadas nas carnes palpitantes do morto quando a pirahyba chegou a tona e lhes tomou o preza.

Os jacarés attrahidos pela mesma causa chegavam as dezenas, na esperança de saciar a sua gula eterna.

Para o banquete das vorazes feras ficara apenas o sangue da victima para mais lhes aguçar o apetite insaciavel.

A carne começava a ser digerida pelo estomago do cação, que farto, procurava cama no leito do igarapé.



</div>



<div "CAPÍTULO XLVII">



XLVII 



Depois de reunidos os aviados de Bernardo das lpueiras no barracão Deus te ajude foi que João das Neves e Pedro das Marrecas viram como a morte havia disimado o pessoal que com elles tinha vindo engajado por José Simão.

Quasi um quinto tinha-se acabado de paludismo e de beriberi e os que restavam fazia dó vel-os; eram umas ruinas.

Amarellos, inchados, com o baço feito um tambor, espiavam com um desalento que os aniquilava os preparativos de viagem dos companheiros que tinham de regressar para o Ceará.

Bernardo das lpueiras, Salvatierra e o caixeiro do barracão trabalhavam dia e noite nas contas dos freguezes. Já a borracha tinha sido pesada, conforme as marcas, e creditado aos donos o valor, regulando o kilogramma metade do preço por que era vendido nas praças de Belém e Manáos. Alem dessa grande differenca de cotação, ainda mais Salvatierra tirava uma boa porção para quebras.

Dez por cento pelo menos subtraia o boliviano em cada pesada.

Os seringueiros, quasi todos analphabetos, não reclamavam, e ai do que erguesse a voz para protestar contra aquelles estellionatos.

Promptas as contas e assignadas as cartas de ordem para as praças a que se destinavam os freguezes que se retiravam e tinham saldo, esperavam agora os aviados que passasse o vapor.

Pedro das Marrecas e João das Neves haviam ficado devendo, porém pouco. Este quasi saldou o debito que ficou reduzido a cento e tantos mil réis.

O dia do embarque dos seringueiros foi um dos mais tristes e afflictivos para os que ficavam doentes naquellas inhóspitas paragens.

Só o coração empedernido de Bernardo das Ipueiras podia pelo habito de taes scenas, não se confranger com as dores que dilaceravam a alma daquella inditosa gente.

Quando o vapor apitou ao longe na mais proxima volta do rio, o dono do barracão e os seus prepostos tomaram as posições mais convenientes para bem fiscalisar, não só o embarque da borracha, como tambem o dos passageiros.

O navio atracou na larga escadaria de madeira do barracão, em parte afogada pela enchente do Acre, pouco depois de meio dia.

Uma balburdia infernal começou. Naquella lufa-lufa de ensurdeccr destacavam-se os berros de Bernardo e as pragas do boliviano apressando o embarque, que tinha de ser feito dentro de um hora.

As pranchas de borracha eram levadas para bordo espetadas em pontas de espeques, duas a duas, nos hombros de carregadores e atiradas no convez, onde resaltavam até se extinguir o impulso que haviam recebido com o choque as suas elásticas moléculas.

Conferida a mercaderia pelo empregado do navio, foi assignado o conhecimento e agora pela escotilha de prôa desappareciam os pães de gomma elástica, cahindo sem estrondo no porão, abafando o seu elasterio o rumor que a queda de um outro corpo de semelhante peso e sem aquella propriedade faria ouvir.

Não havendo mais carga começou o embarque dos passageiros.

Bernardo e Salvatierra, em frente um do outro, no patamar da escada, revistavam com attenção a turma de seringueiros, que passava do barracão para bordo, mas andando sem grande pressa, tal era o estado de molestia de quasi todos elles.

Por mais que o patrão berrasse, ordenando mais ligeiresa, mais actividade, não apressavam o caminhar pesado e tardo.

A pobresa do sangue delles, reduzido quasi ao sóro, era a causa daquella preguiça muscular, da mortal apathia delles.

Nem regressando á patria iam presurosos no caminho.

Os que ficavam espiavam de longe o embarque dos patricios numa tristesa, num desconsoló que fazia pena! 

João das Neves encostado a uma columna não tirava os olhos, meio lacrimosos, da leva dos felizes que regressavam á patria. Quem sabe se lhe seria dada semelhante ventura no fim do fabrico no anno seguinte?! Sentia-se tão doente, tão acabado, cansando ao menor esforço, que achava não estar muito longe o seu acabamento. Assim mesmo, faria por viver até o dia de voltar. Se elle não tivesse de morrer no Amazonas, nem o jacaré o pegando, se acabaria.

A gente só morre na hora marcada, cada vez mais se convencia. A morte do seringueiro, comido pela pirahyba, a que assistiu, o fez ainda mais fatalista.

O infeliz nascera com a triste sina de ser engolido por um peixe.

Como habitava um logar onde não havia cações bravos e outras especies vorazes, mudou-se para o Amazonas afim de que se cumprisse o seu fado.

Os pés são obrigados a levar o corpo á sepultura.

Uma vez em um meio proprio áquelle genero de morte, o destino aguardou somente o instante e a sentença foi executacla. A familia do morto nasceu para ser toda vida pobre e tanto que ficou sem os haveres por elle deixados em mão de Bernardo das Ipueiras.

João das Neves assim racciocinava olhando o vapor que desatracado do barracão descia a toda a força de suas machinas, apitando de rio abaixo. 



</div>



<div "CAPÍTULO XLVIII">



XLVIII 



Pedro das Marrecas continuava a gosar a melhor saude. A vida que levava no barracão era justamente a que appetecia o seu genio nomada. Por felicidade sua encontrou um indio meio civilisado, que se chamava Jacy e de quem se tornou inseparavel companheiro de pescarias e caçadas.

Todos os dias sahia pela manhã o pessoal do barracão em canoas para o corte de lenha na matta, serviço este que faziam emquanto durava o inverno; mas Pedro não os acompanhava, ia com o indio numa ligeira montaria em busca de pescado. <marca num="1" pag="437">



<nota num="1" pag="437"> As informações sobre a icthyologia do Amazonas colhemos na Pesca na Amazonia, do notavel escriptor brazileiro o Sr José Verissimo. </nota>



A licença para isso, ou essa infracção do rigoroso regulamento do barracão, obeteve-a Salvatierra allegando que o Pedro daria mais lucro á casa indo as suas caçadas do que ao corte de lenha. O inverno continuava copioso. Raro era o dia em que não ribombava o trovão.

Os rios haviam sahido dos leitos, entrado pelos igarapés, emendando com os igapós. Um aguaçal raso ainda cobria a terra. O murmurio das correntes ouvia-se por toda a parte. O rumorejar d'agua, estridulo como o uivo das cachoeiras, ou cadencioso como o tamborilar da chuva na folhagem das arvores, o doce e sussurrante marulhar das enchentes, enchiam o valle do Amazonas, com estas notas do cantar das aguas.

A parte povoada d'essa immensa região estava inundada. Os animaes terrestres haviam emigrado para os terrenos mais altos. Os aquaticos, com o seu elemento alargado, visitavam os sitios franqueados pelo inverno.

O peixe sahia em grandes píracemas dos leitos dos rios e entrava nos aguaçaes da matta. Iam em busca das suas frutas predilectas, o catuari, taperebá, taquariana e outras que só apparecem na epocha das enchentes.

Pedro das Marrecas havia captado a sympathia de Conchita, offerecendo-lhe todos os dias o melhor pescado que trazia. Estas attenções lhe valeram boas frasqueiras de cachaça, que a bolivianna dava, e que elle por sua vez repartia com o indio de quem por este modo conquistou a maior estima.

Jacy tinha uma ligeira montaria e boas armas de pesca.

Pescava sempre só por não ter companheiro nem corumim.

Em falta de creatura para o serviço da navegação, usava do João-de-páu, um remo curto, amarrado a popa por cipos, servindo de leme ou de hélice e manobrado lá da prôa onde elle ia sentado sobre os calcanhares.

Pedro das Marrecas na montaria de Jacy substituiu o João-de-páu com vantagem.

O indio deu-lhe algumas explicações, algumas licções praticas; tanto foi precizo para que se tornasse em breve um bom marinheiro.

Na primeira manhã que foram á pesca, Jacy para ser agradavel ao companheiro foi gapuiar pirarucú num sitio onde tinha visto boiar um casal e lhe dizia o seu fino faro de selvagem que elle estava na postura e tinha ninho perto.

Pedro das Marrecas não sabia como se pescava ali. Muito admirado ficou de não ver na canoa, tarrafa, anzol ou outro instrumento seu conhecido.

Jacy entrou num cerrado de matupás. <marca num="1" pag="439">



<nota num="1" pag="439"> Nome collectivo das gramíneas ao Amazonas. </nota>



A sua canoa deslisava subtil e ligeira por entre as touceiras de tíriricas e canaranas. De longe avistava-se o busto do indio, erecto, a remar entre o canniçal virente.

Pedro das Marrecas sentado no jacuman fazia de propulsor ou de leme a vontade do indio.

A montaria parou mais ou menos no logar em que Jacy suppunha os pirarucús no chôco.

O selvagem passou a sua vista agudissima pela superficie do aguaçal e notou que á sua direita a face tranquilla do lago arrepanhava ligeira siriringa.

Pedro das Marrecas embora se gabasse do desenvolvimento daquelle sentido não viram os seus olhos, o que viram os do indio. Esto viu o borbulhar da superficie d'agua e lá no fundo o volumoso peixe, cuja passagem fazia a deslocação das camadas inferiores, deslocação que vinha á tona produzindo a siriringa.

O caboclo não se illudira, o sitio ali não estava sarú <marca num="1" pag="440">.

O pirarucú não tardou em boiar. Sem ser um cetaceo, que precisasse vir ao ambiente se prover de ar, expunha de longe em longe o seu corpanzil, para que vissem as suas escamas de prata e nácar e a luz que se refrangia embebendo-se nellas as iriasse dos matizes da madreperola.



<nota num="1" pag="440"> Estar sarú -- não ter peixe. </nota>



Jacy, que havia acompanhado a evolução do peixe do fundo a superficie d'agua, como se o barrento aguaçal fosse um crystal diaphano, tinha mandado parar a montana e esperava em pé na proa, com a comprida haste do arpão na mão direita, prompta a ser arremessada, logo que o pirarucú boiasse.

Mal appareceram as pontas das serrilhas da barbatana caudal, o indio sacode o mortífero dardo, que vóa, cahe e se embebe em cheio no corpo do peixe meio submerso.

O bico aguçado do arpão rompendo a trama de escamas se lhe enterra nas carnes até as farpas. Apenas o animal sentiu o ferimento embicou para o fundo, submergindo-se instantáneamente.

Jacy logo que o peixe afundou, afrouxou a corda, cujas extremidades tinha uma enrolada na mão e a outra preza ao ferro do arpão. A pressa com que o novello se desmanchava e a linha corria e entrava d'agua a dentro dava uma idea da carreira do peixe.

O indio não tratava de colher a corda, pelo contrario facilitava o seu desenrolamento.Quando viu que poucos metros faltavam para chegar a extremidade que segurava, amarrou n'esta uma pequena boia de páo e esperou.

O pirarucú continuava a nadar com pressa, a fugir de igapó a fóra. A ultima volta da corda que estava na montaria se desmanchou, esticou-se, cahiu n'agua e com ella a pequena boia de madeira, que não ficou parada,mas foi singrando ligeira pela face lisa do aguaçal.

Jacy ordenou a Pedro das Marrecas que remasse para a frente e foi acompanhando a boia que seguia sempre.

O matuto remava com coragem, ancioso por ver o epilogo do drama.

Aquelle genero de pescada era para elle completamente desconhecido e original.

A boia já não navegava com a pressa dos primeiros momentos de sua queda n'agua.

Jacy apanhou a boia e tenteou a linha. Não achando-a muito tensa começou a colhel-a. 

Mal havia dado algumas voltas no braço a corda se enteza e o indio a solta immediata-- 

mente.

Jacy repetiu esta manobra algumas vezes. Colhia a linha até metade, soltava-a depois afim de cansar o peixe.

Quando conheceu, pela pouca tensão da corda, que o pirarucú estava exhausto, incapaz de um arranco, chamou-o a si colhendo a linha toda.

O peixe antes de se entregar á morte fez o derradeiro esforço já perto da montaria emergindo d'agua o seu corpo inteiro n'um salto rápido; de novo mergulhou ouvindo-se o baque de seu corpanzil, um ruido, o especial balacobao, como o designam os pescadores daquellas regiões. Sem mais forças para uma arrancada, entregou-se á discreção do indio que o foi puchando até encostal-o á montaria. Suspenso á tona d'agua pelo meio do dorso, onde se lhe havia enterrado o arpão, appareceu o pirarucú, bonito peixe, de cabeça volumosa e chata e escamas vermelhas como sangue. O indio sentindoo ainda vivo e lhe temendo um estrebuchamento na occasião de ser recolhido á canoa laça-o com a linha do arpão abaixo 

das natatorias peitoraes e o suspende. O craneo fóra d'agua, Jacy descarregou-lhe fortes pancadas com um cacete curto e pesado que fazia tambem parte de seus aprestos de pesca. O peixe esbugalhou mais ainda os seus grandes olhos nús, e num derradeiro abrir de guelras, que se afogavam em sangue acabou-se de todo. O indio guindou-o com grande esforço até saccudil-o dentro da montaria. Quasi o corpo do peixe encheu a piroga. 

Pedro das Marrecas estava abysmado com o tamanho do peixe. O maior que conhecia eram as trahiras de sua terra, que mediam meio metro as mais crescidas, e via ali um monstro de quasi tres metros de comprimento!

E só sendo deste tamanho podia o pirarucu chegar para ser comido fresco nos logares da pesca e ser exportado secco para toda a Amazonia fazendo assim competencia com o bacalhao, com o qual não se compara em sabor, mesmo sendo pirahén. <marca num="1" pag="444">



O mestiço não cessava de mirar o peixe e gabar-lhe a boniteza. As escamas, mormente as de perto da cauda, eram de um vermelho sanguíneo, iriadas de uma côr mais clara de fructo de cardeiro.

Como tinha grande a cabeça! Que sorpreza não foi a do Marrecas quando descendo a um exame mais minucioso, abriu a bocca do pirarucu e viu que ella não tinha dentes ! Que a lingua em vez de ser molle como nos outros animaes, era um osso chato, coberto de picos agudos e amollados, um verdadeiro ralo! Que terra de aberrações esta, dizia o matuto comsigo.

Jacy ainda bem não tinha acabado de arrancar o arpão, collocal-o na haste, amarrado a linha quando o pirarucu femea boiou a dez metros da montara. O indio não se apressou; o peixe voltaria em breve á tona e então elle o arpoaria. Não se passou meia hora; o animal apresentou o corpanzil fóra d'agua. O indio o arpoou em cheio no meiodo corpo.Reproduziram-se as mesmas scenas. A linha foi solta, colhida, porem não foi precizo amarrar a boia. 





<nota num="1" pag="444"> Secco. </nota>



O peixe mortalmente ferido cansou depressa. Veio á tona estrebuchando no arpão e ao chegar perto da canoa deu um meio salto, que produziu um ruido não de balacobáo mas de bólócóbó, isso consoante ao dizer do indio.

Não foi precizo acabar o pirarucu a cacete; mal lhe abria as guelras o ultimo arquejo da vida quando Jacy o lagou e puchou fóra d'agua.

Não tendo mais logar na montaria levou-o a reboque.

Antes de meio dia chegaram ao barracão e foram calorosamente victoriados pelo pessoal.

A salga do peixe foi immediatamente começada. As rabadas e ventrechas, gordas e saborozas, foram offerecidas a Conchita para o jantar.

As linguas, bastante desejadas para servir de ralo ao guaraná, trocou-as Jacy por um pouco de aguardente.

As escamas, aquellas bellas escamas roseas e escarlates foram guardadas para servir de lixa na brunidura de seus grosseiros artefactos.

Pedro das Marrecas estava allucinado pela pesca. O indio para elle não era um simples mortal, poremum semi-deus.

Vel-- debaixo d'agua, saber que casta de peixe nada no fundo só pelo borbulhar da seriringa, era demais para um homem a menos que não tivesse pauta <marca num="1" pag="446"> com o diabo. 

A sua admiração pelo selvagem chegou á adoração no dia da pesca do peixe boi.

Jacy havia encontrado num cerrado de matupás algumas canaranas com os renovos roídos. 

A' outro que não fosse elle teria passado despercebido o mutilamento da graminea. Certo da comedia do cetaceo tratou de apanhal-o e em uma manhã, antes da sahida do sol, com Pedro das Marrecas partiu em sua ligeira montaria. Levava os mesmos instrumentos de pesca, com a differença que o ferro do arpão era maior e mais pesado; conduzia tambem dois batoques de madeira rija de alguns centímetros de diámetro.

A enchente do Acre continuava. Estava tudo alagado. Nas partes mais altas uma trama de fios d'agua urdia a terra n'uma rede de miudas malhas.

Não tardava o momento da fusão dos pequenos arroios.

A canoa deslisava pelo aguaçal, sem bulha, silenciosamente. O indio com o remo mettido n'agua manobrava sem fazer o menor ruido. O capinzal por onde passava a montaria ia se inclinando, se acamando, como batido por uma lufada violenta de vento, mas isso sem barulho, apenas num brando e rumorozo ciciar.



<nota num="1" pag="446"> Pacto. </nota>



Quando entraram no sitio desejado, Jacy de pé na prôa da piroga investigava a exquisita paragem com seus apurados sentidos de selvagem. Todo attenção estava, todo olhos, todo ouvidos. De repente parou de remar. Soltou o remo e pegou no arpão, que empunhava, prompto para o arremesso. A face das aguas era lisa e serena. Pedro das Marrecas nada vira, nada sentira que ao menos fizesse suspeitar a morada de peixe naquelle sitio.

O indio havia percebido por entre as hastes das gramineas aquaticas o doce aljofar da seriringa. Ao mesmo tempo que esta imagem lhe entrava pelos olhos, sentia a deslocação das camadas inferiores d'agua produzida pelo corpanzil do peixe. Estas vibrações ligeiras transmittidas a montaria e depois ao selvagem, só elle as sentia, só elle tinha nervos para aprecial-as. Eram ellas tão subtis, tão céleres que o companheiro de Jacy nunca as teria percebido.

A agua abriu-se a dez metros do indio e appareceu a volumosa cabeça do cetaceo. O que mais se salientava na cara do bicho era a grande e rasgada bocca de beiços grossos e carnudos, alguns pellos duros se eriçavam á guiza de bigodes logo abaixo da abertura das ventas. A exquisita carantonha illuminavam dois pequenos olhos ternos como os das phocas. Muito a mêdo deixou emegir das aguas a cabeça inteira e todo ouvidos investigava o sitio. O silencio daquelles ermos mal quebrava o harmonioso canto da passarada alegre. Se o peixe-boi era sagaz, mais sagaz era o indio que tão perto estava na sua montaria, porem sem deixar sahir de si o menor ruido como se elle fosse de pedra. Tão doce era o seu respirar que a luz de uma vela não se inclinaria de leve passando-lhe na visinhança das narinas.

O cetaceo nada encontrando de suspeito deixou emergir mais o corpo. Dois braços appareceram, compridos como os de um homem terminando-se em cinco dedos, que estavam reunidos e envoltos em rija pelle, como os dos palmipedes. A figura do bicho, meio de fóra, 

nas touceiras de verdes canaranas, tinha um que de phantastico.

Jacy esperava somente momento azado para atirar o seu arpão. A postura do animal não lhe garantia uma segura arpoação.

O cetaceo se conservava quasi em pé, mantido pelos movimentos da cauda. Estirava os braços e as mãos mesmo embainhadas iam vergando as hastes novas da graminea, para a visinhança da bocca, cujos beiços grossos as apprehendiam, e cortadas, eram mastigadas e engulidas.

O indio estava impaciente que o peixe-boi lhe offerecesse logar ao tiro.

O cetaceo comia sem pressa, cauteloso, como receiando fazer a mais leve bulha. Depois de ter aparado os mais tenros renovos alli por perto virou-se para outra touceira, expondo assim o meio dorso ao selvagem.

Jacy não demorou o arremesso. Inclinou-se um pouco para traz, e retorcendo o rijo e erecto busto saccudiu o dardo, cuja haste zuniu no ar cortando-o, e depois tocando em cheio o alvo, enterrou o bico até cobrir as farpas no gordulhudo corpo do cetaceo. Mal ouve o animal o silvo agudo da setta, embica para o fundo, e só depois que tocou a vaza e que se sentiu ferido. A enterração do ferro no toucinho pouco lhe doeu, mas a permanencia delle o angustia, e pensando se livrar do arpão, chegando embaixo, foge daquella paragem a bom e rápido nadar.

Jacy conhecendo-lhe a manobra afrouxa a linha, que vai se desenrolando e sumindo de aguaçal adentro até que se acabou cahindo da montaria a boia.

A canôa segue a rota do peixe-boi guiada pelo leve pedaco de madeira, que corre á tona d'agua, com breves paradas e com uma velocidade desmedida.

Muito longe do indio nadava o animal ferido. De tempos a tempos subia aos ares a agua em alto e fino repuxo e dentro daquella pulverisação cambiante apparecia a cabeça escura do cetaceo, que vinha ao ambiente se prover de ar. Com os pulmões cheios mergulhava de novo para depois voltar e fazer outras libações aereas.

A boia já não corria tão depressa, nem tão alto era o repuxo d'agua que o cetaceo fazia respirando.

Jacy havia cansado o peixe-boi trazendo-o repetidas vezes perto da montana. Quando o sentiu de todo exhausto colheu a linha toda. O animal quasi morto deixou-se levar sem um estrebuchamento.

O indio laçou-o logo abaixo dos braços e puchou-o para o bordo da canoa.

O cetaceo, aterrado talvez com a figura do selvagem, fez um derradeiro esforço para se livrar e já entre a vida e a morte deu um meio arranco, porem tão fraco que mal abalou a montaria. Jacy temendo uma arrancada mais forte tratou de acabal-o. Com uma das mãos aguentou a cabeça do bicho fóra d'agua e com a outra soccou-lhe de ventas a dentro os batuques de madeira, a golpes de cácete até se sumirem.

O animal nem parecia sentir o trucidamento. Minutos depois de entopidas as narinas foi que deu signal de vida num preguiçoso espasmo que o retesou da cabeça á cauda. Foi o derradeiro alento que lhe vibrou nas carnes. Findo elle estava acabado o cetaceo.

Pedro das Marrecas estava devéras maravilhado com aquelle exemplar da prodigioza fauna do Amazonas. Se a cabeça somente do peixe-boi lhe havia produzido tão grande admiração, quanto mais quando visse o corpo inteiro. Interrogava o indio sobre o viver daquelle peixe com cara de vacca, mas Jacy grandemente sobrio de palavras pouco dizia para satisfazer a curiosidade do cearense.

O cetaceo foi levado a reboque até o barração. Quando o tiraram d'agua foi que Pedro das Marrecas se abysmou com o tamanho d'elle.

Media quasi tres metros de comprimento. Não cessava de miral-o e muito surprehendido ficou quando viram os seus olhos sob as barbatanas ovaes da cabeça duas mamas bem desenvolvidas e semelhantes as da mulher.

Tudo era possivel no rio mar, pensou o matuto. Se existiam ali peixes com peitos, com certeza devia tambem haver sereias, cujo retrato já lhe tinham mostrado em uma cartilha.

Pasmava agora ante as lendas, que ouvia contadas pelos mansos, sobre o peixe-boi. 

Que amamentava os filhos, não havia duvida, estavam ali as mamas para affirmal-o, mas que fosse dotado do mais acrisolado amor maternal, a ponto, de arpoado o mamóte <marca num="1" pag="452"> acompanhal-o gemendo, affrontando assim todos os perigos e a presença do homem, e vir morrer ao lado do filho, é o que não podia comprehender Pedro das Marrecas e muito menos acreditar.

Quando abriram o cetaceo não conteve o seu espanto a vista da enorme grossura do couro cobrindo uma espessa camada de toucinho! Aquella gordura derretida daria muitos potes e seria gasta nas candeias e nas cosinhas.

Pedro das Marrecas cada vez mais se apaixonava pela pesca e mais veneração tinha pelo indio. Agora andava elle ancioso por ver uma tartaruga. Já tinha pedido a Jacy para irem a uma praia no tempo da postura dos cheloneos, pois lhe haviam contado couzas maravilhosas destes animaes n'este periodo. Devia ser um bello espectáculo a sahida do exercito de milhares de tartarugas do seio das aguas para as brancas praias do rio, mosqueando-as com o escuro de suas couraças. Queria elle proprio ver trepado no mata, <marca num="2" pag="452"> ao clarão argentino da lua, a mãe das tartarugas com a grande estatura que lhe emprestou a lenda, sahir das aguas, phosphorescente, acompanhada como uma rainha de suas damas de honor, doze cheloneos, a vistorear o sitio onde a prole tinha de perpetuar a especie. Só vendo acreditaria que um bicho bruto tivesse entendimento á escolher os logares ermos e a calada da noite para sahir e vir marcar com a aba do seu cortante casco a área onde a sua descendencia tinha de desovar. Antes de traçar na areia num profundo sulco as raias da extensa área, diziam, percorria a praia toda, escolhendo o melhor local, como fazia todos os annos e isso havia mais de um seculo. Marcada a circumscripção nas margens mais altas, no lombo da praia onde só chegaria a enchente muito depois de nascida a ninhada, a mãi das tartarugas recolhia-se ao rio com a sua comitiva.



<nota num="1" pag="452"> Filho que ainda mama. </nota>

<nota num="2" pag="452"> Girau. </nota>



Mais ou menos um mez depois, ahi quando a noite ia em meio e reinava um silencio tumular na floresta virgem, silencio que só interrompia o tétrico piar dos noitibós, abrem-se as aguas e sahem duas grandes tartarugas, que subindo a praia vão percorrendo e revistando a marcada área e chegando de onde haviam partido entram n'agua e somem -se. Eram estes os mensageiros da tartaruga mãe que voltavam levando-lhe as novas que buscar vieram do sitio escolhido e marcado para a postura.

As novas foram boas e tranquilizadoras. Na noite seguinte a mesma hora em que os nuncios tinham chegado, ouve-se um marulhar extranho do rio, as aguas crescem e se agitam como se o seu leito saccudisse um terremoto.

Ao mesmo tempo uma onda escura invade a branca praia e a alastra com uma nodoa preta. A vaga em vez de recuar, avança. O silencio da matta não quebrava agora somente a voz dos animaes noctivagos; cavo rumor se ouvia, como um trovão soturno e rouco rolando pelas margens do rio em fóra. Este rumor que se levanta e nos ares vibra em profundas notas, é gerado pelo embate das muitas mil coiraças do exercito das tartarugas, que em cerradas filas avança de terra a dentro a tomar posição na limitada área.

Coberta em parte a alvejante praia pelos corpos dos cheloneos começaram estes a fazer os ninhos. Machos e femeas se empenharam na labuta. Firmados nas patas dianteiras excavavam a terra com os pés. Cada qual fazia a sua socava, que só davam por prompta quando media um metro de profundidade e quasi meio de circumferencia.Ouvia-se agora não o entrechocar dos cascos, mas um ruido todo especial de terra secca que se move no ar e cahe.

Preparadas as covas, algumas das quaes foram desprezadas por ter dado n'agua, começou a postura.

A femea collocada sobre o buraco desovava. E os ovos brancos, esphericos, grandes como os de gallinha, cobertos de uma pelle molle que os torna resistentes iam cahindo no fundo da cova. Acabada a postura, que constara de uns cento e vinte ovos, a femea, com as patas deanteiras lançava uma camada grossa de areia para bem cobrir a ninhada e retirava-se. Vinha outra tartaruga e punha no mesmo ninho. E outra e mais outra até que a ultima que enchia a cova, a aterrava bem e subindo sobre o cogulo de areia sapateava sobre elle, soccando-o até tornal-o rente com o chão.

Pedro das Marrecas achava extranhos e interessantes os costumes dos cheloneos, mas nada o enthusiasmava tanto como a viração. Nem o fabrico da afamada manteiga de tartaruga reunindo as populações ribeirinhas nas praias da desova numa verdadera bacchanal, destruindo milhões de ovos na preparação daquella apreciada gordura, achava que tivesse os encantos da captura dos cheloneos.

Elle só desbarataria o exercito dos amphibios por maior que fosse. Que prazer não seria o seu, allucinado pela loucura da destruição, ver a praia coalhada de tartarugas, viradas de papo para o ar sem se poderem mexer!...Acharia este um espectáculo sublime muito mais attrahente do que o germinar dos eoibryões, que haviam escapado á gana dos homens e á gula dos bichos, e soterrados tinham sido incubados pelo sol. Não tinha olhospara ver as primeiras vibrações da vida rompendo os envolucros que fechavam os embryões, e se transmittiam á terra fendendo-a numa rede de sulcos como se um ligeiro tremor a tivesse saccudido. Não podia apreciar a grandeza daquelle magestoso quadro representando o vigor da natureza nas terras do equador.

No fundo das socavas o sopro da vida animava em um mesmo instante milhares de seres que immobilisava o somno embryonario. Despertos acharam a cova asphixiante e escura. Moveram-se, mas moveram-se a um tempo guiados pelo mesmo instincto, pela mesma necessidade imperiosa de ar e de luz. A terra retalhada começou a se mexer, a se erguer em dunas e estes pequenos cogulos de areia foram se desmanchando em tartaruguinhas do tamanho de baratas.

Mal os recem-nascidos sentiram o ambiente, não se dispersaram pela praia a fóra, a toa, sem rumo, porém num cerrado bando desceu em procura d'agua. O instincto os guiava ao rio, ao meio onde tinham de viver. Esta mesma força que os arrastava ao elemento liquido, fizera que esperassem a vinda da noite para se desenterrarem e se pôrem a caminho. A escuridão os traria mais a salvo do ataque dos inimigos, mormente as aves de rapina. 

Pedro das Marrecas não comprehendia estas filagranas da natureza. Já que não podia ir as praias de viração, que no dizer do indio gastava-se de uma lua a outra para ir e voltar, insistia com Jacy para lhe pegar uma tartaruga. O indio não se fez muito rogar, e sendo a enchente tempo proprio de apanhar as de arribação, que entram pelos igapós a dentro em busca dos frescos rebentos das gramíneas, foi uma manhã com o companheiro a pescaria dellas.

A montaria deslisava ligeira a superficie do aguaçal.

Jacy não levava arpão, nem fisga, mas arco e sararaca. 

Em uma daquellas beiradas enfeitadas de nenuphares lobrigou por entre a pasta florida do aguapé a cabeça de uma tartaruga. O indio melhor manejava o arco do que mesmo o arpão. 

Toma a sararaca, uma comprida flecha tendo as extremidades, uma armada com uma ponta de amollado ferro, e a outra ornada de pennas de guará, e armando com ella o tiro do arco, dispara a selvagem arma.

A leve baste silvou de ar em fóra com seu capacete rubro em disparada veloz até topar o alvo, a campaça escura da arisca tartaruga, que escondida no aguaçal coberto de canicos se julgava livre de qualquer assalto. No rijo casco entra rangindo a ponta do aguçado ferro que o animal sentindo se lhe embeber nas carnes se afunda em precipitado arranco. Enterrado leva ao corpo a parte férrea da flecha, em quando esta de babuia <marca num="1" pag="458"> fica, presa a linha, cujas extremidades, uma com ella vai a tona e a outra presa á ponta, acompanha o animal ferido, que em desespero nada afastando-se mais e mais do sitio em que foi frechado.

Jacy fazendo mu-pica <marca num="1" pag="458"> acompanha o penacho vermelho que as vezes resalta a superficie d'agua como os pequeninos peixes de escamas rubras quando perseguidos pelos tucunares. <marca num="3" pag="458">

As pennas vermelhas, como uma nodoa de sangue no espelho pardo das aguas, de quando em quando param e se baloiçam ao sabor do marulhar do rio, emquanto a tartaruga respira á tona, para depois leval-as a reboque em sua rápida carreira.

Jacy espreita o cheloneo em suas sahidas repetidas. Pelo seu emergir sabe se está ou não bem ferida e se ainda tem forças para muito caminhar.



<nota num="1" pag="458"> Boiando. </nota>

<nota num="2" pag="458"> Accelerando as remadas. </nota>

<nota num="3" pag="458"> Peixe. </nota>



Quando o indio conheceu que a tartaruga estava exhausta, apanhou a flecha e colheu a corda. O animal pouca resistencia oppoz e veio arrastado até a montaria sem forças para um estremeção, entrega-se a discreção do pescador, que, para melhor segural-a lhe crava profundamente no meio do casco o seu itapuá. <marca num="1" pag="459">

O cheloneo recebendo a segunda e mortal ferida estrebucha e se acaba.

Jacy recolhe-o á montaria arranca-lhe as armas que tem enterradas no corpo, expondo-o depois resupino a admiração de Pedro das Marrecas.

O cearense não cessava de admirar a tartaruga. Só o rio-mar era capaz de crear kagados d'aquelle tamanho. Tão convencido estava disso que exclamou quando viu o animal fóra d'agua:

-- E um kagão <marca num="2" pag="459"> !!...



<nota num="1" pag="459"> Arpão curto. </nota>

<nota num="2" pag="459"> Synonimo de kagado na gíria sertaneja. </nota>



</div>



<div "CAPÍTULO XLIX">



XLIX



O inverno continuava copioso. Havia dias em que a chuva cahia pesada desde a manhã até a noute. A terra ha muito que não embebia mais a agua que vinha do céo; uma trama de finos arroios formando rede a sombra da floresta, apertava mais e mais as malhas, não tardando a se fundir num vasto lençol.

Os animaes terrestres fugiam da inundação emigrando para as terras altas. Corridos pela invernia iam se internando pela matta á medida que o aguaçal avançava.

No seio das aguas a vida pullulava assombrosamente. Desde os virentes nenuphares, que atapetavam os igapós, até os grandes cetaceos, tudo ardia numa ancia febricitante de fecundação.

Os mais ariscos e desconfiados aquaticos não fugiam do homem, tal era o torpor que o cio produzia nelles.

Grandes piracemas navegavam em demanda de sitio proprio para a postura e as vezes tão compactas que enchiam totalmente os leitos dos rios.

Cardumes enormes de tartarugas deixavam as correntes caudaes em busca de mais tranquillas aguas e invadiam as terras alagadas. Nessa febre de migração e de amor não fugiam dos inimigos.

O homem e o jacaré cevavam-se então á farta. Pedro das Marrecas já estava enfarado de pescarias. Já tinha comido as ventrechas e rabadas dos tambaquis e tucunarés e saboreado matrichãns de moquem; mas talvez por bairismo as achou inferiores, menos gostosas do que os piáos e curimatans de sua terra.

João das Neves não se conformava com a maldita cachechia palustre, que o condemnava á inacção, quando as aguas regorgitavam de pescado e tão manso que se deixava apanhar com as mãos.

Todas as vezes que via o companheiro sahir para a pesca ficava ralado de inveja. A sua vida agora era de uma monotonia insupportavel. Já nem ao corte da lenha podia ir. Tentara alguns dias fazer aquelle serviço mas embalde. 

Quatro ou seis machadadas bastaram para pol-o em estado d'alma lhe sahir pela bocca.

Assim não foi mais ao corte da lenha e ficava no barracão como uma cousa inútil a olhar o rio soturno e triste e o resaltar dos botos á tona d'agua.

Quantas saudades lhe despertou do Ceará aquelle pesado inverno!... Ali tudo encurralava no barracão, mas lá tornando os campos vergeis em flor fazia mais alegres os rebanhos de ovelhinhas brancas que n'elles pastam, deliciando-se o homem em vel-os. Aqui as tristezas da invernia convidam a gente a se enclausurar, porque o diluvio apenas poupa a tenda que se ergue á grande altura da terra. Lá os rios tambem correm magestosos de sertão a fóra, mas pouco exhorbitam e não invadem as varzeas a ponto de inteiras consumil-as. 

Lá o declinio do inverno é uma delicia, que não há penna que o descreva, só sentindo-a se poderá avalial-a. Nas luminosas e frescas manhãs de Junho a natureza parece se desmanchar em sadios e capitosos diluvios que invadem a gente produzindo um bem estar saudavel que vigora o corpo e acalenta a alma.

João das Neves com o rio escuro sob os olhos, encumbrado pelo triste céo do Amazonas, relembrava os dias claros de sua terra.

Pedro das Marrecas e Jacy enfarados de pescar caçavam agora os animaes que se haviam refugiado na terra firme.

Haviam encontrado uma grande ilha formada pela inundação, que regorgitava de caça. Era uma verdadeira arca de Noé.

Todos os dias lá iam, e naquelle enorme viveiro, onde se reuniam bichos de toda a fauna do Amazonas, matavam á vontade.

A ilha, que em começo era de uma extenção de algumas leguas, foi perdendo terreno, foi sendo comida pelo aguaçal e agora poucas milhas restavam respeitadas pela inundação.

A proporção que o diluvio avançava, a lucta pela vida naquelle ignorado ermo tornava-se medonha. Sitiados pela enchente, animaes de toda a casta, inoffensivos desdentados e ferozes carniceiros, o sangue dos mais fracos corria a todo instante derramado pelas garras dos mais ferozes e sedentos.

Nas margens, que a enchente devorava cada dia, via-se em toda a sua extensão como o dorso de um recife negro, porem movediço, a couraça de um milhão de jacarés, que roídos de uma gula eterna, vinham tomar parte naquelle repasto de sangue. De quando em vez da preta e cerrada columna investiam algumas d'estas feras sobre os animaes, que lhes passavam ao alcance da dentadura, e agarrándo-os com as serras de afiados dentes, voltavam á agua onde uma scena de feroz estripação se dava e em que tomavam parte todos os amphibios a cujo faro tinha chegado o cheiro da palpitante e sangrenta carne. Em poucos segundos, do animal, as vezes um veado, uma anita, um porco não se via boiar um frangalho do músculo; apenas no logar da carnificina una nodoa de sangue,que se apagava alastrando-se n'agua, e na qual rosnando cambalhotavam as feras disputando um trapo de carne, que alguma tinha já a se sumir nas fauces negras e escancaradas.

A' sombra da floresta passavam-se os mesmos sangrentos episodios.

As onças, com sua inaudita fereza, matavara, porem matavam não somente emquanto se saciavam, mas emquanto tinham forças para sangrar as victimas impellidas pelo seu carniceiro instincto.

Da copa virente das arvores gottejava sangue como se uma chuva d'este precioso liquido cahisse naquelle pedaço de terra. Eram as aves de rapina, que escondidas nos massiços de verdura, saciavam a sua gula, immolando os inermes animaes com tanta ferocidade, como a mais carniceira onça. De longe em longe via-se a descida de um d'estes enormes gaviões de plumagem cinzenta que caindo do alto resvalava em terra. Pelo curto instante que durava o contacto de suas garras com o solo dir-se-ia, que levava vasias estas, se não se visse quando alteava o vóo, estribuchando preso nas aceradas unhas o macio corpo da inofensiva paca ou da cutia de avelludado e vermelho pello.

Jacy e Pedro das Marrecas ajudavam a devastar tambem. Escolhiam de preferencia as mais saborozas caças.

O indio havia dito ao cearense que antes da lua acabar de encher, a terra seria tomada toda pela enchente. O espectáculo devia então ser trágico e medonho.

Pedro das Marrecas ancioso pelo desenlace daquelle drama, mostrou ao companheiro um desejo ardente de assistir a suprema agonia daquelles viventes em tão medonho naufragio. Foi em uma d'estas manhãs amazonicas, quentes e sombrias, que se deu a catastrophe.

Os caçadores na ultima tarde haviam visitado a ilha, quetinha diminuido de extensão a ponto de só restar d'ella um cocoruto escalvado de alguns hectares. A lucta pela vida agora ali era tremenda. Os fracos não encontrando mais escondeijos onde asylar-se eram victimados desapiedadamente pelos carniceiros. Aquella coróa de compactas rochas balsaticas, combustas, cratera talvez de um volcão ha séculos extincto, nua de todo, despida do mais vil arbusto maninho, servia de arena a combates, que jamais imaginou gladiador romano algum. 

Uma confusão de fuga em apertadas sahidas á escapar de pavoroso incendio era o espectáculo que se tinha diante dos olhos.

Animais possantes como a anta e ageis como o veado evitavam as garras das feras valendo-se de seus músculos em desordenadas carreiras.

Todos os que ali estavam retidos naquelle navio prestes a sossobrar, nadavam melhor do que os seus congeneres habitantes de outras regiões menos sugeitas a inundações. Nenhum, entretanto, por mais acossado que se visse, se atrevia a se aventurar por aquelle mar em fóra.

O instincto lhes dizia que ficassem, e presos áquelle pedazo de terra que se ia afogando lentamente se deixavam estar como o naufrago agarrado á primeira taboa que encontrou boiando.

No dia em que devia ser traçado pela enchente o escalvado cocoruto, Jacy pela madrugada chamou Pedro das Marrecas e lhe disse que o rio marulhava muito em cima e que antes do meio dia a coróa dos bichos seria comida pelas aguas. Aprestaram a montaria e partiram a bom remar. Quando o sol sahiu iluminando diffusamente aquelle céo sombrio e fosco, já os caçadores iam longe.

Mais de cinco leguas tinham que andar.

As nove horas mais ou menos avistaram a ilha, que de longe, parecia o bôjo vermelho de uma galera baloiçando-se no aguaçal barrento.

Algum tempo depois tinham'o escalvado a menos de cem metros, e fundeados assistiam a um espectáculo altamente trágico.

A guarda avançada de jacarés, mais ferozes do que as onças é que se aproveitando do estreitamento do cerco, mais sangue derramava.

O jaguar de todos o mais atrevido carniceiro, evitava a columna de amphibiose quando chegava a cahir nos dentes dos jacarés, não resistia, deixava-se matar covardemente.

A agua avançava sempre diminuindo mais e mais as proporções da ilha.

Os animaes se atropelavam no minguado territorio insufficiente para contel-os. Agora já não era o dente da fera que os matava, porem as patas das maiores e mais possantes. Cada arranco de uma anta, amedrontada com o rochedo negro que se movia comendo mais a ilha, era uma hecatombe. Ficavam esmagados sob o peso do seu corpanzil centenas de bichos que n'uma esteira ensanguentada se empilhavam no solo!

As aguas cada vez mais cresciam. Aquelles desgraçados prisioneiros, todos excellentes nadadores, iam se deixando ficar, matar, medrosos de investirem e romper o cerco.

Jacy, de pé na prôa da montaria, tinha as feições n'uma calma e serenidade de músculos petrificados. Quando lhe chegavam aos ouvidos os estertores da agonia dos viventes que ali tão trágicamente se acabavam, sem um laivo de piedade por aquellas vidas que se extinguiam, entre-abria os labios n'um meio sorriso semelhante á contracção dos beiços da onça quando se encabrita e pula sobre a preza.

Pedro das Marrecas tambem não estava commovido ante aquelle sanguinolento drama. Seu rosto assumia os tons amarellados do medo.

Tinha os olhos fitos na compacta mó de jacarés, que a poucos metros da montaria, dava ao espectáculo o mais terrorozo e medonho aspecto.

O cearense se preocupava devéras com o epilogo daquelle episodio. No ultimo instante do desesperado combate, quando as aguas numa vaga circular e alta se abatessem sobre o descoberto escalvado o que seria da piroga e delles ali ancorados? Milhares de corpos deltocariam o aguaçal com o seu rápido nadar e então aquella quieta e serena superficie se encapelaria como um mar sanhudo fustigado por um temporal e preso numa garganta de rochedos. 

O momento supremo chegou sem prodromos que lhe annunciassem a vinda.

As aguas avançaram, o circulo estreitou-se mais e mais até se unirem os raios e desapparecer de todo a terra. Não se ouviu um grito, um lamento, um ai! Uma balburdia que se não descreve, um cháos emfim se levantou da submersa ilha.

Jacy não esperou que se viessem quebrar no costado de sua canoa as primeiras maretas arrepanhadas pela deslocação das aguas. Largou. 

Com o companheiro remava aceleradamente fugindo do logar da catastrophe, que agora como um sorvedouro se agitava, e se elevava em fartas espadanas de esbranquiçada espuma.

Um ruido surdo e confuso ouviam vindo do logar da catastrophe.

Era o debater de milhares de membros no aguaçal revolto em uma natação rápida e desordenada, que se elevava aos ares onde se fundiam os sons claquella gamma extranha num rumor áspero e torvo.

O rochedo negro de jacarés havia-se deslocado e se embrulhava com a bicharia. Raro era o animal que ali conseguia escapar da morte. A matança era tal que uma nodoa inteiriça de sangue velava a superficie do aguaçal.

Aquella côr rubra havia attrahido outras feras não menos numerosas e sedentas. Eram as pirahybas e as piranhas. Um enorme cardume d'estas comparecia á carnificina e mais ferozes ainda do que os jacarés, com estes disputavam as prezas.

Tão ageis quanto sanguinarias, tiravam com sua cortante e afiada dentadura, da carne palpitante a sumir se nas fauces dos amphibios, grandes pedaços, como se a sua bocca fosse um saca boccado com gumes de navalha.

Os jacarés rosnavam no repasto como as onças. As piranhas acompanhavam a sua selvagem melopéa com um estribilho, que lhe sahia dos operculos devagar e torvo como um gemido fundo.

Cercando o logar da carniceria uma guarda avançada de pirahybas dava caça aos animaes, que conseguiam se escapulir. Mas era tal o numero de náufragos que o sossobro da ilha tinha feito, que algumas onças, antas e veados, atravessando as linhas inimigas, nadavam ao largo em busca de um pedaço de terra, mas que de certo não encontrariam, tal era a distancia a que se achavam.

Já perto da montaria assomavam algumas cabeças de carniceiros, que, numa crescente ancia de salvação investiam para a canoa.

Pedro das Marrecas estava aterrado, porera Jacy tinha a physionomia placida e serena.

A piroga voava á tona d'agua como um pato bravo e os carniceiros perseguiam-na.

Depois de uma boa hora de carreira os nadadores foram fraqueando, ficando atraz, menos uma enorme onça pintada que ainda com bastante alentó acompanhava a montaria dentro da esteira que o seu caminhar deixava n'agua.

Chegou o momento em que a fera quasi tocou com as queixadas as bordas da canoa.

Jacy vira de bordo n'uma manobra bem executada e rápida, e antes da onça se ter virado tambem crava-lhe o amolado itapuá no cogote. Morta a fera o indio a conduz a reboque.



</div>



<div "CAPÍTULO L">



L



Muito triste foi o regresso de João das Neves ao torrão do berço. Depois de dois annos no Amazonas, de duas safras de borracha, voltava elle doente e desilludido da fama do el-dorado.

No vapor que o trouxera vieram tambem mais de quinhentos passageiros, seringueiros todos, que vinham visitar a terra natal. Nas levas que voltavam da seringa raro era o typo de homem são. Talvez entre todos não se contassem dez perfeitamente sadios. O tardo andar, a côr terrea do rosto, o edema das faces, bastavam para se saber que eram enfermos. Alguns vinham em tal estado de molestia que eram trasidos em braços para a terra. Eram estes os beribericos, cujo numero havia diminuido muito durante a viagem. Do barracão á Fortaleza raro foi o dia que as aguas ou a terra dos portos não receberam um cadáver. Não havia espolio que não tivesse dinheiro, e as vezes quantias não pequenas, mas que achavam quem as subtrahisse logo.

Todos os que regressavam trasiam valores, que sommados attingiam a uma cifra alta, a algumas centenas de contos de réis.

Cada navio que chegava com paroaras trasia dinheiro e não pouco.

João das Neves, que havia estado lá sempre doente, não voltava arranjado, porem trasia um saldo de mais de duzehtos mil réis, quantia esta que nunca possuira, nem parente algum seu. 

Estas levas de paroaras endinheirados é que fomentavam o despovoamento do Ceará. A' primeira vista parecia um bem a emigração pelos valores que entravam annualmente para o Estado. Ninguem a vista das riquezas que vinham da Amazonia cogitava do dia de amanhã, nem tão pouco que, se um homem refractario ao paludismo voltava rico, quarenta e nove lá ficavam enterrados.

Dos que foram com João das Neves para os seringaes, só Pedro das Marrecas havia tido a felicidade de não contrahir o miasma dos pantanos ; os outros tinham se acabado quasi todos !... Os que restavam não tardariam a morrer. O Neves os havia deixado no barracão, inchados como baiacús, e devendo a Bernardo até os cabellos da cabeça. Um delles, homem de meia idade, porem milito estimado por ser um grande contador de historias ficou a morrer de beriberi! Os companheiros compadecidos do seu estado e mais ainda commovidos com as suas lamentações, cotisaram-se para lhe pagarem a passagem até o Ceará, caso Bernardo das Ipueiras lhe concedesse o passe.

Atracou o vapor, porém o dono do barração foi surdo aos rogos de todos, que penalisados pela sorte do beriberico, lhe pediam que consentisse o infeliz embarcar. Negou-se, embora tivesse certeza de que o doente seguindo, se poderia salvar, e ficando estaria irremediavelmente perdido. Nada o moveu. O navio largou; e o enfermo, afogado em soluços, dizia o ultimo adeus aos que iam e enviava á patria, a familia as suas derradeiras saudades.

João das Neves ao avistar as brancas areias das dunas de sua terra quasi morreu de contentamento! Estava ancioso por pisar aquelle solo amado, que elle havia com o maior desamor abadonado. Quando se viu livre das mãos do catraeiro, instinctivamente se ajoelhou e fitando os olhos no azul e claro céo de sua terra, exclamou commovido:

-- Oh ! minha terra, como és bonita !... 

Depois não satisfeito com aquelle brado que lhe havia sahido dos recesso d'alma, prostrou-se, beijou as areias brancas deixando como amoroso e sincero ósculo duas fartas bagas de seu pranto.

Uma hora depois de ter desembarcado João das Neves aboletava-se em um dos freges, recentemente aberto á praça da Estação da Estrada de Ferro de Baturité. Esta hospedaria com vastas accommodações, tinha sob a cornija em lettras garrafaes este original distico -- Hotel Maison do Povo.

Algumas horas depois de ter fundeado o paquete, todos os freges da cidade regorgitavam de paroaras. Não eram só os que vinham da Amazonia que procuravam as hospedarias, mas os que aguardavam a chegada de vapores que os levassem aos seringaes. Na mó de gente que se acotovelava em apartamentos poucos espaçosos destinguiam-se facilmente pelo traje e pelas feições os que vinham da terra da borracha e os que iam deixar o Ceará.

João das Neves sentindo sangrarem ainda as feridas, que trouxera do exilio, lastimava em seu foro intimo o exodo de seus insensatos patricios. Não era accossado pela secca que o povo se arrojava em borbotões para a Fortaleza a se engajar a torto e a direito para fóra da patria. Não; o inverno era geral e copioso. Das praias ao sertão, a terra regorgitava d'agua ! O anno de 1898 havia sido de fome porque as chuvas não foram sufficientes para crear as searas. A população menos favorecida de fortuna, exgotados que foram os recursos naturaes, se deslocou em demanda da capital, não com a esperança de ser soccorrida pelo governo, <marca num="1" pag="477"> pois dizia convencida -- que ja não tinha mais rei -- porem para procurar patrões que a levasse para as ubérrimas, porem, pestíferas terras da Amazonia.

O inverno de 1899, o maior desta metade de seculo, encontrou em Fortaleza uma população adventicia bastante crescida, vivendo da caridade publica, á espera de achar quem a quizesse para colonisar os estados do norte e sul. O grande viveiro de homens, em sua maioria validos, crescia todos os dias, muito embora o inverno fertilisasse a terra, e sahissem aos milhares para os estados do Para e Amazonas.



<nota num="1" pag="477"> Reprodusiram-se na Camara dos deputados as mesmas scenas de 1877. Uma secca parcial assolava o Ceará e os seus representantes, republicanos todos, tão sem patriotismo como os seos collegas monarchistas daquella calamitosa época, divididos pelos interesses partidarios do Estado, levaram, todo o tempo da sessão a discutir a existencia da secca. Uns negavam o flagello e portanto a sem rasão de ser dos soccorros do governo da União. Outros exaggeravam a calamidade o pediam instantemente a assistencia publica a seus irmãos famintos.

Nem uns nem outros eram sinceros, o que movia todos elles não era o imperioso dever de defender os direitos do povo que representavam, não era o patriotismo, que deviam collocar acima de tudo, mas um único sentimento-- a paixão partidaria. </nota>



Todos os navios que tocavam em Fortaleza seguiam repletos de emigrantes engajados por patricios proprietarios de seringaes ou pelos governos daquelles estados, que bem orientados preferiam o cearense ao chim e vinham aqui se prover de braços para cultivar as suas brenhosas terras.

Do sul da Republica chegavam tambem emissarios a contratar colonos ou soldados para os seus regimentos.

O povo na febre de emigrar acceitava todas as propostas. Agora o que o esbarrava, o que o impedia de sahir com pressa, era a falta de navios. As companhias de navegação, cujos vasos tocavam em Fortaleza, não davam evasão aos emigrantes que arranchados á sombra das arvores nas adjacencias da capital, davam á cidade o entristecedor aspecto da secca de 1877.

Logo ao alvorecer estes esfomeados, andrajosos, sujos, deixavam os poisos e se derramavam pelas ruas da Fortaleza. Mulheres semi-nuas, escaveiradas, typos de verdadeiro retirante <nota num="1" pag="478"> com um filho, quase mumia, escanchado ao quadril, esmolavam de casa em casa, apresentando a quem imploravam o mirrado fructo de seu ventre para mais tocar a piedade e mover a compaixão. 



<nota num="1" pag="478"> O que emigra acossado pela secca. </nota>



Nos sabbados não se podia andar nas ruas tal era a procissãode pedintes. Aos emigrantes se encorporavam os mendigos da cidade, cujo numero era assombroso; e esta onda de trapos se espraiava impedindo o transito e atanasando os transeúntes. As ruas, vistas das extremidades, tinham o formigar da Sexta-feira da Paixão, em que a população desvalida, sem excepção de sexo ou deedade, sahe dos tugurios e as percorre enchendo-as de orla a orla, esmolando para o jejum daquelle grande e santo dia.

Nemo bemfazejo inverno havia, com as suas promessas de abastanza, arrefecido a febre de emigração e diminuido a caudal do éxodo. Era em Maio e ainda os vapores seguiam cheios de emigrantes para o Norte.

Os trens que desciam do sertão vinham com os wagons s apinhados de aventureiros, attrahidos pelas fabulosas riquezas da terra da borracha.

Os poderes publicos começavam a ficar apprehensivos com a corrente da emigração, que o inverno, contra a sua espectativa, não havia estancado. Os impostos sobre agenciadores de pessoal no Estado foram restaurados, mas sem resultado algum.

Os mais esforzados colonisadores eram os opulentos estados do Para e Amazonas, que tinham agentes no Ceará, e aos quaes não custaria pagar um conto e quinhentos mil réis de cada um dos seus prepostos com o direito de tirar do Estado o numero que quizessem de colonos. Só á força o éxodo seria impedido.

Suggestionados pelo dinheiro dos paroaras e confiando pouco na protecção do governo em tempos de fome os cearenses continuavam a sahir.

Os poderes públicos, na impossibilidade de fechar os portos á emigração, sentindo-se fracos em vista de sua attitude, toda passiva durante a fome de 1898, decretaram medidas que attentavam contra a liberdade de locomoção do cidadão dentro do territorio brasileiro. Assim exigiam do homem do povo, deste eterno paria, no acto de embarcar, passaporte, folha corrida, como se elle não fosse brazileiro e não fosse viajar dentro do paiz.



Impediam que sahisse, exigiam que ficasse para nos tormentosos dias da secca lhe negarem toda a protecção e auxilio garantidos pela Constituição, deixando que os governos dos prósperos estados do norte o levasse para colonisar as suas deshabitadas terras.

A Fortaleza estava cheia dessa população adventicia.

As agencias das companhias de vapores em vespera e dia de paquetes do sul, regorgitavam de emigrantes. Causava extranheza o tom plangente com que pediam para lhes venderem passagens, quando a isso se recusava o agente.

Allegavam que se acabavam de fome. Queriam sahir; e quando alguem ponderava as endemias da Amazonia, respondiam convictos: -- tanto se morre aquí como lá. Outros respondiam : -- é melhor morrer de doença lá do que de fome aqui.

A onda de pedintes emquanto havia paroaras nas hospedarias não os deixava. Estes com a sua proverbial generosidade, e medrosos de fazer figura triste em sua terra iam enchendo a sacola dos esmoleiros.

João das Neves não se podia conformar com o éxodo, quando tão copioso inverno inundava tudo. <nota num="1" pag="481">

A avaliar pela capital, cujas areias embrejadas não embebiam mais a agua, que se ia estagnando nas praças ou desusando nas sargetas de diversos bairros, o sertão deveria estar inundado.

As vezes quando o Neves estava melhor do seu cansaço eterno, perguntava aos patricios porque deixavam o Ceará em tão propicia época. 



<nota num="1" pag="481"> O mais longo e copioso inverno desta metade de seculo. Em meiado de Agosto ainda não tinham cahido os ventos geraes, chovia e trovejava quasi como em Abril. </nota>



Estes abriam o coração e lhe mostravam as suas fundas maguas. Era a inconstancia das chuvas, a indifferença dos poderes públicos, a má semente do barco que não deu fructo, que os fazia sahir, diziam, mas não diziam a verdade inteira. O fatalismo innato nelles, o nomadismo atávico e mais ainda a suggestão dos maços de dinheiro dos paroaras, eram estes os verdadeiros factores da emigração.

João das Neves exprobava a insensatez delles e como prova do tormentoso viver dos seringaes apresentava a sua pessoa reduzida a uma ruina.

Aos que o conheciam do sertão e vinham para embarcar, dizia que se mirassem nelle, que voltava sem ter forças para dar um choto. Por mais que mostrasse aos patricios a temeridade delles embarcando, quando no Ceará chovia a cantaros, nenhum dava o menor valor ás suas judiciosas ponderações. Dos que iam e eram seus conhecidos a um mais do que todos lastimou o paroara. Foi o velho Pedro das Pacovas. Enfermo e sexagenario, este pobre homem, que nunca havia sahido do seu sertão nem nos calamitosos tempos das grandes seccas, agora deixava-se arrastar pelos filhos para a Amazonia e gemendo os seguia como o peixe-boi femea quando arpoam e levam o seu mamote.

Todos os que sahiam queixavam-se da terra e do governo. Uma grande leva vinda do Cauhipe dava como causa de sua expatriação o arrombamento dos lagos que a natureza havia formado em sua terra barrando os rios. Eram felizes porque tinham o páo certo no pescado do lagamar. Todos viviam fartos. Esta fonte de recursos que Deus em sua grande bondade havia creado para soccorrer a pobreza, os poderes públicos, que nunca cuidaram do futuro dos habitantes das regiões das seccas, em sua habitual inercia, consentiram que fosse destruida, diziam com lagrimas nos olhos. O arrombamento dos lagos os impressionou tanto que a lyra popular o celebrou.



<poesia>

Pai e mãe é muito bom, 

Barriga cheia é melhor. 





Afartura deste mar <nota num="1" pag="483">

Causou admiração;

Só sendo dada por Deus,

Por sua sagrada mão. 

Chegou p'ra todo vívente 

Quer fosse Mouro ou christão.



No anno noventa e cinco 

A vinte e quatro de Abriu <nota num="2" pag="483">



No dia de quarta-feira

Foi que a agua despediu;

O povo ficou pasmado

De ver o que nunca viu.



Dentro em vinte e quatro horas 

Coni tão grande ligeireza

Acabou-se a obra feita

Pela mão da Natureza,

Que Deus tinha fabricado

Para amparo da pobreza. 

</poesia>



<nota num="1" pag="483"> Estes versos copiamos do ABC composto pelos bardos populares. </nota>

<nota num="1" pag="483"> Corrupcção de Abril. </nota>



Os ares patrios restituiram um pouco a João das Neves a sua energia moral.

A doença, que surdamente o minava, havia dois annos, agora se apresentava sob uma modalidade diversa.

No Amazonas nunca tivera uma crise aguda de paludismo, nunca um calafrio lhe arrepanhou a pelle, nem tampouco um accesso de febre lhe escaldou o corpo. Agora a centenas de leguas do foco do miasma dos pantanos, no segundo dia de sua chegada á Fortaleza era derribado por um accesso de maleitas!.. Esta manifestação da malaria quando elle se julgava isento della bastante o acabrunhou.

Não era elle o único que soffria de maleitas ao chegar ao Ceará. Alguns dos que tinham vindoe o que no Amazonas gosaram bôa saude em um bom par de annos, sem nunca terem tido o mais leve accesso de sezões, chegavam e logo no segundo dia de estada na hospedaria tinham crises agudas de malaria.

Sem luzes para conhecer aquelle extranho phenomeno pathologico e receiando morrer em um dos accessos, tal era a violencia e intensidade delles, João das Neves apressou a viagem e tomou passagem no trem para Quixeramobim.

Doze horas durou a aprasivel viagem atravessando o sertão em flor. Nem o ar balsámico da matta, nem a consoladora idea da proxima chegada ao adorado lar, davam ao enfermo allivio a suas dores physicas. A noite quando se recolheu á choupana hospitaleira de um conhecido, nem poude assistir ao terço de todas as noites resado em familia.

Batia os dentes com frio e depois ardia em febre.

Os accessos eram longos e periódicos.

Durante a apyrexia se animava um pouco, porem sentindo sempre grande apathia moral.

Um dia, ao accordar da febre, viu casualmente no indicador o annel de aço que lhe vendera o mascate judeu. Num assomo de indignação sacou a alliança e a fez em pedaços com a forte e amollada dentadura, como se trincasse um fio de cera.

João das Neves estava no seu sertão. Bem podia ser que os ares patrios lhe dessem a saude tão seriamente compromettida. De Quixeramobim á sua casa eram quinze leguas apenas, uma travessia que elle quando era bom fazia em um dia, á pé, sem precisar cavalgadura.

Agora nem em um mez chegaria lá, tal era o seu estado de enfraquecimento. Cavallos de aluguer não faltariam á elle que era paroara e não obstante toda a doença vinha de palitot e chapeo de sol e trazia um maço de dinheiro, pequeno é verdade, porem que sempre lhe daria auctoridade naquellas pobres paragens. Preferiu comprar uma egua com cangalha, que lhe offereceram por preço rasoavel a alugar um cavallo.

Assim iria montado no que era seu e não teria o trabalho de devolver o animal ao dono. A viagem seria de um dia, mas puchada. João das Neves, doente como estava, talvez não tirasse o caminho de um jacto. Era mais prudente fazer escala por casa de Pedro das Marrecas, onde forçosamente teria de passar para entregar quinhentos mil réis que o companheiro mandava para a familia. Este dinheiro o Neves trazia apartado do seu, com o maior cuidado, dentro de um cinto amarrado na barriga por baixo da camisa. Marrecas quando lhe confiou estes valores disse-lhe: 

-- Joãosinho, você leve este dinheiro e entregue á minha velha. Diga-lhe que eu fico bom e me demoro aqui mais uma safra. No fim do anno que entra, querendo Deus, eu lá estou. Se o seu dinheiro não der para botar a viagem fora, não tenha sobtrosso, pode tirar do meu o que você precisar.

A casa de Pedro das Marrecas ficava justamente no meio do caminho da fazendola do Neves.

Escolhida para nella pernoitar, o paroara sahiu da cidade de sacco á garupa, um dia ao pender do sol. Quando se montou e se estribou, foi que conheceu como estava estrompado. Tocou a egua e não lhe aguentou o chôto. A andadura áspera do animal o sacudia por dentro produzindo-lhe uma agastura que o traspassava todo. Uma dôr fina, agudissima, de punhalada se enterrou nelle logo abaixo das costellas do lado esquerdo, respondendo no vão, e o teria derribado se elle não moderasse a marcha do animal e fosse seguindo a passo. Era uma miseria a sua !...

Elle, que corria desembestadamente dentro da mais fechada matta campeando atraz de rezes bravias, agora estava fazendo a figura de uma velha aleijada, montada num sendeiro lerdo!

Dali para morrer não iria muito. 

Matutando em sua ruina, seguia o paroara caminho da casa do companheiro. Aquella vereda de pedrinhas brancas, orlada de manacás em flor, que a matta esbatia com o verde-escuro dos massicos, caracolou sempre aberta até se acabar no terreiro da casa de Pedro das Marrecas.

Era já noite fechada quando João das Neves se apeou á porta do amigo. A pequena choupana estava ás escuras; parecia deshabitada.

O viajante se annunciou com um rouco oh! de casa, que aquella hora e no silencio daquelle ermo soou com grande intensidade.

Uma voz de mulher perguntou de dentro: 

-- Quem é ? 

-- E'de paz, respondeu o Neves. 

Ouviu-se immediatamente um reboliço na trazeira da casa, depois um clarão vermelho se espalhou pelo terreiro. Corrido o tosco reposteiro de talos de carnahubeira, que á guiza de porta fechava a única entrada da habitação, appareceu a dona da casa.

João das Neves deu-se a conhecer e pediu agasalho. Embora prohibisse a pragmática sertaneja a esposa dar poisada a peregrinos estando o marido ausente, a mulher de Pedro, attendendo ás circunstancias do viandante, o agasalhou.

Pela manhã o Neves acabou de dar as novas do companheiro e entregou os valores. A mulher ficou attonita com aquelle maço de cédulas, cujos valores ella desconhecia completamente. Tanto dinheiro nunca tinha visto e muito menos haviam possuido todos os seus ascendentes juntos.

Pela hospedagem o Neves avaliou a miseria da casa. A mulher do amigo e os filhos, que eram cinco, todos pequenos, estavam de uma magreza extrema.

Notava-se nas creanças a pelle listrada de sujo, deste sujo característico da miseria organica, produsido pela insufficiencia da alimentação.

A mulher de Marrecas não proferiu uma queixa contra o marido. Haviam passado e estavam passando muito mal ainda por causa da secca de 1898, durante a qual quasi se sustentaram com a mucunã e outras raizes do matto.

João das Neves que evitava pensar nos seus não poude desterrar as ideas que lhe havia suggerido o estado da familia de Pedro das Marrecas. Depois de repartir com a sua hospedeira a comida dos alforges poz-se a caminho. Quanto mais se approximava da casa, mais investigava com o pensamento o que nella teria acontecido durante a sua ausencia. Esta mesma estrada que dois annos antes atravessára por uma bella madrugada de verão indifferente ao céo constellado de milhares de estrellas luzidias, todo absorto na contemplação da miragem que o attrahia aos seringaes, trilhava agora triste e macambuzio com o corpo enfermo e alma num mortal desalento.

Antes de chegar á casa tinha que passar pela villa. Era a mesma povoação sertaneja com as suas tristuras em dias não santificados.

Raro foi o transeunte que encontrou ao atravessar as ruas para a casa do vigario. Apeou-se á porta do cura e depois de se annunciar soube pela velha Merencia, que o não conheceu, ter o padre sahido para uma confissão.

Ignorando se Mourão voltaria logo, não quiz esperar e se poz a caminho. 

Dentro de uma hora o paroara estaria no seio da familia. Ainda a encontraria, foi este o pensamento que lhe encheu a cabeça durante o trajecto daquella legua, que lhe parecia intermina. Quando, ao descambar de um alto, avistou a vivenda mettida no matto, fechou-se-lhe o coração. Se ha presagios na vida, elle os teve e bem tristes naquelles instantes. Não sabia quem lhe dizia que não encontraria mais os seus Agora da confusão d'aquellas desoladoras ideas se alava um pensamento, que devéras o affligi : eram os arestos da consciencia á julgal-o, condemnando-o as garras do remorso que, já o começava a espicaçar.

João das Neves chegou como um vencido ao pateo da casa. Nem parecia o mesmo que havia deixado batido e limpo. Estava quasi tão coberto de matto como no tempo de seu longo abandono. Aquelle cerrado de arbustos maninhos em redor da casa quasi confirmavam as suas apprehenções. Chiquinha não morava mais ali, e se morava estava de cama. Ao se approximar da porta de entrada, estrugiu o relincho de um garanhão saudando a egua em que elle vinha montado. Aquelle brado quente de volupia, tão inexperado, estonteou a começo o viandante, mas depois cahindo em si, reconheceu a alimaria em que o padrinho vigario sahia á desobriga. 

As palavras da velha Merencia accudiram-lhe á mente. Pensava no caso quando descobriu outro cavallo e perto a figura esqualida do sachristão, o Chico Santinho.

Rodeou a casa, apeou-se e prendeu a egua numa das estacas do chiqueiro das cabras. Os logares por onde passava, os objectos que via, tudo emfim lhe dizia que a enfermidade e a miseria moravam ali. Todo ouvidos entrou pela cosinha e foi ter ao corpo da casa. Estacou no corredor atordoado com o silencio tumular da vasia habitação. Seguiu até se enfrentar com a sua alcova. Tinha a porta cerrada, porem de dentro vinha um doce murmurar de voz humana. Perfilado em frente á porta sem animo de abril-a, deixava a imaginação percorrer os intrincados meandros, que as suas apprehenções creavam. Estava quasi convencido de que dentro da camarinha o vigario confessava Chiquinha, absolvendo-a das derradeiras culpas. A mulher estava para morrer e os filhos o que seria feito delles?!... O mais velho havia deixado bem taludo e se estivesse ali, o cavallo do senhor vigario seria guardado por elle, pensava. E os outros tres, afora o que Chiquinha tinha no ventre, onde estariam que não davam signal de vida?!... Se aquellas mudas paredes falassem, lhe informariam de tudo. Contariam a serie de episodios, cada qual mais triste, mais doloroso, que se haviam passado a datar do parto de Chiquinha. Se não fosse Manoel, que deu parte aos visinhos, a mái talvez se tivesse acabado e o irmão morrido pagão. Foram a villa e trouxeram o vigario. Foi nessa occasião que Mourão soube da viagem de João das Neves, e do desamparo em que havia ficado a sua antiga pupilla. Baptisou o recemnascido, que, parece, só esperava ser lavado nas aguas do Jordão para morrer. A parturiente, recommendou á caridade dos visinhos, que assim mesmo pobres repartiram com ella e com os filhos, emquanto esteve de resguardo, um pouco de seu escasso pão.

O vigario vinha um vez por outra visitar a afilhada e lhe trazia, quando podia, uma esmola muito pequena, é certo, porem muito valiosa, tal era a boa vontade com que era dada. Os soccorros do padre eram, entretanto, insufficientes para a manutenção da familia do Neves, Para dal-os, mesmo escassos, quanto sacrificio lhe custavam ? Duma feita privou-se do rapé, seu vicio de muitos annos, por muitos dias, porque o dinheiro que tinha para comprar um bote entregou-o a Chiquinha, tal a pena que teve nesse dia da pobreza della. Mourão depois que ficou sem congrua com a separação da igreja do estado, raramente pegava em dinneiro. Se não fossem os presentes em viveres que lhe mandavam os seus parochianos, isso expontaneamente, passaria até fome.

Chiquinha logo que poude trabalhar se atirou á labuta, mas não naquelle moirejar de outrora. O parto lhe havia deteriorado bastante a saude. A constante perda de forças num longo e afanoso lidar, e agora a gestação e o nascimento do filho a tinham depauperado tanto que se sentia esmorecida todos os dias ao começar á labuta. Não era mais o quartau de pobre cujas formas arredondadas tinham seduzido o Neves. Estava magra, mas de uma magreza de esqueleto. Trabalhava muito e pouco comia.

Os recursos naturaes ao alcance do seu braço de mulher, muito embora ella fosse uma mulher homem, eram insufficientes á manutenção da vida áquelle numero de creaturas. Por isso muitas vezes se privava do alimento para dal-o aos filhos. Esse heroismo do seu amor materno quasi nada aproveitava ás creanças, que mal alimentadas foram enfraquecendo e definhando.

No anno de 1898 as lagoas e ipueiras abundantes em pescado, em vez de augmentarem as aguas, seccaram porque quasi não choveu. Estanque esta fonte de vitualhas Chiquinha viu-se cada vez em peiores condições de existir. Se fosse só, viveria, porem não com quatro filhos. Passava o dia no matto a procurar raizes e fructos silvestres, fazendo armadilhas, e os meninos a sós em casa eram vigiados pelo Manoel, que profundamente depauperado, como os irmãos, deu-se ao vicio ou antes foi atacado da molestia que faz comer terra. Os mais novos em breve imitaram o mais velho. Quanto mais se enfraqueciam, quanto mais se afinava o sangue delles, mais comiam barro.

Chiquinha notava que os filhos de dia em dia iam ficando mais abatidos, mais amarellos. Que o papo lhes batia com um acceleramento desusado e estavam botando barriga. Engrossavam o abdomem e afinavam as pernas. Com grande magua reparava nestes symptomas mórbidos, que levava á conta das comidas bravas do matto. Sem poder remedear o mal, nem fazer mais do que fazia, porque tambem estava se acabando de magra e de doente e não havia meios de obter comidas que não fossem aquellas, resignou-se a padecer com os filhos até quando Deus fosse servido. Os bichinhos,que possuia e que presentemente a podiam valer, o repiquete de secca havia acabado de modo a não deixar sementé. Até a vácca Amoroz a, que tinha rehavido, embora ficasse sem vintém para comer durante o resguardo do parto, tinha morrido de magra.

Mourão vinha ver Chiquinha todas as semanas e lhe trazia algum soccorro. Pelas feiçõe do padre se via quanto lhe doia a miseria, que encontrava e não podia remir como seu bondoso coração desejava!...Já não era somente a fomme que affligia aquella gente, porem tambem a doença. 

Todas as vezes que o vigario se retirava, era com lagrimas nos olhos. Que pena tinha de Chiquinha, aquelle mouro de trabalho, quando se lembrava que ella estava entysicando por excesso de serviço e por falta de alimento. Era uma heroína, não havia duvida, e o padre não sabia que ella tinha outra virtude muito rara entre a miseria, a da honestidade.

Chico Santinho podia affirmar quanto era crista aquella mulher do povo, como resisitiu a suas reteiradas seduções!... 

O sacristão alimentava aquelle seu primeiro amor desde que Chiquinha esteve em casa do vigario.

Casada, continuou a affeição delle e uma vez, o marido ausente, devorado de um desejo indomavel de possuil-a, tentou-a, mas embalde.

Ella defendeu-se heroicamente escudada em seus deveres de esposa e quicá na antypathia que votava ao seductor.

Chico Santinho quanto mais era repellido mais se apaixonava. Vendo que o assedio da fome mais se estreitava em volta da mulher, que pretendia gosar, espreitava e esperava, como o ladrão que emboscado aguarda a passagem do viandante para ferir e roubar.

Nunca a miseria fez Chiquinha abrir a porta de sua alcova ao pertinaz seductor. Já muito tysica, quasi reduzida a uma despresivel mumia, a se desmanchar em pus e a cortir febre todas as tardes, andava como alma penada pela floresta procurando com que alimentar os filhos que ja derribados todos não tardariam a morrer de inchados. Assim mesmo enferma, sem mais um traço que aguçasse os desejos da carne, a não ser a expressão dos olhos num quebranto de uma languidez adoravel, era requestada pelo Santinho.

A paixão do sacristão era tamanha, que o horror que tinha como homem da plebe á molestia magra, não transparccia e muito menos o afastava de Chiquinha.

Quando a mu'her do Neves comprehendeu os intentos do seu assiduo visitante, enxotou-o, mas de um modo brusco e ascintoso.

O sacristão era um maricas e para maior desgraça de seu amor sahiu chorando, como uma creança em quem tivessem batido.

Não se atreveu mais a vir a casa de Chiquinha, porem a vivia rondando, ou trepado em alguma arvore, acompanhava com os olhos a tysica em suas sahidas pela matta.

Este meio idyllio só terminou quando a morte em uma mesma semana levou os quatro comedores de terra.

Chiquinha que só andava em pé por amor dos fílhos, que era uma perfeita ruina, não resistiu áquelles repetidos desastres e quando se acabou o ultimo doente, ella cahiu, porem cahiu de todo, para nunca mais se levantar.

O sacristão havia aproveitado o incidente da morte das creanças para se approximar.

Todo dedicação, foi um serviçal vindo tão opportunamente, que Chiquinha, embora o asco que tinha delle, não poude deixar de lhe ficar agradecida. 

Enterrado o ultimo papista, o Chico Santinho voltou ao lado da enferma, que sem os cuidados delle teria ficado no mais completo desamparo.

A doença havia minado completamente o corpo de Chiquinha.

Não havia uma entranha que estivesse sã.

Os pulmões estavam redusidos a cavernas cheias de pus rarefeito e fétido.

Aquelle bello corpo roliço, vestido de uma carnação rija e sadia, achava-se em tal estado de magreza que se contavam as costellas, núas em toda a su a extenção.

Os braços, tão musculosos outr'ora, que tão bem manejavam a enxada na limpa do roçado, eram agora dois gravetos, cujas cannas se viam perfeitamente separadas.

Aquelle resto de vida que estava custando tanto a se acabar era um martyrio, que a doente desejava ver terminado.

Que viesse a morte, mas que viesse logo, emquanto ella soffria resignada.

Estava finda a sua missão. O que ficaria fazendo no mundo, só, desamparada, sem os pais e sem os filhos?!

O marido havia sido um desalmado que a ambição cegara e não merecia della sequer uma saudade ao deixar o mundo.

Conhecendo que sé approximava a morte, pediu confissão. 

Chico Santinho trouxe o vigario, que ouvia a moribunda, quando João das Neves, ignorando o que se estava psssando em sua casa, entrava e estacado em frente da álcova ouvia cheio de apprehensões o doce murmurar que de dentro vinha.. Sem animo de entrar, completamente acovardado pela doença, com a cabeça cheia dos máos presagios, que o abandono da vivenda creara e a que dava corpo o estado de sua alma, ia se deixando ficar de pe na impassibilidade de um vencido. Aquelle murmurio brando de voz feminina a segredar acabou-se e agora um sussurro cheio, grave, uma entoação baixa, porem varonil, sahia da alcova, chegava aos ouvidos do paroara, e numa vaga serena ia-se espraiando pelo quieto ambito da morada.

João das Neves conheceu a voz do vigario e que as palavras, que lhe chegavam aos tympanos eram em uma lingua, que não era a sua.

A voz calou-se. Mourão tinha acabado de em nome do Deus dos desamparados perdoar as culpas daquella infeliz mulher, se culpas podesse ter aquella infeliz, cuja vida foi uma labuta sem treguas com a adversidade.

Ainda bem as ultimas palavras de perdão não chegavam aos derradeiros aposentos da vivenda, abriu-se a porta e assomou a figura do padre.

Mourão em frente do Neves, que jamais reconheceria, ia interrogal-o quando este lhe pediu a benção.

O vigario estava deveras espantado com a inexperada apparição do afilhado. 

Se a sua inopinada vida era caso de surpresa, maior era a extranheza que lhe causava a figura esqualida e doentia do marido de Chiquinha.

O cura depois de ter com grande dó abençoado paternalmente o paroara sahiu para o terreiro a chamar o sacristão.

João das Neves entrou para a alcova. Bem poucas vezes o espirito de um simples sentiu tanto o amargor do cálice da agonia! Bem poucos desgraçados terão tido em toda uma existencia de dores um momento de tão cruciante angustia.

Deitado sobre um leito de toscas talas estava um esqueleto de mulher, tendo as mirradas mãos crusadas sobre o peito costellento e nú, e os olhos abertos e fitos num registro da Virgem que pendia do fronteiro taipado.

João das Neves abeirou-se do leito e procurava naquella figura da morte descobrir um traço sequer da sua companheira de outr'ora.

Nada restava da primitiva mulher formosa e sã.

O olhar, aquelle olhar ardente, que resumia todas as energias do espirito, bruxoleava agora, já meio empannado pelo veo da morte. Os seus lampejos resvalavam amortecidos aos pés da imagem da Virgem, como uma derradeira supplica de sua alma fervorosa e crente a partir para o desconhecido.

O paroara poz a mão na espadua ossuda da mulher e murmurou docemente:

-- Chiquinha!...

A moribunda desviou o olhar, attrahida por aquella voz tão sua conhecida e os seus grandes olhos, já meio apagados, fitaram o rosto do marido.

A magua que sentiu aquelle espirito, prestes a quebrar o ultimo élo que o prendia á carne, transpareceu em duas lagrimas, que mal tiveram forças de assomar aos olhos, deslisaram lentas pelas encovadas e macilentas faces. Ante aquella dolente manifestação da moribunda João das Neves não conteve acommoção que o estrangulara. Chorou perdidamente. Agora queria saber dos filhos que nem signal via delles.

Em sua ancia de novas das creanças, não se podendo dominar, chegou-se mais a moribunda e muito a medo lhe perguntou:

-- Meus filhos, Chiquinha?...

Um ligeira espasmo arrepanhou a pelle do rosto da agonisante numa crispação de suprema angustia; as filas de alvos dentes se abriram para dar passagem ao derradeiro alento que 

se esvahiu nesta dolorosa phrase:

-- Morreram... todos... de... fome...

Estas quatro palavras murmuradas pausada e docemente, numa cadencia de suspiro, que sahiram com a vida daquelle coração torturado de mãi, ouviu-as João das Neves e jamais a garra do remorso foi tão prompta em dilacerar um espirito atribulado pelos restos da offendida consciencia.

O padre entrou com o acolyto para dar a extrema-unção.

João das Neves fulminado com a nova da morte dos filhos havia se ajoelhado á beira do leito e soluçava inconsolavel.

Mourão abeirou-se da cama: Chiquinha estava morta. Os olhos da defuncta, entretanto, meio abertos e a bocca, cujos labios quasi consumidos se entreabriam num meiço sorriso, um momento illudiram o vigario, persuadindo-o que a morta vivia ainda. Assim, começou o cura a administração do sacramento levando a uncção aos olhos, cujas palpebras se arrearam de todo ao peso dos dedos do padre, emquanto com voz commovida elle assim implorava ao seu Deus: -- por esta santa uncção e por sua compadecida misericordia te perdóe o Senhor quanto de mal fizeste com a vista.

E as palpebras que velariam para sempre aquellas duas estrellas negras, ainda em começo da vida, rijas, tesas e já frias não trepidaram ao contacto dos dedos macios do padre que as ungia com os santos-oleos.

A immobilidade de Chiquinha e a inercia da parte ungida tão em repouso como um corpo inanimado, fizeram o vigario suspeitar da morte de sua antiga pupilla. Attentou bem o rosto da defuncta e convencido de que estava ali somente um cadáver, interrompeu a cerimonia e ajoelhando-se exclamou:

«Eu te encommendo, oh minha amada irmã, ao Deus Todo-Poderoso, e te entrego ao teu Creador, para que, depois da teres pago com a morte a divida geral da natureza humana, voltes ao teu Autor, que te formou do limo da terra. Jesús Christo filho de Deus vivo te colloque entre as eternas delicias de seu Paraíso. Elle te absolva de todos os teus delictos e assim purificada, que vejas face á face o teu Redemptor, admirando a infinita e clarissima verdade, e goses entre os bemaventurados as doçuras da Divina consolação por todos os seculos dos seculos. Amem. »

A voz do padre recitando aquella oração da agonia, tinha uma entoação apavorante e lúgubre.

Dos tres homens que se prostravam cercando o leito mortuario um mais do que todos sentia a morte de Chiquinha : era o Chico Santinho. O sacristão nascera e vivera orphão de affeições na terra. Amara platónicamente aquella mulher durante a sua vida de solteira e do casada. Na ausencia do marido tentou possuil-a, mas foi repellido. Não a odiou; pelo contrario mais amor sentiu por ella. Escondia-se nas devezas, nos massiços da floresta para vel-a passar, não como outr'ora, bonita e sã, porem magra como uma mumia e macilenta como um cadáver. Mesmo assim, feita uma ruina, elle a procurava e gostava de vel-a. O marido nunca sentiu por ella o que sentira elle.

João das Neves chorava, mas chorava de remorsos, como o filhicida que a consciencia accusa de seu nefando crime.

Pela manhã do dia seguinte entrava no cemiterio da villa o corpo de Chiquinha, em uma rede, carregado pelos visinhos, em cujo numero vinha o Santinho, que, como o ultimo preito de seu amor á morta, a carregou até á sepultura.

João das Neves ficára derribado num accesso de maleitas, num apavorante abandono, naquella vivenda solitaria, em companhia dos phantasmas que o remorso creara para castigal-o. O paludismo foi o único provento que tirara do Amazonas e que o flagelaria o resto da vida, de parceria com a pungente magua que nelle haviam produsido as ultimas palavras da esposa, grande martyr do amor e do dever. Nunca mais deixaria de ouvir estas inolvidaveis e terriveis palavras -- morreram todos de fome. 



FIM

