Viriato 

Narrativa epo-histórica 

de Teófilo Braga 

1904 

A ALMA PORTUGUESA caracteriza-se pelas manifestações seculares persistentes do tipo antropológico e étnico, que se mantêm desde as incursões dos Celtas e lutas contra a conquista dos Romanos até à resistência diante das invasões da orgia militar napoleónica. São as suas feições. 

A tenacidade e indomável coragem diante das maiores calamidades, com a fácil adaptação a todos os meios cósmicos, pondo em evidencia o seu génio e acção colonizadora; 

Uma profunda sentimentalidade, obedecendo aos impulsos que a levam às aventuras heróicas, e á idealização efectiva, em que o Amor é sempre um caso de vida ou de morte; 

Capacidade especulativa pronta para a percepção de todas as doutrinas científicas e filosóficas, como o revelam Pedro Julião (Hispano), na Idade Média, Francisco Sanches, Garcia d'Orta, Pedro Nunes e os Gouveias, na Renascença; 

Um génio estético, sintetizando o ideal moderno da Civilização Ocidental, como em Camões, reconhecido por Alexandre de Humboldt como o Homero das línguas vivas. 

O cantor das grandes Navegações foi quem teve a mais alta compreensão do génio nacional; a ALMA PORTUGUESA achou no seu Poema a incarnação completa. Quando Camões descreve nos Lusíadas, geográfica e historicamente Portugal, referindo-se à tradição da antiga Lusitânia, relembra o vulto que simboliza a sua vitalidade resistente, diante da incorporação romana da península hispânica: 

<poesia>
Eis aqui, quase cume da cabeça 
Da Europa toda, o reino Lusitano, 
Onde a terra e acaba; e o Mar começa, 
E onde Febo repousa no Oceano. 
Esta é a ditosa Pátria minha amada, 
Esta foi, Lusitânia ...
Desta o Pastor nasceu, que no seu 
Se vê que de homem forte os feitos teve; 
Cuja fama ninguém virá que dome, 
Pois a grande de Roma não se atreve. 
 
(Cant. III, st. XX e XXII.) 


Deixo... atrás a fama antiga 
Que co'a Gente de Rómulo alcançaram; 
Quando com Viriato na inimiga 
Guerra romana tanto se afamaram. 
Também deixo a memória, que os obriga 


A grande nome, quando alevantaram 
Um por seu Capitão, que, peregrino, 
Fingiu na Cerva espírito divino. 

(Cant. I, st. XXVI.) 
</poesia>

No tempo do grande épico ainda se não tinha perdido o conhecimento da relação de continuidade histórica entre Portugal e a antiga Lusitânia, mais vasta e por isso mais violentamente retalhada pela administrarão imperial romana. Esse conhecimento, embora confundido com as lendas sincréticas dos falsos cronicões, influiu na consciência do nosso individualismo étnico e nacional. O esforço de desnacionalização de Portugal pela política da unificação ibérica, veio até reflectir-se nos próprios historiadores pátrios, levando-os a considerar Portugal uma formação recente, adventícia, sem individualidade, e a Lusitânia quase como uma ficção banal dos eruditos da Renascença! Mas o carácter persistente do tipo português, a resistência tenaz contra todos os conflitos da natureza e pressões da vida, que tanto o distingue entre os povos modernos, é a prova manifesta da raça lusitana como a descreveram os geógrafos gregos e romanos. Nas lutas pela liberdade territorial a Lusitânia deixou nos historiadores greco-latinos o eco da sua resistência indomável, sobretudo no ciclo das guerras viriatinas, que se reacenderam ainda sob o comando de Sertório. 

Pela sua genial intuição teve Garrett a compreensão deste carácter resistente e sofredor da nossa raça lusitana: Os Portugueses são naturalmente sofredores e pacientes: muito arrochada há-de ser a corda com que de mãos e pés os atam seus opressores, antes que rompam em um só gemido os desgraçados. Um murmúrio, uma queixa... nem talvez no cadafalso a soltarão! Vendem-nos os desleais pegureiros de quem nos deixamos governar; vendem-nos, enxotam-nos para a feira a cajado e a latido e mordedela de seus mastins; e nós vamos e nem gememos. Se um clamor de queixumes, se uma voz de desconfiança acaso surde, aqui os clamores de rebeldes; os alcunhas de demagogos... e a nação (o rebanho, direi antes) que se resigna e sofre, e continua a caminhar para o exício! Tal é, com as diferenças de variados nomes e datas, a história de Portugal quase desde que a revolução ou restauração (restauração seria?) de 1640 fez da nação portuguesa o património de meia dúzia de famílias privilegiadas e de seus satélites e parasitos. (Carta de M. Cévola, 1830.) 

Simbolizamos esta resistência, vivificando o tipo de VIRIATO, reconstruindo poeticamente as situações lacónicas referidas nos historiadores clássicos; representamos artisticamente essa fibra que ainda hoje pulsa em nós, e pela qual, perante a marcha da Civilização se afirma através dos cataclismos políticos a ALMA PORTUGUESA. 

Assuetum malo Ligurem, disse Virgílio (Georg., II; 102) dessa poderosa raça, de que o Lusitano foi um dos ramos mais activos; as terríveis desgraças que nos têm acompanhado desde a romanização da península até à subserviência inglesa, como acostumados ao mal, não nos têm alquebrado: não apagaram a constituição da nacionalidade, não embaraçaram as iniciativas dos descobrimentos marítimos; não abafaram a expressão das altas capacidades estéticas. Pela expressão artística se fixou a língua portuguesa, órgão reconhecido da nacionalidade, cujo sentimento se manteve pela idealização poética, em Camões. Seja ainda esse recurso poético o meio de acordar a consciência do passado de um Povo, no qual estão implícitos a sua razão de ser presente, e o ideal do seu destino futuro. 

Um dos fins da arte moderna é a representação da vida dos povos e dos aspectos da natureza dos países longínquos, e também a evocação das idades passadas, vencendo por este e exotismo o apagamento das impressões de tudo quanto nos cerca; assim se inicia a fase estética construtiva. Pela evocação da Raça penetra-se o sentir da fibra <numpag 2> nacional e por o drama das lutas das instituições que se fundaram, o vínculo das tradições, que foram germens e impulsos da missão histórica e das criações artísticas que reflectiram a consciência da colectividade. 
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Viriato 

I 

No ano de DCIII da era da fundação da Cidade de Roma, sendo cônsules L. Licínio Lúculo e A. Postúmio Albino, acontecimento inopinado suscitou nos espíritos um extraordinário alvoroço: O Senado fora convocado repentinamente, com urgência, sem ser pela fórmula usual de um Edito, mas pela peremptória chamada nominal ordenada pelo velho e integérrimo Catão, denominado o Censor. 

A gravidade do acontecimento forcara por certo o venerando presidente do Senado a simplificar essa fórmula da convocação? Algum grande crime perturbava ou ameaçava o governo da Republica! A curiosidade era imensa, e antecipadamente sabia- se que a voz austera de Marco Catão, o Censor, se ergueria rio Senado contra o patrício 

o mais opulento dos romanos, que dispunha de riquezas bastantes para corromperem os juizes aos quais se confiasse o seu julgamento. Galba! Era este o nome que soava de boca em boca, mais com inveja do que hostilidade, desde que o tribuno do povo Aulo Scribónio o citara para comparecer em justiça pelas depredações e carnificinas que praticara contra as tribos e cidades tributárias da Lusitânia, que como província senatorial estava sob a égide da lealdade romana. 

Era de um crime contra a majestade do Povo romano, que versava a acusação do procônsul Sérvio Sulpício Galba, ao qual fora confiado o governo e administração da Espanha Ulterior, essa parte ocidental da península em que se compreendia a vasta Lusitânia. Ninguém se atrevia a pôr em duvida a valentia do tribuno militar, que fora à Espanha com a missão especial de combater e submeter os Celtiberos; mas, sendo conhecida no mundo a glória do Senado, que, vai para quatro séculos, dirige com um tino incomparável as guerras de incorporação dos povos bárbaros, como poderá consentir que no exercício dessa missão civilizadora lhe infamem a inviolável autoridade? 

A voz de Catão ergueu-se no meio de um religioso silêncio com a acuidade de um látego de fogo: 

-- Como velho octogenário, ninguém compreende como eu o poder dos Costumes dos Antepassados representados hoje no Senado, como um tribunal permanente, de acção executiva, e com consciência das necessidades públicas expostas pela palavra emdiscussão aberta. É desses Costumes dos Antepassados que deriva a Soberania com que nós todos aqui presentes, dando forma à opinião pública, intervimos no organismo social de Roma. Diante de mim, e entre os trezentos membros aqui reunidos, vejo ainda os antigos chefes da família romana, os Patres, que pela idade foram os Seniores, os quais deram o nome a este tribunal sacrossanto de Senado; também vejo os Conscripti, que a pouco e pouco foram chamados a completarem o número, que a morte ou a extinção das famílias ia diminuindo. Enfim, aqui estamos constituídos tanto a ordem senatorial como a equestre, para deliberarmos sobre o que interessa à República. Dentre vós, uns exercem um poder temporário, e outros são inamovíveis desde que se reconheceram os seus serviços, e por sua vida incorruptível são proclamados censores. É pois no exercício desta dignidade que eu falo e conto ser ouvido, porque foi confiada à protecção da minha vigilância essa ubérrima província da Espanha. Tendo eu, como censor, cooperado sempre, todos os cinco anos, pela confecção do registo do censo, na nomeação dos Senadores tirados dos antigos magistrados, raro será aqui o senador que não deva à minha confiança a honra dessa escolha confiada a Senadores consulares, a <numpag 4> Senadores pretorianos, segundo as magistraturas e cargos curuis, em que se dignificaram. E tendo eu exercido este direito supremo dos Censores, compete-nos mais um, que é o da exclusão dos indignos do Senado. 

Sentiu-se um vago rumor entre os trezentos membros da assembleia; Catão, quase sem notar que o seu longo exórdio já fatigava a atenção, prosseguiu: 

-- É esse direito, que hoje me traz aqui, apoiado pela própria consciência e pelo meu juramento. Eu bem sei que. as atribuições dos censores são constantemente diminuídas, e que virá tempo em que desaparecendo esta magistratura, irromperão as guerras civis. Deixemos o futuro, e perdoai as digressões próprias da proveta idade. Em gravíssimas circunstâncias, sabidas por nós todos, foi Sérvio Sulpício Galba mandado à Espanha como pretor. E se a situação difícil reclamava todas as virtudes militares para a majestade de Roma se manter ilesa, mais necessário era o espírito de uma inteligente política, para perpetuar por bons tratados o que a espada nem sempre conseguiu. Galba deu primeiramente uma prova deplorável de militar incompleto, quando invadindo a Lusitânia, perdeu sete mil e quinhentos legionários, indo refugiar-se em uma situação ignóbil em Carmona. Destemido, mas inconsiderado, é este homem por isso perigoso para a República. E ainda mais: é de um carácter falso, violando com descaro a palavra de um tribuno, que vale tanto como um tratado escrito, rebaixando perante o mundo o poder romano sempre inquebrantável, quando se trata de um dever moral. É certo que as trinta e seis cidades tributárias da Lusitânia, sempre irrequietas e lutando pela sua autonomia e independência local, também violaram o tratado concluído com Atílio, infestando as Colónias romanas, e as Cidades federadas e imunes, favorecidas com o regímen municipal. Nesta angústia, em que Roma tinha de impor a sua autoridade, bem compreendera que já não devia empregar o sistema da devastarão; mas Galba, desgraçadamente não compreendeu este pensamento governativo! Mandado à Espanha, aí chegou com um exército cansado e exausto; em vez de limitar-se à defesa imediata dos súbditos romanos, encetou logo combates contra as tribos lusitanas, que nas suas emboscadas contínuas, em assaltos repentinos o foram estafando e enfraquecendo até encontrarem o momento azado em que se atreveram a dar-lhe uma batalha campal, em que ficaram trucidados sete mil legionários. Os brios de Galba ficaram diminuídos perante a estupenda calamidade; Galba teve de colocar-se na defensiva, aproveitando a época das grandes invernias para se fechar cautelosamente nos quartéis de Conistórgis! As águias romanas, como bem diria aí qualquer poeta satírico, estavam fechadas na capoeira. O Senado permaneceu imperturbável diante da ironia cáustica do orador, que continuou no mesmo espírito: 

-- E de facto Galba, durante essa inacção, chocava uma tremenda infâmia! Logo no princípio da primavera do ano DCIII da fundação da cidade eterna, que ficará afrontosamente assinalado nos Fastos Consulares, Galba pôs-se em marcha para a Lusitânia, devastando inconsideradamente Cidades imunes ou federadas, estipendiárias ou contributas daquela opulenta região, donde Roma tem haurido montanhas de prata. Esses povos da Lusitânia, embora tenazes e inquebrantáveis, pelo natural bom senso reconheceram que era melhor gozarem os privilégios que Roma lhes concedia, do que envolverem-se em uma guerra interminável, que com certeza visaria à sua destruição. Resolveram mandar a Galba enviados com a declaração, que se confessavam arrependidos da revolta a que tinham sido arrastados, e prontos a cumprirem integralmente o tratado firmado com Atílio. A uma tal proposta, Galba manifestando-se benevolente, ele mesmo respondeu aos enviados das tribos lusitanas: «Que era o primeiro a reconhecer a força das circunstâncias, que os obrigara pela tremenda crise da fome e da miséria a quebrantarem a lei romana, e a entregarem-se por vezes a incursões 5 

  e rapinas em lugares que gozavam quase os direitos da metrópole. Mas, em vez de tomar directamente a responsabilidade, desses actos, e sabendo a causa íntima que os motiva, eu farei que finde a situação violenta das cidades estipendiárias, acabando com os tributos pesadíssimos que as oneram, eximindo-as dos pagamentos às legiões romanas e às provisões de víveres fornecidos às tropas em passagem. Para se efectuar isto, passareis à categoria de Cidades municipais, com o vosso território livre, sem pagamento de tributos, com magistrados eleitos livremente, e fora da jurisdição do governador da província.» Diante desta perspectiva, Galba, traiçoeiramente apontou as terras que lhes reservava, e que dividia em três cantões, e tratou de convocar para um determinado dia na margem direita do Tejo as tribos lusitanas, exigindo como prova da mútua confiança que se apresentassem desarmadas, para que em Roma se não dissesse, que a generosa concessão do Jus italicum era extorquida. 

Catão, como que vencendo uma opressão de momento, salientou o facto monstruoso: 

-- À convocação feita por Galba concorreram os povos confiados na palavra que representava o poder romano; e logo que Galba apanhou as tribos desmembradas e desarmadas na planície para onde as convocara. envolveu-as nas legiões que subitamente se apresentaram fortificando a linha dos hastatos e triários com toda a cavaleria, que atropelando a multidão inerme, fez passar ao fio da espada para mais de trinta mil pessoas, entre homens válidos, velhos e crianças, e até mulheres! Nada mais execrando, porque esta traição vilíssima deslustra as vitórias romanas E se este instinto traiçoeiro é a base da sua táctica de guerra, é igualmente a feição do seu carácter no tempo de paz; e com tais recursos se defenderá da justiça implacável, perante a qual seja chamado a responder, porque no meio de tantas carnificinas e depredações, Galba apoderou-se de assombrosas riquezas, com que de certo conta eximir-se de toda a pena. Mas a desonra do indivíduo, ou o seu castigo, não ressarce os males da Pátria! O poder de Roma está neste momento abalado na Lusitânia, que se debate em um levantamento geral contra uma tão inaudita monstruosidade. E se eu, como Censor, acuso o homem indigno, e defendo os meus clientes de Espanha contra o sanguinário e iníquo prevaricador, perante o Senado também reclamo que um General inteligente com novas tropas vá prontamente restabelecer a paz e o direito às povoações alvoroçadas da Lusitânia. A voz de Catão, o Censor, fora escutada com assombro. Ele tinha aliada à veneração devida aos seus oitenta e cinco anos de idade uma longa vida intemerata, que triunfara brilhantemente de todas as calúnias, com que por vezes procuraram minar o seu ascendente moral. 

Nesta mesma sessão memoranda do Senado resolveu-se que imediatamente fosse mandado a Espanha o pretor Caio Vetílio com novas legiões e cavaleria para reforçar o Exército provincial. Determinou mais o Senado, que Sérvio Sulpício Galba e o cônsul Lúcio Licínio Lúculo regressassem a Roma para prestarem contas estritas pelos seus roubos, espoliações e crueldades afrontosas. <numpag 6> 

II 

O tribuno da plebe Aulo Scribónio, estimulado pela acusação de Galba no Senado, convocou o povo de Roma para o Fórum, para pedir-lhe o julgamento do Procônsul pelo crime de infanda traição. O concurso foi enorme, tanto mais que desde muitos anos a competência judiciária dos Concílios estava cerceada pela delegação desses poderes a um júri ou Conselho perpétuo. 

O tribuno falou à multidão, com nitidez e segurança: 

-- Sabeis que ao Senado, como corpo dirigente da República, pertencem os poderes sobre o culto, sobre a administração das riquezas do Estado e principalmente a administração das províncias. Competia-lhe por isto a iniciativa da acusação de Galba; mas é obrigação do tribuno impulsionar a acção pública, sobretudo quando se trata do crime de alta traição, como agora, em que é réu Sérvio Galba! Eis o facto na sua espantosa crueza: numerosas cidades da Lusitânia, que estavam na situação angustiosa de estipendiárias, vexadas pelos pesados impostos extorquidos pelos magistrados romanos, tinham requerido ao Senado para lhes ser concedida em prémio de sua fidelidade a situação de confederadas ou imunes, podendo assim governar-se pelas suas leis consuetudinárias, pelas suas magistraturas locais sem contudo aspirarem ao gozo dos direitos políticos de cidadãos romanos. Era a base da pacificação da Lusitânia! O procônsul Galba servindo-se da majestade do povo romano garantindo esse pedido, convocou as povoações desarmadas para lhes comunicar o édito do Senado que o legislava, e envolvendo-as nas suas legiões trucidou traiçoeiramente para mais de trinta mil pessoas, em que a par dos homens válidos estavam velhos, crianças e até mulheres O povo permaneceu mudo, sem mostrar comoção alguma pelo quadro da horrenda carnificina. O advogado Fúlvio Nubílior, que fora encarregado da defesa de Galba, notou esta circunstância da insensibilidade moral da plebe. O tribuno continuou: 

-- Para o julgamento deste atentado contra a majestade do Povo romano, bem sei, é preciso um exame dos factos, e por felicidade das nossas instituições sempre perfectíveis, o processo de Galba será formado pelos questores, que apresentarão ao Concílio da plebe os seus quesitos, sobre os quais efectuareis a votação. O que outrora fora um motivo de discórdia entre o Povo e o Senado é hoje uma harmonia social, porque se reconhece, que assim como os negócios judiciais carecem de ciência jurídica para serem tratados, os assuntos de jurisdição criminal não podem ser sentenciados senão mui reflectidamente. E se a lei tribunícia calpúrnia avocou estas questões a um júri perpétuo, o povo, sem perder a sua prerrogativa, delegou este poder judiciário aos questores. Que Sérvio Sulpício Galba seja processado pelo conselho dos questores, sendo as suas conclusões apresentadas à vossa deliberação no mais breve lapso de tempo. Depois de se ter calado o tribuno, apresentou-se diante do povo, que enchia o Fórum. o advogado Fúlvio Nobílior, conhecido pela sua extrema argúcia, por um espírito sarcástico, que chegava a tocar as raias do cinismo. O seu poder nos tribunais consistia em fazer desvairar as opiniões, em actuar nas consciências suscitando a dissolução moral, tornando ridículos os sentimentos de piedade ou de humanidade. Era sempre ouvido com interesse; a multidão compreendia-o. Quando vem à barra, um rumor surdo foi o prenúncio de um grande silêncio; o seu discurso ficou memorável: 

-- É acusado o Procônsul Sérvio Galba de latrocínios na Espanha Ulterior, nessa região, que assenta sobre jazigos de ouro e prata, a Lusitânia! O que tem a fazer um homem culto entre gente bárbara, senão levantar do chão as jóias que vê calcadas inconscientemente? Também da Espanha Citerior, acabado o seu governo de dois anos, <numpag 7> regressa a Roma o cônsul Lúcio Licínio Lúculo, carregado de assombrosas riquezas, e não foi acusado de latrocínio, nem de rapinas ou extorsões. E por que, tendo os dois magistrados seguido os mesmos processos administrativos? A razão é evidente. É por que Lúculo soube captar as simpatias, compartilhando o seu ouro e prata, e gemas preciosas com os patrícios influentes, que aí têm assento no Senado; e para desviar a ideia dos roubos, teve o pensamento de edificar um Templo à Deusa Felicidade, a quem atribuiu a posse de tantas riquezas! Sérvio Calha só cometeu um erro: -- quis tudo para si, dando apenas algumas migalhas aos legionários, que o acompanharam nas depredações! Daí o ódio dos Tribunos da Plebe. Mas, para que despender aqui o tempo com uma moral especulativa, se esses pretendidos roubos ou concussões fazem que Roma regurgite em riquezas espantosas, trazidas dessa Espanha inesgotável à avidez do estrangeiro? Só lembrarei, que quando Roma se viu assaltada pelos Gauleses, difícil foi ajuntar mil libras de ouro para pagar a imposição de guerra! E desde que fomos a Espanha, sete anos antes da terceira guerra púnica, 16:800 libras de ouro já se achavam no fundo do tesouro romano! E no começo da guerra social, o Erário regurgitava com 1:620.$829 libras de ouro! Quem não compreende que a riqueza de Roma não lhe vinha do trabalho agrícola e fabril, mas da guerra em países ricos? Foi esta sempre a nossa política. Combater, vencer, para civilizar, pagando-nos por nossas mãos deste benefício. Desde que as legiões romanas pisaram o solo da Lusitânia, conheceu-se que o ouro nativo aí abundava em assombrosos filões, e em palhetas nas areias do Tejo! Nada mais claro para um Governo inteligente: -- submeter esse povo, fazendo-o trabalhar ao serviço de Roma na exploração das minas de ouro e prata, e de convertermos esses metais em ornatos pessoais, baixelas, e sobretudo em moedas, que facilitam o comércio do mundo! Evidentemente Roma é a civilizadora do orbe! Quando Cipião Africano veio receber em Roma a apoteose pelas suas vitórias sobre os Cartagineses e Iberos, entregou ao Erário de Roma trezentas e dez arrobas de prata lavrada, pilhada em oitenta vilas e cidades da Ibéria! Mas não rezam os Anais romanos da que o general reservou para si. E O seu sucessor, Lúcio Cornélio Lentulo? Também depositou no Erário mil e trezentas arrobas de prata lavrada. É incalculável a quantidade de arrobas de prata que os cônsules e Pretores, que administraram as duas Espanhas, transferiram das suas presas para Roma. E os celebrados dinheiros de Osca? Porém, essa riqueza só chegava ao Povo romano em alguma festa pública de apoteose; pelo processo moderno, o povo é mais favorecido, porque essas riquezas pilhadas na Ibéria e na Lusitânia são despendidas em Roma pelos seus detentores na vida faustosa com que tornam a Cidade a capital da Civilização do mundo. E depois, de quem tomou Galba as riquezas que está espalhando em Roma? De ladrões desprezíveis e abjectos, que ocupam o solo da Lusitânia, raça de escravos, impando de ignorância e orgulho, indignos do belo céu que os cobre. Eis aí o crime. Espoliar ladrões, do que possuem estolidamente, e enriquecer Roma, que mais será preciso para a apoteose? Galba bem merece do Povo. Fique ao Senado a glória de condenar o valente e magnânimo Procônsul pela afectada questão de humanidade, da qual nada consta nos sublimes Anais das nossas glórias militares, que serão sempre o assombro do mundo! E, que justiça é esta, que acusa Galba, e deixa no doce olvido o cônsul Lúcio Licínio Lúculo, que passou também à Lusitânia, trucidando os Vaceus a título de vingar os Carpetanos, e mandando a um sinal dado passar a fio de espada todos os habitantes da cidade de Caucia? Se, como dizem os nossos jurisprudentes, a Justiça é só uma, os historiadores também proclamam, que há uma só glória militar: -- Vencer! Se hesitarmos nos meios... Roma perderá o império do mundo. 

O Povo compreendeu as cínicas palavras de Fúlvio Nobílior e até o próprio tribuno, cumprido o dever do seu cargo, concordava no foro íntimo com essa doutrina, reveladora de uma crise da consciência nacional, em que se preparava para futuro não <numpag 8> remoto a transformação das instituições sociais e políticas de Roma. <numpag 9>

III 

O cônsul Vetílio partira a toda a pressa para a Espanha Ulterior, a reforçar o exército provincial; temerosas notícias corriam pela Cidade, de um levantamento geral das cidades da Lusitânia, que visava a sacudir o jugo de Roma. tornado odioso e incomportável pela traição execranda de Galba. O Senado confiava na valentia e inteligência estratégica de Caio Vetílio, sem desconhecer a resistente tenacidade inquebrantável das tribos lusitanas, que apoiavam a sua independência individual em um território livre, tendo por grito de guerra: 

-- Vencer ou morrer! Pressentimentos aziagos se espalhavam sobre o êxito da expedição de Vetílio. E enquanto espantosos sucessos se estariam passando longe, muito longe, na parte ocidental da Espanha, no incêndio da insurreição, o detestável Sérvio Sulpício Galba vinha compelido à barra do Senado apresentar a defesa dos crimes de que fora acusado por Catão o Censor. Ele bem sabia que deslustrara pela má fé a dignidade do Povo romano, mas confiava no poder da sua eloquência prestigiosa. 

Galba receou por um momento a condenação, e preparou a defesa espalhando pelos senadores e funcionários de Roma os blocos de prata e ouro em barra, que trouxera das minas da Península, onde linha para mais de quarenta mil homens entregues ao trabalho forçado da exploração desses jazigos, que rendiam vinte mil dracmas argênteas por dia. E como se não bastassem as riquezas que espalhou com profusão pelos juízes, dirigiu-se-lhes ao sentimento, apresentando-se no tribunal com os seus dois filhos. Lida a acusação, foi-lhe concedida a palavra, escutada atentamente. Era um dos casos mais emocionantes de Roma. Será condenado? será absolvido? Faziam-se apostas, aproveitando esse lance para um jogo descarado. A palavra eloquente de Galba era conhecida e admirada. 

Perorando: 

-- Todos vós estais bem lembrados, que sob o consulado de Licínio Lúculo e de Aulo Postúmio, um terror excessivo se apoderou dos Romanos por causa das tremendas derrotas dos nossos legionários na Espanha, derrotas infligidas pelos Celtiberos, por forma, que não havia togados, nem pretorianos que se inscrevessem para acudir à remota região em que fraquejava o poder de Roma. Cipião Africano revoltou-se contra tanta covardia, oferecendo-se para ir combater e subjugar essas populações indómitas, que lutavam pela independência da sua terra. Passada a aparente pacificação, fui mandado como pretor à Hispânia. Eu mesmo então vencido pelos Lusitanos em uma batalha campal, consegui salvar-me com um troço de cavaleiros entre penhascos! Ah, foi ali, nessa extrema angústia que jurei, que prometi à glória dos quirites o extermínio dos Lusitanos, dessas tribos irrequietas, que são hoje o único embaraço para que a soberania de Roma se estenda imperturbável sobre toda a riquíssima península da Hispânia. Lúcio Minutius veio a toda a pressa acudir à minha situação desesperada. Bem sabeis com que altivez e soberbia os Lusitanos e Celtiberos falam contra o poder de Roma; e a todos os Procônsules, que vão às guerras da Hispânia Citerior e Ulterior, tem sido recomendado que a tantas bravatas estólidas se deve responder com castigos tremendos e inolvidáveis e sobretudo que os Lusitanos aprendam à sua custa, que as águias romanas não sofrem ameaças da vil preza. Não fiz mais do que seguir a política traçada. Dirão que me excedi na acção repressiva? Respondo, e ouça-me a história: Enquanto existir sobre o território da Hispânia esse povo lusitano, há-de aí manter-se sempre vigoroso o instinto e o sentimento da autonomia. Roma nunca aí sustentará o seu império tranquilo, porque as tribos lusitanas sonham com uma Pátria livre! Por mais <numpag 10> que as nossas divisões administrativas retalhem o seu território, desmembrando-o, mais os Lusitanos compreendem a necessidade da Confederarão das raças peninsulares como condição para repelirem o jugo estrangeiro e afirmarem a sua independência E se essa Confederação se chega a organizar, Roma terá no extremo ocidente um inimigo mais terrível do que Cartago, e as guerras contra os Lusitanos serão mais sangrentas do que as Guerras púnicas. Foi para destruir estes gérmens de Confederação, que eu convoquei à falsa fé os Lusitanos para tratar das liberdades que Roma lhes concedia, e passei à espada uns sete mil dentre eles? Sim, parecerá cruento? Mas, do mal o menos; sabei, que a Lusitânia tende a unificar em uma mesma pátria os Carpetanos, os Vetões, os Vaceus e os Callaicos. Do Anas ao Mar Cantábrico tudo é lusitano; e do Anas ao Cabo Sacrum, e também grande parte da Bética, ou Tartéssida, são regiões ocupadas pelos Lusitanos, o Povo mais poderoso da Espanha, como notam os geógrafos. Ali veríamos formada uma forte nação, cujo território terminava ao nascente dos Astúrios e Celtiberos, e compreendendo a Galécia, com todos os territórios do Mínio, do Dúrio até ao Tago, e mesmo a região transmontana. Do Cabo Sacrum até ao Mar Cantábrico, toda esta parte ocidental da Hispânia constituindo a Lusitânia! Compreendeis agora o perigo que nos ameaça, e de que eu consegui salvar o poder de Roma. Nós erradamente damos o nome de Celtiberos a povos que são lusitanos de raça: julgamo-los desunidos, e aparentemente se mostram, até à hora do perigo. Se os Lusitanos chegarem um dia a estabelecer uma Confederação, serão invencíveis e derrotarão os invasores estrangeiros que tocarem o solo da amada Pátria. É isto que importa ter sempre presente à consideração dos políticos, que tentarem dominar a Hispânia, e governá-la enfraquecida para a exploração das suas incalculáveis riquezas. Que o dito de Catão, Delenda Carthago, se converta agora em Finis Lusitaniae! Mas, não quero acabar com uma frase de efeito; a retórica não entra aqui para nada. Importa manter a Hispânia dividida; não é em Citerior nem Ulterior, mas em Lusitanos e Iberos. Esses dois povos são incompatíveis entre si; o Ibero admira a autoridade, a força, e quer exercê-la impetuosamente, ao passo que o Luso ama a independência sem ruído nem aparatos. O Ibero é incapaz de se unir para a defesa, e obedece passivamente a qualquer poder físico ou moral que se lhe imponha; o Lusitano liga-se facilmente para a defesa, em revolta contra todo o poder. Conheci pela experiência estas diferenças, e reconheci por que forma poderia fundar na Hispânia o Poder indestrutível de Roma: acabar com a Lusitânia, e estender as populações ibéricas. Chamado a Roma, por causa dos sete mil trucidados, que outros aumentam até trinta mil, ficou truncado o meu plano; mas estou convencido, que Roma, se não hoje, um dia me fará justiça. No seu discurso Galba concluía por ser preciso incendiar as principais cidades da Lusitânia; passar à espada as povoações que se revoltaram; transplantar os povos lusos, substituindo-os por tribos propriamente ibéricas; vender como escravos nos principais mercados essas tribos inteiras, que pelo seu orgulho embaraçam a acção do Poder romano na Espanha; arrasar os burgos e as citânias; estabelecer a pilhagem sistemática dos campos; decapitar todos os cabeças de motim, logo que sejam agarrados ou pela força ou pela traição, e não bastando isto ainda, retalhar a Lusitânia pelo menos em três troços: ao norte, constituindo em corpo à parte a GALÉCIA, ao centro a TARRACÓNIA, e a sudeste a BÉTICA: logo que fique a LUSITÂNIA reduzida ao limite do Dúrio ao Anas, em uma miserável faixa de terreno, tapada pelo mar, nunca mais terá resistência, e mesmo chegará até a esquecer--se da pretendida autonomia. 

O discurso foi ouvido com assombro, não já como defesa, mas como um plano de futuro governo para a incorporação completa da Península hispânica. Quando estava para ser proferida a sentença sobre as responsabilidades de Sérvio Galba, ecoaram por toda Roma as desoladoras notícias vindas da Lusitânia: a derrota <numpag 11> formidanda de Vetílio! A morte ignominiosa do General romano! O exército reduzido a seis mil homens, refugiado na cidade de Carpesso! E o poder de Roma ameaçado por um cabecilha, dizem que outrora Pastor, outros afirmam que Salteador de estradas, outros que é uma aparição maravilhosa desse Viriato, que há setenta e dois anos acompanhara Aníbal à Itália, e que combatendo em Canas fora morto por Paulo Emílio! 

Todas estas vozes corriam em Roma, e avolumavam-se, aumentando o terror, e o prestígio do Cabecilha. É de crer que influíram na sentença, que absolveu a Sérvio Sulpício Galba da inaudita carnificina dos trinta mil lusitanos desarmados. E também se conta, que a morte inesperada de Catão, o Censor, se explicava pelo desgosto de ver a justiça avergada à iniquidade triunfante, e diminuída a glória de Roma ultrajada nos anais humanos. <numpag 12> 

IV 

Em Roma não se formava uma ideia clara das monstruosidades praticadas por Galba. Diante destes planos de forte administração, e pelas doutrinas da política de interesse, o quadro da mortandade de trinta mil indivíduos desarmados, convocados juridicamente pela autoridade do pretor, e chacinados traiçoeiramente, pouca impressão fazia na alma do povo romano: a falta de sensibilidade moral preparava a sua marcha decadente para a Servidão. Mas o crime de Galba era daqueles que fazem levantar as pedras! Dentre os montões de cadáveres, meio incinerados e cobertos de pedregulhos, quando a noite viera pôr termo à carnificina, levantaram-se cautelosamente algumas das raras vítimas, que a casualidade resguardara dos golpes sucessivos que esmagavam aquela multidão inerme; e esses desgraçados, fugindo por entre as trevas cerradas, espalharam-se pelas montanhas e vales, e foram, de povoação em povoação. de cidade em cidade, clamando, bradando, fazendo a narrativa da tremenda catástrofe com que os romanos invasores queriam extinguir os Povos Lusitanos. 

Esses foragidos, ainda cobertos de sangue e de lama tábida, rotos e estropiados, levados em um desvario de quem perdeu a razão pela enormidade do terror, dispersaram-se pelos campos e foram dar às grandes cidades municipais como Olissipo, aos Conventos jurídicos como Scalabis e Jerabriga, narrando o espantoso sucesso. Por pobras e aldeias, por casais e vilares, por citânias no alto dos montes, por toda a parte correu o rumor sinistro da mortandade atrocíssima e iníqua, e não houve fôlego vivo que se não estorcesse em ímpetos de cobra impotente, em revolta moral contra o maior atentado que à luz do sol se tinha praticado contra a lei humana. O grito delirante dos foragidos, que iam de terra em terra repetindo a trágica narração, tornava-se contagioso, e acordava um profundo instinto de revolta, que ia crescendo como uma onda até rebentar em uma convulsão irreprimível. Os Arevacos, os Tites e os Beli, povos que andavam sempre em mortais conflitos, agora achavam-se unidos, no mesmo protesto. Rugidos de cólera irrefreável irrompiam entre os Astúrios, Galaicos, Vaceus e Carpetanos; estes olhavam com ansiedade quem daria começo a uma luta, para a qual nada estava preparado, a não ser um temperamento sempre resistente. Para o sul os Oretanos, Bastitanos e Edetanos ardiam em um rancor exacerbado pela inqualificável traição de Galba, legítimo representante da fé romana. Já soavam no ar Cantigas de guerra, que levantavam as almas; e até por essas povoações remotas e mal conhecidas, como Lubara, Aritium, Elbocoris, Araducta, Verurio, Vellade, Arabriga, Tacubis, cujos nomes os geógrafos romanos e naturalistas não queriam repetir por considerá-los bárbaros, por onde quer que passaram os foragidos que escaparam casualmente da horrífica matança, já se formavam troços de gente armada com hozes, ou fateixas de arremesso, catanas grossas, pelo instinto natural da defesa de seus lares. 

Esses poucos foragidos levavam na palavra o incêndio, que se espalhava de cidade em cidade, de povoado em povoado, narrando desenfeitadamente o crime do governo de Roma. É certo que a população lusitana estava cansada das recentes e ineficazes lutas; as cidades confederadas e estipendiárias queriam o sossego da sua vida laboriosa, suportando sacrifícios da liberdade. Nas cidades dos Turdetanos, como Balsa. Salada, Cetóbriga ecoara imprevistamente o caso nefando da carnificina, e lamentavam não existirem chefes que organizassem a resistência contra o brutal e monstruoso atentado. E se esta impotência, ao menos, assegurasse alguns anos de tranquilidade para 

o sul da Península! Outro pretor que venha, diante da impunidade deste, até onde levará as depredações e os morticínios! Os povos que gozavam das garantias de Município romano não queriam mover-se <numpag 13> para não decaírem dos privilégios que fruíam concedidos pelo conquistador; os povos que participavam dos direitos do antigo Lácio obedeciam à mesma tendência egoísta. Somente entre os povos na situação de tributários poderia surgir um impulsivo instinto, mas impotente de revolta. Nas cidades dos povos denominados Célticos e Iberos havia um certo ciúme contra a aspiração hegemónica dos Lusitanos; mas nem por isso se ligou menos interesse às narrativas dos foragidos da matança de Galba. Os seus gritos repetidos de terra em terra chegaram a Laucóbriga, a Castraleuco, Arandis, Mirébriga, e os trabalhadores do campo interrompiam as bessadas para escutarem esse caso estupendo; as festas religiosas e as nupciais suspendiam-se à chegada dessas figuras sangrentas, que pareciam fantasmas ressurgidos do campo da matança para virem reclamar a eterna vindicta. 

Ouvireis o que bradavam esses foragidos, quase em delírio, alguns deles caindo no chão esgotados de sangue que ainda vertiam das feridas, outros borbotando sangue pela boca, aos gritos convulsivos com que narravam o caso da mortandade. 

-- «O pretor Sérvio Sulpício Galba convocou para uma assembleia nas campinas da margem direita do rio Tagus, os três Conventos da Lusitânia Emeritense, Pacense e Scalabitano com as trinta e seis Cidades estipendiárias, recomendando que viessem sem armas, porque se tratava da distribuição de terras, do estabelecimento de novas Colónias, e de elevar alguns Povos tributários aos privilégios de Cidades Confederadas, de município romano e do antigo Lácio. «Confiados nas palavras do édito do pretor, concorreram ao local que lhes fora aprazado, muitos povos, interrompendo as suas lavouras; e como se fosse para uma festa de paz e congratulação levaram consigo suas mulheres e filhos, e os anciãos mais venerandos das tribos, como arreféns do seu ânimo pacífico. 

«O pretor ordenou que se ajuntassem na campina em que tinha mandado plantar uma Árvore de Maio, junto da qual se devia assinar o pacto perpétuo da concórdia com as Tribos lusitanas. 

«Enquanto se esperava o pretor cercado da sua Coorte, começaram a aparecer quatro legiões, que se formaram em orbis, estendendo em ordem de batalha as suas três fileiras, e envolvendo como em uma grande muralha toda aquela multidão inerme! Ninguém suspeitava o intuito do súbito envolvimento. 

«Os manípulos da legião, com as suas bandeirolas foram marcando os lagares, que à frente de todos ocuparam os hastários; por traz destes ficaram os Príncipes dispostos de modo a por entre eles poderem recuar os que lhe estavam em frente; na terceira linha estendiam-se os triários, como barreira de resistência. 

«Depois disto apareceu a cavaleria, correspondendo quinhentos cavaleiros a cada legião, armados com o gládio hispânico de dois gumes. Foi então que um gélido terror se apoderou daquele povo indefenso. As lanças e chuços dos hastários colocaram-se por um movimento repentino em riste, como formando uma muralha cerrada de espetos. 

«O pretor Galba não aparecia! Um pressentimento de morte se estampou na lividez de todos os rostos, quando viram por detrás dos triários moverem-se torres de madeira, catapultas e balistas. 

«Com certeza Galba planeara uma infamíssima traição! Como fugir-lhe? As mulheres, em lamentos atroadores, abraçavam os filhos, sem perceberem ainda o perigo. Os velhos aconselhavam prudência, esperando serenos as ordens do pretor. 

«Neste momento de angústia pesados calhaus foram de longe arremessados por catapultas contra aquela multidão compacta, esmagando ali algumas centenas de lusitanos. O grito de espanto parecia uma tempestade; os que tentavam fugir foram espetar-se e morrer nas fileiras cerradas dos hastários; os que se estreitavam uns dos outros num pânico inconsiderado abafavam-se. <numpag 14>

«E enquanto iam chovendo os grandes calhaus arrojados pelas catapultas, cabiam sobre a multidão as faláricas ou lanças incendiárias, que os Romanos tinham tomado dos costumes hispanos, e outros engenhos arremessavam panelas de pez e estopa ardendo, que os cestrofendones faziam cair no meio da assembleia. 

«E como se não bastasse tudo isto para destruir aquela gente desarmada, os Fundibulários baleares mantinham um chuveiro de pedras sempre certeiras, coadjuvados pelos arcubalistas. 

«A multidão ainda se movia, embora não oferecesse resistência alguma; mas Galba, querendo terminar a sua hediondíssima traição e vendo que o sol já declinava, resolveu o final extermínio antes do descer da noite. Os cavaleiros recusavam-se à fadiga de passar à espada tantíssima gente inerme que ainda sobrevivia. Foi então que Galba se lembrou de como na guerra de Macedónia, Paulo Emílio deveu a vitória decisiva ao emprego da táctica dos elefantes e deu logo a ordem a que os dez elefantes oferecidos por Massinissa aos Romanos para servirem nas guerras contra os Celtiberos, se empregassem agora para acabarem de esmagar os temerosos rebeldes Lusitanos. 

«Os Elefantes couraçados com chapas guarnecidas de espadas foram conduzidos para aquele montão de gente, cuja carne e sangue formava com a terra recalcada uma massa horrenda. De baixo das patas dos dez Elefantes sentiam-se fracassar os ossos das vítimas, e o sangue respingava-lhes até aos peitos, prendendo-se-lhe nas pernas as tripas que eram casualmente arrancadas na sua passagem. 

«A noite vinha descendo caliginosa e um vapor espesso se erguia dos vales fundos. Foi então, que ainda dentre o montão dos cadáveres se ergueu um vulto sorrateiramente, e saltando ao pescoço de um elefante, o pesado animal caiu redondamente morto em terra! As trevas iam-se engrossando, e o vulto ágil e escorreito foi assim saltando sobre cada um dos elefantes, que por seu turno iam caindo mortos! Quem seria esse vulto extraordinário, que sabia o segredo de dar a morte instantânea a tão poderosos animais, em cuja pele não penetravam os mais pujantes dardos? Quem quer que fosse, ele sabia o segredo aprendido nas guerras púnicas: de que a mais leve picadela no bolbo pela vértebra que toca no crânio do Elefante fazia-o cair fulminado instantaneamente. Assim foram mortos os dez elefantes. 

«A noite era já cerrada; e enquanto Galba mandara lançar fogo ao montão dos cadáveres entre os quais foram encontrados os dez elefantes do Massinissa, dentre esses cadáveres escaparam-se alguns indivíduos que se tinham ocultado debaixo dos corpos exânimes, e que se fingiram mortos: são esses os que andam de cidade em cidade da Lusitânia e da Turdetânia pedindo vingança! Vingança! Vingança!» 

Por vales e serras, e ressoando de monte a monte, entoava-se um canto de guerra, que fazia referver o sangue nas veias, exaltando os espíritos ainda os mais acabrunhados. O canto podia mais do que a reflexão, e cada povo acrescentava-lhe uma nova estrofe, como a aspiração do resgate. A palavra poética é alada, e pelo prestígio da tradição transpõe as idades repercutindo-se na alma dos vindouros. 

BALADRO DE GUERRA 

<poesia>
Terra da Lusitânia, 
Ensopada de sangue 
Por horrendo baldão! 
Chamou-nos o Romano <numpag 15> 

Para a aliança de paz, 
Mata-nos à traição! 
Vírus de iniquidade, 
Desse fermento de ódio 
Brote a destruição. 

Que a lança dos quirites 
Se quebre, e em nossa frente 
Não se erga legião! 

Quem sobrevive ao crime, 
E escuta estes lamentos 
Da atroz desolação; 

 
Quem perdeu lá seus filhos, 
Os pais, entes queridos, 
O esposo, o irmão; 

Que se revoltem todos, 
Peitos sejam escudos, 
Lanças raios na mão! 

Sofrimento e opróbrio, 
A morte e a vingança 
Forçam à união! 

Vós, Povos da Galécia, 
De Oretânia, Betúria, Cinésia região; 

Robustos Carpetanos, Tartéssios, desmembrados 
Da Lusónia nação! 

Que o mesmo ódio nos una, 
Vingai mortos, e os vivos 
Salvai da escravidão! 

Reviva a Lusitânia, 
Ensopada no sangue 
Da romana traição. 
</poesia>

V 

De todas aquelas povoações até onde chegara o rumor da horrente catástrofe, partiram homens audaciosos, movidos pela curiosidade para observarem com os seus olhos os despojos que restavam; alguns não voltaram mais aos seus lares, porque iam engrossando uma onda dos revoltados contra tamanha traição. Os que regressavam espavoridos contavam o assombro que lhes causara o ver uma ampla campina coberta de cadáveres incompletamente carbonizados, em volta dos quais uivavam lobos em numerosas alcateias, e águias e abutres que esvoaçavam em bando sobre a vasta presa, cujo fétido os atraíra de longe. As calmas estivais tornavam-se mais intensas, apressando a putrefacção de tantos cadáveres; as fortes nortadas levavam até muito longe os miasmas, e numa e noutra cidade da Lusitânia apareciam ameaços aterradores da peste. Era a perspectiva de uma mais horrível devastação, porque se não via o látego mortífero que flagelava os povos. Um pensamento de piedade pelas mortos ocorreu suscitado relas calamidades: 

-- É certo que esses corpos insepultos reclamam dos vivos o cumprimento de um dever sagrado! Enquanto lhes não dermos sepultura condigna, suas almas andarão errantes diante de nos, perturbando-nos, perseguindo-nos até acordarmos do nosso desdém egoísta. Carecemos para própria segurança de lhes darmos sepultura segundo o pátrio e antigo costume, quando se encontra um morto num ermo ou numa encruzilhada. Que cada cidade, vilar ou aldeia, faça suas peregrinações ao campo da matança, e seguindo a tradição da piedade, cada um arroje uma pedra para cima dos cadáveres até que se formem Montes Gáudios, que serão os túmulos venerandos dos nossos desventurados conterrâneos. Segundo aquele costume, vogou de cidade em cidade a ideia da fúnebre peregrinação, e não eram ainda bem passadas duas luas quando por toda a Lusitânia se operara um movimento que ligava todas as povoações no mesmo afecto. Os mortos podiam agora mais de que os vivos, porque por via deles se uniam tribos até aquele dia inconciliáveis, que iam visitar o campo da matança e lançar suas pedras para erguerem bem alto os Montes Gáudios, que deviam tornar-se não um simples monumento funerário, mas uma como torre de protesto e de eterna revolta. Muitos povos dispersos nas regiões de entre Dúrio e Mínio, entre o Dúrio e o Tagus e mesmo os que se achavam para lá da banda de Trás-dos-Montes, desde a foz do Anas até ao Mar Cantábrico, aderiram à desolação dos Lusitanos, e mandaram também peregrinações ao campo da matança para que os Montes Gáudios atestassem aos vindouros que eles se consideravam formando parte deste valente e activo povo ribeirinho que dos seus portos de Lez e das suas bem trabalhadas lezírias tomara o nome nacional de Lusitânia. O eco da grande catástrofe produzida pela perfídia impune de Galba chegara igualmente aos comuns dos territórios dos Astúrios e Celtiberos. Os Povos denominados Carpetanos, os Vetões, os Vaceus e Galaicos, que sempre se tinham conservado apartados para o norte da Espanha esperando constituir uma Confederação e unidade política sob o nome de Galécia, agora sentiam-se dominados pela insondável fatalidade que arrastara os destemidos e independentes Lusitanos à maior das ruínas; eles vieram em magotes ver de perto a horrorosa mortandade, e arrojar piedosamente mais pedras para os Montes Gáudios. Esses túmulos cresciam, como atestando ao mundo, que eram inúmeros os corações que pulsavam por muitos mortos, e que os mesmos braços que arrojaram aquelas pedras, serão os mesmos que arremessarão as suas lanças e brandirão as pesadas lorigas contra o fautor da execranda iniquidade. 

Assim se foram formando bandos e numerosas guerrilhas, imperfeitamente <numpag 17> armadas, que clamavam por vingança; e vendo que muitas cidades aliadas dos Romanos, e outras por temor ou covardia, não tinham vindo celebrar a cerimónia dos Montes Gáudios, foi contra elas que arremeteram na sua ânsia de vindicta. Passavam já de dez mil os Lusitanos se ajuntaram em diferentes guerrilhas, entregues à aventura e audácia de destemidos Cabecilhas, que foram descendo para o sul da Península, devastando e roubando quantos povos encontravam que estavam no gozo do patronato romano. Chegaram até à Turdetânia, essa opulenta região banhada pelo Bétis, tendo por limite da parte do norte o curso do Anas e levaram a sua audácia até ao ponto de atacarem a importante fortaleza de Gades, ou Gadir, como lhe chamaram os Fenícios. Não era sem razão que os viajantes fenícios, gregos e romanos diziam que os Lusitanos eram o povo mais numeroso e valente entre as nações de toda a Ibéria. <numpag 18>

VI 

A Espanha Ulterior estava quase completamente insurrecta. Passavam de dez mil os Lusitanos revoltados contra o puder de Roma, e que juravam sacudir o infame jugo. No seu Conselho armado decidira-se, que todo aquele que pudesse sustentar-se a cavalo, embora velho ou doente, se apresentasse para o combate; mesmo as crianças que pudessem alevantar um chuço ficavam obrigadas a incorporar-se nas turmas e milícias de cada terra. 

Era o começo de ano estival, e na entrada de Maio, em que se faziam as danças e cantares debaixo do verde pinheiro, e em que os homens válidos, os chefes de família, efectuavam as grandes paradas das suas forças defensivas. Parece que o ajuntamento daquela multidão enorme respirava um ar de festa, uma alegria comunicativa, em que a ideia de morrer pela liberdade da sua terra dava uma exaltação delirante; dir-se-ia que era a Primavera sagrada, em que novas colónias iam pelo mundo para fundarem uma outra cidade. Verdadeiramente era uma entrada em campanha, em que o costume vinha coadjuvar a necessidade. Viam-se homens da estatura meã, e enxutos de carnes, de cabelos pretos e olhos castanhos, ligeiros e ágeis, capazes de resistir a todas as intempéries, sofrendo todas as privações mas sempre alegres; traziam pendurados ao pescoço, por correias, pequenos escudos de tamanho de quatro palmos, e presas à cinta umas compridas facas, a que se socorriam em lances decisivos, e ainda no combate pessoal. O braço era armado com uma lança comprida, com uma ponta de bronze e um gancho ao lado, servindo para ferir e prender aquele que topasse na frente. Apenas lhes defendia o corpo uma couraça de linho cru fortemente tecido, ou treu, sobre a qual assentava uma cota de malha tecida de arame, que nenhum dardo poderia atravessar. Capacetes de couro com tríplice cimeira cobriam-lhes as cabeças, aparando com segurança os golpes dos montantes; outros guerreiros traziam os cabelos compridos, como usam as mulheres, cingidos com nastro na fronte, no momento das refregas; os peões apresentavam-se com cnémides, saiais negros, e chuços; outros com bragas forradas de pele de cabra, ou safões. E os cavaleiros montavam alazões e fouveiros, com estribos em forma de concha de madeira; com mantos listrados formando quadrados variegados. Formavam grupos de três em três, a que davam outrora o nome de Trimarquisia, indo um dos cavaleiros à frente no ataque, ficando mais atrás os outros dois para o defenderem e substituírem. Reinava uma certa ordem nessa multidão, dividida em catervas de infantes ou peões, com alguns cavaleiros nas alas extremas; e os hastários, os Sagitários, ou archeiros, os Fundibulários, moviam-se com uma ligeireza extrema, tomando os cavaleiros como pontos de mira para se ajuntarem no sítio em que se tornava mais urgente a defesa ou ataque. Os carros, ou corvões armados de longos espetos, eram puxados a quatro cavalos, empregando-os para servirem de parapeito e estacada defensiva detrás dos quais os archeiros arrojavam os seus dardos. 

Foi no meio de uma ansiedade de luta, que entre as Catervas lusitanas correu a nova, de que já pisava terras de Espanha o cônsul Caio Vetílio, com tropas frescas e aguerridas; o Senado encarregara-o de reprimir o levantamento provocado pela infamíssima traição de Galba, que, deixando-o impune, tacitamente a aprovava. Vetílio chegou a Córduba, onde assentara o seu quartel general. Tudo se sabia no campo lusitano, porque não faltavam esculcas e mensageiros, que davam conta dos movimentos do velho cônsul. 

Em Córduba ia Vetílio ajuntando todas as tropas romanas, que estavam como presidiárias, formando falanges com as que trouxera de Roma, e dando-lhes uma forte <numpag 19> disciplina, que centuplicava a sua resistência. Não havia tempo a perder; a rapidez do ataque muitas vezes decide da sorte da campanha, e Vetílio como general experimentado compreendeu que tinha de lutar com tribos de uma resistência tenacíssima, que se deixavam matar, mas que não transigiam com a perda da liberdade da sua terra. 

O território da Lusitânia, que se conservara submisso, fora, pela traição de Galba, agitado por uma insurreição tremenda; com a máxima rapidez e a marchas forçadas, o cônsul Vetílio, no rigor do Inverno, transpusera os Pirenéus, vencendo dificuldades insuportáveis, e engrossando as novas legiões com as tropas que nas províncias pacificadas estacionavam sem eus quartéis de Inverno. Entrava na Espanha Ulterior com um grande exército, maior do que aquele com que partira de Roma, e o êxito da empresa fora bem calculado - caindo de surpresa sobre as populações insurrectas, e impelindo-as à defensiva, sem tréguas, sem lhes dar tempo para organizarem a resistência. <numpag 20>

VII 

Vetílio deu ordem para que o seu exército, de mais de dez mil homens, saísse de Córduba, e seguindo em massa compacta pela Turdetânia fosse ao encontro das tribos lusitanas; e fortificadas por uma severa disciplina, contava que as tropas lutariam com vantagem contra Catervas impetuosas, mas sem a coesão de um bom e seguro comando, nem a lucidez de um pensado plano estratégico. 

E não se enganava. Ao segundo dia de marcha, Vetílio avistou ao longe, em um vale imenso, grande número de Carros de guerra, e cavaleiros, e por trás deles, negrajando, Catervas de peões, que pela direcção que traziam com certeza vinham sobre Córduba com intenção de assediar o exército romano, aí na capital da Turdetânia. Era o instante oportuno. Vetílio manda organizar em coluna todos os seus infantes: aos flancos os seus Carros, com os projécteis incendiários; a cavaleria mais atrás, destinada a envolver as tribos lusitanas durante o ataque. 

Desde que as tropas romanas foram avistadas pelos Lusitanos, um grito imenso como de alegria retumbou nos ares, como os relinchos e apupos ou atruxos com que se distinguiam as várias povoações lusónias; e dentre esse ruído escutava-se o eco de cantos, de hinos, que davam uma animação indescritível ao movimento dos combatentes. Vetílio contava com o entusiasmo dos Lusitanos no primeiro assalto, e reservou todas as suas forças para sustentar o peso desse primeiro ímpeto. E a carga dos peões lusitanos foi imponente, mesmo incomparável. Valeu-lhe ao cônsul o sangue-frio que soube manter; e foi assim, que subitamente reconheceu, que o exército dos Lusitanos, tão numeroso como o seu, e que não constava de menos de dez mil homens, não tinha coesão entre si; faltava-lhe a disciplina, e mais do que isso pela ordem de combate descobriu que essa multidão compacta não tinha um general, que sustentasse inteligentemente o comando. O número extraordinário dos combatentes lusitanos complicava a sua própria segurança, pela falta de um chefe digno deste nome. Este relance de Vetílio bastou para abranger a situação, e no seu espírito entrou a segurança de que seria certa a vitória. E tirando partido da situação compreendeu que para vencer era a melhor condição empenhar-se em uma batalha campal com todas as suas tropas; porque, embora os Lusitanos aguerridos apresentassem um igual número, faltava-lhes o comando, o que tornava perigosa a sua situação, em campo raso. As legiões estavam então formadas com quatro mil infantes de linha, que se dividiam em trinta manípulos ou companhias, manobrando em campanha como a unidade táctica de uma divisão moderna. E esses manípulos ou companhias, agrupavam-se em coortes ou batalhões, em número de dez. 

Passado o primeiro ímpeto de uma carga destemida de lanças, que os soldados de Vetílio apararam rijamente nos seus escudos, o cônsul aproveitou-se da táctica aprendida nas guerras da Espanha, e mandando-os formar em cunha rompeu as filas dividindo-as, mandando em seguida as suas quadrigas a toda a carreira sobre os flancos, para evitar que tornassem outra vez a reunir-se. Os cavaleiros dispersos por entre a multidão desorientada trucidavam incessantemente os que encontravam com um furor atónito, mal sabendo defender-se. A legião romana mais uma vez, sob o comando de um hábil chefe, patenteava a importância da sua constituição estratégica. A luta prolongou- se com coragem da parte das tribos lusitanas, mas repentinamente elas reconheceram-se enfraquecidas, não por falta de valentia, nem de bravura, mas pela imprevidência com que entraram em campanha, sem um chefe que as dirigisse e tivesse firmemente disciplinado. <numpag 21>

Toda a luta nestas condições era uma temeridade estulta, um inútil sacrifício. A batalha era agora insistentemente continuada por Vetílio; milhares de cadáveres cobriam o solo recalcado, e o cônsul pensava já em aniquilar toda essa multidão lusitana que ainda resistia. O sol declinava; prestes viria a noite, e era de força que o triunfo de Roma ficasse definitivo. Os Lusitanos sem esperança, sentiam-se cansados; a fome e a sede alucinava-os até ao desespero, e cercados no vale em que tinham sido surpreendidos, só viam um único refúgio para escaparem ao inevitável destroço - renderem-se! Dentre o campo dos Lusitanos foram enviados a Vetílio quatro emissários, levando erguidos ao alto ramos de oliveira. O cônsul consentiu que chegassem à sua presença, e que apresentassem a mensagem; um deles por nome Diálcon, falou: 

-- Vimos aqui pedir a suspensão do combate, e a paz, rendendo-nos em massa ao Poder de Roma! O cônsul mandou suspender as hostilidades; e perguntou com dureza aos emissários: - Quem responde pela revolta contra a soberania de Roma? - Nós todos, perdendo o direito de Povos livres; mas conservando somente a liberdade individual de cada lusitano. - É muito! - retorquiu-lhes o cônsul. - Se não quereis matar-nos, passando tudo à espada, só poderemos aceitar a vida com a liberdade individual que pedimos. E é isso bem pouco, diante do Poder de Roma; porque de hoje em diante podereis mandar-nos habitar o território que à grande e generosa Roma lhe aprouver conceder-nos. Aí em campos de concentração, nos conservaremos quietos e submissos no cumprimento de todas as imposições. 

Parecia mais que falava um traidor do que um vencido; mas o escalavro das forças lusitanas era estupendo e tudo justificava. O cônsul Vetílio, velho e astuto, determinou que os emissários se retirassem, voltando na madrugada para assinarem o pacto da rendição e submissão perpétua, incondicional e peremptória, vindo acompanhados de reféns nobres, que pela sua vida ficariam responsáveis pela tranquilidade das tribos lusas. No resto da noite, Caio Vetílio ficou pensando nas consequências da sua incomparável vitória, no prestígio que teria em Roma, no imposto de guerra que cobraria das populações subjugadas, dos escravos que o acompanhariam na entrada triunfal na Cidade do Tibre! Os sonhos acordados são mais belos do que os que se tem dormindo, mas não são menos falaciosos. <numpag 22

VIII 

Noite cerrada, quando os emissários chegaram ao acampamento lusitano. Eram esperados com trépida ansiedade. Traziam alçados os galhos de oliveira, denunciando de longe a concessão do armistício e no seguinte dia o assentamento da paz. Extenuadas de fadiga e famintas, as hostes ouviram sem espanto as condições prévias impostas pelo cônsul Vetílio. Naquela angústia desesperada apagavam-se as energias morais, e eralhes mesmo indiferente que a Lusitânia fosse livre ou escrava. E considerando a situação, trezentos lusitanos para três mil romanos patenteavam uma desproporcional desigualdade, que seria rematada loucura defrontarem-se as forças. 

Quando os emissários acentuar as palavras de Vetílio - submissão perpétua e incondicional, com garantia de reféns para a efectividade do pacto - ouviu-se um rugido, como de uma fera que se vê subitamente presa. Esse rugido não articulado, que nem mesmo era imprecação, infundiu uma emoção terrífica e desconhecida. Olharam todos em volta da gente que se atropelava junto ao Conselho armado, e viram um homem bastante novo, de menos de trinta anos, de estatura mediana, delgado, mas robusto e de aspecto decidido. Fez-se um silêncio inesperado, involuntário, porque aquele ímpeto de cólera fizera suspender qualquer resolução repentina e fatalmente covarde. O vulto pareceu crescer com a grandeza da comoção, e aproveitando o momento único, falou: 

- Para ser escravo de Roma não são precisos tratados, nem reféns. Tudo isso é ludíbrio. Todos nós sabemos como a grande e generosa Roma cumpre os seus tratados. Seremos nós tão estúpidos e indignos, que ainda depois da inolvidável traição de Sérvio Galba, e da sua impunidade, confiemos numa potência, que, não falando já das riquezas, nos rouba a nossa liberdade? E esse cônsul, que está em campo aberto, com as suas legiões contra nós, que outro intuito tem senão a pressão da desmembrada Lusitânia, e o ânimo exclusivo da rapinagem? Bem pouco tempo há decorrido sobre o estupendo morticínio, e já parece que ninguém aqui se lembra do juramento feito sobre os despojos dos clamorosos trucidados. O verbo do juramento foi - Vencer ou morrer! - Eu ainda não perdi a esperança de vencermos... 

Um rumor irrepreensível cortou a frase do moço, que suscitara latentes energias. 

Ele continuou em um tom firme e de crença comunicativa: 

- Que loucura o confiar na fé dos Romanos! A trégua que nos concedem até amanhã é um torpe embuste; o cônsul pançudo finge que nos outorga uma paz generosa, simula a assinatura de um pacto para conseguir por esse meio capcioso a entrega das armas pela nossa parte, em seguida, como é de uso, extermina-nos em massa, porque não quererá ser menos do que Sérvio Sulpício Galba. Tal é a sorte miseranda que vos espera a todos, se... 

Diante desta suspensão intencional e sugestiva, muitas vozes soltas dentre os grupos o interromperam: 

-- Que fazer? que fazer? 

-- Resistir! -- exclamou prontamente o moço, confiado e sorridente: - Nada está perdido. Poderemos salvar-nos, e até mesmo... 

-- Fala! Fala! Dize o que temos a fazer. 

-- Obedecer-me. 

Ao ouvirem esta frase incisiva e simples, mas com uma vibração sobre-humana, que denunciava uma absoluta confiança em si, entreolharam-se todos abalados, hesitantes, como que interrogando, quem era e donde viera aquele homem audacioso. Ele prosseguiu: <numpag 23>

-- Compreendo a vossa desconfiança; não me conheceis de figura, nem mesmo esta estatura meã e magra se vos impõe, como faria qualquer colosso. Mas, quem aqui se recordar do nome de Ouriato, daquele pastor que conseguiu escapar da carnificina de Galba; daquele que sabe o segredo de dar morte instantânea aos elefantes africanos; daquele que andou de cidade em cidade proclamando a insurreição, a guerra santa e a vindicta contra o invasor estrangeiro, contra a ocupação dos Romanos, que nos escravizam, reconhecerá que é um homem decidido que vos oferece a salvação e talvez a vitória. 

-- Ouriato! Ouriato! -- prorromperam de todos os lados vozes de aclamação. 

Este nome proferido naquele extremo de um exército prestes a entregar-se reacendeu coragem nos ânimos abatidos; todos esperaram que Ouriato completasse os eu pensamento, dando-lhe em um tácito assentimento a certeza da inteira obediência. O pastor falou: 

-- Desde os mais tenros anos, eu trabalho na deambulação dos gados, que vêm das regiões calmosas para a frescura dos dois Hermínios, e daqui dirigindo-os para os seus bostais na época das invernias. Neste serviço, em que se me tem confiado mais de vinte mil cabeças de gado, e porque soube sempre defendê-lo dos perigos dos barrocais, dos ursos e da pilhagem dos romanos, cheguei a ser maioral, ou chefe de mesta! Bem compreendeis que, embora novo, eu devo conhecer como as palmas de minhas mãos todos os territórios da nossa Lusitânia, os seus montes, os seus vales, covões, algares, cavernas profundas e passagens dos vaus das ribeiras e cachões dos caudalosos rios. É esse conhecimento o que neste momento me dá um poder único e inesperado. 

-- Obedeçamos a Ouriato! -- gritou a multidão entrevendo o plano de uma retirada hábil. -- Obedeçamos-lhe cegamente! 

Ouriato, fitando os principais chefes dos terços, que se tinham aproximado, expôs com simplicidade: 

-- Aqui em frente de nós, passado aquele outeiro, estende-se uma planura vasta, revestida de uma relva fina e variegada como um tapete, que dá vontade de retoiçar sobre ela! Ai de quem deixar aí entrar os rebanhos! Essa planura encantadora chama-se Barrocal fundeiro. Todas as suas ravinas foram niveladas pelas neves do Inverno, e sobre essa face lisa aos primeiros adoçamentos da temperatura, desabrochou com uma pasmosa vivacidade o nardo ou gervum, formando um espesso e cerrado tapete em que as raízes se entrelaçam rijamente! É um gosto deslizar sobre esse vistoso relvado, que exala um perfume estonteante; mas as neves vão-se derretendo por debaixo dele, e infiltrando-se pela terra mole e lodacenta; o tapete de verdura mantém-se então encobrindo todo o Barrocal, conservando uma aparente planura! Gado que ali pise rompe com o seu peso o tecido forte das raízes do gervum, e abisma-se pelas terras moles, donde não é possível arrancá-lo. Pois bem! É para aí que eu conseguirei atrair o exército de Vetílio; há-de ficar como o carrapato na lama. 

O terror converteu-se em alegria, irrompendo uma gargalhada estrepitante. Então levantaram Ouriato sobre os ombros alguns dos companheiros que com ele escaparam da carnificina de Galba; e à luz das fogueiras do arraial, ele fitou as catervas que contemplavam o pastor destemido. Brandindo no ar a foice roçadoira, que sempre o acompanhava, com proferiu: 

-- Eu juro, mais do que pela minha vida, pela liberdade desta nossa Lusitânia, que salvarei o exército, com tanto que me obedeçam, na execução do plano. Disso depende 

o êxito completo. Cavaleiros, peões, fundibulários, todos sem reserva ergueram os braços destros para o ar, como símbolo sacramental, bradando uníssinos: -- Juramos obedecer-te! Até à morte. <numpag 24> 

-- Ouriato é nosso chefe. -- Ouriato manda sobre todos nós; ninguém tem mais poder do que ele. E colocando Ouriato sobre um grande escudo feito de coiro cru, quatro valentes hastários erguendo-o bem alto, levaram-no em redor do acampamento em uma marcha solene, parando de vez em quando para gritarem: -- Ouriato é o nosso chefe! -- Ouriato manda sobre nós todos. -- Obedeçamos-lhe até à morte. À maneira que o nome de Ouriato ia ressoando na calada da noite, também na reminiscência da soldadesca se acordava a vaga relação com o nome glorioso de um valente lusitano, que em tempos não remotos acompanhando Aníbal, fora combater os romanos até à própria Itália. Esse ainda lembrado VIRIATO, que nos eu ódio contra Roma transpusera os Pirenéus e os Alpes, dizem que morrera na batalha de Canas; mas os eu ódio não morreu, é redivivo. E porventura não será Viriato o que agora reaparece na figura do maioral da mesta, do valente Ouriato? Como ele, é um salvador que ressurge, um vingador da liberdade da Lusitânia? 

Este prestígio espalhou-se entre a soldadesca, influindo por modo absoluto na confiança do comando de Ouriato. E desde aquele momento os dois nomes identificaram-se, como sintetizando a missão do guerreiro que votava a sua vida à defesa da Lusitânia livre de todo o jugo estrangeiro. Enquanto levavam o novo general em triunfo e as aclamações repercutiam por todo ao acampamento lusitano, os chefes depostos conformaram-se pela necessidade da situação desesperada a tudo cumprirem. Acercaram-se do novo chefe para receberem as particularidades do plano da cilada sob a forma aparente de retirada urgentíssima, logo ao primeiro alvor. Todas estas disposições foram organizadas aproveitando o costume dos generais romanos de suspenderem a marcha durante a noite. 

As coortes lusas, enquanto aguardavam o momento de se moverem, cantavam coreadamente: 

ACLAMAÇÃO DE VIRIATO 

<poesia>
Há setenta e dois anos 
Que falta aos Lusitanos 
Um braço que os defenda 
Da escravidão horrenda! 

Rumor incerto espalha, 
Que morreu na batalha 
Que se travou em Canas 
Contra as legiões romanas. 

É rumor não exacto; 
Não morreu Viriato! 
Porque o ódio não morre, 
E esse ódio nos socorre. 

Rejuvenesceu hoje! 
Viriato nos arroje 
À implacável guerra <numpag 25>
Por esta livre Terra. 

Salvador desejado, 
Não debalde esperado, 
Vencerão seus tiranos 
Por ti os Lusitanos. 
</poesia>

IX 

Aclamado chefe supremo, aceitou Ouriato desde esse momento o título de Viriato, que já não era um nome mas uma prestigiosa invocação, um grito de guerra, que dava confiança e energia às almas. O que Viriato assentou no Conselho armado com os chefes dos terços e catervas, de essedários e trimarquísios, sobre o seu plano estratégico, patenteou-se daí a poucas horas nos pavorosos efeitos. 

Rompia a madrugada. Vetílio, em seu acampamento, esperava os emissários lusitanos para efectuar a rendição e a deposição das armas. Alvorecia-lhe um dia de glória: firmava de um modo estável o domínio de Roma há Hispânia Ulterior, e antegostava a entrada triunfal na Cidade eterna, ladeado de despojos riquíssimos e prisioneiros. O sol erguia-se e Vetílio, estranhando a demora, entendeu tirar partido do caso inopinado, que justificaria todas as suas atrocidades que ordenasse contra as tropas que na véspera lhe tinham mandado pedir paz à custa da liberdade. Ordenou logo o formar exército consular em ácies, ao qual passou a senha irrevogável: 

-- Sem tréguas, nem quartel. O exército romano começou a mover-se e a avançar, e apouco tempo de marcha Vetílio viu negrejar fronteiros e estendidos um esquadrão de Cavaleiros lusitanos, dispostos em ordem de batalha, e firmes, sobre o terreno como se esperassem o assalto. O cônsul olhou desdenhoso para o inimigo; não passariam de mil os Cavaleiros que permaneciam impávidos, como a vedar-lhe o horizonte. 

-- Sem chefes, para que lhes serve a resistência? A vitória é minha. E em seguida Vetílio deu ordem para que seguissem sempre para a frente as quatro legiões do exército consular, abrindo caminho a Cavalaria, começando a batalha por uma carga contra a linha fronteira dos lusitanos. 

Viriato, montado em um cavalo branco, deixou aproximar até bem perto a Cavalaria romana, que vinha à desfilada; e a um sinal dado a linha cerrada dos seus mil cavaleiros dividiu-se em duas, debandando cada fragmento para seu lado, com uma rapidez de quem sabe trilhar por combros e ribanceiras. Notou Vetílio o facto com surpresa, vendo desaparecer escoteiramente os dois troços dos mil Cavaleiros, como se dispersam os bandos de estorninhos ou de pardais, cada qual como melhor e mais ligeiramente podia. Não teve tempo para reconhecer se aquilo seria covardia ou estratégia, porque pela fuga repentina dos Cavaleiros descobriu diante de si uma extensa e larga planura arrelvada, de uma verdura aveludada, e além no estremo dela o exército lusitano fazendo evoluções para dispor-se em ordem de batalha. Pareceu a Vetílio que os mil Cavaleiros lhe fechavam o horizonte, para não serem bem conhecidas as forças lusitanas, ou para lhes dar tempo a escolherem um local em que melhor se defendessem; e sem pensar em dar caça aos fugitivos, deixou a Cavalaria seguir no seu ímpeto, e após ela as coortes das legiões, que em carreira vertiginosa avançaram por sobre a verde planura, com o fito em esmagar por uma valente carga a infanteria lusa. 

As tropas que seguiam mais atrás dos triários, os rorários, os accensi, os ferentários, estacaram horrorizadas, quando viram pela planura verde e extensa enterrarem-se os Cavaleiros, desaparecendo debaixo deles os cavalos, outros sumindo- se completamente, e os manípulos dos hastatos chafurdarem nos lodos que esguichavam do tapete da relva formosíssima! Caso nunca apontado nos anais militares de Roma. Ninguém conhecia um tão extraordinário fenómeno de terreno. A planura fora feita pelas neves do Inverno, enchendo os medonhos barrocais; a superfície lisa era revestida pelas relvas espontâneas do gervum, cujas raízes entrelaçando-se resistentemente formavam uma crosta que simulava um solo que tremia, e sobre a qual podia passar sem <numpag 27> perigo de romper-se um viandante. Foi isso o que enganou Vetílio: porque alguns guerrilheiros lusitanos corriam sobre certos pontos da patameira. Viriato, conhecedor de todos aqueles acidentes do território, calculara bem, e fora melhor coadjuvado. Uma grande parte do exército romano estava anulada ou perdida, atolada nas terras moles, e nos barrancos ocultos debaixo da capa traiçoeira da verdura do gervum. A temerosa desgraça que ameaçara as tribos insurrectas invertera-se agora, tornando irremediável a derrota das legiões consulares. 

O exército lusitano, prosseguindo no cumprimento do plano estratégico de Viriato, dirigiu-se para Tríbola. Pelo menos toda a cavaleria ligeira dos romanos ficou atolada nas lamas, e com ela a infanteria composta de besteiros ibéricos, germanos, gregos e asiáticos; e mesmo alguns centúrios e tribunos do comando das legiões. Uma tremenda desgraça, impossível de prever, e por ser caso único e excepcional, tanto mais inevitável até para um homem experimentado e cauto como Vetílio. 

Pela retaguarda do exército consular reapareceram os mil cavaleiros, soldúrios de Viriato, que tinham jurado acompanhá-lo sempre em todos os transes, e que entendiam as suas ordens pelos silvos de uma buzina, como se usava na deambulação da Mesta. Viriato reconheceu pela obesidade o cônsul Caio Vetílio, e ele mesmo por sua mão o arrancou dos lamaçais em que tinha preso o cavalo: 

-- Não me serves para escravo; és velho e pançudo. Ninguém dará por ti um sestércio. 

E tocando-lhe com a foice roçadoira no ombro, continuou Viriato: 

-- Não te matarei, sem que te defendas. 

Vetílio fitou atónito aquele homem magro e enxuto de carnes, e vendo que tudo para si estava acabado, atirou com a sua espada ao chão, renunciando como caricata a qualquer tentativa de defesa. Um dos soldúrios de Viriato atravessou o cônsul com um dardo de lado a lado; mas em Roma referia-se que Vetílio morrera sim, mas às mãos do próprio Viriato. 

O exército consular, reconhecendo-se sem chefe, abandonou o campo e tratou de pôr-se a salvo. Em marchas forçadas, os seis mil legionários que escaparam dirigiam-se para uma cidade do litoral chamada Carpesso, na região da Tartéssida. O questor pretorial tratou de organizar-lhe a defesa, fazendo em roda da cidade fossos e trincheiras da terra revolvida, com receio do assalto do destemido cabecilha lusitano às arcas do tesouro, às bagagens, auxiliares e cavalos de remonta, que por iram no couce do exército não se encravaram na patameira. <numpag 28>

X 

Depois deste feito, em que o exército lusitano se viu salvo pela astúcia e coragem de Viriato, a confiança nos eu comando centuplicou-lhe as forças, seguro de que ele o conduzirá à vitória, e só ele saberá sustentar a independência da Lusitânia. Uma cousa veio acordar o ressurgimento do acabrunhado povo, o ímpeto que suscitava esta incomparável vitória da astúcia sobre a força bruta. 

Quando Vetílio foi agarrado por Viriato, os lictores que acompanhavam o cônsul com os feixes de varas peculiares da dignidade curul entregaram-nas ao vencedor, como uma transferência do poder supremo. O cabecilha mandou desamarrar os feixes de varas e distribuiu-as pelos seus soldúrios, aos de maior confiança dentre os mil cavaleiros que se lhe devotaram: 

-- Cada um de vós irá por todos os castros, citânias e Hermínios cravar no chão a vara do lictor que eu entrego na fé celtibérica. Essa vara é o símbolo da guerra acesa e contínua; onde ela se hasteia, chama os povos às armas e exige socorro aos que combatem. Tal é o poder da antiga tradição da nossa raça. E se a lança fincada no chão podia mais do que um grito de guerra, a vara do lictor arrancada ao poder do cônsul romano há-de alevantar todas as nossas tribos unindo-as numa só vontade, para repelirem o invasor do seu território. 

Cem soldúrios partiram logo com as varas distribuídas dos feixes dos lictores e foram cravá-las nos Hermínios e montes povoados, como um anúncio da inesperada vitória, e de que a guerra contra os Romanos seria agora incessante. Foi assim a notícia levada muito longe, e de longe vieram novos troços e víveres, para reforçarem e abastecerem os guerreiros lusitanos. 

Ditálcon, um dos três companheiros que andam junto de Viriato, lembrou ao cabecilha um sacrifício de cavalos e prisioneiros ao deus Neton. Viriato, com a sensatez que era uma das suas forças, volveu-lhe secamente: 

-- Não há tempo a perder; nem um inimigo como o romano se combate com festanças. 

Ditálcon calou-se ao repelão do espírito prático do chefe. <numpag 29>

XI 

Em Roma tratava-se de organizar à pressa uma nova expedição à Lusitânia, para castigar os bárbaros que assim anulavam o prestígio das suas armas. Já apontavam como general o destemido Caio Plâncio. Recrutou-se à pressa cavaleiros e infantes, dos mais válidos e experimentados das campanhas na África. 

No entanto reina um vago terror; em Carpesso está fechado o resto do exército destroçado de Vetílio. Se o questor pretorial terá sabido manter o comando e salvá-lo da audácia de Viriato, nada se sabe em Roma. 

É certo que o questor pretorial procedeu com tino, exigindo dos povos aliados de Roma a contribuição de homens de armas, para reforçar o exército romano e fazer frente ao cabecilha. Conhecia os ódios instintivos que havia entre os Iberos e os Lusitanos e, aproveitando essa antinomia, mandou emissários às cidades celtibéricas dos Titos e dos Belos, para que, pelo dever da aliança, lhe enviassem um reforço de cinco mil homens, e sem perda de tempo. O caso urgia-o, porque Viriato, obedecendo ao inveterado ódio, que tornava irreconciliáveis as duas raças, em vez de pôr assédio a Carpesso, estendeu- se em correrias pela região da Carpetânia, habitada pelos mais poderosos e ricos dos povos celtibéricos. 

Toda essa região fertilizada pelas nascentes do Tagus e do Anas estava já em poder do caudilho lusitano; e quase sem combate ocupou a cidade de Toletum, a opulenta capital, em que assentou o seu quartel e governo. A cidade, reconhecendo o heroísmo com que evitara o morticínio dos seus habitantes e a rapina da soldadesca, celebrou festas públicas, de jogos gímnicos, danças e cantares. 

Prolongavam-se os festejos na cidade, quando vieram dizer a Viriato que não longe passavam tropas, vindas dos lados do Ebro, que se dirigiam para o sul da Bética. O general compreendeu logo: 

-- Do lado do Ebro? É gente que vem das faldas do monte Idobeda. São celtiberos, aliados dos Romanos. 

Deu ordem a Tântalo que fosse fazer um reconhecimento; e no entretanto organizou as suas forças para ir-lhes ao encontro. 

Eram efectivamente soldúrios e ambactes das povoações celtibéricas dos Titos e dos Belos; foram reconhecidos pelos seus trajos, de safões ou anaxírides, e apertados com cintos, que prendiam em volta do corpo os sagos, tingidos com a cor roxa com que Roma veio a distinguir os seus escravos. Marchavam descuidados pisando as planuras da Carpetânia, seguros de que transpunham um território amigo, do mesmo sangue celtibérico. No seu reconhecimento, Tântalo não fora visto, e por isso, sabendo Viriato que esses aliados dos Romanos pouco passariam de cinco mil combatentes, saiu-lhes ao encontro com uma presteza inaudita, surpreendendo-os em um matagal de zimbro e giestas, em que os cercou lançando o fogo em redor e matando à espada todos os que intentavam romper o cerco. Não escapou um só desses aliados de Roma; e como não houve quem levasse a Carpesso a desastrosa notícia da matança, o questor mais angustiado se viu com a tardança dos socorros, acreditando que os Titos e os Belos se teriam revoltado a favor de Viriato. 

O fogo da vastíssima queimada destruíra todos aqueles cadáveres; Viriato, aproveitando a mobilização dos seus guerrilheiros, e para se precaver contra a nova campanha que Roma estava organizando, dirigiu-se para o país dos Vetões, que confinavam ao sul dos povos lusitanos, para confederá-los na defesa da sua autonomia contra o invasor estrangeiro. Compreenderam o perigo e celebraram o pacto de aliança defensiva. Desse país montanhoso dirigiu-se para o território dos Vaceus, que o Durius <numpag 30> atravessa. Já pela sua capital Palância, pelas cidades de Cauca, Septimanca e Rauda corria uma voz misteriosa, em que o povo acreditava, que se levantaria um filho de Lusónia para recuperar a liberdade da terra invadida e roubada pelos Romanos. Contava-se que o maravilhoso herói aparecia nas batalhas montado em um cavalo branco, e que a vitória era sempre sua. Viriato convocou os homens bons das cidades, narrou-lhes a derrota do exército do cônsul Vetílio e como o sangue dos Lusitanos da infame traição de Galba fora duramente vingado; contou-lhes como assentara o seu arraial em Toletum, e como aniquilara os cinco mil soldúrios que os Titos e os Belos mandavam a Carpesso socorrer o exército romano, que ali se acolhera destroçado. Contava pois com a cooperação dos Vetões e dos Vaceus para a grande empresa de repelir do solo da Pátria o sangrento e espoliador estrangeiro. Catão, o antigo, e Tibério Graco bateram as tribos celtibéricas, e Sérvio Galba mentiu à fé dos Lusitanos, porque na Península não aparecera até então um general que pudesse dar coesão a tantas forças dispersas. 

Viriato foi compreendido e jurada a aliança defensiva, marcando os Vetões e os Vaceus o prazo irrevogável em que apresentariam os suas forças em Toletum. <numpag 31>

XII 

Lembrado da sua vida de pastor, quando na deambulação dos gados do sul para norte, fugindo às calmas, Viriato dirigia a mesta e sabia os recessos onde defendê-los, ocorreu-lhe à memória um campo entrincheirado em uma extensa planície em que corre o rio Pavia, formado de terra recalcada, resistente e quase petrificada. Quantas vezes nesse asilo formado pelas gerações passadas, aí estiveram seguros milhares de rebanhos e manadas, quando algum perigo se arreceava! O cabecilha quis ver outras vez esse vasto recinto de fortes muros de adobe, considerando que na luta em que se achava empenhada a sorte da Lusitânia, porventura lhe seria necessário conhecer os seus recursos estratégicos. Conhecedor de todas as veredas e atalhos, fácil lhe foi encurtar distâncias, e em poucos dias de jornada, ele e os tais companheiros chegaram ao vale do Pavia, fechado na sua vastidão por pinheirais cerrados de um verde escuro que contrastava com a claridade do horizonte. De longe ainda avistaram a vasta chã, contornada pelas muralhas de terra em forma de um polígono octogonal irregular, e uma altura de setenta e cinco palmos nos seus muros e aterros. Eram oito muros, tendo para mais de cento e quarenta palmos de espessura, fechando um circuito de mais de três a quatro mil passos; um largo fosso o circunvalava exteriormente. 

Ao avançar para a grande muralha daquela fortaleza de terra, Viriato parecia cada vez mais pensativo; um plano estratégico lhe fulgurou a mente: 

-- Ah!, que se eu conseguisse encurralar no Poço da Cava um general romano com os seus legionários todos, eu lhe converteria o reduto defensivo em ratoeira! 

E descendo das alturas da Esculca por um declive suave, entrou Viriato na grandiosa Cava, que era como um enorme circo, dez vezes maior que o de Roma. Aí, no ângulo das duas faces do quadrante noroeste via-se um pequeno charco de água nascente, que se tornava em uma lagoa com as águas das invernias. Os gados e pastores ali bebiam e se banhavam, pelas fortes calmas; era uma vantagem inapreciável, sempre aproveitada pelos homens da mesta. Cabia uma cidade dentro dessas muralhas. 

Viriato esteve considerando por longo tempo este fundo do vale, regado por duas ribeiras, abrigado por montes e colinas de um pendor brando. 

-- Quantas vezes do cimo da Esculca vigiei, olhando para longe, na defesa dos rebanhos. Como esta Cava, conheço uma outra da mesma configuração aonde me acolhi muitas vezes. Não está aqui ninguém que me tenha acompanhado na transumação dos gados e recolhido na Cava da Beira, quem vem de Belmonte ao Fundão, por entre essas serras dos Hermínios e da Gardunha! Nada fica a dever a esta; mas como refúgio desesperado nada há que iguale a Cava da Beira, um circunvalo inexpugnável! Pode-se aí dormir no chão, tendo as estrelas do céu por cobertor; lá o sono é mais agradável que sobre as fofas lãs da Salácia. 

Contando com a presteza das armas romanas, Viriato regressou a Toletum para passar revista ao exército engrandecido pelos contingentes dos novos aliados, e marchar em seguida para a Carpetânia; era para aí que lhe convinha atrair o general romano. <numpag 32>

XIII 

As varas consulares espalhadas por todas as tribos, gentes e federações da Hispânia Ulterior, anunciando a vitória sobre Caio Vetílio, e a necessidade de sustentar a guerra contra os Romanos, produziram um efeito surpreendente em todos os espíritos, sobretudo nos chefes das beetrias, ou cidades confederadas, que até ali se tinham conservado indiferentes nos seus castelos roqueiros, sem confiança no levantamento do povo, por falta de um comandante prestigioso. E conquanto esses chefes das várias contrébias se entregavam à caça do javali ou do urso, em lutas de mútuas rivalidades, ou se banqueteavam opulentamente, os pretores romanos iam estendendo a rede das estradas militares, conquistando ou destruindo cidades, e firmando o seu poder inabalável. As varas dos lictores espetadas por todos os montes e pequenos hermínios, acordaram o sentimento vivo da independência nacional. 

As tribos lusitanas tinham estabelecido as suas cidades, vilares e casais em volta de diversas montanhas, que eram como o centro da área de defesa, e o refúgio nos assaltos da guerra inimiga. Essas montanhas eram cercadas de muralhas formadas por grandiosos blocos graníticos e escavadas em fundos subterrâneos, em que se depositavam cereais e comestíveis, e com cisternas para guardar as águas pluviais, tendo além disso um escadório interior e reservado que dava escápula a grande distância, em geral à beira de um rio, para o caso de ser tomada a fortaleza. Ali é que residia o presidente ou chefe das tribos que viviam em volta do castro; e, pela contagem de todas as famílias, formavam uma população de mais de dez mil indivíduos. Era a essa conjunto que se dava o nome de contrébia; os seus chefes ou regedores eram designados como régulos e duces pelos Romanos, que comparavam estes agrupamentos lusitanos com as frestrias gregas. Como não havia ordem de sucessão neste poder presidencial, resultavam conflitos e rixas, que se mantinham por ódios de famílias, e até de tribos que se hostilizavam, aproveitando do enfraquecimento destas dissidências o invasor romano. 

Agora parecia que uma inteligência da missão dos castelãos se revelara subitamente com o conhecimento da derrota de Vetílio; e as tribos, suscitadas pela vista das varas dos lictores, reclamavam que saíssem da inacção; que prestassem o seu apoio ao extraordinário cabecilha, o vingador da matança de Galba. Constava que Viriato, depois da sua vitória, se recolhera à cidade de Toletum, preparando-se para novo combate ao pretor que em breve chegaria de Roma com aguerrido exército; resolveram todos esses chefes dirigirem-se a Toletum, levando ao pescoço os seus colares de ouro, como a insígnia do poder senhorial; os seus braceletes e lanças de prata com que presidiam aos sacrifícios, e ao tribunal em que arbitravam sentenças sobre a vida e bens dos seus clientes ou ambactes. Partiram de todos os principais cantões da Lusitânia esses chefes acompanhados dos seus soldúrios, ou guarda-costas valentões, para conhecerem Viriato e lhe falarem deliberadamente sobre a defesa e independência do território pátrio. 

Quando chegaram a Toletum, ainda Viriato estava ausente, em uma exploração do território em que uma grandiosa cava se prestava a imprevistos planos estratégicos, a que em futuro próximo teria de recorrer. Mas esses optimates cantonais foram encontrar na cidade a que se acolhera o exército um grupo de homens, a que davam o nome honorífico de anciãos, EN, e cuja palavra era inspirada e eloquente, por isso nas velhas línguas britónicas se exprimia por D-eirim. O povo, pelo costume antigo, chamava Endre a cada um desses homens, a quem acatavam como depositários de um maravilhoso poder espiritual. E de facto os Endres eram propriamente os antigos dos tribos, os que conservavam a norma e sentido moral ou histórico dos costumes; não <numpag 33> formavam um corpo sacerdotal, nem mantinham a estabilidade de qualquer dogma teológico, mas possuíam um saber do passado que os tornava oráculos vivos, conselheiros em todos os momentos arriscados, e conciliadores nas lutas intestinas e separatistas das várias tribos. Os Endres eram queridos do povo; despidos de toda a hipocrisia de classe e de ódios doutrinários dos sacerdócios, mofavam com o seu bom senso dos ritos e dogmas dos Druídas das Gálias, que eles desprezavam como macaqueadores das normas cultuais da religião oriental dos Mobeds de Mitra, que se propagava pelos Europa. O carácter e ascendente moral dos Endres estabelecia-se espontaneamente, quando o povo reconhecia em um ancião das tribos o bom conselho, o saber prático da vida, e o conhecimento das tradições do passado: era então considerado como único e como inspirado. Apontavam-se na Lusitânia numerosos Endres, venerandos pela sua idade e saber: uns conservavam de memória as runas, ou propriamente as tradições locais e da raça, e tendo na mão o ramo da azinheira coberto de l'andras, presidiam ao sorteio anual das terras, evitando prudencialmente todos os conflitos; outros sabiam as sagas, ou narrativas históricas, as Aravengas, que recitavam nos banquetes dos regedores cantonais e nas festas consagradas a perpetuar sucessos memoráveis das tribos; outros conheciam as sentenças da moral gnómica, Singvan, os aforismos ou ditados, que exercem justa autoridade nas resoluções da vida, porque condensam em breves frases, às vezes em um só verso, a experiência de séculos; outros interpretavam o sentido dos velhos símbolos, resolviam os mais intrincados enigmas e penetravam a matéria numérica dos quadros mágicos. Dentre todos esses Endres destacava-se um, pelo saber maravilhoso reunido em sua mente incomparável; conhecia as mais vetustas tradições da terra da Lusitânia, quando ela ainda se estendia até à falda ocidental dos Pirenéus, as terras de Lez, que as convulsões do tempo foram tornando cada vez mais ribeirinhas; só ele recitava poemas de mais de seis mil anos de antiguidade; conhecia as cavernas e arcas cavadas nas rochas em que estavam ocultos tesouros; e, o que mais assombrava, tinha o segredo da leitura dos quadros mágicos e dos bastões rúnicos, que lhe davam uma fé inabalável na independência e missão vindoura da Lusitânia. Esse Endre chamava-se Idevor, e quando passava pelos povoados saudavam-no com o título de Sanctum Anderu, e davam-lhe coroas feitas de ramos de azinheira. Pela sua paixão pelas antiguidades e liberdade da Lusitânia se justifica o regozijo que em seu espírito provocou o aparecimento de Viriato! Como a derrota por ele infligida ao cônsul Vetílio o encheu de fervorosas esperanças! Idevor apresentou-se em Toletum com Endres de várias terras, e pelas conversas que entre si tiveram, fácil lhes foi apurarem um conhecimento completo da personalidade do pastor Ouriato, que o povo aclamava agora pelo título de Viriato. E vendo a chegada dos chefes das contrébias, resolveram ir ao encontro deles e dirigi-los no intuito de prestarem todo o auxílio a destemido cabecilha. <numpag 34>

XIV 

Toletum estava em festa, pela presença desses homens ornados de colares de ouro e braceletes, e acompanhados de numerosos séquitos de soldúrios e ambactes. O pequeno grupo dos Endres, levando à sua frente o venerando Idevor, saiu a saudá-los à entrada da cidade, e juntos todos foram tomar a refeição ou consoada e libar grandes covilhetes de cerveja. À mesa um dos castelões, Leucon, chefe de tribos celtibéricas, lançou a frase: 

-- Dizem que Viriato, o vencedor de Vetílio, é um simples pastor da serra, que apascenta gado alheio lá no Hermínio maior, que separa as duas Beiras? 

Idevor percebeu uma vaga intenção de amesquinhar a capacidade militar do vingador dos morticínios de Galba, e, com a clareza de uma consciência pura que de tudo se informara, respondeu: 

-- Eu conheço a vida desse valente pastor, desde o tempo em que o seu nome era simplesmente Ouriato. Quantos aqui possuem gados sabem qual é o valor de um homem a cuja guarda se confiam para mais de vinte mil cabeças de variados rebanhos, que ele tem de defender através das marchas da deambulação, quando são levados das terras secas, sem prados e abrasadas pelas calmas, para as pradarias de serras cheias de barrancos, de ursos e lobos e mesmo de salteadores. Este serviço de gados na sua transumação está organizado na instituição da mesta, que dirige a junção dos gados de todos os proprietários; e neste serviço só chegam a maiorais aqueles moços que revelaram qualidades singulares de inteligência, coragem, ardil, e que pela valentia ou astúcia souberam salvar os rebanhos de perigos ou assaltos repentinos. Ouriato chegou a maioral da mesta em uma idade quase de adolescente; foi nesse serviço violento da deambulação dos gados e responsabilidade de tantos valores que ele provou, além da valentia e disciplina, as qualidades mais intemeratas de carácter. É verdadeiramente um homem: e, pela resistência ao sofrimento e às contrariedades da sorte, é o tipo dos lusitanos. O que insurreccionou a sua alma contra os Romanos foi o ter assistido à mortandade iníqua de trinta mil lusitanos ordenada por Galba, de que escapou maravilhosamente; e hoje o seu poder sobre o exército provém-lhe de o ter salvado da rendição já combinada, e de no barrocal da patameira ter destruído quase metade do exército romano, desmoralizado pela morte do cônsul Vetílio. Este homem é perante o povo uma reaparição desse Viriato que os Romanos chamavam o Príncipe da Lusitânia, e que, indo combatê-los à Itália, sucumbiu na famosa batalha de Canas. Esta auréola maravilhosa é também uma força, e com ela podemos contar, porque Viriato será o libertador da Lusitânia. Temos um general consumado; o povo acode aos eu chamamento, falta só o apoio dos chefes das contrébias. 

A ameaça das represálias romanas fez compreender a todos esses presidentes das cidades federadas que tinham de dar o seu apoio a Viriato como recurso da própria segurança: 

«Que seja entregue a Viriato o colar de ouro como insígnia do poder, e para que lhe obedeçamos como nosso igual.» 

Foi geral o assentimento. Então Idevor, erguendo-se com um majestoso aspecto, disse: 

-- Eu sei onde pára oculta uma víria que atesta essa época em que todos os estados da Lusitânia estavam ainda unidos. É um colar de ouro de três crescentes! Representa a mútua solidariedade de raça, costumes e governo da Galécia, da Bética em volta da Lusónia! Eu só guardava o segredo desse tesouro incomparável, muitas vezes receando que ele se extinguisse com a minha vida! Felizmente que se ergueu um homem que, <numpag 35> pelos seus feitos, os outros julgam digno de receber a víria! O colar dos três crescentes está oculto em uma caverna do Hermínio maior, desde o tempo das invasões da Espanha pelas hordas orientais. Piuca gente terá pisado as veredas que conduzem às cavernas lindíssimas do Cântaro Magro; mas no Covão do Boi, ao sul do Cântaro Raso, existem uma ruínas ou catacumba descoberta, com menhires e potentes monólitos sobrepostos; do fundo da rocha donde se avista o bojo do Covão Magro com o singular aspecto de uma enorme carranca, é aí que está escavada na rocha uma arca ou caixa em que se contém o colar de ouro dos três crescentes. Eu me presto a ir buscá-lo e dentro em poucos dias aqui estarei de volta. 

A revelação de Idevor foi recebida com aclamações de assombro: e os chefes das contrébias, pedindo-lhe que fosse buscar o tesouro da raça, bradaram: 

-- Seja dado a Viriato o colar de ouro dos três crescentes. 

Carros com pipas de cerveja passavam pelas ruas, e tabuleiros com fartes de farinha de bolota à cabeça de moças com arrecadas de ouro nas orelhas e grossas contas de âmbar em volta do pescoço; formava-se o arraial para a entrada de Viriato. <numpag 36>

XV 

A chegada de Idevor a Toletum com a víria dos três crescentes de ouro, de que até então se falara como fábula ou tradição confusa, coincidiu com o regresso de Viriato seguido da numerosa cavalgada dos seus soldúrios que o foram esperar aoc aminho, e dos três companheiros que lhe formavam a trimarquísia, Ditálcon, Andaca e Minouro. Estes três bravos eram do pequeno número dos sobreviventes da mortandade de Galba, e pela tremenda desgraça se achavam ligados ao ágil pastor que matara os dez elefantes africanos, e com ele andaram pelas cidades da Lusitânia insurreccionando os povos contra a devastação de Roma; vinculava-os uma decidida dedicação àquele em quem reconheciam espontaneamente o máximo ascendente moral. Ditálcon era o mais velho, inteligente e reflectido, capaz de desempenhar missões difíceis; Andaca, jovem e fantasioso, mostrava-se repentinamente entusiasta ou desalentado, segundo as pessoas com quem tratava; Minouro tinha algumas qualidades destes dois companheiros; mas predominava nele a solércia, ou antes a falta de franqueza no carácter. A vitória e a aclamação de Viriato ligou-os mais intimamente ao chefe reconhecido, de quem não tinham inveja. Quando eles viram Idevor e o tríplice colar, disseram entre si: 

-- Para o príncipe da Lusitânia. 

Viriato fitou-os com secura e baixou os olhos desdenhoso, com o desgosto de que alguém suspeitasse que combatia por outra ambição que não fosse a liberdade da nossa terra. 

Os chefes das contrébias, avistando Viriato, caminharam ao seu encontro, saudando-o com gritos de alegria e erguendo ao ar as suas lanças de prata, com que presidiam ao sorteio das terras, e à entrega dos gados da sua região aos chefes da mesta, e mesmo aos tribunais à sombra da carvalheira, onde davam as sentenças. E eles próprios, vendo o sábio Idevor junto de Viriato com o colar de ouro na mão, bradaram com entusiasmo: 

-- Lançai-lhe ao pescoço a víria do comando, aqui, agora, antes de entrar na cidade. 

Idevor obedeceu com júbilo e lançou-lhe o colar de ouro. Disse um dos chefes das contrébias: 

-- Agora, dignificado com a víria, é que Ouriato ficará para sempre sendo o nosso Viriato. 

Idevor, que conhecia as mais antigas tradições da raça, acudiu com ar misterioso: 

-- Se procurarmos o sentido místico que se contém no nome de Viriato, vamos encontrar na palavra cítica vrindus, que designa o touro, o totém da nossa antiga raça e civilização dos Lígures, a relação com a valentia do herói e a sua missão religiosa do combate libertador. 

Assim conversando, a brilhante cavalgada entrou em Toletum, dirigindo-se ao terreiro da cidade em que estava erecta a coluna denominada Pilumnos, que simboliza a independência da comuna ou município. Foi aí que, antes de destroçarem, pediram a Idevor para que recitasse a saga ou narrativa tradicional que se dizia existir da víria ou colar de ouro dos três crescentes. 

Idevor não se fez de rogado e começou em uma recitação quase melódica o poema em que era celebrado este símbolo da confederação primitiva dos estados da Lusónia, antes de um invasor oriental ter penetrado na Espanha, explorando-lhes as riquezas e dissolvendo-a pelo espírito separatista com que enfraquecera a raça. Como os aedos de Hélade, diante das tribos dóricas, eólias e aqueanas, Idevor unificava idealmente as tribos lusas recitando o poema de: <numpag 37> 

<poesia>
CRISAOR 

Do Hermínio Maior na imensa altura 
Vê-se o Corgo das Mós, que as nuvens fora, 
Formado por três grupos de rochedos, 
Como irmãos que se apoiam firmes, quedos! 
Sobre o do centro, como em pedestal, 
Bloco estupendo, grandioso assenta; 
De um gigante a cabeça representa, 
De longe contornando no horizonte 
Negro perfil de misteriosa fronte. 

Das convulsões da natureza activa, 
No calor de uma luta primitiva, 
São tais blocos relevos manifestos; 
Mas há quem reconheça nesses restos, 
No bloco e nos três grupos de rochedos, 
Da Lusónia antiquíssimos segredos: 
Governou esta terra um patriarca, 
Téron, desde o norte ao sul a abarca, 
E aos estrangeiros a fronteira fecha. 

 A seus três filhos este Estado deixa: 

-- Se a terra de Lusónia dividida 
For entre vós, por certo enfraquecida 
Fica exposta ao assalto do estrangeiro, 
De África, ou levantino aventureiro. 
Mas se a Lusónia unida se conserva, 
Não entra aqui indómita caterva; 
E grande, desde o Sacro Promontório 
Até ao Mar Cantábrico, este empório 
Que vai dos Pirenéus 'té à vertente, 
Será da Espanha o estado mais potente. -

Do mundo era por toda a redondeza 
Téron, por causa de sem igual riqueza, 
De Crisaor por nome conhecido. 
Pelo peso da idade amortecido, 
Chama os três filhos; vieram reverentes, 
E um áureo colar de três crescentes 
Lhes entregou, no seu momento extremo: 

 -- Dou-vos a insígnia do poder supremo.
Os três crescentes deste áureo colar, 
Pela crença da religião lunar, 
As três fases da Lua simboliza. 
São a Lusónia íntegra, indivisa, 
Abrangendo a Tartéssia virente, <numpag 38>
Tarracónia e Galécia, a mesma gente! 
Ah, se partirdes este colar de ouro, 
Cai a soberania... escuro agouro. 

E receando o temeroso evento, 
O velho Crisaor exala o alento. 

Deram os três irmãos ao pai amado 
Nas cavernas do Cântaro Delgado 
Sepultura em pirâmides alpinas, 
Que têm o aspecto de um castelo em ruínas. 
Ante o cadáver, na alta sepultura, 
Entre si, cada um dos irmãos jura 
Não partir o colar dos três crescentes, 
Mantendo unidas as lusónias gentes. 
Em catacumba do Covão do Boi 
O colar de ouro escondido foi, 
Fixando, do local para lembrança, 
Aquele donde a vista longe alcança 
Sobre o Cântaro Magro ingente bojo 
Que de bruta carranca tem o antojo. 

Resguardado na arca de um fraguedo, 
Os três irmãos em mútuo segredo 
Conservam da Lusónia, ora indivisa, 
Do poder soberano essa divisa. 
Há entre os três irmãos tanta harmonia, 
Que, sentindo o que cada um sentia, 
Ou unidos no mesmo pensamento, 
Realizam o acordo em um momento, 
Um longe, na Galécia laboriosa, 
Outro aquém na Tartéssia formosa, 
Ou já na Tarracónia grande e forte. 

Quanta prosperidade desta sorte 
De Lusónia engrandece os três Estados, 
Rica de bens, dinheiros e de gados! 
Mas a faina do mar fora esquecida, 
Trocada pelas da agrícola vida! 
Ah! daqui a catástrofe resulta, 
Que a liberdade lusa atroz sepulta. 

Quantos povos invejam com insânia 
Os viçosos jardins da Bastitânia, 
E vêm pelos cantares dos Homérides 
Buscar o Elísio e os Jardins Hispérides, 
Crendo encontrar aqui o Velocino, 
Que reconhecem ser gado bovino! 
Aventureiros lá do mundo asiano, 
Arribaram ao porto gaditano, <numpag 39>

Afrontando do pélago o terror, 
Para roubar o gado a Crisaor! 
Héracles forte, o tírio, vinha à frente, 
Doesta os três irmãos, soberbamente, 
Para um combate a corpo, singular. 
Terrível o recontro, atroz o azar! 
Caiu dos três irmãos o irmão mais velho, 
Héracles o esmaga sob o joelho! 
E a mesma dor, que a vida lhe arrebata 
Aos outros dois irmãos é a que os mata. 

Desde então a Lusónia sem comando 
Viu-se roubada de estrangeiro bando, 
Que a invade, a devasta e a governa, 
Perdida a ideia da união fraterna! 
A aspiração moral ficou intacta! 
Do colar de ouro nunca se desata 
Nenhum dos três magníficos crescentes; 
E à espera de outra era e novas gentes, 
Aguarda, ao fim do secular destroço, 
Um bravo e audaz a quem cinja o pescoço. 
</poesia>

O sábio Idevor, dominado por uma comoção profunda, interrompeu a recitação do poema de Crisaor, que segundo a tradição contava milhares de anos de vetustidade; e de facto os sucessos referidos narravam as primeiras invasões no território hispânico, que antecederam todos os documentos ou monumentos da história. 

Os chefes das cidades confederadas aplaudiram com os seus renchilidos e vivas o recitador, o endre sapiente; o velho, mostrando o colar de ouro dos três crescentes, avançou para junto de Viriato e, depois de fazer uma vénia solene, lançou-lhe ao pescoço a víria da tríplice soberania. <numpag 40>

XVI 

Enquanto os cavaleiros decorados de colares de ouro de um só crescente rodeavam o novo caudilho lusitano, começou a ajuntar-se muito povo pelo emprenho de admirarem de perto o vingador, aquele que soubera infligir a formidanda derrota ao exército consular. E naturalmente aos gritos com que se saudavam as várias regiões autónomas: -- Viva a Galécia! Viva a Tartéssida! -- começavam-se a organizar danças peculiares dos montanhões e dos ribeirinhos, vistosas e com carácter guerreiro, outras surpreendentes pela agilidade dos pés e dos saltos, com um sapateado rítmico, ululando frases que tornavam mais delirante o entusiasmo. A dança mais querida era a propriamente armada, formando uma grande roda ou círculo girando ora sobre a direita, ora sobre a esquerda, por homens de mãos dados, mas tendo cada um a lança, da qual lhe provinha o nome de paloteu ou paulitos, ora avançando e já recuando ao compasso do canto de um coro gigantesco, terminando no cabo de todos os passos por um simulacro de batalha. 

No fim do animado paloteu, apareceu um grupo de mocetonas gaditanas, formosas e desenvoltas, com braceletes ricos e armilhas nos braços e pernas, dançando à moda da Tartéssida, e com seus adufes, dando-lhe um aspecto religioso orgiástico, estonteante. Os Romanos, que vieram à Espanha Ulterior, sentiram-se fascinados por estas danças das soalhas ou castanholas metálicas e memoraram em seus livros a Betica crusmata e a Tartessiaca aera, que tanto iria enlouquecer a mocidade dourada da cidade eterna. Prosseguindo na sua dança, foram as bailadeiras béticas aproximando-se do grupo em que estava Viriato, dirigindo-lhe em coro em forma de corranda: 

<poesia>
A CANÇÃO DA VÍRIA 

Onde há fontes de água pura, 
Vamos a sede matar 

Onde há graça e formosura 
Vamos com paixão amar. 

* 

Onde há um bravo que vence, 
Vamos-lhe a glória aclamar! 

A Viriato pertence 
De ouro o tríplice colar! 

* 

Brilha nesses três crescentes 
Do sol fulgor singular; 

Sigam os homens valentes 
Esta nova luz polar. 

* 

<numpag 41> Onde há ódios e vingança, 
Vamos a sede matar! 

Da Pátria livre a esperança 
Vamos com paixão amar. 

* 

Siga o tríplice colar 
O que ser livre aspirar! 
</poesia>

Terminadas as danças e cantares do vistoso arraial, os chefes das contrébias, no meio de tanta alegria, começaram a atirar pequenas moedas de prata às rebatinhas, que o povo em chusma corria a apanhar, atropelando-se em cambalhotas, em que cada um no meio de estrondosas risadas mostrava a maior agilidade e presteza. Essas moedas eram quase todas de valor de um dracma e cunhadas nas cidades lusitanas como manifestação da sua autonomia. Viriato notou naquele espectáculo divertido que as turmas do povo, ao agarrarem as moedas, miravam-nas no verso e anverso e em seguida guardavam uma com sofreguidão e arrojavam para longe com desdém as outras. Inquiriu do caso inesperado; foi então que Idevor lhe explicou essa manifestação espontânea e significativa da alma popular, mostrando-lhe dois desses diferentes numismas de trata: 

-- Reparei nesta moeda: De um lado está cunhada uma cabeça viril em cabelo; tem barba e um colar ao pescoço. Do outro lado vedes um cavaleiro a galope com a lança em riste. Agora a outra moeda: em uma face está impressa uma coroa de carvalho e no reverso figura um colono conduzindo dois bois como quem lavra a terra. O povo conhece esta diferença e o que ela significa. Todas essas moedas do cavaleiro da lança são por antigo costume cunhadas em cidades livres e autónomas, inscrevendo nelas os eu nome, como vereis em tantas que para aí se arrojam às rebatinhas, como estas... 

E Idevor foi mostrando ao acaso as moedas, e lendo os nomes de Toletum, Alva, Bilbilis, Segóvia, Segóbriga, Caríssia-Celsa, Sactabis, Toriasum, Clunioo, Gili, Itálica, Sacelli, Sagunto, Lastigi, Osca, Ilipla, Ituci. E interrompendo o exame continuou: 

-- Roma emprega todos os meios para substituir estas moedas pelas do colono conduzindo os bois, com que representa o seu domínio, pela coroa de carvalho e a servidão dos povos submetidos como os bois ao arado, as quais faz circular nas suas cidades estipendiárias e municipais. 

-- Compreendo agora o sentimento do povo. Repele o jugo do estrangeiro e só aceita o cavaleiro da lança. É esse sentimento que me fortifica. <numpag 42>

XII 

Os chefes das contrébias, ao terminar das festas, saudaram um por um a Viriato e lhe foram contando na mão cinco pequenas moedas de prata, daquelas que pouco antes tinham arrojado à multidão. Era a expressão simbólica do direito individual, em uma sociedade que se regia pela comunidade das terras lavradas, das pastagens e dos celeiros do clã para as colheitas agrícolas. 

O território lusitano pertencia exclusivamente às tribos ou gentes, sendo anualmente sorteadas pelas diversas famílias as jeiras que haviam de cultivar. Sobretudo nas margens fertilíssimas do Douro e no cantão dos Vaceus é que este comunismo tradicional se conservava na sua maior pureza. Com o tempo introduziu-se o costume de cada família conservar como próprio o terreno de cinco acres, ou agra, em que estava a casa, o poço e a horta. Era o que o rifão popular alude ainda quando, para significar a indigência, a exprime: -- Sem eira nem beira, num ramo de figueira. 

Este terreno, que também na primitiva família romana tinha o nome de haeredium, era o fundamento da estabilidade da família e, sempre inalterável, era um vínculo ao qual se incorporava qualquer cercado em que se estabelecera um novo casal. Para que esse solar se mantivesse sempre indiviso, a herança dos irmãos da mesma família fazia-se excluindo-os da propriedade da terra dando-lhes cinco moedas de prata. 

Viriato compreendeu o sentido da oferta que lhe fizeram os chefes das contrébias. Nos territórios na Lusitânia eles possuíam como seus próprios e individuais os solares dos castros, castrelos, croas e morros, cabeços e citânias, penhas e cidadelhes; e a entrega das cinco moedas de prata, significando a afirmação de independência solarenga no meio dos territórios comunais, neste momento representava o reconhecimento de uma suprema chefatura. Era o direito soberano de Chevage. 

Na bandeira branca dos mil de Viriato e no escudo do valente cabecilha, daquele dia em diante ficaram representados os cinco dinheiros, chamando-se-lhe por isso o Pendão das Quinas, o Escudo das Quinas. <numpag 43> 

XVIII 

Viriato foi visitar as oficinas dos espadeiros de Toletum, que eram afamados no mundo pela têmpera rija que sabiam dar ao ferro com que fabricavam as armas espanholas. O seu nome já era conhecido entre os espadeiros e um deles, com aspecto de autoridade, deixou a forja e veio ao encontro do cabecilha com alegria: 

-- Bem esperava ver-vos e saudar-vos! As espadas que temperamos carecem de braços firmes como os vossos. 

Viriato,tocando-lhe com a mão no ombro e avançando pela oficina ao ruído das bigornas em que se rebatiam a martelo as lâminas já frias, volveu-lhe: 

-- Andergus, às espadas que fabricais pode-se-lhes chamar mágicas, porque tornam invencível o homem que as brande. 

O espadeiro sorriu-se com orgulho e começou a explicar a Viriato o valor das armas que se fabricavam naquele foco de uma antiga tradição metalúrgica: 

-- Sabereis que os Romanos, quando vieram à Espanha combater os Cartagineses, usavam ainda uma miserável lígula, a qual vergava com a força do golpe e que eles durante o combate endireitavam com o pé. Quando os Romanos viram as nossas espadas de ferro, adoptaram esse tipo para o seu armamento, que mandaram fabricar em Astorga, Valência e a quantos armeiros encontraram espalhados por essas Espanhas. Mas, o segredo da têmpera do aço só nós, os espadeiros de Toletum o possuímos, e é esta a superioridade das espadas lusitanas. Os Romanos nunca nos puderam apanhar esse segredo. 

Viriato escutava com encanto e assombro a observação de Andergus e sentiu-se animado de uma íntima confiança com aquela revelação: as espadas lusitanas eram de aço. E Andergus apresentou-lhe uma espada: 

-- Vedes! Aqui está uma espada romana; tem de extensão um pé e quatro polegadas, larga de três dedos, cortando com dois gumes e de ponta aguçada, punho do próprio metal. Serve para ferir de golpe de alto a baixo, ou de estocada a fundo. Mas... reparai como esta espada se entorta e fica vergada. 

E calcando a espada debaixo do pé esquerdo, curvou-a: 

-- É romana; cá está a marca gravada. Reparai: ABVRBCDCIII. Não conheceis talvez o que querem dizer estas letras: <estrang lingua=latim">Ab urbe condita</estrang>, da fundação de Roma, no ano seiscentos e três. 

-- Ah!, do ano da matança -- acudiu Viriato. 

-- Agora vede esta nossa espada toledana; um golpe dela corta no ferro como se fosse em chumbo. É mais comprida do que a romana uns dois palmos e de folha mais estreita. É mais leve e incute o golpe mais longe, porque a têmpera do aço dispensa a grossura, necessária ao ferro doce. É com estas espadas que nos havemos achar frente a frente com os Romanos; eles não conhecem esta nossa vantagem. 

No semblante de Viriato transluziu um raio de alegria; e abraçando Andergus, como um daqueles de quem dependia a liberdade da Lusitânia: 

-- Não temeis que um dia vos roubem o segredo da têmpera do aço? 

-- Esse segredo está nestas águas do Tagus e nas suas areias auríferas. É aqui nesta região que somente se pode dar ao ferro em brasa a dureza impenetrável. 

Viriato ficou pensativo e, como que voltando a si de um transporte, exclamou de júbilo: 

-- Uma terra que tempera com as suas forças ocultas o ferro por essa forma única, essa terra só pode ser pisada por homens livres comunicando às suas fibras a rijeza do aço. Ah, sinto em mi alguma coisa dessa têmpera das espadas de Toletum. <numpag 44>

Andergus falou-lhe misteriosamente: 

-- Não é só água e as areias auríferas do Tagus que dão ao ferro essa força inquebrantável; num tão pouco ser o ferro das minas de Mondragon; este céu também entra para aí em alguma coisa. Reparai para este céu azul e profundo. Quando o metal está derretido e à sua superfície a calda reflecte esse azul ferrete do céu, é quando algum influxo da abóbada etérea diamantina desceu e veio dar-lhe tão assombrosa qualidade. 

Andergus falava com uma confiança absoluta em Viriato, e naquele momento para o caudilho lusitano não guardava segredos. Depois, com um certo orgulho de tratar com Viriato,d e quem tanto se falava e maravilhado de o encontrar lhano e despido de toda a soberba, confessou-lhe: 

-- Muito quisera forjar por minha mão espada que fosse a vossa companheira nas batalhas que ainda tendes de dar contra o invasor romano. Não devo fazê-lo; há uma espada heróica já consagrada por vitórias com o poder que torna invencível aquele que a cingir e é essa a que vos compete. 

-- Eu nunca ouvi falar dessa espada. 

-- É a espada Gaizus! -- devolveu prontamente Andergus. -- Não sei aonde ela está oculta, mas há por certo quem o saiba. É um talismã de liberdade. Dizem que está enterrada e creio que em chão lusitano, ou com certeza na sepultura de algum bravo. Se Indibílis, Mandónio e Salôndico a tivessem brandido! Ah, se a espada Gaizus aparecer e vier à vossa mão, saberão os Romanos o que é um raio... 

Viriato pressentiu que uma força maravilhosa se ia desvendando; mas Andergus falava de uma tradição vaga e nada mais podia adiantar. E levando o caudilho lusitano pelas oficinas, parando ao pé das forjas, das bigornas e rebolos em que trabalhavam activos armeiros, mostrava-lhe as armas diversas que estavam fabricando: 

-- Já pudestes ver a Spatha e o Gladius, comparando-os com a nossa espada hispânica de aço puro, com uma nervura ao meio ou espécie de quina; agora reparai para esta espada curta, é a Machoera, à maneira de punhal, para combater corpo a corpo, mas é propriamente uma adaga. Verdadeiramente lusitana é a Rhanda, a faca ou naifa de quase dois palmos, pendurada à cinta e que acompanha sempre o homem, quer nos trabalhos dos campos ou nos da guerra. Até isto os Romanos nos roubaram, porque de há muito deram em usar a Rhanda pendurada ao lado direito. Se nós fôssemos a reclamar o que nos pertence, também como conhecedor prático posso atestar que a Lancea romana é imitada da nossa lança ou chuço peninsular: tem uma ponta de cobre, outra de ferro e algumas como a Soliferrata são completamente de ferro. Mas deixemos aos homens que nos devastam, dizendo que nos querem civilizar, a glória dos seus roubos; aqui as Tragulas, com a sua ponta em forma de anzol, arma terrível que tem ferido generais cartagineses e cônsules romanos. 

-- Tenho mais confiança na falcata, uma gadanha que chega a dar os resultados deu boa espada -- acudiu Viriato, terminando o seu pensamento: -- Quando o povo quer, com as suas foices, gadanhos, forquilhas e engaços, é capaz de levar adiante de si o poder do mundo. Em Roma já se diz que o mais destemido general não é capaz de fazer virar as costas a um Cântabro. Resta-me a esperança de que ainda hão-de tremer ao encarar um Lusitano, que nenhuma calamidade descorçoa. 

Viriato despediu-se de Andergus, que voltou para a sua incube, quando viu aparecer o vulto de Idevor,que o procurava. Pouco falaram; mas um movimento repentino de todos os terços e catervas lusitanas, postos em marcha instantaneamente, era revelador de que já pisava terras da Hispânia Ulterior um general romano, um pretor de confiança. Sobre os escudos feitos de couro cru e cordas de tripa entretecidas de arame, os soldados lusitanos batiam pancadas ritmadas, a cujo som cantavam os seus hinos triunfais e os clamores do tripúdio antes de entrarem em combate. A marcha <numpag 45> fazia-se a esta cadência das cetras, que ressoavam com estridor de alegria, em passos e saltos em que antegostavam os ímpetos da acção. <numpag 46

XIX 

A derrota de Vetílio era comentada em Roma por forma que se ligava pouca importância à resistência dos Lusitanos; atribuía-se a um defeito da organização do exército. Dizia-se que o patriciado romano, temendo que nas guerras longínquas os generais conseguissem um grande prestígio sobre as legiões que comandavam, se tinha estabelecido que em cada legião houvesse mais do que um chefe, sendo comandada por seis tribunos militares, que por turno se sucediam. Lamentava-se que geralmente os tribunos militares fossem eleitos pelo povo e pelo senado, muitas vez entre a mocidade inexperiente e por favoritismos. Que, verdadeiramente, era com os centuriões que o general podia contar, porque esses saíam da fileira, chegavam ao comando dos manípulos pela sua bravura e conduziam as coortes, até se elevarem a primípulos da legião. 

Era no consulado de Públio Cornélio e de Caio Lívio, quando foi nomeado novo pretor para governar e comandar o exército que operava contra os Lusitanos o destemido Caio Plâncio. Foram-lhe entregues dez mil legionários e mil e quinhentos cavaleiros para engrossar as tropas que estavam recolhidas em Carpessos. O pretor queria proceder com rapidez e mostrar a Roma desalentada que ele submetia para sempre esse povo irrequieto que não se conformava com o jugo da Pátria das Leis. Soube que o exército de Viriato permanecia na Carpetânia e quis ir ao seu encontro logo. 

O caudilho lusitano exultou de alegria, vendo aquela resolução inconsiderada. 

-- Plâncio obedece inconscientemente ao meu plano, vindo pisar um terreno desconhecido. A vitória é nossa. 

E assim que as suas vedetas lhe vieram dizer que o exército de Plâncio estava quase à vista, Viriato dispôs as suas tropas por forma a aceitar a batalha campal. Era com isso que contava o pretor, fiado na disciplina inflexível dos seus Legionários, sempre com vantagem sobre as tropas mal adestradas. Viriato tomou imediatamente a ofensiva carregando com os seus hastários sobre o exército romano; mas esse movimento impetuoso e aparentemente desvairado era um embuste. Plâncio acreditou na fúria cega da gente lusitana e, quando travou o combate, seguro de que em breve a teria derrotado, a um sinal combinado todos os guerrilheiros lusitanos viraram costas ao exército pretoriano em uma debandada rápida, vertiginosa e inesperada. 

Plâncio hesitou um momento sem compreender aquele exódio repentino. 

-- Fogem! Isto não é exército; é um bando vil de cobardes. Não deslustrarei o meu exército perseguindo o bando fugitivo. 

E deu ordem a que se destacasse prontamente um troço de quatro mil homens para dar caça ao lusitano. 

Quando Viriato compreendeu pelo movimento dos manípulos a intenção do pretor, rejubilou, exclamando: 

-- Temo-lo caído na cilada. 

E quando o troço dos quatro mil homens, que ia em perseguição dos lusos, já estava distante do exército romano uma boa légua, Viriato cai em peso sobre eles, envolve-os e chacina-os com presteza, escapando apenas aqueles que conveio, para que levassem a tremenda impressão da catástrofe a Plâncio. Nunca as espadas temperadas com as águas do Tagus, que lhes dava a rijeza do aço, trabalharam com mais nitidez. Caio Plâncio sentiu-se ferido no seu prestígio e a perda daqueles quatro mil homens revelava-lhe a importância do inimigo com quem tinha de combater. Faltava-lhe já a frieza da razão e arrojava-se contra Viriato como o boi contra o pano vermelho. Viriato <numpag 47> tinha prevenido a hipótese de, no caso de derrota, acolher-se aos fraguedos da Serra d'Ossa; mas não lhe foi preciso, antes aproveitando a exaltação em que Plâncio se encontrava, seguiu avançando para o norte e transpôs o Tagus. 

-- Será Plâncio tão inconsiderado que venha aqui à margem direita do rio? Se ele tal faz, saberá o que é uma derrota fundamental; há-de ter que contar em Roma. 

E Plâncio, dementado pela fúria que lhe produziu a mortandade dos quatro mil legionários, atravessou o Tagus para a sua margem direita. 

Viriato estava acampado em uma colina coberta de oliveiras; quando ao sopé da montanha apareceu o exército de Plâncio, seis grandes matacões graníticos foram rolados do alto, precipitando-se e esmagando tudo quanto encontravam diante. No meio do assombro e da desordem produzida pelo espantoso sucesso, Viriato deu ordem para uma carga de lanças, prosseguindo à espada batalha campal, para mostrar ao general romano que os lusónios também sabiam bater-se com tropas disciplinadas em campo raso, em corpos de seis mil homens, em linhas simétricas, tanto para o ataque como para a defesa, com a formatura em cunha e protegendo-se mutuamente. 

Plâncio, vendo que prolongar o combate seria tornar mais completa a derrota, ordenou a retirada para a margem do Tagus, empregando todos os seus recursos estratégicos para conseguir passar o rio; uma vez na margem esquerda, os que se salvaram foram procurar refúgio nas cidades fortificadas, em que o poder romano se firmara na península. 

Em um festim em que Viriato reuniu os chefes da campanha, e quando entregava desinteressado aos seus guerrilheiros os despojos tomados ao exército de Plâncio, entre as conclamações ruidosas dos peltastas e cetrados, exclamava sorrindo: 

-- O verão ainda agora vai em meio, mas já o exército romano busca abrigo nos seus quartéis de Inverno. 

-- Enquanto eles cosem rasgões que lhes fizeram as nossas adagas, não deixemos que estas se enferrugem; vamos infligir o castigo a esses povos que contra nós os auxiliaram, desde o Tagus ao Ebro. 

E se bem o disseram, melhor o cumpriram. 

A notícia da derrota vergonhosa de Plâncio produziu em Roma uma comoção inconcebível. Uns acreditavam que as minas de prata e as riquezas da Lusitânia ficariam para sempre estancadas e exclamavam com rancor: É preciso aniquilar esse povo bárbaro que assim se atreve a resistir contra a civilização da grande e generosa Roma. Que o pretor Caio Plâncio seja chamado a Roma para dar conta dos seus actos, desses miserandos feitos com que infamou as armas romanas, cujo prestígio é a base do poder da cidade eterna. 

E Plâncio num tempo teve para reorganizar o exército com que se salvara depois da derrota nas faldas do Monte Veneris; chamado a Roma para apresentar-se diante do Senado, ele partiu menos seguro do que Galba: não levava barras de prata e ouro para corromper os seus juízes, não lhe deram tempo para isso. A narrativa da campanha na Lusitânia era inacreditável, e por isso a sentença estava prevista -- a deposição dele e o desterro, para que não se falasse mais dele e para que os futuros generais aprendessem no temeroso exemplo. <numpag 48>

XX 

Enquanto os Romanos se preparavam para novas operações de guerra, Viriato estendeu as suas correrias para o norte, por toda a Celtibéria, até ao Ebro; veio depois a leste até à Edetânia, Contestânia; e passando por Castelon, Tucci e Obulca, penetrou na Oretânia. Era um reconhecimento dos territórios e das povoações! Sabia aonde teria fácil refúgio nas cavernas e antas e que gentes o apoiariam contra o invasor estrangeiro. Na sua passagem rápida ia agrupando quantos se insurgiam contra o domínio romano, lembrados da sangrenta traição de Galba. Quando Viriato pisava já o solo da Carpetânia, vieram ao seu encontro homens alentejanos com uma mensagem; traziam a Crantara, lança ensanguentada, e a entregaram ao destemido cabecilha. Depois que Viriato sopesou a lança, entregou-a a um dos seus companheiros, que a foram passando de mão em mão, partindo em seguida os mesmos quatro homens com ela. Significava aquele símbolo a convocação dos chefes militares e dos governadores das beetrias para comparecerem no conselho armado. Ia celebrar-se o conselho no Castro da Cola, junto da grandiosa Anta da Candieira, na Serra d'Ossa; ali jaziam as ossadas dos antigos Lusónios, quando a sua terra não tinha sido ainda invadida pelos Iberos, num assaltada pelos Celtas, num explorada pelos mercadores fenícios, num pelos latrocínios dos Romanos. No adito sagrado das suas sepulturas é que os chefes lusitanos consultavam o eco dos espíritos, nas resoluções irrevogáveis de sacrifício imposto pela luta. Em uma das enormes lajes da Anta da Candieira existe um buraco aberto a meia altura do chão, tendo um palmo em quadrado de diâmetro; é o único em toda a península hispânica. É por esse buraco que o chefe dos Endres, quando esta operação hierática não estava ainda desmembrada, interrogava os mortos sobre o destino social das tribos e sobre a sorte das batalhas; interrogava para dentro da caverna subterrânea e, colocando o ouvido a esse buraco, escutava os ecos misteriosos que só ele em uma concentração subjectiva ouvia e explicava aos que vinham ali chamados ao conselho armado. 

Em poucos dias de marcha, Viriato chegou, atravessando charnecas de mato curto e enfezado e por entre montados de zimbro e azinho, até à chapada de rochas xistosas, aonde no cabeço mais saliente se erguia a anta veneranda. Infundia um pavor quase sagrado a vista dessas sete fortes colunas ou esteios talhados sem artifício, implantados na terra; sobre quatro deles assentava uma vasta laje em forma de mesa como ara dos sacrifícios. Outras lajens cobriam um subterrâneo, que era a sepultura dos antepassados. Logo que Viriato chegou ao cabeço em que a anta se eleva, veio ao seu encontro um velho risonho, que o saudou abençoando-o era Idevor, o derradeiro dos Endres, ou pelo menos aquele que depois de todas as perseguições conservava a tradição das tribos lusónicas; era ele que nas comemorações dos finados, anualmente, ali vinha depor na pedra furada as oferendas do banquete funerário; era ele que interrogava os mortos e colocava o ouvido atento no orifício da pedra que os cobria. 

O conselho armado estava reunido em volta da Anta da Candieira; estavam ali representados os Carpetanos, os Vetões, os Vaceus, os Galaicos, os Artabros; tratava-se da defesa contra o Romano implacável que se preparava para a desforra de tantas derrotas. Viam-se ali figuras esbeltas de homens trigueiros, de cabelos compridos caídos pelos ombros; ligeiros, armados com escudos pequenos e punhal comprido à cinta; envergavam couraças de linho, tendo por cima a cota de malha, e nas cabeças os capacetes de couro. Depois de terem feito os seus jogos heróicos, alguns ofereciam à divindade lançando sobre a mesa da anta mãos decepadas de vencidos romanos. Idevor avançou para a pedra furada, ajoelhou e debruçou-se sobre ela, interrogando para dentro. Sentia-se um rumor soturno, como a ressonância de funda caverna. Depois, <numpag 49> longo tempo o silêncio que pesava sobre todos os guerrilheiros e chefes das contrébias, vociferou com intimativa: 

-- Viriato? Viriato? Nunca serás vencido com batalha! Nunca morrerás às mãos dos Romanos! 

Era isso que Idevor ouvira no rumor do oráculo dos mortos. Repetiu-o depois fitando com assombro Viriato. Os companheiros vieram abraçá-lo pela consagração que o proclamava invencível; fitavam-no com espanto como se, desde aquele momento, se tornasse um ser sobre-humano. Disse-lhe Minouro: -- Agora, em vez de um pretor, pode Roma enviar-nos dois, para aparar melhor o preso da derrota. 

Andaca, batendo-lhe no ombro: 

-- Mas, pelo seguro, a força do oráculo está em uma boa espada. 

Viriato, apoiando-se na espada que tocava com a ponta o solo, vergou-a com garbo, como fiado na sua têmpera e flexibilidade; mas com espanto viu que mão traiçoeira lha tinha destemperado, porque dobrava-se como se fosse uma lâmina de chumbo: 

-- Retorcem-se as espadas para serem enterradas com os guerreiros mortos! 

Então Ditálcon, vendo a confusão que tomara o cabecilha: 

-- Mesmo sem espada serás vencedor; o oráculo não mente. 

Idevor tomou a espada torcida das mãos de Viriato e disse-lhe com alegria: 

-- Esta acabou já o seu destino; serviu enquanto o teu impulso generoso levantou o espírito de resistência nas abatidas tribos lusitanas. Inspiraste confiança! As populações seguem-te, porque vêem em ti o restaurador da independência, da liberdade e do futuro glorioso da Lusitânia. A nossa Lusitânia é imperecível. Aqui na Anta da Candieira guardara-se a espada maravilhosa e invencível, o Gaizus, escondido por não ser tomado e empregado contra nós pelo invasor estrangeiro e sempre ignorado, porque até hoje não aparecera um filho desta terra capaz de a defender e sustentar a sua liberdade. Viriato! O testemunho dos antepassados proclama: -- Nunca serás vencido! E é da sua sepultura, deste Cairn sacrossanto, que eu tiro a espada invencível, o maravilhoso terçado que aí se guardou até ao momento em que apareceste e te patenteaste digno de servir o peito lusitano. 

Dizendo estas palavras, Idevor meteu o braço pela pedra furada e, como revolvendo com a mão um tesouro invisível, sacou com jeito pelo buraco da laje um montante de aço. 

Abeirando-se de Viriato: 

-- Entrego-te esta espada invencível nas batalhas. Tu e todo aquele que a brandir pela Lusitânia têm certa a vitória. Que ela passe de mão em mão e de idade em idade. 

Viriato apoderou-se da espada com entusiasmo; beijou-a, mirou-a com desvanecimento e, brandindo-a no ar, gritou: 

-- Há-de ser livre a Lusitânia. 

A espada que o velho endre sacou de dentro da sepultura ancestral era uma lâmina 

curva, tendo afiada a folha por um dos lados inteiramente, e pelo outro até um terço apenas; tinha a ponta aguçada, terminando a curva por forma que servia para ferir de ponta e simultaneamente de gume. O fio era tão resistente e cortante que, se fosse a espada brandida com força, decepava instantaneamente uma cabeça. Quem tivesse visto mundo, reconheceria que aquela espada, com que batalham os Argivos, ou à Sicca dos Persas e Trácios; mas enquanto aquelas eram forjadas de ferro batido, esta, que estava oculta há centenas de anos naquela sepultura, tinha uma têmpera tal que cortava o próprio ferro e era de uma flexibilidade que a tornava inquebrantável. Não era indiferente a comparação com a Sicca dos Persas, porque desse povo guerreiro se conta <numpag 50> que viera à península hispânica como invasor e que Mitra, o Mediador de Ahura, com uma espada de lâmina curva, matara o Touro, que simbolizava as crenças e a cultura dos povos ocidentais. A espada começou a aparecer com um carácter misterioso! Pertenceria ela às eras primitivas dessas espantosas lutas das raças do Oriente? No seu punho, que terminava com uma cabeça de dragão, estavam ornatos de incrustações de ouro com os desenhos usados pelos espadeiros de Toletum. Havia o quer que é de misterioso; porque o povo, ao falar de uma espada mágica ou invencível que existira na Espanha antiga, diz ainda: que sete vezes fora temperada no sangue de um dragão! A sua têmpera não será esse segredo que só os armeiros de Toletum conservam no mais absoluto segredo? E as incrustações de ouro não serão a prova de que as areias auríferas do Tagus, misturadas no ferro derretido, é que lhe dão esse poder cortante e incomparável do aço? 

Idevor, correndo a mão ao longo da lâmina, descobriu sem esforço a face lisa de uma vaga cor azulada e que semelhava o cariz do céu; entregou-a a Viriato e ele próprio cingiu-lha à cinta do lado direito, dizendo: 

-- Esta espada encontrou o braço digno de brandi-la no ar. Ela tem um nome, como têm todas as espadas dos heróis; são como eles uma entidade com quem se consorciam; chama-se Gaizus, segundo as tradições religiosas que se transmitiram dos povos cíticos e dácios. E se a insígnia da viria dos três crescentes, que hoje usas como supremo chefe, te dá a razão do título de Viriato, de agora em diante como portador da espada maravilhosa serás conhecido entre os que te acompanharem até à morte pelo nome de Porto-Gaizus... 

Efectivamente a espada, que simbolizava o deus da guerra, entre numerosas tribos cíticas e ligúricas, tinha o nome de Gaizus, e entre os kimricos Gaisus, de Hesus entre as hordas célticas, e Gaisos entre os ramos góticos. Era essa espada que se espetava no chão tornando-o sagrado, para aí se constituir a assembleia ao ar livre e o tribunal do julgamento. A espada era a representação divina e o emblema da fecundidade, porque lampejava como o raio celeste. 

Viriato espetou a espada Gaizus na terra, reunindo-se todos os guerreiros em volta; e Idevor proferiu a 

<poesia>
BÊNÇÃO DA ESPADA 

Fita de luz traça no ar o raio, 
Quando encastela nuvens a rajada; 
É assim esta espada! 

Em botes de alto a baixo e de soslaio, 
Ou quando cai a fundo 
Golpe seu iracundo! 

* 

Contra os tiranos firma a Liberdade, 
E fortalece a Confraternidade. 
Quem amá-la não há-de?

A Terra em que nascemos ela cobre, 
Tal como um galho secular frondente 
Abriga a livre Gente. <numpag 51>

Como tesoiro que o valor redobre, 
Lampejando no punho de um herói, 
Sempre sagrada foi. 

* 

Espada de Justiça e de Equidade, 
De uma Pátria o emblema, a majestade, 
Quem amá-la não há-de?

* 

Se ela cair do valoroso pulso 
Por traição ou por morte, 
Ao sumir-se no derradeiro corte, 
Da independência guardará o impulso. 

* 

Quem descobrir a lâmina fulgente 
No revolvido chão, 
Cumprirá -- a missão 

De tornar livre a sofredora Gente, 
Dando-lhe a consciência de Nação. 
</poesia>

E feito o sacrifício pelo mais sábio dos Endres, os membros do conselho armado comeram em comum o que traziam sem eus farnéis, pães de glande de carvalho rotundifólio, pernas de carneiro assado, e despejavam os picheis de céria ou zito encostados aos grande esteios da anta; e depois de gritos festivos, ouvidas as ordens de Viriato, debandaram cantando pelos campos de Ourique, seguindo para as suas terras em um 

<poesia>
CORAL DE TRIPÚDIO 

Terra da Pátria! 
Querida terra, 
Liberta e altiva! 
Na paz, na guerra 
A alma idolatre-a, 
Para ela viva. 

Nosso chão pátrio, 
Terra querida, 
Sempre liberta! 
De um mundo às átrio, 
Nunca vencida, 
Por ti -- alerta! <numpag 52> 
 
Terra sagrada 
Da Pátria amada, 
Sê triunfante! 
Pequeno e forte, 
Até à morte 
Avante! Avante! 
</poesia>

XXI 

Quando os chefes das contrébias pisaram terras a que não tinha chegado a devastação da guerra, encontraram ranchadas de mulheres trabalhando nos campos, alegres e risonhas, ouvindo-se de longe as cantigas com que aligeiravam a faina do dia. Aproximaram-se da lavrada e notaram que vigorosas mocetonas, de olhos castanhos e cabelo preto, com arrecadas de ouro nas orelhas, contas de âmbar e cristal raiado de preto e azul ao pescoço, descalças de pé e perna, andavam naquela encosta fazendo a sementeira do linho. Elas não se apavoraram com a passagem da cavalgada. Os cavaleiros do rancho, simulando interesse pela suavidade das cantigas, que lhes faziam saudades dos seus casais e vilares, de que andavam ausentes desde que se empenharamna resistência contra os Romanos. É certo que a alguns desses guerrilheiros, requeimados pelo sol e pelas geadas, acudiram as lágrimas aos olhos. Cantavam três raparigas alternadamente uma cantilena dos Trabalhos do Linho que na sua emoção fazia sentir o perfume da terra, por que todos eles combatiam. Entoava uma delas, como deitando o pé da cantiga: 

<poesia>
Quem anda a semear o linho, 
Bem sabe que há-de viçar 
Para trabalhos passar. 

Também quem semeia amores 
Aqui, além, à ventura, 
Sem se arrecear de dores 
Doce esperança procura; 
E nascem-lhe em vez de flores 
Trabalhos para passar. 

Antes o linho semear 
Pelos valados e encosta, 
Do que um olhar sem resposta, 
Desdéns que são de matar; 
O amor que se não desgosta 
Não pode raiz deitar. 
</poesia>

E enquanto as outras moças iam fazendo a sementeira, disse uma para a que cantava: -- Caénia! Não descubras o teu segredo; deixa cantar Niliata. E começou logo outra rapariga, continuando na mesma toada, mas com um timbre de arrancar a alma: 

<poesia>
Pelos trabalhos do linho 
Está-se a gente a entender; 
Nasce o amor para sofrer. 

Dentre abrolhos do caminho 
Quantas flores a nascer! 
Foi quando vim a entender 

Que me davas com carinho <numpag 54> 
Tua vontade e querer, 
Pondo fim ao meu sofrer. 
</poesia>

A mesma voz que interrompeu a que levantara a cantiga: -- Apónia! Não fiques para trás; ou tu já não és cantadeira de fama? Ouviu-se logo outra voz mais terna, de uma frescura de mocidade e de paixão  comovente: 

<poesia>
Bota uma flor azulada 
O linho, estando a florir: 
Tem essa cor teu sorrir! 

Sabendo que eras amada, 
Segredaste de mansinho: 
-- Para sempre! -- 
Sonho lindo. 
Ainda te estou ouvindo... 
Foi pelo semear do linho, 
Ou mesmo na espadelada. 

Antes que o fio mais fino
Chegue a fiar-se na roca, 
O que ouvi de tua boca 
Fiou o nosso destino, 
Teceu o casto cendal 
Para cortejo nupcial. 
</poesia>

Os cavaleiros, que se tinham atrasado da comitiva, atiraram com o dinheiro que levavam para o grupo das raparigas; e metendo-se a caminho a trote largo, iam dizendo: -- As mulheres fazem por nós o trabalho dos campos, enquanto por aqui andamos empenhados nesta guerra sem tréguas. 

-- E eu que jurei não tornar mais a entrar em casa, a abraçar a mulher e os filhos, enquanto não vir estes Romanos escorraçados. Hei-de cumprir o juramento, ainda que me arrebentem as saudades. 

-- Dá vontade de morrer por esta terra, quando bebemos estes ares, quando nos banha esta luz de um céu tão azul! A cantiga das raparigas fez-me ver isto tudo como até hoje eu nunca tinha visto. 

E no trote largo em que iam, incorporaram-se na cavalgada que foi diminuindo à medida que cada um dos cavaleiros tomava a direcção do solar em que residia. <numpag 55>

XXII 

Recebendo a espada Gaizus, lembrou-se Viriato das palavras do armeiro de Toletum, lamentando que os indefessos mantenedores da liberdade da Lusitânia não a tivessem brandido. Esses grandes chefes da resistência da Hispânia Ulterior estão mortos, e porque até agora não apareceram homens com conhecimento da arte da guerra é que Roma conseguiu dominar em muitas cidades da Lusitânia. Viriato reconhecia a continuidade da sua missão libertadora e, possuindo dessa solidariedade do sentimento, disse para Idevor: 

-- Jazem nas suas sepulturas os dois irmãos e valentes cabecilhas Indibílis e Mandónio; e também o não menos denodado Salôndico. 

-- Em lugar deles -- atalho o velho endre -, apareceu um homem, sim um homem que vale por todos três: possuiu de um o génio da estratégia e a energia do comando; de outro a lhaneza familiar e o trato superior com os homens; do terceiro tem a integridade da sua palavra, que faz fé como se fosse uma sentença. Por isso veio às suas mãos o Gaizus. 

Por sua vez Viriato, interrompendo os louvores de Idevor, acentuou em poucas palavras o seu pensamento: 

-- Eu quero que esses três nomes fiquem sempre memorados entre a gente lusitana; e darei todos os passos para que lhe sejam consagradas sobre as suas sepulturas três estátuas funerárias. 

Viriato queria ligar ao sentimento da defesa da independência da Lusitânia uma expressão visível que lhe servisse de apoio e mesmo de estímulo; eram já mortos esses três caudilhos que tanto tinham lutado contra os Romanos e que agora jaziam obscuramente sepultados, Indibílis e seu irmão Mandónio, e o destemido Salôndico. Repetia-se na tradição os seus nomes, porque os feitos heróicos que praticaram eram recentes, mas tudo passa; Viriato reconhecia que a recordação desses vultos extraordinários era uma força com que podia actuar nas almas. Ordenou que viessem da região setentrional da Lusitânia três blocos de granito para serem esculpidas três estátuas sepulcrais, representando os heróis lusitanos, e para serem erectas sobre os seus jazigos. Essa pedra rija e difícil de lavrar era a que melhor simbolizava a resistência dos três cabecilhas destemidos, e como privativa de todas as construções e monumentos da Vetónia, a que melhor representava aquela parte da Lusitânia mais ciosa da sua liberdade. Realizou-se em breve a sua vontade. 

A estátua de Indibílis, como o estilo dessas esculturas funerárias, estava perfilada, de cabeça altiva, erecta e sem capacete ou gálea. Todos aqueles que o conheceram dizem que é a sua imagem verdadeira, barba espessa e cabelo curto, nariz aquilino com uma depressão a partir da testa. Tem em volta do pescoço o colar ou torques simulando um grosso crescente. O corpo reveste-o um saio ou gibão justo à cinta por uma faixa ou balteus acolchetado pelas costas; a manga é curta, deixando os braços nus pouco abaixo dos ombros, e acima da bucha do braço uma armilha formada de três braceletes. Os braços descem sustendo um sobre o ventre o escudo redondo ou cetra, ornamentado com cordões delineando contornos caprichosos; na mão direita tem segura a espada de lâmina curva, parecida com a Sicca dos Trácios, de cabo curto terminando em bola e com a ponta tocando as nádegas. Assenta sobre um cipo lavrado, em que está escrito o nome de Indibílis. 

A estátua de Mandónio, trabalhada no mesmo estilo rude, mas primitivo, semelhando as esculturas do Egipto e da Caldeia, mostra leves diferenças; o rosto oval tem uma expressão de audácia, de quem afronta todas as dificuldades; o escudo que 
<numpag 56> assenta sobre o ventre está pendente do pescoço por correias sem abraçadeiras, tal como o clipeus dos gregos; na mão tem uma arma curta de empunhadura simples, como faca de ponta que se alarga até às guardas, como o pugio dos Romanos. Também as pernas nuas emergem do pedestal ou cipo votivo, em que se lê o nome de Mandónio. A estátua de Salôndico tem as armilhas nos pulsos ou propriamente manilhas; e na cabeça uma cervilheira de couro, que está cingida até meio da face; a cetra não é redonda, apresenta a face côncava e representa o enlaçamento de fitas de couro cru. 

Antes de chegar à Lusitânia um outro pretor para substituir Plâncio na campanha, já estava consagrada esta piedosa homenagem aos três lutadores que tanto se sacrificaram pela liberdade da pátria. Isso acordou novas energias. <numpag 57> 

XXIII 

Não podia ser indiferente a Viriato aquela extraordinária fortificação defensiva do Castro da Cola, do Alentejo, com suas torres e muralhas do mais inacessível alcance. Examinou-a detidamente, medindo-a a passos; e aí na base do monte, para a parte do sul, em que estavam seis sepulturas de generais lusitanos, é que mandou erguer as três estátuas funerárias, porque já andavam esquecidos os nomes dos guerreiros que guardavam. 

As estátuas dos dois irmãos Indibílis e Mandónio ficaram a par uma da outra e diante delas, como formando um triângulo, a estátua de Salôndico. Na linha desta sepultura seguiam-se mais três moimentos, ignorando-se a quem pertenciam. Disse então Viriato: 

-- Cubro-me de vergonha quando noto que já ninguém se lembra do nome desses bravos que aí jazem, tendo combatido pela nossa terra. 

-- Temos um pouco esse defeito da ingratidão para os homens que nos engrandeceram. -- Assim falara um da trimarquísia; ao que um outro acrescentou: 

-- Tu mesmo serás um dia esquecido, ou reduzido a personagem de conto de velhas. 

-- Fica certo que, se alguma coisa se souber de ti, será pelo que memorarem os anais romanos. 

-- Não luto para ganhar fama! É só por uma ideia. -- E Viriato voltou à sua preocupação: Mas de quem serão essas três sepulturas restantes? 

-- Talvez o saiba Idevor... 

E consultando o velho Endre, que era um verdadeiro poder moral que pela tradição lusa unificava as almas, ele respondeu com simplicidade prontamente: 

-- São três caudilhos lusitanos que sempre combateram pela liberdade da terra; aqui descansa Edescon; esta jazida é de Alúcio; a do topo cobre a Istolácio. 

-- Dá-me força o lembrar-me que eu continuo a sua missão. 

Viriato foi em seguida à exploração do Castro Verde, cuja posição estratégica era defendida por sete fortes, um dos quais era o inconquistável forte das Juntas, assim chamado pelo povo por se achar erecto na parte em que as ribeiras confluentes, Odemira e Mariscão, se encontram e confundem. Quando Viriato, para subir a violenta escarpa do forte das Juntas, chegou à margem da ribeira de Odemira, estava ali um magote de lavadeiras com as pernas metidas na água esfregando a roupa e cantando. 

-- É esta a feição da gente lusitana; do trabalho faz uma festa; alivia-se da fadiga com os seus cantares. 

E parou um instante a ouvir a 

<poesia>
CANÇÃO DAS LAVADEIRAS 

Já os linhos florescem, 
Já os dias crescem, 
E ainda não aparecem
 Os meus amores! 
Já as neves descem, 
Sem que as guerras cessem; 
Mas nunca me esquecem
 Os meus amores! <numpag 58> 
Já os linhos tecem, 
Mesmo as teias alvecem; 
Ah, se bem cedo viessem
 Os meus amores! 
</poesia>

Aquela toada sentida comunicava uma emoção saudosa, não tanto pela lembrança da paz, agora perdida, como pelo génio do povo, que se revelava nessa dolência. Viriato, bebendo largos tragos da água da ribeira em uma quarta alentejana que lhe encheu uma das lavadeiras, galgou a encosta aspérrima sem parar até ao cocuruto do forte das Juntas. 

-- Valentes pernas! -- Aquilo é que é homem! -- Disseram duas das lavadeiras que estavam torcendo o bragal e que olhavam cá debaixo, enquanto a água escorria.<numpag 59> 

XXIV 

Ainda Viriato se achava próximo da Anta da Candieira, voltando a examinar a fortaleza da torre da Cola, nas campinas de Ourique, quando lhe trouxeram a nova da chegada à Hispânia dos dois pretores romanos Cláudio Unímano e Caio Nigídio, aos quais o Senado confiara a missão urgente de reprimir de vez os Lusitanos, apagando as manchas das derrotas anteriores. Os dois pretores combinaram o seu plano de ataque; Unímano iria atacar o cabecilha nas montanhas de Ourique, aonde sabia que se encontrava por notícias dos espiões ibéricos; repelindo-o diante de si, levava-o de encontro contra Nigídio, que operava ao norte confiado na antiga aliança dos Vaceus. Assim colhido entre os dois exércitos romanos, destinados depois da vitória a ocuparem a Espanha Citerior e Ulterior, a derrota de Viriato parecia-lhes mais do que certa, inevitável. 

Parece que o destino favorecia o cabecilha, ferindo-se a batalha naquela região sua conhecida e cheia de extraordinários recursos defensivos. Aquele vasto terreno coberto de rochas xistosas ostentava uma planura ou chapada, todo cercado de escombros e pequenos vales com montados de azinheiras e carvalhos espessos e escuros. Excelente para repentinas emboscadas; mas o pretor Unímano só pensara no seu apoio em Évora, cidade do direito do antigo Lácio. 

Subindo aquele terreno acidentado cheio de cerros com espinhaços inacessíveis, avistava-se de longe a fortaleza a que o povo das cercanias chamava -- a cidade de Cola. Negrejava com a sua cantaria seca sobre i íngreme cerro, correndo-lhe em baixo ao sopé a ribeira de Mariscão. Foi ali que Viriato reuniu os troços da sua confiança, dentro das muralhas que rodeavam a crista do cerro. Dali, do alto, avistava-se o rio de Odemira, que recebe a poente as águas do Mariscão, junto do pego do Sino. O castelo ergue-se abrupto, com as suas muralhas construídas por fiadas de cantaria não lavrada, mas todas de um tamanho igual; uma parte dos muros é a pique, outros inclinados para dentro, formando um quadrilongo de mais de duzentas braças, com uma espessura de vinte palmos. A fortaleza é dividida em outras duas internas, tendo ao centro uma cisterna profunda com paredes rebocadas e de abóbada; a um lado está um rebaixamento que dá para uma extensa escadaria que leva à margem da ribeira por onde se pode fazer uma rápida sortida. Em quatro outros cabeços circunvizinhos, a meia légua de distância, alevantam-se outras quatro fortalezas e, mais adiante, coroando um comprido monte, o castelo velho, formado por uma gigantesca trincheira que abrange uma área de mais de seiscentas braças. A batalha dada nas vizinhanças da Serra d'Ossa, tendo ali ao pé a anta veneranda da Candieira, augurava para os Lusitanos um resultado feliz. 

Quando Cláudio Unímano avançava sobre Viriato, que simulara uma retirada para a fortaleza da Cola, e lhe punha cerco, contando tê-lo seguro, por alta noite o cabecilha desceu com os seus pela escadaria secreta da fortaleza que vem ter à ribeira de Mariscão; e sendo ao mesmo tempo avisado por lumieiras, os guerreiros lusitanos, que estavam recolhidos nas outras quatro fortalezas, caíram quase ao mesmo tempo sobre o exército romano de surpresa e fizeram uma incalculável mortandade. Os estandartes da República e as insígnias pretoriais foram tomados por Viriato, que mandou espetar pelos cabeços dos montes em redor as varas que formavam os feixes dos lictores, como fizera anteriormente apôs a derrota de Vetílio. As bandeiras romanas foram arrastadas diante do balsão das Quinas, produzindo um delírio de bravura nas catervas lusitanas. 

Quando a batalha estava já decidida, ainda mil legionários sustentavam uma luta isolada contra trezentos infantes lusos, desesperados e seguros de os esmagar pelo seu número bruto. A resistência desses poucos era tenaz, contando serem socorridos; os <numpag 60> Romanos queriam nessa última refrega vender caro a vitória. De súbito, aparece à frente dos trezentos infantes o cavaleiro que se destacava no tropel das batalhas pelo seu cavalo branco, no qual se arrojava à frente de todos os perigos. Os trezentos peões sentiram multiplicar-se-lhes a força e gritaram: 

-- Olha como ele brande a Colada! 

-- A Colada ao sol faísca; parece um raio. 

O nome da espada Gaizus era desconhecido entre os companheiros de armas de Viriato; chamavam à espada maravilhosa a Colada, por ter sido guardada em uma sepultura do castro da Cola. Com esse nome brilhará no futuro, quando um campeador repelir com ela do solo da Espanha as hordas africanas. Daí veio o vulgar provérbio: «Todo saldrá a la COLADA.» 

Diante da espada Gaizus alguns cavaleiros romanos que escaparam dos mil destroçados fugiam a toda a brida pelas encostas e chapadas de Ourique; um peão lusitano rapidamente atravessou um deles desmontando-o, cortou-lhe a cabeça de pronto e seguiu ligeiro no mesmo cavalo levando-a ao alto espetada na ponta da lança. Tamanho pavor se apoderou dos outros cavaleiros, que não se atreveram a atacar o peão, que seguiu seu caminho cantando. Ao tempo constava que o cavaleiro morto se chamava Caio Minício, da legião décima-gémina. <numpag 61> 

XXV 

Aproveitando o entusiasmo e confiança das suas tropas pela derrota estrondosa de Unímano, avançou Viriato para o norte, transpondo a margem direita do Tagus. Não havia tempo a perder; era urgente ir ao encontro do pretor Caio Nigídio. As esculcas trouxeram a Viriato a aterradora notícia de que esse segundo corpo do exército romano vagava pela Beira Alta devastando, incendiando granjas e casais, roubando gados e aniquilando as sementeiras para reduzir pela fome a população trabalhadora e pacífica. Era preciso sustar o passo a Nigídio, agora enfraquecido pela impotência de Unímano. Viriato avançou a marchas forçadas, contando a cada momento encontrar o exército pretorial. 

Próximo já das faldas dos grandes Hermínios, vieram as esculcas trazer ao cabecilha a notícia de que Nigídio acampara o seu exército dentro da Cava, que já então começava a ser conhecida entre os povos das cercanias pelo nome de Cava de Viriato, gloriosos por saberem que ali o maioral da mesta abrigava os gados quando desciam da serra. 

A alegria de Viriato foi vivíssima com a notícia do acampamento de Nigídio dentro da Cava, em que se considerava seguro, sobretudo para o aquartelamento durante a noite, despreocupado de toda a surpresa. Um plano decisivo fulgurou na mente do cabecilha; entreviu uma derrota inesperada, impossível de ser prevista pelo pretor, que considerava a Cava como uma Castra aestiva, para segurança do seu exército. Qual fosse esse plano, a ninguém o comunicava, resolvendo logo partir para o grande Hermínio, acompanhado dos cavaleiros da trimarquísia em marcha forçada. Porventura iria combinar qualquer feito com os maiorais que constituem a cabana da mesta, seus antigos companheiros? 

Viriato chegara ao fim da tarde é povoação de Sedarça, lugarejo na encosta da serra, em que passara a infância. Tudo eram recordações que o enterneciam e o alentavam. De uma obscura choupana ouviu ressoar um canto e risadas frescas e animadas de raparigas que estavam junto de uma molinheira moendo bolotas, de cuja farinha se fabricava o bolo em uma larga sertã de barro sobre brasas. Viriato, que seguia sempre mais adiante dos companheiros, parou diante da porta, escutando o canto ritmado ao movimento da molinheira. Uma das raparigas ia cantando uma história triste, talvez com realidade; era a canção narrativa, 

<poesia>
A DOBADOIRA 

Estava à porta assentada, 
Dobando a sua meada 
A velhinha; 
Lenço branco na cabeça 
A madeixa lhe sustinha, 
E envolve-a como toalha; 
Com que pressa 
Sentada à porta trabalha! 
O sol doira 
Seu cabelo, 
Que tem a cor da geada; 
Para passar o novelo, <numpag 62> 
A velhinha 
De vez em quando sustinha
 A gemente dobadoira, 
Em que anda branca meada. 

Na dobadoira que gira,
 Como a mente que delira, 
Nem já toda a atenção pondo; 
Nem no novelo redondo, 

Aumentando 
Ao passo que o fio tira, 
Todo o seu cuidado emprega! 

Pobre e cega, 
Ansiada, de quando em quando 
Com que tristeza suspira! 

Por vezes, o movimento 
Claro exprime 
Tumultuar do pensamento, 
Que no imo da alma a oprime 

E quase oura! 
Muda angústia e paciência 
Reflecte-as a intermitência 
Do andamento 
Ao voltear da dobadoira. 

Fica-lhe na mão suspensa 
O novelo, 
Concentrada não o enleia; 
Na órfã netinha pensa!... 

Vem-lhe à ideia 
Por sua morte: 
«Só, no mundo! 
Entregue à sorte! 
Pobre neta...» 
Pesadelo, 
Que tanto a velhinha inquieta. 

* 

Não ouvindo a dobadoira, 
Que gemia intermitente, 
Caindo da mão dormente 
O novelo... Com desvelo, 
A neta, cabeça loira, 
Vem à porta 
Ver o que foi; com susto olha: 
Uma lágrima inda molha 
A face à velhinha morta. 
</poesia>

No fim da canção uma das raparigas limpou as lágrimas; disse uma delas: -- Tu, Niliata, nunca ouves essa aravenga sem chorares. -- É que eu conheci a velhinha cega e tantas tardes a vi sentada à porta a dobar. Viriato aproximou-se da porta da choupana e saudou as raparigas: -- É bem triste essa história. O que é feito da pobre órfã? -- Ah, senhor! Houve uma alma apiedada que a tomou como filha. Todos os seus  parentes tinham morrido nas guerras ou na escravidão dos Romanos e Idevor acudiu-lhe em tanto desamparo. O que nos vale são as boas almas. E se não fosse agora Viriato, o que os Romanos não fariam por essa nossa terra... 

-- E nunca vistes Viriato? -- perguntou o cabecilha com bondade. 

As três raparigas, que estavam em volta da molinheira, depois de terminado o cantar ou arevenga da Dobadoira, encetando uma conversa íntima, trocaram sorrisos maliciosos: 

-- Muito gostava de ver esse homem de quem tanto se fala. 

-- E eu? E dizem que é um homem às direitas; não é alto nem baixo, de cor morena e olhos castanhos, cabelos fartos e também castanhos lisos; barba espessa e corredia; o rosto é oval, o nariz fino e a boca mediana deixa ver uns dentes alvos e iguais que é um encanto! Se o visse, conhecia-o. 

-- Parece que estás enamorada de Viriato -- disse com malícia Niliata. 

-- Eu nunca o vi nem espero vê-lo. O que me faz gostar dele é a sua coragem. Quem há-de dizer que um homem costumado aos duros trabalhos da mesta, delgado de perna e pés pequenos, cá como os homens da nossa terra, tem uma alma generosa e audaz para sacudir os inimigos da pátria! 

Caénia falava convencida. 

Viriato, que entrara na povoação adiante dos três companheiros, ouvindo as risadas das raparigas, estacara para escutar o que diziam; em breve conheceu de quem se falava e, com um sorriso cheio de benevolente carinho, disse para elas: 

-- Falar no mau, aparelhar o pau. 

As raparigas olharam-no com surpresa e viram o homem como o tinham representado: aquele rosto oval e trigueiro, aqueles olhos castanhos de um relance vivo e cintilante; o mesmo pé pequeno mas ágil. 

Disse a mais reservada das moças para a que era faladeira: -- Aí tens o moço em quem pensavas. Dize-lhe que gostas dele. -- Todas nós devemos amar Viriato, porque ele sabe defender a nossa terra -- volveu a Caénia, a rapariga faladeira com decisão. -- Pois para vencer o inimigo Viriato precisa do amor e da confiança de nós todos. mas para amá-lo, como uma mulher pode amar o homem, isso fia mais fino! Na Lusitânia, que mulher poderá merecê-lo? 

-- Então não há mulheres lusitanas que me queiram? -- interrompeu Viriato com malícia. -- Ai, meu senhor. Das mulheres da Lusitânia só tenho ouvido exaltar uma que é digna de vós, ou vós digno dela. -- E eu, que até hoje nunca tinha pensado em amar uma mulher! Queria saber quem é essa que tanto exaltas. -- Fala! Dize quem é -- insistiram Niliata e Apónia. -- Não é segredo. Todos sabem qual a beleza e ingenuidade de Lísia, a filha de Idevor. -- Lísia? Ainda tão nova; com pouco mais de dezasseis anos? -- Mas com um tino e juízo que espanta; com uma graça invencível; com uma memória vivíssima dos cantos e tradições da velha Lusitânia. Dizem até que ela, pelos <numpag 64> dons que possui, não é deste mundo. Outra das três moçoilas, não menos linguareira, prosseguiu na revelação começada: -- É Lísia quem na Torre Redonda de Achale, no começo do ano estival, acende o fogo novo. -- Ela tem o cuidado do fogo consagrado a Samham ou São Homem, o Julgador dos Mortos, que os não deixa esquecer. -- E como dedilha na harpa de tríplice cordas... -- E lê todas as letras gravadas no Bastão dos Poetas... Viriato ficou ferido de curiosidade; e pensando nessa revelação casual, disse para as três moças; -- Eu conheço o pai de Lísia e sei bem que ele é meu amigo a valer. E dizendo-lhes um adeus com simplicidade, continuou a sua marcha à chegada dos três companheiros, subindo a encosta do grande Hermínio. <numpag 65> 

XXVI 

Apesar de declinar o sol, que se reflectia brilhante nas Penhas Douradas, que estão voltadas na sua imensa altura para o Ocidente, Viriato, calçado com as abarcas espartenhas e de bornal às costas, caminhou para a serra através dos precipícios seus bem conhecidos. Dirigiu-se para o planalto da Torre, onde costumam reunir-se os maiorais da mesta quando formam conselho entre si, para resolverem sobre a transumância dos gados, sobre o abastecimento da Arca do pão, ou sobre castigos dos cachopos. Viriato ia tocando em certos pontos, como Barros Vermelhos, Covão Grande, Lagoa Escura, num buzina de corno um sinal que era conhecido de todos os maiorais; quando chegou, já noite alta, ao planalto da Torre em forma de estrela, pouco ou quase nenhum tempo esperou pelos maiorais, que se apresentaram no local destinado à comparência da Cabana. Eram cinco os maiorais que governavam os gados lanar, cavalar, cabrum, porcum e vaccum; e quando se reuniam tinham a Mixta Jurisdictio. Tal era o conselho da Mesta, denominado entre eles a Cabana. O primeiro que apareceu ao toque da buzina foi Edóvius, que governava a boiada; acudiu pressuroso Togotes, que mandava nos cavalhariços; não se fizeram esperar Uvarna, o maioral dos porqueiros, Suttunus e Semesca. Todos eles se lembravam do toque da buzina de Viriato e ocorreulhes que era caso extraordinário. O cabecilha falou-lhes sem preâmbulos: 

-- Convém-me que sejam apartados trezentos touros bravos, barrosos, corpulentos, das manadas da Bética! Esses touros bravos hão-de ser guiados por vinte vacas mandarinas, daquelas mais luzidias e brincalhonas, e dentro em dois dias devem estar metidos nos Furados... 

-- Nos dois extensos algares abaixo da povoação de Sarzedo? 

-- Aí mesmo. E também se torna necessário que vão mais atrás dos touros bastantes cães de fila, desses que pela sua firmeza em impelir os touros têm o nome de maiorais. 

Os cinco maiorais da mesta sorriram-se, compreendendo o plano; esfregaram as mãos, antevendo a audaciosa empresa tentada por Viriato; e dirigindo-se ao antigo companheiro: 

-- Cá pela nossa parte não é que o plano há-de falhar. 

E descendo do planalto da Torre para as casas de suchão em que se abrigavam, passaram por um grupo de cachopos que estavam de vigia e, para não terem sono, trocavam suas adivinhas. Dizia um: 

<poesia>
-- Redondo é o curral, 
Vacas pelo bostal, 
Lindo é o azagal, 
Cão pior que chacal? 
</poesia>

Nenhum dos cachopos dava com o sentido da adivinha. Viriato, ao passar pelo rancho, sorriu-se, dizendo para os maiorais que o acompanhavam: 

-- Nos meus tempos de azagal também ouvi esta adivinha. 

E falando para os mancebos, explicou-lhes: 

-- Redondo curral, é o céu; Vacas pelo bostal, são as nuvens espalhadas; Lindo azagal, o sol; Cão pior que chacal, é o vento frio, que arrebata as nuvens. 

Uma fraca risada dos moços foi o sinal de assentimento. Viriato veio descendo, tomando pelas veredas, passos e descansadoiros, canadas e quinchorros, dirigindo-se para a povoação mais próxima do grande Hermínio, onde o esperavam os companheiros <numpag 66> da trimarquísia. 

Os maiorais da mesta trataram logo de ir escolher as vacas mandarinas para em seguida ajuntarem os touros bravos que hão-de entrar na misteriosa lide. Essas vacas folionas, de cor branca da pelagem, são dotadas de uma macieza de pele e de uma corpulência meã, chifres pequenos, abertos e delgados, olhos pequenos, acesos, bem aflorados, com pestanas brancas. Exercem sobre os touros um poder invencível de sedução que os subjuga; com elas é que os maiorais os governam. Têm o pescoço grosso e de farta barbela que se recorta em curva e se prolonga até ao peitoral; lombos largos e cauda curta, membros finos e aprumados, ventre pequeno e úbere farto. Pelas suas formas graciosas parecem-se com o tipo do gado alvação. São brincalhonas tanto na docilidade do curral como na vida áspera dos montes. 

Os maiorais da mesta estavam seguros de conduzirem e entregarem a Viriato os trezentos touros bravos. <numpag 67> 

XXVII 

A aldeia de Loriga foi para onde se dirigiu Viriato, na falda da serra. Diziam que era dali natural; mas outras povoações, como Folgozinho, Ceia, Covilhã e Viseu, também disputavam a gloria de terem sidos eu berço. Antes dessas pequenas terras o adoptarem como filho, já ele estava possuído do sentimento que o levou a dizer de toda a Lusitânia: -- Esta é a ditosa pátria minha amada. Viriato sentia um prazer intenso ao ver os trabalhos da povoação pacífica; um grande círculo de raparigas, com suas arrecadas e colares de ouro, e axorcas nos braços e pernas, estavam ocupadas em uma espadelada de linho. Ao ritmo das pancadas iam cantando, porque na Lusitânia o trabalho foi sempre uma festa e ao som de cantigas. Aproximou-se para escutar a 

<poesia>
CHACOULA DA ESPADELADA 

Separa-se o linho 
Das suas arestas, 
Nas espadeladas. 
Que alegres pancadas! 
E com gosto dadas. 
Trabalhos são festas; 
Quem olha a fadigas? 
Já pelo caminho 
Vêm as raparigas, 
Soltando cantigas 
Das mais namoradas. 

Quem quiser saber 
Quantas conversadas 
Andam cá na vila, 
Sem maior quezila 
Pode conhecer, 
Vendo nas mãos delas 
Como as espadelas 
São bem trabalhadas. 

Eu, por mim, sei de uma 
Que na espadela 
Tem um coração 
Feito pela mão 
De quem é só dela. 
Para conhecê-la, 
Bastará aí vê-la 
Sempre olhos no chão... 
</poesia>

Mais adiante, em outro casal descendo a encosta por onde se estendia Loriga, havia ruidosos sinais de alegria; era um fiandão, uma festa em que das povoações vizinhas concorriam muitas raparigas para fiarem em festivo ajuntamento todo o linho de uma casa. Era de uso concorrerem também os moços namorados que tocavam seus manchetes, cantando à porfia. <numpag 68> 

<poesia>
ENDECHAS DO FIANDÃO 

Que vezes te vejo 
No limiar da porta 
De pé a fiar! 
Eu, indo a passar, 
Cá de longe um beijo, 
Que mal me conforta, 
Enviava-te então; 
Nessa ocasião, 
(Disso não te acuso) 
Bem notei que o fuso 
Te caiu da mão. 

Se te cai o fuso 
Quando estás à porta, 
Será por cuidado, 
Imaginação, 
Que haja eu causado
 Com tanta paixão? 
Mas, isso que importa?

Ou será ou não. 
Seja como for, 
Certos sinais são 
De ânimo confuso; 
Talvez falta de uso 
De ocultar o amor, 
Pois te cai o fuso 
Tanta vez da mão. 

Com que alegria, 
Ou satisfação, 
Levantara o fuso
 Que te cai ao chão; 
Eu to entregaria 
Com a cortesia 
Que no amor é uso, 
Declarando então: 
-- Ei-lo, em homenagem 
Desta vassalagem 
De leal coração; 
Para sempre agora 
Não cairá, senhora, 
Mais da vossa mão. 
</poesia>

Enquanto o moço cantava a endecha apaixonada, todos procuravam com os olhos se se denunciava pelo rubor a rapariga que a inspirara. Por casualidade caiu o fuso da mão a uma delas e logo as risadas animaram o fiandão extraordinariamente. <numpag 69> 

Um outro cantador dedilhou no manchete que trazia umas coplilhas 

<poesia>
AO MORDER DO FIO 

Que inveja me faz 
E tanto me toca, 
No fio do linho 
Que puxas da roca, 
Os beijos que dás! 
Pressinto, adivinho, 
Se esse linho eu fosse, 
Como me era doce 
Sentir tua boca! 

Tu segues fiando, 
De mi descuidada, 
À boca levando 
A linha delgada 
Que torces nos dedos! 
Do linho os segredos 
Tivera eu a posse, 
Que os sonhos provoca: 
Como me era doce, 
Se esse linho fosse, 
Sentir tua boca! 

E enquanto na roca 
Tu passas fiando, 
No imenso desejo 
Que acorda o que vejo 
E a mente traz louca, 
Ficarei sonhando: 
Se esse linho eu fosse, 
Como me era doce 
Morder-me tua boca! 
</poesia>

Estas coplilhas ainda provocaram mais ruído, procurando-se algum rubor traiçoeiro. Ditálcon, que estava junto de Viriato enlevado na contemplação daqueles costumes da serra, porque tinha ouvido falar muito da finura do fio lusitano, disse para o cabecilha: 

-- Isto é uma terra de poetas. 

-- E de apaixonados... -- A frase de Viriato foi interrompida por um facto extraordinário; naquele momento chegava à sua presença um rancho de homens que o procuravam com ansiedade: -- Nós somos gente da povoação de Gouveia, que vimos... Viriato impôs silêncio a esse grupo de homens valentes, que vinham armados de varapaus e manguais, e com lucidez apurou em poucas perguntas que eram povoações rivais que, por causa das águas de rega, se hostilizavam de longos tempos, havendo todos os anos grossa pancadaria e até mortes. Os de Gouveia não queriam que as suas <numpag 70> águas vertentes fossem para os de Manteigas; estes não lhas queriam pedir. Então Viriato sentenciou: 

-- Agora, que a nossa terra está invadida pelo inimigo estrangeiro, os ódios internos enfraquecem-nos. É de força unirmo-nos: entre Manteigas e Gouveia haja paz para sempre. Em todos os começos do ano estival a comuna de Manteigas irá levar à de Gouveia uma bilha de água, em sinal da compra por que adquiriu a posse das suas terras. 

-- Bem julgado! -- gritaram todos. 

E depois de terem bebido tigelas de zito e aclamado Viriato, voltaram alegres para as suas povoações, em que o símbolo da concórdia mútua se guardou no costume imemorial. <numpag 71>

XXVIII 

A notícia das devastações de Nigídio forçou Viriato a reunir-se às suas catervas e a atraí-lo para as campinas em volta da Cava; com solércia foi evitando combates importantes, até ao momento em que os esculcas vieram dizer-lhe que Edóvius e os outros maiorais tinham encurralado trezentos touros dentro de um dos furados, para onde os trouxeram pelo engodo das vacas mandarinas. 

-- Vieram também os cães de fila? 

-- Estão presos no outro furado. 

Depois disto, Viriato esperava com ansiedade o cair da noite, certo de que Nigídio recolheria o seu exército dentro da Cava; Nigídio também contava como estratégia o conservar-se naquele território em que podia dar uma batalha campal pondo em acção toda a maravilhosa táctica das legiões. E não era mal pensado, desde que ele conhecia que o exército lusitano era incoerente, de guerrilheiros de disciplina irregular. 

A noite caía e como Viriato se afastara com os seus terços para longe, o pretor Nigídio deu ordem para que as legiões se recolhessem para dentro da Cava, certo de que no seguinte dia conseguiria envolver Viriato. Na escuridão da noite as sentinelas que vigiavam o acampamento romano viam de vez em quando luzir umas lumieiras pelos montes. Não suspeitavam o que seria. Era o sinal combinado entre Viriato e os maiorais da mesta; por essas lumieiras sabiam eles a situação e que era tempo para executar a estratégia. 

Os touros bravos, em número de trezentos, saíram de um dos furados, atraídos pelas vacas mandarinas, sempre em marcha acelerada na direcção da Cava. Os maiorais, com extrema perícia, guiavam aquela imensa força bruta. Semesca encarregara-se de trazer uns vinte cães furiosos da serra; e acompanhava a boiada mais atrás. Quando chegaram a pouca distância da Cava, já se via a estrela boieira; foi esse o momento escolhido. Viriato fez açular os cães contra os touros que os maiorais montados e com varas compridas dirigiram para dentro da Cava, tendo-lhes na carreira cega retirado as vacas mandarinas da dianteira. A fúria dos touros excedia quanto se imaginara; vendo luz no acampamento dos Romanos, para aí se atiraram em um ímpeto irresistível. Tudo caiu diante desse assalto de uma força de aríete. Os gritos de horror, a confusão de vozes revelavam a enormidade da catástrofe. O que fizera Galba com os dez elefantes africanos contra os trinta mil Lusitanos indefesos, agora Viriato o repetia contra as legiões romanas arrojando-lhes na escuridão da noite trezentos touros dos mais bravos da Bética e impelidos pelos indomáveis cães dos Hermínios. Os touros destroçaram todo o acampamento; e quando Edóvius e os outros maiorais entenderam juntar os touros e levá-los caminho da serra, Viriato entrou na Cava com as suas catervas e foi passando à espada quantos sobreviviam do exército de Nigídio. Eram estes recursos extraordinários que tornavam temível Viriato manobrando com um exército sem disciplina, e que em uma batalha campal não resistiria diante de uma bem organizada legião. Não era a primeira vez que os touros se empregavam como uma arma de combate; mas em tamanho número e tão calculadamente, com o concurso de boieiros experimentados e produzindo um efeito tão completo só a Viriato compete uma tal glória. 

A insígnia da legião, que era uma águia poisada sobre uma rodela sem ornatos no tope de uma comprida vara, apareceu calcada e recalcada; e entre os corpos mortos viam-se esfrangalhados os balsões ou vexilos das coortes bordados a ouro com os números de cada uma e o nome da legião. Pelo chão revolvido e ensanguentado notavam-se as signas ou bandeiras dos centúrios; algumas ainda conservavam no alto da <numpag 72> vara uma mão direita como símbolo da fidelidade, ou uma coroa alusiva a alguma vitória. Ainda agarrados aos seus pendões, jaziam porta-estandartes com as cimeiras de cabeças de leões cujas peles lhes pendiam das costas. Cascos de ferro e de cobre, escudos de pau chapeados de ferro, cotas de malha revestidas de couro ou guarnecidas de escamas de metal, couraças de bronze, espadas de dois gumes, parazónios ou espadas curtas, dardos, flechas, fundas juncavam todo o âmbito da Cava, como se um torvelinho de morte tivesse dispersado o acampamento de Nigídio. 

Os despojos do exército romano foram em grande parte dados aos maiorais da mesta em paga do seu trabalho e acerto. Daí vaio o aparecerem ainda passados muitos anos colares fixos ou torques, cistes de bronze, dracmas de prata e armas romanas por muitos lugares inacessíveis dos Hermínios. <numpag 73> 

XXIX 

Entre os poucos legionários do exército de Nigídio que escaparam não apareceu o general; fora uma vítima da tremenda catástrofe. Os chefes do exército de Viriato resolveram prestar uma homenagem à Deusa-Mãe, do culto ctoniano, I-Ana, ou Anah, levando em um carro puxado por vacas brancas, até às lezírias da margem do rio Pavia, a pedra focal, com que ela era representada na religião lunar da Lusitânia. Desse culto primitivo, ficou a superstição de revolver penedos, junto dos lameiros ou charcos, e a crença nas Jans ou fadas, e nos juncais chamados Omomi, de que o povo fez a entidade do Bom Homem. A pedra focal foi conduzida com o respeito de quem via nela o símbolo da fundação da família, e no plenilúnio dançava-se diante dela ao som de sistros e adufes, tal como usavam as famílias religiosas dos Cabiras, Telchines e Dáctilos. A pedra focal era entre as tribos dos Germanos também levada em um carro com o nome da deusa Herta, e arrojada a um lago. 

No meio da festa aparatosa da Deusa-Mãe, todos os guerreiros do exército de Viriato se aproximaram da pedra focal e, colando a mão sobre ela, foram proferindo um juramento inquebrantável: 

-- Nós combatemos pela liberdade da Lusitânia, fonte da paz e da segurança das nossas famílias. E enquanto a Lusitânia for pisada pelo invasor romano, nós juramos combatê-lo sempre, sem regressarmos a nossos lares, sem procurarmos as nossas mulheres, sem mais beijar os nossos filhos até ao final triunfo, em que todos estamos empenhados. 

A confiança na audácia e inteligência de Viriato é que motivava estas resoluções extremas que, se fosse necessário, seriam levadas até ao suicídio. Viriato começava a aparecer como um vulto maravilhoso e corriam vozes de que o toque das suas mãos dava saúde. E quando o carro era levado para a beira do rio com a pedra focal, trouxeram ao encontro de Viriato um pobre homem hidrópico em extrema deformação para que o socorresse com o seu poder e o livrasse de tanto sofrimento. Viriato atendeu o desgraçado doente: -- Para o teu mal há um remédio infalível nas águas da fonte de Ouguela. Segue para lá quanto antes e fica certo de que te curas. -- Senhor! -- disse o hidrópico. -- Eu sou Bovécio; e prometo, quando voltar curado, ser teu soldúrio, acompanhar-te nos perigos e ai além da morte. 

Viriato, sorrindo para os que o escutavam maravilhados, continuou: 

-- Não tem essas águas somente virtudes medicinais; o pão amassado com água da fonte velha de Ouguela fica mais leve e saboroso do que o melhor pão de Avintes. 

Um dos soldúrios interveio: 

-- Conheceis bem todas as riquezas desta nossa terra, porque a tendes percorrido de norte a sul. 

-- Por isso mesmo é que eu lhe tenho tanto amor. Quando andava nas fadigas da mesta, quantas vezes fui eu às águas afamadas de Aljustrel, lá no Alentejo, lavar as feridas malignas e pústulas do gado. Por lá encontrei sempre muitos pastores que se iam tratar de feridas rebeldes, de sarna e até de lepra. O que sei dizer é que de lá voltavam sempre curados. 

-- São águas santas! -- Santas, sim, mas é preciso ter cautela, porque bebendo-se demais... Os banhos, esses são milagrosos. -- Deveis conhecer umas águas que nascem em Olíssipo, na falda meridional do Monte do Castelo? <numpag 74> 

-- Se conheço! Curam os catarros mais fundos e aclaram tanto a voz que até se diz que não há músicos que igualem os dessa terra. Se os Romanos se apoderassem dessa cidade, com certeza aí edificariam sumptuosas termas. 

-- Toda esta nossa Lusitânia é rica de águas milagrosas. 

E enquanto o carro com a Pedra focal continuava a marcha, Viriato completou o seu pensamento: 

-- Como as águas do Tagus não há outras no mundo mais acerosas; nem as de Bilbile oud e Tarragona lhe chegam. Bem se vê pelo que se passou agora na Cava. <numpag 75> 

XXX 

A Guerra dos ladrões, como chamavam em Roma à luta heróica de um povo defendendo o seu território, os seus lares, a própria existência, prolongava-se com desastres sucessivos para as armas sempre ufanas dos quirites. Os bárbaros do Ocidente eram exemplo de dignidade cívica e de altura moral para o povo-rei que se arrogava a supremacia da civilização. As derrotas quase simultâneas de Unímano e Nigídio ocultaram-se por alguns dias na cidade eterna; chegou-se mesmo a espalhar que Viriato se rendera, que fora agarrado; que seria trazido para o apresentarem ao povo em espectáculo no circo. Mas a verdade cruenta irrompeu quando se viu que fora encarregado Caio Lélio, que era por todos cognominado o prudente, de partir rapidamente para a Hispânia e de intervir com o seu tino seguro na campanha que se desmoralizara. E tal era a importância da missão que Lélio partira revestido da autoridade de procôncul. A situação era extremamente grave; porque um dos generais romanos, não se sabia se Unímano ou Nigídio, em consequência dos muitos ferimentos que recebera, sucumbira. Lélio ia substituir um deles. O novo general inspirava confiança pela clareza de inteligência que possuía; não iria imprimir um impulso decisivo ao Bellum latronum, mas ninguém como ele saberia informar o Senado da situação da Lusitânia e das condições que cedo ou tarde conduziriam à vitória. Lélio era considerado em Roma como um literato exímio, dotado de eloquência empolgante e de um vasto saber; estas qualidades não eram incompatíveis com o espírito militar de um chefe tacitamente encarregado, não de feitos estrondosos, mas de salvar dois exércitos comprometidos em um país inimigo e longínquo. Por isso a chegada de Caio Lélio à Lusitânia não produziu ruído; a sua obra capital foi sustar prontamente o revés que se precipitava, reunindo os dois exércitos romanos e evitando a batalha para que dali em diante a campanha na Lusitânia tomasse um outro aspecto mais favorável ao poder de Roma. As suas informações para o Senado influíram nisso e por ventura foram seguidas mais tarde por outros generais com o êxito desejado. Lélio, com o seu profundo saber, tratou de ir colhendo todas as notícias que importavam ao interesse de Roma e, com as notas que tomava, inquirindo dos povos e dos costumes, escreveu uma carta ao Senado, da qual alguns trechos foram aproveitados pelos geógrafos contemporâneos. Narrava o procônsul: 

«Cumpre ter sempre presente que a Lusitânia é habitada pela mais poderosa das nações hispânicas; e que, achando-se já subjugadas as outras, é esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas. 

«Não provém a sua força do número dos seus habitantes, mas da sua resistência devida a um temperamento tenaz e incansável, a uma dignidade individual que antes prefere a morte a qualquer aparência de escravidão. 

«Explicarei isto pela pureza do sangue lusitano; eles não se misturaram com os Celtas, que haverá quatro séculos invadiram a Espanha e conseguiram aliar-se e fusionar-se com os Iberos. Na Lusitânia não aconteceu como nas Gálias, quando aí se efectuou a conquista do Celta invasor; o Lusitano não caiu na servidão militar como o gaulês. O povo vive espalhado por casais, vilares, pobras, agricultando, deixando o trabalho dos campos às mulheres, desde que é preciso correr às armas para defender a terra; as cidades são confederadas entre si, também no intuito da defesa e para o fim de governo administrativo. São eles que votam em conselho armado a guerra defensiva e que elegem os seus chefes e generais, declarando cada povo ou localidade com quantos cavaleiros ou infantes contribuirão para a guerra contra os Romanos. Os chefes eleitos <numpag 76> apresentam-se na entrada de Maio prontos para a campanha, seguidos dos seus companheiros, que são todos os homens seus dedicados, soldúrios e protegidos, que os seguem por toda a parte e lhes obedecem incondicionalmente. É esta a organização do seu exército. E de Viriato me contam que ele tem, além do comando geral de todas as forças, uma mil soldúrios que, desde a matança de Tribola, em que salvou o exército lusitano da perda imediata quando já propunha a rendição, ficaram constituindo a sua guarda de corpo, com juramento de lhe não sobreviverem morrendo ele em campanha, como prova da sua irmandade heróica. Desde o desastre de Tribola até hoje muitos dentre os mil soldúrios têm morrido nas guerras com Plâncio, com Cláudio Unímano e Caio Nigídio, mas esse número está sempre completo, porque a maior glória que pode aspirar um guerreiro lusitano é jurar o pacto de amizade na vida e além da morte, sendo eleito em consequência de feitos extraordinários um dos mil de Viriato. Com uma organização militar que assenta no vínculo sentimental da confraternidade e que se move pela emoção alucinante da Pátria, as legiões romanas nada podem, e a estratégia dos pretores fracassará sempre desde que continuem com o sistema das batalhas campais em um terreno cheio de anfractuosidades perigosíssimas e que os naturais conhecem perfeitamente. 

«Apontando estes contras não quero espalhar o desânimo; e assim como Roma já soube tirar uma lição luminosa dada por estes bárbaros, adoptando para os eu exército a espada hispânica, que lhe tem proporcionado vitórias, deles temos a tirar ainda a arte de os vencer. Porque, rigorosamente, os Lusitanos não podem ser vencidos senão pela perfídia. Sabereis que entre a raça dos Iberos e a dos Lusitanos há um ódio irrefreável mas latente; nunca se ligam, nem se entendem, e a sua aversão mútua separa-os mais do que as inacessíveis fronteiras de rios caudais ou de alterosas montanhas. Passarão os séculos, mas esta antinomia prevalecerá. É sobre ela que Roma deve apoiar o seu domínio; muitos povos da Lusitânia estão hoje confundidos em território ibérico e Viriato, conseguindo reuni-los para a confederação defensiva em que trabalha, expulsará o poder de Roma da Espanha, com certeza e não tarde. O Ibero lisonjeia-se com os contactos da soberania de Roma; dêem-se-lhe títulos de cidades municipais, atraiam os seus filhos a Roma, e eles ficarão submissos, porque adoram o poder; aproveitemos o ódio do Ibero para demolir o Lusitano. Para aniquilarmos o Lusitano é debalde que empregaremos a espada, mas é infalível o resultado impelindo-o para a união ibérica. Hoje toda a Lusitânia tende a retomar a extensão primitiva, e unifica-se moralmente à voz de Viriato, que se acha revestido entre o povo de um prestígio maravilhoso: nada menos do que acreditarem todos que ele é invencível. Nós sabemos quanto esta credulidade influi no ânimo das tropas e decide das batalhas. Corria por aqui entre as tribos da Lusónia que apareceria um guerreiro montado em um cavalo branco, e que ele conseguiria repelir o estrangeiro invasor; todos hoje consideram Viriato como a realização dessa velha profecia, e os companheiros que lhe deram o colar de ouro do comando ou a víria foram os primeiros que o aclamaram pelo nome de um guerreiro prestigiosos do tempo de Aníbal, chamando-o VIRIATO! Morto este chefe, dissolver- se-á a Lusitânia; porque esse profundo sentimento de raça e de pátria que anima as tribos lusas carece de uma representação que as identifique. Viriato deve ser morto; sem o que não acabará a campanha e Roma será sempre vencida. Urge pensar nisto e só nisto. Simulem-se campanhas, mas vise-se a este fim único. Perguntareis: Quem há-de matar Viriato? Por certo que nenhum general romano ou cavaleiro audacioso o desafiará para um combate individual. Mas já indiquei o caminho: o ódio dos Iberos e dos Lusitanos entre si é insondável e não faltará um capitão de sangue ibérico que se preste a alcançar a glória dessa traição.» <numpag 77> 

Era mais longa a carta de Caio Lélio ao Senado; muitas das suas passagens foram aproveitadas pelos geógrafos gregos e cronistas romanos de épocas ulteriores, e pelos historiadores que referiram as guerras viriatinas. A parte que interessava directamente à política romana foi lucidamente compreendida, não só pela experiência dos anteriores desastres, mas pela confiança no tino indiscutível de Caio Lélio. Por isso nos Anais da República, não se referindo nenhum combate dado por Lélio na Lusitânia, inscreve-se que imprimira aos sucessos uma direcção que os tornava menos favoráveis aos Lusitanos. 

O efeito das palavras sensatas de Lélio era tardio e os acontecimentos atropelavam-se exigindo uma acção imediata. Para os espíritos ambiciosos, a missão de Lélio também fora frustrada; era uma derrota como as outras, mas sem aparato. O Senado obedeceu à corrente da opinião: naquele ano de DCIX da Edificação da Cidade, e sexto da Guerra dos Ladrões, foram eleitos cônsules Quinto Fábio Máximo Emiliano e Lúcio Hostílio Mancino, filhos e irmãos de afamadíssimos generais que tinham levado as armas romanas ao máximo esplendor na vitória de Pidna e na destruição de Cartago. Fervia-lhes o sangue: Quinto Fábio empenha-se para vir tomar pessoalmente o comando na guerra da Lusitânia. O Senado atendeu o seu desejo dando-lhe a ordem peremptória. <numpag 78> 

XXXI 

A Guerra viriatina, como em Roma já se dizia da campanha desgraçada na Lusitânia, levou o Senado a encarar os acontecimentos com a justeza que lhe competia, preparando uma solução prática. Usando de um direito de negociar e concluir alianças com os povos 

Cada derrota de um pretor ou cônsul na Lusitânia manifestava ao Senado a dificuldade de poder submeter esta região hispânica ao regímen do Foedus iniquum, título com que Roma cobria a subserviência dos povos submetidos a seu protectorado. A Lusitânia não era um inimigo vencido, nem tão pouco seria um amigo fraco; reconhecendo-o no meio de tanto desastre, o Senado viu claro o caminho para exercer a sua acção na Hispânia Ulterior indicando a oportunidade do Foedus aequum. Aproveitava-se a ocasião da partida de Quinto Fábio para a Lusitânia; ele seria o portador do tratado de aliança, ficando-lhe reservado o arbítrio de poder firmar o tratado com Viriato, ou de o ocultar, caso o sucesso das armas romanas mantenha o seu império. A convenção diplomática não compreendia somente a segurança das pessoas e das transacções entre os dois países; continha-se aí um facto capitalíssimo, e que poderia exercer uma influência decisiva no futuro da Hispânia Ulterior: O Senado reconheceria Viriato como príncipe ou rei da Lusitânia, assinando e responsabilizando-se pela execução do tratado como soberano. 

Quando entre alguns membros do Senado se aventou a importância de um tal acto, de consequências imprevistas, um dos Senadores mais experimentados no governo sorriu-se com superioridade: 

-- Todas essas garantias estão apenas na lera; porque vós todos sabeis, que embora pertença ao Senado a direcção das negociações com os estrangeiros, nenhuma aliança poderá concluir-se sem que os Comícios lhe prestem o seu assentimento ou ratificação. A ideia diplomática foi prontamente compreendida. Na partida de Quinto Fábio entregou-se-lhe o tratado, cujo conteúdo ignorava, e impondo-lhe a cláusula, que só o abrisse e cumprisse, quando e até aonde a marcha dos acontecimentos o determinasse. Era ainda um hábil modo do Senado eximir-se a responsabilidades. 

As forças de Lélio comandava em Espanha estavam cansadas e apavoradas; o Cônsul Quinto Fábio compreendeu que era condição impreterível partir com algumas novas legiões, para com elas meter em disciplina as que se consideravam exaustas. Os exércitos romanos estavam divididos pelas campanhas gloriosas da Grécia, da Macedónia, de Cartago, achavam-se diminuídos e também debilitados por es7forços ininterruptos; os veteranos que regressavam à pátria vinham semi-mortos e para nada se poderia contar com eles. De Pidna haviam chegado a Roma as legiões triunfantes; da destruição de Cartago regressava Cipião com os seus bravos; mas nenhum legionário se quis inscrever para acompanhar Quinto Fábio para a guerra da Lusitânia, justificando-se com desdém que não desciam das altas façanhas contra nações grandes e civilizadas, contra uma obscuras tribos miseráveis dos confins do Ocidente e demais comandadas por um chefe de ladrões (Dux latronum). Por estes imprevistos embaraços e pela situação apática em que se via Caio Lélio, a guerra lusitana afroixara; Viriato, para não cansar as suas companhias e terços, aproveitou-se desta trégua forçada, contando que nova época de luta seria iniciada, cada vez mais desesperada e cruenta da parte dos Romanos. <numpag 79> 

XXXII 

Para que a inactividade passageira em que se via não prejudicasse o prestígio que exercia sobre os homens de armas, resolveu Viriato ir consultar o velho Idevor à ilha sagrada de Achale, junto do promontório Cepréssico, aonde se conservavam as tradições cultuais trazidas de Hierna; partiu acompanhado dos seus mil soldúrios e, transpondo a margem direita do Tagus, dirigindo-se para Cetóbriga aonde o Sado desemboca no oceano, deu ordem aos companheiros que ali o esperassem durante três dias. 

Dali daquela baía do Sado, partiu Viriato em uma barca de couro, com os três cavaleiros que sempre o custodiavam, em direcção ao promontório Cepréssico de trás do qual parecia ocultar-se a ilha de Achale. Um desses companheiros, Ditálcon, dizia: 

-- Foi nessa ilha que se refugiaram as famílias lusitanas assombradas pelo morticínio de Galba; junto do templo do Deus inominato, encontraram alento para resistirem à calamidade que os aniquilava. 

Minouro, ansioso por pisar aquela ilha misteriosa de Achale, avivava também as suas reminiscências: 

-- Conta-se que outrora um colégio sacerdotal de druidas estava na ilha Pelágia, situada ao norte, fronteira à costa de Ofiusa, chamada dantes Oestrímnis. Da ilha sagrada de Hierna vieram para aqui os bardos, que doutrinaram as tribos de Lez, cujos navegadores cruzavam o mar tenebroso indo buscar o estanho às ilhas Cassitérides, e voltavam confiados no afamado farol da torre de Brigântia. Mas, quem sabe onde está hoje essa ilha Pelágia? 

Andaca observou: 

-- Desapareceu, ou por mistério ou força da natureza. O mar desfez essa ilha e, aonde ela existiu, é hoje um vasto estuário coberto de motiço e algas. Parece que os acontecimentos nos levam a prever que a Lusónia tem também de desaparecer como a sua ilha encantada. Aqui a nossa raça foi invadida pelos Celtas loiros turbulentos; aqui nos tem explorado os Fenícios e Jónios, destruindo a nossa navegação no oceano, metendo a pique as nossas barcas; aqui nos roubaram pelo seu comércio os Cartagineses, que atraíram sobre nós a pilhagem dos Romanos que hoje temos vencido, mas que não largam a presa. 

Enquanto a barca de couro seguia para a ilha de Achale, ia Viriato reconcentrado e silencioso, como absorto na alta missão da sua vida; ao ouvir aquelas palavras de Andaca, obedecendo a um impulso íntimo da sua intuição quase profética, exclamou para os três companheiros: 

-- Não serão somente os Romanos que hão-de pensar em submeter ao jugo as tribos da Lusónia; outros povos ou outras raças virão do norte e do sul e se espalharão sobre este território julgando possuí-lo pela força da conquista. A Lusónia pode ser temporariamente vencida, mas nunca doutrem subjugada; não se extingue, porque a sua liberdade subsistirá nas almas e cedo ou tarde manifesta-se em espírito e renasce em restauração gloriosa. 

As suas palavras foram interrompidas porque a barca de couro dobrara o promontório Cepréssimo e apareceu repentinamente à vista a ilha sagrada de Achale. 

-- É ali, é ali que se guardam os tesouros salvos às devastações e rapinas dos Romanos; outros povos lançam os seus tesouros aos lagos escuros, como melhor meio de defesa. Mas quem saberá da existência desta ilha misteriosa? Ninguém; ninguém. 

Minouro fitou a ilha, contemplando-a com espanto, na preocupação que desde aquela hora sabia aonde se guardava o chamado Tesouro do Luso. A mesma ideia tornou-se uma obsessão para Ditálcon. A barca chegava já às rochas escarpadas da ilha <numpag 80> de Achale, sobre a qual se erguia uma torre redonda de três andares, como sentinela do oceano tenebroso. 

Erecta sobre o pequeno promontório, a Torre Redonda, de uma surpreendente elegância, era construída de fortes blocos aparelhados de pedra seca, tendo no cocuruto um tecto também de pedra em forma cónica. Dos três andares ou quadras sobe-se por escadas em caracol formadas em pequenas torres laterais que terminam em ameias. 

O interior é alumiado por seteiras geminadas e a porta única da entrada está a uma altura do chão para a qual se sobe por uma escada móvel que se faz baixar quando é necessário. Como lugar de refúgio, ali estão depositadas as folhas plúmbeas que têm impressos os títulos das famílias e relações dos sucessos memoráveis, crescentes e vírias de ouro, fíbulas mamilares, tiaras e bastões de prata, insígnias do comando dos patriarcas. Ali na Torre Redonda se conserva o fogo perpétuo consagrado a Samham, o Julgador dos mortos, cujos ritos se celebram no primeiro dia de Novembro. Consagradas a esse culto dos antepassados, aí residem as Gemades (de Genmaidh, piro e casto) mulheres formando uma como classe de vestalato ou Lucae dominicae; e ali comparecem os tocadores das harpas tríplices ou de três cordas, chamadas telyne, que com sons fortes e vibrantes enchem o ambiente acompanhando os cânticos de uma inspiração divina expressa pela palavra Awen. 

E torneando a ilha, para fazer o desembarque, perguntava Andaca: 

-- Não tem porto Acahale? 

Nisto roçou a barca em uma lingueta de areia que se ia ali formando em cabelo e que, com o andar dos séculos, encheu esse ponto de comunicação do rio Sado com o oceano, tornando-se com as turfeiras uma extensa península sobre a qual se acumularam aparatosos monumentos que por seu turno foram também devastados pelo tempo. 

Viriato e os seus três companheiros desembarcaram alegres; Idevor, com um longo séquito de Endres, ou cantores e educadores do povo, veio ao seu encontro e, entre músicas ruidosas e hinos festivais, foram conduzidos para a vasta quadra que formava o andar térreo da Torre Redonda. Era aí a sala do banquete, em que se fazia a simpósia dos chefes das contrébias lusónias, quando se manifestavam sobre os destinos nacionais. Era a primeira vez que Viriato se assentava à cabeceira da mesa como se fosse um Brenn ou Hegmon das tribos. 

E apenas Idevor o conduzira aos eu lugar, entraram na quadra nove donzelas encantadoras, das mais belas do tipo da raça, cingidos os cabelos castanhos com fitas douradas que desciam com as madeixas soltas ao longo das costas; e dançando em volteios com sentido hierático e cantando em uníssono um coro que repetiam, foi o seu canto interrompido por uma voz argentina que parecia partir do alto da sonora quadra. Viriato ergueu os olhos para descobrir donde vinha aquela voz que o penetrou com uma vibração sedutora e dominativa e viu lentamente descendo do primeiro andar da Torre Redonda uma donzela de uma graça e frescura sobre-humana. 

Era Lísia, a filha do velho endre, e como ele conhecedora dos mitos da raça e guarda das tradições mais augustas das tribos lusónias. Estava vestida com uma túnica branca guarnecida de púrpura de Elisa que os Tírios tinham tornado célebre no mundo, cingida por um cinto de malha de ouro; uma lúnula de ouro chato com finos ornamentos abarcava-lhe todo o alto da cabeça e vinha às pontas das orelhas. Era uma semnoteia, cercada por um grupo de nove virgens, com quem no alto da Torre Redonda celebrava os mistérios cultuais. Lísia acabou de descer o longo escadório e, atravessando por entre o coro das donzelas que a foram seguindo, tomou de uma ara a taça de ouro destinada às simpósias e, chegando em frente de Viriato, estendeu o braço desnudado, alvíssimo e de um contorno escultural, apresentando-lhe a taça de ouro: -- Bem vindo! Viriato. Só para ti e com a minha felicidade. <numpag 81> 

Sob uma emoção repentina e como que subjugado pela beleza extrema que ali lhe aparecia, Viriato tomou a taça da branca mão de Lísia e, extático, paralisado no seu movimento, não a levou logo aos lábios. No rosto de Lísia transpareceu uma melancolia instantânea; seria desatendida a sua escolha? Não a amaria o guerreiro de que tanto lhe falavam, cujo nome se repetia nos cantos do povo e em hinos de vitória? 

Tudo o amor adivinhava; lê nas almas e o silêncio é a linguagem mais expressiva da emoção inefável. Viriato compreendeu o vislumbre de tristeza que obumbrou o semblante de Lísia e, acudindo à hesitação involuntária de que não se apercebera, levou a taça de ouro aos lábios: 

-- À tua saúde! E para sempre. 

Entrega em seguida a taça a Lísia, que com um rubor fascinante a levou aos lábios, como completando a cerimónia tradicional esponsalícia, murmurando com suavidade: 

-- Para sempre! 

E enquanto se entreolhavam em um invencível enlevo, Idevor ergueu ambas as mãos abençoando-os, lembrando-se de que aquela criança bela perdera toda a sua família na mortandade de Galba, e de que aquele homem forte surgira como o vingador e o libertador da Lusitânia. Essas duas almas fugiam uma para a outra. As nove donzelas que acompanhavam Lísia como uma forma não organizada do vestalato, mas que poderiam ser comparadas às Senae ou Barrigenes gaulesas, cantaram uma hino de amor, ao som de tetracordes, sobre a frase que Viriato e Lísia tinham trocado: 

<poesia>
Para sempre -- no espaço 
A estrela Erma, bela, 

Fulgor vivo derrama: 
De paixão nunca lasso, 
O que fará quem ama?

Para sempre -- o sol flavo 
Solta a flux 
Vida, luz, 

Que o seu calor inflama; 
Da atracção pura escravo 
O que fará quem ama?

Para sempre -- o oceano 
Tudo alaga 
Com a vaga 

Que plangente rebrama; 
Da alma no doce engano, 
O que fará quem ama?

Para sempre -- sereno 
O luar 
Faz cismar, 

E mil saudades chama; 
No enlevo mais ameno, 
O que fará quem ama? <numpag 82> 

Para sempre -- e sem calma
A paixão 
Na atracção 

Do enlevo aumenta a chama; 
E Embala o engano da alma 
Para sempre em quem ama! 
</poesia>

O hino de amor desdobrava-se em um coral uníssono no retornelo -- O que fará quem ama? -- deixando uma impressão mais que humana. Enquanto os ecos do festival se repetiam por todas as quadras da Torre Redonda, Lísia, de mãos dadas com Viriato, foi percorrendo a sala à volta, cumprimentando os assistentes, que se inclinavam com simpatia. Dali subiram os dois para o terceiro e último andar da torre donde se alcançava a extensão imensa do mar azulado, que reflectia o cariz de um céu sereno e sem nuvens. 

-- Como as nossas almas! -- disse-lhe Lísia, apontando todo aquele ambiente. 

Ali, naquele retiro ignorado do mundo e até aonde somente Lísia tinha acesso pela sua qualidade de semnoteia, ali, de pé, junto de Viriato e contemplando o oceano profundamente plácido naquele dia, confessou-lhe a noiva ingénua: 

-- Nunca te tinha visto, mas representava-te na mente assim como és. Como semnoteia e para que te entregue completamente a minha vontade, só me falta uma prova de ti. Tens de responder a um enigma. 

-- O coração que ama tudo adivinha. 

Então Lísia proferiu com incerteza este enigma de carácter religioso: 

<poesia>
Vive sem ter corpo, 
No vale ou em gruta; 
Fala sem ter boca, 
Sem ouvido escuta? 
</poesia>

Esse enigma -- volveu Viriato -- foi-me revelado pela tua voz quando, pela abóbada desta torre, lhe escutei o suavíssimo Eco. 

-- Bem se vê que tens entrado em grutas e cavernas sagradas. Eu bem sei que foi um eco em misteriosa ressonância que te proclamou invencível. 

E tirando uma armilha de ouro do braço, fechou-a no pulso de Viriato e atirou a chave ao mar, proferindo como em vaticínio: 

-- Para sempre! 

E Viriato, tomando-lhe as mãos ambas: 

-- Eu ouvia falar de ti como uma aparição celeste, mas não tinha esperança de chegar a ver-te. nesta vida de combates que levo, para a independência da nossa Pátria ser firmada, esperando a morte como consequência da luta, e então... morreria sem verte. 

 -- Foi o teu amor pela Pátria lusitana que me fez pensar em ti e levou a amar-te como a alma dela. As tuas vitórias venceram-me também; e virgem semnoteia do colégio sacerdotal, que através de todas as perseguições e ruínas ainda aqui se conserva oculto nesta ilha sagrada de Achale, fiquei pertencendo-te desde que identificaste a tua vida com a independência da Lusitânia. <numpag 83>

-- É para mim muito mais do que a coroa de rei a escolha que de mim fizeste para teu esposo -- disse Viriato tomando as mãos de Lísia e beijando-as trémulo. 

Lísia aproximou a face imaculada da boca do guerreiro, que a osculou com emoção e pureza, na ingenuidade de herói que fazia desse beijo não um prazer mas um sacramento. Viriato ficou mudo por algum tempo, fitando o mar como esquecido de si. 

Lísia, com ternura e graça, perguntou-lhe: 

-- Quando te entreguei a taça de ouro, porque hesitaste em levá-la aos lábios? 

-- Dominou-me o espanto de uma impressão divina. 

-- Compreendeste a minha tristeza nesse momento rápido. Ah, nesse momento decidiu-se na minha alma uma determinação mais forte do que o meu desejo e que se tornou um voto religioso. Levaste a taça de ouro aos lábios aceitando a minha escolha; mas... só virei a ser a tua esposa, cobrir-nos-á o mesmo cortinado quando um general romano te pedir a paz. 

-- Lísia, escolheste-me para teu esposo! Entrego-me à tua vontade, para sempre. A condição que revelas é um impossível, porventura para não te destituíres da hierarquia de semnoteia? Virgem dos mistérios cultuais, nunca deixarei de amar-te, elevando-me a uma adoração pura e tirando deste santo amor o impulso para vencer os Romanos, e para.... que digo eu? Deixa-me delirar um instante, para forçar um pretor, um cônsul a pedir-me paz. Eu também jurei sobre a pedra focal não ter família enquanto não expulsar os Romanos da Lusitânia. 

Nas palavras de Viriato acentuara-se uma vibração de confiança em si para, servindo a causa santa da liberdade da pátria lusa, cumprir a condição quase ultrahumana que Lísia lhe impusera. Lísia também teve a presciência de que isso aconteceria e, tirando o anel de esmeralda que trazia, meteu-o no dedo da mão esquerda de Viriato, naquele em que se diz passar a vena-percordial. 

E desceram ambos da Torre Redonda, mais unificados nas almas do que se tivessem coabitado em uma concórdia de anos de ventura. Viriato daquele dia em diante tinha mais do que a espada invencível, que o não deixaria ser derrotado na guerra, nem morrer em combate; era o anel de Lísia que lhe infundia na alma uma confiança no futuro da inextinguível raça lusitana através de todos os desastres em que a envolvessem as vicissitudes dos tempos vindouros. Viriato via no terçado e no anel os talismãs que, pelo poder da tradição, formariam o tesouro do Luso. <numpag 84>

XXXIII 

No segundo dia em que Viriato passou na ilha sagrada de Achale, o velho endre Idevor levou-o ao primeiro andar da Torre Redonda e aí, ambos a sós, fitando o mar, demoraram-se longo tempo em um recolhimento misterioso; falava Idevor: 

-- «Tens a força material nessa espada Gaizus, que te torna invencível: a força moral é a que não se extingue e mais se comunica. Já que o teu braço serve com lealdade a causa da Lusitânia, é preciso que o teu espírito seja apoiado pela tradição da nossa raça; que a conheças, porque a tua memória sobreviverá nela, e que com ela ligues em um vínculo afectivo todos os companheiros de armas que seguem o teu comando. A tradição do passado é dolorosa, mas sublime; nós os Lusos somos um ramo dessa grande raça navegadora que desceu do Norte pela borda ocidental da Europa, ocupou as ilhas Britânicas, a orla atlântica das Gálias, da Aquitânia e, espalhando-se na Hispânia, chegou às ilhas Mediterrâneas e à alta Itália. 

«Esse povo navegador, que explorava os mares e os rios, como os anfíbios, tirou desta qualidade os nomes de muitas das suas tribos, que formam ligas hanseáticas para protegerem a sua actividade mercantil, vendendo os blocos de âmbar amarelo que iam buscar aos mares do Norte. Esse grande povo, donde proviemos, encetou as audaciosas navegações do Oceano Atlântico, descobrindo aí as Ilhas Afortunadas, tocando em um ignorado continente que fica lá para as bandas do Oeste ou a terra dos Aymaras, a quem comunicou a sua civilização e conhecimentos de astronomia. E desembarcando na costa africana, chegou ao Golfo Pérsico e, depois de estacionar na ilha de Dilmun, ocupou a baixa Caldeia, dirigido por Oanes ou Huan, que na velha língua designava o Sol, que era o guia certo desses navegadores primeiros. 

«Perdeu-se a notícia destas largas navegações; a raça foi atacada por outras raças fortes melhor armadas ou mais astutas. Em terra os Celtas, armados com espadas de ferro, bateram e dominaram os que só conheciam espadas de bronze; e essa raça corpulenta e loura, irrequieta e inculta, bateu os Lígures, escravizou-os ou misturou-os com eles desnaturando-os da sua pureza primitiva. Por mar os Fenícios e os Jónios do Mediterrâneo lançaram-se no esteiro das suas navegações e metiam a pique todos os baixéis ligúricos que encontravam. Nesta longa luta é que os Lígures foramsucumbindo; sobretudo na Espanha, quando os Iberos, vindos do norte de África, aqui entraram e monopolizaram o comércio do estanho que iam buscar às Ilhas Cassitérides. 

«Outras raças vieram sucessivamente à ocupação da Espanha, e aqui foram comprimindo a raça de Lez, o generoso povo de Lusónia, empurrando-o para a faixa ocidental e como que procurando arrojá-lo ao mar oceano. É no conflito destas raças invasoras que a Lusónia tem diminuído de território e as suas tribos vão sendo desmembradas. Os Romanos acharam-nos já enfraquecidos, mas tenazes, tendo resistido na faixa que hoje ocupamos, à antiga invasão dos Celtas, e até agora nunca confundidos nem incorporados pelos Iberos. É com esta força de resistência imanente na nossa raça que deves contar; ela vale mais do que muitos exércitos disciplinados, estes morrem, mas esse sentimento é inextinguível. A Lusitânia não é somente um território maior ou menor que nos agrega; é uma alma, o seio que nos une a todos! Os Jónios roubaram-nos as nossas tradições poéticas, transportando para as cabotagens do mar Mediterrâneo as nossas aventuras temerosas passadas no Atlântico, que se tornou para os seus geógrafos o Mar Tenebroso. Os Fenícios afundaram os nossos baixéis e apoderaram-se dos nossos périplos e do nosso comércio. E depois de tanta devastação do estrangeiro, vem ainda um outro invasor estrangeiro, a grande e generosa Roma votar-nos ao extermínio para assim firmar a sua posse pacífica da Espanha, segura de <numpag 85> que o Ibero se considera honrado com a espoliação do seu domínio. Hoje, Roma conta com a antipatia do Ibero para subjugar a Lusitânia: com o ódio do Ibero contará mais tarde qualquer outra potência estrangeira para submeter a Lusitânia, dando-se como protectora da sua autonomia! Mas, para que levantar o véu do futuro?... 

Idevor explicara longamente este quadro do passado da raça dos Lígures e a situação sempre combatida das tribos da Lusónia, quando ela tocava quase os Pirenéus e mesmo as margens do Mediterrâneo. Mostrara a Viriato as moedas autónomas das antigas cidades peninsulares, ar armas dos seus heróis, os colares do comando, por onde o chefe ficou conhecendo todos aqueles povos agora desmembrados entre os Celtiberos, que pertenciam à unidade da Pátria lusitana. Por este conhecimento precioso Viriato adquiriu um poder moral enorme para ligar a todos eles na defesa contra o Romano. No terceiro e último dia em que Viriato se conservou na ilha sagrada de Achale, o velho endre subiu com ele ao terceiro andar da Torre Redonda, para aventar rapidamente alguns traços do futuro: 

-- Vês esse mar imenso? Esse Atlântico que os baixéis ligúricos sulcaram destemidos outrora e hoje o Fenício monopoliza? Quando o Lusos e vir comprimido entre as raças que avançam de Leste e o mar, que hoje lhe serve de barreira defensiva, ele terá consciência da sua missão no mundo, sentirá em si renascer a antiga energia da raça e, restabelecendo as grandes navegações antigas, fundará novos impérios em vastos continentes agora ignorados. É este o destino da Lusitânia: será a primeira das nações, enquanto ela servir esta tradição, enquanto um fiel aliado estrangeiro a não espoliar das suas descobertas...» 

Lísia dissera-lhe à despedida: 

-- Agora tens o teu espírito iniciado para ires à Pedra Virgem e lá tomares conhecimento do antigo poema de seis mil versos gravados nos bastões dos poetas. Não basta dar unidade às tribos lusitanas pelo poder da espada: a tradição conservada na Árvore de Ogam, de que o ramo inicial e mais característico se denomina Luís, bem revela que os destinos da Lusónia se eternizarão pelo prestígio do seu canto nacional. Eu pedirei a Idevor que te guie à Caverna das Inscrições Ógmicas, junto à margem do Durius, e lá te descubra o grande poema da raça, esse pregão eterno do génio luso. <numpag 86> 

XXXIV 

Apenas Viriato se reunira aos seus mil soldúrios que o aguardavam impacientes, correu a notícia de que o cônsul Quinto Fábio Máximo Emiliano, que fora eleito naquele ano de DCIX da fundação de Roma, já pisava o solo da Espanha, vindo comandar pessoalmente a guerra. Considerava-se em Roma esse expediente como decisivo para assegurar o domínio da península embaraçado por umas miseráveis tribos que tinham a ousadia de quererem ser livres. 

Quinto Fábio saiu de Roma descontente, porque somente conseguira completar duas legiões novas para reforçar aquelas já cansadas de que dispunha Caio Lélio. Cônscio desta impotência, o cônsul compreendeu os conselhos prudentes de Lélio, não pensando em dar começo à campanha sem se informar do território e dos costumes do temeroso inimigo, e mesmo dos elementos hostis indígenas que poderiam coadjuvá-lo; de mais, era conveniente desfazer as prevenções pessimistas que apavoravam as tropas. Quinto Fábio não foi ao encontro de Viriato; e como que fugindo a uma conflagração, que poderia ser um desdouro para as armas romanas, procurara ponto estratégico para colocar os eu exército a coberto de qualquer surpresa do cabecilha lusitano. Procurou a grande planície cortada pelo rio Bétis, porque aí existiam numerosas colónias romanas que eram outras tantas guardas avançadas que lhe asseguravam a defesa. 

Desceu até à extremidade oriental da Turdetânia, aonde predominavam povoações ibéricas, para as quais o jugo romano se tornava uma honra; e aí, na cidade de Orson ou Urso, assentou os seus arraiais com toda a segurança. A posição era de uma firmeza imperturbável, porque se achava rodeada por muitas colónias militares importantes, tais como a Itálica, da parte continental ou interior, tendo apoio na cidade mais opulenta e populosa de toda a Bética, Híspalis, empório comercial activo e rico, com um semicírculo de fortalezas afamadas cheias de provisões, que eram Carmona, Astigi, Ucubi e Tucci. E como se isto ainda não bastasse para garantir a protecção ao exército, ainda mais para o norte lá estava Córduba, a capital da Hispânia Ulterior, para impedir qualquer incursão do inimigo. Quinto Fábio podia estar seguro, porque com estes recursos era impossível molestá-lo do lado da terra; pelo litoral também não era presumível o perigo, antes pelo contrário, para uma eventualidade sinistra facilmente refugiaria com o exército nas fortes muralhas de Gades, de Carteia e de Málaca. 

Por certo o exército que Fábio veio tomar do comando de Lélio estaria em situação desesperada, para que ele assim procedesse, estabelecendo os eu arraial com uma exclusiva preocupação defensiva. Dispostas todas as forças nos seus quartéis, cada dia que passava na inactividade era um motivo de enfraquecimento e de indisciplina; para justificar essa necessária apatia, Quinto Fábio simulou uma excursão ou teoria ao templo de Hércules Gaditano, para tornar propício o Deus das povoações ibero-fenícias, e oferecer-lhe um aparatoso sacrifício, para assim lisonjear a credulidade desses povos e ligá-los aos interesses de Roma. A ausência do cônsul impunha a necessidade ao seu lugar-tenente de manter a disciplina do exército em operações contínuas de adestração, acostumando-o às emboscadas e surpresas de um inimigo incansável e sempre empregando expedientes imprevistos. Nem por isso o ânimo da soldadesca se alevantava, porque o conhecimento das derrotas anteriores era um nefasto agouro; e além disso pobres mercenários recrutados à força por todas as colónias e conquistas romanas não eram impelidos por um sentimento como aqueles para quem morrer sobre 

o solo da Pátria que defendiam era uma glória e um delicioso sacrifício. Enquanto Fábio se demorava na excursão ao templo de Hércules Gaditano, evitava decentemente qualquer batalha com Viriato, que se julgava muito longe; e o seu <numpag 87> exército ia cobrando alento para o momento oportuno. E não era o tempo perdido, porque o cônsul conseguira, talvez pelas indicações de Caio Lélio, travar relações com chefes de algumas cidades dos Túrdulos, dos Turdetanos e principalmente das cidades célticas, que já se mostravam cansadas destas guerras prolongadas que estavam embaraçando a entrada da civilização romana na península hispânica. 

Viriato não se temia do exército de Fábio; conhecia que as duas legiões recém- chegadas de Roma eram maltrapilhos apanhados nos enxurros da cidade, bisonhos desprezíveis, estranhos a todo o brio e espírito militar; os que cá estavam não podiam esquecer os revezes a que escaparam e as derrotas que lhes infligira com vontade. Mas uma coisa preocupava o cabecilha: as conferências de Quinto Fábio com chefes civis túrdulos e turdetanos, as suas visitas aparatosas a cidades célticas, revelavam-lhe que o cônsul procurava uma nova força, não no exército, mas no descontentamento das povoações que naturalmente eram antinómicas com a liberdade da Lusitânia. E reconhecendo que toda a demora na acção era um ensejo para Fábio se reforçar com este antagonismo de raça, Viriato decidiu ir atacar o arraial em que se defendera o exército romano, começando por se ocultar pelas florestas circunvizinhas da cidade de Orson. 

Fez-se essa operação com extrema perícia, porque os terços lusitanos dirigiram-se de afastados pontos para a extremidade oriental da Turdetânia e insensivelmente se internaram por companhias nas cerradas florestas dessa vastíssima planura. 

Não se fez esperar o primeiro golpe; do exército de Fábio saiu um destacamento de uns quinhentos homens para ir buscar lenha à floresta mais próxima da cidade de Orson; iam muitos carros puxados por bois e por cavalos. Quando estavam abatendo os troncos, de todos os lados surgiram os companheiros de Viriato rapidamente e, tão certos no plano, que esses quinhentos foram totalmente trucidados, sem que a nova terrível pudesse ser levada a Orson. 

A demora dos mateiros fez com que o lugar-tenente de Fábio mandasse ver que extraordinário caso se dera; trouxeram-lhe a notícia do morticínio, mas longe de suspeitar que um tal golpe só poderia ser dado pela audácia de Viriato, o lugar-tenente alardeando conhecimento dos costumes da Espanha, exclamou: 

-- Foi uma partida de salteadores, uma dessas quadrilhas que vivem do roubo e depradações, tão constantes na Espanha. Irei castigá-los eu mesmo. 

E pondo-se à frente de uma legião, dirigiu-se para a floresta próxima de Orson, na ideia de que apanharia oss alteadores. Assim que dividiu as forças para o cerco e batida, saíram-lhe das outras florestas os terços de Viriato, que subitamente caem sobre os manípulos romanos e os destroçam completamente. 

Os que conseguiram fugir levaram o terror ao exército aquartelado em Orson; e sob a tremenda impressão foram emissários levar a Fábio, que estava ainda em Gades, a nova espantosa, que o forçou a partir a todos a pressa e a vir tomar o comando do exército para proceder conforme o exigia a presença do inimigo. 

O Cônsul estava bem industriado e guardou-se de dar batalha campal a Viriato; fez como o caudilho: respondia às escaramuças com outras escaramuças; não perdia gente e, tendo os eu exército bem aprovisionado, considerava estes pequenos assaltos em que ficavam no campo trinta, cinquenta homens, como uma escola em que adestrava os seus soldados à índole especialíssima desta guerra sem igual. <numpag 88> 

XXXV 

Aproximava-se o fim do consulado de Fábio e fatigava-o a indecisão da campanha, quando se resolveu a abrir o tratado que lhe confiara o Senado. Era momento azado para negociar a aliança, porque não tinha sido derrotado, nem tão pouco qualquer vitória recente ensoberbeceria o cabecilha para impor condições vergonhosas. Mandou um emissário a Viriato com as cláusulas formuladas pelo Senado, confiado em que a paz e aliança com Roma nas bases do Foedum aequus era uma solução honrosa em tão violenta campanha, satisfazendo equitativamente as aspirações da Lusitânia. 

Viriato percebeu todo o alcance do tratado logo que descobriu a perfídia com que o Senado procurava seduzi-lo pela vaidade, reconhecendo-o como Príncipe da Lusitânia. E na sua linguagem franca e rude, mas luminosa de bom senso, falou ao emissário entregando o diploma que lhe fora confiado: -- Dizei a Quinto Fábio que a paz e independência da Lusitânia é o empenho a que consagrei a minha vida; e que a aliança com Roma, nessa base de igualdade política, será efectivamente uma garantia para a autonomia por que combatemos. Mas no tratado que o Senado propõe há uma frase que fere o nosso sentimento nacional quando me compara a Rómulo, que foi chefe de ladrões e que teve a habilidade para dar à sua quadrilha a coesão de um Estado entre as cidades itálicas. 

«A Lusitânia é constituída por cidades livres e trabalhadoras, subsistindo pelos costumes dos antepassados a que chamamos foros; e muito se engana quem procura fazer que eu seja considerado como chefe de salteadores, embora me equiparem a Rómulo. São modos de falar e sem mais valor do que banais comparações; mas o que eu repilo com todas as veras de alma é o título de Príncipe da Lusitânia. Não é a simpleza dura do meu carácter ou isenção que me leva a recusar esse título; é o conhecimento da tradição desta terra livre por que combato. 

«A Lusitânia nunca teve reis e por isso foi sempre autónoma. No dia em que as suas cidades confederadas se submeterem a um chefe soberano, começará a sua servidão; esse rei, preocupando-se unicamente do seu interesse pessoal e da hereditariedade da sua família em uma dinastia irresponsável, tratará de unificar sob um mesmo ceptro a Lusitânia e a Ibéria, jungindo as duas nações como os bois do carro. Para alcançar esta unificação, começará pelos meios capciosos dos casamentos reais para vir a conseguir pelas heranças a junção das soberanias. E se estes meios falharem, o rei procurará alianças com outros reis estrangeiros que o defendam, comprando a estabilidade do seu trono à custa da liberdade, da independência e até do território da Lusitânia, desmembrando-a se lhe for preciso, ou chamando o estrangeiro para se impor ao seu povo, ou abandonando-o na hora do perigo, deixando-o entregue ao assalto dos invasores. «É isto um rei, planta parasita e daninha que esterilizaria toda a Lusitânia. E Roma bem o pressentiu quando, para subjugar esta terra, vendo-se impotente pelas armas, recorre a um instrumento de íntima dissolução dotando-a com um príncipe, aclamando um soberano. Rejeito o glorioso título, que é uma afronta para cidades livres, ligadas federativamente com as suas autonomias locais. A aliança para a paz e francas relações de comércio entre os dois povos, essa abraço-o em condições de igualdade agora e sempre; mas estou certo de que o Senado visa a outros fins, tem outros intuitos.» 

O emissário de Quinto Fábio partiu, assombrado daquele desinteresse do caudilho lusitano, que em Roma passava por chefe de ladrões. A incompreensão do valor moral de Viriato era uma das maiores causas dos generais romanos serem continuamente derrotados; contavam com o homem audaz, mas não com a grandeza do carácter. <numpag 89> 

XXXVI 

O tempo despendeu-se nestes preparativos de uma acção estrondosa e decisiva, quando começaram as primeiras chuvas do Inverno; o currículo do consulado de Fábio estava terminado e com ele os eu comando, em verdade estéril e inglório. Poderia considerar-se equivalente a uma derrota surda. Em Roma falava-se agressivamente contra Quinto Fábio, como deslustrando as tradições heróicas da família Emiliana. Aconteceu que nesse ano de DCX foram eleitos cônsules Sérvio Sulpício Galba, esse antigo pretor que ordenara traiçoeiramente o morticínio dos trinta mil Lusitanos, o qual se enriquecera com os latrocínios dos eu governo provincial, e Lúcio Aurélio Cota, que com ele compartilhava nesse ano o poder, e também era em Roma assaz conhecido por uma avareza sórdida e insaciável ambição de dinheiro. 

A guerra da Lusitânia apareceu para esses dois cônsules como uma venturosa expectativa; o comando do exército facultava o exercerem em nome da República todas as extorções e vilezas. Ambos os cônsules disputavam entre si o comando da guerra contra Viriato. Galba não queria perder o ensejo que se lhe apresentava; era o meio de voltar à Espanha e de reconstituir a sua riqueza malbaratada ou perdida. Lúcio Cota já sonhava em vir a ser o argentário mais preponderante de Roma. Galba alegava: 

-- Já fui pretor em Espanha e governei a província da Lusitânia; conheço aqueles territórios, aquelas gentes e os seus costumes. Sou temido e a lembrança do meu nome fará fugir diante das legiões romanas todas essas tribos de ladrões e bárbaros. Só eu tenho no actual momento as condições excepcionais para comandar essa guerra que se vai tornando uma vergonha. Os Lusitanos bem sabem que eu não me pago com palavras. 

Os credores e parasitas de Sérvio Galba apoiavam aquelas pretensões aparentemente plausíveis. Os partidários de Lúcio Cota conclamavam: 

-- Ainda nos não esqueceu a acusação tremenda de Catão o Censor. O governo de Galba na Lusitânia infamou Roma com uma nódoa indelével. Galba é o único homem a quem não pode ser confiado o comando da guerra contra Viriato, porque a sua presença levantaria na Espanha as próprias pedras contra Roma. Seria a prova de que Roma não civiliza os povos bárbaros como proclama ao mundo, mas rouba-os, devasta-os, porque subsiste por esse expediente que a despensa no seu exclusivismo militar de toda a actividade agrícola ou fabril. Galba por forma nenhuma! 

Esta questão foi debatida no Senado; até aí, entre esses venerandos patrícios, sentados soberanamente nas suas cadeiras ebúrneas, se dividiram as opiniões, uns por Galba, outros por Cota. Mas quando se discutia o assunto, levantou-se o senador Cipião Emiliano e, erguendo a mão intimativamente, exclamou com nitidez: 

-- Em meu entender, nem Galba, nem Cota merecem a confiança da República! 

O Senado ficou no mais sepulcral silêncio ao ouvir aquela frase que era quase uma sentença. Cipião tinha grande autoridade a ascendente moral enorme depois que regressara da destruição de Cartago. Depois continuou a frase que mantivera em suspensão intencional: 

-- E não a merecem porque um por aí anda arruinado após a dissipação das riquezas que roubou quando pretor na Hispânia; o outro, pelo contrário, riquíssimo pela sua proverbial avareza, só trataria de se encher mais, servindo-lhe a guerra de pretexto para saciar os seus ávidos interesses. 

A voz de Cipião impôs-se a todos os espíritos, dominados pela coragem com que formulara em pleno Senado o seu argumento. Para sair daquele embaraço, o Senado achou como única tangente não melindrar a família Emiliana, prorrogando o comando <numpag 90> militar e consular de Fábio, e que, como procônsul, continuasse nesse ano a guerra da Lusitânia. 

Substituir Quinto Fábio, quando ele já estava industriado na forma da guerra viriatina, seria um erro perigoso; e a increpação do destruidor de Cartago teve sua oportunidade, porque nesse ano de DCX, passado o Inverno, o procônsul preparou-se para dar uma batalha campal a Viriato e justificar assim a anterior inércia. 

Viriato passara também esse Inverno na Bética, porque conseguira tomar aí duas cidades em que assentou os arraiais. Fábio, apesar de ter aumentado enormemente os eu exército, exigindo contingentes das várias cidades aliadas dos Romanos, fiava-se mais nas informações que conseguira obter de gente que andava nas hostes do cabecilha. Era esse o pensamento de Caio Lélio, sendo o caminho aproveitar o antagonismo da raça ibérica. E seguro de qualquer informação secretíssima e por via que nunca será conhecida, o procônsul põe todo o seu exército em campo e ataca Viriato com todas as regras da poliorcética romana. 

Viriato não hesitou um momento, pondo-se em frente do inimigo que bem conhecia; os seus cavaleiros e infantes bateram-se desesperadamente e, quanto mais destroçavama s forças romanas, novas reservas acudiam a Quinto Fábio sucessivamente, por modo que Viriato, conhecendo que lhe fraquejava um flanco do seu exército, ordenou a tempo uma retirada sob Becor, aonde as florestas, os rochedos e as ribanceiras intransponíveis o punham a salvo do exército romano, que foi perseguindo-o por algum tempo. Viriato deixou no campo muita da sua gente. Então, para vingar as perdas que sofrera e o furor que lhe provocara o desaparecimento do cabecilha em Becor, foi Quinto Fábio com o seu exército ocupar as duas cidades que até agora estiveram sob o poder do chefe lusitano, dando ordem à soldadesca para o saque desenfreado, mandando em seguida lançar-lhes o fogo, passando à espada fôlego vivo que encontrassem. 

Quando Viriato estava já seguro em Becor do inopinado golpe em que o procônsul levara vantagem, veio-lhe um pressentimento que a ninguém quis comunicar: -- A forma do ataque de Fábio revela-me que se aproveitou de uma traição! 

De repente chegou ao pé de Viriato o seu companheiro Andaca: 

-- Sabei que os Túrdulos e os Turdetanos depuseram as armas e pediram paz a todo o transe; assim perdemos esse vasto território, todo o oriente da Bética. 

Nisto chegou Minouro, o outro companheiro, e disse para Viriato: 

-- Os Célticos, que confinam com a nossa terra lusitana, por causa desta derrota voltaram-se para os Romanos, dizendo que querem pastorear os seus rebanhos em paz por esse Alentejo e Estremadura. 

E enquanto Viriato se mostrava apreensivo, Andaca e Minouro afastaram-se um pouco e segredaram: 

-- A espada invencível perdeu desta vez o encanto. 

E sorriram-se numa íntima perfídia com uma satisfação que só eles ambos compreendiam. <numpag 91> 

XXXVII 

Depois da aparente vitória de Fábio, que muito bem sabia a quem devera essa momentânea vantagem, recolheu o procônsul à capital da Hispânia Ulterior, à cidade de Córduba, para aí descansarem as tropas no rigor do Inverno. Viriato reconheceu que avançara demais para sudeste da península, em que predominava o Ibero e, sentindo-se aí sem apoio nas populações, aproveitou a inactividade do procônsul para levar o seu exército à Espanha Ulterior, onde era mais odiada a dominação romana, chamando à revolta desde o Anas e o Bétis até ao Promontório Trileuco, todas as tribos e populações em quem girava o sangue lusitano. 

As revelações que na ilha sagrada de Achale Viriato recebera do endre Idevor, dando-lhe viva compreensão desta Pátria ideal, por cuja unidade e autonomia batalhava; e o amor de sua noiva, a deslumbrante Lísia, que o escolhera para seu esposo exigindo por condição que o Romano lhe pedisse a paz, excitavam no valente caudilho um heroísmo inquebrantável e, mais do que isso, inspiraram-lhe o poder misterioso de falar às almas, de estabelecer a harmonia dos sentimentos. A sua palavra começou então a ter tanta força como a sua espada; e pelas terras por onde passava, deixava uma onda de insurreição, sintetizada num grito: 

-- Uma só vontade nos una! Guerra ao Romano! 

Viriato dirigiu-se àquela região que vai das fronteiras dos Carpetanos até ao país dos Edetanos, que forma toda a parte oriental e ocidental da Celtibéria, aonde habitavam os Belitanos e os Titos, cujas companhias destroçara havia quatro anos, quando como aliados foram em auxílio do pretor Caio Vetílio. A presença corajosa de Viriato alvoroçou a população; o cabecilha falou-lhes com desassombro: 

-- Estais ressentidos de mim e aqui me tendes se mereço a morte; mas ouvi-me. Eu luto pela independência da vossa pátria, que é a minha. Vós habitais esta parte da Celtibéria, que também é Lusitânia; porque os povos que aqui vivem não são Iberos, são Lusónios separados pelo rio Ebro, sobre a sua margem direita. Estas duas raças são inconciliáveis! Se elas se pudessem unir por um pacto de aliança, nunca nesta península hispânica se teriam estabelecido os Celtas vagabundos; nem aqui entrariam os Fenícios, nem os exércitos cartagineses ocupariam o nosso solo. E como esta aliança nem pela necessidade da defesa mútua pode trazer a um acordo Iberos e Lusitanos, é por isso que as rivalidades entre os Cartagineses e Romanos trouxeram estes guerreiros a repeli-los do nosso território, mas a impor-nos cruamente o seu domínio, arrasando as nossas cidades e roubando-nos ignobilmente pelos seus pretores. Os Iberos foram aceitando o governo ou propriamente o jugo dos Romanos; os Lusitanos, que em Roma pelo testemunho dos seus generais são considerados os mais valentes e destemidos dos povos celtiberos, são os que resistem ao estrangeiro, os que aspiram a ter uma pátria livre. Deixemos para além do Ebro o povo dos Iberos, que amam a autoridade fortemente constituída; contemos só connosco, Lusitanos a quem o espírito da revolta os impele a sacudir todo o jugo e a cortar a mão que ousa domá-los. Desde o morticínio truculento feito à falsa fé por Galba em trinta mil Lusitanos chamados a uma assembleia pacífica, é que eu me insurgi contra essa clamorosa infâmia e há sete anos que sustento uma campanha em prol da Pátria livre infligindo derrotas sucessivas aos exércitos romanos. Em Roma votou-se o extermínio, a aniquilação completa dos Lusitanos. Fábio já teve um simulacro de vitória, porque encontrou no elemento ibérico um meio de derrotar- nos, esse inconciliável antagonismo. Isso nos obriga à união dos populações e cidades da Lusitânia. Vós, ó habitantes da Bélia, desta Edetânia, limite oriental da Celtibéria, vós sois Lusitanos, sem diferença alguma, como o reconhecem mesmo os viajantes. <numpag 92>

Sois descendentes dos Lusónios, que transpuseram há séculos imemoriais os Pirenéus vindo da Aquitânia, aonde existem ainda as tribos dos Elusatos; essas tribos dos Lusones fixaram-se nos montes que dividem os rios Jalon, Mosa, Henares e o Dúrio até ao Tejo. Mas esta extensão primitiva da nossa Lusitânia, que podemos chamar Lusitânia Oriental, foi sendo dividida pelas invasões estrangeiras, a começar pelos Iberos e Celtas, que a comprimiram para oeste, forçando os Lusónios a concentrarem-se nas Beiras, na Estremadura cistagana e por todo o Alentejo, formando hoje esta Lusitânia Ocidental que começa no Promontório Sacro até aos Galaicos. Juntemos estas duas Lusitânias e teremos o domínio da Espanha, que só será senhora do seu destino quando repelir todo o poder estrangeiro dos eu solo. Aí estão as vossas cidades atestando pelos seus nomes que ainda pertenceis a essa pátria primitiva que nos une a todos: Lusera e Luzes, próximo de Jaen, estendendo-se até ao rio Tajuña; Luzago, Lucia e Alustante, próximo de Jalon; Lucos e Lucera, na parte meridional do Ebro. Foi por estarmos separados que os estrangeiros nos invadiram e o Romano nos aniquila para se manter pela expoliação das nossas riquezas. O isolamento das cidades é a fraqueza; a federação cantonal é a garantia da independência. 

A voz de Viriato calou nos ânimos; os Belitanos reconheceram que se não diferençavam dos Lusitanos; e perdoando o castigo que o cabecilha lhes infligira quando iam em socorro de Vetílio, bradaram erguendo ao alto as mãos direitas: 

-- Uma só gente nos una! Guerra ao Romano. 

Com essa gente da Edetânia, veio também o povo seu aliado da Titúlcia, a que chamavam os Titos, jurar o pacto defensivo. Mas aonde a voz de Viriato produziu um efeito vertiginoso, alucinante, foi entre os Arevacos, nas nascentes do Dúrio, que se firmavam na sua fortaleza inexpugnável de Numância, vizinha de Luzon. 

-- Bravos filhos da Lusónia! Vós bem sabeis que todos os chefes militares que lutaram contra os Cartagineses pela independência da nossa terra e que coadjuvaram estes quando estavam em luta de extermínio contra os Romanos nas chamadas Guerras Púnicas, bem estareis lembrados que esses chefes destemidos foram naturais da Celtibéria, que na parte oriental e ocidental era propriamente a Lusónia. Não podemos pronunciar o nome de Indorte sem assombro; de Indibílis, Edescon e Mandónio sem que sintamos referver o sangue num ímpeto de coragem; Carus e Alúcio, e ainda Istolácio, embora da geração dos Celtas, são a prova de que não nos falece o espírito de revolta e a capacidade do comando. Mas se os chefes são gigantescos, que diremos dos seus soldúrios e até da fraternidade heróica que elevava os seus servos? Quem se não recorda daquele general lusitano, Tago, a quem Asdrúbal deu a morte? O feito do seu escravo, que lhe vingou a morte apunhalando Asdrúbal junto das aras em que estava sacrificando, mostrará a todos os estrangeiros qual é o vínculo que nos liga uns aos outros. 

Das partes dos Arevacos levantou-se um mancebo de aspecto robusto e gestos decididos; era bem conhecido como filho de Salôndico e continuador da sua bravura, estando-lhe por isso confiado o governo da fortaleza de Numância. E batendo no peito como garantia de firmeza: 

-- Eu também repetirei: Uma só vontade nos una! E essa vontade seja a de Viriato conduzindo-nos à guerra contra o Romano, até o repelirmos da Espanha, tornando a nossa Pátria livre. Diante de Numância estacará o poder das armas romanas! E se a fatalidade da guerra for contra nós, morreremos aí todos, mas morreremos livres. 

Viriato abraçou o mancebo denodado, que lhe dizia reconhecido: 

-- Tu consagraste a memória de meu pai; por ti derramarei meu sangue quando o determines. <numpag 93>

O incêndio da guerra santa pregara por Viriato propagou-se para o norte da península, porque a Galécia, a dos antigos, formara também parte da Lusitânia; numerosos bandos, partidos e guerrilhas foram mobilizados pelos Galaicos; como estes, também se insurreccionaram os Vaceus e os Vetões na Estremadura; os Túrdulos e os Turdetanos desligaram-se de Quinto Fábio Máximo; como em uma onda que vinha crescendo, correram a engrossar esta corrente novas tribos movidas por um sentimento acordado pelo espírito que fortificava o braço de Viriato; -- o ideal de uma Pátria, síntese da unidade da raça até ali desmembrada e de uma tradição esquecida ou quase perdida. Pela primeira vez a Lusitânia teve a consciência da sua unificação étnica ao aceitar o pacto federativo contra o Romano, proposto por Viriato como uma força defensiva. A coragem do chefe lusitano era tão grande como a confiança no futuro da Lusitânia livre. Em todas as guerras da Espanha nunca os Romanos encontraram um levantamento de povos assim vasto e unânime; era uma situação desesperada, que só por meios fora dos processos conhecidos poderia ser dominada. 

Roma, na prossecução dos planos da sua política absorvente, desconhecia a coacção moral; quando não confiava na força das armas, recorria ao poder do ouro, subjugando pela corrupção e, falhando os baixos expedientes, alcançava sempre o êxito descendo até à traição. Ante o perigo da constituição federativa dos povos lusitanos, Roma entrevia o seu triunfo na morte de Viriato. E nunca faltaram traidores. <numpag 94> 

XXXVIII 

Esperando o momento azado para recomeçar as operações militares, Quinto Fábio Máximo passara o Inverno no seu quartel estabelecido na cidade de Córbuda, vendo que a espantosa revolução que irrompia entre as tribos lusitanas chegava à maior intensidade quando justamente estava a terminar o período do seu consulado. Ele pressentia que em Roma a sua pretendida vitória era motivo de facécias; porque as notícias do levantamento de tantos povos à voz de Viriato, desde o Anas e Bétis até ao Promontório Trileuco, patenteava que o chefe lusitano redobrara de força e de prestígio depois da sua retirada para Becor. Quinto Fábio, sob a incerteza se seria chamado a Roma, se continuaria no comando da guerra viriatina, ou se outro cônsul o viria substituir, passava os dias em uma agitação moral que o perturbava profundamente, obrigando-o ao esforço de ocultar o seu estado de espírito diante dos que o rodeavam. Na inacção forçada da estação hiberna, ordenou certos divertimentos que os cônsules, na sumptuosidade de vida que usavam na Península, tornavam uma característica da grandeza romana. 

A melhor parte do dia passava-se em um lautíssimo e grandioso banquete, em que, à parte as iguarias, em que predominava o salmão cozido em vinho branco, deliciava os convivas a parte espectaculosa, que se continuava pela noite adiante. Durante o banquete, ressoavam as músicas próprias chamadas acroamata, em que grupos de moços e raparigas ao som de flautas e liras cantavam desenvoltamente em meneios de danças e pantomimas, imitando situações dos mitos religiosos e das lendas homéricas. Eram sobretudo jovens sírias e gaditanas que, ao som dos cantos licenciosos, mais fascinavam pelas danças lascivas os convivas de Quinto Fábio. E para fazer contraste com a beleza das formas, apareciam de repente anões e aleijados que, em contorções violentas, procurando imitar os equilibristas que formavam pirâmides e torres ambulantes, dando cambalhotas e guinchos estridentes, suscitavam as mais estridulosas gargalhadas. À variedade e profusão das iguarias, correspondia a mudança dos divertimentos, destacando-se pelo seu poder hilariante os Imitadores, que reproduziam o canto dos galos e o dos rouxinóis, os zurros do jumento, o miar dos gatos assanhados, macaqueando os gestos e a fala dos tipos mais conhecidos da cidade de Córduba e mesmo de alguns centúrios. 

Quando Fábio estava cansado de rir de todas essas manifestações da indignidade humana, das disformidades físicas e degradações morais, então mandava que se fizessem as recitações poéticas, e apareciam com ramos de louro nas mãos os Homeristas que, ao som das liras de sete cordas e de cítaras, declamavam episódios dos poemas do ciclo homérico. Já estavam os candelabros acesos na sala do banquete quando entraram os Homeristas, para recitarem alternadamente os cantos de um poema a que deram o título de Os Piratas tirrenos; e enquanto declamavam, figuras mudas em um intermédio dramático iam representando todas as situações descritas: 

«A bela e jovem Neera banhava-se descuidada nas ribas de Naxos. 

«Aparecerem simultaneamente os piratas do Mar Tirreno e arrebatam-na, para a venderem para algum gineceu real. 

* 

«Menéclida, seu velho pai, deplora a perda do encanto da sua velhice. <numpag 95>

«O namorado de Neera encontra-o chorando e persuade o velho para irem consultar o Oráculo. Partem ambos com ansiedade. 

* 

«No mar os piratas disputam entre si a posse de Neera; e não se entendendo, no meio da sua luta ameaçam de meterem o baixel a pique e morrerem todos. 

«O piloto impõe-se aos remeiros, dizendo -- que é melhor ir oferecer a cativa ao rei de Corinto, porque assim alcançavam um porto de refúgio e abrigo, quando fossem perseguidos ou batidos pelas tempestades do mar. 

* 

«Neera é oferecida ao monarca: a formosura da cativa deslumbra-o. 

«Corinto está em uma grande desolação por uma terrível peste asiática e a mortandade é enorme. O rei consulta o Oráculo, que responde: -- Que o seu Estado ficará livre da peste logo que ele despose uma prisioneira. 

* 

«Quando se faz o banquete das núpcias de Neera, aparecem dois forasteiros, o pai e o namorado de Neera, desfigurados pelas fadigas das jornadas, e por isso desconhecidos. 

«Sentam os dois forasteiros à mesa e dão ao velho Menéclida uma lira para entoar um cântico. Como bom rapsodo, desenvolveu em uma canção saudosa o verso de uma tragédia de Sófocles: 

-- É preciso para ser feliz -- viver no seu lar... 

«A cativa, agora rainha, conhece pelo canto a voz do pai e vê na fisionomia do moço que o acompanha a expressão do namorado dos seus primeiros amores, Alcimo. 

* 

«O moço diz ao rei que é escultor e que fizera as estátuas mais belas de Afrodite para os templos de Hélade; e que se prontifica a fazer a estátua de Neera. 

«O rei quer a estátua da esposa, mas com condição: Que o artista, contemplando- a nua, logo que for terminada a obra, ele morrerá, sendo assim a sua morte o véu do pudor. 

«O moço aceita a condição resoluto: Neera pasma, receosa. Começa o estudo das formas, das posições... 

* 

«E quando os dois amantes sentiam mais ardente a paixão primeira e Alcimo achava impossível reproduzir no mármore tanta beleza, pressentindo que a morte os separará para sempre, em um longo beijo assim lhe segreda: 

-- Que a mesma morte nos una! 

* 

<numpag 96> «E de noite fugiram ambos do palácio, entrando em uma barca, das que estavam varadas no porto de Corinto: foram mar em fora ao som da água, falando dos seus amores, vogando perdidos e, já muito longe, aos primeiros alvores da alvorada, Alcimo cantava: 

Sobre o horizonte, quando a vista alcança, 

Reluz vaga esperança: Branca vela! da salvação sinal: -- É o Sonho do Ideal. 

 Sucede à calmaria a viração, -- Do Amor a aspiração, Que as nuvens da borrasca longe espalha! A vela branca assoalha. 

 Nas auras flutuando -- esse estandarte Nos leva às regiões da Arte. Que importa Sirtes ou parceis? Agora 

 Resplandece outra aurora, Um céu azul nesses teus olhos! Vê-lo, E certo rumo -- o Belo! Como busca outro clima uma andorinha, Que o calor adivinha, Fugimos! Crente, à proa A alma para ti voa.. . Pelo mar largo assim vamos os dois Devaneando... Depois, Neste enlevo sem fim, perdido o norte, Que seja o porto a morte! » 

 Apenas acabara a recitação dos Homeristas, já apareciam na sala os parasitos para fazerem chascos e graçolas; mas o cônsul Quinto Fábio deu ordem para que se retirassem. 

-- O que desejará agora o cônsul? -- diziam uns para os outros. -- Talvez alguma tragédia? Que venha já imediatamente o Graeculo. 

Quinto Fábio ouvira falar numa crença que os povos da Lusitânia tinham sobre os poderes maravilhosos de uma Cerva branca; constava-lhe que um velho poema bárbaro celebrava esse mistério, pelo qual se explicava o prestígio dos homens políticos. Foi trazido um prisioneiro lusitano, que se lembrava de numerosas estrofes do poema. 

Disse-lhe o cônsul: -- Tens a liberdade se me recitares o poema da Cerva branca. -- É o Poema de Abidis, do príncipe fadado por invencível diante de todos os 

 perigos e sempre subjugado pelo Amor. Nesse poema está simbolizado o génio da nossa 

raça lusitana: lutando indomável até à morte, mas deixando-se morrer de amor. -- Canta ou recita esse poema; e terás a liberdade. O prisioneiro sentiu uma imensa alegria quando lhe tiraram as algemas; e 

começou em uma melopeia estranha que absorveu a atenção dos convivas: 

RIMO DE ABIDIS <numpag 97> 

Ouviu negro vaticínio 
O rei Górgoris um dia: 
Que do seu trono dourado 
Um neto o despenharia! 
Mandou fechar num torre 
Distante, redonda, esguia, 
A princesa sua filha, 
Única herdeira que havia. 

Triste, cativa a princesa, 
Cantava de noite e dia, 
Para encher a soledade 
Nas angústias que sofria. 
Passa um cavaleiro perto, 
A doce música ouvia: 
Mas como subir à torre? 
Tão alta! Quem poderia? 
Deixara soltar as tranças 
E até à terra descia 
Seu fino e lindo cabelo 
Por onde o moço subia. 
As noites eram auroras 
Da mais íntima alegria 
E as ausências tornavam 
Cada vez mais negro o dia; 
Até que desses amores, 
Que ninguém suspeitaria, 
Ao cabo de nove meses 
Formoso infante nascia. 
Boas fadas o fadaram, 
A qual mais dons lhe daria: 

 -- Invencível aos perigos 
De amores sempre vencido, 
Outra fada retorquia. 

Toma o rei Górgoris conta 
Do infante apenas nado, 
Que traz o nome de Abidis 
No cinto em que é enfaixado. 
Sempre o negro vaticínio 
Ao velho rei é lembrado; 
Só pensa em salvar o trono, 
Leva ao crime tal cuidado. 
Em uma estreita azinhaga 
Deixa o neto abandonado, 
Por onde passa correndo 
Sua boiada, seu gado. 
Pelo poder do destino 
Não foi o infante calcado! 
O velho rei recrudesce 

No ódio ao neto votado 
E manda lançá-lo ao monte 
Certo de ser devorado 
Por algum lobo faminto 
Ou serpente do valado. 
Foram dar com ele rindo 
Na relva fresca do prado, 
Lá por uma Cerva branca 
Com carinho amamentado. 

O velho rei raivoso 
Mandou arrojá-lo ao mar, 
Crendo que as águas profundas 
Hão-de a criança afogar. 
A onda a que a arremessaram 
À praia a vem entregar! 
Então Górgoris conhece 
Que a deusa Herta o quis salvar. 
Estrela do Mar se chama 
A essa diva lunar, 
Que traz por sagrado emblema 
Uma Cerva branca a par. 
Por causa da Cerva branca 
Veio tanto ódio a acabar. 
O rei Górgoris tem glória 
De Abidis seu reino herdar: 
Como o neto, resistente 
Seu império há-de ficar, 
Anunciando-lhe a grandeza 
Aquela Estrela do Mar! 
</poesia>

Aproveitando-se de uma pausa ou hesitação de memória do prisioneiro, disse-lhe o cônsul Quinto Fábio: -- Já faço ideia do poder da Cerva branca; conta agora algum lance desse invencível Abidis, sempre vencido de amores. -- Ah! toda a história de Abidis ou Amadis é quase inteiramente de amores; dava para encher muitos dias e seroar noites com peripécias sempre de encantar. Começo por uma 

<poesia>
DECLARAÇÃO DE AMOR 

Apalpando o lado esquerdo 
Não achei o coração! 
Na repentina surpresa, 
Com tamanha inquietação, 
Conheci que mo furtaram, 
Não sei bem a ocasião... 
Fui logo à procura dele 
Buscando o rasto no chão, <numpag 99> 

Escutando atentamente, 
Se lhe ouvia a pulsação! 
Talvez esteja perdido 
Em remota solidão? 
Quando já sem esperança 
Caía na decepção, 
Fui dar com ele fechado 
Em nevada, fina mão! 
Não me atrevi a exigi-lo 
E eu mesmo, sorrindo então, 
A quem assim mo levara 
Tive de pedir perdão, 
Porque há no amor a furto 
O filtro da tentação. 
</poesia>

O cônsul, como homem culto, estava interessado pelas rimas do prisioneiro lusitano, que lhe pareciam bárbaras mas impressionantes; e disse-lhe: -- Prometi-te a liberdade; para que a obtenhas de vez, é preciso que proclames em voz alta: «Viva o poder da grande e generosa Roma!» O prisioneiro olhou desdenhosamente para Quinto Fábio, devolvendo com secura e como em um arranco de morte: -- Volto para o ergástulo. E murmurando entre dentes com entranhado rancor, ao retomar as algemas: -- A Cerva branca ainda há-de dar bastante que fazer aos Romanos! Oh, se há-de! A festa dos acroamata era poucos instantes depois interrompida; chegara uma ordem categórica chamando a Roma Quinto Fábio Máximo Emiliano e determinando-lhe a entrega imediata do comando do exército consular ao novo general Quinto Cecílio Metelo. <numpag 100>

XXXIX 

Com ordem expressa do Senado de abafar a insurreição o mais depressa possível e de reduzir Viriato aos seus incertos recursos, desembarcou em Tarragona o cônsul Quinto Cecílio Metelo, que vinha acompanhado do pretor Quíncio. 

Corria o ano de DCXI da fundação de Roma; Metelo informou-se da situação da Celtibéria e, sabendo que os Arevacos se tinham rebelado, foi pôr cerco a Numância, de preferência, para aí conter o cabecilha Salôndico, evitando que se unisse com Viriato. Nesse ano memorável começou o grande ciclo da guerra numantina, que durou dez anos, terminando em DCXXI pelo suicídio heróico e espantoso dos vencidos. O cônsul Metelo entregou o segundo corpo do exército ao pretor Quíncio, encarregando-o de ir combater Viriato, que estava próximo da margem direita do Tagus. 

Informado pelas suas esculcas de que era procurado por Quíncio, esperou-o até ser visto, simulando que se retirava para as proximidades do Mons Veneris. O pretor, por inábil ou por desconfiado, avançou em perseguição de Viriato, o qual, reproduzindo as mesmas manobras cujo efeito certo conhecia e com as quais quatro anos antes derrotara Plâncio, fez do Mons Veneris o seu abrigo; Quíncio continuou a avançar e o cabecilha lusitano, precipitando-se repentinamente sobre as legiões romanas e envolvendo-as de súbito por todos os lados, fez um tal destroço e mortandade no exército romano que o pretor só conseguiu escapar e uma pavorosa debandada e sempre perseguido, até refugiar-se no seu quartel de Inverno em Córduba. Muitos estandartes romanos foram arrancados das mãos dos hastários; e estes despojos, testemunho da vitória de Viriato, foram mandados para a ilha sagrada de Achale para serem colocados na Torre Redonda, consagrados como troféus ao Deus inominato. 

Na sua fuga desvairada, o pretor Quíncio, dirigindo-se para Córduba, abriu passagem pelo país extremamente motnanhoso dos Bastetanos, que se estendia para o sul até ao monte Hipala, confrontando aí com os Túrdulos, ao ocidente com os Oretanos, ao norte com os Lobetanos e com os Contestanos do litoral. Era principalmente aqui neste território dos Contestanos que estava estabelecido o governo dos Romanos, na cidade denominada Nova Cartago. Viriato não esqueceu esta circunstância e, não lhe bastando ter derrotado o pretor Quíncio, submeteu a saque todas as povoações aliadas ou relacionadas com o poder de Roma. O pretor fechou-se dentro das muralhas de Córduba sem esperança de que o cônsul Quinto Cecílio Metelo viesse socorrê-lo, porque achava-se empenhado tenazmente nos combates em volta de Numância, por forma que não se podia conjecturar o termo dessa nova guerra; e apavorado no seu reduto, limitou-se a ordenar que um ibero romanizado, como revela o seu nome Caio Mário, que estava com uma legião em Itálica, policiasse as cercanias de Córduba para o avisar da presença de Viriato e evitar as suas correrias. É certo que o pretor Quíncio não pôs mais o pé fora das muralhas de Córduba. 

O orgulho romano não podia conformar-se com esta humilhante derrota e com a situação vergonhosa de Quíncio, dentro em Córduba desde o meado do outono de DCXI. Desde que despontou a estação favorável para recomeçar a campanha contra os Lusitanos, o Senado nomeou para esse comando o novo cônsul Quinto Fábio Máximo Serviliano. Seria ele mais feliz do que seu irmão para vingar o lustre das armas romanas obscurecido pela audácia de Viriato? 

Desde que Serviliano fora eleito cônsul em DCXII, apoderou-se dele uma ambição irrefreável e única: vencer Viriato, aproveitá-lo em Roma, levá-lo a pé e descalço no seu triunfo. Para estas esperanças, o Senado concedera-lhe extraordinários recursos: dias novas legiões além das forças que estavam em Espanha. E Serviliano <numpag 101> podia sonhar com o triunfo, porque, contra um guerrilheiro sem exército organizado, tinha agora sob o seu comando um formidando exército de sessenta mil homens e mil e seiscentos cavaleiros. <numpag 102>

XL 

Serviliano não queria perder tempo e iniciou a campanha na Bética, nas cercanias de Jaen; o plano foi bem formado, porque Viriato apenas pôde, pela rapidez das operações do cônsul, entrar em combate com um contingente de seis mil homens. 

Os três companheiros de Viriato, notando que o chefe reconhecia a insuficiência da sua gente para sustentar o combate com um exército disciplinado dez vezes mais numeroso do que o seu, entreolharam-se com um ar de inteligência, como se aquela situação desesperada proviesse de uma combinação. Viriato não sucumbiu; antes o perigo o levava a descobrir extraordinários recursos. E de relance, compreendeu a situação, ordenou o seu plano: 

-- Manobrar com uma rapidez tal que o exército romano não possa manter-se em disciplina e ordem de batalha. 

E em vez de esperar o ataque, deu ordem a um assalto instantâneo, em que toda a agilidade e bravura, que caracteriza os Lusitanos, fossem praticadas por modo que a confusão se estabelecesse nas legiões romanas e que as manobras usuais não pudessem ser executadas. Pôs à frente os montanheses do Hermínio, acostumados às correrias dos lobos e às montarias dos javardos, os quais em berreiros descompassados -- Mata, que é Romano! -- investiram com ímpeto indomável de feras contra os manípulos de Serviliano. A espada e o punhal eram vibrados por uma e outra mão, tendo abandonado o escudo para se moverem mais denodadamente. O assalto encheu de assombro os soldados romanos, que desconheciam esta impetuosidade dos que eles chamavam bárbaros; e sem poderem sustentar aquele recontro violento, foram recuando, supondo que Viriato, empenhando a batalha só com seis mil homens, contava com outras forças que viriam avançando e que decidiriam da luta. Uma circunstância salvou nesse momento o exército do cônsul Serviliano: inesperadamente apareceram no campo da batalha dez elefantes africanos e trezentos cavaleiros bem equipados. Serviliano conheceu-os; era o contingente que lhe mandava Micipsa, o rei da Numídia. Quando o cônsul projectava alcançar o comando da guerra da Lusitânia, escrevera a Micipsa pedindo-lhe em nome da República o auxílio dos seus elefantes e dos seus esbeltos cavaleiros. Um pedido assim era uma ordem e o rei da Numídia bem compreendia que com o contingente de alguns elefantes e cavalos, garantia a estabilidade dos eu trono. 

O auxílio não podia vir mais a tempo; e o exército romano, reanimando-se com o extraordinário reforço, toma a ofensiva. A rapidez do ataque da parte do exército consular servia para perturbar-lhe a disciplina e Viriato, evitando o combate, foi atraindo as hostes para os terrenos anfractuosos seus conhecidos. Os elefantes do rei da Numídia foram caindo um a um com aquele golpe ignorado dos Romanos, mas praticado pelos Lusitanos quando, com um aguilhão de ferro, matam os seus bois ferindo entre as vértebras cervicais. O sucesso inesperado produziu um estranho assombro; Serviliano pensa já na retirada e Viriato, furtando-lhe as voltas, toma-lhe a dianteira, avançando com rapidez incrível por veredas que só ele conhecia, vindo ocupar o arraial do exército consular, apenas guardado por alguns hastários. Quando o cônsul Serviliano, com o exército cansado dos caminhos fragosos, chegou já noite cerrada ao seu acampamento, achou o pequeno exército de Viriato fortificado com os fossos e trincheiras com que contava defender-se e viu-se constantemente inquietado pelos hastários e fundibulários lusitanos. Aproveitando a escuridão da noite e contando com o cansaço dos saldados romanos, fatigados da retirada custosa, Viriato ordenou incursões repentinas e por lados sempre diferentes no <numpag 103> acampamento romano. Serviliano perdera naquela jornada e incursões da noite para mais de três mil homens; e como as tropas se achavam sem descanso e sem alimento desde a véspera, seria loucura o empenhar-se em uma batalha campal, resolvendo recolher-se com o exército à cidade mais próxima, a Ituca, onde contava com víveres e as munições indispensáveis. <numpag 104> 

XLI 

Viriato não desvairou com a inesperada vitória. Reconheceu prontamente que se salvara desta vez de um perigo evidente e que, para lutar com Serviliano, carecia de mais gente. Deu ordem, logo que partiu o exército romano, de lançar fogo ao arraial, fazendo uma retirada cautelosa e tratando com a máxima urgência de ir buscar levas de montanheses às serranias do Hermínio, porque lhes reconhecera a valentia impetuosa dos assaltos. 

Serviliano, uma vez abastecido em Ituca e refeitas as suas tropas pelo descanso, debalde procurou Viriato; convinha-lhe fixar o seu quartel de Inverno não longe, para recomeçar a campanha contra os Lusitanos, e avançou sobre a Betúria, essa parte montanhosa da Bética, entre a planície do Bétis e o vale do Anas. Habitava aí gente que se confederara na grande insurreição suscitada por Viriato; o cônsul ocupou-a por conquista, avançando para o país dos Cúneos, castigando-os pelo mesmo pacto, e fixou aí na Cinésia o seu quartel de Inverno. 

No ano DCXII, no começo da estação propícia, iniciou Serviliano a nova campanha contra Viriato, avançando para o norte; quando ia em marcha com o poderoso exército, vieram ao seu encontro dois guerrilheiros que andavam pela Cinésia com uma partida de mais de dez mil homens. Eram Cúrio e Apuleio que, por uma temeridade inaudita, se atreveram a atacar Serviliano. O cônsul, com incomparável vantagem, bateu a partida, ficando morto no campo Cúrio com todos os seus despojos e debandando Apuleio com o resto da sua gente cruamente destroçada. Serviliano prossegue na impetuosa marcha e reconquista a cidade da Bacia, toma dentro em poucos dias as cidades revoltadas contra o jugo romano, Scandiam ou Escambola, Gemela e Obucula, fazendo aí dez mil prisioneiros que vendeu como escravos e mandando degolar uns quinhentos indivíduos mais importantes que considerava como partidários de Viriato e fomentadores da revolta. E era a grande e generosa Roma que acoimava de bárbaros os povos da Espanha, querendo civilizá-los pelas carnificinas e pelas depradações. Era a Lusitânia, na sua parte oriental e na ocidental, que se atrevia a resistir contra o regímen de latrocínios, batalhando pela sua liberdade. 

Serviliano ia arrebatado por um pensamento exclusivo: encontrar Viriato, derrotálo! Sem isso não era possível a submissão ou pacificação da Espanha. Nas suas marchas, o cônsul não encontrava o cabecilha lusitano; os seus espiões não davam notícia dele. Enquanto os saldados se regozijavam, conclamando que Viriato estava cansado da luta; que perdera a esperança na causa da Lusitânia; que já lhe faltava gente e recursos, Serviliano conhecia bem a táctica do caudilho e suspeitava que Viriato andaria por longe recrutando novos reforços. E seguro de que só mais tarde o encontraria, o cônsul, para ir entretendo as tropas e satisfazendo-as com os saques das cidades devastadas, chegou às cercanias de Erisane, cidade rica e populosa, e resolveu apoderar-se dela. Nem sequer mandou intimar a rendição aos habitantes de Erisane; pôs logo cerco à cidade e deu ordem a que, em todo o seu circuito, se abrissem fosses, fazendo da terra revolta uma alta trincheira detrás da qual ficariam os hastários, para que ninguém pudesse fugir e forçando-os a entregarem-se, assenhorear-se de tudo quanto em Erisane se guardava. De resto contava que os habitantes eram também uma rica mercadoria de escravos e um meio para quebrantar as outras cidades pelo terror passando à espada alguns centenares. Serviliano procedia com tranquilidade e segurança, porque uma cidade sem defesa como Erisane não tem melhor recurso do que entregar-se ao invasor. A soldadesca romana achava-se em grande parte dividida em volta da cidade abrindo os fossos, quando inesperadamente de dentro dos seus muros <numpag 105> irrompem em tropel esquadrões sobre esquadrões de cavaleiros, de longas grenhas, com trajos e armas ao modo lusitano. Parecia que a cidade se desfazia em chusmas de cavelerias e que de cada pedra se formava um cavaleiro. A violência e rapidez da erupção, os gritos estridentes e a sanha vertiginosa bem revelaram logo que era gente de Viriato! Como conseguira o caudilho introduzir-se sem ruído dentro de Erisane naquela noite? E sem dar tempo a que Serviliano pudesse meter em forma o exército, que estava esparso e em descanso no acampamento, na lisonjeira expectativa do saque da cidade, Viriato, com aqueles movimentos que só ele sabia dirigir, lança-se com todos os seus bravos soldúrios e com os terços mais firmes, chacinando na massa desmembrada do exército de Serviliano, multiplicando a sua força sobre as hesitações de espanto causadas pela instantânea surpresa. 

O exército romano, sem ensejo para entrar em ordem, vai abandonando o terreno, vai recuando sem plano; Viriato, com a lucidez dos momentos decisivos, vai-o impelindo para o desfiladeiro apertado entre dois montes cobertos de penhascos, sem que o próprio Serviliano desse pela audaciosa cilada. Logo que Viriato conseguiu encurralar o grosso do exército consular, deu ordem a um troço de companheiros para, a um sinal sabido, fazerem rolar do alto das duas montanhas aqueles penhascos acavalados. Dispostas assim as coisas, mandou parlamentários a Serviliano: 

-- «Que o cônsul Quinto Fábio Máximo Serviliano, conhecendo a situação em que se colocara o exército romano naquele desfiladeiro, devia considerá-lo perdido para o combate ou qualquer resistência: 

«Que do alto das duas montanhas rolariam ao primeiro sinal sobre o desfiladeiro os penhascos que ali negrejavam, esmagando todo o exército aí comprimido; 

«Que, antes do proceder e de pôr as suas condições, mandava perguntar a Serviliano que vantagens oferecia para que o exército romano fosse salvo» -- 

Os parlamentários, que tinham partido levando ao alto ramos de oliveira, não se demoraram muito tempo; traziam a mensagem de Serviliano: 

-- «Que da parte do cônsul Quinto Fábio Máximo Serviliano, pelos poderes que lhe tinham sido conferidos pelo Senado, lhe entregava um cinto de ouro como insígnia de autoridade soberana; 

«Que poderia Viriato desde aquele momento considerar-se Rei da Lusitânia e fiel Aliado de Roma, sendo o seu primeiro acto a assinatura de um Tratado de Paz e a dissolução do exército.» -- 

Quando Viriato leu essas condições, sorriu-se com um superior desdém; e sem demora tornou a enviar os parlamentários com os cavaleiros romanos que os acompanhavam para dizerem a Serviliano: 

-- «Que das suas propostas só aceitava a paz firmada pelo cônsul e ratificada pelo Senado, em que se assentasse para sempre o reconhecimento da liberdade e independência do povo lusitano na sua terra e da propriedade dos frutos dos eu trabalho; 

«Que a Lusitânia nada queria de Roma; e quanto a ele, Viriato, não aceitava o título de rei, mas unicamente a simples denominação de Amigo dada pelo Senado romano.» -- 

A mensagem de Viriato não podia deixar de ser adoptada por Serviliano, porque se limitava exclusivamente ao Tratado de Paz. E o cônsul compreendia o intuito leal de Viriato, porque aquele mesmo homem que, estando o exército lusitano perdido, recusou a paz que Vetílio concedera era quem agora propunha, como resultado da vitória, uma simples cláusula: um Tratado de Paz assinado pelo procônsul e ratificado pelo Senado e povo romano. Era nada menos do que a pacificação da Espanha e o poder de Roma assentado sobre o Direito em vez da espada. <numpag 106> 

O tratado foi redigido com todas as formalidades do Direito das Gentes e Serviliano assinou-o como procônsul; Viriato firmou-o também, enumerando os povos lusitanos que representava. Trocaram-se os diplomas autênticos, um que devia ser apresentado por Serviliano ao Senado em Roma, e o outro que ficava em poder de Viriato como garantia da paz. Nesse dia, os dois exércitos passaram em festa, ficando no campo as tropas de Viriato até que o exército proconsular deixasse de ser visto, seguindo em marcha para o seu quartel de Inverno. <numpag 107> 

XLII 

O sonho de Viriato tornara-se uma realidade: a Lusitânia livre e Roma vinculada pela paz. O caudilho contava com a pacificação geral, embora algumas resistências se manifestassem na Espanha Citerior; Roma era suficientemente política para ratificar esta paz sem aparência de imposição. E enquanto Viriato esperava a ratificação do tratado pelo Senado romano, partiu pressurosamente para a ilha de Achale. Cumprira a condição exigida por Lísia para a realização do seu casamento. 

Lísia sabia todos os terríveis acidentes da campanha de Serviliano, mas não tinha chegado ainda à ilha sagrada a notícia da pacificação inesperada. Do alto da Torre Redonda, a semnoteia viu vogar para a ilha uma barca de couro; o coração bateu-lhe agitadamente, sem se atrever a conjecturar o que teria sucedido. Mais próximo à barca, reconheceu a figura de Viriato. Desceu subitamente para ir esperá-lo à lingueta de areia. 

Não se imagina a eloquência da mudez de Viriato e Lísia, quando se deram as mãos e assim ficaram por alguns momentos. Avançando para a Torre Redonda, ia-lhe dizendo Viriato: 

-- Cumpriu-se o teu desejo. 

-- A paz? Com Serviliano?! 

-- A paz com Roma; assinou-a Serviliano, procônsul e general. 

Lísia fitava imóvel o vulto de Viriato, crendo um sonho o que escutava. O valente cabecilha tirou dentre a cota de malha de linho retorcido a folha em que estava escrito o Tratado de Paz, em que Roma reconhecia a liberdade e independência da Lusitânia. Lísia não pôde ler esse texto, porque a impressão de alegria tinha-lhe arrasado os olhos de lágrimas. Viriato entregou o tratado ao último dos druídas Idevor, que leu a cláusula: 

Haverá paz entre o povo romano e Viriato. 

Lísia, lançando os braços em volta de Viriato, exclamava: 

-- Temos uma Pátria livre! A Lusitânia é independente! 

E beijando com candura as faces crestadas e as mãos de Viriato, continuou como se estivesse falando em sonho: 

-- Já se pode constituir família em uma Pátria livre. Os nossos filhos nunca serão escravos. 

Viriato, lançando-lhe o braço em volta da cinta delicada e em atitude reverente: 

-- Cumpri a condição que me exigiste: a imposição da paz a Roma. Agora és minha esposa. 

-- Para a vida e para a morte! -- volveu Lísia, como se ali mesmo se consorciasse com o guerreiro à face do céu. 

E Viriato, tirando o braço direito da cintura de Lísia, tomou o cinto de ouro mandado pelo procônsul Serviliano como símbolo da realeza oferecida e, cingindo-a com ele, disse com voz branda e quase só ouvida pela noiva: 

-- A este corpo gentil, que eu desejo e há-de ser meu, prendo-o com esta cadeia de ouro trazida do campo de batalha para a paz da nossa casa. As almas sempre estiveram identificadas pela mesma aspiração, pelo mesmo sofrimento, e agora por uma simultânea alegria. 

E mirando Lísia com interesse e carinho para ver como bem lhe ficava o cinto de ouro, dizia em voz que só ela entendia: 

-- Mal sabes a significação deste cinto? 

Lísia ficou atenta para ouvir contar a batalha em que fora tomado como despojo ao general romano. <numpag 108> 

-- Foi-me oferecido por Serviliano com o título de Rei da Lusitânia e Aliado de Roma, para assim salvar o seu exército do desfiladeiro em que o enclausurei. 

-- E aceitaste? 

-- Recusei o título de rei como uma vaidade pessoal e egoísta e só exigi a paz, o Tratado de Paz ratificado pelo Senado romano. 

-- Mas o cinto? 

-- Fiquei com ele para ser a minha primeira jóia de núpcias. -- E com um sorriso cheio de bondade, continuou: -- Não deixará de ser o símbolo da realeza, no lugar em que agora brilha; porque tu, Lísia, ligando a tua existência à minha, ficaste verdadeiramente a rainha e senhora do meu destino. 

Lísia tirou o cinto de ouro que a envolvia e, tomando da mão de Viriato o Tratado de Paz, foi colocá-lo sobre o altar do deus inominato. As virgens do coro da semnoteia acompanharam de cânticos estas oferendas, incertas sobre qual delas substituiria no culto a Lísia que ia deixar os áditos misteriosos da Torre Redonda pelos deveres austeros da vida de mulher casada. 

O regímen da religião druídica ia-se obliterando; apenas na ilha de Hierna se conservava na sua pureza primitiva. Pelas outras partes do Ocidente europeu, as perseguições fizeram que se dissolvesse a hierarquia sacerdotal, degenerando os druídas muitas vezes em adivinhos e curandeiros, e as semnoteias em bailadeiras dos festins e das praças. Na ilha de Achale conservava-se um apagado vestígio cultual, não como doutrina teológica, mas como vínculo secreto que unificava as vontades do ideal político da libertação da Lusitânia. Era por isso que nenhum viajante, falando da Espanha, deu notícia da existência de druidismo na península. Lísia, a semnoteia, casando com Viriato realizava o ideal religioso servido pelo braço do guerreiro na aspiração política de uma Lusitânia livre. 

Depois que o caudilho saiu da Torre Redonda, Lísia falou adeparte com o velho endre: 

-- Agora que está assinada a paz com Roma e livre, livre a ditosa Pátria nossa amada, Viriato virá pedir-te a minha mão de esposa. Muito desejara que antes desse dia lhe descobrisses o sítio onde se guarda o Tesouro do Luso e lho patenteasses como depositário da Tradição, que ele serviu com tanto desinteresse e valentia. Eu bem sei que tudo se encontra na Caverna das Inscrições Gnómicas, que só tu sabes interpretar, pondo em ordem misteriosa os Bastões dos Poetas ou vates que, por terem esse conhecimento da floresta ou Feadha, são chamados Faithiste. 

-- Sim -- volveu o velho -, é preciso ser sagaz para ler essas varas sagitárias, feitas de estevas, a que chamaram Buchstave, em que se contam as sagas heróicas. A quem, senão a Viriato, entregarei o Tesouro do Luso? Pela condição natural das coisas, Viriato há-de sobreviver-me. Encanta-me o teu pedido, porque a entrega desse depósito fica ligado ao destino afectivo da tua vida: é o teu dote. 

Lísia, beijando a fronte do endre encanecido, deu à intensidade do sentimento a sincera expressão das lágrimas. 

Seriam aquelas lágrimas enternecidas um pressentimento? 

Na vetusta tradição dos povos do norte, anda sempre ligada à posse do tesouro a fatalidade tremenda: a morte... <numpag 109> 

XLIII 

Enquanto Viriato se demorava na ilha sagrada de Achale, no enlevo daquele amor que o fortificava na sua missão heróica, os três companheiros deixaram-se ficar no vale de Calipo à frente dos mil soldúrios em uma inactividade impaciente e desgostosos por verem tão repentinamente terminada a guerra contra os Romanos. Estavam acostumados a uma vida agitada de aventuras, ao prazer do saque, às grandes emoções entre aposse de riquezas repentinas e a morte; custava-lhes a voltarem bruscamente aos costumes da paz, ao respeito forçado da vida e da propriedade. Preocupados do mesmo pensamento, careciam de comunicar entre si os seus intuitos; tinham receio de serem espiados, de que os soldúrios descobrissem em suas palavras qualquer hostilidade contra Viriato. 

Então Ditálcon disse para os outros dois companheiros: 

-- Que vá cada um de nós por diversos caminhos ter à caverna que está entre o Promontório Cepréssico e o rio Calipo. Aí, sem sermos vistos nem ouvidos, poderemos falar à vontade e resolvermos sobre a situação que nos espera. 

Andaca e Minouro abraçaram o alvitre e assentaram o dia do encontro na Caverna das Fadas ao alvorecer. Então teriam tempo para falar à vontade e à larga. Dos três companheiros de Viriato, Ditálcon era o mais velho e até muito separado em idade. Era um homem alto e enxuto de carnes, de ossatura forte; e embora guerreiro destemido, nunca tinha perdido o porte aldeão e mesmo um certo amor pelos trabalhos da lavoura. O rosto sobre o comprido e de faces cavadas, tinha uma carnação rubra tostada, sobre que assentava um nariz afilado e uma boca desdenhosa a que dava um ar irónico um golpe que recebera na desastrosa batalha de Tribola. Os olhos eram garços entre o azul e verde, lembrando pela forma da cabeça o tipo de africano branco berbere. Falava cadenciadamente como sentindo a própria autoridade, porque era ouvido sempre atentamente quando contava memórias de cidades destruídas do tempo das guerras cartaginesas; dizia-se que na mocidade viajara até à Britânia e à Gália e envolvia-se de uma atmosfera de oráculo, pretextando ora descontentamento dos homens e das coisas, por forma que inspirava desalento em volta de si, ora acobertava os seus desânimos repentinos com uma isenção de todas as honras e riquezas. 

Minouro, que era muito mais novo do que Ditálcon, admirava-o profundamente e tratava-o pelo nome de Mestre, lamentando que ele não fosse um druída. Por uma lisonja petulante e insistente, veio a ilaquear Ditálcon, levando-o na direcção e intuitos que lhe sugeria. Minouro não era corpulento; era de uma estatura média que o não destacava do comum da outra gente; mas a cara redonda fitavam de frente, denunciavam o tipo do pequeno ambicioso do poder, do intrigante que trabalha pelo ideal da sua personalidade, servindo todos os partidos conforme as necessidades da sua elevação. Era como um fermento pútrido, exercendo uma acção decomponente e incessante. Viriato confiava em Minouro pelo seu carácter de homem prático e especialmente pela consideração que lhe ligava Ditálcon. O outro companheiro, Andaca, era mais fantasista, mas generoso; como Minouro, admirava também profundamente Ditálcon, acatando-o mesmo quando este o censurava pela audácia das suas ideias ou arrebatamento impulsivo das suas determinações. Andaca era homem novo; destacava-se entre os outros cavaleiros pelos seus cabelos louros que lhe cobriam quase a testa e que separava para um e outro lado em uma marrafa característica e inconfundível. A barba era espessa e também loura, a qual, com a tez fortemente corada e os olhos azuis, faria crer um tipo da Escândia perdido entre as tribos lusitanas de olhos e cabelos castanhos. Era sóbrio e desinteressado; sonhava com os tempos do decaído druidismo e teria sido um bardo arrebatador para doutrinar os <numpag 110> povos se tivesse nascido em uma melhor época, menos conturbada ou mais crente. Quando regressava dos combates e correrias em que se sentia viver, era-lhe indiferente a distribuição dos despojos; não tomava parte nos saques das cidades romanas e, quando depunha a espada e o escudo, era para estar deitado sobre a relva ou nas penedias, em decúbio dorsal, cismando como um vate. Minouro a pouco e pouco fora influindo no seu espírito, dominando-o e, pelo poder de o revocar à energia, exercia um predomínio completo sobre a sua vontade. 

Partindo em direcções diversas, os três companheiros de Viriato encontraram-se ao alvorecer à boca da Caverna das Fadas, alguns estádios longe do mar, mas dentro da qual rebentavam as ondas nas grandes tempestades da costa. Aí, no escarpamento marítimo do Promontório Cepréssico, é que se observava bem o trabalho das vagas que, pelo aglutinamento das areias moventes de uma praia que se foi alteando pelo decorrer dos séculos, formou com o calcário altíssimos taludes, ou dunas, defendendo o vale de Calipo. Mas por seu turno, em toda a extensão da costa desde o Promontório Cepréssico até ao rio Calipo, o mar recomeçou o trabalho de erosão, abrindo numerosas cavernas, destacando-se entre todas a mais profunda e misteriosa, a Caverna das Fadas. Contam as vozes do povo que algumas dessas cavernas foram abertas pela mão do homem, quando ainda ele não conhecia os metais, e viera descendo da primitiva estação que fizera em Scalabis, até por estabelecimentos sucessivos chegar ao vale do Tago. 

Na Caverna das Fadas entraram os três companheiros de Viriato maravilhados pela extensão do subterrâneo, em um solo plano e profundo com abóbada hemisférica, desembocando em uma galeria aonde os raios do sol nascente não chegavam e aonde se ocultavam numerosos esqueletos como em necrópole de uma remotíssima idade. A curiosidade não os levou a entrarem lá dentro; aí, à boca da caverna, antes de começarem a conversa para que vieram, não podia eximir-se à observação de coisas que parecia extraordinário o encontrá-las naquela solidão ignorada de todos. 

Ditálcon, levantando do chão uns fragmentos de barro cozido e mostrando-o aos companheiros: 

-- Quem é que pode explicar como esta louça veio parar aqui? Em Hierna eu vi louça igual em tudo a esta; e até na Bretanha... 

-- Seria um mesmo povo? -- inquiriu Andaca imaginoso; e levantando do chão numerosas contas de cor esmeraldina e esverdeadas que estavam espalhadas pelo chão como se formassem outrora vistosos colares, continuou observando: -- Mas estas contas desenfiadas tenho-as encontrado em outras cavernas lusitanas em que nos temos refugiado nestas correrias contra os Romanos. Quem tivesse tempo para ajuntá-las e formar com elas um colar para oferecer a Lísia por ocasião do ocasião do seu casamento com Viriato. 

Ao proferir este nome, os três companheiros entreolharam-se subitamente, suscitados pelo pensamento que ali os trouxera. E Minouro atacou o assunto: 

-- o casamento de Viriato! É isso o que nos obrigou a virmos aqui. ele quer agora a paz com Roma para gozar tranquilamente a sua vida de casado; e mandando cada um para sua casa, lá se vão os nossos comandos, todo o nosso valimento, e mesmo os nossos recursos. 

Ditálcon atalhou: 

-- Viriato é sincero; ele não aceitou o ser rei da Lusitânia como lhe propôs Serviliano. 

-- Mas, depois de casado, não quererá ele dar à mulher um trono? E com os filhos formar uma dinastia? 

Andaca interveio: <numpag 111> 

-- Em todo o caso, nós somos uns instrumentos passivos dos planos ou das ambições de Viriato; e isto não deve, não pode ser. 

Ditálcon, retomando a sua autoridade e ascendente moral: 

-- A paz com que Viriato se lisonjeia é um engano. Roma ratifica a paz assinada por Serviliano, mas como vê Numância em revolta, vai mandando mais tropas para a Espanha Citerior. Ainda neste ano de DCXIII chegou o cônsul Quinto Pompeu Rufo, com Quinto Servílio Cépio, para continuar essa guerra desesperada que dura já desde DCXI. Os Numantinos não sucumbem; são dos que morrem mas não se rendem; eles são verdadeiramente Lusitanos e Roma sabe-o melhor do que ninguém. Por isso, se vos faz falta a guerra, aí a tereis, segundo as minhas previsões, e eu sou homem para me ufanar de ter dito algumas verdades ao mundo. Agora, o que aqui vos confesso é que estou cansado de guerras, por uma causa sem fundamento. 

-- Sem fundamento?! -acudiram Minouro e Andaca, com surpresa. 

-- Sim; porque nós, os Lusitanos, nada temos com esse povo primitivo que antecedeu na Península o Ibero, que o veio repelindo para as bordas do mar. Viriato sonhou esta divisão entre o Lusitano e o Ibero, quando tudo isto é celtibérico, e deve formar uma só pátria, a que bastaria por ora a constituição municipal que Roma nos impõe. 

Minouro apoiando-se na afirmativa de Ditálcon: 

-- Eu vou-me convencendo disso; porque para sermos uma nação lusitana, como dizes, não temos diferença de raça; e pelo que tenho observado nestes nove anos de campanha pela Hispânia Citerior e Ulterior, também não vejo montanhas que limitem os nossos territórios, nem rios que nos sirvam de fronteiras separativas. Nestas condições, uma pátria lusitana é uma criação de fortes peitos, obra de homens, e sustentada apenas pelo prestígio das suas espadas. Nós mesmos, obedecendo a este impulso, fizemos do pastor Ouriato o Viriato que não quis o ceptro deste novo reino. 

Andaca, sugestionado pelo argucioso Minouro e acreditando nas palavras de Ditálcon: 

-- Para que esta Hispânia unida entre na civilização moderna, como Roma atingiu no mundo e como no-la quer transmitir, só temos um passo a dar, e digo-o com sinceridade: Renegar a pátria lusitana! 

-- No meio disto tudo -- disse Ditálcon em um dos seus momentos de pessimismo que o atacava --, para mim só me bastam sete palmos de terra. 

Andaca, passando com os dedos inconscientemente pelo barba loura, parecia que era impelido para o mesmo desalento, Minouro é que se mostrou alegre: 

-- Deixemos vir para nós os acontecimentos. A tranquilidade de Viriato não será por muito tempo; nem me parece que a sua obra tenha estabilidade. E recomeçando os Romanos a guerra, porque o Senado que ratificou esta paz é o mesmo que aprovou a traição de Sérvio Galba há dez anos, Viriato tem de vir a campo. E nós cá estamos para dirigirmos as coisas como entendermos. 

-- Ficamos nisso! -- conclamaram os outros dois, levantando a mão direita. 

O sol ia a pino; e montando silenciosamente os cavalos que andavam pastando entre as ervas marinhas, dispersaram-se rapidamente em direcções diferentes, para reaparecerem desencontradamente nos vales de Calipo. <numpag 112> 

XLIV 

Viriato, regressando da ilha sagrada de Achale para a companhia dos mil soldúrios, vinha alegre pela novidade que acabava de saber momentos antes: 

-- O Senado e o povo romano ratificavam a paz assinada por Serviliano! A Lusitânia está livre de hoje em diante. Não disputaremos nunca a Roma os eu domínio entre os povos ibéricos; desfrute aí à vontade as suas conquistas e as suas exacções fiscais. Que os seus procônsules e pretores se enriqueçam rapidamente e venham aí remir-se pelo seu governo das garras dos credores que os empobrecem em Roma. A Lusitânia só quer que a deixem nos eu trabalho, que é a sua festa permanente. Na fé do Tratado, depomos as armas; vou comunicar esta resolução, que é da parte dos Lusitanos 

o começo do cumprimento do glorioso Tratado, ao conselho armado, para que em seguida todos os terços e companhias, que andam há nove anos empenhados nesta campanha de libertação, voltem às suas terras. Foram dadas e transmitidas todas as ordens necessárias para que o conselho armado se reunisse junto da mamoa mais próxima. Quando Viriato falou em dissolver o exército, ouviu-se uma voz de entre os do conselho, observando: 

-- Tenho por perigoso esse desarmamento; porque Roma não cessa de mandar tropas para a Espanha e está sustentando uma guerra sangrenta em volta de Numância. Aí estão dois cônsules temerários, Quinto Pompeu Rufo e Quinto Servílio Cépio, sustentando essa campanha. Nada mais fácil do que, sabendo esses generais que o nosso exército se licenciou, voltando os terços a seus lares, um deles se lembre de vir fazer uma incursão à Lusitânia e nos apanhe isolados. 

Viriato ouviu atentamente a observação e não foi imediatamente de encontro a ela, antes parecia corroborá-la: 

-- É uma suposição plausível, e tanto mais para recear, que um desses cônsules, Quinto Servílio Cépio há-de querer vingar o irmão Serviliano por ter assinado o Tratado de Paz; e além de tudo, Cépio, segundo a voz que corre, é considerado em Roma como devasso, capaz de todas as deslealdades pelo seu carácter pérfido. Mas Cépio tem de obedecer ao Senado e povo romano e por isso estamos livres de qualquer traição, como a que há doze anos praticou Sérvio Galba contra a Lusitânia. Hoje não tratamos com cônsul algum pessoalmente; é com Roma representada pelo seu mais alto poder político. Não temos direito a duvidar dela; o tratado aqui está escrito e assinado. 

E em seguida passou as lâminas de cobre em que o Tratado de Paz com os Lusitanos estava assinado por Lélio e Servílio, os dois cônsules nesses ano de DCXIV da fundação de Roma; e cada um dos membros do conselho armado foi lendo detidamente e aprovando: 

-- É a garantia de uma paz duradoura. 

-- Para que esse tratado seja efectivo -- continuou Viriato --, temos de mostrar a Roma que confiamos na seriedade das suas leias e que pelo nosso lado cumprimos o tratado depondo as armas e voltando aos nossos labores quotidianos. 

-- É assim mesmo! Assim mesmo. 

E aprovada a resolução, foram enviados mensageiros para todos os povos e terras que tinham lutado pela independência da Lusitânia; para os Vetões, para os Vaceus e Galaicos; outros foram levar traslados do Tratadod e Paz para que fosse lido na Celtibéria, na Carpetânia e na Oretânia, na Bética e até ao país dos Cúneos. 

Ao sair do conselho armado, disse ainda a mesmos voz suspeitosa: -- Bem sei que a noticia do tratado vai causar por todas essas terras uma alegria imensa! É legítima. Porém, vendo o exército licenciado e sabendo quanto é difícil pô-lo <numpag 113> de repente em pé de guerra, continuarei dizendo, e oxalá me engane: Tenho por perigoso este desarmamento. 

Quem assim falava era o bravo Tântalo, que em toda aquela campanha nunca hesitou em cumprir uma ordem de Viriato. <numpag 114> 

XLV 

Depois da saída do conselho armado, disse Idevor para Viriato: 

-- Não quiseste aceitar o título de Rei da Lusitânia; o teu sentimento puro revelou-te que neste solo lusitano não vegeta essa planta parasítica da realeza. E demais, uma realeza investida e sustentada por uma potência estrangeira! Só isso bastava para influir na degradação moral de um povo. Em troca dessa coroa que renunciaste, ou que desprezaste, mereceste que te seja entregue o Tesouro de Luso. Já terás sabido que elese guarda na Caverna das Inscrições Ógmicas; a rocha que domina essa caverna é a Pedra Virgem, o penedo que fala, porque tem na face lisa, ou Peravana, os sons fan, phone, ou vene, que traduzem as sagas venerandas das idades passadas. Longa é a jornada para a Caverna das Inscrições, lá na margem direita do Dúrio, perto do Cachão da Rapa. 

-- Agora que dei conta aos chefes das contrébias do Tratado de Paz com Roma, podemos partir, ainda que seja para longe; vamos seguros e sós. Eu sei todos os caminhos que nos levam ao Cachão da Rapa e já vi com assombro esses traços para mim incompreensíveis gravados na Pedra Virgem. Partamos. 

E Idevor e Viriato meteram-se a caminho. Já distantes e bem longe do povoado, encontraram solitária à beira de um caminho uma casa palhaça, donde vinha o som rítmico do trabalho do tear; de uma rocha que estava perto manava um jacto de água cristalina que fazia gosto beber. Enquanto matavam a sede, escutaram a cantiga que tomou para ambos o valor de um vaticínio; cantava uma pobre mulher 

<poesia>
AO TEAR 

Olha a tecedeira 
Como tece bem, 
Como a lançadeira 
Vai e vem ligeira; 
Sua mão certeira 
Que presteza tem!

Lembra uma dança 
O som do tear, 
De um sapatear 
Que jamais se cansa; 
Mas que é a bonança 
De uma ditoso lar. 

Fosse eu a trama 
Da sua urdidura; 
Como o fio se acama, 
A sua ventura 
Seria segura; 
Feliz de quem ama! 

Cresce tanto a peça 
Deste branco pano, 
Que, com esta pressa, <numpag 115>
Se me não engano, 
Ainda este ano 
Cumpre-se a promessa! 
</poesia>

Viriato sorriu-se para o velho endre, que o compreendeu e, prosseguindo o caminho, acharam-se naturalmente falando no casamento de Lísia. 

Depois de alguns dias de jornada, os dois peregrinos entraram na região do Dúrio; seguiram pela margem direita, até chegarem à povoação de Linhares, aonde repousaram. Ali, na voz do povo, ouviram falar dos tesouros encantados que estavam escondidos no fundo de uma caverna escura, coberta por um enorme penedo em que se viam insculpidos grande número de quadrados mágicos. Ai do que se atrever a penetrar na caverna! Os que lá entram, se não ficam ali imediatamente paralisados com um sono letal, ou perdem a fala ou caem-lhe os dentes! 

Apesar de todos os terrores, Viriato e Idevor, logo ao nascer do sol, caminharam para a margem do Dúrio. Daí a meia légua, avistam, sobranceiro de um precipício a uns vinte passos do rio, o enorme penhasco que o vulgo saudava em verso: «A pedra sagrada da esperança do povo.» Ninguém sabia o que significava uma tal saudação. Idevor era o depositário desse mistério do passado. 

Perto já do penhasco, em grande parte coberto de musgo, Idevor dirigiu Viriato para a parte em que estava a face lisa, da altura de dez côvados, e de quatro de largura, e aí contemplaram patentes os quadrados formando como pequenas janelas, com traços encruzados e enxadrezados, agrupados diversamente. O povo acreditava que essas letras se renovavam todos os anos, no começo da quadra estival. É certo que os quadrados estavam agora bem visíveis, e até se lhes notavam cores. Idevor, contemplando aqueles caracteres indecifráveis, disse para Viriato: 

-- Esses quadrados que vês são como as letras rúnicas, que os nossos antepassados deixaram gravadas sobre muitos rochedos do norte. Chamaram Ogum, nome que se aproxima dos Kova, ou os hieróglifos de um povo amarelo do extremo oriente. Com o movimento das raças, esses caracteres gravados nas pedras foram reproduzidos em ramos de árvores, a que chamaram os Bastões dos Poetas; muitas vezes porém, nas largas narrativas históricas, esses bastões rúnicos baralhavam-se e, para restabelecer a sua ordem cronológica, ou as séries das Tríades, era necessário ir procurar nos rochedos esquecidos nas florestas a disposição primitiva desses traços ou letras. É o que acontece com este rochedo que está diante de nós; repara bem: esses quadrados gravados na pedra fixaram para sempre a ordem em que se devem dispor os bastões rúnicos, nos quais estão escritas as tradições da Lusónia. 

-- E aonde estão depositados esses Bastões dos Poetas? 

-- Dentro da caverna a que se sobrepõe este penhasco. Mas, antes de tudo, repara para estes quadrados: uma linha figura o tronco da Árvore de Agham, e como ramos dela, cruzam-se outras linhas, que se distinguem umas das outras apenas pela posição e agrupamento: a primeira letra é figurada por um risco ou barra atravessada; a segunda letra por dois travessões, terminando o grupo de barras na quinta letra. E do lado oposto ao primeiro grupo, recomeça-se da mesma forma os caracteres, do segundo grupo de letras; no terceiro, os traços são perpendiculares ao tronco; e no quarto esses traços são transversais ou oblíquos. 

Os nomes dessas vinte letras é tomado da árvore cujo nome começa pelo som dessa letra; é por isso que o termo Feadha, a planta, a árvore, a floresta, significa também o simbolismo alfabético, a ciência, e o vate ou Faethiste. Se não fossem os caracteres que aí vês inscritos nesse penhasco, seria impossível conservar a ordem dos <numpag 116> Bastões dos Poetas, em que está escrito o poema de seis mil versos que se guarda aí dentro da caverna. 

E Idevor mostrou a Viriato a ordem alfabética, ou Beith-Luís, na sua sucessão ógmica: b, l, f, s, n, h, d, t, c, que, m, g, ng, st, r, a, o, u, e, i. 

Era nesta ordem que deviam ser dispostos os bastões rúnicos. Idevor procurou a entrada da caverna, que era um pequeno corredor de acesso, na vertente do despenhadeiro que ia dar a um recinto ou vasta câmara revestida nas paredes e tecto por infiltrações estalactíticas. Parecia um hipogeu sepulcral, a que as concreções estalagmíticas davam o aspecto de estátuas mortuárias, envolvidas em sudários brancos. À medida que os dois peregrinos avançavam pela assombrosa câmara, os rumores dos passos ressoavam por outras galerias que se sucediam apenas separadas por grandes pedras; de vez em quando sentia-se esvoaçarem aves das trevas que ali hibernavam e que para os incrédulos pareciam as almas dos antepassados. Sobre o pavimento estavam espalhados estilhaços de sílex, machados de pedra, ossos de animais que pertenceram ao clima glaciário. Avançando com precaução, Idevor chegou à entrada de uma segura câmara, mais vasta e esplêndida pela sua estrutura trabalhada pelas infiltrações das águas; era alumiada por uma fresta aberta nas fendas da rocha e aí existia ao centro um bloco despegado do tecto da caverna, formando uma ampla mesa aquela lajem de forma arredondada. [1] E em volta, junto da parede natural, achavam-se dispostas seis pedras, como se fossem assentos patriarcais; sobre elas estavam estendidos, à maneira de feixes de setas, os bastões rúnicos a que Idevor por vezes aludira. O velho endre falou para Viriato: 

-- É nestas varas que está escrito o Poema da Lusónia. 

E foi tirando pela ordem ógmica os bastões e colocando-os combinadamente sobre a grande mesa central; todos esses feixes formaram outros tantos quadrados, como os que acabavam de contemplar na face lisa do penedo do Cachão da Rapa. E depois de se acharam todos dispostos convenientemente, disse Idevor: 

-- Agora posso ler o velho poema da raça de que provimos e em que se encerra o destino da Lusónia. 

Viriato aproximou-se respeitoso, exclamando de júbilo: 

-- Esse poema nacional é o verdadeiro Tesouro de Luso. O conhecê-lo enche todas as minhas ambições. 

E Idevor, percorrendo um a um, nos seis grupos de varas, os bastões rúnicos em que se continham os seis mil versos da Epopeia Lusónia, observou: 

-- Levaria muitas horas a leitura ou recitação pausada dos versos desta epopeia; para o caso que nos interessa neste momento, basta um resumo claro e verdadeiro. Escuta pois o argumento da 


EPOPEIA DA LUSÓNIA 

«Um grande mar glacial cobriu a Europa a partir do pólo até ao Ural, estendendo- se pelos territórios hoje ocupados por nações que levantaram dólmens e construíram muralhas e cidades com os blocos erráticos arrastados pelas neves que deslizavam das altas montanhas. 

«As neves eternas, descendo dos montes da Europa ocidental, que durou séculos, essas morenas, que bordam as margens dos lagos, as costas do Oceano Atlântico onde <numpag 117> se desagregaram as geleiras. Todos os grandes vales foram atulhados de gelos, transbordando sobre as planícies. Dos montes da Europa central se estenderam esses enormes geleiros, alastrando-se, destruindo as espécies vegetais e repelindo diante de si os animais gigantescos, que se refugiavam nas cavernas ou procuravam outros climas. Nas clareiras, não cobertas de gelos, conseguiram sobreviver alguns animais e pequenos grupos humanos em uma luta com a intempérie da natureza; aparecem estações humanas nas Gálias, Britânia, Itália e Germânia e nessas zonas exundadas é que se foram criando as raças da Europa, que se iam constituindo em nações poderosas, com as suas línguas diversas, seus costumes, religiões e sociedades diferentes: tais os Hiperbóreos, formados pelos Proto-Citas, Citas, Sármatas, Partas, Germanos, Gauleses e Bretões. Eles conheceram a grande constelação austral da Ursa e iniciaram os trabalhos da agricultura e da navegação. 

«As estrelas da Grande Ursa, em número de sete, assim como os bois que puxam os carros pesados chamados Teriones, foram designadas Septentriones. O homem representou no céu os actos da sua vida terrestre: o Sol fecundante da estação estival foi representado como o Touro, ou o Deus Thor das gentes germânicas, e o mugido do trovão Tarana, como do touro que berra. E a navegação, que se fazia de uns para outros lagos, era também completada transportando os Teriones as barcas em carros de um ponto para outro. Chamaram por essa forma dupla de navegação a esse povo aventureiro os Gansos, ou Liguses, os patos dos lagos. Foi assim que se fez conhecida no mundo a forte raça de navegadores, os Liguses, ou Lígures, que constituíram ligas ou hansas marítimas, protectoras das suas remotíssimas viagens, transportando pelo Atlântico e através da Europa os blocos de âmbar amarelo e o estanho das ilhas Cassitérides. 

«Esses povos da região setentrional da Europa, que se chama a Escandinávia, viveram longo tempo às bordas do mar e foram conhecidos pelo nome dos Homens da Água, que em suas línguas se exprimia pelas palavras Soma-lassed, Sabme-lassed. Pela orla ocidental das Europa, esse povo veio descendo para o sul e ocupou as regiões de Hibérnia, da Britânia, e na Hispânia esse povo fundou o grande estado da Lusónia ou terras de Lez, que se denominaram Anda-Lezia, Cale-lezia e Lusitânia. 

«Pela sua audácia aventurando-se na exploração do mar tenebroso, as outras raças chamaram-lhes os Atlantes, de Atl, o nome da água; e nas suas rascas ou barcas de duas proas, ajudadas a remos, a que chamaram kamares, estenderam as suas expedições pelas ilhas perdidas no meio do Atlântico, desceram ao longo da costa ocidental da África, foram tocar em um continente ou mundo novo da Aymérica, penetraram o Mediterrâneo até ao Egipto e, subindo o Golfo Pérsico, chegaram à Caldeia e à Índia. 

«Esses povos ribeirinhos, ou de Lez, e propriamente marítimos ou atlânticos, levaram os conhecimentos de astronomia, fixados no seu Zodíaco, ou simbolismozoomorfo das constelações da América, do Egipto, da Caldeia e da Índia. Foi por isso que o símbolo do Touro é adorado no Egipto com o nome de Ser-Apis, e na forma Shor, o bezerro de ouro, na Palestina; com o nome de Tauro o designaram os Caldeus, os Sírios e os Gregos. Por esse símbolo da constelação do Touro é que a civilização da raça iniciadora dos Lígures se denominou Turana; todos esses povos do Oriente adoptaram o Zodíaco ocidental, sem notarem que pela evolução milenária dos Equinócios, o Signo do Touro deixou de coincidir com o começo do ano estival. «Contra a raça ligúrica veio do Oriente a pressão de outros povos. As gentes do Irão, adorando o fogo espiritual representado em Mitra, reagiram contra a representação do fogo terrestre ou o Touro, morto por Mitra, ou contra o Turan. Na Europa, os povos dos Celtas e dos Iberos, dos Jónios e dos Fenícios, dos Cartagineses e dos Romanos, foram gradativamente atacando a raça dos Lígures e, pelas invasões por terra e pela pirataria nos mares, quase que apagaram o nome e a civilização dos Lígures da Europa! <numpag 118> 

Os Iberos, que atravessaram de África quando a Europa ainda estava ligada a ela por um istmo, repeliram-na da vertente ocidental dos Pirenéus, em que se tinha apoiado na idade glaciária, cujas geleiras estacaram ante essa cordilheira; os Celtas louros e corpulentos atacaram-na nas Gálias trans-e-cisalpinas; os Fenícios apoderaram-se dos périplos das suas navegações atlânticas pela pirataria; e os Jónios roubaram-lhe os seus poemas em que celebravam as temerosas aventuras do mar. as lutas guerreiras e o império das civilizações militares fizeram esquecer a civilização agrícola e as navegações dos povos ligúricos. Entre o Ocidente e o Oriente deu-se uma separação e esqueceram-se de que eram solidários na História. 

«Uma treva imensa caiu sobre o mundo depois da era glaciária: a força bruta prevaleceu sobre a ciência, a guerra de devastação e de conquista sobre o trabalho pacífico da agricultura. A missão civilizadora dos Lígures, iniciada na América, no Egipto, na Caldeia, na Índia, ficará interrompida para sempre? 

«Diante da extensão e prestígio dos impérios militares, parece que a acção da força bruta é definitiva. Mas a razão e a paz hão-de triunfar um dia; o Ocidente tem de reatar a sua antiga solidariedade com o Oriente. É essa a missão e o futuro glorioso da Lusónia. 

«Este ramo, certo, o mais tenaz do tronco decepado da lutadora raça dos Lígures, resistindo na Hispânia contra os Iberos, contra os Celtas, Persas, Fenícios, Cartagineses e Romanos, há-de um dia através de todas as crises reorganizar-se outra vez como nação e os eu poder derivará do regresso à primitiva capacidade da raça: Recomeçará as grandes navegações do Atlântico; há-de reocupar pelas suas colónias laboriosas a América; fundará um vasto império na Índia; dominará na África; e primeiro que nenhum outro novo, circundará a terra, afirmando outra vez a supremacia pacífica como destino da civilização ocidental. Sustentar a autonomia da Lusitânia é impeli-la para a realização deste incomparável destino, alargando pela actividade pacífica a antiga Liga Hanseática numa confederação das gentes, na solidariedade humana.» 

Dentro da caverna do Cachão da Rapa ia escurecendo; estava já terminada a leitura ou exposição do poema. Viriato, cheio de esperança no futuro da Lusitânia, exclamou: 

-- Este ideal dá vida e energia a uma nacionalidade! Torna-a imperecível. Agora já posso morrer; e fosse esta caverna depósito de uma tradição sagrada, a minha ignorada sepultura. 

-- Para que te deixas assaltar por pressentimentos de morte? Eu ainda não te desvendei todos os conhecimentos contidos nesses bastões dos poetas, ou Sagitas, que se arrojam ao ar e, conforme caem voltadas para o Oriente ou para o Ocidente, assim nos dão os Pre-Sagios venturosos ou aziagos. Há um conhecimento de incomparável sagacidade: revela-o a seta que, equilibrada sobre um ponto, trémula, oscilante, indica a linha do Norte a Sul; mais poderosa do que aquelas que guardam as sagas das tradições dos navegadores ligúricos, ela os guiou seguros -- por mares nunca de antes navegados! -- Pela posse dessa vara chamada a Seta de Ouro, realizará a Lusónia os eu alto destino. 

E à medida que ambos se afastavam da caverna, disse Viriato ao perder de vista o penhasco das inscrições misteriosas: 

-- Agora compreendo eu o verso da saudação: «A pedra sagrada da esperança do povo.» <numpag 119> 

XLVI 

A cerimónia do casamento de Viriato com Lísia estava determinada para dia certo. O cabecilha era esperado na Torre Redonda de Achale e já sobre o lar ardia o fogo sagrado que representa a santidade da família apoiada nesses mistérios cultuais da memória dos antepassados. Lísia entretinha o fogo, quando chegou Viriato; o guerreiro aproximou-se de Idevor e disse com uma dominadora serenidade: 

-- Agora, que já temos uma pátria livre, também quero render culto aos meus antepassados e venho rogar-vos por isso, para que Lísia, vossa filha adoptiva, me acompanhe neste acto comendo comigo do mesmo pão diante do mesmo fogo. 

Idevor ergueu-se donde estava assentado, aproximou-se da pedra focal e, chamando para junto de si todas as pessoas que habitavam na Torre Redonda, proferiu a fórmula sagrada: 

-- Eu vos entrego, ó mancebo, a minha filha Lísia, trocando este lar paterno pelo que ides inaugurar com amor e esperança. 

E pegando em Lísia pela mão, conduziu-a para Viriato, como desligando-a da religião doméstica e entregando-lha para que a iniciasse em um novo culto da família a que de ora em diante pertencia. Os dois donzelas que acompanhavam Lísia ressoavam com a majestade de um sacramento e naquele dia entre festas, banquete e recitação de poemas, passou-se a primeira parte do cerimonial consuetudinário do casamento. 

No dia seguinte era a partida da esposa para a terra de seu marido; saíram da Torre Redonda os três companheiros de Viriato e a luzidia cavalgada que tinha de conduzir a noiva pôs-se a caminho. Lísia, vestida de branco com um véu, ia em um carro todo enramalhetado, ladeado pelos cavaleiros da trimarquísia. E adiante caminhava um arauto levando um facho aceso que como símbolo nupcial dava à cavalgada o prestígio do sentido religioso. Em todo o percurso ou pompa, modulavam-se hinos consagrados; e de toda a parte vinham ao encontro da cavalgada homens e mulheres, que atiravam com flores para o carro da noiva e lhe derramavam trigo pela cabeça, augurando felicidades. 

Ao aproximar-se de Viseu, três raparigas robustas e esbeltas, trajando vestidos garridos, com suas arrecadas de ouro, vieram colocar-se diante do carro de Lísia e foram seguindo-a cantando-lhe uma canção de marcha nupcial. Pelas suas vozes, como excelentes cantadeiras bem conhecidas, espalhavam alegria em volta de si; eram Caénia, Apónia e Niliata, de que Viriato se recordou com júbilo. Fora ao subir da serra dos Hermínios que elas lhe falaram de Lísia e é com o mesmo encanto que agora entoa a 

<poesia>
MARCHA NUPCIAL 

Bem vindo o par ditoso 
Para a nova morada! 
 Do amor o laço forte 
 Não o desata a morte. 
Pelo braço do esposo 
Lá vem a bem casada! 
Laço que a união celebra, 
 Nem mesmo a morte o quebra. 
Como são tronco ramoso <numpag 120> 
A vide entrelaçada, 
Que outro laço mais ata? 
O filho que os retrata. 
Que encobre infindo gozo 
Nesta união consagrada 
 O par que vem sorrindo; 
 Por ditoso, bem vindo! 
</poesia>

Estava a terminar o trajecto festivo e começava a terceira parte da cerimónia do casamento, em que a entrada da esposa em casa do marido se fazia por um rapto, pelo qual este, sem que ela tocasse com os pés no limiar da porta, a introduzia junto do lar, no novo culto doméstico, pela sua autoridade de chefe da família, que assim a iniciava por sua vontade. Era aí que devia ser partido o pão entre ambos, diante do fogo do lar, bebendo nessa comunhão para a vida e para a morte, unificando as almas por um sacramento indissolúvel. Passou-se rapidamente este acto, porque era imensa a multidão de gente de todas as terras da Lusitânia que esperavam os noivos na Cava de Viriato aonde se formara um esplendoroso arraial, em que se expuseram todas as riquezas naturais e industriais da terra. 

Ali se encontravam os chefes das contrébias, acompanhados dos seus ambactes, com presentes oferecidos aos noivos. 

Conheciam logo entre a multidão jubilosa os principais chefes dos castros e citânias da Serra da Estrela; e diziam os curiosos: 

-- Olha o chefe do Cabeço do Crasto de Torvoselo! E o do Crasto de Tintinalho? O do castelo de Reigoso! 

-- Não faltou o chefe do Cabeço de Escarrigo; nem o de Videmonte; o de Verdolhas, e de Tabeiró. 

A gente de Trás-os-Montes também reconhecia os seus chefes: 

-- Lá está o de Castro de Avelãs. Olha o de Formil! Mais o de Fervença. 

-- Também o de Castro Samil! E o de Lambeiro Branco! O de Soutelo. 

-- Mais o de Rabal; e o de Alfaião. 

A gente do Alentejo mostrava certo orgulho a apontar para os seus chefes da Orca, de Castro Verde, da Cola, de Castris. 

Do Norte, da região galaica, viam-se os chefes das citânias, como os das de Briteiros, Tintinolho e Sabroso; o chefe da Coroa de Amonde; e o do Morro de Afife; o do Castrelod e Neiva; o de Monte Ferroso; de Laúndos, Guifães, da Roboreda. Era uma homenagem unânime de simpatia, de reconhecimento a Viriato pelo êxito da violenta campanha de libertação da pátria comum. 

Com as festas que por toda a Lusitânia e Celtibéria se fizeram ao conhecer-se o texto do Tratado de Paz, e ao regressarem a seus lares os homens que há tantos anos andavam na guerra da independência, coincidiu também a notícia de que em breves dias seria celebrado o casamento de Viriato com Lísia, a virgem semnoteia, aquela que sempre vaticinara a liberdade da Lusitânia. 

Assim, cada uma das terras contribuíra com tantos sacrifícios para coadjuvar Viriato no castigo da infamíssima e sanguinária perfídia de Galba, resolveu mandar uma deputação para a representar nas festas nupciais do valente caudilho. Essas deputações eram formadas de moços e raparigas, vestidos com os trajos das suas províncias os mais vistosos e característicos, que iriam fazer os cortejos do esposa e da noiva e alegrá-los com as suas danças e cantares durante os dias das bodas e torna-bodas; iam também os <numpag  121> homens bons ou antigos com os presentes de bois e novilhos, de vinho, cereais, frutas e sequilhos, para que a nova família se iniciasse pela abundância; e as mulheres, as mães que fiavam no lar, ofertaram também as suas grandes teias de peno de linho e bragal, meadas de linha alvíssima e fina, boiões de mel e aves sem conto. Era uma homenagem com o sentido de uma contribuição nacional espontânea àquele que soubera unir as populações dispersas no mesmo sentimento de uma pátria livre. 

Para a cidade de Vacca, fundada pelos Túrdulos, que está próxima das fortes muralhas da Cava aonde Viriato no ano DCVIII derrotara o cônsul Nigídio, é que se dirigiram todas as deputações para as festas do casamento do caudilho. Ali, naquela cidade, junto do rio Vaccua, costumava Viriato recolher-se temporariamente das fadigas da guerra; era ali que tencionava viver tranquilamente o resto dos seus dias no remanso do lar com a adorada esposa, Lísia, que tanto o fortificava pelo ascendente moral e confiança no futuro da Lusitânia. 

Da cidade de Vacca partiu o cortejo dos moços à frente de Viriato que iam ao encontro da noiva que vinha da ilha sagrada de Achale, acompanhada por seu pai Idevor e pelo grupo das donzelas de todas as cidades lusitanas lá reunidas para essa marcha. Por onde Lísia passava, punham-lhe arcos de flores e verdura; tapetavam-lhe a estrada com ramos e plantas aromáticas de alecrim e verbena, e arrojavam-lhe punhados de trigo, cantando seguidilhas de felicitação e augurando venturas. 

Quando o cortejo chegou à margem do Vaccua, os grupos interrogaram-se mutuamente e, depois de simuladas as perguntas e respostas, em que Lísia era concedida como esposa, Viriato, o guerreiro, passou o rio com presteza e, como por encanto, lançando o braço em volta da cinta de Lísia, levantando-a do chão para cima do seu cavalo branco, partiu à desfilada fazendo o acto cerimonioso do rapto. Todos os mancebos foram após ele, mas, quando chegaram à cidade de Vacca, já encontraram Viriato e Lísia juntos do balcão de pedra que dava entrada para a casa que fora construída para habitação dos noivos. 

Diante do terreiro da casa, coberto por uma extensa ramada cheia de dourados cachos de uvas, começaram os cantos e danças; e depois da chegada de Idevor, os noivos desceram para vir ao encontro do velho endre, a quem beijaram a destra, que ali diante de todos consagrou aquele consórcio unindo-lhes as mãos. Então, de braço dado, os dois esposos dirigiram-se à Cava enorme, dentro de cujas muralhas estavam expostos como em uma feira franca todos os gados, cereais, tecidos, objectos de trem doméstico e mais delicados presentes, que as populações lusitanas ofertavam a Viriato como seu libertador. A vista dessa assombrosa homenagem manifestava o quanto Viriato era querido, e bem explicava a confiança com que à sua bravura tinham ligado os seus destinos aquelas terras que ele conseguira libertar. 

Viriato e Lísia foram percorrendo a Cava, em que estavam expostos todos os presentes que representavam as riquezas das regiões lusitanas. Reconhecia-se a região do Norte, entre Douro e Minho e Beira Alta, pela abundância dos seus milhos, pelo centeio da Primavera e do Verão, pelas excelentes castanhas. A região montanhosa da Beira Baixa e Trás-os-Montes, pelos seus nédios bois, carneiros e cabras das boas pastagens das encostas e vales; e pelo seu trigo mole e centeio. A região central da Estremadura até ao Tejo mandava das suas extensas e férteis landes os trigos molares e rijos, castanhas deliciosas, azeite cordovil e vinhos generosos. A região do Sul, Alentejo e Algarve, apresentava o trigo do Inverno, os figos secos, tâmaras, alfarrobas e castanhas piladas, e porcos de uma criação afamada. 

Viriato, lembrado dos anos da campanha libertadora, não pôde olhar para os cavalos em que vieram os chefes das contrébias, sem confessar quanto devia às suas <numpag 122> qualidades de resistência excepcional. E conversando com os chefes que o rodeavam, iam uns e outros notando: 

-- Este tipo galeziano, de cavalos pouco corpulentos e resistentes ao trabalho, é comum ao Minho, às Astúrias, Vascónia e Navarra. 

-- E estes mais corpulentos, com grande aptidão para o trabalho de carga e de tiro, formam uma variedade castelhana, que se encontra aí pelo Minho, Trás-os-Montes e Beira. 

-- Cá para mim, o tipo da minha paixão é o bético-lusitano! Estes cavalos das províncias do sul são elegantes de formas e de postura. É olhar para essa raça de Alter, das lezírias do Tejo e do Alentejo; incomparáveis. 

Em homenagem a ter Viriato sido na sua mocidade pastor e chefe de mesta, grandes manadas de bois vieram à feira aparatosa na representação de cada província. Viriato foi passando vagarosamente diante das manadas, interrogando com entusiasmo e caracterizando com os chefes das contrébias as diferentes raças. 

-- Estes bois vermelhos, amarelos e fulvos, isto é que é próprio para trabalho! As vacas são extremamente leiteiras. Quem não reconhece neste gado o Minho e a Galiza? 

-- Também pertence a esta raça galeziana o barroso, lá do Gerês. 

-- Estes são da raça maronesa, robustos, ligeiros, firmes no passo. São aí das regiões vizinhas do Dúrio. 

-- Aqui agora os da raça mirandesa; é a que se acha mais espalhada por Trás-os- Montes, grande parte da Beira e da Estremadura, a bragancesa, a mirandesa ribeirinha, a estremenha. Isto sim, que é raça para trabalho violento! 

-- É por isso que se tem propagado tanto. 

E prosseguindo neste passeio pela Cava, Viriato e os chefes das contrébios foram notando os bois de Arouca, excelentes, sofredores, de Lamego, Caramulo, predominando entre o Dúrio e o Vaccua. E elogiaram a raça ribatejana, brava para campo e corridas; a alentejana e a algarvia, dócil, sóbria, cor de castanho claro, e própria para o trabalho e engorda. 

E na grandiosa feira em que se representava o génio de cada província, viam-se também as raças ovinas, a bordaleira, que predomina do Minho até ao Tagus; os merinos, de Campo Maior e Marvão, Moncorvo, Mirandela e Vila Flor; e as estambrinas. Estavam ali as cabras da Serra da Estrela, do mais belo pêlo longo, e as de pêlo raro, todas muito leiteiras. E os porcos de Bisare, do Minho, Trás-os-Montes e Beira; com os do Alentejo. Estremadura, Algarve e margens do Tejo, chamados Romanice. 

Via-se ali representada a alfaia agrícola, que estabelecia uma transição para os produtos industriais. Era um encanto examinar a perfeição dos arados, cangas, carros, engaços, sacholas, celhas, concas, crivos. Destacavam-se mais adiante as louças de barro, de argilas ôcreas. Nos trabalhos têxteis, as linhas ou fios de coser em meadas alvíssimas e novelos; rendas, cortinados, adamascados; as lãs de Portalegre e da Guarda em cobertores; as estamenhas, cintas, panos, de trabalho doméstico do Algarve; os buréis e baetas listradas, da Covilhã e de Viseu. 

Mas o que mais atraía a atenção de Lísia eram os trajos lusitanos, que davam ao arraial um fulgor pitoresco de cores e talhos: a capa de honra, de Miranda; o gabardino de Nisa; a capinha de Barroso e Sobreira; a castreja de Laboreiro; a jangadeira de Anha; a camponesa de Perre, Areosa, Meadela e Ovar; a ceifeira alentejana, maiata poveira; era um espectáculo comovente. 

Grupos de mulheres vieram acercar-se de Lísia e ofertaram-lhe com alegria presentes especiais: a roca de freixo ruge-ruge cheia de ornatos; aventais de Viana; lenços bordados, segundo o costume, pelas noivas de ao pé do rio Vaccua; rendas de <numpag 123> malheiro, de Aveiro, Setúbal e Lagos, e rendas de bilro de Viana, Vila do Conde, Peniche e Setúbal. As mulheres mais abastadas também lhe ofertaram peças de ouro e prata feitas pelos lavrantes de Gondomar e Fânzeres; eram argolas de beira lisa, arrecadas, botões de amoras, brincos fusiformes, laças, corações de filigrana de ouro. 

Foi ali dentro da Cava que se armaram as mesas para o festim nupcial; ali estavam as pipas do vinho palhete e as frutas com abundância. A variedade dos trajos e as fisionomias dos indivíduos que representavam a nação desde os Galaicos até aos Cúneos, davam uma impressão viva e simpática de um forte povo que tinha uma feição própria e que queria viver livre. As danças eram continuadas, simulando combates e saltos espantosos. Homens e mulheres formam bandos, em frente uns dos outros, alternando os versos da canção e um coro de homens antigos que as presenciavam é que ia repetindo o refrém, em que soava o nome de Viriato. 

Foi à mesa do banquete que Viriato se ergueu, junto de Lísia e, tirando dos eu pescoço a víria ou colar de ouro do comando, que até àquele dia trouxera, o colocou no pescoço da formosa esposa, abdicando ali diante de todos do poder militar que lhe tinha sido confiado e confinando-se na vida pacífica do lar. Dali em diante, o símbolo da guerra ficava uma jóia, adorno da graça feminina; e a arma tornar-se-ia utensílio de trabalho. 

O banquete correu animado e sempre cordato, dentro das muralhas da Cava, que era naquele momento um arraial pacífico nunca visto. À medida que os grupos se iam levantando da mesa, na planura vasta da Cava, desenvolviam-se os jogos guerreiros, a vapulação, os saltos, os sarilhos, as lutas atléticas, e ouviam-se brados aclamatórios: 

-- Vila a Galécia! 

-- Viva a Vetónia! 

-- Vivam os Carpetanos! 

-- Vivam os Oretanos! 

-- Viva a Betúria! 

-- Viva a Cinésia! 

Naquele momento Viriato ergueu-se com uma taça de vinho rubro na mão e, unificando todos aqueles gritos, que representavam o espírito separatista das diferentes terras, proferiu com a voz timbrada e sonora acostumada ao comando: 

-- Viva a Lusitânia! 

A vibração daquela voz e daquele nome produziu um delírio indescritível; e dentre aqueles gritos sinceros e fervorosos, provocados por um íntimo sentimento de Pátria, destacou-se uma outra, distinta e majestosa: 

-- Viva a Lusitânia! E com ela Viriato, símbolo da independência. 

As festas do casamento duraram oito dias e nesse decurso nunca deixaram de chegar novas mensagens e carinhosos presentes que se foram acumulando na Cava. No meio daquela multidão alegre levantou-se um rumor entusiástico, vendo aparecer um formoso touro ladeado por cinco campinos; seguia lento e majestoso, levando enfiadas nas pontas brancas regueifas de trigo e em volta do pescoço grinaldas das mais rescendentes flores. Era o costume dos povos da Estremadura nas suas festas da entrada da Primavera, que votavam a Viriato esta sua manifestação cultual. Por onde o touro passava, uns lançavam-lhe flores, outros batiam-lhe no lombo lustroso palmadas de afecto e a multidão seguia atrás para presenciar a entrega daquela expressiva oferta a Viriato. Os chefes das contrébias, que assistiam à aparatosa cerimónia, aproximaram-se de Idevor, insistindo com empenho: 

-- Explicai-nos o sentido religioso da Festa do Touro. Porque é que encontramos por todo o território hispânico touros de pedra como esses de Guisande? Que sentido <numpag 124> histórico terá a lenda do combate de Mitra com o touro atravessado pela sua espada, como se vê insculpido em tantas rochas e monumentos? 

Idevor acedeu prontamente ao empenho: 

-- «Um povo que habita na latitude em que o maior dia do ano é o dobro do menor dia do Inverno, desenvolveu-se e enriqueceu na paz dos trabalhos da agricultura. Para ele, o Sol representava-se-lhe à mente como um touro celeste: e no começo do ano solar, na eflorescência estival, simbolizou essa constelação pelo signo do Touro, a força geradora, a potência fecundante. Esse símbolo zodiacal do Touro conservou este nome entre todos os povos civilizados como expressão de um conhecimento astronómico; e foi também objecto de adoração. O nome de Thor, o deus dos povos da Germânia e da Escandinávia, designa o Touro, tornado a própria imagem do deus. Os Cimbros e Teutónios, que invadiram a Itália, juravam sobre o bois agrado que traziam consigo. Thor, o chefe de todos os deuses escandinavos, é representado com um ceptro com cabeça de boi. Muitos nomes de povos e de lugares foram tomados deste símbolo do Touro, como o monte Tauros, o Darana, ou Atlas, os Tourisci e Taurini, e a região da Taurida. A civilização deste povo ocidental foi propagada ao Oriente e chamaram-lhe Turan, pela representação do touro, ocupando o primeiro lugar entre os quatro signos do Zodíaco, na casa em que marcam no céu as estações solsticiais e equinociais. 

«Contra esta civilização do Ocidente que divisara o fogo material do Sol no Touro, combateu o Irão, simbolizando no jovem cavaleiro cercado de raios luminosos, Mitra, o Fogo vivente e espiritual. A luta do Irão e de Turan foi representada em um combate de Mitra atravessando com a sua espada o touro; era o antagonismo e o triunfo da civilização militar sobre a civilização agrícola, sacrificada diante das invasões da força armada, da rapina organizada. A vinda dos Persas à Espanha foi uma consequência dessa luta; Mitra também aqui venceu o touro que representava as forças impetuosas da Natureza. 

«Mas, apesar desse triunfo, podemos exaltar o touro na sua morte como no velho hino: -- Do seu corpo nascem as plantas salutares que cobrem a terra de verdura; do seu sangue vem o vinho que produz a bebida sagrada dos mistérios, e dos seus tutanos o trigo que dá o alvo pão; do seu espérmen derramado provieram todos os animais úteis. -- O Touro será vencido pela Espada, mas esse triunfo só ficará efectivo quando os vencedores por seu turno cultivarem a terra, levantarem cidades, abrirem estradas e coadjuvarem pelo comércio a confraternidade dos povos. Então a Espada desaparecerá, para que a Cornucópia, esse emblema da força do touro, seja o símbolo da abundância e da riqueza inesgotável, restabelecendo no mundo a supremacia do Ocidente.» 

Mal acabara Idevor de esboçar o poema que se recita em Hierna, do touro ou Tarvos, defendido pelas árvores cortadas para não ser agarrado, quando se ouviram estrondosas gargalhadas a pouca distância. Era um desafio de bebedores: 

«Ganhava a palma o que bebesse de um só fôlego um grande canjirão de vinho.» 

Só um vencera, sendo por isso aclamado com a gargalhada estrondosa. Viriato olhou e reconheceu Bovécio. 

-- Bovécio! Que eu vi hidrópico e que está agora são como um pêro e faz destas valentias! 

Acenando-lhe com amizade, Bovécio veio respeitoso e murmurou submisso: 

-- Bebi na fonte de Ouguela. A vós, senhor, devo eu a saúde e a vida. Por vós a sacrificarei com orgulho. <numpag 125> 

XLVII 

Estavam as festas do casamento no auge do fervor, quando se aproximou de Viriato Tântalo, que chegara repentinamente, e lhe comunicava: 

-- Enquanto Quinto Pompeu Rufo está dirigindo o ataque contra os Numantinos, Quinto Servílio Cépio destacou-se do exército romano e, descendo com algumas legiões para a região ocidental da Espanha, rompendo hostilidades, quebranta assim o Tratado de Paz ratificado pelo Senado! Acompanha-o Décio Júnio Bruto, o que quer dizer que é uma campanha em forma. 

Viriato encarou Tântalo com assombro por ver que a infâmia de Cépio era tão clamorosa como a carnificina feita por Galba e apenas proferiu a frase: 

-- Ainda tenho a minha espada! 

E aproximando-se de Lísia, tomou-lhe as mãos com ansiedade: 

-- Vou partir. Sou informado neste momento que o cônsul Quinto Servílio Cépio opera com um exército entre a Oretânia e a Carpetânia! Tenho de ir sustar de pronto a este perigo e impedir a deslealdade do cônsul. 

E aproveitando aquelas últimas horas da festa do seu noivado, chamou os mil soldúrios que o acompanharam sempre durante os dez anos de campanha contra os Romanos, para que passassem palavra a todos os que ali estavam, representantes da Vetónia, da Carpetânia, da Oretânia, da Galécia, da Betúria, da Cinésia, para que partissem para as suas terras, que referissem a infamíssima deslealdade de Cépio e que tivessem prontos para a primeira chamada os terços e companhias com que faria frente ao cônsul indigno que assim rasgava um tratado solene. 

E depois de ter beijado a face de Lísia, numa despedida muda mas melancolicamente expressiva, seguiu em marcha com os mil soldúrios, avançando em direcção aos Vetões para formar o seu primeiro núcleo de resistência. 

Corriam a trote largo quando, ao passarem por um rio, em que os cavalos foram dessedentar-se, uma pobre lavadeira que estava aí à beira da água fitou Viriato com um olhar compassivo: 

-- Como uma festa tão alegre do feliz casamento se interrompeu sem ninguém tal cuidar! 

Os soldúrios não fizeram reparo do que dizia a pobre mulher que lavava à beira do rio; continuou murmurando: 

-- Ele não morrerá em batalha, isso é bem certo! Lísia ficará sempre noiva. 

Em breve os cavaleiros se afastaram da margem e precipitaram a carreira, seguindo Viriato na frente, com a impaciência de ir defrontar-se com o perigo. E a obscura mulher, continuando a lavar à beira do rio, falando consigo, sem ser ouvida por ninguém, dizia na sua credulidade: 

-- Na minha choupanazinha eu tinha dependurada a boliana para me revelar a sorte de Viriato. Enquanto Viriato andou dez anos a fia nas guerras contra os Romanos, a boliana estava sempre verde. Só de ontem para hoje é que reparei que a boliana emurchecia. Estou a ver o seu destino; mas a espada de Viriato é invencível! E Viriato não morrerá em batalha! São a favor dele os agouros... Só a boliana é que está emurchecendo. 

Ia a perder de vista a cavalgada e, lançando-lhe um olhar demorado, murmurou a pobre mulher antes de continuar no seu trabalho: 

-- Estão-me a lembrar agora aquelas palavras da canção do noivado! Falavam de morte, no meio de tanta alegria; não fui eu que o notei, quando cantaram: <numpag 126>

<poesia>
Laço que a união celebra, 
Nem mesmo a morte o quebra. 
</poesia>

O povo tem a intuição das coisas; na sua inconsciência aparece por vezes como vidente. <numpag 127> 

XLVIII 

Cépio, por cúmulo de sua perfídia, sabendo que o exército de Viriato fora licenciado e que os terços e companhias tinham regressado às suas terras e províncias, levou o descaro afrontoso a talar o solo da Lusitânia para se encontrar com Viriato desarmado. 

No seu caminho, Viriato topou com multidões de gente foragida das cidades invadidas, saqueadas e incendiadas por Quinto Servílio Cépio. Vendo-o passar, em grandes alaridos pediam socorro, que acudisse a tamanha calamidade; porque o cônsul Cépio já estava ali perto e forçara, com medonhos suplícios, alguns aldeões a declararem o caminho que Viriato seguira, contando agarrar o general lusitano. 

Viriato, encobrindo a surpresa da notícia e diante do perigo, resolveu o plano a opor-lhe: retirar-se para o país dos Vetões, aonde tinha gente firme e da máxima confiança. era-lhe fácil aí um levantamento em massa. E para não perder tempo, mandou emissários aos Galaicos, para acudirem ao atentado inqualificável com a maior presteza, porque desde o crime de Sérvio Sulpício Galba, não se vira perfídia mais clamorosa como esta agora de Quinto Servílio Cépio. 

No entanto, o cônsul procurava com o seu exército Viriato e, sabendo que ele está próximo da Carpetânia, com homens recrutados pelo caminho, mal armados, com foices roçadoiras, machados, chuços e manguais, entende que é essa a melhor ocasião de atacar o caudilho lusitano e libertar o domínio de Roma na Espanha desse libertador patriota. Diante de um exército assim considerável como o de Cépio, Viriato, com um tino prático incomparável, reconheceu que seria rematada loucura aceitar batalha em condições de tamanha desigualdade. E tirando da própria dificuldade do momento os recursos para uma inesperada defesa, descobriu no terreno aonde todo o exército se perderia um ponto de que soube aproveitar-se para a salvação. Recuando para um vale profundo, para o qual dava entrada uma garganta estreita, por ali fez passar a pouca tropa de que dispunha, embaraçando com os seus mil soldúrios que o exército romano se aproximasse e o envolvesse. Durante esta passagem pelo vale amplo, os cavaleiros simulavam movimentos como quem se preparava para uma batalha campal; e os Romanos, suspeitando que Viriato os atraíra para ali, porque teria no vale um considerável exército sobre que se apoiava, fizeram alta, temerosos da cilada, porque viam através da estreita garganta estendidos ao longo do vale negrejarem os vultos dos terços lusitanos. 

Viriato prolongou esta situação expectante para dar tempo a pôr fora de perigo as pequenas forças do seu comando. Conseguido isso com a maior facilidade, Viriato, a um sinal dado, dispersou-se com os seus soldúrios com uma rapidez inacreditável, desaparecendo por entre as anfractuosidades do terreno, com surpresa dos Romanos que debalde tentaram ir no encalço deles em perseguição. Cépio, desesperado por aquele acto heróico de Viriato, que assim lhe patenteava a sua superioridade militar, avançou pelo território dos Vetões, queimando-lhes as cearas, derrubando os casais isolados e pondo a saque as povoações, passando à espada todos os que encontrava armados, dando caça às guerrilhas que procuravam juntar-se a Viriato. <numpag 128> 

XLIX 

A malvadez com que cônsul Cépio procedia contra as povoações inermes, chegando a mandar expor nas praças pregados em cruzes os Lusitanos que lembravam o Tratado de Paz violada, fez reflectir Viriato, forçando-o a um acto de coragem e dignidade. Participou aos seus companheiros: 

-- Aos estragos que Cépio está praticando, não sendo possível opor-lhe já uma força armada, que ainda leva o seu tempo a reunir, cumpre opor-se-lhe neste momento a força moral. 

-- A força moral? -- objectou Minouro. -- Em que consiste neste transe a força moral? 

-- Quero lembrar a Quinto Servílio Cépio que temos um Tratado de Paz assinado por seu irmão Serviliano e ratificado pelo Senado e pelo povo. Que pela nossa parte ainda o não infringimos e que acreditamos na fidelidade de Roma no cumprimento das leis que ela a si se decreta. Que três dos meus mais leais companheiros vão daqui ao acampamento de Cépio mostrar-lhe o Tratado de Paz e declarar-lhe que à majestade dele entregamos a nossa defesa. 

E voltando-se para Ditálcon, Andaca e Minouro, que o contemplavam silenciosos, disse-lhes com voz firme: 

-- A vós, como meus maiores e mais leais amigos, encarrego de irem ao arraial de Quinto Servílio Cépio apresentar-lhe a respeitosa homenagem dos Lusitanos; e em seguida às declarações de confiança no Tratado de Paz ratificado pelo Senado, mostrailhe esse diploma autêntico trocado entre Roma e a Lusitânia. 

E entregou as lâminas de cobre em que estava gravado o tratado a Ditálcon, o mais velho dos três companheiros, que partiram rápidos para o acampamento romano, levando ramos de oliveira apanhados pelo caminho, por servirem de parlamentários que pediam paz ou que iam com intenções pacíficas. Os três companheiros iam conversando: 

-- Viriato, com certeza não sabe quem é Cépio, um dos maiores devassos de Roma? E é com um sujeito destes que Viriato se fia em força moral! 

-- O cônsul não perde esta ocasião; e bem tolo será se a não aproveitar para vingar seu irmão Serviliano, forçado por Viriato a assinar esta paz. 

-- São passadas perdidas, estas; porque Cépio sabe que não temos gente e carrega sobre nós a valer. Oh, se carrega! Nem fora ele tão estúpido como general para cobrir a sua inépcia com este lance! 

-- Pode ser que as passadas não sejam perdidas! Porque Cépio é homem para entrar em negócio... 

-- Em negócio? 

-- Há às vezes combinações imprevistas que dão um novo rumo aos acontecimentos. 

-- E esta ocasião é asada para isso. 

-- O ponto está em sabê-la aproveitar habilmente. 

O diálogo entrecruzava-se quando Ditálcon, Andaca e Minouro chegaram ao acampamento romano. As vedetas e guardas avançadas avisaram de pronto; Cépio mandou alguns cavaleiros para acompanharem até à sua barraca os parlamentários enviados por Viriato, imaginando que vinham anunciar-lhe a rendição do caudilho lusitano, ou, em pior hipótese, que Viriato, achando esta hostilidade incompatível com a dignidade militar, lhe mandava o desafio provocando-o para um combate singular, em<numpag 129> campo aberto. Porém Cépio, afastando da mente esta conjectura que não lisonjeava a sua covardia, reflectiu tacitamente: 

-- Se me apresentarem um tal doesto, recusarei dizendo: Que deixo esses combates singulares aos gladiadores da arena, pagos para o espectáculo do povo sempre ávido de divertimentos. 

E mandando entrar à sua presença os três parlamentários, divisou-lhes uma expressão de quem antes de falar já se entendia. <numpag 130> 

L 

Na ideia em que Cépio os achava, mostrou aos três parlamentários um sorriso de afabilidade e um trato verdadeiramente urbano: -- Direis a que vindes. -- Envia-nos Viriato -- assim começou Ditálcon, o mais velho e autorizado dos companheiros. -- Ouvirei atentamente. -- Envia-nos Viriato a dizer-vos que, tendo recebido da grande e generosa Roma o título extremamente honorífico de Amigo, é-lhe moralmente impossível, sem pecha de traição, o pegar em armas contra a poderosa República. Isto pelo seu lado, dando como prova os factos de estar dissolvido o exército lusitano e ter deposto as armas, confinando-se na vida civil pelo seu recente casamento. Quanto a vós, vendo como viestes talando a Lusitânia, queimando cidades pacíficas, e ainda agora atacais violentamente os Vetões e Galaicos, lembra que existe o tratado assinado por vosso irmão e ratificado pelo Senado e pelo povo romano, no qual está garantida a paz e a tranquilidade da Lusitânia. Pedia pois... 

Cépio, mal podendo encobrir a cólera: 

-- Não posso ouvir falar nesse tratado assinado por meu irmão sem que o sangue se me revolva. Há certas ocasiões em que a honra nos prejudica para uma completa e perfeita vingança. Esta é uma das tais. 

-- Mas, senhor, aqui trazemos o próprio tratado autêntico, para veres... Cépio tomou nas mãos o tratado, olhando-o com desdém e disse para os três com um sorriso acanalhado: 

-- Quando eu acompanhei à Espanha o cônsul Quinto Pompeu Rufo, que está combatendo diante de Numância, não foi para vir tomar os belos ares da Lusitânia! Esse tratado nada vale para mim. 

-- Violais então a autoridade da grande e generosa Roma? ! -- Quem vos autoriza a tão monstruosa suspeita? -- redarguiu Cépio. -- A letra... -- Qual letra, ou qual careta! -- volveu Cépio com o seu ar pulha que combinava de  vez em quando com a filáucia de cônsul romano. E com ar insolente e confiado, continuou, afectando segredo de importância: -- Os tratados só têm a força que lhes dão as espadas. Bem vejo que Viriato não está bem munido neste momento, porque me manda lembrar o tratado. Mas o tratado... o tratado já não existe. Quereis saber? Aqui à puridade, e só para nós... Os três parlamentários aproximaram-se de Cépio, sentindo-se lisonjeados pela confidência que iria fazer-lhes: -- O Senado convenceu-se da indignidade de meu irmão, assinando esse tratado. Consegui eu mesmo isso; e o Senado concedeu-me secretamente [2] a faculdade de hostilizar Viriato, mas somente hostilizá-lo... 

Minouro fitava o cônsul com o máximo interesse; Ditálcon parecia abatido e Andaca meditava. O cônsul, olhando para eles e pondo-lhes as mãos pelos ombros, continuava: 

-- Meus amigos! Tenho aqui cartas de Roma dizendo-me que vem pelo caminho o decreto do Senado mandando continuar a guerra da Lusitânia. Quereis vê-las? <numpag 131> 

-- Basta-nos a vossa palavra! -- disseram os três. 

-- Nem podia deixar de ser assim -- prosseguiu Cépio com enfatuado desdém. -- Acusarão os vindouros Roma de desleal nos seus tratados, mas nunca de um governo estúpido! Pois era lá possível que sustentássemos uma guerra desesperada em Numância, que pertence à primitiva unidade lusitana, e que estivéssemos de mãos atadas na parte ocidental da Espanha pelo pacto imposto por um cabecilha que para nós os Romanos nunca deixou de ser o Dux latronum! 

-- Com que Roma decreta que se continue a guerra da Lusitânia? -- inquiriu com assombro Ditálcon. -- Como acabais de o ouvir. -- A nossa missão parece terminada -- disse Ditálcon, quebrantando o ânimo. -- Não a considereis terminada -- interrompeu Cépio, tornando a aproximar de si os três emissários. -- Alguma coisa bem combinada se poderá fazer ainda e depende da vossa inteligência. Quereis a paz da Lusitânia? -- Queremos! -- acudiram os três. -- A paz da Lusitânia, mas não a paz de Viriato! -- disse o cônsul com orgulho. 

Dessa tratemos aqui, partindo do ponto que Viriato é o único embaraço dela e que, enquanto ele viver, nunca Roma considerará a paz da Lusitânia senão como uma afrontosa derrota. 

-- Mas Viriato é querido do povo, que o acompanha cegamente. 

-- É por isso que Viriato é um perturbador. A sua obra é uma loucura! Quer fazer uma Lusitânia restaurada pela unificação de elementos de raças há tantos séculos extintas, imaginando Lusónios com quem nada têm as gerações actuais. 

Ditálcon acenou com a cabeça em sinal de adesão àquela ideia. E o cônsul, vendo que estava sendo compreendido, voltou-se para Minouro: 

-- Nós não podemos nadar aqui em balanços ao grado dos sonhos de Viriato; quer fazer uma pátria lusitana com um individualismo e autonomia própria quando entre Lusitanos e Iberos não existem fronteiras separativas, nem de montanhas, nem de rios. É tempo de acabar com estas utopias, tornando a Espanha uma Ibéria unida para aceitar a civilização de Roma e continuar no Ocidente a sua obra dominadora. 

Minouro regozijava-se com aquelas vistas do cônsul, que eram também as suas. E Cépio, voltando-se para Andaca e já com ar determinado e quase imperativo: -- Para atingir este grande ideal da civilização romana, do direito, da administração, da ordem pública, é de força que renegueis a pátria lusitana. E como Cépio notava que os três estavam entre si de acordo, disse para eles: -- Roma carece das capacidades e energias dos homens de Espanha. Eu vo-lo garanto, Roma encarregou-me de vos conferir o título de cidadãos romanos e as honras do patriciado, com acesso aos altos cargos da República, e uma soma correspondente de sestércios, se... 

Os três entreolharam-se e, querendo penetrar nas intenções de Cépio, compreenderam-se todos. Minouro interrompeu a suspensão silenciosa do cônsul: -- Efectivamente, Viriato está-se tornando um embaraço. -- Quando se chega a certo grau de popularidade, em dados homens torna-se isso um perigo. -- Um acto decisivo vale por anos de luta. O cônsul volveu então com firmeza: -- Mantenho as propostas em nome da República romana: Impõe-se neste momento a necessidade da morte de Viriato. Roma dá-vos o título de cidadãos romanos... <numpag 132> 

-- Qual de nós há-de.. . -- Dá-vos as honras do patriciado. -- A morte de Viriato impõe-se... -- Dá-vos o acesso aos altos cargos da República e uma soma de sestércios. -- Tiremos à sorte quem há-de matar Viriato. O cônsul estendeu o seu capacete lançando dentro dele três pequenos seixos sobre um dos quais escrevera Morte. Cada um dos três tirou a sua pedra. A Minouro caiu aquela em que estava inscrito Morte. <numpag 133> 

LI 

Era noite velha quando Ditálcon, Andaca e Minouro regressaram ao acampamento de Viriato. Demoraram-se mais tempo do que o Cabecilha imaginara, revolvendo por vezes na mente que fortes motivos ou razões políticas se debatiam na barraca do general romano. para lá se deterem. De vez em quando ocorria-lhe a conjectura de que Cépio, não reconhecendo a inviolabilidade dos seus parlamentários, os teria mandado passar pelas armas, ou pelo menos os guardava como prisioneiros, como reféns para lhe impor condições de rendição. Nesta prolongada preocupação de espírito, e sob a pressão dos inesperados acontecimentos, que só poderiam ser contrabalançados pela, energia e pela astúcia, Viriato caiu em um sono profundo, como aquele em que se fica imerso antes de caminhar para a morte. Embora profundo, o sono era agitação, como em homem costumado a estar alerta mesmo quando descansava; e nessa agitação, debatia-se Viriato com um pesadelo, um sonho, que sem diferença por fatalidade coincidia com o que estava prestes a acontecer. Na agitação daquele sono dormido sobre a terra recalcada poucas horas antes pelos cavalos, Viriato sentia os passos dos seus três Companheiros que se aproximavam silenciosamente da barraca em que estava dormindo; um deles, Minouro, afastou o pano e entrou escondendo de trás das costas um punhal de dois gumes. Naquela ansiedade cataléptica, Viriato quis erguer-se, gritar, mas era impossível qualquer movimento; em seguida entrou Ditálcon, e Andaca ficou quase da parte de fora, mas era ainda visto claramente. Sob o terror do sonho que o oprimia, Viriato viu Minouro curvar-se obre ele, e erguendo ao ar o braço com o punhal descarregar o golpe... 

Nesse momento de extrema angústia acorda, e entre a ilusão e a realidade, sentiu um golpe vibrado fortemente no pescoço; antes que o sangue lhe embaraçasse a voz, Viriato, abrindo os olhos atónitos, pôde proferir as palavras: 

-- O meu maior amigo? Minouro... 

Os borbotões de sangue que lhe encheram internamente o peito e repingaram pelos panos da barraca, não deixaram que pudesse mais exprimir-se, e ficou exânime, arquejando, até ao último alento, passando assim, horrorosamente, de um sonho tremendo, em que Viriato, pela sua lealdade não ousaria acreditar, para a realidade trágica e afrontosa, que ia actuar como uma eterna calamidade sobre o futuro da Lusitânia. 

A morte de Viriato fez-se com rapidez e segurança; os três Companheiros da trimarquísia saíram da barraca sem ruído, e simulando ordens recebidas de Viriato montaram nos seus cavalos e partiram à desfilada para o arraial romano. Cépio estava dormindo; um Cavaleiro foi acordá-lo, e dizer-lhe: 

-- Morreu Viriato! 

Quinto Servílio Cépio, voltando-se sobre o lado direito para continuar o sono, deu ordem ao Cavaleiro: 

-- Que esses entes abjectos esperem lá fora, até que seja dia. <numpag 134> 

LII 

Viriato era sempre o primeiro que percorria o acampamento; a sua presença era como um toque de alvorada. Naquele dia, que despontava luminoso e sereno, não aparecera; como faltavam também os seus três companheiros, facilmente imaginaram os mil soldúrios que iria reconhecer algum fojo ou desfiladeiro para organizar uma emboscada contra o exército considerável de Cépio. Mas o sol erguia-se; era dia claro, e a barraca do caudilho conservava-se fechada. Ocorreu a ideia de verificar se estaria caído por doença; o que estava mais perto levantou resoluto o pano da barraca, e viu o vulto de Viriato estendido em cima da relva, sobre postas de sangue coalhado; e recuando com espanto: 

-- Está morto Viriato! Apunhalado, apunhalado! Aquele brado soou como um estalido de raio, quando, ao perto, fende o ar ambiente; o trovão foi o rumor propagado entre os soldúrios e por entre o terços e companhias, que formavam agora o pequeno exército de Viriato. 

-- Apunhalado Viriato! Morto Viriato! Para a barraca do general correram todos aterrados. o compareceram Ditálcon, Andaca e Minouro; eram os únicos que faltavam. Sem esforço reconheceram que esses, a quem Viriato considerava como os seus maiores amigos, é que o tinham apunhalado traiçoeiramente, covardemente, enquanto ele dormia! 

Corriam lágrimas de desespero pelas faces dos velhos camaradas de Viriato nesta campanha de dez anos pela independência da terra lusitana. 

A barraca foi desmantelada, ficou patente aos olhos de todos o corpo inânime e Viriato estendido como se tivesse passado momentaneamente do sono da vida ara o da morte; via-se-lhe o golpe profundo do pescoço dado por mão certeira, a que teria sucumbido rapidamente e quase sem agonia. Sobre o sangue derramado em cima de que jazi, e a seu lado, estava estendida a espada, que o acompanhava sempre, espada invencível, à qual atribuíam poderes maravilhosos. Vendo a espada, e não se atrevendo nenhum dos Soldúrios a tomá-la na mão, diziam entre si: 

-- Agora compreendemos as vozes que corriam: Viriato não morreu em batalha; assim lhe estava vaticinado. -- Mas o oráculo, que lhe parecia favorável, deixara no vago a hipótese atroz, de morrer apunhalado à traição pelos seus melhores amigos! -- Antes vencido e morto na refrega, no sacrifício voluntário da ida por uma ideia, do que esta sorte miseranda. por todo o exército, em grupos, que se formavam em tamanha desolação. Levantavam-se alaridos prantos de terror e de mágoa; bem reconheciam que aquele desastre era a perdição de todos e que sem o chefe prestigioso achavam-se à mercê do cônsul romano, e para muitos anos abafada a resistência da Lusitânia. Na angústia em que todos se viam, a pouca distância do exército de Quinto Servílio Cépio, o desespero a situação causava uma apatia, uma obnubilação para planear a defesa urgente. Neste momento, afastando os grupos que cercavam o corpo de Viriato, chegou Tântalo, um dos bravos em que mais confiava o caudilho, e colocando-lhe a espada entre as mãos, cruzada sobre o peito, exclamou: 

-- Morreu o teu corpo, mas permanece imperecível o te ideal. Esta espada transmitirá o esforço truncado pela traição, àquele que cedo ou tarde servir a aspiração de uma Lusitânia livre. E voltando-se para o exército, que parecia reanimado por estas palavras: <numpag 135>

-- O que temos a fazer agora, e primeiro que tudo, é prestar a Viriato as honras do funeral. 

Enquanto se davam as ordens para realizarem de pronto, com a maior solenidade a lúgubre cerimónia, no arraial dos romanos levantavam-se gritos de aclamação triunfal, que ecoavam de quebrada em quebrada: 

-- Acabou a guerra da Lusitânia. Morreu Viriato! Morreu Viriato. <numpag 136> 

LIII 

No arraial de Quinto Servílio Cépio a inesperada notícia da morte de Viriato propagou-se com uma rapidez inaudita; perguntavam entre si os legionários: -- Quem seria o valentão que se atreveu a ir atacar pessoalmente aquele colosso? -- Morreu em duelo Viriato?! -- Só por traição... -- Quem foi o romano astucioso? -- Quem teve essa glória? -- Não há glória em matar à traição. -- Não foi nenhum romano; foram lusitanos e amigos de Viriato. -- Custa a crer. -- Eles estão aí juntos da barraca de Cépio para receberem o prémio prometido. -- Então foi Cépio que os comprou? Que os aliciou para a traição? -- Sim! Nada podendo pelas armas, alcançou pela astúcia o que nunca puderam conseguir Vetílio, Plâncio, Nigídio, Fábio, Quíncio e Serviliano. É velho o ditado, mas sempre verdadeiro: Quem não pode, trapaça. 

E nestas conversas entre legionários, a curiosidade aguçava-se estimulando alguns deles para irem ver como eram as caras dos três miseráveis que tinham, ao serviço de Cépio, assassinado o general que Roma tanto temia. Os legionários que passavam e encaravam com Ditálcon, Andaca e Minouro iam dizendo entre dentes: 

-- Ia jurar que aqueles homens não são lusitanos! 

-- Viste aquele mais alto e mais velho? Se não é um africano branco, berbere, mesmo ao pintar! 

-- E o outro? O loiro, parece celta. 

-- O da cara redonda é que se assemelha mais ao tipo luso; mas assim roliço e puxando para a gordura... é com certeza ibero. 

Afastaram-se à pressa, porque o cônsul Quinto Servílio Cépio aparecera à porta da sua barraca de campanha; alguns ouviram o som confuso das palavras trocadas entre ele e os três traidores, palavras atropeladas, e dentre as frases destacando-se as que Cépio proferiu com acentuado e esmagador desdém: 

-- Roma não tem por costume dar prémio a soldados que estrangulam o seu general. 

As trombetas abafaram o resto da frase, tocando à formatura das legiões e à parada geral do exército. Enquanto esteve o exército consular em forma, Cépio conferenciou com os centúrios, estabelecendo o plano a seguir depois da morte de Viriato: 

«Primeiramente intimar ao exército lusitano a rendição peremptória e incondicional; agora privado de chefe, é de todo impossível a resistência. 

«Depois disto, que Décio Júnio Bruto avance com uma parte do exército romano e penetre na região da Vetónia e vá ao encontro dos Galaicos que tratam de prestar socorro ao exército, conforme o pedido que lhes fizera o caudilho.» <numpag 137> 

LIV 

Os cavaleiros romanos, que chegaram com a intimação afrontosa de Cépio ao arraial lusitano, puderam ver e contaram as cerimónias grandiosas que se praticaram no Funeral de Viriato. Dentre os mil soldúrios que sempre o acompanharam, uns encarregaram-se de vesti-lo magnificentissimamente com as mais ricas e festivas roupas que trajava em tempo de gala, quando animava os jogos celebrando as derrotas romana. Amarraram-lhe os cabelos na testa, como se fosse para entrar em combate, pondo-lhe na cabeça a tríplice cimeira e o capacete da couro; pendente do pescoço o pequeno escudo côncavo, preso por correias, e em uma das mão um punhal largo ou faca de mato, estendida a seu lado uma lança de ponta da bronze e gancho para não deixar fugir a presa. Outros soldúrios acarretaram para cima de um alto penhasco que estava na coroa da montanha, grandes molhos de rama de pinheiro, de faias e carvalhos, formando ali uma estupenda pira, sobre a qual, com veneração foram processionalmente colocar o corpo rígido de Viriato. Parecia um soberbo trono a pira; e logo que cada um dos mil Soldúrios foi junto do cadáver dar-lhe o derradeiro adeus, dividiram-se em grupos de duzentos, e postos em frente uns dos outros, como quem vai entrar em combate, esperando que fosse lançado fogo à enorme pira. A chama começou a atear-se, e assim que ela irrompeu intensa, principiaram as danças guerreiras em volta da pira, em forma agonística, batendo os escudos, floreando as lanças, brandindo as espadas e entrecruzando-se vertiginosamente, como se esse tripúdio santificasse mais o acto lúgubre, continuando ininterruptamente, incansavelmente, até que a ultima labareda, tendo combusto o corpo de Viriato, e apagasse por não ter mais que queimar. 

E enquanto aquelas turmas de duzentos cavaleiros dançavam em volta da pira, dois outros grupo conservavam-se balançando-se como a acentuar o ritmo e um Canto, em que celebravam as virtudes e o heroísmo de Viriato. 

<poesia>
ENDECHA FUNERAL 

PRIMEIRA TURMA 

De obscura estirpe nascido, 
Fora em criança pastor: 
Certo prenúncio e augúrio 
Que um dia, por seu valor, 
Inteligência e denodo, 
Guiaria o povo todo. 

SEGUNDA TURMA 

Nos transes mais arriscados, 
A astúcia e penetração 
Dos seus planos de batalha, 
Descobria a salvação! 
Vimo-lo em Tribula, quando 
Teve a víria do comando. 

PRIMEIRA TURMA <numpag 138> 

Por trazer o colar de oiro 
Não deixou de ser afável! 
Dava a todos igualdade, 
Contra Roma era implacável! 
Nas legiões consulares, 
Mandava ao Orco aos milhares. 

SEGUNDA TURMA 

Roma ofereceu-lhe um dia 
Da Lusitânia a realeza! 
Simples, modesto no trato, 
Ceptro e púrpura despreza,
Fazer livre a Pátria sonha; 
Por ela a morte é risonha. 
</poesia>

Este grupo de soldúrios unindo-se, começaram uma carreira vertiginosa em volta da pira; e os que até àquele momento andavam em volteio alucinante, pararam súbito, cantando por sua vez, divididos em duas filas: 

<poesia>
PRIMEIRA TURMA 

Dominou pelas vitórias! 
Mas nunca sua vontade 
Altiva se exerceu fora 
Da justiça e equidade. 
Sempre as presas repartia; 
Nada para si queria. 

SEGUNDA TURMA 

Valente, audaz, destemido, 
No seu viver era sóbrio! 
Comodidades e luxo 
Tinha-os por vil opróbrio. 
Para a liberdade atreito, 
Tinha o duro chão por leito. 

PRIMEIRA TURMA 

Triunfava nos perigos 
Pela astúcia e pela audácia! 
Cansou Roma, a paz lhe impondo
Pela instante contumácia. 
Manietou os tiranos 
Na campanha de dez anos. 

SEGUNDA TURMA <numpag 139> 

Nesses dez anos de luta, 
À sua voz tudo corre; 
Uniu-nos pela vontade 
Que a Pátria lusa socorre, 
A nossa Pátria ditosa, 
Que, firme, libertar ousa! 

AS QUATRO TURMAS 

E Roma sempre vencida, 
Só achou o assassinato, 
Pela perfídia afrontosa 
Para vencer Viriato! 
Vergonha à cidade eterna, 
Que pela traição governa.
</poesia> 

O canto do soberbo coro acabou pela estranha vociferação, condenando a traição execranda de Roma contra Viriato enquanto dormia. Areitos e tripúdios funerários acabaram simultaneamente; e enquanto se abriu uma vastíssima cova para arrojar as cinzas de Viriato, procedeu-se ao sacrifício das vítimas consagradas aos manes do general insubstituível. Cortaram as destras dos prisioneiros romanos, que eram quase todos iberos e levantinos, e foram mortos muitos cavalos. Dedicados amigos de Viriato combinaram entre si o suicídio religioso para o acompanharem além da morte, sendo ali enterrados sobre as cinzas daquele com quem contavam encontrar-se em um melhor mundo. Subitamente aproximou-se à beira da cova Bovécio e exclamou com voz firme: 

-- Ao bom conselho de Viriato devi o voltar à, vida de uma doença mortal. É de meu dever acompanhá-lo na morte. 

E vibrando em si próprio uma punhalada, caiu borbotando sangue na larga cova aberta. Muitos dos soldúrios de Viriato, levados pela mesma vertigem, proclamaram o suicídio religioso. Então Andergus, o espadeiro de Toletum, propôs: 

-- Que se suicidem tantos amigos e companheiros de Viriato quantos os anos que duraram os seus combates contra Roma. 

Avançaram para ao pé de Andergus os amiorais da mesta, Edóvius, Togotes, Uvarna, Suttunus, Semesca e alguns chefes de contrébias, tais como Aernus e Candiedo; e começaram entre si um duelo desvairado, jogando-se golpes de morte, cada qual procurando não ser o último sobrevivente. Andergus foi o primeiro a cair por terra. Mas a cerimónia teve de ser interrompida por um sucesso impressionante: dois cavaleiros romanos, em nome do general Quinto Servílio Cépio, apresentaram-se intimidando a rendição do exército lusitano. 

-- Nunca! -- bradaram os primeiros que ouviram a intimação afrontosa. -- Não se pactua com um general que julga chegar à vitória pela traição. E os que iam suicidar-se pela confraternidade heróica decidiram: -- Morramos sim, mas em luta desesperada contra o infame cônsul. E naquele momento, lançando a última pá de terra sobre a sepultura de Viriato: -- Para a frente! Tântalo, Tântalo seja o nosso general, para continuar a campanha. <numpag 140> 

LV 

Depois que Tântalo tomou o comando do pequeno exército lusitano, ali mesmo em conselho armado assenta o plano a seguir para evitar o combate com Cépio: 

-- Temos dois recursos: ou debandar o exército, indo cada um de nós recolher-se a Numância e coadjuvarmos Salôndico, que resiste com valentia a Quinto Pompeu Rufo; ou seguirmos em marcha sobre Sagunto, que está em poder dos Romanos, é verdade, mas cujas cercanias acham-se povoadas por Turdetanos. 

-- Para Sagunto! Para Sagunto. 

A marcha fez-se com precipitação, de modo que Cépio, vendo que os Lusitanos não se rendiam e dando ordens para o ataque imediato, encontrou o campo abandonado. Mandou circular em todas as direcções para descobrir o caminho os Lusitanos seguiam; e facilmente lhes seguiu o encalço, alcançando-os próximo das vertentes de Palância e do Turia. 

Tântalo não pôde evitar o combate; reconhecia que era impossível a vitória, mas a derrota certa havia de custar muito sangue aos Romanos. E voltando-se para os soldúrios, que no funeral de Viriato se ajuntaram dois a dois para lutarem em duelo até caírem mortos para acompanharem ao outro mundo o seu chefe, exclamou: 

-- Agora é que vale a pena morrer. Continuamos ainda a glorificação de Viriato. 

O arranque com que os Lusitanos receberam o ataque do exército de Cépio foi de molde, que o cônsul, seguro da vitória, julgou melhor, ainda assim, não se aventurar às contingências do momento; e antes de dar o golpe decisivo e dispostas todas as forças para o desfecho tremendo em que seriam passados à espada, mandou dizer a Tântalo: 

-- Posso oferecer-vos a Deditio. Quero ser generoso com os bravos que não temem a morte. 

Tântalo explicou aos seus companheiros o que era a Deditio concedida pelo general romano: 

-- Se nos entregarmos como Deditios, ficamos súbditos de Roma e como tais ninguém nos poderá reduzir à condição de escravos vendendo-nos nos mercados como bestas de carga. Como Deditios tem de nos ser dado um território para habitarmos como colonos. 

A ideia de nunca serem escravos mais do que tudo sorriu àqueles cansados Lusitanos; e então Tântalo mandou entregar a sua espada a Cépio como sinal de rendição. 

Cépio desejava apagar a mancha indelével da deslealdade com que rasgou o Tratado de Paz e, procurando atenuar o ódio da perfídia com que fez assassinar Viriato, deu aos troços da gente que formava o exército lusitano o território extenso e fértil do vale banhado pelo Turia, para o colonizarem pacificamente. 

Passados dois anos, Décio Júnio Bruto, denominado por antonomásia o Galaico, por ter derrotado os quarenta mil Galegos que vinham em auxílio de Viriato, confirmou os privilégios daqueles deditícios e à cidade que haviam fundado e já se tornava florescente deu o nome de Valencia, consagrando o heroísmo dos destemidos Lusitanos. <numpag 141> 

LVI 

Estavam acabadas as guerras de Viriato, mas não estava pacificada a Espanha lusitana. Décio Júnio Bruto tinha transposto o rio Lima e entrado na Galiza vitorioso, refugiando-se a pobre gente nas cavernas do Monte Medúlio. Dentro em Numância, o chefe celtibero Salôndico resiste tenazmente contra os generais romanos; ele tinha a valentia de Viriato, mas faltava-lhe a astúcia e prontidão em inventar uma cilada. Roma não o temia tanto, embora diante dele combatessem sucessivamente Marco Pompílio Lenas, Caio Hostílio Mancino, Marco Emílio Lépido, Lúcio Fúrio Filo, Quinto Calpúrnio Pisão, até Cornélio Cipião Emiliano. 

Pela indomável bravura com que Salôndico sustentou Numância, chegou a correr entre o povo a voz misteriosa, que era em suas mãos que estava a espada de Viriato, a invencível espada. Verdadeiramente quem sabe aonde está oculta essa espada, que sintetiza a energia para a independência da Lusitânia? Sabe-o Tântalo, que a salvou de perder-se com generoso intuito na rendição junto do Turia. 

Passaram-se esses terríveis acontecimentos, que deixarão inolvidável o ano de DCXIV; Lísia somente ignorava no seu retiro em Vacca a sorte da campanha e nem suspeitava a morte do seu esposo. Mas a demora de Viriato, a falta de novas, o silêncio de todos em volta dela, o ar de ternura com que iludiam as perguntas que fazia aos que passavam, lançaram Lísia em uma melancolia deprimente. E ouvindo cantar uma rapariga gaditana debaixo do seu miradouro, notou que insistentemente lhe chamava: 

-- Sempre noiva! A sempre noiva. 

E quando Lísia disse para seu pai, o velho druida Idevor: 

-- O coração adivinha-me que Viriato está morto! 

O velho respondeu com firmeza: 

-- Viriato não podia morrer em batalha! Se não aparece, é porque anda lá por esses montes da Celtibéria, ou talvez pelo sul da Lusitânia, ou Cinésia, organizando a resistência. Não desesperemos! 

Lísia, cansada de incerteza, teceu uma coroa de verbena, a erva da segunda vista, e colocou-a na cabeça. Desde esse instante lhe ocorreu o pensamento de consultar os oráculos para saber a verdade completamente, ainda que lhe causasse a maior dor. E o oráculo mais sacrossanto e irreparável nas suas revelações era o das Pedras baloiçantes, os Loghans, visitados na região de Cinésios, junto dos quais nunca ninguém se atrevia a ficar durante a noite. 

Lísia, acompanhada de alguns ambactes ou serventuários de condição livre, partiu com seu pai até à ilha sagrada de Achale, aonde se recolheu o velho druida, e ela continuou a jornada com impaciência, para ouvir a sentença definitiva dos Logahns, na região procurada por tantos crentes. Não tinha descanso enquanto não soubesse a verdade, mas verdade que decidia da sua felicidade, de toda a sua existência: 

-- Viriato está vivo? Viriato estará vivo? 

E seguindo em temerosa jornada por desertos infestados por lobos e por cidades ocupadas por súbditos de Roma, Lísia caminhava incólume, como no sonambulismo da concentração de uma saudade inconsolável. <numpag 142> 

LVII 

Contavam-se maravilhas dessa região dos Cinetas, na qual se ouve, segundo dizem, o esturgir dos raios ardentes do sol quando se afunda nas águas do oceano ao fim do dia. E também relatam viajantes audaciosos que esses blocos de âmbar amarelo, de impagável beleza, que o mar arroja às praias, são a solidificação desses raios solares bruscamente mergulhados nas águas. Mas entre tantas maravilhas, a que mais deslumbrava os espíritos é a dos Loghans, os penedos baloiçantes, que revelam o desconhecido a quem se aproxima deles e os interroga. 

Logo que Lísia chegou ao país dos Cinetas, mandou que os seus ambactes esperassem no povoado, dirigindo-se ela sozinha para os dois grandes fraguedos sobrepostos que estavam no caminho do Promontório Sacro e se avistavam de longe, como dois nimbos opacos e caliginosos no horizonte. Aquele aspecto infundiu-lhe um terror momentâneo; mas avançando sempre, chegou ao pé dos dois gigantescos penhascos, para os quais se subia por saliências, como imperfeitos degraus formados pela erosão atmosférica. Um desses penhascos, e o maior, estava assente no solo, cercado de matagais e dos pedregulhos que o tempo ia destacando dele, conforme o fendiam os raios, a água gelada nas suas cavidades e as raízes de mirrados arbustos. O outro penhasco apoiava-se sobre este e, apesar de ser um megalito espantoso, podia-se notar que fora separado por uma clivagem natural e que, tendo-se as juntas da estratificação corroído de fora para dentro, ficou um ponto que, escapando ao fenómeno da erosão, é aquele em que oscila levemente o Loghan ou calhau enorme. 

Lísia subira para o coruto do monolito, que permanecia imóvel; sentou-se cansada naquela solidão e amplidão imensa, contemplando o mar ao longe e vendo o sol sumir- se no ocaso. Depois enegreceu o ar, as sombras da noite cobriram tudo em volta e Lísia, compreendendo a situação da vida sem aquele que tanto amava, ergueu-se resolutamente, procurou o vértice do penhasco baloiçante, e interrogou: 

-- Está vivo Viriato? 

A rocha ficou imóvel. Lísia quis ainda repetir a pergunta, mas entrando em um desespero de pressentimento, inquiriu: 

-- Está morto Viriato? 

A rocha oscilou levemente para o lado esquerdo da posição em que se encontrava Lísia. Ela, como se vibrasse em si um último golpe, renovou a pergunta, repetindo-se a mesma oscilação sinistra. Lísia ficou numa imobilidade atónita, num letargo inconsciente, como se tivesse caído daquela enorme altura, e ali jazeu a noite longa, insensível às rajadas frias, prostrada em terra, de bruços. Como esmagada pela impressão abrupta. A luz do sol é que a despertou; tinha voltado à vida, não a do seu dourado sonho, que ali acabara, mas a do sofrimento que não pode prolongar-se. <numpag 143> 

LVIII 

No desmoronamento total da sua felicidade, Lísia lembrou-se de seu pai, o velho druida; queria comunicar-lhe a revelação tremenda, chorar com ele a morte de Viriato. Quando chegou à ilha sagrada de Achale, aquele refúgio quase celeste pareceu-lhe um desterro e a Torre Redonda consagrada ao deus inominato apareceu-lhe como uma prisão erguida sobre o mar. Idevor, logo que viu a barca de couro dirigir-se para a ilha, veio receber Lísia com o coro das nove donzelas, que volviam a acompanhá-la a ela, a sempre noiva. 

Lísia conheceu a intenção; e abraçando o pai em uma daquelas angústias para que não há lágrimas, proferiu apenas: 

-- Está morto Viriato! Disse-o o rochedo baloiçante.

 -- Também o sei! -- devolveu o velho druida, encostando a cabeça da filha sobre o peito. 

-- Quem vos trouxe a notícia? 

-- Veio aqui Tântalo, o companheiros de Viriato nesses dez anos de campanha gloriosa contra os Romanos; veio entregar-me a espada de Viriato, que conseguiu salvar... 

-- A espada invencível? 

-- A espada sempre invencível. 

-- Mas Viriato não morreu na batalha... Viriato foi atraiçoado!... Foi atraiçoado com certeza! 

O velho druida, sustendo-a naquela alucinação clarividente, disse para Lísia: 

-- Atraiçoaram-no os seus três melhores amigos, Ditálcon, Andaca e Minouro! Comprou-os o cônsul Quinto Servílio Cépio, o mais inábil dos generais romanos; só assim teve a ignóbil vitória. 

-- E a independência da Lusitânia, desta desditosa Pátria nossa amada? 

-- Completamente perdida! -- respondeu o druida desalentado. 

-- Perdida, mas não para sempre -- proferiu Lísia com um acento de vivacidade e esperança. -- Quero ver a espada de Viriato! É o que me resta do esposo com quem estive sempre espiritualmente unida. 

E pai e filha encaminharam-se para o subterrâneo da Torre Redonda, em que se guardava o tesouro da Lusitânia. Lísia reconheceu a espada: 

-- É esta, a mesma que eu lhe cingi no último dia da festa do nosso noivado, dizendo-lhe com um beijo: «Regressa vencedor!» Viriato caiu apunhalado quando dormia: não foi vencido em batalha, não. Não regressou mais ao seu lar, aos braços da esposa que o esperava ansiosa; veio aqui ter a sua espada, que eu contemplo, que beijo... 

E como se estivesse em um delírio suave, ao levar a espada aos lábios, o brilho da lâmina de aço reflectiu-se nos olhos grandes e rasos de lágrimas e operou-se no seu espírito uma miragem do futuro, como se conta na velha lenda dos Espelhos de Salvação. E num arrebatamento profético e assombrada, continuou fitando a lâmina fulgente, exclamando: 

-- «Desvenda-se-me o futuro. Eu vejo, eu vejo... Vão passados sete anos. Numância ainda resiste corajosamente ao cerco de Cornélio Cipião Emiliano; e que loucura a do destemido Salôndico! Quis fazer uma surtida ao acampamento romano e lá ficou morto. Agora é que Numância, sem chefe, também está perdida. Numância não se rende; os Romanos entram na cidade e ficam assombrados diante do suicídio heróico da população. Morreram livres.» <numpag 144> 

E passando a mão delicada pela lâmina da espada, para restituir-lhe o brilho empanado pelo respiração ofegante, tornou a contemplar o quadro do futuro: 

-- «Não bastou a traição de Cépio, nem a queda de Numância para assegurar o domínio de Roma na Espanha. É aqui na Lusitânia que Sertório vem encontrar o espírito de revolta para resistir contra as facções que o exilaram de Roma. É com o valor dos Lusitanos de que se rodeia, e que sonham com a sua independência, que Sertório derrota os generais que Roma contra ele envia. Mas, ai! Empunhará a sua mão a espada de Viriato, que lhe foi confiada... e tal como Viriato, cai também assassinado por um seu companheiro!...» 

Depois de um grande silêncio, como se contemplasse acontecimentos incompreendidos, como são esses da queda do império romano, das invasões dos Bárbaros do Norte, das lutas contra os povos da África, Lísia, passando a mão pelos olhos enublados, contemplou novamente a lâmina cintilante: 

-- «A espada de Viriato, longo tempo sepultada nessa ruína imensa, está outra vez descoberta; ei-la brandida por um braço vigoroso e jovem. Uma era nova se me ostenta! Vejo novos símbolos, novos trajos; outra vez desencadeamento de raças de encontro umas às outras! Nesta luta dos dois símbolos, a cruz e o crescente, eu vejo a espada de Viriato nas mãos do jovem cavaleiro sustentando a independência deste território que vai do rio Mínio ao Dúrio! É um pequeno trato da antiga Lusitânia, mas que importa! É o foco donde irradiará o impulso para se reconstituir a obliterada nacionalidade. «Por quarenta anos a espada de Viriato é brandida pelo corajoso cavaleiro, que vai estendendo o território lusitano ao Monda; já chega a Scalabis; conquista a bela cidade que está no lés do Tagus. Não virá longe o dia em que esse território alcance as fronteiras do Anas e se complete com a região dos Cinésios. 

«A Lusitânia revive e ergue-se altaneira diante da Ibéria, que procura absorvê-la na sua unificação. A Ibéria serve-se do meio ardiloso de uma herança real e recorre à invasão. Por entre a Ala dos valentes Namorados vejo a espada de Viriato empunhada por um novo caudilho! Donde viria para a sua mão essa espada? Eu vejo: entrega-lha o armeiro de Scalabis, que a desenterrou do chão em que se transforma o ferro no aço mais puro!» 

Então Lísia, voltando a lâmina refulgente, contemplou com mais assombro: 

-- «A Lusitânia livre, depois de reconstituída no seu solo, reata a tradição dos antigos navegadores ligúricos e lança-se à descoberta das ilhas do Mar Tenebroso e, tocando os dois continentes, vai fundar um novo império lá aonde o sol se alevanta! É ainda a espada de Viriato na mão firme do seu capitão terríbil que cimenta esse império em bases inabaláveis, em que se mantém por séculos! Para que perscrutar tanto o futuro? A Lusitânia revive...» 

Lísia entregou a espada de Viriato ao velho druida para a guardar no tesouro secreto da ilha de Achale; e cansada da visão presciente, caiu em um sono cataléptico, em que ficou por muitas e muitas horas extática, inerte, semi-morta, insensível. A dor inconsolável divinizava-a; tinha na face uma expressão sobre-humana. 
<numpag 145> 

LIX 

Lísia recobrou os sentidos como se um golpe súbito a ferisse; levou a mão ao peito e ergueu-se respirando com ansiedade, olhando em volta de si para descobrir que peso enorme era o que a comprimia e abafava mortalmente! Sempre a terrível realidade, a perda irreparável, a desolação sem esperança. Lembrava-se do funeral de Viriato, da fogueira da gigantesca pira e da ventura inexprimível de acompanhar o esposo confundindo-se com ele na mesma chama, identificando os eu espírito no mesmo ar ambiente, eternizando-se na energia restituída ao universo! 

E pensando nesta voluptuosidade da morte, acarinhou-a a ideia do suicídio, notando quanto mais felizes foram aqueles companheiros de Viriato que tinham jurado a confraternidade para a vida e para a morte; esses em um duelo desvairado bateram-se sobre a sua sepultura até caírem exangues e ficarem ali enterrados conjuntamente, em um sacrifício de amor sob o mesmo solo! E ela, como esposa de Viriato, embora sempre noiva, poderia continuar a viver? Lísia considerava a vida como uma degradação, um vegetar da animalidade sem motivo. Queria arrojar de si esta carga, tornada incomportável pelo tédio da própria existência. 

Começara a estação hibernal; noites caliginosas e longas tornavam-lhe as insónias alucinantes. Grandes tempestades passando sobre a Torre Redonda da ilha de Achale consolavam-na nos seus rugidos de cólera e desespero. Ondas alterosas e alvíssimas arrojavam-se de encontro às rochas sobre que estava assente o vetusto monumento. 

Lísia começou a passar pela lembrança todos os lances do seu primeiro e santo amor: como Viriato lhe tomou as mãos no alto da Torre Redonda, como lhe pôs o cinto de ouro, como lhe entregou no dia do consórcio a víria do comando; como a beijou suavemente e o abalo súbito em que as festas do casamento foram interrompidas pelos palavras: -- Cépio rasgou o Tratado de Paz com a Lusitânia! -- e a brusca despedida de Viriato para nunca mais!... 

Ao chegar a este ponto, a imaginação de Lísia obscurecia-se, caía em delíquio, meu m gozo de dor destrutiva. Arrancando-se a essa deliciosa angústia, reflectiu: 

-- O noivado ficou interrompido. E porque não há-de ser finalizado? A noiva deve acompanhar o esposo; é pela morte que eu tenho de chegar à vida infinda com Viriato; tanta delonga estúpida, que parece irresolução covarde... 

E logo que foi noite cerrada, desceu ao tesouro da ilha sagrada e, mesmo na escuridão, e com o tino de quem sonha acordado, tomou a faixa de ouro com que Viriato a cingira, apanhou também a víria que o esposo lhe lançara ao pescoço e, subindo apressadamente a escadaria, foi galgando sempre até chegar ao último andar da Torre Redonda. A escuridão era espessíssima, cortada a intervalos pela luz fulva e instantânea dos coriscos. Lísia sentia um gozo inexprimível nesta harmonia entre a tempestade exterior e a agitação convulsiva da sua existência moral. Cingiu com recolhimento e lentidão o cinto de ouro; envolveu o pescoço ebúrneo e escultural com a víria, aquela mesma com que Viriato, fazendo-a sua esposa, se entregara à vontade dela, e para sempre. 

E olhando para aquelas jóias que tanto lhe diziam, no momento em que um relâmpago se reflectiu nelas, ainda murmurou: 

-- Assim eu estava, quando ele partiu para sempre; assim mesmo vou ao seu encontro. 

Caminhou resolutamente para o parapeito da Torre Redonda, no baixo da qual marulhavam as ondas arrebatadas nas restingas, deixando na escuridão tétrica a claridade de uma extensa fosforescência; e sobre esse sudário nítido da ardentia, <numpag 146> precipitou-se com toda a sua insondável amargura a formosa semnoteia, sepultada nas águas revoltas, que na piedade imanente na natureza fizeram que o seu corpo não fosse profanado e nunca mais visto. <numpag 147> 

LX 

Idevor não tardou a dar pela falta da filha; recompôs de pronto a cena do seu desaparecimento e longamente fitou o mar para ver se descobria flutuando o corpo daquela que ainda o prendia à vida. Não podia conter-se no âmbito estreito da ilha sagrada de Achale; e escondendo todos os sinais com que se pudesse descobrir o tesouro da Lusitânia, abandonou a Torre Redonda, já perturbado da razão, dementado, exclamando: 

-- Ela vaticinou que a Lusitânia renasceria! Aonde? Aonde? Aonde? Nesse território que começa nas margens do Mínio até ao Dúrio. É aí, é aí que eu quero encher-me de esperanças. Aí, na Terra Portucalense, ficará sepultada a espada Gaizus, o talismã de Viriato. 

Depois da morte de Viriato, deu-se funda depressão no espírito das tribos lusitanas, por efeito de um fenómeno astronómico inopinado: apareceu no céu um cometa, ao qual pela forma da sua cauda o povo chamava a Espada flamejante, movendo-se em sentido retrógrado ou oposto ao movimento das estrelas! Na crença popular ligavam os eu aparecimento com a terrível calamidade da morte de Viriato e perguntavam a Idevor se a Espada flamejante não seria porventura a espada Gaizus. O velho endre respondeu: 

-- Em breve deixará de ver-se esse sinal no céu; mas em um período de setenta a setenta e seis anos será o seu reaparecimento. Então a Lusitânia lutará de novo e com vantagem pela sua independência... 

Decerto Idevor fixara o período da reaparição do cometa retrógrado já conhecido por algumas observações uranográficas dos velhos anais da raça navegadora; a revivescência política era apenas uma aspiração, uma esperança que ficava germinando nas almas. 

O pobre velho seguia pelos caminhos com os longos cabelos brancos revoltos pelo vento e pela chuva, com os pés já ensanguentados, para as margens do Mínio, longe, muito longe. Os que o viam passar, diziam com piedade: 

-- Anda como doido o velho endre. 

E correndo agitado pelos caminhos e matagais, parecia que ia em procura de alguém, pela ansiedade com que perscrutava em redor de si, ou fitava o horizonte distante. E aos que o interrogavam na carreira ininterrupta e errante, respondia à pressa: 

-- Ando à procura da Cerva branca. É ainda a minha esperança; porque a Cerva branca há-de um dia dar que fazer aos Romanos. 

E o desgraçado velho seguia incansável ao vento à chuva, desgrenhado, absorto no ansiado delírio de encontrar a Cerva branca. 

Entretanto Cépio contava com a glorificação do triunfo na sua próxima chegada a Roma por ter acabado habilidosamente com as guerras de Viriato. Aquele que tinha derrotado os exércitos consulares durante dez anos sucessivos não morreu em combate, mas passou do sono para a morte. Este trânsito não fora previsto pelo oráculo e disso se gloriava Cépio. Pensando em levar cativos lusitanos para lhe cercarem o carro triunfal, mandou agarrar o velho druida; quis vê-lo pessoalmente. A figura do ancião era imponente, pelas barbas esquálidas, pelo olhar alucinado, pela cabeça olímpica; mas Cépio conheceu logo que Idevor estava louco, pela preocupação com que falava: 

-- Ando à procura da Cerva branca. A Lusitânia surgirá rediviva, lá do Mínio até ao Dúrio, só depois de aparecer a Cerva branca. O vencedor romano não pôde obter do velho outras palavras; e mandando-o embora com desdenhosa indiferença, disse para os que o rodeavam: <numpag 148> 

-- Ele está dementado; crê no renascimento da Lusitânia! Um doido assim iria deslustrar-me o triunfo. 

O velho encarou o cônsul, como a amaldiçoá-lo: 

-- O Senado aproveitará a infâmia, mas há-de renegar-te; e serás encarcerado! Sofrerás o exílio! E as tuas filhas... serão arrastadas ao prostíbulo! 

Cépio fez que não percebera o funesto agouro e correu com o velho. 

E riram-se alvarmente da esperança no aparecimento da Cerva branca. Ninguém compreendia o sentido do estranho vaticínio; mas daí a setenta anos, Sertório, que estava exilado e prófugo na África em consequência das proscrições de Sila, era chamado pelos Lusitanos, que o fortificaram na luta com o seu ódio inextinguível e com a sua imorredoura esperança. As guerras civis tinham sido previstas por Catão, no discurso contra Galba, no Senado, no ano de DCIII, como consequência da diminuição das atribuições dos censores. Sertório foi a primeira vítima; sabia o que era a perda de uma pátria. 

A Cerva branca que lhe ofereceram os Lusitanos que o chamaram da Líbia seguia-o por toda a parte, coroada de flores, sem temor da soldadesca; mostrava-a como um dom de Herta, consultava-a como oráculo, derrotando todas as legiões romanas, pelo prestígio tradicional da Cerva branca sobre a multidão que o aclamara por chefe. Como Viriato, vencia todos os cônsules, sendo como Viriato também morto pela traição. <numpag 149> 


[1] As estalactites são uma característica das rochas calcárias. Ora, a zona a que o autor refere é formada por rochas graníticas e xistosas, sendo impossível a existência de infiltrações estalactíticas e muito menos de ossos de animais do período glaciar. Esta descrição não se coaduna com a estrutura geológica do local por nós visitado em 1999 na companhia do escritor João Aguiar. 
[2] É um contra-senso, uma vez que, se a questão tivesse sido discutida no Senado, deixaria de ser, por inerência, secreta. 

