I 

Jorge de Athaide era feio, feialdade transparente  atravez da qual se divisava uma belleza que a todos sobreleva, a belleza da alma. 

Chegara ao meio da vida sem ter ainda tempo de  sondar o espirito e o coração. Pertencia á classe dos  obscuros martyres do trabalho, existências sem poesia, sem apparato e sem elementos dramáticos, humildes mineiros que vivem nas trevas, desconhecendo a todos e de todos desconhecidos. 

Não há mais despótico senhor do que o trabalho ;  os seus servos pertencem-lhe em corpo e alma, não  lhes permitte nem as abstracções do espírito, nem  os devaneios da phantazia, nem os doces gosos do  coração. Caminham sempre, agrilhoados á cega potência que os arrasta atraz de si. Para onde? Nem  elles sabem, nem ella próprio o sabe. 

Permitte-lhes que vivam, e em paga de toda a  vitalidade, dé todo o vigor por elles dispendido,  atira-lhes com um bocado de pão negro ao cárcere  sombrio e solitário em que vegetam. 

Ás vezes ha n'estas pobres creaturas desconhecidas, thesouros de bondade ; todos o ignoram, e ellas  mesmas mais do que ninguém. 

As faculdades com que Deus as dotou, fazem nullas ou esquecidas; nunca houve tempo de serem  postas em acção. 

Até aos trinta e cinco annos a vida de Jorge de  Âthayde tinha passado d'este modo, ou para melhor  dizer, a vida passara ao lado d'elle, e elle não vivera. 

Percebia vagamente que havia familias felizes e  invejáveis, ninhos tépidos onde viviam entre beijos  as louras creanças que acertava ás vezes de encontrar. A infância d'elle não pertencera ao mesmo género. 

O quadro de que se recordava muito ao de leve,  era uma casa desconfortada e núa, dois entes que  se não entendiam ; mútuas accusações, mortaes desconfianças e tempestades quasi continuas. 

Fora ao relampejar sinistro d'essas tempestades  domésticas, a que elle assistia esmagado, ou o que  é talvez peor, esquecido de todo, que o pobre mocinho entrevira no passado de sua mãe uma culpa  que as mulheres não redimem nem com as lagrimas do corpo, nem com os lancinantes remorsos  da alma. 

Soubera elle que um homem havia n'este mundo  feliz, considerado e rico, que lhe pertencia pelos  laços mais estreitos. 

Jorge tinha um irmão. Seu pae não ignorava, nem  podéra perdoar este facto, com o qual havia transigido mais cedo na covarde cegueira da sua paixão  juvenil. 

Era esta a chaga que lentamente corroía os dois  corações que Deus lhe tinha enviado como amparo. 

Um dia, quando Jorge se achou só, julgou-se  perverso, porque foi uma sensação de allivio e como  de livramento que elle experimentou diante da sua  miserável orphandade. Os bons corações lamentavam-o compadecido e Jorge chorava, não de saudade, mas de pena de a não poder sentir. O que  para todos seria o máximo infortúnio, era para elle  a saída de apertado cárcere. 

Se a pobre creança não tivesse de ir pedir ao  trabalho de todos os instantes o seu magro alimento,  se lhe fosse dado perder tempo em meditações,  como lhe seria doloroso encarar o abysmo, que logo  ao despontar da adolescência se cavara entre o seu  coração e o coração dos outros homens. O que d'ahi  ávante tinha de ser-lhe algoz, foi-lhe n'aquella hora  tão triste, auxilio e redempção. 

O trabalho chamou-o, e Jorge escutou com apaixonado enlevo aquélla voz que no seu abandono  lhe fallava ainda de venturas. 

Essas venturas não as conheceu nunca o laborioso  rapaz. 

Ao principio teve as suas tentações de Tântalo,  depois veia a esquecer-se de que n'este mundo existia outra cousa que não fosse aquelle agro labutar,  e a parca retribuição que lh'o recompensava. Nas  luctas da miséria, nas humilhações da dependência, nas vagas irritações indefinidas do isolamento,  depurara-se-lhe o instincto da própria dignidade,  dignidade muito íntima, que è como que o pudor  da consciência e a resguarda de todas as manchas. 

Sem ter meditado muito a fundo no que era a  justiça, saira-lhe justo e bom o simples e honesto  coração. 

Não havia talvez grande mérito n'estas qualidades  espontâneas, comtudo significavam ellas a elevada  tempera do caracter de Jorge. Não conhecia a inveja; sereno e triste caminhava na casta ignorância  dos desherdados. 

A vida que elle escolheu, era de si árida e sombria. Vegetava enclausurado n'um estreito escriptorio humilde e feio, alinhando parcéllas, compulsando  registos, escripturando com a sua letra geométrica  os grandes livros mysteriosos do Deve e Haver. 

Se algum sonho podesse aninhar-se-lhe no coração, fugiria de certo, creio eu, diante da pavorosa  legião de cifras de que se rodeava Jorge de Athayde. 

Elle tinha todas as ignorâncias e todas as credulidades. Boa alma, honesta e infantil, no corpo vulgar d'um pobre caixeiro. 

Entre as recordações pueris que o enchiam de  prazer, lembrava-se, por exemplo, de um passeio que dera no campo, e que era de certo o primeiro, de tal modo o tinham trazido alheio a todos  os divertimentos as pesadas obrigações da sua vida  commercial. 

Os companheiros, bons farçolas de vinte annos,  fina rapaziada que cultiva o Calembourg, as alegres  partidas campestres, os pitéus succulentos comidos  sobre a relva, entre o animado tiroteio dos ditos galantes e das phrases picarescas, espalhavam-se em  perfeita debandada pelas hortas e pomares, dizendo  finezas ás labregas que passavam, apostrophando as  nymphas de pedra que vertiam água das suas urnas  toscas e escalavradas, piscando o olho ás lavadeiras,  na plena liberdade de um dia feriado, e d'um feriado no campo. 

Jorge ia recolhido, calado, scismando, sem saber  que scismava, deitando de soslaio um olhar tímido  e contente para os ninhos suspensos na ramaria trémula, seguindo com a vista o passo magestoso e  lento dos grandes bois intelligentes e melancólicos,  deixando subir a alma para Deus, na pequenina  alma das flores a que os homens chamam perfume,  sentindo-se vagamente peneirado da suave harmonia das cousas; feliz d'uma felicidade indefinível,  que talvez podesse exprimir-se com lagrimas, se  Jorge percebesse que n'aquelle instante lhe faria  bem chorar. 

Quando voltou e se achou sósinho no seu pequeno  e pobre quarto, vieram-lhe uns assomos de desconforto que elle nunca tinha sentido, depois adormeceu como era seu costume, e no outro dia ergueu-se  com a mansidão entristecida, d'aquelles fortes animaes que na véspera tinha admirado. 

Prometteu a si mesmo voltar mais vezes ao campo,  voltar sósinbo, beber leite e comer fructa n'algum  casal serrano, deitar-se a dormir na herva fresca e  macia que cheira tão bem, observar de perto aquellas scenas radiosas que mal havia entrevisto. O trabalho, porém, absorvia-o demais, e os amigos que  se tinham enfastiado da mudez distrahida do pobre  moço, não quizeram mais tão silencioso conviva  para as suas patuscadas. 

Quantas vezes, diante d'uma creança, Jorge de  Athayde não estremeceu enleiado em mysterioso enternecimento ! Sem perceber porque, lembrava-se  então que vivia muito só, e tinha pena de ser pobre, de não poder conhecer as alegrias paternas, os  doces confortos do lar, os carinhos desvellados de  uma casta mulher que o amasse muito. 

Tudo isto, porém, não passava de ephemeras e  fugitivas impressões. Absorviam-lhe os dias e as  noites os seus livros nitidamente escripturados, os  seus cálculos commerciaes, as operações bancarias  da casa a que pertencia, e á qual se identificara o  seu destino, porque ali passara lentamente esses annos de laborioso lidar por todas as gradações, desde  humilde servente até principal caixeiro. 

A primeira vez que Jorge se sentiu deslumbrado  foi aos trinta e cinco annos, e n'uma crise bem memorável da sua vida. 

O banqueiro de quem elle era empregado, espécie de príncipe das finanças, orgulhoso, insolente,  humanisando-se raras vezes, e tratando a fortuna  com a desdenhosa altivez de quem muito moço se  acostumou aos seus favores, mandou-o chamar um  dia ao seu palácio para conferência secreta. 

Jorge ficou espantado. 

Não sabia elle que a sua rara honestidade o tinha  feito conhecer e apreciar, e surprehendia-o que alguém tivesse tanta confiança em dotes que elle  nunca reconhecera em si. 

Subiu pelas largas escadarias de mármore, cheias  de arbustos raros, de estátuas e de altos espelhos,  atravessou, sob o olhar insolente dos criados, os grandes salões luxuosos, e penetrou n'um gabinete mobilado com severa opulência, onde o homem que elle mais  temia e admirava, o estava esperando consternado. 

Quando elle saiu, ao cabo de seis horas, do elegante quarto do seu patrão, sabia duas cousas que  nunca atè ali havia comprehendido. Primeiro, que  havia alguém que tinha confiança na sua intelligência, e a colocava a par da sua rara probidade; segundo, que a riqueza pode também ser uma cruz,  e que há vertigens assustadoras nas grandes eminências. 

O negociante via pendente uma quebra monumental, e chamara Jorge de Athayde para combinarem  ambos o que podia oppôr-se á tremenda crise que  se preparava determinada por desastres financeiros  que não vem para o caso historiar aqui. 

Jorge saía pelas mesmas salas por onde entrara,  mas aquelle luxo principesco fez-lhe profunda tristeza. 

Parecia ao ingénuo caixeiro, pouco affeito a observar os bastidores da triste comedia humana, que  a miséria se aninhava, fazendo-lhe grotescas visagens, nas pregas de velludo dos altos reposteiros,  nos ângulos dos grandes fogões marmóreos, no bojo  das talhas chinezas, no pedestal das estatuas florentinas. 

De repente, ficou-se absorto com um olhar comicamente espantado, n'uma postura de enlevo e quasi  de susto. 

É que sentada ao pè de riquíssima harpa, n'uma  das salas que elle ia atravessando, estava uma mulher loura, delicada, franzina, cujas mãos pequenas  e nervosas, arrancavam ao harmonioso instrumento  uns vagos accordes melancólicos. 

Era a filha do negociante. 

Alice teria 18 annos. Era a graça moderna, um  producto exótico da extrema civilisação e do extremo luxo. Formas suavemente modeladas, que tinham em flexibilidade nervosa o que lhes faltava  em robustez e perfeição plástica, pès e mãos em  miniatura, um rosto intelligente, altivo, revendo finos desdéns, uns grandes olhos banhados em fluido  magnético, felinos, dilatados, d'uma côr indecisa,  d'uma profundeza mysteriosa, d'uma expressão fluctuante, um cólo ondulante e alvissimo, uns pequenos lábios carnudos e desdenhosos. 

Não era a belleza das virgens ossiânicas, não era  a expressão melancólica das desgrenhadas Elviras  do romantismo; era uma mulher elegante, formosa,  riquissima, que tem visto a seus pès a homenagem  interesseira de todos os homens, e a quem essa tão  amarga experiência precoce roubou a ignorância  singela e virginal, dando-lhe em troca os altivos  donaires e as fascinações deslumbrantes. 

Alice levantou para Jorge o seu olhar curioso e  investigador, que ao dar com elle se tornou frio e  metálico, comprimentou-o ligeiramente em resposta  á profunda inclinação com que elle a saudou, e continuou a tocar. 

Jorge passou para diante e saiu. 

Tudo isto foi rápido, mas um raio também é rápido e fulmina! 

Durante mezes Athayde desenvolveu, inspirado  por não sei que tenacidade férrea, todos os recursos d'uma intelligencia pratica, aguçada em longos  annos de trabalho, d'uma abnegação profunda que  elle próprio desconhecia, d'uma actividade que chegava a assombrar o velho banqueiro prostrado pela  desgraça. 

Ao cabo d'esse tempo deu-se por vencido. Todos  os seus esforços se annullavam diante de irremediável catastrophe. 

De tudo aquillo que fora o assombro d'um paiz,  sobrevivia apenas um velho meio idiota e uma  creança desherdada e só. 

II 

 Começa aqui o segundo acto da vida de Jorge  de Athayde. 

Pela primeira vez na vida o desgosto o prostrava  e adoecia ; possuía elle porém aquella mansidão  teimosa que não cede nem quebra diante de nenhuma força. 

Venceu a doença e o soffrimento com a energia  humilde com que vencera a miséria. Despediu-se,  com os olhos rasos d'agua, do velho escríptorio,  onde passara a sua mocidade sem alegrias, e partia  para o Brazil onde um negociante respeitável lhe  offerecia garantias de próspero futuro.  Passaram tempos. Ia elle nos quarenta annos, e  todos o julgariam mais velho. Tinha os cabellos  embranquecidos, a pelle rugosa, e nos olhos apagados, uma tristeza profunda e doce, saudade e nostalgia, que, aos olhos vulgares, se afigurava indiferença apathica, mas em que os observadores profundos leriam talvez um poema de melancolias occultas. 

Não tinha casado, embora áquelle tempo lh'o  permittissem já os seus modestos haveres; vivia só  com uma velha criada, e parecia affeiçoar-se cada  vez com mais afinco ás suas áridas obrigações. 

Um dia foi elle convidado por um negociante  portuguez, estabelecido no Rio, para uma visita de  alguns dias, á fazenda que este possuia umas léguas  distante da cidade. Jorge sentia-se cançado ; acceitou gostosamente aquella tão rara diversão da sua  laboriosa existência. 

Esperava-o n'aquella casa uma surpreza profunda. 

Duas horas depois de ali se achar, entrou na sala  uma menina de 12 annos, filha dos donos da casa,  conduzindo pela mão Alice de Mendonça, a fugitiva  apparição radiante que elle vira uma vez, e que não  soubera esquecer mais. 

Era a mesma mulher, e no entanto, que differenças elle não leu na sua physionomia tão altiva e tão  linda!

Alice era mestra da menina mais velha do seu  amigo; era n'essa posição humilde e dependente,  que vinha encontrar, ao fim de tantos annos, a pequenina, a graciosa princeza que elle admirara de  passagem, entre o luxo requintado da sua opulência, no fofo ninho que lhe tinha preparado o mais  cego, o mais imprevidente, mas o mais forte dos  amores. 

Alice, ao olhar para elle, reconheceu-o immediamente, ou fosse porque já lhe houvessem dito o  seu nome, ou fosse porque também ella não tivesse esquecido a pessoa de Jorge, entrevista nas  vésperas da horrenda crise que transfigurara a existência da pobre menina. Trocaram algumas palavras  affectuosas, e durante os dias que Jorge se conservou na fazenda, Alice teve sempre para com elle as  pequeninas attenções que deviam encher de orgulho  o pobre trabalhador humilde, que as não conhecera  nunca. 

Era assim que ella lhe pagava o olhar deslumbrado e devoto, com que Jorge lhe seguia os pequenos movimentos de ave e de borboleta. 

Tinha vinte e três annos Alice, e ninguém lhe  daria dezoito. A sua voz era suave e argentina, o  seu andar era cadenciado e rythmico, o seu rir soava  nos ouvidos como o desfiar d'um rosário d'ouro em  urna crystalina. Era triste, mas sem revoltas de mau  gosto contra a sorte, o caracter primitivo transparecia-lhe ás vezes n'um relâmpago de malicia que  lhe coriscava nos olhos, n'um finissimo sorriso rapidamente apagado n'uma observação cheia de sal  com que ella polvilhava a sua sempre original conversação. 

Jorge de Athayde deixava que os dias passassem,  e pela primeira vez na sua vida, esquecia-se de  trabalhar. Poucas vezes estava perto de Alice, mas  olhava para ella de longe, ou vinha sentar-se a lêr  no lado exterior da janella que da sala de estudo  abria sobre o terraço, e onde podia escutar a voz  musical da juvenil perceptora. 

A esplêndida natureza tropical, filtrava-lhe nas  veias os seus fluidos violentos e como que remoçava aquelle coração envelhecido e triste. Acordavam-lho dentro d'alma harmonias desconhecidas;  percebia, emfim, que nenhuma differença o separava  dos outros homens, que podia, como elles, crêr e  amar. Foi uma primavera tardia, rápida e nunca  mais esquecida. 

Um dia, ao almoço, recebeu Jorge uma carta inesperada que o chamava á cidade. 

Ora é preciso que se saiba, que o tio brazileiro,  l'oncle d'amerique, esse milagroso desconhecido que intervém em todos os melodramas de má morte,  para os fechar com chave d'ouro, não é de todo um  mytho, como pouco a pouco nos acostumámos a  crêr. Existe, e a prova é que Jorge de Athayde recebeu, quando menos o esperava, a afirmação da  sua existência e a participação da sua morte. 

O trabalho deixara sem recompensa o seu obscuro  servo, mas o acaso encarregava-se d'esta vez de  corrigir o engano. 

Jorge de Athayde estava rico. 

Ao princípio foi uma alegria sem mistura, um  abrir-se de par em par as portas eburneas da phantasia, um voejar festivo de alma que vinga libertar-se das cadeias mesquinhas da miséria. Depois veiu  a reflexão, e com a reflexão não sei que mysteriosa  lucta em que elle andou dias e dias, ora vencedor  ora vencido, inquieto sempre. Os companheiros surprehendiam-o ás vezes parado, absorto em secretos  cálculos, com os cotovellos fincados na mesa, o rosto  occulto nas mãos e grossas bagas de suor a inundarem-Ihe a testa. Decididamente, o pobre do homem elaborava um d'estes planos que decidem de  uma vida inteira. 

Um dia levantouse abalado por extraordinária  resolução; vestiu-se cuidadosamente, arranjou com desusada symetria o laço da sua gravata preta, penteou-se, barbeou-se, escovou-se com esmero extranho, tomou todas as precauções d'um Lovelace, em  via de levar a cabo empreza de vulto. 

Quando acabou a sua laboriosa toilette, olhou  para o espelho, e reflectiu-se-lhe no rosto um desespero profundo. 

Estava feio, mas francamente feio, mas feio a não  poder contar com a indulgência do mais compassivo dos olhares. O fato de gala dava-lhe um aspecto domingueiro, que era a própria negação da  elegância, o ar espavorido e tímido era como que  o mais visivel contraste que podia imaginar-se do verdadeiro gentleman. Duas grandes lágrimas correram lentamente pelas suas faces macilentas, e  creio que os primeiros relâmpagos de cólera se  accenderam subitamamente no seu olhar sombrio. 

Cruzou no peito os braços, e ficou como que vacillante sobre o que devia fazer. Durou pouco a hesitação, diffundiu-se-lhe pelo olhar uma expressão resignada e mansa, e partiu para a fazenda onde Alice habitava. 

Por um acaso feliz, era ella a única pessoa da  família que n'aquelle dia estava em casa. Não tendo  o costume de receber visitas sósínha, a sua primeira  idéa foi recusar-se a apparecer ao sr. Jorge de Athayde. Quando o criado trouxe esta resposta, o pobre homem, que se munira na última hora d'uma resolução invulnerável, entregou-lhe um cartão, onde  por baixo do seu nome se líam estas palavras lacónicas e mysteriosas : Para negócio urgente. 

Não tardou muito que a porta da sala se não  abrisse. 

Alice entrou correndo. Tinha nos olhos a alegria  infantil de quem espera uma novidade que a distraia, e lhe altere a monotonia pesada da existêecia. 

Haviam-a interrompido no principio do penteado.  Isto, porém, não a prendera. Jorge de Athayde era  uma tão insignificante creatura aos olhos d'ella! Um  pouco mais do que o saguy travesso que lhe pousava no hombro, um pouco menos do que um homem. 

Sobre o penteador de cambraia, bordado pelas  suas mãos de feiticeira, caía-lhe em profusão desordenada a mata espessa dos loiros cabellos. 

Aquellas espiraes fulvas eléctricas, luzentes como  cobras, envolviam-a, beijavam-a, pareciam morder-lhe, enredando-se nos primorosos contornos de seu  corpo lânguido e franzino. 

Não era bella assim, era muito peor. 

Tinha a graça perigosa que de certas mulheres  se exhala, como dizem que da mancenilha asiática  se exhalam fluidos mortaes; os seus grandes olhos  indefiníveis indicaram mais do que nenhuma feição,  o segredo d'aquelle carácter. Não o sabia ella, ninguém o saberia nunca ao certo, de tal modo variava a muda linguagem d'esses olhos, ora scintillando phosphorecencías magnéticas, ora afogados na  sombra, ora pasmadps, risonhos innocentes, como  os olhos de uma creança de leite. 

Jorge, ao vêl-a surgir assim illuminada festiva,  temível de encanto e de mocidade, teve ímpetos  de recuar e fugir. O que elle sentiu não foi enlevo,  foi medo, não foi orgulho, foi desesperação muda e  sombria. 

Não era já tempo de recuar. Alice parou diante  d'elle, e sem perder tempo a comprimental-o, disse-lhe toda offegante: 

-- Que negócio é que vem tratar commigo? Diga  depressa, não me faça morrer de curiosidade. 

Isto foi dito n'um tom graciosamente despótico,  impaciente quasi. Jorge de Athayde despertara-lhe  a idéa d'uma novidade, e agora havia de pôr-lhe  para ali, quer quizesse quer não, uma grande notícia, bem espantosa, bem inesperada, que correspondesse ao sobresalto em que lhe batia, sob as  pregas do longo penteador, o seu pequenino coração de mulher curiosa. 

Athayde não respondeu logo. Olhava para ella,  mais curioso e mais sobresaltado ainda. 

Alice esperava uma notícia, elle interrogava uma  esphinge. 

Diante d'aquelle primor de graça, de frescura  travessa, de feminil encanto, sentia-se vagamente  apavorado, e comprehendia a loucura da sua ambição. 

-- Traz-me alguma noticia má ? perguntou ella  pondo fim áquelle silencio angustiado, e cruzou as  mãos com instinctivo susto, em postura supplícanté  diante da pállida figura consternada, que tinha diante  de si. 

— Não, não lhe trazia noticia má, sr.a D. Alice,  para lhe dizer a verdade toda, não lhe trazia noticia  nenhuma. 

A voz saía-lhe com esforço da garganta secca. 

— O que vinha dizer-lhe, era uma tolice. Tenho  vivido tão alheio a certa ordem de idéas ! Em mim  existem ás vezes inexperiências infantis. Agora entendi tudo. Porque, não sei. O caso é que entendi.  Perdôe-me têl-a interrompido no seu penteado. Bem  vê ! Sou um velho e tenho o juízo d'uma creança. 

Emquanto o ouvia, a expressão d'ella passava  por gradações diversas. Primeiro no seu lúcido olhar  humedecido, leu-se a decepção, depois o espanto,  por fim uma curiosidade irresistível onde havia ligeiros toques de coquetterie. 

Não lhe adivinhava ainda o espírito, mas adivinhava-lhe já o instincto feminil. 

Sorriu-se. 

Soberbo sorrir que dizia : -— Pobre tolo ! pensas  que hás de ficar calado se eu quizer que falles ! 

Approximou-se um pouco mais de Jorge de Athayde, sacudiu com um gesto felino os cabellos que  lhe affrontavam o rosto e pondo a mão elástica e  cheia de fluido na mão do pobre caixeiro, murmurou: 

— Diga, diga sempre o que vinha dizer-me ainda agora. Olhe que ás vezes são bem infundados os  sustos que a gente tem ! Pois eu metto-lhe medo? 

Dizendo isto levantou os olhos, não já entristecidos na apprehensão de algum desgosto, mas claros, scintillantes, um pouco maldosos e com a consciência de que o estavam sendo. 

Pobre alma virgem e humilde! Aquelle olhar  transfigurou-o. Ninguém lhe havia dito ainda que  as mulheres mentem, e que não há perigo maior  do que excitar-Ihes uma curiosidade, um desejo,  um capricho qualquer. Para o alcançar não há barreira que ás assuste, abysmo que lhes tolha o passo,  carícia ou punhal que por traiçoeiro ellas recusem. 

Jorge ficou ainda um instante recolhido em concentração profunda. Depois o rosto reassumiu-lhe  a fria insensibilidade que lhe era habitual, e a voz,  uma voz trémula embora mesmo hesitante pronunciou baixo estas palavras: 

— Minha senhora, sou um homem honrado, a minha vida tem sido uma lucta obscura, há dias vi-me  inesperadamente rico. Venho offerecer-lhe o meu  nome, a minha fortuna, e um affecto de pae, de irmão e de carinhoso amigo. 

Quem sabe se Alice esperava ou não aquellas  palavras do antigo agente de seu pae?...

Nãa o sei eu nem élla mesmo o sabia.

A verdade é que, ao ouvir-lh'as, empallideceu  muito e deixou-se cair n'uma poltrona que estava  por detraz d'ella. 

Pelo espírito da loura creatura passou n'aquelle momento um mundo de vizões. Sem ella poder  explicar porque, viu seu pae e as grandes salas do  seu palácio e o quarto todo branco, tão virginal, tão encantador, onde ella dormira os seus primeiros annos de adolescente ; viu o seu precioso piano,  a harpa onde gostava de passar os brancos dedos  nervosos ; viu os bailes de que era rainha, rainha  idolatrada e caprichosa vestida de rendas diaphanas como uma ondina ou como uma fada das lendas, depois a destacar-se do fundo d'aquelle quadro  phantastico uma esbelta figura de homem em viço  de annos, moreno marinheiro acostumado ás grandes tempestades, á lucta dos elementos bravios, ás  caçadas dos juncaes da Índia, a todas as irritantes  commoçôes do perigo, a todos os deleites do triumpho, a todos os violentos amores d'aquelles climas  de fogo, onde o amor é a vida e a morte. 

Da allucinação da miragem acordou ella por fim  para a realidade. 

Jorge de Athayde em pé, com os olhos tristes  e sem vida, com o desgeitoso corpo curvado em  respeitosa submissão, ou talvez em dolorosa scisma esperava a sua sentença n'aquella sala onde  tudo lhe recordava a ella a sua posição humilhante  e a tarefa laboriosa de todas as suas horas. 

Alice inclinou-se para diante como flor que verga  na haste e rompeu em convulsivo choro. 

Jorge esqueceu tudo n'aquelle momento. A timidez natural diluiu-se-lhe n'um mar de commoçôes  desconhecidas. 

Inclinou-se sobre a chorosa creança, agarrou-lhe  com ímpeto febril nas mãos pequeninas, e balbuciou  desordenadamente : 

— Ó Alice, Alice, perdoe-me pelo amor de Deus!  Não chore ! Eu bem lhe dizia que era uma loucura.  Para que usou assim do seu poder, do seu poder  fatal que eu nunca suspeitei, e que se revelou como o raio, fulminando-me! Alice, meu anjo, não chore ! Eu, bem vê, não passo d'um pobre escravo seu.  Todos estes dias não tenho pensado senão em fazel-a feliz ! Que culpa tenho eu de ser estúpido ?  Não atinei com outro modo... há coisas que a  gente não percebe bem logo á primeira vista.  Sou desastrado, bem vejo, mas também tenho vivido sempre tão só ! Olhe, é exquisito mas é verdade, eu nunca tive mãe! As mães é que nos ensinam certas coisas. Para que me serve a mim uma  riquesa que lhe não posso dar? Diga-me se ama  alguém, confie-me os seu segredos infantis. Eu sei  que ha homens cegos que só teem vista para o dinheiro. Se escolheu um d'esses e se o quer mesmo  assim, será d'elle, eu lh'o juro. Alice, Alice, bem  vè que me está martyrisando. De joelhos lhe peço  que não chore. 

Ella levantou vagarosamente a cabecinha airosa  como um pássaro no ramo, que se debruça e que  espreita. 

Ouvia-o, olhava a transfiguração moral que o  desespero operava n'aquella figura insignificante  e pouco assignalada, escutava-lhe a voz entrecortada e rouca estremecendo em frémitos de delírio e  pensava talvez que não há pedra por mais tosca  que não possa avelludar-se de musgo, nem coração  por mais humilde que em certas horas não irradie  claridades bemditas. 

Um raio de sol, um sorriso de mulher e eis operada a transformação mágica. 

Jorge chorava com as mãos d'ella nas suas e uma  angústia sem nome no olhar. 

Não sei o que passou no espírito de Alice, não  sei. 

Havia cinco annos que nenhuma palavra doce a  consolava. Aqqella abnegação humilde e santíssima  commoveu-a. Sorriu-se entre lágrimas e perguntou  baixinho com as modulações de ave queixosa que  faziam da sua voz um feitiço irresistível. 

— Pois imagina que posso fazel-o feliz? 

III

D'ali a dois mezes fallava-se em Lisboa do casamento do rico capitalista Jorge de Athayde com a  orphã de quem muitos lembravam ainda a radiante  formosura. Jorge voltara à Europa com a noiva gentilíssima e mobilava um palacete com todos os primores dignos d'ella. 

Na escolha dos móveis havia ínexperiências de noviço, mas que amoroso instincto os não compensava ! 

Via-se um homem doido de amor, nadando em  olympica ventura, atirando a todos os ventos o seu  oiro e o seu coração. 

Passaram três annos. 

Jorge parecia feliz d'esta felicidade monótona,  tranquilla e plácida com que as mulheres se não  contentam, sem saberem que no fim de contas é a  única que n'este mundo tem elementos de duração. 

Alice, cada vez mais bella, mais attrahente e mais  caprichosa, passava a vida nos encantamentos do  luxo em que fora creada, e com o qual sonhara nos  cinco annos do seu desterro. 

O marido amava-a com um d'estes amores que  fazem do homem um escravo ou um Deus, conforme a mulher que os inspira e conforme o coração  que os sente. 

Ella estimava-o sem procurar entendel-o; elle adorava-a sabendo-lhe de cór os defeitos e perdoando-lhos todos. Bastava-lhe vel-a borboletear risonha e  leviana por sobre todas as flores para que ineffáveis claridades o illuminassem lá por dentro. 

Confiava a sua honra da orgulhosa isenção do carácter d'ella. Por esse lado, nem um receio n'aquella alma honesta e cândida que não conhecia  nem os abysmos que dão vertigens nem as paixões  que allucinam e desvairam. 

Quando viu que Alice atirava á rua punhados de ouro com a ignorância de uma creança, ou com a  indifferença de uma cortesã, percebeu que não tinha chegado ainda ao porto de descanço, depois da  sua tão laboriosa mocidade, e atirou-se ao trabalho  com a mesma ancia e a mesma convicção. 

Alice encolhia os hombros rindo-se ; e suspeito  que lá dentro do coração o tinha por avarento. 

Um dia que Jorge tomou a si o difícil encargo  de a convencer de que era grave imprudência arriscar o futuro, não se poupando um capricho só,  ouviu-o ella ao princípio muito attenta com os olhos  mergulhados nos olhos d'elle, o que desconcertava  um pouco o pobre do pregador. 

Depois, como o sermão ameaçava prolongar-se, e  Jorge, abrasado em santa convicção, imaginava communical-a á sua espirituosa ouvinte, saltou-lhe ella  para os joelhos com a ligeiresa de um saguy, ennovellou-se toda no collo do marido e adormeceu-lhe no hombro. 

Athayde, ao vêr o effeito da sua prédica, não poude deixar de sorrir-se. 

Alice estava tão linda com os avelludados cílios  a sombrearem a alvura das suas faces de camélia,  com os brancos dentinhos a entreverem-se atravez  do malicioso sorriso em que o somno a surprehendera, com a loira cabeça infantil respirando confiança, innocência e não sei que feiticeira indocilidade a augmentar-lhe a irritante formosura, que o  homem que não a matasse por tamanha insolência  devia por força amal-a por tamanho encanto ! 

O pobre Jorge fez mais ; comprehendeu que era  desigual a partida e que mais valia para a sua dignidade e para a ventura d'ella, confessar-se vencido antes da lucta. 

Alice gostava talvez do marido, mas preferia-lhe  com certesa os seus caprichos despóticos.  A sua vida era um sonho illuminado e feliz.  Precisava das flores, dos perfumes que empallidecem, das sedas que se quebram em ondulações  luzentes, dos velludos macios e das homenagens calorosas, de todos os excitamentos da vaidade, de  todas as commoções nervosas do triumpho. 

Era na atmosphera das salas que ella desenvolvia todo o luxuoso esplendor da sua naturesa. 

Perto d'ella respirava-se a graça, como o perfume se respira ao pé da flor. 

Tinha a réplica prompta e feliz, o paradoxo scintillante a ironia afiada, e no meio de tudo aquillo  não sei que altivez pensativa que attraía como um  mysterio. 

Ás vezes, nas suas noites triumphantes, a victoria  subia-lhe ao cérebro como uma embriaguez, os applausos exaltavam-a, as admirações que lhe punham  aos pés excitavam n'ella não sei que enthusiasmo  hystérico. O perigo supremo estava n'estas horas. Se  Alice achasse alguém que soubesse tirar partido  d'ellas, podia perder-se com a fatal inconsciência  com que uma creança se perde. 

Entre os homens que a rodeavam e lhe compunham corte assídua e brilhante notava-se um preferido entre todos, mas preferido com ingénua franquesa. 

Era um amigo da infância, e fora talvez o sonho  único de Alice em passados annos. Ella era porém  d'estas almas transparentes como um lago, e como  elle fluctuantes, que reflectem todas as imagens e  não guardam nenhuma. Eduardo de C... voltara  de uma longa viagem pelo Oriente ; achando Alice  casada e rica, rainha de um pequeno círculo eleito  pelo seu gosto delicado, quasi independente, de tal  modo a envolvia a confiança de seu marido, sentiu  reaccender-lhe n'alma o antigo capricho esquecido  nas aventurosas viagens, e nas peripécias arriscadas da sua vida. 

Eduardo tinha do romântico D. Juan, que todas  as mulheres mais ou menos sonham, a formosura  fascinadora e a larga consciência. No mais o perfeito homem do mundo. Frio, correcto, irónico sem  affectações byronnianas, altivo com os homens, adubando com uma leve impertinência a sua cortezia  para com as mulheres. Tinha por systema não àcreditar uma só palavra do que ellas diziam. 

Tornava-o isto simplesmente encantador. 

Parece um contrasenso e não é. Não há conquistador feliz na completa accepção doestas palavras,  que seja submisso e meigo diante das suas voluntárias victimas. 

O homem forte, singelo e bom, o que tem com a  fraquesa aquella doce indulgência dos grandes corações, raras vezes é comprehendido pelas mesmas  a quem vota quasi sempre um respeitoso culto. 

É esta uma das aberrações máximas do sexo feminino. 

Quem não conhece a seductora insolência com  que Richelieu e Lanzun tratavam as almiscaradas  marquezas de Luiz XV? Quem não sabe que os escriptores mais queridos das mulheres são justamente aquelles que mais rigorosamente as julgam  e condemnam ? Vejam-se os pungentes sarcasmos  de Rousseau, as altivas ironias de Byron, os espirituosos desdéns de Musset. 

Essa revolta do forte contra o fraco irrita-as e lisongeia-as. N'ella vêem antes de tudo os estigmas  do seu fatal poder. São os gritos doloridos do escravo, sob o látego impiedoso, que tão violentamente acariciavam o coração cruel da romana antiga. 

Eduardo tinha em si essa difícil seducção. 

Quem o via n'um baile á luz crua do gaz, no  ambiente cálido das flores, emquanto os leques palpitam como grandes borboletas pintalgadas, e os ditos alegres se cruzam faiscantes, approximar-se de  uma mulher formosa, dobrar-se todo sobre umas  espáduas opalinas, respirar a pleno peito os capitosos perfumes de uns cabellos negros ou loiros e  murmurar baixinho umas palavras mysteriosas, julgal-o-hia occcupado em tecer um madrigal côr de  rosa.

Enganava-se. 

Quando elle fallava ao ouvido das mulheres era para lhes dizer o que a respeito d'ellas pensava com  a verve mais inimitável, com o espírito mais paradoxal, com a brutalidade mais elegante que pôde  desenvolver um homem de fina intelligência e alta  educação. Ellas ouviam-lhe as primeiras palavras  rindo, e segundo resa a chronica, ouviam-lhe as últimas chorando. 

Havia ainda n'elle outro encanto que também  nos captiva, o das longas viagens phantasiosas  pelos paizes que nós tanta vez temos visto em sonbos. 

Eduardo caçara o elephante em Ceylão, o tigre  nas florestas do Ganges, o urso nas frias solidões da Noruega. 

Deitára-se á sombra dos tamarindos e dos bambus floridos sobre uma esteira mais branda que os finos tecidos de Cachemire, avistando ao longe n'um  fundo de montanhas azues, a ondulação infinita dos  arrozaes, os jardins sombreados de aloés e bananeiras, e aqui e ali uma torre de loiça pintada, a  que a aragem molle e saturada do aroma dos jasmineiros sacudia ao passar as campainhas multicores. 

Devassara profanamente os segredos extravagantes da arte chineza com as suas pinturas disformes, os seus grandes pássaros de oiro e as suas  árvores desconhecidas. 

Tivera o espanto e o riso diante de todos aquelles sonhos doentios materialisados em porcelana,  diante de todas aquellas mulheres de pès invisiveis e pequeninos olhos vesgos, envoltas em tecidos verdes, escarlates ou cor de canário, onde uma phantasia impossivel semeara excêntricas flores enormes, pavões estreitados, luas cheias de rostos a um  tempo astuciosos e bonacheirões. 

Colhera o lodão e a nimpheia á beira dos grandes lagos mysteriosos, onde as árvores seculares  debruçam a fronte engrinaldada pela exhuberante e  luxuosa vegetação que as entrelaça e prende n'uma  cadeia immensa de lianas e flores.

Subira ao píncaro do Hymalaia e da Jung frau;  vira passar junto ás columnas informes dos templos Hindostanicos, ligeira e tímida sob o seu guarda sol de folhas de palmeira, a doce indiana bronzeada aos raios d'aquelle sol violento e abrasador,  e admirara aqui e ali entre as feudaes ruínas germânicas, illuminando de casta poesia a tranquilla  paisagem, um bando de loiras allemãs scismadoras lembrando ao espírito do artista as lendárias  Walkirias. 

Um dia atravessava perseguido pelos lobos n'um  traineau tirado por cavallos pretos pequenos e vigorosos, uma immensa planície coberta de gelo,  n'outro dia ceava no café Inglez n'um grupo de  gommeux e de biches, entre a alegre explosão das garrafas de champanhe, as scintillações prismáticas dos  chrystaes facetados, e os estallos ruidosos d'esse fogo de artificio brilhante, rápido, iriado de cores que  em Paris tem o nome de conversação.. 

Fumara ópio em Constantinopla vendo nas vagas sensações do sonho substituirem-se os minaretes da  radiosa cidade, por uns áureos templos phantasticos, rendilhados de primores marmóreos, ornados  de brancas estátuas pensativas a banharem-se ao  longe nas brandas claridades do azul indefinido. 

Na Itália, n'aquella terra de luz que um Deus fecunda eternamente, bebera elle em cinzelada taça os  néctares da Olympica embriaguez; atravessara o deserto no dorso recurvado dos dromedários, embalára-se nas ondas lânguidas do Adriático, e vira trovejar a procella com todos os seus horrores nas embravecidas solidões do Oceano.

O Oriente revelára-selhe pelas suas duas faces,  a graciosa e a grotesca; a floresta virgem e o kiosque, as grutas de Elora, de collossaes esculpturas  graniticas e o mandarim de porcelana barrigudo,  sonso e anão. 

Como vêem, para Eduardo já o mundo physico  não tinha surprezas nem o mundo moral commoções  ignoradas. Conhecia os primitivos prazeres selvagens e os requintes da extrema civilisação. 

Entrara nos bazares e nas salas, ouvira em todas  as linguas fallar a commovida ternura de mulheres  brancas, negras, amarellas e côr de castanha, e d'esta grande e varia sciencia que adquirira, distillára  elle a fria impassibilidade desdenhosa que era o seu  principal prestigio aos olhos feminis. 

Jorge de Athayde, que tinha pelos amigos de sua  mulher uma certa indifferença benévola, commoveu-se agradavelmente á chegada de Eduardo. 

Sabia talvez que era antigo amigo, quasi irmão  de Alice, havia porventura outro motivo occulto, o  caso é que o acolheu com favorável sombra e o  deixou penetrar intimamente no interior do seu lar.

Dera-lhe Alice por esse tempo um filho, que vinha completar a sua ventura e perturbar ligeiramente a sua consciência. Jorge d'ali avante tinha de  trabalhar com renovada energia para compensar o  futuro do filho, do que pela sua talvez peccadora  indulgência os gastos excessivos de mãe lhe faziam  perder. 

O trabalho e os seus dois santíssimos amores de tal modo lhe absorviam o tempo e o sentir, que  de mais nada curava e mais nada prestava attenção. 

Quando por acaso encontrava Eduardo, illuminava-se-lhe porém o olhar de extranho affecto, e com  elle tinha a sua voz os tons carinhosos que até ali  se dirigiam só á mulher e ao filho. 

Para Alice não trouxe a maternidade nenhuma  alteração. 

A creança era mais uma jóia do seu cofre, a mais  preciosa jóia talvez. Gostava de vel-o vestidinho de  branco, todo cheio de rendas e fitas, balbuciando-lhe  nos braços as primeiras carícias indecifráveis, amava-lhe a formosura angélica com uns orgulhos de  madona. 

Não o creava porque fora isso desmanchar a peregrina perfeição das suas formas, não vellava as  noites ao pé do seu berço, que as vigílias pizavam-lhe os olhos e desbotavam-lhe as mimosas cores :  não tinha com elle os trabalhos que constituem o  encanto e o martyrio das mães, porque tudo que  era trabalho forçado, tudo que podia tomar o aspecto de um dever repugnava á sua natureza toda  espontaneidade e capricho.

Eduardo começara por cortejar Alice como cortejava quasi todas as mulheres, e acabara por desejal-a como não tinha ainda desejado outra. 

Este crescer progressivo da paixão, accendera-lh'o no peito, habituado a respirar outros climas de  fogo, a frieza natural de Alice, a graça com que ella tinha em si todas as flexibilidades e todas as resistências. 

Não havia da sua parte esforço nem estudo. Preferia francamente Eduardo, dizia-lh'o e mostrava-lh'o.  Eram para elle os seus risos mais picantes, os seus  olhares mais travessos, as graças do seu espírito, os carinhos da sua voz. No fundo d'aquelle abandono havia porém uma tão irritante placidez, que Eduardo, o conquistador emérito, não aventurara ainda  a declaração do estylo. 

Insinuava-se-lhe lentamente no espírito, empregava com ella as fascinações que tinha em reserva para os casos extraordinários, excitava-lhe a vaidade, irritava-lhe as curiosidades latentes que a mulher  ainda a mais honesta tem no intimo, derramava-lhe  na loira cabeça innocente todos os filtros da natural  formosura, todas as seducções da longa experiência,  e n'esta obra lenta e difficil ia consumindo a paciência e os dias. 

Os amigos começavam a sorrir-se ironicamente  das suas pretenções de D. Juan, e o que é peior, elle mesmo começava a duvidar do seu poder. 

Uma noite na sala de Jorge de Athayde fizera  Eduardo assídua corte a outra mulher; Alice nem  sequer notou a deserção. Toda occupada de si, da  sua toilette arrebatadora, do seu deslumbrante espírito, das lânguidas fadigas da valsa, do rumor de  admiração que ia deixando atraz de si como um  rastro de luz, não houve a minima affectação na sua  indifferença nem o mínimo cálculo no seu esquecimento. 

Eduardo comprehendeu n'essa noite que seriam  baldados todos os seus esforços. Aquella mulher  que não amava o dever não saberia nunca amar o  vício; natureza alada e caprichosa, vivia no sol como vivem certas aves. Era possível ceder um dia a  um momento de surpreza, mas ninguém vingaria  prendel-a á fria masmorra tenebrosa onde o remorso agrilhoa as adúlteras. 

Eduardo tinha do seu papel todas as qualidades  menos a paciência. 

Sentindo-se vencido, em vez de se acalmar, irritou-se. D'ali por diante houve no sentir d'elle um  mixto de cólera e de desejo, de ódio e de paixão  implacável. Mais do que tudo, vertia-lhe sangue a  sua vaidade amarrotada nas mãos inconscientes de  uma creança. 

Perdendo a esperança de ser feliz, não teve a força de acceitar francamente a sua posição em frente de Alice. Quiz ao menos que o mundo julgasse coroados pelo triumpho os seus desejos. 

Ao pé d'ella era meigo e alegre sobre tudo. Sabia que o sentimentalismo não era precisamente o  fraco da mulher de Athayde.  Contava-lhe com um ar sério e correcto as altas aventuras cómicas, os extravagantes episódios da  sua vida; distrahia-a, fazia-a rir e ao mesmo tempo  communicava-lhe pelo contacto do seu espirito desflorido e sceptico, uma como que lenta depravação  moral. 

Sem atacar directamente as ideias, mais ou menos definidas, que Alice podesse ter sobre os seus  próprios deveres, destruía com o afiado punhal da  sua ironia altiva, muitos dos sãos escrúpulos que  resguardam a virtude na alma das mulheres como  o cálix resguarda os pistillos da flor. 

Não se dava os ares dogmáticos de um pregador  de doutrinas equívocas. Tinha o riso franco, a alegria faiscante, a scentelha communicativa. 

Reputava o mundo uma vasta arena onde os vencedores tinham sempre razão. Achava a moral uma  convenção burgueza, a virtude uma velha beata rabugenta e hypocrita, o casamento uma instituição  pouco decente. 

O seu profundo desdém pela família conduzia-o  logicamente a uma absoluta indiferença pela pátria ;  a política divertia-o como um jogo de prestidigitação mais ou menos hábil. N'este ramo perdoava todas as apostasias, pondo-lhes por condição única o triumpho. Apertava todas as mãos, ou puras ou  manchadas, com a mesma indifferença irónica, com  o mesmo sorriso que Rabelais perfilharia com desvanecimento. 

Ria-se de tudo, mas ria-se com tanta graça, com  tão original desenvoltura, vendo as coisas debaixo de um tão inesperado aspecto, que Alice ria com  elle, arrastada pela influência prestigiosa d'aquelle  entendimento elevado e pervertido. Nunca ella tinha conhecido até áquelle tempo o  humour, essa cousa inclassificável que se compõe  dos mais contrários elementos, de uma gargalhada  e de um soluço, da ironia de um bobo e da observação de um philosopho, de um diamante e de uma  lentejoila, da visagem grotesca de um clown de feira, e do amargoso sarcasmo de um mendigo aleijado. 

Quando ouvia Eduardo nas raras horas em que elle,  aguilhoado pela paixão, saía da friesa convencional que era a sua máscara, e atacava em torno de si  todas as instituições, todas as praxes, todos os costumes, todos os sentimentos com o bravo impulso,  com a impetuosidade briosa de um touro que desafia as farpas, e electrisa os espectadores, Alice  achava-o encantador e achava-o temível. N'aquelle  medo havia para ella uma indefinível sensação deliciosa e nunca experimentada. Com a sua ignorância de ave sequiosa, gostava de debruçar-se na voragem ao fundo da qual bramiam soturnamente as  correntes lodosas da paixão. 

Elle com a velha e depravada experiência do homem de boas aventuras, conhecia o effeito que ia  produzindo e gloriava-se com elle. Julgava de si  para si que sendo a virtude das mulheres a mais  hypothetica de todas as chimeras, só o primeiro  passo lhes custa no caminho do vicio. 

D'aqui a idéa de comprometter Alice aos olhos  do mundo desthronando-a do seu pedestal de puresa, e dando-lhe por mero refúgio o seu amor  nao podia medear uma distância enorme. Conhecia-a imprudente, e com essa imprudência contava  nos seus cálculos despiedosos. 

Ao vê-los sempre tão unidos, notando-lhes na  linguagem e nos modos uma tão harmoniosa intimidade, não tardou o que entre nós se chama opinião publica a lavrar a sua sentença condemnatória. Jorge de Athayde começou a ser lamentado a  meia voz pelas mesmas línguas caridosas que lhe  desacreditavam a mulher.

Elle de nada suspeitava. Era feliz porque amava  muito, e é este no fim de contas o máximo apogéo  a que pode elevar-se a felicidade humana. 

Bemaventurados os corações trahidos, os suppliciados náufragos das paixões implacáveis, bemaventurados os que morrem sob o peso do desmoronado mundo das suas illusões, porque elles souberam amar. 

Jorge pertencia ao pequeno numero d'estes eleitos. 

Quando a tarde recolhia, finda a tarefa quotidiana, achava um interior elegante e confortável, uma  linda mulher serenamente affectuosa, uma creança que lhe chamava pae n'aquella doce lingua indecifrável que é talvez o maior feitiço da infância. Que  mais podia elle desejar na terra que por tantos annos lhe fora madrasta? 

Lembrava-se ás vezes que abusava da sua força,  e que seria porventura forçado a abandonar ás luctas da pobresa, aos desconfortos da orphandade aquellas creanças que eram o encanto e o perfume  do seu lar. Um desejo de Alice bastava porém a  sacudir-lhe o passageiro abatimento.  Á noite saía ella quasi sempre, ia ao theatro, ao  baile, a casa das suas amigas. Jorge não deixava  nunca de a ir buscar. 

Abafava-a por suas mãos com uns desvellos de  mãe e trazia-a para casa ainda um pouco vibrante,  agitada, nervosa, com o seu bello rosto pállido, divinamente emmoldurado nas brancuras do capu de  setim, com o corpo delicado palpitando em frémitos febris, envolvida na seducção eléctrica da sua  perigosa e fatal formosura. 

No caminho admoestava-a brandamente, fallava-lhe do filho, e dizia-lhe com lágrimas na voz que  viria a ser muito desgraçado se a perdesse. Alice ria-se, encolhia os hombros, abraçava-o e todas  as reprehensões se diluíam n'aquelle júbilo supremo e rápido. 

Antes de deitar-se costumava Jorge entrar no  quarto do filho; beijava-o então devagarinho, compunha-lhe as roupas desalinhadas do berço, e suspirava sob a pressão de alguma idea triste. 

Elle bem sabia que o pobre anjo pequenino não  tinha mãe, mas era frágil diante de sua mulher,  amava-a de mais, amava-a com uns transportes ocultos que ninguém sabia. 

Sentia uma delícia voluptuosa e pungente em realisar-lhe os caprichos, em annullar diante d'ella a  sua vontade, em divinizar-lhe os defeitos, em pôl-a  no seu coração acima de todas as cousas. Tinha a  consciência do que era para ella, sabia que entre  a sua alma e a alma de Alice não existira nunca a  corrente magnética que faz vibrar dois seres na  mesma commoção, mas que importa? Apesar d'isso ou talvez por causa d'isso, tal é a instinctiva perversão masculina, tinha para ella a devoção de um  fanático e a indulgência de um pae. 



IV 



Foi isto há pouco tempo no carnaval de 187 .. . 

Eduardo, esquentado pelos vapores do champagne, fizera entre uns poucos de libertinos, ébrios como elle, indiscretas revelações dos seus sentimentos íntimos. Dera a entender debaixo de umas reticências de sobejo transparentes, que Alice de  Athayde era para elle, mais que um ídolo só, entrevisto de longe em branco pedestal immaculado.  Tinham-no elles emprasado a provar a verdade das  suas affirmações sob pena de o tomarem por um  impostor de máu gosto. Eduardo, posto entre a espada e a parede, promettera, fiando-se na sua estrella, que o não traíra nunca. Eram as vésperas do  Entrudo, e Lisboa, a somnolenta Lisboa, a cidade por excellencia semsabor, atirava-se n'aquelle anno  aos prazeres com uma verve desusada.  Na terça feira estava elle sentado ao pè do fogão  no gabinete de Alice. Fallava-se das folias carnavalescas, e Eduardo descrevia-lhe a poética loucura  veneziana e o entrudo em Paris, ruidoso e sinistro  como só podiam ser as saturnaes babylonicas da  febril cidade. 

Depois de uma conversação que a deixara toda  vibrante de curiosidades, disse-lhe Eduardo de repente como se lhe acudisse n'aquelle momento uma  boa lembrança : 

-- Uma cousa! tenhamos também o nosso quinhão nas alegrias do tempo! Venha commigo a S. Carlos em rigoroso incógnito. Dou-lhe ensejo para disfructar dois homens de espirito. Verá então que não ha  nada menos engraçado que um homem que contraiu a obrigação de ter graça! 

Alice parou de bordar e olhou para elle muito  surprehendida e muito risonha. 

-- Então ! Já viram este doido o que me aconseba! 

-- Uma cousa que está morta por fazer ! Ande, não seja hypocríta, diga francamente gue gostava de ir -- Gostava, é possível que gostasse, pela extravagância do caso. Mas não vou, Deus me defenda  de tal.  -- Porquê? 

-- Ora porquê ! Sabe-o tão bem como eu. Se tivesse uma irmã, levava-a lá? 

-- Conforme ! Uma mulher espirituosa e superior como v. ex.*, levava; uma pensionista ridícula, já  não. Primeiramente não queria enfastiar os outros,  depois não me queria enfastiar a mim !

-- Mas no fim de contas valeria a pena fazer uma  imprudência d'essa ordem? Diverte-se a gente muito?  Eu cá não creio. 

-- Ora vamos ! Ainda agora era mais franca. Não  há uma mulher que não tenha uma pequena vingança a tirar de uma amiga muito querida ; um  epigramma inoffensivo a desfechar no ouvido de uma rival, um segredinho que a tenha irritado, e  que esteja morta por descobrir ! Diga-me cá, ninguém lhe amarrotou nunca a sua vaidadesinha de  mulher? não teve nunca um ódio impetuoso e difficil de conter a estas liliputianas convenções sociaes? não houve na sua vida uma hora em que  desejou dizer a verdade, a verdade sem véus e sem  reticências a esses aduladores tolos que lhe beijam  os pès ! Mascarar-se é abdicar por alguns instantes  a sua individualidade, e escolher a que mais lhe  approuver. Seja o sentimento ou seja a ironia, seja  a lógica ou seja o paradoxo, mas seja positivamente o que tiver vontade de ser, sem se occultar sob  essa outra máscara uniforme que faz de todas as  mulheres a mesma creatura acanhada e sem sabor. 

-- Que dilúvio de epigrammas, Santo Deus ! disse  ella entre despeitada e risonha, sem responder directamente. 

Levaram meia hora a combater este ponto. Ella  condemnava em nome dos usos sociaes, elle defendia em nome do capricho, o deus omnipotente das  mulheres bonitas. 

Por fim, quasi vencida e sem o querer parecer, Alice perguntou : 

-- E se me conhecessem ? 

Estava ganha a batalha. Quando a mulher não  acha em si defesa bastante e a procura nos outros,  é certo o triumpho do seu adversário. 

D'ali a nada combinavam rindo como dois doidos o disfarce que Alice havia de levar. 

Era um campo onde podia perder-se á vontade  a phantazia de Eduardo, aquella phantazia caprichosa e inimiga das convenções. Depois gostava de vêl-a  passar aos olhos do seu espirito artisticamente pagão, vestida de todos os trajes severos ou luxuosos, voluptuosos ou modestos, que os seus conhecimentos de antiquário ou as suas recordações de viajante  podiam representar-lhe. 

Alice ria-se infantilmente esquecendo já nos pormenores da sua aventura tudo o que ella tinha de escabroso ou de illicito. 

Depois de se haverem divertido duas horas com planos que desmanchavam apenas feitos, acabaram  por fixar-se no dominó preto á Veneziana. 

Era o mais conveniente e o mais discreto. 

Alice tinha ainda um certo receio, apresentava  objecções vacillantes, ria e tinha arripios. Eduardo  destruía todas as hesitações, amontoava exemplos,  irritava-lhe a curiosidade, e a infantil ousadia que  levava sempre a achar encantos em todos os perigos, e de tal modo a estonteava no redemoinho do  seu espírito que lhe roubava de todo a liberdade  de reflexão.

N'aquelle dia jantou com ella. Nunca Eduardo estivera tão divertido e tão alegre. Jorge rira umas  poucas de vezes com gosto ao ouvil-o. 

Com um traço assignalava um ridículo, com um  gesto desenhava uma caricatura. Tinha réplicas irresistíveis, acompanhava-se de uma mímica extravagante, cómica, endoidecedora. 

Ao levantarem-se da mesa, quando Alice pensou  que pela primeira vez ia enganar a excellente e cândida creatura, que era seu marido, houve na sua  límpida fronte uma contracção de dôr. Teve tentações de lhe confessar tudo, de lhe dizer com a sua  voz que era um feitiço : 

— É uma tolice, é uma imprudencia, mas è um destes caprichos que nos envolvem como a jettatura. Deixa-me ir, deixa-me ir, deixa sim, meu querido Jorge. 

Lembrou-se porém que mesmo cedendo com a sua habitual fraqueza, havia elle de querer acompanhal-a. Ora na companhia do marido perdia a  aventura todo o picante do inesperado, e quem sabe mesmo se do prohibido. Esta reflexão conteve-a, e Eduardo que a expiava com certa ansiedade, disse-lhe alto: 

-— Não me tinha dito que ia hoje á soirée da viscondessa de R... ? Encontramo-nos lá, porque tambem vou. 

-- Não sei ainda se sairei, respondeu Alice corando. É possível que fique esta noite em casa. O  Jorge tem um trabalho urgente que o não deixa  sair, e eu tenho vontade de ficar acompanhando-o. 

-- Sr. Athayde, v. ex. a dedicação em figura de  homem, vae protestar de certo contra aquella determinação bárbara. Em primeiro logar, è um roubo  que se nos faz, em segundo logar, é impossível que  lguem possa trabalhar ao pè da sr.a D. Alice. 

-— Lá isso trabalho eu, disse Jorge com um sorriso  que o illuminou; depois, percebendo no olhar  de Alice que esta prompta adhesão não fora completamente do seu agrado, acudiu logo mudando de tom : 

-- Mas não, não, é tolice minha. Eu gosto mais  que vás divertir-te. Não te posso ir buscar, mas  mandarei o trem á hora que tu quizeres. 

Alice levantou-se e d'ahi a uma hora apareceu prompta na sala. Vinha linda. A tentação flammejava em torno d'ella inundando-a com os seus reflexos diabólicos. Entre a mulher simples, honesta e  desartificiosa e estas creaturas que se não   queimam de todo no fogo do inferno, mas que passam  por lá trazendo comsigo um certo cheiro de chamusco, a imaginação do homem, por mais tranquilla  e desapaixonada, escolherá sempre as últimas. 

Alice metteu-se na carruagem, chegou a casa de  uma das suas amigas mais íntimas, quer dizer, de  uma das suas rivaes mais temíveis, pretextou não  sei que improvisado romance muito innocenle, envolveu-se no amplo dominó preto que para ali mandara Eduardo, e partiu para o theatro n'um trem de  praça. 

A' porta estava Eduardo á espera d'ella. Vel-o  sem mascara surprehendeu-a e zangou-a; não teve  porém tempo de se revoltar. O moço arrastou-a consigo até ao grande salão cheio de luzes e de mascarados. 

Era uma confusão sinistra, um calor de abrazar  todo, uma atmosphera pezada e impregnada de um  cheiro acre e nauseabundo, composto de todas aquellas respirações agitadas, d'aquelles velhos trapos  rançosos, d'aquellas perfumarias avariadas, d'aquellas flores murchas e sem côr. 

Alice tremia, apertando o braço de Eduardo. 

Este ia desassombrado, desdenhoso, levemente  irónico. 

Conseguira o fim por tanto tempo desejado. Quando mais não fosse, era uma vingança. Prazer dos deuses, e prazer dos preversos. 

Dez minutos depois de se achar no baile começou  Alice a sentir-se quasi reconciliada com o turbilhão.  Achava picante a sua aventara, tinha para ella uns  sabores de pomo vedado, umas cócegas irritantes  que não eram bem remorso, mas que se pareciam  com elle. 

Alice não era de todo extranha, pelo seu espírito ousado e inquieto, ao género d'aquella mulher  perigosamente encantadora que exclamava ao beber  no verão um delicioso copo de água gelada: 

-- Meu Deus, que pena não ser isto um pecado  mortal!

Há creaturas para quem tem o que è defezo uma  provocante sedução.

Nas frisas estavam algumas amigas íntimas da  mulher de Atbayde. Alice aproximou-se d'ellas e  falou-lhes com a sua graça singular. Elias sorriam-se prezas d'aqúelle espírito fino e vivaz, mas não  lhe respondiam. Pela estatura e pela mão conheciam-n'a mulher, e agoiravam mal de uma mulher num baile de mascaras. 

Foi este o seu primeiro castigo. 

Pouco a pouco aquella figurinha petulante, azongada, com maneiras e palavras pouco usuaes em mulheres que frequentam taes lagares, e que se pendurava no braço do companheiro com uma timidez  denunciadora de outros hábitos, attrahia a attenção  dos amigos de Eduardo. Seria isto mesmo que elle desejava? Que o diga quem logra penetrar no intimo de certos espirites depravados. Éu não que o não sei.

Ora os amigos de Eduardo pertenciam na maior parte a este género hybrído, inclassificável, que nós, o povo por excellencia plebeu, baptisámos de janota. O janota, sabem-n'o todos de sobejo, não é nem  o dandy brítannico nem o leão francez. Brummel et  o conde de Orsay registal-o-hiam com egual desdém.

O janota bebe no Penim e no Collete encarnado,  toca na guitarra, a que dá o pittoresco nome de  banza, canta o fado, e quando se quer disfarçar de  heroe, embrulha-se na capa vermelha de toureiro. A  posição social de janota é desprezar profundamente  as mulheres. 

Quando por insinuações de um d'elles, mais profundo observador que os outros, começaram a desconfiar que Alice era uma senhora, fizeram o juramento de que haviam de conhecel-a. Aproximaram-se  e um mais ousado dirigiu-lhe uma fineza de bastidores theatraes. Eduardo olhou para elle d'um modo que o não animou a recomeçar. 

—- Quem é essa nimpha que se ampara no teu braço com esquivança admirável n'estes innocentes lugares? perguntou outro rindo. 

— E' uma mulher que eu protejo, cousa que nem  todos entre vossês seriam capazes de fazer, respondeo Eduardo. 

-- Isso vemos nós, meu caro, e obrigado pelo  bom conceito em que tens os nossos cavalheirescos  méritos. Permitte-me porém que eu te pergunte o  nome d'essa feliz mulher que mereceu a tua escolha sultanica? Julgava-te apaixonado por certa dama que a fallar quanto é verdade, tem extranhas similhanças com a tua companheira. 

Alice estremeceu com um destes infantis pudores que os libertinos farejam até de longe. Quase todos elles o notaram, e o primeiro que soube adivinhar a differença que havia entre Alice e as outras  máscaras, disse, seguindo-a com insistência:

-— Minha querida, dá-me a honra de um cancan! bem vês que não posso chamar walsa ás chorêas  pouco pastoris que vês diante dos olhos

-- Arreda! esta senhora não dança, disse Eduardo com um gesto altivo, procurando afastar-se do  rancho dos seus sócios, talvez arrependido de ter  trazido ali Alice.

-- Se não dança, eu sei porque è, retorquiu um  d'elles. Tu não és tal o que apparentas, minha filha; és um cordeirínho que este matreiro do Eduardo arrastou para o meio dos lobos. 

Alice teve medo ; atravez da máscara não houve ninguém que lhe não notasse a turbação súbita. Julgou-se conhecida, infamada, teve vontade de fugir, e disse esquecida até de que não disfarçava completamente a voz: 

-- Eduardo leve-me, leve-me. 

-- Ah! apanhei-te! adivinhei já quem és, acudiu o  mesmo personagem impertinente que tomaraaà seu  cargo desesperar Alice. Bem escolhido lugar para á  virtuosa esposa de Jorge de... .

- Nãa teve tempo de concluir a phrase. Eduardo levantou a mão e fez cair o insolente a dez passos do impulso da mais valente bofetada que ainda cindo dedos  imprimiram n'uma face de homem. Depois aproveitando a confusão a que deu lugar este incidente, saiu da sala arrastando comsigo, meia morta de desespero, a pobre Alice. 

Quando elles subiram para o coupê de Eduardo que os esperava á porta viu a imprudente creança de um relance de olhos que este levava impressa  no rosto não sei que expressão altiva e triumphante.   Então como que se lhe revelou em toda a sua  extensão sombria a catástrophe que ia alluir para  sempre o edifício da sua felicidade. Desatou a chorar, um choro de creança, uns soluços hystericos  no meio dos quaes se percebiam brandas queixas humildes. 

Eduardo não era de todo um coração de pedra. Teve dó da creança temerária que tinha arriscado  com a inconsciência do capricho todo um futuro homesto e perfumado de alegrias boas. Pegou-lhe na mão, tentou consolal-a, e desvairado também pelas alegrias da sua victoria infame, ousou n'aquella hora, sentindo-a tão perto de si abatida, despenhada e chorosa, fallar-lhe do seu amor, prometter-lhe n'elle compensações sobejas às vergonhas qúe a dillaceravam ali. 

-- Socega, anjo do ceu, houve um homem que se  atreveu a insultar ò teu nome, hei-de matál-o, juro-te; acabou elle como em tríumphante epílogo a todas as loucuras que dissera, e que Alice o deixara  dizer, esmagada pelo pasmo, pelo soffrimento, pela consciência tardia da sua culpa, que lhe era sobretudo revelada na ousadia do homem ainda ha pouco tão respeitosamente submisso. 

-- Cale-se, cale-se já. O senhor abusa da minha imprudencia de um modo indigno. Olhe que eu não  tenho dúvida em me perder de todo, e revelo esta armadilha infame a meu marido. 

Chegaram n'aqaelle momento a casa da viscondessa de R... confidente de parte da loucura de Alice. Esta apeiou-se sem auxílio de ninguém e fugiu pela escada illuminada sem uma palavra de despedida.

Enquanto corria agitada por um mar de novas sensações estranhas, onde sobrenadavam a vergonha e o terror, lembrou-se de que ao menos precisava  de fingir socego, diante dos olhos malévolos ou indifferentes que porventura a observassem. 

Entrou no quarto da viscondessa, mandou-a chamar á sala onde ella estava com alguns íntimos e  disse-lhe tentando debalde suffocar a commoção que  a sobresaltava: 

-— Estou muito incommodada, filha; não posso ir  para a sala. Deixa-me ficar aqui deitada n'este sophá, e manda-me avisar logo que chegue o trem. 

-- Que tens tu, Alice? Vens pallida como uma morta. 

-- Achas? Foi talvez da mascara que me asphyxiava. Isto passa. Alguns minutos de descanço e ponho-me boa. 

-- Como quizeres, meu anjo. E' singular; tens olhos de quem chorou muito. 

E, com estas palavras a viscondessa deixou só a  pobre Alice cada vez mais atterrada e vendo surgir um phantasma de cada lado onde refugiasse o  olhar. 

Foi tudo que ella temia excedido pela realidade.

N'aquella mesma noite, a notíca do escândalo que  tivera lugar na sala e que fora presenciado por muita gente, correu exaggerada, colorida, desformisada  pela calumnia todos os camarotes cheios do alto  mundo lisbonense. No dia seguinte não havia ninguém que a não commentasse a seu modo e todos  unanimemente arrastavam pela lama o nome de um  homem honesto e digno e de uma pobre creança imprudente, mas pura.

A viscondessa foi a primeira, que correu a casa  de Alice a contar-lhe tudo que ouvira, e que mais  do que ninguém tinha direito a crer. 

A mulher de Jorge estava no leito, mais pallida  ainda que na véspera, com umas fundas olheiras escuras, realçando-lhe o brilho febril do olhar.  O marido havia-a deixado n'aquelle instante cheio  de cuidados e de apprehensões dolorosas. Na saleta  encontrou a viscondessa, a quem Alice não ousava  negar-se. 

-- Ah! minha senhora, disse o excellente homem  ao vel-a. Ainda bem que veio. Não posso deixar  mais bem entregue a minha Alice, que está hoje  doentíssima. A walsa ha-de matal-a, ontem quis por força passar a noite em casa de v. ex.a e walsou muito decerto, não é assim? 

-- Não, caro sr. Athayde, não walsou nada. Nem lá  se valsou hontem em minha casa, acrescentou  sorrindo surrateiramente. 

-- Sério ! pois ella disse-me que dançou muito, respondeu elle com admiração que não pôde conter. 

Depois de algumas palavras insignificantes, ditas por elle com visível preoccupação, Athayde saiu e  a Viscondessa dirigiu-se acompanhada pela aia de  Alice para o quarto d'esta.  Quem seguisse n'aquella manhã Jorge de Athayde notar-lhe-hia no rosto não sei que dolorosa expresssão desusada, mixto de tristeza e espanto.

-- Para que me enganaria ella? pensava. É a primeira vez. Por mais que pense não atino  com a razão desta mentira! Ainda se élla me tivesse dito  que não dançara, visto que lhe ralho sempre!... Mas dizer-me que wálsóu toda a noite... Valha-me  Deus! E que suspiros tão de cortar o coração que   ella dava a dormir! Que será isto? 

Sentia-se triste, não podia affogentar os sinistros pressenttimentos de não sei que desventura próxima. Vinham-lhe à ideia pequenos symptomas que tinham  passado despercebidos nos primeiros momentos;  nuvens que iam agglomarando-se no seu tranquillo  horisonte. Naquelle dia custava-lhe mais do que nunca o desamor que adivinhava sob as frias carícias de sua mulher.

-- Que hei-de eu fazer para que élla me estime um pouco! Tenho sacrificado tudo e mais sacrificaria ainda se podesse. E' uma creança, gosta da luz  e eu sou a sombra! 

A viscondessa entrou no quarto de Alice, beijou-a com um ar ao mesmo tempo enthusiasmado e compungido, sentou-se-lhe á cabeceira e murmurou  abanando a cabeça com expressão consternada: 

-- Minha pobre Alice! minha querida filha, o que  tu foste fazer! 

-- Eu! respondeu ella turbando-se toda diante do  olhar malicioso, agudo, investigador da sua querida amiga. 

-- Sim, tu! Não: te desculpes, meu anjo. Sabes que podes contar commigo. Tenho-te defendido valorosamente. Olha, ainda ha bem pouco na minha sala cheia de visitas, jurei que sabia o motivo porque te mascaraste, e que esse motivo era innocente e  puríssimo. 

-- Meu Deus ! Clara, para que foste dizer a tanta  gente que eu me tinha vestido de máscara ? Que tem essa gente commigo? quem me accusa? de que  me accusam?

E Alice amarrotava pállida, febril com as pequenas mãos nervosas, as finas rendas do seu roupão branco.

-- Ai minha pobre amiga, tem ânimo! commigo podes abrir sem medo o teu coração. Depois, não sou eu só a sabel-o, filha. Falla-se já no duello de Eduardo. A nossa sociedáde é limitadíssima, n'èlla propagam-se as notícias com uma rapidez eléctrica...

-- O duello de Eduardo? Pois Edurdo bate-se ? 

-- N3o sabias ! exclamou ella conhecendo no pasmo expressivo de Alice que era sincera a sua ignorância, e exultando por ser a primeira a communicar-lhe notícia de tamanho vulto. 

-- Que desgraça! que desgraça! o que será de  mim ! exclamou Alice pondo as mãos n'um ímpeto  angustioso e levantando o olhar affogado em lágrimas para a Virgem, que tinha em frente do seu leito. 

-- Ai ! comprehendo o teu supplício ! Como tu o  amas!... 

— Eu ! eu ! tu estás doida, ou juraste que havias  de matar-me. Pois eu gosto de Eduardo ! pois eu  gostei d'elle alguma vez senão com um affecto de  irmã? Pois calunniam-me a esse ponto, Clara ! E  tu que te dizes minha amiga... 

Suspendeu em meio a phrase, lembrando-se, à luz  sinistra d'aquella primeira dôr, quantas vezes ella  fizera iguaes juizos de pessoas a quem dava também o profanado nome de amiga. 

A viscondessa não era fácil de despersuadir. 

Havia muito que era para ella facto provado o  amor de Eduardo e de Alice, e mais d'uma vez, com  insinuações caridosas, com a traiçoeira defeza, que  serve só para aggravar todos os pontos da accusação, havia ella confirmado ao ouvido dos seus íntimos, o juízo que no mundo começava a ter foros de infallível. 

Depois enchia-lhe as medidas aquelle escândalo. 

Era uma distracção poderosa para toda a semana e mais alguns dias talvez, conforme as consequências cómicas ou dramáticas que produzisse. 

Não admittia a possibilidade d'uma decepção. Pensava delle, o que não sei quem, pensava de Deus. Se o  não houvesse, era preciso invental-o! Ora existir  elle, têl-o ali preso na sua pequena garra, calçada  de pellica gris perle, haver estudado com enlevos de  artista todos os pormenores que o tornavam único,  singular, admirável, e deixal-o fugir assim, era um  destes sacrifícios inauditos, cuja idea nem por um  momento podia penetrar em cérebro tão vigoroso,  como o da gentil viscondessinha. 

Diante das desesperadas negativas de Alice, redobrava portanto de carinhosos perdões. Por fim, fatigada d'aquelle tiroteio inútil, perguntou com mal dissimulado triumpho : 

-- E como explicas tu a tua ida com elle a ocultas de teu marido, ao baile de máscaras onde não entram senhoras da nossa classe ? Creio que  também não pretendes negar que foste lá, depois  do desafio que hoje tem lugar entre Eduardo e o  homem que te insultou.

Não havia resposta possível. Alice sentiu-se perdida. Como havia ella de explicar a imprudência infantil, que pelos resultados que trouxera comsigo,  havia tomado, aos olhos dos mais imparciaes, tão  medonha gravidade? 

Contou a verdade toda, falou com aquelle calor que  leva o convencimento atè aos espiritos mais obtusos, teve gritos e lágrimas d'uma sinceridade irresistível.

A viscondessa começava a conceber o supplício  de S. Lourenço. Não se dava porém por vencida;  meneava a cabeça e sorria com um plácido sorriso compadecido e desesperante. Por fim levantou-se, e  respondeu-lhe abraçando-a. 

-- Meu anjo, preferia que tivesses mais confiança  em mim, tanto mais, que eu tenho empregado toda  a minha escassa eloquência em defender-te. Não importa ! Direi, a quem me perguntar, o que me tens dito. Rir-se-hão de mim, mas eu prefiro o ridículo de te defender ao odioso de te accusar. Bem sabes  o que é o mundo. Só acredita o que é mau. Depois  tu tinhas um orgulho desapiedado, e não perdoavas  ás pobres mulheres que eram frágeis. Cairão sobre  ti milhares de vinganças. Eu lamento-te... e comprehendo-te! Sei a que nos arrasta a paixão. 

Estas últimas palavras, em tom commovido e confidencial, levando hypocritamente o lenço aos olhos enxutos. 

E saiu, deixando Alice inconsolável, para ir commentar em meia dúzia de casas da sua amisade, o  acontecimento que trazia alvoroçado, n'aquelle dia, o high-life.

Tinham começado apenas as atribulações da pobre  menina.

Pouco depois de sair a viscondessa, entrou Eduardo. Alice não quiz de modo nenhum recebel-o. Sentia vagamente que se perdera. Tinha o estonteamento vertiginoso dos grandes abysmos. Tudo dali por diante tomava para ella um aspecto traiçoeiro.

Eduardo vinha devéras afflicto.

Não quizera dar tamanha publicidade ao que no mundo era considerado o seu triumpho. Não tinha tido a premeditação do desvendar no baile a imprudência de Alice; desejara apenas que a sua ida ali,  ao lado d'elle, fosse suspeitada pelos seus amigos, fluctuasse vagamente no ar como um mysterío, transparente para alguns e duvidoso para quasi todos. O  facto em si não quizera elle, de modo algum, que determinasse uma séria crise, antes o seu cálculo  era que fosse considerado somente como o resultado natural da estreita intimidade illícita que entre  os dois existia.  

Os acontecimentos, porém, tinham andado mais rápidos do que elle. Dominára-os até um certo ponto, e fora por elles arrastado d'ahi avante. 

Lembrava-se pela primeira vez de Jorge de Athayde,  e entenebrecia-se-lhe a consciência ao pensar no olhar do homem cândido e justo de quem assassinara covardemente a honra e a felicidade. 

-- Estou prompto a dar-lhe toda e qualquer satisfação qu'elle de mim exija, pensava abrigando  os seus remorsos estéreis à sombra d'este charlatanismo social que tão impropriamente se chama  valentia. 

Trazia-o ali a esperança de conjurar novas desgraças. Vinha dizer a Alice que não perdesse o ânimo, que combatesse o mundo com a arma da sua innocência, que se levantasse acima da calúmnia, que ao menos soubesse conservar a confiança do seu marido.

Nada disto poude dizer-Ihe. Alice tinha medo do  homem que a perdera, e que pelo seu arrojo singular em arrostar com tudo, podia ainda salval-a, e inculcar-lhe no espírito a perdida energia. 

Á noite chegou, pela posta interna, uma carta sobrescriptada a Alice de Athayde. A carta, sem assinatura, dizia, no estylo de quasi todas as cartas  anonymas, presentes, passadas e futuras, as palavras seguintes: 

«Minha senhora. 

«Alguém que a vê próxima a perder a sua honra  «e a sua posição, avisa-a de que é joguete de um  «homem que jurou perdel-a. Eduardo de C..., o  «amigo em quem tanta confiança deposita, que até  o acompanha a logares onde nunca entrou uma senhora honesta, tinha jurado n'uma ceia de rapazes, a que muitos assistiram, provar em breve, e d'um modo que a ninguém restasse dúvida, que  «V. ex. era sua amante. 

«Foi com essa intenção, que a arrastou ao baile de máscaras, que a tornou ali alvo da attenção «mais ou menos perspicaz, de muitas senhoras e  «homens da sua mais íntima sociedade, e por fim «deu uma bofetada no homem que a reconheceo.  «Hoje o duello que occupa meia Lisboa, é a triumphante resposta dada por elle aos que duvidavam  « da sua ventura. Innocente ou culpáda, foi vítima de uma traição. Acautele-se.»

 Nunca na sua existência de vinte e seis annos, que passara por dolorosas e inesperadas alternativas, e que era agora tão suavemente feliz, Alice havia conhecido as commoções que a assaltaram n'aquelle dia!

Ao lêr a carta, que vinha confirmar-Ihe tudo que  a viscondessa lhe dissera, escondeu a cabeça nas  mãos e desatou a chorar silenciosamente. Sentia  agora, por vagos indícios, que iam tomando relevo  e vulto, à luz dos acontecimentos presentes, que  fallava verdade aquella carta, forjada de certo por um ex-amigo de Eduardo, que lhe conhecia a fundo  as manias e as depravações. 

No seu pequeno coração, atè ali namorado de  puerilidades delicadas, levantou-se n'aquelle instante  uma onda revolta de cólera. Teve sede de vingança, ella, a mimosa creatura que só conhecia os sentimentos cândidos e amoráveis, os pequeninos caprichos de borboleta. 

Lembrou-se então de seu marido, não com a humildade receiosa, que era porventura de suppôr,  mas com um sentimento extranho, onde havia uma  vaga amargura e uma vaga esperança. Quasi que  lhe quiz mal por elle não ter sabido absorvel-a, fazer-se amar profunda e unicamente, roubal-a ás perigósas tentações e aos perigosos sonbos. Quiz-lhe  mal, porque era bom, justo e pacífico, porque  não tinha a insolência com que Eduardo se fazia  perdoar os seus imperdoáveis arrojos. 

Depois lembrou-se de o ter visto hum dia n'uma  hora rápida da vida de ambos, erguer-se aos olhos  d'ella transfigurado pela paixão e pela dôr, e disse, assomando-lhe aos lábios um ligeiro sorriso vaidoso  e triumphante : 

-- Sim ! Vou contar-lhe tudo. Os cordeiros podem ás vezes ser leões. Elle é que me ha de vingar do  mundo e do homem que me quiz infamar. 

Este pensamento inconsequente, bárbaro até  como era, restituiu-lhe a energia perdida. Não poude  porém obedecer ao seu primeiro e apaixonado impulso. Quando tentava, a muito custo, dar ás suas  ideas desordenadas algum repouso que lh'as aclarasse, abriu-se a porta do gabinete e Jorge entrou. 

Vinha pallido, com os olhos injectados de sangue e sulcos de lágrimas nas faces cadavéricas. 

Também a traiçoeira mão do anonymo havia acabado de o apunhalar, e lembrando-se do sorriso  velhaco da viscondessa, da turbação de Alice, dos  suspiros que lhe cortavam o sobresaltado somno, da mentira que lhe dissera de manhã, o infeliz curvou a cabeça ao peso da evidência.  Não era a sociedade, de que lhe apontavam o despreso e o escarneo, que o preoccupava a elle; pensava em sua mulher, n'aquelle santo amor que fora  o seu enlevo e a sua fè, e sentia dentro do coração  um mundo a desabar. 

Entrou no quarto, chegou-se impetuosamente à cadeira onde Alice estava sentada, abatida e chorosa, com a carta anonyma ainda no regaço, pegou-lhe nas mãos com uma força estranha e mergulhou nos olhos d'ella o seu olhar mysteríoso e ávido. 

Alice ficou espantada e ficou contente. Afigurava-se-lhe um prodígio a transformação que fazia  resplandecer n'aquelle homem vulgar todas as santas e immaculadas dignidades, que trazia escondidas  n'alma como n'um sacrário tosco. 

Comprehendeu que Jorge sabia ou suspeitava  tudo, e deixou que o olhar se lhe embebesse á vontade nos seus olhos, onde havia uma doce e supplicante limpidez. 

Era uma creança culpada, mas não podia ser uma  mulher criminosa. Havia um suave e innocente abandono nas linhas d'aquelle corpo que se quebrava em ondulações serpentinas. Pedia auxílio, mas não  pedia perdão. 

-- Falla ! exclamou Jorge com voz rouca e áspera,  de tal modo o estrangulava uma commoção desconhecida. Falla ! Justifica-te ! Porque choras ? Que ha  de realidade n'este horror que me fulmina? 

Alice ergueu-se da cadeira, impelliu suavemente o marído para ella, e sentou-sé-lhe nos joelhos, na sua  postura favorita de graciosa infantilidade. Jorge não  se atreveu a repellil-a. A despeito de todas as desconfianças, subjugava-o a tenacidade da sua paixão. 

Depois Alice contou-lhe baixinho, com a cabeça encostada ao peito d'elle, com a voz soluçante das creanças mimosas, a sua aventura arriscada e o terrível resultado que ella tivera. 

Nada lhe escondeu, nem as venenosas palavras da amiga, nem o contheudo da carta anonyma, nem  a visita de Eduardo, que não ousara receber. Contou-lhe o que soffrera, o que luctara, o que era hoje  aos olhos d'esse mundo onde fora rainha, e cujas  leis caprichosas e contradictórias, conhecia melhor  ainda do que elle; deu-lhe maior parte do fel que lhe  azedava em ondas o coração, do que lhe tinha dado  nunca das alegrias triumphantes do passado. 

Jorge não a interrompeu uma só vez. Quando  Alice acabou de fallar, ficou no quarto o mesmo silêncio pesado e morno. Ella levantou timidamente  a cabeça, fixou os olhos nos olhos do marido, depois deu um grito e levantou-se para fugir. 

Teve medo do olhar allucinado com que elle a  olhava, das grossas lágrimas que se lhe conglobavam lentamente aos cantos das pálpebras pisadas. Havia ali n'aquella simples mudez sinistra, o infinito das dores que podem esmagar um homem. 

— Não fujas, para que? Eu não te faço mal,  disse Jorge baixo e a muito custo, como se alguma  cousa o suffocasse. 

— Perdôa-me ! murmurou Alice dando á voz as  modulações mysteriosas da súpplica. Tu sabes que te amo; só a ti, sim, só a ti. Era tão feliz ainda  hontem ! Agora não torno mais a ser feliz, não é  verdade? 

Elle ouvia-a, ou talvez não a ouvisse. Olhava pm  ella e pensava nos dias que tinham passado e que  não podiam voltar. 

Então era feliz ; as horas corriam tranquilas, e olhando para diante, via sempre uma existência festiva, luminosa, cheia de sol. O seu filho cresceria, dar-lhe-hia consolações e orgulhos; a febre das festas mundanas havia de extinguir-se no seio de Alice, passariam umas noites boas, serenas, ao pè do fogão, emquanto o pequeno lesse com a sua voz, que havia de ser como a da mãe, terna e musical, e ella bordasse, parando de vez em quando, para o ouvir  melhor, mais feliz ali no conchego dos affectos  íntimos do que tinha sido no turbilhão dos prazeres sociaes. 

Jorge scismava d'um modo estranho e vago. Perdera como que a noção do seu estado presente, doirava-se-lhe a alma ao influxo d'uma inexplicável  somnolencia. 

Não sabia bem o que houvera na sua vida. Umà  catastrophe imprevista, alguma cousa com que elle não contara, mas de que espécie ? Se depois de fulminado o corpo, o espírito podesse ainda pensar, era assim que elle pensaria de certo. 

Alice escorregou-lhe do collo, onde se tinha deixado cair outra vez, e ajoelhou, de vagarinho, aos pés d'elle. Tinha medo, um medo indizível; umà  angustia oppressôra e violenta. 

Procurava o doido coração das primeiras horas, aquelle coração a trasbordar das adorações infinitas,  procurava o amigo suave e consolador de todos os outros dias, e nem um nem outro podia reconhecer  n'aquelle homem.

-- Jorge, murmurou ella no fim de um quarto  d'hora de medonho silêncio. Jorge, falla-me, castiga-me, amaldiçoa-me, mas não olhes assim para  mim! Eu sei no que tu estás pensando. Queres vingar-te d'elle. Dilacera-me-se o coração, pensando que  sou eu quem te exponho ao perigo, mas não devo  nem quero prender-te. Sou a mãe do teu filho, e é  preciso que o meu nome se conserve immaculado,  por elle e por ti. Deus protege o direito, e o mundo  è assim, dá sempre rasão ao vencedor. Não julgues  tudo isto irremediável, afirmo-te que não é. Hoje  escarnecem-me os que me julgam despresada por  ti, amanhã hão de respeitar-me quando virem a minha dignidade salvaguardada pela tua. 

Estás-me julgando má, dize, não estás? Eu, a tua Alice, a tua pequenina, com aspirações sanguinárias. Como è verdade que basta uma hora para  transformar uma pessoa ! Prova-lhes a elles que me  defendes, que me queres, que és o meu protector  e o meu amigo, e depois diremos adeus a este  mundo, que é tão mau. Iremos viajar todos três.  Estou cançada de todos esses prazeres, que me não  deixavam conhecer o verdadeiro céo, a verdadeira  felicidade. Bastaram algumas horas para encherem  a minha alma d'um desgosto profundo e inexprimível. Parece-me que tenho vivido no desterro. Adoeço  da nostalgia do bem. Sabes? És bom! Quero-te  muito. Hei de endoudecer-te de alegrias. Às vezes  tinha pena de que o teu amor não fosse expansivo  e violento. Sou uma desgraçada mulher cheia de fraquezas e de loucuras. Mas agora! Agora, apalpei o nada de tudo isso. Far-te-hei muito feliz, viverei só  para ti, serei tua como nunca fui até hoje. 

E envolvia-o na electricidade do seu olhar felino, e emballava-o na musica branda e ineffável da sua  voz, que parecia penetrar no coração e adormecer  dentro d'elle a dôr. 

Jorge ouviu-a; ouviu-a sem a interromper. O  mundo, que lhe importava a elle o mundo, não me  dirão? Absolvida por todos, essa mulher que elle julgara impeccável, teria perdido do mesmo modo  a sua auréola immaculada. 

Tudo lhe morria no coração, onde lhe morrera a  fé. Amava-a ainda, amava-a com uma larga ternura  maternal, cheia de unctuosos perdões, mas não podia tornar por ella a ser feliz. 

Por fim fixou-a brandamente com um olhar manso  e triste e disse-lhe: 

-- Oue queres que eu faça? Perdoo-te. Nem tu sabes, ninguém sabe o que ha n'esta palavra. Mataste para sempre a minha felicidade. O que eu amava mais que a tua formosura mysteriosa e fatal, era a tua doce virtude, á qual eu confiei a minha vida. Acabou-se o orgulho que eu sentia diante  d'esse mundo onde eu passei primeiro obscuro, humilhado e triste, e depois invejado e victorioso porque tu eras minha ! Não importa ! Tudo isso é verdade  e eu perdôo-te. Vingar-te! mas quem te disse que  eu podia vingar-te e vingar-me ? Se aqui ha culpados, fui eu decerto, porque não me soube fazer  amar porque sentia prazer em te dar a minha vida, sem nunca exigir de ti nem a gratidão pela minha  offerenda contínua. Se eua matasse esse homem, que  n'uma hora te poude fazer renegar todas as dignidades; o que teria eu destruído com elle? A calumnia? Não, que essa lavraria incessante, alimentada  pelos mesmos que tu me tens preferido até hoje. A lembrança do teu desamor, também não, porque o  sinto aqui como uma tenaz a comprimir-me o coração, e a triturar-m'o implacavelmente. Acabou-se.  Estes annos de ventura e de fé são um sonho de que hoje acordo, e nem tu sabes mesmo a profundidade  da minha dôr ao acordar, nem tu sabes que dupla  condemnação é a minha, ao ter que maldizer-me  porque fui crente e bom. 

Ella ergueu-se. O olhar meigo, afogado em lágrimas, cheio de súpplicas humildes e de voluptuosas  seducções, tornou-se-lhe d'uma fixidez metálica. Todas as insolências antigas transpareciam pouco a  pouco no rosto de Alice. De ré levantára-se juiz.  Revestira-se sob a influência d'um pensamento desconhecido, de não sei que severidade sombria. Envolveu seu marido n'um olhar desdenhoso e frio;  e obedecendo, no desvairamento em que a lançavam  tão diversas e encontradas commoções, ao impulso  da sua natureza primitiva, exclamou com pungente  arrebatamento : 

-- Tem medo ! Confesse que tem medo. Resigna-se com a deshonra, porque tem a covardia de a não querer vingar.

Jorge não podia empallidecer mais, os olhos porém afundaram-se-lhe mais profundamente na orla roxa que os cercava, e accendeu-se n'elles uma chamma súbita. 

Levantou-se também, e tomando pela primeira  vez, aos olhos de sua mulher, uma solemnidade immensa e trágica, apontou-lhe com um gesto lento, altivo, impregnado de extranha e irresistivel dignidade, para a porta do gabinete. 

Alice saíu esmagada por aquelle olhar, por aquelle  gesto, pela consciência do seu crime irreparável. 

V

N'aquelle mesmo dia, Jorge de Athayde saiu de  casa, deixando um lacónico bilhete para sua mulher,  em que lhe ordenava que não saisse, que não fallasse a ninguém, e que esperasse as suas determinações, que breve lhe seriam communicadas. Afinal de contas aquela resolução viril da parte  do marido, com quanto a espantasse, não lhe desagradava. Tinha a consciência do profundo amor que inspirava, e à proporção que o sobressalto angustioso dos primeiros instantes ia esmorecendo, ia augmentando n'ella a esperança irreflectida e tenaz  de readquirir o perdido império. A energia com que elle a queria emfim domar, parecia-lhe o symptoma precursor d'uma transformação no seu destino. Tudo  queria menos a continuação d'aquella paz monótona para sair da qual ella se atirara sem gosto a umas  aventuras equívocas. 

Ser dominada é a sede instinctiva dos fracos.  Alice sonhava com uma mão de ferro que a opprimisse e que ella beijasse. Esperou, portanto, com a  confiança cega dos illudidos. Phantasiou viagens longas, expiações dramáticas, e ao fundo do horisonte indefinido uma aurora de renovadas alegrias. 

Obedeceu de bom grado às ordens do marido.  Deu ordem expressa aos creados para que regeitassem todas as cartas, e para que despedissem todas as visitas. 

Às vezes sobresaltavam-a umas angustias súbitas  como de quem ouve ao longe, na mudez profunda,  um grito de agonia inconsolável. Então agarrava-se  ao filho, beijava-o e dizia-lhe : 

-- Elle ama-nos muito para nos castigar, não é  assim ? Ainda seremos felizes ; eu sou tão moça, tu  és tão pequenino ! Somos ambos tão queridos ! 

E tinha muita esperança. 

Ao cabo de três dias de incerteza, davam 10 horas da noite quando Jorge entrou em casa. 

Encaminhou-se para o quarto onde estavam juntos a mulher, muda e immóvel, e o filho adormecido no seu pequeno leito. Alice ao vêl-o entrar deu  um grande brado e correu para elle, sentindo que o amava mais n'aquella hora de terror vago, do que  o tinha amado em longos annos de abnegação reservada e muda. 

Elle impelliu-a de si com modo brando mas secco. Sentou-se defronte d'ella e apresentou-lhe um rôlo de papeis qne tinha na mão. 

-- Tem aqui metade da minha fortuna. É sua.  Ninguém mais lhe poderá pedir contas d'ella. A outra metade pertence a meu filho e não a mim ; eis o motivo porque a guardei. Aquelle homem de  quem me disse que eu tinha medo, era meu irmão.  Queria-lhe muito. Tinha jurado protegel-o e amal-o  a alguém que já não existe. Esse homem matei-o hoje.  Dizem que foi n'um duello honrado. Não importa !  A verdade é esta. Era meu irmão e matei-o. Entre  nós, bem percebe, que fica existindo aquelle cadáver.  Não me tornará, nem nos seus sonhos, a chamar  covarde, ouviu? Comprei esse extranho privilégio  com um fatricídio. Seja feliz. Eu só de si exijo uma  cousa. É o que venho buscar aqui hoje. O meu filho. 

Alice, absorta e allucinada, olhava para elle como  n'um sonho. Ao ouvir fallar no filho quiz correr  para seu marido, estendeu os braços, soltou uma  súpplica indistincta e caiu no chão como varada por  um raio. 

Jorge não olhou para ella. Abeirou-se do leito do  filho, envolveu-o amorosamente nas roupas, e saiu  levando-o nos braços, pelo meio da creadagem boquiaberta. 

Ninguém o tornou a ver. 

Uns dizem que está no Brazil conquistando para  o filho uma nova fortuna, outros dizem que vive  escondido n'uma aldeia erma de Traz-os-Montes. 

Alice nunca mais sorriu. Reza a fama que dá esmolas a todos os pobres e lágrimas a todos os infortúnios -- e as poucas amigas que lhe ficaram no naufrágio de todas as suas alegrias affirmam que  no coração de Alice arde uma paixão implacável e  violenta. Por quem ? perguntam as más linguas, saboreando de antemão um novo escândalo apimentado. 

-— Pelo marido, respondem as ditas amigas n'um  frouxo de riso motejador. 

 
