<t> O tupinambá </t> 
<div "apresentação">
<t> Meu caro sertanejo </t>
Vejo você do seu Sertão com vários livros a publicar aqui.
Aprecio imensamente essa ingenuidade do Poeta das Selvas -- é assim que você arranjou um adminículo significativo para o seu nome literário pensando que em S. Luís se lê algum trabalho de escritor maranhense
Para mim você tem, ademais disso, outro grande valor: dos candidatos à celebridade nas letras indígenas, essas pobres principalmente de espírito, um dos raros que me não custam se não o prazer de escrever esta carta para prefaciar o seu romance. Porque muitos me exigiram a canseira de rastir, às vezes a pena e outras a caco de telha, cartapácios respeitáveis pelo volume e pela quantidade de asneiras.
Sei que você é um homem esforço próprio, que lá nos rincões sertanejos, de onde chegou há pouco, entendeu de fazer seus livros e fez, sozinho com a ajuda de Deus.
Não conheço os defeitos dos seus livros. Sei, apenas, da espontaneidade com que você escreve.
Gosto dos literários que assumem corajosamente a responsabilidade dos seus primeiros erros. Se você cometeu eles, não sei. Basta-me saber que tem a coragem de errar e acertar sem recorrer à palmatória alheia e isto lhe diz um jeito que já tem dado bolo em muita mão de ingrato.
Aplaudo, pois os seus esforços de sertanejo ousado, tanto mais porque sinto nos seus versos publicados algo dessa poesia que encontro em Hermínio Castelo Branco e certos poetas do Sertão maranhense ou piauiense, tosca *** sentida, cheia das toadas dos vaqueanos e do perfume de flores humildes do escampado.
Sua aventura com o romance indianista que quer abrir esta insulsa carta minha é de um arrojo inaudito.
Não se incomode com a crítica. Fique certo de que os livros -- é chavão -- tem os seus destinos, e para estes pouco influi o juízo dos críticos.
Se eles julgarem mal o seu romance, sorria, porque há lugar de sobra nas literaturas para alguns péssimos livros que se tornaram célebres.
Seu romance não pode ser pior do que o "Peregrino da América", do ratão do Nuno Marques Pereira ou alguém por ele, "As Fatalidades de Dois Jovens", do sesquipedal Texeira de Souza, algumas conhecidas moxinifadas de Macedo e outros que tais novelistas, que avistaram o céu da história sobre montanhas de bagaceira.
O seu livro não pode estar pior do que muitos calhamaços premiados pela Academia e cadastrados na polícia das letras.
Siga, pois, o seu roteiro. Depois dos seus "Tupinambás", venham os versos sertanejos, versos iguais ou melhores do que estes:
<poesia>
 	
A flor de gitirana,
Quando viceja à margem dos caminhos,
É linda, é soberana!
 
Gosto de vê-la, pelo mês de Maio,
Engrinaldando os ninhos
Pendentes do arvoredo verde-gaio
 
Que saudade que sinto
De minha infância alegre e descuidosa.
Revendo o labirinto
 
Formado pela flor que me seduz!
Vendo-o, minh'alma goza,
Como a de um santo contemplando a cruz.
 
Se eu fosse beija-flor,
Mataria meus tímidos desejos
De reprimido amor,
 
De paixão infinita e reprimida,
Depondo muitos beijos
Na corola de minha flor querida.
 
Se eu fosse borboleta
Que existência feliz desfrutaria
Neste velho planeta
 
Pois esta minha ardente sede insana
De beijos, mataria
Beijando a meiga flor de gitirana.
</poesia>
Gosto desta "Flor de Gitirana" que você publicou. Considero-a tão linda no seu desativo que podia figurar numa Antologia de poesia nacional. E no entanto você não forcejou para ir à imortalidade. Fez esses versos conhecendo apenas pela rama algumas vagas regras de metrificação, que desconhecem totalmente os cantadores do Sertão e os sabiás das palmeiras maranhenses, levando imensa vantagem sobre tanta gente que aprendeu a ler.
Ora, se não é ter talento, então não há nada neste mundo em cuja realidade se possa acreditar.
 
 	Antônio Lopes
</div>
<div "Leitor amigo">
 	
Confiado em tua benevolência, lanço em público O Tupinambá.
É uma produção, indígena que se verifica no Estado do Maranhão.
Seus principais protagonistas são filhos das florestas Pindoramicas.
O herói é um célebre tupinambá do Ipauassú; é o Itapucú famoso, que fez perante os reis de França, um notável discurso, em que confirmava a aliança feita entre seu povo e aquela nação.
A heroína é uma guajajara do médio Grajaú.
A obra prende-se à dominação francesa na Ilha de São Luís -- a Ipauassú dos selvagens - e termina com a famigerada batalha de Guaxenduba:
Leitor, se te interessas, deveras, pelas coisas selvagens de nosso precioso Brasil, deves ler O Tupinambá, onde hás de encontrar muito do que se relaciona com a tradição, crença e costumes de nossos irmãos das selvas.
Tais observações fiz pessoalmente, visitando várias tribos, ou através de veros documentos.
Previno-te, porém, que O Tupinambá é obra de simples mestre escola sertanejo, que não se faz recomendar por nenhum diploma concedido por qualquer academia.
O Tupinambá representa o fruto da imaginação de um sonhador patrício, que sente afeto por tudo o que se prende à vida simples e natural das selvas brasileiras.
Deverá possuir, pelo menos, o sabor de um pomo selvagem e a fragrância de uma rudimentar flor campesina. É porém, a mais genuína manifestação de um brasileiro abnegado, de um investigador constante das coisas aborígenes do nosso país, de um obreiro que não mede sacrifícios na realização de seus ideais.
Leitor, se o meu trabalho não te satisfazer, fica ciente que o produzi tomado de boa vontade, e na firme convicção de que cumpri o meu dever. O Tupinambá talvez mereça, ao menos, a tua consideração, não é assim? Faz de conta que ele é uma nota volitante e harmoniosa do Hino nacional em fio tricolor de Nossa bandeira, desprendido ao *** da brisa, em momentos festivos, ou um fragmento de Nosso escudo chocando-se com as armas inimigas.
Atravessei o Estado do Maranhão num percurso de duzentas léguas, aproximadamente, com o fim exclusivo de editar O TUPINAMBÁ, em São Luís porque sou maranhense, do que muito me ufano.
Produzindo O Tupinambá creio não haver ofendido a moral, o que não te posso afirmar relativamente à gramática, dada a minha deficiência de estudos filológicos.
E como te julgo inteligente, culto e generoso, suplico-te o obsequio de desculpar minhas faltas, filhas de meu rudimentar preparo, bem como as de revisão de provas e impressão.

O autor
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<div "CAPÍTULO I">
<t> A Irmã da Lua </t>
 	
Amujacy, a formosa filha do morubixaba Itapoan de Guajaú, era o encanto da poderosa taba guajajara.
Pela manhã, quando coema piranga mal dourava as grimpas do Levante, a residência do velho chefe já estava em festa.
Nem o sabiá da mata cantava, mais cedo, na pitombeira do flanco, do que Amujacy, à porta da sua graciosa cabana.
Também sua existência era feliz, como a de um regato que leva no seio tímido, a limpa diáfana, que mata a sede dos vates erradios, e o ouro e o diamante, que saciam a dos arrojados aventureiros.
Muito embora a vida selvagem conduza a humanidade à existência rústica e desgraciosa, Amujacy, talvez por desígnios de Tupã, era formosa.
Tinha a graça de uma juriti depois da muda.
O mancebo que fruía o grato prazer de vê-la, ficava logo escravizado a seus encantos; cativo da primorosa disposição de suas formas, e, sobretudo, ansioso de colher, naquele jardim, a miraculosa flor da virgindade.
E, como a jandaira fica, à noite na semicerrada corola da flor do mororó, aguardando-lhe o desabrochar, ao romper da aurora, para matar sua sede naquele saboroso e perfumado mel, ficavam igualmente, longos dias, na taba de Itapoan, os admiradores de Amujacy, na esperança de alcançar-lhe dos lábios um sorriso, uma palavra de promessa.
Quando depois de uma caçada, ou quando havendo visitas na taba de Itapoan, promoviam-se festas, era um prazer contemplar-se como tudo ali respirava contentamento.
Amujacy cantava sempre fronteira a seu irmão, o belo e jovem Itacy, visto que seu coração continuava agasalhando nos refolhos somente o santo amor da família.
Jovem algum, embora elegante como a bacabeira do vale, havia conseguido cravar-lhe no coração a traiçoeira taquara de Rudá.
Mesmo que seus pretendentes recorressem aos pajés na esperança de chamá-la a seus amores nada haviam conseguido ainda.
Para Amujacy, a asa do uirapuru mágico; a unha do tamanduá feiticeiro, ou a folha do tijamiry sedutor convenientemente preparados no macabro e tenebroso culto a jurupary: nada tinha eficácia alguma.  
No entanto era tão meiga! Tinha sempre para cada flor uma carícia; uma ternura para cada passarinho; verdadeira admiração por cada guerreiro, e, para todos, um sorriso gracioso e inocente, em que vertia toda a candura de sua alma.    
Isso constituía verdadeiro suplício a seus admiradores, que muitas vezes, ralavam-se de descabidos ciúmes, sempre que supunham-na inclinada para algum de seus pretendentes.
Amujacy, porém, permanecia independente, qual lua cheia pompeando em céu primaveril.
Seu inocente amor era voltado à sua família como o dos luminosos manitós ao reluzente Tupã.
De longe vinham sonhadores à sua procura, com o fim de lançar-lhe no coração de rola, a centelha incendiária do amor. Acalentavam sempre a esperança de alcançar-lhe dos lábios um compromisso amoroso. Iam, como vai o romeiro contrito render culto à imagem de sua veneração.
E ela, qual palmeira que se curva sobre o rio com a fúria da tempestade, e equilibra-se novamente, quando passa o furacão, mostrava-se graciosa e sedutora a quantos a requestavam, desenvolvendo mesmo as seduções que o Criador pusera no coração de Eva; mas, quanto a compromissos amorosos, jamais fizeram um sequer.  	
Seu coração era qual lâmpada misteriosa, alto colocada, que furtivamente ilumina uma cerimônia cabalística; estava sempre cheio de um amor intransmissível a estranhos como incomunicável é a luz do cogumelo que vegeta ao pé da piaçaba.
-- Deixa, costumavam dizer seus admiradores. Um dia o amor desta jaciaba enganosa há de humilhar-se perante o de algum sedutor nheengaçara que talvez não sabia compreendê-lo.
E desde a Ipauassú dos destemidos tupinambás até o fabuloso e longínquo país dos intrépidos ubirajaras, o nome da filha de Itapoan corria de boca em boca, como a guanumby poranga adeja de flor em flor.
O melhor fruto; o mel mais puro; o peixe mais delicado; a caça mais tenra; tudo o que é lícito oferecer-se a uma criatura privilegiada, era lhe ofertado, como que, num culto de verdadeira admiração.
O canitá do morubixaba suplicava de sua mão o Símbolo convencional, e a taquara do guerreiro pedia-lhe que a emplumasse.
</div> 	
 
<div "CAPÍTULO II">
<t> O Rio do Guajaú </t>
Amanhece. O rio é plácido qual coração de esposa carinhosa. De sua face eleva-se uma névoa sutil e vaporosa. Numa e noutra margem, uma vegetação luxuriante exibe-se em todo o seu esplendor?
Na gameleira frondente, o japy canta entretecendo seu ninho.
A ariranha, ora surgindo, ora desaparecendo à face das águas, soltando gritos que nem parecem uivos de cão nem miados de gato, persegue a linguada e branca pirapema.
O mutum como se tivesse o coração magoado pelas agruras do amor, geme nas franças do pujante Arapary.
O jacamim, ventríloquo sublimado, sob as moitas de calumby, tange seu instrumento misterioso.
Saguis saltitam de ramo em ramo, à procura do alimento favorito.
Bandos de marrequinhas passam, voando, rumo da próxima lagoa.
O jaburu, da riba, quedo e silencioso, como quem procura a solução de um magno problema, espreita a descuidosa tarira.
E Cuaracy loiro recém-nascido, presidindo a tudo isso, dá beijos de efusivo amor na face esmeraldina da floresta.
Eis que a calma desta bela paisagem é quebrada pela aproximação de certa igara soberbamente tripulada, que vinha tão veloz na carreira como a corça mal ferida pela taquara de selvagem caçador.
De onde se transportavam, então, essas igarauanas de porto altivo e coragem fora do comum?
Por ventura, não saberiam eles que estavam no rio do Guajaú; dos senhores do país e próximo aos domínios do morubixaba Itapoan? E que é perigoso o penetrar num país estranho, como quem vai a uma floresta amiga?
Qual o motivo daquela brusca invasão?
É que, como o perfume da baunilha penetra nos meandros da floresta até muito além do fruto de onde se evola, o nome de Amujacy ia também a longínquas paragens, atraindo, assim, à taba de seu pai, cantores e guerreiros ávidos de aventuras e de amores.
Aquela igara vinha de longe, transportando um povo estranho ao daquelas paragens. Seus tripulantes eram robustos e hábeis navegadores. Não estavam ataviados para a guerra.
Tinham modos pacíficos; demonstravam serenidade; inspiravam confiança.
Em que se confiavam esses aventureiros?
É que entre indígenas do Brasil, são observadas certas tradições que parecem inverossímeis. Por exemplo: se o inimigo ou estrangeiro, que chega a uma taba, levando modos pacíficos é mavioso cantor, musico ou poeta, respeitam-no; alcança mesmo a admiração dos chefes, e, não raro, o amor das donzelas.
Ora, é igara, que afoitamente subia o rio do Guajaú era de propriedade do sublime cantor tupinambá, de Ipauassú, cujo nome era Tempúi, o qual vinha, unicamente, com o fim de conhecer a virgem dos guajajaras, de nome Amujacy.
O talismã, de que dispunha o chefe da expedição, para desfazer o rancor de todos os seus inimigos, era a sua voz de patativa enamorada; a música de sua embeaxió de Pan e a silvestre e arrebatadora poesia de sua criação, sempre bailando em seus lábios como a branca espuma no dorso das itaipavas.
A igara de Tempúi, há muitos dias, cursava o rio do Guajaú, na esperança de aportar, a taba do pai de Amujacy. No entanto a corrente mostrava-se, cada vez mais sinuosa e de difícil subida.
O desânimo começava já a dominá-los.
Então o rio que vinha subindo quase a sudoeste, descreve uma curva e toma a direção do Sul.
À esquerda de quem sobe, mesmo no ponto mais próximo da curva e à regular distância da margem, avista-se uma graciosa Colina, de flancos vermelhos, no cimo da qual havia uma taba.
Os da igara de Tempúi viram-na, e, continuando a subida, chegaram a pequeno travessão que transpuseram facilmente.
Continuando a viagem desfizeram a curva e chegaram, finalmente, ao porto da taba dominadora das cercanias, onde aportaram a embarcação.
Supondo que a piroga, que subia, fosse de algum chefe amigo, visto que dela apenas ouviam o rumor produzido pelas vogas, e mesmo porque ainda não havia desfeito totalmente a curva da corrente, muitas donzelas que se banhavam naquele momento, ficaram à sua espera.
Espavoridas sentiram-se, porém, quando verificaram que a igara, que vinha, trazia um povo estranho, que insolentemente penetrava nos domínios guajajaras.
Todas correram em direção a taba próxima, com a velocidade do pecary que busca as tocas do canastra, quando é perseguido pelo cão do caçador.
Todas, não! Uma, de sangue ardente e desmedida coragem, deixou-se ficar. Em seguida, lançou mão do arco, em que colocou uma taquara aguda e franzina, entesou-o bastante, e, prestes a dispará-lo, intimou aqueles invasores que dali voltassem, imediatamente, sob pena de varar com sua taquara, o peito do que lhe parecia o chefe.
A igara não retrocedeu, nem a flecha foi mandada ao alvo, mas ninguém ousou desembarcar ali. De medo não, de respeito, porém, a tão espirituosa criatura.
Então, o chefe da expedição, depois de pequena pausa assim falou:
-- Cunhamucú poranga, que tem a coragem de apontar tua taquara contra o peito do mavioso, do mais sublimado cantor de Ipauassú, ouve minha moranduba: -- Venho de longe, à procura da virgem que almejo para minha esposa, trazido pelo destino, como o piraussú repoty, que se forma nas profundezas do mar, é levado, pelas vagas, até chegar às praias. Eu sou Tempúi (Sempre Lépido) o invejado cantor tupinambá de Ipaussu; e o que me traz a estas paragens não é o ódio nem a vingança, é o amor, o amor e o prazer.
Se viesse fazer guerra a teus parentes, traria tantas igaras apinhadas de guerreiros, que o porto de tua taba não seria bastante para recebê-las.
Ouvistes? Ninguém ousou desembarcar em tua terra, nem tão pouco afrontar os teus brios de heroína. Pela tua bravura, admiro-te!
E, pelo que vejo, tua taquara voa tanto como o anagé que desaparece no ibaque azulado; e é capaz de ferir até a pequenina panapaná, que esvoaça de flor era flor.
No enquanto, o nome da que procuro voa muito mais ainda; e fere, mesmo, o coração dos prevenidos nheengaçaras.
E se a tua taquara é portadora da morte onde quer que vá, o nome da que procuro é mensageiro do amor onde quer que chegue.
Por ventura, ò formosa cunhamucá! não me saberás dizer onde fica a taba de Itapoan, pai de Amujacy e iara da meus pensamentos?
Fala! procuro-a, como velho chefe buscaria o muiraquitã que traz no semba, se o houvesse perdido.
-- Para felicidade tua, cantor aventureiro, deves deixar imediatamente, este porto, voltando à tua tama, visto que estás mesmo nos domínios de Itapoan, chefe desta taba e morubixaba dos chefes deste país.
-- E quem és tu, que dás conselhos a Tempúi, como se fora um moçacara no carbeto?
-- Eu sou Amujacy, a ditadora dos prazeres e a única filha que Itapoan gerou com Catuaba, a sua verdadeira mulher.
-- Tupã, meus olhos folgam, porque vi a criatura de quem até os manitós invejam a primazia! Ouve, Amujacy: Tempúi sentiria imenso prazer se a morte lhe sobreviesse trazida pela taquara da filha de Itapoan; e se assim acontecesse, ele morreria contente, bendizendo o momento em que teve o grato prazer de conhecê-la.
-- Cala-te, guerreiro importuno!
A filha de Itapoan é indiferente à tua história, como o pescador prevenido o é, contra os sortilégios da mãe d'agua.
Se necessitas da amizade e proteção da filha do chefe aproxima-te, que velarei por ti.
-- Não, Amujacy! Tempúi prefere morrer coberto de opróbrios a aceitar a proteção de uma donzela; ele, aqui, é indesejado pela virgem dos guajajaras, no enquanto, na taba de seu pai, dispõe de tantas cunhamucús destinadas a seu amor, como as abelhas de uma colmeia. O filho de Ipauassú não veio trazer a guerra aos habitantes das brenhas; mas se lutar é necessário, batalharei. Meu tacape é rijo como santáitáuna e meu braço é pujante como a sucuri do igapó. Sei vencer os fortes para minha fama e glória da minha nação.
Ofereço-te a amizade de Tempúi, aplaudido cantor tupinambá, ou a guerra encarniçada, a teus pais e parentes, em nome de Japiassu, meu pai, morubixaba da ilha grande.
E se eu e meus companheiros cairmos vitimados pelos teus parentes, minha nação saberá vingar-nos, por que tem tantos guerreiros como as estrelas do céu. Entre o amor e a proteção de uma donzela, há um abismo mais profundo que um mar desconhecido!
E se os teus tripudiarem sobre minha memória, depois de se haverem glorificado com a minha ruína, juro-te que a vitória será da minha nação!
-- Tempúi, não sejas parlador, pois tanto é forte o ipê da iuhitéra como a sucupira do Araxá. Se é que a tua nação tem tantos guerreiros como as estrelas do céu, a nossa os possui como as areias das praias.
Ainda é tempo. Se não aceitas a proteção da filha do chefe respeitado pelos seus e temido pelos inimigos, parte, parte imediatamente, que os meus não demorarão, trazendo-te a morte inevitável.
-- Quando as iuaras cantam, sobre os Itaguaçu dos paranás, seduzem os mais prevenidos igaraçaras. Também, quando o filho de Japiassu desfere suas maviosas cantilenas, já não são somente as jaciabas que se rendem à sua voz.
Com a música de minha flauta, domo as mais peçonhentas jamamoias; com a minha voz maviosa apascento as mais truculentas canguçus, mas, quando uso do meu tacape, sei abater os mais temíveis inimigos de minha nação.
Para os que me prezam sou brando como noites enluaradas; mas, para meus inimigos, sou como, o sol do verão, que tosta as flores e seca as fontes.
Se é que neste país rejeitam o nheengaçara que vem, em nome do prazer, trazer-lhe o canto, a poesia, a música, melhor será que Tupã consinta que Anhangá, somente, domine sobre seus filhos, como a aningapara, sobre o leito das lagoas vazias. E se o nome do cantor, que faz a alegria da festa, entre vós, não é digno de admiração, melhor será que vossos ouvidos fiquem eternamente surdos à voz dos manitós e abertos às injúrias dos gênios do mal, para eterno castigo de vossas desobediências à lei imutável dos nossos tamóins.
</div> 	
 
<div "CAPÍTULO III">
<t> O Encontro </t>
 
Nem a vara de tiriricas enfurecidos corria, com tanta presteza, após o acanguçu ladrão, quanto a horda de terríveis guajajaras à procura do bando aventureiro.
Tataíra, guerreiro de valor, o que está depois do chefe da taba, vinha à frente do exército defensor.
Itapoan, morubixaba dali, estava ausente.
O combate, embora desproporcionado, seria inevitável, trazendo, para os invasores, consequências desastrosas.
E se a tanto não se opusesse uma vontade superior Tempúi com os seus seriam exterminados.
Mas, antes que Tataíra proclamasse o brado de combate, Amujacy fez-lhe um sinal, convidando-o à sua presença.
O guerreiro prontamente obedeceu.
Então a filha de Itapoan falou:
--Tataíra, ordena a teus bravos que deponham armas e vem ouvir-me alguns momentos.
O tucháua logo executou suas ordens e prontamente veio a seu convite.
Então Amujacy, com entonação de heroína encantadora, assim falou:
-- Bravo defensor dos guajajaras, mão forte do pujante braço de meu pai, a filha de Itapoan considera os invasores como gente de paz e não quer que sofram dano algum, entre nós. No meio deles está um decantado cantor tupinambá que vem segundo afirma, em nome do prazer, trazer-nos a música, a poesia e o canto de sua imaginação.
Não permiti que desembarcassem, a não ser com o prévio consentimento do chefe da taba. No enquanto, agora, que estás presente, dize-lhes, na qualidade de imediato a meu pai que desembarquem.
-- Amujacy, Tataíra obedece as ordens da filha do chefe, embora sentindo o ódio ferver em seu coração, contra o aventureiro que se humilhou perante a Irmã da Lua.
-- Não, Tataíra! O cantor dos tupinambás rejeitou minha proteção mas é digno da hospitalidade dos guajajaras.
-- Se assim é, replicou Tataíra, queira desculpar-me.
-- Anda, cumpre teu dever! Dize-lhes que desembarquem e deves recebê-los com o sorriso nos lábios, porque são portadores da alegria.
Guia-os à casa de meu pai, que chegará brevemente, ele saberá, melhor que qualquer, compreendê-los.
Tataíra, aproximando-se da igara de Tempúi, a ponto de ser compreendido, assim falou:
-- A filha de Itapoan quer que o cantor tupinambá e seus companheiros sejam cordialmente recebidos e para descansarem oferece-lhes a oca do pai. Portanto, se a tua missão é galharda, desembarca com os teus, e vem comigo, que saberemos respeitar e agradecer tua visita.
-- Tempúi, de pé, à proa da igara, majestosamente, assim falou:
-- Em mim há duas pessoas distintas. Pergunto: Desejam receber Tempúi o enviado de Rudá, portador da alegria; ou o rude batalhador, enviado do deus da guerra, verdugo dos tapuios, senhor dos nobres feitos e vitórias dilatadas.
Como cantor Tempúi é como a flor da goiaba, cujo perfume embriaga as borboletas irisadas; tem as mãos vazias de armas ofensivas e a mente repleta de pensamentos sonoros. Como guerreiro semelha o tucupi da manioca, antes da fermentação: ele seduz com seu perfume e mata com seu veneno e eu sei atrair com as minhas falas e abater com as minhas armas.
Se, dentre vós, a traição surgir contra nós, como andira à tardinha, do seio de uma gruta tenebrosa, ai de ti mesmo guerreiro da confiança de Itapoan! Ai de teu povo! porque se a minha igara não voltar à Iaviré, levando, ileso, o sabiá das praias de Ipauassú, teu povo ficará sabendo o quanto é feroz e vingativo aquele de onde venho.
Para mim, esta minha vida, é um objeto grácil nos brinquedos infantis, mas, para os de minha nação, ela é o itaguaçu em que demora a confiança e confiança e consideração de um povo.
-- Desembarca Tempúi. Se vens como inimigo, teu nome só sobrará no rancor de minha nação, como a pedra que o curumy atira no seio da lagoa.
Mas, se és, como afirmas, o emissário do prazer, o senhor da alegria, tua memória permanecerá entre nós como a recordação de nosso primeiro amor.
Sim, desembarcarei, porque não vim para voltar sem executar todos os meus planos. E desembarcando, com os seus, assim falou -- O céu é o mesmo da terra de onde venho, a floresta, porém, é mais densa e as mulheres mais formosas.
Tataíra, Tempúi é o simples cantor dos tupinambás e, como tal, deseja ser recebido. Tempúi, o cantor, é doce como o fruto maduro da guabiraba e seu nome é sempre portador da alegria enquanto que Tempúi, o guerreiro, é amargo como o azeite da andiroba e onde vai é sempre portador da guerra e da vingança.
A compacta multidão tomou o rumo da taba de Itapoan. Amujacy caminhava, na frente de todos. Chegaram. Os estrangeiros foram conduzidos à cabana de Itapoan, cuja taba ficava no alto de formosa colina, de onde se descortinava soberbo panorama.
-- Tempúi deixou em seu país um horizonte azulado, onde o ipirú é o mais terrível inimigo do pescador e encontrou aqui, um outro oceano verde e ondulado, onde o jaguar é o mais encarniçado inimigo de quem caça.
Tataíra quis ficar na oca de Itapoan, fazendo companhia a Tempúi, até que o chefe chegasse de sua ligeira viagem. Eis que Itapoan chega de seu passeio à taba próxima.
O aguerrido clangor da inúbia fê-lo voltar, apressadamente, à sua residência, já acompanhado de muitos guerreiros.
De longe viu que sua oca estava repleta de homens estranhos, postados em atitude respeitosa.
Deixando à certa distância, os que, entre gritos, o acompanhavam, dirigiu-se, sozinho, à sua casa, com o fim de, pessoalmente, entender-se com aqueles estrangeiros provocadores da pocema guajajára.
Amujacy, ansiosamente, aguardava-o, e, antes que Itapoan tivesse qualquer entendimento com os recém-vindos, ela esclareceu-lhe a originalidade daquela expedição e as suas maneiras pacíficas.
Itapoan antes de saudar os recém-vindos, foi acalmar os guerreiros que haviam ficado à pequena distância e convidá-los a cumprimentar o que se dizia enviado de Rudá.
Depois, voltando à frente dos seus, aproxima-se daquele que lhe parecia o chefe e assim falou:
-- Vieste?
E o recém-chegado respondeu:
-- Vim.
-- És tu o enviado de Rudá?
-- Sim, sou o mensageiro do amor.
-- Qualquer que seja a tua nacionalidade, sê bem vindo. Quando o inimigo procura estas terras, encontra, em minha resistência, invencível fortaleza; mas, quando alguém me procura, trazendo as artes que dão contentamento, minha nação recebe-o com as honras de um piaga.
Assim, quando o uirapuru vem fazer seu ninho na cumeeira de minha tijupá, não lhe pergunto de onde veio, porque sua missão é pacífica, sonorosa e de amor.
O mesmo acontece a quem penetra em meus domínios, armado com a sua flauta, falando a linguagem dos passarinhos e ensinando a poesia das iuaras.
-- Itapoan, o uirapuru canta, entretecendo seu ninho, que faz de plumas, mágica e traiçoeiramente arrancadas do peito de outras aves; ou para alegrar sua prole. Eu, porém, canto para dar prazer à mocidade descuidosa; para desentorpecer a velhice desiludida; para despertar o amor nos corações empedernidos, e, sobretudo, para ser agradável às cunhanrés.
Quando estou em meu país canto também para enfurecer as expedições aguerridas; para amedrontar os prisioneiros de guerra; quando festejamos nossos dias de vingança, ou nas festas inocentes, em que celebramos o despontar das flores, ou a estação do mel.
Aqui cantarei, somente, para despertar o prazer.
Serei como o sabiá que vem da mata distante, pousa no pequizeiro que, está à porta de tua tijupá; senta, saudando o sol no levante, e quando o calor começa a incomodá-lo, voa, em direção de sua floresta natal.
O canto de minha alma, em dias de tristeza, é como o grito de kauan; no momento da aflição, é vigilante como a voz do caburé que pernoita sobre as taoeras; na ocasião da vingança, é rude como o do caracará carniceiro.
--Tempúi, o cauim feito para a festa das flores e do mel, em falta das festas de vingança, ferve na igaçaba, e a cuia está cheia, transbordando, à tua disposição. Bebe o licor feito com sangue de Many, preparado pelas filhas das moçacaras e que te é oferecido pela filha do chefe. Bem sabes que o cauim é portador da alegria, e tanto suaviza a voz do cantor como ensoberbeço o guerreiro.
-- Sim, Itapoan, bebê-lo-ei, honrando a hospitalidade que me oferecem.
Bebo-o, porém, como aventureiro; corredor de mundo em busca de novas sensações, na qualidade de representante das artes que trazem alegria aos sentidos; mas, aqui não o beberia como guerreiro, porque assim teria que beber sobre o repasto tomado das carnes inimigas!
E levantando a cuia à altura dos lábios, de um trago esvaziou-a completamente.
</div> 	
 
<div "CAPÍTULO IV">
<t> Permanência no País dos Guajajaras </t>
 
Por mandado de Itapoan fez-se uma tijupá, bastante crescida, em cujo seio se abrigou a expedição tupinambá, inclusive seu chefe.
Tempúi deveria demorar-se ali, pelo menos, durante o tempo que vai de uma a outra lua nova, dando suas lições de música, poesia e canto.
Dentre as mulheres livres, isto é, do meio daquelas que não sendo virgens, nem possuindo marido, vivem à espera do amor dos guerreiros, ou de algum estrangeiro de valor, deveriam os visitantes escolher esposas temporárias, a que chamavam aguaçabas, com quem convivessem durante aqueles dias. Então cada qual escolheu a que melhor lhe agradou.
Só Tempúi não escolheu mulher alguma.
Seus companheiros então disseram:
--Tempúi não encontra amor no coração das filhas de sua gente e furta-se ao que, livremente, lhe oferecem as filhas de outra nação. Que veio então ele fazer a estas paragens longínquas? Qual será, pois, a causa da descortesia que ele pratica no seio deste povo hospitaleiro?
As picaçus da floresta têm seu par; nós também o temos, e somente ele o rejeita...
Tempúi, que os observava, respondeu:
-- Eu sou a juriti sem par, que busca uma leal companheira através de abismos e procelas! Enquanto que, cada um, dentre vós, é uma rola cujo verdadeiro par ficou muito além: seja uma noiva saudosa ou esposa estremecida.
E enquanto eu procuro um par legítimo, para minha verdadeira miricó e curto, solitário, a ausência de um verdadeiro amor, cada um, dentre vós, diverte-se à custa desse povo hospitaleiro.
Por agora, minha esposa é esta flauta, que tanjo: ora desfazendo as recônditas mágoas de meu coração; ora atraindo, sobre mim, o olhar das formosas jaciabas, que se abismam em minhas divagações como a lua, à face dos profundos lagos. No entanto, nem a lua, través de tantos séculos, conseguiu gravar sua feição no espelho das águas, nem as formosas cunhantãs, apesar de tantos atrativos, conseguiram ainda ferir, com seus amores, o meu inconfortável coração!
Há momentos em que tenho medo de mim mesmo; das sedutoras cunhanrés, e, não raro das velhas casamenteiras.
Sou como uaruá que retrata na face a imagem de mulher divina, e, depois, quando a mulher se retira, fica vazio daquela figura graciosa. Eu também pareço amar a quantas me cortejam, quando estou desferindo minhas cantilenas; depois, quando solitário fico sinto meu coração vazia de amor, como vazio era o Camocim que o pajé tem, da sua gruta, aguardando-lhe a carcaça esquelética e medonha.
Sou como a flor da caroba, tão galante na cor, tão bizarra da forma, mas, inteiramente privada de perfume.
Quando meu coração for ferido pelo amor de alguma formosa cunhamucú, então todo o meu ser vibrará de contentamento, como o cordão de meu arco, quando arremessa uma flecha sobre a embiara preferida.
O pajé dissera, que antes que as flores três vezes despontassem no bacuri, eu teria de encontrar a formosa iara que minha alma requer para sua companheira. E eu procuro-a, como o curumy friorento busca o calor solar, pela manhã.
A lua estava no esplendor de sua plenitude.
A primavera declinava e as colmeias estavam pejadas do saboroso e perfumado mel.
Embiaraçaras peritos vagueavam pelas selvas, à procura de mel e caças.
Tudo isso eram preparativos para a festa do prazer, símbolo da paz entre os selvagens do Brasil.
Os caçadores voltaram, trazendo o bastante para a função.
Tudo estava preparado.
O cauim e o abaty possanga espumavam nas igaçabas; o mel de teúba, jandaira, tuby, irassú, jaty e muitos outros açucaravam nas cujubas; e as carnes de moquém, dependuradas sobre o fumeiro aguardavam o momento da folgança.
Tudo revelava uma festa encantadora, como as que os caraúnas fazem nos leques do palmar, depois que se banqueteiam nos arrozais maduros.
Somente duas criaturas, que pareciam as mais felizes do mundo e representavam a viva imagem do prazer, sentiam suas almas vazias daquilo que é fermento no cauim, doçura no mel e perfume na flor.
Cuaracy escondeu sua face nos umbrais do Ocidente.
Carú morria, como o passarinho implume privado do maternal calor.
Tacy caboassú, a rainha dos bosques, pompeava, desassombradamente no ibaque levantino.
E petuna, débil e desfalecida pelo clarão de Jacy, mal se podia suster na amplidão.
</div> 	
 
<div "CAPÍTULO V">
<t> A festa do prazer </t>
 	
 	
A festa começou.
No âmbito da ocara, formando duas serradas filas, uma de cada lado, portavam-se os guajajaras.
Ninguém se atrevia a levantar a voz e desferir o canto inicial.
Todos esperavam que o nheengaçara tupinambá, para tal fim convidado, estreasse naquele momento, iniciando a festa do prazer.
O maracá do cantor chocalhara três vezes.
Os dançantes já marcavam, com os pés, um compasso de alegrete, fazendo, assim, vibrar os guizos naturais presos às suas pernas.
O momento era o convencionado para o início das loas:
Tempúi cantou:
<poesia>
-- Sem rical seja Tupã
No céu, no mar e na terra!
Vira, o grande Itapoan
Temível jaguar da serra!
No recesso desta ocara,
No meio de estranha gente,
Canto a nação guajajara
Sou feliz, estou contente.
E, quando, em manhã formosa,
Partir, para não voltar,
Serei qual fonte chorosa
Quando corre para o mar.
</poesia>
Outros cantarem ainda, cada qual honrando as tradições de sua nação.
Houve um ligeiro intervalo, em que as colunas se desfizeram, durante o qual o cauim foi, então, servido aos dançantes, pelas formosas cunhanrés, entre sorrisos e meiguices.
Cada qual, assim que o recebia, improvisava uma alegre cantiga, bebia-o de um trago e depois, cantando e dançando, agradecia a quem lhe ofertara.
Tempúi, com o corpo cheio de artísticas pinturas, exibiu-se conforme a etiqueta tupinambá. Trazia a sua rica acangatara feita com as rubras penas do guará; sua bela arassoia construída com as largas, crespas, brancas e macias penas da nhandu; seu colar de dentes arrancados às bocas inimigas e o seu sagrado instrumento de cantor. Representava a verdadeira imagem do homem das selvas.
Sua voz, como a de uma araponga mágica, atraía-lhe geral admiração.
Com o sorriso nos lábios e meiguice nas maneiras, Amujacy, graciosa qual lírio entre verbenas, enche a cuia, no morno o saboroso cauim efervescente no bojo de colossal igaçaba e oferece-a, carinhosamente ao mavioso nheengaçara tupinambá, dizendo: -- Toma, bebe. Fui eu uma das que o preparou. Impregnei-o com a minha saliva. Mas, minha boca é asseada como a do mitanga; meus dentes são inteiros como os de um curumy e alvos como o interior da raiz da manioca.
Tupã permita que este licor te seja favorável como a chuva e o sol à manaíba metida no seio da terra.
Tempúi recebeu a cuia, fê-la chegar ato perto dos lábios, e, antes de beber-lhe o conteúdo, cantando e dançando, assim se expressou:
<poesia> 
-- Bebo o licor de Many,
Na taba de Itapoan,
Dado por Amujacy,
Meiga e formosa cunhã.
Bebo cheio da alegria
Que este festejo requer,
Como jamais beberia
Dado por outra mulher.
Para alguém ele é suave,
Faz as delícias da vida;
É como um gorjeio de ave
Numa floresta, escondida,
Mas, para mim, que padeço
Um mal terrível, sem cura,
Cuja origem desconheço,
Ele é veneno, é loucura!
</poesia>
E de um trago, bebeu o cauim da cuia que tinha na mão. Depois, mais eletrizado, cantou:
<poesia>
-- Se neste país, ao menos,
Eu conseguisse encontrar,
Ou remédios ou venenos
Que me pudessem curar!
Eu sou jangada sem leme,
Perdida num mar tremendo.
Eu sou juriti que geme,
Que vive sempre gemendo!
Eu sou gaivota sem par,
Viúva de nascimento.
Sou marinheiro sem mar.
Sou abati sem fermento.
Sou mar sem vento e sem vaga;
Floresta sem sabiá.
Sou, maracá sem piaga, 	
-- Piaga sem maracá,
Sou como a flor sem perfume,
Sem atrativo e sem cor;
Como lareira sem lume?
Ando à procura do amor,
Com o meu sagrado instrumento
Curo a quem padece tédio.
Mas, para meu sofrimento
Não posso encontrar remédio!
Se fujo de quem me quer
Foge de mim quem me agrada:
São caprichos de mulher.
Minha sorte é malfadada.
</poesia>
Novamente, as colunas se organizaram. O maracá outra vez anunciou o canto, e Tempúi, arrogante como o jaguar que acaba de prostrar um tapiretê, assim cantou:
<poesia> 	
<t> (Saudação à Jacy caboassú) </t>
 	
<t> Lua cheia </t>
 
Lá do céu, a lua cheia
Sorridente me seduz.
Não caio naquela teia
De aranha feita de luz.
Furto-me de seus amores,
Desconcertado e medroso.
Como as abelhas, das flores
Cujo mel é venenoso.
Tupã fizera-te, ó lua
Para consorte do sol!
Não sou mão, não quero a tua
Caricia de rouxinol.
Esconde teu belo rosto
Nas cortinas do infinito,
Que não quero daí desgosto
Ao sol divino e bem-dito.
Não me busques! Não me tentes
Com os teus olhares magoados!
Manda teus beijos silentes
Para os lagos encantados.
</poesia>
Outra vez, as colunas se desfizeram. Desta vez, o servido aos cantores foi o saboroso e perfumado mel.
Quando todos estavam com as suas coités convenientemente cheias e prontos e devorar-lhes o conteúdo, Tempúi cantou o seguinte:
<poesia> 	
<t> (Saudação ao mel) </t>
 	
-- Beijo de todas as flores;
Da abelha doce alimento;
Delícia dos trocadores;
Maná para meu sustento,
Por teu sabor e pureza;
Bendito seja teu nome
Pela voz da Natureza;
Na boca de quem tem fome.
Canto a flor que te gerou
A abelha que te acumula;
À mão que te arrebatou
E os lábios de quem te oscula.
</poesia>
E o saboroso mel foi comido, com avidez, de mistura com a amarela e alimentícia tiranema.
Depois da comezaina, cada qual bebeu água, cauim, ou abati e pronto estava para a continuação do folguedo.
Reorganizaram-se as colunas e outras cantigas foram desferidas.
Tempúi, então cantou:
<poesia>
<t> (Saudação à Primavera) <t>
 	
-- Canto a gentil primavera
Com respeito e singeleza,
Onde o amor se abebera
Pela mão da Natureza.
Da vida, neste quartel
De deslumbrante esplendor,
A abelha procura o mel 	
E a virgem procura o amor.
E a flor dá tudo o que tem
No nectário, acumulado.
E a virgem nos dá, também,
Seu doce amor, sublimado.
</poesia>
Sempre que uma cantilena tinha fim, os festeiros debandavam, à moda dos dançantes de quadrilhas, e, somente quando o maracá do cantor que marcava o compasso dava o sinal para novo bailado, é que as colunas se organizavam outra vez.
Como de sempre, iam beber cauim, ou abaty; mas acediam prontamente ao aviso convencionado.
Desta vez o bailado ia ser em honra às flores. E Tempúi, o interprete da Criação, assim cantou:
<poesia>	
-- Canto o lírio da campina
E as madressilvas serranas,
Canto a cândida bonina
E as formosas gitiranas.
Canto as flores cujo mel
É sustento das abelhas.
E canto as que no cergel.
Formam lutadas vermelhas.
Da flor descende a semente,
Da semente um arvoredo.
Nasce o amor inclemente,
De um sorriso ou de um segredo.
</poesia>
Assim que o cantor terminou a saudação, os festeiros voaram a oca das igaçabas e beberam, avidamente, o licor de Many.
Quando os bailantes estavam outra vez em posição adequada, Tataíra pediu a Tempúi que fizesse uma saudação à abelha.
E Tempúi como gorjeia a patativa folha da macaúba, assim cantou:
<poesia>
<t> (Saudação à Abelha) </t>
 
-- Canto a abelha e seu tesouro
De existência tão fagueira.
Não cantarei o besouro
que nunca fez mel, nem cera.
</poesia>
De fato, segundo ele diz, a mulher tem astúcias de demônio; muitas vezes, porém, com o fim de furtar-se à tentação dos sedutores.
Hoje, por exemplo, se não fora o meu modo de refrear uma paixão nascente, ter-lhe-ia caído na armadilha!
Ele tem modos insinuantes e, ao mesmo tempo, tentadores!
Aquela quadra!... -- Uma abelha descuidosa no regaço de uma flor é como a virgem medrosa nos braços de um trovador, é mesmo uma verdadeira lição de mestre, na arte de seduzir!
Inclino-me a crer que o tal Tempúi é apenas um grande namorador disfarçado.
Tem, talvez, o hábito de seduzir e apaixonar cunhanrés incautas e depois partir, para nunca mais voltar, conforme dissera na saudação que nos fez.
Comigo está enganado! Hei de me tornar resistente como itagi, para derribar-lhe o desmedido orgulho.
Sim, Senhor! Rejeitou minha proteção; diz abertamente que nunca pode amar pessoa estranha à sua família, e quer, segundo penso, abocanhar o meu amor!
Está bem enganado!
Nem Tataíra, com toda a sua fama, ainda não teve a ousadia de dizer-me o que aquele tupinambá me dissera, através daquela saudação à virgem.
Disse também que na primavera a abelha procura o mel e a virgem procura o amor.
Isso é natural.
No entanto, ele que não é mais um rapazola, anda também a procurá-lo, apesar de dizer que lhe é insensível.
Assim que me avistou teve logo a ousadia de dizer que vinha, justamente à minha procura.
Credo! Por ventura serei o âmbar que se baseia nas praias do mar, segundo dizem os antigos, ou os muiraquitã que se procura nas faldas das montanhas?
Como está enganado!
Embora pareça formoso qual bacurizeiro florido e tentador como o perfume do arauás: embora sua voz seja atraente como a do arapurú feiticeiro, pouco importa tudo isso: hei de ser vigilante como a nhandu que molha as asas no ribeiro próximo ao ninho, para umedecer-lhe as circunvizinhança, com o fim de evitar que os sabidos de suas entranhas sejam queimados pelo fogo do campo.
No enquanto, desde que o vi, nunca mais meu coração experimentou a tranquilidade de outrora!
Sempre se me afigura que o estrangeiro veio trazido por Anhangá, para perder-me, ou disputar-me a minha nação.
Será que a sorte me reserva a um estrangeiro. Não, isso nunca!
No seio de minha nação há tantos bravos à espera de minha complacência, que, de os ver, sinto-me aborrecida e de aturá-lo já estou farta.
Ele, por sua voz, dissera que em seu país há muitas virgens à espera de sua condescendência.
Que coisa interessante!
Ele foge das que lhe buscam e eu dos que me procuram. Sim, agora recordo-me daquela quadra que cantou, quando saudava o cauim: "Se fujo de quem me quer, foge de mim quem me agrada: São caprichos de mulher, minha sorte é malfadada".
Pelo que parece, se é que ele não é um fino mentiroso, somos vítimas de um sentimento contrário ao amor entre parentes.
Eu sou como o jatobá do vale, que se não curva para contemplar as árvores menores.
Ele é como a montanha que não se inclina para bispar as cercanias.
No enquanto, ele se me afigura a mucunã que se enreda na árvore gigantesca, para fitar-lhe, de perto, a coma esgalhada e verde. 	
Anhangá que o arrebate, antes que meu coração seja preso pelas suas seduções.

***

Em sua oca, Tempúi, deitado, em seu maniá assim pensava:
-- Por ventura, meu coração sempre, liberto como umanasu no mar, quererá mesmo, desta vez, curvar-se à filha de Itapoan?
Não sei expressar a sensação que me domina.
Venho, de longe, à procura da virgem dos guajajaras, tão celebrada entre os cantores como a aurora entre os passarinhos, com o fim de ver se meu coração inflama-se com a luz dos seus olhos e o amor momentaneamente aparece em minha alma como tupáperaba no seio do ibaque tempestuoso.
Se, porém, ela fugisse ao meu amor era meu dever provocar a guerra no seio da sua nação.
Isto já não posso fazer, devido à hospitalidade que me concederam. 	
Sinto, pela Irmã da Lua, certa inclinação, que não sei se será o bruxulear do amor, ou uma crescida dose de respeito e admiração.
Ela, porém, é arisca como a suassu que cautelosamente vai beber, numa fonte, em que o caçador costuma armar ciladas contra os indefesos animais.
E eu, que abato com o meu canto as mais precavidas cunhamucús, por mais que me esmerasse, não pude vergar-lhe o orgulho de rola graciosa e previdente.
Sinto-me deveras, humilhado!
Nunca, em minha vida de cantor, virgem alguma, ouvindo-me, portou-se tão indiferente a meu canto, quanto Amujacy. Somente aquelas palavras, quando me ofereceu o cauim: "Bebe. Fui eu uma das que o preparou, impregnei-o com a minha saliva. Mas minha boca é asseada como a do mitanga; meus dentes são inteiros como os de um curumy e alvos como a raiz da manioca".
"Tupã permita que este licor te seja favorável como o sol e a chuva, à manaíba metida no seio da terra".
Foi deveras uma saudação engenhosa, mas bem poderia ser uma ironia atirada à minha pessoa.
Somente aquelas palavras e nada mais!
Quando minha igara aportou neste país, Amujacy ofereceu-me sua proteção; e eu, que ando à procura da virgem que me faça amar, rejeitei-a.
No enquanto, ela parece querer desempenhar, sobre mim, a missão de quem guarda.
Como está enganada!
Não careço de sua proteção.
De seu amor, como remédio à desolação em que vivo, talvez precise.
Ela, porém, deverá vir sobre mim, como a rama do crauá que se abraça ao tronco e depois sobe até enredar-se nas franças do arvoredo.
Uma declaração direta, que lhe fizesse, seria, para mim, vergonhosa humilhação.
Temo que seu orgulho seja maior que minha vaidade!
Hei de redobrar de seduções, com o fim de atraí-la a meu amor.  
Ela, entre os seus, é tão desejada quanto eu o sou em meu país.
No entanto, caso não seja uma fingida, é mesmo indiferente às demonstrações de amor que se lhe faz.
Somente quando eu dissera que a virgem é mulher e é demônio, foi que pareceu despertar do indiferentismo em que jazia, e fugiu de mim, como a jaó da presença de sanguinário maracajá.
Ah! Ela não sabe de quanto é capaz o cantor dos tupinambás!
Até agora, virgem alguma furtou-se à minha afeição.
Todas me tem sido submissas como a rola incauta à jiboia moambenta.
E ela, qual aranha devoradora de maridos, abrigada em sua teia, aloja-se em seu desmedido capricho de tecólima, prevenida contra os surtos do amor e da paixão!

***

Quando o sol estava no Zenith, na taba de Itapoan quase todos dormiam.
Só Tempúi e Amujacy estavam meditativos.
O sono fugira-lhes dos olhos, como a luz da lâmpada que a pouco e pouco fica sem azeite; a tranquilidade arribara-lhes da mente, como o sossego da revoada em cuja vizinhança encontra-se o gavião.
Quando o sol declinou, depois da sesta, os habitantes da taba de Itapoan começaram a se levantar, e, em grupos, aqui ou ali, faziam comentários em torno da festa.
Tataíra, junto a Itacy, filho de Itapoan, assim dizia:
-- Que tal Itacy achou o cantor tupinambá?
Itacy respondeu:
Gostei muito de sua voz e de sua música; quanto à poesia, achei-a muito exaltada; ele tem modos que entre nós parecem livres; no entanto é de uma inspiração angélica.
Todas as cunhanrés ficaram cativas de suas trovas; mas, segundo parece, Tempúi é como o instrumento que tange: Quando ele deixa de cantar ou musicar, ambos ficam atacados de melancolia.
De duas uma: ou aquele nheengaçara já está farto de amar, ou nunca amou, segundo afirma; senão teria também escolhido uma esposa provisória, para distrair-se, enquanto convivesse conosco.
-- Assim te parece, Itacy; mas aquele espertalhão, penso que quer seduzir a nossa idolatrada Amujacy.
Suas maneiras e suas falas não me enganam.
Coitado dele, continuou Tataíra, em nossa nação há tantos guerreiros dignos, que a têm querido para verdadeira miricó. E ela sempre se retraía a todos, como a sensitiva, quanto é tocada pela asa do rorroxó.
Tempúi talvez esteja perdendo seu tempo precioso.
Eu, pelo menos, a quem por direito ela deveria pertencer há muito que seria já o seu esposo, se a tanto ela não se opusesse.
No entanto, como não sou um seu fervoroso apaixonado, não me ralarei se ela o preferir.
-- Ora Tataíra, minha irmã não pensa bem rejeitando-te, garanto-te, porém, que não escolherá o estrangeiro!
Quantos guerreiros e cantores de nossa nação, desta e de outras tabas, não se têm candidatado a umene para Amujacy.
Diga-me, agora, qual deles lhe alcançou, ao menos, uma promessa?!
-- Não sejas ingênuo, Itacy!
As mulheres têm caprichos, em que se revelam verdadeiras filhas de Anhangá.
Pelo menos, nossa bisavó, uma cunhanré tabajara que coube como esposa da morte a nosso bisavô, quando prisioneiro daquele povo, foi uma dessas.
Consagrou tanta amizade ao esposo que lhe deram, o reservado ao banquete da vingança, que o iludiu e, juntamente, fugiram.
Para escapar ao ultraje de sua taba, pois furtava-se a uma morte honrosa, veio para o meio dos guajajaras.
E, como era valoroso, pelejava bem, encontrou guarida entre os que procurara e alcançou posições de destaque.
A nossa boa Amujacy é bem capaz de se deixar seduzir pelo cantor tupinambá, e obrigar-nos a praticar uma falta contra a lei da hospitalidade.
--Tataíra, disse Itacy, Amujacy está experimentada nas conquistas amorosas que lhe tentam fazer, como o tacape de meu velho pai, nas lutas em que se tem metido.
Esse pobre Tempúi: outra cigarra de primeiras águas, poderá, cantar toda a sua vida, ate estalar pelas costas, ou morrer cantando, mas, em tempo algum, alcançará o amor de minha irmã.
-- Olha Itacy, temo que ele não lhe alcançando o amor enfureça-se contra nós, e obrigue-nos a uma guerra, com o fim de arrebatá-la.
--Tanto melhor, disse Itacy, porque se Tempúi assim proceder, teremos ocasião de cobrir nossos nomes de glória inolvidável.
Em todo o caso, continuou Itacy, espreitemos os dois e, o que de anormal for surgindo, reciprocamente nos iremos revelando.
Conheço muito bem minha irmã; ela vive sempre a zombar de seus admiradores, como a itaipara moteja dos nenúfares floridos que celeremente lhe passam na superfície alvadia.
Devido a sua graciosa figura e a seus modos engenhosos é que meu pai tem sempre quem lhe faça as cupichauas e prepara a tirama. 	
Pobres enamorados, que se deixam escravizar pelo enganoso de minha irmã! Até quando sereis vítimas do Amujacy!?
</div> 	

<div "CAPÍTULO VII">
<t> Ipauassú e Javiré </t>
	
	
Do salso e profundo seio do Atlântico sobressai um pedaço do solo brasileiro como do alabastrino tronco de sedutora virgem, surgem túmidos, rígidos pomos.
Esse miraculoso Éden americano é Ipauassú, de solo atapetado de basta vegetação esmeraldina e sombreado pela formosa e gigantesca pindoba.
Pela pródiga mão da Natureza, Ipauassú é, caprichosamente, regada pelas águas límpidas e dúlcidas de túmidas rabeiras.
Javiré é o seu porto principal: Juniparam a sede de seu governo e tupinambá é o seu povo.
Reina, em todo o ano, no regaço da ilha, sorridente primavera.
Ramos, frutos e flores prendem dos galhos, ao mesmo tempo.

***

Quando o Brasil era ainda "Pindorama": um vasto país selvagem, quando a imaginação de seus legítimos filhos era ainda cheia daquela rústica e primitiva poesia edênica, uma nação, talvez autóctone ocupava totalmente a formosa Ipauassú.
Mas, como desce de um céu sombrio o furacão sobre a terra, veio sobre o aborígene panorâmico, a invasão portuguesa; viciando, escravizando e devastando o vigoroso e crédulo povo do Tupã.
Fez tal qual a torrente impetuosa, que, a começo, acaricia enlodaçando, e depois, traiçoeiramente, derrui o cedro anoso da frondejante riba, em que orgulhoso vicejava.
Assim, fugindo à desumanidade dos lusos, os selvagens, na maioria descendentes dos tupis, penetravam em florestas ínvias, rumo do Norte, onde o invasor ainda não tinha alevantado o estandarte de perfídias e extermínio.
Provocando incêndios e chacinas; vencendo e desbaratando os povos despreocupados, segue a legião tópica em busca de outras terras.
Acalenta a esperança de encontrar um país, bem longe daquele de onde foge, onde não dominasse tão rancoroso inimigo.
Ia, como vai o monólito que se desprende da cumeeira da montanha e rola até encontrar um formidável obstáculo que o detenha ou mesmo até quedar-se no coração da planície.
Alimenta o desejo de encontrar uma posição inexpugnável e desconhecida aos olhos do invasor.
Não foge o tigre descuidoso, quando em suas brenhas é atacado pelo enfurecido rei dos animais.
Assim também fogem nações despreocupadas, quando inopinadamente, eram agredidas pela terrível avalanche.
Foi assim que os primitivos dominadores da Ilha Grande (Ipauassú) cederam seu rico, formoso e fértil país à legião tupinambá, menos bárbara e mais aguerrida.
Organizar uma taba; construir uma oca; fazer uma igara; constituía a principal ocupação daquele povo.
As guerras, as mudanças repentinas, as grandes caçadas, eram determinadas pelos chefes, de acordo com os moçacaras e pajés.
As roças estavam; quase que, exclusivamente, a cargo das mulheres.
Quando o inimigo, a quem chamavam tapuia (fugitivo de suas habitações) fora completamente varrido da ilha e circunvizinhança da mesma, então assentaram, definitivamente, suas tabas no seio de Ipauassú, construíram suas igaras ligeiras e franzinas e fizeram grandes plantações.
Tal aconteceu antes do domínio francês naquela região.
Senhores da ilha, os tupinambás, foram, cada vez mais, tangendo os tapuios para o interior, até ficarem também dominadores, quase que exclusivos, daquela rica e vasta região.
Suas embarcações próprias para guerrear abrigavam-se no rio Mayoué e estavam sempre preparadas para a luta contra os tapuias do interior ou com os perós, caso por ali aparecessem.
A paz é para o poeta o que a guerra é para o batalhador.
O poeta carece da voz dos passarinhos; do sorriso das crianças, do perfume das flores e do amor das donzelas, para que seus versos tenham encantos naturais.
O trabalhador também precisa dos conselhos aguerridos; dos preparativos para a luta, dos tenebrosos reconhecimentos dos preparativos ataques simulados e das batalhas decisivas para que seu nome seja glorificado, segundo as grandezas de suas ações.
Tempúi era poeta e guerreiro ao mesmo tempo.
Como guerreiro não podia continuar a florescer, porque o seu inimigo fugira das proximidades e de seus domínios, e, como poeta, não florescia, porque lhe faltava o amor das donzelas.
Bem que as cunhanrés tupinambás procuraram, a todo custo, atraí-lo a seus amores.
Mas um estranho sentimento afastava-o, completamente, delas, que amorosamente se lhes rendiam.
Era um capricho da sorte, do qual o próprio Tempúi tinha desgosto.
Portanto, como vai o amante da ciência a países estrangeiros, com o fim de aprimorar o seu espírito, ou mesmo levar a outros povos o concurso de sua sabedoria, ele também foi à procura da virgem que inspirasse seus cantos e arrebatasse o amor.
Assim partiu naquela igara franzina e ligeira, acompanhado de destemidos e leais companheiros, na esperança de o amor aparecer em seu coração desolado, como o santelmo nos mastros dos navios vítimas da procela.
E, se tal não conseguisse, levaria a guerra ao seio de países inimigos.
</div> 	
 
<div "CAPÍTULO VIII">
<t> Na Taba de Itapoan </t>
	
Era uma noite enluarada.
O céu estava tranquilo, qual inocente a dormir, no seio maternal.
A terra, envolta num manto de eflúvios siderais, tinha a doce atração de uma virgem noiva, sobre o leito nupcial.
Um raio de lua penetrava pela oca de Itapoan, fazendo que a chama do fogo que lhe crepitava no seio parecesse menos brilhante.
O velho chefe, deitado em sua rede, recordava, talvez, vitórias e derrotas de outrora.
Catuaba, junto ao fogo, cozinhava, ao calor das brasas, brancas e perfumosas carimãs, para oferecê-las ao marido.
Amujacy estava ausente.
Fora à oca de sua boa avó, a sempre alegre Anajatuba muito estimada por seus netos, a quem contava histórias de curupiras, caaporas e ináras.
Desta vez a neta pedira-lhe que contasse aquela moranduba do homem filho de ináras, com tresloucado pescador.
E a velha sempre solícita, assim começou:

Lenda do lago do Assú

-- Era uma vez, dizem, uma cunhanré tabajara, muito formosa, cujo nome era Jaçanã.
Vivia ela numa taba situada quase onde começa o nosso rio.
Seu pai, um valoroso chefe, tinha muitas roças, onde a manioca, o muduby, o inhame e a batata doce cresciam sem maior cuidado.
A caça era abundante e o peixe sem conta, naquele maravilhoso lugar.
Mas, quando estavam gozando daquela doce tranquilidade, apareceu na oca do chefe um grande cantor da mesma nação.
Chamava-se ele, se não me engano, Surubiú, e vinha de longe.
Sua taba ficava, conforme ouvi dizer, no lugar onde o nosso rio confunde-se com o mar.
O tal cantor foi muito bem recebido.
Ofereceram-lhe festas e presidiu a muitas folganças.
Sua voz superava a dos outros cantores como a sucupira colossal assoma sobre as outras árvores do plantio.
Deram-lhe muitos presentes.
A graciosa Jaçanã, inexperiente, coitada! Rendeu-se logo às seduções, do tal cantor.
Surubiú, segundo diziam os antigos, tinha entendimento com o demônio das águas e sabia, perfeitamente arrebatar o coração das virgens mais formosas.
E depois, quando as infelizes estavam bem presas às suas seduções partia para muito longe, velando-lhes o amor, e, muitas vezes, deixando-lhes a tacapora partida.
Eis o que aconteceu a Jaçanã:
Foi vítima das muambas de Surubiú.
O amor cresceu no coração da filha de Tucuman, assim chamava-se o pai Jaçanã, como o tajã nasce da terra nas primeiras águas.
E ele, o mau Surubiú, sorvia aquela ardente paixão como no nheemongaba o moçacara bebe o fumo do petima.      
Embriagava-se naquele ardente amor, como a borboleta, com o perfume da flor do maracujá.
Ó! Tupã! Creio que és bom, mas consentes, muitas vezes, que Anhangá triunfe sobre os mortais, reduzindo a virtude à miséria extrema. 

***

E a pobre Jaçanã foi direto às seduções do mísero cantor, como a rola incauta à boca da jiboia magnética.
Caiu, como o ipê fendido pelo raio.
Finalmente, casaram-se!	
Mas aquilo não foi um casamento, foi apenas uma união filha dos desejos de um aventureiro libidinoso.
O tal cantor dizia querer residir com os de Jaçanã.
O despontar do verão não convida as aves arribadas a seus pátrios ninhos?
Pois a Surubiú também convidou.
Sentiu saudades de sua taba e dos seus parentes; desejou voltar.
Jaçanã, que o amava como a floresta aos beijos do sol nascente, concordou em acompanhá-lo.
E ele, que fingia estimá-la bastante, consentiu que o acompanhasse.
Partiram, portanto.
Desceram pelo nosso rio abaixo e foram até certo lugar onde as águas são mansas, como as de um lago; e o leito é sinuoso, como o rastro de secular jamamoia.
Ali, a noite veio sobre eles, como desce, um bando de rolas forasteiras sobre um arrozal maduro.
Portaram a igara e procuraram, num ponto mais elevado da margem, lugar para dormida.
A regular distância da riba, que fica à direita de quem desce, elevava-se um outeiro, naquela hora, oculto pela escuridão da noite.
E pouco abaixo do porto que haviam escolhido ficava uma embocadura de igarapé.
Mas como estavam em noite de verão, acomodaram-se ali à ribanceira ainda umedecida.
Quando petuna estava bem aninhada sobre a terra, Jacy rasgou o véu que a escondia por detrás do ibaque levantino e veio, tão formosa, como a virgem emplumada de branco para receber umene.  
Ao longe, com a luz da lua, o rio parecia uma serpente luminosa, em movimentos cadenciados.
Quando marido e mulher estavam bem agasalhados, notaram que no outeiro próximo havia luz.
E, quando a lua iluminou bem a terra, ouviram um canto bárbaro, que parecia indicar contentamento.
Temerosos de algum inimigo, esconderam a igara entre as ninfeáceas que cobrem, em vários pontos toda a face do rio e ocultaram-se entre a basta vegetação da margem.
Mais tarde o céu se tornou um pouco nublado e os do outeiro, tomando achas incendiadas, desceram ao rio com o fim de fachear o peixe que dormia.
O casal por mais que se ocultasse, foi denunciado pela igara presa aos mururús.
Os pescadores eram cinco.
Depois de haverem encontrado a pequena embarcação, deram caçada a seus ocupantes.
Eram inimigos.
Surubiú resolveu vender, bem caro, a sua existência.
Com suas taquaras afiadas abateu dois dos pescadores.
Com o seu tacape adestrado à luta esmigalhou o crânio de um terceiro, quando foi descoberto.
E, no momento em que lutava com o quarto, o quinto fugia, arrebatando-lhe a esposa, trêmula de pavor; infeliz Jaçanã!
Surubiú abateu ainda o quarto inimigo e	depois cansado como um gavião que vence um bando de aracauans, deitou-se no chão úmido e frio.
Quando descansou alguns instantes, lançou-se ao rio, como fim de furtar-se à perseguição dos que já vinham à sua procura.
Mergulhou por debaixo do mururú menos denso e escondeu-se num lugar onde a água estava tranquila e a vegetação aquática sem indícios de violação.
A turba sedenta de sangue chegou à margem.
Procurou-o como se ele fosse um réptil que pica um ente querido, e nada de Surubiú!
O dia veio.
Os vingadores da afronta sofrida, desenganados, voltaram às suas habitações.
Surubiú, assim que o deixaram de procurar, viu-se na dura contingência de partir a mergulho, rio abaixo, deixando a esposa entre os inimigos, para salvar a vida.
Desceu, até chegar a um lugar em que o rio novamente espraia e é menos sinuoso.
Ali ficou, alguns minutos, desfalecido e faminto, como um jacaré que desperta de seu sono de hibernação.
Pensamentos de ódio e vingança surgiam-lhe na mente como as águas lodacentas das grotas, à margens dos caudalosos rios.
Sim, havia de vingar-se.
Havia de dar uma lição de mestre àquela taba.
Estava ainda tão longe dos seus!
Como poderia levar avante seus projetos?
Veio-lhe à mente seu poder sobrenatural, e resolveu recorrer a sua mãe, uiara de Arapapá.
Fez a pajelança do costume e logo viu-se no reino do fundo, entre seres de estupenda conformação, que, humildes como escravos de um bom senhor, puseram-se a seu dispor.
Um deles disse-lhe:
Eu sou teu irmão.
Nossa mãe, a uiara de Arapapá, mandou que te vigiasse sempre, nesta tua aventurosa viagem, e eu, ora pequenino como simples caranbanja, ora grande como agora me vês, seguia-te vigiando-te, guardando-te.
Não pude fazer nada por ti, naquele porto, porque tua esposa trazia no pescoço um dente de jacaré tinga, preparado pelo pajé de sua taba, o qual seria capaz de quebrar meu encanto, e nos perder a nós dois.
Agora, porém, que ninguém nos pode molestar, convidemos os habitantes das profundezas e tomemos, com eles, a desforra que o caso requer.
Assim, mandaram um portador a uiara de Arapapá, pedindo-lhe auxílio àquela projetada vingança.
Logo no outro dia, o portador voltou, com a maré, trazendo um exército de diabólicos habitantes das águas profundas, com quem tentaram dar cabo à taba maldita.
Aguardaram o momento em que a maré estava no auge e foram derruindo a riba, rumo à taba inimiga.
Começaram naquele ponto em que havia um sangrador de grota.
Quando a maré baixava, todos desciam às profundezas dos remansos.
Mas, com a nova maré, voltavam novamente à labuta, galopando em seus infernais corcéis.
Dentro de alguns dias o canal, rumo da taba mal-aventurada, estava pronto.
Faltava somente provocar o desabamento da colina.
Os da taba maldita, medrosos qual pecari que tenta fugir da toca, em que se escondeu do cão do caçador, quando é fumigado por quem caça, procuravam evadir-se daquele lugar desventurado.
Mas, se a tanto se aventuravam, sobrevinha-lhes um desânimo aterrador, porque viam, dentre as selvas, caaporas e curupiras apontando-lhes para o seio das águas, não os deixando, portanto, passar.
O pajé, quando tentava quebrar o encanto das águas, morrera, repentinamente, ferido pelo esporão de desconhecido peixe.
O demônio das águas estava de aliança com o das terras.
Medonho Ipupiára presidia o solapamento da infeliz taba.
E Jurupari, com seus acólitos, obrigava os habitantes daquela taba a permanecerem inativos.
Foi na maré maior do ano, dizem, quando os monstros do mar penetram nas embocaduras dos rios, que se realizou o desabamento da colina, em que demorava a taba malfadada.
Um novo aluvião de batalhadores fora mandado para esse fim, pela iuara de Arapapá. E a pobre colina ia ser derruída, a golpes ciclópicos, como um mambira abate, com suas garras, uma casa de cupins.
Mas, para o lugar, outrora tão formoso, mais rapidamente ficasse reduzido a um lago profundo, era preciso que alguém fosse oferecido, em vida, ao terrível Anhangá, segundo instruções da iuara de Arapapá.
A colina estava metida num círculo de águas lodacentas.
Serviço de um dia.
Os habitantes da mal-aventurada taba, num dado momento, puderam correr na direção das brenhas, mas caíam, logo no fosso e morriam afogados, de um modo misterioso. Só Jaçanã, a pedido do marido, escapara àquela terrível vingança.
Surubiú, porém, arrebatou-lhe do pescoço o dente de jacaré tinga e pô-lo ao rio.
A pobre Jaçanã, já sem o seu amuleto, ficou, logo, malvista pelos infernais amigos de seu feiticeiro marido.
Era preciso oferecer-se alguém ao deus do mal, para que a obra de destruição ficasse completa.
Ou Surubiú ou Jaçanã a Anhangá deveria, logo, pertencer.
Então os infernais habitantes das profundezas preferiram a esposa ao marido.
Surubiú concordou e a pobre e infeliz Jaçanã foi, rapidamente, arrebatada por Anhangá, para completa vingança de seu impiedoso marido!
Minutos depois, quando Surubiú e seus amigos infernais dali se haviam retirado, um sísmico abalo precipitou, nas entranhas da terra, a formosa colina.
Com o concurso das águas do rio, levadas pelo canal previamente aberto, formou-se no lugar daquela colina, um lago profundo e misterioso.
Anhangá contam, converteu, a infeliz Jaçanã em natiry do lago, e ela permanece ali, há muitos séculos, vigiando-o contra a ação danosa dos maus pescadores, que matam o Peixe pescado a pauladas, como se fosse cobra.
Surubiú, dizem, foi quem contou essa história a seu velho Pai, que a transmitiu a outros.
E quando, uma vez ainda, Surubiú foi ao reino do fundo, em visita à sua mãe, aquela não o deixou mais voltar à vida dos homens, ficando lá, para sempre, o mau esposo que deu a consorte ao espírito do mal.
Quando, porém, quer visitar a esposa, espera o momento em que a maré enche e vem, galopando em, monstruoso ipupiara produzindo, com o seu infernal corcel, nos líquidos abismos, o fenômeno a que chamam pororoca.
E naquele igapopeporanga misterioso e profundo, em noites de luar, vê-se, boiando à superfície das águas, a igara de Surubiú, já convertida em ilha flutuante; e um enorme jaburuna à margem da mesma, contemplando a face do lago.
Dizem que é a infeliz Jaçanã, que, por consentimento de seu diabólico senhor deixa as entranhas do lago e vem gozar alguns momentos da brisa lacustre, com aquela forma de grande pernalta ribeirinho.
Se tudo isso é verdade, minha filha, é o que não te posso garantir.

***

-- Na verdade, querida avó, o tal Surubiú foi muito mau! disse Amujacy.
Preferiu entregar a esposa ao espírito do mal, contanto que tirasse uma vingança monstruosa, sobre os que tanto odiava.
Coitadinha da pobre Jaçanã!
Como não levará uma existência tristonha!
Naturalmente Anhangá exerce, sobre a mísera desventurada, um poder descomunal.
Achei bom que o tal Surubiú nunca mais voltasse à vida humana, senão continuaria enganando descuidosas cunhantens. Querida avó, atualmente, também está, entre nós, um cantor estrangeiro, apesar de falar, quase que, a nossa língua.
Como não ignora, minha avó, tenho sabido furtar-me à sedução de todos os que me tentam arrebatar o amor, no entanto esse tal de Tempúi exerce, sobre mim, um poder despótico.
Por ventura, querida avó, será ele, também, algum filho de iuára com muambento pescador?
Meu coração, que tem sabido furtar-se à sedução de tantos jovens guerreiros e cantores, sente-se inclinado a esse, como a flor que naturalmente volta-se para o lado de onde nasce o sol.
Se tento furtar-me a seu afeto, sinto, em mim, consternação tamanha, como a de quem perde um ente idolatrado.
Se, porém, penso em render-me à sua afeição, experimento alegria igual a de quem descobre uma jazida de pedras verdes.
Ah! querida avó! Por ventura estarei, mesmo, predestinada a pertencer a esse Tempúi; a deixar meus parentes e a existência calma e feliz em que vivo; a perder a tranquilidade num país estranho e mesmo a própria vida!?
Manitós de Tupã; ang de nossos tamóins, protejam-me contra as investidas daquele que se diz emissário de Rudá, que tanto pode vir da parte do deus do amor; para arrebatar meu coração e pô-lo entre os símbolos de suas vitórias, como poderá ter vinda da parte de Anhangá, com o fim de abocanhar minha alma e colocá-la, no país das sombras, à guarda de Oncha terrível e vingativa!
-- Querida neta, disse Anajatuba, se é que o teu coração inclina-se ao nheengaçara tupinambá como a juçareira debruça-se e beija, mesmo, a face da lagoa, quando é alvejada pelo vento, sê cautelosa como o bem-te-vi que vela junto ou sobre seu ninho, guardando-o, ora contra o impiedoso urumará, consumado ladrão de ovos, ora contra o preguiçoso concriz, arrojado ladrão de ninhos.
Tempúi é mesmo um ser fora do comum; seus dotes tornam-no quase divino, ou infernal.
Prometo-te estudar-lhe as manhas, feitos e palavras.
Ele não me conhece; tornar-me-ei, como que a sua sombra; procurarei sondá-lo, como o caçador furtivo, a floresta, onde vivem raros animais.
-- Sim, querida avó, é bom vigiá-lo, no entanto, nada me sinto tranquila, quando estou perto daquele fogoso cantor.
Fico qual flor cujo perfume está sendo haurido pelas borboletas azuis, ou como o favo de mel que as formigas disputam às abelhas.
</div> 	

<div "CAPÍTULO IX">
<t> Na oca de Itapoan </t>
	
Catuaba, pela manhã fora tirar puba.
À tardinha, porém, regressara e estava, então preparando a refeição da noite. Sobre o jirau, feito de pati, depusera a massa em urus de pindoba, depois de havê-la espremido no tapiti.
Em seguida, ia, com a mesma, preparando carimãs que cosia a fogo brando.
Num dado momento, quando Itapoan trincava um pedaço de saboroso petisco, Catuaba perguntou-lhe.
-- Que veio fazer aqui o estrangeiro?
Itapoan respondeu:
-- A lei da hospitalidade manda que não se pergunte de onde veio o visitante; que se não indague à procura de que anda; que se o respeite, e se lhe trate muito bem. Isso nos veio de nossos antepassados, portanto, não nos é lícito indagar do que pretende.
Mas, como o fruto maduro do anauaz revela-se pelo seu perfume, antes que seja divulgado, ele também há de se revelar pelas suas ações, sem que se lhe pergunte o que deseja e com que fim veio.
Ele nos disse que é cantor, e de tanto já deu provas. Disse também que não tem podido amar a ninguém, como se amam duas rolas formando um par, e é isso, justamente, o que, talvez, não possa provar.
É verdade que não aceitou a aguaçaba que lhe oferecemos, como os seus.
Isso talvez seja uma astúcia de maracajá que rejeita cindira, na esperança de alcançar a pecaçu.
Tenho roças a cuidar. Ele é bem moço, robusto e talvez queira ajudar-me nessa empresa, como tantos outros me têm auxiliado.
Amujacy é formosa, como um rebento de taquara; parece flexível, como o uirapara de curumy; no entanto, é rija, em seu procedimento, como um bloco de granito. Ela atrai-lo-á, e depois, quando Tempúi julgar-se preferido, então nossa filha, sem melindrá-lo, mostrar-se-á indiferente à sua paixão.
Nesse tempo, talvez, minha roça nova já esteja preparada, a ele se poderá ir embora, com a sua flauta e sua arte, quem sabe levando saudades, mas farto de nos servir e nós, repletos de aturá-lo.
-- Meu querido Itapoan, disse Catuaba; eu também fui como Amujacy; quantos jovens cantores e guerreiros não se renderam à minha graça!
E eu, sempre indiferente a todos, como a cascatinha, às cantigas do sabiá.
E tu, e tu somente, com a tua simplicidade no trato, nobreza nos gestos e nos atos, não me atraíste, como o remanso, a flor de ingarana, que se desprende do galho e desce, boiando à face da corrente?
Nossa querida filha, forçosamente tem de escolher imene, isso depende de simpatias, e quem sabe se esse Tempúi não lhe cairá na graça?!  	
Tu, também não me foste buscar tão longe daqui?
Verdade é que não eras estrangeiro, eras, porém, desconhecido.   	
-- Sim; minha velha Catuaba, disse Itapoan, Amujacy é esperta, como um ratinho do campo; ela saberá obter mais uma vitória, sobre esse novo pretendente, sem sacrificar sua liberdade. E eu terei mais um servo voluntário, ou muitos; que me adularão no serviço da lavoura.
Vejamos, disse Catuaba:
-- Tu, sempre, com esta mania de roças feitas pelos infelizes que se enganam com as maneiras graciosas de nossa filha, e eu, sempre, a temer pelo futuro de tão caprichosa criatura.
Tempúi tem todas as qualidades que solavancam os corações empedernidos; é jovem; formoso; nobre de feitos e de família, segundo parece; é delicado; canta e dança bem; não anda fazendo cumprimentos a quem não lhe possa oferecer puro amor...
Temo que Amujacy caía rendida a tantos dotes, como abelha sedenta, no mel de flor venenosa.
-- Pelo que vejo minha Catuaba também está gostando, de tal cantor!  
Tece-lhe tantos elogios, que me mete ciúmes.
Catuaba, xemiricá, tu sempre tens dessas precauções; certo é, porém, que teus conceitos sempre saem vazios, como a fonte que o sol de cuaraciara estanca e seca depois.
</div> 	

<div "CAPÍTULO X">
	
Coema era uma formosa cunhanten da taba de Itapoan, filha de Ariranha, velho moçacara irmão do chefe da taba.
Ela, muito mais que outra virgem qualquer, estava apaixonada pelo garboso e admirável cantor tupinambá.
Para lhe ser agradável, procurou saber que aves cuja plumagem preferia e que ornato mais apreciava.
E depois que soube, foi ligeira como anagé que busca a pecaçu, à procura das penas preferidas.
Com sua taquara franzina e mortífera abatia as aves necessárias à composição de sua obra.
Quando estava munida de cabedal bastante, voltou à taba e deu começo à rica acangatara que pretendia oferecer ao cantor estrangeiro.
Amujacy, sua prima e amiga íntima, notou a sofreguidão com que trabalhava e, com a maior naturalidade, perguntou-lhe para quem iria oferecê-la.
-- O nome da pessoa a quem dar-lhe-ei deve permanecer em segredo, até que me seja possível revelá-lo triunfantemente; ele baila em minha imaginação, como a flor do maracujá se balança, pendente do ramo, aos adejos da brisa; ele tem guarida em meu peito, como a estrela da manhã, no ibaque levantino: ele enche e dulcifica minha alma, qual mel puríssimo, os favos de artística e provida colmeia.
-- Querida Coema; disse Amujacy, tu és feliz como a rola que tece o ninho, em que vai depositar o pomo que sente desenvolver-se em suas entranhas.
Como te invejo querida prima!
Se como tu, também tivesse em a quem oferecer um cajanitar, um coração amoroso e uma alma dulçosa, quanto feliz seria! 
Sou, porém, como a lua, eterna noiva do sol.
Minha alma está vazia, como um céu sem luar; o amor dorme em meu coração, como o germe no ovo abandonado, e eu sou como a flor do mucunã: tão galante na cor, tão garbosa na estrutura, mas, completamente, balda de perfume.
Lei invisível parece reger meu destino.
Cada aspiração minha, passa, ligeira, como a flor do igapó, no dorso dos itus; e vai, para nunca mais voltar!
Meu pai guarda-me, como se eu fosse o arco com que o armaram morubixaba desta taba e tem-me, como joia como que se ornamenta, para mais realçar perante nossos vizinhos.
Eu bem compreendo tudo isso!
No entanto, não sou feliz!
Tu, querida Coema, tens direito a ser feliz, assim o destino o quer, enquanto eu tenho por dever fazer a felicidade de meu pai.
-- Quando a semente da mucunã recebe a umidade necessária para germinar, mesmo que esteja sob a pressão de uma laje, fende-a e vem à superfície.
Teu coração é a semente da mucunã; teu indiferentismo sobre amores é laje que pesa sobre ti mesma; mas, quando semente da mucunã, teu amor quebrará todos os liames que o prendem a esta existência de criança e assomará, liberto, como os ramos daquela graciosa trepadeira.
Querida prima, de qualquer maneira o tempo passa e o melhor é o que reservamos ao prazer; portanto, se queres vamos cantar a canção da seriema.
-- Então queres mesmo cantar a canção da seriema? Disse  Amujacy.
-- Quero sim, respondeu Coema.
-- Então cantemo-la.
E cantaram assim:

<poesia>

Quero ver
Quero ver,
Quero ver,
Seriema,
A gritar,
A cantar,
A dançar,
No caminho,
Que vai
Ao ninho,
Cantai
Seriema.
Seriema,
Seriema,
Cantai
Seriema. 
Que vai
Ao ninho.
Gritai
Seriema!
Seriema,
Seriema,
Gritai
Seriema!
Que vai
Ao ninho,
Dançai
Seriema.
Seriema,
Seriema,
Dançai
Seriema.
</poesia>

Depois que terminaram a canção, Amujacy falou assim:
-- Querida Coema, quase que não me recordava mais da canção da seriema.
-- Sozinha, jamais, cantá-la-ia.
Como é simples nossa cantilena, comparando-se com a do nheengaçara tupinambá!
É verdade: já que houve ocasião de te falar a respeito dele, diga-me, que julgas do tal cantor?
Querida Amujacy, quase que não te posso dizer o juízo que faço de Tempúi.
Sei apenas que é formoso; como juçareira nova: que canta bem, como concriz adulto e que agrada tanto, como velho petima.
Desejaria vê-lo a cada momento, para beber-lhe as falas, adivinhar-lhe os pensamentos e admirar-lhe a formosura e maestria.
Considerar-me-ia a mais feliz das cunhantens, se ele me escolhesse para sua verdadeira esposa.
-- Quem sabe, querida prima, disse Amujacy, talvez que tu, a filha de Ariranha moçacara de tanto prestígio; a irmã de Tataíra guerreiro de tão laureado nome, venha a ser, mesmo, a esposa de Tempúi.
De minha parte, garanto-te que lhe sou completamente indiferente.
Portanto, poderás cultivar este teu amor que nasce, como se ele fosse um presente da fortuna.
Agora adivinho para quem estás preparando este belo canitar, de penas multicores. Vais oferecê-lo ao cantor tupinambá, não é assim?
Pobre Pirapebe! E ele que te ama tanto, sabendo que teu amor se inclina para outro, como a flor, para o lado que corre a viração, certamente ficará tão magoado como a rola cujo par arrulha ao lado de outra rola!	
-- Querida prima, disse Coema, Pirapebe é bom; mas é frio, como a manioca, na ipueira sombria, posta para pubar.
E eu desejo um marido que seja valente, como um jaguaruna da serra; alegre, como um japy da gameleira e formoso, como o suassu da campina.
Só Tempúi possui todas essas qualidades, dada a sua ousadia; portanto ele é o que me convém.
-- Coema, disse Amujacy, e se ele desdenhar de teu amor, que farás para atraí-lo?
-- Empregarei todas as seduções imagináveis, se não vencê-lo, recorrerei aos encantos do pajé, e, finalmente à vingança, do jurity-pepena, se tudo for baldado.
Ao jurity-pepena!
Que horror, querida prima!
Não faças tal, bem sabes que é esse o maior mal que se pode fazer a uma pessoa.
-- Se ele não me amar e também não amar a ninguém, não recorrerei; mas se me desprezar, amando outra, juro-te; por Anhangé, recorrerei ao jurity-pepena.
-- Então não sabes, querida prima, que o cantor tupinambá está em nossa taba sob minha proteção, e que não quero que lhe aconteça mal algum, entre nós?
-- De tanto não sabia, agora, porém, estou fluente da proteção, que lhe despensas.
Amanhã terá em ti mesma a amante que procura.
-- Coema, não sejas má!
Em mim ele tem, de fato a protetora e em ti poderá ter a amante nobre que procura.
-- E porque não poderá ter como protetora e amante a filha do chefe?
-- Por quê? respondeu Amujacy; porque meu amor não é como leque de palmeira, que se movimenta com os primeiros afagos da brisa!
Porque meu coração não é como um pequeno lago, que transborda com as primeiras chuvas!
Porque minha alma não é como a fumaça que se derrama, num ambiente qualquer, à mercê da viração!
-- Querida prima, disse Coema, tudo tem a sua época.
-- Quando o murity nasce no alagadiço, leva longos anos a crescer, mas, finalmente, florifica; e está sempre carregado ou de flores ou de frutos.
Assim vai acontecer contigo.
Quando teu amor começar a florir, florará tanto, e sempre, como acontece ao murity do alagadiço.
Agora retiro, em parte, a minha projetada vingança.
Se Tempúi te preferir, e não a mim, não recorrerei ao jurity-pepena, considerando-te e não a ele.
E embora, meu coração estale de amor, como o fruto maduro do angico, com os ardores do sol, e embora meu amor estanque, como a fonte bebida pela canícula, saberei conter-me para tua felicidade.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XI">
<t> Uma terrível batalha </t>

Tempúi fora à caça, em companhia de Itacy e Tataíra. Dirigiram-se para certa lagoa sombreada, que fica à esquerda de quem desce, e cerca de meia légua da margem do rio do Guajaú.
Chamava-se: Lagoa do Giquiry.
Subiram cada qual numa árvore à espera do tiririca, do suassu e mesmo do tapir.
Estavam armados de flechas farpadas e tangapema rígida, de pesada aroeira.
Tinham levado, como alimento, algum cará assado, alguma carne de moquém e pouca tiranema.
Quando o dia declinava e a tarde era patente, eles já lá estavam, à margem da lagoa, a cavaleiro em árvores majestosas.
Esperavam que o dia morresse, para fazerem alguma preza.
Conservavam-se no mais absoluto silêncio.
Na face tranquila da lagoa, urumans e ererés perpassavam silenciosamente.
Entre os ramos, que se penduram das árvores, a passarada, num gorjeio, qual garrulice de crianças travessas, entoava arrebatadora cantilena.
A Natureza toda, um diamante sem jaça engastado na Divina Misericórdia, rejubilava.
Vem do lado da floresta, um rugido singular, proveniente da aproximação do feroz tiririca.
O bando mais e mais se aproxima convicto de que se poderia recrear impunemente, à margem da lagoa; já espojando-se sobre a lama, já alimentando-se com os tenros vegetais que da terra surgem e com os pequenos seres que as águas criam.
E vinha quebrando, entre os marfinados molares, o endurecido Tucumán maduro.
Cada caçador, com a sua flecha colocada sobre a embira do arco bastante tenso, aguardava o momento de entesá-lo e ferir a cobiçada presa.
A vara estava a um tiro de bodoque, e o momento para o ataque era oportuno.
Então cada caçador disparou seu arco, no afã de mandar uma taquara mortífera ao tiririca que vinha.
Nisto, Itacy perde o equilíbrio e cai, redondamente, muito próximo dos vorazes tiriricas.
Prestes, o bando ia, se precipitar sobre ele no intuito de devorá-lo.
Itacy, tonto da queda, magoado e sem força, seria incapaz de defender-se.
Iria ser devorado, infalivelmente, pelos ferocíssimos queixados.
Mas Tempúi, que se achava numa árvore próxima àquela de onde Itacy caíra, com a rapidez do coatyparú desce, corre para o lugar em que o caçador ainda permanecia combalido, e, antes que seu corpo fosse, ao menos de leve, ferido pelos truculentos tiriricas, protege-o, cobrindo-o com a sua pessoa, ficando Itacy como quem se arrima sob um pavilhão desfraldado.  
Um momento ainda e o infeliz Itacy teria servido de pasto a tão ferozes animais, teria sido retalhado a golpes dos cortantes caninos dos tiriricas, como o lenhador corpulento espatifa, com o seu machado, o velho angico.
O bando, porém, já circula Tempúi e Itacy, com a fúria e ferocidade que lhe é peculiar.
Tempúi, atirando para longe tudo o que lhe poderia servir de estorvo naquela luta desigual, empunha a sua zarabatana e desfere golpes em todas as direções; derrubando, matando, em pouco tempo, alguns dos que lhe enfrentavam; sujeitando-se, embora, a ser devorado a qualquer momento.
O perigo era maior que de costume, porque defendia, ao mesmo tempo, sua pessoa e o corpo do amigo desmaiado, ainda.
Mas, como a sensitiva se reanima, assim que cessa a causa que a fez murchar, Itacy também recobrou logo as suas forças, ergueu-se, e, cambaleando, ainda, empunhou também a sua zarabatana, que estava presa a seu punho, e, juntamente com Tempúi, fez nos tiriricas uma verdadeira derrubada.
Tataíra, que estava mais distante, não viu a cena ocorrida entre os dois, mas ouvindo os brados de combate proclamados por Tempúi, e o rugido aterrador dos tiriricas enfurecidos, desceu da árvore e veio, logo, rumo da refrega iniciada.
Nesse instante, os lutadores, que já haviam conseguido dar costas a um tronco de árvore gigantesca, defendiam-se com heroísmo e bravura.
A presença de Tataíra, devido ao doido afã com que lutavam, a todos passou despercebida.
Mas, para atrair sobre si, também, o desespero da avalanche sanguinária; para ver se conseguia uma trégua em prol dos amigos que lutavam, e mesmo para alentá-los, proclamou o seu brado de combate.
De fato, a vara ansiosa de prostrar todos os que lhe faziam guerra, desviou-se algo, para o lado de onde novamente a procuravam.
Itacy e Tempúi, muito cansados, mas menos oprimidos, conseguiram alguma trégua.
O bando oferecia, agora, rígido combate a Tataíra, que tinha as costas bem resguardadas e fazia frente à vara agressora.
Tempúi e Itacy, menos cansados, quase desoprimidos já poderiam ir dando costas até encontrar um lugar elevado, ou um tronco de árvore, uma sapopema ou um galho pendente, em que se pudessem abrigar.
Mas um dever de honra detinha-os ali.
Deveriam lutar até morrer ou vencer a fúria dos queixadas, visto que o destemido Tataíra, que voluntariamente viera socorrê-los, não poderia vencer, sozinho, a tão sanguinário inimigo.
Assim, em vez de fugirem à luta, proclamaram-na em altos brados.
Tataíra era um torrão de açúcar disputado por centenas de formigas; estava em posição de onde poderia, de um salto pôr-se a salvo.
Então gritou a seus companheiros.
-- Eu estou em condições de me livrar das tiriricas, fiz isto simplesmente para desoprimir-vos, e eles foram solícitos a meu chamado.
Vejam se podem subir nalguma árvore, que farei o mesmo, assim que o tenham feito.
-- Não Tataíra, sobe tu primeiro, que subiremos depois, disse Tempúi.
Tataíra continuava desferindo golpes sobre golpes, como se fora o raio revoltado contra o lenho da sucupira.
Itacy e Tempúi, não procuravam abrigo algum, conforme a boa razão aconselhava, e foram em direção do lugar em que Tataíra pelejava.
Entre altos brados, procuravam prostrar o tiririca com a sabaratana, ou mesmo amedrontá-lo com os hurras de combate.
Tataíra teimava em não se abrigar primeiro que seus companheiros.
Neste momento, porém, a aguda e cortante preza de um tiririca fere-lhe a perna direita, ligeiramente, e ele, mais do que nunca, desenvolve a sua bravura.
Agora os três, cada qual junto a gigantesco tronco, oferecem combate ao temível inimigo, já não com o fim de salvar vidas, mas, principalmente com o de salvaguardar honras adquiridas.
Tataíra ferido, como estava, ainda mais aguçava a fúria do tiririca, mas teimava em não se abrigar primeiro.
Luta gloriosa, para o selvagem, era aquela, em que cada qual se expunha a morrer devorado pelo queixada, como a riba alterosa pela torrente que a tudo derrui.
Tataíra poderia, de um salto apenas, pôr-se a salvo de tão sanguinolento combate.
Salvaria a vida, mas a honra, a fama de guerreiro invencível, onde ficaria?
Fez-se mister que Tempúi e Itacy correndo os maiores perigos fossem até onde ele pelejava, constituindo, assim, uma trindade destruidora.
A vara desenganada, que não venceria inimigo tão fora do comum, pouco a pouco afastou-se, até que abandonou completamente, o campo de peleja, deixando mais de cinquenta mortos a golpes de zarabatana, não só ao pé dos combatentes, como nas circunvizinhanças da luta.
Ninguém subiu a árvore alguma.
Honra e fama estavam incólumes e vidas, fora de perigo.
Os guerreiros entreolharam-se, como fazem os píncaros das montanhas nevadas, quando, na primeira, desfaz-se a serração que os anuvia; sentindo-se, cada qual, bem senhor de sua fama adquirida.
Tataíra então falou:
-- Entre nós, eu sou qual sucuri que disputa com a boiuna a mesma preza. Reconheço-vos muito mais fortes e muito mais valorosos.
Tempúi é como a chuva que desce, no momento em que o incêndio vai devorar uma taba populosa.
Itacy é como o rochedo que o raio quis espatifar e apenas conseguiu alisar a superfície.
-- E, tu, disse Tempúi, e tu, meu nobre Tataíra, és como o alimento que dá vida aos fortes: como a luz que aclara os bravos e como a força que impulsiona os heróis.
Sem ti, a nossa façanha teria tido um fim, talvez, desastroso.
És tu, a quem devemos tão disputada vitória.
Portanto, saúdo-te em nome de meu pai, do velho Japiassu, morubixaba de Juniparam e chefe supremo dos chefes, da Ilha Grande.
--Tempúi, disse Itacy, fizeste comigo qual irmão generoso que, junto a outro irmão, gestou no seio maternal.
Eu quero ser o teu maior amigo; considero-te meu irmão verdadeiro, e tudo farei pela tua felicidade.
Ser-te-ei grato, como o caçador perdido em noite caliginosa, ao sol que se levanta.
Amar-te-ei tanto, como o viandante do deserto, a água que lhe mata a sede ardente, e a sombra que lhe oferece agasalho.
Admirar-te-ei sempre, como a lua, de sua figura retratada no espelho das águas.

***
Tataíra foi curado pelos companheiros, com a seiva taninosa! que se extrai do cipó de escada.
Desfeita a fadiga, voltaram à taba.
Quando terminaram a luta, o dia ia, também, morrendo, mas, ao clarão da lua, regressaram.
Nenhuma carga levaram.
Depois de uma hora de viagem, chegaram a suas ocas. Em poucas palavras relataram o ocorrido a vários rapazes robustos, indicando-lhes o lugar da peleja, para que fossem, pela manhã, buscar a caça abatida.
A exposição minuciosa dos fatos foi feita a Itapoan por Itacy, em presença de Catuaba e de Amujacy.
Em parte foi ajudado por Tataíra.
Em toda a narrativa, Tempúi pouco falou, usando da palavra apenas para realçar os feitos de Tataíra e Itacy.
Nunca referindo-se a sua pessoa.
Terminada, que foi, a narração dos fatos aludidos, o velho chefe assim falou:
-- Itacy, meu querido filho, herdeiro de minha fama e futuro chefe de minha gente, eu te amo sobretudo, não só porque és meu filho, minha esperança e meu consolo, mas, ainda porque soubeste corresponder ao sacrifício que por ti fizeram os teus amigos.
Foste forte como a palmeira que se inclina lutando com a tempestade, e que depois do vendaval novamente se equilibra, ficando mais formosa e ereta que nunca.
Tupã que te dilate a existência e a fama, como, as águas de um rio. -- E o velho chefe, virando-se para Tempúi, assim falou:
--Tempúi, teu procedimento vai ser registrado em minha pessoa, para eterna memória de tua fama e prestígio.
Tempúi, continuou o chefe, tu és como o terreno sólido, em cujo seio a palmeira introduz suas raízes, alcançando a resistência necessária, para não ser abatida com a fúria da procela.
Amo-te como se foras meu filho, pois salvaste o rebento, de minha existência e futuro chefe de meu povo.
E virando-se para Tataíra, força de seu braço, o velho chefe assim falou:
-- Tataíra, eu sempre te amei como a um filho amaria.
Hoje, porém, considero-te meu verdadeiro filho, porque fizeste, justamente, como faria eu, se em teu lugar o destino me houvesse posto.
Tu és como a torrente impetuosa, que se desprende da Montanha, da qual os igarapés da redondeza são tributários, e que leva no seio túmido a água que, em catadupas, se desprende do céu e sobe até atingir grandes alturas; tu és como o furacão que, esbarrondando-se na floresta, deixa troncos lascados e raízes viradas para o sol.
E o velho chefe Itapoan, na presença de todos, introduz na face uma aguda e adunca preza de tiririca, arrancando-a em seguida, de onde o sangue jorrou, em abundâncias, protelado, então, e seguinte discurso:
-- Este sangue, que desce de minha face, é menos quente que as lágrimas ardentes que derramariam os meus olhos, se meu Itacy houvesse sido devorado pelos tiriricas, e eu sou feliz tendo-o, porque, assim, celebro a vitória de meu hóspede e dos bravos de minha nação.

Esta dor que sinto é pequena, comparando-se à com a que sentiria eu, se o meu Itacy houvesse servido de pasto aos enfurecidos tiriricas, e eu sou feliz sentindo-a, porque, deste modo, celebro a vitória de meu hóspede e dos bravos de minha nação.
E quando esta ferida houver cicatrizado, inda recordar-me-ei da vitória do meu hóspede e dos bravos de minha nação, todas as vezes que meu rosto ficar refletido no espelho das águas tranquilas.
Terminado que foi o discurso, o velho chefe tinha os olhos inundados de lágrimas; o peito humedecido de sangue e o coração cheio de reconhecimento, a quem salvara a vida do seu filho estremecido.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XII">
<t> Motivos para contentamento </t>

Com a abundância da caça, todos ficaram dispostos à folgança.
Tanto mais que a façanha representada, pelos três a todos enchia de justo orgulho.
Enquanto muitos ocupavam-se em moquear à caça, alguns preparavam presentes diversos, para oferecer aos vitoriosos caçadores.
Antes que os três heróis houvessem partido para aquela caçada, muitos outros robustos rapazes haviam partido, em várias direções, à procura de mel perfumoso e de saborosos frutos da selva; e o cauim já começava a fermentar nas igaçabas bojudas.
De maneira que tudo aconteceu conforme desejavam.
Na véspera da festa, quando todos estavam reparando os ornamentos que lhes convinham, os três vencedores receberam vários presentes; constando de colares, braceletes, acangataras, arassoias, etc.
Coema não esperou mais o momento, em que pretendia ofertar a Tempúi a peça que preparara, para oferecer-lhe oportunamente.
Ofereceu-lhe, mesmo, naquela ocasião.
Amujacy ofereceu-lhe, também, um colar de conchas brancas e pequeninas, e outro igual a Tataíra, tendo dado ao irmão um lindo canitar de penas de araracanga.
Aracatú, a querida de Itacy, outra filha de Ariranha, agraciou-o com um belo canitar de penas rubras, de arara, e brancos; de uirá tinga.
E Catuaba, a mãe agradecida, a todos ofereceu presentes de pequena monta, como sejam objetos de rústica cerâmica.
A festa foi, como de costume, cheia de um desregramento selvagem.
Desta vez a bela Amujacy mostrou-se com Tempúi muito mais atenciosa e sorridente, talvez de gratidão pelo ato generoso que praticara com o irmão; talvez ferida pelas taquaras misteriosas de Rudá.
E Tempúi semelhante a um semideus, para todos tinha um olhar simbólico, em que deixava transparecer toda a soberania de sua alma, e elevação de suas ideias.
Desta vez bebeu mais do que na festa do mel, tornando-se assim, mais expansivo.
Amujacy já não podia mais resistir à corrente magnética formada pelos encantos do mavioso cantor tupinambá.
E Tempúi, debaixo da influência que a bebida fermentada produz, demonstrava, claramente, à filha do chefe o quanto lhe era afeiçoado.
Quem poderá deter a tempestade em sua precípite carreira?
Quem esbarra a corrente impetuosa que se lança para o mar?
Tempúi e Amujacy viram-se; e o amor, que lhes dormia no coração, como na semente, a vida embrionária e latente desabrochou e floriu.
Amam-se, agora, como dois passarinhos e folgam, juntos, naquela festa de gratidão.
Nunca Amujacy mostrou-se tão alegre e expansiva, como naquele dia.
E Tempúi, desde sua infância, nunca experimentara maior contentamento, que naquela festa.
Tudo folgava, ao som das inúbias, trocanos, maracás e cantilenas, com selvagem prazer.
Somente Coema estava qual rola ferida pelas garras do carniceiro caburé.
Tataíra estava bastante pensativo.
E Pirapebe, alheio ao que se passava no coração de sua noiva, a formosa Coema, estava meditabundo e procurou várias vezes tirá-la daquele estado contemplativo.
Tempúi pôs o colar que lhe fora oferecido por Amujacy e não fez uso do canitar que Coema lhe ofertara.
O amor é um incêndio que se alimenta de uma verdadeira afeição.
Já o ciúme é um tóxico, que, tomado em dozes homeopáticas dá resultados extrapositivos.
Tempúi e Amujacy eram alentados pelo amor correspondido, enquanto que Tataíra e Coema eram vítimas do ciúme impiedoso, e sarcástico.
A festa terminara, como é natural entre selvagens, numa orgia pagã.
Os dançantes, do prazer passaram aos brados, dos brados aos cânticos, dos cânticos a toda espécie de sons e gesticulações que a imaginação selvagem pode conceber.
Finalmente, prostrados, como a floresta secular pelo machado do lavrador, dormiam, no próprio recinto da ocara, ou em suas ocas, já no chão desnudado, ou em urucuentos maniás.
Pirapebe, em razão do desgosto de sua noiva, cuja causa continuava ignorando, quase não bebera.
Tempúi, mais ébrio que de costume, não somente de cauim como de amor, assentado sobre o trocano, em que acompanhavam os cânticos, como num sonho, cantava ainda a graça e os encantos de sua querida Amujacy, iara de seu primeiro amor.
Amujacy, completamente senhora de sua razão, visto que, entre selvagens do Brasil, não é permitido à virgem o vício da embriaguez, ampara ora o velho pai, que cambaleando procura o seu maniá de chefe; ora o irmão que, louco, em consequência da bebida, julga ainda combater os tiriricas enfurecidos; não perdendo de vista o seu querido Tempúi invencível na luta e no prazer, que ainda cantava, no recesso da ocara, sem que ninguém mais respondesse às suas cópias, ou dançasse ao som de sua indômita cantilena.
Finalmente, tudo silenciou.
O amor havia feito seus escravos e o ciúme suas vítimas.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XIII">
<t> Meditações e comentários </t>

No outro dia, após a festa da gratidão, os comentários; em torno dos acontecimentos dados, eram vários.
Tataíra querendo manter-se em posição de herói, mostrava-se indiferente a tudo, não adiantando ideias.
Coema silenciosa, como a fonte que dorme no fundo de um grotão, retratava na face a viva imagem do desgosto.
Tempúi, qual viajor que escala uma montanha nevada, em busca de um retiro singular, que fica no píncaro da mesma, e finalmente, chega ao lugar desejado, encontrara, nos encantos de Amujacy a centelha incendiária do seu amor.
Amujacy, a rola que outrora sozinha cantava nas moitas de mufumbo, agora é feliz e canta, qual pecaçu, no ramo da pitombeira, ao lado de outra rola.
Catuaba, cautelosa qual gravatá que cerca o fruto de um diadema de espinhos penetrantes, contra os assaltos da raposa, meditava, prevendo a continuação e desfecho dos acontecimentos iniciados.
Vira a filha catita e risonha, à direita de Tempúi, como em tempo algum, ao lado de outro mancebo, a não ser o seu irmão, e compreendeu que o amor, finalmente, lhe havia atingido o coração.
De fato, pensava ela, minha filha fez uma bela escolha. Tempúi é um valoroso e nobre rapaz, sabe querer o que lhe convém, mas é um estrangeiro, talvez filho de algum terrível inimigo nosso, e todos aqui desconhecem o verdadeiro fim de sua estadia entre nós.
Itapoan pensativo, qual estrategista que tem os planos devassados pelo invasor, quedava-se na solidão.
Pensava ele:
-- Desta vez Catuaba venceu-me.
Amujacy, semelhante ao fruto que cai, somente, depois de sanzonado, rendeu-se aos encantos de Tempúi.
Congratulo-me com a escolha de minha filha, no entanto, se em vez de Tempúi ela houvesse escolhido Tataíra, muito mais contente me sentiria eu!
Temo que, pela preferência de minha filha, Tataíra não se mostre ofendido e não venha a abandonar-me, levando grande parte do pessoal que domino.
Não me oporei a essa união, mas procurarei convencer minha filha, de que sua obrigação é desposar Tataíra e não Tempúi.
Itacy semelhante ao fiel de uma balança de precisão, mostrava-se muito leal a seus dois amigos, e salvadores, e disposto a tudo fazer, para lhes ser agradável.
Na taba de Itapoan, não se falava senão da conquista de Tempúi e da condescendência de Amujacy.
Anajatuba, a mãe da taba, avó de Amujacy velha experimentada na vida, há muito adivinhara, no coração da neta, aquela paixão ardente, prestes a desabrochar, com ímpetos de tempestade.   	
Com os últimos acontecimentos, ficou, mais ou menos, elucidada do que deveria acontecer depois.
De fato pensava ela:
--Tempúi bem merece o amor de minha neta; no entanto, Tataíra é quem por direito, deveria possuí-la.
Ambos são netos, a quem desejo toda felicidade; mas, devido às nobres qualidades de Tempúi, não posso opor-me à vontade de minha neta, visto ser nobre e justa.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XIV">
<t> Consequências imprevistas </t>
	

Coema dissera que não recorreria ao Juriti pepona, em consideração à prima, e não recorreu.
Mas, tendo a alma destoante, como a lira cujas cordas foram desatinadas por profanas e impiedosas mãos, vibrou de modo estranho.
Precisava tirar vingança do cantor que menoscabara de sua afeição.
Para isso, necessitara muita perspicácia.
Começou, vertendo, no coração do mano, o espírito da discórdia; inspirando-lhe rancor a Tempúi, desprezo a Amujacy e desrespeito a Itapoan.
Deste modo, elaborava um tenebroso plano de vingança contra todos os que se opunham ou se opusessem a seu selvagem, incontido amor, e rústicas pretensões.
O fim principal era prender Tempúi, uma vez que não podia possuí-lo como esposo.

***

Pirapebe, noivo de Coema, outro neto de Anajatuba, filho do moçara Arapary, quando ficou sabedor do perjúrio de sua escolhida e da paixão brusca que a mesma nutria por Tempúi, não correspondida, indignou-se contra tal procedimento e jurou vingar-se.
Deste modo, planos secretos eram elaborados pelos descontentes, na espessura das selvas, entre os quais sobressaíam a vingança e o ódio.
Amujacy, na espessura de Tempúi, era qual flor de manacá beijada e adejada pelo amoroso colibri; estava sempre alegre e catita. Já na presença dos pais aparentava maneiras inocentes, como as de uma criança.
Itapoan esperto qual maracajá que da moita, vigia a descuidosa rola, estudava os modos da filha.
Depois, verificando ser verdadeiro o amor de Amujacy, pelo cantor tupinambá, secretamente lhe falou a tal respeito explicando-lhe que sua obrigação era desposar Tataíra, aquém deviam tantos favores, e que lhe merecia inteira confiança.
No entanto, caso não se pudesse furtar àquele amor, não lhe criminaria, pois era livre e tinha o direito de escolher um esposo a seu gosto, contanto que fosse nobre guerreiro e amigo dedicado.
Amujacy, ruborizada de pejo, como o fruto maduro do bacuri quando recebe o sol em cheio, assim falou:
Itapoan, querido pai, bem sei que meu dever era desposar Tataíra, o mais distinto e leal guerreiro vosso amigo: mas, se há muito não me resolvi, satisfazendo assim o vosso maior desejo, é porque não o posso amar senão como a carinhoso amigo e nobre parente.
Tataíra é a força do vosso braço, a quem devemos honrar, pois bem o merece, no entanto, a vontade de meu pai, neste sentido, não pode ser satisfeita.
Meu coração exalta-o como guerreiro, parente, quase que irmão e repudia-o como pretendente a esposo.
Outrora vivi qual palmeira solitária vicejando à margem de um caminho. Hoje semelho bem, a rola viúva de nascimento, que encontrou numa rola forasteira o par idealizado.
E assim como o junco nasce para a face das lagoas, eu penso que nasci para pertencer ao cantor tupinambá.
De mim, ele alcançou primeiramente a proteção e depois o amor, porque bem o merece.
Outrora temia revelar o meu segredo e o meu amor;
Trazia-os, como o mendubi que oculta no seio da terra o fruto de sua flor.
Mas agora que a Tempúi somos devedores do mais inequívoco obséquio, nada receio, porque julgo nobre e justa a minha escolha. Não foi Tempúi o salvador de nosso Itacy?
Não foi ele quem sacrificou sua vida, para salvar a de meu irmão e vosso filho?
É justo que lhe sejamos gratos.
-- Ah! minha querida Amujacy! Eu sempre supunha, que um dia te desporias a desposar Tataíra, no entanto, agora estou completamente desiludido!
Quiseste gratificar com o teu amor a nobre ação do guerreiro estranho, salvador de nosso querido Itacy, assim seja!
Concordo com a tua opinião, embora, meu consentimento valha pela metade de meu prestígio, que penso desabará.
Honro a tua vontade e também a quem deste teu amor.
-- Obrigada, bondoso pai!
Nunca julguei que me negásseis o que pedi, no entanto, não supunha que fosseis tão generoso assim!
Pedirei a Tupã que me conceda muitos filhos, para consolo de vossa velhice.
	
<t> Coema </t>

Coema manhosa, qual raposa que do covil espreita o jacamim que passa com sua ninhada, oculta entre ramos, escutou a conversação ocorrida entre pai e filha, e só não morreu de raiva, naquele momento, porque carecia viver, ainda, para executar seus planos de vingança.
E no momento em que Itapoan se conformava com a vontade da filha, e Amujacy congratulava-se com a concessão do pai, Coema, morta de ciúme e morrendo de paixão, urdia um drama tétrico, no qual sua alma se mergulhava, como o verme nas profissões.
Tataíra, para Amujacy, era perante Tempúi qual diamante azul de par com a esmeralda preferida pelo esculápio para símbolo de sua profissão.
Seu valor estimativo era grande; mas o de Tempúi convinha-lhe muito mais.
Tataíra, como dissera, não queria tomar como afronta o procedimento de Amujacy mesmo tendo-lhe muita amizade, mas, instigado pela odienta e vingativa irmã foi, pouco a pouco, cedendo as suas insinuações.
E, em doses homeopáticas, pequeninas e sucessivas, foi sorvendo o vírus do ódio e da vingança.
O plano de Coema, cruel e tenebroso, sem Tataíra não poderia ser executado, eis a razão porque cultivava a discórdia no coração do mano, como o naturalista cria em caldos, no laboratório, os micróbios das moléstias.
Tal plano constava do seguinte:
-- Tataíra deveria discordar na escolha de Amujacy e na condescendência de Itapoan.
E se o velho morubixaba não desfizesse o compromisso feito com a filha, em favor de Tempúi, Tataíra deveria revoltar Ariranha, o moçacara seu pai, contra o velho chefe, e, reunindo-se ao mesmo, arribar dali; e longe, muito longe construiria outra taba, em que fosse ele o chefe da mesma.
Itacy, se quisesse como esposa a meiga Aracatú, irmã de
Tataíra e da mesma Coema, deveria trabalhar em favor da união de Amujacy com Tataíra e da ruína de Tempúi e seus companheiros.
Tataíra a custo concordou com tamanha perfídia.
Assim, esperou que Itapoan lhe falasse a tal respeito, para emitir sua opinião e, ao mesmo tempo, ditar sua vontade.
	
***

Foi em formosa manhã de inverno, (leu ana opé coemapiranya poranga amanaara recé) em que o sol mostrava-se em todo o seu esplendor, que Itapoan convidara Tataíra a uma secreta entrevista.
E lá se foram eles, rumo do rio.
Uma vez chegados, Itapoan, com pronunciada tristeza, relatou à Tataíra a deliberação de sua filha, adiantou-lhe, porém, que mil vezes desejaria que ela o houvesse escolhido pois era este o seu maior desejo.
No entanto, não podia opor-se à vontade da filha, pois era justa e elevada.
Fez realçar os dotes de Tempúi, como guerreiro e amigo, embora julgando-os, inferiores aos de Tataíra, seu maior amigo.
Tataíra ouvia-o com respeito e silenciosamente.
E quando o velho terminou a sua revelação, Tataíra assim falou:
-- Amujacy não deveria ter escolhido para esposo o estrangeiro, embora possua ele as mais belas qualidades.
Itapoan não deveria ter concordado com a escolha da filha, pois bem sabe que a mesma vem em prejuízo de nossa família e é bem capaz de provocar desarmonia entre nós.
Não que eu a pretenda para minha esposa. Amo-a, é verdade. Não lhe quero mal algum por isso.
Muito indigno seria eu se a quisesse desposar, sem o seu consentimento. Mas entre nós, há muito belos e jovens guerreiros que bem merecem a dedicação e o amor da filha do chefe!
-- Tataíra, bom amigo, disse Itapoan, eu bem conheço o coração das mulheres.
Enquanto o amor não lhes bate às janelas da alma, elas são brandas como a cera aquecida pelo sol.
Depois, quando feridas pelas taquaras do caprichoso deus, têm vontade resistente como as itás de uma cachoeira.
Amujacy, até a pouco, zombava de quantos falavam-lhe de amores. Eu esperava o momento em que ela se despusesse a escolher-te para marido.
Hoje, porém, ela falou-me de suas pretensões, com a franqueza de um guerreiro vencedor e eu prometi zelar pelo seu desejo e dar execução à sua vontade.
Se, com o meu procedimento, mereço tua desobediência, ou quebra de tua amizade, desculpa-me, pois penso que era tudo isso fui apenas o instrumento do destino!
Tataíra falou:
-- Eu sempre vi em Tempúi um caçador de nobre esposa; mas nunca julguei que Amujacy fosse tão ingênua! A ponto de cair-lhe nas malhas!
Meu velho chefe, minha resolução esta tomada. Serei o que disse, caso continue a considerar o desejo de sua filha como um fato digno de realização.
Com o vosso procedimento romperam-se os preceitos estabelecidos entre nós. E no dia em que tal tiver acontecido, antes, já não serei mais o vosso cabo de guerra, o vosso primeiro auxiliar, cuja posição poderá ser, muito bem, ocupada pelo vosso futuro genro!
Abandonarei vossa taba, sozinho, ou acompanhado de quem me quiser seguir, e formarei, muito longe daqui, uma outra taba ou maroca, independente desta, de onde não vos possa fazer mal nem bem algum.
Antes, porém, cruzarei meu tacape, em luta honrosa, com o de Tempúi, para ver a quem cabe o título de maior guerreiro desta região, caso ele não se furte o desafio que breve hei de lhe fazer.
Se vencer, partirei com os que me quiserem acompanhar, conforme já vos dissera, levando a fama de amor guerreiro desta taba e o título de chefe da que havemos de fundar.
Se, porém, for vencido, serei o escravo mais submisso do meu vencedor.
De hoje em diante, serei convosco, como a itá que se desprende da pedreira e se abisma no fundo de um lago terebre-se. E para mim, sereis como a flecha que o guerreiro atira a esmo, para o céu, perde-se no infinito azulado e depois cai num lugar eternamente ignorado!
-- Tataíra, disse Itapoan, que alma de Jurupari vasou em teu coração o espírito da discórdia?
Tu, que sempre foste bom qual fonte de água-viva, hoje te mostras como um lago, em que o inimigo lançou o tingui.
Sofreste a influência de algum espírito penado, ou o ciúme, em ti, pode mais que a razão?
Teu pai é meu irmão e meu amigo. Talvez não queira abandonar-me e seguir-te, nesta louca aventura.
Se sonhaste com um tacape de chefe, guerreiro revoltado, e para não o disputares com meu filho, logo mais, quando eu houver morrido, buscas construir para ti e parte de nossos parentes uma taba semelhante à minha, eu não te criminarei tanto!
Se, porém, o que te fere é o despeito, ou se procedes por influência alheia, considero-te um leviano, indigno de pertencer à poderosa nação de que descendemos!
Amujacy não é a tua esposa porque Itapoan é o pai de sua filha, mas não é o senhor de sua vontade!
Ela tem o direito de escolher o marido que lhe agradar, contanto que seja de valor. E eu, o de respeitar-lhe a vontade.
Mesmo que Tempúi caia vencido, em luta honrosa, pelo teu rijo e adestrado tacape, ela não te poderá pertencer se tanto não lhe convier.
-- Tataíra atrapalhado qual criminoso perante um juiz reto e justiceiro, assim falou:
-- Não é o amor de Amujacy, que me obriga a praticar o que tenciono fazer; é o dever de zelar pela minha fama e pelo bem estar de meu povo o que me inspira tão urgente medida.
Na taba em que um estrangeiro tiver de ocupar posição igual a que ocupo, ou eu serei um escravo ou um rebelde.
-- Ouve Tataíra, disse Itapoan. Acalma tua ira contra Tempúi, bem sabes que ele é nosso hóspede; é cantor, e devemos-lhe muitos obséquios.
Queres, então, que eu pague com a mais vil torpeza o nobre gesto do guerreiro tupinambá, que salvou meu querido Itacy de morte horrenda e violenta?
Se Amujacy te houvesse preferido, e não a ele, o triunfo seria teu e Tempúi teria que se resignar.
Por ventura, privei Itacy de escolher como noiva a tua irmã, a jovem Aracatú?
Se teus olhos estão vendados para a razão, descobre-os, e vê o quanto é justo o meu raciocínio, o quanto é errônea a tua deslealdade.
Não te privo que partas, com os teus mais próximos parentes e formem uma nova taba, em que sejas tu o tucháua da mesma, mas se fores um chefe meu aliado, uma vez que alegas justas razões, como dizes.	
Mesmo que Tempúi despose Amujacy, o que não é de minha espontânea vontade e sim dela, pensas que ele irá ficar entre nós, deixando, além, sua nação e seu pai que é também um valoroso chefe, segundo ele diz?
Tempúi partirá, levando minha querida filha, e eu ficarei morrendo de saudades, sem a metade do tesouro que Tupã me concedeu.
E se tu partires, também, levando a metade de meu povo o que não será de mim!
-- Velho chefe, disse Tataíra, amanhã, quando o sol surgir no Leste, volta a este lugar que novamente nos entenderemos.
-- Está combinado, disse Itapoan.
Então cada qual rumou à sua residência.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XV">
<t> Testemunha secreta </t>
A entrevista dos dois dera-se à margem do rio, segundo vimos.
E enquanto eles conversavam, julgando-se sozinhos, alguém espreitava-os por detrás do tronco de velha e frondosa gameleira.
O espião era Pirapebe, o noivo enjeitado, o qual projetara vingar-se da perjura Coema, inutilizando-lhe todos os crimes projetados.
Uma vez conhecedor de tudo aquilo, compreendeu que um terrível drama teria de realizar-se brevemente, talvez obra de sua ex-noiva pérfida e vingativa.
Assim, no intuito de evitar a realização do mesmo, levou tudo o que ouvira ao conhecimento de sua avó, a mãe da taba, Anajatuba.
Tamanha era a gravidade dos fatos, que Pirapebe revelara a velha que a mesma tomada de espanto, quase que ficou sem saber o que fizesse, para conjurá-la.
Depois, como que inspirada, voltou-se para o neto dizendo:
-- Vou consultar ao pajé, meu velho e sábio irmão, Mambirassú, talvez ele saiba o que convém fazer, para debelar o mal que se desencadeia sobre nós.
Então Anajatuba deixando o neto à sua espera, foi à gruta, em que vivia o solitário, desaparecendo, logo, aos olhos de Pirapebe, entre a verde ramaria que orlava as margens do estreito e sinuoso caminho.

<t> Anajatuba e Mambirassú </t>
	
Anajatuba chegando à gruta do pajé saudou-o, da maneira seguinte:
-- Irmão, que a tua vontade seja sempre satisfeita e a tua palavra muito acatada, são os votos que faço ao gênio que te assiste.
Mambirassú respondeu:
-- Irmã sejas bem-vinda. E continuando falou assim: Quando o jaburu desce à margem da lagoa piscosa tem fome e quer matá-la no apirá apetitoso.
Também quando Anajatuba vem à minha gruta, tem necessidade de minha ciência, para vencer ou aniquilar o que lhe é adverso.
Fala irmã, diz o que desejas do velho solitário, que, se Jurupari não me for contrário, hei de fazer-te a vontade.
-- Sábio irmão, o que te quero dizer é coisa muito séria:
Primeiro previno-te que Amujacy está enamorada do cantor estrangeiro e quer desposá-lo.
-- Disso já sabia eu, disse o pajé.
-- Segundo, que Tataíra magoado pela preferência dela quer abandonar nossa taba, tornando-se independente, e construir outra, muito distante da nossa; terceiro, que venho justamente à tua presença, com o fim de evitares tudo isso, com a tua ciência, ou, pelo menos, que frustres os planes de maldade que nos ameaçam.
-- Minha velha irmã, tudo lá anda muito mal.
Itapoan está metido em maus lençóis, na eminência de perder um fiel amigo e ficar sem a filha estremecida.
Nada disso ignoro, porque tudo o que se tem passado a desvelada Catuaba me tem contado.
Só não sabia da última cena ocorrida entre Itapoan e Tataíra, mas já a esperava.
Amanhã, querida irmã, volta a meu retiro.
Vou consultar ao maracá e não negar-te-ei nada, do que me for augurado.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XVI">
<t> Invocações ao maracá </t>
Mambirassú, depois que a irmã retirou-se, muniu-se de um pito formado pela tenra folha da pindoba, encheu-o de petima de ótima qualidade, acendeu-o, chupou-lhe alguns tragos, soltando fortes baforadas. E, depois de bem saturado pela nicotina, foi mentalmente, fazendo as seguintes invocações ao maracá.
1° perguntou-lhe que destino aguardaria Itapoan.
Então, em sua mente exaltada surgiu a seguinte visão:
Viu Itapoan segurando em cada mão um veado enfurecido.
Os dois veados procuravam, a todo instante, empenhar-se numa luta desenfreada.
Nessa posição, o velho chefe sugado por aluvião de carapanãs, gotejando copioso suor, estava firme.
Viu que os dois veados sortidos pelo membrudo morubixaba, cansados de tanto espinotear, rendiam-se à força titânica de tão possantes braços, caindo cada qual para o seu lado, como que vencidos.
Finalmente, viu um dos veados erguer-se, enlaçar em suas galhas um ramo de florida gitirana e partir na direção do rio.
O outro veado, levantou-se, também, e se foi deitar aos pés do velho chefe, humildemente, qual cão de caçador.
Quis conhecer o futuro de Tataíra e viu o seguinte:
-- Um homem com os olhos vendados, armado de um tacape, em busca de um apoio, à borda de um precipício. Tão ariscada era-lhe aquela posição, que, se desse mais um passo apenas, abismar-se-ia.
Depois a visão se foi alterando, apresentou-se de rosto descoberto, muito triste e segurando uma serpente pela cauda, em lugar do tacape.
Reparando bem, cientificou-se de que a visão estava a seu lado e, sem saber como, senhora de seu maracá de adivinho.
A sombra era a de Tataíra.
Buscou, então, descortinar o futuro de Amujacy:
-- Viu-a mordida por venenosa jamamoia, prestes a morrer; mas no ou que velha curandeira semelhante a um anjo bom fê-la voltar à vida, com o auxílio de certa posanga salutar.
Viu-a, depois, ao lado de um marido estranho, com um lindo casal de filhos, num lugar que lhe era desconhecido.
Quis conhecer o porvir de Tempúi:
-- Viu-o num país desconhecido, todo coberto de glórias, ao lado de uma esposa guajajara, que muito se parecia com Mujacy.
Viu o depois, entre gente que nunca vira, falando uma linguagem que lhe era desconhecida e servindo de admiração àqueles outros estrangeiros.
Desejou conhecer o futuro de Itacy:
-- Viu-o ao lado de Aracatú, aplaudido pela nação guajajara e armado de arco e tacape de chefe.
Desejou conhecer o causador de discórdia reinante naquela taba; e viu uma jovem, que muito se parecia com Coema, correndo atrás de um guerreiro que lhe fugia, como a lebre esperta, às manhas da raposa.
Viu-a, depois, metade mulher, metade serpente, vomitando labaredas que iam incendiando tudo o que se lhe antepunha, embora alguém logo apagasse o incêndio iniciado.
Procurou conhecer o futuro de sua velha irmã, a mãe da taba, e viu-a lutando com a mulher serpente, a quem vencia pouco, a pouco, até abatê-la completamente.
Viu-a, depois, combatendo com um peixe alado, que queria, abocanhar a mulher serpente, até vencê-lo e prostrá-lo a seus pés. Em seguida, viu o peixe alado e a mulher serpente pelos sortilégios de Anajatuba, transformados em duas criaturas humanas, alegres, unidas e descuidosas como duas borboletas de verão.
Quis conhecer o futuro de Ariranha:
-- Viu-o no Nheemongaba presidindo certa sessão, ora que pleiteava direitos adquiridos por alguém, a qual foi encerrada com votação contra o pleiteante.
Desejou conhecer o futuro de Catuaba: 	
-- Viu-a, toda banhada de lágrimas, à margem do rio, com as mãos trêmulas, soluçando, como que despedindo-se dos de uma igara que descia.
Finalmente, quis conhecer o seu próprio futuro:
-- Viu sua pessoa, no fundo de uma cova sombria, ao lado de objetos de seu uso particular, como que a dormir o seu derradeiro sono.
-- E viu, na sua gruta misteriosa, a figura de um outro pajé muito parecido com Tataíra.
A última visão, por demais aterradora, fê-lo voltar à lucidez. E ele pensativo com o que lhe fora revelado, a respeito de sua própria pessoa, aguardava a volta da irmã, para contar-lhe o que julgava ser uma revelação do maracá.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XVII">
<t> Itapoan e Tempúi </t>

Tempúi, radiante como a luz que espanca as trevas de uma masmorra, dirigiu-se à oca de Itapoan, a quem pediu uma conferência.
O morubixaba recebeu-o dignamente, oferecendo-lhe para descansar o seu maniá.
Tempúi, uma vez assentado, sem mais preâmbulos, assim falou:
-- Até agora tenho guardado reserva a respeito de minhas pretensões.
Hoje, porém, vos direi quem sou e o que desejo.
Nasci muito distante daqui, e o belo país de ondo venho, que é banhado pelo mar por todos os lados e chama-se Ipauassú, inda não é a terra de meu berço.
Quando eu era uma criança ainda, meus pais vieram do Sul e se estabeleceram naquela ilha que atualmente dominamos.
Meu pai, o valoroso morubixaba Japiassu, de Juniparau, é o chefe supremo de todos os chefes daquele país.
Sou eu o guerreiro que lhe merece mais confiança e estou destinado a suceder-lhe no poder, na bravura e no prestigio.
As mulheres de minha nação não tiveram, para mim, o encanto de que minha alma necessita.
Resolvi então, correr mundo, como cantor, até encontrar a iara de minha imaginação.
Andei muito, vi vários povos, de diferentes linguagens, e sempre o meu coração era vazio, como o maracá sem as pedrinhas que o fazem chocalhar.
Contaram-me, numa taba de tembés, do Pinaré, que no alto Guajaú existia uma taba muito formosa, de nação guajajara, cujo chefe tinha uma filha formosíssima de nome Amujacy.
Resolvi procurar-vos. E com felicidade que vos encontrei.
Vossa filha prendeu-me a seus encantos, como Tupã escravizou a flor do pequizeiro o perfume que atrai e embriaga borboletas multicores.
Já não posso mais viver ausente de vossa filha, a quem amo sinceramente.
Assim, desejo vos servir o tempo necessário para alcançar a mão de vossa filha.
--Tempúi, disse Itapoan, o morubixaba dos guajajaras desta taba não deseja ser servido pelo filho de um valoroso chefe.
Amujacy poderá escolher-te, logo, para marido e eu concordarei com a preferência de minha filha.
Catuaba e eu muito nos havemos de regozijar com a escolha dela.
Somente uma saudade profunda nos irá mortificar, quando partirem.
-- Eu saberei zelar de vossa filha, quando for minha esposa, como pais estremecidos.
	
<t> Testemunha despercebida </t>

Coema, presenciara tudo o que Tempúi dissera a Itapoan e o que o mesmo lhe respondera.
A espiona escondia o ódio no coração, como a boiacininga guarda o veneno sobre os olhos. E, como a serpente, espreitava, silenciosa, o momento em que deveria ferir certeiramente a sua preza.
Uma vez senhora, daquela revelação, foi logo contá-la a Tataíra, arma de que dispunha para executar seus planos satânicos.
Tataíra ouviu-a atenciosamente, e depois, com uma das mãos no tacape empunhado e com a outra sobre o coração, jurou vingar-se daquela suposta afronta, ou morrer lutando, para desabafar a sua honra amesquinhada. Não foi mais à entrevista prometida a Itapoan.

<t> Anajatuba e Tataíra </t>
	
Anajatuba, querendo jugular o mal que se alastrava entre os seus como um bando de formigas no recinto de uma ocara, convidou Tataíra a uma conferência na oca das desmaridadas.
A sós, conversaram longamente.
Anajatuba falara ao neto pela seguinte maneira:
-- Meu querido Tataíra, porque motivo o ódio aninhou-se em teu coração, como o apitão nas tocas de um itaimbé?
-- Porque motivo queres fazer a nossa ruína, como o timbó, a dos peixes de um lago?
Tão egoísta és, que, pelo bastão de chefe de uma taba, rompes os mais sagrados liames de uma feliz amizade e levas a discórdia ao seio de um povo unido e forte!
Itapoan, Ariranha, Arapary, são filhos de um só pai, que foi o meu saudoso umene, nascidos de uma só mãe, que sou eu.
Mambirassú, meu velho e sábio irmão e todos os meus descendentes amamo-nos como os dedos de uma só mão.
E tu, com a tua desmedida inveja, com o teu descabido ciúme, queres nos perder, açulando-nos uns contra outros, como se fôssemos dois povos inimigos!
Meu neto, que mau espírito vasou em teu coração o germe da indisciplina e da discórdia?!
Se em teu peito o ódio encontra tamanho agasalho e a vingança, tanto apoio, é provável que tua alma esteja à mercê de Anhangá, que tenta abocanhá-la.
Cuidado, Tataíra!
Quando o guerreiro levanta suas armas contra o inimigo da sua nação, Tupã protege-o e ele é garboso como o gênio papeiro que está sempre carregado, ou de flores ou de frutos.
Mas, quando as levanta contra seus irmãos, Tupã o abandona, Anhangá dele se apodera e as suas vitórias, se é que as alcança, são efêmeras como a existência das borboletas.
Se o Amor de Amujacy alcançado por Tempúi, é o que tanto te amesquinha aos olhos da razão, esquece-o, como se ele fosse um dedo teu, cortado pela piranha.
Curte, no silêncio, a tua dor, da qual ninguém, senão o destino, é responsável e cura, em segredo, a tua ferida.
-- Querida avó, disse Tataíra, não é o amor de Amujacy o que me conduz à indisciplina e à revolta.
Ela se poderia casar com qualquer guerreiro de nossa valorosa nação, que não lhe faria objeção alguma; mas, com um estrangeiro!
Eis aí a causa de minha desobediência e de minha revolta.
-- Muito bem, meu filho, tu pretendias Amujacy para tua esposa, mas nunca senão pelo franco consentimento dela.
É louvável a tua ação!
Meu filho, ela não te preferiu porque te considera um irmão, ou como atourossá; ama-te como a parente próximo ou amigo dedicado.
-- Sim, minha avó, eu bem compreendo tudo isso, mas o meu dever é afastar para bem longe de meu povo  	aquele estrangeiro que tentará eclipsar meu valor e tenta arrebatar-nos a filha do chefe.
Eu não temo porque nunca temia a ninguém.
Se, porém, ele breve partir, sem levar a irmã da Lua, eu serei o mesmo.
Mas, se Itapoan teimar em conceder-lhe, opor-me-ei a essa união, que vai roubar um bom quinhão de nossa felicidade e esperança.
Caso Itapoan permaneça no firme propósito de dar a filha ao estrangeiro, serei um rebelde e partirei sozinho, ou acompanhado dos meus, que me quiserem seguir, e longe, construiremos uma taba independente desta, em que domine eu, a par de meus parentes.
-- Antes mostrarei ao estrangeiro o quanto pesa este meu braço, nunca vencido!
Anajatuba recordando-se da profecia do irmão, disse ao neto:
-- Tataíra, alguém colocou uma venda em teus olhos, e tu, cego e sozinho, tateia à borda de um abismo.
Quem será que nos deseja tanto mal!
A conferência findou-se, na mesma incerteza das anteriormente realizadas.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XVIII">
<t> Anajatuba e Ariranha </t>
	
Anajatuba dirigiu-se à oca de seu filho, o moçacara Ariranha e contou-lhe tudo o que ouvira dos lábios do Tataíra.
Ariranha, comovido, prometeu-lhe que tomaria as providências necessárias para evitar o choque projetado.
	

<t> Ariranha e Tataíra </t>
 
Meu querido pai, disse Tataíra, Tupã que vos dilate a vida como multiplica as sementes do petima.
-- Meu presado filho, disse Ariranha. Ele que te prolongue a fama como os raios do sol.
Que honra vem Tataíra trazer à oca de seu velho pai?
Tataíra respondeu:
-- Quando o inverno é grande a lagoa sangra e forma muitas lagoas, não é assim?
Também quando uma taba torna-se tão populosa como a nossa, é necessário que se lhe dê escoadoiro.
Razões que me ferem o orgulho de guerreiro obrigam-me a abandonar esta taba, da qual sois um grande sustentáculo.
Como não quero partir sozinho, como um réprobo ou um covarde, venho saber de Ariranha se ele está pronto a seguir-me com alguns dos seus, para o lugar que breve escolherei.
-- Tataíra, meu filho, guerreiro que conduz guerreiros ao combate e à vitória, por ventura a tua mágoa poderá ser revelada a teu pai?
-- Sim, meu pai, vo-la revelarei, e falou assim:
Itapoan, o chefe, aquele a quem sirvo com lealdade e desassombro, vai dar a filha ao estrangeiro, como esposa.
Não concordei com aquela deliberação e ele, procurando mais suaves maneiras quis justificar-se convencendo-me de que sua filha era livre: senhora de sua vontade; bem podendo escolher o esposo que lhe conviesse.
E que Tempúi é digno da escolha de sua filha.
Adiantou também que a reservava para minha mulher, união que lhe traria muito prazer, mas, disse ainda, que o destino roubara, ao mesmo tempo, a filha aos pais e a mim, a futura mulher.
Creio que Itapoan, de fato, a reservava para minha esposa. Amujacy, porém, não me queria para marido e eu por isso não lhe desejava mal. Ela se poderia casar com outro nobre guerreiro de nossa nação.
Mas Amujacy é caprichosa; escolheu o nheengacara tupinambá e eu revoltei-me, não contra o casamento, mas contra a preferência que fez, de um estrangeiro.
É este o motivo por que desejo abandonar a tuba de Itapoan. E, como tenho um pai, senhor de numerosa família, venho convidá-lo a me acompanhar e comigo construir, muito longe daqui, uma nova taba.
-- Tataíra, tu és meu filho querido, mas Itapoan é o meu irmão mais velho, a quem muito considero; e a Anajatuba, minha velha mãe, é me necessário honrar e não causar desgosto algum.
Entre vós eu sou como a fogueira que aquece para todos os lados, e a minha sentença, negando ou concedendo o que desejas, sempre pareceria injusta a alguém.
Convocarei o Nheemongaba, expor-lhe-ei as tuas razões e pedirei a meus pares suas judiciosas opiniões a tal respeito.
Não votarei contra nem a favor de ninguém, mas cumprirei ou deixarei de cumprir a tua vontade, conforme a deliberação dos moçacara.
Tataíra, visivelmente contrariado assim falou:
-- O Nheemongaba resolverá em favor de Itapoan e Ariranha ver-me-á partir sozinho; como espírito penado que Oncha atira eternamente no domínio das trevas.
-- Não, meu querido filho! O Nheemongaba julgará com justiça e se ele decidir em teu favor acompanhar-te-ei, embora com o coração magoado e repleto de saudades.
Tataíra saiu da presença do pai.
Coema, sua perversa e rancorosa irmã, demônio que o tentava a cada momento, assistiu a toda aquela conversação.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XIX">
<t> A convocação do Nheemongaba </t>
	
À tardinha, quando o sol descambava para o Oceano, como um infante se reclina sobre seu leito, Ariranha mandou tocar a inúbia, convocando o Nheemongaba.
Um jovem e corpulento guajajara, empunhando-a, fê-la ir aos lábios e soar três vezes, conforme a ordem recebida.
À noite todos os membros daquela selvagem assembleia estavam reunidos, inclusive o pajé.
O adivinho acendeu o seu pito, chupou-o algumas vezes e foi espargindo o fumo entre os membros daquela corporação.
Depois passou a Ariranha, que também o chupou e espargiu o fumo sobre seus pares.
Assim, o pito foi de mão em mão, e de boca em boca, até a do último moçacara.
Algumas fogueiras ardiam no recinto da ocara, nas quais se queimavam madeiras odoríferas, e forneciam o clarão bastante àquela reunião.
Ariranha, presidindo os trabalhos, expôs aos pares a deliberação do filho e pediu-lhes que julgassem, a tal respeito com calma e precisão.
O Nheemongaba compunha-se de oito membros ou chefes de família, mas, somente sete votariam naquela ocasião, visto que Ariranha conservava-se neutro.
Findos os debates, quatro votaram a favor de Tataíra e três a favor de Itapoan.
Pesaria sobre a decisão final o voto do pajé. Este, voltando-se para a minoria, assim falou:
-- Eu sou convosco. Não tenho o direito de consentir que Anhangá domine sobre nós, como o amargar, no fruto maduro do tauá.
Itapoan é o esteio em que se arrima um grande povo, de quem sou, por sagrado direito, o verdadeiro zelador.
Tataíra não é um mau, é, apenas, um louco e a causa de sua loucura é o maldito do ciúme.
Mas não é somente o ciúme de Tataíra que nos quer perder. Por Tataíra, somente, isto jamais se teria dado.
Há, entre nós, uma cunhamucú de rara formosura e de coração muito perverso, a qual, não podendo satisfazer seus desejos de jaciaba, pôs em execução seus planos de maracaimbaraiuara, e, a par de Jurupari, derrama no coração do guerreiro nobre e invencível o veneno da discórdia.
Falar de seu nome é ferir-me com um quicé de dois gumes.
Ela, porém, é astuta como jamamoia, dá seus botes mortais e volta à moita de espinheiro.
O Nheemongaba, silencioso ouvia o parecer do pajé e conformou-se com a sua judiciosa opinião.
Tataíra perdia a partida e Itapoan obtinha, assim, vitória decisiva.
Do meio do silêncio que reinou depois daquela sublime sentença, alguém ergueu a voz para declinar o nome da causadora de tudo aquilo. Esse foi Pirapebe, o noivo rejeitado por Coema, o qual falou assim:
-- Conheço a causadora de tudo isso. É Coema, que não conseguindo alcançar o amor de Tempúi, do nobre cantor tupinambá; futuro esposo de Amujacy, está vertendo no coração do irmão o espírito da indisciplina e da revolta, com o fim de tirar vingança, não só do noivo de sua prima, como de todos os que forem contrários a seus planos infernais.
É ela a serpente que, da moita do espinheiro, dá os seus botes mortais e volta ao esconderijo.
Desta vez Ariranha falou:
-- Coema, a minha filha! Por ventura ela será tão má!
Agora estou ficando a par de tudo o que se vai passando nesta taba.
Bem dissera o sábio Mambirassú, que o ciúme é a origem de tudo isso; ele tem razão! A sua sentença foi justa e honesta e eu sou feliz, porque tenho um tio que conhece as coisas escondidas aos olhos dos profanos.

<t> Ariranha, Tataíra e Coema </t>

Depois que o Nheemongaba encerrou seus trabalhos, na oca de Ariranha, entre pai e filhos deu-se a seguinte conversação:
-- Meu querido filho, disse Ariranha, Nheemongaba decidiu a teu favor, mas o voto do pajé pesou contra tuas pretensões e tu perdeste a partida.
Portei-me com a mais absoluta imparcialidade.
Depois da decisão final Pirapebe, o ex-noivo de minha filha, que o desprezou sem causa justa, movido talvez pelo maldito ciúme, fez fundamentadas revelações contra Coema, apontando-a como justigadora deste teu capricho de homem livre e de guerreiro contrariado.
Agora, que estamos em família, diz-me, Tataíra, se o que Pirapebe dissera é um fato real, ou é apenas uma exaltação de tua ideia mortificada pelo ciúme?
-- Meu pai, disse Tataíra, de fato, sou contrário ao casamento de Amujacy com o estrangeiro, mas a guerra que lhe faço não é movida por mim somente. Contribuo com a minha ousadia e desassombro e Coema com os seus planos.
Queremos expulsar o estrangeiro de nossos domínios: ela talvez, porque o deteste, e eu, porque o não desejo conosco assim, tão destemido.
-- Agora compreendo a causa de tudo isso, meus filhos.
Pirapebe tem razão.
Tu, Coema, te quiseste apoderar de Tempúi, como se ele fosse algum filho de jacamy perdido do bando! Ele, porém, te fugiu, abrigou-se sob o amor de Amujacy; e tu, para tirar vingança, te apoderaste de teu irmão, também ferido pelo mortal ciúme, e queres perder-te, a ele e a todos nós, como se fôssemos causadores da derrota tua e dele.
Diz-me filha ingrata e desobediente, porque sujeitaste Pirapebe? não era ele o escolhido de teu coração? Por ventura serás como a taquara que se volta sempre para o lado que o vento se precipita? 	
Meus filhos quanto sois infelizes em matéria de amor!
Tu, Coema, abandonaste aquele que te amava tanto, por outro que te despreza, e Tataíra deixa-se enredar em tuas malhas, de velhaca para vingar-se daquela a quem ama e por quem é desprezado!
As vossas escolhidas vítimas, são, porém, pessoas tidas em grande estima.
Mudem de parecer, tomem juízo e sejam mais razoáveis em aspirações amorosas.
Coema então falou:
-- Aquele aborrecido Pirapebe é um caluniador. Eu o enjeitei porque ele é um tolo, que não merece minha dedicação e amizade.
Detesto o estrangeiro, porque nos quer roubar a filha do chefe, levando-a, talvez, para muito longe, ou, se ficar aqui, estou certa, abocanhará a posição de meu valoroso mano.
Tataíra, falou:
-- Meu pai, as vossas palavras são amargas como a raiz da caapeba e penetrantes, como o espinho do catolé.
Eu bem sabia que Itapoan, somente, encontraria razão, ignorava, porém, que eu fosse considerado como um louco.
Nesta taba, somente eu e minha irmã Coema nos molestamos cem o acesso do estrangeiro, entre nós, portanto, devemos abandoná-la, como o passarinho emplumado, o ninho em que nasceu.
Vaguearemos pelas selvas, até que algum Curupira se apiede da nossa infelicidade e nos ensine um meio de tirarmos a nossa vingança.
E se Coema não me quiser acompanhar, partirei sozinho, qual espírito penado, em busca de alguma caverna de Jurupary, de onde possa, diariamente, recomendar alguns de meus parentes à sanha de Anhangá.
Antes, mostrarei ao estrangeiro quem sou eu, e quanto pode a força e a honra de um guerreiro guajajara desconsiderado pela sua gente!
Ariranha ouviu o discurso do filho e depois falou:
-- Sinto que meus dois filhos me abandonem na velhice, levando-me a alegria do presente e as esperanças do futuro.
Prefiro que partam desconsiderados como dizem, mas sem provocar a desorganização de uma taba tão bem conservada quanto a nossa.
Cuidam que morrerei por isso! Nasci filho de um bravo e minha mãe, que já assistiu os pequizeiros florirem oitenta e cinco vezes, não sofrerá na velhice adiantada em que se acha, uma desconsideração de minha parte.
Ela e Mambirassú são contrários a vossos planos. E eu prefiro, desgostar meus filhos que desobedecer a minha mãe, tão ponderada em conselhos; e a meu tio, o    	 camocy da ciência!
Coema e Tataíra retiraram-se da presença de Ariranha, envergonhados, mas não vencidos.
O coração do pai confrangia-se com o sofrimento dos filhos, mas perseverava firme, sob o estandarte da razão.
Tataíra e Coema, cujos peitos eram dois vulcões de crateras escancaradas, derramavam no ambiente selvagem um aura demoníaca; eram assistidos por aluviões de pensamentos rancorosos e funestos.
Tataíra era o principal guerreiro da taba de Itapoan e, como tal, desejava terminar sua existência. Portanto, deveria aniquilar a qualquer que se antepusesse à sua posição e a seu prestigio.
Se Tempúi fosse o simples cantor tupinambá, Tataíra não se oporia a seu casamento com Amujacy; mas Tempúi era, ao mesmo tempo, o melhor guerreiro que Tataíra conhecia, portanto, não era a noiva que ele temia perder e sim a posição de principal depois do chefe da taba.
E, para evitar que o cantor tupinambá dominasse entre os seus, desenvolvia aquela propaganda e perseguição, provocando aquela revolta, em que saíra vencido.
 Uma vez que tudo falhara, era mister a execução da última parte do programa, previamente confeccionado.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XX">
<t> Um duelo na floresta </t>
	
Tataíra, quando menos rancoroso parecia, dirigiu se à oca dos visitantes, aparentando a maior calma, à procura de Tempúi.
Esse dormia naquela ocasião.
Tataíra então pediu a um dos companheiros do cantor que o despertasse.
Mas Tempúi acordou logo, sem que fosse necessário alguém chamá-lo.
Vendo Tataíra em sua oca, mostrou-se muito cortês e ofereceu-lhe a sua rede para descansar.
Tataíra agradeceu-lhe a oferta.
Em seguida, pediu-lhe o favor de uma entrevista secreta.
Tempúi acedeu, e juntos, partiram na direção da margem do rio.
Iam desarmados não despertando suspeitas, embora entre eles existissem grandes divergências.
Chegaram à margem do rio e Tataíra falou a Tempúi pela seguinte maneira:
-- Tempúi, mavioso cantor e nobre guerreiro tupinambá, pelo fato da preferência de Amujacy, não te sou adverso; mas, pelo motivo de seres preferido pelo chefe desta taba, da qual sou o imediato, considero-te um poderoso e terrível rival.
E, como és tão nobre e corajoso quanto eu, desejo experimentar contigo as minhas armas e as minhas forças, numa luta, em que o vencedor seja eternamente glorificado, mude de nome, seja senhor do vencido, a quem deverá poupar, conservando-o como seu escravo, para mais amesquinhá-lo aos olhos dos que o admiram.
Se eu cair teu prisioneiro, nessa luta, seguir-te-ei por toda a parte, servindo-te e obedecendo-te, como se fora a sombra de teu corpo.
Se, porém, o prisioneiro fores tu, seguir-me-ás, a um lugar muito distante daqui, onde servir-me-ás durante toda a tua vida.
Escolhe as armas, Tempúi.
-- Sei manejar com todas elas, lutarei com as que te convier.
-- Então, será o tacape, disse Tataíra.
-- Concordo, disse Tempúi.
Tataíra continuando, assim falou:
-- Formemos um círculo de vinte passos de diâmetro que limitaremos com cinza, dentro do qual combateremos.
O que, durante a luta, for forçado a por pé fora do círculo, mesmo que não tenha sido vencido pelas armas, dever-se-á considerar vencido pelo destino.
Se, porém, nenhum de nós puser pé fora do limite, cumpre-nos lutar até que alguém seja senhor do campo e vencedor do rival.
Tempúi ouviu, com muita atenção, o que Tataíra lhe propunha e, sem hesitar, aceitou o desafio.
Marcaram o duelo para começar no outro dia, pela manhã.
Voltaram para suas ocas, juntos como haviam partido, e cada qual foi à procura de seu tacape que verificou estar perfeito e intacto.
	

<t> O duelo </t>

Pela manhã, depois de uma ligeira refeição, partiram rumo do campo de luta, por caminhos diferentes para não provocar suspeitas.
Tataíra levava a cinza bastante, para limitar o círculo, bem como longa e fina embira.
Chegando ao lugar designado, fincou um torno de cabeça bem no centro do campo, previamente limpo, fez um laço corrediço na embira, meteu-o no torno, amarrando-a na perna junto ao calcanhar e marcando dez passos, com o pé, descreveu a circunferência que foi limitando com a cinza que levava numa pequena cuia.
Ficou, assim, pronto e campo para a luta.
Então Tataíra, entrando para o círculo assim falou:
-- Nobre e valoroso guerreiro tupinambá, olha, ainda, uma vez para esse ibaque azul, antes que caias eternamente na escravidão.
Tataíra tinha inteira confiança no que dizia, porque desde a infância se exercitara naquele jogo, e nunca fora vencido por ninguém; e continuando assim falou:
-- Este círculo em que vamos lutar é a maior das cadeias para um nobre guerreiro; daqui hei de sair vencedor para humilhar-te perante os teus admiradores.
Eu também admiro-te, como o jaguaré enfurecido, o tapiretê revoltado, mas hei de prostrar-te vencido a meus pés, para vingar-me da felonia de meus parentes.
Tempúi, empunhando também o seu tacape, assim falou:
-- O raio é forçado a dar combate ao jatobá da floresta virgem!
Tua fama, Tataíra, vai ler fim como o dia que morre no regaço do Ocidente, à mercê de petuna.
Despede-te do mundo e da liberdade e vem contra mim, que estou em guarda.
Tataíra, com a fúria da procela que galopa no espaço e quebra-se no bojo da nau possante, precipitou-se contra Tempúi, que o recebeu com desassombro.
A luta começou formidável.
Tempúi colocara-se na defensiva.
Tataíra atacava com a fúria de um leão ciente.
Seu tacape descrevendo rápidos semicírculos ia sempre de encontro ao de Tempúi. Nunca cedeu um palmo de terreno, ao passo que Tempúi, pouco a pouco, se aproximava do limite.
Tataíra atacava, cada vez mais, com inaudita impetuosidade; e Tempúi já estava bem próximo do limite total; mas quando o notou, fez uma engenhosa manobra, de forma que ficou bem no centro do círculo.
Então Tataíra, mais impetuoso ainda desceu sobre ele seu invencível tacape, com a fúria de um titã.
Num dado momento, devido a um golpe estranho, o tacape de Tempúi foi atirado muito distante do círculo.
Tataíra então bradou: -- O campo é meu e a vitória me pertence.
Tempúi, pulando para um e outro lado, qual mico de um a outro galho, também bradou: -- O campo é nosso e a derrota é de quem cair vencido ou pisar fora do círculo, não é assim?
Ditas que foram estas palavras, Tempúi precipitou-se sobre o tacape de Tataíra, com o fim de arrebatá-lo, no qual agarrou-se.
A luta mudou de caráter.
Lutava-se agora pela posse absoluta de uma arma poderosa, que tornaria seu possuidor senhor do campo e da vitória.
Quanto tempo lutaram pela posse exclusiva daquele cacete, é impossível dizer-se.    
O certo é que o sol já começava a trazer-lhes as sombras aos pés, e eles continuavam, ainda, naquela peleja de ciclopes.
Se alguém os visse naquela postura, sentiria ao mesmo tempo, terror e compaixão!
Tempúi idealizou um meio de arrebatar a arma das mãos de seu antagonista, e pô-lo em prática: Largou o tacape desejado e, antes que Tataíra dele pudesse usar, vibrou-lhe um murro abrupto sobre o estômago, obrigando-o a permanecer inofensivo, por alguns segundos.
Depois, precipitou-se novamente sobre o tacape e, facilmente, o arrancou das possantes mãos do guerreiro combalido. 	
Atirou-o, também, para longe do círculo e bradou: -- Tataíra, o campo é nosso e as armas que temos agora são as que Tupã nos deu, quando nascemos!
Em seguida, cingiram-se numa luta selvagem, como se fossem duas boiunas.
A sombra dos guerreiros cresceu para o nascente e eles, semelhando à luta do tapir com a sucurijuba do igapó, permaneciam invencíveis.
Tataíra era qual moirão de aroeira, em que o vaqueiro amarra o touro enfurecido; sua pujança e resistência eram desmedidas. O ventre, porém, já começava a embargar-lhe algum tanto, os rápidos movimentos.
Tempúi era mais moço, mais alto, menos corpulento, muito ágil e menos sujeito a fadigas.
Quando as rãs começaram a coaxar das árvores nos ocos; e o sol, cansado como um operário fiel a seu chefe, ia reclinar-se nos braços do Ocaso, os dois lutavam ainda.
Estavam extenuados, porém firmes, como duas palmeiras que oscilam com o vento, mas não se deixam abater com a tempestade, dada a fortaleza de suas raízes.
Quando petuna começou a estender seu manto do crepe sobo ibaque, os dois lutadores, num esforço supremo de moribundo que não quer morrer, lutavam ainda.
Estavam cingidos, como dantes, mas, alquebradíssimos.
Num dado momento, Tempúi sentiu que Tataíra deixara de resistir e pesava muito em seus braços, como se fora um corpo desfalecido. Então invocando as suas últimas energias vitais, depositou-o desmaiado, no recinto do círculo e, cansadíssimo, permaneceu a seu lado.
O bravo guajajara havia desfalecido, mesmo, de cansaço, e tinha a expressão de um cadáver.
Alguns minutos depois recobrou a razão, e Tempúi permanecia a seu lado, vertendo-lhe nos lábios ressequidos as gotas de suor que lhe desciam da face.
Tataíra, despertando da vertigem a lusco fusco e vendo o triste estado em que jazia, balbuciou as seguintes palavras:
Estou vencido, és meu senhor!
-- Não, Tataíra, disse Tempúi, tu não foste vencido; desfaleceste em meus braços e eu coloquei-te aqui, no recinto do círculo, esperando que recobrasses as tuas forças para recomeçarmos a nossa peleja.
Tu não pisaste fora do circulo, nem foste vencido pelas minhas armas nem pelas minhas forças e sim pelo desfalecimento das tuas!
Qual, Tempúi!
Tataíra foi grande como o Jatobá do vale vem o raio e abate-lhe ao mesmo tempo a impavidez e a resistência: vieste e aniquilaste-me conjuntamente a fama e a liberdade!
Sou teu escravo submisso e, como tal, considero-me desde este momento, porque, se te houvesses caído, eu te escravizaria eternamente.
Ninguém no mundo, senão tu, venceu o guerreiro que fui eu.
É verdade que não quebraste o jatobá da mata, mas arrancaste-o pela raiz!
Quando chegarmos à grande oca revelarei aos veteranos de meu povo, que és o mais forte dos homens que comigo lutaram, e farei que o nome de meu senhor seja respeitado, como os conselhos de um pajé, grande como os cedros da montanha e que se dilate a sua fama, como o amanassú pelas florestas de meu país!
-- Tataíra, não vim a tua terra roubar-te a liberdade nem a fama de primeiro batalhador; vim à procura de uma mulher que me fizesse amar, e que me amasse igualmente. 
Amujacy não era tua noiva, como Coema o era de Pirapebe, ela não traiu-te, porque nunca prometeu-te a mão de esposa nem eu tampouco, porque não tomei-te a noiva.
Coema, tua irmã, essa, sim, foi perjura, sobretudo, a tua maior inimiga.
Ela queria escravizar-me a seu amor ou tua vingança para roubar-me a Amujacy embora viesse a ser mãe de um Cunhambira!
Seus planos não me eram estranhos.
E tu, que és forte como a corrente que se precipita da ibiapaba foste o instrumento preferido pela tua rancorosa irmã, com o fim de dar cumprimento a seus planos infernais!
Era já noite fechada quando os dois combatentes chegaram à taba.
Tempúi portou-se silencioso e impassível.
Tataíra, chamando Ariranha, Coema, Itapoan, Itacy, Amujacy, Pirapebe, Anajatuba, Catuaba, Arapary, Aracatú e todos os demais parentes, enfim, disse, na presença de todos, a sua moramduba de guerreiro vencido, a qual foi assim:
-- Outrora fui como a chuva que reverdece as florestas, enche os rios e abebera os animais: Vem o verão com o seu rigor e a chuva logo desaparece. Também veio Tempúi, com o seu ardor, e a minha fama desfaleceu.
Dantes era como o vagalume que, em noite caliginosa luz à margem do caminho: Vem o caçador com o seu facho incendiado e a luz do vagalume logo desmaia. Também, veio o cantor tupinambá, com a sua fama ardente, e a minha glória feneceu.
Também já fui qual facho incendiado nas mãos do caçador notívago: Vem a aurora com o seu luzente caudal, e o facho fica logo sem brilho. Também veio o nheengacara estrangeiro com a sua estrela, e a minha desmaiou.
Era qual impávida cordilheira que ruma para o norte: Do céu desce o furacão e o dilúvio, e a montanha desaba no regaço da planície. Também veio o filho de Japiassu, com o seu desassombro e a sua resistência, e a minha soberba precípite ruiu.
Fui qual rio que corre para o nascente:
Levanta-se uma barreira contra ele, e o rio desvia seu curso. Também veio Tempúi, com a sua impetuosidade, e mudou o meu destino.
O guerreiro, que foi Tataíra, morreu gloriosamente, no campo de peleja, defendendo direitos adquiridos, lutando contra Tempúi; e ressuscitou humilhado, vencido e feito escravo de seu vencedor.
Agora Tataíra é o servo submisso de Tempúi, e Tempúi é o seu legítimo proprietário.
Já fui o primeiro entre os valentes desta taba: eis que veio Tempúi; venceu-me em luta gloriosa, por mim provocada, e hoje é dele a posição que dantes me pertencia.
Tupã abandonou-me, como a lua minguante, ao céu nascente, quando anoitece, e Anhangá zomba de minha desventura, como do aguty que se debate nas malhas da jiboia.
Tudo em mim mudou completamente. Minha fama morreu; mas meu senhor contará a seus parentes a minha história e o quanto lhe foi difícil prostrar-me, vencido, a seus pés!

***

Terminou assim a sentimental moramduba do guerreiro vencido.
Tataíra cumpriu a sua palavra; desatou seu maniá, procurou seus objetos de uso particular e mudou-se para a oca de Tempúi, de quem pôs-se à disposição.
-- O escravo tem obrigação de cumprir o que lhe ordena seu senhor. Portanto Tataíra vai ser muito obediente a Tempúi não é assim?
Sim, respondeu Tataíra, manda que obedecerei.
Tataíra vai mudar de senhor, disse Tempúi. O guerreiro que levava os guerreiros guajajaras ao combate vai ter outro dono, porque Tempúi não deseja ser servido por criatura tão valorosa quanto ele é.
Vem comigo, Tataíra, vamos à oca do chefe da taba, a quem te quero oferecer em sinal da amizade e consideração que lhe sou devedor.
E os dois puseram-se a caminho na direção indicada.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XXI">
<t> Tempúi, Itapoan e Tataíra </t>
	
Tempúi, chegando à oca do velho morubixaba, saudou-o pela seguinte maneira:
-- Itapoan amigo, que tupã dilate teus dias, como à araponga, a voz, é o que Tempúi, teu amigo e admirador te deseja.
-- Tempúi que a tua fama vai como um bando de andorinhas, é o que Itapoan, o velho chefe te deseja.
Que honra me veio trazer o mavioso cantor tupinambá?
Ao que devo a visita de meu hóspede? 	
-- Itapoan, disse Tempúi, venho em nome de nossa amizade, e, em sinal de gratidão pelos muitos obséquios que me tens dispensado, oferecer-te Tataíra para teu serviço.
Pela sua palavra, ele se diz meu escravo. Assim não o queria considerar; mas Tataíra é teimoso em questão de honra, e eu não o quero contrariar.
Então Tempúi, chamando Tataíra, que ficara um pouco 	afastado, assim lhe falou: -- Tataíra, Tempúi declina, na pessoa de Itapoan, todo o direito de senhor alcançado    	sobre ti. Fora em diante, Tempúi não tem mais um escravo, mas quer ter um amigo na pessoa daquele que nunca tencionou escravizar.
Itapoan, comovido diante daquela cena patética, assim se externou:
-- Tempúi é como a chuva quando volta: Ela vem bondosamente: reverdece as florestas: traz a abundância e o prazer; e ele voltou, trazendo-me a esperança e o consolo.
Tataíra, meu velho amigo, o orgulho te cegou, te enlouqueceu, mas o sofrimento restituiu-te à razão.
Tu bem o disseste na tua moranduba de guerreiro vencido.
Quem será que rejeita vencido em luta gloriosa quando lhe é oferecido?!
Amo-te, Tataíra, porque foste grande na prosperidade e estoico no infortúnio. Amo-te, Tempúi, porque foste inabalável na adversidade e sumamente generoso no seio da glória que geraste, na qual te agasalhas, como a lagarta no seu casulo.
Tataíra falou:
-- Quando o raio desce, escolhe para sua vítima algum gigante da floresta e essa tomba, para nunca mais se erguer.
Quisera ter tombado, como o jatobá atingido pela ira de Tupã!
E se assim tivesse acontecido, ninguém testemunharia minha vergonha e eu não teria voltado escravo ao lugar de onde parti como senhor!
Itapoan, Tataíra é o teu servo, manda que obedecerei.
- Não, Tataíra, tu nunca serás o meu escravo! Reabilito-te no lugar que outrora te pertencia.
Tataíra, tomado de uma justa revolta, assim falou:
-- Quando o tapir é atingido pela taquara do caçador ainda que não morra do ferimento recebido não mais terá a calma e o desassombro de outrora, quando afoitamente rompia as florestas virgens.
Assim também se dá com o guerreiro vencido; fica eternamente combalido; cheio de um temor natural, e nunca mais terá confiança em seus atos.
Jamais levarei os bravos de Itapoan ao combate, porque não confio em minha pessoa!
Serei, simplesmente, o teu escravo, cuidarei de tuas roças, abastecerei tua oca de caça, de peixe, de lenha e ensinarei a teus netos a arte de fazer a guerra.
-- Tataíra, disse Itapoan, já que não aceitas a tua antiga posição, que te ofereço agora, sou livre, que não te quero como escravo!
-- Obrigado, grande chefe. Quisera mil vezes ter morrido atado à muçurana inimiga, entre os insultos das velhas e o motejo das crianças, como morrem os valentes e depois ser comido no banquete da vingança, que ficar livre, para minha eterna vergonha!
Já que Tupã riscou meu nome da lista dos que vão ao lugar das delícias eternas, Anhangá poderá apoderar-se de mim, arrebatando-me ao seu domínio das sombras!
Como escravo de Itapoan teria direito de obedecer-lhe e esquecer-me-ia de mim mesmo.
Mas livre, assim, desonrado! Irei esconder no desterro perpétuo a minha eterna vergonha!
Itapoan e Tempúi sabiam que o discurso de Tataíra era a expressão da verdade e nada mais lhe quiseram dizer.
Nesse momento, como à tardinha surgem de seus covis as raposas famélicas, veio de sua gruta a figura esquelética do pajé.
Em passos cadenciados andou até onde os três se achavam e, tomando a palavra, assim falou:
-- O deus da guerra cedeu ao Jurupary da gruta o seu vencido guerreiro que foi Tataíra; e eu venho procurá-lo, sem temer as trevas da noite, para instruí-lo no culto do maracá.
Portanto, se ele é escravo de alguém, que o libertem logo, pois seu destino foi mudado como a cor do céu, quando anoitece.
Quem tentar retê-lo prisioneiro sofrerá as consequências de quem batalha contra um deus!
-- Mambirassú, disse Itapoan, Tataíra é livre como os passarinhos do céu. Tempúi ofereceu-me e eu o restitui a liberdade.
-- Muito bem, disse Mambirassú, até agora tudo está conforme a minha visão.
Breve vos deixarei, mas Tataíra, este que o destino me ofereceu, como presente, breve será meu digno e legal substituto.
Tataíra falou assim: -- Grande é o deus que, em seus desígnios, muda o destino do homem, arrancando-lhe das mãos o tacape de guerreiro, no mais renhido da peleja e oferece-lhe, depois, no momento do desespero, o maracá de piaga.
Agora curtirei o resto de minha vida no interior de uma gruta misteriosa, oculto aos olhos dos profanos, de onde sairei, apenas, em cumprimento dos vários deveres, que um dia assumirei.
E verdade que nunca mais levarei os bravos de minha nação ao campo de peleja; mas não estará longe o dia que os hei de guiar com os meus conselhos.
E feliz como se fora um discípulo de Xavier, viajando para as Índias, seguiu o velho pajé à sua gruta misteriosa.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XXII">
<t> Coema e seus crimes </t>	
A surucucu, dizem, é inimiga do fogo e, quando não pode vencer, espatifando-o, por ele morre queima.
Coema era outra surucucu.
Todos os seus planos de vingança contra os seus desafetos saíram falhos, e ela ficara desmascarada.
Seu orgulho ditava-lhe outras medidas, muito mais extremas.
Teve um desejo de infinita maldade.
Assim, tomando seu arco e sua flecha ligeira, franzina e mortal, foi a um lugar de onde todas as tardinhas partiam sons do cascavel de certa boiacininga, onde se deixou ficar, na esperança de novamente os ouvir.
E quando a jaó cantou sob as moitas de naracujarana, saudando o sol que agonizava; e a coruja piou no leito da estrada, bendizendo a noite que se aproximava, a cobra novamente cascavelou.
Coema, cautelosa como a capivara que pisa no cerrado marajá, aproximou-se do sítio, de onde partiam os sons de cascavel.
Descobriu, então, a boiacininga postada em um espiral, com a cabeça erguida e a cauda em vibração.
Coema tomou a postura de Ecate, entesou o arco, e mandou sua taquara fincar-se meio palmo abaixo da cabeça do asqueroso réptil.
A cobra, inesperadamente ferida ainda mais fortemente vibrou seu cascavel; mas, varada, como estava, pela flecha da terrível caçadora, já não podia rojar-se, nem mesmo até penetrar em seu esconderijo.
Coema aproximou-se da serpente e prendeu-lhe a cabeça com uma forquinha, que previamente adquirira.
Depois, segurando-a com a mão direita, bem próximo do lugar em que a taquara a feriu, foi, com o auxílio de um pedaço de madeira tenra, abrindo-lhe a medonha boca e tocou-lhe nas agudas prezas em forma de ganchos, com uma varinha, em cuja ponta colocara um pouco de algodão em rama.
Um líquido etéreo, esverdeado, afluiu à ponta de cada preza e esguichou sobre o improvisado suporte.
E, quando o algodão estava completamente embebido, Coema fincou a varinha no chão, desembaraçou-se da cobra, tomou o veneno, pô-lo no interior de um catolé, que fechou hermeticamente, com cera, e partiu.
Não é preciso explicar que, para executar tudo aquilo, a infernal caçadora muniu-se de uma calma extraordinária, revelando-se uma perita domadora.
Chegando em casa guardou a peçonha, em segredo, no fundo de um jamaxy de quitara.
Para que a terrível caçadora de serpentes queria aquela mortal peçonha?
Logo o saberemos.	

<t> Pirapebe </t>

Pirapebe julgava ter tirado a sua vingança.
Tempúi nada havia sofrido.
Amujacy também estava ilesa e, brevemente, se uniria ao seu escolhido pelos sagrados laços do amor.
Coema fora desmascarada e Tataíra, que Coema atirara nos braços da desonra, fora reclamado pelo pajé.
Tudo ia muito bem, somente ele, o desventurado Pirapebe, não encontrava lenitivo para o seu padecer.
Necessitando de um bálsamo que curasse o tédio em que vivia, foi à oca de sua avó, a velha Anajatuba, e contou-lhe a triste situação em que se achava.
A velha ponderadamente respondeu-lhe:
-- Quando uma árvore é ferida na raiz, mesmo que desapareça a causa do ferimento, a copa ficará, por muitos dias, combalida, e às vezes denudada.
Também o coração humano, quando recebe um choque semelhante ao que experimentaste, mesmo que triunfe aparentemente, deixa-se ficar melancólico por muitos dias.
Tem paciência, meu filho, quando teu coração amar novamente, teu ser ficará, outra vez, como a taipoca na primavera!
Esquece Coema e manda teu amor, em pensamento, ao coração de outra cunhamucú!
-- Boa avó, disse Pirapebe, o amor deve ser um grande tirano, porque nos escraviza a quem odiamos e nos liberta de quem nos deseja amar!
-- Dizes, com isto, meu neto, que ainda amas Coema, a perjura?
-- Querida avó, quando o fruto da cujubeira se cria comprimido entre dois galhos, toma a forma imposta pela pressão e, uma vez amadurecido, nunca mais retomara a forma globular.
Meu coração também cresceu amando sobejamente aquela ingrata, amoldou-se à sua afeição, e hoje está impotente para triunfar de suas perfídias.
Vinguei-me da perfídia, desmascarando-a, mas não sou feliz, porque não posso esquecê-la.
-- Meu filho, disse Anajatuba, Tataíra tombou guerreiro, levantou-se escravo e adormeceu pajé. 	
E tu, não estarás longe do dia em que adormecerás infeliz, como te julgas, e despertarás para readquirir a tua felicidade perdida.
Esquece a perjura, como o filho abandonado, a mãe de quem nasceu. Ou então perdoa-lhe as culpas, como a mãe bondosa, ao filho que lhe faltou com o respeito.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XXIII">
<t> O noivado de Tempúi </t>	

Tudo demonstrava serenidade.
Tempúi dera sobejas provas de bravura e honradez, portanto, nada mais se antepunha à sua união com Amujacy.
Assim, Tempúi pediu a Itapoan que providenciasse para o futuro matrimônio.
O velho morubixaba, sentindo-se feliz, assim falou:
-- Amujacy, minha  filha, que estimo como a jaçanã, a sua lagoa favorita, escolheu-te para marido, e eu sou feliz com a sua preferência.
Agora poderá, também, escolher o dia em que lhe convier receber-te:
-- Querida Amujacy, quando desejas receber o teu guerreiro, o escolhido do teu coração?
A virgem corou e depois, desmaiando, como a flor do urucu quando é dardejada, assim respondeu:
-- O dia Tempúi escolhe.
-- Como vês, valoroso, Tempúi, disse Itapoan, tens direito a escolher o dia do mendará.
-- Se é assim, disse Tempúi, marcaremos para daqui a dez dias, (ara peyé) tempo bastante para preparar-se o cauim, o tiranema, fazerem-se caçadas e convites aos vizinhos amigos.
Mesmo nessa ocasião a lua cheia (Jacy-caboassú) muito nos ajudará, com o seu celestial clarão.
E continuando, assim falou:
-- Afinal encontrei a Irmã da Lua outrora iara de meus pensamentos, e atualmente santuário de meu amor.
Para encontrá-la tive que afrontar abismos e procelas e para possuí-la, correr o risco de perder a própria liberdade.
Finalmente, ela vai ser minha, como a aurora é mensageira do dia.
Ela vai levar o prazer à oca de Japiassu, porque foi conquistada pelo amor e pela bravura deste que ele ansiosamente aguarda o regresso.
À noite, no recinto da ocara, fizeram-se muitas fogueiras ao clarão das quais os filhos das selvas entoaram suas cantilenas.
Até Coema, mostrando-se desagravada, alegre, garbosamente, ocupara o lugar que lhe cabia, como virgem e filha de varão abalizado.
Cantaram, dançaram, tudo em honra dos noivos.
Fizeram-se os preparativos para a festa das bodas, com o maior prazer.
Coema, catita como as outras cunhamucús, compareceu também à mastigação da maniocaba para o preparo do cauim.
Pirapebe foi também à caça.
Anajatuba, Catuaba e muitas outras velhas iam moqueando as carnes.
Tataíra, desde que fora reclamado pelo pajé, desaparecera.
	
<t> 2º Tataíra e Mambirassú </t>

O neófito fora à gruta misteriosa, com o velho pajé, onde ia recebendo, diariamente, lições do culto do maracá. Portava-se muito bem.
-- Depois que todas as lições te forem dadas e houveres resistido a todas as provas da iniciação, então te entregarei o maracá simbólico e serás, também, um pajé tão sábio e respeitado quanto eu o sou, dizia Mambirassú a Tataíra.
Agora cumpre-nos vigiar pela felicidade dos nossos, portanto, mãos à obra.
Vais ficar aqui, guardando a nossa gruta, e eu irei, sorrateiramente, espreitar o que se está passando entre nossos parentes e amigos.
Assim dizendo, Mambirassú deixou a gruta, e, cauteloso como o maracajá que segue uma codorniz, dirigiu-se às circunvizinhanças da taba.
Estando próximo à mesma, ocultou-se entre silvedos.
De seu esconderijo viu Coema, munida do arco e flecha, tomar a direção do rio.
Deu-lhe vontade de saber o que ela ia fazer.
Deixou que Coema andasse algum tanto; abandonou o esconderijo e seguiu-a, de longe, sem perdê-la de vista, observando-lhe os movimentos.
Viu-a andando cautelosamente e depois reclinada à frondosa ingarana, como quem aguarda um acontecimento.
Portou-se também na expectativa.
Depois, quando o sol foi desaparecendo no ocaso, ouviu também o canto da jaó; mais tarde o piado da coruja, o som produzido pela cascavel da boiacininga e viu Coema cautelosamente seguir na direção de onde vinham os sons produzidos pela serpente.
Coema nada suspeitava.
E Mambirassú, sem pensar, testemunhou toda aquela cena, anteriormente descrita, em que Coema, munida de arco, flecha, astúcia e coragem aprisionou a boiacininga e tirou-lhe o mortífero veneno.
Com a sua longa prática e a sua ciência, Mambirassú presumiu logo para que Coema queria aquela peçonha e deliberou, de antemão, frustrar, ainda uma vez, os planos da infernal caçadora de jamamoias.
	
<t> 3º O dia do casamento </t>

Amujacy fora artisticamente revestida de penas brancas de uirá-tinga e parecia uma estátua de bronze revestida de arminho.
Tempúi, pintado de vermelho de urucu e negro de jenipapo, estava também muito, garridamente ornamentado, com o que de mais expressivo possui a selvagem arte condecorativa.
Inúbias ressoaram, ferindo os ares.
O trocano retumbou festivamente e a pocema, em honra aos noivos, não se fez esperar.
O velho pajé estava presente, não somente para tomar parte na festa, mas com outro fim muito mais justo: o de vigiar Coema, para inutilizar-lhe os planos tenebrosos.
Deixara Tataíra na gruta, pronto a levantar a laje por onde se escapa a voz de Tupã, assim que lhe chegasse aos ouvidos um particular som de inúbia, previamente ensaiado entre os dois.
Itapoan, assim que tudo estava conforme a tradição, pegando na mão de sua filha, apresentou-a a Tempúi, dizendo:
--Tempúi aqui está Amujacy, minha filha, que quer ser tua esposa, toma-a nos braços e leva-a que te dou de boa vontade.
Novamente soaram inúbias, retumbaram trocanos e a pocema, originada pelo prazer, fez-se ouvir.  	
Tempúi recebeu a esposa, pô-la nos braços alguns instantes, e, depois, depondo-a outra vez no solo ao pé de si mesmo, disse:
-- Amujacy, a tijupá do casamento nos espera, mas antes devemos compartilhar da festa que nos fazem. E virando-se para Itapoan, assim falou:
-- Grande chefe, tenho que mudar de nome, conforme eu e Tataíra combinamos antes do combate.
Diz tu que nome devo adotar?
Itapoan respondeu:
-- Tu mesmo deves escolher um nome que te fique bem, como guerreiro:
-- Então serei Itapucú (pedra comprida), disse Tempúi, porque tu és Itapoan (pedra redonda).
E como o nome que uso não é aquele com quo fui apelidado quando curumiassú (rapaz), não se faz mister as cerimônias de quem, pela vez primeira, toma um novo nome.
Itapucú! Itapucú! bradaram os guerreiros guajajaras.
A festa começava, então, cheia de um entusiasmo fora de comum.
Noivos e convidados foram à oca das igaçabas, tomados de indizível prazer, com o fim de beber, cada qual a sua cuia de saboroso e morno cauim.	

<t> Uma vingança premeditada </t>
	
Enquanto todos se ocupavam das cerimônias do casamento, Coema procurou o catolé em que depositara o veneno da boiacininga, encheu-o de cauim, vascolejou-o várias vezes, vazando-lhe o conteúdo numa cuia, que guardou num elevado jirau da oca das igaçabas.
Mambirassú, de fora, tudo aquilo presenciara.
Eis que chegam noivos e convivas; e, como era natural, as mais formosas donzelas iam oferecer-lhes o cauim.
Coema buscou a cuia ornada de artísticas pinturas, em que depositara o mortal veneno: encheu-a, com o auxílio de outra, do morno e perfumado licor de Many e ofereceu a Itapucú.
Esse a recebeu, mas, antes de beber-lhe o conteúdo, inicia uma curta saudação, como de costume. 	
Nesse momento, porém, soou a inúbia de Mambirassú e ouviu-se, em seguida, a tenebrosa voz de Tupã!
Tamanho foi o medo e espanto a todos causado que a cuia caiu das mãos do recém-casado, cheia, como estava, molhando-lhe os pés e ficando reduzida a muitos pedaços.
Então o pajé toma a palavra e explica aquilo como uma aliança de Tupã com a nação guajajara e, principalmente, com os recém-casados.
Devido à salutar interpretação do sábio, a festa continuou com a mesma alegria.
Coema, porém, desmaiou, despertando em seguida, fingindo-se assistida pelo espírito do mal e vaticinando para Itapucú e Amujacy um futuro aterrador.
Mas pajé, na sua flegma de sábio, afirmara que tudo aquilo eram maranhas de uma cunhamucú despeitada, cuja vingança premeditada falhara até nos últimos instantes do programa.
Então a festa recomeçou, sempre cheia dos lances que encantam os habitantes das brenhas.
 Pela meia noite, seguramente, o casal fugiu da festa e foi à cabana nupcial.
E lá, segundo a lei imutável do Criador, verteu-se no turibulo da Natureza o incenso que inflamando-se, embalsama a existência dos que se buscam, produz a vida e renova o universo.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XXIV">
<t> Coema e seus remorsos </t>
	
Coema ficou visivelmente contrariada.
Todos os seus planos de vingança falharam.
Melhor seria se houvesse, mesmo, recorrido ao jurity-pepena!
Teria sido tão simples!
Mas prometera à prima que não recorreria e não recorreu.
Dizia ela:
-- Agora -- que será de mim?
Meus parentes olham-me com certo desdém e até meus pais parecem aborrecer-me!
Sinto-me muito contrariada e começo a ter remorsos.
Quisera dar fim a esta minha existência, para esconder na morte a minha vergonha.
Sinto necessidade de um confidente, a quem revele todas as minhas infrutíferas perfídias.
A quem recorrerei? Sim! Recorrerei à minha avó, disse ela consigo mesma, e foi à oca da velha Anajatuba, tão rica em anos como em conselhos. E, lá chegando, encontrou-a cardando algodão.
Depois da saudação costumeira, Coema assim falou: -- Venho à oca de minha avó para confiar-lhe os meus segredos. Eles são tantos e alguns tão medonhos que aterrorizam a mim mesma!
E contou, sem omitir, todos os seus pecos planos de vingança.
-- Afinal, arrependi-me de tudo o que fiz, visto que até Tupã conspirou contra a minha maldade.
Assim, venho pedir teus conselhos e tua proteção; e, se não me fores favorável, darei cabo à minha existência, pois sinto-me abandonada no próprio seio dos meus!
-- Minha filha, disse Anajatuba, tu foste uma grande conspiradora.
Teus crimes não se realizaram porque não tinhas razão. Trilhaste no caminho das perfídias, como quem viaja numa estrada que vai dar a um precipício disfarçado.
No entanto, querida neta, conheço alguém, que levar-te-ia ao mais cruel ridículo, se continuasses a proceder como até há pouco, mas, que se te arrependeres de todos os teus crimes e fores novamente a Coema de outrora, colocar-te-á, outra vez, no seio dos nossos, com o mesmo conceito antigo e ainda dar-te-á lugar no coração.
-- Boa avó, disse Coema, por ventura ainda existirá alguém capaz de se apiedar de mim? De compadecer-se de minha desventura?   	
Isso depende de ti mesma, querida neta, disse Anajatuba. E! se fores novamente a Coema de outrora, garanto reabilitar-te no seio de nossa família.
-- Que devo fazer para alcançar o que prometes?
-- Perdoar tudo o que te fizeram involuntariamente sofrer, esquecer todos os teus planos de vingança e...
-- E o que mais, querida avó?
-- E amar novamente a Pirapebe.
-- Amar novamente a Pirapebe?!
E ele será tão generoso a ponto de me perdoar, e tão bom que me dispense ainda algum amor?
-- Filha, Pirapebe nunca te esqueceu e ama-te sinceramente.
No entanto, se continuares má, ele será o teu maior inimigo.
-- Sim, querida avó, outrora ele me amava bastante, mas nunca supus que, depois de tantas ingratidões de minha parte, ele ainda tivesse ao menos compaixão de mim!
Não tenho coragem de novamente dirigir-lhe a palavra, tal é a minha culpa e tamanha a minha vergonha.
-- Cala-te, criança estouvada.
Falarei por ti.
E Anajatuba, tomando a direção da oca em que Pirapebe residia, convidou-o a uma conferência na oca das desmaridadas.
O guerreiro acedeu ao convite da velha.
Anajatuba nada lhe adiantou em caminho, de modo que ele chegando à casa da sua avó, ficou muito admirado e quase que retrocedia logo, visto que lá estava Coema combalida, chorosa e amedrontada.
Os dois não se saudaram.
Anajatuba então falou:	
-- Meu bom Pirapebe, Coema arrependeu-se de todos os seus crimes, apela para tua generosidade e confia no teu perdão, com o fim de poder se reabilitar no seio de nossa família.
Pirapebe respondeu:
-- Coema traspassou meu coração com uma taquara mais venenosa que o esporão da arraia, e mais aguda que o bico do cancão. Mas meu coração não sucumbiu a tanta perfídia e meu amor, apesar de gravemente ferido, a tudo sobreviveu, porque semelha bem uma fogueira, quase apagada, que ainda se alimenta das brasas ocultas sob a cinza.
Aí está, Coema, porque te hei de perdoar: Porque meu amor poderá ressurgir, como a labareda da fogueira, quase extinta, se depois de atiçada, aplicasse-lhe novo combustível.
Ser boa e dedicada, que te perdoarei.
Ser carinhosa e obediente, que te amarei deveras!
-- Coema, minha neta, disse Anajatuba, Pirapebe é bom como o fruto maduro da guabiraba e perdoou todos os teus crimes.
A felicidade vos vai voltar como a bonança, depois da tempestade.
O amor firme, se é desdenhado, torna-se uma doença difícil de ser curada.
Mas se a criatura a quem se consagra verdadeira amizade arrepende-se de suas leviandades e quer reabilitar-se perante o ofendido, então o amor do mesmo remoça e recupera todo o primitivo vigor.
Tu, Coema, foste leviana e má!
Sem motivo justificado abandonaste Pirapebe, teu noivo estremecido.
Hoje és tu mesma, que, arrependida e banhada em pranto, suplica-lhe perdão para as tuas faltas e oferece-lhe, novamente, a tua amizade e teu coração.
Pirapebe, o verdadeiro amante que impiedosamente abandonaste, desmascarou-te, venceu-te, deixando, embora latente no seu coração, uma pálida imagem do amor que te consagrava outrora.
 Hoje ele semelha o palmar que necessita dos afagos da brisa.
E tu, Coema, és como a floresta devastada pelo incêndio, a gemer pelas promissoras chuvas.
Amem-se outra vez, que novamente vossas almas florirão, como as açucenas do campo com o despontar da primavera.
Coema, tremendo como o caniço à margem da lagoa quando é atingido pela brisa ribeirinha e Pirapebe, comovido como quem encontra um objeto de valor perdido num deserto, entreolharam-se.
Anajatuba, aproximando-se inda mais, assim falou:
-- Pirapebe, meu querido neto, Coema é tua noiva de outrora; ela carece de tua complacência para reabilitar-se no seio de nossa família e de teu amor para curar as fundas feridas de sua alma.
Depois Anajatuba dirigindo-se a Coema, assim falou:
-- Coema, minha filha, Pirapebe é novamente o teu noivo, visto que ele necessita de teu amor para reaver a alegria de outrora, a felicidade no presente e a esperança do futuro.
Depois, pegando na destra de ambos, uniu-as entre as suas mãos, selando assim, aquele ressuscitado amor e falou-lhes pela seguinte maneira:
Eu vos uno, meus filhos, como Tupã uniu a coragem à constância e colocou-as no peito do guerreiro!
Sejam felizes outra vez.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XXV">
<t> Preparativos para viagem </t>

A igara de Itapucú, ancorada no porto de Itapoan, não oferecia, a comodidade necessária para transportá-lo com a esposa e companheiros de viagem à taba de sua moradia.
Portanto, para remediar tal falta mandou preparar uma outra, menor, na qual ele com a esposa e dois bons remeiros tomariam parte unicamente.
Dias depois as igaras estavam pontas e equipadas para a viagem.
Itapoan mandou preparar bastante mantimento: Carne de moquém, tiranema, batatas, amendoim etc; bem como emplumar muitas taquaras para oferece-las aos que iam partir.
Mandou também um grande e belo muiraquitã, que Anajatuba encontrará na serra, há muitos anos, de presente para Japyassú.
Catuaba mandou-lhe, também, de presente a aguda presa de tiririca com que o marido ferira o rosto, celebrando a vitória do hóspede destemido e dos bravos de sua nação, alcançada contra os terríveis e vorazes taiaçus.  

	
<t> A partida </t>

Foi num belo dia de cuavacy-ara (verão), num destes em que a manhã é fresca, a tarde calmosa e a noite fria.
O rio do Guajaú estava todo reclinado em seu leito natural.
As igaras de Itapucú calavam pouco, podiam, portanto sulcá-lo desassombradamente.
O cantor dos tupinambás, muito preocupado com a próxima viagem, demonstrava, no entanto, ter muitas saudades da terra que ia deixar.
Tinha, para todos, uma palavra de gratidão e um sorriso fagueiro.
Amujacy estava qual rosa que desabrocha à madrugada e ao meio dia, ainda cheia de vigor, murcha em consequência do ardor solar.
Era tal a sua tristeza.
Choravam, ela e Catuaba, sua mãe, como duas crianças. Aproxima-se o movimento da partida.
O séquito desceu à margem do rio.
A taba em peso compareceu ao embarque.
Tataíra e o pajé também compareceram.
Começaram as despedidas.
Amujacy, derramando copioso pranto, assim falou à sua mãe:
-- Querida Catuaba, aziricó (adeus).
Tua filha vai partir.
O dever manda que te deixe, a meu pai, irmão e parentes para acompanhar meu umene (marido), portanto, roga a Tupã pela nossa felicidade.
Catuaba respondeu:
-- Filha minha, vai!
Embora tu partas para nunca mais voltar, teu nome permanecerá eternamente em minha memória, como a sombra é inseparável do corpo. Manitós do ibaque sejam da tua companhia guardando-te contra qualquer inimigo.
Depois Amujacy dirije-se a Itapoan a quem diz: -- Querido pai tua filha parte.
Outrora, eu era a rola viúva de nascimento: Veio a juriti das praias de Ipauassú, também vazia de amor, gemendo a falta de amoroso par e ofereceu-me abrigo em seu coração. As duas rolas amaram-se e uniram-se por casamento. Mas, para que o cantor tupinambá pudesse desposar-me carecia ter nobres predicados e ele os revelou, não foi assim?
Não é Itapucú um sublime cantor, um amigo dedicado e um guerreiro leal e invencível?
Eis a razão porque, sem esquecer teu amor, o de minha mãe, irmão e parentes, amei sinceramente o estrangeiro que nos visitou por quem te deixei e a todos os meus, morta de saudades, mas confiante nele e no destino.
Itapoan respondeu:
-- Vai minha filha querida.
O fruto quando amadurece desprende-se de árvore e leva a semente que perpetua a espécie. Também tu, deixando minha oca levas um seio que vai ser fecundo, onde os descendentes de valorosos guerreiros gestarão para consolo de seus avos, alegria de seus contemporâneos e glória dos seus descendentes.
Quando a saudade crescer em tua mente, como a sombra da palmeira, quando o sol se vai deitar, manda-me lembranças nas azas da brisa, no canto das aves, que te saberei compreender.
Agora, Amujacy despede-se de Itacy, a quem diz: 	
-- Itacy tua irmã: Ser forte e altivo como Tataíra, nobre magnânimo e justo como nosso velho pai e invencível como Itapucú, que, a golpes de bravura, arrebata-me da companhia de todos vós, como o paraná, as águas dos rios menores.
Itacy respondeu:
-- Vai querida irmã!
Vai descansada!
Enquanto o braço de Itapoan vergar o arco de chefe de nossa taba, ser-lhe-ei obediente.
E se um dia nosso pai desaparecer, conto ser portador das armas de morubixaba de nossa taba e procurarei, mais do que nunca, por em prática as nobres qualidades dos três heróis guerreiros, que me deste por modelo.
Depois Amujacy dirige-se a Tataíra a quem diz:
-- Tataíra, nobre e valoroso amigo, outrora tu eras o braço de meu pai e ele sentia-se feliz com o teu concurso.
Tupã julgou que devias mudar de vida e tu breve serás o conselheiro, como que a cabeça de todo o nosso povo.
Quero que sejas sempre muito amigo de todos os nossos.
E se um dia Itacy for chefe de nossa taba, zela por ele, que te serei eternamente grata.
Tataíra respondeu:
-- Vai Amujacy.
O raio quando desce não escolhe onde cair, dizem; mas tenho observado que é sempre a árvore mais possante, que lhe recebe os embates: Itapucú foi o raio de Tupã, eu fui a gigantesca muirá (árvore) da floresta.
O raio derrui a sucupira do platô e seu lenho vai servir para aclarar os guerreiros e moçacaras postados no recesso da ocára, e do meio de seus escombros nascerá outra árvore ou arbusto: Talvez o mururé, que cura as chagas do corpo humano; talvez o ipadú, que empresta ao guerreiro em luta a resistência de quem se alimenta com sobriedade; talvez o petima, que inspira o pajé no culto do maracá; ao moçacára, quando julga no nheemougaba; ao guerreiro, quando planeia um combate perigoso e mesmo ao escravo, quando, em terra estranha, curte o tédio da vida.
Amujacy agora se despede do velho pajé, a quem diz:
-- Mambirassú, sábio que vem zelando pelo nosso povo como o jacaré da riba vigia a sua ninhada, contra os assaltos dos guaxinins, adeus.
Pede a Tupã que sejamos felizes e recomenda-nos aos curupiras das florestas e às iaras das fontes e paranás.
Faz de teu discípulo um pajé tão sábio e bom quanto és.
O velho pajé respondeu:
-- Quando a morte arrebatar minha vida, como o gavião, a juriti que dormita no galho da jurema, meu corpo irá dormir um sono infinito, numa cova digna de minha pessoa, mas minha ang (alma), velará sobre vós. E Tataíra, o escolhido pelos gênios, o contemplado pela minha ciência, verterá sobre os que amo, por mim assistido, toda a ciência dos piagas.
Vai, sê feliz com o teu marido, em toda a tua vida, é o que te desejo.
Agora Amujacy despede-se de sua avó, a quem diz:
-- Querida avó, quando o sol abrasa as florestas, seca os lagos e mata de fome e sede os animais das brenhas, Tupã não manda a chuva do céu?
E a terra não se cobre de verdura e os animais não recobram todo o seu vigor físico?
Quando umanaára é denso e há chuvas tumultuosas e cheias colossais não vem cuaraciara (o verão), normalizar os elementos e tudo não se equilibra no seio da Natureza?
Pois bem, querida avó, tu, com os teus conselhos, és como o inverno que vivifica e como o verão que remoça a Natureza viva.
Zela sempre os nossos parentes, que Tupã dar-te-á na outra vida, um paraíso embiarino e uma felicidade sem par.
Anajatuba respondeu:
-- Da cunhamucú o guerreiro pede o amor, enquanto que da cunhaneté ele suplica um conselho.
Justo é que cada qual dê daquilo que possui, de acordo com os merecimentos de quem pede.
Eu, que fui na mocidade, a esposa modelar, a mãe efusiva, deve ser na velhice, a avó solícita e a incansável conselheira.
Vai minha filha, faz de teu ventre um gestador de bravos, e de teu coração um ninho de amor e complacência, que Tupã dar-te-á felicidade na terra e venturas na outra vida.
Amujacy agora se despede de Coema a quem diz:
-- Prima, pela tua maldade, semeaste discórdia entre nós, como a capivara leva no ventre a semente do mau capim e a debulha na plantação da manioca.
Hoje, a tua pessoa, graças a teu arrependimento, ao perdão e amor de um jovem por ti apaixonado, está, novamente, no seio de nossa família, como outrora, garantida, qual passarinho implume que cai do ninho e mão caridosa ajunta-o e nele o põe outra vez.
Ser cautelosa e ajuizada, a fim de que por ti não mais padeçam, como eu e muitos, e talvez alguém continue padecendo.
-- Querida prima, disse Coema:
 Assim como no verão a tamatarana (araruta), murcha, perde as folhas, parece morrer e ressuscitar no inverno, mais confortada e possante que outrora, eu também morri para o bem, em consequência de uma paixão desenfreada.
Curei-me, ressuscitei para outra vida e hoje sou, quero ser tão boa e mais carinhosa que dantes.
Sê feliz, minha prima.
Vai, e que Tupã seja uaruá de tua alma.
Finalmente, Amujacy despede-se de Pirapebe, a quem diz:
-- Tu perdoaste os crimes de uma criatura leviana, porque teu coração era escravo de um amor desmedido.
E ai do mundo se não fosse o amor!
Ele tem misericórdia para todos os crimes; é capaz de ser fogo, viver no meio das águas e não perder a sua integridade!
Pirapebe respondeu:
-- Nada mais fui que a fria pedra que dorme no fundo de um perau:
O fogo é latente em suas entranhas e, uma vez fora d'agua, com um choque apenas recebido, produzirá a faísca incendiária.
Também somente o arrependimento de Coema fez reviver meu amor, trazendo-me a alegria e a felicidade.
Finalmente, Amujacy despede-se dos restantes.

<t> Despedidas de Itapucú </t>
	
Itapucú começa suas despedidas.
Primeiro dirige-se a Itapoan, no seguinte teor:
-- Velho chefe, aroeira mãe das aroeiras menores, teu genro parte.
No entanto, partirá saudoso de tua companhia, como a água que se despede de sua fonte natal.
Ele é grato a teu acolhimento como o caçador perdido em noite caliginosa, ao dia que se levanta.
Se involuntariamente Itapucú fez tua alma padecer, desculpa-lhe, pois ele nunca teve em mente molestar-te um só instante.
Tua filha, tu lhe deste em casamento, porque ele a merecia e ela quis ser sua verdadeira miricó, não foi assim?
Para possuí-la Itapucú arriscou a vida e liberdade, e triunfou!
Portanto, ela é do cantor tupinambá como o perfume é do cumaru e o sorriso é da criança.
Tataíra foi o padrão em que Itapucú aquilatou suas forças.
Jamais guerreiro algum houvera-lhe enchido as medidas.
Também garanto-te que nenhum guerreiro ofereceu tanta resistência ao filho de Japiassu.
Adeus! Meu pai vai conhecer o nome do pai de minha esposa e guardá-lo-á na memória eternamente, porque foste justiceiro e magnânimo.
O velho chefe respondeu:
-- Itapoan foi justo, porque soube dar ao bravo que venceu o prêmio de sua vitória; foi calmo, porque soube sofrer sem lamentações, contrariedades que lhe dilaceraram o coração e foi magnânimo, como disseste, porque, aprendeu, de seus antepassados, o culto da hospitalidade e o respeito à vontade dos que são livres como as borboletas da campina!
Amujacy vai contigo, mas todas as manhãs, quando a urú cantar sob as moitas de mufumbo, Itapoan recordar-se-á da que também cantava, alegremente, à porta de sua oca, ao nascer ao sol.
Então, sua alma repleta de saudades e sua mente, de pensamentos efusivos, mandar-lhe-ão nas azas do ibitú uma lembrança enternecida.
Agora Itapucú despede-se de Catuaba a quem diz o seguinte:
-- Catuaba, boa mãe cuja filha meu amor te subtrai, quando o cantor dos tupinambás daqui partir, para Juniparam, levando a esposa de seu amor, teus olhos muito chorarão.
Consola-te, que Amujacy é a esposa de um guerreiro invencível; que é nora de um chefe tupinambá de muito valor a quem sucederei um dia.
Catuaba respondeu:
-- A abelha careceu do pólen e do néctar das flores para fabricar seu saboroso mel e sua cera, origem da singularidade de sua colmeia.
A virgem também necessita de um	coração amante de um esposo dedicado, para nele acumular um tesouro de ternuras.
Amujacy escolheu-te para esposo, estou satisfeita, embora fique morrendo de saudades.
És valoroso, leal e invencível, qualidades que muito honram a quem as possui.
Que sejam muito felizes, são meus votos a Tupã.
Agora Itapucú, voltando-se para Itacy, o irmão querido de sua esposa, diz-lhe:
-- Itacy, meu bom cunhado, amigo a quem estimo como a verdadeiro irmão, adeus.
 Tupã dilate os dias de teu pai, que se não possa contá-los.
No entanto, quando o arco de chefe da poderosa nação guajajara, sob a guarda de teu pai, cair em tuas mãos, recebe-o com maestria, empunha-o com majestade e conserva-o com heroísmo e prudência.
E tu, és forte como aroeira da mata a zombar dos insultos do temporal, vais entesá-lo com a imponência e serenidade de teu velho pai, com a pujança e orgulho de Tataíra e com a perícia e destreza deste teu verdadeiro amigo.
E se um dia um inimigo qualquer incomodar-te, manda a minha presença que zelarei por tua prosperidade.
Itacy respondeu:
-- Vai, Itapucú, ser feliz no seio de tua nação, na companhia de minha irmã e no recesso de tua glória, que a teceste como a aranha previdente e industriosa faz a sua teia.
Salvaste-me a vida e eu, mais do que ninguém aqui, conheço o quanto és magnânimo.
Basta que zeles de minha irmã como presas a tua fama de guerreiro.
Minha nação é grande e poderosa; dista muito da tua, segundo disseste; portanto, talvez não careça de tua aliança nas guerras, mas necessitará de tua amizade em todos os tempos. Agora Itapucú despede-se de Tataíra, a quem diz:
-- Homem da ciência, guerreiro de outrora, adeus, que vou partir.
Permita que contemple, ainda uma vez, bem de perto, teu rosto, para retratá-lo em minha mente, como guardo na memória a tua heroica resistência.
Admiro-te, porque foste o mais valoroso guerreiro que venci, durante toda a minha vida.
Tataíra respondeu:
--Tu és o ágil jaguaré da serra.
Venceste o corpulento tapiretê da mata e ganhaste o prêmio de tua vitória.
Sê feliz com o teu destino, que procurarei ser com o meu.
Agora tu és Itapucú, o invejado pelos valentes, glorificado sobre mim, e eu sou Tataíra, o aprendiz de pajé!
Mas, quando chegares em tua tama, conta a teus parentes a moranduba de nossa luta e diz-lhe que te chamei primeiro meu senhor e depois, Itapucú, conforme combinamos, para que os teus, Itapucú também te chamem, sem pejo e com orgulho.
Finalmente, Itapucú despede-se de todos os presentes e vai, com a esposa à igara que lhes estava reservada.
Embarcaram. Desataram a ligeira piroga, que logo tomou à direção da corrente.
O rio do guajaú é sempre veloz na correnteza.
Precípites desceram as igáras de Itapucú, levando no seio Amujacy, soluçando de saudades, qual chorosa cascatinha sombreada, que desce das faldas da montanha, e os demais que iam.
Itapucú também estava saudoso, mas, satisfeito, visto que ia para sua terra, levando à esposa que sonhara e todos os seus companheiros de viagem.
Na praia ficaram os do bota-fora, ainda por alguns instantes. Catuaba, banhado em pranto, contemplando as águas irmãs das que levavam sua querida filha; Itapoan, magoado como a pedra em que o escultor intromete seu cinzel; Itacy, mudo e pensativo qual estátua de granito, e todos, enfim, comovidos e cheios de saudade.
Pouco a pouco a multidão, que assistira aquele embarque, voltava, silenciosa e magoada, às suas ocas.
Catuaba foi a última a partir, também porque o amor de mãe é o que mais perdura. Tinha os olhos cheios de lágrimas.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XXVI">
<t> Chegada em Ipauassú </t>
	
	
As igaras de Itapucú foram bem sucedidas em sua longa jornada.
Amujacy, quando avistou o mar, tomada de admiração assim falou:
-- Como é belo o mar!?
No entanto, concentro tantas saudades de meus campos verdejantes e de minhas montanhas alcantiladas!
--Tens razão, disse Itapucú, tua terra é muito formosa.
A terra em que habito não é a minha terra de nascimento, é, porém, muito rica, formosa e invejada.
É um ninho de verdura que Tupã colocou entre o mar e a terra firme, para nos ser agradável.
Minha verdadeira terra ficou muito longe! Ainda além da Ibiapaba!
Mas o país em que vivemos nos convém, porque nele estamos confiantes no destino.
-- Então, Itapucú, a terra em que moras não é a tua terra natal?
-- Não xe miricó (minha mulher), nós a conquistamos dos tapulas, há poucos anos e nela nos estabelecemos.
Atualmente, ela é nossa e ninguém será capaz de no-la disputar.
Isto é, há um povo, de quem fugimos como a jaú, do maracujá e a quem odiamos mortalmente, e que é capaz de nos tanger de lá, embora perdendo muitas vidas. É aquela nação dos perós, filhos de além-mar, famintos como as ondas e devastadores como o fogo no verão.
-- Então xe umene (meu marido), há alguém neste mundo mais valente que tu e mais poderoso que tua nação?!
-- Amujacy, Tupã deu dentes, forças, agilidade e fortes garras ao jaguar: e a nós nos concedeu arco, flecha, tacape, astúcia e bravura. Como sabes, o jaguar é forte para o suassu, mas nada é perante nós.
Pois bem, Tupã também concedeu aos malvados perós armas muito superiores às nossas.
Enquanto mandamos a morte a alguém, por meio da taquara tangida pelo nosso arco, com o concurso de nossas forças, eles mandam-na por intermédio de um fogo semelhante ao raio de Tupã.
Amujacy, espavorida, assim falou:
--Tenho medo de que os teus inimigos não venham também te procurar em tua nova terra!
-- Não temas Amujacy.
Lá, o mar é cheio de mistérios e abismos.
Para chegar-se à Ipauassú corre-se grandes perigos.
Somente quem é bastante conhecedor da barra aventura-se a ir até lá, onde o destino por terra nos levou.
Dos tapuias que escravizamos aprendemos os segredos dessa arriscada navegação.
Já sabíamos a arte de navegar, mas noutros mares.
Quando chegarmos a Javiré, que fica nos flancos de um pequeno monte, os nossos já por lá deverão estar, porque, brevemente, arrancarei de minha inúbia o sinal de meu regresso.
Para chegarmos, porém, a taba de meu pai, temos que penetrar num pequeno rio, o Maioué, pelo qual subiremos até Turú, onde deixaremos nossas igaras, em lugar seguro, seguindo por terra até Juniparam, moradia de meu velho pai.
A conversação continuou, sempre animada, entre os dois.
No momento aprazado Itapucú deu o sinal de chegada, que foi correspondido pelos de terra.
Quando Itapucú e os seus, chegaram a Javiré já por lá estava densa mole de selvagens à sua espera.
Deram-lhe as boas vindas.
Formou-se, então, uma esquadrilha de ligeiros igaras, galhardamente tripuladas, com o fim de seguir as embarcações dos recém-chegados, até o porto de desembarque.
E, os tupinambás, ora fazendo sua pocemo de júbilo, ora saudando o filho do grande chefe, iam viajando rio acima.
Quando chegaram a Turú, desembarcaram todos e seguiram a pé, rumo de Juniparam.	

<t> Em Juniparam </t>

Quando Itapucú chegou à taba de seu pai, tomou com os seus, o rumo da oca paterna, em que penetrou, indo direito à rede de seu pai, na qual se deitou, sem articular palavra.
Então vieram suas irmãs e primas, com choros e lamentações; e reclinaram-se sobre ele, de cabelos soltos e desgrenhados, na posição de quem contempla o semblante no espelho das águas de um profundo tanque.
Depois, cantaram as imagináveis peripécias passadas pelo cantor aventureiro e os perigos que arrastou, naquela tão longa viagem.
Eis o que cantaram, mais ou menos, as parentes do Itapucú:
-- O anagéassú quando voa, em busca de seu alimento predileto, é soberbo e majestoso! No entanto está sujeito a ser ferido pelas garras do Jaguaré: Tempúi é como o gavião real; foi procurar, muito longe a mulher que idealizara para sua companheira, expondo-se, embora, às taquaras inimigas.
A lua cheia lança seu olhar penetrante por entre os bastos arvoredos, que sombreiam as lagoas encobertas e surpreende as uatirys, em suas mágicas contemplações; Tempúi é como Jacy-caboassú; lançou também seu olhar investigador para os meandros das serradas brenhas e lá descobriu a senhora de sua imaginação.
Se Tempúi houvesse morrido, pranteá-lo-íamos tanto, quanto chora o misterioso umary, na ausência da estação chuvosa.
Quando amanassú, penetra nas brenhas, acama as ervas, verga os arbustos e abate os gigantes das florestas: Tempúi é, também, como a tempestade, penetrou em países inimigos, abateu, talvez, os mais valorosos guerreiros; impôs-se perante os vencidos e alcançou o prêmio de sua intrepidez.
Quando o concriz gorjeia na ingarana, a passarada canora escuta-lhe atentamente a melopeia. Também, quando o sublime cantor tupinambá desfere, mesmo no seio de países inimigos, suas mágicas cantilenas rendem-se todos à sua voz e ficam magnetizados pelos encantos de sua poesia.
Quanta saudades não curtimos de nosso mavioso nheengaçara!
No tempo em que floriram os taperebis e as abelhas fabricaram seu saboroso mel, fizemos a festa do contentamento.
Mas, qual contentamento?!
Faltava-nos Tempúi. E à festa faltava o encanto natural de outrora.
Os sabiás das praias de Ipauassú, que vinham sempre cantar nas pindobas que circundam nossa Juniparan, emudeceram de saudade do outro sabiá, que partiu para muito longe, cuja voz era-lhes muito familiar.
E se o cantor dos tupinambás não mais voltasse, quem sabe? Talvez nunca mais cantassem os nheengaçaras das palmeiras! 	
Finalmente, ei-lo que chega trazendo sua nobre companheira, conquistada certamente, a golpes de bravura e honradez!
E vem glorioso como cuaracy, quando rompe o seio de petuna! E vem feliz como a lua, quando é seguida pela estrela da madrugada.
Bem-vindo seja o mavioso cantor tupinambá, para quem suplicamos a Tupã, uma existência venturosa e dilatada.
Terminou assim o canto de saudação ao recém-chegado.
Depois, os demais parentes e amigos de Itapucú cumprimentaram-no, amistosamente.
E ele então contou-lhe a moranduba de sua ariscada viagem ao país dos guajajaras.    	
Ficaram, então, cientes de todo o ocorrido com Itapucú; da sua mudança de nome, etc.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XXVII">
<t> Uma visita </t>
Foi numa bela manhã de verão, quando os sabiás das praias de Ipauassú cantavam nas palmeiras pejadas de maduros frutos, que aportou em Javiré uma nau francesa. Que vinha o veleiro francês fazer àquelas paragens?
Não é a virgem quem necessita do amor do mancebo escolhido pelo seu coração, para complemento de sua felicidade?
Não é o poeta que pede à mente criadora a inspiração que transforme seus versos em outras tantas vias lácteas, no recesso das obras primas?
Assim o flibusteiro, o ávido de fortunas feitas a golpe de audácia, procura o meio onde mais facilmente possa adquiri-las.
Aí está porque aportava em Javiré aquela possante nau francesa.
Seu proprietário se dizia amigo dos tupinambás dali e há muitos anos com eles comerciava.
Vinha trazer-lhe as ambicionadas voltas de missanga e carapuças encarnadas, e, em troca receber os produtos naturais do país.
Dado o sinal da chegada, a taba próxima o transmitiu à vizinha e esta, às demais, de modo que, dentro de dois dias a nau francesa havia sido visitada por quase todos os tupinambás de Ipauassú, indo a bordo os que já estavam bem acostumados com os franceses, ficando os mais ariscos no porto de desembarque.
Itapucú e sua esposa lá também foram, mas, dado os receios de Amujacy, não foram juntos, a bordo.
Amujacy, num misto de assombro e admiração, maravilhava-se vendo, pela vez primeira, aquela galharda embarcação.
Para mais espanto dela, fizeram disparar o canhão da popa daquela nau, voltado para o mar, e Amujacy desprevenida, como estava, se não fora o marido, que a susteve pelo braço, teria corrido para as brenhas, como qualquer animal selvagem.
Itapucú então lhe disse:
-- Não corras minha Amujacy!
Esse maracatim tem o poder de desferir o raio de Tupã, mas seu proprietário é francês, nosso amigo e aliado, com quem contamos para vencer os perós, nossos desnaturados inimigos, se por ventura nos vierem procurar aqui.
Descansa teu coração. Estamos bem, neste país, somente habitado pelos nossos e conhecido e explorado apenas por franceses.
Durante o ano, alguns navios semelhantes àquele aportam em Javiré e sempre seus igarauanas trazem-nos belos presentes, confirmando, assim, a nossa antiga aliança e amizade.
Portanto, querida, nada temas dos franceses.
-- Meu querido Itapucú, disse Amujacy, é verdade que me sinto feliz ao teu lado, como o fruto vingado no verde ramo em que se encontra, mas não me sinto tranquila aqui, porque os homens, de quem me falaste, os que arrebataram o raio de Tupã, penetraram em tua terra, conhecem tua moradia e se dizem teus amigos!
Um dia virá, em que o mesmo raio lançado para o mar será voltado sobre nossas cabeças, e então cairemos mortos ou vencidos!
Lá, no interior de minhas brenhas, longe deste oceano tumultuoso e deste povo cuja força rivaliza com a de Tupã, como me sentia muito mais tranquila!
Ao teu lado, em meu peito, morrem as saudades de minha terra natal, mas, em presença desse povo, que nos supera em força destruidora, em mim revivem as lembranças de minha existência de outrora.
Tuas armas, que têm prostrado em luta gloriosa, a tantos bravos, perante as deles já não têm valor, porque aqueles mandam a morte à moda de tupá quando desce do ibaque enfurecido.
-- Querida Amujacy, não temas, que ainda somos livres e vivemos a nosso modo.
Outrora nossos pais foram perseguidos pelos perós, em Pernambuco e Bahia, mas fugiram para as brenhas do Norte e centro do Pindorama; assim viemos a este rico, belo e soberbo país, que a sós habitamos.
Nossos inimigos jamais nos poderão encontrar, porque o caminho por onde viemos é cheio de montanhas, vales profundos e caudalosos rios.
Por mar, eles também não nos alcançarão, porque os nossos portos são de difícil entrada, estão crivados de rochedos e semeados de bancos, que fazem submergir rapidamente qualquer embarcação cujo piloto não lhes conheça bem as posições.
Para maior garantia, como te expliquei, fizemos aliança com os franceses, que também não desejaríamos conhecer, os quais Tupã nos manda, segundo dizem os pajés, como complemento às nossas forças.
E se um dia os franceses nos forem infiéis, deles nos desfaremos, que são poucos, e se os perós vencerem a nós ambos, eles partirão, como puderem, para as suas terras e nós, para as brenhas que ficam além do Miary, do Pinaré, do Gurupy e conquistaremos novas posições seguras, no seio de florestas ínvias.
Ah! Itapucú! A tua história parece um canto de ave cujo ninho é conhecido pela coruja hipócrita e cuidadosamente procurado pelo sanguinário gavião!
Itapucú deixou a esposa em terra e foi também a bordo, levando algum produto natural, que trocou por bebidas alcóolicas e gaitas realejo.
Depois, voltando, chamou, a esposa e voltaram à sua querida Juniparan, onde iriam beber aquele vinho de qualidade inferior n'alguma festa nacional, honrando as tradições, de sua raça.
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<div "CAPÍTULO XXVIII">
<t> Franceses em Ipauassú </t>
	
A quem pertencia o maracatin ancorado em Javiré?
Era de propriedade de Jacques Riffault, aventureiro francês, que há muitos anos comerciava com indígenas tupinambás, da costa do Brasil.
Desta vez, devido circunstâncias imperiosas, Riffault aportara em Javiré, onde demorar-se-ia alguns dias, comerciando com os tupinambás e mesmo desfazendo-se das fadigas da vida marítima.
Riffault, ou por necessidade, ou por interesse, aceitou o convite do maioral.
Em seguida, fez desembarcar o pessoal de bordo, construir casas para sua pessoa e para o mesmo; mandou fazer plantações, bem como um forte e uma capela.
Dois ou três anos depois, Riffault, por conveniência ou por necessidade, abandonou Ipauassú, com destino à França: Talvez com o fim de alcançar meios com que prosseguisse em sua conquista pacífica e valorosa.
Mas Riffault desapareceu misteriosamente da história de Ipauassú, deixando-lhe apenas uma memória inolvidável.
Seu continuador naquela grandiosa obra humanitária, o jovem e talentoso Carlos des Vaux, chamou a si a amizade dos tupinambás, como à tardinha o arrozal anelado atrai o orvalho vespertino.
Assim, medrou a antiga amizade e aliança existente entre franceses e tupinambás, começada com Riffault, em 1594; continuada por des Vaux em 1597 e oficialmente confirmada por Daniel de La Touche e de Rasilly em 1512.
Foi, portanto, em 1594 que Itapucú e sua esposa visitaram a nau francesa de propriedade de Riffault.
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<div "CAPÍTULO XXIX">
<t> Des Vaux e Itapucú </t>
Des Vaux tinha modos acariciadores e liberais.
Era fidalgo, mas não conhecia certos preconceitos da nobreza.
Assim, soube impor, bondosamente, sua vontade aos tupinambás da ilha e circunvizinhanças.
Itapucú foi um deles.
Fizeram-se amigos e cada qual ensinou ao outro a sua língua natal e costumes.
Certa ocasião Japiassú, pai de Itapucú, perdera, no banho, o belo muiraquitan que lhe pendia do lábio, o que lhe fora oferecido por Itapoan, pai de sua nora.
Por mais que o procurassem não foi possível encontrá-lo. Falharam os conhecimentos do pajé e as artes das velhas feiticeiras.
Nem os afagos de sua miricó, nem os vários presentes, que suas aguaçabas lhe vinham trazer: nada lhe fazia voltar o contentamento perdido.Era mister empreender-se uma expedição aguerrida ao país dos tabajaras, senhores do médio e alto Miary, onde eram encontradas, em montanhas somente deles conhecidas, as famosas pedras verdes, ornamento dos morubixabas e pajés. Itapucú, muito se contrariou, vendo o sofrimento do velho pai.
Assim, tomou a seu cargo promover a expedição; provocar a guerra e alcançar o miraculoso talismã.
Carlos des Vaux, seu particular amigo, bem que empregou meios para evitar aquela guerra desnecessária, a seu ver, mas, tudo em vão.
Então determinou acompanhá-lo, e juntos fizeram guerra aos tabajaras do interior.
Dentro de alguns dias de luta Itapucú alcançou uma formidável vitória; des Vaux mais uma fabulosa soma de conhecimentos do interior do continente e Japiassu, um outro muiraquitã, senão igual, talvez superior ao que perdera.
Durante a expedição, Itapucú comandara as forças incorporadas e des Vaux fora seu conselheiro solícito e auxiliar, confirmando, mais ainda, a amizade que se votavam entre si.
Quando Riffault deliberou voltar à França des Vaux tão familiarizado estava com os indígenas que não trepidou, um só instante, em ficar na ilha, sem o chefe francês.
Riffault, como bem sabemos, nunca mais voltou à Ipauassú e des Vaux, por muito bem que se sentisse entre os tupinambás, teve desejos de melhorar as condições da colônia nascente, em que vivia.
Assim, em 1505 resolveu tomar passagem em um navio que tocara em Javiré, com destino à Europa.
Itapucú, seu grande amigo, ficaria aguardando sua volta e velando pela vida dos franceses que ficavam na ilha. Des Vaux demorou-se em França bastante tempo, suplicando e obtendo vários favores de Henrique IV, rei de França a quem fizera, pessoalmente, a descrição da terra maravilhosa que deixava.
Quando des Vaux regressou à ilha, veio já acompanhado de um nobre almirante francês de nome Daniel de La Touche, que veio a mandado do rei de França, fazer observações na ilha grande dos tupinambás.
Tamanhas foram as vantagens por ele encontradas em Ipauassú, que, depois de seis meses ali, voltou à França, para dar cumprimento à missão que lhe fora confiada, levando descrições, mapas, apontamentos, diversas amostras, etc.
Daniel de La Touche, em cuja companhia des Vaux ainda voltara à França, lá chegando, em 1610, não mais encontrou Henrique IV, que perecera apunhalado pela mão de um certo Ravellai, menos célebre por sua perversidade e sentimentos religiosos que a celebérrima Catarina de Médici, falecida sogra do rei assassinado.
Devido ao inesperado desaparecimento do rei, a colônia nascente em Ipauassú, ficou um tanto prejudicada.
No entanto, já em 1612, Daniel de La Touche, então associado com Francisco de Rasilly e Nicolau de Barlay, chegava novamente à ilha grande dos tupinambás, vindo em sua companhia, além de des Vaux, Francisco de Rasilly, muitos nobres franceses, padres, militares e colonos.
Trouxe artilharia, munição e tudo enfim que era necessário à fundação de uma colônia de povo católico, inteligente, humanitária e progressista.
Itapucú, o braço do velho chefe Japiassu, recebeu-os condignamente, oferecendo-lhes, em nome de seu pai, ausente, e de seu povo, as garantias necessárias ao desembarque e fundação da colônia.
Desembarque solene; a presença dos padres com seus lindos e ricos paramentos; tedeus; a ereção da cruz e muitas outras cerimônias religiosas e militares: tudo chamava a atenção dos indígenas para a continuação daquela feliz aliança.
E os franceses bem que a mereciam, porque, de todos os povos vindos de além-mar, para estas paragens, somente eles pareciam compreender os indígenas do Brasil e ser fiéis às promessas feitas com os mesmos.
A colônia prosperava rapidamente, como a terra ubérrima e inculta, quando é trabalhada pelas mãos de hábil agricultor.
E enquanto os padres, de uma maneira tão doce como o maná do deserto caído para alimentar os filhos de Israel, preparavam os indígenas para tomarem parte no reino de Deus, os franceses, diplomatas valorosos e finos, mesmo delicados como o ouro que filiforme se escapa da fieira de artista célebre, iam incorporando à sua pátria homens e terras do vasto continente sul americano.
Tudo era feliz ali, naquele novo paraíso sempre verde como as esperanças da juventude e esperançoso como a mocidade descuidosa.
Leis sábias e prudentes, algumas enérgicas, porém justas, haviam sido organizadas para reger os destinos da colônia.
Índios e franceses, debaixo do mesmo pavilhão, unidos por interesses recíprocos, entendiam-se bem, como se fossem filhos de uma só nação.
Somente Amujacy, estrangeira que não se conformava com aquela vida semicivilizada, temia pelo futuro de seu esposo e filhos estremecidos.
Uma nova expedição fora mandada à França, em 1612, com o fim de alcançar recursos para sustentáculo e garantias da formosa e próspera colônia, sendo de Rasilly quem a tanto se aventurou.
Em sua companhia foram seis índios tupinambás da ilha e um dos padres, o reverendo Cláudio de Abbeville.
Chegando à França, foram bem recebidos, pomposamente, se bem que três indígenas dos que foram, houvessem falecido em caminho.
Dos três restantes, Itapucú era um deles, os quais foram apresentados ao rei, no Louvre, e nessa ocasião o mavioso cantor tupinambá, o valoroso guerreiro Itapucú, fez em presença de Suas Majestades, os reis de França, traduzido para o francês por David Migan, o seguinte discurso:
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<div "CAPÍTULO XXX">
<t> Discurso de Itapucú aos reis de França </t>
	
	
Grande tupixaba!
Aqui está Itapucú, filho de Japiassú murubichaba da ilha grande dos tupinambás, que te veio visitar.
Minha nação é poderosa, não tanto como a tua.
Fortes são os seus filhos.
Olha bem para mim, e vê o quanto sou robusto.
No entanto a tua amizade e a de teus amigos nos convêm.
Ouve bem o que te quero dizer:
Lá, do outro lado do mar, onde a terra é quase do tamanho do céu e as árvores parecem querer rasgar o manto detrás do qual Tupã se esconde, vivemos nós.
Dos frutos que a terra dá, da caça que a selva alimenta e do que plantamos e colhemos, alimentamo-nos nós.
Somos muito felizes no seio do país em que vivemos.
Um povo, porém, que vai deste lado do mar e leva no coração as manhas da raposa, na alma o veneno da cascavel e nas mãos o raio destruidor roubado a Tupã, há muito que nos molesta.
Dele fugimos, não porque a sua coragem exceda à nossa bravura, mas porque a sua ciência e malvadez excede a nossos conhecimentos e maldade.
Portanto, venho em nome de Japiassu, meu pai, chefe dos chefes da ilha grande dos tupinambás, pedir a tua proteção e amizade.
Garanto-te que, enquanto fores bom conosco, como é a roça nova em que medra a manioca, seremos contigo, qual fonte que jorra da falda penhascosa da montanha e não estanca com as inclemências do verão.
Por ti batalharemos e trabalharemos, não contrariados, como no tempo em que meus pais viviam sob o pesado domínio dos perós em Pernambuco, mas satisfeitos, recompensando as garantias que nos forem dadas.
Manda teus padres para nos arrancar das garras de Jurupary e fazer-nos bons cristãos, quanto sois, e manda-nos teus soldados armados com o raio destruidor, que juntos afrontaremos os mais temíveis inimigos e só havemos de temer a Tupã e sua ira.
Lá deixei minha mulher e meus filhos soluçando, saudosos de minha pessoa, como o sertão do Icó, à falta da estação chuvosa.
Os que amo e lá deixei, sofrem e choram minha falta, mas, se fores favorável ao que peço em nome de meu povo, quando eu lá chegar, teremos instantes de sumo contentamento.

***

Como dissera, a moranduba de Itapucú foi, paulatina e cuidadosamente traduzida por David Migan e relatada aos reis de França.
E Suas Majestades comprometeram-se a favorecer os tupinambás, no que pediam, por intermédio de tão inteligente mensageiro.
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<div "CAPÍTULO XXXI">
<t> Amujacy e seus filhos </t>
Dos amores de Itapucú e sua querida Amujacy nasceram dois filhos: Ipeçumuca e Sumaré.
Ipeçumuca era o primogênito, um rapaz de cerca de 17 anos, quando o pai fora à França.
Neto de dois valorosos chefes, Ipeçumuca revelava-se um predestinado. Era altivo, impetuoso e destemido.
Já fazia, sozinho, caçadas através de matas distantes e não raro, trazia caça de vulto.
Sabia ferir, com perícia de veterano, uma presa qualquer e já governava, muito bem, uma igara, qual tritão dos mares orientais.
Sumaré, uma inteligente cunhantem, que contava cerca de 15 anos, já sabia fiar, tecer, entesar um arco flexível e mandar uma taquara franzina a um alvo minúsculo e distante.
Amujacy, para bem dizer, ia levando, na ilha grande dos tupinambás, a existência de quem está prisioneira, na companhia de um semideus.
Somente a convivência com o marido e com os filhos, a quem amava qual viajor perdido no deserto, a florescente oásis, aprazia-lhe a existência.
Na ausência do marido, eram seus dois filhos o receptáculo de todos os seus cuidados.
Fizera uma rede para cada um deles e uma terceira, para o marido, quando chegasse.
E sempre quando o sol raiava no horizonte levantino, trazendo luz para os olhos e alegria para as almas, Amujacy erguia-se, cardava seu algodão, fiava ou tecia.
Sempre seus lábios entoavam certa cantilena que revelava bem a melancolia de sua alma.
Certa ocasião um arguto observador ouviu-lhe a canção, que era assim:
<poesia>
<t> Canção de Amujacy </t>
	
Nasci muito além!
Deixei minha tama
Coberta de fama,
Talvez sem rival.
Quem é que tem
Saudade constante
Da pátria distante,
Da terra natal.
Deixei meus parentes
Cobertos de glória,
Mas deles, a história
Jamais contarei.
Que feitos ingentes,
Que vida feliz,
Não tem meu país
Que longe deixei?!
Por Deus fui ingrata,
Deveras, não nego!
Por isso é que rego
Meu rosto de pranto.
Aqui, se maltrata,
Soluça minha alma
Que nunca se acalma
Que geme de espanto.
Amei loucamente
Um jovem guerreiro:
Foi meu companheiro
No gozo e na dor.
Destino inclemente,
Amigo fingido,
Levou meu marido,
Roubou meu amor.
Agora padeço,
Medrosa, inativa,
Qual virgem cativa
Nas mãos de um gigante.
É justo, mereço
Castigos frequentes
Deixei meus parentes
Na pátria distante!
Meus filos, coitados!
Sem pai, sem arrimo,
Meus filhos que estimo
Com tanta afeição.
São frutos vingados,
De amores de outrora;
Que o pai foi-se embora
E o meu coração!...

</poesia>
E o tempo decorria, para Amujacy, na ausência do querido esposo, tristonha como o gemido da juriti ausente do companheiro.
Morrera-lhe o sorriso dos lábios, à míngua dos afagos maritais como a planta preciosa fenece à falta de luz e humidade.
A formosura de seu rosto desfazia-se, minada pelos desgostos, como as cores da fresca rosa, quando é dardejada pelo sol do verão.
A saúde de seu corpo diminui a olhos vistos, combalida pelo sofrimento e pela incerteza.
No entanto seu amor florescia ainda, regado a custo do pranto copioso que dos seus olhos descia.
Mas a saudade, alimentada pela esperança, vicejava em sua alma e coração, como a era que sobe pelas ruínas, transformando-as em viridentes silvedos.
Certa vez Amujacy sonhara que o esposo, vestido à moda dos homens de França, trazendo na destra uma espada adamantina e na outra mão, um arcabuz, havia chegado.
Pela manhã, tímida como a virgem que, pela vez primeira, receita-se a um facultativo, relativamente aos males de seu sexo, Amujacy foi interrogar o pajé a tal respeito.
O sábio fez suas invocações ao maracá e augurou-lhe, para bem próximo, a volta do marido.
Assim, alentada por tão risonha promessa, sentiu sua alma reverdecendo e florindo, como acontece ao taperebá e acaróba, mesmo antes que o pranto do céu baixe sobre a terra ressequida.
Colheu, na floresta vizinha, a olenta baunilha, para embalsamar seus negros cabelos; na lagoa próxima, o odoroso jutaicica e nas praias do mar, o âmbar perfumoso, para queimar junto à sua pessoa, quando lhe chegasse o esposo.
Pescou, nas praias do mar, conchinhas nacaradas, com que preparou um belo colar para pô-lo em seu colo, outrora tão formoso.
Procurava, assim, mitigar o martírio de sua alma, numa concepção vantajosa, obra de um caridoso pajé, e filha de sua fagueira esperança.
Mas, como volvem as aves de arribação aos climas quentes, quando na zona em que demoram são atingidas pelos rigores do frio, Itapucú também voltou à sua habitação.
Não fora ele o causador de tão prolongada demora.
Bem que desejou adejar no espaço, tendo as asas do albatroz, para vir, logo, em procura de sua esposa e filhos idolatrados.
Voltou, de fato, bem mudado.
Não que a escala cromática de seu amor tivesse uma única nota falha, mas seu físico amoldara-se, um tanto, a estranhos costumes, como a preciosa orquídea cultivada numa estufa de milionário naturalista.
Sabia bem manejar uma espada; atirar com as mais engenhosas carabinas; conhecia o valor dos toques marciais e estava armado cavaleiro da ordem de São Luís, ultimamente instituída pelo jovem rei.
Tanta honra para um pobre tupinambá seria um martírio para Diógenes, o cínico.
Trouxera para a esposa, para os filhos e para o velho pai, muitos presentes de elevado valor.
Quando a nau em que Itapucú chegou de França aportou em Javiré, sua mulher e filhos, bem como uma legião de bravos filhos das florestas, já por lá estavam, atraídos pelos sinais feitos de bordo.
A indígena, vendo o idolatrado marido, sentiu tamanho contentamento que seus olhos ficaram logo inundados de doce e copioso pronto e a voz, embargada por soluços repetidos, como se fora tímida criança severamente observada.
Depois a comoção passou e somente a alegria pompeava, em sua alma de mulher selvagem.
Itapucú, assim que pisou em terra, abandonou logo os companheiros de viagem, transportando-se em seguida, com tudo o que lhe pertencia, à sua taba Juniparam.
A sua mulher e filhos, que os conselhos do pajé haviam feito ir até Javiré, na esperança de lá encontrá-lo, saudou ligeiramente.
Depois, já em sua oca, fora bastante cumprimentado pelos de sua nação, conforme a etiqueta indígena e o momento requeria.
E quando os parentes se afastaram um tanto, começou entre esposa e marido o diálogo, seguinte:
-- Meu querido Itapucú, supunha que o tubarão dos mares distantes te houvesse comido ou que as mulheres brancas e de além-mar, te houvessem arrebatado o amor.
Agora, que te vejo a meu lado, tão formoso e destemido como dantes, compreendo o quanto fui injusta, julgando-te esquecido de mim!
Perdoa minhas suspeitas, filhas do quanto te prezo.
-- Culpa alguma tem a esposa amorosa, em chorar a ausência prolongada e duvidosa do esposo querido.
Bem que me ofereceram mulher branca, para esposa, mas teu lugar de verdadeira miricó permanecerá imutável em minha alma até que Tupã se resolva a subtrair a vida a algum de nós dois.
E continuando, assim falou:
Aproxima-te, meu querido Ipeçumuca, filho em que deposito todas as minhas esperanças, e recebe o que te mandaram os rapazes de França.
E abrindo um caixão, em forma de baú, dele foi retirando vários objetos, salientando-se uma espada, um formoso e pequenino arcabuz, uniformes de colegiais e um alfabeto de letras garrafais, dizendo:
--Tudo isto te pertence.
Com a espada e o arcabuz aprenderás a guerrear à moda dos brancos, conforme breve te ensinarão os oficiais, e no livro, os padres te ensinarão a ler, como eles sabem.
Depois, dirigindo-se à filha, assim falou:
-- Minha querida Sumaré, aqui estão os presentes que te mandam as moças de França.
E apresentou-lhe primeiro um rosário de contas de ouro, com um pequeno crucifixo de marfim sobre azeviche, pendente do mesmo, dizendo-lhe:
-- Aí os padres te ensinarão a rezar, conforme as meninas de Paris.
Entregou-lhe ainda vestidos, joias, etc.
Depois virando-se para a esposa, que bem perto estava admirando os ricos presentes recebidos por seus filhos, assim falou:	
-- Minha querida Amujacy, recebe os presentes que te mandam as senhoras de França.
E tirou, então, da caixa belos e ricos vestidos, joias diversas, espelhos, pentes, perfumes, calçados, meias, lenços, roupas brancas e tudo, enfim, que é lícito ser usado por pessoa de elevada posição.
Depois disse:
-- Quando fizermos nossas festas ou quando os franceses fizerem as deles, tu usarás teus belos vestidos.
Araujacy recebeu tudo, carinhosamente aparentando viva satisfação.
No entanto considerava tudo aquilo nada valer, em comparação às suas noites de vigília, em que curtira saudades cruciantes, nos braços da incerteza!
Itapucú mostrou-lhes, depois, os ornamentos com que fora armado cavaleirada ordem de S. Luís e tudo, enfim, que lhe haviam oferecido.
Contou-lhes tudo o que havia presenciado em Paris; falou-lhes das festas que lhes foram oferecidas; de seu batismo, é dos seus padrinhos o rei e a rainha de França; de seu novo nome cristão, Luiz Maria; do casamento de seus camaradas, etc.
Relatou-lhes também o encontro que tiveram com os portugueses do forte do Rosário, onde houve um morto e sete feridos, o qual não fora tomado de assalto devido certos receios de Mr de Pratz, comandante da nau em que viajava.
Amujacy, tristonha como o passarinho cujo ninho está prestes a ser envolvido pelas revoltas águas da enchente, assim falou:
-- Querido Itapucú, como me sinto mal nesta tua ilha, de fato bela e fértil, mas instável para nossa moradia, como a riba arenosa, alta e fértil o é, para a floresta que lhe fica no seio!
Que futuro nos aguarda aqui?
A guerra inevitável com os perós, teus encarniçados inimigos de quem teus pais têm fugido, como o suassú ao jaguar!
Não, Itapucú, não posso conhecer felicidade no meio dos franceses, que chamam inda mais sobre nós o ódio dos portugueses!
Partamos daqui, querido esposo, vamos para Cuman, de onde nós nos poderemos embrenhar mais facilmente, quando os perós nos vierem atacar.
Ouço dizer que eles procuram, a todo o custo, assenhorear-se desta terra e eu temo tanto pelo nosso futuro!
-- Nada receies, querida Amujacy, contamos com os nossos irmãos de Cuman e com os franceses, que são bravos e pelejam bem; eles têm muitos navios de guerra, muitos soldados e fortificações.
Daqui não sairei.
Havemos de vencer os perós, para nos vingar do quanto fizeram sofrer anteriormente os nossos.
Agora, principalmente, que prometi aos reis de França trabalhar em defesa de nossos interesses comuns e pelo engrandecimento desta terra, que nos convêm, jamais abandonarei minha posição de guerreiro tupinambá e de cavaleiro contemplado por tão magnânimos reis e senhores.
Havemos de medir nossas forças com a dos malditos perós e garanto-te que havemos de vencer.
-- Cuidado, querido esposo!
O desejo de comer o saboroso abaty leva a descuidosa paca ao traiçoeiro mundé!
-- Mulher, eles é que virão cair na armadilha que lhes estamos preparando.
Longe não estará o dia de nossa vitória e de nossa vingança.
</div> 	

<div "CAPÍTULO XXXII">
<t> Batalha de Guaxenduba </t>

<t> Morte de Itapucú </t>
	
Uma pequena armada portuguesa, sob o comando de Jerônimo de Albuquerque, assistido por Diogo de Campos, ancorara em Guaxenduba. Desembarcaram e fortificaram-se em terreno elevado.
Deram o nome de Santa Maria ao forte que construíram.
A expedição compunha-se de portugueses e índios flecheiros.
Ignoravam os de Santa Maria se os franceses estavam definitivamente estabelecidos em Ipauassú, mas, como tinham por obrigação conquistar todo aquele terreno, aliás muito visitado por corsários franceses, trataram de fazer reconhecimentos.
Os franceses por sua vez também já andavam contando com o aparecimento de lusos, naquela paragem, assim, estavam arregimentados.
Finalmente, depois de vários reconhecimentos feitos por índios e franceses de Ipauassú, ficaram então sabedores e conhecedores das posições portuguesas, em Santa Maria e resolveram atacá-las.
Por sua vez, os portugueses, devido a revelações de índios aprisionados, quando faziam observações, a quem subornavam com presentes, ficaram também conhecedores dos planos de guerra dos franceses e puseram-se em guarda.
Mesmo assim, os franceses apoderaram-se ainda de três navios portugueses e puseram cerco às fortificações de Santa Maria, por mar e por terra.
Dias depois, dada a eminência do perigo, viram-se os portugueses na dura contingência de oferecer combate aos franceses, mesmo antes que por eles fossem atacados.
Assim, enquanto Jerônimo de Aibuquerque dirigia-se para os que dominavam as altas cercanias, Diogo de Campos tomou a direção das praias.
Feriu-se a batalha, que foi quase, como à do furacão, que, em poucos minutos devasta uma pujante floresta.
Devido a circunstâncias determinadas pelo dedo de Deus, venceram os portugueses.
Ficaram os franceses em condições de se poderem novamente organizar, para outras investidas.
Suas fileiras haviam sofrido muitas baixas, tais como a do bravo almirante Pisieux, que morrera defendendo as terras incorporadas às da coroa de França, e a do magnânimo Itapucú, que defendia sua liberdade.
O cantor dos tupinambás não morrera no campo de peleja.
Quando combatia ao lado de seus parentes, viu David Migan cair ferido.
Então tomado daquele amor natural, que assiste aos filhos das selvas, precipitou-se, entre um chuveiro de balas, para arrebatar o corpo do companheiro de luta e pô-lo em posição menos exposta à fuzilaria inimiga.
Nisto uma bala, talvez fundida entre invocações a Belzebu, feriu mortalmente o valoroso guerreiro selvagem.
Então os dois corpos baquearam, como dois galhos de um mesmo tronco feridos pelo raio.
David Migan morreu logo. Itapucú, arrastando-se vagarosamente conseguiu chegar próximo aos seus.
Foi, então, recolhido e colocado em lugar menos perigoso, de onde, com sacrifícios inauditos, mãos caridosas levaram-no, quase morto, à sua oca.
Lá chegando, conservou-se na mais completa mudez, em razão do muito sangue derramado e da gravidade das feridas.	Sua mulher dera-lhe, para beber, seiva de simbaíba e o guerreiro, abrindo os olhos e soltando a língua, pode então proferir a última moranduba de sua vida.
Chamando, então, a esposa e filhos para bem perto de seu leito de moribundo, assim falou:
-- Cumpri rigorosamente o meu dever.
Defendi minha liberdade; a de meus parentes e a esta terra tão boa, até cair ferido e quase morto no campo de peleja.
Dei à minha palavra, empenhada perante os reis de França, todo o valor.
Agora só me resta morrer como falecem os bravos, como baqueia o jatobá da mata virgem, quando é lentamente corroído e cerceado pelo fogo, até tombar para sempre!
Minha alma, segundo dizem os pajés, irá direito ao lugar das delícias eternas, reservado aos espíritos dos guerreiros que cumpriram fielmente seus deveres.
Os padres, porém, me ensinaram que as nossas almas, somente depois que passam pelas penas do purgatório é que vão para o céu, junto a Deus.
Ou para o céu junto a Deus, ou para o lugar das delícias eternas, sinto que minha alma breve partirá, abandonando meu corpo, assim ferido, sangrento e desfavorável à sua moradia.
Portanto, minha mulher, ouve bem o que te vou dizer:
Tudo isso que vês, minha querida Amujacy, é um engano, uma clamorosa ilusão!
Os franceses são bons companheiros, mas Tupã negou-lhes a vitória, porque não quer que triunfem os nossos destinos.
A convivência com os brancos nos tem sido funesta, como o é, à limpidez das águas, o concurso das enxurradas.
Breve os nossos abandonarão esse paraíso, em busca de outras terras, porque os portugueses são invencíveis, pelejam bem, e são infalíveis na vingança e na maldade como a manipoeira no veneno.
Nosso querido Ipeçumuca já está, um belo rapaz, bem desenvolvido.
Portanto, quando os tabajaras, que moram junto aos franceses, fugirem para suas terras, no médio Guajaú; acompanha-os e vai, com os nossos filhos, às belas terras de teus pais.
Foge daqui, minha querida mulher, que a nossa liberdade está prestes a desaparecer, como o arco-íris, do céu, quando anoitece.
Foge, para conservares nas brenhas longínquas o bem mais sublime, que Tupã nos concede: o direito de sermos livres.
Deita em minha boca mais algumas gotas da seiva da sambaíba, que me disseste haver feito a vida me voltar, pois sinto a morte estender sobre mim, um lençol frio, como as entranhas do igapó e cheio de agudas serdes, como as do candú.
E depois que Amujacy chorosa e magoada fê-lo beber do bálsamo suplicado, ele assim continuou:
-- Foge minha querida, e conta a teus parentes a triste moranduba de nossas desventuras.
Diz-lhes que fujam da convivência dos brancos, como andira dos raios do sol, para que continuem a viver na mais completa liberdade, à moda de nossos tamóins.
Conta-lhes-que os perós são como o tingui lançado nas vertentes de uma úbeira: uns e outro, por onde passam, provocam a morte e o extermínio.
Explica-lhes que os franceses sempre foram nossos amigos, mas atraem sobre nós, o ódio e maldade dos perós.
Diz-lhes que fujam dos franceses, como quem arriba da sombra de frondosa sucupira, cujo lenho atrai o raio de Tupã!
E que se furtem dos perós, como quem foge da nuvem tormentosa, de cujo seio Tupã desfere o raio destruidor!
Guarda bem minhas palavras como o cumarú, sua semente, no interior do fruto, e sê feliz, com os nossos filhos, na companhia dos teus.
E continuando, fez ainda a seguinte saudação à terra, em que fora feliz e pela qual morria:
-- Adeus terra em que fruí minha infância e gozei minha juventude!
Adeus praias, vales e colinas em que fui, ora como o suassu do campo, ora como a corpulenta suaçuapara do alagadiço!
Adeus meu pai e bravos de minha nação, a quem recomendo minha mulher e meus filhos, enquanto permanecerem aqui!
Adeus vida tão cheia de enganos e desenganos! 	
Deixo-te, saudoso de minha mulher, filhos e parentes, e, sobretudo, combalido pela desventura dos mesmos!
Tempúi, Itapucú ou Luiz Maria recebeu os socorros da religião do Crucificado e deu alma ao Criador, dois dias após a malfadada batalha de Guaxenduba.
Findou-se, assim, a existência e a história de um valoroso guerreiro filho das plagas pindorâmicas.
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<div "Epílogo">

Dois anos foram passados, depois daqueles acontecimentos.
Em formosa taba, situada no alto de graciosa colina, próximo à margem do rio do Guajaú efetua-se o casamento de um certo guerreiro.
A nação guajajara, representada por muitos morubixabas de reconhecido valor, ali compareceu a convite de Itacy, o maioral daquela taba; vinha de Gurupy, Pinaré, Zufiua e de outros lugares, com o fim único de assistir aquela cerimônia.
Quem eram os noivos?
Eram -- Ipeçumuca, filho de Itapucú e de Amujacy, e neto de Itapoan e de Japiassu, dois grandes morubixabas de nações, diferentes, e Gitirana, filha de Coema e de Pirapebe e neta de Ariranha e Arapary, dois moçacaras irmãos de Itapoan e guajajaras de sangue.
Casavam-se, conforme à tradição de seus antepassados, sob a doce influência de um verdadeiro amor.
Estavam presentes: Amujacy, Coema, Itacy, então chefe da taba, Aracatú esposa de Itacy, Pirapebe, Catuaba, Tataíra, isto é, o pajé e muitos outros.
Mambirassú, Anajatuba, Itapoan, Ariranha, Arapary, haviam falecido.
A nação Guajajara florescia e prosperava à moda selvagem, oculta os olhos profanadores dos filhos de além-mar.
Itacy não houvera filhos com a sua esposa, nem com as suas aguaçaby e o lugar de chefe que ocupava no seio de seu povo, o destino reservava a Ipeçumuca, vigoroso rebento de duas valorosas nações.
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