GOMES FREIRE

PRIMEIRA PARTE 


A VINGANÇA DOS JESUITAS 


I

A ronda das ordenanças 

A noute estava calida, pesada, asphyxiante, o luar vinha do alto, brando, suave, envolvendo a cidade no sereno dos seus clarões, espalhando alvuras leitosas pelos edificios erectos, graves, firmes, tocando os santos vetustos e patriarchaes nas roupagens de pedra dos porticos dos innumeros conventos, tornando d'uma branquidão marmorea os palacios de escadarias envarandadas e terraços floridos empinados para o Tejo que corria n'umas scintillações claras de prata fundida. 

Ouviam-se os latidos furiosos garganteados pelos cães vadios estirados pelas ruas escorregadias e infectas, por onde os mosquitos zumbiam incommodando com as suas ferroadas os bandos bulhentos e estúrdios de populares, que passavam de quando em quando e se perdiam nas vielas em doudas algazarras, cantando pelas baiucas enfumadas d'onde chegavam sons gemidos de violas em desaforados e languidos landuns. 

A gente grave, os serios e pesados mercadores de grosso trato, tanto como os efeminados peraltas da corte, os mellifluos e dengosos cantores do paço, os frades severos e gordos, não se atreviam a sahir depois de certas horas temendo o encontro d'esses bandos que então infestavam a cidade correndo ao assalto das bolsas com o mesmo ardor bellico com que durante o governo do marquez de Pombal escorraçavam os hespanhoes, atacando com denodo as rondas das ordenanças, a ronda da chuchadeira, como lhes chamava o povo, aterrorisando os circumspectos botequineiros que as compunham armados de partazanas e de chuços virgens de combates. 

Tudo mudara em Portugal depois da queda do velho ministro, que comparecia ainda ante os juizes apesar de quasi moribundo, n'esse anno de 1781 cheio de tendencias de retorcesso para os tempos beatos do freiratico D. João V, o d'Odivellas, e em que as potencias espreitavam com gaudio o desmantelamento do poderio portuguez mantido outr'ora pela vontade energica do reformador que n'uma <marca num="*" pag=6> phrase soubera prophetisar o futuro da nação. 



<nota num="*" pag=6> O marquez de Pombal ao saber que lhe tinham apeado o busto do medalhão da estatua equestre, substituindo-o pelas armas de Lisboa que tem um galeão de velas desfraldadas dissera: 

-- Agora é que Portugal vae á vela </nota>





A ronda das ordenanças, passava lentamente em face do forte da Junqueira debruçado para o rio, como se quizesse fazer ouvir no intimo das suas casamatas o murmurio profundo das aguas ao lamberem cariciosamente os esfarellados paredões que as formavam e onde o ministro omnipotente no reinado anterior, soubera aferrolhar a nobreza revoltada contra a sua grande obra que cognominaria um rei apenas complacente. 

Os homens da ronda, uns vinte, armados de velhos chuços, envergando os fato dos seus officios e tendo sobre as cabelleiras de rabicho uns chapéus tricornes, caminhavam como receosos lançando olhares investigadores para todos os lados. No meio do grupo vinha um homem gordanchudo, baixo, fardado n'um uniforme verde e que arrastava a pesada espada pendente do cinturão de couro apertado ao seu ventre obeso; na cabeça trazia chapéu com galões de prata a encimar-lhe a cabelleira d'um pardo accentuado; calçava meias d'algodão listrado e sapatos com fivelas de latão, nos dedos envolvia um rosario de grandes contas ôcas e dos labios vermelhos no largo carão escanhoado, sahia-lhe um murmurio fervoroso de beata prece ao ouvir bater a uma hora no convento dos oratorianos das Necessidades. 

-- Resaes, senhor capitão da ronda? interrogou uma voz zombeteira mesmo ao seu lado. 

E elle interrompendo a oração, e olhando a pessoa que o interrogava, volveu: 

-- Estou fazendo uma coroa para que a Senhora do Cabo livre a ronda de maus encontros, senhor corregedor! 

Aquelle a quem o capitão chamava corregedor e que vestia completamente de velludo negro e tinha pelos hombros a capa d'homem de justiça, em cujo peito se destacavam os bofes de rendas da sua camisa, era um individuo alto, elegante, que se apoiava na vara, distinctivo do seu cargo e usava cabelleira encannudada encimada por um enorme chapéu de pasta em forma de meia lua. Ao ouvir a resposta do capitão, esboçava um sorriso e volvia: 

-- E esperais assim afugentar os salteadores? 

-- Certamente, certamente ... E oxalá que Nossa Senhora do Cabo sempre nos livre d'esses bandidos que andam desaforados! 

-- Ha-de livrar, mestre João Negraes, ha-de livrar! Por isso todos os annos lhe offereço seis almudes do meu melhor azeite... exclamou um dos da ronda em voz fanhosa. 

-- E eu acompanho-a á sua ermidinha do outro lado do Tejo e offereço-lhe dez duzias dos meus pasteis com que são depois regalados os anjinhos que o senhor marquez de Marialva leva á procissão! exclamou mestre Negraes que era pasteleiro nos arcos de Belem. 

Como se fosse um signal, todos os da ronda começaram a enumerar os seus presentes á santa, fallando com devoção, emquanto um d'elles affirmava: 

-- E bem merece a pena... Eu tenho sido poupado desde que entrei para as ordenanças... Mas também todos os annos offereço a Santa Maria de Belem, dois odres de vinho... 

-- Com que se regalam os frades, mestre Bellarmino, porque é bom o vosso vinho! tornou o corregedor com convicção, dirigindo-se ao botequineiro do largo de Belem. 

-- Cada vez que me lembro dos marotos das quadrilhas até sinto suores frios! bradou mestre João Negraes, aterrorisado.

-- É pedir uma droga ali ao boticario do Altinho... Olhe que já estamos perto! gritou n'uma risada o zombeteiro corregedor. 

-- Ah! V. s.ª não sabe... para roubarem uma gallinha de virtude, mataram a bruxa d'Alcolena... Não zombe, senhor corregedor... Olhe que estes tempos vão maus... 

-- Peores que os do Sebastião José! disse o Bellarmino por entre dentes. 

-- Sim que ao menos no tempo do atheu, os ladrões tinham medo dos tratos... retorquio de novo o capitão. 

-- Não era isso... É que os soldados andavam pagos em dia e não formavam quadrilhas!... exclamou um mestre correeiro devotado ao marquez. 

-- Isso é verdade... Ele era mau, tinha cabellos no coração, era um impio, mas lá governar sabia!... tornou João Negraes. 

-- E havia ouro no real erário, no tempo do Sebastião José... 

-- Pudera... Se não ia para Roma! rosnou por entre dentes o corregedor. 

-- E agora é uma lastima... Nem o negocio deixa... exclamou o correeiro cheio d'indignação, emquanto o Bellarmino, affirmava n'um proloquio que começava a correr: 

-- Olhem: Mal por mal antes Pombal! 

-- Cautella com as fallacias... Olhem que estamos á porta do actual ministro! bradou o corregedor, apontando o palacio do marquez d'Angeja. 

Olharam com espanto a residencia e alguns persignaram-se devotamente, agradecendo in mente aos santos da sua aííeição aquelle aviso do official das justiças. 

Calaram-se e continuaram a caminhar. 

Subiam agora pelos terrenos do Altinho em direcção ao convento das Salesias que se erguia n'um recanto, cingido nos muros altos da cerca, mostrando nas paredes claras, caiadas de fresco, as janellas tracejadas de varões a olharem o rio. 

Iam passar em frente do convento, já levavam as mãos aos chapéus perante a egreja cujo portão forte, chapeado, se fechava hermeticamente aos ruidos de fóra, a garantir o socego das monjas. 

Mas de súbito o corregedor estacou, e n'um movimento rapido collocou-se em frente da lanterna emquanto os homens de ronda recuavam amendrontados d'aquelle impulso, ouvindo o official da justiça, dizer em voz baixa: 

-- Alto... Occultem-se ahi na portaria... 

-- Mas que é, senhor corregedor? interrogou em voz tremula o João Negraes. 

-- Não viu um vulto saltar o muro da cerca? interrogou elle 

-- Algum ratoneiro que vae buscar uma abada de laranjas á cerca das freiras... tornou de má vontade o capitão. 

-- Ou algum fidalgo perdido d'amores que vae fallar á sua monja... ciciou o taberneiro Bellarmino. 

-- N'um ou n'outro caso a ronda nada tem a ver com isso... 

São negocios de pouca monta... Vamos, senhor corregedor! pediu o capitão, sentindo um calefrio ao lembrar-se das quadrilhas e passando com furia infrene nos dedos tremulos as contas do rozario. 

Porém o corregedor, que ficara a meio do caminho, emquanto os outros se occultavam na portaria, fez um gesto rapido, aconchegou-se mais com a parede e murmurou: 

-- Oh! Deitam uma escada da janella... Parece que alguém vae descer... Diga aos seus homens que estejam promptos ao signal... Quando soltar um silvo do meu apito corram a prender o fidalgote... 

-- Mas que vae fazer, senhor corregedor? interrogou cada vez mais receioso o pasteleiro de Belem. 

-- Ora essa! Vou com a Convento das Salesias com a sua ajuda evitar um sacrilegio!... disse elle sorrindo com certa alegria e dispondo-se a saltar o muro da cerca do lado do Altinho, emquanto o vulto que vira subir ficava debaixo das janellas do convento que deitavam para as terras fronteiras ao pateo dos bichos da quinta de Belem. 

-- Ajudem-me aqui, que o muro d'este ponto é alto!... tornou a meia voz sentindo-se já empurrado por um dos da ronda, ouvindo ao mesmo tempo mestre Negraes exclamar: 

-- Deixe-os... Naturalmente é gente de nascimento... 

-- E que tem com isso? Obedeça ás minhas ordens em nome de sua magestade. Fique ahi com os seus homens e quando os chamar venham... Do contrario já sabem que incorrerão nas iras do senhor Pina Manique, intendente da policia. 

Fallava-lhes assim, em voz baixa, muito nervoso no alto do muro que transpunha d'um pulo. 

O corregedor foi cahir sobre uma mouta d'alecrim florido, que formava um biombo de verdura, além no recanto da cerca em frente o caramanchão onde as freiras passavam as horas da sesta. 

Relanceou um olhar para as janellas do convento e avistou o vulto parado a alguma distancia trocando breves signaes ao clarão da lua com alguem que estava no alto, emquanto uma escada de corda pendia presa nos varões do parapeito. 

Era do lado do refeitorio, d'uma janella sem grades que lhe respondiam, segundo o corregedor podia ver acocorado nas hervas, tendo nos labios um sorriso satisfeito ao murmurar: 

-- Hum... É ella que vae descer... Trata-se d'um rapto... Amanhã subo um grau no animo do intendente... 

Foi n'este momento que um ruido de vozes semi-abafadas vindo do caramanchão, lhe feriu os ouvidos. Estremeceu, ficou um momento muito admirado, e no seu rosto desenhou-se uma expressão d'assombro ao escutar o que diziam ali proximo, no interior do caramanchão verdejante e perfumado, onde penetrava um bello e tenue raio de luar. 

-- Sim, meu amigo... Os seus sonhos podem realisar-se... Não era a primeira vez que um simples padre jesuita subia até á purpura... murmurava uma voz molle mas persuasiva. 

-- Outros ha que não pertencendo á Companhia estão a meio caminho para cardeaes... Senão, veja esse arcebispo de Thessalonica, o confessor da rainha, que o escuta, e se deixa dominar por elle que nos odeia... tornou outra voz, porém, vibrante e forte. 

-- O quê?... O quê?... E eu seria cardeal? Cardeal como vós, eminentíssimo senhor? perguntou um outro, sem duvida aquelle a quem se tinham dirigido, n'um tom commovido. 

-- Sim, padre Manuel Cardozo... Não são esses os vossos desejos mais ardentes? interrogou o que primeiro fallára, emquanto o corregedor, sem perder de vista o vulto agora empoleirado no ultimo degrau da escada, murmurava: 

-- Oh! Os jesuitas levantam a cabeça... 

No caramanchão continuavam fallando mas agora de forma que o corregedor apenas entendia algumas palavras soltas. 

Rastejando, acercou-se mais, e nos seus olhos fusilaram dois clarões de intima alegria ao ouvil-os agora muito bem, descobrindo mesmo por entre a folhagem um vulto vestido de vermelho, descortinando um rosto branco, d'olhos castanhos, vagamente illuminado n'uma mancha de luar, emquanto na escuridão ficava um outro vulto negro, quasi indefenido; e de pé em frente d'ambos, um 

homemsinho enfesado, pallido, a cabecita pequena a agitar-se n'uns tremores nervosos, as mãos a agarrarem as dobras d'um habito ecclesiastico, e que de costas voltadas para o corregedor, exclamava: 

-- Oh! E que era necessario fazer para isso?... Tudo... tudo que fôr possivel! Oh! a purpura... a purpura... 

-- É uma predestinação em vós, padre Manuel Cardoso... disse o individuo que ficava no recanto e que como os outros dois fallava n'uma mistura d'italiano e portuguez muito em voga no tempo. 

-- Sim... Já vos chamam o cardeal... tornou o que se envolvia nas vestes prelaticias. 

-- Ah! Desde que pertenço á companhia... Até o Sebastião José, um dia no paço das damas, me chamou assim... Oh! e eu espero... espero... 

-- Podeis esperar tudo da omnipotencia divina, irmão... volveu o vulto negro, emquanto o padre perguntava pela segunda vez: 

-- Mas que é necessário fazer? 

-- É preciso que a companhia de Jesus, volte a estes reinos, e á direcção espiritual dos principes. 

-- Oh! Estais zombando, padre mestre, disse elle dirigindo-se ao vulto que se conservava na sombra e continuando logo: 

-- E como posso eu, um pobre padre conseguir tudo isso, se vós que tendes poder não o fazeis?... 

Calaram-se e olharam-se durante alguns momentos silencio, emquanto o luar entrava em fios pallidos por entre a folhagem do caramanchão. 

Exactamente na occasião em que iam responder á pergunta do padre Manuel Cardoso, pela janella do convento descendo a escada nos braços do vulto que o corregedor estivera analysando via-se uma forma clara, na qual elle reconhecia uma freira vestida no habito das salesias. O corregedor fez um movimento para se levantar, desejoso de oppor-se áquelle rapto que lhe fizera descobrir mais um mysterio, porém sentiu-se agitado estranhamente e a custo abafou um grito de pasmo, ao ouvir o homem que estivera até então falando, retorquir em resposta ao antigo jesuita: 

-- Para serdes cardeal era necessario que D. Maria I não reinasse... Que deixasse d'existir! 

-- Ah! E será isso possivel?... É ainda muito nova a soberana... morro antes... titubeou em voz rouca o padre Cardoso. 

-- Não... A rainha que por cousa alguma, aconselhada como está por esse maldito arcebispo confessor, admitte a volta da companhia apesar da sua grande fé catholica e extrema devoção, pôde morrer amanhã. Basta uma vontade decidida e um braço firme... insinuou ainda o outro. 

Agora o homem que conduzia a freira já estava de pé na cerca e ia transpor o muro onde descançava a religiosa; o corregedor tinha um novo impulso para os deter, porém interessava-o muito mais aquella conspiração movida na sombra pelos membros da companhia de Jesus, contra a rainha. 

O padre Cardoso ficava calado, amarrotava cada vez mais nervosamente as dobras do habito e ao cabo d'alguns minutos, volvia: 

-- E se eu fosse esse homem... 

-- Serieis cardeal porque subiria ao throno... 

-- O principe do Brazil... murmurou o padre. 

-- Não esse... É novo demais por agora... Depois é um discipulo do Sebastião José. Ficaria na regencia el-rei D. Pedro III cujo espirito religioso está entregue á muito habil direcção do senhor cardeal da Cunha... e n'um gesto lento, n'um traço negro desenhado na sombra, o padre mestre apontava o homem sentado quasi a seu lado, e continuava: 

A rainha não se libertará nunca da influencia do arcebispo de Thessalonica e embora isso succedesse, teria escrupulo em ir contra os decretos de seu pae... Não rehabilita os Tavoras como não admitte a companhia de Jesus... Tem ao seu lado além do arcebispo, o marquez de Marialva que a aconselha tambem... Já vedes pois, meu padre, que só sendo D. Pedro rei, é que terieis a vossa purpura... 

-- Oh ! Tudo... Tudo... Irei até ao fim... 

-- O que? Serieis capaz de assassinar a rainha? perguntou o cardeal da Cunha n'um impeto. 

-- Sim... Irei até ao fim... Quero a minha purpurai exclamou o padre n'um gesto de louco, em voz cada vez mais rouca. 

Os outros trocaram um olhar d'intelligencia, e por fim o padre mestre disse: 

-- Pois bem, estaes decidido? 

-- A tudo... 

-- Ide amanhã a Queluz, ao paço real, sereis introduzido e cumpri a vossa vontade... A Companhia vos saberá agradecer, cardeal Cardozo. 

E atirava-lhe aquelle titulo honorifico a deslumbral-o, bem certo do attentado ao ver um clarão de loucura no semblante do padre, a quem dizia: 

-- E agora jurae que nada revelareis do que se passou, e jurae também que não  hesitareis... 

O corregedor fazia um movimento de admiração ante semelhantes combinações e olhando para o muro via que a freira e o seu raptor tambem desapparecido. Mordeu os labios enraivecido, porém temendo despertar a attenção dos conspiradores deixou-se ficar na mesma posição. 

No caramanchel o padre Cardozo murmurava convicto o seu juramento, em voz clara, firme, vibrante. 

Agora erguiam-se e iam palacio de Queluz (ala direita) descer os tres pequenos degraus do retiro das freiras. 

N'este momento soavam gritos afflictivos e ouviu-se um tinir de espadas que obrigaram os padres a estremecer, emquanto o cardeal da Cunha murmurava: 

-- Que se passará? 

-- Alguma arruaça nocturna! É melhor recolhermo-nos ao convento, eminencia... O padre Cardoso ficará comvosco ate de madrugada! aventou o homem trajado de negro e cujo rosto o corregedor não conseguiu ver na rapida passagem dos conspiradores para a escada do convento. 

Na rua continuava o ruido da lucta, tiniam espadas, soavam gritos, emquanto a ronda se acoutava na portaria esperando prudentemente o signal do corregedor para intervir na questão. 

Porém este punha-se de pé, ficava ainda uns momentos a olhar o convento, e murmurava: 

-- E se eu os prendesse? Nada... É melhor ouvir o intendente... Está mettido na cousa o cardeal da Cunha! E pelo sim pelo não... fez um gesto, accenou com a cabeça e tornou: 

-- Oh! Eu os ensinarei!... Agora vamos aos outros! 

Muito rapidamente corria para o muro d'onde vinha ainda o mesmo ruido das espadas tocando-se; trinava um silvo estridente, saltava para a rua e via uma sege correndo de batida pelo campo das Salesias, e os seus pés tropeçavam n'um corpo cahido junto do muro da cerca, cuja cabeça livida se destacava ao clarão da lua. 

A ronda rodeava-o agora; as partazanas luziam, os rostos pallidos dos bons e gordos milicianos tinham expressões contristadas e o corregedor n'um olhar interrogativo, exclamava: 

-- Com que então, mestre João Negraes, assim deixaes que fidalgos cruzem as espadas apesar do alvará de sua magestade que prohibe os duellos? 

-- Esperava o vosso signal, senhor corregedor! volveu em voz tremula o pobre pasteleiro, muito ridiculo na sua farda verde. 

-- Signal que chegou tarde... Ah! mas não faz mal... Julgo que d'esta vez o intendente ha-de perdoar não só a vós outros por deixarem de cumprir o vosso dever, mas até aos proprios duellistas... Vá... É levar este fidalgo ahi para portaria e correi a buscar soccorro... Esperem; deixem ver se merece a pena!... 

E elle tomando a grande lanterna das mãos d'um homem da ronda, assestou-a para o rosto do que estava cahido e coberto de sangue. Era um mancebo de rosto pallido pelo sangue perdido, vestido n'um requinte de luxo e que entreabria os labios como se quizesse fallar. 

O corregedor fez um signal aos da ronda para que o levassem e exclamou: 

-- Ganhei a minha noute!





II 







O intendente da policia 



Terminava n'esse dia o lucto da côrte pela morte da rainha mãe, D. Marianna Victoria de Bourbon. 

D. Maria I, ao cabo d'alguns mezes de recolhimento, devia receber os fidalgos da sua casa além na sala do throno do paço de Queluz forrada de damasco carmesim-escuro. 

Enfileiravam-se poltronas acaireladas de velludos lavrados, os espaldares entalhados com armas reaes e destinadas aos altos personagens, perto do solio escarlate, de pesado docel, ladeado por cortinas cabidas em pregas opulentas e ondulantes em trualidades graves, severas, de sombras ricas dadas pela semi-obcuridade que reinava na sala fresca, cujos reposteiros pezados estavam corridos deixando apenas ouvir um vago sussurro das fontes nos jardins da regia residencia. 

Pela porta rasgada, ampla, avistava-se a turba dos cortezaos recamados d'ouro, em vestes de seda, os punhos das espadas cinzelados, as casacas de cores variegadas scintillantes de bordados, camisas de bofes, d'arrendados leves e caprichosos, as cabeças firmes cobertas nas cabelleiras empoadas e rescendentes, cingidas em fitas setinosas; destacavam-se os penteados altos das damas muito emplumadas lembrando um bando dalegres aves de plumagem exotica tremulando aos seus menores movimentos, os pescoços alvos sahindo dos decotes, emoldados em perolas e diamantes vindos nas bagagens dos vice-reis. 

No meio d'aquelle luxo bizarro faiscavam os olhos languidos das secias damas <marca num="*" pag=16> de faces pintalgadas de signaes postiços, os fidalgos passavam na turba em ademanes dengosos, ellas estendiam os collos em ondulações cysnaticas, entreabriam os labios em sorrisos languidos, os rostos besuntados em carmim vivo segundo a moda do tempo. 



<nota num="*" pag=16> Estes signaes das damas obedeciam a diversos nomes. </nota>



Apinhoava-se além a maior nobreza do reino, luziam casulas de bispos, tinham fortes coloridos as fardas dos generaes e dos marechaes de cujos hombros pendiam cordões d'ouro, as vestes negras onde se destacavam os punhos de renda dos gentis homens da camara, traçavam notas severas na multidão brilhante, e os habitos dos prelados das ordens religiosas deixavam pontos claros a breves intervallos. Erguiam-se acima das cabeças as alabardas d'aço dos archeiros das Guardas Reaes, que nos seus trajos de velludo de cores variadas se postavam em torno da sala, aguardando a soberana. 

Fazia-se um grande movimento de recuo na turba aristocratica, curvavam-se cabeças, alguns joelhos dobravam-se, as cabelleiras sacudidas deixavam evolar nuvens de pós aromaticos, todos se affastavam respeitosamente, esboçando sorrisos de servilismo em face d'um homem que acabava d'entrar, vestido muito simplesmente no habito branco dos carmelitas e que arrastava as suas sandalias nos gloriosos tapetes orientaes da sala do throno. 

Era alto, volumoso, d'hombros largos e peito saliente, o rosto gordo luzidio, córado, o pescoço com refegos de carne cabidos na gola alvissima do seu habito, os lábios grossos, vermelhos e sensuaes abertos a deixarem entrever dentes claros e rijos, verdadeiros dentes de camponio sadio, de mãos amplas e fronte larga, a cabeça teimosa e obstinada, encimada por uns cabellos grisalhos que lhe formavam a aureola da larga calva fradesca. 

Muitos fidalgos acercavam-se a pedir-lhe bençãos, as damas collavam os labios frescos á sua mão papuda, toda a corte se curvava em zumbaias, n'umas exterioridades respeitosas, mantidas outr'ora para com o marquez de Pombal emquanto, como ao presente, os odios referviam nos peitos dos membros efeminados d'aquella côrte singular. 

Elle olhava-os d'alto, firme, sereno, com desprezo altivo nos olhinhos redondos e penetrantes, por vezes fuzilantes em clarões desdenhosos. Uma verdadeira multidão o cercava, emquanto o carmelita ficava impassivel olhando a porta; depois, de repente, n'um gesto rapido e vulgar, exclamava em voz forte e d'um rude accento transmontano: 

-- Que vem fazer á corte o cardeal da Cunha? Então já esqueceu as ordens da rainha que, apesar de o deixar no conselho d'estado, o dispensou de vir ao paço? 

Dizia aquillo brutalmente, quasi sem olhar os que se curvavam ante elle como lacaios, e fitava o cardeal que apparecia vestido na sua purpura, o rosto claro franzido n'uma expressão de desgosto. 

Varias vozes se levantavam na turba cortezã, todos se affastavam a deixarem-no isolado a meio da sala, emquanto elle caminhava lentamente olhando com raiva o carmelita. 

A côrte estava admirada d'aquelle successo, de ver o cardeal da Cunha apresentar-se assim de subito, depois de ter cabido no desagrado da soberana que lhe conservara os empregos a instancias de D. Pedro III, de quem elle era director espiritual. 

-- Senhor arcebispo de Thessalonica, vossa grandeza quer saber o motivo da vinda do cardeal? interrogou um joven fidalgo com o mais agradavel dos seus sorrisos, fazendo uma mesura ao homem diante de quem todos se curvavam, que era o confessor da rainha, um astro fulgurante da côrte pela confiança de D. Maria I. 

-- Que importa? Veiu porque lhe appeteceram os ares de Queluz... tornou o arcebispo no mesmo tom rude, voltando com desplante as costas ao joven que lhe fez ainda respeitoso cumprimento, emquanto o outro tomava logar n'uma poltrona. 

Agora entrava na sala um velho alto, d'olhar bondoso, physionomia nobre e insinuante, elegante e donairoso apesar da edade e que se vestia completamente de negro, ostentando um thesouro em cada botão da sua casaca, da qual pendia de longa fita vermelha uma gran-cruz; descançava as mãos nos copos lavrados do seu espadim e sorria agradavelmente á côrte que o saudava com respeito. 

O cardeal da Cunha, ao vêl-o, e sentindo-se isolado na sala, avançou para elle e exclamou: 

-- Deus vos salve, senhor marquez de Marialva! O velho fidalgo, olhou-o admirado e disse: 

-- Vós aqui, senhor cardeal da Cunha! 

-- Sim, excellencia, tornou elle com grande cerimonia em que o marquez reparou. Vim para pedir justiça a sua magestade. 

Todos os fidalgos se tinham acercado cheios de curiosidade ao ouvirem as ultimas palavras do cardeal que continuava: 

-- Sim... Justiça, já que não posso appellar para o serviço dos que dirigem a policia! 

-- O quê? E não é vossa eminencia, o regedor das justiças? interrogou o Marialva, emquanto os fidalgos abafavam risos nos lenços de rendas perfumadas. 

-- Marquez... Eu o sou por graça de Sua Magestade... No emtanto a cidade é continuamente assaltada e as rondas impotentes para cohibirem abusos... A mim pertencem as justiças executivas mas não as questões de segurança... E d'esta vez, como sempre, os criminosos não cahirao sob a minha alçada... 

-- Mas que succedeu, senhor cardeal ? Algum novo crime perpetrado pelas quadrilhas?... 

-- Oh! Antes o fosse.. Porém succedeu um verdadeiro sacrilegio ! 

-- Um sacrilegio?! perguntou toda aquella corte devota, cheia de terror esquecendo já a falsa posição do cardeal. 

-- Sim... Foi roubada esta noate uma monja do convento das Salesias... 

Um brado d'admiração e de horror sahiu dos labios dos fidalgos, emquanto as damas se acercavam curiosas. 

-- Não seria obra do inimigo?... perguntou em voz de baixo profundo um rotundo desembargador, continuando: 

-- Como succedeu com aquella freira do Sacramento que tinha aventuras amorosas com o proprio Belzebuth... Até se pintaram cruzes vermelhas nas janellas por onde o demonio costumava entrar... 

-- E foi mandada para a Inquisição! accrescentou uma divina mulher loura n'um fremito de terror. 

Mas o cardeal não os ouvia e exclamava, tornando-se vermelho como a sua purpura: 

-- E rente ao muro da cerca appareceu ferido um fidalgo... Ah! desde os tempos do senhor D. João V, que Deus tenha em sua gloria eterna, que ninguem se atrevia a raptar uma freira, nem a ferir um homem junto a terreno sagrado... E para demais ha o alvará que prohibe os duellos... 

-- Oh! Mas o criminoso precisa d'um exemplar castigo! exclamou o de Marialva cuja devoção era bem conhecida, accrescentando logo: 

-- E ha-de tel-o, juro vos... Sua magestade ha-de ouvir os meus rogos... 

N'este momento, o cardeal da Cunha tornava-se ainda mais vermelho d'indignação e bradava: 

-- Ah! Mas ainda não sabeis o resto, senhor marquez... É que a monja raptada, é a minha sobrinha D. Elvira de Mendonça e Mello... Que o fidalgo ferido, quasi moribundo, é D. Ramiro, o seu promettido noivo... 

D'esta vez o espanto da corte foi enorme, uns mostravam-se indignados, emquanto outros se acercavam do arcebispo de Thessanica a narrarem-lhe o facto que elle ouvia muito distrahido, tendo murmurios desdenhosos nos labios grossos. 

O cardeal ia continuar, enxugava a testa molhada de suor, porém empallidecia ao vêr entrar o padre Cardoso, muito encolhido nas dobras negras do seu habito, que avançava cabisbaixo para junto do throno, a occultar-se na multidão fidalga. 

Só então o cardeal pareceu recordar-se do seu facto da vespera, estremeceu e ficou como desfallecido em face do Marialva que attribuindo o deliquio á commoção, lhe tomou caridosamente o braço e obrigou o cardeal a sentar-se n'uma das poltronas proximo do arcebispo que se levantou d'um pulo, muito irado, e lançou um olhar colerico ao marquez, affastando com um safanão os que o rodeavam, e murmurou: 

-- Que irreverencia... O cardeal ao meu lado... Esse judas! Porém agora a côrte movia-se a dar passagem a um homem, para o qual um fidalgo que entrara ha pouco, exclamava: 

-- Ah! Eis ahi o senhor intendente da policia que nos poderá explicar os acontecimentos d'esta noute! 

Mas Pina Manique, vestido na sua casaca bordada a prata, o rosto grave sem a minima alteração, volveu um olhar pela sala como a procurar alguém, sem dar attençao ás palavras que lhe dirigiam, e depois voltando se para o corregedor que o acompanhava muito á vontade no meio da corte, pareceu interrogal-o em voz baixa, emquanto o subordinado lançando um golpe de vista por entre a turba, teve um sorriso satisfeito nos lábios, ao descobrir o padre Cardoso, sumido contra o throno. 

-- Senhor intendente... V. exª poder-nos-ha explicar os acontecimentos d'esta noute... O sacrilegio inaudito que se perpetrou? interrogou o mesmo individuo que já se lhe dirigira e que estivera fallando com Marialva. 

O intendente fez-lhe um cumprimento e interrogou-o por seu turno: 

-- Que acontecimentos, senhor ministro?... 

E o marquez d'Angeja, porque era elle o interlocutor de Manique, volveu: 

-- O sacrilegio do convento das Salesias de Belem. 

O intendente ia responder, mas batiam no chão as alabardas dos archeiros da Guarda Real, e o mestre de cerimonias, entrajado de gala, abrindo caminho, annunciou em voz forte: 

-- Sua Magestade! Curvaram-se as damas, formaram-se alas, as pessoas de maior gerarchia collocaram se á frente, emquanto o vulto volumoso do arcebispo de Thessalonica se destacava na rectaguarda da rainha, e á frente d'um sequito de damas, fidalgos e pagens. 

D. Maria I, subia altivamente para o throno em passadas medidas, breves, o rosto magro e claro onde brilhavam uns olhos vagos, melancholicos, eivados d'uma expressão de tristeza. 

A corte ajoelhava em frente da soberana que ficava de pé no throno e apenas o arcebispo tomava logar a pouca distancia. 

Ali perto, o padre Cardoso, n'uns estremecimentos nervosos, os olhitos a dardejarem clarões intermittentes, todo agitado em frente da soberana, apertava sob as vestes com a mão crispada a coronha d'uma grande pistola. 

O corregedor tivera artes de se collocar n'uma meia sombra na sua rectaguarda ao passo que o intendente da policia, mesmo em face da rainha, olhava firme e persistentemente o jesuita que continuava no mesmo tremor, os labios em titilações, os dentes cerrados com furia, a cabecita redonda de maniaco semi-curvada; e o cardeal da Cunha pozera-se a distancia, perto da porta, ennovelado nas vestes prelaticias, muito pallido, elle, o que vinha reclamar  justiça. 

Reinava na sala um pesado silencio, ouvia-se correr lentamente, n'uns murmurios, a agua nos tanques do jardim. 

D. Maria I, encarava o intendente da policia, via a direcção do seu olhar descobrir de seguida o cardeal a alguma distancia, ia falar, mover se, estendia o braço ebúrneo n'um gesto de agradecimento. 

O padre Cardoso, o jesuita, apertava cada vez mais a coronha da sua pistola e levantava os olhos para a soberana de pé na sua frente, lembrando-se muito a conspiração da vespera, todo elle tremulo de receio, louco e ambicioso. 

Era o momento. 

Continuavam sempre nas mesmas attitudes, entreviam-se as cabeleiras empoadas dos cortezãos sahidas do amalgama dos fatos vistosos e ricos. 

O jesuita não perdera de vista a soberana: fizera um pequeno movimento, estremecera. 

Na retina passou-lhe então uma visão de morte; viu no ardor da sua imaginação a rainha prostrada pelas suas balas, cahida para sempre emquanto elle molhava as suas roupas negras no sangue ainda quente que lhe daria a côr rica da purpura, com a qual formaria as suas vestes prelaticias arrastadas depois na curia para onde o enviariam. O seu cerebro d'ambicioso, maniaco, acalentava planos; sentia um fremito percorrer-lhe a espinha, nos olhitos encovados scintillava um clarão raivoso e n'um repente entreabria o habito deixando  apparecer as coronhas das pistolas, uma das quaes segurava com mão rija e possante em extranha allucinação. 

A rainha olhava-o também durante instantes, tornava-se pallida, livida, e antes que o jesuita fizesse um movimento para descarregar a arma, sahia-lhe da garganta um som estridulo e ficava hirta, apontava o vulto negro do padre Cardozo, exclamando: 

-- Regicida! Regicida!... 

Elle, ao vêr-se descoberto, ficou paralysado, deixou cahir a pistola sobre o tapete e sentiu se agarrado fortemente pela mão ferrea do corregedor, emquanto os archeiros da guarda levantavam sobre elle as alabardas e os fidalgos soltavam imprecações n'um rumor incrivel, ouvindo-se acima de todo o tumulto, a voz trovejante do intendente da policia, que bradava: 

-- Padre Manuel Cardozo, estaes preso em nome de Sua Magestade! 

O cardeal da Cunha, empallidecera logo ao primeiro grito da soberana e cingira-se contra a porta, envolvido nas vestes de principe da egreja, emquanto o arcebispo de Thessalonica subindo os tres degraus do throno, dominando a assembléa com o seu vulto claro no habito de carmelita, segurava a rainha meia desfallecida e que lhe apoiava a cabeça no hombro largo. 

Pina Manique, agarrava vigorosamente o jesuita e exclamava de novo: 

-- Regicida! Não hesitavas então ante o sacrilegio mais horroroso ? 

E n'outro tom para o corregedor do crime que lhe revelara a conspiração urdida nas Salesias, dizia: 

-- Conduzi este homem... Levai-o com todas as cautellas... É um grande criminoso e os cúmplices podem deseja livrai-o 

Fixava com c seu olhar duro e cortante o cardeal da Cunha que cada vez se occultava mais no reposteiro. 

Por entre os ruidos, os protestos, o coro d'imprecações da corte, o jesuita sahiu agarrado pelo corregedor. Ia de cabeça baixa; como se tivesse perdido o uso da razão, murmurava palavras soltas e ao passar junto do cardeal volveu para elle um olhar que obrigou o prelado a estremecer esperando ouvir sahir dos labios d'aquelle homem uma tremenda revelação. Porém Cardozo, esboçou um sorriso alvar, rouquejou uns sons e deixou-se levar pelos corredores em direcção á porta da sabida. 

O marquez d'Angeja, o primeiro ministro, acercava-se da rainha a felicital- a por ter falhado o attentado, via no seu rosto uma expressão dolorosa e afastava-se logo com uma venia, dirigia-se para o cardeal da Cunha com quem travava conversação sobre os acontecimentos da noite anterior. O prelado, respondia, com grandes hesitações, volvendo a miudo olhares para o intendente da policia. 

Em torno fallava-se, manifestavam-se indignações; a corte corria a rodear a rainha muito fraca pelo abalo soffrido, ao passo que o arcebispo de Thessalonica, tendo para a soberana um olhar de piedade e para a turba um gesto rude, exclamava laconico e imperioso: 

-- Vossa Magestade, deve recolher-se aos seus aposentos! D. Maria I, lançava-lhe um breve sorriso agradecido, encostava-se no seu braço com força e volvia: 

-- Recolher-me-hei... Acompanhe-me, meu padre. Careço dos vossos carinhos, D. Fr. Ignacio...

O carmelita, passeou um olhar dominador pela corte, como a dizer-lhe que a sorte d'esse padre quasi regicida estava nas suas mãos, nas linhas vulgares do rosto houve como subita transformação e cada vez com maior rudeza, muito desprezador para aquelles fidalgos, bradou: 

-- Affastem-se, senhores! Sua Magestade vae recolher-se... Na ala dos cortezãos estava o velho marquez de Marialva, que tivera ha pouco longa conversação com Angeja acerca do sacrilegio de Belem, como já se chamava na côrte ao rapto da monja, e a rainha ao avistal-o sorria-lhe com amizade e em  tom quasi respeitoso dizia: 

-- Marquez... 

-- Real Senhora! respondeu elle ajoelhando-se em frente da rainha, emquanto a côrte se curvava respeitosa. 

-- Acompanhe-me também... ordenou ella, muito cheia d'attenções para com o velho amigo de seu pae. 

E o marquez, com toda a tranquillidade, sem reparar sequer no resto da nobreza, collocou-se ao lado de D. Maria I que caminhava agora entre elle e o arcebispo; os archeiros abriam caminho com grande pressa e as alas fidalgas formavam-se á passagem da rainha. 

-- Passagem!... Passagem!... bradava na sua voz rude e forte o arcebispo de Thessalonica, erecto e aprumado no seu habito simples para o qual a côrte tinha longos olhares respeitosos. 

Logo que a soberana sahiu com o seu sequito, os fidalgos começaram a dispersar-se pelo palacio e pelo jardim; o marquez d' Angeja conversava ainda com o cardeal que sorria com certo jubilo ante as palavras do ministro. 

Foi n'esta occasião que o corregedor do crime voltou da sua missão e se approximou do intendente da policia que ficara no vão da janella como a contemplar as arvores do parque por onde se viam prepassar ranchos fidalgos. 

-- Então, Lopes Cardoso, onde deixasteis o jesuita?... interrogou o intendente ao vêl-o na sua frente com grande veneração, todo curvado. 

-- Entreguei-o á escolta que está rodeando a sege, senhor intendente... volveu o corregedor. 

-- A escolta? 

-- Sim, senhor intendente...

-- Trouxesteis uma escolta? perguntou o intendente admirado, d'aquella previdencia. 

-- Oh! Mas decerto...

-- Julgo que não foi a da ronda das ordenanças... disse o intendente sorrindo-lhe com agrado. 

-- Apenas seis soldados de cavallaria que requisitei ao senhor marquez d'Alorna... 

-- Isso é que se chama prever as cousas! E se por acaso o homem não tentasse contra a rainha?... 

-- Eram pouco os soldados... Tinham ficado a distancia e ninguém daria por tal... 

-- Sois um homem precioso, Lopes Cardoso. Ha pouco, quando preveni sua magestade do que se tramava contra a sua augusta pessoa, fallei-lhe de vós... Bem o mereceis. Ides em bom caminho. 

O corregedor deveras lisongeado ainda se inclinou mais, volvendo: 

-- São favores de vossa excellencia...

-- É necessario premiar sempre os servidores dedicados... E o vosso serviço é d'esses que jamais esquecem. Salvasteis a vida da rainha e talvez também Portugal da ruina. Acreditae que emquanto viver D. Maria I e tiver a seu lado os Marialva e o arcebispo, a companhia de Jesus não se restabelecerá. Por isso é grande o vosso serviço... 

-- Que ordena v. ex.ª em relação ao jesuita? perguntou Lopes Cardoso, radiante. 

-- Conduzi-o para o forte da Junqueira... respondeu o intendente. 

Porém n'este momento o marquez d'Angeja descobria os homens da policia, trocava mais algumas palavras com o cardeal e , fazia um gesto a Manique para que se approximasse. 

Elle avançou para o ministro olhando com persistencia o cardeal que sorria, e ouviu Angeja, exclamar: 

-- Senhor intendente... Ha pouco quando entrou Sua Magestade, antes d'esse fatal acontecimento, dirigia-lhe uma pergunta... Poder-me-ha responder a ella? 

-- V. ex.ª fallava...

-- D'um sacrilegio inaudito commettido esta noute no convento das Salesias. 

-- Mas... 

-- Não tem conhecimento d'elle? interrogou severamente o marquez. 

-- V. Ex.ª... Refere se... 

-- Ao rapto de minha sobrinha!... bradou de repente o cardeal. 

O intendente fez-se pallido ante a gravidade do acontecimento que julgava sem importancia e respondeu: 

-- Nada sei a esse respeito, confesso.

-- Ah! Senhor intendente, onde está então o seu zelo? Ignora que roubaram d'um convento a sobrinha do senhor cardeal, ignora que tentaram contra a vida de D. Ramiro de Noronha? 

-- Confesso a minha ignorancia n'esse assumpto, respondeu elle, olhando d'esta vez o cardeal muito altivamente. 

-- Ah! Para que serve então a vossa policia? perguntou o cardeal da Cunha, fazendo-se forte e continuando: 

-- Sou o regedor da justiça e posso dirigir-vos esta pergunta, senhor intendente. 

-- Eu não tenho policia... O serviço é apenas feito pelas rondas das ordenanças... 

-- E para que servem 

-- Confesso que esses mercadores de nada servem! tornou com tranquillidade. 

-- Porém minha sobrinha foi raptada e é necessário encontral-a! bradou de novo o cardeal muito colerico. 

-- Senhor... Ha muito que pedi ao senhor marquez d'Angeja o dinheiro necessario para a formação d'um corpo de policia... 

O ministro, estremeceu de colera ante a censura, e exclamou: 

-- Porém, sabeis as condições do erario. Sabeis, senhor intendente de policia, e que Sua Magestade perdôa todos os delictos excepto os de sacrilegio? 

N'aquellas palavras ia uma ameaça que o intendente comprehendia ao volver com um sorriso de finura: 

-- V. Ex.ª sabe que os poucos elementos de que dispunha empregava-os na descoberta da conspiração centra Sua Magestade? 

Cunha empallideceu, e o ministro interrogou: 

-- O quê? Sabieis da conspiração? 

-- Prevenira Sua Magestade, disse elle tranquillo. 

-- Vós? 

-- Meia hora antes d'entrar n'esta sala! 

-- Então Sua Magestade sabia?  

-- Sim, senhor ministro...

-- E não desistiu de vir? 

-- É bom affrontar sempre de frente os inimigos! replicou Pina Manique. 

O pasmo do marquez d'Angeja era enorme, o terror do cardeal lia-se-lhe agora nas faces que o intendente conteplava, ao perguntar-lhe muito naturalmente: 

-- Vossa eminencia está incommodado? 

Elle estremeceu novamente, viu que o marquez d'Angeja o olhava tambem e volveu em voz embargada pelo terror: 

-- Não... Penso apenas n'essa pobre menina roubada assim do interior da casa de Deus! Ah! Mas juro-vos que o raptor, o miserável que feriu D. Ramiro, desde que o descubra, pagar-me-ha caro. Será enforcado, porque sua magestade não perdoa taes delictos e ha-de escutar a voz de toda a sua corte a pedir-lhe a punição do infame que as rondas de v. ex.ª deixaram fugir... 

-- Foi hontem que succedeu esse sacrilegio, não é assim? interrogou o intendente. 

-- Sim.. Hontem ou antes na madrugada d'hoje... porque á meia noute a madre Francisca Salesia visitou o convento de alto a baixo e viu-a na sua cella... 

-- Muito bem... E o individuo ferido? 

Foi levado pela ronda das ordenanças para o seu palacio da calçada d' Ajuda! 

Por elle se poderá saber o nome do aggressor que é tambem sem duvida o auctor do rapto. 

-- Ah! Mas é que D. Ramiro Noronha não falha, e o physico do paço receia pela sua vida...

-- Mas a ronda encontrou-o já ferido? interrogou o intendente. 

-- Sim... Assistiu ainda em parte ao duello em que não interveiu porque esperava ordens d'um tal corregedor que só muito tarde as deu! exclamou o marquez d'Angeja. 

-- E como o sabe v. ex.ª? 

-- Pelo capitão das Ordenanças, um pastelleiro de Belem que se lançou hoje a meus pés pedindo piedade ao saber da alta gerarchia da pessoa, victima do miseravel raptor... 

-- Oh! Pedirei a Sua Magestade justiça severa! O culpado da fuga d'esse infame pagará o seu delicto... Resta-me saber o nome d'esse corregedor...

-- Mestre Negraes ignora-o tambem! replicou Angeja, dizendo de seguida: 

-- Mas talvez que o senhor intendente nol-o possa dizer... 

-- Eu? 

-- Sim... Não superintendeis os serviços de segurança? 

-- Assim é, senhor ministro! 

-- Ah! Então sabe o nome das pessoas que empregais e que tão pouco habeis se revelam! exclamou o cardeal. 

-- Sim... Na realidade bem pouco habeis... Descobrem melhor os tramas dos miseraveis que conspiram contra a vida de Sua Magestade do que os fidalgos raptores de monjas. 

E olhava fixamente o cardeal que bradava: 

-- Senhor intendente... Dizei-me o nome d'esse corregedor! ordenou o cardeal, invocando a sua qualidade de regedor das justiças. 

-- Preciso vêr a lista dos serviços d'esta noute... Depois vol-o direi, senhor... E emquanto aos acontecimentos interrogarei alguem que a essa hora devia estar no local! disse Pina Manique com um ar de mysterio, curvando-se ante o ministro e fazendo uma venia ao cardeal, que ficava muito pallido e se encostava á parede para não cahir ao ouvir as ultimas palavras do intendente, que já sahira da sala e entrava agora no corredor onde o Lopes Cardoso o aguardava. 

Viu-o, sorriu-lhe e dando-lhe umas palmadas no hombro, exclamou: 

-- Grandes intrigas vão na côrte, meu amigo! 

E o outro admirado do tratamento, interrogou com o mais agradAvel dos seus sorrisos: 

-- Que quereis dizer, senhor intendente? 

-- Que estaes em bom caminho para a forca, senhor corregedor! replicou elle com alguma tristeza ao lembrar-se do grande poder do cardeal no animo de D. Pedro III e tremendo pelo habil magistrado que tinha a seu lado e o qual n'um encolher de hombros, muito pallido, mas ainda com o seu bom espirito, volvia: 

-- Não é para agradecer o terdes fallado de mim a sua magestade!... Agradeço a mercê mas devolvo a promettida recompensa! Bem dizia v. ex.ª que eu ia em bom caminho!...

Para mais alto não podia ser... Porque espero ir para o céu depois de enforcado. 







III 



O frade cartuxo 



Além á entrada dos aposentos do arcebispo de Thessalonica que ficavam na parte inferior dos da rainha, para que sua magestade a todas as horas pudesse mandar subir pela escada interior, que ligava o seu quarto com o debaixo, o confessor indispensavel ao socego e á tranquillidade da sua devota consciencia, estavam dois frades vestidos nos seus habitos e que pareciam aguardar o momento de transporem a porta do carmelita. 

Um d'elles era gordo, rosto vermelho lagosta, os olhos mascarados n'uns oculos enormes e escuros, a cabeça calva ornada apenas nas fontes d'umas farripas grisalhas, as pernas curtas sustentando o ventre enorme, todo elle pantafaçudo e ridiculo; muito encostado á parede analysava o outro que passeava ao longo do corredor. Este era muito novo ainda, tinha o cabello negro circumdando a sua pequena coroa de noviço dos cartuxos, os olhos de pestanas compridas, vivos, scintillantes, fixavam- se nas arvores do jardim a espreitarem os vultos gentis das açafatas da rainha que passeavam nas ruas arenosas. 

-- Esperaes tambem sua grandeza, irmão? interrogou o outro fulgurando um olhar torvo pelos oculos negros. 

-- Sim, meu padre... respondeu o religioso em voz firme e bem timbrada. 

-- Porque me daes esse tratamento? interrogou elle fixando o mancebo. 

-- Sou apenas noviço dos cartuxos de Caxias e vós tendes as ordens 

-- No emtanto em breve as tereis tambem assim, parece... 

O frade olhou-o com certa curiosidade, analysou-o bem e volveu: 

-- Não meu padre... Jámais as terei... É exactamente por isso que aqui estou! respondeu o mancebo com grande espanto do interlocutor que bradava em voz terrivel: 

-- O quê? Deixaes o convento? Assim vos fallece o animo... Dardejava-lhe verdadeiros olhares colericos, cheios d'indignação. 

Ia responder-lhe como se deprehendia do ar resoluto com que o encarava, mas a porta dos aposentos do confessor da rainha abria-se e um leigo baixo, atarracado, d'olhos saltitantes, um riso alvar nos labios grossos apparecia a olhar os dois frades e exclamava em tom alegre: 

-- Já chegou sua Grandeza... Manda que digam as suas pretenções! 

-- Desejo fallar a sua grandeza! berrou o dos oculos, emquanto o noviço dizia por seu turno: 

-- E eu tambem...

-- Sou fr. José do Rosario, conselheiro do Santo Officio, accrescentou o rotundo frade com orgulho, olhando de novo o mancebo a quem o leigo perguntava n'um riso chocarreiro: 

-- E vós? 

-- Sua grandeza não me conhece... Sou um simples noviço dos cartuxos de Caxias... disse elle com uma humildade mais evangelica que o orgulho do gordo famulo da Inquisição. 

O leigo mostrou de novo a dentuça suja, trinou outro riso e fechando a porta com desembaraço, desappareceu arrastando as sandalias. 

Fr. José do Rosario, olhou de novo o mancebo que continuava a admirar a gentileza das açafatas da rainha, e perguntou com voz cava: 

-- Porque quereis deixar o convento, noviço? 

-- Porque não quer criar uma barriga como tu, fr. bojudo!... casquinou uma voz de falsete ao fundo do corredor. 

O padre voltou rapidamente a face affogueada, os olhos despediram scentelhas d'odio para o lado d'onde chegava a voz, ao passo que o noviço soltava uma estrondosa gargalhada ante o extranho personagem que despontava na volta do corredor. 

Era um homemzinho magro e baixo de cara engelhada, a bocca desdentada aberta n'um riso trocista, cujos olhinhos vivos verrumavam os religiosos. Avançava mettido na sua veste fidalga da mais bella seda de cuja cinta pendia uma bolsa bordada em caprichosos matizes de missangas, o fato assentava mal ao seu corpo desengonçado, a cabeça tinha-a coberta n'um chapéu tricorne ornado de lentejoulas e debruado de bons arminhos, as pernas cambaias envergadas de seda creme moviam-se n'um exaggero ironico ao andar dos cortezãos, calçava  sapatos com fivelas de prata e trazia na mão um pequeno chicote de cabo em marfim lavrado. 

O cartuxo ria desesperadamente ao vêl-o, emquanto o famulo da Inquisição se calava apesar dos seus olhares odientos. 

O personagem continuava: 

-- Sim o gentil cartucho não quer trocar a sua elegancia pelo teu corpo de velho sapo barrigudo... Eh! ouves ó forneiro de Belzebuth! 

E n'um gesto patusco assentava-lhe duas palmadinhas no ventre obeso gargalhando: 

-- Que tens com que o cartuxo queira deixar o convento? Olha, noviço, faze-lhe uma figa torta que este frade tem mau olhado! 

O mancebo, admirava-se muito do silencio do outro ante aquelle ridiculo personagem e ria ainda mais ao ouvil-o dizer: 

-- Tomo-te sob a minha protecção, joven cartuxo. Deixa fallar o D. fr. pança... Mas de que te ris?... Ah! Vejam o que são os homens! 

Ainda os mais humildes têm gargalhadas para a desgraça... disse aquellas ultimas palavras n'um tom philosophico, depois em gargalhadas estridulas, saltitando, no seu andar pausado, bradou: 

-- Eh! Olá D. fr. vibora não estales de raiva que envenenas o ar! Dou-te licença que falles... Anda responde, assador das almas! 

O famulo do Santo Officio, calava-se e os seus olhos scintillavam coriscos de colera, emquanto o outro, com mais duas palmadinhas nos hombros vastos do reverendo, aconselhava: 

-- Toma cautella não estales!... Até ao dia de juizo se rebentares... Vou ali ao Ayres de Sá, ao ministro da minha prima D. Maria I, encommendar-lhe um responso. Terás no entanto o elogio do Cardeal da Cunha teu mestre nas intrigas... Eh! lá! Adeus D. fr. lombriga das entranhas de Sebastião José!... 

Soltou uma risada e voltando-se para o noviço berrou: 

-- Ri á vontade... Pódes rir... Gosto de ti... E para inquisilar o fr. bojo, vou proteger-te...

-- Eh! lá! senhor inquisidor geral!... gritou á porta do arcebispo, accrescentando: 

-- Mandae abrir que tendes á vossa porta o maior fidalgo d'esta terra... Abri a D. João de Falperra. 

Ouviu-se o riso alegre do arcebispo e foi elle mesmo que appareceu a abrir a porta emquanto o inquisidor e o cartuxo se curvavam n'uma reverencia. O personagem bradava: 

-- Bons dias, Grandeza... Nunca ficou tão bem um titulo a um corpo... Tu devias chamar-te immensidade.

E ria de bom grado, ao passo que o confessor da rainha ria tambem, dizendo: 

-- Vem, D. João de Falperra quero regalar-te com um bello copo de vinho das lavras do Alto Douro...

-- Inda isso dura... Mas vamos a elle, immenso senhor! retorquio n'uma allusão picante á corpulencia do arcebispo, ante o espanto do cartuxo que ria ainda, ao vêl-os perderem-se no interior dos aposentos. 

-- Maldito! rosnou por entre dentes fr. José do Rosario levantando a cabeça que tivera curvada durante o tempo de conversa do exotico homunculo com o arcebispo. 

E agora ouvindo o noviço rir, exclamou: 

-- De que te ries, mancebo?... Não sabeis então do poder d'aquelle maldito D. João de Falperra? 

-- Poder?... Ora é um louco! 

-- Que domina na corte com o arcebispo e com D. Rosa. Os que elles odeiam estão perdidos no animo de sua magestade. 

-- Mas quem é elle? 

-- O bobo da côrte ... D. João de Falperra, não reparasteis que me callei... Elle que não sympathisa commigo... Mas tenho a protecção de D. Rosa e isso me salva...

-- Quem é D. Rosa, meu padre? interrogou o mancebo admirado. 

-- É a preta anã, favorita de Sua Magestade! 

-- Oh! que côrte... Então aqui dominam os loucos? interrogou com energia. 

-- Calae-vos... As paredes aqui teem ouvidos... rosnou o inquisidor, accrescentando: 

-- Não é por vós que não tendes a perder senão a vida mas é por mim que tenho os meus cargos... As paredes têm ouvidos... 

-- É verdade! É verdade! As paredes têm ouvidos! exclamou n'esta occasião a voz chocarreira do leigo gordalhudo que servia o arcebispo, apparecendo á porta. 

E o famulo estremecia ao ouvir o leigo, exclamar: 

-- Perguntavas, oh! cartuxo, se aqui dominavam os loucos? Sim... Elles, os santos e os homens de talento! Ha uma differença entre os tres: os santos tornam-se martyres, os homens de talento perdem-no, e só os doidos é que prosperam.

E ria elle tambem como louco a rebolar o ventre. 

-- Entra... accrescentou n'um gesto largo, rindo sempre. 

-- Como? Primeiro do que eu? exclamou o conselheiro do Santo Officio, mordendo os labios, accrescentando: 

-- É contra a etiqueta...

-- A etiqueta do senhor arcebispo é a sua vontade. E não tendes o direito de o censurar... bradou o leigo, com severidade. 

-- Não lh'o digaes ao menos... quasi supplicou o outro. E o gordo leigo, com um olhar protector como se fosse o amo, disse: 

-- Ficae descançado, fr. do Rozario... Vinde! bradou para o cartuxo que o seguiu deveras admirado, murmurando: 

-- Oh! Decididamente entrei bem... 

Agora chegava á porta d'um aposento todo forrado de ricos velludos, cheio de poltronas flacidas e de mezas acharoadas com incrustações de prata, fraldadas de vermelho. Em frente d'uma d'ellas estava a figura grave e pesada do arcebispo tendo na sua frente o rosto chupado do bobo que sorvia com delicia um copo de vinho dourado egual ao de Sua Grandeza. 

-- Que queres, noviço? interrogava o confessor da rainha com a sua habitual rudeza, que intimidava por momentos o joven quasi ajoelhado na sua frente e que lhe beijava a mão papuda com mostras de respeito: 

-- Ergue te... ergue te... E falla! bradou o confessor da rainha, olhando-o com attenção. 

Porém o cartuxo calava-se emquanto o bobo lhe fazia gestos para que dissesse a sua pretenção e exclamava de seguida no seu falsete: 

-- Fallae, senhor noviço, que sempre se perde por estar calado em frente de Sua Grandeza! Não é assim, compadre arcebispo? 

-- Senhor arcebispo... começava já o noviço, quando o prelado rindo muito, bradou: 

-- Olha, sê rapido... Dize tudo em duas palavras e não te demores. Que desejas? 

-- Ser militar... respondeu d'um impeto ousado o noviço com grande espanto ao prelado que bradava, fazendo-se vermelho: 

-- Oh! E julgas acaso que assim se rasga um habito?... Estás louco! Sahe!... És prompto nas exigencias! 

-- Perdeu, compadre... Elle disse tudo em duas palavras como lhe pediste,  gargalhou D. João de Falperra. 

O confessor, vendo o bom espirito do mancebo, pareceu humanisar-se ao vêl-o ir para a porta e bradou: 

-- Anda cá... Que motivos tens para a tua pretenção? 

-- Não me agrada a clausura! replicou o cartuxo. 

-- Achas severa de mais a tua ordem ? 

-- Não quero ser frade ... 

-- E porque? 

-- Porque a minha vocação não é essa! 

-- Para que entraste no convento? 

-- Senhor: sou filho segundo d'uma casa fidalga... Meu irmão pertence aos terços... Eu sou padre e queria ser militar. 

-- No regimento de teu irmão? 

-- Não, senhor arcebispo! exclamou como aterrorisado. 

-- E porque? 

-- É meu inimigo, esse irmão... Por sua causa me vestiram o habito... 

-- Sois o contrario de sua grandeza... Elle principiou por soldado e foi acabar em confessor e arcebispo... Vós começasteis por frade e acabareis em general... gritou o bobo a rir. 

-- Como vos chamais? 

Elle olhou-o com certo desprezo, como se não lhe quizesse responder, porém ficou admirado ao ouvir o arcebispo dizer: 

-- Dize o teu nome a D. João de Falperra e se elle se interessar pela tua pretenção estás servido...

-- Não... não... O bobo da côrte não protege os fidalgos, detesta-os... gritou o exotico personagem. Mas tu arcebispo de Thessalonica vaes servir esse mancebo...

-- Eu? Mas não sabes como a rainha é severa n'essas questões religiosas...? 

-- Dir-lhe-has que é uma questão de consciencia... Vá, tu tens arte, meu rebuscador de peccados!... 

O noviço ficava admirado de semelhante confiança, pasmava ao vêr a preponderancia do bobo na côrte e ainda mais se espantava ao ouvir o arcebispo dizer-lhe rindo muito: 

-- Como te chamas? 

-- Vasco de Miranda... 

-- Noviço dos cartuxos de Caxias! gritou D. João de Falperra, soltando uma gargalhada; depois tirando da bolsa uma moeda d'ouro com a effigie de soberana atirou-a ao ar e ao vêl-a cahir exclamou: 

-- Está de cunho... Ah! Noviço que não és servido... e sahiu de corrida saltando pelos moveis, abriu a porta; atirou um empurrão a fr. José do Rozario e bradou: 

-- Entra, fr. truão! 

O famulo cambaleou: de seguida atravessou o corredor e appareceu ante o arcebispo, que perguntava ainda ao joven: 

-- Estaes então decidido a assentar praça de soldado? 

-- Sim, Grandeza...

-- Pois veremos... veremos... - Isso de ser frade sem vocação é bom para os especuladores... Tens razão... No emtanto a rainha nunca consente n'essas cousas! 

E a sua grandeza no seu assento rude de transmontano ia fazer mais recommendações ao noviço quando deparou com o famulo quasi ajoelhado a seus pés. 

Voltou-se com um ar terrivel e interrogou: 

-- Quem vos mandou entrar? 

-- Mas... foi D. João Falperra...

-- Tem graça o bom bobo. Elle que tanto embirrava com vossa paternidade, hoje serviu-o...

-- É muito bondoso, o senhor da Falperra! lisongeou o padre, buscando despertar as graças do arcebispo, que bradava: 

-- Eh! Fr. José do Rozario, não tenhaes essa hypocrisia... Se pudesseis metterieis o bobo n'um ninho da inquisição... 

-- Eu, Grandeza?... Mas...

-- Fallae para que entrastes e sede breve! gritou o confessor com certo mau humor como se tivesse esquecido a presença do mancebo, para o qual o famulo lançava um olhar terrivel que elle não viu. 

O prelado tornava: 

-- Dou-te dez minutos d'audiencia... Fallae...

-- Pois com licença de vossa Grandeza eu vou apresentar a minha pretenção, começou fr. José do Rozario n'uma zombaria, emquanto o arcebispo, murmurava olhando um relogio collocado sobre uma meza fraldada de purpura: 

-- Dois minutos em cumprimentos. Sabeis que detesto os aduladores! Fallae. 

-- Grandeza... Eu venho pedir-vos uma ordem de prisão em nome do Santo Officio de que sois o Grande Inquisidor. 

-- Não é costume... Fallae ao senhor inquisidor do conselho, replicou o confessor da rainha com mau modo. 

-- Mas, Grandeza... É um caso excepcional. 

-- Trata-se... 

-- De prender por atheu um homem de justiça. 

-- É um cumulo... E que é elle? 

-- O corregedor Lopes Cardozo.

-- Ah! E que fez esse corregedor? 

-- É um sacrilego! 

-- Contae isso... volveu o arcebispo com certo interesse que não lhe era habitual. 

-- É cúmplice do rapto da sobrinha do senhor cardeal da Cunha, da monja das Salesias...

Elle deu um pulo na cadeira e bradou: 

-- Tendes a certeza? 

-- Perguntou-o ao senhor Marquez d'Angeia a quem a narrou mestre Negraes, chefe das rondas...

-- E o que fez elle? 

-- Não deu o signal ao qual a ronda devia investir, ordenando-lhe que não procedesse sem que o ouvisse... E tendo presenciado o rapto tolerou-o, chegando só depois do duello com o sr. D. Ramiro de Noronha. Elle deve saber o nome do sacrilego raptor! 

-- Tendes a certeza? perguntou o prelado, fazendo se vermelho de colera. Oh! e sua magestade que tanto se interessa n'este sacrilegio... Ella perdoa tudo excepto esses crimes... Tendes a certeza? 

-- Grandeza: Eis aqui o relatorio do mestre Negraes... e entregava-lhe uns papeis cheios de rubricas. 

-- Pois prendei-o... Eu vou participar a sua magestade que já temos um dos sacrilegos... e voltando-se para o noviço, exclamou: 

-- Olha, o mal d'uns é o bem d'outros... A' alegria que sua magestade vae ter por esta prisão deverás a dispensa do teu serviço religioso... Não tens ordens menores? 

-- Estou no convento ha um annos apenas, disse elle radiante e curvando-se. 

-- Bem... Espero servir-te, meu rapaz! exclamou o confessor no seu tom rude mas contente porque ia fazer tranquillisar a consciencia de rainha ha uns dias sobresaltada por aquelle sacrilegio. 

Depois lembrou-se do cardeal da Cunha que odiava, e disse a meia voz mas de forma que o padre ouviu: 

-- Não é pelo cardeal, é por sua magestade!... 

Agarrou a penna de rama de sobre a mesa e traçou o seu nome no fundo d'um papel que o famulo lhe apresentava, interrogando de seguida: 

-- E esse miseravel regicida? 

-- Está no carcere do lado do Jardim do Regedor na inquisição, aguardando a sentença!... 

-- Quereis dizer o julgamento? 

-- Já foi ouvido quando estava no forte da Junqueira. 

-- Ah! que declararou? 

-- É um segredo de policia... 

-- Interrogaste-o tambem! 

Nos labios de fr. José do Rozario, passou um sorriso mysterioso e inclinando-se pondo-se quasi de rastos em frente do prelado disse: 

-- Se m'o permitis vou prender o corregedor... Amanhã direi a vossa grandeza os resultados dos interrogatorios d'ambos... 

Foi-se a recuar para a porta, os labios sempre no mesmo sorriso de mysterio, as pernas gordalhudas, todo pesado, aos cumprimentos para sua grandeza que ao vel-o sahir, disse: 

-- É a primeira vez que faz alguma cousa sem interesse... Depois voltou-se para o noviço e exclamou no mesmo tom forte: 

-- Vae para o teu convento... Lá te mandarei chamar... Como é o teu nome religioso? 

-- Antonio da Purificação. 

-- Vae... e estendendo o braço apontou-lhe a porta n'um gesto severo, ao vêr o noviço lançar-se-lhe aos pés, a agradecer-lhe effusivamente, com grande anciã. Sahiu depois de innumeras venias, exclamou e ainda de porta n'uma voz cheia de gratidão: 

-- Oh! Como vos agradeço magnanimo senhor!

O arcebispo ficou um momento callado, pensativo e de seguida, murmurou: 

-- Deixa-me ir socegar o animo da pobre rainha... A prisão do sacrilego acalmar-lhe-ha os nervos irritados com receio dos castigos celestes... Que mál educaram esta soberana! e subindo a escada que rangia ao se a pezo, dirigia-se aos aposentos reaes, tendo na larga face vermelha uma expressão meia triste. 

Entretanto o cartuxo entrava no corredor e ia dirigir se para a porta do paço mas recordava-se d'alguma cousa; acercava se da janella onde ha pouco estivera parado e lançava ainda um olhar para o jardim. 

Estava tão entretido que não sentia um ruido de passos na sua rectaguarda ao mesmo tempo que uma leve mão lhe tocava nas costas a despertar-lhe a attenção. 

Voltou-se; viu D. João de Falperra que lhe sorria a mostrar as gengivas e o olhava com insistencia. 

Recordou-se do grande poder do bobo; sorriu-lhe tambem e com grande espanto seu ouviu-o dizer serenamente: 

-- Noviço... Recolhei-vos ao vosso convento; são prejudiciaes os ares da côrte para um fidalgo que recusa ser frade!... 

O noviço estremeceu e dirigiu-se para a porta depois de lhe ter dito: 

-- Obrigado pelo aviso, D. João de Falperra! e estendeu-lhe a mão fina e aristocratica. O bobo apertou-a bem na sua e depois exclamou:

-- Sabeis que não é costume dar-se a mão ao bobo... Tolera se como devertimento, como um egual e mesmo a um superior que obriga a rir, mas ninguem tem para elle essas demonstrações... Vá, noviço, leve esta lição de viver na côrte para quando um dia for bispo; e accentuando bem a palavra sorria ao ouvil-o dizer: 

-- Oh! Preferia ser general! E dae-me a vossa mão pela ultima vez porque sois um homem de bom conselho e a quem começo, a estimar! exclamou o noviço apertando mais a mão do bobo enternecido. 

Porém a subitas resoou uma gargalhada á entrada do corredor e D. João de Falperra largando o noviço exclamou: 

-- Olhae... Já começam a zombar de nós... 

Foi de corrida para o lado opposto emquanto Vasco, ou antes fr. Antonio, ia pelo corredor com os olhos baixos, vermelho de vergonha porque pudera distinguir o vulto de uma mulher que o vira falar com o truão da rainha. 

D. João de Falperra, viu o ainda desapparecer e chamando um creado do paço que vinha do quartos dos gentis homens exclamou: 

-- Vae leva esta carta e este outro papel a um noviço cartuxo que deve ir no portão da quinta... Olha lá vae a atravessar... e apontou-lhe o vulto de Vasco de Miranda que atravessava o jardim, muito cabisbaixo. Dize-lhe que vaes da parte de sua magestade!... E n'outro tom, murmurou: Ha pouco assustei-o. 

O servo como se tratasse com um alto personagem inclinou-se e partiu de corrida emquanto o truão dizia:

-- Uma boa acção de vez emquando até faz bem!

Soltou uma risada á vista d'um grupo fidalgo que passeava n'aquella forma dançada da epocha e mostrando as gengivas sem dentes, bradou: 

-- Gentis homens na distincção e nas formas, abri com a vossa tradiccional generosidade as bolsas e deitae algumas moedas d'ouro no saquitel magro de D. João de Falperra! e estendia-lhe a escarcella que tirava da cinta e onde os fidalgos deitavam as suas moedas rindo muito. 

Vasco de Miranda, atravessava o jardim do paço plantado d'arvores magnificas e onde desabrochavam mettidas nas cantarias altas. 

Ouvia risos nas balastradas que circumdavam o palacio e voltando-se viu o grupo das açafatas que estivera contemplando ha alguns momentos. 

Eram umas seis, todas muito formosas vestidas com luxo e que se entretinham formando grandes ramilhetes de vistosas flôres. 

Elle inclinou-se e deparou com uma que mais lhe prendera a attenção ao vel-a debruçada. 

Era uma menina de dezassete para dezoito annos, elegante e esbelta, de rosto roseo e lacteo onde brilhavam uns olhos azues e sonhadores a cabelleira loura formava-lhe um diadema em torno da cabeça, mas o tom dos cabellos desapparecia lhe quasi por completo, sob uma camada de pós aromáticos. 

O seu olhar fixou-se n'ella, entreabriu os labios n'um sorriso a que a dama correspondeu, ao murmurar n'uma risada. 

-- Oh! Que pena é um frade! 

E as outras riam muito, crivando o de olhares gaiatos, como a estabelecerem intimidade. 

Baixou a cabeça ao recordar-se da sua profissão, porém n'este momento sentiu que lhe tocavam no hombro e voltando-se viu um creado do paço que lhe entregava uma carta e um papel dobrado, dizendo: 

-- Da parte de sua magestade! 

-- É engano! Para mim? 

-- Para voz mesmo... Não sois um noviço cartuxo? Julgo que mais nenhum anda no jardim! e retirou-se logo apressadamente, 

Elle estupefacto leu o envolucro da carta que era dirigida ao superior do seu convento, abriu o papel, fez-se vermelho d'alegria e correndo para o meio das damas, exclamou n'uma saudação á joven loura: 

-- Vós senhora... lastimaveis que fosse frade? 

-- Oh! Na vossa edade... retorquiu ella a rir atando um novo raminho de lilazes n'um junco flexivel. 

-- Pois Deus quiz que não vos ficasse essa pena no coração... Já não sou frade... O habito não faz o monge, agora senhoras... eu sou cadete do regimento de Peniche! 

E mostrava de longe a real nomeação n'um gesto alegre; estremecendo ao ouvir a dama dizer na sua voz argentina: 

-- Graças ao nosso amigo D. João de Falperra a quem apertaes as mãos pelos corredores do paço? 

Fez-se pallido, teve um grande momento d'orgulho e bradou: 

-- Não... Graças ao senhor arcebispo de Thessalonica! Deveras convencido d'isso, bradou com gentileza: 

-- Agora, bella dama, offerecei-me uma das vossas flores para commemorar este dia do nosso conhecimento. 

-- Ahi a tendes, reverendo... Quero dizer, senhor cadete! e atirou-lhe aos pés uma rosa vermelha como o rubor que lhe subia ás faces, e que o ex-noviço levou aos labios fazendo uma venia e desapparecendo no portão depois de se ter voltado duas ou tres vezes a contemplar a joven que lhe sorria. 

Junto ás damas que riam da aventura, apparecia um homem magro, vestido de escuro e de cujo pescoço pendia uma corrente d'ouro que segurava a luneta de cabo; usava cabelleira empoada que assentava bem ao seu rosto pallido onde brilhavam uns olhos graves, profundos, scismadores e que em voz de descançada modulação, exclamava: 

-- Olhae que uma rosa quer dizer amor, D. Maria da Penha. As açafatas, levantavam-se rapidamente ante o recemchegado, emquanto a joven loura, tornando-se muito mais vermelha, volvia com os olhos baixos, n'uma vozita receosa: 

-- Se quizesse dizer respeito, ofterecer-vos-hia a mais formosa, senhor principe do Brazil... 

O regio personagem teve para ella um olhar triste e ficou a ver o noviço que atravessava a ponte em direcção á Tapada Real. 

No caminho, junto ao portão pintado de verde da quinta, fr. José do Rosario conversava com um homem de mau aspecto, vestido de negro, de rosto chupado e olhos encovados, esqueletico a contrastar com a gordura do reverendo, que apontando o noviço, murmurava: 

-- Tomae bem sentido, Jacintho Peres, é aquelle o noviço... Ide e fazei isso limpamente. Já sabeis que não sou avaro... 

-- Demais o sei, paternidade! 

-- Pschiu! mais tento, mestre Jacintho... Em Portugal já não ha jesuítas e essa designação é pouco apropriada... Quando a Companhia voltar, talvez me chameis... 

-- O reverendo geral da Ordem... insinuou o outro n'um risinho irritante, escancarando a bocca. 

-- Sim talvez... Porém ide... e apontava-lhe o noviço que se perdia na volta da estrada que vae dar a Ajuda. 

O outro fez uma venia estendeu a mão onde o jesuita depoz algumas moedas e affastou-se em seguimento do joven, arrastando a espada ferrugenta que lhe batia nas perninhas magras. 

Fr. José do Rosario, ficou ali algum tempo e dos seus labios grossos sahiram n'um murmurio estas palavras: 

-- Não se ouve impunemente um pedido de ordem de prisão para um corregedor do crime! Nada que o segredo é a alma das grandes combinações. E aquelle arcebispo é tão pouco cauteloso. 

N'este momento o reverendo ouviu passos na sua rectaguarda e voltando-se com um certo receio, viu dois homens que se dirigiam para o palacio conversando n'uma mistura italianisada que era vulgar na epocha; a alguma distancia seguia-os um creado da casa real levando duas magnificas espingardas de caça. O jesuita curvou-se á passagem d'elles e ouviu então um mancebo gordo, atarracado, o labio inferior grosso e decahido, todo o corpo enterrado sem elegancia n'umas vestes de seda e que se dirigia para elle curvando-se, a beijar-lhe a mão, emquanto o outro esboçava um sorriso maligno. 

-- Deitae-me a vossa benção, fr. José do Rosario... exclamou mancebo em voz dolente. 

-- Eu vos abençôo, serenissimo senhor príncipe D. João.

-- Estivesteis na novena da Graça no passado sabbado? interrogou o principe com respeito. 

Não, serenissimo senhor... Tive que confessar um penitente no santo officio. 

-- Talvez esse louco padre Manoel Cardozo que n'um momento de allucinação tentou contra a vida de minha mãe e rainha. 

-- Não, meu senhor... Ao allucinado sacerdote ouvil-o-hei amanhã... 

-- Ah! Resae por elle que a rainha ouvirá as vossas preces dirigidas a Deus e que a illuminarão... Adeus, reverendo!... e beijava-lhe de novo a mão grossa, dizendo na sua voz roufenha para a pessoa que o acompanhava: 

-- Pedi a benção de sua paternidade, mestre Tacques Lebon... 

Não queiraes apenas que eu maneje bem as vossas endemouinhadas espingardas... 

O mestre d'armas, curvou-se a beijar a mão do reverendo e poz-se a caminho ao lado do principe, muito grave na sua casaca vermelha. 

E o jesuita murmurava: 

-- O padre Cardozo, um louco... Ah! Se a rainha o entendesse assim... Oh! Este principe D. João... Sim elle é que era um bom rei... 

Sentiu então a voz do creado do principe que voltava a sollicitar-lhe a benção por ordem de seu amo, dizendo: 

-- Sua Alteza real, offerece-vos uma das suas seges para vos conduzir a Lisboa... 

O gordo jesuita, poz os olhos em alvo e retorquiu: 

-- Dizei a sua alteza que muito lhe agradeço a mercê, porem a minha muita humildade não me permitte acceital-a, pois fiz voto solemne a Nossa Senhora dos Martyres de trilhar a pé o caminho até á Ajuda... 

Fazia um gesto a deitar-lhe a benção e mettendo-se por entre umas sarças ia encontrar uma sege que deixara a distancia. 

Correu a cortina de couro e ouviu logo uma voz exclamar: 

-- Então, irmão fr. José do Rosario? 

-- Tudo corre ás mil maravilhas, fr. José Maria de Mello. 

Trepou com a ajuda do bolieiro, o seu corpo rotundo para o vehiculo e disse: 

-- A' Inquisição depressa... Se não ordenaes o contrario, fr. José Maria. 

-- Não... Acompanhar-vos-hei, retorquiu o outro que era um mancebo dos seus vinte e cinco annos, de faces pallidas e cabello negro e luzidio. Apesar da sua pouca edade apresentava já um semblante grave, ainda mais accentuado pelos oculos verdes que lhe encobriam os olhos enfermiços mas nos quaes havia de quando em quando scentelhas perspicazes. 

-- Correm então bem os nossos negocios?

-- A's mil maravilhas... 

-- O arcebispo assignou a ordem? 

-- Deu-me plenos poderes para prender esse tal corregedor por heretico e cumplice do miseravel raptor da sobrinha de vosso parente, o senhor cardeal de Cunha... 

Nos labios seccos do mancebo que envergava o habito dos oratorianos, passou um sorriso desdenhoso ao ouvir falar na joven, e de seguida volveu em tom energico: 

-- Bem, é então nosso, o corregedor? 

-- Dentro em instantes, talvez... 

-- Oh! Parece ao cardeal que foi esse homem que informou o intendente de policia de tudo quanto se passou nas Salesias... 

-- Mas como o saberia? 

-- É ainda um mysterio... A não ser que o proprio raptor de Elvira para garantir a sua impunidade relatasse tudo ao intendente... Mas por um chegaremos á descoberta do outro! E se acaso realmente informaram Pina Manique... Ai d'elles! Porque na Inquisição ainda ha torturas que vós não hesitareis em applicar! bradou elle com raiva. 

-- Tambem o arcebispo está interessado na prisão do corregedor... 

-- Melhor... Dentro em pouco estaremos livres d'esse tal magistrado que não prende o raptor da monja e cujo nome sem duvida nos ha-de revelar... 

-- E se não o conhecer? 

-- Pela duvida de que nos engane fal-o-hemos emmudecer para sempre até que se applique o mesmo ao infame que feriu o meu amigo D. Ramiro de Noronha... 

-- E raptou a vossa parenta... 

Tornou a sorrir e perguntou: E do padre Manuel Cardoso não vos falou o arcebispo? 

-- Sim... Quer saber a sua confissão! 

-- Oh! Esteja descançado... Para que elle a não saiba consegui arrancal-o do forte da Junqueira... Lastimo apenas que o cardeal já não tenha os plenos poderes d'inquisidor... 

-- Foi o unico cargo em que a rainha lhe tirou grande parte do poder... 

-- Essa rainha de que podiamos estar livres... Eu sempre o esperei... 

-- Então, padre-mestre, não faltarão occasiões, exclamou o fr. do Rosario com cynismo. 

-- O meio é arriscado, pensemos n'outro! Agora trata-se de salvar o padre Manuel Cardozo para que não revele os nomes dos que o incitaram... 

-- Tendes razão... Mas é facil porque a rainha dispor se-ha á clemencia. 

-- Como o sabeis? 

-- Para sua alteza o principe D. João, o padre é um louco... 

-- Ah! Eis o meio... É necessario que realmente seja considerado assim... Oh! mas o principe do Brazil influirá, e talvez nos transtorne os planos... 

-- É um atheu, esse D. José... Basta-se dizer com orgulho discipulo de fr. Manuel do Cenaculo. 

-- Que por seu turno apoiava o Sebastião José... 

-- Como o principe... 

-- Oh! Aquelle D. João é que dava um bello rei... Todo elle é piedade e devoção! 

-- Quem sabe? exclamou José Maria de Mello, com um relampago nos olhos enfermiços e continuando: 

-- Estamos para assistir a uma grande lucta que cousa alguma poderá paralysar. Ah! Fr. do Rosario.., Talvez apenas um homem a possa antever por agora... 

-- Quem é? 

-- É esse corregedor. 

-- Prendel-o-hei logo que chegar a Lisboa. 

-- Se já não se tiver evadido. 

-- Impossivel, pois ignora o que ha a seu respeito... E para maior cuidado a unica pessoa que ouviu o meu pedido de ordem de prisão, tambem não terá muito tempo de fallar d'elle... 

-- Quem é? interrogou José Maria de Mello. 

-- Ah! Um noviço cartuxo... 

-- Não tem importância a creatura. E entregasteis-o ao cuidado de Jacintho Peres não é assim...? interrogou o frade a rir extranhamente. 

-- Sim, irmão, fez o outro com tranquillidade. 

-- Oh! Adivinhei alguma cousa d'anormal ao dar pela ausencia do vosso

fadotum. Elles embrenhavam-se n'uma conversação em voz baixa emquanto a sege rodava aos solavancos nas estradas cheias de barrancos, e n'um dos momentos de maior discussão, ouvia-se o fr. José do Rosario, dizer: 

-- Mas como inutilisar a rainha? 

-- Antes d'ella, e para lhe chegar, ha outros a inutilisar primeiro... Irei até ao fim, se me deixarem... Eu sou um Tavora e os meus foram assassinados! Um Tavora deve vingar-se nos Braganças I e os seus olhos chispavam raivosamente ao murmurar: 

-- O proprio cardeal, nosso parente, sempre luctou para isso... E eu continuar-lhe-hei a obra! soltava uma risada de bom metallico e ficava-se grave no fundo da sege, a murmurar palavras de colera, o joven oratariano. 

E no jardim do paço de Queluz o principe D. João, ao lado de Jacques Lebon, seu mestre d'armas, atravessava uma vereda de alecrim, quando avistou seu irmão D. José que ainda conversava com as damas. Então, com certa raiva, voltou-se para o francez, e disse-lhe: 

-- Vinde, mestre Jacques, tomemos pelo atalho para me poupar aos sarcasmos de sua alteza! 

O mestre d'armas sorria de pussilanumidade do discipulo e seguia-o, emquanto o principe do Brazil, vendo a manobra, murmurava com ironia para as damas: 

-- Senhoras não ides pedir a benção ao reverendo D. prior de Mafra? 

-- Está no palacio, o reverendo? exclamaram todas com alegria, logo tornado em grande troça ao ouvirem o principe dizer: 

-- Sim... Vem disfarçado na pelle de meu irmão D. João... Soltavam gargalhadas e o principe ficava muito serio a contemplar com ternura a D. Maria de Penha. 

As açafatas continuavam a fazer os seus ramos de cores variegadas, e o sol filtrava-se nos feixes d'ouro dos seus derradeiros raios atravez das ramadas das arvores do jardim real. 





IV 



Um ninho d'amorosos 





A luz vinha dos candelabros de prata lavrada collocados sobre as mezas esculpidas no estylo D. João V, a engrossar sombras nas pregas dos reposteiros das portas do fundo tocados de travez. Amplos estofos rodeavam o aposento, a um canto abria-se um cravo magnifico, emquanto as cadeiras em couro lavrado de espaldar alto se alinhavam sumptuosas pela sala da fidalga residencia, erguida além a dois passos do rio, perto da Cruz Quebrada, mostrando a sua frontaria armada n'um brazão. 

A noute estava chuvosa e o vento soprava violento, fazendo ramalhar as arvores da quinta immensa que se estendia nas trazeiras da propriedade para onde deitavam as varandas de cantarias claras. 

Recostada n'um sophá via-se uma dama deveras formosa, vestida n'um roupão de velludo e que conversava com um mancebo sentado na sua frente n'um pequeno tamborete bordado a prata. 

Teria quando muito vinte e dois annos, era alto, esbelto, o rosto comprido e ainda quasi imberbe condizendo com a cabelleira polvilhada; uns olhos castanhos, de magnifica expressão illuminavam-lhe a physionomia d'um cunho masculo e energico, agora adoçado pelo sorriso amigo que enviava a joven. 

Falava em voz serena e bem timbrada e ao levantar-se mostrava toda a sua elegancia, as linhas harmoniosas do seu busto apertado n'uma farda de cadete do regimento de Peniche. 

-- Oh! Elvira, essa tristeza constante perturba-me... Dir-se-hia que me condemnas, que me culpas... exclamava elle ao ver os bellos olhos negros da sua interlocutora, orvalhados de lagrimas que se suspendiam das pestanas compridas. 

-- Condemnar-te eu? Quando fui a unica culpada do que succedeu...! volveu ella com um sorriso melancholico nos labios finos. 

-- Tu!... Não... Eu amava-te, amo-te, se não tivesses correspondido ao meu affecto saberia procurar a maneira de te esquecer!... E a unica forma porque o poderia fazer era a de me deixar matar longe d'aqui, combatendo e expondo-me... Demais bem o sabes! Para que repetir cousas dolorosas para ambos... 

- Oh! Mas eu amava-te e amo-te ainda!... bradou ella n'um impeto, enxugando as lagrimas e continuando: És tão differente de todos esses fidalgos devotos e cortezaos que trazem a infamia no fundo do coração os quaes acobertam com os sorrisos mellifios e com venias grotescas e medidas, os pensamentos que lhes vão no cerebro... 

-- Oh! Mas que tenho para te offerecer! Um fidalgo como eu, apenas pode dar á mulher amada o valor do seu braço, a sua vida... 

-- E um amor sublime em nada comparavel aos outros... Um affecto eterno, duradouro, em que se partilhem penas e cuidados, em que se soffra e haja alegria, divididos os dois sentimentos por nós ambos muito irmãmente... 

-- Elvira! Querida noiva! exclamou elle n'um arrebatamento, correndo a estreital-a ao peito. 

Formavam um grupo encantador, unidos n'aquelle amplexo curto, na sala vasta do palacio, emquanto lá fóra o vento zunia e as aguas do rio se levantavam em cristas enormes. 

-- No emtanto tenho receios... dizia ella como a medo. 

-- E de que? Não sabes do que sou capaz por tua causa. 

-- Mas falta ainda para sermos felizes essa resposta que tanto se demora... Tenho por vezes grandes sobresaltos ao lembrar-me que os teus podem recusar a sua benção ao nosso enlace... 

-- Elvira, sabes a divida que contrahi para comtigo desde que transpuz os muros d'esse convento e te arrebatei nos braços até este palacio, que a generosidade d'um amigo me cedeu!... A tua reputação soffreu sem duvida no animo da côrte, o teu sacrificio digno, é para elles uma torpeza sem nome... Preferiam vêr-te casada com um homem que não amasses embora depois te entregasses a um amante... Tudo isto são deveres que a par do immenso amor que tenho por ti, me levariam ao extremo de dispensar o consentimento dos meus... 

Oh! Nunca... nunca seriamos amaldiçoados! Que situação seria a nossa?! O odio da tua familia coUigado com a vingança que o cardeal deve meditar a estas horas... 

-- Vingança? 

-- Sim, meu amigo, tu não conheces o animo falso d'esse meu tio... Será capaz de tudo para se vingar de termos frustrado o seu plano... Depois, ha ainda esse D. Ramiro, o noivo que me queriam dar, e que sem duvida se vae alliar com elle! Todos estes odios suspensos sobre as nossas cabeças onde nos conduziriam? 

-- Ah! Tens razão! exclamou elle, ficando pensativo durante alguns momentos. 

Mas erguendo logo a cabeça, os olhos brilhantes a illuminarem-lhe o rosto da mais varonil expressão, bradou: 

-- Sahiriamos d' aqui... Iria servir n'outro paiz, esconderiamos lá a nossa felicidade... 

-- Muito longe que estivessemos o odio, a raiva de meu tio chegaria um dia... Elle é poderoso, o cardeal... Depois medita as infamias a sangue frio... 

-- Sim, é verdade... É um miseravel. Para o defmir basta vêr-se como se insinuou no animo do marquez de Pombal, que a côrte agora escorraça e condemna, como repudiou o seu parentesco com os Tavoras para lisongear o grande ministro ao qual agora alcunha de atheo, ao curvar-se ante o throno d'uma soberana que o repelliu do paço... 

-- Garantindo-lhe, no emtanto, todo o seu poder... Meu tio é ainda regedor das justiças... Perseguir-nos-ha por hereges transfugas d'um convento, como regedor das justiças saberá procurar o homem que feriu gravemente esse D. Ramiro de Noronha, a quem estima e que é o amigo mais intimo de José Maria de Mello... 

-- Ah! Mas acima d'elle ha ainda o arcebispo, o inquisidor geral... Existem amda os ministros. 

-- De que elle e collega e que lhe obedecem, principalmente Ayres de Sá e o visconde de Villa Nova... 

-- Queres dizer então? 

-- Que corremos um grave risco, meu amor... 

-- Ah! Desafio-os! gritou elle n'um impeto de heroismo; e logo, como se tivesse notado alguma cousa de triste no seu rosto, exclamou: 

-- Salvo se te arrependes de teres cedido aos meus rogos! 

-- Oh! Nunca! Nunca! retorquio a dama com energia. Sabes que estou prompta a partilhar comtigo todas as dores, todos os soffrimentos, que estou decidida a morrer a teu lado se chegarmos a esse e extremo se tornar preciso! concluiu D. Elvira, transfigurada, e com as faces vermelhas d'enthusiasmo. 

D'esta vez foi ella que se ergueu e correu a abraçal-o ; beijou-o cheia de contentamento e ficaram ambos no sophá estreitamente enlaçados, ella a repetir: 

-- Não... não... Amo-te muito... Por tua causa seria capaz de tudo! 

O cadete espreitava, cheio de contentamento, a transformação do rosto da mulher amada e esquecendo rapidamente os perigos, deixava-se ficar além prezo nos seus braços, os olhos semi-cerrados, a murmurar: 

-- Oh! Como sou feliz... E a minha felicidade começou no dia em que te conheci... Vivia triste e aborrecido aos vinte annos, quando a vida tem para todos encantos aos milhares... Os rapazes da minha edade folgavam na côrte, dançando minuetes e dirigindo madrigaes ás damas, no meio dos cortejos de poetas pobres e servis, de bobos especuladores, de padres habeis, e de negros que os ajudam nas suas emprezas cobardes, porque hoje já não ha a coragem de desembainhar uma espada frente a frente... Eu conservava-me affastado de tudo isso... Sou pobre e não quero as suas migalhas... Sou altivo de mais para descer áquelles meneios, a todas as ridiculas cortezias d'uma corte de maniacos... E então via-os passar á frente das procissões com ares devotos, via-os aprendendo com o confessor, a arte de estar á janella, descobria-os fazendo as suas affirmações aos frades, dançando os minuetes, tocando viola, cantarolando arias dolentes, via-os refalsados e hypocritas, na intimidade das damas, comendo doces pelas portarias dos conventos e sendo do cortejo das madres abbadessas que os mimoseavam a miudo... Então desesperava ao olhal-os... Tinha raiva ao meu tempo, ao ver tanta decadencia seguindo ao pcriodo de vitalidade que o grande marquez soubera dar ao paiz... 

«Foi então que te encontrei... Vi-te formosa e melancholica por entre as grades do coro, n'um dia de festa em que os altares faiscavam de luzes e as imagens tinham fulgurações nos seus mantos recamados d'ouro... Eu entrava no templo movido pela curiosidade... Depois os sons do orgão na sua dolencia de musica severa, as vozes dos cantores da Capella Real, aquella divina harmonia de Jomelli... Esse canto abria-me no coração um logar, eu que o tinha fechado pela raiva aos do meu tempo, e n'esse logar que harmonias infindas rasgavam, iam entrando dois formosos olhos humidos de lagrimas que avistava a fitarem-se em mim... Eram os teus, era a tua imagem que me offerecia novos horisontes... Então... 

-- Então... Agora é a minha vez... atalhou ella sorrindo-lhe meigamente e recostando a cabeça graciosa no hombro do noivo, continuou: 

-- Então eu que vivia triste como tu... sentindo-me isolado no interior d'esse convento, onde a par das rezas se faziam bordados e se cantavam trechos sagrados, não amando as rainhas companheiras e não podendo encarar essa madre Francisca Salesia, nem a soror Thereza, sua ajudante, eu que tinha alli por unica companhia as avesitas que morriam de tristeza em gaiolas de grades d'ouro, senti pela primeira vez um olhar amigo a fixar-me... Viera dos campos, de longe, de lá, d'onde ha sol, abelhas douradas zumbindo e fructas frescas d'uma maturação rica, confundindo os seus amores com o perfume das flôres silvestres, e sentia-me isolada... Amei esse olhar que me fitava e amei o homem que m'o enviava... D'ahi as cartas que a minha pobre Miquelina me fez chegar ás mãos, d'ahi a confissão do meu viver, a vontade de meu tio em me casar com outro a quem estava promettida e a fuga por uma noute de luar... 

-- Viemos então para aqui, para o palacio que o teu amigo conde de Assumar te cedeu, e eis-nos nos braços um do outro, fazendo juramentos d'um amor eterno e inalteravel... 

-- Oh! Sim... sim... Querida Elvira! exclamava o cadete, apertando-a muito ao peito e depondo-lhe nos lábios um beijo resdeitoso. 

Depois olharam-se como confundidos, soltavam-se dos braços um do outro, exactamente no momento em que a porta do fundo se abria e uma mulher velha, vestida como as servas, e tendo no rosto uma expressão carinhosa ao avistar o galante par, avançava até ao meio da sala, e exclamava: 

-- Acaba de chegar o sr. conde e pede para fallar a v. ex.ª... 

-- D. Pedro? exclamou o cadete n'um impeto alegre, levantando-se d'um pulo, emquanto a joven murmurava: 

-- A estas horas?... Oh! Mas nunca costuma vir de noute... Que succederá, meu Deus! e fazia-se pallida, erguendo-se a receber o recemchegado que assomava á porta, e dizia com gentileza: 

-- Desculpar-me-ha, não é assim, minha senhora?... 

D. Elvira, cada vez mais pallida, inclinou-se e esforçando-se por sorrir volveu: 

-- Oh! sr. conde, estaes em vossa casa para demais... 

-- Vossa emquanto a habitardes. Porém, perdoae, senhora, se vos roubo o vosso noivo por momentos... volveu o conde, sorrindo com gentileza e fazendo um signal ao amigo. 

D. Pedro de Portugal, o conde de Assumar, era um rapaz dos seus vinte e cinco annos, alto, reforçado, moreno e de grandes olhos negros e vivos, vestia como o seu interlocutor, a farda de cadete do regimento de Peniche e uzava cabelleira empoada, segundo o costume dos fidalgos d'aquelle tempo. 

Agora D. Elvira, corria para o meio do aposento e exclamava: 

-- D. Pedro... Por Deus, falle... Diga-me o que succedeu... Terei coragem! Oh! Diga... 

-- Mas, minha senhora, asseguro-vos que apenas uma pequenina contrariedade... 

-- Para nós? Oh! Falle... 

-- Sim, para vós... Pois tendes que dar hospitalidade esta noute a um pobre frade cartuxo que os homens da minha lancha acabam de salvar da furia das ondas... 

-- Ah! É apenas isso, exclamava a dama, esboçando um sorriso. 

-- E não é pouco pelo menos para o pobre frade que felizmente, o Joannico, um dos meus remadores conseguiu alcançar embora com risco da vida, volveu o conde de Assumar com um sorriso cortez para a dama. 

-- Mas onde foi... onde foi D. Pedro... perguntou D. Elvira a interessar-se pela victima murmurando: 

-- Mas tambem, meu Deus, aventurarem-se no mar com semelhante tempo, n'uma verdadeira noute de tempestade! 

Com effeito o vento gemia cada vez com mais força e ouvia-se o ruido das ondas encapelladas batendo nos paredões do palacio. 

-- Oh! O pobre frade recolhia ao seu convento, assim o julgo. 

-- Mas vós senhor D. Pedro para que vos aventurais assim? interrogou de novo a dama. 

-- Negocios de coração... murmurou o amigo do conde, a meia voz. 

-- Gomes Freire! exclamou de subito o fidalgo. E tu melhor de que ninguem sabes até onde elles nos levam. 

-- Voltavas de vêr a filha do conde de S. Vicente? perguntou Gomes Freire. 

-- Sim, voltava de vêr vossa prima, senhora, disse dirigindo-se á dama. 

-- Minha prima! disse D. Elvira deveras admirada. 

-- Sim... tambem uma sobrinha do cardeal que é irmã do actual conde, visto elle ser filho do 4° senhor de S. Vicente... Conheceis sem duvida D. Henriqueta da Cunha?... 

-- Eu!... Mas não... volveu ella com admiração. 

-- Porém é de vossa familia... 

-- Vivi sempre na provincia, não conheço ninguem de familia a não ser o cardeal e José Maria de Mello, tornou ella placidamente. 

O conde ficou uns momentos admirado e de seguida exclamou: 

-- É singular!... Porém, senhora, terei muito prazer em vos apresentar vossa prima, a minha noiva. 

-- Somos então quasi primos, conde? interrogou ella com alegria ingenua. 

-- Depende de se resolver o meu casamento... 

-- O velho conde sempre se humanisa? interrogou Gomes Freire com certo interesse. 

-- Não sei... Tenho ainda que vêr Henriqueta furtivamente... O pae é cruel de genio rispido... Contam-se d'elle verdadeiras atrocidades... 

Envolve-me na sua raiva por me saber ligado a D. José de Menezes, e filho do marquez de Marialva e intimo amigo de meu pae... Detesta a nossa familia como detesto rancorosamente a do Marialva, seu cunhado. 

-- Ao passo que teu pae, o marquez de Alorna... 

-- Me dá ampla liberdade... Mas isto não vem ao caso, tornou o conde continuando logo: 

-- Voltava de Oeiras de vêr a minha noiva, e a lancha parecia sossobrar a todos os momentos... No rio nem uma luz, apenas o rugir do vento e o bater das ondas nos rochedos... subito, quasi em frente de Gibraltar, os meus homens ouviram gritos e descobriram á superfície dos ondas uma embarcação voltada á qual se agarrava um vulto. Joannico, mandou avançar a lancha e dentro em instantes atirando se com denodo ás aguas conseguiu agarrar o corpo que se debatia e que era o d'um pobre frade cartuxo que recolhia ao seu convento. A embarcação era tripulada por tres homens que tinham nadado para terra deixando o desgraçado a debater-se sem soccorro... Tomei-o a bordo e trouxe-o para aqui cntregando-o aos cuidados de Joannico e do meu velho Romualdo... Está na gruta do jardim... E... agora que cumpri a minha missão, retirar-me-hei se acaso, m'o permittis. 

-- Perdão, conde... exclamou a dama. Não vol-o permitto... A noute está tempestuosa e expor-vos-heis a naufragar tambem... 

-- Elvira tem razão... secundou Gomes Freire, Tu, meu bom D. Pedro, vaes ficar aqui esta noite... 

-- Insistem... Estou ás vossas ardens! 

-- E agora vamos ver esse pobre frade, disse o cadete, emquanto D. Elvira tomava um dos candelabros de sobre a mesa. 

-- Foram-se atravez dos corredores, e o conde murmurou muito baixinho para o amigo: 

-- Preciso falar-te... Ha grandes novidades na corte... 

-- Estamos descobertos? perguntou o outro no mesmo tom de voz e sem a menor alteração no rosto. 

-- Não por emquanto... mas quem sabe quanto tempo durará a nossa impunidade... Que demonio! Não ha de ser muito difficil aos moscardos do senhor Pina Manique descobrir que o cadete do regimento de Peniche, Gomes Freire de Andrade é, o raptor da sobrinha do senhor cardeal da Cunha e que o seu camarada, D. Pedro de Portugal, o coadjuvou no rapto, disfarçado em conductor de sege, apesar de requestar tambem outra sobrinha de sua eminencia. 

-- Cala-te... Elvira pode ouvir-te e inquietar-se-hia... 

-- Bem... Porém logo que possas fala-me... Sabes que houve uma tentativa d'assassinato contra a rainha? 

-- Hein... E quem foi o infame? 

-- O padre Manuel Cardozo, por alcunha o cardeal. 

-- Ah! Cheira-me a intriga jesuitica! exclamou Gomes Freire em voz alta, ao chegarem á entrada do quarto onde descançava o frade. 

Entraram lentamente e cohtemplaram-no: elle estava ainda estendido no leito; tinha os olhos cerrados, murmurava palavras inintelligiveis e mostrava o rosto insinuante coberto de grande pallidez. 

Á cabeceira do leito viam-se dois homens. Joannico, o remador, o typo do gaiato da epocha, de grandes olhos vivos na cara chupada e melenas cahidas na frente, e Romualdo, o velho servo dos Alornas, vestido na sua libré muito cuidada e tendo no rosto grave e sereno uma grande expressão de piedade pelo pobre naufrago que o gaiato salvara da furia das ondas. 

Ao verem entrar os fidalgos curvaram-se quasi até ao chão, e o conde dirigindo-se-lhe, bradou: 

-- Pódem ir deitar-se... eu mesmo ficarei a velar o frade... E para demais tu Romualdo já não estás em edade de vigilias e tu Joannico deves estar cançado... 

-- Oh! Senhor conde, disse o remador com um sorriso de fanatico para o idolo, fixando o mancebo, eu estou bem! Nunca estive tão contente! Elle que vestia um fato do conde, encontrado por acaso n'um armario de residencia, tinha uma grande alegria na physionomia esperta e contemplando-se com amor volvia: 

-- Pois se estou vestido como um fidalgo. E lançando sempre um olhar contente para o fato de seda, endireitou o busto e sahiu da sala ao lado de Romualdo diante d'um sorriso do conde que ordenou: 

-- Pois bem, guarda o fato... Dou-t'o, como paga da tua acção... Agora retirem-se... 

E ficaram apenas os tres contemplando o frade que dormitava em sobresalto tendo aos pés do leito o habito encharcado. 

Gomes Freire, teve um movimento de colera e fixando o religioso, exclamou em voz vibrante: 

-- Olá senhor frade... A vós outros, não são permittidos os segredos senão os de confissão e nós, eu e o meu amigo D. Pedro de Portugal, não nos confessamos com risco de passarmos por impios... Por isso se escapasteis hontem de morrer nas ondas porque se voltou um barco, não escapareis hoje porque ouvisteis uma conversa... 

E o conde d'Assumar, accrescentou com tranquillidade: 

-- Na verdade antes tivesseis ficado nos penhascos da Gibalta, assim teremos que trabalhar em abrir-vos uma cova ahi para o meio da quinta se não preferireis tomar um novo banho... e apontava o Tejo que corria ali a seus pés lambendo o rochedo sobre que assentava o palacio. 

Porém o frade sem a minima commoção, com um sorriso amavel e com uma venia de gentileza, apesar de ter o habito todo ensopado e amarrotado, volveu: 

-- Senhores: Permitti que vos diga que só por acaso ouvi o vosso segredo... Permitti tambem que vos diga que prometto esquecel-o e... 

-- Que segredo em bocca de frade equivale a estar em labios de mulher! interrompeu D. Pedro, emquanto Gomes Freire, continuava: 

-- O caso de que se trata e o qual agora sem duvida conheceis tão bem como nós, fez ruido e sobresaltou a côrte pelo extraordinario de aventura... 

-- E pelo arrojo dos seus iniciadores! interrompeu o frade, cruzando os braços e sentindo-se cada vez mais á vontade. 

-- Oh! Agradeço-vos o cumprimento que no emtanto dispensavamos bem... Não se trata aqui d'arrojo mas sim d'uma questão de coração, cujo fim seria este ou outro mais arriscado se fosse necessario! exclamou o cadete Gomes Freire, muito altivamente, continuando logo: 

-- Ámanhã em qualquer reunião fidalga em que os peraltas fallassem d'este mysterio que escapou até hoje aos esbirros do Santo Officio e aos moscardos do senhor Pina Manique, intendente da policia, vós, irmão, teríeis o desejo de vos mostrardes sabedor de grandes intrigas e dirieis, por exemplo, que um dos vossos confessados vos revelara tudo accrescentando o sacrilegio, e ao fallardes d'elle terieis olhares raivosos e faríeis estremecer as sécias damas ao fulminardes os sacrilegos cujos nomes atirarieis em pasto aos famulos do senhor arcebispo e aos moscardos do senhor intendente... Para que tal não succeda vêmo-nos na obrigação de vos perguntar: 

-- Jogaes as armas, meu reverendo? 

O frade olhou-o com firmeza e volveu, cheio de brio: 

-- Eu as jogo, senhores cadetes... 

-- N'esse caso tenho a honra de vos convidar a um passeio pela quinta para enxugardes o vosso habito ainda molhado pelas salsas ondas, como diria qualquer dos peraltas vossos amigos... bradou Gomes Freire, com grande decisão. 

-- Perdão, camarada! atalhou D. Pedro de Portugal. É a mim que compete... 

-- Por Deus, D. Pedro... Eu sou o mais interessado... volveu o cadete. 

-- Não... Tu já tiveste um golpe rijo junto ás Salesias... Deixa que eu ensine a sua reverencia um bote de mestre Jacques Lebon que sem duvida ignora, porque no seu sagrado mister raras vezes tem encontrado este afamado e venturoso mestre d'armas do Collegio dos Nobres e de Sua Alteza o principe D. João. 

-- Enganai-vos... Tenho com elle entrevistas tres vezes por semana, replicou audaciosamente o frade, emquanto o conde e o amigo lhe admiravam o sangue frio. 

-- Ah! Vejo então que errasteis a vocação... Estaveis mais talhado para soldado que para frade cartuxo... 

-- Sou apenas noviço e pode ser que quebre os votos singelos... 

-- Se eu o consentir, porque apesar do que diz o meu amigo Gomes Freire, sou eu quem se vae bater com vossa reverencia, invocando para isso a minha qualidade de dono de casa... 

Dizia aquillo no mesmo modo irónico com que até então tinham falado ao frade, e Gomes Freire, volvia n'um assentimento: 

-- Consinto porque respeito a etiqueta... Porém se tiveres a infelicidade de levar um golpe, tomarei o teu logar. 

-- Seja... E eu colloco-me ás ordens do senhor frade que ouve os segredos pelas portas... 

-- Ás vossas ordens estou, senhor... Mas permitti que vos diga que isto em mim é infelicidade ... Escuto sempre sem querer segredos que ma custam caros. .. Ah! vá lá que comvosco estarei frente a frente, com lealdade, mas olhae que por causa d'outros segredos, já tenho sido victima de traições... 

-- É então habito antigo em vós outro, o escutar ás portas? interrogou D. Pedro provocantemente. 

E o frade que falára até então com sinceridade, fez-se extremamente pallido, sentiu um calefrio percorrer lhe o corpo, endireitou o busto, lançou a D. Pedro um olhar altivo e exclamou: 

-- Senhor... Agora vejo á affronta no que até aqui se poderia explicar... Estou ás vossas ordens... 

-- Ainda bem... E tomo a liberdade de vos offerecer uma casaca porque o vosso habito pode tolher-vos os movimentos. 

-- É largo em demasia... Vamos... bradou elle, cheio de colera. 

-- Ah! a vossa regra prohibe-vos que o tireis... Pois olhae, frei, que hontem elle bastante vos incommodava sobre as aguas... 

-- De que me arrancasteis, não é assim? interrogou o frade já menos colerico. 

-- Não e ainda bem que não! exclamou o conde. Se vos tivesse salvo a vida, teria agora remorsos de vol-a tirar. Deveis esse obsequio ao meu creado! disse-lhe com desprezo, e logo n'um tom ironico, interrogou: 

-- Vossa paternidade ha-de desculpar não termos aqui á mão um confessor para no caso de vos succeder algum desastre, porém o bom padre Ventura de S. Mathias, o capellão dos Alornas, está em Lisboa com a familia do marquez e não me parece que venha a estas paragens... É muito commodista e por aqui ha ás vezes maus encontros. Depois é medroso como um frade! concluiu o conde atirando-lhe mais aquelle insulto e desembainhando a sua espada de cadete, emquanto Gomes Freire offerecia a sua ao frade, dizendo-lhe: 

-- Ahi tem... É uma arma sacrilega... Já feriu um homem em chão sagrado... 

Porém o frade ao segurar aquella espada do regimento, estremeceu d'alegria, nos olhos passou-lhe uma scentelha d'intima satisfação e sorridente, como a colera já se lhe tivesse dissipado, exclamou: 

-- Senhor: estou ás vossas ordens! Porém peço-vos que mudemos de logar porque n'este o tinir das nossas espadas perturbaria o somno da gentil dama que hontem entrevi á cabeceira do meu leito. Cheio de gentileza, fazia uma venia com a arma ao adversario que admirado d'aquella finura de espirito n'um frade cartuxo, lhe replicava: 

-- Tendes razão... Vamos para o alto! Estareis mais perto do ceu, meu reverendo... 

Atravessaram então muito silenciosamente a quinta até ao alto que ficava no meio d'umas arvores muito copadas e o conde olhando o frade, exclamou ainda: 

-- Vae incommodar-vos o nosso habito...

Fallava-lhe d'esta vez muito seriamente ao ver o desvelo em que o joven religioso se lhe collocava na sua frente n'uma admiravel guarda, respondendo: 

-- Fazei porque rasgal-o, senhor conde... Prestar-me-heis n'esse caso um serviço... 

-- Diligenciarei... tornou D. Pedro fazendo uma venia, cada vez mais admirado d'aquella subtileza ironica do religioso. 

Além frente a frente, prestes a attacarem-se, eram ambos bellos e nem um musculo se contrahia nas suas physionomias. 

Gomes Freire, olhava o religioso e ante semelhante denodo para demais revelado n'um frade, geralmente cobardes e traiçoeiros, sentia a seu pesar invadir-se d'uma grande sympathia pelo mancebo que apenas defendia os golpes do conde, cujo braço forte fazia vergar com firmeza o delgado espadim da ordenança, berrando: 

-- Attacae, senhor, attacae! e já não feria nas suas palavras ao ver a lealdade e a coragem do adversario. 

-- Estou recebendo as vossas lições, senhor conde, retorquiu elle a sorrir. Sois muito mais habil que mestre Jacques Lebon... 

-- De quem tendes aproveitado bem as lições!... retorquiu D. Pedro, já cançado ao fim de meia hora de combate com um adversario valente que lhe aparava todos os golpes com mestria e valor. 

D. Pedro de Portugal, teve no olhar uma faisca colerica ante aquelle combate que ameaçara não ter fim e fazendo um sarilho com espadim, vibrando duas rijas estocadas no espaço, n'um golpe italiano pouco usado e que o religioso desconhecia, feriu-o no braço que empunhava a espada e pela manga do habito rasgado appareceu a carne do frade manchada de sangue que vinha aos borbotões d'uma grande ferida. 

Elle, de pé, os lábios desmaiados, n'um sorriso, exclamou: 

-- Oh! Senhor D. Pedro, executasteis bem o vosso golpe... E de tal maneira que me impedisteis de continuar o duello tendo que me conservardes prisioneiro afim de que o vosso segredo não seja revelado porque em frades não ha que confiar! e deixou-se cahir n'uma pedra, emquanto Gomes Freire, admirado d'aquella coragem, bradava: 

-- É necessario ir buscar um physico... 

-- Quereis-me curado depressa, não é assim? Oh! Como temeis pelo vosso segredo... Mas tambem como já vos disse, isto em mim é signal... Hontem nos paços reaes ouvi um segredo que me custou a maior das traições. E no emtanto sabe Deus se eu o queria ouvir... Hoje, depois de salvo d'essa traição, ouço outro segredo e sou ferido por um rijo golpe que me ficará de memoria, camaradas, eu vol-o juro! concluiu o frade, como se não desse pela dôr

da ferida. 

-- Como, camaradas? bradou Gomes Freire, emquanto o conde de Assumar avançava para o adversario muito admirado d'aquelle tratamento. 

-- Sim... Porque se não me engano a farda que envergaes é a de cadetes do regimento de Peniche... 

-- Tão certo como o vosso habito, ser os dos frades cartuxos de Caxias! apoiou Gomes Freire. 

-- Tem graça... Hoje tem-me succedido cousas identicas ás d'hontem... nunca achei tanto chiste ás repetições... Hontem, meus senhores, disse eu a uma dama: 

«O habito não faz o monge» e hoje sou obrigado a repetir-vos a phrase, porque na realidade eu não sou frade ou antes nunca o fui, porque não passei de noviço... 

-- Mas tereis ordens, o que é devéras para lastimar n'um homem esforçado e valeroso como sois! exclamou Gomes Freire buscando ligar a ferida com o seu lenço de rendas. 

-- Enganai-vos, como hontem aquelle padre... Cá voltam as repetições... Não, meus senhores, ou antes não, meus camaradas! Eu Vasco de Miranda, nunca terei ordens... 

E o noviço que na vespera sollicitara do arcebispo de Thessalonica essa mercê e que o bobo da rainha se antecipara em arranjar, dizia, mettendo a mão esquerda no bolso interior do habito e tirando uma carta e um papel dobrado: 

-- E a proposito d'ordens... Peço-vos tenhaes a bondade de ler esse documento que a agua do Tejo não conseguiu senão amar rotar na fortaleza do pergaminho. 

O cadete, agarrou rapidamente os pergaminhos e ao lêr o documento, soltou um grito d'alegria e exclamou: 

-- Ah! É uma patente que a rainha concede a Vasco de Miranda, nomeando-o cadete do regimento... 

-- Do regimento de quê? interrogou o conde d'Assumar. 

-- Do regimento de Peniche, com mil cartuxos, camaradas! bradou o frade tornando-se muito pallido e dizendo as ultimas palavras em voz fraca. 

-- Oh! Eu que vos feri... Mas porque o não dissesteis logo? tornou o conde. 

-- Porque um cadete do regimento de Peniche, deve levantar as affrontas ainda mesmo quando são feitas por irmãos de armas e... 

-- Amigos dizei... Sim e amigos! Por isso quereis partilhar a responsabilidade do nosso acto, d'esse sacrilegio que tanto punge a corte e que não vos intimidava. 

-- Não... E demais eu tenho que dizer-vos acerca d'isso... Foi o primeiro segredo que ouvi na corte e o qual me ia custando caro! disse elle em voz cada vez mais fraca. 

-- Ah! Fallai... fallai... pediram ambos n'um impeto. Mas o novo cadete, desfallecia pelo sangue perdido, deixava pender a cabeça, tornava-se livido, emquanto Gomes Freire o tomava nos braços ajudado por D. Pedro, ambos o conduziram para o palacio, murmurando: 

-- É um heroe... 

Entravam no quarto, abriam-lhe o habito e estendiam-no no leito emquanto ordenavam que fossem buscar um physico e Gomes Freire, fazia á pressa um penso que lhe collocava na ferida. 

Elle parecia acordar em sobresalto, olhava febricitante as paredes do quarto e fixava a vista em D. Elvira de Mendonça que acabava de apparecer á porta, muito gentil no seu roupão bordado e perguntava com certa afflicção na voz: 

-- Não está melhor, o reverendo? 

-- Perdão, Elvira... O senhor Vasco de Miranda é como nós outros cadete do regimento de Peniche. 

Ella soltava um grito de admiração, e Vasco voltando-se no leito, com um sorriso breve nos labios esmaecidos, todo n'uma grande agitação febril, mas muito bello na sua pallidez, dizia em voz fraca: 

-- Oh!... Oh!... Perdi a rosa vermelha e viva como os labios da gentil açafata da rainha... 







VI 



O principe do Brazil 





A rainha acabava de ver sahir na porta que deitava para o pequeno corredor, o vulto pesado e corpulento do carmelita confessor cujo habito branco ondeava, fazendo destacar a cabeça grave do arcebispo cuja tonsura era rodeada de cabellos crespos. 

Ficára então como meditando, recostada n'um sophá, o rosto de linhas nervosas muito pallido por todas as commoções soffridas. 

As aias entravam n'um longo e cerimonioso cortejo vestidas de sedas claras, as frontes encimadas por penteados colossaes, andando nas suas passadas saltitantes e rythimicas de damas sécias, habituadas ás etiquetas da côrte, e curvavam-se ante a soberana, prestes a ajoelharem-se a seus pés. 

D. Maria I, olhou-as com o seu ar nobre e grave, recebeu-lhes os cumprimentos com um gesto brando e de seguida despediu as com o olhar a indicar-lhes a sahida, murmurando: 

-- Quero estar só... Faz-me bem a solidão... Preciso meditar! 

E aquella mulher coroada, sujeita a todas as influencias, a todas as intrigas, aos caprichos dos aulicos, julgava na realidade ter a resolver um grave problema d'estado subito, tempo depois de terem sahido as damas, a porta do aposentos particulares da rainha abriu-se e appareceu um mulhersinha negra, muito baixa, de olhitos vivos e travessos, destacando-se  na esclerotica branca, ao mover as palpebras, o tronco vestido n'uma amazona da mais vermelha côr, a carapinha rente a encimar-lhe a tez d'um preto d'ebano, o nariz muito achatado, traços largos e desproporcionados com o corpo, toda ella enfeitada de joias bizarras sobre o flammante trajo; ao approximar-se da soberana, os seus labios de desmedida grossura franziram-se como contrariada, hesitou uns momentos a encarar sua ama e de seguida deitou-se-lhe aos pés n'um almofadao de velludo com borlas d'ouro, dizendo de certo modo confiado: 

-- Vossa magestade está doente? 

-- Oh! És tu D. Rosa... murmurou D. Maria I ao deparar com a sua preta anã, a favorita que tinha o condão de a alegrar. 

-- Sim... Sou eu, real magestade... Como de costume vinha passar a tarde com a minha querida rainha, mas está incommodada por vêr a negra... Ella vae se... dizia a anã na sua linguagem semi-barbara. 

-- Não... Não... Fica D. Rosa... 

-- Então ficarei, real magestade... retorquiu ella pegando na mão da soberana e levando a com fervor respeitoso aos labios que ao entreabrirem-se deixavam vêr duas enfiadas de dentes miudinhos e de extraordinaria alvura. 

-- Que ha de novo no palacio, D. Rosa ? interrogou D. Maria I, como de costume, esperando revelações que sempre lhe eram feitas ou pela favorita ou pelo seu bobo, o empavesado D. João de Falperra que D, Rosa odiava muito não desejando partilhar com elle as boas graças da soberana. 

-- Ah! Real magestade... Muitas cousas se passam... começou a negra com desplante. Todos os fidalgos e damas estão indignados... 

-- Sim? E porquê, D. Rosa ?... perguntou a rainha n'um sobresalto. 

-- Porque ainda não se descobriu o auctor do sacrilegio das Salesias... Pergunte, vossa magestade, ao cantor Polycarpo... 

-- Ah! E que diz Polycarpo? 

-- Que d'este modo dentro em pouco os salteadores de conventos serão tão numerosos como os bandidos das ruas; que já não se pode ter segurança nem mesmo na casa de Deus, que as monjas acabarão por sahir dos conventos aterrorisadas com os sacrilegios... E o reverendo oratoriano fr. José Maria de Mello pregou outro dia nas Necessidades, dizendo que o inimigo começava a triumphar de Deus, que os subditos da rainha seriam tragados pelo inferno e... 

D. Maria I, fazia-se pallida e murmurava, n'uma interrogação apressada: 

-- E?... E que?... D. Rosa... 

-- E que deviamos todos rezar por vossa magestade, para que Deus vos illuminasse. 

A rainha ouvia-a sempre no seu modo triste, quebrantada, cheia de mysticismo, antevendo ali uma falta de religião na pouca diligencia da sua policia, e ouvia a negra continuar facciosa: 

-- E a primeira revelação dos castigos do céu parte d'esse sacerdote que... 

-- Que sacerdote, D. Rosa... De quem fallas ? interrogou a rainha. 

-- Não sei se deva tocar n'este assumpto de que nunca fallei a vossa magestade, replicou a preta com grande finura. 

-- Falla; dize tudo... 

-- Pois bem!... Trata-se do padre Manuel Cardoso... Elle teve o seu braço armado por Satanaz... Um padre tornado quasi assassino... Ah! Real senhora, ali anda obra do inimigo das almas, que como diz fr. José Maria, vae triumphando... Depois como se explica os acessos que tem ?.. . Um verdadeiro horror... Atira-se contra as paredes, barafusta e blasphema... Tem o sopro de Belzebuth! -- e a anã benzia-se com uncção rebolando os olhos. 

-- Mas como o sabes? interrogou a soberana admirada. 

-- Disse-m'o em segredo um bom leigo da Inquisição... 

A rainha continuava meditativa, n'um nervosismo extranho, cada vez mais immersa nos seus pensamentos desencontrados e julgava ver ainda esse sacerdote, o antigo jesuita, a fixal-a com clarões extranhos nas pupillas, a mão magra apertando nervosamente o cabo da pistola. Sabia tudo com antecedencia, graças á prevenção do intendente, que entrara esbaforido a revelar-lhe toda a conspiração urdida contra a sua real pessoa. Estremecera dolorosamente e quasi se recusara a ir n'esse dia á sala do throno; porém, o intendente fallara-lhe em nome da justiça, supplicára lhe que se expozesse á vista dos seus súbditos, querendo-lhe evitar a tempo esse attentado infame. Fôra, tornára-se por assim dizer cumplice do inimigo, apparecendo ante esse sacerdote tresloucado como já se affirmava á bocca cheia na corte. 

E então a soberana sentia remorsos, a sua muita piedade e fervor religioso revelavam-se a subitas, hesitava, pensava agora que commettera um grave erro. 

-- Oh! Deveria tel-o afffastado antes da sua ideia criminosa ser posta em pratica! murmurou lentamente, sahindo-lhe dos labios seccos as palavras n'uma toada tristonha que a negra escutava. 

Agora ouviu-se a porta, a aia de serviço annunciar: 

-- El-rei! 

D. Rosa levantou-se d'um pulo com uns clarões de jubilo nos olhitos espertos e correndo para o recem-chcgado bradou: 

-- Benção... benção... real senhor... Ouviu-se então uma voz cançada e fanhosa, dizer: 

-- Sejas em Deus, D. Rosa... 

D. Pedro III, devia ter sessenta e dois annos, era um individuo de regular apparencia, caminhando sempre com um ar de piedade, nos dedos finos as contas do rosario, a cara rapada segundo o uso do tempo, os olhos d'uma languidez mystica parados, sem brilho erguidos de momento a momento para os corredores do palacio onde se cavavam nichos e ardiam velas deante de toda a especie de santos que affirmavam a grande devoção dos soberanos. Vestia completamente de negro como um magistrado ou como um ecclesiastico, trazia nas mãos um grande lenço vermelho apertado com a tabaqueira de ouro em cuja tampa se via a imagem de S. Pedro. As pernas eram tropegas e arrastava os pés calçados em sapatos de fivelas douro, na alcatifa espessa do aposento real. Elle, o rei devoto, digno marido da rainha piedosa, curvava-se n'um cumprimento respeitoso e murmurava n'uma lamuria de cantochão, a inclinar a perruca parda que lhe em.moldurava a cabeça torva e alvar: 

-- Que os santos martyres estejam comvosco real, senhora n'este dia do seu muito e glorioso martyrio... 

-- Assim seja real senhora... E que a Virgem vos acompanhe... 

Ambos n'aquelle formulario de beatas e com a etiqueta rigorosa d'essa prevenida côrte ficaram face a face, contemplando-se como a interrogarem-se: 

-- Ouvisteis fallar na loucura que deu de repente ao padre Cardoso, real senhora! perguntou D. Pedro III no seu tom fradesco. 

Accenou-lhe ligeiramente com a cabeça e murmurou: 

-- Sim, real senhor e esposo, ouvi... E bastante me preoccupa esse estado do... 

-- Ah! E porque, real senhora... Assim já não poderá responder diante do tribunal? Não é verdade? interrogou el-rei, dizendo ainda como a medo: 

-- E vossa magestade queria dar um exemplar castigo... 

-- Eu? 

-- Sim, real senhora. Bem sabeis como ando affastado dos negocios... Porém é a voz corrente em toda a corte... Assim Deus, antecipou o seu castigo ao de vossa magestade. 

A rainha ficou pensativa e por fim, disse: 

-- O intendente da policia tinha-me fallado em suppliciar esse padre, em apresental-o como exemplo a novas tentativas, realmente é verdade... Está, porém, entregue ao tribunal angusto da Inquisição, e o meu confessor aconselha-me que se lhe instaure um processo civil, seguindo a opinião do intendente. 

-- Ah! Um vão sacerdote julgado... Por Deus, real senhora... Sabeis que nunca vos peço cousa alguma, mas o meu espirito soffre só coma ideia dever um ministro de Deus e para demais um pobre louco entregue aos juizes... Oh! real senhora... 

-- Mas e o exemplo e a justiça! exclamou ainda a rainha tomada de certa revolta, e acariciando a carapinha da negra que se lhe deitara novamente aos pés. 

-- Mas, real senhora e mãe, bradou n'este momento uma voz da porta. Isso é repetir as atrocidades que o Sebastião José, o hereje, fez soffrer ao padre Malagrida... 

-- O senhor intendente da policia tem muito da escola em que aprender! 

Voltaram-se todos para o lado d'onde vinha a voz e depararam com o principe D. João que ia beijar as mãos dos seus progenitores ficando-se depois n'uma attitude de devoção, emquanto D. Pedro III passava nos dedos as contas do rosario. 

D. Maria I, ao ouvir os conselhos e supplicas do filho e do marido, que actuavam no seu animo religioso, deveras disposto á clemencia em assumptos de devoção, ficou calada, e estremeceu ao ouvir D. João, com um enthusiasmo que não lhe era peculiar, dizer: 

-- E esse senhor intendente ao mesmo tempo que aconselha suplicios para os loucos, deixa andar á solta os sacrilegos que assaltam os conventos... Senhora mãe, começou elle, depois de uma curta pausa. Eu venho pedir a vossa magestade muito respeitosamente, que ordene ao senhor intendente a immediata prisão do miseravel, que em chão sagrado, atacou um fidalgo e que roubou uma monja do seu convento. 

-- Mas, meu filho, o senhor arcebispo acaba de participar-me que o sacrilego vae dar entrada na inquisição... 

-- Ah! Mas é que ha tambem certo corregedor... 

-- É esse mesmo que vae ser punido. 

-- Ah! E então o verdadeiro criminoso... 

-- Ainda não se descobriu... Aguardam-se as confissões do corregedor... 

-- Para que serve então o intendente da policia? interrogou ai voz fanhosa do rei. 

-- Para descobrir aquelles que tentam revoltas na sombra contra a rainha minha mãe e vossa esposa, real senhor! bradou uma nova voz; e o principe D. José, alto, esbelto, desenvolto, o unico da familía que tinha na fronte a energia, apparecia no limiar vestido com simplicidade, e inclinava-se a beijar a mão á rainha e a el-rei, lançando ao mesmo tempo um olhar desdenhoso ao gordo principe D. João, que perguntava: 

-- Onde esteve vossa alteza esta manha que não appareceu na missa ? 

Não se dignou responder-lhe logo, viu os olhares dos regios personagens fixos n'elle e encarou a preta que fechava na mão um amuleto ante aquelle principe tido como hereje pela côrte effeminada. 

Agora volvia com desdem: 

-- Ouvi a missa na capella do senhor marquez de Bellas, no meio d'um rancho de camponezes que não me reconheceram... Ali ouvi exprimir-se o povo na sua linguagem rude e franca, o que sempre é proveitoso... 

-- Para quem espera ser rei... murmurou o principe D. João, emquanto a rainha, pallida de colera ante o filho Mais velho, se erguia um pouco no sophá e agarrava nervosamente a carapinha de D. Rosa que lançava olhares desconfiados a D. José, o qual n'um impeto exclamava: 

-- Sim... Diz vossa alteza para quem espera ser rei... Oxalá que o seja bem tarde, porque é signal de longa vida de nossa augusta mãe... Porém no dia em que prometter aos portuguezes um reinado de felicidade, saberei dar-lhes essa felicidade!... 

-- Vossa alteza possue um segredo de tornar venturosos os que se acercam de sua real pessoa... murmurou D. Pedro III com uns longes d'ironia, a que o herdeiro do throno, volveu: 

-- Não, meu senhor e pae, ao contrario, muito ao contrario eu torno-os desgraçados... Porém é por agora, e só por agora... 

-- Porque vossa alteza ainda não usou o seu elixir gerador de venturas... tornou de novo o soberano com grande gaudio do principe D. João, o qual era a mais perfeita copia de seu pae. 

-- E não real senhor... Porque segundo creio o que vossa magestade chama o meu elixir tem o nome de justiça, cabal, ampla, completa, justiça para todos sem excepção como no reinado de meu avô, quer os criminosos que ha a punir se chamem Aveiros e Tavoras e pertençam á melhor nobreza do reino, quer usem o nome de Malagrida e sejam membros da Companhia de Jesus, d'esse bando negro que volta impetuoso estendendo as garras para empolgar um throno esperando empolgar um povo inteiro... Oh! mas quebrar-lhes-hei as azas para que rastejem sempre!... 

No rosto dos augustos personagens, estampou-se a maior admiração, ante aquellas palavras do príncipe, aliás usuaes na sua bocca, embora nunca proferidas com tanta vehemencia. 

A rainha puzera-se de pé, vibrante, livida, olhara o filho e em voz tremula de raiva, sibilante, exclamara: 

-- Vossa Alteza, permitte-se em censurar o meu governo? 

-- Não, real senhora e minha augusta mãe, permitto-me apenas dizer-lhe que a traição e a perfidia se embuscam no vosso palacio acobertadas nas roupetas jesuiticas! 

-- Os jesuitas!... Que blasphemia! Se foram expulsos!... bradou o principe D. João com grande espanto. 

-- Sim, foram expulsos uns e ficaram outros... Alguns dos que sahiram, voltaram tambem acobertados nos habitos d'outras ordens. Eu sou capaz de os apontar a dedo no paço real, na magistratura, nos conventos e até nas praças publicas... E vou apontal-os ante a intriga urdida em volta do throno e em que se busca salvar um miseravel que nos teria privado da nossa soberana se um homem habil e dedicado aos seus reis não tivesse impedido o golpe. 

-- O quê? Pois sabe? interrogou a rainha deveras admirada. 

D. José, na sua exaltação, continuava: 

-- Sei tudo, real senhora, sei tudo... Acabo de estar com o senhor intendente da policia... 

-- Ah! Por isso vossa alteza vem desejoso de barbaridades sem nome... tornou D. Pedro III com cena raiva. 

-- Não, meu pae... Venho desejoso de justiça... E por isso, vos peço, minha augusta mãe, não como principe mas como filho respeitoso e obediente, um castigo exemplar para o padre Manuel Cardoso que meu irmão busca salvar, que meu pae cognomina de louco! 

-- Senhor, e sobre os Evangelhos, pela memoria dos Santos Martyres vos juro, que esse pobre sacerdote é um maniaco, replicou D. Pedro. 

-- Sel-o-ha... Porém houve quem aproveitasse a sua mania para lhe armar o braço... Era um louco tambem esse Jacques Clemente que em 1580 assassinou Henrique III... Ravaillac era um louco e poz entraves com o seu punhal á obra do grande Sully ao assassinar Henrique IV... São sempre loucos aquelles a quem os padres armam os braços, são sempre allucinados os que tentam contra a vida dos reis... No emtanto como no mundo ha milhares de maniacos e apenas alguns reis, se não dermos o exemplo ao primeiro d'aquelles que se tornou regecida, dentro em pouco não haverá soberanos. 

Agora os outros ficavam confundidos e aterrados; a propria rainha admirada da logica d'esse eloquente principe que era seu filho, conservava-se muda, e a negra benzia-se a miudo, relanceando, olhares para o principe do Brazil. 

Elle, no emtanto continuava com o seu enorme enthusiasmo: 

-- Sejamos pois coherentes... Não nos importemos com a qualidade dos criminosos e castiguemol-os com severidade... Castigue-se o padre Manoel Cardoso e procurem se os seus cumplices!... 

-- Como? Os seus cumplices? Mas vossa alteza acredita que elles existam? interrogou a soberana toda n'um tremor. 

-- Apontal-os-hei a vossa magestade se me concede para isso permissão... Agarral-os-hei e se fôr necessario eu proprio os levarei até ao pelourinho para que as multidões cevem n'elles a sua colera, despojal-os-hei das honras e dos cargos, não me intimidarei com edades nem com posições... 

-- Alteza... Prohibo lh'o... Ouve bem! gritou a soberana n'um arranco. Isso são falsidades dos que buscam agradar... Não creio nos cumplices do padre Cardoso... 

-- Tem vossa magestade razão! bradaram em unisono D. João e D. Pedro. 

-- Mas vossa magestade não sabe o succedido. 

-- Não... O intendente revelou-me apenas o que quiz ouvir... Não quero fazer um reinado de perseguições e por isso melhor é assim... Vossa Alteza quando reinar procederá como desejar, trabalhará para a historia; eu trabalho para Deus e para a minha fé... 

-- E para a historia tambem, real senhora... A ella pertence a casa de Bragança, desde que um duque nosso antepassado pôr na cabeça a corôa da dynastia de Aviz descendente por seu turno ao rei sagrado em Ourique!

-- Alteza... Não o quero ouvir mais! Já vos disse que não encetarei perseguições... É a melhor maneira de aplacar a colera dos inimigos... A clemencia desarma os maus... 

-- A vossa clemencia é grande, senhora... Por isso deveis perdoar ao padre Manoel Cardoso, ao louco... Exilal-o... Deus antecipou a vossa justiça! exclamou D. Pedro III com grande interesse fazendo abertamente o seu pedido logo apoiado por D. João, que dizia: 

-- E castigar o sacrilego das Salesias... 

-- Dir-sehia que vossa alteza tem grande interesse na punição d'esse facto quasi sem importancia... bradou irreflectidamente o principe do Brazil. 

-- Que blasphemia!... Se é o maior dos sacrilegios!... gritou D. João, ao passo que D. Pedro e a rainha, bradavam: 

-- Oh! É inaudito! 

-- Ah! Vossa magestade quer punir o sacrilego que rouba uma monja e fere um fidalgo sem duvida em leal duello e deixa em paz o maior sacrilego, o que tentava contra a vossa vida!... 

-- Alteza!... Os actos da rainha não se discutem! exclamou D. Maria I erguendo a cabeça com altivez. Apraz-me ser clemente, sel-o-hei...

-- N'esse caso porque não perdoaes ao velho marquez de Pombal? bradou o principe do Brazil n'um movimento de furia emquanto os seus interlocutores se faziam pallidos como se tivessem ouvido pronunciar o nome do anti-Christo.

E D. Maria I, bradou d'esta vez com verdadeira colera: 

-Sei donde vem... Acaba de se revelar... Vem de lêr as obras secretas do seu mestre...

-De fr. Manuel de Cenaculo? mas não me consta que as tenha.

- Não... Sua magestade quer referir-se ao outro... ao Sebastião José... disse com desprezo o rei, accrescentando: Esse é mais regicida que o proprio Manuel Cardoso... Basta dizer-se, alteza, que quiz privar vossa mãe do throno...

- Ah! E vingam-se! gritou o principe sem se poder conter.

A rainha apontou-lhe a porta n'um gesto lento e soberano, fez-se excessivamente pallida e exclamou:

- Sahi, senhor principe do Brazil. Sahi e não volteis sem que vos ordene!

D. José, tornou-se livido, lançou-se um olhar rancoroso ao pae e  

ao irmão e sahiu em passos firmes depois de se ter inclinado em face da rainha. 

E á porta, cerrando as mãos com força, murmurou cheio de rancor:

- Oh! Sente-se n'esta intriga o dedo jesuitico!... Descobrirei auctor! Ou eu não seja nunca rei de Portugal! 





VII 









A intriga regia 



O principe do Brazil sahira emquanto elles ficaram entreolhando-se. 

Depois deante d'uma risadinha satisfeita de D. Rosa que se revolvia na sua almofada de borlas de ouro, pareceram despertar. 

D. Maria I, como se apenas então tivesse medido bem a gravidade do seu acto deixou-se cahir no sophá quasi desamparadamente, emquanto a negra como um rafeiro lhe beijava as mãos d'uma alvura marmorea sulcadas de veias finas, setinosas e azuladas. 

-- Oh! Fui muito longe... foi severidade em demasia... 

murmurou a rainha sentindo o peito arfar-lhe com violencia. 

O principe D. João sorria n'um jubilo egual ao da mercenaria negra ao ver expulso o irmão; D. Pedro murmurava uma oração crente como a pedir coragem ao ceu e ao ouvir o monologo breve da esposa, volvia: 

-- Não, real senhora... Não fosteis severa em demasia... Se não estivesse na presença de vossa magestade eu desde ha muito teria mandado sahir esse filho irreverente, esse subdito ousado em demasia, e ainda mais digno de punição porque é elle o vosso primeiro vassallo... O principe do Brazil é herdeiro do throno, mas no emtanto não se lhe devem permittir ousadias... 

-- Será um mau rei... será um mau rei... murmurou ainda a soberana. 

-- Sim, será um Sebastião José coroado ! bradou com ironia o 

principe D. João. Tem falta de fé, odeia os sacerdotes, indispõe-se com a egreja, não cumpre os seus deveres de catholico e no fundo do coração accumula odios... 

-- Accumula odios e contra quem? perguntou o rei com certa insistencia. 

-- Contra todos que lhe firam o orgulho... É o unico na familia real que ainda não perdoou aos Tavoras! 

-- Senhor principe D. João... exclamou n'este momento a voz da aia de serviço interrompendo a intriga que o regio personagem esboçava a conselho dos famigerados jesuitas. 

-- Que quereis, senhora condessa de Lumiares? interrogou o fanatico principe, sorrindo com uma visagem vulgar á dama. 

-- Com permissão de sua magestade vos digo que o vosso confessor vos aguarda! 

-- Vou já, desde que sua magestade m'o permitia. 

-- Ide, D. João... disse a soberana com certa pressa como se temesse ouvir até ao fim aquella intriga. 

-- Vou desde já, real senhora... Hoje é quinta feira e tenho os officios da Trindade... Porém deixareis que vos diga, senhora e minha augusta mãe, que espero da vossa clemencia o perdão do padre Manuel Cardoso. 

-- E eu junto os meus votos aos de sua alteza! Supplicou o rei no seu tom fradesco e lento. 

D. Maria I, pareceu meditar uns momentos, ficou a olhar na sua frente como aterrorisada e de seguida entreabriu os labios muito disposta a pronunciar uma recusa. 

Mas a voz da negra, soava, muito guinchada, dizendo: 

-- O inimigo armou o braço do antigo jesuíta... triumphou Belzebuth... Lá o disse fr. José Maria... 

Foi ante esta recordação, toda replecta de devoção estupida e estranha que a piedosa rainha teve a visão do inferno com os seus tormentos, via que esse padre decahido da graça de Deus, lhe trazia o aviso no cano das suas pistolas, d'um proximo fim em que o altissimo se vingava. Depois aquella maneira do principe do Brazil se exprimir, a longa serie de d'estos que atirava epigrammatica e sarcastica aos frades, revelavam bem que o peccado já começava a penetrar nos membros da real familia. 

Vinha-lhe um desejo louco de redimir a culpa; pensava em donativos a conventos, bençãos papaes pagas a peso d'ouro, na fundação de mosteiros e no acto magnanimidade sem duvida agradavel a Deus desde que perdoasse áquelle que a quizera ferir. E fundava-se no exemplo de Jesus... A rainha que desterrara mesquinhamente Pombal, pensava em offerecer a outra face para nova bofetada jesuitica... E esse oferecimento estava no perdão que concederia... 

D. João e o rei, aguardavam o resultado das meditações da soberana, temiam a todos os momentos uma recusa e receiavam que o arcebispo confessor influisse no animo da rainha para castigar o padre. 

Trocaram um olhar sereno que era um signal pelo qual os pensamentos se entendiam. O principe supplicava ainda: 

-- Então qual é a resposta de vossa real magestade? 

-- Preciso ouvir D. fr. de S. Caetano. Replicou ella emquanto o marido e o filho, ficaram aterrorisados á simples ideia que ella podesse ter uma entrevista n'aquelle sentido com o justo e rasoavel arcebispo de Thessalonica. 

-- Real senhora... Vossa Magestade não quiz ouvir o principe D. José. 

-- Bem... Mas o principe... 

-- Inspirará o vosso confessor... Insinuou D. João. 

-- Que dizeis?... Sabei que fr. Ignacio de S. Caetano é um santo! 

-- Ninguém mais do que eu presta homenagem a suas virtudes e talentos... Porém sei também que adora meu irmão, o principe do Brazil... 

-- Bem e depois? Interrogou a soberana. 

-- E que julgando ser util a vossa magestade vos aconselhará as vontades do principe, não é assim alteza? 

Interrogou D Pedro III, a ajudar a intriga com os olhos baixos, cheio de devoção. 

-- Oh! Impossivel... N'esse caso succederia sempre assim... E os conselhos do arcebispo são sempre bons e puros... replicou D. Maria I que amava Thessalonica como a um bom pae espiritual, respeitoso e devotado. 

-- Mas é que, real senhora... Bem sabemos as muitas virtudes do vosso confessor... Porém é certo que sua alteza, nunca buscou impôr a vossa magestade como hoje, um dos seus desejos... Transmittil-o-ha ao arcebispo que instinctivamente vol-o dirá, o santo varão. 

-- E sabeis a opinião do principe do Brazil... 

-- Será a opinião do Sebastião José!... 

-- A quem elle ama e venera!

-- Porque lhe quiz dar a corôa, tirando-a da cabeça de vossa magestade! 

Disseram ambos os regios e fradescos personagens n'um duo malovolo proprio para servir as suas vontades. 

-- O quê? Tendes a certeza que o principe ambicionava a minha corôa... exclamou D. Maria I... Mas como, se n'esse tempo era uma creança... 

-- Fr. Manuel do Cenaculo e o proprio Sebastião José lhe segredavam a ambição... Parte d'ahi o seu orgulho... E vossa magestade no proprio interesse de sua alteza nem deve ceder á sua vontade... 

N'este momento annunciavam o marquez de Marialva, ouvia-se a voz fresca da aia bradar o seu nome e o velho fidalgo, sempre severamente vestido, entrava e ajoelhava-se em face da rainha que lhe bradava: 

-- Ah! Ainda bem que viesteis, meu bom amigo!... 

Este erguia-se a um gesto, depois de lhe beijar a mão e ir praticar egual cerimonia com os outros personagens, emquanto a soberana dizia: 

-- Careço de vós, senhor... 

-- Estou ás ordens de vossa real magestade, minha ama e rainha! exclamou o marquez com uma grande venia. 

-- Desejo saber a vossa opinião acerca do padre Manuel Cardoso. 

-- D'elles vos vinha fallar, senhora... Acabo de estar com 

Martinho de Mello e com o marquez d'Angeja, vossos ministros que aguardam as ordens de vossa magestade... 

-- Então na vossa opinião... 

-- O padre Manuel Cardoso, é um louco, a côrte o diz... Deveis ser clemente... Uma soberana como vossa magestade não deve seguir a maneira politica do Sebastião José que segundo julgo é a do intendente da policia e de todos os discipulos do atheu... e elle sublinhava as ultimas palavras referindo-se a Thessalonica e ao principe D. José, emquanto, el-rei e o D. João, bradavam enthusiasmados: 

-- Bem o dissemos a vossa magestade! 

-- A vossa opinião, velho Marialva, é para mim uma decisão! 

exclamou a soberana em tom enérgico, dando um tratamento muito 

familiar ao marquez. 

-- Assim o esperava da clemencia de vossa magestade... Para 

nada serviria a minha opinião pois tenho a certeza que no fundo da vossa alma já existia o germen do perdão... 

-- Como deve tambem existir o do castigo para os mais nefandos dos sacrilegios, esse das Salesias... Quem tentou contra a vossa existencia? Um louco! Quem raptou a monja? Quem feriu D. Ramiro de Noronha? Sem duvida um braço forte e um homem consciente... 

-- Tendes razão... Desterrar-se-ha o padre Manuel Cardoso, punir-se-ha o sacrilego que commetteu o rapto!

-- Pode vossa magestade dar as suas ordens... insinuou D. Pedro. 

-- Sim dal-as-hei... O corregedor accusado de cumplicidade no rapto da sobrinha do senhor cardeal da Cunha, deve estar preso, como me garantiu o arcebispo... Agora resta o padre... Esse embarcará... 

-- Póde partir no Orion que vae para Genova ámanhã e se encontra no Tejo... disse o principe D. João com um olhar supplicante para a mãe. 

E ella levantando se, ia chamar a aia que lhe trouxe os objectos necessarios para escrever, quando viu D. Rosa ajoelhada na sua frente e que lhe apresentava uma penna de rama e um tinteiro, collocando-se de forma que a rainha escrevesse a ordem na pasta de couro que lhe collocava diante, sempre ajoelhada na sua almofada de borlas d'ouro. 

-- Adivinhava- vos senhora... Conheço a vossa bondade! murmurou a preta muito aduladora. 

D. Maria I pegou no papel e escreveu com mão firme algumas linhas, depois tomou outro papel e traçou ainda umas palavras. Foi n'este momento que a um signal de Marialva, o marquez d'Angeja apparcceu á porta, dizendo: 

-- Venho receber as ordens de vossa magestade! 

Ao mesmo tempo pela escada dos aposentos do confessor, ouviu-se a voz do arcebispo, dizendo: 

-- Senhora, é a vossa hora de passeio no parque! 

E o carmelita ficava-se a tomar a sahida com o seu busto eracto envolvendo o soberano n'um dos seus disfarçados olhares onde se via perspicacia. 

-- Marquez d'Angeja, aqui tem as minhas ordens para com o padre Cardoso... exclamou a rainha, e então dando-lhe outro papel, tornou: 

-- Eis aqui uma ordem a mais formal para se punirem os sacrilegos das Salecias!... 

Nos labios dos assistentes passou um sorriso de satisfação e inclinando-se todos diante da rainha sahiram murmurando: 

-- É um acto de justiça!... 

Á porta os dois marquezes affastaram-se a deixar sahir el-rei e o principe e depois seguiram na sua rectaguarda, emquanto na sala, a preta favorita se enroscava aos pés da soberana, e o arcebispo de Thessalonica no seu tom rude clamava: 

-- Sim, real senhora foi um acto de verdadeira justiça. Sua magestade, sua alteza e os srs. marquezes de Marialva e de Angeja o disseram concordando commigo pela primeira vez nas suas opiniões... 

D. Maria I, tornava-se livida, o seu espirito fraco, ficava agora sujeito á benefica influencia de Thessalonica e estremecia ao recordar-se da sua ordem, exactamente contraria ao que elle lhe aconselhara, esquecendo pela primeira vez de cumprir um dos seus alvitres. 

Porém não teve a coragem de lhe dizer logo tudo, rapidamente tornou-se ainda mais livida, os labios desmaiaram-se-lhe e a rainha tomando o braço do Carmelita, dirigiu-se para a porta em direcção ao parque, seguida por um cortejo d'aias e açafatas que a aguardavam e á frente dos quaes caminhava D. Rosa, a anã favorita, rebolando os olhos, deveras satisfeita.

A rainha ia de cabeça baixa e o arcebispo olhava para todos os recantos n'um antigo habito de analysar o que se passava no palacio. 

Via então mettido no vão d'uma janella o principe D. João, gordalhudo e beatifico, fallando com um frade oratoriano, alto magro, de grandes occulos verdes, e ouviu-o ainda dizer: 

-- Pois triumphei, reverendo José Maria de Mello I e logo tomando-lhe o braço dizia: Acompanhais-me com o meu confessor á Trindade? 

O arcebispo encolheu os hombros e pareceu esquecer aquelle encontro, porém á sahida do portão que deitava para a rua, ali a dois passos da quinta, viu o vulto pardo de D. Pedro, cheirando rapé da sua caixa benta e conversando com o cardeal da Quinta seu confessor, ao qual revelava: 

-- D'esta vez coube-nos a victoria, cardeal... Vamos amanhã á Sé Patriarchal ouvir as matinas de Jomelli... 

-- Sim, real senhor... Estou ás ordens de vossa magestade. 

-- Depois passava um homemsinho caminhando na ponta dos pés, n'esses requebros femenis, rescendeado a perfumarias, a mão nos copos d'um delgado espadim e que fazia uma vénia respeitosa aos dois personagens, emquanto el-rei lhe bradava: 

-- Ferracuto... Que nos cantas amanhã? 

O cantor da capella real, respondia a el-rei emquanto o arcebispo ficava pensativo. 

E por ultimo do meio d'uns arbustos ouviu a voz do velho marquez d'Angeja exclamar: 

-- Pois fr. José do Rosario... Aqui tem a ordem... Levamos as lampas ao arcebispo! Vencemos!... 

Soava um riso alegre que parecia do Marialva e depois uma voz de baixo profundo, dizendo: 

-- É o segundo triumpho... O primeiro foi o da demissão de Sebastião José! Vencemos! 

Então, o carmelita estremeceu, voltando-se para a soberana d'uma forma insinuante que tinha para com ella e interrogou: 

-- Vossa magestade pode dizer-me porque todos vencem hoje na sua côrte?... 

-- Vencem? Não o comprehendo, monsenhor... respondeu ella como admirada, ante o olhar doce que o carmelita lhe dirigia, e interrogando n'uma grande desconfiança sobresaltado: 

-- Vossa magestade, já resolveu acerca do padre Manuel Cardoso, não é assim? A rainha estremeceu, ao vêr chegado o momento da confissão, e murmurou: 

-- Já sim, meu amigo. 

-- E podeis dizer-me em que sentido? Perguntou apressadamente D. fr. Ignacio. -- Desterrei-o... volveu D. Maria I com voz muito baixa.

Thessalonica fez-se pallido, encolheu os hombros, teve um olhar de puedade para a rainha e apenas disse:

-- Ah! Então já sei porque vencem... Mas não são todos como ha pouco supunha. É verdade que para existirem vencedores devem haver vencidos, porém julgava que os ultimos não venciam no paço... Agora já sei quem venceu!

-- Perdoae, monsenhor, não ter seguido pela primeira vez, o vosso conselho... pediu a rainha em voz tremula, aguardando a resposta de Thessalonica, que como se não tivesse poder, e na sua voz mais branda, volveu:

-- Vossa magestade é soberana e tem o direito de fazer o que desejar, mesmo em tornar vencedores nas intrigas os vossos inimigos...

-- Oh! Mas... Foi a meu esposo, a meu filho D. João, e ao marquez que cedi...

-- Não, real magestade, vossa magestade cedeu aos jesuitas! 

-- São elles os vencedores! exclamou o arcebispo no seu tom de voz rude que n'aquelle momento debalde buscou tornar carinhosa.

Ella n'um sobressalto exclamou:

-- QUe diz, monsenhor?

-- Que se approxima alguma tempestade tenebrosa...

-- Oh! São idéas do principe do Brazil! replicou D. Maria I a animar-se, recordando-se do que ouvira ao marido e ao segundo filho.

Mas agora o arcebispo, curvava-se para um pequeno pagem que se accercava e sorrindo disse á rainha:

-- Oh! Eu bem affirmava a vossa magestade que a tempestade engrossava...

-- O que ha!... Que temos? interrogou D. Maria I com grande terror, sacudida violentamente n'um calafrio.

-- Ah! Real senhora... A tempestade cresce... Já o piloto vem dar aviso, segundo julgo.

-- O piloto! 

-- Sim, o senhor intendente de policia ao qual vou falar com permissão de vossa magestade. 

A rainha largou-lhe o braço e disse: 

-- Vá e volte depressa! e deixou-se cahir n'um banco, ficando muito triste, toda agitada emquanto a preta favorita a acariciava e as damas da côrte em torno aguardavam n'umas respeitosas attenções. 

De repente soou a voz do bobo a cortar o silencio, berrando: 

-- Eh! D. fr. tonel, não andas aqui por bom, velha coruja!... Tu tens mau olhado! Eh! mocho de inquisição!... 

E saltitando nas perninhas delgadas veio assentar um murro nas costas de fr. José do Ros<rio que na sua dignidade paclydermica se mettia n'uma alea de buxo, buscando fugir ao truão, que bradava sempre: 

-- Oh! Fr. bojudo!... Coruja! Velha Coruja!... 

Da capella real vinha um som divino das vozes dos castrati, ensaiando umas cantatas de Jomelli, que subia n'uma lamuria infinda para o espaço, n'um côro maravilhoso sahido de gargantas que a rainha pagava a peso d'ouro. 

E D. Maria I continuava a deixar-se acariciar mollemente pela anã de rosto d'ebano, dentes de marfim e olhar de demonio. 







VIII 



Aventuras d'um vice-rei 





Anoutecera e pelas margens do Tejo aproavam barcaças enfeitadas a galhardetes flamantes, carregadas d'uma multidão ebri-festiva que voltava de uma romana. 

Estrallejavam foguetes na amplidão do rio, fogos de côres variegadas rasgavam o espaço escuro em zig-zags, feericos, soavam cantigas populares seguindo a dolencia das guitarras. 

Os fidalgos acompanhados de numeroso sequito saltavam das embarcações, nas suas passadas saltitantes pisavam a areia, emquanto as damas de altos penteados vinham para terra ao collo de pretos robustos de fardalhões vistosos e mettidos na agua até aos joelhos conduzindo os amos. 

Havia uma algazarra incrivel de violas e de oboés, por entre o tropel extranho em que se confundiam os barqueiros e os creados ajoujados com os cabazes das baixellas ao lado dos peraltas de ares methodicos que traziam pela mão uns pequenitos, os anjinhos da santa, vestidos garridamente e tendo azas transparentes pequenas nos hombros descobertos, os cabellos annellados, as caritas rosadas, mostrando-se somnolentas ao clarão dos archotes resinosos empunhados pela lacaiada. 

O povo misturava-se a rouquejar canções, anões e pagens sopravam em gaitinhas fazendo um infernal ruido trocando com os monges de todas as ordens e com os capellães dos sequitos dos Marialvas e dos Angejas e de grande numero de fidalgos da melhor nobreza, devotos da Santa que lhes merecia especial cuidado. 

Toureiros de gesto patusco dirigiam-se n'uma linguagem mesclada aos fidalgos cavalleiros, amigos de montadas, os que se destacavam no ambito effeminado d'aquella côrte singular. Poetas, de roupas desbotadas, parasitas menos dos nobres, as perucas á banda atiravam improvisos e satyras, emquanto uns homens esfarrapados conduzindo macacos habeis carateadores e empregados nos mais extranhos <marca num="*" pag=83> serviços, pulavam para terra entre os guinchos estridulos dos quadrumanos. 



<nota num="*" pag=83> Beckford conta que havia grande quantidade de pessoas que alugavam macacos empregados para cortarem. </nota>



Ao cães de Belém acabava de chegar uma embarcação a bordo da qual um bando fidalgo e esturdio atirava ao espaço canções em voga, ao passo que os negros e os pagens se mettiam na agua empunhando archotes a illuminarem o caminho dos senhores que saltavam para os hombros dos corpulentos escravos, berrando sempre. 

Eram quatro os mancebos que vinham na embarcação. Um d'elles ao chegar a terra voltou-se para os companheiros e exclamou para um outro fadado de cadete do regimento do cães. 

-- Agora, Jacob Mestral, para coroar a festa vamos á tavolagem do Veutral ali na praça de Belem... 

-- Menos berrata, Silva Menezes, volveu o outro com um sotaque estrangeirado na voz, dirigindo-se ao seu interlocutor que vestia também a farda de cadete do mesmo regimento. 

-- Ora e porque? bradou Silva Menezes, n'um rompante. Temes acaso a ronda da chuchadeira, uma ranchada de burguezes que se dispersam com um bambú...? 

-- Cautella... cautella... tornou um joven peralta que se agarrava muito ao pescoço do negro que o conduzira e apezar de já estar em terra. 

-- Lá estás tu com terrores, ó Villa Nova... Descança que o viatico não passa e podes deixar em paz a tua campainha... <marca num="**" pag=83> É verdade que és um bambino e a culpa foi nossa em te darmos um logar na barca dos esturdios! 



<nota num="**" pag=83> O prazer do conde de Villa Nova é annunciar com a sua campainha a todos os verdadeiros crentes a approximaçáo da celestial magestade. </nota>



-- Deixae o conde... Sua excellencia pensa nos moribundos... É o homem que mais os ama n'estes reinos! tornou um outro rapaz muito galante no seu trajo fidalgo, soltando uma gargalhada. 

-- De que ris, Balthazar d'Athouguia? Tambem fazes profissão d'heretico? interrogou o conde de Villa Nova, n'uma grave compostura, resolvendo-se a largar o negro e endireitando cuidadosamente os bofes de renda da sua magnifica camisa, continuando logo: 

-- Que estes senhores militares assim o entendam, permitte-se, embora não seja do agrado da nossa piedosa soberana, mas tu que sem duvida sereis um licenciado em canones... 

-- Que a terra seja leve ao meu grau e vou convidar-te para conduzires a campainha do viatico, porque já está moribundo!... 

Soltaram todos gargalhadas, e apenas o conde de Villa Nova ficou d'olhos baixos, dizendo de seguida para o negro: 

-- Barnabé... Vae buscar os cestinhos de dôce e as fructas... Leval os-has á madre rodeira das Salesias para soror Francisca!... 

-- Ah! acompanha-nos o conde! exclamaram elles deveras contentes, emquanto a multidão se escoava pelas ruas sempre ao ruido das suas musicas, n'uma algazarra d'ensurdecer. 

-- Eu! Acompanhar-vos... Julgam acaso que entro em tavolagens?... Por Deus, que mocidade!... fazia um meneio, dois requebros e tornava: 

-- Nunca vos acompanharei... 

-- Perdão, senhor de Villa Nova, tornou D. Balthazar, d'esta vez com comica gravidade. Se acaso n'uma tavolagem qualquer rufião estivesse em perigo vós entrareis a levar-lhe o viatico... Mesmo se qualquer de nós o carecessemos n'este momento mas não o quizessemos receber senão no ventral irieis, senhor conde!... 

Riam muito, soltavam brados de applauso, sem repararem em quatro homens vestidos de negro, que ouviam tudo, trocando olhares d'intelligencia, emquanto Villa Nova, nos seus requebros, saltitando, seguido pelo negro se affastava atirando-lhes em voz melliflua um epitheto: 

-- Vis hereges!... 

Ora que pena... Só nos falta um, para um jogo de levar tudo adeante! exclamou Silva Menezes ao qual Jacob Mestral, respondeu logo: 

-- Ah! Se estivesss aqui o D. Ramiro de Noronha! 

-- A melhor cabeça, a melhor espada e o melhor copo do bando! tomou Silva Menezes. 

E D. Balthazar volveu a accrescentar: 

-- Retido em casa pela espadeirada do maldito cadete... 

-- Do sacrilego! Que diria o Villa Nova. 

-- E a côrte toda... 

-- Mas quem será o miseravel? exclamou Mestral. 

-- D. Ramiro sabe apenas que é um cadete do regimento de Peniche... Viu-lhe a farda ao clarão da lua... 

-- Um cadete do regimento de Peniche... Oh! duplamente inimigo... Inimigos os regimentos do Caes e o de Peniche, inimigo o maldito que feriu o nosso camarada D. Ramiro... 

-- Deixa... Vingal-o-hemos! Agora á tavolagem!... bradou Silva Menezes, piscando os olhos, n'uma furia de jogo dada pelo começo da embriaguez. 

Os quatros homens vestidos de negro encolhiam-se nos paredões do caes e sorriam de jubilo ao ouvirem a voz do cadete bradar á creadagem. 

-- Eh! Pára com tudo... 

-- E se o senhor conde de S. Lourenço, vosso pae, perguntar por V. ex.ª disse em tom respeitoso um servo de cabellos brancos: 

-- Dize-lhe meu velho Carlos que eu fui em busca d'aventuras para a sua collecçao de anedoctas. 

O criado sorriu e ia partir, porém n'este momento ouviu-se um ruido de vozes acompanhadas d'uma guitarra e um ultimo bote, aproou ao cães. 

-- Quem será esta gente? 

-- Oh! Plebeus que se divertem como fidalgos! fez com desdem D. Balthazar d'Athouguia ao ver saltar da embarcação dois homens do povo de grenhas hirsutas e caras rapadas segurando um d"elles o archote que illuminava um pequeno circulo emquanto o outro empunhava a guitarra. 

Iam voltar as costas mas ao mesmo tempo repararam n'uma mulher vestida como as ciganas e que mostrava as meias ao saltar do bote sem acceitar os braços que um dos individuos lhe offerecia para se amparar. 

Era alta bem feita, os seios tumidos, espetados no casabeque de tecido vivo, as saias chegavam-lhe a meio da perna e deixavam ver um pé pequeno calçado em chinellinhas bordadas, trazia um lenço enrolado em volta da cabeça cujos cabellos negros caíam em tranças fortes pelos seus hombros. No rosto de linhas firmes e energicas brilhavam-lhe os grandes olhos negros de maja a bocca de desenho correcto e os labios grossos, sensuaes ao abrirem-se n'um  sorriso para os que a conduziam, mostravam os dentes de uma grande alvura. Empunhava um pandeiro de grandes fitas multicolores, e ao vêr-se em terra, levantando a bella cabecita d'aves n'um ar tresloucado, bradou: 

-- E agora até á vista seus barqueiros! 

-- Não queres que te acompanhemos a casa, Chiquita, perguntou em voz rude um d'elles. 

E ella com desembaraço, volveu:  

-- Obrigado!... Preciso de vocês só no mar onde não posso andar pelo meu pé e em terra nas vezes em que os fidalgos que julgam ser oregos todo o matto, se atrevem em grande numero!... A um e um ainda posso com elles... É uma corja amaricada! e a rapariga soltava argentina gargalhada falando na sua linguagem plebea deveras pittoresca. 

-- E se agora succedesse isso!... perguntou o barqueiro com cuidado. 

-- Deixa lá amigo Pio... O Joanico tem rijo o braço e póde correr meia duzia! 

-- Ah! Vaes ter com elle! ainda não te passou a paixoneta! 

-- Nem passa, isto é d'aqui!... e levava a mão ao peito n'um gesto graciosa, ao recordar-se do valente creado do conde d'Assumar. 

Depois trocou a boa noute com os barqueiros e começou a caminhar com desembaraço no cães apesar da escuridão. 

Os tres fidalgos trocaram um olhar d'intilligencia e Silva Menezes, murmurou: 

-- Que linda rapariga! 

-- E decidida! accrescentou Mestral. 

-- E se lhe furtassemos dois beijos!... insinuou D Balthazar. 

-- N'esse caso tres... Um por cabeça! 

-- Exclamou de novo o filho do conde de S. Lourenço. 

-- Ou um por labios... 

-- N'esse caso seis!... Vamos a isso! 

Dispunham-se a caminhar ao mesmo tempo que os homens escondidos no cães faziam movimento para os seguir. 

Porém durante a conversação dos fidalgos aproava um outro bote d'onde saía um homem obero garridamente vestido e que relanceava olhares curiosos para todos os lados como se procurasse alguem. Ficou assim uns momentos applicando a vista e depois descobriu nas trevas o gracil vulto de cigana, pôz se em marcha no andar compassado e saltitante dos peraltas da epocha, dizendo para os homens do barco em voz desembaraçada: 

-- Vão para casa... Eu irei quando puder... Dizei ao senhor marquez de Angeja que fiquei no Convento das Salesias nos aposentos do padre Theodoro d'Almeida! 

-- Sim senhor vice-rei... disseram duas ou tres vozes, emquanto o personagem começava a caminhar em perseguição da cigana. 

Os fidalgos trocaram um olhar e Silva Menezes, exclamou: 

-- Oh! O vice-rei do Algarve! 

-- E fica nas Salesias! 

-- Querem ver que foi elle que raptou a monja! bradou Jacob Mestral com uma risada trocista, ao passo que D. Balthazar volvia: 

-- Elle! Só se raptar aquella gentil mulher que desembarcou ha pouco e que talvez não resista ao ouro de sua excellencia... 

-O quê! Realmente o vice-rei irá em seguimento da cigana? 

-- Tenho a certeza!... 

-- Vamos analysar o amor de sua excellencia... 

-- E desistimos dos beijos... 

-- Por causa do forte do Junqueira, onde o senhor de Villa Verde nos metteria desde que falasse n'isso seu pae, o nobre prezidente do erario... 

-- O pequeno marquez d'Angeja successor do grande marquez de... 

-- De Pombal... tornou D. Balthazar a meia voz. 

-- Pschiu! O Sebastião José, na tua bocca é uma blasphemia! 

-- Na do Villa Nova seria caso para uma semana de jejum. 

-- E na do vice-rei do Algarve para tres ditas de improperios seguidos de outras tantas de penitencias... 

Conversavam e iam atraz o vice-rei ao mesmo tempo que eram seguidos por seu turno pelos homens vestidos de negro, que diziam: 

-- Bella caçada d'herejes! 

E com testemunho do conde de Villa Nova... Ora mas sempre são fidalgos, e protegidos... 

-- Que tem?... Se fr. José do Rosario me disse que era necessario recobrar antigos poderes... Ora nada ha para isso como prender gente da côrte... 

-- Tens razão! assentiu uma voz; e ao mesmo tempo avançavam em seguimento dos fidalgos que não perdiam de vista o vice-rei. 

Elle chegara á praça de Belem, relanceara um olhar e ficara um momento preplexo, depois parecera sobresaltar-se e dirigir-se animadamente com certo aprumo para o lado do largo onde a cigana parara. 

A meia voz, o vice-rei, murmurou: 

-- Espera-me... 

Elle era um homem alto, robusto, de grandes pernas arquedas, vestia sempre com a maior garridice, os olhos moviam-se rapidos ao falar, gesticulava a miudo e agora no monologo que encetara, o senhor vice-rei, fazia umas visagens n'um habito antigo e tinha a bocca constantemente cheia de saliva levando de quando em quando o lenço aos labios a enxugal-a. Caminhava para a cigana, muito ufano, a cabeça erguida, a cabelleira batendo-lhe nas costas, murmurando: 

-- Oh! Mas é deliciosa... E sem duvida vae acceitar tudo... Ao começo regeita-me, torna-se pudica, depois cahe nos meus braços... E será então uma excellente amante!... E que dirá a côrte?... 

As sécias morrem d'mveja de semelhante belleza quando a virem na Rua dos Condes no seu camarote... Oh! Ha-de vêr-se ao lado da condessa de Pombeiro... Para a encavacar... E o Lafões... Elle que tem a presumpcão dos melhores boccados!... Oh! Comprar-lhe-hei uma anã preta... 

Estava já a dois passos da cigana e os fidalgos analysavam-lhe de longe os movimentos, ao passo que ella, como se não o tivesse visto, entrava na porta onde estivera espreitando ha momentos e volvia ainda um olhar para a rua. 

O vice-rei teve um sorriso fatuo e disse: 

-- Hum... Conhece-me... não quer expôr-me na rua... Que discreta! 

E rapidamente penetrou na porta atraz da cigana emquanto os fidalgos bradavam: 

-- Oh! Sua excellencia entra na tavolagem do Pedro Mestral... Podemos jogar descançados esta noute que os esbirros não nos visitarão!

Neste momento, vindo dos lados do pateo dos bichos, do palacio de Belem, appareceu um homem vestido na capa do corregedor de justiça e em seguimento do qual, com certo disfarce avançavam quatro vultos. 

Este caminhava despreoccupado como se não desse por tal, porém de quando em quando volvia um olhar discreto para os seus preseguidores e murmurava: 

-- Cumpra-se a promessa do intendente... Agora é que vou para o ceu com passagem pelo carcere da Inquisição! Os outros não o perdiam de vista e á frente d'elles vinha aquelle individuo que na estrada de Queluz recebera ordens de fr. José do Rosario. 

Jacintho Peres, o esbirro, tinha nos labios um sorriso satisfeito e ao vêr o corregedor internar-se no largo, disse para um dos homens: 

-- Vae ali ao regimento do Caes... Faz-te reconhecer como famulo do Santo Officio e requisita seis soldados!... e ao ver o outro affastar-se de corrida, murmurou: 

-- Foram seis homens que o maldito levou para prender o padre Cardoso... Ah! Quem com ferro mata com ferro morre!... Vamos merecer os elogios do senhor cardeal de Cunha! 

E o corregedor como se não tivesse raparado n'elles entrou com grande aprumo na porta do Mestral ao mesmo tempo que os fidalgos a transpunham rindo muito da aventura do vice-rei á qual asseguravam assistir. 

Os esbirros que os seguiam hesitaram em penetrar n'aquella casa de reputação de tavolagem equivoca e perigosa e ficaram se a alguma distancia contemplando a porta. 

Foi então que os companheiros de Jacintho Peres se acercaram e ao reconhecerem os outros famulos, estenderam-lhe as mãos em signal d'amisade, emquanto um dos presentes, dizia: 

-- Ah! Mestre Jacintho Peres... Temos boa caçada... Nada menos que tres fidalgos que blasphemaram e com testemunho do conde de Villa Nova... 

-- Bem se trata agora d'isso... e volveu o esbirro. 

-- Mas... titubeou o outro com admiração. 

-- Sim... Homens! Preciso de vocês para cousa mais importante... 

-- Então o quê? 

-- Prender o corregedor Lopes Cardoso! 

-- Um corregedor! 

-- O sacrilego cumplice do rapto da monja das Salescias, a sobrinha do senhor cardeal de Cunha! 

Os outros soltaram um grito de pasmo e de alegria, dizendo de seguida: 

-- Vamos a elle! 

-- Esperem! Deixem vir os soldados que mandei buscar... Porque em finura, raros se equiparam ao atheu do corregedor! Entrem para ali para o Neutral; e não o deixar sair sem o seguirem. Affastaram-se e foram postar-se no escuro do largo, emquanto o Jacintho Peres com os seus homens se mettiam sob os arcos de Belem vigiando a porta da tavolagem donde vinha um ruido enorme de violas tocando em landuns monotonos, á mistura com o berreiro das vozes avinhadas. 

A ronda das ordenanças passava lentamente enviando olhares medrosos para todos os lados, de partazanas aos hombros, emquanto mestre Negraes passava nos dedos as suas contas, murmurando uma prece á Santa Maria de Belem. 

Dos lados da Junqueira ritinía n'um tilintar compassado a campainha do sagrado viatico. 





IX 







O primeiro segredo 



O conde d'Assumar, por aquella tarde alegre em que nos pinheiros da sua cêrca os melros assobiavam canções estridentes, deixara o barco e subira ao 

palacio dingindo-se logo muito á pressa para o quarto habitado pelo antigo noviço cartuxo, o qual ainda guardava o leito, Vasco de Miranda, ao ver entrar o conde, teve um bello sorriso a illuminar-lhe a face pallida e interrogou com certa impaciencia: 

-- Então D. Pedro? 

-- Ah! Já me conheceis?... exclamou o conde com grande contentamento. 

-- Sim... parece que tive alguma febre... 

-- Delirastes... E foi lindo o começo do vosso delirio... Tinheis perdido as rosas que vos dera certa açafata... Vasco sobresaltou-se e exclamou: 

-- Ah! Sim recorda-me... Uma mulher linda como uma visão sobrenatural... Os cabellos uns raios d'ouro fulgido, os labios roseos os dentes perolas e a voz doce como o trinar do rouxinol nas balseiras... 

-- Ou como uma melodia de Jomelli cantada por Ferracuti ou pela Scarlatti, exclamou n'este momento uma voz á porta. 

E o doente volvendo para aquelle lado o seu olhar cançado, disse: 

-- Sim, Gomes Freire!... D'uma doçura embriagadora e deliciosa... 

-- Sois poeta, senhor cadete! exclamou n'este momento uma outra voz pelo menos tão doce como a que Vasco de Miranda evocava, e D. Elvira de Mendonça que acompanhava o noivo, apparecia e sorria com amizade ao ex-noviço, o qual se tornava vermelho e volvia: 

-- Sou novo e amo, gentil senhora! Ella sorria, apertava bem como Gomes Freire a mão do conde e a do cadete e continuava: 

-- Amaes? Oh! Deus vos dê felicidade no amor... A vida passasse de qualquer modo... Ricos ou pobres todos os seres vivem sob a protecção do ceu... Somos como as avesitas: umas têm os seus ninhos nos troncos frondosos das grandes arvores onde se entrelaçam os roseiraes debeis, outras apenas possuem umas palhas no alto de choupos desprovidos de tolhas... E ellas vivem todas... Nós também assim podemos ser... Que importa a riqueza se o ceu abençoa um affecto, que valem as pompas se o coração canta harmonias suaves... N'um palacio, como n'uma cabana se pode sentir! 

É no sentimento que devemos desejar a felicidade... Por isso desejo venturas aos vossos amores! concluia ella com um olhar carinhoso, para o noivo que respondia: 

-- Assim é... quantas vezes não desejamos ser muito pobres e de muita humilde condição, só para que o mundo não perturbe os nossos affectos! Se nós, Elvira, fossemos do povo, ninguém poria obstaculos á nossa união, teriam os formado um lar, gosado uma vida de amor embora de lucta se impozesse! Seria então a lucta pela manutenção da existência, para ganhar o pão de cada dia com esforços embora sobrehumanos logo esquecidos, logo compensados com um beijo, com uma caricia... 

-- E assim, meu amigo ainda terás egual felicidade... consolou o conde d'Assumar, continuando: 

-- Deves partir o mais breve possivel a encontrares tua mãe, a solicitares a sua benção para a união com D. Elvira... Depois apresentar-lhe-has a tua noiva e d'ahi em diante, a vida decorrerá sem uma nuvem. 

-- Conde: Julga isso?! exclamou a subitas a joven, tomada de um contentamento que durou pouco, pois accrescentou: 

-- E não sei o que me advinha o coração! Umas vezes Julgo tudo isso possivel, outras receio... 

-- Mas o quê?... Que podes receiar! minha mãe é uma santa... 

-- Amar-te-ha tanto como cu, serás para ella a filha estremecida, cheia de carinhos, de aíFectos, amada n'uns transportes susceptives da sua grande alma... 

-- Pois sim... Vejo ás vezes as cousas d'esse modo... Mas outras... Entre receios penso que ha quasi duas semanas que o teu creado partiu e ainda não voltou com a benção de tua mãe para o nosso enlace... e a sobrinha do cardeal levava o lenço aos olhos a enxugar as lagrimas. 

Gomes Freire fez-se pallido, ficou pensativo alguns momentos e depois volveu: 

-- Receio que lhe tenha succeaido algum desastre... Tudo se 

deve esperar n'estes tempos!... Por isso vou eu proprio sollicitar de minha mãe o seu consentimento... Partirei hoje mesmo... 

-- Oh! Partir... Deixar-me-has aqui! meu Deus!... Quanto vou soffrer... 

-- É necessario, bem o deves comprehender. Que queres se a vida é toda d'imprevistos! Para demais ficarás entregue aos meus dois amigos... Não te abandonarão!... Depois voltarei breve... 

Não lhe respondeu, pareceu antever uma grande desgraça e ficou chorando, emquanto D. Pedro e Vasco de Miranda, exclamavam: 

-- Seremos para vossa excellencia como dois dedicados irmãos. 

Então o cadete, com uma resolução firme, num tom que lhe era peculiar, disse: 

-- Partirei esta noute... Porém antes, tenho umas revelações a ouvir do senhor Vasco de Miranda... 

O ex-noviço, estremeceu e de seguida disse: 

-- Oh! E ha muito que as devia ter feito... São cousas muito graves... mas o meu estado febril não m'o premettia... 

-- Mesmo no delirio, tinheis palavras que pareciam pungir-vos... Dir-se-hia que quereis salvar alguem! bradou Assumar. 

-- Oh! Talvez!... Ouvi, cousas que me iam custando a vida... É esse o meu primeiro segredo... 

-- Ah! Mas antes d'isso deixae-me também calar a vossa impaciencia! atalhou o conde, dizendo-lhe: 

-- Sabei que estaes dispensado dos vossos votos simples... São cousas da que vos podia livrar um simples arcebispo! E o prior do vosso convento d'isso se encarregou... 

-- Mas como o sabeis? 

-- Vi uma carta dirigida ao dom prior, julguei tratar-se de alguma missão melindrosa de que tivésseis sido encarregado e como estaveis muito doente parti a desempenhar eu mesmo a commissão. 

-- E o que dizia a carta? perguntou muito apressado o novo militar. 

-- Ordenava ao dom prior que vos deixasse livre e vos dispensasse a assistencia do convento, e das promessas, visto não terdes votos formaes, declarando ao mesmo tempo a vossa nova profissão... E sois muito protegido Vasco de Miranda, porque a carta era toda do proprio punho de sua magestade... 

-- Oh! Que poder tem o arcebispo! murmurou o cadete. 

-- É elle o vosso protector? interrogou n'um impeto Gomes Freire, como se uma rapida ideia lhe atravessasse o cerebro. 

-- Sim é..., retorquio o joven, julgando na realidade dever todos esses obsequios ao confessor da rainha. O conde continuava com alegria: 

-- O D. Prior sorriu ao lêr a carta, enviou-vos a sua benção e desejou-vos felicidades... Parti e soube no regimento do vosso entado... Procurei o marquez das Minas, amigo de meu pae e solicitei para vós tres mezes de licença depois de lhe contar o vosso estado... 

-- Oh! Gomo vos agradeço D. Pedro, disse o joven estendendo-lhe a mão que o fidalgo apertou, dizendo: 

-- Era justo... Fui o culpado do vosso estado... 

-- Bem... Agora é a minha vez de calar a vossa impaciencia exclamou o ex-noviço dirigindo-se aos presentes que tomaram logar nas poltronas do quarto, emquanto elle dizia: 

-- Porém antes de tudo, preciso contar-vos uma pequena historia, 

-- A vossa? interrogou Gomes Freire, em tom amigo. 

-- Sim, camaradas. A minha historia. 

Ficaram-se silenciosos a ouvir o cadete que em voz doce, os olhos cerrados a invocar recordações, murmurava: 

-- Eu sou filho segundo d'uma pequena casa fidalga... Meu pae serviu sempre com dedicação o marquez de Pombal a quem devia alguns beneficios, e logo após o desterro do grande ministro, viu-se obrigado a sahir da corte onde pouca figura fazia attendendo aos seus diminutos haveres... Ensinara-me a respeitar esse vulto grandioso que soubera impor o nome portuguez ás outras nações. 

Porem meu irmão detestava o ministro... Chamava- o revolucionario e ao vel-o decahido rejubilou. Geraldo de Miranda, meu irmão, é capitão do regimento d'Olivença, sahiu de casa depois d'uma grave questão com meu pae e odiando-me mortalmente em vista das minhas ideias concentanear com as do nosso progenitor... E então, receiosos pelo meu futuro em virtude das desintelligencias havidas com o que seria chefe da casa, temendo que levasse o seu odio a ponto de me negar os meios de subsistencia, fizeram-me noviço dos cartuxos, tornando-me frade já que não podiam comprar-me uma patente... 

-- Ah! Nunca tivesteis vocação... murmurou D. Pedro com certa alegria. 

-- Não... Dias depois de estar no convento odiava mortalmente todos aquelles espectros que se passeavam nos claustros entregues ás suas locubrações pallidos, enfezados estudando muito, porque apesar do que dizem, os cartuxos de Caxias tem entre si grandes intelligencias. O meu companheiro era D. Raymundo de Niza, um fidalgo que professou por questões d'amores e com o qual sympathisei logo de começo... Fr. Affonso de S. Lucas, é este o seu nome religioso, contava-me as suas maguas e em troca narrava-lhe as minhas, além á sombra dos copados arvoredos, onde corria a agua da fonte do marmore; e eu mettido no meu habito, entalado entre as paredes do convento, sentia um desejo louco de liberdade. 

Então D. Raymundo, um dia disse-me: 

-- Escute Antonio de Purificação era este o meu appellido religioso, porque não vae falar ao arcebispo de Thessalonica, confessor da rainha?! 

Podia recommendal-o a alguém porém não o farei... O arcebispo despresa mortalmente os nobres e se alguma predilecção tem eu a desconheço... Para demais estou desligado de tudo e não convém lembrar-me que existi sobre outro nome e em outra condicção. Ide só... Pedi para lhe fallar e supplicae-lhe que vos deixe sentar praça de soldado! D'ahi ireis subindo e como sois fidalgo logo que juntardes dinheiro podereis comprar a vossa patente. . . 

-- Sorriu-me a ideia e parti... Cheguei ao paço de Queluz com o coração oppresso, pedi que me ensinassem os aposentos do arcebispo e riram-se ante um frade que fazia semelhante pergunta, pois o confessor é a pessoa mais procurada na côrte... 

-- Ah! E recebe-vos? interrogou D. Elvira deveras interessada na historia. 

-- Sim, minha senhora; preferindo-me até a um famulo da inquisição, certo frade rotundo e alvar, de nome fr. José do Rosario... 

-- Oh! A alma negra de Santo Officio! Que andaria elle meditando? 

-- Ia solicitar do inquisidor uma ordem de prisão... respondeu logo o cadete, olhando-os com insistencia. 

-- Ah! Para um corregedor, accusado de cumplicidade n'um rapto... 

-- N'um rapto? perguntou Gomes Freire, erguendo-se rapidamente emquanto D. Elvira collocava a mão no seio arquejante. 

-- Sim... N'um rapto d'uma gentil monja do convento das Salesias... Era isto o que tinha a dizer-vos! exclamou elle com grande pressa emquanto, a sobrinha do cardeal bradava: 

-- Oh! Meu Deus! Meu Deus! Eu bem te dissera. Gomes Freire! Estamos perdidos... 

-- Mas como? Estás louca! Não vês que se trata d'um corregedor! 

-- Mas fale... fale... Vasco... Peço que lhe digas tudo. E era apenas ao corregedor que iam prender? 

-- Sim minha senhora, pois ignoravam o que eu sei desde ha tres dias, isto é o nome dos heroicos mancebos que a corte alcunha de sacrilegos. 

-- Mas explique -se Vasco... Que tinha a vêr no caso o pobre corregedor que assim incorreu nas iras de fr. José? perguntou Gomes Freire, com grande raiva. 

-- Ora... É alguém de quem se querem vêr livres... murmurou D. Pedro. 

-- Não, senhor conde.. . Parece que esse tal corregedor vos deixara fugir e só quando viu cahido D. Ramiro é que avançou com a ronda das ordedanças... Até me lembro que quem fez estas declarações ao marquez d'Angeja foi um tal mestre Negraes capitão das rondas... 

-- Ah! O pasteleiro dos arcos de Belem... disse o conde. 

-- Parece que sim... assentiu Nasco. 

-- Mas a que deveriamos nós essa complacencencia do corregedor? interrogou Gomes Freire, cada vez mais meditativo, emquanto D. Elvira, dizia sempre receosa: 

-- Mas não falaram em mais ninguém? Diga, Vasco, peço-he que diga a verdade inteira... 

-- Não, minha senhora... Juro-vos... Pois se até o fr. José do Rosario, disse que esperavam saber o nome dos raptores pelo corregedor ao qual chamavam cumplice. 

- Oh! D. Pedro... E saberá elle os vossos nomes? interrogou a donzella cada vez mais palida. 

-- Não creio... Do contrario já teriamos sido chamados... 

-- Também o julgo assim... Porém, posso affirmar-vos ter ouvido esta conversa entre fr. José e o arcebispo que dizia interessar-se bastante a soberana na descoberta d'este caso... 

-- Oh! Estamos perdidos! Oh! Gomes fujamos hoje mesmo... Isto é honroso!... supplicou D. Elvira, com os olhos marejados de lagrimas. 

-- Não Elvira... Não desistireis do meu proposito, perdoa... O meu creado não voltou ainda de casa de minha familia... É necessario que eu parta... Não quero demorar a nossa união. 

Tu, boa e estremecida amiga, ficarás entregue á guarda dos meus dois valentes camaradas... D. Pedro de Portugal e Vasco de Miranda... E nada receis por mim... Voltarei e brevemente serás minha esposa... 

-- Oh! Peço-te que não partas... Supplico-te!... disse ella cada vez mais tremula. 

-- Perdoa... mas irei... NSo posso realisar o nosso casamento! Tudo quanto se passou e que Vasco ouviu em cousa alguma nos toca... Não vi nenhum corregedor e como sabes a ronda só chegou quando entravamos na sege... Por consequencia, descança como ha pouco e tem confiança em mim... Apenas uns dias e depois a felicidade d'uma vida inteira. 

Calou-se e abracou-a. A joven estremeceu, enxugou as lagrimas e ficou n'uma attitude melancholica ao ouvir Vasco continuar: 

-- Julgo que fr. José do Rosario faria vingar alguem o facto, talvez a pedido do cardeal, prende o corregedor... Elle não vos conhece e ficareis livres... Foi o que vos revelei, o principal motivo de querer entrar na vosso segredo, cuja responsabilidade espero que partilheis commigo. 

-- Assim será, já que tanto o desejais! exclamou D. Pedro. 

-- E que bem o soubesteis merecer accrescentou Gomes Freire com um sorriso. 

Porém, Vasco continuava: Agora resta-me dizer-vos porque simples acaso travamos conhecimento. 

-- Ah! melhor de que vós o sei eu! respondeu logo o conde de Assumar. 

O vosso barco voltou-se, e Joanico conseguiu salvar-vos; depois ouvisteis a nossa conversa. Eis tudo... Devemos o nosso conhecimento á tempestade. 

-- Enganai-vos! 

-- Como? Pois não foi ella que vos fez naufragar? 

-- Devemos as nossas relações a um homem que me odeia, e ao qual farei todo o mal possivel! bradou o cadete erguendo-se no leito e dardejando um subito olhar de colera. 

-- Mas quem é? Basta ter contribuido para a nossa amizade para que lhe perdoes. 

-- Não... Elle mostra-se também vosso inimigo apesar de não vos conhecer... 

-- Mas de quem se trata? interrogou Gomes Freire. 

-- De fr. José do Rosario... volveu tranquilamente Vasco de Miranda. 

-- Elle? Mas como? 

-- Eu vos conto... Ao sahir do palacio de Queluz, dirigi-me á Ajuda e d'ahi ao caes de Belem no intuito de tomar uma embarcação que me conduzisse ao convento... A noute estava tempestuosa e esperei alguns momentos lamentando não ter tomado outro caminho...  

Porém o meu desejo era chegar de manhã ao convento e não voltar mais... Tomei o caminho mais comprido, n'esse intuito e cheguei ao caes... 

Já desesperava de encontrar barco, quando um individuo vestido de negro e que reconheceria entre mil, se me dirigiu dizendo: 

-- Aguardais uma embarcação, reverendo? 

-- Sim, cavalheiro, respondi-lhe na melhor boa fé julgando vêr nos seus labios um sorriso ironico, e perguntando-lhe logo: 

-- Porque tal riso? 

-- Ah! É que os barcos com este tempo não se aventuram ao mar... Aqui estou eu, que pagava bem a quem me levasse a Oeiras! 

-- Como por encanto appareceu um barco tripulado por dois homens de má catadura e um d'elles bradou: 

-- Cá está o barco... Se queresi gastar seis cruzados, leval-os-hemos! 

Então o individuo, sorrindo-se para mim, n'um ar amavel offereceu: 

-- Se quereis ir até ao convento! E para os homens, exclamou: 

-- Doze, mas é necessario levar este bom cartuxo a Caxias. 

Accederam e partimos. A noute cahia e o barco trepava nas cristas das ondas sem que o menor signal de terror invadisse os remadores que se esforçavam a vencer os elementos em desordem. 

O personagem sentara-se a meu lado e cahira n'um grande silencio desde Ribamar onde se ergue o convento e em frente do qual se descobriu... Depois reclinou-se á proa e ao chegar lá baixo perto da Gibalta, vi que os homens deixavam de remar e que o desconhecido soltava uma gargalhada. 

Ia interrogal o porém senti-me agarrado pelos homens e atirado ás ondas emquanto a voz escarminha do miseravel perguntava: 

-- Ah! Agora fr. José pode estar socegado... Ninguem prevenirá o corregedor da sua prisão, Boa noute cartuxo!... 

Os remadores, sem duvida seus cumplices riram também e eu n'um esforço desesperado agarrei-me á borda do barco que se virou em virtude dos dois homens se terem lançado á agua logo ao primeiro movimento que fiz para saltar de novo para a embarcação... 

E o miseravel lançou-se também ás ondas deixando-me agarrado á quilha do barco ouvindo-o ainda dizer: 

-- Não sabe nadar... Estamos salvos!... E depois perderam-se na praia ao mesmo tempo que eu era levado para longe quasi desmaiado mal agarrado á quilha do fragil barquinho... Foi então que me salvasteis... que vim para aqui... que escutei o vosso segredo o qual me ia custando tão caro como o do fr. José... 

-- Ah! Miseravel padre! gritaram a um tempo, Assumar e Gomes Freire, ao passo que Vasco de Miranda, dizia: 

-- Desde então fiz dois juramentos que hei-de cumprir á risca. 

-- Quaes foram? interrogaram elles. 

-- Vingar-me de fr. José do Rosario, de fr. bojudo, como lhe chamou o bobo da rainha... Sim vingar-me d'elle como um turco e... 

-- E!... 

-- E aprender a nadar como um peixe!... replicou elle com uma gargalhada alegre. 

Gomes Freire, ergueu-se e offereceu o braço a D. Elvira, depois olhou o seu novo camarada e em voz tranquila disse: 

-- Mais do que nunca careço de partir... Todos esses acontecimentos dispõe-me á felecidade... Tenho a certeza d'ella... Ignoram quem raptou Elvira e não o saberão facilmente... Depois casar-nos-hemos na provincia e ficarás entregue á minha santa mãe... Vasco, até á volta... Partirei hoje mesmo... Adeus D. Pedro!... 

Caiu-lhe nos braços e muito baixinho, murmurou: 

-- Velem por ella... 

E ao abraçar Vasco repetiu-lhe o seu pedido e sahiu com a noiva que chorava desesperadamente, murmurando: 

-- Oh! Não partas... não partas... O coração advinha-me uma desgraça!... Consolava-a com doces palavras que ella não queria ouvir, cada vez mais firme no seu proposito do partir, desejoso d'essa felicidade para a qual carecia a benção de sua mãe. 

O conde e o ex-noviço, tinham ficado no quarto e o fidalgo, dizia: 

-- Não sei porque... Mas parece-me que esta aventnra vae acabar mal! 

E o ex-noviço, recostando-se nos almofadÕes volveu: 

-- Nada acaba mal quando se é novo... E para demais quando se é cadete d'um bello regimento!... 









X 







O «Neutral» de Belem 





A cigana penetrava na sala baixa do café, rodeada de mesas sujas sobre as quaes havia picheis de vinho e botelhas de aguardente, bebidas com grande satisfação pelos homens de mau aspecto e ruim catadura que jogavam os dados na mais infrene tavolagem. 

Appareciam Jaquetes, cintas de bolieiros e camisolas de barqueiros, cabelleiras safadas, braços que se erguiam, chapéus de feitios exquisitos, tudo n'uma confusão extranha, emquanto lá ao fundo por detraz d'um mesquinho balcão o Pedro do Neutral, o dono da locanda, magro, enfezado, bilioso, os labios n'um riso continuo, ladeado por dois robustos creados, ia enchendo picheis que os moços conduziam ás mezas, onde se jogava e se fazia alarido, ao som de violas gemebundas e de vozes alcoolicas cantando modinhas. 

O vice-rei, ficara parado á entrada da baiuca ao ver a joven, que procurava alguem com a vista, e depois como ella relanceava um olhar para o seu lado, toda a impressão d'aquelle antro se lhe dissipou e foi sentar-se tambem, na unica mesa no sitio mais escuro, como confundido ante todos aquelles ruidos, desencontrados. 

N'uma mesa collocada ao centro da casa e rodeada de matulões, gente da maruja, e da mais infima ralé, era onde se jogava com mais furia fazendo-se saltar os dados, trocando-se ditos, entrando em disputas que passariam a factos se o Neutral n'uma vozita aflautada, não se acercasse logo, guinchando: 

-- Então pequenos... lembrem-se de mim... Que diriam os da policia se em minha casa se fizessem dispauterios.. Na rua matem-se á vontade! 

E na andadura medida a imitar os fidalgos da epocha, elle com o seu arsinho mellifulo d'antigo leigo, voltava para o seu logar. 

Os fidalgos tinham penetrado em seguimento do vice-rei e sentavam-se a uma das mesas, esboçando sorrisos ao verem a cara do grande personagem que não se atrevia a levantar-se do seu canto temendo despertar as attenções. 

Agora toda aquella gente ao ver a cigana parava de jogar como por encanto, as conversações serenavam e bradavam-lhe: 

-- Eh! Chiquita!... Viva a Chiquita! 

-- Vá lá uma gotta! 

-- Anda para aqui!... 

Todos lhe accenavam, chamavam-n'a com alegria, alguns acercavam-se d'ella em grande intimidade, ao passo que a rapariga, sorria, tinha para elles uns ditos, e continuava procurar alguem com o olhar. 

-- A pequena está bem relacionada... murmurou Jacob Mestral, com um sorriso ironico: 

-- Vae agora dar-lhe um beijo, D. Balthazar!... exclamou Silva Menezes, dirigindo-se ao companheiro, que volveu: 

-- Antes o tentasse n'uma egreja!... Isto é gente dos demonios... 

-- Mas parece que ella procura alguém!... 

-- Naturalmente o vice-rei... disse um dos fidalgos, a rir. 

E o personagem parecia também julgal-o porque cominava a fixal-a com insistencia desejoso de travar conversação. 

Ella dirigiu-se em voz baixa a um dos homens e interrogou: 

-- Não viram o Joannico? 

-- Não deve tardar... Foi a Marvilla com o amo... 

-- Com o novo!... interrogava Chiquita. 

-- Não, com o marquez d'Alorna, o pae do conde d'Assumar... 

-- Ah! É esse senhor que é muito amigo d'elle... 

-- É O que lhe dá cruzados porque segundo me parece, elle o ajuda nas aventuras! replicou o homem n'um sorriso.

-- É possivel, Alvaro... É possivel. Bem sabes da coragem do Joannico! 

-- Chiquita! Chiquita! gritaram d'uma mesa. Anda cá, toma uma gotta e canta uma das tuas... 

Não se fez rogada, os olhos luziram-lhe e a bella cigana approximou-se da mesa, esvasiou um pichel e bradou: 

-- Atira lá um landum... 

A viola soou n'aquella musica indolente, ante o silencio do café, cujos frequentadores rodearam a cigana. 

Foi n'este momento que o corregedor entrou, embrulhado na sua capa e foi tomar logar n'uma mesa proxima da do vice-rei, murmurando: 

-- Aqui nem o rei dos esbirros me deita a unha! 

A Chiquita de mãos nas ancas, a garganta a apparecer-lhe no decote da casaquinha, os olhos brilhantes, a bella cabeça deitada para traz, requebrava-se n'umas osçillações lentas e languidas, mechendo o tronco, os labios entre-abertos, toda d'uma volupiuosidade felina e cantava acompanhando o instrumento por entre os olhares lubricos de toda aquella extranha assembléa: 



Ai! Ai! Já não ha quem queira 

Ai! Ai! Já não ha quem queira 

Ganhar um vintem 

Levar a Chiquita 

Pras bandas d'além 



E ia sempre nos seus requebros, enthusiasmada, deveras formosa assim com a cabeça inclinada para traz, os seios turgidos quasi saltaram-lhe do decote, n'um ar de ribalda, fazendo ouvir a sua voz meiga e d'uma languidez extranha. 

O vice-rei, muito pallido, os olhos despedindo clarões libidiniosos sentia-se attrahido cada vez mais para essa mulher, parecia como louco, sacudido nos seus desejos ardentes. 

O corregedor pedira um pichel de vinho e o Pedro Neutral, viera muito obsequiador, com o barrete na mão, exclamando: 

-- Oh ! V. sr.ª senhor corregedor dignou-se visitar esta sua casa... 

-- Sim, Pedro... Espero uma pessoa... 

-- Ah! Julgo que não terá aqui a exercer a acção da lei... disse o dono da locanda nas suas fallinhas mansas, um pouco assustado. 

O corregedor fazia-lhe um signal para que tomasse logar á sua mesa e dizia-lhe: 

-- Pedro... A tua casa não tem outra sabida? 

-- Mas não, senhor corregedor! 

-- Garantes-me isso sobre juramento? 

Elle fez-se Uvido e tornou: 

-- Mas... Mas... v. sr.ª vem prender alguem? 

-- Não. . . replicou elle, lembrando-se de sua extranha situação e comprehendendo agora muito bem as anciãs dos desgraçados que perseguira mais d'uma vez. 

-- Então... 

-- Sou eu mesmo que preciso sahir sem que me vejam... 

-- Lastimo, senhor corregedor, mas não tenho outra porta no meu estabelecimento... Por Santa Quiteria de Méca, minha protectora, o juro... 

Lopes Cardoso, fez um gesto de raiva e de seguida disse: 

-- Que tolo sois, mestre Neutral!... Uma casa da ordem da vossa, sujeita a visitas da policia e dos esbirros, deve ter quanto mais não seja um subterrâneo...

O locandeiro encarou-o espantado e murmurou: 

-- Mas senhor corregedor... v. sr.ª é quem m'o diz... 

-- Extranhal-o hein!... 

-- Sim, senhor corregedor! 

-- Ah ! É que tu não sabes quanto sou teu amigo... E lastimo não ser um dia corregedor effectivo de Belem porque a tua casa jamais seria incommodada... 

-- Favores... favores... tornou com humildade o Neutral. 

Em torno a Chiquita cantava sempre, ouviam-se palmas, os copos despejavam-se e a gentil cigana, alegre e saltitando, ria e folgava, cheia d'applausos, olhando de quando em quando a porta. 

O Neutral dirigia-se ainda ao corregedor em voz muito baixa: 

-- V. sr.ª conhece aquelle fidalgo que ali está... e n'um revirar d'olhos indicava o vice-rei. 

Lopes Cardoso, olhou-o e fez um gesto d'admiração ao reconhecel-o, passou a mão pelos olhos como se temesse enganar-se e murmurou.

-- Mas não estou enganado, não... É o vice-rei!... Que demonio virá elle aqui fazer? 

-- O vice-rei? interrogou o Neutral cheio de espanto. 

-- Sim, mestre Neutral, o vice-rei do Algarve está em vossa casa! 

-- Oh! E eu que não sabia... Vou já offerecer-lhe a minha sala... Agora tão alto personagem aqui n'esta espelunca!

-- Não façaes isso, mestre Neutral, aconselhou o corregedor, com os olhos brilhantes de contentamento ante uma ideia que lhe viera a subitas, ao recordar-se dos esbirros que o perseguiam. 

-- E porque, senhor corregedor? interrogou o locandeiro, cheio de admiração. 

-- Porque, sua excellencia, não ficaria contente de ser reconhecido n'esta companhia... 

Mas não comprehendo... não comprehendo o que vem aqui fazer!

-- Eu vos digo... Julgo que sua excellencia veiu em seguimento da Chiquita. 

-- Ah! Deve ser isso! 

-- E alem aquelles fidalgos parece que o guardam... e o Neutral apontava a mesa onde D. Balthazar d'Atouguia e os companheiros se encontravam. 

-- Diabo! rosnou entre dentes, o corregedor. 

-- Ah! A minha casa vae-se afreguezando. . . Com mil bombas! Belem, tornou-se um sitio d'aventuras! exclamava o Neutral, radiante. 

-- Sim... E algumas de tal ordem que conduzem á Inquisição e quem sabe se á forca! 

-- Credo!... murmurou o dono da casa, com os olhos espantados e benzendo-se devotamente. 

-- Já vos disse... 

-- Só quando são aventuras d'aquellas das Salesias... Sacrilegos... Ah! É verdade, senhor corregedor, e ainda não descobriram os herejes? 

Lopes Cardoso, fez-se pallido, esboçou um sorriso contrafeito e volveu: 

-- Elles julgam que os têm debaixo d'olho... Pelo menos um... 

Mas enganam-se... 

-- Ah! V. sr.ª conhece-os? 

-- Mas quem lhe disse isso, seu taberneiro d'uma figa?! bradou o corregedor n'um sobresalto. 

-- Quem... Mas se v. sr.ª diz que se enganaram... É porque... 

-- Irra!... É porque desconfio, sabe? 

-- Ah!... 

-- E julgo mais que elles se encontram aqui... tornou Lopes Cardoso a disfarçar as suspeitas que recahiam sobre elle. 

-- Aqui? perguntou o locandeiro n'um espasmo. 

-- Sim senhor!... Aqui mesmo! affirmou elle, deveras contente ao ver o terror estampado no rosto do pobre homem, que murmurava: 

-- Olhe! E V. sr.ª vem para os prender... Oh! senhor corregedor, pela Virgem lhe peço que os prenda na rua... Sacrilegos em minha casa! Mas isso importará a minha ruinal... Disse ha pouco que era meu amigo... 

O corregedor ficava meditabundo como se pensasse em tirar partido de situação e depois, com um sorrisso fino, volveu: 

-- E sou... Quero até provar-lh'o mestre Neutral!... 

-- Como... como?... Ás ordens de v. sr.ª senhor corregedor... 

-- Sabe que se fôr o proprio a denuncial-os receberá uma recompensa e a sua casa será tida por respeitavel e talvez até mereça a protecção do sr. intendente! 

-- Ah! Sei-o bem... Muito bem o sei... 

-- Nesse caso porque não denuncia os sacrilegos?... 

-- Eu?... Mas dava tudo para os conhecer... Oh! tudo!... dizia elle com grande commoção. 

O corregedor pensou durante uns momentos, sorriu, tomou um ar grave e começou: 

-- Que daria a quem lh'os indicasse?... 

-- Mas já disse a v. sr.ª... Tudo quanto podesse... 

-- Pois eu descobri esses miseraveis e estou disposto a dizer que foi o senhor quem m'os indicou... 

-- Receberá a sua recompensa, a sua casa não será incommodada, e ficaremos amigos... 

-- Mas e porque! V. Sr.ª podia receber sósinho a recompensa! tornou o outro a rir, concluindo: 

-- V. Sr.ª diverte-se... 

-- Engana-se, falo a verdade!... Já sabe que nós outros, homens de justiça não temos recompensa alguma quando descobrimos criminosos... Dizem a isso que o nosso officio... 

-- Ah! Tem razão... 

-- Mas não lh'a dou eu!... exclamou o habil Lopes Cardoso com bem fingida indignação e olhando a porta onde esperava vêr os esbirros a todos os momentos para o prenderem. 

O locandeiro ante aquelle ar do interlocutor, tornou-se humilde e volveu: 

-- Sim... Quero dizer... 

-- Quer dizer?... Que o governo de sua magestade, trata melhor os mercadores que a nós homens da lei... Se descubro um criminoso não me gratificam... se o não descubro, castigam-me... Emquanto que se o mestre Neutral, lançar as suas vistas sobre um patife recebe boa esportula... Acha justo? 

-- Como V. sr.ª entender... Mas senhor corregedor, não quer um copo de vinho de Companhia? 

-- Acceito, mestre Neutral, com a condição de beber á minha saude e ao exito certo da nossa combinação... 

-- Que honra!... Que grande honra!... E o corregedor radiante, via que o locandeiro estava ainda mais radiante, e esfregava as mãos sentindo ali a maneira habil de fugir aos perseguidores. 

D'ahi a minutos. Neutral voltava com a garrafa e dois copos, hesitava em tomar o seu logar em face do Lopes Cardoso, que com o melhor dos seus sorrisos dizia: 

-- Sente-se... sente-se... 

Enchia os copos e levava o seu á bocca esvasiando-o, com um alegre estalido de lingua, dizendo: 

-- Bella pinga, mestre... Vá bebei! Em torno ouviam-se sempre os mesmos applausos á cigana para a qual os fidalgos tinham sorrisos e o vice-rei olhava da mais brutal concuspicencia, fixando-a desvanecido. 

O corregedor lançou um olhar cheio de scentelhas para os lados e disse a meia voz para mestre Neutral: 

-- Ouça pois... Diante do que me disse, comprehende bem que á nós outros não convém nunca descobrir criminosos de importancia... 

-- Certamente... certamente... 

-- Por isso costumamos encarregar alguem de fazer as denuncias, recebendo metade da quantia que o senhor intendente ou o governo estipulam... 

-- Ah! Agora comprehendo!... Agora comprehendo! bradou o outro cheio de jubilo. 

-- Acceita? interrogou á pressa, o corregedor. 

-- Com o maior reconhecimento. 

-- N'esse caso vá denunciar aquelles fidalgos... e o corregedor que tinha o seu plano para se evadir, apontava os três homens sentados á mesa e que tinham pedido dados, agora que a Chiquita terminava as suas canções e ficava n'um ar melancholico a olhar a porta. 

-- Ah! São elles... E são caras desconhecidas... 

-- São fidalgos... Pode dizer que ouviu uma conversa acerca de... 

N'este momento D. Balthazar d'Athouguia, atirava os dados e exclamava: 

-- Seis... Maldito seis... Fui mais feliz outro dia com o jogo de Ramiro de Noronha! 

O locandeiro deu um pulo, e o próprio corregedor ficou pallido murmurando: 

-- Serão elles? e logo com sorriso, monologou: 

-- Seja o que fôr, não tenho vontade nenhuma de ir hoje até á Inquisição e embora os apontasse não escaparia. O cardeal tem-me vontade... E depois não serão apenas conhecidos, até amigos?... Nada; vou seguir o meu jogo... e em voz alta, disse: 

-- Vê, mestre, ouve... 

-- Ah! São elles... Falaram de D. Ramiro, do pobre fidalgo ferido... 

-- Corra mestre... Vá denuncial-os, insistiu muito á pressa o corregedor. 

-- Mas onde?... A estas horas?... 

-- Á Inquisição ou antes aos esbirros... 

Subito soou uma voz á porta e appareceu um homem novo, vestido com garridice n'um bello trajo que ajustava bem á sua estatura elegante. A cigana ao vel-o levantou-se, correu para elle de braços abertos, enlaçou-o além junto á porta exclamando: 

-- Oh! Joannico!... Joannico! 

O vice-rei volveu para o recemchegado um olhar d'odio, rancoroso, cerrou as mãos e ficou-se a analysal-o cheio de raiva, emquanto D. Bakhazar dizia para os companheiros: 

-- Sabem o que lhes digo? É que não queria por cousa alguma do mundo estar na pelle d'aquelle rapaz... 

-- Nem eu!... exclamaram os outros a um tempo, recordando-se do grande poder do vice-rei e vendo a forma porque elle continuava a olhar o crado d'Assumar, o qual dizia com certo terror alcançando a cigana: 

-- Que se passaria no vosso café mestre Neutral para que os esbirros da Inquisição estejam á vossa porta! 

-- Os esbirros!... gritaram todos com grande susto ao recordarem-se do tribunal do Santo Officio. 

Apenas os fidalgos tiveram um sorriso, dizendo: 

-- Nós estamos livres... Basta ali estar o vice-rei!... Porém até o proprio personagem estremecera ao lembrar-se que teria de declarar a sua alta cathegoria a semelhante gente que bem se encarregaria de espalhar a sua insistencia n'esse logar suspeito. E então, como se não se importasse já com a cigana, o corpulento personagem lançou em volta um olhar desanimado. 

O corregedor muito pallido, em frente do Neutral, dizia-lhe: 

-- Vá... vá... Elles não vêem sós com certeza... Não se trata d'uma ronda das ordenanças que se põe em debandada... Salvae a nossa casa e recebereis amanhã o dinheiro da intendencia... Ide denunciar os fidalgos!... 

-- Eu vou... eu vou... murmurou o Neutral como louco, correndo para a porta, emquanto os outros ficavam paralysados, á excepção do vice-rei que se erguera e se dirigia para a mesa de Lopes Cardoso, que se levantava cheio de espanto e levava a mão ao chapéu com grande respeito: 

-- Sois corregedor do crime, não é assim? interrogou o personagem em voz grave. 

-- Sim, excellentissimo senhor... volveu elle com a maior deferencia... 

-- Conheceis-me? 

Tenho essa honra, senhor vice-rei! 

Elle levou o lenço aos labios a enxugar a saliva que borbulhava e de seguida, murmurou: 

-- Pois eu preciso sahir d'aqui sem ser reconhecido pelos famulos que amanhã se encarregariam de espalhar a minha presença n'este local... 

D'esta vez, o pobre corregedor fez-se livido ante a idéa do vice-rei, que continuava: 

-- Comprehendeis que não posso ir dizer a minha qualidade a essa gente... Um corregedor do crime pode saber das aventuras d'um fidalgo como eu... Mas esbirros nem as devem suspeitar!... 

-- Porém, excellencia, que desejaes... Estou ás vossas ordens!... tornou elle muito tremulo sentindo-se perdido. 

-- Que digaes a esses esbirros que me deixem passar! 

-- Mas senhor... É a gente da Inquisição... Eu mando apenas nas rondas... O Santo Officio só obedece aos seus famulos... 

Agora o vice-rei tornava-se pallido também e depois batendo com a larga mão na testa, bradou: 

-- Porém espero que o Santo Officio não prenderá um corregedor!... 

Lopes Cardoso, tornou-se livido ante aquellas palavras, ao lembrar-se que na realidade eram apenas esses os intuitos dos esbirros. 

Mas o vice-rei, continuava: 

-- Com as cousas como estão, qualquer fidalgo desde que não 

declare o seu valimento é preso, mas um homem de justiça, nunca. Por conseguinte... 

-- O que? Senhor... murmurou o homem de justiça sem vêr o alcance das palavras do vice rei. 

-- Eu sou o corregedor!... E vós arranjae-vos... Amanhã declararei a vossa posição e eu mesmo vos porei em liberdade... 

-- Mas excellencia... Acaso vou ser preso? interrogou elle cada vez mais confundido. 

Decerto... Porque naturalmente o vão ser todos n'este casa... retorquiu o personagem sempre a enxugar os labios com o seu fino lenço. 

-- Mas eu... 

-- Como os mais... Porque me ides dar a vossa capa e o vosso chapéu! 

Lopes Cardoso, sentiu então o mais intenso jubilo e exclamou: 

-- Porém... 

-- Hesitaes... Descançae, senhor corregedor que não vos esquecerei... Estão vagas algumas alcaidias... Elle, tremulo e indeciso, quiz ainda replicar, mas o fidalgo arremessava-lhe já a capa e o chapeu deixando-lhe o seu em troca e embrulhando se dirigia-se para a porta, exclamando: 

-- Até amanhã, senhor corregedor! 

E o outro ao vel-o ir para a sahida e olhando o chapeu que lhe deixava onde brilhava uma fivela de esmeraldas, murmurou: 

-- Não perdi com a troca! 

Mestre Neutral emquanto durou esta rapida conversa, levado n'um grande impulso quizera dirigir-se para os esbirros, porém exactamente no momento em que o ia fazer sentiu na sua rectaguarda o vice-rei envolto na capa do corregedor e não o confundindo apesar da escuridão, ia fazer-lhe um cumprimento respeitoso ao comprehender aquelle troco de trajes e murmurava: 

-- Sua excellencia não quiz ser reconhecido! 

Mas ouvia a voz d'um dos esbirros, murmurar: 

-- Eh! Mestre Neutral... Nem um aviso ou então sereis punido por sacrilego! 

O vice-rei transpoz descançadamente a porta, embrulhando-se muito na capa do corregedor, e os esbirros foram em seu seguimento até á esquina, e além no escuro, lançaram se sobre elle, emquanto soava a voz escarninha de um dos homens, gargalhando: 

-- Vinde mestre, Jacintho Peres, que o melro cahiu na ratoeira!... Eh! Levem-n'o p'ra sege... gritou a mesma voz ao passo que os soldados agarravam com força o nobre, que clamava, salivando: 

-- Eu sou o corregedor do crime! Olhae a minha toga! 

-- Demais o sabemos... gritaram com umas gargalhadas de troça, fazendo subir para a sege que escoltada pela cavallaria, voltara para os lados da Junqueira. 

E o astuto corregedor que viera de vagar até á porta e assistia a tudo, ao vêr os esbirros lançarem-se sobre o vice rei, saiu de corrida, dizendo ainda: 

-- Deus o ajude por muitos annos, mestre Neutral! 

-- Ah!... Ah! É a primeira vez que se faz isto!... Prender um vice-rei! exclamou o locandeiro benzendo-se devotamente e seguindo com a vista o corregedor que se affastava muito apressado. 

-- Oh! E que o vice-rei tambem era dos sacrilegos!... E esse não era conhecido pelo senhor corregedor!... Onde irá elle ? in- 

tcrrogou-se ao ver o vulto ir em direcção aos arcos d'onde saia Jacintho Peres e dois esbirros os quaes vinham correndo ao verem os companheiros atirarem-se ao pseudo magistrado. 

E o verdadeiro, ao ver os esbirros, affastou-se no escuro e foi-se para o Chão Salgado a murmurar: 

-- D'esta vez a Inquisição fez uma caçada quasi real!... 







XI 







Os Esbirros 









Mestre Neutral ficara á porta esfregando as mãos e ao ver que outros famulos sabiam dos arcos do pastelleiro, correu ao seu encontro, murmurando: 

- Ah! Vêm prender os outros... É preciso que seja eu quem lh'os entregue!... Nada que é dinheiro que entra e a reputação da casa que sobe... Jacintho Peres, caminhava com o seu ar saltitante e ia dirigir-se para a sege, quando encontrou no seu caminho o locandeiro, a bradar-lhe: 

-- Eh! Boa noute, meus senhores! 

-- Olá, mestre Neutral!... Com que então daes abrigo a um sacrilego! interrogou o fâmulo não perdendo de vista o vehiculo que estava a alguma distancia escoltado pela cavallaria. 

-- Perdão, senhor, a minha casa é publica e todos entram... 

-- Desde os da tavolagem a quem um dia darei volta até aos infames salteadores de conventos... 

-- Assim é... Porém eu é que sempre busco a servir a policia e a Santa Inquisição... tornou elle desbarretando-se. 

-- Ah! E vinheis contar-nos o que bem sabiamos!... Agradeço-vos o obsequio! disse Jacintho Peres na sua vosinha de escarneo, accrescentando: 

-- Vamos rapazes nada de fazer esperar sua excellencia! e dizia aquilo n'um modo ironico e dirigia-se para a sege, quando o Neutral, exclamou: 

-- Mas onde ides? 

-- Ao nosso officio... 

-- E os outros? perguntou com grande pressa. 

-- Os outros? 

-- Sim... Os tres sacrilegos... 

-- Mas onde se encontram? interrogou o esbirro, dando um saltinho de contentamento e de espanto, emquanto os outros se acercavam. 

-- Ah! não sabeis ainda? interrogou este tambem muito contente. 

-- Mas não... Falae depressa... Quem são? 

-- Dois cadetes do regimento do Caes e um outro fidalgo que se encontram na minha casa. 

Por Deus!... É ter sorte... E como o sabeis? interrogou o outro. 

-- Oh! Para servir a Santa Inquisição e a policia, tenho mil ouvidos, tornou elle a fazer valer os seus serviços. 

-- E que ouvisteis d'esta vez? interrogou muito rapidamente o esbirro. 

-- Que eram elles... Se um até falou no golpe que deu em D. Ramiro de Noronha, o bom senhor da calçada d'Ajuda, que to tos nós conhecemos e que foi acutilado em chão sagrado das Salesias!... disse elle com nova barretada. 

E o Neutral, deveras convencido que aquellas palavras pronunciadas por D. Balthazar representavam na realidade a prova do crime, lembrando-se bem do que ouvira ao corregedor, certo, plenamente convicto, ouviu o esbirro a dizer-lhe: 

-- E dizeis serem cadetes do regimento do Caes? 

-- Não, o que feriu o bom fidalgo não o é... 

-- Porém estão mais dois? 

-- Sim... 

-- É o demonio... Os soldados do regimento não prendem os seus cadetes. 

-- Que fazer? perguntou um dos tres esbirros. 

-- Mandar avançar a sege para a Inquisição e seguir-mos estes, conhecer-mos as suas figuras sem que o suspeitem e amanha requisitar a captura ao senhor marquez d'Alorna... 

-- Está bem... Sois d'uma finura senhor Peres! tornou um dos homens cheio d'admiração, ao passo que elle se dirigia aos que guardavam o vehiculo e bradava: 

Vá... depressa para a Inquisição cautella com o passaro... Nós temos ainda melhor caçada!... 

O vehiculo partiu a toda a brida, conduzindo o pobre vice-rei amortalhado na capa do corregedor, não querendo dar a conhecer a sua qualidade e mesmo sentindo agora que não seria ouvido, porque os esbirros, diziam: 

-- Vamos na tabua... Nada... Olhe que sempre é pessoa de qualidade! 

Então o gordo personagem estremeceu e murmurou: 

-- Mas então não comprehendo... Pessoa de qualidade!... Mas então estou bem preso... É a mim e não a outro que capturam... Mas porque?... 

E ficou a meditar deveras alvoraçado sentindo o carro rodar com estrepito ladeado pelos soldados e ouvindo as risadas dos esbirros, empoleirados na tabua do vehiculo. 

Jacintho Peres, voltava para junto do Neutral e tranquilisava-o ao ouvil-o dizer: 

-- Mas senhores... Vinham apenas para prender os sacrilegos? 

-- Sim... ou antes o sacrilego!... 

-- Ah! É que os meus frequentadores estavam sobresaltados... 

-- Tranquillisae-os pelo menos por hoje, mestre Neutral!... casquinou o outro muito alegre. 

O Neutral, muito satisfeito entrou na locanda onde se fizera silencio e onde agora nos grupos se combinavam a meia voz planos de defeza, e bradou: 

-- Tranquillisae-vos... Os senhores do Santo Officio, tinham-se enganado com a casa... Não era aqui que vinham exercer o seu officio porque sabem a boa reputação da loja desde que lhe disse o seu nome. Devia ser com esse café novo ahi da calçada d'Ajuda!... e o Neutral, ganhava assim duplamente, julgava elle; punha á vontade os que tinha como sacrilegos e arruinava em parte a reputação do seu rival moderno. 

A cigana, ao ouvil-o, olhou o Joannico e exclamou: 

-- Ah! Graças a Deus! Cheguei a temer que nos prendessem... 

-- Sim!... E se fossem os da ronda de chuchadeira não havia perigo porque conhecem o valor e a coragem de mestre João Negraes rei dos pastelleiros e dos medrosos!... gargalhou o Joannico. 

Mas com os da Inquisição não succede assim porque são habeis e entendem-se com a tropa! redarguio um outro, exactamente na occasião em que Jacintho Peres com grande disfarce se esgueirava vindo sentar-se na meza ha pouco occupada pelo vice-rei; os dois outros esbirros entravam um após outro tomando logar perto do balcão, depois de terem visto mestre Neutral apontar-lhes os fidalgos tidos como grandes sacrílegos pelo seu bestunto occupado apenas pelas miragens que o arteiro corregedor lhe fizera antrever. 

Os esbirros analysavam os cadetes e o fidalgo, tinham sorrisos satisfeitos ao lembrarem-se das suas recompensas logo que os prendessem e Jacintho Peres sentia-se já mettido no animo de fr. José que o recommendaria ao Cardeal da Cunha, desde que lhe entregasse o raptor da sobrinha. 

E pensava qual dos tres seria o mais culpado, olhando ao mesmo tempo com grande enthusiasmo a gentil cigana que empunhando a pandeireta se dispunha a dançar um bailado hespanhol. 

O esbirro murmurava: 

-- Hum... Heretica... E a rainha nossa senhora a prohibir as comicas nos theatros... Deixa estar que não te perco de vista!... 

-- Chiquita!... Vamos ao bailado! gritava-se em torno, por entre o chocar dos copos e o som dos dados atirados com estrepito para as mezas, ao passo que os fidalgos mechiam dinheiro perdido no seu jogo, e a viola gemia os primeiros accordes a incitarem a Chiquita. 

O Joannico de pé junto d'ella, sorrindo-se bradava n'um impeto: 

-- Vai... Chiquita!... Anda!... 

-- Por ti meu amor!... Olá da musica... 

E nos seus requebros, os pésitos d'ave levantando-se ligeira, a cabeça voltada a tres quartos, os braços erguidos tocando no pandeiro cujas fitas esvoaçavam, ella era linda e enthusiasmava, ao entreabrir os labios n'um sorriso voluptuoso, os olhos faiscantes devorando o amante que estremecia de prazer e d'orgulho ao vêr a admiração dos companheiros e dos fidalgos. 

D. Balthazar segui-a com a vista e quando ia atirar um gracejo, reparou em Jacob Mestral que se fazia pallido como um defunto ao fixal-a e murmurava: 

-- Oh! É sublime... É sublime esta mulher!... 

-- Repara, Jacob, que tens ganho ao Jogo!... gritou-lhe Silva Menezes. 

Não lhe respondeu, continuava a olhar a cigana enthusiasmado, sentindo para ella a mesma attenção que o vice-rei e mal ouvindo D. Balthazar dizer-lhe: 

-- Quer o D. José affirmar que serás infeliz nos amores... 

-- E dizeis ha pouco que não querias estar na pelle do tal Joannico, só porque um vice-rei adiposo lhe cubicou a amante!... 

-- Oh! Queria-a nem que fosse o verdadeiro soberano que m'a disputasse! exclamou Mestral olhando por seu turno o creado d'Assumar para quem a cigana no seu voltear gracil ao som d'aquella musica alegre e enthusiasia, sorria cada vez com maior ternura. 

-- Julgo que não irás disputal-a áquelle vadio disfarçado em fidalgo com alguma veste roubada!

-- Sim... Vê lá o que queres fazer... 

-- Nada por hoje... Oh! Mas será minha um dia!... 

Continuava a devoral-a com a vista, emquanto ella cançada ao terminar a musica se deixava cair nos braços do Joannico por entre os applausos dos circumstantes; Mestral fazia-se pallido de raiva e o creado d'Assumar, bradava alegremente apertando a amante ao peito e largando-a de seguida: 

-- Olé mestre Neutral... Traga vinho para a nossa meza! E todos bebem não é verdade, rapazes!... 

-- Sim... Sim... Á saude do Joannico nunca se recusa! 

-- Mas tu hoje estás rico, meu pimpão? exclamou o Alonso batendo-lhe amigavelmente no hombro. 

Continuavam a rir e iam esvasiando os copos rapidamente, trocando ditos d'um lado para outro. 

Subito o Alonso gritou: 

-- Eh! Chiquita, acautella o teu amante dos olhos gaiatos das sécias... Julgo que aqui bem perto, talvez ali p'ros arcos, em certa loja de pastelleiro, existe alguem que bebe os ventos por elle... E olha-lhe p'ra a veste rica que traz... Até parece um cantor do paço... 

O rapaz dizia aquillo com certo tom brincalhão n'uma curiosidade immensa de saber d'onde lhe viera esse trajo rico, emquanto um homem que usava um fato pardo e tinha na cabeça um chapeu tricorne muito amachucado, dizia por seu turno: 

-- Eh! Bah!... Agora vejo a allusão... Falas da mulher de mestre Negraes... Da Guiomar... Com ella se fazem tolos os peraltas e alguns vem na dilligencia lá do Loreto só para verem os seus bellos olhos, fingindo comer-lhe os pasteis... 

-- Basta de chalaças!... Alonso... Eduardo! Calem-se... Que nada tenho a ver com a Guiomar, Deus o sabe!... 

-- Oh! Enganaes-me!... exclamou a cigana com os olhos brilhantes de raiva. Mas por esta t'o juro que sou capaz de metter a secia no seu forno... 

E a Chiquita fazia uma cruz com os dedos, encarando o amante que corria a abraçal-a dizendo: 

Acho pesada a graçola, rapazes! Já lhes disse que nada tenho a vêr com a mulher do pastelleiro! Se tenho uma boa veste e me tine o dinheiro na bolsa é porque não se prestam serviços sem paga ao meu nobre amo, o senhor conde de Assumar!... 

-- Ah! É então elle que tem aventuras? exclamaram todos a rir, emquanto a cigana se acercava a olhal-o bem de frente, dizendo: 

-- Joannico!... E que aventuras são essas? 

-- As mais innocentes do mundo! replicou o rapaz muito tranquillamente. 

-- Mas fala... fala... Estou cheia de raiva!... 

-- Chiquita... Não sabes que elles brincavam?... Então a mulher do capitão das rondas podia nunca gostar d'um servo?... E ainda que succedesse... Eu só gosto de ti!... e o rapaz era tão digno ao pronunciar aquellas palavras que a Chiquita deixou-se abraçar seguindo o resto de sua conversacçao com grande enthusiasmo, a dizer-lhe: 

-- Ah! Perdoava-te tudo menos isso!... Tu sabes que me ferve o sangue... Sou boa, mas também sou má... E por ti... Caramba! Até me deitava na fogueira d'um auto de fé!... 

-- Credo!... exclamaram em torno algumas vozes, emquanto Mestral, murmurava: 

-- Que mulher!... Que mulher!... Então o Joannico volvia, cheio de jubilo: 

-- Por ti faria o mesmo. .. E para que não te restem duvidas acerca do que fiz para merecer da generosidade de meu amo, sempre te direi que isto foi a paga de arrancar um homem ás ondas... 

-- Um homem?... Mas onde?... Foi na noite da tempestade? interrogaram varias vozes. 

E o creado do conde, exclamou: 

-- Sim na noute da tormenta, lá baixo em frente de Gibalta... Era um pobre frade agarrado á quilha d'um barco voltado... 

-- Ih!... E tu... 

-- Lancei-me ás ondas para que meu amo não se expozesse, agarrei-o pelo habito que estava a estender-se na agua e trouxe-o para bordo sem sentidos... 

O Jacintho Peres, desde ha uns momentos que seguia curiosamente a conversação, olhava attentamente o Joannico e estremecia ao ouvil-o continuar ante o enthusiasmo dos camaradas: 

-- Era um noviço dos cartuxos... O pobre rapaz recolhia ao seu convento e julgo que os homens do barco o abandonaram porque de terra vinham vozes e avistavam-se vultos... O esbirro, tinha scentelhas colericas nos olhos e murmurava: 

-- É elle!... Oh! E eu que soltei aquellas palavras!... 

-- Então, meu amo, continuou ainda o rapaz, levou-o para o seu palacio da Cruz Quebrada, deitou-o n'um leito ao que ajudei, mais o velho creado da casa e depois como paga, em troca do meu fato molhado deu-me esta veste e algum dinheiro... Ora ahi têm as aventuras de meu amo... 

-- N'essa noute... Porém n'outras sabe Deus... 

-- Não... Elle tem a sua noiva a quem ama tanto como eu a Chiquita. e não precisa de fazer venias ás secias ou ás monjas... 

-- Sim... Como tu não precisas olhar para a mulher de mestre Negraes!... tornou a cigana, mas d'esta vez a rir. 

O esbirro da Inquisição ao ouvir aquella revelação inesperada, ficara melancholico, n'um grande abatimento, comprehendendo que incorreria nas iras de fr. José se por acaso se soubesse ter sido salvo o noviço. Agora que o corregedor estava preso, julgava elle, já não temia o perigo de ser revelado o segredo mas em todo o caso pronunciava palavras que sem duvida tinham feito um inimigo d'esse homem o qual para demais seria capaz de vingar-se. E no seu cerebro fecundo em alvitres e planos, começou a germinar uma nova ideia criminosa. 

Levantou-se e foi surrateiramente até ao balcão; uma vez ali trocou em voz baixa algumas palavras com um dos esbirros indicando-lhe o rapaz e a cigana e de seguida foi sentar-se de novo á sua meza bebendo vagarosamente um copo de licor. Os fidalgos olhavam sempre a joven, ao passo que no grupo continuavam a falar da aventura de Joannico com grande gaudio da cigana que bradava: 

-- Que era um valente, já o sabia! Com mil pandeiros! Viva o Joannico. Agora sou eu quem faz a saude! Saltava lesta para a meza e ali empunhando n'uma das mãos o copo e na outra o pandeiro, clamou: 

-- Viva o Joannico! Á saude do meu amante!... 

A rapariga entreabriu os labios n'um sorriso terno para elle, os outros levantaram-se a empunhar os copos para brindarem, os fidalgos ficaram na sua meza e Jacob Mestral, com raiva soltava de subito uma gargalhada. 

Alonso ouviu-a, fez gesto, olhou o Joannico que se tornou pallido, e bradou: 

-- Eh! rapazes... Não bebam... Porque aqui dentro d'esta casa ha alguem que ainda não se ergueu a saudar o valente que salvou uma vida!... 

Caminhou até meio da casa e fixou o seu olhar em Mestral que se levantava de repente e levava a mão á espada com um sorriso de mofa. 

O esbirro erguera-se no seu banco e ia dirigir-se para a porta quando a cigana saltando lesta da meza, o agarrou bradando: 

-- Eh! Por Deus, um mercador... Tem vergonha de beber pelo meu amante, você tambem!... Pois beba ou assento-lhe as mãos n'essas faces deslavadas... Olhe que o Joannico é um valente! 

O esbirro tornou-se verde de colera, no emtanto, muito acobardado, resmungou: 

-- Oh! Mas gentil menina... Eu não tinha intenção... É que já é tarde e... 

-- Beba e saia depois, e não volte mais porque do contrario em vez de vinho dou-lhe chumbo derretido como aos herejes... 

-- Por Santa Gertrudes... Que sou bom catholico, pelo menos tão bom como a menina!... dizia elle com um sorriso sarcastico, esvasiando o copo e bradando: 

-- Pelo vosso amante! 

O Alonso postava-se com um riso escarninho em face de Mestral que exclamava: 

-- Porque me olhas, villao?... 

-- Ah! É que lhe peço meu fidalgo, o obsequio de beber um copo de vinho pelo Joannico... Queria vêr vossas excellencias de pé... Já o estão... Agora é beber!... dizia o plebeu com ousadia olhando os tres fidalgos que oencaravam admirados. 

Então Mestral, clamou: 

-- Sim estamos de pé para vos mettermos no estomago em vez do vinho da garrafa, dois palmos de ferro... Fidalgos não bebem com a lacaiada! 

-- Olá que vossa senhoria está grave... vem encontrar-se com a ralé! 

-- Para me rir como ouviste, villao... Cala-te... 

-- E quem o ordena, senhor fidalgo? bradou Joannico collocando se-lhe na frente n'um ar de desafio. 

-- Eu, Jacob Mestral cadete do regimento do Caes, meu lacaio, amante de bruxas... 

O rapaz fez-se pallido como cera, agarrou um copo de sobre a meza e arremeçou-o contra o cadete que se baixou ao passo que o pichel se amolgava na parede fronteira, e o outro gritava: 

-- Oh! Que vaes pagal-as!... 

E desembainhando a espada collocou-se-lhe na frente mandando-lhe rija cutilada. Os outros fidalgos atiravam-se com denodo sobre o grupo e ia travar-se rija lucta. 

O Joannico fazia frente com um pesado banco ao seu adversario e a cigana ao ouvir o tumulto, tirava uma navalha da cinta e corria para o cadete, bradando de dentes cerrados: 

-- Miseravel... Cobarde! 

O grupo dos plebeus entricheirava-se com as mezas e fazia face aos fidalgos em grandes gritos estes por seu turno de espadas erguidas clamavam invectivas contra aquelles homens revoltados. 

Porém a cigana no momento em que ia cravar a navalha nas costas de Mestral sentia-se violentamente agarrada e ao tempo appareceram no interior da estalagem oito soldados de espadas desembainhadas a cuja frente estava um official que bradava: 

-- Em nome da rainha rendam-se! 

Os cadetes ao ouvirem aquella voz e a depararem com o oficial do seu regimento baixaram as espadas e fizeram a continencia militar. 

Entretanto a cigana debatia-se nos braços de Jacintho Peres que lhe dizia: 

-- Vou agora ensinar-te a fazer saudes!... E vendo junto a si os dois esbirros, gritou: 

-- Para a Inquisição! 

Arrastavam-na para a porta com furia, e a pobre rapariga debatendo-se chamava. 

-- Joannico!... Joannico! 

Elle ouviu-a, agarrou um banco que arremeçou contra o peito d'um soldado e ante o espanto de todos, n'um salto ligeiro correu para a porta lançando-se sobre os raptores da Chiquita e attacando-os com grande raiva: 

Mas os esbirros chamavam por soccorro e a Chiquita dizia: 

-- Foge... Foge... Peço-te que fujas... Deixa-me... Salvar-me-has depois... 

-- Nunca!... Ah! Miseraveis!... gritou Joannico. 

Mas n'este momento sentiu-se agarrado pelos braços por dois soldados do regimento do Caes e emquanto se debatia, os esbirros arrastavam comsigo a cigana. 

Este fez um esforço sobrehumano, desprendeu um dos braços a custo e arremessando a espada ao soldado que o largara, mandou rija cutilada ao outro e segurando a arma dispôz-se logo a attacal-os. 

No café, o official bradava para os cadetes: 

-- Entreguem-me as suas espadas! 

-- Fomos insultados e defendiamo-nos, meu alferes! exclamou Mestral com grande ira. 

-- Não se trata d'isso têm outros crimes mais graves porque responder! volveu o official serenamente. 

Então D. Balthazar d'Athouguia, saiu do escuro e apresentando-se ante o alferes, perguntou: 

-- E de que nos accusam, D. Francisco de Noronha? 

-- Vós? O visconde d'Athouguia? 

-- Sim eu, Jacob Mestral, e Silva Menezes, filho do conde de S. Lourenço e ambos cadetes do vosso regimento que nos lembramos de vir tomar um pichel de vinho a este logar... julgo que isto não constitua um crime... Fomos insultados, defendemo-nos; eis tudo! 

O moço official passou a mão pelo rosto branco e com grande polidez, volveu: 

-- Mas então... É impossivel!... Vós não sois os criminosos... Se sois amigo de meu primo D. Ramiro de Noronha! 

-- Todos nós... Oh! Chamem esse famulo, gritou o official com raiva dando a ordem a um dos soldados que d'ahi a pouco conduzia Jacintho Peres, o unico que ficara esperando os acontecimentos emquanto os companheiros levavam a cigana. 

Ao vêl-o no seu ar timido, o alferes perguntou: 

-- Accusas-tes estes fidalgos de sacrilegio? 

-- Nós? Sacrilegos! clamaram todos a um tempo. 

-- Sim... Accusava-vos de serem os raptores das Salesias e os que feriram meu primo D. Ramiro!

-- Oh! Que infamia! Vós, D. Francisco, bem nos conheceis... certamente... 

-- Mas... Quem me indicou suas senhorias foi mestre Neutral... 

E elle apontava o locandeiro que durante a lucta se conservara detraz do balcão muito acocorado e o qual agora se justificava a tremer: 

-- Mas disse-m'o o senhor corregedor... 

-- Que corregedor? gritou o esbirro com raiva ao ver transtornados os seus planos. 

-- O senhor Lopes Cardoso... 

-- Ah! Sim... Maldito... Nunca se farta de nos fazer pirraças... Eu lh'o direi amanhã no Santo Officio... 

Curvou-se diante do official e dos fidalgos e disse: 

-- Desculpae-me senhores. No emtanto peço-vos mettei este homem na cadeia porque é elle o culpado de tudo isto... 

-- Sim... Ide em paz e vós também senhores! exclamou D. Francisco de Noronha apertando a mão aos cadetes e a D. Balthazar e bradando para os soldados: 

-- Agora levai todos estes villões para que se lhes ensine nas galés como se tratam fidalgos!... 

Emquanto os militares procediam á operação, este veiu até á porta e viu um dos seus homens cahido ouvindo ao mesmo tempo o outro bradar-lhe: 

-- Oh! Meu alferes... O maldito do rapaz feriu o meu camarada! Mas elle tambem vae bem convidado... 

-- Quem? 

-- O que queria levar a cigana! 

E apontava o Joannico aquém rompera um hombro ao ver o companheiro por terra, e o qual se perdia de corrida no escuro dos arcos de Belem. 









XII 



As promessas do arcebispo 





O confessor da rainha encontrara a breve trecho o intendente da policia, deixando a soberana além sob as arvores rodeada das suas aias. 

Pina Manique, vestido completamente de negro e tendo sobre a casaca a cruz de Christo curvou-se ante o carmelita, beijou-lhe respeitosamente a mão

e rejubilava ao ouvil-o dizer no seu tom rude: 

-- Ah! Vem annunciar-me a tempestade... Acabo de dizer isso mesmo a Sua Magestade... 

-- Sim, grandeza... Venho dizer-vos que Sua Magestade tem sido enganada, tem procedido ao contrario do que devia proceder, porque embora seja soberana, nós temos a obrigação de lhe mostrar o inimigo a punir. 

-- Assim o entendo... Assim o entendia n'outro tempo o marquez de Pombal, hoje moribundo... E quem enganou Sua Magestade? interrogou sempre na mesma rudeza a que o intendente respondeu, tranquillamente: 

-- Os jesuitas! 

-- Sim... não me causa admiração... Para mim não é surpreza. 

São elles os que se occultam no ar balofo do principe D. João e o dirigem, elles mettem-se no animo do Angeja e do Marialva, e no d'el-rei... E ai de Portugal, ai da rainha no dia em que ganharem a sua confiança... 

-- Estão prestes a isso... Acabo de saber que foi concedido o perdão ao antigo jesuita Cardoso... 

-- O mais completo perdão... Apenas o exilio como castigo... 

-- E no entretanto elle commetteu o maior dos sacrilegios... 

Fidalgos eram o duque d'Aveiro e os Tavoras, elles foram esquartejados... E se a rainha nossa senhora e ama, quizesse punir tinha a ferir alguém da mais alta posição a par d'esse jesuita... 

-- O que?... Que dizeis, senhor intendente?... 

-- A verdade, Grandeza... Uma grande e terrivel verdade que Sua Magestade não quiz ouvir quando lhe revelei do attentado que se preparava... 

-- Oh! Fale... Fale... E como soube do attentado, senhor intendente? interrogou o competente confessor com grande curiosidade tomando-lhe o braço. 

Então o homem da policia, sentindo-se sempre no seu mister, relanceou om olhar desconfiado pelo jardim e disse: 

-- Se vossa grandeza me quizesse ouvir longe d'aqui. .. Receio sempre de ser escutado... 

-- Iremos para fóra dos muros da quinta... Sua Magestade aguardar-me-ha... Para demais sabe que estou com vossa excellencia e espera as suas revelações! 

-- Que peço a vossa grandeza o occulte de Sua Magestade por agora, a não ser que veja um meio de punir os culpados... 

-- Veremos, senhor intendente! 

E elles saíam o portão e vinham para as margens do riacho, o 

habito claro do carmelita destacando-se junto ao fato negro de Pina 

Manique, ambos muito graves ladeando o ribeiro que se abria lá em 

baixo n'uma grande poça onde as lavandeiras batiam roupas com  estrepito. 

-- Falae... ordenou o arcebispo encarando o intendente e parando ambos á sombra d'um enorme carvalho de ramadas distendidas: 

-- Senhor: vossa grandeza sabe, que a conspiração contra a rainha foi planeada entre tres homens? 

-- Hein... Tres homens? E como se prende apenas o jesuita? perguntou este cheio de espanto. 

-- Pelo mesmo motivo que se dá a este a liberdade... 

-- Ah! Os jesuitas... 

-- Que não querem ser compromettidos. 

-- E quem são elles? 

-- Um é o padre Cardoso que vimos prestes a prepretrar o attentado e que o teria commettido se não tivesse sido descoberto na vespera... 

-- Ah! E os outros... os outros... É necessario revogar o perdão do jesuita e prender os outros dois... 

-- Assim procederia o senlior marquez de Pombal mas não procederá o senhor marquez d'Angeja!... exclamou colerico o intendente. 

-- Mas acima de todos existe a rainha!

-- E ainda acima, com perdão de vossa grandeza, existem os poderosos jesuitas! 

-- Mas depressa, os seus nomes e serão punidos... 

-- Pois bem: Um dos conspiradores era o senhor cardeal da Cunha, outro um individuo a quem chamavam padre mestre e que não foi possivel reconhecer. 

As faces luzidias do arcebispo empallideceram, foi sacudido n'um estremecimento de colera e bradou em voz suffocada pela raiva: 

-- O cardeal da Cunha, o padre mestre!... Oh! Mas o ultimo é também, é um Tavora! São elles que buscam vingar-se na rainha, vingando ao mesmo tempo a Companhia de Jesus! Esse cardeal parente dos Tavoras, armava um braço, para ferir a soberana, o outro incitava, falava ao seu subordinado, o jesuita Cardoso, promettendo-lhe a purpura cardinalicia, fazendo-lhe vêr que com a 

morte de D. Maria I, subiria ao throno, ou antes ficaria regente el-rei D. Pedro III cuja direcção espiritual está entregue ao senhor cardeal da Cunha... Contavam então com a côrte dos fanaticos, com D. João, com D. Pedro, com Ayres de Sá e com os Angejas para restabelecerem a Companhia, para dominarem novamente na Inquisição... elucidou rapido, o homem da policia. 

-- Ah! Miseraveis... Nunca perdoaram o assassinato dos seus, a execução ordenada no reinado anterior... O cardeal da Cunha vinga-se de lhe ser prohibida a entrada no Conselho, de lhe ser cerceado o poder do inquisidor pela creação do meu logar, vinga-se como homem, vinga-se como parente dos Tavoras e vinga-se como Jesuita ou como amigo d'elles? O outro... Oh! o outro... A que chegará esse homem se não o esmagar! 

-- Mas vossa grandeza conhece tambem, esse a quem chamavam o padre mestre? 

-- Advinho e explico n'este momento certos boatos... É um frade oratoriano, chama-se José Maria de Mello, é parente dos Tavoras como o cardeal mas aquelle não renegou a familia... Onde chegará este homem! interrogou como um aviso precoce o confessor da rainha, a entrever já uma grande serie de horrores, e perguntando. 

-- Era então uma conspiração jesuitica e uma vingança de familia? 

-- Sim... Grandeza... E se lançaram mão do padre Cardoso foi pela monomania que tem desde ha muito de envergar a purpura: 

-- Ah! Agora vejo claro... É realmente um doido... 

-- Que devia ser punido para exemplo com os seus cumplices! Mas não constou isso a Sua Magestade? 

-- Não me quiz ouvir... Logo que acabei de narrar o que se tramava muito secretamente. Sua Magestade fez-se livida e teve um impeto de revolta, murmurando: 

-- Contra mim... contra mim!... Oh! Punil o-hei... 

Expliquei então a Sua Magestade que se devia expor á tentativa do jesuita, desde que eu ali estivesse a ímpedil-a. Prevenimos os archeiros das guardas e dispuz a minha gente... Depois quiz narrar á rainha o succedido... N'um preambulo mostrei-lhe um vulto de principe de egreja mettido na conspiração e ella, vendo talvez onde queria chegar, disse-me: 

«Pina Manique... Prenda apenas o jesuita». 

-- Insisti ainda, mas Sua Magestade manteve-se inabalavel na sua resolução... Eis tudo! 

-- Quer dizer que ainda ignora os nomes? 

-- Quer dizer que talvez os suspeite mas que os não punirá... Não perdoou ao padre? 

-- Mas pode revogar a ordem... 

-- Impossivel!... 

-- Ah! E porque? 

-- Porque a esta hora, tenho a certeza já está a ser executada... 

-- Póde deter-se o jesuita, supplicial-o. 

-- Grandeza, sei bem quanto podeis no animo de Sua Magestade, no emtanto agora é tarde... Conhecemos os inimigos, vigial-os hemos, vossa grandeza no paço eu na intendencia. Sabemos que os Tavoras buscam vingar-se, que os mesmos á frente dos jesuitas querem impor a Companhia e assim como o nosso mestre Pombal, os destruiu ás claras, nós destruil-o-hemos a occultas... É a lucia entre um prelado digno e um bando de salafrários! É esta a melhor obra de vossa grandeza! 

-- Sim, senhor intendente... Combatel-os-hemos I e o confessor da rainha tinha clarões raivosos nos olhinhos pardos, e nos labios um sorriso de vingança. 

Depois em voz breve, perguntava: 

-- Mas como soube tudo isso? 

-- Ah! eis porque me dirigi a vossa grandeza tão leal e abertamente depois de ter falado a Sua Alteza Real o Principe herdeiro do throno que parece ter caído no desagrado de sua augusta mãe! 

-- Ah! Fale... 

-- Vossa grandeza, sabe que os conspiradores se reuniram n'uma noute quente e em que havia luar, no convento das Salesias? 

-- Hein? Nas Salesias? interrogou o prelado com espanto. 

-- Sim, grandeza... Sua eminencia o cardeal, visita muito o mosteiro e passa lá algumas noutes... 

-- Bem sei... Por causa, segundo julgo, d'uma sobrinha, que na realidade não sei d'onde lhe veiu... O conde de S. Vicente não tem outras filhas... Bem, vamos adiante... 

-- Pois José Maria de Mello, segundo vossa grandeza, diz, foi visital-o e levou comsigo o padre Cardoso... Soube-o pela propria madre á qual interroguei ha dias sobre o rapto da sobrinha do cardeal! 

-- Agora vou comprehendendo... v. ex.ª tem no convento alguem que os espiou... 

-- Não, grandeza... volveu o intendente com um sorriso mysterioso. O caso foi muito diverso. 

-- Oh! Contae... contae... 

-- E que julga vossa grandeza, bastante digno para galardoar a descoberta de semelhantes inimigos? Sim porque é d'ahi que vae partir o nosso cambate... O golpe contra a Companhia! 

-- Ah! Vejo as cousas... Na realidade assim é... Mas tenha vossa excellencia a certeza que taes serviços serão premiados... 

O intendente esboçou um sorriso, e volveu: 

-- Garantis-m'o, grandeza? 

-- Pela minha honra! Pois ha alguem, que não conheça, habil em demasia para salvar a vida da rainha, para descobrir os manejos jesuíticos, ajudando, ou antes sendo até o principal factor d'um golpe que lhes será applicado, e hei de hesitar em remuneral-o? Não... 

Sollicitarei da rainha o que elle desejar... Mas quem é? 

-- Eu digo a vossa grandeza, começou Pina Manique, collocando-se em face do arcebispo, e dizendo: 

-- A ronda das ordenanças andava no seu gyro, subia a ladeira das Salesias, quando viu alguem saltar o muro da cerca... O habil magistrado que acompanhava a ronda, obrigou-a a esconder e saltou a parede na direcção opposta á do desconhecido... 

-- Ah! Então um dos conspiradores não entrou pelo portal!... Havia então mais algum? perguntou o prelado, ficando attonito. 

-- Eu explico a vossa grandeza... O magistrado occultou-se e seguiu com a vista o vulto, viu uma escada suspensa da janella do convento, comprehendeu ali alguma cousa d'anormal e dispoz-se a prender o individuo que falava com uma monja... 

-- Ah! E depois... depois!... interrogou o confessor começando a comprehender. 

-- Quando o magistrado ia pôr em pratica a sua ideia, ouviu vozes vindas d'um caramanchão da cerca e que os conspiradores julgavam deserta áquella hora, pois já tinha batido ha muito a uma depois da meia-noute! Escutou tudo, tinha em seu poder a chave da intriga e conhecia dois dos conpiradores... Mas... 

-- O quê? 

-- O individuo que falava com a monja, o verdadeiro causador emfim, de que se descobrisse o trama, já saltava o muro e raptava a freira, que assim fugia emquanto o tio conspirava... 

-- O tio? interrogou o outro, e logo n'um impeto, assentando rude palmada no hombro do intendente, bradou a rir muito: 

-- Tem graça... tem graça... Uma sobrinha do cardeal, a raptada! Bello golpe!... Soberba partida... Oh! o miseravel no dia seguinte vinha falar em justiça, vinha pedil-a!... E conseguiu interessar toda a côrte... 

-- A propria rainha que não perdoa taes delictos... disse o intendente! 

-- Veremos, intendente... Juro-lhe que d'esta vez, perdoal-os-ha. 

O raptor se for agarrado, será posto em liberdade embora contra a côrte inteira... Digo-lhe que nunca se fez melhor embora inconscientemente... 

-- Mas grande... ali existe na realidade sacrilegio! volveu o intendente de semblante carregado. 

-- Mas tambem existe uma sublime partida?... gritou elle n'uns ares patuscos de antigo carreteiro, dizendo: 

-- E não serei eu que recompense o raptor, não irei até ahi... Mas juro-lh'o que não o condemnarei também!... E agora trata-se da recompensa ao magistrado... Ah! mas espere não anda mettido n'isso um corregedor? 

-- Sim, grandeza... Contra o qual, vossa grandeza passou uma ordem de prisão, que entregou a fr. José do Rosario, o amigo do cardeal! 

-- Ah! É verdade... Mas esse é cumplice do rapto... 

-- Não grandeza... Esse foi o que perseguiu o raptor a que vossa grandeza acha tanta graça e por conseguinte o habil magistrado de que vos falei e... 

-- E que salvou a rainha!... Oh! Mas esse homem está a estas horas na Inquisição! 

-- Com certeza... 

-- Como o sabe? 

-- A policia tudo sabe... Deve ser preso brevemente... Elles não o pouparão! 

-- Oh! Pobre rapaz... E... 

-- Lopes Cardoso! 

-- É isso... Mas como arranjaram elles a cumplicidade com o raptor? 

-- Porque o cardeal soube pelas minhas palavras proferidas no dia do attentado que o corregedor foi quem os descobriu e então accusando-o dando-o por cumplice do rapto, fazendo com que o padre Cardoso seja perdoado, sua eminencia nada receia assim como o seu cumplice, salvaguardando também a Companhia! 

-- Ah! Por isso elle não assignou a ordem de prisão e mandou esse bojudo fr. José... 

-- Sim e vossa grandeza, para acceder á vontade da rainha, vendo realmente n'elle um sacrilego... 

-- Sim... Caí na alhada!... Oh! Manique... E dizia eu que fôra a primeira vez que o reptil do fr. do Rosario fizera alguma cousa sem interesse!... 

-- Bem planeadas tinham elles as cousas!... 

-- Com a habilidade dos jesuitas, dos monstros, a que eu arcebispo de Thessalonica, juntamente com o senhor intendente da policia, saberemos cortar as garras! 

-- Decerto, mas grandeza... Agora é necessário arrancar o pobre corregedor da Inquisição! 

-- Lavrarei a ordem... 

-- Mas é que elles escudar-se-hão agora na protecção da rainha e não largarão facilmente o preso! 

-- Intendente... Eu sou o supremo inquisidor! 

-- E o cardeal da Cunha pertence ao Conselho Geral, e os ministros são pelo seu lado, e a côrte que já têm um sacrilego, quererá vel-o queimado, não o largará assim? 

-- Mas elle já estará preso? 

-- Pelo menos prestes a isso... Os famulos não se descuidarão com certeza. 

-- Bem... É necessario então o perdão da rainha! 

-- O perdão... Mas se elle não é culpado!... Sim não é culpado... Merece até uma recompensa, como vossa grandeza o affirmou ha momentos! 

Thessalonica, muito envolvido n'aquella intriga, cheio de raiva ao vêr a habilidade dos jesuitas seus inimigos, tornou-se quasi apopletico e bradou com um gesto de antigo soldado, vigoroso e energico: 

-- E tel-a-ha ! Juro-lh'o... Irei eu mesmo arrancal-o da Inquisição! E estendendo a mão que o intendente beijou, affastou-se rapido no atalho, o habito branco a esvoaçar, penetrando de novo no jardim real por entre as inclinações das pessoas que encontrava, sempre muito apressado ante a noute que vinha caindo e murmurando: 

-- Oh! partirei amanha logo de madrugada: 

Dirigia-se então á soberana que ao vêl-o exclamou aterrorisada. 

-- Então, meu padre?... 

-- Pode Vossa Magestade dormir tranquilla... A tempestade está amparada, por agora... 

-- Ah! Mas ameaça-me ainda algum perigo? 

-- Agora, real senhora, tendes dois pilotos em vez d'um ao leme, e esses affianço, tem rijo pulso para esmagar todos os inimigos... 

E elle erecto e firme lançava um olhar altivo ás damas que lhe beijavam a manga do habito, concluindo ao reparar no olhar velado da soberana: 

-- Oh! Bom pulso... bellos pulsos. 

E olhava com orgulho os seus punhos grossos de rude transmontano. 





XIII 





O oratoriano 









A liteira armoriada, de grandes vidraças crystallinas, conduzida pelos servos vestidos em librés vistosas e seguida por um pretalhão espadaudo que sobraçava um grande cabaz coberto com a mais alva das toalhas, acabava de parar á porta dos oratorianos das Necessidades, cujo convento se erguia a dominar o Tejo e o valle d'Alcantara. 

E um homem dos seus cincoenta e cinco annos, envergando as vestes de principe de egreja, os cabellos brancos fluctuando sob a gorra, passava ainda rapido e de cabeça erguida por entre as alas de leigos a quem deitava uma rapida benção, dizendo para o negro que o seguia sempre: 

-- Gargantua, entrega esses folhados da minha parte ao reverendo padre superior... 

O negro escancarou a bocca n'um sorriso alvar, atirou-se de joelhos e beijou a fimbria do habito do principe de egreja, cujo rosto claro e de seraphica expressão se mostrava um tanto aborrecido, emquanto o creado, exclamava: 

-- Sim, senhor cardeal da Cunha! 

O cardeal subiu depois com presteza a escada do convento e foi bater á porta d'uma das cellas cuja porta se abriu apparecendo então um homem alto, que inclinou a cabecita de cabellos negros e sedosos a rodearem-lhe a tonsura, mostrando o seu rosto esqualido mascarado n'uns oculos verdes e murmurou: 

-- Sêde bem vindo, senhor cardeal! 

O recemchegado entrou, fechou com precaução a porta e bradou: 

-- Aqui estou, primo... Que desejais, fr. José Maria de Mello! O oratoriano fez um gesto placido a indicar uma poltrona ao cardeal e sentando-se na cadeira de espaldar alto, disse: 

-- Dar-vos contas dos nossos negocios! 

-- Ah! Fallae... 

-- O padre Manuel Cardoso embarca amanhã de manhã no Orion e parte para Genova... 

-- Já o sabia... 

-- Muito bem... D. Ramiro de Noronha, apresenta-se amanhã na côrte! 

-- Já está restabelecido? 

-- Inteiramente... Acabo de o confessar bem como a sua mãe D. Mecia de Noronha...

-- E quaes são as suas disposições?...

-- Está animado d'um terrivel desejo de vingança!... bradou fr. José Maria, emquanto o cardeal esboçava um sorriso, e retorquia: 

-- Melhor assim!...

-- Decerto... Ama Elvira loucamente e faria tudo para a encontrar bem como ao seu raptor... É uma paixão doida a d'esse mancebo! 

-- Ah! Eu o sei... Tanto que pertencendo por sua mãe aos Lafões e por seu pae aos Noronhas, não hesitava em dar a mão de esposo a uma pobre rapariga, filha d'um homem que não lhe póde dar esse nome ...

O oratoriano olhou espantado o cardeal e bradou: 

-- Que dizeis? Mas então essa mulher não é vossa sobrinha? Não pertence ao ramo dos Tavoras suppliciados?... Não foi recolhida e creada a occultas por vossa eminencia? 

-- Sim, foi creada na provincia mas se é Tavora é apenas pelo meu lado... A mãe era uma joven que se recolheu ao Lorvão... Criei Elvira, eduquei a, fiz-lhe doação, obrigando todos a julgarem-n'a minha sobrinha! E agora quando me sinto velho e vejo ainda por realisar a obra de vingança emprehendida E minha filha longe de mim, desobediente ás ordens que lhe dei, tremo, José Maria de Mello, de morrer sem rehaver essa creança e sem vingar os nossos! 

-- Perdão, primo...Vingal-os-hei eu! Rehabilitarei a sua memoria, farei entrar os seus descendentes na posse dos titulos e dos haveres sequestrados por esse maldito Sebastião José que já vae pagando os seus crimes...

-- Ah! graças aos jesuitas! 

-- Sim, graças á força da Companhia, força occulta por agora mas que ha-de resurgir, voltar com mais poderes ainda! Restabeleceremos a Companhia de Jesus e rehabilitaremos os Tavoras... Conto com aquelles para servir, para estes, como os ultimos para auxiliarem os primeiros... É uma fortuna esta vingança que não largo, que levarei até ao fim!... 

-- Oh! Mas que contaes fazer? perguntou com enthusiasmo o cardeal, recostando-se na poltrona. 

-- Eu? Oh! Tenho muitos planos... Tendem todos ao mesmo fim em todos elles as mesmas pessoas são alvejadas... Os membros da Companhia são do meu parecer... affirmou elle em voz baixa. 

-- Ah! Então que não vão tentar alguma nova cousa contra a rainha...

-- Ah! Ao contrario, é a ella que alvejaremos já que o padre não teve coragem! 

-- Cautella fr. José Maria...Olhae que foi necessario uma grande politica para se conseguir o perdão d'esse jesuita, olhae que se elle tem sido julgado, os nossos nomes seriam revelados e ficariamos perdidos! 

-- Antes d'isso matal-o-hia eu!... gritou o frade com energia. 

-- Vós?... Oh! 

-- Eu sim, cardeal. Quando um homem como eu, lucta, vae até fim...Tem um obstaculo supprime-o...

-- Theoria da Companhia de Jesus!... A mais sabia das theonas. Assim é necessario que o animo da rainha nos pertença... Manuel Cardoso vae amanhã no Orion, não é assim? 

-- Sim, parte para Génova e não voltará...

-- Para cousa alguma nos serve... Nunca se deve armar um louco como elle! Cheguei já a essa conclusão... Perdem-se sempre... É preciso chamar antes os conscientes ao nosso gremio... Já temos os Angejas, em breve teremos completamente os Marialva, Ayres de Sá, o ministro, é dos mais amigos e Martinho de Mello não nos porá obstaculos... 

-- Têm el-rei pelo vosso lado!...offereceu o cardeal. 

-- Hum... fez o padre mestre cem desdém. Tem sessenta annos e para pouco serve...

-- Quereis dizer então que os velhos. .. disse o cardeal com certa tristeza. 

-- De pouco auxilio prestam quando são reis, como D. Pedro e muitas luzes nos podem dar quando são cardeaes como vossa eminencia! replicou n'um tom ligeiro embora altivo. 

-- Ponhamos então de parte el-rei...

-- Sim... Temos o principe D. João! 

-- Oh! O principe!...Pouca influencia tem na côrte...

O oratoriano mostrou nm sorriso mysterioso nos labios grossos, passou a mão pela fronte, os olhos faiscaram-lhe por detraz dos óculos verdes e bradou: 

-- Quem sabe a que poderá ter! 

-- Elle! 

-- Sim, eminencia! 

-- Porém... Como? 

-- Se um dia for rei... tornou José Maria de Mello com o seu tom altivo. 

-- Rei? Oh! Mas se o herdeiro do throno é esse maldito principe do Brazil...

-- As caudelarias reaes têm muitos cavallos indomaveis e os salteadores andam desaforados pela cidade!... volveu o frade com uma ameaça ficando muito tranquillo. 

-- Mas e a rainha, não contaes com a rainha? 

-- Essa... Oh! Já tive a honra de vos dizer que a alvejariamos... 

-- Porém governa...

-- Não... Quem governa é o director de sua consciencia...

-- Oh! Outro inimigo...Um discipulo de Sebastião José!...

-- O arcebispo de Thessalonica! Esse cederá o seu logar a outro. 

-- Como? E a quem? 

O frade teve um novo sorriso e volveu com orgulho: 

-- Como? Morrendo sem duvida...A quem? A um membro da Companhia de Jesus... Uma vez de posse do espirito da rainha, não temendo o herdeiro do throno, livres do arcebispo, o que nos resta? 

-- Implantar a Companhia, exigir a rehabilitação dos Tavoras!... exclamou o cardeal cheio d'um grande enthusiasmo. 

-- Ainda mais... E depois de tudo isso conseguido vingar os nossos, daremos o throno ao principe D. João, o mais breve possivel!... clamou o oratoriano. 

-- Mas como conseguir tudo isso? 

-- É um trabalho de muitos annos, mas conto com bons elementos. 

-- Trabalho que não chegarei a ver realisado! 

-- Tende esperança...E coadjuvae-nos por agora...

-- Que devo fazer?...

-- Sollicitar d'el-rei um bispado. 

-- Ah! E para quem? 

-- Para mim! exclamou José Maria de Mello, n'um impeto; emquanto o cardeal o olhava espantado e dizia sem se poder conter; com certa desconfiança: 

-- Sois ambicioso? 

-- Não...

-- Mas, esse bispado...

-- É a primeira pedra para subir até ao animo da rainha. 

-- Vós?...Oh! Mas sois um Tavora! 

-- Que Sua Alteza Real, o senhor principe D. João, estima e imporá a sua mãe, como um começo de rehabilitação... A rainha é devota, quererá fazer bem a um membro da familia que seu pae tanto prejudicou e morto o arcebispo eu serei o confessor! Depois é uma questão de tempo, para que a Companhia triumphe! Achaes bom o plano? 

-- Magnifico! 

-- N'esse caso sollicitae o meu bispado...

-- Resta ver se a rainha vol-o concederá...

-- Exigil-o-heis d'el-rei...

-- Exigir? 

-- Sim, primo, então que confessor vós sois que não sabeis ter exigencias? Bem se vê que sois pouco jesuita! 

-- Mas é que Thessalonica...

-- Que fará? 

-- Ao saber que el-rei se interessa verá ahi a minha mão...

-- Bem... E depois? 

-- Destruirá a ideia no espirito da rainha como costuma fazer sempre! 

-- Bem... Sollicitae o bispado e deixae commigo o carmelita vil! ameaçou novamente o outro, dizendo: 

-- Mas elle agora não tem contrariado os nossos planos.. Até ordenou a prisão do corregedor! 

-- Não podia deixar de o fazer. A côrte inteira o exigia! 

-- Agora carecemos de collocar os inimigos frente a frente... Conhecer os que odeiam o arcebispo e aproveitar-lhes as iras, os que detestam D. José, principe do Brazil, e fazel-os caminhar, conhecemos os odios occultos existentes contra D. Maria Benedicta, a esposa do principe, e que é da opinião do marido, e obrigal-a a ceder... A rainha guardo-a para mim...O rei entrego-lh'o, primo!...

E o oratoriano levantou-se com toda a fé no poder tenebroso da Companhia de Jesus. 

O cardeal, admirado, não acreditando muito em todo o bom exito d'aquelle plano, mas querendo, no caso de elle ser posto e pratica, vingar-se de mais alguem, exclamou: 

-- Ha ainda outro homem a quem precisamos anniquilar! 

-- Quem? 

-- O intendente de policia! bradou afflicto, o cardeal. 

E José Maria de Mello, soltou uma nova gargalhada ficando-se a olhar o parente que o olhava admirado, e volvia: 

-- Esse é uma serpente cujo veneno se chama a intendencia. Desde que seja demittido é innofensivo. 

-- Não o receia então, primo? interrogou o cardeal deveras admirado. 

-- Eu? Por mim nada tenho a ver pessoalmente com elle... 

Emquanto á Companhia não teme ninguem. Faz curvar as vontades firmes dos reis, abala thronos, faz revoluções, agita o universo d'um extremo ao outro e triumpha sempre, arvora as suas bandeiras negras por toda a parte, desde a Russia até á America, desde a Africa e a India até á propria Roma. Os papas acatam-na e temem-na porque lhe conhecem o poder, os reis involuntariamente vêm-se cingidos nos seus anneis, os fidalgos curvam-se, os povos emmudecem e a signa de Loyola triumpha!... Como quereis então que ella tema um intendente de policia, um chefe de moscardos, um esbirro-mór? E soltava outra gargalhada, pondo-se serio de repente ao ouvir o cardeal dizer: 

-- Mas é que elle sabe das pessoas que estavam com o padre Cardoso. 

-- Ah! Disse-lh'o o maldito corregedor! gritou João Maria de Mello, accrescentando logo: 

-- A Inquisição tem carceres bem fundos... Esse corregedor não sahirá de lá nunca! E emquanto ao intendente...

-- Que vae fazer? 

-- O mesmo que se fez a esse Sebastião José. 

-- O desterro...

-- Sim... Primeiro mostraremos a sua falta de tacto... Perdel-o-hemos no espirito da soberana... Depois Portugal tem colonias e as pedras d'Angoche davam um soberbo jardim para o espião! Olhe esse fica para fr. José do Rosario que o odeia bem... E agora, primo, mãos á obra...

-- Esperae José Maria...Quero-vos pedir ainda um serviço... 

-- Falae...

-- Quero que na vossa vingança sejam envolvidos os raptores de minha filha! 

-- Sel-o-hão... Descobri-os...Esses entregae-os primeiro a D. Ramiro de Noronha, depois á Inquisição...

-- Oh! Se os encontrasse?... Daria tudo quanto me pedissem...Infligir-lhes hia todos os tormentos e ao ter de novo minha filha a meu lado...

-- Que farieis? 

-- Dal-a-hia a D. Ramiro...

-- Ah! Cardeal...Depois de ter sido amante d'outro...

-- O que? gritou o velho com a voz estrangulada na garganta, os olhos fusilando em clarões de raiva, transtornada toda a sua placida physionomia. 

-- Sim... decerto... volveu o frade com grande sangue-frio. Julgaes acaso que após uns mezes de convivio com o raptor, elle a respeitou! Tornou-a sua amante e até talvez que sua esposa! 

-- Seria uma desgraça irremediavel! Ficaria sempre em poder d'esse homem. 

-- Não... Para elle vingança do noivo ultrajado... Ella obrigada a professar n'um mosteiro de ordem severa a expiar as culpas! gritou o oratoriano com fogo. 

-- Oh! A unica pessoa que amo... 

-- E que não corresponde ao vosso affecto...

-- Para a qual guardava a minha fortuna...

A esta palavra magica, os olhos do padre brilharam ainda mais, e clamou: 

-- Oh! que prazeres me pode dar!... Recordar-me que depois de minha morte ella irá cair nas mãos de Henriqueta da Cunha, filha de meu irmão ou na de outro qualquer parente! Nunca! Não foi para isso que reneguei os Tavoras, não foi para isso que me curvei ante o Sebastião José, não foi para isso que luctei! 

-- Mas tendes a vossa obra! 

-- A minha obra!... Ah! A vingança! Por Deus... Eu tenho já pouca vida! 

José Maria de Mello, fez-se livido de colera, olhou com raiva o cardeal e bradou: 

-- Mas ha momentos não dizieis isso, mostráveis até o desejo de ver realisada essa obra immensa, ha mezes conspiraveis contra a vida da rainha, desejoso que voltasse a Companhia...

-- Ah! Então tinha ambição para ella! 

-- E ha momentos? 

-- Desejava vêr confundidos os inimigos... A rainha que me insultou, Thessalonica que me combate, os outros que desprezo! 

-- Pois é por tudo isso que sois nosso alliado... 

-- E sou-o! 

-- N'esse caso auxiliae a empreza! Se não quereis o vosso dinheiro nas mãos dos parentes, legai-o á Companhia de Jesus! gritou o padre-mestre. 

O cardeal curvava lentamente a cabeça encanecida e ficava calado durante muito tempo, murmurando em voz baixa ao cabo d'uns momentos: 

-- E minha filha? 

-- Desprezou-vos... volveu o outro. Depois com grande raiva, cheio de colera, bradou: 

-- Sois louco, primo cardeal, então quereis legar o vosso dinheiro á mulher que fugiu do convento, á sacrilega que o saberia repartir com o amante, esse homem, talvez um especulador, que alvejou esse fim, tenho certeza! 

Então o cardeal, erguendo-se tambem bradou: 

-- Sim... Sim... É possivel!... N'esse caso... O meu dinheiro será para... 

-- A vingança...

Calou-se, ouvindo soar aquellas palavras muito vibrantes, no pequeno ambito da cella, e volveu como a medo: 

-- Será para...

-- Oh! Para a Companhia de Jesus! 

-- Para... A mãe d'Elvira...Sim para sua mãe...E ella se um dia vir a filha desgraçada soccorrel-a-ha! 

-- A mãe d'Elvira? Ainda vive? 

-- Vive... 

-- Onde? perguntou com intimativa o frade, 

-- No Lorvão já vos disse... 

-- É monja? 

-- Sim...

-- E chama-se?... interrogou José Maria de Mello com os olhos brilhantes de raiva. 

O cardeal segurou-se ao rebordo da mesa, os seus labios entreabriram-se lentamente e volveu: 

-- Para que o quereis saber? 

O oratoriano pallido de colera ao comprehender que o parente lera alguma cousa de extranhamente terrivel na sua impaciencia, retorquio: 

-- Porque ás vezes posso carecer de estar em contacto com essa dama... Não me recommendais vossa filha? 

-- Sim...sim...Tende piedade d'ella... E sereis inclemente para o seu raptor...

-- Bem... N'esse caso, o nome? 

O cardeal da Cunha ia talvez pronuncial-o mas n'este momento soaram duas pancadas na porta da cella e ouviu-se uma voz unctuosa, dizer: 

-- Abri, fr. José Maria de Mello! 

-- Sua Alteza! exclamou o frade com uma especie de raiva ao ver que o cardeal ainda não dissera o nome desejado. 

No emtanto abri-a a porta e curvando-se ante D. João, dizia: 

-- Oh! Grande honra me fazeis, senhor...Visitardes a cella mesquinha d'um pobre oratoriano...

-- Dizei d'um santo e virtuoso varão, d'um douto luminar da egreja... Não é assim, senhor cardeal da Cunha? interrogou sua alteza dirigindo-se ao cardeal a beijar lhe a mão com respeito, praticando d'egual modo para com o frade, que a retirou n'um gesto rapido, dizendo: 

-- Alteza... Sou apenas um pobre frade...

-- Ah! Que importa isso se apenas admiro as vossas virtudes, volveu o principe forçando-se a estender-lhe a mão, e dizendo de seguida: 

-- Mas sentae-vos, senhores...

E como teimassem em ficar de pé, D. João disse: 

- Abreviarei n'esse caso a minha entrevista...

-- Oh! Alteza real... Ficae...

-- Sentae-vos! ordenou com um bom sorriso para o frade; e ao vel-os obedecerem-lhe, começou: 

-- Eu vinha confessar-me a vossa paternidade! 

-- A mim? interrogou o frade com espanto. 

-- Sim... E o vosso director espiritual?...

-- O frade arrabido? 

-- Sim, alteza... O padre Mathias da Conceição...

-- Oh! É tambem o confessor de meu irmão...

-- Mas...

-- Não gosto de suas doutrinas... Por isso careço de nova absolvição para um peccado... Não fiz confissão completa a fr. Mathias. Desde que vos conheço tenho segredos e temo que...

-- Ah! Alteza...O segredo da confissão é sagrado...

-- Porém... Eu quero que me escutaes! Não só hoje mas sempre! 

Os olhos do frade luziram de prazer, rejubilou ante aquella nova arma que lhe punham na mão, viu apressada a sua nomeação, sentiuse subir d'um impeto ante a estupefacção do cardeal de Cunha e replicou: 

-- Mas alteza... Eu não sou vosso confessor...

-- Sello-heis particularmente...

-- Mas porque não nomeaes alteza a fr. José Maria, vosso director espiritual? interrogou o cardeal a auxiliar o jesuita. 

Elle, com bem fingida modestia, volveu d'olhos no chão: 

-- Oh! Senhor cardeal...Por Deus! Não sou digno... Porém, o principe erguera a figura gordalhuda e elle que raramente tinha impetos, clamou: 

-- É por isso que aqui estou! 

O frade fez-se pallido de prazer e o coração bateu-lhe com força julgando se já no paço. 

-- O principe continuava iracundo: 

-- Sim é por isso... Sollicitei a vossa nomeação para meu confessor... Fr. José do Rosario aconselhara-m'o e eu desejava-o bastante... Porém, a rainha minha augusta mãe, a instancias de D. José e do arcebispo oppoz-se... Jurei então nomear-vos eu proprio e eis porque estou aqui... No paço um confessor official que jamais me ouvirá...No convento vossa paternidade a quem reconheço... 

-- Mas alteza, uma simples curiosidade, e que allegavam sua alteza real o principe do Brazil e sua grandeza o arcebispo, para me combaterem? 

-- Oh! Padre... Vós sois um Tavora...

Fr. José Maria de Mello, fez-se livido, cerrou os dentes e murmurou ao cabo d'alguns momentos: 

-- Oh! que horrivel vingança eu vou tirar! 

Logo, com uncção, um ar piedoso, seraphico, disse: 

-- Alteza real... Perdoae-lhes...O perdão é proprio dos peccadores que conhecem as suas culpas! 

Persignou-se devotamente ao ouvir bater as Trindades no sino do mosteiro, emquanto o cardeal da Cunha se retirava, o filho dos Braganças caía de joelhos aos pés do descendente dos Tavoras! 







XIV 



Os carceres da inquisição 





Os sinos das egrejas da capital tocavam para a primeira missa da manha e dos lados das novas ruas Aurea e Augusta bordejadas pelos estabelecimentos dos ouvires e dos mercadores de seda e lã, começavam a apparecer devotos que atravessavam o Rocio para a egreja dos dominicanos ou subiam para S. Roque,

de contas enroladas nos dedos, as mulheres o-embicadas, todos cheios do mais ferveroso zelo. 

Frades mendicantes aos pares, as sacolas aos hombros destacando-se nos habitos pardos avançavam piedosos a tregeitarem bençãos sobre as barracas dos mercadores do outro lado da praça ao fundo da qual se destacava o palacio da Inquisição ladeado por muros altos a sustentarem os jardins que deitavam sobre as ruas do Principe e do Regedor. 

As filhas dos burguezes, engalanadas, os penteados altos, caminhando sérias, eram seguidas a distancia por homens de balcão e lavrantes de metaes que os escudeiavam segundo a phrase da epocha. 

Alguns fidalgos saltitantes e mellifluos expunham se pelas esquinas, encarando com as mulheres, fazendo signaes compassados com os lenços, sorrindo ante a perfeição d'um galante ou d'um tentador que negregavam nas faces carminadas das donas. 

E por aquella manhã alegre de domingo, os adros atulhavam-se de namoradores e de velhas alcovêtas, beatas e bruxas que acceitavam tanto os encargos piedosos como os profanos a troco d'um cruzado novo. 

Mendigos aos bandos, nojentos esfarrapados, os braços laivados de feridas, as cabeças em crostas leprosas, crivados de bexigas, estendiam mãos magrizellas e sujas com ladainhas confusas e hespanholamente devotas tanto pelo exagero, como pela a intuição. 

As ruas animavam-se pouco a pouco em quanto o sol vinha do alto em jorros, alegrando fachadas severas, pondo resplendores de luz nos braços das cruzes de ferro espetadas nas cúpulas dos conventos. 

E n'um contraste profundo, enorme a este quadro de pia devoção d'uma cidade ao amanhecer, quando os vendilhões abriam tendas no lado oriental do Rocio e expunham mercadorias ás vistas do populacho, quando oliios de piedade tinham relampejos ternos para os gatunos que fiando contas faziam signaes ás damas, lá dentro no interior do palacio inquisitorial passavam-se outras scenas bem diversas. 

Sob as abobadas recurvas, immensas, silvando em mil echos pelas arcarias soavam vozes profundas, sinistras, ouviam-se passadas de sandalias assentadas em lagedos que eram tampas de sepulchros, moviam-se vultos negros de famulos e do interior das estreitas cellas vinham n'uma dolencia arripiante, gemidos e ais modulados pelos prisioneiros do Santo Officio. 

Á esquerda, lá bem ao fundo, n'um recanto negro, avistavam-se bancos grossos que rangiam nas polés por noutes extranhas de dor, noutes que convinham aos carrascos tonsurados para melhor ouvirem as confissões das victimas: era o tronco com as suas aberturas, aquellas com umas camadas pardacentes, os ferros de todas as especies luzidios ao vil clarão d'uma lampada de sacrario suspensa na abobada negra pelo fumo das fogueiras alimentadas a oleos santos. 

Era um laboratorio immenso de verdugos sagrados, um altar a presidir ás execuções, altar de toalha crestada pelo fogo, onde um Christo chaguento e arroxeado parecia contorcer-se asphyxiado tambem, os olhos parados em direcção ao céu como n'um desejo de romper essas curvas de pedra e vira mostrar-se ás multidões como a primeira victima dos seus pseudos discipulos. 

N'aquelle logar reinava um silencio de morte. Os apparelhos de tortura dormiam como monstros cançados de carnificinas, o aço no seu relampejar, ás intermittencias da lampada tinha ameaças em cada scintillação, castigos em cada lampejo. Depois por um corredor immenso, ladeado de portas incurtadas nas paredes, chumbavam-se cruzes junto a argolas onde se amarravam os padecentes e n'um pequeno largo era o potro, ferreo, ignominoso como um pelourinho de praça publica mas cuja vergonha recaía sobre os carrascos poupando as victimas. 

Descendo das frinchas vidradas d'umas paredes vinham a escoar-se raios brandos da luz de fóra, as paredes abafavam os ruidos todos, tornando o logar n'um sepulchro de vivos. 

Tres homens em passadas lentas, appareceram junto ao potro, vestidos em habitos de capuz, os rostos mascarados de negro, e ficaram uns momentos silenciosos. Subito um outro, vestido como os fâmulos, acercou-se d'elles e exclamou: 

-- Deus esteja comvosco, irmãos executores!... 

-- Amen... Mestre Jacintho Peres!... E na vossa graça estejaes!... replicaram os tres em unisono. 

E o esbirro, n'uma compostura hypocrita, perguntou: 

-- Estará no edifício, sua paternidade, o senhor vigario?...

-- Deve estar na sua cella! Aguardamol-o para o interrogatorio do vosso preso de ha duas noutes!...

-- Qual d'elles? Porque tenho dois, irmãos! 

-- Ah! Trata-se do hereje corregedor! 

-- N'esse caso, vou fallar a sua paternidade...Deus vos acompanhe! 

E no seu andar pulado dirigiu-se para o atrio, passeando nos corredores onde soavam gemidos. 

No seu caminho topou com um leigo de carantonha alvar e que se lhe dirigiu em tom abrupto: 

-- Onde ides, irmão? 

-- Á cella do senhor vigario...

-- Ah! É que sua paternidade aguarda uma visita...

-- É a minha, sem duvida... disse elle com importancia. 

-- Sois vós o que prendeu o corregedor hereje? 

-- Sim, irmão!...

-- Ah! Vou conduzir-vos... Sua paternidade ha dois dias que tem andado fóra e só hoje póde interrogar o impio! Caminhavam em direcção á cella do reverendo que ficava no lado de S. Domingos, n'uma portinha baixa, estreita. 

O leigo roncou um Bemdito e bateu na porta, ouvindo-se ao mesmo tempo a voz pastosa do obeso frei José, clamar: 

-- Quem é? 

-- Somos nós, reverendo padre... O leigo... E Jacintho Peres, accrescentou o outro. 

Sua reverencia levantou-se, arrastou sandalias e abrindo a porta appareceu ante os recemchegados, fazendo um signal ao leigo para que se affastasse e ficando com o esbirro a quem perguntou de subito: 

-- Então o nosso homem? 

-- Está no carcere, segundo julgo! 

Sim... Está no carcere... D'isso não resta duvida pelo me nos para os guardas cujos ouvidos tem sido atroados com os seus gritos... 

-- Ninguem o diz...

-- E porque? 

Porque o corregedor é homem de tino e sabe que de cousa nenhuma lhe servem semelhantes manifestações...

Ainda não o vi... Vou interrogal-o dentro em instantes... 

Mandei preparar os homens da polé, porque póde ser necessario o apparato... Com certeza é, reverencia... Não é homem para fazer declarações á primeira...

Bem... Assistirá ao interrogatorio... Olhe vá o senhor mesmo soltal-o! 

-- Eu? Mas...

-- O que? 

-- Tenho exactamente hoje uma missão...

-- Vós... 

-- Uma cousa que se relaciona com a cigana presa...Trata se d'um tal Joannico creado do conde d'Assumar e que... 

-- Ah! É um hereje! 

-- É o amante da feiticeira...

-- Oh! Então ide... lançae-lhe mão... Vós tendes merecido, bem merecido bem n'estes ultimos tempos, Jacintho Peres... 

-- Oh! reverencia... Trabalho na gloria de Santa religião e na prosperidade da Companhia... Se ella se restabelecesse! 

-- Familiar...Era este o vosso logar! 

-- Oh! Eu Familiar do Santo Officio... Eu equiparado aos fidalgos... Mas e a minha apresentação!... disse elle com finura mostrando o seu enxovalhado fato negro. 

-- Tereis uma tença... Para demais fostes militar...

-- Oh! Militei no Brazil no tempo do Sebastião José que bem mal pagou os meus feitos, o hereje!... Ahi está um a quem veria queimar de boa vontade...

-- Como eu, mestre Jacintho... Como todos nós... Mas vou dar-vos uma paga... exclamou elle tirando uma porção de dinheiro da algibeira e entregando-lhe com dignidade, ao accrescentar: 

-- Esse trabalho da prisão do corregedor vale vinte cruzados...

-- Trinta, senhor vigario... 

-- Sejam trinta... Com mais vinte do negocio do noviço...

O esbirro estremeceu ao recordar-se do que ouvira ao Joannico, comprehendeu bem ser necessario fazer desapparecer realmente e para sempre esse rapaz; ao lembrar-se das indicações aprendidas, pensou tambem no que seria a sua missão d'ora avante, e desejoso de sair d'ali acceitou a quantia sem reluctancia, dizendo apenas: 

-- Dar me-heis oito pela cigana... 

-- É caro... Mas eil-os...

-- Ah! E não fallando, senhor vigario, nas indicações colhidas acerca do mui excellentissimo senhor D. Ramiro de Noronha...

-- Que indicações...

-- As da qualidade do seu aggressor! 

-- O que? Mas n'esse caso conheceil-o? 

-- Sei apenas que é um cadete do regimento de Peniche... Disse-mo sua excellencia, quando lhe fallei para as investigações. 

-- Ah! Procurae em todo o regimento e facil vos será talvez descobrir... Oh! Mas não é nacessario...Amanha ou depois o mais tardar estarão em nosso poder, pela confissão do corregedor... Ide!... Ide! 

Foi-se para a porta resmungando mas saudando sempre o vigario, que lhe dizia: 

-- Olhae Jacintho, preveni os dois fâmulos que encontrareis na cella da portaria para soltarem o preso e levarem-no para a sala. Eu desço já...

-- Sim, reverencia! 

O esbirro affastou-se então tilintando o dinheiro na algibeira das calças e murmurando: 

-- Hum... hum... Não chega a sessenta cruzados...E ainda tenho que matar um homem por minha conta!... Maus raios!... Oh!... Que blasphemia! A senhora do Gabo me perdoe... Matal-o-hei...sem fraquejar...concluio com um sorriso unico, indo bater á porta da cella indicada pelo reverendo. 

Dois individuos magros, de semblante carrancudo, vestidos de negro, ao verem o esbirro, interrogaram: 

-- Que nos quereis, mestre Peres? 

-- Ide conduzir para a antiga sala da tortura o corregedor impio... Sua paternidade, fr. José do Rosario, vae interrogal-o...

-- Sim, irmão!... responderam em unisono, emquanto elle ia preencher mil formalidades para sair do edificio. 

-- Ah! irmão André... Vamos ao trabalhinho...! disse um dos famulos n'um ar alegre a que o outro retorquia: 

-- Ora graças!... Já ha muitos annos que não se põe ninguém a ferros! 

-- Comparado com antigamente...

-- Ora irmão... Para isto não ha como os reverendos padres de S. Domingos!... fazia elle, tilintando um molho de chaves e affastando se seguido pelo outro nos corredores escuros, parando em fim face d'uma portinha baixa, a gargalhar: 

-- Vamos a ver-te a catadura! 

A chave rangeu, os gonzos, chiaram e a porta abriu-se dando passagem a um homem corpulento por cujos hombros pendia a capa do corregedor e que bradava furioso, levando o lenço aos labios a enxugar a saliva por entre as risadas dos famulos: 

-- Por Deus!... Que o pagareis bem caro! Prender-se durante tres dias e quatro noutes uma pessoa da minha qualidade! É um desacato! É uma infamia... Onde está o sr. inquisidor geral?... Chamem o arcebispo de Thessalonica... Chamem até o rei para vos dizer quem sou...

-- Perdão, senhor corregedor, vossa senhoria engana-se na conta... está aqui ha apenas duas noutes e tres dias...

-- Basta... Basta... Eu não sou corregedor! bradou elle na sua grande furia, vermelhaça, apopletico, a limpar a saliva dos labios grossos. 

Isso... Negae.... Ha-de servir-vos de muito... rosnou um d'elles... 

-- O que? Acaso não haverá aqui quem me conheça? 

-- Todos, segundo julgo!...

-- N'esse caso, passagem!...

Apenas uma gargalhada lhe respondeu escarninha e zombeteira sob as abobadas e o pobre vice-rei, clamou: 

-- Mas quem me mandou prender! Antes que fosse o inquisidor geral, sairia d'aqui... Eu sou nobre... sou...

-- Seja o que fôr... Sois um hereje... É um preso do Santo officio... gritou um dos homens do tronco apparecendo na sua mascara e obrigando o pobre a recuar espavorido. 

Os famulos lançaram-se sobre elle que se debatia e arrastaram-n'o para o meio da sala com grande pressa, desejosos de o amedrontarem. 

-- Malditos! Malditos! exclamou com intensa furia. 

-- Oh! blasphemo... blasphemo... murmurou uma voz cava ao fundo do corredor. Entrava então um monge ladeado por dois homens da semblante carrancudo vestidos como os antigos famulos do Santo Officio e que continuava: 

-- Ides narrar aqui todas as vossas impiedades...

-- Eu... Eu... Porém sabeis com quem trataes?! 

Mas ao ver o sorriso escarninho que se desenhava nos labios de numia do frade, dizia cheio de commoção: 

-- Irmão... Ouvi-me... Escutae-me...Peço-vos um momento...

-- Jamais recusei ouvir as confissões sinceras!...

E o seu olhar duro cravava-se com insistencia nos instrumentos de supplicio, como alanceado por uma longa saudade dos tempos em que todos esses ferros lampejantes serviam para arrancar a mentira á sombra da bandeira religiosa. Agora eram apenas uns pobres espantalhos, além collocados com o duplo fim de aterrorisar e de tornar mais horripilante o sombrio tribunal, eram como velhas fauces de feras impotentes ameaçando apenas pelo aspecto e por isso o 

frade com fingida clemencia, tornava: 

-- Falae. 

-- Meu padre... Meu irmão... Ouvi-me. Juro-vos que ha aqui um equivoco... Estou innocente...

-- Calae-vos!... bradou elle. Calae-vos. Todos os da vossa egualha negam os seus crimes! 

-- Da minha egualha! volveu ao sentir-se offendido nos seus pergaminhos: Acaso tendes recebido aqui muitos vice-reis?! 

Em torno, os homens do sequito, os brutaes carcereiros e famulos riram da ideia ao passo que o outro tornou em tom severo: 

-- Calae-vos!... Deus julgará este homem e a sua cumplice... Trazei-me a cigana! 

-- A cigana!... Ah! a cigana?! exclamou o vice-rei sem se poder conter. 

-- Conheceil-a, hereje?!... Ah! não podeis agora negar!... e nos seus labios appareceu o mesmo riso de velho inquisidor ao sentir que elle se lhe entregava com aquella phrase. 

O seu olhar descia para os instrumentos de supplicio, via n'aquellas palavras a obscessão causada pelas massas de ferro no criminoso que os julgava ainda applicaveis e como acariciar toda essa arsenal de carrasco, fixando um a um os objectos, exclamou de novo: 

-- Trazei-me essa mulher!... Sereis confundido!...

-- Mas nada tenho a vêr com ella! respondeu cada vez mais admirado. Quero sahir d'aqui... Vingar-me-hei... Direi todas estas atrocidades a Sua Magestade! 

-- Desvarias, impio... Desvarias!... Nunca mais sahirás d'aqui... 

-- Nunca mais?! Mas eu sou o vice-rei do Algarve!...

Com um gesto authoritario, o juiz do Santo Officio exclamou ainda: 

-- Basta de farças!... Dispam-n'o... Só assim confessará tudo!... Atiraram-se sobre elle, rasgaram-no com impetos selvagens, de brutas feras, a amedrontarem-no, emquanto o outro tornava: 

-- Expliquem-lhe a serventia d'esses ferros e levae a cigana para a sala das audiencias. 

-- Quero sair d'aqui!... Quero sair d'aqui! Sou o vice-rei! clamava elle cada vez mais desesperado sem se poder mover, os labios cheios de saliva que lhe caía pelo queixo, emquanto os outros diziam: 

-- Sair!... Mas julgas então que se é hereje a bello prazer? Oh! Attentas contra a santa religião e não queres soffrer o justo castigo!...

O frade alteava a voz e n'um tom terrivel, bradava lhe: 

-- Sacrilego... Vil hereje immundo, pagarás por todos os outros... Tu estás aqui porque assim o ordenou o senhor inquisidor-geral! É enorme o teu delicto sem duvida, para elle assignar o ordem de tua prisão... Sim, o inquisidor, que nunca nos dá presos d'importancia! 

O vice-rei perdia pouco a pouco a cor, tornava-se pallido, desfallecia, continuava sempre a sua arenga aguardando que fossem buscar a cigana para a sala das audiencias. 

Subito ouviu-se um ruido de passos, tilintaram chaves e dois novos famulos foram abrir a porta d'uma cella, exclamando:

-- Saí...

Appareceu um corpo magro, enfezado, mettido n'uma batina ecclesiastica, e o vulto recuava ao vêr o vice-rei, ao analysar a sala das torturas e n'um grito de louco, bradava: 

-- Oh! Perdão... perdão .. Foram elles!... Eu queria ser cardeal!...

-- Vinde comnosco, reverendo... disse o monge que estivera até então junto do vice-rei, acercando-se do jesuita Cardoso e murmurando-lhe ao ouvido: 

-- Estaes livre! 

-- Ah! Morreu a rainha? Voltou a Companhia? perguntou elle com um clarão d'alegria nos olhinhos redondos, tornando-se triste de seguida para dizer: 

-- E quem ganha a purpura não sou eu!... Morreu a rainha... 

-- Não... Irmão... Sua magestade perdoa-vos...

-- Hein... A mim!... Oh! graças, meu Deus, graças... Ainda não tiraste todo o poder á Companhia de Jesus! 

O reverendo prostrava-se por terra beijando o lagedo d'aquella sala onde milhares de innocentes tinham sido victimas d'esse poder que elle abençoava. 

Depois levantou-se, arrimou-se ao frade e bradou: 

-- Oh! E para onde vou? 

-- Para Genova, irmão! exclamou n'este momento uma voz grave no atrio do edificio para onde os famulos conduziam o regicida. 

-- Oh! padre-mestre! bradou elle ao reconhecer José Maria de Mello. 

-- Sim... Embarcareis no Orion... Esperava que partisses hontem, mas o navio só larga á tarde... Ide para bordo... Aqui tendes esta bolsa... disse-lhe ao leval-o para um recanto, onde os famulos não o podiam ouvir. Gastae até Genova e quando ali chegardes perguntae pelo padre Vemecci... É um pobre frade capuchinho, cujo convento vos indicarão... É esse o vigario da Companhia... Passae com elle alguns dias e de seguida parti para Roma onde vos precederá uma carta para o geral... Ide, irmão! 

-- Oh! Abraçae-me... abraçae-me! Já dei graças a Deus pelo poder da Companhia...

O oratoriano apertou-o nos braços e murmurou: 

-- Os jesuitas triumpham sempre! Lembra-vos que em todas as ordens do paiz ha pelo menos um que enverga a roupeta sob o habito! 

Ide! E a paz do senhor seja comvosco! 

Mas no momento em pronunciava estas ultimas palavras ouviu passos no lagedo do atrio, entreviu aberta a porta da Inquisição e quasi a seu lado deparou com o arcebispo de Thessalonica, perante o qual todo se curvou deveras admirados d'aquella visita do inquisidor supremo que serenamente entrava do edificio. 

José Maria de Mello, pallido como a cera ao ser surprehendido pelo arcebispo a abraçar o criminoso, murmurou uma phrase e curvou-se n'um cumprimento, emquanto o padre Cardoso livido de terror, dizia: 

-- Oh! Vem condemnar-me!... Não me deixará sair...

-- Sahi já!.. . exclamou o oratoriano entregando-lhe a ordem, e apontando-lhe os homens que o esperavam. 

O jesuita caminhou de corrida e desappareceu na frontaria entre a escolta, ao passo que o parente do cardeal, relanceando um olhar pelo atrio apenas viu os famulos a distancia e o arcebispo que lhe deitava ainda um olhar investigador subindo a escada de pedra da sala do conselho. 

-- Oh! Mais um motivo para morreres miseravel! murmurou com os dentes cerrados o frade, cerrando o murro apontando na direcção do inquisidor. 









XV 



O inquisidor supremo 





O arcebispo ao ver fr. José Maria de Mello abraçar o jesuita, mordeu os labios muito irado, sentiu confirmadas as revelações do intendente de policia e murmurou algumas palavras inintilligiveis. 

Subia lentamente a escada na sua grande preoccupação e chegava em frente d'uma porta sobre a qual estava pintada uma grande cruz negra.

Um famulo curvou-se até ao chão ao reconhecer sua grandeza, e elle comprehendendo quanto carecia de tacto para se conduzir ordenou nos seus modos francos: 

-- Chamai o senhor residente...

O outro ajoelhou-se a beijar-lhe o habito e depois affastou-se de corrida, emquanto o arcebispo abria a porta e penetrava n'um aposento muito escuro, as janellas fechadas e pregadas interiormente, e de cujo tecto pendia uma pequena lampada d'azeite. 

A casa tinha por mobilia uma especie de tribuna alta forrada de negro e onde se via uma mesa e uma cadeira de espaldar alto,  em baixo mais duas mesas grandes rodeadas de escabellos e a meio do aposento um velho banco chumbado ao solo. 

Era a sala dos interrogatorios d'onde outr'ora o padecente passava quasi sempre as troturas, quando não fazia a espontanea confissão do seu delicto. 

Porém a maioria nunca chegava a entrar n'essa casa e só quando se tratava de preso d'importancia é que o supremo conselho ou o senhor inquisidor em pessoa tratavam de os interrogar. 

O inquisidor supremo, ficara de pé no meio da casa a olhar um Christo enorme suspenso da parede ao fundo da sala e que era illuminado frouxamente n'umas debeis intermittencias, que o coloriam extranhamente. 

Dos labios do grande personagem saia um monologar confuso, irado, e ao vêr entrar um padre, magro, secco, de aspecto bondoso, avançou para elle e perguntou: 

-- Fr. Thomé de Jesus, entreviestes no interrogatorio do regicida? 

-- Grandeza... balbuciou elle com unção, curvando-se a saudal-o. Não assisti a cousa alguma...

-- Ah! E quem o interrogou, n'esse caso? 

-- Fr. José do Rosário, o vigario...

-- Bem... Estava entregue em boas mãos... murmurou o arcebispo, continuando: 

-- E dir-me-heis a razão da vossa falta? 

-- A minha saude abalada... volveu o residente com voz tremulo. 

-- N'esse caso fazei-vos sempre substituir por fr. José? 

-- Sim, grandeza! 

-- Quer dizer declinaes nas mãos d'esse padre todo o vosso poder, deixaes que proceda em harmonia com os seus interesses servindo-se do Santo Officio como d'uma arma para ferir os seus inimigos? 

-- Grandeza... Fr. José do Rosario é um homem de consciencia, merece a minha confiança... tornou o padre em tom humilde. 

-- Sim! Pois n'esse caso deixaes de merecer a minha...

-- Eu? Mas grandeza que fiz para incorrer no vosso desagrado? interrogou elle muito admirado. 

Como unica resposta, o corpulento carmelita, exclamou: 

-- Fazei com que fr. José do Rosario venha á minha presença... Quero que me responda elle proprio...

-- Sim, grandeza... replicou elle muito tremulo affastando-se a buscar o gordo frade que entrou d'ahi a instantes curvando-se humildemente ante o inquisidor, buscando dar ao rosto a mais seraphica das expressões. 

-- Fr. José... gritou o inquisidor em voz terrivel. Fostes o encarregado de interrogar o jesuita Cardoso? 

-- Sim, grandeza... Assim m'o tinheis ordenado. 

-- Ordenado? Não... Pedir vos apenas um relatorio das suas confissões! Onde está elle? 

-- Aqui, grandeza, replicou o astuto jesuita em tom humilde, rejubilando ao ver o espanto desenhado no rosto do arcebispo. 

-- Tinha cumplices? bradou em voz irada. 

-- Nada confessou... Elle está louco... respondeu o vigario. 

-- Ah! Por isso lhe concederam a liberdade... volveu em tom escarninho. A sua loucura é má, e o exemplo repetir-se-ha... Vou guardar o vosso relatorio que desejo lêr com attenção... É verdade que o jesuita está livre mas não quer dizer que os outros o estejam muito tempo!...

E encarava com grande insistencia, os dois padres. 

Depois n'outro tom, com certa indifferença, perguntou: 

-- Porém esse corregedor cuja ordem de prisão, assignei ha dias, decerto não está louco não é assim? Deveis tel o interrogado já... O sacrilego confessou o crime? 

Fr. José sorriu com um ar jubiloso, e mentiu: 

-- Oh! grandeza declarou serem verdadeiras as nossas suspeitas disse que tinha cumplices... É um verdadeiro hereje cuja prisão faz honra a vossa grandeza! 

-- Ah! É então muito perigoso?...

-- Immensamente... Os seus processos são infames e desde que não seja punido pelo menos com açoutes não ficará o exemplo para os futuros herejes...

-- Como não ficou para os futuros regecidas... volveu o inquisidor a meia voz, continuando logo n'um tom severo: 

-- Os açoutes, dizeis? 

-- Sim, grandeza...

-- Ah! Quantas vezes, o interrogastes? 

-- Tres... respondeu o jesuita affoutamente. 

-- Ah! E não declarou o nome dos cumplices? 

-- Não grandeza...

-- Mas confessou o seu delicto? 

-- Sim, grandeza. 

-- Por todas as ires vezes? 

-- Sim, senhor inquisidor...

-- Ah! N'esse caso precisa ser queimado! O aute de fé é a menor pena para o seu crime!... exclamou o arcebispo olhando bem fr. José do Rosario que estremecia e respondia logo ao ouvil-o dizer ainda: 

Faremos reviver os autos! 

-- Ah! Sois justo, senhor... Sois um verdadeiro justo... 

-- Mas não era isso o que se dizia ainda ha bem pouco tempo... volveu a sorrir para os padres buscando ouvil-os.

O residente calava-se; na sua face de homem sério e grave nada transparecia, o outro replicava com certa ousadia ante o bello sorriso do arcebispo. 

-- Não, grandeza... Chamavam-vos apenas pouco rigoroso. 

-- Oh! Mas n'este caso provar-vos-hei, como sei punir... Ide buscar esse hereje... Tenho desejo de o interrogar... Ah! fr. José do Rosario estará no edificio alguns membros do conselho? 

-- Vossa grandeza, quer proceder a um interrogatorio em forma? 

-- Mas certamente... Não dizeis ser esse homem um grande criminoso? 

-- Assim é, grandeza. 

-- N'esse caso, mandae chamar um membro do conselho... Por exemplo o senhor cardeal da Cunha! 

O jesuita estremeceu, buscou ler no rosto do arcebispo o movel a que obedecia ao mandar chamar aquelles homens e de seguida ia partir para cumprir as suas ordens quando o ouvia exclamar: 

-- Oh! Não é necessario fr. José... Não é necessario... Eis sua eminencia que chega!...

E apontava a porta ao jesuita e onde apparecia a purpura do cardeal que ao ver o confessor da rainha, se fazia pallido e exclamava: 

-- O senhor inquisidor supremo!...

-- Sim... Eminencia, sois o presidente do conselho secreto da inquisição não é assim? Exerceis as funcçÕes de inquisidor geral provisoriamente, não é verdade? 

-- Sim, grandeza. 

-- N'esse caso espero que assistireis ao interrogatorio d'esse heretico corregedor accusado de sacrilegio... O cumplice dos raptores de vossa sobrinha... disse o arcebispo com delicadeza pouco vulgar, mascarando o odio que nutria pelo cardeal. 

-- Mas grandeza... Eu não desejava privar vossa grandeza d'essa missão... Para demais vinha para isso... Mas estaes sós senhor e...

-- E vossa eminencia ficará tambem... 

-- Ás vossas ordens!... replicou com certo contentamento o cardeal, dizendo de seguida: 

-- E já o interrogaram? 

-- Sim eminencia.. É um verdadeiro facinora...Não é assim fr. José? 

-- Sim grandeza... Um infame! 

-- Pois senhor cardeal, é o unico auto de fé á antiga que vou ordenar!... exclamou com vehemencia o arcebispo, saboreando com delicia aquella alegria que se espalhava no rosto branco do velho cardeal, gosando de antemão o prazer da vingança, parando ao ouvir o corregedor fazer face a face a accusaçáo d'esse principe de egreja que tinha ali ao seu lado. 

Veiu-lhe então um desejo de chamar tambem José Maria de Mello, confundilo, arrancar-lhe a mascara e levar a sua audacia ao ponto de os deter no carcere que a sua victima deixaria, indo de seguida participar á rainha a sua obra dizendo: 

-- E esses não são loucos, real senhora! Porém carecia de testemunhas para isso, para que ostentassem depois todas as declarações do corregedor e n'um gesto amplo, bradou: 

-- Chamae fr. José Maria de Mello que se encontra no edifício... É um dos familiares do Santo Officio, parente do senhor cardeal e por consequencia da pobre senhora victima do miseravel corregedor e dos seus cumplices...

O cardeal ficou uns momentos surprehendido com tanta deferencia, elle que conhecia bem o seu inimigo, e emquanto fr. José ia chamar o oratoriano, ordenava a um famulo. 

-- Eh! Ordenae de minha parte, a todos os padres que se encontram no edifício que venham a esta sala! 

-- Mas para que, grandeza? perguntou com susto o cardeal. 

-- Para dar maior luzimento ao acto! retorquiu elle saudando muito amavelmente fr. José Maria que entrava ao lado do jesuita n'um ar grave e respeitoso. 

-- Sentae-vos senhores... E que venham todos!... gritou para o famulo. 

-- Mas o conselho costuma ser secreto... disse ainda o cardeal. 

-- Assim é... exclamaram todos vendo que alguma cousa de extraordinario se ia passar. 

-- Ordeno! bradou em tom de commando para o famulo que se retirou, e logo em voz agradavel para fr. José do Rosario, interrogou do alto da tribuna para onde subia com o cardeal! 

-- Declarou, não é verdade, que fôra ao convento no intuito de raptar uma monja?...

-- Sim... Grandeza! mentiu logo o frade com um olhar para José Maria de Mello. 

-- Era acompanhado por dois homens? 

-- Isso não o affirmou...Julgo até que eram mais... Mas o que feriu o sr. D. Ramiro de Noronha era um cadete do regimento de Peniche! 

-- Muito bem... Embora tenhamos que prender o regimento inteiro, descobril-o-hemos... Não é assim senhor cardeal? 

-- Decerto...E  agradeço a vossa grandeza a parte activa que toma n'esta desgraça que me feriu profundamente. 

-- Obedeço ao meu zelo religioso e ás ordens de sua magestade! replicou Thessalonica, ante o pasmo estampado em todos os rostos perante aquella nova forma do arcebispo encarar as questões começando a verem nelle um outro homem bem diverso. 

Agora entravam padres e famulos, agglomeravam-se confusamente na sala mal illuminada, deixavam um logar vago para o reu, e depois quando os servos entravam com os brandões de cêra fumegantes, o arcebispo pondo-se de pé, perguntou: 

-- Fr. José, esse corregedor não declarou mais nenhum facto, embora extranho ao crime?...

-- Não grandeza... Mandei-o conduzirá sala, esperava de interrogal-o com o senhor residente na casa da audiencia ali declararia tudo! 

-- Conduzi esse corregedor para esta casa...

-- Fez-se um grande silencio ao aguardarem o criminoso, todos tinham desejo de ouvir as revelações que elle iria fazer e José Maria de Mello, vendo alguma cousa de extranho no procedimento do inquisidor, estremecia ao lembrar-se que sem duvida Thessalonica estava ao facto da conspiração e os collocaria, a elle e ao cardeal, em frente do supposto hereje. 

Vinha-lhe então um desejo enorme de prevenir o parente ao sentir-se perdido e estremecia ao ouvir o cardeal supplicar a Thessalonica: 

-- Espero de vossa grandeza um bello acto de justiça... 

-- Oh! Prometto aos culpados uma grande punição! e fazia-se vermelho de raiva. 

-- Sua grandeza, fallou ha pouco n'um auto de fé... assegurou fr. José do Rosario. 

-- Sim um auto de fé, bem temivel, bem publico para servir de exemplo. Estão prohibidos, mas restabelecel-os-hei. 

Ouviram-se passadas no corredor, gemidos, depois umas vozes bradando: 

-- Caminha hereje! 

O inquisidor de pé, a mão no peito do habito, era imponente a dominar a multidão tonsurada. 

Os brandões ardiam, avermelhavam com o seu clarão os rostos aos presentes, parecendo espalhar uma onda de sangue, fumegavam as chammas d'um auto de fé precoce. Destacavam-se cinco habitos negros de sacerdotes, vestes de famulos, rostos carrancudos de guardas emquanto o Christo macillento, suspenso na parede parecia presidir com o inquisidor supremo a essa reunião que ia assistir ao julgamento dum hereje. 

A subitas appareceu um homem semi-nu, os fatos rasgados, adiposo, o rosto transtornado de terror, tremulo que caía no meio do aposento ao empurrão brutal dos famulos e se erguia de seguida ferido, maltratado, olhando desvairado todos os presentes. 

José Maria de Mello, occultou-se entre dois frades, o cardeal desviou a vista temendo ser reconhecido e apenas o arcebispo inquisidor, olhava o recemchegado, tendo na physionomia uma expressão extranha de pasmo. 

O outro, olhava-o tambem e dos seus labios saía um grito, uma exclamação entre jubilosa e assustada, emquanto Thessalonica com voz temivel bradava: 

-- Mas que significa isto?... Porque está aqui o senhor vice-rei? 

-- Vice-rei! exclamavam todos cheios de pasmo, e o proprio cardeal tinha um gesto de indignação. 

Fr. José do Rosario, tornou-se livido, e o arcebispo, bradou: 

-- Expliquem-se! Que quer dizer esta infamia? 

-- Vice-rei?... murmuravam ainda os assistentes, ao passo que elle, cheio de colera, borbulhando saliva, clamava terrivel: 

-- Senhor arcebispo, sou uma victima dos seus sequazes! Arrastaram-me para aqui n'uma sege apesar dos meus protestos, metteram-me n'uma cella escura durante muito tempo, deram-me como alimento apenas pão e agua e esta manha conduziram-me para um logar ignominioso, rasgaram-me as carnes, retalharam-me os braços com as suas cordas e não me quizeram ouvir... Mas hei-de pedir 

justiça a sua magestade, e a meu pae... Que delicto commetti eu, o vice-rei do Algarve? 

-- Por Deus senhor vice-rei! bradou o arcebispo, descendo da tribuna e agarrando os hombros nus do personagem. Juro-vos que os culpados de semelhante infamia serão punidos... Oh! É preciso que não me accusem de complacencia! 

-- Fr. José do Rosario! gritou em voz terrivel. Senhor residente! Os dois interpellados avançaram de cabeça baixa ante o pasmo e o terror que se apossava de todos, e o arcebispo fulminando-os com o seu olhar penetrante e colerico, exclamou: 

-- Explicae-me vós, os dois assistentes de Inquisição, como se encontra aqui o senhor vice-rei n'este estado, um fidalgo de maior nobreza, um subdito fiel da rainha? 

-- Grandeza!.. .murmuraram ambos deveras agitados. 

-- Ah! Fallae! ordenou em grande colera. 

Todos estavam como paralysados comprehendendo a grande vingança que o arcebispo ia tirar, vendo agora bem o seu poder enorme, lendo no rosto do vice-rei a maior das raivas. 

-- Fallae!... Sim fallae!... exclamou por seu turno o obeso personagem, soltando de seguida um gemido e caindo n'uma cadeira que dois sacerdotes lhe acercavam, murmurando: 

-- Oh! miseraveis... Tentaram contra a minha vida, contra a minha liberdade... Pagal o-hão! 

-- Então, senhores? interrogava o inquisidor avançando de punho erguido para os dois frades. 

-- Senhor... Julgamos que sua excellencia era o corregedor! 

-- O quê? Não têm então aqui outro preso? 

-- Não, grandeza, não...

-- Oh! Mas que infamia... Foi então ao senhor vice-rei que interrogastes tres vezes, foi elle que vos declarou ser cumplice do rapto, foi ainda sua excellencia que declarou a sua connivencia no sacrilegio? 

O Jesuita caiu de joelhos aos pés do arcebispo e supplicou: 

-- Piedade... perdão... 

-- Ide supplical-a a sua magestade, hypocrita cumplice de mil torpezas! Esmagar-vos-hei a todos!... e n'aquella ultima palavra via se a allusao á Companhia de Jesus, no olhar que enviava ao cardeal lia-se o rancor. 

-- Senhor peço-vos perdão por meu turno; não fui o culpado... 

D'esta vez o pasmo foi ainda maior ao verem o poderoso arcebispo curvar se ante o personagem. 

-- Vingar-me-hei! bradou apenas o vice-rei com um terrivel gesto. 

-- Confundiram-vos com um corregedor sacrilego! 

-- Ah! O miseravel! 

-- Quem? 

-- Esse corregedor! 

-- Conheceil-o? 

-- Sim... Trazia a sua capa, foi por isso que me confundiram... 

-- Oh! e o infame emprestou-m'a de bom grado! 

-- Mas que quer dizer tudo isso? 

-- Que esse miseravel ha-de ser enforcado n'uma praça publica! foi a unica resposta do vice-rei, que exclamava de seguida: 

-- E agora quero sair d'aqui! Quero punir o corregedor e os que me prenderam bem como aquelles que não me quizeram ouvir!

O arcebispo deu as suas ordens e o vice-rei saiu com gestos furiosos e loucos, emquanto os frades se dispressavam e José Maria de Mello saía do lado do cardeal, murmurando: 

-- Oh! Á solta ainda o miseravel corregedor!... 

-- Tem a protecção do intendente de policia, assim o julgo. 

-- Pois, Pina Manique será o primeiro a cair ferido!... tornou o oratoriano n'uma ameaça. 

O inquisidor, olhando fr. José do Rosario d'uma maneira terrivel e disse: 

-- Recolhei-vos á vossa cella! Amanhã sereis punido bem como os vossos cumplices...

-- Senhor...

-- Nem mais uma palavra! O Santo Officio é hoje uma prisão do estado e não serve de arma aos jesuitas! 

-- Aos Jesuitas?!...perguntou elle tornando-se livido. 

E o inquisidor agarrando-o pelo habito com a sua mão possante, disse-lhe rapidamente. 

-- Sim, os jesuitas que odeiam os que lhes descobrem os manejos como succedeu a esse pobre corregedor! Ah! fr. José, vós bem o sabeis, e agora resta-vos apenas o forte da Junqueira! 

-- Oh! perdão... perdão...

-- Ide para a vossa cella! O senhor residente recolha-se á sua!... E depois para um frade, ordenou: 

-- Ouvi fr. Martinho... Que ninguem communique com fr. José do Rosario... Respondeis por isso!... disse elle n'uma ameaça. 

E sahindo tinha nos labios um sorriso, murmurando: 

-- Oh! Pobre corregedor salva-se dos jesuitas torha-se alvo da vingança d'um grande fidalgo!...

De pé, na rua, olhando o edificio rosnou:

-- E eu que o queria salvar! 

Depois trepou para a sege que se affastou de corrida. 







XVI 







A descoberta do esbirro 





Mestre Jacintho Peres, com uma expressão radiante na physionomia, uns clarões jubilosos nos olhinhos pardos encravados no rosto chupado, entrava na cella de José Maria de Mello, que sentado em face d'uma grande mesa e empunhando uma penna de rama, escrevia muito á pressa algumas notas no caderno collocado na sua frente. 

-- Ah! Sois vós, mestre Jacintho... exclamou o oratoriano, de semblante carregado. 

-- Eu sim, senhor padre mestre, eu que vos trago uma grande novidade. 

-- Maior tenho eu para vos dar, sem duvida alguma... Novidade de tal ordem que vos conduzirá ás pedras d'Angoche ou á forca... 

-- A mim, reverencia... 

-- Sim, a vós que nos compremettes a todo o momento... A vós que auxiliaes os nossos inimigos... E o melhor é que elles proprios vos punirão como já está succedendoao pobre fr. José do Rosario, vossa victima! gritou o Tavora, tomado de rancor subito. 

-- Minha victima!... Oh! mas não comprehendo... Juro-vos... titubeou elle mudando rapidamente a expressão do rosto. 

-- Sim.. Ah! mas tomae cautella, muita cautella, senhor Jacintho. Ainda não perdemos a esperança de restabelecer a Companhia e ella vos punirá se antes d'isso os senhores da côrte não vos mandarem arrancar a pelle... 

-- Mas de que se trata, reverendo... Eu que tenho prestado serviços enormes á Companhia!... Aindo ha dias lancei mão d'um hereje que outro não seria capaz de conduzir ao carcere! 

-- Julgas isso? 

-- Tenho a certeza.... O corregedor é o que se chama um verdadeiro astucioso... Tem logrado muitos... 

-- Como te logrou tambem, mestre Jacintho... 

O esbirro soltou uma risadinha e engelhando o rosto n'uma careta que queria fazer passar por sorriso, volveu: 

-- Ah! vossa reverencia tem estado a brincar... 

-- Jacintho Peres! Eu não brinco nunca!... Não costumo descer a essas frivolidades... Dedico a minha vida, como sabeis, a grandes commettimentos, a tarefas superiores e de tal ordem que jámais me sobeja o tempo para gracejos... 

-- N'esse caso... Mas... Como é que o corregedor me logrou... 

-- Fugindo... 

-- O quê? Dos carceres da Inquisição! Impossivel! Seria o primeiro! exclamou elle fixando o oratoriano que se levantou irado e bradou: 

-- Não dos carceres da Inquisição porque nunca lá entrou! 

-- Reverencia! gritou o esbirro, pois se o proprio carcereiro m'o disse!... 

-- Enganou-vos! Dizei-me... Conheceis bem o corregedor?... 

-- Regularmente... 

-- Mas não tanto que não o deixasses passar lançando mão d'outro que usava a sua capa e o seu chapéu! 

Jacintho Peres, fez-se livido de raiva e bradou: 

-- Ah! O miseravel! Mas hei-de encontral-o, juro-vos. E até então o infame que se prestou a essa farça indigna pagará bem cara a ousadia! O senhor inquisidor supremo, saberá punir os que representam comedias com os famulos do Santo Officio! Eu proprio o porei no potro... Oh! merece tratos de polé!... 

-- Mestre Jacintho... Desenganae-vos. Não fareis isso! 

-- Juro-vos... Arrancarei a pelle ao patife! 

-- Tereis coragem de fazer semelhante cousa ao senhor vice-rei do Algarve? 

-- O vice-rei!... gritou elle n'um impeto agarrandose a um movel para não cahir. 

-- Sim... Elle proprio, que jurou vingar-se dos que lhe tinham feito semelhante offensa! 

-- Oh! Meu Deus... Mas porque serviu elle esse corregedor? 

-- Ao contrario... Sua excellencia estava convencido que o outro é que o servia! 

O maior pasmo se desenhou no rosto do esbirro, que bradou: 

-- Mas como?... Oh! Tudo isto é extraordinario... 

-- E mostra bem o valor d'esse corregedor que empresta a capa aos vice-reis que não querem ser reconhecidos em maus logares! 

-- Ah! Agora comprehendo! Meu senhor... Salvae-me! 

-- E acaso o poderei fazer?... Esse maldito arcebispo colliga-se com o vice-rei, prende na sua cella fr. José do Rosário e auxiliado pelo outro que soffreu tratos, dará o derradeiro golpe nos poucos jesuitas que ainda existem na Inquisição. 

-- Impossivel!... impossivel!... 

-- Mestre Jacintho! Duvidaes do que vos affirmo? 

-- Mas o senhor cardeal nos salvará! 

-- Elle? Oh! E acaso não se salva também a custo? 

-- Oh! a Companhia perdida por um mau passo d'um esbirro! exclamou, fr. José Maria, n'um arranco. 

Jacintho Peres, curvou a cabeça, ficou uns momentos silencioso e por fim, assegurou: 

-- Pois eu salvarei os jesuitas! 

-- Vós!... tornou o frade com um sorriso de escarneo. Vós que não vos podeis salvar... 

-- Salvar-me-hei! volveu o esbirro com firmeza, collocando-se com certo aprumo em frente do padre-mestre. 

-- Mas como?..

-- Entregando os verdadeiros raptores da sobrinha do senhor cardeal... Esses que Sua Magestade deseja punir pelo sacrilegio... Os nomes que esperavamos ouvir da bocca do negregado corregedor posso eu dizel-o dentro em... 

-- Em dez annos!... gargalhou o frade muito desprezadamente. 

-- Não, reverencia... Dentro em minutos! bradou o esbirro cheio de altivez deixando José Maria de Mello n'uma grande preplexidade. 

-- Que dizeis? Oh! Estaes louco, bem louco! 

-- Não, fr. José Maria, não padre-jnestre... Falo com consciencia. Era essa a noticia que vos trazia! 

-- Ah! exclamou o interlocutor como se começasse a vêr a salvação, accrescentando: 

-- Se assim é na realidade, podemos tentar alguma cousa... Mudaremos de tactica... Dirigir-nos-hemos a el-rei e a sua alteza... Entregaremos á justiça real esses sacrilegos. Appelaremos para o senhor marquez de Angeja que por seu turno insistirá com o seu filho para que perdoe os maus tratos... O arcebispo apesar da sua preponderancia no anime da rainha não poderá obstar a que justiça seja feita... Deixaremos a gloria da acção e tirar-lhe-hemos o proveito... Fr. José do Rosario e o residente serão postos em liberdade... O cardeal da Cunha e eu podemos respirar... E emquanto ao corregedor guardal-o-hemos para depois... Não ha risco de apparecer na cidade n'estes tempos mais proximos!... 

O padre-mestre falava muito rapidadamente, com uma certa segurança, começava acreditar elle proprio nas palavras do esbirro e interrogando de seguida: 

-- Mas tendes ao menos d'esta vez a certeza? 

-- Completa! 

-- Porém, como? 

-- Por todos os motivos... 

-- Falae... Isso não são razões! 

-- Pois bem... Vossa reverencia sabe que muitas vezes vos acompanhei a reuniões e a visitas no convento das Salesias? 

-- Sim... E depois... 

-- Sabeis também como conheço D. Elvira de Mello, a sobrinha de sua eminencia! 

-- Sim... sim... 

-- Pois vi sua excellencia! 

-- Tu! E onde? 

-- Mais devagar, reverencia, basta dizer-lhe que a vi. 

-- Oh! Seria maravilhoso... Oh! maravilhoso por todos os motivos! gritou o frade com grande energia, perguntando-lhe logo: 

-- Mas não te enganaste? 

-- Não, reverencia... 

-- Conta-me tudo... Dar-te-hei o que precisares! 

-- Era ahi que queria chegar... como eram as vossas ordens a respeito d'essa dama que vinha receber... Não quiz dirigir-me a sua eminencia porque julgo conhecer um pouco as vossas ideias. 

-- As minhas ideias? 

-- Sim, reverencia, as vossas ideias! Tanto a respeito da Companhia, como a respeito da vossa familia! 

-- Por Deus! Mestre Jacintho isso é d'um arrojo... disse elle com um sorriso de desdem. 

-- Julgaes? Oh! Não o diz a assim o vosso livro! 

-- O meu livro? 

-- Sim... Os planos que todo o bom membro da Companhia deve enviar o geral de Ordem, deixando uma copia no archivo de residencia! 

-- Ah! Miseravel atreveste-te a... 

-- A abrir a estante de vossa reverencia! gritou o esbirro muito tranquillamente. 

-- E confessas esse crime! Oh! Sabes que incorres na penna de excommunhão... 

-- Por Deus! Eu sou leal... Desejo apenas a vossa protecção, tornou o esbirro com humildade comica. 

-- Que demonio... Desde que passe ás vossas mãos a fortuna do senhor cardeal ou que entre nos cofres da Companhia, ou desde que tenhaes poder, espero que sabereis recompensar o humilde servo que de tal forma vos auxilia, que podendo receber uma bella recompensa do senhor cardeal da Cunha se apresenta espontaneamente a declarar-vos que se colloca ás vossas ordens... 

Fr. José Maria de Mello, muito pallido ao vêr-se assim entregue a um esbirro, tornado implicitamente seu cumplice, esboçou um sorriso vingativo, que o outro viu, e fusilando um olhar raivoso atravez os seus oculos verdes, disse em tom grave, como se não quizesse ligar maior importancia ás palavras do sequaz da Companhia: 

-- Obedeceis-me então, n'esse caso, não é assim? 

-- Sim reverencia... Hoje como sempre, como no futuro, quando fordes o dominador. 

-- N'esse caso contae-me como descobristes a sobrinha do senhor cardeal da Cunha. 

-- Vou satisfazer-vos, reverencia! assentiu o esbirro, sentando-se sem cerimonia n'uma cadeira, e tirando uma pitada de rapé da caixa d'ouro que estava sobre a mesa ao alcance da mão. 

Depois fungando-a com delicia, assentando dois piparotes n'um gesto em que parodiava os elegantes pintalagretes, recostou-se mais e começou: 

-- Vossa reverencia sem duvida ouviu falar de certo noviço cartuxo que estando nos aposentos do senhor arcebispo, ouviu a ordem de prisão para o negregado corregedor? 

O frade, teve um sorriso terrivel e exclamou: 

-- Sim... Um rapazote que pagou com a vida a sua visita ao carmelita... Se não me engano fostes vós o encarregado d'essa morte? 

-- Assim é, reverencia... Vejo que sois um bello provincial da Companhia... Tudo sabeis... 

-- Bem... Mas que tem a ver esse noviço com a sobrinha do cardeal? Ah! Espera, exige-me talvez contas da sua morte... perguntou elle ao recordar-se dos preambulos que o outro empregava e julgando vêr ali um ardil para que o salvasse. 

Porém Jacintho Peres, muito repotreado na cadeira, as perninhas magras estendidas, volveu: 

-- Não, reverencia... Tanto mais que o noviço não morreu! 

-- Como, não morreu? 

-- Oh! Acaso estará pouco afiado o vosso punhal como pouco astuta está a vossa imaginação? interrogou elle fulminando-o com o olhar. 

-- Não reverencia... É que eu não me servi d'essa arma... Odeio o sangue que corre... Depois ha o estrebuxar das victimas... disse o esbirro no modo chocarreiro que por vezes empregava. 

-- Ah! É assim que nos obedeces? Deixaste em paz esse miseravel, que naturalmente se apressou a prevenir o corregedor do que se lhe preparava e... 

-- Não, reverencia... Não teve tempo para isso... 

-- Mas então... 

-- É que eu escolhera para elle outro genero de morte... Como se fosse casual... Estava uma noute de tempestade, iam n'um bote onde com certa habilidade o conseguira conduzir... Em frente d'uns rochedos a tripulação saltou á agua, eu obriguei o fradepuio a mergulhar e saltei também julgando-o bem morto... Tanto mais que o infeliz me confessara a sua ignorancia na arte natatoria! 

-- Viemos para terra e fomos acampar á mesa a'uma taberna longinqua, conscios de termos ganho honradamente o nosso dinheiro... 

-- Bem... Porém não succedera assim... 

-- Decerto e vou restituir a fr. José do Rosario os trinta cruzados da Companhia... 

-- Ah! Estaes honesto! gargalhou o frade. 

-- Não... É que a vida d'esse bello frade, vale hoje para mim mais de duzentos cruzados!... 

-- E porque? 

-- Porque por elle cheguei a excellentes resultados acerca da sobrinha de sua eminencia ! 

-- Ah! É talvez elle o raptor?... 

-- Não... não... Está proximo d'elle mas não é o culpado... Se o levaram para casa d'elle depois de o arrancarem ás ondas, o pobre noviço não tem d'isso a menor culpa... 

-- Ah! E vós... 

-- Sim... Ouvi um patife que é amante de certa feiticeira, narrar o caso... 

-- Onde? 

-- No Neutral na volta da celebre partida do infame corregedor... 

-- Que fizeste então? 

-- Fui ouvindo e depois quiz conduzir o salvador da gente perigosa para a inquisição... Porém, se este tem bons braços para nadar, melhor os tem para desarmar soldados e conseguio evadir-se, sem que lhe puzesse até hoje a vista em cima! 

-- Ah! E é por esse rapaz que esperas saber onde pára o noviço? 

-- Não reverencia... Porque o heroico nadador, para melhor narrar a sua acção contou para onde o levara. 

-- Ah! E depois? 

-- Depois... Claro que no dia seguinte fui ao legar indicado esperando encontral-o para ganhar d'este modo os meus trinta cruzados e não incorrer nas iras de fr. José do Rosario. 

-- Ah! É interessante a tua narração... Continua! exclamou o oratoriano ficando-se a escutar o outro com agrado. 

-- Estava eu á espreita e mais dois dos meus companheiros, eis que a janella da casa onde se occulta o naufrago se abriu para que o ar penetrasse a refrescar os aposentos, e ... 

-- E?... 

-- A meus olhos appareceu n'uma aureola de sol a mais formosa das damas... Dos labios dos meus companheiros saíram gritos de pasmo, nos meus abafei um nome e o meu pensamento voou logo para o cofre do senhor José Maria de Mello... 

-- O que?... exclamou o oratoriano, não podendo deixar de rir ante a arenga do esbirro. 

-- Sim... Porque essa formosa apparição dizia-vos respeito... era... 

-- D. Elvira de Mello... a sobrinha do senhor cardeal! 

-- Oh! É admiravel! exclamou o frade com um súbito enthusiasmo. 

-- Não é verdade?... Pois bem, deixei em paz o meu homem que também appareceu no terraço mas d'uma maneira que quasi o não conheci! 

-- Ah! Não admira, naturalmente o abalo... 

-- Não era o rosto que estava mudado... 

-- Então... 

-- Era o fato... O noviço mandou o habito ás ortigas e vestia agora uma bella farda de cadete do regimento de Peniche... 

-- Ah! Foi então elle que feriu D. Ramiro de Noronha... Era um falso frade... Tens razão em dizer que a vida d'esse homem vale muito dinheiro... Vou compril-a... 

-- Não se apresse, vossa reverencia. O culpado não é elle... 

-- Mas essa farda... 

-- Significa apenas o pedido que ia fazer ao senhor arcebispo! que foi deferido, segundo me disse fr. José do Rosario no proprio dia. 

-- Ah! Mas então... 

-- Então quer apenas dizer que ha outra gente mettida na questão. 

-- E quem? 

-- Ah! reverencia... Ao ver a formosa apparição lembrei-me do vosso cofre... tornou elle no seu tom jocoso. 

-- Quanto queres? volveu com laconismo imperioso, o frade. 

-- Julgo que duzentos cruzados... Sim, tenho que me vestir de novo... 

O oratoriano escreveu algumas palavras n'um papel e disse de seguida, estendendo-lhe o papel. 

-- Amanhã a casa do mestre Abrahão Mosés, banqueiro da Companhia. 

-- Eis ahi um judeu que negoceia com o mais santo dos dinheiros! murmurou entre dentes, o esbirro.

-- Vamos: O nome d'esse homem e o logar onde se occulta a sobrinha do cardeal! 

-- O logar é no palacio do sr. conde de Assumar, na Cruz Quebrada... Foi o creado Joannico, amante da cigana Chiquita, que está no Santo Officio, quem salvou o frade tornado cadete... 

-- O conde de Assumar! Mas esse também é do regimento de Peniche... Foi até nomeado agora alferes! Ah! É então o conde! Mas isso é impossivel! Se sollicita ha muito a mão da filha do conde de S. Vicente, outra sobrinha do cardeal! 

-- Mas, reverencia, isso não quer dizer que o conde não tenha algum amigo... 

-- Aquem cedesse o seu palacio! Tens razão... 

-- Exactamente! Tem um amigo... Alguem que não se encontra agora em Lisboa... 

-- Mas como o sabes? 

-- Por um creado a quem perguntei pelo senhor conde... E elle disse-me que sua excellencia não residia ali... la visitar muitas vezes, todos os dias até, o seu amigo que residia no palacio desde ha quatro mezes! 

-- Ah! E é esse... 

-- Tambem antigo cadete e hoje alferes do regimento de Peniche, o raptor... 

-- Mas como o sabes?... 

-- É simples... Moram além dois homens e uma senhora... Ha um terceiro que os visita. 

-- Sim... Falla... 

-- O primeiro era frade antes do rapto e não podia ser o aggressor do senhor D. Ramiro de Noronha o qual declara ter sido ferido por um cadete... 

-- Bem... 

-- A senhora é sobrinha do senhor cardeal... 

-- Sim... 

-- O que os visita está para casar ou ama outra sobrinha de sua eminencia e não podia ser o raptor... Por consequencia é o terceiro... O que saiu de Lisboa ha quasi quinze dias e ainda não voltou... Foi até nomeado alferes durante a sua ausencia. 

-- E chama-se? 

-- Eis o que o creado ignorava porque o senhor conde nunca se dirigira ao amigo á sua vista... E para demais este servo está lá ha pouco mais de quatro mezes e é empregado das cosinhas... 

-- N'esse caso ignoras... 

-- O que? O nome do amigo do senhor conde? 

-- Sim... O nome do sacrilego! 

-- Não, reverencia... Sei-o... Nada mais facil do que no quadro do regimento do senhor marquez das Minas ou no numero da Gaveta de Lisboa, ver os officiaes promovidos... E os unicos cadetes nomeados alferes no regimento, são, o senhor conde de Assumar e... 

-- E o raptor... 

-- Que se chama... 

-- Gomes Freire d'Andrade! exclamou triumphante, o esbirro fazendo uma venia ao padre mestre, que se tornava pallido e exclamava ante este nome: 

-- Oh! Será parente d'um certo Bernardim Freire, militar tambem, um capitão, com o qual temos antigas contas... Um patife que sendo alferes serviu Sebastião José, contra a Companhia? 

Seja como fôr... Irei até ao fim... É necessario, mestre Jacintho Peres, que venha para o nosso poder a sobrinha de sua eminencia; emquanto a Gomes Freire, eu saberei vingar-me! E agora vamos triumphar... Eu vou para o paço... Tu corre a preparar tudo para o rapto... 

-- Ah! E d'esta vez não se trata d'um sacrilegio porque em vez de irmos raptar uma esposa de Deus vamos buscar, com perdão de vossa reverencia, a noiva do proprio Belzebuth! 

-- Ide, mestre Jacintho, fazei ligeiramente as cousas e contai commigo! 

E antes de sair embrenhou-se na combinação de arrojados planos com o oratoriano. 

No côro do convento os frades cantavam louvores a Deus pelas misericordias com que os beneficiara n'esse dia. 

E pareciam, ao enviarem ao espaço ao som do orgão as suas vozes dolentes, uns cumplices do padre-mestre e do esbirro. 







XVII 



A açafata da Rainha 







A familia real mudara a sua residencia de Queluz para Ajuda e n'essa manha assistia á missa na capella do paço. 

No côro de grades douradas reboavam as vozes em cantos sacros, destacavam se os vultos dos cantores pagos como principes, tratados com o maior respeito, gosando de maior influencia. 

Ferracuti, o amigo d'el-rei, fazia-se ouvir, apresentando a sua 

figurinha grotesca encostado ao varandim, sua rectaguarda viam-se  Totii, Manini, Biagino, Reina e uma infinidade de contraltos e sopranos, os castrati de vozes de rouxinoes que encantavam a magna  assembleia piedosa. 

A rainha orava cheia de fé de joelhos aos pés do altar, onde o arcebispo dizia a missa, os principes no maior recolhimento ajoelhavam-se a alguma distancia d'el rei que na mais piedosa das attitudes, deixava voar o pensamento para as delicias chimericas da vida eterna. 

O principe do Brazil ao lado de sua esposa D. Maria Benedicta, sua tia com quem o tinham casado, erguia por vezes a cabeça e relanceava um olhar para o grupo das açafatas onde estava D. Maria da Penha, a joven loura de bellas faces claras, os olhos humidos fixos no altar. 

A seu lado, uma deliciosa mulher morena, de labios vermelhos e olhos negros, figura graciosa e ardente de hespanhola, travessa e buliçosa, reparava muito nos olhares do principe e tocando levemente no braço da companheira, dizia em voz muito baixa. 

-- O principe D. José, continua a contemplar-te... 

-- É muita a bondade de sua alteza... volveu ella no mesmo tom. 

-- Não... É muito grande o seu Bmor! 

-- Antonia... Está louca?! murmurou com desgosto a linda açafata, fazendo-se corada. 

-- Louca? Não... Mas é uma cousa que se nota... Sua Alteza, ama-te... 

-- E que me importa esse amor?... 

-- Por Deus que é uma honra... 

-- Quando se ama também... tornou D. Maria de Penha. 

-- Ah! Sei... E preferes ao principe, o bello cadete noviço do paço de Queluz...

-- Queres dizer? perguntou ella muito admirada. 

-- O cadete de D. João Falperra... Do bobo... disse a outra com ironia. 

-- Do bobo... Não, Antonia... queres dizer: o protegido do senhor arcebispo. O cadete do regimento de Peniche! volveu ella com certa colera ao vêr o desprezo com que a companheira falava. 

-- Ah! Confessas então que o amas? interrogou Antonia de Castro, muito apressadamente. 

-- Não... Não confesso cousa alguma! replicou a outra. 

-- Oh! Mas o fogo com que o defendes!... Sua Alteza continua a olhar... insistiu ella, voltando disfarçadamente a cabeça para o lado do principe. 

Ia retorquir-lhe mas a missa terminava, soavam de novo as vozes dos cantores, a familia real, retirava-se por entre saudações para os seus aposentos. 

O principe collocou-se a distancia olhando ainda a açafata e foi necessario que a esposa lhe tocasse no braço para o arrancar á sua contemplação, dizendo-lhe: 

-- Senhor... Vossa mãe já saiu... É a nossa vez!... e ella erguendo com orgulho a cabeça, como se fosse já a rainha, recebia a mão que o principe lhe estendia e saíam ambos da capella. 

A etiqueta a mais rigorosa estava estabelecida, os fidalgos não cediam os logares que lhes competiam pelo seu grau de nobreza no sequito real e iam caminhando com grande gravidade, deixando passar o arcebispo que irreverentemente atravessava o cortejo. 

No grupo das açafatas curvavam-se cabecitas gentis ante os altares. 

D. Maria da Penha, muito abstracta quasi não ouvia as palavras da companheira, a constante insistencia de D. Antonia de Castro, acerca do amor do principe. 

Atravessavam as arcarias, muito ruidosas, gargalhando, fallando dos escandalos da corte com risadinhas abafadas, todas ellas cheias de mocidade e de viveza e apenas, a joven loura, como meditativa caminhava um pouco affastada das companheiras em cujo grupo se mettera D. Antonia, exclamando: 

-- Já repararam na tristeza da loura Circe... 

Olharam todas, a joven que se designava por aquelle nome e abafavam risadas nas plumas das ventarolas, contemplando-a com ares trocistas, ao ouvirem outra a bradar: 

-- Tem no coração algum amor impossivel! 

-- Que se faça monja! gritou um diabrete vivo e alegre, de grande penteado e rosto mimoso. 

-- Oh! Clarisse monja... E os raptores!... 

Novas gargalhadas se ouviram entre o bando que passava n'este momento a alguma distancia d'uma das pilastras e onde se escondia um vulto d'homem que, ao vel-as se sumia na face opposta da columna, fixando a joven que caminhava a alguma distancia. 

Passava meditativa como sempre, muito bella no seu vestido branco bordado, o pescoço nu, caminhando com donaire fidalgo e estremecendo ao ouvir uma voz muito terna dizer-lhe: 

-- Bons dias, gentil senhora! 

-- Vós, senhor? exclamou ella, entreabindo os labios n'um sorrido doce ao reconhecer Vasco de Miranda, agora vestido no seu soberbo uniforme de cadete, que assentava bem á sua figura esbelta. 

-- Eu sim, minha senhora, eu que vos sollicito uns momentos... 

-- Oh! Se nos vissem... Vão ali as minhas companheiras... 

-- Que dizem ter v. ex.ª um amor impossivel no coração!... disse o joven com um sorriso. 

-- O que?... Ellas fallaram... 

-- Da loura Circe... replicou elle, continuando: 

-- Da loura e admiravel senhora de cuja mão caiu a primeira flôr que andou sobre o meu coração! 

-- Senhor! bradou a joven fazendo-se vermelha e dispondo-se a retirar ao vêr que o bando das açafatas já ia distante. 

-- Um instante apenas... Supplico-vos... exclamou o cadete n'um ar de humildade. 

Ella, muito vermelha, de peito a arfar-lhe no vestido, deveras 

presa aquelle logar, volveu: 

-- Então esta noute, amanhã... 

Dae-me uma esperança, peçolhe... Oh! Não deixei de pensar em vós desde aquelle momento em que me falaste, em que me atiraste alegremente essa flôr que se perdeu nas ondas... 

-- Ah! Nas ondas?... Correste então um perigo? interrogou 

ella deveras sobresaltada, encarando-o com grande interesse. 

-- Não... não... Falemos de nós... de vós... gritou o joven n'um grande arrebatamento ao vêr que elle se interessava pelos perigos a que estava sujeito. 

-- Mas que quereis de mim, senhor... senhor... 

-- Vasco de Miranda!... replicou elle. Que vos quero senhora?... Oh! Uma palavra de esperança ao meu amor! 

Então a joven como esquecida de tudo, n'uma abstracção, feliz e contente ao ouvir a declaração que sahia dos labios d'esse mancebo amado desde ha muito em segredo, disse na sua voz argentina: 

-- Senhor Vasco...

-- Falae... Dizei-me tudo... Peço-vos... e olhava-a com infinita ternura. 

-- Pois bem, senhor de Miranda, esperai-me d'aqui a meia hora no terraço do Jardim Botanico... Falar-vos-hei durante uns momentos...

-- Chamae-me antes, Vasco...

-- Sim... Vasco... Esperar-me heis não é assim? e ella muito ruborisada affastava se de corrida emquanto elle bradava: 

-- Oh! É linda... É um anjo...Mas, e eu que não lhe sei o nome... Que louco!...

Fez um gesto, sorriu-se de contentamento e saindo pelas arcarias foi em direcção ao pateo das cosinhas a distancia do qual se erguia o Jardim Botannico. 

Chegou á porta que empurrou levemente e penetrou n'uma rua areiada por sob as arvores, vendo os canteiros cobertos de flôres que perfumavam o ar e dirigindo-se para o terraço de marmore por onde pullavam os aloés, o heliotropo e geranios nas ruas em talhões bem cuidadas perto dos malvaiscos as das figueiras da India, e das pimenteiras de bagas côr de coral cahidas em pingentes d'um cheiro activo. 

Ali perto tres fontes jorravam agua, as acacias flôriam, avistava-se o Tejo e os terrenos de Memoria onde onde se prepetrara annos antes a tentativa dos Tavoras contra D. José I. 

Ficou ali olhando a vastidão dos terrenos, encantado sob o bello céu azul, o coração palpitante de jubilo ao recordar-se d'essa mulher formosa que estermecia. 

No seu cerebro passavam rapidas as ideias, acastellavam-se planos, forjavam-se grandes lances, desejava uma guerra onde se tornasse celebre para depois offerecer o seu nome á gracil menina. 

Estalava no ruido de passos a areia do jardim e um vulto appareceu por entre as arvores, caminhando com precauções, como se procurasse alguem. 

Vasco de Miranda, immerso nos seus pensamentos não ouviu aquelle ruido; continuava contemplando o rio e misturando os seus sonhos com a realidade.

Ouviu-se então uma voz, que o fez voltar rapidamente ao exclamar: 

-- Aguardavas-me ha muito tempo. Desculpae-me...

-- Oh! Senhora... Não sei o tempo que vos esperei... Estive pensando em vós, sentindo o coração palpitar no mais ardente dos amores e as horas podiam decorrer que seniir-me-hia feliz... Oh! Esperava-vos era o bastante, sabia que vinheis e isso dominaria todas as impaciencias...

-- Como sois amavel... murmurou a joven baixando a cabeça. 

-- E serei amado?... interrogou o cadete, n'um tom alegre e sorrindo á joven, que volveu: 

-- Que outra prova desejais... Não accedi á vossa entrevista?... 

-- Oh! senhora... Como as vosas palavras me tornam feliz... exclamou elle. 

Mas dizei-me o vosso nome! pediu n'outro tom, continuando logo: 

-- É sempre tão agradavel murmurar o nome da pessoa que se adora...

-- Maria... disse ella muito baixinho. 

-- Oh! Como a Virgem... volveu elle, esboçou um sorriso e fez-se vermelho ao recordar-se da antiga profissão que a joven lhe lembrava n'um tom satisfeito. 

-- Oh! parece que vos estou vendo, ainda nos habitos de noviço, atravessar a quinta de Queluz, muito preoccupado, como se  procurasseis o caminho do céu...

-- E achei-o apesar de não ser esse o meu pensamento...

-- Como, achastes...

-- Sim... O caminho do céu é o do vosso coração...

Ella corou e de seguida disse: 

-- E que succedeu áquella rosa que vos dei? 

-- Perdi-a é fiquei louco de desespero... Foi no mar quando me dirigia ao convento... A embarcação voltou-se em virtude d'um plano formado por um miseravel contra mim e caí nas ondas n'aquella noute de tempestade...

-- Ah! E como vos salvastes?... interrogou a açafata da rainha, muito commovida. 

-- Vinham n'um barco alguns homens que me recolheram...

E por fim travei conhecimento, tornei-me mesmo um grande amigo de D. Pedro de Portugal que era o dono d'aquella embarcação...

-- O conde de Assumar? interrogou ella... Foi nomeado alferes do regimento de Peniche. 

-- Sim, com Gomes Freire... Conheceis aquelle fidalgo? 

-- Não... Mas conheço alguem que o ama muito...

-- Talvez D. Henriqueta da Cunha... 

-- Sim, a filha do conde de S. Vicente! 

-- Meu Deus... Que alegria... Como vamos ser felizes todos... 

-- A felicidade d'elles?... Oxalá que seja immensa... Mas Henqueta duvida...A familia oppõe-se ao seu enlace...

-- Ah! E vós tendes familia, senhora? interrogou elle tambem n'um sobresalto que a fez rir, respondendo: 

-- Apenas uma velha madrinha...

-- Ah! E não se opporá a que vos ame? 

-- Ella!... Oh! É muito minha amiga D. Mecia de Noronha, assim como o seu filho D. Ramiro...

-- O quê? D. Ramiro de Noronha? perguntou elle, cheio de espanto. 

-- Sim... Conheceis tambem? 

-- Oh! Não... não conheço esse fidalgo! replicou Vasco, fazendo-se muito pallido. 

-- Julguei... Oh! o pobre senhor tem soffrido muito... Foi victima d'um duello... Ah! Mas agora me lembro... Comum cadete do vosso regimento...

Vasco de Miranda, deu um salto para traz e fixando a joven aterrorisado, interrogou: 

-- E como se chama esse cadete? 

-- Ah! Eis o que o senhor D. Ramiro ignora... Viu o apenas n'aquella noute...

-- Ah! E já está melhor, o filho da vossa madrinha?...

-- Sim... Já vem á côrte... respondeu ella. 

O cadete desejoso de mudar de conversação, dizia-lhe: 

-- Mas falemos de nós, Maria... Diga-me, está disposta a corresponder ao meu grande affecto, a este amor que lhe dedico, não é assim? 

-- Sim, Vasco...Amo-o desde aquella tarde em que o vi passar... Não imagina a alegria que de mim se apossou ao saber que não era noviço mas sim militar... D'então para cá pensei muito em si e hoje...

-- Oh! Maria... Minha querida Maria! exclamou o joven apertando-lhe as mãos com grande ternura, ficando-se uns momentos olhando o rosto formoso da joven que lhe dizia: 

-- Vasco... Vasco... deixe-me!... e soltava lentamente as mãos ficando a sorrir-lhe. 

Por entre as acacias, dois olhos espreitavam a scena, e uma mulher pallida, nervosa, sibillava n'um murmurio por entre os dentes cerrados: 

-- Oh! Amam-se... amam-se... Eu bem o sentia... Oh! que rival para sua Alteza! 

Era aquella açafata que estivera durante a missa conversando com D. Maria de Penha e que lhe chamara a attenção para os olhares do principe do Brazil. 

Assistia a tudo aquillo desde ha instantes, rancorosa, o rosto moreno transtornado, toda n'um tremor convulso ao vêr que elles tomavam logar num banco do terraço e ficavam assim conversando a meia voz. 

O cadete n'um tom apaixonado, dizia: 

-- Não duvide, Maria... Amal-a-hei sempre... Oh! Sempre... Foi para mim como um complemento á vida... Sou feliz com o seu amor... Hei-de tornar-me rico e considerado para lhe offerecer então o meu nome...

-- Oh! Vasco... Que importa o nome e a riqueza?... O amor é tudo para duas almas como as nossas. 

Deixaram-se ficar de mãos enlaçadas, ella sem as retirar, o peito arquejante, ao ouvir o mancebo dizer: 

-- Não imagina quanto fiquei perturbado ao ouvir uma das suas companheiras dizer que a senhora tinha no coração algum amor impossivel... Julguei perder a vida ao recordar-me que podia amar 

um outro! 

Maria, fez-se córada, e volveu: 

-- Não, Vasco... Era em si que pensava e essa mulher bem o sabia. 

-- Quem é ella? 

-- É D. Antonia de Castro, a esposa d'um desembargador...

-- E é sua amiga?... Oh! Não sei porque desconfio d'essa mulher que murmurava a seu respeito. 

Antonia estremeceu violentamente, teve um desejo louco de sahir d'ali do seu esconderijo apresentar-se á frente d'ambos, dizer-lhes todo o odio que nutria por essa D. Maria de Penha a quem o principe parecia amar e que recebia as homenagens d'um simples cadete. 

Recordava os motivos do seu odio, d'essa longa tortura em que se debatia desde ha dois annos, amando com todo o impeto do seu sangue ardente esse D. José que seria rei um dia, e o qual nem pensava n'ella, tendo apenas olhares para a açafata loura. 

Entrava a odial-a muito, por esse affecto, chamava-lhe sempre muito receosa as attenções para o principe, desejando vêr bem que ella não o amava, desesperando-o immenso, accusando-lhe o amor. 

Se pudesse perdel-a no animo da rainha, no da côrte, mostrar uma falta! Ella seria expulsa e então o campo ficar-lhe-hia livre! 

Por isso estremecia ante a rival e buscava ouvir tudo quanto se passava, vendo n'aquelle amor o começo da sua vingança. 

Agora D. Maria erguia-se no banco, estendia a mão a Vasco e dizia-lhe: 

-- Não devo estar aqui mais tempo! Vasco, até á noite...

-- Oh! Maria não parta assim... Diga-me ao menos quando a verei...

-- Ámanhã á noite no pateo das damas, onde resido com uma minha amiga... Estarei livre do serviço e falar lhe-hei pelas novas horas... As açafatas tem ali aposentos...

-- Irei... Até amanhã... 

E antes que ella se pudesse oppôr, o cadete, curvou-se com galhardia e depoz-lhe um beijo na mão, murmurando: 

-- Oh! Maria como agradeço o seu amor! 

Nos labios de Antonia de Castro passou um novo sorriso vingativo e ia occultar-se mais ao vêl-os despedirem-se, mas sentiu-se agarrada pela cintura e recebeu nas faces um beijo que a fez soltar um grito, ao mesmo tempo que uma voz escarninha, dizia: 

-- É a paga da tua curiosidade, minha açafata indiana... Os outros beijam as mãos eu... eu... beijo te a cara! 

E D. João de Falperra, o bobo da rainha, carateando a açafata que buscava fugir, appareceu á vista do cadete tirando com um grande gesto patusco o seu gorro e clamando: 

-- Olá, que eu pago por minha conta aos que vos espiam!... Antonia de Castro, louca de raiva, ao vêr-se descoberta, lançou um olhar terrivel ao bobo e affastou-se de corrida, emquanto este dizia para o cadete: 

-- Aprendei, sr. Vasco de Miranda, a procurar a traição e a infamia occultos em todos os reposteiros e em todas as arvores dos palacios e cercasreaes!...

-- João de Falperra!... gritou o cadete, correndo para elle. Mas o bobo soltava um grito estridulo e desapparecia por entre as arvores em seguimento do outro que já se mettia pelas veredas tortuosas da Ajuda. 

Vasco olhou a noiva que estava pallida e murmurou: 

-- Éramos vigiados...

-- Sim... Por ella, por essa açafata de que me aconselha a desconfiar!... Mas que terá ella commigo... Essa mulher!... 

Os olhos orvalhavam-se-lhe de lagrimas, e Vasco dizia-lhe com uma voz enternecida: 

-- Maria, defenderte-hei... Serei o teu noivo e o teu amigo... Oh! desafio todos!... Sou forte com o teu amor! 

E depunha-lhe na mão um outro beijo muito casto. O bobo á porta do jardim, murmurava: 

-- A traição e a infamia emboscadas em toda a parte... em toda a parte... 

Encostava-se á cantaria e nos seus olhitos pequenos fusilavam extranhos clarões, continuando o seu monologo, e exclamando por fim: 

-- Irei até ao fim... até ao fim... Vasco é meu amigo!... Oh! Amigo... Calava-se, ficava meditativo e ao cabo de alguns minutos perguntava lentamente: E é alguém amigo d'um truão!

Como resposta sentiu uma mão que procurava a sua e ouvia uma voz dizer: 

-- Ha, os que conhecem a sua bella alma! 

E o cadete sorria-lhe ao vêl-o muito admirado, transfigurada a face grotesca. 









XVIII



O pastelleiro dos arcos 







A loja era vasta, tinha um tom garrido com o seu balcão pintado de verde, os armarios envidraçados deixando ver boiões de doces e de especiarias com letreiros escriptos n'uns grossos caracteres a tinta côr de castanha. 

De dentro, d'uma divisão que se avistava do interior da casa, o tio Negraes, de grande avental branco, os braços cabelludos á mostra, movia desesperadamente uma grande pá com que batia a mistura de ovos e assucar levantando-a de quando em quando em ondas d'um amarello vivo e encolhendo  os hombros desesperado, continuava a sua faina, ali a pouca distancia do forno que se abria de bocca rubra a engulir as formas dos deliciosos pasteis. 

A nata tinha tons amarellentos esmorecidos em pelliculas, coalhada nos grandes cangirões, o mosquedo cobria as formas vasias e encostada ao balcão olhando a rua, via-se uma formosa mulher de olhos pretos e vivos na sua physionomia doce, os labios vermelhos a desafiarem beijos, os magnificos cabellos bem penteados a dominarem-lhe a cabecita insinuante, os seios turgidos comprimidos no vestido de estofo azul que lhe modelava o busto de linhas harmoniosas. 

Um rapazito mascarrado aprumava-se ao lado de mestre Negraes e de quando em quando corria ao forno a tirar as formas com uma pá de cabo comprido. 

-- Guiomar!... bradou mestre Negraes, tendo nos labios carnudos um sorriso terno para a bella mulher. Peço-te que venhas preparar a massa e polvilhal-a com a tua receita!... Anda, meu amor!

-- Por Santa Maria de Belem, senhor meu marido; deixae-me hoje com os vossos pasteis... 

-- Mas é que se trata de fornada nova! 

-- Deixae-me... Logo... D'aqui a instantes... Por agora não... Tenho mais a fazer! 

E ella erguia-se, mostrando a linha flexivel do seu corpo, e dirigia-se para um canto da loja a levantar um reposteiro por onde desapparecia, emquanto o marido gritava ao aprendiz n'um ar zangado: 

-- Ó neto do demonio... Se me deixas queimar a fornada, enforco-te!...

-- Mas, mestre Negraes... Se estou a tomar conta... lamuriava o garoto, carateando o pastelleiro. 

Elle continuava a bater a sua massa e ao cabo d'alguns momentos deixava-se cahir n'um banco, suspirava, volvia um olhar de rafeiro fiel pela loja e chamava o rapaz em tom amigo: 

-- Anda cá, Theodoro... Anda rapazote! 

-- Prompto, meu mestre!... exclamou o interpellado apressando-se a correr ao apello. 

-- Queres comer um bello talhão de marmellada das freiras á tua merenda? 

O rapaz como se lhe tivessem offerecido uma fortuna, esgarçou a bocca n'uma risada, abriu muito os olhos e exclamou: 

-- Oh! Está a brincar! 

-- Fallo verdade... Verdade como um homem que precisa de que sejam francos com elle... Ouve cá: Como foi isto de estar cá em casa o doente...Quem é elle?...Que quer dizer isto tudo? 

-- Olhe mestre: Eu estava deitado na minha cama no sótão mas ainda vi...

-- Conta... Mas fala baixo por causa da patroa...

-- Eu conto... Ah! mas deixe-me ir tirar os pasteis... gritou o rapazito correndo para o forno. Agarrava com a pá as ultimas formas, fechava de seguida a porta do forno e ia sentar-se em frente do patrão, o barrete branco enterrado até ás orelhas.

-- Fala, meu Theodoro... fala!... exclamou o burguez com novo suspiro. 

-- Eu estava no sotao e ouvi gritos na rua, seges a correr, tinir de espadas, o demonio...

-- Credo, rapaz... Não fales no inimigo sem te benzeres! O garoto seguiu o conselho e continuou: 

-- Levantei-me muito devagarinho e abri a minha fresta... E eis que vejo luzes ali no Neutral e alguns homens que paravam, emquanto os soldados pareciam procurar alguem, aqui á porta veiu cahir um vulto... Estava ferido porque gemia, e eu a tremer de medo...

-- Ah! fostes-te deitar outra vez, maldito, e não ouviste nada! exclamou o pastelleiro tomado de rancor. 

-- Não senhor... Fiquei a ouvir...

-- Ah! És um valente... Olha, eu confesso que não fazia o mesmo...

-- O patrão andava na ronda e não ouviu nada? 

-- Eu! 

-- Sim? 

-- Não... A essa hora estávamos nós a contas com tres velhas bruxas. Nosso Senhor me perdoe, ali na praia da Galé...

-- Bruxas?...Oh! E o mestre viu-as! 

-- Se as vi!... Até fui eu quem as prendeu por estarem a fazer sacrilegios! 

-- Eram feias, hein?... perguntou o aprendiz muito curioso. 

-- Feias? Horrorosas!... Olha, pergunta ao Bellarmino taberneiro... Até tinham pés de cabra... Mas conta, rapaz, conta o resto...

-- Ah! Então o vulto desatou a bater á porta sempre cahido por terra...

-- Oh! Batia? 

-- Sim senhor, como um desesperado! 

-- E tu? 

-- Eu fiquei muito quieto para escutar. 

-- E que escutaste? 

-- Depois de muito tempo, a patroa levantou-se e gritou pelo postigo: 

«-- Ah! És tu, Negraes?»

-- Coitada!... Pensava em mim... murmurou com um bom sorriso, o pastelleiro. 

-- Sim senhor... E tanto que abriu logo, exclamando: 

«-- Oh! Em que estado!... Meu Deus! meu Deus!... Que succedeu!...

-- Como é boa! Julgava então que era eu!...

-- Depois ajudou a levantar o homem e trouxe-o para dentro soltando sempre lamentos...

-- Se me julgava morto!...

-- Até a senhora dizia: «Oh! malditas rondas!... malditas rondas!...

-- Julgava que tinha sido ferido eu o capitão das rondas das ordenanças... exclamou elle com grande contentamento. 

-- Eu então vim do alto da escada do sotao para ouvir o resto... Tremia como varas verdes! 

-- Theodoro... É um grande peccado ouvir o que se passa no lar conjugal alheio! disse o burguez com gravidade, accrescentando, logo: 

-- Mas d'esta vez, perdôo-te... Porém comes menos um quarto de marmellada das freiras! 

-- Ah! Se julgava que era o patrão...E eu queria logo ir á botica, chamar o senhor physico...

-- Mas então não me julgavas morto?...

-- Não senhor porque andava encostado ao hombro da patrôa que levava o candieiro! E mesmo que estivesse morto eu podia ir chamar o senhor leigo!...

-- Hein! gritou o pastelleiro muito sobresaltado, tornando-se livido. Minha mulher levava um candieiro... Mas então via que não era eu!...

-- Não sei, patrão...Apenas ouvi depois que ajudava a Maricas, a moça creada, a despir o ferido e que o metteram na cama!

-- Hein! Minha mulher!... Tens bem a certeza?...

-- Eu não vi... Mas se elle está na cama...

-- Ah! Isso foi a creada... Minha mulher é muito séria... E tu diabrete d'uma figa, para pagares a tua mentira comerás apenas meio quarto de marmellada! 

O garoto fez uma careta, muito zangado e teve um tregeito d'amuo ao ouvir o patrão, dizer: 

-- E não ouviste mais nada? 

-- Só depois do patrão vir e da senhora não o deixar entrar no seu quarto, de o patrão pedir explicações...

-- Oh! Patife... Não comerás nada porque estiveste escutando... Ora o miseravel! 

-- E ouvi que a senhora falou muito com elle no dia seguinte e tratavam de senhores fidalgos! 

-- Hein, de fidalgos!...

-- D'um senhor conde...

-- Oh! Tenho um nobre em minha casa! Talvez o proprio marquez de Marialva... Ouve, Theodoro, farás todos os dias dois dos melhores pasteis para esse fidalgo...

-- Que é rico que eu sei cá. 

-- Mas como sabes tu isso?...

-- Ó patrão eu queria já a merenda! retorquiu o garoto com olhos gulosos para a marmelada. 

Mestre Negraes arregalou os olhos, carregou a physionomia e volveu: 

-- Depois... Depois... Agora conta o resto...

-- É que elle dá dinheiro á senhora para os remedios e tem um fato muito bonito... 

-- Tu já viste?... Mas como? 

-- Do meu quarto... Tenho uma fenda no soalho...

-- Oh!... És um grande homem! Um valente... Podes comer a marmellada que quizeres!... bradou elle deveras alegre, continuando: 

-- Ouve, Theodoro... Tu vaes ficar na loja, cobres a massa dos pasteis, eu vou para o teu quarto e se a patrôa perguntar por mim, dir-lhe-has que o mui-alto e poderoso senhor marquez d'Angeja me mandou chamar ainda sobre a questão do rapto da monja!... Entendes? 

-- Sim, patrão, bradou o rapazote deveras satisfeito com a ideia do pastelleiro que correu a vestir a sua farda de capitão das rondas das ordenanças. 

Transpunha a porta e voltava d'ahi a momentos, metiido na farda verde, a espada batendo-lhe nas volumosas barrigas das pernas cambaias, na cabeça o chapéu tricorne com franjas de prata. 

Punha o dedo nos labios a indicar silencio ao aprendiz e depois pé ante pé ia dirigir-se para a escada que conduzia ao andar superior. Mas sentiu-se agarrado de repente por um braço e ouviu uma voz de agradavel timbre, mas que o sobresaltou, exclamar: 

-- Onde vaes n'este trajo, senhor meu marido? 

E perante o pastelleiro aterrorisado appareceu o vulto elegante da esposa, tendo nos labios um amavel sorriso. 

-- Mas... Mas... titubeou elle com certo receio. 

-- Não diga mais! Sei que vae sair? 

-- Mas... 

-- Vá, saia...Nunca tenho o gosto de o vêr com a sua farda atravessar a rua durante o dial... exclamou elle d'um modo ironico. 

E o pobre homem ficava ainda parado em frente d'ella murmurando: 

-- É que... tinha um negocio com sua excellencia, o senhor marquez d'Angeja, mas não é urgente e já mudei de intenção... 

-- Oh! Negaes...Por cousa alguma do mundo se deve fazer esperar um fidalgo como o sr. marquez! volveu a mulher com certo pasmo. 

-- Sua excellencia desculpar-me-ha!...

-- Ora... Com que então já mestre Negraes, pastelleiro dos arcos de Belem e capitão das rondas, se atreve a fazer esperar debalde os senhores ministros?... Vá procedendo d'esse modo e depois se lhe tirarem a sua patente e o obrigarem a andar de chuço ao hombro servindo sobre as ordens do Bellarmino ou do Alfredo alveitar, queixe-se... Venha depois para que eu peça de novo ao senhor conde de Villa Nova e verá o que lhe respondo...

-- Mas... Se te digo... atalhou elle gesticulando muito. 

-- Sim... Mas eu é que não quero ouvir cousa alguma... Julga acaso que terei muito prazer em passar de esposa do capitão da ronda para a d'um vulgar e reles miliciano?! gritava a mulher em grande berreiro, empurrando-o para a porta, fazendo-o transpor o balcão e não querendo ouvir o marido, que dizia: 

-- Guiomar... Querida... Ouve... 

-- Qual?... Nem mais um momento... Vá fallar ao senhor marquez!...

Por fim o pastelleiro com um ar resignado, sentindo bem ter caído na sua propria armadilha, ia transpor o limiar, porém detinha-se um pouco esperançado ao ouvir a esposa dizer-lhe novamente: 

-- Na realidade não sei onde tem hoje a cabeça, senhor!... Pois vae a casa do senhor marquez e não lhe leva o seu costumado quarteirão de pasteis? 

-- Tem razão... tem razão... volveu elle machinalmente. 

A joven esposa do pastelleiro correu então a buscar uma bandeja que enfeitou com diversos papeis e collocou geitosamente, com symetria os pasteis que mostravam um pequeno lago tostado e coalhado de boa nata, cobriu tudo com uma toalha alvissima e entregando ao marido, gritou: 

- Vá e não se esqueça de perguntar pelas melhoras do senhor vice-rei!...

-- Guiomar... Guiomar... murmurou elle com a voz embargada na garganta, emquanto a esposa, gritava: 

-- Por Santa Maria... Ide rapido! 

Affastava-se na rua muito cabisbaixo obedecendo á mulher que ao vel-o partir entrava novamente na loja, dizendo ao aprendiz: 

-- E tu, meu demonico, sabes que te arranco as orelhas no dia em que tiveres a negregada ideia de informares teu amo do que se passa em casa... Do contrario, se fores bom para mim e não tagarelares comerás os pasteis e as amendoas que desejares.. E agora vela pela loja! 

O garoto ao vêr a patrôa dirigiu-se rapidamente para o interior da casa, lançou-se com denodo sobre uma bandeja de marmellada que começou comendo com grande semcerimonia. 

Ella entrava no quarto onde estava o homem que para ali entrara n'uma noute. 

Acercou-se do leito com certo cuidado e debrucou-se muito levemente a analysar o pobre ferido que abriu os olhos sorrindo-lhe n um ar de gratidão. 

E a formosa pastelleira contente com aquelle sorriso, exclamou: 

-- Tomareis agora o vosso copo de vinho da Companhia...

-- Nao... não... Desejo apenas sair d'aqui!... gritou o joven doente, erguendo a cabeça e mostrando o rosto pallido pela perda de sangue. 

-- Então senhor Joannico, peço-vos, supplicou com o mais agradavel dos modos, a mulher de Negraes. 

-- Ah! É que não posso ficar aqui uma vida inteira! insistiu elle continuando: 

-- Agradeço muito os vossos cuidados, todo o bem que me fizestes, porém agora e a minha vez de tratar dos meus interesses... 

-- Oh! Estaes ainda tão fraco...disse ella com certa pena contemplando-o melancholicamente e buscando aconchegar-lhe a roupa da cama com as suas maositas brancas de enfermeira caridosa e dedicada. 

-- Guiomar... perdão, senhora Guiomar...juro-lhe que me sinto bem! assegurou o creado do conde de Assomar sorrindo á joven, que volveu: 

-- Eu sei... Desejaes sair d'aqui para irdes assim n'esse estado salvar alguem em que falastes muito durante o vosso delido...

-- Eu? exclamou elle com admiração. 

-- Sim... Vós proprio... volveu Guiomar n'um enternecedor olhar que o Joannico não quiz observar, replicando: 

-- E de quem falava eu? ...

-- D'uma mulher á qual chamavas todos os nomes carinhosos falando ao mesmo tempo da Inquisição... 

-- Da Inquisição...Oh! É a Chiquita! Sim é a Chiquita... É necessario que me levante e corra em seu soccorro... bradou elle n'um impeto sentando se rapidamente no leito. 

Então a mulher do pastelleiro no seu tom carinhoso e amigo, tornou: 

-- Oh! Mas estaes ainda muito fraco...

-- Isso cousa alguma quer dizer! Um pouco de ar do rio, duas goladas do verde, não do vinho fino que é bom para fidalgotes, e duas costelletas bem regadas e estou bom...

-- Pela vossa devoção deixae que parta...

-- Oh! Estaes aqui ha apenas quinze dias! 

-- Quinze dias... Oh! E durante todo este tempo, meu amo sem ter noticias minhas... Mas o peor é a Chiquita encarcerada. 

Guiomar fez-se pallida ao ouvir repetir o nome da cigana e n'um ar de desafio, com arrogancia vibrando extranhamente interrogou: 

-- Ah! E porque foi presa essa rapariga? 

-- Por estar na nossa companhia... volveu elle com naturalidade. 

-- Pequena é a culpa...Mas onde se encontravam? 

-- Onde? 

-- Sim... 

-- No Neutral...

-- Ah! Áquella hora da noute... Uma mulher... Eis ao que se expõem... Ou Santa Margarida de Crotona <marca num="*" pag=194> ou então os carceres da Inquisição... Ah! e interessa-se muito por ella não é assim?... interrogou depois como anciosa.



<nota num="*" pag=194> Recolhimento das mulheres perdidas no edifício onde está hoje a Cordoaria Nacional. </nota>





 

Elle não lhe respondeu logo, encarou-a com mostras d'uma grande amisade e volveu: 

-- O bastante para desejar a sua salvação...

-- N'esse caso parta! bradou Guiomar n'um tom de voz extranho, suffocada. 

O creado d'Assumar não pronunciou mais palavra, esperou que ella saisse e começou a vestir-se com grande pressa, murmurando: 

-- Oh! Ainda chegarei a horas? Não estará já morta?... Meu Deus!... Foi terrivel este ferimento!...

Relanceava a vista pelo quarto procurando o chapéu que encontrou collocado com cautella sobre uma cadeira e de seguida dirigiu-se para a porta, ainda monologando. 

Na sua frente viu a mulher do pastelleiro que o olhava do mesmo modo triste, dizendo-lhe: 

-- Senhor Joannico, não se esqueça ao menos d'esta casa, nem dos amigos que aqui tem...

-- Oh! Guiomar... E acaso posso esquecer o carinho com que me tratou. A mim... a um extranho... correndo o risco de se indispor com seu marido por minha causa! 

-- Não... Cumpri apenas o meu dever! 

-- O seu dever? 

-- Sim... Tinha á minha porta alguem que carecia de soccorro e prestei-lh'o da melhor vontade...

-- Ah! Faria isso ao primeiro? interrogou Joannico embora a seu pesar. 

E ella com ficticia tranquillidade volveu: 

-- Inteiramente! 

-- É grande a sua alma, é bello o seu coração!... exclamou o rapaz atirando-lhe aquelle elogio com certa reserva. 

Depois estendeu lhe a mão e atravessando rapidamente a loja ante o pasmo do aprendiz, meiteu-se pelos arcos em direcção ao mosteiro de Belem. 

Guiomar corria para o seu quarto dcixava-se cair sobre uma cadeira e chorando com desespero, murmurava: 

-- Oh! Sei tudo... Ama a cigana... Ama a feiticeira! 

Ficava assim durante tempo a meditar n'aquelle amor do gentil creado do conde, emquanto o crepusculo caia lentamente. 

Mestre Negraes entrava na loja e berrava para o aprendiz, deveras irado! 

-- Accende o candieiro, patife! 

E o garoto cumpria a ordem pegando fogo na torcida do enorme candieiro de latão cuja luz illuminando os utensilios, tirava scentelhas dos boiões de doce. 

E o capitão da ronda murmurava: 

-- Oh! seis quartos da minha melhor marmellada aos anjinhos da Senhora do Cabo se o doente sair de minha casa!... Ha que tempo não beijo, minha mulher! 







XIX 



O mensageiro 





Elvira de Mello, recostava-se languidamente na poltrona e conversava com o conde d'Assumar, tendo na physionomia uma expressão do mais intenso jubilo, ao exclamar: 

-- Ah! Vejo agora, conde, quanto os meus pensamentos me enganavam! Já não quero acreditar nos presentimentos! Ainda hontem me julgava tão desgraçada e hoje considero-me bem feliz...

-- Tinha-vos assegurado isso mesmo, senhora! volveu D. Pedro, olhando-a com certa amizade e continuando: 

-- Gomes Freire volta e para a fazer sua esposa... É elle o portador do consentimento de sua mãe que já está restabelecida d'essa doença que tanto demorou o meu amigo junto d'ella...

-- Oh! Chegará pela madrugada...E partiremos dentro em dois dias... Do nosso cantinho da provincia abençoal-o-hemos sempre conde. 

-- Oh! Senhora... Apenas o dever d'amisade paternal que me une a Gomes Freire, me incitou a auxilial-o... Quem sabe se um dia não terei de exigir do vosso noivo egual serviço. 

-- O quê? acaso o conde de S. Vicente pensa em recolher sua filha n'um convento! 

-- Sim, minha senhora... Henriqueta estava desolada a ultima vez que lhe falei...

-- Mas... Meu Deus... Meu Deus... Sendo ambos ricos e nobres, amando-se...

-- Ah! É que existe a lucta entre as nossas familias... Vós ides ser feliz, senhora, gosar todas as alegrias do amor ao lado do homem que o vosso coração escolheu... Eu terei que luctar ainda muito tempo!... E no emtanto rejubilo com a vossa felicidade, com a do meu camarada Gomes Freire. 

-- Como lhe deve ficar bem a sua nova farda de alferes... disse ella a meia voz como envergonhada, accrescentando logo: 

-- Parece que a benção de sua mãe nos trouxe prosperidades! Como vou ser feliz em conhecel-a! ...

-- Ah! É uma bella senhora, formosa ainda apezar dos annos e que vos ha-de amar como filha... A condessa é extrangeira, d'uma educação completa e tem uma alma de ouro...

-- A condessa? Então minha mãe...a mãe do meu noivo...

-- É filha dos condes de Chasegoch, fidalgos da primeira nobreza da Bohemia, casou com o pae de Gomes Freire, então ministro plenipotenciario na Austria onde falleceu, partindo ella para o reino a iniciar seu filho na carreira das armas, querendo fazer d'elle um heróico official que continuasse as tradições da familia, um grande coração prompto a sacrificios pelos amigos e pelas causas justas! disse D. Pedro de Portugal. 

E D. Elvira, exclamou: 

-- Oh! E conseguir, ambas as cousas não é assim, conde? 

-- Sim, conseguir, senhora... O homem que vae ser vosso esposo é um dos officiaes de mais futuro em Portugal...Ainda o dizia outro dia o conde de Lippe a meu pae n'uma rennião em casa do Angeja! 

-- Ah! Conde, é tão bom ser feliz ao cabo d'umas desgraças.. É como repousar ao fim d'uma longa jornada...

-- Sim, a felicidade, como eu, a ambiciono, sobretudo no amor! 

-- E não vae vêr hoje a sua noiva, conde? interrogou D. Elvira a interessar-se nos amores dos fidalgo, que volvia: 

-- Não, senhora... Hoje coube a vez a Vasco de Miranda... replicou o conde com um bom sorriso. 

-- Vasco de Miranda!... Ah! Já lhe chegou tambem a vez de amar? 

-- Desde o dia em que recebeu a sua nomeação... Adora uma bella açafata da rainha!... Deseja apenas conquistar as suas dragonas de tenente para a tornar sua esposa... A esse tempo já Gomes Freire e eu devemos ser capitães...

-- Oh! Quanto elle me tarda! exclamou a joven indo á janella com se esperasse vel-o apparecer a subitas. 

Porém o conde dizia-lhe com certa complacencia: 

-- Descançae senhora... Elle virá pela madrugada apenas...

-- E far-me-has companhia até então? 

-- Sim, minha senhora... Tenho sempre o maior prazer na vossa presença! 

-- Por Deus, conde, deveis descançar... na realidade não sei como agradecer-vos tantas amabilidades... 

-- O dever de cortezia de que todo o bom fidalgo se deve prezar, ordena-me que vos acompanhe... Falaremos d'elle, d'esse amante tão querido para nós ambos e o tempo passará rapido e dentro em algumas horas Gomes Freire estará ao vosso lado...

Ella ia responder-lhe mas n'este momento a porta abriu-se e a creada appareceu, curvando-se a annunciar: 

-- Está ali um frade capucho que deseja fallar ao sr. Conde... 

-- A mim? A estas horas? Oh! que succederá? Perguntae-lhe se é urgente o que tem a dizer-me, ou se percisa apenas de pousada? 

-- Parece que vem da parte d'alguem. 

-- Oh! Quem será? 

-- Talvez da sua noiva... disse D. Elvira a interessar-se pelo fidalgo. 

-- Tem razão, senhora, e se m'o premitte...

-- Pois não, conde... assentiu ella ao vêl-o sair do aposento e reclinando-se na poltrona. 

Então deixava voar a sua imaginação de mulher amante e casta atravez do paiz dos sonhos, onde encontram sempre a imagem do homem amado a sorrir-lhe docemente, sentia-se palpitante de amor nos seus braços que a apertavam, vivendo ambos no interior do lar que iam constituir e sorria a bella dama, ao vêr approximar-se a sua felicidade eterna. 

Desde que fosse a esposa d'elle, causa alguma teria a receiado cardeal que não os preseguiria, e julgando não ter outros inimigos comprehendia o seu viver futuro levada n'uma corrente de ideias consoladoras. 

Mas o conde voltava e entrando rapidamente na sala, dizia com certa tristeza: 

-- Senhora, acabo de receber uma terrivel noticia... 

-- Conde... Assusta-me!... gritou ella pondo se rapidamente de pé e fazendo-se immensamente pallida. 

-- Sim, minha senhora... Ha pouco quando lhe dizia que a minha felicidade retardava parecia obedecer a um presagio...

-- Oh! Mas que succedeu? Conde, meu amigo, fale? supplicou a noiva de Gomes Freire, cheia de susto. 

-- É que Henriqueta envia-me o reverendo capucho a participar-me...

-- O quê? Alguma terrivel má nova já m'o disse...

-- Sim... carece de falar-me esta noute sem falta e o meu coração adivinha um terrivel perigo...

-- Talvez a ida para o convento, aventou D. Elvira com certa piedade. 

-- Eis o que me lembra ou então alguma cousa ainda mais terrivel... Henriqueta falar-me-ha até da janella do seu quarto na impossibilidade de descer ao jardim... É o que deprehendo das palavras d'esse frade que vem mendigando pelos caminhos e que a encontrou na estrada de Caxias á sombra das arvores com a aia que a vigia... 

-- Ah! E supplicou-lhe ...

-- Sim, a pretexto de lhe dar esmola acercou-se d'elle e disse-lhe: 

-- «Meu irmão... Por tudo que ha de sagrado no mundo passae na Cruz Quebrada no palacio d'Assumar e se ahi encontrardes o senhor Conde pedi-lhe que venha hoje ver Henriqueta da Cunha...Trata-se d'uma questão terrivel... Dado o caso de elle ahi não se encontrar procural-o-heis no palácio d'Alorne na cidade...» Elle cumpriu a missão...Com o dinheiro que recebeu da sua mão alugou o bote que o conduziu aqui e o levaria a Lisboa se não me encontrasse. Assim dei-lhe pousada por esta noute. Já vedes, senhora, que sou forçado a partir... Desculpae... Voltarei breve! 

-- Conde... Vá... E oxalá que encontre a sua noiva mais feliz do que ao encontrar esse frade... Resarei por vós e por ella, pedirei a Deus que os torne bem telizes! Oh! Mas parta, conde, não se demore! 

O fidalgo deveras perturbado inclinou-se mais uma vez diante d'ella e exclamou: 

-- Mas ides ficar só com os creados...

-- Pedirei a esse bom frade que me acompanhe...

-- Ah! Fazeis bem n'isso, senhora... Tanto mais que lhe devo gratidão...Gomes Freire estará aqui dentro em pouco e eu voltarei ainda para abraçal-o...

-- Adeus, conde!... Oh! Gomo desejo a vossa felicidade... 

-- Obrigado senhora... Obrigado, querida irmã e premitta que lhe chame assim pois será a noiva de Gomes Freire a quem amo com um verdadeiro affecto fraternal!... Até á vista!...

E o fidalgo saiu de corrida ao passo que D. Elvira caía de joelhos a orar pela felicidade d'aquelles amantes cuja vida d'angustias conhecia pela sua. 

Ficou assim durante algum tempo invocando sempre fervorosamente o auxilio divino. 

Por fim ouviu-se á porta uma voz pausada exclamar: 

-- Concedeis-me licença, minha piedosa senhora? 

-- Ah! Entrae reverendo... volveu ella acabando a sua prece e erguendo-se a indicar um logar ao capucho. 

Era um homem baixo, atarracado, de semblante tristonho, os olhos encovados, no fundo das orbitas e agora aguardava que a dama tomasse o seu logar. 

Depois ao vêl-a sentada, deixou-se cahir na cadeira e disse na sua voz grave e monotona: 

-- Oraveis, não é verdade, senhora? 

-- Sim, meu padre, orava pela felicidade d'essa pobre menina. 

-- Meu Deus! Como me pareceu triste...Como me incumbiu da sua missão chorando...

-- E vós, meu padre, fosteis bom porque a soccorrestes...

-- E não é nosso dever consolar os tristes? volveu elle com doce intonação na voz. 

-- Sim, meu padre, mas nem sempre os tristes encontram no seu caminho quem os comprehenda! 

-- A misericordia de Deus é infinita e põe sempre ao lado dos que oram com verdadeira fé, o remedio para os seus males, minha boa senhora! 

-- Quanto se soffre por esses palacios dos grandes da terra!... exclamou o capucho com os olhos em alvo, na mais seraphica das attitudes. 

-- Mais do que nas cabanas, muitas vezes! 

-- Quasi sempre... Principalmente n'estes tempos em que tão accesos andam os odios nas familias!... A maldade impera!...

Ella ouvia-o admirada do seu ar de verdadeiro crente, olhava-o com curiosidade habituada como estava a encontrar sempre entre os frades a glutoneria mais do que a verdadeira fé. 

-- A maldade, reverendo, vae progredindo... 

-- Tudo em desconto das nossas culpas se deve soffrer... Ainda ha tempo fui roubado por uns salteadores e apesar da minha humildade, dos seus labios saíam insultos para mim... Julgaes que me indignei? Não, minha bondosa senhora, vi ali um castigo aos meus numerosos peccados...

-- Oh! O reverendo um peccador! Permittei que não vos acredite! 

-- Senhora... Peccador embora arrependido e todo o peccado tem o seu perdão quando o que o commette se arrepende a tempo! 

-- Assim é, meu padre... 

N'este momento ouviu-se sob a janella um silvo estridente subindo da praia. Os olhos do frade relampejavam e a joven estremeceu ante aquelle assobio que lembrava um signal. 

Porém aquietou-se ao ouvir o capucho continuar a ennumeração dos seus peccados, dizendo-lhe: 

-- Vós, senhora, deveis ter uma alma d'anjo como o vosso semblante... Decerto no vosso intimo nada existe a pungir-vos, no emtanto, apesar de tudo isso vê-se bem que soffreis... dizia o reverendo a insinuar-se ao passo que ella volvia com alguma confiança: 

-- Oh! E quem não soffre n'este mundo? 

-- Todos... Até os anjos que andam na terra como V. Ex.ª... tornou elle na sua insistencia a que a joven redarguiu: 

-- Oh! Os meus soffrimentos em breve vão findar...

-- Assim deve ser, visto que Deus sempre protege os bons. 

-- Tenho tambem peccados, meu padre, já vos disse... No emtanto o Altissimo condoeu-se de mim, lançou sobre a minha pessoa o seu olhar misericordioso e affastou os perigos e as dores de sobre a minha cabeça... 

-- Como o sabeis? interrogou o frade subitamente. 

E a joven admirada, encarando-o e vendo os seus olhos a faiscarem disse: 

-- Sei-o porque a felicidade vae começar para mim, meu padre! 

-- A felicidade? E a que daes esse nome? interrogou o capucho na sua voz pausada, continuando logo: 

-- A felicidade consiste acaso nas riquezas, nos bens terrenos, nas pompas, nas grandezas, nos nomes fidalgos? 

-- Não, meu padre, não... retorquiu simplesmente, a joven. 

-- Então como a entendeis? perguntou de novo, estremecendo ao ouvir repetir-se o silvo dos lados da praia. 

Ella estremecera tambem; lançou um olhar receioso pela casa e baixou a cabeça sem lhe responder. 

Mas o frade ia dizendo sempre: 

-- É no amor por um homem que a encontrareis sem duvida, não é assim? 

D. Elvira de Mello, fixou-o por seu turno e muito ingenuamente, n'um arranco, confessou tornando-se córada: 

-- Sim, meu padre, é realmente no amor que eu a encontro! 

-- Ah! E sois muito amigo de vosso esposo, n'esse caso? Não é assim? perguntou rapidamente o frade olhando-a muito envolto nas dobras do capuz. 

-- Meu esposo? Oh! eu não sou casada...

-- Tendes então um noivo? 

A joven admirada d'aquella forma porque o frade a começava a interrogar, olhou-o com attenção, estremeceu e apenas retorquiu: 

-- Sim, um noivo a quem amo e que vae chegar! 

-- Talvez hoje ainda? interrogou com certa commoção. 

-- Dentro em pouco! respondeu D. Elvira, muito franca e abertamente. 

-- Como dentro em pouco? exclamou o frade, estremecendo dos pés á cabeça e erguendo-se com rapidez ao ouvir um terceiro signal vindo da praia. 

A joven erguera-se também n'um Ímpeto, fazendo-se pallida ao vêr o capucho de pé na sua frente, clamar, n'outro tom de voz depois de a ter olhado d'um modo sinistro: 

-- E quando vos casaes? 

-- Dentro em alguns dias... tornou ella. 

E em voz tremula, sentindo-se agitada sem saber explicar a causa; e o frade acercando-se pouco a pouco da janella abriu-a com rapidez e correndo a agarrar a joven n'um salto de panthera, despindo o habito e buscando envolvel-a n'elle, bradou em voz rouca: 

-- Dentro em pouco?! Oh! Sim... sim devereis obedecer a vosso tio! 

-- Meu Deus! Mas que significa isto?... bradou D. Elvira ao vêr o frade que envergava agora o habito dos oratorianos e distinguindo na sua frente um outro homem que trepava por uma escada de corda e exclamando: 

-- Significa que sois nossa prisioneira! 

-- Mas isto é uma mtamia! Chamarei por soccorro! exclamou ella, gritando de seguida: Soccorro!... Soccorro!... D. Pedro... Gomes! Freire...

Os seus gritos estrugiram em todo o palácio, e então o recemchegado tendo no olhar uma scentelha raivosa, bradou: 

-- Descei, fr. Leoncio, e levae-a. 

Mais dois homens tinham subido a escada e vinham collocar-se junto do que dava a ordem, exclamando: 

-- Ah! Mestre Jacintho Peres, parece-me que vamos ganhar honradamente o nosso dinheiro!...

-- Descei...descei...bradou impaciente o esbirro dirigindo-se ao frade que tapava a bocca de D. Elvira, buscando ao mesmo tempo arrastal-a para a varanda. 

Porém a joven debatia-se nos seus braços musculosos e dos seus labios saíam sempre os mesmos gritos a implorar soccorro. 

O oratoriano acabava por alcançar a escada, tomava a joven pela cintura e n'um estorço começou a descer, emquanto o esbirro, gritava: 

-- Ah! Vamo-nos barricar! 

Corria para a única porta da sala que fechava rapidamente, ao passo que os outros arrastavam para ali os moveis e nos corredores do palacio se ouviam gritos, appareciam luzes, abriam-se outras janellas e os taes homens muito lestamente desciam a escada e vinham cair na praia onde aguardava um bote para o qual saltaram rapidamente. 

Agora D. Elvira abandonara-se desmaiada nos braços do frade, e a embarcação depois de receber os tres esbirros, affastava se á força de remos. 

No palacio corriam luzes d'um lado para outro, e d'uma das janellas ouvia-se a voz do senhor Romualdo, bradar: 

-- Ah! Miseraveis...Ladrões! Assassinaram a senhora!...

E apontando a espingarda que empunhava disparou-a em direcção ao barco d'onde lhe respondeu uma gargalhada escarninha. 

Pelas salas do palacio d'Assumar as creadas redobravam de berreiro e os servos buscavam debalde abrir a porta chapeada que os outros tinham barricado. 

Mas ao mesmo tempo ouviu-se uma voz soando n'um grito extranho e um homem desvairado de cabellos em desordem e espada desembainhada, appareceu ante a creadagem assustada, gritando: 

-- Que succedeu!... Que succedeu! 

-- Ah! Está a porta fechada... gritou Romualdo forçando ainda a porta da sala. 

Falavam todos a um tempo em volta do recemchegado, exclamando confusamente: 

-- Assassinaram a senhora!...

Então elle correu para a sala contigua, ergueu-se na varanda e com risco de se precipitar passou n'um salto para a janella dos aposentos da joven. 

Penetrou rapidamente na sala, circumvagou um olhar desesperado e soltou um grito terrivel, clamando: 

-- Oh! Miseraveis!... Miseraveis! Raptaram-na... Raptaram-na! Correu então para a porta, agarrou com furia os moveis, e conseguiu entreabril a um pouco gritando: 

-- É necessario perseguil-os...Vamos, um bote! 

De fóra empurravam a porta e entravam de tropel, Romualdo retorquiu: 

-- Não temos nenhuma embarcação... O senhor conde saiu no seu bote...

Então o recemchegado deixou-se cair n'uma cadeira onde ella se sentara mil vezes, como louco inteiramente perdido, dizendo raivosamente: 

-- Ah! Que louco e eu que vim por terra!...

Vasco de Miranda, que voltava de sua entrevista com o coração replecto d'amor, escondia o rosto nas mãos e chorava agora a felicidade do seu amigo, murmurando em voz que tocava as raias da dôr: 

-- Pobre Gomes Freire...Pobre Gomes Freire!...

E o barco ia longe levado na corrente conduzindo os esbirros que cantavam alegremente, emquanto á popa o frade amparando a cabeça da Joven, dizia a meia voz, n'um estribilho sinistro: 

-- Oh! É o começo... É o começo do poder!...







XX 



A volta do noivo 





Amorteciam pouco a pouco todos os ruidos no velho solar. A creadagem retirara-se e Vasco ficara além meditativo como se forjasse algum plano. Depois n'um impeto acercou-se d'uma das mesas que os esbirros não tinham deslocado, traçou á pressa algumas palavras n'um papel e levantando-se irado

dirigiu-se para a porta bradando: 

-- Romualdo!... Romualdo!... Mande preparar rapidamente um outro cavallo... 

O velho servo, deveras compungido, approximou-se e perguntou: 

-- V. S.ª vae sahir novamente? Oh! Meu Deus! que terrivel noute. 

-- Depressa... depressa o cavallo! ordenou elle correndo para o pateo e estacando ao ouvir o ruido das patas d'um outro cavallo que acabava de parar á porta e do qual se apeava um homem envolto n'uma longa capa e que bradava em tom alegre: 

-- Onde irás tu a estas horas e com tanta pressa, Vasco?... 

-- Gomes Freire!... bradou elle como aterrado. 

-- Sim, eu, homem, que diabo! Dir-se-hia que venho do outro mundo... 

-- Oh! Meu amigo... Meu caro amigo!... exclamou o cadete seriamente commovido. 

-- Mas que tens, que é isso?... interrogou o alferes acercando se d'elle e tomando-lhe o braço. 

-- Oh! Não posso... Não posso explicar-te... 

-- Ah! Temos negocios de amores!... exclamou Gomes Freire n'um tom animador, continuando: 

-- Porém subamos... Oh! Estou ancioso por beijar Elvira!.. 

Buscava arrastal-o pela escada de pedra, porém o cadete detinha-o por sua vez não sabendo como lhe communicar a terrivel noticia. 

Os creados acercavam-se pouco a pouco, Romualdo, de semblante compungido abafava a custo os soluços e Vasco continuava sempre a agarrar o amigo, que ao ver toda aquella gente em volta, bradou com grande commoção: 

-- Mas que significa isto?... Dir-se-hia que uma tremenda desgraça acaba de cair sobre esta casa... 

-- Sim, amigo, uma desgraça, uma grande desgraça... A maior de todas! 

-- Que queres dizer? Fala! gritou o joven official encarando o cadete. E depois como se um terrivel pensamento lhe atravessasse o cerebro, subiu um dos degraus e ia precipitar-se pela escada, quando o amigo lhe gritou: 

-- Não subas, Gomes Freire... Oh! Peço-te... não subas...

-- Mas, e porque? gritou elle já sem se poder conter trepando os degraus louco de raiva e de desespero, como inconsciente dirigindo-se apressadamente para os aposentos da noiva, seguido por Vasco que tinha lagrimas na voz ao dizer lhe: 

-- Oh! Amigo... pobre amigo! 

-- Mas que quer isto dizer? perguntou como succumbido, livido ante aquella desordem da casa, voltando-se para o cadete e interrogando-o com voz terrivel: 

-- Vejamos... Onde está Elvira? Que succedeu aqui?... Falem ou sinto que enlouqueço! 

-- Oh! Meu amigo, a tua noiva... a tua noiva... 

-- Vamos que succedeu! gritou d'esta vez totalmente desesperado. 

-- Não está aqui!... exclamou a custo o cadete. 

-- Então onde?... Como a guardaram? Tu e D. Pedro que fizeram d'ella!... 

-- Oh! Meu amigo... Um terrivel acontecimento se deu esta noute no palacio... 

-- Ah! Elvira está morta?... mterrogou elle no auge da raiva. 

-- Não... não... Foi levada d'aqui á força!... 

-- O quê? perguntou Gomes Freire aprumando-se em frente do cadete, os olhos coriscantes, todo n'um tremor a bradar: 

-- Então onde estavam os meus amigos?... É assim que a defenderam! Miseraveis!... Oh! Miseraveis!... Mas Vasco ... Oh! Vasco, explica-me tudo... Irei até ao fim do mundo para a ter de novo em meus braços, arrancal-a-hei até do meio da corte, penetrarei no palacio do cardeal e terei a coragem de largar o togo a todos os mosteiros para me vingar... Meu Deus! Ter a felicidade e perdei a assim a subitas, quando vinha contente e confiado no futuro!... Oh! É de enlouquecer! 

E como se perdesse toda a energia, deixou-se cahir n'uma poltrona, dizendo lentamente: 

-- Conta-me tudo... Ouvir-te-hei até ao fim... Preciso conhecer os meus inimigos... Fala, Vasco!... 

-- Mas, meu amigo, cousa alguma sei... Chegava de Lisboa, ouvi um ruido enorme, gritavam que uns salteadores tinham assassinado D. Elvira... E então foi o tempo de correr a este quarto, certificar-me que desapparecera e saber que uns homens a tinham conduzido n'um bote... 

-- Ah! E não os seguistes... Oh! Vasco, como tu desmereces da minha amizade! 

-- Gomes Freire... Escutae, amigo... Quiz seguil-os... Não havia, porém, embarcação... D. Pedro saíra n'ella e era impossível apanhar os raptores. Porque vieram aqui apenas por ella! 

-- Ah! E D. Pedro? perguntou o alferes cada vez mais agitado. Como se comprehende que a abandonassem assim depois de saberem o que se passa. 

-- Mas, meu amigo, o conde ficara junto d'ella... 

-- Porém abandonou-a. 

-- O senhor conde recebeu um recado da filha do senhor de S. Vicente e partiu... explicou a creada, acercando-se. 

-- Ah! E tu, Vasco... Saíras também... volveu Gomes Freire amargamente. 

-- Mas sahi muito primeiro! Cada noute ficava um aqui, hoje era a vez de D. Pedro que só por um caso de força maior sairia do seu posto... 

-- Sim, meu senhor, foi o recado da menina que lhe trouxe um frade... tornou a serva. 

-- Um frade? bradaram Vasco de Miranda e Gomes Freire n'um impeto. 

-- Sim... Ficou até conversando com a sr.ª D. Elvira logo que o senhor saiu... Foi então que se ouviu o barulho ao cabo d'algum tempo e que succedeu a grande desgraça... concluiu a rapariga dirigindo-se de preferencia a Gomes Freire que a escutava com attenção. 

-- Ah! Infames! Mil vezes infames!... bradou elle cerrando nervosamente as mãos e tendo uma grande lividez espelhada no rosto. 

-- Foi elle.... Era cumplice dos outros e serviu-se das vestes para inspirar confiança a D. Pedro. 

-- E de que ordem era? 

-- Um capuchinho... 

-- Oh! Que fazer!... Que fazer!... Vejo aqui os jesuitas mettidos na questão!... tornou Vasco de Miranda. 

-- Sim... Advinha-se o braço da infame seita... Mas juro-te, Vasco, que vou montar immediatamente a cavallo, e á hora, a que chegar á côrte mostrarei a toda essa gente que ainda ha homens capazes de morrerem dignamente insultando e ferindo todos os inimigos que tem ao alcance, na impossibilidade de conhecerem o que os alvejou! concluiu em tom colerico na maior das excitações. 

-- Mas que queres fazer? 

-- O que ias fazer a Lisboa? interrogou Gomes Freire. 

-- Eu? 

-- Sim, Vasco... Que ias fazer? 

-- Mas... 

-- Fala... Tinhas um plano? 

-- Sim, tinha... 

-- Explica-o... 

-- Tratava-se de desafiar D. Ramiro de Noronha que julgo o auctor d'esta infamia... 

-- Louco... D. Ramiro de Noronha, o effeminado fidalgo, empregado em raptar damas... Elle o que vive nas portarias dos conventos e os ronda a deshoras?... Não... O verdadeiro culpado é o cardeal! É a esse que vou exigir contas!... gritou com impeto, Gomes Freire. 

-- Tu? Mas com que direito, pobre amigo? 

-- Com o direito do amor d'ella! bradou com altivez. 

-- E esqueces o nosso sacrilegio, a condemnação que nos pesa sobre a cabeça e nos levaria á Inquisição ficando assim impossibilitados de descobrirmos o logar onde vão esconder a tua noiva aleivosa e perfidamente roubada aos teus carinhos! 

Gomes Freire curvou a cabeça ante aquellas razões, os olhos fuzilavam-lhe relampos colericos, os lábios mordia-os desesperado, estava na maior das agitações e não sabia que fazer. 

Foi então que o conde de Assumar, livido, como louco também penetrou no aposento e correu de braços abertos para o camarada, exclamando: 

-- Oh! Meu amigo... Meu irmão, foi por minha culpa!... Oh! É a maior das desgraças!... 

-- Pedro... Pedro... murmurou elle. Sabes então tudo? 

-- Sim... Romualdo acaba de me narrar toda essa scena que ouvi com o coração cheio de odio... Cobardes, affastaram-me de casa servindose para isso d'um nome que sabem ser sagrado para mim! 

-- Mil vezes Miseraveis!... murmurou Vasco cheio de rancor. Ficaram muito tempo silenciosos e por fim, olharam-se com firmeza, nos seus rostos varonis saía a chancella de maior energia, nos seus olhos a promessa tacita d'ir até ao fim. 

E a voz de Gomes Freire, sacudida, breve, quasi solemne, exclamava: 

-- Sejamos homens .. A dor deve dar-nos mais valor para arrostar com os perigos!... 

-- Sim, Gomes Freire... Tenhamos a devida coragem de soldados! bradou por seu turno Vasco de Miranda n'um arranco. 

E D. Pedro, apenas accrescentou: 

-- A todo o nosso valor e coragem é necessario juntar a astucia que é a peior arma dos nossos inimigos... 

- Bem... Sei que posso contar com a nossa amisade... exclamou o alferes, buscando serenar, mas sentindo a colera referver-lhe no peito. 

-- Com os nossos braços, gritou o cadete. 

-- Oh! Irmão e com a minha vida! exclamou o conde de Assumar, accrescentando: 

-- Não, Pedro, pela traição e pela cobardia todos são vencidos... 

-- Porém que fazer no meio de tudo isto? interrogou D. Pedro de Portugal. 

-- Procurar os raptores d'Elvira! 

-- Antes que os tenhamos encontrado daremos entrada na Inquisição... asseverou o cadete. 

-- Mas... 

-- Sim... Não somos nós sacrilegos? 

-- Sim, e estamos condemnados apesar de não nos conhecerem! 

-- Perdão... Desde hoje pelo menos somos conhecidos! gritou o conde com certa pressa. 

-- Sim, volveu Vasco. Nenhum esbirro ignora que o conde de Assumar tinha em sua casa a foragida das Salecias, que essa foragida era a noiva de Gomes Freire e que este a raptou ajudado pelo seu amigo e por mim que os quero acompanhar! exclamou o joven cadete. 

-- Tu? 

-- Sim... Eu! 

-- Mas se nada tiveste com o rapto. 

-- Desculpae, D. Pedro... A responsabilidade compreia eu com um bote á Jacques Lebon, mestre de esgrima de Sua Alteza! Vê se te recordas... Chegou o momento de saldarmos contas meu amigo... 

-- Tendes razão e partilhareis d'essa responsabilidade! 

-- E agora, meus amigos, peço-lhes que me deixem só por um momento... exclamou o alferes em tom compungido. 

E ao vêl-os sair, elle caiu de joelhos em face da poltrona onde ella costumava estar, e deixou-se ficar além na mais profunda das abstracções, como extranho a tudo. 

D. Pedro ao lado de Vasco conversavam a meia voz e caminhavam no corredor parallelo ao aposento onde o alferes se encontrava. 

-- Sabes? Estou resolvido a chegar aos últimos extremos para raparar para com o nosso amigo o mal que involuntariamente lhe causei... 

-- Compartilho a tua resolução! E necessario assentarmos um plano... 

-- Por onde principiar? 

-- A minha ideia era inutilisar esse D. Ramiro de Noronha a quem odeio instinctivamente. 

-- D. Ramiro? 

-- Sim... Já o disse a Gomes Freire! 

-- Mas... 

-- Sim... Julgo que o cardeal ao fazer raptar a sobrinha a vae entregar nos braços d'elle! 

-- Veremos... E desgraçado d'elle se assim succeder!... gritou o fidalgo no tom d'uma resolução suprema. 

-- Mas como descobririam elles onde se occultava D. Elvira de Mello? 

-- Eis ahi o grande mysterio de tudo isto... 

-- Pelo meu lado vou com Gomes Freire até ao patibulo se for necessario... gritou D. Pedro a affirmar muito a sua resolução. 

-- Não ha-de ser necessario... Porém eu como sempre compartilharei os vossos perigos... 

O alferes do regimento de Peniche, o pobre Gomes Freire, ouvia aquelle som de vozes, o ruido dos passos dos amigos, porém continuava sempre como ligado áquelle logar a pedir energia para entrar na lucta, aquelles sitios onde vivera a mulher amada. 

Ao cabo d'alguns momentos ergueu-se rapidamente e de cabeça levantada avançou para o corredor, exclamando: 

-- Ah! Agora desafio-os a todos! Á corte, aos jesuitas, ao intendente e até á Inquisição!... 

-- Juro-vos, camaradas, que saberei vingar-me! 

-- Nós te auxiliaremos!... exclamaram ambos n'um grito unisono. 

-- Bem... Parto immediatamente para Lisboa... 

-- Iremos comtigo! 

-- Seja! 

Desceram ao pateo, acordaram os creados que dormiam, mandaram apparelhar os cavallos e no momento de partida, o alferes olhou ainda aquelles logares, depois tirou do peito uma fita achada na sala onde Elvira estivera e levou-a respeitosamente aos labios, estremecendo de colera ao lembrar-se da infamia de que a sua noiva fora victima. Depois voltando-se para o conde, perguntou: 

-- D. Pedro... A corte está em Ajuda ou em Queluz?... 

-- N'Ajuda! responderam os dois amigos. 

-- Bem... É lá que me dirijo! 

-- Tu... Mas a fazer o quê? 

-- Depois veremos... 

-- Gomes Freire... lembra-te da tua condemnação... Nós deviamos marchar na frente! 

-- Não... O sacrilego deve defrontar-se com os justos! 

-- Sacrilegos somos todos nós... Iremos pois também... E a que parte da côrte? 

-- Ao gabinete do inquisidor geral!... 

Calaram-se admirados d'aquella audacia estando no emtanto dispostos a partilharem os perigos a que se ia expor o corajoso official que dizia ainda: 

-- É o inquisidor que pune os sacrilegios... Quero ver quem pune as infamias de maior monta... 

-- Acompanhar-te-hemos... 

No momento porém em que ia sair ao portão appareceu na sua frente um homem que ao reconhecel-os ao clarão dos archotes que dois criados empunhavam, exclamou: 

-- Senhor conde, senhores, boa noute! 

-- Joannico! gritou o fidalgo. Mas d'onde vens depois de tanto tempo? 

-- Venho, senhor conde, das portas da morte depois de ter escapado de entrar as da Inquisição... 

-- Também tu!... 

-- Sim, meus senhores, também eu incorri n'um sacrilegio! 

-- Bem... E como esperas salvar-te? 

-- Tenho o meu plano e por isso venho despedir-me de V. Ex.ª. 

-- Ah! Deixas o meu serviço? 

-- Sim excellencia... Seria o mesmo que me deixar apanhar pelos esbirros, o viver nos vossos palacios... 

-- E para demais quando esses esbirros os assaltam para roubar mulheres! gritou Gomes Freire cheio de rancor. 

-- O quê?... Que diz V. Ex.ª, senhor alferes? Ah! A senhora D. Elvira de Mello.

-- Sim... Ella... murmurou Vasco dirigindo-se ao seu salvador.

Então o rapaz aprumou-se, depois baixou a cabeça e n'um momento exclamou:

-- Eu não passo d'um servo mas sei o meu logar... Por isso senhor D. Pedro de Portugal, peço a V. Ex.ª para continuar ao seu serviço...

-- Concedido! disse o conde admirado.

O rapaz inclinou-se n'uma saudação e transpôz a porta. Os cavalleiros partiram a galope pelas margens do Tejo levantando nuvens de poeira.

D'ahi a momentos sentiam o mais rijo galope d'um outro cavallo e viam Joannico que se dirigia para eles. Lançaram-lhe olhares interrogativos como se quizessem saber o que o trazia. 

E o amante da Chiquita exclamou com alegria:

-- O logar do creado é atraz do amo... V. Ex.ª tem-me ainda ao seu serviço!...

Sorriam com as palavras do heroico Joannico e dirigiram-se rapidamente na direcção de Belem.

A manhã rompia agora, o sol já tingia d'ourp as cumiadas das serras.









XXI 







Os jesuitas 



A sege rodava rapidamente, aos solavancos pelas estradas tortuosas, deixando entrever pelas cortinas de couro semi-erguidas os campos que se estendiam verdes e desertos, as encostas onde manchas de malmequeres punham tons fortes como se fossem ondas d'ouro rolando pelas cumiadas até aos valles bordados de salgueiros. 

De quando em quando, um casal branco mostrava-se a distancia, apparecia o vermelho d'uma serra em rapida ondulação, mostrava-se um rebanho minusculo pelo cume d'um monte, cortava o espaço algum bando d'avesitas que iam pousar nos trigaes. 

O padre recostava-se com uma especie de bem estar nas almofadas de couro da sege e por detraz dos oculos verdes, os seus olhos cerravam se com beatitude ao calor mortificante d'aquelle meio dia; a seu lado Jacintho Peres, muito encolhido, vestido n'uma fustão novo, o espadim entre os joelhos, lançava rapidos golpes de vista para a paisagem e exclamava: 

-- Ah! fr. José Maria de Mello já estamos perto... Avisto já o zimborio de Mafra... Depois é um instante até á quinta do senhor visconde de Villa Nova da Cerveira. 

-- Sim... Mas carecemos d'enirar no convento... Aguardam-me! 

-- Estamos perto... Já se vêem as torres! insistiu o outro recostando-se ao lado do oratoriano. 

E com efFeito o monumental zimborio do convento recortava-se no espaço azul dominando a planice como um balão pardo suspenso a grande altura. Pouco a pouco ia apparecendo o muro da Coutada, emmaranhavam-se arvores, destacavam-se plantações, perfis de veados d'armações bifurcadas, esgueiravam se rapidos numa matta de pinheiros e por fim o convento patenteava-se em toda a sua grandeza magistral. 

Erecto e altivo nos pórticos cheios de columnatas e de baixos relevos, cavado de nichos, lavrado d'alto a baixo; a egreja do mosteiro entalada entre duas altas torres, parecia repousar ao abrigo d'esses gigantes de pedra. No alto dos torreões d'um estylo bizarro, em frisos, ponteagudos, firmes, os enormes e celebres sinos estavam mudos, quedos ante a paisagem doce e clara também. No largo em frente as casinhas brancas pareciam olhar com admiração os collossos. Ao longe uns cabeços; mais para a esquerda monticulos, e lá para baixo a delgada nesga d'um granzoal em tons azues. 

A carruagem parava á entrada do convento e os dois homens apeavam-se mollemente, entorpecidos, relanceando um olhar para os escarpados outeiros nevoentos e distantes que fechavam o quadro. O sol derdejava rijamente os seus raios, e elles penetravam na egrja cheios de satisfação, abrigando-se do calor. 

Então além entre todos aquelles marmores ricos, perto das columnas vermelhas, em face dos quadros raros, aos reflexos mirabolentos dos lanternins e dos candelabos d'ouro, que espalhavam tons exquisitos nos marmores pretos das arcarias que os reflectiam, os dois ficaram um momento silenciosos. 

Depois o frade exclamou: 

-- Aguarda-me aqui, Jacintho Peres! Vou tratar do futuro da Companhia de Jesus! 

Sob as arcadas collossaes a sua voz reboou sinistra como uma ameaça, potente, forte, como se essa seita estivese no apogeu de todo o seu poder como nos tempos do rei piedoso (ou na epocha do magnanimo) que erguera aquelle templo fabuloso e cheio de maravilhas. 

N'um ar humilde, compondo a physionomia, fr. José Maria de Mello, atravessou a egreja e entrou pela sachristia, empurrou uma porta baixa e entrou n'um largo corredor onde encontrava frades que o saudavam com as palavras sacramentaes, affastando-se depois no burel dos habitos, lentos e melancholicos como sombras extranhas. 

Chegou finalmente a uma pequena sala apainelada, toda de porphyro e alabastro em incrustações, e foi bater tres pancadas com intervallos breves mas eguaes n'uma outra porta por detraz da qual se ouvia um grande ruido de vozes. 

Como por encanto, esta abriu-se, e fr. José Maria de Mello deixou-se ficar no limiar emquanto todos os que ali estavam se levantavam cruzando os braços sobre o peito. 

Era um aposento vasto, o tecto d'arcarias de sumptuoso estylo, bem allumiadas pelas vastas janellas que se abriam para a cerca onde se entreviam brancuras de marmore e subia o cantar da agua nos tanques espalhando frescura. A mobilia era toda de madeira do Brazil com ricas incrustações de ouro e marfim, as cadeiras altas, d'espaldares lavrados, hypocritas de forma, enfileiravam-se tendo na sua frente frades que se revestiam dos habitos de todas as ordens. 

Eram uns sessenta, velhos e novos semblantes ascéticos de cartuxos e gordos e nedios agostinhos, calvos e doutos arrabidos, corpulentos e mal trajados franciscanos lugubres monges de cabeças á Goya vindos de ermiterios distantes, e dois oratorianos magros que avançavam para o recemchegado com mostras de respeito. 

-- Ah! Estamos todos, não é assim? exclamou elle com firmeza depois de os saudar. 

-- Sim, todos!... responderam varias vozes. 

-- Irmãos, é o momento de vibrar um decisivo golpe! exclamou elle. 

Fez-se um silencio extranho emquanto elle avançava para uma cadeira collocada á cabeceira da mesa vasta que pejava o aposento e em torno da qual os outros se encontravam. 

Um frade magro, de rosto vulgar, as pupillas baixas, o ar doce, envolto no burel dos carmelitas descalços analysava no seu tom humilde o recemchegado parecendo ao mesmo tempo ler no seu breviario. 

Era ainda muito novo aquelle frade, lembrava uma creança envergada n'aquellas vestes que lhe ficavam bem ao ar doce do seu rosto pallido, corôado por cabellos sedosos onde se rasgava a corôa. 

Agora ouvia-se a voz de fr. José Maria de Mello, começar: 

-- Irmãos... Tenho esperança no restabelecimento da companhia! 

-- Sim... Depois de destruidos os nossos inimigos mais poderosos. 

-- O arcebispo de Thessalonica, o principe do Brazil e o intendente da policia! exclamou um frade carmelita, continuando na sua attitude humilde e falando com um accento extrangeiro na voz de agradavel timbre. 

-- Como? Pois sabeis? interrogou fr. José Maria de Mello, fixando-o deveras admirado e não se lembrando de o ter visto até então. 

-- Sei, irmão, que o arcebispo nos combate, que tem poder sem limites no espirito da rainha... Sei que o principe do Brazil, segue as ideias do seu mestre o marquez de Pombal... 

-- O Sebastião José... disseram com desprezo algumas vozes. 

E elle esboçando um sorriso nos labios finos, volveu: 

-- Seguindo as ideias d'esse demolidor intelligente em demasia... 

-- Como? Intelligente?... O atheu, o hereje!... gritaram todos. 

-- Sim, intelligente a ponto de luctar comnosco... e que soube deixar um discipulo que será rei a proseguir na sua obra... 

-- Oh! Defendeis isso... Não sabeis então que ha meios... murmuraram alguns. 

E sempre do mesmo modo, continuou: 

-- Sei pois que o principe nos odeia, sei que o intendente nos combate... É necessario assentar a maneira de os anniquilar isto dentro em seis annos... 

-- Em seis annos? bradou fr. José Maria de Mello, com desdem. Dentro em alguns mezes... 

-- Impossivel! Impossivel! exclamou o carmelita com a mesma serenidade. 

Ouviu-se um grande murmurar de desapprovação ás palavras do joven, e o oratoriano ao vêr-se assim combatido, conscio do seu poder e da sua força, exclamou desdenhoso: 

-- Sois muito novo, irmão... Não sabeis o poder de que dispomos... Julgais então difficil fazer desapparecer dois ou tres homens embora elles sejam poderosos? 

-- Não. Sei até que isso é facil... 

-- Já vêdes portanto... 

-- Que morto o arcebispo e o principe, resta ainda a rainha... 

-- Que é devota... 

-- Restam-nos os ministros... 

-- Que são nossos... Angeja que nos protege, Ayres de Sá que nos respeita, Villa Nova que nos admira e até Martinho de Mello que tem pela Companhia a maior das indifferenças. 

-- Dizeis devota a rainha? 

-- Sim... D. Maria I é a mais piedosa das soberanas... 

-- Dizei-me então porque não restabeleceu ainda a Companhia? interrogou elle. 

-- Oh! Por conselhos d'esse maldito arcebispo confessor... gritaram em unisono. 

-- E quem vos diz que o futuro confessor de sua magestade não será também nosso inimigo? 

-- Mas el-rei se encarregará de lhe impor um dos nossos... 

-- El-rei? Oh! Morto o cardeal da Cunha, el-rei seguirá na sua indiíferença, e mesmo que o cardeal viva, D. Maria I não se deixará guiar por elle... 

-- O principe D. João... aventou outro. 

-- Ah! O nosso futuro rei? bradaram os jesuitas cheios de admiração. 

-- Sim, o futuro rei... Isso entra nos planos de fr. José Maria de Mello... assegurou elle, emquanto o outro o olhava cheio de espanto e queria pronunciar algumas palavras. Porém o joven que começava a admirar o concilio proseguia: 

-- Por isso vos digo que apenas dentro em seis annos teremos occasião de nos vingarmos... 

-- E porque seis annos? 

-- Porque só dentro em cinco teremos um bispo portuguez na nossa ordem! Porque é entre os bispos que sua magestade escolhe os confessores. 

Calaram-se admirados até ao extremo de semelhante logica, e apenas fr. José Maria de Mello, sorrindo murmurava: 

-- Oh! Talvez o tenhamos dentro em seis mezes! 

-- Impossivel! tornou elle sem se alterar. 

-- E porque, irmão? interrogou o oratoriano muito cheio de raiva, fixando-o extranhamente. 

-- Porque o pontifice não assignará por agora essa nomeação. 

-- Pio VI é então nosso inimigo? interrogaram os jesuitas, como se vissem no mancebo um louco. 

-- Não... 

-- Mas então porque falaes? 

-- Porque o papa não pode por agora nem restabelecer a Companhia, nem protegel-a... 

-- Mas como sabe elle o nome dos jesuitas? Sorriu com desdem e volveu: 

-- Porque não lhe obedecem!... 

-- Quereis dizer? 

-- Que todos os frades não sujeitos ao dominio dos seus bispos são jesuitas... E em Roma sabe-se tudo... Tanto no Vaticano como na residencia modesta do geral da ordem... 

-- Ah! Vindes de Roma? 

-- Não, irmãos... Venho de Hespanha.. . 

-- Mas o que se trata agora em Hespanha? interrogaram elles cheios de curiosidade em face de semelhante prodigio. 

-- De aniquilar o conde de Florida-Blanca, o ministro, inimigo da Companhia... Por sua causa é que o papa não restabelece os jesuitas... 

Calaram-se de novo, cheios de admiração; apenas o Tavora, olhava o moço carmelita como se o julgasse um charlatão, e interrogava: 

-- Porém vós sois o unico a responder á minha politica! 

-- Sim... Não quero a perdição da Companhia... Estaes aqui para nos deter... A Europa empenha-se na questão da Russia... Frederico II e Catharina adoptam os jesuitas mas a França e a Hespanha combatem-nos... D'ahi a lucta... Precisamos ter muita cautella, fazer com que se esqueçam de nós e trabalharmos na sombra... Refreae os vossos Ímpetos, irmão... Sereis vós o vingador de vossa familia e da Companhia, descançae... 

-- Da minha familia!... bradou elle tornando-se livido e não comprehendendo como aquelle mancebo estava ao facto dos seus planos. 

-- Sim... Dentro em quatro annos, Roma sanccionará a nova nomeação de bispo... Sereis collocado ao lado da rainha... Para isso tendes apenas uma tarefa e não vos mettas n'outras... Tratae d'inutilisar naturalmente, sem pressa, enredando, fazendo ardis, o arcebispo de Thessalonica. 

-- Oh! Mas e os meus planos?... Vos estaes louco... 

-- Calae-vos e ouvi! exclamou o outro. 

Então todos aquelles jesuitas, costumados a verem em José Maria de Mello, o seu chefe bradaram: 

-- Está louco!... Está louco! Escute! Obedeça como nós! 

Erguiam se nas cadeiras, levantavam-se raivosos, pareciam prestes a lançarem-se sobre esse homem que assim lhes falava e nos seus semblantes appareciam signaes evidentes de intensa colera. 

O mancebo sorriu com desdem, ergueu-se lentamente por entre o tumulto e bradou: 

-- Onde está então a vossa humildade, irmãos? Um jesuita jámais se exalta, jámais alarma... Oh! Parece que os habitos com que disfarçaes as vossas roupetas gloriosas, essas eguaes á que Ignacio de Loyola tornou uma bandeira poderosa, vos transtornaram os principios! 

-- Eh! Fóra... Fóra!... Por Deus que vos atreveis, senhor frade estrangeiro! bradou José Maria de Mello, collocando-se-lhe na frente. 

-- Também vós?... Oh! Como os jesuitas se abastardam... Vêem em mim o inimigo não é assim... Firam na sombra se tem coragem, forjae embuscadas mas não ataqueis face a face!... 

-- Mas insultaes?... gritaram elles ainda cheios de raiva. 

-- Senhores, menos ruido ou do contrario o dom prior de Mafra penetrará n'esta sala e ficará admirado da desunião da ordem! 

-- Desunião!... Oh! Não vedes que ao contrario nos unimos contra vós? 

-- Bem o vejo! Mas procedeis como homens vulgares e não como jesuitas, como discipulos de Santo Ignacio... Oh! irei dizer aos do meu paiz que a Inquisição e o poder da Companhia em Portugal foi destruído ante a pouca serenidade e astucia dos seus membros!... 

-- Dil-o-hei em França na collegiada de Renopes, na Hespanha no convento de Sevilha, em Roma escrevel-o-hei em lettras negras no livro da Companhia... 

-- Ah! Tendes razão, os inimigos devem desapparecer!... gritou José Maria de Mello avançando para elle. 

Mas o joven cruzava os braços e bradava: 

-- Desapparecer por meios naturaes ou que pelo menos o pareçam... a violencia é indigna d'um jesuita pelo menos em publico e da forma que se descubra... Não conheceis a Monita Secreta, eu vol-a mostro!... 

-- Oh! que audacia! gritaram os jesuitas admirados, avançando para elle de braços erguidos. 

E o mancebo abrindo o habito mostrou-se vestido de negro e levou tres vezes a mão ao lado esquerdo do peito, desabotoando de seguida a batina e apontando uma cruz d'ouro que lhe pendia do pescoço. 

Recuaram todos como por encanto, tornados de pasmo e curvaram as cabeças, murmurando: 

-- O geral!... O geral dos jesuitas! 

José Maria de Mello, olhou com mostras de terror, aquelle joven que ali estava ainda no mesmo ar simples e bondoso que como elle dizia devia ser a norma de todos os da Companhia, porém os seus olhos fuzilavam clarões colericos de dominador ultrajado. Depois, sorria complacente, e em voz pausada, disse: 

-- Que vos aproveite a lição! 

Santo Ignacio era bem grande cerebro e não tinha impetos como vós outros... Attendei á modestia com os que os inquisidores de Hespanha se apresentavam nas ruas e analysae a raiva que mostravam ao ferirem os inimigos? Julgaes que ainda é o mesmo? Enganae-vos? Hoje hão tendes poder... Sede humildes e deveis 

ferir na sombra com rancor!... 

-- Oh! Senhor magnanimo!... gritaram elles cheios de contricção quasi ajoelhados aos pés do papa negro que continuava: 

-- Agora escutem-me... 

Curvaram-se, chegaram-se para elle e ouviram-no dizer: 

-- Vós, fr. José Maria de Mello, tendes as minhas instrucções combatereis o arcebispo de Thessalonica, movereis a intriga com a habilidade que nos é peculiar e occupareis o seu logar... 

-- Sim, magnanimo senhor!... volveu o Tavora baixando a cabeça, emquanto o geral, dizia: 

-- Depois vingae então a vossa familia!... 

Relanceou um olhar em roda como se procurasse descobrir alguem, depois sentindo não conhecer a pessoa que desejava, interrogou: 

-- Quem usa o nome de fr. Fabricio?... 

-- Eu, magnanimo senhor! gritou n'este momento uma voz bem timbrada e um mancebo de olhar doce e physionomia insinuante vestido no habito dos capuchos apresentou-se em frente do geral que o mediu com o olhar, dizendo de seguida: 

-- Sabeis que a Companhia de Jesus foi perseguida na America? Sabeis que ahi recebeu os seus primeiros golpes? No Pará e no Maranhão dois homens lhe amorteceram o poder... chamavam-se Francisco Xavier de Mendonça, e o general Gomes Freire de Andrade! 

-- Gomes Freire! exclamaram ao mesmo tempo fr. José Maria de Mello e o capucho. 

-- Sim... O primeiro era irmão do marquez de Pombal, o segundo chefe d'uma familia fidalga a que vós pertenceis, irmão!... exclamou elle dirigindo-se a fr. Fabricio. 

-- Sim... É verdade!... volveu elle cada vez mais admirado. 

-- No mundo chamae-vos Luiz de Berredo? 

-- Sim, magnanimo senhor!... exclamou elle cheio de pasmo. 

O geral da ordem sorriu, e tornou: 

-- Sois filho bastardo de Ambrosio Pereira de Berredo e Freire e por consequencia neto do general que perseguiu a Companhia... 

-- Sim, o general casara com D. Luiza de Berredo... 

-- Tendes um tio avô, irmão mais novo d'este general e casado também com uma Berredo ... 

-- Com D. Joanna Vicencia... 

-- Muito bem... Esse tio é capitão d'artilheria e encontra-se no Porto... É tambem um inimigo porque nós jamais perdoamos... Tendes um irmão, Gomes Freire, alferes do regimento de Peniche e filho legitimo de vosso pae... É sobre estes dois parentes que a Companhia vae exercer a sua vingança... Os crimes de vosso avô serão punidos no irmão e no neto... São os que existem... Os descendentes d'estes serão também punidos e vós sois o encarregado da vingança. 

-- Eu? bradou elle como aterrado. 

-- Sim... Porque o odio deve existir no fundo do vosso coração... 

José Maria de Mello, ao ouvir fallar do raptor da sobrinha do cardeal, do homem que inconscientemente motivara a descoberta do attentado contra a rainha, prestara maior attenção e ficara a contemplar aquelle extraordinario jesuita que tanto sabia, o habil politico que ia armar o braço d'um sobrinho contra seu tio, d'um irmão contra sua irmã, despertando-lhe o odio na alma. 

-- Não conheceis a vossa historia Luiz de Berredo?... interrogou elle. 

-- Sei apenas que sou um bastardo. 

-- Porém a Companhia que persegue sempre os descendentes dos que a attacam sabe mais cousas... Fr. Fabricio, escutae a vossa historia... Ouvi-a também, membros da Companhia de Jesus. 

E o geral, sentava-se, circumvagava um olhar pelos assistentes fixava depois o bastardo e dispunha-se a começar, emquanto a agua jorrava docemente, n'um cantico suave no marmore dos tanques do convento. 









XXII 







A historia d'um jesuita 







Então no meio do maior silencio, ante as attenções dos frades, o geral começava em voz pausada: 

-- Ha annos vivia n'um solar do Minho, o general Gomes Freire que voltara do Brazil onde attacara a Companhia de Jesus. Vinha descançar das torpezas exercidas sobre a ordem, vinha gosar das riquezas adquiridas e de confiança do irmão do conde de Oeiras então ministro poderoso. 

Seu filho, Ambrosio de Berredo Freire, cursava a Universidade em companhia d'um fidalgo pobre por nome Henrique de Miranda...Eram como irmãos, adoravam-se, nutriam um pelo outro o maior dos affectos... No bairro baixo da cidade, Ambrosio Freire occultava os seus amores com uma mulher do povo, joven e formosa chamada Julia Peres e que era filha d'um barqueiro do Mondego... A desgraçada abandonara o lar, deixara o pae entregue ás suas redes curtindo desgostos, lamentando a fuga da filha, que ao deixar a casa causara a morte da sua companheira uma santa mulher...

O barqueiro procurava saber o nome do seductor da filha e descobriu ser elle um fidalgo que dispunha de grande protecção na côrte...Mas nas suas veias girava sangue forte e impetuoso e jurou vingar-se no miseravel...

-- É de meu avô materno que vós íalaes não é assim? interrogou o jesuita fazendo-se pallido. 

E o geral da ordem, no seu tom tranquillo, volveu: 

-- Sim... É de vosso avô que para vingar a deshonra da filha procurou certa noute de trevas o fidalgo na occasião em que se dirigia para o casebre onde occultava a presa... 

-- Minha mãe! exclamou o outro, fazendo-se pallido. 

O geral accenou affirmativamente e proseguiu: 

-- De ha muito que o barqueiro tiritava ao frio, cheio de raiva, apertando a sua grande navalha, prompto a ferir o miseravel que lhe levara a deshonra ao lar. Sentiu passos na encosta, o coração bateu-lhe com impaciencia, ao descortinar um vulto que entrava para a casa onde se encontrava a filha. 

Esteve ali durante duas longas horas, devorado pelo desejo de exercer a sua vingança, de lavar essa affronta feita por um nobre mas que por isso não deixava de ser mais cruel...

Por fim, louco de raiva, abafou um grito que lhe ia sair dos labios, uma exclamação de contentamento porque a porta abriu-se e o fidalgo embuçado na sua longa capa ia passar ao alcance do seu braço...

-- Ah! 

-- Sim... O barqueiro, fez um movimento, e cravou a arma no peito do miseravel! bradou o geral da ordem, continuando logo: 

-- Mas um grito estridente se ouvio d'uma janella e a amante de Ambrosio de Berredo que viera assistir á saida do homem que a deshonrara e do qual já tinha um filho, começou gritando por soccorro ante aquelle attentado que lhe roubara o que tinha de mais precioso. 

Ouviu então uma voz rouca, extranha de colera que a gelou, exclamar: 

-- Ah! Sim...Vae denunciar teu pae, infame! 

A joven, tomada de assombro, no maior dos desesperos, ao vêr perdido o auctor dos seus dias que lhe victimara o amante, buscou ainda salval o, e com risco de soffrer egual sorte, bradou lhe: 

-- Suba... Suba... Esconda-se aqui! 

Era tarde. A ronda descia a rua apressadamente e o barqueiro foi encontrado quasi junto do corpo do fidalgo, empunhando ainda a arma com que o ferira. Julia, louca de dôr, no maior dos desesperos, recolheu o que julgava o cadaver do amante, emquanto o pae era levado para a cadeia. 

-- Oh! É horrivel... E' horrível! exclamaram todos emquanto fr. Fabricio se tornava pallido. 

-- Mais terrivel é o fim d'essa historia... Ouçam...

-- Ambrosio Berredo, não morreu. Dia a dia, hora a hora, com o coração despedaçado, aquella filha, cujo pae ia pagar talvez com a vida a vingança da sua honra, velou o amante, prodigalisou-lhe carinhos, foi para elle a mais dedicada das mulheres, buscando salvar o pae de seu filho que então ainda não podia comprehender cousa alguma. 

Elle restabelecia-se pouco a pouco e promettía-lhe quotidianamente que apesar da sua origem fidalga casaria com ella, reconhecido a tantos beneficios, a tantos cuidados...

Julia Peres hesitava em lhe falar do pae, temendo exasperal-o porém um dia, estremeceu no mais íntimo do seu ser, ao ouvil-o exclamar: 

-- Estou bom, Julia... Vou sahir de tua casa... Tenho uma terrivel vingança a exercer...

-- Sobre quem? perguntou-lhe aterrada. 

-- Não disseste que o homem que me feriu foi preso! 

-- Sim...balbuciou a tremer. 

-- Pois será enforcado.. . Ainda disponho de influencia precisa para arrancar do marquez de Pombal uma sentença de morte... 

Meu pae a sollicitará a Francisco Xavier de Mendonça. Naturalmente é um miseravel que me queria roubar a bolsa... Os fidalgos não attacam traiçoeiramente e o marquez não terá muito em conta a vida d'um villão...

-- Oh! Não... Não te queria roubar! bradou ella lavada em lagrimas. 

-- Ah! Conheces o miseravel? 

-- Sim... Ambrosio... Conheço... Era... Era... 

-- Quem? 

-- Meu pae! 

-- Teu pae! exclamou o fidalgo tornando-se livido. Teu pae! 

-- Sim e peço-te o seu perdão... Elle buscava vmgar a sua honra! Por nosso filho t'o supplico... Lembra-te que lhe d'este o teu nome...

Não lhe respondeu; fulo, louco de raiva, saiu de casa e dirigiu-se á cadeia. Ao chegar viu aepnas na praça grande uma forca erguida e onde acabavam d'enforcar um homem... Era vosso avô, Luiz de Berredo... Era o barqueiro que morreu suppliciado por tentar vingar a honra da filha...Vosso pae não teve que pedir uma sentença de morte... Vosso avô paterno sem que o dissesse ao filho, exigiu-a de Francisco de Mendonça...

-- Oh! Miseraveis! gritou o jesuita, tornando-se livido, emquanto os outros se admiravam cada vez mais da habilidade do geral da ordem que continuava: 

-- Então, vosso pae saiu de Coimbra deixando vos ao abandono com a mulher seduzida por eUe, partiu para o seu solar e dentro em pouco era addido a uma embaixada para Londres...

-- Ah! E minha mãe, minha pobre mãe?...

-- Ella, a desgraçada ao vêr que o amante não apparecia, correu ao fim de dois dias á casa onde elle habitava... Soube do supplicio do pae e ainda assim foi rojar-se aos pés do algoz...Porém encontrou apenas Henrique de Miranda que não a conhecia, que não sabia mesmo dos amores do amigo, mas que lhe ouvira falar de um homem suppliciado na ante-vespera, narrou-lhe tudo, con- 

tou-lhe aquella tragedia lavada em pranto e por fim retirou-se pen- 

sando na morte. 

O Mondego estava ali a dois passos, a cabana onde elle passara a infancia ainda se mostrava nas taboas apodrecidas, o barco e as redes do pescador appareciam-lhe como a mais horrivel das recordações. E então, n'um impeto, tendo-vos bem seguro nos braços, ajoelhou no limiar da cabana e fez a oração que lhe tinha ensinado essa mãe que morreu de pesar pela sua fuga...

Mais uns momentos a esse rio bordado de salgueiros onde os melros assobiavam canções doces, teria no seu peito, deitada no leito fundo, a mulher que um infame perdera! 

Ia lançar-se a agua, olhava ainda a casa, fechava os olhos e balanceando o corpo, além de pé no alto d'uma escarpa lançava-se á agua desejosa de morrer. 

Mas o bote soltou-se da sua amarra, alguém muito corajoso remava para o lado onde ella se debatia á superficie do rio segurando-vos sempre ao peito e conseguia salval-a. 

-- Oh! quem era...quem era esse homem? interrogou o jesuita com enorme impaciencia. 

-- Era o amigo de vosso pae, Henrique de Miranda, que tres mezes depois não hesitava em redimir a culpa do amigo que não se lhe confiara...

-- Como?... Que dizeis, magnanimo senhor? perguntou elle com grande pasmo. 

-- A verdade... O fidalgo pobre desposou a filha do barqueiro...

-- Ah! Que generoso homem! 

-- Vós fostes conduzido para casa da mulher que vos creou e vossa mãe morreu assim tranquillamente depois de saber que ficáveis feliz... 

-- Mas... Sempre me disseram que meu pae me dera o seu nome...

-- Assim foi... Nos livros de baptismo estais reconhecido... 

-- Mas e a pequena fortuna que me deixaram, dizem-me que fôra elle...

-- Não o acrediteis... Essa quantia foi offerecida por Henrique de Miranda que velou sempre por vós...

-- Qual seria o fim de minha pobre mãe se não tivesse encontrado esse homem generoso? 

-- A morte arrastando-vos comsigo... Não sentis o desejo de vingar vossa mãe e ao mesmo tempo a Companhia de Jesus? Sabei que Bernardino Freire foi o encarregado por seu irmão de vir sollicitar de Francisco de Mendonça a condemnação do barqueiro do Mondego, sabei que tendes um irmão que mais feliz do que vós gosou dos carinhos de sua mãe, uma fidalga! 

-- Ah! Então é Gomes Freire, alferes do regimento de Peniche, gritou fr. José Maria de Mello, accrescentando: 

-- E raptor da sobrinha do cardeal da Cunha! 

-- Ah! Ahi tendes um começo de vingança, fr. Fabricio... Ide até ao fim...

-- Oh! Vingar-me-hei tanto no capitão Bernardino Freire como n'esse homem... Meu avô materno foi suppliciado, minha mãe abandonada e tudo por causa do filho do homem que ajudou Pombal a destruir a Companhia... Irei até ao fim! 

O geral teve um sorriso de contentamento e replicou: 

-- Assim o esperava...E agora subordinae o começo da vossa vingança ao fr. José Maria de Mello que conhece pelo menos um dos descendentes do general e ao que parece um sacrilego! 

-- Que será suppliciado dentro em oito dias! assegurou convicto, o oratoriano. 

-- Bem... Resta-nos depois o arcebispo e a rainha... Dae tempo ao tempo... Achae os odios que se podem despertar e aproveitae-os... Nas memorias da Companhia de Jesus que conservo em Roma encontram-se todos os odios de familia...D'ahi o nosso poder...Com agentes habeis triumpharemos...

-- Falta ainda o principe do Brazil, magnanimo senhor... exclamou fr. Fabricio com colera. 

-- Ah! Esse entrego-o a quem mais o odiar! 

-- Ao irmão... Ao principe D. João que o detesta!... aventou um padre que se ergueu na sua cadeira. 

-- Não... D. João é um fraco, é um imbecil...

-- Entregae-m'o então, senhor! gritou um homunculo que se embuçava na veste dos franciscanos, apparecendo com os olhos scintillantes de raiva, 

-- Odiaes o principe? interrogou o geral. 

-- Atrozmente!... Por sua causa fui expulso da casa dos Angeja onde era confessor do herdeiro... Sou o padre Theodoro de Sá... 

-- Entendei-vos com fr. José Maria de Mello nos momentos criticos e para o arcebispo, recommendo-vos um certo vice-rei do Algarve que pelos modos soffreu tratos na Inquisição... É fazer-lhe crer que tudo partiu de Thessalonica... Agora, mãos á obra. A Companhia terá triumphado dentro em seis annos... Cumprindo bem as vossas tarefas chegareis até ao fim que desejamos...

Elles inclinaram-se e pareceram que iam ajoelhar em face do mancebo portentoso que lhes falava, porém elle olhava-os e accrescentava, apenas: 

-- E agora até ao dia do triumpho! 

Embrulhava-se no seu habito de carmelita, tomava uma attitude humilde e dirigia-se para a porta, arrastando penosamente as sandalias. 

Voltava-se ainda mais uma vez e dizia: 

-- Resta-nos ainda os descendentes do marquez de Pombal... É necessario que sejam nossos... Cada um de vós buscará tornar-se o confessor dos membros da familia e uma vez conseguido isso é certo o triumpho...

-- Sim... Preponderamos no seu espirito... 

-- Fanatisal-os-hão! Educar-lhe-hão os filhos segundo as leis da Companhia... E como o nosso braço se estende pelos seculos fóra quando algum d'elles fôr dominador, a Companhia terá quem a sustente...Elles e os Braganças devem ser nossos como represalias! Quem sabe ao que chegaremos! 

N'um gesto breve abençoava a assembleia e depois já da porta em voz firme, dizia-lhes: 

-- Não esqueçam como ha pouco a prudencia... Sempre nas trevas até ao triumpho porque a luz cega, por isso a queremos destruir nos cerebros... E mandae-me sempre para Roma os vossos relatorios. Os negocios mais confidenciaes enviae-os para Genova ao cura de Santa Maria...

-- Ah! Esse padre remettel-os-ha a vossa eminencia...

-- Não...Abrirá as cartas que devem ser escriptas em cifra e inteirar-se-ha do seu contheudo! 

-- Um cura? exclamaram todos cheios de admiração. 

-- Sim... Um simples cura que da sua freguezia domina reinos e imperios, move a machina immensa e collossal da Companhia de Jesus e quando em Roma, o Santo Conselho carece de sancção, é o humilde padre que lh'a dá accrescentando aos conhecimentos de cada um dos membros do Supremo Conselho o que muitas vezes 

lhes falta...

-- Um cura?... interrogaram elles ainda. 

-- Sim... Um cura, irmãos em Christo, um simples cura, que Catharina da Russia estima e Frederico II, acha pelo menos tão apreciavel como o seu Voltaire! 

-- O atheu? interrogaram algumas vozes. 

-- O sabio... replicou o geral da ordem, accrescentando: 

-- São necessarios d'estes homens que nos combatam para dar maior valor aos nossos triumphos... Odeia-se o inimigo mas reconhece-se-lhe o merecimento... É o que faz o cura de Santa Maria de Genova. 

-- É também um sabio? Não é assim? perguntou fr. José Maria de Mello. 

-- Avaliae vós mesmo por estas cousas...Não sei se é sábio, conheço-o apenas como hábil...Diz sempre: Approveitae os odios em proveito dos que odeiam os da Companhia. Por isso ordenou a um Tavora que se vipgasse d'um Bragança e a um Freire bastardo que se vingasse d'um Freire legitimo! 

-- Ah! Sois vós, o cura de Santa Maria! 

-- Sim, irmãos, sou eu! exclamou o geral da ordem. 

-- Mas julgávamos, que fosses pelo menos bispo... 

-- Não... Era um logar que se perdia para outro Jesuita que não tivesse as minhas funcções... E depois as cabeças quanto mais altas estão á luz do dia e á face do mundo, mais chamam as attenções!...

Sahia lentamente com o mesmo sorriso humilde pregado nos labios e internava-se pelo convento como se o conhecesse de longa data. 

Os jesuitas ficavam paralysados d'assombro e depois com varias venias de parte a parte, sahiam pelas diversas portas da grande sala internando-se nas galerias de marmore raiado, a sonharem no futuro poderio e admirados comsigo mesmo do grande tacto d'aquelle joven tornado geral da Companhia de Jesus, quasi um pontifice e que tão bem comprehendia a sua realeza nas trevas. 

Fr. José Maria de Mello, fr. Fabricio e o padre Theodoro de Sá, ficavam juntos durante alguns momentos combinando os primeiros attaques a esses personagens que lhes impediam o caminho. 

E o oratoriano relatava ao ir Fabricio, as aventuras de seu irmão, o alferes do regimento de Peniche. 

-- E agora á lucta! exclamaram todos três ao cabo de algum tempo apertando as mãos com força e affastando-se de seguida em direcções differentes. 

Da vasta egreja do convento, nas suas columnas corinthias, com as lampadas maravilhosas d'ouro e pedrarias vinha o som do orgão que resoava em harmonias infinitas. 

Jacintho Peres, conservava-se na sua grande indifferença meditando sem duvida uma traição, olhando sem vêr um lanternim d'ouro cravejado de pedras preciosas. 

A agua murmurava sempre nos tanques da quinta como a acompanhar na sua toada doce as infamias jesuíticas, emquanto o zimborio altaneiro do convento de Mafra abrigava as torpezas dos roupetas que juravam vinganças a exercer na descendente do rei magnanimo que com ouro do Brazil erguera aquellas cupulas que eram collossos opulentos cobrindo malfazejas toupeiras. 

E um frade mendicante na mais humilde das altitudes orava em face d'um santo de pedra. 

O geral da ordem passou em frente delle, olhou-o em silencio e com um ar humilde, encarando-o a deter-se, pcdiu-lhe a benção que o outro lhe deu lentamente com o seu ar de velho mumificado na oração. 

Elle sorriu de novo, metteu-se na liteira que o aguardava e o seu olhar d'aguia cravou-se no mosteiro como se quizesse fulminar a obra do rei prodigo que luctara com Roma para lhe ceder. 

O frade mendicante esboçou também um sorriso imperceptivel. 







XXIII 



Audace fortuna Juvat 





O intendente da policia estendia a sua caixa de rapé ao arcebispo, recostava-se na poltrona collocada em face da mesa sobre a qual se via uma enorme bandeja de prata massiça cheia de fructas e de doces, contemplava por momentos a garrafa rolhada do soberbo vinho do Alto Douro e exclamava: 

-- Não queria perturbar a coUaçao de vossa grandeza... 

-- Não, Pina Manique, não, meu amigo, ella! Conversaremos ao mesmo tempo...

O magistrado soergueu-se na poltrona, n'uma vénia, muito lisongeado ouvindo o arcebispo bater tres palmadas compassadas, ás quaes se affastou um reposteiro de damasco e appareceu o gordalhudo leigo que o servia. 

Com o mesmo sorriso alvar nos labios desrolhou a garrafa, vasou em dois copos de ouro o liquido odorifero collocou dois pratos do Japão em face dos convivas e retirou-se muito discretamente, ao passo que o intendente trincando uma pêra em calda, começava: 

-- Grandeza...Foi Deus servido que encontrasse o meu corregedor! 

-- O que? O corregedor? Mas está mal collocado esse pobre rapaz... Escapou ao Santo Officio graças á sua audacia mas não lhe será facil escapar á furia do vice rei...

-- Se vossa grandeza o quizesse ouvir... 

-- Ao corregedor?... Elle está ahi?... que entre... que entre... Tenho curiosidade em vêl-o...

-- Vossa grandeza, concede-me uns momentos...

-- Sim... Manique... Á vontade! 

-- Pois bem... Elle conta com a vossa protecção...

-- Farei o que puder... Tanto mais que esse rapaz tem serviços...Desde a descoberta da conspiração contra sua magestade até á partida feita ao vice-rei, tem dado soberbas provas... Ah! Nasceu tarde, o vosso corregedor... Se o marquez de Pombal o tivesse conhecido... Elle que tanto sabia aproveitar os homens...

-- Oh! Teria um grande futuro! Mas assim...

-- Vegetará... E como o descobristes de novo? Acaso utilisaste para isso a habilidade dos vossos moscas <marca num="*" pag=335>?



<nota num="*" pag=335> Agentes de policia assim designados por derivação franceza de mouchards. </nota>



-- Não, grandeza... Alguns tenho bem habeis mas não chegam ao ponto de se medirem com o corregedor... Tenho até mesmo uma maravilhosa ideia a seu respeito... Mas para isso careciamos do seu perdão... D'esse modo tornal-o-hel chefe da minha policia secreta... 

-- Que seja elle o primeiro a conservar o inconito e tudo irá bem... A rainha pode não lhe perdoar, o vice-rei clamará, a côrte dará por paus e por pedras mas o meu amigo tornal-o-ha chefe da policia o que quer dizer: invulneravel! 

-- Para a lei civil...

-- E que outra existe? 

-- A religiosa... O Santo Officio com esse Jacintho Peres...

-- Luctarão ambos e salval-o-hei...Que descubra os manejos jesuiticos, que faça com que sua magestade tome precauções contra os que a rodeiam e o vosso amigo subirá no animo da rainha emquanto os nossos inimigos descerão... 

-- É exactamente sobre esse ponto que vinha fallar a vossa grandeza...

-- Mas sabeis mais alguma cousa? 

-- Sim...Por exemplo, que esteve entre nós o geral dos jesuitas! 

-- O geral? Mas que dizeis? Agentes de policia assim designados por derivação franceza de mouchards. 

-- A verdade... Estava em Mafra onde se reuniram alguns frades que não passam de jesuitas disfarçados... 

-- E conheceil-os? 

-- Tenho os seus nomes...

-- Maravilhoso! 

-- É a obra do corregedor e d'alguns dos meus agentes...

-- Ah! Já o tínheis então empregado? 

-- Desde que me escreveu uma carta confidencial narrando-me as suas aventuras...

-- Devem ser curiosas...

-- Desde que escapou á senha dos fâmulos da Inquisição vagueou pelos campos e foi pedir pousada ao convento de Mafra, disfarçado em frade mendicante. 

-- E deram-lh'a? 

-- Sem duvida... Se lhe enviei alguns papeis authenticos apprehendidos ha tempo a um supposto jesuita que voltava da Palestina...

-- Muito bem...Passou então por peregrino...

-- E o dom prior deu-lhe um aposento no mosteiro... N'esse mesmo dia começaram chegando frades de diversas ordens e aos quaes ouviu algumas palavras...Com rara habilidade metteu-se na intimidade de um d'elles, um tal fr. Fabrício sob cuja veste de capuchinho descobriu um jesuita authentico! Foi alojado na mesma estalagem da estrada com o reverendo que conseguio haver á mão os nomes dos frades jesuitas que me enviou pelos tres agentes pretos ás suas ordens...

-- Bem!... Oh! Mas é maravilhoso... E emquanto ao geral da Companhia?... 

Embarcou esta manhã para Génova...Até por signal visei o seu passaporte...

-- Vós? Mas era detel-o ...

-- Seria anti-politico agora que o marquez de Pombal desceu á campa! 

-- E qual é o nome d'esse homem...

-- Apresenta-se com o de padre João Feschi, prior de Santa Maria de Genova...

-- É uma perola o vosso corregedor! 

Comiam e conversavam ao mesmo tempo; o arcebispo estava 

-- Vossa grandeza perdoar-me-ha o disfarce... encantado com as declarações do intendente que levando aos labios o copo d ouro lavrado, exclamava: 

-- E agora pode ser introduzido á presença de vossa grandeza? 

-- Certamente! volveu o confessor da rainha batendo as palmas ao som das quaes appareceu o leigo. 

Pina Manique, ergueu-se e disse-lhe com intimativa: 

-- Com ordem de sua grandeza fazei entrar um mendigo que se encontra ahi na antecâmara. 

O servo ficou uns momentos perplexo e volveu: 

-- Ah! Mas esse homem não está em traje... Já o quiz pôr fóra... 

-- Que entre! ordenou o arcebispo em tom rude. 

O leigo voltou-se e d'ahi a momentos introduzia um homem vestido n'uns andrajos, arrimado a duas muletas, a cabeça enrolada n'um lenço vermelho e que se curvava em face do inquisidor. 

Depois ao ver fechar a porta rasgou os seus andrajos e appareceu vestido como um postilhão, atirou fora as muletas, tirou rapidamente o seu lenço e exclamou com uma nova venia: 

-- Vossa grandeza perdoar-me-ha o disfarce mas quem quer salvar a cabeça não deve hesitar em enrolal-a n'um lenço embora sujo...

-- Nem em trocar chapéus e capas do corregedor com as dos vice-reis! bradou n'este momento uma voz de parte ao mesmo tempo que ali assomava a figura gorda do vice-rei do Algarve que saudava o confessor da rainha. 

-- Vossa excellencia?... exclamou o corregedor sem a menor perturbação. 

-- Eu sim, senhor corregedor, que venho pedir a sua grandeza...

-- A minha captura, não é assim excellencia? Porém não tendes razão...

-- Como? Não tenho razão? 

-- Eu apenas obedeci ás ordens d'um fidalgo de vossa estirpe a que um simples homem de justiça não tem o direito de replicar... volveu com uma zombaria...

-- Deixemos por agora o vosso negocio...Já fiz outras descobertas mais importantes e é possivel que vos perdoe...

-- Oh! magnanimo senhor... volveu elle, radiante. 

-- E que descobertas são essas, senhor vice-rei? interrogou com grande pressa o intendente. 

-- Que era exactamente á minha pessoa que procuravam? volveu elle plenamente convencido do que affirmava. 

-- Mas quem vos diz...

-- Algumas palavras que um certo individuo acaba de me dirigir... 

Na bocca borbulhava-lhe a saliva, e elle continuava sempre: 

-- Quizeram fazer me acreditar n'uma cilada do senhor inquisidor para que eu collocasse a minha influencia ao serviço da Companhia de Jesus...

Elles, que conheciam a scena, ficaram admirados de semelhante politica que obrigava o vice-rei a perdoar ao corregedor, livrando assim d'embaraços o arcebispo e o intendente que careciam d'elle e todos a um tempo interrogaram: 

-- E quem vos affirmou tal cousa? 

-- Esta verdade indiscutivel? Não é assim? A Companhia carecia do meu auxilio, fazia-me acreditar n'uma cilada de vossa grandeza, auxiliado pelo senhor intendente que a combate e d'ahi tudo isto que geraria em mim a raiva! 

-- Muito bem... Muito bem! 

-- É possivel! 

-- Mas quem vol-o disse? interrogaram todos e nomeadamente o arcebispo, desejosos de conhecerem aquelle amigo inesperado. 

-- Eu vos conto...

-- Mas sentae-vos...pediu o confessor da rainha muito radiante. 

Elle, enxugando de vez em quando a saliva dos labios, começou: 

-- Eu vinha no corredor do palácio, no da capella real, quando ouvi um ruido de vozes... Passou rente de mim o maldito D. João de Falperra e gritou-me: 

-- Olha ó vice-rei... Estão ali a conspirar contra a tua pessoa... Estremeci e achei natural, tinha ainda ha pouco sido victima, o lobo perseguido torna-se feroz... Fui pé ante pé e escutei... Mas era exactamente o contrario... Vi três mancebos de bella apparencia, fardados, dois officiaes e um cadete... Um d'elles affirmava: 

-- «A companhia de Jesus anda audaciosa... Calcula tu D. Pedro que outro dia no Neutral prenderam o illustre vice-rei do Algarve! 

-- Ah! sempre o prenderam? interrogou um outro com certo pasmo. 

Realmente comprehende-se o pasmo do joven! 

Mas continuou: 

Elle então como a recordar se d'alguma cousa bradou: 

-- Ah! Agora me recordo, isso foi á uma hora da noute no dia da romaria...

-- Sim foi...replicou o outro. 

-- E era verdade, meus senhores, fôra n'esse dia...exclamou o vice-rei. Appliquei melhor o ouvido e então um dos mancebos como se tivesse recordado a súbitas alguma cousa ouvida outr'ora, disse: 

-- Ah! Mas então explico desde já a prisão d'esse bom vice-rei! 

-- O que sabes? interrogaram os outros dois com grande pressa. 

Eu estaca cada vez mais ancioso, o coração batia-me apressado no peito, até que ouvi o seguinte: 

-- Sabeis que de quando em quando visito certa dama bella e complacente, são palavras d'elle, senhor arcebispo, e que mora junto á quinta de baixo em Belem...

-- Que sabiam!... Citaram nomes... Começaram a rir... E eu cada vez mais impaciente! Por fim continuava: 

-- Estava aguardando no Galvão que elle abrisse a gelosia, senão quando ouço um débil ruido de vozes e três vultos negros mettidos no portão da quinta... Era ainda cedo e acerquei-me sem que me vissem e ouvi a sua conversação: 

-- Dizia um d'elles: A Companhia lança mão do vice-rei, mette-o a tratos, faz-lhe crer que tudo partiu do inquisidor que é nosso inimigo e mostra-se-lhe que o intendente não é extranho á aventura... 

Chama-se ao nosso gremio e possuir a sua confiança consiste em ter nas mãos os triumphos! Influirá seu pae a estar do nosso lado, clamará contra o arcebispo e contra o intendente e então...

-- Salve a Companhia de Jesus! accrescentou um dos mancebos com se repetisse as palavras do esbirro. 

-- Comprehendo... atalhou o arcebispo rapidamente piscando o olho ao intendente. 

-- Vossa excellencia entra no Neutral e elles servem-se da ordem de prisão contra o corregedor aqui presente para o deterem... Que miseraveis!...

-- Exactamente... E tanto que eu mesmo disfarçado não sou facil confundir com o corregedor! exclamou elle cheio de vaidade. 

Lopes Cardoso, com o mais servil dos seus sorrisos, accrescentou logo: 

-- Mas certamente...Certamente, senhor...

-- D'ahi o meu erro de que venho penitenciar-me, sollicitando o perdão de vossa grandeza para o senhor corregedor, tanto mais que segundo me consta já foram descobertos os sacrilegos das Salesias...concluiu elle. 

E o arcebispo com um gesto brando volveu: 

-- De bom grado o concedo pelo meu lado, senhor vice rei! 

-- Estive então conversando com os mancebos porque um d'elles exclamava n'um arrebatamento juvenil, bem proprio da sua alma nova: 

-- Oh! Mas juro-vos que porei a minha espada ao serviço do vice-rei contra a Companhia!...

E outro, accrescentou logo: 

-- Para mim esse grande fidalgo representa a primeira viticma dos miseraveis que vão de novo tomando posse do paiz...

Ainda o terceiro affirmou: 

-- Foi a unica boa obra do Sebastião José, a expulsão dos jesuitas! Notem que eu detestei sempre esse energumeno...

-- Energúmeno?!...Oh! Achei graça ao dito e já não chamo outra cousa ao negregado atheu! continuava o vice-rei. Foi então que lhes appareci e conversei com elles sob um vulgar pretexto nunca lhes dizendo que os ouvira...

-- Maravilhoso!... Oh! Vossa excellencia tem um grande poder de insinuação!... accrescentou a intendente a lisonjeai-o.

N'este momento, o leigo entrava e annunciava o reverendo padre José Maria de Mello. 

Entrou em grave compostura, cumprimentou com uncção os presentes e para o arcebispo com a mais respeitosa das venias, exclamou: 

-- Grandeza... Venho da parte de meu parente o senhor cardeal da Cunha...

-- Bem vindo sejaes... resmungou por entre dentes o prelado. 

-- Sua eminencia está ligado á sua poltrona por um ataque de gotta e recebeu os santos sacramentos...

Os olhos do arcebispo fusilaram n'um clarão odiento e não lhe respondeu. 

No emtanto o outro continuava sempre: 

-- Porém antes que a morte o empolgue, Deus quiz dar-lhe a ventura de saber o nome do raptor de sua sobrinha, e enviou a solicitar de vossa grandeza uma ordem de prisão. 

-- Ah! Mas tendes bem a certeza? interrogou o prelado. 

-- Completa... Os famulos da Inquisição descobriram-n'o...

-- Como? interrogou o intendente da policia emquanto o corregedor se occultava prudentemente por detraz da sua cadeira. 

-- Da mais simples maneira que vou narrar a vossa grandeza. 

-- Falae; 

-- Os famulos perseguiam no café Neutral alguem muito culpado. 

-- No Neutral? murmurou entre dentes, o vice-rei voltando as costas ao oratoriano no qual começava a ver um jesuita. 

-- Foi n'essa noute que se deu um lamentavel engano...

-- Que hão-de pagar bem caro... murmurou de novo o vice-rei ao qual fr. José Maria de Mello apoiou: 

-- É o dever de vossa excellencia vingar-se nos culpados! 

-- Ah! Taes palavras na bocca dum sacerdote... reprehendeu o arcebispo. 

-- Que é fidalgo e deve zelar os pergaminhos...volveu logo o oratoriano, ao passo que o vice-rei, muito enredado em tudo aquillo, tornava: 

-- Como elle urde a intriga. 

-- N'esse café, logar d'impios e d'atheus...

O intendente de policia, que n'essa epocha ainda via apenas nos jesuitas os inimigos do throno, não fez o menor caso da denuncia implicita nas palavras do reverendo e ficou-se a ouvil-o. 

O padre, continuava: 

-- Ahi foi visto um servo que em altos brados se gabava de ter protegido um atheu cujo nome dizia e que seu amo recolhera. Indagado o nome do amo, puzeram-se em campo os famulos para colherem ás mãos o miseravel... Porém qual não foi o espanto de mestre Jacintho Peres... 

-- Ah! Ah! Esse está sob a minha protecção, murmurou o vice-rei. 

-- Ao reconhecer n'uma dama que assomou á janella do palacio a sobrinha, de sua eminencia! 

-- Ah! É singular... Sem duvida prenderam immediatamente o atheu e restituiram a sobrinha aos braços do cardeal. 

-- Não, grandeza. 

-- Um dos atheus é bom fidalgo! 

-- Ah! Ha mais do que um? 

-- Tres... 

-- Heim? Tres?... interrogou o vice-rei, lançando ao padre um olhar desconfiado. 

-- Sim... Um que desde longa data fez profissão d'atheismo a ponto de trocar as vestes sacerdotaes pelo uniforme, outro que cedeu o seu palacio para recolher a monga furagida e o terceiro o ignobil raptor...

O corregedor olhava fixamente o intendente e trocavam ambos um olhar d'intelligencia onde ia envolto o vice rei. 

-- Ah! E vindes pela ordem de prisão? Mas porque não lhe lançaes mão? 

-- São fidalgos e...

-- E?... 

-- Podia succeder um equivoco egual ao meu!... exclamou com sorriso o vice-rei, olhando o oratoriano, que se conservou impassivel 

-- E os seus nomes? interrogaram curiosamente o intendente e o arcebispo. 

Mas agora a porta abria-se e o leigo, chegando-se ao meio da sala, exclamou: 

-- Grandeza... Tres militares pedem para falar a vossa grandeza...

-- Quem são? interrogou com pressa o intendente como se advinhasse alguma grande surpreza. 

-- Dizem que se chamam: O conde de Assumar, Gomes Freire de Andrade e Vasco de Miranda! 

-- Elles! gritou admirado o jesuita. 

-- Gomes Freire!... exclamou o corregedor fixando o outro com desconfiança. 

-- Os meus homens! bradou o vice-rei com surpreza enorme ouvindo ainda José Maria de Mello, dizer com um ar triumphante: 

-- Oh! Os sacrilegos!... São elles, grandeza, os sacrilegos das Salesias! 

O arcebispo, esboçou um sorriso extranho, fez um gesto para que entrasse e na sua voz molle, murmurou em latim: 

-- Andace fortuna jurat! 







XXIV 







O fio da meada 







Elles entraram de cabeça erguida, as mãos nos punhos das espadas que lhes levantava as abas das fardas bordadas a prata. O cadete no meio dos dois officiaes olhando serenamente o arcebispo que admirado de tanta audacia fixava o intendente o qual mordia os labios para não rir ao vêr a cara do oratoriano que os encarava espantado do arrojo. O corregedor admirava-os tambem e o vice rei dava alguns passos e ia collocar-se junto do confessor da rainha, que, como se não soubesse ainda do delicto dos jovens, interrogava:

-- Que desejaes de mim, senhores? 

-- Justiça, grandeza, justiça! exclamou Vasco de Miranda cahindo de joelhos aos pés do arcebispo e beijando-lhe a mão que elle lhe estendeu de bom grado ao reconhecer o ex-noviço. 

-- E contra quem, senhor cadete? 

-- Contra a Companhia de Jesus! gritaram todos a um tempo emquanto José Maria de Mello se fazia livido e o arcebispo com bem fingido espanto, volvia: 

-- Como? Pois se a Companhia não existe...

-- Mas existem alguns dos seus membros que exercem perseguições e violencias...

-- Assim é, grandeza! bradou o vice-rei, fixando o oratoriano. 

-- Aqui estou eu por exemplo que como vos disse fui victima d'elles! 

Os mancebos trocaram um olhar de admiração, fingido com arte, e Assumar avançando para o vice rei, bradou: 

-- Excellencia...Já vos sabia victima e tenho a honra de offerecer-vos a minha espada! 

-- Como eu, excellencia, ponho a minha á vossa disposição, exclamou Gomes Freire. 

-- Egual offerecimento vos faço! assegurou também o cadete. Então o vice-rei do Algarve, com o melhor dos seus sorrisos, um ar côrtez de bom senhor, volveu: 

-- Não esquecerei o vosso leal offerecimento... E no dia em que d'elle carecer terei muita honra em acceitar! 

O corregedor sorriu ainda mais uma vez para o intendente ante a comedia habilmente representada e murmurou como o arcebispo: 

-- Oh! A audacia é a fortuna dos jovens, José Maria de Mello, confundido e rancoroso, aguardava o momento de fallar, porém estremecia ao ouvir o confessor da rainha que dizia: 

-- Mas como entendeis as perseguições de que sois victimas? 

-- O meu palaco foi assaltado por alguns fâmulos do Santo Officio e d ahi arrebataram uma senhora que era a noiva do alferes Gomes Freire! 

-- Gomes Freire?... interrogou o arcebispo, como a invocar. Sois acaso parente do general d'esse nome que com Francisco Xavier de Menionça combateu a companhia no Maranjão? 

O oraioriano, ante semelhante pergunta, como se quizesse certificar-se bem dessa verdade, avançou uns passos e esboçou um sorriso vingativo ao ouvir o mancebo replicar: 

-- Sou seu neto... Meu pae Ambrosio Freire foi ministro plenipontenciario na Austria e era filho do general... 

-- Sois então sobrinho de Bernardino Freire?...

-- Sim, grandeza! 

-- Oh! A vossa familia tem sempre combatido a Companhia... 

-- D'ahi talvez o odio que ella me vota...

-- Vossa grandeza quer perguntar ao senhor alferes, o nome d'essa dama cujo desapparecimento attribue aos fâmulos dos jesuitas, a esses que já não existem? disse José Mana de Mello, esperando confundir o inimigo. 

-- Sim...Dizei-nos o nome dessa dama? 

-- D. Elvira de Mello, sobrinha do senhor cardeal da Cunha! replicou imperturbavelmente o alferes. 

De todos os labios saía o mesmo grito de espanto ante tal confissão e emquanto nos labios do oratonano apparecia um sorriso satisfeito, as faces gordas do arcebispo empallediciam. 

-- A sobrinha do cardeal? Oh! Sois então vós...

-- O sacrilego das Salesias, como me chama a côrte! tornou elle com a mesma serenidade, emquanto o vice-rei recuava assombrado, dizendo: 

-- Oh! Oh! E eu que acceitava a sua espada!... Perdão, Virgem Maria. 

-- E sabeis em que importa o vosso crime? 

-- Os homens da minha familia nunca se preoccupam com os castigos...

-- Nem mesmo com os de Deus? interrogou o vice-rei cada vez mais pasmado. 

-- Esses são apenas dados aos maus e nós jamais descemos a esse estado! 

-- Mas o vosso sacrilegio...

-- Outros ha que ficam impunes. 

-- Assim é... murmurou o arcebispo. 

O mancebo, com extranho ardor continuava: 

-- Eu amava e amo essa joven. Seu tio queria tornal-a esposa n'outro; então o nosso amor não podia soffrer tão rude golpe e deliberei raptal-a atravez de tudo... D. Elvira não era monja professa... Não poude resistir a essa vontade de a tornar minha esposa, e uma noute...

-- Auxiliado por mim que guiava a sege disfarçado em bolieiro, raptamos do convento a sobrinha do senhor cardeal! bradou o conde de Assumar. 

-- Vós? interrogou assombrado, o vice-rei. 

-- Sim, excellencia, eu, D. Pedro de Portugal, filho do marquez d'Alorna. 

-- Oh! Desgraçado mancebo! E vosso pae... Mas ao menos não entrastes no convento...

-- Não foi preciso...

-- Não feristes D. Ramiro de Noronha? 

-- Gabe essa gloria a Gomes Freire... 

-- Oh! E confessais semelhante delicto!...

-- Sim, senhor vice-rei, confesso! 

-- Como eu me confesso cúmplice d'ambos! bradou o cadete. 

-- Vós...Mas julguei que estáveis com a vossa namorada no Galvão. 

-- Conheceis essa dama? perguntou o cadete com um bello sorriso. 

-- Sim... Tenho ideia... titubeou o vice-rei ao verse compromettido. 

-- Pois sempre vos direi que a essa dama devo eu a descoberta de grandes tramas a vosso respeito...

O vice-reL poz um dedo nos labios e sorriu-lhe com agrado. 

Foi então que se ouviu a voz do arcebispo exclamar: 

Mas como sois cumplice de semelhante delicto se no dia seguinte ainda éreis frade e vinheis aqui...

-- Sim, grandeza, vinha sollicitar de vossa grandeza, um logar de soldado que me destes! 

-- Perdão, que Sua Magestade vos concedeu... 

-- A instancias de vossa grandeza. 

-- Não... Ao fazer-lhe o meu pedido disse que já servira outra pessoa que se me antecipara... 

-- Será possivel?... Mas quem? 

-- D. João de Falperra... volveu o arcebispo com serenidade. 

-- O bobo?! bradaram todos com grande admiração, olhando o mancebo como se elle fosse sagrado pela protecção do truão a quem a rainha estimava. 

O proprio arcebispo, desejoso de o salvar, ao vêr a estupefacção estampada na sua physionomia, bradou: 

-- Vós não sois cúmplice de tal acto...

-- Tornei-me solidario com elles desde que soube o seu delicto e não o denunciei... Salvaram-me das ondas e por acaso ouvi o seu segredo...

-- Das ondas? 

-- Sim, grandeza, para onde me arremeçara um fâmulo da Inquisição, muito traiçoeiramente, c tudo porque eu ouvira no vosso gabinete a ordem de prisão contra o senhor corregedor. 

-- Contra mim? ...Ah! Agora vejo claro ...

-- Contra o corregedor ; n'esse caso sou realmente victima da Companhia, murmurou o vice-rei. 

Fr. José Maria de Mello ao vêr o caso complicar-se interpoz-se 

entre os mancebos e o arcebispo e exclamou: 

-- Grandeza... Tenho que estar dentro em alguns minutos com Sua Alteza, o serenissimo principe D. João. . Vim sollicitar-vos justiça... Tendes na vossa presença os criminosos e espero que justiça será feita ... 

-- Assim vol-o prometto, fr. José Maria de Mello. 

-- Oh! Que não transponham livres aquella porta! tornou ainda o oratoriano com raiva, curvando-se hypocritamente ante o arcebispo e dizendo: 

-- Vou participal-o a Sua Magestade...

-- Sim, frei, ide... Juro-vos que os vossos desejos serão satisfeitos. 

O outro sorriu e sahiu lentamente com alguns olhares rancorosos e algumas vénias ao arcebispo. 

Os militares tinham ficado preplexos ante a audácia e mais ainda perante a resposta do arcebispo Agora viam que a comedia habilmente urdida e representada com o vice-rei não surtia effeito, sentiam-se já presos do Santo Officio e estremeciam de raiva por não poderem encontrar Elvira. 

O intendente da policia, analysava-os atravez a sua luneta de cabo e por fim, com uma pausa na voz, interrogava Vasco de Miranda: 

-- Dizei-me, mancebo...Vós éreis frade...

-- Noviço cartuxo, excellencia...

-- Habitaveis o palacio do conde d'Assumar? 

-- Depois do banho a que me forçou o esbirro jesuita. 

-- N'esse caso, grandeza, é este o mancebo de que fr. José Maria de Mello falou...

-- E que era esse objecto de conversação d'um creado no Neutral, que dizia tel-o salvo e entregue a seu amo... 

-- Eu! ...Um creado! 

-- Sim...O creado era Joannico! explicou Assumar. 

-- Por elle, e desejosos de haverem de novo ás mãos, o homem 

que ouvira a noticia da minha prisão descobrira n'esse caso a joven senhora... gritou o corregedor! 

-- E roubaram-m'a, denunciando-me depois! coadjuvou Gomes Freire. 

-- Ah! mas n'esse caso, a sobrinha do cardeal.. . balbuciou o arcebispo. 

-- Está em poder dos jesuitas...concluio o intendente. 

-- Se não foi entregue ao cardeal! 

-- Não... Porque ainda hoje elle escreveu a pedir que perguntasse aos raptores onde ella 5e encontrava. 

-- E fr. José Maria de Mello...

-- Veiu a disfarçar o seu rapto! clamou o corregedor com finura. 

-- Tem razão!... gritaram todos. 

-- O cardeal está muito doente. Nutre um desejo enorme de encontrar essa creança... Vós não a tendes já em vosso poder? interrogou ainda desconfiado sua grandeza. 

-- Juramol-o! exclamaram os mancebos. 

-- N'esse caso que pergunte por ella a fr. José Maria de Mello. 

-- José Maria de Mello! Oh! Vae entregar-m'a!...bradou Gomes Freire com rancor. 

-- Não... Porque elle teve o cuidado de soliicitar para vós um carcere da Inquisição! replicou o intendente. 

O mancebo fez-se pallido, curvou a cabeça, ao mesmo tempo que o intendente de policia, dizia: 

-- Mas essa joven em poder do frade representa mais uma vingança a exercer sobre estes mancebos que além de responderem pelo sacrilegio serão culpados do seu desapparecimento...

-- Assim é! assentiu o arcebispo. 

-- Oh! Grandeza... Juro-vos que me entregarei á prisão, que me deixarei queimar, mas deixae-me um mez de liberdade e findo elle prometto não só encontrar Elvira, mas ainda restituil-a ao cardeal... Vejo bem que ella corre um grande perigo em poder d'esse ambicioso fr. José Maria de Mello! supplicou o alferes dcitando-se aos pés do arcebispo, que muito disposto á clemencia, recordando-se da sua promessa doutr'ora quando jurara proteger o homem que fizera o corregedor descobrir a conspiração contra a rainha, lhe dizia: 

-- Entregal-a-heis ao cardeal que a tornará esposa d'outro, não é assim? 

-- Oh! grandeza. .. N'esse caso elle terá piedade, quando lhe mostrar a alma do parente, quando lhe mostrar a sua perfidia! 

-- Mancebo, sois louco...O cardeal nunca perdoa...

-- Conduzi essa joven aos pés de sua magestade, a confessar o seu delicto e sollicitae-lhe um convento onde professe! replicou o intendente, continuando: 

-- Assim, a rainha terá piedade, verá ahi a grande fé de D. Elvira, perdoar-lhe-ha o seu delicto, como o senhor arcebispo nos vae conceder o mez que lhe pedis...

-- Oh! Será possivel, grandeza? interrogou Gomes Freire com uma especie de alegria mal contida. 

O arcebispo baixou a cabeça por momentos e por fim volveu: 

-- Gomes Freire: eu fui amigo de vosso avô ...Era soldado no regimento de Chaves quando elle era cadete... Depois servimos juntos Pombal e tenho em grande apreço as qualidades do irmão d'esse heroico general que vi muito creança... Além d isso, mais de uma vez promettera que o individuo que raptara essa menina mereceria a minha protecção condicional, dentro dos limites do possivel, porque apesar do que dizem eu não sou Omnipotente...

-- Oh! Grandeza, como vos agradeço! exclamou o joven. 

-- Ouvi: Na noute em que raptastes do convento a sobrinha do cardeal, terias caído nas mãos do senhor corregedor se um acaso não lhe desviasse as attenções! 

-- Assim é, meu amigo!... disse o corregedor com grande gaudio para o alferes. 

-- Porém vós sem o saber concorrestes para a salvação da preciosa vida de sua magestade...

-- Eu? gritou Gomes Freire assombrado. 

-- Sim, mancebo. 

-- Porém, Como grandeza? 

-- Fazendo com que o corregedor descobrisse uma conspiração contra a vida da soberana. 

-- D'ahi a protecção que o senhor arcebispo prometteu por ter em grande conta a vida de D. Maria I... disse o intendente. 

Protecção ao corregedor e que vos estendo!... volveu elle! 

-- Oh! Obrigado, grandeza! volveram os indigitados inclinando-se. 

-- Por isso ide conquistar a vossa noiva, arrancae-a do poder dos jesuitas, procedei como um digno Freire de Andrade e durante tres mezes ninguem vos tocará... Findos elles pagareis o vosso delicio se não preferis que Elvira seja vossa contra a vontade de sua eminencia! 

-- Oh! Grandeza... Juro-vos que depois de salvar essa mulher que amo de bom grado me entregarei á justiça de sua magestade a rainha...

-- Entregando D. Elvira á religião! volveu o vice-rei n'esse caso respondo por vós e ajudar-vos-hei para pagar também ao senhor Vasco de Miranda a sua descoberta a meu respeito... Os perseguidos devem unir-se...

-- É para nós muita honra! redarguiram os habeis mancebos sorrindo. 

O arcebispo continuava, dirigindo-se agora a Assumar: 

-- E vós, condo, tomae um creado menos falador...Emquanto a vós, Vasco de Miranda, aconselho-vos menos aventuras e mais proezas guerreiras... Interesso-me por vós... Até d'aqui a tres mezes, a esta hora e sem falta meus senhores...

Inclinaram-se e o intendente assignando um papel estendeu-o a Gomes Freire, dizendo: 

-- Para vos salvardes da policia... 

-- Lastimo não vos poder salvar também dos esbirros da Inquisição, porém seria levar muito longe o escândalo... Adeus! disse o arcebispo estendendo-lhe a mão que beijavam com respeito.

Depois ergueu o volumoso corpo e bradou ao vêl-os dirigirem se para a porta: 

-- Eh! senhores por ahi não... Cumpro sempre as minhas promessas e disse a fr. José Maria de Mello que não sahireis livres por essa porta... Ide por aquella! 

Apontava-lhe uma sahida encoberta na alcatifa e aos vêl-os desapparecer, volveu: 

-- São bem sympathicos estes rapazes...Oh! Mas como desculpar-me com a rainha?...

-- Ora, dir-lhe-heis, grandeza que o serviço do estado exige semelhante condescendencia...

-- E os ministros?...

-- Deixae-os commigo? 

-- E os jesuitas? 

-- Para esses os mancebos que acabam de sahir e o senhor chefe da minha policia!...

Apontava o antigo corregedor e dizia-lhe: 

-- Ponde em pratica todos os vossos ardis e entrae em lucta com a Companhia! A victoria pertencer-nos-ha!...

O novo chefe de policia curvou-se e de seguida, exclamou: 

-- Mas falta-me ainda o perdão de sua magestade! 

-- Eu me encarrego d'elle! disse o vice-rei, dirigindo-se ao lado do corregedor para a porta que se abria deixando passar um homem alto, magro, de grandes olhos negros, muito esbelto e ainda novo, vestido n'uma tarda de capitão de artilheria e que avançava para o arcebispo, exclamando: 

-- Grandeza! Grandeza! Conto comvosco... 

-- Bernardim Freire! bradou assombrado o confessor da rainha. 

-- Sim...Eu que venho soUicitar o perdão de meu sobrinho. 

-- O alferes Gomes Freire, não é assim? perguntou o arcebispo com um bom sorriso. 

-- Sim, grandeza! Sua mãe a infeliz filha de meu irmão, contou-me lavada em lagrimas o sacrilegio que elle commetteu! 

-- Bernardim... Amigo... Descançae! 

-- Oh! Mas elle está talvez a esta hora na Inquisição! 

-- Não, anJgo, teu sobrinho saiu d'aqui ha momentos são e salvo e prometto velar por elle...

-- Tanto mais que é valoroso e esforçado...

-- Demais o sei... volveu o carmelita obrigando o official a tomar logar n'uma das poltronas e apresentando-o ao intendente da policia. 

-- Pina Manique! exclamou o capitão com assombro. Oh! Sois também um dos discipulos do grande marquez de Pombal... A minha mão, senhor, acceitae a minha amisade! 

O intendente estendeu a mão a Bernardim Freire e murmurou: 

-- Sim discipulo de Pombal! Mas elle morreu e a sua memoria é execrada... Basta que nos recordemos das suas licções mas esqueçamos o seu nome que ficará apenas para os vindouros! Na côrte esse respeito é perigoso! 

Ao mesmo tempo os tres mancebos saíram do paço e no seu caminho, encontraram D. João de Falperra que ao vêl-os se escondia rapidamente. 

No emtanto elles viam-no e Vasco de Miranda, exclamava: 

-- Enorme a alma d'aquelle truao... Devo lhe tudo...

-- E nós ja lhe começamos a dever! 

-- O ardil em que caiu o vice-rei! exclamaram dirigindo-se para os cavallos que Joannico guardava. 

O conde dirigiu-se então ao crcado e disse-lhe: 

-- Joannico, fica sabendo que d'hoje para o futuro nos nossos negocios serás surdo, mudo e cego... 

-- D'esta vez a tua falácia do Neutral deu bom resultado ao lado d'um mau, para outra vez podia dar apenas o mau! accrescentou Gomes Freire. 

O rapaz muito admirado ia responder d'um modo humilde mas Vasco de Miranda tocando-lhe no hombro, bradou: 

-- Vamos! A cavallo e coração á larga, meu valente! 

-- Á larga!... Ah! E a Chiquita! A minha Chiquita! murmurou elle com lagrimas nos olhos e seguindo os amos. 

N'aquelle momento o arcebispo dizia para Bernardim Freire: 

-- Ficarás na côrte... Vigiarás teu sobrinho! 

Os outros iam já de tropel e o Joannico, dizia ainda saudoso: 

-- Chiquita! A minha Chiquita! 







XXV 







A proposta ao cardeal 



Ali recostado na poltrona, o semblante triste, o olhar vago a perder-se nos telhados que se erguiam tocados aos derradeiros raios do sol, João Cosme, o

cardeal da Cunha, com as mãos caídas envoltas nas vestes prelaticias, as pernas embrulhadas em flanellas, ligado á cadeira no auge da doença, parecia presa de singular meditação. 

A seu lado, um creado velho, em cujos olhos havia lagrimas, contemplava-o com tristeza e ouvia o dizer: 

-- Paulo, meu velho, isto está por pouco... E apesar de tudo tenho um desgosto profundo... Na minha edade a morte é até uma libertação, principalmente quando cousa alguma se deixou de se gosar na mocidade... As honras, o dinheiro, tudo... Oh! tudo... Mais feliz que os meus parentes, os pobres Tavoras...  

-- Ah! Senhor cardeal, mas ainda ahi fica depois de vossa eminencia, que se Deus for servido, ha-de viver muitos annos, o santo fr. José Maria de Mello que os vingará!... Ah! que ferro eu tenho de já não ser novo...  

-- E para que, meu bom Paulo! interrogou o cardeal. 

-- Para vingar também a morte de meus filhos...  

-- Oh! Manuel Alvares e Antonio Alvares, os creados do duque d'Aveiro que foram suppliciados... Mas, Paulo, quando os grandes, os poderosos, nada conseguiram, que fará aquelles que nada possuem? 

-- Eminencia... Eu tenho esperança em fr. José Maria de Mello e depois tenho um neto, o filho de Manuel Alvares... E Joannico ha-de saber como morreu seu pae, auxiliará então na vingança o frei...  

O cardeal, durante todo o tempo que o servo falava no oratonano, enrugava as sobrancelhas e por fim, quasi colerico, exclamou: 

-- Ouve bem, Paulo, ouve! 

-- Eminencia! 

-- Nunca mais falarás de esse homem na minha presença... 

-- O que? de fr. José Maria? Mas que vos fez elle, eminentissimo senhor...  

-- Trahiu a minha confiança...  

-- Como o sabeis?... Oh! Não creio... O reverendo... Meu Deus! 

-- Viste aquelle fidalgo que sahiu d'aqui ha instantes? 

-- Sim, Eminencia...  

-- É o conde de Assumar! 

-- Filho do senhor marquez de Alorna, d'esse que vosso irmão tanto odeia?... interrogou o creado cheio de espanto. 

-- Sim, e não te admires de eu receber em minha casa o filho d'um inimigo de meu irmão, o conde de S. Vicente! Esse mancebo vinha fallar-me de minha filha...  

-- Por Deus!... Da senhora D. Elvira? 

-- Elvira... Elvira... murmurou o cardeal com uma especie de saudade. D'ella sim, bom Paulo, d'ella... De minha filha! Lembras te desse homem de ha vinte annos? 

-- Se me recordo, meu senhor? Vossa Eminencia era então um dos mais bellos homens da côrte...  

-- Amei e amei muito, essa desgraçada que talvez ainda viva... 

-- A monja do Lorvão...  

-- D. Mecia de Bocarro...  

-- E vossa filha, a pequenina, como eu a tive nos braços na quinta do senhor conde de S. Vicente...  

-- Conhecel-a bem... Sabes como desejo a sua felicidade... Pois bem...  Foi-me roubada, como sabes também, arrancaram-me com ella a alma e eu jurara uma vingança enorme... No emtanto perdoaria hoje, áquelles que o fizeram se ma restituissem...  

-- E conheceis os seus raptores? 

-- Comprei os seus nomes como José Maria de Mello os comprou! 

-- Ah! O vosso parente... Vêde, meu senhor, como elle vos estima... 

-- Escuta, Paulo, e não chames amisade á ganancia. Ha tempo um servil famulo da Inquisição, um dos que serviu Pombal e que me serviu tambem antes dos decretos que me tornaram ministro in partibus, veiu vender-me o segredo... Veiu pedir-me alguns mil cruzados por um nome...  

-- O do raptor de D. Elvira? 

-- Sim... Acceitei e esse nome foi-me dito com outros dois! 

-- De cumplices! 

-- Sim, de cumplices... O miseravel contava com a minha colera e rejubilou ao ouvir-me fallar de vingança. Mas já vendeu o seu segredo uma vez e a um ambicioso... A José Maria de Mello... Mais ainda, ajudara a raptar de novo minha filha e entregal-a ao frade...  

-- Que vae restituil-a a vossa Eminencia...  

-- Que busca impôr-me condições... Quer o meu ouro, o miseravel, em troca de minha filha! 

-- Oh! Senhor... Pedi o auxilio de D. Ramiro de Noronha. 

-- O noivo?... Oh! É um fidalgo como todos os de agora... Sem alma, sem força, sem ousadia, incapaz de luctar com o meu parente... Porém, o conde de Assumar jurou restituir-m'a! 

-- Elle? 

-- Sim... São os inimigos que vêem em meu auxilio... O mancebo confessou o seu delicto e o do seu amigo Gomes Freire. Foram elles os raptores de minha filha! 

-- Elles?... Oh! E vossa Eminencia transige? 

-- Antes isso que ceder ás imposições e um miseravel que busca despojar minha filha de sua fortuna! 

-- Meu Deus! Como as cousas são...  

-- Vê tu, se esse José Maria de Mello, durante o tempo que me tem visitado já me fallou d'Elvira? 

-- Eminencia... E quem vos diz que os outros não mentem? 

-- Quem?...  

O cardeal ficava embaraçado com a pergunta, porém n'este momento a porta abria-se e um outro servo annunciava: 

-- Fr. José Maria de Mello! 

O cardeal estremeceu, fez um gesto a Paulo para que sahisse, e fixou as pupillas vagas no frade que se approximava e dizia: 

-- Eminencia... Um grave negocio me traz hoje á vossa presença...  

-- E que negocio? interrogou o velho em voz tremula. 

-- Vossa filha! 

-- Ah! esperava-o, senhor... exclamou o cardeal. 

O outro, porém, sem fazer caso d'aquella resposta, continuava sempre: 

-- Os raptores de D. Elvira dispõem hoje de protecção na côrte...  

-- O que?... É possivel?...  

-- Sim... Sahiram soltos do palacio, depois de eu ter pedido a sua captura ao arcebispo...  

-- Oh! Esse homem é meu inimigo, nunca me perdoou as minhas palavras contra o marquez de Pombal! 

-- Sim é vosso inimigo... Porém, se os sacrilegos não têem uma punição legal, se a rainha não ceder aos rogos de seu marido e de seu filho, tel-a-hão e bem terrivel! Um pertence aos Alorna que odeio, o outro é descendente de Gomes Freire que combateu a Companhia no Brazil, o outro é o frade tornado cadete e que tem comnosco uma conta em aberto...  

-- No entretanto, minha filha! 

-- Ser-vos-ha restituida! bradou com compaixão, o oratoriano. 

E o cardeal, como transfigurado, começando a ver no presente um homem de bem, na sua volubilidade servil, exclamou: 

-- Oh! É a vida... é a vida que me trazeis... E onde está ella? 

-- Em logar seguro... Em meu poder! 

-- Oh! Conduzi-me lá... conduzi-me á sua presença! 

-- Alto, cardeal... Isso depende de certas condições! 

-- E que condições, interrogou elle, fazendo-se pallido e começando de novo a descrer do Tavora. 

-- Eil-as, volveu elle indo muito direito ao fim. 

-- Vossa filha entrará num convento...  

-- Ah! E D. Ramiro? 

-- Tornar-se-ha seu esposo dentro em tres annos...  

-- Não... Exijo que seja já... Quero assistir a esse consorcio 

-- Acceito... Porém...  

-- O que? 

-- Legareis a vossa fortuna a...  

-- Á Companhia de Jesus, não é assim? bradou o cardeal cheio de colera, 

-- Apenas metade e a outra metade a este vosso servo! disse com cynismo o oratoriano. 

João Cosme, fez-se livido ante semelhante audacia, buscou erguer-se na cadeira e exclamou em voz entrecortada: 

-- Nunca! Seria condemnar minha filha á miseria! Ramiro de Noronha é bem fidalgo mas é pobre...  

-- Dar-lhe-hia uma patente! 

-- Quem? interrogoa o cardeal assombrado. 

-- Eu! 

-- Vós? 

-- Sim de que vos admiraes? 

-- Já chega ahi o vosso poder? 

-- Por agora apenas tenho essa influencia... O principe D. João não me nega cousa alguma, dentro em alguns annos, será a rainha a primeira a obedecer-me! Na côrte tudo vae mudando, cardeal. O marquez d'Angeja está muito doente e interinamente o secretario d'estado é o conde de Villa Nova da Cerveira que é dos nossos! Thessalonica desapparecerá um dia... No dia do triumpho! Mas para isso, eu simples frade oratoriano, preciso ser bispo e para o ser careço de vosso dinheiro... Vamos, cardeal, é pegar ou largar... decida...  

-- E se eu recusar? 

-- N'esse caso jamais vereis vossa filha! 

-- E que lhe fareis? gritou o cardeal em tom raivoso, fazendo um esforço para se erguer. 

-- Nos carceres do Santo Officio ha muito logar para as monjas que se deixam raptar, ha cellas gradeadas para aquellas que commettem sacrilegios! 

-- Ah! E terieis a coragem? 

-- De me tornar vosso inimigo... Oh! Sim! Todos os meios são bons para conseguir os fins e vós o sabeis, como eu, tanto que começarei a transigir com os vossos inimigos, com os raptores de vossa filha! 

-- Sabeis?...  O que...  Oh! Meu Deus! 

-- A Companhia, como no nosso tempo, sabe tudo... Sabe por exemplo que o marquez de Alorna aconselha o filho a casar com vossa sobrinha D. Henriqueta da Cunha e que o conde de Assumar vem aqui oflerecer-vos os seus serviços n'esse intuito... Negocio por negocio antes commigo que com elle! 

O cardeal estava assombrado de semelhante audacia e em voz rouca, berrava: 

-- Nunca... Nunca... Hei-de ter minha filha e conservarei a minha fortuna! 

O frade jesuita, soltou uma gargalhada e volveu: 

-- E quem vos assegura isso? 

-- El-rei a quem irei annunciar a vossa infamia! tornou o cardeal como louco. O arcebispo diante do qual, eu o altivo, me rojarei a pedir o vosso supplicio! 

-- Vós? 

-- Sim... Eu, um velho, de que todos terão piedade quando contar as suas desventuras...  

-- E ao qual todos odiarão quando eu lhes contar as suas torpezas. 

-- Torpezas? 

-- Sim... Esquecei-vos que entrastes na conspiração contra a rainha? 

-- Por vosso conselho... Aconselharas-me a vingança... Lembrae-vos bem...  

-- Ide dizer isso ao principe D. João e rir-se-ha de vós, dizei-o a el-rei e elle responder-vos-ha, que quem atraiçoou o marquez de Pombal, o que renegou o nome dos Tavoras que eu uso com honra e sempre usei, não tem o direito de fazer accusações. Tomei as minhas precauções, senhor cardeal! 

-- Oh! miseravel falar assim a um homem como eu... A mim que sou um superior ecclesiastico...  

-- Porque vos curvastes muito, não porque o merecesses! Lembrae-vos do desprezo com que Pombal vos chamava o cão de seu irmão Paulo de Carvalho... Lembrae-vos que na côrte todos dizem repetindo a phrase feliz d'um alumno da Academia da Marinha que pelos modos vos conhece, um tal Manoel Maria... <marca num="*" pag=360>  E sabeis o que disse esse rapaz? Que os onze mil volumes de vossa bibliotheca são as onze mil virgens!... Porque nunca os abristes; porque não os comprehendeis...



<nota num="*" pag=360> Bocage </nota>

 

-- Oh! Insulto sobre insulto! A um velho, a um doente!... Sois o maior dos miseraveis, José Maria de Mello e eu vos amaldiçoo!... 

O cardeal estava livido ante o jesuita que olhava ferozmente, gargalhando: 

-- Pensae bem no que vos proponho... Ou vossa filha entregue nos vossos braços ou então o carcere da inquisição para ella... Monja sacrilega, filha de couto damnado, sacrilega de sangue... A filha d'uma freira e d'um cardeal! Eu o direi... eu o espalharei d'um lado ao outro da cidade! 

-- Oh! Infame... infame! murmurava o principe da egreja ligado á sua cadeira pela gotta e lançando ao frade, olhares injectados de sangue. 

Por fim veiu-lhe uma crise. 

As lagrimas começaram a cahir-lhe nas faces enrugadas, o corpo tremia-lhe n'uma convulsão, todo elle se agitava e não podendo resistir áquella dôr immensa, supplicava: 

-- José...  Oh! Tem piedade de mim! 

O jesuita teve um sorriso de vingança satisfeito ao vêl-o humilhado e exclamou: 

-- Cardeal: Antes de ser vosso parente sou o dos Tavoras morto vilmente n'um patibulo á ordem do infame ministro que deve arder agora no inferno... Sou Tavora e sou jesuita! Não perdoo... Os descendentes de Pombal soffrerão porque a Companhia de Jesus se apossará d'elles, os Braganças, pelo menos Maria I, a filha do homem que assígnou a sentença de morte dos meus parentes, pagal-o ha bem caro! Para isso careço de poder! Para o conseguir é necessario dinheiro e o meu é pouco! Careço do vosso ou d'outro! Eis o que vos digo ainda: 

-- Irei até ao fim por esta ideia! Acceitaes ou recusaes? Vamos cardeal...  Não tenho tempo a perder...  

-- João! 

-- Acceitaes ou recusaes? 

-- Oh! piedade...  

-- Pela ultima vez que decidis? gritou elle com raiva intensa fixando o parente. 

O velho calou-se; a face tingiu-se-lhe de sangue, sentiu-se quasi moribundo, almejou ver ainda uma vez a filha e então, cobardemente, parecendo vel-a já entregue aos fâmulos brutaes, o cardeal, o pobre pae, exclamou: 

-- Acceito... acceito... Mas quero vêl-a... Casal-a-heis com D. Ramiro de Noronha? Não é assim? 

-- Sim... Casal-a-hei! 

-- Oh! Então depressa... depressa... Ide buscar minha filha! 

-- Redigi primeiro as vossas ultimas vontades! volveu o outro no seu tom brutal. 

-- O que? julgaes que vou morrer já?... perguntou o pobre velho muito agitado, temendo ver chegar a ultima hora sem beijar aquella creança que ia desherdar. 

-- Tudo se espera n'este mundo; foi a resposta do jesuita, que continuou: 

-- Dentro em tres horas careço das vossas ordens... Irei buscar D. Elvira e deixal-a-hei ao vosso lado! 

Foi para a porta com grande aprumo e voltando-se ainda uma vez, bradou: 

-- E não mandeis que os vossos servos me sigam! Seria tempo perdido, porque trago escolta para lhes poupar passadas! 

Sahiu muito rapidamente emquanto o cardeal soltando um grito se deixava cahir desamparado na cadeira. 

Tantas commoções tinham abalado o seu organismo depauperado, ficava com o rosto muito livido, a cabeça deitada para traz, como morto. 

Paulo, o servo, entrou e soltou uma exclamação de dôr. 

Dentro em pouco deitavamn-o no leito e a cabeceira do cardeal era rodeada pelos physicos que luctavam debalde para o salvar. 

Além no interior do quarto luxuoso, o enfermo, mettido na alvura do leito, abria os olhos ao cabo d'alguns momentos depois de ter sido sangrado e murmurava: 

-- Minha filha... Oh! Elvira! 

Cahia de novo nas almofadas e ficava no seu rouquejar oppresso, corno luctando com a morte, sempre rodeado pelos medicos e pela creadagem. 

Depois, ao ultimo raio do sol que lhe brincava no rosto, ergueu-se no leito e em voz fraca, supplicou: 

-- Oh! Vão chamar meu irmão. Que venha!... Que venha!... N'esta occasião á porta apparecia uma purpura e o patriarcha de Lisboa conduzindo os santos oleos acercava-se do enfermo, acolytado por uns brilhantes padres que resavam em tom plagente. 

Sahiam todos do quarto, deixando face a face os dois principes de egreja que se encaravam tristemente. 

D'ahi a algum tempo uma sege parava á porta e fr. José Maria de Mello, apeava-se dando algumas ordens ao bolieiro e a uns seis ou sete homens que appareceram de repente sahidos dos diversos portaes. 

Depois avançou para a escada e viu ainda o perfil do conde de S. Vicente que se dirigia para o quarto do irmão. 

O patriarcha vinha sahindo com o seu sequito e o oratoriano curvou-se muito admirado, murmurando a fazer-se pallido: 

-- Mas que quer isto dizer?... Que significa semelhante cousa? 

E o cardeal da Cunha falava muito baixinho encostado ao irmão que o olhava admirado e estremecia ao ouvil-o dizer: 

-- Oh! E casa a Henriqueta com o Assumar!... Peço-te... É o meu ultimo desejo... Vela por minha filha se a encontrares! Mas dá tambem tua filha a D. Pedro... Serão felizes... Serão felizes...  

-- Far-te-hei a vontade, João!...  assentiu o conde. 

E elle com a voz entrecortada, murmurou: 

-- Fui um grande criminoso! Pombal... Pombal... Perdão! Do meu leito de morte eu abençoo a tua e a minha filha!... Oh!... José Maria de Mello é o maior dos miseraveis... A rainha... a rainha... Tavora... Senhora! 

O conde estremeceu mais uma vez, curvou-se a ouvir as suas ultimas palavras mas o cardeal deixava pender a cabeça e ficava mudo para sempre. 

O conde de S. Vicente ficou resando á cabeceira do irmão durante uns instantes, depois levantou-se e ao chegar á porta viu José Maria de Mello como petrificado, voltou-lhe as costas com desprezo, emquanto o oratoriano enrodilhado no habito religioso, se dirigia para a escada, murmurando cheio de rancor: 

-- Morto!... Morto!... Oh! Até na morte foi imbecil, o miseravel! 

O cardeal foi vestido na purpura que manchava d'um colorido sangrento a colcha branca do leito, a sua cabeça de velho tinha uma nota de marfim antigo apoiada nas almofadas e nos seus labios havia um sorriso de beatitude desde que morrera certo da felicidade de sua filha. 







XXVI 



O poder do odio 









o voltarem da egreja onde tinham deixado o corpo do cardeal, revestido das suas insignias, dormindo para sempre, via-se os rostos hypocritamente compungidos dos que o tinham acompanhado e advinhava-se o sorriso com que d'ahi a momentos assistiriam a um outeiro. 

A côrte viera tambem fingindo esquecer as desavenças trajada de nojo, os peraltas promettendo coroas d'orações, os frades em longas filas tristes nos habitos, os cantores do paço bojudos e mellifluos que tinham recitado a cantata funebre, as damas e os cortezaos, todos agora desfilavam pela nave da egreja, lamentando o cardeal, falando de virtudes que elle nunca tivera. 

Um homensinho magro, secco, ossudo, de pelle engelhada que se besuntava de carmim n'uma ridicula e extranha mascara, as faces pintalgadas de signaesinhos como as damas, caminhava aos saltos, sorridente e affectado, dizendo em voz aflautada em francez para José Maria de Mello, que caminhava a seu lado: 

-- Oh! Tenho-os visto morrer todos! Os do meu tempo...  

Por Deus! Os que vieram depois... Porque eu sou velho, muito velho, caro reverendo...  

-- Oh! Senhor duque de Lafões, ninguem o diria... volveu com uma certa ironia, o outro. 

-- E no emtanto tenho corrido meio mundo... Tenho-me gasto bem por essas Europas!... Tudo vae da compleição... Sou velho mas sou forte... Olhe, repare n'estes rapazes d'hoje... Queria-os, vêr nos bandos como no tempo de D. João V... Ah! Aquelle infante D. Francisco... Vi-o uma vez derrubar com um tiro a distancia ainda assim, um marinheiro que o saudava no alto d'uma verga... Oh! No meu tempo tinha-se boa pontaria... Veja lá estes Bragança d'hoje... O D. João, um rapaz avelhentado, o D. José, esse um magister!...  Depois é ver os outros... Ora repare n'este que ahi vem... e apontava um rapaz muito pallido, vestido em todo o requinte da elegância e que se dirigia para a saída. 

O duque accrescentava: Se isto se parece com o conde de S. Lourenço! 

-- Eh! Meu velho! exclamou dirigindo-se a um homensinho muito velho mas desembaraçado que lhe passava ao lado e enfiava o seu braço no d'elle, dizendo: 

-- Homem... Arranjaste bem a cabeça para as bodas com a morte d'esse pobre cardeal! 

Ia voltar-se para o oratoriano, porém este acercava-se do rapaz para o qual o duque lhe chamava a attenção e exclamava: 

-- Oh! D. Ramiro de Noronha! 

-- Reverendo! volveu o mancebo no seu ar tranquillo e em voz compungida. Não imaginaes como sinto a morte do vosso parente! 

O oratoriano lançou-lhe um olhar investigador e tornou: 

-- Comprehende-se... Era uma grande alma, esse pobre cardeal!... 

-- A morte de sua Eminencia, arrebata-me as minhas mais caras esperanças! 

-- Ah! E porque? 

-- Tenho que renunciar á mão de D. Elvira a quem amo apaixonadamente...  

-- E quem lh'o disse? 

-- Mas... Se é possivel encontral a... E com a morte do cardeal vae esquecer esse rapto...  

-- Por Deus! Esquecerá aos da côrte mas a nós outros, meu caro D. Ramiro, a nós outros...  

-- Oh! Mil annos que viva jamais a esquecerei! volveu o mancebo. Ah! Aquella noute em que esperava vêl-a atravez a gelosia, quando ia ás Salesias levado n'um impeto porque me tinham falado d'uns amores que mantinha e nos quaes não acreditara, o coração batia-me apressadamente no peito... O que soffri!... Depois esse rapto!... E quando quiz gritar... Uma espada que se desembainhava manejada por mão possante... Ainda quiz sustentar um combate, chamar a ronda... Mas aos primeiros botes fui ferido... Esse golpe jamais o esquecerei... E se não amasse Elvira, casaria com ella do mesmo modo só para me vingar! 

-- Sabeis já o nome do seu adversario, sem duvida? 

-- Não se fala n'outra cousa na côrte... Foi esse maldito Gomes Freire...  

-- Auxiliado no rapto por D. Pedro de Portugal...  

-- Assumar que ama a outra sobrinha do cardeal...  

-- Ama? Quem... D. Henriqueta da Cunha? A filha do conde de S. Vicente... Oh! Eis ahi o que ignorava apesar de saber muitas cousas...  

-- Se quizesses auxiliar me na vingança... propoz a medo o mancebo. 

-- Na vingança?... Oh! Mas estou ao vosso dispor! 

-- Sabeis onde elles occultam D. Elvira? 

Os olhos do oratoriano fusilavam em extranhos clarões e bradava: 

-- Não... Ignoro...  

-- Sabel-o-hei eu! Se Gomes Freire tem por amigos, o conde de Assumar e Vasco de Miranda, eu tenho Jacob Mestral, Silva Menezes e Balthazar d'Athouguia! 

-- Sim... É oppor a força á força e vingae-vos sobretudo em Gomes Freire... Vou dar-vos um auxiliar se o desejaes! 

-- Mas quem? 

-- Um frade. 

-- Um frade? e que auxilio me pode prestar?...  

-- O de vos aconselhar... O de vos ensinar os lados vulneraveis d'esses homens, o de combinar os planos com que os attacar! 

-- E como se chama esse homem? 

-- Fr. Fabricio...  

-- Oh! Não conheço... 

-- Conhecel-o-heis ainda esta noute! 

-- Onde? 

-- Na minha cella das Necessidades ás nove horas!...  

-- Lá estarei...  

-- E levae vossos amigos! 

-- Assim farei, reverendo!... volveu o mancebo affastando-se depois de ter feito respeitosa vénia ao frade. 

E elle ficou parado uns instantes ao vel-o affastar-se, os labios tremeram-lhe n'um sorriso d'odio e murmurou: 

-- Ah! E queixa-se o duque que já não ha bandos! Renascem agora! Mas estes ao menos não se acutillarão por desfastio mas sim porque um forte braço os move... Agora estes! Depois Thessalonica, em seguida o príncipe... E o poder será meu... Como vos vou impor oh! Tavoras! 

D'um salto ligeiro trepou para a sua sege e ordenou ao bolieiro: 

-- A Palhavã! 

O vehiculo começou a rodar aos bolcos pelas ruas ingremes, levantando nuvens de poeira, fazendo erguer os cães vadios que curavam ao sol as chagas, e sahiu as portas da cidade mettendo-se na amplidão dos campos, passando junto ás quintas que estacavam á beira dos caminhos, sempre na mesma velocidade, emquanto o reverendo pensava novas torpezas. 

Ao longe destacavam-se monticulos, depois ferteis campos, tudo a desenrolar-se á vista do frade que com um sorriso extranho combinava o seu plano. 

Entraram a galope em Palhavã, e elle ao sentir a sege parar rapidamente, exclamou: 

-- Pára. 

Metteu-se por uma congosta que foi subindo; a alguma distancia viu uns vultos que se moviam e deparou com uma tribu cigana que acampava mulheres de rostos tostados vestidas garridamente, deixavam creancitas enfezadas chuparem-lhes os seios negros, os homens bebiam em torno d'uma fogueira onde se preparava o jantar. E a alguma distancia um magro burro espojava-se entre uma legião de macacos presos a estacas e que carateavam o reverendo. Um urso, de pello cahido, velho, olhar melancholico, verdadeiro exilado de mais selvagens regiões, deixava-se como velho rei muribundo picar pelo mosquedo que o cobria. 

O frade lançou um olhar de travez para os ciganos, e torneando um muro, foi bater n'uma portinha baixa de pequeno quintalejo. A casa parecia deserta, nem o menor ruido se ouvia, tornou a bater com mais força, até que a portinha se abriu e Jacintho Peres, dobrando-se em dois, bradou: 

-- Ah! É vossa reverencia? 

-- Sim... Onde está fr. Fabricio? 

-- Conversa com a menina... quero dizer com a senhora D. Elvira! 

-- Que venha á sala do lado do campo... E previne D. Elvira de que preciso ter com ella uns momentos de conversação...  

-- Sim, reverencia...  

O famulo affastou-se seguido d'um olhar odiento que o frade he enviava, murmurando: 

-- Oh! Como as cousas estão para me ver livre d'este basta avisar o vice-rei...  

Entrou então n'uma pequenina saleta que abria para os campos silenciosos e ouviu logo um ruido de passos que se approximavam pouco a pouco, e dentro em instantes apparecia no limiar a figura esbelta de fr. Fabricio que exclamava: 

-- Deus seja comvosco, irmão! 

-- Assim seja! resmungou elle, fazendo um gesto para que tomasse logar n'uma das cadeiras. 

O jesuita obedeceu-lhe e fr. José Maria de Mello, começou: 

-- Fabricio, ou antes Luiz de Berredo, lembraes-vos ainda das palavras do nosso geral? 

-- Sim, irmão! 

-- Pois chegou o momento de começar! 

-- Oh! Ha muito que o esperava! 

-- Esta noute tereis á vossa disposição quatro homens aos quaes com um pouco de habilidade, apenas tereis que ordenar para serdes obedecido...  

-- Famulos do Santo Officio? 

-- Não... Fidalgos! 

-- Como? Fidalgos! 

-- Sim... Chamam-se D. Ramiro de Noronha, Silva Menezes, Jacob Mestral e D. Balthazar d'Athouguia! Constituem um grupo que odeia o do vosso irmão! 

-- Bem, reverendo... Com estes elementos começae...  

-- Oh! Tirarei uma tremenda vingança... A Companhia de Jesus ficará satisfeita... Se precisardes d'outro auxilio introduzi-vos em casa de Pombal! 

-- Dos filhos do marquez? 

-- Sim... E começae a obra por elles...  

-- Irei até ao fim...  

-- Agora é necessario attrahir Gomes Freire a certo logar... 

-- Onde? 

-- Aqui... respondeu elle serenamente. 

-- Mas como? 

-- Fallando lhe de D. Elvira... Virá apenas Gomes Freire e esse será a primeira victima...  

-- Mas como obrigal-o? 

-- Deixae que me responsabiliso por tudo! 

-- Uma vez aqui...  

-- Estamos vingados...  

-- Traia-se então d'attrahir tambem, Bernardim Freire! 

-- Perfeitamente...  

-- Mas e se por um acaso elle encontra aqui D. Elvira... Se a vê... Se ella vem a saber tudo? 

-- Oh! Que idéas as suas, meu caro Fabrício... E julga acaso que essa mulher ficará n'esta casa? 

-- Volta então de novo para a quinta do visconde de Villa Nova de Cerveira, em Mafra? 

-- Não...  

-- Então para onde? 

-- Para onde se costumam conduzir as hereticas...  

Apesar de todo o seu desejo de vingança, o jesuita estremeceu e balbuciou: 

-- Mas quer dizer...  

-- Para a Inquisição! D'ali ninguem a arrancará... 

-- Mas e se o inquisidor supremo...  

-- O que? Julga acaso que é D. Elvira de Mello que vae ser inscripta no livro?...  

-- Então...  

-- Um nome vulgar accusado de heresia...  

-- Oh! É engenhoso, meu caro reverendo. 

-- Não... Apenas não olho aos meios para conseguir os fins... 

-- Já sabe então com quem tem de se encontrar...  

-- E agora... Vamos fallar a D. Elvira...

Atravessaram um pequeno corredor e emraram n'um aposento onde uma velha resava nas suas contas; ao vêr o reverendo levantou-se beijou-lhe a manga do habito e exclamou: 

-- Ah! Santo frei... A menina já perguntou hoje por vossa reverencia. 

-- Previna-a que estou aqui, Belmira! 

D'ahi a momentos eram ambos introduzidos n'um quarto mobilado com certa riqueza e onde se via a joven que á chegada dos frades se ergueu, exclamando: 

-- Vou emfim, ver meu tio, fr. José Maria de Mello? 

D. Elvira vestida n'um roupão claro que fazia destacar a sua formosura, olhava o reverendo com grande impaciencia ao fazer-lhe aquella interrogação. Era realmente bella assim, n'aquella attitude de grande dama, um ar triste, muito esbelta, a fronte fascinadora. 

Ao fazer a sua interrogação, olhava sempre na mesma insistencia o interlocutor que volvia: 

-- Sim, minha filha... Hoje mesmo sereis conduzida á presença do senhor cardeal...  

-- Porém não succederá como hontem, reverendo? Oh! Aquelles homens, o viatico, tudo me fazia advinhar alguma cousa de horrivel!...  

-- Sua Eminencia melhorou e já hoje vos pode receber...  

-- Oh! Até que emfim... Lançar-me-hei a seus pés supplicando o seu perdão...  -- Perdão?... Oh! Já de ha muito vol-o concedeu! 

-- Elle? Será possível? 

-- Sim, minha filha, perdoou-vos! Apenas esteve alguns dias sem vos vêr, mudou de proposito, o bom cardeal...  

-- Mudou de proposito? 

-- Sim... D. Ramiro de Noronha supplicou-lhe de novo a vossa mão! 

-- Oh! Eu não quero casar com esse homem! gritou ella cheia de desespero. 

-- E essa é a opinião de vosso tio! 

-- Quer dizer? 

-- Que se vos conduziu aqui foi apenas para descobrir o nome do homem que amaes e entender-se directamente com elle... 

-- Oh! Meu Deus! 

-- Sim... Entender-se e conceder-lhe a vossa mão! 

-- Oh! Meu bom reverendo!... Não é verdade que a felicidade mata algumas vezes? 

Fazia-se pallida e deixara-se cahir na poltrona, escondendo o rosto nas mãos a derramar lagrimas de alegria. 

Os jesuitas trocaram um sinistro olhar e por fim José Maria de Mello, exclamou: 

-- Vosso tio auctorisa-vos a escrever ao vosso noivo... 

-- A elle! A Gomes Freire?... Oh! Obrigado, meu Deus, mil vezes obrigado! exclamou a joven tomada do mais intenso jubilo. 

E correu logo para a porta, exclamando:

-- Belmira... Belmira... Quero escrever! 

A velha acercou-se, interrogou o reverendo com o olhar e de seguida ante a permissão d'este voltou com os objectos pedidos, dizendo: 

-- Ah! Eu bem vos dizia que serieis muito feliz! 

Agora, o jesuita olhava-a, via-a debruçada sobre o papel, e dizia-lhe: 

-- Dir-lhe-heis o logar onde se encontra... Que o cardeal consentiu no seu enlace...  

-- Mas e onde o poderei vêr? 

-- Aqui! 

-- Não disse que ia partir? 

-- Sim... Mas apenas á noute e o vosso noivo virá antes d'isso para a acompanhar a casa de seu tio!... Não lh'o digaes... O pobre mancebo morreria de felicidade! 

E no seu ar mais requintadamente hypocrita, assegurava: 

-- Emfim! Ides ser feliz! 

-- Oh! Como vos agradeço, como vos agradeço! 

Orvalhava de lagrimas o papel da carta que escrevia, sorria de jubilo e chorava ao mesmo tempo, o coração batia-lhe anciosamente e ao entregar a carta ao reverendo desfallecia de novo. 

Elle, tomava rapidamente o papel, sahia do quarto com fr. Fabricio e exclamava: 

-- Aqui tem a primeira arma! Mande esta carta ás dez horas e ás onze elle estará aqui!... Parta para as Necessidades e aguarde os fidalgos! Dize-lhe segura a vingança! 

As horas iam decorrendo e a noute vinha cahindo, quando elle entrou de novo no quarto da joven e exclamou: 

-- Partamos! 

-- Ah! E Gomes Freire... 

-- O creado não o encontrou no palácio d'Assumar... No emtanto procural-o-hemos em sua casa...  

-- Em sua casa? 

-- Sim... Iremos juntos, subirei e conduzil-o-hei ao logar onde se encontra o cardeal e onde ficareis... 

Ella, teve como um estremecimento, julgou ver luzir uma scentelha odienta nos olhos do padre e murmurou: 

-- Meu Deus... Protegei-me! 

O frade sahiu de novo e a joven vestindo-se rapidamente cahiu de joelhos em face d'um crucifixo suspenso da parede e começou a fazer as suas preces. 

Foi interrompida pela voz melliflua de fr. José Maria, que do limiar lhe dizia: 

-- Vinde, senhora... A cadeirinha aguarda-vos...  

Levantou-se a custo, relanceou um olhar pelo quarto e atravessou as casas sempre precedida pelo jesuita. 

Á porta uma cadeirinha esperava-a... A distancia estava uma sege perto da qual se occultavam alguns homens armados. 

Subiu para a cadeirinha e ao cahir nas almofadas sentiu-se como entaipada ali dentro. 

As portas fechavam-se, ouviu que davam volta á pequena tranqueta e depois soltando um grito viu-se arrebatada n'um balanço certeiro, emquanto na sua rectaguarda rodava a sege onde fr. José Maria de Mello se recostava ao lado de Jacintho Peres, para o qual tinha de quando em quando olhares raivosos por detraz dos seus oculos verdes. 

Depois era assim como o ruido d'uma cavalgada que a escoltava e lá em cima no acampamento dos ciganos começavam a accender-se fogueiras e mulheres bojudas, tocando nos pandeiros entoavam seguidilhas alegres, como umas lançadas á primasia dos jesuitas. 

Brilhavam estrellas aos milhares, a aragem era branda e a lua recortava-se esbranquiçada no puro do céu recamado de scintillações extranhas. 







XXVII 



O poder do amor 





Madrugada. Desappareciam as ultimas estrellas e o vento punha arrepios breves á superficie das aguas. Á porta do Santo Officio dos lados do Jardim do Regedor, acabava de passar uma carroça carregada de palha. O conductor do vehiculo benzeu-se, e murmurou entre dentes um Padre Nosso. Depois bateu no portão que se abriu d'ahi a momentos n'um grande ranger de ferrolhos e um leigo appareceu, resmungando: 

-- Muito trabalho me dão as camas dos herejes! Ora para que se lhe mudará a palha?... Deviam dormir sempre na mesma... Com negregados não se tem attenções! 

E para o carroceiro que estava descarapuçado na sua frente, bradou: 

-- Entre lá, irmão... Vou abrir o palheiro... 

Como a carroça se movesse, á superficie da palha, appareceu uma cabeça logo encoberta ao ver que o leigo ordenava em tom impertinente: Deite para ahi a carga! 

O vehiculo recuava até á porta do palheiro entrava e ficava no escuro. 

A mesma cabeça se ergueu circumvagando um olhar. 

O casarão estava immerso nas trevas, a distancia viam-se ainda alguns montes de palha antiga para onde o individuo que vinha escondido na carroça dirigia o seu impaciente olhar. 

Depois ouviu a voz roufenha do leigo, exclamar: 

-- Irmão: Esperae que vos quero aquecer... É justo não é assim! Se o Santo officio recebe do vosso patrão o dizimo de palha, um leigo deve pagar com um dizimo de aguardente... Esperae... 

ou antes vinde! 

Levava-o atravez o pateo até ao seu pequeno casinhoto do porteiro onde entravam ambos. 

Ao vêl-os affastarem-se da carroça, um homem saltou lestamente para o chão, relanceou novo olhar pelo palheiro e tirando da algibeira uns bagos de chumbo correu a introduzil-os na fechadura do largo portão, mettendo-se depois silenciosamente na palha que já existia n'aquelle logar, murmurando: 

-- Se os malditos conseguem apesar de tudo fechar a porta sou um homem morto. 

Os outros voltavam conversando, a carroça foi descarregada rapidamente, ouviu-se o ruido das suas rodas no pateo e d'ahi a momentos o leigo que debalde buscava fechar o portão, murmurava em voz alcoolica: 

-- Ora... Deixa-te estar... Não é d'ahi que os presos fogem!... Oh! Nem ha memoria de algum fugir do Santo Officio. 

O homem que ficara mettido na palha, respirou n'um desabafo ao vêr o outro affastar-se e ficou ali estendido d'ouvido á escuta, occultando-se ao menor ruido. O dia avançava; de vez em quando chegavam até ali gemidos, cadeias que se arrastavam, tilintar de ferros á mistura com gritos selvagens. De seguida era um cantico monotono, logo um sino que tocava, depois ainda famulos que entravam e sahiam. Ámanhã seguiu-se a tarde em que elle ouviu seges rodando na calçada e o vozear dos frades á mistura com um De profundis roufenho que o porteiro entoava na sua voz d'ebrio. 

No tecto do palheiro havia ruidos extranhos como de grandes ratos que á approximação da noute sahiam das suas tocas. 

O homem erguera-se e começava a habituar-se ás trevas, de quando em quando apertava o cabo da sua immensa navalha que trazia escondida na cinta larga e fusilava um olhar extranho para o irmão porteiro que rondava silencioso por aquelle pôr de sol. 

Chegara finalmente a noute. Batiam as Ave Marias por todas as torres, os ruidos amorteciam-se pouco a pouco. 

Agora era já completamente escuro; as horas decorriam e o homem erguera se impaciente começando a caminhar d'um lado ao outro do casarão para se desentorpecer. 

Depois com mil cautellas, acercou-se da porta e espreitou para fóra. Havia luz no casebre do porteiro para onde elle se dirigiu pé ante pé, com mil cautellas. Olhou para o interior da casa e viu que o leigo dormia sobre o catre; empurrou ao de leve a porta que mecheu obrigando-o a estremecer, passou-lhe um arrepio na espinha, relanceou um olhar pelo pateo deserto, fez um gesto de grande ousadia e empurrando a porta com força viu que ella se abria ao mesmo tempo que o porteiro acordava em sobresalto exclamando: 

-- Que é isto!... Que é! Que quer? 

Sentava-se na cama espavorido, emquanto o nosso homem, abrindo rapidamente a navalha, exclamava: 

-- Eh! Pouco barulho se tens amor á vida! 

-- Mas... Que quer? Oh! que audacia! 

-- Admiras-te? É que não me conheces! Vamos... Nem um grito... Levanta-te e acompanha-me... 

-- Mas onde? 

-- Obedece porteiro do inferno! 

-- Oh! Que sacrilegio... 

-- Obedeces ou não! Collocou-lhe o ferro frio da faca junto á garganta ao mesmo tempo que o pobre homem se tornava livido e em voz muito tremula, julgando ainda sonhar ao ver a audacia daquelle desconhecido, dizia: 

-- Mas que quer de mim, fidalgo, eu sou um pobre leigo... 

-- Demais o sei... Levanta-te... 

Elle obedeceu a custo pallido de medo, não se atrevendo a soltar um grito, olhando sempre receioso a navalha enorme que o outro empunhava: 

Ia a envergar o habito porém o desconhecido tomava-lh'o e dizia: 

-- Veste outra cousa! Preciso do teu habito... 

Elle vestia á pressa uma roupeta negra e perguntava: 

-- Como entrou aqui? Que vae fazer? 

-- O que não te importa! Responde só ao que te perguntar... Fica sabendo que conheço os habitos da casa e se mentes rasgo-te a barriga... 

-- Fallae, senhor... fallae... tartamudeou o infeliz leigo. 

-- A que horas passam as rondas? 

-- Meu senhor... D'este lado não ha rondas... 

-- Ah! E por aqui não se entra no edificio?... 

-- Sim... Mas nunca se utilisa a entrada... 

-- Muito bem... Vejo que falias verdade... 

-- Agora que mais desejaes! perguntou elle um pouco mais á vontade. 

-- É necessario que me ensines o logar onde se encontra uma joven... 

O desconhecido vestia á pressa o habito do porteiro e tomava-lhe as chaves, emquanto o leigo, murmurava cobardemente: 

-- Mas que fazeis, senhor... Quereis entrar ahi... 

-- E porque não? 

-- Ah!... Mas é que é um crime! 

-- Crime? E o que aqui se pratica é alguma boa obra... Vamos responde... Sabes acaso da existencia n'este logar d'uma joven cigana... 

-- A Chiquita! exclamou o outro assombrado. 

-- Sim... A Chiquita... Vejo que a conheces... Onde está... Vamos, depressa, muito depressa... exclamou o desconhecido, olhando o frade que dizia: 

-- Ah! Vindes do mandado do senhor vice-rei do Algarve... Ella entrou para aqui por causa d'elle... 

Os olhos do rapaz brilharam, extranhamente, fez-se pallido e de seguida, murmurou: 

-- Bem e se assim fosse!... 

-- É que o passo é arriscado mesmo para um vice-rei... A Inquisição é um logar sagrado e d'onde ninguém sahe senão pela porta pnncipal... 

-- É o que vamos vêr! 

-- É o que lhe digo... E aconselho-vos a não tentar a aventura... Agora que sei quem vos envia, peço-vos que não façaes isso... De mais elle está peor por feiticeria... 

-- Que tens com isso! Indica-me a sua prisão e ai de ti se mentes! 

-- Temia então?... Mas o que vae ser de mim? Que me succederá?... Ninguem me salvará de morrer no potro... lamuriava o leigo vertendo copiosas lagrimas. 

Então o outro, exclamou: 

-- Vamos... Ou morres já ou não escapas ao potro porque custe o que custar arrancarei d'aqui esta mulher! 

Admirado da valentia d'aquelle homem, o leigo estremeceu, olhou o seu rosto insinuante e altamente sympathico e murmurou com admiração: 

-- Sois um valente! Ah! Ninguem tentará semelhante aventura... 

-- Vá... Indica-me a prisão da cigana... 

Então o leigo, começou a indicar-lhe o caminho com muitas reticencias em voz tremula, murmurando: 

-- Ao lado da sala das torturas, uma porta baixa pintada como as outras de preto... A quinta a partir da esquina... 

-- Bem... Agora acompanha-me! 

Nos olhos do porteiro fazilou um clarão d'alegria ao ver que o seu carrasco se lhe entregava. Transporia a porta, soltaria um grito e seria o bastante para que corressem em seu soccorro os vigias, e o livrassem d'aquella situação. 

Mas o rapaz, vestido no habito do leigo, interrogava ainda: 

-- Tens aqui a chave das prisões? 

-- Sim... Possuo eu uma, a outra está em poder dos famulos de serviço! 

-- Qual é! 

-- Esta que abre todas as portinhas! volveu o leigo sentindo-se mais animado á medida que via o desconhecido avançar para a porta e dizer-lhe: 

-- Caminha na frente! 

Era exactamente o que desejava, avançaria, penetraria no edificio e iria direito á pequena escada do alto da qual gritaria por soccorro. 

Ouvia então a voz do desconhecido, exclamar: 

-- Para onde vaes? 

-- Mas para a sala das torturas! 

-- Estás louco... bradou brutalmente agarrando-o pela gola e arrastando-o para a porta da rua que abriu rapidamente, murmurando: 

-- Nem um grito ou tens com quem te haver! 

Como se alguem já aguardasse a scena, o leigo sentiu-se empurrado para a rua e preso por quatro braços musculosos ao mesmo tempo que uma voz terrivel lhe dizia: 

-- Nem um ai, ou morres! 

Viu luzir punhaes que dois homens mascarados seguravam e sentiu-se arrastado para longe ao mesmo tempo que a porta da Inquisição se fechava sobre elle. 

Então o rapaz ficou só no pateo, circumvagou um olhar e com o mais decidido dos ares, avançou para a porta do edificio a qual abriu sem fazer ruido. 

Clarões breves e vacillantes de lanternas espalhavam-se lá muito para baixo tirando scentelhas do aço polido dos instrumentos de tortura. 

Deslisou então com infinitas precauções, arrastando-se para não fazer ruido, vendo como sombras pardas que deslisavam tambem ao clarão breve das luzes. 

Além, na sala immensa tudo parecia falar de crime. 

Só a vista dos enormes instrumentos mesmo em pleno dia punham calafrios á recordação do uso que d'elles se fazia. No emtanto, o desconhecido, continuava o seu caminho, cerrando os dentes e apertando a navalha prompto a lançar-se sobre o primeiro que lhe apparecesse. 

Chegava em face do potro. Via-o cheio de horror n'aquella apparencia de velho monstro a ameaçal-o! Ali nem um sussurro, nem. um gemido. A dôr dormia. Contou as portinhas a partir da esquina que o leigo lhe indicara; e então com um novo olhar, não podendo eximir-se a um estremecimento, viu uma sombra que avançava lentamente lá em baixo, vindo para o seu lado. Era um dos vigias sem duvida, tilintava chaves, lembrava um phantasma prepassando pelos instrumentos de torturas emquanto o outro se mettia no recanto. 

A sombra passava sem o vêr, affastava-se, dava a volta e subia pela pequena escada do fundo, ao mesmo tempo que elle mettia a chave na fechadura dava-lhe volta e penetrava n'uma cella estreita onde apenas havia um monte de palha e uma bilha d'agua que poude entrever á luz de mecha que accendeu. 

E sobre a palha, a mais encantadora mulher que se pode imaginar, os seios sahidos do fato rasgado, toda abandonada, dormia a somno solto, movendo-se por vezes e mechendo os labios rubros; o desconhecido puxou para o rosto o capuz, curvou-se sobre ella e abanando-a, murmurou: 

-- Levanta-te... 

Moveu se, soltou um pequeno grito ao abrir os olhos e exclamou, raivosa, erguendo-se d'um pulo, e avançando ameaçadora para o vulto: 

-- Ah! Que me querem ainda, carrascos! Mas vaes pagar pelos outros!... 

Porém no momento em que se lançava impetuosamente contra o recemchegado, elle deixou cair o capuz do habito, abriu-lhe os braços em que ella se lançou louca de alegria, os olhos orvalhados de lagrimas, dizendo: 

-- Joannico! 

-- Eu, meu amor, querida Chiquita 

A mecha apagava-se e elles ficavam unidos estreitamente no interior da cella do Santo Officio ella a murmurar-lhe muito baixinho: 

-- Oh! Como me amas... Como me amas... Meu querido... Meu adorado Joannico! 

Beijava-o loucamente nos labios, estremeciam ambos fortemente e por fim a cigana, dizia: 

-- Mas vamos sair d'aqui não é assim? Como conseguiste isto? 

-- Isso são contos largos... Saiamos o mais breve possivel... 

-- Ah! Sim... sim... Vamos! 

Iam sair sempre estreitamente enlaçados porém ouviu-se ruido de vozes, gente que chegava, que se movia, uma ordem authoritaria dada por alguém em tom soberbo: 

-- Abram essa cella! 

Os dois amantes estremeceram violentamente, recuaram de novo e ficaram como petrificados ao ouvirem os passos dirigirem-se para aquelle lado. 

Era alguma cousa de profundamente triste, quasi terem tocado a liberdade e agora caírem novamente em poder dos esbirros. E logo juntos, não podendo tentar cousa alguma para a salvação. 

-- Oh! Matar-nos-hemos ambos! murmurou ella como n'uma supplica. 

-- Sim... Depois de ter dado cabo d'alguns! affirmou resoluto o Joannico. Sempre abraçado á amante encontrava-se á porta, emquanto os esbirros abriam a cella contigua, dizendo um d'elles: 

-- Fr. José Maria de Mello... Esta está desoccupada... 

-- Conduzi para ella a primeira que vem na cadeirinha... É uma louca heretica que tem negocios com o demonio... Usa nomes que não lhe pertencem... Nunca mais sairá d'aqui! 

-- Oh! O mesmo que me diziam a mim... murmurou a meia voz a cigana. 

Agora ouviam-se gritos, uma voz feminina, clamando: 

-- Miseraveis! Miseraveis! Frade traidor!... Oh! Quero sair d'aqui! 

-- Esta voz!... murmurou por seu turno Joannico cheio d'assombro. Oh! Dir-se-hia... 

-- Fechem a porta! ordenou o homem a quem os outros obedeciam. 

Depois deram volta á chave e affastaram-se em grandes risadas, perdendo-se dentro em pouco os seus passos nas lages da sala das torturas. 

Da cella visinha vinha apenas um choro continuo, soluços, gritos  imprecações. 

E Joannico, murmurava: 

-- Oh! Não... Não pode ser... A sobrinha d'um cardeal! 

-- Estás louco! Quem se atreveria ? redarguiu a cigana, emquanto o amante abria a porta, puchava o capuz para o rosto e dizia: 

-- Caminha com cautella! 

Depois cerrou a porta com infinitas precauções deu a volta a chave, metteu o molho na algibeira do habito e murmurou: 

-- Deixal-as aqui... Podem ainda ser precisas para mais alguma vez... 

Como sombras rastejaram até á porta, passando por entre os instrumentos de morte e chegaram ao pateo onde a cigana, exclamou: 

-- Oh! A liberdade! A liberdade! 

-- Pouco falta! 

Abriu o portão que deitava para a rua do Regedor, fechou-o de seguida como se fosse a entrada da sua casa e chegando ao meio da viella soltou um assobio estridente. 

-- Ah! Joannico... Salva!... E salva por ti... Mas agora temos que fugir... 

-- Sim fugiremos... 

-- E teu amo? 

-- Já deixei o serviço do senhor conde ha um mez! 

-- E agora? 

-- Agora sou eu que mando! 

-- Ás ordens, capitão! exclamaram n'este momento dois homens que tinham chegado ao ouvirem o silvo e que o contemplavam admirados ao verem-no ao lado d'uma joven. 

-- Capitão?... murmurou a Chiquita? 

E elle, perguntou aos recemchegados caminhando para a egreja de Santo Antão. 

-- E o leigo? 

-- Guardado á vista, capitão! 

-- Bem, onde estão os cavallos? 

-- Ali na volta do Passeio Publico. 

-- Bem... Vamos! 

-- E que faremos ao fradepio.. 

-- Que venha comnosco. 

-- Comnosco? 

-- Sim... Passará por ser o raptor da Chiquita! 

-- Oh! Que bella farça... 

-- Se a representassem ali na rua dos Condes, ninguém deixaria de rir... 

-- Talvez que um dia a cante ao meu Tolentino... 

-- Ah! O tal poeta que nos poz em verso... 

-- E que por signal não vos conhece! Mas vamos, rapazes, vamos... 

A cigana cada vez mais admirada, olhava o amante e perguntava-lhe: 

-- Mas porque te chamam elles capitão? 

-- Ah! Porque os esbirros da Inquisição perseguindo um homem como eu, geram apenas um bandido! Sou o bandido Joanico! O teu amante! E n'um mez tão celebre que já ando em verso!... 

-- Ah! Joannico... Meu amor! exclamou elle lançando-se-lhe ao pescoço n'um impeto selvagem e bradando: 

-- Agora sim... agora é que somos bem livres!

Chegaram ao Passeio Publico e appareciam-lhes uns vinte homens a cavallo que ao verem o joven, bradavam: 

-- Isso é que se chama valentia, capitão! 

-- Que querem... É o poder do amor... 

-- Oh! Que bello é ter assim um chefe! exclamaram elles emquanto o Joannico saltava para o cavallo e punha a joven á garupa bradando: 

-- E agora direitinhos a S. Sebastião! 

-- Falta o frade! 

-- Elle ahi vem... 

E apontavam o leigo levado tambem á garupa d'um dos bandidos que, bradava: 

-- Viva seu leigo, raptor de encarceradas! 

-- Meu Deus! Meu Deus! murmurava o desgraçado, em quanto a cavalgada se punha em marcha estrepitosamente. 

Então do circulo do Passeio saíam alguns homens armados de chuços e partazanas que rezavam em contas, dizendo: 

-- Era o Joannico! Era o Joannico! Eis do que escaparam as rondas das ordenanças! 

E atravessando o espaço, ouviu-se no silencio da noute a voz argentina da cigana que nos braços do amante, cantava: 



Ai! Ai! Já não ha quem queira 

Ai! Ai! Já não ha quem queira 

Ganhar um vintem 

Passar a Chiquita 

PVas bandas d'além! 



E os homens da ronda, murmuravam agradecendo ao Altissimo terem escapado aos bandidos: 

Pater noster! Pater noster! 









XXVIII 



As idéas da açafata 





D. Maria da Penha atravessava o corredor dos aposentos da rainha e dirigia-se rapidamente para a sahida do paço, transpondo o vestibulo, n'um ar açodado, destacando-se no seu vestido branco no estreito espaço mal illuminado. 

Ao mesmo tempo abriu-se uma pequena portinha cerrada n'uma tapeçaria e D. Antonia de Castro, pé ante pé, tendo nos labios um sorriso mysterioso, entrou nos aposentos da princeza do Brazil. 

D. Maria Benedicta estava sentada n'uma poltrona e tinha aberto sobre os joelhos um grande livro d'illuminuras que olhava com certa indifferença, estando desde ha muito a contemplar vagamente a mesma pagina. 

Ao ruido que a açafata fez ao entrar, a princeza levantou a cabeça muito pallida com um tremor na voz, interrogou anciosamente: 

-- Então, senhora? 

-- Deu-se ou antes vae dar-se o que eu promettera a Vossa Alteza! volveu a açafata com segurança. 

-- Quereis dizer... 

-- Que D. Maria da Penha vae conceder uma entrevista a Sua Alteza, o vosso esposo! 

A princeza quasi desfalleceu. E de seguida, num tom resoluto, deveras para extranhar na sua molle organisação, exclamou: 

-- Oh! É impossivel! Ainda o não creio, Antonia... Sua Alteza, o principe meu esposo, com toda a sua intelligencia e grandeza, decerto não seria capaz de tomar a noiva d'um dos seus subditos! 

-- E porque não, desde que é ella a propria que se rende?... 

-- Ama-o? 

-- Não, alteza, não o ama... Deseja ser a favorita do futuro rei... Obedece sem duvida a um fim politico ou ao interesse... Busca talvez um rapido acesso para o seu cadete. 

Falava com tranquillidade, segura do que affirmava, deixando cahir as palavras como gottas de veneno no espirito da pobre princeza, roubando-lhe as illusões acerca do esposo, buscando leval-a a qualquer excesso. 

-- E onde se realisa essa entrevista? 

-- No pateo das damas... 

-- E poderei... Sim... Ser-me-hia facil assistir a ella? 

-- Vossa Alteza! 

-- Sim... Eu! tornou a princeza com dignidade. 

-- Mas lembrae-vos, senhora, que Sua Alteza o principe D. José, entrará em casa d'essa mulher! 

-- Oh! Basta que eu o veja ahi entrar! ... bradou ella devorada de ciumes. 

D. Antonia, curvou a cabeça e de seguida, muito rapidamente volveu: 

-- Alteza! Se o desejaes, estarei aqui ás nove horas... A entrevista está marcada para as nove e meia... 

-- E como sahirei do palacio?... interrogou ella, muito tremula. 

-- Disfarçada n'um trajo d'açafata... Ninguem reconhecerá vossa alteza... 

-- Seja! Mande-me esse trajo... ordenou D. Maria Benedicta, tomando heroica resolução e ficando meditativa, emquanto a outra, se inclinava dirigindo-se para a porta a dizer: 

-- Serão cumpridas as ordens de vossa alteza real! 

Depois, no corredor, sempre com o seu grande ar vingativo, dirigiu-se para os lados dos aposentos dos gentis homens do principe e foi bater a outra porta, ao mesmo tempo que uma voz, dizia: 

-- Entrae! 

Na sua frente, viu um mancebo rigorosamente trajado de gala e que bradava á sua entrada: 

-- Vós, senhora! 

-- Sim eu D. Ramiro de Noronha! Eu que venho trazer-vos uma grande nova... 

-- Para mim? 

-- Sim para vós... Ou antes alguma cousa com que podeis alegrar vosso amo... 

-- O principe! 

-- Sim... 

-- De que se trata? 

-- Sabeis dos seus amores? 

-- Tenho sido o seu confidente... Tanto mais que a mulher que sua alteza  istingue é afilhada de minha mãe... 

-- O que, D. Maria de Penha... 

-- É afilhada de minha mãe, repito. E bastante tenho luctado para que conceda a sua alteza essa entrevista ha tanto desejada... Só assim, o principe recuperaria o seu bom humor. Nada ha que o faça mudar... Outro dia em Salvaterra, no meio da caçada, quando a corte se divertia, sua alteza desappareceu; eu que estava de serviço, fui encontral-o a distancia, sentado na relva e entregue á mesma melancholia... Foi isso que me decidiu a insistir com D. Maria da Penha para que o attenda... Podia mesmo conceder-

lhe apenas uma entrevista... 

-- Conceder-lhe-ha e hoje mesmo! bradou a açafata no mesmo tom decidido com que fallou á princeza. 

-- Que dizeis?... Oh! Isso é maravilhoso!... Sua alteza vae ficar satisfeito! tornou o gentil homem com grande enthusiasmo. 

E como um bom aulico, desejoso das boas fortunas do seu senhor, o que importaria grandes complacencias da parte d'elle, bradou: 

-- Vou participar-lho! Oh! E a hora... Dizei-me a hora e o local, D. Antonia! 

Levantava se e ia dirigir se para a porta, quando a outra se collocou á sua frente com um sorriso ironico nos labios e exclamou: 

-- Ah! Attendei uns momentos! 

-- Que temos ainda? 

-- Dizei, D. Ramiro, sua alteza tem um grande desejo n'essa entrevista, não é assim? 

-- Pois... Assim fará sua alteza... E muita coragem terá ella, se resistirias propostas do principe... 

-- Está então combinado! 

-- Sim... 

-- Sim... 

-- Contaes conduzir D. José? 

-- Tenho a certeza! Se esse amor é a a grande preoccupação de sua vida! 

-- N'esse caso ás nove horas! 

-- Lá estaremos! 

-- O que? Acompanhaes sua alteza? 

-- Certamente... Apesar de que esta noute tinha que estar no convento dos oratorianos... 

-- Como? Dos oratorianos! 

-- Sim, boa amiga, trata-se tambem d'um negocio de mais alta importancia. 

E ao proferir aquellas palavras recordou-se da entrevista que José Maria de Mello lhe preparava com fr. Fabricio. Porém, agora muito resolvido, a attacar um dos seus inimigos, bradou: 

-- Escreverei a Silva Menezes e a D. Balthazar para que se apresentem em meu logar... 

-- Muito bem... Até á vista... E não vos esqueçaes da capa do cadete! 

-- Descançae! 

-- Agitae um lenço em frente das janellas! 

-- Nada me esquecerá... 

-- Adeus, D. Ramiro... 

-- Senhora minha!... 

E curvava-se a beijar-lhe a mão com certa graça, sentando-se depois a uma mesa a tomar a penna com que traçou na sua lettra enorme e irregular o convite para os seus amigos. 

Depois levantou-se e dirigiu-se rapidamente com o semblante transtornado da mais intensa alegria para os aposentos do principe. 

Sua alteza está no seu gabinete de physica! bradou um creado á interrogação de D. Ramiro de Noronha. 

-- Sempre occupado... murmurou o aulico entre dentes, descendo uma escada interior e indo bater n'uma pequena porta situada no andar de baixo. 

-- Oh! Para elle é a vida...  

-- Muito bem... 

-- E não se importaria de tomar o logar d'um outro... 

-- Como? D'um outro? 

-- Sim... Por exemplo d'um cadete de Peniche! 

-- Não vos comprehendo... volveu o effeminado fidalgo. 

-- Sabeis que Maria ama um cadete? 

-- Ah! O seu nome e tenho a certeza que será afastado da côrte... 

-- Isso é para depois! gritou elle com um clarão no olhar.

-- Por agora é apenas preciso que D. José tome o logar d'elle... 

-- O logar do cadete? 

-- Sim... Na entrevista que a sua paixão concede esta noute a Vasco de Miranda... 

-- Vasco de Miranda? dissestes esse nome? interrogou elle no maior dos sobresaltos. 

-- Sim... Conheceis esse homem? 

-- Oh! O companheiro de Gomes Freire e de Assumar! Mas n'esse caso é segura a vingança! 

-- A vingança? bradou ella por seu turno. 

-- Sim, a minha vingança! Esse homem é um dos que patrocionou a responsabilidade do rapto de Elvira de Mello! 

A dama soltou um grito d'alegria, e bradou: 

-- Ah! D. Ramiro ajudae então o principe... Vingae-vos! 

-- Para isso basta proferir o nome do seu rival! 

-- Melhor seria fazer com que elle proprio o visse... 

-- Tendes razão... Porem como conseguil-o! 

-- Bem simples... D. Maria da Penha concede esta noute ás nove e meia, no pateo das damas, uma entrevista a Vasco de Miranda... 

-- Bem... E depois... 

-- Basta que um outro vá ás nove e o cadete chegará tarde. 

-- E esse outro... 

-- Será sua alteza! 

-- Mas a açafata rcconhecel-o-ha! 

-- Não... Vasco costuma embrulhar-se na sua capa de cadete e agitar um lenço branco na escuridão... 

O principe do Brazil, tendo vestida uma comprida tunica de sarja curvara-se sobre um apparelho metallico e observava-o com escrupulosa attenção. 

Era um aposento largo, claro, cuja luz vinha do alto a infiltrar-se pela claraboia enorme. 

Por todos os lados se viam objectos de arte, pedaços d'estatuetas achadas em escavações, grande numero d'animaes empalhados, collecções de lepidopteros de azas matizadas distendidas, grandes machinas metálicas que constituam o divertimento d'esse principe que buscava achar algumas leis de sciencia, emquanto seu irmão vivia com os frades de Mafra. 

D. Ramiro ficara á porta, comquanto sua alteza deixava a machina para se dirigir ao fundo do aposento a buscar uma grande campanula. 

Ao voltar-se deparou com o cortezao todo humilhante, e bradou com grande enfado: 

Ah! És tu, D. Ramiro! 

-- Sim, alteza! 

-- É talvez o duque de Lafões ou alguém da Academia Real que me procura... Não quero ver ninguem, Ramiro... Se é esse bom Avellar Brotero, dize-lhe que volte de tarde, preciso trabalhar sósinho! 

Despediu-o com um gesto e ia collocar a sua campanula sobre um grande instrumento, curvando-se mais uma vez a segurar a manivela do apparelho. 

-- Ah! É necessario accender o fornilho!... murmurou julgando-se só e indo para um canto da casa, a acocorar-se em frente d'um pequeno torno a que elle proprio ia largar fogo. 

Mas o aullico avançava e murmurava também: 

-- Deixe vossa alteza que o auxilie! 

-- Ah! Ainda és tu? bradou elle com certa colera. 

-- Alteza! supplicou o cortezao. 

-- Queres alguma cousa? Oh! D. Ramiro... Tudo que quizeres... Tudo, mas deixa-me... 

-- Alteza! tornou o aulico. 

-- Fala! volveu D. José enchendo-se de paciencia e erguendo-se para se deixar cair n'um escabello. 

-- Trata-se... começou o outro com grande contentamento, sentindo que ia surprehender o herdeiro do throno, o futuro rei de quem esperava honrarias. 

-- Ah! D. Ramiro... Julgo que não me vaes falar dos teus inimigos! 

-- Não, alteza!... volveu elle com um olhar colerico. 

-- Nem dos teus amores... disse ainda o principe muito enfadado. 

-- Ao contrario... Vou falar dos amores de uma pessoa que vos ha-de agradar. 

Elle voltou-se, fez-se pallido e murmurou: 

-- Ah! Já cousa alguma me interessa... Tudo que podia desejar não é... Olha Ramiro, eu estou farto da vida... 

-- Oh! Meu senhor... 

-- Sim... Aborrece-me mortalmente... Que horrorosa é a existencia que todos invejam... Nós, os principes, principalmente aqui n'este paiz, somos uns authomatos... A vontade, essa cousa santa que existe em todos os homens, morre em nós outros... A vontade, Ramiro, que faz dos pequenos, grandes, que torna os humildes potentados, sinto-a aentro em mim com intensidade e não a posso demonstrar... Se soubesses! Se podesscs imaginar!... Olha, ás vezes

apeteço a miseria... 

-- A miseria, alteza? 

-- Sim... Sabes que na minha familia houve um principe, ainda ha bem pouco tempo, que a soffreu! E á sua vontade, ao seu talento, á sua audacia conseguiu triumphar, tendo todas as sensações do bello, soffrendo e rindo, desesperando-se e vencendo... Conheces a historia, D. Ramiro? 

-- Meu senhor... 

-- Ah! Desculpa... Tal pergunta nunca se fez n'esta côrte... Serias o primeiro que a soubesses! disse elle com desgosto, continuando: 

-- Pois, o irmão de meu avô, o infante D Manuel, irmão de D. João V, era como eu... Correu aventuras, deixou o paço, onde seu irmão D. Francisco o intrigou para com El-Rei, e partiu para voltar annos depois coberto d'honras, devidas ao seu esforço, não ao seu nascimento... Eis o que eu queria! Talvez que o faça... Se para reinar basta nascer principe, para ser verdadeiramente rei é necessario conhecer todas as manifestações dos povos... Mas tenho medo de mim! Aborreço-me, sinto assim como uma nostalgia... 

-- Alteza! Buscae distracções... 

-- E em que consistem ellas? Nas caçadas de Salvaterra, no theatro da Rua dos Condes, nas missas da Encarnação, nas novenas...? Oh! É muito pouco... 

-- Vossa alteza pensa assim, porque tem um amor no coração... 

O principe teve um sobresalto, tornou-se vermelho e depois volveu: 

-- Sim... Amo... Mas isto é proprio do meu temperamento! Ha occasiões em que temo enlouquecer. 

-- Meu senhor! 

-- Sim... Eu sou um ser extranho! 

-- Tudo isso se dissiparia se... 

-- Se? 

-- D. Maria da Penha correspondesse ao vosso amor... 

-- Ella? 

-- Sim, meu senhor, ella... 

-- Na realidade porque me nega sempre essa entrevista? Amará um outro...? 

E D. José, tornou-se mais pallido a esta ideia. O aulico teve vontade de lhe dizer abertamente a verdade mas temendo a grande honradez do principe, pensando que elle não acceitaria a occasião que se lhe deparava calou-se. 

Momentos depois observou: 

-- Mas essa entrevista pode vossa alteza realisal-a! 

-- Onde? Como? bradou espantado o herdeiro do throno. 

-- Esta noute no pateo das damas! volveu o outro com serenidade. 

-- Mas... 

-- Sim, alteza... O vosso desejo consiste em fallar á açafata, não é assim? 

-- Sim... Essa joven que eu amo, a unica mesmo a quem posso amar, conhece o meu affecto e evita- me... 

-- E vossa alteza, servir-se-hia de qualquer meio para se aproximar d'ella? 

-- Certamente... Mas é impossivel. 

-- Não, meu senhor, é até fácil! Esta noute D. Maria da Penha estará á janella ás nove horas da noute, aguardando alguém. 

-- Quem?... Quem? interrogou o principe com fogo. 

-- Ignoro-o, meu senhor... Sei apenas que é um militar, insinuou elle com muitas camelias. 

-- Oh! Conhecel-o-hei! bradou o principe n'um arranco que satisfez o aulico. 

-- Basta vossa alteza tomar o logar, agitar um lenço; e terá a desejada entrevista com D. Maria da Penha!

-- Oh! Não... Isso é uma traição! tornou elle honradamente. 

D. Ramiro estremeceu de rancor, e volveu: 

-- Uma traição? Mas, meu senhor, trata-se apenas de conversar comfessa dama... 

-- Tomando o logar d'outro!... Não, D. Ramiro... Sou o futuro rei de Portugal e para respeitar a patria devo começar pelos subditos! 

Este, muito desanimado, sentindo nada poder com o grande animo d'esse principe, declamou: 

-- Mas, meu senhor, vós não desrespeitareis pessoa alguma! Existe uma mulher á qual amaes loucamente; essa mulher concede uma entrevista a outro... Onde está o crime em tomar o logar d'esse outro e fallar á mulher, que desde ha muito tempo se recusa a escutar a vossa respeitosa affeiçao? 

D. José, curvou a cabeça e, com firmeza, bradou: 

-- Não quero! 

Voltou-lhe as costas e curvou-se de novo para accender a mecha, estremecendo, sujeito a uma impressão nervosa, no reunir dos desesperos, emquanto o aulico se aftastava, dizendo: 

-- Meu senhor... Deixaes assim passar uma occasiao favoravel! Não ha mulher alguma que resista, face a face, a um principe! 

Ia já á porta, dispondo-se a sahir, quando o futuro rei lhe gritou: 

-- D. Ramiro! 

-- Meu senhor..., volveu elle, curvando-se, escondendo a sua alegria. 

-- Quero conhecer esse homem. 

-- Facil vos é, senhor..., volveu de novo, ao comprehender que nem tudo se perderia. 

-- Irás esta noute e dir-me-has tudo... 

Depois, n'uma grande irresolução, sentindo mais latente o seu nervosismo, exclamou: 

-- Não... Irei eu proprio... Quero ver... Quero exgotar o calix até ás fezes! 

-- Cumprir-se-hão as ordens de Vossa Alteza! 

-- Porém... 

-- O quê? Meu senhor... 

-- Sabeis que não posso sahir do palacio... 

-- Assim é, meu senhor, sereis notado, e Vossa Augusta Mãe, a Rainha Nossa Senhora, desejaria saber das vossas aventuras... 

-- Oh! Maldito destino o meu! Se ao menos, como meu irmão..., pudesse desculpar-me com os frades de Mafra... Mas ninguem crê na minha religião!... Se até me chamam o discipulo do atheu! 

-- Meu senhor, então, não vos exalteis... 

-- E onde se realisa essa entrevista? interrogou D. José, em fogo, sentindo o maior dos desesperos. 

-- No pateo das damas. 

-- A hora... 

-- Nove... 

-- Quem é o official da guarda do paço? 

-- É o meu amigo Jacob Mestral. 

-- Ah! Mas será um segredo com esse official? disse elle com desanimo. 

-- Mas, meu senhor, quem vos impede de vos disfarçardes? 

-- Ah! Tens rasão... E a senha? 

-- Sabel-a-hei... Eu posso sahir sempre. 

-- Sim... Não és principe... Oh! que destino o meu... 

Depois, com energia, rapido, n'uma allucinaçao deveras extranha, clamou: 

-- Arranjarás a senha e um disfarce... Acompahar-me-has. Segredo absoluto... Quero conhecer esse homem! 

O herdeiro do throno transfigurava-se, cedia ao seu temperamento, esquecendo tudo, e vendo o outro sahir, murmurou: 

-- Devo pagar o meu tributo á mocidade! 

E com grande arte começou a accender o seu fornilho. 

D. Ramiro de Noronha, cheio de jubilo, trepava os degraus da escada e exclamava: 

-- Ah! Começa a minha vingança... N'uma noute terei dois dos meus inimigos em vez d'um só!... 

Pareceu-lhe ouvir ruido e voltou-se rapidamente. Ao fim do corredor deslisava um vulto n'um grande agitar de guisos. 

E elle com desdem, sorrindo, murmurou: 

-- Ah! Era o pobre do bobo! Por aquelle não vem o mal nem o bem ao mundo. 











XXIX 



O cadete de Peniche 





Tinham soado as nove horas no relógio da egreja de Nossa Senhora d'Ajuda. 

Como obedecendo a um signal abriram-se ao mesmo tempo duas portas do pateo do palacio real. Houve como um momento d'indecisão e duas mulheres vestidas como as açafatas da rainha atravessaram com rapidez o pateo passando rente ás sentinellas com as quaes trocaram a senha. Logo de seguida e dirigindo-se 

para o lado opposto por sob as arcarias, dois homens, um dos quaes se occultava n'uma grande capa de cadete e o outro vestido como os fidalgos mas tambem embuçado, praticaram de egual modo para com o soldado que os deixou passar. 

Chegaram então á porta e affastaram se rapidamente, caminhando pelo largo com segurança, emquanto os vultos femininos desciam a calçada d'Ajuda e mettiam pela travessa que vae dar ao Pateo das Damas. 

Os homens chegaram ao começo da calçadinha ingreme e pararam uns instantes applicando o ouvido. 

-- Vinde, meu senhor, a entrevista está marcada para as nove e meia! 

-- Ramiro! E d'onde assistirei á scena, perguntou o outro n'uma voz cançada. 

-- Alteza! O pateo tem um recanto como sabeis... Está escuro... Facilmente vos podeis occultar... 

-- Vamos! volveu elle com grande resolução. 

Avançaram então mais uns passos e chegaram á entrada do pateo onde Pombal installara outr'ora as suas secretarias e que servia agora de morada a algumas açafatas da rainha. 

Reinava no interior do pateo uma grande escuridão que permittia aos dois individuos esconderem-se rapidamente. 

Á sua entrada, d'um dos portaes, enovelavam-se os dois vultos das açafatas e ouviu-se uma voz debil como um sopro, murmurar: 

-- Ainda é cedo, Antonia... 

-- Não Alteza... Oh! Ahi chega vosso esposo... 

-- Enganae-vos... É o cadete!

-- Não, alteza, é o principe! 

Ficou indecisa. Porém a voz de D. José soou, exclamando: 

-- Ramiro... Vae ver depressa se pelo lado da quinta não ha ninguem. 

-- Sim, meu senhor, volveu o fidalgo atravessando em frente das duas mulheres e dirigindo-se para as terras. 

Nem viva alma. O silencio prolongava-se. Lá em baixo o Tejo tinha o colorido escuro d'um rio de tinta pela noute sem lua. Os grilos, dos lado do Guarda- Joias, faziam ouvir os seus ruidos intervallados e uma egreja destacava-se a distancia n'um negrume attenuado á luz d'algumas fogueiras que se costumavam accender pelas ruas e em torno das quaes os visinhos passavam as suas noutes 

n'uma promiscuidade com os cães vadios até que as dez horas soavam e as rondas começavam o seu gyro. 

No pateo, d'um dos lados abria-se uma janella a pequena altura e apparecia um vulto claro que se debruçava como a interrogar as trevas. 

-- Lá está ella! murmurou uma das mulheres. 

-- Oh! Vamos vêr... volveu a outra com um estremecimento. 

D. Ramiro voltava, cosido com a parede e acercava-se do principe que estava muito tremulo e não proferia palavra. 

O vulto branco continuava debruçado na janella. Interrogava o pateo com o olhar, buscava penetrar as trevas. 

Foi então que D. José, sem poder conter a sua impaciencia, avançou resoluto agitando o seu lenço e murmurando: 

-- Oh! Falar-lhe-hei! 

O fidalgo estremecia do mais intenso jubilo e via o principe avançar sempre para a janella onde D. Maria da Penha, se debruçava, dizendo: 

-- Entra! 

D'um pulo, transpoz rapidamente o parapeito baixo e ficou além na escuridão em frente da joven que se voltava a fechar a janella. 

Na rua soou um grito e as duas fórmas femeninas destacaram-se á saída do pateo ao mesmo tempo que D. Ramiro corria apressadamente para os vultos. 

No entretanto, o príncipe encontrava-se em frente da joven que bradava: 

-- Vasco! 

Mas de seguida ao accender a luz e ao correr para o que julgava o amante soltou um novo grito, e exclamou: 

-- Senhor! Vossa alteza! 

-- Eu sim, D. Maria de Penha... volveu o príncipe como confundido. 

-- Oh! 

-- Nada tendes a temer, senhora... 

-- Mas, Alteza Real, isso é uma indignidade! bradou a açafata com raiva. 

-- Senhora! 

-- Alteza! 

-- Lembrae-vos que estaes n'uma dependencia do paço real e que falaes ao herdeiro da coroa! gritou D. José cheio de altivez ante as palavras d'ella, esquecendo tudo ao recordar-se da sua gerarchia. 

-- E vós, meu senhor, estaes em face d'uma mulher surprehendida por semelhante facto... 

-- Comprehendo! Aguardaveis outro! tornou elle com raiva. 

-- Sim... O homem que amo! 

-- E eu venho buscar a resposta das minhas declarações! assegurou o principe com maior auctoridade! 

-- Alteza! Já tive a honra de vos mostrar o meu respeito... 

-- Respeito? 

-- Sim! Que pode uma simples açafata dedicar a um futuro rei... 

-- Amor... oh! amor... Desde que esse futuro rei lh'o supplique! 

-- Alteza! 

-- D. Maria da Penha... Tendes razão em condemnar o meu procedimento... No emtanto... 

-- Oh! Meu senhor... 

-- Sabeis porque estou aqui? 

-- Para ouvirdes dos meus labios uma resposta que eu tenho hesitado em dar vos. 

-- Exacto. 

-- E sabeis porque? 

-- Porque amaes outro! 

-- Assim é...

-- Oh! Mas não conheceis então a força do meu affecto, do meu amor? 

-- Já vos disse, senhor, que uma mulher como eu, apenas pode sentir respeito por vossa alteza! 

-- Escutae!... 

-- Falae, meu senhor, mas lembrae-vos de que sou uma mulher e que tenho alguem a quem dar contas dos meus actos... Esse alguem é um homem que amo e que estará aqui dentro em instantes... 

D. José fez-se pallido ante a audacia d'aquella gentil mulher que lhe falava tão francamente, e de seguida, a reprimir-se, querendo esquecer o seu orgulho real, volveu: 

-- Senhora... Sabeis que vos respeitarei... 

-- Sim, alteza... Mas a minha honra? 

-- A vossa honra? Oh! E não periga ella acaso desde que concedeis entrevistas ao vosso amante? 

-- Que será meu marido dentro em alguns mezes... E n'essas entrevistas trocam-se palavras, planos de futuro... 

O herdeiro do throno, pareceu hesitar em falar no seu amor ao vêr a forma porque a dama se lhe apresentava. Porém via na sua frente, divinamente formosa, arrebatadora, os cabellos louros formando-lhe como um diadema na cabeça, aureolando-lhe o rosto de linhas firmes e puras; via essa mulher que falava á sua imaginação de poeta e teve a lembrança de que viria a pertencer a um outro! 

Então todo aquelle grande fundo de pratica, toda a sua fórma de sentir, a educação recebida, os seus deveres e a sua fórma de pensar, tudo desappareceu para dar logar apenas ao homem, ao nervoso, ao altivo a quem collocavam na frente um obstaculo, e começou, buscando ainda reprimir-se: 

-- Maria, tenha por mim esse affecto que lhe supplico... Seria o supremo bem... Não imagina como é attribulada a minha existencia! 

Depois d'uns momentos de silencio continuou: 

-- Onde todos julgam ver o mais feliz não existe senão o mais desgraçado dos mortaes... A senhora é para mim o raio de luz, alguma cousa que me pode ainda salvar... Amo-a! Amo-a e com todo o fogo d'um primeiro amor... 

-- Alteza... E vossa esposa? interrogou ella buscando refrear-lhe o enthusiasmo, cheia de terror ao lembrar-se que soava a hora da sua entrevista com Vasco. 

-- Minha esposa? Ah! E acaso posso amal-a?... Oh! D. Maria da Penha, a senhora ainda não comprehende o horror d'uma existencia real... Os affectos, esse direito que o homem tem de escolher a companheira da sua vida é-lhe negado... O que o mais simples pastor faz livremente é-nos imposto... Casaram-me e casaram-me com a irmã de minha mãe! Eu nunca a amei, mesmo nunca amara outra cousa que a sciencia, que a politica! E ás vezes nas longas noutes, pelos corredores dos paços reaes, ao ouvir amantes trocarem pensamentos, ficava indifferente porque não comprehendia o amor! Via-a porém, impressionou-me o seu ar melancholico, o seu rosto puro e então amei a... e amei a para sempre... 

-- Alteza! Oh! Por Deus retire-se! Supplicou ella imprudentemente. 

-- Retirar-me? 

-- Sim... Supplico lhe... 

-- E porque? 

-- Ah! É que... 

-- Vae chegar o seu amante? bradou D. José no meio da mais intensa colera. 

-- Sim... sim, alteza... Tenha piedade de mim... Elle vae chegar... 

-- Pois encontrar-me-ha no seu caminho! gritou com altivez maior, mudando rapidamente ao ver que a joven nem sequer escutava as suas palavras de amor. 

-- Oh! Alteza... Não quereis ser causa d'uma irreparável desgraça... 

-- Que quereis dizer?! O vosso amante é um fidalgo sem duvida... bradou elle com um olhar cheio de ameaças. 

-- Oh! Alteza... Ficarei perdida a seus olhos... 

-- Eu vos rehabilitarei... 

-- Vós, meu senhor... Mas podeis acaso restituir-me o amor d'elle desde que o perca...? 

-- Ah! E para vós é tudo esse amor? 

-- Sim, real senhor... Deixae que vos trate como se fosseis já o meu rei... Oh! Tende piedade! 

Cahia-lhe aos pés debulhada em lagrimas, como louca, supplicava-lhe, rojava- se. 

Mas o principe estava como no auge de furia, pensava apenas na mulher amada, e chocado por essa ideia fixa até esquecia o que sempre impozera a si proprio como norma. 

Bradava-lhe com firmeza: 

-- Tornae-vos minha amante! Sede minha e nada tereis a receiar... Nobilitar-vos-hei e podereis viver affastada do paço! 

-- Vêde, senhor, que me insultaes! 

-- Ah! 

-- Sim, insultaes! 

-- E então muito, o meu amor? 

-- Sim, alteza... Recordae-vos do respeito que deveis a uma esposa! 

-- Sempre, minha esposa! 

-- Oh! E na côrte todas se sentiriam felizes com o vosso amor... Para que o offereceis a uma mulher que pertence a outro... 

-- Pertence? Ah! Sois então sua amante? 

Elle teve a sublime coragem de mentir. Julgou assim desarmal-o, fazer com que a visse por um prisma ignobil, mas conseguiu apenas excital-o. 

D. José, na furia louca do seu nervosismo, clamou: 

-- Ah! Mesmo assim vos quero! Vinde, senhora, vinde commigo! 

-- Oh! Alteza! Poupae-me... 

-- Senhora! 

-- Que quereis... Não vos amo! clamou a joven com raiva ante a insistencia d'elle. 

-- Ah! Sou louco em guardar comvosco taes respeitos! Se quizer sereis minha... E pensava eu serdes diíFerentes das outras!... Vejo tudo atra vez um prisma de poesia que me engana... Julgaes acaso que a minha vontade não se cumpre? Vamos, que se eu ordenar que me sigaes não fareis? 

-- Nunca! 

-- Senão por vontade ao menos pela força! 

-- Senhor! Oh! Como vós mentis aos proprios sentimentos! murmurou ella banhada em lagrimas e rojando-se lhe aos pés. 

O principe estremecia violentamente ante a justiça que a desgraçada lhe fazia. E então, sentindo um abalo, vendo quanto era baixo o seu procedimento curvou a cabeça e disse: 

-- Perdoae as minhas palavras... Mas que quereis! Estou louco... e louco d'uma loucura que não tem como remedio senão o vosso amor! Maria, por minha vez vos peço, que tenhaes piedade de mim... que vos recordeis do que eu soffro acorrentado a esta dignidade regia... Supplico-vos... 

Baixara-se a erguel-a, tomava-a nos braços, estremecia ao sentir o seu halito e foi então o príncipe que vendo a açafata cahir n'uma cadeira se rojou a seus pés, pedindo: 

-- Oh! Diga-me ao menos que não é amante d'esse homem! Houve um grande silencio. 

Depois quando ella abriu a bocca para falar ouviu-se na rua o trotar de dois cavallos, que penetravam no pateo. 

O principe não os ouviu, mas D. Maria de Penha estremeceu e ficou a applicar o ouvido n'uma grande perturbação. 

D. José supplicava ainda: 

-- Diga que mentiu e eu serei feliz! 

Ella, já como louca, ao auvir no pateo um breve ruido de vozes, e reconhecendo a de Vasco, exclamou buscando desanimar o principe: 

-- Não, meu senhor, eu nunca minto! 

-- Ah! Que infâmia! gritou D. José, vendo que essa mulher assim amada já pertencera a outro e correndo para cila como louco. 

D. Maria de Penha soltou um grito estridulo e correu para a janella, exclamando: 

-- Oh! meu senhor... nem mais um passo do contrario verme-heis cahir morta a vossos pés! 

E a mão apparecia-lhe armada com um punhal que agarrava de sobre uma mesa e que apontava ao peito. 

O principe no auge da excitação, obedecendo ao seu temperamento de nervoso, os olhos brilhantes de raiva, todo tremulo, ia ainda avançar e bradava: 

-- Oh! Quem é o vosso amante? 

A joven não lhe respondeu, continuou na mesma posição decidida a ferir-se, a matar-se, se o herdeiro do throno a quizesse segurar. 

Mas elle, cada vez mais louco, desvairado, no supremo grau da raiva, gritava: 

-- Oh! O nome... O nome d'esse homem? 

Ainda o mesmo silencio. Depois D. Maria de Penha, com grande tranquillidade, retorquiu: 

-- Alteza... Perdoae-me... Mas esse nome é o meu segredo! 

-- Oh! Tremei pela sua vida! 

-- Sim, alteza... Sois o filho da rainha! 

-- Excepto quando me encontro com alguém que odeio! N'esse caso sou apenas o primeiro gentil homem portuguez, depois d'el-rei, meu pae! Vamos, D. Maria de Penha, dizei-me o nome do vosso amante para que o force a uma separação! 

-- É escusado, alteza... Elle ama-me e vae ser meu esposo! exclamou ella. 

-- Vosso esposo! bradou elle tornando-se livido, e pedindo ainda com intensa colera: 

-- Oh! Mas o nome!... O nome do seu amante!

-- Vasco de Miranda para responder a quem quer que sejaes! Sim, Vasco de Miranda, cadete do regimento de Peniche! gritou n'este momento uma voz bem timbrada ao mesmo tempo que um vulto apparecia rente da janella e se esforçava por subir. 

Era o cadete que vinha a cavallo como sempre e que ouvira as ultimas palavras do principe. A alguma distancia um outro cavalleiro parecia aguardal-o. 

D. José, esquecendo a sua posição, vendo apenas n'aquelle homem o que lhe roubara a mulher amada, bradou: 

-- Esperae, que tenho a dizer-vos! 

E d'um pulo ao ver que o outro arredava o cavallo e saltava para o chão, elle transpoz tambem a janella para o lado de fóra, emquanto a açafata gritava como louca: 

-- Vasco!... Vasco!... 

O principe desembainhava a espada e avançando para o cadete, gritava-lhe: 

-- Em guarda... Nada de explicações... Sabei apenas que amo D. Maria de Penha e que vol-a disputo! 

-- Ah! Sim!... Então em guarda, senhor, porque gosto de franqueza! 

E olhando-lhe a capa militar, accrescentou: 

-- Caspité! . . Cadete contra cadete! 

Viu-se então um homem que vinha correndo do lado de cima e que desembainhando tambem a espada se propunha a atacar Vasco pelas costas. 

Mas sentiu-se agarrado pela mão possante do outro cavalleiro que se apeara e ao arremessal-o a distancia, gritava: 

-- Para traz, cobarde... Não se attacam assim os fidalgos! 

O outro levantava-se, mas corria de novo para elie que lhe antepunha a sua espada ao mesmo tempo que Vasco, bradava: 

-- Vem gente!... É a ronda. Parae, senhor... 

Baixava a espada emquanto o outro segurava sempre com furia e raiva a sua, e D. Maria da Penha, debruçada na janella, exclamava no auge de terror: 

-- Vasco!... Vasco!... Oh! Por Deus! 

Gritou-lhe ainda um nome mas perdeu-se agora entre o tinir das armas dos quatro adversarios porque D. Ramiro de Noronha, collocou-se do lado do principe e o cavalleiro perseguira-o a defender o cadete. 

No meio do combate, uma multidão estranhamente sobresaltada penetrou no pateo, uma guarda do paço appareceu á luz do archote, ao mesmo tempo que do lado de baixo se ouvia um grande ruido de gritos e de oboés e um magote de populares, entrou no pateo capitaneado pelo bobo da rainha. 

O principe D. José soltou um grito e largou a espada. 







XXX 





Aventura real 





D. Ramiro de Noronha, no momento em que o principe subira á janella da açafata, avançava para a esquina onde se tinham destacado os vultos femeninos e ficara singularmente embaraçado em presença das duas damas e ao ouvir uma d'ellas exclamar quasi desfallecida nos braços da outra: 

-- Ah! Antonia, minha amiga, já duvida alguma me resta, agora tenho a certeza da traição! 

-- Sua Alteza Real! bradara o fidalgo sem poder conter-se desconhecendo mais aquelle ardil da perfida açafata. 

-- O senhor? exclamou a princeza do Brazil, reconhecendo o confidente de seu marido. E ainda tem a coragem de apparecer!... Retire-se, senhor... Vá vigiar seu amo! 

O aulico tirava o seu chapéu e ficava paralysado na presença da futura soberana, que continuava: 

-- Oh! E lembrar-me que talvez de ha muito se desse esta infame traição... No paço real, ali a meu lado, havia uma miseravel mulher que me envenenava dia a dia a existencia!... Como lhe agradeço D. Antonia a sua prevenção... 

-- Cumpri o meu dever Alteza Real! 

-- Sim... E ajudar-me-ha tambem na vingança... Hei-de fazer com que sua magestade lance essa mulher n'um carcere... Ha-de ser internada em Santa Margarida de Crotona... É ali o logar das mulheres da sua espécie. 

Os olhos da açafata brilharam de grande prazer ao ver a rival condemnada desde já no animo d'essa mulher que teria um dia uma corôa a encimar-lhe a acanhada fronte, porém estremecia dolorosamente ao ouvil-a dizer: 

-- Ah! Aguardal-o-hei... Ficarei aqui até que elle sahia! É a primeira vez que uma princeza de Portugal aguarda o marido que venha dos braços d'uma amante! 

-- Senhora... A vossa dignidade não soffre semelhante golpe... 

-- Senhor! É quem fala de dignidade! 

Voltava-se com furia para D. Ramiro e continuava: 

-- O senhor, o cumplice d'essa mulher que assim obriga o futuro rei de Portugal a descer tanto! 

Mas D. Antonia, receiosa tambem que chegasse Vasco e que tudo se explicasse, que a princeza ficasse sabendo como seu marido não fora a uma entrevista mas que tomara o logar d'um outro, tocando no braço do fidalgo, disse: 

-- Mas vossa alteza não pode ficar aqui... 

-- E porque? 

-- Serieis reconhecida, senhora! 

-- E que tem? 

-- O escandalo seria enorme! 

-- Ah! E julgaes acaso que vou guardar commigo o segredo? 

-- Alteza! Peço-vos que não divulgueis esta scena... É attentatoria para os bons costumes de sua alteza, vosso esposo! 

-- Irei pedir justiça á rainha! 

-- Indisporeis mais ainda sua magestade com seu augusto filho! 

-- E que importa? tornou cila no seu estribilho. 

-- Alteza! Por Deus... Retiremo-nos... 

-- Ficarei! 

-- Mas senhora! 

-- Já vos disse... Tenho apenas uma palavra... 

-- Oh! E se viesse uma ronda! Como os segredos da real familia ficariam manchados na bocca do povo! 

Foi então que se ouviu o tropel de dois cavallos e que o fidalgo e a dama estremeceram, exclamando: 

-- São os da ronda da policia! 

-- Alteza... Peço-vos humildemente que não comprometteis vosso esposo! 

-- Já vos disse! Não desisto do meu proposito! 

-- Senhora... Lembrae-vos que se trata da dignidade real! gritou então a açafata deveras perturbada, Ámanhã sereis a rainha! É a corôa, é o sceptro que correm o risco de serem troçados pelos plebeus que ahi chegam! 

Muito pallida, cheia de agitação, a princeza D. Maria Benedicta, assentiu, embora a custo: 

-- Tem razão... Partamos... 

Depois para o fidalgo com um grande desprezo, bradou: 

-- E vós senhor, dizei a vosso amo o que presenciastes! Dizei-lhe que a princeza do Brazil desceu ao pateo das damas a certificar-se dos seus amores! 

Os cavallos approximaram-se e ellas affastaram-se rapidamente em direcção ao paço, emquanto D. Ramiro se occuitava no portão. 

Viu então os dois cavalleiros dirigirem-se para o interior do pateo e ouviu a voz de Vasco de Miranda, exclamar: 

-- Espera-me um momento... É só dizer a Maria que tenho de acompanhar-te a Palhavã por causa das ciladas, e partimos já. 

O fidalgo estremeceu mais uma vez ao ouvir o outro retorquir: 

-- Vasco... Deixa! Para que teimas... Irei só... 

-- Nunca, Gomes Freire! 

-- Gomes Freire! murmurou D. Ramiro, sempre mettido no seu portal. Não me enganei! É elle! Oh! que vingança... 

-- Mas privas-te assim do teu amor... 

-- Descança... Maria tem muitas noutes para me falar... Para demais se estivesse comnosco o conde... 

-- Assumar? É feliz tambem... É a primeira vez que fala livremente á sua noiva! 

-- Sim... O conde de S. Vicente humanisou-se com a morte do cardeal! 

-- Todos, vós outros, aquelies que conheço são felizes... Apenas eu... 

-- Oh! Alferes! Lembra-te que ha um anno era o conde de Assumar quem falava assim!... 

-- É verdade!... No emtanto tudo mudou... Depois extranho esta carta de Elvira... Nao acredito no que me diz... Sim... Porque tendo morrido ante-hontem o cardeal ella ainda me fala no seu consentimento, na felicidade de sua benção! 

-- Dada in extremis... volveu o outro. Mas de repente calou-se, applicou o ouvido e exclamou: 

-- Que é isto? 

-- O que? 

-- Não ouviste?... 

-- Como alguma... 

-- Pareceu-me ouvir um grito! Oh! Mas não me enganei! bradou elle ao escutar agora muito distinctamente a voz da joven que abria á janella. 

-- É Maria!... bradou por seu turno Gomes Freire, emquanto D. Ramiro relanceava um olhar e via o cadete conduzir o cavallo para sob as janellas. 

Então, esgueirando-se rapidamente, sahiu da porta e foi de corrida pela calçadinha em direcção ao paço. 

Atravessou rápido como um relampago o largo e dirigindo-se para a entrada ia penetrar quando a sentinella lhe bradou: 

-- Faça alto! 

-- Onde está o teu official? interrogou elle por unica resposta, accrescentando: Sou o gentil homem de camara de Sua Alteza Real 

o principe do Brazil! 

O soldado baixou a espingarda fez uma continencia e volveu: 

-- O meu capitão sahiu ha momentos! 

-- E Jacob Mestral? O alferes? 

-- Ah! Elle ahi vem! exclamou o soldado apontando uma ronda que chegava e para a qual o aulico correu, bradando: 

-- Jacob! 

-- Tu? bradou por sua vez o outro muito admirado. 

-- Sim eu! Vem depressa com os teus homens! 

-- Mas onde? 

-- Ao Pateo das Damas... 

-- Que succedeu? 

-- Talvez corra risco a vida de sua alteza... disse elle em voz muito baixa ao mesmo tempo que o outro dava uma ordem e se punham em marcha para a residencia das açafatas. 

Pelo caminho, ao lado do amigo, D. Ramiro dizia-lhe: 

-- Sabes? Chegou o momento da minha vingança! 

-- Já me disseste que a esta hora Silva Menezes e D. Balthazar d'Athouguia, aguardam esse maldito Gomes Freire em Palhava... 

-- Mas não é em Palhavã que a vingança vae ter logar. 

-- Então onde? 

-- Aqui! 

-- Como? 

-- Sim... É Gomes Freire que ali está com Vasco de Miranda. 

-- E sua alteza? 

-- Vae talvez atacal-os! 

-- Oh! Soberbo lance... 

-- Sim... O principe não é forte no jogo das armas e os outros são de primeira força... Uma vez aitacado sua alteza não se fará reconhecer mas quererá a desforra que deve ser terrivel! 

-- Desforra de rei! 

-- Sim... E os vossos inimigos estão perdidos para sempre! 

-- Que cerebro inventou semelhante situação? perguntou o outro admirado d'aquelle golpe. 

-- Foi uma mulher! 

-- Quem? 

-- D. Antonia de Castro, que levou a princeza do Brazil a presencear a entrada do esposo em casa de certa açafata... 

-- D. Maria de Penha, amante de Vasco? 

-- A afilhada de minha mãe? 

-- Oh! Assombroso! 

-- Mas vamos! vamos! 

Iam de corrida e estavam já proximo do pateo quando do lado da travessa da calçada da Ajuda, ouviram um ruido de alegre musica, em que predominavam os oboés e as violas, ao mesmo tempo que algumas vozes roucas atiravam ao espaço uma serenada. 

-- Que temos agora? 

-- Oh! São villões que se divertem? redarguiu o outro, emquanto os soldados avançavam. 

Mas n'aquelle momento um official montado e seguido da sua ordenança, embargava o passo ao alferes e exclamava: 

-- Que se passa, senhor? 

Ouvia-se um tinir d'espadas dos soldados que tinham recuado ante aquella voz e D. Ramiro, temendo pelo principe correu para o pateo ainda a tempo de se lançar de espada desembainhada sobre Vasco de Miranda que via combatendo com o principe e de ser agarrado por Gomes Freire, travando se então o combate. 

Ao mesmo tempo o official que embargava o passo á ronda, explicava: 

-- Sou o capitão de cavallaria e o encarregado das rondas militares d'Ajuda e Belem: 

-- Perfeitamente, meu capitão. Mas trata-se de alguma cousa muito grave. 

-- De quê? 

-- Da vida de sua alteza real! 

-- Ah! Com mil raios... Partamos, gritou o militar voltando o cavallo e entrando no pateo á frente dos soldados ao mesmo tempo que a turba plebea tocando os seus instrumentos e empunhando os archotes illuminava o pateo onde se tinham passado tantas scenas. 

O principe, como louco, ao lado de D. Ramiro de Noronha, attacava sempre o cadete e a Gomes Freire. 

Por um golpe hábil de D. José, o cadete recuara até junto do muro ainda a tempo de se livrar, sentindo-se abalado ao ouvir a voz de Maria de Penha, exclamar: 

-- Vasco! Vasco! Por Deus!... 

Depois umas palavras que elle não ouviu porque o principe lhe cahia a fundo encontrando no emtanto a espada do alferes que lhe tocou levemente o pulso não o ferindo mas desarmando-lhe o braço obrigando a soltar o grito que todos ouviram. 

D. Ramiro de Noronha amparava o herdeiro do throno que se fazia muito pallido ao receber aquella lição e n'um sobresalto da sua organição quasi desfallecia. 

Os soldados rodeavam-no, e D. Ramiro de Noronha, em raiva intensa, bradava rancoroso a arrojada revelação. 

-- Agarrem os assassinos de sua alteza real! 

-- Sua Alteza! bradaram todos, inclusive Vasco e Gomes Freire que correram para o principe e se fizeram lividos, exclamando: 

-- Mas quem o diria?.... Fardado de cadete! 

Era um espectaculo singular aquelle, além no interior do pateo, 

o herdeiro do throno, livido ao clarão dos archotes que os homens do povo sobraçando instrumentos, agarravam; emquanto os dois mancebos lhe prodigalisavam cuidados e D. Maria de Penha, retirando-se da janella e soltando um grito lancinante cahia desmaiada. 

Recuperando o seu sangue frio, aquelle principe intelligente, vendo a que fôra apenas a perda da espada que produzira o seu rancor, olhou para D. Ramiro e murmurou: 

-- Eu fui o culpado! 

-- Alteza! Elles terão o correctivo! 

-- Não... poude ainda dizer sua alteza, sentindo-se muito culpado por aquella aventura. 

Mas o capitão de cavallaria, avançava e bradava: 

-- Estão presos, senhores em nome de Sua Magestade! 

Mas de repente berrando, como louco, os olhos espantados, gritou: 

-- Gomes Freire!

-- Meu tio! bradou o joven ao reconhecer Bernardino Freire que o arcebispo collocara n'um dos regimentos da côrte. 

De todos os espectadores da scena, apenas Jacob Mestral e D. Ramiro de Noronha, tinham sorrisos de satisfação nos labios. Os outros penalisaram-se e o fidalgo, vendo que o proprio principe se arrependia, elle que era o mais justo o mais nobre, que detestava a hypocrisia e combatia os jesuitas, disse-lhe rapidamente: 

-- Vamos, meu senhor... 

-- Não... Quero que desculpem a minha acção, esta louca aventura que foi a primeira e será a ultima! 

O aulico vendo que lhe podia fugir a vingança, bradou: 

-- Ah! Alteza!... Vinde depressa. Esquecera-me dizer que vossa esposa esteve aqui! 

-- Ella? Maria Benedicta! Oh! A ultima das vergonhas! Vamos!... 

E sahiu rapidamente do pateo por entre os cumprimentos dos soldados e de todos os presentes chorando lagrimas de vergonha, elle o grande principe, o discipulo de Pombal. 

Bernardino Freire, muito commovido tambem olhando o sobrinho, e depois com colera, rancoroso, gritou-lhe: 

-- A sua espada! 

O alferes entregou lh'a com grande tristeza, murmurando: 

-- Ignorava quem era o meu adversario, meu tio! 

-- Está preso! foi a unica resposta do militar. Depois para Jacob Mestral, ordenou: 

-- Conduza este senhor á prisão! 

-- Sim, meu capitão!... volveu o outro com grande alegria ao ver o soffrimento estampado no rosto de Bernardino que lhe ordenava de novo: 

-- Conduza tambem esse cadete! 

Então cumprindo ainda o seu dever, voltou-se para a gente que enchia o pateo e gritou: 

-- Nem uma palavra do que se passou. Do contrario a forca terá que trabalhar para muitos em vez de para dois apenas! 

E aquelles dois de quem falava, um era o sobrinho amado, que commettera o sacrilegio de levantar a espada para um principe real. 

Elles iam agora no meio da escolta, desarmados e cabisbaixos, em torno, aquella gente olhava-os como a dois herejes e Jacob Mestral sorria jubiloso. Sahiam do pateo e dirigiam-se para a casa da guarda contigua á torre de Nossa Senhora da Ajuda. 

Bernardino Freire, então como louco, saltou para o cavallo que metteu em infernal galope airavez das terras e chorando de raiva, murmurava: 

-- Oh! Como salval o! Como salvar da morte o meu pobre so-brinho!... E fui eu que o prendi... Que dirá sua mãe! Oh! Morre... Morre de desgosto! E eu que não o vigiava!... O culpado... O culpado sou eu! 

No pateo reinava de novo o silencio, e os dois presos iam penetrar na casa da guarda, á entrada o bando de populares sobrançava os seus instrumentos e Vasco de Miranda ao lançar um olhar pela turba estremeceu. 

Sentia na mão como um beijo e de seguida uma lagrima. E agachando-se a seus pés como um cão fiel, viu o corpo rachitico de D. João de Falperra, o bobo da rainha, que lhe entregava um pequenino papel que elle ainda poude ler á vaga luz vinda de dentro: 

Dizia apenas: 

-- Tudo isto foi preparado. Tendes inimigos. Mas confiae no principe. É um justo! 

O cadete com um sorriso alegre e tomando o braço de Gomes Freire, exclamou: 

-- Agora só confiamos no carrasco! É pedir-lhe que não nos moleste muito! 

E os seus vultos rodeados pelos soldados perderam-se no interior da prisão emquanto o bobo, murmurava: 

-- Ah I Vingal-os-hei!... Foi essa infame açafata que odeia D. Maria da Penha. Foi o miseravel D, Ramiro! Mas eu os vingarei! 

Soaram alegres os oboés e as violas, as vozes erguiam-se nas modinhas brazileiras em uso na epocha e D. João de Falperra, tirando da escarcella um punhado de dinheiro vindo d'algibejras fidalgas, atirou-o ao chão bradando: 

-- Tomae a paga, malditos! Não serviu de nada a vossa musica! E affastou-se aos saltinhos, cmquanto a turba disputava a murro os mais pobres reaes. 











XXXI 



O cumplice da açafata 



Branda, suave, n'uma crystalisação doce coada pelos vidros da portaria, a luz entrava na egreja dando tons claros ás imagens vestidas nos mantos recamados d'ouro e bordados por dedos fidalgos. Ao fundo o altar-mór, forrado de damasco. O relicario d'ouro espargindo fulgores, as jarras do Japão em figuras caprichosas de grandes monstros alados continham flôres frescas, de petalas ricas de colorido, as tribunas cavadas na parede de cantaria estavam cobertas de grandes cortinas, e no côro minusculo repousava o orgão de tubos dourados, adornando essa pequena ermida de Nossa Senhora das Necessidades pertencente ao convento dos oratorianos, destacada além no valle de Alcantara garrido e verdejante, e ao fim do qual se arqueavam os pilares do aqueducto alvo na cantaria batida á soalheira. 

E junto ao convento, na ala direita a torre do relogio erguia-se para o céu, encimada pela esphera sobre a qual pousava um galo de bronze olhando a quinta cujas arvores formava o fundo do quadro. 

A pequenina ermida visinha e bella nas suas paredes, abria-se por aquelle meio-dia, á hora do sol, e no emtanto estava deserta. Apenas de quando em quando um vulto d'oratoriano envolto em habitos, passava d'um lado para outro e ia perder-se nos corredores do convento; da cerca chegava um vozear intervallado dos noviços n'uns zumbidos de colmeia. 

Mas acabava de chegar uma cadeirinha, depois aberta a portinhola, saía um homem grave de perruca parda, as grossas pernas vestidas em meias de seda azul, a casaca a comprimir-lhe o rotundo corpanzil e que se inclinava com pretenções a gentileza em face d'uma dama esbelta, morena, d'olhos vivos, que trajava um vestido claro pintalgado de raminhos violetas e sobre cujo penteado alto, ondulavam duas plumas vermelhas que condiziam com o leque que 

manejava com uma graça andaluza. 

Apoiou-se ligeiramente na mão que o homem lhe estendia e de seguida penetrou na egreja arrastando a sua immensa cauda, emquanto o individuo com o seu tricorne debaixo do braço a seguia com um bom sorriso amigo nos labios grossos. 

Ella, voltou-se rapidamente e murmurou, além na nave da egreja: 

-- Senhor, meu marido, quereis ir prevenir o reverendo fr. José Maria de Mello, que o aguardo. 

-- Ás suas ordens, gentil Antonia... 

E o marido da açafata, o official das alfandegas de Sua Magestade, com uma venia em frente do altar-mór, correu a prevenir o oratoriano. 

D. Antonia relanceou um olhar pela egreja, benzeu-se com devoção e foi ajoelhar-se a um canto murmurando uma oração. 

Entretanto, o esposo batia á porta da cella do oratoriano e ao vêl-o, curvava-se a beijar-lhe a mão, dizendo: 

-- Reverendo, minha esposa sollicita de vós a graça de a ouvirdes. 

Os olhos do jesuita, tiveram um raio de luz por detraz dos oculos verdes e com uncçao, volveu: 

-- Lucas de Castro... Vou já ouvir vossa esposa... 

-- Para nós, grande é a honra! 

-- Para mim, grande é o jubilo! redarguiu elle, como se fallasse verdade. 

Pelo caminho, ao descerem as escadinhas vetustas, o official das alfandegas dizia: 

-- Tenho a certeza que não ides ouvir de Antonia grandes peccados... Uma alma diamantina como a sua não abriga um só mau pensamento! 

-- Demais o sei... Vossa esposa é um modelo de virtudes! Podeis ter a certeza!... 

A açafata erguera a cabeça ao ouvir as vozes, ao escutar o ruido dos passos nas lages da egreja. 

Ergueu-se e beijou a mão branca do jesuita, depois elle dirigiu-se lentamente para o confessionario collocado no recanto mais escuro da egreja e a joven foi ajoelhar-se a seus pés na almofada de velludo com borlas d'ouro, emquanto o marido, tirando um rosario da algibeira, começou a fazer as suas preces ao Altissimo supplicando: 

-- Que a esposa se conservasse sempre na mesma virtude e que sua magestade tivesse longa vida e lhe concedesse rapida promoção... O que elle daria para ser desembargador!

No confessionario passava-se então uma outra scena bem diversa. 

O oratoriano recostado na sua cadeira, n'um ar d'indifrerença, hypocrita a posição, interrogava com pressa a joven ajoelhada a seus pés: 

-- Que se passou, D. Antonia? 

-- O que esperavamos ou antes mais do que esperavamos, reverendo! 

-- Mais do que esperavamos? 

-- Sim... 

-- O principe... 

-- Apanhado em flagrante por D. Maria Benedicta que eu conduzira á entrevista. 

-- Obtida a custo de D. Maria da Penha, hein? 

-- Não, reverendo, a açafata não consentiu! 

-- Ah! Comprehendo... Foi outra pessoa que recebeu o principe, emquanto D. Maria foi por vós habilmente affastada. 

-- Não, reverendo... Muito melhor. Foi a propria açafata que contra sua vontade recebeu sua alteza!

-- Contae... contae a scena! 

-- D. Maria devia receber o amante... 

-- Ah! Esse Vasco de Miranda sobre o qual pesa toda a nossa colera. 

-- Sim! Sua Alteza tomou o disfarce de cadete, praticou como se fosse Vasco e penetrou em casa da açafata! 

-- Oh! É impossivel! Conheço bem D. José! Nunca acceitaria semelhante posição. 

-- Mas o amor conduz os homens muito longe! E D. Ramiro de Noronha, um apaixonado, teve artes de conduzir sua alteza a semelhante acção... E depois, o principe é um apaixonado tambem e como já vos disse... 

-- Sim, o amor conduz as mulheres e os homens muito longe! volveu o padre com um sorriso ironico, olhando a dama que retorquia: 

-- Nada de allusões, reverendo... 

-- Bem, continuae! 

-- D. Maria Benedicta louca de colera e de ciume, jurou tirar da açafata, que julga amante do marido, a mais tremenda desforra! Hoje mesmo se dirigirá a Sua Magestade sollicitando a expulsão de D. Maria da Penha! 

-- Oh! Mas servisteis apenas os vossos interesses! bradou o padre com certa colera, continuando, apesar dos gestos que a açafata fazia para que se calasse: 

-- Vós amaes o principe, quereis tornar-vos a favorita do futuro rei, desejaes o predominio e contaes com a vossa belleza... Não é isto verdade? 

-- Reverendo... Procedo em virtude dos vossos conselhos, das vossas ordens! 

-- Basta, D. Antonia, não julgueis ludibriar-me... Não é pelos meus conselhos que desejaes o amor de Sua Alteza! Amaes o herdeiro do throno bem o sei... Talvez a vaidade, talvez verdadeiro amor... No emtanto amaes! 

Fizera-se pallida, e com grande vehemencia, abafando a voz, exclamou: 

-- Pois bem... Assim é... Obedeço-vos, mas amo-o tambem... Por elle seria capaz de tudo! 

-- Tão capaz que o obrigais a uma entrevista, que vos tornaes amiga de sua esposa apenas para perder uma rival feliz! Dizei-me agora a quem servistes? 

-- A vós! 

-- Não... Que temos a ganhar com a expulsão do paço de D. Maria da Penha? 

-- Que me torne a amante de Sua Alteza! 

-- Nada é! 

-- É o dominio... Enganae-vos, é o dominio... 

-- Não me ludibriareis! É apenas o amor que vos impede! 

-- Pois bem e se assim fôr? 

-- No dia do triumpho importar-vos-heis apenas com o vosso amor... 

-- O que não impedirá de vos livrar de dois inimigos pelo menos! 

-- Como? E só então... Oh! Tarde cumpris as vossas promessas! 

-- Tarde? 

-- Sim... Quando fordes amante de Sua Alteza o que poderá ser tarde ou nunca! 

-- Nunca?! perguntou ella aterrorisada. 

-- Sim... Desde que o deseje! Julgaes acaso, D. Antonia, que estou disposto a ser instrumento da vossa ambição? 

-- Ah! Reverendo... Como sois ingrato... Pois sabei que não é d'aqui a tempo que vos entregarei os vossos inimigos... É hoje... É a esta hora em que estão perdidos! 

-- Perdidos?! Mas quem? 

-- Vasco de Miranda e Gomes Freire! 

O oratoriano teve um sorriso, encolheu os hombros e murmurou desdenhoso: 

-- Se perdesteis tanto Vasco de Miranda como ao alferes nada tenho a agradecer-vos... Porque o ultimo foi victima esta noite! Mas victima de nós outros! 

-- Enganae-vos! 

-- Por Deus! 

-- Sim... Gomes Freire está preso em Ajuda com Vasco de Miranda! 

-- Que dizeis? 

-- A verdade... 

-- Oh! Mas como... como? 

-- O cadete devia vir tam.bem á entrevista com D. Maria da Penha... 

-- Sim... sim... 

-- Porém Sua Alteza real chegou mais cedo e tomou-lhe o logar. 

-- Bem... E depois... e depois? interrogou cheio d'impaciencia. 

-- Veiu á entrevista e fez- se acompanhar pelo seu amigo, que segundo me disse D. Ramiro, que os ouviu, tinha de ir a Palhavã vêr certa dama. 

-- E não foi? perguntou o jesuita louco de raiva. 

-- Não, visto que está preso! 

-- E porque? 

-- Por ser accusado de levantar sacrilega espada sobre Sua Alteza real! 

-- Elle! Oh! É admiravel! gritou o jesuita, transfigurado de alegria. 

-- Sim... Elle e Vasco de Miranda! 

-- Meu Deus, agradeço-vos! Sua Alteza é orgulhoso e nunca lhes perdoará... 

-- E no caso d'esse impossivel succeder, seria então a rainha que quereria castigar os que insultaram o herdeiro da corôa! 

-- E el-rei a quem o principe D. João instigaria! 

-- D. João? 

-- Sim... Desde que soubesse pelo menos que elles eram os sacrilegos das Salesias! 

-- Depois Ramiro de Noronha instigará pelo seu lado os aggressores de Sua Alteza! 

-- E sua mãe, D. Maria de Noronha, soUicitará da princeza do Brazil, o castigo! 

-- A isso comprometto-me eu! Mas, dizei, D. Antonia... Como se passou tudo! 

-- Ora, reverendo... É facil vêr isso... O principe sahiu de casa de D. Maria da Penha, elles viram-no. Sua Alteza trocou com elles algumas palavras, travaram combate... 

-- E D. Ramiro defendeu o principe? 

-- Correu a chamar a guarda do paço... 

-- Que lançou mão dos hereges, dos miseraveis! 

-- Porém elles não reconheceram Sua Alteza! 

-- Isso em cousa alguma lhes diminue a culpa!

-- Muito bem... Agora nem o rei os salvará... Accusados de sacrilegos e de insultadores da pessoa sagrada do herdeiro do throno apenas os espera... 

-- A forca! disse ella, deixando escapar aquella palavra com grande alegria. 

-- Sim... E depois, resta apenas o conde de Assumar... 

-- E o arcebispo... 

-- Sim... Esse d'esta vez fica tambem compromettido! 

-- Decerto, pela protecção concedida aos herejes! 

-- Ah! Vamos triumphar, D. Antonia... 

-- A minha rival será hoje expulsa do paço... 

-- Elles serão condemnados... 

-- E eu tornar-me-hei a amiga da princeza! 

-- E dentro em pouco a favorita do principe do Brazil... 

-- E por agora... 

-- Vosso esposo será desembargador! 

-- Oh! É muito difficil arrancar essa graça a Sua Magestade. 

-- Não... É até facil! 

-- Como! Conseguil-o-heis, reverendo? 

-- Sim, minha senhora... Eis a nomeação... 

Tirava então do peito um papel e entregava-o á joven, dizendo: 

-- Eis a paga dos vossos serviços! 

-- Mas ha apenas dois dias que vos falei em tal... 

-- E eu desde hontem que possuo essa nomeação com o nome em branco... Basta preenchel-a com o nome e appellidos de vosso esposo! Ámanhã sairá a nomeação na Gazeta... 

-- Mas é extraordinario... 

-- Não... É apenas um pouco caro... Mas para serviços d'esta natureza não se olha a tres mil cruzados! 

-- Tres mil cruzados... Mas então... 

-- Comprei essa nomeação a uma pessoa que tem grande influencia. Sabeis? O Sarmento que trafica com os empregos publicos... 

E vendo o seu espanto, proseguiu: 

-- Não vos admireis que tudo se vende na côrte! 

-- Como vos agradeço a nomeação e a lição! 

-- Agora até á vista... Incitae a princeza que eu vou pôr alguem em campo... D'esta vez é certo o triumpho! 

-- Sim... Vencemos! 

O oratoriano, então, pareceu recordar-se d'alguma cousa, porque exclamou: 

-- Mas desde que Gomes Freire está preso, não o encontrou fr. Fabricio! 

-- Fr. Fabricio? Não é uma pessoa a quem D. Ramiro tinha que enviar os seus amigos? 

-- Sim... É... Sabeis alguma cousa? 

-- Sei que dois d'esses fidalgos se encontraram com elle! 

-- Apenas dois? 

-- Sim... Porque D. Ramiro era necessario ao principe e Jacob Mestral estava de guarda ao paço d'Ajuda!

-- N'esse caso que succederia ao pobre fr. Fabricio e aos dois fidalgos que ainda não voltaram da excursão! Se esses dois homens não estivessem presos dir-se-hia que os tinham apanhado! 

-- Ah! Garanto-lhe que semelhante cousa é inteiramente impossivel! Elles estão presos e bem presos! 

-- Bem n'esse caso... Mas vou partir já para Palhavã! 

Levantava-se, deu a mão a beijar á açafata e dirigia-se para a porta ao mesmo tempo que Lucas de Mello se erguia a sollicitar a benção do reverendo. 

D. Antonia, com um bom sorriso nos labios dirigia-se para o logar onde o marido estivera, via o seu tricorne collocado no chão e levantando-o mettia sob elle o papel que recebera do reverendo e collocava-se a distancia orando em frente d'um altar minusculo. 

Reinou por momentos o silencio na pequena egreja. 

Depois ouviu-se uma exclamação alegre e o official das Alfandegas, com o rosto transfigurado de pasmo, todo alvoraçado, chegava junto da esposa que parecia immersa em profundo extasi e tocando-lhe no hombro, bradou: 

-- Antonia! Antonia! 

-- Que succedeu? perguntou ella erguendo-se e encarando-o com bem fingida calma. 

-- Os meus sonhos realisaram-se! Oh! Virgem Maria... Oh! Santa Nossa Senhora das Necessidades! Obrigado pelo vosso milagre! Nada ha que chegue a uma oração feita com a mais verdadeira fé!... 

E o bom do rotundo personagem tinha lagrimas nos olhos, risos nos labios, toda a sua pessoa se agitava n'um mixto de alegria e de devoção, nas mais desencontradas commoções, desejoso de bailar e d'orar, de cantar e de se penitenciar, bradando por fim com um suspiro: 

-- Uma nomeação! Uma nomeação! 

-- Mas que quer dizer? interrogou a mulher com grande naturalidade. 

-- Ah! Quero dizer... Quero dizer... 

A voz embargava-se-lhe, não conseguia dizer o que desejava, e por fim n'um arranco bradava: 

-- Quero dizer que Nossa Senhora das Necessidades ouviu as minhas preces! Sou desembargador! Desembargador! 

Abria o papel que mostrava triumphante á esposa e depois ao reparar bem n'elle, tornava-se pallido, e exclamava: 

-- Oh! Mas está em branco! 

-- Bem facil é enchel-o com o seu nome... 

-- Mas seria realmente para mim? 

-- Onde o encontrou? 

-- Sob o meu tricorne... 

-- Pois é seu... Não tenha a menor duvida! 

-- Meu! Meu! Oh! Venha agradecer a Nossa Senhora! 

E como se a nova posição o tornasse ousado, agarrou a esposa e arrastou-a até aos pés do altar onde ficaram resando. 

Elle chorava e ria d'alegria e a joven pensava na vingança. 

-- Minha Nossa Senhora, dizia a voz molle do novo desembargador. Agora só me resta pedir-vos que conserveis a vida de Sua Real Magestade... e a virtude de minha esposa! 

-- Peça apenas a primeira, porque a outra é inalteravel! exclamou n'este momento por detraz d'elle a voz de José Maria de Mello, que se dirigia para a porta. 

O desembargador e a esposa levantaram-se ambos e seguiram o reverendo que se dispunha a mostrar a sua vinda, tendo para a açafata um olhar d'intelligencia a que elle correspondia com um sorriso satisfeito. 

E os dois esposos no interior da cadeirinha affastavam-se. 

Quando o reverendo ia partir tambem, dos lados da Boa Morte appareceu uma sege que passou á porta do convento e elle viu com grande espanto um frade que se apeava seguro por dois homens vestidos como os aldeãos. 

Reconheceu então Fr. Fabricio, pallido, roto, o fato em desordem, uma ferida na cabeça ligada com pannos n'um curativo feito á pressa. 

José Maria de Mello, correu para elle e exclamou: 

-- Fabricio... Que succedeu? Ia procurar-vos... 

-- Ah! Sois vós, reverendo? volveu o frade a custo. Succedeu que estou vivo por milagre ... Oh! Acompanhae-me á minha cella... 

E muito baixinho accrescentou: 

-- Está tudo perdido... Os marotos são de primeira força! N'aquelle instante o desembargador dentro da sege, dizia para a esposa: 

-- Oh! Offertaremos á Senhora das Necessidades o meu busto em cera! 











XXXII 



A felicidade de fr. Fabricio 





O conde de S. Vicente, á cabeceira do leito mortuario de seu irmão, o cardeal da Cunha, esquecendo todos os motivos de queixa havidos contra os Alorna e contra seu cunhado Marialva, promettera a mão de sua filha ao joven conde d'Assumar e pedira a D. Henriqueta da Cunha que assim o participasse ao homem amado. 

Convidara pois o gentilhomem para a sua casa que ficava em frente d'uma outra habitada no verão pelos Marialvas exactamente na occasião em que S. Vicente ia para o seu palacio de Bemfica. 

O moço fidalgo, louco de jubilo, pela carta da noiva, vestira a sua farda, despedira-se de Gomes Freire e de Vasco de Miranda e entrara no vasto salão do conde de S. Vicente com o coração palpitante de anciedade. 

Esperava encontrar Henriqueta e viu o velho fidalgo, secco, aprumado, trajado de negro, fallando rapidamente e em termos peremptorios e que ao vêl-o exclamou: 

-- Senhor d'Assumar, não extranhe o meu procedimento... 

Dou-lhe minha filha... Espero que o vosso pae, o senhor marquez d'Alorna me sollicite a sua mão... Este casamento liga de novo os Alorna e os Marialva aos Cunhas! De todos os meus inimigos apenas nunca perdoarei ao conde de S. Lourenço! O velho idiota tem pretenções a espirituoso. Detesto-o e ao seu Lafões, a ambos aos seus poetas que me satyrisam e a sua Academia de peralvilhos! 

-- Senhor conde, eu... 

-- Ouça... Mancebo... Repito... Não extranhe o meu procedimento... Obedeço a um pedido in extremis que por cousa alguma deixaria de cumprir... 

-- Um pedido in extremis? 

-- Sim, conde... Meu irmão, o cardeal, apoiou o vosso pedido e á hora da morte legando parte da sua fortuna á vossa noiva e a outra parte a D. Elvira de Mello, que reconheço como pertencente á minha familia, pediu-me que o tornasse feliz! 

-- Oh! Pobre cardeal! 

-- Sei os motivos que o impelliram a isso... Sei que quiz recompensar a vossa generosa acção! Dissesteis-lhes tudo quanto se referia a D. Elvira, contastes-lhe a acção do vosso amigo Gomes Freire... 

-- Sim excellencia... Fui pedir o seu perdão para elles! 

-- E que o cardeal me concedeu tambem... Logo que possamos arrancar D. Elvira ao poder d'esse infame Tavora, indigno da nossa familia, ella tornar-se-ha a esposa do vosso amigo! 

-- Oh! Mil vezes obrigado, conde... Mas de quem fallaes? 

-- De José Maria de Mello que foi propor ao fallecido cardeal a entrega de sua filha a troco do seu dinheiro!

-- Que dizeis? Então não entregaram D. Elvira a sua eminencia! Os jesuitas não pactuaram! 

-- Os jesuitas? 

-- Sim... Foram famulos da Inquisição que nol-a arrebataram... 

-- Sem duvida por ordem do miseravel que buscava fazer uma transacção! 

-- Por Deus! Não comprehendo então cousa alguma! 

-- Que quereis dizer! 

-- Que no momento em que recebi a carta da minha noiva, Gomes Freire recebia uma de D. Elvira. Então eu parti para Oeiras e elle para Palhavã! Dizia-lhe que o cardeal lhe concedera o perdão e que iriam ambos ser felizes! 

-- O cardeal! Mas estava morto! 

-- Gomes Freire, julgou a carta um perdão in extremis... Mas vossa excellencia diz... 

-- Que sem duvida, o vosso amigo, vae cahir n'uma cilada! 

-- N'uma cilada? 

-- Sim... Porque José Maria de Mello, como jesuita, vingarse-ha... D. Elvira está em seu poder e sem duvida serve-se d'ella para attrahir o vosso amigo a um perigo! 

-- Por Deus! 

-- Sim. Meu irmão disse-me tudo. Lastimava, elle o que ia morrer, não abraçar sua filha... 

-- Sua filha? 

-- Sim, meu genro, sua filha... Sois quasi da familia e podeis saber este segredo. 

-- Já o desconfiava! 

-- Muito bem... Isso em cousa alguma altera a affeiçao que dispenso a essa joven que n'algumas vezes... 

-- E que é uma grande alma! 

-- Já vedes, porém, que meu irmão não viu sua filha, que não lhe disse para escrever essa carta... Quem podia pois obrigal-a a isso? os que a têm guardada... 

-- José Maria de Mello! 

-- Decerto. 

-- Oh! Mas n'esse caso. Gomes Freire... 

-- Vae cair n'uma cilada! 

-- De que é necessario salval-o a todo o custo... gritou o mancebo! 

-- Certamente... 

-- Por isso, conde, espero que me deixeis partir... 

S. Vicente, olhou o mancebo, leu-lhe no rosto a coragem agitou uma campainha e a um creado que appareceu, ordenou: 

-- Chama a esta sala, minha filha! 

O servo retirou-se e o conde ficou meditativo durante instantes, depois calmo, sereno, disse: 

-- São dez horas... D' aqui a Palhavã a bom galope levará uma hora! Chegará a tempo! 

-- Talvez na occasião de o salvar! 

N'este momento D. Henriqueta da Cunha, entrava na sala. Era uma senhora alta, formosa, o rosto oval, os olhos castanhos d' uma magnifica expressão, os cabellos caíam-lhe em tranças sobre o seu vestido de ligeiro estofo azul, tinha um ar verdadeiramente fidalgo e ao vêr o noivo, exclamava: 

-- Pedro! 

-- Henriqueta! bradou elle apertando-lhe as mãos, emquanto a joven se ruborisava. 

Então o conde, no seu modo secco, authoritario, declarou: 

-- D. Pedro, permitto-lhe que beije a sua noiva! 

Ella, quasi desfallecida offereceu-lhe a testa onde o conde depoz um beijo respeitoso e de seguida correu a lançar-se nos braços do pae, que dizia: 

-- Bem... E agora partamos!...

Conduziu a filha até á porta apesar das interrogações que ella fazia e tomando a espada e o chapéu bradou: 

-- Vamos, conde! 

-- O que? V. Ex.ª? 

-- Acompanho-o... Se vae defender o seu amigo eu vou defender minha sobrinha! 

Saíram então da sala rapidamente e entrando no pateo, o conde mandou sellar dois cavallos sobre os quaes partiram dentro em instantes pela estrada de Caxias, promptos a irem a Palhavã em defesa do alferes do regimento de Peniche. 

Emquanto os dois fidalgos assim procediam, fr. Fabricio em companhia de D. Balthazar d'Athouguia e de Silva Menezes, aguardavam a chegada d'aquelle official, escondidos no jardim da pequena casa. 

No acampamento dos ciganos não havia o minimo ruido, apagava-se a ultima fogueira e um homem de grandes barbas e cabellos incultos, vestido como os bohemios, o chefe do bando cigano, conferenciava com o frade emquanto os dois fidalgos passeavam ao fundo do jardim. 

Fr. Fabricio concluía uma conversa, a que o homem respondia por phrases intermittentes. 

-- Zara... Encontrarás o corpo d'esse official que despojarás, enterrando-o de seguida! Depois partirás com a tua tribu... Com o ouro que te dei farás mais rapida a marcha e ficará entre nós este segredo! 

-- Sim... sim.... frade! Pepe, o meu urso, é um bom sepulchro! 

-- Mas, e se descobrirem... 

-- Zara, o chefe dos ciganos, nada terá a temer... Tanto mais que dentro em pouco encontrar-se-ha em Hespanha e se um dia voltar a Portugal já estará bem esquecido o alferes assassinado! 

-- Sim frade! 

-- Então vae e olho alerta! 

-- Descançae! 

Partiu a confundir-se na sombra e foi estender-se no meio do bando, olhando bem o urso, cujos olhos luziam nas trevas. 

Subito ouviu-se o galope de dois cavallos na estrada, um ruido de vozes, e depois os animaes que eram conduzidos á redea em direcção á casa. 

A fogueira dos ciganos apagou-se totalmente e a noute estava bem escura. 

-- O patife vem acompanhado! murmurou fr. Fabricio ao ouvir o som de duas vozes. 

-- E nós somos tres, fr. Fabricio! 

-- Sem contar com os ciganos que nos ajudarão se forem muitos! 

-- Nunca! exclamou Silva Menezes. Somos fidalgos e bater-nos-hemos lealmente! Depois de vencidos nada temos a vêr com os seus restos mas emquanto não fôr morto, tratal o-hemos com lealdade! 

-- Sim... Os despojos d'um homem morto em duello pertencem a quem os achar... Mas em vida pertence ao adversario! apoiou D. Balthazar d'Athouguia. 

-- Pschiu! Elles ahi estão... fez o frade com muito cuidado e cautella. 

Esconderam-se então nas arvores ao mesmo tempo que um vulto trepava o muro do jardim. 

Viram um homem vestido na farda d'alferes do regimento de Peniche, que se deixava cair no jardim e se dirigia para a casa onde brilhava uma luz. 

Tacteava o terreno e desembainhava a espada, relanceava um olhar admirado pelo recinto e caminhava sempre em direcção á claridade. 

Foi então que na sua frente, sahindo d'um renque d'arvores, appareceu um vulto e que uma voz bradava: 

-- Ah! Não faltasteis á entrevista! 

E Silva Menezes, também de espada desembainhada, collocava-se em frente do conde que tomava por Gomes Freire e bradava-lhe: 

-- É agora a occasião de liquidarmos a divida contrahida com D. Ramiro de Noronha, senhor alferes! Tanto mais que entre o meu e o vosso regimento tambem ha dividas antigas! Sou alferes do regimento do Caes! Em guarda! 

D. Pedro de Portugal, apesar de não comprehender porque o amigo faltava á entrevista, dispoz-se a tomar o seu logar e cruzou a espada com a do filho do conde de S. Lourenço. 

D. Balthazar d'Athouguia, sahia das arvores e bradava: 

-- Que pena o vosso amigo não vos ajudar! Sempre me divertia um pouco! 

-- Eis-me aqui, mancebo! gritou o conde de S. Vicente, que apesar da edade tinha o pulso solido como D. Balthazar comprehendeu ao primeiro ataque. 

Assumar, não pronunciava palavra, temendo ser reconhecido e os adversarios trocaram rijos golpes. 

Silva Menezes fora attingido em pleno peito pelo celebre golpe á Jacques Lebon e caía n'um mar de sangue, D. Balthazar ao ver o amigo prostrado soltava um grito e sentia-se impotente para luctar com o conde a quem D. Pedro dizia: 

-- Deixae em paz esse fidalgo, meu sogro... É elle que nos vae explicar esta cilada! 

-- Pois sim, mas desarmado por causa das traições de que é bem capaz, meu genro! volveu o velho S. Vicente que sentia voltar-lhe o antigo ardor, arremeçando a distancia a espada de D. Balthazar que bradava: 

-- Não é Gomes Freire! 

-- Não... É um dos seus amigos que responde tanto pelos seus actos como o proprio que tão traiçoeiramente esperaveis! 

-- O conde d'Assumar! exclamou o mancebo deveras admirado. 

-- Sim eu! 

-- Então o vosso amigo não teve a coragem... 

-- Calae-vos, vil traidor... Nem mais uma palavra, fabricante de infames ciladas! Gomes Freire não está aqui por qualquer motivo que desconheço, mas eu respondo pelos seus actos como leal camarada que sou! Estou aqui para vos interrogar... Vamos, caminhae na minha frente para o interior d'essa casa... ordenou elle apontando-lhe o caminho com a espada. 

-- Tem razão somos os vencidos! Porém espero de vós que tereis a caridade de conduzirdes o meu companheiro... 

-- Resta saber como terieis procedido para com Gomes Freire! Mas não regulo nunca os meus actos pelos dos infames e por isso vou satisfazer-vos! 

Depois para o conde com um modo amavel, pediu: 

-- Meu sogro: Espero que conduzireis esse infeliz para a casa e que correis a chamar o mestre André, o physico dos meninos de Palhavã! 

-- Assim farei, conde! 

E o velho S. Vicente, curvando-se sobre o corpo agarrou-o e penetrando no interior da casa, foi deital-o sobre o leito onde dormia D. Elvira de Mello. 

Recuava ao reconhecel-o e ao ver a pallidez d'aquelle semblante, o sangue que jorrava da ferida, rasgou rapidamente a tira do lençol e buscou estancar o sangue, murmurando: 

-- Hum... hum... O filho de S. Lourenço... Como o pae, um patife! Mas emfim... Poupemos o inimigo. 

O mancebo abria os olhos que fechava de seguida e ficava n'uma grande immobilidade sobre o leito. 

O conde de Assumar gritava ao cumplice de Fr. Fabricio: 

-- Vamos, entrae! Ides dar-me contas de vossa traição! 

-- Isso é o que vamos ver! gritou n'este momento a voz do frade apparecendo á frente de oito ciganos commandados por Zara e que empunhavam as suas espingardas 

-- Ah! Que quereis? perguntou Assumar ao vêr-se rodeado por toda aquella gente que Fabricio correra a chamar ao ver perdida a partida e julgando ainda tratar com Gomes Freire. 

-- Queremos a tua vida, filho de infames! bradou com rancor o oratoriano ao mesmo tempo que o conde de S. Vicente ouvindo ruido apparecia á porta e ficava estupefacto. D. Balthazar d'Atouguia correu para o interior da casa e apoderara-se rapidamente da espada que o velho gentilhomem desafivelara para melhor poder soccorrer o filho do seu inimigo; e voltava, bradando: 

-- Na guerra como na guerra! 

-- Sim mancebo, tendes razão! bradou com terrivel violencia o conde de S. Vicente. Mas ha apenas uma differença! É que n'outro tempo a guerra fazia-se lealmente e agora pela traição! 

Ao ouvir esta voz, fr. Fabricio tornou-se pallido e murmurou: 

-- Com que então o conde de S. Vicente auxilia o miseravel! 

Deverás convencido de que estava em frente de Gomes Freire, sentiu se estremecer. 

Toda a narrativa ouvida ao geral da ordem lhe veiu á memoria e então, colerico, fora de si, ia ordenar a chacina. 

Porém elle estava na presença do homem que era seu irmão e cujo pae levara um desgraçado á forca, um pobre que tivera a coragem de defender seu filho contra um nobre. 

Nas falsidades do jesuita, n'essa narração adequada pelo geral ás circumstancias, via o motivo do seu ódio, da sua intensa raiva. 

Agora chegavam as mulheres da tribu com archotes, viam-se-lhes os rostos bronzeados, os fatos vistosos, aquelles ares de pequenos selvagens prestes a lançarem-se sobre a presa. 

Approximavam-se pouco a pouco e elle, com um gesto, ordenou aos ciganos: 

-- Conduzam este homem ao interior de casa. 

Mas o conde dava um pulo para traz e fazendo um jogo perigoso com a espada, bradava: 

-- Para traz! 

-- Esteja tranquillo ou morre, senhor alferes! gritou-lhe o cigano Zara apontando o trabuco. 

Os outros praticaram o mesmo e S. Vicente, rendido ante a evidencia, exclamava: 

-- Meu genro. Não podemos na realidade vencer estes miseraveis! Comprehendo as suas intenções! Offerecer-lhes-hemos um resgate! O frade pagou-lhes, pagar-lhes-hemos também! 

-- Seu genro! gritou o frade. Não sois então Gomes Freire? 

-- Não... Sou o conde de Assumar, volveu com dignidade o fidalgo, accrescentando: 

-- Mas respondo do mesmo modo pelos seus actos! 

-- Ah! Sois seu cumplice?! 

-- Sou seu camarada! 

-- Que ordenaes? interrogou o chefe dos ciganos. 

Fr. Fabricio meneou a cabeça, e por fim exclamou: 

-- Que estes fidalgos sejam fusilados dentro em meia hora! 

-- Quanto daes por elles? perguntou então Zara com certa fleugma, buscando negociar e arrastando o frade para longe. 

-- Quanto pedes? 

-- Cincoenta mil cruzados e a impunidade! 

-- Dar-lhes-hei sessenta mil, com a condição de partirem já para Hespanha, e de os fusilarem! 

-- Acceito! 

-- Collocarão os cadaveres junto á quinta dos meninos de Palhavã e a justiça, embora se trate de dois grandes fidalgos, terá a cautella de não fazer muitas indagações, ao julgar que o golpe partiu dos bastardos reaes... <marca num="*" pag=430> Tudo é possivel n'este mundo! 



<nota num="*" pag=430> Os meninos de Palhavá eram filhos bastardos de D. João V. </nota>



-- Seja! exclamou o cigano, dirigindo-se a passos apressados para os fidalgos e exclamando: 

-- Senhores: Preparem-se para morrer! 

Fr. Fabricio fez um signal a D. Balthazar d'Athouguia e ficaram a distancia contemplando a scena. 

Ao clarão dos archotes, o conde d'Assumar estendeu a mão ao senhor de S. Vicente, exclamando: 

-- Somos victimas da maior das cobardias! 

-- Sim! E agora não desceria ao extremo de comprar a vida! Morreremos! 

-- Como nobres, assassinados por bandidos. 

Fizeram mentalmente uma oração. 

Nos olhos dos ciganos brilhava a ganancia. 

O chefe dera-lhes parte do contracto em voz muito baixa. 

Agora conduziam os fidalgos para a extremidade do jardim, ligavam-nos solidamente, sempre acompanhados pelas mulheres que empunhavam serenamente os archotes e sahindo da propriedade, conduziam-nos para o acampamento. 

Zara, bateu uma palmada na testa e para o frade que assistia impassivel á scena, exclamou: 

-- Oh! Frei... Melhor que a vossa idéa é a minha! Pepe, o meu urso, não come desde hontem! 

Fr. Fabricio soltou uma gargalhada e D. Balthazar estremecendo, murmurou: 

-- Oh! É horrível! 

Assumar e S. Vicente, de mãos ligadas, o pensamento em Deus, uniam-se um ao outro e esperavam morrer por aquella noite negra, em que os ciganos tinham medonho aspecto á luz dos archotes resinosos. 

-- Vamos a isto, rapazes! gritou Zara. 

Os seus companheiros enfileiraram-se e apontaram as espingardas. Mas n'este momento uma joven cigana, de cor bronzeada e aspecto resoluto, entregava a outro o archote que segurava e bradava: 

-- Meu pae... Zara! Chefe!... Perdão para o mais novo!

-- Eh! Vae-te Noemia... Nada de tolices, lembra-te que os fidalgos são nossos inimigos! 

-- Não quero! Não o matareis!... E eu... Terei a coragem de estrangular o frade maldito! 

-- Vae-te, moçoila! gritou o chefe em voz rancorosa! 

-- Oh! Então para que o mate eu morrerei tambem... Foi elle o bom senhor que em Oeiras nos deu uma bolsa d'ouro pela buena-dicna. Não o matareis! 

-- Sahe d'aqui! gritou cheio de rancor o frade, correndo para a joven, que o olhava cheia da mais intensa raiva, clamou: 

-- Tu... tu é que precisavas a morte! 

-- Agarrem Noemia! ordenou Zara ás mulheres. Está louca, porque nos quer roubar sessenta mil cruzados! 

-- Sessenta mil cruzados! berrou a turba, e as mulheres com furia lançaram-se sobre a joven que debatendo-se, gritava: 

-- Soccorro! Soccorro! 

Como resposta á voz do chefe, exclamava: 

-- Apartem! 

Soccorro! Soccorro! 

Ao longe ouvia-se o tropel d'uma grande cavalgada. 









XXXIII 



As desgraças de fr. Fabricio 





Estava tudo a postos. Os ciganos enfileiravam-se apontando as espingardas, os prisioneiros murmuravam as ultimas orações, n'aquelle momento em que se 

ouviu o tropel da cavalgada. 

A joven cigana, segura entre as companheiras, debatendo-se, os olhos chispando clarões colericos, berrava desesperadamente: 

-- Soccorro! Soccorro! 

Assim n'aquelle grito, ella atraiçoava os seus recordando-se que era necessario salvar esse homem que lhe dispensara protecção n'outro logar e continuava a gritar sempre, tendo um sorriso de jubilo ao ver approximar-se a cavalgada que entrava a todo o galope no acampamento. 

Eram uns vinte homens que entrevistos aos clarões dos archo-tes mostravam as physionomias patibulares, das sellas dos cavallos pendiam arcabuzes, uma voz bem timbrada, gritava: 

-- Rapazes! Temos boa presa! 

Cercaram rapidamente o recinto, apearam-se dos cavallos e apontavam os arcabuzes, ao mesmo tempo que o chefe corria para o meio do grupo depois de ter estendido os braços a uma mulher que trazia á garupa, e bradava: 

-- Entreguem-nos tudo!... Vamos! Nada de demoras!... 

Temos que ir ao encontro d'uma caravana de peregrinos fidalgos que vem de Mafra!... 

-- Que queres?... exclamou n'este momento a voz rude de Zara collocando-se o chefe dos ciganos em frente dos recemchegados. 

-- Que quero?... Mas por Deus... Tudo que nos possam entregar! replicou ousadamente o outro. 

-- Mas quem és? 

-- Sou Joannico, o bandido! 

-- Joannico! bradaram todos com admiração, ao passo que os dois fidalgos collocados a distancia buscavam saber do que se tratava. 

-- Sim, Joannico, já me conheceis, bem? 

-- Pessoa alguma ignora o teu nome desde ha alguns dias... Tiveste a audacia de penetrar no convento da Boa Morte e roubares os vasos sagrados! replicou o cigano. 

-- Isso nada é! exclamou um dos bandidos com uma especie de altivez. Sabe pois, já que tanto admiras esse feito que o chefe vem d'um logar onde ninguem se atreveria a entrar nem mesmo de dia! Vem da Inquisição! 

Um brado immenso se ouviu e toda a tribu rodeou o bandido que relanceava o olhar e deparava com fr. Fabricio e com D. Balthazar d'Athouguia. 

Então, como se desejasse conhecer o que os juntava ali, clamou: 

-- Cala-te Sempronio! Nada de alardeares as proezas do bando! E vós outros, dizei-me, o que fazeis aqui... Explicae-me a presença d'aquelles homens amarrados lá em baixo e que segundo me parece ieis fusilar quando alguem gritou por soccorro... Sem duvida um dos prisioneiros! 

-- Não, Joannico, não foram elles! Fui eu! gritou Noemia collocando-se em frente do bandido, ao mesmo tempo que a Chiquita encostada ao hombro do amante, lhe dizia: 

-- Tu? Mas gritavas então contra os teus... Não gira nas tuas veias sangue bohemio... 

-- Oh! Bella joven... volveu a outra. Eu buscava salvar alguem que fôra muito bom para mim! 

-- Que faz além aquelle frade?... Raio! Passamos a noute em historias de tonsurados!... exclamou o Joannico. 

Mal acabara de pronunciar estas palavras, um grande grito se ouviu e um outro frade sabido do grupo dos bandidos se lançava para a frente, bradando: 

-- Oh! o reverendo fr. Fabricio! 

-- Quem és tu? interrogou o oratoriano, ao passo que os ciganos e os bandidos soltaram gargalhadas. 

-- Sou o leigo Marcolino... 

-- Tu? O porteiro da Inquisição! clamou o outro admirado interrogando de seguida: 

-- Mas como te encontras aqui? 

O leigo relanceou a vista pelos bandidos, fez-se livido e cerrou os labios não se atrevendo a responder. 

Porém Joannico de muito bom humor, avançando para fr. Fabricio cujo rosto viu ao clarão dos archotes, começou: 

-- Tendes muito interesse em saberdes a aventura do leigo?... Pois eu vol-a conto... Imaginae, bom frade, que ha n'um canto da cidade um tribunal onde se julgam e são sempre condemnados aquelles que ali entram!... 

-- A santa Inquisição!... murmurou o oratoriano. 

-- Oh! Ainda bem que a conheceis pelo esboço! redarguiu o rapaz, emquanto os outros continuaram a rir. 

-- Ora um dia lembraram-se de conduzir para ali uma mulher accusada de feiticeria porque pertence á tribu dos ciganos! 

-- Quem é?... Quem é? interrogaram todos. 

-- Eu... A Chiquita! gritou a joven saltando para o meio do grupo e fazendo uma venia comica ao reverendo, que bradou: 

-- Vós?... Mas como vos encontreis aqui? 

-- Pelo mesmo motivo que o vosso leigo! respondeu Joannico com uma risada. 

-- O que? 

-- Foram ambos raptados esta noute! 

-- Impossivel! Na Inquisição ha guardas, ha famulos, isso seria a maior das ousadias! 

-- Ouça o resto, meu padre, ouça e espalhe á sua vontade na cidade mais esta minha proeza e diga ás justiças de Sua Magestade que eu as desafio a virem prender-me desde Lisboa ao pinhal de Leiria! Mas ouça o resto. 

O Joannico narrava então muito fielmente a aventura, alardeando a sua proeza, desejoso de celebridade, por entre as exclamações admiradas dos ciganos que começavam a encaral-o como um semi-deus, e o espanto do frade e de D. Balthazar d'Athouguia, que muito tremulos em frente do bandido, bradaram: 

-- Já é necessario ser valente! 

-- Como as armas! replicou o leigo, recordando-se do que se passara com elle e supplicando ao frade: 

-- E agora defender-me-heis, não é assim? 

-- A isso vos intimo! Direis que ouvisteis a narração feita pelo proprio Joannico, que teve o prazer de pedir o perdão do leigo Marcolino aos senhores inquisidores... Espera que suas reverencias e grandezas lhe farão essa vontade para que possam viajar tranquillos! 

-- Assim farei! redarguiu fr. Fabricio, com convicção, emquanto D. Balthazar exclamava: 

-- E eu servirei de testemunha! 

Ao ouvir esta voz, o bandido olhou-o bem e de repente bradou: 

-- Vós aqui? 

-- Conheceis-me? 

-- Pois quem não conhece v. s.ª? interrogou a cigana com um olhar de colera, continuando: 

-- E estaveis então tão silencioso ao ouvirdes falar da Chiquita?! 

-- Já vos reconhecera... 

-- Sim... Mas nem uma palavra... Nada, que podia o meu amante recordar se um pouco do passado!

Fr. Fabricio, lançou um olhar rancoroso para o fidalgo, e murmurou: 

-- Do passado? 

-- Sim, reverendo fradepio, do passado! Sabei que o vosso camarada já uma vez em companhia de alguns fidalgos tentou contra a vida de Joannico! 

-- Oh! O infame! Morre!... Morre!... gritaram os ciganos, ainda enthusiasmados pela narração do bandido. 

Corriam então para o fidalgo que se fazia livido, e o salteador, com um sorriso de despreso nos labios, exclamou: 

-- Para traz! 

-- Mas, chefe, é necessario vingar essa affronta! gritaram os bandidos. 

-- Rapazes! Retirem-se! ordenou elle com grande auctoridade ao mesmo tempo que era logo obedecido. 

Voltara-se então para os ciganos e bradava: 

-- Sabem que sou eu só quem costuma lavar as affrontas que recebo, como pagar os beneficios que me fazem! Vim aqui porque vos julguei d'uma comitiva que espero! Deparo com estes homens e encontro um inimigo... Sem duvida este frade e este fidalgo seguir-se-hão áquelles dois que ali estão em baixo para serem fusilados!... 

Zara quiz falar, mas o chefe dos bandidos fez um gesto e exclamou: 

-- Não quero roubar os coUegas! Sois pobres e revoltados como eu! Precisaes d'ouro! Se tivesse encontrado este homem n'um bando fidalgo, atacaria toda essa gente para lhe dar o direito de á força se bater commigo... Assim, vejo-o prisioneiro de vós outros e apenas tenho a perguntar-vos: Quanto vale a vida d'este homem? 

-- Mas... volveu o cigano com um sorriso extranho no rosto bronzeado. 

-- Fala! 

-- Não é nosso prisioneiro! Pelo contrario, pagou com este frade a vida de dois fidalgos! 

-- Já recebestes o dinheiro? 

-- Sim, recebi a sua equivalencia... n'um papel que o judeu Pacifico Moysés... 

-- Muito bem... Fusila então esses dois homens... Se queres fusila também o fradepio, mas deixa que me bata com esse fidalgote! 

Atirava uma espada a D. Balthazar, arrancava outra da cinta d'um dos seus homens e bradava: 

-- Vamos, senhor! Dois de vocês illuminem a scena! 

D. Balthazar, muito livido, pegava na espada e obedecia ao bandido. 

Zara, berrava aos seus homens: 

-- Vamos acabar com isto! 

Collocaram-se de novo em frente d'Assumar e S. Vicente, apontavam já as espingardas ao passo que Noemia gritava sempre: 

-- Oh! Perdão!... Perdão! Para o mais novo perdão!... 

Via a Chiquita a seu lado, corria para ella, deitava-lhe as mãos ao pescoço, orvalhava-lhe o rosto de lagrimas e supplicava: 

-- Oh! Tu... Deves ser boa... És? amante do grande bandido. Pede-lhe a vida do fidalgo! 

A cigana deixava-se enternecer, ia proferir algumas palavras, mas n'este momento Noemia soltava um grito e corria para Joannico ao ouvil-o exclamar para o senhor de Athouguia: 

-- O senhor que com os seus companheiros no café Neutral de Belem tinha despreso de se bater com o criado do conde de Assumar vae agora cruzar o seu ferro com o mesmo transformado no bandido Joannico! 

Fr. Fabricio junto dos ciganos, bradava: 

-- Depressa! Depressa! Façam fogo! 

Mas Noemia, exclamava com desespero: 

-- O criado do conde de Assumar?... Quem é? Onde está o servo d'esse fidalgo que vão fusilar? 

-- O quê? bradou o bandido fazendo-se livido. 

-- Sim... É elle que além está! gritou a joven desesperadamente, lançando-se aos pés de Joannico, que bradou: 

-- Com mil raios!... Devia tel-o comprehendido! São estes os amigos de D. Ramiro de Noronha! Oh! Com mil raios!... 

Já os ciganos iam fazer fogo, mais uns instantes e os fidalgos seriam victimas. 

Porém o bandido correra para os executores, collocara-se-lhe na frente e bradava: 

-- Suspendam! Suspendam! 

-- E porque? gritou Zara admirado. 

-- Porque se não fosse a joven cigana que gritou por soccorro e me acaba de dizer um nome, eu ter-vos-hia enforcado a todos! 

-- Mas Joannico... 

-- Sim, e sabeis porque?... Porque ieis assassinar a unica pessoa que respeito no mundo! 

Um grito de admiração saiu de todos os labios e o bandido, correndo para o fidalgo e reconhecendo-o, exclamou commovido: 

-- Meu amo! Senhor conde! 

-- Tu?... bradou o senhor de Assumar cheio de pasmo. 

-- Eu sim, eu, senhor conde, que vos ia deixando assassinar! 

A Chiquita desamarrava os braços dos fidalgos e bradava: 

-- Mas os miseraveis pagarão bem caro a sua acção, não é assim, Joannico! 

-- Certamente! Certamente! Oh! Meu bom amo... 

E aquelle bandido audaz e respeitado além no meio da sua quadrilha em frente dos seus homens, ao lado da amante, olhado com pasmo pelos ciganos, beijava com respeito a mão do fidalgo, e murmurava sempre: 

-- Oh! E lembrar-me que se não fosse essa joven v. ex.ª estaria morto a essas horas! 

-- Joannico, agradeço-te, és um valente... 

-- Oh! Meu bom amo... Essas palavras na bocca de v. ex.ª são a minha maior recompensa! 

-- Dá-me a tua mão! gritou com commoção D. Pedro de Portugal. 

O chefe da quadrilha recuou, encarou-o como assustado e retorquiu: 

-- Senhor conde... Senhor conde... 

-- Que tens? Que significa isso? 

-- É que ha alguns mezes poderia ainda, apesar de ser apenas um humilde servo, apertar a mão de v. ex.ª, porém hoje...

-- O quê? Joannico! 

-- Sou um bandido! 

-- O que, és tu o celebre Joannico? perguntou cheio de assombro o conde de S. Vicente. 

-- Sim, meu fidalgo, sou eu!... Eu a quem os inquisidores deram audacia, eu que me revoltei e que seguirei o meu destino!... Prenderam-me a mulher que amo, a Chiquita que tenho a honra de vos apresentar, e eu feito bandido pela perseguição de que era alvo acabo de a arrancar da proria Inquisição! 

-- Oh! É assombroso! gritou D. Pedro com certo desgosto. 

O antigo servo, voltava-se para os seus homens e bradava: 

-- Conduzam até aqui esse frade e esse fidalgo! 

-- Que vaes fazer? interrogou o conde olhando-o de frente. 

-- Ides ver, excellencia! 

E com rancor, agarrando fr. Fabricio pela gola do habito e D. Balthazar d'Athouguia pela casaca, vergou-os, gritando: 

-- Ajoelhem-se miseraveis e peçam perdão ao meu nobre amo, ao mais leal e digno fidalgo d'estes reinos! 

Elles ficaram de joelhos aos pés do conde e o frade cobardemente balbuciou: 

-- Perdão, senhor conde de Assumar... Bem sabeis que não vos era dirigido este golpe! 

O fidalgo teve para elle um longo olhar de despreso e não respondeu. 

Joannico, então com maior raiva, gritou a D. Balthazar: 

-- Agora tu! 

-- Eu? Prefiro morrer... 

-- Perdôa a um fidalgo semelhante humilhação! disse o conde de S. Vicente. Descança que as nossas espadas são compridas para o deter a distancia! 

-- Desculpe, meu fidalgo, a vida d'esse homem pertence-me! 

Voltou-se para os seus homens, e ordenou: 

-- Enforquem esse frade! 

E para D. Balthazar, disse: 

-- Agora nós! 

Os bandidos levavam o oratoriano aos encontrões, rasgavam-lhe o habito, soltavam gargalhadas trocistas e os ciganos associavam-se ás injurias arrastando o frade que supplicava: 

-- Perdão! Perdão!... 

Noemia soltava uma gargalhada e gritava: 

-- Oh! bem dizia eu!... Ha Deus! Ha Deus!... 

E o pae, o Zara, com um olhar rancoroso para ella, murmurou: 

-- Pagal-o-has, patifa... Roubaste á tribu sessenta mil cruzados! 

A Chiquita ouviu-o e abraçou Noemia, murmurando-lhe: 

-- Queres ir comnosco! Teu pae matar-te-hia! 

-- Oh! Sim... Sim, boa Chiquita, quero ir comvosco! 

O conde de Assumar lançava-se entre o seu antigo servo e D. Balthazar e exclamava: 

-- Joannico! 

-- Senhor conde! 

-- És meu amigo? 

-- Daria a vida por v, ex.ª... 

-- Muito bem... N'esse caso perdoa a esses homens... Não quero proceder como elles procederiam! 

O rapaz curvou a cabeça, deu uma ordem a Sempronio e ao ver de novo o frade na sua frente, exclamou dirigindo-se a elle e a D. Balthazar: 

-- Poupo-vos a vida... Porém á segunda vez que vos encontre no meu caminho em attitude hostil, morrereis! E agora conduzam-nos para a casa isolada, de manha deem-lhes a liberdade! ordenou elle aos seus homens que se apressavam a cumprir a ordem. 

Fr. Fabricio por entre os apupos, com os habitos rasgados, contundido affastou-se do lado do fidalgo e vigiado pelos bandidos. 

E era esta scena que no dia seguinte contava a José Maria de Mello no convento das Necessidades. 

O chefe dos bandidos voltava-se para Zara e dizia-lhe: 

-- Toma um dos meus cavallos, corre a Lisboa e recebe o teu dinheiro... Estás pago e perdôa a tua filha! 

-- Noemia acompanhar-nos-ha! resolveu então a Chiquita com amisade, accrescentando: 

-- Será a minha companheira! 

-- Seja! bradou o bandido encarando Zara, que volveu: 

-- É menos uma no bando não é o que julgaes, Joannico? 

Pois bem, sabe que amo minha filha e não a deixarei partir! 

Agarrava-a com força e ella chorando muito, ficava ante as palavras do senhor d'Assumar, que dizia: 

-- É seu pae, tem razão!... 

-- Sim... Tem razão, accrescentou o conde de S. Vicente. 

Despediram-se então com grandes mostras de amisade do bandido, o conde montava a cavallo assim como o senhor de S. Vicente, e dizia a Joannico: 

-- Meu rapaz fala-me para as tuas bodas, quero ser o teu padrinho. 

-- V.Ex.ª?... 

-- Sim eu... Para mim és ainda o mesmo Joannico bravo e leal. 

Picava o cavallo que começava a trotar e dentro em pouco a quadrilha affastava-se também emquanto os ciganos vigiavam os prisioneiros. 

E na garupa do cavallo de Sempronio via-se o leigo Marcolino, que bradava enthusiasmado: 

-- Que grande homem é o Joannico! 









XXXIV 



Os ciumes da princeza 





Maria I, no seu ar amollentado, tristonho, scismador, estava reclinada na poltrona, tendo como sempre deitada a seus pés, a negra favorita, em cujos

olhos havia por vezes, clarões maliciosos. Soubera os sucessos da noute e aguardava os acontecimentos. 

A soberana ainda cousa alguma sabia; estava para ali no seu ar costumado, murmurando orações, passando nos dedos um rosario, quando a condessa de Lumiares annunciou: 

-- Sua alteza real, a senhora princeza do Brazil! 

D. Maria Benedicta, a irmã da rainha e esposa de D. José, principe do Brazil, entrou como louca pelo aposento e sem beijar a mão da rainha permaneceu na sua frente muito tremula, na maior das agitações, emquanto a soberana lhe perguntava um pouco despeitada: 

-- Que tendes, alteza? 

-- Venho pedir justiça a vossa real magestade! gritou ella n'um brado potente. 

Nos olhos da negra passou um clarão ao ouvir a rainha interrogar na sua voz molle: 

-- Justiça, e contra quem, alteza? 

-- Contra sua alteza, vosso filho e meu esposo! disse enfurecida a princeza. 

D. Maria I, ergueu-se na poltrona, e muito pallida, exclamou: 

-- Contra o herdeiro da corôa...? E sabeis o que pedis? 

-- Sim, real senhora, fui offendida na minha dignidade de esposa e de princeza real! Uma das vossas açafatas é amante de meu marido! 

-- Que dizeis? 

-- A verdade! 

-- Ah! E é contra o principe que vindes pedir justiça? exclamou a rainha tornando-se então livida. 

-- Sim, pois que saiu do paço real para se ir encontrar com essa mulher, saiu do paço para entrar em rixas com fidalgos que buscaram oppor-se aos designios malevolos de sua alteza! 

-- Impossivel, senhora!... 

-- Vossa magestade, se duvida, toda a côrte lhe dirá o mesmo! 

-- Mas... Oh! Conheço bem meu filho, sei-o arrebatado em negocios de politica mas sei-o tambem bom cumpridor dos seus deveres! exclamou a soberana com altivez. 

-- O que não impede de se bater com fidalgos! 

-- Bater! Um duello! Sua alteza transgrediu as posturas? interrogou a voz fanhosa da pretinha favorita. 

-- Sim... D. Rosa tem razão... Dizei, princeza, meu filho transgrediu os decretos! 

-- Sim, real senhora... Bateu-se hontem á noite no pateo das Damas com dois fidalgos... 

-- Elle? interrogou a rainha no auge do assombro. 

-- Sim, real senhora, e bateu-se por D. Maria de Penha! 

-- O quê? D. Maria de Penha, a minha açafata! 

-- A amante do principe! 

-- O quê? E' d'ella que se trata? 

-- Sim, real senhora... 

-- D. Maria de Penha, a quem estimo, a quem conheço! Ella mantendo relações com sua alteza real? 

-- Sim, real senhora, assegurou de novo a irmã da soberana, clamando: 

-- Peço-vos pois um exemplar castigo para essa dama, peço-vos um correctivo para o principe que assim mancha a dignidade real! 

D. Maria Benedicta fallava sempre rancorosamente, atirando as palavras sibillantes, desejosa d'uma exemplar vingança, muito perturbada. 

-- E quem são os fidalgos que se atreveram a levantar a espada para aquelle que um dia será o seu rei? 

-- Esses fidalgos não conheceram sua alteza! bradou a princeza, contente com o papel que os dois amigos tinham desempenhado n'aquella scena. 

-- Quem vol-o assegura? interrogou a rainha. 

-- Sua alteza ia disfarçado! 

-- Disfarçado? 

-- Sim, real senhora, disfarçado em cadete! 

-- Oh! Tudo isso é extraordinario! 

-- Prova apenas como meu esposo se amesquinha! 

-- Senhora! gritou a rainha deveras irada, encarando-a com magestade! 

E para D. Rosa, exclamou: 

-- Vae chamar o senhor capitão da guarda! 

-- Ás ordens de vossa real magestade! 

Ia sahir, porém n'este momento um homemsinho magro, vestido no cumulo da garridice, entrava a porta do aposento e exclamava: 

-- Com licença de vossa real magestade, eu aqui estou para vos dar explicações! 

-- Vós, senhor ministro! E que sabeis de tudo isso, conde de Villa Nova da Cerveira? 

-- Vossa magestade, fez-me a honra de me nomear presidente do real erario durante a doença do senhor marquez d'Angeja, meu nobre collega, e eu esforço-me por desempenhar os deveres do meu cargo. 

-- Sim, conde, conheço a vossa intelligencia! 

-- Por isso aqui estou! Logo de manhã recebi a participação dos successos da noite... Sei que uns fidalgos attentaram contra a vida de sua alteza real, o principe herdeiro! Não foi necessario a nota da intervenção da policia por isso que alguem se encarregou de me fazer todas as prevenções! O attentado é a maior das infamias! E reunindo os meus collegas, deliberámos apresentar á sancção de vossa real magestade as sentenças a que condemnamos esses miseraveis! 

-- Ah! Estão presos? interrogou D. Maria I, como se estivesse livre d'um grande peso. 

-- Sim, real senhora... Aguardam apenas a condemnação! O processo é summario e... 

E a que condemnaram esses fidalgos? perguntou rapidamente a princeza! 

-- Á morte no patibulo, alteza! gritou o ministro com um sorriso lisongeiro. 

-- Impossivel! Esses gentis homens defenderam-se... Foi meu marido que os desafiou! exclamou com energia D. Maria Benedicta. 

-- Alteza! exclamou admirado, o ministro. 

-- Sim, senhor conde, e para demais elles não conheceram sua alteza! 

-- Alteza, mas... 

-- Já vos disse!... Eu propria me custou a reconhecel-o... Se não tivesse ouvido a sua voz não o acreditaria nunca! 

-- Vós? exclamou a rainha cada vez mais admirada. 

-- Eu, sim, real senhora... 

-- Mas assististeis... 

-- A grande parte da scena! 

-- Vossa alteza chegou a ver a aggressao? interrogou com ousadia a preta favorita. 

A princeza lançou-lhe um olhar desprezador e para o ministro, disse: 

-- Quasi posso jurar que esses fidalgos não reconheceram sua alteza! 

-- Mas, alteza, esses homens são capazes de todos os sacrilegios! 

-- Conheceis alguma cousa a seu respeito? interrogou a princeza do Brazil, esforçando-se por salvar a cabeça dos accusados. 

-- Sei... E o santo fr. José Maria de Mello, ainda ha pouco me dizia os seus precedentes! 

-- Precedentes? interrogou a rainha. 

-- Sim, real senhora... São elles os sacrilegos das Salezias! 

-- Ah! Sempre esses homens! exclamou muito raivosa a soberana. 

D. Maria Benedicta fizera-se pallida e exclamou: 

-- Mas, real senhora... O unico culpado, o mais criminoso de todos é o principe D. José de Bragança! Que resolveis a seu respeito? Se elle insulta fidalgos que se defendem não o conhecendo e esses homens são condemnados á morte... Que castigo reserveis então a vosso filho? 

-- O castigo digno d'um futuro rei, alteza! Para demais, temos que esse virtuoso varão que se chama fr. José Maria de Mello, nos garante de antecedentes de... 

-- De Vasco de Miranda e de Gomes Freire de Andrade! exclamou o ministro radiante. 

-- E quem vos garante, real senhora, a sinceridade d'esse a quem chamaes virtuoso varão? perguntou de parte uma voz aflautada, ao mesmo tempo que o bobo da rainha entrava impavido na sala e com um ar alegre, continuava: 

-- Eu tambem lá estava no pateo das Damas e assisti até ao fim da scena a que esse D. Ramiro de Noronha arrastou sua alteza sem duvida por conselho d'esses jesuitas...

E D. João de Falperra, o bobo, fallava quasi com seriedade e olhava a rainha que lhe bradava: 

-- Cala-te por agora... São muito graves estes negocios para ti!... 

-- Real senhora, para mim nada ha de grave... Seria tão bem vosso ministro como este espantalho que não tem em cima de si um trapo que seja d'elle!... Deve tudo!... 

E o bobo corria para o ministro que se fazia pallido, e face a face exclamava: 

-- És capaz de negar, meu rato de egreja? 

-- Real senhora, taes insultos! 

A rainha soltou uma gargalhada e exclamou: 

-- Ora é D. João que falla! 

-- Por agora em voz baixa com o senhor ministro, se m'o permutem, logo em voz alta se elle não me quizer ouvir! volveu no seu aprumo, o truão. 

-- Larga-me, por Deus! bradou com indignação o senhor de Villa Nova da Cerveira. 

Mas o amigo de Vasco de Miranda agarrava-o e em voz muito baixa, dizia-lhe: 

-- Olha que eu sei da venda dos empregos! Se não salvares a cabeça d'esses fidalgos, conto tudo á rainha! 

Elle fez-se pallido, olhou-o cheio de admiração, recordou-se dos despachos de desembargadores e outras conezias que traficava e avançou de novo para a soberana, emquanto o bobo o ficava olhando ironicamente. 

Era agora muito extranha a situação d'aquelle ministro collocado em face da rainha a quem pedira a sentença de morte de dois homens, e ameaçado pelo bobo que os desejava salvar. 

D. Maria I, fez um gesto á princeza e disse-lhe: 

-- Alteza, recolha-se aos seus aposentos... 

-- Justiça, real senhora! gritou ella cada vez mais desesperada. 

-- Tel-a-heis! volveu a rainha. 

-- Perdoae a esses fidalgos! supplicou a esposa do principe. 

-- Nunca! gritou a rainha, pedi tudo, excepto isso! É um ultrage á pessoa sagrada d'um principe, commettido por gente condemnada pelos seus actos anteriores! 

-- Mas, real senhora, vós perdoastes também a esse jesuita que tentou contra vossa magestade! disse a princeza muito audaciosamente. 

-- Retirae-vos, alteza! Eu sou a rainha! 

D. Maria Benedicta curvou a cabeça e sahiu rapidamente ante o gesto magestoso da soberana. 

D. Rosa com o seu sorriso malicioso, sentou-se aos pés da sua real ama que se deixara cahir na poltrona, muito raivosa e o ministro ficou de pé em frente da soberana. 

O bobo, ao vêr sahir a princeza, seguiu-a e depois no corredor, alcançando-a, exclamou: 

-- Alteza real! 

-- Que queres? volveu ella enxugando as lagrimas. 

-- Odiaes muito D. Maria de Penha, não é assim? 

-- Oh! Do intimo d'alma! 

Elle teve uma contracção nervosa na physionomia e volveu: 

-- Julgaes essa dama a amante de vosso esposo, não é assim? 

-- Tenho a certeza! Vi tudo! 

-- Penetrastes por acaso nos aposentos da açafata? 

A princeza muito admirada pelo tom serio em que o truão lhe fallava, dignou-se responder: 

-- Não... Isso não! 

-- Como affirmaes então essa mancebia? 

Cheia de raiva e de colera, bradou: 

-- Defendes essa mulher? 

-- Justifico apenas vosso esposo! 

-- Tu? Um truão, pretendes defender um principe! 

-- Alteza! Os truões tambem ás vezes se revoltam contra as injustiças, os bobos, os parasitas dos paços reaes, tambem tem alma para comprehender o bem, tambem sabem vêr as traições! 

Cada vez mais impressionada por aquelle tom do bobo, D. Maria Benedicta começou a olhal-o mais attentamente e perguntou: 

-- Que queres dizer? 

-- Que D. Maria de Penha está innocente! 

-- Innocente?! Oh! Se eu não visse... 

-- Vossa alteza viu apenas um homem embrulhado n'uma capa de cadete saltar uma janella! 

-- E não é uma prova que a açafata aguardava o... 

-- O seu noivo! 

-- Noivo? 

-- Sim, alteza, o seu noivo agora condemnado á morte por esse imbecil ministro! 

-- Mas... 

-- Sim, alteza, D. Maria de Penha esperava como quasi todas as noutes Vasco de Miranda, cadete do regimento de Peniche... D'ahi o disfarce de sua alteza, a forma como penetrou em sua casa... 

A princeza sobresaltou-se, fez-se livida e interrogou: 

-- O quê? Esse Vasco de Miranda que está preso é cadete do regimento de Peniche? 

-- Sim, alteza real! 

-- Mas então é apenas a meu marido que cabem todas as responsabilidades!

-- A elle que de ha muito a persegue mas que seria incapaz d'um mau acto, se não fosse aconselhado por alguem... 

-- Ah! 

-- Sim... Por D. Ramiro de Noronha que quiz comprometter esses homens que são seus inimigos... Lembrae-vos, alteza, que elles são os raptores da sobrinha do cardeal da Cunha... 

-- E então? 

-- E D. Ramiro era o noivo d'essa dama! 

A princeza soltou um grito ao comprehender a verdade desde que o bobo lhe explicava: 

-- Então, sabendo que D. Maria da Penha concedia uma entrevista ao seu noivo, aconselhou sua alteza que se disfarçasse, esperando que o cadete chegasse e travasse a lucta com o principe d'onde lhe resultaria desgraça... 

-- Mas D. Antonia... 

-- Essa é uma vibora que obedece a José Maria de Mello! 

-- E esse frade... 

-- Odeia tanto como Ramiro de Noronha e os amigos d'estes, o raptor da sobrinha do cardeal, um alferes de nome Gomes Freire, que está tambem preso... 

-- Meu Deus! E eu que accusei D. Maria de Penha! É o maior dos peccados... O falso testemunho... 

-- Mas vossa alteza pode ainda remediar o mal! 

-- Como? exclamou ella no auge da afflicção. 

-- Narrando tudo isto a sua magestade que a mim não me acreditaria! 

-- Tens razão... É necessário salvar a reputação d'essa mulher e casal-a com Vasco de Miranda! 

-- Só se fôr nos degraus da forca!... Eu conheço bem o ardil dos jesuitas e elles agora contam com vosso esposo para fazer justiça a esses dois fidalgos! 

-- Sim... tens razão... E contam tambem com a indignação que esse acto deve causar em sua magestade... 

-- Além d'isso, têm o apoio d'el-rei e do principe D. João... 

-- Oh! Serei vencido! bradou elle no maior dos desanimos sentindo não poder remediar todo aquelle mal. 

Comprehendia agora bem a intriga, via as cousas muito claramente e no seu intimo religioso travava-se uma lucta, nascia um grande remorso. 

-- É necessário! É necessário! bradou ella. 

-- É necessário sim alteza, os innocentes não devem pagar pelos culpados! 

-- Pois bem... Hei-de cumprir o meu dever! No ultimo caso, eu, a esposa ultragada, lançar-me-hei aos pés do principe a supplicar-lhe a vida daquelles que levantaram contra elle as espadas! 

-- É a unica cousa que temo! O principe é orgulhoso! 

-- Mas é bom ... 

O bobo espraiava o olhar pelo corredor, e de repente, exclamava: 

-- Oh! Se quereis salvar esses pobres fidalgos, correi, alteza, que D. José dirige se para os aposentos da rainha!

-- Meu Deus! 

-- Vae pedir justiça! 

-- E a justiça n'este caso são umas sentenças de morte! 

-- Vamos! 

Perderam-se no corredor e dentro em pouco chegaram á porta dos aposentos da rainha. 

Viam sua magestade, acariciando distrahidamente a carapinha da negra favorita e tendo na sua frente o conde de Villa Nova da Cerveira a quem dizia: 

-- Tudo escusado, senhor ministro, são muitos sacrilegios! Esses homens são uns herejes! E para demais vós mesmo ainda ha pouco os condemnaveis á morte! Ractificarei a vossa sentença! 

O ministro tornava-se livido ao recordar-se da ameaça do bobo, e via a rainha tomar a penna com que iria assignar aquellas sentenças. 

Mas ouviu-se uma voz varonil vinda da porta dos aposentos do arcebispo e o principe D. José, entrando, bradava: 

-- Justiça, real senhora! 

-- Justiça vos será feita, alteza real! volveu a rainha traçando a sua assignatura n'um gesto rapido, no fim das sentenças. 











XXXV 



Justiça real 







A princeza D. Maria Benedicta, ao ouvir as ultimas palavras da rainha, recuou tambem e ficou entre a porta tomada de terror, emquanto o bobo se escondia n'uma meia sombra. 

D. José, digno e com modesta attitude em frente de sua mãe, encarava o ministro e exclamava: 

-- Senhor conde, sem duvida fosteis mal informado! 

E para a rainha que acabava de assignar as sentenças de morte, volveu: 

-- E vós, real senhora, enganastes-vos na justiça que peço... 

-- Enganei-me? bradou cheia de assombro a rainha. 

Os espectadores da scena olhavam admirados esse principe que fallava d'aquelle modo endireitando-se, e começando de novo: 

-- Sim, enganastes-vos, real senhora. Essas sentenças de morte são injustas! Eu sou o unico culpado! 

O conde de Villa Nova da Cerveira teve um sorriso tranquillo, a rainha ergueu-se na poltrona emquanto D. Maria Benedicta murmurava: 

-- Oh! Como elle é bom... Como elle é grande! 

Apenas D. Rosa, a negra favorita, de olhos rebrilhantes e nariz roido, tinha um ar desesperado ante a confissão do herdeiro da corôa que ia dizendo sempre: 

-- Sim eu sou o unico culpado! Como se póde castigar os subditos, desde que os proprios senhores os provocam, os desafiam... 

Eu sou principe e comprehendo os meus direitos, porém, real senhora, comprehendo tambem os meus deveres... N'um momento d'allucinação esqueci tudo isso... Foi a primeira e será a unica falta da minha mocidade! Tenho vinte e quatro annos de edade mas ha doze que aprendo os deveres dos reis, ha doze que me exercito n'esse difficil officio de reinar e por isso tenho a obrigação de saber não perdoar mas fazer justiça e só justiça! Deante d'isto peço a vossa magestade o perdão d'esses fidalgos! 

-- Alteza, o delicto é grave, muito grave e depois elles são os sacrilegos das Salesias! volveu com grande dignidade a rainha, continuando: 

-- Não se insulta impunemente um principe, não se levanta debalde uma espada para a pessoa sagrada d'um futuro rei, a defender uma mulher ambiciosa e indigna! 

Aqui D. Maria Benedicta não poudc deixar de estremecer ao vêr a pallidez desenhada no rosto do principe, que bradava: 

-- Real senhora! 

-- Alteza! tornou com orgulho, a soberana. 

-- Essa mulher é digna! 

-- Digna? 

-- Sim, real senhora, sim minha augusta mãe... 

-- Digna a mulher que recebe a altas horas nos seus aposentos o principe real, alguem collocado muito alto para se tornar seu esposo! Digna, a mulher que faz derramar lagrimas de sangue a uma esposa ultrajada que vem supplicar, sem duvida com o coração retalhado, o castigo do marido infiel e da sua amante! Digna, alteza real, esta mulher! Oh! O amor cega-o!

-- Minha mãe... Se amo D. Maria da Penha, n'este momento juro-lh'o que é o mais santamente possivel... Ouvi as suas palavras cheias d'indignação e de colera, ouvi as suas supplicas, as suas recusas, as phrases frementes de honestidade e de grandeza com que me ordenava... 

-- Ordenava? interrogou o ministro a meia voz vendo ali um ultrage á etiqueta. 

-- Sim ordenava que saísse do seu quarto! Eu ali não era um principe era um bandido que me introduzira com uma mentira nos aposentos da mulher honrada procurando seduzil-a! 

Accusava-se em tom enérgico, cheio de razão, buscando salvar os outros ao ver a má acção que commettera. 

-- O quê? Pois Vossa Alteza não é o amante de D. Maria da Penha? interrogou a rainha com um grande espanto. 

-- Não, real senhora... Sou apenas um homem que a ultrajou! 

-- Mas então... 

-- O quê? 

-- Ella não é culpada! 

-- Não, Magestade... Já vos disse que sou o unico culpado! Soube que a vossa açafata tem um noivo... Disfarcei-me com um fardamento egual ao d'esse brioso rapaz e penetrei nos aposentos onde ella o recebe dignamente! 

-- Alteza, falla verdade? interrogou a soberana muito sobresaltada. 

-- Sim, mmha mãe! Juro-vos pelo meu nome... 

-- Oh! 

-- Admirae-vos da minha acção, não é assim? tambem eu me arrependo, real senhora, e por isso aqui estou penitenciando-me! 

-- E qual foi a attitude da açafata ao deparar com vossa alteza! 

-- A mais digna! Fallou-me da minha posição, invocou o nome de minha esposa, contou-me o seu amor por um outro homem e no fim, quando eu quasi louco a ameaçava, ella teve a coragem de puchar d'um punhal... 

-- Contra vossa alteza? interrogou o ministro muito admirado. 

-- Não! Contra ella propria... Antes queria cahir morta a meus pés do que faltar á fé jurada a um homem amado! 

-- Juraes a verdade das vossas affirmações! 

-- Pelos Evangelhos! 

-- Meu Deus! Essa mulher é muito honesta! murmurou a meia voz a rainha emquanto o principe continuava: 

-- Ouvi ruido na rua e saltei a janella, deparei com um homem cujo nome sabia, a sua farda foi uma revelação! 

-- Era o noivo? 

-- Sim, real senhora, era Vasco de Miranda! 

-- E depois? 

-- Desafiei-o... Trocámos os ferros e por fim elie ao saber quem eu era ficou deveras confundido e penalisado! Mas fui eu quem o desafiou! 

-- Não vos reconheceu? 

-- Apenas quando um bando de populares capitaneado pelo vosso bobo entrou no pateo trazendo archotes e quando D. Ramiro de Noronha que me acompanhava, bradou: 

-- Prendam os aggressores de Sua Alteza! 

A rainha estava perplexa ante o novo aspecto que a questão tomava e por fim perguntava: 

-- Mas ha ainda um outro fidalgo! 

-- Sei o seu nome... É o alferes Gomes Freire! Acompanhava Vasco de Miranda e defendeu o amigo no momento em que o meu aio se collocava a meu lado! 

D. Maria I curvou a cabeça, ficou uns instantes meditativa e por fim disse: 

-- Como ás vezes nós condemnamos pelas apparencias! Que dizeis a isto, senhor ministro... 

-- Mas, real senhora... tinham-me affirmado ser uma tentativa d'assassinato e não um duello... 

-- E quem vos fez semelhantes affirmações? 

-- Ora, meu senhor, alguem que as ouvira tambem! volveu o conde escondendo cautellosamente o nome do fr. José Maria de Mello. 

-- Pois esse alguem mentiu ou enganou-se. 

-- A verdade é apenas a que sua alteza disse! Acredito-o... E agora resta fazer justiça! exclamou D. Maria I, n'um dos seus momentos bondosos. 

-- Real senhora... A que castello me devo recolher? interrogou com grande altivez o principe do Brazil. 

A rainha teve para elle um olhar de admiração e de espanto e de seguida volveu: 

-- Vós? 

-- Sim, minha mãe! 

-- Mas... 

-- Não estão presos os homens a quem ultrajei? Não assignaveis ha momentos sentenças de morte? 

A mão firme e aristocraticamente diaphana da soberana repelliu os pergaminhos onde traçara o seu nome e exclamou: 

-- Senhor ministro, rasgue esses documentos! Depois para o principe, disse: 

-- Compromettesteis gravemente a reputação d'uma pobre senhora! Sabeis que lhe deveis uma reparação? 

-- Que estou prompto a dar-lhe, tanto como ao seu noivo! Real senhora, por Deus vos peço que me colloqueis no logar d'esses fidalgos e lhes deis a liberdade! 

-- Não, alteza! Elles pagarão com a prisão o sacrilegio das Salesias!... Serão julgados... D. Maria de Penha receberá uma pensão e sahirá do paço... 

-- Ella? Mas real senhora, isso é justiça? 

A mãe do principe teve um raio de tristeza no olhar, comprehendeu que o filho tinha razão e volveu: 

-- E como quereis que ella aqui fique? 

-- Porque não? 

-- Esqueceis vossa esposa? 

-- D. Maria Benedicta será a primeira a reconhecer o seu erro, desde que eu lhe jure... 

-- Não vos acreditará!... Julgará que desejaes salvar apenas a nympha açafata! 

Ouviu-se então um ruido do lado da porta e a princeza do Brazil, muito digna e grandiosa, avançou lentamente até ao meio do aposento. 

Fez-se um silencio demorado. Em todos os cerebros passou a mesma ideia. Julgaram que a irmã da rainha vinha pedir justiça contra a açafata. 

Porém ella, com um olhar tranquillo em que envolveu o esposo, ajoelhou-se aos pés da soberana e exclamou: 

-- Real senhora! 

-- Descançae, minha irmã, descançae... 

-- Mais uma vez vos venho supplicar... 

-- Justiça? 

-- Sim... Mas verdadeira justiça! 

-- Quereis dizer? 

-- Peço-vos que nomeeis D. Maria de Penha para minha dama d'honor!

Um grito unisono de espanto sahiu de todos os lábios, encararam admirados a princeza, e viam-n'a levantar-se e exclamar: 

-- Será esta a melhor fórma de mostrar que não a considero culpada!

-- Mas alteza! 

-- Sei tudo! tornou ella como unica resposta. 

-- Mas como? 

-- Ouvi a confissão de sua alteza real, meu esposo, mas antes d'isso já sabia mais cousas... Faça vossa magestade justiça que eu saberei fazel-a tambem! 

A rainha ia responder, porém n'este momento a porta abria-se, e D. Maria da Penha apparccia acompanhada pelo capitão da guarda como a rainha o ordenara, emquanto ficara só com o ministro. 

A pobre senhora avançava lentamente, muito pallida, os olhos enxutos, mas tendo no rosto signaes evidentes do mais atroz soffrimento, os cabellos louros formavam-lhe como uma aureola de martyrio, muito tremula, no auge da agitação, atirou-se aos pés da rainha e começou a chorar desesperadamente. 

Vira o principe e pareceu-lhe ler o castigo no olhar carinhoso que a princeza lhe dirigira, assustara-se com todo aquelle apparato, julgara-se perdida. 

A soberana ao vêl-a n'aquella posição, sentiu-se commovida, olhou-a ainda e em voz pausada, disse: 

-- Sabemos tudo... 

-- Real senhora... Perdão para elles! foi a phrase que sahiu dos labios da joven açafata. 

-- Fallaes do vosso noivo e do seu amigo não é assim? 

-- Sim, real senhora... Elles não reconheceram a pessoa de sua alteza real! 

-- E para si, o que deseja? interrogou a rainha de muito bom humor. 

-- Oh! Confio na justiça de vossa magestade! 

-- Bem! Levnnte-se! ordenou a rainha! 

A joven ergueu para ella o olhar e em voz embargada pela commoção supplicou: 

-- Real senhora... real senhora... Perdão para elles! 

-- Levante-se! ordenou mais uma vez D. Maria I.

Então em passos firmes, a rainha avançou para uma pequenina secretaria, escreveu algumas linhas n'um papel, dobrou-o cuidadosamente e ia levantar-se de novo quando viu Benedicta que estava fallando com um sacerdote que sahira dos aposentos do arcebispo-confessor. 

Estendia uns papeis á rainha, e ante o olhar de espanto que esta lhe deitava ao lel-os, volveu a meia voz: 

-- Real senhora... Trouxe-m'os o prior de S. Julião da parte do arcebispo... A armada vae partir... Será a maneira de me fazerdes justiça! 

D. Maria I olhou o filho que estava a distancia, depois olhou a princeza, beijou-a nas duas faces e traçando a sua assignatura nos pergaminhos, volveu: 

-- Serão inimigos a menos para quando elle reinar! 

E entregou os documentos á princeza que lhe sorriu agradecida. 

Depois chegou-se a D. Maria da Penha e entregou-lhe tambem o pergaminho que escrevera primeiro dizendo: 

-- Aqui tem, minha senhora, a justiça que me pede! 

-- Oh! agradeço a vossa magestade... Elles não são culpados! 

Mas ao abrir o pergaminho onde julgava encontrar o perdão dos dois fidalgos, fez-se muito pallida e deixou-se cahir desamparada n'uma cadeira. 

D. Maria Benedicta correu para ella, acariciou-a, beijou-a nas faces e ao vêl-a abrir os olhos surprehendeu-Ihe duas lagrimas e ouviu-a dizer na sua vozita cheia de commoção: 

-- Oh! Como sois boa, alteza real! Como sois grande e magnanima! 

-- Não, Maria de Penha, fui injusta... Era necessário que me tornasse deveras justiceira! 

-- Mas eu sou indigna d'esta mercê! 

-- Vós sois digna até de muitas outras! Conheço o vosso procedimento... Vamos, minha dama d'honor, vinde começar o vosso serviço!... 

-- E elles... elles... perguntou a joven a meia voz completamente desorientada por tantos acontecimentos. 

-- Beija a mão a sua Magestade e eu te juro que serás esposa de Vasco! 

E a princeza dava lhe aquelle tratamento deveras satisfeita, comprehendendo que ella soubera resistir bem ao amor d'esse príncipe que não amava a esposa. 

O ciume não existia desde que a outra se mostrava digna até ao extremo. 

Agora curvavam-se ambas em frente da soberana e sabiam do aposento. 

Á porta, o bobo que tudo escutara, lançou-se de Joelhos aos pés da princeza e beijou-lhe a mão, depois olhou D. Maria da Penha e murmurou: 

-- Oh! Sereis esposa de Vasco... sim, sereis esposa de Vasco!... 

As duas mulheres desciam uma pequena escada e entravam nos aposentos da princeza. 

D. Antonia de Mello penetrava d'ahi a instantes na sala acudindo ao chamamento da princeza. 

Tinha nos labios um sorriso contando já com o bom resultado da intriga. Porém, ao ver D. Maria da Penha, recuou assombrada, fez-se livida e pareceu-lhe que o cerebro lhe estalava ao ouvir D. Maria Benedicta dizer-lhe: 

-- Senhora, entrareis esta tarde de serviço nos aposentos de sua alteza a infanta D. Marianna Victoria! 

-- Eu?... Vossa alteza despede-me, não está contente com o meu serviço? 

-- Senhora... Cumpri as minhas ordens! 

Ella retirou-se curvando a cabeça e cerrando os dentes com furia, murmurando: 

-- Oh! É necessario que fr. José Maria de Mello me ajude na vingança! A minha perda é a da Companhia de Jesus! 

Correu então ao seu quarto cada vez mais livida, embrulhou-se n'um mantelete, sahiu do paço na sua cadeirinha e dirigiu-se ao convento dos oratorianos. 

D. Maria Benedicta voltou-se para sua aia que se fazia pallida ante aquellas palavras da princeza e sem perceber cousa alguma, ouviu a princeza murmurar como se falasse comsigo propria. 

-- Oh! Dentro cm alguns mezes a infanta sahirá de Portugal para casar com D. Gabriel de Hespanha e então será o momento de fazer sahir do paço essa vibora, como diz judiciosamente D. João de Falperra! 

Entretanto nos aposentos da rainha, o conde de Villa Nova, interrogava: 

-- Vossa magestade ordena mais alguma cousa? 

-- Sabeis por Martinho de Mello, o secretario dos negocios de marinha, em que pé está a armada que vae partir em auxilio da Hespanha? 

-- Real senhora... O governo de sua magestade catholica enviou-nos uma nota em que consta partir a armada hespanhola a tomar Argel dentro em oito dias. Os nossos navios que vão em auxilio dos de Sua Magestade Catholica, devem sahir do porto o mais tarde depois de amanhã... 

-- Muito bem... Enviae-me hoje mesmo Martinho de Mello... 

-- Sim, real senhora.. . volveu o mellifulo ministro ajoelhando e beijando a mão da soberana. 

Depois sahiu rapidamente murmurando: 

-- É necessario salvar ainda esses miseraveis! ... Oh! maldito bobo, maldito bobo!... 

D. Maria I, de pé, muito altiva, olhava o principe do Brazil que ficava na sua frente e tivera um impeto de se lhe lançar nos braços, porem ouvia-o ainda com a mesma dignidade, interrogar: 

-- Real senhora, a que prisão me devo recolher? 

A rainha substituiu a mãe, e D. Maria I, exclamou: 

-- Alteza, recolhei-vos durante um mez ao convento de Mafra onde está vosso irmão o principe D. João! 

-- A um convento?... Eu!... 

-- Sim... É a falta de fé que vos perde... Ide e aconselhae vosso irmão em relação ao seu casamento com a infante de Hespanha D. Carlota Joaquina!... 

-- Real senhora, eu ao convivio dos frades e ao de meu irmão prefiro o dos soldados ou dos marinheiros... Deixae que me recolha a S. Julião da Barra, á torre de S. Vicente de Belem ou deixae-me antes partir na frota que vae para Hespanha! 

-- Principe do Brazil... Obedecei! Recolhei-vos a Mafra! Elle curvou a cabeça e mordeu os labios raivosamente. Era n'este momento que el-rei entrava, exclamando: 

-- Sabeis os successos d'esta noite? Oh! Oh! É preciso um exemplar castigo! 

D'esta vez D. Maria I, não quiz ouvir o marido, ergueu a cabeça e bradou: 

-- Real senhor... Já está feita para todos a justiça real! 











XXXVII 





Os prisioneiros 





Alem no fundo da casamata do forte da Junqueira, ouvindo o ruido das ondas que baliam com estrepito nos paredões, elles illuminados apenas á luz debil e vaga da lâmpada suspensa do tecto negro da prisão, contemplavam-se. 

Vasco de Miranda, fez um gesto desesperado e de seguida atirou-se para sobre um mocho de palha que lhes servia de leito e bradou: 

-- Ora... Com mil raios... decididamente somos infelizes!

-- Estás a lastimar-te! Olha que até agora temos tido até bastante sorte... Mas emfim não podia durar sempre!... 

-- E d'esta vez estamos arranjados! 

-- Esperamos a morte... Dez soldados com dez espingardas bem carregadas, uma voz de commando, uns ultimos pensamentos para as mulheres amadas e depois a eternidade! disse Gomes Freire no seu ar sonhador. 

-- E a pobre D. Maria de Penha! Como não terá soífrido esse anjo! Depois ameaçada, exposta a todos os grandes perigos, ao amor crapuloso d'esse filho dos reis que assim insulta a dignidade real... Oh! Gomes Freire, meu amigo, meu irmão... Por Deus te juro que se podesse sahir por instantes d'esta prisão, ver a luz do sol que me deslumbraria, eu só teria um pensamento: o de assassinar esse miseravel! 

O cadete estava como louco, tudo lhe parecia negro no seu futuro, entrava a detestar o principe e tornava-se livido ao ouvir o companheiro dizer: 

-- Cala-te, socega... Sua alteza cedeu a um impulso ou antes obedeceu a uma intriga... Não viste a seu lado esse D. Ramiro de Noronha? 

-- Oh! Mas a minha querida Maria... O meu amor perdido, todo o futuro desmoronado só porque levantamos uma espada para o herdeiro do throno... Porque são sagradas as pessoas dos principes? Acaso não são homens susceptiveis de fraquezas? 

-- Mil vezes tenho pensado isso!... Mas a tradicção tem muita força... Eu no dia em que eu casasse com a minha boa Elvira que me aguardava n'essa noute e que sem duvida está no maior desespero, ter-me-hia expatriado... Iria viver para longe, servir outros amos, luctar na guerra, illustrar-me ou morrer... No intimo do meu peito existem aspirações acima das do meu tempo! Sonho alguma cousa que não sei definir mas que acho Justa... 

-- Oh! Amigo e por minha causa tens de renunciar a tudo isso! 

-- Não, Vasco... Por tua causa? Acaso não somos nós como irmãos, não juramos partilhar todos os perigos... 

-- Sim, com esse pobre D. Pedro de Portugal! 

-- Como deve ter soffrido! 

-- E isto nas vesperas do seu noivado! 

-- Oh! Mau presagio, elle casa e nós vamos morrer! A sua familia vae trazer galas e as nossas... 

-- Meu tio... minha mãe... 

-- E o meu pobre pae vae vestir de luto!... 

-- E um luto infamante... O lucto pelos suppliciados! 

Ficaram uns momentos calados. A agua batia sempre com furia nas pedras por essa noute tempestuosa, não se ouvia outro ruido. 

Porém a subitas elles tiveram a visão pavorosa de morte e abraçaram-se estreitamente. 

É que resoavam passos no corredor e ouviam um tilintar de chaves. A porta abria-se n'um ranger sinistro e viam na sua frente um carcereiro que exclamava para alguem collocado da parte de fóra. 

-- É aqui, reverendo fr. Melchiades! São estes! 

Apontava quasi desdenhoso os dois rapazes a um frade que apparecia no limiar e que como unica resposta ao chaveiro, soltava uma especie de grunhido. 

-- Já sabeis, meu padre, se fôr preciso alguma cousa é bater no ferrolho! gritou o carcereiro affastando-se e escutando á porta da prisão. 

Elles voltaram-se rapidamente para o frade e apesar de se sentirem bem proximos da morte, vendo n'aquelle homem o confessor que lhes enviavam, exclamaram a um tempo ante o habito do religioso: 

-- Que demonio... As justiças reaes pouco se incommodam comnosco! Um confessor para os dois... E demais a mais franciscano! A ordem mais pobre!... 

-- Espera ser nosso herdeiro! Olhe, irmão, eu só se lhe deixar a minha espada, é o que possuo! Ah! Perdão, tenho tambem um masso de cartas e uma pequena fita azul que prendeu os cabellos da mulher adorada! Porém esse thesouro irá commigo para a sepultura! gritou o cadete sorrindo tristemente. 

-- E eu, irmão, apenas vos deixarei dividas e um encargo que sabereis em momento opportuno... E se ainda vigora a tradição de se satisfazer o desejo dos que vão morrer, peço vos pelo meu lado o seguinte: 

-- Quero ser fusilado com Vasco! 

-- E eu egual pedido vos faço, em relação a Gomes Freire! E por agora em vez da vossa confissão duas garrafas de bom vinho para saudarmos ao noivado do nosso amigo D. Pedro, conde de Assumar! 

-- Que vos agradece reconhecido a lembrança! gritou o frade deixando cahir o capuz do habito e apresentando-se aos olhos dos mancebos que bradaram admirados. 

-- D. Pedro de Portugal?! 

-- Eu mesmo! Venho partilhar da vossa prisão por algumas horas! 

-- Oh! meu amigo! gritaram ambos iançando-se nos braços do fidalgo que os apertou com grande commoção ao peito generoso. 

Estiveram assim algum tempo e por fim, o cadete no seu tom alegre e chocarreiro bradou: 

-- Sentemonos!... É magnifica esta mesa de ministro! Elles julgaram que iam ter aqui prisioneiro o Martinho de Mello ou o conde de Villa Nova, e apontava a palha que lhes servia de leito e onde se deixaram ficar sentados. 

-- Mas como entraste aqui? 

-- Contos largos! Prendemos o capellao do forte e tomei o seu logar! 

-- Mas quem te auxiliou? 

-- O Joannico, meu antigo servo, tornado chefe d'uma terrivel quadrilha de bandoleiros! 

-- O meu salvador feito bandido? gritou Vasco de Miranda pennalisado. 

-- Sim! Sim! Mas um bom bandido! Um heroe que penetrou na inquisição para arrancar d'esse antro a amante! A cigana Chiquita! 

-- Oh! É assombroso! 

-- Perseguido pela justiça sem ter commettido outro delicto do que o de amar a joven tida por hereje, revoltou-se contra essa justiça e feito bandoleiro, arriscando todos os dias a cabeça, impõe-se e pratica o bem como o mais santo dos cenobitas! Rouba os ricos e soccorre os pobres... Na noite que nos succedeu o encontro com o principe, salvou-me esse bravo rapaz, a cabeça! 

-- Como? perguntaram ambos deveras sobresaltados, olhando o conde. 

Este então narrou toda a scena de Palhavã desde as desconfianças do conde de S. Vicente até ao attaque dos ciganos, desde a chegada de Joannico até á entrada na capital onde soubera do que acontecera no pateo das damas. 

-- E Elvira?... Elvira?... perguntou Gomes Freire, como louco! 

-- Elvira? Oh! Pobre amigo escusado será dizer que não a encontramos n'essa casa! O conde de S. Vicente, meu futuro sogro, tinha razão quando via n'essa carta uma cilada! 

-- Está então em poder de José Maria de Mello? interrogou o alferes com a voz estrangulada na garganta. 

-- Está em poder do jesuita infame que tomou parte no concluio contra a rainha! Está em poder d'esse miseravel que quiz mercadejar com o pae da tua noiva! 

-- O pae? perguntou Gomes Freire como louco. 

-- Sim... Porque, meu amigo, D. Elvira é filha do fallecido cardeal! 

-- Quê filha?! 

-- Sim. No emtanto, o conde de S. Vicente defende-a e está disposto a entrar na lucta por ella! Mais ainda o cardeal pediu ao irmão antes de morrer que tão depressa fosse possivel a tornasse tua esposa! 

-- Minha esposa? Oh! Elvira a minha esposa?... Mas é necessario encontral-a... Onde a occulta esse miseravel? bradou elle com grande energia. 

Mas a subitas, recordando-se de sua extranha situação, vendo que ia morrer, murmurou: 

-- E chega tudo isso quando dentro em pouco algumas balas me arrancarão a vida! Oh! mas tu, Pedro, mna amigo procural-as-has não é assim? Dir-lhe-has que nunca deixei de pensar n'ella, que morri com o seu nome nos labios!... 

O pobre alferes sentia-se profundamente abalado ao ouvir fallar de mulher amada, e de repente gritava: 

-- Ah! Desejava apenas duas horas de liberdade! Estou condemnado sei-o bem, nada me deteria... Entraria no convento das Necessidades defrontar-me-hia com José Maria de Mello e matal-o-hia cheio de prazer senão me dissesse onde occulta a minha noiva... Depois correria a abraçal-a, beijal-a-hia e amigos, morreria por meu turno muito tranquilo! 

-- Gomes Freire, bradou rapidamente o conde, queres sahir d'aqui? 

-- Mas como? Oh! Se quero! exclamou o official transfigurado de esperança. 

-- Demais julgo que a tua noiva está na inquisição! 

-- Como na inquisição! Oh! que horror! Matal-o-hei... Oh! Matal-o-hei! 

-- Sim... julgo que o miseravel a fez inscrever com um nome supposto... Só n'esse antro ella pode estar bem escondida! Tenho seguido José Maria de Mello e ainda não o vi ir visitar a sua victima... Em compensação entra todos os dias no Santo Officio, onde na noute do rapto de cigana, Joannico julgou ter escutado a sua voz e a de D. Elvira! Amigo: Cumpre-te saber tudo... Anda sae e vae indagar da tua noiva! 

-- Mas como, D. Pedro, como? interrogou o official n'um grande desvairamento. 

Então o conde com a maior das tranquillidades despiu o habito e mostrou-se vestido na sua farda d'alferes, estendeu o burel ao amigo e exclamou: 

-- Sahe! 

-- Oh! D. Pedro, isso nunca! exclamou elle enternecido pela acção generosa desse rapaz que assim brincava ao sacrificar-se. 

Vasco de Miranda n'um impeto lançou-lhe os braços ao pescoço e bradou: 

-- D. Pedro é teu amigo, agora daria por ti mais do que a vida, daria a felicidade, renunciaria ao amor se tu o exigisses... Sim, conde, isto se eu pudesse ainda ter esperança! 

-- Gomes Freire! Vaes sahir d'aqui meu amigo, vaes ver a tua noiva! foi a unica resposta do conde de Assumar. 

-- Mas isso é talvez a tua morte! 

-- Não... Vós outros fallam assim em morrer e desconhecem as praches!... Os fusilamentos são de madrugadas... Quando entrei aqui eram nove horas... Tem tempo! 

-- Oh! É impossivel, não posso acceitar! volveu Gomes Freire n'um grande embaraço. 

-- E porque! interrogou o fidalgo, olhando fixamente. 

-- Porque serias compromettido, meu amigo!

D. Pedro de Portugal, baixou a cabeça, depois com uma grande serenidade, tomando a mão de Vasco e a de Gomes Freire, bradou: 

-- Camaradas: Sabem que juramos partilhar a sorte, correr aos mesmos perigos... Pois bem... Se Gomes Freire não acceita o que lhe proponho, envergarei eu este habito entrarei no convento e estrangularei esse frade infame, em seguida penetrarei na inquisição embora tenha de me collocar á frente dos bandidos de Joannico que estão aqui perto e farei o que cumpria fazer a Gomes Freire. Arrancarei de lá D. Elvira e entregar-me-hei á justiça de sua magestade e á propria inquisição que me julgará por hereje e me fará  partilhar da vossa sorte! 

-- Farás isso? interrogaram os dois rapazes olhando-o com admiração. 

-- Sabem que nunca falto aos meus juramentos! Pois por minha mãe vos juro que não perderia um momento em pôr em pratica os meus designios. 

Elles ficaram calados, medindo o acto d'aquelle homem e Gomes Freire ao cabo d'uns momentos, bradou: 

-- Seja! Irei eu! Mas estarei de volta dentro em tres horas!... Dá cá o teu habito! 

O conde soltou um grito de triumpho e exclamou: 

-- Já o esperava! 

Mas agora ouviam-se passos de alguns homens no lagedo do forte, depois o ruido de coronhas de espingardas que batiam no solo, uma voz de commando e um official apparecia á entrada da prisão. 

Os tres rapazes encararam-se á luz breve da lâmpada e fizeram se pallidos. 

Gomes Freire apertou a mão de D. Pedro, e murmurou: 

-- É tarde! 

-- Vamos morrer! murmurou Vasco de Miranda. Oh! Maria! Minha querida Maria! accrescentou emquanto o companheiro murmurava tambem o nome de D. Elvira. 

-- Gomes Freire de Andrade! bradou a voz pesada do official á porta da prisão. 

-- Sou eu, senhor... volveu o alferes dirigindo-se ao seu encontro. 

-- Vasco de Miranda! 

-- Prompto para a morte desde que aqui entrou! exclamou o cadete com uma risada. 

Então o official olhando D. Pedro de Portugal, interrogou: 

-- E vós? 

-- Eu sou D. Pedro, conde de Assumar! o alferes envolvia-se no habito e accrescentou: 

-- Entrei aqui em vez de fr. Melchiades e peço-vos me deixeis acompanhar os meus camaradas, supplicou o fidalgo com as lagrimas nos olhos emquanto elles encaravam altivamente o commandante da escolta cujas armas luziam no corredor. 

-- Julgo que não quereis ir até Algés, senhor conde! exclamou o interlocutor quasi alegremente. 

-- Até Algés? interrogaram elles como espantados. 

-- Sim, pois que os vossos camaradas vão partir na armada que vae em auxilio de Hespanha e que se faz de vela ao romper do dia... Tenho ordem de os conduzir a bordo onde encontrarão o capitão Bernardim Freire que lhes dará mais explicações por ordem de sua grandeza, o senhor arcebispo de Thessalonica! 

-- Mas isto é um sonho! bradaram elles novamente. 

-- Não... É apenas uma prova que sua alteza real, o serenissimo principe do Brazil não vos guarda ressentimento... Parti... Aqui tendes as vossas ordens de embarque! 

Agarraram ambos os documentos que a princeza D. Maria Benedicta, fizera que a rainha assignasse, e Vasco de Miranda exclamou: 

-- Mas estou promovido a alferes de infanteria de marinha! 

-- Para á volta seres o marido de D. Maria de Penha! exclamou uma voz á porta. 

-- Meu tio! exclamou Gomes Freire ao reconhecer o capitão. 

-- Eu sim que bastante trabalho tenho tido por causa d'ambos e que não poude esperar mais tempo para vos abraçar. 

Cahia nos braços do sobrinho, depois apertava a mão de Vasco e a do conde e exclamava: 

-- E tu não lês a tua ordem de embarque! 

-- Já a vi, meu tio, estou feito tenente de mar... Mas esta nomeação é o exilio, é o affastamento da mulher que amo! 

-- E que eu encontrarei para te restituir quando voltares coberto de gloria... 

-- Mas que significa isto? 

-- Que o principe do Brazil ha-de ser o rei mais justo da sua dynastia! foi a unica resposta do capitão. 

-- Porem o insulto... 

-- Declara-se o unico culpado e paga-vos assim a sua acção! 

-- Oh! Agora só nos resta dar-mos um dia a vida por D. José II! clamaram ao mesmo tempo os dois rapazes. 

-- Bem a devem a esse grande principe! assentiu Bernardim Freire com uma grande convicção! 

Agora abraçavam todos o conde de Assumar a quem Gomes Freire, dizia: 

Amigo... Arranca Elvira das garras d'esse miseravel e dize-lhe tudo que succedeu. 

-- Parte descançado... A tua noiva terá um logar no meu palacio ao lado de sua prima a minha esposa dentro em alguns dias! 

-- E vós, meu tio, logo que terminem as batalhas navaes em que vamos tomar parte fazei-nos regressar ao reino... 

-- Parte descançado, digo-te, como a teu amigo, o principe do Brazil encarregar-se-ha de tudo! 

-- E a minha noiva? interrogou Vasco de Miranda. 

-- É dama d'honor de sua alteza D. Maria Benedicta! 

-- O que! da esposa do principe? 

-- Sim, é a melhor forma de provar a sua virtude! E agora vamos!... 

-- Oh! Se eu a podesse abraçar? murmurou o novo alferes! 

-- Impossivel! Dentro em uma hora a armada levantará a amarra e aguarda-vos em frente do convento de S. José de Ribamar... 

Apertaram mais uma vez nos braços o conde que estava triste, recommendavam-lhe ainda que velasse por D. Elvira e por D. Maria da Penha e partiram acompanhados por Bernardim Freire e seguidos pela escolta. 

Ao romper da manha as naus enfunavam as velas e deixavam o Tejo conduzindo aquelles dois homens valorosos que olhavam a terra com saudades apesar de terem agora na sua frente um horisonte quasi tão risonho como esse espaço immenso, largo, batido pelo sol e que as naus percorriam levando á popa o glorioso pendão dos guerreiros que elles deviam honrar como heroes. 

E em terra alguns olhos choravam ao verem o navio perder-se, sumir-se pouco a pouco. 

Elles de mãos dadas, diziam: 

-- Com esta separação de Assumar morreu a nossa mocidade! 











XXXVIII 



A infanta de Hespanha 





Os canhões troavam envolvendo-se em nuvens brancas de polvora os campos da fronteira, a dois passos de Badajoz, os desenrolavam-se as flamulas e os  galhardetes nas barracas onde a familia real aguardava a noiva do principe D. João. <marca num="*" pag=468>



<nota num="*" pag=468> Carlota Joaquina, infanta de Hespanha. </nota>



Reunia-se além a côrte, todo um cortejo lusido de fardas bordadas; os magnificos corcéis escavavam o solo com impaciencia, os coches de galas de vidraças crystallinas aguardavam o momento da partida, pesados e magestosos na sua riqueza do tempo de D. João V, os regimentos formavam-se em alas brilhantes e os camponios arregalavam grandes olhos para o pavilhão onde a familia real ia jantar em publico, honra que ha muito não concedia ás multidões. 

D. Maria I ao lado do marido, aquelle velho rei, tropego, cançado e nullo que se chamou D. Pedro III, fazia as suas despedidas a D. Marinna Victoria, a infanta portugueza, que casaria tambem com D. Gabriel d'Hespanha. 

Portugal como a solidificar aquella alliança com que terminaria as guerras, da peninsula, dava uma infanta de Portugal boa e virtuosa em troca d'uma infanta hespanhola que daria pasto á chronica escandalosa da côrte. Tocaram as trombetas pela immensa linha estendida desde Hespanha á raia portugueza. 

Villa Viçosa, aguardava a chegada de sua alteza e em todos os peitos batiam impacientes corações, desejando toda aquella gente desde a soberana ao ultimo villão, entrever essa que ficaria fazendo parte da familia real portugueza. 

O sol glorioso e creador flammejava do alto os seus raios tirando bellos reflexos dos vitraes da egreia e das condecorações suspensas dos pescoços fidalgos, as damas do paço arrastavam as immensas caudas dos seus vestidos, mostravam nos labios pintados sorrisos humildes, confundiam-se as fardas dos marechaes e as dos grãos-senhores da côrte, os habitos dos prelados faiscantes nos seus bordados, as mitras episcopaes cravejadas de pedrarias. Velhos fidalgos passavam arrimados a bengalas, toda a pleiade illustre dos Lafões aos Marialva, dos Angeja aos Cadaval, ali estava dobrando a espinha, emquanto os soldados se perfilavam garbosos e os canhões soavam sempre á mistura com o repicar estridente dos velhos sinos. Casinhas brancas dormiam ao sol pelas encostas, os campos verdes estendiam-se n'uma doce e tranquillisadora paz, as purpuras, os velludos, os damascos traçavam notas discordantes no meio da simplicidade aldeã. 

A pequena infanta saía dos braços da rainha para cair nos de D. Maria Benedicta, depois abraçava o principe D. João e ao chegar a unir-se ao peito do principe do Brazil, dizia-lhe a meia voz: 

-- Oh! José e sou eu a sacrificada! Que saudades tenho da patria... Não conheço ninguem n'essa côrte! 

O herdeiro do throno, muito grave, cada vez mais serio depois d'aquella aventura em que tomara parte, tendo suspenso do pescoço como seu irmão, o Tozão d'Ouro que a rainha catholica lhes enviara, tomou a mão da irmã e murmurou: 

-- Marianna... Vês esse immenso campo onde os nossos soldados se expõem garridos nos uniformes aguardando aquella que vae ser nossa cunhada? Pois aqui já correu muito sangue portuguez aos golpes hespanhoes, já muitos do paiz visinho fugiram em debandada ante o valor dos nossos! É a sina de dois paizes separados apenas por uma delgada faisca d'agua d'esde a ponte do Caia a Villa Real de Santo Antonio, e unidos naturalmente de Castello Branco até ao extremo norte! A guerra era fatal entre nós, dar-se-hiam sempre luctas que impederiam o desenvolvimento dos paizes... Ta e a nossa cunhada, são os penhores d'uma paz duradoura, já vés pois que como uma heroina vaes sacrificar-te por essa patria de que tens tantas saudades! 

Beijou-a na fronte e deixou-a affastar-se ficando a contemplal-a durante alguns instantes muito tristemente. 

N'um grupo formado a alguma distancia e composto por dois frades e uma dama, um dos frades murmurou: 

-- Que estará esse negregrado principe do Brazil aconselhando á infanta! 

-- Dá-lhe conselhos de rei!... volveu com desplante a dama, fazendo um gesto de ironia. 

-- Quando o fôr e se o for! tornou o outro frade que estivera até então silencioso, com ar de ameaça. 

-- Ah! Fr. José Maria de Mello, exclamou a mulher com grande fogo. O que eu fana para o impedir! 

-- D. Antonia de Mello sabeis que vos aproveitaremos, bradou o outro frade, accrescentando: Não é assim fr. Fabricio? 

-- Certamente, reverendo! E chega o momento de entrarmos em combate. Temos reunidas as nossas forças, agora que os herejes se batem em Alger! Teremos prazer em vingar o desprezo com que trata a gentil D. Antonia! 

-- Odeio esse principe, detesto-o! murmurou a outra com a maior das raivas ao recordar-se das indifferenças de D. José, e continuando: 

-- Agora porém que a infanta parte como vos posso auxiliar? Essa infame D. Maria de Penha apossou-se do espirito da princeza e tenho que sahir do paço... É um inimigo de menos na praça! 

-- Já pensei n'isso! exclamou a seu lado uma voz e um elegante fidalgo tirou respeitosamente o seu chapeu a cumprimental-a, beijando de seguida a manga de fr. José Maria. 

-- Tambem eu o pensei, D. Ramiro de Noronha e tremi tambem por vós... volveu o oratoriano. 

-- Ah! O principe não acreditou na minha cumplicidade... Julga que pratiquei tudo aquillo por dedicação. 

-- E emquanto a D. Antonia, que fazer? interrogou fr. Fabricio. Se carecermos d'ella? 

-- Lembrae-vos que o padre Theodoro e eu estamos encarregados do principe... 

-- Quereis dizer? 

-- Que D. Antonia ficará no paço? 

-- Eu? Mas como? 

-- Ahi vem alguem que nos poderá responder! replicou o frade apontando um coche que passava de batida rodeado de cavalleiros e no interior do qual um homem magro e pallido, vestido n'um fardalhão bordado, se inclinava a cumprimentar o reverendo. 

-- Quem é aquelle homem? interrogou apressada a açafata da infanta. 

-- É o conde de Fernan Nunêz... retorquiu elle muito seranamente. 

-- O que? O embaixador de Hespanha?! perguntaram todos assombrados. 

-- Sim elle que vae buscar a infanta com a qual sahirá de Badajoz! 

-- E então!... 

-- Dir-lhe-ha algnmas palavras a vosso respeito! 

-- A meu respeito? 

-- Certamente, por pedido de sua alteza o principe D. João, o noivo de Carlota Joaquina, que não tem damas de honor e as escolherá!... 

-- E eu... 

-- Sereis uma d'essas damas! foi a resposta do frade, que ante o pasmo desenhado no rosto da açafata, lhe dizia com um bom sorriso: 

-- E agora ide, D. Antonia de Mello, não façaes esperar vosso esposo! 

Apontava o desembargador que se approximava relanceando para todos os lados olhares investigadores buscando a mulher. 

Ao ficarem pois os dois frades e o fidalgo affastaram se n'uma vereda e José Maria de Mello, interrogou: 

-- E então D. Ramiro, com respeito ao arcebispo, ao vosso inimigo, ao homem que destruiu todo o vosso trabalho acerca de Gomes Freire e de Vasco de Miranda? 

-- Oh! reverendo! Esperamos o momento! 

-- Teve artes de fazer desapparecer D. Elvira de Mello, roubando-vos assim essa herdeira com quem devias casar... disse José Maria de Mello, trocando um olhar com fr. Fabricio. 

-- Ah! Eu e Jacob Mestral e Silva Telles, que são hoje tenentes do regimento do Caes, temos apenas que arranjar mais alguns descontentes! 

-- E depois? 

-- Thessalonica será morto! murmurou com rancor o outro. Mas a subitas teve um sobresalto e exclamou: 

-- Mas não é o principe que ali vem com Cadaval e com D. José de Menezes? 

-- Sim... Estão falando com o novo capitão conde de Assumar! 

-- Ah! É preciso que saiba o que dizem! bradou elle correndo em direcção ao principe, emquanto fr. Fabricio dizia: 

-- Oh! Como elle proferiu aquella phrase... Thessalonica será morto! 

-- E eu serei bispo e vingador da companhia! murmurou com rancor fr. José Maria de Mello. 

Agora todas as cabeças se curvavam nos pavilhões da familia real, o principe D. João, muito gordo, de perfil grosseiro, recamado de ouro, descia os primeiros degraus e trocava algumas palavras com o marquez do Louriçal, embaixador extraordinario que fôra a Hespanha pedir a mão da infanta. 

O noivo estava cercado por uma ala brilhante de fidalgos que, de chapéu na mão, aguardavam as suas ordens. Estavam com elle os condes de Villa Verde, sempre obeso e banal, na sua farda de vice rei; o velho conde de S. Lourenço, esqualido e erudito tendo nos labios um riso sarcastico. Vai de Reis e o marquez do Lavradio, o conde de Aveiras e o principal Mello. 

Paravam ali uns instantes emquanto os servos de librés vistosas seguravam os cavallos sobre os quaes iriam ao encontro da noiva real. 

Porém, continuavam todos de cabeça inclinada, respeitosos, cheios de uncção em frente d'um cardeal cuja purpura tinha uns tons vivos no meio da grave multidão. Era o nuncio do papa, o cardeal Ranuzi, e ao lado do prelado via se um outro padre trajado de negro com um solideu roxo e cujos olhos se fixaram em José Maria de Mello que baixou rapidamente os seus ao reconhecel-o, murmurando para fr. Fabricio: 

-- O geral! 

-- Onde? interrogou o outro em grande pasmo. 

-- Ao lado do nuncio! 

-- Tendes razão!... Ah! E vede que aprumo, todos se inclinam e elle fica de cabeça erguida ao passo que o cardeal lhe falla cm voz baixa! 

Assim era com effeito. Ranuzi deu a sua benção á côrte e todos desde a rainha ao ultimo leigo tinham curvado a cabeça, apenas o geral dos jesuitas ficara impavido, ouvindo o cardeal dizer-lhe em voz baixa: 

-- Este D. João de Bragança tem um ar devoto! 

-- É um verdadeiro principe talhado para o sacerdocio... retorquiu o outro n'um tom despreoccupado. 

Agora soavam as musicas, o côrtejo real montava a cavallo e escoltado por um legimento partiram a toda a brida ao encontro da infanta que chegara ao limite do seu paiz acompanhada pelo embaixador hespanhol. 

O principe do Brazil continuava conversando com os fidalgos a quem dizia a um por um: 

-- Cadaval, acompanhareis minha irmã até Madrid, sois meu amigo, velareis por ella! Tu, D. José de Menezes, auxiliarás o duque n'esse encargo, emquanto ao senhor d'Assumar desejo entregar lhe uma carta para o conde de Florida Blanca, primeiro ministro de sua magestade catholica! Irás no sequito e uma vez na côrte buscarás fallar a sua excellencia da minha parte... 

Tomava-lhe o braço n'um impeto, affastava-se com elle do grupo em quanto D. Ramiro de Noronha os olhava soffregamente, desesperado de não poder ouvir o que se ia passar, e dizia-lhe: 

-- Conde: Não é verdade que odeia os jesuitas? 

-- Do intimo d'alma, meu senhor!

-- Não sabe tambem que ultimamente têm conseguido grandes triumphos? 

-- Triumphos? 

-- Sim... Monarchas hereticos como Catharina da Russia e Frederico da Prussia chamam-nos para o seu lado... Em França procuram segurar-se, na Italia toda desde Roma até aos ducados dominam, na Hespanha avassallam na sombra como em Portugal... Eu tenho uma nota secreta do embaixador portuguez em Madrid que me dá conta da passagem d'um tal padre Gallari que entrou na côrte e parece ter-se dirigido para Portugal!... 

-- E então, meu senhor... 

-- Julgo-o um emissario da companhia, o embaixador... Preciso que Florida Blanca m'o assevere para procedermos... 

-- Mas vossa Augusta mãe? 

-- Não póde impedir que combatamos na sombra esse Gallari ou qualquer outro jesuita! exclamou sua alteza, continuando apesar de ver á distancia de dois passos, Ramiro de Noronha de quem não desconfiava: 

-- Depois nas mais pequenas coisas se vê o dedo jesuitico... Nas intrigas de que sou alvo, nas perseguições que soffreram os vossos amigos, na devoção exaggerada de meu irmão e até nas dissidencias com minha esposa! Para mim, como para o meu mestre Pombal, a companhia de Jesus é um cancro que corroe um paiz! Se fosse rei mandaria justiçar os declarados jesuitas que encontrasse no meu reino, quando o fôr, combatel-os-hei por todas as formas e por isso quero saber desde já de que armas se servem e com que auxilios contam! 

-- Descança que saberás tudo! murmurou D. Ramiro de Noronha affastando-se, tendo nos labios um sorriso ironico. 

Assumar, deveras contente com a confiança do princiqe, exclamou: 

-- Vossa Alteza sabe, muito bem que pode contar com toda a minha vida! 

-- Sei, Assumar, e lastimo apenas que não tenhas a teu lado esses dois valorosos rapazes que combatem em Alger! 

-- Oh! Gomes Freire e Vasco de Miranda! Dois heroes! 

-- E duas bellas almas! Oh! Mas um dia chegará em que os tres obrarão prodigios... 

-- Por vossa alteza, meu senhor! volveu o conde deveras satisfeito. 

-- E tua esposa, conde? 

-- Está bem, alteza real... 

-- É necessario empregal-a no paço... 

-- Alteza! A condessa de Assumar, como minha irmã a marqueza de Alorna, desejam viver longe da côrte... 

-- Tua irmã entende-se, já tem uma filhinha não é assim?... 

-- Sim, meu senhor, Leonor, foi mãe ha um mez... E minha sobrinha, a pequenina Julianna, <marca num="*" pag=475> sentia-se bem disposta a viver... 



<nota num="*" pag=475> Mais tarde a celebre condessa da Ega. </nota>



-- Faremos d'ella uma linda duqueza... disse com magnanimidade o principe, como se fosse já o soberano. 

-- Senhor, agradeço-vos tanto interesse... 

-- Ah! Assumar, e a prima de tua mulher? 

-- D. Elvira, meu senhor? 

-- Sim... A monja das Salesias... 

O conde fez-se pallido e volveu: 

-- Ignoro o que é feito d'ella, meu senhor, e no emtanto promettera a Gomes Freire restituir-lh'a... Disseram-me que se encontrava na Inquisição ás ordens d'esse fr. José Maria de Mello... 

-- O que? Do jesuita Tavora... Mais uma manifestação... 

-- Ah! Esse é o nosso mais fidagal inimigo... 

-- E então? 

-- Na companhia do senhor arcebispo, corri todo o palacio do Santo Officio e não a encontrei!

-- O miseravel é capaz de a ter mandado assassinar! exclamou D. José com um olhar odiento. 

-- Se tivesse a certeza... exclamou Assumar com raiva e continuando logo: 

-- Meu senhor, tenho tido momentos em que me desejo lançar sobre esse infame frade e pedir-lhe contas da filha do Cardeal da Cunha! 

-- Da filha? interrogou o principe no auge da admiração. 

-- Sim, meu senhor... 

-- Ah! Nunca julguei... Mas emfim nem por isso D. Elvira é menos digna d'interesse... 

-- Certamente... Mas ao mesmo tempo que desejo matar esse miseravel, lembro-me que antes o devo combater na sombra! 

-- Meus senhores, menos enthusiasmo que os da companhia têm cumplices nas proprias hervas que pisam! disse n'este momento uma voz junto dos dois interlocutores. 

Voltaram-se rapidamente e bradaram a um tempo! 

-- O intendente da policia! 

E Pina Maniqne com o seu sorriso extranho, volveu: 

-- Eu, alteza real, que fui avisado da vossa conversa. 

-- E por quem? interrogou com surpreza o principe. 

-- Pelo chefe da minha policia! tornou com orgulho o intendente. 

-- Mas como? A não ser que o vosso agente se transformasse n'uma d'essas formosas borboletas que por ahi esvoaçam ou n'uma das arvores que pousam nas ramadas não sei como nos poderia ouvir... 

-- Do alto, mesmo sem ser pássaro ouve-se e vê-se muito! volveu Pina Manique apontando uma arvore donde sahia a cabeça larga d'um camponio. 

-- O que? É o chefe da vossa policia! 

-- Eu mesmo, o antigo corregedor do Bairro Alto, meu senhor... murmurou n'este momento o homem que estava admiravelmente disfarçado. Eu mesmo que ao escutar as primeiras palavras de vossa alteza avisei o senhor intendente e cheguei primeiro a esta arvore do que vossa alteza com o senhor conde de Assumar a quem saudo... 

-- E atreveste-te? bradou com furia, o principe. 

-- Não vos agasteis, meu senhor, conheceis as minhas ideias! dizia com cordura o intendente. 

-- Não vos agasteis, meu senhor, volveu o antigo corregedor a parodiar o intendente, eu conheço mais um dos vossos inimigos!

-- Que dizes? 

-- A verdade inteira! 

-- E quem é elle? 

-- Peço perdão a vossa alteza, mas se me quizer dar a honra de uma audiencia esta noite, informal-o-hei... Não o posso fazer d'aqui porque temo que acima da minha cabeça passem alguns espiões... concluiu com um sorriso que o principe secundou, exclamando: 

-- É bem possivel que assim seja tendo alugado para esse effeito a machina aerostatica com que o capitão Pedro Sumati fez as suas viagens... 

-- Aguardar-te-hei ás 8 horas... 

O intendente sorriu tambem, e emquanto D. José dava as ultimas ordens a D. Pedro de Portugal, Pina Manique exclamou apontando em direcção á fronteira: 

-- Apresse-se vossa alteza em ir para a tribuna porque ahi chega a serenissima infanta de Hespanha! 

Por entre as nuvens de poeira levantadas pelas patas dos cavallos, no revoltear do fumo da polvora, distinguia-se como atravez d'um nevoeiro os coches reaes que conduziam a princeza, as musicas tocavam, os soldados apresentavam armas e ali na fronteira onde tantos combates se tinham travado, resoou n'um unico grito: 

-- Viva D. Carlota Joaquina! 

D. José entrava na tribuna real exactamente no instante em que a infanta ahi chegava, apeando-se do coche pela mão do principe D. João que tinha um ar acanhado Junto da noiva. Carlota Joaquina era baixa, mas esbelta, morena, d'olhos negros e vivos a accusarem um sangue ardente, correndo impetuoso sob aquella pelle de hespanhola sensual. Vestia no rigor da etiqueta e deixava entrever a carne dos seios tugidos mordida pelo bello sol da peninsula,

vinha carregada de jóias que não fulguravam tanto como os seus olhos provocantes que baixava agora n'um ar fervorosamente devoto, ao sentir se nos braços da rainha que lhe dizia: 

-- Seja bem vinda, minha filha! A côrte curvava-se ante a joven, que ao vêr-se tão bem acolhida entreabria os labios vivamente carminados a deixar entrever os dentes perlados. 

Continuavam a troar os canhões, o jubilo espelhava se em todos os rostos, toda aquella gente sentia uma grande ternura por essa altiva e formosa princeza, de todos os labios sahiam bênçãos para ella. 

Era bem ella o traço de união entre os dois paizcs, por isso todos folgavam. 

E a familia real ia penetrando nos aposentos onde havia de jantar á vista da multidão, alegre e jubilosa. 

Apenas n'uns olhos formosos havia lagrimas. Era a princeza D. Marianna Victoria que partiria no dia seguinte levando saudades da sua patria e perguntando a si mesma se seria tão bem recebida como a esposa de seu irmão a quem todos acclamavam doudamente, berrando por entre o estrallejar dos fogos d'artificio que se queimavam pela noite adeante! 

-- Viva a infanta de Hespanha! 

Duas mulhersitas do povo, muito curiosas avaliavam a um canto quanto custariam as Jóias <marca num="*" pag=478> de D. Carlota Joaquina e murmuravam: 

-- Com aquillo tudo seriam felizes todas as familias da nossa provincia! 





<nota num="*" pag=478> Carlota Joaquina recebera: Da rainha, brincos com botões e pingentes de  brilhantes, collar e ramo de pedras varias, d'el rei, pluma de brilhantes, principe do Brazil, dois anneis de brilhintes, princeza do Brazil, pluma de brilhantes, D. Marianna Victoria, pluma de esmeraldas e brilhantes, D. João, relogio e braceletes em diamantes. </nota>









XXXIX 



O grande golpe 







A porta da baiuca negra escancarava-se sob o Arco grande de S. Paulo, mostrando uma enorme confusão de trapos e objectos de toda a especie agglomerados n'aquelle antro onde o judeu fazia o seu commercio. Era além a morada de Pacifico Moysés, que as alcovetas diziam muito rico, apesar de toda a hediondez da sua loja de mercador de cousas amadas. Viam-se vestes fidalgas de bordados coçados suspensas do tecto junto a velhas catanas amolgadas e de pares de sapatos cravejados de pregos enormes, uns quadros mal pintados de tons rubros com bonecos, indecifraveis sobrescriptos em grossos caracteres, representavam o incêndio do hospital de Todos os Santos e o Terramoto de Lisboa, pesados alfarrábios carcomidos, espolio d'alguns sapientes frades dados á folia, pejavam as mesas acharoadas do tempo do rei

D. João V e até velhas imagens de roupagens esmaecidas mostravam os rostos alvares e parados, empoleiradas entre montões de plumas com que bellas secias tinham enfeitado outr'ora os empoados cabellos. 

E lá ao fundo, como um bobo no seu covil, os olhos luzentes, o nariz adunco, a pelle engelhada e suja, vestido no balandrau dos rabis, Pacifico espreitava a rua e tinha uma expressão esphyngica no rosto mumificado. A calva amarellenta coberta por um barretinho d'algodão negro, as pernas magras vestidas em meias esburacadas e accenarem miseria ou avareza, na mão a penna de rama com que escripturava um grande livro, elle era a incarnação exacta e completa d'esses judeus que por não terem patria se tornavam já n'essa epocha os senhores da patria dos outros, 

N'aquelle perfil anguloso estava escripto não o fatalismo d'uma raça mas a ganancia, não a maldição divina mas o poder occulto do ouro que dormia no seu cofre forte de mechanismo aperfeiçoado da sua invenção para bem guardar o dote da sua Salomé. 

Porque aquelle lobo cerval tinha uma filha, a mais linda menina do Egypto, que apparecia aos domingos na aifarja do pae e desapparecia durante toda a semana sem que pessoa alguma soubesse onde se recolhia. 

Tinha ambições para ella esse nojento judeu, queria tornal-a feliz á custa de todas as privações e sabia que o conseguira já, principalmente pela noute morta, quando contava o thesouro accumulado com uma paciencia de aranha. 

A noute cahia docemente além sob o arco onde se cavava a loja do judeu e elle, áquella breve claridade, hesitando em accender a candeia de tres bicos, escrevia os seus grossos caracteres e ia resmungando sempre: 

-- Sessenta mil cruzados á ordem de Fr. Fabricio... Hum... Hum... Mais um a quem os da Companhia dão credito... Grandes cousas se vão passar, não ha duvida!... Oh! os jesuitas que dispendem dinheiro é que contam rehavel-o transformado em poder... 

Resmungava sempre e ia escrevendo, mas de repente a luz faltou-lhe de todo e elle erguendo a cabeça n'um ar zangado ia soltar uma praga mas escancarou a bocca n'um riso mostrando os dentes amarellos e exclamou: 

-- Ah! Sois vós reverendo padre José Maria de Mello! Sejaes bem vindo... 

-- Tento, mestre Moysés, tento... exclamou da porta um homem vestido como um pescador da Ribeira e cujos olhos se cerravam á luz. 

-- Ah! logo vos conheci apesar do vosso disfarce! grunhou o judeu com o seu modo attencioso. 

O frade, escondido sob aquellas vestes de marítimo, atravessou a custo por entre a rumas de velharias e exclamou: 

-- Ainda não veiu ninguem? 

-- Apenas Fr. Fabricio que está lá dentro com o padre Theodoro... 

-- Ah! E vêem com os habitos? 

-- Não, reverendo... Fr. Fabricio apresenta um magnifico typo de peralta e o padre Theodoro. . e aqui o israelita começou a rir desesperadamente, dizendo por entre as gargalhadas, vem vestido como um rabi... Elle! ... elle!... Ah! Ah! Ah! 

-- De que ris? 

-- Ah! É que os sermões d'elle que correm impressos e estão á venda ali no Bertrand e nos Paulistas, chamam suinos aos judeus! 

-- Todos os meios são bons para conseguir os fins, bom Pacifico! volveu com uncçao o frade, a quem o dono da baiuca, volvia: 

-- Reparae que sois agora um peccador... 

Á entrada da loja soou então uma voz d'algarvio, e um homem vestido tambem como um maritimo, perguntou: 

-- Olá, mestre... Tereis por ahi uma camisoleta que queiraes vender? 

-- Não... não... não tenho!... volveu o judeu de muito mau humor. 

Mas o algarvio entrou na loja e parara em face dos dois velhos relogios escondidos n'um montão de farrapos e gritava;  

-- Pelo Santo nome de Jesus, que vejo!... 

-- O que vês tu, cão tinhoso? gritou o judeu com grande raiva. 

-- São os relogios que roubaram a meu amo, não ha duvida! Ah! se o senhor marquez de Marialva os descobre compra-os de novo ou talvez vos metia na cadeia!... 

-- A mim?... interrogou o judeu que se fizera livido, emquanto o outro entrava mais pela loja e lançava um olhar ao frade. 

-- Sim e porque não?... Se os relogios foram roubados! E elle, o senhor marquez, que tem lá uma data d'elles na sala... Pelos modos são p'ra vista! 

-- Como o maldito descobriu isto... resmungou o judeu, admirado da perspicacia do outro a quem gritava: 

-- Pois se os relogios são de teu amo leva-os e dcixa-me em paz que os comprei sem saber! 

-- Está hoje muito generoso, mestre Moysés! exclamou o homem n'outro tom batendo-lhe duas palmadas no hombro que fizeram vergar o israelita e recuar o frade. 

O judeu abria a bocca cheio de espanto e como se não acreditasse no que via, exclamou: 

-- O Joannico?! 

-- É verdade, não costumo nunca faltar ao que prometto.. 

E sei que fr. José Maria de Mello me deseja falar esta noute na tua loja... Conheci logo sua reverencia que tive a honra de ver muitas vezes em casa do senhor cardeal da Cunha onde meu avô servia como creado! 

O jesuita lançou-lhe um olhar investigador, emquanto o judeu perguntava assombrado: 

-- Mas e as barbas que tinhas? 

-- Eu?... bradou o bandido soltando uma gargalhada. Eu nunca tive barbas! 

-- Oh! Mas é espantoso... Por isso tu descobriste os relogios... 

-- Se foi o Sempronio que os roubou da sala do marquez de Marialva n'um dia em que entrou disfarçado em brigadeiro! tornou elle muito tranquillamente. 

E depois para o jesuita n'um ar respeitoso, interrogou: 

-- E que me deseja vossa reverencia? 

-- És o Joannico, não é assim? perguntou o frade. 

-- Eu mesmo, o unico, o cantado pelo Tolentino. 

-- Entrae! ordenou o frade apontando o fundo da loja mascarado por um reposteiro. 

Dentro em pouco atravessaram juntos um corredor e entravam n'uma casa illuminada por dois candieiros d'azeite, mobilada apenas por algumas cadeiras e por uma mesa e onde já estavam dois homens que se levantaram á chegada do frade. 

-- Reconheces este individuo? perguntou José Maria de Mello ao bandido, apontando Fr. Fabricio no seu disfarce de peralta. 

-- Perfeitamente... É o frade que em Palhavã buscava fazer assassinar o senhor conde de Assumar... 

-- O teu antigo amo... 

-- Sim... 

-- Muito bem... Sabes que és filho de Manuel Alvares, creado do duque d'Aveiro e que foi morto em Belem, no patibulo por supposto cumplice d'uma tentativa contra el-rei D. José? 

-- Sei! bradou com raiva, o bandido. Meu avô contou-me tudo antes de me fazer chegar á presença de vossa reverencia... Disse-me como me occultara á justiça que perseguia os meus, como me mudou o nome, os tormentos que passou e o que disse ao senhor cardeal da Cunha que o occultara na sua quinta de Coimbra onde estava a esse tempo uma sua filha de nome D. Elvira e que conheci mais tarde... 

-- No palacio de teu amo, raptada por Gomes Freire!

-- Assim é! 

-- Pois nós sabemos quanto vales! Sabemos que penetraste na Inquisição... 

-- Onde os vossos esbirros tinham conduzido a minha amante... 

-- N'esse tempo eras apenas o creado d'um fidalgo... Hoje respeital-a-hiamos! 

-- Sim? Hoje como n'outro tempo eu arrancal-a-hia até do inferno! 

-- Credo!... exclamaram os dois homens benzendo-se emquanto José Maria de Mello, sorria imperceptivelmente. 

-- Senta-te, Joannico, e conversemos! 

Elle obedeceu e o frade, interrogou-o de subito: 

-- Nunca sentiste desejo de vingar teu pae e teu tio? 

-- Não penso n'outra cousa desde esta manhã, desde que meu avô me contou o que elles soffreram! Os ossos esmagados, depois queimados ainda com vida e as suas cinzas atiradas ao mar... Maldito marquez de Pombal! 

-- Dize antes, malditos Braganças! 

-- Sim, malditos Braganças! repetiu o bandido. 

-- Pois bem, o que julgaste quando teu avô te pediu para vires talar-me? 

-- Que vossa reverencia carecia de mim! 

-- E para que? 

-- Para algum manejo da Companhia de Jesus de que faz parte... 

-- Eu? 

-- Sim... Não se entra imponente e com tanta superioridade na Inquisição sem haver um poder occulto, não se consegue que fr. José do Rosario seja transferido do seu carcere do Santo Officio onde estava ás ordens do arcebispo inquisidor geral sem poder enorme, e demais para o transferirem para o bom mosteiro d'Alcobaça... 

-- Não, Joannico... É que eu conto com a protecção do principe D. João e sou apenas familiar do Santo Officio... 

-- Seja como desejardes; porém isso não explica o que pretendeis! 

-- Sabes quem eu sou? 

-- Fr. José Maria de Mello... 

-- O unico Tavora! gritou o jesuira com energia. 

-- Tavora! Da familia dos justiçados? 

-- Sim. 

-- E quereis? 

-- Vingar-me dos Braganças como tu o desejas! 

-- Eu sou filho d'um servo e vossa reverencia da familia dos amos, mas na vingança somos eguaes! Ordene ou antes diga-me a forma de vingar os meus! exclamou o bandido no auge da raiva. 

-- Não hesitareis? 

-- Juro lhe pela memoria de meu pae assassinado infamemente. 

-- Pois bem... a familia real está em Salvaterra... 

-- Já o sei... 

-- A tua quadrilha anda nas immediaçÕes... 

-- Muito bem! 

-- Conheces o principe do Brazil? 

-- Nunca o vi... 

-- Passará amanhã ás onze horas da noute na estrada em direcção ao cães n'uma sege sem armas, acompanhado apenas por um gentil-homem... Volta para Lisboa! Podes começar por elle a tua vingança... 

-- Mas esse principe não tem culpa... 

-- E tu, tens alguma de seres filho de Manuel Alvares? Não foste perseguido em creança, não é esse o futuro rei? E demais, como o avô, chama-se D. José... 

-- Mas e a rainha e o outro principe, toda essa familia dos Braganças? 

-- Soffrerão um a um o justo castigo! 

-- Mas porque principiar por D. José? Não ha el-rei antes d'elle? 

-- D. Pedro III tem sessenta e oito annos e está ás portas da morte... 

-- A rainha? 

-- Nunca sahe senão com um enorme sequito de cavalieiros, damas, pagens, negros e musicos. .. Essa será ferida na sombra... 

-- D. João? 

-- Esse matal-o-hei eu! mentiu o jesuita buscando allucinar o bandido. 

E elle, cego pela raiva, sentindo ainda aos ouvidos as palavras do avô, toda aquella grande serie de horrores que o velho lhe narrara, no cumulo da exaltação, dispunha-se a servir sinceramente o jesuita no qual via apenas um Tavora, e bradava: 

-- Seja! 

-- Acceitas? 

-- Sim, reverencia... Ámanhã, o principe do Brazil receberá uma bala no peito embora eu seja morto como meu pae o foi no alto d'um patibulo... 

Os tres homens estremeceram ante a entoação que o bandido dera ás suas palavras e por fim o jesuita Theodoro bradou: 

-- Não sereis justiçado e sabes porque? 

O Joannico não lhe respondeu, ficou escutando o frade que continuava: 

-- Porque o principe tem inimigos conhecidos e porque partirás de seguida para Lisboa d'onde embarcarás para onde desejares! 

-- E os meus homens? 

-- Leva comtigo dois apenas, é quanto basta! 

-- E a Chiquita? 

-- Partirá comtigo. 

-- Precizas dinheiro, não é assim? interrogou fr. Fabricio, a quem o bandido respondeu com orgulho: 

-- Não... D'esta vez o meu braço não se aluga, exerce uma vingança legitima em qualquer membro da familia real! 

-- Sim... Tens razão, alveja bem o principe! 

-- Descancem... nunca se perdeu uma bala da minha espingarda. 

-- Sim, Joannico, vinga-te que eu concluirei a obra! exclamou José Maria de Mello, estendendo-lhe a mão. 

D'ahi a alguns momentos Joannico transpunha muito taciturno a porta do judeu e perdia-se na Ribeira Nova, deveras preoccupado com aquella ideia, sentindo referver-lhe o sangue ao recordar-se d'essa família que fizera justiçar seu pae, inimiga para elle mas na qual desejava vingar-se. 

Varrera-se-lhe da memoria tudo quanto havia de boas recordações, para elle apenas existia agora uma nuvem de sangue a toldar-lhe a vista. 

Ao encontrar-se com a amante que o aguardava na Ribeira n'uma das innumeras tabernas que se abriam n'aquelles sitios, deu-lhe o braço silenciosamente e ás interrogações de Chiquita volveu: 

-- Temos grandes acontecimentos! 

-- Que te queria o frade? 

-- Ensinar-me o caminho da vingança! 

-- Cautella que elle é um miseravel... 

-- É um homem cuja familia, como a minha, tem uma divida em aberto com os Braganças! 

-- Que dizes? 

-- Que elle é um Tavora! 

-- E tu? 

-- Eu, ah! Chiquita, eu... 

-- Que tens, meu amor, que tens? interrogou a cigana admirada de semelhante confissão. 

-- Tenho que sou filho d'alguem que foi enforcado por ordem dos Braganças... 

-- Teu pae?... 

-- Era um dos creados do duque de Aveiro! 

A cigana soltou um grito, os olhos brilharam-lhe de raiva e exclamou: 

-- Vinga-te, meu amigo, e eu aqui estou para te obedecer!... Dirigiram-se então para a praia e tomaram logar no bote que os aguardava. 

Ao mesmo tempo, na sala interior da casa do judeu, acabava de penetrar um individuo vestido á militar usando grandes bigodes e que bradava para os tres jesuitas: 

-- E então? 

-- Reverendo geral, exclamou o oratoriano, tudo está prompto! 

-- Elle acceita? 

-- Sim... E foi o avô o próprio a excital-o por meu conselho! 

-- Bem... E vós, fr. Fabricio, que me dizeis do filho de Ambrosio Freire... 

-- Combate agora em Alger, aguardo a sua vinda para eu proprio lhe fazer o mesmo que o Joannico vae fazer ao principe... 

-- Não é conveniente... Arranjae um instrumento... E vos, padre Theodoro, parti para Salvaterra em segredo e bem disfarçado a vigiar a obra do bandido! 

-- Assim farei!... 

-- Resta-vos Thessalonica!

-- Esse é meu! exclamou José Maria de Mello. 

-- Que fizesteis? 

-- Consegui incitar contra elle D. Ramiro de Noronha e os seus amigos que por seu turno incitam outros fidalgos. 

-- Mas como? 

-- Fazendo-lhe acreditar que D. Elvira de Mello fora retirada da Inquisição pelo arcebispo e mostrando-lhe a protecção que este dispensou a Gomes Freire e a Vasco de Miranda!

-- Muito bem, exclamou o geral sorrindo, e onde tendes essa dama? 

-- Até agora occulta no palácio do conde de Villa Nova em Mafra onde ninguem a irá procurar... 

-- Decerto... Pessoa alguma desconfiará d'um ministro! Mas careceis d'ella em vosso poder!

-- Não, reverendo geral, até me prejudica, por que ás vezes D. Ramiro pode descobril-a, o que seria o mesmo que destruir os meus planos! 

-- Pois bem... Eu parto depois de amanhã... No extrangeiro ha muitos conventos, conduzirei a vossa D. Elvira!

-- Será feita a vossa vontade! replicou o frade com grande alegria. 

-- E agora nada de hesitações, é cada um occupar o seu logar que eu não voltarei a Portugal senão depois de ver os jesuitas no paço... Serão um pouco arriscadas estas minhas viagens e senão venho no sequito do nuncio ou antes com passaportes de embaixador secreto da curia, mais difficil seria... E a vós, fr. José Maria, tenho a dar-vos uma boa noticia... 

-- Qual, magnanimo senhor? 

-- Falleceu o bispo do Algarve! respondeu elle olhando-o fixamente. 

-- Ah! 

-- Sim... E O Santo Padre por intermedio do cardeal Ranuzi vae pedir a sua magestade esse logar para vós... 

-- Oh! Meu senhor! 

-- Sim para vós... Sereis bispo, anniquilae Thessalonica e fazei com que D. João vos nomeie confessor da rainha... Ámanhã não existirá o principe do Brazil... Resta-nos depois o intendente e esses tres fidalgos que esmagaremos... Oh! Os jesuitas vão entrar no paço. É este o nosso grande golpe!... 

-- Oh! Grande golpe! grande golpe! exclamaram os tres jesuitas em côro, emquanto Pacifico Moysés, fingindo resonar sobre a sua mesa e tendo o ouvido bem encostado á parede, murmurava tambem: 

-- Grande golpe... grande golpe! 









XL 



Um ardil da policia 





No pequeno theatro de Salvaterra, a côrte assistia ao espectaculo. A rainha estava no seu camarote ao lado d'el-rei que dormitava, muito alquebrado pela

doença; ao seu lado o principe D. José entretinha-se a olhar o tecto da sala emquanto D. Maria Benedicta affectava a maior das attenções; n'um compartimento ao lado, o principe D. João muito gordo, com um ar abbacial fungava de quando em quando devota pitada curvandose a conversar com Carlota Joaquina que sorria distrahidamente. 

O theatro era pequeno, tinha umas varandas corridas onde a côrte tomava logar e a plateia era cheia de bancos forrados de velludo carmezim onde estavam sentados os dignatarios. 

No palco representava-se uma oratória em que tomavam parte alguns jovens comicos de rostos rapados fazendo os papeis femeninos em virtude do edital da rainha que prohibia ás mulheres a profissão d'actrizes. 

Tudo decorria monotonamente, sem animação, e nos rostos dos reaes personagens notava-se um mortal aborrecimento.

Á entrada formava a guarda real dos archeiros, e era vêr pelos logares inferiores do theatro a multidão d'açafatas languidas e secias, os pretos pequeninos dos sequitos fidalgos, os musicos que formavam a orchestra tocando moUemente, era todo um espectaculo de côrte ceremoniosa indignada com os bocejos d'el-rei D. Pedro III. 

A noite estava chuvosa, sentia-se o ruido da agua cahindo no tecto do theatro para onde voavam os actores levados pelos machinismos fingindo erguerem as azas de tarlatana. 

Dois homens embuçados mettiam-se no vão da porta do theatro como se quizessem abrigar-se da chuva, emquanto na platéa, D. Ramiro de Noronha dizia para um frade sentado a seu lado: 

-- Que horas são, padre Theodoro? 

-- São quasi nove e meia, excellencia... 

-- Ah! E o principe não parte?! volveu em voz baixa o fidalgo, olhando o herdeiro do throno. 

-- É que ainda não chegou o conde de Assumar! 

-- Perdão... Julguei vel-o ha momentos do lado do alpendre! 

-- O conde? 

-- Sim... Quando entrei... Pois que cheguei agora... 

-- Impossivel! Então já se teria apresentado a Sua Alteza! 

-- Não sei... E o Joannico deve estar impaciente, accrescentou o frade a meia voz. 

-- Ah! Se lhe parece... Caçada real! 

-- Vós não acompanhais, Sua Alteza? interrogou ainda o frade. 

-- Eu? exclamou D. Ramiro. Não... Hoje cabe essa honra ao conde de Assumar! 

-- É o demonio! 

-- Porque? 

-- O Joannico respeita muito o antigo amo... 

-- Mas respeita mais a memoria do pae... E depois, julgaes acaso que o reconhecerá! 

-- Tambem me parece que não! 

-- N'esse caso, ficae tranquillo! Admiro-me apenas de Sua Alteza não partir! tornou o cumplice dos jesuitas, olhando ainda o camarote. 

Os dois homens que se abrigavam da chuva á porta do theatro, affastaram-se um pouco e um d'elles murmurava: 

-- É talvez a occasião de prevenir o principe. .. São dez horas! 

-- Vae! volveu o outro por unica resposta. 

O outro cmbuçou-se na capa, metteu se por uma travessa contigua ao edificio e foi encontrar-se com um outro individuo que parecia aguardal-o e com o qual trocou algumas palavras. Depois voltou para junto d'aquelle com quem estivera conversando e murmurou: 

-- Vamos, senhor intendente... Dentro em alguns minutos Sua Alteza terá descido!... 

-- Acreditaes que o estratagema tenha effeito, Lopes Cardoso? 

-- Tenho a certeza... Pois se é fr. José Maria de Mello que o aguarda... Meu Deus... E Sua Alteza não é uma aguia! 

O intendente sorriu ao ouvir as palavras do chefe da policia e por fim exclamou: 

-- E agora vamos buscar o conde de Assumar! 

Chegavam em frente do portão das guardas do paço real, quando proferiam aquellas palavras, e como resposta ouviam uma voz exclamar: 

-- Não é necessario... Ha muito que vos aguardava com impaciencia, senhor intendente! 

-- N'esse caso partamos... Temos ali os nossos homens com uma sege! 

-- Mas não me explicaes o que quer dizer tudo isto? interrogou o conde com grande curiosidade. 

-- Por Deus! Já vos disse que se trata da vida de Sua Alteza! 

-- Mas isso não explica a razão porque depois de ter chegado d'uma viagem a Hespanha e quando tenho que communicar a Sua Alteza, me detenhaes com tanto mysterio! Se alguem ameaça Sua Alteza eu o defenderei! 

-- Por Deus, meu caro D. Pedro, porque buscaes desvendar os mysterios da policia tão impenetraveis como os de Deus? volveu o intendente arrastando-o para a sege. 

-- Não... Busco apenas saber qual é o meu papel em tudo isto! 

-- Dae tempo ao tempo que tudo sabereis... Por agora, o vosso papel, é o d'um discreto fidalgo que no interesse do seu principe e mais ainda no de sua patria, concorda com o intendente da policia! 

-- Seja, senhor Pina Manique, porém o que eu tenho a dizer a Sua Alteza... 

-- É urgente? 

-- Muito? 

-- Trata-se dos jesuitas não é assim. 

-- Assim é! 

-- E isso faria com que Sua Alteza partisse para Ajuda, não é assim tambem? 

-- Talvez! Julgo até que Sua Alteza deve ter recebido um correio que lhe enviei... 

-- Sim... E foi após a chegada do estafeta que Sua Alteza deliberou partir logo que v. ex.ª chegasse! 

-- Bem... 

-- Disse-o á mesa do almoço á vista da côrte, sollicitou além a licença de Sua Magestade que lhe foi concedida, deu as suas instrucções ao seu camarista. 

-- Quereis dizer preparou tudo? 

-- Teve essa imprudencia... 

-- Como? Imprudencia? 

-- Sim e para demais com a antecedencia d'um dia e duma noite... 

-- Mas o que tem isso? interrogou o conde estupefacto. 

O intendente esboçou um sorriso, tocou no braço de Lopes Cardoso e disse-lhe: 

-- Vê se ha por ahi alguem! 

O chefe da policia affastou-se a investigar nas trevas para os lados do paço real onde se avistava o vulto da sege com o bolieiro e dois moços, e ao mesmo tempo Pina Manique dizia a Assumar em voz muito baixa: 

-- Supponha v. ex.ª que depois da noticia da partida dada pelo proprio principe, alguem que conhece os habitos modestos de Sua Alteza, foi dizer aos inimigos de D. José, o seguinte: 

-- Ámanhã ás dez da noite, Sua Alteza, partirá n'um pequeno carrinho, acompanhado apenas por um creado e por um fidalgo, que seria v. ex.ª... 

-- Bem e depois? 

-- Supponha que esses inimigos se reuniam em grande numero e atacavam o principe! 

-- É possivel? 

-- É por isso que V. ex.ª chegou ás onze em vez de chegar ás dez, comprehendeis? 

-- Mas, como sabe... Oh! É maravilhosa a sua policia... 

-- Um pouco habil não o nego... tornou com modestia, o intendente, sorrindo e dirigindo-se para a sege, arrastando o conde e dizendo-lhe ainda: 

-- Comprehendeis que os inimigos de Sua Alteza... 

-- São os jesuitas! 

-- Reunidos hontem em casa de Pacifico Mosés, o banqueiro da Companhia, d'onde o meu chefe de policia os viu sahir disfarçados... 

-- E apesar de tudo, reconheceu-os? 

-- Seguiu alguem que bem conhece e foi assim que descobriu os outros! 

-- Admiravel o vosso agente! 

-- V. ex.ª conhece-o! 

-- Eu?

-- Sim... É aquelle corregedor que lhe quiseram dar por cumplice no celebre rapto da monja... 

-- Bem sei... E que á nossa custa descobriu uma conspiração! 

-- Que lhe ia custando a vida! volveu o intendente, subindo para o vehiculo. 

Durante este tempo, o espectaculo ia continuando no theatro e o frade e D. Ramiro, olhavam a miudo para o camarote real onde o principe D, José consultava com impaciencia o relogio, 

D. Ramiro sentiu que lhe tocavam levemente no hombro e voltando-se viu Jacob Mestral e Silva Menezes fardados de tenentes de cavallaria, ao passo que D. Balthazar d'Athouguia envergava o seu novo uniforme de alferes, patente que lhe fôra concedida por intermedio do principe D. João, que formava agora o seu regimento. 

-- É a hora! murmurou entre dentes, Jacob Mestral. 

-- Espera... Elle não se levanta! 

E olharam todos para o camarote do principe que continuava a ver o relogio, cada vez mais admirado pela demora do conde. 

Mas de repente, viram erguer-se o principe D. João e caminhar para a porta do camarote. 

O frade interrogou no mesmo tom baixo, o fidalgo: 

-- D. João sabe alguma cousa? 

-- Não... 

-- Mas não vê que se levanta! 

-- Trata-se de qualquer cousa de pouca monta!... 

O marido de Carlota Joaquina chegava no entretanto ao corredor e dizia para o official que lhe fallava: 

-- Onde está esse frade? 

-- Ali no corredor, alteza real! volveu o outro inclinando-se. 

D. João avançou para um vulto que via ao fim do corredor e acercando-se perguntou: 

-- Sois vós que vindes da parte de fr. José Maria de Mello? 

-- Sim, meu senhor... retorquiu o outro em tom humilde, curvando-se. 

-- Que desejaes? 

-- Ah! Alteza Real... Que desgraça! Que grande desgraça lamuriou o frade, olhando o principe que bradava: 

-- De que se trata? Fallae! ordenou elle rapidamente. 

-- Ah! É que o reverendo, o santo fr. José Maria de Mello, tinha uma importante communicação a fazer a Vossa Alteza, acerca dos frades de Mafra... 

-- Dos frades de Mafra? perguntou o principe com grande pressa! 

-- Sim alteza, e ainda outras cousas que não me quiz dizer, pedindo-me apenas... e o bom do frade detinha-se com grande commoção. 

-- Mas o que? Que succedeu ao reverendo? 

-- Oh! Alteza... Fr. José Maria de Mello está muito doente, teve que ficar na hospedaria de Salvaterra... Lá junto do caes... 

-- Doente?! interrogou elle no auge do espanto. 

-- Sim, alteza... Sentiu-se de repente incommodado e eu que o acompanhava vim de sua parte prevenir Vossa Alteza e sollicitar a vossa presença pois que tem alguma cousa a communicar-vos! 

-- Agora? 

-- Sim alteza... Porque ha viver e morrer! 

O principe fez se pallido e bradou: 

-- E quereis que eu vá a esta hora? 

-- Transmito-vos apenas as palavras do reverendo... Disse-me elle, deveras commovido, aquelle santo: 

«-- Vae dizer a Sua Alteza que sollicito a sua presença... É tão grave o que tenho a communicar-lhe...» 

D. João, tornou-se ainda mais pallido e exclamou: 

-- Porém preciso fazer me acompanhar por alguem! 

-- Como vossa alteza desejar!... 

N'este momento passeava no corredor o effeminado conde de Villa Nova <marca num="*" pag=495> e D. João, gritou-lhe: 



<nota num="*" pag=495> O devoto ministro. </nota>



-- Conde! 

-- Meu senhor... 

-- Acompanhe-me! 

-- Onde vae vossa alteza a esta hora? 

-- Trata-se d'uma communicaçao de fr. José Maria de Mello que está muito doente na hospedaria da villa! 

-- Ah! Vamos, real senhor... Mas deixae-me prevenir-a cavallaria... 

-- Está louco! Amanhã todos saberiam da nossa visita ao reverendo... 

-- Tendes razão... murmurou resolvendo-se emfim a acompanhar o principe que semettia pelo corredor e chegava á rua, onde o frade já se encontrava ao lado do carro do principe D. José. 

D. João embrulhava-se na capa bem como o ministro e ao vêr aquelle caminho que servia a seu irmão, exclamou: 

-- Porque iremos por aqui? 

-- Alteza não ha tempo a perder e a vossa sege é pesada em demasia; volveu o frade. 

-- Tendes razão... Sahi! e ordenava ao frade que o acompanhasse. 

-- É que alteza, eu vou chamar o physico para o reverendo... 

-- Bem. . Bem... murmurou o principe collocando-se no carro e gritando ao bolieiro: 

-- A Salvaterra! Pára antes da estalagem... 

-- Galga depressa a estrada! aconselhou o principe receando. 

Na platéa, os fidalgos admiravam-se da demora de D. João e estavam sobre brazas ao verem o tempo decorrer e o principe do Brazil continuava a consultar o seu relogio. 

No entretanto o frade, despiu rapidamente o seu habito, soltára uma gargalhada e atirou a veste para um montão d'hervas que ficava a pequena distancia, apparecendo vestido no trajo negro dos homens de policia e penetrando no theatro onde trocou alguns signaes com dois individuos vestidos de officiaes do regimento do Porto e que estavam por detraz de D. Ramiro. 

O vehiculo que conduzia D. João, passava junto da sege do intendente da policia para o qual o conde de Assumar, exclamava: 

-- Oh! Mas sua alteza partiu apesar de tudo... Conheço o seu carro... Oh! Vamos, meu caro intendente! 

-- Assim é com effeito, tornou Pina Manipue muito tranquillamente. 

-- Mas, meu Deus, que vae suceder ao principe D. José? 

-- Ah! É de D. José que falaes? 

-- Pois então de quem? Não é d'elle que se trata, não é a elle que buscam assassinar... 

-- Porem quem partiu foi D. João e peço-vos que entreis agora no camarote real e deis conta da vossa missão a sua alteza o principe do Brazil... São onze horas... 

-- E vós? 

-- Eu vou assistir a uma grande scena! bradou o intendente, fazendo com que Assumar se apeasse e exclamando para o chefe da policia: 

-- Os nossos homens? 

-- Devem sahir n'este momento do cães... Não apparecerão se assim o desejardes!

-- Salvo se carecer d'elles. 

-- Para isso, basta um signal! 

-- Partamos! bradou o intendente fazendo um signal ao chefe da policia que tomou logar a seu lado. 

Entretanto Assumar entrava no theatro e mostrava-se bem. D. José via o e sahia rapidamente do camarote correndo ao seu encontro na ante-sala. 

D. Ramiro de Noronha, os seus amigos e o frade, ergueram-se dirigiram-se rapidamente para a porta e exclamaram: 

-- É o momento! 

-- Montemos a cavallo, tomemos pelo atalho e em um quarto d'hora estamos junto de Joannico a tempo d'assistirmos á scena... 

-- Têm as mascaras? interrogou o frade, cheio de precauções. 

-- Sim! volveram elles, 

-- Então, a caminho! 

Sahiram um a um, foram buscar os cavallos que estavam da parte detraz do theatro e partiram a toda a brida sem que a sua 

ausência fosse notada pois n'aquella momento terminava o espectaculo com um bailado e a côrte sahia rapidamente. 

Continuava a chover com força, e D. José, conversava com Assumar a quem dava o braço, murmurando: 

-- Então conde, o embaixador sempre tinha razão em desconfiar do padre Gallari, não é assim? 

-- Sim, alteza... Assim vos participei pelo meu correio! 

-- E está ainda em Lisboa, não é verdade? 

-- Sim alteza? 

-- É um jesuita? 

-- É o geral da ordem! 

-- O geral! bradou assombrado o herdeiro do throno, exclamando: 

-- Partamos! Vamos para Lisboa, conde! É necessario que esse homem nos caia nas mãos... 

-- Isso, alteza real, compete ao intendente da policia! 

-- Mas por isso mesmo preveniremos Pina Manique que o fará vigiar e por esta fórma poderemos descobrir muita cousa!

-- Pina Manique, está prevenido! 

-- E por quem? 

-- Por mim... 

-- Fostes a Lisboa... Oh! a vossa demora!

-- Tem outros motivos! Pina Manique está em Salvaterra! 

-- Oh! Vamos ter com elle e partamos todos para Lisboa! Já tenho a licença de minha augusta mãe para me ausentar... 

-- Bem sei, alteza, tendes essa licença ha dois dias... 

-- Sabeis? 

-- Sim, vossa alteza teve a imprudencia de o participar na côrte... 

-- Imprudencia? 

-- Sim, porque tendes inimigos os quaes tentariam hoje contra a vossa vida se eu em vez de chagar a esta hora tivesse vindo mais cedo! 

-- Oh! Mas onde estão elles! bradou o principe no auge da colera. 

-- Devem ter encontrado a esta hora sua alteza real, vosso irmão! 

-- Meu irmão?!

-- Sim que partiu ha minutos! 

-- Mas como conseguiram isso... 

-- Pina Manique o sabe, por sua alteza vae elle fazer descobertas... Ardis de policia, meu senhor, ardis de policia! 

E D. José ficava como petrificado encostado ao braço d'Assumar emquanto a côrte sahia do real theatro de Salvaterra. 





XII 



A aventura d'um principe 



D'um renque d'arvores que bordavam o caminho pedregoso que conduzia ao fim da villa acabavam de sahir dois homens envoltos em largas capas a abrigarem-se da chuva, escondiam sob ellas os bacamartes pesados e lançavam olhares investigadores para todos os lados, distinguindo as poças d'agua

formadas nos barrancos e perante os quaes um d'elles exclamava: 

-- Hum... Não é com este tempo que elles se aventuram... 

-- Raios do diabo! Essa agora... Naturalmente o que elle tem a fazer em Lisboa não é cousa de grande monta e é capaz de partir pela madrugada! 

-- Não o duvido, volveu o outro. E depois não temos tão depressa outra occasião, Joannico! 

-- Tens razão, Sempronio... Estes Braganças são protegidos pelo inferno! 

-- Ou pelo céu, pois que a chuva vem do alto... exclamou o bandido com um ar extranho. 

Mas a subitas ouviu-se um assobio muito distante, depois outro mais proximo, até que a alguns passos o signal se repetiu o que fez o chefe, bradar: 

-- Oh! Os nossos homens avisam-nos... 

-- Então é que o principe não quer faltar á entrevista... 

-- Parece que sim... 

-- Eh! Não ouves? interrogou o Joannico com certo espanto. 

-- Parece que vêm d'este lado... redarguiu o outro apontando para o atalho que serpenteava da parte de cima da estrada. 

-- Mas vem a cavallo! exclamou o antigo servo d'Assumar. 

-- Sim e são pelo menos quatro ou cinco cavalleiros! 

-- Descobrir-nos-hiam? interrogou de novo com grande colera. 

-- Quem sabe? 

-- Mas se assim é... 

-- E contando apenas com seis homens serem os batidos! 

-- Ah! E quem sabe se esse maldito frade não nos quiz fazer cahir n'um laço! gritou o bandido como se tivesse feito uma importante descoberta ao mesmo tempo que do atalho despontavam quatro cavalleiros que se acercavam, emquanto o Joannico, interrogava!

-- Quem vem lá? 

-- Amigos! respondeu uma voz que o tranquillisou. 

-- Bem vindo seja, padre Theodoro! exclamou elle ao reconhecer o outro. 

E depois voltando-se para os quatro homens em cujos rostos havia mascaras, tornou: 

-- Boa noute, senhoras... Parece que o vosso principe já vae tardando! 

-- Deve aqui chegar dentro em dez minutos, exclamou D, Ramiro de Noronha com segurança. 

-- Partiu depois de nós e o caminho d'elle é mais longo! ajudou D. Balthazar d'Athouguia, emquanto Jacob Mestral e Silva Menezes, diziam: 

-- Sim... Nós viemos pelo atalho! 

-- Ouçam! bradou o padre, pareceu-me ter escutado um silvo! 

Applicaram o ouvido e distinctamente se escutou um novo signal ao mesmo tempo que o ruido dum vehiculo rodando na estrada os poz de sobreaviso. 

-- Oh! Sempronio, a corda está bem esticada? interrogou elle a meia voz. 

-- Ora... O trabalhinho foi feito por mim... volveu o bandido com certo orgulho. 

-- Avisa os nossos homens! ordenou o chefe tremulo de raiva, tirando o seu bacamarte de sob a capa encharcada. 

Continuava a chover com força, dos lados do bosque ouvia-se o ruido da voz de Sempronio prevenindo os companheiros; os fidalgos e o frade mettiam se sob as arvores e ficavam além, murmurando: 

-- Até que emfim! 

-- D'esta vez não tornará a desconfiar de mim! disse D. Ramiro com alegria. 

-- E não protegerá os nossos inimigos, tornaram os outros, ao passo que o frade accrescentava: 

-- Não porá entraves á marcha da companhia! 

-- Que entrará triumphante em Portugal, garantindo-nos a religião... 

O bandido não os escutava, ficava d'atalaya, os olhos luzentes, tremulo apertando raivosamente a arma e vendo a seu lado Sempronio. 

Pouco a pouco era mais distincto, o ruido do vehiculo, nas trevas avolumava-se uma forma e dentro em alguns instantes viram o carro que se approximava. 

Todos os corações batiam d'anciedade, aguardando o resultado d'aquella conspiração que ia servir abertamente os seus interesses. 

Mas o carro acabava de parar a súbitas, os dois cavallos recuavam com o instincto dos animaes e ouvia-se o sota, gritar: 

-- Para a frente, malditos! 

Incitava-os com o chicote, espancava-os desesperado e os animaes n'um arranco iam avançar, quando o Joannico já impaciente fez um movimento para se lançar sobre elles que chegavam á corda estendida e amarrada fortemente nas arvores da estrada. 

Os animaes dobravam as pernas e o carro empinava-se, emquanto de dentro, se ouvia a voz do ministro perguntar: 

-- Que é isso, José Carlos? 

-- Ah! Excellencia é... 

Porém não teve tempo de concluir a phrase seis homens rodearam o carro, ao mesmo tempo que os fidalgos se chegaram á borda da estrada para assistirem á scena, tomados do mais intenso jubilo. 

A voz do Joannico, terrivel, furiosa, soou bradando: 

-- Ah! Estás em meu poder!

-- Oh! Mas enganai-vos sem duvida, senhor... titubeou o bolieiro. Aqui vae sua sua alteza! 

-- É exactamente a sua alteza que quero fallar! gritou o bandido apertando a arma e dirigindo-se para o vehicalo, cujas cortinas affastou ordenando: 

-- Desçam! 

-- Mas senhor... senhor... disse uma vozita tremula de susto ao escutar as palavras do bandido. 

-- Nada de demoras! bradou este em voz forte. 

-- Senhor... Sou o sub-secretario d'estado!... volveu o ministro cada vez mais cheio de terror. 

-- Que importa, senhor de Villa Nova de Cerveira, descei! 

-- Villa Nova! murmuraram admirados, os fidalgos. 

-- Elle com o principe D. José! Mas é impossivel! 

-- São até inimigos! 

O conde descia a custo do carro e pondo uma supplica ardente nas suas palavras, exclamou: 

-- Mas senhores, vem aqui sua alteza! 

-- Que desça! ordenou apenas o Joannico por unica resposta. D. João, apeou então o seu volumoso corpo e ficou de pé na estrada, envolto na capa e sem pronunciar palavra. 

-- Sigam nos! bradou o bandido, e para os seus homens, ordenou: 

-- Vigiem o bolieiro ... Se gritar enforquem n'o! 

-- Mas que quereis de nós? interrogou da sua maneira medrosa, o senhor de Villa Nova. 

-- Sim, que desejaes! perguntou então pela primeira vez o principe n'um tom raivoso, continuando: 

-- Ignoraes acaso quem tendes na vossa presença? Oh! Mas pagal-o-heis muito caro... Juro-vol-o! ameaçou elle, cada vez mais rancoroso; emquanto Villa Nova dizia: 

-- Meu senhor... meu senhor... 

D. Ramiro de Noronha, soltou então um grito e exclamou: 

-- Mas não é D. José! 

-- O que? perguntaram os outros com grande furia. 

-- Sim... Não é D. José, é o principe D. João! 

-- D. João! Oh! E vae matal-o? exclamou Jacob Mestral em voz de trovão. 

-- É preciso impedir semelhante cousa! 

-- Seria o contrario do que desejamos! 

-- Têm razão!

O bandido agarrava então com grande furia o braço do principe e exclamava: 

-- D. José de Bragança, vaes morrer! 

-- D. José?! bradou assombrado o ministro com alguma esperança. 

-- Sim. 

-- Mas tendes na vossa frente o principe D. João. 

-- D. João! O noivo, o marido de Carlota Joaquina? exclamou o bandido! 

-- Sim, sua alteza! 

-- Melhor... A dor será mais profunda n'essa familia! murmurou elle tomado de raiva e buscando arrastal-o para o interior do bosque. 

Porem o padre Theodoro, collocava-se em frente do bandido e dizia-lhe: 

-- É impossivel, esse homem não é D. José. 

-- É um Bragança! volveu o bandido por unica resposta, gritando a Sempronio: 

-- Amarra ahí o senhor subsecretario d'estado! Eu me encarrego de sua alteza! 

-- Por Deus! Tal não pode succeder... gritou Jacob Mestral avançando para o Joannico que não o reconheceu pela voz e não lhe podia distinguir o rosto coberto com a mascara. 

-- E porque, senhor? exclamou o bandido. 

-- Porque a vida de sua alteza é preciosa! 

-- Para vós e não para mim! Ah! Comprehendo-vos, quizeram fazer de mim um instrumento para as vossas vinganças! Mas enganam-se, embora os tenha de fuzilar tambem! 

-- É o que vamos vêr! gritou Mestral tirando uma pistola do cinto. 

-- A mim, rapazes! exclamou o Joannico chamando os seus homens que se approximavam apontando os trabucos e deixando livre o bolieiro que se encolhia muito no vehiculo. 

-- Luz! ... Luz! Além! bradou Sempronio apontando um tenue clarão que vira brilhar por entre as arvores. 

Jacob Mestral recuou assustado assim como os fidalgos e o frade, e o principe D. João, murmurou para o ministro: 

-- Não é a voz de Jacob Mestral! 

-- Sim, meu senhor... Ah! E D. Ramiro de Noronha! volveu elle ao escutar o fidalgo que dizia: 

-- Vejamos Joannico, harmonisemos tudo. 

-- Pergunte ao padre Theodoro se eu posso transigir, com mil raios... Eu não estou aqui para servir interesses, estou para me vingar! José Maria de Mello não alugou o meu braço, fallou á minha colera! 

-- José Maria de Mello! Ah! murmurou o principe. Agora comprehendo! 

-- Mas o que, meu senhor! 

-- Isto era uma cilada em que queriam fazer cahir meu irmão! 

-- Mas em que nós cahimos! 

-- Cousas do acaso... Mas deixae que elles nos defenderão! Porém Joannico, apontava a sua arma a Mestral e exclamava: 

-- Se tentas alguma cousa, morres! 

-- Ah! patife, amante da cigana, agora vaes saber quem sou! gritou elle recordando-se muito do succedido em Belem e sentindo ainda uma grande colera ao recordar-se da Chiquita! 

-- O fidalgo do Neutral! bradou o bandido com alegria. Oh! D'esta vez a vingança será completa... Rapazes cerquem este homem. 

-- Joannico! Joannico! supplicou o frade acercando-se do bandido que sorria extranhamente. 

D. Balthazar d'Athouguia, recuava, emquanto Silva Menezes, bradava: 

-- É impossivel semelhante cousa! Aqui ha um mal entendido! 

-- Silva Menezes! murmurou-lhe ao ouvido, D. Ramiro de Noronha, se nos reconhece estamos perdidos... Foi uma imprudencia virmos aqui! 

-- Senão viessemos. Já sua alteza estaria morto! A verdade é que ignoravamos o nome do bandido! 

Os homens de Joannico tinham cercado Jacob Mestral e Balthazar d'Athouguia chegava-se a D. João, dizendo-lhe: 

-- Alteza, fujamos! 

O principe agora estava livido de susto, as pernas vergavam-lhe, sentia-se tomado do maior terror e em vo2 tremula, dizia: 

-- Impossivel... impossivel!... 

-- Vinde, meu senhor! 

-- Oh! seria morto!... 

Começara a revelar-se a pusillanamidade do principe que tão extranho papel havia de occupar no futuro, e foi necessario que D. Balthazar o agarrasse com força e n'um impeto o levasse em direcção á sege gritando ao bolieiro: 

-- Depressa! A cavallo e parte! 

Saltaram lestamente para o carro, emquanto os bandidos cercaram os fidalgos á voz de Joannico que berrava: 

-- Hei-de descobrir os vossos fins! 

Agora porém, ao ouvir o carro que começava a rodar, o chefe, apontando a arma, gritou: 

-- Façam alto! Ah! Miseraveis por vossa causa foge-me a presa! 

E descarregava o bacamarte cujas balas tocaram o tecto do carro que partia a toda brida. 

D. João ia como desmaiado, sentia-se victima d'um enorme pesadello, e murmurava: 

-- Oh! quem era aquelle homem... 

-- O Joannico, meu senhor, volveu o outro. 

-- O bandido! Oh! pobre conde, vae morrer com certeza! 

Porém do lado da estrada ouvia-se o trote d'alguns cavallos a toda brida e via-se uma sege que corria rodeada pelos soldados. 

Ouviu-se uma voz bradar: 

-- Façam alto! 

-- Vae aqui Sua Alteza! gritou o bolieiro. 

-- O que? Sua Alteza? exclamou uma voz d'homcm, emquanto um vulto se apeava da sege e vinha entreabrir as cortinas do vehiculo onde D. João asphixiava. 

Ao clarão das lanternas da outra sege, o principe reconheceu-o e na sua voz tremula, murmurou: 

-- O senhor intendente! 

-- Eu sim, meu senhor, que retiro para Lisboa... Mas, vossa alteza a esta hora na estrada? exclamou elle, olhando D. Balthazar d'Athouguia que como os companheiros linha tirado a mascara ao começar a confissão. 

-- Ah! senhor intendente acaba de succeder-me uma enorme desgraça! 

-- A vós, meu senhor? 

-- Sim... Oh! Mande que a sua cavallaria parta e agarre no bosque proximo um terrivel bandido que tentou contra mim! 

-- Que dizeis, Alteza? exclamou Pina Manique, fingindo um admiravel pasmo. 

-- Sim, senhor intendente, nem nas visinhanças do paço real podemos estar tranquillos! 

-- Mas, intendente... avançou D. Balthazar. 

-- Não vos reconheceram! Quem imaginaria que vossa alteza sahia do paço a estas horas sabendo-se demais as ordens de Sua Magestade em relação aos principes... 

O principe ia retorquir, porém o fidalgo, tocava-lhe no braço e volvia: 

-- Meu senhor... não digaes cousa alguma, descobrir-se-ia a conspiração contra vosso irmão! 

Elle, estremeceu e de seguida com o seu ar medroso, volveu: 

-- Sim talvez que não me reconhecessem... Oh! Mas enviae os vossos soldados, porque estão em poder d'esses bandidos alguns fidalgos que me acompanhavam... 

-- E não defenderam vossa alteza? tornou elle no mesmo modo de fingido pasmo. 

-- Cedemos ao numero, excellencia, e tivemos apenas tempo de salvar Sua Alteza! redarguiu D. Balthazar, cortando a palavra ao principe, temendo cada vez mais que tudo fosse descoberto. 

-- Ah! E quem são esses fidalgos que assim se sacrificam? perguntou elle naturalmente, fingindo grande respeito. 

D. João cahiu no laço que o astuto intendente lhe armava e apesar do fidalgo, lhe tocar de novo no braço, exclamou: 

-- D. Ramiro Noronha, Jacob Mestral e Silva Menezes! 

-- Com D. Balthazar d'Athouguia! 

-- E o padre Theodoro! accrescentou sua alteza. 

D. Balthazar, fez-se pallido mas tranquillisou-se de seguida ao ouvir o intendente, bradar: 

-- Por Deus! São nomes que nunca esquecerão! Rodeados, sem duvida, por uma verdadeira quadrilha, deixam-se ficar e salvam a preciosa vida de Vossa Alteza! 

-- Sim... Como heroes! assentiu o principe, julgando que assim enganava o intendente e bradando á pressa: 

-- Mas faça avançar os seus soldados! Salve-os! 

-- Alteza já partiram! tornou Pina Manique d'um modo tranquillisador, apontando apenas dois homens que tinham ficado, emquanto os outros iam peia estrada com o chefe de policia, montado n'um dos cavallos. 

A scena fora habilmente preparada por Manique que dera as suas instrucções a Lopes Cardoso, e que queria ainda levar a comedia até ao fim, perguntando a Sua Alteza: 

-- Mas o que vos fizera sahir do theatro? 

D. João, apertado com perguntas, teria dito toda a verdade, mas D. Balthazar, mettia-se de premeio e em significativo tom, dizia: 

-- Trata se d'um negocio privado de Sua Alteza. 

-- Sim... sim... Um negocio privado! assentiu o principe. 

-- Bem, meu senhor, folgo muito que Vossa Alteza tivesse escapado á furia d'esses salteadores que juro-vos, terão o devido correctivo... 

-- Sim, intendente, assim o espero! 

-- Como saberei, dizer a Sua Magestade... 

-- Mas o que? interrogou D. Balthazar muito assustado. 

-- O valor dos vossos companheiros! 

-- Prohibo-vos, senhor intendente! gritou o principe no auge do terror. 

-- Não quereis então que sejam recompensados? 

-- Eu saberei como proceder! Não quero que esta aventura conste na côrte, afim de evitar complicações com minha augusta mãe... 

-- E com vossa augusta esposa, não é assim, meu senhor? interrogou d'um modo reservado o intendente, fingindo crer que o devoto principe, voltava d'uma aventura amorosa. 

-- Decerto... decerto... titubeou elle. 

-- Bem... Saberei guardar o mais rigoroso segredo! 

-- Que ninguem saiba que sahi esta noute! 

-- Guardarei segredo, meu senhor! Juro-vol-o! ... repetiu o intendente, beijando a mão de Sua Alteza. 

N'este momento ouviuse o tropel da cavallaria, e Pina Manique com grande jubilo, gritou: 

-- Ah! Eis que voltam... Está tudo terminado! Que terá succedido? 

-- Sim que terá succedido? exclamaram ao mesmo tempo, D. Balthazar e Sua Alteza. 

-- Succedeu, meu senhor, que os bandidos fugiram á approximação da cavallaria, montando os cavallos destes fidalgos que encontrei em seu poder e um dos quaes está perigosamente ferido por uma bala de pistola! 

-- Quem é? interrogou D. João com grande interesse. 

-- E Jacob Mestral, meu senhor, é o meu amigo! bradou D. Ramiro com a mais intensa raiva, e ao reconhecer, o intendente da policia, bradou: 

-- Senhor intendente, carecemos de apanhar esse infame salteador! 

-- O seu nome? interrogou Pina Manique. 

Dos labios do fidalgo ia sahir esse nome mas o padre Theodoro, exclamava: 

-- Ignoramol-o, meu senhor! 

-- Bem... Far-se-hão batidas nos arredores! exclamou elle, dando uma ordem em voz baixa ao chefe da policia e beijando a mão ao principe, disse: 

-- Deixo-vos junto da escolta, meu senhor... 

-- Não... não é necessario! Levae-a e aproveitae-a para perseguir esse maldito... Bem sabeis que desejo entrar no paço sem ruido... 

-- Tendes razão!... assentiu o intendente. 

-- Mas onde ficou Jacob Mestral? É necessário soccorrel-o! tornou Sua Alteza com cuidado. 

-- Mandei-o conduzir por dois soldados que formaram uma maca com alguns ramos d'arvore... 

-- E para onde? 

-- Para a hospedaria da villa! 

-- Mas... 

-- Era o logar mais proximo, meu senhor!

-- Bem... boa noute! gritou D. João, accrescentando para os fidalgos:

-- Partam em separado para não despertar suspeitas... Assim é forçoso... 

-- Meu senhor... supplicou n'este momento uma voz, sabida d'uma grande capa onde se envolvia um homem que tremia de medo e que até então não pronunciara palavra, relanceando olhares receiosos para o intendente. 

D. João ouviu aquella voz e depois, como se recordasse de repente do seu possuidor, bradou: 

-- Ah! sois vós!... 

-- Vossa Alteza já se esqueceu de mim! 

-- Oh! Conde suba v. ex.ª para o meu carro, que D. Balthazar cede-lhe o logar e acompanhará os seus amigos!

-- Obrigado, meu senhor, muito obrigado... Eu estou completamente molhado pela chuva e quasi não posso caminhar! 

-- O senhor ministro aqui! gritou Pina Manique, como se apenas n'aquelle momento o tivesse reconhecido. 

-- Eu sim, senhor intendente, volveu elle a quem o chefe da policia ajudava a subir para o carro, mas peço-vos segredo d'esta aventura... 

-- Tranquillisae-vos, excellencia, a policia é sempre discreta! 

-- Oh! Agradeço-vol-o!... Por mim e por Sua Alteza! 

-- Deus vos dê boas noutes! exclamou o intendente saltando para a sege e dizendo ainda: 

-- Mas não sabeis quanto lastimo semelhante desastre! 

N'aquellas palavras ditas n'um tom natural havia a mais pungente ironia que os outros não comprehenderam.

E a sege partiu escoltada pelos cavalleiros, emquanto o carro 

de D. João partia tambem e o principe passando nos dedos as con- 

tas do rosário, m.urmurava uma oração á Senhora do Gabo, seguindo 

depois todas as outras santas da sua devoção. O ministro resava 

tambem, e na estrada, os fidalgos, exclamavam: 

-- Oh! Ainda não inutilisamos esse maldito D. José!... 

-- Sim e em compensação o pobre Jacob... 

-- Ia pagando com a vida a ousadia! 

-- O Joannico reconheceu-o! 

-- Como a todos nós! E no momento de descarregar o tiro, ainda exclamou: 

-- Por gloria do meu antigo amo e do senhor Gomes Freire! 

-- Miseraveis! 

-- Agora é que vae ser guerra de morte!... 

-- Sem treguas! Sem descanço! E a aventura ficará em segredo! 

-- Ninguem a divulgará! 

-- Nem mesmo o intendente. 

-- Esse obedecerá a D. João, que segunio me parece não lastimaria muito o irmão dado o caso que a nossa aventura tivesse exito! 

Embrulhados nas capas dirigiam-se para o paço real, conspirando sempre, e a sege do intendente rolava para a villa. 

Elle, voltava-se para o seu chefe da policia, soltava uma risada e exclamava: 

-- E então? 

-- Admiravel, excellencia! 

-- Deixaste partir o bandido, não é assim? 

-- Dei-lhe tempo a que fugisse, cumprindo as vossas ordens, para que finjamos o segredo mais completo sobre a aventura. Se Joannico cahisse em nosso poder, teriamos que revelar a aventura o que indisporia Sua Alteza! volveu o agente no seu tom ironico. 

-- Muito bem... Não faltarão occasiões de lhe lançar a mão! 

-- Certamente... E para demais é preciso cautella não vá tentar alguma cousa contra D. José! 

-- Mas o que não se explica e como se voltou contra os fidalgos! 

-- Saberei tudo! 

-- Realmente o caso está um bocado confuso, mas confio em ti!... 

-- São favores de v. ex.ª! 

-- Ah! Preparaste tudo no paço? 

-- Sim, excellencia, encarreguei d'isso o Vicente Sameiro! 

-- Bem... Nesse caso tudo corre ás mil maravilhas! 

-- E está salva a vida do herdeiro do throno! 

-- E a honra da policia! 

-- Vejamos agora se em Lisboa encontraremos tambem o que desejamos! 

-- O geral da ordem!... 

-- Exacto... 

-- Substituaremos, Sua Alteza na vingança! 

E o intendente e o seu auxiliar recostaram-se nas almofadas e entraram a toda a brida no largo onde existia a hospedaria, olharam a casa, viram luz n'uma das janellas e Lopes Cardoso, murmurou: 

-- Lá está o Mestral a pagar a sua cumplicidade na conspiração... 

-- D'aquelle estamos livres por alguns dias! 

N'aquelle instante apearam-se e perderam-se na viella que existia por detraz da hospedaria. 

O principe D. João, apeava se á mesma hora a alguma distancia ao palacio e dizia para o ministro: 

-- Entremos com cautella! 

-- Esperae meu senhor, vão além uns vultos! volveu o conde de Villa Nova receiando. 

-- Ah! Devem ser os fidalgos! tornou o principe começando a caminhar novamente. 

Deu o braço ao ministro arrastando-o me seguida para a entrada do palacio. 

Porém n'este momento, como por encanto, de todas as esquinas sahiam uns vultos embrulhados em longas capas, e ouviu-se um grande ruido de vozes. 

-- Que mais teremos? interrogou Sua Alteza. 

-- Querem ver que os bandidos se atreveram... 

-- Estaes louco! Mas o que será? 

Como resposta, uma musica ruidosa se ouviu. Soaram violas, oboés e guitarras, formava-se um grupo em frente do palacio e começava uma serenada sob as cordas d'agua que cahía, com furia. 

-- Oh! Os malditos I murmurou o ministro. São os fidalgos que vem saudar as açafatas! 

-- A esta hora e com este tempo! 

-- Oh! Por Santa Maria de Belem! exclamou o conde, n'um gesto desesperado ao vêr que as janellas do paço se abriam e por cima escutavam os tocadores. 

O principe ia correr para o grupo, ordenar-lhe silencio, mas como por encanto accendia-se grande numero de archotes e a praça ficava completamente illuminada, emquanto um viva retumbante, soava: 

-- Vivam os reaes noivos! Vivam Suas Altezas! 

-- Ah! Estou perdido! bradou D. João, ao vêr na janella do paço a princeza D. Carlota Joaquina que ao lado de D. Maria Benedicta e do principe do Brazil agradeciam aos manifestantes. 

-- Fujamos, meu senhor! supplicou o ministro. 

-- Sim... sim... fujamos, conde! bradou D. João como louco. 

Mas fôra reconhecido por um homem vestido como a gente do povo e que acercando-se com o seu archote, illuminando bem o principe, exclamava, tirando respeitosamente o seu chapéu: 

-- Viva Sua Alteza real! 

Correram todos para ali formaram um semi-circulo e o personagem buscava embuçar-se na capa porém fôra reconhecido no paço, porque o principe do Brazil, dizia a Carlota Joaquina: 

-- Mas, Alteza não é vosso esposo que além está? 

-- O principe! exclamou a hespanhola no auge do espanto. 

-- Sim... É D. João! volveu D. Maria Benedicta ao ver que a princeza o olhava com certa curiosidade, dizendo: 

-- Mas porque sahiria do paço! 

Desenhava-se-lhe já no espirito uma suspeita e via D. João pallido de raiva avançar para a porta por entre as saudações dos vassallos que gritavam sempre ao som da musica: 

-- Viva Sua Alteza! Vivam os reaes noivos! 

EUe corrido, vexado, ao lado do ministro penetrava no palacio e ia dirigir-se para os seus aposentos, porém encontrava na sua frente, a esposa que lhe dizia d'um modo ironico: 

-- Senhor... Venha vossa alteza agradecer as homenagens d'este bom povo! 

-- Alteza! murmurou elle, ao olhar o seu fato molhado e atirando a capa para sobre um movel. 

O ministro esgueirava-se no corredor, olhando o principe e murmurava: 

-- Oh! Pobre D. João! O que irá passar Sua Alteza! Mas tambem hoje é que se lembraram de semelhante cousa! 

Carlota Joaquina, continuava em frente do principe e encarava-o com uma grande raiva, desconfiando d'aquella sahida nocturna, emquanto D. João, nos seus ares de imbecil, baixava a cabeça. Ella, então, hespanhola de raça, n'um arranco, gritou-lhe: 

-- Vinde, senhor! 

Tomou-lhe a mão e arrastou-o até á janella que deitava para o largo e onde o povo continuava as suas acclamações bradando: 

-- Vivam os noivos reaes! 

A princeza inclinou graciosamente a cabeça e disse para D. João: 

-- Agradecei senhor!

Nos labios do principe do Brazil havia um ironico sorriso e o irmão curvava-se tambem a agradecer as homenagens do povo, murmurando: 

-- Miseravel canalha! 

No paço um homem no qual seria facil reconhecer o agente de policia que envergando um habito de frade, fallava com o principe ao começo da noute soltava uma risada e murmurava: 

-- Oh! E elle ainda agradece a partida do senhor intendente! Aquillo é que se chama agradecer o terem-lhe posto a calva á mostra! 

E D. João, nos seus ares aborrecidos, mandava mentalmente ao inferno a aventura; ao passo que a multidão o victoriava ao som da musica estrondeante. 







XLII 





A sagração 





O intendente da policia sahia dos aposentos do arcebispo de Thessalonica no real paço da Ajuda e á porta, beijando a mão de sua grandeza, dizia-lhe: 

-- E agora, senhor arcebispo, é necessario velar por Sua Alteza! 

-- Julgo-o prevenido... Não sahe senão bem acompanhado, elle que não é cobarde! 

-- Vigiemol-o sempre porque dos jesuitas tudo se espera... 

-- Descançae, excellencia... Hei-de mostrar-lhes quem sou! O outro fez uma venia e desappareceu emquanto o arcebispo se dirigia para os aposentos da rainha. 

D. Maria I, agora que fallecera havia seis mezes el-rei D. Pedro III, recahira mais do que nunca no seu recolhimento e recebeu o seu confessor com um sorriso breve á flor dos labios, murmurando: 

-- Ia mandar chamar vossa grandeza! 

-- Ás vossas ordens, magestade! 

-- Sentae-vos, meu amigo... ordenou a rainha com grande amisade. 

O prelado sentou-se e ella começou: 

-- Grandeza: Depois da morte de meu esposo, parece-me que um sem numero de desgraças tem cahido sobre a côrte... Vejo n'isto um castigo do céu, todos os dias me interrogo buscando redimir os meus peccados! 

-- Real senhora... Tranquillise-se vossa migestade.. . Conheço 

todas as vossas acções ... 

-- Ah! arcebispo! É um horror a vida terrena... Não sei na realidade como harmonisar tudo isto... Sinto por vezes um desejo extranho de remediar muitos males... 

-- Males? 

-- Sim... Não vêdes como meus filhos são infelizes? 

-- Infelizes, suas altezas! 

-- Sim... D. José, que por graça de Deus, me succederá apenas troca com a esposa algumas palavras e ainda assim em publico para que não vejam as suas discordias... A princeza vive retirada com a sua dama, D. Maria da Penha e procede d'egual modo para com sua alteza! Rebentam as discussões entre elles e a princeza D. Carlota Joaquina que por seu turno parece desprezar D. João... 

Oh! meu amigo, se soubesse... 

-- O que, real senhora? 

-- O pedido que sua alteza me dirigiu á momentos! 

-- Não o imagino sequer... 

-- Pois bem... O principe vinha pedir a minha auctorisação para entrar definitivamente para o convento de Mafra... Quer uma dignidade da egreja... 

O arcebispo, teve uma scentelha nos olhos e exclamou: 

-- E ao espirito de vossa magestade não agrada essa idéa? 

-- Não... E Deus sabe quanto desejaria poder fazer-lhe o sacrificio d'um filho, porém... 

-- O que? 

-- D. Carlota Joaquina, ficaria como viuva! 

O arcebispo curvou a cabeça e ao cabo d'alguns momentos, exclamou: 

-- Eu me encarrego de harmonisar suas altezas! 

-- Vós? 

-- Sim, real senhora, cu por mais extranho que isto vos pareça... 

-- Porém, como? 

-- Sei d'onde partem essas dissenções. 

-- Mas... 

-- Sim, real senhora... Sei que tudo isso tem por causa o que succedeu a sua alteza em Salvaterra! 

-- Como? 

-- Sim... A princeza julgou que o principe D. João voltava d'uma entrevista amorosa... E então, de ha seis mezes para cá, degladiam-se... 

-- E que fareis? 

-- Bastar me-ha explicar a verdade! 

-- O que? Sabeis acaso... 

-- Sei tudo, real senhora... 

-- Contae m'o. 

-- Oh! É muito grave o que sei, nunca vol-o direi! 

-- Arcebispo! Mais desgostos! 

-- Que saberei poupar a vossa magestade! 

-- Oh! Fallae! Supplico-vos! 

-- Nunca o farei! 

-- Oh! Tudo isto tern por causa os meus actos... O que eu fiz a Pombal... E depois os Tavoras! 

-- Os Tavoras! gritou com grande espanto o arcebispo. 

-- Sim... Quem me diz que elles eram culpados! 

-- Mas os tribunaes, real senhora, os juizes! 

-- Podiam enganar-se... E para demais a convicção de meu fallecido esposo... 

-- Qual era, real senhora? 

-- A de innocencia d'esses fidalgos... 

-- Por Deus! 

-- Sim... A sua innocencia, a morte injusta! 

-- No reinado de vosso pae, não no de vossa magestade, dir-voshei se persistis em acreditar esse impossivel! 

-- E não pagam os filhos as culpas dos pães?! interrogou a rainha deveras atemorisada. 

-- Real senhora, por Deus! bradou o confessor muito admirado d'aquella transformação. 

-- Ouça, arcebispo... Não estão os descendentes dos Tavoras ainda sob o peso da infamia? 

-- Real senhora! 

-- Sim... Para que negal-o... Sou muito culpada... É necessario rehabilitar essa familia! 

-- Mas como, real senhora! bradou elle, cada vez mais admirado. 

-- Protegendo os seus descendentes, mandando restituir-lhes os haveres... 

-- Mas e as sentenças? 

-- Annullal-a-hei por completo... Não o fizemos já? 

-- Para ficarem de novo vigorando! 

-- Mercê daquelles que como Marialva, Martinho de Mello, Angeja e vossa grandeza, me diziam... 

-- Que irá lançar um insulto sobre a memoria de vosso pae! Primeiro o ministro, depois o rei... Oh! Reconheço aqui o dedo dos jesuitas! bradou Thessalonica com o grande desassombro com que costumava fallar á rainha. 

-- Não... não... Era a justiça! 

-- Justiça real senhora, foi a outra, a do marquez! No reinado de vosso pae os criminosos eram punidos, ao passo que no vosso... 

-- Elles são perdoados não é assim? interrogou a soberana. 

-- Sim, real senhora! 

-- Porque vós, o meu confessor, intercedeis por elles! Pelos sacrilegos que roubam as monjas, pelos que tentam assassinar meu filho... 

Thessalonica, fez-se pallido, ao recordar-se de quem a rainha queria fallar e volveu: 

-- Referis-vos a Gomes Freire, a Vasco de Miranda... 

-- E ao conde de Assumar, tornado marquez d'Alorna por morte de seu pae... 

-- E confidente do principe D. José, amigo do herdeiro do throno, real senhora! E acreditae que na alma do marquez não ha logar para hypocrisias... É amigo d'esses a quem chamaes hereges, a quem accusaes de quererem assassinar sua alteza... E no emtanto é elle o que vive com o principe? Vêde como as cousas são? Como tudo se justifica só com essa amisade! Se Gomes Freire e Vasco, odiassem sua alteza, Alorna procederia de egual modo! 

-- N'esse caso não ha criminosos, não ha a quem condemnar, porque me accusaes então de demente? 

-- Porque se deixou em liberdade o padre Manuel Cardoso e os seus cumplices, porque a traição embosca-se no paço e chega a dominar no espirito de vossa magestade! gritou Thessalonica erguendo-se impetuosamente. 

-- Grandeza! Não me digaes mais nada! Eu sou muito infeliz! 

-- Porque os vossos ministros não vos defendem! 

-- Oh! É necessario rehabilitar os Tavoras! murmurou ella como se o não ouvisse. 

E de repente, exclamou: 

-- Careço de repouso... 

-- Real senhora, repouse... E quando me quizerdes escutar, recebei-me, tenho uma supplica a dirigir-vos... 

-- Oh! Fallae já, arcebispo! 

-- Não... Aguardarei que vossa magestade repouse... 

-- Fallae... Peço-vos... Sabeis que tenho sempre pressa em vos escutar e em acceder aos vossos pedidos... 

-- E bem justo é o que tenho a dirigir-vos n'este momento! 

-- Dizei! 

O arcebispo, calou-se durante uns momentos e depois exclamou: 

-- Real senhora está a meu lado constantemente desde ha muito auxiliando-me, um homem cujo espirito recto eu bem conheço. 

-- De quem fallaes? 

-- Do prior de S. Julião! 

-- Bem... 

-- É para elle que vos venho pedir uma mercê... 

-- Fallae e considerae-vos servido! 

-- Está vago o bispado do Algarve e desejo que vossa magestade nomeie para elle o prior! 

-- O bispado do Algarve! bradou com espanto a rainha, erguendo-se por seu turno. 

-- Sim real senhora... 

-- Mas é a unica cousa que não vos concederei! volveu ella como penalisada. 

-- Oh! Real senhora... titubeou Thessalonica, olhando a soberana, que volvia: 

-- Vae ser preenchido esse bispado... Obedeço aos ultimos desejos de meu esposo, aos pedidos de D. Pedro, cuja alma, Deus tenha em sua gloria... 

-- Ah! N'esse caso... 

-- Sim, grandeza, e ao mesmo tempo cumpro um dever que se me impõe de ha muito... 

-- Um dever? 

-- Sim... Ha um homem a quem desejo contemplar... Esse homem é quasi um santo e a minha familia contrahiu para a com a d'elle a mais sagrada das dividas... Faziamos-lhe mal, devemos-lho uma recompensa! 

-- Mas de quem fallaes? interrogou rapidamente o arcebispo, fazendo-se livido e ficando muito agitado em frente da rainha, que volvia tranquillamente: 

-- Fallo de fr. José Maria de Mello! 

-- Oh! Eis o que eu já esperava! bradou elle assombrado apesar de tudo. 

-- É um Tavora! Meu fallecido esposo supplicou-me que os rehabilitasse... E ia morrer... Foram as suas ultimas palavras... disse ella n'um tom triste, enxugando algumas lagrimas que lhe corriam no rosto branco. 

Mas Thessalonica, em voz vibrante, n'um sentido protesto, gritava: 

-- Real senhora essa nomeação é impossivel! 

-- Porque fallaes assim, arcebispo? perguntou com altivez a soberana. 

-- Ah! Porque esse homem É o peior inimigo de vossa magestade, e de vossa familia... 

-- Que dizeis? Estaes louco sem duvida... Elle que tantas mostras d'affecto tem dado a meu filho D. João... 

-- E que tanto tem conspirado contra vosso filho D. José! 

-- Por Deus que isso é impossivel, repito! 

-- Pois bem, real senhora... Eu até hoje tenho conservado o silencio mas agora é impossivel, tambem eu o digo! Sabeis d'onde partem as discordias de vosso filho D. José com sua esposa? De José Maria de Mello que preparou toda a scena do páteo das damas afim de se vingar de Vasco de Miranda. 

-- E porque? 

-- Porque elle é amigo de Gomes Freire cuja familia sempre tem combatido os jesuitas! 

-- E quereis dizer... 

-- Que o oratoriano pertence á Companhia... 

-- Arcebispo! 

-- Real senhora... Mas ainda temos mais... Gomes Freire foi o raptor da sobrinha do cardeal da Cunha... 

-- E então? 

-- Isso destruiu parte dos planos do frade... 

-- Que planos... 

-- Primeiro a sua ambição, segundo... 

-- O quê? 

-- Foi por causa d'esse rapaz que o corregedor do crime descobriu a conspiração contra vossa magestade! 

-- Conspiração? 

-- Sim, a do jesuita Cardoso! 

-- Mas... 

-- E da qual faziam parte o cardeal e José Maria de Mello 

-- Thessalonica! 

-- Tudo verdade, real senhora, os nomes que vossa magestade não queria ouvir outr'ora eram estes! 

-- Oh! É impossivel! bradou a rainha n'um grande desespero. 

-- Depois esse homem soube cercar-se de cumplices, soube tecer uma grande rede em que envolveu tudo e onde vos envolverá tambem se quizerdes continuar a protegel-o! 

-- Oh! Não acredito! 

-- Pois ide perguntal-o ao intendente da policia! 

-- Pina Manique, sabeis que ha inimigos em toda a parte. 

-- Sim, real senhora... Porque em toda a parte elles existem! Desde a inquisição d'onde hei-de expulsal-os hoje mesmo, até ás estradas onde os principes devem passar... 

-- O que? 

-- Sim, real senhora... Nas estradas onde os fidalgos de companhia com os bandidos aguardam as victimas! 

-- Em Salvaterra... 

-- Sim, em Salvaterra... 

-- N'esse caso meu filho D. João! 

-- Por um acaso salvou seu irmão D. José, que como sabeis devia partir n'essa noute! 

-- Sim, recordo-me... Concedeu-lhe licença... 

-- E a côrte sabia-o... 

-- É verdade! 

-- José Maria de Mello tambem o sabia... 

-- Mas como, se não vive na côrte? 

-- Mas tem n'elle os seus cumplices... 

-- E sabeis os seus nomes, não é assim? interrogou a rainha, buscando confundil-o. 

-- Sabel-os-hei dentro em instantes! 

-- Por quem? 

-- Pelo intendente da policia!

-- Oh! Tudo isto é horrivel!... exclamou a pobre rainha, sentindo-se desfallecer, e continuando: 

-- Mas para que temos machinações... Isto é superior ás minhas forças! 

-- Julgo que já não tendes as mesmas ideias acerca desse jesuita? 

Mas a rainha, sempre desconfiada, lançava-lhe um olhar e bradava: 

-- Era o que esperavas? 

-- Sim, real senhora... Sempre aguardei isso! 

-- Porque tendes n'isso interesse, não é assim? 

O insulto era directo e Thessalonica habituado a todos os respeitos, bradou enfurecido: 

-- Julgae, senhora, o meu procedimento a vosso bello prazer! Cumpri um dever, mais nada! E d'este momento em diante, desde que os meus inimigos, que são tambem os de Vossa Magestade, triumpham, resta-me apenas...

-- O que? interrompeu muito apressada a soberana. 

-- Pedir-vos permissão para me recolher de novo ao meu convento de Carnide! 

-- Arcebispo! Fr. Ignacio! bradou ella como arrependida lançando-se aos pés do confessor n'um momento irreflectido. 

Este, com grande commoção, ajudou a erguer a soberana e murmurou: 

-- Por Deus, real senhora... 

-- Oh! perdoaeme... perdoae-me! 

-- Real senhora!... 

-- Oh! Vós, o meu confessor, insultei-vos... 

-- Então... 

-- Tende piedade de mim... Oh! Sinto-me desesperada! 

Thessalonica começou a apaziguar a commoção a essa rainha vestida de luto que começava a perder-se no intrincado labyrintho das intrigas palacianas, e por fim dizia-lhe: 

-- Ficae tranquilla, real senhora. .. A vossa consciência é pura... 

-- Oh! Como quereria poder remedeiar tudo! 

-- Está na vossa mão, o que desejaes, replicou o arcebispo. 

-- Não... não... 

-- José Maria de Mello, ainda não é bispo... 

-- Enganaes-vos! 

-- O que? 

-- Sim... Quiz obedecer aos últimos desejos de meu esposo.. 

-- E acaso... 

-- Sim... deve n'este momento estar a ser sagrado no convento das Necessidades! 

-- Oh! É necessario impedil-o! bradou Thessalonica. 

Mas agora, como resposta ás palavras do inquisidor, a dama de serviço abriu o reposteiro e exclamou: 

-- Sua grandeza, o bispo do Algarve! 

E José Maria de Mello, que vinha de ser sagrado, revestido dos seus habitos prelaticios, os oculos verdes a encobrirem-lhe as scentelhas do olhar, entrava ao lado do principe D. João que sorria cheio de jubilo e encaravam ambos o arcebispo n'um ar de desafio. 

Depois detraz dum biombo, sahiu um corpo marreco, um rosto d'ébano onde se rebolavam uns olhos maliciosos, e D. Rosa, a anã favorita, que ouvira toda a conversação de D. Maria I com o seu confessor corria a lançar-se aos pés do recemsagrado bispo, dizendo lhe em voz baixa: 

-- Tenho muito que contar a vossa grandeza!

Elle sorriu e olhou Thessalonica, avançou uns passos e foi curvar-se ante a rainha cuja mão beijou, abençoando-a de seguida, murmurando: 

-- Real senhora... Agradeço a vossa mercê com o coração replecto da mais intensa gratidão... 

Ella, muito pallida ante aquelle homem, cerrava os olhos e deixava-se cahir desamparada na poltrona, a murmurar: 

-- Thessalonica! Fr. Ignacio... 

O confessor correu para a rainha e n'um gesto denunciador, apontando a porta ao bispo, exclamou: 

-- Sahi senhor... Sua Magestade precisa repousar! 

O outro envolveu-os n'um olhar odiento e retirou-se lentamente emquanto D. João fitava com raiva o carmelita. 

E á porta, José Maria de Mello, murmurou: 

-- Bispo!... Oh! Agora tremei senhores de Bragança! 

Era o Tavora vingando todos os desastres dos seus no reinado anterior; exercendo sobre a rainha a supremacia que o poder religioso tinha n'esse tempo de fanatismo sobre o poder real. Vingava-se; era o fim d'um mundo; começava uma epocha d'intolerancia e dominação para a Egreja. 













XLIII 





Carlota Joaquina 





Depois de ter ido cumprimentar a princea D. Maria Benedicta, o novo bispo do Algarve entrára nos aposentos de D. João.

Conversára uns momentos com a anã favorita e de seguida, sabendo o que se pasára na conversação do arcebispo com a rainha, brilhava-lhe nos olhos uma scentelha colerica e murmurava:

- D. Rosa, agradeço-vos a confidencia... Vossa ama anda mal aconselhada a meu respeito!

- Por esse arcebispo que parece um soldado de maneiras bruscas e gestos grosseiros! respondera a anã, muito taful no seu fato vermelho, continuando logo:

- Quanto seria capa de fazer para que o confessor de minha real ama, fosse um verdadeiro principe da egreja, que não usasse de vis intrigas...

- E agora elle ficou ainda mais arraigado no animo de sua magestade!

- Se estivesse no logar de vossa grandeza, pedia a interveção d'alguem n'este negocio...

- Mas de quem... Só se o senhor principe D. João...

- Esse é accusado de vosso parcial!

- Então!

- Mas D. Carlota Joaquina... Por Deus conquistae essa princeza por qualquer fórma, mettei-a nas vossas combinações e o triumpho não se fará esperar... Ella odeia D. Maria Benedicta... disse a preta n'uma nova confidencia. 

-- Que dizeis? 

-- Que existe entre ellas a rivalidade de duas cunhadas, uma das quaes será rainha, emquanto a outra ficará princeza toda a vida! 

-- Oh! exclamou o jesuita recem-sagrado como se lhe acudisse uma ideia luminosa, murmurando: 

-- Resta saber qual d'ellas o será! 

Traçou uma benção sobre a cabeça da negra e agradeceu-lhe as suas palavras. Depois fez-se annunciar e dentro em pouco penetrava nos aposentos da princeza. 

Carlota Joaquina, a morena e voluptuosa princeza que começava a sentir um profundo desprezo quasi idiota que lhe tinham dado, ao ver entrar o bispo e sabendo da protecção que D. João lhe dispensava, franziu o sobr'olho e ás primeiras palavras d'elle volveu: 

-- Felicito-vos, grandeza... Sempre esperei que a rainha vos fizesse essa justiça! 

-- Justiça, augusta princeza, de que sua magestade está bem arrependida... Sinto-o... 

-- Ah! 

-- Sim, os meus inimigos têem-se encarregado de insuflar más ideias a meu respeito no animo de sua magestade! 

A princeza curvou a cabeça, e de seguida olhando de frente, como se lhe viesse á mente uma recordação, interrogou: 

-- E o que dizem esses inimigos? 

-- Toda a casta de calumnias... Sois da catholica Hespanha, augusta princeza, e sabeis bem quanto um sacerdote soífre, ao ter de devorar as affrontas em silencio... 

-- Um sacerdote?! bradou ella, fazendo-se vermelha, e erguendo-se d'um salto, os olhos rebrilhantes de cólera, tendo uma accentuação extranha na voz ao bradar: 

-- E então uma princeza! Quanto não soffre, senhor bispo, uma pessoa de sangue real ao vêr-se insultada, mais ainda, rebaixada aos olhos d'uma côrte inteira! 

-- De quem falla, vossa alteza? interrogou elle com a mais bem fingida surpreza. 

-- De quem? Oh! de mim por exemplo, senhor bispo! 

-- Vossa Alteza! 

-- Sim eu... Perguntae a D. Antonia de Melio, que tão vossa amiga parece, quanto eu soffro desde que entrei n'este palacio! 

-- Vós... Mas porque, senhora! 

-- Por ter um marido que não sabe defender-me dos ultrages, que não sabe impôr-se, que receia as complicações politicas e não comprehende que, nas côrtes como esta e como a de Hespanha, uma pequena conquista no animo dos soberanos equivale a um grande passo para a omnipotencia! 

Animava-se ao falar assim, revelava-se já a mulher engenhosa, a mulher bandido com alguma cousa de bem hespanhol, o genio vingativo e a devoção, a sêde de poder e a habilidade do jesuita de saias para o conquistar. 

Excitava-se e excitava o animo do bispo que começava a entrever n'ella uma mulher preciosa para os seus planos tenebrosos e buscava já dominal-a ao exclamar: 

-- Mas, alteza, quando se insulta alguem da vossa gerarchia, é necessario que o insultador esteja muito alto... 

-- Sim superior a nós! disse ella com intensa raiva. 

-- A rainha! 

-- Alguem que o será, alguem a quem desprezo e diante de quem terei de curvar-me um dia! gritou ainda mais raivosa. 

-- Vossa alteza curvar-se! 

-- Sim eu! 

-- Mas... 

-- E tudo por um acaso maldito que me ligou a um homem sem energia... 

-- E se vosso marido a tivesse! Que farias alteza? 

-- Quereis sabel-o? 

-- Sim... 

-- Pois bem, senhor bispo, D. Antonia de Mello, fallou-me a vosso respeito... 

-- N'esse caso, sabeis... 

-- Que pertenceis á companhia de Jesus... 

-- Assi-m é... 

-- Bem... Pois se meu esposo fosse um verdadeiro príncipe sabeis qual era o meu papel n'esta côrte? 

-- Ignoro! 

-- A da mulher que conspiraria para... 

-- Para... 

-- Para ser rainha! exclamou a princeza cheia de altivez. 

O bispo recuou ante a fixidez d'aquelle olhar onde havia clarões doidos de orgulho, e depois bradou: 

-- Rainha?! 

-- De que vos admiraes? Acaso poderia esmagar d'outra forma essa princeza do Brazil que quasi me despreza? 

-- Ah! É então a ella que odiaes! 

-- Com toda a minha alma! 

-- E ao esposo... 

-- Odeio-o tambem... Porque será elle que lhe dará esse throno, que lhe collocará na cabeça essa corôa da qual talvez já estejam bem perto... Porque julgo que sua alteza conspira para se tornar o mais breve possivel em magestade! 

-- Isso seria horrivel! exclamou rancoroso tambem o bispo.

-- Para vós, tambem? 

-- Sim alteza... Seria a destruição de todas as minhas esperanças! 

-- E quaes são ellas, dizei... Eu já vos disse as minhas! 

-- As minhas esperanças! Oh! Consistem em concluir a obra a que me dediquei de ha muito!

-- Que obra? 

-- A da implantação da Companhia de Jesus n'este paiz d'onde foi expulsa, a do triumpho dos jesuitas, a de vingança dos filhos de Santo Ignacio! 

-- Ah! bradou elle no auge de assombro. E contaes com o triumpho? 

-- Sim... Mas para isso é preciso... 

-- O que? 

-- Que o futuro rei de Portugal não tenha as ideias do atheu Sebastião José, que não queira imitar servilmente as leis d'esse antigo ministro, que antes pelo contrario seja catholico e amigo dos jesuitas... É preciso que a futura rainha seja nossa alliada, que nos auxilie, que nos proteja! 

Fallava com grande firmeza, encarando Carlota Joaquina e vendo-as transformações porque passava o seu rosto, sorrindo ao ouvil-o exclamar: 

-- Impossivel! 

-- E porque? 

-- Porque o futuro rei de Portugal é exactamente esse principe D. José, o atheu discipulo de Pombal, que governará com o arcebispo de Thessalonica e com Pina Manique, que tirará a presidencia do real erario ao devoto e dedicado conde de Villa Nova que veiu substituir definitivamente o marquez de Angeja, morto ha um mez; que dará poderes a Martinho de Mello, que anniquilará Ayres de Sá e quem sabe se <marca num="*" pag=528> Luiz Pinto de Sousa Coutinho. O homem que fará o mais pessoal dos governos que se cercará de membros d'essa irrisoria Academia de Sciencias, que preferirá a um sacerdote um sabio, que tornará fr. Manuel do Cenaculo, seu antigo mestre, uma especie de Richelieu d'este paiz... Será um rei para proferir a um cantico sagrado os versos do poeta Manuel Mana du Bocage, que vae agora a caminho do Brazil, será emfim um rei que terá a seu lado a rainha mais orgulhosa do mundo e a alma mais pequena e mais vulgar que tem existido!



<nota num="*" pag=528> O ministro que entrara depois da morte de Angeja! </nota>

 

-- Engana-se, vossa alteza! 

-- Como? 

-- Sim, enganae-vos, senhora, porque o futuro rei de Portugal, será o mais devoto dos principes, o mais catholico dos homens, aquelle que até preferirá ao manto e ao sceptro o chapeu cardinalicio, um que desterrará os sabios para servir a religião, que anniquilará Manique e conservará Villa Nova, que terá o fausto e o amor religioso de D. João V a quem parecerá succeder distinctamente, tanto na devoção, como nome, e que terá a seu lado a mais  intelligente das rainhas, cuja alma pode abrigar todos os grandes sentimentos, cujo cerebro pode conceber todos os planos! 

Ella, linda, de pé na sua frente, o peito arquejante, as fontes a latejarem, toda sacudida n'um estremecimento, como entrevindo novos horisontes, encarando aquelle bispo que a hyponotisava com as suas palavras, bradou: 

-- Mas D. José II nunca será esse rei! 

--Não... 

-- D. Maria Benedicta não será essa rainha! 

O ministro que entrara depois da morte de Angeja! 

-- Não... 

-- N'esse caso... 

-- Não comprehendeis? 

-- Confesso-o... 

-- É que na historia portugueza nunca haverá um rei de nome D. José II... 

-- O que? 

-- Sim, porque em compensação existirá um digno successor de D. João V e que se chamará... 

-- Como... como?... interrogou a princeza muito anciosa. 

-- D. João VI, exclamou o jesuita com um sorriso triumphante. 

-- O quê? 

-- Sim, e-uma rainha que será a verdadeira e a unica soberana e que se chamará... 

-- Como...? 

-- A rainha D. Carlota Joaquina I bradou de novo na sua expressão triumphante, curvando-se a beijar-lhe a mão, como se ella realmente já fosse essa soberana. 

-- Meu marido! Eu! Nós os reis?! exclamou assombrada. 

-- Sim... tem sido essa uma das minhas luctas, embora ignorasse ainda quem seria a princeza que partilharia o throno com o meu amigo D. João, com o futuro rei! 

-- Mas que contaes fazer para tudo isso? interrogou a rainha como se ainda não acreditasse em semelhante cousa. 

-- Mas o que tenho feito... 

-- E é... 

-- Conspirar... 

-- Contra elles? 

-- Sim, contra elles e contra D. Maria I! 

-- Vós? 

-- Sim... Primeiro quizemos, nós, os da Companhia de Jesus, dar o throno a D. Pedro III... Principe devoto e verdadeiramente amigo dos jesuitas, dar-nos-hia todas as regalias!

-- Ah! 

-- E conspiramos... 

-- Nada conseguiram! 

-- Porque fomos descobertos e o punhal do padre Manuel Cardoso, as pistolas d'esse jesuita foram inuteis! 

-- Ah! recordo-me d'essa conspiração! 

-- Depois buscamos penetrar no animo da rainha! 

-- E acharam a isso um entrave! 

-- Por vezes... 

-- O arcebispo! 

-- Elle que cahirá quando D. João for rei... 

-- E porque não antes d'isso? 

-- Antes? 

-- Sim... Julgo que o logar de director espiritual d'uma rainha é deveras precioso para quem conspira como vós! 

-- Senhora! bradou assombrado o jesuita. Tanta penetração! 

Sorriu orgulhoso e volveu: 

-- É tão clara a vossa narrativa! E que fizeram depois? interrogou n'outro tom a interessar-se. 

-- Depois voltamos para vosso esposo as nossas attenções! 

-- E elle? 

-- Ignora os nossos designios! 

-- Ah! 

-- Sim... Apesar de odiar o irmão, nunca teria a coragem de conspirar contra elle! 

-- Assim o julgo... 

-- Mas nós velamos bem pelos nossos planos e... 

-- O que? 

-- Buscamos enredar D. José n'uma cilada! 

-- Sem resultado! 

-- Até agora... 

-- Oh! 

-- Ultimamente em Salvaterra o throno teria ficado vago desde que D. Maria morresse. 

-- E porque não succedeu assim... 

-- Porque alguem se intrometteu nos nossos planos... 

-- Quem? 

-- Sem duvida o intendente da policia que foi visto n'essa noute em Salvaterra... 

-- Ah! Agora vejo tudo... 

-- O quê, real senhora...? 

-- Bispo... Esse tratamento! 

-- Chegará um dia em que vol-o possa dar em publico... 

-- Deus vos ouça! Mas digo que vejo bem clara essa intriga... Quizeram indispôr-me com D. João... 

-- Mas, como? 

-- Mostrando-me que elle sahia de noute do paço... 

-- E vossa alteza... 

-- Cahi no laço... 

-- Mas é necessario mostrar o contrario... 

-- Agora quasi após oito mezes quando a corte sae... 

-- Mostrareis a generosidade do vosso bondoso coração que sabe perdoar. 

-- Fazendo... 

-- Acreditar n'um grande amor por vosso esposo... Isso disporá a rainha a vosso favor! 

-- E D. João... 

-- Ama-vos muito, real senhora! 

-- Outra vez, grandeza!

-- Oh! Perdoae, mas julgo já ver na vossa bella fronte a corôa real... 

-- Porque dizeis que meu esposo me ama.... perguntou ella com um sorriso. 

-- Porque, alteza? 

-- Sim... 

-- Porque sei quanto soffre com os vossos despeitos!

-- Ah! Pobre principe... 

-- Lastimaes... 

-- Que elle não saiba fazer-se amar... 

-- E o que seria necessario... 

-- Que tivesse a coragem ou o talento!

-- Pobre D. João, digo eu também, nunca será amado n'esse caso... 

-- Um dia apenas... 

-- Quando? 

-- Quando me tornar rainha! volveu ella quasi com cynismo. 

-- Vem ainda longe esse dia... 

-- Longe? perguntou ella impaciente. 

-- Sim... D. José pode morrer amanha mas D. Maria I...

-- Pode ser deposta, pode abdicar dois dias depois! exclamou Carlota Joaquina, mostrando-se bem a mulher d'acção. 

-- Oh! Excellente auxiliar vós sois! bradou o jesuita muito arrebatadamente. 

-- Mas para que a rainha desde que D. José não exista possa abdicar, carecemos... 

-- De... 

-- A livrarmos de quem a possa aconselhar em contrario aos nossos planos... 

-- Decerto... 

-- Ha alguem que tem muita influencia no seu animo... 

-- Thessalonica! 

-- Elle sim... 

-- Oh! Desappareceria... 

-- Julgo que não porá em pratica outra scena como a de Salvaterra... 

-- Não, alteza... Mas o arcebispo é odiado... 

-- Por quem além de nós? 

-- Por alguns fidalgos... 

-- Oh! Os seus nomes... 

-- Que buscaes? 

-- Fazer a sua conquista, volveu com cynismo. Juntal-os á nossa causa, levai os ao extremo... 

-- Alteza, alguns ha que já estão comnosco... Precisam apenas d'incitamentos... 

-- Que vos darei... 

-- Vossa alteza! 

-- Sim eu... Julgaes acaso que uma vez mettido n'um caminho recuo ou perco tempo... Vamos... Os nomes d'esses fidalgos... pediu elle quasi authoritariamente. 

E o jesuita, com o seu sorriso complacente, volveu: 

-- D. Ramiro de Noronha! 

-- O camarista de D. José? 

-- O proprio... 

-- Mas o principe ignora a sua traição... 

-- Se a sabe quer mostrar-se generoso... 

-- Que caracter é o d'esse fidalgo? perguntou de novo D. Carlota Joaquina. 

-- Por Deus que vossa alteza não esquece cousa alguma! exclamou o jesuita deveras maravilhado. 

Sei o que me cumpre fazer mas para isso careço d'elementos... 

-- Que vos fornecerei... 

-- Bem... Então D. Ramiro... 

-- É um fraco em frente da lamina d'uma espada, é um forte na sombra, agitando um frasco de veneno ou um punhal... Sujeito a paixões odeia um homem que lhe roubou a noiva e é um dos amigos do principe ou antes do conde de Assumar... 

-- Como se chama esse homem? 

-- Gomes Freire de Andrade! É tenente de mar e brevemente voltará d'Alger... 

-- Oh! Não esquecerei tambem esse nome...

-- Quem mais temos? interrogou com pressa. 

-- Jacob Mestral!

-- Que homem é... 

-- Militar, tenente de cavallaria do Caes, rude, valente como as armas, fazendo tudo pela colera de ferir um inimigo, incapaz de faltar á sua palavra! Odeia Gomes Freire e sobretudo Assumar! 

-- Porquê? 

-- Porque adora D. Ramiro que elles feriram physica e moralmente, porque um dos creados do conde o feriu gravemente em Salvaterra! 

-- Ah! E o ferido pelo Joannico!

-- Sim alteza... 

-- Mas o bandido... 

-- Foi creado do novo marquez d'Alorna, antigo conde de Assumar... 

-- Bem... Que mais? 

-- Silva Menezes... É filho do conde de S. Lourenço e isto basta para odiar Alorna, cuja esposa é filha do conde de S. Vicente o peor dos inimigos d'aquelle sabio fidalgo! De resto, personagem insignificante bom para ser mandado... 

-- Quem mais? perguntou a princeza. 

-- D. Balthazar d'Athouguia! 

-- Quem é? 

-- Fidalgo, muito novo ainda, alferes do regimento do principe vosso esposo... Homem de ruins paixões latentes, capaz de tudo... Cobarde ao ver-se perdido, e um terrivel inimigo para quem o odeia! 

-- Começarei por esse... 

-- Para demais é amigo de D. Ramiro de Noronha.

-- Será elle o meu instrumento, será o que conduzirá os outros ao fim desejado... 

-- Muito bem, alteza! 

-- E como procedereis para com D. José? Comprehendeis bem ser inutil todo o nosso trabalho desde que elle viva e reine! 

-- O acaso nos deparará um meio, assim o espero... 

-- Nada de meios violentos! 

-- Um accidente, por exemplo! 

-- Ah! Muito bem... 

-- O principe é caçador... Uma espingarda que se dispara, a bala que fere sua alteza, a confusão da côrte, os physicos em sobresalto... 

-- D. Maria Benedicta lavada em lagrimas, continuou Carlota Joaquina, no auge do rancor. 

-- Não o esquecia, senhora, ella detesta o esposo... 

-- Enganaes-vos... 

-- O que? 

-- Ama-o demasiado e soffre com a sua indifferença, eis tudo .E mesmo que assim não fôsse, choraria pelo throno perdido!

-- Ah! Decerto... 

-- N'esse caso, prepare tudo... Eu pelo meu lado vou trabalhar tambem... 

-- Conto com vossa alteza! 

-- E para que se não veja quanto eu faço, preciso affastar-me... 

-- Oh! Vossa Alteza é d'uma intelligencia maravilhosa... Por Deus que vos ia propor isso mesmo... 

-- Sahirei da côrte... 

-- E de Salvaterra ou de Queluz assignareis tudo... 

-- São longe essas localidades, eu prefiro outro logar... 

-- Onde? 

-- A Bemposta que transformarei em paço real... 

-- Tendes a Bemposta, é verdade! 

-- Bem... E agora até á vista, bispo... Tem sido muito demorada o nossa entrevista e isso pode levantar suspeitas... 

Ao acabar de proferir estas palavras, a porta abriu-se e D. Antonia de Mello, entrou muito açodada, exclamando: 

-- Alteza... Alteza... Dirige-se para aqui o senhor príncipe do Brazil! 

-- Elle! exclamaram os dois cumplices aterrorisados. 

-- Sim... 

-- Ah! Bispo, vinde commigo! bradou a princeza tomando-lhe a mão e arrastando-o para o aposento contiguo, depois, appoiando um dedo sobre uma mola occulta na parede, poz a descoberto uma pequena escada e murmurou: 

-- Descei... Ireis ter ao lado das cavallariças e quando me quizerdes visitar emquanto aqui residir, vinde por este lado... Mandar-vos-hei uma chave por D. Antonia de Mello... 

-- Pensaes em tudo! volveu o bispo deveras admirado e começando a descer a escada. 

Ella voltou ao seu aposento, estendeu-se languidamente n'uma poltrona e cerrou os olhos, exactamente no momento em que a aia annunciava: 

-- Sua alteza real, o serenissimo principe do Brazil! 

D. José entrou, lançou um olhar investigador pelo quarto, e encarou a princeza que fingia dormir, depois perguntou á dama em voz muito baixa, como se temesse despertar sua cunhada: 

-- Já sahiu ha muito o senhor bispo do Algarve? 

-- Teve apenas o tempo de cumprimentar sua alteza! 

-- Ah! É que sua grandeza procurou-me e não queria de maneira alguma que julgasse não o querer receber! 

Sorriu á dama que se curvou e desappareceu de seguida. D'ahi a momentos Carlota Joaquina, erguia se, soltava uma risada e exclamava: 

-- Antonia senta-te a meu lado! E passava os dedos finos nos cabellos da dama favorita, sorrindo-se a lembrar-se dos seus planos, ella, a voluptuosa princeza que desejava o manto e a corôa para os arrastar na lama dos bordeis reaes. 













XIIV 



Outro cumplice 







Uma multidão de pobres estropeados, as grenhas hirsurtas, cobertos de chagas, torcidos em aleijões, as boccas escancaradas, vestidos na farrapagem

mais extranha, coxos que saltitavam amparados em muletas, cegos de grandes barbas, mulheres que se arrastavam, creanças cobertas de feridas, juntavam-se em frente do convento das Necessidades onde os oratorianos iam distribuir esmolas pela sagraçao do seu antigo companheiro, fr. José Maria de Mello, tornado agora em bispo do Algarve. 

E sua grandeza, com o baculo e com a mitra, reluzente nos bordados da casula, a face branca, com reflexos extranhos dados pelos seus enormes oculos verdes, no meio d'uma multidão de frades, sorria jubiloso, tendo por vezes um olhar altivo para essa grande feira de miseria que pejava a portaria do convento. 

Elles entravam um a um, d'enfiada, recebiam os obulos n'um lamuriar, com gestos devotos, sobraçando as sacolas e não esquecendo os rosarios, pegando as boccas á mão clara de sua grandeza, que os abençoava n'um ar indifferente. 

Fasia calor. Lá fóra aquella gente estiolava-se ao sol, os farrapos fermentavam em cheiros nauseabundos, liteiras fidalgas enfileiravam-se no largo, em face do convento, cujos sinos repicavam festivos, damas de grandes ares entravam na egreja, e ouvia-se a continua algazarra dos mendigos clamando: 

-- Seja em louvor do bemdito Santo Antonio! 

-- Para que o grande bispo viva tantos annos conno os sagrados corvos da Sé... 

-- É um santinho!... 

Avançavam e beijavam-lhe as vestes douradas, voltavam com uns ares humildes e José Maria de Mello continuava no seu aprumo fazendo machinalmente a mesma benção. 

Subito appareceu na sua frente um coxo que se arrastava a custo; na grande sacola havia um volume enorme do pão da portaria, os pés mettidos n'uns sapatos rotos, todo elle com o ar mais miseravel, collocava-se em face do bispo e murmurava: 

-- Agradeço-vos a esmola, e desejo-vos muitas felicidades... O bispo praticou com elle como para com os outros e via o homem baixar-se tomar-lhe a mão que queria retirar mas sentia ao mesmo tempo um pequeno papel que o pobre ali lhe deixava, dizendo: 

-- É d'uma rica devota que está na egreja! 

O antigo oratoriano fez um gesto raivoso ante a resistencia do homem e não lhe respondeu. Ao vêl-o partir, quando os outros passaram na sua frente, traçando sempre a mesma benção, abriu o papel e estremeceu. 

Os sinos repicavam sempre, os mendigos iam recebendo as esmolas e as bençãos e elle como impaciente, levantou-se da cadeira ampla e murmurou para um frade, magro, secco de rosto ossudo que estava a seu lado: 

-- Irmão prior ficae no meu logar e abcnçoae essa boa gente! 

Sahiu por entre as reverencias e subindo a escada, dirigiu-se para a sua antiga cella em passo apressado, empurrou a porta e exclamou ao vêr além um frade agostinho: 

-- Que imprudencia, fr. José do Rosario! 

-- Oh! Quiz felicitar vos, quiz fallar-vos e sahi do meu desterro d'Alcobaça! 

-- Por Deus que me comprometteis! 

-- Ah! Bispo do Algarve, vós, fr. José Maria de Mello!... É um sonho... Eu não o acreditava! exclamou o jesuita como se não tivesse ouvido as anteriores palavras do prelado. 

-- Ouvis fr. José do Rosario, que me comprometteis com a vossa presença! 

-- Não... Todos a ignoram, pedi até a D. Antonia de Mello para vos enviar esse bilhete afim de não levantar suspeitas! 

-- Porém... Se alguem vos visse... Se o arcebispo de Thessalonica que vos desterrou, soubesse de vossa presença, da vossa entrevista commigo, eu estaria perdido no animo da rainha que já quasi me detesta... E então agora que as cousas vão em bom caminho! 

-- Sim... Bem o vejo, pelo menos para vós... 

-- Fr. José do Rosario, acaso me julgaes esquecido dos meus planos só porque envergo as vestes prelaticias em vez d'um simples habito d'oratoriano? Sabei pois que sou jesuita antes de tudo e que depois sou Tavora, que tenho dividas com os reis! 

-- Nunca duvidei da vossa presistencia... Porém a recepção que me fazeis... 

-- Apenas temo que me compromettais, irmão! tornou elle d'uma maneira mais branda. 

-- Descançae... Eu vim porque era necessario que vos fallasse que vos trouxesse um auxiliar... 

-- Como? 

-- Sim um auxiliar para a nossa obra! 

-- Ora... Temos ja bastantes na côrte e alguns de grande valor... 

-- Porém mais um... 

-- Conforme elle fôr!... Se me trazeis alguem como esses jesuitas pelo quaes passamos diversos commettimentos e que declinam para mim todas as cousas, agradecevol-o... 

-- Então os frades... 

-- Deixae-me com fr. Fabricio que desde, a partida de Gomes Freire para Alger nada tem feito; o padre Theodoro tudo compromette... Oh! Precisava de braços mas sobretudo de cabeças!... 

-- Tendes muitos braços á vossa disposição? 

-- Os d'alguns fidalgos, o d'esses dois padres, o de Jacintho Peres, o esbirro... E intelligencias apenas... 

-- A vossa... 

-- E a d'alguem que soube attrahir á nossa causa... 

-- D. Antonio de Mello... 

-- Oh! Nada vale comparado com a pessoa de quem se trata... 

-- Por Deus que deve ser muito habil... 

-- Habil e rancorosa! 

-- Ah! É mulher! 

-- Sim... 

-- Da nobreza... 

-- Da maior nobreza! 

-- D. Maria de Noronha, a mãe de D. Ramiro? 

-- Oh! que vale essa dama? 

-- Mas então... 

-- Fr. José... É uma princeza de sangue! 

-- Uma princeza! bradou o jesuita enthusiasmado. 

-- Sim... A futura rainha de Portugal! 

-- Ah! D. Maria Benedicta! 

-- Não... D. Carlota Joaquina! 

O outro curvou a cabeça deveras admirado e de seguida exclamou: 

-- Oh! Felicito-vos pela conquista... Vê-se bem que não tendes perdido o vosso tempo! 

-- Trabalho por gloria da Companhia... Careço agora de desenvolver toda a minha actividade... Tenho preparado um soberbo lance em que tudo arrisco... 

-- E se perder-mos a partida! 

-- Recomeçaremos! 

-- Oh! Sois assombroso de coragem. 

-- E sobretudo de fé!... Ah! fr. José do Rosario... Dêm-me um homem decidido e o throno é dos jesuitas! 

-- Um homem! Mas ha pouco offerecia-vos um! 

-- Duvido que tenha as qualidades de que preciso... 

-- Trata-se... 

-- De assassinar alguem que nos incommoda muito! 

-- Thessalonica! 

-- Oh! Esse terá também a sua vez ... Mas agora trata-se d'alguem mais alto! 

-- D. José! 

-- Sim, o principe... É necessario que o golpe d'esta vez não falhe! 

-- Como em Salvaterra já o sei... 

-- Sim como em Salvaterra onde o imbecil do padre Theodoro deitou tudo a perder com a sua falta de vigilancia... 

-- Mas sabeis que isso é grave! 

Se o vosso homem tiver mão segura não o é... 

-- Para nós... 

-- E que existe mais do que nós? Mais do que os interesses da Companhia? Que existe de superior á vingança d um Tavora?!... Se o homem de quem falaes tem boa mão e grande coragem, trazei-m'o e tudo se liquidará... Que deseja elle? 

-- É ambicioso! 

-- Bem... É uma excellcnte qualidade, os homens assim são capazes de tudo!... Quer titulos, nobreza, homens, dinheiro, pois terá tudo se nos desembaraçar do principe! 

-- Mas ha um risco... 

-- Ah! E ainda vos prendeis com isso! 

-- É para nós, o perigo... Bispo! Lembrae-vos do padre Manoel Cardoso... 

-- Oh! De ha sete annos para cá tenho aprendido muito! Julgaes então que eu quereria hoje um braço para ir ferir em plena côrte! 

-- Mas então... As embuscadas... 

-- Não... Os accidentes naturaes! É fidalgo o vosso homem! 

-- Pequena nobreza... 

-- É mau... É ao menos militar? 

-- Sim... Capitão dos terços de Olivença. 

-- Bem... Será transferido para a côrte, arranjar-se-lhe-ha um convite para uma caçada em que D. José tome parte, fará fogo sobre o principe sem que o vejam e assim tudo será a seu sabor! 

-- Oh! Excellente o plano! 

-- E bem facil de executar no fim de contas! 

-- É verdade! 

-- E como se chama o vosso homem? 

-- Luiz de Miranda! 

-- Por Deus, esse nome... 

-- Recorda-vos o d'um cadete do regimento de Peniche não é assim?... 

-- Ou antes d'um alferes d'infanteria de marinha que combate longe d'aqui com Gomes Freire... 

-- Vasco de Miranda! 

-- Sim... 

-- Pois é seu irmão!... 

-- Mandae vir esse homem! gritou n'um repente o jesuita, com grande jubilo. 

-- Sabeis que assim como eu não tenho ordem de me affastar do convento d' Alcobaça, elle não se pode affastar d'Olivença... 

-- Passará para o regimento do Caes onde se porá em contacto com D. Ramiro, com Mestral e com Silva Menezes! 

-- Arranjaes-lhe a patente? 

-- Dentro em duas horas se o quereis!

-- N'esse caso Luiz de Miranda estará em Lisboa dentro em tres dias!... 

-- Seja... Fr. José do Rosario, agora tomae todas as precauções para que não vos descubram, parti hoje mesmo para o vosso mosteiro que tempo virá em que habitarás a côrte, livre de Thessalonica e com um cargo eminente se me quizerdes obedecer... 

-- Bispo! Sou vos fiel!... 

-- Frei... Sereis o confessor da rainha D. Carlota Joaquina!

-- Já lhe chamaes assim? 

-- Pelo menos será dentro em uma semana, a princeza herdeira!

-- Já! 

-- Sim... D. José, no próximo domingo vae caçar em Cascaes! 

E o vosso homem assistirá a essa diversão, em que elle será o principal caçador! 

-- Sim de caça real! volveu o frade com um sorriso sinistro despedindo-se do bispo e envolvendo-se bem no habito. 

José Maria de Mello, despiu as vestes prelaticias que atirou para sobre o leito, agitou uma campainha e dentro em instantes, o esbirro, appareceu no limiar do aposento, curvando-se até ao chão. 

-- Mestre Peres! exclamou o jesuita. Trazei-me do vosso guarda roupa, o traje d'um juiz do crime! 

O esbirro voltava d'ahi a momentos com os objectos pedidos e o bispo começou a envergal-os um a um olhando-se n'um grande espelho. Depois tirou os oculos, poz o chapéu, envolveu-ae na beca e sahiu pela porta do convento que deitava para os campos da Boa Morte. 

Tomou uma sege que estacionava junto á basilica da Estrella, então em construcção e gritou ao bolieiro: 

-- Ao Jardim Botanico d'Ajuda... 

O carro partiu como uma flecha e o prelado assim disfarçado tinha um ar estranho combinando torpezas sem par que iria expor á sua regia cumplice. 

Chegava o momento do combate; comprehendia ser necessario muita audacia para levar a cabo os seus planos e jurava não recuar. 

Primeiro o principe, depois o arcebispo, ambos morreriam: para o logar do primeiro D. João ou antes sua mulher, o logar do segundo tomal-o-hia elle para dominar no animo da rainha. 

-- Ah! quando as desgraças a ferissem, ella submetter-se-hia, faltara-lhe o esposo, ficaria sem o filho, o confessor desappareceria tambem; e depois de todos estes cadaveres, seria uma rainha sem affeições, porque a D. João elle o saberia, empolgar, atiral-o aos braços d'uma mulher, separal-o da esposa que o detestava e a qual o futuro rei contrariaria... 

D. Antonia de Mello, seria a concubina real, combinaria isso, dil o-hia á propria Carlota Joaquina que havia folgar com essa resolução. E então, elle, o jesuita audaz, de pé nos degraus do throno, aclipsaria o vulto franzino da soberana, seria um dominador, um rei! 

-- Sim... Um rei... Um rei! Eu um dos Tavoras! e ria com o seu mau riso, quando a sege parou á porta do jardim. 

Disse ao cocheiro que o aguardasse no pateo das damas e mettendo-se pelas tortuosas viellas d'Ajuda, chegou á porta secreta do palacio, á sahida cavada, sob um alpendre e que elle transpoz dirigindo-se para os aposentos da sua cumplice. 

Ao chegar junto á porta que se abria para a saleta da princeza, parou como admirado. 

Ouviu um som de beijos, escutou palavras ternas ditas n'um amoroso segredar, suspiros intervallados, phrases semi-murmuradas, e elle estremeceu, dizendo: 

-- Oh! A princeza! 

Bateu discretamente na portinha, esperou uns momentos e depois sentiu passos, abriam-lhe a entrada e com grande curiosidade olhou os dois aposentos. 

Viu Carlota Joaquina languidamente estendida n'um sophá e tendo por unica companhia D. Antonia de Mello que lhe abrira a porta e agora se lançava aos pés da princeza que lhe acariciava as bellas tranças; tendo no olhar metallico uma expressão felina. 

O bispo saudou as duas mulheres e sorriu ao ouvir, a favorita, exclamar: 

-- Bem vindo sejaes, senhor corregedor do crime! 

-- Emquanto sua alteza, viver n'este palacio muitas vezes terei de fingir o que não sou! 

-- Dentro em pouco d'aqui sahirei... Mas, senhor bispo, sentai-vos e dizei o que vos traz... 

-- Receber as instrucções da minha graciosa soberana! Não é assim? interrogou D. Antonia com gentileza.

-- Sim... E pedir a sua alteza duas mercês! 

-- Dizei.... 

-- Uma nomeação para que um official venha de Olivença para o regimento do Caes e um convite para a caçada que se realisa no domingo em Cascaes! 

A princeza estremeceu e exclamou: 

-- É o homem! 

-- Sim alteza! 

-- O convite será feito por meu esposo no qual encorporará esse fidalgo no seu sequito, a nomeação será solicitada á rainha por... 

-- Por vossa alteza! 

-- Não... 

-- Mas... 

-- Podeis suppor, meu caro bispo, que o golpe falhava! 

-- Sim alteza... 

-- O convite feito a um desconhecido pelo principe D. João, uma transferencia sollicitada por Carlota Joaquina. 

-- Sim... Mostraria logo o proposito, volveu D. Antonia de Mello, beijando as mãos da princeza que a envolveu num doce olhar. 

-- Oh! Tendes razão!... Mas é maravilhosa a vossa prespicacia! exclamou o jesuita, que d'ahi a momentos se retirava de novo pela porta secreta, murmurando: 

-- Oh! As minucias d'um negocio... É sempre importante o detalhe! E a princeza é extraordinariamente habil... Como prevê tudo! 

D. Carlota Joaquina, beijava a dama favorita nos labios e dizia-lhe d'animo: 

-- Contavas-me ha pouco que esse bobo te beijara um dia a nuca á traição... Oh! Minha querida! Juro-te que quando quizeres o mandaremos enforcar... 

D. João de Falperra estava desde já condemnado. 











XLV 







A caçada real 





O mar immenso, azul, banhado de luz estendia-se até lá muito a baixo, á linha indefinida do horisonte vasto. 

E pequenas velas pareciam pousar como aves maritimas na amplidão d'esse panorama delicioso. 

Ceu e agua confundidos ao longe no mesmo puro azul, um sol resplandecente e creador vivificando os campos além em Cascaes, a distancia no meio das brenhas por onde as perdizes Dousavam para correrem lestas no seu vôo rasteiro d'ahi a momentos, o bastante para descançarem as azas fatigadas. 

Cá para baixo, a villa com os seus casarões pesados, na visinhança do mar, o forte batido pelas ondas e em cuja esplanada vultos breves de soldados do regimento, appareciam minusculos como pontinhos debruçados para o grande espaço das aguas. 

A casaria branca dos pescadores em tons suaves, os montes alto? erguidos no lado opposto, verdura a engrinaldar tudo isto; e lá muito ao longe um campo semeado de papoulas rubras. 

E nas encostas, por entre as arvores d'um bosque que ficava no alto animando tudo, uns despenhadeiros se erguiam a pique e pouca distancia uma comitiva acampava. 

Era um nucleo d'homens trajados de escarlate, os pagens, os creados das azemolas cobertos de damascos bordados, além junto das tendas claras especadas no solo calcareo. 

Toldos listrados pendentes das arvores, junto a paredes em ruinas, tudo isso abrigando os fidalgos que de cabeça descoberta, respeitosamente de pé, olhavam sua alteza real o principe D. João, que muito fatigado descançava sob os toldos. 

Gordo, pesado, estafado por uma correria em que não pudera acompanhar seu irmão, o marido de Carlota Joaquina, cerrava os olhos com beatitude e murmurava para o seu mestre d'armas. 

-- Jacques Lebon, veja se encontra o bispo do Algarve! 

-- Meu senhor... Julgo que sua grandeza acompanha o vosso augusto irmão! 

-- Ide! E trazei-m'o depressa, nunca me consolarei sem a sua absolvição! 

O mestre partiu, e um homemsinho magro atarracado, de voz aflautada, perguntou: 

-- E é muito pesado o que pesa na consciencia de vossa alteza? 

-- Oh! Estavas ahi marquez de Ponte de Lima? <marca num="*" pag=546> interrogou o principe dirigindo-se ao presidente do real erario que se inclinou respondendo: 



<nota num="*" pag=546> Conde de Villa Nova de Cerveira, agora tornado em marquez. 



-- Vossa alteza bem sabe qne o acompanhei sempre durante a caçada. 

-- E não viste o que eu fiz? 

-- Não meu senhor... 

-- Oh! Marquez... matei com uma bala uma pequena andorinha... Tenho escrupulos de consciencia, preciso a absolvição do bispo.... 

O outro tão devoto como o principe, murmurou: 

-- Oh! Eu jamais me consolaria... Para mim essas aves são tão sagradas, como os santos corvos da Sé, os que trouxeram o cadaver de S. Vicente martyr... 

Elles ficaram conversando sobre o assumpto de devoção e os fidalgos conservavam-se sempre de pé. 

Então um d'elles, um homem alto, magro, de rosto energico e olhar falso, fardado de capitão do regimento do Caes, tomando o berço de D. Balthazar d'Athouguia, murmurou: 

-- E teremos que ficar aqui? Não conheço os usos da côrte!

-- Não, capitão Luiz de Miranda, partamos, do contrario não chegará o tempo. 

-- E onde se encontra elle? 

-- Para o lado do bosque!

-- Vamos... 

-- Os cavallos estão ali... 

Affastaram-se sem que os notassem e montaram a cavallo dirigindo-se a toda a brida para o logar d'onde vinha os tiros disparados pelos caçadores sobre a caça da coutada. 

-- Luiz de Miranda, o principe D. José está ali!... murmurou o fidalgo, apontando o herdeiro do throno, vestido completamente de branco e que tinha uma expressão radiante na physionomia ao segurar a sua espingarda. 

Era verdadeiramente magestoso, aquelle homem de fronte larga e olhar audaz que no meio da côrte, a pé como o ultimo dos seus gentis homens, sorria alegre, murmurando para os que estavam perto d'elle: 

-- Oh! Se podesse estaria sempre assim, livre de etiqueta, longe do bulicio. 

-- Meu senhor, disse-lhe o conde de Assumar que nunca o abandonava por conselho do arcebispo; ninguem vos impede de o fazerdes! 

-- Por agora meu caro Alorna, mas no futuro! 

-- Tereis os vossos sub secretários de estado! retorquiu o conde de Assumar. 

Elle olhou-o com grande sem-ceremoaia e volveu: 

-- Isso era se em vez de ser eu o herdeiro do throno, fôsse meu irmão D. João... Os sub secretários dizes tu, meu caro marquez, mas para isso só se tu o fosses! 

-- Eu real senhor! 

-- Sim... Em quem posso ter confiança no meio da côrte? Dize-me... Olho para todos elles, as physionomias pesadas, sem expressão, nas palavras a mentira, a lisonja, a adulação vil! E são fidalgos?... Faria d'elles os meus ministros? Olhe, Alorna, antes que tenha de ir procurar entre o povo, encontrarei um novo marquez de Pombal. 

Emquanto o principe assim falava, sempre preoccupado com a sua politica, a cabeça descoberta á soalheira rescaldante, enthusiasmado a ponto de esquecer a caça, de ficar ali ao lado do seu confidente, Luiz de Miranda mettera-se por entre as arvores apertando bem o bacamarte, e tinha um olhar mau ao dizer para D. Balthazar d'Athouguia: 

-- Ide-vos, D. Balthazar, e dentro em um quarto d'hora podeis prevenir o bispo do Algarve que o herdeiro do throno é D. João de Bragança! 

-- E se falhar o tiro?... 

-- Ah! Por Deus estou habituado a atirar ao lobos na fronteira e eu que nunca errei um tiro a essa má caça, não o erraria tambem para uma caça real! Tenho inteira confiança em mim podeis acreditar. 

Sorria cynicamente e atravez da folhagem olhava o principe que continuava a conversar com o marqaez de Alorna, e ordenava a D. Balthazar: 

-- Levai o meu cavallo e amarrai-o n'uma arvore á sahida do bosque... 

-- Que fazeis! 

-- Partirei depois do desastre de que sua alteza será victima, e dando a volta juntar-me-hei ao sequito do principe D. João, acompanhado por vossa senhoria e pelo senhor bispo... 

-- Que o principe mandou chamar por Jacques Lebon! 

-- Mas que não acudirá ao apello de sua alteza senão depois de consummada a obra... 

-- Esperae-me ambos á sahida do bosque e respondo por tudo, fica combinado que andei sempre na vossa companhia... Vamos... É o momento! 

-- Boa fortuna! exclamou D. Balthazar, affastando-se a cumprir os desejos do outro que ficava além occulto na folhagem, apontando a arma, visando bem o coração do principe. 

Ouviu-se um grande ruido que fez estremecer o capitão; depois o sequito fidalgo vinha de corrida, vozes bradavam: 

-- Alteza! Alteza! Avistamos um gamo... 

-- Um gamo n'este logar? bradou sua alteza. 

-- Sim, meu senhor, é bem facil que tivesse fugido da real coutada d'Oeiras... 

-- Seja como fôr... Nada de explicar d'onde nos chega a caça... Temol-a ante os olhos; fogo é o que temos a fazer! exclamou elle com grande alegria, emquanto Luiz de Miranda murmurava: 

-- É isso! Vou seguir o teu conselho... 

Apontava a espingarda com mão segura, ali bem escondido entre a folhagem; via que a côrte formava um semi-circulo, esperando a caça que os batedores faziam chegar-se para ali. 

Lá de cima ao fim do bosque, ouvia-se o ladrar dos cães, um ramalhar nas silvas, troncos quebrados com estrepito, as vozes dos servos, bradando: 

-- Sim... Sim... Eh! Ahi vae o ganso... 

-- Attenção, meus senhores! exclamou o principe, collocando se mesmo em frente da espingarda de Luiz de Miranda, e bradando: 

-- Vamos.... Aos seus logares!

Elles obedeceram rapidamente, adoptaram as praxes estabelecidas para a caçada e de dedo nos gatilhos ficaram aguardando o animal que seria victima d'aquella carga cerrada para o qual sua alteza daria o signal. 

O cumplice do jesuíta continuava no seu posto, pensando em confundir o seu tiro com a descarga da côrte, para de seguida abandonar aquelle logar como previamente combinara. 

O gamo vinha batido de cima, correndo perseguido pelos cães, e estacava de repente ante os caçadores, o principe dava o signal, todos aperravam as armas, faziam a pontaria, e elle sorria enthusiasmado, murmurando para Alorna: 

-- Oh! Se tivesse assim um inimigo ao alcance da espingarda como esse pobre gamo... 

-- Vossa alteza erraria o tiro porque se lembraria que ia matar um homem! 

O herdeiro do throno teve para elle um olhar de amisade e sorriu. 

Luiz de Miranda visava bem o principe, o dedo no gatilho, a mão segura, prompto á primeira voz, a esse signal que o proprio D. José daria como um valoroso militar ao commandar o fogo que o havia prostrar. 

Os fidalgos tomavam posições alinhavam-se, apenas o principe ficava fóra da fileira, bem visivel, tornado um excellente alvo para o inimigo. 

Deu o signal; uma descarga soou e o gamo cahiu por terra banhado em sangue ao mesmo tempo que uma bala passava silvando por sobre a cabeça de sua alteza que nem dera por tal, enthusiasmado com a descarga. 

E Luiz de Miranda que disparara aquelle tiro, estava pallido, livido, agarrado brutalmente por um homem que chegara e que lhe desviara a pontaria empurrando-lhe o braço homicida, exactamente na occasião em que elle ia apertar direito ao coração do filho da rainha. 

A bala descreveu errada trajectaria mercê d'aquelle salvador inesperado que além estava agora segurando com raiva o capitão, gritando lhe: 

-- Miseravel que ias fazer? 

Não respondia, ficava como louco a encarar o individuo que tinha na sua frente e que envergava o uniforme de sargento-mór do regimento de Peniche, e que clamava sempre: 

-- Querias assassinar sua alteza, não é assim? Oh! Parece que advinhava isso mesmo ao ver á entrada do bosque esse miseravel agora transformado em bispo! És cumplice de José Maria de Mello, não é verdade, villão? Oh! Mas vaes dizel-o, além, em face de toda a côrte para que se saiba quem esse homem é... Tinha-te promettido ouro ou titulos!... É o seu systema! 

-- Senhor! balbuciou Luiz de Miranda aterrado em frente do sargento-mór. <marca num="*" pag=556>



<nota num="*" pag=556> Patente que equivalia á de tenente-coronel. </nota>



-- Cala-te! E envergas tu uma farda?!... A dos traidores, a dos infames do regimento do Cães! O teu nome... 

-- Mas juro- vos, meu sargento-mór... volveu elle cada vez mais aterrado. 

Porém o official vergava-lhe o braço, obrigava-o a curvar-se, perguntando-lhe com os dentes cerrados, n'uma voz sibillante: 

-- O teu nome... 

N'este momento ouviu-se um ruido de passos que se aproximavam, e o capitão exclamava! 

-- Oh! Estou perdido! 

Fazia um esforço brusco para se soltar mas estava bem preso, e o outro parecia esmagar-lhe o braço como n'uma torquez. 

Um novo personagem acabava de chegar ao logar da scena. 

Era um rapaz ainda, de pelle tostada como a do sargento-mór e que vestia o uniforme de capitão do regimento de Peniche. Ao vêr o seu superior, cheio de raiva a segurar um homem, bradou: 

-- Que é isso, Gomes Freire! 

Ante aquella voz o outro estremeceu, empurrou o miseravel que cahiu por terra, e bradou: 

-- É, Vasco de Miranda, que vou fazer saltar os miolos, a um miseravel que apontava a espingarda a sua alteza!

-- Ao principe D. José! Ao nosso protector? 

-- Sim... Vinha agradecer-lhe o ter feito com que voltassemos ao reino e as nossas patentes, atravessava o bosque a cuja entrada encontrara o nosso inimigo, esse José Maria de Mello, que o inferno confunda, e deparei com este infame, prestes a victimar sua alteza! Desviei-lhe a pontaria e vou matal-o! 

-- Eu seguia te, porém não encontrei o novo bispo! 

-- Ah! O cobarde teve medo! Ao ouvir a descarga que julgou ter morto sua alteza! 

Depois, para o outro, com desprezo, ordenou: 

-- Levanta-te! 

Elle em vez de lhe obedecer ficou na mesma posição como tomado de subito furor, e por fim, erguendo-se, olhou de frente o capitão do regimento de Peniche, que recuou, passando a mão pela fronte n'um gesto louco e gritando: 

-- Meu irmão! 

-- Teu irmão este infame? interrogou Gomes Freire, deveras surprehendido. 

O miseravel continuava a fixar o official e por fim dizia: 

-- E agora conduzam-me á presença de sua alteza! O meu nome ficará infamado, mas o do meu captor será maldito como o de Caim! 

Gomes Freire, baixara a cabeça confundido e Vasco de Miranda, olhando o irmão que assim alardeava a sua infamia, gritou-lhe: 

-- Ah! Julgas acaso que hesitaria em te entregar á justiça real? Pensas que receiava a mancha no meu nome? Não... Porque cumpria bem o meu dever. 

-- Mas porque o não fazes? interrogou elle com um olhar odiento. 

-- Porque meu pae é um homem honrado, que morreria de vergonha ante o filho infamado! 

-- Que querem então de mim? interrogou com ousadia. 

-- Que partas para longe, que não voltes á côrte, que não tentes cousa alguma contra D. José! exclamou n'um impeto o sargento-mór. 

-- E se recusar? 

-- Mato-te como a um lobo! Vamos, escolhe! 

Elle baixou a cabeça, metteu as mãos nos bolsos e exclamou: 

-- Partirei... 

Affastava-se em passadas largas e de longe montando a cavallo, saltando o muro na direcção onde estavam os officiaes, murmurou: 

-- Partir? Oh! Nunca! Agora ficarei para a vingança! 

Elles lado a lado dirigiam-se para o principe D. José, Vasco de Miranda ainda não trocara palavra com Gomes Freire, apenas derramara algumas lagrimas nas mãos do amigo que tomara para as beijar. 

E agora além em frente do principe, elles conservam-se ainda commovidos, ouvindo a voz alegre do marquez de Alorna, tornado coronel a um regimento, por morte de seu pae, exclamar:

-- Alteza! Dizieis ha pouco que não tinheis em quem confiar! Aqui tendes dois corações leaes! 

E apertava nos braços os seus amigos queridos, n'uma effusão jubilosa, emquanto D. José, dizia: 

-- Sejaes bemvindos, senhores! 

Elles beijaram-lhe mais uma vez a mão e vendo o sorriso bondoso do principe. Gomes Freire, murmurou: 

-- Senhor, meu futuro rei, perdoae o passado e recebei os tributos da nossa gratidão pela vossa magnanimidade! 

Vasco, ainda muito pallido não se atrevia a fallar, recordava-se sempre do irmão e estremecia de colera. 

O principe dizia-lhes então: 

-- Sois amigos do marquez de Alorne, meus amigos, ficaes tambem! 

E lá em baixo um poente melancholico, fechava o quadro da caçada real. 









XLVI 





Confidencias 





Conversava o marquez d'Alorna, com sua esposa, sentado no banco de pedra, d'aquelle jardim da propriedade de Oeiras onde tantas noites elle entrara nos tempos dos seus amores occultos. Agora muito felizes lado a lado, olhavam o extenso panorama que se desenrolava á sua vista e iam falando  dos acontecimentos da côrte. 

Era no dia seguinte ao da caçada real; e D. Pedro de Portugal dizia a sua mulher: 

-- O principe ficou deveras encantado, minha boa Henriqueta, com a presença de Vasco de Miranda e de Gomes Freire! 

-- Não lhes guarda já resentimento? interrogou ella com grande pressa. 

-- Não. É uma alma verdadeiramente grande para abrigar sentimentos mesquinhos! Demais comprehendeu o laço que os seus inimigos lhe armaram! 

-- Mas apesar de tudo conserva ainda D. Ramiro de Noronha ao seu serviço... 

-- Conserva... Finge não conhecer a sua traição... 

-- E com D. Maria da Penha... 

-- Tributa-lhe o maior respeito... Folgou immenso com a resolução da esposa em conservar a joven a seu lado... 

Foi n'este momento que um creado envergando a libré dos Alorna, atravessou o jardim e acercando-se dos dois cônjuges, exclamou: 

-- Senhor marquez, estão lá fora os senhores Gomes Freire e Vasco de Miranda! 

-- Oh! Que entrem para aqui! Que entrem! exclamaram a um tempo os dois esposos. 

Dentro em alguns instantes, Gomes Freire apparecia ao lado do amigo e curvavam-se em face da marqueza, a quem Alorna, os apresentava, exclamando: 

-- Minha querida amiga... São os meus dois fieis companheiros de ha muito tempo... Estima-os como elles já te estimam desde o começo do nosso amor... 

-- Senhores... Folgo immenso em travar conhecimento com os dois melhores amigos de meu esposo, que são ao mesmo tempo leaes e valorosos militares... 

Inclinaram-se cerimoniosamente em frente da fidalga e Gomes Freire, volveu: 

-- Agradecemos-vos a distincção! 

-- Oh! Senhor sargento mór, de ha muito eu sei o que valeis... Para demais, Pedro contou-me a vossa paixão por minha prima, os lances a que vos expuzesteis, todas essas scenas que tanto vos honram... 

-- Ah! D. Elvira... Meu Deus, como o coração me gotteja ainda ao lembrar-me d'essa dama que amo! E se voltei a Portugal... 

-- Foi por sua causa, não é assim? interrogou o marquez com um bello sorriso. 

-- Sim... Buscando encontral-a, dar-lhe o meu amor, tornal-a minha esposa como D. Maria da Penha vae ser a consorte de Vasco de Miranda! 

-- Quando se realisa o enlace, Vasco? perguntou o marquez, com a sua grande persistencia em saber da felicidade do amigo. 

-- Logo que se preencham as formalidades necessarias... Promettera a mim proprio unir-me a D. Maria mal tivesse conquistado os meus primeiros galões... Hoje sou capitão, graças a ti, e possa cumprir a minha palavra... 

-- Graças ao teu valor... 

-- E á infiuencia que tens junto do principe... volveu Vasco.. 

-- Não... Sua alteza, sabendo dos prodigios que praticaram na armada, insistiu com a rainha para vos galardoar, recordou até mesmo o passado e obteve de sua mãe, as vossas patentes! 

-- Realmente devemos muito ao principe. .. 

-- Sargento-mór na minha edade e quando meu tio Bernardim, é coronel deveis concordar que é ter felicidade... Mas a tudo isto preferia... 

-- D. Elvira de Mello... 

-- A esposa como tu, Pedro, a tens, como Vasco a vae ter... Oh! Porém eu... 

-- O que? Já desesperaste de encontral-a? 

-- Ah! E eu tenho um mau signo! volveu elle d'um modo triste. Vasco de Miranda estivera silencioso durante algum tempo e por fim, de repente, ao ver que a marqueza se despedia e se retirava, exclamou á pressa: 

-- Sabes qual é o motivo da nossa visita? 

-- Oh! Naturalmente porque desejam estar junto d'um amigo que não vêem ha muito! tornou com o seu sorriso. 

-- Sim, Pedro, é tambem por isso... 

-- Mas não é a unica causa? 

-- Não... 

-- Que temos então? 

-- Gomes Freire que te explique, a mim fallece-me o animo!

-- Ah! É então muito grave o assumpto? interrogou o marquez como sobresaltado. 

-- Sim Pedro, é muito grave! volveu o sargento-mór, com certa firmeza. 

-- Mas de que se trata? interrogou cada vez mais admirado. 

-- Da vida d'uma pessoa que nos é extremamente cara! bradaram ambos a um tempo. 

-- Sua alteza! exclamou o marquez d'Alorna n'um impeto.

-- Sim... O principe... assegurou Gomes Freire. 

-- Mas quem tenta contra a sua vida?... disse n'um grande sobresalto. Oh! Miseraveis! Já em Salvaterra, o intendente da policia o salvou a custo e agora... 

-- Em Salvaterra? bradaram espantados os dois amigos. 

O marquez então narrou-lhes todos os acontecimentos que elles ouviam cheios de pasmo e por fim, o sargento-mór, gritou: 

-- Pois d'esta vez o golpe parte do mesmo lado! 

-- O que? O Joannico?! Mas depois d'essa aventura, e sabendo que fôra com elle o caso, procurei-o e elle jurou-me não tornar a tentar contra sua alteza... 

-- Não... Joannico era apenas o braço, não é assim? 

-- Decerto... Um infame serviu-se do ódio que existe no coração d'esse rapaz, cujo valor conhecemos, disse lhe como seu pae morrera n'um patibulo, emfim, armou lhe o braço!

-- Como agora! exclamaram ambos. 

-- E esse homem... 

-- É o bispo do Algarve... 

-- Ao tempo ainda simplesmente, fr. José Maria de Mello... 

-- Mas d'esta vez o caso teve outras consequencias, apesar da aventura passar despercebida na côrte e até a sua alteza! 

-- Mas o que foi? 

-- Hontem no momento da descarga ao gamo, uma bala sabida do bacamarte d'um individuo que se occultava sob a folhagem do bosque, passou alguns dedos acima da cabeça de D. José! 

-- Oh! 

-- E sabes porque não temos n'este instante a lamentar uma morte? Porque um homem decidido, agarrou o braço do miseravel no momento em que ia fazer fogo, desviando-lhe assim a bala! 

-- Por Deus! E onde se encontra a pessoa que attacava, sua alteza! 

-- Sem duvida longe d'aqui... 

-- Ah! Deixaram-no em liberdade! Mas... 

-- Sim... Já comprehendeste que foi Gomes Freire, quem obstou a esse assassinio... 

-- Tu! Oh! Saldaste a tua divida para com D. José! 

-- Espero ao menos que não lh'o irás dizer... 

-- E porque? 

-- Porque nós t'o supplicamos... 

-- Meu Deus! Mas d'esse modo, não se punindo os culpados, o principe será victima uma das vezes!

-- Nós Velaremos por elle! 

-- Mas porque não denunciaremos esse homem? interrogou Alorna muito surprehendido. 

-- Oh! Marquez... soluçou Vasco de Miranda. 

-- Vasco, meu amigo, que é isso? interrogou D. Pedro tomando-o nos braços e apertando-o ao peito. 

-- E que esse homem é sagrado para mim... 

-- Meu Deus! Acaso será algum grande fidalgo? Cadaval, Lafões... Ah! Talvez que o principe D. João...

-- Não... 

-- Mas... 

-- É meu irmão! bradou elle escondendo o rosto no peito do marquez, que ficou cabisbaixo. 

Alorna, d'um modo triste, olhando os amigos, murmurou: 

-- Vasco... Gomes Freire... É esse o unico motivo capaz de fazer cerrar os meus labios... 

-- Obrigado! Comprehendes... Não é por elle... 

-- Sim... E por teu pae, meu amigo... 

-- É pelo homem que morreria de vergonha ao saber de semelhante infamia! 

-- Teu irmão é n'esse caso, um certo Luiz de Miranda, que veiu d'Olivença... 

-- Sim... 

-- Capitão? 

-- Sim... 

-- Oh! Mas esse homem fazia parte do séquito do principe D. João! 

-- Queres dizer? 

-- Que foi na realidade o bispo que lhe armou o braço! É sabido quanto póde no animo de sua alteza! Ah! Mas eu farei com que esse homem se affaste do paiz... 

-- Amigo, seria a tua melhor acção... Porque elle é ambicioso e perde-se sujeito áquelle homem pernicioso... 

-- Vasco... Tu tens soffrido desde ha muito pqr causa de teu irmão, não é assim? 

-- Oh! Desde os mais tenros annos! 

-- Deixa que te abrace mais uma vez... exclamou o marquez unindo-o ao peito. 

Agora ouvia-se um cavallo que parava á porta da residencia e d'ahi a instantes, apparecia o conde de Vai de Reis que exclamava: 

-- Meu caro Alorna... Meu caro marquez... 

-- O conde? 

-- Vem ahi sua alteza! foi a resposta do fidalgo que acompanhava D. José de Bragança, e fardado de coronel, exclamava ao apparecer na extremidade do jardim: 

-- Ora este homem... Eu queria chegar sem ser visto... Oh! Conde, sois indiscreto! fez elle com um bom sorriso. 

-- Meu senhor... Eu vinha visitar o meu coronel, volveu Val de Reis que era o sargento-mór, do regimento do marquez, e ao ver vossa alteza, julguei do meu dever prevenir... 

-- Fizeste muito mal... Eu queria surprehender estes senhores que sem duvida conspiravam... tornou de muito bom humor. 

Alorna, e todos os presentes, beijavam a mão do principe e o marquez, murmurava: 

-- Meu senhor... É para mim a maior das honras, a vossa presença aqui... 

-- Oh! Não me agradeças, não me agradeças porque deixei á porta D. Ramiro que não tarda a penetrar tambem, no teu dominio... 

Falava do seu modo jovial, contente por aquella tarde de sol, o bom principe, que continuava: 

-- Mas meu caro marquez, descança que o senhor de Noronha não passará do jardim, eu é que preciso de ter comtigo uns momentos de conversação... 

-- Ás vossas ordens, meu senhor! 

D. José, então voltou-se, assestou a luneta n'um ar observador em que imitava o seu mestre Pombal, e exclamou, como se só agora tivesse reparado nos dois officiaes: 

-- Mas não me engano, tenho na minha frente o senhor Gomes Freire, o sargento-mór do regimento de Peniche! 

-- Sim, meu senhor, por graça de vossa alteza real! 

-- Oh! Lisongeiro, sargento-mór, por graça de sua magestade... Eu ainda não sou rei... 

E ele sorria lhe d'um modo bondoso, e continuava: 

-- Sei dos vossos prodigios em Alger... E se não fosse por carecer de vós em Lisboa, aconselhava-vos a que tomasseis parte na outra expedição! 

-- Quereis desterrar-me, meu senhor?... interrogou o official d'um modo cheio de amisade. 

-- Por Deus! Já vos disse que não sou o rei, porque se o fosse, hoje mesmo, o regimento de Peniche, chamar-se-hia o de Gomes Freire de Andrade, para vos provar que aos homens do vosso valor, o desterro deve ser na côrte ao lado dos monarchas que muito carecem de amigos e de corações leaes, não assim, senhor capitão? perguntou elle dirigindo-se a Vasco de Miranda, que muito commovido se inclinava, dizendo: 

-- Quando os monarchas são como vossa alteza o ha-de ser, em cada subdito tém um amigo fiel e dedicado! 

-- Ah! Por Deus e por S. Jorje, que manejas tão bem a cortezia como ... 

O principe calou-se a subitas, e depois n'um riso satisfeito, bradou: 

-- Ia dizer como a espada, mas substituirei a phrase por outra... 

E volveu: 

-- Como o galanteio ás damas... É verdade, capitão, já tendes padrinho para o vosso casamento? 

Vasco de Miranda, no auge da admiração, volveu: 

-- Mas meu senhor... Estão naturalmente indicados... 

-- Gomes Freire e o marquez! 

-- Os meus dois amigos! 

-- Se me contasseis nesse numero pediria a Alorna que me cedesse o logar... 

-- Oh! Meu sennor! exclamou o capitão curvando-se a beijar a mão do principe, emquanto o marquez, dizia: 

-- Mas deixemol-o, alteza, porque sei os sentimentos que Vasco nutre por vós... 

-- Bem... bem... E depois trataremos de procurar uma noiva para o nosso sargento-mór... 

-- Para mim, meu senhor, peço-vos que não penseis em tal! 

-- Oh! E porquê? 

-- Porque ficarei solteiro! exclamou com firme resolução. 

-- Oh! Gomes Freire! 

-- Sim, meu senhor, amei uma mulher que me foi arrebatada dos braços por alguem a quem odeio e que me odeia, procurei-a, procuro-a, se um dia a encontrar serei seu esposo, se não tiver a dita de a ver conservar-me-hei fiel á promessa que lhe fiz... 

-- E essa dama... Foi-vos arrebatada... Mas por quem?... 

-- Por alguem que é tambem vosso inimigo, meu senhor! 

-- Quem? Qual d'elles? 

-- Fr. José Mana de Mello! 

-- Ah! O bispo... Mas n'esse caso não era um capricho o que nutrieis pela filha do cardeal da Cunha? 

-- Não, meu senhor... É um grande amor... 

-- Não o julgava... Mas já que assim é, nós a procuraremos! Juro-vol-o, dou vos a minha palavra que se Deus me conservar a vida, sereis feliz com a mulher que amaes! Vamos senhor! exclamou D. José, apoiando-se no braço do marquez de Alorna e dizendo para os dois officiaes: 

-- Vinde... Assistireis ao que tenho a dizer ao vosso amigo... E em voz muito baixa, n'uma confidencia, tambem dizia a D. Pedro: 

-- Vim porque sabia que os encontrava. 

Voltara-se para o conde de Val de Reis e exclamava: 

-- E vós, conde, acompanhae o vosso coronel! 

N'este momento D. Ramiro de Noronha entrava no jardim e tirando o chapéu, curvando-se em face do principe, olhando ao mesmo tempo admirado os outros personagens, muito desejoso de assistir ao que se ia passar n'essa reunião para que sua alteza os convidara. 

E D. José, n'um ar malicioso, que por vezes tomava, encarando D. Ramiro, apoiando se mais no braço de Alorna, disse para o seu camarista apontando os officiaes: 

-- Ramiro, apresento-te os meus fieis amigos: Gomes Freire de Andrade, sargento mór do regimento de Peniche, e Vasco de Miranda, capitão do mesmo regimento! 

Elle inclinou-se muito pallido em frente d'aquelles homens a quem o seu amo chamava amigos e volveu com mal disfarçada raiva: 

-- Já vos conhecia, senhores! 

-- Desde ha sete annos! secundou Gomes Freire, lançando-lhe um olhar colerico. 

O fidalgo ia seguir D. José, que se dirigia para o palacio, porém o principe ordenava-lhe: 

-- Aguarda-me ahi, Ramiro, e vae rezando um terço por minha intenção... para que Deus me livre dos meus inimigos. 

E no olhar de sua alteza havia como uma accusação ao cumplice do bispo do Algarve. 

Viu que entravam no palacio, e então, ao ficar só, collocado no banco onde o marquez estivera com a esposa exclamou no cumulo da raiva: 

-- Oh! É demais tanta humilhação... Se ninguem o matar, matai o-hei eu, juro o pelo meu nome!... Oh! Defrontar-me assim com esses que odeio! 

Nos labios desmaiados do fidalgo borbulhava uma espuma de raiva e n'um esforço erguendo-se, olhando o palacio, n'uma ameaça terrivel, murmurou: 

-- Matal-o-hei... Matal-o-hei... 











XLVII 







O começo da vingança 





José Maria de Mello entrara lentamente nos aposentos da rainha, ficava além á porta, muito respeitoso, muito grave, vendo o vulto da soberana curvado em

face do seu oratorio onde as imagens de bello ouro lavrado tinham scintillações exquisitas ás luzes das lâmpadas de oleos aromaticos. 

Aquella cabeça firme de animal damninho estendia-se a analysar a soberana. 

Ella ergueu-se de repente, passou as mãos pelo rosto a enxugar as lagrimas que lhe cavavam as faces pallidas e murmurou: 

-- É um castigo do céu! É um castigo! 

Nos labios do bispo do Algarve, encrespoa-se um sorriso quasi ironico, avançou na mesma lentidão para a soberana e murmurou: 

-- Real senhora... Aqui estou! 

-- Ah! Vós, grandeza... Fez ella n'um sobresaho enorme, fixando-o extranhamente. Oh! Vinde... vinde! Rezae commigo pela vida do herdeiro do throno... Fiz-vos mal, perdoae... Sinto que com as vossas orações a vida de sua alteza será salva!... 

Começava agora a revelar-se bem o seu temperamento mystico, toda a longa desgenerescencia d'uma dynastia, esse phenomeno pathologico que nas familias reaes se analysa mais do que nas outras, pelos dados accumulados de seculo para seculo. 

Era a transmissão das podridões do sangue, o desiquilibrio d'essa raça real que se manifestava em D. Maria I. 

Nos seus avós já se manifestara tambem, entre elles tinham existido degenerados nevropathas perigosos pela posição que occupavam. 

Desde D. João IV, pusilamine e timido até D. João V, roido de doenças secretas, Affonso VI pederasta e louco, D. Francisco, criminoso como seu tio o fôra tambem, que essa raça, já perturbada peias allianças com outras gerações desiquilibradas, se definhava e decahia. 

Como D. Sebastião, o mystico sonhador, D. Maria I mostrava-se agora d'uns excessos de devoção, d'uma tibieza d'animo, d'umas agitações extranhas e começava a formar-se a loucura que os jesuitas apressariam com os seus tormentos infames. 

Para ella, cravava-se bem firme o remorso na alma. Eram os Tavoras, o duque d'Aveiro, os fidalgos suppliciados no reinado de seu pae que lhe vinham á mente e a aterrorisavam, tendo-se lembrado de tudo aquillo pelas palavras imprudentes e propositadamente insuffladas no seu animo por José Mana de Mello e pelos seus cumplices. 

Era debalde que o arcebispo-confessor e Martinho de Mello, buscavam distrahir a soberana, proporcionando lhe as grandes diversões, fazendo passar ante os seus olhos a côrte deslumbrante, e quando lhe viam o espirito cançado, a mandavam para as Caldas ou para Salvaterra a reconstituir-se. 

Mas havia n'ella a ideia dominante e fixa d'esses Tavoras, cujo descendente fizera sagrar para o desprezar depois. 

A serie de desgraças que pesavam sobre a sua família contribuíam tambem para o estado de espirito verdadeiramente extranho. 

Morrera o esposo, travavam-se luctas intestinas no seu paiz onde se accendiam odios, na sua familia onde os membros se guerreavam formando facções. 

Agora, a coroar essa nobre obra de desgraça, seu filho, o herdeiro do throno, aquelle em que maiores esperanças tinha, cahira doente depois d'umas correrias pelas penedias de Cintra em que o sol ardente faiscava. 

E essa doença ia victimal-o, os physicos tinham gestos desolados para a soberana que vira o filho estendido no seu leito de dôr, a epiderme coalhada de globulos negros d'essas bexigas apanhadas á 

soalheira e que o transformavam, creando crostas alastrantes pelo corpo d'esse principe outr'ora tão gentil. 

Como se myriades d'insectos venenosos o picassem, elle estava coberto de bexigas que o prostravam, uma febre enorme o agitava, mal podia abrir os olhos cujas palpebras estavam corroidas pelo mal e a voz pastosa, secca, a voz do delirio soava por vezes n'uns soerguidos como se lhe apparecesse ante a vista alguma scena terrivel: 

-- Sangue! Sangue! Elles! ... Clamara D. José, n'aquella tarde de esplendido sol em que as flores do jardim pareciam amollentadas, e quando a rainha entrava n'esse quarto d'uma atmosphera pesada e fetida, em que cheirava a febre, e no qual os proprios physicos tinham receio d'entrar. 

Sem se saber como espalhara-se a noticia de que D. José tinha uma doença desconhecida, o seu creado de quarto, um velho que lhe era dedicado, desapparecera e dizia-se que fôra contaminado pela doença. 

E aquelle principe, o futuro rei, estava como abandonado por todos, desde os membros da real familia que á excepção da rainha e de Maria Benedicta, não o visitavam, até ao ultimo dos servos receiosos tambem d'esse terrivel mal. 

D. Maria I, não tendo confiança nos homens, voltou-se para Deus. 

Passou as noutes velando, ah junto do seu oratorio, dirigindo preces ao céu, sentindo estalarem-lhe as fibras do seu coração materno, só ao lembrar-se que o filho podia morrer. 

-- Era o castigo do céu! dizia ella, dissera-o a Thessalonica, dissera-o aos seus amigos e chamara o Tavora, a occultas do arcebispo, encerrava-se agora com elle no oratorio e exclamava aquellas palavras que o tornavam jubiloso. 

Depois, a rainha corria para a porta, fechava-a cheia de medo, com um olhar brilhante e cahindo aos pés do bispo, erguendo as mãos, como louca, supplicou: 

-- Oh! Grandeza, dar-vos-hei tudo, pedi... Mas affastae o mal com as vossas preces! 

-- Real senhora... Sua alteza viverá... Não receieis cousa alguma... Os physicos não têm mais poder do que Deus e é para elle que vamos appellar! 

-- Oh! Sim... sim... Para Deus! Ao meu lado... Aqui... Ajoelhe-se e ore... 

José Maria de Mello n'um ar falso, requintadamente hypocrita, ergueu os olhos ao céu e em voz doce, sentindo-se em segurança no interior d'aquelle oratorio e ao lado da rainha, disse: 

-- Oh! Tavoras, meus parentes, martyres em vida, e que sem duvida estaes no ceu, intercedei para com Deus pela via de sua alteza que a vossa memoria será abençoada! 

A rainha ao escutar aquella extranha supplica, fez-se livida, envolveu-o n'um olhar doce e exclamou: 

-- Como sois bom... Oh! Orae... orae! 

-- E rehabilitareis a memoria dos martyres! bradou o Tavora com um olhar dominador. 

-- Sim... sim... juro vol-o! exclamou a pobre rainha como desvairada. 

Ficaram então ambos n'aquella posição durante muito tempo dirigindo as suas preces ao céu. 

A rainha n'uma grande persistencia conservava a seu lado o arcebispo como se resumisse n'elle toda a sua esperança. 

E a noute cahia emquanto o prelado sem manifestar a minima impaciencia pelas longas horas a que ali estava continuava a resar e aconselhar a rainha. 

Dir-se-hia que desejava prendel-a além, tel-a segura, para que não fosse ao quarto do doente. 

Entretanto no jardim do palacio reinava o maior silencio. 

As arvores projectavam sombras enormes, ouvia-se correr a agua no tanque n'um murmurar tristonho. 

Subito dos lados do palacio desceu um homem envolto n'uma longa capa e que relanceava uns olhares por todos os lados como se procurasse alguem, ficava uns instantes parado e continuava a interrogar as trevas. 

Depois do lado opposto appareceu um outro individuo vestido nos habitos d'um frade oratoriano e que por seu turno pareceu tambem procurar alguem com o olhar. 

Avistou o outro porque se dirigiu para junto d'elle e murmurou: 

-- Sois vós, mestre! 

-- Sim reverendo fr. Fabricio... 

-- Então que me dizeis mestre Bruno de Sá? 

O physico de sua alteza, relanceou um olhar medroso e volveu: 

-- Devemos antes ir para junto da fonte do Dragão... Ali o sitio é mais solitario e ninguem se pode occultar para nos ouvir. 

-- Vamos... 

Caminharam com pressa e dentro em momentos sentaram-se no rebordo do tanque; ouvindo-se a voz de fr. Fabricio, interrogar: 

-- Visteis sua grandeza? 

-- O senhor bispo do Algarve? 

-- Sim... 

-- Está nos aposentos de sua magestade desde a tarde! 

-- Ah! N'esse caso a rainha ainda hoie não viu o filho? 

-- Não, reverendo! 

-- E o seu estado é grave... 

-- Mais dois dias sem tratamento e morre! 

-- Oh! É necessario que o não tenha! exclamou o frade com uma scentelha colerica no olhar. 

O physico baixou a cabeça e não respondeu. 

Mas fr. Fabricio continuava: 

-- Pode se escapar á espada d'um cadete de Peniche e á espingarda d'um bandido e á dum fidalgo mas a doença que não recebe tratamento ninguem resiste!... Por isso dentro em dois dias estaremos livres d'esse inimigo da Companhia! 

-- Quem sabe?! volveu o outro d'um modo extranho. 

-- O que? Não tendes então a certeza? interrogou o frade com certa raiva. 

-- Reverendo: Affastei toda a gente da cabeceira do principe, fiz d'um caso de bexigas negraes uma doença desconhecida, raptamos o criado de sua alteza e esse nunca mais verá alguem a quem possa narrar os acontecimentos, Alorna está longe n'uma missão de confiança, os outros amigos de D. José, Gomes Freire, Vasco e Val de Reis, guardo-lhes a passagem com a minha autoridade de physico-mór... O principe corroido pelo mal morrerá, mas se ainda vier alguma cousa com que não contamos e que nos pode perder? 

-- O que? perguntou o frade no auge do espanto. 

-- Sim.... Supponha que vem outro physico, que entre n'aquelle quarto e vê como temos procedido, estarei perdido, e o principe ainda será salvo... 

-- Outro physico? 

-- Sim... 

-- Mas acaso... 

-- Fala-se d'isso no paço... 

-- Oh! Mestre Bruno, mas é necessario evitar isso a todo o custo ... 

-- Como? 

-- Por todos os meios... E quem é elle? 

-- Um certo medico Pedro Antonio Celestino que serve o regimento do marquez das Minas! 

-- O regimento de Peniche? 

-- Sim! 

-- Oh! Mas anda ahi o dedo dos nossos inimigos! 

-- Com certeza! 

-- Mas, a rainha precisa conceder licença para tal... 

-- Certo... 

-- E se não o fizer dentro em dois dias... 

-- Quando o physico chegar será muito tarde! 

-- Evitaremos que a ordem seja concedida!

-- Mas o encarregado de a pedir é... 

-- Quem? 

-- Thessalonica! 

-- Oh! Meu Deus, mas n'esse caso sua magestade não recusará ... 

-- D. Rosa, a anã favorita, narrou-me tudo isto e agora, meu reverendo, salve-nos! 

-- Oh! Mas é necessario prevenir sua grandeza! Do contrario tudo estará perdido! 

-- Descancem que eu velo pelo bom resultado da empreza! exclamou n'este momento uma voz que obrigou os dois interlocutores a exclamarem: 

-- O bispo do Algarve! 

-- Que desde algumas horas tem estado junto da rainha e que não a abandonará até ao final da vingança! replicou elle. 

-- Mas que dirá a isso o arcebispo. 

-- Não terá muito tempo para fazer commentarios... volveu José Maria de Mello com um ar terrivel. 

E logo voltando-se para o physico, interrogou: 

-- Continua a correr a lenda da doença desconhecida! 

-- Sim, grandeza!

-- Ninguem entrou no quarto de sua alteza? 

-- Os proprios enfermeiros que puz a guardar a porta, têm medo de ahi penetrarem! 

-- Muito bem... Sereis recompensado Bruno de Sá! 

-- Assim o espero da generosidade de vossa grandeza, volveu o physico d'um modo avaro. 

-- Descançae!

-- Oh! Sou um servo de vossa grandeza! 

-- Eh! E vós fr. Fabricio, chegou o momento d'entrardes em acção! exclamou o bispo com intimação decidida. Depois voltando-se para o physico, volveu: 

-- Ide-vos e descançae! Não abandonarei a rainha e Pedro Celestino não verá sua alteza, apesar de tudo! 

-- Oh! No caso contrario tudo estava perdido! 

-- Já vos disse e nunca falto ao que prometto! 

O physico inclinou-se e partira, olhando a unica luz que brilhava no palacio e que vinha do quarto do doente. 

Então, o bispo do Algarve encostando-se ao braço de fr. Fabricio, bradou: 

-- Agora vós! 

-- Que fazer, grandeza! 

-- Encontrae-vos com Jacintho Peres nas Necessidades... Elle tem intrucções e conta com alguns homens decididos... 

-- Mas de que se trata? 

-- De atacar Gomes Freire e Vasco de Miranda! 

-- Vasco de Miranda? interrogou o frade n'um sobresalto. 

-- Sim... Mas esse homem é o irmão de Luiz de Miranda não é assim? 

-- Sim... É o que esteve em risco de denunciar aquelle que ha muito nos teria tirado do principe, e que o maldito Alorna, que as pagará também, teve artes de fazer patir para o Brazil n'essa nau que levou os regimentos... 

Fr. Fabricio fizera-se muito pallido ao ouvir aquella revelação e depois volveu: 

-- Grandeza eu conversei algum tempo com Luiz de Miranda! 

-- E d'ahi... 

-- Sei-o filho d'alguem que me é caro! 

-- O quê? 

-- Sim... Filho do homem que teve a coragem de dar a mão de esposo a minha mãe, abandonada por Ambrosio Freire, o pae do sargento-mór... 

-- Elle? Então Vasco de Miranda e Luiz de Miranda! 

-- Unem-se commigo pelos mesmos laços que Gomes Freire! A differença é que odeio o segundo tanto como estimo os primeiros... É uma divida de gratidão? 

-- Oh! Recuaes n'esse caso? bradou enfurecido, o bispo. 

-- Não... Apenas peço o perdão de Vasco de Miranda! 

-- Reverendo! 

-- Grandeza! 

-- Os jesuitas nunca perdoam e esse official é nosso inimigo... Se recuaes encarregarei outra pessoa da nossa vingança... 

-- Com respeito a Vasco agradecer-vos-hei! 

O bispo do Algarve curvou a cabeça, ficou uns momentos meditativo e depois volveu: 

-- Fabricio, comprehendo a vossa repugnancia... Outra pessoa se encarregará de Vasco... Em troca tendes Gomes Freire e o marquez de Alorna, á vossa conta! 

O jesuita ia replicar, pedir mais uma vez o perdão para Vasco, mas disse para comsigo ser impossivel obter tal cousa do bispo. 

Murmurou então algumas palavras em voz muito baixa e deixou que José Maria de Mello continuasse: 

-- Chegou o momento... Vamos agora impedir que o physico do regimento veja sua alteza! Oh! É um bello começo de vingança... 

Fez um gesto de despedida ao cumplice e affastou-se também em direcção ao paço. 

Fr. Fabricio, ao ver-se só, fez-se pallido e murmurou: 

-- Oh! Vasco de Miranda, o filho do homem que protegeu e amparou minha mãe será salvo, apesar de tudo! Mas o outro... Oh! o outro morrerá!... 

Perdeu-se então por entre os arvoredos, tendo nos labios uma crispação horrivel. 

Á mesma hora, o arcebispo de Thessalonica nos seus aposentos, passeando como fera enjaulada, exclamava para Gomes Freire respeitosamente de pé na sua frente: 

-- Trazei-me o vosso physico, elle verá sua alteza! 

-- Mas, vossa grandeza não diz que o bispo do Algarve está sempre junto de sua magestade! 

-- Sim, essas mulheres lá de cima, bradou elle referindo se com raiva a Carlota Joaquina e a Maria Benedicta, são as unicas culpadas do que vae succeder... A mulher de D. José não se harmonisa com a de D. João... Se ellas se entendessem, tudo iria pelo melhor, porque a rainha essa... essa começa já a não ter vontade propria... Ah! E julga que ignoro a presença do bispo... Ha pouco chamou-me como sempre para que a confessasse, e mentiu-me... mentiu-me ao falar de José Maria de Mello, que desappareceu, e logo entrou mal eu sahi... 

-- Mas então sua magestade! 

-- Teme-o a elle, teme um castigo porque o bispo é Tavora, a mim estima-me mas não me quer ouvir... 

-- E emquanto a sua alteza, meu senhor! 

-- Oh! Trazei o vosso physico, elle entrará commigo no quarto de D. José! 

-- Com vossa grandeza? bradou o sargento-mór, muito admirado. 

-- Sim commigo. 

-- Mas o Bruno de Sá nega a entrada! 

-- Eu sou o arcebispo de Thessalonica, meu rapaz, e a côrte curva se ainda na minha frente. Não peço ordem! E hei-de salvar sua alteza... Ah! Será rei... elle o grande discipulo de Pombal... E então desgraçada da Companhia de Jesus! 

Em cima a preta favorita, deitada no sobrado, encostando o ouvido ao solo, escutava as palavras do confessor de sua magestade e tinha um sorriso malevolo nos labios revirados. 







XLVIII 





No leito de morte 





A luz mortiça da lampada que traçava nas paredes avermelhados clarões, cabido n'uma singular prostacção, o principe D. José, estendido no leito, os 

labios contrahidos, os dentes cerrados, o rosto e todo o corpo coberto de bexigas que se alastravam em globulos negros, o cabello cortado a falsas thesouradas, todo elle no mais extranho aspecto, tinha todos os indicios d'um moribundo condemnado já pela sciencia. 

O aposento com as suas incrustações d'ouro, as suas purpuras, os seus velludos pendentes sob asjparedes, cheirava a febre, porque as janellas não se abriam desde ha muito. 

Os lençoes ensopavam-se em suor e ninguem teria a coragem de lhes tocar temendo ser empestado, tal fôra a arte com que os jesuitas tinham espalhado a noticia de uma doença horrivel. 

O filho dos reis estava além só, completamente abandonado, soffrendo, coberto de pequenas feridas, muito unidas, muito juntas. 

Prostrado, tornado desconhecido, elle murmurava por vezes uns sons roucos, abalava, estendia um braço a procurar a agua com que mitigasse a sede, mas o braço cahia-lhe inerte e ninguem lhe chegava o copo aos labios. 

Do pateo dos lados das cavallariças subia um ruido de vozes, gargalhava-se. Os moços seguravam os cavallos que relinchavam, as librés vistosas punham notas berrantes no pateo curto e cheio de servas parasitas. Soavam ao longe as trombetas de caça, na tapada real para onde dentro cm pouco se dirigira a comitiva. 

Carlota Joaquina, vestida n'uma amazona escura, trepava para seu pequenino cavallo arabe, empunhava o chicote, olhava os fidalgos e nos seus labios vermelhos de hespanhola sensual, deslisava um sorriso. 

D. João de Bragança ao lado do duque de Lafões que nos seus ares aperaltados, as faces cravejadas de signaes, caminhando como a pisar um tapete de pedras preciosas, olhava o luzido cortejo e encrespara as sobrancelhas ao olhar a esposa. 

Depois olhava o duque e via a côrte, recordava-se que lá em cima sua mãe orava e seu irmão agonisava. Na alma pusillanime travava-se uma lucta, ficava uns momentos suspenso. 

A face gorda e vermelhante, tinha uns estremecimentos nervosos, o corpo rotundo agitava-se-lhe ao ver o busto franzino e provocante da esposa que parecia dar o signal de partida. 

Lafões, teve um gesto de espanto, voltou-se para o principe e exclamou: 

-- Sua alteza real vae caçar! Oh! Mas o principe D. José agonisa! 

-- Sim... sim... murmurou o irmão do herdeiro do throno fazendo-se livido. 

Carlota Joaquina, ouviu-os, voltou-se como surprehendida e encarando o esposo, vendo-o, como tomado d'um subito acaso de ternura, fez um signal a um rapaz forte, sadio, de cabellos louros e olhos azues, e exclamou: 

-- Senhor almoxarife ajuda-me a descer! 

O interpellado deveras admirado acercou-se da princeza e sentiu por momentos o seu corpo nos braços e recebia o sorriso que ella lhe enviava. 

D. Antonia de Mello, montada tambem no seu cavallo, tornou se livida e mandou um olhar odiento ao almoxarife que de pé, muito surprehendido, o chapéu na mão, continuava a olhar a princeza que se dirigia ao esposo, e exclamava: 

-- Estaveis ahi, meu senhor?! 

D. João, que a amava, admirado d'aquelle accesso de meiguice, depois de dez mezes de affastamento, olhou espantado a princeza que lhe tomava o braço, dizendo em voz baixa: 

-- João... 

-- Mas... mas... 

-- Affastava-se com elle uns passos, unia se bem ao marido, provocadora como uma horisontal e nos seus olhos negros, accenderam-se scentelhas de brutal cuscupicencia, dizendo: 

-- Sei tudo... Oh! Tu não és culpado, meu amor! 

-- Carlota, murmurou o devoto principe estremecendo ao voluptuoso contacto da amante de D. Antonia de Mello. 

-- Sim João... Essa grandeza supplicou-me tudo... 

-- Que grandeza? 

-- Sim o arcebispo! 

-- O quê? Mas fizeram as pazes? 

-- Por tua causa! volveu ella com o seu olhar refalsado apertando-lhe o braço e dizendo ainda: 

-- Como te amo! 

D. João, sentiu-se transportado ao ceu ante a intimação que a sucia dava ás suas palavras e tremulo, como louco, volveu: 

-- Oh! Carlota e eu. - . Adoro- te, meu amor, não sabes como tem sido horrivel a minha vida estes dez mezes! 

-- Perdôa... 

-- Oh! Tu a supplicares! Mas sou eu que devo... 

-- Cala-te! murmurou ella pondo-lhe nos labios a mão fina que D. João beijou; e accrescentando: 

-- Agora nunca mais nos separaremos! 

-- Oh! Jamais! ... fez elle no auge do goso. 

-- Oh! Vem meu amor... vem commigo por esses prados fóra! Deixaremos a côrte caçar, nós perder-nos-hemos nos arvoredos... Tenho um desejo louco de te beijar! 

Envolvia-o no seu halito perfumado, buscava arrastal-o, emquanto D. João baixava a cabeça e dizia: 

-- Mas... mas... 

-- O quê? 

-- Meu irmão... 

-- E que te importa? Tens aqui a tua mulherzinha! 

Cada vez o perturbava mais, acariciando-o, com o olhar avelludado e felino, buscando conquistal-o, emquanto o infeliz principe volvia: 

-- Mas elle vae morrer! 

-- Oh! Ninguem morre n'uma tarde de sol como esta em que ha rouxinoes entoando canticos, em que as flôres espalham aromas e quando dois jovens esposos falam d'amor... Vem... 

-- Não... 

-- Recuaes! Ah! Tu não me amas! tornou a princeza do mesmo modo ardente, chegando-se a elle, affastando-se para o interior do jardim real, longe de vista dos cortezãos. 

Ali então, entre duas arvores, no estonteamento da soalheira, ella, a louca princeza, agarrou-lhe as mãos, fixou o seu olhar no d'elle e exclamou: 

-- João... João!... Acompanha-me... 

A face gorda e luzidia do futuro D. João VI, do Menelau moderno enlividiceu, teve um desfallecimento e sentiu nos labios um beijo de togo, ouvindo ao mesmo tempo uma vozita languida, doce, exclamar: 

-- Meu amor... meu amor... Vem .. 

-- Ah! Vamos! 

Esquecendo o irmão, a mãe, o lucto que adejava, sobre a côrte elle deixou-se arrastar e pelo braço da mulher, chegou em face dos aulicos e bradou: 

-- O meu cavallo! O meu cavallo! 

-- Vossa alteza tambem vae? interrogou Lafões no auge do espanto. 

D. João, volveu para ella um olhar triste e não lhe respondeu, montou a cavallo e dentro em instantes a comitiva desapparecia para os lados da Matta de Queluz. 

Depois ouviram-se tiros que soavam por essa tarde ardente, e quem olhasse Carlota Joaquina vêl-a-hia distribuir os seus olhares entre D. Antonia de Mello e o almoxarife de Queluz que lhe sorria n'um ar humilde. 

Nos quartos de D. José, o mesmo espectáculo, a mesma dôr, a doença, avançando, o delirio da agonia apossando-se do principe. 

O physico, que estivera conversando com D. Rosa, entrara no aposento e olhava sua alteza com ar d'observador. Depois acercara-se mais e ouvia-o murmurar sequioso, a bocca pegajosa: 

-- Agua... agua... 

Nos olhos de Burno de Sá, passou uma scentelha, como se tivesse nascido no seu cerebro uma inspiração sublime, e então despejando a garrafa da agua no copo d'ouro, veiu até á porta, olhou atravez os reposteiros e acercando se de seguida do principe, disse: 

-- Eis a agua, alteza! 

Devorado pela sede, tremulo, os olhos cerrados, o corpo n'uma agitação extranha, coberto das bexigas, D. José entreabriu os labios onde o outro chegou o copo que elle despejou n'um trago com mostras de grande goso, dizendo: 

-- Mais! Oh! mais... 

Teve um sorriso de contentamento, encheu outro copo e deu-o a sua alteza, murmurando ao vêl-o cahir nas almofadas do leito, respirando com grande difficuldade: 

-- E agora pode vir o medico do regimento de Peniche! Oh! Elle vae morrer! 

Mas recuou como espantado e tornou-se pallido, ficando com os olhos dilatados a fixar a porta do aposento que se abria e onde apparecia D. Maria Benedicta, a esposa do principe ao lado de D. Maria da Penha que lançavam pelo quarto um olhar investigador. 

-- Senhoras! bradou o physico, fazendo um gesto de aterrado. 

-- Que é... Que desejaes de nós? perguntou com altivez D. Maria Benedicta, encarando-o com certo espanto. 

-- Não entreis!... Não entreis! 

-- E porquê? 

-- É muito grave a doença de sua alteza! 

-- Ah! E eu sou sua esposa... 

-- Isso senhora, é uma imprudencia... 

-- Com a qual nada tendes a ver! 

-- Alteza... O meu dever! 

-- O vosso dever é salvar o principe... O meu é ficar a seu lado!... 

-- Vós aqui? 

-- Eu sim... 

-- Mas, como o physico-mór, do paço, vol-o prohibo, senhora! 

-- Eh! Passagem... Obedecei á futura rainha de Portugal! Assim o quero! 

E erguendo-se a cabeça com altivez acercou se do leito de D. José a quem ficou contemplando ao lado de D. Maria da Penha, que chorava. 

D. Maria Benedicta, tinha um ar altivo alem em face d'aquelle leito mortuario, via o esposo e estremecia a cada movimento que elle fazia. 

Subito, o principe voltou-se como instintinamente para o seu lado, fez um esforço para abrir os olhos e murmurou: 

-- Agua! Agua! 

-- É impossivel, volveu em voz muito baixa, a princeza para D. Maria da Penha. Seria a morte! Não ouvistes o que disse Pedro Celestino... Bastava um copo, no seu estado de febre... 

O physico estremeceu ante aquellas palavras, olhou a garrafa da agua e sorriu ante o ouro de que ella estava coberta, e foi para a porta murmurando: 

-- Oh! A garrafa não me denunciará. 

D. José erguera meio corpo no leito e murmurava ainda: 

-- Agua... oh! Tenho sede! 

-- José... José... Meu esposo!... Ouves-me? 

Elle estremeceu, no rosto coberto de bexigas houve como uma crispação e no delirio da febre, murmurou: 

-- Maria... Maria... e logo de seguida, tornou: 

-- Vasco... Vasco... Casareis. . Oh! Casareis, serei o padrinho! Olhe a boda... Como vae luzida! 

-- Ah! É de vós que elle falla! bradou a princeza dirigindo-se a aia... 

-- A rainha... a rainha... minha esposa... a madrinha... volvia o doente. 

-- Ah! Agora fala de vossa alteza! 

-- José... José... tornou D. Maria Benedicta buscando que elle a ouvisse. 

-- Que me querem? Ah! os jesuitas! Sangue! Sangue! 

A princeza recuou para avançar de seguida tomou-lhe a mão. 

Segurava com os seus dedos finos aquella carne empestada, coberto de crostas negras e dizia: 

-- Ouve-me... ouve-me... Estás melhor? Não é verdade que estás melhor? 

-- O throno... Oh! Pombal eu farei a tua obra! foi a resposta de sua alteza no delirio da febre. 

Continuava sentado no leito como tomado de força sobrehumana e tinha um aspecto lastimoso que horrorisava as duas senhoras. 

De longe, da Tapada Real, vinha o ruido dos tiros dos caçadores, pela tarde rescaldante de sol, d'ali próximo um murmurar confuso d'orações no quarto da rainha. 

Depois reinou o silencio e a princeza disse: 

-- Oh! E elles divertem-se... Essa miseravel festeja a agonia do meu marido... E ella... ella... vae ser a rainha! 

-- A rainha! A rainha! Mas ella reza! murmurou D. José, que parecia ter concentrado todas as suas faculdades, sentindo no quarto de sua mãe o som da duas vozes. 

-- Ah! Elle ouve!... Elle ouve! Salvar-se-ha! Quem sabe! Oh! Meu Deus! Meu Deus! bradou D. Maria Benedicta, muito commovida. 

Mas a subitas estremeceu e tornou-se livida, tomou o braço de D. Maria da Penha que apertou com força, exclamando: 

-- Ouça... escute!... 

Applicaram o ouvido e ficaram como horrorisadas ao escutarem a voz do bispo do Algarve, exclamar n'um tom rancoroso: 

-- Vamos... Vamos... Estamos sós... N'aquelle quarto não ha senão teu filho que agonisa rainha de Portugal! Assigna... Assigna a rehabilitação dos Tavoras se queres salval-o!... 

-- Que diz elle?... Oh! É horrivel. Eu sonho... eu sonho... D. Maria da Penha! 

-- Não... não... alteza... escutae-me disse por seu turno a aia. 

E ouvia-se então a voz da rainha, volvendo deveras afflita: 

-- Grandeza!... Grandeza!... Tudo farei, mas implore a Deus que salve o meu filho! 

-- Oh! É necessario prevenir Thessalonica! exclamou a esposa de D. José vertendo copiosas lagrimas. 

Mas o principe erguia-se quasi por completo soltava um grito estridulo e bradava: 

-- Morro!... Morro!... 

As duas mulheres, como loucas no auge do desespero, agarravam aquella cabeça lavrada de globinhos negros e ficaram assim durante algum tempo. 

Elle estremecia, depois agitava-se uns instantes, revolvia-se, crispava as mãos, soltava um novo grito e as damas sentiam collar-se aos seus dedos as crostas das fendas de D. José. 

Respirava com força, contorcia-se, abria os labios, parecia ter um espasmo, queria fallar mas não proferia um unico som e buscava ainda abrir os olhos. 

A porta descerrava-se e o physico ficava muito taciturno a analysar o quadro que se lhe deparava. 

O principe do Brazil, chegava o rosto negro ao da esposa que não retirava o seu, murmurava phrases inihtiligiveis e depois de repente, muito nitidamente, bradava: 

-- Ah! A obra de Pombal! A obra do marquez!... Mestre... mestre... 

Encostava a cabeça ao hombro da mulher, soltava um som rouco e ficava n'uma quietação extranha, coberto das bexigas negras, ao passo que ellas o largaram sobre as almofadas do leito, ao verem-n'o rigido, inteiriçado. 

Tinha expirado. 

Ouviram-se passos no corredor, duas vozes soaram, depois escutou-se uma breve prece no quarto da rainha e a voz de Thessalonica bradando á entrada do aposento do principe: 

-- Queremos ver sua alteza! Este senhor é o physico Pedro Celestino! 

Um enfermeiro respondia-lhe em phrases humildes, o arcebispo gritava: 

-- Passagem! Passagem! 

Nos labios de Bruno de Sá, passou um sorriso e no momento em que a porta se abria para deixar passar os dois homens, elle sahiu, bradando: 

-- Morreu sua alteza! Está morto o herdeiro do throno! 

-- Que dizeis? bradaram o arcebispo e o physico fazendo-se lividos, e aos quaes o outro respondeu: 

-- Morreu sua alteza real, o principe D. José! 

-- Ah! Está então tudo acabado! murmurou Thessalonica entrando no quarto ao lado de Pedro Celestino. 

N'este momento um homem coberto de poeira tilintando esporas e arrastando a espada, despontava ao fim do corredor, e chegava á porta do aposento, interrogando os homens que além estavam: 

-- Sua alteza? e sem esperar resposta, ordenou: 

-- Diga-lhe que o marquez de Alorna, voltando da missão de que elle o encarregou lhe pede audiencia! 

-- Sua alteza real acaba de fallecer n'este instante! volveu um dos enfermeiros. 

-- Morto! Oh! Mas é impossivel, é impossivel! e como se não acreditasse penetrou no aposento, onde apenas viu um cadaver negro, coberto de feridas, estendido n'um leito de cortinas de purpura e aos pés do qual estavam ajoelhados o arcebispo, o physico do regimento de Peniche e D. Maria de Penha. 

A princeza, como louca, ao ver Alorna, exclamou: 

-- Oh! marquez! marquez! 

E cahiu-lhe desmaiada nos braços, emquanto á porta se ouvia um grito estridente e apparecia D. Maria I, desgrenhada, pallida, envelhecida, que se lançava sobre o corpo do filho, beijando-o com furia, e murmurando: 

-- Oh! Oh! Não é elle... Não é elle... D. José era formoso! Oh! Não é elle... O bispo enganou-me! 

Beijava-o sempre, os olhos enxutos, vitreos, com um clarão de loucura, depois como extenuada, agarrou se a Thessalonica e bradou: 

-- Salve-me ... Salve-me! Oh! O senhor é bom!

Da porta o bispo do Algarve com um terrivel sorriso nos labios contemplava essa scena da familia real. 









XLVIII 







O confessor da rainha 



Superiores ás dores intimas ha o dever... Os que se deixam esmagar por um desgosto são fracos e a fraqueza é o peior dos males para quem governa um povo! e o arcebispo concluia assim o seu sermão ante a côrte ajoelhada respeitosamente, fixando a rainha pallida como um lyrio e que trajava de lucto no meio do seu sequito. 

Havia uma atmosphera asphyxiante no interior da capella real, onde ha momentos se realisára o casamento de Vasco de Miranda com D. Maria de Penha. 

E a noiva no seu vestido claro destacava-se no meio dos crepes, estremecendo a miudo ao olhar em volta; o capitão do regimento de Peniche baixava a cabeça, ao passo que a seu lado Gomes Freire e o marquez d'Alorna, pareciam esmagados tambem pelas dores que affligiam a rainha. 

Tinham aproveitado aquella ceremonia religiosa no paço d' Ajuda para não obrigarem D. Maria Benedicta, a madrinha, noiva ha seis mezes, a tomar parte n'um acto d'alegria. 

Thessalonica, quizera tambem lançar mão da occasião para dizer algumas palavras que todos ouviram, e elle lá estava vestido muito simplesmente no seu habito branco de carmelita a aconselhar a soberana, divagando o olhar pelos fidalgos a quem fizera allusões bem comprehendidas pelos cumplices do bispo do Algarve que recusara a assistir ao acto. 

D. Ramiro de Noronha, agora tornado aio do principe D. João, inclinou-se para Jacob Mestral e para o conde S. Lourenço <marca num="*" pag=581> e murmurara algumas palavras em segredo, D. Balthazar d'Athouguia trocara um olhar com D. Carlota Joaquina que o fizera seu confidente e D. Antonio de Mello, cheio de raiva, estremecera tendo um olhar vingativo. 



<nota num="*" pag=581> Silva Menezes. </nota>







No côro da capella, os cantores do paço entoaram uma oratoria, soava a musica, as andorinhas formavam ninhos nos rebordos dos altares. 

Notava-se agora o predominio de Carlota Joaquina, ella ao lado do marido tinha o ar d'uma verdadeira rainha e parecia ameaçar o arcebispo com aquelle olhar brilhante e fixo que lhe enviava. 

Alguns filhos familia, julgavam-se alvejados tambem pelas palavras do arcebispo apesar do conde de Villa Verde os buscar dissuadir de semelhante cousa. 

E depois, quando o prelado desceu e veiu dar a sua benção aos noivos, quando o cortejo se poz em marcha, ouviu-se um susurro mesmo no grupo das damas, e a joven e loura condessa de Pombeiro, uma das maravilhosas secias da epocha, murmurou enfastiada: 

-- Este arcebispo, por vida minha que lembra, um arrieiro... Recordações do passado!... 

Já se atreviam a fallar d'elle em voz alta ao verem-n'o decahido; a morte do principe do Brazil tornara a rainha melancholica e viam-na abandonar os negocios entregando tudo, quasi por completo aos ministros e a D. João, que se aconselhava com a mulher. 

Era pois em torno de Carlota Joaquina, o novo astro, que se agrupavam, abandonando D. Maria Benedicta que se tornara uma nullidade no paço. 

Por entre duas pilastras da capella, o arcebispo fazia um gesto a Gomes Freire e a Vasco, trocara com elles algumas palavras que tinham gerado uns gestos de espanto nos mancebos e de seguida viam que o sargento-mór, se dirigia ao veador de serviço, fallando-lhe em voz baixa, d'um modo mysterioso, a que o outro respondia com grande tranquillidade. 

Então quando D. Maria I, deixou retirar a côrte e ficou apenas com duas damas a orar na capella, Gomes Freire, conduzido pelo veador, entrou e ficou aguardando que sua magestade desse pela sua presença. 

Ella estava n'um recolhimento piedoso e devoto, como absorta em face do altar, recordando ainda as palavras do arcebispo e pedindo a Deus essa força de que o seu confessor fallara. 

Houve um momento em que se levantou, e de seguida ergueu-se, para se dirigir á sabida onde os fidalgos ainda formavam alas aguardando o final da oração que a soberana costumava fazer a sós desde a morte do filho. 

Deparou com o official que se curvava, estendeu-lhe a mão, onde elle depoz um beijo respeitoso e perguntou: 

-- Desejaes fallar-me, não é assim? 

-- Sim, real senhora! 

-- Fui avisada pelo meu veador. .. Agora dizei... 

-- Real senhora... Eu venho pedir a vossa magestade uma licença illimitada. 

-- Ah! Quereis deixar o meu serviço, não é assim? interrogou a soberana com certo desgosto. 

-- Não, real senhora... Eu pouco posso fazer em Portugal que está n'um estado pacifico... Se a minha patria carecesse de mim não pediria essa licença, porém... 

-- O quê?

-- Os infieis, os turcos, batem se com a Russia, onde reina sua magestade Catharina II, alguns officiaes estrangeiros juntaram-se ao exercito de czarina e eu... 

-- Vós? 

-- Desejava seguir-lhes o exemplo como meu amigo Vasco de Miranda, que partirá dentro em tres mezes com sua esposa se vossa magestade lhes conceder permissão! 

-- O que? tambem Vasco de Miranda?... 

-- Sim, real senhora... E o marquez d'Alorna não parte porque tem os encargos do regimento que commanda! 

-- Mas qual é o motivo que os impelle a esse commettimento? perguntou a soberana com certa pressa. 

-- Apenas o de illustrarmos os nossos nomes... 

D. Maria I ficou uns momentos meditativa como se não acreditasse n'aquella versão, pareceu dar-lhes razão intimamente e volveu: 

-- Não tenho a minima objeçao a fazer-vos... Apenas lastimo que dois valentes officiaes deixem a patria... 

-- Favor de vossa magestade, emquanto a designação, porém, real senhora, esses officiaes estarão aqui ao vosso primeiro signal. 

-- E que diz D. Maria Benedicta, á partida da sua amiga D. Maria de Penha! 

-- Sua alteza ignora ainda essa resolução tomada pelos dois esposos! 

-- Ah! Ella vae ficar tão só!... murmurou a rainha com tristeza, mas de seguida, como aborrecida, não tendo força para resistir, accedeu: 

-- Parti e sêde felizes... Recommendarei a vossa pretenção ao meu novo ministro, Luiz Pinto de Sousa Coutinho, pedir-lhes-hei cartas para a soberana que ides servir!

-- Agradeço a vossa magestade. Resta-me apenas apresentar ao senhor de Runenzoff, ministro da Russia n'esta côrte, e expor-lhe os meus desejos! 

-- Sim, senhor sargento-mór, ide! Quando voltardes sempre terei um regimento para vos dar, e que teiá o vosso nome como o do senhor de Alorna! 

-- Mais uma vez beijo as mãos de vossa magestade! e o sargento-mór, inclinava-se e sahia da capella real dirigindo-se rapidamente para os aposentos do confessor da rainha. 

Thessalonica conversava-com Bernardino Freire, tornado coronel do regimento do Porto, e que estremeceu ao ver entrar o sobrinho. 

O arcebispo sorriu e interrogou: 

-- Então, meu amigo? 

E o official beijando a mão a seu tio, disse para o prelado: 

-- Tudo concedido, grandeza!

-- Ah! partis? interrogou Bernardino com a voz estrangulada na garganta. 

-- Por agora eu, dentro em tres mezes Vasco de Miranda!

-- Mas porquê, santo Deus, porquê? 

-- Porque Elvira de Mello está n'um mosteiro jesuita em Oczakow! volveu elle com grande pressa. 

-- O quê? A tua noiva! 

-- Sim, meu tio, o padre geral dos jesuitas conduziu-a para esse paiz, visto Catharinha II da Russia, como Frederico de Prussia, apesar de protestantes, terem dado guarida nos seus estados aos da Companhia, cuia educação calculadamente entorpecedora, agradou aos dois despotas que buscam assim garantir o throno contra as ideias revolucionarias que vem soprando de França nas obras do senhor de Voltaire e nas de João Jacques Rousseau! 

-- Oh! Meu amigo, estaes adiantado! bradou n'este momento uma voz da porta ao mesmo tempo que o intendente da policia apparecia muito gravemente. 

-- Ah! O senhor intendente! exclamaram todos em unisono. 

-- É verdade, senhores, eu que cheguei a tempo de ouvir dois 

maus nomes d'atheus na bocca do nosso sargento-mór... Conheceis essas obras, mancebo? interrogou elle com firmeza. 

-- Mas certamente, lias na Academia com o senhor conde de Tarouca e com o senhor de Lafões... 

-- Com o abbade Corrêa de Sousa e com o Fylinto Elysio, não é assim?

-- Mas como o sabeis? 

-- Oh! Conheço os livres pensadores! volveu elle d'um modo frio. 

-- E V. ex.ª sem duvida já as leu tambem! 

-- Eu? bradou como offendido o intendente. 

-- Sim, e porque não? interrogou Bernardino. 

-- Ah! Mas por quem me tomam! exclamou Pina Manique fungando uma pitada. Eu acho esses livros tão prejudiciaes como os trabalhos dos Jesuitas! Uns pretendem fazer com que a egreja domine os soberanos, outros querem o predominio da canalha! E quem viver assistirá a grandes cousas, não em Portugal, assim o espero, pelo menos emquanto eu fôr intendente da policia e inspector das Alfandegas de sua magestade! Eu não sou um revolucionario meus 

senhores... 

-- Discipulo de Pombal, julguei...

-- Que seguieis o mestre... accrescentou Bernardino. 

-- E assim faço... Seguro o throno, quero o unico e supremo predominio dos reis! 

Aquelle homem singular que tanto auxiliava a propaganda contra a Companhia de Jesus, buscava pôr um entrave as ideias vindas de França nos livros, apenas por que receiava pelos soberanos, edixava o sargento-mór admirado ao vêl-o encrespar o sobr'olho para lhe dizer: 

-- Fazeis bem em partir para a Russia, senhor... Vireis mudado... Lá ainda não chegaram essas obras! Oh! Agora vou ter trabalho dobrado para o qual conto com o auxilio do senhor arcebispo!

-- De que se trata, meu caro intendente? perguntou com serenidade o prelado. 

-- Como vedes, depois da morte de sua alteza real, o principe do Brazil, a côrte entrega-se de braços abertos aos jesuitas... O dominador do futuro já eu conheço, e espero ainda vêr a Companhia triumphante, se acaso... 

-- O quê? 

-- Nós não lhe puzermos entraves! 

Thessalonica fez-se pallido, e exclamou: 

-- Mas como, se o futuro rei de Portugal, é o amigo dos jesuitas, o instrumento de José Maria de Mello? 

-- Acima d'elle ha ainda D. Maria!... É necessario dominal-a... Para isso apenas existe vossa grandeza! 

-- Eu! Oh! Se soubesse... murmurou Thessalonica com tristeza. Tenho occasiões em que desejo recolher-me ao meu convento de Carnide e acabar além muito em paz os meus dias. 

-- Tudo sei, grandeza, porque a policia não dorme... Mas juntos acharemos algum meio. E agora, exclamou o intendente, dirigindo-se a Gomes Freire, poder-rae-heis dizer porque partis... 

-- Sim... Vou em busca da minha noiva... 

-- Ah! Encontra-se na Russia? 

-- Sim; em poder dos jesuitas que ahi se estabeleceram... 

-- E como o sabeis? 

-- Alguem o revelou a Vasco de Miranda, denunciando ao mesmo tempo que se tramava alguma cousa contra a sua vida... 

-- Ah! E por consequencia contra a vossa... 

-- Assim o juguei! E mesmo que Elvira não estivesse longe em partir... 

-- Por Deus, mancebo, e o vosso antigo desejo d'aventuras? interrogou admirado o intendente. 

-- Ninguem se livra d'uma traição... E eu quero viver para algum fim util... Assim, combatendo, tornar-me-hei digno do respeito de que carecem os que se propõem ás grandes luctas! 

O intendente, franziu o sobr'olho, Julgou entender ali uma allusão ás ideias vindas de França, e sem se poder conter, quasi ameaçador, exclamou: 

-- Parti!... Ah! Peço-vos que não fiqueis! 

Olharam no todos admirados ante aquelle novo prisma porque Pina Manique se revelara, e ouviram-no ainda interrogar: 

-- E os vossos amigos, Vasco de Miranda e marquez d'Alorna, tambem se propõem á lucta, como dizeis? 

Elle, desconfiando do tom quasi aggressivo em que lhe falava, volveu: 

-- Sei apenas de mim, excellencia! 

E, já cheio de colera, curvou-se ante o arcebispo, beijou a mão 

a Bernardim e fez um breve cumprimento a Manique ao mesmo tempo que se dirigia para a porta. 

Mas o tio detinha-o e exclamava: 

-- Acompanho-te! 

Sahiram juntos. No pateo, o coronel acercando-se muito do sobrinho, disse-lhe: 

-- Se tens ideias de liberdade, desconfia tanto do intendente como dos jesuitas... 

-- Meu tio, acaso elles se entenderão? 

-- Não... Ambos esses poderes combatem as ideias de Voltaire e de Rousseau, uns porque querem o poder para si, o outro porque quer o poder para a rainha... A unica razão porque Manique nos tem auxiliado é porque nós combatemos os seus inimigos... 

-- Porém defendia o principe D. José e elle tambem lia Voltaire... Pelo principe fez verdadeiros prodigios, o intendente. 

-- D. José era para Manique o futuro rei, e elle pode comprehender que um soberano dê garantias a um povo mas não que este as conquiste... 

-- Assim, elle seria capaz... 

-- De tudo... Para haver ás mãos uma das pessoas accusadas de lerem essas obras, e ás quaes já começa a chamar: pedreiros livres! 

-- Oh! Meu tio... Quem viver verá... Ou eu me engano muito ou dentro em pouco aquellas ideias germinarão em França... 

-- Quem sabe se não fructificarão depois em toda a Europa! 

E elles, muito ao facto do que se passava além dos Pyreneus, pelas doutas conversações com os sabios fundadores da Academia Real, affastavam-se ao lado um do outro, muito amigavelmente. 

Pina Manique conversava tambem com o arcebispo e exclamava: 

-- Grandeza: A sociedade vae-se perdendo! Agora os homens como nós têm um pesado encargo... Não ouviu esse rapaz como falava? 

-- Sim... Mas julgo que uns livros... 

-- Livros?... Oh! Obras do proprio Satanaz... Elle não as faria melhor... 

-- Está severo, senhor intendente... 

-- Oh! Meu Deus! tambem vossa grandeza as leu? 

-- Não lhe digo que não! 

-- Mas não vê ali o germen da destruição dos thronos! 

-- Vejo um pequeno começo d'avanço para a humanidade!... volveu d'um modo grave o arcebispo. 

E Pina Manique não se atrevendo a retorquir a sua grandeza, apenas murmurou: 

-- Ou então me engano muito ou grandes infamias se vão preparando por esse mundo!... Meu Deus, d'um lado os jesuitas, do outro os pedreiros livres!... Se até já fazem em Londres e em Paris umas sociedades secretas a que chamam: a maçonaria!... Mas aqui, por Deus o juro, emquanto for intendente nem os jesuitas vencerão, nem os taes maçons farão ninho... 

-- Com que então nem Companhia de Jesus, nem Grande Oriente? disse o prelado com uma risada que deixou Manique, preplexo, os olhos dilatados ao ouvir a ultima palavra do confessor da rainha. 







XLIX 



A vingança dos jesuitas 





Tinham entrado em pequenos grupos de dois e tres homens e eram uns dez que se reuniam na clareira da mattinha de Queluz. 

Eram lacaios disfarçados como se deprehendia d'aquelles ares effeminados com que esses la tagões buscavam imitar os amos. 

De quando em quando ouvia-se um ruido de rairos quebrados e um veado de grandes hastes em galhos, passava rapido de corrida, o que fazia com que os servos trocassem os seus commentarios: 

-- Olhe... olhe... Que grande aventesma! 

-- Por minha fé, como diz o meu nobre amo, o sr. D. Ramiro de Noronha, que aquelle veado é caça real! 

-- Como toda a da Tapada! exclamou um homunculo no qual seria facil reconhecer Jacintho Peres. 

-- Eh! Mestre Jacintho, nem toda! casquinou um dos rapazes. 

-- Toda ella! assegurou de novo o esbirro. 

-- Menos aquella de que estamos á espreita! tornou um certo latagão robusto com certa intenção. 

Quem sabe? fez Jacintho Peres, sonhador. 

-- Eh! Que lá!... Eu estou aqui porque meu amo me mandou... 

-- E eu... porque além de me mandar untou as mãos! 

-- E eu!... e eu!... e eu...! gritaram os outros, ao passo que o esbirro lhes dizia: 

-- Basta de rumor... Vocês a modo que querem espantar a caça... 

-- Ah! Nem pelo diabo!... disseram alguns. 

-- Trazem os saccos? interrogou n'este momento uma voz por detraz d'elles ao mesmo tempo que apparecia D. Ramiro de Noronha. 

A lacaiada descobriu-se respeitosa e volveu: 

-- Sim, excellencia! 

E vinte braços se voltaram a apontar dez pequenos saccos volumosos pela areia que continham. 

-- Então, attenção e nada de receios... 

-- Contamos com a protecção de sua excellencia... E d'ahi... 

-- Podem contar!... volveu elle com aprumo, dizendo para Jacintho Peres: 

-- E vós vigiae a cousa, hein! 

-- Podeis partir descançado, excellentissimo. 

D. Ramiro voltou-lhes as costas e dirigiu-se por entre as arvores para um pequeno bosque onde estavam os seus habituaes companheiros. 

-- Então? interrogou fr. Fabricio com certa precipitação, fazendo-se pallido. 

-- Tudo a postos!... redarguiu o fidalgo. 

-- E os saquiteis? interrogou logo D Balthazar d' Athouguia com uma risada. 

-- Rasoavelmente cheios! 

-- E elle virá? perguntou o conde de S. Lourenço. 

-- Mas tenho a certeza... 

-- Se tem a mania de vir inspirar-se nos zephyros da tarde! fez com ironia Jacob Mestral, accrescentando: 

-- Julgo que depois de velho se tornou rival do Bocage... 

-- Rival em quê? Nos amores? 

-- A isso que te respondam as açafatas do paço, estão mais habituadas a conhecerem sua grandeza... Aqui para nós, julgo que o arcebispo verseja ... Dahi a rivalidade com o bohemio Manuel Maria! 

Continuavam assim n'este tom de troça, quando ouviram um assobio que imitava o cantar d'um melro, e D. Balthazar exclamou: 

-- Attenção! 

-- Que diabo! Nós deviamos assistir mais de perto á farçada! 

-- Vamos para entre as arvores mas com cautella! 

Occultaram-se então todos com infinitas precauções e viram os creados perfilarem-se em alas por detraz dos troncos em quanto Jacintho Peres se deitava ao comprido no meio da clareira, o que obrigou D. Balthazar a dizer: 

-- Mas que vae fazer aquelle patife! 

-- Com mil raios, fal o-ha desconfiar... 

-- Estará o maroto apostado em trahir-nos! 

-- Oh! Mettia-lhe uma bala na cabeça... 

-- E eu outra na cabeça do arcebispo! assegurou Mestral com violencia. 

-- Silencio! murmurou D. Ramiro ao avistar sua grandeza que vestido nos seus habitos de carmelita, vinha lendo attenciosamente um livro. 

Estava uma tarde esplendida, banhada de magnifico sol, passaros aos milhares cantavam nos ramos e um fresco delicioso corria além sob as arvores por onde o confessor da rainha caminhava muito absorto na sua leitura. 

De quando em quando estalavam troncos á passagem d'uma peça de caça, ouviam-se breves canções dos ceifeiros pelos campos visinhos, tudo dispunha ao repouso e á meditação. 

O arcebispo ia dirigir-se para o seu banco predilecto, lá na volta da vereda onde ficaria até á tarde n'uma doce paz. 

Estava já muito proximo dos servos que se occultavam, ia passar rente do esbirro estendido na estrada e que o espionava pelo canto do olho, sorrindo ao vêl-o tão mimoso n'aquella leitura. 

Mas de repente, Jacintho Peres fez um movimento, agarrou as pernas de sua grandeza e o corpo volumoso do arcebispo, falto de equilibrio, cahiu por terra ao mesmo tempo que se ouvia uma gargalhada unisona e uma voz exclamar: 

-- Ah! Por minha fé, que o patife teve boa ideia! 

O arcebispo escabujava rancoroso, o livro fôra parar a distancia, emquanto que o esbirro carateava em frente de sua grandeza, e exclamava: 

-- Vamos a arear! 

-- Miseravel! Miseravel! gritou o confessor da rainha fazendo esforços para se erguer o que ia conseguindo pouco a pouco. 

Mas de repente os dez homens empunhando cada um o seu sacco 

d'areia, lançaram se sobre elle e começaram a descarregar-lhe violentas pancadas, proferindo invectivas. 

Eram como camponios malhando trigo n'uma eira. 

Batiam pancadas successivas, cmquanto Jacintho Peres tapava com um lenço a bocca de sua grandeza que se revolvia, furioso, apopletico, prestes a ficar congestionado. 

No grupo fidalgo, cobardemente escondido nas arvores, ria-se a bom rir. 

Era uma festa estranha em que os saccos revoiteavam e cahiam depois com força no ventre, nos hombros, nas costas, nas pernas, por todo o corpo do pobre confessor da rainha. 

-- Ahi rapazes, não poupem esse miseravel! bradavam os fidalgos divertindo-se muito com a scena que tinham preparado, esperando deixar ali sem accordo o prelado que os injuriava e que era um entrave ás suas diversas ambições. 

E a natureza seguia impassivel a sua marcha, os melros continuavam a assobiar as suas canções, os veados passavam quebrando ramos e o sol infiltrava-se purpuro e brilhante pelas folhas das arvores illuminando a cobarde aggressão. 

Os lacaios suavam, derrancados continuavam a descarregar os seus saccos d'areia sobre o carmelita que com o continuo escabujar conseguira despojar se da mordaça e gritava agora com toda a força dos seus robustos plumões, n'um desespero enorme: 

-- Soccorro! Soccorro! 

Ouviu-se um grito estridente, depois duas vozes que bradavam: 

-- Por aqui! Por aqui! 

E os servos atemorisados, seguiam o exemplo de Jacintho Peres que fugia, bradando: 

-- Fomos descobertos! Fomos descobertos! 

-- Ah! Mas não escapa á aventura! gargalhou D. Ramiro, bradando para os companheiros: 

-- Fujamos! Não é conveniente que nos vejam! 

-- Decerto! Decerto! O maldito é robusto e podia escapar...

E então os fidalgos corriam tambem como os lacaios em direcção aos muros da Tapada ao mesmo tempo que o marquez d'Alorna ao lado de Gomes Freire, chegava ao local onde se passava a scena, ainda a tempo de vêr fugir os nobres. 

Foram em sua perseguição, e exclamavam: 

-- Esperem, cobardes! 

Porém elles fugiam cada vez mais, dizendo uns para os outros no calor da carrida: 

-- Fomos reconhecidos!... O Alorna... O Gomes Freire!... 

-- Ah! E Vasco de Miranda!... gritou D. Ramiro ao vêr o capitão que lhes embargava o passo de espada desembainhada, exclamando: 

-- Eh! Por Deus, senhores, esperem os meus companheiros! 

Elles nada quizeram ouvir, saltaram lestamente os muros da Tapada real, emquanto, Alorna, dizia: 

-- Conheceste aquelles homens, Vasco? 

-- Oh! Mas sim... Eram os quatro serventuarios de José Maria de Mello... Mas que fizeram elles? 

-- Auxiliados por dez lacaios sovaram sua grandeza que se encontra cahido na clareira! 

-- Ah! Mas denuncial-os-hemos! 

-- Para que? bradou Gomes Freire. Elles sabem bem o que fazem... Ficarão impunes a não ser que as nossas espadas vinguem o pobre arcebispo! 

-- Vingal-o-hemos! Mataram D. José, agora buscam assassinar este... Os jesuitas triumpham, meus amigos! 

-- Mas soccorramos o pobre confessor da rainha! bradou Alorna, correndo para o logar onde Thessalonica se encontrava sem sentidos. 

Tomaram-no com mil cautellas nos braços, e assim carinhosamente, com infinitas precauções, conduziram-no para a porta da Tapada, todos muito cheios de rancor, fazendo projectos de vingança. 

O arcebispo, desfallecido, semi-morto encostava-se aos hombros dos fidalgos e ia assim levado sem accordo, o corpo moido pelas bordoadas brutas dos lacaios, ás ordens dos cobardes que tinham fugido. 

Porém agora nas suas costas soava uma risada feminina e elles voltando-se viram Carlota Joaquina que galopava ao lado de D. Antonia de Mello e que desappareciam por entre a folhagem. 

-- Ainda pensas em denuncial-os? perguntou Alorna, com um olhar raivoso. 

-- Não... E depois a quem o fariamos? Não é aquella mulher a futura rainha? 

Caminhavam sempre levando o prelado em direcção ao palacio real. 

Pelo caminho, os camponios juntavam-se-lhe e offereciam-se para carregarem com o senhor arcebispo, os creados da casa real 

amotinavam-se ao verem o prelado n'aquelle estado, a noticia es- 

palhou-se em breve pelos corredores, pelas salas, todos corriam a 

vêr o arcebispo que os tres amigos tinham deitado no seu leito e cuja porta guardavam. 

Então, aquelle leigo gordalhudo e d'aspecto lorpa que servira até aquelle momento o confessor da rainha, elle, em quem ninguem descobrira até então um pedaço d'alma, chorava desesperado e acariciava o amo, como cão a lamber as feridas do seu dono. 

O physico da real camara fôra enviado pela rainha e corria a entrar nos aposentos do arcebispo. 

Porem a passagem era-lhe vedada por Gomes Freire, que muito arrogantemente lhe dizia: 

-- Senhor Bruno de Sá, que deseja? 

-- Vêr sua grandeza! 

-- Como particular ou como physico? 

-- Como physico que sua magestade me enviai exclamou elle n'um tom altivo. 

-- Não carecemos dos vossos serviços... Sua grandeza está recebendo curativo pela mão do medico Pedro Celestino, do regimento do senhor marquez d'Alorna! 

O outro fez-se pallido e sahiu cheio de raiva entrando nos aposentos de D. Carlota Joaquina que de pé, ao lado do bispo do Algarve, envergando ainda o seu traje de amazona, o olhava interrogativamente: 

-- Então, Bruno de Sá? interrogou José Maria de Mello com grande impaciencia. 

-- Nada posso dizer a vossa grandeza! 

-- Hein? E porque? interrogou elle muito colerico. 

-- Porque não poude penetrar nos aposentos do arcebispo! 

-- O que? Não sois o physico do paço? 

-- A passagem foi-me embargada! 

-- Mas quem teve semelhante ousadia? perguntou muito cheia de colera a princeza. 

-- O sargento mór! 

-- Gomes Freire? interrogou ella no auge do espanto. 

-- Sim, alteza... Elle que vela o arcebispo com Vasco de Miranda e com o marquez d'Alorna de companhia com Pedro Celestino! 

-- O physico com que queriam curar D. José, não é assim? perguntou ella com rancor cada vez mais intenso e ante a resposta affirmativa dos dois homens, Carlota Joaquina exclamou: 

-- Dentro em tres dias esse Gomes Freire que assim se mette nos nossos planos, terá dado entrada no Santo Officio e para não mais sahir em companhia d'esse tal Vasco de Miranda, o recemcasado com a infame D. Maria de Penha que tanto é odiada por D. Antonia... 

-- Ah! vingue-me, minha princeza, vingue me! bradou a dama entrando e deitando-se a beijar os pés da sua grande amiga que lhe sorria, voluptuosa, dizendo: 

-- Descança, minha linda! Tu serás vingada! E logo com raiva accrescentava: 

-- Noivarão elle na Inquisição, ella em qualquer convento... É preciso ensinar a a ser dedicada a essa mulher que se chama D. Maria Benedicta! 

-- Princeza... Falta depois o marquez d'Alorna! 

-- Ah o coronel, não é assim? interrogou dirigindo-se ao arcebispo que lhe indicou aquelle nome e que á sua pergunta, volvia affirmativamente: 

-- Ah! esse dá-se muito com a gente da Academia e tem uma posição na côrte! 

-- Mas lê Voltaire! E eu me encarrego de o indicar a alguem... bradou o bispo cheio de rancor. 

-- A quem? 

-- Ao intendente de policia, que começa a perseguir os pedreiros livres de mistura com os jesuitas! 

-- Mas falaes a Pina Manique? interrogou ella muito admirada. 

-- No dia em que fôr inquisidor-geral, elle se curvará... murmurou o bispo quasi em segredo ao ouvido da princeza. 

-- Bem... Tratámos dos nossos inimigos... Agora restam os amigos! disse Carlota Joaquina, muito encostada a D. Antonia, e a mostrar que não era ingrata, pelo menos para os cumplices. 

-- Desde que os inimigos sejam punidos, elles serão contentes porque concluem a vingança e emquanto a recompensas, guardae-as para quando tiverdes na cabeça... 

-- O diadema real! concluiu D. Antonia beijando-a no pescoço. 

O arcebispo, no seu leito, recuperava os sentidos, e vendo-se rodeado pelos mancebos, exclamou: 

-- Obrigado!... Obrigado!... 

Depois teve uma contracção violenta na physionomia, levou as mãos ao peito e supplicou: 

-- A rainha... a rainha... Depressa!... Ah! E um confessor! 

E cahiu desamparado nas almofadas do leito. 









L



O ultimo obstaculo 







Sua magestade, a rainha! annunciou a voz tremula do leigo, que chorava muito commovido. 

Os tres officiaes que rodeavam a cama do confessor e o medico, inclinaram-se até ao chão, á entrada de D. Maria I, que cada vez mais pallida e abatida penetrava nos aposentos do arcebispo. 

O sol morria nas janellas, chegavam até ao quarto vagos ruidos vindos de fóra. 

A soberana ajoelhou piedosamente junto do leito, como outr'ora ante o confessor e viu um sorriso triste nos seus labios grossos que ainda ha bem poucos dias se tinham descerrado a aconselhal-a. 

-- Meus filhos, murmurou em voz debil, Thessalonica, deixae-me só com sua magestade! 

Os fidalgos sahiram contendo a custo as lagrimas e a rainha ergueu-se ficando a olhar atravez das lagrimas o arcebispo que lhe dizia no seu tom franco e aberto que sempre usara: 

-- Real senhora, agora é a minha vez de confessar a vossa magestade os meus peccados! 

Ella entreabriu os labios para o interromper, mas o prelado n'um gesto, deteve-a, e continuou: 

-- Vou partir... vou para muito longe... Donde ninguem volta... 

-- Grandeza!

-- Magestade, escutae-me até ao fim... Isto está por pouco... 

Tenho muitas lezões internas e sei que vou morrer... Esse bravo rapaz nada me occultou. 

-- Quem? 

-- Pedro Celestino, o physico... Sabe que foi soldado e não teve cerimonias... Eu mesmo lh'o pedi!... 

-- Oh!... 

-- Escutae, senhora... Eu morro e sou victima das intrigas da côrte... Um bando d'assalariados me prostrou cobardemente! E não tenho pena da vida, não... 

-- Mas vivereis... Deus ha de ser justo! disse devotamente a soberana. 

-- Deus, magestade, deu por concluida a minha missão na terra... E exactamente no momento em que mais carecia de ficar... 

-- Por Deus, cale-se!... 

-- Não se aterrorise vossa magestade, serei breve e pouparei aquelles que me mataram! Sei os seus nomes mas não os digo... O intendente da policia se encarregará de pôr termo ás suas conspirações se não fôr tambem victima como eu! 

-- Meu padre! 

-- Descançae, senhora... Os meus inimigos são os vossos e por isso vos digo tudo isto! Aconselhae-vos sempre com os Marialvas que são fieis, com os Cadaval e com os Alorna, fugi dos dedicados a vossa nora! 

-- Que dizeis? interrogou a rainha obedecendo a um secreto impulso. 

-- Sim, magestade! Os dedicados a D. Carlota Joaquina são os que mataram o principe D. José... 

-- Oh! Arcebispo! Que dizeis! Mas meu filho teve uma morte natural! 

-- Não, real senhora, elle morreu ao abandono... 

-- Mas quem tentou... Oh! É impossivel!... Não vos creio... D. José, o meu querido filho, era estimado, a sua morte causou profundo abalo... 

-- No povo que esperava um bom rei... volveu Thessalonica como se reunisse todas as suas forças para elucidar a soberana antes de morrer. 

-- Mas porque fizeram isso? Quem foi? interrogou a rainha como louca. 

-- Alguem que n'isso tinha interesse... D. José foi victima de habeis inimigos que souberam aproveitar muito bem o odio de duas mulheres... 

-- Carlota Joaquina e Maria Benedicta, não é assim? perguntou D. Maria I, quasi com firmeza. 

-- Sim... A primeira queria ser rainha para esmagar a segunda! Os jesuitas não queriam no throno um discipulo de Pombal. 

-- Grandeza! 

-- E auxiliaram a mulher que é hoje a soberana n'esta côrte mesmo em vida de vossa magestade! 

-- Enganae-vos!... Eu sei o meu logar! 

-- Elles conhecem as vossas fraquezas e collocam a vosso lado um jesuita! 

-- Quereis falar? interrogou a rainha muito pallida. 

-- Do bispo do Algarve! 

-- Oh! Deliraes... Deliraes... exclamou a soberana, lançando um olhar compassivo ao arcebispo como se adquirisse a certeza do que affirmava. 

Então, elle, falto de forças, teve um olhar para o tecto do aposento, como a implorar a misericordia do céu, e disse em voz cada vez mais debil: 

-- Vossa magestade não crê nas minhas palavras... Mas ao menos, real senhora, faça-me uma promessa garantida com um juramento e morrerei tranquillo... 

-- Mas que desejaes, meu amigo? pediu ella, enxugando as lagrimas. 

-- Que nunca tomeis uma deliberação sem consultardes... 

-- Quem?... Quem?... 

-- Os Marialvas e Martinho de Mello, o vosso ministro, esse que raro vem á côrte, mas que é a mais solida cabeça do governo... 

-- Juro-vol-o! bradou com energia a rainha. 

-- Bem... Por esse lado parto tranquillo... disse elle como a pôr em ordem as suas recordações e continuando: 

-- Agora tenho outra cousa a pedir-vos... 

-- Concedido d'antemão!... 

-- Ha tres homens que vos são dedicados de corpo e alma... Vossa magestade viu-os ha momentos á cabeceira do meu leito. 

-- Que desejaes para elles? 

-- Que logo que eu feche os olhos para sempre, façaes partir Gomes Freire e Vasco de Miranda para a Russia... 

-- Mas Vasco... 

-- Sei o que ides dizer, não pode abandonar sua esposa, não é assim! Pois ella que parta tambem! É necessario que deixe a côrte! É preciso que não tome parte nas scenas que se vão desenrolar porque seria victima!... 

-- Mas então que fazer? 

-- Affastal-a com D. Maria Benedicta para um mosteiro até á volta do esposo ou deixal-a partir... 

-- Assim farei... descançae... Mas Vasco de Miranda quererá assim deixal-a? 

-- Não se recusará a acompanhar o seu fiel amigo... 

-- Mas e a noiva? 

-- Comprehenderá o que ha de generoso no seu coração, verá como o marido quer reconquistar para Gomes Freire a mulher que elle ama... 

-- Ah! É a razão porque elle parte? 

-- Essa é a raiva enorme que tem á vossa côrte onde vê a traição que o seu coração grandioso e leal não pode tolerar! Ha ainda o marquez d'Alorna, magestade, que é necessario defender... Protegei-os, magestade!... E agora deixae-me que lhes fale na vossa presença... 

Fez um signal ao leigo que chorava muito e d'ahi a momentos os fidalgos entraram acompanhados pelo physico. 

O moribundo volveu para ellcs um olhar e exclamou: 

-- Meus filhos... Agora mais do que nunca deveis partir! Já nada valemos... Estaes dispostos a sahir do reino? 

-- Eu parto dentro em vinte e quatro horas! exclamou Gomes Freire, com resolução. 

-- E tu, Vasco de Miranda? interrogou o arcebispo dando lhe pela primeira vez aquelle tratamento. 

-- Dentro em um mez estarei ao lado de Gomes Freire... 

-- O senhor marquez... 

-- Fico, grandeza. .. Elles sabem as razões! 

-- Muito bem... agora mandem entrar o confessor... disse elle como extenuado. 

A rainha curvou-se, beijou-lhe ainda a mão, foi para a porta a soluçar, ao mesmo tempo que o prior de S. Julião penetrava nos aposentos do arcebispo, que exclamava: 

-- Venham depois, meus amigos... 

Porém n'este momento, um homunculo coberto de lantejoulas, o bobo da rainha veiu cahir de joelhos aos pés do leito do arcebispo, chorando desesperadamente. 

Elle quasi na agonia, olhava-o e dizia: 

-- Ah! D. João de Falperra, D. João de Falperra, eu sou o primeiro a partir! 

Mas o truão chorava apenas, não tinha coragem para lhe responder ao ver que o punham fora com o leigo deixando sua grandeza com o confessor. 

Agora chegava um grande sequito fidalgo á ante-camara do arcebispo. 

Luziam espadas, fulguravam condecorações em fardas garridas, cabelleiras empoadas mostravam-se cahidas em hombros lorrados de sedas e veludos multicolores, as rendas mais finas debruavam os peitos cortezãos, tricornes sob os braços, camurças calçadas, meias escuras e sapatos com fivella? d'ouro, tudo se confundia e revolteava. 

Era a multidão dos aulicos que lhe disputavam o favor e os sorrisos, os que se tinham rojado na sua frente mais que ante os principes e os reis, aquelles que não tinham ousado chegar ao salão do fallecido principe do Brazil nem ao d'el-rei D. Pedro III, quando moribundos e que vinham ver agora qual o partido mais vantajoso a tomar, a saber se o arcebispo ainda viveria. 

E na sua maioria todos aquelles homens conheciam a traição de que elle fôra victima e sabiam os nomes dos culpados, pescavam diplomatica e cobardemente n'aquelle mar duvidoso e no emtanto nenhum d'elles tinha a coragem de abrir a bocca n'uma pergunta directa. 

Por fim, o vice-rei do Algarve, babujando-se e sempre engalanado, quasi sem influencia depois da morte do pae, o marquez d'Angeja, dirigiu-se abertamente a Alorna e interrogou: 

-- Viverá o senhor arcebispo, marquez?... 

O coronel achou repugnante a pergunta, comprehendeu que ella significava a interrogação de todos aquelles homens e volveu tranquillamente a reprimir-se: 

-- Apenas o physico que trata sua grandeza, vos poderá responder, conde de Villa Verde! 

-- Ah! E onde se encontra sua senhoria? perguntaram os outros em unisono. 

-- É o senhor Pedro Celestino! exclamou Gomes Freire, apontando o physico que encarava altivamente os cortezãos e bradava: 

-- Não tem talvez duas horas de existência, o senhor arcebispo de Thessalonica, meus senhores! 

Como por encanto a turba fidalga recuou ao ouvir aquellas palavras. 

Apenas quatro homens avançaram decididos, collocando-se junto dos tres fidalgos; os outros sahiam quasi de tropel a confundirem as carecas e as cabelleiras, espalhando-se pelos corredores. 

Então, Alorna estendeu a mão aos quatro individuos sucessivamente e bradou: 

-- Sabia que ficarieis, senhores! E depois dirigindo-se a cada um d'elles, começou: 

-- O nobre marquez de Marialva ficaria atravez de tudo com seu filho D. Diogo; o senhor ministro Martinho de Mello procederia de egual modo, eu sabia-o! Emquanto a vós, Bernardino, sois tio de Gomes Freire e isso basta! 

Elles inclinaram-se ante o marquez, ao mesmo tempo que no corredor se ouvia a voz do bobo, gritando: 

-- Eh! Turba de lacaios... Ide procurar os que estão bem vivos e que vos podem dar honras! Lacaiada ignobil... Raça de farçantes! 

Os fidalgos trocavam entre si um olhar e ao verem entrar na ante-camara o truão João de Falperra, nenhum teve para elle um olhar desprezador. 

-- Somos nós os unicos fieis ao arcebispo, quer dizer, á rainha! bradou Marialva, cheio de raiva, dirigindo-se a seu filho e accrescentando: 

-- Seguirás sempre o bom caminho, Diogo, e lembrar-te-has emquanto viveres d'esta scena! 

-- Que eu não esquecerei tambem! exclamou Martinho de Mello, continuando: 

-- Oh! N'esta côrte faz falta um grande estadista! Se o houvesse, os que conspiram seriam esmagados! 

-- Já lastimaes Pombal, não e assim? interrogou Bernardino Freire. 

O ministro que odiava muito o grande marquez, apesar de ter sido seu discipulo, limitou-se a encolher os hombros e a dirigir-se para a janella. 

Mas á entrada soou uma voz que obrigou os presentes a voltarem as cabeças ao exclamar: 

-- Commigo então não contaram? 

-- O senhor intendente?! bradaram todos admirados ante Pina Manique. 

-- Eu sim, que venho ainda prestar a humilde homenagem ao arcebispo moribundo! 

-- É necessario coragem para isso, meu caro! disse o ministro ao vêl-o. 

E o intendente de policia volveu: 

-- Não, senhor ministro, é preciso apenas ser intendente! Isto é, ser um individuo que tudo saiba desde os crimes das ruas aos escandalos dos palacios! 

Dissera estas palavras em voz baixa e sorria para Martinho de Mello, ao mesmo tempo que o prior de S, Julião chegava á porta e bradava: 

-- Entrae senhores! 

Viram então Thessalonica, livido mas tendo no rosto uma expressão de beatitude e que os encarava quasi sereno. 

Chamou primeiro os tres amigos e murmurou-lhes n'um conselho: 

-- Defendam-se... Affastem-se da côrte e salvem os que lhes são caros... O inimigo triumphou e é poderoso! A traição é a sua arma e vós sereis abatidos porque sois leaes!... 

Estendeu-lhes a mão que elles beijaram e de seguida dirigiu-se a Marialva e a seu filho, dizendo: 

-- Sois os grandes fidalgos do reino e os fieis da rainha, os seus verdadeiros amigos, juntae os bons e defendei a soberana! 

-- Ah! Grandeza, descançae, o sangue dos Marialva e dos seus parentes não hesitaria em correr para salvar D. Maria I. 

Depois para Martinho de Mello, exclamou: 

-- Senhor, fostes inimigos de Pombal mas deveis seguir-lhe o exemplo! Tenho um juramento da rainha que se vos refere... 

-- A mim, grandeza? 

-- Sim... Elle não decidirá nunca as questões sem vos consultar e ao nobre marquez de Marialva, seu gran-mestre de cerimonias e estribeiro-mór!... 

-- Grande honra é a de sua magestade... 

-- Honra que era uma necessidade, senhor ministro... 

Levou as mãos ao peito como se abafasse e depois em voz mais fraca chamou o leigo para o seu lado esquerdo e disse-lhe: 

-- O meu testamento está n'aquella gaveta secreta do movel da China, apresenta-o... 

E como o visse chorar bem como D. João de Falperra, collocado a seu lado, murmurou: 

-- Então, rapazes, se a côrte vos visse perdieis os vossos creditos! Deveis rir... Sempre rir, por isso vos pagam! 

Despediu-se ainda de Bernardino Freire e do physico, ergueu-se no leito, olhou mais uma vez o sol que agonisava na sua janella e muito lentamente, disse: 

-- Velem pela rainha, meus amigos! 

Depois deitou-se como para dormir, ficou olhando o tecto, além entre o truão e o leigo, relanceou um golpe de vista pelos fidalgos e murmurou com a grande serenidade brava, com stoecismo d'um antigo soldado: 

-- Pastecum! 

E cerrando os olhos e soltando um suspiro, assim morreu o confessor da rainha, como d'ahi a meia hora o annunciavam os sinos n'um longo soluçar. 

O sol desapparecia para voltar no dia seguinte mas Thessalonica, esse não voltaria mais. 

E á sahida do quarto, o intendente de policia, deitando um olhar ao volumoso cadaver que além estava entre o bobo e o leigo que choravam, murmurou: 

-- Sempre seria verdade que elle lia Voltaire? 









LI 





Amor louco 





D. Maria I, depois d'aquellas mortes que tinham enlutado a sua côrte, passava os dias na maior das abstracções, sem vontade propria, n'uma melancholia extrema, emquanto em torno se desenvolvia a enorme intriga em que Carlota Joaquina se tinha empenhado buscando esmagar D. Maria Benedicta.

O principe D. João, o herdeiro do throno, buscava impôr-se, mostrar-se forte mas ao mesmo tempo vivia n'um desespero continuo ante o desprezo com que a esposa o tratava sem motivo plausivel. 

De quando em quando ella chamava-o ao seu quarto, dava-lhe umas instrucções ou manifestava um desejo em tom breve e com um sorriso nos labios a deslumbral-o; e o príncipe corria a cumprir as suas ordens, voltando radiante aguardando a recompensa, porém encontrava-a conversando com D. Antonia de Mello e via que mal lhe agradecia. 

Tudo isso irritava D. João, louco d'amor por essa mulher ardente e formosa que se lhe recusava, e o seu phrenesi augmentava de dia para dia á medida que encontrava em Carlota Joaquina um desapego absoluto, quasi um odio por elle que era seu esposo. 

Inquietava-se, buscava rojar-se muito, e com a sua figura gorda e um gesto rancoroso que contrastava com a voz dolente de frade agostinho, invectivava a sua sorte e andava n'um continuo estado de exaltação. 

Vingava-se então por longas penitencias em Mafra, sollicitando do ceu o amor da mulher, e com os seus vinte e cinco annos, roido de ardores, corria a procurar uma mulher fóra do paço, buscando acalmar os ompetos, esquecer a esposa. 

Porém repellia-as enojado e atirava-lhes por vezes insultos de devoto, tentado pelo peccado da carne, sentindo apenas a paixão por essa princeza que fugia ás suas caricias. 

Mas n'aquella noute em que fallecera o arcebispo, ainda os cirios ardiam e se velava o morto, ainda os sinos dobravam a finados e na penumbra discreta do aposento, e a hespanhola, tomando a mão do marido, lhe dizia: 

-- Eu quero falar-lhe... 

Estremeceu e mostrou-se muito decidido a recusar-lhe tudo quanto ella pedisse, desejoso de vingar as suas raivas, tudo quanto ella lhe fizera soffrer. 

Levara-o para o seu quarto e estendera-se voluptuosamente com um ar feliz na poltrona, entreabrira os lábios vermelhos n'um sorriso quasi provocante, bachico e exclamara: 

-- D. João, porque não tem vindo vêr-me! 

-- Eu? Mas vossa alteza bem sabe como me recebe... 

-- Oh! Não seja assim.. Não comprehende então que as preoccupaçÕes... 

-- Que pôde ter vossa alteza que a preoccupe... 

-- Mas a politica... 

Fez-se pallido e volveu com rancor: 

-- Maldito destino que me fez herdeiro do throno!

-- O que? interrogou a princeza erguendo-se rapidamente a fixal-o. 

-- Sim porque se eu fosse apenas o príncipe D. João e não esperasse vir a chamar me el-rei D. João VI, vossa alteza, como nos primeiros tempos do nosso casamento, seria apenas minha esposa e não pensaria n'essas intrigas que nos affastam... 

-- Por sua culpa!... 

-- O que? 

-- Sim... por sua culpa! volveu Carlota Joaquina, sorrindo-lhe. 

-- Mas... 

-- Porque não toma parte n'essas intrigas, porque não está junto a mim a auxiliar-me?... 

-- Mas, alteza, bem sabe que eu sou a negação mais completa do politico, o contrario de meu irmão D. José! Esse é que devia existir ainda e ser o rei... 

-- E para que? gritou ella quasi rancorosa, esquecendo-se que era necessario captal-o. 

-- Para vivermos em paz! Eu com o amor de vossa alteza, longe, na nossa casa da Bemposta, em Salvaterra ou em Cintra... 

-- Ah! E se eu desejasse ser rainha? 

-- Rainha? Mas... 

-- Sim... Julga acaso que não tenho caprichos?... 

-- Demais o sei... 

-- E são elles que muitas vezes me affastam de vossa alteza! Eu teria uma vida tão tranquilla se procedesse sempre como desejo... 

-- Mas porque o não fazeis? 

-- Seria tão vossa, tão exclusivamente vossa, se por acaso satisfizesse todos os meus desejos! 

-- E porque não? 

-- Ah! É que nem sempre o posso fazer... 

-- Mas contae commigo! bradou o desgraçado, esquecendo todos os seus juramentos ao ver a esposa fazer um gentil gesto d'amuo que o transtornou. 

-- Comvosco, alteza? 

-- Sim... Se me amaes e se o único obstáculo á nossa tranquillidade é esse, oh! dizei que tudo farei para vos socegar... Agora sois a futura rainha para a côrte, mas para mim já o sois de facto... 

-- Não; vós sois o rei... 

-- Eu abdico ante a vossa belleza! e elle curvava o corpanzil robusto beijando a mão que a princeza lhe estendia. 

-- Como sois bondoso! 

-- E vós, formosa! bradou elle, impellido a tudo ao vel-a sorrir-lhe. 

Depois a joven, deitava-lhe os braços ao pescoço e beijando-o na testa, dizia: 

-- Oh! Sim muito vossa, João, desde que conseguisse o que desejo... 

-- Oh! Falae! gritou o principe, cada vez mais louco de amor. 

-- D'esse dia em diante... e curvava-se ao ouvido a segredar-lhe qualquer cousa que o fez estremecer deliciosamente, envolvendo-a n'um olhar replecto de desejos. 

-- Oh! Tudo farei para isso! concluiu D. João. 

E então, Carlota Joaquina, como se temesse ainda vel-o escapar, dizia: 

-- É que ante o vosso affastamento, eu vejo-me obrigada a ter longas entrevistas com pessoas que julgo d'influencia para com a rainha nossa mãe, tenho que expedir emissarios, receber notas, forjar a pequenina conspiração que me diverte, uma especie de jogo em que eu combato Maria Benedicta! 

-- Porque a odiaes? interrogou então o marido, ao ouvir que ella falava da viuva de D. José. 

-- Ah! Eu!... calou-se, ia talvez proferir invectivas, mas recordou-se de repente de qualquer cousa, porque amortecendo o olhar volveu: 

-- Eu não a odeio... Apenas ao começo tivemos uma pequena dissenção por se mostrar altiva em demasia, julgando-se já a soberana! 

-- Porém agora... 

-- Já estou vingada, porque o logar de princeza n'essa epocha é agora o meu, por isso não a odeio mas quero fazer seguir o jogo que me diverte... Se a côrte é tão monotona... 

-- Tendes razão... 

-- Depois buscamos adivinhar as preferencias uma da outra para as contrariarmos... Assim, quando ella tem um vestido azul afim de impor a moda na côrte, eu arranjo um vermelho ou côr de rosa... Procedemos sempre em antagonismo... 

-- E para quê? Não sois ambas princezas? 

-- Ah! Se ella me falasse, se viesse aos meus aposentos... Mas não! Dirige a intriga com essa D. Maria da Penha, que pelos modos foi amante de vosso irmão, o principe D. José... 

-- Senhora... Por Deus... Isso é o maior dos peccados... Um falso testemunho... 

-- Oh! Perdoae, senhor, não sabia que os defendieis! e ella soltou uma gargalhada de escarneo, muito irada sem se poder conter. 

-- Não as defendo princeza! Eu sei como as cousas se passaram... 

-- Julgaes saber... 

-- Sei... Foi até o que motivou que tivesses por aia D. Antonia de Mello... 

-- Que dizeis? perguntou a princeza fingindo-se surprehendida. 

E D. João, que instinctivamente odiava a aia que via sempre junto da esposa, aproveitou a occasião e exclamou: 

-- Sim Carlota, D. Antonia de Mello antes de ser aia de minha irmã D. Marianna Victorina era-o de D. Maria Benedicta... Um dia por intrigas, fez com que se encontrassem alguns homens em face do principe e deu este por amante da aia, então simples açafata... Mas o acaso fez com que tudo se descobrisse e d'ahi a expulsão de Antónia de Mello de junto da princeza e a sua nomeação para acompanhar a infanta, e quando chegastes entrou ao vosso serviço... Naturalmente insinuou-se e vós acolhestes essa mulher que vos envolveu na intriga com a viuva de meu irmão a quem jamais perdoou ter collocado a seu lado Maria da Penha, a qual D. José realmente amava, mas sempre lhe fugiu com toda a dignidade! 

-- Estaveis bem informado, alteza! exclamou ella quasi sem se poder conter, mas relembrando para que o mandara ali vir, tomou um ar ingenuo e disse: 

-- Oh! Não conhecia nada d'essas cousas... Mas agora... 

-- O quê? 

-- Cumpre dizer-vos que D. Antonia não me veiu narrar taes episodios nem incitou o meu odio á princeza... Apenas ella é a culpada do que succede! 

-- No emtanto essa aia... 

-- Que tem? 

-- É uma intrigante... Se a aftastasses do vosso lado! 

-- Exigis isso como troca do que vos quero pedir, não é assim? interrogou ella n'um tom ironico. 

E D. João, logo muito tremulo, volveu: 

-- Não... Por Deus! Não pensareis semelhante cousa... Ficae com a vossa aia e dizei o que desejaes de mim... Sabeis que vos amo e que para merecer o vosso affecto, para estar ao vosso lado serei capaz de tudo, Carlota! 

-- Ah! João... Esperava isso de vós... 

-- Conheceis-me bem... 

-- Oh! Como ninguem... disse elle n'am tom quasi escarninho. 

E de seguida continuou: 

-- Pois trata-se ainda d'um caso succedido com D. Maria Benedicta! 

-- Oh! Sempre ella! 

-- Sim... É como o final d'uma grande lucta que decidirá a victoria e eu quero ganhal-a! 

-- Que é necessario fazer? interrogou D. João, sentindo mais do que nunca um desejo louco de a beijar. 

-- Arrancar de sua magestade uma nomeação! 

-- Pelo que vejo é cousa grave para assim envolver duas princezas! 

-- Não... É até bem simples. Mas como sabeis na guerra de mulheres as pequeninas cousas... 

-- Têm o seu valor, bem sei! volveu elle d'um modo benevolo ao ver que a esposa lhe abandonava a mão onde elle depunha muitos beijos, ao perguntar-lhe ternamente: 

-- Mas de que se trata, meu amor? 

-- Da nomeação do confessor da rainha! volveu com negligencia. 

-- Ah! E para quem desejaes a nomeação... 

-- Para alguem que bem conheceis... 

-- Quem é? 

-- O bispo do Algarve emquanto que D. Maria Benedicta prefere o prior de S. Julião... 

-- O bispo do Algarve! exclamou o principe como se já tivesse alguma prevenção contra o oratoriano. 

-- Sim... É o meu protegido! 

-- Mas... 

-- Ah! Não quereis interceder por elle! Que importa! Perderei d'esta vez na lucta... Nem por isso vos amo menos, D. João! bradou a hespanhola lançando os braços ao pescoço do marido e dando-lhe um beijo nos labios grossos que o fez estremecer, obrigando-o a levantar-se d'um pulo, e exclamar: 

-- Tereis a nomeação do bispo para confessor da rainha, ou eu farei desterrar a princeza da côrte... Juro-vol-o... E' necessario mostrar que sou o futuro rei! 

Como electrisado por esse beijo sahiu do quarto da esposa e atravessou os corredores cheios de gente que pelo cerimonial iam desfillar em frente do ataude do arcebispo; e dirigiu-se á pressa para os aposentos da rainha. 

Mas via na sua frente o intendente de policia que lhe beijava a mão e exclamava: 

-- Alteza... Já pensastes no que vos disse... 

-- Acerca de quê? perguntou D. João, encarando-o. 

-- Acerca das intrigas movidas por esse Tavora... contra a vossa familia... segredou o intendente. 

-- Mas quem?!.. Quem?! exclamou D. João como louco. 

-- O bispo do Algarve, volveu no mesmo tom discreto, o intendente. 

-- Ah! Deixae-me com o bispo, senhor intendente... Ás intrigas do bispo fecho os ouvidos, ficae sabendo! 

E querendo tomar um ar magestoso, impertigou-se e affastou-se na sua obesidade de tonel emquanto Pina Manique, murmurava: 

-- Está tudo perdido! 

Mas sorriu ao avistar no fundo do corredor, o seu chefe de policia, acercou-se, trocou com elle algumas palavras, a que o outro disse: 

-- Pedreiros livres... Onde, meu senhor... Ah! 

-- Não, Lopes Cardoso... Ainda os jesuitas! 

E tomando-lhe o braço arrastou-o para o jardim onde estiveram conversando algum tempo. Depois o agente metteu-se por um corredor estreito que subia do jardim para a ala esquerda do palacio e começou em grande conciliabulo com o bobo da rainha que abandonara o corpo do arcebispo á approximação dos fidalgos. 

No quarto de Carlota Joaquina, mal sahiu o principe soou uma gargalhada e D. Antonia de Mello, sahindo da portinha falsa exclamou: 

-- Com que então sua alteza, vosso esposo, odeia-me?... 

E que tem isso se eu te estimo! ... beijou-a e sorriu ante uma pergunta que a outra lhe fez muito baixinho e á qual respondeu: 

-- Mas estás louca Antonia, eu não o amo... Oh! Nunca Nunca!... 

E de seguida, trocou ainda umas phrases com a aia, concluindo: 

-- Oh! é o ultimo golpe em D. Maria Benedicta: 

-- E em D. Maria da Penha! Odio de princeza para princeza e de dama para dama! 

-- Mas a princeza é a futura rainha e vencerá, não é assim? 

E beijou D. Antonia mas d'esta vez nos labios. 







LII 





Amor de mãe





A rainha retirara-se para os seus aposentos muito agitada com a morte de Thessalonica, sentindo-se como abandonada; e no seu excesso de nervosismo chorava desesperada ao recordar-se que perdera mais aquelle dedicado amigo, a quem ultimamente puzera de parte, mordida de escrupulos e de raivas por toda essa gente que o intrigava. 

Agora, a dama de serviço, annunciava-lhe o marquez de Marialva que entrava após alguns momentos de espera e lhe dizia: 

-- Real senhora... Eu venho porque me mandastes chamar... 

-- Sim marquez, exclamou a rainha rapidamente. Preciso dos vossos conselhos... O arcebispo exigiu-me antes de morrer, o pobre amigo, que me aconselhasse sempre comvosco, meu mordomo-mór, o que era escusado recommendar e com Martinho de Mello... 

Eu assim faço... Dizei-me pois quem escolherieis para meu confessor?... 

-- A pessoa que mais em harmonia estivesse com as idéas do arcebispo... Um seu amigo, um seu discipulo... 

-- Sêde franco... Falae sem rodeios! bradou ella muito nervosa. 

-- Mas magestade... 

-- Referi-vos sem duvida ao prior de S. Julião... 

-- Assim é... Deliberei deste modo com Martinho de Mello e alguns homens que vos são dedicados... 

-- Sim... D. Maria Benedicta já me falara também d'esse sacerdote... Desejava apenas saber a vossa opinião. 

-- Muito me honra vossa magestade, tornou o digno fidalgo; mas deixae que vos diga que os proprios interesses do estado exigiam essa nomeação... 

-- Os interesses do estado? 

-- Sim... Elle não pertence a nenhum dos partidos da côrte, não anda nas intrigas, affasta-se e vive na sua egreja. 

-- N'este caso teria que viver no paço... 

-- Saber-se-hia aífastar dos intrigantes! 

-- Pois bem, chamae-o e dizei lhe que lhe desejo falar, dae-lhe mesmo a certeza da sua nomeação! E agora ide-vos, marquez, preciso repousar... Dae ordem que não deixem entrar ninguem... E vinde com o prior amanhã á hora da missa... na capella real!... Procurae-me nos meus aposentos e desceremos juntos... É já uma mostra de favor para o prior a quem nomearei bispo dentro em alguns dias... Dizei ao marquez de Ponte de Lima que sollicite uma ordem para Roma! 

Marialva, radiante ao ver as boas disposições da soberana, inclinou-se, e ao sahir, dando as ordens da rainha á dama de serviço, murmurou: 

-- Oh! Parece que d'esta vez D. Maria I é verdadeira rainha! Correu a prevenir o prior e desappareceu no corredor onde encontrou o filho ao qual communicou a regia deliberação. Depois procuraram os seus amigos e rejubilaram com a nova. 

Entretanto á porta dos aposentos de sua magestade, o principe D. João, muito excitado, exclamava para a condessa de Pombeiro que estava de serviço: 

-- Preciso falar a sua magestade! 

-- Perdão, meu senhor, mas exactamente ha momentos o senhor marquez de Marialva me transmittiu uma ordem de sua magestade em que... 

-- Que diz essa ordem! 

-- Que sua magestade vae repousar, meu senhor!

-- Condessa... Mas apesar de tudo, eu careço de falar a minha mãe! 

-- Comprehendeis meu senhor que não o posso consentir, senão pela manhã... São apenas onze horas da noute! 

-- Oh! Por Deus! Mas se é tão grave o que tenho a dizer-lhe... 

-- Lastimo-vos, meu senhor, mas cumpro o meu dever!

-- Então nem sequer me annunciareis? 

-- Meu senhor, é impossivel! 

-- E se eu entrasse apesar de tudo! 

-- Oh! Meu senhor, é contra a etiqueta! exclamou assombrada a loura secia, a quem D. João, voltava as costas no auge do furor, sahindo do aposento. 

Dirigiu-se então para uma pequena portinha cavada no muro junto aos aposentos das damas e bateu duas pancadas, uma voz fanhosa lhe respondeu e elle bradou: 

-- Abre, D. Rosa, sou eu! 

-- Vós, meu senhor, exclamou a preta favorita, apparecendo n'uma grande revolta de roupas e fazendo signaes para o interior do quarto. 

O principe comprehendeu que estava ali algum dos amantes da favorita, porém sem se importar, exclamou: 

-- Rosa, preciso falar a minha mãe... A dama de serviço impede-me a passagem, careço que me prestes o teu auxilio. 

E era na realidade extranho, aquelle principe de sangue, o futuro rei, sollicitar semelhante favor d'uma repellente negra, de nariz roido e que n'uma revolta de trajoso, fazia signaes a um homem deitado no seu leito para que se aquietasse; e a qual ainda objectava: 

-- Mas agora, meu senhor... Eu não sei se devo! 

-- Dize-lhe que se trata da minha felicidade, da minha vida! bradou elle muito arrebatado. 

D. Rosa olhou-o como a convencer-se de que era grave o que se tratava e perguntou confiadamente: 

-- E não é cousa que eu possa dizer a sua magestade, isso que vos punge?... 

Era uma pergunta directa, onde ia envolta a necessidade de saber, que o principe já muito irritado lhe satisfez, murmurando: 

-- Ouve, D. Rosa, trata-se da nomeação do confessor que ha de substituir o arcebispo... 

-- Ah! E por quem sois, meu senhor? interrogou ousadamente a negra d'uma fórma que bem mostrava o seu valimento. 

-- Pelo bispo do Algarve! 

-- Ah! Eu vou... eu vou já! bradou ella embrulhando-se á pressa n'uma capa e dizendo ao mesmo tempo: 

-- É que ouvira falar que não vos daveis já muito bem com sua grandeza! E eu adoro... adoro esse bello bispo! Eu vou, meu senhor, eu vou! 

A preta atravessou o corredor, entrou na ante-camara, passou em frente da aia que dormitava e lançou-lhe um olhar a que a condessa de Pombeiro correspondeu exclamando: 

-- Boa noute, D. Rosa! 

-- Ah! Senhora condessa!.. Deus vos acompanhe... Tendes alguma ordem de sua magestade?... 

-- Não recebe ninguem, mas comvosco é outra cousa... Tendes privilegios como ninguem! Quereis uma das minhas pastilhas de chocolate? e a fidalga, como toda a côrte, lisongeava a negra, estendia-lhe uma caixa d'ouro que a preta tomou com todas as pastilhas, correndo para os aposentos de sua magestade. 

A rainha dormitava no seu leito e acordava em sobresalto ao ver D. Rosa, exclamando de seguida: 

-- Ah! És tu? 

-- Sim real ama; fez a negra ajoelhando-se aos pés do leito. 

-- Vens para o meu quarto? 

-- Não magestade, salvo se o desejaes... 

-- Não, pobre D. Rosa, precisas dormir tambem... Mas então o que desejas? 

Ella carateou um sorriso e volveu: 

-- A vossa escravasinha deseja um obsequio... 

-- Dize... 

-- Que recebeis vosso filho, o qual está n'um grande desespero! 

-- Ah! O quê? D. João? 

-- Sim... 

-- Sempre a maldita intriga! Quando acabará isto? bradou a rainha tomada de raiva. 

-- Chego a temer que sua alteza se exaspere... Sabeis como é impressionavel! 

-- Porém D. Rosa, eu também estou doente... 

-- Oh! Real ama... Falae-lhe apenas uns momentos... 

-- Seja! Ajuda-me a vestir... 

D. Maria I entregou-se nas mãos da negra que se descobria ao vestir a ama e por fim sahiu do quarto, bradando á condessa de Pombeiro: 

-- Fazei entrar sua alteza com ordem de minha real ama! 

-- Sim, D. Rosa! volveu a dama com um grande ar de espanto, affastando-se a deixar passar o principe que entrava no oratorio da rainha, emquanto a negra favorita se ia metter no seu leito a repartir com o amante d'aquella noite, algum lacaio, as pastilhas da caixa d'ouro da senhora de Pombeiro. 

D. João curvava-se agora em frente da rainha, e dizia-lhe: 

-- Real senhora, desculpareis a minha insistência em vos falar... 

-- Alteza! Seja breve!... volveu D. Maria I, muito seccamente 

-- Eu venho sollicitar de vossa magestade a minha tranquilidade... 

-- Ah! Falae... falae... fez a pobre mãe, já esquecida do seu papel de rainha. 

-- Trata-se dos Tavoras, a minha consciencia revolto-se a todos os momentos desde de que vossa magestade falou em recompensados para pagar uma divida em aberto. 

-- Que quereis dizer? bradou a soberana, fazendo-se livida. 

-- Quero falar do bispo do Algarve! 

-- Por Deus! Não me falíeis d'esse homem! 

-- O que, minha mãe, pois já mudastes de opinião? interrogou elle com bem fingindo espanto. 

-- Não fostes vós, meu filho, que me contou algumas das acções do bispo, confirmadas depois pelo meu fallecido confessor? 

-- Ah! Magestade, eu fora enganado pelo intendente da policia, tenho d'isso a certeza! 

-- Mas eu tenho também a certeza que tudo quanto me dissestes é verdade, 

-- Porém não posso mais!... Oh! Os Tavoras, meu Deus! bradou D. João, buscando servir a esposa louco d'amor. 

-- Mas que desejaes, emfim? 

-- Que nomeeis o vosso confessor hoje mesmo...

-- Já o nomeei! bradou a rainha, mostrando-se d'uma resolução inabalavel, 

-- Como! Ah! E quem é? 

-- O prior de S. Julião! volveu a soberana toda cheia de fleugma. 

-- Oh! Impossivel! Impossivel! É preciso nomear o bispo do Algarve. 

A rainha muito admirada ante aquella imposição do filho, fez-se livida e ia pronunciar algumas palavras, quando o principe, bradou: 

-- Perdoae real senhora, mas eu temo enlouquecer no meio de tudo isto... Fazei-me o que vos peço por Deus... Vae n'isso a minha tranquillidade, mais ainda a minha felicidade! 

-- A vossa felicidade?! gritou ella envolvendo-o n'um olhar amigo. 

-- Sim, minha mãe, eu amo minha esposa, estou louco, quero o seu amor e para a tranquillisar, para a acalmar, careço de lhe satisfazer um capricho! bradou o desgraçado não se podendo conter mais tempo... 

D. Maria I, ficou como paralysada ante aquella revelação e com a voz embargada na garganta interrogou: 

-- É então vossa esposa que deseja essa nomeação? 

-- Sim, real senhora, em opposição a D. Maria, D. Maria Benedicta que deseja a do prior... 

-- Lucta de mulheres caprichosas que nos envolvem, meu filho... Oh! Mas d'esta vez serei superior a essas cousas, collocarei acima de tudo as razões do estado! 

D. João, pallido, muito tremulo, exclamou então: 

-- E fareis assim a infelicidade de vosso filho? 

-- Como, a infelicidade? 

-- Irritareis a princeza servindo-lhe de obstaculo, e ella descarregará sobre mim toda a sua colera! 

Então aquella rainha olhou o filho, esse personagem gordo e mellifulo que tinha na sua frente e que tremia ante a colera d'uma mulher, e teve no rosto uma extranha expressão de desgosto, murmurando: 

-- Oh! Um Bragança, santo Deus, um Bragança! Que fraqueza d'animo! 

-- Minha mãe, eu sou um homem como todos! Ou consigo auxiliar minha esposa que me ama masque tem caprichos que devo satisfazer, ou então recolho-me ao convento de Mafra a acabar os meus dias o mais breve possivel! 

-- Oh! João, meu filho, e o throno e o paiz? Quereis tudo isso nas mãos d'um ramo bastardo, esse de Lafões, entregue de novo a mulheres como Maria Benedicta, ou sujeito á Hespanha? 

-- Que importa! blasphemou o principe no auge da loucura. Ou minha mulher como eu entendo, como verdadeira esposa ou então a morte, sim a morte na clausula! 

D. João, ao falar assim, sabia fóra dos seus habitos, mostrava-se outro homem, o que admirava profundamente a rainha que lhe retorquia: 

-- Mas e as razões do estado? A vida d'esse bispo? Oh! Foi sagrado pelas imposições de teu pae, ha-de ser meu confessor pelas tuas! 

-- Oh! Pelas minhas felicidades, mãe querida! 

E d'esta vez o principe, chorava como uma creança e lançava-se aos pés da rainha, deveras desesperado lastimando-se convulsamente a murmurar: 

-- Que importa tudo ante a felicidade d'um ente querido! Já me não ama, minha mãe... Oh! lembrae-vos que eu sou o vosso único filho!... Maria Benedicta não soffrerá se o seu protegido não for nomeado... Mas eu! oh! eu! Amo tanto Carlota Joaquina como vós me podeis amar, minha mãe! Vejo que soffreis com o meu desespero, calculae o que eu soffrerei com o desespero d'essa mulher

que adoro! 

O principe, habitualmente ignorante e imbecil, levado pelo amor, por aquella promessa da esposa, sentia-se capaz de tudo e defendia com eloquencia a sua causa, deixando D. Maria I, como admirada e ao mesmo tempo muito impressionada. 

Tinham estado assim umas longas horas e agora a manhã começava a clarear as vidraças, mostrando os vultos lividos dos dois reaes personagens. 

Acordavam os gallos pelos quintaes e atiravam ao espaço cantares estremunhados, ouviam-se os passos das sentinellas em volta da habitação real. 

A rainha, muito fatigada com umas olheiras fundas, cavas, quasi sem vontade propria, excitada pelas commoções da vespera e por aquella noute perdida, sentia-se disposta a ceder. 

Mas ao mesmo tempo no seu cerebro passavam mil cousas, recordava-se das intrigas ouvidas pelo principe ao intendente, e que elle mesmo lhe revelara n'um momento de aborrecimento. Via toda a longa serie de episodios políticos e recordava-se do juramento feito ao arcebispo, cujo corpo rigido ainda além estava n'aquelle andar de baixo e d'onde chegavam murmurios das rezas dos frades. 

Era a rainha ao pensar assim por essa madrugada parda, mas volvia um olhar para a sua frente e via o filho ajoelhado, chorando desesperadamente, e supplicante, exclamar: 

-- Oh! Minha mãe... Minha mãe... É a felicidade que vos peço... Quereis então que seja desgraçado...

E eram lagrimas grossas como punhos a rolarem nas faces gordas do futuro rei, d'esse que continuaria a dynastia e que seria capaz de morrer de desgosto por um gesto zangado da esposa. 

E então em vez de rainha foi mãe. 

Sem proferir palavra, dirigiu-se a uma meza, assignou a nomeação, preenchendo-a com o nome do bispo do Algarve e curvando-se a agarrar o filho, beijou-o nas duas faces com carinho e murmurou: 

-- Aqui tens... Sê feliz meu querido filho! 

Elle, transfigurado, beijou-a também e sahiu logo, muito arrebatado, emquanto a manhã rompia e a rainha se deixava cahir muito abatida n'uma poltrona, rasgando com raiva as rendas do vestido, exclamando: 

-- Oh! As mães nunca deviam ser rainhas! 

E ficava chorando, como se comprehendesse a subitas que aquella nomeação que assignara representava a sua desgraça e a dos seus! 

D. João ia pelo corredor deveras satisfeito, passava em face dos aposentos da negra favorita d'onde ainda vinha um ruido de beijos e teve tambem um sorriso ao pensar que dentro em alguns momentos beijaria assim a sua esposa. 

Lá baixo, um homem vestido como um prelado sahia do escuro e passava rente d'elle, curvando-se n'uma saudação respeitosa. 

O principe, olhou-o, e exclamou: 

-- Vós, senhor bispo do Algarve? 

-- Sim eu... eu que volto dos officios funebres de sua grandeza o arcebispo de Thessalonica e que me retiro meu senhor... 

-- Ah! Ide-vos senhor inquisidor-mór! disse alegremente o principe batendo-lhe no hombro. 

-- Inquisidor-mór, enganae-vos meu senhor! exclamou José Maria de Mello dardejando um olhar ambicioso atravez dos seus oculos verdes. 

-- Não, não me engano! Estaes nomeado confessor de minha mãe! bradou com enthusiasmo, accrescentando: E tambem inquisidor-mór! 

-- Eu? 

-- Sim... Aqui tendes a vossa nomeação! 

Passava-lhe para as mãos o papel n'um gesto febril, e ouvia o bispo dizer: 

-- Oh! Sei que me intrigavam com vossa alteza mas vejo que sois ainda muito meu amigo! Quanto vos devo, meu principe, quanto vos devo! exclamou elle arrebatadamente. 

Mas D. João, despedia-se á pressa, dizendo-lhe: 

-- Não vos esquecereis de mim nas vossas orações... Deixae os intrigantes porque vos estimo! 

O outro aftastava-se louco de jubilo e o principe, dirigindo se para os lados dos aposentos de Carlota Joaquina, murmurava: 

-- Oh! Vou dever-lhe o amor de minha esposa! 

Lá ao fim, o bispo do Algarve louco de alegria dispunha-se a descer a escada e murmurava por seu turno apertando o papel na mão crispada: 

-- Bispo, inquisidor-mór e confessor da rainha! Oh! Agora tremei Braganças que a Companhia e os Tavoras já começam a estar bem vingados! 

Sua alteza estava já a pequena distancia dos quartos pertencentes a Carlota Joaquina, quando o chefe da policia que se occultava no vão d'uma porta, o deixou passar, dizendo-lhe nas costas em voz cava, bem disfarçada: 

-- Entrai depressa nos aposentos da princeza, alteza real. 

Elle voltou-se como se julgasse tudo aquillo um sonho, e o outro que não assistia á entrevista com o bispo, exclamava contente affastando-se tambem: 

-- Ah! E agora assim o espero, será rasgada a nomeação do confessor se a rainha sempre lhe cedeu! 

D. João, chegava a alguns passos da porta, o corredor estava ainda escuro e sua alteza viu um vulto que sahia do quarto de Carlota Joaquina, um homem que se envolvia em grande capa e o qual partia em direcção á sabida. Ao infortunado principe pareceu-lhe entrever o rosto moreno da esposa espreitando a seguir o outro com a vista, pelo corredor. 

Do lado de lá, ouvia-se uma risada e depois a voz estridente do bobo da rainha gargalhar. 

-- Ah! Bons dias senhor almoxarife de Queluz! Muito graves são os negocios das flores da quinta real que vos trazem tão cedo ao paço! 

O outro não lhe retorquiu, embuçou-se mais na capa, emquanto o principe D. João, pallido, livido, comprehendcndo tudo, fazia um gesto desesperado e corria para os seus aposentos onde se lançou desesperado sobre o leito, chorando como uma creança e revolvendo-se no auge da colera, mordendo com rancor as almofadas bordadas com as armas reaes que a princeza acabava de prostituir com um rustico. 

De baixo vinha o cantico dos frades, orando pelo eterno repouso do arcebispo de Thessalonica que elle acabava de fazer substituir por um homem que a adultera lhe recommendara, promettendo-lhe amor. 

-- Ah! E já o bobo o sabia na côrte, dentro em pouco todos se ririam d'elle em cuja cabeça um dia se collocaria a corôa dos reis de Portugal. 

E havia de partilhar o throno com semelhante mulher! 

No cumulo da raiva, dos seus labios grossos sahiu um epitheto dirigido á esposa e que parecia pronunciado por um arrieiro. 

Parecia-lhe que pela porta do quarto sentia a penetral-o o olhar de D. João de Falperra com a intensidade prefurante d'uma verruma. 

Ao mesmo tempo no quarto da princeza passava-se bem diversa scena. 

O bispo do Algarve entrava depois de ter dado uma volta no jardim e acercava-se de sua alteza, que muito languida se atirava para sobre um sophá exclamava á sua entrada: 

-- Tendes noticias de meu esposo? Por Deus que parece não ter sido feliz na tentativa. 

-- Enganae-vos senhora, D. João conseguiu o que desejavamos! 

-- Ah! Encontrasteie-o? 

-- Sim alteza, e tenho aqui a minha nomeação! 

Mostrava-lhe o papel e ante o olhar jubiloso de Carlota Joaquina, exclamou: 

-- Agora cheguei ao que desejava, resta-me apenas tornar-vos a verdadeira rainha de Portugal. 

-- E os nossos inimigos, acaso os esqueceis? 

-- Não... Mas damos-lhe treguas... Gomes Freire vae para a Russia e talvez que uma bala o prostre... Os jesuitas têm lá os seus dominios e elle procura Elvira de Mello, Vasco de Miranda seguil-o-ha e é mais facil fazer desapparecer um homem n'essas paragens do que em Portugal; e para demais quando temos sobre nós o intendente da policia, que apesar de todo o nosso poder é capaz de muitas cousas. 

-- Mas pode desapparecer também! 

-- Elle! Oh! Não... É melhor lançar-lhe a mão, e disfarçar-lhe as attenções com outras conspirações... 

-- Quaes? 

-- As que o cobrirão de ridiculo, quando perseguir os pedreiros livres, um papão que elle inventou e que é de gerar riso... Para demais fr. Fabricio e Theodoro, o jesuita, partem em seguimento dos que se vão bater! Os que ficarem nós os domaremos... Agora sou o inquisidor-mór! 

-- E quando esmagaremos essa D. Maria Benedicta e a sua aia? 

-- Ah! Desde que eu impere no espirito da rainha o que será brevemente assim o espero, exclamou elle accrescentando: 

-- E vós sereis a rainha! 

Depois sahia, passava em frente do quarto do principe D. João, e ouvia ainda as invectivas que elle proferia; teve um sorriso e murmurou, n'um grande desabafo: 

-- Oh! Dois cadaveres em tão pouco tempo! Estaes bem vingados oh! Tavoras! É a desordem na corte dando-me o poder... Começaes a estar vingada também, oh! Companhia de Jesus! E teve um bello gesto de grandeza, o novo inquisidor-mór de Portugal. 



FIM DA PRIMEIRA PARTE 













SEGUNDA PARTE 







OS PEDREIROS LIVRES 





I 



O iniciado 





Chegara o anno de 1791. Em França pairavam latentes as ideias revolucionarias que ameaçavam espalhar-se pela Europa nos livros dos mestres, dos verdadeiros iniciadores da cruzada da justiça, e em Portugal, o intendente da policia, redobrava de zelo ao ver o avanço d'essa era nova que ameaçava abalar os thronos. 

Pina Manique quasi esquecera os jesuitas na sua furia contra os pedreiros livres e tomado de terrores subitos, tornara-se outro homem, farejava dia e noute as conspirações e organisava a valer um corpo de policia, os moscas <marca num="*" pag=623> como elle proprio os denominara não receiando ainda a traducção do termo francez, não temendo que essa simples palavra perturbasse a paz do reino, como mais tarde receiou que a obra revolucionaria fosse feita pelos laços de certas côres onde via embuscada a republica tão odiada por elle. 



<nota num="*" pag=623> Do termo mouchard com que se designavam os agentes da policia franceza. </nota>



-- Oh! Ninguem em Portugal mas é que o nosso grão-mestre... 

Mas apesar da vigilancia do senhor intendente, n'essa noute chuvosa d'outubro em que elle acompanhava a côrte para Salvaterra, ao baterem as onze horas no relogio da basilica da Estrella que D. Maria I mandara construir, alguns vultos embuçados em capas dirigiam-se para os lados da Boa Morte, encostando-se ás paredes, caminhando a um de fundo e deslisando como phantasmas, penetrando depois com pequenos intervallos, e lançando em volta uns olhares receiosos n'uma pequena casa que ficava a alguma distancia do

convento, n'uma volta do terreno um tanto occulta nas arvores plantadas ao acaso. 

De seis em seis metros um lampeão, producto do novo imposto <marca num="*" pag=624> espargia uns clarões breves na estrada molhada pela chuva que cahia com força. 



<nota num="*" pag=624> Pina Manique impuzera a todos os funileiros de Lisboa o fazerem seis candieiros que eram alimentados a dispensas dos moradores das ruas que davam um tostão por mez para o azeite. </nota>



Logo que o ultimo vulto desappareceu tudo recahiu no silencio, apenas se ouvia a chuva batendo com força nas vidraças, emquanto que na casa para onde elles entravam nem o menor raio de luz denunciava a presença de alguem. 

Subito ouviu-se um som de passos e dois homens embuçados vindos do lado da Estrella avançaram em direcção á casa que ficava ainda um pouco distante. 

-- Estaes bem decidido ás provas não é assim meu caro marquez? perguntou em voz baixa um dos individuos dirigindo-se ao companheiro que volveu: 

-- Deveis saber, senhor duque que desde o primeiro dia em que recebi o vosso convite me coadunei com ellas, me díspuz a tudo para entrar no vosso gremio... 

-- Sei-o, marquez, porém sabei também que a maior hesitação daria motivo a suspeitas... 

-- Por Deus! E quem se atreveria a suspeitar de mim? perguntou o outro d'um modo colerico. 

-- É um estrangeiro? 

-- Sim. O conde de Stephens, <marca num="**" pag=624> vem de França para implantar a maçonaria... É um homem maravilhoso que tem estado em todos os paizes do mundo e que tem uma extraordinaria força de vontade... 



<nota num="**" pag=624> O celebre José Balsamo de que Alexandre Dumas pae, tratou n'um dos seus extraordinarios romances. </nota>



-- Desconhecia o nome... 

-- Ah! Elle tem muitos... 

-- Como... 

-- Sim... Conde de Stephens em Portugal, José Balsamo na Italia, Cagliostro em França, conde de Saint-Germain na Inglaterra, na Russia passa por persa e em Paris por italiano, na Italia sua verdadeira patria, segundo dizem, é hespanhol; em Hespanha deve ser polaco ou prussiano, em summa, em todos os paizes cria uma identidade, em todas as cidades uma figura, é como um anjo exterminador que leva o seu sopro de devastação atravez os subterraneos, proclamando liberdade, lançando o gérmen de ideas novas e que sahe das entranhas da terra para abalar thronos! 

-- O quê? Senhor duque, disseste... 

-- Perdão, para gerar liberdades, volveu o outro com um breve sorriso á flôr dos labios. 

-- Oh! Mas esse homem! 

-- É um apostolo do bem! Conheci-o em França, n'um baile da duqueza de Richelieu, apresentava-se então como um fidalgo inglez, grande excentrico que percorria Paris em todos os recantos, que bebia com os barqueiros do Sena nas espeluncas vestido como um operArio e tomava chá em Versailles vestido como um nababo, que conhecia o senhor de Voltaire, e Luiz XV, que ajudava Rousseau a colher plantas nas florestas e acompanhava Maria Antonietta atravez da França... 

-- Oh! Mas é singular... 

-- Dizia-se que fabricava ouro e bebta sangue, mas aqui para nós eu sempre o vi tirar as moedas communs com a real effigie do rei sol e beber Chypre e Tokay por copos do mais fino lavrado! 

O outro baixava a cabeça como admirado e tendo escutado toda aquella prelenga do companheiro, parecia cada vez mais interessado em conhecer esse individuo tão extraordinario, porque perguntou: 

-- É ainda muito longe, a casa? 

O homem ao qual chamava duque esboçou um sorriso, metteu-se com elle por detraz da cerca do convento como se não sentisse a chuva e murmurou: 

-- Ainda um pouco de caminho... Ah! Mas meu caro marquez ha-de p ermittir... 

-- O quê? 

-- Que lhe vende os olhos! murmurou novamente o outro. 

-- Mas certamente... 

-- N'esse caso... e o duque curvava-se a tapar lhe os olhos com um lenço negro, e tomando-lhe a mão dava com elle algumas voltas e dirigia-se emfim para a pequena casa. 

Era um predio d'um só andar, d'apparencia mesquinha e onde continuava a reinar o maior silencio. 

O duque applicou o ouvido, bateu duas pancadas na porta que se abriu por si mesma e enfiou levando sempre bem agarrado o marquez, atravez d'um estreito corredor, ao fim do qual se curvou como a procurar alguma cousa. 

Tacteou durante uns momentos na escuridão e por fim agarrou uma argola chumbada n'uma lage e que puchou para si com força, ao mesmo tempo que debaixo passava uma certa claridade e vinha um bafo do quarto do subterraneo. 

O marquez parecia nem dar por tal, curvava-se n'uma grande apathia e apenas estremecia, ao ouvir uma voz cava, perguntar em francez: 

-- Que desejaes? 

-- Liberdade! retorquiu o fidalgo. 

-- D'onde vindes? interrogou a voz na mesma toada. 

-- Das trevas e quero luz! 

-- Quem sois? 

-- Um irmão que conduz outro! 

-- Entrae! 

O marquez sentiu-se então arrastado n'uma especie de declive, sentiu cahir a lage do subterraneo e a subitas estremeceu ao tocarem lhe no peito com a lamina d'um punhal, ao mesmo tempo que a venda lhe cahia dos olhos. 

Lançou em torno um olhar admirado e á luz breve d'uma pequena lampada suspensa do tecto, viu na sua frente um homem mascarado e envolto n'uma capa negra, e procurando o seu companheiro notou que não se encontrava ali. 

-- Quem procuraes? interrogou uma voz bem timbrada d'esta vez em portuguez. 

-- O senhor duque de Lafões que me acompanhava. 

-- Ah! O irmão Socrates, é elle o vosso padrinho? 

-- Sim... 

-- E que vindes aqui buscar? 

-- Luz para o meu espirito... volveu elle. 

-- N'esse caso entrae! e affastando-se indicou-lhe a parede fronteira para onde o fidalgo avançou resolutamente. 

Mas a subitas abriu-se ali uma portinha e elle avistou vinte homens sentados muito silenciosamente, envoltos em largas tunicas negras e todos mascarados, emquanto no alto d'uma estrado se destacava um outro de pé. 

Não ocçultava o brilho extranhamente magnético do seu olhar ao fixar o marquez, ficava muito silencioso com os braços cruzados no peito envolto no seu manto sobre o qual á maneira de divisa estava traçada uma grande fita vermelha. 

A casa era de tectos baixos toda forrada de vermelho sanguineo, do tecto pendia uma lampada, e no chão estavam dois tocheiros que ajudavam a illuminar o recinto. 

Por detraz do homem que estava de pé, via-se um grande triangulo luzente, um emblema maçonico no meio do qual havia um olho que parecia mover-se a espiar os movimentos do neophyto. 

Os outros estavam impassiveis, mudos como estatuas nas pregas das suas vestes. 

Não se ouvia nem um sopro, todo aquelle aspecto intimidava e infundia respeito, principalmente quando os irmãos se levantaram a um gesto do presidente e empunharam uns punhaes de cabo em cruz cujas folhas luzentes tinham um brilho sinistro. 

O chefe continuou então de braços cruzados, depois em voz calma e no mau portuguez muito em uso na côrte, interrogou: 

-- Como vos chamaes? 

-- D. Pedro d'Almeida e Portugal, conde de Assumar e marquez d'Alorna! retorquiu o mancebo em tom respeitoso. 

-- Sois da melhor nobreza, deveis commandar um regimento! 

-- Assim é! 

-- Muito bem... 

-- Conheceis algum dos presentes? 

-- Apenas o que me conduziu aqui! 

-- Ah! Sereis capaz de o descobrir! 

-- Não... 

-- E porque vieste? 

-- Porque quero vingança! 

-- Vingança pessoal? 

-- Não... A vingança dos verdadeiros patriotas! 

-- Quem desejaes combater? 

-- A Companhia de Jesus? 

-- Nos regimens da liberdade ella será banida! E que fareis para alcançar semelhante fim? 

-- O que de mim exigirem... 

-- N'esse caso deveis um sacrificio... 

-- Qual? 

-- O da vida! bradaram todos em unisono. 

O marquez relanceou um olhar pelos parentes e bradou: 

-- E em que vos póde ser util a minha vida? 

-- Quereis ser maçon? 

-- Sim! 

-- N'esse caso não pergunteis cousa alguma! 

-- Estou prompto a morrer mas preciso de ter a consciencia de que a minha morte será util á causa... 

-- Assim deve ser... Pois bem, carecemos que os jesuitas sejam accusados de vossa morte para podermos perdel-os... Tendes aqui um punhal em cuja lamina está gravado o nome d'um membro da Companhia, cravae-o no peito! 

E o chefe estendia uma arma ao marquez que sem hesitar a ia cravar no peito, com extranha energia. 

-- Suspendei! bradou o chefe dos maçons. Dizei-me antes porque odiaes os jesuitas! 

-- Porque elles perseguem os meus amigos! 

-- Os vossos amigos? 

-- Sim... 

-- E quem são esses homens... 

-- Vasco de Miranda e Gomes Freire! 

-- Servem na Russia, não é assim? 

-- Assim é senhor! bradou o marquez admirado. 

-- Chamae-me mestre e cravae no peito o vosso punhal! 

-- Mestre! exclamou o marquez disposto a tudo. 

Mas sentiu se de repente agarrado por todos aquelles homens, e viu-se arrastado para um caixão que se abria entre dois tocheiros e cuja tampa se cerrou com estrepito. 

Depois pareciam que iam pregar essa caixa enorme, arrastavam ferramentas, ouvia um rumor surdo e sentia que a tampa era levantada novamente e que lhe diziam: 

-- Bebei este liquido... É um veneno terrivel... Sereis amanha enterrado e o vosso desapparecimento dará logar a uma grande scena com os jesuitas! 

-- Seja! bradou elle exgotando o frasco e sentindo de novo cahir a tampa do caixão que os homens conduziam atravez das casas, emquanto o marquez começava a ser tomado d'um torpor extranho. 

Não fez um movimento, cerrou os olhos sem soltar um grito, é a ultima sensação que teve foi de que o depunham no fundo d'uma cova. 

Entretanto os maçons tinham tirado as mascaras e sorriam-se de novo na grande sala. O mestre arrancara o seu disfarce e apparecia aos olhos dos associados. 

Era um homem dos seus trinta e quatro annos, pallido, nervoso, d'olhos negros e cabellos tambem negros e sedosos, nos labios tinha uma expressão ironica, nos olhos um clarão vivo. 

Sentava se n'uma cadeira, e dirigindo-se aos pedreiros livres, começou: 

-- Sabeis meus senhores que a nossa obra vae em bom caminho? 

-- Vós o dizeis mestre! bradou o duque de Lafões, aquelle velhinho adamado que fazia rir a côrte e que n'aquelle momento se mostrava entre os mais ousados. 

-- E vós não o acreditaes, irmão Socrates? Quereis dizer-me que o intendente da policia teve a arte de espalhar entre o povo que nós somos inimigos de Deus e dos altares, tornando-nos assim odiosos? interrogou José Balsamo em tom cheio de fogo. 

-- Sim... sim... É o odio da multidão! bradaram todos. 

-- Que não nos conhece mas que nos verá á sua frente no dia da lucta travada agora na sombra... bradou elle com energia, accrescentando: 

-- Em França tudo se prepara para uma grande revindicação! 

Presinto que as aldeias hão-de vir em massa até Paris, lançarão a baixo as casas dos nobres, arrancarão as flores de lys dos porticos reaes, e quem sabe se não levarão os proprios soberanos á prisão ou ao cadafalso! 

Falava n'um ar d'inspirado e elles olhavam-no admirados e ao mesmo tempo subjugados por aquella palavra vibrante e incisiva. 

O conde de Stephens continuava: 

-- Mas descançae que em Portugal e Hespanha teremos ainda muito que luctar! Eu segui passo a passo os manejos do geral dos jesuitas, estive com elle em Roma e sei o que se passa em Lisboa... No paço ha um homem que servindo a Companhia de Jesus nos serve a nós... 

-- Quem é?... Quem é?... interrogaram todos admirados... 

-- Um bispo que fez assassinar um grande príncipe que estaria aqui se não tivesse sido victima, que tem luctado para se collocar ao lado da rainha a qual será também inutilisada: 

-- O bispo do Algarve! exclamaram elles, accrescentando algumas vozes: 

-- Mas esse homem incita contra nós o intendente e é nosso inimigo, carecemos de salvar a rainha! 

-- Não... É necessario deixal-a perecer... 

-- Mas... 

-- Irmãos! Vós sois os vingadores não julgaes que servis os vossos inimigos querendo a morte de Maria I, ao contrario servis apenas a vossa grande obra! 

-- Como? perguntaram elles admirados. 

-- Deixando o mais breve possivel o governo nas mãos de D. João... 

-- Mas... 

-- Esse reinado se antes d'isso a França não tiver empolgado com as suas ideias o mundo inteiro será o que precederá a epocha de liberdade I D. João é fraco, a mulher é sanguinaria, as turbas populares não o soffrerão, a revolta estaria então feita! Chefes serão os fidalgos ao passo que em França são os plebeus, na Italia os principes farão revoluções e em França ha um que tambem a ajudará a fazer... 

-- Um principe francez? bradaram admirados. 

-- Sim... Um que eu, quando usava o nome de lord Stuart, colloquei na presidencia do Grande Oriente de Paris... 

-- E quem é?... bradaram todos. 

-- O irmão Phillipe L'Egualité... 

-- Quem é? interrogaram de novo sem comprehenderem. 

-- O duque d'Orleans! exclamou José Bálsamo triumphante. Os maçons ficaram admirados ante a revelação do grão-mestre que por fim dizia: 

-- E agora, irmãos, é necessario nomear um presidente para esta loja, outro para a de Buenos-Ayres e para a da Boa Vista... Está tudo organisado e tenho que partir... 

-- E quem nos deixareis? 

-- Um dos meus agentes que legalisará a maçonaria portugueza com as estrangeiras pondo-as em relações! Agora ide buscar senhor d'Alorna que deve ter dormido um bom somno e iniciae-o... 

Puzeram as mascaras nos rostos, emquanto o conde de Stephens despia a sua toga e ficava vestido como um verdadeiro fidalgo n'um trajo riquissimo ante o qual todos ficaram admirados. 

Então, sem cerimonia alguma, metteu-se n'um pequeno quarto donde voltou dentro em pouco com uma cabelleira empoada que o transfigurava, e apoiando as mãos no punho d'um espadim de côrte, disse: 

-- Quem deve tomar a presidencia é o irmão Pericles, é o mais velho dos iniciados. Não concordaes irmãos? 

-- Decerto grão-mestre! disseram todos, olhando um homem de elevada estatura que em voz forte, exclamava: 

-- E porque não quereis vir presidir á iniciação do marquez? 

-- É uma hora e meia da noute e eu ás duas tenho que estar no paço de Belem... 

-- No paço? exclamaram todos muito admirados. 

-- Sim... 

-- Mas a côrte está em Salvaterra... 

-- Á excepção da infanta de Hespanha! clamou elle. 

-- A infanta?! 

-- Hoje princeza e muito em breve rainha. Carlota Joaquina está doente e não partiu porque aguarda um enviado do seu paiz, alguém que um membro de sua familia lhe envia n'uma missão secreta. 

-- Como o sabeis? interrogaram elles muito espantados. 

E Balsamo com um olhar de fogo apontando o seu trajo, bradou: 

-- Sou eu o enviado! E agora iniciae o marquez d'Alorna! concluiu o conde de Stephens transpondo a porta que deitava para o corredor e embuçando-se na capa, emquanto os maçons iam buscar o neophyto. 

E dentro em pouco pela Boa Morte rodava uma carruagem que estivera parada nas immediações e onde se recostava José Balsamo, murmurando: 

-- Oh! O meu sonho! Todos os reis esmagados... Todos os reis por terra! 









II 



O irmão Pericles 





O marquez d'Alorna, acabava de acordar do torpor em que o mergulhara o narcotico ingerido, n'essa bebida que os maçons lhe tinham feito acreditar

que lhe daria a morte, e via agora debruçados sobre o seu athaude os longos e negros vultos que o analysavam. 

Nem um musculo estremecera na sua face, nem mesmo tivera um olhar mais receioso ao vêr-se assim encarado por todos os que rodeavam. 

-- Erguei-vos, irmão! murmurou soturnamente uma voz junto d'elle. 

O marquez passou a mão pela fronte, relanceou um olhar pelos que lhe falavam, ignorando d'ondc partia a voz, e depois movia-se a custo, sem pronunciar palavra, obedecendo ao gesto imperioso d'um dos desconhecidos que lhe apontava o caminho da sala, d'onde sahira José Balsamo havia uns momentos. 

Avançou junto das paredes, olhando sempre tudo aquillo muito extranhamente e só então reparou no singular aspecto da sala por cujas paredes forradas de vermelho a luz fazia resaltar umas manchas sanguineas; e attentando no emblema maçonico tornou-se serio subitamente vendo que os outros tomavam rapidamente os logares nas cadeiras vasias, e que um d'elles subia para o estrado, dizendo-lhe em voz serena apesar de cava: 

-- Quereis ser dos nossos? 

-- Sim! bradou elle com ousadia, accrescentando: 

-- Por isso me sujeitei ás vossas provas... 

-- Que bem extranhas são! Não o julgaes assim? interrogou o outro. 

-- Estou habituado a encarar os meios pelos fins? retorquiu elle com desembaraço. 

-- Que quereis dizer? 

-- Que se me deram um punhal para que o cravasse no peito, e me fizeram beber o conteudo d'um frasco onde julgava encontrar um violento veneno, sem duvida todas essas provas tem um fim superior como ellas e digno dos que se dispõem a tudo! 

-- Muito bem, marquez, não me admiram as vossas palavras! 

-- Nem a nós outros, não é verdade irmãos? interrogou um dos maçons. 

-- Sim... Sim... Já lhe conheciamos o valor! volveram com excitação os outros. 

-- Agradeço-vos senhores e principalmente a vós, grão-mestre! bradou elle no mesmo tom. 

-- Chamae-me apenas o irmão Pericles! volveu o que presidia á reunião. 

Elle então, acabou por ver que na realidade aquelle individuo não era o mesmo que o interrogara havia algumas horas, e disse: 

-- Pois bem, irmão Pericles, não vos conheço, não sei o vosso verdadeiro nome nem o dos maçons aqui presentes, porém sei encontrarem-se aqui vinte homens que combatem o poder dos jesuitas e venho collocar-me a seu lado, prompto a... 

-- A tudo? interrogou a súbitas, o irmão Pericles, cortando-lhe a palavra. 

-- Vós o sabeis! retorquio elle como unica resposta. 

-- Comprehendeis que tratamos de propagar as ideias modernas, essas que vão fazendo o assombro do mundo... 

-- As que Rousseau apresenta nas suas obras, as que Voltaire atirou atravez da Europa?! perguntou o marquez muito cheio de assombro. 

-- Sim! Sim! exclamaram todos. 

-- Mas n'esse caso a Companhia de Jesus... 

-- É a primeira a ser combatida, porque é ella o primeiro obstaculo. 

-- Estou ao vosso lado! 

-- Prompto a um juramento sagrado? 

-- Sim... 

-- N'esse caso... 

-- Oh! Senhores, eu estou aqui porque na folha da minha espada está gravado um nome... 

-- Um nome?! exclamaram assombrados. 

-- Sim... e n'um impeto arrancou a espada da bainha e mostrou a lamina aos maçons, exclamando as palavras que ali estavam gravadas: 

-- Aqui n'esta lamina ha uma inscripçao que é um grito: 

-- Viva D. Maria Benedicta! Pois é por ella, pela noiva infeliz de D. José, principe do Brazil que aqui venho, é por esse nome tão sagrado que anteponho sempre aos olhos dos meus inimigos, que lhes juro... 

-- Fidelidade? 

-- Sim... 

-- Dedicação? 

-- Sim... 

-- Chegar aos ultimos extremos pela ideia? 

-- Sim... 

-- N'esse caso jurae... 

E o presidente honorario n'uma voz pausada, começou: 

-- «Por vós arbitro supremo, magnifico architecto do universo, eu juro obedecer cegamente aos designios d'este Grande Oriente de que quero fazer parte, juro verter o meu sangue, dar a minha vida pelo credo augusto que elle defende.» 

O marquez repetia todas as palavras do outro, com o coração palpitante de jubilo, tomado de grande enthusiasmo, com olhares de fogo para a assembléa. 

E ao acabarem o juramento, diante do silencio feito, cruzou os braços no peito e ficou aguardando que se lhe dirigissem de novo: 

Foi então que irmão Pericles, exclamou: 

-- Que pseudonymo desejaes no nosso gremio? Aqui como nas academias de poetas cada um tem um nome que o designa! 

-- Não o sabia... No emtanto... 

-- O quê? 

-- Adoptarei um dos nomes que mais pode designar não o meu valor mas a minha boa fé. 

-- Qual? 

-- O de Catão! 

-- Ah! O civismo! 

-- O grande romano!

-- Ficava bem esse nome! 

Exclamaram sempre com as mesmas intonações, e o irmão Pericles acabou por gritar: 

-- E agora, abaixo as mascaras! 

-- Sim... sim... repetiram todos. 

Alorna, relanceou pelo recinto um olhar admirado e recuou ao reconhecer o homem que falara até então. 

Era um individuo de rosto sereno, d'olhar insinuante e altivo, alto, robusto, na cabeça uma tonsura nos labios um sorriso benevolo, ao ouvir o marquez exclamar: 

-- O abbade Correia da Serra!

-- Sim eu!... volveu o outro do mesmo modo tranquillo. 

E então, relanceando olhares em volta, descobrindo muitos rostos conhecidos, murmurou: 

-- O clero, a nobreza, todos os poderes aqui? Lafões, Castello-Melhor. 

Ia repetir outros nomes, falava d'aqueUes homens entre os quaes reconhecia amigos, gente de talento, filhos da grande nobreza do paiz, porém o abbade Correia da Serra, <marca num="*" pag=636> punha um dedo nos labios e bradava: 



<nota num="*" pag=636> Era um dos grandes sábios da epocha. </nota>



-- Perdão irmão Catão, nós aqui não temos nomes profanos... Vós sois Catão, como eu sou Pericles, como aquelle é Socrates e o outro Archimedes... 

-- Sim, irmão, volveu o conde confundido. 

Então todos despiram as vestes e ficaram com os seus trajes vulgares. 

Aqui viam-se os fidalgos recamados d'ouro com espadins de punhos cinzelados e commendas fulgentes no peito, ali eram os ricos mercadores francezes e florentinos, os judeus e os inglezes, a parte material da nação envergando os trajes severos, mais adiante um sacerdote, acolá um frade poeta, com o seu ar esturdio, o rosto rapado, os olhos piscos e que bradava: 

-- Ah! Sim aqui não temos nomes para que não nos succeda o mesmo que ao pobre Fylinto. 

-- Ah! Fylinto Elisio! disseram todos cheios de piedade. 

-- Conheceis a historia, sennor marquez? 

-- Lembro-me d'ella... Foi ha alguns annos... 

-- Que o religioso que era ao mesmo tempo um grande poeta, murmurou umas palavras que um frade ouviu e foi repetir á intendencia da policia... 

-- E Pina Manique, que deixa cm paz os jesuitas depois de os guerrear, que os mantém em socego, auxiliou a inquisição, e esse grande lumiar da egreja e da poesia... 

-- Fugiu de Portugal! concluiram todos. 

-- E agora mendiga o seu pão em cortes extrangeiras... accrescentou alguem. 

-- Será aproveitado o seu talento por um homem que o estima e que acabará por impol-o de novo! exclamou o abbade. 

-- Quem? interrogaram todos. 

-- E elle volveu: 

-- Tive noticias de Paris, vindas n'um grande segredo e trazidas pelo conde... 

-- Quê? Pelo grão-mestre? perguntaram do mesmo modo curioso. 

-- Sim, José Balsamo ainda auxiliará o homem em questão para que protegesse Fylinto Elisio. <marca num="*" pag=637>



<nota num="*" pag=637> Francisco Manoel do Nascimento (Fylinto Elisio) grande poeta. </nota>



-- Mas quem é esse homem? perguntaram de novo. 

-- O nosso ministro em Haya, replicou elle do mesmo modo. 

-- O quê? Um diplomata?! bradaram assombrados e cheios do mais intenso pasmo que logo desappareceu ao ouvirem o irmão Pericles, replicar: 

-- Ah! Mas o ministro, Antonio de Araujo e Azevedo, ao dar-lhe o cargo de seu secretario particular, lembrou-se que era dos nomes... 

-- O quê? Tambem elle? interrogou Alorna no auge do espanto. 

E Pericles, volveu: 

-- Sim tambem elle! 

-- E alguem esperava acaso que o duque de Orleans fosse o grão-mestre do Oriente de França? interrogou o abbade triumphante além n'aquella sala em que a luz espalhava clarões sanguineos ao bater nos pannos das paredes. 

Depois, sentou-se n'uma cadeira no meio do grupo, fez um gesto a Alorna para que esperasse, trocou algumas palavras em voz baixa com os companheiros e d'ahi a momentos dizia: 

-- Dentro em pouco encarregar-nos-hemos d'uma primeira missão de prova, Gatão! Vamos deliberar... Sahi e aguardae! apontava a porta d'um modo authoritario e ficava depois uns momentos silencioso, ao ver que os outros esperavam a sua proposta em relação ao receminiciado. 

Baixaram as cabeças e ficaram na espectativa, ao passo que Correia da Serra, meditava: 

Então ao cabo d'algum tempo, o irmão Pericles exclamou: 

-- Que lhe daremos por prova? Que exigeremos d'elle? 

-- Irmão, bradou o duque de Lafões, muito seguro de si. Elle chegará a todos os extremos se fôr neccessario. Ordenae, pois... 

-- Mas não se trata agora de ordenar, mas sim de fazer alguma cousa que seja urna prova e ao mesmo tempo seja util para o nosso gremio... 

-- Bem... Qual é o fim a que visamos n'este momento? perguntou o frade poeta d'um modo impertinente, como se estivesse na Arcadia em vez de se encontrar na loja maçonica. 

-- Agora carecemos de impedir que durante dois mezes pelo menos o intendente da policia nos vigie, precisamos desviar-lhe as attenções para outra parte... 

-- Será essa a prova do marquez d' Alorna!... bradaram alguns. 

-- Sim... sim... repetiram os outros. 

-- Pois bem... Chamae-o... 

Um dos maçons sahiu do grupo e foi buscar o marquez que ao entrar ouviu o irmão Pericles bradar: 

-- Sabeis, que sois dos nossos... 

-- Sim, irmão. 

-- Que deveis obediencia ás deliberações do gremio... 

-- Sim, irmão. 

-- Que não tendes o direito de saber mas sim de executar... 

-- Sim, irmão. 

-- Estaes prompto a isso n'este momento? 

-- Sim, irmão. 

-- Não desejaes penetrar os nossos secretos designios, não é assim? 

-- Mas não... não... Quero cumprir o dever a que me obriguei... 

-- Porém nós é que não o consentimos sem que saibaes primeiro a que ides... 

O marquez inclinou-se, e o abbade Correia de Serra, começou: 

-- Sabeis decerto que Pina Manique, o intendente da policia tem perseguido em grande azafama os maçons, sem que até hoje no emtanto ainda tivesse a certeza completa da existencia dos gremios... 

-- Sei que aprehendeu a um official de nome Lear... 

-- Uma carta do general governador de Faro... 

-- Sim... Oh! Mas ahi ainda o gremio não estave formado... Mas continuaremos: 

-- Temos tres lojas maçonicas em Lisboa... A da Boa Morte onde estamos, a da Boa Vista, a de Buenos-Ayres... A policia tem procurado descobrir-nos mas sem resultado attendendo ás precauções de que nos cercamos. Agora porém, José Balsamo, o grão-mestre da maçonaria universal e o seu implantador, antes de partir, quer que o Oriente lusitano entre em acção... Temos uma tarefa que é segredo ainda para nós e para qual sabemos apenas ser necessario, mais, ser essencial uma cousa... 

-- De que me vão encarregar?... 

-- Certamente. 

-- De que se trata? 

-- De desviar as attenções do intendente e da sua policia para outro lado... 

Alorna, curvou a cabeça admirado de semelhante cousa, mas com toda a coragem, não sabendo ainda o que iria fazer mas contando com o acaso e com a sua boa vontade, bradou: 

-- Irmãos estou ás vossas ordens! 

-- Recebereis todos os auxilios precisos... 

-- Ah! N'esse caso conto com a victoria... 

-- Auxilios d'homens dedicados, de dinheiro ou ainda mesmo d'influencia... Trata-se de tecer a intriga...

-- Serão cumpridos os vossos desejos... 

-- Bem e quando começareis a vossa obra... 

-- Hoje mesmo ou antes, amanhã porque a côrte está em Salvaterra... Trata-se de desviar a attenção do intendente durante uns mezes... Pois ella será desviada principalmente se o senhor duque de Lafões me quizer auxiliar com o seu conselho e o senhor de Castello Melhor com o seu braço, emquanto que todos os irmãos aqui presentes se prestarem a coadjuvarem me tambem! 

-- Sim... sim... Porque todos pertencemos ao gremio... 

-- Nesse caso, com tão boa vontade e com tão robusta fé venceremos... 

-- Deve estar a clarear o dia... exclamou o duque de Lafões olhando para o seu grande relogio em cuja tampa havia iniciaes e armas. 

-- Saibamos com todas as precauções... 

-- Somos vinte e é preciso cautella... 

-- Mas temos aqui duas portas além da sabida do predio visinho... 

-- Bem saibamos então... 

-- Faltam ainda as insígnias do iniciado... bradou Correia da Serra, tirando d'um pequeno cofre uma medalha com um emblema egual ao que estava na parede e suspenso d'uma fita vermelha, que collocou ao pescoço do marquez, dizendo-lhe: 

-- Usa-se entre a camisa e o colete e ao menor perigo mostrae-o porque os maçons existem em toda a parte principalmente entre os nobres e é possivel que tivesseis de luctar com um irmão. Se são inciados detemse e mostram-nos as suas insignias, no caso contrario nada está perdido em face de profanos! Agora offerecei a face aos vossos irmãos para o beijo paternal! 

E Correia de Sena foi o primeiro a beijar o marquez d'Alorna no que todos o imitaram, dirigindo-se então para as sabidas. 

Uns atravessavam um pequeno pateo cujas paredes estavam cobertas de musgos esverdinhados, olhavam o ceu negro onde havia uns tons ligeirosa anunciando a manha chuvosa, e com precauções infinitas mettiam-se pelas terras da Boa-Morte em direcção á Estrella que se destacava na branquidão suja da sua cantaria tocada dos livores da madrugada. 

Outros sahiam pelo corredor estreito que punha o subterraneo em communicação com o predio visinho, e desciam pela Fonte Santa onde se erguia a ermida de Nossa Senhora dos Prazeres, um pequeno grupo dirigira-se para Alcantara rente do muro da cerca dos oratorianos das Necessidades e por fim, o abbade Correia da Serra ficando só com o marquez d'Alorna deu-lhe o braço, viu Lafões que sahia impavido, embrulhado na capa, pela porta que deitava para os campos e avançou com o marquez para a sahida da casa onde se davam as reuniões, começando depois a caminharem ambos sem o minimo receio, o abbade a dizer lhe: 

-- Tenha a certeza meu caro marquez, e elle parecia agora outro homem ao falar assim, de que as sociedades maçonicas ao estenderem-se no paiz, vão não só abalar o poder da Companhia que lucta nas trevas, mas ainda preparar uma epocha de felicidade... Recebi ha dias nos meus aposentos da Academia um pequeno volume onde auctor desconhecido vaticina uma republica universal! 

-- Por Deus! Uma republica! bradou o marquez. 

-- Sim, que não chegará a este extremo da Europa senão depois de termos modificado o poder real como os francezes acabam de fazer... 

-- Oh! Uma republica, mas essas ideias! 

-- Adoptal-as-hemos se isso for necessario ao bem da patria... 

-- E os nossos irmãos... 

-- Nenhum acceita por emquanto estas theorias... Todos desejam apenas destruir o poder da Companhia e reconstituir Portugal... São quinhentos homens a quererem concluir a obra de um só... 

-- De qual? 

-- Do marquez de Pombal... 

E Alorna encostando-se mais ao braço do companheiro, pareceu ficar meditando nas palavras do irmão Pericles, dizendo: 

-- Mas agora, apenas se trata da Companhia não é assim? 

-- Sim da Companhia! volveu o outro com um sorriso dubio, olhando a cidade que se estendia ainda adormecida a seus pés. 

Com, effeito vindo da luz para a treva da cidade, elles sentiam na alma um renascimento, um desejo forte e augusto de libertação, a anciã de serem, emfim, cidadãos d'um povo livre como os que comprehendiam já atravez dos livros, que um bello vento arremessara por sobre os Pyrincos. 









III 





Miserias da realeza 



A rainha não recebia havia oito dias nenhum dos fidalgos da côrte. 

Recusara até falar ao principe D. João e encerrara-se nos seus aposentos onde apenas entrava o confessor. 

O bispo do Algarve, tinha agora um olhar dominador, apresentava-se com todo o orgulho d'um favorito ou antes dum dominador e ia exercendo a sua fatal influencia no animo fraco da soberana, aterrorisando-a a todos os momentos com as mais espantosas revelações. 

E ninguem na côrte se atrevia a contrariar a vontade suprema do inquisidor tornado agora o arbitro dos negocios, antepondo a sua vontade á dos ministros que todos os dias faziam antecamara á rainha sem que ella os recebesse. 

O intendente da policia continuava nas suas perseguições aos pedreiros livres, os fidalgos entregavam se aos seus amores, obedecendo ás tendencias lubricas da epoca e a pobre rainha ficara abandonada nas mãos de José Maria de Mello, que sedento de vingança jurara anniquiUar para sempre a fraca mulher em cuja cabeça pousava uma corôa. 

Era ainda cedo, rompera a manhã do oitavo dia em que ella se encerrara. 

Rendiam-se as sentinellas do paço de Salvaterra, passavam os archeiros da guarda nas fardas garridas, as alabardas ao hombro, perturbando o pesado silencio do palacio. 

N'aquelle ultimo dia do mez de janeiro, a chuva batia pesadamente nas vidraças n'uns ruidos irritantes, os campos alagados estendiam-se n'uma especie de bruma, e os moinhos no alto dos outeiros de velas esfrangalhadas pela ventania quedavam-se dominando a villa melancholica. 

A natureza parecia tornar-se cumplice do jesuita; o estado do tempo influia poderosamente na organisaçao nervosa da rainha, que nos dias chuvosos chorava a miudo n'uma constante irritabilidade, ficando depois horas esquecidas na peor das taciturnidades, tendo o verdadeiro aspecto d'uma lypemaniaca. 

A noute, noute de trovões, em que se espalhava a electricidade no espaço, ella passara-a no auge da excitação, ajoelhara em face do oratorio emquanto na casa contigua o confessor arrastava sandalias, e as luzes estremeciam, vacillavam, desdobrando clarões sinistros nas ricas imagens do bello oratorio de prata. 

D. Maria I, muito pallida, as veias azuladas da testa destacando-se grossas e bifurcando-se n'uns tons extranhos na pelle eburnea, continuava ainda ajoelhada e como extranha a tudo, murmurando ao acaso phrases intervalladas: 

-- Ah!... Meu Deus!... É el-rei! Pedro... Pedro... Obedeci!... O Tavora... Oh! O marquez de Pombal! 

E abafava nos labios um grito estridulo, cahia depois de bruços no chão, e ficava a chorar como louca n'um desespero immenso. 

Depois erguia-se d'um salto e corria para a porta, bradando: 

-- A guerra! A guerra!... Os hespanhoes!... 

Agarrava o fecho que sacudia com força, dos labios desmaiados sahia lhe um novo grito, e recuava logo ao ver na sua frente o vulto sinistro do bispo do Algarve que com um gesto potente, exclamava: 

-- Senhora! 

Como o domador que entrando na jaula da fera a detém, a amesquinha com um só olhar elle cruzava os braços no peito e exclamava de novo: 

-- Que quereis? 

A rainha baixava a cabeça, recuava até á parede como confundida, tinha perdido a noção de tudo, curvava-se ante o confessor que pouco a pouco se lhe apoderara do espirito. 

E ella supplicava-lhe: 

-- Oh! Quero ver meus filhos! Meus filhos! Os negocios do estado!... Oh! bispo... Eu não quero estar presa! 

-- Vá... bradou elle em voz cava. A porta está além e pode transpol-a... Mas recorde-se, vossa magestade, que as culpas do reinado de vosso pae ainda não estão expiadas... O jejum a que vos entregaes de cousa alguma valerá para Deus, se trahirdes as promessas feitas... E vós jurastes não ver, nem communicar com pessoa alguma á excepção do vosso confessor, durante oito dias que só terminam ao anoitecer!

-- Oh! O castigo! O castigo!... bradou a soberana recuando e soltando um grito lancinante. 

Nos olhos passaram-lhe clarões de loacura, estremecia, fixava com a pupilla cava o bispo que em voz terrivel continuava a aterrorisal-a: 

-- Sabeis bem que os filhos pagam as culpas dos pees!... 

-- Dos paes... Dos paes... repetiu ella n'um espasmo. 

-- E o vosso foi bastante culpado por todos os motivos!... É necessario que vos lembreis de que ha um céu para os bons, e um inferno para os maus! Num existem canticos, perfumes, flores, escuta-se a harmonia doce dos anjos, adormece-se sob o olhar incommensuravel e bemdito de Deus, enorme como o azul da amplidão... Vive se na companhia das santas e dos martyres, duma côrte mais brilhante e mais bella do que todas as da terra, porque além só existem almas puras... 

Falava n'um tom dolente, em voz melodiosa que aquietava a rainha e a fazia sorrir quasi docemente. 

Cahia na poltrona, como magnetisada peia chuva de palavras que o oratoriano deixava escorrer lenta e dolorosamente dos labios grossos onde havia um sorriso sarcastico. 

Apoderavase-lhe assim do espirito conhecendo bem o nervosismo latente da rainha, domava-a fazendo o panegyrico d'esse céu azul e bello em que as cavernas d'ouro tinham chispas d'estrellas, falando dos astros como d'outros tantos paraizos recamados d'ouro, onde se escutavam as harmonias infindas das cythereas harpas tocadas por onze mil virgens d'olhos d'opala e pestanas longas, os cabellos dourados cabidos em espaduas de marfim, os dedos longos de unhas perladas, fazendo sahir dos instrumentos harmonias infinitas que convertiam até as feras mais indomitas das selvas, d essas regiões lon- 

giquas que compunham o titulo d'essa soberana semi-louca pelas suas predicas, e que o escutava como uma creança entretida docemente com uma historia de frades. 

E o bispo, amaciando a expressão do rosto, tendo um sorriso breve á flor dos labios, continuava: 

-- E ali encontrareis a alma de vosso esposo... 

-- E de meu filho... E de minha mãe!... volvia ella enthusiasmada. 

-- Sim a alma de vossa mãe, não é o que dizeis... Do principe D. José não é o que pensaes? interrogou elle de repente olhando a rainha. 

-- Sim... sim... 

-- Oh! Mas é necessario redemil-as pelos vossos actos! Essas duas almas não estão salvas! 

-- O que? O que?... 

-- Sim... Não estão salvas! Vossa mãe foi a esposa d'um rei 

que obedeceu a Satanaz seu ministro, vosso filho foi educado e seguia as ideias d'esse espirito das trevas... E todos elles... vosso pae, vossa mãe, o principe... Todos... todos estão no inferno pagando com as torturas o mal que fizeram na terra, sujeitos ao castigo dos seus innumeros peccados... 

A rainha soltou um grito, escondeu o rosto com as mãos, emquanto o sacerdote por uma transição brusca e em voz terrivel, bradava: 

-- Sim no inferno, entre o lume que crepita nas forjas negras do anjo cahido... do anjo rebelde! 

Via o effeito das suas palavras com um longo sorriso de vingança, e continuava então descrevendo esse imaginario inferno, fazendo tremendas invocações. 

Eram as fogueiras enormes onde ardiam os corpos dos relapsos, ao passo que as almas ficavam pairando no negrume do antro soffrendo todas as dores, todos os martyrios, escorraçadas dos recantos onde era menor o soffrimento, amalgamadas as dos reis com as dos assassinos e com as dos ladrões, n'uma grande egualdade... 

-- Ah! real senhora, a egualdade que os malditos pedreiros livres, discipulos de Satanaz pedem agora em França obrigando um rei a abdicar da sua dignidade! E Luiz XVI paga os crimes dos antepassados na terra, pagal-os-ha tambem na outra vida, como vossa magestade! 

-- Podeis escolher entre o céu e o inferno... Tivesteis avôs piedosos como D. João V e esse reunia as culpas de vosso pae... 

-- Oh! Oh! Eu estou condemnada! Deus não perdôa! Deus não perdôa! exclamou a pobre soberana no auge do terror. 

-- E vós perdoasteis acaso aos Tavoras? gritou elle buscando rehabilitar os seus, querendo arrancar áquella mulher os ultimos farrapos do poder. 

-- Os Tavoras... Os Tavoras... murmurou ella como demente. 

-- Sim os Tavoras os innocentes suppliciados em Belem... 

A sua memoria foi maldita dos homens, maldita ella ainda está e vós nada fazeis para destruir esse erro... 

-- Os Marialvas... O intendente! 

-- Ah! E que vos dizem? perguntou José Maria de Mello cheio de colera. 

-- Que vou manchar a memoria de meu pae com essa rehabilitação... 

-- N'esse caso preferis condemnar a vossa e a sua alma aos tormentos das penas eternas? Preferis que o demonio se aposse dos espiritos no vosso reino como o está fazendo em França, que os pedreiros livres matem a religião e acabem dominando os reis ao verem que Deus os abandona?! 

-- Não... não... 

-- Ah! N'esse caso rehabilitae os Tavoras, chamae para junto de vós os jesuitas, restabelecei a Companhia e a vossa alma será salva... 

-- Os jesuitas?!... os jesuitas?! Oh! Mas Deus é testemunha que eu quero fazer tudo isso? 

-- E porque o não fazeis? 

-- Os meus ministros... 

-- Obedecer-vos-hão... 

-- Chamae-os... Chamae Martinho de Mello e Luiz Pinto Coutinho... 

-- Nunca! Não quero perder mais a vossa alma... Lembrae-vos da promessa! 

-- Ah! Mas logo... logo... Tudo vos farei... 

-- Quando? 

-- Quando poder communicar com alguem! Que saudade eu tenho de meu filho! 

-- Ah! Que vos perdeis! As affeições da terra nada são... É necessario esquecer a familia em face de Deus, sacrificar tudo ao seu divino esplendor... E o esplendor do christianismo está nos autos de fé, em que se queimam herejes para os purificar do pecado, e salvando-lhes as almas! 

-- Os autos de fé!... Oh! Que horror! Tenho medo! exclamou a pobre rainha como louca. 

E dos labios do jesuita sahiu uma gargalhada extranha ao ouvil-a falar d'aquelle modo. 

Encarou-a bem de frente e bradou: 

-- Ah! Que receiaes? Os autos de fé?... Mas elles nada são comparados com os tormentos enormes do inferno, com essas dores que vosso pae está soffrendo, a que vosso filho está sujeito! Oh! Vejo-os, meu Deus, eu vejo-os a ambos debatendo-se com as trevas, as almas presas das maiores torturas!... E é um rei... é um principe... Tambem elles vos supplicam que rehabiliteis a memoria dos Tavoras, que se reconstituia em Portugal a Companhia de Jesus com todos os seus antigos poderes! 

A chuva continuava a cahir com força sobre a residencia real, pesadamente as alabardas batiam no lagedo, começava a ouvir-se o ruido de passos pelos corredores, e a rainha atirando-se de joelhos aos pés do confessor, bradava; 

-- Perdão... Perdão para elles!... 

-- Perdão para os Tavoras, real senhora! exclamou o confessor com o seu tom vingativo. 

-- Oh! Tudo! Tudo! 

-- Ah! Concedeis-me então a rehabilitação dos Tavoras? interrogou elle no auge da alegria. 

-- Sim... sim... volveu medrosa a rainha. 

-- Concedeis que a sua fortuna passe aos seus parentes, levantando-lhe o sequestro do Estado? 

-- Sim... sim... tornou do mesmo modo. 

-- Será admittida de novo em Portugal a Companhia de Jesus, expulsa por esse maldito Pombal? 

-- Oh! Sim... Os bons padres! 

-- Dar-lhe-heis o direito dos autos de fé... O antigo poder sei-lhes-ha confiado?... 

-- Sim... sim... Mas deitae-me a vossa benção! 

N'um gesto breve tranquillisou a rainha, depois recuou e tomou um aspecto ameaçador ao ouvil-a bradar: 

-- Absolvei-me! Absolvei-me! Concedo tudo, meu padre! 

-- A absolvição?... Oh! primeiro os decretos! replicou elle vendendo aquelle dom de padre muito caro e com a desconfiança d'um habil. 

-- Logo? logo?... interrogou ainda a pobre rainha. 

-- Sim... Quando o conselho d'estado vos obedecer! 

-- Obedecerá... obedecerá!... bradou a rainha n'um grito intenso cahindo desamparada no sophá, e exclamando: 

-- Quero vêr meu filho! Meu filho! 

-- Vosso filho! Vou mandal-o chegar aqui se o ordenaes... Porém lembrae-vos tambem... 

-- Quero... quero... 

-- E perdereis toda a vossa penitencia... 

-- Ah! Não... não... 

-- Ficae tranquilla senhora! Poucas horas faltam para que possaes apparecer ante a corte! Impuz-vos essa penitencia de oito dias de reclusão, n'um jejum restricto... Tomastes o pão e a agua das santas, assim redimir-se-ha a vossa alma e as dos que vos são caros! 

Então a soberana, livida, cheia de febre, muito exaltada pela fraqueza e pelas palavras do ministro de Deus, mordeu raivosamente as mãos, exclamando: 

-- Tenho fome! Tenho fome! 

E aquella raiva era o começo da loucura que a devia impedir de reinar. 

O jesuita sorria, cruzava os braços ao vêl-a erguer-se transfigurada e dizia-lhe: 

-- Senhora... Paciencia ainda por umas horas! Eu vou mandar-vos servir o almoço! Logo estareis livre! 

Em voz baixa accrescentava: 

-- Careço da sua razão até á noute... Quem assignaria então os decretos? Ah! Carlota Joaquina? O principe? Mas seriam regentes e assim é mais seguro... 

A rainha, olhava-o, e bradava: 

-- Não... não... Quero estar em jejum... Não quero quebrar o juramento! Porque Deus castiga... Deus castiga! 

Cahia então de bruços em face do oratorio e ficava além n'uma grande exaltação repetindo mentalmente as suas orações que para ella appareciam um tanto confundidas no cerebro transtornado. 

O bispo ficou ainda a contemplal-a por momentos e de seguida, murmurou: 

-- Ah! É a prostração! O medico falava d'este estado! Depois muito lentamente passou para os seus quartos que ficavam um tanto desviados dos da rainha, embora communicassem com elle por portas interiores e esfregando as mãos jubilosamente, sentava-se na sua cadeira de espaldar alto e monologava: 

-- Ah! O combate das trevas é ainda o melhor... 

-- Principalmente quando se trata de inimigos poderosos! exclamou uma voz que fez estremecer o reverendo bispo. 

Ergueu-se d'um salto e correu para o fundo do aposento como transtornado, porém tranquillisava-se ao ver na sua frente um homem vestido de negro que se curvava até ao chão, murmurando: 

-- Ás ordens de vossa grandeza! 

-- Ah! Sois vós, mestre Bruno de Lacerda? exclamou elle com certo rancor mal disfarçado, dirigindo-se ao physico da rainha. 

-- Eu, grandeza, que como desde ha oito dias venho passar algumas horas n'este gabinete, fazendo acreditar á corte que trato de sua magestade... 

-- Mestre Bruno... D'esta vez careço de saber a verdade inteira. Que sorte aguarda a rainha? 

-- Dentro em um ou dois mezes o mais tardar estará totalmente louca! Pelo seu espirito fraco, pelos abalos soffridos, pela sua organisação nervosa, as tendencias manifestaram se, a religião desperta n'ella grandes dores, um abalo mais e a historia de Portugal terá pela primeira vez uma rainha louca! Ah! Contribui bem para isso, grandeza! 

-- Pagar-vos hei, mestre Bruno... A senhora princeza já cumpriu a sua promessa... 

-- Já, grandeza... 

-- Eu cumprirei a minha... Dar-vos-hei cem mil cruzados que vos devo e as commendas que vos prometti... 

-- Sim, grandeza... Mas ha já tresai nos que sois confessor da rainha e tinhas-me promettido que tudo me seria pago no dia da vossa nomeação... 

-- Hoje mesmo solicitarei da rainha o que vos devo! Sabeis que cousa alguma me recusa... Ah! É verdade, e o que se diz na côrte acerca da reclusão de sua magestade? 

-- Attribuem-na a devoção e á doença!

-- Esperastes que eu partisse para Lisboa? 

-- Logo no primeiro dia do encerramento de sua magestade! 

-- Bem... Pois, mestre Bruno, sabei que volto hoje á noute... 

-- Sim, grandeza! disse elle com um sorriso servil, accrescentando: 

-- E espero que na volta da vossa viagem não vos esquecereis do promettido! 

-- Descançae, mestre Bruno, que esta noute falarei á rainha, tratarei umas cousas com sua alteza e de seguida o mais tardar no proximo mez terei a recompensa de todos os vossos serviços... 

-- Obrigado a vossa grandeza! 

-- Agora ficae ahi o tempo que desejardes... Eu vou sahir para voltar logo... Annunciae a minha chegada... 

-- Sim, grandeza! 

O bispo embrulhou-se então n'uraa larga capa e disse ainda ao physico: 

-- Assim ninguem me accusará de ter sequestrado a rainha! 

-- Decerto! Oh! Como sois habil, meu senhor! tornou o outro lisongeando-o. 

O bispo sorriu, embuçou-se bem na capa e sahiu do aposento, murmurando: 

-- Oh! Vaes sendo exigente, Bruno de Lacerda... Mas, terás a paga... Terás a paga! 

Ia tão distrahido que não reparou n'um homunculo que se lhe mettia na frente no escuro corredor e que o ia fazendo cahir. 

Com a surpreza, José Maria de Mello entreabriu um pouco a capa e ouviu então a voz do bobo da rainha, exclamar: 

-- Bons dias, bispo do Algarve! Vieste cedo da tua viagem! P

erdia-se então no corredor rindo muito emquanto o bispo fusilava um olhar odiento. 

N'aquelle momento o physico assomava á entrada do aposento da rainha, muito cheio de curiosidade e via-a ainda na mesma posição. Então nos labios d'aquelle homem que servia os jesuitas houve um estremecimento, desenhou-se-lhe no rosto uma expressão quasi pesarosa ao ver a soberana, mas de repente recuperando a sua presença d'espirito exclamou: 

-- Ora... Que diabo! A realeza tambem tem as suas miserias! 

E foi sentar-se na cadeira do bispo tomando uma pitada da sua caixa de ouro. 







IV 





Transire bene faciendo 





O bispo do Algarve ao vêr partir o bobo, fizera o seu gesto d'ameaça e perdera-se tambem no corredor em direcção á sabida do palacio. 

Continuava a chover com força, uma neblina densa cahia sobre a villa e as sentinellas recolhiam-se nos portaes muito abrigadas do temporal. 

De quando em quando, ouvia-se um trovão que ribombava com furia e depois apenas o constante cahir d'agua alagando as estreitas viellas. 

José Maria de Mello, muito embrulhado na sua capa chegava á porta, olhava a rua e depois com certo receio detinha-se não se atrevendo a luctar com a tempestade. 

Porém ao cabo d'alguns momentos, fez um gesto resoluto e murmurou: 

-- É necessario... Nada de perder tudo por um receio futil... 

E d'uma passada larga transpoz o riacho que se formava junto á porta do palacio, exactamente na occasião em que ali passava uma liteira da qual se apeava lestamente um homem que ia esbarrando com sua grandeza. 

O bispo, pareceu reconhecel-o, porque aconchegou mais a capa e começou a andar rapidamente sob as bategas d'agua que jorravam impetuosas. 

O outro penetrava no corredor do palacio e exclamava como se estivesse deveras preoccupado: 

-- Quem será aquelle homem? 

-- É o bispo do Algarve! exclamou uma voz na sua frente ao mesmo tempo que um individuo vestido como um fidalgo mas que elle não conhecia, lhe fazia uma demorada venia. Nos olhos d'aquelle homem havia um clarão extranho ao fitar o outro, ao mesmo tempo que sorria com desdém ao ouvil-o dizer: 

-- O bispo do Algarve! Mas sua grandeza está em Lisboa! 

-- Ahi vos enganaes, sr. intendente da policia, os vossos agentes podem ter affirmado isso em milhares de relatorios para a intendencia, mas tambem vos garanto que José Maria de Mello desde ha oito dias está encerrado nos seus aposentos a impor penitencias e jejuns a sua magestade!

-- Que dizeis? Que dizeis?... bradou assombrado o intendente Manique, fixando o desconhecido como se o julgasse louco. 

-- Digo que v. ex.ª apenas tem olhos actualmente para ver os pedreiros livres! 

-- Senhor! bradou o terrivel magistrado admirado de haver alguem que lhe falasse assim. 

O seu interlocutor tinha o ar dum verdadeiro fidalgo; notava-se n'elle a maior distincção, nos dedos brilhavam-lhe anneis de preço e pela sua côr bronzeada dir-se-ia um d'esses governadores do Brazil que tinham vindo ao reino depois da revolta do Tiradentes. 

-- Sim, sr. intendente, tornou o outro d'um modo extranho, como se zombasse d'elle. V. ex.ª esqueceu que os peiores inimigos do throno e de sua magestade... 

-- São esses herejes que tem ideias francezas! exclamou o intendente no auge da colera, accrescentando: 

-- Os malditos maçons, filhos de Satanaz que têm livros escriptos pelos miseraveis da Assembléa Nacional, esses que obrigam o rei christianissimo a fazer juramentos attentatorios á sua dignidade... 

-- Por isso V. ex.ª vae perseguindo os suppostos pedreiros livres e aprehendendo na Alfandega todos os livros francezes... Vae mandando prender Jacome Ratton... 

-- Basta-lhe o nome!... E não só esse, mas todos os que me cahirem sob a mão! 

O interlocutor esboçou um sorriso sardonico, tomou-lhe a passagem no corredor e bradou: 

-- E esquece então os jesuitas? 

-- Eu? 

-- Sim... 

O intendente como movido por um poder occulto ia falando com o desconhecido e dizendo: 

-- Mas pelo contrario vigio-os! 

-- E não os conhece? 

-- Todos... todos... 

-- Deixa no emtanto o peior de todos fechado nos aposentos da rainha... Deixa esse que fez assassinar o principe D. José e o arcebispo de Thessalonica, levar a cabo a mais infame das obras, apossar-se do espirito de sua magestade, acabar por se tornar o verdadeiro rei, para estabelecer então o Santo Officio e talvez os autos de fé! 

-- Que está dizendo? 

-- A verdade! Sei tudo! Conheço o que se passa na côrte e muito do que se dá nas reuniões secretas dos jesuitas! Não é d'hoje é desde os tempos em que elles se reuniam no convento de Mafra! 

-- No convento? Oh! Mas quem é o senhor que sabe d'essa particularidade! 

-- Quem sou? Ah! Sr. intendente então não me conhece tambem? 

-- Eu? Mas nunca o vil disse elle cheio d'assombro. 

-- Porém eu já tive a honra de falar com v. ex.ª.

-- O senhor? perguntou elle admirado lançando lhe um olhar inquisitorial. 

-- Eu sim... 

-- Mas quando? Quando? 

-- Na noute em que foi encarregado de lêr a carta de Luiz XVI aos soberanos! 

-- Mas tambem sabe isso? 

-- Sei... 

-- Mas não me recordo! N'essa noute... 

-- Passou junto a mim no Rocio á porta do Nicola... 

-- O que? Foi então o senhor que exclamou... 

-- Bon soir, monsieur! accrescentou o outro d'um modo impertinente, concluindo: 

-- E obriguei assim v. ex.ª a dar uma busca ao café em procura do jacobino que falira a negregada lingua franceza! 

-- E era o senhor? 

-- Sim, era eu que além no doce convívio do poeta Manuel Maria e de Nicolau Tolentino... 

-- Dois hereges? 

-- Dois vates... Dois cultores das musas, sr. intendente! 

-- Que hão-de ainda entrar no Santo Officio para aprenderem a respeitar a religião e a porem de parte as idéas francezas! Sempre são homens lidos no Rousseau... 

-- Mas que não usam fitas da liberdade... <marca num="*" pag=656>



<nota num="*" pag=656> Eram umas fitas que os da policia tinham como signaes de jacobino. </nota>



Pina Manique deu um pulo para traz, agarrou a luneta que trazia suspensa d'um cordão e assestando-a ao interlocutor n'um ar pombalino, bradou: 

-- Sabe que se está compromettendo gravemente? 

-- Eu? 

-- Sim, o senhor a quem não conheço, mas... 

-- A quem julga um pedreiro livre não é assim? interrogou o outro a chasquear. 

-- Se o julgasse tel-o-ia feito prender... 

-- Aqui? 

-- Sim, aqui mesmo... 

-- Por Deus que vos seria difficil! Não sabeis então que n'um corredor escuro um intendente da policia tem apenas como poder a sua espada de cavalleiro? interrogou o desconhecido com a altivez d'um principe. 

-- E atrever-vos-heis a resistir ás minhas ordens? 

-- Decerto! volveu elle fleugmaticamente. 

O intendente louco de colera em frente do homem que se atrevia a dirigir-se-lhe d'aquelle modo, exclamou: 

-- Sem duvida sois um poderoso fidalgo vindo do Brazil ou da India, e que aproveitaes a quadra do entrudo para vos divertirdes, d'outro modo saberieis decerto que os meus agentes são capazes de descobrir ainda os mais perigosos conspiradores, os mais encarniçados sectarios das idéas francezas e que não lhes seria difficil lançar-vos mão... 

-- A mim?... E o fidalgo soltou uma risada que irritou profundamente sua excellencia. 

-- Sim a vós! bradou elle no auge da colera. 

-- Oh! Senhor, conheço os vossos mouchards...

-- Oh! Sois um atheu, empregues palavras francezas, exclamou Pina Manique, aquelle homem de valor e que á força d'odiar os francezes se tornava ridiculo. 

-- Mas vós mesmo adoptaes a traducção d'esta palavra nos vossos officios para a Real Meza Censoria creada para o exame dos livros mais inoffensivos! 

-- Oh! Mas quem é o senhor que lê os meus officios? gritou Pina Manique deveras intrigado e encarando o outro surprehendido como se estivesse vendo na sua frente o proprio Satanaz. 

Elle não se dignou responder abertamente; voltou-se para Pina Manique e disse-lhe: 

-- Sou um homem que lhe vae fazer uma prophecia... 

-- Sois então um advinho? chasqueou por seu turno o intendente baseando saber o verdadeiro estado d'aquelle homem. 

Nos bellos olhos negros do desconhecido passou uma scentelha e em voz pausada, respondeu: 

-- Não é preciso ser advinho nem feiticeiro para saber o futuro de Portugal e o vosso, meu caro intendente... 

-- E então que julgaes? interrogou elle um pouco admirado do tom grave que o individuo tomara. 

-- Julgo que dos Pyrineus sopra mau vento... 

-- O quê? 

-- Julgo que o sopro que derrubou a Bastilha será o mesmo que impellirá para aqui essas ideias que vossa exceliencia receia. 

-- Oh! Oh! Mas... titubeou Pina Manique. 

-- Sim senhor, intendente, se não fôr pela vontade do povo ou dos fidalgos, será pela força! 

-- Como? 

-- Sim pela força... Luiz XVI acaba de se dirigir aos soberanos expondo-lhe a sua situação, dizendo-lhes que o seu povo o obriga a jurar uma constituição... 

Ámanhã os exercitos dos reis irão auxiliar aquelle soberano! Será uma cruzada contra o povo, contra a republica que está imminente! 

-- A republica! A republica! Oh! Mas o senhor é um dos que a ama!... 

-- Não... Eu não sou cousa alguma n'esse caso... Tenho uma divisa á qual tudo sacrifico e é por ella que vos digo ter Luiz XVI, com a penna com que assignou essas cartas para os soberanos, lavrado ao mesmo tempo a sua sentença de morte! 

-- Hereje! Hereje! Pedreiro livre! Oh! Vou prender-vos eu proprio! exclamou deveras excitado Pina Manique ao ouvir semelhantes palavras. 

-- Estou ás suas ordens porque todos n'este palacio lhe dirão quaes as minhas ideias, mas antes d'isso permitta que lhe dê um conselho, o mesmo que dei ao senhor de Sartines... 

-- Sartines? Sartines? Quem é... 

-- Era o intendente da policia em França... 

-- Ah! E o senhor vem de França? bradou o outro aterrado, interrogando: 

-- Mas como penetrou no paiz sem papeis? Sem que a minha policia... 

Mas de repente soltou uma risada, bateu na testa e exclamou: 

-- Ah! Comprehendo! 

-- O que? perguntou o outro d'esta vez muito admirado.

-- Sois o embaixador portuguez em Paris... 

Não lhe respondeu, sorriu, apertou a mão que Manique lhe estendia, exclamando ainda a rir: 

-- Ora... ora... E eu a julgar- vos um pedreiro livre... 

E depois sério de repente, murmurou: 

-- É verdade que o ar de Paris contamina... 

-- Escutae o meu conselho, o mesmo que dei a Sartines dias antes da tomada da Bastilha! 

-- Ah! Assististes a esse sacrilegio?! exclamou aterrado. 

-- Sim, e dissera dias antes aos homens da policia o seguinte: 

-- Cautella com as perseguições! Sobretudo acautellae-vos n'este momento em que não ha pão! Não me quizeram ouvir a minha voz... Launay o governador da fortaleza apontou-me o faubourg Santo Antonio que a Bastilha dominava e exclamou: 

-- D'aqui reinamos sobre Paris. Sartines, apontou-me o livro negro da intendencia e exclamou a rir: 

-- Com este livro reinamos sobre a França... 

E dentro em dois dias um e outro tinham sido sacrificados á ira do povo, a Bastilha ao cahir abalara o throno, nos alicerces ficava agora bem patente a miseria, a oppressão, a furia louca de alguns seculos de monarchia... Eram os ossos dos martyres ao sol em plena rua, eram as correntes onde estavam ainda amarrados cadaveres de mulheres e de homens... Era um longo estendal d'infamias, até então secretas, espalhadas no faubowg, collocadas á vista da multidão que derrubara o collosso de granito e ha-de derrubar outro gigante mais forte do que esse, mas que é um irmão gemeo e que se chama: a tradição!

O intendente tornou-se livido ao ouvir pronunciar aquellas ultimas palavras e encarou o desconhecido que parecia crescer á sua vista, continuando: 

-- Cautella pois, senhor intendente! Não é em Portugal ou pelo menos não é dos portuguezes no anno de graça de 1792 que tendes a temer as represalias, não é dos livros que aprehendeis que sahirá a revolta... Ella seria onduzida pelos soldados francezes no dia em que quizerem formar a republica universal! 

Pina Manique encostou-se á parede para não cahir banhado em suores frios ante o tom prophetico em que aquelle homem falava. 

-- Mas quem é o senhor? Quem é o senhor? bradou elle atemorisado. 

-- Sou aquelle que vos indica o caminho do futuro! Se quereis ser grande combatei agora os jesuitas! Salvae a rainha! Salvae a rainha das mãos do homem que sahiu d'aqui!... 

-- Mas quem sois? Quem sois? perguntou de novo muito aterrado. 

-- Salvae a rainha! Salvae a rainha! gritou elle embuçando-se na capa e deixando cahir propositadamente um papel, desappareceu n'uma cadeirinha que o aguardava a distancia. 

O abbade Correia da Serra, estava sentado nas almofadas do vehiculo e ao vêr entrar o desconhecido interrogou: 

-- Então, senhor conde de Stephens, meu grão-mestre! 

E José Balsamo, porque fora elle o interlocutor do intendente, volveu: 

-- Disse-m'o o bobo da rainha, o jesuita passara os ditos dias nos aposentos de sua magesiade e eu mesmo o vi... Não quero salvar D. Maria I mas tambem para que a sacrificar?... No emtanto indigitei o bispo ao intendente da policia, ao mesmo tempo que incitei a perseguir a Companhia de Jesus... Assim ficariamos nós em paz... 

-- Mas falasteis ao intendente? perguntou assombrado, o abbade. 

-- Sim... E elle julgou-me o embaixador da côrte em Paris! 

-- Tem graça... 

-- Mas desfiz-lhe o erro com um pequeno bilhete que costumo usar! 

Era esse bilhete que o intendente ainda não vira, esmagado como estava por tudo que acabava de succeder. 

Mas n'este momento a seu lado ouviu-se um ruido de passos e o marido de D. Antonia de Mello, o desembargador que vinha entrando agarrava o cartão e apresentava-o ao Pina Manique dizendo: 

-- Pertence a sua excellencia? 

E elle com os olhos dilatados pegou no bilhete e deixando escapar um grito, bradou: 

-- Oh! Era um pedreiro livre! Era um pedreiro livre! 

Olhava sempre o papel onde se via o emblema maçonico, o compasso e o esquadro entre os quaes o olho de vigilancia se mostrava e em baixo como divisa esta phrase latina: 

Transire bene faciendo! 

O desembargador ao ouvir falar em maçons, persignava-se devotamente olhando o intendente cada vez mais perturbado por que lhe succedia e murmurando ainda: 

-- Um pedreiro livre? Ah! E eu... eu que o deixei escapar! 

E não despegava os olhos da divisa, repetindo: 

<estrang lingua=italiano> 
-- Transire bene faciendo! <marca num="*" pag=660> 
</estrang> 



<nota num="*" pag=660> Fazer bem até morrer </nota>







V



O estafeta 





D. Maria Benedicta tamborilava com os dedos nas vidraças das janellas dos seus quartos, olhando a chuva que cahia em fortes bategas. Na sua rectaguarda, D. Maria da Penha com um ar melancholico, n'uma extranha abstração, seguia o olhar da princeza real a de quando em quando abafava um suspiro. 

A viuva do principe D. José, voltou-se de repente e exclamou: 

-- Ah! Estavas ahi, Maria da Penha. 

-- Sim, real senhora... volveu a dama que dava sempre á princeza aquelle tratamento. 

-- Pensavas sem duvida em teu esposo... 

-- Sim... Em Vasco... murmurou ella. Já ha muito que não tenho noticias, interrogo-me constantemente desejosa de saber o que se passa, porém tenho de soffrer resignadamente o meu martyrio... Nem uma carta, nem uma simples palavra! 

-- E a pobre senhora enxugava as lagrimas que lhe cahiam lentamente pelo rosto. 

-- Mas como querias noticias? Não sabes que elle anda na guerra com os turcos, e que da corte de Catharina II a Portugal é muito longe... 

-- No emtanto esse estafeta que chegou para sua magestade deve saber alguma cousa. 

-- O quê? Um estafeta de Catharina II. 

-- Sim, real senhora... 

-- Mas onde se encontra elle? 

-- No palacio, desde ante-hontem... 

-- Sem falar a pessoa alguma? 

-- Decerto, pois que o não entendem e sua magestade não recebe ninguem ha oito dias... Deve trazer credenciaes em francez, talvez que me pudesse dizer alguma cousa de Vasco... Oh! E o pobre filhinho ficará sem pae... 

D. Maria da Penha, recordou-se então muito d'essa creança que os seus affazeres junto á princeza não lhe permittiam ter a seu lado e chorou com grande desespero commovendo muito a viuva de D. José, que murmurou: 

-- Oh! A vida é o peior dos castigos! Mas Maria porque não trazes teu filho para o paço?!... Que edade tem o pequenino Vasco... 

-- Quatro annos, senhora... O pae não o conhece... 

-- Descança.. Farei com que esse estafeta fale. 

-- Vossa alteza? 

-- Sim... 

-- Porém, como? 

-- Vaes ver... 

E D. Maria Benedicta entrando no aposento contiguo dirigiu-se a uma dama que além se encontrava conversando com um fidalgo, e que ao verem a princeza se ergueram respeitosamente. 

-- Ah! Esperava encontral-o, senhor marquez d'Alorna... 

- Em que vos posso ser util, senhora... 

-- Sabia que estavas em Salvaterra e que não deixareis de visitar vossa irmã... e ella apontava a dama, uma mulher alta de perfil realengo, muito magestosa e que as chronicas da epocha tratavam como uma grande poetisa. 

-- E como está a marqueza, vossa esposa? interrogou a princeza. 

-- Henriqueta?! Oh! O melhor possivel, alteza... E agradeço-vos o interesse... 

-- Interesso-me por todos aquelles a quem os meus amigos amam! Eu isolada no meio da minha familia, tenho que procurar as affeições entre os extranhos... A rainha fecha-se nos seus aposentos, meu cunhado cada vez mais taciturno mal me fala e emquanto a essa Carlota Joaquina... 

-- Conspira! exclamou seccamente a senhora de Alorna. 

-- Oh! Não o digaes em voz alta, minha boa Leonor d' Almeida supplicou a princeza. 

-- E porquê, alteza? 

-- Porque os espiões... 

-- Irão dizer a Carlota Joaquina que eu a accuso, não é assim? Mas que tem isso? Serei capaz de o escrever! E no dia em que não quizerem rcceber-me na côrte saberei o caminho da patria de meu marido... 

-- Vosso esposo! Ah! É um extrangeiro, não é verdade? 

-- Sim, alteza!

-- De que nação? 

-- Prussiano. 

-- Ah! Do paiz alliado com Catharina da Russia? 

-- Decerto... 

-- Oh! Minha boa Leonor é que acaba de chegar um estafeta russo... 

-- A quem vossa alteza queria interrogar... 

-- Não por mim, mas por essa pobre D. Maria da Penha e Miranda... 

-- A esposa do amigo de Gomes Freire?! perguntou a senhora d'Alorna. 

-- Sim, a esposa de Vasco! Mas que lhe succede, alteza? perguntou por seu turno o marquez um pouco assustado. 

-- Succede que não tem noticias do esposo... 

-- Ah! Do meu pobre Vasco... Mas não dizeis que está ahi um estafeta? 

-- Aguardando que a rainha lhe fale... 

-- Interrogal-o-hemos! bradou apressadamente o marquez. 

-- Para isso contava com o esposo de vossa irmã... 

-- Oh! Mas senhora... O conde não conhece a lingua russa! 

-- N'esse caso nada pudemos fazer! Oh! E essa pobre senhora que tanto soffre... Por ella e pelo filhinho... 

-- Um filho! volveu D. Leonor. Oh! Eu tambem sou mãe e comprehendo essas dores... A minha pequenina Juliana conta apenas cinco annos, mas cinco annos para mim todos de inquietações e cuidados... Tenho medo d'aquella creança... 

-- Calcule pois o que será a dôr de Maria de Penha. .. 

-- Mas ha um meio! bradou de repente o marquez d'Alorna. 

-- Para quê? 

-- Para falar a esse estafeta e saber noticias de Gomes Freire e de Vasco de Miranda... 

-- Que meio... 

-- Por intermedio d'alguem que eu conheço e que está em Lisboa... 

-- Quem é?... 

-- O conde de Romazoff... O ministro russo... 

-- Oh! Tenho-o interrogado mil vezes acerca d'esses dois portuguezes que servem no exercito da sua soberana e até hoje nem a minima noticia... Não se communica assim com um campo de batalha! 

-- Mas n'esse caso... 

-- Que fazer? 

-- Conduzirem-me á presença d'esse correio! exclamou n'este momento uma voz, ao mesmo tempo que apparecia um homem de grande distincção curvando-se ante a princeza. 

-- Mas quem sois vós? interrogaram as duas damas emquanto Alorna estremecia ao ouvir aquella voz. 

-- Um simples fidalgo, senhoras! 

-- E conheceis o idioma russo? 

-- Falo todos os idiomas... 

E elle collocava a mão no peito n'um signal que fez estremecer o marquez ao ouvir o desconhecido dizer: 

-- E o senhor d'Alorna o pode affirmar... Elle vos pode dizer se fala ou não verdade o conde de Stephens! 

Só então o marquez reconheceu José Balsamo, olhou bem de frente e exclamou: 

-- Na realidade assim é, senhora... 

-- Mas como conduzir aqui esse correio? 

-- D'uma forma bem simples... 

-- Como... 

-- Basta apenas mandal-o chamar da parte de sua alteza! 

D. Maria Benedicta, então voltando-se para o marquez, pediu: 

-- Quereis fazer-me esse obsequio, meu caro d'Alorna? 

-- Mas estou ao dispor de vossa alteza, replicou elle sahindo do aposento, emquanto a princeza dizia para o grão-mestre da maçonaria: 

-- Sentae vos senhor... 

Elle tomou logar n'uma poltrona com toda a galhardia d'um individuo habituado á côrte de Versailles e tomando uma pitada d'uma caixa d'ouro cravejada de brilhantes, murmurou algumas palavras de cumprimento á princeza. 

A sr.ª de Alorna olhava a caixa que José Balsamo segurava ainda entre os dedos e exclamava: 

-- Oh! É uma maravilha pois a vossa caixa, senhor conde! 

E com effeito ficava arrebatada ante o intenso fulgor das pedrarias habilmente dispostas, ante os lavrados da formosa obra. 

-- Ah! Tem graça... . Esta caixa foi um presente de Poniatowski. 

-- Quem é? 

-- O rei da Polonia! 

Ellas soltaram ambas um grito ante o nome d'esse rei que lhes recordava uma horrivel historia, e interrogaram: 

-- Mas conheceis o rei da Polonia, sr. conde? 

-- No tempo de Pedro III, o czar fallecido... O marido de Catharina II de quem elle era o favorito. A czarina assassinou o esposo para dar um throno ao amante! Eu vi essa pobre Polonia esmagada pelas hostes russas de Moscow e da Petersburgo... Assisti á dieta de Varsóvia... Era amigo do favorito da imperatriz, e mais tarde obstei a que morressem vinte polacos da maior nobreza accusados de conspiradores! 

As damas olhavam admiradas aquelle homem singular que assim falava de todas aquellas cousas no tom mais natural do mundo, como se tratasse de qualquer facto banal occorrido n'um salão. 

Iam interrogal-o curiosamente, queriam saber pormenores mas n'este momento a porta abria se e um homem envolto n'um casaco forrado de pelles, a cabeça rapada a dar-lhe um tom extranho, calçando botas de montar e revolvendo na mão um gorro de lontra, apparcceu muito hirto no limiar, seguido pelo marquez de Alorna. 

-- O estafeta russo! exclamou o marquez. 

José Balsamo ergueu-se, estendeu lhe a mão e bradou em russo: 

-- Vem de Moscow? 

-- Sim da côrte da minha soberana, replicou elle olhando o interlocutor que se exprimia admiravelmente 

-- Traz cartas para sua magestade! 

-- Sim para a vossa rainha que não me recebeu! 

-- Dizei-me: está muito accesa a guerra com a Turquia. 

-- Temos vencido sempre... A imperatriz quer o protectorado da Moedo-Valachia. 

-- E espera desmembrar definitivamente a Polonia? 

-- Sim! bradou elle admirado. 

-- E Poniatowski! 

-- Um infame! retorquiu abertamente o estafeta. 

-- Porque o chamaes assim? 

-- Eu sou polaco, senhor... 

-- Vós polaco? E servis a Russia... 

-- Combato os turcos! Sou official dos regimentos da Polonia. Agora Catharina II enviou-me a correr a Europa a obedeci porque prefiro isso a assistir ao desmembramento do meu paiz... Querem-no partilhar com a Prussia... Frederico II de ha muito que o deseja! E nós não podemos por agora revoltar-nos! Somos fracos, mas o céu nos dará força... Porém que desejaes de mim? perguntou elle muito admirado. 

-- Conheceis na Russia algum portuguez! 

-- Um official! Oh! Um heroe! bradou elle no auge do arrebatamento. 

-- Quem é? 

-- Gomes Freire de Andrade! Este nome atravessa hoje as fileiras russas como o d'um heroe sublime e grandioso... Combate com o denodo d'um leão, lembra um guerreiro d'outras eras e no exercito é querido por todos... 

Vi esse homem no dia de sua maior alegria... A Czarina collocava-lhe ao pescoço o habito de S. Jorge e dava-lhe o commando da sua guarda apesar de elle ser um estrangeiro! De todos os que combatem nas fileiras russas é o unico que ama a minha Polonia, Um dia dizia-o no acampamento...

-- Elle?! 

-- Sim... Que fôra á Rússia para combater turcos mas que a sua espada jamais serviria para retalhar a infeliz Polonia! É um grande militar o coronel Gomes Freire! Agora marcham para desalojar os infieis e espero que elle se cubra n'essa acção da mais legitima gloria! 

José Balsamo ia traduzindo as palavras do estafeta e nos olhos do marquez d'Alorna passavam successivos clarões de jubilo ao ouvir a apologia do seu amigo feita por aquelle estrangeiro. 

Era o nome portuguez soando aos ouvidos dos extranhos, engalanado e ennobrecido pelo valente official a quem uma imperatriz offerecia postos e condecorava, proclamando-o um dos primeiros militares da sua epocha e dando-lhe o commando das guardas imperiaes. 

Nos olhos de todos os presentes brilhavam lagrimas, quereriam que a nação inteira pudesse ouvir as palavras traduzidas por José Balsamo afim de glorificarem o heroe. 

Ao cabo de alguns momentos, a princeza, como se lembrasse a subitas do verdadeiro motivo porque tinham chamado o estafeta aquella sala, disse: 

-- Senhor de Stephens, interrogae-o acerca de Vasco de Miranda. 

Feita a pergunta, o polaco pareceu invocar as suas recordações e de seguida volveu: 

-- Portuguez também? 

-- Sim... Um companheiro de Gomes Freire! 

-- Não... não me recordo! volveu elle. 

E ao ser traduzida aquella resposta, ficaram todos como paralysados, ouvindo ainda José Balsamo repetir as palavras que o enviado ia pronunciando: 

-- Não conheço na Russia nem no exercito senão um portuguez. É Gomes Freire! Com elle não anda nenhum compatriota! Talvez que nos anteriores combates tivesse perecido... Tem ficado muitos mortos nos campos... 

A princeza soltou um grito ao ouvir o conde pronunciar aquellas palavras e ao ver á porta D. Maria da Penha que bradava: 

-- Oh! Sim... Morto! Morto! O meu Vasco... o meu querido Vasco! 

E cahia desamparada nos braços de D. Maria Benedicta como se na realidade tivesse a certeza d'aquella morte que o outro não annunciava cathegoricamente. 

O estafeta olhou-a com grande pena e ante as explicações que José Balsamo lhe dirigia exclamou: 

-- Oh! Mas não sei cousa alguma de positivo acerca d'esse senhor... 

No seu rosto firme de soldado desenhou-se um grave desespero e ia preferindo palavras de conforto no idioma polaco, sentindo muito aquella dôr da joven. 

Mas n'este momento a porta abria-se e um creado dizia: 

-- Encontra-se n'esta sala o estafeta de Sua Magestade Catharinha II? 

-- Sim, é este senhor... volveu o marquez d'Alorna apontando o polaco que continuava a murmurar as suas palavras de conforto. 

-- É que sua excellencia, o senhor sub-secretario d'estado Luiz Pinto de Sousa Coutinho quer recebel o... 

Transmittidas estas palavras pelo grão-mestre ao enviado, elle, fez uma venia respeitosa, dirigiu-se para a porta depois de ter apertado a mão ao conde de Stephens, exclamando ainda: 

-- É um heroe o vosso Gomes Freire! 

-- Alorna trocou algumas palavras com o conde e de seguida disse lhe em voz alta: 

-- Esse fidalgo não se poderia encarregar d'uma comunicação para o meu amigo. 

-- Que desejaes marquez... Eu mesmo me encarregarei d'ella! 

-- Vós? 

-- Sim... 

-- Mas... Partis? 

-- Dentro em oito dias saio para a Russia onde me encontrarei com o nosso heroe! Agradeço-vos até se quizerdes pôr em relação com elle! 

Sahiram então ao lado um do outro emquanto o estafeta seguia o creado e foi então que José Balsamo ao despedir-se do marquez, na volta d'um corredor encontrou o bobo da rainha que bradava ainda um cumprimento sarcastico ao bispo do Algarve.

Inteirava-se do succedido, e travava de seguida a sua conversação com o intendente. 

Na sala as duas senhoras animavam D. Maria da Penha que recuperava os sentidos, e que ainda muito pallida, deveras agitada, dizia: 

-- Vasco... Vasco... Oh! Eu advinhara-o ... Eu advinhara-o... 

-- Mas D. Maria da Penha... minha amiga... dizia-lhe a princeza n'um tom carinhoso. 

E ella erguendo-sc n'uma crise nervosa, exclamava: 

-- Sou agora só para educar meu filho! Sou agora a mãe que tem deveres muito sagrados... Quero sahir do paço para ir educar, para ir velar pelo meu pequenino Vasco... 

Acariciavam-na, buscavam acalmal-a mas a dama proferia sempre as mesmas palavras vertendo copiosas lagrimas. 

A princeza e a marqueza d'Alorna choravam também. 

E de fóra vinha o ruido de chuva batendo nas vidraças e ouvia-se a voz d'um pregoeiro exclamar por entre rufos de tambores: 

-- É convidada a côrte por ordem de sua magestade, a assistir hoje ao espectaculo no real theatro de Salvaterra! 

-- Ah! O espectaculo! O espectaculo! murmuraram as duas senhoras muito nervosas ao ouvirem aquelle convite para uma festa no meio de tamanha dôr. 

E nem sequer imaginavam que essa rainha a qual no dizer do pregoeiro do paço convidava a sua côrte, aquella mesma chorava também convulsivamente, murmurando como louca: 

-- O inferno! Os Tavoras ... Oh! O inferno!... 

E o bispo do Algarve ia preparando o espectaculo no palco como o preparara na côrte. 







VI 



O theatro da vida 



Chegara finalmente a noute. 

José Maria de Melio apeara-se d'uma liteira á porta do paço real de Salvaterra e passara por entre os cortezãos que lhe beijavam o annel, pedindo lhe ao mesmo tempo noticias da sua viagem. 

E elle affectando grandes canceiras, quando não passara da villa, dizia ao marquez de Marialva: 

-- D. Diogo, meu muito querido amigo, como está sua magestade? 

Perguntou aquillo num tom tão sinceramente natural, que o intendente da policia que se acercava hesitou em acreditar na revelação que lhe fizera ha pouco o pedreiro livre, e murmurou: 

-- Oh! Comprehendo, queriam desviar as minhas attençÕes dos infames maçons para as intrigas suppostas do bispo... 

Marialva, n'um ar contristado, dizia: 

-- Ah! Senhor bispo, amda bem que chegaste... 

-- Mas o que se passa? interrogou elle n'um tom de grande anciedade que ainda mais dispoz Pina Manique em seu favor. 

-- Sua magestade ha oito dias que está encerrada nos seus aposentos sem mesmo querer receber os seus ministros... 

-- Nem mesmo deu audiencia ao estafeta russo! Tive de o receber eu proprio! exclamou Luiz Pinto, o encarregado dos negocios estrangeiros beijando o annel de sua grandeza. 

-- Por Deus! Sua magestade entrega-se demasiadamente ás suas praticas devotas, volveu o bispo do Algarve n'um ar penalisado, in- 

terrogando de seguida: 

-- E que diz o phisico da real camara... 

-- Digo, grandeza, que sua magestade padece d'uma grave doença nervosa... exclamou Bruno de Lacerda apresentando-se em frente do bispo. 

-- Oh! Mas é necessario impedir os progressos d'essa doença... volveu o Jesuita trocando um olhar com o cumplice. 

-- Aconselhei-lhe distrações... disse o physico. E hoje mesmo sua magestade assistirá á recita no real theatro de Salvaterra! 

-- N'esse caso preciso ver sua magestade! disse o bispo, accrescentando: 

-- Se o senhor physico não encontra n'isso inconveniente... 

-- Algum, grandeza... O ponto está em que sua magestade vos receba... disse elle com o mesmo olhar d'entilligencia. 

José Maria de Mello, não respondeu... Fez uma venia aos fidalgos e dirigiu-se rapidamente para os aposentos. 

D. Maria I, estava sentada no sophá n'uma attitude scismadora, a fronte baixa, nos olhos uma intensa melancholia, n'uns ares de lypemaniaca, sem pronunciar palavra e parecendo nem ter dado pela entrada do seu confessor. 

Este dardejou sobre a soberana um olhar magnetico e exclamou: 

-- Boa noute, real senhora! 

Olhou-o com a mesma placidez, como se não o reconhecesse affirmou mais a vista e murmurou: 

-- Oh! Aquelle reinado! O meu filho... Está no ceu! 

O bispo não escutou estas palavras, avançou para ella e em tom authoritario exclamou: 

-- É necessario que assistaes ao espectaculo... 

-- Ah! Ao theatro... Não... não quero! bradou como horrorisada. 

-- É preciso obedecer, pela salvação da vossa alma... 

-- Não quero... não quero... 

-- E que espereis então na vida futura desde que recusaes obedecer ao vosso confessor? Já vos esquecesteis de receber os vossos ministros? 

-- Não... não... não quero! replicou ella. 

-- Senhora! É necessario rehabilitar os Tavoras! bradou elle com furia. 

-- Ah! Os Tavoras! os Tavoras! gritou ella espavorida fugindo para o fundo do aposento.

E o bispo do Algarve aquelle homem ambicioso que tinha um fim desde ha muitos annos, que se impuzera pela cabala e pela intriga, avançou de novo para a rainha e em voz terrivel e abafada, sibillando extranhamente as palavras, começou: 

-- Sim... Os Tavoras! E preciso, quero eu que lhes faças justiça! Teu pae assassinou-os pelo braço do seu carrasco! O patibulo de Belem escutou os gemidos das victimas immoladas á vingança fera d'um atheu, do peor dos impios... Nas minhas veias corre o mesmo sangue que teu pae derramou com a sua chancella real, mais homicida que o cutello e que o garrote! Ouve Maria I... Ou rehabilitas a memoria dos meus parentes, ou me restitues os bens que os Braganças incorporaram nos beneficios da sua casa real ou então eu proprio, rainha sem vontade e sem força, te agarrarei no braço para que assignes esses decretos! 

Era terrivel ao falar assim ao dirigir-se á soberana que o escutava cheia de terror, sacudida de estremecimentos com olhares de louca. 

Elle continuava: 

-- Logo, pela noute velha, á sahida d'csse theatro onde irás, porque é preciso que fales aos teus ministros, aqui n'este mesmo logar, eu o inquisidor de Portugal, saberei cumprir a minha promessa se te esqueceres da tua! 

Então em passo firme, de cabeça erguida, dirigiu-se aos seus aposentos, dizendo de passagem á dama de serviço: 

-- Ide vestir sua magestade para o espectaculo. 

Depois José Maria de Mello, com um sorriso rancoroso sahiu de novo e entrou nos aposentos de Carlota Joaquina. 

A princeza ao vel-o, ergueu-se do sophá onde estava estendida junto de D. Antonia de Mello, a favorita, e correndo para elle exclamou: 

-- Já voltaste? Oh! E eu que tenho tanto para vos dizer... 

Tomou o seu ar frio de homem habituado ás luctas, e volveu: 

-- Voltei? Oh! Alteza eu nunca parti ... 

-- O que? interrogou ella cheia d'assombro. 

-- Sim... Para a côrte estive no convento das Necessidades cumprindo uma promessa, mas para vós... 

-- Onde ficasteis? 

-- Nos aposentos da rainha! 

-- Durante oito dias? 

-- Sim, durante o tempo necessario para enfraquecer aquelle corpo com jejuns... 

-- Ah! bradou aterrada, D. Antonia de Mello. 

Carlota Joaquina apenas volveu um olhar interrogativo para o prelado, dizendo: 

-- Se isso vos foi util... 

-- Util? Mas era necessario, replicou elle, accrescentando: 

-- Vós, alteza, pouco a pouco com o meu auxilio e com o da Companhia, conseguisteis passar de simples princeza a futura rainha... Para isto temos duas mortes na consciencia... Esmagasteis uma rival que vos insultara... Pela morte de D. José, foi vosso esposo, o herdeiro do throno passasteis assim sobre D. Maria Benedicta, calcastei-lhe o orgulho... Porém com a vossa nova posição de futura rainha nada lucrou por emquanto a Companhia... 

-- Era disso que vos queria falar... 

-- O quê? Da Companhia? bradou elle, dizendo de seguida: 

-- Já me communicais os vossos planos... Por agora ouvi: 

-- Perseguimos muita gente, fizemos intrigas, geramos cumplices, temos uma tremenda vingança a exercer nos nossos inimigos... Em Gomes Freire, em Vasco de Miranda, em Alorna, em todos elles! Mas perdiamo-nos no labyrintho intricado creado por nós próprios... O golpe de mestre... O meu verdadeiro fim ainda não está conseguido... A Companhia não voltou, ainda não queimamos

hereges nos autos de fé, e o Tavoras não foram rehabilitados! 

-- Mas onde quereis chegar? 

-- Ao meu encerramento com a rainha... Ao jejum que lhe impuz, ás palavras que lhe disse, ao acto de força que estou decidido a praticar, se ella ainda assim recusar satisfazer os nossos ou antes os meus desejos! 

-- Um acto de força? 

-- Sim... Eu proprio obrigal-a-hei a traçar a sua assignatura n'esses dois decretos de que careço! Que me importa ver a rainha de joelhos a meus pés? Por acaso os meus antepassados não estiveram tambem nas mãos do carrasco? Que me importa as torturas inflingidas a uma soberana? Acaso os padres da Companhia não soffreram o horrivel martyrio... E depois é ella que assim o quer! Restabeleça-nos e ajudal-a- hemos a reinar! 

-- Bispo... Não quero! Serei eu que reinarei e muito breve! gritou a princeza tendo umas scentelhas raivosas nos olhos negros. 

-- Vós sim... Mas a rainha ainda está viva... 

-- Escutae... Recebi ha duas noutes um emissário da côrte de Hespanha... O partido catholico oppõe-se á politica do conde de Florida Blanco e espera o restabelecimento da Companhia de Jesus em Portugal para dar plenos poderes, como outr'ora, aos jesuitas de Hespanha... A religião deve triumphar aqui como no meu paiz! Esse mesmo emissario, o conde de Stephens, membro de confiança do chefe catholico, é um italiano que vem de Roma recommendado 

pelo Santo Padre... Falamos e elle aconselhou-me em nome da minha familia! Disse-me que os acontecimentos de França todos esses sacrilegios que se vão exercendo na familia real terão ainda um peor fim, e mostrou-me que era necessario tomar aqui uma extrema resolução... 

-- Mas que quer esse conde de Stephens? 

-- Quer que meu marido suba ao throno! 

-- Para restabelecer a Companhia não é assim? 

-- Assim o julgo! Pelo menos são as suas intenções... Tenho poder como sabeis no animo do principe, leval-o-hei a tudo principalmente desde que seja demittido o intendente da policia... 

-- O intendente? 

-- Sim porque elle faz um jogo contrario ao nosso... 

-- Ah! Porém agora persegue mais os pedreiros livres! 

-- É um ardil! 

-- Como um ardil? 

-- Sim... Faz constar essas perseguições para melhor espionar os movimentos da Companhia... Depois, vejamos, que tem elle feito contra os maçons? 

-- Perseguiu alguns poetas, expulsou alguns cidadãos francezes e denunciou o cônsul americano... 

-- Gente a quem odeia e de quem se vinga! 

-- É possivel! bradou o bispo aterrado, accrescentando logo: 

-- Oh! Mas isso é muito habil... 

-- O conde de Stephens tem a certeza disso... 

-- Mas que especie d'homem é esse conde? 

-- Um homem que tem a confiança de todos os governos desde a Santa Sé até á de Frederico II da Prussia, o amigo dos philosophos! 

-- Mas n'esse caso é um elemento precioso... 

-- Deveras precioso, pelo seu muito saber... 

-- Porém n'esse caso, alteza, é preciso dar o golpe decisivo, restabelecer a Companhia na peninsula... 

-- No dia seguinte ao da minha subida ao throno! 

-- Proporcionar-vos-hei essa alegria bem cedo! bradou elle com um ar sinistro, concluindo: 

-- Após a rehabilitação dos Tavoras que será o ultimo acto de D. Maria I. 

-- Se ella não acceder a essa rehabilitação eu vol-a darei... 

-- Não, alteza, é preciso que seja D. Maria I que o faça... 

Assim será tomado por um acto de justiça d'um filho que reconhece o crime do pae... 

-- E dada por mim? 

-- Seria vista como um tavor da rainha Carlota Joaquina ao bispo do Algarve, inquisidor- geral... 

-- E superior dos jesuitas em Portugal, porque é a vós que está destinado sem duvida esse glorioso papel! 

-- Elle corou de prazer e de seguida, n"um ar grave e sereno, disse: 

-- Real senhora dentro em um mez sereis rainha! 

-- Um mez! 

-- Sim... Estamos hoje no 1.° de fevereiro, no dia primeiro de março, sereis acclamada. 

-- E D. Maria I... 

-- Bruno de Lacerda, a fará dormir no mosteiro de S. Vicente de Fóra, ao lado dos seus antepassados! É este o ultimo acto da nossa tragedia que a vós dará um throno; a mim o tnumpho da Companhia de Jesus e o esplendor do nome dos Tavoras! 

-- Seja! bradou arrebatadamente a futura rainha, estendendo-lhe a mão e correndo a beijar D. Antonia de Mello. 

O bispo sahiu então lentamente, com um sorriso á fiôr dos labios e dizendo: 

-- Tem razão esse conde de Stephens... O intendente precisa a paga dos seus serviços! 

E agora esse jesuita habil e ardiloso, deixava-se levar na intriga urdida por José Balsamo que a coberta d'obstaculos desejava implantar a maçonaria em Portugal. 

A princeza começava a beijar a sua favorita e a subitas dizia-lhe: 

-- Ah! Ajuda-me a vestir para o espectaculo. . Quero ir muito formosa... Quero que o estejas tambem... Carecemos de esmagar essa D. Maria Benedicta e essa D. Maria de Penha que apesar de todo o amor do marido vive ahi abandonada na corte! 

-- Como uma viuvinha! E elle farto dos seus beijos, anda em aventuras! 

A aia tinha despido a princeza. 

O corpo moreno, d'umas linhas esculpturaes, mostrava-se d'um nu soberbo nos hombros e nos braços, e ella em face do espelho contemplava-se embevecida, emquanto a dama a contemplava tambem. 

Estava como apaixonada pelo proprio corpo e deixava-se além ficar n'uma extranha abstracção, analysando-se. 

No aposento contiguo alguem caminhava levemente sobre os tapetes e vinha collar os olhos á fechadura.

O principe D João, louco de lubricidade, espreitava a esposa como um rustico e estremecia de raiva ante aquelle bello corpo que se lhe negava sempre, e que D. Antonia de Mello beijava livremente. 

Depois viu que ella se vestia pouco a pouco, assistia ao cobrir d'essa carne latente de desejos, e via agora uma outra mulher cheia d'altivez relanceando para o espelho o mais soberano dos olhares 

E elle assim d'aquelle modo como do outro sentia-se devorado de paixão, sentia o estonteamento d'um noviço ao apparecimento do peccado, o arrebatamento d'um frade tentado aos prazeres carnaes e que aplacasse os desejos com os cilicios. 

Mas D. João, esse homem obsecado pelo perfume forte d'aquella carne de mulher embriagante como um vinho capitoso, definhava-se e no auge do desespero amaldiçoava a politica que o unira á hespanhola, que o obrigava a esquecer a propria dignidade de principe, de futuro rei, e o levava a espreitar ás portas como um lacaio. 

Tinha por ella a paixão e a raiva, o odio e o carinho, enojava-o com os seus amores extranhos e attrahia-o com os seus olhos negros d'um extravagante fluido, perturbador como um filtro de feiticeria. 

E ao perder se nos corredores do paço, elle, murmurava ao vêr os pares ditosos que se dirigiam ao espectaculo: 

-- De que serve ser príncipe! Oh! O bobo... O bobo é muito mais feliz! 

E seguia com a vista D. João de Falperra que beliscava o braço d'uma loura e lepida creadinha duma sécia. 







VII 



O fim da vingança 





Pina Manique estremeceu no seu camarote que ficava em frente do da rainha, que n'uma grande abstração olhava o palco, e erguendo-se rapidamente, sahiu para o corredor, dizendo ao chefe da sua policia: 

-- Lopes Cardoso: Vês aquelle homem que alem está? 

E pela pequenina porta entreaberta indicava José Balsamo que entrara no camarote da condessa de Pombeiro. 

Era uma senhora loura, duma esplendida carnação rosea e lactea aquella condessa. Os seus olhos d'um azul celeste fixavam-se no palco onde começava o mais extravagante dos bailados ao passo que o conde de Stephens passando distrahidamente a mão enluvada na carapinha da pequenina negra que a fidalga possuia como n'uma manifestação de luxo que a rainha puzera em voga, olhava o camarote da soberana que muito pallida, os labios n'um tremor não dava

a menor attençao ao espectaculo. 

O chefe da policia, olhou o perante a indicação do intendente e volveu: 

-- Vejo sim excellencia... 

-- Conhecel-o? 

-- Não, excellencia... 

-- Pois sabe que é um pedreiro livre! 

-- Um maçon? bradou o antigo corregedor no auge do espanto. 

-- Sim... Eis a prova... e Pina Manique mostrava ao seu subordinado o papel que José Balsamo propositadamente lhe deixara cahir aos pés. 

-- Mas é necessario tomar uma resolução! 

-- Decerto... Prendel-o-has... Mas deixa-me primeiro irão camarote dos ministros! 

O intendente dirigiu se apressadamente para o logar indicado e onde se via Martinho de Mello, ao lado de Luiz Pinto de Sousa Coutinho <marca num="*" pag=679>. 



<nota num="*" pag=679> Depois visconde de Balsemão. </nota>



Os secretarios de estado voltaram-se rapidamente á entrada do intendente, e nos olhos d'ambos houve uma interrogação. 

Elle, muito contente, vendo que ia dar uma grande nova aos ministros que tanto como elle odiavam os maçons, disse: 

-- Trata-se d'um caso da maxima gravidade! 

-- Que foi? Que foi? interrogaram ambos sobresaltados. 

-- Tenho na mão um terrivel pedreiro livre e careço de o prender! 

-- Mas porque o não faz meu caro intendente? perguntou Luiz Pinto, dum modo rapido relanceando um olhar para o palco. 

-- Desejo a authorisação de v. ex.ª... 

-- O que? Mas não tem procedido sempre sem nos consultar? volveu Martinho de Mello, accrescentando: 

-- E para demais um maçon! Oh! prenda-o, meu caro intendente, prenda-o... 

-- Porém...

-- O que? 

-- Julgo-o um membro da nobreza... 

-- Homem mas que tem isso? É necessario dar exemplos! Não se lembra do marquez de Pombal? exclamou Martinho de Mello que apesar de ter sido um grande inimigo do ministro de D. José, buscava imital o. 

-- Bem, prendel-o-hei! volveu radiante, Pina Manique. 

Mas n'este momento via que os dois ministros se inclinavam com respeito, olhando o camarote de Carlota Joaquina onde José Balsamo acabava de entrar. 

Beijara a mao a D. João e a princeza voltara-se graciosamente a conversar com elle ao passo que o duque de Lafões, sentado na platéa lhe sorria com um ar de intimidade. 

Pina Manique, fez-se livido ao ver o maçon no camarote do principe herdeiro e dirigindo-se aos ministros, exclamou: 

-- Razão tinha eu em consultar v. ex.ª porque esse desconhecido parece ter um grande valimento na côrte... 

-- Quem é esse homem? perguntou rapidamente o secretario dos negocios extrangeiros 

-- É um homem alto, pallido, de grandes olhos negros, e que acaba de entrar nos camarotes de suas altezas. 

Duas gargalhadas se ouviram sahidas dos labios dos ministros emquanto o intendente os ficava encarando muito confundido, murmurando: 

-- Mas de que riem, v. exª? 

-- Oh! Prender o conde de Stephens? Elle um pedreiro livre! Mas, senhor intendente, v. ex.ª vê pedreiros livres em toda a parte... D'aqui a pouco accusa-se a si proprio d'esse crime! Chasqueou Martinho de Mello. 

-- Mas juro-lhes, excellencias, juro-lhes! volveu elle no auge do furor. 

-- Senhor intendente, saiba que o conde de Stephens é um enviado secreto de sua magestade Frederico II... disse-lhe em voz baixa Luiz Pinto d'um modo sobranceiro. 

-- Mas é um maçon! Para demais é enviado d'esse rei que protege os philosophos e que foi amigo do senhor de Voltaire... Senhores ministros esse homem vem fazer atheus ao nosso paiz... 

-- O senhor é o intendente da policia não é verdade? perguntou Martinho de Mello, com certo desdém. 

-- Mas certamente, excellencia! 

-- N'esse caso proceda como entender! 

-- Não isso não... obstou o secretario do extrangeiro. Se der causa a um conflicto diplomatico não é o senhor intendente que o resolve... Se o conde fosse um francez perfeitamente d'acordo porque eu odeio esse povo e contaria com o auxilio da Inglaterra e da Hespanha para o esmagar, mas com a Prussiaa! Oh! senhor intendente, lembre-se que Frederico II é alliado de Catharina da Russia. 

-- Então devo deixar em liberdade o maçon? perguntou elle deveras irado. 

-- Peça authorisação de sua magestade! 

-- Pedil-a-hei senhores! bradou elle impavido na sua grande raiva aos pedreiros livres, sahindo do camarote e dirigindo-se para a tribuna real. 

D. Maria I, continuava na sua grande melancholia de lypemaniaca e tinha a seu lado a princeza viuva e o marquez de Marialva. 

Pina Manique, curvou-se ante a soberana que nem sequer o olhou e disse: 

-- Real senhora... 

-- A rainha ficou na mesma immobilidade, sentindo um vacuo no cerebro, recordando-se de todas as commoções soíFridas assim como n'um tempo muito distante e estremeceu ao sentir que o marquez de Marialva lhe tocava no hombro muito respeitosamente, a chamar-lhe o uso da memoria: 

-- É o sr. intendente da policia... 

Volveu para elle um olhar desvairado e murmurou: 

-- Sim... sim... 

-- Real senhora, desejo uma ordem que emane directamente de vossa magestade... Trata-se d'um caso grave... Está entre nós um fidalgo que faz profissão de maçon... Protegido por credenciaes, os ministros temem a sua prisão, mas para gloria de vossa magestade e bem do reino, careço de prender esse homem embora seja apenas para o pôr na fronteira... 

-- Um pedreiro livre, aqui? bradou assustada D. Maria Benedicta. 

-- Um maçon?! exclamou o marquez de Marialva. Mas sua magestade não póde oppôr-se a essa prisão. 

A rainha parecia não ouvir cousa alguma, olhava o tecto do theatro nos seus ares extranhos de lypemaniaca e n'um repente, murmurou muito baixinho: 

-- O inferno... o inferno... Assignarei... assignarei... 

O intendente não ouviu as palavras da soberana, e interrogava-a ainda com o olhar cada vez mais admirado da sua extraordinaria attitude. 

No camarote fronteiro, José Balsamo, dardejava sobre ella o seu olhar e nos labios tinha um extranho sorriso, como se estivesse ouvindo as accusações do intendente que continuava: 

-- Concedeis-me a permissão para deter esse homem, não é assim real senhora? 

-- Quem é... quem é? perguntou ella como se fizesse um grande esforço de memoria, e accrescentando de seguida: 

-- O Tavora... o Tavora mas sim... sim... Que não o veja mais... Tenho medo! 

D. Rosa a negra favorita que estava sentada aos pés da soberana, lançou um olhar para a porta esperando vêr apparecer o bispo do Algarve, emquanto os outros espectadores d'esta scena ficavam como abysmados ante a incoherencia da resposta real. 

E D. Maria Benedicta, sempre inconsolavel no seu lucto, muito agitada pelo soffrimento da sua dama de honor, ante aquellas palavras da rainha tornava-se livida e apenas perguntava ao intendente: 

-- Mas quem é esse homem? 

-- Um tal conde de Stephens! Encontra-se n'este momento no camarote de D. Carlota Joaquina! disse o intendente buscando captar a sympathia da princeza para a sua obra. 

-- Conde de Stephens? exclamou ella. Oh! Que quereis fazer, senhor? 

-- Mas prendei-o, alteza! volveu elle com grande energia. 

-- Oh! Prendel-o? 

-- Sim, e porque não o farei? 

-- Prender o conde de Stephens, mas não sabeis então que esse grande fidalgo é um amigo do rei da Polónia? perguntou a princeza com certa indignação, continuando: 

-- Informae-vos com o marquez d'Alorna que o conhece... Falae ao duque de Lafões que lhe dava ha pouco o braço, dizei á nobreza que elle visitou, dizei-o até mesmo a sua magestade a quem pediu uma audiencia... 

-- Quem... quem... O Tavora... murmurou a rainha muito obsecada por aquella unica ideia. 

-- Não real senhora, o homem que vem espalhar o atheismo em Portugal! 

-- O atheu! O atheu! Elle! E é bispo! murmurou D. Maria I dando agora evidentes signaes de desiquilibrio. 

O intendente recuou, tornou-se livido bem como o marquez de Marialva e a princeza, ao ouvirem n'a agora, dizer n'um tom imperioso: 

-- Não o quero vêr mais... Prenda o... prenda o... sr. intendente! 

Pina Manique comprehendeu que o delirio se apossara da soberana, no emtanto, como se o não tivesse percebido, fingindo vêr n'aquellas palavras da pobre desiquilibrada a ordem ha tanto sollicitada ia avançar para a porta disposto a ser elle o proprio que prenderia José Balsamo. 

Porém a sahida foi-lhe embargada por um homem que vinha entrando e o intendente ouviu o camarista annunciar: 

-- O sr. conde de Stephens! 

E logo uma voz milito sua conhecida, a voz de José Balsamo, exclamou: 

-- Boa noute sr. intendente! 

-- Senhor! bradou Pina Manique n'um ar grave. 

-- Cale-se sei o que vae dizer! respondeu José Balsamo d'um modo imperioso. 

-- Senhor! tornou Pina Manique sentindo-se arrastado para fóra do camarote real, e fazendo-se livido de colera. 

-- Sei o que vae dizer mas abafe a sua voz... Vae ordenar a minha prisão em nome de sua magestade, não é assim? perguntou elle n'um tom levemente ironico. 

-- Mas como o sabe? exclamou assombrado o intendente. 

-- Não é difficil de adivinhar, como também não é difficil dizer-lhe que o senhor ha-de ser uma das victimas d'esses francezes que tanto odeia... 

-- Mas antes d'isso vós sois meu prisioneiro! gritou Pina Manique levando aos labios um apito de prata d'onde tirou um som estridulo, e exclamando de seguida: 

-- Conde de Stephens, está preso em nome de sua magestade! 

-- Cale-se senhor! ordenou José Balsamo pela terceira vez. Não póde dar ordens em nome d'uma rainha que está louca! 

-- Louca! 

-- Sim... E victima dos jesuitas que o senhor deixou em liberdade emquanto perseguia os pedreiros livres! 

-- Oh! Zomba ainda de mim?! bradou Pina Manique ao sentir que os agentes de policia corriam para aquelle lado. 

Mas ao mesmo tempo o bispo do Algarve apparecia no camarote de Carlota Joaquina e na sala ouvia-se um grito enorme, estridente, sobrehumano, sahido dos labios da rainha que se erguia e avançava para a porta do camarote de cabellos cabidos, bradando: 

-- Elle! Elle! O Tavora! Oh! O inferno... 

Estabeleceu-se o panico no theatro, os agentes de policia correram para a soberana assim como toda a côrte ao passo que José Balsamo com um sorriso mysterioso, agarrando com força o braço do intendente e arrastando-o para um canto, exclamava: 

-- Podia matal-o n'este momento... Mas eu sou indulgente para os intendentes de policia... Deixo sempre ao povo a vingança! Prefiro em vez da morte dar-lhe um conselho, Pina Manique! 

O intendente, livido de terror, deveras agitado ao ouvir o ruido, a confusão que se estabelecera no theatro, começando a encarar como um ser extranho esse homem que o segurava, disse: 

-- Qual? Qual? 

-- Deixe em paz os maçons e vigie os jesuitas que enlouqueceram D. Maria I... E agora se quer que sua magestade recupere o uso da razão e que reine mais alguns annos em vez de Carlota Joaquina que o odeia e protege a Companhia, dirija-se a um homem, o unico medico que a pode curar... Um que já tratou de um louco coroado que se chamou Jorge III de Inglaterra! Aqui tem o nome d'esse medico! 

Mettia um cartão na mão do intendente e desapparecia no meio do ajuntamento que se formara á porta da casa para onde a rainha fora conduzida entre as lamentações da côrte. 

E o intendente lendo o cartão recuou espavorido. 

Era inteiramente egual ao que n'essa manhã José Balsamo lhe deixara cahir aos pés e escripto á penna, lia-se ali um nome e uma designação: 



Dr. Willis 

Medico de Jorge III d'Inglaterra 



O conde de Stephens, conseguiu então introduzir-se junto da rainha que estava estendida n'um sophá e tinha perto d'ella o physico da real camara e o bispo do Algarve, bem como Carlota Joaquina e o principe D. João que chorava desesperadamente. 

O physico arregaçava a manga do vestido da soberana e preparava-se para a sangrar, tendo no emtanto grandes hesitações além á vista da côrte que de cabeça baixa lamentava a loucura da soberana. 

José Maria de Mello, olhava-a com uma expressão triumphante e Carlota Joaquina erguia a cabeça com altivez emquanto D. Maria Benedicta de joelhos ao lado de Marialva, pedia a Deus pela soberana. 

José Balsamo, ao ver a indecisão do physico, exclamou: 

-- Senhor: mais um minuto de demora pode ser a causa da morte de sua magestade! 

O outro não respondeu como se na realidade quizesse essa morte, e então elle, n'um gesto brusco, arrancando com raiva a lanceta da mão do physico fez uma incisão na arteria do braço da soberana, d'onde começou a pingar um sangue negro e coagulado. 

D. Maria I, abriu os olhos soltou um novo grito e exclamou: 

-- Os jesuitas! Os jesuitas! 

E José Balsamo, com extranha habilidade ligou-lhe o braço ensopando o seu lenço no sangue da rainha e guardando-o na algibeira, sahindo depois de se ter curvado em frente dos principes. 

Continuava a ouvir-se os mesmos gritos da louca, da rainha que perdera o uso da razão e que era conduzida para o palacio. 

O intendente da policia, muito humilde, acercava-se de José Balsamo e exclamava: 

-- Para quereis esse lenço manchado de sangue? 

-- É sangue real! volveu elle com um sorriso odiento que o intendente não viu. 

-- Mas para que o quereis? 

-- Para o mostrar ao povo e destruir assim a lenda do sangue azul! retorquiu o mestre da maçonaria, desapparecendo no angulo do palacio real, emquanto Pina Manique, deveras assombrado ante tanta audacia, clamava: 

-- Ah! É um verdadeiro maçon! Mas será enf©rcado, será enforcado! 

-- E n'esse dia vós sereis morto também! Lembrae-vos que a rainha está louca, Pina Manique! bradou n'este momento uma voz a seu lado. 

E voltando-se, como louco também, apenas viu um vulto negro que se sumia.

D. Maria I, passava nos braços da familia para o palacio onde o jesuita realisava o fim da sua vingança. 

O bispo, o Tavora, também ia no sequito illuminado aos clarões dos archotes vermelhentos. 

E a historia de Portugal contava agora uma louca entre as soberanas de que devia descrever os feitos. 









VIII 





Oczakow 







Avistavam-se ao longe n'um crepusculo pardo as pantalonas e os turbantes turcos de côres vivas e os canos immensos das espingardas vomitavam balas  sobre os russos que avançavam sempre como excitados pelo som retumbante dos instrumentos guerreiros soprados com ardor pelos moujiks arrigementados á pressa e que estalavam as bochechas, loucos de enthusiasmo, ao verem o effeito das suas trombetas sobre o numeroso exercito que apertava a praça de Oczakow no circulo d'aço das suas bayonetas tintas de sangue infiel. 

Cahia o granizo em pedras, em amendoas geladas fazendo tanto damno como as balas dos entricheirados que além estavam á sombra do seu pagão estandarte onde se recortava uma meia lua de prata; accendiam-se fogueiras muito a custo á approximaçao da noite, espirrando e apagando-se como lume de lenha verde e a subitas o inimigo cessava o fogo ao baterem as seis horas no relogio do convento onde habitavam os jesuitas e que ficava no interior da praça. 

Os russos aconchegando as grandes capas, que lhe defendiam os rostos do frio, mettendo-se bem nas pelles de lontra das suas altas barretinas e acercando-se das fogueiras buscavam um repouso d'algumas horas e continuavam olhando serombaticos os inimigos que descançavam tambem. 

A noite envolvia tudo, as torres que ha pouco se destacavam erectas e firmes em linhas rijas, pareciam amollecer pouco a pouco esforçarem-se no escuro da noite que cahia. 

As tendas de campanha negrejavam; vultos mal distinctos de sentinellas mostravam-se na linha de defeza, soprando as mãos emquanto os musicos depunham os instrumentos e se juntavam nas improvisadas lareiras dos soldados, ouvindo narrar algum tremendo episodio de barbaros da Siberia ou um caso dramatico da altiva Polonia. 

E lá em baixo junto do valle innundado pelas cheias vindas das penedias, além onde se erguiam as tendas dos chefes brilhava uma luz e uma sentinella paciente vigiava o campo. 

As horas iam decorrendo e o acampamento parecia adormecido; pouco a pouco russos e turcos cediam á fadiga e do alto das serras nevadas, chegavam ruidos intercallados como se alcateas de lobos avançassem a devorarem os mortos insepultos perdidos nos barrancos e nos desfiladeiros. 

Mas a subitas um vulto envolto n'uma longa capa de pelles, trazendo a gola bem levantada, irrompeu do lado da praça sitiada e avançou para a tenda do principe de Stanbow que commandava o exercito. 

Ouviram-se os seus passos batendo cavos na neve, n'aquelle solo rijo que gelava, e a voz de sentinella soou, exclamando somnolenta: 

-- Quem vem lá? 

-- Superior... volveu em francez a voz do individuo que caminhava para a tenda do principe. 

O soldado, um bambino finlandez louro e claro, não comprehendendo a resposta interrogou ainda: 

-- Quem vive! 

-- Czarina e a Russia! 

E ante o signal do soldado que ouviu pronunciar em russo estas duas palavras, o desconhecido penetrou na tenda do commandante. 

O chão estava coberto de pellws até certa altura e sobre ellas via-se uma especie de trenó onde se recostava um homem de meia edade de grandes barbas e olhos azues profundos e quietos, que ao ver entrar o outro bradou em mau francez: 

-- É singular a vossa visita a esta hora, coronel Gomes Freire! 

-- Meu principe venho de fazer uma importante descoberta que póde trazer a victoria ás nossas armas! 

-- Como? exclamou o outro espantado. 

-- Sim... Após seis mezes de cerco a praça render-se-ha por um acto de coragem e de audacia! volveu o official portuguez. 

-- Mas como? Como? 

-- Se houver alguem que se atreva a avançar durante a noite com uma duzia d'homens até ao lado norte onde existem apenas uns quatro ou cinco turcos que bebem regaladamente o seu kirssek apanhado em Oczkacw, emquanto fingem vigiar-nos. 

-- Mas como o sabeis? interrogou o principe deveras admirado. 

Porque volto de lá! tornou Gomes Freire com certa simplicidade. 

-- O que! Voltaes de lá? 

-- Sim alteza? 

-- Mas com quem? 

-- Só... 

Nos olhos azues e profundos houve n'um lampejo, alguma cousa de extranho; e de seguida Stambow erguendo-se nas suas pelles, semi enterrado nos tapetes, exclamou: 

-- Mas tendes bem a certeza?... 

-- Acabo de ver... 

-- Mas... 

-- O que, alteza? 

-- Estiveistes realmente n'esse logar? bradou de novo cheio de pasmo. 

-- Alteza, sua magestade, a czarina fez-me coronel d'um regimento. 

-- Mercê da vossa bravura! exclamou o russo com dignidade. 

-- E essa patente envolve para mim a responsabilidade de conduzir o meu regimento á victoria! 

-- Porém, coronel... 

-- O que, senhor, duvidaes ainda! exclamou Gomes Freire quasi irado. 

-- Não... Mas sois vós um extrangeiro que falaes d'esse modo? 

-- A minha patria adoptiva merece tanto como a outra! volveu com laconismo. 

-- Vós... 

-- Mas senhor... 

-- Vós procedeis d'este modo ao passo que os meus generaes... Viatka... Vologda... Norone... Os mais coronéis desde o principe de Ladoge até Ivan Smalova dormem descançados nas suas tendas. 

E o principe encarou agora com grande espanto o heroe, estendendo-lhe a mão generosamente. 

-- Ali! Os vossos officiaes, volveu elle com gentileza, descançam dos feitos do dia ... 

-- E vós? 

-- Oh! Eu... 

-- Não luctaste também? 

-- Senhor... Estive inactivo no dia anterior... disse elle queixando-se d'este modo, quasi instinctiva. 

-- Mas... Oh! Não o acredito! Um coronel extrangeiro feito por distincção... É impossivel! 

-- Principe... O meu posto é o hospital de sangue... 

-- Por Pedro, o grande, esse é o logar dos invalidos... 

-- Pelo que vejo não é assim! Eu posso combater... 

-- Mas quem commanda a vossa divisão? interrogou com desconfiança o principe. 

-- Vologda! 

Nos labios do Somabow passou um sorriso, pareceu recordar-se d'alguma cousa e de repente bradou: 

-- Gomes Freire... Quereis tentar a aventura? Não é esse o vosso desejo?... 

-- Sim, alteza! tornou elle muito alegremente. 

-- Pois bem procedei como o desejaes! 

-- Porém... 

-- O que? 

-- Preciso ser auxiliado. 

-- Mas falai, ordenou o chefe, mettendo friorentamente a mão na sua peliça. 

-- É necessario que o general Vologda avance com a sua divisão ao assalto desde que eu penetre na praça... Com um regimento seria uma temeridade! 

-- Vologda! exclamou o principe. 

-- Mas sim... 

-- Não... Irei eu proprio ... 

-- Vossa alteza? bradou Gomes Freire arrebatado. 

-- Sim, eu proprio... volveu de novo o grande senhor, como se tivesse pensado de repente qualquer cousa de muito grave. 

E chegando-se a um dos lados da tenda, levou aos labios uma buzina ao som da qual appareceu um joven ajudante de campo que cravou o seu olhar duro e d'um rebrilhar falso no official portuguez. 

-- Ivan Samalow! exclamou o principe. Ide dizer de minha parte ao general Vologda que se aprompte para marchar para o corpo do exercito que guarda a retirada! 

O ajudante estremeceu, olhou sempre do mesmo modo falso o official portuguez e fazendo a continencia ao principe sahiu rapidamente da tenda. 

O commandante, ficou pensativo uns momentos e depois tomando o braço de Gomes Freire, obrigou o a sentar se a seu lado no trenó forrado de pelles, e interrogou: 

-- Não tendes um amigo no exercito! 

-- O coronel Leão Ingeneff... 

-- Ingeneff! Conheço... É um bravo! volveu simplesmente o principe, accrescentando: 

-- Mas eu fallo d'um vosso compatriota... 

No rosto sereno de Gomes Freire passou uma nuvem de tristeza e replicou: 

-- Realmente esse amigo esteve aqui! 

-- E já não está?... 

-- Não sei mesmo se pertencerá ao numero dos vivos... 

-- Morto?! 

-- Em Odessa, senhor, depois da batalha, quando vossa alteza em nome da patria russa me agradecia o dever que eu cumprira... 

-- O vosso amigo... 

-- Que estivera a meu lado no combate e que eu procurava com a vista para o apresentar a vossa alteza... 

-- Que lhe succedeu? 

-- Tinha desapparecido, durante a refrega assim o julgo e d'então para cá... 

-- Procuraes encontral-o não é assim? 

-- Oh! Mas isso para mim representa o unico pensamento! Vasco de Miranda é para mim um irmão... Infelizmeme julgo-o morto e bem morto... 

-- Porque o julgaes? 

-- Se estivesse vivo ter-se-hia posto já em communicação commigo... 

-- E se estivesse entre os turcos? interrogou o principe fixando n'elle o seu olhar metallico. 

-- Prisioneiro?! gritou Gomes Freire e logo n'um repente, interrogou como louco: 

-- Sabeis alguma cousa?... Oh! dizei-m'o por piedade... Dizei se o meu amigo está em poder do inimigo? 

-- Gomes Freire, ignoro-o... 

-- Porém as vossas palavras... 

-- Que indicam? 

-- Julguei divisar n'ellas alguma cousa acerca de Vasco de Miranda... 

-- Conheceis o conde de Tremouilles, um francez que commanda uma divisão de Ismail Pachá? perguntou de repente o principe. 

-- Um francez entre os turcos! bradou elle assombrado. 

-- E o chefe, com um meio sorriso volveu: 

-- Sim... Francezes, inglezes e até prussianos são os chefes d'essa legião barbara... 

-- Na realidade? 

-- Não tendes reparado nos officiaes turcos? Nos graduados? Nos que acompanham o Pachá? 

-- Mas... 

-- Pois são estrangeiros como vós e como o vosso amigo! exclamou o principe olhando-o com uma extranha expressão. Vós combateis pela Russia, elles pela Turquia... São estrangeiros desejosos de louros, mercenarios que servem Ismail... 

-- Por Deus! 

-- Sim... Gente que pertence á Turquia pelo interesse... 

E o principe continuava sempre do mesmo modo olhando attentamente o official: 

-- Hoje pertencem-Ihes como amanhã nos pertencerão! É o mal dos estrangeiros n'um exercito. 

-- Senhor! bradou indignado Gomes Freire, como se tivesse comprehendido de repente uma perfidia nas palavras de Somatow, continuando cheio da mais interna colera medonhamente transfigurado: 

-- Senhor as vossas palavras parecem encerrar um insulto para mim e sobre tudo para a minha patria! Sou estrangeiro e sirvo Catharina II que sem motivo galardou os pequenos serviços que prestei. Porém juro-vos que combateria do mesmo modo como simples soldado não carecendo de recompensas... Se as vossas palavras se referiam aos mercenarios que estão junto dos turcos não devieis misturar os estrangeiros que servem a Russia n'essa designação vil! Eu no meu paiz, revoltava-me a miudo contra as insinuações de que era alvo, contra as intrigas que se accumulavam em torno de mim! No paiz alheio mais cioso devo ser da minha dignidade e por isso principe de Somatow, eu vos declaro pôr de parte a patente que sua magestade me conferiu desde que ouvi as vossas palavras. 

Elle mostrava-se da mais legitima e altiva colera ao dirigir-se assim ao principe, que levado por um movimento de grande sympathia bradou estendendo-lhe a mão: 

-- Coronel! Nunca desconfiei de vós, as minhas palavras no emtanto tinham um fim... 

-- Um fim? 

-- Sim... 

-- Mas qual podia ser? 

-- O de vos obrigar a ouvir uma confissão! 

-- Mas senhor... 

-- Ouvi... 

E o principe passando a mão na testa alta, começou: 

-- Ha pouco quando vos falei do vosso amigo, quando vos perguntei se conhecieis o conde de Tremouilles, o francez que serve os turcos tinha um fim... 

-- Mas qual? Qual? 

-- O de vos narrar um caso, o de vos explicar a minha actual conducta para com o generel Vologda do qual incumbo de guardar uma retirada que não se fará assim o espero em Deus e em S. Miguel. 

-- Mas o general Vologda! 

-- Revelou-me uma pseuda traição em que ao principio acreditei, visto não vos conhecer e menos ainda ao vosso amigo... Porém agora, quando vos vindes offerecer para rechaçar os turcos, expondo-vos como os meus officiaes não se expõem, eu que vos excitava ha pouco falando dos estrangeiros sou o primeiro a estender-vos a mão e a pedir-vos desculpa juntamente com um momento d'attenção antes de vos entregardes á vossa bella obra! 

Gomes Freire, de momento a momento, estava mais excitado, olhava o general d'um modo extranho e nos seus olhos passara um rápido clarão raivoso ao ouvir algumas palavras d'aquelle preambulo. 

E o outro continuava, d'esta vez com grande fluencia: 

- Gomes Freire! O vosso amigo era accusado por Vologda de ter um pacto com o conde de Tremouilles, por isso ha pouco vos perguntava... 

Mas não poude concluir. Gomes Freire ergueu-se como louco e bradou: 

-- Vologda! Vologda! Ah! Mas então não conhece tambem Vasco de Miranda... 

-- Fôra visto por um dos seus ajudantes conversando altas horas para lá da linha com um dos officiaes do conde francez... Foi de que o accusaram... D'ahi as minhas palavras quando vos falava dos turcos. 

-- Miseraveis! Sempre a intriga, a maldita intriga! Ah! E talvez me accusassem de cumplicidade não é verdade? 

O principe baixou a cabeça e volveu: 

-- Assim era! 

A colera do official chegou ao seu auge, levou a mão aos copos da espada, avançou para a porta da tenda com grande audacia emquanto o principe se lhe collocava no caminho e bradava: 

-- Que ides fazer? 

-- Matar o calamniador. Exigir-lhe contas da traição vil que nos preparou! 

-- Coronel! 

-- General! Sou um estrangeiro, preciso afiançar a minha honra, sou um militar e o nosso brio mostra-se com o sangue! 

-- Depois das batalhas, quando a victoria corôa frontes, não no momento em que a patria ou os seus soldados carecem de sua vida! Sois estrangeiro dizeis! Quereis afiançar-vos! Eu vos servirei de fiador! E agora ide cumprir a vossa missão... Ide fazer a bella acção que vos illustrará... Eu vos auxiliarei. Ide Gomes Freire, ide meu amigo. 

-- Porém senhor... 

-- O que? 

-- Eu não posso commandar soldados que talvez desconfiem tambem do seu chefe! 

Somabow, olhou-o de frente, tomou-lhe o braço, chegou á porta, e gritou á sentinella: 

-- Faze chegar aqui os officiaes do regimento da Imperatriz que é commandado pelo coronel Gomes Freire! 

-- Que quereis fazer? interrogou admirado o official. 

-- Quero cumprir a minha promessa como espero cumprireis a vossa! Agora que vos considero um leal e honrado militar e como tal devo ver os vossos amigos, sou eu proprio que á vista dos vossos officiaes vou entregar-vos a tarefa de tomardes na praça de Ockachw, mostrando-lhes como vos offerecestes para esse feito de tal ordem que pode ser a morte ou a gloria! 

E o principe apertava-lhe a mão n'um enthusiasmo extranho ao recordar-se das intrigas ouvidas a Vologdal. 

N'este momento entravam na tenda os primeiros officiaes do regimento, e o principe ficava no escuro fixando extranhamente Gomes Freire, desposto a cumprir o seu dever. 







IX 





O coronel Ivan 



O ajudante de campo do principe de Somabow, sahiu da tenda do general onde o general o enviara e dizia para um individuo que o acompanhava: 

-- Muzok, não te esqueças das recommendações do teu general! 

-- Descance coronel Ivan, descance que Muzok sabe cumprir as suas promessas... E esse maldito que assim vae roubando a gloria aos nossos e servindo a Polonia não terá muito tempo de vida... 

-- E sabes que d' isso depende a tua carreira! 

O outro, encolhido n'um capote de soldado, álem sob o granizo tinha um lampejo de raiva nos olhos e apertava febrilmente o cabo do seu yatagan. 

-- Desde as primeiras batalhas, á volta da Moldavia que elle se tem mostrado um verdadeiro inimigo, e julgo que tem um fim secreto... O principe de Somabow está informado das suas acções e das d'esse companheiro de Gomes Freire que se passou para os turcos... Elle ama a Polonia, esse portuguez, ainda ha dias no acampamento o dizia aquelles que o rodeavam. E a Polonia devia ser encorporada nos nossos estados! Polionotowisk o rei dos polacos é um russo! 

-- Que ninguem desthronará por nossa gloria! volveu o soldado. 

-- Apesar de toJas as traições! E agora vae e sê feliz na empreza, concluiu o coronel, despedindo o soldado com um gesto e dirigindo-se para a tenda, exactamente na occasião em que os officiaes do regimento da imperatriz, se retiravam rodeando Gomes Freire. Ivan estremeceu, na sua grave face de carrasco, houve uma contracção, depois entrou de cabeça erguida na tenda do chefe. 

Gomes Freire, no meio dos seus officiaes avançava sempre para onde acampava o grosso do exercito e ia pensativo ao recordar-se das palavras do principe, ao lembrar-se d'aquella ignobil traição de que accuzavam o seu amigo, comprehendendo a inveja, que a sua bravura gerara nos corações dos generaes russos. O acampamento estava silencioso, a neve cahia sempre de continuo

envolvendo a praça forte. 

E, então elle, voltando-se para os officiaes, disse a meia voz: Senhores, recolham-se aos seus postos, façam com que os soldados despertem, sem ruido e ao signal combinado avancem pela brecha, emquanto o principe de Sovatow, atacará de frente a fortaleza. 

No escuro, um homem, aquelle soldado que estivera fallando com Ivan, agarrava cada vez mais convulsivamente o cabo do yatagan. Os officiaes, apertavam em silencio a mão do coronel, e affastavam-se a cumprirem as suas ordens, emquanto Gomes Freire corria para as avançadas. 

O soldado seguia-o sempre, deslisando como uma sombra, como uma fera prompta a saltar sobre a presa. 

Elle acabara por chegar ás avançadas 

Dez soldados estendidos em torno d'uma tenda, tiritavam com frio, e do interior do pequeno alojamento, chegou um breve ruido de vozes. Gomes Freire, penetrou no recinto, dois officiaes que além se encontravam, ergueram-se rapidamente á sua entrada, ao passo que o coronel, dizia em francez: 

-- Sois vós que commandais este posto? 

-- Sou eu, meu coronel, volveu um mancebo imberbe, tendo uma leve pronuncia ingleza, ao retorquir-lhe.

-- Ah! Pois senhor alferes, acordae os vossos homens! 

-- O que se passa? perguntou o outro dirigindo-se ao inglez. 

-- Ignoro-o... volveu o companheiro na mesma lingua. 

-- Quem é este official? interrogou Gomes Freire, ao reparar no que falara. 

-- É o medico do regimento do coronel Voetck... 

-- Ah! Senhor... Deixai- vos ficar que os vossos serviços vão ser muito uteis! 

-- E para o alferes accrescentou: 

Transmitti as minhas palavras ao vosso companheiro, e conduzi os vossos homens, ao meu regimento porque alguma coisa de muito grave se vae passar. 

O joven, olhou o coronel com respeito e sahiu da tenda a cumprir a ordem, emquanto o medico olhava espantado o extrangeiro. 

Gomes Freire, sahiu então do abrigo e viu os guardas da avançada postados silenciosamente a distancia. 

Acercou-se d'elles e disse para o alferes: 

-- Falaes o russo, sr. official? 

-- Sim coronel! 

-- Pois dizei a estes soldados que vamos penetrar na praça! 

-- O que?! Penetrar na praça?!... bradou elle no auge da admiração como se não acreditasse n'aquellas palavras do official. 

-- Tental-a-hemos pelo menos! 

O joven inglez, limitou-se a dizer algumas palavras aos soldados que começaram a seguir Gomes Freire o qual já se encontrava a alguns passos de distancia. 

Muzok, o soldado, seguia tambem a escolta tendo nos labios um mau sorriso. 

Encontravam-se agora perto das avançadas turcas. 

Viram alguns homens sentados em torno d'uma fogueira semi-apagada e a cujos rostos, o breve clarão dava um cunho feroz. 

Eram bem elles, esses turcos selvagens e temidos, de grandes barbas e olhares ferozes que alem estavam bebendo kirsk e rindo n'um caretear extranho de alcoolicos embrutecidos. 

Os russos viram-nos e ficaram uns momentos paralysados. 

Muzok, recuou admirado pela grandeza do feito. 

O coronel eia o primeiro a avançar de rastos pela neve, transido de frio e levando a espada entre os dentes, olhando com attenção os inimigos. 

Via-os sempre nas mesmas posições, como estatuas á porta d'um bazar mussulmano, as pernas dobradas sobre o corpo, os turbantes alvos engrinaldando-lhes os rostos bronzeados e murmurando phrases seccas com risadas selvaticas. 

Eram oito. Quatro estavam de costas os outros de frente, e Gomes Freire, rastejando na neve fazia um signal ao alferes para avançar com os seus homens sem ruido. 

Os russos, cheios de terror, mas querendo corresponder ao brilhante acto d'aquelle extrangeiro, iam envolvendo os inimigos sem que estes dessem por tal. 

Foi então que o coronel erguendo se de repente do lado onde estavam ensarilhadas as armas appareceu em frente dos turcos segurando nervosamente a sua espada. 

Agora fazia um gesto ao ver o movimento de terror de que os soldados davam mostras e lançando-se sobre elles deu o signal aos seus homens que se precepitaram sobre os turcos, os quaes começaram a soltar gritos roucos de espanto e terror. 

Foi então que a neve se tingiu no sangue infiel. Os oito soldados feridos em pleno peito, desarmados, as vozes abafadas na garganta foram chacinados além em face da fortaleza que guardavam. 

-- Alferes, dizei aos vossos homens que vistam esses uniformes! 

Ficaram apenas dois fardados com o uniforme russo e Gomes Freire, ao ver por terra os turcos, as faces bestiaes esmagadas na neve, murmurou: 

-- Agora os dois que têm o uniforme russo, assim como o sr. official, serão conduzidos pelos outros ao interior da praça enganando as outras sentinellas! 

-- E o coronel? 

-- Eu serei tambem prisioneiro! Marche! 

E então além entre os seus homens entrou no acampamento, metteu-se pela praça, deixando Muzok admirado sem se atrever a passar das avançadas, murmurando: 

-- É um heroe! É um heroe! E serve bem a czarina! Não é um amigo da Polonia! 

E no seu cerebro de exaltado patriota, começou a dar-se uma reviravolta favoravel a Gomes Freire e contraria ao coronel Ivan. 

Elle, o soldado, agarrou nervosamente o molho das espingardas que os seus camaradas tinham substituido pelas armas turcas e murmurou: 

-- Oh! Um punhado de valentes! 

Pegou então apenas n'uma espigarda e correu em seguimento dos outros que penetravam na cidade. 

No acampamento russo, moviam-se as tropas, avançavam lentamente para a fortaleza. 

Mas de repente, o pequeno nucleo d'heroes foi detido por uma ronda turca que caminhava rente dos fossos, 

O official exclamou então em bom francez: 

-- Quem vem lá? 

Os russos pararam petrificados e Gomes Freire, cheio d'audacia, gritou: 

-- Prisioneiros! 

-- És tu Alentours? perguntou de novo o official que commandava os turcos. 

-- Não... bradou Gomes Freire, desembainhando a espada e correndo á frente dos seus homens disfarçados, sobre a ronda. 

-- Os russos! Os russos! bradou o official ao reconhecer o embuste. 

Travou-se então um singular combate junto dos fossos. Tinham armas, o engano dos uniformes perturbava tudo; e via-se então um soldado russo, Muzok, chegar rapidamente a metter-se entre os combatentes gritando desesperadamente: 

-- Sustentem se! Sustentem-se que Sovatow avança! 

Porém a cidade despertara sobresahada. 

Ao começo foi impossivel comprehender o arrojo daquelle assalto, corriam todos para os baluartes, por aquella noite de neve e organisavam a defeza, clamando: 

-- Os russos! Os russos! 

Porém o principe avançava com o seu exercito, os turcos tinham sido chacinados junto ao fosso e as portas d'Oczakw, abriam-se d'aquelle lado onde Gotnes Freire reunia as tropas que vinham chegando á sombra da bandeira russa que fôra o primeiro a arvorar na cidadella. 

A seu lado havia um soldado que não o largava, aquelle mesmo que jurara assassinal-o e que n'aquelle momento o olhava quasi enternecido. 

O exercito chegava, entrava de roldão pela brecha aberta e precipitava-se na cidade emquanto os turcos a defendiam do lado opposio onde estava o principe de Sovatow attacando a com denodo. 

Mas a subitas tudo mudou. 

Os turcos foram mettidos entre dois fogos, viram com terror chegar a legião immensa que os desalojava e o coronel Ladoge que gritava desesperado: 

-- Viva a Russia! 

Gomes Freire, á frente do seu regimento que chegava, obrava prodigios de valor e travava uma collossal batalha no angulo norte da cidade conseguindo desalojar o inimigo em alguns minutos. 

Muzok, sempre a seu lado parecia querer fazer-se matar, tal era o denodo com que se expunha. 

O coronel reparou n'elle e gritou-lhe: 

-- Assim, meu valente! 

O soldado não comprehendeu, mas sorriu e continuou a attacar os turcos que fugiam indo cahir entre as fileiras dos russos que os chacinavam. 

O alferes que acompanhava Gomes Freire, era agora attacado por dois soldados turcos que tinham ficado na rectaguarda e se defendinm com ardor selvagem, cobertos de feridas, soltando gritos. 

E do solo erguiam-se mais do montão dos mortos, alguns que esperavam escapar mas que defendiam agora os camaradas com valentia. 

O joven inglez, perdido no meio dos turcos, buscava responder-lhes mas sentia-se perdido. Sobre a sua cabeça erguiam-se as armas e elle ia ser victima. 

Porém Gomes Freire, corria para o seu lado á frente dos dez bravos com que penetrara no acampamento e conseguia salval-o d'um golpe mortal que um dos inimigos lhe despedia. 

O alferes, pallido, no auge da alegria, lançou-se então em perseguição do resto do exercito, emquanto ao som das cornetas e dos tambores, os russos entraram na praça onde o heroe portuguez arvorara a bandeira. 

Porém elle parecia não ter ainda terminado a sua missão porque avançava para o lado da fortaleza onde avistara alguns dos inimigos. 

Estavam por terra, segurando as espingardas dispostos a morrer; em torno d'elles erguiam se barricas de polvora a que um official segurando um morrão se dispunha a largar fogo. 

E mais abaixo ficava um baluarte, onde appareciam rostos lividos, d'onde vinham gritos, vozes exclamando em diversas linguas: 

-- Soccorro! Soccorro! Querem fazer voar o baluarte. 

O coronel avançava com o seu regimento e via já na sua frente o joven alferes que salvara ha pouco; gritava-lhe: Senhor! Recuae! 

Elle parecia não o ouvir e quando quiz parar era tarde. 

Só então viu o official que empunhava o morrão e gritava: 

-- Estão aqui os vossos prisioneiros! Recuae ou então faremos voar o baluarte e com elle o convento! 

Apontava com o morrão acceso a residencia dos Jesuitas que Catharina II acolhera; e no seu rosto nobre havia um sorriso d'orgulho. Falava em francez e tinha um ar heroico que encantava os turcos ao falar assim. 

Porém a subitas levou as mãos ao peito soltou um grito rouco e cahiu estatalado na neve onde o morrão se apagava ao mesmo tempo que os turcos soltavam um brado colerico. 

E Gomes Freire empunhando ainda a pistola fumegante com que salvara a vida dos prisioneiros e pela segunda vez a do joven alferes deu uma ordem e bradou para os inimigos: 

-- Rendam se! 

E juntando a acção á palavra esmagou no circulo d'aço das bayonetas, os rebeldes que se levantaram espavoridos ao verem-se prisioneiros. 

De baixo, do baluarte junto do convento sahiram mil gritos d'applauso, ao mesmo tempo que o joven alferes, acercando-se do coronel, exclamava: 

-- Senhor... Devo-vos por duas vezes a vida! Podeis dispor de mim para tudo! Deixae que aperte a vossa mão heroica que empunhando uma bandeira conduziu á victoria um grande exercito! 

Muzok, o soldado, olhava muito enternecido o coronel e nos seus olhos appareceram lagrimas ao ver o portuguez segurando a espada e bradando para o alferes: 

-- Aqui tem a minha mão, mancebo... E fica ás vossas ordens o coronel Gomes Freire! 

-- Gomes Freire! Sois hespanhol? Não é assim? Já ouvi falar muito de vós, porém não vos conhecia... Oh! quanto folgo em vos dever a vida, em ter contrahido para comvosco a mais sagrada das dividas. 

-- Sou portuguez, mancebo! bradou com orgulho Gomes Freire. 

-- Portuguez! Oh!É para mim ainda mais intenso o jubilo, porque emfim pertencemos ambos a dois paizes alliados... 

-- Qual é a vossa nacionalidade? 

-- Sou inglez! Chamo-me mylord Arthur Campbell e sirvo na Russia para entreter ocios! 

-- Pois mylord Campbell sois um valente! E agora que a Russia venceu em Oczakow, permitti que vos saúde como um dos que mais concorreram para esse feito! 

O inglez ia responder mas n'este momento abriam-se as portas da fortaleza onde se encontravam os prisioneiros e elles sabiam de tropel. Á mistura com os uniformes esfarrapados viam-se muitos habitos de burel das freiras que os turcos tinham recolhido além junto com os padres catholicos encontrados no convento. 

Accendiam-se archotes e viam-se rostos lividos, braços que se erguiam ao som das musicas festivas que começavam a tocar.

E quando mylord Campbell ia dizer mais umas palavras a Gomes Freire, este viu na sua frente um homem vestido de negro que exclamava: 

-- Sr. official! Sr. official soccorra-nos! Os prisioneiros morrem de fome! Os turcos logo que lhes faltaram as provisões deixaram de pensar n'elles: 

-- Oh! Com mil bombas! bradou o inglez estupefacto. 

Gomes Freire, lançara um breve olhar ao homem vestido de negro e reconhecera n'elle um padre catholico, olhou então a fortaleza e exclamou: 

-- Mylord Campbell! Ide dizer por favor, ao principe de Sovatow que lhe peço de comer para os desgraçados prisioneiros! 

O inglez affastou-se de corrida e n'aquelle momento, o coronel Ivan, chegando-se ao official portuguez, bradou: 

-- Sois o coronel Gomes Freire! 

-- Sou eu, senhor! 

-- Vinde á presença do commandante em chefe! 

-- Gomes Freire! murmurou assombrado o padre catholico, olhando o cheio de terror e affastando-se para o grupo dos prisioneiros. 

O coronel Ivan, dissera rudemente aquella ordem ao heroe que se dirigia para o logar onde se encontrava o commandante em chefe. 

Então, ao vel-o partir, Ivan fechou o murro e bradou em russo: 

-- Oh! Ainda vivo este miseravel! Maldito soldado que não cumpriu a promessa! Serei eu então que cumprirei a promessa que fiz a Volty? 

Porém sentiu-se agarrado por um hombro e ouviu uma voz bradar-lhe: 

-- Deus te defenda de lhe tocares coronel Ivan! 

-- Muzok! exclamou elle voltando-se e reconhecendo o soldado. 

-- Sim eu! bradou, os seus olhos estavam injectados de sangue e continuava: Eu que sou patriota e vejo no coronel portuguez um heroe que acaba de servir valentemente a Russia! 

-- Roubando a gloria ao? nossos! Mas não será por muito tempo! 

O soldado fez-se livido, olhou o coronel, e exclamou: 

-- Que lhe fareis? 

-- Matal-o-hei, desde que te tornas seu cumplice! 

-- Seu admirador, seu servo porque amo a Russia, gritou o soldado. 

-- Oh! Pagal-o-has! 

-- Coronel! Não desisteis do vosso proposito? interrogou serenamente, Muzok. 

-- Nunca! 

-- N'esse caso, S. Miguel me perdôe! exclamou elle cravando um punhal no peito do ofíicial e buscando arremeçal-o de seguida para o fosso. 

Mas Ivan, no estertor, agarrara-o fortemente e o soldado sentindo-se tambem arrastado para o precipicio, bradou: 

-- Ah! Miseravel! Querias o mal da Russia pelo odio a um homem! Mas Muzok, o soldado, ama a patria acima de tudo! 

N'um puchão soltara-se-lhe dos braços e depois agarrando-o com força herculea atirou-o do alto da fortaleza para o fosso, gritando: 

-- É um dever de patriota o que acabo de cumprir! 

Porém era agarrado brutalmente por alguns soldados e exclamavam: 

-- Ah! Muzok assassinou! Á morte! Á morte! 

A manhã rompia dando á planicie gelada uns tons de zinco, e a bandeira russa desfraldava-se nas muralhas de Oczakow. 







X 





A recompensa 





Com o principe, falara Gomes Freire alguns momentos, que lhe tecera elogios sem par e exclamava ao apertar lhe a mão em face de todo o seu estado maior: 

-- E agora nomei-vos governador da praça até que partamos para a Polonia que se revolta e onde a vossa espada é necessaria á causa russa! Catharina II, saberá premiar o vosso valor... 

-- Principe! Exclamou o coronel fazendo-se pallido ao ouvir aquelle convite e ao recordar-se da Polonia, eu quero partir! Não posso acceitar as vossas mercês!

-- Partir? 

-- Sim... Quero regressar a Portugal! 

-- A Portugal! Mas porque não ficaes para sempre ao serviço da Russia? 

-- Porque talvez o meu paiz careça de mim... volveu elle com um ar extranho cumprimentando mais uma vez o commandante. 

N'este momento ouviu-se uma grande algazarra fóra da sala onde se passava esta scena e alguns homens inrrompiam exclamando: 

-- Temos fome! Temos fome! 

Eram os prisioneiros dos turcos que chegavam a solicitarem ao principe o soccorro que Gomes Freire pedia. 

Um homem alto de boa apparencia vestido no uniforme de capitão do exercito russo, avançava para,o principe e gritava: 

-- Senhor! Nós chegámos ao ultimo extremo! Lá em baixo ha quatro centros homens semi-mortos de fome e feridos pelos turcos que nos inflingiram maus tratos! A praça cahiu em poder do exercito que nós servimos, só resta implorar o vosso soccorro! 

-- Gomes Freire, voltou-se rapidamente ao ouvir esta voz e exclamou: 

-- Vasco! 

O outro estremecia, soltava um grito e lançando-se nos braços do amigo, tremulo de alegria e ebrio de mais extranha anciedade exclamava: 

-- Gomes Freire! Tu! Oh! Tu meu amigo! Tens noticias de Portugal? 

-- Não, meu amigo, não tenho! Volveu elle apertando-o cada vez mais ao peito e tendo ambos estampados no rosto, signaes evidentes do mais intenso jubilo. 

-- Mas como te encontras aqui, Vasco? 

-- Fui prisioneiro dos turcos em Odessa! Obrigaram-me a atravessar as cidades por entre o gelo emquanto eu via cahir os nossos infelizes companheiros! Uma vez aqui chegados atiraram-nos para o fundo d'um subterrâneo á mistura com os habitantes da cidade e com as mulheres e os frades do convento! E, Gomes Freire, tu vaes ver que a mão de Deus nunca nos abandona porque... 

Porém elle interrompia-o tomado de furia e bradava para o principe: 

-- Senhor, é este o meu amigo Vasco de Miranda a quem os russos accusaram de traidor! 

-- Traidor eu! Bradou o official cheio da mais intensa colera, accrescentando: 

-- Mas onde se encontram os que me accusaram? 

-- Senhor! Dentro em pouco recebereis os nomes de todos esses homens que vos intrigaram! volveu o principe, dizendo de seguida: 

-- Porém dae-me a vossa mão! O principe de Suvatow chama-vos seu amigo porque o sois do heroe ao qual devemos estar aqui! 

-- O que, Gomes Freire! Pois foi elle? Exclamou alegremente correndo a apertal-o ainda nos braços.

-- Sim elle que é uma gloria militar a quem a Russia deve uma iminente victoria! Os que accusaram ambos estão desarmados com este feito e agora resta-nos proceder como homens d'honra ante calumniadores! 

De fóra chegavam sempre os mesmos gritos dos que pediam pão, ouviam-se gemidos e ferinas imprecações, emquanto o principe dava as necessarias ordens para que fossem soccorridos, concluindo a dizer: 

-- Senhor Vasco de Miranda, convido-vos para almoçar na minha companhia e na do vosso amigo a quem sua magestade ha-de fazer cavalleiro pelas suas brilhantes acções... A medalha de S. Jorge que só se concede aos grandes da Russia será a recompensa mais digna de tal heroe!

Vasco, louco de jubilo, inclinava-se ante o principe e dizia: 

-- Senhor... Primeiro, eu e Gomes Freire, temos um outro de ver a cumprir! 

-- Um dever? Qual? Bradou o coronel rapidamente. 

-- Gomes Freire! Ha pouco, quando eu dizia que Deus não nos abandonara, tinha uma poderosa razão para fallar assim! disse elle com gravidade. 

-- Eu aqui exilado, longe de minha mulher e do meu pequenino Vasco, tive uma das mais imensas alegrias da minha vida. E por ti, meu amigo, por ti a quem sabia na Russia e qual o fim que te conduzira! 

Gomes Freire, muito livido, os olhos dilatados apenas bradou. 

- Elvira!

-- Está aqui, meu amigo! 

Foi conduzida de Lisboa pelo geral dos jesuitas para este convento que Catharina II concedeu á Companhia de Jesus! 

Narrou-me as suas dores durante o captiveiro, fui eu que a protegi dos insultos d'esses barbaros, eu que velei por ella que para mim representava a tua noiva! 

Fallavam em portuguez de forma que o principe e o seu estado maior não os comprehendiam mas viam que alguma cousa de muito extranho se passava porque o coronel empallideceu, ficou um momento sem poder fallar e gritava de seguida: 

-- Oh! Vasco! Vasco! Porque o não o disseste logo! 

E para o principe, louco de jubilo, gritava: 

-- Alteza! A maior recompensa que a Russia me podia dar Deus acaba de me conceder! 

E sem se deter um momento, arrastando Vasco para fóra do aposento, exclamou: 

Mas onde está ella? onde está ella? 

-- Deixei a na fortaleza! Vamos... Mas é necessaria cautella! Está muito fraca e uma grande alegria pode matal-a! 

Sovatow, o principe, sahiu tambem, em seguimento dos dois portuguezes, porem no caminho era detido á vista dos prisioneiros que devoravam os mantimentos e perante um grupo de soldados que conduziam Muzok sob prisão. 

-- Que quer dizer isto? perguntou com authoridade o principe ao ver que arrastavam aquelle homem. 

E então viu perfilado na sua frente mylord Campebell o joven alferes inglez, que bradava: 

-- Este homem assassinou o vosso ajudante de campo, meu general! 

-- Ivan? bradou o principe cheio de pasmo. 

-- Sim, meu general, o coronel Ivan! Ha pouco além junto do fosso cravou-lhe um punhal no peito e arremeçou-o da fortaleza! 

O principe estremeceu de colera e bradou: 

-- Senhor alferes encarregue-se de lazer fusilar esse miseravel! 

Nem um só musculo da face de Muzok estremeceu, com a mais extranha serenidade, olhou o seu chefe e exclamou: 

-- Graça por uma hora, meu senhor! 

-- Esperas o teu perdão vindo de Moscovv? chasqueou um dos soldados. 

-- Espera a graça de sua alteza! Quero apenas uma hora de vida... Desejo ter uma entrevista com um official! 

-- O nome d'esse official? Interrogou o principe um pouco admirado com aquelle pedido do soldado. 

-- É o coronel Gomes Freire! O heroe! 

-- Gomes Freire! bradou mylord Campebell, bem como o principe! 

-- Sim elle! 

-- Mas que pode haver de commum entre ti e esse grande homem? Interrogou o principe. 

-- Ha que elle corre perigo! É necessario salval-o para bem da Russia! gritou o soldado. 

-- Não comprehendo! 

-- S. Miguel me perdoará, disse com fanatismo o Muzok. 

-- Mas que perigo corre o coronel? Ordeno-te que falles, miseravel! ordenou o principe. 

-- Tem inimigos! 

-- Quem são? 

-- O vosso general! volveu elle ainda com altivez entre os que seguravam, continuando: 

-- Um homem invejoso da sua gloria e que o accusava de traidor, armando-me o braço esta noute para que o assassinasse! 

Olharam-no estupefactos, julgando-o louco; porém o principe pareceu comprehender bem tudo aquillo e exclamou: 

-- Como te chamas. 

-- Muzok, o filho de Arzor Leumitow de Moscow! 

-- Pois Muzok... acompanha-me! Ordenou o principe, e para os soldados disse: 

-- E vós outros segui-me a distancia. 

Depois encostado ao reparo d'uma peça, olhando a planicie immensa e onde acampava o resto do exercito, disse para o soldado: 

-- Quem te armou o braço! 

-- O homem que assassinei! 

-- O meu ajudante? perguntou muito admirado, o chefe. 

-- Elle mesmo... O coronel Ivan por conselho do general Voltey a quem prometti matar o grande official! Segui-o durante a noute, julgando-o um falso, vi-o avançar para as linhas turcas e Muzok apertava o seu yatagan para lhe decepar a cabeça! Julgava o um inimigo da Russia, como me dissera o general, um que servia a Polonia e buscava dar a victoria aos turcos! Vi-o avançar pelo gelo e chegar ás primeiras sentmellas com os seus homens! A todos julguei traidores e quiz voltar a prevenir, mas Gomes Freire estava ali e devia morrer! 

O principe olhava admirado aquclle patriota que assim falava e nos seus olhos passavam uns clarões quasi alegres. 

O outro continuava: 

-- Porém cheguei as avançadas e vi como atravez um sonho, o coronel attacando os turcos, vi como penetrava na fortaleza, como ganhava uma praça e uma brilhante victoria! Puz-me a sou lado para morrer! 

-- Morrer!

-- Sim meu general, morrer, porque eu estivera a ponto de fazer um grande mal á minha patria! 

O principe estremeceu de novo e encarou ainda com maior pasmo o soldado que continuava: 

-- Depois da victoria encontrei Ivan que me increpou. 

-- Elle? O coronel? 

-- Sim! 

-- E então... 

-- Assassinei-o porque o traidor era elle! Porque jurava ainda matar Gomes Freire! Depois quiz sahir da praça e ir fazer o mesmo ao general! 

-- Oh! Oh! 

-- Mas fui agarrado e feito prisioneiro! 

Suvatow passou a mão pelo rosto e murmurou algumas palavras inintelligiveis. 

-- Principe, concedei-me agora que falle ao coronel... Preveni-o vós mesmo de que tem inimigos mas deixae ainda que eu beije a mão que collocou primeiro a bandeira da Russia nas muralhas d'Oczakw. 

-- Sim soldado, será feita a tua vontade, mas de seguida sereis fusilado para punir o crime de assassinares um chefe! 

Encolheu os hombros desdenhoso e volveu: 

-- Que importa a morte? 

-- O quê deixas então a vida com alegria? interrogou o general n'um ar sonhador. 

-- Sim... 

-- E porquê? 

-- Porque eu ia impedindo que a Russia contasse mais uma victoria. 

Então aquelle principe olhou com admiração o soldado; via bem que elle levado por uma extranha fé patriotica não tinha o minimo remorso pelo assassinio do chefe, julgava ter cumprido o seu dever e ia morrer cheio de jubilo 

Suvatow, encarou-o com dignidade e n'um ar triste, disse: 

-- Vae! 

Fez um gesto a escolta e deixou que o soldado partisse depois de ter bradado: 

-- Esse homem só será fusilado amanhã ao alvorecer! 

Retirou-se taciturno, cada vez mais compungido, cheio de pena, mas querendo ainda assim cumprir o que julgava um dever. 

Mylord Campebell falava tambem cm voz baixa com o prisioneiro desde que o ouvira pronunciar o nome de Gomes Freire. 

Agora ás portas da fortaleza passava um carro d'onde sahia um homem envolto em pelles e que subia pela escada em direcção ao logar onde estava installado o quartel general; porém encontrava-se face a face com o principe de Suvatow e exclamava: 

-- Sois vós, o commandante em chefe do exercito não e verdade, principe de Suvatow? 

Elle recuou, correspondeu á saudação do desconhecido e volveu: 

-- Sim, cavalheiro! A quem tenho a honra de falar? 

-- Ao conde de Plok... 

O principe olhou-o com desconfiança e exclamou: 

-- Nobreza polaca?! 

Elle sorriu d'uma forma mysteriosa e volveu: 

-- Perguntae ao rei dos palacos, a Poniàtowiski! 

-- Conheceis o rei? 

-- Lede esta carta! e estendia ao principe um papel dobrado que tirou do peito de sua pelliça. 

O outro leu olhou-o espantado e estendeu-lhe rapidamente a mão, bradando: 

-- Estou ao vosso dispor? 

-- Agradeço-vos e o rei da Polonia vol-o agradecerá também! 

-- Em que vos posso ser-vos util? interrogou o principe. 

-- Ides sabel-o... 

-- Falae... 

-- Careço apenas d'uma informação... Se não estiverem aqui as pessoas que procuro pedir-vos-hei apenas um salvo conducto e apresentações para os governadores das cidades visinhas... 

-- De bom grado, vol-as darei, senhor... E agora dizei do que se trata? 

-- Tendes ao vosso serviço dOiS officiaes portuguezes? 

-- Os seus nomes? 

-- Vasco de Miranda e Gomes Freire de Andrade! volveu o outro com anciedade! 

-- O ultimo, senhor, é a quem devemos estar aqui! 

-- O quê? 

- Sim... Gomes Freire é o homem que tomou Oczakw, 

O desconhecido olhou a planicie e tomando o braço do principe exclamou: 

-- Preciso falar-lhe! Não me tinham enganado, é um heroe! Mas depressa, senhor, conduzi-me onde elle se encontra. 

O principe arrastou-o então para o reducto dos prisioneiros. 







XI 



Corações que sangram 





Ao entrar n'aquelle logar onde se amontoavam os prisioneiros todos envoltos em farrapos, as faces esqualidas, chupadas, recuou como attingido por subito mal e viu que Vasco de Miranda avançava para os desgraçados que devoravam a comida que o principe lhes mandara distribuir. 

Eram quatrocentos seres dos dois sexos, os homens cobertos de fendas, envergando restos de fardas ou habitos religiosos encobrindo peitos sãos porque os padres não tinham combatido, as mulheres aldeãs das pequenas villas e as damas da cidade, agglomeradas com as freiras envoltas nos seus bureis. 

Passou a mão pela fronte, scntiu-se agitado por um grande estremecimento e murmurou: 

-- Elvira... Elvira... 

Na sua frente, hirta, delgada, como um phantasma, estava uma mulher vestida de religiosa, as faces lividas, d'uma pallidez de cêra, os olhos encovados, e que tremia de commoção ao defrontar-se com o heroe além na boca do humido subterraneo, onde os outros agonisavam e curtiam dores. 

As creancitas sobretudo, tinham um ar extranho de grande soffrimento, e dos seus labios sahiam risos claros, ao verem-se livres. 

A mulher continuava a olhar Gomes Freire que lhe pronunciara o nome n'aquelle breve murmurio; e depois cada vez mais commovida passando no rosto a mão diaphana a esconder as lagrimas, gritava: 

-- Gomes! Gomes! 

-- Oh! És tu! Tu... Oh! Graças, meu Deus! bradou elle, emquanto Vasco de Miranda se recolhia n'um canto mais sombrio escutando a scena, tomado de enorme desgosto ante aquella grande dor do amigo que quasi não reconhecia a mulher amada. 

Corria para ella n'um impeto e apertava-a nos braços, estreitava-a ao peito no auge da amisade, a mais sincera e á vista d'aquellas lagrimas que escorriam lentas pelo rosto macerado da monja; e bradara: 

-- Elvira! Elvira! Acabaram-se agora os teus soffrimentos... Esta longa separação, teve emfim termo... Vim de Portugal no proposito firme de te encontrar... Sabia-te na Russia e precorria-a em todas as direcções que o acaso da guerra me fornecia, penetrei em todos os conventos d'onde buscava arrancar-te para cumprir a minha promessa. 

Encarou-o quasi serenamente na sua attitude meiga e piedosa de santa e volveu: 

-- Oh! Tenho soffrido muito, tambem, desde o dia em que me internaram nos carceres da Inquisição depois de me terem arrancado dos teus braços... Eras o meu noivo, o amante idolatrado d'uma mulher nova que jurara pertencer-te e a mais ninguem... Inflingiram-me torturas sem par, fallaram-me d'aquelle homem que se queria tornar meu marido e ao qual devemos uma grande parte  dos nossos males, e emfim, fizeram-me sahir da patria, arrastaram-me até aqui. .. Uma vez internada no convento a minha vida foi uma longa série de dôres horriveis e Gomes Freire, juro-te que cheguei a descrer de Deus! 

-- Oh! minha querida... minha santa esposa! bradou elle tomando-lhe a mão e arrastando-a para o alto da fortaleza além para o grande ar, dizendo sempre: 

-- E que pensaste quando não me viste chegar? 

-- Que ignoravas o logar do meu exilio... 

-- Tinhas razão... E no emtanto só bem tarde o soube... Oh! Mas agora... 

-- O quê? 

-- Chegou o momento da nossa felicidade! 

-- Quem t'o disse? 

-- O meu coração, o amor que nos liga, a liberdade de que gosamos. 

O heroe cobria-lhe as mãos de beijos e não reparava na transformação soffrida pela monja, que estremecia e dizia depois como n'um sonho: 

-- Liberdade?! 

-- Sim... Offereceram-me ha pouco o logar de governador d'esta cidade e eu não o acceitei, e sabes porquê? 

-- Não... 

-- Porque desanimara de te encontrar, porém agora... 

-- O quê? 

-- Ficarei, acceitarei todos os postos que Catharina II me queria conceder e serei o teu esposo, aqui bem longe d'essa patria que nos torturou, que nos fez soffrer! Vasco de Miranda regressará ao seu lar, nós formaremos aqui o nosso!... 

-- O nosso lar?... Oh! Mas meu amigo, isso é impossivel! exclamou ella derramando copiosas lagrimas. 

-- Impossivel? E porque? perguntou o coronel no auge da agitação. 

-- Porque não posso ser tua esposa... 

-- Elvira! gritou elle com o maior dos desesperos ao ouvil-a fallar assim. 

-- Meu amigo! 

-- Mas que se oppõe então a que eu cumpra o meu dever? 

-- Os votos que me ligam a Deus! tornou ella desesperada tambem. 

-- O quê? Pois tu...? 

-- Sim, Gomes Freire. . Eu sou freira... Professei! 

Então, o coronel, cheio de intensa raiva, tomado de louca furia, gritou: 

-- Descreras então de mim? 

-- Soffrera muito! 

-- Oh! Mas sem duvida obrigaram-te a tomar semelhante resolução! 

Hesitou uns momentos, enxugou algumas lagrimas que lhe corriam no rosto e murmurou: 

-- Não... Não... Fui eu que busquei esquecer o mundo! 

-- Não te lembravas então que havia longe de ti, um homem cuja alma anciava pelo momento de te ver... Um homem que contrahia para comtigo o dever de ser teu esposo? 

-- Oh! No seio de Deus busquei o conforto para as maldades da terra! 

-- E destruiste a nossa felicidade, o nosso futuro! gritou elle cheio de intensa colera. 

-- Gomes, perdôa... perdôa... Porém eu soffria muito! 

Então, aquelle heroe, o homem que por um rasgo de audacia tomara uma fortaleza, commoveu-se também e enxugou á pressa duas lagrimas. 

Mas de repente, retomando toda a sua energia, gritou: 

-- E que importam os votos? Antes de seres de Deus, pertencias-me! 

-- Gomes! Isso é um sacrilegio... 

-- Tu disseste ha pouco que duvidavas de Deus! 

-- Mas depois, foi n'elle, foi na religião que achei conforto, durante os longos seis annos que aqui vivi... Os turcos chegaram e eu soffri com resignação... Na minha memoria passava-se como uma transformação rapida, e eu dizia commigo que na minha ultima hora devia ter resgatado o passado... 

Fez um gesto desesperado de louco, encarou-a mais uma vez e gritou enraivecido: 

-- E julgas acaso que atravessei os mares, que cheguei á Russia, que luctei, para te deixar n'esse convento? 

-- Mas que queres fazer? perguntou ella assustada. 

-- Tornar-te a minha esposa estremecida! 

-- Oh! Gomes... E os meus juramentos... 

-- Recebi-os eu primeiro... 

-- Porém isso constituiria para mim um cruel remorso! 

-- Elvira... Eu tive outr'ora a coragem d'um sacrilegio... 

-- Em que eu fui cumplice! 

-- Arrependes-te? 

-- Paguei-o... Penitenciei-me apesar de te amar como então! 

-- Pois bem... Mesmo sem a tua cumplicidade terei de novo a coragem de ser sacrilego! bradou o coronel no auge da excitação. 

-- Gomes! Gomes! Pelo nosso amor te supplico! exclamou ella desolada. 

E a longa planicie nevada, com reflexos de zinco estendia-se por alli fóra como um deserto immenso. 

Elles estavam sempre face a face e debatiam aquelle problema. 

O coronel, cheio de furia, a monja com uma serenidade doce de santa, as faces banhadas de pranto, encolhida no burel que lhe disfarçava as formas, supplicando sempre. 

-- Ah! Sou muito infeliz! Mas dedicarei á vingança uma vida inteira! 

-- E de quem vos quereis vingar Gomes Freire? perguntou de repente uma voz a seu lado, e elle voltando-se viu aquelle padre que encontrara de manha. 

-- Dos que para aqui conduziram a minha noiva, dos jesuitas que me roubaram a felicidade! exclamou elle olhando altivamente o frade e accrescentando: 

-- E que quereis vós, senhor? 

-- Dizer-vos que não deveis cometter esse sacrilegio! tornou o outro como se dispuzesse a tudo. 

-- Com que direito me fallaes assim? 

-- Com o direito d'um homem que vos vem offerecer a vingança, replicou o outro, cruzando os braços. 

-- Fr. Fabricio! exclamou a monja cheia de desespero. 

-- Deixae minha irmã... É necessario que cumpra tambem o meu dever! 

-- O dever d'um padre, talvez d'um jesuita! exclamou o coronel, d'um modo que alegrou o frade. 

-- Sim, d'um jesuita! tornou serenamente. Um jesuita que vos vem dizer o seguinte: 

-- A vossa noiva, essa monja que hoje não vos pode pertencer, representa a vingança da Companhia de Jesus, a vingança d'um homem... 

-- Ah!... 

-- Sim... Dum homem que atravez de tudo fazer-vos sangrar o coração para saldar uma grande divida! 

-- Uma divida! 

-- Fr. Fabricio! bradou de novo a monja. 

-- Sim... Uma divida aberta entre a vossa familia e a d'elle... Esse homem veiu tambem á Russia para se vingar, depois de ter feito em Portugal todas as diligencias para o conseguir, porém sem resultado... Era um filho que buscava vingar sua mãe, victima, segundo elle julgava, de vosso pae! 

-- De meu pae? gritou Gomes Freire assombrado. 

-- Sim, nos tempos em que Ambrasio Freire, frequentava a Universidade... 

-- E que succedeu, senhor? Meu pae era um homem d'honra! 

O jesuita lançou-lhe um breve olhar e volveu: 

-- Dera-se com elle um triste episodio... Tivera amores com uma joven da qual nascera um filho, jurara unir-se com ella pelo casamento, porém não cumpriu a sua promessa porque os seus lhe negavam esse consentimento... 

-- Bem e depois? exclamou deveras irado e impaciente, o coronel. 

-- Essa joven, era filha d'um simples barqueiro do Mondego que n'uma noute aguardou o fidalgo á sabida de casa da filha e lhe vibrou uma punhalada... Passava um bando e arrancando-o dos braços da joven que o occultava, foi conduzido á cadeia emquanto vosso pae perdia os sentidos e ficava um mez entre a vida e a morte velado pela mulher cujo pae para defender a sua honra, jazia entre os ferros d'el rei... 

-- Bem e depois! 

-- Quando elle se restabeleceu ella banhada em lagrimas contou-lhe tudo e supplicou-lhe o perdão do pae... E então... 

-- Então... então?... interrogou o coronel muito interessado n'aquella historia que desconhecia. 

-- Então é aqui que está o horrivel da historia! 

-- Fallae! exclamou elle muito impaciente. 

-- Vosso pae comprehendeu a acção do pobre homem e escreveu á sua familia a narrar-lhe o caso e intercedendo pelo desgraçado... Vosso tio partiu para a côrte, e dentro em alguns dias vosso pae, era nomeado para a embaixada portugueza em Roma... 

-- E o barqueiro? gritou elle com grande agitação, emquanto Elvira de Mello exclamava: 

-- Oh! Fr. Fabricio por piedade! 

-- Descançae soror... Já sei a verdadeira historia! 

-- Ah! Então a que me narrastes era falsa? perguntou ella anciosamente. 

O jesuita não respondeu, fez-se pallido e continuou: 

-- E o barqueiro era enforcado. 

-- Enforcado! Oh! Mas n'esse caso, meu pae... 

-- Supplicara o seu perdão, vosso tio rojara-se aos pés do marquez de Pombal, cujo irmão servira com vosso avô em Pernambuco... 

-- Ah! E depois... depois?... 

-- O grande ministro, com effeito expediu a ordem de soltura que chegou no momento em que o desgraçado expirava na forca... Vosso pae tinha partido para o seu solar a activar o perdão do criminoso e quando voltou a Coimbra entrou na pequena casa onde occultava os seus amores e não encontrou a mulher amada que julgando-se abandonada quizera suicidar-se... Procurou-a mas debalde... Ella levando o filho ao coUo lançara-se ao rio Mondego... 

-- Morta tambem! bradou o official aterrorisado. 

-- Não... Ambrosio Freire, tinha um amigo que sabia dos seus amores e conhecia bem esta extranha historia, um amigo que soubera da sua partida, do papel desempenhado por elle no perdão do criminoso... Porém chegara o tempo das ferias e o outro não recebera noticias de Ambrosio Freire ... De volta a Coimbra chegou a tempo de salvar a joven com quem fallara momentos antes! Ignorava que vosso pae partisse para Roma e apesar da confiança que tinha no seu caracter duvidou d'elle também! 

-- Ah! E depois? Depois? 

-- Em vez de se recolher no seu quarto de estudante, partiu para a sua casa da provincia e levou comsigo a joven... Como não recebesse noticias de Ambrosio Freire, durante um anno, julgando que elle abandonara a desgraçada, tornou-a sua esposa!

-- Meu Deus! 

-- Porém um dia voltando a Coimbra o seu antigo companheiro de quarto, entregou-lhe um masso de cartas recebidas durante um anno e enviadas por Ambrosio Freire que pedia contas da mulher amada e lhe enviava uma grande quantia para que se fosse encontrar com elle a Roma e com o filho que reconheceu! 

-- Ah! Esperava isso... Meu pae era um homem digno! 

-- Porém o amigo narrou-lhe toda a verdade e concluia a sua carta dizendo-lhe que a tornara sua esposa! 

-- Mas senhor, não vejo ahi motivo para vingança? 

-- Ah! É que ao filho d'essa mulher houve alguem que se encarregou de contar a historia d'outro modo! 

-- Dizendo-lhe talvez... 

-- Que vosso pae abandonara a desgraçada e pedira a Pombal a morte do barqueiro! 

-- Ah! E com que fim disseram isso a meu irmão? 

-- Para que elle se vingasse n'um homem que era inimigo dos jesuitas! 

-- Ah! foram então elles?... 

-- Sim... Foram elles que me impelliram á vingança, que me obrigaram a traições, que me levaram a fazer professar a vossa noiva devorado pelo desejo de vingança. 

Gomes Freire, soltou um grito enorme e bradou: 

-- Ah! sois então vós o meu inimigo? 

-- Sou a victima dos jesuitas! Perguntae-o a Vasco de Miranda! 

-- Sim amigo! bradou o official apparecendo de repente. Este homem serviu d'instrumento á seita... Accusaram-no contando-lhe uma historia falsa para que elle não desistisse da vingança o que conseguiram, roubando-te para sempre a mulher que amas! 

-- Ah! Miseraveis! bradou Gomes Freire empallidicendo e perguntando de seguida: 

-- Mas como só agora, souberam a verdade? 

-- Porque eu lh'a narrei! exclamou Vasco. 

-- Tu? 

-- Sim... 

-- Porém nunca me fallaes d'elle... 

-- Meu pae contara-me occultando-me os nomes, fallando apenas... 

-- De quem? 

-- De si proprio. Gomes Freire, porque era elle o amigo de teu pae! 

-- Oh! Mas n'esse caso... fr. Fabricio... 

-- É teu irmão por teu pae, é meu por sua mãe! 

-- Oh! É singular e no emtanto... 

-- Fiz-vos muito mal, não é assim? Mas juro-vos que não mais me vereis! Que saberei punir-me também! 

-- Fr. Fabricio! exclamou Gomes Freire com certa piedade, comprehendendo bem como elle servira de instrumento aos miseraveis. 

-- Chamae-me Luiz de Berredo e Freire ... O fr. Fabricio, o jesuita, morreu no dia em que comprehendeu a Companhia de Jesus! 

-- Mas n'esse caso agora?... 

-- Irmão! Quereis perdoar-me o meu crime? exclamou o frade. 

Gomes Freire, olhou Elvira que aioelhava na plataforma da torre e cujos olhos se erguiam ao céu n'uma prece, depois volvia um olhar para Vasco e ouvia dizer: 

-- Perdoa-lhe amigo, eu t'o supplico em nome de teu pae!

-- Sim Luiz de Berredo, a meus braços... Agora a minha vida pertence á vingança exercida sobre aquelles que vos impelliam... Elvira não póde ser minha, para que me serve, pois, a vida? Irei até ao fim! 

O outro cahiu-lhe nos braços e exclamou commovido: 

-- Agora serei eu quem vos vingará... 

Ficaram então todos tres abraçados no mesmo fraternal amplexo, emquanto a freira dava graças ao céu por aquelle perdão do coronel. 

Por fim Gomes Freire, acercou-se d'ella muito commovido ergueu-a nos braços e exclamou: 

-- Elvira tu não podes ficar n'este convento! 

-- E porque? 

-- A Companhia de Jesus tem aqui os seus adeptos. 

-- E para onde irei? 

-- Elvira, não podes ser minha noiva, sê minha amiga! disse elle deveras commovido. 

-- Mas sou, como de ninguem... 

-- N'esse caso recolhe-te ás Ursulinas de Vienna, onde se praticam as mais altas virtudes! Mais tarde quem sabe o que succederá! 

E ficaram todos como paralysados, engolfados nos seus pensamentos em face da planicie côr de zinco. 











XII 







José Balsamo 





Era dia de festa em Oczakow. 

Desfraldavam-se bandeiras por toda a cidade, os sinos dos conventos repicavam festivos e as musicas atroavam os ares. 

Gomes Freire, era o heroe cujo nome andava em todas as boccas mal pronunciado pelos slavos de grossa voz guttural e selvatica. 

E no emtanto na sua physionomia apesar de todas as saudações que recebia, havia alguma cousa de extranho, uma grossa ruga lhe encrespava a testa e passeava deveras agitado na sala que a amabilidade do principe de Sumatow lhe reservara. 

Para a noute estava projectada uma grande festa em que as damas d'Oczakow tomariam parte em honra do heroe. 

E no emtanto, elle continuava sempre do mesmo modo extranho, agitado, passeando na sala. 

A subitas a porta abriu-se e Vasco de Miranda, vestindo um uniforme novo de capitão do exercito russo, penetrou no quarto com um modo abstracto, olhando o amigo que o interrogava avidamente, e exclamava: 

-- Então... 

-- Não ha meio volveu o outro. 

-- Ah! 

-- Elle está bem guardado na prisão da fortaleza. Tem sentinellas em todos os fossos e é servido por um carcereiro feroz... 

-- Pobre rapaz! murmurou o coronel com desalento. 

E recordava-se então muito d'esse soldado, de Muzok, com o qual se encontrara n'essa manhã e que lhe narrara o succedido, pedindo apenas a graça de lhe beijar a mão. 

-- E então impossivel salval-o? perguntou elle cheio de desespero. 

-- Completamente impossivel... A não ser que o principe... 

-- Sumatow! Ah! Não contes com elle! Suppliquei-lhe o perdão d'esse homem e negou-m'o apesar de me offerecer tudo quanto pudesse desejar, á excepção d'esse perdão... Quer manter a disciplina, e as leis na Russia devem ser severas! 

-- N'esse caso Muzok, será fusilado ao cahir da noute! 

Gomes Freire, passou a mão pela testa molhada de suor e murmurou:

-- Oh! E impossivel! 

-- Porém que fazer? 

-- Forçar tudo, atravessar os fossos, arrancal-o da prisão e conduzil-o comnosco! 

-- Porém... 

-- O que? 

-- Expomo-nos á mesma pena! 

-- Serei eu só que me exporei! Que me importa agora a vida? E depois esse homem para mim, representa uma grande alma! 

-- Gomes Freire! exclamou Vasco um tanto reprehensivamente. 

-- Que queres?! É o que entendo! 

-- Mas sabes que emquanto estiver a teu lado nunca te exporás sósinho... 

-- Perdoa amigo... Mas é que em Portugal existem uma mulher e uma creança que te esperam. 

Vasco, olhou-o enternecido e volveu: 

-- Maria e o meu pequeno Vasco...? 

-- Sim elles. .. Elles que não têem mais ninguem no mundo. 

-- Porém sabes que sou o teu irmão d'armas... 

-- Nunca consentirei que chegues ao extremo de um semelhante sacrificio... Esta noute irei, porém só... Arrancarei o soldado da prisão e partiremos juntos... Aguardar-nos-has na villa proxima e d'este modo partiremos para Portugal! 

-- Nunca Gomes Freire, acompanhar-te-hei n'essa extranha aventura... 

-- Irei só! exclamou elle com energia, n'uma inabalavel resolução. 

-- Não irmão, não irás só! gritou da porta a voz de Luiz de Berredo. Eu partilharei a tua sorte com a pessoa que me acompanha! 

E apontava aquelle homem que chegara na véspera e estivera conversando com o principe. 

-- Quem sois vós? interrogou Gomes Freire surprehendido e dirigindo-se ao recemchcgado. 

-- Um amigo do marquez d'Alorna! volveu o outro em portuguez. 

-- De D. Pedro?! exclamaram ao mesmo tempo Vasco e Gomes Freire. 

-- Sim d'elle que ficou em Portugal! 

-- Por Deus! Vindes de Portugal? perguntaram d'esta vez todos tres reunindo-se em torno do desconhecido. 

-- Sim... Venho de Lisboa... 

-- E que noticias nos daes de D. Pedro... 

-- O marquez! Mas elle proprio nos vae dizer as suas impressões! exclamou o recemchcgado entregando a Gomes Freire a carta de Alorna que o coronel começou a ler juntamente com o amigo, cujos olhos se arrazavam de lagrimas perante as referencias que o marquez fazia a sua esposa. 

-- E julga-me morto?! bradou elle de repente. Oh! E necessario que parta! E preciso socegar minha pobre esposa que assim se retira da côrte para carpir a sua viuvez... Pobre Maria, a julgar-me morto! Oh! Meu Deus como ella me ama! 

-- Sim ama-vos muito! Eu vi como ella soffria ao ouvir o correio russo dar noticias de Gomes Freire e dizer ignorar o que se passava a vosso respeito! Agora sei que éreis prisioneiro dos turcos! Mas depois, vossa esposa fez bem em sahir da côrte... E ainda assim no seu retiro precisa de ser protegida! 

-- O que? Corre então algum perigo? interrogaram elles deveras sobresaltados. 

-- O perigo que correm todos os amigos de D. Maria Benedicta desde que D. João reina com Carlota Joaquina! 

-- D. João! Mas e a rainha? interrogaram elles cada vez mais admirados. 

-- D. Maria I, está louca! 

-- Louca! bradaram cada vez mais admirados. 

-- Sim... Uma noute no theatro de Salvaterra, soltou um grito que fez estremecer toda a côrte.. A soberana estivera durante alguns mezes á disposição do seu confessor que a reduziu aquelle estado! 

-- Oh! Maldito! Maldito bispo do Algarve! bradou Gomes Freire, e logo com odio tornou: 

-- Eu devo partir, devo ir velar pela soberana... Devo velar pela esposa de Vasco... 

-- Descançae que outros vão cumprindo essa tarefa! 

-- Outros? 

-- Sim... 

-- Mas quem? Apenas o marquez de Alorna... 

-- E muitos outros desde os nobres até aos operarios! 

-- Mas... 

-- O que? 

-- Quem são esses homens que assim se expõem ás iras da Companhia de Jesus? interrogou o coronel admirado. 

-- Os pedreiros, livres! volveu o outro muito gravemente... 

-- Pedreiros livres?! Oh! E o intendente da policia? perguntou Vasco, no auge da admiração. 

-- Persegue-os com selvagem ardor! 

-- E n'esse caso... 

-- Descobre as exterioridades e esquece os grandes centros onde Alorna, Lafões e o abbade Correia da Serra, vão fazendo a obra, a grande obra que virá dentro em annos a dar o mesmo resultado que em França! 

-- Que em França? 

-- Sim onde a tensão dos espiritos tem chegado ao seu auge e onde eu preciso estar dentro em alguns dias para assistir á mais memoravel das revoluções! 

Olharam admirados aquelle homem que assim fallava e perguntaram de repente: 

-- Mas quem sois vós? 

-- Na Russia o barão Polok, um polaco amigo de Polinowisk! 

-- Do rei da Polonia? 

-- Sim... Porém em França, chamo-me, o conde de S. Germain, Cagliostro, e José Balsamo, como em Portugal me chamei o conde de Stephens! 

-- José Balsamo! exclamaram elles deveras admirados ante aquelle nome universalmente conhecido. 

-- Sim José Balsamo, sou eu! exclamou o maçon com aprumo. Sou eu que volto de Portugal onde o intendente da policia quiz exercer violencias sobre mim e onde acabo de fundar a maçonaria como a fundei em Inglaterra sob o patrocinio de lord Seymour e em França sob a direcção do duque d'Orleans! 

-- O irmão do rei! O irmão de Luiz XVI. 

-- E o seu peior inimigo! 

-- E vindes á Russia para a fundar tambem? 

-- Não... A Russia ha-de caminhar na rectaguarda das nações... A maçonaria existe em Vienna, em. Berlim, em Londres, em Paris, em Madrid, em Lisboa, no resto dos paizes cujas capitães citei... Na Polonia estende-se dia a dia... Está ainda na adolescencia mas em França vae dar um soberbo resultado! D'alli partirei para a America, irei até ao Brazil, mais tarde, e tenho a certeza de 

um dia conseguir uma republica universal! 

-- Mas quem sois vós? interrogaram assombrados. 

-- O homem que os reis encontrarão sempre no seu caminho, a quem chamam amigo e que os destruirá para que a humanidade marche para a verdadeira liberdade... Se vim á Russia foi para vos encontrar! 

-- A mim? 

-- Sim... Careço de vós para a minha empreza... De vós todos... Em França os grandes homens fazem n'este momento a revolução! bradou elle como um inspirado. 

-- Porém... 

-- O que? Não acceitaes? Lede bem a carta do Alorna! 

-- Já a li, senhor... 

-- E que respondeis! 

-- Que desde a juventude sonho com a liberdade! volveu Gomes Freire. 

-- N'esse caso iniciar-vos-heis no Oriente Lusitano, não é assim? 

-- Decerto, com os meus amigos... 

-- Que dizeis senhores? interrogou José Balsamo. 

-- Que odeio a Companhia de Jesus d'onde sahi e que nunca acatarei como escravo os reis! Estou prompto a auxiliar a vossa obra! gritou fr. Fabricio ao recordar-se ainda da traição que os outros tinham praticado e do acto infame a que o arrastaram. 

-- E vós, Vasco de Miranda? perguntou de novo o grão mestre. 

-- Oh! Eu... Estou ligado a Alorna e a Gomes Freire para a vida e para a morte! 

-- N'esse caso irmãos, confio em vós! 

Elle tirando da algibeira uma roseta branca que era o signal da maçonaria, e entregando-lhes uns papeis por onde se reconheciam maçons, e exclamou: 

-- E agora estamos ligados para sempre! Conheço-vos em demasia... A vossa iniciação será uma simples formula! 

-- Grão-mestre! exclamou de repente Gomes Freire. Concedei-me licença, porém, tenho n'este momento um grave dever a cumprir! exclamou Gomes Freire vendo que a noite se approximava. 

-- Ah! Já sei de que se trata! 

-- Vós? bradou elle deveras admirado. 

-- Sim... Eu! Ides ver... 

Chegou á porta soltou um silvo prolongado por entre dentes e ao qual appareceu um homem que se curvou ante elles. 

-- Demetrio! exclamou o grão-mestre. Conduzi estes senhores á prisão de Muzok, o soldado que deve ser fusilado d'aqui a horas. 

-- Sim excellencia! volveu o outro que era o chefe da prisão inclinando-se de novo e fazendo um gesto aos presentes que cada vez olhavam José Balsamo com maior pasmo. 

-- Mas... Que poder é o vosso senhor? exclamou de novo Gomes Freire. 

-- Ah! Esquecia-me de vos dizer que salvei uma vez a vida ao rei da Polonia, que como sabem é o favorito de Catharina II... 

-- E depois? Senhor parte dahi o vosso poder... 

-- Sou membro do Santo Synodo russo, sob o nome de barão Pulok. 

-- Mas n'esse caso podeis sdvar Muzok, bradou o coronel. 

-- Posso sollicitar o seu perdão da miperatnz e seria attendido... Isso leva dois dias e elle vae morrer dentro em horas. 

-- Mas supplicando ao principe! 

-- Sumatow para não ceder aos vossos rogos porque vos estima e muito, partiu para o logar onde se encontra Catharina II e só voltará após a execução... 

-- Porém... Poderei arrancar esse homem da prisão? exclamou elle n'um impero. 

-- Sim... Ninguem vol-o impedirá... Acompanhar-vos-hei! Apesar de que na Russia, isso é o mais grave dos crimes! 

-- Que importa! bradou o coronel. 

E José Balsamo, olhando o com admiração deu-lhe o braço e conduziu-o atravez da fortaleza para o logar onde se encontrava o soldado. 

Atravessaram o acampamento e desceram por umas escadinhas de pedra até aos fossos onde as sentinellas o olhavam fazendo a continencia a Gomes Freire, que para os soldados, bem como para os outros representava um grande heroe. 

O chefe da prisão acompanhava-os e abrindo uma portinha baixa, fel-os entrar na masmorra onde se encontrava Muzok. 

Elle ao vel-os correu para Gomes Freire, beijou-lhe a mão e exclamou em russo: 

-- Oh! Oh! Tu salvaste a Russia... Dar-te-ha victorias, meu bom senhor... 

-- Queres acompanhar-me? interrogou o coronel cheio de jubilo ao ver que o chefe da prisão se retirava discretamente. 

Muzok não percebeu logo e foi necessario que José Balsamo lhe repetisse a pergunta. 

Elle ergueu-se, fez-se livido e volveu: 

-- Sahir d'aqui?... O perdão da imperatriz? 

-- Não... Fugirás comnosco e irás com Gomes Freire a quem estimas... 

Na face do soldado, pintou-se o maior pasmo, encarou o coronel e bradou: 

-- E era elle que vinha salvar-me? 

-- Sim era elle! 

-- Perdia-se... Oh! E na verdade um grande coração... Não, não irei... 

-- Descança que sahirás livremente! 

-- Não. .. A lei é a lei e eu sou russo! A patria precisa do meu sangue vou derramal-o com prazer! A Justiça quer a minha cabeça, tel-a-ha porque eu matei um chefe! 

O soldado falava sempre no seu grande ar sonhador de fanatico, a cabeça loura d'um tom rijamente desenhado, muito erguida, nos labios um sorriso ao dizer: 

-- Gomes Freire, ficará no meu coração... Mas não troco a patria nem por elle nem mesmo por meu pae que está na Finlandia resando no seu barco... Não quero ver a casa nem a familia porque a patria precisa do meu sangue! 

E aquelle soldado respeitado da lei, amigo da patria, que amava os homens que a salvaram, beijou de novo a mão do coronel e não houve meio de o arrancar das palhas onde se foi estender com uma serenidade socratiana. 

Elles olhavam-no admirados por aquella recusa, e de repente Gomes Freire, comprehendendo que tudo era inutil, bradou: 

-- Tem razão eu procederia do mesmo modo! A lei é a lei... E agora só um régio perdão o poderá salvar... 

Desceram para o fosso muito commovidos, olhando-se extranhamente. 

N'este momento accendiam-se as luzes na cidade, as mulheres vestidas garridamente dançavam ao som das musicas e Oczakow resplandecia com as luzes aos milhares, pregadas no alto das torres e dos mirantes reflectindo-se na planicie gelada. 

De repente dos lados das portas da cidade, um brado immenso atroou os ares, os canhões salvaram, soou o hymno imperial e como um grito de victoria um brado immenso sahiu de todos os labios na mesma ancia: 

-- Viva a imperatriz!... Viva Catharina II... 

-- A imperatriz?! bradou Gomes Freire com um sorriso. Oh! N'esse caso Muzok está salvo! 







XIII 



O heroe luzitano 





Era com effeito Catharina II que acabava de atravessar a cidade, sob festoes de verdura, por entre o brilho das luzes, ao som de musicas estrondeantes 

e ante um povo ajoelhado sobre a neve, as cabeças inclinadas em face de continuadores da obra de Pedro o Grande, a esposa de Pedro III, ao qual assassinara para dar um throno ao amante. 

Ella, no interior da carruagem de posta, magra e pallida, olhava aquelle povo, bem refestelada nas almofadas, e nos seus olhos azues como retalhos de ceu, não passava o minimo signal de orgulho. 

Sentia que lhe eram devidas todas aquellas homenagens, as suas mãos manchadas no sangue real não se levantavam para abençoar as multidões, e trepava para o palacio onde o principe estabelecera o seu quartel, vendo agora os grandes dignatarios tambem de joelhos á sua passagem, e, erguendo o busto flexivel, lembrava-se que era mulher e via-se n'um grande espelho collocado no alto da escada; com os dedos rebrilhantes d'anneis, aconchegava o manto. 

Sumatow, o commandante em chefe, que fora ao encontro da imperatriz, julgando assim fugir ás instancias de Gomes Freire, vira-se obrigado a entrar de novo na cidade, e no seu rosto passara uma nuvem de tristeza ao ver o general Volty, que Catharina obrigara a cavalgar á sua estribeira desde que o encontrara na povoação visinha, sorria, com um ar soberano, por entre os bigodes brancos. 

Chegaram os bispos de longas barbas, envoltos em vestes recamadas de ouro, elles os primeiros da véspera, conduzindo a deputação das senhoras que vinham offerecer flores á imperatriz, umas pobres flores creadas entre estufas com incalculáveis despezas, e trazendo n'um rico estojo uma espada d'honra para o heroe que libertara a sua cidade. 

Ao clarão das luzes, na branquidão dos coUos em que as joias faiscavam, arrancadas de novo das bagagens turcas, viam-se fardas brilhantes da casa militar do principe e da imperatriz. 

Na rua os mesmos sons atroavam os ares, as musicas tocavam, e os turcos encurralados nas suas prisões, contavam já com a morte desde que sabiam o caracter violento da czarina, que jamais poupara os revoltados, nem mesmo quando elles eram de sangue real. 

Agora sorria ás damas d'um modo altivo e dizia a meia voz para o principe: 

-- Sumiatow, onde está o teu heroe? 

-- Mandei que o conduzissem á vossa presença, real senhora! 

-- Sim... Quero vel-o... murmurou ella, com certa curiosidade. 

Mas n'este momento, além, entre toda a brilhante côrte, por entre a garridice das tropas, no esplendor oriental que cercava a imperatriz, Gomes Freire, vestido no seu uniforme de coronel -- o mesmo uniforme com que entrara em Oczakow -- tendo a seu lado Vasco de Miranda e fr. Fabricio, que deixara as suas vestes fradescas, avançava para a imperatriz, ao mesmo tempo que a ala brilhante da sua casa militar buscava impedir o passo a esse official  quasi esfarrapado e que não conheciam; e que Volty, com auctoridade, bradava: 

-- Que quereis, senhor coronel? 

Elle encarou-o com altivez e, em bom francez, bradou: 

-- Quero fallar a sua magestade! 

A imperatriz, que não o conhecia também, admirada da sua semceremonia, lançou-lhe um olhar soberano e exclamou: 

-- Não é costume fallar assim aos subditos! Eu costumo marcar as minhas audiencias! 

-- E Gomes Freire de Andrade, o vencedor de Oczakow, real senhora! exclamou então o principe. 

E ella, adoçando a expressão da sua physionomia, estremecendo ante o heroe luzitano, exclamou: 

-- Sois Gomes Freire! 

-- Sim, real senhora! 

-- Approximae-vos! bradou com certa alegria a czarina, levantando-se e estendendo-lhe a mão, que elle beijou. 

A seu lado duas formosas senhoras seguravam a espada d'honra cravejada de pedras preciosas que a cidade oíFerecia ao bravo official, e a imperatriz exclamava: 

-- Devo-vos uma victoria, senhor! 

Fallou em russo, de forma que elle, sem a comprehender, ficou-se a olhar serenamente, volvendo em francez: 

-- Real senhora, é o momento mais feliz da minha vida, este em que me ajoelho aos pés de vossa magestade! 

-- Ah! Não sabeis o russo! interrompeu a imperatriz, d'esta vez em francez. 

-- Não, real senhora... Sei apenas o francez e algumas palavras do tcheque, o bastante para uma conversação. 

-- Do tcheque? Estivestes na Austria? 

-- Em pequeno vivi na Bohemia! 

-- Ah! Polonia dos austriacos. Os pequenos estados junto dos grandes precisam ser absorvidos para sua gloria! Desapparece uma nacionalidade mas fica um grande povo que pode tomar parte nas glorias do seu conquistador... A Bohemia estava nesse caso! 

-- Minha mãe é de nobreza da Bohemia, real senhora! volveu elle com orgulho. Sou da familia do conde de Schagoif ... 

-- Ah! Porém, sois portuguez! 

-- Sim, por meu pae, que era embaixador em Vienna! 

-- Uma nobre raça, a luzitana! exclamou lisongeiramente a imperatriz, dizendo de seguida: 

-- Vim a Oczakow apenas para conhecer o vencedor dos turcos... Passava para a corte e não quiz deixar de vos conhecer. 

-- São honras que jamais esquecerei, real senhora! volveu o heroe com impaciencia. 

-- E agora, Gomes Freire, sem duvida, ficaes ao serviço da Russia... Polionowisk, na Polonia, precisa d'alguem bastante valoroso para o ajudar ao desmembramento d'esse paiz, que se revolta a miúdo... Vós sereis o governador da Varsovia... O coronel empallideceu, viu na sua frente, confundido na 

onda dos dignatarios, José Balsamo, que o olhava anciosamente, e volveu: 

-- Agradeço a honra de vossa magestade... 

-- E acceitaes? 

-- Não, real senhora! 

-- Amaes então a Polonia? perguntou ella encrespando o sobrolho. 

-- Eu amo sempre os que soffrem, sejam nações, sejam simples homens... Dos mais opulentos aos mais humildes, quando as suas almas são grandes e os seus caracteres honestos, encontram em mim um amigo; é na conformidade do que digo a vossa magestade, que tenho uma graça a sollicitar-vos! 

A côrte admirava-se d'aquella forma de fallar e elle ia continuando no mesmo tom: 

-- Trata-se d'um pequeno, d'um filho do povo, rude mas generoso e grande pela alma. 

Nos olhos de Sumatow rolou uma lagrima, nos de Volty houve um clarão raivoso. 

-- E que succedeu a esse homem? perguntou a imperatriz ante o silencio da côrte, emquanto o general Volty dizia algumas palavras ao ouvido d'um ajudante de campo, olhando Gomes Freire. 

-- Esse homem, real senhora, é um dos vossos soldados! 

-- Ah! E depois? 

-- Foi convidado por alguns homens de patentes superiores para assassinar um outro no qual viam um traidor... disse elle com modestia. 

O ajudante de campo de Volty sahia lentamente da sala e dirigia-se para os lados da fortaleza, embrulhando-se muito na sua pelissa. 

-- Seguiu esse homem, continuou Gomes Freire, e, n'uma noite em que a neve cahia a flocos, viu-o avançar para o acampamento turco... 

-- E o meu soldado matou-o, não c assim? interrogou a imperatriz com colera. 

-- Não, real senhora, o vosso soldado seguiu esse homem, que foi o primeiro a penetrar em Oczakow com dez outros e entre elles um official inglez de nome mylord Archibald Campbell! 

-- Ah! Éreis vós... E quem vos accusava de traidor? interrogou ella ainda mais colerica. 

-- Real senhora! Peço-vos que escuteis o resto da minha historia. 

O general Volty fazia-se livido e Sumatow olhava o com grande raiva, esperando a revelação de Gomes Freire. 

-- Fallae! disse Catharina II. 

-- O vosso soldado portou-se como um valente na tomada da praça, e, depois, quando a bandeira da Russia tremulou ovante na fortaleza, elle, em vez de assassinar o homem que lhe tinham indicado, procurou a pessoa que servira de intermediaria pára esse crime e apunhalou-a... 

-- Ah! Mas é bravo, esse militar! bradou a imperatriz e a côrte, enthusiasmadas, á excepção de Volty, que se tornava cada vez mais livido. 

Gomes Freire, implacavel como o destino, continuou: 

-- Porém, o assassinado era um fidalgo e eu um coronel! A lei da Russia é peremptória a tal respeito e o digno principe de Sumatow ordenou que se fusilasse esse militar que assassinara um superior, cumprindo n'esse ponto o seu dever: 

-- Sim, o principe cumpriu o seu dever! Porém, o soldado... 

-- Ah! Real senhora, foi preso no momento em que se dispunha a praticar do mesmo modo para com o verdadeiro mandatario do crime, o qual accusava sem provas dois militares dignos... A mim e a Vasco de Miranda! 

E elle apontava o amigo, que se conservava ante a imperatriz. 

-- O vosso amigo esteve comvosco na tomada da praça! 

-- Real senhora, era prisioneiro dos turcos desde Odessa! Mas é ainda sobre esse soldado que tenho a soUicitar a graça de vossa magestade! Esse homem vae morrer dentro em alguns momentos e eu, apesar das leis, peço-vos o seu perdão! 

-- Quem ordenou a esse homem que vos assassinasse? exclamou a imperatriz. 

-- E um segredo que pertence a Muzok, o soldado, se elle vol-o confiar eu não me opporei, porém, dos meus labios jamais sahirá o nome do meu inimigo! 

Volty teve um Ímpeto alegre ante a generosidade d'aquelle homem e tranquilisou-se um pouco mais. 

-- Que esse soldado seja posto em liberdade, principe de Sumatow! exclamou a imperatriz. 

E emquanto um official partia a cumprir a ordem e que Gomes Freire ajoelhava a agradecer a graça, ella deitou-lhe os braços ao pescoço e, sobre a farda esfarrapada do heroe, brilhou o cordão de S. Jorge. Toda a côrte ficou assombrada perante aquella distincção, concedida aos grandes fidalgos, e o coronel, vendo a conde- coração a reluzir-lhe no peito, curvou-se mais a agradecer á imperatriz. 

Catharina II, encarava a sua face nobre e leal de bom soldado, e, tomando a espada que as damas seguravam, exclamou: 

-- Gomes Freire, eu vos faço cavalleiro de S. Jorge para premiar o vosso valor; a cidade, que tão brilhantemente nos entregasteis, offerece-vos esta espada de honra, em cuja lamina estão gravados os agradecimentos dos seus habitantes. Como imperatriz da Russia, nomeio-vos definitivamente coronel do meu exercito e cavalleiro de S. Jorge; como patriota, como mulher digo-vos  lealmente: 

Gomes Freire! Não quero forçar-vos a que acceiteis o logar de governador de Varsovia, no entanto a guerra com a Turquia está terminada, a Moldo-Valachia pertence-me e vós rematastes brilhantemente a serie de victorias dos meus exercitos. Assignou-se o tratado de Jassy e o rio Danástre é hoje a fronteira do meu império... Vae desmembrar-se a Polonia mas vós não sois obrigado a servir n'esse paiz; ficae na Russia, na côrte, até que os vossos serviços, a vossa bravura possam brilhar de novo... 

-- Real senhora, volveu elle. A minha patna, esse pequeno paiz, perdido no fim da Europa, talvez careça brevemente de mais um soldado... Eu vou partir para Portugal! 

-- Procedei como desejardes, coronel; no entanto lembrae-vos sempre que a imperatriz da Russia, reconhece em vós um heroe! 

Elle curvou-se de seguida e olhou para a porta com impaciencia. 

Acabava de assomar ali o official que Sumatow enviara á prisão e o qual, n'um ar contristado, dizia algumas palavras ao ouvido do principe, que se fazia pallido e encarou Volty, que fallava tambem com o seu ajudante de campo. 

-- Principe, disse a subitas Gomes Freire. E Muzok? 

-- Acaba de ser fusilado! Era a hora! 

-- Ah! A Russia acaba de perder um dos melhores patriotas. 

-- Porque o dizeis? interrogou o chefe. 

-- Porque, em respeito á lei da patria, recusou ha pouco a liberdade que lhe offereci... 

-- Vós? interrogou o principe surprehendido. 

-- Bem como eu, alteza! murmurou a seu lado José Balsamo, passando a inclinar-se em frente da imperatriz, que, ao vêl-o, exclamou: 

-- Vós aqui, barão de Pulok! 

-- Eu, real senhora, eu que volto da Polonia... 

E a imperatriz aífastou-se com José Balsamo para o vão d'uma janella, chamando Sumatow, emquanto a corte se distanciava com respeito. 

Gomes Freire apertava a mão de Vasco de Miranda, nomeado capitão pela czarina, e sahia com elle e com fr. Fabricio, dizendo ao vêr-se no terraço do palacio. 

- Partiremos de madrugada! 

-- Para onde? 

-- Para Portugal! Mas passaremos por Paris, onde, segundo diz o grão-mestre, a revolução avança a passos agigantados! 

-- Por Deus e é elle, o homem que vive na intimidade dos soberanos! 

-- De todos elles! exclamou Luiz de Berredo. 

-- Ah! Camaradas, antes de partir tenho ainda alguns deveres a cumprir... disse Gomes Freire. 

-- Tu? 

-- Sim... Conduzir Elvira de Mello para Vienna e enterrar o corpo de Muzok, antes de metter uma bala na cabeça de Volty... 

-- Volty?! bradou Vasco de Miranda. 

-- Sim... Foi elle que, com o coronel Ivan, nos accusou de traidores! 

O capitão mordeu os labios e lançou um olhar raivoso para os lados onde estava a côrte. 

Em baixo folgava-se. Era sempre a mesma continua agitação, as luzes espalhando os seus clarões, as musicas tocando alegremente. 

A cidade estava em portentosa festa e os tres homens agora atravessavam a multidão, que berrava o nome da imperatriz. 

Alguem reconheceu Gomes Freire e um grito sahiu de todos os labios acclamando o heroe portuguez. 

E então elle, dirigindo-se em francez a um pope <marca num="*" pag=737> que estava na multidão, disse: 



<nota num="*" pag=737> Padre na Russia. </nota>



-- Senhor... Acaba de ser fusilado um soldado, quereis por minha intenção acompanhal-o á ultima morada?... 

-- Mas decerto, salvador! volveu o pope. 

-- Vamos! 

Porém, o povo, á vista de Gomes Freire, enthusiasmado com o homem que libertara a sua cidade, acompanhava-o instinctivamente e acclamava-o. 

Chegaram aos baixos da fortaleza e, n'um mar de sangue, junto á parede crivada de balas, jazia, estendido, o corpo de Muzok. 

A farda, que abrigava um peito leal, estava perfurada pelas 

oito balas do pelotão, e o soldado, com um reflexo de luar no rosto 

tumido, tinha a attitude serena d'um justo. 

Gomes Freire, embrulhou piedosamente o corpo n'uma bandeira arrancada d'um poste, improvisaram uma maca com verdura, e, assim, conduzido pelos tres portuguezes e pelo pope, o soldado patriota, ia ser conduzido á sua ultima morada, fóra da cidade, no meio do gelo, que se abria, como lençol immaculado, a recebel-o. 

E toda a população da cidade, attrahida pelo seu heroe, acompanhava, em silencio, o corpo de Muzok, que tinha uma expressão doce no rosto, como se agradecesse ao coronel aquellas honras. 

Mas, antes de chegarem ás portas, o pope sentiu que alguem o affastava e no seu logar appareceu Sumatow, que cumprimentou Gomes Freire com um longo olhar. 

E a gente da cidade marchava, sempre gravemente, acompanhando o pobre Muzok á sua campa de neve immaculada. 













XIV 



A desforra do heroe





As muralhas d'Oczakow, resplandeciam de luzes e lá de dentro das salas enormes da velha fortaleza, chegavam acordes de musica ao som da qual volteavam as camponezas vestidas nos seus pittorescos trajes em presença da côrte que aguardava a entrada da imperatriz, para tomar parte n'esse baile 

commemorativo da victoria sobre os turcos. O tratado de Jassy fôra assignado e tinham terminado as luctas com os infieis; a esquadra do pachá rendera-se corri honra. Oczakow estava em poder dos russos e nada mais havia a fazer. Fôra a noticia do tratado que resolvera a imperatriz a ficar ainda mais uns dias, muito desejosa de gosar longe da politica aquella victoria que começava a engrandecer a Russia, a tornal-a a potencia forte e respeitada. 

Por isso, os generaes turcos, aquelles guerreiros de longas barbas que fallavam um idioma barbaro, acabavam d'entrar na sala e eram recebidos com toda a diplomacia pelo principe de Sumatow, que lhes fazia as honras da fortaleza onde tantas atrocidades tinham sido commettidas. 

Era na realidade um extranho espectaculo o de todos esses barbaros, vestidos nos mais garridos uniformes misturados com os officiaes vencedores, entrajados de côres severas, tudo isto agglomerado ao clarão feeríco das uzes, rodeando o grupo das camponezas que dançavam animadamente, erguendo de quando em quando os braços n'um cumprimento proprio da dança. 

O general Volty acabava d'entrar e mettera-se no grupo dos dignatarios; o seu olhar tomara uma extranha dureza ao vêr que Gomes Freire penetrava tambem na sala acompanhado de Vasco de Miranda e de Luiz Berredo. 

O heroe, vestia o seu novo uniforme de coronel, trazia a banda e a condecoração refulgente no peito da farda e a espada d'honra pendia-lhe da cinta n'uns reflexos de prata, a mostrar o valor d'esse militar que sorria tranquillo. 

De repente, um joven official, fardado de tenente da legião extrangeira, dirigiu-se para o recemchegado, todo elle alegre, exclamando ao vêr-se face a face com o coronel: 

-- Ah! Ainda bem que chegastes, senhor! 

-- Porque? Acaso se notou a minha ausencia?! interrogou Gomes Freire com um sorriso. 

-- Como se nota sempre a ausencia dos heroes das festas e principalmente quando elles são como vós os heroes do dia! 

-- Cautella meu caro Campbell!... tornou o coronel, a gracejar. Olhae que vos vão alcunhar de lisongeiro! 

O joven inglez, olhou admirado o seu companheiro da noute e retorquiu: 

-- Lisongeiro?! Oh! acaso alguem se atreverá a dar-me semelhante epitheto?! Nós, na nossa pátria, estamos muito habituados á fleugma para semelhante cousa! 

-- Reparae que redobraes, Campbell! volveu o coronel, sorrindo, e perguntando logo: 

-- Mas ainda não me dissesteis a razão porque tanto desejaveis a minha chegada! 

-- Primeiro por estar a vosso lado! Segundo porque a imperatriz manifestou a vontade de abrir o baile da corte pela vossa mão! 

Gomes Freire, encolheu os hombros como se pouco lhe importasse semelhante honra e redarguiu: 

-- Agradeço-vos o interesse!... E por agora, meus amigos, deixae-me!... supplicava por fim olhando Volty que o olhava tambem. 

-- Que ides fazer? perguntou Campbell cheio de amisade. 

-- Vou dizer duas palavras ao general Volty! 

E antes que o podessem impedir, o novo coronel, atravessou na direcção onde o russo o aguardava a pé firme, mais desejoso de pôr a claro a situação. 

O baile continuava, os turcos de longas barbas e uniformes garridos, olhavam sempre os russos que se mostravam serenos; e Osmem-Pachá, o chefe do exercito, o antigo governador de Oczakow, tinha uma sombria expressão na physionomia ao assistir aquella festa que era como um insulto que lhes atiravam. 

Gomes Freire, muito junto de Volty, pronunciava lentamente algumas palavras; depois affastavam-se ambos para o vão d'uma janella e o coronel, dizia abruptamente: 

-- Venho fazer-vos as minhas despedidas, general! 

-- Ah! Partis! interrogou o russo buscando amortecer a expressão radiante da sua physionomia. 

-- Sim... Volto para o meu paiz, mas não quero deixar a Russia sem vos agradecer o bem que me tendes dispensado!... e Gomes Freire, fallava n'um tom onde havia uma ironia habilmente dirigida ao interlocutor que se tornava livido. 

O heroe, continuava: 

-- Desde o dia da minha entrada no exercito de sua magestade a czarina, até hoje, tenho achado em vós um verdadeiro patriota, general! Sabeis agradecer bem o sacrificio da vida e do sangue d'aquelles que vem de longinquas terras a porem o seu braço ao serviço da vossa soberana! Vós e alguns dos vossos companheiros, sois valorosos deveras!... E ante a lividez cada vez mais pronunciada de Volty, ante o gesto que elle fazia para lhe retorquir, o coronel com desembaraço não podendo mais tempo refrear a colera que lhe subia em borbotões aos lábios, bradou em voz suffocada: 

-- Sim, patriotas. Oczakov ter-se-hia perdido se os vossos intentos tivessem tido execução; sim, valorosos, porque armaes braços nas trevas contra aquelles que vem defender os vossos interesses! Eu sou d'esse numero, general Volty, eu pertenço a esses! Por isso aqui estou para vos dizer: 

-- Olá sr. militar... Agora frente a frente tereis a mesma coragem? 

Gomes Freire, alteava a voz, encarava de frente o adversario e todos os olhares convergiam para alli. 

O russo levava a mão á espada e dizia por seu turno: 

-- Ás vossas ordens! 

-- Vamos! bradou de novo o hcroe, deveras satisfeito. 

Porém n'este momento, todas as cabeças se inclinavam e a voz do mestre de cerimonias, exclamava: 

-- Sua magestade a imperatriz, nossa senhora! 

O baile suspendeu-se e a musica começou a tocar o hymno imperial, viam-se dorsos curvados em altitudes respeitosas e apenas Gomes Freire ia para transpor ousadamente a porta; o proprio Volty parara na sua carreira, tendo no rosto os mais evidentes signaes de raiva. 

Mas Catharina II, olhava o portuguez, sorria-lhe e em voz affavel que era para extranhar n'essa orgulhosa e terrível mulher, dizia-lhe: 

-- Coronel, ficae!... Dae-me a vossa mão... Sois o heroe da festa, como sois o heroe da batalha! 

O amigo do marquez d'Alorna, olhava serenamente a imperatriz e ia retorquir-lhe talvez com uma escusa respeitosa, porém n'este momento tazia-se um grande movimento no ajuntamento e o general Volty, tornava-se ainda mais livido ao vêr José Balsamo acercar-se ao lado do principe de Sumatow e ao ouvir este dizer-lhe: 

-- Senhor... Sua magestade está informada acerca do vosso procedimento criminoso para com o vencedor d'Oczakow... Elle poupou o vosso nome e queria apenas a vossa vida, mas sua magestade não o entende assim e por isso e em nome da imperatriz vos peço a vossa espada! 

-- Prendeis-me?! exclamou elle como louco, ao ver todos os nobres senhores e os illustres militares affastarem-se d'elle com repugnancia. 

O principe apenas fez um gesto imperioso e o general, em voz tremula retorquiu ainda: 

-- E qual é a fortaleza que me destinam? Oh! Meu general valia mais ter morrido no campo de batalha, assim poupava a vergonha aos meus! 

A musica rompia de novo a começar o baile e Catharina II, aquella poderosa e temida mulher d'estado, esqueceu-se por momentos do seu tenebroso papel á face do mundo e recuperando todas as graças femeninas, deu o signal do divertimento, conduzida por Gomes Freire que estava muito pallido ao vêr que lhe roubavam a vida do general. 

Agora já ninguem se importava com Volty que fôra conduzido pelo principe e todas as attenções se voltavam para aquelte par formado por uma soberana e por um heroe, ao qual ella distinguia de tão graciosa maneira. 

Os nobres senhores e damas da cidade seguiam sempre a imperatriz e ao brilho das luzes era um quadro na realidade sublime e admiravel, o d'aquella bella e luzida côrte dançando na sala empedrada d'uma fortaleza. 

O heroe estava silencioso. Porém ao cabo d'uns momentos, murmurava: 

-- Real senhora, tenho uma graça a pedir-vos! 

-- Dizei! exclamou ella com um sorriso animador. 

-- Peço-vos que poupeis a honra do general Volty! 

-- E sois vós que me pedis semelhante cousa? 

-- Eu sim, real senhora! 

-- Mas não sabeis então o nome do homem que levantou contra vós a arma de Muzok, o soldado? 

-- Já o esqueci, real senhora... Já o esqueci! 

-- Pois é possivel?! Não existe no vosso coração o odio, coronel! 

-- Só emquanto os que odeio estão de pé! Ao vel-os por terra apossa-se de mim a piedade que todo o homem de bem deve sentir pelo semelhante prostrado! 

A imperatriz olhou extranhamente aquelle homem singular e retorquiu ainda: 

-- Porém, o general... 

-- Devia-me a vida e não a honra! Eu sei como essas cousas se fazem na Russia! 

-- Quereis dizer que eu sou mais severa que os outros soberanos, não é assim?... perguntou aquella mulher que perdera o esposo, encrespando as sobrancelhas em ar zangado. 

-- Não real senhora, e se acreditasse semelhante cousa não vos pediria essa graça! Porém real senhora, apenas vos peço que não deshonreis o nome de Volty! 

-- Interessai-vos então muito pela honra do vosso inimigo? perguntou de novo como se não comprehendesse. 

-- Como pela minha! 

-- É singular... 

-- Não real senhora, é até vulgar! O interesse que eu tomo pela honra de Volty e o que todo o homem deve ter pela do adversario! 

-- O que?! 

-- Sim... Não o deshonreis porque n'esse caso não lhe posso pedir a vida! Ninguem se bate com um homem deshonrado! 

Catharina II, teve um terrivel sorriso ao ouvir o coronel fallar de semelhante modo, e redarguiu: 

-- O carrasco vos dará a vingança! 

E era alli, no esplendor d'aquelle baile, entre o luxo e as pompas d'uma côrte, ao som da musica a mais estonteante que a impe-ratriz lavrava assim a sorrir a sentença que deshonraria o general. 

-- Real senhora, peço-vos que perdoeis a Volty! 

-- Nunca! Os traidores, os vis, devem receber castigo egual á sua traição! Ha pouco quando vos ouvia fallar, dizia commigo mesma que a dar-se a vossa morte, Oczakow estaria talvez ainda em poder do inimigo! Desejei logo saber quem era esse homem que assim encarava os negocios da sua patria e buscava a gloria pela traição ignobil! Vós, como fidalgo, e leal soldado, recusastes dizer-me esse nome... Mas um homem que tudo sabe, que tudo vê, que tudo prescruta, revelou-me o nome de Volty, mais ainda, disse-me que vós querieis bater-vos com o general! 

-- Ah! E quem o sabia? 

-- José Bálsamo... O barão Pulok, que tudo sabe! disse ella, cheia de superstição. E eu, temendo nova traição, resolvi proceder energicamente! Agora é tarde. Gomes Freire! É esta a minha ultima palavra... Volty será condemnado á morte! 

-- Será fusílado! exclamou o coronel deveras perturbado. 

-- Gomes Freire... O fusilamento é a morte dos militares; o general Volty deixará de ter o seu posto para ser enforcado! 

-- Real senhora... Mas para tão pequeno crime!... 

-- Crime pequeno?! Oh! Não... Essa ninharia ia fazendo com que Oczakow ficasse em poder dos turcos... Pedi-me o que quizerdes, coronel, excepto a vida do general Volty, ou antes, do reu d'alta traição que usa esse nome ... 

-- Alta traição?! 

-- Sim... Quem vos diz que não estava vendido ao inimigo! 

O heroe ia protestar; porém, a musica terminava e a imperatriz, com um amavel sorriso, perguntava a Sumatow, que se approximava: 

-- Como se chama o passo que acabamos de dançar?... 

O principe achou-a deveras admirável e retorquiu: 

-- Mas chama-se: o passo da Bohemia! ... Foi escripto em memoria do heroe da festa! 

-- Pois para nós chamar-se-ha: o passo do perdão! 

-- O quê, vossa magestade perdoa a Volty? perguntou rapidamente Gomes Freire, deveras radiante. 

-- Coronel! Será o passo do perdão, não porque eu perdoe a esse homem, mas sim a vós por me terdes fallado dum traidor!

A imperatriz sorria ainda do mesmo modo terrivel e affastava-se seguida pelo principe. 

Gomes Freire, ficou uns momentos meditativo, e de seguida avançou para José Balsamo, que narrava a vida intima da côrte austriaca a alguns generaes turcos, fallando este idioma. 

-- Barão! exclamou o coronel. É certo que tudo sabeis? É certo que tudo podeis! interrogou elle affastando-se um pouco com o chefe dos pedreiros livres. 

-- Quasi meu amigo... Mas porque me íazeis semelhante pergunta? 

-- Porque desejo o perdão do general Volty! 

-- Já o sollicitastes de Catharina II? 

-- Já! 

-- E ella recusou, não é assim? 

-- Sim, recusou! 

O grão-mestre esboçou um sorriso e volveu: 

-- Nada de salvação... Precisamos mostrar aos jesuitas existentes na Russia que estão muito longe de terem poder no animo da soberana! 

-- Mas que tem Volty com a Gompanhia? 

-- Tem que elle é um dos mais encarniçados defenderes do catholicismo na Russia. Suas filhas estão entre os jesuitas aqui existentes! Além d'isso, é um traidor. Estava vendido aos turcos, disse-m'o Osman Pachá!... 

-- José Balsamo, fallaes verdade? 

-- Suppondes acaso que preciso mentir? interrogou elle, orgulhosamente. 

-- N'esse caso, que siga o seu destino! replicou o coronel. 

-- O quê? Acaso tinheis pensado... 

-- Sim; tinha pensado em chegar á sua prisão e offerecer-lhe a minha pistola para que desse um tiro na cabeça, afim d'escapar á morte ignominiosa que o espera! 

-- Pois guardae a vossa pistola! Eu preciso não só da vida mas da deshonra publica d'esse homem! É o melhor meio de fazer recuar os jesuitas! 

-- É tarde para isso! exclamou, n'este momento, a seu lado, Archibald Campbell, o joven tenente inglez, Volty, não será deshonrado publicamente porque está morto! 

-- Morto! bradou Gomes Freire, estupefacto, bem como o grão-mestre. 

-- Mas como? 

-- Pelo suicidio! Volty matou-se! Fez voar os miolos com a bala d'uma pistola que eu lhe cedi atravez as grades! 

-- Vós?! 

-- Eu, sim... Jamais terei a coragem de ver enforcar um militar, embora elle seja um traidor, e o principe de Sumatow dissera que era essa a morte que esperava o inimigo de Gomes Freire! replicou ousadamente o joven official. 

E o coronel, com os olhos orvalhados de lagrimas, apertou ao peito o generoso bretão, exclamando: 

-- Era o que eu teria feito, meu amigo! Oh! Sois um grande coração!... 

Apertaram então vigorosamente as mãos e d'ahi a momentos o coronel entrava nos aposentos para onde Catharina II se retirara. 

-- Venho despedir-me de vossa magestade! bradou elle, inclinando-se reverentemente. 

-Oh!Já?!... 

-- Sim, real senhora... Tenho de estar em Praga dentro em alguns dias! 

-- E que ides fazer a Praga? Julguei que partias para Portugal, Gomes Freire. 

-- Com effeito, é esse o meu destino! Mas é que a minha passagem por Praga tem um fim, o qual não posso deixar de cumprir... Vou conduzir a um dos conventos da cidade uma senhora que amei na minha juventude e a qual se encontra nos estados de vossa magestade! 

-- Quer dizer que já não amaes essa dama? exclamou a imperatriz muito interessada pelo seu heroe. 

-- Se a amo, real senhora! Mas se foi o primeiro e será o unico amor da minha vida! volveu tristemente o heroe. 

-- N'esse caso, porque não a tornaes vossa esposa? perguntou ella, rapidamente. 

-- Real senhora... D. Elvira de Mello professou! replicou elle como desesperado. 

-- Ah! E aqui na Russia?... 

-- Não, real senhora... Em Roma, d'onde veio para aqui quando os jesuitas! 

-- Porque não fica, n'esse caso?... Dar-lhe-hiamos um abbadessado nos nossos estados da Polonia! Sim, porque não fica? interrogou a imperatriz. 

-- Real senhora... D. Elvira de Mello é uma victima da Companhia de Jesus e por isso não pode ficar aqui, onde os padres catholicos são apenas os jesuitas! 

-- Porém, na Polonia... 

-- A Polonia está n'um latente estado de revolta e a dama de que vos fallo carece de socego e paz, quanto cu careço d'agitação e ruido! Separados para sempre, resta a cada um de nós a morte! Eu, no campo da batalha; ella, na clausura, orando por mim!... Por isso, eu parto, com vossa permissão, senhora! 

Catharina II, estivera ouvindo-o, de cabeça baixa toda engolphada n'aquella ideia do amor, de que elle lhe faltava em tão sincera linguagem; depois, soltava um suspiro e retorquia. 

-- Vós o sabeis, coronel!... Desejaria que fosses feliz!... 

-- Feliz me sinto com as honras que vossa magestade me concedeu! E agora, resta-me beijar, respeitosamente, a mão que me distinguiu e partir! 

E elle, n'um galante meneio, beijava a mão da imperatriz e sahia da sala. 

Ella ergueu-se d'um salto e chegou á janella; viu a sege de posta, para onde o coronel subia e onde D. Elvira de Mello o esperava, e, em voz commovida, murmurou: 

-- Feliz rainha, a que possuir semelhante defensor! 

Ao mesmo tempo, o coronel dizia para a antiga noiva: 

-- Elvira... É chegado o momento do nosso ultimo encontro! 

-- Não... Não... O ultimo será no ceu! 

A carruagem sahia a toda a brida, as portas da cidade, e elles continuavam ainda a invocarem as recordações do seu amor passado E, ao lado da mulher amada, Gomes Freire deixava essa Russia onde se mostrara um heroe e onde fizera considerar o nome portuguez. 

Vasco de Miranda, e Luiz de Berredo, tinham-se despedido de José Balsamo e de Sumatow e iam tambem regressar á patria, onde novas luctas e novas intrigas aguardavam a chegada de Gomes Freire para se desenvolverem. 

Era no fim do anno de 1792, e a França revolucionaria ia dar ao mundo o espectaculo do Terror. 









XV 







1793 





A Europa soffrera um rude abalo ante a audacia da França, revoltada contra o direito divino dos reis, aos quaes atirara, n'um desafio, a cabeça ensanguentada de Luiz XVI. Nas fronteiras, os generaes da republica ganhavam victorias, ao som da Marselheza, cantada por todos os bravos, e a França  mostrava bem ao mundo que, ante uma ideia de justiça, os aldeãos e os operarios não eram inferiores, como soldados, aos das disciplinadas hostes dos reis que buscavam suffocar a affirmação potente da liberdade que raiava, estremecendo sobre os thronos balanceados a esse vento de revolta que passara dos Pyrineus para a peninsula, que ganhara a fronteira belga e atravessara a Mancha, n'um alarde de força. A Inglaterra estremecia de pavor ao recordar-se que essa ideia da França representava um incitamento a algum novo Cromvell ousado. Havia a precedencia de Carlos I, secundada agora pela de Luiz XVI, e as cabeças coroadas lançavam vistas recciosas atravez das fronteiras; e os monarchas uniam-se n'uma cruzgda contra a liberdade, que raiava com sangue real espalhado. Eram represalias de seculos que os soberanos temiam; eram os crimes dos antepassados do Gapeto que a França vingava, n'aquelle delirio de revolução. 

A furia do povo, respondera á dominação da nobreza; os crimes imputados á Convenção parecem enormes porque foram feitos no curto espaço d'alguns mezes. No fim tudo a perseguição á nobreza, o sequestro dos bens, a proclamação da republica, não era mais do que a resposta á exploração, á infamia, aos crimes praticados desde a fundação do reino até ao Capeto timido, que pagara por todos. As hediondas scenas entrevistas na Bastilha tinham excitado a colera do povo, e a guilhotina respondera aos cadafalsos numerosos que a realeza erguera para justiçar o povo, quando não se limitava a suspender milhares de creaturas dos troncos das arvores, onde a flor de liz ia distinguir o crime; o ça irá e os lanternins de Paris, enfeitados de cadaveres eram uma condigna resposta para aquella epoca. Muitos condemnam a hecatombe d'onde brotou a luz, d'onde sahiu o guerreiro ousado, o corso ambicioso que subjugou a Europa esperando subjugar o mundo, é no emtanto certo que sem a revolução franceza, ainda hoje as oligarchias dominariam  por toda a parte. 

Enchia-se pois a Europa do som triumphal da Marselheza os povos acreditavam n'um século novo de paz e felicidade universal, os reis davam as mãos e formavam um circulo d'aço com os seus soldados buscando esmagar a republica. 

A imperatriz da Austria, buscando sustentar o throno de Maria Antonieta sua filha, dava a mão ao rei da Prussia que temia pelas suas fronteiras; e em Pilnitz trataram da invasão da França. Brunswich avançava, a Vendea revoltava-se, a Inglaterra ficava na espectativa emquanio a Hespanha se movia, temerosa tambem, d'essa avalanche que rolava pelos Pyrineus. Mas cada homem da republica era um soldado: ferreiros de mãos callosas, como Lannes, tornavam-se generaes victoriosos, soldados como Lefebre eram os heroes do dia seguinte, um simples tenente como Bonaparte, coroava esse edificio gigantesco com a sua audacia, Hoche, Jourdan, Dumoriez, batiam exercitos com bandos de camponios c a bandeira da republica fluctuava sempre ovante, sempre triumphal n'um desafio, e a guilhotina decepava cabeças dia e noite como se quizesse acabar d'uma vez para sempre com o sangue azul. 

Em Portugal, o terror chegara ao seu auge. Pina Manique, o intendente da policia, andava esbaforido dia e noite na sua campanha contra os pedreiros livres, esquecendo os jesuitas que erguiam a cabeça e iam para os degraus dos thronos a exercerem vinganças. 

D. Maria I, estava louca e passava os dias resando fervorosamente no seu quarto, recebendo apenas as visitas do bispo do Algarve, d'esse Tavora que tomava uma grande importancia na côrte, e a do dr. Willis que viera de Londres para tratar a regia enferma, elle que fora já o enfermeiro d'outro doido coroado, Jorge III de Inglaterra. Governava como regente, o principe D. João, esse que mais tarde foi o rei sempre dominado pela esposa, a Carlota Joaquina impudica que deshonra a casa de Hespanha e mancha a corôa dos Braganças com os seus vicios, com os seus crimes, com as suas proezas de meretriz coroada. 

O ministro da guerra, Luiz Pinto de Sousa Coutinho, tomado de bellicos ardores, sentindo uma revolta enorme contra essa França que levantava mão sacrilega para a nobreza, de ha muito que buscava alliar-se á Hespanha e á Inglaterra n'uma cruzada de nova especie contra a religião da liberdade. Mas a Hespanha desdenhara o auxilio do pobre povo e a Inglaterra desprezara-o com a sua altivez de leopardo, não querendo receber Portugal como alliado mas sim como tributario, acceitando as offertas do ministro com o grande desplante de quem lhe prestava um favor, porém conservando-se ainda na espectativa. 

Estavam as cousas n'este pé, quando o ministro, todo vestido de negro, o rosto pallido, todo tremulo, subia as escadas do paço de Ajuda e se fazia annunciar ao regente. 

-- Sua alteza está com o seu confessor, excellencia... respondeu o camarista. 

-- Trata-se d'um caso d? máxima urgencia! replicou elle, sempre á pressa. 

-- Porém eu tenho ordens... Sua alteza itnpediu-me de annunciar-lhe alguem seja qual fôr o motivo... Entrega-se ás suas devoções! 

-- Sim e na realidade, sua alteza tem necessidade de pedir ao céu clemencia para os reis! bradou n'este momento uma voz na antecamara, ao mesmo tempo que um homem fardado de sargento-mór, se apresentava aos olhos espantados do ministro da guerra, o qual perguntava logo com um tom altivo: 

-- E porque o dizeis, senhor? 

-- Porque venho de França! explicou o recemchegado muito serenamente. 

-- De França! Vós vindes de França! bradou o ministro deveras admirado, olhando para todos os lados como se estivesse em presença d'um jacobino da Convenção, que no seu espirito appareciam como monstros. 

O proprio camarista, recuava dois passos e benzia-se devotamente esperando vêr no desconhecido talvez a cauda do proprio Satanaz. 

Porém aquietaram-se um pouco ao olharem bem de frente esse homem que estava na sua presença, ao lerem a bondade n'aquella physionomia franca e aberta em cujos olhos brilhava a luz dominadora d'uma intelligencia vigorosa. Elle esboçava um sorriso e continuava: 

-- Sim, sr. ministro, assisti ha doze dias á morte de Luiz XVI! 

-- A morte do rei! Pois atreveram-se I O quê? Luiz XVI está morto?! gritou o ministro fazendo-se livido e recuando ante o recemchegado que taes noticias lhe dava. 

-- Oh! E atrevem-se esses miseraveis a enviarem-nos ainda um commissionado! Sim, esse mr. Arbaud que acaba de chegar e conduz comsigo todas as maldições! E era quando eu vinha pedir a sua alteza, o direito de expulsar esse intruso, esse enviado d'uns assassinos, que vós me participaes a morte de sua christianissima magestade! Oh! É necessaria a guerra, a guerra sem treguas e sem quartel a esses pedreiros livres! Contae com o nosso odio vós francezes! concluiu Luiz Pinto fechando o murro e apontando-o ao tecto vigorosamente. 

E logo, duvidando das palavras do sargento-mór, com grande colera, bradou de novo: 

-- Mas quem vos disse tudo isso? 

-- Quem?! Mas vi eu excellencia!... Sim, sr. ministro, eu vi o lugubre cortejo sahir do Templo em alas enormes de patriotas que cantavam o ça ira, esse grito de morte aos nobres que hoje reboa em todos os cantos de Paris... O monarcha, na sua attitude doce, serena, num ar de justo que vae pagar com a vida as culpas de ter nascido n'um throno, caminhava resignado para essa guilhotina vermelha como o sangue e que se estadeava lá em baixo entre bayonetas e rodeada de populaça embrutecida que rouquejava invectivas! 

Em todos os chapéus, o tope tricolor, em todas as mãos chuços e bayonetas, em todos os lábios o mesmo Eia araute, sunoros e fortes e ao som do qual os francezes tem obrado prodigios nas fronteiras! 

O ministro ouvia-o aterrado, a porta do gabinete de sua alteza abrira-se e o principe ficara no limiar ao lado do confessor que estava livido, o desconhecido parara uns momentos de fallar e das arcadas do palacio chegavam grilos alegres de gente que voltava d'uma caçada; Luiz Pinto, franzira as sobrancelhas e bradara: 

-- Prodigios?! Acaso reconheceis os feitos d'esses miseraveis? 

-- E porque não excellencia! E porque não?! Admiro essa legião esforçada e valente que com generaes sahidos do povo, batem o proprio duque de Brunswich, um dos mais afamados cabos de guerra da Europa! Admiro-os como soldados não como politicos! E sabeis porque? 

-- Porque sem duvida sois um fiel vassalo da rainha de Portugal e um respeitador de todos os monarchas. 

Ao fim do corredor e sem que elles dessem por tal acabava desapparecer o vulto negro de Pina Manique, que ouvira as palavras do ministro e farejava a resposta do outro que retorquia: 

-- Porque tenho ainda na retina a visão sangrenta d'essa machina que um rei aperfeiçoou e onde o mesmo morreu! Porque me parece vêr ainda o perfil pallido e magestoso de Luiz XVI de pé na plataforma da guilhotina, fazendo um gesto ao povo que lhe gritava: 

-- Morra o Capeto! 

Porém era tão augustamente dolorosa a expressão d'aquella régia physionomia, que as proprias Jurias da guilhotina, essas velhas hediondas que appareciam sempre como aves agoureiras em torno dos mortos pela republica, se calaram cheias de terror. Nem o mais leve ruido se ouvia. Ali era agora o Paris que se admirava da sua propria audacia, que parecia hesitar n'aquelle momento supremo... Em todos os cerebros passou um breve lampejo de razão, todos viram a hediondez do crime e estacaram... Lá em cima, no cume da sinistra machina, o rei ia fallar, nos seus olhos havia lagrimas á recordação d'esse bom povo que tantas vezes o applaudira, do seu coração de pae ia sahir uma supplica a essa geme... Ia pedir-lhes pelo filho, pelo pequeno delphim, que aquella hora devia rezar por elle! Eu estava entre a multidão, pensei que o rei recolheria ao Templo, tal era a expressão piedosa de todos os rostos, pensei que esse acto d'audacia da republica a ia deitar por terra, olhei mais uma vez o rei e do intimo d'alma lhe desejei a vida... Estava commigo um homem valoroso... Em Portugal dominaria todo aquelle povo, em França não passava d'um extrangeiro, e tive que assistir a tudo!... No meio d'aquella angustia, d'aquella intensa dôr, do terror de todas as physionomias, do receio que o espantoso acto inspirava, bastaria um grito e a republica pagaria caro a ousadia! Um homem comprehendeu isso e amando mais a liberdade do que a vida do rei, quando Luiz XVI ia pronunciar as primeiras palavras, 

levantou a voz rouca. Era Santerre, que bradava: Rufem os tambores! E logo uma cabeça real cahiu no cesto da guilhotina! Luiz XVI fôra justiçado, a sua cabeça era atirada em desafio á Europa inteira! 

Dois gritos estridulos soaram; um solto pelo principe que estava livido e cabia desamparado nos braços do confessor, o outro pronunciado por Pina Manique que avançava livido tambem, bradando: 

-- Sois um pedreiro livre... Vindes de França! 

-- Senhor, eu sou Gomes Freire, sargento-mór do exercito de Portugal e coronel de sua magestade Catharina II da Russia! Venho de França sim e então?! gritou elle n'um tom de desafio, dirigindo-se ao intendente. 

-- Ah! que não sabeis senhor que isso constitue um crime! Quem uma vez pisa esse terreno maldito, fica empestado para sempre! 

O sargento-mór, voltou-se então para o ministro e exclamou: 

-- Excellencia, eu vinha ao paço procurar o meu amigo, o conde de Assumar para de seguida me ir collocar ás vossas ordens! Que ordenaes pois?! 

-- Que me acompanheis á intendencia... Não é assim excellencia?... Oh! Notae que está em Lisboa mr. Arbaud o enviado d'esses miseraveis francezes... clamou o intendente. 

O ministro estava preplexo, não sabia que resolução tomar, olhava o principe D. João que por seu turno olhava o intendente e não sabiam como resolver aquella questão da morte do rei que começava a preoccupal-os muito. 

Por fim D. João, murmurou: 

-- Que fazer?! Que fazer?! 

-- Meu senhor... É necessario declarar a guerra á França! bradou Luiz Pinto, agora mais do que nunca tomado das suas idéas bellicosas. 

-- Meu senhor, é preciso prender todos os pedreiros livres! gritou Pina Manique com um olhar de raiva ao sargento-mór. 

-- Pois prendei... prendei, sr. intendente e vós Luiz Pinto, tratae de pôr quanto antes fora de Portugal esse mr. Arbaud que a França nos envia! murmurou o regente em voz tremula, temendo ver apparecer d'um momento para outro essa tão temida figura do enviado francez. 

E como se o receio do medroso principe se tornasse realidade, como se todos os membros da convenção fossem irromper pelas portas e atirar á guilhotina a cabeça dos reis, uma figura espectral, pallida, esguia, de cabellos em desordem como um symbolo caricato da realeza, appareceu de repente, e uma voz perturbada exclamou: 

-- João... João... Não quero a guerra! Ouçam o embaixador... ouçam-no! 

-- Minha mãe! gritou o principe ao ver-se em presença da rainha louca que contrahia medonhamente a physionomia, onde os olhos amorteciam pouco a pouco. 

-- Senhora! exclamou o ministro curvando-se, emquanto o intendente olhava Gomes Freire que se curvava tambem. 

-- É preciso! É preciso! clamava Maria!, agarrando o braço do filho e continuando: 

-- Eu sou a rainha! Eu sou a rainha! Eu quero que se receba o enviado! Eu quero que haja paz!... 

Mas o dr. Wills, um velhote de bom aspecto, em cujos olhos azues se lia a bondade e em cuja alta testa a intelligencia se mostrava, apparecia e collocava-se junto da doente que ao vel-o estremecia, soltava um grito de contentamento e dizia já sem espasmos, quasi naturalmente: 

-- Não é verdade, meu amigo, não é verdade que devemos fallar a esse homem? 

O medico callava-se e fixava-a longamente; os outros espectadores d'esta scena estavam como aterrados. 

A porta abria-se, um camarista entrava esbaforido, de corrida e bradava: 

-- É mr. Arbaud que se diz enviado da republica franceza! 

Aquelle nome cahido assim de chofre no meio da reunião, deixou-os uns momentos preplexos, a encararem-se, apenas o intendente da policia se acercava de sua alteza e trocava com o principe algumas palavras em voz baixa sahindo de seguida. 

-- Que entre! Que entre! gritou a louca passando as mãos pelos longos cabellos hirsutos. 

O camarista interrogava o principe com o olhar, fazendo pouco caso das ordens da rainha e por fim D. João, muito livido, com grande timidez, murmurou para o confessor: 

-- Que fazer?! 

-- Dizer a esse homem que o governo de Portugal não reconhece a republica franceza e antes lhe declara a guerra! tornou Luiz Pinto com colera. 

-- Era esse o meu aviso, senhor... assentiu o confessor, dizendo de seguida: A França é um paiz d'hereges e nenhuma nação pode reconhecer tal republica! 

Gomes Freire, estremeceu, fez-se pallido, e viu que egual pallidez se desenhava no rosto da rainha, que bradava: 

-- Que entre! Que entre! 

-- Doutor, murmurou então Luiz Pinto em inglez. Peço-vos que conduzais sua magestade!

O medico agarrou o braço da rainha e buscou arrastal-a para fóra do aposento, porém ella como tomada de subita colera, livrou-se da mão que a prendia e bradou: 

-- Nunca! Nunca! Aqui sou eu a soberana! Querem que elles nos matem... Querem que nos prendam! Luiz XVI esta no Templo!... Soltava uma gargalhada terrivel e continuava: 

Os Tavoras, os Tavoras hão de vir!... .Alguns estão em França? eu tenho medo! Eu não quero!... Que entre... que entre o enviado! 

-- Cumpriremos as ordens de vossa magestade! resolveu firmemente Luiz Pinto olhando o principe, que fez um gesto d'assentimento e foi tomar o outro braço de sua mãe, dizendo-lhe: 

-- Mr. Arbaud, será recebido, descançae senhora! 

-- Que entre! Que entre! gritou ella desejosa de ver chegar o enviado. 

Porém era arrastada para fóra pelo medico e pelo principe e durante muito tempo os seus gritos resoaram nos aposentos baixos do palacio onde tinha a sua residencia. 

Luiz Pinto, voltava-se para Gomes Freire e dizia-lhe: 

-- Aguardae-me sr. sargento-mór... Preciso dar-vos destino! e para o camarista, ordenou: 

-- Fazei entrar esse mr. Arbaud para o gabinete de sua alteza. O outro curvou-se e o ministro desappareceu nos aposentos do principe, tendo antes dito ao outro camarista: 

-- Fazei prevenir do que se passa ao sr. José Seabra da Silva ministro do reino! 

-- Sim excellencia vão ser cumpridas as vossas ordens! replicou o outro affastando-se, emquanto o ministro ficava de pé no meio do gabinete aguardando a entrada do republicano. 









XVI 



Ça irá, ça irá! 





Tinha um bem monastico aspecto o gabinete onde o principe D. João se entregava aos negocios do reino que lhe coubera reger. Esse principe, que annos depois devia ser acclamado com o nome de D. João VI e que deixaria na nossa historia o maior rasgo de cobardia de que é susceptivel um rei, lembrava um Bourbon pela ignorancia, semelhava-se muito a seu primo Fernando IV de Napoles. Na historia ha destinos que se parecem como uma gotta com outra gotta, epocas em que os factos se semelham por todo o Universo, reis que se parecem com outros reis. Assim entre D. João e Fernando IV, a semelhança era completa, ambos eram gordos, de fradesco aspecto, gulotões e 

de preferencias plebeas, a um coubera em sorte o canto da peninsula onde as armas francezas deviam ser rechaçadas, ao outro coubera-lhe tambem esse cantinho da Italia onde os francezes de Championet deviam ajudar a proclamação d'uma republica. E para a nota de semelhança ser mais completa até as esposas se pareciam nos sentimentos. Uma, Maria Carolina austriaca orgulhosa, irmã de Maria Antonietta, descia muitas vezes da sua dignidade real repartindo os seus beijos entre a formosa lady Hamilton e os officiaes do seu exercito, a outra deixava em dias de aborrecimento as caricias de qualquer das damas c entre as quaes se contava D. Antonia de Mello pelo babujar dos beijos do almoxarife do Ramalhão. 

E tanto se pareciam nos instinctos como era egual a indole dos seus povos: Nápoles e Portugal, tornados quasi prefeituras britannicas recebiam as ordens da Inglaterra altiva; os dois povos folgavam e riam sobre um vulcão, fanatisados os lazzaroni pelo milagre de S. Januario, cheia de devoção a populaça da Ribeira e os falantes d' Alfama pelos milagres do bento Santo Antonio e do Senhor da Graça. Nos negocios, como em tudo se egualavam e por isso, agora ali estava Luiz Pinto de braços cruzados, esperando que o principe voltasse, desejoso da sua sancçao para tudo quanto dissesse ao francez. O camarista já annunciara mr. Arbaud e do outro lado da porta ouviam-se os seus passos ao longo do corredor, exactamente na occasião em que uma porta occulta na tapeçaria do gabinete de sua alteza se abria, e o principe entrava cada vez mais tremulo. 

-- Meu senhor... Já ahi vem o enviado da França... 

-- Oh! Sousa Coutinho!... disse D, João com grande terror, dando ao ministro os seus dois últimos nomes. Livra-me d'esse hereje! 

-- Mas alteza real não é outro o meu fim... Vossa alteza mesmo vae ouvir! 

-- Não... não... Sousa Coutinho, pede-me que te faça conde ou marquez mas não exijas de mim que esteja um só minuto na presença d'esse homem! replicou o principe com um estremecimento de beato. 

-- Mas como tratar então com elle? interrogou logo o ministro da guerra, sentindo tambem um calafrio ao ver-se só. 

-- Como?! Mas como quizeres, meu amigo! redarguiu o regente dispondo-se a sahir e exclamando: 

-- Tens plenos poderes... Apenas não quero tratar com elle! 

-- Mas porque, alteza? 

-- É um excommungado... Toda a França, tudo quanto de lá vem é excommungado!... Por Deus, se eu nem quero vêr no paço esse conde d'Assumar que mandou equipar á franceza os soldados do seu regimento!... Se ainda ha pouco dei ordem para que o Pina Manique fizesse acabar semelhante heresia! E o principe corria de novo para a porta e ia sahir, quando se ouviu uma voz  altiva, exclamar: 

-- Eu aqui estou comvosco, sr. ministro! 

E o perfil vaidoso de Carlota Joaquina appareceu á entrada da porta. 

-- Vós senhora?! bradou Luiz Pinto estupefacto. 

-- Sim, e porque não? Não sou acaso a esposa do regente? bradou ella orgulhosamente. 

O ministro franziu o sobr'olho e retorquiu: 

-- Porém... 

-- O que?! tornou ainda a hespanhola erguendo a cabeça. 

-- Vossa alteza deve ser extranha á politica, segundo as leis! murmurou elle timidamente emquanto o regente aproveitava a occasião para se esgueirar com grande pressa pela abertura. 

-- Aqui não ha politica! Ha apenas a solidariedade dos reis em defeza d'esse bom Luiz XVI, cuja sorte teremos se acaso não respondermos com ousadia aos pedreiros livres. Trata-se ou da guerra com a França ou da liberdade do rei! 

-- De quem fallaes? perguntou o ministro cheio d'assombro. 

-- Do prisioneiro do Templo!... 

-- Senhora, Luiz XVI está morto! 

A princeza soltou um grito, fez-se livida, e interrogou de seguida: 

-- Morto?! 

- Sim alteza... Foi guilhotinado ha doze dias! 

-- N'esse caso ha só uma solução, é retirar-me depois de vos dizer: 

-- Sr. ministro, a nossa dignidade de reis, carece que as armas portuguezas tomem parte na santa cruzada contra a republica franceza!... 

-- Senhora... Apenas espero que a Inglaterra e a Hespanha nos tomem como alliados! A guerra é o meu fim, como sabeis! Desde ha muito que faço tratados, desde ha muito que imploro das potencias essa cruzada! Fui eu o primeiro a dirigir-me á Inglaterra que quiz esperar os acontecimentos, depois a Hespanha que respondeu d'egual modo! Agora parcce-me que chegou a hora! 

-- Sim é a hora! Agora já não temos a recear que maltratem o martyr! Declarae a guerra... Eu tenho noticias de Hespanha! 

-- Vossa alteza! 

-- Eu sim... Sei que não ha agora o minimo obstaculo á empreza! Fallae afoutamente ao enviado! e ella ordenava aquillo com o sangue frio e altivez d'uma rainha e sahia fazendo um cumprimento ao ministro que murmurava: 

-- Por Deus! É uma bravata hespanhola! É impossivel, elles não quererão a guerra! 

Porém a porta abria-se e um correio coberto de poeira, entrava; estendia uns papeis ao ministro e exclamava: 

-- Chego agora mesmo... Foi só o tempo de atravessar o caminho até Ajuda! Venho das legações de Hespanha e da Inglaterra onde me enviastes excellencia. 

O ministro já não o ouvia, lia os documentos com avidez, o seu rosto tomava uma expressão alegre e bradava: 

-- Oh! Oh! 

Mas de seguida fazia-se pallido e murmurava: 

-- Como auxiliares... Então e a alliança?! 

Passava a mão na perruca, ficava uns momentos taciturno e ordenava logo ao correio: 

-- Faze entrar o enviado francez! 

E ao vel-o sahir, começou de novo o seu monologo: 

-- Mas é impossivel! Enviar uma divisão á Hespanha... Mas porque não somos tomados como alliados! A esquadra portugueza para a Mancha! Mas é quasi um insulto d'esses senhores! 

E ao cerebro do ministro vinha logo o pensamento de recusar o que lhe offereciam, fazia-se livido e recordava-se de que ultrajavam Portugal repudiando a sua alliança, não o reconhecendo, querendo a Hespanha uma divisão, querendo a Inglaterra a esquadra para incorporar na sua. 

Porém, na sua frente estava o enviado francez, que se curvava n'uma reverencia deveras cortezã, e que admirava o ministro. Era um homem alto, bem feito, de rosto insinuante, e que se vestia como os funccionarios da republica: calça comprida e justa mettida nas altas botas á valachia, casaca azul cora banda tricolor á cinta, militarmente abotoada, trazia sob o braço o seu tricorne e collocava a mão enluvada nos copos do espadim, ao mesmo tempo que com a outra, estendia ao ministro um papel fechado com as armas republicanas. Luiz Pinto, recuou como se temesse receber a morte ao tocar n'esse papel e interrogou em francez: 

-- Sois mr. Arbaud não é assim? 

-- Sim, cidadão ministro, bradou o francez delicadamente. Sou o enviado da França, isto é, d'uma potencia amiga! 

O ministro recuou de novo e nem sequer mandou sentar o seu interlocutor, que continuava: 

-- D'uma potencia amiga, repito! Porém, ninguém tal diria ao vêr a forma como sou recebido em Portugal! Na fronteira foi-me negada a passagem; tive que aguardar alguns dias em Elvas que vós, cidadão ministro, me enviasseis a ordem de seguir... Entro em Lisboa e, quando esperava a recepção cordeal a que teem direito os plenipotenciarios das potencias amigas, -- e elle sublinhava muito estas palavras -- eis que todas as portas são fechadas, desde as dos ministerios até ás dos hoteis, e vejo-me na collisão de tomar logar n'uma miserrima hospedaria, a do Caldas, a unica que se atreveu a receber o enviado de França! 

O republicano fallava com cordura, embora altivamente; via-se que a custo abafava a colera de que estava possuido, e, sem deixar que o ministro lhe respondesse, proseguiu: 

-- Porém, cidadão ministro, um republicano não é um leproso, e todos os homens desejam as commodidades. N'essa miserrima espelunca coisa alguma havia, serviam-me a medo, procuravam desgostar-me, os agentes da vossa policia não largavam um instante a minha porta, as pessoas da minha nação que me visitavam eram seguidas, e eu resolvi recolher-me a casa dum particular, um cabelleireiro francez na rua Nova do Carvalho, onde tenho estado sempre vigiado pelos vossos mouchards! Que fazer n'este caso? Julgo que vós, cidadão, não tendes conhecimento do que se passa e por isso me queixo, no emtanto deixemos os meus negocios e tratemos antes dos do meu paiz! Eis as minhas credenciaes! 

E o francez estendia de novo os papeis ao ministro, que mascava em secco e retorquia de seguida, muito embaraçado: 

-- Senhor... Não posso receber as vossas credenciaes! Coube então a vez aó enviado da republica de dar dois passos para traz e exclamar: 

-- Não quereis então reconhecer a minha qualidade de embaixador da França?!

-- Senhor, sua magestade fidelissima me ordena de não receber ninguem como ministro da França! 

-- Mas, reparae, cidadão ministro, que os mais altos laços de sympathia unem o meu paiz ao vosso, reparae que a França e uma boa amiga de Portugal, que os tratados antigos nós estamos dispostos a mantel-os! 

-- Os tratados antigos foram feitos com os reis da França! gritou então o ministro, rancorosamente. 

-- Mas a republica os arroga a si! 

-- Nada temos a ver com a vossa republica! Portugal não reconhece a republica da França; Portugal, como o resto da Europa, está de luto pela morte de Luiz XVI... tornou o ministro, com raiva intensa. 

-- É a guerra que nos declarais? perguntou então, muito serenamente, mr. Arbaud. 

-- Coisa alguma vos posso dizer, senhor! 

Então o outro encarou-o de frente, muito cheio de altivez, e bradou: 

-- Chamae-me cidadão, ministro de Portugal. Chamae-me cidadão, que em França já não existem classes, já não ha differenças, a egualdade brotou no cantico sagrado do Çá irá e da Marselheza, e que cada homem é uma parte d'esses mesmos canticos, cada francez é um soldado da sua nação! Pois eu vinha aqui, firme e crente na sympathia de Portugal, vinha eu, o filho d'uma nação poderosa, trazer-vos a paz nas dobras d'esta credencial, e sou repellido como um embusteiro?! Que esperaes então?! Julgaes que é vosso pequeno povo que vae fazer peso na balança da Europa contra a França?! 

-- Duvidaes do valor portuguez? interrogou o ministro em tom de desafio. 

-- Não, cidadão ministro! Conheço em demasia a historia do vosso povo, para o não julgar, para duvidar do vosso valor! Sei quanto sois arrojados, mas sei tambem que os vossos soldados irão a esse combate sem o enthusiasmo que gera a defeza da patria ou da liberdade! Pequena é a França para responder ao mundo e no emtanto a historia da sua curta republica já é brilhante! Jemapes 

e Valmy valem uma epopeia! E sabeis porque vencemos! Porque em cada peito bate um coração pelas causas sagradas da patria! Por isso eu digo que não é o vosso povo que vae fazer peso na balança do mundo contra a republica! 

-- É a Inglaterra, é a Hespanha! Não é só Portugal! gritou então, bem pouco diplomaticamente, o ministro, em resposta ao enviado. 

-- Que dizes, Luiz Pinto? perguntou, n'este momento, da porta uma voz assombrada, e José Seabra, o ministro do reino, appareceu aos olhos espantados do estrangeiro. 

-- Digo que Portugal não reconhece a republica franceza, ames lhe declara guerra, guerra de morte. Sim, guerra sem quartel, eis a resposta que levareis a mr. Lebrun, dizei-lhe mais que Portugal repelle os seus offerecimentos com a altivez d'um paiz catholico contra um bando de hereges, dizei-lhe que escuso de ler a sua carta e participae-lhe que vamos enviar tropas para as suas fronteiras 

Suava, resfolegava, estava vermelho de cólera, e depois, por fim, n'outro tom, dizia: 

-- Podeis exigir os vossos passaportes na secretaria dos estrangeiros, e dou-vos quarenta e oito horas para sahirdes de Portugal!

Mr. Arbaud teve um estremecimento nervoso, encarou ousada e firmemente o ministro e bradou-lhe: 

-- Isso eu direi ao meu governo, eu lhe participarei a vossa alliança com potencias que vos hão-de espesinhar, e a minha resposta ás vossas ameaças, ao insulto dirigido á França, é a seguinte: Portugal ha-de desppparecer do mappa no dia em que a França dominar o mundo! É um vaticinio apenas... A verdade é esta: Ça irá!... Çá irá!... 

E o enviado poz abruptamente o seu tricorne e sahiu trauteando a Carmagnole. 

Os dois ministros ficaram frente a frente e só então José de Seabra exclamou: 

-- Oh! Que loucura, que rematada loucura! 

O outro, offegante, cançado, deixava-se cahir na cadeira do principe e replicava: 

-- Loucura! 

-- Sim... Portugal não pode declarar guerra a nenhuma potencia quando não tem armas, quando não tem munições, quando não tem officiaes! 

-- E a França?... bradou o outro, deveras enraivecido ante a censura. 

-- A França combate por uma coisa que a enthusiasma, que a move d'um extremo ao outro... 

-- Oh! Mas ha a Inglaterra, ha a Hespanha! 

-- E quererão esses paizes intervir? interrogou José de Seabra, rapidamente. 

E o outro, com um sorriso triumphante, apontou-lhe os papeis collocados na sua frente e que José de Seabra começou a ler. 

Mas de repente fez-se paliido, amarrotou febrilmente aquellas notas que as legações tinham enviado e exclamou: 

-- É uma humilhação a que tu nos obrigas! 

-- Uma humilhação! bradou então o outro, fazendo-se pallido. 

-- Sim, uma humilhação, Luiz Pinto! Se querias declarar a guerra á França negociasses com as outras potencias, dirigisses as tuas propostas á Prussia e á Austria, que nos tomariam como alhadas, ao passo que a Hespanha e a Inglaterra nos teem hoje, graças a ti, como auxiliares! Sim, tratam nos como nunca tratariam a Turquia, ouve bem! 

-- O necessario é castigar os republicanos, os hereges! 

-- Para castigar é precisa a auctoridade que nos falta, a força de que carecemos, o direito que não possuímos, a dignidade que vamos perdendo, desde que essas potencias nem sequer nos acceitam para alliados! 

E o ministro do reino voltava tambem as costas ao collega, com um desprezo mais profundo do que ha pouco lhe votara o enviado francez quando entoara o seu vibrante çá irá. 

Cabia então a vez de Luiz Pinto deixar cahir a cabeça sobre a mesa e ficar para ali amollentado, pensando muito no mau passo em que se mettera. 

O principe regente entrava, via-o, soltava um suspiro, ante o qual o ministro erguia a cabeça e respondia ao olhar interrogador de sua alteza: 

-- Está tudo terminado, meu senhor! 

-- Temos a guerra? perguntou o principe, fazendo-se pallido. 

-- Sim, meu senhor... Mandaremos uma divisão auxiliar á Hespanha e a nossa esquadra irá a Mancha pôr-se ao serviço da Inglaterra! 

-- Ah! Que Deus tenha piedade da familia real! 

E D. João cahia de joelhos no meio do aposento como se tivesse a previsão que esses soldados francezes lhe haviam um dia arrancar a corôa por muito tempo. 

Então, o camarista apparecia e exclamava: 

-- Excellencia, o sargento-mór Gomes Freire, que espera ha duas horas as vossas ordens, pergunta o que determinaes? 

O ministro, que tão prompto fora em declarar a guerra, passou a mão pela peruca, ficou uns momentos silencioso e por fim respondeu: 

-- Que venha amanhã! É preciso pensar onde devo collocal-o! 

E logo que o camarista sahiu, Luiz Pinto, lançando um olhar a sua alteza, supplicou um elogio: 

-- Senhor, estaes contente com o vosso servidor? 

D. João, na sua voz pastosa, apenas resmungou, sempre ajoelhado: 

-- Que a Santa Virgem da Conceição tenha piedade da familia real! 

E o ministro ficou tão taciturno como ante o ça irá de mr. Arbaud, o enviado da republica franceza. 







XVII 







Companhia de Jesus 





Chegou a occasião do golpe supremo! Vencemos em toda a linha! bradou aquelle homem alto e vigoroso de boas feições, vestido n'um habito de dominicano, fallando á numerosa assembléa que estava na sua frente, além nas casas baixas do convento  do Carmo. 

Grossas sombras pesadas vinham do alto, da aboboda arqueada de cantaria forte, e pelos ralos junto ao chão entrava uma aragem fina que fazia vacillar as luzes dos grandes candieiros de latão suspensos do tecto que ressumava humidade. 

Estava alli gente de todas as classes, silenciosos e graves os amigos da Companhia, deixavam fallar o dominicano. Eram os militares de fardas bordadas, os fidalgos de vestes em seda, os mercadores que se conheciam pelos enormes brilhantes das cadeias, os magistrados d'ar severo e olhos prespicazes, entrajados de negro, e sobretudo os frades de todas as ordens, os verdadeiros jesuitas embuscados nos hábitos das outras congregações, e que ouviam tranquillamente as palavras do dominicano, que de pé sobre o estrado, continuava a sua arenga com enthusiasmo: 

-- Os jesuitas expulsos pelo negregado Sebastião José, vão retomando dia a dia o seu poder... Occupam os mais altos cargos; um dos nossos é confessor da rainha! 

Um sussurro prolongado d'approvação coroou aquellas palavras e todos os olhares se voltaram para o logar onde estava José Maria de Mello, vestido muito simplesmente no seu habito d'oratoriano, e o qual fusilando um olhar por detraz dos seus oculos verdes, redarguiu erguendo-se: 

-- Sim irmãos, vencemos senão já de facto ao menos caminhamos para isso! O principe D. José jaz ha muito no tumulo, o arcebispo de Thessalonica nosso figadal inimigo está morto tambem, a corja vil e ignara dos pedreiros livres tem agora por inimigo o mesmo Pina Manique que nos combatia e que ante os acontecimentos da França, nos deixa respirar voltando-se para elles! D. Maria I está louca! e ao pronunciar estas palavras os olhos do bispo mostraram a sua rancorosa expressão. 

A assembléa applaudiu, elle continuou: 

-- Deu-se a deserção d'um dos nossos, um certo Luiz de Berredo que fôra enviado á Russia para vigiar Gomes Freire, o qual tem relações com pedreiros livres... 

-- E entre elles encontra-se o peior de todos! O conde d'Assumar, ou se melhor o desejam, o marquez d'Alorna... exclamou uma voz rancorosa. 

-- Que dizeis?! O irmão de D. Leonor d Almeida, a poetisa? gritou um outro fidalgo que teria os seus trinta e cinco annos e em cujo rosto se notavam traços indeléveis d'uma vida de dissipação. 

No emtanto, ao fallar assim, ao fixar o outro, a physionomia mostrava uma dolorosa surpreza e o seu olhar tinha uma expressão  triste. 

-- Sim, sr. conde da Ega! gritou por seu turno o que primeiro fallara, e que era um mancebo de fidalga apparencia, vestido no uniforme de capitão do regimento de Olivença. Repito, tornava elle. 

O conde d'Assumar é um herege! Os que com elle vivem, hereges e pedreiros livres são! 

-- Mas em que vos baseaes para semelhante affirmação ? interrogou o conde da Ega em voz vibrante. 

E o outro, com um sorriso bem pérfido a franzir-lhe os labios grossos, a physionomia a esclarecer-se no auge do contentamento, bradou: 

-- Quereis maior prova do que a maneira como elle veste os soldados do seu regimento? Os uniformes vieram de França, foram equipados como os soldados d'essa infame republica... Nas barretinas trazem o cocar da liberdade, as espadas tem uma serpente e uma setta enrolada nos copos! Tudo isto mostra bem as preferencias do conde, e por consequencia as do seu amigo Gomes Freire! 

-- Mas reparae D. Miguel Forjaz, bradou o conde da Ega, deveras assombrado. Reparae que o sargento-mór Gomes Freire é vosso parente! 

-- E que importa?! exclamou o nobre com um ar raivoso. A familia nada tem a vêr com as opiniões. Eu sacrifico tudo á religião... Por isso se um dia tiver Gomes Freire sob a minha alçada, desde que incorra n'um acto criminoso se tivesse de ser seu juiz, nem por isso deixaria de o condemnar! Antes de tudo a santa religião, o bem da Companhia! 

Grandes applausos resoaram; o conde da Ega sentou-se deveras perturbado pela logica do seu adversário, e este com grande alegria, começou conversando a meia voz com um homem gordo e espadaudo fardado de major e que estava a seu lado. 

O dominicano lá do alto da sua peanha, clamava: 

-- Assim são os verdadeiros amigos da religião... Louvo as vossas palavras D. Miguel de Forjaz... E agora ouvi uma vez ainda a palavra inspirada de José Maria de Mello! 

O bispo, que estivera até então extranho, absorto, como preso na sua idéa fixa de vingança, continuava agora: 

-- Resta-nos senhores em face dos acontecimentos, dar o golpe decisivo! A Companhia deve ser implantada de novo em Portugal, não nas trevas mas á luz do dia, a Inquisição deve ser restabelecida, a ordem dos jesuitas deve chegar até ás culminancias do poder! Temos entre nós militares que nos sustentarão com as suas espadas, mercadores que farão o nosso commercio, magistrados que julgarão os nossos inimigos, fidalgos que serão o nosso apoio nas familias! Que nos resta pois? bradou elle, ficando callado uns momentos e como embriagado do som das próprias phrases. Sem duvida alguma  arrancarmos do regente o edito da nossa reconstituição! 

Aqui os applausos foram unanimes, todos se ergueram em grande grita, todos acclamaram o bispo que parecia mudar d'idéa de repente, querendo tirar do effeito o contraste que o levaria aos seus fins. 

-- Mas quererá D. João assignar esse édito? 

-- D. João é um pnncipe devoto! clamou o dominicano. 

-- Mas d'animo fraco... Será amanhã o rei logo que a louca morra! gritou outra voz. 

-- Talvez antes ainda! exclamou D. Miguel Forjaz com um riso satanico. 

-- Pois sim meus senhores, mas está no poder um homem que nos combaterá sempre! José de Seabra, o ministro do reino, odeia a Companhia, depois Pina Manique nunca o consentiria, o povo havia de clamar... 

-- E que importa?! gritou o dominicano do alto do seu estrado. Para dois homens temos mil, para o povo temos o exercito! 

-- E para os pedreiros livres, para os maçons? Sim, julgaes acaso que não ha entre elles homens assaz fortes, pertencentes a todas as classes? A maçonaria é o inimigo mais poderoso! 

-- Destruir se-ha! bradaram em unisono. 

Nos labios do bispo passou um sorriso e elle redarguiu: 

-- Irmãos: Sabeis a lucta titanica travada em Portugal para a abolição da nossa ordem, sabeis como os outros paizes a coadjuvaram, e sabeis tambem como nós erguemos sempre as cabeças e como apparecemos por toda a parte! Pois a maçonaria é uma sociedade formada no género da nossa! Jamais será destruida! Depois a Companhia de Jesus tem outros encargos... Sei que D. João nunca terá coragem, apesar da sua devoção extrema, de nos restabelecer! Tem medo que lhe fuja o terreno sob os pés... 

-- Mas então que fazer?! interrogou o dominicano. 

-- Eis ahi o ponto! Irmãos, Carlos IV d'Hespanha é um monarcha piedoso! 

Elle callara-se, fizera-se de seguida um silencio enorme, todos pareciam estupefactos de semelhantes palavras; e o bispo sentindo referver o seu sangue tomado do seu grande odio aos Braganças, desejoso de levar até ao fim essa vingança começada pela morte do príncipe D. Jose e pela de Thessalonica, continuada pela loucura de Maria I, sentia a vontade de concluir a sua obra pelo roubo do throno a esses Braganças que tinham deshonrado e justiçado os seus. 

Por isso, continuava: 

-- Sim, Carlos IV é um monarcha piedoso! Se amanhã Portugal se tornasse uma provincia hespanhola facil nos seria o domínio! Para demais já aqui temos alguem da familia de Hespanha! 

-- A regente! bradaram com enthusiasmo. 

-- Que seria amanhã a unica soberana de Portugal! gritou um individuo no cumulo da alegria. 

-- Sim, D. Ramiro, ella seria a unica soberana! gritou o bispo dirigindo-se ao rival de Gomes Freire; e logo D. Miguel de Forjaz, curvando-se para o outro, murmurou: 

-- E vós terieis o poder! Ella distingue-vos! 

-- Porque não vos conhece! tornou o outro muito lisongeiramente. 

O bispo continuava sempre: 

-- E agora resolvei, senhores! Pensae se temos de dirigir a nossa politica para a corte d'Hespanha ou se temos d'operer apenas em Portugal! 

Foi então que D. Miguel Forjaz, n'um impeto, tomado d'intenso calor, cheio de enthusiasmo se ergueu e começou: 

-- E porque não acceitaremos a mui alta e poderosa princeza Carlota Joaquina por nossa unica soberana ? D. João é um príncipe timorato, a regente dispõe d'audacia e é catholica como uma proxima parente do rei de Hespanha! Ella ergueria a Companhia de Jesus tão alto quanto a Companhia desejasse, para demais ha entre nós um fidalgo que priva de perto com sua alteza e que se encarregaria de transmittir as nossas deliberações! Sim meus senhores, elle aqui está a meu lado chama-se D. Ramiro...

-- Muito bem! Muito bem! gritaram todos não o deixando concluir. 

Começou então a votação, todos se erguiam e iam lançar o seu voto na urna que o dominicano coUocara sobre a mesa. 

Escreviam á pressa a sua opinião e o seu nome e iam lançal-o no fundo do vaso que o dominicano revolvia com mãos tremulas. 

E ao cabo de duas horas, estava votada a exclusão do throno do principe D. João em proveito de sua esposa D. Carlota Joaquina. 

Os jesuitas sahiam então cautellosamente, aos grupos de dois do convento silencioso aquella hora. 

D. Miguel e D. Ramiro tinham partido juntos, e agora além na rua apertando as mãos effusivamente, exclamaram: 

-- Teremos a victoria! 

-- Sim, accrescentou D. Ramiro, seremos os ministros d'essa soberana á qual deixaremos proceder livremente, apoiando nos no leão de Castella! 

-- E só então chegará o dia de eu vingar em Gomes Freire um antigo odio de familia! exclamou D. Miguel de Forjaz com uma grande expressão de raiva. Um odio que ha desde seculos entre os Pereira Forjaz e os Freire! Sempre nos disputaram as honras, foram sempre os primeiros da familia... Nas honras como na riqueza! 

-- Mas Gomes Freire, é pobre!... 

-- Será rico um dia por morte d'um dos seus tios paternos! 

-- Bernardino! 

-- Esse!... 

-- Ah! Vingar-mos-hemos juntos! Vós tereis a riqueza d'elle, eu terei a sua vida a sua honra! Ainda não me esqueci das affrontas... 

-- Trata-se de Elvira de Mello? interrogou o outro. 

-- Sim, d'essa mulher da qual a Companhia se apossou e a quem já cousa alguma me prende! Mas o seu amante, o seu raptor, esse tem para mim uma divida...  

-- Iremos até ao fim... Aguardaremos a sua volta da Russia e então será o momento! exclamou D. Miguel. 

-- E acaso elle voltará? perguntou o outro avidamente. 

-- Tendes um bom meio de saber isso! 

-- Qual? 

-- Perguntae-o ao seu dilecto amigo, a esse conde d'Assumar, herege e pedreiro livre! 

-- Perguntal-o-hei! Mas e vós porque não lh'o perguntaes? 

-- Quasi não fallo a D. Pedro... 

-- Mas sois o ajudante d'ordens de seu cunhado, o marido da poetiza... 

-- Breve deixarei esse cargo... replicou o outro. 

-- E porque? 

-- O general está moribundo e vou ser nomeado para partir com Forbes! 

-- Para onde? 

-- Para a guerra com a França! Disse-m'o esta manhã, Luiz Pinto! 

-- Ah! Eis ahi um bello cargo! O general Forbes é uma excellente pessoa!... 

-- Bom e malleavel! volveu o fidalgo com uma risada, tendo um olhar para o amigo. 

Elles conversavam e caminhavam; iam sempre cm direcção ao Caes dos Soldados, onde tomariam o bote que os devia conduzir a Ajuda onde tinham as suas residencias. 

Aquella mesma hora á porta principal do paço apeava-se d'uma sege que viera a toda a brida um homem envolto nos habitos dos oratorianos. 

Era o bispo do Algarve que regressava da reunião e que subia precipitadamente para os aposentos que lhe estavam reservados. 

José Maria de Mello, occupava os antigos quartos de Thessalonica e continuava a exercer a sua pressão no animo da rainha louca. Ás vezes, altas horas, ouviam-se os gritos da doente, as imprecações raivosas, que abalavam o palacio e viase então sahir dos aposentos de Maria I, o Tavora, como se fosse um espectro, com os lábios franzidos n'um sorriso de odio. 

N'aquella noite, porém, não se dirigiu para o lado do palacio onde habitava a rainha ; penetrou nos aposentos que lhe pertenciam, arrancou o habito e vestiu a sua roupeta roxa de bispo, murmurando sempre palavras inintelligiveis. Depois sahiu de novo, sem acordar o seu leigo, que se atravessava iunto a um movei e resonava com estrépito, e dirigiu-se atravez d'um corredor estreito para a ala esquerda do palacio, que deitava para os campos. Apenas lá em baixo, para lá do Jardim Botanico, se erguia para o espaço a cupula da ermida da Memoria, que ali estava a incitar o seu odio, 

a recordar-lhe o attentado dos seus parentes contra o pae da rainha, que elle enlouquecera. 

Chegado ao fim do corredor, subiu uma escada, enfiou ainda por um novo corredor e carregou n'uma mola occulia na tapeçaria e que lhe abriu uma pequena porta por onde elle penetrou logo. 

-- Ah! sois vós, monsenhor?! exclamou uma voz de mulher, ao mesmo tempo que o bispo exclamava: 

-- Onde está sua alteza? 

-- Carlota, retorquiu D. Antonia de Mello,, com certo desgosto, corre esta noite aventuras! 

-- O quê?! Sua alteza não está no palacio? 

-- Não, excellencia... Sua alteza sahiu ao bater da meia noite, na sua cadeirinha! volveu a favorita, cada vez mais rancorosamente. 

-- E para onde foi? perguntou elle, com grande tom auctoritario na voz. 

-- É a mim que o perguntaes? exclamou ella, deveras impressionada. 

-- Sim, e porque não... Acaso não sois a sua amiga, a sua confidente? 

-- Mas não conheço o que se passa no cérebro de sua alteza! Não estou a par do maior numero de caprichos que a tentam! 

O bispo curvou a cabeça, resmungou algumas palavras e disse de seguida: 

-- Sua alteza d'esse modo perde-se no animo de D. João, que a adora... 

A outra esboçou um sorriso de desdem e volveu: 

-- Ella sempre o domina! 

-- Excepto no dia em que o regente conhecer as suas aventuras nocturnas! Calculae que José de Seabra o sabe! 

-- E que pode contra nós o ministro! Olhae, monsenhor, eu apenas lastimo essas aventuras por um motivo... e nos olhos da morena lasciva passava um clarão d'odio ao recordar-se dos amores da soberana, continuando logo: Depois, se apenas causasse mal ao meu coração! Mas é que ha alguem a soffrer tambem, alguem a quem odeio, mas que pode tentar alguma coisa contra ella! Por isso eu temo!... Por isso eu temo... 

-- Tentar alguma coisa contra a regente! E quem se atreveria? perguntou sua grandeza, fazendo se roxo de indignação. 

-- Um homem que a ama, um homem que é o seu amante mais dilecto! 

-- Por Deus... Fallaes de D. Ramiro! 

-- D. Ramiro nunca foi amante da princeza... É o seu valido, o seu factotum apena?! 

-- Ah! disse o bispo, um pouco mais contente com aquella revelação, temendo muito pelo seu poder, desde que alguem muito intimo da princeza lh'o disputasse. 

-- Mas de quem fallaes? interrogou de novo. 

-- Do João dos Reis... 

-- O quê? O almoxarife do Ramalhão ? Esse lacaio elevado á mordomia? bradou o Tavora no auge do espanto. 

-- Elle mesmo! Sim, elle, o lacaio, o amante da princeza... Elle, o brutal, que lhe enodoa o corpo nos momentos de colera... 

-- Calae-vos! gritou elle, como enojado de tal estendal de baixezas. 

Mas a favorita da hespanhola, ella que conhecia bem os segredos do corpo regio, ella que sentia a cólera subir-lhe do coração aos labios, continuava, irada: 

-- Sim, monsenhor... Elle, o antigo caseiro de Queluz, que se souber que a princeza tem novos amores é capaz de a matar! Por isso eu tremo dessa aventura nocturna! 

-- Deixae em paz o plebeu e o seu amor... Para mim ha apenas um receio... 

-- O do marido! 

-- Sim! O de D. João... 

D. Antonia soltou uma risada e volveu: 

-- D'esse nada ha a recear... volveu ella muito desdenhosamente. A esta hora dorme como um abbade! 

-- Sim, é o que valei... resmungou o bispo, accrescentando logo: Pois chamae-me, D. Antonia de Mello, seja a que hora fôr e logo que venha sua alteza! 

-- Assim farei, monsenhor... 

O bispo sahiu então de novo pela porta secreta, ao passo que a favorita murmurava: 

-- Que mais teremos!... e applicava o ouvido á porta como tomada de medo. 

Depois aquietou-se, sentou-se e começou a meditar muito n'aquella aventura, para ella desconhecida, sem duvida um novo amor a que a princeza se entregava. Lia-se-lhe a cólera no rosto, tremia como desde que ella sahira e por fim erguia-se d'um salto e corria para o aposento contíguo. A cama da princeza estava feita no meio d'esse aposento luxuoso, como o d'uma sultana, onde os moveis tinham curvas voluptuosas, onde se espalhava um perfume  violento que obrigou a favorita a soltar um grito, a cerrar os olhos, toda palpitante d'um goso inexplicavel. E de seguida avançava para o leito e começava a beijar as almofadas onde a princeza deixara o seu perfume. 









XVII 



O cadete da legião 



Era nos aposentos que o marquez de Alorna -- o conde de Assumar, tão amigo outr'ora das aventuras -- reservara para seu uso no quartel da sua legião, no 

recanto das Junqueira e no mesmo palacio onde mais tarde foi o quartel general inglez. 

O marquez, estendido n'uma poltrona, tendo a seu lado a espada, conversava com Gomes Freire, que se encavallara n'uma cadeira, como nos seus bons tempos de cadete. 

Pelas paredes viam se laminas que luziam, amostras de fardamentos de todos os paizes, diversos emblemas guerreiros, que davam á sala o mais grandioso aspecto militar. 

D. Pedro d'Almeida estendia a mão para um copo ainda cheio que ficara no meio das garrafas que ambos tinham esvasiado alegremente, erguia um pouco o corpo e d'um trago bebia o resto do liquido, exclamando n'um ar alegre: 

-- Com que então quasi não me encontravas?! Ah! meu velho... A Russia fez-te esquecer o idioma... Bastava que desses ahi dois berros na praça publica e perguntasses aos que se juntassem: «Olá, amigos, o que é feito do Assumar?» Verias rostos admirados, gente que cochichava entre si e logo de seguida um brado unisono te responderia: «Esse herege, esse negregado, fortificou-se 

no seu quartel e não sae de lá dia e noite!...» O sr. Pina Manique, intendente da policia, não se atreve sequer a passar a dois mil metros de distancia, temendo alguma partida da legião, que anda vestida como os infames francezes jacobinos... Para demais, meu velho, tu devias me uma visita! Tenho aqui teu primo, o filho de Bernardino. 

-- O filho de meu tio, o general Bernardino Freire? 

-- Sim... Um bello rapaz, do qual hei-de fazer um valente official!... 

-- Ah! Fallar-lhe-hei amanhã... Nem sequer o conheço... 

-- Pudera, se vens da Russia! chasqueou o fidalgo. Pudera, se quasi não te lembravas do teu velho Assumar! 

-- Ora, amigo, bem sabes que tenho sempre presente a nossa boa amisade! 

-- E não acceitas aqui o posto na minha legião!... Serás o coronel de facto, eu sel-o-hei comtigo! 

-- Não, D. Pedro... Eu sou apenas sargento-mór... 

-- Do exercito de Portugal! Mas na Russia... 

-- Por Deus... A Russia é muito generosa! disse o heroe sorrindo e perguntando logo ao amigo n'outro tom: Mas porque teimas em contrariar o intendente! 

O coronel encrespou as sobrancelhas, olhou de face o amigo e replicou: 

-- Porque teimo?! 

-- Sim... Podias modificar as fardas! 

-- Nunca! bradou elle, e logo com colera, accrescentou: 

Porque teimo... Porque elles me desafiam! clamou o antigo cadete do regimento de Gascaes. Porque na nossa loja maçonica da Boa-Morte jurei que nunca cederia um passo a semelhantes patifes! É verdade que paguei os foros do meu regimento? Que teem elles então a vêr com os meus soldados! Querem-nos para a guerra! 

Fallem, mandem uma ordem e eu marcharei com elles, com mil bombas, e não hão-de fazer má figura, como nenhum regimento portuguez a faz! Que tem o intendente da policia a vêr com os uniformes?! Já disse que não obedeço a intimações civis, para demais em vespera d'essa guerra, que, segundo dizes, elles declararam á França! Ah! amigo, como deves achar tudo isto ridiculo... Tu... tu... a quem a imperatriz da Rússia condecorou! Ah! Gomes Freire, eu teria pena a valer, mas desejava deveras que lá tivesses ficado no exercito! 

-- Pedro! 

-- Sim... Já perdeste a tua fúria contra essa peraltada infame que nos governa? 

E o marquez continuava: 

-- Pois olha, eu cada vez os odeios mais! Quem é o ministro da guerra? Um Luiz Pinto, que foi embaixador em Londres e não passa d'um lacaio dos inglezes! Quem é o presidente do erario? Um velho sachristão, a quem fazem marquez de Ponte de Lima por saber rosnar um cantochão!... Por isso eu equipo a minha gente á franceza, n'um protesto, por isso eu estou do lado da liberdade que viste raiar lá fóra ao lado do teu amigo Pamplona e do nosso Vasco de Miranda! 

-- Pamplona... Elle esteve na Russia mas não combatemos juntos... Se o visses quando assassinavam Luiz XVL... Parecia um leão na sua colera!... 

-- É o unico acto mau da republica!... Mas em compensação são uns heroes! gritou o marquez. 

-- Eu o disse a Luiz Pinto!... 

-- Estás feliz... Aposto que já és tido como herege... Olha, eu, pouco se me dá! Vêem atacar-me, defendo-me, mandam-me ordens acerca do fardamento, devolvo-as e digo á minha gente: «Rapazes, firmes... Preparem as escorvas e tenham paciencia»... Olha que não sahem do quartel ha oito dias e não se ouve um murmurio! 

-- Não sahem?! perguntou o outro espantado. 

-- Não... Não quero que se exponham á vista do povo fanatisado, entre o qual o Pina Manique tem espalhado boatos contra os meus soldados!

-- Porém agora tu mostrarás o seu denodo na divisão auxiliar! 

-- Mais um insulto da Hespanha... Ah! Amigo meu... Decididamente eu sou francez pelo coração... Quer dizer, eu sou republicano por instincto! 

Gomes Freire, sorriu e volveu: 

-- Republicano?! Olha lá que cm Portugal isso é uma heresia... 

-- Espera! exclamou D. Pedro, erguendo-se e applicando o ouvido. Parece que anda gente lá por cima... Não ouves barulho? 

O coronel da imperatriz, applicou também o ouvido e volveu: 

-- Com effeito... Parece que alguém desce ao telhado... 

-- Olá... Dar-se-ha o caso que o inimigo tenha transporto a praça!... Ah! que apanha uma lição se tem tal atrevimento! bradou o marquez, agarrando rapidamente a sua espada. 

O sargento-mór ficou calado e ao cabo d'uns momentos continuou: 

-- Hum... Foi engano... 

-- Tambem me parece... volveu o amigo., que já não escutava o menor ruido. 

Mas de repente, como se não se conformasse com semelhante resolução, foi abrir lentamente a vidraça e espreitou para o pateo. 

-- Ah! espera que dos aposentos dos officiaes sae alguem... murmurou elle, olhando a ala esquerda do palacio. 

Era n'um recanto; o corpo principal do edifício tomava todo o comprimento, porém era ladeado por uma outra edificação contigua e que servia de aquartellamento aos soldados, do lado de baixo havia outra casa semelhante, e uma grade mettia o palácio n'um meio que formava um pateo com as duas outras dependencias. 

Do rez do chão é que sahia alguem cuidadosamente embuçado, caminhando com precauções infinitas, emquanto a sentinella continuava o seu passeio do lado de fóra da grade. 

O marquez chamava Gomes Freire com um gesto e ficavam ambos analysando o vulto que se esgueirava para o angulo formado pelo palacio e pelo quartel e uma vez ahi olhava para o telhado d'onde cahia uma corda cheia de nós que se juntava a parede. 

-- Ah! Já percebo... murmurou o marquez, sorrindo. É um que tem amores... 

-- Espera lá vae subir! 

Com effeito o vulto trepava lestamente pela corda que um outro segurava no alto do telhado e que fizera aquelle ruido que os dois amigos tinham ouvido. 

Agora pareciam andar de gatas por sobre o edificio, talvez no intuito de descerem do mesmo modo para a banda das terras. 

Na realidade assim era. Dois homens deslisavam pelo telhado e desciam depois pela corda que prendiam n'um dos florões da cantaria. 

E uma vez no chão, além no escuro das terras, retiniu uma gargalhada argentina e ouviu-se uma voz juvenil dizer: 

-- Com esta já são três noutes que faço partida! 

Quem assim fallava n'uma alegria louca de collegial, era um joven, alto e bem feito, de rosto claro e olhos azues, cujo cabello louro apparecia sob a peruca empoada. Vestia o uniforme de cadete do regimento do marquez de Alorna, isto é o tão detestado fardamento semelhante ao francez. Casaca curta com botões amarellos, calça de camurça mettida nas botas Xiitas, c a barretina com tope que fazia o desespero do intendente. 

-- Trouxeste a capa, Alvaro? interrogou elle no seu ar jovial, dirigindo-se ao individuo que auxiliara a sua invasão e que era o seu perfeito contraste. 

Alto, espadaúdo, de apparencia rude, cabellos e olhos negros, a pelle tostada, todo com o aspecto de marinheiro. 

-- Eu esquecia-me lá d'isso! disse também d'um modo alegre. Nada que isso seria o mesmo que ter o rato escondido com o rabo de fóra, meu caro Nuno... Então vamos a andar que a minha conquista já me deve esperar lá em cima nas Salesias, concluiu aquelle que se chamava Álvaro. 

-- E a minha deve estar a estas horas no botequim do Neutral, exclamou Nuno, o cadete, rindo com grande enthusiasmo e começando a caminhar. 

-- Homem acautella-te com essas aventuras... Se D. Etelvina da Gama o suspeita... 

-- Ella! Mas dorme a estas horas na sua casa de Pedrouços, sonhando commigo e com seu velho pae doente, e o mancebo ao acabar de proferir estas palavras, ficava um momento pensativo e accrescentava logo de seguida e n'outro tom: Depois que ciume podia ella ter da mulher com quem me vou encontrar! Meu caro, a minha conquista, essa que te occulto ha quinze dias, essa não faz sombra a ninguem! É a amante d'uma hora... Uma vendedeira de Belem, graciosa como o demo! E' da raia e tem a graça andaluza!... É uma amiga da mulher do pastelleiro do mestre João Negraes... Já vês que Etelvina pode estar tranquilla. Eu não vou casar com a vendedeira de fructa... e concluia soltando uma nova risada. 

-- Bem agora cautella, temos de dar a volta, embuça-te bem por causa da sentinella! 

E elles torneavam o palacio e vinham passar de novo em frente do quartel pois do lado opposto a sabida era-lhes impedida por uma quinta que deitava para a Junqueira. 

Entretanto o marquez d'Alorna, fechara a vidraça e exclamara para o amigo: 

-- Com mil raios, já é audacia! Sempre tenho vontade de conhecer o bonifrate que se atreve a transgredir as minhas ordens! 

-- Basta que o aguardes até de manhã! replicou o sargento-mór. 

-- Olá... E se for uma deserção! Se ellas começam pelos officiaes mau é! E o patife sahiu dos aposentos dos superiores... 

O marquez agarrava pressurosamente a capa e a espada, punha na cabeça um chapéu de grandes abas que lhe substituia a barretina e dizia: 

-- Anda d'ahi tornear o palacio, meu velho! 

-- Vamos lá!... redarguiu o official n'um assentimento. 

Atravessavam o pateo, e dirigiam-se para os lados da sentinella que bradava: 

-- Quem vem lá? 

-- Espera não é teu sobrinho que está de guarda, como Julgava!... balbuciou o marquez olhando o amigo com bondade e bradando para o cadete que fazia a guarda: Abri... Sou o vosso coronel!... e logo n'uma interrogação ao vêr a porta aberta: Não tem passado vultos suspeitos, sr. cadete? 

-- Não meu coronel! balbuciou elle olhando a rua. 

Mas de repente, murmurou: 

-- Vêem ahi dois embuçados... 

-- Ah! Bem, fechae a porta! replicou o marquez escondendo-se com o amigo no interior do pateo. 

-- Mas que idéa é esta das sentinellas feitas por cadetes? perguntou Gomes Freire, deveras admirado. 

-- Porque?! Ah! E que os bons officiaes têem obrigação de serem excellentes soldados... 

-- Escola de Lippe... 

-- Pschiu! fez o marquez apontando os dois embuçados que passavam e murmurando: 

-- Lá vão os nossos homens! 

E logo que elles se affastaram, sahiram também e foram em seu seguimento Junqueira fôra em direcção a Belem. 

Os outros continuavam a caminhar e o cadete ia dizendo sempre para o amigo: 

-- Realmente, meu caro Alvaro de Sá, ha noutes em que preferia ser da marinha como tu... 

-- E porque ? 

-- Por que tendes a liberdade, ao passo^que nós outros... 

-- Sim, principalmente com o teu marquez. 

-- Que resiste como um valente ao tal sr. Manique! 

-- Mas que te obriga a saltar telhados para ires ao encontro das tuas conquistas! 

-- Que queres?! Na guerra como]na guerra! replicou o cadete. 

-- Por emquanto ella é apenas com os moscas do sr. Manique... Mas dentro em pouco as partazanas da chuchadeira e os espadins ferrugentos dos espiões serão substituídos pelos petardos francezes e então é que é dizer: na guerra como na guerra! disse serenamente o guarda-marinha. 

- Que dizes?! Vamos ter guerra?! perguntou Nuno com alvoroço. 

-- Ah! É verdade, tu ignoras tudo! Pois sabe amigo que dentro em pouco parto para a Mancha na esquadra... E vós outros, partireis também... A legião do marquez é uma das indicadas! Disse-o ha pouco o proprio Luiz Pinto em casa da marqueza de Niza! 

-- Ah! Até que emfim! gritou o cadete, deveras contente. Até que emfim! repetia no auge da alegria! Mas n'esse caso preciso vêr Etelvina! 

Elle fallara em voz muito alta e n'uma cadeirinha que atravessava a rua, uma mulher estremecia ao ouvir a voz do mancebo que accrescentava: 

-- Oh! Irei amanhã, á sua casa de Pedrouços... Quem sabe o que succederá nessa guerra!... E a despedida c bem necessaria! 

Paravam á esquina da calçada d'Ajuda, ao mesmo tempo que o marquez e o coronel da imperatriz ficavam tambem parados a analysarem os dois rapazes. 

O guarda-marinha, exclamava: 

-- Felicidades com a tua vendcdeira! Pòr mim as espero tambem com a minha freira! 

Gomes Freire, estremeceu ao ver Alvaro cortar para o campo das Salesias e disse em voz entrecortada: 

-- D. Pedro... Lembras-te? Ha exactamente doze annos... Tambem nós atravessamos aquelle campo em direcção ao convento... Tu ficavas com a tua sege a meio das trevas, eu ia buscar Elvira de Mello. Quantos acontecimentos após tudo isto!.. Ah! Estamos velhos, meu amigo, estamos velhos! Deixa folgar a mocidade e vamo-nos! 

-- Gomes... O tempo de cadetes deixou-nos más recordações para que teimamos em ser indulgentes para com os outros! Vae alli um do meu regimento, pela severidade é necessario impedir-lhe á desgraça!... Se o marquez das Minas tivesse feito o mesmo quando era nosso coronel, não teriamos hoje a lastimar tantos males irremediaveis, desde o odio da corte á professao da tua amada. 

E o coronel precipitou-se em seguimento do cadete pelo largo de Belem e via-o desapparecer no limiar do Neutral. 

Uma cadeirinha vasia ficava parada a meio do largo, o marquez lançava-lhe um olhar e murmurava: 

-- É a dama d'aventura! 

D. Miguel Forjaz, deixara Ramiro á porta da sua casa e ia subir tranquillamente a calçada exactamente na occasião em que o marquez pronunciara aquellas palavras, e ao ouvir aquella voz, tão sua conhecida, estremecia e parava por momentos a olhar os dois vultos. 

-- O conde d'Assumar! murmurou elle como admirado. Mas então atreve-se a sahir do seu quartel? Por Deus que boa caçada para o intendente. 

Ficava uns momentos pensativo e dizia por fim: 

-- E o homem que o entregasse a uma ronda cahiria nas graças do regente, pois acabariam os taes uniformes francezes e o herege seria condemnado! Nada! Preciso encontrar mestre Negraes! 

Relanceou um olhar em volta, teve o pensamento de acordar de novo D. Ramiro cujo palacio ficava á entrada do pateo das Zebras mas de repente estremeceu e tornou com grande alegria: 

-- Estou em maré de sorte!... 

É que a ronda das ordenanças vinha silenciosamente da Junqueira no seu passo assentado de todas as noutes desde ha doze annos. 

E agora, segundo as novas ordenanças, o corregedor da beca, a suprema autoridade na ausencia do capitao-mór, avançava no meio dos lojistas deveras magestoso D. Miguel, sahiu da esquina, os da ronda recuaram e elle em 

voz pausada exclamou: 

-- Conheceis-me sr. corregedor de Belém, sr. Ferreira Raposo?! 

O homem de beca fez um signal negativo e replicou: 

-- Não tenho essa honra! 

-- Pois sabei que sou D. Miguel Forjaz, ajudante do sr. conde Oeynhausen! 

-- Ás vossas ordens! 

-- Trata-se d'um importante serviço que podeis prestar ao sr. intendente! 

Mestre João Negraes, agora ainda mais rotundo que ha doze annos, tornou-se livido e começou a tremer, o corregedor, cheio d'animo, replicava: 

-- Oh! Dizei... dizei... Trata-se d'algum pedreiro livre? O sr. intendente por cada um dá cem cruzados... 

-- E por este vos dará uma commenda, sua alteza! 

-- Ah! Dizei... dizei... É então um perigoso herege! 

-- O marquez d'Alorna! murmurou a meia voz. 

-- Céus! O das legiões, o que tem resistido á policia?!... E onde vae? Onde está elle? 

-- Alli! Acaba de se dirigir ao Neutral! assegurou D. Miguel, cheio de contentamento. 

-- E vae só? perguntou por seu turno o mestre das rondas, João Negraes, em voz tremula. 

-- Vae com um outro que não conheço! 

-- Vamos a elles! Que são dois homens para vinte? bradou o corregedor enthusiasmado e accrescentando: E para demais tereis segura recompensa... Vamos! 

A ronda hesitou uns momentos ao recordar-se da lenda de bravura d'este marquez que queriam prender, mas ante as ordens terminantes do Raposo corregedor, avançou com precauções em direcção ao Neutral, ao mesmo tempo que D. Miguel Forjaz dizia: 

-- Ah! Prestei um bom serviço ao estado... Não se fará esperar a recompensa! 

E desejoso d'assistir ao fim da festa encostava-se n'um portal e ficava a ver a ronda que se estendia junto ás paredes do café, commandada pelo proprio corregedor que ia espreitar á porta e que com effeito via o marquez al-ém enn plena luz, sem chapéu, interrogando o hospedeiro que o reconhecia também e se desbarreteava submisso e tremulo. 

De dentro, nem o minimo ruido, a casa parecia deshabitada e a ronda enchia-se de coragem para prender esse herege pelo qual o intendente offerecia grandes recompensas. 

Então D. Miguel, avançou tambem e veiu collocar-se sob os arcos de Belem, tendo nos labios um bello sorriso de intima satisfação. 

Atravez das vidraças via os vultos dos dois homens em frente do taberneiro que parecia fazer protestos com os braços muito abertos, traçando grandes sombras nas vidraças. 







XVIII 







Mocidade, primavera da vida 





O cadete estava sentado n'um pequeno gabinete no interior do Neutral e na sua frente estava uma formosa mulher morena, de rosto insinuante, olhos n negros e luzentes a denunciarem um temperamento  de fogo. Os seus magnificos cabcllos negros cahiam-lhe com graça na testa, n'um penteado plebeu, e a curva do pescoço desenhava-se pura no decote limitado do casebeque de mau tecido, vestia saia de ramagens vistosas e calçava tamancas; tinha todo o aspecto d'uma vendedora, d'essas que n'aquella epoca, como hoje, atravessam as ruas carregadas ao peso de fartas gigas. 

E ali, n'aquelle quarto miserrimo de espelunca, essa mulher, doares aciganados mas d'uma formosura estranha, parecia emmoldurada n'um quadro natural, que condizia bem com a sua belleza de rapariga das ruas atirada na enxurrada que lhe maculara o corpo de divindade. 

Sorria, a mostrar dentes brancos e esmaltados, ao rapaz que lhe dizia: 

-- Hoje, como sempre fosteis a primeira a chegar, minha formosa! Desculpa!

-- Alguma vez succedera o contrario, senhor... 

-- Senhor, sempre senhor... Ora para que é semelhante tratamento entre pessoas que se estimam, como nós!

Ella baixou os olhos como a esconder o rubor das faces ardentes e volveu com infinita graça: 

-- Se queres dar-te-hei outro tratamento... 

-- Se quero! Mas se não te peço outra coisa! e elle enlaçava-a 

amorosamente pela cintura e sentava-a nos joelhos. 

Porém a joven parecia absorta em algum pensamento estranho, pois não correspondia ás caricias que o amante lhe prodigalisava, deveras descuidado, n'um grande ardor de mocidade desejosa de gosos. 

Beijava-a nos labios, apertava-a doidamente ao seio e de seguida exclamava: 

-- Mas que tens? Tu não pareces a mesma! 

-- Eu? Eu!... Oh! Meu amor! e a rapariga retribuia-lhe as caricias n'uma voluptuosidade de gata, enroscava-se com elle, apertava-o, jungia-o ao peito, que palpitava ancioso. 

E era na realidade um grupo encantador aquelle. 

A mulher, morena, viva, insinuante nas suas vestes, a contrastar com a alvura do mancebo, de cabellos louros e olhos azues, vestido na farda tão odiada pelo intendente, assim unidos no mesmo amplexo estonteante, na mesma doida caricia. 

Mas de repente, ella encarava-o como tomada de alguma ideia estranha, parecia analysar bem as linhas d'aquelle rosto, passava da physionomia á farda, na mesma analyse minuciosa, e bravada: 

-- Mas tu és do regimento do Alorna? 

Elle esboçou um gesto d'espanto ao ouvir a sem-ceremonia com que aquella rapariga, uma vendedora, fallava do seu coronel e redarguiu em voz tranquilla: 

-- Do sr. marquez d' Alorna, minha bella! 

A joven mordeu os labios, e disse de seguida: 

-- Sim, do sr. marquez...

-- Mas que tem isso? perguntou elle com rapidez. 

-- É que tenho ouvido dizer que os seus soldados e officiaes não sahem do quartel, que a policia, ás ordens do intendente, procura lançar mão sr. marquez, por causa d'uma rebellião! 

-- Ah! Sim... Qualquer coisa ha a esse respeito!... disse elle com desdém. A policia busca com effeito deitar a mão ao meu coronel! Mas elle é um bravo e fortificou-se com sua gente! Dou-lhes um doce se o agarrarem... Nada, que o sr. d'Alorna não é para ahi qualquer pedreiro livre!...

-- Mas falla-se... 

-- Sim... Falla se duma sociedade secreta... Mas são lerias!... redarguiu elle, beijando-a de novo. 

E então a joven volveu: 

-- Mas se não é permittida a sahida, tu foges todas as noites... 

-- Assim é... E faço-o com pena d'enganar o nobre coronel! 

Mas que queres, se ha cá fóra uns olhos negros que me attrahem, uma boquinha de coral que me incita, um corpo de serpente que me chama, e por isso eu cá estou a teu lado, beijando todas essas perfeições! e com effeito, beijava-a sempre e exclamava: É por poucos dias, infelizmente!

-- O quê?! gritou ella saltando-lhe dos joelhos e ficando de pé na sua frente. 

-- Sim, minha amiga, eu parto para a guerra que vamos ter com a França! 

-- Tu! exclamou ella, como perturbada e lançando-lhe os braços ao pescoço. 

-- Sim, eu... Marcho com a minha legião... 

Ella então baixou a cabeça como commovida, encarou-o de seguida rapidamente, pallida, toda n'uma grande anciedade, e perguntou; 

-- E desejarias muito não partires, não é assim! 

-- Com mil demonios! exclamou o cadete. Por quem me tomas?! 

-- Mas... É que eu amo-te... Sim, e tu ha pouco parecias descontente com essa partida! 

-- Descontente, eu?! gritou o rapaz, com enthusiasmo. Descontente? Mas, ao contrario, muito ao contrario, estou radiante! 

E sem reparar na lividez que se espalhava na physionomia da amante, elle continuava: 

-- Um soldado deve marchar, deve ser bravo, deve ouvir assobiar aos ouvidos as balas inimigas, portar-se como um valente, cobrir-se de gloria, como meu primo o acaba de fazer e como meu pae m'o disse! Elle é um valente, um heroe que respeito e admiro... Desejo ser assim; quero que o meu nome resoe aureolado pela fama, desejo isso acima de tudo... 

-- Para agradares talvez a alguém... murmurou ella, como despeitada. 

-- Sim não o nego!... 

-- O que? Tu amas outra mulher? perguntou a joven n'um tom e como uma tal expressão colérica na physionomia que o mancebo ergueu-se e volveu com apparente serenidade: 

-- Mas quem falia de mulheres?... Se quero agradar a alguem é a meu pae, é a meu primo, e a mim proprio... Quero ver brilhar um galão na manga da minha farda... 

-- Para seres admittido na côrte, não é assim? interrogou ella novamente. 

E o cadete, com desprezo, n'uns ares desdenhosos, volveu: 

-- Na côrte?! Mas se quizesse iria lá... Dá-me direito a isso o meu nascimento! Os Freire de Andrade foram officiaes de mar e de terra... Meus avós privaram de perto com os reis e accrescentavam-lhes os dominios com as suas espadas gloriosas!... 

-- Tu és Freire de Andrade?! exclamou a joven abruptamente e com pasmo. 

Elle olhou-a tambem com grande admiração e redarguiu: 

-- Mas sim... Sou Nuno Freire de Andrade, filho de Bernardim e primo do heroe da Russia! Sim primo de Gomes Freire que se bateu como um leão em Oczakow e ao qual a imperatriz condecorou! Isso constou em Lisboa... Mas porque me perguntas se sou Freire? 

-- Ah! disse ella como embaraçada. É que tenho ouvido fallar d'elle! Pelos modos é amigo do teu coronel! 

-- Ah! Grandes amigos desde a mocidade! 

-- E teu pae?... 

-- Esse é general e adora meu primo... 

-- Sim, d'essa maneira... e ella adoçando a voz, murmurou: Mas porque não ficas em Lisboa? 

-- E as minhas promoções?... 

Nos olhos da joven prepassou um clarão extranho; baixou a cabeça e depois saltou-lhe alegremente ao pescoço beijando-o loucamente, interrogando-o: 

-- Mas juras-me que não amas outra mulher? 

Elle hesitou uns momentos, no rosto desenhou-se-lhe uma expressão de desgosto e tornou: 

-- Não... não... 

E ficaram assim enlaçados, sob o clarão mortiço do candieiro da espelunca. 

Elle arrastava-a d'ahi a momentos muito docemente para o interior d'um aposento contiguo que servia de quarto de dormir ao dono do Neutral e foram cahir ambos enlaçados sobre o leito pobre. 

Cá fóra, na sala do café, o marquez d'Alorna, continuava a fallar com o Neutral, Gomes Freire sentara-se num banco e parecia pensativo. 

O marquez continuava: 

-- Dizes então que não entrou para aqui ninguem? 

-- Mas dou vos a minha palavra, excellencia. 

-- N'esse caso, amigo, aluga-nos por esta noute, o quarto interior da tua taberna! 

O dono da locanda, deu dois passos para traz, tornou-se livido e titubeou: 

-- Mas... mas... sr. marquez! 

-- O que? Acaso receias alguma cousa... 

-- É que a policia anda em vossa perseguição, excellencia, exclamou o outro, vendo alli a salvação. 

-- E alcunham-me d'herege não é assim? perguntou o coronel esboçando um sorriso. 

-- Assim é, senhor... 

-- E tu, vil patife, temes que um fidalgo do meu sangue, venha alugar a tua hospedaria para praticar heresias? Olá, velha raposa, affasta-te... Nós tomaremos o aposento com espadeiradas já que o não cedes por dinheiro! 

-- Excellencia! supplicou o pobre homem cahindo de joelhos aos pés do marquez. 

-- Ergue-te, patife! gritou então Gomes Freire, tomado de colera. Ergue-te e dize-nos a verdade inteira... Eu gosto pouco de scenas demoradas... 

O Neutral, tornou se livido, encarou deveras tremulo os dois homens e em voz baixa murmurou: 

-- Não me desgraceis, senhores! 

Que queres dizer? perguntou logo o marquez. 

-- Que tenho realmente gente n'aquelle quarto! 

-- Muito bem... Ora até que emfim és rasoavel. 

-- Para vos servir... 

E está ahi um official do meu regimento não é assim? perguntou o marquez rapidamente. 

-- Ignoro-o meu senhor, isso ignoro-o! 

-- Como? Pois não sabes o que tens em tua casa? interrogou de novo o coronel cm voz terrivel. 

-- Não, excellencia, elle entra e sahe embuçado... 

-- Ah! Mas havias de tratar com elle para o aluguer do aposento... 

Não, excellencia... Eu não conheço nenhuma das pessoas que aqui vem! 

-- Patife?! bradou Gomes Freire. Queres então que vamos nós mesmos reconhecel-os? 

-- Juro-vos... balbuciou o pobre homem pondo a mão no peito. 

-- Não o acredito... Tu deves ter espreitado os teus freguezes... Para demais julgo que se trata d'uma scena d'amor... 

-- Senhor... Vindes talvez da parte do marido... titubeou elle como louco. 

E o marquez, vendo alli uma boa sahida, replicou: 

-- Pois bem... E se assim fosse?! 

-- Oh! Meu senhor. .. Apenas vos poderia dizer que foi um homem com apparencia de creado de boa casa quem veiu alugar a minha cama e o meu quarto... retorquiu elle n'um ar d'intelligencia. 

-- Muito bem... E depois! 

-- Á primeira noute veiu uma dama velada que mal entrou no quarto o fechou por dentro logo que chegou um embuçado... Sahiram do mesmo modo para voltarem desde ha doze dias... Ella, segundo parece, esconde a capa e o veu e fica n'um traje de mulher do povo!

-- Com mil raios, aqui anda mysterio! murmurou o marquez, ficando pensativo. 

E Gomes Freire, para o hospedeiro, interrogou: 

-- E não conheces a dama? 

O Neutral, muito conscientemente, redarguiu: 

-- Via-a apenas duas vezes aqui e por Deus vos juro que não sei o seu nome... No emtanto parece-me. sem o jurar todavia, que já a encontrei fosse onde fosse! 

-- Pois bem, meu amigo, tu vaes deixar-nos penetrar muito tranquillamente, n'aquelle aposento! exclamou o coronel deveras contente com a aventura e desejoso de conhecer e confundir o seu official apanhado em falta. 

-- Mas é impossivel, senhor... A porta está fechada por dentro! 

-- Arrombal-a-hemos n'esse caso? exclamou o marquez, sempre tentado a extremas resoluções. 

-- Alorna! disse Gomes Freire, com certa presuação. É melhor esperar prudentemente que saiham!

-- Assim é, excellencia, assim é! murmurou o Neutral. 

-- N'esse caso, fiquemos! assentiu o coronel, sentando-se tranquillamente á mesa e dizendo: Esperaremos! Mas por Deus vos juro que hei-de ver o rosto á tal dama! e elle soltava uma gargalhada como nos seus bons tempos de cadete. 

Porém n'este momento, ouvia se uma grande algazarra na rua, soavam violas e flautas e um bando esturdio irrompia pela espelunca clamando: 

-- Vinho! vinho! 

-- Olá taberneiro das duzias Anastacia dos Algibebes, de cara rapada e sem vergonha, porque a d'ella tem barbas, dá-nos vinho porque tenho as guellas seccas de versejar e trazemos comnosco um bom patife apanhado a namorar nas Salesias! 

Quem fallava assim era um homem magro, pallido, d'olhos azues, e cabellos em desordem, vestido n'um fato esfarrapado e que batia palmadas amigaveis no hombro d'um mancebo fardado de guarda-marinha e no qual seria facil reconhecer o amigo de Nuno Freire e que ajudara a sua evasão do quartel. 

-- Olá tento, amigo Bocage, não queiraes que eu pague o vinho e ainda que sirva de divertimento a estes cavalheiros! 

Elle relanceava um olhar em roda e recuava ao deparar com o marquez d'Alorna que continuava silencioso ao lado de Gomes Freire. 

D. Miguel Forjaz que eslava sempre escondido nos arcos, ao ver entrar aquelle novo bando, avançou para o corregedor e exclamou: 

-- Sr. Raposo... Pelo sim, pelo não, farieis melhor em buscar auxilio no regimento do Caes, porque o novo grupo que entrou é de arruaça! 

-- Sim... sim... Eu mando... Ou antes eu vou! 

-- Acompanho-vos! 

Affastaram-se então rapidamente em direcção ao Caes, depois de terem dado ordens a mestre João Negraes para que não deixasse sahir o marquez da espelunca. 

O fidalgo, ebrio de jubilo, obrigava o corregedor a caminhar rapidamente e dizia-lhe: 

-- Sem duvida tereis uma commenda, senhor! 

No Neutral continuava a algazarra e apenas Alvaro de Miranda parecia preplexo ao deparar com o marquez além n'aquelle logar onde o seu amigo se encontrava sem duvida nenhuma aquella hora. 

E abençoara mentalmente os do bando que assim o tinham ido arrancar aos encantos do seu amor, para o conduzirem a essa taberna. 

Viera-lhe então o pensamento de salvar o cadete e começava a puchar o casaco de Bocage, deveras impaciente, emquanto o bando do povo que trazia os instrumentos, e os fidalgos que acompanhavam o vate, iam bebendo os copazios que o Neutral enchia a miudo. 

O poeta, offerecia o copo ao guarda-marinha e dizia: 

-- Olha Alvaro de Miranda, bebe á saude da tua bella que eu bem sei o que é isso d'amores, principalmente em vesperas de partida... elle tinha um estremecimento ao recordar-se da sua vida passada e accrescentava logo: Bebe anda! Bebe á tua bella... Emquanto eu bebo á morte dos burros d' Arcadia onde José Agostinho dá leis de funil!... e d'um pulo collocava-se sobre a mesa e bradava: Á morte d'Arcadia! Á vida de Alvaro de Miranda, o melhor 

guarda marinha das naus! 

-- Desde que Bocage é paizano! gritou uma voz. 

E logo todos em grande grita applaudiram. 

Bocage, olhava tudo aquillo, sentia-se deveras contente naquelle meio esturdio. 

-- Eh! Alma pequena! gritou lhe um mancebo fardado de capitão de cavallaria. Atira para ahi uma versalhada! 

-- Esperae Gastão de Seabra! clamou elle. Deixa-me dar attenção a este leãosinho do mar! retorquiu o vate, prestando-se a attender o official de marinha, que murmurava: 

-- Bocage... Preciso de ti... 

-- Oh! Amigo, eu pouco valho... Calcula que ninguem me empresta um tostão! 

-- Bocage, tornou o outro em voz baixa. Nada de gracejos, trata-se de salvar um amigo! 

Em torno ria se e falhva-se em grande grita, continuavam a beber, os poetas discipulos de Bocage juntavam-se n'uni grupo e argumentavam, os fidalgos esturdios clamavam sempre: 

-- Bocage... Bocage... Salta versalhada para o taberneiro! Anda que ainda temos de ir a Pedrouços acordar com berros o teu José Agostinho, esse maldito que tanto odeias!

Mas o poeta não os ouvia; arregalava muito os olhos e murmurava: 

-- Salvar um amigo?! 

-- Sim; um pobre cadete do regimento d'Alorna que se encontra n'este logar! 

-- Mas onde? 

-- Sem duvida no interior da casa!... 

-- Bem e depois? 

-- O marquez está alli e ha-de vel-o sahir! 

-- O marquez?! bradou o poeta como admirado. 

-- Sim, volveu elle indicando o fidalgo com a vista, e começando a pôr o vate ao facto da situação. 

-- Oh! Com os demonios! Mas é preciso salvar esse pobre cadete que não conheço... 

-- Mas como?! perguntou o outro deveras afllicto. 

O poeta, ficou uns momentos pensativo e de seguida saltando para sobre a meza, bradou: 

-- Rapazes: Chegamos a uma epoca d'intolerancia... 

-- É discurso! É discurso! bradaram todos gracejando. 

-- Agora é a serio! clamaram de novo, ao verem-no tomar uma attitude digna. 

-- Sim trata-se nada menos do que fazer uma partida ao sr. intendente da policia, de que mostrarmos que a mocidade não se curva!... 

-- Cautella, Bocage, cautella! bradaram vozes assustadas. 

-- Que receiam?! Não vos declaraveis ha pouco dispostos a tudo? Pois bem, se nas vossas veias ha sangue tratem de o mostrar!... 

-- Como?... Como? bradou uma voz juvenil. 

-- Como, Pato Moniz, exclamou o vate, dirigindo se a um mancebo que o olhava enthusiasmado. 

-- Mas deixando em paz esse porco do José Agostinho e partindo para a Junqueira a dar uma serenata ao sr. marquez d'Alorna que tem resistido ao intendente como ninguem até hoje!... 

O marquez estremeceu ao ouvir o seu nome pronunciado por aquelle esturdio e os outros bradaram entiiusiasmados, muito desejosos de contrariarem o intendente: 

-- Bravo! Bravo! Vamos á Junqueira! 

Até os plebeus que traziam os instrumentos, agora tontos pela bebida, applaudiram o vate que, de repente, cheio de si, como se ainda quizesse despertar maior enthusiasmo, accrescentava: 

-- Calculem amigos, como um fidalgo protesta nobremente contra as infamias do Manique... Sua excellencia, não altera um só botão nas fardas dos seus soldados que vestem á franceza... Sua excellencia, admira a republica franceza... 

-- Basta, senhor!... gritou n'este momento o marquez d'Alorna erguendo-se e correndo para o vate. Não quero o meu nome atirado assim, não quero passar por um demagogo... Se resisto ás ordens da policia é por brio proprio e não porque applauda os excessos da republica franceza! 

-- Sois o marquez d'Alorna! Oh! Viva sua excellencia! clamou o vate que conseguira os seus fins. 

A turba muito enthusiasmada pelas palavras do fidalgo, agarrara-o e applaudia-o loucamente. 

-- Levemol-o em triumpho! disse Bocage. Levemos sua excellencia até ao seu quartel! e logo em voz baixa para o guarda-marinha, murmurava: Vamos, corre a prevenir o teu amigo que se evada... Quando largarmos o marquez, já elle deve dormira somno solto! 

E o official atirando um empurrão ao locandeiro que lhe embargava a passagem exclamava: 

-- Sim, é necessario salval-o! Obrigado, Bocage! 

-- Fico assim pago do teu vinho! retorquiu o poeta sorrindo, emquanto Alvaro de Miranda arrombava a porta com dois empuchões e bradava no aposento: 

-- Nuno! Nuno!... 

Uma voz lhe respondeu do interior do quarto do hospedeiro, e o mancebo appareceu aos olhos do amigo, trazendo aos hombros a casaca do seu uniforme. 

-- Que queres? Que succedeu? perguntou elle deveras assustado. 

-- Foge! É o marquez d'Alorna que está na taverna... Conduzem-no agora em triumpho, graças á esperteza d'um dos meus amigos, e tu podes fugir bem embuçado!... Vamos!... e buscava arrastal-o d'alli emquanto elle murmurava: 

-- Mas não posso deixar assim esta mulher! 

-- Com mil raios! Uma mulher do acaso, gritou o outro. Anda... Lembra-te que te perderás se o marquez te conhece... Vamos, peço-t'o por Etelvina!... 

-- Vamos! exclamou o mancebo vestindo á pressa o casaco e embrulhando-se na capa, disposto a partir. 

Mas um grito intenso se ouviu e a amante do cadete, penetrava no aposento e exclamava desesperada: 

-- Ah! bem dizia eu que amava outra mulher!... 

Elle já não a ouvia, acabava de transpor a porta e entrava na sala da espelunca. 

E então o rosto formoso da joven, soffreu uma bem extranha transformação; lia-se-lhe uma colera mas uma colera de rainha offendida n'essa physionomia bella, e a vendedora, rouquejava. 

-- Chama-se Etelvina... Oh! Já o ouvira ha pouco! Vingar-me-hei! Vingar-me-hei!... 

Entrava de novo no quarto, punha á pressa uma capa que alli deixara, e ia ajustar o veu ao rosto, quando se ouviu um grande ruido na taberna, um tinir d'armas, a algazarra da ronda que exclamava o nome do marquez ao mesmo tempo que dois homens entravam esbaforidos no aposento. Lá fóra era sempre o mesmo tinir d'armas e de repente soava fortemente uma voz, bradando: 

-- Salve-se quem puder! 

Depois era o ruido d'uma correria atravez das ruas, contiguas e no interior da espelunca a voz do corregedor, clamando para o taberneiro: 

-- Entregae-nos o herege marquez d'Alorna que se refugiou na vossa casa! 

-- Respondemos a essa canalha, não é assim, Gomes Freire? bradou um dos refugiados do interior do aposento, e com colera. 

-- Sim, vamos-lhes responder a tiro, D. Pedro! retorquiu o sargento-mór. 

-- Ah! A tiro... Eu para lhes responder apenas tenho a minha espada! 

-- É pouco para outro homem, mas na tua mão, é muito!... Aguardamos os acontecimentos! 

E elles ficaram a barricar a porta a toda pressa com o enthusiasmo de dois bravos. 

Do lado de fóra, o corregedor exclamava: 

-- Sr. marquez, rendei-vos, bem sabeis que é inutil a resistencia. 

-- É o que vamos ver, amigo corregedor! gritou Gomes Freire soltando ao mesmo tempo uma gargalhada. 

D. Miguel Forjaz, estremecia ao ouvir aquella voz e murmurava para o official de justiça: 

-- Cautella não nos escapem esses hereges!... 

E agora acalentava já mais uma esperança ao ouvir a voz de Gomes Freire. 

Os soldados do Caes, tomavam a porta e o official ficava junto do corregedor esperando as suas ordens. 

Na rua ouvia-se sempre o mesmo vozear da ronda que perseguia o grupo dos esturdios. 

O marquez e o sargento mór lado a lado, admiravam-se de se encontrarem alli mettidos, comprehendendo porém tarde ser impossivel a victoria tanto mais que a casa não tinha outra sahida, como ao começo julgaram. 

Viam então maravilhosamente a sua situação, os perigos a que estavam expostos e lastimavam a imprudencia de se terem deixado ficar alli, confiados em que a ronda apenas perseguia o bando. 

Quando o bando esturdio quizera conduzir o marquez d'Alorna em triumpho, este começara a debater-se mas mesmo assim fôra levado para a porta entre acclamações festivas. A ronda ao ver do que se tratava buscava impedir-lhes a passagem e os rapazes tinham-lhe respondido á espadeirada. Nuno Freire, fôra arrastado para longe por Bocage e por Alvaro de Miranda que exclamavam: 

-- Fujamos! O marquez sósinho basta para pôr a ronda em debandada... e tinham-se affastado tranquillamente, emquanto na realidade o resto do bando, Alorna e Gomes Freire, espancavam os logistas que pediam soccorro. Mas de repente apparecera a força que o corregedor fôra buscar e os do bando evadiam-se trocando ainda algumas espadeiradas com os soldados. 

Os dois amigos tinham ficado juntos e no meio do tumulto, deixavam-se ficar dentro da taberna, dispostos a conservarem-se alli mal suspeitando do laço que lhes fôra armado. 

O marquez, tinha a consciencia que ninguem o reconheceria; e embuçava-se á pressa na capa ao passo que o amigo conservava o rosto descoberto. 

-- Eis alli o herege! Prendei o marquez d'Alorna! gritara então o corregedor; e o fidalgo comprehendendo tudo, correra juntamente com o amigo para o interior do aposento que Nuno deixara havia instantes. 

Agora estavam alli trabalhando na sua defeza e dispostos a venderem cara a vida, tendo visto emfim o que se desejava d'elles. 

-- Foi uma imprudencia o ter sahido do quartel... murmurava o marquez deveras colerico. 

-- Imprudencia a que vamos fazer face! bradou o outro. 

-- Aqui embocetados, pelo diabo!... Olha lá começa a arenga novamente! clamou o fidalgo ao ouvir a voz do corregedor bradar ainda uma vez: 

-- Em nome de sua magestade, entregae-vos, sr. marquez d'Alorna! Entregae-vos para evitar uma violencia! 

Gomes Freire, bradou então: 

-- Preferimos a violencia, sr. corregedor! Eu o sargento-mór, Gomes Freire e o meu amigo marquez d'Alorna não nos entregamos a esbirros!

-- Reparae que estão aqui soldados de sua magestade! bradou então o official. 

-- Soldados que estamos muito habituados a mandar para que os temamos! retorquiu Alorna. 

-- Prendei esses senhores em nome de sua magestade! ordenou no meio do silencio, a voz serena do official da justiça. 

Mas ao ouvir o nome de Gomes Freire, cujas proezas na Russia começavam a correr em Lisboa, o official hesitava uns momentos e murmurava: 

-- Mas não seria melhor, a presuasão!... 

-- Estão esgotados todos os meios presuasivos! disse D. Miguel Forjaz ao ouvido do corregedor. 

-- Assim é... volveu este, e para o official ordenou: Obedecei ás ordens de sua magestade, senhor! 

-- Seja!... replicou o official de muito mau humor, dando uma ordem a um dos seus homens. 

Ouviu-se um tiro, e uma bala atravessando a porta passou zunindo aos ouvidos dos dois officiaes ao mesmo tempo que um grito estridulo se ouvia solto pela amante de Nuno Freire que ficara no limiar do quarto. 

Gomes Freire, segurava já a sua pistola e bradava: 

-- Ah! Miseraveis! 

Porém ao ouvirem aquelle grito, os dois amigos voltavam se e deparavam com a joven que dizia em voz tremula: 

-- Senhores... senhores... 

E então, no cumulo do espanto, os dois homens, olhando-a bem de frente, exclamaram cheios de pasmo, no cumulo da admiração: 

-- Carlota Joaquina! A princeza!... 

Ouvia-se um novo tiro, depois um grande ruido de gente que se approximava, o som de pancadas fortes na porta que buscavam abrir e á qual Gomes Freire se encostava com sobre humana força, ao passo que a princeza confundida na presença dos dois homens, exclamava: 

-- Senhores... Evitae que essa gente transponha essa porta!... Evitae que me reconheçam!... 

-- Guarde-se, vossa alteza!... bradou o marquez ainda cheio de pasmo. Nós vamos responder a esses miseraveis!... 

E o coronel abria elle mesmo a porta, desembainhava rapidamente a espada e começava a acutilar desesperadamente os soldados que recuavam admirados de tanta audacia. 

Gomes Freire, collocara-se a seu lado de pistola em punho depois de ter dito a Carlota Joaquina: 

-- Senhora, velae o vosso rosto... 

E então ambos ficaram alli face a face com os soldados que tinham recuado; no rosto do marquez lia-se a mais energica resolução de vender cara a vida, Gomes Freire estava apparentemente socegado e exclamava: 

-- Reparae, sr. official, que somos apenas dois contra os vossos doze soldados... Olhae que fomos attacados, que contra nós se dispararam tiros e que somos vossos superiores! 

D. Miguel Forjaz, escondera-se no grupo dos da ronda que chegava, sem trazer comsigo, apenas um dos esturdios. Alguns logistas mostravam grandes arranhaduras no rosto e dois d'elles soltavam gemidos e deixavam-se cahir no chão da espelunca o taberneiro olhava a scena tomado de grande desespero. 

O corregedor era quem respondia agora ao sargento-mór: 

-- Senhores: Entregae-vos e tudo estará terminado! Ha uma ordenança do sr. intendente que manda prender o sr. marquez d'Alorna e por isso tenho de cumprir o meu dever!... 

-- O vosso dever é deixar-nos passar! clamou o marquez avançando ainda dois passos. 

Porém os soldados cahiam sobre elle e o bravo coronel defendia-se atirando lhes golpes mortiferos, ao mesmo tempo que Gomes Freire, disparava a sua pistola contra o corregedor. 

Depois recuou dois passos, acercou-se da princeza que estava livida sobre o seu veu e murmurou: 

-- Quereis passar? Esperae uns momentos! 

Avançou de novo como um leão e atirou-se aos soldados que recuavam sem terem tempo de carregar as espingardas e que debandaram com a ronda ao ouvirem a voz d'um dos seus, exclamar: 

-- Vem ahi o regimento d'Alorna! 

-- Com mil raios! Que vem cá fazer esses patifes! gritou o coronel correndo para a porta em seguimento do official que fugia tambem. 

D. Miguel Forjaz, sahira com o corregedor ao grito d'alarme e este que estava ferido, gritava: 

-- Ah! Os patifes são de primeira força! 

-- Maior é agora a sua culpa!... Deixae-os com o sr. intendente da policia! 

E elles desappareciam ao mesmo tempo que uma companhia do marquez d'Alorna commandada por um capitão parava em face da taberna. 

-- O nosso coronel! O nosso coronel! gritava a soldadesca em grande vozear. 

-- Eh lá! bradou elle, deveras enfurecido e sentindo uma raiva intensa: Ide-vos! Ninguem vos chamou a esta contenda! 

-- Meu coronel! Perdoae, fui eu!... exclamou então Nuno Freire apparecendo ao marquez que ficou muito grave e replicou com doçura: 

-- Ah! Comprehendo... Pois pede perdão a teu primo de teres ido contra as minhas ordens! e indicava-lhe Gomes Freire que abraçava o mancebo e lhe dizia ao cabo d'uns momentos: 

-- Vae-te com elles, Nuno... 

-- E o meu coronel? perguntou o joven enthusiasmado. 

-- Deixa-o! Elle tem forte o braço!... 

E Nuno Freire, partiu em seguimento da companhia que se affastava; então o marquez com lagrimas nos olhos, entrou no aposento onde estava a princeza e offerecendo-lhe galantemente o braço, disse de chapéu na mão: 

-- Senhora, vossa alteza tem o caminho desembaraçado! 

Carlota Joaquina, apoiou-se no braço de Alorna e apenas murmurou: 

-- Acompanhar-me-heis com o vosso amigo, não é assim? 

Era na realidade extranha, aquella princeza sahindo d'uma espelunca entre dois bravos aos quaes a lei chamava hereges. 

E mestre Neutral fechando a porta resmungava: 

-- Hum... Aquillo são mysterios lá da fidalguia!... e casquinava uma risadinha satisfeita ao contar o dinheiro da bolsa que a dama lhe atirara. 

Alorna murmurava para o amigo: 

-- Desculpal-o hei... Mocidade primavera da vida! 









XIX 





Suas altezas 





Justiça, meu senhor, justiça! bradava o intendente da policia, apparecendo de repente a sua alteza, o regente, que passeava no jardim botanico com D. Ramiro e com fr. Mathias da Conceição, um frade do Carmo, tornado agora o confessor do principe. 

D. João recuou, tomou uma pitada da sua caixa d'ouro, para que lhe passasse a impressão causada pelo subito apparecimento do intendente e resmungou: 

-- Por Santa Maria de Belem... Nem me deixam tranquillo emquanto passeio! Depois, com um suspiro resignado, murmurou para o frade: Ah! Eu não fui talhado para esta vida de governar povos! Um dia recolho-me de todo a Mafra... Sempre preferi um cantochão ás queixas dos meus subditos... 

-- Justiça, meu senhor, justiça! clamava ainda o intendente, de habito tão terrivel, curvando-se em frente de sua alteza, prestes a ajoelhar-se. 

D. Ramiro, fez um gesto de mau humor, o principe ficou surumbatico e o confessor começou a analysar com evangelica paciencia uma magnifica tulipa que erguia os seus ramos como a servir de guarda-sol a uma estatua de Minerva. 

-- Que succedeu, Pina Manique, que succedeu? interrogou D. João, ao cabo d'uns momentos. 

-- Mas, meu senhor, o peor dos attentados contra as vossas ordens, contra a tranquillidade, contra os bons costumes! 

-- Meu Deus! Os pedreiros livres! exclamou sua alteza, apoiando-se no braço de D. Ramiro e espetando o seu ventre obeso. 

-- Dois d'elles, meu senhor. .. 

-- Pois prendei... prendei... Mas deixae-me pacifico! Fr. Mathias, quando temos missa nova? interrogou o regente, prestes a voltar as costas ao intendente da policia. 

Manique comprehendeu que o golpe ia falhar e então, decidido a tudo, exclamou: 

-- Trata-se da salvação do estado! Trata-se da minha dignidade! Esta noite dois homens atreveram-se a espancar a minha ronda e a pôr em fuga doze soldados e um official de vossa alteza! 

-- Ah! Por Deus, que são valentes, os vossos pedreiros livres! redarguiu o principe em voz fanhosa. 

-- Não admira, real senhor, disse então fr. Mathias, que dava habitualmente aquelle tratamento ao principe. Essa gente tem a força que o inimigo lhe fornece em troca das suas almas! 

-- Hereges, que precisam ser queimados na praça para exemplo! resmungou D. Ramiro. 

-- Mas de quem se trata? perguntou, ao cabo d'uns momentos, o principe. 

-- Das unicas pessoas que se atreveriam a zombar dos decretos! 

-- Pois dizei ao ministro do reino que vos dê ordens: 

-- Sua ex.ª não me quiz receber esta manhã! 

-- Pois ide lá de tarde e deixae-me tranquillo, Pina Manique... Por Deus! Todos os dias me embaraçam a digestão com os taes pedreiros livres... Que livram tudo excepto a minha pessoa de ouvir o seu negregado nome! 

-- Pois bem, real senhor, escutae por momentos sua ex.ª... supplicou o frade. 

-- Fr. Mathias, tende piedade de mim! Intendente, vinde amanhã! voltava-lhe as costas sem ceremonia alguma e ia affastar-se quando Pina Manique bradou, lançando mão d'um ultimo argumento: 

-- Alteza... Vós, e toda a côrte, trazeis luto pelo infame attentado praticado ha quinze dias em França, olhae que em Portugal os hereges levantam a cabeça!... 

-- Quereis dizer?! perguntou o principe, fazendo-se muito pallido. 

-- Que esses miseraveis já fallam em vosso desabono pelas espeluncas... Quero dizer que esta noite, n'um café de Belem, alguem subiu para cima d'uma mesa no meio d'um immenso concurso de povo e nobreza e fez o elogio do marquez d'Alorna, d'esse fidalgo que tem resistido aos editos e que é um apaniguado 

dos hereticos francezes! 

-- E quem se atreveu?! bradou D. Ramiro, cheio de indignação. 

-- Ignoro o nome do miseravel, mas sei que o marquez seria levado em triumpho pelo povo se acaso a minha ronda não puzesse em fupa esses infames! 

-- É grave, muito grave!... exclamou D. Ramiro, que, desde que ouvira fallar d'Alorna, tomara decisivamente o partido do intendente e o auxiliava. 

-- Olhae, Manique, mas então o marquez já não está no quartel? interrogou o principe, deveras admirado. 

-- Sae d'elle altas horas para ir conspirar no Neutral... Mandei vigiar o café que dá abrigo a semelhantes miseraveis e esta noite a minha ronda de Belem, reforçada pela de Alcantara, rodeará a espelunca e prenderá todos os maçons que ahi se encontrarem... Outrosim, pela secretaria da guerra, foi ordenado ao regimento do Caes que estivesse prevenido ao menor tumulto! Tremo pela segurança do throno de vossa alteza! 

-- Oh! Oh! Sim, tens rasão... Daremos um exemplo! exclamou o principe, disposto a affastar-se. 

-- Mas, meu senhor... Eu desejo... 

-- O que?! 

-- Que assigneis vós mesmo as ordens de prisão para o marquez d'Alorna e para um sargento-mór de nome Gomes Freire, os quaes, desde ha muito, são réus de grandes crimes... 

-- Mas, José de Seabra porque as não assigna? interrogou sua alteza, de muito mau humor. 

-- S. ex.ª... Teima em não me receber. Diz-me um visionario, quando ha provas palpaveis de conspirações... 

O intendente, na sua grande furia contra os maçons, que viera substituir n'elle a raiva contra os jesuitas, accusava a torto e a direito, dizia coisas que nunca tinham existido, fallava de movimentos revolucionarios, dizia que os soldados do marquez d'Alorna, vestidos á franceza, eram jacobinos, e concluía a affirmar, muito grave, cheio de convicção: 

-- Se até os botões dos punhos do herege Alorna representam um laço da liberdade! 

Aqui sua alteza deu um salto para traz. Parecia-lhe o peor dos crimes e exclamava: 

-- Oh! E os meus teem o Senhor da Graça!... É quando dou este exemplo que elles se atrevem.. E, n'outro tom, á pressa, perguntava: Trazeis as ordens de prisão? 

-- Sim, alteza!... 

-- Pois aguardae-me... Eu as assigno!... 

Tomava rapidamente os papeis da mão do intendente e entrava n'um pavilhão que existia além no jardim; molhava com presteza a penna, garatujava a sua rubrica no final das ordens de prisão e soltava um suspiro d'allivio. 

Mas ao mesmo tempo ouvia-se um passo miudinho e leve pisando a areia do jardim e á entrada do pavilhão apparecia o perfil de Carlota Joaquina, exclamava na sua mais agradavel voz, com a visivel pretenção d'agradar: 

-- Estaes só, meu senhor? 

- Vós, alteza! bradou o príncipe, deveras radiante, ao vêr a esposa, que raramente o procurava. 

Fazia-lhe um respeitoso cumprimento e depois agarrava-lhe a mão, conduzia-a para o interior do recinto e dizia sempre: 

-- Grande bondade a vossa em procurar um pobre principe sobrecarregado pelos trabalhos da sua posição... 

Ella lançava um olhar rapido para a mesa, via as ordens de prisão que o marido assignara e que ia metter no bolso e precipitava-se para elle, n'um bem fingido accesso de ternura, exclamando: 

-- Meu senhor... 

-- Carlota! exclamou elle apertando-a ao peito largo e tendo nos labios grossos um sorriso de intima satisfação. 

Ella, com toda a perecia d'uma comica de largo folego, deixava-se cahir no sophá oriental que rodeava o pavilhão, arrastava o na cauda das suas longas saias e murmurava: 

-- Oh! Como sois bondoso em ficar a meu lado! Estou hoje n'm dos meus dias de abatimento, João!... 

E a formosa hespanhola pronunciava aquelle nome n'uma caricia, deixava pender a cabeça no hombro do regente, que ficava tranquillo, tendo bem apertadas nas suas as mãos tepidas da esposa, que o seduzia e o admirava n'aquelle momento com a sua ternura subita. 

Estava uma d'essas tardes amenas d'inverno em que brilha um sol pallido, a cujos raios os pássaros se aquecem, modulando gorgeios de satisfação; ali proximo, uma fonte murmurava na pedra marmorea do seu tanque uma canção doce; elles ficavam envoltos na agradavel sombra do logar e a voz da princeza, terna e agradavel, dizia, d'um modo encantador: 

-- João, tenho um grande prazer em estar a teu lado! 

-- Ah! Carlota, e eu?! Eu, sempre abandonado, tendo por unico refugio o convento de Mafra, onde ouço as doutas predicas dos bons frades, vivendo deveras aborrecido no meio d'uma côrte em que lavra a intriga, sem descanço d'uma hora, obrigado a velar pela corôa, em demasia pesada para mim, sujeito a ter a sorte do infeliz Luiz XVI!... 

E o principe estremecia, como ha pouco, a essa ideia que começava a tomar vulto no seu cerebro, deveras impressionado com as palavras do intendente, querendo livrar-se a todo o custo. 

Depois continuava, em voz tremula e mal segura: 

-- Chegou o momento da guerra com a França e isso assustame deveras! Receio que as forças hespanholas e portuguezas sejam vencidas e que esses hereges entrem em Portugal... Que seria de nós? Que seria de ti, minha boa Carlota! 

E sua alteza, n'um grande movimento de medo, encostava-se ao seio da esposa e depunha-lhe um beijo nos labios, ante o qual ella teve um estremecimento de repulsão. 

Tentou sorrir; desviou-se e exclamou de repente, deixando a mão entre as do principe, que a olhava com adoração: 

-- Não temeis a guerra, meu senhor, nada receies, João! A Hespanha dispõe de numerosa força, a Inglaterra auxilia-nos com a sua esquadra e depois em Portugal ha militares valorosos promptos a morrerem por vossa alteza, officiaes valentes e esforçados que enaltecem o nome da patria no estrangeiro! 

-- No extrangeiro?! bradou D. João, deveras admirado. 

-- Sim... Um d'elles acaba de ser nomeado coronel pela imperatriz da Russia que o condecorou com o cordão de S. Jorge! Outro é seu companheiro e tem uma legião ás ordens de vossa alteza! 

-- Bravo!... O cordão de S. Jorge?!... Oh! Quem são esses valentes? perguntou rapidamente o principe. 

-- Gomes Freire de Andrade!... 

-- Ah! Um herege... bradou assombrado. 

-- O marquez d'Alorna! concluiu ella com altivez. 

-- Oh! Quasi um rebelde! tornou o príncipe desvairadamente. 

-- Que dizeis, meu senhor? Esses homens são uns bravos militares! bradou Carlota Joaquina muito reconhecida aos seus salvadores. 

-- Bravos militares! Bravos militares contia os quaes acabo de assignar ordens de prisão! 

-- Senhor! exclamou ella fingindo intensa commoção. 

-- Sim... Vós, princeza, chamaes bravos militares a dois homens que pertencem á horda dos pedreiros livres e que querem proceder para commigo como os jacobinos de França para com o infeliz Luiz XVI!... Oh! Estaes louca... Bravos militares!... e elle concluia a resfolegar, o rosto a suar, deveras aborrecido, dizendo logo: Mas não fallemos de politica, minha amiga! 

-- Oh! João, tornou ella com humildade. Faze o que quizeres... 

Tinha uma expressão d'amor gracioso no rosto moreno e insinuante, deixava pender a sua formosa cabeça na almofada do sophá, e quando o principe louco de desejo se ia ajoelhar a seus pés, ella erguia-se rapidamente e murmurava tristemente em voz tremula: 

-- Adeus João!... 

-- Onde ides?... perguntou elle com desanimo. 

-- Oh! Vou orar por esses militares que a justiça de vossa alteza exige como presos!... 

Ia sahir porém o principe collocava-sel-he na frente, embargava-lhe o passo e exclamava: 

-- Carlota... Dou-te a liberdade d'esses dois homens! e estendia-lhe as ordens de prisão, ao mesmo tempo que a princeza se deixava cahir de novo nas almofadas, mettendo os papeis na algibeira e consentindo os beijos do principe. 

E era na realidade bem extranho, essa princeza vendendo-se agora ao marido, quando na vespera se dera a um amante resgatando a liberdade de dois heroes com a entrega do corpo a esse homem que não amava e antes odiava do intimo d'alma. 

D. João, embriagado por todos os encantos d'aquelle corpo femenino, voluptuoso e bello, beijava-a estonteado por tanta condescendencia da parte da esposa e ficava por fim adormentado, como ebrio por tanta felicidade, encostado ao hombro que a princeza lhe cedia 

Os cortezãos rondavam de largo e o intendente franzia as sobrancelhas ante aquella demora extranha, e murmurava: 

-- Deus queira que a princeza não nos corte a vasa! 

-- Ah! Descançae, sr. intendente, exclamou D. Ramiro com o sorriso superior d'um homem bem informado da indole da esposa de D. João. Por aquelles nunca Carlota Joaquina receberia um unico beijo do marido! e elle dizia aquellas palavras a meia voz, um tanto pallido mas procurando sorrir ante aquella permanencia da princeza na presença do regente. 

-- Também o julgo! assentiu fr. Mathias, dizendo logo: Julgo até que será capaz de offerecer a corda para os enforcar! 

-- Ah! Sua alteza odeia os então? interrogou elle no seu habito de tudo esquadrinhar. 

-- Meu Deus! Odeias como a mortaes inimigos... 

-- Ah! Desde do tempo do príncipe D. José... clamou Pina Manique com alegria. 

Os outros olharam-no e sorriram n'um assentimento. 

Mas suas altezas continuavam ainda no pavilhão. Carlota Joaquina olhava docemente o esposo e dizia-lhe: 

-- Agora, meu senhor, fazei-me uma graça... 

-- Dizei... Que podeis desejar e que eu vos negue? disse elle enthusiasmado. 

-- Ha um cadete que desejo promover... 

-- Dae-me o seu nome... Eu mesmo direi a Luiz Pinto para o incluir na lista das promoções a alferes! Temos guerra e facil isso é! 

-- Mas é que eu desejava conservar o novo official na guardas reaes! 

Elle olhou-a com desconfiança, embora vaga, e retorquiu: 

-- Faremos o possivel... O seu nome? 

-- Nuno Freire de Andrade! tornou ella brandamente. 

-- Ah! senhora, quereis então ser a boa fada de todos esses senhores? 

-- Oh! João... É primo do sargento-mór e os parentes dos bravos que os soberanos estrangeiros distinguem, devem merecer a nossa consideração... Pois bem, fazei-lhe mercê! 

-- Deferida a vossa pretenção, alteza! exclamou elle, escrevendo á pressa a nomeação no alto d'um papel e entregando-a á joven princeza que disse: 

-- Falta a rubrica do ministro da guerra não é assim? 

-- Decerto... Luiz Pinto a deve assignar! 

O principe estava á porta, e o ministro da guerra que vinha do lado opposto ouviu ainda aquellas palavras. 

Curvou-se em face de suas altezas e exclamou: 

-- Ás vossas ordens, meu senhor! 

Chegas a proposito!... Dá-me os parabens meu amigo... É hoje o dia mais feliz da minha vida! 

O ministro viu o olhar que D João dirigia á princeza, comprehendeu-o e sorridente, volveu: 

-- A felicidade dos soberanos, é a felicidade dos subditos... Mas em que vos posso ser util meu senhor? 

-- Ah! Assigna aquella nomeação. 

Luiz Pinto, tomou o papel das mãos da princeza, traçou-lhe a sua assignatura e bradou ao ver o nome do cadete: 

-- Tem graça... 

-- O que? Aposto que trazias egual nomeação? 

-- Não, meu senhor, não... Não se trata de promover um cadete mas sim um sargento-mór do mesmo apellido... Pelo modo esse homem vem da Russia e foi feito coronel por sua magestade Catharina II... Não póde ter no reino patente inferior... Para demais precisamos de fazer marchar a divisão e falta um coronel! 

-- E tu queres nomear esse tal Gomes Freire? 

-- Sim, meu senhor, é essa a minha intenção! replicou elle ao ver o sorriso satisfeito de Carlota Joaquina. 

-- Pois dá-lhe um regimento... Dá-lhe um regimento! assentiu D. João, traçando a sua assignatura no documento; e fazendo uma venia á esposa, affastou-se em direcção dos que o aguardavam. 

Pina Manique, veiu lepido ao seu encontro, porém o principe tomou o braço do confessor e como se cousa alguma se tivesse passado com o intendente, perguntou a fr. Mathias na sua voz pastosa: 

-- Meu padre quando temos missa nova? 

-- Meu senhor, ordenou-se ha dias um noviço do convento da Cartuxa! 

-- Assistiremos... assistiremos... volveu elle muito contente. 

O intendente, acercava-se de novo, punha-se bem á vista, tinha uma pergunta á flôr dos labios mas sua alteza largava á pressa o braço do confessor e corria para um homem que acabava de chegar. 

Era um individuo alto, de boa presença, vestido de negro e que se lançava de joelhos aos pés do principe e exclamava n'uma mistura de francez e portuguez: 

-- Meu senhor... meu senhor... Tenha vossa alteza piedade do vosso humilde servo! Senhor, tende piedade do vosso mestre de esgrima do pobre Jacques Lebon ao qual o sr. marquez mordomo-mór acaba de despedir... E sabeis porque meu senhor?... Apenas por ser francez, como se eu tivesse culpa do que fazem os meus compatriotas... 

D. João, olhou-o velhacamente, fez um gesto aborrecido e murmurou: 

-- Jacques, tu íallaste a alguém da missão de que te encarregou o sr. D. Ramiro! 

-- Eu não, meu senhor... 

-- N'esse caso ficas ao meu serviço! Nunca esquecerei que me destes boas lições de esgrima. .. Ergue-te e está prompto amanhã á noute para me acompanhares! 

-- Sim alteza real! bradou o francez todo radiante. 

E D. João, acercando-se então de D. Ramiro, murmurou-lhe ao ouvido: 

-- Ramiro, só amanhã á noute poderei ir passar umas horas da noute no convento das Salesias... Jacques não fallou a ninguém do meu secreto desejo! 

-- Mas e a entrevista!... Era para amanhã, meu senhor... 

-- Ah! Estou farto de mulheres agora que possuo a minha! disse sua alteza sorrindo alegremente e buscando affastar-se, ao passo que D. Ramiro fazia um gesto de desespero. 

Pina Manique, chegava-se então e exclamava:

-- Alteza real... Aguardo as vossas ordens... 

-- Quereis dizer as ordens de prisão?! 

-- Sim, alteza real! 

-- Pois deixae em paz os vossos suppostos hereges porque Luiz Pinto carece de coroneis... 

E d'esta vez sua alteza caminhou com pressa para a porta, dizendo sempre para o camarista e para o confessor: 

-- Sou feliz! Sou feliz hoje e espero que o serei sempre! 

O intendente ficava só; passava as mãos pelos cabellos n'um gesto desesperado e apontando o murro fechado á estatua de Cupido que estava á sombra da tulipa, exclamou irado: 

-- Maldita! Maldita sejas!... 

E nunca ninguem soube se o sr. Manique se referia a Carlota Joaquina se á pobre estatua do Amor que alli estava muito tisnada a disparar a sua aljava, com um riso ironico nos labios de pedra. 







XX 







Rival coroada 





Ali a dois passos da praia de Pedrouços, n'uma casinha modesta encravada na propriedade do duque de Cadaval, residia Etelvina da Gama, a joven de quem Alvaro de Miranda, tinha fallado ao cadete Freire de Andrade e cujo rome bastara para causar um.a enorme impressão no mancebo. Elle, sahira n'esse dia do quartel vestido com aprumo n'um trajo fidalgo e com permissão do coronel que conhecia a inclinação do mancebo e pensara em salval-o das garras d'essa mulher com a qual se encontrara na noute anterior. Não dissera todavia ao primo do heroe, a alta situação da sua amante, e apenas tivera para elle um sorriso affectuoso, e lhe murmurara com benevolencia extrema: 

-- Nuno... Não quero privar-te da presença da tua noiva. É a unica mulher que deves amar... Vae, meu rapaz, vae despedir-te d'ella, porque pouco falta para a deixares... e fallara-lhe do aviso recebido n'essa mesma manhã e em que o ministro da guerra lhe mandara apromptar a legião. 

Nuno, sahira pois da Junqueira, todo radiante, levado pelo pensamento de Etelvina e ao chegar á porta da joven parara uns momentos sentindo o coração replecto de enorme felicidade. 

Entrara n'uma sala modesta, mobilada quasi pobremente com duas mesas d'ebano e algumas cadeiras de couro pregueado e na qual se encontrava um ancião vestido n'um trajo safado, mas cuja cabeça insinuante e bella na neve dos annos, indicava algunaa cousa de respeitavel e de excessivamente digno. 

D. Affonso da Gama, era um fidalgo coberto de gloriosos serviços á sua patria mas cujo nome esquecera na corte de que voluntariamente se affastara após o desterro do marquez de Pombal de quem fora devotado admirador e grande amigo. Homem de espirito recto, via no grande ministro, o verdadeiro reformador, sentia por elle o fanatismo d'um crente em face d'um idolo e se não tomara parte nos actos de força de Sebastião José, ao menos servira com 

o conde de Lippe e ajudara a reorganisação do exercito, exercera vários cargos militares no Brazil e voltara á pátria quando a estrella do marquez empalledicia, mercê das intrigas dos aulicos. Collocara-se logo a seu lado, com o desinteresse dos ânimos valorosos, ficara-lhe fiel até ao fim e quando o ministro descera á sepultura, elle recolhera-se á privada com uma magra tença, vivendo apenas para a filha, o fructo querido dos seus amores com uma açafata, mulher do povo, mas digna e honesta que escolhera entre todas ao notar-lhe a honradez e o amor no meio do descalabro da côrte. Ferira-o o contraste e entregava-lhe a honra da sua familia, conscio de que praticava um acto de audacia que lhe agradava. Esse casamento desigual indispoz D. Alvaro com todos os fidalgos e somente no grande coração do seu amigo, o ministro, encontrara lenitivo á sua dôr. 

Repetia a miudo a phrase que o marquez lhe dirigira a synthetisar a sociedade do seu tempo, e dizia a com um fogo intenso no olhar agora amortecido pela edade: 

«-- Que importa o teu casamento, meu camarada, o marquez chamava lhe sempre assim em memoria do tempo da mocidade. Essa gente despreza-te e tu deves responder-lhe com a sobranceria... Se tua mulher fosse rica e nobre, embora tivesse deixado a honra por mãos alheias serias respeitado, obedeceste ao teu coração todos te atiram pedras... Essa gente de coração só sabe alguma 

cousa com respeito ao meu... e o ministro sorrira fazendo allusão á maxima que corria de que elle tinha cabellos no coração» 

Estas palavras tinham bastado para consolar D. Affonso que alli no seu retiro prestes a deixar a vida, as recordava a miudo com orgulho. 

Quando viu entrar Nuno Freire, o velho general, ergueu-se na poltrona, esboçou um sorriso de alegria que lhe mostrou as gengivas quasi viuvas de dentes e exclamou com bonhomia: 

-- Viva o meu bravo cadete! Ora approxime-se que lhe quero ralhar muito... 

E ante o mancebo que lhe sorria tambem, apertando-lhe as mãos com effusão, o velho, continuou: 

-- Com que então já se esqueceu d'esta casa!... Oh! Meu amigo... Seu avô, nunca teve taes esquecimentos, e para demais não havia junto a mim uns bellos olhos que o prendessem... 

-- Mas D. Affonso, meu nobre amigo, tenho estado ás ordens do marquez, fechado no quartel da Junqueira! Se s. ex.ª se lembrou de resistir ao intendente da policia... 

O pae de Etelvina soltou uma risada e volveu: 

-- E até a Gaveta tem publicado censuras ao sr. d'Alorna! Eu calculo: o marquez tem um genio impetuoso como seu pae... Conheci muito o velho marquez... Se nos batemos duas vezes por causa do grande ministro!... Mas no fundo um bello caracter, um excellente coração... Pedi depois por elle a Sebastião José de Carvalho e apesar de toda a amisade que tinha por mim, teimou em fechal-o no forte da Junqueira. Agora por seu turno, o Alorna novo, fecha os seus soldados no quartel... 

E o velho muito enthusiasmado por aquellas recordações da mocidade, fallava sempre com grande copia de detalhes e concluia extenuado, deixando-se cahir na sua poltrona: 

-- Mas eu aqui a fallar e alguém lá dentro muito impaciente... e em voz alta, bradava: 

-- Etelvina! Etelvina! 

-- Meu pae... respondeu uma voz argentina do interior da casa. 

-- Vem cá!... 

Ouviram-se passos, Nuno corou e appareceu uma joven alta e graciosa, vestida pobremente mas com certa garridice e em cujos olhos castanhos passou uma scentelha de alegria ao deparar com o joven. 

-- Nuno! murmurou ella, sorrindo-lhe castamente. 

-- Etelvina... 

E não disseram mais nada que os seus nomes, ficaram além face a face, confusos, embaraçados, emquanto o velho ria e dizia de seguida em tom de contentamento: 

-- Anda, ralha-lhe agora se és capaz... Dize-lhe tudo quanto querias... Falla em lhe exprobrares a sua ausencia! 

-- Meu pae!... titubeou a joven vermelha de pejo: 

-- Ah! São todas o mesmo... Quando não vêem a pessoa amada, mil recriminações, mil pequenos amuos, uma serie de doestos, uma raiva contra tudo e contra todos... Mas depois chega o ente tão anciosamente esperado, a alegria apossa-se d'ellas e nem uma palavra d'amor são capazes de dizer quanto mais uma phrase de censura... 

Etelvina, estava cada vez mais confundida e por fim sorria ao ouvir Nuno, exclamar: 

-- Mas não tinhas razão, Etelvina... Sabeis bem que vos amo, que se não vinha aqui é porque alguma cousa de extraordinario se passava! 

Tinham-se sentado junto ao velho que estava louco de jubilo e a joven perguntava anciosamente: 

-- Mas succedeu-vos, algum mal! 

-- Não... Apenas durante alguns dias estivemos detidos no quartel por causa d'uma questiuncula sem importancia com o intendente da policia, e agora estamos preparando tudo para a proxima partida!... 

Dissera aquillo irreflectidamente, muito turbado ao recordar-se das suas fugas por causa doutra mulher, e ficava preplexo ao ouvir a joven exclamar: 

-- Partis?! 

Não se atrevia a responder, cada vez mais triste, uma grande e bem manifesta indecisão se manifestava na sua physionomia sympathica. 

Ella olhava-o sempre do mesmo modo ancioso, o seio arfava-lhe; n'um desejo de pôr termo aquella impaciencia, querendo saber tudo, intenogava de novo: 

-- Partis, Nuno? 

-- Por S. Jorge, como dizia o grande ministro, bradou o velho subitamente. Dizei-lhe tudo... Que grande cousa!... Ora, meu Nuno, costumae-a... A esposa d'um soldado deve sempre estar prompta para estas noticias... 

-- A guerra, não é assim? exclamou ella extranhamenie surprehendida. 

-- Sim, Etelvina, a guerra, que me dará os ambicionados galões, que me dará a vossa posse, o direito de vos fazer minha esposa! exclamou por seu turno o mancebo deveras impressionado tambem. 

Etelvina, baixou a cabeça, algumas lagrimas lhe deslisaram pelo rosto formoso, ao principio muito lentas, depois n'um caudal. 

E o pae, buscando pôr termo a semelhante dôr, bradava: 

-- Então?!... Tem coragem, filha, deixa que elle voltará... Oh!... Se tua mãe fosse viva, ella mesma te diria como se passam essas coisas... Deixava-a algumas vezes quando tinha de partir para o Brazil e ficava por lá annos a fio... Voltava, e mal tinha tempo de lhe dar o abraço da chegada, eis que o serviço me chamava novamente... 

-- Sim, e era para tão longe... Quanto mais eu que vou ali á Hespanha trocar algumas balas com os írancezes e voltarei em anno e meio, quem sabe se até mesmo n'um anno, já com um galão, cheio de alegria e de contentamento para vos tornar minha esposa! disse o mancebo, a auxiliar o velho. 

-- Sim, mas é que na troca d'essas balas pcrde-se muitas vezes a vida... E eu que faria então... eu, sem ti, Nuno, que vida teria? 

E ella tratava-o já como a um esposo, cada vez mais perturbada, muito assustada com aquella inesperada partida. 

-- Etelvina, meu Deus, sê rasoavel! Pois não vês, não sentes, que eu serei poupado! Eu tenho coragem... 

-- Sim... Mas é a tua coragem que eu temo! disse ella com um estremecimento doloroso. 

-- Não penses n'isso... Deus ha-de proteger-nos!... replicou o cadete, accrescentando: Os galões não se conquistam aqui na metropole servindo no paço, e, quando assim succede, esses militares não tem o direito d'erguer altivamente a cabeça, a gloria não lhes aureola a fronte, são aulicos, não são soldados... 

-- Tens rasão... murmurou o velho, deveras satisfeito com tal coragem. 

-- Depois, eu tenho obrigação de seguir as tradições da minha familia.. . Meu pae bateu-se já mil vezes, todos os meus tios são militares, meu primo Gomes Freire acaba de conquistar a sua gloria na Russia, em batalhas mil vezes mais perigosas do que as que vamos travar... 

-- Gomes Freire é o filho de Ambrosio Freire... murmurou o ancião, como a invocar as suas recordações. 

-- E parte tambem, teu primo? perguntou ella, rapidamente. Parte tambem? 

-- Sim... Deve ir como sargento-mór em qualquer regimento! 

-- No teu? 

-- Não... Mas vae comnosco o marquez d'Alorna! 

-- Ah! Gomes Freire, eu conheço-o bem, é justo, é bom... murmurou Etelvina da Gama ao recordar-se do heroe. 

E como se a companhia do bravo fosse garantia sufficiente para a vida do seu bem amado, ella enxugou as lagrimas e começou conversando com o mancebo e com o pae, agora a mostrar-se resignada. 

Elle deixava-se além ficar como preso aquellar lar que em breve seria seu e esquecia-se das horas ao ouvir a voz da joven, que fallava sempre dos seus projectos de futuro, quando tivessem a sua casa, quando tivessem o direito de se amarem livremente e que Nuno ia conquistar n'essa guerra que ella tanto temia. 

Por fim elle ia sahir com a promessa de voltar no dia seguinte, e o velho, sorridente sempre, dizia-lhe: 

-- Nuno... Póde beijar a sua noiva! Deixe, que o velho não tem inveja... 

Elle depoz um beijo casto na testa da joven e desceu rapidamente a escada, emquanto Etelvina corria para a janella e dizia ainda para o mancebo: 

-- Não vos esqueçaes que amanhã vos aguardo! 

-- Descança, Etelvina, descança... É uma promessa que se cumpre com tanto prazer! 

Affastou-se então á pressa na sege que o conduzira até ali, ao mesmo tempo que dois homens sabidos rapidos do escuro do portão do duque de Cadaval, murmuravam: 

-- Amanhã já estarás a bom recato! 

-- Na paz do Senhor e livre de amores terrenos, amigo Jacintho Peres... tornou o outro dirigindo se ao esbirro que perguntou: 

-- E os vossos homens, João Correia? 

-- Elles nos aguardam! replicou o outro em voz forte. 

-- Chamae-os pois, que isto deve ser feito depressa! 

-- Sim, para não chamar as attenções da visinhança!... retorquiu o outro, tornando: É verdade que a respeito de visinhos só se fôr ali o sr. duque de Cadaval, que não se mette no serviço da princeza, ou fr. José Agostinho, que a esta hora revolve papelada! 

-- Vamos lá! Vamos lá! disse com impaciência o esbirro do Santo Officio, agora ao serviço secreto de Carlota Joaquina. 

O outro soltou um silvo prolongado e logo do lado da praia appareceram uns oito vultos embuçados que conduziam duas cadeirinha e avançavam silenciosamente em seguimento do seu chefe. 

Este, acompanhado de Jacintho Peres, que andava agora completamente entrajado de novo, dirigiram-se para a residencia da joven, subiram a escada e bateram duas fortes argoladas na porta. 

-- Quem é? perguntou de dentro a voz socegada de Affonso da Gama. 

-- Abri em nome da rainha! bradou Jacintho Peres na sua voz rouca. 

-- É tarde para abrir, amigos, e o serviço de sua magestade costuma ser feito a melhores horas! replicou o velho com desconfiança. 

-- Em nome da rainha, D. Affonso da Gama, vos ordeno que communiqueis com os seus enviados! 

Ouviu-se um ruido de passos, depois á vista dos esbirros, appareceu o velho fidalgo armudo da sua espada e levantando sobre a cabeça o candieiro de tres bicos. 

-- Que desejaes senhores? perguntou elle um pouco mais tranquillo ao vêr o distinctivo da policia que o companheiro de Jacintho Peres puzera á cinta. 

-- Sois D. Atfonso da Gama? interrogou este em voz pausada.

-- Sim... Sou o general Affonso da Gama... 

-- Pois bem, vós e vossa filha estaes presos como suspeitos de entreterdes convivência com maçons e hereges! 

-- Nós?! bradou o velho, deveras assombrado. 

-- Sim... Vós, que recebeis em vossa casa gente do regimento d'Alorna! 

-- Por Deus... Mas referi- vos sem duvida a D. Nuno Freire! Elle é o noivo de minha filha... replicou elle deveras impressionado. 

-- Que importa! Executamos ordens, não as discutimos... Entregae-vos! 

-- Mas é impossivel... Ha aqui um engano! 

-- Que desmanchareis na presença do sr. intendente! bradou o esbirro, fingindo vir da parte da policia. 

-- Mas, senhores, não se tratam assim súbditos leaes que teem vertido o seu sangue no serviço de sua magestade! clamou o fialgo deveras transtornado e em voz tão alta que despertou a attenção da filha, a qual veiu de corrida perguntar assustada: 

-- Com quem fallaes, meu pae?... Que quer isto dizer? 

-- Quer dizer que nos prendem, Etelvina, quer dizer que nos recusam de heresia... 

-- Oh! Mas é falso!... gritou ella angustiosamente. 

-- Senhora... Temos ordens expressas e vamos dar uma busca á casa! 

-- Nunca! Nunca! bradou o ancião, sentindo referver todo o seu sangue. Na casa d'um velho súbdito dos reis de Portugal não se entra a não ser pela força ou com magistrados competentes! 

-- Pois, á falta de magistrados, entraremos pela força! bradou Jacintho Peres, desejoso de pôr termo áquella scena e soltando um assobio, ante o qual os oito homens, armados, abandonando as cadeirinhas, subiram lestamente a escada. 

D. Afonso da Gama, buscou defender-se mas foi desarmado rapidamente pelos esbirros e amarrado com solidas cordas; Etelvina começara a chamar por soccorro, porém, fora amordaçada e levada em braços, bem como seu velho pae, cada um para a sua cadeirinha. 

Depois o bando dos esbirros penetrou na casa, apossou-se do pouco dinheiro e dos objectos de mais valor que encontravam em casa do fidalgo e por fim, pondo-se aos varaes das caixas, começaram a caminhar em direcção a Belem. 

-- Ella para as Salesias... Será entregue á abbadessa, que tem lá um seguro in pace. Elle para o Santo Officio e eu me encarregarei da parte... Pois se o magano lia Voltaire!... exclamou o esbirro com uma risada e tirando da algibeira uma pequena brochura, que mostrou ao collega, accrescentando: 

-- É o bastante para o ter preso toda a vida! 

-- Deixa estar que não dura muito! 

-- Depois, este livrinho sempre rende, disse o outro com grande alegria. 

-- Sim, além dos patacos que sua alteza distribue liberalmente, ainda ha os despojos... 

-- E a instrucção que se apanha lendo estas brochuras! casquinou o outro. 

-- Eh! Deus me guarde de tal!... disse João Jacintho com mostras de terror, accrescentando: Além de serem excommungadas, são escriptas n'uma linguagem que nem o inimigo a entende... Eu prefiro o Almanach das Musas ou as Rimas de Bocage... 

-- Ou então as Aventuras d'um cego, um cão e um burro! redarguiu o outro, a mostrar os seus conhecimentos litterarios. 

Entretanto tinham chegado ás Salesias, batiam d'uma forma particular no portão, que se abrira, e a cadeirinha que conduzia D. Etelvina penetrava no edificio, acompanhada por Jacintho Peres, o qual dizia para um homensinho rachitico que viera abrir: 

-- Desejo fallar á sr.ª abbadessa da parte de sua alteza. 

O homem estremeceu e volveu em vozbaixa: 

-- Não vos fallará agora... Deu-me ordens terminantes... 

-- Ah! Essa é que transtorna... volveu o esbirro, dizendo logo: No emtanto, podeis encarregar-vos da pessoa que vos conduzo e d'esta carta de sua alteza para a sr.ª abbadessa? 

-- Sim, posso... Trazeis ahi mais uma recolhida, não é assim? disse o outro d'uma forma pouco tranquillisadora para a joven que os ouvia. 

-- Sim... sim... Mais uma recolhida! tornou o esbirro, entregando-lhe a carta e fazendo signal aos homens para que ficassem. 

Mas tão depressa elle transpunha a porta, a joven arrancava rapidamente a mordaça e começava a clamar: «Soccorro! Soccorro!» e a sua voz reboava estranhamente no claustro. 

Os homens da cadeirinha e o do convento, lançaram-se sobre ella para lhe abaffarem os gritos. 

Ao mesmo tempo, Jacintho Peres ordenava aos companheiros: 

-- Eh! Agora é marchar para o Santo Officio... D'uma já estamos livres! 

E a cadeirinha perdia-se no escuro da Junqueira, conduzindo o pobre velho, cujo unico crime consistia em ter uma filha que amava o mesmo homem que a mais devassa das princezas. 

Nuno Freire, entrava no quartel, radiante de felicidade, dormia tranquillamente, sem a menor recordação d'aquella mulher com quem se encontrava no Neutral, agora como purificado ao contacto da joven. 

E no dia seguinte, logo que sahiu do leito, correu a procurar seu primo, muito desejoso de fallar com elle acerca da noiva tão amada. 

O regimento preparava-se para a proxima partida, grandes carros de munições atravancavam o pateo, desempilhava-se correame e mochilas, as espingardas novas luziam ao sol junto das espadas aguçadas. 

Nuno ia sahir, porém, n'este momento, ouvia uma voz que o chamava, voltava-se e deparava com um dos seus camaradas, que lhe bradava: 

-- Olá, Nuno... Procuram-te! 

-- Obrigado, Garção!... retorquiu elle de muito bom humor, dirigindo-se ao collega e perguntando: Mas quem me procura? 

-- Um soldado das ordenanças... 

Com effeito, um soldado empregado no serviço do ministerio da guerra acercava-se do mancebo, depois de ter sabido o seu nome, e entregava-lhe um despacho de que era portador e que o cadete abria rapidamente, exclamando de seguida: 

-- É impossivel... é impossivel!... 

-- Mas o quê? interrogou o outro, com immensa curiosidade. 

-- É a minha promoção a alferes! tornou elle, ainda muito impressionado. 

Depois, tomado d'uma alegria louca, avançou para a porta do quartel, emquanto o outro ficava murmurando: 

-- Alferes!... Alferes! Tem uma boa sorte, este Nuno... Se ha apenas seis mezes que está na legião! 

O joven, louco de jubilo, corria para a Junqueira e ia chamar uma sege, soltava umas palavras em que ia toda a sua alegria, murmurava-as cheio de surpreza e pensava em pôr Etelvina ao facto do succedido. 

Para elle, aquella subita promoção, representava nada menos que a felicidade; era a posse da mulher amada a desenhar-se no horisonte da sua vida, era o futuro a entreabrir-se-lhe risonho pela mão d'alguma fada, que não conhecia e por isso o mancebo sorria e fallava comsigo proprio, fazia um gesto á sege para que parasse e ia subir exactamente na occasiao em que o chamavam pelo seu nome sem que elle ouvisse, tal era a sua alegria. 

Mas de repente viu a seu lado Gomes Freire, que lhe bradava: 

-- Eh! Por S. Jorge... Parece que vaes louco! 

-- Meu primo... Oh! Sou muito feliz! retorquiu o mancebo, querendo abraçar o heroe. 

-- E porquê? perguntou elle, muito simplesmente; ao ouvir a nova encrespava as sobrancelhas e perguntava: 

-- E que vaes fazer? 

-- Vou dizer tudo a Etelvina, vou dizer-lhe que será brevemente minha esposa! 

O coronel da imperatriz, baixava a cabeça e dizia: 

-- Sim... Tu foste nomeado, eu tambem, porém vou devolver a minha patente de coronel! 

-- Vós!... 

-- Sim, Nuno... Um militar honesto só póde acceitar as distincções quando lhe são devidas!

O mancebo, vendo ali uma recriminação, curvou a cabeça e replicou: 

-- Porém, o acaso... 

-- O acaso obedece muitas vezes a factos; o acaso occulta muitas vezes cousas extranhas. 

E, sem querer explicar mais coisa alguma, deveras perturbado, o heroe deixou-se conduzir, não trocando mais palavra com o mancebo até á residencia de D. Etelvina. 

Uma vez ali, Nuno apeou-se rapidamente, correu para a escada e penetrou pela porta da casa que os esbirros tinham deixado aberta, gritando cheio de enthusiasmo: 

D. Affonso... Etelvina... 

Ninguem lhe respondeu. Em torno havia moveis arrombados, roupas espalhadas, visiveis signaes do roubo praticado pelos esbirros, e então o joven soltava um grito ao percorrer toda a casa e ao qual accudia Gomes Freire, que perguntava: 

-- Que succede? Que succede, Nuno? 

-- Succede que nem Etelvina nem seu pae aqui se encontram! A porta estava aberta, aqui praticou-se um crime! 

A face do heroe tornou-se livida; reparou em toda aquella desordem e concluiu por murmurar comsigo mesmo: 

-- Tenho a certeza do que foi... Sim... Comprehendo tudo! Nuno cahira a soluçar sobre a poltrona onde a joven tomara logar na vespera e o heroe deixava-o chorar livremente, lembrando-se bem do seu passado. 

E ao cabo d'uns momentos, com subita energia, deveras resolvido a tudo, bradou: 

-- Dá-me a tua patente, Nuno! 

Arrancou-lh'a das mãos, tomou-lhe de seguida o braço e exclamou: 

-- Vem... Preciso ir pedir justiça, quero saber noticias de Etelvina! 

-- Mas onde? A quem?! perguntou no cumulo do espanto. 

-- Longe d'aqui!... Vem... 

E mesmo contra sua vontade, buscando enxugar-lhe o pranto com algumas consolações habeis, levou-o pela escada abaixo, trepou para a sege e ordenou ao bolieiro: 

-- Ao paço d'Ajuda! 

O mancebo, com os olhos nublados de lagrimas, interrogou em voz tremula: 

-- Que ides fazer? 

-- Justiça! Justiça!... replicou cheio de dignidade o heroe. 

E Nuno Freire, o joven cadete, chorava sempre a perda da sua noiva. 

O coronel da imperatriz, murmurava algumas palavras inintelligiveis, e a sege rodava sempre em direcção ao paço de Carlota Joaquina. 







XXI 



Ordens da princeza 





Carlota Joaquina, acabava de fazer um signal imperioso á dama que guardava os seus aposentos e ella accorrera pressurosa a curvar-se ante a princeza, que lhe ordenava: 

-- Fazei entrar o novo alferes das guardas. 

O sr. Freire de Andrade! 

-- Sim, alteza real! exclamou a dama, sahindo toda dobrada n'uma reverencia. 

A princeza, com os lábios franzidos n'um sorriso, os olhos fulgurantes como carbúnculos, fixava a porta por onde Nuno Freire ia entrar dentro em instantes, e do intimo do seu peito vinha-lhe uma onda de goso ao lembrar-se da alegria que lhe daria ao mostrar-se tal qual era como n'um conto de fadas as protegidas d'ellas se transformam de simples pastoras em princezas. 

Tinha já á flôr dos labios as palavras que lhe dirigiria á entrada, preparava já o beijo com que calaria a sua exclamação de espanto e estremecia como uma donzella, ao ouvir passos que se approximavam, ao sentir que a mão da dama corria o reposteiro de velludo bordado com as armas dos Braganças e ao ouvir a sua voz annunciar: 

-- O sr. Freire de Andrade! 

Ergueu-se d'um salto e ia correr para a porta, porém recuou logo ao ouvir uma voz forte e severa, embora respeitosa, exclamar: 

-- Sou eu, alteza real! 

-- Como sois vós, sr. coronel?! bradou ella deveras espantada ao ver na sua presença o amigo do marquez d'Alorna. 

-- Sim, alteza real... Sou eu... 

-- Mas que desejaes? perguntou a princeza com grande pasmo. 

-- Desejo deixar-vos aqui a minha patente de coronel, essa graça que devo a vossa alteza! 

-- A mim? gritou ella no auge da admiração, olhando-o de frente. 

-- Sim, alteza, as patentes costumam-se conquistar pela antiguidade ou por serviços prestados no campo da batalha e não por um acto que qualquer fidalgo tem obrigação de prestar a uma mulher, seja ella princeza ou simples vendedora! 

-- Coronel! exclamou Carlota Joaquina deveras admirada. 

-- Já tive a honra de communicar a vossa alteza as minhas intenções... Coronel, sou-o apenas de sua magestade Catharina II! 

-- E por isso mesmo Luiz Pinto, veiu solicitar de meu esposo a vossa patente no exercito portuguez, Gomes Freire! 

-- Como? Luiz Pinto?! bradou elle por sua vez assombrado. 

-- Sim, coronel, volveu teimosamente a princeza. Podeis perguntar-lh'o e sabei que deveis esse favor á vossa bravura de militar e não á vossa galanteria de fidalgo! 

Carlota Joaquina sorria amavelmente e sentava se na poltrona ao vel-o indeciso e como ultimo argumento dizia: 

-- Podeis pois acceitar o regimento, Gomes Freire, de que meu esposo vos fez mercê por indicação do seu ministro... 

-- Senhora... Garantis-me que tudo se passou assim? perguntou eile cheio de duvida. 

Por unica resposta Carlota Joaquina, estendeu a mão para a campainha agitou-a tres vezes e para a dama que appareceu ordenou: 

-- Chamae sua alteza, o regente! 

-- Que ides fazer, senhora?... interrogou, o heroe. 

-- Convencer-vos já que não me acreditaes! 

-- Peço perdão a vossa alteza, volveu elle serenamente, accrescentando: 

-- É escusado o testemunho do príncipe D. João, meu amo e senhor... 

A camarista retirou-se a um gesto da princeza e o coronel continuou: 

-- Dizeis que devo aos meus serviços semelhante distincçao, não é assim, alteza! 

--Totalmente a elles! retorquio ella com certa graça, muito amavelmente. 

E então o coronel, d'um folego, quasi indignado, bradou: 

-- E meu primo Nuno? Parece-me senhora que não querieis tambem galardoar os feitos d'essa creança por causa de quem aqui estou mais do que por mim mesmo! Uma nomeação de coronel, quando não é devida, rasga-se para dar accesso aos que a merecem, succede o mesmo á promoção d'um alferes como succedeu á de Nuno, porém ha coisas que nem da n:emoria se podem rasgar e eis o motivo porque me encontro n'este momento na presença  de vossa alteza! 

-- De que se trata, pois? interrogou ella, tornando-se um pouco pallida ante o tom energico do official, que continuava: 

-- Quero fallar, senhora, d'uma pobre menina que foi a noite passada arrancada da sua residência juntamente com seu velho pae, um antigo servidor d'el-rei D. José. Quero fallar d'essa joven, esposa indicada e promettida de meu primo Nuno! 

-- Bem, e depois? perguntou Carlota Joaquina em voz tremula, accrescentando: E sabeis para onde conduziram essa joven de que fallaes? 

-- É isso o que vvenho perguntar a vossa alteza! exclamou o fogoso coronel, sem se poder conter mais tempo, livido de colera, no auge da excitação, disposto a tudo para restituir Etelvina ao seu inconsolavel noivo. 

-- Quero acreditar que estaes louco, sr. coronel! bradou a princeza n'um grande tom de dignidade offendida. 

-- Louco?! exclamou o primo de Nuno, fazendo-se livido, e logo de seguida, com um sorriso triste: Sim, tendes talvez rasão, senhora... Estou louco e retiro-me!... Estou louco porque acredito n'uma vil historia que ninguem acreditaria... Louco por me recordar ainda bem de que uma princeza desceu a uma espelunca, da qual a salvaram dois homens de bem, que essa princeza feriu depois em pleno peito atirando-lhes com perdões de que elles não careciam porque não eram culpados.. . Perdões que serviriam talvez para pagar o seu silencio sobre uma aventura indigna!... É por isso que eu sou louco... Por isso e por pedir a uma senhora do mais alto nascimento a restituição aos seus d'uma pobre rapariga cujo unico crime consiste em amar o mesmo homem que a alta dama deseja... Tenies rasão, alteza real, os homens da minha estofa são loucos porque obedecem sempre aos impulsos de generosidade, trate-se de salvar uma rainha ou uma mulher do povo, os homens da minha profissão, quando a exercem com nobreza, são dementes porque acreditam no bem! Senhora, eu estou doido e retiro-me da vossa presença na certeza que saberei arrancar D. Etelvina da Gama seja de que antro fôr com a mesma dignidade com que ha algumas noites ajudei a livrar alguem d'um mau passo! Eu vos saudo, princeza! 

E o coronel, com passo firme e de cabeça erguida, ia dirigir-se para a porta, quando se lembrou d'alguma coisa e por isso voltou de novo, sempre no seu ar digno, e bradou para a esposa do regente: 

-- Alteza real! Ha um Freire de Andrade que vos deve uma patente, porque a minha, segundo dizeis, parte do ministerio da guerra! A de Nuno Freire aqui vol-a entrego, a minha a todo o tempo vol-a enviarei se não estiver legal! Os Freire de Andrade, senhora, não acceitam favores senão dos seus amigos, não recebem recompensas senão quando as merecem, não querem honras senão conquistadas com a espada! 

N'um gesto enérgico apontava a nomeação de Nuno que deixava sobre a mesa, e, concluidas as suas palavras, avançava para a porta sem saudar a princeza, que estava agora de pé, livida, muito agitada pelo tom altivo d'aquelle homem singular. 

E alli, á porta, voltando-se, o, coronel curvava-se como um perfeito fidalgo n'uma ultima saudação á princeza, que o olhava ainda admirada de semelhante audacia. 

Depois, quando o reposteiro cahiu e as armas dos Braganças ficaram além apenas ante a sua vista como um incitamento ao dever, á honra da esposa que ella protrahia, Carlota Joaquina atirou-se para sobre o sophá e começou rasgando com fúrias as rendas do corpete, tomada da mais intensa colera. Soltava gritos de louca, essa princeza, extranhamente devassa, via que alguem a insultara face a face e alguem a quem ella devia a salvação; sentia-se mortalmente ferida no seu orgulho de mulher de sangue real e no intimo da sua consciência nascia a maior revolta contra os preconceitos que a obrigavam a calar aquella affronta. Mas se esse homem fallasse? Se elle fosse espalhar o episodio d'aquella noite? Como 

fizera mal em pedir ao marido o seu perdão! O seu indulto?! Oh! Mas ella possuia essa ordem de prisão assignada! Bastava estendel-a e o infame pagaria a ousadia! Uma vez preso, ella se encarregaria do resto. Oh! Mas havia o marquez d'Alorna, esse homem tão amigo do outro! Prendel-o-hia tambem... Mas, e o escandalo? Que lhe importava? Ella, a esposa do regente, em breve seria a rainha, talvez a unica senhora d'esse paiz, como lh'o deixara entrever na vespera o bispo do Algarve ao fallar-lhe da conspiração jesuitica... Já agora iria até ao fim... E Nuno? Oh! Para esse todo o seu amor... Elle viria ali sem duvida, saberia conquistal-o... 

Tocava agitadamente o timbre e a dama que apparecia perguntava: 

-- Não está na antecamara um joven cadete? 

-- Real senhora... Esse mancebo sahiu com o sr. Freire de Andrade! 

Então Carlota Joaquina, lívida de colera, exclamou: 

-- Enviae-me D. Ramiro... Depressa! 

-- Vossa alteza tem alguma cousa! 

-- Não... Mandae-me aqui D. Ramiro, gritou no auge da raiva. 

Entretanto Gomes Freire, tinha sabido do paço ao lado do primo que o interrogava com respeito e anciosamente: 

-- Então meu primo, soube alguma cousa de Etelvina?... 

O heroe olhou-o de frente e retorquio: 

-- Soube o que já sabia, meu amigo! 

E o rapaz não o comprehendendo, interrogava: 

-- Mas e a minha noiva? 

-- A tua noiva?! ... Ah! meu bravo, pensa n'ella como se pensam nos mortos! exclamou o coronel abruptamente. 

-- Que quereis dizer... Etelvina está morta?! 

-- Pelo menos está sepultada para sempre! 

-- Oh! Meu Deus! Meu Deus, e seu velho pae? 

-- Ah! Elle!... Devia ter a sorte da filha... E agora para a guerra que nos espera! 

Porém, Nuno Freire, cambaleava ante tão rude golpe, encostava a cabeça ao peito do heroe que o amparava e ouvia-o murmurar deveras impressionado: 

-- Meu amigo... É agora a tua vez de soffrer... Mas consola-te que eu já soffri também assim!... e n'um gesto chamava uma sege que passava e gritava ao bolieiro: 

-- Para o quartel do sr. marquez d'Alorna! 

Era n'este momento que D. Ramiro penetrava nos aposentos da princeza todo curvado, muito humilde. 

N'um relance comprehendeu que alguma cousa de horrivel se passava e perguntou com grande pressa, buscando impôr-se á exaltação de que Carlota Joaquina dava grandes mostras. 

-- Que pode carecer vossa alteza do seu humilde servo? 

-- Ramiro, gritou ella como louca. Faça executar estas ordens de prisão! estendia-lhe os papeis assignados pelo regente, elle lia-os n'um relance e bradava: 

-- Gomes Freire!... O marquez d'Alorna! Oh! Até que emfim são nossos! 

E todo o odio accumulado pelo fidalgo desde muitos annos, a raiva intensa que sentia no intimo do peito pelo homem que lhe roubara a noiva, essa D. Elvira de Mello, transpareceu- lhe no rosto, e o camarista de D. João bradou: 

-- É a vingança!... É a vida d'esse homem que vossa alteza me entrega... Como vos agradeço!... Curvava-se, beijava-lhe a mão num transporte louco e ouvia-a exclamar: 

-- Não vos esqueceis de Alorna! ... Elle em liberdade poderia comprometter tudo! 

-- Comprometter?! interrogou D. Ramiro desejoso de saber o que se passara, e que obrigara Carlota Joaquina a sollicitar do principe o perdão d'esses dois homens. 

Ella mordeu os beiços e volveu: 

-- Sim... Elle trabalharia para a liberdade do seu amigo; e eu careço D. Ramiro, de tirar uma terrivel vingança do primeiro d'esses miseraveis! 

-- Vós também senhora! Oh! N'esse caso somos dois cheios de colera, e desejosos de lançar por terra o inimigo... A mim roubou-me a felicidade, roubou-me a mulher amada... 

-- E teve a ousadia de me insultar! bradou ella, cheia de colera intensa, a dar razão ao fidalgo. 

-- Alguem existe também que o odeia, um homem que é ainda seu primeiro parente e do qual tem recebido d'essa familia todas as affrontas! 

-- Da propria familia?... Mas é tambem um Freire? 

-- Alteza... É D. Miguel de Forjaz! É esse official que tem por Gomes Freire o maior odio! 

-- É vosso amigo? 

-- O melhor amigo... 

-- Pois participae-lhe que está vingado! 

-- Sim real senhora, graças!... 

-- Ide, correi ao intendente da policia que ha dias sollicitava essas ordens de prisão, entregae-lh'as da minha parte! 

-- Assim farei! e o fidalgo sahia de corrida e exclamava, para D. Miguel de Forjaz que o aguardava no corredor: 

-- Miguel! Estamos vingados! 

Mostrava-lhe as ordens de prisão e o outro dizia cheio de jubilo: 

-- Oh! obrigado... obrigado, Ramiro, e a meia voz, murmurava: 

-- Serei rico... Já tenho que deixar aos meus! 

-- Estamos com sorte! ahi vem o intendente... Depressa que eu hoje tenho de acompanhar sua alteza!... 

Correram então para o fundo do corredor onde se desenhava o vulto negro de Manique, sinistro como uma ave de agouro rondando em torno da presa. 







XXII 



Palavra real 





Dez horas. Estava uma grande neblina a estender-se n'um vago veu pela cidade, lá de baixo do Tejo vinha uma aragem fria que regelava. As sentinellas do paço real d'Ajuda embrulhadas nos capotes da ordenança passeavam d'um lado para outro batendo os pés nas lages, o olho attento, bocejando de quando em quando aborrecidamente. 

O soldado que estava á entrada da arcada, teve um sobresalto; olhou em volta e tez um gesto d'espanto, ao vêr dois vultos embuçados que se dirigiam para a sahida n'umas passadas tranquillas: 

-- Quem vem lá? gritou o soldado acercando-se dos dois embuçados que paravam sob o lampeão, suspenso junto a uma estatua da portaria. 

-- Serviço de sua magestade! replicou um dos embuçados muito gravemente. 

-- A senha? interrogou o soldado buscando divisar o rosto do seu interlocutor. 

Elle calou-se por uns momentos e de seguida, murmurou: 

-- Diabo! Lá nos esqueceu de perguntar a senha! 

-- A senha? interrogou de novo o soldado com grande pressa, impaciente. 

O embuçado que avançava recuou de novo até junto do outro que estava junto a arcaria e murmurou: 

-- Meu senhor... Esqueceu-nos de saber a senha! 

-- Oh! Por Santa Maria de Belém! Tantas formalidades para ir ouvir um côro de freiras! Tanto mysterio e tudo para que? 

-- Para que ninguem suspeite da sabida de vossa alteza e que poderia ser attribuida a bem diversos, a bem menos piedosos motivos, tornou d'um outro modo, pesadamente palaciano, como se temesse muito pela reputação de sua alteza! 

O principe, olhou o aulico e retorquiu: 

-- Mas porque não passaremos, D. Ramiro? 

-- Meu senhor: Todos saberão da vossa sabida... 

-- Todos?! Não... Apenas esse soldado!... 

-- Meu senhor... não é bom confiar n'essa gente!.. . E eu tenho receio... balbuciou D. Ramiro com exaggerado terror. 

-- Porém...' Que fazer então... Eu de forma alguma quero 

deixar d'ouvir a musica sacra da formosa Scarlatti... E bem sabes 

que não posso ir de dia a sua casa, que não posso ir ao convento 

senão com a pompa d'uma cerimoniosa visita, o que me tira todo 

o prazer! 

-- N'esse caso, vossa alteza, ordenará I... disse D. Ramiro com enorme contentamento, que disfarçava em submissão. 

O soldado, conservava-se sempre no seu posto, d'olho attento, disposto a tudo para cumprir o seu dever, impedindo a passagem dos embuçados. 

Porém sua alteza fazia um gesto, D. Ramiro começava a caminhar a seu lado e acercando-se do guarda, D. João desembuçava-se, mostrava-se em toda a sua obesidade, o rosto farto muito vermelhaço, na apparencia d'um conego farçante, e perguntava fanhosa- mente á sentinella: 

-- Conheces-me? 

-- Sua alteza! bradou o soldado no auge da admiração. 

-- Sim... eu... Mas apenas tu o deves saber... 

Passava então impávido em frente do militar emquanto D. Ramiro sorria cheio de jubilo ante aquella escapada do regente. 

Elle, que buscara sempre arrastal-o, a uns amores longe do paço, que deixassem em liberdade a princeza, seguindo n'este ponto a sua politica, animado do desejo de ter Carlota Joaquina á sua disposição, ia radiante pois pensava em que sua alteza se apaixonaria pela Scarlatti, essa filha d'um velho capitão de cavallaria, de descendencia italiana e cuja voz arrebatava ao resoar nos canticos sagrados em que era eximia. Por isso o aulico fallara da joven a sua alteza lisongeando-lhe a sua paixão devota herdada do bisavô D. João V. Agora desciam as terras do Galvão, mettiam depois á quinta do meio e atravessavam em direcção ás Salesias onde as 

freiras estavam prevenidas para a visita do principe. 

A madre, soror Françoise Salesia, uma monja franceza de perfil anguloso e ar beato, alta, secca,  mirrada, curvava-se na presença do principe e murmurava: 

-- Grande honra é a vossa visita, meu senhor! 

-- Antevia já o vosso acolhimento, minha boa madre!... replicou sua alteza deverás impressionado pelo magnifico aspecto da sala onde era recebido. 

Tinham-se trazido as lampadas da egreja, aquellas bellas lampadas d'ouro macisso que suspensas do tecto espargiam uma luz breve d'oleo aromatico sobre a mesa coberta de flores e onde esta- vam alguns pratos de doce fabricado no convento para a refeição do regente. As educandas estavam recolhidas e apenas as sorores em numero de dez se enfileiravam por detraz da madre, todas curvadas em reverencias. 

-- A nossa joven Scarlatti, murmurou a madre, apresentando a cantora que para o effeito vestira o habito das irmãs salesias. 

-- Mas é uma professa? interrogou o principe deveras admirado. 

-- Não, alteza real, é visinha do convento e está aqui desde esta tarde... Porém para não admirar as nossas ingenuas educandas vestimos-lhe o habito. 

D. João, tinha um movimento que apenas exprimia cortezia e lançava um olhar indifferente a joven. 

Mas na realidade ella eia formosíssima assim vestida. 

O rosto roseo lacteo, os olhos azues, os cabellos louros mal contidos na touca, a sua estatura franzina mas elegante envolta no habito, dava-lhe um ar singular; recordava uma d'essas santas da edade media, de linhas puras, e olhos onde se coalhava um raio de graça celestial. 

-- Vamos, minha filha, agradeça a sua alteza a honra que lhe concede! disse soror Salesia, dirigindo-se á joven, que n'um cumprimento o mais mundano e que destoava por completo com o seu trajo, murmurou na sua voz harmoniosa: 

-- Agradeço-vos, meu senhor, a honra que me daes, vindo ouvir a minha pobre musica! 

-- Não é isso o que me dizem, senhora! Porque tendes fama de boa cantarina e excellente executante!... 

-- Desilludir-vos-heis ao ouvires-me, meu senhor! replicou ella avançando uns passos para sua alteza n'uma reverencia timida mas graciosa. 

A um canto da sala entre um grupo de plantas as mais raras, estava um cravo. <marca num="*" pag=833>



<nota num="*" pag=833> Instrumento musico. </nota>



A joven dirigiu-se para alli, sentou-se com permissão de sua alteza e passou rapidamente a vista pelos circumstantes. 

D. João tomara logar um pouco distante da cantora, obrigava a madre a sentar-se a seu lado, fizera um gesto ás monjas para que tomassem logar nas cadeiras da sala e apenas D. Ramiro ficava de pé por detraz do principe e trocava um expressivo olhar com a cantora, como a dizer-lhe: 

-- Arrebate-o! 

Ella pareceu comprehender; passou-lhe uma scentelha extranha nos seus olhos de previnca; attacou gravemente o cravo na modulação d'uma aria de Jomelli. 

E a sua voz limpida, com inflexões doces, ternas, sublime de expressão, estrangulada por vezes como n'um caudal de lagrimas, recitava os versos d'aquella canção piedosa^ arrebatava, seduzia, embriagava, resoava além n'essa sala do convento com todo o encanto d'uma verdadeira composiçSo d'artista inspirado na vida de Jesus. 

No theatro, teria arrebatado uma platéa por mais exigente que fosse, alli seduzia as monjas e deixava sua alteza como suspenso dos seus labios, acorrentado n'aquella infinita harmonia. 

Aquelle homem, gordo, obeso, que o destino impellira para o throno, tinha lá bem no fundo da alma o culto da religião tal como lh'a ensinara o fallecido Pedro III. 

Não era uma fé sincera, ingenua, franca e impulsiva que embriaga as imaginações dos devotos por indole, dos mysticos; não era esse ardor forte e sagrado do catholicismo primitivo que calava no animo do principe, antes era alguma cousa de exterior, de vulgarmente corrente que o prendia. Para elle a religião, eram os seus bons frades de Mafra, de craneos luzidios nas suas calvas, sabidos da bibliotheca, cheios de poeira e de idéas falsas, eram as procissões pomposas onde Deus era conduzido como um idolo oriental no meio do mais aziatico luxo, eram os conventos monumentaes povoados de frades que litaniavam cantochões que cabiam no espirito do principe como o embriagava o cbeiro da cera derretida, por isso agora alli no meio d'aquellas monjas, escutando a formosa mulher que cantava, elle se deixava seduzir pouco a pouco como entre os frades. 

Mas não era o desejo moderado do homem pela mulher que o attrahia, antes era o amor do regente por tudo quanto dizia respeito ás exterioridades da religião que actuava ainda no seu espirito, a ponto de ficar embevecido quando ella terminou. 

A cantora, voltava-se para elle com os olhos humidos, o rosto transfigurado pela paixão da sua arte e parecia pouco se importar com as monjas, apenas sollicitava um gesto approvativo de sua alteza que murmurava como fallando comsigo mesmo: 

-- É o estylo magistral, e cheio de sciencia do meu bom Ferracuti, o melhor cantor da capella real. 

-- Senhor... Confundis me... volveu a joven num agradecimento, muito commovida. 

E o principe, pedia então: 

-- Sabeis alguns trechos de Peres? 

-- Sim alteza real!.. . retorquiu ella um pouco despeitada pela frieza dos olhares do regente. 

E então, obedecendo á sua vaidade de mulher, propondo se a seduzil-o deveras, começou uma canção do inspirado hespanhol e onde havia a harmonia quente do paiz de sol d'onde o artista era originario. Era uma canção d'amor, terna e sublime, perturbadora, d'uns effluvios doces que contrastava com a anterior e destoava além n'aquelle convento como uma mascarada n'um cemiterio. 

Sua alteza, deixava-se enlevar pela voz da cantora como já suc- 

cedera, mas d'esta vez tinha um arrepio gélido ao vêr essa mulher 

vestida nos hábitos de religiosa, atirar ao espaço n'uma voz de houri^ 

de esplendida bachante grega, esse canto de amor que lhe dava do- 

brado encanto. 

E ao terminar, o príncipe, com manifesto desgosto ao vel-a na sua frente assim vestida, sentia bem que a religião fôra profanada e dizia: 

-- Recommendareis esta grande cantora a sua alteza, a princeza, D. Ramiro!... 

Ao principio a Scarlatti julgou ver alli uma ordem para a conduzirem ao paço d'onde o seu corpo virginal sahiria maculado d'um leito real, mas antes a expressão de desgosto que viu no rosto do aulico entristeceu. 

D. João, recusava a mulher que se lhe offerecia, e avançara já 

para a porta, emquanto o camarista murmurava ao ouvido da joven: 

-- Escolhesteis mal o trajo, não se harmonisava com a canção! e voltava-lhe as costas como a uma rainha que tivesse decahido. 

A madre Salesia, sollicitava então de sua alteza: 

-- Não quereis provar os nossos doces, meu senhor! 

-- Não... não... agradeço-vos! e mais do que nunca parecia ter o desejo de sahir do convento. 

Porém n'este momento, o principe recuou, a madre fez-se livida, as freiras estremeceram ao passo que D. Ramiro e a Scarlatti se olhavam com pasmo. 

É que um grito estridulo, angustioso, extranho, cortava o espaço e resoava terrivelmente nos claustros, chegava até alli a essa sala e obrigava o príncipe a interrogar: 

-- Que é isto?! 

-- Mas ignoro-o, senhor! volveu a madre, correndo apressadamente em direcção aos claustros. 

Lá ao fim, illuminados apenas pela luz breve duma lampada, alguns homens agarravam um corpo de mulher e buscavam transportal-o nos braços em direcção a um pateo interior do convento. 

-- Que é isto? exclamou a madre rapidamente. 

-- Madre: A pessoa que a trouxe traz esta carta de sua alteza real! 

-- Da princeza!... Oh! Depressa, depressa para o in-pace! ordenou ella, ao passo que a mulher que elles conduziam á força bradava: 

-- Soccorro! Soccorro!...

-- Depressa! Depressa! tornava a madre como espavorida, mettendo rapidamente na algibeira a epistola de Carlota Joaquina. 

Mas sua alteza approximava-se a largas pernadas seguido por D. Ramiro e pelas monjas e interrogava: 

-- Que significa isto! 

Os homens tinham largado o corpo da joven e desappareciam pelo pateo, emquanto soror Françoise ficava deveras embaraçada em presença do principe e daquella joven que ella não conhecia e que se lançava de joelhos a seus pés, ao ver o seu habito de religiosa, buscando alli amparo, bradando em voz angustiada: 

-- Oh! Minha irmã tende piedade de mim! 

-- Mas que succedeu, minha filha, que quer dizer a vossa presença n'este logar? interrogou ella deveras impressionada, 

-- Eu mesma o ignoro... replicou D. Etelvina da Gama, pois era ella a mulher que alli estava de joelhos e banhada em pranto. 

Continuava então em voz tremula, angustiosamente: 

-- Sei apenas que hoje, ha alguns momentos, uns homens desconhecidos penetraram em minha casa e me declararam presa bem como a meu pobre pae... Fomos conduzidos á força para as cadeirinhas, senti apenas que me levavam, ouvia vozes ironicas e por fim fizeram-me entrar n'este convento onde não vejo meu velho pae... Senhora, minha irmã, tende piedade de mim!... 

-- E de que crime vos accusavam? interrogou então o principe D. João que parecia deveras interessado pela desgraçada. 

-- De herege, de ter convivio com maçons e pedreiros livres... Quando apenas recebemos em nossa casa o meu noivo, Nuno Freire, cujo unico crime e pelo qual me accusam consiste em pertencer ao regimento do marquez d'Alorna. 

-- Nuno Freire?! Vós sois a sua noiva?... Oh! Lembro-me de ter assignado a sua nomeação d'alferes... murmurou o regente com grande pasmo da joven, que exclamou: 

-- Oh! senhor... Pelo que vejo tendes poder... Livrae-me d'aqui, livrae-me d'esses homens e Nuno vol-o agiadecerá! 

D. João ficava silencioso, parecia que no seu cerebro se travava uma lucta e de repente perguntava: 

-- Onde estão os homens que vos conduziam? 

-- Sahiram por aquella porta, senhor... 

-- Ramiro, procura esses hogiens e que venham á minha presença... exclamou o regente olhando a sabida que deitava para o pateo. 

A madre fazia-se livida ao ver que o fidalgo deveras admirado de semelhante aventura se dispunha a executar as ordens do principe e n'um habil movimento ao vel-o passar a seu lado, murmu-rou: 

-- Eram ordens da princeza! 

Ramiro ouviu-a e estremeceu, correu para o pateo e com effeito distinguiu os vultos dos conductores da cadeirinha acocorados no escuro; ao verem-no ergueram se e lançaram em volta uns olhares espavoridos. 

-- Olhae, sois vós os que conduzisteis aqui uma senhora? interrogou o fidalgo em voz baixa. 

-- Mas, excellencia, retorquiu um delles, obedeciamos a Jacintho Peres... 

-- Pois bem... Tratae de sahir do convento o mais breve possivel e que ninguem suspeite de que ainda aqui vos encontraveis!ordenou elle rapidamente. 

-- Porém, já o teriamos feito, mas é impossivel a sahida! Não temos? chave da porta c os muros são altos... Tememos fazer ruido arrombando a porta e não ha meio algum de transpol-a... 

-- Deixae-vos estar n'esse caso... Alguem vos salvará! disse elle; e desembainhando a espada correu para junco de sua alteza e exclamou: Fugiram os miseraveis... e ao mesmo tempo trocava um olhar d'intelligencia com a madre que ficava mais tranquilla. 

Porém inquietava se logo ao ouvir o principe interrogar: 

-- E que dizeis a isto, soror Françoise Salesia? 

-- Mas, meu senhor, eu ignoro tudo! 

-- Ah! Então já vejo que o vosso convento está em pouca segurança, desde que n'elle se introduzem pessoas sem vosso consentimento, desde que se faz d'elle prisão illegal para mulheres accusa das e que deviam estar no Santo Officio logo que se provassem os crimes de que as accusam! Não concordaes com isto, madre? 

-- Porém alteza real!... murmurou a religiosa deveras transtornada. 

E Etelvina ao ouvir o tratamento que a madre dava aquelle homem que parecia interessar-se por ella, vendo n'elle um principe, supplicou: 

-- Sois soberano, meu senhor, tende piedade de mim! Fazei com que saia d'aqui para ir procurar meu pobre pae... 

-- Mas onde, infeliz creança... Sabeis acaso onde o encontrareis? disse elle deveras impressionado. 

-- Não... não... Mas Nuno o descobrirá... retorquiu ella chorando muito. 

D. João, ficava taciturno, olhava-a de novo, via-a cheia de graça e de mocidade e dizia-lhe por fim: 

-- E para onde quereis ir? 

-- Mas para minha casa... 

-- Onde serias de novo presa, pois ao que vejo perseguem-vos!... Vinde commigo eu me encarregarei de vos restituir ao vosso noivo! 

-- Ah! senhor, e meu pobre pae? 

Era tão commovedora a inflexão que ella dava ás suas palavras, que o principe n'uma grande explosão de carinho, bradou: 

-- Descançae senhora! ... Eu vos dou a minha palavra de principe que o hei-de encontrar, que hei de ver claro n'este tenebroso mysterio!... 

Ella cahiu-lhe aos pés, soluçando desesperadamente, e o regente, curvando-se, erguia-a, ainda todo admirado da audacia de que se sentia possuido, elle de habito tão tímido e para a madre exclamava: 

-- E vós soror Françoise Salesia, mandae redobrar as fechaduras do vosso convento para que ninguém se introduza n'elle, nem mesmo os officiaes do Santo Officio que tiveram agora a idéa de aqui enviar!... e sua alteza offerecia o braço a joven e dizia-lhe galantemente: 

-- Vamos senhora... 

Cabia então a vez da madre se lançar aos pés de sua alteza, soluçando no que era secundada pelas monjas que supplicavam: 

-Senhor, tende piedade de nós!... 

-- Juro-vos que ignorava tudo! tornava a madre no auge do desespero. 

E então o principe todo desgostoso, volvia: 

-- Por isso vos disse que fechasseis bem o vosso convento para que nem o Santo Officio n'elle podesse penetrar! 

Impavido, grave, quasi magestoso, conduzindo a joven que chorava, sua alteza dirigia-se para a porta que lhe abriam e achava-se na rua, onde soltava um suspiro de allivio e começava a caminhar em direcção a Ajuda ao lado de D. Ramiro e levando comsigo D. Etelvina que chorava sempre. 

O principe foi silencioso até á quinta do meio e uma vez alli, disse para o aulico: 

-- Onde conduzir esta dama? Onde deixal-al... Pensei que em casa do almoxarife da quinta... 

-- Alteza, saber-se-hia logo... murmurou o outro. 

-- Mas então... 

-- Porque não a leveis a casa de mestre Lebon? o qual vossa alteza dispensou de o acompanhar esta noite e que se deve encontrar em casa... 

-- Jacques Lebon... Ah! Sim... Elle tem a sua residencia nas casas do Botanico... Vamos lá!... 

O fidalgo teve uma expressão radiante na physionomia ante o assentimento do principe, e d'ahi a momentos batiam á porta do mestre de esgrima que apparecia a uma das janellas da casa baixa do jardim e perguntava com a sua grande intonaçao franceza: 

-- Quem é? 

-- Abre, Jacques!... 

-- Sua alteza!... bradou o francez deveras admirado e correndo a abrir a porta. 

-- Onde está madame Lebon? perguntou sua alteza ao penetrar na casa do mestre d'armas. 

-- Mas está deitada, real senhor! Grande honra me fazeis... 

-- Depressa Lebon... Entrego-te esta dama da qual me encarrego... Deixo-a ao cuidado de tua esposa... 

-- Grande honra... ia começar a dizer de novo o francez, porém o principe n'um gesto rapido mettia-lhe na mão uma bolsa e dizia-lhe: 

-- Amanhã fallaremos!... e curvando-se ante a joven com grande cortezia, murmurou: Desejo-vos uma boa noute, senhora... 

-- Senhor... Não vos esqueçais de meu pae! retorquiu ella banhada em pranto e saudando o principe. 

-- Já vos dei a minha palavra! disse elle sahindo com nova cortezia. 

E na rua, com um olhar para a janella do mestre d'armas, o regente, disse para o aulico: 

-- Ramiro... Irás chamar o intendente da policia quanto antes!... Toma uma sege, e segredo!... 

-- Meu senhor, sabeis quanto vos sou dedicado... 

-- Sim, conto comtigo... Vae... E nem uma palavra ácerca d'esta joven! 

-- Mas e a Nuno Freire?... 

-- Silencio, e vae lesto... Quero ser agradavel a tão formosa creatura, conde. 

-- Conde?!... bradou D. Ramiro, deveras admirado, e de seguida vendo no titulo o pagamento do seu silencio, interrogou com grande agudeza: Conde e de que, meu senhor? 

-- Conde d' Alva porque a manha vem rompendo! volveu D. João, começando a caminhar em direcção ao paço. 

E o aulico, murmurou então: 

-- Oh!... Ia procurar uma amante para sua alteza e eis que o acaso me depara uma, que em vez de pedir recompensas ainda faz com que elle m'as conceda! 

Mas de repente, D. Ramiro, parou, fez-se pallido, e exclamou: 

-- E a princeza? Que dirá a princeza a tudo isto?... Pareceu então mudar de resolução e em vez de se dirigir a cumprir as ordens do regente, enfiou em seu seguimento para o paço e murmurou: 

-- Sua alteza já vae esquecendo os frades pelas bellas! 

Mas de seguida, voltava de novo e tornava: 

-- Não... Chamemos sempre o intendente... Quem sabe o que pode uma mulher?... Transformam o caracter dos principes, ás vezes!... Oh! melhor do que o Telemaco! 







XXIII 



O sr. conde d'Alva 





O senhor conde d'Alva! annunciou a camarista de sua alteza a senhora D. Carlota Joaquina que n'esse dia não quizera receber nem mesmo os seus intimos senão á hora habitual das audiencias, até á qual estivera mysteriosamente encerrada nos seus quartos. 

-- Conde d' Alva?! Não conheço... Mas fazei entrar... 

E D. Ramiro, todo triumphante, appareceu aos olhos da princeza que soltou uma risada e exclamou: 

-- É uma das vossas graças, não é assim Ramiro? 

-- Alteza... Nunca me permittira gracejar comvosco! Sou conde na verdade, conde d' Alva para vos servir... 

-- Mas dou-vos os parabens!... Eu vos felicito... E a quem deveis? 

-- A vosso esposo, alteza? volveu o factotum com todo o aprumo. 

A princeza soltou uma nova risada e retorquio desdenhosa. 

-- Já o sabia... Esse titulo tem a chancella piedosa da mão que vos de! D. João devia escolher o nome d'um paramento sacerdotal para vos distinguir... Se o acompanhaes sempre nas suas devoções! 

-- Pois, alteza real, d'esta vez fui distinguido não em memoria das devoções de sua alteza mas sim symbolisando os seus amores!

-- O quê?!... Então meu esposo tem agora amores terrenos?... gargalhou Carlota Joaquina deveras admirada e rindo muito. Então o vosso titulo é um symbolo? 

-- Sim, alteza real, porque vosso esposo dedarou-se apaixonado ao romper d'alva!... 

-- Oh! Oh! Gentil galanteria de sua alteza?! E por quem se apaixonou o principe?... 

-- Por uma pessoa na realidade interessante a todos os motivos! disse o conde, buscando excitar a curiosidade da princeza e querendo dar-lhe a noticia muito circumstanciadamente. 

-- Já sei... Talvez uma açafata do paço... Se meu esposo, nunca vê outras mulheres! 

-- Enganae-vos ainda, senhora... Sua alteza frequenta conventos... 

-- O de Mafra que é de frades... continuou Carlota Joaquina no seu tom torcista. 

-- E o das Salesias que é de freiras! retorquiu o outro, rindo tambem. 

-- Ah! Foi então uma sortida nocturna... 

-- Em harmonia com os desejos de vossa alteza!... 

-- Ah! Mas tinheis-me promettido que sua alteza teria uma amante, mas jamais me fallaveis que ella seria monja!... 

-- E monja esta não é!... replicou o outro. 

-- Sabeis D. Ramiro, ou antes sabeis senhor conde de Alva, que não gosto d'enigmas?! 

-- Por isso vou ser explicito, redarguiu o aulico a quem a princeza fez um gesto para que se sentasse ficando a ouvil-o muito attentamente. Vossa alteza, chamou-me uma vez e disse-me: Ramiro é necessario que sua alteza tenha uma amante, alguem cuja vontade possamos dirigir em nosso proveito porque eu não estou disposta a pagar com fingido amor os favores de meu esposo! Vossa alteza queria entregar-se de alma e coração á tarefa que os nossos amigos da Companhia de Jesus iam encetar... 

-- Assim era... assim é!... 

-- Pois bem... Dirigi as attenções de sua alteza para uma formosa mulher que para demais o devia encontrar com o fervor religioso que põe em todas as canções que lhe sahem dos labios... A muita devoção do principe havia de falar alto em face d'essa mulher que sem ser monja tem todos os seus encantos augmentados ainda por uma graça mundana... 

-- Bem... bem... E depois, conde? 

-- A Scarlatti, é este o nome da dama em questão, prestava-se de bom grado a ser a favorita d'esse principe e contava com os recursos da sua voz para o seduzir, para o prender, para o dominar!

-- Ah! E essa princeza de mão esquerda é então uma cantora?!... 

-- Não, alteza, escutae... Sua alteza, o principe vosso esposo, ouviu-a, felicitou-a e por fim comparou-a a Ferracuti, o cantor! Disse-lhe algumas palavras de louvor e concluiu por me pedir que falasse d'ella a vossa alteza! 

-- A mim? 

-- Sim, alteza ... D. João dava assim uma resposta á Scarlatti... Era como se lhe dissesse: Cantas muito bem as árias de Jomelli, e as canções de Peres mas não quero contar comtigo um duo d'amor... Prefiro a princeza!... E na realidade sua alteza admirava apenas a artista!... 

-- Oh! N'esse caso, terei eu ainda que cantar o duo com meu esposo? bradou a hespanhola em tom irónico, accrescentando desdenhosa: 

-- E por um amor á arte te faz conde!... 

-- Não, alteza, por um amor á desventura e á belleza! 

-- Mas não comprehendo!... 

-- É que o romance de sua alteza, a historia do meu titulo tem uma tragica continuação... 

-- Ah! Ah!... N'esse caso, dize... 

-- Quando sua alteza se retirava, continuou o fidalgo, ouviam-se gritos nos claustros, o principe correu para aquelle lado e viu uma formosa mulher que se atirava de joelhos aos pés da madre Salesia. 

-- Ah! uma monja?! perguntou a princeza. 

-- Não, real senhora, uma joven que para ali fôra conduzida por Jacintho Peres!... 

-- Que dizes?! exclamou então Carlota Joaquina, erguendo-se d'um pulo e fazendo-se pallida. 

-- Sim alteza, uma joven que se dizia a noiva d'um cadete de nome Nuno Freire, julgo que parente do nosso commum inimigo!... 

-- Etelvina da Gama! gritou ella no auge do espanto, toda livida, tremula. 

-- Sim, alteza, julgo ser esse o nome da joven! bradou velhacamente o conde. 

-- Ah! Salvou a então não é assim? Vamos, Ramiro, já sei o resto da historia... Salvou essa mulher?! 

-- Sim alteza salvou -a, e conduziu a comsigo. .. Sua alteza está apaixonado!... 

-- Pela mulher que eu mais odeio no mundo! exclamou Carlota Joaquina, inconscientemente. 

E o conde, querendo, espiçala, perguntou ingenuamente: 

-- Mas vossa alteza, conhece-a? 

-- Não... 

-- N'esse caso o odio!... 

-- É um capricho meu... retorquiu a esposa do regente com altivez e sem querer explicar cousa alguma ao fidalgo que retorquia: 

-- Pois é essa a mulher de quem sua alteza vae sem duvida alguma fazer sua amante! 

A hespanhola, já o não ouvia, estava sentada no sophá, toda mergulhada nos seus pensamentos, muito silenciosa, a deixar transparecer na physionomia os mais evidentes signaes d'uma grande cogitação. 

E de repente interrogava: 

-- E meu esposo ha-de visitar essa mulher?... 

-- Decerto, alteza! 

-- E tu sabel-o-has não é assim?... 

-- Sim, alteza! 

-- E dir-mo-has não é verdade, conde? 

-- Sim, alteza! 

-- Pois bem, n'esse caso, o intendente da policia que não dê execução ás ordens da prisão de Alorna e Gomes Freire! 

Coube então a vez do fidalgo, se mostrar surprehendido e encarar a princeza com evidente desgosto. 

-- Mas, alteza e a nossa vingança? 

Carlota Joaquina, mordeu os labios e retorquio: 

-- Tel-a-hemos mais tarde!... 

-- Porém... Pode escapar-nos... Agora é mais seguro!

-- Nunca! Gomes Freire não será preso, Ramiro... Vae exigir as ordens ao intendente, arranja-te como quizeres mas eu quero o coronel em liberdade!

-- E se elle já estiver preso, alteza? perguntou muito serenamente, o fidalgo. 

-- Irás exigir de teu amo, a graça de o soltar! 

-- Senhora... Lembrae-vos, que eu sou inimigo d'esse homem que o odeio do fundo d'alma, que os seus males, os seus desgostos são a minha alegria!... Roubou-me Elvira de Mello é necessario que eu fira no intimo do peito, attacou-me uma noute e deixou me por terra junto ao muro das Salesias e eu ainda não me vinguei! E agora que elle está preso, agora que eu vou rejubilar, vós exigis que o solte? Mas pelo contrario eu desejava até ser o seu carcereiro... Depois eu sou solidario n'essa vingança com D. Miguel de 

Forjaz, o qual jamais consentiria em semelhante cousa!... 

-- Ramiro sahe ... ordenou a princeza n'um gesto simples porém energico. Sahe, conde d'Alva! 

-- Senhora! exclamou elle, fazendo se pallido. 

-- Sahe! bradou Carlota Joaquina livida de colera. Eu não quero na minha presença senão os vassallos obedientes! Sahe!... disse d'esta vez com grande fúria disposta a arcar com tudo. 

-- Mas minha ama, reparae que sempre vos tenho servido lealmente! murmurou elle cheio de desespero. 

-- Sim... E no dia em que deixaste de o tazer, no dia em que discutiste as minhas ordens, eu tenho o direito de expulsar!... Julgas acaso que podes luctar commigo?... Pensas que essa amisade de teu amo, esse segredo existente entre ambos, esse titulo de conde d'Alva, te garantira contra mim?! Sahe d'uma vez para sempre, que eu, eu princeza Carlota Joaquina, posso quebrar como a um vidro a tua influencia no animo de D. João!... Lembra-te que elle me ama!... 

-- Senhora! exclamou o fidalgo com uma scentelha extranha no olhar. 

-- O quê?! ... Bem vejo o que vaes dizer... Queres falar dos serviços prestados desde ha muito, dos segredos que sabes e os quaes empregarias para te defenderes, para te segurares!... Mas insensato, julgas acaso que alguem acreditaria em tudo isso?! Pensas que se falasses dos meus amantes ou das minhas conspirações com o bispo ou com a Companhia, que em castigariam? 

Louco tu serias tomado como um diffamador da tua rainha futura e os vassallos que insultam soberanas, enforcam-se na praça publica, embora elles se chamem conde d'Alva e devam o seu titulo a uma aventura nocturna com um principe!... 

-- Mas senhora... Eis o motivo porque deveis deixar enforcar. Gomes Freire!... Insultou-vos!... redarguiu o cortezão deveras cheio de razão. 

-- Uma das faculdades dos soberanos é a do perdão!... 

-- E vossa alteza... 

-- Faço-lhe graça... O que não quer dizer que proceda para comtigo d'egual modo no dia em que dos teus labios sahir uma só palavra do que sabes!... 

-- Senhora!... 

-- Basta... E agora, sahe, conde da Alval... 

-- Senhora, obedecer-vos-hei... Gomes Freire ficará em liberdade! disse elle rojando-se aos pés da princeza que exclamou: 

-- Ergue-te e escuta n'esse caso!... 

Depois, como se cousa alguma se tivesse passado, a adultera murmurou: 

-- Vae falar ao intendente! 

-- E se elle recusar, alteza real? Pede a teu amo o perdão do coronel! 

-- Mas como explicar a sua alteza a existência das ordens em poder do intendente. 

-- D. João não te pedirá explicações! Demais se o fizer, accusa-te ou accusa Manique... Com tanto que o coronel fique em liberdade! Depende d'isso o teu futuro! Bem sabes, Ramiro, que és pobre, bem sabes que eu vou ser a rainha!... Sabes tambem que no meu governo preciso homens dedicados e então em vez de conde sem condado como meu esposo te fez, eu te farei marquez mas com foros e terras! Em vez de conde d'Alva serás marquez da Trindade... Sim porque as trindades batem no sino da egreja na hora em que t'o digo!... 

E Carlota Joaquina ajoelhava ao ouvir bater as Avé-Marias e benzia-se com uma grande fé de hespanhola. 

O conde, passava a mão na cabelleira empoada e retorquia ao vêl-a erguer-se: 

-- Vossa alteza tem uma tal forma de fazer fieis que agrada e gera fanáticos! retorquiu o cortezão beijando-lhe respeitosamente a 

mão, ao passo que a princeza ordenava: 

-- Vae!... 

-- Ah! Esquecia-me de vos dizer, alteza, que vosso esposo está interessado em fazer a graça de restituir o pae a essa joven... 

-- Ah! o velho?!... Pois sua alteza, n'esse ponto não será feliz! exclamou ella com um sorriso sinistro, ordenando de seguida: 

-- Envia-me o bispo do Algarve! 

-- Sim, alteza real! 

-- É necessario que Nuno seja nomeado e que parta nós o chamaremos depois. 

-- Informa-te de quando sua alteza vae visitar essa joven... Ah! É verdade e onde se encontra ella? 

-- Em casa do mestre Jacques Lebon... 

-- É homem vendavel? 

-- Como todos os homens, alteza!... 

-- Falar-lhe-has, e entender-te-has com elle acerca d'essa mulher!... Ninguem deve communicar com ella a não ser o regente até nova ordem!... 

-- É apenas o que ordenaes, acerca d'ella?! perguntou D. Ramiro com espanto, 

-- Sim... 

-- N'esse caso... Ás ordens de vossa alteza! 

-- Até logo, Ramiro! 

E o senhor conde d'Alva, sahia do aposento com tres humildes reverencias, ao mesmo tempo que a princeza, murmurava: 

-- Replica já!... Oh! Quando não precisar d'elle eu me desembaraçarei... D'elle e dos outros!... 

Ouvia passos e voltava-se, na sua rectaguarda estava o bispo do Algarve que entrava pela porta secreta e que estava muito pallido ao ouvir as palavras da princeza. 

-- Bispo!... disse ella com serenidade, sois o inquisidor-geral não é assim? 

-- Graças a vossa alteza!... 

-- Bem... Eu sei sempre a quem auxilio... Careço de vós ou antes da influencia do vosso alto cargo no Santo Officio!... 

-- Senhora, sou o vosso servo!... 

-- Encontra se ali desde a noute passada um fidalgo de nome Affonso da Gama, é necessario que esse homem não seja registado nos livros do santo tribunal, é preciso que elle fique á vossa disposição em grande segredo, até nova ordem! 

-- Assim farei, alteza real... 

-- Bem e agora, sentemo-nos, e dizei como vae a rainha? 

-- Por ella aqui vinha, alteza. 

-- Que succede? perguntou rapidamente a princeza. 

-- Sua magestade tem agora momentos lúcidos... Conversa horas inteiras como se estivesse no uso da razão!... 

Carlota Joaquina, fez-se livida e exclamou: 

-- O vosso meio já falha? 

O bispo, baixou a cabeça e retorquiu: 

-- É apenas n'esses instantes, quando lhe fallo dos Tavoras, quando invoco o passado que ella se transtorna, que ella solta os seus gritos, que diz vêr espectros!... 

-- Ah! Pois dizei-lh'o sempre, bispo, dizei-lh'o... Eu não quero que a rainha o seja de facto... A regencia deve manter-se até ao dia em que a Hespanha mande n'esta terra e em que eu seja soberana! 

-- Porém, senhora, o tratamento do dr. Willis, d'esse inglez de má morte, que veiu de Londres, vae dando os seus resultados! Sua magestade recupera dia a dia o uso da, razão!... 

-- Pois mandaremos em paz o dr. Willis se elle nos embaraça! 

-- Senhora, que dirão? 

-- Que o doutor é impotente para realisar essa cura! 

-- Mas com que meios contaes para tal? 

-- Com o abandono do seu cargo junto á louca e que o doutor deixará quando quizermos... Todos se vendem... 

-- Senhora... Elle tem ouro bastante!... Recebeu dez mil libras, e agora tem mil todos os mezes!... Além d'isso quer ter a gloria da cura!... 

-- Mas sahirá no dia em que for contrariado, quando notar que é aqui demais!

-- Ah! E elle realmente pensa em partir e em levar comsigo sua magestade!... 

-- Comsigo?! E para onde? bradou ella com espanto. 

-- Para Inglaterra... Conta com o auxilio d'outros medicos e com o clima!... Era a noticia que vos trazia.

-- Nunca!... Entendeis bem, nunca!... No dia em que Maria! recobrar o uso da razão, vós sahireis do seu lado, porque ella vos odiará, nós perderemos o nosso poder!... 

-- Mas que fazer, alteza!...

-- Oh! Fallae-lhe dos Tavoras...

-- Mas como se o doutor quasi não deixa!...

-- Então supprimiremos esse charlatão!... disse a princeza com um sorriso sinistro, accrcscentando como conclusão: Os estorvos derrubam-se!... E eu quero ser a unica soberana! e ria com raiva, aquella mulher de sangue real. 







XXIV 



Ordens do regente 





E acceitas não é assim, Nuno Freire? interrogou o marquez d'Alorna com uma certa expressão de desgosto, em frente do cadete. 

-- Venho aconselhar-me com v. ex.ª, meu coronel! retorquiu elle, olhando-o também e accrescentando: Meu primo, fez-me recusar a primeira 

nomeação... Eu tambem não a queria acceitar porque o ouvi fallar d'uma forma que me impressionou! Porém agora, isto é legal, o ministerio da guerra nomeia-me alferes e colloca-me á ordem do general Forbes como ajudante de campo... Devemos partir hoje para Hespanha com o estado-maior! Porém eu hesito! Hesito sempre, tanto mais que não tenho noticias da pessoa que mais amo no mundo! 

-- E que está perdida para ti, meu rapaz, desengana-te, retorquiu o marquez que fora posto ao facto da situação pelo sargento-mór. 

Depois em tom amigavel, quasi sereno, o bom marquez, continuava: 

-- Aconselho-te como faria a um filho! Nuno, tu deves partir!... 

E elle por aquelle modo desejava affastar o mancebo do campo da intriga, atirando-o antes para o iogar da batalha. 

Porém Nuno, fazia-se livido e murmurava: 

-- Mas, meu coronel, não esperaes então que encontre Etelvina? 

O marquez passou a mão pelo rosto como para occultar uma grande perturbação e volveu apenas: 

-- A esperança deve sempre existir no coração do homem!... 

-- Mas n'esse caso, fico... 

Alorna, teve um sobresalto, e volveu de repente: 

-- Não, Nuno... Marcha com o general... Agora é o teu dever!... Essa promoção alguma cousa significa! Recusas-te já, agora enviam-t'a de novo... Parte... D"este momento em deante és um dos ajudantes de Forbes!

E o fidalgo, parecia desejar velo bem longe, afim de que não cahisse de novo nas mãos da princeza. 

-- Ordena-o, meu coronel? interrogou com desgosto. 

-- Peço-t'o... Livrar-te-has assim de maiores pesares... Etelvina se tiver de ser tua, alguém se encarregará de a impellir para os teus braços!... 

-- Quem?... perguntou n'um impeto. 

-- Os nossos amigos! 

-- E quem são elles, os que ficam? 

-- Vasco de Miranda! ... Um leal rapaz que não conheces mas que nos estima... Fallar-lhe-hei descança... E quando elle não te auxiliar, quando elle não descobrir o paradeiro da tua noiva, pessoa alguma o descobrirá... Anda, Nuno, vae apresentar os teus respeitos ao commandante em chefe!... 

O mancebo sempre de cabeça baixa ia retirar-se, porém n'este momento Gomes Freire entrava a toda a pressa já vestido no seu uniforme de coronel cuja patente conservara apenas tivera a certeza de que ella partia do ministro. 

-- Onde vaes, Nuno? interrogou elle apertando a mão do marquez. 

-- Vou para junto do general!... 

-- Ah!... Acceitas então a tua patente!... Partes hoje?... 

-- Assim m'o aconselha o meu coronel!... retorquiu o mancebo deveras triste. 

-- Sim... Tens razão... Elles teimam... Elles teimam... murmurou o heroe como preoccupado, e de seguida, rapidamente em voz vibrante, bradou: 

-- Escuta porém: Vaes vestir essa farda d'alferes e começas agora a tua vida a valer... És um homem! Deves ter coragem para todos os golpes... 

-- Meu primo a adversidade, tornou me estoico!... retorquiu desanimado a desmentir as suas palavras. 

-- Creança! tornou o heroe com um benevolo sorriso. Julgas acaso que não comprehendo essa serenidade? Sei o que pensas, sei quaes são as tuas idéas n'este momento? 

-- Meu primo! 

-- Sim, meu rapaz, tu apparentas frieza, pedes conselhos, tens um grande desejo de marchar, e uma vez no campo de batalha arriscar-te-has ás balas, quando o teu general te mandar transmittir uma ordem ao extremo do campo, tu atravessarás os logares onde seja mais bravo o fogo do inimigo com a esperança que uma bala virá pôr termo á tua angustia, ao teu soffrimento... Não te defendas, Nuno, eu já íiz o mesmo e era mais velho do que tu!... 

-- Meu primo, juro lhe... 

-- Não jures... Dize apenas se não tenho razão?... 

-- Ah! Que dizer... tornou d'esta vez muito desanimado. 

-- A verdade apenas... Isto é, o seguinte: «Sim, meu primo, na realidade eu quero morrer!...» 

-- Bem... Sim... Quero morrer! exclamou elle em voz angustiada, encostando a cabeça ao peito do coronel e mostrando só então toda a sua dôr. 

-- E porque?... Por Etelvina não é assim?... Porque ella está perdida para ti não é verdade?... 

-- Sim... sim... Nunca mais a verei! 

-- Pois bem... Partirás amanhã muito tranquillo com a tua legião! Embarcaremos todos ao romper do dia... O meu regimento e o do teu coronel já estão a bordo da Medusa, tu irás comnosco e ganharás no campo a tua patente, resigna-a ainda... Sim demora-te até de manhã e terás noticias de Etelvina!... 

-- Fallaes verdade, meu primo?! bradou o mancebo deveras admirado. 

-- Que dizes. Gomes Freire? perguntou também por seu turno e muito espavorido o marquez d'Alorna. 

-- A verdade!... Trata-se apenas de tempo... 

-- Mas resigno tudo... Que me importa essa patente? De que me serve esse grau no exercito sem ella?... Para morrer com honra tanto faz ser official como simples cadete... 

-- Não morrerás, Nuno... Esta noite saberás alguma coisa da tua noiva e se ella ainda for digna do teu amor voltarás da guerra para te tornares seu esposo, embora tenhas de deixar o exercito e recolher ás vossas terras como eu quiz fazer n'outro tempo! 

-- Deixar o exercito?!... 

-- Sim... Isto é outra coisa... Fallemos antes de Etelvina!... 

-- Mas se é o meu maior desejo! exclamou elle no auge da impaciencia. 

-- N'essa caso cxime-te ao cargo para que te nomeiam... Se quizeres conquistarás valentemente esse posto... Teu pae dir-te-hia o mesmo se aqui estivesse!... 

-- Mas de bom. grado! replicou elle, perguntando logo: E a minha noiva? 

-- Ouve: 

E o general ao pronunciar estas palavras tirava do seio uma carta recebida havia alguns momentos e começava a lêl-a em voz pausada com grande espanto do jovcn e do marquez, que se fizeram pallidos de commoção.

Gomes Freire, ia dizendo sempre: 

-- «Sr. coronel; Sei que procuraes uma menina de nome Etelvina da Gama e que ha dias foi raptada da sua residencia, sem que até hoje houvesse noticias d'ella. Accusaste então alguém que tem hoje por dever o mostrar quanto era errado o vosso juizo, offerecendo provar-vos que na realidade a pessoa em questão está livre de culpas n'esse negocio... Se quereis saber mais, ide esta noite pelas dez horas á residencia do mestre acques Lebon nas casas baixas do jardim botanico, onde alguém vos introduzirá, e podereis então assistir a uma scena que por si só bastará para vos dar a prova que a pessoa por vós accusada tem por dever fornecer-vos em. troca d'um serviço prestado tão cavalheirosamente... Podeis levar o vosso amigo dAlorna e apenas elle!...» 

-- E a assignatura? perguntou o mancebo rapidamente. 

-- Não tem... 

-- Oh! Que importancia ligaremos a um anonymo... 

-- A mesma de que se esta carta estivesse assignada por um rei!... replicou o heroe com convicção. 

-- Conheceis então essa pessoa... Sim, vós que a accusaveis!... 

-- Nuno... Esta noite saberás tudo, pois penso em levar-te commigo a essa entrevista que me marcam.. . Passarás esta noite pelo sr. d'Alorna!... 

-- Oh!... 

-- Sim, meu amigo, o que não quer dizer que eu vos abandone! Irei e esperarei pelos resultados! replicou o coronel da legião, com um olhar d'intelligenc!a para Gomes Freire. 

Nuno escrevia á pressa o seu pedido de demissão d'alferes, allegando querer ficar com Alorna e exclamava por fim: 

-- Eu voltarei breve, meu primo! 

E com uma saudação partia a entregar a sua desistencia na secretaria em Ajuda. 

No momento em que sahia, acercou-se d'elle um corregedor e interrogou: 

-- Está ahi o sr. coronel Gomes Freire?... 

-- Elle se encontra com o sr. d'AlornaI... 

-- Muito bem... Podeis pedir-lhes que cheguem aqui... 

-- Mas entrae, amigo, entrae, elles vos receberão!... 

-- Tinha que lhes dizer longe de testemunhas!... 

-- Ide que estão sós!... 

O corregedor pareceu hesitar uns instantes e de seguida, ao ver a mancebo affastar-se, fez egual pedido a um soldado dos poucos que tinham ficado no quartel ao serviço do marquez. 

O soldado assentiu e voltou d'ahi a momentos, dizendo: 

-- Entrae, aguardavam-vos! ... 

-- Dizei... O regimento já está a bordo?... 

-- Apenas ficamos aqui dois soldados para o serviço de s. ex.ª, os meus camaradas já estão na Mediiza... Nós embarcaremos ao romper do dia!... 

-- Bem... Obrigado, rapaz! exclamou o corregedor, tendo uma expressão alegre na physionomia e fazendo um signal a um homem collocado na esquina e que desapparecia. 

D'ahi a momentos, vinte soldados de cavallaria paravam á porta do quartel e ficavam ali sob o commando d'um official, emquanto o corregedor chegava á presença dos dois amigos. 

-- Que quereis, senhor? interrogou o marquez de muito mau humor ao deparar com semelhante visita. 

-- Senhores... Sois os srs. Gomes Freire e o marquez de Alorna? 

-- Sim... responderam a um tempo encarando-o de frente. 

-- Pois eu venho dar cumprimento a uma ordem de sua alteza que se vos reterei... murmurou o homem de justiça um pouco tremulamente. 

-- Dizei!... exclamaram em unisono. 

-- Senhores, titubeou elle. Comprehendeis bem como um homem do meu officio tem ás vezes bem graves, espinhosas c tristes missões a cumprir!... 

-- Que quereis dizer? interrogaram elles deveras espantados. 

-- Senhores, estaes presos em nome de sua alteza! desabafou o pobre do corregedor olhando-os espavorido, ao vêr que ambos se erguiam e o encaravam bem terrivelmente. 

-- De que alteza fallae?, sr. corregedor? interrogou o coronel com desprezo. 

-- Sim, quem vos envia? bradou o marquez. 

-- Mas é sua alteza real, o regente, quem assigna as ordens! titubeou de novo o official de justiça. 

-- Não o creio! exclamou o heroe. Sua alteza, quando quizesse prender leaes vassallos, fal-o-hia não nas vesperas de elles marcharem para a guerra e quando os seus regimentos estão a bordo, mas mandal-os-hia deter mesmo no meio dos seus homens porque tinha a certeza de ser obedecido! Esse procedimento parece mais uma traição e eu acho sua alteza incapaz d'ellas! 

-- Sim... Não o acredito também, bradou o marquez. Sua alteza sabe bem quanto amor e respeito lhe devemos para que nos trate como a vis, como a bandidos apanhados em descuido!... 

-- Senhores, são as ordens do regente! 

-- É o que vamos saber! exclamou o marquez tomando o braço de Gomes Freire e dispondo-se a caminhar para a porta. 

-- Senhores, sereis presos, é inútil a resistência! bradou o corregedor. 

-- Vêl-o-hemos! Sabei, amigo, que nós conhecemos bem quem vos enviou! gritou Gomes Freire avançando para a porta. 

Porém o official do destacamento collocava-se-lhe na frente e bradava: 

-- Coronel! Tenho ordem de vos conduzir ao forte da Junqueira:... 

-- E eu tenho o desejo de que me conduzais antes ao paço da Ajuda! retorquiu o heroe. 

-- Impossivel!... É a ordem do regente! 

-- Ah! Alorna, exclamou o coronel, eu já esperava que ella frustraria esta entrevista que me offerecia!... 

O marquez baixou a cabeça e elles dispunham-se já a entregar-se ao official, obedecendo assim ao principe, porém n'este momento ouvia-se o tropel d'um cavallo e D. Miguel de Forjaz saltava d'elle rapidamente, parecendo espantado ante o espectaculo que se lhe deparava. 

Estava fardado de capitão e trazia o distinctivo de ajudante de ordens, dirigia-se para Gomes Freire e bradava: 

-- Meu primo, sou portador d'uma ordem do general Forbes, ao qual estou ligado como ajudante de campo!... 

-- Oh! Primo... disse o coronel com certo interesse. É-me impossivel obedecer ás ordens do commandante em chefe porque sou prisioneiro de sua alteza!... 

-- Vós, preso?! exclamou D. Miguel de Forjaz com bem fingido espanto. 

-- Sim... Olhae e dizei ao general o que se vos deparou... 

-- Por Deus!... Lêde no entanto a ordem!... 

-- Seja... Todavia, não lhe poderei obedecer! 

Rasgava rapidamente o papel, abria o e uma expressão de contentamento se lhe espalhava nas faces. O envolucro continha apenas as contra-ordens de prisão que D. Ramiro obtivera facilmente do regente e que por uma hábil machinação enviara ao general pelo proprio D. Miguel Forjaz, afim de o mctter assim na intimidade do coronel. 

Gomes Freire, acabava de lêr, voltava-sc para o official da escolta e dizia: 

-- Senhor... Deixae-me que obedeça ao meu general! 

-- Porém... 

-- Sua alteza enganara-se... Estas ordens de prisão eram apenas umas ordens de marcha! e estendia a nota em contrario ao official franzindo os labios n'um sorriso ironico. 

O outro fez a continência e aííastou-se ao mesmo tempo que Alorna perguntava: 

-- Mas que quer isto dizer?... 

-- Que ha uma grande falta de officiaes na expedição! retorquiu o heroe sempre com o seu sorriso sarcastico. 

E para o primo exclamou: 

-- Deus vos pague, D. Miguel, e eu folgo em terdes sido vós o portador d'estas noticias, que nos encheram de jubilo! 

-- Oh! meu senhor e primo, deveras folgo também em vos ter trazido feliz noticia!... 

-- E como vae vossa mãe, D. Miguel? interrogou o heroe de bom humor. 

-- Bem vae, meu primo! volveu com o seu mais bello sorriso.

-- E vossa esposa? tornou Gomes Freire, como a insinuar-se no animo do parente, deveras feliz ao recordar-se que iria assistir a essa entrevista. 

-- Minha esposa?! exclamou o outro com grande desespero. Mas morreu, meu primo, morreu e deixou-me uma creança, um filho, o meu pequeno Miguel no qual resumo todas as minhas esperanças! 

-- Desejo-lhe bem como a vós as maiores felicidades! Até á vista, primo! e o heroe estendia-lhe lealmente a mão, que o outro apertava com bem fingida amisade. 

-- Desejaes de mim alguma coisa mais? 

-- As nossas saudações ao general Forbes! Ao romper da manhã estaremos a bordo!... 

-- Sim, meu primo! Ás vossas ordens! Adeus, sr. D. Pedro! E o marquez, que estava taciturno, apenas respondeu: 

-- Deus vos acompanhe, D. Miguel! 

E, ao vêl-o desapparecer, voltava-se para o amigo e exclamava: 

-- Teu primo, este D. Miguel de Forjaz? 

-- Sim... Um parente affastado! 

-- E d'elle te deves affastar a valer, amigo!... volveu o fidalgo. 

-- Mas porquê, meu velho? perguntou Gomes Freire, admirado. 

-- Esse homem tem alguma coisa de falso!... Foi ajudante de meu infeliz cunhado e cu analysei-o durante algum tempo... Tenho por elle uma repulsão instinctiva!... 

-- Ora, amigo, esses homens de má catadura são inoffensivos! Tal qual como os colossos!... Má apparencia mas excellente fundo! 

O marquez encolheu os hombros e aconselhou ainda: 

-- Comtudo meu amigo, desconfia sempre! 

N'aquelle momento D. Miguel encontrava-se com D. Ramiro, que o esperava no fundo d'uma sege no becco dos Algarves, perto de Santa Margarida de Crotona, e ouvia o conde d'Alva, o aulico de Carlota Joaquina, interrogar: 

-- E então? 

-- Cahi como a sopa no mel... Tive a entrada d'um heroe a salvar um infeliz... 

-- Sim, meu novo Antonio de Padua, correste a salvar não teu pae mas teu primo da forca!... 

-- Para o mandar para lá na primeira occasião... Emfim, resigno-me a esperar... 

-- Como eu... Ou antes, Carlota Joaquina obriga-me á resignação! volveu o outro, perguntando de novo: E elle, como encarou isso? 

-- Da melhor maneira... Ficamos os melhores amigos do mundo! tomou o fidalgo com cynismo. 

-- Pois explora-lhe agora a amisade que é o melhor caminho para lhe teres a herança, principalmente se nos auxiliares! Sempre é bom ter um auxiliar na praça!... 

D. Miguel sorriu com raiva e bradou: 

-- Ah! Conde, mas é que tenho medo de me denunciar, tal é o odio que tenho a esse parente que veiu do inferno para minha tortura!... 

-- Espera com paciencia e verás, ou antes, veremos a tortura d'elle! redarguiu o fidalgo soltando uma risada sinistra e affastando-se 

na sua sege. 









XXV 



Á sorte 







Mestre Jacques Lebon, muito pensativo, n'um ar misantropo, decahido, os labios enrugados n'uma flagrante indecisão, olhava a esposa, a madame 

uma mulheraça rotunda, de boas carnes, toda secia, a imitar as grandes damas e que estava de pé na sua frente: 

-- Que farias tu no meu caso, Jenny? 

-- Oh! Meu velho, lembra-te do meu collar de ouro com a medalha de Notre Dame!!... Desde que casamos o tenho promettido e só agora vejo a boa occasiao de o possuir... Sua alteza mostrou ter confiança em ti, faze por ser digno d'ella e por arranjares dinheiro para o meu collar! volvia a madame malignamente. 

-- Porém, porém... Ha dois partidos a tomar... 

-- Eu não sei... 

-- Sim, ou servir D. Ramiro e receber mil cruzados, ou servir sua alteza e talvez não receber coisa alguma!... 

-- E o teu emprego?! perguntou á pressa a sr.ª Lebon, encarando o marido. 

-- Oh! O meu emprego... Mas rende-me uma ninharia!... 

E depois um mestre d'armas da minha estofa, bem cotado, com largos serviços no paço, sempre encontra freguezia!... Ora pensa que eu com os mil cruzados abria uma sala de esgrima!... Corriam ali todos os peraltas c cu fazia-me pagar como um antigo sargento de suissos de sua magestade christianissima, como um mestre d'armas de sua alteza o infante D. João, hoje regente d'estes reinos e brevemente rei de Portugal!... 

-- Que tu pensas em atraiçoar, apesar de tudo! regougou a mulher a meia voz. 

-- Hein! Atraiçoar... Mas não vejo a traição!... Então vê bem!... Ha alguém que me propõe para deixar entrar uma dama velada que deseja ver a joven que sua alteza nos confiou! 

-- Sim, e que manifesta esse desejo para uma noite em que sua alteza aqui venha!... 

-- Assim é... 

-- Ao mesmo tempo quer que entrem aqui também dois desconhecidos, que ficarão no teu quarto!... Pois queres mais claro?! 

Toda essa gente quer assistir a uma conversação de sua alteza com 

a formosa senhora! 

-- Madame Lebon! exclamou o mestre d'esgrima deveras impressionado. Julgaes isso?! 

-- Tenho quasi a certeza?... 

-- Mas como, se D. Ramiro é um servidor do principe e decerto não o atraiçoava! exclamou elle triumphante. 

-- Ora, e tu não és um servidor de sua alteza e não estás indeciso no partido a tomar?! 

-- Madame!... bradou Jacques que gostava de dar aquelle tratamento á esposa, D. Ramiro, o sr. conde d'Alva, é um fidalgo eu não passo d'um pobre mestre d'esgrima! 

-- E a differença entre os dois está no dinheiro que se offerece a cada um! D. Ramiro se te dá mil cruzados é porque recebeu dez mil! concluiu a franceza com grande philosophia. 

-- Oh! Oh! E se assim fosse?! exclamou Lebon cada vez mais indeciso. 

-- Tu não passarias d'um pobre parvo engrolado por um esperto fidalgo e em troca terias o santo ofíicio como recompensa de sua alteza! Nada, sr. Lebon, obrae pelo seguro... Servi sua alteza com lealdade e deixae em paz as damas veladas e os desconhecidos que buscam esconder-se!... 

-- Mas que fazer, madame? perguntou com grande pressa. 

-- Correr ao paço, sollicitar uma audiencia de sua alteza e narrar-lhe tudo! disse ella com grande simplicidade. 

-- Mas D. Ramiro vêr-me-ha!... 

-- Acolher-te-has á projecçao do principe!... insinuou ella. 

-- É grave! Muito grave! titubeou o sr. Lebon. 

-- N'esse caso faze o que julgares conveniente... Eu por mim já nada espero... Se o santo officio te empolgar, o mais que posso fazer é ir dizer a sua alteza que bem te aconselhara! 

-- Oh! Minha boa amiga... Eu resolvo-me... eu tento-me... Vou contar tudo a sua alteza e peço-lhe a sua protecção!... 

-- Ah! Até que emfim! exclamou ella dando muito á pressa a capa e a espada ao marido, que a beijou na face, e avançou de seguida para a porta, deveras radiante. 

Mestre Jacques, no curto trajecto do botânico para o paço, caminhava vagarosamente, agora mais do que nunca absorto, pensando bem em tudo aquillo, hesitando em guiar-se pelo conselho da esposa, murmurando: 

-- Isto de mulheres nunca dão bons conselhos! Fazem só o que lhes vem á cabeça sem reflexão alguma... E se eu optasse por D. Ramiro?... 

Subia já a escada do palacio e ia em direcção aos aposentos do camarista, porém tomava de repente uma resolução, todo impressionado, cheio d'uma suprestição de jogador. 

-- Cautella mestre Lebon que jogaes o futuro... murmurava elle, sacando da algibeira uma moeda e atirando-a ao ar no corredor do paço. 

Mas de repente ouviu ruido de passos, alguem que corria e se precipitava sobre a sua moeda, e uma voz fanhosa, extranha, zombeteira, bradava: 

-- Oh! Até que vejo a côr do bom metal! e um homunculo lançava-se sobre a moeda e revirava-a com prazer nas mãos carateando o mestre de esgrima que se tornava pallido e murmurava: 

-- Cunho... Cunho... É por D. Ramiro!... 

De seguida, com colera, accrescentava para o cxtranho personagem que estava na sua frente: 

-- Dae-me a minha moeda, D. João de Falperra! 

O bobo da rainha, porque na realidade era elle quem se apossara do dmheiro, continuava a caratear o francez, rindo de bom grado. 

Mas que grande mudança se operara no truão! 

Já não era o mesmo D. João de Falperra luzido e flammante que outr'ora exercia uma grande pressão nos fidalgos e cuja escarcella andava sempre recheada de ouro. 

Agora, era uma especie de mendigo de vestes esfarrapadas, casaca desbotada e calças em frangalhos, o rosto magro, ossudo, extranho, a bocca sem dentes, os olhos luzentes na má physionomia equipatica. Estava abandonado, era uma ruina desde que sua ama enlouquecera; com a razão da rainha fôra-se o seu poderio, decahira muito, não se atrevia já a rir abertamente dos fidalgos que se vingavam das passadas troças a vigoroso pontapé. Não passava para elles d'um pobre louco á imagem e semelhança da soberana e como um rei desthronado, o rei da loucura, elle tambem em terra, soffria as perseguições dos cortezãos. 

No intimo da sua alma desenvolvia-se o ódio mais intenso dia a dia a cada nova provação e se ainda ria era mais por um desabafo do que pelo desejo de desempenhar o seu papel. Esfaimado, escorraçado das cosinhas pelos servos, posto de lado, elle chorava em segredo as suas desditas e agora tornava-se uma especie de lobo, sempre prompto á vingança pela traição. 

-- Olá D. bobo, dae-me o meu dinheiro! berrava o mestre de esgrima com intensa colera. 

-- Por S. Raymundo, o patrono, vos juro que nem o vereis de longe! casquinou D. João de Falperra rindo muito. 

-- Sr. bobo sabeis que vos estrangulo! 

-- Bello serviço me prestaes, mestre, sempre ganha quem não tem que perder!... retorquiu elle n'um ar triste. E logo, n'uma risada irritante com duas cabriolas, elle exclamou: Por S. Raymundo... por S. Raymundo!... 

-- Quereis ou não dar-me a minha moeda? perguntou com colera mestre Lebon. 

-- Nem que vos pintasseis!... casquinou D. João de Falperra, rindo ainda, e como mestre Jacques avançasse para elle de punho erguido, o truão levou a moeda á bocca e engoliu-a rapidamente, bradando: Se a quereis, abri-me o ventre... Vá, tentae a operação sr. espadachim! Por menos de meio cruzado tendes já feito semelhantes actos!... Andae, andae e matae o bobo que não tem que perder a não ser esta moeda a qual está tão guardada como o proprio coração. 

-- Ah! Patife! exclamou o mestre arremeçando um socco a D. João que fugiu lestamente em direcção aos aposentos do principe sendo sempre perseguido pelo francez que bradava os mais soezes epithetos buscando alcançal-o. 

Por fim lançou-lhe a mão e começou a atirai o de encontro á parede emquanto o truão gritava por soccorro. 

Passavam fidalgos dos mais nobres da corte e lançavam olhares para a lucta travada a distancia, creados deslisavam em seu seguimento e encolhiam os hombros, como os amos, indifferentemente, murmurando: 

-- Ah! é o bobo!...

E D. João de Falperra, o antigo flagello na côrte, era ali espancado sem que ninguem o salvasse, agora que o poder de sua ama se afundava na treva da loucura. 

E ella, rainha, e bobo, tinham um destino bem egual. Aquella soberana, cuja protecção assegurava a tranquillidade ao truão, estava agora na mesma, carecida de protecção contra aquelles que a perseguiam. E o pobre mono nada podia fazer-lhe... Elle, que não tinha a força necesaria para se defender! 

No emtanto, muitas vezes, altas horas, o tinham visto rondar perto dos aposentos de Maria I, os olhos fuzilando clarões de colera ao sentir os gemidos de sua ama, ao ouvir a voz do confessor, do bispo do Algarve, sempre ameaçador e terrivel. 

Agora, ali nas mãos do fero mestre de esgrima, D. João de Falperra debatia-se e outro gritava sempre: 

-- Pagarás a minha moeda real por real, meu patife, vil bobo!... 

-- Eh! mestre Jacques, que vos põe assim em colera! exclamou subitamente uma voz ao mesmo tempo que o mestre d'armas se voltava e descobria o obeso vulto do principe regente, que olhava a scena com um sorriso nos labios. 

O francez, largou então rapidamente o bobo e curvou-se na presença de sua alteza, ao mesmo tempo que a voz esganiçada de D. João de Falperra bradava: 

-- A tua moeda fica commigo apesar de tudo, meu herege, eu a levo no estomago, ella vae commigo!... Só se me matares a terás e nem para isso tens coragem, francez!... 

Os seus olhos despediam scentelhas de colera, que a sua bocca desmentia franzida n'um riso trocista. 

-- Vae-te, bobo! ordenou o principe com desprezo. 

-- Primeiro ha-de vossa alteza ouvir-me! ... O unico meio que tenho de obter uma audiencia de vós, meu senhor, é deixar-me bater á vossa porta!... Ouvi a minha voz, eu vos peço por vossa mãe!... 

-- Vae-te, bobo! exclamou de novo o principe com desdem. 

-- Ah! Meu senhor, eu não vos peço attenções!... Que posso exigir, que posso desejar?!... Meu senhor, se quereis esmagae-me sob os vossos pés, deixae que morra calcado por vós, mas concedei-me um quarto d'hora de tortura em que vos direi tudo o que me vae n'alma... 

-- Queres dinheiro, não é isso? bradou D. João para o bobo. 

-- Dinheiro?! ... Oh! Oh! ... Dinheiro! ... Mas quando o tinha á farta, quando o exigia das bolsas fidalgas, deixava-o bem escorrer da minha escarcella para outros que mais careciam! Não, alteza real, o bobo não quer dinheiro, quer que o escuteis, quer, debaixo dos vossos pés, revelar vos coisas que o demónio inspirou aos vossos inimigos!...

-- Louco, vae-te! gritou o principe d'esta vez com colera. 

-- Louco?!... bradou o truão com uma risada sinistra. O mesmo dizem de vossa mãe e no emtanto ella tem a rasão... 

Não poude concluir, o principe empurrava-o rudemente e ante a resistencia d'elle exclamava: 

-- Sahirás do paço... Estou farto das tuas loucuras... e para o mestre Jacques dizia: 

-- Olá mestre, poreis na rua este miseravel, ordenareis da minha parte á guarda que não o deixe aqui entrar!... 

-- Meu senhor... Sahir do paço?! exclamou D. João de Falperra no auge da dôr, como se aquella ordem fosse para elle a maior das desgraças. Tende piedade!... Tende piedade!... Que hei-de fazer longe de todos, longe da rainha! Oh! que batam no bobo, que o espesinhem, que lhe cuspam no rosto... Mas que elle fique aqui, alteza, que elle não saia d'este palacio onde foi feliz!... 

D. João encolheu os hombros e bradou de seguida: 

-- N'esse caso, vae-te! Sae da minha presença!... 

-- Eu vou, meu senhor, eu vou! exclamou elle. 

E viram-no desapparecer em direcção aos aposentos de Maria I, a enxugar lagrimas, o pobre truão. 

D. João voltava-se para o Lebon e dizia: 

-- Que vos traz, mestre?... 

Elle estremeceu, olhou o príncipe, deixou se levar pelo acaso que o conduzira ali e bradou: 

-- Tenho uma communicação a fazer-vos! 

-- Pois entrae! ... disse o príncipe com grande alegria. 

E ao vêl-o no interior do gabinete interrogou logo: 

-- E Etelvina?... F^allou de mim?... Vindes da sua parte, não é assim?... 

-- D. Etelvina, essa joven que vossa alteza confiou á minha guarda, mantem-se na mesma reserva, meu senhor!... Não falla de vossa alteza, apenas deseja ver seu pae, que segundo diz, é victima d uma vingança! 

-- Sim... sim... Eu já entreguei o negocio ao intendente!... disse o principe na sua voz pastosa, accrescentando: Mas então não falia de mim?... 

-- Não, alteza... Apenas falla de seu pae!... 

-- Oh!... Gomprehendo, deve soffrer... Irei vêl-a, mestre Jacques!... 

-- É que, meu senhor... titubeou o mestre d'armas encarando o principe. 

-- O quê? perguntou este tomado d'um calafrio. 

-- Eu tenho a pedir-vos um momento de attenção, alteza real! tornou o mestre d'armas resolvendo-se emfim. 

-- Mas fallae... fallae... exclamou deveras impaciente. 

Então o mestre de esgrima, com uma bella semceremonia, começou: 

-- Meu senhor, eu vou perder mil cruzados no serviço de vossa alteza. 

-- Mestre Lebon, que dizeis? interrogou á pressa sua alteza. 

-- Digo-vos que vou perder mil cruzados a não ser que as minhas palavras vos interessem!... 

D. João sorriu e volveu: 

-- Dizei... Se o interesse vier, interessado fico!... 

-- E eu, meu senhor?!... 

-- Tu... Oh! mestre Jacques, falia e depois veremos... 

-- Pois bem, meu senhor, antes de tudo o vosso serviço! exclamou o velhaco com grande aprumo. 

-- Dize... Dize... 

-- Meu senhor... Alguem me offereceu mil cruzados para eu consentir em que uma dama velada e dois desconhecidos penetrassem em minha casa n'uma noite em que vossa alteza tivesse uma entrevista com D. Etelvina da Gama! 

D. João fez-se pallido e exclamou de seguida: 

-- E quem vos fez semelhante offerecimento? 

-- Senhor, permitti que guarde para mim o nome de quem m'o fez... 

-- Não vol-o permitto! Ahi ha uma traição.. . Se apenas tu e D. Ramiro sabem das minhas visitas!... bradou o regente com colera. 

-- Pois bem, meu senhor, foi o sr. conde d' Alva que fez o 

offerecimento! 

-- Mentes! gritou o principe no auge da raiva. O conde é fiel, o conde é um leal vassallo! 

-- Meu senhor... Longe de mim a ideia de accusar s. ex.ª! Eu apenas conto como as coisas se passaram! 

-- Sim... E qual foi a tua resposta? 

-- Senhor... 

-- Dize! Qual foi a tua resposta? 

-- Accedi, tendo logo o intuito de prevenir vossa alteza para que faltasse á entrevista! 

-- Ah! Trahiste-me então? gritou o regente muito irado. 

E o habil francez, com desplante, retorquiu: 

-- Ao contrario, meu senhor, prestei-vos um serviço! 

-- Como?! Pois tu, miseravel, consentes que dois desconhecidos penetrem em tua casa, que vejam a joven que ahi occulto, que a aventura se espalhe e tens a ousadia de chamares a semelhante coisa um serviço?!... Repara, Jacques, de que a forca já tem tido suspensos dos braços réus de menores crimes! 

-- Alteza real... Eu pensava em vos fazer ver essa gente, queria que vossa alteza visse bem o que elles desejam afim de conhecerdes os vossos amigos ou inimigos!... 

-- Que dizes?! 

-- Eu, meu senhor, fiz o seguinte raciocínio: «Sua alteza falta á entrevista mas esconde-se no quarto contíguo ao de D. Etelvina, ouve o que se passa, vê o rosto aos dois desconhecidos, comprehende o que se trama e dá um grande castigo aos que tentarem contra a sua sagrada vontade, recompensando ao mesmo tempo o seu bom Jacques!...» Foi o que pensei, alteza! 

D. João, que tomara muita attençao nas palavras do mestre de esgrima, bradou então quasi a medo: 

-- Mas se é uma conspiração contra a minha vida? 

-- Vossa alteza ordenará antes de ir a casa do seu fiel subdito o seguinte: «Jacques... Escolhe dez homens decididos e fortes na guarda real, faze tudo isso em segredo absoluto, embusca-os no jardim, abre a porta á menor tentativa e chama-os! Teremos nas mãos os inimigos e tu terás ganho... 

-- Uma commenda!... bradou o principe todo radiante em face da scena que o francez preparava. 

Mas Jacques Lebon fazia uma careta e volvia: 

-- Meu senhor, por muito menos tornasteis D. Ramiro conde d' Alva!... 

-- Pois terás um titulo... prometíeu o principe. 

-- Eu pretiro uma tença, meu senhor... 

-- Pois tel a-has! E agora, Jacques, faze o que disseste... Vae á guarda real escolhe dez homens e procede como quizeres! 

-- Vossa alteza dirá ao sr. conde... 

-- Que estou doente... 

-- Meu senhor, eu dir-lhe-hia antes que estava o mais são possivel até á hora da entrevista... Fallaria d'ella todo o dia e depois, quando o momento, quando o vosso bom Jacques vos enviasse aviso de que se encontravam já os personagens em sua casa, vossa alteza iria então pela porta do Botanico, metter-se-hia no quarto e ouviria tudo... 

-- E o conde d' Alva? 

-- Vossa alteza dar-lhe-hia uma ordem á pressa e não deixaria que vos acompanhasse... Por exemplo, vossa alteza esquecia-se do relógio! ... 

-- Muito bem! 

-- Depois eu, alteza, teria a honra de vestir o vosso trajo habitual e, embora nada me pareça com vossa alteza, poderia muito bem passar, com a devida distancia, pela vossa real pessoa... 

-- Mas para quê? 

-- De costas todos se parecem, mais ou menos, e elles poriam a scena em execução, pois só pelas costas me veriam e confundiriam a minha pessoa com a vossa!... 

-- Jacques, sabes que nasceste tanto para ensinar a intriga como a estocada!... 

-- Meu senhor, volveu o francez com desembaraço. Tanto a intriga como a estocada estão ao serviço de vossa alteza! 

-- Acceito e até á noite! exclamou o principe com bom humor. 

Porém, Lebon fazia uma carantonha triste e perguntava: 

-- E vossa alteza dá-me licença para acceitar os mil cruzados do sr. conde d'Alva? 

-- Sim... Sim... Tens todas as licenças! 

-- Mesmo a de beijar a vossa real mão... 

O principe, por unica resposta, estendeu-lhe a mão papuda, onde o mestre d'esgrima depoz um beijo respeitoso e sahiu depois com uma grande reverencia, emquanto sua alteza ficava meditativo. 

Jacques Lebon, na rua, emproava-se e murmurava: 

-- Quem sabe... Se não fosse estrangeiro, talvez chegasse a ser ministro! 

Depois, ao entrar em casa, ao vêr a mulher que vinha ao seu encontro com uma interrogação no olhar, elle encarou-a d'alto e exclamou: 

-- Faço vos graça do vosso collar, madame Lebon, e sabei que tendes na vossa presença um homem honrado com a confiança do melhor dos principes!... 

-- Ah! O meu conselho... o meu conselho! disse ella toda altiva. 

-- Enganae vos, madame, o vosso conselho foi jogado á sorte d'uma moeda, a qual por seu turno foi tragada por um bobo... A ella, só a ella, devo tudo isto... 

A sr.ª Lebon fez uma careta e affastou-se muito zangada com o tom imponente do esposo. 

Sua alteza, pela tarde, ao vêr entrar D. Ramiro, teve um impeto ao recordar-se da intriga, mas de seguida, lembrando-se bem dos conselhos. do francez, exclamou: 

-- Conde... conde... Iremos hoje vêr Etelvina... Oh! Como sou feliz!... 

-- Ah! Cede aos desejos de vossa alteza, não é assim, meu senhor? interrogou elle com grande interesse. 

Por unica resposta, D. João, esboçou um sorriso indefinido, mas no qual o aulico quiz ver fatuidade, e volveu: 

-- Logo o ouvireis, sr. conde d'Alva, logo o vereis!

Dos aposentos baixos do palacio chegavam os gritos da rainha louca, e o perfil do bobo desenhava-se perto da Janella hermeucacamente fechada e nos seus lábios havia um rictus de rancor, de colera, ao ver sahir dos aposentos de sua magestade o vulto negro do bispo do Algarve. 

E como por encanto, os gritos da louca coroada tinham cessado. 











XXVI 





Os pedreiros livres



Era na loja da Boa-Morte, um casarão enorme forrado de negro e por cujas paredes se viam os mais symbolicos signos maçonicos. Penetrava se por uma escada lobrega, subiam-se alguns degraus e entrava-se n'uma casa mobilada modestamente e onde nem o mais habil espião do sr. Manique descobriria signaes de heresia, como se dizia no tempo. Pelo contrario, até as paredes estavam forradas com imagens, em que as vestes de S. Sebastião e os martyrios de todas as Virgens tinham um bom logar. Porém, erguendo um pouco o tapete que forrava o chão, ver-se-hia, ao cabo de minucioso exame, uma frincha nas taboas, puxando uma d'ellas, abrir-se-hia um pequeno quadrado, dando-se ao trabalho de erguer as outras, apparecia uma escada de mão. Quem descesse iria dar a um subterraneo no qual seria detido por um homem mascarado que exigia uma senha ao recemchegado e ante a qual lhe abria uma porta que dava para essa immensa sala forrada de negro e onde n'aquelle momento estavam uns trinta homens, todos envoltos em longas vestes negras e em cujos peitos se destacavam emblemas que marcavam os graus herarchicos dos maçons ali presentes. 

Sentavam-se em bancadas unidas, e os seus vultos pesados pareciam petrificados, os rostos negros pelas mascaras, negros os corpos, negra toda a sala. 

De repente tres pancadas soaram do lado de fóra e todos aquelles homens se ergueram como tocados por molas; as suas mãos appareceram armadas de luzentes espadas e elles correram para a porta, onde formaram duas alas, unindo os bicos das espadas por sobre as cabeças, formando uma abobada d'aço que annunciava a chegada d'um chefe. 

Com effeito n'um homem tambem mascarado e em cujo peito brilhava um triangulo d'ouro e o compasso dos obreiros passou triumphante por sob a abobada e foi tomar logar n'um estrado elevado ao fim da sala, em frente d'uma mesa também negra. 

Os outros rodaram silenciosos para os seus logares, apenas dois d'elles se coUocaram aos lados do mestre que ficava sereno e firme, passeando o seu olhar luzente atravez da mascara, pela assembleia. 

E como na reunião dos jesuitas no subterrâneo do Carmo, reinou o maior silencio durante alguns momentos, o qual só foi quebrado pela voz do mestre, que bradou: 

-- Irmãos... Falta aqui um dos nossos!... E sem offensa para ninguem, direi mesmo o mais prestavel de todos... Fallo d'um irmão que se uniu á nossa loja e que recebeu na Russia das mãos do supremo grão-mestre os poderes mais exclusivos! Fallo de Gomes Freire, irmãos, fallo d'esse heroe, unido comnosco contra os manejos jesuiticos! No emtanto a sua falta tem o mais serio dos motivos, trata-se de alguem da sua familia que é necessario salvar e eis o motivo da ausencia d'esse dedicado irmão!... 

Um sussurro de approvação se ouviu e logo de seguida um dos homens que estavam nas bancadas se ergueu para bradar: 

-- Mestre. .. Está á nossa porta alguem que tem graves revelações a fazer á ordem, grandes auxilios a soUicitar de nós outros! É um irmão do Grande Oriente de Londres que está em Portugal ha apenas um mez!... 

-- Que entre... Que entre!... bradaram todos, e o mestre ordenou: 

-- Que entre!... 

Como por encanto a porta abriu-se, e um homem alto, de boa apparencia, vestido de negro, o rosto insinuante onde brilhavam os olhos d'um azul carregado, penetrou na sala. No peito da sua casaca via-se o distinctivo de venerai d'uma loja estrangeira e todos se ergueram na sua presença. 

Elle inclinou-se tres vezes; poz a mão no peito, enviou um olhar ao mestre e exclamou em inglez: 

-- Irmãos... Só no ultimo extremo recorro a vós outros!... Vim a Portugal n'uma missão scientifica e o meu desejo serio leval-a a bom fim sem sollicitar do conselho supremo o auxilio que se deve a todos os irmãos! 

-- Quem sois? interrogou o mestre, fixandoo. 

-- Sou o dr. Willis de Londres!... 

-- O medico da rainha! exclamaram todos olhando attenciosamente o doutor, que continuava: 

-- Sim, irmãos... Sou o dr. Willis, tratei Jorge IV d'Inglaterra d'uns accessos de loucura e por isso foi chamado á vossa patria afim de dar os soccorros da sciencia a uma pobre cabeça que o peso da corôa enlouqueceu! 

«Com effeito, não era desesperado o estado da rainha... Tinha apenas a lypemania com uns leves ataques de delirio da perseguição... Era um pobre cerebro de mulher fraco em demasia para os negocios de estado... Vê-se claramente que o terror do ceu, o medo dos espectros que diz apparecerem-lhe por vezes, partem do trabalho de sapa d'um homem que busca destruir os lampejos de rasão de que por vezes dá provas a pobre rainha! Foi elle que, dia a dia, hora a hora, fazendo ou ordenando crimes que apresentava á sua confessada como castigos do ceu, turbou aquella rasão, é elle que, ainda hoje, por horas mortas, se encerra no seu quarto e lhe falla dos mesmos horrores! Ouvi-o eu, ninguem m'o disse! Eu o ouvi, eu e um pobre bobo que dia e noite fareja o momento de se lançar aos pés de sua ama... E nos seus olhos não se lê a loucura, mostra-se antes o odio ao homem que persegue a pobre soberana... Eu quero cural-a e o preciso para isso é leval-a para longe da influencia nefasta d'esse miseravel, porém todas as calumnias de que que são susceptiveis os vis cortezãos se teem accumulado afim de impedir este remedio supremo e que daria a rasão a D. Maria I... 

Sim, irmãos, pouco é preciso para curar essa soberana!.. . O supremo remedio é affastal-a d'esse homem! 

-- E quem é elle? interrompeu friamente o mestre. 

-- José Maria de Mello, bispo do Algarve! replicou o dr. Willis. 

-- O bispo?! Mas é um jesuita I... exclamou de novo o presidente da reunião. 

-- É um homem que ou busca uma vingança ou obedece a algum secreto designio! replicou o medico, continuando logo: 

-- A rainha teme-o; basta proferir o seu nome para que ella solte gritos de louca furiosa!... Prohibi a entrada d'esse homem nos aposentos de sua magestade, sequestrei a todo o convivio e a razão voltava momento a momento em rapido caminhar... Sua magestade já se entregava a trabalhos de agulha, parecia esquecer apenas que era soberana, de quando em quando rezava pelos seus queridos mortos! Veiu-me então o pensamento de a conduzir a Inglaterra, communiquei-o ao mordomo-mór para que falasse d'elle a sua alteza, o regente!

-- «Porém no dia seguinte, continuou Willis, o velho e honrado marquez de Marialva, acercou-se de mim e com a voz embargada de soluços disse-me: 

-- Meu amigo, desista do seu propósito de conduzir a rainha para Inglaterra.» 

-- «E porquê? interroguei á pressa não comprehendendo aquella commoção. 

-- «Então o fidalgo narrou-me o que se passava; as accusações que me eram feitas, as intrigas que se desenvolviam contra mim, a serie de infamias que me imputavam e que tinham gerado a recusa do conselho de estado.» Sua alteza quizera ouvir os cortezãos; o seu coração de filho cedeu o logar á sua posição de futuro rei. Não se tratava d'uma mãe como todas. D. Maria de Bragança não era apenas a mãe do regente do reino, era ella propria a rainha de Portugal! E para esses aulicos, uma soberana não sahe assim do seu paiz acompanhada d'um estrangeiro, sobretudo d'um inglez que pode exercer pressão no seu animo!» Como se eu senhores, não fizesse um sacerdocio do meu mister I O bispo do Algarve exercera ainda 

mais uma vez a sua pressão nos ânimos e a rainha ficou de novo nas suas mãos. Eu desprestigiado, olhado como um charlatão ambicioso sou vigiado de perto, recebo cartas anonymas em que me insultam, não sei que partido tornar e para vós apello, irmãos... 

E o bom doutor, cançado, offegante, deixa va-se cahir na bancada ao mesmo tempo que o mestre exclamava: 

-- Vê-se ahi a intriga jesuítica, vê-se ahi o dedo dos mesteiraes da Companhia que querem a regencia porque mais facil lhes é dominar um principe que passa metade dos mczes em Mafra, do que o animo embora fraco d'uma rainha que tem junto de si bons conselheiros como o Marialva e como Martinho de Mello e José de Seabral.

-- Sim, é a intriga da Companhia! gritou um outro, erguen- 

do-se. E a ella devemos oppor todas as nossas forças, toda a nossa 

energia! Não sois d'accordo irmãos que se para curar a soberana é 

preciso derrubar o bispo que elle seja votado ao nosso ódio?... 

-- Sim... sim... Que o bispo seja apontado como inimigo da ordem!... 

-- Inimigo do progresso, da luz, da razão, amigo dos jesuitas o quer dizer amigo da traição, da vileza, do crime, elle o é de ha muito! bradou o mestre continuando: 

-- Quantas torpezas para subir, quantos crimes para dominar no animo d'essa pobre soberana que enlouqueceu... A alma d'esse Tavora é formada de todo o lodo, de todos os horrores... Torvo o seu aspecto, lugubre a sua consciencia!... Não é o odio de raça que o move, é o desejo do dominio da Companhia de Jesus! É Tavora e conseguiu a rehabilitação dos seus! Se fosse uma bondosa alma isso lhe teria bastado! Mas não... No fundo da alma d'esse frade havia o odio intenso não a um soberano mas a uma era de liberdade que ia raiar!... Quando amanhã Portugal, livre das roupetas, prosperar, caminhar de novo, livre e sem peias, quando o seu  pavilhão de pequena potencia merecer o respeito dos extrangeiros, a posteridade agradecerá aquelles que souberam impedir o passo aos inimigos da luz!... 

-- Muito bem! ... Muito bem!... gritaram em unisono. 

-- E somos nós, os pedreiros livres, esses que o paiz hoje accusa de hereges pela voz do intendente da policia, que esmagaremos os inimigos de todas as liberdades! ... Não queremos fumentar um cataclysmo como o que revolve n'este momento a França! Não... não queremos o sangue derramado... O nosso fim é outro!... É a destruição dos inimigos da liberdade que são os jesuitas!... Elles tem por condição a torpeza, por fim a infamia, por armas a perfidia e a ignobil traição... Ferem os que lhes são antipathicos, os que os incommodam no mais intimo do peito. .. O seu odio persegue seculos a fio familias!... José de Tavora é jesuita, elle n'este momento exerce uma grande pressão no animo da rainha, vae matal-a... Que fazer irmãos?! Resolvei, vós outros que bem ouvisteis. 

as palavras do dr. Willis!... 

O mestre callava-se e ainda como na reunião do convento do Carmo, viam-se todos aquelles vultos moverem-se, escreverem á pressa os seus votos e os seus nomes, atiraram-nos bem dobrados para o fundo d'uma caveira que servia d'urna e a qual o mestre como o dominicano da reunião jesuitica, agitava. 

Os dois secretarios tomavam notas, os seus rostos eram impenetraveis sob as suas caras e diziam por fim algumas palavras ao mestre, que tinha falado sempre: 

-- Dr. Willis, dissera elle, recolhei ao paço, tratae a rainha, encontrareis apoio em alguem, cumpri até ao fim a vossa missão! 

O doutor curvara-se de novo n'uma saudação e depois com toda a fleugma exclamava: 

-- Conto comvosco!... e sahira rapidamente. 

Mal o seu vulto transpoz a porta, ouviu-se de novo a voz do mestre bradar: 

-- Irmãos... Por trinta votos, o bispo do Algarve, José Maria de Mello, está condemnado á morte pelos delegados do Grande Oriente aqui reunidos! 

Ouviu-se um sussurro de approvação e logo em seguida um brado unanime: 

-- A eleição! A eleição!... 

-- Irmãos, exclamou o mestre, é necessário excluir d'essa votação os nomes dos que partem no exercito amanhã de madrugada... 

-- E quem são elles? bradou uma voz. 

-- Gomes Freire e Alorna! ... Sim, amigos, não pudemos ter a honra de prestar um serviço tão relevante á ordem!... 

-- Pois bem serão excluidos os vossos nomes!... 

Agora um dos secretarios revolviam a caveira onde estavam os votos assignados e o outro preparava-se para escolher um ao acaso. 

Reinava um silencio de morte; todos aguardavam o nome do escolhido e viam o secretario empunhar um dos papeis e ouviam-no bradar: 

-- Irmão, Vasco de Miranda, vós sois o escolhido para assassinardes o bispo do Algarve!... 

Então um dos homens se ergueu e exclamou: 

-- Quereis ceder-me o vosso logar, Vasco de Miranda? 

O amigo de Gomes Freire, olhou o outro e retorquiu: 

-- Sois vós a unica pessoa a quem não posso negar tal pedido!... Ireis Luiz de Barredo, sereis voz o algoz d'esse miseravel! 

E logo o antigo fr. Fabricio, esse homem que os jesuitas tinham outr'ora impellido ao crime, clamou: 

-- Agradeço-vos Vasco!... Chegou para mim o momento de tirar a vingança de toda a Companhia de Jesus!... 

-- E sobretudo d'esse bispo que tanto perseguiu o teu pobre irmão!... murmurou o outro. 

-- Inventando calumnias que tu desfizeste ao narrares-me como minha mãe encontrou acolho nos braços de teu pae, amigo do progenitor de Gomes Freire!... Todos tres irmãos, todos tres perseguidos por esses miseraveis a algum de nós caberia a desforra!... 

-- Sim e na nossa familia apenas um que está longe deixaria de acceitar esse encargo! 

-- Sim falaes de teu irmão, Luiz!... 

-- Assim é!... 

-- Pois eu terei por dois o ódio que elle não tem!... Tinham falado sempre assim a meia voz, e agora os vultos sombrios dos pedreiros livres, iam sahindo pouco a pouco, evacuando a sala. 

Na rectaguarda d'ambos ouviram então uma voz dizer: 

-- E agora, amigos, ainda ha um outro dever a cumprir!... 

-- Qual?! interrogaram elles ao verem que quem lhes falava era o proprio mestre que pessoa alguma ali conhecia. 

-- O de irdes ainda em soccorro de Gomes Freire que póde precisar de alguns braços d'aqui a momentos! 

-- E onde se encontra elle?! perguntaram os outros n'um sobresalto. 

-- Em Belem!... 

-- Com quem? interrogaram de novo. 

-- Com seu primo Nuno!... 

-- Mas corre algum perigo? exclamaram pasmados. 

-- O perigo a que está sempre exposto um homem generoso, bom e esforçado!... 

-- Iremos n'esse caso... 

-- Eu já o sabia... Eu vos acompanharei amigos! bradou elle n'outro tom de voz e arrancando a mascara, além em presença dos dois rapazes que estavam sós na sala. 

-- O mestre!... O marquez d'Alorna! exclamaram por seu turno deveras admirados. 

-- Silencio e partamos! exclamou elle afivelando de novo a mascara e enfiando pelo corredor sempre seguido por ambos. 

A noute estava escura, era uma d'essas horas da traição e todos tres tiveram um estremecimento ante a recordação de Gomes Freire que se encontrava talvez em perigo. 











XXX 





O embaraço do regente 





Carlota Joaquina, sósinha e a pé, penetrava nas viellas tortuosas que do paço iam dar ao jardim botanico, e fôra bater á porta de mestre Jacques que exclamava ao ver a dama embuçada com cuja visita já contava: 

-- Podeis passar, senhora!... 

E affastava-se a ceder o logar á princeza que entrava por fim na casa e lançava um olhar em torno como a assegurar-se que o esposo ainda não chegara. 

Mestre Lebon, apontou-lhe o quarto onde ella se devia occultar, e esfregando as mãos cheio de contentamento dirigiu-se para o pequeno pateo que ficava na rectaguarda da sua casa, dizendo ao vêr-se ali: 

-- É tempo de prevenir sua alteza!... 

-- Escusado, mestre, eu apenas aguardava a vossa presença!... murmurou a voz pastosa do principe. 

Occultos na folhagem para lá do muro, os vultos dos homens d'armas harmonisavam-se com o escuro e mestre Jacques, bradava: 

-- Vós, meu senhor?... 

-- Eu mesmo... Segui as tuas indicações com respeito a D. Ramiro... mandei que me aguardasse no pateo das damas... E ali ficará, descança! volveu o principe com uma risada, accrescentando: 

Tanto mais que o encarreguei de vigiar a morada d'uma das açafatas... 

-- Entrae... entrae, meu senhor!... tornou então o francez inclinando-se a deixar passar sua alteza e conduzindo-o de seguida para o seu proprio aposento. 

D. João, deixou-se cahir offegante sobre a cama do mestre de armas, e começou a pensar n'essa extranha aventura em que se mettera. 

Esse principe, já gordo e pesado, embora estivesse no vigor da mocidade, não era feito para semelhantes emprezas. Habituado desde muito novo ao convivio dos frades de Mafra com os quaes seu pae D. Pedro III o pozera em contacto, seguia agora essa carreira de semi-aventureiros, mercê da necessidade imperiosa de distracções que não encontrava no matrimonio nem na vida pesada de dirigir povos. 

Foi com um suspiro que começou a despir o traje habitual e a vestir o que enviara do paço. 

Mestre Jacques, pediu venia a sua alteza para penetrar no aposento, tomava os vestidos do príncipe e d'ahi a momentos apparecia n'aquelle traje que condizia bem com a sua estatura e obesidade semelhante á do regente; este ficava agora no seu traje claro de que fazia um disfarce, elle que de habito usava sempre as côres severas. 

Tinham batido as dez e meia no relogio d'Ajuda. 

Soaram duas pancadas na porta e a mulher de Lebon correu a abrir. 

Carlota Joaquina estremeceu no seu esconderijo e nos seus labios appareceu um sorriso de satisfação. 

É que dois vultos nos quaes julgou reconhecer Alorna e Gomes Freire, acabavam de penetrar na sala. 

Ficaram embuçados a olharem madame Lebon que dizia, bem instruida por seu marido: 

-- Aguardae-me, senhores... e correu a prevenir o mestre de armas que se dirigiu para o quarto que deitava para a rua e onde devia ter logar a scena. 

Era um aposento quadrado, mal mobilado, com algumas cadeiras de couro e com uma mesa de pés torneados sobre a qual estava pousado um candieiro de tres bicos, das paredes pendiam dois maus quadros representando os donos da casa, e o chão era forrado por um mau tapete já no fio. 

Madame Lebon, voltava e dizia para os dois recemchegados: 

-- Olhae para esse aposento!... Porém, sêde prudentes... 

Acercavam-se lentamente, olhavam para o -interior do quarto e viam apparecer a amada de Nuno Freire, na face da qual e de costas para a porta estava o mestre d'armas vestido no traje de sua alteza. Conversavam, porém os recemchegados não podiam ouvir as suas palavras. 

Gomes Freire, pois era elle que além se encontrava com seu primo, fizera-se pallido julgando reconhecer o príncipe no interlocutor da joven, apertava com força o braço do cadete e murmurara: 

-- Silencio!... 

Porém Nuno Freire, mal continha a sua impaciencia, olhava fixamente a amada, sentia impetos de correr a abraçal-a e ao mesmo tempo tomado d'um indeciso ciume, empallidecia ao ver que o desconhecido continuava a acercar a sua cadeira, conversando sempre em voz baixa com D. Etelvina. 

Da rua não chegava o menor ruido; alli reinava o menor silencio. 

Carlota Joaquina, espreitava á porta do quarto onde se occultara, sorria cheia d'intimo jubilo pela scena que ardilosamente preparara e esperava apenas o momento de poder justificar-se em frente de Gomes Freire. 

Porém elles continuavam tranquillos, quasi abraçados um ao outro, os dois primos, achavam deveras extraordinaria essa conversação d'aquelle individuo com essa joven que na realidade parecia encantada e que sorria. 

É que mestre Lebon, fallava-lhe de seu pae, dizia-lhe que dentro em pouco seria posto em liberdade, em virtude do empenho que sua alteza mostrava por ambos. 

Etelvina, louca de jubilo, murmurava então: 

-- E poderei partir então com elle? Poderei ir para a minha casa? 

-- Mas certamente... certamente... volvia o mestre d'armas com um sorriso extranho que ella não via tal era o seu contentamento. 

D. João, analysava tambem a scena, olhava esses dois vultos que estavam de costas para a porta do aposento onde elle se escondia e não conseguia vêr Etelvina. 

Para elle era cada vez mais mysterioso o que se passava; não comprehendia o intuito de D. Ramiro introduzindo ali aquelles homens que pareciam deveras interessados no que se passava. 

Porém Nuno Freire, deixava o seu posto de observação, vinha até meio da casa, desembuçava-se bem como o coronel e sua alteza recuava e escondia-se murmurando: 

-- Meu Deus... Elles... Oh! Era sem duvida uma cilada!... 

Agradecia então n'uma fervorosa prece a Deus a idca do mestre d'armas, dizia comsigo que tudo havia a esperar de semelhantes homens e ouvia Nuno Freire bradar no auge da colera: 

-- Não posso mais, meu primo... Isto é uma infamia!... 

-- Por Deus, Nuno... Aconselho te resignação... Só duas pessoas no mundo poderiam ser culpadas do rapto de Etelvina... E agora já sei o que queria saber.. Vamos!... e ia dirigir-se para a porta conduzindo comsigo o primo quando este exclamou deveras irado: 

-- Impossivel, meu primo, eu não posso sahir d'aqui sem ter morto aquelle homem!... 

-- Desgraçado? E sabes acaso a quem terias de matar?... bradou o coronel rapidamente. 

-- Que importa?! Póde ser um grande da côrte que para mim não passa d'um vil!... 

-- Nuno!... 

-- Meu primo!... 

-- Ordeno-te que esqueças essa mulher! Vem... Teu pae no meu caso, dir-te-hia o mesmo... e buscava sempre arrastal-o para fóra da casa, ao passo que elle perdendo toda a serenidade gritava d'esta vez em voz bem alta: 

-- Preciso castigar semelhante audacia! 

-- Alto, senhor... exclamava então a voz de Carlota Joaquina, ao mesmo tempo que a princeza apparecia rapidamente, bem certa de não ser reconhecida pelo amante. Só eu tenho aqui o direito de exigir contas! 

E como louca, correu para o interior do quarto onde a joven se encontrara, sempre seguida por Nuno e por Gomes Freire, deveras admirados de semelhante interrupção. 

-- É assim que vossa alteza cumpre o seu juramento de fidelidade conjugal! bradou Carlota Joaquina á entrada do quarto em voz terrivel. 

-- Senhora, que dizeis?! exclamou Jacques Lebon voltando-se e apresentando a sua caratonha vermelhaça aos olhos de sua alteza que recuava espavorida. 

-- Vós...? vós?... E com o fato do principe?!... 

-- Uma dadiva de sua alteza, o regente, ao seu humilde servo, volveu elle com uma grande cortezia. 

D. João, no seu esconderijo, ouvia agora distinctamente o que se passava e a custo continha o riso ante a preplexidade da princeza. 

Etelvina da Gama, correra para Nuno deveras surprehendida e bradava: 

-- Nuno... Oh! Tu?!... 

-- Senhora... O vosso procedimento!... 

-- Nuno... Juro- te que não sou, culpada!... 

Carlota Joaquina, lançou-lhe um olhar repleto de ódio e exclamou por sua vez, dirigindo-se ao mestre d'armas: 

- É debalde, mestre Lebon, que  buscaes encobrir meu esposo... Tudo o indica, desde esse trajo á scena que preparasteis... 

Tenho a completa certeza que o regente vem a esta casa no intuito de se encontrar com a pessoa que n'ella guardaes! 

A princeza voltava-se e o seu rosto apparecia agora em plena luz. 

Confundida, cheia de raiva, sentindo referver-lhe no coração o mais intenso odio, buscava separar para sempre Nuno d'essa mulher que temia como rival. 

Porém o mancebo reconheceu a sua amante n'essa princeza que tão indignada se mostrava e, fixando-a franca e abertamente, exclamava: 

-- Vós?! vós... a esposa do regente!... 

Olhou-o serenamente, fez um gesto imperioso e ordenou ao mestre de esgrima: 

-- Sahi d'esta sala, senhor... Levae comvosco a amante de meu esposo! 

Atirava assim aquelle insulto á joven, via que Nuno se tornava livido e ao reparar em que mestre Jacques sahia, conduzindo comsigo a joven, voltava-se para Nuno e dizia-lhe: 

-- Eu sim... eu!... 

-- Oh! Nunca o Julguei!... titubeou o cadete, vermelho de vergonha, ao mesmo tempo que a princeza, dirigindo-se a Gomes Freire, começava: 

-- Senhor, e vós quereis acreditar agora na minha innocencia?! 

O coronel baixou a cabeça e não se atreveu a redarguir. 

-- Sim, parece-me que não podeis inculpar-me do rapto d'esta joven... volveu de novo a princeza. Parece que não seria eu quem arranjaria as amantes para meu esposo. E vedes bem, vós e Nuno que o disfarce desse vil mestre d'armas indica apenas que o meu segredo foi descoberto... Sabia do amor de sua alteza por D. Etelvina, quiz convencer-vos, mostrar-vos a realidade dos factos, porem alguem, talvez um d'elles, espiões que vivem nos corredores do 

paço, tudo descobriu e preveniu o principe que ordenou ao seu amigo, o francez, para me deixar livre a passagem!... 

Estava deveras colerica ao fallar assim, indignava-se pouco a pouco ao ver que os dois homens continuavam silenciosos e buscando armar á sua piedade, continuou: 

-- Gomes Freire, coronel... Eu sei bem quanto vos, devo para desejar merecer o vosso odio!... A ultima vez que estivesteis na minha presença, sahistes deveras formalisado com o que julgaveis a minha acção!... 

-- E agora peço-vos desculpa das minhas palavras!... disse o coronel vendo que na realidade o disfarce do mestre d'esgrima encobria qualquer cousa, sentindo-se quasi certificado do amor do principe pela joven. 

-- Eu vos perdoo, coronel, disse ella deveras radiante. Jamais esquecerei o serviço prestado á vendedeira... 

Nuno, estava agora muito pallido ante tantas scenas inesperadas e começava a sentir uma grande repugnancia por essa princeza que descia á praça publica com os seus disfarces, para n'elle escolher os amantes. 

Carlota Joaquina, continuava: 

-- E vós Nuno, comprehendeis agora a perfidia d'essa mulher? 

-- Senhora... 

-- O que, ainda duvidaes? bradou ella tornando se vermelha de colera. 

-- Espero que Etelvina se justificará! 

-- Vós?! 

-- Sim, alteza reall... tornou com serenidade o mancebo. 

Eu, que n'este momento estou deveras compungido por todos estes acontecimentos! Vejo só agora porque meu primo foi ao paço... Sem duvida reconheceu em vossa alteza a mulher que estava commigo na locanda do Neutral, julgara por conseguinte que tivesseis sido a culpada do succedido a Etelvina... Ah! meu primo nunca vos perdoarei, o terdes callado a alta qualidade de pessoa com quem me encontrava. E não vos perdoarei, porque se tivesse sabido tudo isso não viria aqui!... É triste na verdade, que eu, um simples cadete, affastado da corte, esteja agora em frente de semelhante 

sucesso, que n'elle tome parte! 

-- Nuno... 

-- Sim, meu primo, agora que sei o nome do amante de Etelvina, como quereis que ame o meu rei? gritou elle no auge na colera, accrescentando: É elle o unico homem que poderei poupar!... Outro morreria ás minhas mãos!... Podeis dizer que estou vingado por ter possuido o amor d'uma princeza, esposa d'esse mesmo principe que me roubou o amor de Etelvina!... Mas sabei que não acho sufficiente!... Essa vingança nem merece tal nome!... Eu julgava-me apenas o amante d'uma vendedeira!... Hoje mesmo deixarei o exercito!... Um Freire de Andrade não serve aquellcs que o insultam! 

Carlota Joaquina, estava livida de terror ao ouvir o mancebo fallar assim e, ao vêl-o dirigir-se para a porta cheio de dignidade, bradou em voz commovida: 

-- Nuno!... 

-- Senhora... Deixae-o: a mocidade é impetuosa!... Sahimos d'esta casa conscios da vossa pureza em tal negocio, porém levaremos comnosco a certeza d'um attentado praticado pelo unico homem que não pudemos punir! 

-- Sr. Gomes Freire... exclamou então D. Etelvina apparecendo ao olhos admirados dos actores d'esta scena, e cahindo aos pés do coronel. Escutae-me!... 

-- Erguei-vos, senhora!... disse com grande pena, o heroe, olhando a joven que chorava, ao passo que Nuno recuava cheio de desespero.

Carlota Joaquina, de pé, em ira sempre crescente, fixava a joven e estremecia ao ouvil-a dizer: 

-- Não culpeis sua alteza real, o regente. 

-- É então sobre vós que recahirá a culpa, não é assim, senhora? exclamou a princeza dirigindo-se-lhe abertamente. Foi então a ambição que vos moveu a acceitardes o amor de meu esposo?!

A joven fez-se vermelha de pudor ao ouvir semelhantes palavras, baixou a cabeça, e ficou como paralysada em frente dessa princeza que a accusava. 

-- Vamos... Fallae! ... gritou Carlota Joaquina com intensa colera no olhar e no gesto. 

-- Sim, fallae, Etelvina, explicae-nos a vossa presença n'este logar!... disse por seu turno o coronel. 

-- É escusado! atalhou Nuno Freire, é escusado!... Todos o sabem! Não soubestes resistir ao amor d'um principe, acceitastes as offertas, esperando que eu voltasse da guerra para onde devia partir amanhã vos acceitaria manchada, sahida d'um leito real!... 

-- Nuno!... bradou ella excessivamente pallida e cahindo nos braços do coronel que deveras commovido a amparava. 

-- Ah! É demais, e não puder mostrar a esse homem a tacita confissão que tal mulher faz com o seu silencio! bradou o cadete enfurecido. Não poder dizer-lhe face a face: «Senhor... Eu tinha urna noiva na qual depositava todas as minhas esperanças, todos os meus desejos... Era bella e appetecestes o seu corpo, roubastes essa joven ao carinho dos seus, fizestes d'ella a vossa amante, ao mesmo tempo que buscaveis affastar para longe o homem do qual ella se tornaria esposa; a vossa acção é infame!... Era um subdito, um dos mais humildes, dos mais ignorados, que importa isso para um futuro rei?!... Ah! A vida que nós damos nos campos da batalha em defeza dum rei nada é, nada vale, cumprimos a lei de nossos paes quando nos deixamos matar, mas a honra, a dignidade, que nos roubam, embora o ladrão seja um principe, é muito, é tudo, porque é a unica coisa que possuímos de sagrado!... E eu fui ferido na minha honra, recebi de vós um profundo golpe no coração... Pois bem, soldado em frente do seu chefe, subdito em face do seu rei, eu vos desafio, eu vos desafio!...» 

E o mancebo, no auge da colera, gritava aquellas palavras deveras perturbado ante o silencio da sua noiva, de seguida continuava: 

-- Oh! E no emtanto nem isso posso fazer... Seria o primeiro Freire de Andrade rebellado contra os seus reis, seria o primeiro fidalgo que vingaria a sua honra ultrajada, fal-o-hia não n'uma embuscada como os Tavoras, mas face a face, bradando: «Sois um um vil, senhor regente...» 

-- Nuno!... bradou o coronel admirado d'aquellas palavras, de semelhantes insultos. 

Mas, n'este momento, Etelvina da Gama recuperava o uso da palavra e bradava: 

-- Nuno, as phrases que soltaes seriam bem cabidas se acaso tivesseis a certeza das vossas accusações! 

-- É acaso licita a minima duvida? exclamou elle sempre no mesmo tom colerico. 

-- Sim... Eu não sou a amante de sua alteza!... Devo-lhe antes um serviço!... Sou antes a sua protegida... Fui arrancada por elle d'um convento onde me queriam encerrar! 

-- Mentis!... volveu o mancebo na mesma raiva. 

-- Não minto nunca, Nuno!... tornou na sua grande tranquillidade. E para que mentir agora, se vejo que perdi o teu amor? 

Carlota Joaquina, tremia cada vez mais ao escutar essas palavras, ao vêr que ia ser destruida toda a sua obra; no emtanto buscava sempre uma occasião favoravel para desmentir aquella mulher que ia dizendo sempre, tendo os olhos rasos de lagrimas: 

-- Estava em casa com meu velho pae, quando os esbirros nos levaram... A mim para um convento, a elle para um logar que desconheço! 

-- Ah!... Foi então esse homem que tal ordenou! gritou o cadete no cumulo da colera. 

-- Não... Sua alteza, como já disse, arrancou-me do convento para onde me conduziram...

-- E onde elle se encontrava? 

-- Sim...

-- Foi bem preparada a scena! gritou então Carlota Joaquina, aproveitando a confissão da joven. Meu marido queria passar por vosso salvador!... Desejava assim merecer a vossa gratidão!... Era a melhor maneira de vos seduzir... 

A joven, curvou a cabeça por seu turno, não se atrevendo a retorquir á accusação da princeza. 

Porém, ao cabo d'algum tempo, dizia: 

-- Sua alteza nunca me fallou d'amor!... 

-- Aguardava para isso a occasião que cu soube evitar!... 

-- E que eu vos agradeço, senhora, porque d'este modo Nuno Freire terá a mais pura das noivas, uma mulher que nem mesmo dos labios d'um principe escutou uma confissão... A sua noiva será assim mais digna do que a minha propria esposa, porque essa, embora disfarçada em vendedeira, já tem descido ao amor de outros homens! 

Todos recuaram assombrados ao verem o principe D. João, que ao acabar de pronunciar estas palavaras na mais digna das attitudes, accrescentava: 

-- Nuno Freire, podeis conduzir essa joven e sabei-a tão pura como quando para aqui a conduzi!... Se ha pouco não respondi ao vosso desafio, respondo agora á intriga!... O regente que alcunhaveis de vil só pode vingar-se d'um subdito enviando lhe os seus officiaes de justiça, o homem, esse perdôa porque é, como vós, uma victima! 

Fazia dó esse pobre principe, certo agora da traição da esposa e ao qual ninguem se atrevia a responder. 

Elle continuava para Gomes Freire: 

-- E vós, coronel, não procurareis saber de onde partiu o golpe, guardae-vos de tal... Ha coisas que ninguem deve penetrar e que eu proprio quero deixar no olvido!... 

-- Meu senhor... balbuciou o heroe. 

-- Acreditaes na minha palavra, não é assim? Pois, por ella vos juro que Etelvina está pura, por ella vos juro que não ordenei a sua prisão nem a de seu velho pae que lhe hei-de restituir!... 

Etelvina, encostara-se ao braço do noivo, que estava livido, Gomes Freire começava a perceber toda a intriga, Carlota Joaquina ficava como confundida e o principe, sempre do mesmo modo triste, exclamava dirigindo-se á esposa: 

-- Senhora, apesar de tudo, é no paço o vosso logar!... 

E sem lhe offerecer o braço conduziu-a para a porta no auge do desespero. 

-- Foi ella! murmurou Gomes Freire ao vêl-os sahir. 

-- Sim... Foi ella!... assentiu Nuno, dizendo para a noiva: Vamos... Teu pae ser-te-ha restituido. 

Mestre Lebon estava desesperado a chorar sobre o leito, murmurando: 

-- Ah! que me perdi de vez!... 

E D. João, na rua, ao lado da esposa, que não se atrevia a pronunciar palavra, dizia: 

-- Vinha para conhecer os meus inimigos, para os castigar... Encontrei minha esposa, soube positivamente das suas traições... Deixarei para outros o castigo, para ella apenas terei o desprezo! 

-- João!... balbuciou emfim a adultera buscando commovel-o, sentindo-se derrotada. 

-- Chamae-me regente, senhora... O esposo desappareceu para dar iogar ao principe!... 

E elle julgava fallar verdade ao pronunciar semelhante sentença, não contando com os artificios da hespanhola que se via obrigada a começar de novo a sua obra de dominio. 

Caminhava agora silenciosa ao lado do marido que meditava tambem; e quando entraram no paço, cada um d'elles no seu aposento, deu a mesma ordem. 

-- Chamae, o conde d'Alva!... 

Gomes Freire com Etelvina e D. Nuno sahiam do Jardim Botanico e encontravam tres homens embuçados que se lhe dirigiam: 

-- Amigos!! exclamou o coronel deveras enternecido ao reconhecer, Alorna, Vasco de Miranda e Luiz de Berredo. 

-- Estaes livres, não é assim?!... perguntou o marquez com grande pressa. 

-- Pelo menos por hoje, meu amigo! ... replicou o heroe começando a narrar o succedido ao seu camarada. 

A noute ainda não terminara, quando D. Ramiro chegou a presença do regente. 

O fidalgo, entrou esbaforido, curvou- se ante sua alteza e exclamou: 

-- Tenho estado no pateo das damas aguardando vossa alteza!... 

E no intimo, o conde d' Alva rejubilava ao vêr o semblante carrancudo do principe, julgando que tudo sahira ao contento de Carlota Joaquina desde que pagara a mestre Lebon de cuja traição não suspeitava sequer. 

O regente, teve para elle um ollhar tranquillo, socegado, e na sua voz pastosa interrogou: 

-- Tens um posto no exercito, não é assim, Ramiro? 

Admirado de semelhante pergunta, o fidalgo, balbuciou: 

-- Sou tenente das vossas guardas, meu senhor... 

-- Ah!... É que já não te vejo fardado ha muito tempo... 

D. Ramiro, sentiu então que sua alteza ia talvez recompensar com uma nova patente os seus serviços, comprehendeu que não lhe imputava as culpas do desastre preparado e mostrou uma physionomia radiante. 

Sua alteza continuava: 

-- É que desejo, sim, tenho prazer em ver a tua figura com um uniforme! És homem esbelto, Ramiro, deve dizer-te bem a farda de tenente de infantaria do regimento Gomes Freire para o qual te nomeio! 

-- Meu senhor, vossa alteza espulsa-me?! exclamou o conde d'Alva n'um desvairamento. 

-- Qual!?!... Quero apenas dar-te o ensejo de morreres ou de distinguires n'um serviço bem differente do que tens feito ate hoje... Olha, gente para bordo... A expedição vae-se ao romper d'alva... 

E o regente muito satisfeito com o trocadilho em que mostrava romper sempre de vez com o conde, estendia-lhe a sua nomeação. 

-- Mas, meu senhor... 

-- Que queres, tenho este desejo!... 

-- Mas... 

-- Partireis... ordenou o regente apontando-lhe a porta e voltando-lhe as costas com grande desplante. 

O conde d'Alva ia sahir, via que todo o seu futuro se derrocava, comprehendia onde o tinha levado o seu desejo de vingança, que o collocava agora ás ordens do seu mortal inimigo e n'uma patente deveras inferior para elle que gosava da confiança d'um principe e no cumulo do desespero, murmurava: 

-- Oh! Oh!... D'este modo só me resta assassinar esse infame e morrer de seguida!... 

Agora ouvia a seu lado a voz de D. Antonia de Mello que lhe dizia: 

-- Senhor conde, sua alteza, esperava-vos. 

-- A princeza?!... Oh!... Não me lembrava. É um supremo recurso! 

E começava a caminhar rapidamente para os aposentos de Carlota Joaquina. 

Ella, recebeu-o de pé, excessivamente pallida, toda agitada pela scena que se passava e ao vel-o entrar, exclamou: 

-- Sois, marquez, sem duvida, senhor?! 

D. Ramiro, deu um salto para traz e bradou: 

-- É vossa alteza que m'o diz?! Ah! o vosso promettimento... 

-- Conde d' Alva, basta de disfarces! Sois um traidor... Hoje mesmo sahireis do paço apesar de todas as ordens que vosso amo possa dar em contrario!... 

-- Não comprehendo, vossa alteza, senhora!... titubeou elle como se visse o mundo a desabar sobre a sua cabeça, tornando-se extremamente livido. 

-- Pois eu vos elucido, senhor! clamou a princeza n'um tom tão ironico, como sua alteza, o regente, fallara ha pouco: 

-- Expuzeis-te-me ao peor dos desaires! 

-- Entrando cm casa de mestre Lebon por vosso concelho no intuito de confundir o regente, no fim de mostrar a Nuno Freire como a sua amada se portava para com elle, sabeis o que consegui? 

-- Mas sem duvida os vossos intentos... exclamou o conde lembrando-se bem da paga do principe. 

-- Sim, os meus intentos!... casquinou a hespanhola n'uma risada sarcastica, accrescentando logo: 

-- Se os meus intentos eram descobrir as sabidas nocturnas que tenho feito, se os meus desejos eram decahir no animo do principe, se devia em vez d'uma victoria trazer para o paço uma derrota, consegui tudo!... Mas se desejava fazer de Nuno Freire, o peor inimigo d'essa Etelvina da Gama, se procurava esmagar o regente, então só tenho a dizer-vos: 

-- Conde d Alva, servisteis bem vosso amo quando ordenasteis a Lebon que envergasse o fato do principe para me obrigar a apparecer! Tendes boas ideias, senhor conde e antes devereis ser o auctor das farças do theatro do Salitre do que o confidente de principes!... 

-- É por isso que a Deus o juro, obrigar-vos por todos os meios a sahirdes do paço... 

Então D. Ramiro, todo agitado, todo commovido, volveu em voz tremula: 

-- É escusado a violência, minha senhora e ama, de sua alteza, o regente eu tenho ordem de deixar a côrte!... 

Carlota Joaquina, soltou um grito de pasmo e interrogou logo no seu ar sarcastico: 

-- Ah! Da-vos uma embaixada! E para onde, senhor conde? Escolhei a de Hespanha que talvez vos utilise! 

-- Senhora... Eu tenho de partir hoje mesmo. d'aqui a horas na frota que vae para o vosso paiz... 

-- Como embaixador?! 

-- Não, senhora, como tenente do regimento Gomes Freire!... 

-- Vós?! bradou espavorida a princeza. Ah! Quer dizer que meu esposo vos entrega ao inimigo... É habil, deseja captar sympathias... 

-- Mas, alteza real eu não sou culpado!... 

-- Desteis-lhe até a victoria!... tornou a hespanhola no seu tom de ironia. 

E depois, d'um modo onde ia toda a sua colera, bradou: 

-- Mas parti... parti... Recebesteis a melhor lição que vos podiam dar! Meu caro conde d'Alva, sereis reduzido a vidro moido nas mãos do vosso coronel!... Sua alteza, vinga-me... Oh? Agradecer-lhe hei, descançae!

-- Mas senhora, eu juro-vos que cousa alguma percebo de tudo isto!... 

-- Vejamos, D. Ramiro, acaso não combinasteis com sua alteza tudo o que se passou? perguntou ella, um pouco interessada em desvendar todo esse mysterio. Não deixeis de fallar verdade... Sabei que estou sempre disposta a perdoar... 

E a hespanhola era mais ironica do que nunca ao falar assim. 

-- Senhora! ... Por Deus, vos juro... Eu apenas consegui do Lebon que nos deixasse livre o logar e que deixasse Gomes Freire peneirar em sua casa!... 

-- Pois bem... Porem alguem houve que avisou o principe!... Por essa ordem de partida eu vejo que na realidade, sua alteza, ficou descontente com o vosso serviço! 

-- Falaes d'um aviso a sua alteza?!... Oh! foi elle... 

-- Mas quem?... 

-- Esse maldito francez... Ouira pessoa nunca o poderia fazer... 

-- Ah! Tendes razão!... Elle... elle... Mas n'esse caso sabia quem devia ir a sua casa... Quiz mostrar a sua fidelidade ao principe e preparou a scena!... Pois esperae pela recompensa! 

Carlota Joaquina, mostrava- se agora bem uma mulher de resoluções extremas ao fallar de tal modo, encarava o tenente e dizia-lhe: 

-- Em todo o caso, fosteis imprudente... Não devieis ter exigido de tal homem uma cousa tão melindrosa a não ser com as mais infinitas precauções... Parti pois na frota, não tenho agora o minimo valimento, graças a este meu negocio, D. Ramiro... 

-- Senhora! E acaso posso ficar ás ordens do homem que mais mortalmente odeio?... interrogou elle como louco. 

Carlota Joaquina, baixou a cabeça e redarguiu: 

-- Do homem, que como seu primo e Alorna, sabe d'um acto que deve esquecer!... 

-- De que falaes, senhora? interrogou á pressa o conde. 

A princeza, teve um dos seus terriveis sorrisos e volveu: 

-- Não queiraes tambem, conde d'Alva, serdes sabedor de segredos em demasia! 

-- Mas, alteza real. 

-- Ouve... Basta apenas que saibas o seguinte: 

-- Passou-se entre mim, Gomes Freire, Alorna e um cadete de nome Nuno Freire, uma scena que teve o seu desideratum esta noute e em face das primeiras e da ultima pessoa que nomeei!... Sabem demais... Ouviram dos labios do meu esposo, as palavras com que se declarou sabedor d'uma cousa grave... É a honra de meu marido que velo quando te afianço Ramiro e d'esta vez para sempre associo-me á tua vingança!... 

-- Senhora, sabia que não deixarieis de vingar o vosso servo... 

-- Vae Ramiro... Dou-te o direito de assassinares esses homens se fôr preciso!... exclamou ella em voz rouca, tomada de desejo de fazer desapparecer todas as testemunhas do seu adulterio. Mas pareceu reflectir, a imagem do cadete, appareceu-lhe, teve um sorriso e já n'outro tom disse ao conde: 

-- Entrego-te Alorna e Gomes Freire!... Poupa-me no emtanto, Nuno! 

O conde d'Alva temendo tornar-se sabedor de mais scenas, tendo ainda nos ouvidos as ameaças d'essa mulher exclamou logo: 

-- Assim farei!... 

-- Ouve... Serás um dos ajudantes de Forbes... Eu assim o quero!... 

Sentava-se á secretaria, escrevia rapidamente algumas palavras, entregava o bilhete ao conde e dizia-lhe: 

-- E agora já não estarás ás ordens do teu inimigo!... 

-- Do mal o menos... tornou elle sorrindo e curvando se a beijar a mão de sua alteza que murmurou: 

-- Vae... Quero ter sempre noticias dos teus successos... Á volta já eu serei a unica rainha! concluiu em tom deveras extranho, accrescentando: 

-- E então nada deterá os meus desejos!... Felicidades, conde de Alva!... 

Ao vel-o sahir, essa mulher que sentia bem ainda as palavras do esposo e os olhares despresadores em que Gomes Freire e Nuno a tinham envolvido exclamou: 

-- Margarida de Borgonha, destruiu os amantes, emudecia-os para sempre!... Eu dos meus não receio, faço-os escravos!... Mas as testemunhas dos adulterios reaes não devem existir!... 

Chamava então Antonia de Mello que se acercava toda submissa, como costumava nos dias em que sua ama não lhe sorria e ordenava-lhe: 

-- Previne o João dos Reis que preciso d'elle... Que venha amanhã á hora do costume... 

-- Mas é que, minha ama, o almoxarife do Ramalhão, está ali! 

-- E ha muito? interrogou a princeza n'um sobresalto. 

-- Desde que vossa alteza voltou... 

-- Ah! Ignora a minha sahida?... 

-- Sim, alteza... 

-- Pois que entre... ordenou de novo, tendo no olhar um brilho extranho de desejo e de raiva, de amor e de odio. 

Ouviram-se passos mal abafados pela alcatifa e um homem appareceu á entrada do aposento. 









XXXI 



O almoxarife





O almoxarife do Ramalhao, João dos Reis, era um homem dos seus vinte e quatro annos, alto, espadaudo, de grandes olhos castanhos que conduziam 

com a côr dos seus cabellos sem pós. Lia-se n'aquelle rosto toda a energia selvatica do aldeão que sente dia a dia a sahida da sua pessoa para o mundo 

superior. 

Mostrava-se bem na sua attitude em que havia um certo desejo de ser notado, a visivel preoccupação de intimidar pelos modos bruscos, á mulher que tinha na sua frente e cujo fundo de perfidia desconhecia. 

Via n'ella, apenas uma amante diversa das outras mulheres que conhecera até então, d'essas raparigas do campo que se lhe tinham entregado sobre feixes de palha. Para elle, a princeza representava um ser que tudo pode dar, mas ainda assim dominavel. 

Ficava além á entrada do aposento, conscio do seu predominio sobre ella, a encaral-a d'uma forma extranha. 

-- João, approxima-te!... 

-- Que desejas de mim, para assim me receberes tão promptamente? interrogou elle com certa rudeza. 

E como Carlota Joaquina, o encarasse por sua vez, o almoxarife do Ramalhão, que de simples moço de estribeira chegara á sua situação actual e que se tornaria mais tarde capitão-mór de Cintra, continuou: 

-- Sim... Ha tres noutes que venho consecutivamente e a tua porta tem estado fechada para mim!... E no emtanto, lembra-te, Carlota, que entre nós não devem existir taes prejuizos... 

-- João... murmurou de novo a princeza deveras intimidada por aquelle tom brutal e aggressivo. 

-- Vamos... Que desejas de mim? Bem sabes que sou teu escravo! volveu com certa raiva, deixandose abraçar pela hespanhola que se erguera e bradava: 

-- Meu amigo! Bem sabes tambem que na minha posição ha taes deveres, complicações de tão diversa natureza... 

-- Que impedem a princeza Carlota Joaquina de ver durante minutos a pessoa que mais a ama n'este mundo!... redarguiu elle n'outro tom de voz, quasi humilde, ao sentir essa mão aristocratica nos seus cabellos crespos. 

-- Louco!... Por alguns minutos!... E acaso já succedeu isso alguma vez?... 

-- O quê?!... Quererás acaso que fique... 

-- Mas certamente, meu lobo!... volveu a princeza, abraçando-o e dando-lhe um grande beijo nos labios. 

D'esta maneira tinha prompto para tudo aquelle homem ao qual ella propria chamava lobo; bastava um dos sorrisos da princeza para o obrigar a todos os actos, um só dos seus olhares seria o bastante para o lançar ainda mesmo contra o proprio principe. 

-- Ouve, João, os cuidados da alta intriga em que ando, mal me deixam o tempo de te ver... Porém, chegou o momento de obrar de commum accordo comtigo... Quero para ti uma situação invejavel, sou muito ambiciosa como sabes!... 

-- Sim e depois? 

-- Ha ainda obstaculos á realisação dos meus planos... 

-- Desconheço os teus planos! tornou o almoxarife com intenção. 

Ella beijou-o de novo, e accrescentou: 

-- Oh! Sabel-os-has, descança... E dentro em pouco tempo... Queres trabalhar para mim? 

-- Falla!... exclamou o João dos Reis deitando-se no regaço da princeza. 

-- Sabes que se amanhã alguém te oííendesse eu seria capaz de exercer sobre esse alguem a mais terrível vingança? 

-- Era desnecessario, Carlota, aquelle que me offendessse, receberia o castigo das minhas mãos embora elle fosse o teu esposo!... bradou o collosso com grande colera. 

-- Sei que és valente... Por isso mesmo quero incumbir-te da minha vingança!... 

No rosto do almoxarife passou uma expresssão de desgosto ao ouvir aquellas palavras, ao comprehender a vontade da amante que continuava: 

-- Ha ahi um homem que se propõe a restituir a razão a Maria I... 

-- Ah! O medico inglez! exclamou o João dos Reis, muito serenamente. 

-- Pois bem, é elle... No dia em que fôr necessario que elle desappareça... 

-- Conta commigo!... assentiu de boa vontade. 

Carlota Joaquina, soltou um grito de prazer, e bradou logo: 

-- Talvez para brete... Agora vamos a outro... 

-- Conheces, mestre Lebon, o francez que mora no Botanico? 

-- Sim... 

-- Preciso da vida d'esse homem!... 

-- E porque? interrogou elle com presteza. 

-- Porque é contra mim e serve o regente! 

-- Basta! exclamou elle com pressa. Os amigos de teu marido são os meus inimigos... Mestre Lebon, iiá para melhor vida, quando o desejares! 

-- Pois para breve!... 

-- Hoje mesmo?! 

-- Não... Hoje pertences-me, meu João! 

E a languida hespanhola, deitava os braços ao pescoço do almoxarife do Ramalhão e ficava assim unida com elle durante algum tempo. 

Por fim levantava-se; arrastava-o comsigo para o seu quarto, a porta fechava-se e a princeza Carlota Joaquina pagava com beijos o sangue que o amante derramaria á sua ordem. 

A manhã rompia; ouviam-se salvas nas fortalezas e as naus Medusa, Bom Successo e D. Sebastião, e a fragata Venus, deixavam o porto levando comsigo as tropas que iam defender o nome portuguez ás ordens da Hespanha e da Inglaterra, em serviço d'um throno onde devia ter logar tempo depois a adultera Carlota Joaquina. 

Gomes Freire, no convez da nau fallava com o primo e com Alorna e deixava errar a sua vista pelo palacio da Ajuda, que lá estava no alto abrigando a mais criminosa das princezas. 

E as fortalezas salvavam sempre á passagem das naus embandeiradas e flammantes, os soldados soltavam vivas que vinham até á praia n'uma algazarra confusa. 







FIM DO PRIMEIRO VOLUMESEGUNDA PARTE 







OS PEDREIROS LIVRES 







XXVI 









O algoz da rainha 





Era tarde, muito tarde, por uma quasi madrugada linda em que as estrellas empallideciam. O palacio real da Ajuda jazia na paz doce d'altas horas, as sentinellas dormitavam envoltas nos capotes, extranhas ao que se passava no intimo da regia morada. No largo da Ajuda a egreja de Nossa Senhora em face, bem como a alta torre do relogio, marcavam sombras collossaes de granito nas trevas, erectas e grandiosas como animaes antidelluvianos n'uma espectativa traiçoeira. Do pateo das Damas chegava o som vago da guitarra d'algum trovador de deshoras. 

E um vulto negro, pesado, d'um andar lento de phantasma rompia do corredor dos aposentos reaes em direcção ao rez do chão onde habitava a rainha louca. -- Sentinella alerta! bradaram de fóra a altearem a voz; e logo outra respondeu no circuito do palacio das bandas do mirante: A'lerta está! 

O vulto estacou; depois caminhou de novo na mesma andadura lenta para os aposentos da soberana, empurrou a porta e sumiu-se no escuro da ante camara. 

Uma aia, muito joven ainda, de rosto pallido como roida por alguma doença occulta, estremeceu e ergueu-se soltando um grito: 

O embuçado olhou-a e disse pausadamente: 

-- Boa noute, D. Maria de Penha! 

-- Oh! Fizesteis-me medo, senhor bispo do Algarve! 

O bispo sorriu torvamente, olhou-a e tornou: 

-- Medo?! Acaso acreditaes também na lenda dos phantasmas que corre no palacio? 

-- Se acredito?! Mas, senhor bispo, ao romper da madrugada foi visto um vulto ainda a noute passada deslisando pelo corredor dos aposentos reaes e no dia seguinte a princeza D. Carlota Joaquina apparecia semi-suffocada no seu leito com traços evidentes de estrangulamento. 

O bispo retrahiu o sorriso e em voz pastosa volveu: 

-- Quereis dizer que o phantasma buscou victimar a esposa do regente?! 

-- Deus me livre de tal affirmar, eminencia... redarguio ella. Penso apenas que no paço se dão factos bem extranhos... 

Sua grandeza fez uma nova saudação e penetrou nos aposentos da rainha, murmurando: 

-- Os olhos do Domingos dos Reis já teem fóros de dedos de phantasma!... Sim, é provavel que o seja brevemente!... Mas como se acreditam em lendas! 

Parou uns momentos á porta ao vêr a rainha ajoelhada em frente do oratorio e disse novamente: 

-- Oh! Deliciosos os taes phantasmas! e em voz alta tornou para a rainha: 

-- Com que então rezaes ainda, senhora? 

-- Sim... sim... rezo... disse na sua voz entrecortada, esboçando um sorriso bem medroso. 

-- Continuaes ainda a recear pela vossa alma?! 

-- A minha alma?!... Oh! Vejo-a... vejo a, ella vae a caminho do ceu, mas detem-se... Os Tavoras... os Tavoras... agente do patibulo!... Embargam-lhe o caminho, accusam-n'a aos pés de Deus... Rainha!. rainha!... Os filhos pagam os crimes dos paes!... Rehabilite os meus!... 

-- Ouvisteis emfim?! gritou elle deveras contente. 

-- Sim, ouvi! murmurou a rainha toda suggestionada. Ouvi e deliberei rehabilital-os! Amanhã, sim, amanhã mesmo, mandarei por essa cidade os arautos! Quero justiça porque busco salvar-me! A salvação é tudo!... 

-- Assignareis o decreto?! 

-- Sim... sim... Mas dizem-me louca... Quem sabe se o farão correr! 

-- Respondo por tudo... Carlota Joaquina se encarregará da vossa vontade! 

-- Querida filha, ella tudo fará... Onde está que a quero beijar... Sim... A ella e ao meu João... O meu João?! Ah! Tive outro filho... Era bem heroico, bem talentoso, mas partiu como os Tavoras... Morto... morto! e a soberana soltava um grito formidavel e erguia-se n'um acesso nervoso: 

-- Vejo-o! Vejo!... 

Erguia as mãos a tapar o rosto, depois buscava affastar o duende que julgava perseguil-a; os seus gritos atroavam o palacio d'alto a baixo e o bispo dizia em voz socegada: 

-- Meu Deus, penhora... Deixae esses sobresaltos... Deus vela por vossa magestade! 

-- E entrarei no ceu?! exclamava de repente no auge do delirio. 

-- Sim... O ceu com todas as suas bellezas vos aguarda... Tereis um sequito d'anjos para vos conduzir aos pés de Deus! Elle vos receberá no seu throno divino, esmaltado de sol, vestido na tunica azul das nuvens.. Senhora... Assignae a rehabilitação dos filhos dos Tavoras, institui na posse dos seus bens os herdeiros sobreviventes e tereis o perdão... 

-- Terei a paz.. terei a paz?! 

Sim, tereis o descanço.. asseverou elle com um olhar rancoroso por detraz dos seus oculos verdes. 

Oh! bispo... Papel... papel... Quero assignar. . tudo que desejaes eu te farei... 

Soltou uma risada de verdadeiro contentamento, correu para elle de braços abertos a resmungar o seu estribilho: 

Tudo farei... tudo farei...

Então José Maria de Mello tirou da algibeira o decreto de rehabilitação dos Tavoras redigido em regra e collocou o sobre a mesa, dizendo: 

-- Assignae n'esse caso... Assim exprimireis uma vontade a que vosso filho não será indifferente. 

Pareceu ter uns momentos de lucidez e bradou: 

-- Elle?! João?! Julga-me louca tambem... Não... nem me quer fallar... 

-- Assignae! ordenou o bispo no seu tom feroz. 

-- Mas, e se não levarem a effeito a minha vontade?! 

-- O castigo será dos que esqueceram os vossos desejos! 

-- Seja! 

Agarrou a penna, curvou-se sobre o papel, mas de seguida soltou uma risada e volveu: 

- O castigo... o castigo... Eu não quero o meu João no inferno! Nada farei... Já basta que José e meu esposo assim como Thessalonica tenham morrido por minha causa... Nunca! Nunca!

-- Assignae! ordenou de novo no seu tom de severidade. 

Mas soou uma voz á porta, exclamando: 

-- É assim, bispo do Algarve, que desejaes enriquecer?! É assim que buscaes a fortuna que o cardeal da Cunha vos negou?! 

Voltou-se atemorisado e viu um vulto inteiramente negro, e mascarado, em cujo peito havia um triangulo bordado a prata n'um emblema maçonico. 

As mãos estavam occultas nas dobras do trajo e aquelle phantasma caminhava lentamente para a mesa. 

O bispo tornava-se livido, unia-se com a parede e continuava a tremer emquanto o outro tomava silenciosamente o decreto. A rainha olhava-os petrificada, sem um grito, e o mascarado dizia ainda: 

-- É então pela violencia, pelo terror espalhado no animo d'uma mulher fraca, pela cumplicidade com uma mulher forte que buscaes subir em honrarias e em dinheiro?! 

Atemorisava-o sempre do mesmo modo, dizia: 

-- Entrasteis aqui pelo crime, pela traição mais hedionda, porque eu sei a vossa historia, antigo oratoriano, frade perverso!... Descendeis dos Tavoras e no fundo da vossa alma a par do rancor ha a ambição... Os vossos morreram no patibulo do caes de Belem e um pensamento de vingança vos chegou... Então, posto ao facto dos segredos da côrte pelos vossos companheiros, os jesuitas, penetrasteis aqui com as sandalias de humilde, disposto a calçar os borzegums de cortezão da mais abjecta das princezas... E os vossos 

borzegums foram substituidos pela bota ferrada do guerreiro... A bota de infamia e perfidia com que calcaes a vossa rainha!

-- Senhor... senhor... murmurou o bispo em voz estrangulada. 

-- Ouve miseravel, estamos sós e é de madrugada... Amanhã o teu corpo apparecerá ahi para um canto, rigido e frio e ninguem saberá a causa da tua morte, então ouve, ouve tudo! 

-- Eu sei a tua vida, conheço as tuas infamias uma a uma, seria capaz de as narrar se não constituissem um tão longo estendal! 

-- É então certo que existem os phantasmas?! murmurou com os olhos dilatados, suffocado. 

-- Phantasmas?! Ah! Vil bargante!... Os phantasmas d'Ajuda são inventados por ti! 

-- Por mim?! e os cabellos raros eriçaram-se lhe ao ouvir aquellas palavras. 

-- Sim por ti que nem deixas em descanço os mortos, os que jazem nas campas! Tu os invocaste para occultar a perfidia de Carlota Joaquma! Vamos! É ou não assim?! 

Ante o tom brusco do mascarado, o bispo disse: 

-- Sim... sim... 

-- E para que os invocaste?! Não acreditavas n'elles talvez?! 

-- Não... não... mas agora!... e os dentes chocavam-se-lhe, 

tornava-se cada vez mais livido. 

-- Falla! Para que os invocaste?! 

-- Para explicar a doença da princeza... 

-- A doença... o estrangulamento cuja noticia correu na cidade?! Sim... sim... 

-- E quem a estrangulou? 

-- O amante! balbuciou elle muito á pressa. 

-- O almoxarife não é assim?! 

-- Sim! 

-- Pois bem, José Maria de Mello, tenho a prova da tua traição. 

Entrei aqui disposto a fazer justiça e vaes morrer... 

-- Morrer?! exclamou no auge do desespero. 

-- Sim, morrer! Tu és um perigo para este reino... Tu es um cumplice dos jesuitas, tu dominas o animo da soberana e queres fazer Carlota Joaquma a rainha de Portugal mesmo com a exclusão de seu esposo... 

-- Por Deus, duende?! 

-- Duende?! Não quero mystificar te na hora derradeira, bandido!... Eu sou um mortal como tu... Pertenço á cathegoria d'aquelles que aproveitam as lições recebidas no convivio dos bons!... 

-- Quereis dizer?!... 

-- Que sou um pedreiro livre e que vaes morrer! 

E sacou rapidamente d'um punhal que apontou ao peito do bispo o qual nem teve coragem para gritar. 

- José Maria de Mello! Chegou a tua ultima hora... ninguem, nem mesmo essa soberana que enlouqueceste poderá salvar-te... Se ella gritar ninguem virá porque a isso os habituastes para os teus fins! 

-- Sim... Que importam os gritos d'uma louca?! No palacio todos dormem regalados nos leitos fôfos deixando commetter o crime em socego... O regente resa e desespera-se com o adulterio do seu thalamo, cuida dos frades de Mafra e esquece sua mãe... A princeza Carlota Joaquma, delira e é estrangulada pelos amantes, conspira e tem-te por cumplice! Essa nunca acordaria para salvar alguem! Maria Benedicta é uma extranha no palacio dos seus maiores... Os cortezão? riem, os creados seguem-lhes os exemplos e tu vaes fazendo a tua obra em segredo no meio da indefferença geral!... Ca- 

lumnias o dr. Willis, ninguem se atreve a atacar o teu poder! 

Um novo vulto entrava pé ante pé e deslisava na ante-camara real, ficava á porta, e ao ouvir as ultimas palavras do embuçado, bradava: 

-- Esqueceis o bobo! Esqueceis o bobo! Esse vela na sombra noute e dia com as lagrimas nos olhos e a gargalhada nos labios, a ira funda no coração angustiado! 

-- Tu?! gritou o maçon deparando com D. João de Falperra o qual se atirava aos pés da rainha a beijar-lhe a fimbria do vestido. 

E sempre de rastos, continuou: 

-- Eu, sim... eu que tenho vigiado passo a passo, dia a dia, este homem, este miseravel, eu em cuja alma cresce o odio... 

O bispo deixou-se cahir n'uma cadeira julgando-se victima d'um pesadello e D. João de Falperra continuou: 

-- Eu que dia e noute, já o disse, vagueio em torno d'este aposento a escutar os gemidos de minha ama! Oh! E tenho ouvido cousas?! 

-- Que tens ouvido?! interrogou logo curiosamente o pedreiro livre. 

-- Tudo! Elle... elle... ameaça-a, a rainha grita, chora, deplora a sua sorte! Foi elle que a enlouqueceu, eu bem o sei... Tavora maldito, reprobo, infame! Tavora que busca uma vingança e o ouro! 

-- Tens a certeza?! tornou o embuçado. 

O bobo soltou uma risada e redargiu: 

-- Sim! Eu recebo os pontapes da turba incapaz d'uma gloria, mas guardo no meu coração o rancor! Outr'ora, eu, o bobo, era adulado, quando ella tinha o poder, eu era poderoso tambem... Mas mudou a sorte e eu tornei-me um objecto de escarneo. Todos se vingaram de mim como da minha ama... Elles são como os persas... Quando o sol vae alto adoram-n'o, quando desce apedrejam-n'o... 

O conceito sahiu-lhe dos labios onde havia uma espuma esbranquiçada e elle tornava: 

-- Elles, os jesuitas, guiados pela vontade tenaz d'este miseravel, mataram, Thessalonica, o meu amigo, o meu velho compadre, e mataram sua alteza! Eu vira-o crivado de bexigas, em soccorro! Nem uma gotta d'agua! Depois apossaram-se do animo da rainha e enlouqueceram-na! Desde esse dia deliberei vingar-me! 

-- Segues então um plano?! interrogou o outro. 

-- Sim! O plano existente no meu cerebro que me escalda como um ferro em braza! Eu queria matal-os, queria matai os!... Primeiro aquella que busca ser rainha, depois este!....Mas o bispo será o primeiro... Os meus dedos são fortes, a minha vontade é boa!... 

Os dentes rangiam-lhe, tornava-se livido pouco a pouco e de seguida, gargalhando, perguntava: 

-- E tu a que vens?! 

-- Para o mesmo fim! redarguiu o pedreiro livre. 

-- O que?! Tu!!... Um extranho, um desconhecido! Olá para traz que não conheces o bobo?!... Jurei que seria eu o carrasco do algoz da minha rainha e sel-o-hei! Que tens tu para ferir? perguntou de novo a casquinar o seu riso. 

O maçon tirou de sob as vestes um punhal afiado ante cuja lamina o bispo desfalleceu. 

A louca olhava-o serenamente sem um grito como se advinhasse n'aquelle homem o libertador. 

-- Um punhal?! Oh! És doudo!... As mãos do bobo, as garras afiadas do lobo cerval valem mais do que todas as armas! Depois quero ter a frieza de o ver estrebuchar de rojo aos pés da rainha, vermelho, pouco a pouco roxo a supplicar-lhe o perdão... Queres ver?! Queres ver o que é?!... Oh! Lindo! Lindo! 

Guinchava novo riso, agarrava convulsivamente as vestes e de dentes cerrados, n'uma visagem de doido, encolhido como um tigre prestes a saltar sobre a presa avançava para José Maria de Mello que se tornava livido. 

Depois d'um salto de fera atirou-se-lhe á garganta com as mãos crispadas, obrigou-o a ajoelhar-se em frente da rainha, bradando: 

-- É assim... é assim!... 

-- Perdão... perdão... rouquejou o bispo quasi estrangulado, os olhos a revolverem-se nas orbitas. 

-- Não ha perdão para ti, infame! 

Apertava cada vez mais e a rainha ao ver aquelle homem debater-se correu para a porta gritando espavorida: 

-- Soccorro!... Soccorro!... 

Atravessava a ante-camara antes que o embuçado a pudesse deter e a aia ao vel-a n'aquelle estado começava tambem a gritar, ao mesmo tempo que o pedreiro livre se esgueirava pela porta aberta, murmurando: 

-- Oh! Posso partir descançado!... e atirou para o chão o punhal em cuja lamina se lia: Pelo bem. 

Era aquelle o symbolo maçonico tão temido e que ali ficava n'um desafio emquanto o bobo apertava o pescoço do bispo. 

Mas na antecamara ouviam-se passos, D. João de Falperra soprava as velas com violencia depois de julgar bem morto o adversario cujo corpo ficava por terra e corria para a sahida atirando ao chão o primeiro gentil-homem que entrava e soltava um grito. Os outros fugiam tambem ao recordarem-se da lenda do phantasma e ao sentirem-se empurrados ao passo que o bobo sahia de rompante. 

Ao entrarem d'ahi a momentos nos aposentos da rainha que estava nos braços de duas damas semi-desfallecida, viram por terra o corpo do bispo e ficaram espavoridos. 

Algumas vozes tremulas murmuraram ao verem lhe os signaes d'estrangulamento em torno do pescoço: 

-- O phantasma! O phantasma! 

Ninguem se approximava; lançavam olhares para todos os lados e um creado partia a chamar o dr. Willis. O medico inglez entrou nos seus modos severos, lançou um olhar para o bispo e murmurou: 

-- Hum... Trata-se d'uma cousa passageira... É a asphyxia... Abram as janellas! 

Voltou as costas e partiu sem pronunciar palavra emquanto os outros ficavam em torno de sua grandeza cuja face retomava o habitual aspecto. 

Fazia um movimento, lançava em roda um olhar desvairado e dizia em voz rouca: 

-- Onde estão?!... Onde está elle?!... 

-- Foi o phantasma?!... Sim, viu-o, vossa grandeza? exclamou D. Maria da Penha deveras perturbada. 

-- Sim... sim... volveu manhosamente o bispo. Viu-o, caminhou para mim e os seus dedos pareciam tenazes a apertarem-me a garganta... 

Deixara que o levantassem e com um olhar para a rainha, tornava: 

-- Devemos sahir d'este palacio! Aqui nem mais uma noute... 

Eu viu-o... Era negro, muito negro, tinha um aspecto horrivel e fez me mal... Já ha dias buscou fazer o mesmo á nossa princeza! Este paço real precisa benzido!... 

-- Que se passou?! perguntou n'este momento uma voz authoritaria. 

Todos se voltaram e depararam com o regente que se acercava de sua mãe. 

-- O phantasma, meu senhor!... Tentou contra a vida de sua grandeza! explicou um aulico. 

-- O phantasma?! exclamou o principe com assombro. E que dizeis a isso, monsenhor? 

-- Que devemos sahir d'Ajuda! volveu no mesmo tom desesperado e com as lagrimas nos olhos. 

-- Sim... Iremos para Samora! E vós, meu amigo, deveis deixar o reino com sua magestade! disse nos seus modos bondosos. 

-- Eu?! E para onde, meu senhor? 

-- Para Inglaterra onde minha mãe pode receber allivio ao seu mal! 

O bispo estremeceu, tornou-se ainda mais pallido e murmurou: 

-- Meu senhor... Uma soberana jamais deve abandonar os seus estados! 

-- Salvo quando a cura está longe e essa soberana está louca! Depois vós precisaes tambem a viagem que vos curará d'essas impressões dos phantasmas! 

E sua alteza apesar do espirito sectario fallava ousadamente como se julgasse ao abrigo d'essa malevola personagem. 

-- Obedecerei a vossa alteza, disse o bispo sahindo entre dois cortezãos e lançando ao regente do reino o mais feroz dos seus olhares amortecido nos oculos verdes. 

D. João sahiu em seu seguimento e ao penetrar no seu quarto tirou da algibeira o punhal do maçon que elle encontrou á entrada da porta e contemplando-o, lendo a divisa gravada na lamina, murmurou: 

-- Pelo bem!... Pelo bem!... Oh! É deveras extranho o tal phantasma! Deixou um bom cartão de cerimonia! Pelo bem?! Mas n'esse caso, o bispo é pelo mal!... e deixou-se cahir n'uma cadeira a meditar. 

De fóra as sentinellas bradavam os seus alertas e nos fortes içavam-se as bandeiras aos primeiros vislumbres da madrugada. 

O paço agora apenas era atroado pelos alertas retumbantes dos vigias. 

O primeiro raio de sol rompia lá de baixo na sua claridade alegre d'apotheose. 







XXVII 



A benção da bandeira 





Os coches reaes pesados e guarnecidos de figuras allegoricas, as rodas de grandes dimensões, as caixas de vidraças crystallinas, almofadados a velludo carmezim, rodavam na sua lentidão, puchados a seis parelhas de mulas empenachadas, a caminho da Sé onde se ia benzer a bandeira que D. João, regente, enviara á legião portugueza que entrava na guerra com a França em auxilio á Hespanha. 

Os moços destribeira de cabelleiras empoadas, os sotas nas vestes brilhantes, toda aquella pompa real dava ás ruas uma nota garrida ao passarem por entre as alas de povo que se descobria respeitosamente ante os soberanos e ante a côrte. Aquelle luxo d'equipagens recordava os tempos de D. João V pelo fausto, pelo enorme sequito. 

O principe recortava a sua figura balofa, o peito coberto de condecorações, traçado de bandas, alli ao lado de Carlota Joaquina, vestida de manto com todos os attributos do seu elevado cargo, o rosto moreno de hespannola radiante ao julgar-se já a rainha ao ver as saudações d'aquelle povo agglomerado. 

Pelas ruas rufavam os tambores e as tropas alinhavam-se garridas nos uniformes, baixavam-se espadas e bandeiras á passagem de suas altezas sob um bello céu azul de apotheose.

Em frente do templo a guarda real dos archeiros, perfilou-se as portinholas abriram-se e as altezas desceram e penetraram no templo vetusto. 

Sob as altas abobadas os orgãos resoaram, elevaram-se as vozes dos castrati da capella real, n'um hymno festivo e a côrte enfileirada seguia os seus soberanos até ao altar-mór onde as mitras dos bispos se erguiam nos seus reflexos d'ouro, no brilho das pedrarias.

Ajoelharam então, o patriarcha de Lisboa na sua doce attitude de bom prelado traçou nos ares uma pomposa benção e os officiaes maiores, coroneis e generaes que guardavam o sacrario curvaram-se nas suas reverencias. 

A familia real subiu para a tribuna enfeitada a carmezim e fez-se um silencio breve. 

Então, o patriarcha, aprumou a estatura e fez um novo gesto os orgãos calaram-se, sob a immensa abobada apenas se ouvia a respiração anciosa dos espectadores. 

Uma pomba veiu das alturas voando e foi pousar n'um dos nichos a manchal-o na sua alvura sagrada; na rua ouviam-se pregões de cegos andantes anunciando o fim do mundo em linguagem cantarolada. 

Então, o ministro da guerra, avançou até junto do patriarcha, offereceu-lhe a bandeira bordada que iria em breve para a legião e no povo houve um fremito extranho. 

O prelado hesitou uns momentos. 

Os olhos de Carlota Joaquina erravam pelo templo sentindo-se grande em frente d'aquelle povo que se ajoelhava emquanto ella estava sentada ao lado do esposo. 

Lembrava-se da sua vida inteira, de todo o fogo amoroso que a devorava e ao ver a pleiade de generaes velhos, achacados, toda a sua côrte decrepita ou effeminada, ella, a futura rainha pousava os olhos nos bellos mocetões do povo que alli estavam n'um grande respeito ante a cerimonia. 

As mulheres então, nas suas vestes domingueiras prejudicavam-lhe o pensamento de que estava possuida. Aquella dama de sangue real que tinha na sua ascendencia mais valorosos varões, esmagada na tara hereditaria d'esses degenerados, sentindo borbulhar-lhe o sangue corrompido procurava alguem a quem amar nos seus impetos fortes. 

Era uma bem extranha organisação a d'aquella mulher com a sua vontade insatisfeita, procurando satisfazer caprichos a toda a hora, sempre nos mesmos desejos loucos. 

O cheiro do incenso e o cheiro da carne humana davam-lhe apetites de leoa, passava na mente a recordação de todos os seus amantes e encolhia os hombros imperceptivelmente como se os desprezasse. 

Queria ser amada e dominadora; n'ella, a mulher rendida ao affecto não occultava a rainha altiva e forte. 

Os seus amantes queria vel-os mortos quando deixasse de os amar; no emtanto, os cuidados da politica, a rede immensa que estendera em volta e da qual elles faziam parte obrigava-a a respeitar-lhes a vida. 

Desde o primeiro, o fidalgo de bellos olhos, carinhoso como uma mulher, até ao ultimo, o plebeu rude que a esmagava com a sua força physica, a nenhum amara tanto como a este. 

Deixava então voar o seu pensamento para elle, desejava ardentemente tel-o alli a seu lado, cheio de amor, em vez d'esse marido boçal que era todo attenções para a cerimonia. 

Vinha-lhe o pensamento de o cumular d'honras, eleval-o aos mais altos cargos embora com escândalo de toda a côrte, collocal-o a seu lado e protegel-o com aquelle manto d'arminhos que arrastava. Tinha n'esse Domingos dos Reis um servo dedicado, era para ella como Pasqual Simoni para Maria Carolina que então reinava em Napoles, tendo mais a seu favor o ser sabedor dos segredos das suas vinganças e dos do seu corpo de princcza. 

Depois evocava esse Nuno Freire, o mancebo apaixonado pela outra que ella buscara arrancar-lhe dos braços, e o seu peito inchava-se de raiva no desejo de o esmagar, bem como aos cumplices da comedia a que assistira. 

Mas áquella hora já elle devia ter morrido. Soubera dar as suas ordens; paia Jacques Lebon, Domingos dos Reis, para os outros o conde d'Alva e o seu amigo D. Miguel Forjaz. 

Agora o patriarcha pronunciava as palavras sagradas; todos se erguiam, tocavam as cornetas e rufavam os tambores, e o joven official encarregado de levar a bandeira á legião, tomava-a, todo aureolado na luz que vinha do alto. 

Era muito novo ainda, apenas alferes; um desconhecido, o filho d'alguma familia provinciana, mas no seu rosto havia o ardor da gloria e a princeza sentia-se estremecer ao vêl-o abater a bandeira na sua frente n'uma saudação; elle ficava tambem perturbado sentia-se estremecer.

- Como vos chamaes?! - interrogou na sua voz mais cariciosa. 

-- André de Meira. 

-- Sois alferes? 

-- Para servir vossa alteza. 

A princeza olhou-o ainda e interrogou: 

-- Quando partis?! 

-- Hoje mesmo, senhora! 

Soltou um suspiro e volveu: 

-Pois ide, senhor André de Meira e distingui-vos que eu saberei recompensar-vos. 

Fallava mais como rainha, sem olhar o marido, deveras presa na gentileza do joven alferes, que se curvava novamente. 

O patriarcha dava de novo a sua benção aos assistentes, a familia real desça da tribuna, e o immenso cortejo punha-se de novo em marcha para a porta, entre a pompa grandiosa do sequito. 

Os coches começavam a rodar novamente e a princeza ao lado do esposo entrava a meditar. 

- Vamos sahir d'Ajuda, senhora?! -  disse a voz pastosa de D. João, dirigindo-se á esposa, que exclamou: 

- Sahir d'Ajuda?! - e o seu pensamento voou logo para o amante predilecto de quem buscavam affastal-a. 

-- Sim... 

- Mas deve haver uma razão, senhor! - disse ella com certo embaraço. 

-- A razão é que começa a correr certa lenda... 

-- O phantasma?! 

-- Sim... 

-- Oh! alteza não o acrediteis... 

D. João olhou-a pasmado e murmurou: 

-- Mas, senhora, julgo que ieis sendo estrangulada no vosso leito?! 

Corou, ficou mais embaraçada e retorquiu: 

-- Talvez um pesadello!

-- Os pesadellos não deixam vestigios! 

-- Mas podia ser uma doença... 

-- Senhora... N'esse caso ella é bem contagiosa... Eu vi esta manhã alguem no mesmo estado!

-- Visteis?! E quem, meu senhor? 

-- O bispo do Algarve! Tanto que deliberei affastal-o do paço... 

-- Desterrado?! -- gritou Carlota Joaquina, como se pensasse que o marido descobrira todas as suas conspirações, e tornando-se pallida. 

-- Desterrar sua grandeza?! -- volveu elle no mesmo tom - Mas a razão? 

-- É simples: o desagrado de vossa alteza... 

-- Ao contrario, vou até confiar-lhe uma missão de confiança... 

-- Qual?! O bispo é confessor da rainha! -- e ella fez-se livida temendo vêr fugir a vingança. 

-- Pois essa missão é junto de sua magestade! Irá a Inglaterra com minha mãe! Só ali poderá receber allivios... 

Carlota Joaquina viu tudo perdido; entrou a vêr a rainha restituida ao uso da razão, o que a affastava a ella do throno, e redarguiu: 

-- Mas, meu senhor... Uma rainha não deve sahir do seu reino... 

-- Ouvi... -- e elle, com uma expressão pesarosa na face molle, começou: 

-- É bem pesado para mim o otficio de reinar! Temo a todos os momentos a sorte do infeliz Luiz XVI... Penso por vezes que Deus castigou-me matando o meu pobre irmão... 

Nos olhos da princeza passou um clarão odiento e exclamou: 

-- Quereis então dizer que não nascesteis para o governo?! 

-- Não. 

-- Senhor... Um principe, um filho de rei, tem o dever moral de governar o seu povo quando para isso é chamado pelos designios da Providencia! D. José II teria sido um mau rei com todas as suas ambições, com toda a sua mania de reformas herdada de Sebastião José! Vós sereis o rei que convém a este povo... Tereis de o ser apesar de tudo! Vossa mãe não reinará mais de facto! 

-- E se recuperar o uso da razão? 

-- É um impossivel! 

-- Que dizeis? Se o doutor Willis o affirma! 

-- Loucura!! Reuni o conselho de estado... Sem elle não deveis tomar tal resolução... 

-- Porque?! Não sou seu filho?!

-- Mas antes de tudo sois seu subdito! A guerra ateou-se entre nós, a Inglaterra e a Hespanha contra a França; é arriscada a travessia... Ouvide vossos ministros, eu vol-o aconselho! 

-- Ouvil-os-hei! Sim devo ouvil-os! -- murmurou o regente já todo medroso ante as palavras da esposa. 

Parecia-lhe que sua mãe seria para os francezes como represalia, e estremecia, deliberava logo proceder cautellosamente. 

Carlota Joaquina rejubilava ao recordar-se da sua influencia na maioria do conselho de estado, que votaria contra o projecto da sahida da rainha; pensava em affastar desde logo o medico inglez, via imminente a morte de Maria I e sentia então pousar na sua cabeça a corôa de Portugal, com todo o poder que o marido lhe abandonaria. Então, sendo a unica senhora, teria de rastos a seus pés um povo inteiro e elevaria os seus amigos até ao poder mais dilatado. Eram todos aquelles planos que se lhe chocavam na mente ao perguntar: 

-- Sempre teimaes em sahir da Ajuda?! 

-- Sim... 

-- E para onde? 

-- Para a Amora... 

-- Senhor... Tenho uma graça a pedir-vos... -- murmurou com o mais encantador dos seus sorrisos. 

-- Dizei... 

-- Amora não me agrada; desejava antes... 

-- Queluz?! 

-- Ou Cintra... No paço real do Ramalhão passa-se bem a vida! 

-- Pois ireis para o Ramalhão... -- assentiu elle de bom grado, tomando-lhe a mão e levando-a aos labios. 

-- Senhor... Ha alguem a quem desejo galardoar... 

-- Quem é?!

-- Domingos dos Reis! -- disse sem grande enthusiasmo, fallando muito proximo do marido. 

-- O almoxarife?! 

-- Sim... Não o quero mais tempo no paço do Ramalhão n'uma posição subalterna...

-- Subalterna?! Não é elle o senhor, não manda nos creados, não é respeitado?! Já é de mais para o filho d'um carreiro, para um moço d'estriberia! 

-- Que no emtanto é bem fiel a vossa alteza! 

O regente encolheu os hombros e resmungou: 

-- Dar-lhe-hemos uma pensão, uma commenda! 

-- Tinha pensado... 

-- Em que?!

-- No logar de capitão-mór de Cintra! 

-- Elle?! -- gritou D. João cheio de assombro. 

-- Sim, elle... 

-- Mas tenho outros fieis servidores a recompensar... -- exclamou o principe de mau humor. 

-- N'esse caso, vossa alteza fará o que fôr de sua real vontade... Eu o nomearei... 

-- E o que? 

-- Mordomo da minha casa!

-- Mas é o logar do marquez da Fronteira... Esse cargo só pode ser exercido por um nobre... 

-- Nobilital-o-hei! -- disse ella com desplante accrescentando: 

-- Sou caprichosa, bem o sabeis, senhor!

-- E no meio dos vossos caprichos esqueceis que sou o regente e que só eu posso nobilitar alguem... 

-- Em Portugal! Mas esqueceis, senhor, que sou irmã d'el-rei de Hespanha?! 

D. João, baixou a cabeça, apeou-se do coche á porta do palacio e murmurou: 

-- Tereis a sua nomeação de capitão-mór de Cintra. 

A princeza entrou radiante nos seus aposentos, lançou um olhar para o espelho, onde se reflectia o seu manto e as insignias do seu cargo e deparou com D. Antonia de Mello, que lhe dizia; 

-- Elle está ahi! 

- Quem?! 

-- Domingos dos Reis... -- Respondeu a aia. 

-- Oh! Ainda bem... Tenho para elle uma noticia agradavel! Correu para o seu quarto e deparou com o almoxarife, que a encarou com certa colera. 

-- Domingos! -- bradou ella alegremente -- Tenho para ti uma boa noticia! 

-- Algumas vos trago tambem, mas não muito boas! -- e o almoxarife olhava-a sempre do mesmo modo, ante o qual ella estremeceu. 

-- Que quereis dizer? 

-- Que estou farto de vos servir d'instrumento... Sim, farto de servir de instrumento não á vossa politica, mas ás vossas paixões! 

-- Ás minhas paixões?! -- bradou fazendo-se livida. 

-- Sim, Carlota Joaquina, sim! -- tornou elle com severidade -- Negas acaso que amasteis por uns dias um certo cadete de nome Nuno Freire? 

-- Amei?! 

-- Sim.... Tudo sei... E por Deus vos juro que um dia... 

-- Ameaçaes-me?! 

-- Tenho esse direito, sou o teu... 

-- subdito... 

-- O teu amante! Não tolero que no povo as que me amam desçam a ter outros homens, menos o tolerarei comtigo... Querieis então que o meu punhal ferisse Jacques Lebon, o mestre d'armas, só porque elle não soube levar a cabo o que tinheis planeado... 

-- Para a minha politica... 

-- De coração... -- bradou elle com furia. 

-- Que dizes?! 

-- A verdade... Jacques Lebon salvou-se do meu punhal e narrou-me tudo! 

-- Miseravel, é assim que executas as minhas ordens?! -- gritou a princeza no auge da colera -- Ah! e eu pensando sempre em fazer-te subir para que esmagues os fidalgos que te desprezam... 

-- Subir?! E para que?! Não sou ambicioso ao ponto de partilhar a amante para trepar no conceito da côrte! 

- Sahe! - exclamou Carlota Joaquina, apontando-lhe a porta - e nao voltes mais... 

- Que saia?!- disse o almoxarife sibilando furiosamente as palavras. 

-- Sim... insultas, não é assim, pois saberás quanto te custa um insulto... Sae... Hoje d'aqui, amanhã do reino! Sou eu que o quero, entendes bem... 

O plebeu casquinou um riso, cruzou os braços e com aprumo volver:

- És tu que o queres?! E porque?! Apenas porque não matei esse mestre d'armas?! Descança que os esbirros da intendencia, por ordem de teu marido, lhe deitaram a mão por pedreiro livre. Estaes livre d'elle... É o que se ganha em viver na intimidade dos principes... Mas commigo é bem differente, entendes?!... Eu vou sahir do paço, mas atraz de mim deixarei um rasto que passará ao futuro... Na historia dos teus antepassados ha crimes, mas o meu será o mais eloquente ... Carlota Joaquina morta pelo amante - um plebeu, um desgraçado - será um exemplo... 

-- Domingos?! gritou ella deveras assustada. 

-- Tens ainda no pescoço os signaes dos meus dedos e na tua carne os signaes dos meus beijos!... disse elle fulo de colera accrescentando: Tens a arder nas veias o teu sangue eu sinto escaldar o meu, ouves? Sim, sinto escaldar o meu sangue ao recordar-me da tua infamia! Elle era novo, bonito, fidalgo, não é assim?! Amaste o muito?! Deste-lhe os prazeres da tua carne, que é minha, infame?! 

Ella ao ver-se insultada, soltou uma risada e gritou: 

-Sim, amei-o, amo-o... Quero-o para mim ahi tens?!... que podes fazer?! Sou senhora da minha vontade! 

Deitou-lhe a mão a um braço e atirou-a de repente ao chão, tendo o rosto transfigurado pela mais intensa colera. 

E era vêr aquella princeza a rojar o seu manto aos pés do plebeu que escolhera para amante e que bradava: 

-- Repete... Dize que o amas ainda?! 

- Domingos... Domingos!... supplicou ella como louca. 

-- Falla! Despedaça me a alma que eu te deixarei sem vida!

-- Domingos!... Larga-me ou chamo alguem!

-- Oh! Não chamarás! e com os dedos crispados arrojou-a ao chão, tirou da algibeira o punhal que serviria para Lebon e medonho, cheio de ferocidade ergueu-o sob a princeza que ia calcar. 

Ouviram se passos e a aia entrou esbaforida gritando: 

-- Sua alteza, o regente! 

Carlota Joaquina ergueu-se a custo. Domingos dos Reis ficou paralysado depois de esconder o punhal e o pnncipe D. João entrou pausadamente. 

Olhou os, no rosto passou-lhe uma expressão extranha e ao vêr no chão o manto real que se desprendera dos hombros da esposa durante a lucta com o amante, fixou-a serenamente dizendo: 

-- Senhora! Satisfaço a vossa vontade. Aqui tendes a nomeação de capitão mór para o vosso protegido... Domingos dos Reis, agradece a sua alteza... e estendeu-lhe o papel sempre muito friamente e foi para a porta. 

Mas antes de sahir, chamou a aia e disse n'uns longes de ironia: 

-- D. Antonia, levante aquelle manto real que se suja! 

E apontava o manto cahido no chão e que se desprendera dos hombros da princeza durante a lucta. 





XXVIII 



A legião portugueza no Roussillon 







Já havia muitos mezes que os soldados portuguezes tinham começado a bater-se contra as hostes dos republicanos. 

Os hespanhoes faziam avançar os nossos e Gomes Freire obrava prodigios de valor. O conde de União, um hespanhol, general em chefe, tentara desalojar o francez Dugommier mas as suas tropas tomadas de panico puzeram se em fuga. Foi então que Gomes Freire á frente de duas companhias de granadeiros e depois com o regimento d'Olivença poz termo aos combates do inimigo affastando-o corajosamente. 

Os hespanhoes fugiam sempre ante o inimigo emquanto os portuguezes sustentavam o fogo. 

Na Catalunha, o regimento Gomes Freire e o 1.º do Porto obraram prodigios, na Montanha Negra o regimento d'Olivença e o 2.º do Porto sob o commando de Bernardim Freire, tio do coronel, sustentou o ataque do inimigo ficando o proprio Bernardim fendo n'um braço. 

Os portuguezes tiveram ordem de avançar quando o exercito já estava em retirada e o 2.° regimento do Porto sob as ordens de Ernesto de Werna foi cercado por quatro columnas inimigas, sendo obrigado a render-se ante a superioridade do inimigo, entregando-se 278 homens. O regimento Gomes Freire retirou-se a salvo, mas a artilharia foi abandonada. 

O general Dugommier, o francez intrepido, morreu n'esta batalha de Montanha Negra mas foi logo substituido por Perignon. 

Diante de todos estes desastres, as tropas hespanholas retiraram-se após a morte do seu general, conde de União. 

O marquez das Amarillas tomou o commando e entrou com a sua gente no castello de Figueras. 

O exercito hespanhol apresentava um aspecto desolador estendido pelo campo, os doentes cabidos por terra sem soccorros, os outros cançados de marchas. As munições estavam em poder do inimigo, no emtanto, em Figueras, encontraram reforços para poderem dar nova batalha. 

Os portuguezes abandonados mais do que os hespanhoes soffriam a peor miseria e um vento de revolta passeiava no animo dos soldados sem pão e sem abrigo. 

A bandeira hespanhola ondeava no alto da fortaleza e o conselho dos generaes estava reunido sob a presidencia do marquez das Amarillas. 

Os generaes hespanhoes eram em maior numero do que os portuguezes. 

Estes formavam á parte e ouviam os planos dos seus chefes, esmagados, n'uma posição subalterna. 

Estavam alli os marechaes D. João Correia de Sá e José Correia de Mello, D. Antonio de Noronha e D. Franciseo Xavier de Noronha e o cheíe de estado-maior marquez de Alorna que deixara o commando da sua legião ao seu tenente-coronel. Tinham sido estes os unicos officiaes portuguezes dmittidos ao conselho além do general em chefe João Forbes que occupava o legar á direita do marquez das Amarillas. 

Cá fóra na campina innundada de sol, os soldados deixavam obrar os seus superiores, amodorrados, cabidos. 

Os desastres successivos prejudicavam a diseiplina, a fome dispunha para a desobediencia todos os soldados e se n'uns havia o desejo de resistir aos francezes, n'outros havia a vontade de se entregarem. 

O marquez de Alorna acabava de apparecer á porta da sala do conselho e lançava um olhar para a planicie pejada d'homens. 

-- Que resolveu o conselho, D. Pedro? perguntou n'este momento a voz de Gomes Freire. 

-- Ora o que eu esperava!... 

-- A retirada?! interrogou o coronel apressadamente. 

-- Sim... Vamos para Gerona! 

-- Ah! E que vamos fazer a Gerona? interrogou elle com certa colera. 

-- É a retirada, amigo... 

Gomes Freire, lançou um olhar em roda, viu os officiaes que o cercavam e exclamou: 

-- Bem... Ouviste lêr a ordem do dia? perguntou pausadamente. 

-- Não... 

-- Pois fica sabendo que ainda uma vez nós fomos esquecidos! Sim, a legião portugueza, os heroes que tem cobrido todas as retiradas desde S. Lourenço de Cerda até á Montanha Negra, foi esquecida! Nem são citados os nossos regimentos e no emtanto em S. Sebastião de Muge, eu ao lançar uma vista ao meu regimento vi que não faltava uma só mochila! Que quer isto dizer?! 

-- Apenas que João Forbes obedece aos hespanhoes e não se atreve a levantar a voz! redarguiu o marquez de Alorna com certa raiva. 

-- E porque motivo não admittiremos meu tio ao conselho?! tornou ainda o coronel. 

-- Teu tio é simples brigadeiro... 

-- Como o hespanhol André Torres! 

-- Que foi nomeado governador de Figueras! 

-- Oh! É uma infamia, D. Pedro, e não me contenho sem o dizer aos nossos irmãos d'armas! gritou elle de forma a ser ouvido pelos ofticiaes. 

Em baixo, havia um sussurro d'approvação e elle ao vêr-se apoiado gritava: 

-- Sim... Nós somos alliados de Hespanha não devemos ser esquecidos... Os nossos soldados bateram-se como leões, as nossas bandeiras não cahiram em poder do inimigo... Qual o motivo porque somos esquecidos?! É a fraqueza do general que se manifesta... 

-- Sem duvida... sem duvida!... bradaram todos. 

D. Miguel Forjaz e o conde d'Alva acabavam de chegar e ouviram as ultimas palavras de Gomes Freire, a seu lado o coronel João Mestral murmurava: 

-- Miseravel! Como elle pretende fazer lavrar a indisciplina! Entretanto o coronel descera do lado do chefe d'estado maior e dizia: 

-- Se não fosse pela honra da nossa bandeira, saberia fazer com que os meus soldados se recusassem ao fogo. É demasiada injustiça para taes bravos, semelhante esquecimento. 

-- Duvido, coronel, que vos obedecessem! disse D. Miguel Forjaz trocando um olhar com o conde d' Alva e com Mestral. 

-- Dizeis?!... 

-- Que nenhum soldado portuguez quereria passar por um traidor... 

-- Traidor, senhor meu primo, traidor e porque?! interrogou severamente o coronel, accrescentando: Acaso é traição não servir os que nos insultam?! 

-- Não vejo o insulto?! disse o conde d'Alva a meia voz. 

O coronel lançou um novo olhar pelo acampamento e volveu: 

-- Vós não o vêdes sr. conde d' Alva porque estaes mais habituado ao trato com os fidalgos da côrte do que com as balas inimigas!... Sabei porém que eu venho da Russia onde a intriga não logrou alcançar-me e que estou prompto a responder pelos meus actos... 

-- Sr. coronel, pareceis apodar de cobardes os fidalgos da côrte! disse João Jacob Mestral em tom escarninho. 

-- E vós pareceis ignorar o que lá se passa... 

-- Que quereis dizer?! 

-- Apenas o seguinte: Todo o portuguez que vê de rastos a honra da sua bandeira, que vê um general curvar-se em face das imposições d'extrangeiros, que assiste á victoria de milhares de bravos esquecidos propositadamente nos bicos da penna dos chefes e não se revolta é um cobarde! 

D'esta vez todos os officiaes estremeceram ante semelhante arrojo e apenas o marquez d'Alorna e Nuno Freire, exclamaram: 

-- Assim é? 

-- Gomes Freire, por Deus vos peço que não continueis! disse então uma voz a seu lado. 

Voltaram-se e depararam com Bernardim Freire, pallido, de braço ao peito em virtude da sua ferida recente e que dizia ainda: 

-- Sobrinho, para que são taes excessos?... 

-- Excessos que são apoiados pelos homens de valor e de coragem e que meu tio ha-de apoiar tambem!

-- Sim amigo, sim... Mas guardem-se para nós as revoltas quando estamos em vespera de batalha Figueras encerra munições, as tropas descançarão e de seguida avançaremos contra os francezes!... Assim votará o conselho!

-- Quem lh'o disse meu tio?! interrogou elle com certa tristeza. 

-- Quem?! Mas a razão... 

-- A mesma que me aconselha a revolta... disse elle novamente. 

-- Mas... 

-- Sim a revolta que estes senhores e meu proprio tio, condemnam! E sabeis a causa da minha colera?! É que vamos para Gerona em retirada e não contra o inimigo. 

-- É possivel?! Em retirada?! gritou o brigadeiro deveras assombrado. 

-- Sim, é possivel ou antes, é certo!

-- Sobrinho, os generaes poriuguezes não podiam acceder a tal! 

-- Mas de que valeram as suas propostas, disse então tranquillamente o marquez d'Alorna. Eu, como chefe d'estado maior assisti a tudo e sahi enojado... O marquez das Amarillas quer a retirada... 

-- E João Forbes acccita as ordens dos hespanhoes! gritou novamente o coronel. 

-- Como bom soldado, obedece aos chefes! defendeu novamente o Mcstral. 

-- Ah! Obedece aos chefes, chamaes então á fraqueza, obediencia, á servil curvatura d'uma espinha, displicina?! 

-- Sr. coronel, insultaes o general?! bradou o outro procurando um desafio. 

-- Parece impossivel tal arrojo! gritaram algumas vozes ao mesmo tempo que o conde d'Alva esboçava um sorriso de vingança satisfeito e se affastava. 

-- Insulto o general, dizeis?! bradou Gomes Freire, cruzando os braços. Insulto o general?!... 

-- Sim, pois que lhe chamaes servil! 

-- Oh! Como sois meticuloso pela honra do vosso chefe e como descuidaes a dos vossos soldados... Eu insulto João Forbes por lhe chamar servil elle deixa de insultar o exercito nem sequer reclamando referencias na ordem do dia para os regimentos?!... Oh! Vedes mal; eu não insulto, pago apenas na mesma moeda aquelles que assim descuram da honra da nossa bandeira!... 

-- Muito bem! bradaram algumas vozes, ao mesmo tempo que grande numero de officiaes caminhavam para Gomes Freire de mão estendida. 

Mestral tornou-se livido ao ver que apoiavam o outro e bradou: 

-- Coronel, reparae que estaes fazendo lavrar a discordia no exercito... 

-- Eu?! 

-- Sim, vós que trazeis da Russia a reputação d'heroe e fallaes com desassombro contra os intrigantes, procedeis mais como intrigante do que como heroe... 

-- Agora é de vós que parte o insulto... Eu não intrigo fallo apenas como um homem que se indigna ante a perfidia dos outros! Intriga?! Acaso a julgaes digna do meu caracter?! 

O outro olhou-o, hesitou por momentos em responder e de seguida disse: 

-- Não é outro o vosso procedimento... 

-- Vamos?! Dizei abertamente alcunhas me d'intrigante?! 

- Os olhos do coronel chispavam, encarava o outro ousadamente esperando apenas uma palavra. 

-- Dizei?! insistiu elle deveras excitado encarando o outro. 

-- Mas se fallaes d'esse modo do general em chefe, se quasi o accusaes de roubar a gloria dos seus soldados... Dizei, agora vós, coronel, negaes que o tivesseis affirmado? 

-- Negar?! Oh! Não o affirmei mas devia fazel-o... Mas nunca se perde por esperar e digo o agora aqui bem alto... João Forbes é um serventuario dos Hespanhoes! As tropas portuguezas, o meu regimento, como o de Peniche, como o d'Olivença, como os do Porto, portaram-se como heroes e os seus nomes não foram citados! Ha officiaes como meu tio, como Pamplona, como Nuno Freire e  André de Meira, o porta-bandeira, que obraram prodigios e nem sequer foram louvados! 

-- Por Deus, coronel que esqueceis o vosso nome! gritou uma voz ao mesmo tempo que um homem alto, espadaúdo, de venerando e galhardo aspecto se apresentara. 

-- Oh! o meu nome, caro Pamplona, nada vale... 

-- Esqueces então, amigo, a tua bella acção á frente dos granadeiros?! 

-- O brilho das tuas e das dos outros a empanam! Mas deixa-me concluir... 

E depois de apertar a mão ao amigo, avançando dois passos para João Mestral, tornou: 

-- Que dizeis senhor... Mantereis ainda as vossas palavras a meu respeito? Alcunhas-me ainda de intrigante?! Dizei... Eu não transformei a verdade, logo não gerei a intriga... 

-- E vós manteis tambem a vossa accusação ao general em chefe? interrogou o outro. 

-- Sim, mantenho! Diante de todos os officiaes que me escutam affirmo que João Forbes tem em pouca conta os deveres do seu cargo... E senão, olhae! Vêde por esses campos fóra as tropas portuguezas sem pão e sem munições, os feridos sem soccorros, os mortos sem sepultura... Em cada leira uma farda lusitana por terra, em cada pedra uma nodoa de sangue dos nossos soldados... Olhae, senhores, e vêde como os carros das munições estão todos na sua linha, mas vede lambem como os bravos que os trouxeram morrem!... Em todos os combates, sob um chuveiro de balas, sob o fogo mais ardente, os soldados portuguezes caminharam com denodo; e quando os hespanhoes fugiam, as bayonetas francezas encontravam peitos lusitanos; quando os leões de Castella se abatiam no desaire da fuga, as quinas de Portugal fluctuavam valentemente sob as cabeças dos legionarios!... Assim succedeu em S. Lourençode Cerda, em S. Sebastião de la Muza, na Montanha negra! Assim  succedeu por toda a parte e o grito de guerra, repercutido de quebrada em quebrada, fez por vezes vacillar os francezes, heroicos filhos da revolução, fez vacillar esse punhado de bravos, que é invencivel, porque tem na alma o escudo bem temperado do seu ideal, ao passo que os nossos nem mesmo têm o incitamento de defenderem o solo da sua patria!... Olhae e vêde como elles pensam ainda em avançar... E diante de semelhante exercito ha um outro, indisciplinado e mal disposto, sem ordem e sem bravura, que recebe as honras de tudo, porque um general não sabe pedir garantias para os seus!... 

Todos o olhavam espavoridos de semelhante audacia e Pamplona bradava enthusiasmado: 

-- E para provar a verdade, basta saber que o nosso ministro em Madrid reclamou já contra a injustiça das ordens do doido exercito! 

-- Que dizeis?, bradou elle com assombro. O ministro já reclamou? 

-- Sim... Acabo de sabel-o por alguem que vem da côrte! 

-- Oh! vergonha eterna para um soldado que commanda!, gritou Gomes Freire, cheio de raiva. Sim, a ultima das vergonhas! É preciso que um diplomata exija as honras devidas aos valentes que um general conduz!... Amanha se por acaso nos rendessemos, o chefe, que até hoje tem obedecido como um lacaio, seria capaz de pedir ao inimigo piedade em vez de regalias... 

-- É demais, senhor!, exclamou João Mestral. Chamaes cobarde ao general! 

Então Gomes Freire, como louco, sentindo espesinhada ai honra da bandeira, bradou: 

-- Sim, a elle e a todos que o defendem... Vis... sim mil vezes vis! Em todos vós, os que o apoiaes, não ha o amor da patria a mover-vos os braços, ha apenas a ambição a fazer-vos pronunciar palavras servis!... 

-- Coronel!, exclamou o outro no auge da raiva, tornando-sepallido. 

-- Que quereis?! 

-- Sois um infame, sois um ambicioso... Pertendeis talvez para os vossos as regalias de que disfructa João Forbes..., e o olhar de Mestral fixou-se em Bernardim Freire, que avançou para elle sedento de vingança. 

Mas o sobrinho agarrava-o, ficava a olhal-o serenamente e dizia: 

-- Meu tio e senhor, é commigo a desafronta! 

Relanceou o olhar em roda para os officiaes e disse: 

-- Senhores, eu sou um ambicioso... Ouvisteis?! Pois bem, eu sou tão ambicioso que deixei a Russia, onde Catharina II me fez commandante honorario dos seus cossacos, para vir para Portugal como sargento-mór!... Senhores, eu sou o ambicioso que recusei em Ochzakow o governo d'uma praça, para vir como subalterno para um regimento... 

-- Muito bem!.. Viva Gomes Freire!, bradaram os officiaes excitados ante aquelles feitos d'epopea. 

E os soldados portuguezes repetiram o nome d'aquelle que estavam habituados a verem á sua frente, n'uma saudação enthusiasta. 

Então elle, com um olhar por todo o campo, bradou para Mestral: 

-- Ambicioso me chamasteis, senhor coronel, e com razão... Neste momento o sou... Tenho uma ambição e sabeis qual? A de vos matar!... Atirou-lhe uma luva e exclamou: 

-- Ao romper da manhã, por detraz do castello! 

Voltou-lhe as costas, deu o braço ao tio e affastou se por entre os murmurios d'admiração de todo o exercito. 

Mostrai, livido de raiva enfiou para a sala do conselho e ao acercar-se de João Forbes, disse: 

-- General, venho pedir-vos licença para me bater amanhã... 

D. Miguel Forjaz e o conde d'Alva olharam no e o general em voz pastosa perguntou: 

-- E com quem?! 

-- Com o coronel Gomes Freire!

-- Gomes Freire?! É então verdade que elle falla de mim?... Batei-vos por minha causa, não é assim?! 

-- General, bato me pela honra do exercito! João Forbes, livido de rancor, disse então: 

-- Poupar vos-hei o trabalho! Esse homem é um traidor... 

-- Um traidor, sim, um dos que pretende pactuar com os francezes lavrando a zizania entre as tropas! calumniou abertamente o 

conde d'Alva. 

-- Meu amigo, disse o general para D. Miguel de Forjaz, desculpae, mas o vosso parente desmereceu muito aos olhos dos honestos portuguezes! 

No rosto do primo de Gomes Freire passou uma nuvem de prazer e murmurou: 

-- Sr. general, eu não tenho parenteseo com traidores, com pedreiros livres que apoiando a obra da revolução franceza, buscam dar a victoria ao seu exercito! 

-- Sim... Elle assistiu á morte de Luiz XVI, volveu João Mestral. 

-- Para os traidores ha as balas d'um pelotão, volveu o general despedindo-os com um gesto. 

-- Ou a forca! casquinou o conde d'Alva, trocando um olhar com o cumplice. 

E á porta, para o Pamplona, D. Miguel Forjaz, docemente, a interessar-se, perguntou: 

-- Sois amigo de meu primo Gomes Freire, sr. general...

-- Oh! Admiro-o! volveu elle muito ingenuamente. 

-- É certo que estivesteis com elle na Russia? 

-- Ao começo da campanha com Vasco de Miranda, não em Oczakow onde elle se tornou um heroe... 

-- E elle tinha semelhantes excitações? 

-- Não!... 

-- Oh! Sabeis... Temo que elle tenha enlouquecido! disse perfidamente D. Miguel Forjaz. 

O general encolheu os hombros e redarguiu: 

-- Senhor: Diante d'uma injustiça os mais pacificos se tornam loucos!... 

Saudou-o e desappareceu, ao passo que o outro, murmurava: 

-- Oh! Gomes Freire, está perdido!... 







XXIX



O revoltado 





Tocavam as trombetas á alvorada e o exercito movia-se para a marcha annunciada para d'ahi a duas horas. O trem de munições ficava abandonado, e no castello de Figueras deixavam se todas as provisões, afim da retirada ser feita mais rapidamente para Gerona, pois os francezes, sob o commando do proprio Perignou, avançavam cheios d'ousadia. O brigadeiro André Torres, fôra nomeado governador de Figueras e deixavam-lhe uma limitada guarnição com que devia fazer frente ao inimigo em caso d'ataque.

Por detraz da fortaleza moviam-se tres vultos que pareciam esperar alguem. Eram Gomes Freire, o marquez de Alorna e Pamplona, que aguardavam o coronel Mestral para o encontro combinado. 

Após as consequentes chuvas, chegava agora o sol esplendido a dourar o terrado da fortaleza e as armas dos soldados que se eguiam. 

-- É tarde... Já se calaram as cornetas e nem viva alma! - murmurou Gomes Freire com impaciencia. 

-- Oh! Elles ahi vêem! -- disse o marquez d'Alorna, que desde algum, tempo olhava alguns vultos que se approximavam. 

-- Hum... -- murmurou Pamplona -- Parece gente de mais para um duello. 

-- Sim... Lembra antes uma escolta! -- casquinou o coronel olhando fixamente os que se chegavam. 

-- Uma escolta?! -- exclamaram ambos com pasmo. 

-- Sim -- disse Gomes Freire olhando os militares e com a sua vista experimentada de guerreiro distinguiu até as patentes: 

-- São dois coroneis e alguns soldados... 

-- Ordenanças!... -- disse rapidamente o marquez. 

-- Sim, é possivel! -- murmurou Gomes Freire, começando a passear d'um lado para outro com a mão mettida no peito da farda. 

Os outros acercavam-se, os soldados ficavam a distancia e um dos coroneis exclamou: 

-- Deus vos dê bons dias, Gomes Freire! 

-- Obrigado, coronel!... Vindes da parte do meu adversario?! -- interrogou á pressa. 

-- Do vosso adversario, sim... se tal nome daes ao general chefe... 

-- Ao general chefe?!... 

-- Sim... Elle vos pede uma entrevista... 

No rosto do heroe passou uma nuvem de colera e n'um sorriso ironico, disse: 

-- Ah! Sollicita de mim uma entrevista?! Acho mau o processo, coronel... 

-- A razão?... 

-- O vosso sequito, disse elle abertamente. 

-- O meu sequito?! Ah! referir-vos ás ordenanças... 

-- Que mais parecem escoltar-vos... disse com aprumo, accrescentando logo: 

-- Dizei ao general que dentro de uma hora estarei a seu lado... Aguardo aqui o coronel Mestral... 

-- O coronel?! Mas, meu amigo, elle acaba de partir para Gerona á frente do seu regimento, que foi o primeiro a deixar o campo... 

-- Miseravel! disse o heroe entre dentes, cheio de raiva; e logo com a mesma altivez exclamou: 

-- Ide em paz, dentro em pouco estarei ao lado de sua excellencia! 

-- Mas coronel..., titubeou o outro. 

-- Que quereis, camarada?..., interrogou franzindo o sobr'olho. 

-- Tenho ordem de vos conduzir... 

-- A mim?!, gritou cheio de raiva intensa. Prendeis-me n'esse caso?! 

-- São as ordens do chefe... «Ide encontrar-vos atraz da fortaleza com o coronel Gomes Freire, disse elle, e trazei-m'o aqui por vontade ou por força!... 

-- Nunca!... Se for preciso eu saberei lazer respeitar a minha farda... Quereis prender-me?! Vós?!... Oh! Ide-vos, digo-vos agora, ide-vos, que eu fico entregue ao marquez d'Alorna, chefe de estado maior!... 

Fez um gesto magestoso, ao mesmo tempo que Pamplona exclamava: 

-- Coronel, parti... Nós nos encarregamos de Gomes Freire... 

-- Desculpae, camarada, murmurou tristemente o outro official. Porém, sabeis que deveis obedecer... Deixov-os com os vossos amigos e perdoae! Espero no emtanto que vos apresenteis ao general! 

-- Amigo e camarada, aqui tendes a minha mão se acaso não vos repugnaes em apertai a... Não vos guardo resentimento... Breve serei junto do general, porque sabei que jamais voltei as costas ao inimigo! 

Estendia a mão que o outro apertava e ao vêl-os partir fez um gesto de colera e exclamou: 

-- Ah! Miseraveis intrigantes, eu vos calarei! 

E sem fazer caso dos companheiros começou a caminhar para o acampamento. 

Dentro em pouco entrava na praça e bradava para o primo, que estava encorporado no estado-maior de Forbes: 

-- Nuno, preciso fallar ao general... 

-- Meu primo... D'isso está encarregado D. Miguel de Forjaz... 

-- Ah! nosso parente tambem, pois avisae-o... 

O official correu a prevenir o ajudante d'ordens do chefe, que dentro em alguns minutos se approximou, dizendo: 

-- Em que vos posso servir, meu coronel?... 

Gomes Freire, reparou no tratamento e redarguiu: 

-- Primo e amigo: o vosso General chamou-me... Eis-me ás suas ordens. 

D. Miguel de Forjaz lançou-lhe um olhar admirado ao vêl-o só, disse: 

-- Aguardae-me! 

Penetrou no aposento onde o general já estava prompto para a partida e disse: 

-- Chegou Gomes Freire... Mas meu general, elle vem só... 

-- O quê?! Nova desobediencia, nova revolta!..., gritou o chefe, que era um homem velho de faces retalhadas de rugas, com todo o aprumo militar. 

-- Meu general, esse homem está louco! disse o conde d'Alva, que estava a seu lado. -- Fazei-o entrar, D. Ramiro, disse elle para o conde, eu lhe applacarei as iras... Ficae no aposento contiguo com D. Miguel! 

-- Sim, general! 

Dentro em alguns momentos, o conde d'Alva achava-se junto do coronel, fazia-lhe a mais rasgada continencia militar, ficando impassivel ao olhar que elle lhe dirigia e indicou-lhe a porta do aposento. 

O marquez d'Alorna e Pamplona acabavam de chegar e ficavam na espectativa. 

Gomes Freire, entrou de cabeça erguida, saudou o general que se encostava ao vão d'uma janella e esperou que elle lhe dirigisse a palavra. 

Forbes, mediu-o com o olhar e na sua voz compassada murmurou: 

-- Coronel: Sois accusado de levantardes o exercito contra mim!... Que tendes a dizer?! 

-- Excellencia, preciso saber se me fazeis essa pergunta como chefe ou como particular, desejo conhecer a minha situação... 

-- A vossa situação, coronel, é a do inferior em frente do superior! 

-- Bem... N'esse caso, disse elle em voz bem alta e com desassombro, ouvi!... Se estivesse aqui como um simples individuo a quem cabe o direito das criticas aos actos publicos, dir-vos-hia o seguinte: 

-- Lamento que os soldados portuguezes que servem na legião contra a França sejam esquecidos nas ordens do dia, apesar dos 

officiaes hespanhoes os collocarem á frente no fogo... Lamento que 

passem fome e sejam sempre os ultimos a ser servidos nos dias de fartura; lamento que seja necessario um diplomata fazer reclamações para premiar a bravura dos soldados, quando estes têm um general que os commanda!... 

-- Coronel! exclamou elle fazendo-se pallido. 

-- Isto dir-vos-hia eu como particular, disse elle sem a menor perturbação. Como official direi apenas: 

-- General: Os nossos soldados, os nossos bravos, os portuguezes, são tratados como escoria, quando são elles a fina flôr das tropas alliadas! E a culpa É vossa, general, a culpa e toda vossa, que vos curvaes ante os hespanhoes! 

-- Senhor! bradou o general indignado. 

-- Sou franco, eis tudo... Sim, a culpa é vossa! repetiu elle ousadamente e de cabeça erguida. 

-- Coronel, para me fallardes assim, ou tendes muita confiança nos que tentaes revoltar, ou tendes em pouco apreço a vida! bradou de novo o chefe no auge da raiva. 

-- A minha vida pertence á rainha de Portugal e só d'ella admitto taes ameaças! 

-- Pois é em seu nome que vos fallo como vosso chefe! 

-- Em nome de D. Maria I... Oh! Que o digam os bravos que esqueceis! 

-- Coronel!

-- General!... 

-- Sabeis que as rebelliões no exercito castigam-se com a perda das honras e da vida? 

-- Ha pouco, general, esperava eu alguem que se devia bater commigo e o meu coração pulsava tão serenamente como se fosse para uma boda!... Bem vêdes que pouco me importa a vida!... Emquanto ás honras, sabei que sou coronel de sua magestade a imperatriz Catharina da Russia e se quizer serei general!... 

-- Servis dois amos a um tempo?! disse o general em ar de troça. 

-- Sirvo dois amos, sim!... Um que galardoa, outro que tira a vontade de o servir!... 

-- Fallaes de sua magestade!... 

-- De vós, apenas!... 

-- Mas respondei... Pretendesteis revoltar o exercito? 

-- Eu?! 

-- Sim... Vós... Acaso não me accusasteis, não recebesteis os applausos dos vossos camaradas? interrogou Forbes furiosamente. 

-- Nunca homens conseientes applaudem sem razão... 

-- Confessaes n'esse caso?! 

-- Que vos accusei... Oh! Mas se já vol-o disse frente a frente!... 

-- Enlouquecesteis?! 

-- Nunca tive mais razão... 

-- Coronel: Sabeis que costumo não deixar impunes as traições?! 

-- General... Alcunhaes-me de traidor?!... 

-- Sim... mil vezes sim, exclamou o chefe ao vêr-se desauctorisado. Vós sois pedreiro livre, assististeis á morte de Luiz XVI, sympathisaes com as idéas francezas, com a obra dos atheus, e pretendeis levantar as tropas para vos vingardes, para fazer triumphar o inimigo!

Gomes Freire, tornou-se livido, encarou ousadamente o general e exclamou: 

-- Tal accusação sahida dos labios d'um homem consciente, de razão solida, teria como resposta a lamina da minha espada! pronunciada por vós, tem apenas a seguinte: 

-- Desprezo os calumniadores que vos servem e vos dominam o espirito, desafio-os, como a esse cobarde que se escusou a um encontro! Emquanto a vós, general, apenas vos direi: 

-- Ali estão os bravos da legião portugueza, ali estão os granadeiros que commandei, com que cobri a retirada dos hespanhoes contra Dugommier, perguntae-lhes se me viram hesitar um momento, e se houver um só homem que tal affirme dou-vos o direito de cuspir na minha farda, de escarrar no meu rosto! Bom dia, general! 

E voltou-lhe as costas sem o saudar, dirigindo-se para a sahida. 

O outro, muito pallido, gritou-lhe: 

-- Senhor! 

Parou, voltou até ao chefe e disse pausadamente: 

-- Que quereis ainda?! 

-- Ficae! 

-- Eu?! Não posso ficar em frente de quem assim me insulte! 

-- Vós o tendes feito antes de mim! 

-- Não vos insultei, accusei-vos o que é differente... redarguio na sua serenidade. 

-- Esquecendo que sou o vosso general, fazendo lavrar a discordia no exercito, revoltando os officiaes, formando um grupo de apaniguados... Pois bem, commetiesteis um crime e peço-vos que me entregueis a vossa espada! 

-- Preso?! gritou espavorido, encarando o general. 

-- Sim... Prendo-vos!... 

-- Vós?! 

-- Eu mesmo! 

Soltou uma risada e exclamou: 

-- Vós, general, que tendes descurado o bom nome portuguez quereis completar a obra... E sou eu o traidor?! Quereis callar uma bocca que vos accusa e servir-vos d'esse meio indigno d'um homem d'honra!

O general, já no cumulo da colera correu para a porta e gritou: 

-- D. Miguel... Conde d'Alva!... 

Como se estivessem á escuta entraram de rompante e perfilaram-se em frente de Forbes, que, fazendo um gesto irado, gritou: 

-- Prendei o coronel Gomes Freire! Entregue-o á guarda de André Torres, o brigadeiro hespanhol, governador de Figueras e dizei-lhe que responde por elle!... 

-- Eu?! Preso e sob a vigilancia d'um hespanhol! Enganae-vos, coronel, enganae-vos, senhores! E vós, meu primo, sabei que no ramo dos Freire de Andrade morre se antes de ceder!... Não! nunca!... 

-- Obedecei!... 

-- Nunca!... 

Mas á porta appareciam alguns soldados da escolta e o marquez d'Alorna entrava e exclamava: 

-- Gomes Freire... Deves obedecer!

-- Que dizes, Pedro?... 

-- O que Martins Pamplona te aconselharia se acaso aqui não estivesse já á frente do teu regimento... 

-- Ah! É a elle que entregou o commando?! Pois bem... Dize-lhe, marquez, que não deixe calcar a honra dos meus bravos!...

E tu, vae em paz, eu fico em Figueras como prisioneiro, mas tenho a esperança que breve lhe serei util!... Os francezes não perdem tempo, avançam sempre... Se me quizessem ouvir ha muito que teriamos ido ao seu encontro... Recusam e prendem-me... Deixal-o... Eu saberei cumprir o meu dever!... 

O general fez um novo gesto e então o heroe fitando-o exclamou: 

-- Senhor João Forbes, sabei que obedeço não por vós, mas pelo marquez, que pertende acabar com dissidencias... Sou vosso prisioneiro... Indicae-me o logar da detenção! 

Forbes, sem se dignar olhal-o, disse então para o conde d'Alva: 

-- Conduzi o coronel á ala esquerda do castello... Terá a praça em homenagem... Entregae-o ao brigadeiro!... 

D. André Torres, o hespanhol, acabava d'entrar na sala e ouvia as ultimas palavras.

Era uma d'estas figuras quichoteseas, angulosas e tristes de bom devoto, fanfarrão ao extremo e que fazia apenas um gesto d'assentimento ao ouvir a ordem de Forbes. 

-- Dae me a vossa espada! pediu elle com certa intimativa ao coronel. 

Gomes Freire, olhou o hespanhol com desprezo e em seguida redarguio: 

-- A minha espada só ficará nas mãos dos extrangeiros, ou pela traição, ou quando eu não tiver alento! 

-- Mas... 

-- Sou prisioneiro, bem o sei... disse a sorrir; e de seguida tirando lentamente a espada estendeu-a a D. Miguel Forjaz e exclamou: 

-- Ahi a tendes meu primo, guardae-a até ao dia em que vol-a peça novamente... E tratae-a bem, D. Miguel... Essa é a espada d'Oczakow... 

Voltou as costas, abraçou o marquez e bradou: 

-- Vamos senhores!... 

O conde d' Alva esboçou um sorriso e murmurou ao ouvido de D. Miguel. 

-- Começas a herdar! 

O outro sorriu e foi acompanhando o coronel que desabotoava a farda e de mãos nas algibeiras avançava para a sua prisão do castello de Figueras. 

O hespanhol olhava-o e murmurava: 

-- Hum... Fraco coronel que se desavem com o seu general!... Ha pouca disciplina entre os portuguezes... Caramba, que em Hespanha até os cornetas respeitam os soldados!... 





XXX 



A intriga na côrte 





Um correio de Hespanha, alteza real! exclamou D. Antonio de Mello dirigindo-se a Carlota Joaquina que se ergueu, rapidamente da cadeira e bradou: 

-- Que entre!... 

E o porta-bandeira André Meira appareceu em face da princeza que sem o reconhecer, murmurou: 

-- Vindes da côrte?! 

-- Alteza real, eu chego do acampamento de Gama... 

-- Ah! Sois portuguez! exclamou ella, e olhando-o mais attentamente, disse:

-- Conheço- vos, alferes... sois o porta-bandeira... 

-- Que teve a honra de encontrar vossa alteza na Sé... 

-- Sim... Mas sentae-vos, disse logo toda impaciente fazendo um signal. 

O joven corou e redarguiu: 

-- Senhora... Jamais me atreverei em frente de vossa alteza! 

-- Sentae-vos! tornou com o mais bello dos seus sorrisos e ao vel-o obedecer, deveras admirada, começou: 

-- Chegas então do acampamento. 

-- Sim, alteza!

-- Trazes cartas para mim não é verdade?... perguntou cheia de prazer. 

-- Sim, alteza! 

-- E de quem? 

-- Do general Forbes e do senhor conde d'Alva!... 

-- Muito bem... E como vão os nossos? interrogou desejosa de saber noticias. 

-- Batemo-nos sempre com mau resultado; no emtanto alguns prodigios de valor houve da parte dos portuguezes!...

-- Ah!... E sem duvida tu... 

-- Senhora... Eu admirava-os... confessou muito ingenuamente com um bom sorriso. 

-- Ah! E quem admiravas?! 

-- Um valoroso coronel que á frente de duas companhias sustentou até ao fim o fogo dos francezes, emquanto os alliados se punham a salvo!... Eu estava com o resto de legião!... Meu Deus, como era bello... Se vossa alteza o visse!... Alto, de bello perfil, grandioso no meio das tropas commandando o fogo com o deus de victoria, a cabeça aureolada pelo sol... Veiu uma bala e levou lhe o chapeu; então elle, soltou uma voz de commando, forte, vibrante, 

que fez correr acceleradamente o sangue em todas as veias: Fogo! E as duas companhias em unisono fizeram uma desearga cerrada!... Os francezes recuaram apesar de sua bravura e do numero!... E elle, o coronel, clamou: Avante... Então travou combate com as avançadas e retirou galhardamente ante o pasmo do inimigo!... 

E elle continuava sempre da mesma forma eloquente e enthusiasta que admirava tambem Carlota Joaquina a qual interrogava: 

-- E como se chama esse bravo coronel?... 

-- Gomes Freire!... respondeu elle laconicamente. 

A princeza estremeceu, baixou a cabeça e dizia: 

-- E só esse praticou acções de valor?... 

-- Não alteza! Vi um assedio na Montanha Negra em que um bravo brigadeiro, homem de apparencia respeitavel, á frente do regimento de Peniche, andava pelas rochas escarpadas fazendo fogo ao inimigo... Os nossos homens lembravam sombras vagas tal era a altura em que se encontravam... A distancia o inimigo movia-se n'uma linha parda, e o regimento avançava sempre com o seu brigadeiro á frente. Mas de repente, do solo, erguendo-se detraz das penedias appareceram os caçadores francezes em linha de batalha... Travou-se a lucta os nossos foram cercados e d'ahi a momentos quando todos os julgavamos perdidos, vimos o resto heroico de phalange que de tambores á frente em ordem de marcha se encorporava na divisão do general Mahur... Eu estava n'essa divisão... A meu lado, vi o brigadeiro... Pedro Celestino, o cirurgião do regimento Gomes Freire, exclamou: 

-- Estaes ferido no braço, sr. brigadeiro! 

E elle com o seu bello sorriso de bravo, sacudindo o braço, respondeu: 

-- Ah! Foi uma bala que não me conhecia! 

-- E como se chamava esse heroe?! interrogou de novo a princeza sorrindo. 

-- Bernardim Freire de Andrade e é tio do coronel Gomes Freire! 

Carlota Joaquina fez-se livida, tornou a baixar a cabeça e n'um meio sorriso extranho tornou: 

-- E apenas esses? 

-- Não alteza!... Ainda vi outro facto digno de nota! 

-- Narra-o! 

-- O general hespanhol marquez das Amarillas avançava com o general portuguez João Forbes rodeados do seu estado-maior e seguidos por alguns lanceiros... De repente, d'um vallado, ouviu-se a fusilaria inimiga... Uma bala passou rente do general e um joven ajudante de campo com um olhar duro para os attacantes, murmurou: 

-- É uma cilada!... Se o meu general me deixasse fazer um reconhecimento. 

João Forbes accedeu, e o joven ajudante apenas com tres soldados correu com o maximo denodo para as avançadas inimigas que se puzeram em fuga... Mas n'isto rompe a fusilaria cerrada e elle voltando-se para os lanceiros gritou: 

-- Á carga! 

«Foi e voltou coberto de sangue; o caminho ficou desempedido e Forbes murmurou: Fez o seu dever! 

-- Meu Deus! Mas fez mais que o seu dever... Eras tu esse ajudante?! perguntou ella de bom humor. 

-- Daria tudo para praticar tão bella acção, volveu elle. Porém a outro coube a gloria da empreza. 

-- Ah! E como se chamava esse joven bravo?! 

-- Nuno Freire e e filho do brigadeiro Bernardim!

Carlota Joaquina baixou novamente a cabeça, rasgou violentamente o sobrescripto d'uma das cartas e começou a lêr attentamente. 

De seguida, com um sorriso extranho nos labios, casquinou: 

-- André de Meira! Advinhas acaso o que me diz o general Forbes?! 

-- Como advinhal-o, senhora?! murmurou elle com pasmo. 

-- Dá-me más informações da tua familia de heroes! 

-- É possivel?! gritou o alferes deveras impressionado. 

-- É certo... Gomes Freire está preso no Castello de Figueras por traidor aos deveres do seu cargo... Nuno Freire foi feito prisioneiro dos francezes... O brigadeiro deixou se arrastar em seguimento do tilho e não tem noticias d'elle... Já vês pois que são bem pouco digno os teus heroes!... 

Encolheu os hombros, abriu a carta de D. Ramiro e logo ás primeiras linhas o rosto se lhe transfigurou sensivelmente. 

De seguida perguntou: 

-- Trouxeste uma carta para Luiz Pereira Coutinho, o ministro da guerra? 

-- Sim, real alteza! 

-- De quem era? 

-- De D. Miguel Forjaz... 

-- Bem... Retira-te... Volta amanhã que tenho algumas cartas para o acampamento... 

-- Sim, alteza?! disse elle curvando-se n'uma reverencia e parando ao ouvil-o dizer: 

-- Não... Não... Volta antes esta noute! 

-- Sim alteza! 

-- Entrarás pela porta dos archeiros ao fundo do corredor... Eis aqui a chave... Á meia noute... Que ninguem te veja entrar... 

-- Sim, alteza!... 

Elle, cada vez mais pasmado ia retirar-se, quando a princeza lhe disse ainda: 

-- Nem uma palavra a tal respeito! 

-- Os vossos desejos são ordens!... e d'esta vez sahiu emquanto Carlota Joaquina segurando a carta de D. Ramiro, dizia: 

-- Oh! A Vingança... Como teceram bem a intriga! Vamos completal-a! 

Lançou um olhar para o espelho, endireitou as rendas do corpete, collocou uma rosa vermelha no seio e sahiu em direcção aos aposentos do regente. 

Sua alteza estava sentada na poltrona e ouvia o ministro da guerra, Luiz Pinto de Sousa Coutinho, que lhe dizia: 

-- Mas meu senhor... Esta prova é cabal! 

-- Vossa alteza dá licença! disse-lhe Carlota Joaquina da parte de fóra, com a mais encantadora maneira. 

-- Oh! Entrae! e o principe levantou-se galantemente a offerecer-lhe a mão. De seguida indicou-lhe uma cadeira e disse: 

-- A que devo a honra de vossa visita? 

-- Conclui os vossos negocios com s. ex.ª... 

Luiz Pinto, lançou-lhe um olhar malicioso e continuou: 

-- Com permissão de vossa alteza, direi que estava apenas provando a vosso esposo, e nosso bondoso amo, a loucura que se apossou d'um dos officiaes que parece terem na melhor conta... 

-- Ah! É para lamentar! disse ella prestando toda a attenção á conversa. 

-- Dizia n'esse caso, tornou o regente em voz pastosa. 

-- Julgae, meu senhor, que D. Miguel Forjaz me escreve a tal respeito e não ha motivo de desconfiança tanto que são da mesma familia! 

-- Ah! Lêde essa carta, disse então o regente encarando o ministro que saccando um papel de algibeira, começou: 

«No correio passado fiz presente a V. Ex.ª confidencialmente e com o maior sentimento da minha parte, do acontecimento extranho entre os coroneis Gomes Freire e João Jacob Mestral; perguntando eu ao Pamplona se, quando esti vieram na Russia, Gomes Freire fazia semelhante estaladas, por me parecer que teriam tido das mais pessimas consequencias me disse que não e que o seu 

animo andava sempre socegado, deseonhecendo elle semelhante excessos do seu genio, o que mais me parecer que a imaginação ande esquentada ao ultimo ponto». 

O ministro ao acabar de ler, voltou-se para o regente e disse: 

-- Já vê vossa alteza... 

-- Sim... sim... E como procedeu Forbes? perguntou Carlota Joaquina fingindo ignorar todos os factos: 

Mandando-o encerrar em Figueras, onde elle se entreteve a desenhar o coronel Mestra! n'uma das paredes, cercado dos mais injuriosos epithetos!... Isto abona bem pouco a sua razão!... Então Forbes mandou levantar um auto ao procedimento dos seus officiaes e ordenou aos ouvidores que analysassem os actos do seu commando! 

-- Oh! E qual é o teu aviso Luiz Pinto?! 

-- Fazer recolher ao reino o coronel Gomes Freire!

Nos olhos de Carlota Joaquina faiseou uma scentelha de alegria e apoiou logo: 

-- Decerto... E no caso de ser na realidade um alienado... 

-- Um alienado?! Não o creio... N'esse caso mais me parece Forbes... A razão é simples, esse auto quer dizer alguma cousa!... Sim, porque a palavras loucas... 

-- Mas meu senhor, retorquiu o ministro um pouco transtornado... Não podem continuar taes discussões! 

-- Bem... E qual é o teu aviso? interrogou de novo. 

-- Eil-o meu senhor... e o ministro começou a lêr uma ordem que dizia assim: 

«S. M. ficou inteirada pela relação de V. Ex.ª das commoções excitadas n'esse exercito contra a sua auctoridade e do pessimo exemplo que uma semelhante conducta deve influir na tropa, de necessidade que ha em sustentar a auctoridade de V. Ex.ª a quem a mesma senhora tem confiado o mando do seu exercito e de cortar d'uma vez pela raiz semelhantes exemplos; porem não deixou de ser sensivel a S. M. que tendo V. Ex.ª na sua mão todosos meios de castigar taes cousas, prostituisse de qualquer forma a sua auctoridade, mandando proceder a uma inquirição judicial a respeito do seu proprio procedimento, o que não e nem podia ser compativel com a preeminencia do seu posto, emquanto S. M. não o determinasse muito expressamente; e fazendo a mesma senhora a devida justiça ao seu caracter e á confiança que de V. Ex.ª fez, lhe ordenou que, apenas receber esta, faça cessar sem perda de tempo qualquer procedimento ultimo na referida devassa, remettendo tudo no seu proprio original á secretaria dcstado, para de semelhante cousa não existir mais vestigio algum. 

«E para S. M. dar a V. Ex.ª uma satisfação completa e evitar novos riscos a que não desejo expor qualquer official de seu exercito, poupando-se-lhe o mais severo castigo, ordena outrosim a V. Ex.ª que, apenas receber esta carta, intime de parte de S. M. ao coronel Gomes Freire de Andrade, que parta para este reino sem prova de tempo, entregando ao tenente-coronel do seu regimento o mando d'elle, devendo-o substituir n'esse emprego o tenente-coronel graduado D. Thomaz de Noronha que d'aqui partiu ha poucos 

dias. Igual ordem mandará V. Ex.ª intimar ao tenente-coronel Manuel Ignacio Martins Pamplona, que S. M. ha por bem dispensar das funcções que me havia commettido». 

-- Falta apenas a assignatura de V. A. para este documento e para o que se segue: 

-- «Tendo constado n'esta côrte, que o chefe do estado-maior, D. Pedro de Portugal e Almeida, conde d'Assumar e marquez d'Alorna, tem apurado as dissenções havidas entre V. Ex.ª e os seus officiaes, ha por bem S. M. dispensar o dito coronel das funcções que lhe havia commettido, fazendo-o passar sem demora a este reino». 

-- Tambem o marquez?! bradou o regente no auge de pasmo, accrescentando logo: 

-- Luis Pinto... Emquanto a Gomes Freire, accusado como cabeça de revolta acho de justiça o procedimento... 

-- Mas, meu senhor... 

-- Martins Pamplona não é accusado! O marquez d'Alorna... 

-- Martins Pamplona é intimo de Gomes Freire, apoia-o em tudo! Logo após a sua prisão quiz levantar o regimento de que lhe deram o commando, dizendo que o rebaixavam fazendo-o obedecer a hespanhoes! 

-- Sim... E o marquez?! 

-- Esse, meu senhor, é hereje e pedreiro livre, vestiu o seu regimento á franceza e é tambem amigo de Gomes Freire!... 

-- Ah!... E que resolves com respeito ao marquez desde que chegue a Lisboa?! perguntou serenamente o principe. 

Carlota Joaquina ergueu-se e exclamou: 

-- Naturalmente o castigo a que se eximiu partindo para o Roussillon, depois de ter resistido á intendencia da policia! 

-- Sim... E agora desde que venha sem os seus soldados facil é fazel-o responder por esse crime!... accrescentou o ministro. 

D. João traçou lentamente a sua assignatura no documento relativo a Gomes Freire e a Pamplona e de seguida, perguntou: 

-- E elle irá?!

-- Se assim fôr da vontade de vossa alteza! insinuou o ministro. 

-- Sim, virá confiado na vosssa honradez, conscio que não par- ticaremos d'outro modo para com elle... 

-- Assim é... 

O principe baixou a cabeça e ouviu o ministro perguntar-lhe: 

-- Que resolveis, meu senhor? 

-- Luiz Pinto... Um Bragança pode ter condescendencias e fraquezas, mas nunca commette traições! e rasgou em dois o decreto relativo ao marquez, fazendo um gesto ao ministro para que sahisse: 

-- Depois voltou-se para a esposa e exclamou: 

-- Ás vossas ordens... Que desejaes de mim, senhora? 

-- Apenas que me acompanheis n'um passeio até aos seteaes... 

-- Ás vossas ordens, disse elle galantemente, offerecendo-lhe o braço, e á porta, unicamente perguntou: 

-- Para quem é a mercê que vossa alteza deseja? 

-- Mas senhor... Não vos pedi cousa alguma! disse ella corando ante o sarcasmo do marido. 

-- Julguei que tinheis uma mercê a pedir-me... Mas n'esse caso disponho d'uma tença a lavor do meu pobre confessor, que acceita tudo... 

-- É por humildade! chasqueou a rainha. 

-- Não... É que elle, como vossa alteza, reparte com os pobres... Tem uma grande predilecção por gente ordinaria!... 

Carlota Joaquina, mordeu os labios ao comprehender a intenção ironica do esposo e sempre pelo seu braço embrenhou-se nos seus estranhos pensamentos. 

A tarde estava linda e elles atravessaram o parque real sem trocarem palavra. 

-- Na portaria, a princeza, disse: 

-- Ah! Que me esqueceu de mandar pôr a sege... 

-- Oh! Princeza... Eu tenho sempre a minha ás ordens!... 

Tirou um apito da algibeira, silvou duas vezes e ao ver avançar o vehiculo, curvando-se, disse com o seu sorriso costumado: 

-- Queira vossa alteza subir... 







XXXI 





Noute tormentosa 





O bobo andava agora como allucinações, em sobresaltos constantes, desde que deixara com vida o bispo do Algarve. E do seu quarto, nas aguas furtadas do 

palacio, assistia durante a noute a todos os sucessos da real morada. Ficava horas inteiras a ver as sentinellas moverem-se como sombras, a analysar o 

deslisar dos vultos pelo largo, d'olhos bem abertos e ouvido á escuta, temendo uma traição. 

Conhecia bem as pessoas com quem lidava; ouvira falar do estrangulamento de que a princeza ia sendo viciima e temia que lh'o attribuissem tambem. A sorte de Jacques Lebon, tornado prisioneiro do intendente inquietava-o e temia que procedessem do mesmo modo para com elle. 

Por isso passava as noutes olhando a imnensidade e de dia ia dormir para um esconderijo no botanico. Tinha ideias extranhas de fugir mas custava-lhe muito a deixar sua ama cujos aposentos rondava por deshoras. 

N'aquella noute descera e ficara mettido n'um vão esperando a todos os momentos ouvir os gritos da rainha. Mas ella conservava-se calada, sem sobresaltos, desde que o bispo habitava fóra da morada real tambem cheio de receios. Os antigos quartos de Thessalonica estavam deshabitados e a escada de caracol que conduzia ao aposento da soberana ha muito que não servia. 

Emquanto se procedia a obras no Ramalhão, de sinistra memoria, Carlota Joaquina consentira em ficar no real paço de Cintra, que com as suas chamines mouriscas, as gelosias cerradas, se apresentava n'uma grande quietação pela noute. 

O bobo deslisava como um phantasma, e ficava parado, de ouvido á escuta, em frente dos aposentos da soberana. De repente, do lado da sala dos archeiros appareceu um vulto embuçado, que tacteava nas trevas em direcção ao corredor. D. João de Falperra esboçou um sorriso extranho e começou a seguil-o lentamente atravez os corredores. Ouviu-o abrir a porta de communicaçao, que não fez ruido, e foi-lhe na peugada. O outro avançava sempre e deixava a portinha entre-aberta como para aguardar a retirada. E chegava á entrada dos aposentos de Carlota Joaquina, penetrava affoutamente no logar; o bobo hesitava, ficava no limiar, mettido no escuro, todo perturbado ao escutar a voz da futura soberana: 

-- És tu, André de Meira?! 

-- Sim, alteza real... Como não estava aqui ninguem... 

-- Ah! Entra... Dei sueto á minha aia... Esquecera-me de ti!... 

O bobo entrou tambem affouto e viu no limiar o joven alferes um pouco confuso ao vêr a princeza no leito, um braço destapado, o rosto bello descançado no travesseiro, a dizer ainda: 

-- Olvidei a tua vinda..., e parecia desculpar-se de o receber assim no leito. 

O official, baixou os olhos e em tom respeitoso dizia: 

-- Voltarei amanhã, se vossa alteza o deseja... 

-- Não, volveu ella com um bom sorriso. Dá-me antes aquella escrevaninha portatil. 

Soerguia-se no leito, ficava com os seios a deseoberto, muito bella na sua impureza, os cabellos cabidos, os olhos ardentes como carvões, emquanto o seu corpo se desenhava sob as roupas. Os olhos do bobo fuzilavam extranhamente ao ver aquella nudez de mulher, elle que era sempre repellido e sentiu um impeto selvagem de se lançar sobre ella n'um desejo lubrico. 

O official acercava-se do leito, punha o joelho em terra e assim offerecia a escrevaninha á bella princeza que lhe sorria e murmurava: 

-- Dá me uma penna... 

Ao recebel-a inclinou-se um pouco e roçou com os seus cabellos negros, de reflexos d'aza de corvo, no rosto imberbe do official, que recuou de seguida. 

Carlota Joaquina escrevia serenamente ao conde d'Alva. De quando em quando voltava-se e tocava sempre na caricia dos seus cabellos o rosto do joven. 

Ao terminar pediu lacre e disse: 

-- Ah! E o meu sinete... Oh!... Espera, este annel faz o mesmo effeito. 

E já com o lacre acceso, estendendo a outra mão, pedia-lhe: 

-- Tira-me o annel e marca emquanto ponho o lacre... 

André de Meira curvou-se um pouco sobre aquella nudez de mulher, sentiu o halito d'ella a roçar-lhe as faces e embriagado pelo seu perfume cerrou os olhos como perturbado, demorando se uns momentos a marcar o sinete real nos quarto angulos do sobrescripto. 

Depois, muito pallido, deveras embaraçado, ouviu-a ordenar: 

-- Levarás esta carta ao conde d'Alva e dir-lhe-has da minha parte que á volta da expedição occupará junto de mim as suas antigas funcções... 

-- Sim, alteza real!..., disse elle ajoelhando a beijar a mão que ella lhe estendia. 

A soberana deixou-se ficar na mesma posição toda sonhadora, e murmurou docemente: 

-- E para ti não desejas qualquer mercê? 

-- Senhora... 

-- Falla...

-- Que posso pedir-vos?!, disse elle olhando-a com pasmo. 

-- Não és ambicioso?! 

-- Só de gloria, alteza... 

-- A gloria que dá as honrarias..., disse a sorrir. 

-- A gloria dos verdadeiros heroes... Aquella que lega os nossos nomes á posteridade! 

-- Que edade tens?!, perguntou novamente no seu sorriso. 

-- Vinte annos... 

-- Ah! Já sei... Queres a gloria com que se conquistam todos os amores..., e as pupillas da princeza faiscavam intensamente ao fallar-lhe assim 

-- O amor?!... 

-- Acaso não amas?! Não amaste nunca?!, interrogou aquella mulher semi-nua, fixando-o provocante. 

-- Alteza, não... 

-- Nunca amaste?! O quê?! Nunca demoraste mais o teu olhar sobre uma mulher?! Nunca sentiste um estremecimento de alegria ao ver qualquer dama em que se fosse o teu coração?!... 

O joven corou, veiu-lhe ao pensamento o dia em que na Sé curvara a bandeira em frente d'aquella mesma mulher que lhe fallava assim e retorquiu: 

-- Não, alteza!... 

-- Mas que coração é o teu?! 

-- Senhora... 

-- Vamos... Sêde verdadeiro... Interesso-me por ti... Dize a verdade?! Não me quererias para madrinha do teu noivado?! 

O joven fez se pallido e murmurou n'um repente: 

-- Vossa alteza?! 

-- E porque não?! Eu gosto de recompensar os meus servidores leaes... 

-- Senhora, agradeço-vos, porém não tenho noiva... ninguem me ama, não amo pessoa alguma! 

E a sua voz tremia ao fazer aquella intima affirmação, o seu olhar pousava-se n'uma caricia sobre a princeza. 

Ella então, mulher experimentada, barregã de corôa, pareceu comprehender aquelle olhar, onde ia todo o fogo d'um primeiro amor bem ingenuo e bem simples, uma paixão nascida talvez na primeira occasião em que lhe fallara, e interrogou: 

-- Quem te nomeou para portador das cartas?! 

O joven estremeceu, corou novamente, e volveu: 

-- Mas... 

-- Foi o general?... 

-- Eu lh'o pedi, senhora..., confessou elle muito ingenuamente. 

Carlota Joaquina viu então ali a mais clara expressão do amor do joven, sorriu, envolveu-se na roupa e disse: 

-Não comprehendo... Pois tu com todos os teus desejos de gloria preferiste deixar o acampamento... Como queres então distinguir-te?! 

Elle corou novamente e apenas murmurou: 

-- A guerra estava paralysada... 

-- Mas a paz ainda vem longe. 

-- D'um momento para outro podias ter occasião de te distinguires... 

-- Senhora... Não é de certo no Roussillon que isso succederá... 

-- E porquê?! 

-- Recuamos sempre... disse do seu modo triste. 

-- Bem... Nas havias de ter um motivo para desejares vir a Lisboa... Sim... Do contrario como explicas o teu pedido?... 

-- O alferes pareceu tomar animo, e redarguio: 

-- Apenas o desejo de ser eu o portador de boas novas para Vossa Alteza. 

A princeza estremeceu e bradou: 

-- E como chamas boas novas a essas cartas?! Viste antes o contrario... Todos esses heroes que tão apaixonadamente admiravas cahiram no desagrado do general... Não vejo ahi boas novas, pelo menos para ti... 

-- Se ellas agradam a Vossa Alteza dou me por feliz... Que valem as minhas affeições, a par da satisfação de Vossa Alteza. 

-- E como sabes que fiquei contente... 

-- Senhora... Penso-o apenas, ou antes, engano-me a mim mesmo, porque Vossa Alteza não pode nunca regosijar-se com o mal d'esses heroes... A vossa alma é bondosa e eu creio que deveis soffrer... 

-- Trouxeste n'esse caso o pesar! volveu nos seus ares de mulher experiente, encarando-o meigamente. 

O bobo estava paralysado ante a tactica habil da princeza, e sentia um desejo louco de avisar aquelle rapaz, mostrar-lhe bem os horrores do seu amor por tal mulher... Mas ao mesmo tempo, um desejo enorme de vingança a exercer sobre Carlota Joaquina dava-lhe bem diversos pensamentos. 

-- Perdoaes-me senhora?! supplicava a official docemente. 

-- Sim... Perdoo; mas porque vieste então... 

-- Alteza?! e elle disse aquella palavra como estrangulado cahindo de joelhos. Eu vim porque tinha o desejo de vos contemplar antes de morrer... 

-- Morrer?! Com vinte annos?!... exclamou a princeza, agora toda radiante com a scena. 

-- Sim alteza, morrer... e d'impeto bradou! 

-- Ha pouco perguntasteis-me se o meu olhar jamais se demorara sob uma mulher, se o meu coração estremecera, se o meu pensamento voara para alguma dama?! Sim, alteza real, tudo isso me succedeu antes de minha partida!... Desejava ser um heroe, queria correr para as balas e a sua imagem apparecia-me sempre como um escudo na refrega, queria descançar pela noute nos bivaques e o seu rosto formoso apparecia-me ainda!... É isto o amor?! 

N'esse caso amo! 

-- E quem é então essa mulher?! perguntou bondosamente a princeza. 

André de Meira, cobrou animo ali no silencio do quarto, olhou a princeza e começou: 

-- Senhora... Ides chamar-me louco como o chamaríeis a um homem apaixonado pela luz do sol a ponto de não poder viver sem ella... Esse homem procuraria por todos os meios precorrer os paizes onde o sol nunca falta, receber o seu calor, viver na sua luz... Foi o que fiz!... Mas o sol occulta-se... 

-- És poeta?! perguntou a sorrir, ao notar-lhe a audacia. 

-- Poetas todos o somos n'esta bella terra de Portugal! volveu elle, accrescentando logo: 

-- Occulta-se o meu sol e eu fico nas trevas...

-- É então muito formosa a tua amada?! 

-- Não sei se é formosa... Sei que a amo e respeito, sei que ao ouvir a sua voz sou feliz... Tenho por ella um respeito egual ao que nutro por Vossa Alteza... 

-- É um amor egual ao que sinto... 

-- Por quem?! perguntou a princeza rapidamente. 

Elle calou-se, e muito perturbado olhou a d'uma maneira tão vehemente, que a esposa do regente, sem poder conter as palpitações do coração, ergueu-se no leito, puchou-o para si e interrogou-o com os olhos fitos nos d'elle: 

-- Por quem?! 

E o joven ia responder mas hesitava ainda, por fim dizia: 

-- Um respeito e um amor egual ao que tenho por Vossa Alteza... Perdoae... perdoae... 

-- Perdoar?! Oh!... Acaso julgas que não temos coração, nós as mulheres de sangue real!... 

Ouviu-se um grito d'alegria, de seguida um beijo ardente e o bobo com o seu olhar de fera, viu a princeza estreitamente abraçada ao official. 

Arreganhou a bocca n'um sorriso, affastou-se sem fazer ruido e uma voz nas trevas murmurou: 

-- Oh! Emfim a vingança! 

-- Fechou a porta rapidamente, tirou a chave que metteu no bolso e affastou-se em direcção aos aposentos do principe D. João. 

Ficou ali uns momentos parado e depois cheio d'audacia, tornou: 

-- Vamos... Carlota Joaquina ha-de aprender a conspirar contra a minha rainha!... 

Deu uma volta no corredor, subiu uma pequena escada e foi bater á porta do camarista de serviço, exclamando em voz de falsete: 

-- A princeza manda chamar sua alteza! 

-- Quem é?! bradou uma voz estremunhada. 

E o bobo tornou mudando a voz: 

-- Depressa; de parte de sua alteza... O senhor D. João deve ir aos aposentos de sua esposa... 

O camarista que dormia sempre vestido ergueu-se d'um salto, correu para a porta mas o bobo tinha desapparecido no corredor. 

Então o outro dirigiu-se aos aposentos do regente que estava escrevendo junto a uma secretaria e exclamou: 

-- Alteza real!... 

-- Que queres Villa Nova?! 

-- Sua alteza aguarda-vos... Fui agora prevenido por alguem de sua casa... 

-- Minha mulher! 

-- Sim, meu senhor... 

-- Oh!... Alguma mercê tem a pedir-me! 

E o principe D. João seguido pelo camarista avançou para os aposentos de Carlota Joaquina. 

Acercou-se lentamente e ouviu a voz da princeza dizendo: 

-- Aqui tens esta medalha, tem o meu retrato... Guarda-o como a recordação... -- De vossa alteza... 

-- Do meu amor!... volvia ella e de seguida soava o ruido d'um beijo. 

D. João fez-se pallido, olhou o camarista e empurrando a porta que dava para a sala de recepção entrou denodadamente. Mas a porta do quarto estava fechada, e elle n'um empurrão violento abriu-a ainda a tempo de ver um vulto perder-se no corredor em direcção á porta secreta occulta na tapeçaria. 

Carlota Joaquina, ao ver entrar o marido, ergueu-se no leito e bradou: 

-- Que maneira é essa de entrar nos meus aposentos a semelhante hora? 

-- Villa Nova! gritou o regente. Alli... alli... N'aquella tapeçaria... 

O aulico percebeu tudo e entrou de espada desembainhada no corredor cuja porta estava fechada e que o alferes sacudia com força. 

-- Entraes como um louco, senhor? continuava a princeza do mesmo modo severo pensando em domal-o, toda satisfeita ao ver que o alferes já teria tempo de sahir pela sala dos archeiros. 

-- Vieram chamar-me da vossa parte... explicou elle, accrescentando logo: E depois um marido tem sempre o direito de entrar nos aposentos de sua mulher! 

-- Esqueceis a vossa dignidade?! 

-- E vós a vossa honra! gritou D. João fulo de raiva ao ouvir a voz do camarista bradar: 

-- Nem mais um passo senhor, ou por Deus vos juro que fica; reis sem vida! 

Carlota Joaquina fez se livida, olhou o marido e deixou-se ficar na mesma posição como aterrada. 

Então aquelle principe a quem os desgostos futuros dariam a inepcia e a cobardia avançou tambem para o corredor onde o alferes gritava: 

-- Passagem... passagem... 

E no escuro do corredor ouvia-se um tinir d'espadas que era abafado pela distancia. 

A princeza sahiu do leito, vestiu á pressa um roupão e viu o esposo que voltava ao mesmo tempo que o camarista, bradando: 

-- Acorda toda a gente... É preciso não deixar escapar o miseravel! 

Villa Nova correu clamando por soccorro, mas n'este momento 

o alferes envolto na capa, masearado nas suas dobras passava de 

rompante soprava a luz com força e sahia a porta apesar dos gritos 

do regente que bradava: 

-- Agarrem... agarrem o miseravel!

As suas mãos tacteavam as trevas, conseguia segurar um vulto w exclamava radiante: 

-- Não escaparás, infame?!... E a forca que te espera! segredava raivoso. 

Carlota Joaquina, muito desesperada ao vêr o amante perdido, deixava-se cahir n'uma cadeira e começava a soluçar sem proferir palavra. 

Todo o palacio acordava; chegavam os fidalgos pallidos, ensomnados, todos hesitantes, ouviam-se vozes dizendo: 

-- O phantasma d'Ajuda!... Talvez o phantasma que veiu ao paço de Cintra! 

E ninguem se atrevia a dar passada, tomados todos do mesmo natural receio. 

Chegavam creados com luzes que despontavam ao fim do corredor e o regente agarrando sempre o vulto que se não movia, continuava a bradar: 

-- Miseravel... Sabes a sorte que te espera!... 

Arrastava-o para o quarto da princeza ao vêr chegar as luzes, olhava-o rapidamente e ouvia diversas vozes perguntando: 

-- Que se passa?! Que se passa?! 

Mas uma gargalhada retinida soava e D. João de Falperra que o regente agarrava, dizia na sua voz rouca n'um esgar truanesco: 

-- Boa noite, meus senhores!... 

O regente empurrou-o violentamente, Carlota Joaquina olhou-o espantada emquanto o principe explicava: 

-- Ouvi sua alteza gritar... Julguei que se passava alguma cousa... 

-- Era o phantasma... era o phantasma! disseram todos benzendo-se devotamente. 

E a esposa de D. João, n'um gesto brando, murmurava: 

-- Um pesadello... um pesadello... 

Elle, cada vez mais livido sahiu sem a saudar seguido pelos cortezãos, e o bobo gritava ainda:

-- Boa noite, meus senhores!... 

Depois deixou-os partir, espreitou da hombreira do quarto e para a adultera, murmurou: 

-- Senhora, sou um vosso humilde servo... e os seus olhos de bobo, redondos e brilhantes fixaram-se no rosto de Carlota Joaquina que disse brandamente ao comprehender que elle se deixara prender para dar fuga ao outro: 

-- Deves ter bem vasia a tua escarcella, D. João... 

-- Vasia como o meu cerebro... sim... bem vasia... 

A princeza ergueu-se, tomou um punhado de peças d'ouro e offereceu-lhas; então elle, guardando-as á pressa, disse de novo: 

-- Sou um vosso humilde servo!... 

E no corredor, colerico, indignado, murmurou: 

-- Para os outros o amor para mim o ouro! Oh! O bobo... sempre o bobo!... 

Soltou uma risada sinistra e foi-se a rosnar sempre o mesmo estribilho. 





XXXII 



A decadencia 





Terminara a guerra com a França, Gomes Freire regressara a Portugal e recolhera ás suas terras por ordem do soberano, e na côrte, Carlota Joaquina 

continuava a fazer a sua politica activa e a prostituir o leito real. 

A legião portugueza voltara e fôra recebida em Belem pelo regente, que determinara algumas alterações nos uniformes, como unico premio á valentia dos nossos soldados. 

A França cantava victoria por todos os lados; em cinco annos, os filhos da Revolução tinham destruido a união das potencias e assenhoreavam se da politica europea. A espada de Bonaparte obrara prodigios na Italia e agora a Hespanha sollicitara a paz como um bem. 

A Prussia que se erguera para vingar a morte de Luiz XVI depunha as armas, a Hollanda rendera-se, o Piemonte chorava sob as suas ruinas e a Austria, a mais interessada na lucta, desejosa de vingar a morte de Maria Antonietta, filha de Maria Thereza imperatriz d'aquelle estado, curvava se ao cabo d'algum tempo. 

As familias reaes portuguezas e hespanholas tinham-se encontrado na fronteira e tudo parecia restabelecer-se. 

N'aquella tarde, sua alteza o regente, dava audiencia aos seus ministros no paço d'Ajuda para onde viera de Queluz no unico fim de ouvir as altas questões de politica. 

D. João tornara-se mais sorumbatico á medida que engordava; as perfidias da mulher passavam por elle sem o menor abalo, e recolhera-se mais á religião, como para olvidar os seus impetos de revolta contra a adultera. 

Luiz Pinto de Sousa Coutinho, acabava d'entrar, beijava a mão ao regente e baixava levemente a cabeça a José da Silva Seabra que o olhava inquisitorialmente, ao passo que o marquez de Porto de Lima lhe sorria cheio d'amisade. 

-- Sabem, meus senhores, disse o regente com um macio sorriso, tenho uma boa novidade!... 

Os ministros olharam-no avidamente e sua alteza exclamou: 

-- Sabem que já chegaram os musicos e os capinhas de Hespanha... D. Diogo de Noronha, nosso embaixador esereveu-me...? Vou recebel-os dentro em pouco... 

-- Melhor taria o vosso embaixador, alteza, em tratar dos nossos negocios que se embaraçam cada vez mais! exclamou rudemente José Seabra. 

-- Os nossos negocios?! E acaso as diversões não são negocios d'interesse geral?! - perguntou anciosamente o regente, accrescentando: Julgaes então que esses musicos e esses capinhas não interessam o povo? bradou de novo com certa colera. 

-- Sim, meu senhor, mas bem graves são os outros negocios... 

-- Sempre a politica!... Mas então que se passa ainda?! Não fomos á fronteira, não respondemos ao general Perignon, a esse embaixador republicano?... Que mais ainda?! Então não ficou assente que a Hespanha seria a medianeira n'esta questão... Sim foi um testemunho d'amisade da republica franceza a Sua Magestade Catholica! 

-- Certamente... certamente... assentiu o marquez de Ponte de Lima, dizendo logo: Tanto mais que o mesmo se deu em relação a Napoles, á Sardenha, á Parma... 

-- Porém, sr. presidente do real erario, ouvi ainda; bradou o ministro do reino com colera: Acaso nós declaramos guerra á França?! Não enviamos antes uma legião segundo as lettras do tra- 

tados antigos?!... N'esse caso, as condições de paz de Hcspanha 

são as nossas, e nada temos a vêr com a França desde que a guerra terminou... 

-- Isso disse eu ao general Perignon... murmurou Luiz Pinto como a medo. 

-- E que vos respondeu o francez?! perguntou logo o outro colericamente. 

-- Que podia considerar Portugal como potencia belligerante... Depois, estamos abandonados... A Inglaterra não nos protege, a Hespanha pactua com os francezes... 

-- Quereis dizer que a vossa resposta a mr. Arbaud quando nos offerecia a paz deu em resultado a perda de grande parte do nosso dominio... replicou José de Seabra. 

-- Que dizeis?! bradou o outro fazendo-se livido. 

-- Que digo... O seguinte: V. ex.ª auxiliou a Inglaterra e a Hespanha... Essas potencias voliaram-nos as costas... Uma porque é perseguida, outra porque deseja socego e no fim somos nós quem vae pagar as despezas da guerra... Já não bastava os 80 contos que demos á Hespanha pelo transporte das nossas tropas; quando para lá ellas foram á nossa custa! 

-- Sr. ministro... murmurou o regente. Parece que a França nos exige a cabeça como a esse infeliz Luiz XVI... 

-- Não, alteza, mas exige-nos a bolsa... senão vêde. 

E o ministro tirando da algibeira um papel, bradou . 

-- Para sermos considerados em paz devemos ceder todas as terras e ilhas ao norte do Amazonas, que será o limite entre a Guyena franceza e o território portuguez... Livre curso no Amazonas a francezes e hespanhoes, admissão dos navios francezes nas nossas aguas com as mesmas regalias que aos inglezes... 

-- É pouco... E fica salva a nação! murmurou Luiz Pinto. 

-- E 25 milhões de francos d'indemnisação, disse o outro lançando-lhe um olhar severo. 

-- 25 milhões?! gritou o principe deveras assombrado. 

-- Sim, alteza... 

-- É isto verdade, Luiz Pinto?... interrogou muito preoccupado. 

-- Meu senhor... Eu concedi tudo á excepção do dinheiro... Para isso está Antonio d'Araujo em Paris... 

-- Sim... Mas o peor, meu senhor, exclamou José Seabra, é que a Hespanha se prepara para nos fazer guerra d'accordo com a França que continua a julgar-nos belligerantes e alliados dos inglezes! O peor é que o directorio francez repelle o nosso ministro... 

-- É isto verdade, Luiz Pinto?! interrogou novamente sua alteza. 

-- Meu senhor... 

E elle curvava-se cada vez mais irado contra o collega que expunha abertamente a situação. 

-- Mas que fazer?! bradou então o marquez de Ponte de Lima tambem já aterrado. 

-- Meu senhor, começou José de Seabra. Eu mandei a Pina Manique que esquecesse por algum tempo os pedreiros livres e se dedicasse antes a recrutar homens em Lisboa para os regimentos da Extremadura... Precisamos 4280 soldados... 

- Ah! Novamente a guerra?! exclamaram todos assombrados. 

-- Novamente?! Acaso a França já deixou de a fazer?! Não aprisionou os nossos navios, não recolhe nos portos de Galliza os seus corsarios?! Que quer isto dizer? 

Baixaram as cabeças todos confundidos e por fim sua alteza, disse: 

-- E tem já os soldados?! 

-- Meu senhor, bem sabeis que concedesteis insenções a muita gente... Os lavradores, os seus servos, os ourives do ouro, os fabricantes de sedas, os creados de nobres... 

-- Sim... sim... 

-- Revoguei parte d'essas insenções e mandei apromptar os soldados? 

-- É uma violencia?! gritaram os dois ministros espavoridos. 

-- Violencia que se explica, porque na fronteira está o exercito de D. José Alvares e na Galliza a fronteira norte, D. Vicente Scarlatti opera! Em Badajoz ha vinte e oito mil hespanhoes armados!... Que quer isto dizer? 

-- Tens razão... murmurou o regente. Mas espero em Deus que o nosso enviado seja attendido! 

Os outros ministros baixaram a cabeça, olharam José de Seabra que continuava francamente: 

-- Meu senhor: A republica franceza aboliu Deus, e por isso o intendente da policia tanto embirra com as ideias da republica! 

-- José de Seabra! Que queres dizer?! gritou sua alteza tornando-se pallido. 

-- Meu senhor... Quero dizer que nos humilhamos em vão... Antonio d'Araujo vae propor secretamente á França dois ou tres milhões de cruzados alem da cessão ás outras exigencias dos republicanos... 

-- Sim... Mas é pouco... Queremos a paz... titubeou o regente sorvendo uma pitada. 

-- Mais de trinta milhões já a França nos levou aprisionando-nos os navios e roubando as cargas! Além d'isso Antonio de Araujo vae com a missão especial de guardar todas as clausulas da alliança ingleza... 

-- É um dever... affirmou sua alteza. 

- Um dever?! E que nos dá a Inglaterra em troca?! bradou elle enfurecido. Pois que dever é esse apenas nosso?! A Inglaterra se é nossa alliada que nos envie uma esquadra... Ella reina nos mares e Nelson venceu a esquadra franceza!... Depois que resposta temos acerca do emprestimo de quinhentas mil libras que lhe pedimos para a formação dos quatro batalhões de soldados que hão de vir de Hesse? Pedimos marechaes á Allemanha e offerecemos-lhe 

nove mil cruzados de soldo... Onde está o dinheiro?! Onde está a resposta ingleza?! Meu senhor. Estamos abandonados, devemos apenas contar com os nossos proprios recursos... 

Calavam-se ao ouvil-o; e elle bradava: 

-- Chamaes nossa alliada á Inglaterra?! Para que se enviou então o marquez de Pombal a lembrar-lhe o seu dever? E nós, meu senhor, que fomos fortes, rojamo-nos agora... Sim... É o ministro inglez em Paris que encaminhava o nosso! Foram-lhe dadas as suas credenciaes e Antonio de Araujo ticou sósinho! Eis a que chegamos... Depois como quereis que a França nos attenda se continuamos a ajudar os inglezes com quem a republica está em guerra?! 

-- Ajudal-os?! bradou Luiz Pinto que estava côr da cora. 

-- Sim, senhor ministro, e vós o sabeis tão bem como eu! tornou elle, accrescentando logo: Defronte de Caminha a fragata ingleza Aurora apresou a goleta hespanhola S. Braz porque a Hespanha é a natural alliada de França... Pois bem, que reclamações dirigimos á Inglaterra? A nossa fragata Tritão corre a avisar a esquadra de John Jervis da aproximação dos hespanhoes, encorpora-se com os inglezes e auxilia-os! Dá se batalha e o governo concede a John Jervis o titulo de conde de S. Vicente por derrotar os hespanhoes! A esquadra ingleza recolhe-se em Lagos onde recebe soccorros e munições... Estamos ou não em guerra com a Hespanha alhada de França? Póde o directorio ouvir Antonio de Araujo?! 

Calaram-se ainda como esmagados ante aquella logica terrivel e mathematica que obrigou o regente a dizer: 

-- Pareces o ministro da guerra!... 

-- Meu senhor... Isto acorre a todo o fiel portuguez! 

-- Mas, meu senhor, disse então Luiz Pinto com grande pressa. S. ex.ª esquece-se que os negocios da minha secretaria são segredos até serem presentes em conselho! 

-- Queres dizer?! 

-- Que a Inglaterra nos respondeu, meu senhor... As victorias de Bonaparte na Italia deixaram livre o exercito que póde vir a Portugal e então os nossos alliados... 

-- Ah!... Que fazem?! disse Ponte de Lima que dormitava até então. 

-- Mandam-nos seis mil homens sob o commando d'um marechal experimentado... 

-- Seis mil homens?! Oh! Não são muito generosos os nossos alliados, casquinou o ministro do reino.

-- Mas mandei pedir vinte mil... Escrevi a D. Lourenço de Lima para contractar na Austria o general Mack e o coronal Melfeld, dois valorosos cabos de guerra... Comprarei á viuva do conde de Lippe os planos da defeza de Portugal... 

-- E tudo será assim?! interrogou o regente. 

-- Mack não virá, meu senhor... Mas sim o principe Christiano de Waldeck, general austriaco... 

-- Bem... D'esse modo podemos dormir deseançados! volveu Ponte de Lima do mesmo modo sereno. 

-- Ainda não, senhor marquez, gritou Luiz Pinto. E ainda não porque mesmo d'esse modo teremos apenas trinta e dois mil soldados, o que é pouco para fazer face á Hespanha... E notae que já metto na conta a segunda linha que para nada serve!

Luiz Pinto olhou-o pasmado e exclamou: 

-- Acaso sabeis o numerario do exercito hespanhol? 

-- Sim, senhor ministro... Não é debalde que tenho a policia ás minhas ordens! Contae... e pausadamente enumerou: Trinta e tres batalhões de infanteria, vinte e dois esquadrões de cavallaria e setecentos homens de artilharia... E bem vêdes que nós temos apenas: Vinte e tres regimentos de infanteria... Dez esquadrões de cavallaria e quatro regimentos de artilharia... Depois estamos mal de estado-maior... 

-- Mal?! bradou o ministro da guerra deveras aterrado. 

E José de Seabra como se fizesse uma estatistica, começou: 

-- Sim, senhor ministro, apenas temos dez tenentes-generaes effectivos e quinze graduados, dez marcchaes de campo effectivos e tres graduados!... 

Parava uns momentos e exclamava: 

-- E agora dizei-me quem será o general em chefe de toda esta gente? Parece-me que não querereis dar o commando a um estrangeiro... 

-- Oh!... Mas senhor... Temos o general em chefe actual... 

-- Sim... Decerto..., assentiu o regente deveras aborrecido. 

-- O duque de Lafões... elucidou o marquez, continuando triumphante: 

-- Parece me que nada tereis a dizer ao duque, que para demais tem ideias modernas como v. ex.ª e militou nos exércitos extrangeiros... 

-- Mas decerto... assentiu Luiz Pinto julgando ter esmagado o adversario. 

Elle esboçou um sorriso e volveu: 

-- Tendes razão... Ha apenas uma pequena cousa .. É que s. ex.ª... apenas pode calçar botas de velludo e tem 84 annos!... 

O regente soltou uma risada e os ministros ficaram estupefactos de semelhante audacia. 

-- Mas se Forbes... disse elle no seu tom pastoso. 

-- Meu senhor... Elle deixou a energia no Roussillon... Depois temos como generaes da artilharia, o conde de Aveiros, de infanteria, o marquez das Minas, de cavallaria, o conde de Sampaio... Bellos fidalgos, meu senhor, mas fracos militares... Sangue de heroes é verdade, mas agora precisa-se mais de estrategia!... 

E elle entrava a fallar no seu ar ironico, dizendo por fim: 

-- Eis a situação da terra, meu sentior, como o vosso ministro da guerra a não quer ver... 

-- Agora no mar estamos bem servidos, continuava d'ahi a momentos. Doze navios aprisionados pelos francezes... No Tejo duas fragatas paioes de mantimentos... A esquadra do marquez de Niza foi queimada por ordem de Nelson, nosso alliado, e com certeza o marquez para voltar ao reino tem de tomar passagem n'um mercante... 

O regente agora muito aborrecido com aquella maneira crua de dizer a verdade, fazia um gesto e ordenava: 

-- Antonio de Araujo que acceite tudo! Pagaremos na graça de Deus!... Tudo, menos ferir as suseeptibilidades inglezas!... 

-- Meu senhor... exclamou então José de Seabra. Vêde que deviamos antes romper com a Inglaterra! 

Os ministros olharam-n'o espantados, o regente fez uma visagem e redarguiu: 

-- José de Seabra, deixa-me os papeis do teu ministerio, para a assignatura! E vós, senhores, do mesmo modo! Preciso receber os capinhas!... 

E fazia um gesto de despedida a que os ministros sahiam. 

Á porta depararam com os loureiros e musicos hespanhoes que sua alteza ia receber e José de Seabra murmurou: 

-- Com touros e musica se faz a alegria d'um principe, com ultrages e baixezas se governa uma nação... 

Olhou ainda os toureiros e ouviu a voz de sua alteza exclamar jubilosamente: 

-- Sejam bemvidos... 

-- Oh! Parece que Falla aos inimigos! casquinou o ministro sahindo de rompante, mal sabendo quanto a verdade havia n'aquelle gracejo em relação ao principe, que aconselharia a nação a receber os francezes como amigos dez annos depois. 





XXXIII 



A vassalagem 





Tinha decorrido algum tempo e sua alteza assistira ás festas de setembro, onde os capinhas e os musicos vindos de Hespanha tinham merecido o seu real agrado.

N'aquella tarde, o regente, passeava no Tejo, na sua galeota, emquanto tudo se apromptava para uma guerra imminente. 

Tinha chegado a divisão ingleza sob o commando de sir Charles Flevoart e eram os navios britannicos que saudavam a passagem do regente. 

Em Ajuda, na mesma sala do conselho, dois dos ministros esperavam que o principe chegasse. 

Eram Luiz Pinto e D. Rodrigo de Sousa Coutinho, que fôra nomeado ministro da marinha por morte de Martinho de Mello. 

-- E sua alteza não vem antes d'esse maldito José de Seabra... murmurou o ministro da guerra lançando um olhar para o largo. 

-- Oh! Luiz Pinto, descançe... Elle hoje não terá que dizer... 

-- Eu sei... Elle era dopinião que se acedesse aos artigos 4.º e 5.º do tratado... 

-- Oh! Impossivel!, gritou o outro. Esses artigos eram infames!... Um pedia para que não auxiliassemos a Inglaterra, o outro dizia que nos nossos portos não deveriam estar mais de seis navios de cada um dos belligerantes... 

-- Sim... E lord Greenville, o ministro inglez, accusou-nos logo de faltarmos á alliança só ante a lettra do tratado! Roberto Walpoole, o embaixador inglez em Lisboa reclamou... 

-- E tu disseste-lhe que tudo estava annullado... 

-- Decerto... Porque os nossos fortes, o Bugio e S. Julião estavam occupados pelas tropas inglezas, que vieram auxiliar-nos, e facil seria apossarem-se de Lisboa como inimigos! 

-- Horrorosa situação, na verdade, disse de parte o marquez de Ponte de Lima. 

-- E o peor é que o Directorio deu-nos dois mezes para a rectificação do tratado e já lá vão passados..., exclamou o ministro. 

-- Não vos apoquenteis... O Directorio concedeu ainda mais um mez ao nosso embaixador... tornou o marquez na sua forma habitual de ver as cousas. 

-- Sim... Mas a Hespanha deixará passar o exercito francez... titubeou o ministro deveras assustado. 

-- Sim... é verdade... Mas que fazer?!, perguntou o marquez no estribilho habitual das occasiões difficeis. 

-- Mandei pedir 25:000 homens mais á Inglaterra.

-- Não os enviará... 

-- N esse caso mandarei pedir licença para rectificar o tratado com a França!, volveu do mesmo modo. 

-- Não consentirá, tornou Rodrigo Coutinho, que parecia ao facto da politica ingleza. 

-- Que fazer?! Que fazer?!, exclamou elle então deveras angustiado, no que foi secundado pelo marquez. 

E ambos, de mãos na cabeça, lamentavam-se, concluiam por dizer: 

-- Que vae ser de nós?! 

Então Luiz Pinto tornou novamente: 

-- E o peor é que já enviei a indemnisação... Em vez de dois milhões de diamantes mandei tres... Já lá vão por esse mundo fóra... Resta saber se a França acceita... 

Calou-se rapidamente ao ver entrar sua alteza que os saudava e tomava o seu logar, dizendo: 

-- Ah! que bella caçada ás gaivotas, meus senhores!... 

-- Quantas matou vossa alteza?! perguntou servilmente o marquez. 

-- Seis... Ah! E que bella tarde!... É verdade que temos de França?!, interrogou como ao acaso. 

-- Nada, meu senhor... disseram os tres docemente. 

-- Ah! N'esse caso está encerrado o conselho..., e sua alteza erguia-se de novo quando se ouviu a voz de José de Seabra exclamar 

-- Meu senhor... Peço-vos um momento d'attenção... 

-- Aposto que tendes noticias de França?!, disseram os ministros chasqueando. 

-- Exactamente, volveu elle com a maior fleugma. 

-- Noticias?! Mas como... se no ministerio dos estrangeiros nada se sabe?... exclamou o marquez de Ponte de Lima. 

-- Já tive a honra de dizer a v. ex.ª que para alguma cousa tenho a policia... 

-- Que policia é a vossa que assim deseobre taes cousas?... 

-- É uma policia com tacto, em que confio abertamente e a qual acaba de me trazer esta noticia: Alteza, meus senhores... O nosso ministro em Paris, Antonio de Araujo... 

-- Rectificou o tratado?!, exclamou o ministro todo radiante. 

-- Está preso no Templo, na mesma prisão de Luiz XVI! disse elle com certo desdém encarando os collegas. 

Até o proprio regente se ergueu da cadeira ao ouvil-o; os outros ficaram paralysados, como se vissem irromper os phantasticos soldados da republica, ali pelo aposento, ao som da Marselheza. 

-- Preso?!, gritaram por fim em unisono. 

-- Sim, meus senhores... Sim, alteza real! 

-- Mas é um attentado ás leis das nações!..., protestou logo o marquez. 

-- Não é!, volveu serenamente o ministro. 

-- Que dizeis?! Então assim se ergue a mão sobre um plenipotenciario?, gritou deveras irado o ministro da guerra. 

-- Ergue se a mão contra o ministro de Portugal que corrompia o directorio francez... O escandalo fez-se... 

-- Mas não comprehendo cousa alguma, exclamou o regente agora muito pallido. 

Luiz Pinto olhou José de Seabra como a pedir-lhe piedade, porém elle continuou: 

-- Alteza, perguntae ao senhor Luiz Pinto quaes os meios de que Antonio de Araujo se servia para fazer a rectificação do tratado. 

-- Os meios?!, titubeou o outro. Mas eram os mais diplomaticos... 

-- Sim... Diplomaticos para os homens do Directorio, não para a nação franceza. Alteza... Antonio d'Araujo offereceu a Carlos Delecroix, ministro dos negocios estrangeiros de França... 

-- Ah! Quereis fallar n'umas barras d'ouro?!, atalhou o ministro rapidamente. 

-- Sim... D'essas barras d'ouro offerecidas... O Directorio é corruptivel, mas a França castiga, tornou elle ao passo que os outros exclamavam: 

-- Mas como se soube tudo isso?! 

-- Bem simplesmente, volveu o ministro, lançando um olhar ao regente que o olhava pasmado. 

-- Antes da invasão de Veneza pelas tropas francezas, Quirini offerecera dinheiro ao Directorio para salvar a sua republica... Mas o territorio foi invadido e a quantia não foi paga! Mas apesar de tudo queriam o pagamento... Então Quirini esereveu uma carta onde acusava Barras e Rebsvell, as almas do Directorio... 

-- Mas que tem isso a ver com Portugal, perguntaram pasmados. 

-- Tem que Quirini foi preso em Veneza ao mesmo tempo que em Paris se lançava mão d'um tal Viscovici, que fôra o corretor do negocio... Sim Viscovici é um agente de Barras e com elle tratara o ministro portuguez por intermedio de um tal Poppe... 

-- Bem sei!... Antonio de Araujo fallou-me d'elle até a proposito d'umas quantias que buscava extorquir-lhe, elucidou o ministro cada vez mais pallido. 

-- Pois bem, esse tal Poppe, ao ver o cumplice preso pensou em lhe apanhar dinheiro e apresentou alguns recibos á policia pronunciando então o nome do nosso ministro, que foi immediatamente preso por tentativa de suborno no governo do Directorio... Eis a verdade! gritou elle olhando os outros que estavam muito pallidos. 

-- E agora que fazer?!, perguntaram de novo cada vez mais perturbados. 

Ninguem se atreveu a responder; apenas o regente murmurou: 

-- E são capazes de o levar ate á guilhotina, como a esse pobre Luiz XVI... 

Desde algum tempo para cá a morte d'esse principe constituia a sua principal preoccupação e estremecia só á idéa de que pudessem tentar alguma cousa contra a sua pessoa. 

Então Luiz Pinto, murmurou: 

-- Deviamos eserever a Tayllerand, que substituiu Delecroix nos negocios estrangeiros... 

-- Sim... sim... Tudo para applacarmos as iras d'esses francezes..., supplicou o regente deveras assustado. 

-- Não é o vosso aviso?!, perguntou o ministro todo tremulo, dirigindo-se aos collegas, que accenaram affirmativamente. 

Apenas José de Seabra ficou calado, olhando o largo d'Ajuda todo banhado de sol. 

Luiz Pinto sentava-se á secretaria com permissão do regente e começava eserever deveras desorientado. 

Os outros ministros estavam cabisbaixos, Jose de Seabra passeava a largos passos pela casa, de mãos nas algibeiras. 

De repente o ministro ergueu-se e começou a lêr a carta que lhe tremia na mão, dizia as palavras em voz entrecortada e nem tinha a coragem d'olhar os collegas, que o ouviam em silencio: 

-- «Cidadão ministro. -- Um acontecimento tão extraordinario como o da prisão do cavalheiro de Araujo, ministro acreditado de S. M Fidelissima junto do Governo da Republica Franceza, deve merecer por todos os respeitos a attenção mais constante da côrte de Lisboa. 

«Por isso é que tenho ordem da rainha minha senhora para reclamar do mesmo governo, com a mais viva instancia, a liberdade do sobredito ministro... 

-- Muito bem!, atalhou José de Seabra, admirado dos termos em que o outro escrevera. 

Ponte de Lima e Rodrigo de Souza apoiaram-n'o tambem, e elle então disse com um sorriso para José de Seabra. 

-- Ainda não conclui... 

-- Ah! Mas dizei n'esse caso..., volveu o outro do mesmo modo amavel. 

O ministro foi lendo na mesma voz pouco segura: 

-- «E contando infinitamente com a justiça do Directorio executivo, e com as attenções que se devem aos representantes publicos, tenho motivo de esperar que tão infeliz negocio não possa deixar de ter um resultado prompto e equitativo.» 

-- Muito bem!, tornou ainda o ministro cada vez mais admirado. 

Os outros accenavam tambem afirmativamente e Luiz Pinto tornou: 

-- Ainda não acabei, senhores... 

E continuou a ler d'esta vez em voz mais segura ante os applausos eseutados: 

-- «Longe de tão triste acontecimento poder respirar os desejos ardentes de S. M. Fidelissima pela conclusão d'uma paz ambicionada, Sua Magestade está prompta a accelerar-lhe a volta, nomeando sem demora outro ministro com um conselheiro de legação junto da Republica Franceza; e para poder executar as suas maternaes intenções, a rainha fidelissima só espera a annuencia do Directorio executivo.» 

Os outros d'esta vez já habituados aos applausos exclamaram: 

-- Muito bem!... É o que é necessario! 

José de Seabra olhou-os, pôz a mão entre a abertura da casaca e ficou-se sem pronunciar palavra. 

-- Não sois do mesmo aviso, senhor?, interrogou então Luiz Pinto. 

Elle olhou-o e volveu muito singelamente: 

-- Não! 

-- Oh! E as razões?!, interrogou elle com grande pressa. 

-- Acho escusado esse ultimo periodo que é humilhante! exclamou da mesma forma serena. 

-- Humilhante?! exclamaram todos, inclusive o regente cheio de 

pasmo. 

-- Sim... Pois que outro nome se pode dar a essas palavras... A França de ha muito tem uma lucta aberta entre nós, é verdade que não parte d'ella o insulto mas sim de nós que auxiliamos a Inglaterra... No emtanto, a rainha de Portugal não pode, não deve declarar que o seu amor pela Republica Franceza não esfriou... Sim, meus senhores... Ainda ha bem poucos dias diziam que eu tinha ideias modernas. No emtanto não sou eu que fallo da sympathia pelos francezes!... e logo n'um tom escarninho disia: 

-- Olhae, senhor ministro, que podeis incorrer no desagrado do intendente! 

O regente, já farto da scena, exclamou: 

-- Mas José de Seabra, deixae que vá assim mesmo a nota... Carecemos de satisfazer a França!... 

-- Ah! Se vossa alteza o entende d'esse modo?!... 

Encolheu os hombros, tornou a sentar-se ao mesmo tempo que D. João dizia: 

-- Sabes que te vaes assemelhando muito ao Sebastião José... 

José de Seabra, fez-se pallido, lembrou-se de todos os tormentos que o grande Pombal me infligira outr'ora e entre dentes murmurou: 

-- Meu senhor... Eu soffri muito n'esse tempo por dedicação á augusta mãe de V. A., no emtanto se o homem soffreu o patriota rejubilou... No tempo de pessoa de quem fallaes Portugal tinha o respeito do mundo!... A Inglaterra recebia uma lição em tudo semelhante á inflingida outrora com os doze de magriço!... A Hespanha recebia como reposta que a Aljubarrota era pequena mas lá tinham cahido sessenta mil homens, a França respeitava nos e as nações curvavam se em face do leão lusitano!... Hoje já não ha as perseguições aos jesuitas que foram substituidos pelos pedreiros livres, já os Tavoras não vem para o patibulo, antes vivem no paço ao lado da soberana! Mas em compensação, a Hespanha e a Inglaterra atraiçoam-nos, a França guerreia-nos e nós, meu senhor, cruzamos os braços! 

-- Assim é... murmuraram elles bem a seu pesar. 

E em todos aquelles cerebros passou a ideia do Pombal forte que carecia de um novo Camões para cantar os seus feitos, a grandeza de sua envergadura d'epopea. 

-- Pois sim, Seabra, mas toda essa invocação do passado não salva os embaraços do presente... exclamou o regente de muito mau humor. 

-- E não salva porque a nossa situação é afflctiva ao ultimo ponto, mercê dos erros commettidos!... 

Olharam no cheios de pasmo e elle continuou: 

-- Perdoae senhores, mas d'este trama afllictivo todos somos bem culpados. Nós, os ministros, não temos confiança uns nos outros... Todos nos julgamos grandes para procedermos sós e d'ahi todos esses lances... A politica é um jogo de xadrez em que a menor distracção traz cheque ao rei!... 

-- Sim... mas que fazer?! Que fazer, clamou o regente como ha pouco os ministros. 

-- Senhor, meu senhor... A culpa d'este embaraço da situação é da alliança ingleza... 

Calavam-se ao verem a verdade das auas palavras, apenas Rodrigo Coutinho se atreveu a fazer um protesto timido: 

-- Sim... Da alliança ingleza repito! Se não fossem as dissenções da Inglaterra com a França acaso alguem se teria dirigido a Portugal? 

-- E de quem parte a recusa de receber mr. Arbaud que em 1793 nos ofíerecia a amisade á França?! 

-- Mas, e o barbaro assassinio de Luiz XVI, acaso o poderiamos esquecer?! perguntaram todos em côro. 

-- E que tinha Portugal com o que se passava no extrangeiro? gritou o ministro n'um desabafo patriotico ao vêr o horror da situação. 

-- E as outras nações?! interrogou Luiz Pinto. 

-- As outras nações?! Mas todos tinham os seus interesses ligados ao monarcha francez! redarguiu elle accrescentando: 

-- Os pequenos estados da Italia secundavam Fernande IV de Napoles porque queriam manter a sua integridade... E Fernando revoltou-se por ser o esposo de Maria Luiza, irmã de Maria Antonieta. 

-- E a Prussia? interrogou o outro esperando triumphar. 

-- A Prussia era visinha da França e temia que a revolução se alastrasse no seu territorio... A Austria defendia Maria Antonieta filha da imperatriz Maria Thereza!... Mas Portugal, sim que laços o ligavam?! 

Calavam- se embaraçados e elle no auge de colera esmagava-os, mostrava-lhe como era para temer a situação em que tinham collocado a patria. 

-- Mas poderam vencer... A Inglaterra... 

-- Seguirá o exemplo de Hespanlia. Ha-de trahia-nos, creiam... Depois a prova mais cabal é a occupação dos nossos fortes pelas tropas britannicas vindas para nos prestarem auxilio... 

Ficavam novamente embaraçados, e elle tornava: 

-- Remediemos uma parte do mal, senhores... 

-- Como?! 

-- Nomeamos generaes das armas nas diversas provincias da fronteira, alguns militares experimentados que possam responder aos ataques dos nossos visinhos, a quem a França pôde auxiliar mais dia menos dia... Carecemos de um general para o Alemtejo, outro para a Beira-Baixa, um para Traz-os-Montes e outro para o minho... 

-- Sim, podemos fazer essas nomeações! exclamou o ministro da guerra, accrcseentando logo: 

-- Tenho até mesmo a relação d'esses officiaes, resta o assentimento de sua alteza. 

-- Vejamos! disse o principe recostando-se mais commodamente na poltrona. elle tirou da pasta de marroquim negro a relação e começou: 

-- Para o Alemtejo, o general Forbes tendo por tenente-general o brigadeiro conde de Soure... Tomaremos outro governo em Portalegre com o conde de S. Lourenço, com o brigideiro Angeja... 

-- Mas reparae, senhor ministro, que Forbes está velho, que o conde de Soure se é distincto fidalgo nada fez como militar... Vêde que o conde de S. Lourenço tem subido os postos pelo seu nascimento e que Angeja, antigo conde de Villa Verde, apenas sabe acompanhar o viatico da sua freguezia!... 

-- São elles os que tem maiores logares no exercito e não os desauthorisarei! volveu o ministro com fleugma. 

José de Seabra encolheu os hombros e não respondeu directamente, no emtanto murmurou por entre dentes: 

-- Sempre os postos pelo nascimento... 

-- Bem... Para a Beira irá João Durdas de Queiroz com o marquez d'Alorna por brigadeiro... 

Desta vez o ministro resmungou: 

-- Sim, esse marquez é mais militar do que fidalgo!

-- Para o Algarve, continuou o outro. Teremos o condo de Castro-Marim... No Minho, o maquez de lá Rosiére... 

-- Quem á esse fidalgo?! perguntou á pressa o ministro com grande pasmo. 

-- Quem é?! Mas á um emigrado francez, um realista emigrado, fiel aos Orleans! José de Seabra, sorriu e volveu: 

-- Sim... Lembrae-vos dos extrangeiros e esqueceis um dos mais valorosos portuguezes! 

-- Quem?! perguntou o regente muito rapidamente. 

-- Meu senhor, um official cuja bella carreira militar lhe dá direito a um posto d'honra, cuja bravura e coragem o recommendo mesmo áquelles que não o conhecem senão pelo seu nome e pela gloria dos seus feitos... Um official que viveu em França na côrte de Maria Antonieta e assistiu á revolução, um heroe que uma soberana extrangeira distinguiu!... 

-- Mas quem é esse official?! interrogou o ministro da guerra avidamente. 

-- Já vos disse e deveis conhecel-o... Mas sempre accrescentarei que a pessoa em questão se portou valentemente no Roussillon... 

-- Fallaes de... 

-- Gomes Freire de Andrade! exclamou elle julgando assombrar os outros. 

Mas Luiz Pinto, levou a audacia a ponto de soltar uma risada ao accrescentar: 

-- Um indisciplinado!... 

-- Meu Deus!... Um revoltado contra as torpezas como eu mesmo, exclamou elle rapidamente. 

- Esse homem nunca terá o posto d'honra que desejaes... resolveu o ministro da guerra muito firmemente. E notae que é ainda um pouco de minha familia, por parte de D. Miguel de Forjaz, primo de minha esposa e d'esse official! 

Então José de Seabra voltando-se para o regente bradou: 

-- Senhores, peço-vos um momento d'attenção... Ouvi-me... Gomes Freire de Andrade é coronel da guarda imperial russa, foi o vencedor d'Ochzakow, é condecorado com S. Jorge, recebeu uma espada d'honra das mãos de Catharina II... Quando os estrangeiros applaudem os nossos, quando os distinguem, não devemos ficar de braços cruzados!... 

-- Essas distincções partem mais da sua belleza d'homem que do seu valor guerreiro! rosnou Rodrigo Coutinho. 

-- Quereis dizer?! exclamou o ministro fixando-o abertamente. 

-- Que fui ministro em Turim e ali chegaram os escandalos da côrte russa... O principe Potemkim, favorita da imperatriz, chegou a desafiar o vosso heroe... 

-- Negaes-lhe a bravura?! gritou José de Seabra com aprumo. 

-- Nego-lhe a heroicidade!... redarguiu elle com desprezo. 

-- Pois bem, nesse caso, procedei como quizeres... 

-- Depois esse homem é um rebelde, um amigo dos pedreiros livres que como o marquez d'Alorna recusam obedecer... 

-- E no emtanto nomeaes o marquez... disse elle triumphantemente. 

-- Tens razão Jose de Seabra, volveu o regente. Rebelde por rebelde, tanto é um como outro... E se esse homem tem o valor que dizes, peço para Elle um commando... 

-- Mas é simples coronel, meu senhor! volveu o ministro com desplante. 

D. João, que gostava da justiça, um pouco supersticioso talvez ao ouvir fallar do heroe, tomou a penna e esereveu algumas palavras n'um papel, dizendo: 

-- Agora é brigadeiro, Luiz Pinto!... 

O ministro fez-se pallido, baixou a cabeça e curvou-se n'um assentimento em frente do principe e logo em voz baixa para o marquez de Ponte de Luiza, dizia: 

-- Irá para o Minho sob as ordens de la Rosiére... 

José de Seabra, radiante, beijava a mão ao principe e exclamava: 

-- Meu senhor, tereis mais uma victoria no nosso exercito se derem um commando d'honra ao heroe, ou tereis mais um morto de valor?... 







XXXIV 



Um baile na côrte 





A vasta sala do paço d'Ajuda abria-se aos convidados do regente, na sua maioria os officiaes que deviam partir para a guerra n'esse anno de 1801 em que Napoleão Bonaparte tomara o cargo de primeiro cônsul da republica franceza. O corso audaz, vencedor de Montebello e Marengo, começava a tornar-se o terror da Europa. Agora investido no seu elevado posto, senhor quasi absoluto dos destinos da França, não perdoava aos inglezes as suas victorias navaes sobre a França, as quaes tinham gerado um outro heroe, o almirante Nelson. Bonaparte puzera de lado a espada flammejante do Egypto, o symbolo do seu poder, que reluzira ante as Pyramides, deixara memoravel a sua allocução rapida mas energica, bella como um canto épico, dirigida 

aos soldados em frente d'essas pyramides de quarenta seculos e começava a dedicar-se á politica. 

E n'aquella noute de baile ali na côrte, o nome do corso era pronunciado com certa cólera ao saber-se da sua operação contra Portugal. 

N'um grupo de officiaes, brilhantes nos unitormes, uns seis ou oito rapazes, tresandantes de mocidade, fallava se animadamente da proxima lucta. As tropas estavam a postos, apenas os commandantes e outros officiaes de cargos especiaes tinham ficado para esse baile em que sua alteza os desejava conhecer. 

As luzes e as flôres espalhadas, a belleza das damas, as joias nos feixes diamantinos das suas pedrarias, nas scintillações ardentes, a musica enebriante e os perfumes, davam um ar de apotheose precoce áquelles heroes do dia seguinte como lhes chamava o ministro da guerra ao fallar com o duque de Lafões, um velho de singular aspecto, pintado a carmim, com signaes a moquearem-lhe as faces apergaminhadas e que vestia o uniforme de general em chefe. No emtanto calçava sapatos de côrte, porque os seus pés não toleravam as botas militares, arrimava-se ao bastão de commando, como a um bordão, e nos seus labios errava um sorriso semi-ironico. 

Esse duque de Lafões, D. João de Bragança, nascido n'um berço quasi real, dedicava-se ao estudo, vivia com sabios, apadrinhava as idéas da epoca com o mais fino espirito e tinha um desprezo absoluto por essa côrte d'effeminados, cujas modas seguira e até exaggerava, apesar de rir de si proprio. 

Ali no seu recanto, com o ministro, ouvia os preludios do minuete que se ia dançar e inclinava-se ante uma dama de certa edade mas ainda formosa, que entrava com aprumo na sala, seguida por um individuo de meia edade, entrajado de côres vivas, como um peralta, o que o tornava quasi ridiculo, e ao lado d'uma joven dos seus dezoito annos, mas d'uma soberba formosura de loura. 

-- Adeus, meu caro general, disse a senhora de velho aspecto, accrescentando logo: 

-- Dentro em pouco á vossa reputação de homem de fino espirito, de galanteador da Du Barry em Versailles, prestareis as honras d'um heroe -- e a dama sorriu ironica e maliciosamente, como a desafial-o -- não quereis dançar o minuete, general em chefe? 

O seu olhar penetrante verrumava o ministro da guerra, como a censurar lhe a nomeação do duque, que respondia: 

-- Senhora marqueza d'Alorna, vós que fazeis versos e tendes reputação de boa poetisa, sereis a encarregada de tecer o meu elogio... 

-- Dou o meu logar a Manuel Maria Barbosa du Bocage..., exclamou ella sorrindo. 

-- E tambem a vossa fortuna, senhora marqueza?, perguntou n'este momento uma voz alegre, ao mesmo tempo que um homem magro, pallido, d'olhos azues, a physionomia insinuante, se approximava reverente: 

-- Não, caro mestre, essa pertence a minha filha, e ella apontava a joven que sorria a Bocage, o qual era cumprimentado pelo duque, que começava a fallar-lhe da sua prisão no Santo Officio. 

-- Não quereis então dançar o minuete, duque?, tornou a marqueza no seu tom sarcastico. 

-- Senhora... Olhae que me encosto ao meu bordão... 

-- Meu Deus, duque, e como quereis commandar as tropas, quando nem podeis dançar um simples minuete... 

Bocage sorriu e volveu: 

-- Ah! Mas é que s. ex.ª commanda a cavallo! 

O proprio ministro da guerra soltou uma risada e a marqueza murmurou: 

-- N'esse caso tereis, mestre, de fazer um soneto a sua alteza!... e ella sublinhava a palavra chasqueando o duque, a quem chamavam assim pelo seu parenteseo com os Braganças. 

-- Olhe, aqui está o meu genro, o sr. conde da Ega, disse a marqueza apontando o homem de edade que a acompanhava, o qual, com um cavallo, decerto de raça peor do que o vão dar ao senhor duque, veiu do Roussillon até aqui e por cá se deixou ficar... 

-- Meu Deus .. mas s. ex.ª era apenas ouvidor do conselho de justiça, tornou o poeta. 

-- Melhor desculpa tem..., disse a marqueza, que gostava muito de chasquear. Mais ouvia as balas... D'ahi maior terror! 

O conde da Ega sorriu embaraçado, a joven esposa teve no rosto uma expressão desdenhosa, ao passo que a velha marqueza accrescentava: 

-- E não tendes um soneto para essa acção, Manuel Maria?! 

-- Senhora, os vossos desejos são ordens!, redarguiu o vate, emquanto o conde o encarava furiosamente. 

O ministro affastou-se depois de cumprimentar o duque, e o poeta começou: 

-- Ao nobre conde... 



-- Não chores, cara esposa, que o destino 

Manda que parta, á guera me convida; 

A honra prezo mais que a propria vida 

E se assim não fizera, fôra indigno. 





O fidalgo, que esperava um epigramma, acercou se delle já sorridente, ao passo que elle continuava: 



«Eu te acho, meu conde, tão menino 

Que receio» 



Ao ouvirem a ironia á edade do conde rejubilaram e elle ficou parallysado ao ouvir o resto do soneto: 



Ah! não temas, não, querida; 

A franceza nação será batida, 

Este peito que vês é diamantino. 



"Como é crivel que sejas tão valente?!

Eu herdei o valor d'avós e paes, 

Que essa virtude tem a lusa gente! 



"Porém, se as forças forem deseguaes?... 

Irra, condessa! És muito impertinente! 

Tornarei a fugir, que queres mais? 



Bateram palmas, soltaram gargalhadas acclamando o vate, ao mesmo tempo que o conde dizia: 



-- É uma cilada!... 

-- Por Deus, meu genro, mostre-se ao menos homem de espirito!, exclamou a marqueza d'Alorna, emquanto a condessa da Ega ria a bom rir. 

O conde fez um cumprimento e affastou-se rancorosamente a murmurar invectivas, ao mesmo tempo que um fidalgo fardado de capitão da guarda real se apresentou, murmurando ao ouvido do Bocage: 

-- Obrigado, Manuel... <marca num="*" pag=85>



<nota num="*" pag=85> V. Bocage (Romance do mesmo autor) </nota>



-- Nada tens a agradecer D. Pedro de Lencastre, tornou elle no mesmo tom. Ao mesmo tempo que ponho em fuga o marido da mulher que amas, já fiz versos á tua velha esposa e prima, a qual reclusaste em Odivellas! 

Os olhos da condessa tinham scintillado alegremente ao vêr o fidalgo que lhe offerecia o braço e murmurava depois de cumprimentar a marqueza: 

-- Quereis dar-me a honra d'este minuete?... 

-- De bom grado, senhor!

E ao affastarem-se, o amigo de Bocage exclamou: 

-- Como sou feliz, minha Juliana!

-- Como poderiamos ter sido ambos felizes!... Oh! Se eu tivesse nascido uns annos mais cedo! 

-- Ou se eu, para salvar meu primo o sr. marquez d' Abrantes, que tem um nome egual ao meu, não tivesse desposado a velha que jaz em Odivellas... 

Emquanto elles se mettiam no minuete a marqueza d'Alorna tomava o braço do duque de Lafões, e Bocage seguia com a vista o conde da Ega, que passava rente delle e murmurava: 

-- É preciso ter espirito, dizia marqueza! Oh! Sim... Ter espirito e vingar-me! 

O poeta sorriu, encolheu os hombros e foi-lhe na peugada. N'um grupo, André de Meira, fardado de tenente de granadeiros, conversava com um joven alferes, que era rodeado pelos outros. 

-- Deixa agora essa tristeza, André, murmurava o outro... Vamos dançar... Então entre todas estas damas não ha uma que mereça a honra da tua mão... Está aqui a maior nobreza do reino... 

-- Que importa?! Aqui está a maior nobreza do reino, e em Hespanha está o general francez Berthier, que ofifereceu ao principe de Paz, ministro de Carlos IV, nada menos de 15:000 granadeiros experimentados em Marengo... 

-- O quê?! Então sempre é verdade que os francezes auxiliarão os hespanhoes?!, perguntou logo um joven alferes. 

-- Sim... Luciano Bonaparte, o irmão do primeiro cônsul, veiu activar todos os preparativos de guerra! Meus amigos, dentro em quinze dias teremos dado o primeiro combate!... tornou André de Meira, tristemente. 

E depois, n'um arranco, bradou: 

-- Ah! Se me vejo em frente do inimigo, não o creio... Tenho uma vontade firme de me bater, de fazer recuar em frente das armas portuguezas essa bandeira até agora vencedora por toda a parte... Se fôr preciso morrer no campo, de bom grado morrerei! Oh! os francezes, raça maldita que tem commettido todos os crimes e se levanta agora contra nós.... Vamos, meus camaradas, devemos amaldiçoar do intimo d'alma essa França... 

-- Onde se commettem torpezas, onde se guilhotinam reis, gritou D. Miguel de Forjaz, quê se approximava fardado de sargento-mór. Depois teremos o auxilio da Inglaterra famosa e altiva, da nossa alliada! 

-- Que no entretanto se vae apossando das nossas colonias, primo!, disse muito serenamente uma voz junto d'elles. 

Os officiaes perfilaram-se na mais rasgada continencia ante a pessoa que fallava e a qual estava fardada de brigadeiro e a quem D. Miguel de Fojaz retorquia: 

- Mas Gomes Freire, primo e amigo, a Inglaterra guarda-nos as colonias!... 

-- Colonias que ninguem ataca! volveu impavido o brigadeiro, accrescentando: 

-- Sim... Acaso a França tem esquadra após os desastres successivos de Aboukir e d'Italia?!... Para que entram pois os inglezes na Madeira e em Gôa?! Tendes razão, dizeis bem: 

-- Guardam-nos as colonias!... Ao mesmo tempo que com tanto fervor entram pelo nosso dominio colonial, retiram-nos as tropas da metropole que os francezes e os hespanhoes vão atacar! 

-- Retira as suas tropas?! perguntaram todos no auge da admiração...  

-- Sim... mandou partir dois dos regimentos da divisão auxiliar!... 

-- Por Deus!... mas e uma infamia! gritou um dos officiaes. 

-- É uma traição, volveu outro com colera. 

-- Então na vossa opinião, primo, não deviamos guerrear os francezes? perguntou logo D. Miguel de Forjaz com pressa. 

-- Quem vos diz isso?! volveu Gomes Freire. Devemos guerrear todos os que nos desafiam. Mas devemos tambem castigar os que nos insultam! A França declara-nos guerra, mas toma-nos como um paiz livre e a prova é que toma alliança para nos destruir, para nos annexar á Hespanha... Quereis mais provas contra a Inglaterra?! Pois sabei, mancebos, que tanto patriotismo mostraes, mais uma perfidia ingleza... Bonaparte, o primeiro consul, que é 

tão habil politico como valente guerreiro, enviou a Londres mr. Octo afim de negociar com a Inglaterra a cessão da Ilha da Trindade do que os nossos alliados se apossaram... Como Haweburg, o lord maior, recusasse, ameaçou-o com a invasão de Portugal... 

Ouvi a sua resposta e pasmae, dizei-me quem são os nossos inimigos, a Se o primeiro consul invadir Portugal, disse o lord, a Inglaterra invadirá os estados ultramarinos d'esse paiz. Tomará os Açores, o Brazil, e arranjará penhores que nas suas mãos valerão mais do que o continente portuguez nas mãos da França». 

-- Miseraveis! bradou André de Meira no auge de colera. 

-- Sim, miseraveis e traidores aos quaes devemos escorraçar! Ninguem se poderá desprezar de ser um bom portuguez desde que acolha os alliados que nos têm explorado! E amanhã, meus amigos, em frente das balas francezas e hespanholas recordae-vos que vos bateis, não porque Portugal careça disso, mas para servir a Inglaterra... Ahi tendes... Os francezes attacara-nos como a uma nação livre, os inglezes dispõem de nós como um feudo!... 

-- Muito bem, muito bem senhor brigadeiro, gritou arrebatadamente André de Meira no auge do enthusiasmo. 

-- E meus amigos isto não quer dizer que fujamos do combate! 

-- Sempre enthusiasmado, brigadeiro! disse o duque de Lafões a seu lado. 

-- Quereis dizer sempre revoltado, meu general! volveu a sorrir. 

O duque, tomou-lhe o braço e em voz baixa, disse lhe: 

-- Não procedeis prudentemente, Gomes Freire... Fallaes alto demais na côrte!... 

A musica tocava sempre; volteavam pares, dançava-se animadamente e lá fóra o povo soltava vivas cheio de enthusiasmo. As damas davam coragem aos officiaes com os seus sorrisos, todos pensavam obrar prodigios e o velho Lafões, na alegria de festa, arrimando-se ao brigadeiro dizia: 

-- Sabeis que tenho sido chasqueado... Na verdade parece incrivel que me tomem a serio para mandar um exercito... meu Deus, com 84 annos e com a minha gotta?!... 

-- Antes vós, meu general, do que um extrangeiro como esse Mack, o austriaco, que Luiz Pinto quiz chamar e o qual ao serviço de Napoles fugiu em frente d'um troço humilde mas valoroso de soldados do francez Championnet... Antes vós que esse Christiano de Waldek, <marca num="*" pag=88> especie de planta, que extranhou o clima e se deixou morrer antes do combate!... Oh! Esse principe que veiu com um grande soldo de cousa alguma serviu!... 



<nota num="*" pag=88> O principe de Waldeck faz no cemiterio dos protestantes a entrada onde tem um tumulo. </nota>



-- Brigadeiro... mas no exercito ha individuos mais capazes de mandar do que eu!... 

-- E quem com a vossa patente?! interrogou elle. 

-- As patentes são concedidas pelos reis... 

-- Quereis dizer?! 

-- Que se vos fizessem marechal, general... 

-- Eu?! 

-- Sim, grande soldado, a ti que foste honrado por Catharina II, a ti que tens ao lado essa espada d'honra e ostentas ao peito o cordão de S. Jorge... E depois, tornou elle espirituosamente. Para que nos bateremos?! 

-- General?! 

-- Sim, meu valente, para quê! 

-- Mas e a nossa honra?! 

-- Ora... Portugal e Hespanha são duas bestas de carga. A Inglaterra nos excita a nós, a França aguilhôa os nossos visinhos... Podemos tocar e agitar os nossos guizos, mas não devemos fazer-nos mal!... 

E o duque sorria já livre de preoccupações bradando ao vêr Bocage: 

-- Ouvi, meu poeta... Deixae-vos ficar comnosco... 

-- Grande honra senhor duque, volveu o vate, mas não temeis comprometter-vos ao lado d'um homem condemnado por pedreiro livre?! 

-- N'esse caso já teria fugido do brigadeiro! disse elle a chasquear, tornando: 

-- Não vos conheceis?! 

-- Não, duque! respondeu Bocage olhando o militar. 

-- Não, meu general, volveu o brigadeiro olhando o poeta. 

-- Oh! mas tendes as mesmas ideias de liberdade!... Tendes o mesmo horror á Inglaterra... O meu caro brigadeiro estygmatisa politicamente a nossa alluda, o meu caro poeta canta as victorias de Bonapirte... Deveis ser amigos... 

-- Fizeram uma venia, trocaram um olhar de sympathia e o duque disse: 

-- O brigadeiro Gomes Freire de Andrade! 

-- O heroe da Russia?! exclamou Bocage arrebatado. 

-- O poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage... tornou Lafões. 

-- O mavioso Elmano?! exclamou Gomes Freire alegremente. 

E trocaram um vigoroso aperto de mão. 

Então aquelles dois homens suspeitos que representavam a revolta contra a sua epocha, o militar amado, patriota, mas amigo do progresso, e o poeta satyrico mas apostolo da liberdade ficaram face a face sob o olhar carinhoso do duque que symbolisava a nobreza, revoltado tambem contra o torpor do tempo, dedicado ao estudo, livre de preconceitos, advinhando o futuro. 

-- Tem graça, senhor Bocage, que ainda ha pouco ouvi fallar de V. s.ª... disse o brigadeiro a provar-lhe a sua sympathia. 

-- Para mal, certamente, volveu elle levando a mão ao peito e mostrando o semblante magoado a murmurar: 

-- Oh! Este meu aneurisma... Hade matar-me... 

-- Não fallavam mal de vós, desejam fazer-vol-o!... tornou o brigadeiro. 

-- Oh! e quem?! 

-- Alguem que sem duvida conheceis!... 

-- Quem, senhor brigadeiro?! 

-- O conde de Ega! 

-- Ah! Já sei e eu segui-o per toda a parte advinhando isso... mas perdi de vista após uns versos que estive fazendo para ser ouvido de sua alteza e regente... Depois chegou essa gente de Arcadia e entrei a procurar o conde mas desappareceu... 

-- Fora-se metter no pateo onde ouvi a sua voz ao apear-me da sege... Fallava com alguns lacaios... 

-- Ah! Uma cilada... 

-- De que vos avizo... Dizia elle: «Conhecem Bocage... Sim, só a sua capa estrellada de remendos, perdoe v. s.ª, tornou Gomes Freire, nol-o fará reconhecer... 

-- «Conhecemol-o... Todos em Lisboa o conhecem! disse a voz grossa d'um dos lacaios. 

-- «Pois aguardae-o e dar lhe hão tantas que fique estendido.» 

Ao mesmo tempo que gritam: 

-- Da parte do senhor conde para pagar o soneto!... Isto tem o espirito que muito lograr deseja!...» 

-- Ah! Pois veremos!... disse o poeta sorrindo; e logo n'outro tom accrescentou: 

-- Agradeço-vos o avizo! 

-- Compri o meu dever! volveu delicadamente o brigadeiro. 

-- Oh! Manuel, sahirás commigo! offereceu logo o duque de muito bom grado. 

-- Agradeço o vosso cuidado, senhor duque... Mas deixae que eu responderei ao senhor de Ega!... 

Cumprimentou o brigadeiro e o duque, affastou se a metter-se pelos grupos dizendo graçolas aos que o desafiavam. 

D. Pedro de Lencastre, dançava sempre com a condessa da Ega, que lhe dava o braço e entrava n'uma pequena sala ao terminar o minuete. 

Sentava-se n'um canapé dourado e o capitão das guardas ficava de pé na sua frente. 

-- Juliana, dizia elle. Mas obedece a teu tio, o valoroso marquez d'Alorna! Sim, obedece-lhe... Retira-te da côrte, isola-te nas suas propriedades, segue o que te diz esse homem de bem! 

-- Oh! Pedro e tu?! 

-- Eu... Mas partirei tambem, deixarei tudo isto, serei sempre a teu lado! 

-- Mas, e o conde?! interrogou ella. 

-- O conde! Teu marido?! Que importa?! É mais velho trinta annos do que tu... Acaso pode exigir o teu amor?! A sua vida é 

na côrte, que fique! 

-- Mas todos murmurarão... disse fixando-o melancholicamente. 

-- Amas-me?! Não é verdade?!... 

-- Oh! Bem o sabes... Amo-te loucamente! 

-- N'esse caso porque hesitas?! interrogou elle. 

-- E minha mãe?! 

-- Tua mãe é uma dama de fino espirito c de grande intelligencia, comprehenderá bem o teu coração... Tanto mais que tu nunca amaste esse homem...! a marqueza dirá ser sua a culpa ao tornar-te a esposa do conde! 

-- Meu amigo... Foi a unica maneira de nos aproximar mos... Sim, Pedro, tu eras casado e náo podias ser meu esposo, eu na minha sociedade sentia uma grande falta de liberdade... Para mim todos os cuidados que se têem para com as virgens... Pois bem, façamos o sacrificio da liberdade apparentemente, unamo-nos a alguem, rico ou pobre, velho ou novo, que me dê o seu nome... D'este modo serei a mulher mais livre apesar do enlace parecer a prisão... Appareceu o conde... Tornei-me sua esposa... 

-- E agora podes dizer-lhe que o não amas... 

-- Já lhe disse mil vezes... Tenho-me fechado no meu quarto desde o primeiro dia de noivado, porque sou tua, meu Pedro, apenas tua! 

E elles trocavam um beijo ali no recondito da sala, emquanto lá fóra os outros dançavam animadamente. 

O marquez de Alorna passeava ao lado de Gomes Freire, fallava a meia voz e de repente, bradou: 

-- Ah! Eis ali o tal la Rosière... O teu marquez, o teu general! 

-- O emigrado?! 

-- Sim, o general das armas d'além Douro, nomeado por Luiz Pinto e ás ordens do qual vaes servir. 

-- Ah! Tem um aspecto extranho... 

-- Um cortezão a valer... Olha, anda com o duque de Coigny... 

-- O amante de Maria Antonietta?! 

-- Sim... Um emigrado tambem... O mesmo que accusou Broussonet, o sabio, a Pina Manique! 

E o marquez d'Alorna apontava dois homens que passeavam de braço dado no corredor da sala. 

Um era alto, magro, de figura distincta, insinuante mesmo, já de meia edade, no seu ar de cortezão de Trianon, vestido ricamente, a cabelleira empoada rescendente a perfumes; o outro era gordo e baixo, de rosto vermelho, vestia o uniforme de general e tinha o aspecto d'um frade. 

Passavam rentes dos dois amigos e o marquez de la Rosière, o baixo fardado de general, escancarava a bocca num sorriso, dizendo em mau portuguez: 

-- Como está, sr. d'Alorna?!

-- Como sempre, sr. marquez?... Sabe que fallava de si... 

-- Grande honra!, disse a empertigar-se. 

-- Tratava de o apresentar a alguem que vae servir sob as vossas ordens! 

-- Oh!... Grande honra!, tornou dubiamenie. 

-- O meu amigo, o brigadeiro Gomes Freire ... 

-- Ah!... Estimo de vos conhecer, senhor!, e olhou-o d'alto a baixo com um ar superior, que Alorna buscou desmanchar ao dizer: 

-- Coronel de sua magestade Catharina II. 

-- Oh! Grande honra!, e logo, mais amavel, estendeu-lhe a mão. 

-- Condecorado com o cordão de S. Jorge!

-- Oh!... tornou o emigrado cada vez mais affavel. 

-- É o vencedor d'Oczakow e recebeu das mãos da soberana moscovita uma espada d'honra!

-- Oh!... Dae-me a honra de vos apertar nos braços... 

Abraçou o, apesar do desdem de Gomes Freire, e o duque de Coigny disse galantemente: 

-- Estivesteis na côrte de França, senhor brigadeiro?!

-- Sim, senhor duque... 

-- Oh! Logo se vê.., disse la Rosière. A galanteria da côrte do nosso infeliz XVI deixa sempre vestigios... Sim, porque em Portugal... 

-- O que, senhor?!, interrogou o brigadeiro. 

-- A côrte é desgeitosa, pouco brilhante!...

-- Ah! É verdade... Nós aqui estamos mais habituados á guerra do que ao galanteio! E a prova é que se amanhã o povo tentasse implantar a republica ou assassinar o nosso principe, nós teriamos a coragem de morrer a seu lado!... Que quereis?! Mesmo assim seriamos mais dedicados do que em França... Oh! E se levassem uma rainha ao patibulo, nós morreriamos a seu lado! Seriamos galanteadores até á morte!... Meu Deus! Se a nossa divisa é Rei e a minha dama!

E n'um impeto vohou as costas aos francezes. 





XXXVII 



O fim do baile 





Pelo amanhecer, na lividez das luzes semi-apagadas, os convidados tinham um ar cançado, abatido, as damas distilavam os perfumes ao calor dos corpos, e aquelle bello apparato de fardas transtornava-se pouco a pouco á medida que o dia apparecia. 

Era como o dia seguinte a uma batalha, após a chacina, após as scenas de sangue e de lascivia que deixavam exhaustos os contendores; os madrigaes morriam á flôr dos labios, os amorosos enviavam-se mutuamente olhares languidos, amortecidos. 

Na pequena sala, a condessa da Ega despedia-se de D. Pedro de Lencastre, sorria-lhe ao murmurar: 

-- Tua... tua para sempre... 

E no fim d'aquellas palavras ia um mundo de promessas ao apertar-lhe a mão serenamente: 

-- Adeus, Pedro!... 

-- Adeus, Juliana!... 

Abraçavam-se, mas a condessa soltava um grito ao ver reflectir-se no espelho fronteiro uma imagem; D. Pedro estava de costas e ao escutar a amante largou-a logo, curvou-se reverente ao deparar com Carlota Joaquina que entrava. 

A princeza esboçou um sorriso, e de seguida, disse: 

-- Condessa, ha pouco vosso esposo procurava-vos... E vós, capitão, ficae que sois necessario... 

Juliana deveras confundida inclinou-se ante a outra e sahiu sem se atrever a olhar o amante, que muito pallido aguardava as ordens de sua alteza: 

-- D. Pedro, dizei-me, começou ella sem o menor receio e sem preambulos, amaes muito a condessa?! 

-- Senhora!... Alteza real!... titubeou cheio de pasmo. 

-- Vamos, responda!... ordenou ella com auctoridade. 

-- Amo-a tanto que daria a vida por sua causal redarguiu por fim o amigo de Bocage. 

-- Bem... Gosto das situações claras! tornou Carlota Joaquina, accrescentando logo: Que darieis a quem vos facultasse o poderes estar sempre junto d'ella! 

-- Senhora... Daria o que me pedissem! respondeu docemente. 

-- Serieis capaz, capitão, de deixardes de servir vosso amo?! 

-- O regente?! 

-- Sim... Meu esposo... Julgo que tendes d'elle alguma queixa... 

D. Pedro, sabendo a mulher com quem fallava, volveu de novo: 

-- Queixa?! 

-- Sim... Julgo que vos despediu do seu serviço após uma entrevista com o intendente da policia, e na qual se tratou d'um certo chocarreiro. 

-- Ah! Quereis fallar... 

-- De Bocage... O mesmo que ha dias me respondeu dubiamente estando a pesear no rio... 

-- Sim, alteza... Com effeito eu sou amigo d'esse poeta e sua alteza a quem o accusaram de pedreiro livre... <marca num="*" pag=95>



<nota num="*" pag=95> Bocage -- romance de Rocha Martins. </nota>



-- Despediu-vos do seu serviço e ordenou a sua entrega ao intendente... 

-- Assim foi!... Mas por intermedio de Gastão de Seabra salvou-se... 

-- Sim... Sei tudo... Desse modo não amaes o principe a ponto de lhe sacrificares o vosso futuro, ou antes, o vosso amor... 

-- Alteza, disse elle d'um certo modo. Os servidores não devem discutir as ordens dos principes... 

-- E as das princezas?! interrogou ella com certa intenção. 

-- Por Deus, ainda menos... Devemos collocar as damas acima de tudo!... disse o antigo folião sentindo despertar a sua veia. 

-- Vejo que sois um homem de espirito, capitão... 

-- Sou um servidor de vossa alteza!... 

-- Sois vós o capitão das guardas reaes, não é verdade? interrogou entrando no assumpto. 

-- Sim, alteza? 

-- Sem vossa ordem ninguem entra no paço até á alvorada...

-- Nem pessoa alguma sahe! retorquiu o amante da condessa, olhando a de novo. 

-- Ah! É ahi que diseordamos! disse a princeza do mesmo modo imperioso. 

-- Vossa alteza bem sabe... 

-- Capitão... Suppõe que uma dama d'essas a quem deves a tua galante obediencia, precisa sahir esta noute do paço e carece que pessoa alguma entre nos seus aposentos... Que farias para a servir?... 

-- Principiaria por lhe dar a senha e acabaria... 

-- Por... 

-- Fazer guardar os seus aposentos por, alguem do meu conhecimento! 

-- Quem?! 

-- Eu!... 

-- Tu?!... 

-- Sim, alteza!... 

-- Meu Deus, um capitão de sentinella.,. volveu toda alegre. 

-- Ao quarto da futura rai'nha não é deshonra! tornou o fidalgo a meia voz. 

-- E se alguem ahi quizer entrar?! 

-- Não entrará, por Deus, vol-o affirmo! exclamou elle. 

-- E se fôr sua alteza? 

-- Como se fosse outro... 

-- Mas... -- Quereis dizer que sua alteza o regente manda, não é assim?! 

-- Decerto! 

-- Mas, senhora, recordae-vos que eu, D. Pedro de Lencastre da casa de Abrantes, antes de ser militar fui companheiro de bando de alguns poetas... 

-- Pois seja assim, D. Pedro... accedcu a princeza. Mas guardareis segredo, não é verdade?! 

-- O mais rigoroso... 

-- Pois guarda os aposentos d'essa dama! Dize-me a senha!... 

Murmuroulh'a ao ouvido e ao vel-a affastar-se, exclamou: 

-- Alteza, esquecei-vos.... 

-- De que?! 

-- Do traidor! volveu com o seu sorriso malicioso. 

-- Ah! Nunca me esqueço... Quereis vêr!... 

Fez-lhe um gesto para que a seguisse, atravessou as salas onde começava a debandada e começou a caminhar para a marqueza de Alorna. 

Ali, junto d'ella, com um sorriso gracioso, disse: 

-- D. Leonor de Portugal, deixae que vos felicite pelos vossos ultimos versos... 

-- Senhora! volveu a marqueza toda lisongeada. 

-- É pena que em vez de mulher não sejaes antes um fidalgo... Com o vosso orgulho longe ireis... 

-- Senhora!... Vossa alteza confunde-me!... 

-- Tendes muita modestia, marqueza!... redarguiu Carlota Joaquina. 

Depois olhando a sala, passeando a vista pelos poetas que declamavam versos em louvor dos que iam partir, tornou: 

-- É pena que tenha acabado a Arcadia do conde de Pombeiro!... Pedir-lhe-hia para vos fazer consocia do grande José Agostinho de ALicedo... 

-- Senhora, vossa alteza sabe que ha ainda outro maior engenho!... 

-- De quem fallaes?! 

-- De Bocage... 

-- Sim... Mas, desculpae, marqueza, eu pouco sei de poetas apesar de os estimar... Tendes uma filha, não é verdade?! 

-- Sim, alteza! redarguiu a marqueza surprehendida. 

-- Solteira?! interrogou habilmente a esposa do regente. 

-- Não, alteza real, é a condessa da Ega!... 

-- Ah! Casada com esse velho fidalgo?! Meu Deus!... E é formosa sem duvida... Ouvi marqueza, quereis prestar-me um obsequio? 

-- Ás ordens de vossa alteza! 

-- Pois enviae-me amanhã vossa filha! Tenho falta de damas para o meu serviço de assistencia e desejava que alguem de vossa familia... 

-- Alteza?! 

-- Recusaes?! gritou a princeza olhando-a de frente. 

-- Como posso recusar tal honra! redarguiu D. Leonor de Portugal com a mesma habilidade. 

-- Pois enviae-m'a! e depois de a cumprimentar affastou-se em direcção aos seus aposentos. 

A senhora de Alorna ficou estupefacta, porém encolheu os hombros e sorrindo, murmurou: 

-- É um capricho!... 

Entretanto Bocage procurava por todos os lados o capitão das guardas, e ao vêl-o enfiar para um corredor, exclamou: 

-- Pedro... D. Pedro!... 

-- Que queres?!... disse elle voltando-se rapidamente. 

-- Preciso de ti... 

-- Estou apressado... 

-- Pedro... E eu por tua causa estou em perigo... disse o poeta a detel-o. 

-- Em perigo?! 

-- De levar uma sova mandada dar pelo teu rival! 

-- O conde?! 

-- Sim- ... Calcula que alguns matulões me aguardam á sahida para me sovarem pronunciando estas palavras: 

-- «Da parte do senhor da Ega». 

-- Ah! É apenas isso?!, interrogou elle a rir. 

-- Pois!... E achas pouco?! 

-- Descança..., Eu me encarrego dos teus matulões.

-- Mas desejo sahir... 

-- Vamos!... Sê prudente, espera-me um pouco. 

E partiu, deixando-o na espectativa. 

Gomes Freire ao lado de Alorna sahia do baile. 

Ao atravessarem o corredor da guarda viram um vulto de mulher acompanhada por um embuçado e trocaram um olhar. 

Os dois vultos sumiram-se na portaria e os amigos partiram rapidamente. 

Nas arcadas viram alguns embuçados que se sumiam no escuro e o brigadeiro murmurou: 

-- É uma cilada! 

-- Ora... Sonhas sempre com aventuras!

-- Meu caro, juro te ... E não sei o que me contém que não ponha em debandada os miseraveis!... 

-- Sabes alguma cousa?! interrogou o marquez d'Alorna. 

-- Sei que esperam Bocage da parte do teu sobrinho... 

-- Do meu sobrinho ... 

-- Sim... Do conde da Ega! 

-- Oh!... Esse homem é um lascivo, um patife que não hesitou em sacrificar o futuro de Juliana!... Cobarde que foge da guerra, cobarde que arma ciladas de lacaios!... Tens razão... Vamos debandar esta malta! Mas quando iam avançar viram o poeta que atravessava embrulhado na sua capa; logo alguns vultos se moveram e Gomes Freire, disse: 

-- Queres ouvir... Vão exclamar... Da parte do senhor da Ega!... 

Porém foi um grito bem diverso que se ouviu solto por alguns soldados da guarda real que espadeiravam os intrusos e bradavam: 

-- Da parte do senhor Bocage!... Da parte do senhor Bocage! 

Gomes Freire e Alorna soltaram uma risada e viram na sua frente um homem que corria e exclamava: 

-- Piedade senhores... Tende piedade d'um velho fidalgo!

-- Oh! Vós, conde?! casquinou o marquez ao reconhecer o marido da sobrinha. 

O senhor da Ega, fez-se pallido e titubeou: 

-- Eu sim... eu... 

-- Mas porque deixaste vossa esposa e andacs aqui correndo aventuras? interrogou Gomes Freire contendo o riso. 

-- Vim acompanhar um amigo com quem desejava trocar os adeus da despedida!... 

-- Pois para a outra vez fazei-vos acompanhar! redarguiu D. Pedro de Portugal entrando a rir ao ouvir ainda os soldados persegumdo os matulões no largo d' Ajuda. 

Vinham sahindo do baile, começavam a rodar seges e Alorna dizia para o sobrinho: 

-- Ide lesto que vossa esposa sem duvida vos aguarda. 

Saudou e desappareceu por entre o ruido da escadaria onde um lacaio bradava: 

-- A sege da senhora condessa de Pombeiro!... 

No turbilhão uma dama embuçada pelo braço d'um gentilhomem, dizia: 

-- Devemos sahir pela porta das trazeiras... Aqui no largo ao verem-nos a pé suspeitariam e talvez nos seguissem... 

-- Mas a senha?! disse o fidalgo n'uma voz de timbre agradavel. 

-- Louco?! Acaso faço as cousas ao acaso?! 

Metteram-se então pelo escuro, atravessaram o pateo e de subito ouviam uma voz escarninha bradar: 

-- Boa noute, senhor André de Meira! 

O tenente estremeceu; sentiu o sangue girar-lhe nas veias, porém a dama, disse-lhe: 

-- É o bobo!... Aquelle miseravel ha-de ser enforcado! 

Como se a tivesse ouvido, D. João de Falperra soltou uma gargalhada escarninha que echoou sinistramente no silencio da noute. 

Em cima, D. Pedro de Lencastre, vigiava sempre os aposentos da princeza. 

Apagavam-se as luzes, a ultima sege affastava-se, o palacio recahia no silencio. 

E perto do corredor passou um vulto que se chegou ao official e disse em voz forte: 

-- Boa noute D. Pedro! 

-- Tenha-a vossa alteza a melhor possivel! 

-- Tel-a-hei se acaso não tens ordens em contrario! 

-- Eu, meu senhor?! 

-- Sim... minha esposa... 

-- Ah! Sua Alteza pediu-me que guardasse esta porta!... 

-- Mesmo para mimr! perguntou com tristesa. 

-- Não especificou pessoas... E D. João afastou-se meditativo. 

Mas ao fim do corredor ouviu o bobo que lhe dizia. 

-- Passaes bem a noute, alteza!... Vinde!... Eis aqui uma chave que de direito vos pertence!... 

Depois olhou a chave da porta secreta, mirou-a uns momentos e disse: 

-- É dos aposentos de sua alteza? 

-- Sim, meu senhor... 

-- Pois entrega-m'a... 

-- Vossa alteza não a utilisa?!...

-- Não... 

Voltou as costas guardou a chave e murmurou scepticamente: 

-- Um marido não entra ás eseondidas no quarto da esposa!... E metteu-se nos seus aposentos, a lêr a regra dos Bernardos pela vigessima vez. 







XXXVIII 





O começo da campanha 





Estavam frente a frente os dois exercitos, com as avançadas á vista no alem Douro, esperando a todos os momentos o ataque. No Alemtejo reinava a maior indisciplina, os soldados abandonavam os regimentos e appareciam em pontos distantes. O governador de Olivença rendeu-se sem disparar um tiro, Juromenha praticou de egual modo, Elvas respondeu duramente aos hespanhoes e Campo Maior soube resistir a um cêrco de dezoito dias. 

Por toda a parte o mesmo desanimo, a mesma fraqueza; e dia a dia os inimigos tomavam maior incremento e audacia. O duque de Lafões retirava sempre; os outros generaes procediam do mesmo modo. Apenas Bernardim Freire buscou soccorrer Arronches mas ao chegar encontrou a praça em poder do inimigo. 

Entretanto no norte ainda não tinham rompido as hostilidades. 

Por aquella bella manhã de sol, os soldados a postos olhavam para o outro lado da fronteira onde o exercito hespanhol estava em linha de batalha. 

O marquêz de la Rosière, na sua rotundidade de frade, olhava atravez do oculo o inimigo e não se atrevia atacar. 

Todas as manhãs Gomes Freire, na sua qualidade de brigadeiro, vinha receber ordens, e já mal lhe soffria o animo semelhante delonga. 

-- General! disse elle n'aquelle dia de muito mau humor. Venho pedir-vos licença... 

-- Para?! 

-- Attacar o inimigo! disse fleugmaticamente perfilando-se. 

O marquez, encarou-o e volveu: 

-- Pois quereis?! 

-- Não estou aqui para outra coisa... redarguiu o brigadeiro. Sim general, parece-me não ter feito uma marcha até ao extremo do paiz para cumprimentar galantemente os hespanhoes. 

-- Mas que quereis fazer?! 

-- Já vol-o disse... 

-- Mas sem duvida tendes um plano... 

-- O plano de todos os portuguezes... Attacar de frente... 

-- Preparae n'esse caso a vossa brigada. 

-- Oh! Até que emfim I Ah! General... Nada mais tendes a ordenar?! 

-- Não... Ide... 

O francez ficou tranquillamente ao vel-o partir e murmurou: 

-- Talvez uma victoria!

-- General... General... murmurou neste momento alguem ao seu lado e em francez. 

-- Oh! tenente... e o marquez ficou-se a olhar o ajudante d'ordens, um mancebo que o acompanhou de França e lhe dizia: 

-- Grande novidade, meu general! 

-- De que se trata? 

-- Temos um compatriota commandando o exercito inimigo... 

-- Como o sabes? 

-- Pelos vendilhões que atravessam a raia para o seu commercio... 

-- Oh! E quem é esse emigrado francez? 

-- .Alguem do vosso conhecimento... 

-- Impossivel... 

-- Do vossa amisade mesmo... 

-- Que dizes?! 

-- A verdade, general... Muitas vezes me tendes narrado a vossa fuga para Londres quando a revolução tomou conta dos castellos e perseguiu os nobres... Vão já oito annos decorridos... 

Eu era muito novo mas minha familia fugiu tambem! 

-- Sim... mas e esse homem?... perguntou elle todo apressado. 

-- Tendes dito, meu general, que soffreras miseria ao chegar a Inglaterra. N'outro tempo tinheis travado conhecimento com um nobre tambem... 

-- Sei já... Um condescipulo que me soccorreu... 

-- Sim, meu general... É esse o commandante do inimigo?! 

-- O marquez de Saint-Simon?! 

-- Exactamente... 

-- E elle ao saber que eu estou na sua frente... 

-- Já o sabe! exclamou o ajudante. 

-- Oh! E quem lh'o disse?! 

-- Emquanto a esse promenor ignoro-o, mas sei que mandou o seu ajudante... 

-- Sabe?! 

-- Sim... Um joven francez de confiança que passou com os mercadores!  

-- Ah!... 

-- E que sollicita uma audiencia... 

-- Que entre... que entre! disse o general mettendo-se logo na sua tenda. 

D'ali a momentos, um mancebo vestido como os mercadores ambulantes entrava na barraca e saudava respeitosamente, n'uma vénia polida de gentil homem. 

-- É nobre marquez de la Rosière que tenho a honra de fallar?! 

Ao ouvir aquella voz, ao reparar no recemchegado, atirou-se-lhe aos braços e exclamou: 

-- Tu... Saint-Simon?! Mas tinham-me fallado d'um ajudante... 

-- Comprehendes que não ia dizer o meu nome assim ao primeiro que me apparccia... 

-- Decerto, amigo... mas a que vens? 

-- A que venho?! Pois não o advinhas?! 

-- Na circumstancia especial em que nos encontramos... 

-- Circumstancia especial?! Ah! Sim... Tu és o chefe do exercito portuguez, e eu do exercito hespanhol... Luctamos frente a frente... Vamos romper as hostilidades?! Porque?! Nem eu nem tu, segundo julgo, somos fanaticos pelos que servimos... 

-- Nem eu... Quero apenas o soldo que me ajude a emigração... Devo este posto ao duque de Goigny que pelos modos tem certa influencia na côrte e fui mandado para aqui a combater, mal sabendo quem tinha por adversario. 

-- Como eu!... Devo este posto no exercito hespanhol a um amigo de Manoel Godoy, o primeiro ministro, mandaram-me para a Galliza e hoje soube o teu nome por acaso... Deliberei partir desde logo a visitar te, disposto a beber á tua saude... 

-- Sim, amigo... K dei.xaremos os dois exercitos ameaçarem-se... volveu o marquez com grande prazer, desrolhando elle mesmo uma garrafa que estava sobre a mesa. 

-- As tuas victorias!... disse Saint-Simon a sorrir. 

-- Ás tuas conquistas!... 

E os dois francezes, frente a frente, continuavam a beber, deveras satisfeitos. 

Recordavam aventuras passadas em Inglaterra, deixavam sahir dos labios um coro de maldições aos homens da revolução e iam fallando sempre da obra de justiça, do dia da revindicação. 

-- Verás, Saint Simon... Os nossos titulos ser-nos hão garantidos, as propriedades restituidas, e os direitos da nobreza novamente concedidos... 

-- Por quem?! interrogou o outro com certa malicia. 

-- Pelo duque de Orleans!... Pelo unico soberano de Françal volveu cada vez mais enthusiasmado. 

-- Ouve, la Rosière... Se contas com a duque d'Orleans para isso, ficarás sempre ao serviço de Portugal. 

-- O que?! Dás muitos annos de vida d republica?! 

-- Não... 

-- N'esse caso qual será o soberano?! julgo que não temos outro... 

-- Os reis, mu amigo, fazem-se de soldados... 

-- Saint Simon, fallas como um republicano. 

-- Fallo pela bocca da historial redarguiu elle um pouco sceptico. 

-- Oh! E o direito divino?! interrogou elle deveras pasmado. 

-- O direito divino é o maior numero de conquistas... 

-- Saint-Simon... Pareces Marat... 

-- Antes o tivesse seguido!... Crê, meu velho, que devia ter ficado... 

-- Loucura?! Era uma traição!... 

-- A que chamariam patriotismo como ao acto do Égalité!... 

-- Não te reconheço... Em Londres tinhas enthusiasmo pela causa... 

-- Não soffrera como depois soffri... E hoje, se não fosse esta patente n'um exercito estrangeiro, andaria mendigando... 

-- Mas de quem fallavas ha pouco ao dizeres que os reis se formam dos soldados?! 

-- Fallava d'um homem que tem assombrado o mundo e ha-de ser rei dos francezes... A sua espada é gloriosa em demasia para ficar sendo a d'um simples general!... N'aquelle individuo ha alguma cousa de dominador que assusta e faz respeito... 

-- Mas de quem Fallas?! perguntou o outro como se não comprehendesse cousa alguma. 

-- Do primeiro consul! 

-- De Napoleão Bonaparte?! gritou la Rosière, continuando: 

-- Pois esse aventureiro atrever-se-hia a ser rei dos francezes?! 

-- Um aventureiro como todos os antepassados de reis.... Elle não terá avós, será o fundador da dynastia!... Oh!... h-o no seu olhar quando me disse: 

-- Senhor de Saint-Simon, vou envial-o a Hespanha com meu irmão Luciano e terá um commando que Sua Magestade lhe concederá... Em França não pode ficar por agora! Mas tempo chegará em que os generaes filhos da revolução careçam d'allianças com a antiga nobreza!... E meu amigo, ao ouvil-o, pareceu-me que 

se arrependeu de ter fallado tanto pois fez um gesto brusco e bradou: 

-- Conte commigo Saint-Simon! E fallava com ar magestoso. 

-- Ora, vês isso a teu bello prazer... 

O emigrado esboçou um sorriso mysterioso e volveu: 

-- La Rosière, quem viver verá... E agora, meu velho, adeus... Nada de nos hostilisarmos, hein?!... 

-- Vae em paz... 

N'este momento ouviram-se as cornetas e appareceram as primeiras filas da brigada já em marcha. 

-- Que quer isto dizer?! interrogou o general deitando um olhar espantado aos soldados que marchavam em boa ordem ao som dos tambores. 

-- Ah!... E eu que me esquecera! bradou la Rosière pallido de morte, chamando á pressa o ajudante e ordenou: 

-- O brigadeiro Gomes Freire que se approxime... 

-- Mas que quer isto dizer?! Tu ias atacar-me?! perguntou Saint-Simon deseonfiado. 

-- Não eu... Mas um maldito brigadeiro que deseja andar sempre na batalha e ao qual não sei como contentar... 

-- Ah! Era elle que ia romper as hostilidades?! 

-- Sim... 

-- Pois, amigo, manda o para longe! 

-- Mas para onde... 

-- Para Traz-os-Montes, por exemplo! 

-- E obedecerá?!... interrogou elle ao recordar-se do que lhe tinham narrado mais d'uma vez sobre Gomes Freire. 

-- O quê?! Duvidas que alguem sob as tuas ordens deixe de obedecer?! 

-- Mas é que este Gomes Freire é um homem singular. 

-- Mas naturalmente é um militar a valer... 

-- Sim!... Mesmo um heroe, segundo dizem... Andou na Russia... 

-- Disciplina-o... Dá-lhe a ordem sem lhe permittires discussão... 

O brigadeiro acabava de chegar e collocava-se em trente do general da sua costumada maneira altiva. 

-- Ás suas ordens, excellencia! 

-- Brigadeiro... Não podeis avançar para a fronteira do Minho... 

-- Quereis dizer?!... 

-- Que a mim compete o commando d'estas forças... Porém, brigadeiro, quero deixar-vos operar sósinho como é justo, em virtude da vossa alta capacidade militar e por isso vou dar-vos a missão de vos dirigires a Traz-os-Montes, onde os Hespanhocs buseam fazer sortidas no territorio portuguez!... Na face do heroe passou um rapido clarão alegre e elle disse: 

-- Quereis então confiar-me um commando d'honra?! - Excellencia... Cumpro o meu dever! 

E o general até o lisongeava no intuito de se ver livre d'esse homem d'honra que nunca consentiria em tal immobilisação de forças. 

-- Diga-me, general, tornou o brigadeiro. Poderei fazer avançar pela margem esquerda do Tamega o coronel Pamplona com metade da brigada?! 

-- Mas deixo isso ao vosso cuidado! Dou-vos plenos poderes!... Gomes Freire, sorriu satisfeito, fez a continencia e affastou se. 

Porém n'este momento, André de Meira, o tenente, apparecia-lhe e exclamava: 

-- Senhor brigadeiro ides combater?! 

-- Assim o espero, redarguiu serenamente. 

-- Tenho n'esse caso um favor a pedir-vos.... 

-- Dizei... 

-- Queria acompanhar-vos!... 

-- Mas... 

-- É que tenho o grande desejo de servir sob as vossas ordens!... 

-- Vinde n'esse caso... disse o brigadeiro amavelmente, accrescentando logo: Fallae ao general... Sem duvida vos concederá licença!... 

E emquanto o tenente se dirigia para a tenda, o heroe, chamava Pamplona de parte e começava a dizer-lhe em voz baixa: 

-- Amigo... Temos uma grande missão a cumprir... 

-- Trata-se do ataque ao inimigo, da investida segura de face a face de que fallavas ha pouco?!... 

-- Não... 

-- Então de quê?! 

-- Conduzirmos o exercito até á fronteira hespanhola, mas á de Traz-os-Montes... 

-- Ah! É uma longa marcha!... 

-- Passaremos a fortaleza de Montery que nos dará a chave de provincia e seremos vencedores!... Vamos, Pamplona... Mostramos que se no Alemtejo Lafões recua, no norte nós avançamos... 

-- Seja!... 

-- Irás pela margem esquerda do Tamega, eu pela direita, levarás uma bocca de fogo e 900 homens... 

- E tu?... 

-- Egual força... 

-- Chegaremos ao mesmo ponto uma por cada lado e contaremos victoria!... 

-- És um valente!... 

Apertaram-se as mãos e Gomes Freire, bradou: 

-- Nada de recuar!... Precisamos desafrontar o exercito do Alemtejo! 

-- Sim, amigo!... 

-- N'esse caso, avante!... 

Collocou-se em frente dos soldados e em voz vibrante, bradou: 

-- Camaradas!... D'aqui a algum tempo estaremos em marcha para o inimigo... Precisamos provar aos hespanhoes que nas nossas veias corre ainda o velho sangue lusitano... Que cada homem seja um heroe para que na bandeira do regimento Gomes Freire se possa bordar estas palavras! 

-- Valor e honra!... 

Os soldados estremeceram ante as palavras do seu chefe e um grito immenso resoou pelo campo: 

-- Viva Gomes Freire!... 

D'ahi a momentos punham-se em marcha ao som das cornetas, André de Meira collocava-se no posto que o brigadeiro lhe designava e o regimento perdia-se na estrada, emquanto Pamplona avançava tambem por outro caminho. 

Os dois emigrados francezes olharam-se, e então la Rosiére disse: 

-- Agora ficaremos frente a frente aié ao fim da guerra! 

E assim foi; nem um nem outro romperam as hostilidades até ao fim d'essa campanha de 1801, tão desastrosa para as armas portuguezas. 

E no emtanto, d'ambos os lados, os soldados francezes o hespanhoes ficavam nas suas altitudes d'arremetter. 





XXXIX 



Bozaens e Fizera 





Os potuguezes retiravam em boa ordem cedendo ao numero do inimigo que parecia ter sido prevenido d'aproximação do valoroso brigadeiro e se reunira 

na força de 4:000 homens, defendendo Monterey e a parte da fronteira transmontana. E elle acampava em Villa Velha que o inimigo se dispunha a atacar, fortificava-se, defendia-se. 

Os habitantes aterrorisados tinham fugido para os campos e deixado as casas aos soldados que desanimavam pouco a pouco. Anoutecera. Fazia frio e os militares accendiam fogueiras cujos clarões indicavam ao inimigo o acampamento. 

No emtanto reinava o maior silencio. Aquelles bravos vindos desde o Tamega em marchas forçadas, paravam ali esmagados pelo cançaso, soffrendo do mal que enfermava todo o exercito: a indisciplina propria d'homens arrebanhados á pressa para uma lucta. 

O brigadeiro passeava sósinho por entre os seus homens semi-adormecidos, atirados por terra, cavava-se-lhe uma ruga na testa ampla, e de quando em quando, volvia o olhar para essa terra de Hespanha que ficava do outro lado defendida por tantos homens. 

Chegava-lhe ao pensamento outra noute egual. 

Era na Russia antes da tomada da fortaleza, na qual tremulava o sanguineo estandarte do Islam, no qual se recortava a meia lua dos crentes. 

E elle desesperado, em face d'essas fortes muralhas d'Oczacow, padecendo o frio e vendo um exercito falto de coragem, a alma assombrada pelo terror d'uma victoria inimiga, o coração aos pulos no peito generoso, meditara essa sortida que o enchera de gloria. 

Isto era lá fóra, nas terras do gelo, commandando soldados que elle não conhecia, defendendo uma patria que não era a sua. 

Porque não tentaria ali tambem alguma cousa?! Semelhante inação da sua parte reputava a como um crime de lesa-honra militar; e a meia voz, affirmando-se no campo, murmurou: 

-- Oh! Mas elles estão mortos de cançaço! Nas avançadas reinava um grande silencio que o perturbava. De repente teve uma ideia ante a qual estremeceu; ficou uns momentos callado e de seguida avançou para o logar onde se encontravam os officiaes que mandavam as suas tropas, aquelle pequeno troço de homens. 

Á entrada, junto á lareira accessa, viu-os sentados, amachucados tambem pelas marchas. 

Um velho major, antigo soldado do conde de Lippe, deixava errar a vista pela casa e estava mudo ao vér os dois capitães dormitando no calor, prostrados, abatidos. 

André de Meira e o outro tenente passeavam a vista estupidamente pelo negrume de fóra emquanto um joven alferes, o ultimo official da legião, se estendia sobre o capote e dormia num somno pesado. 

O brigadeiro olhou-os, entrou lentamente e ficou a contemplalos; o velho major, no authomatico movimento do militar d'outras eras, ergueu-se e fez-lhe a continencia; os tenentes ergueram-se tambem. 

Então Gomes Freire, com o seu doce sorriso paternal, com a condolencia d'um forte, disse: 

-- Estaes fatigados, não é verdade, meus senhores?!

-- Meu brigadeiro, rouquejou o major com seenielhas nos olhos vivos. Eu apenas lastimo a fadiga dos outros... 

-- Ah! E vós?... 

-- Eu?! Estou prompto para marchar de novo. 

-- Velho soldado, tornou o brigadeiro com um sorriso. E para onde quereis marchar?... 

-- Para o inferno, embora, meu commandante!... Para toda a parte, mas de forma que esses malditos hespanhoes não nos apanhem n'este estado... 

Gomes Freire estremeceu de novo; olhou-o com firmeza e redarguiu: 

-- Julgaes então que o inimigo se atreverá? 

-- O quê, a penetrar em Portugal?! Mas, brigadeiro, elles estão habituados a isso no Alemtejo... Depois já viram a nossa força diminuta... 

-- E Pamplona retirou tambem... É verdade... murmurou com certo desanimo: 

-- É verdade!... 

-- Tenho razão, não é assim?!... 

-- Vós a tendes, major... Com effeito, ha pouco temi o assalto e receei pelas avançadas, que talvez durmam... 

-- Se vos parece... Tantas leguas de marcha!..., volveu n'um tom de censura acre, que não escapou ao brigadeiro, o qual volveu: 

-- Sim... Mas é acaso nossa a culpa?!... Não poderiamos ter vencido no Minho?! Não tinhamos mais numerario e mais frescas tropas?!... 

-- Com mil raios, brigadeiro, que penso do mesmo modo!..., E por S. Jorge affirmo que o tal marquez de la Rosière está mais affeito a mandar caçadas do que a commandar regimentos!... 

Gomes Freire sorriu, e de seguida, em voz alta, bradou: 

-- Olá senhores! 

Os officiaes moveram-se; os dois capitães despertaram em sobresalto e ficaram espavoridos a olharem o chefe, que exclamava: 

-- Qual de vós quer ir a um reconhecimento nas avançadas?! 

-- Eu, meu brigadeiro!, volveu André de Meira, rapidamente. 

-- Ide, pois, tenente, e olho vivo para o inimigo... 

-- Descançae... Por S. Jorge vos affirmo que verei tudo! Fez a continencia e sahiu á pressa, emquanto o chefe dizia para os dois capitães: 

-- Senhores, de vós depende o bom resultado d'um projecto que tenho em mente!... Quereis ajudar-me?! 

-- Mas, senhor brigadeiro, queremos obedecer-lhe, volveram elles. 

-- Obedecei, pois!... Reunireis as vossas companhias sem ruido... Deixareis as avançadas no campo com alguns homens que o major commandará... 

-- É a reserva, meu brigadeiro?!, bradou o velho deveras impressionado como se visse o fraco papel que lhe destinavam. 

-- É um posto d'honra, e vós o vereis!

-- Um posto d'honra?!

-- Sim... Nós vamos sahir de Villa Velha, que guardareis com o alferes e alguns soldados... 

-- Sahir de Villa Velha?!, exclamaram elles no auge do pasmo. 

-- Sim... 

-- Mas, brigadeiro..., titubeou o velho como se o julgasse louco. 

-- Que quereis?, interrogou serenamente o heroe. 

-- Vede porém, que..., hesitou uns momentos e tornou: 

-- Isso é uma temeridade!... 

-- Será!... 

-- Mas nós não podemos resistir a uma nova marcha..., affirmou um dos capitães. 

Gomes Freire encolheu os hombros e exclamou: 

-- Vós tudo podereis no serviço da rainha, nossa senhora!... 

-- Porém... 

-- Ouvi!... 

Applicou o ouvido, ficou uns momentos perplexo e de seguida murmurou: 

-- Deve ser o tenente... 

Com effeito, André de Meira appareceu á porta esbaforido e parou deveras desanimado. 

-- Que succede?!, interrogou o brigadeiro muito rapidamente. 

-- Brigadeiro... As columnas inimigas movem-se para o assalto... 

-- Ah!... Major... Reuni a vossa gente! Apagae as fogueiras... Embuscae os vossos nos montes e silvados e dcixac avançar o inimigo sem um tiro... 

Olharam-no pasmados, e elle, com o maximo sangue frio, ordenou de novo: 

-- Recolhei as avançadas, André de Meira... Aos postos, senhores!... 

Depois, vendo o alferes dormindo ainda, sorriu, tocou-lhe com o pé e ao vêl-o despertar espavorido, ficou a rir, ouvindo-o bradar: 

-- O inimigo?!... O inimigo?!... 

-- Sim, meu valente... O inimigo que se approxima... 

O outro, em cujo rosto imberbe, havia a expressão doce d'uma mulher, afivelou á pressa a espada, correu a agarrar a bandeira de legião e sahiu com os camaradas gritando: 

-- Viva Portugal!... 

O brigadeiro sorriu de novo, affastou-se no campo, e depois ali no escuro, viu apagarem-se uma a uma todas as fogueiras. 

Os soldados obedeciam sem um murmurio, recolhiam-se ás moutas, de bacamartes aperrados, as avançadas retiravam em accelerado e o brigadeiro dizia para o major: 

-- Agora com esta gente fazei accender as fogueiras no alto do outeiro e á direita na planicie, a distancia... 

-- Brigadeiro... É a reserva?!, interrogou elle desanimado. 

-- É um posto d'honra... Será ahi que o inimigo irá... Levae trinta soldados e o tenente Paschoaes... 

Ouviam-se agora ao longe as cornetas dos hespanhoes soando ao assalto e nos peitos portuguezes despertou a bravura ao verem passar sereno e grande o seu chefe, cuja manobra não percebiam. 

Ninguem fallava; um frio cortante passava sobre elles, um rumor cada vez mais proximo se ouvia dos lados da fronteira. 

De repente um soldado viu apparecer o lume das fogueiras n'uma linha extensa e indefinida ao longe e exclamou: 

-- O inimigo!... 

Voltaram-se de dedo no gatilho, mas soltaram um grito de pavor. 

No alto do outeiro, dentro da villa appareciam novas luzes que os sobresaltavam. 

- O inimigo!... O inimigo!..., bradavam com colera e com terror julgando-se cercados. 

Os proprios officiaes extranhos á manobra sentiram o horror da situação. 

O rumor cessava dos lados de Hespanha, parecia que se affastavam, e isso ainda mais fazia acreditar n'um cerco habil. 

-- O inimigo... O inimigo..., balbuciavam. 

-- Mas vamos ser chacinados!, resmungou um sargento. 

-- Não podemos aqui ficar, murmurou o capitão do primeiro troço no qual estava André de Meira. 

-- Decerto... decerto..., murmuraram alguns. 

Começavam a manifestar-se no seu grande terror ao verem pouco a pouco as fogueiras deseerem pelo outeiro, do lado opposto e alastrarem se no campo. 

-- Ah! Esperam a manhã para o ataque... Seremos prisioneiros, disse alguem. 

As mãos deixaram de ter a firmeza para segurarem os bacamartes, que reputavam inuteis n'aquelle momento; cada um buscava a mais commoda posição para ser feito captivo e o capitão exclamava: 

-- Mas onde está o brigadeiro?! 

-- Aqui, meus amigos!..., exclamou Gomes Freire. Aqui a dizer-vos: A'vante!... 

-- Mas estamos cercados!, volveu o capitão. 

Logo um rumor de revolta passou nos soldados, e então elle, com furia, desembainhando a espada, bradou: 

-- Avançar!... 

Ninguem se moveu. elle começou a comprehendcr que os soldados se julgavam cercados e esboçou um sorriso. 

Erguia-se a luz livida da madrugada e uma extensa fita negra e movediça corria para baixo de Villa Velha, longa e ininterrupta, mas era ainda tão distante, que só a vista experimentada do brigadeiro a poude distinguir. 

-- Capitão... Avance com a sua companhia... Vamos... Depressa! ordenou de novo. 

Ficaram do mesmo modo, iam largar as armas, e então o heroe, n'um gesto de raiva gritou: 

-- Capitão, sois um cobarde!... 

O outro fez-se vermelho de colera o exclamou: 

-- Cobarde?! Ah?! E tudo por não querer avançar com os meus soldados para uma morte certa! estamos cercados graças á vossa impudencia e mais vale sermos primeiros do que morrer sem gloria... 

-- E quem vos affirma a verdade d'esse cerco?!... 

-- Aquellas fogueiras!... disse elle estendendo o braço. 

O brigadeiro encarou-o, segurou-lhe a farda pelo peito e bradou: 

-- Podia dizer vos como ali estão os hespanhoes... Não o farei! Os meus officiaes devem avançarem sem pensarem no perigos... Aos que recuam metto-lhe uma bala na cabeça! Capitão Nobrega marchae ou sereis substituido no commando! 

Depois para os soldados que murmuravam, o brigadeiro disse na sua linguagem dominadora, breve, sacudida: 

-- Valentes: sabeis que o vosso antigo coronel nunca vos enganou... N'este troço estão alguns dos soldados que souberam resistir aos embates dos francezes quando os hespanhoes, esses mesmos que temeis agora, fugiam como perros... Lembrae-vos de S. Lourenço e de S. Sebastião de la Muge! Lembrae-vos que foram os granadeiros e o regimento Gomes Freire que souberam cobrir a retirada d'esse exercito que vos assusta... Vamos provar lhe que nas veias dos soldados portuguezes ainda corre um sangue tão ardente como o d'essa epocha! Avante pois meus filhos, meus valentes!... 

Elles olhavam o brigadeiro; o fogo das suas palavas aqueceu-os e pegaram nos bacamartes dispostos ao assalto deveras enthusiasmados, clamando: 

-- Viva o brigadeiro... Avante... Avante... 

-- Oh! Esperava isso de vós outros, meus filhos!... E agora sabei que o inimigo vae alem n'aquella linha negra e movediça ao encontro d'uns trinta bravos commandados pelo vosso major... Aquellas fogueiras accendias eu para que os hespanhoes julgando-nos n'outro sitio corressem ao assalto emquanto nós invadissemos a Hepanha! 

Semelhante audacia electrisou os soldados que sahiram das moutas e bradavam: 

-- Vamos... vamos!... Viva Gomes Freire... Viva o brigadeiro!... 

-- Silencio!.., ordenou á pressa. E logo para o capitão que estava pallido exclamou: 

-- Capitão Nobrega considerae-vos preso... Tenente Meira tomae o commando da columna! Avante!... Viva Portugal! 

Um brado immenso lhe respondeu; o tenente deu a voz de avançar e a columna poz-se em marcha sahindo ousadamente de Villa Velha. 

Elle partia de repente a cavallo para o outro lado da villa e o capitão que ficava entre tres soldados, murmurou: 

-- É necessario morrer!... Aquelle homem é um bravo... É um heroe!... 

Entretanto a columna avançava sempre ao passo que os hespanhoes iam ao encontro do major, anciosos que ali achariam o troço do exercito. O velho sorria á frente dos seus trinta homens ao comprehender a habilissima manobra do brigadeiro. Via avançar aquella turba e nem sequer um museulo estremecia da face enrrugada. Os soldados estavam firmes ao verem a morte imminente, 

mas deixaram se ficar serenos aguardando o inimigo que julgavam vêr n'aquelles poucos homens a avançada. 

Clareava; os tres soldados conduziam o capitão Nobrega até ao sitio onde se encontrava o major que ao vel-os, bradou espavorido: 

-- O exercito?!... Derrotados todos?! Sois os ultimos?! 

-- Não major... O exercito marcha para Hespanha... disse o 

cabo. Nós trazemos o capitão que o nosso brigadeiro vos entrega prisioneiro... 

-- É preciso morrer... murmurou elle. 

-- Sim... alguma má acção praticaste... Mas ficae... Aqui morre-se! 

Com effeito os hespanhoes appareciam agora em linha cerrada e ouviam se os seus gritos: 

-- Ás avançadas!... Ás avançadas!... 

Mas soltaram um grito de pasmo ao verem aquelles homens firmes nos seus postos como se fossem postes. 

-- Firmes! bradou o major querendo vêr os seus bravos numa immobilidade perfeita. 

Chegavam os primeiros hespanhoes; um capitão exclamava: 

-- Rendei-vos!... 

-- Nunca!... volveu o velho major do conde de Lippe. 

-- Reparae que sois bem poucos comparados comnoseo e sereis prisioneiros mesmo contra vontade. 

-- Aqui morre-se! tornou o velho bradando: 

-- Fogo! 

Tal audacia admirou o inimigo que no primeiro momento hesitou; a columna respondeu-lhes com fusilaria e trinta hespanhoes um por cada bacamarte, cahiram mortos. 

-- Carregar! bradou de novo o velho. 

Mas as cornetas tocaram as tropas precipitaram-se de roldão e metade da columna cahiu n'uma desearga dos mil hespanhoes. 

-- Fogo! ordenou o velho major com anciã. 

Porem levou as mãos ao peito e cahiu morto por um tiro inimigo. 

Coube então a vez ao capitão de saber morrer; voltou se para os soldados e exclamou: 

-- Portugal será invadido se não o defendermos... 

A fusilaria era terrivel, ouviam-se gritos de colera, de lado a lado fazia-se um fogo mortifero. Tinham cabido mais seis soldados e os restantes entrecheirados n'um penedo com o capitão respondiam ao inimigo que os envolvia. 

De repente apossou-se um grande panico do exercito hespanhol, pararam o fogo: nas ultimas fileiras deu-se a debandada á vista da companhia que o proprio Gomes Freire commandava e se lhes apresentava na frente ao mesmo tempo que André Meira já em terras de Hespanha os attacava pela rectaguarda. 

E esses soldados assim mettidos entre dois fogos dividiam-se, alguns fugiam, os outros ficavam na mesma estupida admiração largavam as armas ao verem que trezentos homens estavam em territorio hespanhol emquanto os outros defendiam a terra portugueza. 

Agora, detraz do penedo havia apenas Nobrega e tres soldados. Gomes Freire viu-os e vançou elle mesmo á frente dos seus homens exclamando: 

-- Avante! Viva Portugal!... 

Já não restava duvida acerca da victoria. Era uma questão de momentos e essa manhã de sol que subia ficaria gravada nos annaes da historia. 

O heroe corria ao assalto como um louco, feria, matava, acutilava já as primeiras filas inimigas e entrava como um furacão no meio do exercito seguido pelos soldados que retiravam as bayonetas tintas do sangue de peitos inimigos. 

E assim penetrava Gomes Freire em terras de Castella, onde fôra outr'ora como defensor, levando sob o seu commando um punhado de bravos que arrebatados, no auge do enthusiasmo bradavam: 

-- Viva Portugal!... Viva Gomes Freire! 

As cornetas inimigas tocavam á retirada, deixavam no acampamento os carros das munições e alguma artilhena de que não se podiam servir e viam a retirada cortada pela columna d'André de Meira que exclamava ao ver os fugitivos: 

-- Rendam se! 

E era bem extranho que na propria terra dos inimigos, tropas portuguezas entimassem a rendição a hespanhoes batidos, a esses que no Alemtejo venciam fortalezas, esses que tinham arvorado os le5es castelhanos nas ameias d'Olivença. 

Pareceram tomar animo; ficavam uns momentos na espectativa e depois de bayoneta armada, reunidos á frente foram para o inimigo, clamando: 

-- Viva a Hespanha!

Deu-se então uma batalha em que hespanhoes e portuguezes á mistura, confundidos se feriam á arma branca. 

André de Meira, já ferido na cabeça, incitava ainda os soldados, gritava desesperado ao vêr a nova forma que as cousas tomavam! 

-- Valor, rapazes!... 

Gomes Freire vinha ainda a distancia com os seus. Os hespanhoes que elle perseguia desviaram a corrida apenas a rectaguarda do exercito, as tropas fracas, se batiam com André de Meira. 

Então elle temendo que os seus não resistissem ao embate arrancou a bandeira da mão do alferes, desfraldou-a sobre a cabeça dos soldados e gritou: 

-- Avançar!... Accelarado!... Viva Portugal! Rapazes, é preciso morrer com honra!... 

Rufaram os tambores e dentro em pouco a columna envolvia-se na batalha que durou pouco pois os hespanhoes rendia-se em numero de cem. 

No campo havia alguns mortos, os portuguezes entravam de novo em linha e Gomes Freire procurando com a vista os officiaes viu a seu lado apenas um tenente e o capitão Nobrega bem como o joven alferes. O outro capitão ficara no campo com um tenente. 

-- Meu Deus é André de Meira, o desapparecido, exclamava ao ver os seus formarem-se. 

Nobrega viu o pezar espalhado nas laces do heroe e como elle procurasse com a vista a quem dar o commando baixou a cabeça: 

-- Tenente Paschaes tome o commando do exercito! 

-- Onde está André de Meira?! bradou de seguida. 

-- Eu vi cahir o commandante, alem, replicou um sargento apontando um logar ao acaso no campo. 





Os hespanhoes foram desarmados e Gomes Freire, tomou conta das suas munições; depois medindo com a vista as suas forças e o numero dos prisioneiros, exclamou: 

-- Todos os soldados e sargentos estão em libefdade... os officiaes dêm um passo em frente. 

Um major e dois capitães avançaram para o vencedor que exclamou: 

-- Sois meus prisioneiros, senhores!... 

Inclinaram-se e passaram para o meio das tropas ao mesmo tempo que o sargento punha os soldados fora da linha. 

Sahiram cabisbaixos e então o brigadeiro exclamou: 

Que povoação é aquella?! apontava um povoado já em terras hespanholas a pouca distancia da fronteira onde se tinham internado. 

Foi o major hespanhol que lhe respondeu: 

-- É Bosaens, senhor!... 

-- Vamos tomal-a!... gritou cheio de enthusiasmo entregando a bandeira ao alferes e ordenando a partida. 

Mas chegava um soldado ferido que se arrastava pelo campo com a cabeça fendida por uma cutilada e o qual murmurava: 

-- Ali... ali... o tenente... 

-- André de Meira?! Onde?! exclamava elle que de ha muito se sentia attrahido para o mancebo. 

-- Junto ás arvores... cahiu como um valente, volveu o soldado desfallecendo. Dois soldados!... Depressa!... 

Gomes Freire, partiu de corrida, atravessou o campo onde encontravam antes os dois exercitos e deparou com o official estendido junto ás arvores indicadas pelo soldado. Tinha uma longa ferida no peito e estava desmaiado. 

O brigadeiro acercou-se, ajoelhou-se junto d'elle emquanto os soldados fabricavam uma maca de ramos para o conduzirem. 

Ao moverem o corpo, o tenente abriu os olhos fez um gesto ao brigadeiro que se approximasse e murmurou: 

-- Quero... fallar-vos... 

-- André!... Mas depois... Estaes ferido! 

-- Não... não... Vou morrer!... Affastae os soldados... 

-- Falla... 

-- Meu brigadeiro... Sois um heroe... uma grande alma... 

Dae me a vossa mão... Ah! Assim... E em voz breve, debil, tornou: 

-- Tenho ao peito um retrato levae-o á pessoa que elle representa!... Dizei-lhe como morri... 

-- Sim, farei isso!... 

-- Morri com o seu nome nos labios para ser digno d'ella!... Brigadeiro... Segredo... Peço-vos... Tudo estaria perdido para 

ella se alguem o soubesse... 

-- É a vossa noiva? perguntou á pressa sem saber como intender aquellas palavras. 

-- É a minha amante... Dae-me a medalha... Assim... 

Desabotoou-lhe a farda levemente com carinho, quebrou n'um puchão o cordão d'ouro que a pendia e viu-a manchada do sangue que correra da ferida aberta no petio do mancebo. 

André de Meira, segurou-a ainda com mão trémula e murmurou: 

-- Dae-lh'a... 

-- Mas onde encontral-a?!... Quem é essa mulher?! 

O tenente coJlava os labios á medalha n'um beijo ardente, soltava um suspiro e morria sem dizer mais nada. 

-- Oh!... Morto?!... Mas onde encontrar... 

Tinha pegado na medalha; olhava a espantado e dizia ao reconhecer aquelle rosto agora manchado de sangue: 

-- A princeza?!... Oh!... Desgraçado! Tambem ella!... 

E ainda com colera, vendo o retrato de Carlota Joaquina, tornou: 

-- E queria ser digno d'ella! 

Olhou ainda o cadáver, guardou o retrato c disse para um soldado: 

-- É necessario dar sepultura ao vosso tenente!... Deseobriu-se e no seu rosto, n'essa physionomia de soldado, passou uma expressão de pezar, de seguida affastou se a enxugar duas lagrimas. 

Chegou em frente das tropas, chamou o tenente e disse-lhe: 

-- Sois agora abaixo de mim, o official mais graduado do exercito... Os nossos camaradas morreram ali no fogo, na batalha... O major cahiu como um bravo!... O capitão deixou a vida como um heroe e o mesmo succedeu a André do Moira!... 

-- Morto tambem?! 

-- Sim... Sois o commandante da columa... Tereis as dragonas de capitão, eu vol o juro, Paschoaes... 

-- Mas aquecei-vos de Nobrega!... 

-- Ah!... Os que recuam não se contam! Antes morto!... 

O official estava a pouca distancia e ouviu-o; ficou sereno ante as suas palavras e de seguida murmurou: 

-- Sim.... Antes morto... Ao menos seria chorado!... 

-- E agora, meus filhos, a victoria é nossa... Vamos tomar Bosaens onde nos fortificaremos... 

Os soldados responderam lhe n'um brado immenso e d'ahi a momentos os seiseentos homens punham se em marcha ao som dos tambores em direcção á povoação hespanhola, onde chegaram ao entardecer. 

Foram recebidos por alguns homens armados, fugidos do exercito, que ali se barricavam, porém á vista dos prisioneiros, após alguns tiros, entregavam-se. 

O brigadeiro, senhor da povoação, installou-se no ayuntamtento e mandou chamar os prisioneiros. 

O major e os dois capitães apparecêram dignos na sua frente; Elle, recebeu-os com um sorriso amavel, apontou-lhes cadeiras e disse lhes: 

-- Meus senhores: a sorte da guerra fez com que vos tornasseis meus hospedes em vossa casa... Eseolhei os vossos aposentos e apparecei d'aqui a meia hora se quizerdes dar-me a honra de acceitar do meu jantar! 

Elles admirados de tanta gentileza, inclinaram-se e o major volveu: 

-- Agradeço-vos, general... Já conhecia a vossa bravura e a vossa delicadeza, porém nunca esperei que nos tratasseis como amigos... 

-- General?! Chamae-me brigadeiro que é o meu posto... 

-- Apenas?! Oh! Conheci-vos em coronel em S. Sebastião de la Muga! 

-- Então... Em Portugal são tantos os homens de valor que os postos se tornam difficeis para os que como eu apenas batalham! 

E na sua ironia sorria aos hespanhoes. 

Depois, ao vel-os sahir, sentava-se á meza e começava a escrever uma proclamação aos habitantes de Bozaens em que lhes lançava um tributo em nome de Maria I, a rainha louca. Deseja, chamava o alferes e ordenava-lhe: 

-- Senhor... Içae a bandeira portugueza n'esta residencia... Depois ide ao som do tambor proclamar o tributo a Portugal... 

-- Sr. brigadeiro, assim farei!... 

D'ahi a pouco a bandeira portugueza fluctuava em terras de Hespanha na casa onde o brigadeiro jantava com os prisioneiros e 

com os seus officiaes á excepção de Nobrega. 

Na rua ouvia-se um grande sussurro de povo, soava um tiro e Gomes Freire, exclamava: 

-- Ah! revoltam-se!... 

Corria á janella e via a rua coalhada de gente que bradava:

-- Viva Portugal!... Viva o brigadeiro Gomes Freire!... Elle sorriu, comprehendeu que era a vassallagem e exclamou: 

-- Habitantes de Bozaens!... A sorte das armas fez vos subditos de D. Maria I, rainha de Portugal, eu o proclamo e em nome da rainha vos asseguro que tereis todas as immunidades de que gosam os mais antigos subditos da rainha minha senhoral 

-- Viva! viva a rainha! clamaram os hespanhoes. 

Então o brigadeiro voltando-se para dentro entre as acclamações, disse: 

-- Julguei ser uma revolta....Aquelle tiro... 

-- Foi o capitão Nóbrega que se suicidou! exclamou um sargento que entrava saudando o heroe. 

-- Ah! Cumpriu o seu dever! disse serenamente. 

Mas voltou o rosto a enxugar uma lagrima murmurando: 

-- Elle terá familia?!... 

Por fim acercou se d'um dos hespanhoes e interrogou: 

-- Dizei me senhor... Aqui proximo ha outro povoado?! 

-- Sim, brigadeiro... A aldeia de Fizera! 

-- Bem... Sabeis que vou tomai a ao romper do dia! 

Deram um salto como se o julgassem louco e elle murmurou: 

-- Sim... com cem homens decididos conquista se uma praça! Riram, acharam uma certa graça áquella semcerimonia do brigadeiro que encolhendo os hombros dizia: 

-- E se amanhã vos nomeasse governador de Fizera, sr. tenente?! 

O joven olhou-o admirado e respondeu: 

-- Mas sr. brigadeiro... Que é preciso fazer?... 

Sorriu e n'um Jogo de palavras, com certa alegria disse: 

-- Tomar Fizera!... 

-- Comvosco?! 

-- Sim!... 

-- Até para o inferno! exclamou elle arrebatado. 

E ao romper d'alva o brigadeiro formava cem soldados do seu regimento e marchava para a povoação visinha que tomava d'assalto com uma audacia sem precedentes na manha de 18 de junho. 

Dirigiu a proclamação aos habitantes que se declararam subditos de Portugal, deixava o commando ao tenente Pasehoaes e voltava para Bozaens apenas com uma ordenança. 

Foi recebido pelos officiaes hespanhoes que ao verem-no se fizeram pallidos. 

-- Senhores... O vosso rei tem menos uma povoação! 

-- Fizera?!... bradaram deveras admirados. 

-- Pertence a Portugal!... Tem o governador que hontem nomeei antes da conquista... Ah! É verdade, deixae-me participal-o aos meus chefes pois não ando a conquistar terras por minha conta!... 

Retirava-se e ia noticiar as suas victorias ao governo do reino. Chamava o alferes e dizia-lhe: 

-- Meu amigo... Tendes algum cadete nas vossas tropas?! 

-- Apenas um..., 

-- Chamae-o... 

D'ahi a momentos apparecia um joven fardado de cadete d'infanteria e que se perfilava ante o brigadeiro como admirado d'aquelle apello. 

-- Como vos chamaes?! interrogou elle fixando. 

-- Pedro Pinto de Moraes Sarmento! murmurou elle que era um rapaz magro, d'olhos vivos, o aspecto firme d'um militar sedento de triumphos com os seus dezoito annos. 

-- Quereis ganhar o vosso galão?! 

-- Sr. brigadeiro... Tendes mais alguma aldeia para tomar?! interrogou elle com um desembaraço que fez sorrir o heroe. 

-- Depressa ides mancebo... Olhae que não tem Hespanha aldeias para todos os bravos que me acompanham... Ireis antes levar a noticia das nossas victorias ao Alemtejo onde se encontra o general em chefe. Peço para vós o galão d'alferes... 

-- Oh! Nunca vos esquecerei, meu brigadeiro. 

-- Ide... Tomae um cavallo dos melhores da aldeia e parti... O commissario que vos dê trinta dobrões do cofre da camara... 

-- Sim, meu brigadeiro!... 

Elle partiu e Gomes Freire ficou á janella ao abrigo da bandeira das quinas que elle fôra o unico a arvorar em terras d'Hespanha n'essa memoravel campanha de 1801. 









XL 



Olivença de Hespanha 



Fizera-se uma tregua breve após as derrotas do nosso exercito no Alemtejo. Lafões retirava sempre, Campo Maior, Olivença e outras povoações tinham sido theatro de grandes scenas de cobardia. 

Forbes, já velho mal pudera resistir aos impetos inimigos. Apenas Bernardim Freire fora um valente em Arronches. 

O conde de Castro Marim vencera no Algarve. 

No emtanto tinhamos ficado derrotados e os plenipotenciarios portuguezes encontravam se em Badajoz reunidos na casa da camara. 

Luiz Pinto, o proprio ministro partira a buscar remediar o mal causado, e era elle que com o general Forbes e o duque de Lafões, acompanhados do seu estado maior que alli estavam na sala em frente de D. Manuel Godoy, o celebre principe de Paz, o amante de Maria Luiza de Hespanha, que com seu irmão D. Diogo e os marquezes de Solmo e de Castellon negociavam com os portuguezes. 

Em baixo os soldados faziam festas após as victorias, cantavam e arrastavam os corpos pesados pelo vinho. 

As mulheres entoavam as suas canções ao som das castanholas sob a luz do sol que lhes mordia as faces morenas e no meio do ruido d'essa victoria, estalavam morteiros e foguetes emquanto se preparava um grande arraial para essa noite. 

No berrantismo dos trajes em toda a alegria ahi festiva havia insultos aos delegados dos vencidos que cabisbaixos estavam alli na sala onde os tres hespanhoes sorriam jubilosos ante as canções picantes do seu paiz, lembrando-se que essa boa terra de Portugal lhes deixaria nas mãos mais algumas aldeias e villas. 

D. Manuel Godoy, principe de Paz, um homem esbelto, de cara rapada, os olhos negros, vestido com todo o rigor de etiqueta sonhava com a conquista d'esse Portugal que os francezes lhe tinham promettido para accrescentar aos dominios de sua real amante. Pensava em crear uma dynastia de que elle seria o fundador, em occupar em Portugal o logar de Maria I e n'uma alliança forte com a Hespanha e com França ser o rei de quatro milhões de portuguezes. O irmão D. Diogo, mais novo, menos esbelto, fardado de general, pensava em ser o principe tambem, em commandar exercitos, em figurar na lista dos irmãos de reis e os dois generaes, esses sonhavam apenas com o saque a que seriam gratos. 

O marquez de Solano tinha o rude aspecto d'um bandido de serra Leoa, alguma cousa de terrivel na physionomia, uma audacia sem limites na voz que era rouca uma extranha firmeza fanfarrona nos olhares que deitava ao velho Forbes e ao decrepito Lafões. 

O marquez de Castellar era a figura magra e quichotesea de todo o bom hespanhol aventureiro, passeava em pernadas largas pela sala e de quando em quando acercava-se da janella a sorrir ás raparigas que dançavam. 

Luiz Pinto, fallava em voz tremula, defendia a terra de Portufal perdera, e dizia: 

-- Mas alteza, deveras são as vossas condições... 30 milhões de indemnisação! Campo Maior, Elvas, Olivença, todo o territorio d'alem-Guadiana?! 

-- E a fortaleza de Sagres... murmurava D. Diogo a recordar lhe ainda mais essa cedencia.

O principe da Paz, ergueu então a cabeça, fixou de sua forma dura, o ministro de Portugal e volveu em voz de grande vibração: 

-- As minhas condições, dizeis?!... 

-- Sim, alteza, as vossas condições... Não sois o vencedor?! 

-- Ah! Por conta dos francezes! chaqueou elle. E bem sabeis que o ministro do consul deseja muito mais!... 

-- Sim... Mas eu já enviei o meu secretario a Lorient a pactuar com Napoleão Bonaparte que deu poderes a seu irmão Luciano. 

-- Pois aguardamos o embaixador francez... Luciano Bonaparte decidirá... Bem sabeis que Napoleão deseja apenas esmagar a Inglaterra de que sois alliados! e o hespanhol sorria ao continuar: 

-- No emtanto nem uma farda vermelha appareceu nas vossas muralhas!... E Napoleão deseja para a paz, o seguiu: 

-- Prohibição da entrada aos navios inglezes em portos portuguezes, o Minho, a Beira, Traz-os-Montes, occupados por francezes e hespanhoes e 25 milhões de libras tornezas... Isto é o preliminar, a garantia... Depois das condições ser-vos-ha restituido o vosso territorio... Sim, senhor ministro, é isto o que o primeiro consul deseja!... 

-- Oh! Meu Deus, mas é esmagar-nos! 

-- Pelo contrario senhores! bradou n'este momento uma voz vibrante em francez. 

Os hespanhoes e os portuguezes ergueram-se e um mancebo alto, pallido, de grande ar firme, uns olhos negros onde se lia bondade, vestido como um convencional ante os plenipotenciarios. 

-- O cidadão Luciano Bonaparte, embaixador da França, exclamou D. Manoel Godoy apontando o recemchegado. 

Elle que conseguira entender o hespanhol e mais ou menos comprehendeu os palavras de Luiz Pinto que interrogou em francez: 

-- Dizeis que queriamos esmagar o vosso paiz?! 

-- Sim, cidadão Bonaparte, era o que dizia S. Ex.ª ante as grandes condições que vosso irmão nos impõe! volveu o duque de Lafões que temera a ignorancia de Luiz Pinto. 

-- Sois portugaez?! interrogou o irmão do primeiro consul admirado da maneira porque o duque se exprimia. 

-- Sim, cidadão! 

-- Sois o ministro Luiz Pinto?! perguntou elle novamente. 

-- Não tenho essa honra... Sou o duque de Lafões! volveu o velho e apontando o ministro, disse: 

-- Eis ali S. Ex.ª

-- Ah! Senhores creis vós que dizeis desejar o cidadão primeiro consul destruir a vossa patria?! Enganae-vos, eu vol-o affirmo como irmão de Napoleão e como embaixador francez... Ao contrario, o primeiro consul estima o vosso paiz... 

-- Mas... mas... titubeou elle encarando o joven embaixador. 

-- Sim... E se tanto vos exige d para que a vossa alliança com a Inglaterra termine... A unica inimiga da França é a Gran-Bretanha, a mesma loba marinha que vos rouba, a mesma nação que retira de Portugal as suas tropas e toma as vossas colonias!... 

-- Bonaparte, meu chefe e meu irmão, quer apenas que os inglezes não encontrem soccorros nos vossos portos... Deixae em paz essa alliança e sereis amigos da França, cuja marinha é ainda forte para reconquistar Gôa e os Açores, que os vossos alliados tomaram sob o pretexto de defeza!... Eis aqui tudo!... 

E o joven francez expunha clara e francamente a situação a que o ministro volveu: 

-- Cidadão... Sabei que o regente de Portugal pretere sepultar- se nas ruinas do seu reino a acceitar as condições de vosso irmão!... As nossas provincias occupadas, as nossas terras invadidas!... 

-- E tendes força para resistir a uma invasão franceza?! interrogou elle franzindo o sobr'olho. 

Mas depois como apiedado, olhando essa velha mumia que se chamava o duque de Lafões, tornou: 

-- No emtanto, eu sou o embaixador francez e poderei fazer-vos outras condições... Meu irmão não assentou formalmente n'um plano e eu resolverei... 

O principe de Paz olhou-o fixamente; os hespanhoes ficaram de mau humor ao ouvirem n'o começar: 

-- Essa condição da entregadas vossas provincias será abolida... Nada teremos com o territorio portuguez! Pagareis apenas trinta milhões e vingareis a alliança ingleza! 

O duque sorriu e para o ministro disse: 

-- É bem acceitavel! É justo que Portugal pague os erros dos filiados, mas que se desembarasse d'elles... 

Luiz Pinto olhou-o rancorosamente e disse: 

-- Apenas a clausula da alliança não poderemos acceitar... 

-- Bem... Mas não tomareis parto nas luctas contra a França... 

Não dareis abrigo nos vossos portos mais a inglezes do que a francezes... 

Elle curvou a cabeça e não respondeu logo. 

D'ahi a instantes, disse: 

-- Trinta milhões vos serão entregues! Os nossos portos serão neutraes!... 

Luciano Bonaparte sorriu e exclamou: 

-- Ainda chegaremos a outros accordos... Olhae que França não é vossa inimiga!... Se vos desembaraçareis de Inglaterra!... 

E logo n'outro tom accrescentou: 

-- Podemos assignar o tratado! 

Coube então a vez do hespanhol Godoy se manifestar abertamente: 

-- Esqueceis a Hespanha?! 

-- Para vós será metade d'essa indemnisação de guerra!... 

-- Quinze milhões, ora?!... resmungou o marquez de Solano na sua voz de bandido. 

-- Nem ao menos uma fortaleza? Sagres, por exemplo! gritou o marquez de Castellon. 

-- Calae-vos, marquez... Nós, os hespanhoes, não assignaremos nunca uma convenção que só aproveita á França! exclamou o principe da Paz com grande orgulho. 

Luciano sorriu, e com aquelle fino espirito francez, disse: 

-- Olhae, principe, que desmentis o vosso titulo! 

-- Quereis dizer que os principes de sangue real são mais generosos?! disse com amargura o valido de Maria Luiza julgando-se insultado. 

-- Não... Quero apenas dizer que sois antes principe de la Guerra! 

D'esta vez até os hespanhoes riram e D. Manuel Godoy mais humanisado, exclamou: 

-- Cidadão... Só assignaremos essa convenção se nos cederem Campo Maior e Olivença!... 

Luiz Pinto, olhou-o, e murmurou: 

-- Mas é impossivel! 

-- Que quereis... Não entramos n'esta lucta ao acaso... Quinze milhões pagam as nossas despezas... Mas quem vence, ganha, e nós não queremos perder! 

Forbes fallou então pela primeira vez em voz sumida a aconselhar. 

-- Cedei senhor... Lembrai-vos que nem soldados temos para a sua defeza! 

E o ministro redarguiu então já farto de tantas discussões, temendo muito a antiga exigencia do primeiro consul: 

-- Accedemos... Olivença e Campo-Maior ser-vos-hão entregues!... 

-- A Hespanha quer o direito de navegar em aguas portuguezas... 

-- De ha muito o tendes como alliados do Roussillon... casquinou o duque de Lafões com um olhar para o francez. 

-- Redigiremos então o tratado? disse Luciano tirando da algibeira um pergaminho e accrescentando: 

-- Estava feito para a França... Resta juntar-lhes a cedencia de Olivença e Campo-Maior... 

Fez-se um silencio emquanto este escrevia á pressa o ultimo paragrapho. 





XLI 



O contracto 





Debaxo chegava sempre o mesmo ruido alegre, a mesma folia de vozes e castanholas soando. 

-- Assignae senhor... murmurou delicadamente o francez para D. Manuel Godoy. 

-- Vós!... rouquejou o principe da Paz. 

-- A tout seigneur tout l'honneur! Sois o principe e vencedor! E apesar da França ser republicana ainda conserva a tradicção dos principes... 

D. Manuel assignou de mau humor e passou a penna ao marquez de Solano. Mas logo o de Castellon se precipitou gritando: 

-- Eu sou o primeiro!... Pertenço á nobreza de primeira classe das Hespanhas! 

-- Mas eu sou descendente de Cid!... berrou o outro. 

-- Que tem?!... Sou o primeiro!... 

E elles empenhavam-se na diseussão da sua nobreza quando o embaixador francez exclamou: 

-- Por Deus, assignae na mesma linha, que ambos sois bem fidalgos de egual merecimento!... 

-- Eu sou de primeira nobreza! 

-- De egual, por Deus... Vindes de Adão! retorquiu a sorrir. 

E então elle, aprumando a estatura guinchou: 

-- Caramba! Saiba que descendo do rei sol!... e com firmeza, traçou a cruz da sua assignatura e chamou o ajudante dizendo-lhe: 

-- Escreve ali: a rogo do mui nobre, alto e poderoso senhor, D. José de Santiago Molina Peres de Conceiro Almaviva... 

E ao terminar a enfiada de nomes passou a penna a Solano que estava atarantado ante o nobre deseendente do sol. 

-- É um bastardo de Luiz XIV, o rei sol! murmurou o embaixador francez ao ouvido de D. Manuel Godoy que sorriu e murmurou; 

-- E a vossa vez!... 

E Luciano Bonaparte indicou ainda os portuguezcs que assignaram. 

Quando elle pegou na penna para traçar o seu nome, ouviu se um ruido á porta e um ajudante exclamou: 

-- É um portuguez que diz trazer uma noticia importante! 

-- Já o recebemos... murmurou Luiz Pinto de mau humor. 

Mas o ajudante acercava-se de Lafões, fallava-lhe ao ouvido e o velho duque erguia-se d'um pulo, a face radiante e exclamou: 

-- Fazei entrar... Permittis senhores?! 

-- Decerto! disse D. Manuel Godoy. 

E o cadete Pedro Pinto entrou; ficou um pouco embaraçado ante os personagens murmurou: 

-- Trago um officio para o general em chefe! 

-- Sou eu!... D'onde vindes?... interrogou maliciosamente o duque relanceando o olhar pelos assistentes e esperando impacientemente a resposta do joven, que todo coberto de poeira, se aprumava para bradar como se advinhasse os deseios do duque de Lafões que dizia de novo: 

-- D'onde vindes? 

-- Venho da parte do brigadeiro Gomes Freire! volveu o cadete. 

Luiz Pinto ao ouvir esse nome, endireitou-se na poltrona e exclamou: 

-- E acaso esse brigadeiro commanda em chefe para mandar enviados ao marechal. 

-- Sim, excellencia! 

-- O quê?! 

-- É o chefe do exercito d'aquem Douro que lhe foi confiado pelo senhor de la Rosière. 

-- Um emigrado! murmurou Luciano sorrindo da sua maneira particular. 

-- E o vosso chefe como dizeis, não tinha um ajudante para nos mandar?! Julgo-vos simples cadete ou não sei as patentes do exercito! tornou o ministro. 

-- Não, excellencia, redarguiu com aprumo entregando o officio ao duque de Lafões. O brigadeiro não tem ajudantes! 

-- Mas um official, visto ser tão importante a missão a que vindes! disse no seu tom ironico. 

-- Nem mesmo um official, porque á excepção d'um alferes e d'um tenente todos são mortos! 

Os hespanhoes sorriram alegremente ao ouvirem a noticia e o ministro cada vez mais agastado ante aquelles sorrisos, exclamou: 

-- Mas e esse tenente e esse alferes?! Porque não os enviou?! 

O duque abrira o officio e sorria com grande alegria; mostrava a Forbes o seu conteudo e o velho general ao lêr o que elle continha tornava-se pallido e murmurava: 

-- Oh! Sim porque não vieram?! 

-- Porque o alferes é necessario ao brigadeiro para a disciplina das tropas. 

-- E o tenente?! gritou o general Forbes, accrescentando: É falta de cortezia! 

-- Meu general, o tenente Paschoaes foi nomeado governador. 

-- Governador de quê?! exclamou Luiz Pinto erguendo-se muito irado. 

-- De Fizeras... O alferes ficou em Bosaens! volveu o cadete com aprumo. 

-- Fizera?!... Bosaens?!... Que é isso?!... interrogou o ministro sem comprehender. 

-- Fizera?! Bosaens?! exclamou tambem D. Manuel Godoy. O que?!... 

-- Sim... Mas são povoações hespanholas da fronteira trasmontana! explicou D. Diogo. 

-- Perdão... disse lentamente o duque de Lafões. São povoações portuguezas conquistadas peto brigadeiro Gomes Freire que eu nomeio general com os meus poderes de commandante em chefe. 

D'esta vez os hespanhoes tornaram-se pallidos, o ministro não se atreveu a responder á nomeação e Forbes avançou para a porta desesperado n'um grande anniquilamento. 

Luciano Bonaparte interrogou então o duque. 

-- Que se passa, excellencia?! 

-- Uma tomada de duas aldeias de Hespanha feita por um official portuguez de nome Gomes Freire!... 

-- Oh!... E que ides fazer?! perguntou de novo o irmão de Bonaparte. 

-- Peço-vos que as troqueis no contracto por Campo Maior e Olivença se os senhores de Hespanha o consentirem!... Não é assim sr. ministro?! 

-- Decerto, disse Luiz Pinto ainda admirado. É preciso trocal-as!... 

-- São duas aldeolas, murmurou com desprezo D. Manuel Godoy. Ficae com ellas!...

-- Não quereis então... 

-- Cedo-vos Campo Maior mas guardo Olivença! redarguiu ao cabo d'uns momentos com intimativa. 

-- Lembrae-vos que temos duas povoações... 

-- É a minha ultima palavra... Vamos a reformar o contracto pois tenho de estar em Madrid dentro em dois dias! 

O ministro baixou a cabeça e volveu: 

-- Seja!... Ficae com Olivença que se chamará d'ora avante Olivença de Hespanha! 

D. Manuel Godoy, satisfeito com a troca esereveu á pressa a clausula no contracto e bradou: 

-- Oh!... Deve ser para vós bem querido, esse tal Gomes Freire... O primeiro nome até parece hespanhol!... 

Sorriu, encolheu os hombros, chegou á janella sob a quai as raparigas dançavam e exclamou de repente: 

-- Um correio de França... Mas em que miseravel estado!... 

-- De França?! exclamaram Luciano e Luiz Pinto a um tempo. 

-- Oh! o primeiro consul reflectiu em face do enviado portuguez! de seguida correu para a porta onde assumava o correio. 

Vinha com o fato rasgado, trazia o braço direito ao peito, o rosto negro da poeira das estradas, um ar doente, abatido, cançado: 

-- O cidadão Luciano Bonaparte! disse em voz debil. 

-- Sou eu!... D'onde vindes!... 

-- De Lorient onde está o cidadão primeiro consul que me recommendou pessoalmente grande pressa em vos trazer esta ordem. Porém, em Alerida, cahi do cavallo e parti um braço... Eis o motivo da minha demora. 

O embaixador, rasgou á pressa o envolucro, começou a lêr e empallideceu. 

De seguida, passando um olhar pelos assistentes que estavam suspensos, bradou: 

-- Senhores: meu irmão Napoleão Bonaparte, o primeiro consul, ordena-me que não assigne por cousa alguma do mundo com Portugal outro contracto a não ser o primeiro por elle dictado e em que se pedem vinte e cinco milhões de libras tornezas e a posse das tres provincias do Minho, Traz-os-Montes e Beira... 

-- Que dizeis senhor?! bradaram os portuguezes assustados. 

-- Ah! Assim deve ser! clamaram os hespanhoes maravilhados. 

-- Porém, meus senhores, sabeis que ha um velho dictado em que se diz que a palavra dos reis não volta atraz?!... tornou o embaixador francez, muito pallido, mas buscando sorrir. 

-- Que quereis dizer?! interrogaram logo os hespanhoes. 

-- Que a França é o primeiro paiz da Europa onde a republica triumpha e é necessario formar um novo adagio! volveu elle no mesmo aprumo e com a mesma lividez na physionomia, ao lembrar-se da ordem expressa do irmão, cuja colera era intensa quando lhe contrariavam os projectos. 

-- Mas que significam as vossas palavras?! tornaram ainda os hespanhoes. 

-- Por Santa Maria-Maior, disse elle a rir, buseando imitar os hespanhoes. 

-- Quero dizer que as republicas precisam ser acreditadas e que se no passado as palavras reaes não voltavam atraz, no presente a assignatura d'um embaixador republicano prevalece, embora seja expulso das suas funcções!... 

E pondo o tricorne sahiu com uma perfeita graça franceza depois de saudar os presentes. 

Luiz Pinto sorriu satisfeito, sentou-se á mesa e escreveu algumas palavras n'um papel, sellou o e mettendo-o n'um envelloppe tallado a pressa, disse para o cadete. 

-- Entregue isto da minha parte ao vosso brigadeiro! 

-- Perdão... Entregue ao vosso general! exclamou Lafões apresentando ao ministro a nomeação de Gomes Freire que elle assignou de mau humor. 

-- Então, excellencia, é para consolar esse bravo da entrega de Bozaens e Fizera que lhe ordenaes! disse o duque sorrindo maliciosamente, e sahindo da sala depois de saudar os hespanhoes, arrimando se muito ao bastão de commando. 







XLI 





O fim da lucta 







As tropas tinham voltado para as suas respectivas divisões em estado miserando, depois de soffridas todas as humilhações impostas pelos francezes e hespanhoes. 

Olivença ficara perdida; pagara-se trinta milhões á França, e Bonaparte no auge da colera, ao ver desmanchado o seu plano contra a Inglaterra, increpara o irmão, lançara-lhe em rosto a sua benevolencia para com os portuguezes e feita a paz enviara como embaixador um dos seus generaes. 

João Lannes, que começara como simples soldado nas guerras da fronteira em 1798, e estivera sob as ordens de Dumouriez em Valmy, que fôra feito cabo em Jommapes, exercera o mister de ferreiro na sua mocidade e a republica elevara o até ao generalato, mercê da sua bravura nunca desmentida. Mas o soldado, o ex ferreiro, guardara sempre a rudeza do officio e era dos officiaes do Directorio, o mais audaz, mas tambem o mais brusco. O que foi depois o brilhante vencedor d'Eseling, fôra enviado a Portugal como embaixador, attendendo ao seu caracter dominador como convinha a Bonaparte, para a vingança sobre este povo que se lhe escapara das mãos ainda com vida. 

Ao começo da sua estada em Portugal fôra o embaixador lhano c affavel, mettera-se na côrte e ao fim d'uns mezes o regente accedia em ser padrinho d'um seu filho nascido em Lisboa, o que lhe rendeu grandes dadivas do principe. 

N'aquella manhã, D. João dava audiencia no paço da Ajuda, a commemorar os seus annos, estava no meio da sua brilhante côrte, fallava affavelmente a todos os que se lhe approximavam e tinha na physionomia uma deliciosa expressão de bem estar ao vêr terminada definitivamente essa guerra. 

Havia nos cortezãos a mesma alegria do regente, todos rejubilavam com o termo das luctas e ninguem pensava n'um rompimento com a França que ia assignar com a Inglaterra a paz de Amiens (25 de março de 1802). 

O intendente da policia continuava na sua maneira de perseguição aos pedreiros livres e levava a bem certas garantias concedidas aos francezes, nos quaes continuava a vêr verdadeiros herejes. 

Todos os dias subiam queixas até ao ministro, accusando francezes, ou porque fallavam do principe regente, ou porque faziam a apologia da revolução. 

Pina Manique, entrara gravemente nas suas vestes negras, e acercarase a beijar a mão de D. João que lhe sorria ao ouvil-o dizer: 

-- Tenha vossa alteza o mais bello dia!... Mil felicidades vos desejo, meu senhor... 

-- Agradeço-te, Manique, agradeço-te!... 

E o principe tomava-lhe o braço e levava o para o vão da janella, todo encantado, comprehendendo que o intendente não vinha disposto a fallar-lhe de negocios. 

Com effeito, elle começava: 

-- Então, meu senhor, que tal passasteis em Mafra... Cheio de alegria, D. João volveu: 

-- Oh! Bem, sempre bem... Os bons frades arrumam-me... E sabes que está agora lá um cantarino que faz as minhas delicias... Que voz e... Ah! que cantochões... 

-- E o orgão novo?... interrou o intendente buscando lisongeal-o. 

-- Uma obra prima, Manique... uma verdadeira maravilha!... 

-- Folgo com a satisfação de vossa alteza... 

-- E esteve commigo o meu compadre... Ah! Durante um dia apenas!... 

A fronte do intendente annuveou-se; mas de seguida, com intenção, interrogou:

-- Falhou muito ao ritual o vosso compadre?! 

-- Lannes?!... Oh! Mas só me acompanhava ás refeições... 

Pina Manique, hesitou ainda e tornou após uns momentos: 

-- Ah! Meu senhor... Eu sempre condemnei que vossa alteza consentisse em conduzir ao baptismo o filho do embaixador... E tanto mais... 

-- Que é um hereje?!... Não é verdade?! perguntou elle de bom humor sorrindo. 

-- Não fallo já da sua heresia, meu senhor... Fallo dos seus crimes! disse elle agora decidido a entrar no assumpto. 

-- Crimes?!... Ah! Sim contra a egreja?! Mas que queres, o general pertence a uma escola de pedreiros-livres... É verdade que me repugna isso, mas para vivermos em paz! 

-- Santo Deus... disse o intendente. Veremos se elle se emenda após a nota que hontem lhe enviei... 

-- Que nota?! perguntou o regente com grande pasmo. 

-- Mas meu senhor, a nota que o ministro do erario authorisou e a qual eu pedi como director das vossas alfandegas! 

D. João, tornou-se pallido e murmurou: 

-- Mas que tem as minhas alfandegas com o embaixador? 

-- Meu senhor, não sabeis então que desde ha dois mezes Lennes faz contrabando n'uma importancia enorme?!... Já passa de um milhão de cruzados!... 

-- Oh!... Oh!... Fizeste bem Manique, no fundo devemos zelar pelos nossos bens! accrescentou sua alteza embora um pouco indeciso. Mas de seguida interrogou: 

-- Mas era em termos convenientes essa nota não é verdade?! 

-- Oh! meu senhor, um simples aviso... tornou Manique, volvendo logo: 

-- Com que então recolheis de novo a Mafra?! 

-- Sim... Na primeira sepiana... Só estou bem entre os bons frades... e sua alteza deixava o intendente e avançava logo para um homem magro, anguloso de perfil, que entrava e ao qual beijava a mão, dizendo: 

-- A vossa benção, meu padre!... 

Manique, deixava-o para se acercar do presidente do erario que o interrogava á pressa: 

-- Então... então... 

- Disse-lhe tudo!... respondeu o intendente a mostrar-se forte. 

-- Ah! E sua alteza?! perguntou de novo o marquez de Ponte de Lima deveras assustado. 

-- Concordou com a vossa deliberação!  

- Dizei antes com a vossa, Manique!... exclamou o ministro ainda cheio de medo. 

O intendente encolheu os hombros e volveu: 

- Sim se o quereis... Mas desde que sua alteza approva porque nao será d'ambos! Olhae, como é feliz o bom principe junto do superior de Mafra?!... 





XLII 



O contrabando 





Chegavam sempre generaes e officiaes de todas as armas, fidalgos e damas que se approximavam n'uma grande galhardia de trajes. 

Luiz Pinto chegava tambem e acercava-se logo do presidente e de Manique dizendo: 

-- Então, fallasteis a sua alteza?!... 

-- Sim... Tudo lhe disse... retorquio o intendente. 

-- E persiste, não é verdade?! Não quer rectificar a patente de Gomes Freire concedida por Lafões?! 

O intendente encolheu os hombros e redarguiu: 

-- Mas nem d'isso lhe falei... Sua alteza estima vos muito para retirar a sua palavra e deseja que não quereis a nomeação do brigadeiro... 

-- Eu?!... Não, meu caro, apenas observo que elie está melhor á frente do seu regimento... É francez de mais aquelle homem... concluiu o ministro com grande franqueza e perguntando logo: 

-- Mas a que vos referieis quando declaraste ter dito tudo a sua alteza?! 

-- Ah! referia-me ao negocio de Lannes!... 

-- O contrabando?! 

-- Sim, excellencia, o contrabando que o embaixador faz como um miseravel! 

-- O meu aviso seria mettel-o na cadeia! murmurou n'este momento o ministro da marinha que se approximava. 

-- E eu sou d'egual parecer, senhor Rodrigo Coutinho, declarou logo o intendente. 

-- Ouvi... Tanto mais que a paz d'Amiens torna a Inglaterra amiga da França e dá-nos certa influencia para com o primeiro consul... 

-- Assim é, applaudiram todos deveras convictos ao ouvirem o ministro exprimir-se de semelhante modo. 

Mas á porta apparecia um homem alto, magro, de suissas até meio das faces, olhos vivos, os cabellos sem pós, fardado n'esse uniforme simples mas imponente dos republicanos: 

A casaca curta, azul, com botões d'ouro, onde se via o emblema republicano, calça branca e bota alta com esporas douradas, o tricorne emplumado, a cinta tricolor. 

Entrava pausadamente, um pouco ironico, ao vêr a côrte reunida, passava em frente dos cortezãos que o saudavam e dirigia-se na mesma andadura para o principe que continuava a fallar com o frade de Mafra. 

-- Lannes?! exclamou o presidente do erario todo assustado. 

-- O embaixador! disse o ministro da guerra tornando-se pallido. 

-- O hereje! murmurou Rodrigo Coutinho recuando. 

O intendente fusilou um olhar e volveu: 

-- Então, meus senhores, o embaixador francez cumpre o seu dever. Vem saudar o regente pelos seus annos... 

Do lado opposto a porta abria-se e Carlota Joaquina entrava tambem, seguida das suas damas na primeira tila das quacs se via a condessa da Ega e avançava por entre os dorsos curvados, passava junto do embaixador francez que continuava no seu aprumo e lançava-lhe um olhar d'odio ao vel-o impassivel. 

A côrte, ao notar a descortezia do general ficou perplexa, ouviram-se rumores que o francez escutou da mesma maneira serena e Manique disse: 

-- É contra a etiqueta! 

-- Oh! Bem se vê que foi ferreiro! rosnou Luiz Pinto. 

O regente ia ao encontro da esposa, porém Lannes collocou-se entre ambos, embargou-lhes o passo e ante a côrte que continuava a murmurar, exclamou em voz vibrante: 

-- Mr. du Brésil!... 

Ante aquelle tratamento novo, a suppressão do titulo de principe, o pasmo redobrou. 

D. João sorriu com certo embaraço e a mostrar-se jovial, respondeu: 

-- Como estaes, senhor meu compadre? 

-- Mr. du Brézil, tornou o embaixador do seu modo ironico cada vez mais aprumado. 

A côrte recuou, um sussurro se ouviu e elle sem a menor alteração de maneiras, bradou: 

-- Sabeis dizer-me o que vem este insulto dos vossos funccionarios?! 

E o general ia directamente ao fim sem embargo, estendia o papel enviado por Manique e concluia a dizer: 

-- Dar-me heis uma satisfação, não é assim?! 

D. João, agora muito livido, olhava a esposa, collocava-se-lhe ao lado e murmurava: 

-- Sim... Sim, cidadão... Vou apresentar isto ao meu conselho... 

-- Ao vosso conselho?! disse ainda meio insultuosamente. 

-- Sim, general... 

-- Chamae-me embaixador! bradou deveras enfurecido começando a fazer a questão do tratamento. 

-- Pois bem, embaixador, volveu o regente com grande humilhação, buscando sorrir: 

-- O meu conselho decidirá... 

-- Mr. du Brézil e acaso a França, a grande França, que eu represento, acaso o cidadão Bonaparte, o primeiro consul, podem aguardar a deliberação do vosso conselho?! 

Os fidalgos tornavam a murmurar ainda indignados e Lannes sem o menor receio, continuava: 

-- Sim... Acaso podemos esperar?!... Então a França é insultada na minha pessoa por esse aviso e ha-de aguardar que uma duzia de portuguezes se reuna para deliberarem?! 

-- Porém, embaixador, consta... 

-- O que, Mr. du Brézil? tornou da sua fórma ironica. 

-- Que contrabandeaes!... 

-- Eu?! Mas apenas tomo os objectos de que careço como embaixador d'um paiz amigo, garantia concedida a todos os outros embaixadores!... Olhae que começaes de novo a desagradar a França... 

-- Mas falla-se d'um milhão de cruzados .. 

-- Um milhão?!... 

E o embaixador sorriu desdenhosamente. 

-- Por quem me tomaes, mr. du Brézil... Um milhão?!... 

Quereis então que o embaixador da poderosa França gaste apenas semelhante quantia?!

-- Mas as leis do reino... 

-- Do reino?! Que me importa o vosso reino?! Estou aqui no uso d'uma missão diplomatica e posso fazer o que quizcr n'esse ponto, de me servir dos objectos necessarios á mmha pompa!... Quiz sedas para vestir os meus lacaios, mandei as vir!... Um milhão de sedas é pouco... 

-- Mas n'esse caso tendes um verdadeiro exercito em casa... tornou o regente buscando harmonisar tudo. 

-- Mr. du Brézil, um general que se presa julga-se sempre n'um commando... E ao recordar-me que Bonaparte me enviou para aqui onde estou inactivo sinto-me em desagrado... É um castigo do consul!... Depois nos outros paizes, um homem como eu habituado á diversidade sempre encontra diversões... Aqui? 

Oh! Por Deus... Os theatros são pardieiros e em compensação os espectaculos dão-se nos conventos, os funccionarios são estupidos, os edificios pardieiros... O clima não é mau mas eu estou farto de tanta paz, de tanta calma!... Parece que sois todos uns grandes peccadores porque não ouço mais do que cantochões, porque apenas vejo frades pelas ruas... Oh! mr. du Brézil, eis a razão por que tenho tantos creados, porque me rodeio de pompa... Quando estou aborrecido visto os de generaes e de funccionarios do Directorio e julgo-me em França... Sabeis que todos em França teem espirito?!... Tanto os lacaios como os grandes!... E prefiro isso aos 

saraus da vossa côrte... 

-- Oh!... Oh!... e ouviu se um brado d'indignação immensa sahido de todos os labios. 

Pina Manique, fez-se livido, os ministros tornaram-se pallidos, Carlota Joaquina bradou então enraivecida sem poder conter a sua ira: 

-- E sabeis a razão porque em França todos teem egual espirito, sabeis porque acham a graça nos lacaios?! 

O embaixador olhou-a serenamente e redarguiu impavido: 

-- Porque a França tem o condão do bom espirito! 

-- Sim... Espirito de farça!... volveu a regente. 

-- Madame do Brézil, disse Lannes com desembaraço. Não continueis! Sei o que ides dizer... 

-- Mas ouvi sempre! e ella com aprumo, ferida no seu orgulho ao vêr-se assim tratada, ella que tanto conspirara para ser rainha, para merecer o tratamento e os respeitos, exclamou: 

-- Em França, os senhores do poder, vieram do povo, de baixo... Uns eram soldados e appareceram generaes, outros eram ferreiros e transformaram-se em embaixadores, e maioria eram camponios e foram feitos militares de grandes patentes, expulsaram os nobres e como os dommadores são plebeus tem o espirito das massas e só acham graça e galanteria nos da sua egualha!... 

Um sussurro approvativo passou na sala e o regente lançou á esposa um olhar supplicante. 





XLIII 



O insulto 







Então Lannes com uma raiva intensa, bradou: 

-- Madame du Brezil, tendes os habitos de Maria Antonietta!... Não é verdade, senhor duque de Coigny?!... e voltou-se para o amante da infeliz rainha que muito livido se affastou sem responder. 

-- Oh!... Os habitos de Maria Antonietta não é verdade senhor conde d'Alva? e repisou a phrase a que Ramiro não respondeu. 

E que podeis dizer de Maria Antonietta, senhor Lannes? Dir-se hia que entrasteis muitas vezes nas Tulherias a concertar as fechaduras da alcova dos reis de França! exclamou n'este momento uma voz vibrante. 

Lannes sentiu no rosto essas pallvras como se fossem uma chicotada e ao voltar-se viu na sua frente Gomes Freire que vestido de coronel da Russia, tomava a defeza da princeza. 

-- E vós, senhor, dir-se-hia que a tratastcis de perto quando... 

-- Quando a visitei em Versailles á volta da côrte do Catharina II da Russia onde distribui cutiladas nos turcos!

-- Sois portuguez?! exclamou Lannes assombrado ao vêr o official, ao lêr no seu rosto uma extranha expressão de heroicidade. 

-- O mais portuguez possivel, senhor embaixador!... 

-- No emtanto... 

-- É o meu uniforme que estranhaes?! Sabei pois que se assim me vesti é porque aguardo que sejam pregados os galões na minha farda de general! Olhou o regente, olhou a côrte, deixou passar a vista no ministro da guerra e voltou-se rapidamente ao ouvir Lannes dizer: 

-- Pois deveis n'esse caso saber se os habitos de madame du Brezil não são semelhantes ao da Capeto! 

O embaixador insistiu no insulto e o coronel de Catharina II bradava enfurecido: 

-- Senhor, nem mais uma palavra, ou por S. Jorge vos juro que em vez de vêr em vós o embaixador de França, verei o insultador dos meus soberanos e n'esse caso, a espada que Catharina II me confiou sahirá da bainha em defeza dos insultados! 

-- Senhor! bradou enfurecido o general. Pareceis saber tudo do mundo á excepção do meu nome! 

-- O vosso nome é João Lannes como o meu é Gomes Freire de Andrade, a vossa tradição de bravura chegou-me aos ouvidos e por isso vos desafio, porque não costumo dar a toda a gente a honra de se bater commigo! 

-- Brigadeiro! Brigadeiro! supplicou o regente. 

E a côrte precipitou-se entre elles que avançavam desesperados um para o outro. 

-- Brigadeiro! tornou D. João ao vêr Gomes Freire ainda no fito de atirar a luva á cara do francez. Ordeno-vos a sahida!... 

-- Alteza real, sim... O coronel da imperatriz vae sahir mas para dar entrada ao brigadeiro de vossa alteza! 

- D. João commoveu-se tomou o braço do general e murmurou: 

-- Ide-vos... ide-vos... Levae comvosco a princeza!... Supplico-vos senhora que o acompanheis... 

Carlota Joaquina sorriu ao general e collocando a sua mão na d'elle deixou se conduzir para fóra da sala. O embaixador francez clamava: 

-- Preciso uma dupla satisfação, mr. du Brézil... Sim, agora é em nome da França que vos fallo! Napoleão vingará a minha honra tomando o vosso paiz!... Acceitae as minhas despedidas, pois fui insultado na vossa côrte! 

O principe começou a tremer ante as palavras do embaixador francez, pareceu-lhe vêr a guerra proxiina, os soldados invadindo a sua patria, Napoleão assenhoreando se do seu throno e titubeou: 

-- Por Deus, ouvi... 

-- Nem mais uma palavra, mr. du Brezil. O representante da França não fica nem mais um minuto sem satisfações!

-- Então, escutae... 

-- Serei vingado?!

-- Sim... sim... Vinde commigo! e D. João tomou lhe o braço e arrastou-o para o seu gabinete emquanlo a côrte ficava a murmurar. 

Ao mesmo tempo Carlota Joaquina atravessava a galena pela mão do brigadeiro e perguntava-lhe: 

-- Porque envergaes esse bello fardamento de coronel?! 

-- Alteza, porque desconheço a minha patente no exercito portuguez!... O duque de Lafões me fez general e sua alteza o regente me deixou em brigadeiro. 

-- General sereis! affirmou a princeza dizendo logo: 

-- Como comprehendo bem a vossa heroicidade... Ah! Gomes Freire, se tivéssemos em Portugal seis militares e seis bravos como tu... 

-- Teriamos tomado doze aldeias á Hespanha em vez de duas e teriamos soffrido doze humilhações em vez d'uma... 

-- Então... 

-- Senhora... Expulse vossa alteza os ministros que generaes apparecerão! 

-- Se eu fosse a unica rainha... murmurou ella. 

- Tereis agora o poder de expulsar esse miseravel francez, mas alteza, sabei que o insulto seria ouvido do mesmo modo pelos vossos cortezãos sem que uma espada sahisse da bainha... Ah! Se um pobre morto que vos adorava o tivesse ouvido... 

-- De quem fallaes? exclamou ella buscando leval-o para os seus aposentos. 

-- Da pessoa a quem desteis em este retrato no fim de fazerdes d'elle um heroe! 

E estendia lhe o retrato manchado de sangue que retirou do peito de André de Meria e dava o á prmccza que se tornava pallida e exclamava: 

-- Mas só hoje, brigadeiro, m'o entregaes?! 

-- Bem sabeis que sou mais afeito ás minhas terras do que a côrte! 

Cumprimentou-a com a graça d'um perfeito cavalleiro e apesar d'ella indicar a porta dos seus aposentos para que entrasse, Gomes Freire recuou. 







XLIV



Palavra de rei 



Carlota Joaquina, occultou á pressa o retrato ao sentir passos, e ao vêr o regente que chegava como abatido e a olhava n'uma doce expressão, sentindo- 

se muito desgraçado. 

-- Meu senhor, exclamou a princeza sorrindo-lhe affectuosamente, sentindo se agora bem sua companheira de desgraça ante o insulto do embaixador. 

-- Carlota! 

E tomou lhe as mãos que conservou nas suas. 

-- Tenho uma graça a pedir-vos! tornou a adultera. 

Elle fez-se mais pallido e murmurou: 

-- Dizei... 

-- Quero a patente de general para o brigadeiro e apontava Gomes Freire que a olhava admirado. 

D. João baixou a cabeça, arrastou a mulher para o interior dos aposentos, fez um gesto ao brigadeiro e murmurou: 

-- Não vá alguem ouvir nos, senhora!

-- E porque?! gritou a princeza admirada. 

-- Porque é essa uma graça que não posso conceder- vos... 

Carlota Joaquina, ainda mais admirada ficou ao ouvil o fallar d'aquelle modo e tornou: 

-- Mas que quereis dizer?! Qual a razão porque não posso fallar alto no meu palacio?... 

-- Já desagradasteis tanto a mr. Lannes! 

-- A mr. Lannes! Mas que tenho a vêr com esse homem?! exclamou no auge de colera. Dir se-hia, meu senhor, que o temeis! 

-- Assim é! confessou muito ingenuamente o regente. 

-- Meu senhor! exclamou então Gomes Freire sem poder conter se. Vossa alteza não deve temer ninguem no seu reino... O futuro D. João VI de Portugal, o descendente dos Braganças, não pode temer o ferreiro Lannes! 

-- Que representa Napoleão Bonaparte... 

-- O soldado da republica! 

-- E que, segundo dizem, tu admiras, Gomes Freire! 

-- Meu senhor, sim! Admiro o soldado de Campo Formio, de Magasta, de Montebello, o forte capitão do Egypto, o grande general que domina a França... Mas isso não impede que defenda o meu principe, que cumpra o meu dever... 

-- Mesmo assim com o uniforme extrangeiro?! 

-- É que, meu senhor, não sei qual é o meu em Portugal! 

-- O de brigadeiro... Commandas o teu regimento em Campo d'Ourique! Não posso dar-te as distincções que Lafões concedeu... 

-- Mas meu senhor, porque?! bradou Carlota Joaquina. 

-- Porque palavra real não volta atraz! volveu Gomes Freire, e sua alteza deu a sua ao embaixador francez! 

-- Assim é!... confessou de novo muito perturbado. 

Carlota Joaquina, fez-se pallida e exclamou: 

-- Pois fizestes semelhante cousa?! 

-- E acaso podia fazer outra cousa?! interrogou elle cobardemente. 

-- Senhor! 

-- Sim, Carlota, Lannes ameaçou-nos com a republica, quiz absoluctamente que castigasse o brigadeiro, desejou que demettisse Pina Manique do logar de director das alfandegas... 

-- E vós? 

-- A tudo cedi!... Que quereis... Sr elles nem respeitaram Luiz XVL.. 

-- Oh! Cobarde! Cobarde!... 

-- Mas foi para que Portugal não padecesse! 

-- Oh! meu senhor, sois patriota não é verdade?! Mas o vosso patriotismo faz-me lembrar o amor d'um filho que vendo insultar sua mãe a defende fugindo com ella de rastos, exclamou a princeza deveras enojada. 

-- Mas acaso poderia eu acceitar que o embaixador sahisse?!! 

-- Era o vosso dever... 

-- O quê? N'este momento em que se conclue a paz com a Inglaterra?!... Mas se estamos abandonados... A Hespanha odeia-nos, a França cubiça-nos, a Inglaterra deixa-nos... 

-- A!... E Portugal que nunca precisou d'essas nações deve responder-lhes com a sua altivez! bradou o brigadeiro. Meu senhor, é preferivel a morte com honra á vida deshonrada!... 

-- Mas e nós... A familia real?!... Que nos succederia?! clamou o principe muito assustado. 

O brigadeiro calou-se, baixou a cabeça e ficou a pensar. 

Eram cento e sessenta e dois da dynastia que se encontravam bem ali n'aquellas palavras do Bragança João, sexto do nome. 

As taras hereditarias manifestavam-se bem n'esse rei egoista, que tudo sacrificava ao commodismo dos seus. A raça real degenerada apresentava se agora bem a nu. Não era o sangue do santo condestavel que se manifestava, devia ser antes o da filha de Mem Barbudo o sapateiro. 

Como o heroe via agora bem os principes, elle que os defendia. 

Lembrava-se então de João IV, o rei á força, o timido que curvado ante Castella recusara o throno; depois de Affonso VI, o idiota coroado, o epileptico assassino e lascivo que descera a todas as baixezas, ainda Pedro II o criminoso que nos perdera com o tratado de Methwen e rouba-a a mulher ao irmão. Por fim o João V, o lascivo amante da madre Paula, esbanjador perdulario e freiratico que deixara a José I o erario vasio e o titulo de Fidelissimo que representava uma baixeza ante o papa. 

E aquella Maria I, a doida, com a tara de seu tio bisavô, gerara o cobarde, o pusillanime, curvado aos pés dos frades como seu bisavô, esmagado aos pés dos francezes como o fundador da dynastia brigantina aos pés dos hespanhoes. 

Uma onda de colera lhe subiu ao rosto e o heroe, bradou: 

-- Mas senhor, vossa alteza, tem obrigação de defender o throno de Portugal, mas não pode para salvar esse throno pôr de rastos a terra portugueza onde elle assenta! 

-- Brigadeiro! gritou o regente como louco. 

-- Meu senhor, perdoae, porém eu tenho a mania da franqueza! Fazei de mim o que quizeres mas escutae-me... 

-- Sabeis que a França nos insulta pela voz do seu embaixador, que vos chama mr. du Bresil negando-vos o tratamento d'alteza e consentis ainda em acceder aos seus desejos?! Meu senhor, Lannes é um antigo ferreiro e nas vossas veias corre o sangue de reis... Não deis razão á revolução franceza rojando-vos assim, não imiteis Fernando IV de Napoles, sede activo e respondei-lhes afoutamente, porque o velho aço das espadas portuguezas ainda tem o mesmo brilho, e as laminas o mesmo agudo fio! 

-- Muito bem! exclamou n'aquelle momento uma voz á porta. 

E o intendente da policia, radiante e admirado, estendeu a mão ao brigadeiro, que mais admirado ainda a apertou na sua. 

Depois para o regente n'uma venia, disse: 

-- Meu Senhor, perdoae... Mas que desejaes de mim?... 

- Manique, deixarás a direcção das alfandegas... 

O intendente estremeceu, fez-se livido e redarguiu: 

-- Quem é o francez que me substitue? 

-- Intendente?! exclamou o principe fazendo-se pallido. 

-- Não o quero ser, meu senhor! Peço-vos para recolher ás minhas terras... Sim... Não quero ser intendente da policia desde que os herejes dão leis em Portugal! 

-- Sim, meu senhor... Eu sirvo os vossos desde el-rei D. José... Combati primeiro os jesuitas nos quaes via como Pombal o maior perigo para o reino, depois quando elles sahiram, depois de conspirarem dei-lhes golpe mortal... Appareceu então outra seita, talvez mais perigosa para o throno, os pedreiros livres, tinham bebido as suas ideias n'essa França de peccado e maldição e entrei a combatei os com denodo... Meu senhor, não poupei ninguem!... Os grandes da côrte foram accusados, bem os militares e até alguns sacerdotes como o abbade Correia de Serra e o padre Conceição Velloso!... Os poetas como Fylinto Elysio, como Bocage, os industriaes como Jacome Ratton, os ssbios como Avellar Brotero, os grandes fidalgos como o conde de Assumar foram perseguidos para gloria do throno de vossa augusta mãe... E no fim, meu senhor, hoje sinto bem inutil toda a minha obra... Os jesuitas enlouqueram Maria I, os pedreiros livres apossaram-se do vosso animo... Sim, meu senhor, eu passei a vida a combater as seitas negra e vermelha e no fim sou esmagado!... São os mais fortes do que vejo... Por isso e ainda no interesse de vossa alteza peço que deis a outro a intendencia como daes a Alfandega ... 

Estavam todos admirados pelas expressões do intendente e elle continuava impavido. 

-- Meu senhor, bem vêdes que um intendente de policia menos habil que os criminosos não vos convém... Meu senhor, sou um vosso humilde subdito!... 

Suffocou a colera, recuou e sahiu do aposento sem guardar a resposta do principe o qual se deixou cahir na poltrona, murmurando: 

-- Oh! Oh!... Começa a debandada!... Está proximo o fim... Como Luiz XV!... 

-- Meu senhor... Tem razão o intendente! exclamou Gomes Freire. 

-- Ah! e és tu a quem mil vezes accusava de pedreiro livre, que és por elle contra mim?!

-- Meu senhor, mais uma razão... Se me accusava é pouco habil, viu mal! E não deveis ter ao vosso serviço funccionarios desse jaez... 

Sorriu e continuou: 

-- O intendente, nos dois largos periodos da sua vida, encontrou-me sempre... Primeiro salvou-me na sua lucta contra os jesuitas, depois perdeu-me na sua lucta com os pedreiros livres. Meu senhor, é o fim d'ambos... E eu peço-vos licença de sahir para as minhas terras visto a paz ir reinar... 

-- E o teu regimento?! 

-- Meu senhor... Tenho lá o meu coronel em quem confio... Sou um humilde subdito de vossa alteza!... e sahiu depois de cortejar o regente e a princeza tilintando as esporas no corredor. 

-- Oh!... sou muito desgraçado, exclamou então D. João com um calafrio. 

-- Sois apenas muito fraco! gritou Carlota Joaquina com a mais intensa colera. 

-- Sede ao menos minha amiga... titubeou o pobre principe. 

-- D. João, sou obrigada a ser a vossa esposa, mas não a vos amar!... e com altivez avançou para o aposento contiguo e fechou a porta. 

O regente baixou então a cabeça, e algumas lagrimas lhe correram pelo rosto, ao erguel-a viu na sua trente o D. Prior de Mafra que lhe dizia: 

-- Alteza: é verdade o que me disse o general Lannes? 

-- Ah! A respeito do crucifixo de prata, que está na egreja de Mafra?! Sim, ofFereci-lh'o... 

-- Meu senhor... Mas é um presente de D. João V... 

-- Que D. João VI pagará pelo triplo do seu valor... 

-- Mas onde achar egual obra d'arte?! bradou o padre deveras enfurecido. 

-- Oh!... mandar-se-ha fazer...

-- Meu senhor, é impossivel... Os bens de Mafra não sahem para o extrangeiro! 

-- Quereis então que vol-a tomem á força?! exclamou elle espavorido. 

-- Mas quem, meu senhor? 

-- Os francezes?! Esses que mataram Luiz XV!... Oh! dae-lh'o meu padre... 

-- Mas nunca, meu senhor! retorquiu elle do mesmo modo cheio de raiva. 

-- Nunca?! Oh! Dom Prior obrigaes-me a forçar-vos... 

O padre fez-se pallido, baixou a cabeça e sahiu sem o cumprimentar. 

-- Ah! Que desgraçado... Todos me abandonam... Todos... Oh! A justiça, o clero, o militarismo... Elles que são duas classes, dois poderes do estado... A nobreza e o clero... Mas que me resta então?! 

-- O povo!... o povo!... o povo!... gritou uma voz junto d'elle, e D. João ergueu-se d'um pulo ao ver sua mãe, a rainha louca, de cabellos cabidos, a bocca esgarçada n'um riso, a abraçal-o, a exclamar: 

-- São os teus annos... São os teus annos... Toma o meu beijo!... 

Escurecia pouco a pouco, começava a chover lá fóra, nuvens pesadas dominavam o espaço como um tecto de chumbo e elles ali estavam abraçados sem proferirem palavra, symbolisando o fim d'uma raça, representando um paiz: 

-- Uma rainha louca, um principe cobarde! unidos um ao outro, chorando. 

A chuva cahia com força, um trovão enorme se ouviu e um relampago illuminou o aposento. D. Maria I, soltou um grito e abraçou-se mais com o filho a murmurar: 

-- Oh !... oh!... O fim do mundo... o fim da nossa raça!... Lá vêm os aventureiros, os herejes!... João, tenho medo!... Ah! agora o povo, só o povo!... 

-- O povo n'estes tempos apenas serve para cortar as cabeças dos soberanos!... exclamou a voz do embaixador francez que passou no corredor todo aprumado na sua farda. 

E D. João murmurou enlaçado com a louca: 

-- Minha mãe!... oh!... minha querida mãe... A sorte de Luiz XVI e o que me espera!... 

Beijavam-se bem unidos, ficavam a chorar nos braços um do outro. 

Á porta apparecia o perfil negro do bispo do Algarve a envolvel-os n'um extranho olhar d'odio, como a dizer-se satisfeito com a sua obra de Tavora vingativo que via a rainha louca chorando abraçada ao cobarde principe, e dos seus labios sahía n'um murmurio, uma phrase de grande satisfação: 

-- Oh! o cadafalso de Belem não ha-de ser o unico!... 

-- Porque ainda falta erguer o teu. Dom patife!... e o bobo appareceu de repente e lançava-se como um cão fiel aos pés da rainha. 

O Tavora cruzou os braços e ficou a rever-se na sua obra. 

A chuva continuava a cahir com força e os trovões ribombavam no espaço, e na luz azulada dum relampago o bispo parecia crescer na sua atittude do algoz dos reis. 







FIM DA SEGUNDA PARTE









TERCEIRA PARTE



A INVASÃO FRANCEZA 





I



Os tres embaixadores de Hespanha 





A entrada do castello de Saint Cloud <marca num="*" pag=159>, em frente da grade, acabava de parar um magnifico coche com figuras douradas e em cuja taboa dois lacaios empoados, trajando a mais opulenta das librés, se perfilavam n'um aprumo cheio de correcção, ao mesmo tempo que um dos moços da bolda se apeava, e de chapeu na mão corria a abrir a portinhola onde esvoaçavam dois anjos de carnes rosadas, segurando uma corôa ducal sob a vidraça crystallina, que ao abrir-se deixava ver o pertil magro mas magestoso d'um homem vestido em todo o rigor da etiqueta e de cujo peseoço pendia o Tosão d'ouro, a ordem de Hespanha só conferida aos principes e aos confidentes d'alto naseimento dos principes madrilenos. 



<nota num="*" pag=159> Saint Cloud (burgo da ilba de França) Seine e Oise a leguas a oeste de Paris, na margem do Sena perto de Sévres. O parque foi plantado por le Nôtre. A casa d'Orleans habitou este castello comprado por Luís XIV ao arcebispo Guidi. Bonaparte ahi viveu e Henrique III ahi foi assassinado em 1859 </nota>



Apeou-se por entre as reverencias dos lacaios, encaminhou-se n'um andar grave para a entrada do parque, e perde-se no vestibulo pejado d'altos dignatarios francezes; entre os quaes se viam officiaes de todas as armas nos brilhantes uniformes do primeiro 

imperio. 

Ainda mal o dignatario se perdera no vestibulo da imperial morada, já um outro coche menos rico mas do mesmo galhardo e espaventoso aspecto, parava junto ao castello. Os creados da taboa apearam-se e ajudaram a deseer um velho fardado, como os diplomatas extrangeiros, mas sem a imponencia do que primeiro entrara. 

Era no dia 31 de junho de 1807. Bonaparte, sagrado imperador desde 1804, acabava de vencer em Austerlitz, a mais brilhante 

das suas batalhas, em Iena e em Friedland, e assignara a paz de 

Tilsit que assegurara a paz na Europa e causava uma grande algria em França. 

No emtanto, nos corredores de Saint-Gloud, onde o soldado-imperador, o mais extraordinário dos guerreiros, se encontrava, os jovens generaes, os capitães ousados d'esse novo Cesar, ao mesmo tempo que aguardavam a audiencia, lamentavam essa paz que lhes ia demorar as promoções ao marecholato, a fim de todo o bom sol dado d'esse imperador cujas victorias assombravam o mundo. 

Nos aposentos reservados de Napoleão Bonaparte, mobilados com a maxima simplicidade, forrados d'estantes altas, onde se apresentavam as lombadas de livros com titulos em latim, sentado n'uma poltrona vasta d'espaldar oval, guarnecida de velludo, e ornada com as águias a ouro, em face da vasta secretaria coberta de papeis, e por detraz da qual se via um grande relogio de bronze, o imperador meditava. 

Era baixo, pallido, os olhos ruivos como os da ave de presa que escolhera para symbolo, o cabello ralo com uma madeixa mais farta sobre a testa ampla, a bocca franzida n'm tic nervoso, o nariz um pouco curvado na macillencia da physionomia. Vestia como sempre um simples uniforme de caçador, sem ouro, sem galões, no peito resaltava a legião d'honra, sobre uma cadeira via-se o casacão claro de nomeada universal, bem como a espada que refulgiu ao sol de tantas victorias, como se fosse partir desde já para novas luctas. 

No chão, a seus pés, jazia um mappa da Europa como se elle o calcasse, e com a mão mettida no peito da farda, a cabeça pendente, o imperador agora parecia muito preoccupado. 

De repente ergueu-se, chegou-se á porti e murmurou para fóra apenas uma palavra, laconicamente, como nas proclamações: 

-- Savary! 

-- Sire! respondeu uma voz, ao mesmo tempo que um homem alto, de sobrancelhas carregadas, fardado de general, entrava no aposento. 

-- Ouve, meu bravo, tornou o imperador seccamente da sua forma laconica: 

-- Vaes á São Petersburgo... 

-- Sim, sire... respondeu o general com aquclla firmeza e com a natural obediencia dos soldados do primeiro imperio. 

-- Irás e dirás ao czar que somos sinceros e que se quer vêr continuada a paz de Tilsit deve ser franco... 

-- Conheces o imperador Alexandre, não e assim?! 

-- Desde Austerlitz... respondeu Savary. 

-- Bem. Dir-lhe-has quaes as nossas intenções acerca da Inglaterra. É necessario rendel-a pela fome... Quero os portos fechados! Elle que decida... Ou obedece e terá a paz, ou trahe-nos e terá a guerra... N'este ultimo caso invadiremos a Finlandia! Dize-lhc que desde o Rheno ao Niemen tenho 420 mil soldados com que invadirei a Panerania Sueca, manobrarei na Polonia e na Prussia... 

Dize-lhe mais; que entre os meus marechaes estão n'este exercito Ney, iMassena, Lannes, e o principe de Poniecorvo, Benardotte, ao 

qual reservo o throno da Suécia, no caso de rebellião dos aciuaes 

soberanos! Vae! ... Sabes que careço da tua experiencia e do teu 

espirito... 

-- Sire!... São favores de vossa magestade! replicou o general todo lisongeado. 

-- Vae! ordenou Bonaparte no mesmo tom secco sem um sorriso. Dize-lhe que a paz continental está segura e que a paz nos mares a obteremos pelo concurso voluntario ou obrigatório de todas as potencias! 

-- Sim, sire! 

-- Vae! ordenou novamente. 

-- Mas, sire, está ali o embaixador de Hespanha. 

-- Ah!... Tayllerand tinha-me fallado de ires embaixadores 

d'essa potencia! volveu o imperador como assombrado. 

-- Sim, sire, assim é! tornou Savary no seu modo humilde. 

-- N'esse caso de qual se trata?! interrogou á pressa o imperador. 

-- Do senhor duque de Frias... 

-- Quem é esse homem?! 

-- Um velho fidalgo, ou antes um dos mais antigos nomes de Hespanha, faustuoso e galhardo, grande de primeira classe, e o qual vem enviado da parte de Sua Magestade Catholica Carlos IV como embaixador extraordinario. 

Napoleão baixou a cabeça e perguntou: 

-- Mas ha o representante official d'essa nação... 

-- Sim, sire... Um tal Masserano, pobre e simples diplomata, que tambem ali se encontra, mas do qual não vale a pena fallar... 

Nada sabe dos negocios do seu paiz... 

-- Bem... E o terceiro?! perguntou o imperador do mesmo modo. 

-- Esse, meu senhor, é apenas um hábil agente do principe da Paz, chama-se Izquierdo... 

-- Do principe da Paz?! exclamou Napoleão erguendo-se. 

-- Sim, sire. 

-- Ah! Mas é quem governa a Hespanha, ao que ouço, esse tal principe... Chama-se... 

-- Manuel Godoy... Era simples alferes de cavallaria, d'uma familia pobre, e subiu até ao tratamento d'alteza... 

-- Mercê dos seus amores com a soberana, com essa Maria Luiza, a mãe d'uma rainha que governa em Portugal... 

-- Sim, sire! bradou o general deveras admirado e accreseentando: A mãe de Carlota Joaquina, que pelos modos herdou os defeitos da rainha de Hespanha. 

-- Em proveito tambem d'algum favorito?! interrogou o imperador com um meio sorriso. 

-- Não, sire... Ella é menos constante do que a mãe, ao que me diz o general Junot que foi embaixador em Portugal, após a retirada de Lannes.... 

-- E que irá commandar o exercito que vou enviar á Lusitania! 

-- Portugal invadido?! exclamou o general no auge do pasmo. Napoleão, sorriu novamente e volveu: 

-- Ainda não... No emtanto veremos o que diz o seu embaixador... Será o primeiro a ser recebido... Sim, entre uma nação que nos envia tres embaixadores e uma que apenas tem o seu representante official ha a medir os receios... Portugal, após a campanha de 1801, parece de mal com os inglezes e eu careço aproveitar esse mau humor... Vê se o encontras e que entre... Ouve, Savary, como se chama o embaixador portuguez?! 

-- D. Lourenço de Lima, sire... É filho d'um ministro portuguez! 

-- Pois que entre!

E o imperador fez um gesto ao general para que sahisse rapidamente. 







II 



D. Lourenço de Lima 





A ante-camara os embaixadores das» potencias, aguardavam o momento de serem recebidos pelo imperador, afim de o felicitarem pelas suas brilhantes victorias. 

Os tres hespanhoes, o duque de Frias, que primeiro chegou, em toda a sua pompa de grande de Hespanha, Masserano no uniforme de plenipotenciario e Izquierdo, vestido muito simplesmente de negro, com a cruz de Galatrava suspensa do pescoço, ergueram-se e correram para o general que os deteve com um gesto, dizendo: 

-- S. M. pede que aguardeis!... 

E avançou para um homem baixo e gordo, coberto de bordados e de gran-cruzes o qual se encolhia pelos cantos confundido na multidão. No seu rosto vermelhaço, notava-se alguma cousa de re- 

ligioso, nos seus modos muito de unctuoso e estremecia ao ouvir o 

general dizer: 

-- Mr. de Lima, sua magestade imperial vos aguarda! 

-- A mim?! murmurou melifluamente, deveras pasmado. 

-- Sim, a vós... S. M. quer distinguir-vos recebendo-vos primeiro e n'uma entrevista particular! 

O embaixador portuguez, sorriu, começou por julgar-se uma importante personagem e seguia Savary até ao gabinete de Napoleão. 

Fez tres reverencias á entrada, recuou para se approximar de seguida, ao mesmo tempo que o imperador no seu ar sereno, apenas inclinou a cabeça, dizendo para Savary: 

-- Sahe! 

E logo para o embaixador, exclamou: 

-- Sois o ministro de Portugal?! 

-- Sim, sire!

-- N'esse caso, deveis estar informado acerca d'uma nota que dirigi em 1801 ao vosso governo... 

-- Sobre o marechal Lannes?! interrogou estupidamente o embaixador. 

Napoleão, olhou desdenhosamente e tornou: 

-- Não. Isso foi no fim de 1802... N'esse tempo ainda era primeiro consul! Quero fallar de Inglaterra... E já que deseonheceis o motivo d'essa nota ouvi o que desejo: 

-- Dentro em oito dias podereis ter aqui uma resposta do vosso governo a uma carta urgente?! 

-- Preciso doze, sire! volveu elle todo sorridente 

-- Pois em dez d'as careço dessa resposta... Ouvi: «Portugal nada tem a ganhar com os inglezes que são os seus peiores inimigos... Eu o sei, eu o digo. Sou amigo d'essa potencia pequena, mas valorosa. No emtanto se não accederem aos meus desejos não terei duvida em invadir Portugal... 

Ante um gesto pasmado do embaixador, Napoleão continuou da mesma forma serena: 

-- Serão expulsos os inglezes do território lusitano, apprehendidos o seu commercio, pessoas e cousas! 

-- Sire!... bradou elle no auge do pasmo. 

-- Sim... E acreditae que livro o vosso pequeno paiz, dos seus peiores inimigos! 

-- Sire!... 

-- Escrevei... Aguardarei doze dias e findos elles, um exercito francez partirá de Bayonna para Salamanca, de Salamanca para Lis- 

boa, tomareis os vossos passaportes e á força vos livraremos dos inglezes! Ide, senhor! 

-- Eu vou escrever já ao meu governo, mas acho impossivel... 

Napoleão, ergueu-se d'um pulo, e em face de D. Lourenço de Lima, bradou: 

-- Eis uma palavra que vou risear do diccionario francez! Ide! .. E ficou sereno no meio do aposento, a mão no peito da farda a olhar Savary que entrava de novo. 

-- Savary, parte, mas antes d'isso envia-me Berthier, o ministro da guerra. 

-- Sim, sire... E que resolveis acerca dos hespanhoes?! 

-- Ah! Receberei primeiro o enviado do principe da Paz que dizes ser habil agente! Depois o duque de Frias, por fim o verdadeiro embaixador. 

-- Sim, sire! 

D'ahi a momentos, o ministro da guerra, o general Berthier, que commandara em Hespanha os i3:ooo granadeiros em 1801 contra Portugal, entrava nos aposentos do imperador. 

Era um individuo alto, de cabello encaracolado, olhos azues, a testa enrugada e a cara rapada, fardado de marechal: 

-- Meu principe, exclamou o imperador ao vel-o. Tenho uma nova a dar te. 

-- Ás ordens de vossa magestade! replicou elle docemente. 

-- Tu já és marechal e principe do imperio! 

-- Graças á vossa bondade, sire! respondeu cheio de humildade. 

-- Sabes que tenho para ti o logar de vice-condestavel! 

-- Sire! gritou o ministro todo radiante. 

-- Mas ficarás sempre como chefe do exercito apesar de nomear para a guerra o Clarke... 

-- Sim, sire... 

-- Nomearás Hulin governador de Paris! 

-- Ah! E Junor, sire?! interrogou elle no auge do espanto. 

-- Junot vae commandar para a Península... Tenho um exercito em planos e que pode ser necessario d'um momento para outro. 

Berthier ficou callado, deveras respeitoso ante esse homem singular cujo cerebro jamais tinha descanço. 

-- Além d'isso, tornou Napoleão; vou distribuir o despojo das guerras... Terás 500 mil francos em dinheiro e o soldo de 410 mil, Berthier! 

-- Sire!... 

-- Sim, e podes annunciar l00 mil francos para os generaes: Sebastiani, Victor, Rapp, Junot, Bertrand, Lemarois, Savary, Mounton, Nancy, Saint-Hilaire, Oudinout, Lauristin, Loison e Chasseloup! 

-- Sire, e Massena, Ncy, Lannes, Mortier, Augerau?! Os marc- 

chaes?! 

-- A todos 300000 francos! declarou sorrindo e accrescentando á pressa: 

-- Mas que se conservem nos seus postos! Junot que parta para Fontainebleau onde se encontrará commigo, Hudin que tome o commando de Paris e tu, meu principe, aprompta-me o exercito que 

destino a Portugal no caso de não me obedecer! Quero em Bayonna 

26000 homens sendo 2000 de cavallaria e 36 peças... Quero 4000 

de reforço... É possivel?! 

-- Vossa magestade riscou o contrario da lingua franceza!

-- Vae, meu principe e avia-me Junot! 

-- Sire! e o ministro sahia quando o imperador ordenou: 

-- Que entre o sr. Izquierdo... 

O enviado do principe de Paz penetrou então no gabinete, inclinou-se ante Napoleão e de seguida, exclamou: 

-- Sire, sou um vosso servidor. 

-- Servindo-me, servis vosso amo, mr. Izquierdo! disse fleugmticamente o imperador. 

-- Que vos felicita pelas vossas victorias, sim, accrescentou o agente. 

-- Agradecei a Manuel Godoy da minha parte, respondeu o imperador. No emtanto dizei lhe, que se é tanta a influencia que tem na côrte da Hespanha que continue a assegurar a paz! 

-- Mas são os desejos de sua alteza! bradou radiante o enviado. 

-- Por agora! murmurou por entre dentes Napoleão Bonaparte. 

-- E para sempre?! 

-- Mesmo quando eu, no interesse das colonias hespanholas, pedir a abolição do commercio com os inglezcs, mesmo quando eu sollicitar para que a Hespanha exija egual interdição de Portugal sob pena de lhe declarar guerra!... 

-- Sim, sire... respondeu afoitamente o enviado. 

-- Fallaes pelo principe?! 

-- Tenho plenos poderes! volveu com o seu laconismo. 

-- Bem! tornou o imperador. 

E logo desabridamente, com o brilho mais intenso nos seus olhos de águia, bradou: 

-- Mas notae que Bonaparte não se deixa illudir... Quero a exclusão mais completa. 

-- Sim, sire! 

-- Encontraremos munições e viveres desde Salamanca á fronteira portugueza e ainda um exercito?! 

-- Sim, sire! 

-- Pois ide em paz... 

E quando o viu á porta, exclamou: 

-- Fazei entrar, se vos não incommoda, o sr. duque de Frias e o verdadeiro embaixador hespanhol; e elle sublinhou o ultimo titulo ironicamente. 

-- Sim, sire! 

Com effeito os dois hespanhoes chegaram á presença de Napoleão que ao vel-os, exclamou: 

-- Sede bem vindos, senhores... Sei a que vindes! 

-- Sire! exclamaram por seu turno inclinando-se. 

-- Dizei ao vosso governo, vós, senhor embaixador, dizei a Sua Magestade Catholica Carlos IV, vós, senhor duque, que eu, no proposito firme d'aniquillar a Inglaterra, desejo o seguinte da Hespanha: 

-- Que expulse dos seus portos os commerciantes inglezes, que o faça constar a Portugal com ameaça de guerra, que no caso de  recusa d'esta potencia, aprompto um exercito para ajudar a invadir aquella nação e tenha viveres e munições desde Salamanca á fronteira lusitana... No caso de recusa, o general Junot com 26000 homens entrará em Hespanha e os Bourbons deixarão de reinar 

n'esse paiz como succedeu aos seus parentes em Italia! 

Inclinavam-se de novo e apenas murmuraram: 

-- Nós elucidaremos o nosso governo! 

-- Ide! 

E quando elles sahiram, Bonaparte lançando um olhar para o relogio, murmurou: 

-- Oh! Como o tempo custa a passar! 

Depois atreveu-se a sahir do gabinete, foi logo cercado pelos 

altos dignatarios e pelos generaes. 

-- Senhores! A cavallo... Quero ter hoje uma bella caçada! 

E no seu ar simples atravessou a galeria á pressa por entre as saudações. 







III 





Desillusão 





A familia imperial estava reunida; as princezas formavam um grupo e conversavam, elle approximava-se lentamente ao velas erguerem-se. 

De repente, franziu o sobr'olho, viu Junot, o governador militar de Paris, junto de uma das suas irmãs, princeza de fresca data e a qual olhava com amor o general e disse no seu ar frio e grave que não admittia replica: 

-- Andoche, approxima-te! 

O general, um individuo dos seus trinta e cinco annos, bem parecido, os olhos azues, o ar distincto, elegante até na belleza do seu uniforme, approximava-se ante o tratamento familiar do imperador que o tratava sempre pelo seu primeiro nome, em memoria dos seus triumphos em Toulon onde Junot, simples sargento, lhe servira de secretario. 

Fez a continencia militar e ficou a olhar o grande general que lhe disse em voz pausada: 

-- Tu ainda não és principe não, Andoche?! 

O general sorriu, ficou deveras satisfeito julgando ser chegado o momento de ser distinguido e volveu: 

-- Vossa magestade imperial bem sabe que nem mesmo duque...

-- Mas és casado e com uma mulher de espirito ao que me dizem... Até escreve!... Se bem me recordo, mesmo com grande arte... Gostei d'algumas passagens do seu livro: «Recordações 

duma embaixada». 

-- Em Portugal!... 

-- Sim, em Portugal!... tornou o imperador, e logo com a sua frieza habitual, tornou: 

-- Deves conhecer bem esse paiz... 

-- Lisboa, apenas, sire! redarguiu elle fazendo-se pallido. 

-- E nunca desejaste escrever tambem um livro sobre essa terra?! interrogou o imperador. 

-- Sire... Deixo isso a minha mulher... 

-- E reservas para ti o encargo de o vencer! Muito bem, Andoche, tu queres ser principe?! 

-- Sire!... 

-- Mas bem vês que por um casamento nunca o serásl bradou então o imperador com certa colera fixando a irmã com a qual o general estivera conversando e que o olhou ainda docemente. 

-- Sire!... 

-- Vaes talvez dizer que esperas a viuvez... Mas general, sabe que eu preciso tanto de minhas irmãs para sentar nos thronos da Europa como dos meus generaes para os conquistar!... Irás pois ganhar o teu titulo... Tomarás o commando do exercito de Hayonna e á primeira ordem marcharás sobre Salamanca, Ciudad-Rodrigo e Alcantara, d'ali á fronteira portugueza que atravessarás e pela margem direita do Tejo entrarás em Lisboa... Isto com a maxima rapidez! 

Junot, muito pallido, não pronunciava palavra, os seus olhos não se atreviam mesmo a procurar a princeza da côrte imperial e exclamava de repente.

-- E que mais farei, sire?! 

-- Não te deterás por cousa alguma, porque quando eu enviar essa ordem Portugal não lerá salvação possivel. 

-- Não ouvirei propostas?! 

-- A tua missão será apenas fechar o porto de Lisboa aos inglezes e confisear lhes os bens por todo o paiz... 

-- E os soberanos?! 

-- Reinarão... Assim o quero, entendes beml... Os Braganças apenas devem aprender quanto lhes custa a sua submissão aos inglezes 

-- Sim, sire!... Mas... 

-- Mas?! exclamou o imperador deveras pasmado d'essa pequena reflexão. 

-- Sim, mas o exercito?! 

-- Estará prompto dentro em dois dias! 

-- Partirei então?! 

-- Já! 

-- Sire! 

-- N'este mesmo momento até Bayonna! ordenou do seu modo brusco. 

-- E o governo de Paris?! atreveu-se elle ainda a interrogar. 

-- Ah! Pobre general... Dei-o ao Hudin! Tu tens estado muito tempo inactivo... Jesus... O general Tempestade embaixador e logo governador do cerebro do mundo! Nada, meu rapaz, podes criar raizes... E eu quero o meu sargento de Toulon! Marche! 

E Napoleão ao dizer isto fez um gesto imperioso, e exclamou de seguida: 

-- Receberás as minhas ultimas instrucções! 

Junot, muito pallido, fez a continencia e sahiu sem se approximar da princeza, para a qual Napoleão dizia na sua grande frieza: 

-- Alteza, acabo de me tornar bem útil a uma pessoa que estimaes! 

-- Ao general?! interrogou ella sorrindo. 

-- Sim... Vae commandar um exercito, fal o-hei duque se vencer, dar-lhe hei a demissão se fôr batido! 

Fez-se livida, encostou se á cadeira para não cahir, e o imperador segurando-lhe um braço com força, exclamou para os presentes: 

-- Parti, senhores... Á caçada!... 

Inclinaram-se e sahiram, então elle, no auge da colera, apertando mais o braço da princeza, disse: 

-- Animo ou vos despedaço... Lembrae-vos que sois uma Bonaparte e que vos reservo um rei para marido! 

Ella endireitou o busto, olhou-o serenamente por um grande esforço de vontade e apenas murmurou: 

-- Preferia o throno sem o rei!

Napoleão, sorriu, encolheu os hombros, e volveu: 

-- Tel-o-heis... Mas lembrae vos que Junot nunca será mais de duque!

E sahiu da sala, emquanto a princeza, toda tremula ainda ante a ameaça do seu poderoso irmão, se deixava cahir na cadeira a murmurar: 

-- Uma Bonaparte... Uma Bonaparte, como se fossemos reis historicos! Como se tivéssemos seculos de dynastia! 





IV 





O tratado de Fontainebleau 





Reunira-se a côrte d'esta vez em Fontainebleau onde o imperador desejava descançar uns dias antes de pôr em pratica os seus projectos em relação á peninsula. Aquelle castello que servira annos depois de morada a Pio VII, semi-prisioneiro de Napoleão, conservava as tradições de Franciseo I, aquelle que após a batalha de Pavia dissera ter perdido tudo menos a honra, de Henrique IV o que devia morrer sob o punhal de Ravaillac, de Luiz XIII, o que deixava Richelieu governar a França, de Luiz XIV, o rei sol, o celebre amante da Pompadour e da Valliere, o rei que devia dar incremento com as suas aventuras as idéas de Rousseau e Voltaire. 

E agora era Napoleão, o soldado da republica, feito imperador como outr'ora os romanos, que d'alli dictava as suas vontades ao mundo. 

Elle agora envolvera a Inglaterra na sua teia, obtivera do mundo a declaração de guerra á potencia maritima, e apenas aguardava a respostas de Portugal e Hespanha para começar a proceder, no unico fim d'anniquilar o colosso dos mares. 

Na frente do imperador, Cambacérès, o archi-chanceller do imperio, antigo consul com Bonaparte e Lebrun, ouvia-o cheio de pasmo, a cabeça branca aureolada n'um raio de sol e fleugmaticamente, pensava; era elle o unico que receava de tantas victorias, onde tudo aquillo conduziria a França. O antigo republicano que guardara mais ou menos a tradição de 933, encarava-o no auge do terror, como se elle lhe annunciasse derrotas, em vez de lhe mostrar a Europa de rastos em face da França elevada pelo corso, a dominadora do mundo. 

-- Vê tu, meu velho, Alexandre da Russia accede a tudo... Vae fazer sahir de S. Petersburgo os embaixadores inglez e sueco, declarando-lhes que o exercito francez irá occupar a Dinamarca, visto o tratado de Copenhague. E d'este modo todos aquelles portos serão fechados aos inglezes! 

-- Sim, sire! murmurou o velho docemente, como ao acaso. 

-- Recebi o duque Wurzbourg, irmão de Franciseo d'Austria. 

Restitui-lhe as boccas de Cattaro que estavam em nosso poder, vou rectificar a fronteira da Austria e da Italia e os portos serão ainda fechados. D'este modo e meu o oriente da Europa e parte do norte. 

-- E confiaes na Austria, sire?! interrogou Cambacéres á pressa. 

-- Sim... Não vês que impuz o desarmamento do seu exercito... Na Italia, meu irmão José toma Scylla e Reggio, Eugenio de Beauhamais operará na alta Italia, e eis os inglezes sem portos d'abrigo na Europa. Sim, porque recebi o principe Guilherme da Prussia e tudo vae bem com esse paiz! 

-- Sire... Falta Portugal e Hespanha... 

-- É por isso, meu velho, que peço para introduzires o sr. Izquierdo... 

-- Sim, sire! 

E o archi-chanceller, sahiu para introduzir d'ahi a momentos o agente do principe da Paz, que entrou sempre no mesmo fato preto, com a cruz de Calatrava e se inclinou em frente do imperador. 

-- Que resposta trazeis, senhor?! exclamou rapidamente o imperador. 

-- Tenho poderes para celebrar um tratado... 

-- Bem... Sois amigo do marechal Duroc meu grande marechal do palacio, não é assim?! 

-- Sire... O marechal e casado com uma das minhas compatriotas... 

-- Sim... sim... E que intenções são as vossas acerca d'esse tratado?!interrogou Napoleão fixando o hespanhol. 

-- Sire... A Hespanha está á disposição de Vossa Magestade para auxiliar a invasão de Portugal... 

-- Talvez seja escusado... No emtanto, no caso de desobediencia, a Hespanha terá l0000 homens á minha disposição para invadir o Porto e outros tantos para secundar o movimento dos francezes sobre Lisboa?! 

O embaixador do principe da Paz fez-se pallido e tornou: 

-- Sim, sire! 

-- E ainda mais 6000 para invadir o Algarve?! 

-- Sim, sire! 

Napoleão, admirado d'aquella obediencia exclamou: 

-- E obedecerão a Junot?! Será elle, o commandante em chefe?! e logo cerimonioso mas apenas por formalidade, tornou: 

-- No caso de Carlos IV ou de Godoy não quererem esse posto... O enviado comprehendeu o que o imperador desejava e volveu ainda: 

-- Sim, sire! 

-- Mas desinteressadamente?! exclamou elle com um olhar para Cambacérès. 

-- No unico fim de servir Vossa Magestade. 

-- Bem... bem... 

O imperador esboçou um sorriso vago e volveu: 

-- Porém, quem tratou tudo isto?! 

-- O principe da Paz, sire! 

-- Ah! Ao que vejo é elle o verdadeiro rei de Hespanha... 

-- Sim, sire... Porém, como todos os bons soberanos, tem inimigos... Vossa Magestade mesmo não os tem?! 

-- Decerto... decerto... volveu o imperador sem saber onde elle queria chegar. 

-- Eis a razão porque Sua Alteza está deseontente com a sua residencia em Madrid... Accusam-no de ter em casa o thesouro hespanhol, de manter relações com a rainha, ludibriando assim o velho rei!... E elle, que os tem servido sempre com o maximo desinteresse, pensa em abandonar a côrte. 

-- Ah!... E recolher-se á vida privada?! perguntou com certa finura o imperador. 

-- Sire! 

-- O que?! 

-- Meu amo tem a paixão do governo e só o deixará pela vida privada, no caso de Vossa Magestade não lhe querer fazer a graça do principado dos Algarves, se Portugal resistir ás vossas ordens! 

Napoleão já estava em guarda e sem responder, tomou um mappa de sobre a mesa e exclamou: 

-- Os Algarves, o sul de Portugal... Uma pequena provincia... D'ella faço graça ao vosso principe se, como dizeis, os Brangança não se acolherem á minha protecção. 

-- Mas reparae, sire, que o Algarve será quando muito um condado... tornou o hespanhol com certa experiencia dos negocios. 

-- Quereis dizer?! 

-- Que o principado deve ter o Alemtejo reunido aos Algarves... 

-- São 400000 habitantes!... Seja... De boa vontade tudo vos concedo, accedeu Napoleão com grande pressa. 

-- Como sois generoso, sire... Como trataes bem os pobres favoritos odiados pelo povo. Mas sua magestade Carlos IV foi tão bondoso... 

-- Sim?!... 

-- Se accedeu a tudo apenas para lhe ser concedido... 

-- O resto de Portugal?! Caramba, como se diz na vossa terra. Vossos amos querem servirme tão desinteressadamente que nada me deixam d'esse Portugal. 

-- Sire!... 

-- Ouvis bem?!... Nem mais uma parcella de terreno... O resto será para a França, n'elle reinarão os Braganças... 

-- Mas sua magestade quer apenas que lhe concedeis a graça de se poder intitular: Rei das Hespanhas e Imperador das Americas. 

-- Ah! É vaidoso, o vosso rei, quer usar um titulo egual ao meu!... Pois que o tenha... Se eu conquistei o meu com a espada, é justo que elle conquiste o seu com todos os infortunios sofridos até hoje! 

-- Bem, sire, mas como sabeis, a pobre rainha de Etruria está sem reino... 

-- Tambem sois procurador da fílha de Maria Luiza de Hespanha?! 

-- Mas, sire, sou procurador de todos os degraçados do meu paiz! respondeu ardilosamente o hespanhol. 

Napoleão, levantou-se d'um pulo e exclamou: 

-- E que quereis para a rainha de Etruria?! 

-- Apenas 800.000 habitantes de Portugal na provincia do Douro com o Porto por capital, podendo ser o reino da Luzitania septentrional... 

O imperador olhou-o e perguntou ironicamente: 

-- E que me concedeis a mim, senhor Izquierdo?! 

E elle, fleugmatico, sem se perturbar, retorquiu: 

-- 26:000 hespanhoes, caminhos desempedidos até á fronteira, viveres, munições, e todo territorio desde Lisboa ao Alto Douro, com uma população de 2 milhões e com os nomes de Beira, Extremadura e Traz-os-Montes! Bem vêdes, sire, que é a parte não só do leão, mas tambem da aguia! 

Napoleão sorriu, achou graça ao agente que assim lhe fallava com tal desembaraço e precisão que retorquiu: 

-- Concedido... E vós o que quereis senhor Izquierdo... Não vos serve a parte de rapoza?! 

-- Meu o amo o dirá, sire! 

-- Muito bem... Amanhã dictarei este tratado de Fontainebleau a Champigny e vós o assignares com o vosso amigo Deux... Esse pela França, vós pela Hespanha, e é em nome de Napoleão, vós em nome de S. M. I. R. Carlos IV, rei das Hespanhas e imperador das Americas... 

E depois de pronunciar tudo isto cheio de ironia, apontou a porta e ao vel-o sahir sentou-se na poltrona e murmurou para Cambecerés: 

-- Oh! Este hespanhol tem mais de Cervantes do que de Cid e Campeador! 

Cambacerés, sorriu e ia responder, mas n'este momento, o mordomo-mór entrou e disse: 

-- Sire... É sua excellencia o senhor duque de Frias que espera ser recebido. 

-- O outro hespanhol! Mas esse tem mais de Quichote que de Sancho... Pelo menos na figura!... 

-- Sire... 

-- E que deseja elle? 

-- É portador d'uma carta de S. M, Carlos IV... 

-- Que entre! ordenou o imperador recostando-se na poltrona a fingir indifferença. 







V



As cartas 





O duque de Frias entrou e ajoelhou bizarramente, depois de estender a capa, aos pés do imperador e exclamou: 

-- Sire... Sou portador d'uma carta do meu rei... 

-- Napoleão olhou-o, extranhou aquella attitude e como se visse o proprio rei de Hespanha a seus pés, ajudou-o a erguer-se e exclamou: 

-- Dae-me essa carta! 

-- Eil-a, sire!... e estendeu ao imperador um papel sellado com as armas de Hespanha que começou a lêr dando evidentes signaes de descontentamento: 

«Sire e meu irmão: no momento em que apenas me occupava dos meios para cooperar na destruição do vosso commum inimigo, quando acreditavajfque todas as machinações da antiga rainha de Napoles, tinham sido amortalhadas com sua filha, vejo com um horror que me faz estremecer, que o espirito da intriga penetrou no mais intimo do meu palacio. Ai de mim! Meu coração sangra ao fazer esta confidencia de tão horroroso attentado. Meu filho mais 

velho, o herdeiro presumptivo do meu throno, tinha machinado o apossar-se da minha corôa e chegara ao excesso de attentar contra a vida de sua mãe! Um attentado d'esta natureza deve ser punido com o mais exemplar rigor das leis. A que o chamava ao throno deve ser revogada: um dos seus irmãos será mais digno de o susbtituir no meu coração e no meu throno. Procuro n'este momento os seus cumplices, para descobrir este trama tão perfido, e da mais negra infamia e não quiz perder um só momento em narral-a a V. M. I. e R. pedindo-lhe que me ajude com as suas luzes e com os seus conselhos.» 

«Sobretudo peço a Deus, meu bom irmão, que tenha V. M. I. e R. em sua santa e digna guarda.» 



Carlos 

«São Lourenço outubro 1807» 



Napoleão encarou de seguida o duque de Frias e exclamou: 

-- Dizei ao vosso rei que sou obrigado a intervir nos negocios de Hespanha visto a sua carta! Ide! 

-- Sire... Podemos contar com a vossa protecção?! 

-- Já vos respondi, duque! e apontou-lhe a porta. Depois para Cambarecéres, exclamou: 

-- Ah! Estas dynastias velhas precisam de ser substituidas... Os Bourbons deixarão de reinar em Hespanha como em Napoles e os Bonaparte tomarão os seus logares. 

- Sire, e o tratado?! interrogou o archi-chanceller. 

-- O tratado?! Acaso posso assignar qualquer cousa com uns reis d'esta natureza?!... Um pae que accusa seu filho de querer assassinar a mãe, um rei que tem de sollicitar do visinho conselhos para castigar uma rebellião?!... Amanhã, com semelhante fraqueza faltava a alliança... Uma rainha, amante e um soldado, e que o eleva até aos degraus do throno, que o torna rei no thalamo e no dominio, e capaz de todas as traições!... Um principe que tem em mira o throno e o assaltou como um bandido, e capaz de todos os crimes!! Um favorito que negoceia os soccorros com a mira n'um verdadeiro principado, elle a alteza apenas no crime, é capaz de todas as vendas!... Por isso são perigosos em Hespanha os Bourbons, nossos visinhos, como perigosos eram na Italia! Os Bourbons deixarão de reinar em toda a parte, assim é necessario! Por isso Cambarecerés temos mais um exercito a preparar. 

-- Sire! 

-- Sim... Junot, basta para Portugal no caso de rebelliao d'este paiz. Mas Dupont e Moncey, commandarão sessenta mil homens que estarão na Gironda em uma semana!... Eis tudo! Vae preparar tudo isso com Berthier... 

O archi-chanceller sahiu e Napoleão, sentando-se de novo á mesa, tomou a pena e escreveu rapidamente a seu irmão José, então rei de Napoles: 



«Fontainebleau, outubro 1807» 



«A grande necessidade que tenho de estabelecer a boa ordem no meu estado militar, afim de não resultar d'ahi a queda de todos os meus planos, exige que estabeleça n'um pé difinitivo, o meu exercito de Napoles e que saiba elle ser bem pago e mantido. 

«Agora vereis o cuidado que devo ter nos detalhes, visto ter 800 mil homens em pé de guerra. Tenho um exercito na Passarge, perto de Niémen, um em Varsovia, um na Silesia, um em Hamburgo, um em Berlim, um em marcha para Portugal, e um segundo reunido em Bayonna, um na Italia, outro na Dalmácia e que reforço n'este momento com 6000 homens, alem do de Napoles. Tenho 

ainda guarnições em todas as fronteiras marítimas. Podeis pois ver quanto isto vae irifluir nos thesouros dos meus Estados e como não poderei achar mais auxilio no extrangeiro, vêdes quanto será necessario calcular o mais severamente possivel as despezas. Deveis pois nomear um habil inspector para calcular quanto deve custar um regimento segundo as nossas ordenanças. 



«Napoleão» 



Ao terminar, o imperador, murmurou: 

-- E d'este modo, terei a Inglaterra riseado da mappa! 

Annunciavam agora o embaixador portuguez que entrava radiante e exclamava: 

-- Sire: O meu governo accede aos vossos desejos. 

-- Serão confiscados os bens dos inglezes?! 

-- Sim, sire! 

-- Serão expulsos de Portugal?! 

-- Sim, sire! 

-- A guerra será declarada á Inglaterra? 

-- Sim, sire! 

Napoleão sorriu e exclamou: 

-- Oh! Folgo com a resolução do vosso governo, tanto mais que os francezes nunca foram inimigos de Portugal, mas apenas da Inglaterra. Dizei pois ao vosso governo que terá sempre em mim um auxiliar! 

Quando Lourenço de Lima sahiu, o imperador todo radiante, murmurou: 

-- E agora já não existe o tratado de Fontainebleau! Os Bragança ficarão no seu throno! Manuel Godoy, não será principe dos Algarves, nem a rainha de Etruria dominará na Lusitania septentrional, os francezes não terão a Beira e apenas os Bourbons serão apeados do throno por ser perigosa a sua visinhança e escandalosa a sua côrte. 

E então esse grande homem que dominava o mundo, satisfeito com aquella obediencia dos portuguezes, abriu a janella, e olhando o bello sol que se escondia por detraz das arvores de Fontainebleau, disse como um simples cavador. 

-- Ganhei bem o meu dia! 

Ficou ali encantado durante uns momentos no deslumbramento da bella paizagem. 









VI 



Novas de Portugal 





E repente, ouviu na sua rectaguarda uma voz dizer: 

-- Sire! 

-- Oh! Tayllerand! volveu Napoleão avançando para o habil principe de Benavento. 

-- Sire, gosaes a tarde?! interrogou elle sorrindo. 

-- Sim... Acho bello este sol poente. Bello mas d'uma belleza triste... O poente é a saudade! 

-- Amaes antes o bello sol d'Austerlitz, sire! 

-- Assim é... Sol alto, íorte, rompendo n'um disco de luz como a approvação do ceu a uma victoria... Ah! Tudo terminará quando eu dominar a Inglaterra... Então, Tayllerand, em vez da revista de exercitos revistarei as fabricas!... Seremos todos productores!... 

-- Sire... E sabeis que a Inglaterra ainda tem alliados?! 

Napoleão sorriu e volveu: 

-- A Suecia... 

-- Sim... A Suecia á qual darei um rei... 

-- Portugal! 

-- É nosso alliado... retorquiu o imperador. 

Tayllerand, esboçou o seu diplomatico sorriso que tantos successos lhe tinha rendido e murmurou: 

-- Quem vol-o disse?! 

-- O embaixador portuguez e antes dos doze dias terminados! 

-- E vós sire, que tão grande sois, não achaes que é caminhar muito depressa de mais para um povo de ociosos que recebe da Inglaterra os algodões e lhe manda em troca o vinho?! 

-- A prova da sua obediencia é essa! 

-- Obediencia, sire, combinada em Londres. 

-- O que? exclamou o imperador no auge do pasmo. 

-- Que mr. Ganning combinou em nome do governo com lord 

Strangford essa comedia no intuito de vos illudir... O decreto da confiscação dos bens e da expulsão dos inglezes apparecerá na Gazeta, mas apenas como poeira lançada nos olhos da Europa, porque os inglezes continuarão a ser os seus bons amigos... O decreto mesmo, sire, foi approvado pelos inglezes! 

-- Provas?! gritou Napoleão fazendo se pallido. 

-- Eis o que me escreve mr. Reynaval, <marca num="*" pag=185> o encarregado dos nossos negocios em Lisboa e que habilmente surprehendeu a manobra... 



<nota num="*" pag=185> Mais tarde tudo isto foi declarado no parlamento inglez. </nota>



O imperador agarrou a nota onde o embaixador francez declarava os planos do governo de Portugal e pela qual se via que os inglezes, aconselhando a comedia, ludibriariam Napoleão de parceria com os portuguezes. 

O imperador, baixou a cabeça e exclamou: 

-- Oh! As velhas dynastias... Pois os Braganças deixarão de reinar com os Bourbons! 

Aquellas palavras, pronunciadas por semelhante homem e em tal tempo, eram como um decreto da Providencia que fez estremecer o proprio Tayllerand, o qual ficou em face de Bonaparte que exclamou: 

-- Tayllerand, dá os passaportes a Lourenço de Lima, manda recolher o nosso embaixador de Lisboa... Já... Se em 24 horas o portuguez estiver em Paris será preso... Ah! miseraveis!... 

Cruzou os braços, olhou o sol que já se escondera e bradou: 

-- E agora Junot que parta!... 

Tayllerand curvou-se e sahiu e o imperador disse: 

-- Dois thronos vagos!... Mais dois thronos! Um para José, outro para Luciano se quizer renunciar ao seu casamento!... <marca num="*" pag=186> As velhas dynastias assim o exigem!... 



<nota num="*" pag=186> Luciano -- o antigo embaixador -- casou com uma americana e Napoleão queria annullar o casamento. </nota>



Entalou a mão no peito da sobrecasaca e para o mameluco que estava sempre de guarda á sua porta, exclamou: 

-- Vou para Italia... Aprompta tudo!... 









VII 





A fuga dos Braganças 





Eram dois homens musculosos, estribeiros de libré, de caras rapadas, agarravam a rainha que estrebuchava nos seus braços e exclamava em voz entrecortada: 

-- Deixem me... deixem-me... Vão matar-me. É uma gallinha negra! Bem a vejo... Hoje é mau dia... Olhae o castigo... O Tavora... O Tavora!... Levem d'ahi essa gallinha negra! 

E a torcer o corpo franzino e debil, toda em arco, os cabellos negros e finos a amortalharem-lhe o vulto delgado, D. Maria I, soltava sempre os mesmos gritos e queria fugir á pressão forte dos braços dos lacaios. 

-- É uma gallinha negra... É um agouro... 

Sacudia-se então n'uma risada nervosa, violenta, que lhe vinha do fundo da garganta, tremula, na perturbação d'um soluço. Mas não a largavam, traziam na bem agarrada, esmagavam lhe os braços na pressão dos seus dedos e assim a conduziam para a porta. 

Era n'uma noite de novembro, noite de nevada, noite negra. Cahia em bategas a chuva sobre os tectos dourados dos carrocins para os quaes se atiravam aos encontrões caixas carregadas d'ouro, cofres de joias, braçados e braçados de roupa, os quaes eram assaltados pelos dignatarios de calção e meia, alguns sem capas e que n'uma balburdia da fuga buscavam o melhor logar, allucinados, perdidos. 

Em baixo, o Tejo, com as suas vagas altas e negras, parecia protestar revoltado contra essa fuga no levantar-se, ao ver despedaçadas as suas vagas em flocos de espuma contra os paredões do caes. 

Mas já se punham em marcha os carrocins, as muares pegavam-se, escorregavam nas calçadas encharcadas e havia uma incrivel barafunda de frades que ocorriam da Boa-Hora e d'Ajuda com as suas trouxas, de vestes colladas aos corpos, clamando pragas, calando orações. 

O caes enchia-se pouco a pouco, balouçavam as barcaças rente ás paredes, havia sempre a mesma azafama no embarque das mobilias e das joias que ninguem vigiava. E nos clarões altos vacilantes e vermelhos dos archotes, entreviam-se rostos lividos, semblantes contrahidos, lia-se um terror enorme, um receio fundo d'esses francezes que iam chegar. 

Isto tudo no mysterio da noite de chuva, na agitação d'esse ruido eterno e estranho, em face da lacaiada que andava sem respeito. 

Mas ninguem conseguia metter D. Maria I no coche, debalde buscavam obrigal-a a tal, e ella gritava sempre, gesticulava no manto dos seus cabellos. 

-- Uma gallinha negra... Deixem-me... deixem-me... É a morte! É a morte! Eu bem vejo... Eu bem sinto! Oh! O Tavora... O Tavora!... 

Quando iam a meio caminho n'uma corrida brusca para o coche, ella soltou-se-lhe dos braços, espojou-se na lama, soltou maiores gritos. 

Logo, n'um repente, um homem vestido de farrapos, de barbicha hisurta, descoberto, galgou dum pulo a distancia, e n'um brado formidavel tambem, disse: 

-- Oh! A minha senhora... A minha senhora... Deixem-n'a, canalhas, ... Deixem-n'a... São vocês que a maltratam... 

Não fizeram caso; lançaram-se de novo sobre ella e agarraram-n'a da poça onde cahira, suja de lama, as mãos e o rosto salpicados, toda n'um farrapo, toda numa allucinação. 

-- Senhora, minha ama! 

Como um cão amigo, fiel, colerico, e que a defendesse, o homem lançou-se entre os moços, metteu-se de premeio, começou a despedaçal-os com as unhas e com os dentes para que largassem a rainha. 

-- Miseraveis! Miseraveis! 

Os moços deixavam a soberana nos braços dos que acudiam e agarravam o homem, exclamavam com furia: 

-- Vae-te bobo de Satanaz!... Maldito D. João de Falperra!

-- Vêm os francezes, canalha, e querem levar minha ama! Tudo por aquella Carlota Joaquina, por aquella que eu vi como uma cabra... Sim... sim... Via-a com o almoxarife n'uma sebe! No campo! Ah! a minha rainha... a minha senhora... 

Soltava-se de novo dos braços dos moços e corria para ella, mas seguravam-n'o, empurravam n'o, deixavam-n'o no chão estatelado a morder a lama. 

O coche poz-se em marcha em seguimento dos outros, viam-se vultos correndo empunhando archotes, e todos cravando as rodas nas poças salpicavam D. João de Falperra que a custo se levantava. 

Já de pé, o bobo, olhara em roda; o largo estava deserto, e o rio lá em baixo era negro, ouvia o ruido dos coches que partiam a desolada pela calçada, via uns ultimos soldados que corriam. 

E na sua rectaguarda, o palacio era sempre silencioso e apagado, agora só, como uma enorme casa abandonada. 

Apalpou-se; estava maguado e molhado até aos ossos; os olhos scintillavam-lhe n'um subito clarão de loucura. 

Acudiu lhe um grito aos labios, sentiu um abalo e partiu a correr pela calçada. 

Ia esbaforido, mas corria sempre, e á medida que se acercava, ouvia mais ruido, maior bulha, via que de todas as esqumas apparecia gente com trouxas, olhava os frades que tropeçavam e chegavam-lhe vozes tremulas e medrosas da balburdia do caos. No caminho de Belem, reme ao Neutral sentiu-se desfallecer, levou as mãos ao peito offegante, parou por momentos, faltava-lhe o ar. 

Porém, sempre com a idéa na sua ramha, sempre com o mesmo fim, o bobo metteu para o caes, passou como um furacão por entre a turba que lhe dava pontapes e o empurrava. 

Então parou, atirou-se para o coche donde buscavam apear a soberana que gritava sempre do mesmo modo: 

-- Uma gallinha negra! Uma gallinha negra... Bem vejo... Bem vejo... Querem matar-me! Os Tavoras... Os Tavoras... 

A chuva cahia sempre e agora com mais impeto, batia em diagonaes pesadas de graniso nas vidraças dos coches, as ondas inundavam o caes pejado de gente que se agglomerava. 

Agarravam-se uns aos outros e todos queriam saltar a um tempo para os botes que dançavam na crista das vagas. 

-- A minha rainha! A minha rainha! gritava o bobo, e allucinadamente lançava se contra os moços que a seguravam, depois d'empurrar a gente fidalga que queria embarcar. 

-- Ainda o maldito! gritou um dos lacaios. 

-- Emborca-o ahi no rio que ficamos livres d'elle! aconselhou um outro. 

Porém, D. João de Falperra, d'um salto, muito nervosamente, quasi n'uma crise d'epilepsia, atirava-se a um d'elles, fincava-lhe os dentes no braço n'uma raiva intensa e obrigava-o a soltar um grito de dor. 

Depois era elle quem na sua loucura se abraçava ao corpo da rainha, gritando: 

-- Senhora minha... Quereis ficar! Quereis, não é verdade?!... 

Ella, sentiu aquelle braço durante um segundo, viu aquelles 

olhos meigos, aquelles olhos de bondade, no claro dos archotes, sentiu-o como um cão fiel e sem o conhecer disse baixinho: 

-- Sim, quero... quero... Não tenho medo dos francezes... Dos Tavoras sim... Olha uma gallinha negra... 

E largando-se de repente correu para o rio, de cabellos esparsos e braços estendidos. 

Seguraram-na, levaram-na á força para as bandas d'agua onde aproava a custo a galeota. 

Estava o regente e Carlota Joaquina. 

O principe, na pôpa, encostava a cabeça ao braço e lembrava-se de Luiz XVI, a princesa, cheia de colera, exclamava: 

-- Depressa! Depressa... Agarrem a rainha... Tragam-na á força... Geus! Se está louca! 

E dava a ordem, de pé, sem medo das ondas, inflexivel e feroz, com os seus olhos negros a fusilarem. 

-- Senhora minha, senhora minha! clamava o bobo na sua bem intensa dor. 

-- Affastem esse bobo. Affastem esse misero... 

-- Ah! És tu! És tu! gritou D. João de Falperra em voz atruadora. És tu... Oh! A princesa ruim que eu vi... Eu vi... 

Ella quiz responder, quiz ordenar de novo algum castigo, mas já via D. João de Falperra mais uma vez enovelado com os homens que buscavam conduzir a soberana E em volta ninguem acudia, todos saltavam para os botes, açodados, e formavam pilhas humanas, homens e mulheres, frades e fidalgos, tudo confundido n'um montão de bagagens, de sacos, de malas. 

Á popa da barcaça, o principe regente, continuava: 

-- Larga... Larga... 

Disse aquillo n'um soluço, a face espapada, todo n'um violento tremor e passou nos dedos as contas d'um rosario. Era a mulher quem exclamava furiosamente: 

-- Depressa! Depressa! Tragam a rainha... 

Era impossivel. O bobo, como uma fera furiosa atirava se sempre a elles e acabava por soltar os seus gritos de doido que se confundiam com os da rainha. 

-- Miseraveis... miseraveis... Todos fogem... Oh! minha senhora... 

Agarrava-a pela cintura, procurava babujar-lhe de beijos as mãos diaphanas; porém era agarrado pelo braço museuloso d'um lacaio que berrava: 

-- Precisas d'um mergulho! 

E agarrando-o como uma pema ia arrojal-o á agua, quando a rainha se desprendeu de novo d'aquelles braços, e no auge da ira, gritou: 

-- Não vou... Não vou... São os Tavoras! É uma gallinha negra! 

D'esta vez houve uma grande confusão, lançaram-se sobre ella, e a custo a levaram para a galeota aos rebolões por sobre o bobo que estava por terra esmagado, perdido, sentindo todos aquelles p´ws a calcarem n'o. 

-- Larga! Larga! ordenava o regente na sua voz tremula.

Mergulharam os remos n'agua, houve um momento de lucta com a vaga negra e logo se puzeram em marcha por entre os outros botes que iam tambem a caminho dos navios fundeados. 

No caes, ficava ainda muita gente. Chegavam soldados e officiaes, o resto da côrte, mais carros com bagagens, os vassallos, as joias e tudo ia a embarcar sob a chuva, ao som dos berros do bobo, que clamava sempre na mesma colera: 

-- Miseraveis! Miseraveis! Cobardes, ... Ah! E teem espadas e são fidalgos! 

Dizia isto e limpava o sangue que lhe escorria da fronte, buscava enxugar tambem o fato ensopado. 

Ficava ali entre os archotes, diante do rio que se alterava e tinha gemidos, e via a galeota a perder-se na amplidão das aguas e gritava: 

-- Eu vou... Eu lá vou!... 

Ia a atirar-se de rompante para o rio, mas alguem o segurou, uma voz forte soou aos seus ouvidos: 

-- João de Falperra! 

-- O quê! O quê! 

-- Que vaes fazer?!... 

Elle tremia, e com o seu olhar allucinado a fixar-se no outro, redarguiu: 

-- A minha ama... a minha ama... 

Reconhecia então um moço do palacio que lhe ria nas bochechas: 

-- Deixa a ir com Deus, homem, deixa-a ir... Os reis tanto fazem os francezes com esse Napoleão como os Braganças..., Deixa-te de sandices...

-- A minha ama... a minha ama... 

Queria soltar se de novo; em roda havia sempre a mesma azafama e o mesmo grito, o eterno clamor d'aquella turba anciosa e cobarde a dominar os ares, a dominar a furia do rio. 

Iam sempre a largar mais botes; e D. João de Falperra, seguro pelo lacaio, eseumando de raiva, clamava: 

-- Cobardes! Cobardes! Oh! Eu quero a minha ama...  Voltou-se para o outro, ordenava cheio de colera: 

-- Larga-me... Larga-me... 

-- Não! 

-- Larga-me! Que tens commigo... 

-- Olha, João de Falperra, montão de doidices, vem com-migo... Tu deves saber muitas coisas... 

-- De quê! De quê?!... 

Baixinho, com um riso cynico e grosso, o outro volveu: 

-- Onde estão os cofres no paço!

-- Sim... sim... volveu imbecilmente com os olhos a luzir. 

-- Queres vir?! Queres vir?! 

-- A quê?! 

-- A buscal-os! 

-- Coitadinha... Coitadinha, ella não levou nada... Excitava-se, queria fugir lhe de novo e bradava: 

-- Quero a minha ama! Quero a minha ama!... 

Agora era um rancor e uma furia epileptica, era como um acesso de sentida colera, e conseguia vêr-se livre, conseguia atirar-se ao rio, deitou a mão ao rebordo d'um bote atulhado de gente. 

De dentro havia gritos, protestos, um insano clamar. 

E elle sempre agarrado, gritava: 

-- A rainha! A rainha! A minha ama que elles levam, esses malditos! 

-- Oh! É o bobo! É o bobo! diziam de dentro medrosos e colericos. 

-- É o bobo! É o bobo! 

-- Vou para minha ama!... 

Os cabellos empastavam-se lhe nas fontes comsangue e agua, a bocca contrahia-se lhe e os seus olhos mostravam o mais extranho clarão. 

-- É doido, larga-te, gritou o barqueiro ante o terror dos que iam de dentro e temiam que o bote sossobrasse n'aquella lucta das ondas, n'aquella força que o desgraçado fazia agarrado violentamente a uma das bordas da embarcação. 

Toda a gente ia para o mesmo lado, no meio do terror, houve um balanço mais poderoso, entrou um jacto d'agua e então o barqueiro, berrou: 

-- Larga bobo, larga!... 

-- A minha ama... a minha ama!... 

-- Eh! larga... 

Tornava-se iminente o perigo, então de chofre o barqueiro agarrou o louco e atirou-lhe uma bordoada forte aos dedos. 

D. João de Falperra, soltou um grito de dôr, largou se, andou um momento a boiar, exclamou ainda: 

-- A minha ama! a minha ama!

Uma vaga passou-lhe por sobre a cabeça, outra veiu a completar a obra. 

No escuro da onda, no eseuro da noite, o bobo desappareceu, emquanto no caes havia archotes e uma multidão apressada se lançava para os botes carregados de bagagens e de gente. 

Chovia sempre com força; os navios a meio do rio, eram como massas negras que não podiam levar mais ninguem, e até dos botes que iam a caminho chegavam os extranhos gritos da rainha louca que exclamava sempre: 

-- Os Tavoras... os Tavoras... Eu não quero ir... não quero ir... Olhem uma gallinha negra... A gallinha negra... 

Ainda ia a meio a noite e no rio coalhado de botes, havia como soluços dominando o ruido das ondas. 

Ao caes chegava sempre mais gente e barafustava-se, dominava o receio, ninguem sentia a chuva cahindo em bátegas fortes e havia apenas um grito cobarde sahindo de todos os labios: 

-- Vêm os francezes! Oh! os malditos francezes! 

Os archotes vacillavam os seus clarões allumiando tragicamente uma côrte que fugia como outr'ora a de Fernando IV de Napoles deante dos soldados da republica franceza que invadiam os seus dominios como os exercitos de Napoleão iam invadir a peninsula. 





VIII



O conquistador 



Diga ao general que são os dois officiaes portuguezes chamados esta manhã! 

A ordenança, um hussard ruivo, olhou-os d'alto a baixo como se extranhasse a maneira porque um 

d'elles lhe dava a ordem em francez n'uma resposta 

ao brigadeiro: 

-- Quereis fallar do sr. governador de Portugal! 

-- Ao general Junot, exclamou o outro muito altivamente. 

O soldado sahiu da sala; elles olharam-se. 

Em volta havia topeçarias, havia quadros, avistava se o Tejo n'uma doce claridade, sereno, sem uma ruga no seu azul. 

-- Oh! D. Pedro de Portugal, ah! a que chegamos! 

O outro encolheu os hombros, nos seus labios passou um sorriso e redarguiu: 

-- A que chegamos?! 

-- Sim... 

-- Ah! Comprehendo... Queres dizer a que elles chegaram, Gomes Freire?! volveu o conde d'Assumar. 

-- Elles?!

-- Pois decerto! 

-- O quê?! Esses francezes que são hoje os senhores e entraram ahi sem dispararem um só tiro, que puzeram o seu sapato ferrado no pescoço de todos nós, que calcaram este povo o qual não teve um só protesto! a que elles chegaram, amigo?!... 

-- Tens razão! a que chegou essa gente! A dominação d'um povo de fortes é uma nova penna dourada para a aza d'essa aguia napoleonica. 

O outro sorria, acabava por dizer: 

-- Gomes Freire, eu não fallava dos francezes... 

-- Pois de quem?! interrogou com manifesto pasmo. 

-- De quem?! Por Deus, dos portuguezes, do regente, da familia real, da nobreza... 

Taes palavras proferidas por semelhante homem na ante camara de Junot, que se fazia esperar, aquella condemnação sahida dos seus labios, essas phrases de castigo, essas vergastadas echoaram d'uma maneira extranha aos ouvidos do heroe que volveu: 

-- Assumar... 

-- O quê, amigo! 

-- Mas acaso o regente tem a culpa?! 

-- Do quê?! Não tem acaso a culpa d'essa inexplicavel fraqueza?! 

-- Não... 

O Tejo não tinha a menor oscillação, o ar era sereno e doce, e elles, além, recordavam bem o seu tempo, a sua mocidade tempestuosa, com luctas, com perseguições, com verdadeiras aventuras bem portuguezas, estroinas e bravas, onde o pulso tinha uma acção egual á alma, onde a valentia corria parelhas com a generosidade. Lembravam se d'esse Portugal fradeseo e livre, em que tinham vivido sob o dominio d'um intendente fero, mas que lhe parecia agora um santo. 

E aos seus corações chegava o mesmo terror, a mesma tortura, a mesma anciã, n'um aperto que os desolava e os fazia bradar a um tempo: 

-- Mas é necessario acordar d'este lethargo! 

Olhavam-se como se admirassem d'essa phrase sahida tão exontaneamente dos seus labios e no fim bradavam do mesmo modo: 

-- Mas que fazer?! 

-- Que demonio, gritou Gomes Freire. Eu nunca reflecti... 

-- Nem eu! 

-- Sempre segui os meus impulsos, os meus movimentos... 

-- E eu! 

-- Sempre tive por norma essa enorme vontade de ir por diante quando vir o perigo... 

-- Assim somos... 

-- N'esse caso, amigo, para que reflectir... 

-- Tens razão... 

-- Eu tenho alli o meu quartel... 

-- Eu a minha legião... 

-- A revolta! exclamaram do mesmo modo. 

-- Sim... A verdadeira revolta emancipadora! disse por fim o brigadeiro. 

-- Oh! Carecemos d'um novo Nun'Alvares, continuou o conde d'Assumar. 

-- Não, amigo, não... Carecemos antes de quarenta fidalgos eguaes aos d'Antão Vaz d'Almada... Este dominio lembra mais o castelhano de 1640... 

Agora estavam deveras impressionados, sugeitos áquella idéa, sugeitos a semelhante desejo e então, olharam a porta, disseram: 

-- Se nós fossemos... 

-- O que?! Sem lhe fallar?! interrogou o Assumar com prudencia. 

-- É que, meu velho, se me vejo diante d'esse homem, não sei se me poderia conter... 

-- Lembra-te do que jogas! 

-- Cousa alguma... 

-- Mentira... Jogas a independencia da nossa patria... E depois que queres quando todos se rojam... 

-- Devemos erguer-nos! replicou ferozmente. 

-- Escuta. 

Tocou-lhe no hombro, olhou o de frente e começou: 

-- Sabes que sempre te acompanhei. 

-- Sim... 

-- Sabes o que foram os annos da nossa mocidade... 

-- Que saudades! 

-- Foste á Russia, andaste por lá emquanto eu me ligava a minha mulher... 

-- É verdade! 

-- Voltas te coberto de gloria e eu fiquei na mesma, nas minhas terras, olhando-as, tratando-as... 

-- Basta, Pedro, basta... A minlia gloria não é para aqui... 

-- É bom recordal-a... 

-- Porque?! 

-- Para que não faças uma loucura. 

-- Qual?! 

-- E de te deixares arrastar por um impulso... 

Como reparasse no olhar pasmado que lhe lançava, accrescentou: 

-- Sim, Gomes Freire... Tu não pertences... 

-- Pois a quem?! 

-- A posteridade que saberá julgar dos teus actos... 

-- Mas que queres?! 

-- Que quero?! 

-- Sim... 

-- Serenidade! aconselhou de repente. 

-- Mas então!... 

-- Ouçamos o invasor... 

-- Para que?! 

-- Para que possamos fazer um juizo... 

-- Basta que o façamos depois... 

-- Depois?! 

-- Sim... 

-- Mas quando?! interrogou o conde d'Assumar ainda mais pasmado. 

-- Quando lhes tivermos indicado o caminho da fronteira com as pontas das nossas bayonetas. 

Foi pronunciada de tal maneira essa phrase que o outro estremeceu. Era um valente, um heroe mesmo, mas além em face do seu companheiro que fallava assim tão altivamente sentia-se mesquinho, via-se pequeno e acabava por bradar: 

-- E tens a certeza d'arranjar quem te siga! 

-- Sim... 

-- Mas quem?! 

-- Tu! 

-- Eu só... Que valho eu?! 

Traçou um gesto desolado e calou-se. 

A porta, um official de grande uniforme, exclamava: 

-- S. ex.ª o sr. governador, aguardavos, se acaso sois os srs. conde d'Assumar e Gomes Freire d'Andrade... 

Saudaram e penetraram no aposento que o outro lhes indicava. 

De pé, fardado tambem de grande uniforme estava o governador do reino, o general Junot. Era alto, bem feito, d'um porte distincto. Nos seus olhos, lia-se como uma prescrutação; no seu rosto nem o mais leve indicio deixava perceber a curiosidade que d'elle se apossara. 

Desde o dia em que entrara no paiz epenas topara homens dobrados. 

Os seus soldados em farrapos tinham atravessado aldeias, villas, cidades mesmo, sempre ovantes, a verem fugir uma multidão que clamava: 

-- Os francezes! Lá vem os francezes! 

Esse grito era como um rastilho e elle nem mesmo encontrava que saquear. 

Fugiam na sua frente, iam de corrida. 

E nos seus labios appareceu um sorriso quando chegou a Abrantes e lhe disseram que o regente ia fugir tambem. 

-- O regente! O Bragança!... Oh! É avançar! 

Veiu lhe uma colera, um odio, uma raiva ao ver que os navios já tinham partido, que já iam longe no oceano no qual não os podia alcançar. 

Fôra para S. Julião da Barra. Na sua frente o Tejo batendo contra a muralha, ao longe as vellas que se perdiam no horisonte. 

E então, na sua enorme raiva, no seu enome desejo de pôr tudo a ferro e a fogo, veiu para a cidade aguardando uma rebellião. 

Porém crescera lhe o pasmo e crescera lhe o nojo. 

Na sua antecamara, estendidos numa fila como lacaios estavam a nobreza que não partira, mulheres e homens com os governadores do reino á frente. 

Saudaram-no, elle foi politico. 

Acalmou a colera e saudou-os; de seguida mandou arriar as bandeiras portuguezas dos fortes e das naus. 

Era n'um dia de sol; n'um dia d'alegria. 

Não houve um protesto, não houve um clamor. Rufaram os tambores, berraram as peças, e as aguias francezas desde logo entraram de tremular no topo dos mastros, no cimo das hastes, por essas fortalezas, por esse Portugal. 

Risca-se uma nação do mappa e nem um grito! 

Eram estes os leaes?! Pobres d'elles! Estavam então suffocados?! Paralysavam-se... 

No seu espirito nasceu então uma idéa: 

-- Portuguezes eram cobardes! Aquella calada não era de pasmo mas sim de medo. 

E fez o que quiz; entrou a deixar os seus officiaes e os seus soldados á vontade. 

Estava n'um feudo; pensou em ser rei. 

A nobreza estava de joelhos. 

E já dava saraus, muitos saraus, de janellas abertas, com coches á porta, deante do povo mudo em fitas negras. 

Conhecia fidalgos, elles vinham ali de chapéu na mão. Substituiu a regencia, deixou só os que lhe convinha, os que menos rastejavam. E um dia interrogou-os: 

-- Mas aqui ninguem se revolta?! 

-- Oh! Não! 

A medo, cautellosos, interessados na causa de Napoleão, fallaram lhe de dois homens, d'esse Gomes Freire e d'esse D. Pedro de Portugal. 

Eram o terror do paiz, uns bravos, uns homens capazes de tudo. Um, na mocidade, escalava muros de convento e tivera audacias peiores, o outro fôra seu companheiro, como um irmão. 

Quiz vêl-os. 

Elles ali estavam na sua frente. Analysava-os, offerecia-lhes logares. 

Mas ambos ficavam de pé, cobertos, militarmente. 

Eram os primeiros que se atreviam a tal desacato. 

Teve vontade de os esmagar; perguntou de chofre: 

-- Fallam francez?!... 

Apenas se inclinavam; elle então, como n'um insulto, redarguiu: 

-- É que em Portugal falla-se tão mal a minha lingua... 

Gomes Freire estremeceu e respondeu logo: 

-- Senhor general... Olhae que em França não se falla mesmo o portuguez! 

Tinha atirado a phrase n'um francez correcto e accrescentava: 

-- De resto, nenhum povo deve failar senão a sua lingua! 

Era a entrada. O general Junot admirava-se e respondia por sua vez: 

-- Sim, a lingua de quem dirige esse povo! 

-- Que geralmente é quem n'elle naseeu... 

-- Menos nos casos em que eu estou. 

Assentava assim a sua supremacia e continuava: 

-- Porém, ouço senhor, que bem fallou o francez. E vós?! 

D. Pedro de Portugal, a quem elle se dirigia, exclamava de seguida: 

-- Eu, peior! Gomes Freire tem tratado muito de perto os francezes... 

Tomou um ar negligente e accrescentou: 

-- Na Russia teve-os ás suas ordens... 

-- Como na Russia?! -- perguntou pasmado. 

-- Olhava o heroe com certa curiosidade e interrogava de novo: 

-- Estivestes na Russia, senhor?! 

-- Oh! N'outros tempos... Já lá vão annos sobre isso... 

-- Quando?! 

-- Quando reinava Catharina II e Voltaire lhe escrevia... Oh! N'este tempo ainda não havia a audacia de revolução franceza o que não obstou a que eu visse degolar depois Luiz XVI... Oh!  Trataram-me d'herege em Portugal... Lá vi o vosso imperador, tempo depois tambem... 

-- Napoleão?! - interrogou com o mesmo pasmo. 

-- Sim... Era então um pobre capitão a quem accusavam de dividas... 

O general sorriu, ergueu-se, enthusiasmou-se: 

-- Fui seu companheiro... Era sargento em Toulon... 

-- Oh! general, eu n'esse tempo já era coronel! 

-- Vós?! -- e o seu pasmo dobrava, continuava a olhal-o do mesmo modo, ao passo que o outro continuava: 

-- Sim, eu... Catharina II fez-me coronel da sua guarda... 

Foi essa farda que me valeu no delirio da revolução franceza?! 

-- Sois coronel na Russia e viveis em Portugal! 

-- Ah! general, replicou d'um modo triste. É que amo muito o meu paiz... É que um pedaço de pão negro comido sob este bello ceu vale mais do que opiparos banquetes em terra alheia!  

-- Pois eu queria fallar-vos exactamente d'essas terras alheias!

-- A mim?! 

Teve um arrepio, encarou-o e ouviu-o dizer: 

-- A ambos... 

-- Mas para quê?! perguntaram ao mesmo tempo. 

-- É que o imperador carece de gente para as suas campanhas! 

-- E depois?! interrogou de novo Gomes Freire. 

-- Vou formar uma legião de soldados portuguezes que, á semelhança dos lombardos, dos de Piemonte, dos da Russia, irão entre as fileiras francezas a ganharem graus nas batalhas! 

- Oh! 

Pasmavam; viam a tactica terrivel, comprehenderam a obra do imperador. 

-- Formaria, pois, uma legião portugueza, dizia elle. E vós sereis os seus chefes... 

-- Nós! 

-- Sim, vós! 

Aquillo era como uma cousa assente. 

E ambos soffriam, ambos se olhavam. 

-- Não póde ser! Não póde ser, exclamaram ao mesmo tempo indignados. 

-- E porquê?! volveu muito serenamente Junot. 

-- Porque preterimos rasgar as nossas fardas... -- gritou Gomes Freire. 

O francez sorriu, recostou-se de novo no canapé e interrogou de chofre: 

-- Acaso tendes escrupulos em servir Napoleão, vós que sois realistas, vós que por esse lado o deveis amar?! 

-- Não! 

-- N'esse caso, tornou Junot, não sei comprehender a vossa repugnancia... 

-- General! gritou Gomes Freire, General... 

-- O quê, senhor?! 

-- Pois não vêdes como nós soffremos com a invasão! exclamou o conde d'Assumar. 

-- Soffrer! Oh! O soffrimento de quem espera!... 

-- Mas o que esperaes?! -- perguntou Junot ao ouvir Gomes Freire. 

-- Espero melhores dias... 

-- Decerto, senhor, melhores dias tereis... tornou Junot. Decerto para vós, que sois guerreiro valoroso, grande gloria será servir ao lado do imperador... 

-- Pois temeis?! -- bradou elle n'um impeto. 

-- Decerto! 

-- Porém não vêdes que somos portuguezes... 

-- Os primeiros que vejo, declarou Junot arrebatadamente.

-- O quê?! 

-- Sim... Os primeiros, volveu o general sempre a sorrir. 

-- Mas n'esse caso com quem tendes tratado?!... 

-- Com os vossos compatriotas sem energia... 

-- Senhor!

-- Não vos indigneis. Gomes Freire, não vos indigneis... 

-- Ouvi... E vós tambem, senhor d'Assumar... 

-- Dizei! 

Ficaram a ouvil o, e de quando em quando estremeciam; o general ia dizendo já sem o seu tom sarcastico: 

-- Entrei em Portugal e tratei com a nobreza... 

-- Sim... Sim... 

-- Ouvi-a, sentia-a, fallei a todos esses homens... 

-- Sim, e depois?! interrogou Gomes Freire, temendo ouvir dizer que elles eram cobardes. 

-- Depois?! Brigadeiro... Permitia que vos responda com uma pergunta?! 

-- Sim... Fallae, volveu elle do mesmo modo. 

-- Pois bem... Dizei-me porque recusaes partir com a Legião Portugueza?! 

-- General, é simples... A minha patria póde precisar do meu braço, com lealdade vol-o digo... 

-- Pois bem. Gomes Freire, pois bem, senhores... Se eu vos mostrar que os governadores do reino, aquelles deixados aqui pelo regente, estão do meu lado, que dizeis... 

-- Do vosso lado?! interrogam com pasmo. 

-- Sim... E vêm-me um enorme de desejo de vol o provar... 

Olhou um relogio collocado na parede e exclamou: 

-- Aguardae-me um momento n'esta sala... Podeis ouvir tudo o que se vae dizer ali... Podeis mesmo ver quem entra aqui pela galeria envidraçada... Vae chegar a hora do despacho, concluiu elle como a indicar-lhes que deviam certificar-se do que lhes dizia. 

Saudou-os e sahiu de repente; os dois amigos ficaram sós. 

-- Que se vae passar?! interrogou Gomes Freire. 

-- Não sei... Mas julgo que alguma cousa de bem extraordinario. -- Ouço passos... 

-- Sim... Vem gente pela galeria... Repara... 

Olhavam ambos e viram o marquez d'Abrantes, aquelle antigo conde de Villa Nova, que avançava para o gabinete do governador. 

Era um membro da regencia. Elles ficaram a escutar. 

Na sua voz aflautada com que ajudava em muitas vénias, disse: 

-- Oh! Excellencia! 

Junot, sorridente, respondia: 

-- Marquez... Ainda bem que chegaste! 

-- Então porquê, meu caro general?!... Tendes que me dizer?! 

-- Tenho que consultar-vos... 

-- Oh! Mandae.... Mandae, volveu o outro quasi de rastos. 

Os dois amigos no gabinete contiguo olhavam-se. 

Junot, tornava do mesmo modo. 

-- Trata-se de modificar o governo! exclamou o general muito habilmente. 

O marquez soltou um grito, ficou perplexo. 

-- Não estaes satisfeito comnosco! 

-- Oh! Mas é que novas combinações... 

D'esta vez o marquez d'Abrantes, quasi implorou: 

-- Ordenae... ordenae... 

-- É que, marquez, careço d'um cidadão francez entre vós... 

Era como uma desconfiança bem manifesta. 

Gomes Freire apertava nervosamente o braço d'Alorna. 

-- Oh! Mas porque não acceitaremos esse cidadão francez! volveu o Abrantes. 

Agora era demais para aquelles dois corações. Era a infamia, era a miseria dos portuguezes bem patenteada, era o fim de tudo, da gloria, da tradição, das conquistadas sympathias que os miseraveis eseangalhavam com a sua cedencia. 

-- Marquez, disse Junot, alteando a voz. Mas acaso respondeis pelos vossos companheiros?! 

-- Eu por mim vos digo que acceito tudo... 

-- Bem... Assim será, declarou o general. 

Depois fez-se um momento de silencio e o francez de repente, clamou: 

-- Porém não sei se o sr. D. Pedro de Mello Breyner... 

-- Se acceitará?! interrogou o marquez. 

-- Sim... 

-- Oh, meu bom general, isto aqui para nós... 

-- Dizei... 

-- D. Pedro acceita tudo, completamente tudo. 

-- Como o sabeis... 

-- D'elle o ouvi por tantas vezes! Apenas deseja... 

-- O quê?!

-- As vossas boas graças! 

-- Pouco é como recompensa, disse a rir... 

-- Oh! Immenso, general... Vós sereis rei! 

-- Canalha! exclamou Gomes Freire no aposento contiguo. 

-- Pois sim, mas senhor marquez, tornou Junot. Acaso me respondeis tambem pelos tenentes-generaes Cunha Menezes e Xavier de Noronha?!... 

-- Elles ahi vêem, esses dois membros do conselho da regencia... Melhor vos informarão... 

Os dois militares entraram com effeito. 

Um era alto, espadaudo, forte, no seu rosto lia-se a bravura, o outro, de meia estatura, levemente cortezão de maneiras. Estavam fardados, saudavam Junot d'uma maneira amigavel. 

-- Senhores, disse logo o general. Vou tratar d'um grave negocio... 

-- Oh! Mas porque não o resolveis! disseram todos. 

-- Não... Careço do vosso assentimento... 

-- Honrae-nos muito, exclamaram lisongeados. 

-- Oh! E são aquillo militares! disse Gomes Freire para amigo, accreseeniando: E vão ceder e vão por se de rastos... 

-- Decerto! 

-- Ah! Amigo, isto dá vontade de partir... 

-- Para o fim do mundo... volveu o outro. 

-- Para onde se possa esquecer!... Mas como... 

Agora Junot, dominava os membros da regencia ao declarar: 

-- Trata se d'uma cousa bem grave! 

-- Mas fallae... 

O marquez d'Abrantes, sabedor do negocio, sorria, e o general gosando com a anciã dos outros demorava propositadamente a revelação: 

-- Trata se do governo... 

-- Como?! 

-- Sim... Trata-se d'uma modificação... 

-- Não estaes satisfeito? perguntaram os dois militares. 

-- Apenas careço d'alguem que tudo possa providenciar... 

-- Mas... 

-- Esse alguem por ordem expressa do imperador será um francez... Mr. Hermann, que se encontra entre nós... 

-- Vão acceitar! volveu Gomes Freire. 

-- Vão... 

E com effeito, os fidalgos, gritaram: 

-- Mas apenas isso?! 

-- Sim... 

-- Plenamente acceite, não é assim? interrogou o marquez de Abrantes. 

-- Mas decerto-! Decerto, volveram os outros. 

-- N'esse caso apenas devemos resolver a marcha da legião portugueza! 

-- Decerto... É necessario que parta! declarou D. Francisco Menezes com assentimento dos outros. 

-- E agora, senhores, vinde, quero apresentar-vos o vosso novo collega... 

Junot, conduziu-os atravez da galeria e triumphante lançou um olhar para a sala onde se encontravam os dois officiaes, e affastou-se  a sorrir. 

Gomes Freire, com o seu temperamento impulsivo, gritou por sua vez: 

-- Alorna... 

-- Amigo! 

-- Partamos! 

-- Para onde?! 

-- A tomarmos o nosso logar! volveu com serenidade. 

-- O vosso logar?! 

-- Sim... Somos os commandantes da Legião Portugueza! 

-- E queres acceitar?! perguntou pasmado. 

-- Acaso não ouviste o que disseram os membros da regencia?! 

-- Mas... 

-- O que?! Quando elles são assim contra nós, queres desobedecer?!... 

-- Oh! Amigo... 

-- Formamos a legião e levamol-a a França... 

-- E batemo-nos pelo corso, não é assim?! 

-- Que vale vinte vezes todos os nossos governadores... 

-- Mas a nossa patria?! disse o outro. 

-- A nossa patria?! Mas acaso vamos contra ella?! -Não! 

-- Não obedecemos aos governadores do reino?! 

-- Sim... 

-- Podemos ficar em Portugal?! Sim, francamente depois de tudo isto?! 

-- Não, mil vezes não! 

-- Teriamos que assistir ainda a maiores baixezas... 

-- É certo! 

-- Depois o imperador sabe conhecer os homens... 

-- Queres dizer?! 

-- Que nos dará um bom logar nas avançadas!... 

-- Em que pensas, Gomes Freire, perguntou o outro aterrado. 

-- Em quê?! Em conduzir os meus soldados á gloria, á suprema gloria! 

Era já o guerreiro, o soldado amante do fogo que sonhava em um maravilhoso e extraordinário combate em que a legião portugueza teria o seu papel. 

-- Alorna, queres acceitar esse commando?! 

-- Tudo menos assistir a uma seen:i como a de ha pouco! 

-- Pois bem... Partiremos... Não e contra Portugal, não é contra a vossa consciencia! 

-- Não... Se o fora não teriamos que partir mas sim de ficar... 

-- É certo... 

-- Bem... Não é contra a patria pois que vamos servir Napoleão o grande, não é contra a patria, não! eu já servi Catharina II, já andei longe e sempre fui portuguez! 

-- Tens razão! 

-- Partamos já que os membros da regencia são assim miseraveis. Temos os nossos nomes a illustrar. 

-- Sim... Temos as nossas repugnancias fervendo no intimo por toda essa pulhice, por toda essa infamia d'elles... 

-- Por isso... Ao largo, Alorna, que mais tarde voltaremos... Apertava as mãos com sincera effusão. 

-- No dia em que formos necessarios. 

-- Sim... 

Junot entrava, olhava-os d'alto a baixo e interrogava: 

-- Que me dizeis, meus senhores?! 

-- Que tinheis razão ha pouco quando nos aconselhaveis a partida! 

O general muito radiante, balbuciou: 

-- Bem vêdes que conheço bem os bravos... 

Sorriu amigalmente a dar a entender o seu respeito e depois accrescentou: 

-- De resto, .o imperador não sabe de nacionalidades! Apenas sabe de bravuras... 

-- Quereis dizer?! 

-- Que sem serdes contra Portugal, elle vos olhará como filhos da França... 

Estendeu-lhes a mão que os dois portuguezes apertaram sem rancor e então começaram a deseer a larga eseadaria sob o olhar do governador que os saudava ainda. 

Em baixo, Alorna estremeceu ao vêr uma mulher que se apeava d'uma cadeirinha e ia para a pequena porta dos aposentos do francez. 

Largou o braço do amigo, correu para ella, exclamou: 

-- Condessa! Sobrinha! 

Era uma joven, alta, loura e linda, a condessa de Ega que o tio acabava de segurar e que se tornava vermelha: 

-- Onde vaes Julianna?! 

-- Oh! Meu tio, como vós, vou fazer a minha côrte ao vencedor! volveu com descaro. 

O marquez largou-a, olhou Gomes Freire e affastou-se sem dizer palavra. 

Voltou-se ainda a vêl-a sumir-se na portinha e jd longe, bradou de rompante: 

-- Partamos! Partamos e para que não voltemos mais... 

-- Porquê, amigo... 

-- Pois, não viste... 

-- O quê?! 

-- A condessa de Ega, a minha sobrinha?! 

-- Sim... 

-- Agora tenho a certeza... 

-- Mas de quê?! perguntou o heroe. 

-- Do que se dizia... Ella é a amante de Junot, do conquistador!... 

E n'um grito desesperado, accrescentou: 

-- Partamos! Partamos!... Seremos dois de menos assistindo á dissolução da velha sociedade, em que os reis fojem, os fidalgos se curvam e as mulheres se vendem ou se dão aos extrangeiros vencedores... 

-- É tua sobrinha... 

-- É uma nova duqueza de Mantua que odeio... mais baixa, mais vil, porque é portugueza... Oh!... sobrinha, não... Gomes Freire, não fallemos mais em tal... 

O outro ficou cabisbaixo e assim lado a lado se foram depressa para o quartel da Junqueira, no interior d'uma sege, aos trambolhões por Alcântara abaixo. 

Não fallavam. Vinha-lhes após o nojo da sociedade portugueza, o sonho das glorias que podiam conquistar no exercito do grande imperador. 









IX 



A vespera de Wagram 





O imperador no alto do outeiro, escanchado no cavallo branco e d'oculo em punho, ordenou, franzindo o sobrecenho: 

-- A galope! A galope Laville, e vae dizer a Lannes que suspenda o seu movimento e desça um pouco para Essling! 

N'uma nuvem de poeira o official partiu e o imperador ficou silencioso a analysar as peripecias da batalha. 

Era por um bello dia de maio, no meio dos campos que iam sendo arrazados sob o fogo mortifero das baterias austriacas. 

Os francezes tinham avançado sempre ao som dos clarins, com aquelle denodo dos soldados velhos do grande imperador. 

Agora eram ainda como uma linha grossa e bem unida, que no meio do canhoneio, deixando para traz os mortos e correndo para o inimigo, fazia um circulo que fogo algum poderia romper. 

O archi-duque João, á frente da sua artilharia, olhava espantado essa columna immensa que o seu fogo mal tocava, e no auge da admiração, exclamava: 

-- Extranhos francezes! 

Luziam as armas, o sol tirava reflexos dos metaes das barretinas, e a terra estremecia com essa marcha ousada d'uma divisão em accelerado que corria para o fogo n'uma alegria louca sob a chuvada da metralha incessante. 

Eram trezentas as peças que estavam apontadas sobre os francezes. Lannes fazia avançar os seus homens, e Saint-Hilaire era o primeiro, o que estava mais proximo, á frente da turbamulta dos granadeiros velhos que riam sob o fogo. 

Mas entre as fileiras francezas, destacavam-se as barbaças ruivas e os corpos altos dos bavaros, os uniformes vermelhos dos polacos, todos em linha com os seus officiaes n'uma mistura extranha, n'uma vassallagem de corpos d'exercito de paizes conquistados pelo grande Napoleão. 

Os portuguezes, pequenos, bisonhos, resistentes, marchavam na divisão Sait-Hilaire, ouviam os velhos granadeiros a rir e sob a metralhada pareciam tomados d'uma furia, porque corriam desesperados ás ordens de Gomes Freire e de Candido Xavier. 

Havia por elles uma admiração no exercito, eram queridos pela reputação da sua bravura no cerco de Saragoça e que parecia continuar-se além, diante dos austriacos, n'essa linha d'Aspern a Essling que Lannes tinha sob o seu commando. 

Tornava-se cada vez mais mortifero o fogo do inimigo, choviam as balas, levantava-se de longe um luar d'incendio, e a soldadesca avançava sempre com os seus gritos, as suas armas, n'uma intrepidez pouco vulgar, de cabeças levantadas, berrando os seus vivas ao imperador, que lá no alto continuava sereno, impassivel, segundo com o oculo o seu ajudante de campo a passar como uma setta por entre as fileiras cerradas, por entre o material d'artilheria, os carros das munições, as baterias desmontadas, e se acercava de Lannes, o general chefe que fôra embaixador em Portugal. 

Aquelle canhoneio tinha muito d'epico. 

As trezentas peças coroando o alto, atroando tudo com os seus estampidos formidaveis, deixando correr das boccas negras vomitos de fogo que vinham trazer a morte, eram como o brado de revolta d'um povo que não queria ser vencido. 

-- Viva o imperador! 

Agora tornava-se louca a corrida sob aquelle sol que escaldava, sob aquelle fogo de morte e resaltavam faiscas das armas, abalava-se a terra no rolar da artilharia que ia de corrida n'um flanco, envolvendo o exercito em nuvens de poeira. N'um momento, o ataque tornou-se verdadeiramente singular. Já tres divisões faziam a mesma manobra envolvente, e em cima, as austriacas, rodavam com os canhões, entravam a fazer um fogo mais cerrado e mais mortifero. Ninguem hesitava. Ouvia-se aquelle tiroteio d'ensurdecer, terrivel, enorme, com nuvens de fumo, com abalos extraordinarios, e os homens cahiam com gemidos, outros de chofre, a metralha, como um granizo, cahia sobre elles, feria corações, mutilava braços e pernas, cegava e enlouquecia, e, n'um desespero enorme, os austriacos buscavam manter as suas posições a todo o transe. O archiduque commandava o fogo cheio de colera. 

Parecia que entre os francezes cada homem morto dava o seu logar a dez vivos, porque as columnas cerravam-se cada vez mais e a marcha era cada vez mais audaciosa. 

Havia sempre os mesmos ruidos, clamava-se, gritava-se n'um alarido que debalde buscava abafar as vozes dos canhões. 

Por fim, assestaram ainda mais cem peças e foi então um espectaculo terrivel. 

Do alto do monte os austriacos carregavam os canhões sem cessar, enchiam de polvora e de balas aquellas massas d'aço, e depois, com firmeza, com desesperada anciã, chegavamlhes os morrões e tudo se confundia nas nuvens de fumaceira, tudo se occultava, e as balas quentes, candentes como meteoros, vinham passar por sobre o exercito, faziam trajectorias, outras vinham rasteiras, outras pelos flancos como se, fossem grossas estrellas cahindo d'um ceu para o anniquilamento das gentes, como se fossem aerolithos 

que chegassem d'uma tarefa de destruição. 

A tropa avançava sempre, corria, marchava por sobre um tapete de destroços, n'uma cegueira, n'um deslumbramento, habituada já ao fogo, ao desprezo da vida, á victoria, á obediencia. 

-- Para a frente... Viva o imperador! 

Mas, de subito, tudo aquillo se paralysou a uma ordem de Lannes, transmittida pelas cornetas, as divisões ficaram immoveis durante um curto segundo, como suspensas pelo mesmo destino da authomatica forma que usavam os soldados do grande exercito. 

Saint-Hilaire, ordenou um movimento de recuo e gritou: 

-- Soldados lembrem-se que está ahi o imperador! 

E esse movimento de recuo foi um assombro. 

Primeiro toda a divisão se poz d'arma ao hombro, depois em passos medidos, de frente para o inimigo, ensaiaram os primeiros passos, a artilheria voltava-se, como n'um exercicio, ali sob a metralhada, e por cada homem cahido logo outro apparecia, nem por um momento hesitaram, recuavam como tinham avançado: bravamente! 

Os portuguezes como os outros, procediam em egualdade com os francezes. 

As balas choviam sempre e a retirada effectuava-se gloriosa. O sol era d'ouro e o imperador continuava impassível no seu outeiro, com o seu estado-maior. 

Todas as divisões recuavam do mesmo modo e sob o mesmo fogo, de bandeiras ávantes, desfraldadas, com as águias ensaiando um voo. 

De repente, um grito se repercutiu por toda a divisão. Saint-Hilaire, o general, acabava de cahir do cavallo. Uma obuz explodira junto d'elle e o general estava morto, com uma larga mancha de sangue na farda, segurando ainda a sua espada. 

E a divisão, no primeiro momento, ficou paralysada. 

Depois, quando tomaram nos braços o corpo do general, ella, sob o fogo, deixou-se ficar á tôa, mas firme, sem commando mas heroica, como se quizesse deixar chacinar. Lannes veiu então a todo o galope, entrou no terreno da divisão, de cabeça descoberta, com a espada alta, gritando: 

-- É recuar... Cerrar fileiras... 

O movimento fazia-se sempre, como se o official morto ainda estivesse á frente dos seus homens. O general eseolhia um terreno menos exposto e os austriacos vinham já de bayonetas caladas para o ataque. 

Calára-se a artilharia que os protegia. 

Aquelles canhões com as suas boccas escancaradas n'uma ameaça, deixavam os outros avançar. 

Tudo estava agora em silencio; passou no espaço uma revoada de aves que trilaram assustadas. 

De novo começou o canhoneio. 

E Lannes, no mesmo impato, n'um galope louco, corria sempre para a divisão Oudinot a recolhel-a tambem. Ali foi mais terrivel, cahiram fileiras inteiras. Era uma tropa de recrutas que ainda não tinham serenidade. 

Mas apesar das fileiras cahirem, os outros, pondo de lado o terror, iam a seguir a manobra ás ordens do chefe para as bandas dos fossos. E, n'esse momento, o exercito com semelhante movimento, ficou a coberto das linhas d'Argem e Essling. 

Os austriacos avançavam sempre ao lado da divisão Saint-Hilaire, os canhões vomitavam o seu fogo para o norte, onde a divisão Oudinot já recuava. 

A artilheria franceza ia defender os fossos, para deter o inimigo. 

Estavam cercados de canhões, aguardando os outros. 

Chegara emfim a vez da artilharia franceza. 

Largava de cima um regimento de cavallaria austriaca, n'uma massa compacta, que de momento tomava as avançadas. Tudo aquillo corria no mesmo impeto, em nuvens de poeirada, tudo aquillo se confundia e os gritos soavam mais alto, e as vozes erguendo-se lembravam os brados das legiões romanas no tempo dos 

Cesares. Era a mesma bravura e as mesmas aguias! 

Lannes, formava agora as suas divisões. 

Tinha na segunda linha um regimento de couraceiros e na primeira toda a divisão Oudinot, na reserva deixara a velha guarda. 

Assim, cheia de firmeza, exclamava: 

-- Ah! Venceremos! 

-- Viva o imperador!

E todo o exercito soltou o mesmo grito que echoou aos ouvidos de Napoleão sem o fazer mover. 

De quando em quando partiam ajudantes de campo com ordens para os generaes, e o imperador recahiu no seu mutismo ao vêr agora avançar brilhantemente a cavallaria do principe de Lichtenstein. 

Lannes, ordenava o fogo á sua infanteria, ordenava a metralhada. 

D'um lado faz-se uma brecha e a cavallaria do principe austriaco precipita-se sobre os couraceiros. Ha um momento de pasmo, de terror, de espanto, e o combate torna-se loucamente bello. 

Homens contra homens, cavallos contra cavallos, tudo na mesma massa, com o mesmo ardor; as armas brilhando á soalheira, as couraças com reflexos extranhos, toda uma turba a clamar, e os hussards e os caçadores do general Lasalle vieram em soccorro dos couraceiros. 

Tinham-se afastado para um canto do acampamento. Eram quinze mil homens envolvidos n'um massacre; o resto das tropas francezas continha os austriacos; a artilharia do archiduque, lá do alto fazia o seu fogo, ao qual não resistia a artilharia franceza toda desmontada. 

O Danubio corria lá em baixo largo e grosso, passavam barcos carregados de tropas e o inimigo levava já enormes vantagens. Napoleão continuava na sua impassibilidade, certo da victoria como um Deus. 

Tornava-se incessante a metralhada. 

Tudo se envolvia; Lannes galopando no seu cavallo d'um lado para outro sob a metralha, exclamava: 

-- Coragem, rapazes, coragem! Viva o imperador! 

-- Viva o imperador!... 

Lá perto do Danubio a cavallaria do principe austriaco retirava depois de ter feito uma chacina. 

Eram bastos os monos e a noute vinha a chegar. 

O sol ia desapparecendo como um sultão a eseonderse em lençoes de purpura. 

E a batalha, continuava furiosa além em frente d'Essling, na vespera do dia memoravel de Wagram. 

Gomes Freire encontrou-se por momentos junto de Lannes com os seus portuguezes; e o grande marechal francez, sorridente, exclamou: 

-- Firmes, bravos, os portuguezes! 

E ainda accrescentou: 

-- Se nos mantemos ate ao fim do dia, é nossa a victoria!

Lá foi de corrida, com a cabeça deseoberta sob a metralhada inimiga, sorrindo aos generaes, gritando aos soldados: 

-- Coragem, rapazes! É ficar assim até ao fim do dia! 

O grande duque de Montebello, esse Lannes que fôra ferreiro e esperava ser rei, correndo assim por diante das divisões, dava lhes animo e andava exposto, muito exposto, a essa terrivel metralhada que vinha sempre contra o exercito. 

Então um dos seus ajudantes bradou: 

-- Meu marechal, meu general. 

-- O quê?! 

-- Andaes muito exposto... Vêde como as balas veem n'esta direcção... Elles assestam para aqui a metralha. 

-- E então?! 

-- É melhor ficar de pé, meu general! Offereceis menos alvo! 

-- Ora... 

E sorria, clamava: 

-- Não! 

Mas n'este momento uma bala zuniu-lhe aos ouvidos, o ajudante insistiu: 

-- Meu marechal, offereceis muito alvo! 

Então cedeu, apeou-se, atirou as rédeas do cavallo a um soldado, gritando ainda: 

-- Coragem, coragem! 

Porém um estilhaço de uma bala d'artilheria veiu bater lhe em pleno peito, e Lannes cahiu n'um mar de sangue, dizendo com o seu sorriso: 

-- Ninguem foge ao destino! 

D'esta vez foi uma confusão, mas verdadeira confusão; o exercito recuou, e o marechal Bessieres com um coronel, tomaram o corpo de Lannes banhado em sangue. 

Logo a noticia correu com rapidez. Os soldados ficaram paralysados. A gente da velha guarda chorava. 

Augmentava sempre o perigo, ouvia-se exclamações de colera, parecia como uma retirada ao verem passar nos braços dos dois officiaes, o corpo do marechal embrulhado no capote d'um couraceiro em direcção á ambulância que ficava â distancia. 

Elles não o queriam largar; era cada vez maior o perigo. 

O marechal Bessieres, voltou ao cabo d'uns momentos a tornar o commando em substituição de Lannes, e então, fez uma aberta nas linhas austriacas: e correu para o Danubio a tomar uma ilhota. 

Napoleão, estremeceu quando um ajudante lhe disse: 

-- Sire... O marechal duque de Montebello está gravemente ferido. 

Baixou a cabeça por momentos e exclamou! 

-- Avancem os fuzileiros da guarda! 

E de seguida para o velho general Mouton, que estava a seu lado, accrescentou: 

-- Meu bravo, faz ainda um esforço para salvar o exercito... Mas d'uma vez, porque depois dos fuzileiros que te entrego não tenho senão os granadeiros da velha guarda!... São elles o meu eterno recurso que só avançará no caso d'um desastre! Vae!... 

De Lannes nem uma palavra. O collosso concentrava-se n'esse momento supremo. 

Havia então como uma outra vida nas fileiras. Os fuzileiros atacavam, o exercito começou a entrar na ilhota. Chegara a noite; os austriacos retiravam sem munições. Accendiam se fogueiras na linha d'Essling e Aspern que os francezes tinham conquistado após um combate de trinta e duas horas. 

Soou o toque de descançar. Gomes Freire, sosinho, diante do exercito que dormia, diante de todos aquelles que tinham a respiração forte, egual ao ruido d'um vulcão que fosse explodir na terra onde elles jaziam, era o unico a velar. Sonhava grandes sonhos de gloria, nas linhas de Essling, na vespera de Wagram. 







X 



A morte de Lannes 







E Gomes Freire, viu um dos mais estranhos espectaculos n'essa noite de maio, alem na verde ilha de Loban, onde o exercito recolhera. 

O general, foi despertado do sonho por um ruido de passos, estremeceu e voltou-se. Era o imperador que passava com o seu corcel branco, cabisbaixo, 

ao lado d'um ajudante de campo. 

Estendia-se um enorme hospital n'um recanto. Havia mais de dois mil feridos amontoados: e ao fundo ficava a tenda onde tinham reconduzido Lannes. 

Levantava-se da terra como um côro de suspiros, de gemidos, de prolongados ais. Na luz das fogueiras viam-se rostos lividos, membros mutilados, cabeças partidas que descançavam nas pedras, andavam os cirurgiões d'um lado para o outro, andavam açodados, quasi todos com a Legião d'Honra ao peito. Officiaes e soldados jaziam na mesma egualdade, n'essa terra onde o imperador ia passar. 

Napoleão, continuava cabisbaixo, amortalhado no seu casaco branco ao lado do ajudante. 

Mas um official quasi moribundo reconhece-o. 

Ergueu a cabeça n'um esforço supremo e exclamou: 

-- Viva o imperador! e expirou n'um soluço. 

Logo de todos os labios desses feridos, em gemidos dolorosos veiu o brado: 

-- Viva o imperador!

E elle passou a saudal-os n'uma continencia, sem um sorriso, fatal, homerico. 

Parecia que esses dois mil feridos eram tantos outros remorsos na sua consciencia, e passava já de cabeça descoberta diante dos seus homens, que continuavam por entre os ais e gemidos a gritarem: 

-- Viva o imperador!

Lannes, no seu leito improvisado, ao ouvir este brado estremeceu, abriu os olhos, e murmurou: 

-- O imperador...

Os cirurgiões que acabavam de fazer a amputação ao marechal, recomendaram lhe silencio. Porém elle, muito livido, muito fraco, balbuciou: 

-- O imperador! 

Á porta, estava já a figura de Napoleão; olhava o seu marechal. 

Recordou lhe n'um momento o passado. 

Oh! Aquelle ferreiro que elle conhecera, feito duque era a sua imagem; e ia morrer. 

Elle tambem teria de morrer!

E então, commovido, diante dos medicos, diante do ajudante, correu apertar nos braços o seu marechal. 

Gomes Freire, espreitava de parte, ligado aquelle logar, descoberto e commovido ao ver o grande guerreiro abraçado ao outro, disendo-lhe na sua voz tremula naquella hora quando até então fôra ousada e forte: 

-- João... Lannes! Lannes. 

-- Sire!... 

Debalde o marechal buscava corresponder á pressão d'aquelle abraço; nos seus olhos já havia uma nuvem de morte e no emtanto aos seus labios ainda accudia um sorriso: 

-- Sire... Eu vou morrer!

-- Não, duque de Montebello, não. Viverás, e necessario que vivas! Espero em Deus, meu amigo, que viverás!

Deitou um olhar indagador para os os rostos dos medicos e viu os impassiveis, então reparou em Lannes que abanava lentamente a cabeça: 

-- Não, sire... Eu vou morrer! Estava destinado a ir d'este mundo deante d'Essling.. Nunca o julguei nos meus tempos de ferreiro... 

Sorria mais uma vez ao ver o imperador tornar-se subitamente grave: 

Napoleão não gostava d'ouvir os seus officiaes referirem-se ao passado. 

Lannes comprehendeu isso e então, n'uma voz embargada de soluços, exclamou: 

-- Perdão... 

-- Duque, amigo, do quê?! e tornou abraçal-o. 

Mas o marechal como se sentisse a vida a fugir-lhe aos poucos, disse de chofre: 

-- Sire... Ides ficar sem aquelle que foi o vosso mais fiel amigo e o vosso mais dedicado companheiro d'armas! Vivei e salvae o exercito! 

O imperador estava calado, olhava fixamente o moribundo e reparava que nos seus olhos havia como uma supplica. Fez sahir os medicos. Gomes Freire, retirou-se rapidamente do limiar e guardando para sempre a visão d'aquelles dois homens, um que elle vira impavido, no alto do outeiro assistindo á morte de milhares d'homens, o outro que elle vira na excitação da batalha como um bravo. 

Elles lá ficaram face a face, frente a frente. 

Só então, o duque de Montebello, murmurou: 

-- Sire! 

-- Meu amigo, não te fatigues! disse o imperador. 

-- Tudo é permittido a um homem que vae morrer, e eu não vos fallaria se não tivesse a certeza da minha morte breve! 

Napoleão estremeceu, calou-se, deixou-o continuar: 

-- Começa a levantar se contra V. M. uma certa revolta... 

-- Bem sei... Calemo nos, atalhou Napoleão, 

-- Mas, não, sire... Deveis ouvir-me! volveu o marechal. Eu vou morrer... 

-- Porém... 

-- Sire... A França accusa-vos de grandes faltas, de a terdes lançado em milhares de aventuras, de guerras sem nome e sem treguas, que já deviam acabar. Não sois senhor d'uma parte da Europa?! 

-- Sou soldado, Lannes, e quero vencer... 

-- Oh! Sire... Eu não fallo de mim que estou para aqui a morrer, juro-vos... Tenho soffrido muito e nunca vos disse o que hoje vos digo, hoje que as balas austriacas me levaram as pernas e dentro em pouco a vida... Mas salvae a França, sire, salvae-a!... Basta de guerras porque n'ellas vão morrendo todos os vossos amigos e a propria França... 

-- Lannes... 

-- Sire... Lembrae-vos da Italia!

-- Ah! Sim... disse arrebatado. 

-- Pois um dos vossos heroes d'Italia, Saint-Hilaire, morreu... 

Estão entre mortos e feridos quarenta mil homens, dos quaes seis mil 

foram vossos soldados em Italia... 

-- Duque de Montebello, tu mesmo fôste um heroe d'Italia... Mas, amigo, os heroes feriam-se para praticar heroicidades e não para assolarem terras... A França d'hoje é a segunda Roma que vae a resurgir ao voo das minhas aguias. 

-- Sire!

-- Não tenhas receios... A França será grande... 

Lannes, ficou taciturno a desfallecer. 

O grande imperador, parecia excitado, e então, estendia a mão ao marechal e exclamava: 

-- Viverás, João... viverás... Careço de ti, meu heroe... 

Perdoava-lhe aquelle conselho que a ninguem poderia perdoar, e então abraçava-o de novo, beijava-o na face, e sahia lentamente com o olhar fixo no rosto do moribundo. 

Lannes agiiava-se sob as coberturas e exclamava n'um ultimo brado: 

-- Viva o imperador! 

E assim expirou como um gladiador, soltando aquelle grito equivalente ao Avè Cesar d'um legionario romano. 

Então, como se a sua voz fôsse ainda por esses dois mil feridos, d'um ar d'ais e de gemidos, de dores tundas, sahiu a saudação n'um extranho echoar, brotando d'aquellas boccas moribundas: 

-- Viva o imperador! 

E Napoleão, passou de novo á pressa na frente d'elles de cabeça descoberta. 

O ajudante mal o podia acompanhar. 

-- Viva o imperador! Viva o imperador! 

E Gomes Freire, viu-o ainda passar, sumir-se na treva com o seu casaco branco e nos seus passos tragicos; e no silencio da noite ouviu exclamar: 

-- Amanhã damos a batalha!... 

O general ficou cabisbaixo a meditar. E ao seu lado surgiu Candido Xavier. 

-- Gomes... 

-- Oh! Camarada... 

-- Viste o imperador? e perguntou-lhe isto com assombro. 

-- Se vi!... Oh! Mas que extraordinario homem, que extraordinario! 

-- E ainda blasphemavas por servires ás suas ordens... 

-- Ah! Candido, era porque a patria, a nossa pobre patria talvez careça de nós!

-- E elle, o senhor d'essa patria, como de resto será o senhor de toda a Europa! 

-- O quê?! Pois crês?! 

Gomes Freire parecia ter tambem um grande medo d'acreditar em tal, parecia encher-se d'um certo terror ao ouvir o outro dizer: 

-- Creio! 

-- O quê?! Julgas que elle vencerá na Austria?! 

-- Amanhã raiará para elle mais uma victoria!... 

-- E que segurança a sua... Eu já conhecia de ha muito o fanatismo dos francezes por elle, mas não imaginava tanto! No cerco de Saragoça, os recrutas enthusiasmavam-se e exclamavam diante do inimigo: 

-- Viva o imperador! 

-- É como um Deus de victoria! 

-- Com tantos outros chefes que o ajudam! 

-- Os seus marechaes?! 

-- Sim... Eguaes todos elles e esse bravo que Napoleão ha pouco abraçou!

-- Lannes! 

-- O duque de Montebello, grande guerreiro e insolente embaixador, declarou n'um repente. Em Portugal, chegava a rir do regente... Lembro-me bem como lhe chamava apenas mr. du Bézil.

Mas a porta da tenda de campanha abriu-se e um ajudante sahiu de corrida: 

-- Morreu Lannes! Está morto o marechal! 

-- Morto! 

Então os dois portuguezes curvaram as cabeças diante d'esse desastre, ficavam perplexos, quedos, sem alento. 

E como se fossem acostumando já aquelle fanatismo dos francezes, exclamavam a um tempo: 

-- Que dirá o imperador?!

Ouviram n'este momento a voz de Napoleão que bradava com frieza: 

-- Ah! Preparem a divisão para as honras funebres! Senhores generaes, vamos ao conselho! Quero amanhã vencer!... 

No seu leito o morto arrefecia, muito livido, muito estranho na sua immobilidade, d'olhos esgaseados, vitreos, e parecia admirar-se ainda de semelhantes palavras. 

Havia então uma carreira para a tenda. Levantavam-se soldados que choravam. 

Das bandas do Danubio, veiu um vulto de mulher a qual as avançadas perguntavam: 

-- Quem vive?! 

-- A França, disse ella em voz sumida. 

Assim vinha pelo acampamento como se procurasse alguem mas sem fazer interrogações. 

No meio dum bosque tinham-se accendido fogueiras e estabelecido uma linha de sentinellas. Estavam lá os marechaes, ia para lá o imperador. 

A mulher parou, olhou aquella figura pequena, envolta no seu casacão claro e ia approximar-se. 

Porém affastava-se e ella exclamou: 

-- Napoleão!... É Napoleão! 

Na sua voz havia mais rancor do que admiração, havia como uma colera que não conseguira abafar. 

E de toda a planicie, sahia o mesmo grito sempre egual, sempre vibrante, sempre profundo. 

-- Viva o imperador! Viva o imperador! 

Os dois portuguezes ficavam a analysar a mulher que se encaminhava para a tenda de Lannes, vagorosa e trágica, como uma negra phantasma. 





XI 



Wagram 







Um fremito passou pclo exercito. Levantava-se a manhã e quando a soldadesca viu claro, estremeceu e soltou um grito formidavel que foi accordar os austriacos: 

-- Viva o imperador!

Napoleão, estava de bom humor, sorria, não parecia o mesmo taciturno dos outros dias, sobretudo por esse dia de brumas que se erguia para uma batalha formal. 

Era uma immensa linha de tres leguas esse exercito que se defrontava com o outro; via-se ali uma firmeza extranha, notava-se um pulso de ferro que tudo tentava e tudo dispuzera. 

Os austriacos tinham entre as tropas, no centro das forças, os seus brilhantes couraceiros e a reserva dos seus granadeiros, que se estendiam n'um semi-circulo desde Wagram ate Gcrasdorf. Á direita estava o terceiro corpo d'exercito, com o qumto e o sexto, á esquerda estavam as tropas do principe de Rosenberg. 

A linha franceza, n'um habil defronto, seguia exactamente os contornos da linha inimiga. 

Em face da ala esquerda dos austriacos tinha-se collocado o marechal Davout, para responder ao principe de Rosenberg com o marechal Oudinot, que o auxiliava defrontando-se com as tropas de Hohensollern. E para a esquerda, vis-à-vis de Wagram, estava Bernadotte com as saxonias encarregadas de manter a dobrada reserva de granadeiros e couraceiros. E mais para a esquerda, no extremo da linha, collocara-se a divisão de Massena, destinada a conter os regimentos inimigos. 

Ao centro, para traz do exercito d'Italia, o imperador tinha deixado a guarda imperial, os bavaros e o resto dos couraceiros. 

O dia era pardo, as tropas não se destacavam, conservavam-se risonhamente, agora por esse mez de maio apagado, sem as alegrias de luz, como se quizesse presagiar a Napoleão uma formidavel derrota. 

No meio do estado-maior, elle, assestava o seu oculo, ficava assim uns momentos passeando por toda a linha, e no fim baixando-o, voltou-se para um dos seus officiaes e exclamou: 

-- Então, Macdonald... 

O outro, uma bella figura marcial, estremeceu. Era a primeira vez desde dois annos que o imperador lhe dirigia a palavra, como se quizesse mostrar-lhe que perdoava a guerra, as palavras contra o imperio que o republicano proferia e que tinham chegado aos ouvidos do imperador. 

-- Sire... 

-- Que dizes a esta linha de batalha?! Não notas a nossa superioridade?! 

Como elle se calasse, Napoleão apontou-lhe uma por uma as divisões e concluiu por dizer:

-- A ala austriaca, sobretudo a ala direita, é fraca; a vossa com Oudinot e Davout é mais forte! Vê ainda a ala esquerda d'elles a que terá de responder Massena... Levamos vantagem! O centro é meu, com mil granadas, e tenho comigo os bavaros, os saxonios e a guarda imperial... Isto é, tenho aqui a melhor cavallaria do mundo! Já vês que posso dar batalha... 

E sorria, passava a mão pelo hombro de Macdonald, que se admirava, balbuciava por fim: 

-- Esse pobre Lannes!

Mas logo, como se tudo aquillo não o interessasse já, tornou: 

-- Macdonald, toma o cominando do exercito d'Italia! 

Voltou-lhe as costas e ficou de novo a analysar o seu exercito e o inimigo; e sorria, murmurava: 

-- Bem fiz eu em resolver tudo de repente, o archiduque Carlos nem teve tempo de formar os seus homens em linha de batalha... 

E fervia-lhe o sangue, queria o ataque decisivo, chamava os quatro generaes que o acompanhavam sempre e acabava por dizer. 

-- Daremos hoje a batalha... Chamar-se ha a batalha de Wagram... Vêdes alem aquelle planalto?!... É Wagram, onde o inimigo se concentrou... É necessario envolvel-o, ir ao seu encontro... E distribuiu-lhes os papeis na grande scena que se ia desenrolar... Tu, Oudinot, com a tua gente attacas, o exercito d'Italia do commando de Macdonald passa pelo meio do teu e dos corpos de Benardotte que irá directamente para Wagram! 

Ninguem objectou; o imperador sorriu e elles partiram sem palavra. 

Iam extranhamente preoccupados com aquellas maneiras alegres do imperador, por esse dia pardo, por esse dia cinzento, tristonho e exquisito em que queria dar batalha. 

Tocavam as cornetas; o pequeno corpo de portuguezes lá estava na divisão, entre as legiões estrangeiras que, á excepção dos bavaros e dos saxonios, se uniam, emquanto estes, como experimentados e bravos cavalleiros, ficavam junto do grande imperador. 

E Gomes Freire tocou no braço de Candido Xavier, a indicar-lhe a mulher da vespera, que passava no meio do acampamento. 

Era alta, de porte distincto e vestia de luto; tinha já brancos alguns cabellos, no seu porte havia alguma cousa d'uma matrona romana, com a sua maneira grandiosa de caminhar, envolta no seu manto regro. 

Parecia procurar alguem e não se atrevia a fazer a mais ligeira pergunta. 

Por fim, parou, olhou aitentamente em roda e deparou com a 

legião estrangeira; viu Gomes Freire que a olhava e acercou-se. 

N'uma lingua doce, com um grande tremor na voz, perguntou: 

-- General, podeis dizer-me onde se encontra a legião polaca?! 

O portuguez levou a mão á barretina n'uma saudação, e disse: 

-- Além á direita, minha senhora, além á direita, sob as ordens do seu chefe e encorporada com o 19 de linha, divisão do general Dupas! 

-- Obrigada... 

E saudou o por sua vez, avançou de uma fórma grave, como resignada, em direcção ao logar indicado, passando impavida pelos soldados que a olhavam, com o seu bello busto real, com os seus passos firmes, com o seu porte nobre, os seus cabellos brancos e o seu mantão negro. 

Adiantava-se o dia; ella chegava, emfim, diante da legião polaca. Os seus olhos dirigiam-se logo para todos aquelles homens novos que além estavam e que ella via agora atravez d'um veu de lagrimas. 

Um joven official, ao vel-a, estremeceu no seu posto; ella sorriu-se, elle deu um passo para o seu chefe: 

-- General... É minha mãe... Deixae que a abrace... 

Não teve tempo de dar a resposta. Tocavam as cornetas. Dupas mandava avançar rapidamente para se passar o riacho pouco largo mas fundo, que se chamava Russbach. O 19 de linha soltou o grito de guerra que era como um symbolico brado de victoriar 

-- Viva o imperador!... 

E a marcha começou de repente em direcção ao rio, a marcha fez-se rapida, de corrida, para se ir ao encontro da divisão austriaca acampada do outro lado. 

O brado era sempre formidavel e sempre o mesmo, n'um resoar extranho que se alongava pelos campos fóra: 

-- Viva o imperador! 

No momento em que os polacos seguiam o 19 de linha, a mulher atirou se para as fileiras, exclamou: 

-- Filho, meu filho! 

O joven official parou na sua corrida, voltou-se por um momento e exclamou: 

-- Oh! Minha querida mãe! 

Cahiram por momentos nos braços um do outro emquanto as tropas chegavam ao rio. 

Ia fazer-se a passagem sob aquelle céu pardo, no enevoamento do dia tristonho; e havia homens que cahiam á agua, ouviam-se cornetas, soavam gritos terriveis de commando e de incitamento: 

-- Avançar! Avançar! 

-- Filho... Tu não vaes... exclamou a senhora apertando-o ao peito. 

-- Mãe! 

-- Não vaes. Vem commigo, fujamos! Não podes ir assim morrer depois de teus irmãos, de teu pae e de meus irmãos, de todos esses bravos que cahiram sob as balas francezas, defendendo a sua terra hoje conquistada! 

Perto d'ella, Gomes Freire, não perdia uma palavra da conversação, d'aquella anciosa conversação que a mulher estabelecera. 

-- Mãe, não... Seria uma cobardia! Vae-te! 

-- Não... Teu pae morreu amaldiçoando o imperador, esse bandido sem fé e sem lei; teu tio morreu ao lado de teu pae... E tambem no mesmo dia os teus irmãos morreram... Fiquei comtigo, recordaste?! 

-- Sim... Foi ha tres annos!

-- Tinhas dezeseis... Ainda não podias combater... 

-- Porém agora... 

-- Agora, podes combater, mas não ao lado dos assassinos dos teus! 

-- Ah! Mãe, deixae-me partir... Seria cobarde! Seria terrivel... Lá vão a passar o rio e eu vou... 

Largou-se dos seus braços, fugiu-lhe sem se voltar, emquanto ella conservava a sua altiva maneira, erecta, firme, a deixar correr livremente as lagrimas: 

-- Vae para a morte! 

Gomes Freire, sentiu então uma profunda piedade, e exclamou: 

-- Vosso filho, deve viver, senhora... Deixae-o ir ao combate... Olhou o general, abanou lentamente a cabeça e disse com firmeza: 

-- Não!... Elle vae morrer!... 

Lá em baixo, a soldadesca passava o rio a vau, havia já homens que se affogavam sob a metralhada austriaca que começava: 

-- Viva o imperador! Viva o imperador! 

E uns cahiam feridos pelas balas, outros ficavam na margem, ao passo que ainda outros morriam affogados ao som d'aquelle brado: 

-- Viva o imperador! 

Havia alguns que já corriam para o planalto segumdo o seu general, sob as balas e sob a metralha. 

Os corpos austriacos a este brusco ataque tinham-se occultado por detraz das barracas de campanha e faziam um fogo cerrado e vigoroso. 

Lá para traz, tinham formado um quadrado. 

Mas os dois regimentos, o 19 e os polacos, caminhavam sempre para o assalto, cheios de bravura, e dentro em pouco desembuscavam trezentos atiradores inimigos, lançando-se logo para o quadrado. 

A divisão polaca, atirou-se de roldão para um dos quadrados, e viu-se então o joven tenente que ha pouco abraçara sua mãe, ser o primeiro na avançada, entrar valentemente na cerrada floresta de bayonetas inimigas, que os seus soldados desbastavam, e acabou finalmente por se apoderar d'uma bandeira que desfraldou com um largo gesto, exclamando: 

-- Viva a Polonia! Vivam os polacos! 

Os francezes do 19, ao verem aquelle prodigio, continuaram os gritos. 

-- Viva a legião polaca! 

Agora vinham outros regimentos em reforço, chegavam alguns granadeiros e estava quasi cortada a linha austriaca. 

Mas de repente, soou fogo pelas costas dos regimentos, um fogo altivo e certeiro. 

Houve um alarme, um momento de surpreza, e Dupas bradou: 

-- Mas d'onde surge agora o inimigo! 

E a subitas, por entre a neblina, appareceram as duas columnas do exercito d'Italia, uma commandada por Macdonald, outra por Grenier. 

-- Ah! tomam-nos pelo inimigo! volveu o general. 

E mandou fazer o toque de prevenção. Logo cessou o fogo. Os francezes tinham comprehendido a tempo qual a sua missão. 

Juntavam-se e correram sobre os austriacos que fugiram espavoridos, emquanto com uma precisão mathematica Bernadotte vinha subindo para Wagram e Oudinot do lado opposto operava o mesmo movimento 

Dupas ficou no mesmo sitio como chefe das columnas avançadas; e o corpo do exercito, bem collocado, Já ia dominando com vantagem os austriacos. 

O joven tenente polaco, segurando sempre a sua bandeira, estava radiante e sorria. 

Por fim vem uma ordem do general. Era necessario um reconhecimento. 

-- Marche, meu bravo! gritou-lhe o chefe. 

Tomou Vinte soldados das fileiras e foi com elles para a frente. 

Porém uma fusilada resoou, uma enorme fusilada. 

Os austriacos embuscados tinham feito fogo e fugiam espavoridos da sua propria audacia. 

Dez homens tinham cahido; entre elles estava o joven tenente com o coração varado. 

Um coronel ajudante de campo do imperador chegava de corrida, gritava para o general: 

-- Amigo Dupas... O imperador manda bivacar. 

-- O quê?! 

-- Sim... Manda bivacar... Repare nas tropas... O general olhou e ficou surprehendido. 

As tropas tinham-se paralysado, formavam-se bivaques. 

-- Mas não é um erro?! interrogou pasmado. 

-- Um erro! volveu o coronel quasi offendido. Napoleão nunca erra!... 

Depois, com um novo sorriso desolado e triste, perguntou: 

-- Onde estão os polacos?! 

-- Alem com o 19 da linha... Conheceis um tenente Alexis?! 

-- Não... Ah! Sim... Vieram darme o seu nome para a ordem do dia... Tomou uma bandeira... 

-- Ah! Um bravo! É que uma pobre mulher se approximou ha pouco de mim e me pediu para saber de seu filho que partira com os polacos e se encontrava na vossa divisão... 

-- É mãe?! 

-- Sim... volveu o coronel do mesmo modo. 

-- N'esse caso, amigo, dizei-lhe que seu filho foi um verdadeiro bravo, que o seu nome será citado na ordem do dia e que se lhe concede o posto de capitão... 

Depois, n'outro tom, accrescentou: 

-- Mas dize-lhe tambem que elle está morto! 

-- Morto?! 

-- Sim, morto no campo, com honra, n'uma avançada! É a maior gloria d'um soldado! 

-- Ah! E essa pobre mãe, que vae dizer?! 

-- Ouve os soldados, ouve... 

O brado eterno, tremendo, glorioso e glorificador, sahia dos labios da soldadesca n'uma excitada impressão: 

-- Viva o imperador! Viva o imperador! 

E já vinha a noute novamente a cahir, accendiam-se fogueiras em volta dos bivaques. 

Gomes Freire, viu mais uma vez passar a mulher de lucto, prestes a cahir de fome, de cansaço. E então, estendeu-lhe os braços, bradou: 

-- Senhora, por Deus... Escutae-me um momento! 

Ella olhou-o, reconheceu-o e teve um momento de quietação nos braços do general, a pensar no filho, no heroe, nos braços d'outro heroe. 





XII 



Maldito seja 





Com a maior coragem ella avançou para o meio da tropa o seu busto divino, o seu corpo real de deusa e de soberana. 

É que um official, um hussard, ao passar n'um galope prodigioso respondera á sua pergunta, aquella eterna pergunta: 

-- Onde cahiu elle... Onde cahiu?! 

-- Além no topo, junto á avançada!... 

Em volta a noute estendia o seu manto, havia paz entre aquelles dois exercitos que só esperavam que Deus mandasse a aurora para se atacarem. 

Havia fogachos em volta, nos cabeços, nos bivaques improvisados; levantava-se como uma nuvem em volta de cada fogueira; e os homens guardavam-se uns aos outros, as sentinellas encostadas ás armas, com as bayonetas luzindo, perguntavam sempre: 

-- Quem vive?! 

Ella, atravessava as linhas das atalayas e ás suas perguntas respondia com um brado: 

-- A França!

Mas ao dizer aquella palavra, era como desesperada, terrivelmente desesperada a morder as syllabas. 

Tinha a recordação dos seus mortos nos campos pelo granizo da metralha; elles os polacos fortes que eram de raça real e tinham até então vencido; e viera essa França, ou antes esse imperador, demonio da victoria, com os seus canhões, com as suas forças, com todos aquelles homens armados até aos dentes a destruir-lhe a patria, a familia, o lar. 

Era ainda o nome d'essa nação que devia pronunciar para chegar junto ao corpo do filho, do desventurado assim arrancado aos seus braços para vir luctar, perder-se além n'esse campo de Wagram logo á primeira investida e para a gloria do corso. 

-- Oh! Meu Deus! Meu Deus, tu és injusto. 

Ia a arrastar o seu vestido negro, o seu lucto, ia por ali fóra, calcando as hervas e calcando sangue os seus olhos já não procuravam o Ceu mas sim o caminho, e os seus labios só sabiam dizer: 

-- Oh! Meu Deus, Meus Deus, tu és injusto! 

-- Quem vive?! Quem vive?! 

-- A França! murmurava para que a deixassem passar. 

Por todo esse valle, por esse campo, no circuito vasto das fogueiras, ella sentia francezes, sentia um exercito a dormir, e desejava que sempre ficasse assim paralysado, d'armas ensarilhadas, sem energia e sem movimento, quedo, miseravel. 

Chegava ao topo do cabeço onde se dera o combate; dois soldados apontaram-lhe bayonetas ao peito: 

-- Quem vive?!... 

Sorriu, reconheceu que eram polacos as vedetas e então desabafou, disse como n'uma vingança: 

-- Polonia! 

-- Quem vive... balbuciou ainda um d'elles cheio de medo. 

-- Sim, a Polonia, meus irmãos... 

Reconhecerem-na, murmuraram: 

-- Chegaes tarde... 

-- O quê?! O meu filho! disse ella sem uma lagrima. 

-- Está alem... 

Apontaram um sitio na terra revolvida de fresco. 

-- Ha muito... 

-- Não ouvistes vinte tiros n'uma só descarga... 

-- Ah! Ainda havia sol... 

-- Sim... Está ali e vieram todos acompanhal-o... Choravam... Veiu o general, veiu o marechal Bernadotte representar o imperador! 

A mulher de lucto, aquella tragica apparição, deitou-lhes um olhar e murmurou: 

-- Oh! o imperador, o monstro que ainda se se faz representar por outros monstros em funeraes das suas victimas... 

-- O imperador é bom, é grande! balbuciou um polaco. 

-- É um heroe... accrescentou o outro. Outro dia passou em face da nossa da legião, olhou nos bem e sorriu, foi-se a falar com o ajudante e ainda ouvimos que dizia: 

-- «Bellos, os pequenos polacos!...»

Sobre a terra revolvida de fresco, a pobre mãe deixava se cahir. 

Elles commovidos ficavam a distancia; e ella soluçava: 

-- Filho, meu pobre filho, tu és victima como teu pae, como teus irmãos, como os teus parentes, como eu e como aquelles que já se curvam diante do monstro!... Filho, dorme o teu somno longe da tua patria que eu te vingarei!... 

Perto d'ella acabava de surgir um vulto; e a mulher continuava: 

-- Sim eu te saberei vingar !... Morreste, pobre creança, sem teres conhecido o amor, as ternuras, as grandes alegrias da vida... A metralhada levou-te e morreste defendendo um tyranno... Mas, pela santa imagem da Virgem, eu te vingarei!... 

Estendeu a mão e ia bradar: Juro... 

N'este momento, ouviu uma voz breve que exclamava: 

-- Não jureis, senhora!... 

Voltou-se deveras pasmada e ao claro da fogueira, reconheceu o imperador. 

Era bem elle, com o seu casaco claro, a sua farda de caçadores, o tricorne enterrado na cabeça e que a olhava de frente, como uma aguia a fascinal-a. 

A pobre mãe quiz olhal o tambem n'um desafio. 

Porém o imperador cruzou tranquillamente os braços e exclamava de novo: 

-- Que mal vos fez o imperador Napoleão? 

-- Sire... 

-- Fallae! ordenou com excessiva brandura. 

Então a polaca, olhou o deveras altivamente, encheu-se de coragem diante da sepultura do filho e volveu: 

-- Napoleão que mal me fez?! Mas todo o mal da minha vida... 

-- Fallae, dizei... 

Parecia agradar-lhe essa conversa a sós, pela noute, com essa mulher bella e altiva junto d'um campo, em face do seu grande exercito adormecido; parecia-lhe isso d'um goso extranho e ficava a ouvir a resposta d'ella: 

-- Sire, viviamos tranquillos, ou antes, viviamos em lucta aberta com a Russia! 

-- Sim, eu cheguei a uma das vossas fronteiras... 

-- E n'ella morreram todos os meus, excepto aquelle que ali jaz! 

-- Durante as minhas campanhas tenho visto morrer muitos amigos... 

-- Ah! E quereis comparar?! exclamou ella com incrivel audacia. 

-- Sim!... 

-- Sire... Mas não podeis fazer tal... Bem vêdes o que é a dor terrivel, extranha, grandiosa e intensa duma mãe victima e martyr a um tempo, bem vêdes o que uma esposa soffre ao ver morrer o marido... 

-- Ah! Tendes então apenas concentrado no vosso coração esses amores?! 

-- Pois que mais?! Que mais posso ter do que esses amores, os quaes eram a minha vida, eram tudo para mim! 

-- Mas não vêdes que o mundo para caminhar precisa que morra muita gente...?! 

-- Sire... 

-- Sim... Morreram os vossos, morreram outros... Em todas as batalhas deixo um amigo... Ainda ha pouco morreu Lannes, um bello companheiro, um valente soldado! 

-- Ainda ha pouco morreu o meu filho, atalhou ella. O meu filho, sire, que era uma creança e um soldado... 

-- Em cada assedio morrem dez tão bravos como elle... 

Feriu-lhe ainda o seu amor de mãe; ella soltou um grito terrivel, encarou o imperador e bradou: 

-- E ainda o dizeis, senhor?!... Ainda o dizeis?! Pois não vêdes que esses bravos a morrerem são outras tantas maldições cahindo sobre vós... 

Encolheu os hombros, sorriu, disse: 

-- Cumpro na terra uma missão! 

-- Ah! Misera missão ella é... Missão toda de morte, toda de sangue! A França um dia terá uma paga para vos dar!

-- Que dizeis?! perguntou o grande soldado, com certo embaraço, tomado das suas habituaes superstições. 

-- Digo que a França que hoje vos adora, vos odiará no dia em que cada familia tiver um parente morto nas guerras a que arrastaes essa nação, que nem é vossa! 

Nunca pessoa alguma se atreveu a fallar-lhe assim. 

Elle estava pasmado; via que aquella mulher não temia cousa alguma, que não tinha na vida mais esperanças e por isso fallava com desassombro. Era a primeira vez que se ouvia condemnar aviltamente, e por um calculo, o imperador, desejava pesar as rasões, queria ouvir tudo aquillo, queria por todos os modos receber d'alguem as verdades, que só alguns marechaes muito intimos e muito respeitosos se atreviam a dizer-lhe. 

A polaca, continuava: 

-- Olhae, senhor, que nem é vossa essa patria... Sois um estrangeiro dentro d'ella... Sois um corso e tendes a audacia d'elles! O vosso genio militar é apenas um destino que terá tambem o seu fim!... E então quando chegar o dia da vossa queda!... 

-- O quê?! e riu a disfarçar a commoção. 

-- Sim, quando chegar o dia da vossa queda, deveis lembrar vos que em cada aldeia por onde passaste victorioso, deixaste milhares de sepulturas, e que os parentes desses que n'ellas jazem vivem ou legam a sua maldição a cahir sobre a vossa cabeça! Napoleão, sereis vencido como mortal que sois... Não vos julgueis feito da divina essencia dos deuses, que vos enganaes... Tendes na terra um destino?! Oh! Cumprido elle virá a decadencia... 

-- Mulher! gritou elle, espavorido. 

-- E então as vossas batalhas, as vossas glorias, as vossas conquistas, não serão bastantes para apagar a vergonha da vossa derrota... 

-- Eu sou o imperador! disse Napoleão para a calar. 

Mas a mulher, implacavel como um destino, accrescentava: 

-- Eu sou a mãe a quem mataram o filho! 

-- Mulher! 

-- Sire! 

-- Pois não vês que fui generoso para comtigo ouvindo-te... 

-- Não vos chamei! declarou ella, para dizer de seguida: 

-- Que tendes a dizer?! Não é verdade que tenho este supremo direito de vos fallar assim?!... 

-- Mulher, vaes sahir do acampamento, vaes passar alem para as linhas austriacas!... Tu és a fatalidade... 

Havia um certo terror na voz do grande imperador, que cheio de superstição, por cousa alguma do mundo daria batalha com essa mulher ali entre os seus. 

-- Ah! Se eu fôra a fatalidade como vos olharia, como vos tomaria para mim! 

-- Soldados, disse o imperador para as sentinellas que acorreram aquella voz. 

-- Conduzam com todas as honras esta dama até ás linhas austriacas... 

Olharam-se; mas obedeceram desde logo, levaram-na para junto da fogueira. 

Com um ulimo olhar molhado para a sepultura do filho, a polaca, erguendo altivamente a cabeça, magnifica na graça do seu busto real, voltou-se para o imperador e bradou: 

-- Terás amanha talvez a tua mais brilhante victoria em Wagram, mas lembra-te de mim e de meu filho morto, quando alguma coisa te recordar o nome d'essa batalha... 

Affastou-se no meio dos soldados, a enxugar os olhos e o imperador, ficou a meditar. 

Depois desceu por entre os soldados que dormiam, foi-se para o alto em busca da sua tenda de campanha a murmurar: 

-- Quando alguma cousa me recordar o nome da batalha que vou ganhar... 

Preoccupado diante d'esse enygma, taciturno, aborrecido, o imperador mal poderia julgar que a polaca prophetisava a derrota, o dia tragico, como prophetisava a gloria do dia seguinte em Wagram... É que Waterloo começava do mesmo modo. 

Ella atirava talvez aquellas palavras no seu desespero, na sua colera, mas Napoleão não as esquecia, ia a meditar n'ellas para a sua tenda. 

Já lá no alto, com um magnifico exercito aos pés, n'uma bella posição, prompto ao assalto, elle, senhor da França, da Hespanha, da Hollanda, de Portugal, da Italia, de quasi toda a Allemanha e que ia vencer a Austria, elle, que tinha um Papa aos pés, que fazia reis, que fazia duques, marechaes, principes e cardeaes, baixava a cabeça e ficava de braços cruzados olhando os campos de Wagram onde se ia ferir a batalha e onde os seus homens repousavam. 

-- Oh! Aquella mulher! Aquelle lucto que lhe prophetisava derrota?! 

E cerrava as mãos violentamente, o grande senhor da Europa que buscava avassalar o mundo. 

Jamais descia a analysar a sua vida passada, porque n'uma extrema agitação vivia e mal tinha tempo para evocações. Mas n'aquella hora chegou-lhe tudo: a sua estada em Brienne, a sua pobreza, a sua miseravel anciã de viver e a sua cobarde resolução de se matar. A revolução, as luctas, a Italia, as victorias, o enthusiasmo da França e o consulado. De seguida, a ambição d'um imperio de que seria o senhor. Assim conseguiu por fim, o direito de dispor de destinos e ser como um Cesar, egualal-os na conquista, fazendo da Europa 

o seu imperio. 

Ia conseguil o; faltava-lhe apenas essa extensão da Russia que pensava em fazer sua alliada e dar ao seu czar o titulo de imperador do oriente com todas as conquistas que realisassem, e a Inglaterra que buscava derrotar, ficando então o Cesar do occidente. 

Era n'esse momento que aquella mulher, prophetisa da desgraça, vinha annunciar-lhe cousas terriveis! Oh! Era necessario reagir, era necessario vencer! 

Clareava a manhã; entrou na barraca da campanha, ordenou ao seu turco que chamasse os generaes e os ajudantes. Ficou ainda a pensar um momento na mulher, na mãe d'esse pobre polaco que morrera como um bravo Entravam os seus ajudantes, entravam os marechaes, e tocou a alvorada. 

D'ahi a pouco, n'um impeto estranho, as tropas reuniram-se, iam de roldão a travarem a memoravel batalha em que o sol raiava a annunciar a victoria, apesar do dia ser pardo. 

-- O sol d'Austerlitz, soldados! bradou Napoleão. 

-- Viva o imperador! gritou o exercito como um só homem. 

E lá entre os austriacos, a mulher de lucto, bradava por sua vez: 

-- Maldito seja! Maldito seja! 

Lavrava a desordem entre os austriacos, o principe João, <marca num="*" pag=240> o chefe do exercito, passou de corrida e ouvia a clamar. Voltou-se e disse: 



<nota num="*" pag=240> principe de Leichentenberg. </nota>



-- Sim, que seja maldito com toda a sua familia! 

E mal sabia que dentro em pouco, Napoleão lhe pediria uma parente, como signal de paz, d'alliança e bondade, sígnal que elles viram como a ambição de se entroncar nas velhas raças, elle que era das mais velhas de todas: a dos deuses! 





XIII 



Batalha de gigantes 





Era um longo lençol de neve que cobria as casas, que cobria os caminhos e os destroços, neve que cahira sobre a cidade que os russos tinham começado a 

abandonar n'esse dia memoravel da batalha de gigantes. 

Moscow, cahira emfim em poder de Napoleão. Era como o fim da epopea; elle agora era o vencedor quasi em absoluto de toda a Europa. Os seus exercitos 

estendiam-se de extremo a extremo excepto pela Inglaterra onde jamais um soldado francez puzera o pé de vencedor. A grande lucta parecia prestes a terminar. Restava-lhe fazer o bloqueio. Tinha mil probabilidades contra uma de ficar victorioso. 

Em Portugal e Hespanha como na Allemanha e na Russia, andavam os francezes, andavam na Hollanda, na Suecia que ia ter como rei um general do imperio. <marca num="*" pag=241>



<nota num="*" pag=241> Bernadotte </nota>



Assim era o grande sonho realisado. 

Agora no ruido das salvas, ao som da artilharia, diante do exercito, Napoleão, o grande, entrava em Moscow. 

Nevava, nevava muito. A neve em grossos blocos, apagava o sangue e sepultava os cadaveres. 

Havia por todos os lados uma desolação na luz parda. 

E a bandeira franceza com as suas águias já tremulava sobre o palacio do czar, já marcava a dominação. 

A casaria era toda de madeira, uma enorme cidade toda assim formada e na qual os habitantes se recolhiam quando os francezes passavam ao som das salvas e dos sinos que tocavam saudando o grande imperador por esse mez de setembro de 1813. 

Era magnifico esse palacio do czar, em Kremlin, com os seus aposentos ricos, com os seus moveis caros, com toda a opulencia barbara d'um luxo asiatico, com toda a soberba d'um paço do mais poderoso dos soberanos e que o abandonava ao ser vencido. 

Napoleão, ao entrar sentira uma alegria intensa, uma enorme alegria. Os passos dos seus officiaes, ora soavam nos mosaicos das salas, ora se abafavam nos tapetes opulentos. 

Então elle, regelado, cheio de frio, chegou á varanda, olhou a cidade cujas torres e sumiam na laz baça. Teve nos olhos um lampejo, em baixo os seus homens gritavam: 

-- Viva o imperador! 

E nem uma só voz de slavo se levantou ante aquelles quinhentos mil francezes que entre si continham as legiões dos povos vencidos. 

As alas do estado maior, formadas até aos aposentos imperiaes que Napoleão ia habitar, tinham como uma alta gloria nos seus movimentos, nos seus olhares. 

-- Senhores, onde está o marechal Ney?! perguntou o imperador. 

E logo, cem homens, os officiaes, os grandes, todos os que viviam com o imperador, exclamaram: 

-- Ahi vem Ney! 

-- Oh! meu amigo! 

Napoleão que de resto era pouco expansivo, atirou-se aos braços do vencedor de Moscow, apertou-o comsigo, exclamou de novo: 

-- Oh! meu amigo! 

Era a maior das honras, a mais cabal e a mais completa das demonstrações d'apreço. 

O imperador, sempre radiante, sentindo cahir lá fora a nevada, exclamava de novo: 

-- Principe, tens aqui os aposentos da familia real russa! 

-- Sire! 

-- O que, meu amigo?! 

-- Sire, é que sou apenas duque d'Essling! 

-- Principe de Moscow d'ora avante! 

-- Eu?! 

-- Sim, meu bravo Ney, tu... Parece que vou ter necessidade de fazer muitos reis!...

E tomou-lhe o braço, levou-o comsigo por entre o pasmo do estado maior. 

Ney, estava assombrado tambem ao ouvir o imperador dizer-lhe: 

-- Senta-te! 

Indicava-lhe uma cadeira junto á sua na sala opulenta e começava: 

-- Ney, meu amigo, tu és principe e serás rei!

-- Mas... 

-- És o bravo dos bravos e deste-me uma victoria com a qual não contava... Via que era impossivel vencer... E no emtanto, tu, meu bravo, venceste... Por isso és principe e serás rei... 

-- Eu rei?! 

-- Tu! 

-- Mas de que estado, sire?! 

-- Tenho tantos estados! 

-- E algum rei me adoptará como a Bernadotte?!... 

Ria; achara sempre que essa adopção feita pelo rei da Suecia ao marechal francez era como alguem que buscasse o outro que era um heroe e não devia acceitar senão o que conquistasse com a sua espada. 

Mas o imperador, de muito bom humor, volveu: 

-- Acaso precisas ser adoptado?! 

-- Porque não?! 

-- És um valente! És um grande general! A Russia vae ser nossa e tem tantos estados... 

-- Sire!

-- Não me agradeças... Tenho ahi ducados de que farei reinos... A Filandia, o grão ducado da Filandia será un bello reino para ti! 

Ney, curvava a cabeça e ficava pensativo. 

O imperador continuava a desenvolver os seus sonhos, entrava a fallar no que esperava: 

-- Logo que tenhamos vencido d'uma vez a Russia o que nos resta?! 

-- Sire! 

-- O quê?! 

-- A peninsula move-se... 

-- Irás á peninsula! 

-- Sire. 

-- O quê?! 

-- Chamaste-me ha pouco o bravo dos bravos... 

-- Sim... 

-- Deixae que vos diga então uma cousa! 

-- Falla! 

-- Eu tenho, medo! 

Napoleão, soltou uma gargalhada e volveu: 

-- Tu?! 

-- Sim, sire, tenho medo d'essa peninsula extranha que é um vulcão! 

-- Não o creio, principe! redarguiu elle do mesmo modo. 

-- Podeis crer, podeis acreditar! Juro-vos que sinto isto! 

-- Mas porque?! 

-- Porque?! Porque ouvi semelhante cousa... 

-- Mas a quem?! 

-- A officiaes portuguezes que andam na legião! 

-- Ora, uns patriotas ciosos da sua patria! 

-- Não, sire! 

-- Mas esses officiaes acaso têem o teu valor?! 

-- Ah! sire... É que ha um entre elles que a Russia conhece! Um bravo tão grande que o seu nome marca-se na historia d'este imperio! 

-- Oh! Mas aonde está esse heroe que eu não conheço?! perguntou de repente com um sorriso desdenhoso. 

-- Está alem com a sua legião e fallei-lhe... 

-- Como se chama. 

-- Gomes Freire! 

-- Não conheço! exclamou muito cheio de curiosidade. 

-- Tinha-o deixado com o commando d'um regimento mas acho-o superior a isso... Mandae que venha para o apresentar a V. M. 

-- Que tem elle feito! Dize o que tem elle feito?! 

-- Conheço só a sua vida na Russia, onde alguns officiaes o conheceram. 

-- É celebre! 

-- Mas como veiu um portuguez para aqui?! 

-- Ignoro tambem como para aqui veiu... 

-- Então... 

-- Apenas posso dizer que foi elle o vencedor de Oczachow com os russos, que foi elle quem expulsou os turcos da fortaleza n'esse tempo glorioso de Catharina II... 

-- Da imperatriz?! 

-- Sim, sire! 

-- Mas conheceu a então?! 

-- Dizem-se muitas cousas. 

-- O quê?! Interessa ella o teu heroe?! volveu Napoleão. 

-- Diz-se mesmo que foi um dos amantes da real imperante! 

-- Elle! 

-- Sim, sire!

Napoleão estava pasmado. Achava que tomar uma fortaleza, era cousa natural mas extranhava muito que um general fosse amante duma imperatriz tão celebre, tão grande que ficava na historia coberta de gloria. 

-- Conta tudo! 

-- Gomes Freire, começou elle, venceu Oczachow como já vos disse sire! 

-- Bem... 

-- Era então o mais bello e mais ousado! 

-- Sim?! 

-- Houve mesmo quem encommendasse a um soldado a sua morte! 

-- Oh! 

-- Sim, sire, um outro cioso da sua gloria! 

-- Porém, tudo se deseobriu a tempo! Não o assim?! 

-- Sim, sire, tudo se descobriu a tempo e então... 

-- O quê?! 

-- Os miseraveis foram castigados por ordem da propria imperatriz... 

-- Soberbo! 

-- Chegou ao extremo de o fazer cavalleiro de S. Jorge, sabeis?! 

-- Ao general?! 

-- Sim, sire... Lançou-lhe ao pescoço esse collar, deu-lhe uma espada d'honra, tornou-se um verdadeiro grande da Russia só com essa distincção... 

-- Oh! mas é glorioso! 

-- Alem d'isso fel-o coronel da sua guarda e é com o fardamento russo, é com o seu collar e com a sua espada que o general Gomes Freire, entrou na Russia nos exercitos de V. M. 

-- Elle?! mas então... 

-- Quer dizer, sire, que sem recordar aqui a sua gloria, que vem mostrar como sabe cumprir o seu dever. 

-- Gomes Freire... É nome que já não me esquece. 

-- Não o deveis esquecer em verdade, como não deveis esquecer os seus soldados. 

-- São bravos na verdade os portuguezes! assentou o imperador, continuando logo: 

-- Mas e depois?! Que lhe succedeu mais?! 

-- Dizem os officiaes com quem fallei, que a imperatriz se apaixonou pelo heroe... 

-- E elle?! 

-- Todos ignoram a certeza d'essas relações, parece... 

-- Dizem o que?! 

-- Dizem que elle esteve em Moscow antes de partir! 

-- Ah! Mas porque deixou o exercito russo... 

-- Lembrae-vos do nome de Poniatouski! 

-- O rei da Polonia! 

-- O favorito de Catharina II. 

-- Sim... 

-- Pois julga-se que não quiz acceitar a lucta com tal homem... 

-- Recusou?! interrogou Napoleão, franzindo o sobr'olho. 

-- Oh! Não será isso... A verdade julgo eu sabel-a! 

-- E vaes dizel-a! 

-- Julgo que o general partiu para não ir combater os polacos, que teve mesmo uma phrase o defendel-os... 

-- Qual?! 

-- Não posso ir fazer escravos! O meu paiz tambem é pequeno e um dia poderá ser esmagado como vós quereis esmagar a Polonia! E então partiu... Foi para França onde assistiu á morte de Luiz XV!... 

-- E onde pára o teu heroe?! interrogou muito curiosamente o imperador. 

-- Onde, sire?! Quereis conhecel-o?! perguntou. 

-- Quero aconselhar-te a que lhe dês um bastão de marechal no dia em que reinares na Finlandia! 

De novo se ensombrou a ace de Ney, de novo curvou a cabeça e com o seu olhar a turbar-se, balbuciou: 

- Oh! Sire... 

-- Mas que tens?! 

-- É que eu nunca serei rei! declarou. 

-- Porque?! interrogou o imperador com pasmo. 

-- É simples, porque ainda ha pouco me diziam que seria principe e eu ria sem acreditar... 

-- Ah! 

-- Sim, Sire, não acreditava e por isso quando V. M. me deu semelhante nova, eu não tive senão tristeza! 

-- Mas porque?! 

-- Porque me disseram que seria principe. 

-- E não te fallaram em que serias rei?! 

-- Não! Sire... Prophetisaram-me apenas que morreria fusilado! 

Napoleão, ergueu-se d'um pulo, olhou-o e bradou: 

-- Ney! 

-- Sire! 

-- Sabes que nunca deixo de conseguir o que digo! 

-- Sim, Sire! 

-- Pois bem... Pela minha espada te juro que não morrerás fuzilado! 

-- Oh! 

-- Juro! Quem manda na Europa?!... interrogou de repente. 

-- É Deus! bradou o marechal. 

-- Que te poderá matar, mas não te poderá deshonrar! 

-- Mas sire, ha cousas que são irrisórias mas nas quaes devemos pensar... Ella fallou-me com tanta verdade! 

-- Ella quem?! 

-- A feiticeira, a mulher velha que estava sentada no corredor do palacio...

-- Aqui?! 

-- Sim, sire! 

-- Mas... 

-- É uma siberianna que desde ha muito serve a familia imperial... Viu-me, levantou-se como quando V. M. passou... 

-- O que?! 

-- Sim... E o olhar d'ella era egual para ambos... 

-- Uma louca! Uma mulher cheia de colera! 

-- Não sire! Uma vidente! 

-- Ney! 

-- Se advinhou que eu seria principe! disse elle. 

-- Como não o advinharia sabendo que venceras e cabendo que eu tenho feito principes e duques a quasi todos os meus marechaes! 

-- Talvez tenhaes razão, sire, mas... 

-- O que?! Que loucura é essa?! 

-- Pessoa alguma será capaz de me provar o contrario. 

-- Mas alteza... Que é necessario fazer... Um rei! Pois..., Ia dizer-lhe que o fazia lei mas de repente a porta abriu-se e um general appareceu. 

-- Sire! 

-- O que, o que... perguntou cheio de terror. 

-- Os nossos soldados começam a apparecer mortos nas avançadas! 

Muito irritado, deveras raivoso, o imperador, exclamou em seguida: 

-- Que sejam fusilados, todos os outros encontrados com armas... 

-- Sire! exclamou o general do mesmo modo. 

-- Falla! 

-- É irritar os animos que estão pacificos! balbuciou o outro. 

-- Pacificos?! Não dizes que apparecem mortas as minhas avançadas?! 

-- Sim, sire! 

-- Não dizes que apparecem mortos os meus soldados?! 

-- Sim, sire! A cada vez que se rendem as sentinellas metade estão por terra! 

-- Ah! E chamaes a isso os animos pacificados?! 

-- Sire! Mas não são os russo que os matam! 

-- Então quem?! exclamou deveras perturbado. 

-- Quem?! É a Russia! declarou Ney de repente. Não é verdade general que é este maldito clima?! 

-- É a neve! volveu o outro do mesmo modo. 

-- Ah!... Mas que fazer?!... exclamou o imperador. 

-- Retirar, sire! aconselhou logo o novo principe. 

-- Ney! 

-- Sire... 

-- És tu quem fallas d'esse modo?! És tu?! Retirar?! 

-- Que quereis! D'este modo seremos vencidos! 

-- Mas como?! Acaso não muda este tempo. 

-- Estamos no inverno, sire... E dos quinhentos mil homens que trazemos não levaremos dez mil para França se nos demorarmos embora seja um simples mez em Moscow. 

-- Maldição! gritou o imperador; e logo de seguida, bradou: 

-- Vae te general! Rende sempre esses mortos... 

-- Para fazer novos mortos, sire! disse Ney 

O imperador, não lhe deu uma resposta directa; olhou-o e exclamou: 

-- Manda entrar o teu heroe, vê se encontras a tua feiticeira! 

O principe sorriu e sahiu do aposento em busca da mulher que lá estava sempre acocorada ao fundo do corredor. Gomes Freire, parecia aguardal-o n'uma sala. 

Quando o viu, levantou-se, fez-lhe a continencia: 

-- Gomes Freire! 

-- Excellencia! 

-- Dae-me os parabens! Sou principe de Moscow! 

Dizia aquillo a rir, a rir alegremente, diante do tratamento que o heroe agora lhe dava: 

-- Parabens, alteza! 

-- E a vós tambem, general... Vinde, que o imperador quer conhecer-vos!... 

-- Mercê de V. A. 

-- Mercê da vossa reputação... 

Os seus olhos não deixavam a feiticeira e elle affastava-se a buscal-a quando Gomes Freire, exclamou: 

-- Oh! a bruxa do acampamento! Fallou a Loulé, disse-lhe cousas terriveis! 







XIV 



Imperador ou rei?! 







Sire, é Gomes Freire! 

-- Entrae! disse o imperador, fazendo um gesto. 

Na antecamara estava a feiticeira. Os tres homens, agora junctos, olhavam se. 

Napoleão observava o heroe, Gomes Freire, beijava-lhe a mão deveras commovido e Ney, por sua vez, analysava o rosto do imperador. 

-- Então, Ney, então, meu principe?! A tua feiticeira?! 

-- Está além, sire! 

-- Onde?! 

-- Na antecamara... Que entre?! Desejo saber a minha sina! Riu alegremente e para o portuguez, disse: 

-- Sei o que valeis... Ney contou-me 'tudo... Depois basta olhar o vosso fardamento. 

-- Perdoae, sire, em vir assim, porém uma recordação! 

-- Recordação que poderá ter o seu fim, da mais bella maneira! Catharina da Russia fez-vos coronel eu faço-vos general! 

-- Sire! 

-- Não estaes contente?! interrogou de repente. 

-- Não é assim, sire... É que eu desejava ficar. 

-- Ah! comprehendo... a recordação, sempre a idéa da imperatriz. 

-- Não o julgueis, sire! disse elle de repente. 

-- Então como explicaes tudo isso?! Como o explicaes?! 

-- É que eu n'esse tempo era novo e dentro d'esta farda remoço! 

-- Como eu quando visto a d'artilharia! declarou. 

-- Sire, deixae-me ficar pois com ella! 

-- Ficareis! 

-- Obrigado, sire, mil vezes obrigado... 

-- Não quereis nada de mim?! 

-- Basta-me a honra que V. M. me concede ao receber o simples official! 

-- Ah! Dize antes, Gomes Freire, que és portuguez... 

-- Sire... 

-- E não queres acceitar cousa alguma do invasor! 

-- Sire!... 

-- Não é verdade?! interrogou rapidamente. 

-- Não, sire, não é... 

-- N'esse caso acceitarás... 

-- Tudo o que de V. M. vier... volveu com enthusiasmo. 

-- Pois bem... Terás um governo... Conheces a Lithuania?! 

-- Mal, sire! 

-- É o mesmo... Irás governar Disna que é um ponto importante... Depois, quando tudo isto estiver organisado, irás com Ney... 

-- Sire, tantas mercês!

-- Vae-te.... Não tens que agradecer! Parte esta noite! 

-- Sire... Partirei mas deixae que vos beije ainda a mão! Curvou-se, beijou de novo a mão do grande imperador ao mesmo tempo que Ney entrava com a feiticeira. 

Era uma mulher extranha, de cabellos brancos e olhos azues; sorria terrivelmente a mostrar a bocca sem dentes. 

Não saudava Napoleão, nem se importava mais com Ney. 

Só olhava Gomes Freire, como faseinada; e de repente, pegando-lhe na mão, bradou: 

-- Oh! Estás contente! 

Fallou em russo, n'uma mistura de guinchos e de palavras. 

Um fremito precorreu o corpo do general que volveu: 

-- Sim! 

-- Já foste feliz até onde o devias ser! agora... 

-- O que?! Que diz ella?! interrogou o imperador. 

Então, n'um horrivel francez, a mulher disse, sem largar a mão que Gomes Freire sentia gelada: 

-- Digo que já acabou para este a felicidade! 

-- Oh! És extraordinaria com as tuas prophecias! 

Ria muito e acabava por dizer dirigindo-se aos outros: 

-- Tenho agora a impressão de que sou um d'esses cesares que conquistando o mundo, se divertiam a ouvir os augures. 

-- E a tremerem deante d'elles! gritou a velha. 

Napoleão, estremeceu deante de semelhante grito; e a velha, dirigindo-se sempre a Gomes Freire, disse: 

-- Não serás mais feliz... Tens um amigo, não é verdade?! 

-- Sim, d'esse pasmado. 

-- É a unica pessoa que amas n'este mundo! 

-- Sim! 

-- Pois está morto! 

-- O que?! É impossivel! É impossivel! exclamou no auge do desespero. 

O imperador, sorriu e volveu: 

-- Mas acreditaes?! 

-- Como não acreditar se em verdade esse amigo é a minha unica affeição na terra como ella disse... Sire, é elle D. Pedro de Almeida, marquez d'Alorna! que V. M. fez governador de Kcenigsberg... 

-- E está morto?! Diz essa mulher que elle morreu?! Pois não a deveis acreditar! As feiticeiras divertem se sempre! 

Estendia-se mais á vontade na poltrona e exclamava: 

-- Mulher, tu disseste a Ncy que morreria fuzilado e eu jurei-lhe que não... 

-- Vós! 

-- Sim, acaso não posso tambem salval-o?! 

-- Não! bradou na sua voz extranha. Não... 

-- E como morrerá então o general?! interrogou com novo riso. 

-- Enforcado! volveu rapidamente depois de olhar a sua mão. 

-- Outro impossivel! decidiu o imperador. 

Depois, vendo o general a empallidecer, disse-lhe: 

-- Sabeis que tudo posso, não é assim?! 

-- Sire, acima de V. M. ha Deus! declarou com força. 

-- Mas se ambos sois grandes e bons, fieis e dedicados, como podereis morrer por tal deshonrante morte?! 

-- A forca?! exclamou Gomes Freire de chofre. 

-- O fusilamento! murmurou o marechal Ney. 

-- És tu, mulher, continuou ainda o general, és tu a que foi perturbar o meu companheiro no acampamento?! Sire, ella tambem disse a outro portuguez, ao marquez de Loulé, que... 

-- Que, teria gente sua a entroncar-se n'uma casa real! 

-- É facil... disse Napoleão. 

-- E que morreria assassinado, tornou a velha. 

-- Mas esta mulher só prophetisa mortes tragicas, disse de novo o imperador com o mesmo riso. 

-- Menos a vossa! declarou ella no seu tom estranho. 

-- Ah! É agora a minha vez... Pois tenho curiosidade de saber como morrerei... 

-- Morrerás como um simples hortelão ou como um pobre rendeiro na vossa casa e longe de todos os que amaes! 

-- É um cumulo, redarguiu n'um abalo de riso. Conquistar a Europa, andar exposto ás balas, vencel-as sempre, e ir morrer como um simples rendeiro! Oh! mulher que loucura a tua! 

-- Loucura é a de julgar que podereis conquistar a Europa... Os dois homens estremeceram; só o imperador se conservou sereno e disse: 

-- Ah! Acaso não o farei?! 

-- Não!

-- Porque?! 

-- Porque dentro em pouco não serás imperador! A vossa primeira derrota será o signal da tua queda! 

-- Não ser imperador e ser derrotado é morrer como general na batalha em que isso se der! declarou com firmeza. 

-- Pois não será assim! 

-- Então... 

-- Serás primeiro rei, simples rei... 

-- Nunca! Só a França em si, é um imperio! 

-- Mas quem vos assegura que sereis rei em França? 

-- Se a França é minha! 

-- Oh! Não o julgueis... Sereis rei d'um pequeno estado o qual não vos contentará... De novo as batalhas, então a grande derrota, depois a morte sem um verdadeiro amigo ao lado! 

-- Vae-te! ordenou o imperador de repente. Vae-te!

-- Napoleão, exclamou a mulher com o mesmo fogo, Napoleão, não quereis acreditar?! 

-- Não... ninguem te acredita! declarou com colera a erguer-se. 

-- Pois a esta hora começa tambem a tua desgraça! 

Era mais extranha ainda a fallar assim; no seu rosto marcava se a maior das coleras, parecia crescer, parecia augmentar, e depois ar rebatando-o já d'um modo desdenhoso: 

-- Que te julgas então?! Acaso não sabes que nasceste sobre um tapete onde estava tecida uma batalha, que tua mãe te trouxe no ventre quando andava na guerra com Paoli?! 

-- Sim! disse já admirado. 

-- D'ahi o teu genio guerreiro, d'ahi a tua força que vae terminar! 

E logo, a dizer-lhe mais ousadamente as cousas, continuava: 

-- Podias ter vivido bem no teu paiz, lá na Corsega, como um pobre, como um bandoleiro dos montes, d'esses que fazem a guerra e não querem a fama! Mas a sorte lançou-te para um grande centro militar e foste grande... Teus irmãos, são mesmo ineptos, tuas irmãs do mesmo modo! Em ti preside a força, a intelligencia da familia Bonaparte que vae ser vencida, crê... Repara que em França não te amam... 

-- Mulher! 

-- Vê que vaes cahir com um grito terrivel... 

-- Qual?! 

-- O d'uma nação a expulsar-te... 

Foi-se de repente, desappareceu no corredor de Kremlim. Mas Napoleão foi em seu seguimento, segurou a ao deseobril a no seu retiro junto á porta dos aposentos da imperatriz da Russia e então a mulher ordenou: 

-- Largue-me! 

-- Não! 

Cheio da sua velha superstição, o imperador perguntava: 

-- E quando succederá isso? 

-- Não sei! 

-- Falla! 

Apertou-lhe o pulso; ella nem mostrou o mais leve signal de dôr, olhou-o e disse-lhe n'um aviso: 

-- Treme da lettra W que te será fatal! 

-- Oh! Como a outra... 

E largou-a logo, foi espavorido pelo corredor a dizer: 

-- A lettra W... Como aquella mulher polaca me disse em Wagram... Oh! Mas ha um meio... É fugir della! É fugir d'essa maldita lettra... 

Calou-se; deixou-se ficar muito perturbado, d'olhos esgaseados murmurando: 

-- Moscow! Moscow... A lettra no fim da palavra! 

Junto d'elle, estavam Ney e Gomes Freire, e o principe ao ouvil-o, exclamava tambem: 

-- Oh! Moscow! E eu sou principe d'essa cidade que tem a lettra fatal do vosso destino! Sire, o meu já está marcado! 

Gomes Freire, calava-se, dava alguns passos no corredor e parava logo ao ver chegar um official que disse de longe: 

-- Sire! Sire!... 

-- Que ha? perguntou Napoleão como se acordasse. 

-- Continuam a morrer muitos soldados! 

-- Oh! A neve! Accendam fogueiras grandes fogueiras... Queimem tudo!

E fugiu para o quarto de mãos na cabeça a exclamar sempre: 

-- A maldita lettra! 

Ney e Gomes Freire, face a face, diziam: 

-- É uma maldição! 

-- Partes esta noute, não é assim?! interrogou o principe. 

-- Sim! 

-- Um abraço, amigo... Talvez não nos tornemos a ver! Eu espero que os nossos me fuzilem! 

-- E eu que os povos do meu governo me enforquem! 

Queriam rir ao abraçarem-se mas não poderam. 

Napoleão, nos seus aposentos, murmurava sempre: 

-- A maldita lettra?! Moscow! Moscow! Que irá succeder...

Succedeu que em outubro, Moscow ardia por deliberação de Rostopchin, governador russo da cidade e que Napoleão, era obrigado a sahir emquanto os russos tomavam a offensiva. E Ney guardando a retirada fazia prodigios com cem mil homens que restavam de quinhentos mil entre os quaes ia a Legião Portugueza gritando como os francezes: 

-- Viva o imperador! 

Mas o imperador, de mão entalada no peito da farda não os ouvia. Pensava na feiteceira do Kremlim, e murmurou: 

-- A lettra W... a lettra W... Serei sempre imperador ou um simples rei?! 

A resposta veiu depois, pouco tempo depois, após a Berezina e Dresden, apóz Tolosa, quando as potencias lhe offereceram para retiro a ilha d'Elba da qual a fizeram soberano. O imperador da Europa tornava-se o senhor de alguns palmos de terra como um simples rendeiro. 







XV 







Os cem dias 





Todos mortos em roda, todos mortos... disse Gomes Freire. 

Tinha acabado de meditar, abria a janella e via o dia pardo. Em março, n'uma manhã de março em que lhe vinham saudades da patria. 

Como toda a gente via acabada a epopeia napoleonica, via por terra o collosso que as potencias tinham posto de lado. 

E recordava-se de toda a sua vida, de todo o seu passado, recordava se sobretudo d'esses ulttimos annos que tinham decorrido nas fileiras francezas ao lado dos maiores bravos, sob o commando do grande imperador, d'esse Napoleão que a Europa puzera de lado. 

Após aquella entrada em Moscow onde conhecera bem o audacioso corso, ao fim d'essa campanha desastrosa com a capital incendiada pelos russos, com a passagem de Berezina forçada pelas tropas imperiaes e pelos portuguezes que Napoleão admirava, elle vira-se obrigado a deixar o seu governo na Russia e a partir, para chegar a Paris n'um tempo de desastres. 

O que elle vira?! 

Tudo a derrocar-se em volta, tudo a sumir-se, a desapparecer. 

O imperador cedendo, emfim, á força, acceitando a soberania irrisoria da ilha de Elba!

Era aquelle o grande imperador, com todo o seu talento, com toda a sua força extranha e dominadora? 

Seria, emfim, a fatalidade a apossar-se d'elle, a pôl-o de rastos?! 

Mas não lhe parecia. Não bastava ter vivido, ter dominado o mundo! Era preciso antes de mais nada morrer mas com honra, como um heroe. O grande guerreiro não podia ficar assim. 

E olhava as ruas, via esse Paris onde dominavam os Bourbons, 

onde imperava a dynastia velha que viera substituir a do maior  guerreiro de todo o universo. 

Entravam a picar as aguias das fachadas dos edificios, tiravam-n'as das bandeiras; e parecia que essa França que elle galvanisara n'um fremito epico, se admirava tambem!

Já não havia então a soldadesea brava d'essas phalanges do grande exercito?! 

E elle sahia como de costume, ia sentar se no canto do café do  Palais-Royal a ouvir aquelles que chegavam, sentindo mais do que nunca saudades da sua patria e ao mesmo tempo uma repugnancia enorme ao lembrar-se dos inglezes dominadores. 

Sentiu que alguem lhe tocava no hombro e voltava-se. 

Soltou um grito, abriu os braços e apertou n'elles a Candido José Xavier, o seu companheiro d'armas: 

-- Tu?! 

-- Eu, sim... 

-- Mas não partiste? 

-- Para Portugal?! Ah! não, amigo meu, não! Isto em França ainda não acabou!

-- O que?! 

Olhava-o com pasmo e ouvia-o então replicar do mesmo modo: 

-- Sim... Isto aqui ainda não acabou e vês bem que não podia acabar! 

-- Mas porque? I disse elle de repente. Porque?! 

-- Porque Napoleão não é um homem como os outros! 

-- Queres dizer?! 

-- Que a França o adora! 

-- Acaso não viste como ahi applaudiram Wellington, como o saudaram com os Bourbons! 

-- Miserias! 

O general parecia bem devotado á causa do imperador, fallava como um bonapartista exaltado e acabava por dizer: 

-- Mas repara... olha bem em roda e vê o que succede! 

-- O quê?! 

-- Vê como estes homens que ahi entram teem nos rostos signaes de terem pertencido apenas ao imperador... Não acceitam os Bourbons! 

-- Olha que te enganas! Sauda-se sempre o sol que nasce! 

Candido olhou-o e volveu: 

-- Acaso saudaste Junot quando elle despontava no governo de Portugal?! 

-- Não! Mas... 

-- Queres dizer que foste o unico?! 

-- Não, porque vós outros... 

-- E mesmo porque a parte recusa da nação não o podia admirar... Aqui é o contrario! Napoleão é enorme, é tudo n'este mundo, comparado com esse pobre rei que os francezes vêem passar cheios de desdém! Ainda hontem quasi o apuparam! 

-- E isso quer dizer... 

-- Que Napoleão vae chegar d'um momento para outro... 

Elle estremeceu; olhou o bem de frente e perguntou: 

-- Voltas a Portugal? 

-- Um dia voltarei... E tu?! 

-- Eu, meu amigo, tenho grandes receios, volveu Gomes Freire. 

-- Mas de quê?! 

-- De tudo! 

Encostou a cabeça á mão e começou lentamente: 

-- Portugal odeia me! 

-- Que dizes?!

-- Sim, odeia-me! Pesa sobre mim o odio que tem ao imperador... É celebre, não é verdade, que um simples soldado tome diante da sua patria semelhantes proporções! 

Sorria amargamente e volvia logo do mesmo modo: 

-- Não vês que eu nunca me dobrei! 

-- Gomes Freire, gritou Cândido José Xavier, tu endoideceste?! 

-- Não, amigo, não... Sou muito odiado por lá! Esse meu pobre Alorna se tem vivido do mesmo modo o seria! 

-- Mas porquê?! 

-- É singular mas totalmente verdadeiro! 

-- O que é?! Que succede?! Ao menos tens informações de Portugal? 

-- Sim, tenho! Sabes que difficilmente vivo em Paris... A queda do imperador, todos estes cataclysmos faziam com que muitos francezes illustres e intransigentes ficassem sem pão e que os nossos soldados ficassem por ahi na miseria, recorrendo a Wellington para partirem. 

-- Sim, eu mesmo... A não ser o que me tem enviado os parentes! 

-- Pois a mim nem isso! 

-- Porquê?! 

-- Mandei dizer a meu primo Miguel Pereira Forjaz de. Sampaio, governador do reino, com toda essa cafila de Beresfords e Wellingtons, qual a minha situação... Mandei lhe pedir os meus soldos em atrazo e a resposta foi realmente extraordinaria. 

--Qual? 

-- Que eu me incorporara no exercito francez e que seria melhor não dar signaes de mim... 

-- O quê? 

-- Sim... Parece que hoje em Portugal são odiados os soldados que o proprio governo, quando lacaiava Junot, mandou servir em França! 

-- É impossivel! declarou logo o outro do mesmo modo. 

-- Assim o julgas não é verdade: tornou a perguntar. 

-- Mas decerto! Se nos mandaram para aqui, se nos deixaram que servissemos os francezes! 

-- Agora vem o repudio porque querem mostrar-se patriotas! 

Os meus soldos não me serão pagos... 

-- E os teus bens?!

-- Temo que me façam um arresto... É o confisco! 

-- Isso é inteiramente impossivel, gritou o outro. 

-- Será!

-- É... É impossivel! Pois tu como eu, como nós todos, viemos para o exercito de Napoleão a levantar o nome de Portugal, a tomar parte em batalhas que são epopeas, e quando buscamos que nos dêem o pão de todos os dias, chamam-nos vendidos! 

-- Comtigo não sei o que será! Gommigo é assim... 

-- Gomes Freire, disse o outro assentando-lhe a mão no hombro, com franqueza, tu não desconfias... 

-- De quê? interrogou elle esgazeando os olhos. 

-- D'algum inimigo? perguntou de novo o outro. 

Mas singelamente o general, redarguiu: 

-- Não... Nunca fiz mal a ninguem!... E a sua grande bondade esquecia o passado, as vinganças que os preponderantes de hoje que tinham sido seus adversarios outr'ora, podiam exercer e negava que tivesse inimigos, ao continuar: 

-- A consciencia não me accusa. 

-- Pensa bem... não vês alguem movendo uma intriga? 

Não podia suspeitar; declarava logo do mesmo modo franco: 

-- Eu não. 

Depois, encolhendo os hombros, dizia de seguida: 

--Eu estou velho, meu amigo, e desde a mocidade que sempre fui justo. 

-- Demais o sei... 

-- Que demonio, tornou sempre a sorrir. Tive amores na mocidade, tive duellos, tive luctas... Venci sempre... Houve intrigas enormes commigo no tempo da regencia: Carlota Joaquina detestou-me... Lembro-me que me entrigaram tambem com o principe D. José... 

-- O pobre D. José... 

-- No meu caminho topei então muito infamia que sempre desprezei ... Ah! o Tavora, o bispo do Algarve que hoje está paralytico! É um jesuita... Mas que pode elle fazer da sua cadeira, preso, ligado,... Parece que Deus o castigou roubanda-lhe a voz, essa voz 

que enlouqueceu D. Maria I. 

-- É verdade! Foi a justiça divina! 

-- Pois o bispo, continuou elle, foi o meu unico inimigo... 

Vieram os francezes, elle foi a Bayonna ao encontro do imperador mostrar bem que era um infame! Inferno! O Tavora vingado, repousou! Teve uma alegria ao ver o reino desmanchado pelos francezes, ao ver defunta a casa de Bragança, ao sentir por terra esses inimigos d'uma raça real que tinham anniquilado a sua familia. assim renegado quando quiz fallar d'alto, quando ia agradecer ao ceu a sua vingança veiulhe a paralysia. Ah I Mas que tragedia!... 

A Companhia de Jesus julgava-se victoriosa. Depois veiu a reacção, 

appareceu José Balsamo, formou se a loja maçonica na Boa-Morte... Elles ganharam a batalha por um lado ao verem a rainha louca, perderam-na com a entrada dos francezes que acabava de vez com a Companhia e com os seus sonhos em Portugal! Inimigos eram só estes... simplesmente estes... outros não tenho. Vejo claro na situação! 

-- Que vês então?! 

-- Que vejo?! Olha Candido Xavier, tu tambem has-de vêr. 

-- O quê?! 

-- Esse povo, dominado pela nobreza, nascido a homens d'hoje das deleterias influencias d'um meio devoto, com horror ás idéas largas de revindicação e de liberdade e com fé nas promessas aos 

santos, abraçam como salvadores todos aquelles que os salvam da 

peste franceza! Foram os inglezes que realisaram o milagre! A na 

ção está de rastos diante d'ella! E vem como reacção o odio aos outros, aquelles que os serviram embora por mandado da propria 

nação... 

-- Sim... Talvez! 

-- Andam por lá bem exaltados os ânimos e meu primo que é um bom amigo, manda-me o aviso... 

-- Talvez sim... 

-- É apenas isto! 

Mas Candido Xavier, parecia pouco disposto a acceitar como verdadeiras essas palavras, parecia entrever algum trama de mysterio no meio de tudo isso e acabava por dizer: 

-- E partes?! 

-- Logo que possa! 

-- Porque esperas?! perguntou o outro de novo. 

-- Nem eu sei!... 

-- Eu espero por Napoleão, volveu o general, accrescentando logo: Apenas para vêr como ludo isto termina... Não posso já combater por elle como nenhum de nós... 

Gomes Freire, baixou a cabeça. Porem ao dizer aqucllas palavras, acordava, olhava -o de frente e interrogava: 

-- Esperas por Napoleão?! Mas n'esse caso?! 

-- Amigo, disse em voz muito baixa. Eu estou no segredo... 

-- Que segredo?! 

-- No da restauração napoleonica! Elle vae chegar! 

-- Quem, o imperador?! exclamou em voz muito alta no seu enorme assombro. 

-- Cala-te! 

Apertava-lhe o braço. Algumas cabeças se levantavam ao ouvirem aquella interrogação feita em portuguez mas bastante comprehensivel.

Eram todos soldados velhos de Napoleão, os que alli estavam. 

Nos seus rostos lia-se a energia, os seus trajes de paisanos revelavam bem o habito do uniforme; nos seus labios havia sorrisos, bellos sorrisos e como um fremito os precorreu. Fez-se um momento de silencio. Os dois portuguezes sahiram. Havia um movimento desusado nas ruas, passava gente aos bandos. 

E Gomes Freire, mais admirado, interrogava: 

-- Mas Napoleão vem?! 

-- Já deixou a ilha d'Elba a bordo d'um navio chamado o Inconstante, vêm com elle Bertrand, o marechal, vem Duroc, vem mil soldados... Illudiram a vigilancia das esquadras e desembarcaram perto de Gannes! 

Mas como o sabes?! perguntou deveras admirado. 

-- Amigo...- Toda a França o sabe!... Olha que todos o sabem menos tu! Repara! 

Nas ruas, o movimento augmentava, formavam-se grupos e ouviam-se já gritos bem claros de: viva o imperador! 

Gomes Freire, pasmado, ficava a dizer como ao erguer-se n'essa manhã: 

Todos mortos... Todos mortos em roda! 

-- De quem fallas?! interrogou Gandido Xavier, com um sorriso. 

-- Dos bravos que o podi:im apoiar, dos duques, dos principes que elle fez! 

-- E queres dizer com isso que Napoleão não vencerá! 

-- Quem sabe?! Recordo-me agora do que ouvi na Russia! 

-- A quem?! 

A uma mulher que se approximou de nós no quarto do imperador no Kremlin! Disse ella que lhe dariam um pequeno reino e que depois elle teria a derrota! 

O outro, soltou uma gargalhada e volveu: 

-- Napoleão não tentaria o attaque se tivesse ainda esse facto na lembrança! 

-- Tental-o-hia! Cândido, meu amigo, sabes que eu creio na fatalidade?! 

-- O que?! 

-- Sim... O que tem de succeder ninguem o evitará!... 

-- Porém... D'esse modo não merece a pena fazer esforços... 

-- Cada mortal tem o seu papel n'este mundo!... 

Em roda a turba clamava com fogo: 

-- Viva Napoleão I!

E aquelle brado echoava pela França inteira, onde elle chegara, aquelle brado solto em Paris fazia tremer o Bourbon no throno que devia abandonar e fazia espantar as potencias, obrigava-as a paralysarem-se por momentos. 

Foi n'essa noite que o rei de França fugiu, foi n'essa noite que os correios imperiaes partiram de Vienna para todas as côrtes com despachos a concertarem na melhor forma de anniquillar o audaz Napoleão. 

E resolviam ao cabo d'um curto concilio, no dia 13 d'esse março florido, que era necessario acabar com esse homem. 

Dizia a declaração de todas as nações, que não podia haver paz no Universo emquanto elle vivesse. 

Chamaram a Napoleão Bonaparte, o perturbador da tranquillidade do mundo; e viu-se o caso extranho de se atirarem exercitos de todos os paizes contra esse inimigo da paz. 

O imperador chegava á cathegoria d'um deus d'exterminio que era preciso derruir com o seu altar. 

Foram todos os soberanos da Europa que o quizeram, foram elles a verem no grande soldado um inimigo da sociedade. 

Ligaram-se logo para esse fim, audaciosamente e o tratado de Vienna foi assignado contra a França, contra o imperador. 

A Europa colligava-se contra um só homem. 

Essa colligação assignada pelos plenipotenciarios de todos os governos chega a ser um documento extranho pelo termo que n'elle se manifesta. 

Então formaram-se exercitos, muitos e immensos, deram o commando em chefe a Wellington que entrou a fazer proclamações. 

Quando este nome foi conhecido, os francezes riram. 

-- Oh! Napoleão era o maior, mil vezes maior! 

E só Gomes Freire, estremeceu ao lembrar-se da prophecia: 

-- A lettra W... A lettra W de que fallou a mulher siberiana no Kremlin. 

A 12 de junho Napoleão sahia das Tulherias dos aposentos onde Luiz XVIII com a precepitação da fuga ainda deixara objectos do seu uso e alcançava o seu exercito no dia 14. 

Mal, chegou forçou as linhas inimigas sobre o Sambre. Bateu os prussianos em Fleurs e tomou as aldeias de Ligny, Saint-Amaud e Quatre Brás. Venceu Blucher que retirou emquanto Wellington com inglezes e hollandezes retirava para Bruxellas. 

Entre os mortos do primeiro encontro, ficara o duque de Brunswick. 

Napoleão sorria ao fim da tarde e declarava: 

-- Oh! Que gente! Eu ainda sei vencer!... 

E a rir, tornou: 

-- É preciso restabelecer o meu imperio! 

Imperio de cem dias, imperio de cem dores, de cem amarguras. 





XVI 



Warterloo 





Foi uma avançada doida a do imperador contra o inimigo. 

Entrara na Belgica, entalara Wellington entre as suas forças e sorrira ao ouvir um official dizer: 

-- Não se sustentará tres horas! 

Na verdade era quasi impossivel retirar; era uma derrota segura. 

Reinava uma grande alegria no campo dos francezes. A guarda imperial, composta de todos os bravos, composta de soldados mais heroicos e mais dedicados ao imperador de que os legionarios romanos aos cesares, fieis e velhos, estava em volta do grande guerreiro que seguia a batalha. 

Do norte vinham tropas frescas, muitas tropas mesmo. Era Blucher que voltava e abalara um quadrado francez. 

Começava então a batalha. Era uma loucura epica, era uma vertigem estranha essa loucura d'homens ligados no mesmo desespero. 

A metralhada era enorme, terrivel, as peças vomitavam fogo sobre as legiões, a cavallaria encobria-se e viam-se soldados de pé nos estribos no auge da excitação batendose como leões e cobertos de feridas. 

Vinte e cinco mil cavallos estavam em movimento no campo, tresentas peças d'artilharia lançavam o seu fogo por sobre a multidão armada que rechocava. 

O imperador sorria como um anjo de exterminio, montado no seu cavallo branco, d'oculo em punho a analysar essa conflagração. 

N'um momento o campo foi occulto na fumarada de artilharia; 

ouviam-se gritos, cahiam muitos soldados, soltavam-se lamentos e parecia que todos elles chegavam ao ceu pedindo um termo aquellas guerras extraordinarias a que o imperador os arrastava, fulminando-os. 

Elle conservava-se quedo, mudo, vendo a fumarada, as linhas negras de homens que avançavam e o quartel general do inimigo levantado a distancia, com as suas bandeiras, com o rebrilhar das fardas e das armas. 

Era um formidavel encontro peito a peito de muitos homens que se degladiavam, era como uma lucta de demónios buscando ferir-se de morte, como um final do mundo pelo ferro e pelo fogo ás ordens d'esse Deus estranho que sorria. 

O campo assim coberto era como um inferno. E de lá do campo da batalha, chegava um grito alegre é unico que retumbava em francez pela planicie e chegava aos ouvidos do imperador. 

-- Victoria! Victoria! 

Elle tornou a olhar; ficou-se na mesma attitude ouvindo o mesmo brado. 

-- Viva o imperador! 

Mas o inimigo na manobra mais habil lançava se contra elles, chegava a abafar esse brado glorioso e de novo tudo se envolvia, tudo se ligava na mesma anciã, no mesmo desespero. 

Os tiros faziam fugir as aves assustadas e algumas feridas de morte; o clamor dominava o acampamento das outras tropas que estavam a distancia; e assim por mais algumas horas, n'um luar de fogo, illuminado pela metralha, elles combateram a sorte do imperador. 

Agora Napoleão apeava-se, voltava-se para o seu estado-maior e balbuciava: 

-- Só falta o sol! O sol d'Austerlitz! 

-- Victoria! Victoria! berravam mais uma vez os francezes 

E ainda no mesmo momento, no mesmo calor da refrega elles se lançavam contra os francezes, elles o cercavam n'esse momemo esperando o grosso do exercito da guarda imperial. 

Nas linhas francezas que estavam em boa ordem, cabiam granadeiros ás duzias e logo um novo brado se levanta, d'esta vez terrivel, estranhamente terrivel: 

-- Faltam as munições!

Apagou-se o fogo nas tropas francezas; não havia um só cartucho para responder ao tiroteio do inimigo. 

E então via-se um espectaculo extraordinario. 

Ficaram todos de pé nas trincheiras a aguardarem um rasgo do imperador. 

A artilharia inimiga continuava a lançar balasios de fogo e os francezes paravam sempre. 

O imperador, estremeceu, olhou Soult e exclamou: 

-- O que é aquillo?! Então não disparam?! 

-- Faltam as munições, sire! volveu o marechal. 

-- Ah!... Vamos a ver... Grochy vae de volta fazer um cerco! 

Agora o ataque era todo a bayoneta n'uma parte ao leste de Warterloo. E aqui aos olhos do corso, os soldados continuavam a morrer d'armas vasias sob as cem mil balas da artilharia inimiga. 

Os prussianos passaram sem o marechal Gronchey os vêr e chegaram em boa ordem para decidirem a batalha. 

Soult olhou o imperador e disse. 

-- Sire!... 

-- O quê?!... 

-- Bem vêdes que estais perdido! 

Voltou-se com a mesma colera que n'outros tempos quando dominava a Europa e exclamou: 

-- Porque Wellington se tem batido acreditas que É sempre um grande general?! 

Voltou as costas com desprezo e mandou avançar a guarda imperial! 

-- Viva o imperador! Viva o imperador! 

Foi uma formidavel descida, uma terrivel descida essa de tantos bravos para o seio da batalha. Nenhum estremecia, levavam no coração a imagem do seu Deus, d'esse grande Napoleão que de lá os via marchar. 

Mas entraram no fogo, calcando cadaveres, tapetes de cadaveres, entraram sob a metralha inimiga e então quando peito a peito se encontraram com os inimigos souberam morrer. 

Na sua frente os outros faziam um fogo mortifero e elles avançaram soltando os seus gritos formidaveis. 

-- Viva o imperador! Viva o imperador! 

N'esse momento, a guarda imperial julgou-se victoriosa ao reclamar um regimento eseossez; mas outros appareceram, outros morreram. escorregava-se na lama e no sangue, atiravam-se ao chão na furia da victoria e ao cabo d'uns momentos recuaram. 

Havia lagrimas nos olhos d'aquelles bravos que jamais tinham cedido um passo nas luctas, que jamais tinha recuado uma pollegada. 

Como uma loucura de desespero se apossou d'elles. 

Cambronne á frente, clamava: 

-- Avante! Avante! Viva o imperador! 

-- Viva o imperador! 

Então foi terrivel; elles viam morrer os camaradas e redobravam de enthusiasmo. Não eram homens mas sim leões lançando-se contra as presas e as aguias imperiaes fluctuavam sempre sob as suas cabeças mil vezes gloriosas dando-lhe com uma maior furia. 

-- Avante! Avante! 

Cahiam-lhe todas de repelão e viu-se a mais brilhante das acções. 

Aquelles soldados foram a derradeira phalange do mundo. 

Ficaram cercados, vendo a morte diante e nenhum se arredou. 

Mesmo nas fileiras inimigas havia pasmo. Um enthusismo sacudia os inglezes e as lagrimas corriam pelas faces dos velhos d'Austerliz e d'Iena, os bravos que tinham visto naseer um imperio e o viam agonisar n'essa tarde de brumas, alem na planicie fatal de Warterloo. 

Cessou o fogo; houve como uma homenagem á guarda do imperador, que lá no alto entre peças, entre officiaes, estava silencioso. 

O general Turenne, disse-lhe baixinho: 

-- Sire! Devemos retirar... V. M. deve partir... 

-- Para quê?! E os meus soldados! 

-- Tudo perdido... Partamos para que V. M. não caia nas mãos do inimigo! 

-- Nunca! Está alem a guarda imperial! 

Face a face com ella, o inimigo clamava: 

-- Rendam-se! Rendam-se! 

Por unica resposta a celebre phrase de Cambronne, phrase de orgulho e de colera, digna d'um heroe. 

E logo a guarda imperial se moveu ainda, mas logo tambem cahira nas mãos do inimigo. N'um esforço supremo sahiu do cerco e n'um desespero o seu ultimo brado foi ainda aquelle que lhe fez tantas victimas: 

-- Viva o imperador!

Completamente perdida a batalha, os francezes deixaram o campo, deixaram os tropheus nas mãos do inimigo e o imperador montando a cavallo, murmurou: 

-- Ah! A minha guarda vencida! É o fim do imperio! 

Então estremeceu mais profundamente e partiu a galope. 

Recordara-se talvez da prophecia da velha na Russia, d'aquella fatalidade do W que seria a sua perdição. 

No caminho, um velho da guarda imperial, mutilado n'um mar de sangue, gritou no derradeiro alento: 

-- Viva o imperador!

Foi a ultima vez que ouviu aquelle brado. 

Baixou a cabeça e affastou-se sem uma lagrima, sem um remorso, como um deus vencido, d'aquelle campo de batalha onde deixara trinta mil mortos e a França sepultada. 

Andou errante, fugitivo. Passava pelas aldeias e só ouvia maldições, via o seu nome eseripto nos muros com phrases insultuosas ao lado e a gente do campo gritava com tanto odio o seu nome outr'ora pronunciado com amor sem egual. 

Napoleão, sentiu então bem o que é a gloria, sentiu o dolorosamente e ainda em França ouviu aquelle povo gritar enthusiasmado: 

-- Viva Luiz XVIII! Viva Luiz XVIII! 

Sorriu, encolheu os hombros. 

E então, no fim de ter conhecido tudo quanto no mundo póde haver de glorioso, tudo quanto póde haver de quasi divino, sentiu que acabava para sempre o seu dominio. 

Chegou a Rochefort. Estava alli fundeada a nau ingleza que o devia transportar, e elle escreveu ao principe regente da Inglaterra a carta que era a sua abdicação: 

«Alteza real: Alvo das facções que dividem o meu paiz e de inimisade das maiores potencias da Europa, tenho concluido a minha carreira politica e venho como Themistocles, assentar-me no lar do povo britannico. Ponho-me sob a protecção das suas leis, que reclamo de vossa alteza real como do mais poderoso, mais constante e mais generoso dos meus amigos.» 

Era recebido a bordo, com cem salvas, ultima homenagem que em vida devia ter o maior guerreiro do Universo. 

Foi enviado para Santa Helena e só lh'o disseram no caminho. 

O imperador, exclamou ao saber tudo: 

-- Isto é peor que a gaiola de Tamerlan! 

E lá morreu em Santa Helena, no topo do rochedo, com saudades de França, a recordar glorias, aquelle que quizera fazer da Europa um feudo e apagar as velhas dynastias. 

............................................................

Agora, em Portugal, os inglezes eram todos como deuses. Wellington vencera Napoleão, o Grande, que da sua ilha devia lamentar o ter-se acolhido á generosidade d'essa Inglaterra sua inimiga e que se vingara assim do bloqueio continental. 









QUARTA PARTE 

 

OS MARTYRES DA PATRIA 





I



Os inglezes 







Reunira o Congresso de Vienna e modificara-se o mappa da Europa. As nações annexadas por Napoleão á França, tiravam se emfim do jugo, e uma atmosphera de paz se estendia por sobre esses povos que durante sete annos tinham soffrido os assaltos do grande exercito. O imperador, estava desterrado em Santa Helena, como uma ave no pincaro d'um rochedo a olhar o mar, guardada á vista por um milhafre, Hudson Sorve, o inglez seu carcereiro. Ali devia morrer a recordar o passado, o homem que transformara o mundo. 

A França restituia tudo e pagava ainda uma indemnisação de setecentos milhões de francos ás potencias alhadas vencedoras em Waterloo. Luiz XVIII, o burguezão feito rei, tomava posse do throno. 

Portugal, fôra representado no congresso de Vienna pelo conde de Palmella, então ministro em Londres, por Joaquim Lobo da Silveira, plenipotenciario em S. Petersburgo e por Antonio Saldanha da Gama. 

E o sacrificio dalguns milhares de leguas de terreno, foi imposto a Portugal como indemnisação recebendo pelo tratado nove milhões de francos dos setecentos pagos pela França. Dava a Guayana para evitar os repetidos choques na fronteira do Brazil. 

Mas a Inglaterra, nossa alliada, não consentiu que recebessemos mais de 3oo:ooo libras e emquantD as mais pequenas nesgas de terra eram bem divididas pelos seus antigos possuidores, a Hespanha não nos entregava a villa d'Olivença cabida em seu poder por aquelle tratado em que fôra medianeiro Luciano Bonaparte, no tempo da guerra peninsular. 

D. Maria I, morrera no Brazil e D João VI sempre cheio de receios não voltava ao reino que ficava entregue á regencia como até então, tendo como arbitro o marechal Beresford, feito marquez de Campo Maior. Os inglezes, tinham tomado os melhores postos no exercito de Portugal. Elles governavam as praças, tinham o commando dos corpos da guarnição, reinavam na policia e se consentiam que a bandeira portugueza tremulasse nas fortalezas, era ainda 

por um resto de pudor diante da Europa que se libertava. Durante uns mezes houve a convalescença das enormes agitações. 

Mas depois veiu uma reacção filha do movimento das tropas francezas, que sob o commando dos generaes do imperio, traziam como o germen de revolução que no fundo vivera sempre no animo d'esses soldados. 

Tendo sabido todos da revolução de 1793, tendo feito as suas primeiras armas em serviço da republica e tendo habituado os habeis a esse grito potentoso, elles quando mudavam o seu brado de guerra, não poderara mudar as convicções. 

Aquelles duques, aquelles condes e generaes de Napoleão I, eram no fim de tudo, filhos da liberdade. E d'ahi essa semente revolucionaria levada atravez do mundo com a desolação, como se n'uma ironia da sorte, um imperador sabido do povo, tivesse que espalhar a democracia feita pelo mesmo povo, semeando-a pelo universo sob o aspecto de quem buscava apenas conquistar. 

Foi assim que por toda a Europa se crearam as idéas liberaes que ainda toleravam reis mas que tambem impunham constituições. 

Na Hespanha accelerava-se mais o movimento como se a visinhança de França fizesse com que se alastrasse mais essa regeneração. Depois a longa permanencia dos francezes nas terras de Hespanha gerara essa anciã de liberdade. 

Entroviscaram-se os ares. Fallava-se já em reunir côrtes para a proclamação d'uma constituição liberal. 

Os inglezes que dominavam em Portugal, encheram-se de terror. O povo estava quedo, n'um motismo, mais combalido do que os outros, sem saber o que desejava. A regencia acautellava-se e não podia tambem definir bem as suas impressões acerca do futuro de Portugal. Entregava-se nas mãos do marechal Beresford que impunha uma meia diciadura. 

Tinham-se feito muitos soldados durante as guerras e agora agonisava a industria e o commercio. Portugal, tornava-se uma caserna e talvez que no pensamento do alquebroso lord houvesse o germen d'um desejo. Quereria chamar-se Guilherme I de Portugal, como Junot ambicionara essa corôa?! 

O tempo ia para os aventureiros, para a turba de generaes avidos de glorias e que Napoleão habituara a sentarem-se nos thronos. Agora o unico reino era o de Portugal. O Brazil, era um imperio vasto e os Braganças pareciam ficar por lá. Aqui, era fácil a presa e o general cubiçava-o embora a coberto, temendo que ao adivinharem-lhe os desejos e os projectos o mandassem recolher a Inglaterra onde Wellington ex-glorificado em vida como um semi-deus, coberto d'ouro pelas potencias, foi exposto á admiração universal. 

Fundiam-se estatuas que se expunham nos parques e nas ruas, davam-lhe condecorações e titulos, de todos os paizes, e o guerreiro, vencedor de Napoleão, dispunha-se emfim a descançar á sombra dos louros, n'essa bella paz que a sua espada creara. 

Não ambicionava mais nada. Era quasi um deus que se contentava sem a sagração d'uma corôa. Beresford podia desejar por elle. 

Mas o vento do liberalismo soprava, os jacobinos, como se chamava então aos liberaes, andavam de chapéu alto e vestiam de briche. 

Fallava-se muito de lojas maçonicas, fundavam se em todos os cantos e por qualquer individuo. 

As primeiras, essas da Boa Morte, com alguma cousa de terrivel na iniciação, tomadas das velhas ideias de José Balsamo ou tinham desapparecido ou não era frequentadas; e só as novas se punham em movimento, n'um bem ridiculo movimento, sem gente de vulto, sem creaturas de valor, dirigidas por homens allucinados pelo que começavam a saber da revolução franceza e sonhavam para si papeis de Marats e de Robisneres. 

O governo estabelecia uma atmosphera de terror, uma enorme atmosphera de desesperada vigilancia e o povo amaldiçoava os maçons, dizia d'elles cousas terriveis, inventavam-se lendas. 

As boas mulhersinhas, velhotas nos seus soalheiros e gente do peseado, á tarde na Ribeira, cochichavam sobre os pedreiros livres. 

Que eram uns herejes! Cuspiam nos crucifixos e bebiam sangue!... Davam tosas nas imagens, e faziam disturbios nas egrejas e tinham patos com o diabo! 

Havia sempre a mesma indignação de bons devotos e manifestava-se nas mais pequenas causas; os frades faziam uma propaganda terrivel contra a maçonaria do alto dos pulpitos e os bons mercadores, ao verem alguem de quem suspeitassem, corriam á intendencia a fazer a denuncia. 

Era pedreiro livre e desde logo se vigiava o pobre diabo que ás vezes apenas fazia contrabando. 

Voltavam os tempos de Manique com um terror mais ridiculo mas voltavam sem aquella destra fidalguia d'outr'ora, com as estocadas, com os outeiros, coir. as festas d'egreja. Era como uma modorra. 

Parecia que um grande pingo de gordura embaciava tudo desde os caracteres até áS convicções. 

Apagara se a ultima scentelha de brio nacional. 

Os inglezes dominavam de todos os modos; havia-os na Alfandega comendo á tripa forra, no exercito exercendo poderes supremos, na alma de muito districto, nas repartições e no commercio, como se Portugal se tornasse um' feudo britannico, especie de ilha barbara onde se exercesse um protectorado. 

Beresford, no seu quartel general do paleo do Saldanha, á Junqueira, servia a regencia com as suas tropas e ella acatava-o como um dominador. 

Fóra d'esse sonho de ser rei, o inglcz não desejava mais nada. 

Era escrupuloso nas ordens, deixava a gerencia dos negocios á gente portugueza que de traição em traição fôra até ao extremo de governar quasi por esmola. O rei no Brazil, estava sem dar accordo de si. E todos os annos, como n'um descargo de consciencia, d'aqui ia alguem a dizer-lhe que Portugal não deseppareceu do mappa e que ainda o aguardava. 

Mas eram tão espaçadas essas visitas, tão molles esses protestos, que o monarcha, de bom grado se deixava ficar a repousar as carnes flacidas pelos cochins do paço, emquanto a mulher, que não perdera os seus habitos d'intriga. ao ver-se feita rainha, sem receio ia tecendo uma rede de conspirações. 

Dizia se que Carlota Joaquina, continuava com os seus amores adulteros e que realisara uma extranha combinação na qual tomava parte seu irmão, o rei de Hespanha, Fernando VII. 

Tratava-se d'um grande golpe de Estado que geraria um imperio. 

Todos os pequenos estados da America, as colonias hespanholas, seriam encorporados n'um imperio ao qual se juntaria o Brazil. 

O rei, ao saber d'esses protestos, encolhera bonacheiramente os hombros; e ella alliara-se então com o vice-almirante inglez Sydney Smith que se propoz a auxilial-a. 

As chronicas escandalosas d'essa côrte resam que a princeza se fizera amante do inglez; e assim, talvez com algum projecto mais tenebroso, caminhavam para a fundação d'esse maravilhoso imperio de que a Hespanha auferiria bons lucros. 

Os argentinos vieram offerecer-lhe o throno; e ella sorriu, acariciou mais o projecto e como uma nova Leonor Telles nos braços d'um novo Andeiro, ruivo, bretão, sonhou em livrar-se do marido. Foi o que lord Strangford, o embaixador inglez, disse a D. João VI. 

Desde logo rebentou a discordia. Formaram-se dois partidos; no proprio ministerio havia divergencias e o pobre monarcha, era a unica victima a valer no meio de tudo isto ao aconselhar ao conde de Linhares que fizesse as vontades á rainha sempre que não fosse complicar os negocios. 

Porém a Inglaterra, sabedora do successo, avisada pelo embaixador que todos guerreavam, intcrveiu. 

Queria livres as colonias hespanholas para o seu commercio e não lhe convinha esse imperio no qual adivinhava uma futura republica a formar-se no sul da America como a outra se formara no norte e se desenvolvera. 

Immediatamente Carlota Joaquina se deseobriu. Travou lucta com lord Strangford. 

Fleugmatico, o inglez aconselhou ao rei que pedisse com urgencia a transferencia de Sidney Smith e d'este modo tudo se tranquillisava. 

Veiu immediatamente outro almirante e a rainha teve que se resignar. 

A situação, era pois muito terrivel, tanto em Portugal como no Brazil e em ambas as nações, os inglezes preponderavam em absoluto. 

Não havia maneira de os fazer sahir do continente; de tal forma se tinham arreigado que se tornava completamente impossivel a sua expulsão. 

A regencia calava-se, o povo habituara se ás fardas vermelhas e o exercito aos seus louros commandantes. 

De resto mais nada. 

Continuava a mesma ignorancia, a mesma preponderancia religiosa, todas as manifestações acanhadas da intelligencia d'um povo que agonisava. 

Mas sobretudo o grande terror era pelos pedreiros livres, pela cohorte d'atheus, como o povo lhes chamava, e que pareciam com largos planos revolucionarios. 

No fundo, a regencia não se importava. 

Estava a par do insignificante papel que as lojas desempenhavam mas temia que outras, formadas por pessoas influentes, por homens de rija tempera, de nome e de caracter, viessem modificar a paz que se gosava. 

Nos cafés discutia-se o Supremo Aschilico com ares mysteriosos e junto da policia que ria dos maçons, nas ruas, por vezes eram apontados a dedo os herejes que continuavam á solta, como se a regencia buscasse mostrar-lhes a pouca importancia que lhes ligava, Beresford, na Junqueira, mettido no seu quartel general, recebia todos os dias denuncias, porém, rasgava-as ou mandava-as informar. 

Não se descobria cousa alguma. E no entanto as sociedades pareciam existir. 

Por vezes, ao vêr certos nomes, o inglez ria. Eram sargentos, officiaes de pequena patente, um ou outro doido, um ou outro sonhador. 

No meio d'aquillo muitos roubos, muitas explorações e fervilham as anedoctas que faziam o general exclamar ao ouvir fallar a maçonaria: 

-- Oh! Não creio n'ella! Não creio n'ella!...

Mas a regencia acreditava e estava á espreita. 





II



O marechal <marca num="*" pag=280>



<nota num="*" pag=280> William Carr Beresford. </nota>



Era alto e cheio, o marechal. Ruivo, d'olhos azues e tinha um aprumo grave, sempre correcto, mettido na sua tarda d'alta golla. 

- Vivia no quartel general, um palacio que se expunha no interior do pateo do Saldanha, quasi em frente do forte da Junqueira; sentava os seus officiaes á mesa e dirigia os negocios da guerra fumando charutos e bebendo Porto. 

De quando em quando dava uma recepção; atulhavam-se as salas d'officiaes onde dominavam os typos bretões, onde vinham os membros da regencia, recepções que eram falhas de mulheres. A côrte estava no Brazil, as fidalgas recolhiam se e Beresford, que occupava agora um Ioga»- egual ao de Junot. não podia cantar como elle a victoria da conquista d'um reino e d'uma mulher. 

Mas tambem de resto, o inglez era rigido, d'uma pureza de costumes perfeitamente britannicos e ali vivia no sonho da sua realeza, com os seus officiaes, atravessando por vezes as ruas por entre as saudações do povo. 

Era n'uma noute de festa, n'uma bella noute de luar. 

Paravam seges em fila e o Tejo corria brandamente a lamber as pedras do forte da Junqueira, onde estava apenas uma guarnição. Estendia-se o edifício enorme da Cordoaria até ao Altinho, do palacio que o marquez d'Angeja habitara e onde se tinham encravado duas peças como n'um symbolo guerreiro dos ascendentes de sua familia. 

Lá dentro, no palacio do marechal, havia uma alegria intensa. 

Soavam vozes, ouvia se a musica e passavam creados com bandejas de gelados. De quando em quando, pelas janellas abertas, via-se apparecer um vulto que ficava a tomar o freseo e entreviam se pares que paravam abraçados n'um torvelinho de valsa. 

Beresford, o marquez de Campo Maior, estava n'um angulo da sala. Abrira o baile com uma morena linda que em segunda valsa bailava com um bello official. 

Parou na rua uma outra sege; um homem alto, de meia edade, vestido de negro e coberto de condecorações, entrou na escadaria e passou por entre as curvaturas d'espinha da creadagem. 

Uma voz, annunciou á porta da sala: 

-- O sr. D. Miguel Pereira Forjaz! 

Beresford, olhou o recem-chegado e sorriu, caminhou para elle a recebel-o. Era um membro da regencia. Recebeu-o com o seu terno gracejo: 

-- Então a maçonaria?! 

O membro da regencia, sorriu tambem e volveu: 

-- Sempre o mesmo! Mal se move!... 

-- Antes assim! 

-- E o senhor marechal, que tal se tem dado na sua explendida festa?! 

-- Amigo... Aborreço-me !... 

-- Oh! Pois vão bellos os dias, volveu o outro. Vão muito bellos, mesmo... 

-- Que quer!... Falta alguma cousa! Ha como uma necessidade de movimento... 

-- Talvez, sim... Sabe que tenho noticia do Brasil! 

-- Que tal?! 

-- Nem más nem boas... El-rei continua com o seu desejo de por lá ficar! 

Luziram os olhos do marechal; fixou-os em D. Miguel Forjaz e calou-se. 

Como se lhe adivinhasse as intenções, elle continuou: 

-- De resto, parece-me que faz bem... 

-- Porque o dizeis?! 

Um tanto bruscamente o outro volveu: 

-- O Brazil é um imperio vasto e conveniente para um principe que ambiciona socego... Embora lhe vão tirando pouco a pouco algumas terras nunca chegarão a despojal-o de todo! 

O inglez soube guardar a sua eterna serenidade, a sua bella fleugma; encolheu os hombros e volveu: 

-- Quem sabe se D. João VI não vem já a caminho!

-- O que?! Que dizeis?! Sabeis alguma cousa?! 

O membro da regencia, parecia espantado, olhava o marechal que volvia do mesmo modo: 

-- Não sabe então que as tropas dos republicanos têem vantagens?! A republica no Brazil!... Oh! Mas vae-se perdendo o mundo!... 

Espreitava a face de D. Miguel Pereira Forjaz, que exclamava: 

-- É apenas isso marechal?! 

Calava-se a musica, os pares passeavam na sala e o inglez volvia:

-- Achaes pouco?! 

Rebentara no Brazil uma sedição militar que tentara a proclamação da republica. Pernambuco, o centro do movimento, foi declarado independente mas dentro em pouco foi dominada a insurreição. Por isso elles fallavam de semelhante facto, no qual um parecia pôr o seu desalento e o outro os seus terrores. 

-- Achaes pouco?! tornou d'egual modo o marechal?!

-- Senhor, tranquillisae-vos! volveu D. Miguel Forjaz. Acabae com os vossos receios... 

-- Receios, não, D. Miguel, disse elle muito á pressa. Não tenho receios senão por el-rei! 

Já varias vezes o outro tentou introduzir-se nos segredos do marechal, porém elle sempre o repellira. 

-- Sim, mas calae vossos receios! tornou o membro da regencia. Sei que foi suffocada a insurreição!

Não poude conter-se d'esta vez, encarou-o de frente e perguntou: 

-- Como o sabeis?! 

-- É bem simples... Acabo de receber um correio que desembarcou da galera S. João fundeada esta tarde! 

- Ah! 

-- Sim... Dizem-me que as tropas do general Cogominho, derrotaram com uma facilidade enorme as forças republicanas! 

-- Ah! Ainda bem!... 

O inglez animou-se, ficou mais contente, entrou a sorrir, perguntando ao membro da regencia: 

-- E como vão os vossos collegas que não tenho o gosto de vêr aqui! 

-- Muito pensionados, senhor marquez! Sabeis que os negocios do reino levam tempo a tratar... Um horror de cousas! 

-- Oh! Tudo se arranjaria I murmurou elle. 

D. Miguel, logo muito apressado, interrogou: 

-- Como?! Como excellencia! 

-- Com uma grande invasão de dinheiro. 

-- Ah! E onde ir buscal-o, interrogou do mesmo modo. 

-- Onde?!... Não sei, meu caro D. Miguel!

Cerrou os labios; olhou-o como a dizer lhe que não se deixasse emprehender e contra o seu costume, disse d'uma maneira galante: 

-- É bella aquella morena, não é verdade?! 

A valsa continuava; havia mais alegria, tinham-se escancarado as janellas e no pateo os bolieiros faziam algazarra. 

N'este instante a voz forte do creado annunciou: 

-- O senhor tenente-general Gomes Freire d'Andrade! 

Houve um reboliço na sala contigua onde estavam os officiaes, todos correram para ali a verem o homem que trazia comsigo a fama de tanta bravura, o homem que era como a lendaria figura do ultimo general verdadeiramente portuguez. 

Elle, muito bello no seu uniforme, firme, com passadas medidas avançava pela sala. 

D. Miguel Pereira Forjaz, baixou a cabeça; mas Beresford disse logo á pressa: 

-- Gomes Freire?! Não é um portuguez que serviu com Napoleão!... 

-- Sim, é! exclamou o membro da regencia com certo ar colerico. 

-- Oh! Um heroe! Um verdadeiro heroe ao que dizeis... 

Elle pareceu admirar-se d'aquella apreciação do marechal, porém calou-se, ficou do mesmo modo, deixou que o general avançasse para o seu lado. 

Viu-o, sentiu que lhe pousava a mão no hombro e lhe dizia affavelmente: 

-- Primo!...

Logo se transmudaram as feições de D. Miguel, abriu os braços e exclamou n'um bem fingido transporte: 

-- Oh! Gomes Freire!... 

Beresford, estava pasmado de semelhante effusão. 

Analysava os agora. Via o fidalgo muito magrito, pallido, com a bocca torcida n'um rictus, via o outro, forte, severo, impertubavel com muito de leal no olhar. 

Lembrava-se do tom em que elle lhe respondeu e via a maneira porque o recebia. Não comprehendia cousa alguma. 

No emtanto elles conversavam; o general dizia: 

-- Emfim, cheguei, meu primo!... 

-- Quando?! 

-- Esta manhã!- Estava farto das minhas terras... 

-- Ah! Não gostaes do descanço?! perguntou a fixal-o. 

-- Aqui todas as commoções, todas as grandes luctas que se travaram, tinha em boa verdade a necessidade de descançar... Recolhi-me uns mqzes n'essas terreolas, fui a Braga a ver o logar onde o povoleu chacinou meu tio, Bernardino Freire!... 

-- Accusado de jacobinismo, de ser amigo dos francezes! volveu o outro. 

O general, encolheu os hombros, sorriu: 

-- Amigo dos francezes! E quem não ha de ser amigo d'elles?! 

-- Oh! O primo está brincando, volveu o fidalgo. 

Beresford, affastara-se um pouco e o general volvia: 

-- Brincando?! 

-- Decerto! 

-- Mas porque?! 

-- Não se comprehende o que dizeis... duvido que falleis a serio! 

E n'um gesto largo, atirando os braços para o tecto da casa, fallando alto para ser ouvido, declarou: 

-- Os francezes?! Mas não vêdes então os males que causaram ao mundo, que causaram sobretudo a Portugal?! O primo vem com ideias de troçar, já vejo!... 

E riu, riu muito deante do pasmo de Gomes Freire que volvia simplesmente: 

-- Mas não! 

-- O quê?! 

--Sim, fallo muito a serio... Sempre vi que se batiam como valentes, sempre os achei hospitaleiros e bons... Vi que adoravam o imperador e levavam a bravura nos corações!... Estiveram aqui e... 

-- E roubaram as capellas e levaram o nosso amo! volveu já apertado. 

-- Primo, disse elle. Commandei uma legião portugueza entre os francezes e vi que os soldados de todo o mundo, são eguaes na pilhagem e no sangue! 

-- Ah! A legião que nunca devia ter partido! 

Na porta, formara-se um grupo d'officiaes, o baile continuava e no mesmo tom simples. Gomes Freire volvia: 

-- Não sei!... 

-- O quê?! Pois achaes que devia ter partido a legião portugueza?! 

-- O primo melhor do que eu o pode dizer... 

- Eu?! 

-- Sim!... 

-- Como:... 

-- Mas decerto... Acaso não foi a regencia quem a enviou! 

Acaso não foi a regencia quem serviu ao lado de Junot?! Não culpem os francezes! 

-- E então quem devemos culpar?! interrogou em voz alta fixando o grupo d'officiaes. 

-- Os portuguezes que não souberam reagir aqui contra as hostes de Napoleão! 

O membro da regencia curvou a cabeça; um tremito passou nos officiaes portuguezes que estavam á porta e que olhavam embevecidos o general. 

No grupo, um homem, alto, louro, fardado de coronel, olhava o tenente-general, com insistencia; de repente avançou para elle e exclamou: 

-- Senhor Gomes Freire! ... 

Elle voltou-se com certo pasmo e murmurou: 

-- Coronel! 

-- Não me conheceis?! interrogou o outro em inglez 

-- Não... Não me recordo... 

-- Meu Deus... tambem não admira, era eu uma creança n'esse tempo! Tinha dezasete annos e era alferes! Mas eu recordo-me perfeitamente de vos ter acompanhado... 

-- Onde?! 

-- Na Russia! Em Oczacow, meu general!... Oh!... Catharina II a condecorar-vos... Recordo-me bem... Lembrae-vos d'aquella intriga, d'aquella infamia!... 

-- De tudo! Senhor, ha cousas que nunca esquecem!... bradou Gomes Freire com um certo pesar. 

-- E no emtanto sahiste d'ella são e salvo! 

-- Ah! despreso a intriga! Passo por cima d'ella... Os intrigantes ou são esmagados ou então deseobrem-se, declarou com segurança para interromper de seguida: 

-- Mas vós?! Quem sois...?! 

-- Estava ao vosso lado na tomada da cidade! 

-- Ah! Meu joven alferes... Mas... tenho uma ideia bastante vaga... 

-- General, chamo-me Archibald Gampeel!... 

-- Folgo de reatar comvoseo relações! E bello sempre encontrar alguem que nos falle do passado! 

-- E que passado! Tão brilhante, tão grande!... 

Não fazia caso de D. Miguel Pereira Forjaz, olhava o heroe e dizia-lhe: 

-- Quereis vir commigo á outra sala?! Desejo apresentar-vos aos meu camaradas! 

-- Honraes-me! volveu com grande commoção. 

-- Mas esperae, general, esperae... Lord Beresford está além... Não o conheceis, não é verdade?! 

Seccamente, o general, volveu: 

-- Não:... 

-- N'esse caso se o permitteis... 

Levou o comsigo até junto de Beresford e exclamou: 

-- Peço licença para vos apresentar um heroe! 

-- Estou ao vosso dispor, disse Beresford. 

-- Meu marechal, é o general Gomes Freire que tenho a honra de vos apresentar! 

-- Conheço vos muito de reputação, general!

-- E eu egualmente, marechal!... 

Estenderam as mãos e apertaram-n'as em silencio. 

-- Sei o que fizesteis na Russia, sei que sois um bravo e folgo que tornasseis a Portugal!

-- Para servir el-rei no que poder, marechal!... 

-- Sim... Para isso aqui estamos todos! 

Parecia que lhe agradava aquelle homem, sorria, começava a fallar das campanhas da península. 

D. Miguel Forjaz, andava d'um lado para o outro muito excitado. De vez em quando olhava o primo e por fim metteu-se no vão d'uma janella a meditar. 

O baile continuava, havia cada vez mais alegria e então, Gomes Freire, era conduzido por Archibald Campeei em direcção á sala contigua onde o inglez o apresentava aos officiaes. Em roda houvera um certo enthusiasmo. 

Quando o seu nome soou, um homem forte e louro, de bom aspecto, tambem fardado de coronel, acercou se e exclamava em portuguez germanisado: 

-- Sois parente do general Bernardino Freire, d'essa heroica victima?! 

-- Sou sobrinho! 

-- General, eu fui o melhor amigo de vosso tio! Quiz salval-o com as tropas que tinha debaixo do meu commando, mas foi impossivel! 

-- Ah! Senhor adivinho o vosso nome! Disseram me em Braga o que quizesteis fazer quando a multidão despedaçava o cadaver d'esse heroe!... Agradeço vos, senhor! Sois o barão d'Eben, não é verdade?! 

-- Sim... 

E abriu-lhe os braços. 

Ouvia-se um grande clamor e os officiaes enchiam as taças e bebiam pelas victorias de Gomes Freire. 

O baile estava no seu apogeu, emquanto D. Miguel Forjaz, se retirava sempre meditabundo. 









III 



Idéas d'um justo 





A janella abria sobre o jardim. 

Era pelo meio d'um dia de outomno e de sol. 

Chovera na noute anterior e agora a luz era mais alegre e mais viva, era mais intensa, provocava um bem estar. 

De longe, da cidade que se movia, vinham ruidos abafados que chegavam até ali, até essa casa do Salitre, onde o general se installara. Para cima, eram os terrenos de Valle do Pereiro, pedaços pardos de barrocaes e quintas verdes que tinham um bello tom de velludo na claridade, sob o ceu limpido. 

Elle acabara d'almoçar e fumava tranquillamente um charuto. 

Sem querer, vinha-lhe uma ternura, uma saudade, n'esse descanço que começava a gosar. Era como o recolhimento após tantas luctas, em que os nervos se aquietavam, em que alguma cousa de bello o invadia como após um banho reparador. Mettido no seu roupão, de perna cruzada, ouvia o barão Eben que desabotoara a farda e lhe fallava: 

-- Ah! Como teria dado todos os triumphos d'aqui por um só no grande exercito! 

E pequenino, louro, miudo, com a sua face rosada, com a sua barbinha loura, elle guardava uma bella serenidade, gosava tambem do encanto d'esse dia maravilhoso, sentindo-se á vontade e continuava deante do heroe: 

-- E conheceu-os todos, não é assim... 

Gomes Freire, sorriu, volveu logo: 

-- Todos... Nem um só deixou de me apertar a mão... Mas era muito extranha essa epopea... 

-- Porque?! 

-- Oh! Ganhavam-se batalhas sem que para isso houvesse um esforço... Na Russia então pasme!... 

E fallou-lhe de Mosekow tomada d'assalto, de rompante, mostrou-lhe a figura do imperador radioso e como ameaçada a entrar no Kremlin, indicou-lhe a gente do seu estado-maior e teve uma exclamação, teve um arrebatamento: 

-- Oh! E Ney! E Ney!... 

-- Ney?! 

-- Sim... Foi feito principe... Como elle luctava... 

-- E agora?! Que faz toda essa gente... Quaes são as suas ideias?! interrogou o allemão com o ar do homem mais eminente do mundo. 

-- Não sei... 

Torceu a bocca n'um sorriso e respondeu de seguida no mesmo tom: 

-- Não sei... Meu amigo, eu agora vivo muito longe do mundo para me preoccupar com tudo isso... Só tenho uma aspiração... 

-- Qual, general?! interrogou o outro com certo interesse. 

-- A mais simples... Que me deixem viver em paz! 

Soltou um suspiro, ficou a meditar fixando o ceu que era azul e limpido. 

-- Oh! 

Parecia admirado, lembrava um homem que de chofre soffrera um rude golpe; guardava a sua maneira serena mas ao mesmo tempo nos olhos adivinhava se-lhe o tormento da alma. 

-- E crivel?! 

-- O quê?! Pois não tenho direito a socegar?! interrogou Gomes Freire. 

-- Meu amigo, sim... 

Calaram-se do mesmo modo como se ambos se mergulhassem nas suas ideias; e depois, ao fim de certo tempo, ao cabo d'alguns momentos, o barão Eben, exclamou: 

-- E d'ahi quem sabe, talvez não tenhaes esse direito! 

Um sorriso mysterioso, apparecia nos seus labios, uma enorme commoção o tomava, a mais extranha dôr o obrigava a exclamar de novo: 

-- Sim, esse direito chega a ser na verdade um mau passo! 

-- Porque?! 

-- Gomes Freire!... 

Calou se de novo; uma maior sensação lhe turbava a voz: 

-- Meu amigo!... volveu o general. Mas que quereis dizer?! 

-- Tanto e tão pouco... 

-- Vejamos! 

Sorriu por sua vez, estendeu se mais na cadeira. 

D'um pombal proximo, n'um vôo rápido, dois pombos largaram para as alturas e elle ficou a vel-os pairar no espaço, sempre a sorrir. 

-- Oh! Meu amigo... Emfim, é o momento de vos fallar! 

-- Mas em quê?! perguntou deveras surprehendido. 

-- Em quê?! 

-- Sim... 

-- Na vossa patria! 

Passou uma scentelha nos olhos do heroe, estremeceu como se aquella phrase lhe recordasse algum pensamento muito intimo e ficou á espera que o outro continuasse. 

-- Sim, na vossa patria... 

-- Mas, barão! 

-- Ides dizer que sou estrangeiro e que extranhaes muito que seja eu o primeiro a fallar em tal!... 

Aquelle homem rosado e louro, dotado d'uma bondade e d'uma ternura extremas fallando assim, apresentando se em face do general como um libertador de povos, parecia bem extranho a Gomes Freire, que o deixava continuar: 

-- Eu sou um extrangeiro mas vivo aqui desde ha tempo e amo Portugal como se n'elle nascera... 

-- Oh! barão... obrigado! volveu o heroe muito commovido. 

-- Amo sim... Amo este povo porque elle e bom e digno de melhor sorte... 

-- Quereis dizer! 

-- Por Deus! Eu posso fallar-vos desassombradamente, tornou elle com o seu ar mais decidido. Vi morrer vosso tio e sei bem o que elle pensava... 

-- Bernardino Freire?! O que pensava elle, dizei! 

-- Queria a liberdade! 

-- A liberdade?! 

-- Que as armas francezas levaram atravez do mundo no seu ar d'oppressão... Os povos no contacto d'esses soldados bravos e enormes d'animo começaram a vibrar; na seentelha redemptora que os exercitos de Napoleão ateavam, os povos iam no bello caminho de queimarem velharia... 

-- Cautella, volveu o general com um sorriso triste. Pareceis um jacobino... 

-- Ah! Não o pareço apenas... 

-- O quê?! 

-- Sim, general, entrego-me nas vossas mãos... 

-- Como?! 

-- Vou dizer-vos tudo... 

Era um momento solemne aquelle em que Eben ia falar. 

-- Sim, general, digo-vos que deixei a Prussia depois de lêr os encyclopedistas... Todo o meu ser soffreu uma transformação... Fôra creado como nós o somos lá em baixo na Prussia sob o regimen de ferro, sob a imposição de que a nobreza é santa e redemptora porque nasceu da defeza exercida, porque veiu dos golpes fortes que se despediam contra os que buscavam esmagar a nação, onde essa nobreza tinha o seu berço... 

Fallava n'um portuguez atrapalhado e andava a passear de lado a lado do terraço, de mãos nas algibeiras, exclamando: 

-- Porém uma noute eu senti que se descerravam horisontes novos diante de mim! Foi na Siberia, n'um velho castello de meus paes que ficava na orla d'uma floresta...

-- Ah!... E depois... 

-- A noute era de tormento e eu muito novo ainda... Senti que os mollossos ladravam e abrindo a janella vi na noute eseura um vulto que fugia do parque ... O meu primeiro pensamento foi tomar a escupeta que ficava sempre ao meu lado no leito, n'um velho habito de soldado! Agarrei-a, fiz fogo... Vi que um homem cahia! Alvoraçara-se a casa e corria gente sob a neve... Reconhecera o ferido que a minha baila alcançara e quando eu vi exclamei: ladrão! Era um dos nossos servos, um dos camponios do nosso burgo que saltara á propriedade para roubar lenha... Ah! Fazia muito frio n'essa  noute! Desde ha tres dias que nevava forte, as casas estavam cobertas de gelo e os campos tinham as sementeiras soterradas... Sim, mau o anno para os pequenos lavradores... muito mau, sim... O homem que a minha bala ferira, entreabriu os olhos e disse-me: -- Era para os meus filhos que morrem de frio! 

-- Ah! barão, atalhou muito commovido o general. 

-- Como eu o olhei, que pena tive do meu acto... Sim, porque no fim de tudo, esse camponio tinha tambem o direito de se aguentar... Tratei-o, mandei soccorrer a sua familia e no contacto d'esse homem rude e simples que singelamente me contava as suas miserias senti que uma aurora nova me illuminava a alma. Foi por este tempo que li Rosseau... Já o sentira, já pensara tudo aquillo e entrei a fazer o meu dever... 

-- O quê?! Que fizesteis?! interrogou no auge do desespero. 

-O bem! 

-- Mas porque não ficaste lá em baixo a continual-o... 

-- Bom seria... 

-- Mas... 

-- Ouvi, ... Dentro em pouco adoravam-me... Eu era coronel com vinte e dois annos, herdara o posto de meu pae, era senhor de terras e de homens... Andava a fazer bem! Vivia-se quasi sem difficuldades nos meus dominios e d'ahi a intriga da nobreza dos arredores... chamaram-me á côrte, fallei com desassombro, cahi em desfavor... A republica franceza espantava os soberanos. Napoleão, começava a vencer em Italia e era uma ameaça... Desde 

logo me apontaram o caminho que devia seguir... Ou tomava o meu logar ou esperava pelo castigo! Cobardemente entrei a fazer o bem ás eseondidas .. Mas mesmo assim fui accusado de novo... Então, receiando o castigo promettido, fugi, abandonei tudo, parti a offerecer a minha espada a quem a quizesse... De terra em terra vim dar a Portugal e então sabeis o resto... Este amor de liberdade ficou-me e quero levar por diante a missão que me inspira! Basta d'escravos, por Deus! Basta de dominios... 

-- Coronel! exclamou o general com certo pasmo. 

-- Senhor... 

-- Reparae que a republica franceza apenas fez um imperador... 

-- Reparo em tudo, ... Mas sei que a vida que se leva em Portugal, fará tambem um rei mil vezes peior do que o imperador de que fallaes! 

-- O que?! Que dizeis?! 

Eben, sentou-se n'uma cadeira larga proximo do general. 

Chegavam sempre os mesmos ruidos das ruas e o sol começava a aquecer; vinha como uma enorme alegria a espalhar-se na canção dos pássaros sobre as arvores das qumtas próximas; e elles assim lado a lado, olhavam-se como admirados de terem chegado a semelhante extremo de conversação. 

-- General, começou o barão Eben novamente, meu caro general... 

-- O que?! Barão... O que quereis dizer com a vossa phrase desassombrada?! 

Franzira o sobr'olho e sentira um fremito como se alguma cousa de muito intimo lhe acudisse de repente. 

-- Sim, meu caro general, tornou o outro. Sim... Eu sou um estrangeiro mas sinto o dever de fallar d'este modo porque vos estimo e porque vejo em Portugal a minha patria... 

-- Mas dizei tudo! 

-- Tendes visto como em Portugal se administra a justiça?! 

-- Sim... tenho! É como na Turquia, volveu com colera. 

-- Tendes visto como a regencia se dobra... 

-- Oh! Meu amigo, meu caro amigo, tenho visto demais. Lá n'esses cargos da governação tenho um primo que me é mais extranho dia a dia... 

-- D. Miguel Forjaz! 

-- Esse! 

-- Sempre o conheci quasi independente e agora vejo-o como um sicario... 

-- General! Graças por essas palavras que me põem á vontade... 

-- Meu amigo... Acima de tudo coUoco a verdade e a justiça, exclamou enthusiasmado. 

-- E essa verdade e essa justiça por vós fallam bem alto... 

-- Como quizerdes... Só vos affirmo que acima de tudo, mesmo da vida, as colloco! 

-- Oh! Que grande alma tendes! É a alma que eu já suspeitava muito em vós... Mas ouvi, ouvi, tornou com mais enthusiasmo ainda: 

-- Vedes que Beresford, é hoje marquez de Campo Maior... 

--Sim! 

-- Será amanhã duque como Junot o foi... 

-- Tudo é possivel! 

-- Será depois rei como Junot o quiz ser!... 

-- O quer! bradou elle de repente levantando-se d'um salto. 

-- Sim... De que vos admiraes?! Será rei!... 

- Oh! 

-- Será rei e não duvideis, por Deus vol-o peço... 

-- Mas é crivel que semelhante ambição viva n'esse homem!... 

Sempre a sorrir, com o seu ar de venia, volveu: 

-- Napoleão habituou os generaes a terem ambições! 

-- E julgaes?! 

-- Que alguma cousa se prepara, sim... 

-- Barão... 

-- Meu amigo! 

Estavam de pé e frente a frente, olhavam-se commovidos. Um era o patriota n'um periodo d'exaliação, o outro era o libertador de povos n'uma grande fé de fazer alguma coisa uiil a esse Portugal que o adoptara. 

-- Barão, exclamou elle de novo. Mas reparaes... 

-- Em que?!

-- Que são gratuitas as vossas affirmações! 

-- Como vós sois justo... 

-- Ah! N'esse caso... 

-- N'esse caso basta-me provar-vos tudo! 

-- Fallae! 

-- Beresford, encheu o exercito d'officiaes inglezes... 

-- Sim... 

-- Beresford, fez com que os seus se tornassem governadores das fortalezas e agora campeia como um verdadeiro rei... 

-- É verdade! 

-- A regencia curva-se... 

-- É certo! 

-- Os grandes homens são olhados como um perigo! 

-- Os grandes homens?! Mas onde estão elles n'esta terra?! interrogou com o seu sorriso caloroso. 

-- Conheço um! 

-- Quem?! 

-- Vós! 

-- Eu?!... Meu amigo, quem se lembra de mim?! volveu com amargura. 

-- Quem?! Mas o exercito! Todos esses soldados que conhecem a vossa lenda de bravura... 

-- É um engano! 

-- Julgaes?! 

-- Tenho a certeza... 

-- Pois bem, correi os quarteis, fallae aos soldados... 

-- Todos me saudarão como a um general. 

-- E todos vos olharão como um heroe... Todos serão justos a acompanhar-vos porque sois o unico general de prestigio! 

-- A acompanhar me?! Mas porque?! perguntou com certo desespero. 

-- Para a libertação! 

-- -Oh! que sonhador... Não podeis negar que sois allemão... 

No vosso paiz crêem se em lendas e em fadas que vão pelas noites enfeitiçar as aguas... Mas vede bem que n'esta terra ninguem acredita senão no que é positivo! 

-- E acaso não é positivo um movimento revolucionario! exclamou elle. 

O general, sentiu um estremecimento a percorrel-o. 

-- Não! 

-- Não?! É que tão olhado andaes que não vêdes as cousas... 

-- E que devo eu ver, meu amigo?! interrogou de novo. 

-- Deveis reparar no estado d'agitação em que todos andam... 

-- Não vejo senão marasmo... 

-- É que não quereis abrir os olhos á luz! redarguiu o barão com um ar de mysterio. 

O general como se já tivesse ouvido aquellas palavras, encarou-o, esboçou um sorriso e perguntou em voz baixa: 

-- Continua então a maçonaria?! 

-- Se continua... D'ella partirá esse enorme movimento que fará a libertação de Portugal!... 

Encolheu os bombros, sentou-se de novo e volveu: 

-- Eu fui dos primeiros maçons em Portugal!

-- E agora?! 

-- Agora... Que me importa tudo isso diante d'apaihia d'esse povo... 

-- General! E se em nome da vossa antiga profissão eu vos pedisse que libertasseis Portugal! 

Gomes Freire, ficou na mesma posição e declarou: 

-- Se um dia eu vir a patria em perigo e houver homens que me queiram acompanhar estarei prompto a cumprir o meu dever! 

-- Sabeis que carecemos de preparar as cousas... 

-- Quereis dizer?! 

-- Que é necessario conspirar! declarou o outro. 

-- Nunca! 

-- O que?! 

-- Nunca! repetiu elle com fogo, accrescentando desde logo: 

Não é do meu caracter faze»- embuscadas... 

-- Por patriotismo, tudo é permittido! 

-- Conspirae vós... Eu estarei d'atalaya para tomar o meu logar no dia em que a patria estiver em perigo! 

-- E quereis maior perigo?! perguntou o outro. 

-- Falla-se que el-rei vae voltar! 

-- El-rei?! Mas não seria melhor que em vez do rei tivessemos a republica! 

-- Barão Eben, exclamou o general muito dignamente. Eu sou um subdito de D. João VI! 

-- General... E eu a julgar-vos um liberal!

-- Sou um subdito d'esse rei que nos dará uma constituição! É esse o vulto moderno e Portugal não ficará atraz das outras nações! 

-- Decididamente não quereis?! interrogou desanimado. 

-- Não... Já vol-o disse... Tudo que for necessario no dia em que a patria estiver em perigo... Até lá, meu amigo, basta que espere... 

-- Oh! Meu Deus! E sois o unico em que se crê! 

-- Não tendes motivos para duvidar! exclamou de rompante. 

-- Mas não quereis no emtanto o vosso logar... 

-- O meu logar é no combate, á luz do sol e não na treva a arranjar ciladas!... 

-- Contariam comnosco para esse dia!... 

Elle não lhe respondeu directamente. 

-- Pela patria irei até ao sacrificio mas na rua, na luz, d'armas na mão... Barão, não quereis um cigarro... Vieram da Russia... Fumae e dizei-me depois se não tem o sabor d'um sonho que em fumo se esvae! 







IV 



Os conspiradores 





Eram uns homens d'ares severos e maneiras mysteriosas que se escoavam para a portinha baixa d'aquella casa da rua de S. Bento. <marca num="*" pag=299> Sahiam e entravam todos n'uma saleta de tectos baixos mal guarnecida onde um homem fardado d'alferes, cuspinhando a miúdo e mettido no escuro, lia em voz fanhosa uma 

proclamação a uns vinte que tinham ficado rente com as paredes, murchos, sem o menor signal d'enthusiasmo. 



<nota num="*" pag=299> N.° 51 na rua de S. Bento. </nota>



E elle, ia lendo sempre no mesmo tom, com a luz de duas velas de sebo, a bater-lhe no peito da farda. 

Era extranho, lia de fórma que parecia celebrar um officio de defuntos, n'uma voz arrastada e triste n'um tom desolado que contrastava com as phrases energicas da proclamação. Uma mulher nova, de cabellos negros e grandes olhos a sahirem no seu rosto claro, parecia ser a unica dos conjurados que vibrava n'aquelle mysterioso conclave. 

O alferes, leu sem hesitação, lentamente fanhoseava: 

-- «Portuguezes, <marca num="**" pag=299> que criminosa apathia vos odeia?! Com que esperanças buscaes nevoar o desengano que de toda a parte vos brada?! É preciso que findem os tempos de cegueira e d'apparente e debil segurança com que mascarado o despotismo, quiz o sepulchro a independencia nacional. Eia pois, soem os brados meus no intimo dos vossos corações, e a vossa dignidade amortecida ressuscite á voz despertadora com que o patriotismo vos convoca. Correi oh! caros concidadãos?! Correi todos para anniquillarem o jugo insupportavel com que a Inglaterra pretende eseravisar-nos! Não percebeis das tropas que giram nas fronteiras?! Tendes por medida favorável que Almeida se mandasse desarmar e que a Elvas succeda o mesmo em poucos dias?! 



<nota num="**" pag=299> Inteiramente authentico. </nota>





A mulher agitou-se, exclamou: 

-- Sim! Será! Muito bem... 

Os outros pareciam mergulhados n'um somno pesado; não sentiam o mesmo abalo. Um ou outro, relanceava de quando em quando olhares medrosos para a porta. 

Lá fora cahia monotonamente a chuva e em voz bem monotona tambem, o alferes ia lendo: 

-- «Dá-vos idéa de prosperidade vêr exgotados os cofres publicos e particulares?! Não sabeis que maior requisição de tropas se faz ao nosso paiz e que esse ridículo aventureiro (que em desabono do nosso commandante em chefe) tenta levar ao fim o novo recrutamento, já por fazer á sua patria o serviço d'anniquillar o commercio, artes e toda a industria nacional, já porque não fustremos o tacito e sacrilego tratado, por onde o ingrato monarcha nos sujeitou á tyrannia dos hespanhoes como dote de filha ou presente d'escravatura?! Flagellou-nos toda a sorte de males em sete annos. 

«E que premios tem o despota distribuído por tão árduos sacrificios?! Aos benemeritos vassallos, que derramando sangue lhe seguraram o corôa e o sceptro, chamava-os açougues do precario imperio. Ah! E vós, vendo que as orphãs e viuvas dos que morreram na batalha não encontravam outros paes nem maridos, senão a desenvoltura de que são victimas por o não serem da Indigencia. 

Mas que sinto, portuguezes?! A lembrança é de vós digna e á prompta execução todos se prestam: o despotismo não pode não, reparar o golpe que o vae ferir! A independencia nacional, a segurança particular e a publica prosperidade são os officiaes que recrutam para o nosso partido e que formaram o conselho regenerador incapaz de vos trahir, vender ou alborcar! 

«Não se recorde injuria ou prejuria para que a Anarchia não impere em nós, obedeça se cegamente ao Conselho e não se adulterem nem uma parte de todo as suas determinações. 

«União, valor, obediencia e sereis felizes. O conselho regenenerador». 

Acabou de ler e deixou-se cah'r n'uma cadeira de palhinha, ante o silencio dos camaradas. 

Mas depois, n'uma verdadeira furia nervosa, cheio d'enthusiasmo começou logo: 

-- Collocae vos no meu logar, amigos, e dizei se não tenho razão em fazer tal proclamação como chefe d'esta secção! 

-- Decerto, bradou logo um d'elles, accrescentando: 

-- Resta saber. Ribeiro Pinto, se ella encontrará echo no paiz!

-- Socegae... Tenho tudo preparado... Depois o proprio governo nos auxilia... 

-- Como?! Como?! interrogaram os outros de repente. 

-- Como?! Praticando infamias e baixezas... 

-- Sim... Isso é bem verdade! declarou a mulher. 

Todos os olhares se voltaram para ella, enchia-se dum verdadeiro enthusiasmo e accrescentava: 

-- Dia a dia se vêem maiores infamias por essas provincias... De lá venho... Augmentam as decimas, as sizas, os trabalhos nada rendem... 

-- Irmã! bradou o alferes. Tudo isso acabará brevemente. 

-- Oh! Que Deus o queira! 

-- Que o Supremo Architecto velle por nós! disse lá do canto uma voz forte e vibrante. 

Todos se voltaram e viram um homem gordo que clamava de murro erguido: 

-- É preciso acabar com estes mysterios! É ir para a rua, ainda ha dias o disse ao coronel Monteiro. 

-- Paciencia ainda por uns dias, aconselhou o alferes. 

-- Mas então o que nos falta?! interrou o gordo. 

-- O chefe! 

-- Ora, os chefes apparecem sempre nos momentos de revolução! disse ardentemente a mulher. 

-- Assim é, irmã, tornou elle, porém devemos contar com elle... 

-- O quê?! Pois não sabeis então da nova?! perguntou logo um sargento dando dois passos na sala. 

-- Que nova?! 

Fez um signal para que se acercassem e muito baixinho, disse:

-- Estive com o barão Eben!... 

-- Ah! E depois...?! perguntou o alferes com grande interesse. 

-- Depois... Elle fallou com o coronel Monteiro de Carvalho... 

Temos além d'isso um major... 

Sorriram satisfeitos ao ouvirem todas aquellas palavras que eram como a adhesão dos grandes justos á revolução que tinham inventado n'um imperio d'humildes. 

-- E quem é esse major?! perguntou logo o homem gordo. 

-- Um d'atiradores! Chama-se José Franciseo das Neves... 

E continuou logo no mesmo enthusiasmo: 

-- Temos além d'isso um capitão do 13 d'infantaria... 

-- É um numero d'agoiro, guinchava uma vozinha. 

ninguem fez caso do dito e todos rodearam mais o sargento que accrescentou: 

-- Depois temos tambem além d'este capitão que se chama Ricardo de Fagaró, mais outro d'artilharia de nome Manuel Joaquim Monteiro e um alferes de cavallaria, um tal Christovao da Gosta e o tenente-coronel Verissimo Ferreira... 

-- Ah! E eu arranjei ainda mais adhesões, declarou o alferes. 

-- Mais?! 

Pareciam vibrar agora no maior enthusiasmo e elle continuava da sua maneira mais cheia de alegria: 

-- Sim, nada menos do que um capitão d'infantaria, Victorino Serrão e um tenente da sua companhia chamado Teixeira! Mas o melhor é um ajudante d'ordens do marechal Bochan... 

-- Do inglez! 

-- E inglez, é tambem o ajudante! volveu o alferes. 

-- O quê?! Um inglez comnoseo! exclamou a mulher. É necessario prudencia, camaradas! 

-- Respondo por João Horan, gritou o alferes. 

Os outros calaram-se e elle continuou ainda: 

-- Ha tambem um alferes de guias que e meu amigo... Outro do 16... E o abbade de Carrasedo. 

-- E eu, declarou o homem gordo, respondo por José Dionysio 

Serra, capitão d'engenheiros... E tambem fallo pelo capitão mor d'Alhandra! 

-- Ah! O Palmeiro... volveu Ribeiro Pinto. É maçon a valer desde o tempo de Carlota Joaquina... 

-- Porém, meus amigos, disse então um mancebo que domava a mulher com a vista, carecemos de muito mais gente e eu não me poupo... 

-- Cautella, senhor Galheiros, cautella, aconselhou a mulher. 

Sabeis que podemos ser presos á menor imprudencia! 

Fez-se vermelho, ergueu a voz e bradou: 

-- Seria o signal de revolução!

-- Não digaes tal, atalhou o alferes. Não temos ainda as cousas preparadas d'esse modo.. E o chefe para essa revolta?! 

Mas o sargento, accrescentou de novo a interrompel-o: 

-- Já vos disse que estive com o barão Eben... 

-- Sim... 

-- No emtanto não vos fallei d'alguem que seria o melhor dos chefes! 

Calaram-se cheios de pasmo e desejosos de ouvirem esse nome que estava no coração de todos mas o qual até então não fora pronunciado: 

-- Quem?! perguntou a mulher como arrebatada. 

-- Gomes Freire! 

-- Sim! Sim! gritaram todos. Gomes Freire!

-- Resta saber se o heroe acceitará, disse então o alferes. 

-- O barão d'Eben, volveu o sargento, disse-me que o genera estava prompto a defender a sua patria no dia em que ella carecer da sua espada... 

-- Oh!... 

Foi um deslumbramento, rebentaram os applausos, ouviram se vozes clamando: 

-- Será elle o libertador...! 

-- É necessario convidal-o para uma reunião em Alcantara, nas pedreiras! Ahi estaremos todos. 

Aquella assembléa redobrava d'enthusiasmo, e exclamava: 

-- É preciso convidal-o! 

-- Sim, irei eu... irei eu! disse a mutlier como cheia de fanatismo. 

-- Vós?! perguntou com certo enleio. 

-- Eu, sim... A alma d'esse heroe deve sentir-se consolada ao ver que até as mulheres pensam em libertar a patria! 

Applaudiram-n'a muito e então todos no mesmo arrebatamento disseram o nome do general, nome de que faciam um escudo, uma taboleta para essa conspiração até ahi tão triste e de tão pouca importancia. 

O heroico general, mal suspeitava lá no socego do seu quarto, recordando o periodo dos seus annos e das suas glorias que lhe fallavam do nome e o faziam chefe d'uma conspiração que elle renegaria se o consultassem. 

Porém elles, devorados de enthusiasmo, mal pensavam em tal. 

Apenas viam no grande homem o chefe supremo que os levaria á victoria. 

Todos declararam que d'essa fórma trabalhariam com mais afinco e a mulher ao embuçar-se no seu capote de tres moedas, disse a meia voz: 

-- Oh! Vou emfim ver Gomes Freire! 

Desceram arrebatadamente a eseada, depois á porta tomavam differentes direcções sob a chuva, com ares mysteriosos. 

Ella acceitou o braço que o Galheiros lhe ofíerecia e disse alegremente: 

-- Dentro em pouco temos um governo de que o general será o chefe.... 

-- O general?! Amaes então muito o general?! 

-- Oh! Elle é um heroe! Quero-lhe como a um libertador! 

O outro baixou a cabeça e começou a caminhar ao seu lado muito em silencio. 

Batiam duas horas e a chuva redobrara. Elles perdiam-se para as bandas do Rato, lado a lado, sonhando n'essa evolução que tão tragica seria para os seus chefes. 







V



Palestra animada 





Ao redor da meza do café, estavam todos palestrando animadamente. Era no Marrare que ficava a meio do Chiado e onde os incriveis do tempo se especa- 

vam em grande alardo. 

Alli parava a janotada toureira, fidalga e beata, a gente das arruaças e da devoção que entre palavrões suaves atirados ás mulheres que passavam, 

recordavam os ultimos garrochões de Salvaterra. 

Era sempre um magote de jovens elegantes chupando o cigarro que já se começava a impor e que faziam do Marrare de Polimento o seu quartel general. 

Esse café era como uma novidade em Lisboa. Não tinha o feitio archaico do tradicional botequim e vendia neve. 

Pela tardinha começava a animar-se e só pela noute alta cerrava as portas e apagava as lanternetas d'azeite. 

Pelas mezas estavam differentes grupos; n'uma d'cllas mais 

próxima da porta, estavam dois olficiacs que conversavam com certa 

animação. 

Numa meza ao lado, o Calheiros, lançava-lhes olhares, parecia desejoso de tomar parte na conversa e ia bebendo successivos copinhos de aguardente. 

Tinha nos olhos uma pontinha de excitação e os outros, sempre do mesmo modo alegre, pairavam, sobre diversos assumptos que lhes interessavam. 

Um d'elles, era um tenente de policia, muito moço, que alardeava largos gestos e ria de quando em quando, o outro era um capitão d'infanteria que dizia em voz muito alta: 

-- Pois, meu caro Antonio de Padua, eu vou-me com Deus... 

Tenho que fazer a mala pois que o brigadeiro não gosta de esperar... 

-- Sempre partes, Moraes Sarmento, sempre partes?! 

-- Sim... volveu o capitão, a minha brigada vae para Traz-os-Montes... 

-- Ao menos mais um copo! pediu o tenente de policia. 

--Oh!... Pois sim... acceito... 

-- E eu pagarei! exclamou uma voz ao mesmo tempo que um rapaz ainda muito novo se apresentava diante dos officiaes. 

-- Olha, é o Gameiro! bradou o capitão. 

-- Viva, seu bacharel... 

Elle abancou, apertou eíFusivamente as mãos dos dois amigos e perguntou: 

-- E então que se diz!... 

-- Pouco ou nada, redarguiu o official da policia. 

-- Tambem não é assim! declarou o bacharel com um sorriso, vasando o primeiro calice de licor. 

-- Ah! Tu ainda não perdeste o feitio sorna de Coimbra?! interrogou a rir o capitão, na sua forma habitual. 

-- Meus amigos... O que lhes digo é que sorna ou não, cá estou nomeado juiz de fóra para Oeiras... 

-- Bravo! Bravo!... exclamaram muito alegremente, exclamando: 

-- Rapaz... Vinho do Porto... Vinho do Porto...

E por entre abraços, por entre gargalhadas tocaram os copos n'ama grande alegria, n'uma saudação ao amigo que agradecia. 

O Galheiros cada vez os olhava mais attentamente da sua meza, fixava-os, não os deixava um momento com a vista e de repente erguia-se, bradava: 

-- Gameiro, dá-me ao menos licença que partilhe da tua alegria!... 

-- Oh! Calheiros... Velho Calheiros... Venha de lá esse abraço! 

E muito amigavelmente apertou-o contra o peito cheio de felicidade. 

Fez as apresentações com um modo de intimidade, disse: 

-- O Calheiros... Cabral Calheiros, um bom companheiro de Coimbra... Não te recordas, Moraes Sarmento?!... 

-- Eu não, volveu estendendo-lhe no emtanto muito gravemente a mão. 

Tranquillisaram-se, ficaram a conversar, fazendo projectos de futuro, muito cheios de alegria ao lembrarem-se do que poderiam ser. E todos tinham um sonho, uma mulher na existencia, que amavam e que desejavam para companheira, para mãe dos seus filhos. 

Então, o Gameiro, passando a mão na cabelleira, balbuciou: 

-- Sim... É a felicidade, é o descanço, meus amigos, o que ambiciono... Vou viver retirado cumprindo as minhas obrigações e adorando a minha noiva! 

-- Não tens esse direito! exclamou rapidamente o Calheiros. 

-- E porque?! interrogou a sorrir, julgando que elle brincava. 

-- Não tens! Nenhum de nós tem o direito de sonhar essa felicidade... 

-- Mas porque, Calheiros, porque?! interrogou de novo. 

-- É simples!... Não vês que a patria vae a agonisar... 

-- Por Deus... Acaso tu não amas?! perguntou mais uma vez o outro. 

Elle esvasiou um copo, olhou todo o café e exclamou: 

-- Amo! 

-- E acaso deixas de amar porque, como dizes, a patria agonisa. 

-- Não! Mas é que a mulher que eu amo, ama commigo a patria, vae commigo na lucta!... 

-- Que lucta?! perguntaram os outros muito pasmados. 

O Calheiros, sem o menor embaraço, redarguiu: 

-- N'aquella que ha-de salvar a nação!... 

-- Salvar a nação!... 

-- Acaso não lesteis os pasquins que hontem foram affixados?! 

-- Ah! Sim... lemos... mas foram arrancados esta manha! 

-- Por ordem do marechal, por ordem da regencia, de todos esses miseraveis que para ahi imperam... 

-- Senhor! bradou o tenente de policia. 

-- Estamos entre amigos, não é verdade, todos somos patriotas, não é assim?! 

-- Certamente! affirmaram os tres rapazes. 

-- Pois n'esse caso, repito: Sim... Devemos salvar a nação! 

E sem esperar mais nada, o Galheiros, puchou da algibeira a sua proclamação, a mesma que fora lida na rua de S. Bento e começou a lel-a. 

Quando terminou, muito feliz, muito radiante, exclamou: 

-- Que dizem?! 

-- Que é o bastante para o enforcarem e a nós todos, volveu o capitão Moraes Sarmento, 

O Gameiro meditava, e o outro ao ouvir semelhante resposta, disse: 

-- Ah! Como se engana, não ha o menor perigo, digo-lh'o eu... A maior parte da gente de fortuna, os grandes do reino e os militares graduados estão na conspiração! 

-- Que dizeis?! interrogaram todos cheios de pasmo. Uma conspiração! 

-- Na qual, até ha mulheres, lindas mulheres da côrte! volveu o desgraçado, esvasiando um novo copo e dizendo logo: 

-- Mas segredo, não é verdade?! Sim, ides aguardar segredo?! 

-- Segredo?! Mas se vós o não fazeis?! Se sois o proprio que vindes para aqui espalhar todas essas cousas que vos podem perder! redarguiu o tenente de policia. 

Elle, teve um assumo de força, expelliu uma batorada d'alcool e bradou: 

-- Ah! Que importa?! Um de nós preso, seria o signal... 

Ergueu-se, estendeu a mão espalmada ao Gameiro e disse: 

-- Rapaz... Felicidades e até ao dia em que correremos esses inglezes do governo!... 

Saudou os outros que lhe apertaram a mão e no fim de tudo com o seu ar mais empertigado, foi para a porta a passear por entre os grupos de janotas e toureiros. 

-- É uma conspiração em fórma! disse a rir o Moraes Sarmento. 

O tenente de policia, encollieu os hombros, redarguiu: 

-- Apenas um homem que bebeu, crê n'isso! 

-- É a minha completa opinião, disse o Gameiro. 

-- Tambem a tua?! perguntou o capitão. 

-- Mas decerto... Se acaso houvesse qualquer cousa, elle viria dizei o para aqui?! 

-- Quem sabe se debaixo da influencia da bebida... 

-- Socega, meu visionário... Não ha cousa alguma... Esse Cabral Gaiheiros, é uma cabeça esquentada, um doido que imagina realidades todas as cousas que sonha!

-- Ah! Mas acaso não appareceram pasqums pelas esquinas?!... 

-- Onde se dizia mal do governo, não é isso?! 

-- Mas sim... Olha que qualquer cousa pode haver ... 

-- Sim... Eu te digo... Pode haver tudo... No emtanto, tambem te affirmo que se por acaso isso succedesse ninguem metteria o Galheiros na confidencia!... 

-- Talvez tenhas razão!... 

-- Decerto tenho! volveu o tenente da policia. 

-- E essa proclamação?! interrogou bruseamente o Moraes Sarmento. 

-- Que proclamação?! balbuciaram os outros. 

-- Esta que eu guardei... A que elle leu e que me deixou?! 

Mostrava com um grande gesto o papel e exclamava: 

-- Já vêdes que alguma cousa existe, amigos meus!... 

Os outros baixaram as cabeças e ficaram-se n'uma grande tortura. 

Elle tinha razão, uma grande razão em fallar assim, sem pelo menos suspeitar de que alguma cousa de estranho se passava. 

-- Sim... mas no fim de tudo o que julgas?! perguntou de repente o Gameiro. 

-- Não julgo cousa alguma de positivo... 

-- Vejamos... Pois podes acreditar que os grandes do reino estejam com esse rapaz!... 

-- Não... De forma alguma... No emtanto o facto é que a conspiração existe!... 

-- Mas o exercito, é de gente de tal natureza que nem tem preponderancia, nem dinheiro... 

-- Sim, Moraes Sarmento, volveu o tenente de policia. Deve ser uma revolução de pasquins... 

Soltaram uma gargalhada e no fim, o capitão perguntou: 

-- Mas decididamente, não tomaes isto a serio?! 

-- Não, declararam a um tempo muito rapidamente. Não... É melhor mesmo esquecer semelhantes cousas... 

-- Têem razão, disse elle da sua maneira clara. Esqueçamos... 

Calaram- se. No fundo, nenhum podia esquecer. 

Olhavam-se como se mil ideias lhes viessem de tropel, olha- 

ram-se e quedavam se n'um mesmo desespero. Tinham a anciã de 

saber a verdade. E foi o bacharel que primeiro disse: 

-- Vejamos... Tentam alguma cousa?! 

-- Quem é esse Galheiros?! interrogou o Sarmento. 

-- Ah! Um antigo companheiro... Um excitado, cheio d'ideas loucas... 

-- Mas que procuram no fim de tudo?! exclamou por sua vez o tenente da policia. 

-- Naturalmente sabemos o succedido, o que se passa! 

-- Loucos! 

-- Que dizes?! perguntaram os outros cheios de desespero. 

-- Digo que eni tudo isso não ha senão uma allucinação. 

-- D'elle! 

-- E vossa! 

-- Mas explica-te, Padua... 

-- Esse rapaz tinha bebido... Quiz fallar, quiz fazer novella... 

-- E a proclamação... 

-- É á penna?! 

-- Sim! 

-- N'esse caso, amanhã poderei escrever quantas quizer sem responsabilidades... 

-- E és do aviso que não existe cousa alguma?! 

-- Sim... 

-- És d'essa opinião tambem, Gameiro?! 

-- Sim! Não creio que gente de senso mettesse o Galheiros n'uma conspiração!... 

-- Queres dizer... 

-- Que elle mentiu... 

-- Antes assim, disse o Moraes Sarmento d'uma forma pouco convicta e erguendo se. 

-- Bem... Sahe... 

-- E nem palavra, hein?! recommendaram ambos. 

-- Porquê?! perguntou elle, franzindo o sobr'olho. 

-- Porque seria perder um pobre doido, sem necessidade alguma... 

Chegaram á porta, já se tinham affastado os grupos. Não havia mais ninguem no local, e elle então, passando a mão pela cabeça, respirando o ar freseo, declarava: 

-- Sim! Julgo que a tal conspiração, é uma mentira!... 

Apertou a mão dos amigos e affastou-se tambem em direcção ao Rocio. Mas embora não quizesse não podia esquecer aquella terrivel impressão, não podia olvidar o que ouvira e vinha-lhe um certo terror. 

Parecia-lhe que da conspiração, ia sahir um mal, ia sahir a perda da patria, que era um novo 1793 a surgir e a levar a toda a parte a desolação. 

N'uma esquina, soberbo, berrante, como uma taboleta destacava se um cartaz. Era um pasquim e dizia o seguinte: 



Quem pede Portugal?! O marechal! 

Quem esquece a lei?! O rei! 



Moraes Sarmento, parou diante do cartaz, estremeceu de novo. 

Era como um pezadello, era como uma tortura. 

E de repente deu um pulo ao sentir que lhe tocavam no hombro, ao ouvir uma voz bradar: 

-- Tambem lês essas infamias?! 

Voltou-se e viu na sua frente um capitão de cavallaria. 

-- Oh! Corvo de Camões?! Tu?! 

-- Eu sim... Eu amigo, que me desespero ao ver que os jacobinos vão corregindo os seus fins de parte de clamarem as alterações dos officiaes como tu, para as suas intrigas contra o marechal Beresford e contra el-rei!... 

-- Mas... 

-- Não é verdade que lias esse pasquim?! 

-- Simples curiosidade! redarguiu envergonhado. 

-- Que o exercito amanhã terá!... tornou o outro. 

-- Oh! amigo... 

-- É uma nuvem de miseraveis a perder a nação... 

Elle sentiu um desejo enorme de lhe contar tudo, viu que lhe assistia alguma razão e de repente disse: 

-- Mas tudo isto não é nada, comparado com o que acabo d'ouvir! 

-- Tu?! 

-- Sim... 

-- Mas onde?! interrogou com enorme curiosidade. 

-- No Marrare! 

-- Coisa de botequins... Essas conversas são as menos perigosas... Os botequins andam vigiados... 

-- Que dizes, perguntou com um enorme sobresalto. 

-- A verdade! 

-- Meu amigo... Tens bem a certeza de que o governo mantem espias!... 

-- Absoluta! volveu com enorme segurança. 

-- Ah!... 

-- Mas que ouviste?! tornou a perguntar. 

E elle, n'um desabafo, muito rapidamente, á pressa, contou-lhe tudo, disse o que buscava, mostrou-lhe a proclamação. A luz d'um candieiro de azeite, o outro leu-a. 

Nos seus olhos, havia um brilho estranho, um brilho d'odio. 

Balbuciou algumas palavras innintelligiveis e concluiu: 

-- Já sabes que o teu homem está filiado na sociedade secreta que se suspeita existir. 

-- O que?! Pois ha alguma sociedade secreta?! 

-- Moraes Sarmento... Grandes cousas se vão passar, crê... E o nosso dever, entendes bem, o nosso dever, é defender a patria de semelhantes miseraveis!... 

-- Mas decerto! A minha espada só se desembainhará por el-rei! 

-- A minha do mesmo modo... Dá-me a tua mão, amigo... 

Apertaram as mãos. Na sua frente estava o pasquim; e então como tomados do mesmo pensamento, rasgaram-no um por cada lado e olharam-se. 

-- Adeus! disse Corvo de Gamões, d'uma maneira grave. 

-- Que vaes fazer?! interrogou o outro cheio de terror. 

-- Talvez dar um golpe de morte n'esses jacobinos I 

E affastou-se em largos passos com a cabeça erguida, egual a 

um homem que vae severamente cumprir um dever. 

O outro, começou a deseer a rua, murmurando: 

-- Que virá a succeder, meu Deus! 

E lembrou-se da mulher e tambem do futuro. 







VI 



Um velho crimiuoso 





Era n'uma sala alta de tectos abaulados onde havia frescos de Sequeira, anjinhos de carnações fortes, segurando grinaldas d'um tom velho em torno do carro d'Apollo, n'um debuxo. 

Pendiam graves e em pregas opulentas os reposteiros de velludo sem armas, uns reposteiros pesados e vermelhos que mascaravam as portas. E a mobilia da ala, era rigida, severa, cadeirões d'espaldar alto em couro lavrado, bufetes negros de madeira do Brazil com torneados João V, canapés de couro que se arrimavam ás paredes. E n'um canto d'um varandim corrido que tomava toda a fachada do palacio, havia um movel fofo, uma cadeira de costas largas forrada de damasco. 

A sala, tinha o seu aspecto severo e soberbo com toda aquella mobilia a recordar um passado; estavam corridas as persianas e a um canto havia um cravo coberto de baetão verde, um cravo que se arrimava para alli, sem voz e sem forma sob a sua cobertura coçada. E por cima, n'uma moldura d'ouro, resahia um retrato de mulher, um bello retrato com tonalidades doces, um rosto expressivo d'olhos negros, a cabelleira empoada, uns seios a apparecerem n'um decote de rendas no qual scintillavam pedrarias. Era um retrato demeio tamanho no qual ainda apparecia a mão fina e correcta mettida 

n'uma meia luva de rendas. 

E defronte, na parede que ficava do lado da janella um outro retrato, mostrava um semblante nobre d'homem vestido de negro, pallido, que segurava um chicote. Esse era de tamanho natural, parecia mover-se na tela e nos seus labios havia um sorriso triste, em baixo uma corôa de marquez marcava o retrato. 

Na meia sombra da casa, aquellas duas figuras pareciam olhar-se. Cheirava a incenso na sala, espalhava-se como um perfume d'egreja de toda aquella mobilia por esse cahir da tarde de verão, amena, suave, em que se ouviam passaros trinando nas ramarias das arvores da qumta que se estendia até cá baixo a uns arcos de ponte abatida. 

Fumegavam uns fornos ao longe; nuvens brancas, muito claras, muito diaphanas, passavam lentas no céu. 

E lá em baixo, muito em baixo mesmo, era o rio, o Tejo, com as suas embarcações, na serenidade, na calma, sob o céu azul que a agua reflectia. 

De repente abriu-se a porta da sala, dois creados vestidos de lucto trazendo um homem amparado, penetraram no aposento e com mil cautellas foram assentar o amo na cadeira forrada de damasco vermelho. 

Era um homem magro, excessivamente pallido, os molares sahidos, os olhos vivos e brilhantes por detraz dos oculos negros que o mascaravam. Vestia um trajo ecclesiastico, um trajo roxo desbotado e tinha na cabeça um barretinho da mesma cor. Estava immovel, farripas de cabellos brancos s;ihiam de sob o barrete que o coifava e as suas mãos pousadas nos joelhos tinham tambem uma 

grande immobilidade. 

Entreabriram um pouco a janella, entrou um feixe de luz; e depois, pouco a pouco, foram abrindo mais até que o sol penetrou no aposento a tocar aquella mobilia severa, como se urn riso de creança soasse n'um cemiterio. 

O personagem continuava immovel, gravemente, como distrahido, como indifferente; e os creados sahiam na ponta dos pés, deixando-o além em face da grande varanda que deitava para a quinta. 

Mantinha se assim na sua grande immobilidade, pallido e d'olhos occultos nos oculos, sem Falla, talvez o recordar. Um fio de baba pendia-lhe dos cantos da bocca para o queixo. 

Na quinta, ouviu-se um riso alegre; o vulto continuou na mesma. Tinha a barba rapada de freseo e lembrava uma figura de cera collocada como um complemento á severidade da sala. 

E aquelle riso alegre soando nem o despertou. Era muito extranha a risada, deveras extranha mesmo em semelhante logar. 

Mas logo, d'entre uma moita de verdura, appareceu um vestido branco e uma linda mulher segurando um ramo de flôres surgir e foi sentar-se no banco de pedra que deitava para o jardim collocado em baixo, n'um declive. 

Uma outra mulher, velha, com o rosto cortado de rugas, a seguia: 

-- Não rias assim... Está além o senhor!... 

Ella volveu os olhos de previnca para a varanda e baixou-os de seguida. Ficou muito triste, balbuciou: 

-- Pobresinho!... Ah! minha mãe... Eu admiro muito como Deus assim lhe fez mal! Para demais, sendo da egreja... 

A velha, estremeceu, calou-se, ficou-se de cabeça baixa. Veiu-lhe um fremito e soltou um suspiro. 

Porém a joven, continuava: 

-- Vocemecê, minha mãe, que é serva da casa, desde tanto tempo, é que deve saber se a doença do senhor bispo não foi castigo! 

-- Castigo?! 

E a mulher levahtou-se, ficou toda n'um tremor, murmurando a meia voz: 

-- Castigo! 

--Sim... Pois se Deus é bom, como vós dizeis e eu sei... 

-- Filha! 

-- Sim, mãe... Se Deus é bom como podia ferir assim um seu servo!... Não é verdade que elle não falla... 

-- Veiu lhe aquillo ha seis annos... Diz o medico que é a paralysia da lingua... E não tem gosto para nada, vae morrendo pouco a pouco, o pobre do senhor bispo... 

A joven, cheia d'intensa curiosidade, pondo de lado as flores, interrogou: 

-- Elle foi muito grande no reino, não foi?! 

-- Foi tudo!... Ah! que tempo!... 

Parecia encher-se d'alegria á recordação d'esse tempo, quando além aquelle palacio do Cruzeiro vinham as cadeirinhas ricas e d'ellas se apeavam fidalgos d'espadim, quando damas decotadas, vinham ás festas e quando toda a casa rescendia a perfumes e os tocheiros altos de prata, espargiam os clarões das suas luzes. 

-- Bom tempo esse, filha... Então o senhor bispo, era mais do que o rei! 

-- O que?! Mãe?! E Deus castigou-o!... 

-- Que queres?! O senhor bispo, fez muito mal, disse a velha a meia voz. 

Em cima, o velho, mumificado, na mesma quietação, continuava a olhar o rio como se não podesse desviar a vista d'essa agua azul que corria. 

-- E que fez elle?! 

-- Ah! Para que recordar! 

-- Se já disseste que elle era mais do que o rei! 

-- E era... Confessava sua magestade a rainha Maria I, que se 

finou lá longe... Ah! o senhor bispo do Algarve, o senhor José Maria de Mello que tu alli vês sem falla e desgraçado, era inquisidor!... 

-- Inquisidor?! 

-- Sim... Era o inquisidor-mór!... 

-- Ah!... 

E ficou a pensar n'esse cargo, ficou embevecida. 

--Tinha moradia no paço, vivia sempre junto da rainha que 

não o dispensava... Até que um dia foi residir para os Estaus, li para o Rocio onde era a Inquisição... Foi quando a rainha enlouqueceu... 

-- Enlouqueceu?! A rainha?! Mas, senhor, meu Deus!... 

-- Sim filha... Isso foi uma grande desgraça que tu mal podes comprehender! É a historia d'essas duas familias... 

-- Que familias?! interrogou a filha da creada. 

-- Da familia real e da familia dos Tavoras! 

-- Meu Deus! Os Tavoras?! 

-- Sim... Mas porque fazes tal pasmo?! 

-- É que o jardineiro me disse que n'esta casa moraram... 

-- Sim... Eu era tamanina e lembro me! 

- Vós! 

-- Lembro-me da senhora marqueza que além está na sala, n'um retrato... Era alta, uma santa!... Tinha uma falla doce e chamavam-lhe vice-rainha!... E lembro-me do sr. marquez!... 

-- Morreram! 

-- Ah! Morreram! No cadafalso! 

A joven soltou um grito e levantou a vista para o varandim. 

O velho continuava immovel nas suas vestes roxas e com o seu fio de baba ao canto da bocca. 

-- Mas que fizeram elles?! interrogou pouco a pouco mais devorada de curiosidade. 

-- Que fizeram?! Ah! Minha filha, minha filha que terrivel historia!... A sr.ª marqueza foi morta com os seus parentes! Mataram tambem o duque d'Aveiro... 

-- Que grandes fidalgos, mortos... Mas porque, mãe, porque?! 

-- Porque conspiraram contra o rei! 

E não quiz dizer mais nada, cerrou a bocca, guardou-se de fallar. 

-- Ah! Mataram-nos!... E o senhor bispo, que fez o senhor bispo?! 

-- O que fez?!... 

E calava-se sempre, tinha um fremito, tinha um desespero, uma dor funda se lia nos seus olhos. 

-- Senhor meu Deus! o que elle fez!... 

-- E porque morre elle aqui?! 

-- E parente dos Tavoras! 

-- Elle! 

-- Sim.... O unico Tavora que conseguiu chegar a uma grande posição! 

-- Porque?! 

-- Não sei... Era frade alli nas Necessidades e um dia appareceu bispo! 

-- Era como a recompensa! 

A velha, olhou-a com tristeza, reprimiu um soluço: 

-- Sim, talvez... Depois foi feito confessor da rainha! 

-- Ah! 

-- E inquisidor! 

-- Mas porque o castigou Deus?! interrogou de novo a joven. 

-- Filha, não sei se foi Deus! volveu a velha. Não sei... 

-- Mas... 

-- Não me perguntes mais nada! Não sei se e um castigo! 

-- Mas elle fez mal?! 

-- Muito! 

-- Então... Foi castigo, foi... 

-- Vingou-se! declarou com força, muito rapidamente. 

-- Vingou-se?! 

-- Sim, filha, sim... Ouve bem tudo isso, ouve... Nunca mais tornaremos a fallar em tal! Como vês não gosto de recordar... 

-- Mas conte! Conte!... 

-- D'uma vez para sempre e que Deus me perdoe se me faço echo do que dizem! 

Olharam mais uma vez o velho que lá continuava immovel, que alli se conservava na mesma attitude com as mãos pendentes ao longo do corpo. 

-- O senhor bispo morou no paço com a rainha... 

-- Ella mandara matar os seus parentes, não é verdade?! 

-- Não... Seu pae assignara a sentença! 

-- Ah! E morrera esse rei... 

-- Sim... Ficou no emtanto o marquez de Pombal!

-- Que tinha cabellos no coração! volveu a joven. 

A mulher encolheu os hombros e redarguiu: 

-- Não sei filha, não sei se era mau ou bom o marquez! Mas foi castigado tambem pela rainha! 

-- Que lhe fez! 

-- Mandou-o julgar, mandou-o apparecer diante d'um tribunal aos oitenta annos... 

-- Meu Deus! 

-- E a memoria dos Tavoras foi rehabilitada! Era uma familia tão antiga, tão antiga, senhor meu Deus!... 

-- E o senhor bispo?! 

-- Dizem que no paço dominava a rainha, que a fazia ajoelhar e andar de rastos e lhe pedia a restituição dos bens dos Tavoras. Dizem que lhe fallava do inferno e do demonio!

-- Senhora do Carmo! exclamou ella toda arrepiada. 

-- E que tantas coisas lhe dizia que a endoideceu. A pobre rainha vagueava dia e noite pelos seus aposentos soltando gritos e clamores, andava como um phantasma além na Ajuda a ver morrer todos os seus amigos... 

-- Senhor Deus! 

-- Sim... Primeiro, foi o marido, depois um bispo que fôra seu confessor, por fim, o principe, o mais velho que tinha o nome do avô... E tudo lhe parecia castigo! Tinha fraca a cabeça e com as coisas que ouvia, endoideceu... Teu pae, minha filha, lá a amparou até ao navio na noite em que foram para o Brazil... E teu pae lá está com el-rei... 

-- Vós ficasteis! 

-- Com o senhor bispo... Elle n'esse tempo ainda sonhava em vinganças mas já fraquejava... Como eu o ouvi rir n'essa noite da partida! 

-- Mau que era!

-- Os francezes chegavam e essa familia real que matara os Tavoras ficava sem patria e sem throno... 

-- E elle ria?! 

-- Sim... Além n'aquella mesma sala soltava gargalhadas e fallava aos retratos! 

-- Estaes vingados! Estaes vingados! clamava elle. 

E dizia-lhes que com a sua voz conseguira tudo, dizia-lhes que era como os velhos Tavoras capaz de tudo para limpar o seu brazão d'uma mancha! 

-- Ah! E ria!

-- Com um rir feroz a repetia: Fui eu com a minha voz.... 

-- Voz que Deus lhe tirou como castigo! gritou a joven n'uma revolta. 

E viram então uma cousa extranha. O velho, firmava as mãos na cadeira, abria a bocca como para fallar, queria erguer-se e cahia desamparado na cadeira. 

As duas mulheres correram para a casa gritando: 

-- Acordou! acordou! 

E vieram os seus, veiu toda a gente n'um grande lucto e foram dar com elle, já restabelecido, sentado a olhar firmemente para a joven que baixava os olhos aterrorisada. 

Um velho servo de longos cabellos brancos ajoelhava junto d'elle: 

-- Que tendes, meu senhor, que tendes?! Fallae-me...

-- Oh! Espera por essa, rosnou um matulão moço de cocheira. 

Mas José Maria de Mello movia lentamente a cabeça, movia-a a custo e um soluço fundo lhe sahiu do peito. 

Na sua apathia não podia exprimir o que desejava, os seus olhos fixaram a filha da serva com uma estranha insistencia e ella ficava muito pallida sem saber o que dizer. 

Subito, duas lagrimas correram lentamente dos olhos do bispo pelas suas faces; e no emianto olhava sempre a rapariga que murmurava: 

-- Mãe! Mãe!... e muito baixinho, accrescentava: Talvez elle ouvisse!... 

O bispo do Algarve não a largava com a vista, parecia querer fallar, os seus olhos pediam que conduzissem a joven até á sua poltrona. 

Assim o comprehenderam, e a mãe tomou-lhe a mão, levou-a até ao bispo. 

Ella ajoelhou e então o velho movendo sempre a custo a cabeça, a bocca aberta, sem soltar o menor som, buscava inclinar-se para ella. O seu fio de baba, escorria-lhe sempre ao canto da bocca. 

-- O que é?! Que quer elle?! perguntou a velha serva. 

-- Quer beijal-a!... volvju docemente o aio de sua grandeza. 

A joven, com enorme repugnância encostou a sua face para os 

labios do velho que cerrou os olhos e ficou pacatamente encostado nas almofadas. 

-- Que quer isto dizer?! perguntou esta muito consternada cahindo nos braços da mãe. 

E a velha, com enorme commoção, desolada e cheia de terror, disse: 

-- Quer dizer, filha, que elle te ouviu e tu adivinhastes! 

Levava-a para o vão da janella, mostrava-lhe o retrato e balbuciava: 

-- Ah! Como é triste revolver o passado!... Vês?! Parece que a senhora marqueza me olha?! 

-- Sim?! 

-- Ah! minha filha... Calar-nos-hemos! nunca mais fallaremos em tal historia! 

De repente, tocou em baixo uma campainha a annunciar visitas, e a velha murmurou: 

-- Como no tempo em que vinha a côrte!... 

-- Mas quem será?! Quem virá ao cabo de tanto tempo vêr o velho bispo?! 

Elle parecia tambem admirado, voltava a cabeça e ouvia o creado exclamar de perto tambem cheio de surpreza. 

-- É um dos senhores governadores do reino! 

-- Meu Deus! Meu Deus! balbuciou a serva. 

E D. Miguel Pereira Forjaz, appareceu á porta, e exclamou: 

-- Sou eu, grandeza! Sou eu que venho a saudar-vos! 

Os creados retiraram-se e então o governador, a meia voz diante do velho, disse: 

-- Tenho uma boa nova para vossa grandeza! 

Muito apathico, o bispo, desviou o olhar para o jardim onde passavam abraçadas as duas mulheres. 

Ao longe, na torre d'Ajuda, um sino batia horas. Eram Avé Marias. 







VII 



Uma conferencia secreta 





Um antigo soldado de fuzileiros, um inglez que era creado de quarto do marechal, uma cara enrugada de clown, penteado como um manequim, a surdir 

dos collarinhos de pontas reviradas, perfilhava-se, erguia o repsoteiro: 

E o capitão. Corvo de Camões, muito apressado, nervoso, entrou n'uma saleta. No tecto, havia dois amores papudos que brincavam n'uma grinalda côr de rosa. 

Passou levemente a mão no espaldar d'uma cadeira abbacial e ficou-se. 

Da casa contigua, vinha a voz de Beresford, guttural, forte, em conversa com um official. 

De quando em quando, riam, tornavam a recordar qualquer scena antiga e havia um tinir de copos. 

-- Ah! Mas aquelle vestido branco... 

-- Sempre a mesma visão... 

Pairavam baixinho, de quando em quando, escapava-se uma palavra mais alta: 

-- O quê?! Pobre Wellington... Vencedor nas batalhas. 

-- Vencido no amor! 

-- Não calcula... A lady, falla-lhe a miudo de Napoleão... 

--Tortura das torturas!... Wislry?!... 

E o portuguez, começava a impancientar-se, andava d'um lado para outro, muito perturbado, n'um grande tremor, a ranger as botas. 

Lembrava-se do que ouvira a Moraes Sarmento, além na rua, diante do pasquim, recordava bem essa conspiração em todos os seus detalhes, com homens que se preparavam para uma arremettida, com lojas que se formavam, com pasquins que aconselhavam revoltas e talvez com soldados que se formavam. 

Não o mandaram entrar, deixaram-no ficar ali, a esperar, emquanto lá dentro fallavam em troça de Wellington. 

Á porta, o creado, conservava a sua impassibilidade, a cabeça a surgir dos collarinhos, altivo e cómico a um tempo. 

-- Mas, marechal... Reparae que o duque de Wellington é adorado. 

-- Menos por quem elle deseja! volveu Beresford. 

Depois, seguiu-se uma comprida historia d'amores, com algumas reticencias, uma historia, em que certa lady, tinha muito que contar se quizesse escrever alguma cousa sobre a intimidade do vencedor de Bonaparte. 

E a guerra, toda a epopea, era posta como n'uma sombra pesada, diante d'esses amores que já divertiam a côrte ingleza. 

O outro, vinha d Inglaterra e na sua fleugma tinha ironias cortantes; o marechal regosijava-se, de farda desabotoada e um pouco estendido a ouvir aquelles escandalos picantes, a escutar aquellas novas do seu paiz que o vinham divertir no meio d'essa sensaboria da vida portugueza. 

Era elle quem o dizia, quem pintava esse viver com certo sarcasmo, na sua linguagem guttural em que por vezes havia crueldade. 

-- Oh! Mas amigo, aqui é a missa, é o fradalhão! Os panças, toda uma sucia peralta... Morre-se d'aborrecimento... Mulheres que são devotas e não peccam, homens que parecem soffrer de cançasso. É o estado de tudo isto! 

-- É o mal da invasão... volvia o outro com um modo dogmatico. 

-- Oh! Nova invasão precisava Portugal, mas essa havia de ser de dinheiro... 

Soltavam risadas, tocavam os copos e o capitão acabava por sentar-se na cadeira a olhar o tecto onde os dois amores papudos brincavam n'uma grinalda de rosas. 

Diante d'essas vozes, eseutando essa conversa que era um horror, que era como um golpe no seu patriotismo, que lhe mostrava bem como eram feitos esses inglezes, perguntava a si mesmo se não devia deixar ir por diante a conspiração, se não devia até desejar a victoria dos que a faziam. 

Ao menos eram portuguezes buscando levantar a sua patria, desejando fugir a um jugo. 

E os outros, os que estavam alli, esses que fallavam, que eram no fim de tudo?! 

-- Meu caro marechal! dizia o inglez para Beresford. Deixae que vá repousar... 

-- Oh!... ide... ide... E amanhã deveis vir ao almoço!

-- Mais um copo!

-- Yes... 

E tomam de novo os copos, riam novamente regalados. 

Deviam estar deveras satisfeitos porque não se arrancavam d'alli, continuavam de novo a conversa, voltavam a Fallar de Wellington. 

E lastimavam de troça o conquistador infeliz de ladys, o victorioso cabo de guerra, e lastimavam a dôr intensa que a derrota lhe devia causar. 

-- Oh! Se lhe parece... Gosta do brandy?!... 

-- Magnifico!

-- Napoleão, não o bebe melhor em Santa Helena! dizia a voz grossa do marechal. 

-- Oh! Mylord... O imperador é sobrio. 

-- D'ahi o mal... Mas venha almoçar amanhã... 

-- Decerto... Meu marechal, virei... 

Sentia-se que de novo se levantam, tilintavam esporas, arrastam os pés e empurravam um movei. Devia perfilar-se a fazer uma continencia. 

Trocavam um aperto de mão, entrava um jorro de luz na sala e á porta apparecia a caraça vermelha d'um coronel que Beresford acompanhava, dizendo: 

-- Até ámanhã... Iremos a Cintra... 

-- Até ámanhã! 

Corvo de Camões perfilava-se, o outro passava na sua frente sem o ver; e então o marechal, piseando os olhos, bradou: 

-- Jack! 

O creado inglez de cabeça de clown e ares graves, avançou: 

-- Sir... 

-- Vamos a despir... 

-- Mylord... 

O marechal, estava já dentro da sala e o criado dizia: 

-- É que está ainda alli o capitão que vos pediu audiencia! 

-- Que horas são?... 

-- Onze e meia... 

-- Oh! Despe-me... Que venha amanhã! e o marechal bocejou. 

O portuguez, muito tremulo, sentiu uma enorme vontade de penetrar n'aquella sala e de lhe mostrar quanto era grave a situação, porém, já ouvia o roçagar da roupa do marechal que se despia. 

-- Fará amanhã bom dia, Jack?! 

-- Não sei, mylord... Não se póde esperar nada de seguro n'esta terra... 

Sacudira um rir grosso e bocejou de novo, o marechal. 

Então, muito timidamente. Corvo de Camões levantou o reposteiro e n'uma outra salinha viu Beresford que estava em ceroulas, de chinellas, tendo ainda vestido o dólman coberto de galões e de dourados. 

A sua cabeça pallida, os seus olhos embaciados, todo aquelle conjuncto agora ridiculo do governador de Portugal, era como a synthese cabal da dominação. 

-- Sr. marechal! exclamou o capitão em voz forte. 

-- Oh!... Já vos disse que amanhã... Por Deus, bate meia noite... 

-- É que se trata d'um caso deveras grave... 

- Oh!... 

-- Muito mais grave do que podeis julgar! volveu. 

-- Nada ha de grave á meia noite... 

O creado, despia-lhe o dolman, porém o official exclamava: 

-- Marechal, ha uma conspiração!... 

Beresford enfiou de novo a farda, passou a mão pelo cabello e assim meio vestido, avançou até á porta, depois recuou, ordenando: 

-- Entrae... Sentae-vos!... Jack, o meu capote! 

E quando tirou mais uma vez a farda, vestiu o capote, amantou-se n'elle e veiu para o meio da casa. 

A sua cabeça destacava-se agora muito vigorosa n'um jorro de luz. 

-- Que se passa? 

Guardava a sua fleugma, fingia que não se assustava, mas lá por dentro, no seu intimo, no fundo do seu coração, sentia um terror, um enorme terror, o medo de perder um reino que era a sua ambição. 

Corvo de Camões, pediu vénia para tomar logar. 

-- Á vontade... Mas fallae... Dizei tudo, dizei... 

-- E é bem grave... Trata-se nada menos, mylord, que d'uma conspiração em forma! 

Inchavam as bochechas do inglez, passava a mão na ganforina ruiva e concluía por dizer: 

-- Viu os conspiradores?! 

- Oh! Não! 

-- N'esse caso... Fallae-me amanhã... 

Entrou a rir, um pouco de troça, a brincar: 

-- É o genio portuguez, com mil bombas!... Fogo de palha, tudo fogo de palha! nada de pratica, nada!... 

-- Mas mylord, se vos digo, que é muito grave! 

-- N'esse caso! tornou Beresford no seu estribilho: Fallae! 

-- Lembrae-vos, mylord, d'uns pasquins que ahi appareceram... 

-- Sim... Mandei quedos arrancassem!... 

-- Pois ha coisas peores... 

-- E que quer essa gente?!... 

-- Ha pouco me narravam que tentavam assassinar v. ex.ª e acabar d'uma vez com a realeza! 

Elle deu um pulo na cadeira, olhou o interlocutor e clamou: 

-- É verdade?! 

-- A pura verdade! Vede!

Mostrou-lhe a proclamação, elle leu, leu ate muito pausadamente. 

Depois, encarou o capitão, estendeu-lhe a mão e disse: 

-- Sabeis que acabaes de prestar-me o mais bello serviço?! 

-- Oh! excellencia! 

-- Sim... Mas contae tudo! 

Corvo de Gamões, disse-lhe então como encontrara Moraes Sarmento, narrou-lhe como d'elle ouvira as palavras pronunciadas no Marrare por esse tal Galheiros, disse-lhe nervosamente o que sentia de pavoroso em tudo isso, ao mesmo tempo que o marechal exclamava: 

-- E os conspiradores, quem são?! Gente de vulto? 

-- Ah! 

-- Fallae... 

Embaraçou-se-lhe a lingua, sentiu um terror enorme e balbuciou: 

-- Fallam nada menos que em toda a nobreza! 

-- O que?! 

-- Sim, excellencia, sim! Fallam da nobreza e de muitos militares! 

-- É necessario ver isso! 

-- Mas como?! 

-- Como se chama o seu amigo?! 

-- Pedro Pinto de Moraes Sarmento, disse elle rapidamente. 

-- N'esse caso, correi a buscal-o, trazei-m'o... 

-- Mas excellencia?! 

-- É justo... Quereis saber o que penso em fazer! 

-- Sim! 

-- Eu volo digo, eu vol-o digo!... accrescentou elle do mesmo modo. 

O capitão eseutava attentamente, e o marechal piscando os olhos, accrescentava: 

-- Trata-se nada menos do que em tomardes parte na conspiração! 

-- Nós! exclamou deveras perturbado. 

-- Assim exige o serviço d'el-rei e da patria! 

-- Porém... 

-- O quê?! 

-- Mas, marechal, não podemos! 

-- E porquê?! 

-- Somos portuguezes e somos militares, vestimos uma farda... 

-- E... 

-- E se podemos denunciar uma conspiração que se trama, não podemos tomar parte n'ella e vir de seguir accusar... 

-- Porquê?! 

-- Porque isso é vil! redarguiu do mesmo modo grave. 

-- É vil?! 

Parecia não comprehender, piseava sempre os olhos e concluia: 

-- É vil?! Ah! Sabeis como em Inglaterra se chama a tal vileza?! 

Como não lhe respondessem, lord Beresford, accrescentou: 

-- Boa politica! 

-- No emtanto, senhor, vêdes que não devemos entrar em semelhantes machinações... 

-- O que temeis?! 

-- O nome de traidores! 

-- Ah! 

-- Sim... O nome de traidores! O meu dever como portuguez e como subdito fiel de sua magestade el rei, era apenas o de denunciar os nomes e talvez mesmo mais desde que o soubesse... 

-- E o vosso dever como militar?! interrogou o lord a rir. 

-- O mesmo, mylord. 

-- Não... 

-- Mas... Bem vêdes... 

-- Não, o vosso dever como militar, é apenas obedecer aos vossos chefes... 

- Quereis dizer?! 

-- Que sou vosso chefe, sou o chefe supremo do exercito portuguez, em nome d'el-rei, redarguiu com firmeza, vos dou a seguinte ordem que no ultimo caso será eseripta: parti ao encontro do vosso camarada, procurae ambos esse Calheiros e sollicitae d'elle que vos leve aos logares onde se conspira! 

Elle estava muito pallido, e o marechal, sem o menor embaraço, continuava: 

-- Uma vez, ali, prestae juramentos, procedei como se em boa verdade haveis de conspirar... 

-- Nunca! bradou o portuguez indignado. 

-- Meu caro capitão, sinto dizer-vos de novo que sou o vosso chefe... 

Disse aquillo com a mesma fleugma e accrescentou: 

-- Ireis pois ás casas onde os conspiradores se reúnem, ouvireis os nomes e as fallas, tomareis bem conta em tudo e vereis de seguida dizer-m'o... 

-- Excellencia! 

-- Ah! Tendes escrupulos! 

-- Mas decerto! 

-- Temeis encontrar ahi algum amigo, algum parente?! 

-- Senhor, na minha familia nunca houve traidores e por isso eu não o quero ser... 

O marechal, sorriu com bonhomia, estendeu a mão e muito pausadamente, disse: 

-- Oh! Capitão, em todas as familias mesmo nas reaes, alguns membros tem sido traidores... 

E parecia que o inglez adivinhava porque na verdade um antepassado d'esse Corvo de Camões, Vasco Pires de Camões, outr'ora, em tempos do Mestre de Aviz, quando se forjava a independencia, trahiu Portugal por Castella. 

Mas o marechal, continuava ainda do mesmo modo e no mesmo tom: 

-- Depois, bem vêdes que não ha traição de vossa parte... 

-- Sim, ha! 

-- Qual?! 

-- A d'ouvir, e de fazer acreditar a uns homens que estou com elles... 

-- Capitão... Se o estrangeiro vier de novo a Portugal e podessem no estado maior dalgum quartel general inimigo, escutar o plano dos seus attaques, terieis duvida em fazer segundo esse plano a melhor defeza? 

Irreflectidamente, Corvo de Camões, volveu: 

-- Não, mylord! 

-- Quer dizer: servir-vos hemos de tudo em absoluto. 

-- Sim!

-- Quer dizer... Surprehendendo o plano do inimigo temos um meio de defeza para os vossos! 

- Sim! 

-- E não vos julgareis traidor, não é verdade?! 

-- Oh! Não... Pela patria devemos fazer tudo! 

-- Ah! Como sois incoherente, meu amigo, como sois... 

-- Marechal!

-- Sim, ha duas horas que vos oífereço o caminho e recusaes... 

-- Que caminho?! 

-- O unico pelo qual podeis chegar á salvação d'essa patria que vos obrigará a praticar todas as torpezas... 

-- Mylord! 

-- Pois não é verdade?! 

-- Oh! 

-- Sim... Acaso, os jacobinos não representam o inimigo?! 

-- Oh! Mylord! 

-- Acaso, essa gente não quer mal ao vosso rei?! 

- Sim! 

-- N'esse caso para que guardaes ainda escrupulos?! 

De cabeça baixa, reflectia, e o inglez, sorrindo, accrescentava: 

-- Tomareis pois o vosso collega, leval-o-heis comvoseo, entrareis n'essa conspiração e passo a passo com elles, lado a lado com elles e com as suas idéas, tomando em conta o m^nor detalhe e revelando-m'o, tereis salvo a patria! 

-- Oh! mas... 

-- E se é necessario, eu vol-o ordeno, eu, que sou estrangeiro! 

-- Senhor! 

-- Sim... mas julgo que não é necessario! a um portuguez não se falla debalde no seu dever... 

O capitão, ergueu-se e muito pallido, balbuciou: 

-- Mas mylord e se acaso Moraes Sarmento recusar?! 

-- Trazei m'o amanhã e eu o mandarei! Deveis cumprir esse dever... 

-- Oh! Cumpril-o-hei, embora chovam sobre mim todas as maldições! 

-- Só bênçãos podereis ter! 

-- Mylord, o mundo é mau! 

-- Para um homem d'honra só ha consciencia... 

E logo, mudando de tom, interrogou á pressa; 

-- E elles contarão com o exercito?! 

-- Pelo menos assim o dizem! 

Beresford mordeu os labios e volveu de seguida: 

-- É quasi um impossivel... 

-- Quem sabe?! 

-- Não ha um só regimento em Portugal que não tenha officiaes inglezes, retorquiu para dizer de seguida: 

-- E quem será o chefe militar com o qual podem contar?! 

Parecia procurar na imaginação algum nome, e os seus olhos fixavam-se bem no rosto do official que balbuciava: 

-- Ignoro-o! 

-- Ah! Não faz mal... Breve o saberemos! Ide e trazei me logo de manhã o vosso amigo!... E desgraçados dos que conspiram... Eu o mandarei dizer a el-rei... A regencia os castigará!... Adeus, capitão!... 

Corvo de Camões sahiu muito triste, e então Beresford com um novo bocejo, espreguiçando-se, gritou ao creado: 

- Jack! 

-- Mylord! 

-- Já não vou a Cintra amanha... 

-- Deve estar bom dia... 

-- Não... Ruge o vulcão, vamos dormir sobre elle!... 

E assim entrou no quarto de dormir acompanhado pelo creado. 

Apagavam-se as luzes no palacio do pateo do Saldanha e o capitão embrulhado no seu capote, perdia-se na Junqueira deveras transtornado. 

Quasi lamentava o ter denunciado semelhante conspiração, mas ao mesmo tempo a sua febre patriotica obrigava o a murmurar: 

-- Ah! Sim... É bom castigar os traidores! 





VIII



A regencia do reino 





Marechal, eis-me aqui... Dizeis que é grave o motivo que fez com que me chamasseis?! 

D. Miguel Forjaz, com o seu trajo de gala vinha d'um Te-Deum. 

Beresford, na manhã clara, bem disposto, barbeado de freseo, n'um roupão de seda, volveu: 

-- Sim... Talvez... 

E ficaram face a face, a olharem-se bem, a repararem um no outro. 

-- Mas de que se trata?! interrogou de repente o fidalgo. 

-- Senhor, alguem me veiu fallar d'uma conspiração!... 

O membro da regencia deu um pulo, fez-se livido, balbuciou: 

-- Ah! E teve foral de verdadeira?! 

O marechal, estendeu mais as pernas, embrulhou-se no roupão a gosar da surpreza do outro e redarguiu d'uma maneira segura: 

-- Sim... É bem verdadeira mesmo! 

-- Uma conspiração contra nós! exclamou de novo. 

-- Sobre tudo contra mim... 

-- Ah! 

-- Sim! Sobre tudo contra mim ou antes contra a Inglaterra 

-- Meu Deus! 

-- Parece que a alguns patriotas não agrada este dominio que no fim de tudo é apenas uma protecção... 

Elle mordeu os labios e depois em tom decidido, rapido, volveu: 

-- E que mais alguma coisa podia ser!... 

-- O que?! interrogou bonancheiramente o marechal mergulhando a face papuda no collarinho alto. 

-- Marechal... Porque não jogaremos a descoberto?! 

No ar havia uma limpidez doce, floriam rosas em grandes vasos na varanda e entrava uma luz suave no aposento onde elles se encontravam face a face. 

-- Não percebo! 

-- Por Deus, marechal! 

-- Oh! Por Deus, D. Miguel... 

-- Ouvi! 

-- Fallae... 

E sorriram como se já tivessem a certeza d'um accordo. 

-- Escutae-me bem... Vede se não me assiste toda a razão...  

-- Fallae! repetiu elle do mesmo modo, a sorrir. 

-- Os francezes dominaram em Portugal! começou o fidalgo, os francezes foram aqui como uns senhores absolutos... Nem affinidades de raça, nem de temperamento, nem de amor, nos ligavam e no emtanto... 

-- E no emtanto?! 

-- Alguem pensou alguns tempos na separação completa de Portugal do Brazil... 

-- Ah!... E como?! interrogou Beresford, pondo-se mais á vontade. 

-- Como?! Dando a Portugal um rei francez... 

- Oh! 

-- Sim! continuou de repente na mesma forma impetuosa. Sim... Todos o queriamos n'um momento... Sabeis que um homem bem preponderante movia tudo isso?!... 

-- Quem?! 

-- O bispo do Algarve... 

-- Não conheço... 

-- Nem pessoa alguma o conhece já... Parece que é um morto...

-- Mas... 

-- Está paralytico... É um ser inutil que eu visitei ha dias... 

O outro ouvia-o e pasmava, fixava o fidalgo e dizia: 

-- E depois?! 

-- Assim acabou n'elle essa luz que o guiava, esse incendio que lhe dava impetos ferozes, essa raiva que o levou a Bayonna aos pés do imperador... 

-- De Napoleão?! 

-- Sim! A pedir um rei... Foi elle e foi parte da nobreza... 

-- E esse rei... 

-- Seria o duque de Abrantes... 

-- Junot... 

-- O louco que se suicidou ha dias... 

- Oh! 

-- Sim... Seria Junot... A condessa da Ega que vive em França, talvez na miseria, era a principal iniciadora do movimento... O bispo do Algarve coadjuvava-a! 

-- E el-rei?! Que fariam d'elrei?! interrogou com mais finura. 

-- Oh!... El-rei, tinha para si o imperio do Brazil! 

-- Ah!... D. Miguel! exclamou o inglez de repente. Parece que conspiraes tambem?! 

E disse aquiilo tão candidamente, fixando-o tão cheio d'ingenuidade, com um riso terno, e com um riso de creança á flôr dos labios que o fidalgo estremeceu. 

-- Marechal! 

-- Meu amigo! 

-- Fallava ha pouco em jogo franco! 

-- E franco é o meu! 

-- É que... 

-- Julgaste que alguem pensava em ser rei n'este paiz! 

-- Sim! Pois bem, sim! volveu d'uma maneira aberta. 

-- E D. João VI? 

- Mesmo por patriotismo, D. João VI não é o rei que convém. 

-- Oh!... 

E fingia pasmo, concluia por dizer: 

-- Será essa a vontade da nação?! 

O membro da regencia riu e volveu com segurança: 

-- A nação é como uma barca naufragada e perdida n'um mar tenebroso que acceitará por piloto o que primeiro lhe deitar a mão do leme... Leva a seu bordo uma carga preciosa e já vêdes que para evitar um novo naufragio em que tudo sossobre, mais vale... 

-- Que seja habil o piloto que a dirigir! 

-- É assim! 

-- Já o tinha visto! 

-- Vós, senhor, já o tinheis pensado mesmo. 

-- Sim! 

-- Já o tinheis desejado... 

-- O que?! interrogou com um louco sobresalto. 

-- Esse, esse... 

-- Ah! volveu elle, fazendo se vermelho. Ah!... Sim... Talvez... 

E apoz uma pausa, apoz uns momentos de silencio, volveu: 

-- Para o rei d'Inglaterra! 

-- Oh!... Porque não seria antes para vossa graça?! 

-- Para mim?! 

O inglez, parecia cheio de pasmo e de modéstia, voltava-se para elle e balbuciava: 

-- Para mim... Mas não sabeis então que por minha vez sou subdito... 

-- Como Junot. 

-- Não! Não é bem como Junot; esse teria que obedecer ao imperador mesmo sendo rei... 

-- E vós?! 

-- Eu dirigiria a meu modo e era alliado do meu actual soberano... 

Iam chegando pouco a pouco a um accordo, e o inglez continuava: 

-- No emtanto, jamais pensei em tentar a empreza... 

-- Porque?! interrogou o outro cheio d'audacia. 

-- Porque, receio muito. 

-- Nada tendes a recear... 

-- Nem mesmo uma conspiração como essa que por ahi se annuncia... 

-- Senhor! Agora trata-se apenas de a esmagar! É bello o momento!... 

-- É terrivel! 

-- É magnifico... 

-- Não sei como. 

-- Ha uma conspiração, uma vasta conspiração contra a patria nascida de pedreiros livres, de deseontentes, d'inimigos... 

-- Sim! 

-- Teem golpes tenebrosos, tentam contra a vossa vida, contra a vossa segurança de zelador da nação... Sonham com uma republica terrivel e tremenda que não parte do povo e que busca derrubar a religião catholica da qual sereis amanhã o mais novo mas o mais extremoso filho... 

-- Sim... Mas quem vos fallou de republica?! interrogou o marechal. 







IX 



A offerta de um throno 







D. Miguel Forjaz, com um olhar acerado como a ponta d'um punhal, respondia á pergunta que o inglez lhe fizera. 

-- Quem?! Que podem elles querer senão a republica?!... 

-- Tendes razão!... O povo jamais poderá receber bem semelhantes conspiradores... 

Pois! Recorda peor as scenas de 1798 que as frades estygmatisaram dos altares... Vivemos n'um paiz de devotos, n'um tempo d'assombrosa devoção!... 

-- Assim é... 

-- Então... Deveis publicar que é necessario o estado marcial... 

-- Sim! 

-- D'ahi a um golpe d'estado... 

-- Apenas um passo, desde que o exercito está cheio d'inglezes! resolveu Beresford n'um momento. 

-- É verdade! Então... 

-- Então?! 

Nem um, nem outro se atreviam a dizer claramente as coisas, no emtanto lia-se-lhe nos olhos esse desejo. 

-- Que fazer?! perguntou finalmente o inglez do seu modo rapido. 

-- Reger o reino em dictadura! 

-- E o dictador?! 

-- Vós?! 

-- Eu! 

-- Sim... Estareis assim uns annos e com o tempo... 

-- Bello sonho, murmurou o inglez, accrescentando logo: 

-- E que papel será o vosso em tudo isso, D. Miguel?! Sim... Sois tudo... Tendes poder! 

-- Faltam-me bens! redarguiu com um sangue frio absoluto. 

-- Ah!... Quereis uma provincia, um ducado! E riu, riu muito, conclumdo logo: 

-- Que sonho! 

-- Sonho! 

-- Pois certamente e senão vede... Acaso náo ha em Portugal officiaes preponderantes?! 

- Ah! 

-- Não se faria desde logo uma contra revolução, não se juntariam para fazer uma conspiração mais terrível do que esta se me affigura?!... 

-- Não! 

-- Porque o dizeis?! 

-- São velhos em demasia os generaes e não só isso... 

-- Que mais?! 

-- Pouco lidaram com os soldados que durante as guerras da Peninsula se habituaram ao commando dos inglezes... 

-- Ah! 

-- Depois... O estado marcal, daria azo a excluir alguns... 

-- Má medida! 

-- Ficariam, mas nunca como preponderantes. 

Tornou a rir e volveu do mesmo modo rapido e seguro: 

-- Depois, conheço-os... 

-- Conheceis as suas opiniões?! 

-- Sim! 

-- Quaes são, D. Miguel?! Pergunto-vos isto só a titulo de curiosidade?! 

-- São as mais simples... Tudo pela patria! 

-- E o rei?! 

-- Esse tem os seus homens... Os que o acompanharam, bem vêdes... 

-- O marquez de Loulé, ama-o e ficou... 

-- É um fidalgo e quererá juntarse ao seu soberano... 

-- Candido Xavier... 

-- Oh!... Esse é um liberal e poderemos derrubal-o... 

-- Mas ha mais... 

-- Alorna, morreu na Allemanha! 

-- Outros... 

-- Mas quaes?! 

-- Martins Pamplona... 

-- Um velho... 

-- Ah! E Gomes Freire! exclamou o marechal como se tivesse dito todos os outros nomes apenas para pronunciar o do general no fim. 

-- Ah! O meu primo?! 

Luziram em scentelhas d'odio os olhos do fidalgo. Era uma raiva antiga que n'elles fuzilava, via-se claramente que o detestava, via-se isso no seu riso, no seu casquinar: 

-- O meu primo?! Foi sempre um louco! Foi sempre um doido!... 

-- Um heroe tambem... 

-- Que não soube viver... Poderia ter hoje a mais preponderante situação... 

-- E porque não a teve?! 

-- Nunca se ligou a quem devia! Com o seu passado militar, ser-lhe-hia tão facil ser tudo que quizesse... 

Baixou a cabeça e ficou meditativo; Beresford olhava-o e começava logo por dizer: 

-- Mas D. Miguel, como olharia Gomes Freire para tudo isto?! 

-- Talvez como um resignado... Ah! mas deixae-o ... 

-- Não... Deixal-o é mau... 

-- Preoccupações com elle e por... Gomes Freire, está velho! 

-- Mas é querido! 

-- Louvejaes-lhe a popularidade?! interrogou d'uma maneira extranha e confiada. 

-- Não! 

-- A reputação militar?! 

-- Não!... 

-- N'esse caso, dcixae em paz, o meu primo, o meu heroe, que passa as noutes tomando chá em casas d'amigos e mal se importa com a nação... 

-- O que não quer dizer que não venha a importar-se... 

-- O que?! O que?! 

-- Julgo conhecei o melhor do que vós! regougou o inglez. 

-- N'esse caso, tendes um meio seguro de o fazer vosso partidario... 

-- Qual?! 

-- Oh! Fazei-o primeiro vosso amigo... Eu vos digo... O general, mora no Salitre, vós, tendes necessidade d'um plano de defeza para as costas de Portugal... Consultae-o, mylord! 

-- Ah! Que habil diplomata sois! volveu a rir. 

-- Não ambiciono sei o no extrangeiro, redarguiu com intenção 

-- Ah! mas aqui... 

-- Se vos poder ser util!... 

N'este momento, o creado inglez, appareceu com a sua cara de clown, curvouse, exclamou: 

-- Mylord! 

-- O que, Jack... 

-- Os officiaes que tinha ordem para introduzir mal chegassem... 

-- Ah!... 

Perturbou-se uns momentos e depois estendendo a mão ao membro da regencia, disse; 

-- Meu caro, D. Miguel, com licença... Ah! E esquecei... 

-- O que?! 

-- Que por um pouco, levado muito pela vossa imaginação de meridional, conspirasteis!... 

-- Mylord! 

D'uma maneira dubia, o marechal, com um ar meio grave, meio risonho, tornou: 

-- Esquecei! 

-- Excellencia e vós?! interrogou com certa ousadia. 

-- Oh! Sou mais futil!

-- O que não quer dizer que não ameis este paiz de sol 

-- Sim... mas não tanto que me obrigue por elle a um sacrificio... 

-- Sacrificio?! 

-- Sim... D. Miguel, mas dáe-me licença, vou saber alguma cousa dos nossos conspiradores! 

-- Excellencia! Acaso não posso ouvir tambem?! 

-- Senhor! Sois meu superior... Tereis de receber por escripto o meu relatorio... 

E saudou-o, avançou para a outra sala onde Corvo de Camões e Moraes Sarmento, o aguardavam. 

O outro, sahiu de rompante e ao deseer a escada, murmurou: 

-- É uma esphinge este senhor marechal! 

Depois na carruagem, todo nervoso, n'um desespero, exclamou: 

-- E o demonio é que se perde um tempo precioso! 

Aquella hora, Beresford, acercava-se dos officiaes que estavam taciturnos. Elle tomava o ar mais alegre do mundo e bradava n'uma interrogação: 

-- Boas novas, senhores, boas novas?! 







X 



Os denunciantes 





Pairava no ar uma luz doce, uma bella luz. Dia de calma a meio d'abril. Já tinham aberto as janellas no pateo do Saldanha, no palacio de Beresford, ali 

a dois passos da casa da Ega, onde se guardava o throno de Junot. 

O marechal, ao despedir o governador do reino, sentira appetite, uma fome de bom bretão, espicaçada com aperitivos. 

Mas n'elle vencera a idéa de eseutar os officiaes, vencera o desejo de saber tudo d'ouvir, de receber a denuncia que tinha gerado. 

Quando entrou na sala larga, que tinha amores pintados no tecto, viu-os. 

Estavam firmes, graves, d'olhos baixos, com a vergonha nos rostos. 

-- Então, senhores?! 

Atirava-lhes de chofre a interrogação e quedava-se de braços cruzados na frente d'elles: 

-- Então?! 

Foi Pedro Pinto, o primeiro a fallar, o primeiro a soltar uma exclamação: 

-- Marechal! 

-- Fallae... Que temos?! 

-- Muitas coisas! redarguiu Corvo de Gamões. 

Logo Beresford, tomou logar n'uma poltrona, apontou-lhes outras: 

-- Sentae-vos! 

Pairava na sala a mesma luz doce, de fora vinham ruidos amortecidos, vagos. 

Elles olhavam-se. Não sabiam como dar começo á falla. 

-- Vamos! 

A insistencia era quasi uma ordem. Então, Corvo de Camões exclamou: 

-- Cumprimos as vossas ordens! 

-- Isto é... Conspiraram, disse o marechal a rir. 

-- Sim, excellencia! 

-- E então, srs. conspiradores... Então?! Que me trazeis de novo?! 

-- Muito, exclamaram a um tempo. 

-- N'esse caso, dizei o... Peço-vos que sejaes breves,... 

Sentia a fome a mordel-o e tinha o desejo de se sentar tranquillo á meza do almoço. Um resto de canceira se lia no seu rosto. 

-- Fallae! 

-- Como me ordenastes, disse Corvo de Camões, procurei o meu amigo!

-- Bem... regougou Beresford. 

-- Fallei-lhe de vossa ordem! 

O marechal, accenou com a cabeça e o outro continuou: 

-- Deliberamos então encontrar esse Calheiros que não conheciamos... 

-- Havia no emtanto um bacharel de nome Sá, disse a medo Moraes Sarmento. 

-- Seu amigo! 

-- Nosso companheiro na noute do Marrare! volveu elle. 

-- E então?!... 

-- Procuramol-o e elle decidiu-se a ir em busca do Cabral... 

-- Ah! Um achado! 

-- Maravilhoso... Porém, marechal, porém bem doloroso... 

-- Adiante, adiante! redarguiu cheio de fleugma.

-- Sá, foi procurar o amigo alli no Arco do Bandeira e d'ahi a tempos voltou, continuou o Corvo. Porem, chegava aterrado... 

-- Porque?! Acaso se suicidou o conspirador?! interrogou ironicamente. 

-- Não, sr. marechal, porém negava tudo! 

-- A proclamação? interrogou de sobr'olho franzido. 

-- Foi o que o obrigou a convidar o amigo para tomar parte na conjura! 

-- Ah! volveu o inglez, mais tranquillo. E elle?! 

-- Acceitou por nosso conselho... Aguardou-nos no Rocio ás dez da noite... íamos emfim conhecer os conspiradores! 

-- Muito bem!... Depois?! perguntou elle de novo. 

-- O Calheiros ao ver nos saudou-nos e disse que ia conduzir-nos ao logar onde se encontravam os seus amigos! Era para as bandas de Rilhafoles em casa d'um alferes de nome Ribeiro Pinto! 

Enthusiasmava-se. O marechal ouvia-o e o Corvo, accrescentava cheio de pressa: 

-- Devo notar que a cerca de vinte passos da casa onde deviamos ser recebidos, o Calheiros tirou da algibeira um masso de papeis que escondeu n'um cano rente ao muro. Mandou-nos collocar a distancia de dez passos um do outro e quando nos viu assim fallou a certo homem embuçado que se approximou... 

-- Voltou, não é verdade?! atalhou elle com impaciencia. 

-- Ah! Voltou a dizer-nos que o seguissemos e que entrassemos atraz d'elle... 

-- Assim fizeram?! tornou do mesmo modo ancioso. 

-- Ah! Decerto... 

-- E então?! 

-- Então... Vimos que entrava n'uma escada e entramos os tres... Vendou-nos os olhos e exclamou: Deus o guarde! Outra voz lhe respondeu. Trepamos varias eseadas, até que por fim batendo tres pancadas n'uma porta... Ella abriu-se, elle fallou baixinho com quem lhe appareceu e exclamou logo em voz alta:

-- «Enganamo nos! Estamos enganados!» 

-- Por fim, lá entramos na casa, depois d'arrancar-nos a venda temendo uma traição! 

-- Lá dentro estavam outros?! perguntou o marechal com a sua pressa. 

-- Sim!

-- Os seus nomes?! tornou no mesmo impeto. 

-- Eram o alferes Pinto, d'infanteria 4, e o major Neves, d'atiradores! 

Lançou mão d'uma penna e escreveu com cuidado os nomes para interrogar de seguida: 

-- E depois?! 

-- Depois?! É simples... Fallamos-lhe da iniciação! disse aborrecidamente o Moraes Sarmento. 

Entrava sempre a mesma luz doce e breve pela casa, ouviam-se os mesmos ruidos vagos, um sussurro e o som de passos no pateo. 

-- Que disseram elles?! interrogou Beresford sem mesmo reparar no outro. 

-- Que guardavam isso para o dia seguinte e nos dispensavam de certas formalidades... Mas logo, n'uma imprudencia enorme nos mostraram o plano da conspiração! 

-- É uma brincadeira, marechal! atalhou com desprezo o Moraes Sarmento. 

Beresford, calou-se de novo; encolheu os hombros e deixou que o outro continuasse no mesmo tom: 

-- Era um passo tenebroso... Todos os governadores seriam mortos... 

-- E eu?!

-- Sois a cabeça do rol, mylord, asseverou Moraes Sarmento fleugmaticamente. 

-- Oh! Sempre o primeiro... Sympathiso Já com os conspiradores! disse muito risonho. Oh! muito, mesmo... 

-- Tudo será pelo peor... Raros dos funccionarios que vos são dedicados poderão eximir-se a semelhantes iras! 

-- Peor para elles se não conseguirem primeiro lançar mão d'esses revoltados! Por mim, juro-vos que mesmo desprevenido que me topassem, não me matariam sem tentar a defesa... Mas adiante, accrescentou com a sua eterna fleugma. 

-- Hontem, continuou o capitão, fomos convidados para jantar no Leão d'Ouro. O amphytrião era o major d'atiradores... 

Beresford sorriu, encolheu os hombros: 

-- Sabeis que quasi não me interessa a narrativa?! 

-- Porquê, mylord?! 

-- Meu Deus, se é uma farça, uma bem ignobil farça! 

-- Marechal! 

-- Pois que quereis de conspiradores que vão para os botequins?! 

-- Escutae, excellencia, atalhou Moraes Sarmento. Eu já vos disse que não passava de brincadeira... 

-- Seja, exclamou o outro de repente. Não negarás porém que que achaste graves as suas palavras! 

-- Quaes?! interrogou Moraes Sarmento. 

-- Aquellas que se referiam ao coronel Wartem... 

-- Outro conspirador?! interrogou o inglez. 

O companheiro de Corvo, estremeceu, olhou-o como desvairado. 

Mas o capitão, parecia doido, exclamava logo anciosamente: 

-- Outro sim, marechal... Elle é um tal barão d'Eben, um prussiano que é coronel em Portugal! Alem d'isso Fallam que se encontra em Lisboa um general hespanhol.. , Nada menos que certo liberal... 

-- Cabanas?! interrogou elle n'um sobresalto. 

-- Sim, excellencia! volveu o capitão. 

D'esta vez o marechal sentou-se na cadeira e exclamou: 

-- Continuae! Continuae! 

-- Interessae-vos de novo?!... interrogou o outro ironicamente. 

-- Tanto que vos ouço sempre do melhor agrado! E ainda estou em Belem... 

Era o seu grande desespero mas apesar de tudo, ordenava: 

-- Fallae... Dizei tudo! 

-- Queriamos ser n'essa noute cedo iniciados mas só tarde o cumpriram... 

-- Porquê?! 

-- Elles fallaram d'uma grande homenagem que devia presidir á sessão e o qual só tarde se apresentava... A sessão era na rua de S. Bento no n.º 51... 

-- Magistral! Contae... Contae, exclamou esfregando as mãos. 

Só o Moraes Sarmento parecia abstracto, via-se que soffria. 

-- Fomos pois a S. Bento e lá vimos os nossos homens... 

-- Todos?! 

-- Todos?! oh! Pelos modos era apenas uma reunião de chefes .. 

-- Melhor! De cousa alguma nos servem os soldados! redarguiu com a eterna fleugma. 

-- E as personagens?! interrogou logo de seguida, com pressa. 

-- Ah! Não appareceram... Foi o alferes Pinto quem fallou do estado de decadencia da nação e da necessidade d'uma revolução liberal feita d'accordo com a Hespanha! 

-- Por Deus! 

-- Disseram que Cabanas estava em Lisboa e que nos deviamos submetter ás ordens do Conselho. Assignamos o juramento em duplicado! 

-- Ah! Excellencia e bastante me tremia a mão no momento de commetter semelhante infamia! 

Moraes Sarmento, atirava muito excitado aquellas palavras. 

A ideia d'aquelle juramento feito assim no proposito firme de desde logo o trahir parecia-lhe um sacrilégio, um crime de miseravel, de bandoleiro. 

Os olhinhos ironicos do inglez verrumavam-no, furavam no, a sua voz guttural, cortante, elevou-se: 

-- E tendes uma grande pena?! 

-- Oh! Acho uma indignidade! 

-- Indignidade seria o contrario! bradou o marechal. 

Corvo de Camões, accenou com a cabeça, concordou: 

-- Sim... Isso é bem assim!... 

-- Ouçamos o resto, pediu o inglez, curvando os braços. Que vos succedeu mais n'essa casa de S. Bento?!... 

Elles olharam-se, hesitaram, acabando por fim o Corvo a dizer: 

-- Fomos recebidos como membros da grey revolucionaria. 

-- Mas que lastimosa grey, senhor! balbuciou o outro. 

-- Como lastimosa, capitão?! interrogou o marechal. 

-- Não vi senão gente desgraçada, não vi senão miseraveis! 

-- O que?! 

-- Sim... Officiaes a quem as familias se dirigem porque querem pão, gente que vende lares. 

-- Oh! 

-- Sim, marechal, tornou elle, buscando attenuar todas as suas revelações. 

-- Mas explicae-vos! 

-- Sabeis que as constantes guerras, reduziram á miseria muitas casas... Desde 1807 que Portugal não tem um momento de treguas... D'ahi a miseria que se desenvolveu por toda a parte, d'ahi a agonia, d'ahi a morte lenta de toda essa gente, o estado latente de revolta nas almas no fundo dos corações... 

-- Contra mim?! interrogou a franzir o sobr'olho. Contra mim?! 

-- Não contra vós... 

-- Então... 

-- Contra tudo!... 

-- Capitão, volveu o marechal ironicamente. Julgo que no contacto dos revolucionarios ganhaste tambem as suas ideias!

-- Senhor! 

Bastante pallido, muito pallido, fixava o marechal e não sabia que lhe responder. 

Era todo esse passado de grandes luctas, um passado de portuguez que sonhava o bem da sua patria a acudir-lhe á imaginação. Penetrava n'elle a ideia de que os outros tinham razão, de que tinham qualquer coisa de terrivel a movel-os. E via bem isso, via Portugal agonisando, buscando levantar-se pelo esforço dos desgraçados. 

Elle ouvira bem, ouvira muito bem. Era uma turba de famintos, da desditosos, de desgraçados, a levantar-se. 

Corvo de Camões, empallidecia tambem quasi se arrependiam de taes commentarios, do zelo que os tinha levado até áquelle extremo, do excesso de terror que os movera a dar semelhante passo. 

O inglez, de braços cruzados, n'um ar sarcastico, sorria: 

-- Bem... Achaes então que devem revoltar-se?! 

-- Oh! marechal, não... Não, marechal! clamou elle. 

-- Julguei que em tal fallaveis... Mas continuae, continuae... 

-- Marechal! 

Agora, o Moraes Sarmento com o seu melhor modo, com a maior franqueza, disse: 

-- É necessario que me ouçaes bem... Vós sois o unico homem a quem devo mostrar o que me vae n'alma... 

-- Ah! Ouçamos... 

-- Senhor... Eu nunca julguei que chegaria ao extremo de ser denunciante... 

-- Sois patriota?! 

-- Sou soldado! 

-- O vosso dever é entrar na batalha... 

-- E ferir de frente! volveu com força, n'um impeto. 

-- Sim, capitão... Mas se o acaso caprichava em collocar nas vossas mãos o fio d'uma meada tenebrosa... 

-- Ah!... Que enorme desgraça... 

-- Sim... Que enorme desgraça, disse tambem o outro. 

O marechal, com as feições endurecidas, bradou: 

-- Julgo, senhores, não ser este o momento azado para semelhantes queixas... Vamos! Contae-me tudo! 

-- Eu vos digo... Sei que faço parte d'esse governo... 

-- Que mais... 

-- Que me deram a sua confiança... 

O marechal sorriu, deixou o seu modo raivoso, fallou como militar: 

-- Meus senhores, ninguem mais do que eu, lamenta o occorrido... ninguem mais do que eu lamenta que n'este paiz se conspire e que sejam os meus officiaes os encarregados de deseobrir tal conspiração... Porém, bem vêdes, o serviço da patria, a dedicação a el-rei, assim o exigem... 

Estavam de cabeça baixa, muito perturbados, sem saberem que responder ao inglez que lhes mostrava a razão. 

-- Vejamos, senhores, vejamos, tornou Beresford. Que se exige de vós...

Lentamente o capitão volveu: 

-- Oh! de mim exigem que me cale! 

-- É o bastante, disse o outro a rir. 

-- É o bastante?! 

-- Pois decerto! 

-- Calar-vos-heis... 

-- Marechal... 

-- Acabemos com isto, meus senhores... Acho demasiadamente prolongada a scena... 

-- Quereis que vos diga tudo?! Não é isso, não é, senhor?! 

-- Pois de certo! Para isso lá entrastes... 

-- Bem... Agora que os homens me accusam e que Deus me perdoe... 

O inglez, sorria, encolhia os hombros e declarava: 

-- Tudo por bem da patria... 

-- Exigem de mim que faça adeptos no exercito! Entregaram-me papeis em cifra! Deram-me proclamações, faziam-mc seu agente na provincia da Beira Alta para a qual tenho d'acompanhar o general Bahia de quem sou ajudante... 

-- Ah! E esses papeis?!... 

-- Eil-os! 

Entregou-lh'os de repente, quasi d'arremeço. 

O marechal, indifferentemente coUocou-os sobre a meza e voltando-se para Corvo de Camões, perguntou: 

-- E vós?! 

-- Eu, marechal, do mesmo modo me pediram para fazer adeptos... 

Tremia-lhe a voz, sentia um receio enorme, um vago terror de fallar. 

-- Marechal! exclamou por fim muito decidido. Temos uma reunião aprazada... 

-- Nova reunião?! 

-- Sim! 

Pedro de Moraes Sarmento, estremeceu violentamente ao ouvir o camarada fallar assim, deteve-o. 

Mas o outro continuava de subito: 

-- É amanhã! 

-- Onde?! interrogou o inglez, como na anciã de conseguir emfim prendel-os. 

-- Em casa do architecio Fernando de Sousa, na rua da Fabrica da Seda... 

-- Ireis! 

-- Iremos... 

-- Não se passou mais nada?! perguntou a fixal-os. 

-- Sim... Mas é tudo tão extranho?! É tudo tão vago... 

-- Fallae! 

Parecia advinhar que uma revelação terrivel lhe ia fugir dos labios, parecia sentir que alguma cousa de profundamente grave estava por dizer. 

Agitava-se melhor na poltrona, cerrava os olhos e ficava a ouvir. 

Entrava o sol. Lá fóra no pateo ouvia-se o barulho das ordenanças. 

-- Não creio n'essa reunião em casa do architecto! 

-- Porquê?! 

-- Porque já nos aguardavam entre essas pedreiras d'Alcantara, ás quaes devíamos ir, levando luz... 

-- E então?! interrogou no mesmo tom breve. 

-- E não se realisou a reunião no qual devia receber credenciaes das mãos d'um alto personagem... 

-- Oh! 

Beresford, parecia intercssar-se agora, interrogava: 

-- E quem era esse personagem?! 

-- Mas se não appareceu, se elles disseram que não podia ir! 

-- Porém que se apresentaria em casa do architecto, não é assim! 

-- Sim, excellencia! 

-- E quem é esse personagem?! tornou com mais interesse. 

-- Marechal, elle não appareceu! 

-- Mas apparecerá! Ah! ninguem se serve d'um mytho! Vejamos o seu nome, insistiu elle. 

-- Tratava-se d'um official superior! 

Beresford, levantou-se d'um pulo, olhou-o de frente: 

-- O seu nome?! 

Agora, via-se que tinha medo, via-se que sentia um balo. 

-- O seu nome?! 

A um tempo, os dois ofíiciaes, disseram muito baixinho: 

-- Era o general Gomes Freire! 

-- O que?! 

Transfigurava-se; era como uma paralysia que lhe vinha ao ouvir aquelle nome, ao evocar a figura do heroe. 

-- Tendes a certeza?! 

-- Sim, marechal... Não creio porém que esse homem ande em taes companhias!

-- Isso não é comvosco! volveu rudemente. 

-- Mas... 

-- O general Gomes Freire?! Fallam d'elle? Bem... Ireis a essa reunião e vel-oheis! Depois terei a certeza... 

-- Mylord, elle é um heroe!... 

-- Por vezes são loucos, os heroes!... Podeis partir! 

Saudou-os, deixou-se cahir na poltrona, apertou a cabeça entre as mãos e exclamou: 

-- Gomes Freire! Gomes Freire!... Pois é crivei?!... 

E apóz uns momentos, ergueu-se, deu dois passos na casa e como bom inglez que era cheio de fleugma, balbuciou: 

-- Veremos! 

Não tinha nem alegria nem tristeza. Beresford tomava já a serio a conspiração. 

Á porta, Jack, bradava: 

-- Vossa graça, está servido! 

E o marechal foi almoçar muito tranquillamente. 







XI 



Primos de sangue 





Sahia-se da audiencia dos senhores governadores do reino. 

Vinham os fidalgos, os frades, os pretendentes pelas largas escadarias do paço d'Ajuda onde se reuniu o conselho. 

E D. Miguel Forjaz, ficara encostado á mão a meditar. 

Pensava em Beresford, pensava n'elle, n'esse homem que lhe podia satisfazer todas as ambições. 

Eram muitas, sempre tinham sido muitas. Mesmo no tempo em que era um simples official, um pobre fidalgo sumido nas guardas, lhe entrava na alma o desejo de subir, de se impor, de dominar. 

Lembrava-se bem de que tratara com D. Ramiro de Noronha, com esse conde. 

Ah! Fôra uma grande ambição que o levara contra essa familia dos Freires, contra os primos... Sim, fôra uma ambição tremenda e singular. 

Vira-os sempre ricos, e d'ahi o odio. Agora que era tambem rico, o odio apagava-se-lhe por vezes. 

Mas no fundo, bem no fundo da sua alma, lembrava se dos triumphos do outro, recordava-se com a colera mais intensa de palavras que Gomes Freire lhe dirigira outr'ora attacando D. Ramiro de Noronha, o seu rival. 

Esse homem, com o qual mantivera uma lucta, que desacreditara sempre que pudera, era agora como um embaraço ás suas pretençÕes. 

Até o proprio Beresford, parecia temel-o. 

Oh! E elle queria o outio feito rei, collocado n'um throno, dominando ao passo que ia subindo em honrarias, em dignidades. 

Porém, se como sempre, Gomes Freire, o embaraçava?! 

Recordava se então dos inimigos d'elle, de toda essa gente que vivia a odial-o. Já não os via: um. o bispo do Algarve, estava perdido. Os outros, o Nestral, o D. Ramiro, os officiaes do bando contrario estavam mortos ou emigrados, 

D. Ramiro, acompanhara o amo para o Brazil, fôra com a côrte, já sem o seu poder, a contar as suas amarguras. Devia estar velho; a velhice apaga o odio. 

Ficára sósinho. Oh! mais valia decerto estabelecer a sua boa paz com o general. 

Elle já perdera muito do genio violento, d'aquella furia velha, d'aquelle modo arrebatado. 

Por consequencia, era crivei que se entendessem. 

Depois, recordava-se de Beresford e murmurava: 

-- Céus! O inglez... 

Quereria fazer tudo de repente, n'um golpe, com rapidez, queria levar para diante a sua ideia de victoria. Mas impacientava-se. 

Ao mesmo tempo receava a gente do conselho, os seus collegas, todos uns dedicados ao rei, á familia real. 

Só o seu plano devia vingar. Lançava mão d'essa conspiração, dava lhe forma dum enorme acontecimento, estabelecia o terror, o estado marcial, com a dictadura militar. 

O dictador seria Bercsford que por um golpe d'estado veria a ser o rei. 

Porém havia o exercito, havia gente de bem!

Mas no exercito, os officiaes, eram quasi todos inglezes e d'este modo facil se tornava chegar ao fim. 

Os generaes portuguezes eram poucos, e elle só temia Gomes Freire. 

Tinha muito prestigio, olhavam-no como um heroe, viam nelle alguma cousa de lendario. E então, ao recordar tudo isto, emmudecia. 

-- Se o clamam para si?! 

Podia fallar-lhe sob qualquer protesto, podia ouvir lhe as opiniões. 

Pegou no tricorne, ia para sahir. Mas n'este momento a porta abriu-se e um homem gordo, pesado, de cabelleira de rabicho, entrou: 

-- Excellencia! 

-- Olá João Gaudencio, pois és tu! 

-- Sim, meu senhor... 

Era um official de policia que D. Miguel Forjaz empregava nos seus trabalhos secretos. 

-- A que vens?! 

Elle com um riso grosso, redarguiu: 

-- Ora, venho, meu senhor, trazer-vos novas! 

-- Senta-te! 

Apontou lhe uma cadeira, sentou-se n'outra, e ficou a ouvil o: 

-- Dize lá... 

-- Venho dizer-vos que anda alguma cousa no ar... 

Miguel Forjaz sorriu, ficou na mesma posição. 

-- De que desconfias?! 

-- Parece que se andam por ahi a divertir... 

-- O que?! 

-- Sim, excellencia, tornou este no seu sorriso grosso. 

-- Mas o que é?! 

-- Essa historia dos pasquins tem fundamento... 

-- Como?! interrogou, fazendo-se de novas, 

-- Tem fundamento, ou antes dá vontade de rir... 

-- E tu vês?! 

-- Pudera, meu senhor... Se andam a fallar em conspirações... 

O governador do reino, deu um pulo na cadeira e bradou: 

-- Pois já sabes?! 

-- E V. ex.ª?! 

-- Ora... mas não admira!... redarguiu com certo modo: meu senhor... a policia é sempre a primeira a saber tudo... 

-- Sim? 

-- Só depois d'ella é que os outros sabem as causas... 

-- Porém d'esta vez... 

-- Foi V. ex.ª o primeiro? interrogou elle com certa ironia. 

-- Sim! ou antes, não! 

-- Ah! E que o primeiro não fui eu, não foi ninguem de policia nem de governação. 

-- Foi o marechal! 

-- E possivel... Falla-se n'isso ahi pelas ruas... 

-- O quê?! 

-- Sim, meu senhor... Vae-se pela rua fora e não se ouve senão o seguinte entre os que se encontram: 

«Então?! Para quando é?! É certo que ha muita gente mettida n'isso?!» É uma pura invenção em que se divertem, excellencia. 

Elle, sentiu um abalo, fixou o agente e bradou: 

-- Julgas isso?! 

-- Tenho a certeza! 

-- Mas porquê?! 

-- Porquê?! Pois acaso unia revolução que se fizesse a serio andaria assim de bocca em bocca?! 

Eram os seus terrores por tudo. Era o seu ideal desmanchado. N'esse arranco, exclamou: 

-- Gaudencio! 

-- Excellencia! 

-- E quem são os auctores d'essa brincadeira?! 

-- Toda a gente e ninguem! 

-- Como! 

-- Sim... acaso sabemos quem inventou essa nova de que chegava D. Sebastião? 

-- Tem rasão... mas alguma causa ha! Reclamou o governador deveras despeitado. 

-- Não, meu senhor, podeis acreditar que não! 

O agente, em íace do governador do reino, tetubeava ainda as ultimas palavras da sua impressão: 

-- Excellencia, mas na verdade não vale cousa alguma tudo isso... Se elles andam por ahi de fallacia... Bem vêdes que um homem tendo a perder não se mette em semelhantes mãos! 

-- Sim... sim... disse D. Miguel Forjaz, sim! 

-- Por isso... 

-- O quê?! 

-- Deveis antes esquecer... 

O governador, teve um sobresalto, olhou-o de frente e bradou: 

-- João Gaudencio! 

-- Excellencia! 

-- Mas é necessario que tenha essa importancia... Sabes?! 

-- Como... Como... 

-- Sim... Convem-me! 

-- Mas por Deus?!... 

-- Acaso não é verdade que se falla d'isso?! 

-- Sim... 

-- Não é verdade que andam pelos cafés em grandes ares de mysterio? 

-- Não tanto de mysterio que não se veja tudo. 

-- Mas quem vê?! 

-- Nós. 

-- A policia?! 

-- Naturalmente... 

-- Isso não admira, disse d'uma forma sorna. 

-- Porquê, excellencia?! 

-- É o seu officio... 

-- Mas mesmo o povo... 

-- O quê?! Acaso o povo tambem ouve taes infamias! 

-- Ouve e condemna! 

-- Condemna?! 

Luziu lhe no olhar uma centelha, soffreu uma impressão extraordinaria e bradou: 

-- Ah! n'esse caso temos por nós a opinião?! 

-- Menos a de certos jacobinos... 

-- Ora! 

Encolheu os hombros, sentiu uma grande alegria e volveu:

-- Uma minoria! 

-- Certamente... 

-- E eu que adoro a tranquilidade, que penso mesmo em dar grandes golpes vendo tudo na mesma... 

O agente de policia, parecia que começava a ver claro nas ideas de D. Miguel Forjaz, e então, sorrindo, balbucinou: 

-- Se V. ex.'' quer... 

-- O quê?! 

-- Que eu veja... 

-- Mas o quê?! Ver?! É pouco... necessito antes que não vejas muito e... 

-- E... 

Calou-se, fez um gesto, tomou um certo ar de indefferença: 

-- E de resto para quê?! Se não ha nada melhor... No emtanto bom será prevenir... Carecemos d'alguem com presteza para debellar más idéas! ninguem calcula o que alguns mal intencionados podem fazer... 

O agente não o percebia já. Elle desejava isto em absoluto, desejava ardentemente mesmo e concluia por mais occultar as suas idéas: 

-- No fim de tudo, veremos... 

E logo, n'outro tom, accrescentou: 

-- Por Deus! Por Deus! Mas João Gaudencio, tu deves saber muitas cousas! 

-- De quê?! 

-- D'essa conspiração... 

No seu espirito luctava muito, e só ao cabo d'uns momentos, exclamava: 

-- Pois bem... Vamos trabalhar!

-- Como excellencia!

-- Trazer-me-heis o nome de todos os que conspiram... 

-- Mas... 

-- Tens duvidas?! 

-- Não, excellencia... Mas se vos digo que só se falla dos conspiradores d'uma conspiração que não existe! 

-- Hum, mas e esses nomes?! 

-- Excellencia! 

-- O que é... 

-- Ás vezes falla-se de pessoas que não teem cousa alguma a ver com os acontecimentos... Indicam-se nomes... 

-- Por Deus, traze-me tudo isto! 

-- Mas senhor... 

-- Obedece!

-- Ás ordens de v. ex.ª... Irei, saberei tudo! 

-- Vae! 

Quando o agente sahiu, D. Miguel Forjaz, murmurou: 

-- Que quererá elle dizer com esses nomes?! 

E desde logo sonhou com toda a nobreza envolvida no acontecimento, fallado pelo povo sem que houvesse rasão para isso, ouvia os nomes dos inimigos e vinha-lhe uma luminosa idéa, exclamava: 

-- Ah! Ha tantos que outr'ora me calcavam! 

-- Excellencia! bradou uma voz á parte. 

Era um servo, elle estremeceu, olhou de seguida: 

-- Que queres?! 

-- É uma ordenança do senhor marechal... 

-- Que quer! 

-- Traz uma carta, a qual a quer entregar a v. ex.ª. 

-- Que entre! 

O soldado entrou d'ali a algum tempo, elle tomou a carta, passou a pela vista e sorriu. 

Veiu-lhe uma alegria sem saber porquê. 

Beresford, apenas o mandava chamar, apenas lhe dizia para correr ao palacio do pateo de Saldanha. 

Sem saber porque advinhava n'aquelle ordem alguma cousa de muito extraordinario e pegando no chapeu, sahiu do gabinete e dirigiu-se para a porta da eseada. 

-- Excellencia! disse-lhe o agente que ainda alli estava. 

-- O que é!... 

-- Quereis que vos traga todos os nomes! 

-- Sim, todos! 

-- É que ás vezes podia haver falsidade! 

-- Eu saberei ver! Saberei arranjar provas... 

E n'um ar de soberano, concluiu: 

-- Aqui não se faz senão justiça! 

Passou empertigado para a sege, ao mesmo tempo que o agente se affastava, murmurando: 

-- Justiça! Justiça!... 

O sol era claro, passavam dois frades obesos, rindo ás gargalhadas, com as faces incendiadas. 





XII 



Uma visita 





O general Gomes Freire, ergueu-se muito surprehendido ao vel-a entrar. Vinha de negro, sorria docemente e exclamava: 

-- Emfim ex.ª recebeis-me! 

Era muito bonita com os seus cabellos louros, a joven que assistira a todas as reuniões dos conspiradores e procurava fallar bastas vezes ao general 

sem nunca o conseguir totalmente. 

-- Senhora, se tivesse podido advinhar estaria em casa para vos receber! volveu com galanteria. 

-- General, o momento é precioso! 

-- O que?! Que momento, interrogou como se não a comprehendesse, apontando-lhe uma cadeira. 

-- O momento em que estamos... É necessario que alguem nos dirija... 

-- Dirigir o que?!... 

-- A conspiração... 

-- Pobre senhora! Oh! Pois vós tambem andaes em taes movimentos! 

No seu rosto, desenhou-se uma expressão dolorosa e erguendo-se, collocou-se na sua frente e disse: 

-- Não tendes paes, irmãos, um noivo?! 

-- Não... 

-- Oh! Mas que quereis fazer?! 

-- A liberdade do meu paiz... 

E era tão linda com os seus cabellos louros e com os seus olhos de ternura, que o general sentiu mais do que nunca uma infinita piedade. 

Porém, ella accrescentava: 

-- Sim, general, quero essa liberdade n'uma vingança, n'uma desforra... Os meus morreram... 

-- Como?! 

-- Sim, morreram... Eu venho de baixo, de muito baixo, venho do povo, da turba, senti o seu soffrer... 

-- Da turba, vós?! 

Quasi não acreditava que semelhante mulher podesse vir d'esse povo, quasi a julgava filha d'um rei. 

-- Sim, general... Agora chegou a minha vez... Isto é uma lucta de seculos, uma lucta pessoal... E diante dos esmagamentos, das perfidias, das infamias, eu quero vencer... É o bem de Portugal e o meu que exijo! 

-- Mas como vos atreveis, vós... 

-- Como?! 

-- Sim... Com a vossa edade... 

-- Sou velha, general... 

-- Ah! fez Gomes Freire, e sorriu ao ouvil-a fallar assim. 

-- Os annos pouco valem diante das amarguras... Ha creanças que em face das dôres, tem mais razão do que os velhos que jamais soffreram... 

-- Soffrestes então?! 

Estava devorado de curiosidade, cheio de desejo enorme d'ouvir a narração dos seus infortunios. 

Ella, de cabeça levantada, com firmeza e com segurança, replicou: 

-- Sim... e soffro... 

-- Por isso quereis morrer?! 

-- Morrer?! 

-- Sim... Essa conspiração não tira resultados... 

-- Porque?! interrogou n'um grito selvagem. 

-- Depois vol o direi... 

-- General!

-- Minha filha... Ouvi... 

-- Ah! Ouvirei porque já sei o que ides a dizer... 

-- Sabeis?! 

-- Em absoluto... Ides negar-vos a tomar parte n'ella, como sempre... 

-- Decerto! 

- Oh! 

-- Escutae... 

-- Não tenho que eseutar, general, não tenho... 

-- Mas... 

-- Eu vinha para isso... D'este modo saio! Nada tenho que fazer em vossa casa! 

-- Esperae! 

Era tão dommadora a sua voz que ella deteve-se e olhou-o de frente para dizer: 

-- Se quizesseis... 

-- Não posso querer impossiveis, senhora! Dizei-me, acaso contaes com os fidalgos, com o exercito, com a força viva da nação?!

-- Temos entre nós muitos officiaes... Só nos falta... 

-- Soldados! replicou vivamente o general. 

-- Não... Esses apparecerão desde que uma voz se levante a chamalos... 

Gomes Freire, abanou lentamente a cabeça e redarguiu: 

-- Escutae... Eu já disse o mesmo ao barão d'Eben... 

-- O que?! Pois elle fallou-vos... 

-- Sim... 

-- Negaste-vos a tomar parte na conspiração?! 

-- Como sempre e dei-lhe as mesmas razoes que a vós darei... 

-- Mas se todos contam comvoseo! 

-- Commigo?!

-- Sim... 

-- Que desgraçados! volveu elle a sorrir. Pois correi a dizer-lhes que não estou a seu lado, que não posso estar... 

-- E sois um militar! 

-- Que com outros militares me entendo! 

-- N'esse caso... 

-- Ouvi, senhora... Ouvi tudo até ao fim! 

-- Escutar-vos-hei! 

Cheia de colera, ficou-se a sentir bem as razoes do heroe: 

-- Acaso, senhora, eu posso tomar parte n'uma conspiração contra o rei, contra a familia real?! 

-- General, sempre julguei que nos exercitos de Bonaparte fosse outra a theoria! 

-- Que pensastes então?! 

-- Que se tinham posto de lado os preconceitos... 

-- Pelo céu... 

-- Não o feriram?! 

-- O imperador foi o mais revolucionario dos reis! Já vêdes... 

-- Que os outros deviam ser déspotas... Não eram já os soldados da revolução. 

-- Ao contrario... Eram antes esses soldados... 

-- Sim... Mas porque o renegaram?! 

-- Era um principio... Acaso julgaes que a revolução era justa, ou antes, que eram justos os seus homens, fazendo correr rios de sangue! 

-- Sim! Era o povo escravisado durante séculos a explodir, a derruir, a vingar-se! 

-- Era a intelligencia d'uma nação que se chacina diante das ambições! volveu elle, accrescentando logo: Mas vamos adiante, que pouco resta! 

-- Dizei... 

-- Eu, olhando para o passado e vendo essa revolução de liberdade a ter a violencia, ao ver matar reis para formarem outros, deseri... 

-- Ah! 

-- Sim... Ainda vem longe o tempo dos povos o poderem comprehender um chefe sahido d'entre a turba... 

-- Muito bem... General, vós o dizeis!

-- Decerto e... n'esses povos, as luctas intuitivas tem logar retalhando a patria e fazendo todos os horrores, anniquillando a nação... 

-- Como sois... 

-- Sou um producto de experiencia, mais nada! 

-- Como dizeis tanto?! 

-- Vejo que a França d'hoje é mais pobre do que a de Luiz XVI... 

Ella curvou a cabeça e o general continuou: 

-- Agora escutae, senhora... Reparae em Portugal... Eu não gosto d'esses inglezes que por ahi dão leis, que por ahi governam mas menos gosto dos portuguezes que governariam amanhã! Jugo por jugo, antes o d'aquelles que dominam sem odios! 

-- General! 

-- Minha filha... Fallaste ha pouco de soffrer; ninguem, por Deus, soffreu mais do que eu... 

-- Vós?! 

Era carinhosa ao fallar-lhe assim, ao dizer- lhe tudo aquillo com uma infinita ternura. 

-- Sim... Eu... Pois acaso julgaes que debalde tenho andado por longas terras em combates?! 

Ella parecia interessar-se cada vez mais, á medida que o general se commovera tambem pelos seus soffrimentos. 

Então, olhando se de frente. Gomes Freire disse: 

-- Serei franco... Eu sympathisei comvoseo, por isso vos fallarei com o coração! 

-- Obrigado!

-- Sim, minha senhora, vou fallar-vos como raramente tenho occasião de o fazer! 

-- Dizei... 

-- Então desde a mocidade, senti que Portugal morria nas mãos de effeminados que o dirigiam... Vi a côrte de Maria I, côrte de beatos e de falsos, vi a traição, o terror, a infamia... No fundo do meu peito nascia a infinita anciã d'outros successos, d'outros acontecimentos... Tinha commigo um amigo, um só, depois foram dois... 

Calou se como suffocado diante de semelhante recordação e accrescentou: 

-- Um dia, negocios d'amor me levaram a explodir... Sim, ninguem soube, eu amei muito e por isso fui muito desgraçado! 

-- Senhor! 

-- Sim... Ouvi me... Escutae-me até final... 

-- A mulher que eu amava era disputada por outro... Pertencia a uma familia que então conspirava... 

-- Ah! 

-- Fizeram-me toda a casta de vilezas e d'infamias... Accusavam-me, pozeram-me de rastos... Onde procurava um apoio só encontrava um inimigo... E por fim roubaram-me essa mulher! Quiz vingar-me, iam a abater-me!... Então sahi de Portugal com o odio do Tavora e dos jesuitas... 

-- Do Tavora! exclamou ella n'um arranco. 

-- Sim... O odio desse José Maria de Mello. 

-- Do sr. bispo do Algarve?! interrogou ella. 

- Sim! 

-- Ah!... General, sois então vós um inimigo?! 

-- Como?! 

-- Sim... O bispo do Algarve sempre perseguiu aquelles que estavam com a rainha! 

-- Como o sabeis?! 

-- Por tudo... 

E n'uma desolação, cheia d'infinita raiva, declarou: 

-- Onde eu vim, julgando que encontrava um revoltado! 

-- Senhora! 

-- Pois decerto, general... Com a vossa tradição, com a vossa bem reputada heroicidade, com o vosso passado de soldado, sois um amigo dos reis, dos filhos e dos netos d'aquelle que fez justiçar os Tavoras e os seus servos... 

-- Eu fui tambem perseguido pelos aulicos da rainha... 

-- E amastel-a?! 

-- Não! Acima de tudo, senhora, colloco a patria! Por ella voltei... 

-- Oh! E essa patria que agonisa não vos chama ás armas?! E essas preseguições não vos dão alento! Pelo ceu... mulher sou eu e sinto que o meu avô merrendo no patibullo de Belem me me deixou uma herança de colera... 

-- Vosso avô! 

-- Sim, meu avô... Eu sou a neta de Manuel Alvares, creado dos Tavoras e que os Braganças mandaram assassinar! 

-- Ah! sei de vosso pae... 

-- Meu pae! 

-- Sim! 

-- Elle nunca pensou em vingar-se... 

-- Contos largos... Mas d'onde vem esse odio! 

-- Esse odio nasceu do que ouvi em creança! Hoje, vendo a patria agonizando, penso eu vingal-a comigo!... Não quero mais os Braganças reinando e eis a desforra! 

-- Creança! 

-- Eu! 

-- Sim, vós! Pois julgaes que isso é possivel!

-- Julgo!

-- Porque?! 

-- Porque esse inglez quer ser rei!

-- Estaes vingada n'csse caso! volveu a sorrir. 

-- O que?! Isso seria unia infamia!... Deixar Beresford reinar! Mas e a patria, a minha patria?! 

-- Não tendes apenas odio aos Braganças! 

-- Sim... Mas não odeio menos esses inglezes que querem esmagar Portugal! 

-- Que solução dcsejaes n'esse caso?! 

-- O d'um governo portuguez! 

-- Ah! 

-- A regencia... 

-- Filha, que louca sois! Não conheceis esses homens... Eu sei que me odeiam ou antes sei do odio d'um d'elles, meu parente e meu adversario... Luctei contra elle e conheço lhe as manhas e a força... 

-- Está bem... 

-- Bem, o que?! 

-- E não acreditaes que n'esta terra ainda vivem portuguezes?! 

-- Sim! 

-- Não vêdes um homem capaz de salvar a nação?!

-- Não, minha tilha, não... 

-- Por isso desanimaes?! 

-- Não desanimei... Apenas não creio! 

-- Porque não quereis ser esse homem?! 

-- Qual?! 

-- Decerto! Quem melhor do que vós o poderia ser?!

-- Todos os outros... 

-- General! 

-- Dizei!

-- Esqueceis então o vosso passado!? 

-- Não! 

--Esqueceis o vosso prestigio! 

-- O meu prestigio?! 

-- Sim... O vosso prestigio militar, o amor que vos tem esses soldados... 

-- Oh! 

-- Mal folgaes... 

-- Sei tudo! 

-- D'uma vez prenderam me na Torre de Belem e um regimento revoltou-se! 

-- Ah! Já vêdes! 

-- Tempo de bravos... Eu commandava-os na guerra! 

-- São os mesmos! 

-- Não... Não os conheço, nunca os vi, elles nunca me viram no fogo! 

-- O vosso nome! 

-- Que é isso!... 

Encolheu os hombros e accrescentou: 

-- Mas ainda que assim fosse?! Que poderia fazer?! 

-- Tudo! 

-- Com officiaes inglezes em todos os regimentos... 

-- Que importa!

-- Com os commandos nas mãos d'elles! 

-- Oh! Tirar-lh'os-hemos! 

-- Para que?! 

-- Para os entregar aos nossos! 

-- Mas quem são os nossos?! 

-- Amanhã será Portugal inteiro! 

-- Para conquistar tanto era necessario que Portugal ainda fosse aquelle paiz do tempo do Mestre d'Aviz... Minha filha, disse n'outro tom, recolhei vos, fechae-vos com as vossas affeições, deixae aos homens a lucta e sobretudo esta... 

-- Aos homens! 

-- Sim! 

-- General! 

Os seus olhos brilhavam intensamente, tremia, acaba a gritar: 

-- Aos homens! Pois se vós ereis aquelle em que mais confiava! 

-- Meu Deus! 

-- Sim. Se ereis o chefe em que punha as minhas esperanças!

-- Como vos chegou tal idéa! 

-- Conhecia o vosso nome, sabia dos vossos feitos, elles fallavam tão alto que no momento da conspiração a todos os espíritos occorreu chamar-vos! De vós, general, se falla muito entre os meus companheiros, de vós se espera que chegueis a uma reunião... 

-- Eu?! 

-- Sim... Mil tem sido combinadas e sempre vos teem aguardado! 

-- Pelo ceu! 

-- Sim... O vosso nome anda de bocca em bocca. 

-- Mas... 

-- Tendes medo?! interrogou ironicamente. 

-- Creança, volveu elle sem se indignar. Vindes fallar de medo?! 

-- Pois se pareceis recear! 

-- Apenas vos digo que não quero fazer parte de similhante conspiração! 

-- Mas podeis impedir que de vós se falle?! 

-- Sim! Eu os procurarei para lhes dizer que o seu acto é uma suprema loucura e que não o approvo! 

-- General! Cahir-vos-hão aos pés e chamar-vos-hão chefe!

-- Pelo diabo! Não approvo similhante loucura, não quero approval-a! Só a nação soffreria com similhante revolução... 

-- Amaes o rei! 

-- Não é pelo rei cobarde que foge diante dos francezes, é pela patria que será retalhada pelas bayonetas inglezas! é pelo amor a este torrão! 

-- O amor leva nos a esse extremo! 

-- Pois é o amor como o d'uma mãe que á torça de beijos matava o filho! 

E sorriu, viu-a sorrir tambem e accrescentou: 

-- Sobretudo, dizci-lhes que não approvo o golpe! 

-- Mas porque não consentis em ouvil-os?! 

-- Não! Bem sabeis as minhas idéas! Antes de tudo, Portugal que não póde tornar-se livre por emquanto... Um dia chegará em que a acção se travará... 

-- Quando?! 

-- Quando Deus quizer! 

E aquelle homem, exemplo de virtudes, deixou partir a joven sentindo que ainda não era o momento azado para a libertação da patria. 

Ella, da porta, disse: 

-- Eu lhes mostrarei o que sentis! Sois um patriota que abandonaes a patria! 

-- Não... Sou um patriota que reprovo em aberto todas as tentativas feitas n'este momento para sacudir o jugo inglez... 

-- Opiniões! 

-- Só n'isso divergimos! concluiu com um sorriso, acompanhando a até á porta. 

Na rua, José Gaudencio, vigiava alli a joven e murmurou: 

-- Oh! Parece que elle em vez de conspirar, ama! Raio d'idéa a do governador! Querem ver que a mulher, é um general disfarçado! 

Soltou uma risada e ficou a vigiar sempre a casa de Gomes Freire mal podendo adivinhar que essa creança, era uma das mais revoltadas, era mesmo a alma da revolta! 







XIII 



Uma reunião 





Beresford meditava em face d'um masso de papeis. 

A distancia, estavam os dois officiaes que elle encarregara de descobrirem a conspiração 

-- Mais nada?! interrogou o inglez, fixando-os. 

-- Mais nada! volveu Moraes Sarmento como n'um desolado echo. 

-- Bem! Podeis partir... 

-- Senhor... 

-- O que?! 

-- Piedade agora! 

-- Isso já não e comvoseo... Eu saberei operar e agradecer! 

Mas o Moraes Sarmento, n'um impeto, bradou: 

-- Agradecer-nos?! 

-- Decerto! Mereceis recompensa! 

-- Que eu não acceito, exclamou logo cheio de colera. 

-- Nem eu!

-- Veremos! Por agora, senhores, deixae me. 

Elles sahiram e o marechal tocou a campainha. 

Sem olhar o creado, deu uma ordem rapida: 

-- Que entrem esses senhores que mandei chamar! 

Ergueu se methodico e calculado, ficou na meia sombra, impassivel, de braços cruzados a esperar. 

Dois homens vestidos de negro, entraram e saudaram-no. 

E elle, no mesmo tom grave que usava por vezes, exclamou: 

-- Senhores, sentae-vos! 

Os dois individuos olhavam-se deveras surprehendidos e elle continuava: 

-- Chamei-vos, sr. visconde de Santarem e sr. Leite de Barros <marca num="*" pag=372> para ouvir as vossas sensatas opiniões n'um assumpto que se debate... 



<nota num="*" pag=372> O conde de Bastos. 



Inclinaram-se e elle continuou: 

-- Sois aquelles com quem conto para um conselho! Vós tendes dado absolutas provas de dedicação a el rei e á patria!

-- Mylord! 

-- Sr. marquez de Campo Maior! 

-- Ouvireis, senhores, e darme-heis o vosso conselho... 

-- Fallae! exclamaram ao mesmo tempo. 

-- Sabeis que se trata d'uma audaciosa conspiração?! 

-- O que?! 

Muito pallidos, muito lividos, levantaram se d'um pulo, exclamaram de novo, n'um desespero: 

-- Pois é crivel?! 

-- Senhores, é certo! 

-- Mas... 

-- Ouvireis até ao fim... 

-- Fallae. 

E ficaram como lugubre estatuas, firmes, nas suas vestes negras, escutando o marechal. 

-- É uma conspiração que tem largas ramificações na provincia onde os miseraveis tem agentes! 

-- Pelo céu! 

-- Sim... Tenho provas d'isso. Estão aqui, senhores! 

Apontou o masso de papeis e continuou ainda: 

-- É necessario operar! 

-- Mas decerto! disse logo o visconde de Santarem. 

-- Quem descobriu tudo isso?! interrogou o outro. 

-- Fui eu! 

-- Vós! 

-- Eu sim! Eu que dirijo Portugal militarmente e que pareço ter encargos de policia!

-- N'esse caso, a regencia ignora tudo?! 

-- Officialmente, sim! Apenas um dos seus meinbros, e agora vós outros, sabem alguma coisa... 

-- É necessario operar com prudencia e com cautella. 

-- Eu os mandarei prender! 

-- Oh! 

-- O que?! perguntou elle hxandoos ao ouvir a exclamação. 

-- Não o deveis fazer! 

-- Porque? 

-- Acima de tudo, meu senhor, a legalidade... 

-- Quereis então?! 

-- Quero que esses documentos sejam entregues á regencia! volveu o visconde de Santarem. 

-- Para que?! 

-- Ella dirige Portugal! 

-- Decerto...

-- Ella o salvará comvoseo! 

-- Muito bem... 

-- Entregareis tudo não e assim?! 

-- Sim! Vou partir para Alcantara com o meu estado maior... Vou pôr as tropas de prevenção... 

-- Não será avisal-os! 

-- Não... Tenho os já vigiados! 

-- Vós?! 

-- Sim... Conheço os nomes de todos os conspiradores.

- E ides prendel-os?! 

-- Logo que a regencia o ordene... 

-- E quem são elles?! interrogou o visconde muito curiosamente. 

-- Alguns militares e civis... 

-- Gente de cathegoria?! interrogou por sua vez Leite Barros. 

-- Alguns delles!... 

-- Ah! Miseraveis... Mas ao menos não ha fidalgos entre elles?! 

Era a unica preoccupação do visconde, ao qual o inglez respondeu: 

-- Não! 

-- Mas quem é o chefe?! 

-- O chefe?! Ah!...O chefe?! Acaso o sei! e sorriu, encolheu os hombros e accrescentou: 

-- Agora que ouvi o vosso conselho, resta-me confiar na regencia! Não queria assumir modos de dictador, queria legalisar tudo e sei o que fiz... Agora é tudo comvoseo! 

-- Muito bem... 

-- Eu vou escrever o officio do meu proprio punho... 

-- O maior segredo se deve manter! 

-- Depois serão presos! accrescentou o marechal. 

-- Serão julgados... condemnados, como e de justiça. 

-- Com rigor! 

-- Á morte! gritou logo Leite de Barros. 

O proprio marechal estremeceu; o visconde de Santarem calou-se. 

-- Á morte, sim! volveu o outro no auge da colera. Á morte por Deus!... Pois querem perder Portugal! 

-- Querem assassinar os membros da regencia! 

- Oh! 

-- Sim, tornou o marechal. Querem matal-os commigo... 

-- E fallam d'el-rei! 

-- Pensam em depor S. M... 

-- E que governo querem então?! interrogou pausadamente o visconde de Santarem. 

-- Querem o governo de miseraveis e d'herejes! exclamou o outro. 

--Ah! Vamos esmagal-os! 

-- Assim faremos! 

-- Senhores, conto comvoseo! disse mais uma vez o marechal. 

-- Mas dizei-me ainda, ex.ª, perguntou o visconde. Não será um boato... 

-- O que?! 

-- Essa conspiração?! 

-- Um boato?! 

-- Sim... 

-- Ah! Vedes que é bem volumoso no papel, volveu a apertar o masso. 

-- É verdade! 

Acercou-se mais n'um desejo de ver tudo, porém Beresford, exclamou: 

- Não! 

-- Porque?! 

-- Quando eu der parte á regencia!

-- Marechal! 

-- Adoro a legalidade, disse elle com o seu ar ironico. 

Só então perceberam que elle se chocara por não lhe deixarem o supremo poder de castigar, estremeceram, sentiram um abalo. 

-- Mylord... 

-- O que, sr, visconde. 

-- Trata-se d'uma conspiração militar?! 

-- Não... 

-- Mas em que tomam parte militares! 

-- Alguns! 

-- N'esse caso... 

-- O que, visconde, o que?! interrogou elle do mesmo modo. 

-- Podeis... 

Não se atreveu a dizer o resto. O marechal olhou o e volveu: 

-- Posso castigar?! 

- Sim! 

-- Oh! Não... não sou juiz! 

-- Mas... 

-- Não quero! gritou com furia fixando-os. 

Elles comprehenderam que alguma coisa de terrivel se pissava no animo desse homem e levantaram se, dizendo ainda: 

-- Como quizerdes! 

-- Senhores! tornou o marechral já n'outro tom. Senhores, de tudo isto nem uma palavra! 

-- Ah! Não... Seria deitar tudo a perder! 

-- Não á por isso! Eu sinto me senhor da situação... É que não quero levantar celeuma... 

-- Senhor... 

-- Não sei ainda se a regencia dará por verdadeiramente perigosa a conspiração... Ide vos, senhores, e obrigado pelo conselho... 

Elles sahiram deveras embaraçados e Beresford, bradou: 

-- Ah! Sonhos... Tudo sonhos... Mais do que nunca sonho! Nem me consideram digno de julgar, nem me deram esse poder... 

O creado entrou, disse: 

-- É o sr. D. Miguel Forjaz! 

-- Que entre... 

Face a face, disse-lhe: 

-- Senhor, ia mandar-vos chamar! 

-- Para que?! 

-- Para vos dar parte da conspiração e entregar-vos esses documentos! 

-- Mas, marechal... 

-- Amigo! Eu sou o governador militar de Portugal, e cumpre-me apenas obedecer! 

-- Mas... 

-- Sei o que ides dizer... Ha pouco sahiram d'aqui companheiros vossos que não me acham aucthoridade para perdoar ou para punir... 

-- Excellencia! 

-- Não sou rei para poder sósinho julgar os que conspiram... 

-- Sel-o-heis! 

-- Não quero! 

-- Como?! 

-- Não quero... Quando nas altas camadas não me reconhecem senhor, que fará o povo... Sabeis o que vou fazer?!... 

D. Miguel Forjaz, diante d'elle, muito carregado, muito cheio de desespero, bradou: 

-- Mudaes então?! 

-- Sim! Eu apenas devo pedir a D. João VI mais poderes! Não é senão d'elle que depende o nosso sonho... 

-- Mylord... 

-- Plenos poderes, que el-rei decretará apóz a noticia de similhante conspiração! 

-- Oh! Isso é habil... Elle vos dará o reino... 

-- Veremos! Agora ahi tendes os papeis, levaeos... Fazei o que fôr possivel... 

Elle atirou-se para o masso e exclamou: 

-- E Gomes Freire! 

-- Apenas se falla d'elle... 

-- Fallam?! 

-- Sim... Mas nunca ninguem o viu nas reuniões! Socegae, D. Miguel, que vosso primo não será incommodado. 

O membro do governo, sorriu extranhamente. 

O inglez continuava: 

-- Depois, para que?! Eu acima de tudo, gosto de justiça! 

-- Como eu! A justiça, por vezes, e um prazer divino!

Tomou os papeis e exclamou: 

-- Vou reunir o governo! 

-- Aguardo as vossas ordens, ex.ª. 

-- O que, marechal! 

-- Sim... Porei Lisboa em estado de sitio? 

-- Decerto! 

-- Ordenareis prisões, não e verdade?! 

-- Sim... 

-- E eu, ex.ª, posso agora lavar de tudo isso as minhas mãos! 

Fez um gesto e deixou-o partir, dizendo: 

-- Agora posso dormir socegado! Elles que se atenham! 

Chamou o seu ajudante e deu-lhe algumas ordens. 

N'essa noite, o quartel general de Beresford foi transferido do pateo de Saldanha para Alcantara e começaram as prisões. 

Foi uma noite de pasmo e de terror para a cidade entretida nas novenas pomposas que se realisavam por esse mez de maio, mez das flôres e da Virgem Maria. 







XIV 





Uma carta a tempo 





Estabelecera-se, em verdade, o terror por toda a parte. 

A cidade acordara com as tropas de prevenção, n'essa manha clara de maio e a nova das prisões correra d'um extremo ao outro com a rapidez das noticias ruins. 

O povo espantado de que houvesse alguem capaz de similhante audacia, fartava-se de clamar, andava pelos logares de reunião trocando impressões. 

E como um sopro marcial dominava, como um estado de sitio se impunha, n'um peso brutal sobre os habitantes. 

Creara-se a atmosphera de terror; aos olhos dos lisboetas, a revolução era uma cousa phenomenal. 

E já começavam dizendo mal e condemnando com o governo, n'um grande receio de que voltasse com o terror o tribunal de inconfidencia e que se puzessem em pratica os velhos processos da policia do intendente Manique. 

Fazia-se cada vez mais espantoso o caso; havia já quem avultasse grandes novas. 

Fallazavam-nos que tinham sido detidos e velhas harpias accusavam-nos d'herejes. 

Era o que toda a gente fazia pelos bairros, nas festas e nos recantos cias egrejas onde se celebravam novenas. 

Nas altas camadas, o caso passava sem que se lhe ligasse attenção. Viram n'isso um manejo cujo alcance deseonheciam e continuavam na mesma vida de diversões, sem a interromperem não receando nada pelos parentes ao verem que a revolução partira de meia duzia de pobres. 

Em casa do marquez de Rio Maior havia uma reunião, uma festa intima com meia dúzia de parentes e com alguns amigos. 

Conversando n'uma saleta aberta para o jardim n'essa noite de luar e os creados vinham oííerecer refreseos. 

Dois ou tres pares de jovens namoravam-se com os olhos e as senhoras sisudas pairavam dos acontecimentos. O marquez, um bello typo d'homem. de suiça grisalha, dizia: 

-- Ora por Deus isto não é nada! 

-- Ah! Não é tanto assim, marquez, disse de repente um capitão de cavallaria. Olhe que já realisaram mais de vinte prisões. 

-- Meu Deus, capitão. No tempo de Pombal estavam atulhados os fortes e não se conspirava. 

-- O que, marquez... Mas realmente houve conspiração?! interrogou um outro rapaz que passava os dedos pela espineta a tirar-lhe uns sons vagos. 

-- O governo assim o diz, e eu... 

-- E vós?! 

-- Senhores... Acaso podemos duvidar do governo?! interrogou d'uma maneira ironica. 

Então, uma senhora d'edade, que ainda usava o galante e o tentador como no tempo de Maria I. exclamou: 

-- E ha algum conspirador interessante, meus senhores?! 

-- Oh! Por quem é, condessa... Acaso podem ser interessantes esses pobres diabos dos conspiradores?! 

A pergunta foi feita pelo mancebo que estava junto do instrumento e a velha, com um ar grave, volveu: 

-- Vós o dizeis! 

-- Eu?! 

-- Decerto, quando conspirardes! 

Uma gargalhada acolheu o dito d'espirito da antiga secia que continuou: 

-- Ah! Esta mocidade, esta mocidade!... No meu tempo, que é a do sr. marquez, no fim de tudo... 

-- Perdão, minha senhora, eu mal me lembro do forte da Junqueira... 

-- Porque raramente passaes por esse lado! Ainda lá está... 

Tornaram a rir e ella accrescentou: 

-- Mas no meu tempo, fallava-se muito em conspirações, os rapazes arrancavam das espadas ao menor signal... 

-- Hoje, sr.ª marqueza d'Alorna, bradou o capitão, ainda se faz o mesmo! Temos apenas uma differença... 

- Qual?! 

Fez a interrogação assestando a sua luneta de cabo e corou ao ouvil-o dizer com intenção: 

- Uma bem simples... Outr'ora a mocidade batia-se por cousas futeis, hoje quando arranca das espadas é por um ideal sagrado! Por exemplo para expulsar os francezes!

-- Os negregados... gumchou do canto uma matrona que se occultava n'um molho de coberturas. 

-- Cousas futeis, dizeis?! exclamou então a marqueza. 

-- Decerto! 

-- Ah! Chamaes então futil ao olhar d'uma mulher que converge para outro, a uma rosa que uns dedos delicados deixam cahir e que o vosso rival apanha, a um sorriso que se dá a um outro?! 

Futil?! Chamaes futilidade ao amor, ao movel eterno d'esta vida?! Pelo ceu, sr. capitão que bem triste idéa de vós daes a estas senhoras! 

Os jovens, sorriram, lançaram se para elle: 

- Capitão, capitão, retire a phrase, retire a phrase!... 

Elle, deveras embaraçado, apenas balbuciou: 

-- Mas, minhas senhoras!

-- Então?! Renda-se, pediu ironicamente a marqueza d'Alorna. 

-- Rendo-me, sim... Vêdes, marqueza, como somos?! 

-- Vejo... Muito faceis de vencer... 

Uma gargalhada soou e elle, no seu desespero, redarguiu: 

-- Sempre ironica... 

-- Justa! Ah! Quando fallava do meu tenfipo era com saudade... Se visseis o que elle era... 

-- Mas tenho ouvido que n'esse tempo os homens mais se compraziam em festas d'egreja... 

-- Metade d'elles... A outra metade pertencia Gomes Freire... bradou ella estendendo a mão para o general que vinha entrando. 

Curvou se galantemente e beijou-lh'a, dizendo: 

-- De que fallaes, marqueza?! 

Ao mesmo tempo saudava as outras senhoras ouvindo a marqueza responder: 

-- Fallava das estocadas rijas que se jogavam. 

-- Quando?! 

-- Quando creis cadete!

-- Por Deus! Como isso vae longe e que saudades tenho... No seu rosto passava uma nuvem de desespero e acaba por dizer: 

-- Olhae que são cousas que não voltam e que não se devem recordar, marqueza!

-- Porque?! 

-- Porque se n'esse tempo nos prendiam quando assaltando conventos soltávamos as mais bellas monjas, hoje só porque o recordamos são capazes de nos mandar á forca... 

-- Oh! Meu amigo, vens pessimista! exclamou o marquez de Rio Maior. 

- E como não o heide ser diante do que vejo?! 

Indignava-se, sentia uma extranha revolta e acabava por dizer: 

-- Acaso posso deixar de ser pessimista em face do que vejo?!

-- E que vês?! 

-- Prisões sem motivo, um estado marcial imposto só porque se fallou vagamente n'uma conspiração... 

-- Que esperavas?! 

-- Sempre julguei o marechal um homem de mais tino... 

- Pelo diabo, fallas alto de mais! volveu o Rio Maior. 

-- Que importa! Olha, meu amigo, tenho guardado muita paciencia... 

-- Gomes Freire! 

-- Que queres!

-- Estás excitado?!

-- Perdoa turbar a tua reunião com estas amarguras. 

-- Amigo! 

-- Perdoa, repito... Mas mal me contenho! Acabam de prender o capitão mor d'Alhandra... 

-- O que?! bradaram todos no auge do pasmo. 

-- É verdade! 

-- O João Carlos Palmeiro?! 

-- Pois quem?! 

-- Mas porque?! 

-- Accusado de tomar parte na celebre conspiração... 

-- Pelo diabo! gritou o marquez, mas é necessario salval-o! 

-- O que?! 

-- Sim, esse é dos nossos! tornou com paixão. 

-- Dos nossos! Dos nossos são todos esses desgraçados cuja lista me enviam! 

-- São muitos... 

-- Olha, todos estes... Antonio Cabral Calheiros, um pobre que se algum defeito tem é o de pairar demais... O resto são todos uns desgraçados... Ora ouçam... 

E Gomes Freire, com o seu modo brusco, começou a ler a lista dos presos: 

-- Henrique Garcia de Moraes, José Gampello de Miranda, José Pinto da Silva, José Ribeiro Pinto, José Franciseo das Neves... 

-- O major! bradaram em volta com certo pasmo. 

-- Sim, com Manuel Monteiro de Carvalho! 

-- Mas esses homens conspiraram?! perguntou a marqueza. 

Em volta na sala, todos estavam commovidos, olhavam o general que encolhendo os hombros volvia: 

-- Marqueza e ainda que o fizessem?! 

-- Ninguem replicou e elle continuou a leitura: 

-- Mais estes: Manuel de Jesus Monteiro, Manuel Ignacio de Figueiredo, Máximo Dias Ribeiro e Pedro de Figueiró... 

-- Pelo diabo! 

-- Mas ainda isso não é nada, amigo meu... 

-- Ainda ha mais?! interrogou o marquez. 

-- Sim... 

Olhou-o e perguntou de chofre: 

-- Julgo que conheces o barão d'Eben?! 

-- O prussiano! 

-- Sim... O coronel?!... 

-- Conheço... 

-- Esse homem foi amigo de meu tio Bernardim, buscou salval-o das iras dos populares em Braga, no dia celebre da sua morte...

-- Ah! 

-- Não o conhecia... Appareceu-me um dia e fallou-me de meu tio..., Estendi-lhe a mão... Fui seu amigo! Sou-o ainda! 

-- Mas... 

-- Espera... Nunca vi n'esse homem senão exaltação e lealdade, pois bem, o barão Frederico d'Eben, acaba de ser preso! 

-- É possivel? bradou o marquez com grande pasmo. 

-- É certo! 

-- Mas estão loucos! 

-- Loucos! 

-- Sim... 

-- Não, meu amigo, eu não chamo loucura... 

-- Então! 

-- Infamia! 

-- General?! 

-- Sim ... infamia! Por Deus, essa conspiração é ridicula... 

-- Obedecem talvez a um plano politico fazendo tanto estrondo! 

-- Obedeçam ou não... Por mim juro que os acho infames! 

-- Bravo, general, exclamou a marqueza d'Alorna. Sois ainda o mesmo! 

-- E jámais deixarei de o ser! disse elle. 

-- Recordaes me bem a nossa mocidade. 

-- Sim, marqueza, com o meu Pedro, o vosso irmão... Se elle vivesse... 

-- Ah! Se elle vivesse... 

-- Tudo se realisaria! 

-- O que?! general, que cralisarieis?! perguntou uma joven. 

-- Alguma cousa que os vossos antepassados realisaram. sr.ª viscondessa de Souto d'El-rei... 

-- Ah! 

-- Não sois Almada?! 

-- Sim... 

-- Esse nome recorda-me 1640! 

-- Muito bem... bradaram todos, erguendo-se. 

E já havia como um fremito ao ouvirem-no. já se notava um arrastamento, uma vontade forte de expansão. 

-- Chegamos a essa ignorância novamente! balbuciou o capitão. 

-- Mas não durará sempre! accrescentou o general. 

Depois n'outro tom, tornou: 

-- Não quero dizer que acceite essa conspiração... 

-- E porque não?! 

-- É ridicula... É uma coisa feita sem elementos...

-- Ah! 

-- Sim... Revolução de largos programmas... 

-- Sabeis?! interrogaram curiosamente. 

E elle, foi franco, disse: 

-- Sei alguma cousa... Tinham um largo programma politico de loucos, um programma que elles por ahi diziam nos cafés! 

-- Desgraçados! 

-- Que espalhavam em pamphletos. Queriam uma regeneração! 

Aqui, meus senhores, a revolução a fazer é simplesmente patriotica! 

-- Muito bem... 

- Assim, continuou elle, ella fosse possivel! 

-- Não é! 

-- Não! O povo portuguez morreu, meus amigos! 

Depois com um sorriso triste, accrescentou: 

-- Mas para que fallar em tal! 

Acercou-se da marqueza d'Alorna e disse a meia voz: 

-E ella?! 

-- Quem?! 

-- A condessa! 

-- Minha fiiha?! perguntou com os olhos razos d'agua. 

--Sim! 

-- Oh! general... De todos elles sois vós o unico que se recorda... 

-- Tive-a nos meus braços tão menina! 

-- Coitadinha! escreve-me... 

-- Porque não volta?! 

-- Não se atreve! 

-- Porque?! 

-- Tem medo... 

-- Mas de quem?! 

-- Do mundo perfido que a poria de rastos... 

-- Pobre condessa da Ega! 

-- Foi fatal aquella paixão pelo governador... 

-- Sim, foi fatal... 

-- Sabeis que hoje vegeta em França com o marido... Mandava-lhes os seus rendimentos, mas... 

-- O que?! 

-- Não sabeis então que a regencia nos sequestrou os bens como a réus d'alta traição... 

-- Ah! Só querem dinheiro! 

-- General, só querem ouro, os canalhas! E hoje, vê-se em Paris a condessa da Ega tão pobre como a viuva de Junot! 

-- Viuva?! 

-- Sim... O duque d'Abrantes suicidou-se em plena restauração! 

- Oh! 

-- Enlouqueceu! 

-- Que tragedia! Oh! E lembrar-me eu de que foi quasi rei de Portugal. <marca num="*" pag=385>



<nota num="*" pag=385> Vide Bocage, romance do mesmo auctor. 



-- Quasi de rastos, esses que hoje governam aqui, lh'o pediam... 

-- É verdade?! 

-- Absoluta! Vosso primo, esse D. Miguel Forjaz... , 

-- Elle?! 

-- Sim... la de rastos, ia como um lebreu a lamber as mãos de Junot. 

-- Oh! o infame! 

-- Ia sim! 

-- E agora?! Sequestra os bens dos que chama traidores á patria! Ah! Vae bem este paiz... 

Sorriu, volveu de novo: 

-- Sabeis, marqueza que tenho vontade de me recolher á minha casa da Feira e ficar por lá... 

-- Oh!... E quereis viver ahi sósinho, sem um affecto, sem um amigo! 

-- Quem m'o póde dar!... Bem sabeis que não tenho ninguem... Ella morreu, a minha Elvira, os meus irmãos estão no Brazil com meus sobrinhos... Sou só! Guantes, tenho parentes que do intimo do coração desejo que não me fallem! 

-- Elle, não é verdade?! 

-- Miguel! 

-- O viilão! 

-- Ah!... general realmente esse vosso primo é um miseravel! 

Em volta continuavam a rir e Gomes Freire, dizia: 

-- Um ambicioso! Sempre teve uma grande inveja... 

-- De vós?! 

-- De mim! Ah! Não... Talvez que me invejasse só alguma gloria... 

-- General, quem sabe se o dinheiro!... 

-- Não... não! 

Baixou a cabeça, e estendendo a mão á raarqueza, accrescentou: 

-- Quando escreverdes á condessa, mandae-lhe recados do seu amiguinho, do velho general! 

-- Obrigado, disse ella muito enternecida. 

O marquez de Rio Maior, acercou-se tambem e disse a rir: 

-- Conspiraes tambem?! Olhae que Beresford se o sabe!... 

E riu, abraçando Gomes Freire, que replicou: 

-- Beresford?! Oh! amigo meu, ia jurar-te que elle mal tem a culpa do que se passa... 

-- Defendes o inglez?! 

-- Não o conheço quasi! Não o defendo, apenas não o culpo da invenção nem das perseguições... 

-- Se te enganares?! 

-- Não era a primeira vez na vida!... 

Os rapazes tinham improvisado um baile, ouviam risadas, e já uns pares se perdiam no jardim banhado do luar de maio. 

Um creado entrou grave e firme, com uma salva de prata na mão, na qual se via um papel. 

-- Uma carta para s. ex.ª... 

Estava junto de Gomes Freire, que disse pasmado: 

-- Para mim?! 

-- Sim, ex.ª! 

-- Quem o trouxe?! interrogou elle de repente. 

-- Um homem vestido de bolieiro e que partiu. 

-- Bem... Com licença... 

Affastou-se um pouco, passou rapidamente as lettras pela vista e estremeceu. 

O baile continuava e as risadas redobravam. 

Elle, segurando a carta, parecia absorto. 





XV 



Sempre um bravo 





O marquez de Rio Maior, deixou cahir sobre elle o olhar e de seguida, ao velo taciturno, ao sentir-lhe a perturbação interrogou: 

-- Gomes, que tens?! 

-- Ah! Nada, meu amigo! 

Mas depois, sem se poder conter, como um homem que tem necessidade de desabafar, tomou-lhe o braço, arrastou-o para o vão d'uma janella: 

-- Sabes o que diz esta carta?! 

-- Não... Como queres que saiba?!... 

-- Diz que vou ser preso em breves dias!  

-- Tu?! 

Desenhou-se-lhe um grande pasmo no rosto, teve um fremito, gritou de novo: 

-- Tu?!... 

-- Silencio, disse o general, segurando-lhe o punho. 

-- Mas... 

-- Cala-te!... 

E agarrou-o com força, fixou-o, acabou a dizer: 

-- Julgas acaso que é a primeira carta que recebo n'este theor?! 

-- O que?! 

-- Sim, amigo meu, julgas isso?!

-- Pois recebeste mais?! 

-- Oh! Umas tres... N'uma d'ellas reconheci até a lettra d'alguem que sempre me estimou... 

-- Mas, meu amigo... 

-- Sim, d'um pobre amigo, d'um chefe de policia, um Francisco Zacharias d' Araujo... um bom... 

-- E porque não foges?! interrogou logo o marquez. 

Aquella conversação a meia voz passava despercebida e o general, olhando de frente o amigo, exclamava: 

-- Pelo ceu! O general Gomes Freire, não volta as costas ao inimigo! 

-- N'esse caso... 

- O que?! 

-- És inimigo d'elles?! 

-- Marquez... 

-- Não comprehendo como não corres a justificar-te! 

-- Não tenho de que! 

-- Conheces a conspiração, amigo?! Anda, Falla com toda a franqueza! Por Deus te juro que em minha casa ninguem se atreverá a entrar! 

-- Marquez! 

Exaltava-se, os seus olhos fulguravam, no seu rosto lia-se um desdém profundo e accrescentava: 

-- Sim, marquez, conhecia essa conspiração. 

-- Ah! 

-- Eu como toda a gente, no fim de contas! redarguiu. 

-- Como todos?! 

-- Mais um pouco talvez... Convidaram-me a entrar n'ella... 

-- E tu?! 

A pergunta, era feita com uma impaciencia extranha a que o general redarguia: 

-- E eu, desapprovei-a em principio... O meu crime consiste em não ser denunciante...

-- O teu crime?!

-- Pois se me querem prender! Ah! Mas ficarei, juro... 

-- Gomes! 

-- Meu amigo! 

-- Sei que és valente... Portugal inteiro o sabe... 

-- E depois?! 

-- Os teus exemplos da Russia, a tua vida de militar, fallam bem alto, impõe-se ao nosso respeito. 

-- E depois?! tornou a interrogar no mesmo tom. 

-- Tu não precisas já fazer mais affirmações de valentia! 

-- Sim! Onde queres chegar?! 

-- Ao seguinte: Deves partir! 

-- Eu?! 

-- Pois decerto! É o teu dever... 

-- Não! 

-- Confias acaso na justiça?! 

-- Sim! 

-- Oh! Pobre amigo, tens tanto de valente como d'ingenuo... 

-- Porque?! 

-- Pois não vês que a Justiça em Portugal está enfeudada... 

-- A Beresford?! 

--Talvez mais a outros! 

-- Á regencia?! 

- Sim! 

-- E então?! 

-- Então?! Deves acautellar-te, deves fugir lhe. 

-- Dir se hia que estava compromettido! 

-- E que o dissessem?! Acaso, não é isso uma causa digna! 

-- Não, marquez! 

-- Como fallas... 

-- Não, marquez, repito! Se estivesse compromettido não devia deixar sós os companheiros! 

-- Mas não estando... 

-- Seria apontado como tal e sobre o meu nome levantar-se-hiam suspeitas! Todos me chamariam traidor! 

-- E assim! 

- O que?! 

-- Preso, levado por elles para um carcere... 

- Eu?! 

-- Pois decerto! 

-- Sou tenente-general do exercito e devem-me as honras do meu posto! Hei de ser preso como tal! 

-- E conduzido diante d'um tribunal!

-- Publico... E diante do povo eu saberei defender me! 

-- Se te deixarem! 

-- Mas em que terra estamos?! Meu amigo, sei que me deixarão fallar! Acaso sou um homem do qual não se faça caso?! 

- Não! 

-- Já vês pois que estou tranquillo! 

-- Ah! Que alma a tua! 

-- A d'um desgraçado sempre em revolta com o seu tempo! 

-- Tão poucos ha em Portugal! 

-- Poucos sim, porque todos se deslumbram com as honras... 

-- Com o que lhes dão... 

-- Em paga de traições... Ainda não vi senão ganância por ahi em todos os corações... oh! os homens! 

-- Os homens são eguaes, todos eguaes! Querem o seu logar na meza... 

-- Querem, embora tenham a infamia a pungil-os!

-- Um infame não tem remorsos!

-- Oh! Tel os-ha com o castigo! 

-- E crês no castigo?! 

-- Creio! 

-- Gomes! 

-- Creio... Se o veio ahi todos os dias! Senão vê esse bispo do Algarve... 

-- Ah! 

-- Sim... Vingou-se, foi tudo. 

-- Dominou na côrte!

-- Endoideceu uma rainha e chegou ao fastigio... 

-- É verdade, teve mais poder do que um rei!

-- E quando devia completar a sua obra, quando devia chegar ao fim... 

-- O desterro arranca-lhes das mãos esses reis e leva-os para longe! 

-- Ainda assim foi felicidade para o padre! Julgou que os Braganças, jamais voltariam, julgou tudo isso! 

-- Correu a lançar-se de rastos diante de Napoleão a pedir-lhe um rei extrangeiro, ultimando assim a sua vingança... E de repente... 

- Veiu lhe a aphasia, a paralysia que o ligou para sempre á cadeira! 

-- Creio no castigo! 

-- Pois a par d'esses ha outros... 

-- Que um dia terão o seu... Ah! amigo, mesmo de geração em geração, Deus fulmina... 

-- Mas comprehendes que tens um dever a cumprir! 

- Qual?! 

-- O de salvares esta patria! 

-- Outros o farão... 

-- Tu tens o prestigio... 

-- Falta-me a vontade... Eu não conto com os portuguezes! 

-- Não contas?! 

-- Não, amigo... Vejo a decadencia, a venalidade... 

-- Bem, reformareis tudo isso! 

-- Não se reforma assim um povo! Deixa que venham buscar-me esses que me accusam e eu bem alto saberei fallar... 

-- Não, Gomes Freire! 

-- Não?! 

-- Não sahias d'aqui! 

-- Nunca me escondi, amigo! 

-- Mas... 

-- Não posso! 

-- É bem supremo este momento... Repara que jogas a tua vida! 

-- O que é a vida?! 

-- Queres achal-a sem valor? 

-- Sempre achei... 

-- O que?! Pois com o teu riso, com a tua alegria?! 

-- Os heroes naseem do desprezo que se tem pela existencia... chamam-me para ahi heroe... Já vês! 

-- Gomes... Sabes que sou teu amigo, desde ha muito... 

-- Sei... 

-- Sabes que te quero... 

-- Sei! 

-- Então ouve-me: Peço te que não vás para tua casa! 

-- Porque?! 

-- Serias preso... 

-- E aqui! 

-- Aqui, tenho a certeza de que Beresford não se atreveria! 

-- Não... Irei... Tenho minha a consciencia... 

Soltou uma risada e exclamou de seguida: 

-- Mas suppõe que se divertiam?! 

-- Como?! 

-- Escrevendo me cartas...

- Oh! 

-- Sim... Suppõe isso... 

-- Não sei o que diga!

-- Para conhecerem bem o general Gomes Freire! 

-- Oh! E julgas acaso que esse teu amigo... 

-- Franciseo Zacharias d'Araujo?!... 

- Sim! 

-- Ah! Mas se não assignou a sua carta... 

-- Isso é natural! 

-- Não acho! Sei-o bastante independente para o fazer... 

-- Não reparas no momento que vamos atravessando?! 

-- Só reparo nos cabellos louros d'aquella gentil viscondessinha... Meu amigo, que pena tenho da mocidade... 

-- General! 

-- General?!... Ah! Quem me dera agora simples cadete para lhe offerecer os meus braços para o baile... 

-- Disfarças? 

-- Não... Quantas vezes sahia d'um baile para só fazer justiça, para só pôr a minha espada ao serviço d'um amigo... Oh! Outro tempo... Como nós éramos... 

-- Tudo mudou... 

-- Nada mudou... O mundo é o mesmo... 

-- Então os homens... 

-- Apenas tem uma cousa... São quasi mulheres! 

-- O que?! General... 

-- Oh! Socega... Eu sei bem que ha alguns que preferem a sua dignidade, mas a maioria...

-- Vejamos amigo, vejamos... É necessario ultimar... 

--O que?! 

-- Este negocio... 

-- Ah?! Que negocio?! O meu?! 

-- Sim... 

-- Tens razão! 

-- Ficas?! 

-- Para ultimar, parto, declarou a rir, estendendo a mão ao marquez. 

-- Peço te! 

-- Marquez, disse elle muito solemnemente. Nunca te neguei cousa alguma... 

-- Por isso... 

-- Por isso, não te negarei senão esta! tornou a rir, estendeu-lhe a mão, com o ar d'um velho paladino. 

-- Ah! Meu amigo e pedias ha pouco mocidade... 

-- Porque fallas assim?! 

-- É que te vejo eternamente moço, amigo meu... 

-- Oh! Já lá vae o melhor... Sabes?! Já se foi o espirito! 

-- Que?! Acaso não o tens?! Julgas que te desappareceu o espirito?! Mas não é deveras espirituoso esse caminhar para uma loucura?! 

-- Não brinques! Trata-se da minha honra... 

-- Podes ficar aqui... supplicou já n'outro tom. 

-- É a minha honra que urge a partida... 

-- Não digas tal! 

-- Digo... Senti esta verdade, amigo meu... 

-- Ninguem no mundo te faria desistir, eu vejo! 

-- Não! 

-- N'esse caso, que Deus te proteja! 

-- A elle me entrego! Sei muito bem que tenho limpa a consciencia! 

-- Pobre amigo! 

-- Não me contenho! Vou talvez mostrar o que valho! 

-- Como?! 

-- Atirando-lhes ás faces os crimes, as vendas, as traições! 

-- Gomes Freire! 

--Sim... Então julgas que se prende impunemente um homem como eu?! Ou me dão a liberdade e eu na praça publica chamar-lhes-hei hypocritas ou me levam ao tribunal e alli eu me defendo! Depois, saberei cumprir o meu dever!... Oh! deixa-me despedir da marqueza... 

Voltavam os pares para a sala e na alegria do bailado, o general, curvou-se diante da senhora d'Alorna e exclamou: 

-- Marqueza?! 

Ella ergueu a cabeça, fixou-o com um sorriso triste. 

-- Adeus, minha amiga... Olhe, não se esqueça de me recommendar a sua filha! 

-- Obrigado, Gomes Freire... Adeus! Felicidades! 

Estendeu-lhe a mão fina e branca que elle levou galantemente aos labios. 

Depois saudou as outras senhoras e sahiu para o vestiario acompanhado pelo marquez. 

Tomou a capa, embrulhouse n'ella e disse ao amigo já no alto da escada: 

-- Marquez! 

-- O que queres, meu amigo! volveu o outro tristemente. 

-- Lembraste quando eu parti com a Legião? 

-- Lembro... 

-- Tinhas então esse ar triste?! 

-- Ias para a gloria! 

-- Ou para a morte! 

-- Sim... 

-- E não estavas triste! Pois bem hoje vou tambem talvez para uma batalha... 

-- Batalha com miseraveis! 

-- Mais limpida será a minha gloria! 

O outro baixou os olhos e o general recommendou lhe: 

-- De tudo isto nem uma palavra aos teus convidados! 

-- Gomes... 

-- Sim, uma infamia turba lhes o prazer! Adeus... 

-- Tu sempre vaes?! 

-- Não te disse já que mais limpida será a minha gloria?! 

Desceu a eseada a rir, emquanto o outro murmurava: 

-- Ou mais cruel a sua morte! 

Bem embuçado na capa, o general entrou a deseer para o Salitre. 

Em cima, o marquez de Rio Maior, acercando-se da senhora d'Alorna, disse: 

-- Minha amiga, não sei em que tempo vivemos... 

-- Ah! Meu amigo... É o inverno de Portugal... 

-- Elle tudo devasta, é bem certo... Talvez nos leve um amigo... 

-- Quem?! perguntou cheia de terror. 

-- Silencio... Não dizeis cousa alguma?! 

-- Não! Trata-se de Gomes Freire, não é assim?! 

-- É... 

-- Mas que lhe succede?! 

-- Vão prendel-o. 

-- Como o sabeis?! 

-- Elle m'o disse... 

-- E partiu?! Porque não fugiu ou porque não se deixou ficar aqui?! Que louco! 

-- Trata-se da sua honra, marqueza, não temos o direito de o deter... 

-- Honra?! Ah! O general é vencido!... Pela primeira vez na vida vae ser vencido!... 

-- Marqueza! 

-- Sim... Honra! Honra com bandidos é a derrota! 

E suffocou um soluço nas dobras do manto. 

Na sala ria-se com uma advinha da joven viscondessa loura que era da casa d' Almada e tinha uns olhos de peccado. 





XVI



Ainda como na juventude 





Começou a despir se e no momento em que ia cerrar a porta do quarto, o general sentiu um grande barulho na rua. 

Nem pestanejou; logo de seguida pancadas violentas se ouviram no portão. Batia uma hora. O luar inundava o terraço, vinha até ao quarto a illuminal-o. 

Gomes Freire, envergou de novo a farda, a sua mão apertou nervosamente a coronha da pistola que estava sobre a banca. 

Viera-lhe uma anciã, uma rancorosa anciã intensa e extranha, uma vontade esmagadora de se defender, de se vingar do ultrage que lhe faziam. 

Via-se como na juventude, ainda o mesmo, via-se perseguido mas cheio de coragem para luctar com os perseguidores. 

As pancadas soavam sempre com força, estrondosas, fortes e elle não se movia. 

O creado, um velho soldado da Legião que sempre conservava, entrou de corrida, espavorido: 

-- Meu general! meu general! 

Tinha no olhar um fogo intenso e as suas mãos crispavam-se. 

-- O que é?! 

-- Naturalmente um engano... 

Mas já a porta da rua cedera aos empurrões vigorosos da malta e logo outra se fendia n'um estalido rijo. 

-- Vae vêr! 

-- Oh! Meu general... Eu vou saber o que querem esses beleguins! 

Sahiu de corrida. Gomes Freire atirou para longe a arma, murmurou: 

-- Querem apenas humilhar-me... Ah! Aquelle D. Miguel... 

E todo o seu passado de luctas e de terriveis choques, todas as suas victorias sobre o inimigo, todas as antigas glorias, as suas rapaziadas e os inimigos que fizera, lhe appareçeram como uma claridade a demonstrarem-lhe que os outros se vingavam. 

-- Cães! 

Mas de fóra, vinha a voz do servo, rouca, indignada: 

-- Que é isto! Que é isto! 

O alarido da turba lhe respondeu, vinte homens irromperam na sala atiraram- no por terra, correram cheios de pressa para os aposentos do general e no seu receio de o vêr escapar, arrombaram a porta. 

Os soldados da policia, vestidos de negro, mettidos em capas, com as suas barretinas altas e com as suas armas, figuras pobres e sujas, appareceram aos olhos do general que bradou n'uma fúria: 

-- Assim se entra em casa d'um tenente-general?! 

A sua voz, tinha uma inflexão tão forte e tão dominadora que os outros recuaram; e elle poude então vêr por detraz dos policias, o tenente-coronel Tavares de Sousa que tremia e estava livido. 

-- Vejamos, sr. militar, tornou o general. Assim se entra em casa d'um superior. 

-- Perdão, meu general... volveu muito commovido. Perdão, mas tinha ordens expressas! 

-- De quem?! interrogou com o mesmo orgulho. 

-- Do governo! 

-- Ah! E que quereis de mim?! Ou antes, que quer de mim o governo?! 

-- General Gomes Freire d'Andrade, tenho uma ordem de prisão para vós! 

-- Para mim?! 

Não se admirou mas desejou ver aié onde chegava similhante audacia; fixou o outro, clamou: 

-- Em nome de quem me prendeis?! 

-- Em nome do governo, em nome da lei! 

-- Em nome da lei?! Por Deus, que não podeis prender-me! 

-- E porque, meu general?! interrogou sempre submisso o tenente-coronel. 

-- Porque não tendes a minha patente!

-- Eu sou apenas o commandante d'esta força... 

-- E eu commando um regimento! volveu com desassombro. 

-- Porém, meu general, está aqui o sr. desembargador... 

-- Ah! Um desembargador?! E a que vem elle ri 

-- A prender-vos, ex.ª! bradou João Gaudencio, apresentando-se de repente. 

O general, ao ver aquella figura de beleguim, encolheu os hombros e disse: 

-- Fizeram-vos desembargador, decerto só para isto! 

-- Senhor! 

-- Um militar só pode ser preso por um da sua patente! Essa é a lei! Vós sois um civil! 

-- A lei não se cumpre para os réus d'alta traição... Em nome do governo, estaes preso general Gomes Freire d'Andrade! tornou o beleguim. 

-- Réu d'alta traição?! exclamou n'um arranco. 

- Sim! 

-- Mas quem me accusa?! Quem é o miseravel?! 

-- Senhor... Isso é com a justiça?! 

-- Ah! Vão perguntar ao exercito, aos generaes, ao proprio rei se acaso duvidam de mim! 

-- Senhor! 

-- Ah! Sr. desembargador, mal julgaes o que vae sahir d'aqui! Não me conduzireis sem me dizeres para onde?! 

-- Para S. Julião da Barra! 

-- Bem... Vamos... Julguei que mo davam tambem a ignominia do Limoeiro... Vamos que eu saberei defender-me diante do povo, diante do exercito!... 

-- Primeiro entregae-me a vossa espada! bradou João Gaudencio. 

-- A vós?! Ah! Mangaes decerto!... Olá, sr. tenente coronel, vinde buscal-a... É a mesma onde a imperatriz da Russia mandou gravar uma legenda... Ahi a tendes, levae-a!... Mas cautella com ella, senhor! Se a perdesseis mal julgaes o mal que d'ahi me viria... 

Com mão tremula, o tenente coronel, pegou n'essa espada gloriosa, segurou a bem e volveu: 

- Eu a guardarei!

-- Agora, vamos! exclamou o heroe, embrulhando-se na capa. 

-- Perdão, general, tornou João Gaudencio. Perdão... 

-- O que, ainda?! 

-- As chaves dos vossos moveis! 

Fez-se pallido, murmurou: 

-- Uma busca?! 

Assim me ordenaram... 

-- Ah! bem... Ahi as tendes... Dar-me-heis no emtanto licença para tirar dahi alguns papeis... 

-- Não, general, não... 

-- São cartas de mulher, cousas intimas com as quaes a Justiça nada tem... Ouvis! 

-- Tenho ordens formaes! 

-- E de quem?! Decerto d'um vilão que não sabe respeitar-me! 

-- Senhor... Bem vêdes... 

-- Mas vejo o quê, pelo diabo, que vejo ou que quereis que eu veja?! 

-- Estaes fóra de todas as vossas funcções desde que sois reu... 

-- Ah! Não me lembrava... tambem não admira... Sinto tão limpida a consciencia... 

-- General Gomes Freire, podeis partir! disse João Gaudencio. 

Elle então metteu-se no meio da escolta, murmurou: 

-- Caro me pagarão... 

Veiu-lhe um acesso de colera fria, quando o servo se lhe lançou aos pés, de braços erguidos: 

-- Meu general!... 

-- Levanta-te!... Acaso na batalha ajoelhavas?!

-- Bem o vi... Além em Wagram, na Russia, por toda a parte... Canalhas!... É preciso vir a Portugal para que o ultragem! Meu general... Levae-me comvosco... 

-- Não, amigo, não... Levar-tehia se fosse para a guerra... - Mas vou para a ignominia! 

-- Deixae-me ir comvoseo, meu general!

-- Não... Mas levanta te e dá-me um abraço! 

-- O que?!... 

Na physionomia do soldado havia uma grande alegria e um grande pasmo, mal acreditava nas palavras que ouvia e titubeava: 

-- Meu general... meu general... 

-- Sim... Dá-me um abraço... Quero ao menos saber que tenho um amigo!... 

-- Um! Ah! Senhor... Tendes um regimento d'elles lá em cima, em Campo d'Ourique!... 

A gente da policia estremeceu como se visse já rebentar uma insurreição, ficou mais perplexa ao ouvir o soldado continuar: 

-- Sim, meu general, tendes um regimento que saberá arrancar-vos á prisão, logo que a alvorada soe e que eu lhes vá dar a noticia... 

-- Amigo! bradou rudemente Gomes Freire. 

-- Meu general!

-- Sabes que não gosto de repelir as ordens! 

-- Sim, meu general... 

-- Sabes?! 

-- Sim, meu general .. 

-- Pois bem... Ordeno-te, que não faças cousa alguma!

-- O que?! 

-- Apenas isto... Ordeno te a maxima serenidade! 

-- Mas se vos prendem, se vos tratam como a um ladrão!... Oh! Cada vez que me lembro! Se fosse em Wagram... E digo! Todo o exercito e até aquelle grande imperador clamariam... Mas aqui, terra de poltrões, de medrosos que para prender um homem trazem vinte, insultam e anniquillam! Com mil bombas! Meu general... Eu não posso obedecer-vos! 

-- O que?! 

Fallou-lhe em voz terrivel e o outro perfilou-se. 

-- Ordeno te que não falles de mim! Calar te-has, entendes?! 

-- Mas... 

-- Entendes! 

-- Sim, meu general, disse elle em voz muito sumida. 

-- Agora a meus braços... 

-- Oh! oh!... Meu general... meu general... 

Cahiu-lhe nos braços, foi apertado contra o peito d'elle; e as lagrimas cabiam-lhe a quatro e quatro pelo rosto, emquanto o general disse: 

-- Deixa meu rapaz... Ainda acredito na justiça! 

-- Bem mal fazeis, balbuciou entre soluços. Bem mal fazeis... 

-- O que?! 

Sim... Olhae meu general... Não ha justiça senão a de Deus! 

-- Pois n'essa creio!... Vamos, senhores... 

Avançou para a porta no meio dos soldados silenciosos e commovidos, porém o camarada, tornava: 

-- Levae-me comvosco, meu general! 

Voltou-se e respondeu: 

-- Nem isso me consentem... 

Quiz seguil-o como um cão, mas tolheram lhe o passo. 

Gomes Freire, de cabeça levantada, quasi indifferente, sem o menor signal de receio, disse para o tenente-coronel: 

-- Tendes uma sege! 

-- Sim, meu general... 

-- Ah! bem... 

Em baixo, estava realmente uma sege entre dois guardas de policia a cavallo. 

O general sorriu e saltou lestamente para o assento trazeiro onde tomou o logar d'honra com o tenente-coronel na frente. 

-- Podemos partir! disse com o seu ar indifferente. 

-- Não, meu general, não... 

--Porque?! Achaes talvez pequena a escolta?!... 

-- Falta o desembargador! 

-- Oh! Uma viagem em tal companhia... Mas emfim... Na Russia viajei com jesuitas... 

João Gaudencio, assomava á portinhola e dizia: 

-- Os jesuitas só no traje se podem parecer commigo... 

-- Mas vós com elles?! interrogou ironicamente. 

-- Eu com elles em cousa alguma, general! Não dissimulo... Fallo franco e sou verdadeiro... Tanto assim é que logo vos chamei reu d'alta traição... 

Contente com o remoque pitadeou-se e Gomes Freire, mal contendo a ira, declarou: 

-- Ah! Já não vos mostraes jesuita mas vilão... 

Fechavam a porta da sege; os soldados montavam, estalava um chicote e a pesada machina arrancava pelo Salitre acima em direcção ao Rato. 

Gomes Freire, sorria, contava anedoctas, recordava uma viagem egual na Russia por meio de gelos: 

-- Com a differença, tenente-coronel, que não era eu o preso mas sim um pachá que em Oczakow fora vencido! Então era novo, bem novo... Quiz eu mesmo conduzil-o não confiando nos outros... 

-- Ah! Receaveis a fuga?! 

-- Por Deus, não! Elle era honesto apesar de infiel... Sobretudo era soldado e sabeis que um soldado não foge... exclamou a conter-se. 

-- Porém... 

-- Sim, acompanhei o receando que não o tratassem com todas as honras devidas á sua posição... 

-- General... 

-- Admirae-vos de tanta clemencia para um vencido? 

-- Eu sei... 

-- Ah! E n'esse mesmo dia fôra feito cavalleiro de S. Jorge por Catharina II! Mas que quereis! N'esse tempo éramos assim... 

-- Mau tempo! 

-- Porque senhor! 

-- Tinham os grandes militares de deixar a patria para irem servir outras... 

-- Sim... Mas ainda hoje o deviam fazer! 

- Hoje! 

-- Decerto... Ora não achaes muito melhor soffrer as balas, passar a vida rude dos acantonamentos do que passar a vida ignobil de espião!... 

O tenente-coronel, estremeceu, calou-se. Gomes Freire, affastou a cortina e olhou para fóra. 

-- Ah! Vamos na Junqueira... Não se me dava de ir ver ainda o antigo quartel do meu amigo Alorna... Alli o forte... Ah! recorda Pombal... Estivemos lá uma noite... 

-- Vós?! interrogou o desembargador. 

-- Só me falta a fortaleza de S. Julião da Barra e a fortaleza de Cascaes para ter corrido todas as praças fortes de Lisboa como prisioneiro... 

-- Ah! 

-- Mas sempre me sahi bem e os outros mal... 

-- Ah! tornou ainda quasi ironico João Gaudencio. 

-- É verdade... Mas isso não quer dizer que d'esta vez... 

-- Se conseguirdes provar a vossa innocencia? disse o desembargador. 

-- Proval-a-hei, por S. Jorge... Mas depois... 

-- O que?! 

-- Pelo mesmo S. Jorge de que sou cavalleiro, eu juro que arrancarei as orelhas aos miseraveis que me ultrajaram... Sim, a essa regencia, a alguem que devia ter morto ha muito... É bem certo... Quem poupa o inimigo nas mãos lhe morre... Mas eu não hei-de morrer... 

A sege ia sempre galgando distancias, passava lesta nos campos de Ribamar, mettia por Caxias e ao cabo de duas horas entrava em Oeiras. 

Lá ao fundo, na manhã que alvejava â fortaleza recostava-se batida pelas ondas, apparecia como um monstro n'uma negridão corpulenta a dominar as ondas. 

Gomes Freire, fallava sempre, olhava para fora, ouvia o ruido das patas dos cavallos montados pela gente da policia. 

Por fim, n'uma volta, cUe deseobriu melhor a fortaleza, bocejou, disse: 

-- Hein... Com um bom governador que bello ponto de defeza... 

E foi o primeiro a saltar, sacudindo-se, a rir. 







XVII 



O primeiro dia de captiveiro 







Escrevo aqui do intimo da masmorra e sinto as ondas quebrando-se com força contra os paredões. Estou só, n'uma meia luz, alguns metros abaixo do solo, 

n'um ninho de granito como um criminoso ou como um esquecido. 

«E sem dormir, sem que tivessem ainda o cuidado de me visitarem, tendo perdido a noção do tempo, eu escrevo, mercê do carcereiro que deixou aqui uma velha penna e um tinteiro no qual deitei duas gottas d'agua do meu cantaro para fabricar com um resto de tinta, esta mistura clara que me serve para fixar o pensamento n'algumas folhas da minha carteira. 

«Sei que me mandarão embora muito breve e que apenas quiriam humilhar-me. Mas emquanto não sahir d'entre paredes, que de coleras a contar, que de raivas a socegar, que de mais palavras a repremir nos labios. 

«Mais do que nunca recordo o passado e tenho saudades d'elle. Hoje estou velho, estou sem aquelle vigor e sem aquelle alento dos primeiros annos da juventude, quando nas masmorras sonhava com rosas e com martyrios que mais amado me tornaria. Agora, avelhado, tendo percorrido a Europa sobre cadaveres e de espada em punho, sinto que antes deviam deixar-me repousar. 

«E lembro-me muito d'esse imperador, do pobre Napoleão, tão grande e tão infeliz, que lá ao largo, a meio dosjmares, sobre um rochedo escarpado como uma águia que ferida no voo altaneiro não quizesse rastejar na terra e fora procurar um ninho de pedras no topo d'uma rocha alcantilada, soffre e padece entre um limitado numero de fieis. E eu, como uma toupeira, no âmago da terra, cego, procurando o deslumbramento n'essas recordações. 

Parece que o vejo e no emtanto elle está longe. 

Por cima do meu carcere movem-se pesadas viaturas, arrastam se carros, ha dos lados como gemido do mar a chocar-se contra os paredões, o mar que eu quero por amigo, um pobre amigo impotente para romper essas pedras tão unidas e dar-me a liberdade. Não sei ainda cousa alguma do meu destino. Só sei que sinto uma grande fraqueza porque desde a chegada ainda não comi... 

Quando o general acabava de traçar estas linhas, ramjeu a porta do cárcere e um carcereiro appareceu. 

Nem levantou a cabeça, deixou se ficar com a pena entre os dedos, curvado sobre o papel. 

-- Que fazeis?! interrogou rudemente o carcereiro. 

-- Como vês, escrevo! 

-- Não é permittido escrever! 

N'um arremeço, lançou mão dos papeis e rasgou-os. 

Gomes Freire, levantou-se dum salto, correu para elle, 

-- Eh! Para traz... Já me tinham dito que me estrangularias... Cautella! 

Apontou uma pistola e conteve o mais pelo pasmo de que pelo medo. 

-- Oh! 

Soltou um brado de desabafo, tremeu, balbuciou: 

-- Meu Deus! 

Achava tudo aquillo muito superior ás suas forças. 

-- General... D'aqui em diante acautellae-vos! 

-- Mas porque não posso escrever?! interrogou deveras furioso 

-- É simples... Porque nenhum preso escreve! 

-- Mas... 

-- O quê?! 

-- Eu sou o general Gomes Freire! 

-- Sois o preso da masmorra n.°1, redarguiu do mesmo modo. 

E logo mudando de tom, disse: 

-- Virão dentro em pouco os senhores da justiça... 

-- Para me ouvirem?! 

-- Sim... Amanhã ou depois o mais tardar... 

-- Bem... 

-- Aconselho vos prudencia, disse de novo. 

-- Em quê?! 

-- Commigo, por Satanaz!... 

-- Não ha um governador n'esta torre?! jinterrogou num furia. 

-- Sim... Ha... volveu d'um modo escarninho. 

-- Um militar, não é verdade?! Um inglez?! 

-- Sim... 

-- Pois dizei-lhe que o tenente-general Gomes Freire, lhe quer faltar... 

-- Tendes algumas confissões a fazer?! interrogou. 

-- Eu?! 

-- Decerto... Para mais nada podeis fallar ao governador... 

-- Pois bem, sim... Tenho a fazer a confissão do meu aborrecimento... Quero sahir d'aqui!... 

-- Vós?! 

-- Pois eu... 

-- Mas ninguem vos poderá dar a liberdade... 

-- Nem um outro carcere?!... perguntou com colera. 

-- Nem mesmo isso... 

-- Mas o que julgam de mim?! Sou rico... Pago a peso douro a comida e a sala... 

-- Impossivel! volveu de novo o carcereiro. 

-- Mas porque?! interrogou pouco a pouco mais pasmado. 

-- Ordens terminantes! 

-- De quem?! perguntou mais uma vez. 

-- Da regencia! 

-- Pelo diabo... Sou então tratado como um miseravel?! 

Enchia-se d'odio e de colera, vinha-lhe um desejo e uma raiva funda a subir-lhe do coração aos labios, agarrava-se raivosamente á mesa e exclamava por furia: 

-- Se eu soubesse que tanto me ultrajariam, antes de me prenderem, teria mettido uma baia nos miolos d'esses caes!... Por Deus! 

Eu sou um general e tratam-me como um bandido! Onde está o governador das armas, que eu quero fallar-lhe! 

-- Não podeis... 

-- Porque?! 

-- Porque ha ordens terminantes!... 

Gomes Freire, julgou comprehender n'um repente o que se passara, passou lhe pelo cerebro um clarão e exclamou: 

-- Ha aqui muitos presos?! 

-- Alguns! 

-- Conspiradores?! 

-- Ah! Não... Officiaes que fizeram alguns delictos... Os conspiradores esta© em S. Jorge e no Limoeiro... Vós sois o unico que se encontra na torre!... 

-- Eu?! Mas eu nunca conspirei contra essa gente!... Ouve lá, carcereiro, não merece a pena... Elles estão assustados por si! Nunca os tomei a serio... Mas disse isso. Acaso para os outros se fazem os mesmos protestos... 

-- De que?! 

-- De infames?! 

-- Porque o dizeis?! 

-- Têem com elles taes rigores?! Sim, com os presos d'aqui?! 

-- Não... 

-- Só commigo?! 

-- Sim... 

-- Elles tem a homenagem da praça?... interrogou. 

-- Sim... 

-- Ah! E porque não m'a dão tambem! 

- No seu estribilho, o carcereiro, volveu: 

-- Ordens da regencia. 

-- Mas com mil diabos, essa gente vae obrigar-me a um excesso! 

-- Oh! general... 

-- Sim... 

-- Mas o que podeis fazer?! 

-- Queixar-me a el rei! 

-- A el-rei! 

O carcereiro encolheu os hombros e murmurou: 

-- El rei está longe, senhor... Mas vou mandar-vos o almoço. 

D'ahi a pouco mandou-lhe uma comida impossivel, tirou lhe a tinta e a carteira e entrou no gabinete do governador a dar-lhe aquelles objectos. 

O general, sem poder tocar na comida, deixava-se ficar admirado á mesa, com a cabeça pendida. 

-- Já viram semelhante infamia! gritou cheio de colera. 

Então, como uma fera enjaulada, entrou a percorrer a prisão soltando gritos, sentindo se rouco, a arrepanhar os cabellos. 

-- Nem um amigo... nem um amigo!... ninguem se atreve a defender-me! 

E vinha lhe um nojo, um grande nojo por toda essa situação do paiz que se deixara algemar sem um protesto, vira o logro, a infamia, viu sobretudo a vingança. 

Teve o desejo de mandar chamar o primo, esse D. Miguel, que fazia parte da regencia, agarral-o ali violentamente e matal-o. 

Via d'onde partia o golpe, o enorme golpe. 

Mas ao mesmo tempo, de consciencia limpa, não imaginava a furia que davam á sua auge, não podia calcular nunca o que se passara n'esse processo com os outros que elle nem conhecia. 

Era uma enorme infamia e o general, mais do que nunca desolado, ferido no seu orgulho, raivoso e apopelectico, gritava: 

-- Nem um amigo... nem um amigo! 

Do lado de fora da masmorra a sentinella ouvia-o em silencio. 

Soaram passos, um coronel inglez appareceu. 

O soldado apresentou a arma e o official interrogou: 

-- É aqui que está Gomes Freire?! 

-- Sim, meu coronel! 

-- Quero vêl-o!

-- É impossivel, meu coronel... 

-- Porque?! 

-- Sem ordem do senhor governador, ninguem entra a não ser o carcereiro! 

O coronel, olhou-o cheio de pasmo e exclamou: 

-- Bem... Cumprirei essa formalidade. 

E affastou-se em busca do governador que foi encontrar no seu gabinete, diante d'um masso de papeis e d'uma garrafa de aguardente. 

-- Senhor governador! 

-- Coronel! disse o outro, erguendose e estcndcndo-lhe a mão. 

-- Eu quero uma ordem para fallar a Gomes Freire! 

-- Ah!... Ao conspirador!... volveu em voz rouca, o inglez que governava S. Julião. Pois ide pedil-a á gente da regencia. 

-- O que?! 

-- O que?! Pois não governaes aqui?! 

-- Em tudo menos n'esse preso... 

-- Meu Deus! E vós aturaes tanto?! 

-- Se a vida na terra é boa... Depois, o general é um traidor... 

-- Pelo ceu, calae-vos! 

-- Sois seu amigo! 

-- Desde ha muito... exclamou o outro com violencia. 

-- Oh! Sir Archibald Campbell, não vos gabo as relações! 

-- E a mim honra-me, sir Clniton, a mim honra-me... 

-- Um traidor!

-- Basta de palavra... Eu vi esse homem glorificado na Russia... Era eu alferes e d'esse dia em diante admirei-o, senhor!... 

O outro esvasiava um novo copo e com o seu ar de bebado, ficou-se a ouvir a historia que Campbell contava. 

-- Era o cerco d'Oczackz, a mancha na honra, a intriga que em torno de Gomes Freire se desenvolvia. 

- Oh! 

-- Depois, assim soberbo, glorioso, cheio de honras e de propostas feitas pela imperatriz esse homem veiu para Portugal quando antes devia lá ter ficado! Veiu e a sua fama d'heroe fez medo aos francezes... 

-- Oh!... tornou o governador, cada vez mais torto. 

-- Deram a Legião portugueza e lá foi por essa Europa a servir. Napoleão que o achara tão grande como já o achara Catharina II. 

-- E depois?! 

-- Depois quando o imperador foi desterrado, voltou para descançar... Agora, accusam-no... 

-- Alguma fez... 

Sir Archibald Campbell, viu no outro a cubica e redarguiu: 

-- N'esse caso, boa tarde, coronel... Elle saberá defender-se... E não podia ao menos melhorar a situação? 

O governador respondeu-lhe: 

-- Ordens formaes! 

-- Mas de quem, com mil raios?! 

-- Da regencia! 

-- E acaso não é Beresford quem governa Portugal militarmente! 

-- É. 

-- Porque obedeceu então aos outros?! 

-- O proprio marechal o ordenou! 

-- Mas que cousa. Eu não o creio... Juro que não o creio! 

Baixou a cabeça e de seguida perguntou: 

-- E o general não tem as honras em harmonia com a sua patente?! 

-- É um preso como todos! 

-- Oh! Pelo inferno! 

-- Sabeis que um militar cumpre obedecer! 

-- E cumpre-lhe tambem favorecer... 

-- Como?! 

-- Sim, ser bondoso para os seus irmãos d'armas! 

-- Bem sei... bem sei... mas, coronel, é que não nos deixaram... 

-- Que dizeis?! 

-- A verdade! Todos os dias ahi estão os da justiça! 

-- O que?! 

-- A espionar! 

-- Trata-se d'uma perseguição?! 

-- Oh! 

E emborcou novo calice, redarguiu entarameladamente: 

-- Não sei! 

-- Governador pareceis recear alguma cousa!... 

-- Oh! Não... não receio nada! Apenas me seguro! 

Sir Archibald, comprehendeu então que esse homem para conservar o logar seria um bello instrumento nas mãos dos perseguidores. Olhou e leu na face de bebado uma impressão de bem estar, leu o egoismo, murmurou: 

-- E á fim d'um mundo o que se passa! 

O governador soltou uma risada e volveu: 

-- É sempre assim! 

-- Oh! diante d'um heroe!

-- E Napoleão não está em Santa Helena?! perguntou a rir. 

-- Boa tarde, governador! 

Affastou se de vez, mais penalisado e mais cheio de raiva, estremeceu ao passar junto á masmorra e disse: 

-- Que pensará e marechal?! Sim, que pensará o marechal?! 

Gomes Freire, no intenso da masmorra, tinha a mesma ideia n'um momento, interrogava-se: 

-- Acaso Beresford, tem tambem a impressão de que sou um criminoso?! 

Evoca a figura militar do marechal e ficava na duvida. 

Não tocava na comida. 

-- Mas o que fiz eu?! 

Não era o desalento, era a cegueira, era a estado d'alma doido pela injustiça e por essa treva que fazia no carcere. 

Nunca tremera, não tremia ainda; aguardava serenamente a justiça dos homens, como esperando que elles se inspirassem na justiça da Deus. 

Assim decorreu o seu primeiro dia. 

Cançado, deitou-se nas palhas, cobriu-se com o capote militar e adormeceu. Sonhou com batalhas e com amores, viu-se moço, teve alegrias que logo se desmancharam ao acordar. 

Perdera a noção do tempo. O carcereiro entrava e exclamava: 

-- Estão aqui os senhores desembargadores! 

Viu muitos homens de negro, levantou-se, saudou-os. 

Elles, muito graves, ficaram ao fundo da masmorra. 

Então o general, de chofre foi para elles gritando: 

-- Senhores... Eu sou victima d'uma injustiça! 

Não lhe responderam, entreolharam- se, deixaram-no clamar. 

E o mar batia nos paredões da fortaleza. 







XVIII 





O terror do crime 





Amanhecera. Beresford, levantara a cabeça de sobre um monte de papeis e bebera um gole de genebra. Sentira um bem estar, soltara um suspiro d'allivio ao ver findar aquelle processo, diante da simplicidade com que resolvera tudo. E desabotoado, estendera-se n'um canapé, bocejava. 

Já o sol entrava pelas janellas n'uma alegria. Em baixo, no pateo, moviam-se vultos de soldados. Nos rostos, havia um terror todo de surpreza, parecia que essa nova das prisões sobresaltara toda a gente e gerara similhanie estado. 

Officiaes vinham entrando apressados, de grande uniforme. 

O marechal, suspirou, passou a mão pela cabeça e murmurou: 

-- Como acabará tudo isto?! 

Mais do que nunca tinha uma sensação extranha, o sol assim a entrar de jacto perigava a vista. Ergueu-se, foi cerrar uma portada e veiu estender-se no canapé, de face murcha, perturbado, com um olhar vago para o tecto onde os dois amores se floreavam. 

De repente, Jack, correcto, como se tivesse nascido assim com tal aprumo, appareceu: 

-- Mylord... 

-- O que é?! 

N'um gesto, negligente, procurou n'uma mesinha o seu cachimbo, volveu um olhar para o servo que dizia: 

-- É o sr. D. Miguel... 

-- Ainda?! 

Teve uma visagem d'aborrecimento e balbuciou: 

-- Que entre! 

Accendeu um palito phosphorico, pegou fogo ao tabaco, estendeu-se mais sem impaciencia, beatifico. 

O outro entrou nas suas vestes negras com a gravata de tres voltas muito enrolada ao peseoço, os botes da camisa alva surgindo na abertura do collete grenate onde se estendia o traço d'ouro d'uma corrente cheia de berloques. Entrou e com o seu ar mais desesperado, um ar d'ancia, de perturbação terrorista e impressionado, exclamou ao atirar com o chapeu para uma cadeira: 

-- Marechal! 

Elle, muito fleugmatico e extremamente cerimonioso, ergueu-se; e abotoando a farda volveu: 

-- Senhor governador! 

Guardava agora o seu ar frio, reservado e muito civil, cheio de respeito pela sua dignidade, quasi de calcanhares unidos, e esperava que elle lhe fallasse: 

-- Marechal! tornou D. Miguel no mesmo tom e no mesmo desespero. 

-- Senhor! 

O inglez repisou as syllabas, sorriu, ficou-se na mesma. 

-- Já lá estão todos! 

-- Sim... 

-- Mas... mas... 

D. Miguel Forjaz, não sabia por onde começar, ficava-se; tambem tinha agora como um receio diante do inglez que assim se mostrava reservado. 

-- Eu carecia de conversar com vossa graça! 

Já não era o activo governador nem o ousado luctador de sombra. O seu acto, esse acto de força dera-lhe como um nervosismo. 

O seu organismo resentido de similhante esforço subjugava se; carecia d'um apoio e d*um amigo. Não sabia no emtanto em quem confiar. A sua noite fôra turbada de pezadellos e de maus sonhos. Estava pallido, d'olhos pisados e tinha a bocca secca. 

No meio de tudo aquillo, o ouiro parecia guardar a mesma fleugma, tinha o raesmo ar, não se alterava, analysavao pelo canto do olho azul e mortiço: 

-- Mas... dizei vós... O que quereis?! 

-- Sentae-vos! 

-- Oh! Sentar-nos-hemos! Vós... 

Estendeu o braço, apontou-lhe a cadeira, ficaram frente a frente. 

-- Marechal, dizei me por Deus, fallae, sede muito franco... 

-- O que quereis, excellencia, interrompeu logo. 

-- Quero uma só palavra que me tranquillise. 

- Oh! 

-- Achaes difficil?! perguntou apressadamente. 

-- Não! 

-- Então?! 

-- Acho simplesmente singular que queiraes tranquillisar-vos!

-- Não podeis tambem?! interrogou elle n'uma esperança. 

-- Eu?! 

-- Sim... Vós: 

-- Mas se não posso desassocegar-me! 

-- Oh! 

-- Sim. Acho tudo natural!

-- Não digaes tal... 

-- Oh! Digo o! 

-- N'esse caso mal olhaes para o que succede!

-- Mais vezes tenho visto o perigo do que vós! volveu elle e logo, ironico, piseando o olho azul, accrcseentou: 

-- Questão d'habito! 

-- Ah! Se soubesseis senhor o que foi a minha noite!

-- Uma bella noite sem duvida! Uma noite de triumpho... 

-- Triumpho?! 

-- Pois não estaes satisfeito?! 

-- Eu?! 

-- Sim! Não foram por diante os vossos planos, não realisastes tudo, não fizesteis d'uma causa um grande penedo, uma obra?! 

-- Por Deus, marechal! 

-- Não eram as vossas intenções?! interrogou elle o mais severamente possivel. 

-- Sim... Eram! Mas n'um tempo em que podia tel-as! 

-- Acaso hoje... 

-- Bem sabeis... 

-- O que?! 

-- Que comvosco contava em absoluto, senhor! 

-- Commigo?! 

-- Pois de certo! 

-- E não podeis ficar com a vossa tranquillidade apenas porque já não contaes, segundo dizeis?! 

-- Não! 

-- Oh! Fraco sois! 

-- Fraco sim, fraco como uma mulher! Tive uma noite turbada de pezadellos já vol-o disse, tive umas horas de sobresaltos loucos, já vol-o confiei... 

-- Sr. D. Miguel Forjaz e acaso podeis dizer-me porque foram taes receios, taes sobresaltos? 

-- Marechal! Um momento... 

Ergueu-se, foi espreitar á porta, deu duas voltas na casa e notou do mesmo modo cautelloso para dizer: 

-- Tendes confiança no exercito?! 

-- Porque o perguntaes?! 

-- Não sois o chefe militar?! 

-- E vós não sois o governador do reino?! 

-- Por isso vos interrogo volveu com certo aprumo. 

Entre elles estabelecia-se agora como uma tormenta. 

O inglez, mais habil, não na apparencia, balbuciou: 

-- E eu vos respondo... 

Foi ironicamente que lhe respondeu, foi mesmo com uma grande ironia que lhe disse: 

-- Na vida não se podem fazer intcgraes affirmações?! Quem disse, por exemplo, que Gomes Freire, o vosso primo, esse homem de que sempre ouvi maravilhas, que constantemente vi tratado como a um heroe e julgo que com razão, havia de fazer conspirações, mettia-se em grandes casas de revolta, clamar contra vós, contra mim, e contra el-rei?! ninguem o disse mas todos affirmariam o contrario! 

-- Marechal! 

-- Que quereis, pelo retrato que me pintaram... 

-- Oh! 

-- Sim... Mas adiante... Eu se com os outros tivesse feito tal affirmação, teria errado não ha duvida... 

- Sim! 

-- Por isso, não podendo fazer affirmações cabaes, volto a dizer-vos o mesmo de ha pouco: não se pode confiar em absoluto!... 

--O que? O que? interrogou elle fazendo'se muito pallido. 

-- Socegae... 

-- Mas... 

-- Quero dizer apenas que o exercito é pouco... 

-- E que não podeis affirmar a sua fidelidade? 

-- Nem negal-a! 

Fechava-se na sua ambigua phrase, fixava o outro. 

-- Nem negal-a... Esta é a absoluta verdade! 

-- Porém... 

-- Ah! Já sei... Ides pedir a minha opinião! Eu vol-a darei logica, clara, absoluta e franca... 

Calou-se, ageitou-se melhor na cadeira, sorriu e accrescentou. 

-- O exercito como sabeis, é composto de homens que devem amar vosso primo... É o unico official portugucz de sympathias exaggeradamente affectivas entre a tropa... 

-- Pois sim... Porém deveis reparar, marechal, deveis reparar. 

-- Em que? 

-- Em que? Que no exercito ha milhares d'inglezes... 

-- E para esses milhares, ha milhões de portuguezes... 

-- Os inglezes são officiaes! 

-- Que em tempo de guerra podem exigir disciplina... 

-- E em tempo de paz... 

-- A exigem tambem, excellencia, redarguiu com firmeza. 

-- N'esse caso... 

-- N'esse caso tudo vae bem... 

-- Será tão fácil de socegar como de vos mostrar... 

-- Mylord... 

-- Já vejo tudo ou antes adivinho o vosso pensamento... 

-- Oh! 

-- Sim, adivinho... Quereis dizer que devo redobrar de precauções... 

-- Exacto... É isso! 

-- Agradeço-vos o aviso! volveu com a sua eterna ironia. 

-- Bem vêdes que é o meu dever... 

-- Ah! Sr. governador, e o meu não era fazer isso sem o ouvir de vós?! 

-- Marechal! 

-- Socegae... Se apenas com a minha vigilancia, posso impedir qualquer coisa, eu vos socego... Porque desde hontem todos os soldados estão recolhidos nos quarteis... 

-- Marechal! gritou elle profundamente agradecido. 

-- Excellencia! 

-- Que grande sois! tornou o governador do reino. 

Mas Beresford, muito a sangue frio, disse: 

-- Grande só por cumprir o dever! Oh! Que não vos creio! 

-- Que tendes contra mim?! interrogou n'um momento d'inteira franqueza. 

-- Contra vós?! Nada, excellencia, nada senhor governador! 

Mais uma vez repisou a palavra, accrescentou: 

-- Se estou aqui para receber as vossas ordens! 

-- Oh! Mas dizei-me, fallae com exatidao, francamente ... 

-- Fallarei! 

-- Pois bem... Acreditaes na fidelidade dos soldados! 

-- Acredito apenas na mão de ferro da diseiplina! 

-- Que existe?! interrogou muito mais sobresaltado. 

-- Julgo que sim... Porém isso é uma cousa que se vê! 

-- Como? 

-- Impondo-lhes mais do que nunca a força ingleza! 

-- Marechal! gritou pela centessima vez. Fazei tudo! Eu vos agradecerei! 

-- Sim... Trata-se d'impor o nosso preço e de os receber... Agora, de resto, não respondo em absoluto por ninguem... 

-- Com boa vontade... 

-- Ah! com boa vontade! Acaso eu já fui para vós de má vontade? 

-- Não... balbuciou sem um enthusiasmo. 

-- N'esse caso, poupae palavras que são sempre inuteis... Guardae-as bem para as occasiões e sede franco... 

-- Sou-o em demasia! 

-- Não commigo! exclamou de chofre e desde logo. 

-- Não comvosco?! gritou o outro muito admirado. 

-- Pois decerto! Se ainda ha duas horas estaes na minha frente sem duvidar a que vindes! 

-- Mas... 

-- Vejamos, D. Miguel... 

-- Marechal... Apenas desejava saber se o exercito está comnosco! 

-- Pelo menos por agora! Olhae o que eu fiz! Ainda não me deitei, vede! 

-- Pegou no masso de papeis; 

-- O que eu fiz foi muito simples... Mandei recolher os soldados a pretexto d'uma parada... Dei ordens apertados para que se effectuassem o mais rapidamente possivel todas as prisões dos militares implicados na questão a excepção de Gomes Freire! 

-- Ah! Por esse respondo eu! declarou com grande colera. 

-- Já sabia que terieis esse cuidado!... Depois, que demonio! Sempre é um general que Catharina II condecorou! Ah! Como vos ia dizendo, tornou no seu tom mais agradavel. Dei ordens seguras! 

-- Bem! 

-- Os commandantes dos regimentos receberam instrucções minhas, assignadas, directas e confidenciaes! 

-- Bem... 

-- Os presos, continuou o inglez, foram interrogados todos no Castello... 

-- Só os civis que mandei prender estão no Limoeiro! 

-- Menos Gomes Freire! 

-- Ah! Não... Está melhor em S. Julião da Barra! 

-- Sim... Para um general deve ser agradavel estar nessa fortaleza que entra pelo mar e que está atulhada de soldados! 

O governador do reino não respondeu logo e accrescentou ao cabo d'uns momentos: 

-- Confiaes mais ou menos nos soldados, não e assim?! 

-- Quero dizer, senhor, que confio mais ou menos nos meus officiaes! 

-- É o mesmo! simplificava elle a sorrir. 

-- Não é bem assim! Suppondes acaso que a força d*um official ou de muitos podem dominar um grande impulso da soldadesca?! 

- Não! 

-- Por isso mesmo... Acautellae-vos, senhor! 

-- Acautellar-me?! 

-- Pois decerto... ninguem pode dominar um amor... 

-- E julgaes! 

-- O que ouvimos. O exercito ama Gomes Freire! 

-- Sim, ama o! 

-- N'esse caso... 

-- O que?! 

Nos seus olhos lia-se um grande susto e nos seus labio havia um sorriso ao perguntar de novo: 

-- Quereis dizer que é possivel uma revolta?! 

-- Hesitareis se vos disser que sim?!

N'um estremecimento, D. Miguel Forjaz, olhou-o de face e de seguida com todo o impeto d'um homem decidido a ir até fim declarou: 

-- Não! Não! Mil vezes não!... 

-- É justo!

-- O que?! perguntou ainda fóra de si. 

-- É justo que quereis ver as sympathias que gosa vosso preso! 

-- Oh! 

-- Sim... É justo... 

-- Mas não podem acabar essas sympathias?! perguntou a fixal-o. 

-- Conforme... Ha sympathias que são impressões, outras que são necessidades! Vosso preso esteve algum tempo fora, andou por lá. Conhece-se a sua lenda mas julgo que se espalhou outra... 

-- Sim! gritou com rancor. É verdade que foi traidor! 

-- Ide dizel-o ao tribunal e elle será condemnado... 

-- Não é necessario... A nação inteira sabe como Gomes Freire vencia o inimigo... 

-- Qual?! 

-- Os francezes?! 

-- Bem sei... Como vós e como eu se fossemos enviados na Legião Portugueza... mas isso são discussões inúteis... Para uma simples pergunta demorasteis muito... Ah!... Ah! D. Miguel, exclamou a bater-lhe nos hombros, muito gravemente. 

-- Poupe mais o tempo se conheceis os homens... Juro-vos que mesmo o exercito em pezo! 

Soltou uma gargalhada, estendeu-lhe a mão e concluiu: 

-- Mandae reunir o tribunal só d'aqui um mez... 

-- É um conselho?! 

-- É um conselho d'amigo, declarou muito a serio. 

-- Comprehendo o alcance... 

-- Deixar esquecer... 

-- É verdade! 

-- Depois não fará tanto ruido a condemnação... 

Beresford deu um pulo e exclamou de repente: 

-- O que?! Pois já sabeis que serão condemnados. 

Elle corou, encolheu os hombros e disse beatificamente: 

-- Isso é um negocio com um juiz!... 

-- Decerto... Mas como vos ouvi affirmar embora por acaso... 

-- É que, marechal, os juizes, devem ter repugnancia por similhante homem... É um crime de lesa-magestade. 

-- Sobre tudo, D. Miguel, disse Beresford de chofre, é um crime que faz terror a muita gente... 

-- Quereis fallar dos patriotas?! Oh! decerto!... disse a fazer-se muito pallido. 

O inglez, apenas respondeu a saudal-o: 

-- E mesmo dos que não o são... 

D. Miguel affastou-se de cabeça baixa e Beresford, só no meio da sala, ficou a meditar. 

Jack, á porta, exclamava: 

-- Mylord... É o sr. coronel Archibald Campbel... 

O marechal, foi para a porta, de mão estendida, quasi feliz, ao ouvir o nome do official que entrava todo agitado. 





XIX 







O reu 





Abriu-se a porta com um gumcho estridulo. Ao fundo o general dormia estiraçado no colchão contra a parede onde o mar batia. Viera-lhe uma prostração. 

Á luz da lanterna suspensa do tecto, os que entravam viram-no, ficaram uns momentos quedos como raposas contemplando um leão em repouso. 

O mar cantava a sua elegia na noite contra os paredões. 

Gomes Freire, sempre adormecido estava completamente esmagado. No seu espirito havia uma intensa dor, um martyrio extranho que o torturava mesmo no somno. 

-- Acorda-o, ordenou João Gaudencio, a meia voz, voltando-se para o carcereiro. 

O outro homem deixava-se ficar para traz, murmurava: 

-- Parece que não tem muito carregada a consciencia... 

-- Porque o dizes, Casal Ribeiro?! interrogou o Gaudencio. 

-- Se dorme a somno solto... 

-- É o peso do delicto que o esmaga, declarou furiosamente, já cheio de grande convicção que o outro parecia não ter. 

O carcereiro, debruçava-se para o general e exclamava: 

-- Olá, senhor! 

Foi então que elle abriu os olhos e voltando se lentamente, disse: 

-- Que me querem?! 

-- São os senhores da justiça! regougou o outro em voz grossa. 

-- Ainda?!... 

Soergueu-se no leito, levantou-se ao cabo d'uns momentos e exclamou: 

-- Sede bem vindos... 

Reconheceu logo o João Gaudencio e avançando para elle, n'um impeto energico, vivamente bradou: 

-- Ainda bem que sois vós! 

-- Sim... Sou eu que com Casal Ribeiro, ajudante do sr. intendente, viemos a interrogar-vos... 

-- Estimo... 

Tinha um grande ar altivo, mostrava uma enorme independencia ao accrescentar: 

-- Estimo... Vós conheceis-me ao menos e podereis confiar em mim... 

-- Conheço-vos!

-- N'esse caso, acreditaes na minha palavra, não é verdade?! 

O esbirro, apenas murmurou: 

-- Sabeis que somos da justiça e sempre a fazemos... General quereis responder ás nossas perguntas?! 

-- Decerto! 

-- Dizei-nos pois se conheceis a conspiração?! 

-- Sim! 

João Gaudencio, muito alegre, esfregando as mãos bradou: 

-- Eis que entrando no bom caminho vos salvaes... 

-- No bom caminho?! disse o general rapidamente. 

-- Sim... O da verdade! 

-- Ah! E dizeis que me conheceis... Pelo diabo eu vejo que não! 

-- Senhor... 

-- Decerto... Reparae bem que durante a minha vida sempre fallei verdade... 

-- Muito bem... Mas essas verdades que sabeis podeis dizel-as? 

-- Nunca occultei o que sentia... 

-- Fallae pois... 

-- Que tenho a dizer-vos?! Que conhecia a conspiração?! 

-- Sim... 

-- Pois é verdade! 

- E em que circumstancias, general?! perguntou por sua vez o Casal Ribeiro. 

-- Ah! Como toda a gente... 

João Gaudencio, franziu o sobrecenho e declarou: 

-- Impossivel, general... A maior parte não sabia cousa alguma... 

-- Ah! Não digaes tanto... volveu elle. Não digaes tanto! Se foi uma conspiração tratada á doida nos cafés! 

-- Lamentaes?! interrogou o Gaudencio quasi ironico. 

-- Não lamento porque sempre fui um adversario de similhante conspiração mas tambem não condemno porque sempre vi n'ella homens uns doidos que não eram perigosos! 

-- O que?! General, vós negaes que tivesseis relações com elles! 

-- Nego! 

-- Por Deus! bradou João Gaudencio. É essa a vossa verdade? 

-- Alguem diz o contrario?! interrogou com raiva. 

E o agente muito convencido que elle fallava cheio de terror, volveu: 

-- Todos o dizem! 

-- Todos?! 

-- Sim, os outros presos... Os vossos companheiros... 

-- Companheiros! 

-- Ou subordinados, se desejaes! disse o Casal Ribeiro, 

-- Subordinados! Com mil demonios... Fazeis me então o chefe?!... 

-- Sim! 

-- Ah! Fazeis-me rir, senhor! 

-- Pois podeis rir na certeza que a nação sabe do vosso proceder... 

-- Sabe?! 

-- Sim... Porque receaes que o saiba?! 

-- Eu não receio, senhor, não receio, volveu elle, antes quero que todos os homens de bem conheçam o meu proceder... A oppressão dos outros, dos perfidos, dos malvados, dos infames, não me importa... Fui sempre uma creatura que levantou a cabeça diante das accusações... 

-- Naturalmente porque as julgaveis injustas! exclamou Casa Ribeiro. 

- Sim! 

-- E do mesmo modo achaes a que vos fazem agora?! 

-- Agora?! Mais do que nunca, senhor, mais do que nunca! 

-- Ah! 

-- Sim... Essa de ser chefe de conspiradores que nem conheço... É infame que se julgue tal, é infame que não me deixem dizer diante de toda a gente o que me vae no coração, a perseguição que me movem... Não conheci nunca esses conspiradores... 

-- Affirmaes isso?! perguntaram ambos a um tempo. 

-- Sim! 

-- General! 

-- Senhores... 

-- Acaso não sois amigo do barão d'Eben?! interrogou logo o Gaudencio. 

-- O barão!

-- Sim, um prussiano feito coronel em Portugal! 

-- Ah! Sim, Frederico d'Eben! 

-- Pois elle é um dos conspiradores... Já vêdes que mal podemos acreditar nos vossos protestos... 

-- O barão d'Eben, procurou-me e fallou-me vagamente na conspiração! 

-- Vagamente! 

-- Sim! Muito vagamente... 

-- E não vos convidou a tomar parte na conspiração?! 

O general, sentiu um abalo e uma repugnância, olhouos, balbuciou: 

-- Está preso o barão?! 

-- Sim! Está no Castello! 

-- Pois perguntae-lhe o que se passou, disse brandamente. 

-- Já o fizemos, mentiu o João Gaudencio. 

-- Ah! N'esse caso, não deveis interrogar me! 

-- Ao contrario, volveu o habil esbirro. Muito ao contrario. 

-- Porque! 

-- São de tal ordem as affirmaçõas do barão d'Eben a vosso respeito... 

-- O que! 

Deu esse grito de colera que elles julgaram de medo e bradou logo: 

-- Mentis! 

-- General! 

-- Mentis como vilão! Conheço- vos a tactica... Vindes arrancar-me cousas que não existem, vindes mentir-me, dizer-me que o barão me accusou! 

-- É a verdade! 

-- Mentis! 

Estava indignado, tinha um louco assomo de colera, um terror, uma ancicdade e acabava a dizer: 

-- Pelo inferno... Eu estou mais habituado ás balas que á intriga mas vejo bem o que quereis... 

-- Queremos fazer a luz! 

-- Com ruim azeite, senhores! Ide-vos que eu não fallarei... 

-- Não fallareis?! 

-- Não! Nunca! 

-- Ah! Isso e uma confissão! 

Gomes Freire, via a situação que creara, olhou os e disse: 

-- Chamaes uma confissão ás indignadas palavras d'um homem d'honra que não pode ver infamias? 

-- Infamias! 

-- Pois não é infamia vir mentir, vir conspurcar o caracter d'um homem de bem a dizer que elle fallou d'outro em termos de accusação? 

-- É o seu depoimento! Vós éreis o chefe da conspiração! 

Ante aquella mentira, o general perdeu a serenidade, avançou para elles e dominando os com o olhar, exclamou; 

-- Vejo que me perdeis, vejo que ms accusaes, mas acima de tudo, por Deus, pela memoria de minha mãe, vos juro que não mais responderei a esbirros! 

-- Senhor! Sois aqui um preso!

-- Bem sei...  

-- Respeitae a justiça! bradou Casal Ribeiro. 

-- Mandae-me militares e eu lhes fallarei... A vós não! Ide-vos... 

-- Não quereis responder?! interrogou logo muito satisfeito o João Gaudencio. 

-- Melhor fôra que me tratasseis com as honras a que tenho direito! 

-- Jamais vos faltaram ao respeito, disseram ambos. 

-- Por Deus! Acaso me respcitaes?! Pois não veies a prisão que me deram, não sabeis a comida que me atiram, das roupas que me negam... Nem mesmo uma navalha de barba me consentem... 

-- Durante o tempo de prisão, sabeis que tendes a rcgimem dos outros?... 

-- Dos outros?! 

-- Sim, de todos os outros presos... 

-- Bem sei... Mas é isso que exijo... Lá em cima andam officiaes de patente inferior á minha e que tem a praça em homenagem... 

-- São réus de pequenos delictos! 

-- Ah! 

-- Sim... Pequenas causas que se resolvem em dias! 

-- Eu sou reu de graves crimes?! 

-- Alta traição! 

-- A quem?! interrogou em voz abafada. 

-- Á patria! 

-- Á patria! gritou o general enfurecido, á patria! 

-- Mas quem e o canalha que se atreve a dizer me tal! Á patria?! Eu que a servi, que a amei sempre! Eu que a illustrei lá fóra, que não deixei jamais que se attacasse o brio portuguez! Traidor á patria o general Gomes Freire que na Russia recebeu elogios e medalhas, que atravessou a Europa ao lado do maior cabo de guerra do mundo lhe mereceu os olhares... Ah! Canalha vil e esta que me accusa!? Onde está a minha traição?! Em servir os francezes! 

-- Sim, em parte! 

-- Calae-vos! ordenou como se fallasse a um dos seus officiaes apanhado em delicio. Calae-vos! Não vêdes que foi por obediencia ás leis decretadas por essa regencia que hoje me accusa?! 

-- General, não vamos a discutir! replicou Casal Ribeiro. 

-- Podeis ir-de-vos, volveu elle com nojo. 

-- Não quereis fallar, exclamou o outro raivosamente. 

-- Não! nada tenho a dizer-vos, declarou do mesmo modo. 

-- Negaes que tomásseis parte na conspiração?! interrogou o ardilosamente. 

-- Nego! 

-- Ah! E que não fallastes com o barão d'Ebeu...

-- Ide-ves, bradou de novo. Ide-vos e dizei a Beresford que me mande militares, que venha elle e eu fallarei! a vós outros não! 

-- Mas porque?! 

-- Jamais me comprehendereis se vos disser que um homem d'honra não accusa nem falla d'um companheiro ás justiças... 

-- Quando o outro está innocente, porque não?! disse logicamente o esbirro. 

-- Oh! Mas eu não fallarei! 

Foi assim que elle se perdeu. Não quiz referir-se ao barão d'Ebeu, não quiz relatar a conversa mantida com elle nos primeiros dias e apenas, voltado para os esbirros exclamava: 

-- Mandae me militares?! 

-- O processo é todo civil... 

-- Civil! Mas eu estou n'uma prisão militar! 

-- Que importa! Ah! Vós não sabeis o que isto dará... 

-- Dará tudo... Simplesmente vos digo que não recuarei... 

-- General! 

-- Senhor desembargador... 

-- Pois não vêdes que essa negativa pode ser tomada como uma cumplicidade! 

-- No tribunal, eu falarei se acaso elle me escutar... 

-- Mas porque não dizeis tudo, pediu Casal Ribeiro, 

-- Não... Sou innocente e eis o que tenho a dizer vos! 

-- É necessario proval-o, disseram os outros. 

-- Não conheço os conspiradores! volveu no mesmo tom. 

-- Elles dizem o contrario! 

-- Por Deus, mas defrontem-me com essa gente! 

Foi a sua ultima phrase, saudou os outros e atirou-se para o colchão. 

Os dois homens olharam-se e sahiram com o carcereiro. A porta rangeu nos gonsos e Casal Ribeiro, murmurou: 

-- Está perdido! 

-- Está se continua a manter-se na negativa... 

-- Mas porque não falla?! disse o outro como apoquentado. 

-- Parece que tens pena! balbuciou o Gaudencio. 

-- Realmente... 

-- Ah! Casal Ribeiro! Pena d'um traidor? 

-- Amigo... Quasi que não creio no seu crime... 

-- Oh! Mau homem de lei tu és... É no crime que se vê primeiro... 

Subiu para a seje a rir e lá dentro, tornou: 

-- Está perdido... 

-- E não haverá ninguem que interceda por elle! 

-- Oh! 

-- Julgas isso. 

-- Seria perder-se tambem, regougou o outro. 

-- Talvez D. Miguel Forjaz, soUicite de Beresford o perdão do primo, tornou Casal Ribeiro. 

-- D. Miguel Forjaz, é o unico que pode perdoar. 

-- Elle! 

-- Sim... Beresford entregou tudo aos governadores do reino.

-- Pelo ceu... N'esse caso, D. Miguel, não quererá a familia manchada por um labeu. 

-- Não sabes então que a ex.ª é inflexivel... 

Disse aquillo com ironia, soltou uma risada e recostou-se no fundo da sege. O outro continuou do olhos cerrados a meditar. 

N'aquelle momento Gomes Freire, passeando na cella, bradava: 

-- É impossivel que isto não seja uma maldição! Mas eu nunca fiz mal a ninguem... Meu Deus, porque me castigas!

Ia ajoelhar-se mas levantou-se logo, exclamou energicamente. 

-- Não! É necessario lutar para esmagar depois... Ah! Só me falta um amigo... Se tivesse um amigo!... 

No auge do desespero atirou-se para o colchão e entrou a pensar muito em D. Pedro de Portugal, n'esse marquez d'Alorna, seu amigo e seu irmão que a morte ceifara lá em baixo n'uma cidade allemã, emquanto elle governava na Russia uma cidade de Warbulai. 

Veiu-lhe uma saudade do grande exercito, veiu-lhe um grande desespero. 

-- Pelo ceu... Só em Portugal me podia succeder tanto! 

Cerrava os olhos e entrava a recordar episodios da sua vida passada, ficava-se n'um extasi, embalado pelo mar que cantava a sua alegria contra os paredões da fortaleza. 

N'em um raio de luz. A lanterna apagara-se e elle no fundo da prisão sonhava, entregava-se ao culto do passado emquanto os homens lhe preparavam a sepultura com os seus enredos, com as suas maldades 

De quando em quando as sentinellas bradavam os seu alertas diante do mar, na eseuridão da noute, d'essa noute negra de desgraça. 





XX 



Um grande amigo 







Sir Archibald Campebell entrou e olhou o marechal; teve uma indecisão e teve um sorriso, fez a continencia e ficou na frente de elle que exclamava: 

-- Vós, coronel...?! 

-- Extranhaes talvez a madrugada? 

-- Sim... Em vós sempre houve esse habito de tarde vos erguer-des... 

-- Nem sempre... 

-- Vós, meu caro Campebcll não tivesteis esta campanha de Portugal. 

- Não... 

-- Não tivesteis essa enorme marcha de conquista d'um reino... 

-- Ah! não... 

-- Viveis em Londres no aconchego das damas como um dos mais queridos... 

-- Oh!... 

-- Não negueis... Todos o sabem... D'ahi os nossos habitos de tarde erguer e de pouco madrugar... 

-- Senhor marechal, como vos cnganaes... 

-- Não... Mas emfim... São habitos de côrte! Ria, mostrava dois dentes verdes e grandes, o marechal. 

O outro, apenas volvia d^um modo rápido e seguro: 

-- Vou provar-vos que não! 

-- Mas como?! 

-- Da mais simples forma... Quando Wellington chegou da sua campanha parti logo... Vim para Portugal e guardo os habitos de regimento... 

-- Bem... E só por isso vos ergueis cedo?! interrogou finura. 

Elle volveu: 

-- Não! 

-- N'esse caso, alguma cousa vos obriga a madrugar. 

-- Simplesmente o não me ter deitado! 

- Oh! 

-- Custa-me a crer! Certamente a não ser que os seus amores, coronel... 

-- Os meus amores... 

Ensaiou um sorriso e volveu logo no mesmo tom: 

-- Hoje vim tão cedo porque me lembrei d'uma madrugada semelhante... 

-- Ah! sim... 

-- Sim, marechal, na Russia, quando era muito novo. 

-- Amaes n'esse caso as recordações? interrogou. 

-- Amo-as..., Tanto mais quando ellas são maravilhosas... 

-- Que curiosidade tenho em vos ouvir! 

Logo traçou a perna e revestiu o mesmo agrado, fixou-o, ficou-se á espera, a ouvil-o: 

Imaginae, começou elle, que n'um caminho coberto de neve e de soldados por uma noute terrível e em plena Russia, o exercito acampara diante do povoado que os turcos tinham tomado... 

-- Ha quarenta annos! 

-- Sim... Quasi... 

-- Ouço-vos. 

-- Nós éramos poucos extrangeiros e as simpathias uniam-se, os homens ligavam-se no meio da turba meio barbara que formava o exercito do principe... Bons tempos. 

-- Para vós! 

-- Mais para outros do que para mim, marechal, volveu elle no mesmo momento. 

-- Continuae, pediu com a maior delicadeza. 

-- Na nossa frente pois estava o nnar immenso do exercito turco que deviamos assaltar a todo o transe... Que calamidade! 

-- E depois... 

-- Não havia nieio algum de andar, tornou elle com o seu modo interessante. 

«Na planicie gelada a fina flôr do exercito passa desanimada deante d essa fortaleza que os turcos enchiam e que não largariam jamais. Na vespera evocara-se todo o passado de glorias diante do exercito, fizera-se passar em frente dos regimentos velhas reliquias de victorias. Era o mesmo que nada porque se tornava materialmente impossivel vencer. 

-- Mas coronel, onde quereis chegar?! atalhou o marechal. 

-- A quê?! Oh! Mas ao que me recorda esta madrugada que tanto estranhaes... Tende paciencia, eseutae me ainda!... 

-- Com prazer, bem sabeis... 

Ficou encostado á mão na grande maneira firme a olhal-o. 

-- Foi n'essa noite, marechal, que se realisou o maior dos feitos a que tenho assistido... O exercito acampava na neve, os chefes desespcravam-se. As guardas avançadas velavam e havia um official que commandava um posto e o qual não podia soffrer semelhante demora. Elle era alferes no porto visinho. Elle tomou comsigo alguns homens, metteu-se por uma vereda em direcção á praça, topou uma guarda e chacinou-o sem que um grito mais agudo se ouvisse na noute. Os turcos estavam por terra n'um mar de sangue e elle obrigou os seus homens a vestirem os uniformes dos infieis. 

Embuçou-se por sua vez n.i capa d'um olficial inimigo e penetrou na fortaleza, cruzando-se com as rondas... Mandou então um corneta com a nova ao chefe do exercito e quando os turcos acordaram em sobresalto viram na sua frente um punhado de valentes que lhes tomava a praça e um exercito que penetrava atraz d'elles victorioso e contente... Amanhecia, era por uma manhã assim, mylord, na Russia em Oczacow e o bravo official que commandava os postos chamava-se... 

-- Gomes Freire! -- exclamou logo o inglez. 

-- Sim... Agora vede, meu marechal, porque me assaltou similhante recordação... 

-- Dizei. 

-- Esta manhã em S. Julião da Barra, quiz fallar-llic, encontrei na minha frente uma sentinella e topei um governador inexplicavel, sahi d'ali com o coração alanceado e ferido e resolvi, marechal, vir contar-vos esta historia... 

-- Para quê?! interrogou Beresford rapidarpente. 

-- Para quê?! Para vos perguntar se não posso vêr o meu amigo. 

-- Vosso amigo?! bradou cheio de pasmo o marechal. 

-- Sim... Eu era um simples alferes e elle coberto de gloria, estreitando as minhas mãos, apertando-as nas suas apoz a salvação de minha vida, tornou-se o unico credor da minha gratidão! 

--Ah! É louvavel! 

-- Tanto que não hesitei em sollicitar licença para o vêr... 

-- Oh! 

-- Achaes muito. 

-- Acho pouco... 

-- Obrigado, marechal, volveu sir Archibald. 

-- Muito pouco mesmo para o que lhe deveis! 

-- Ah! Ides dar-me a licença não é verdade?! 

-- O quê, coronel?! 

-- A licença para poder communicar com elle... 

-- Ah! Não... 

-- Não?! 

-- Se não vol-a posso dar, meu amigo, se não vol-a posso dar... 

-- Marechal, não sois vos o supremo chefe do exercito?! 

-- Sim... 

-- N'esse caso... 

-- Olhae que nos governadores do reino reside todo o poder! 

-- Nos governadores! 

-- Sim... Ide pedir-lhes isso, ide sollicitar essa licença. 

-- Não me darão nunca semelhante consentimento... 

Depois n'um arranco, cheio de fúria, acallorado, bradou: 

-- E eu por demais sei que o general soffre privações, sei que não é tratado com as honras que lhe são devidas, sei que o teem como um criminoso vulgar e lhe negara tudo... Marechal, eu não posso... 

-- Meu caro Archibald! murmurou o marechal. 

-- Attendei-me! 

Elle então ergucu-se, volveu para o outro um olhar e exclamou: 

-- Sou impotente para semelhante resolução!

-- Que quereis que eu faça? 

-- Só os governadores vos podem attendcr! Mas não vos attenderão!

-- Ah! 

-- Não vos attendcrão e eu sei quanto isso vae ferir o vosso coração. 

-- Só queria viver junto d'elle, estar com o general... 

-- Meu amigo!

-- O governador da torre, nem mesmo elle, me pode dar semelhante ordem... 

-- Por Deus que não! 

-- Já vêdes que não sei como proceder! 

-- O governador da torre, está n'estes casos á ordens do poder central. 

-- É de desesperar... 

Beresford, olhava-o attentamente e parecia que no seu espirito se fazia luz; por fim, n'um repente, exclamou: 

-- Meu amigo! 

-- Marechal!

-- Eu participo dos vossos sentimentos da admiração! 

-- Vos! 

-- Eu sim... Acabei de vos ouvir e creio na bravura do general! 

-- Isso é muito para o meu coração de soldado!

Então o inglez, n'um enthusiasmo creseente, tornou: 

-- Ah! Não sei como acceite semelhante situação aqui onde o desejo do poder me conduziu. Quando andava no campo, na batalha, na lucta, chegavam-me as lagrimas dcanie desse feito. Um bravo é para mim sagrado, por Deus! 

-- Marechal!

-- Sim... E se não posso salval-o se não posso dar- vos a licença que sollicitacs, é porque acima de mim existem hoje os outros... 

-- Mas que fazer! 

-- Esperar... 

Parecia interessar-se em boa verdade pelo resultado d'essa empreza e tomado d'um ardente desejo de conseguir satisfazer o coronel, murmurou: 

-- Se D. Miguel quizesse! 

-- Que D. Miguel! 

-- O Forjaz... 

-- Mas esse é primo de Gomes Freire! bradou arrebatado. 

-- Sim! 

-- Ah! Deve ter piedade d'um membro de sua familia. 

Beresford calou-se ecorou, íicou-se a ouvir o coronel continuar:

-- Mas sem duvida vae conceder-vos a licença que sollicito...

-- Qual?! 

-- Para vêr Gomes Freire! 

-- Meu amigo! 

-- Marechal, pois duvidaes? interrogou muito ingenuamente. 

-- Decerto que duvido! 

-- O que?! Pois D. Miguel collocará acima do coração uma formalidade ligeira?! 

O marechal não respondeu e o coronel continuou: 

-- Não pode ser... Tenho a certeza que não ha duvida alguma em me consentir que visite o primo, esse bravo, o general tão injustamente accusado! 

-- Injustamente! exclamou o marechal. 

-- Sim! 

-- Sabeis que essa affirmação carece de provas, disse a medo. 

-- Oh! Está provado... 

-- Como?! 

Redobrada de receios ao que se via e fixava sempre o outro que bradava: 

-- Como?! De que o accusam?! De ter tentado contra o rei, contra vós, contra a patria, não é assim?! 

-- Sim! 

-- Acreditaes então que um homem que em nome da patria entre pela Hespanha e lhe toma duas povoações, seja contra essa patria?! Acreditaes que elle seja contra o rei senhor, d'essa nação, e contra vós, seu representante?!... 

- Ha uma cousa que leva os homens a tudo, declarou Beresford d'um certo modo medroso. 

-- O que, marechal?! 

-- A ambição! 

Campbell não poude conter uma gargalhada forte e retinida; encarou o chefe e disse: 

-- Acreditaes na ambição de Gomes Freire?! 

-- Não quero dizer tanto... 

-- Meu marechal, estamos falando como dois soldados!

-- Sim... sim... volveu quasi suffocado. 

-- Como dois soldados leaes que jamais seriam capazes d'uma perfidia... 

- Sim! 

-- Pois bem, estamos falando d'um homem nosso companheiro d'armas e vós quasi acreditaes na sua ambição... 

-- Eu... 

-- Por Deus, marechal, racicionemos, atalhou elle com ousadia extranha. 

E com essa ousadia sempre egual, foi a dizer: 

-- Acreditaes em mim?!

-- Oh! Coronel!

-- Pois bem... Eu na Russia vi quanto elle era pouco ambicioso. 

-- Como?!

-- Muito simplesmente... Depois d'Oczackow, vi Catharina II pôr-lhe ao peseoço o cordão de S. Jorge... 

Beresford olhava-o cheio de pasmo e ouvia accrescentar: 

-- Vi que o general o acceitava como um acto de justiça com a espada d'honra que ella lhe entregou... 

-- Por Deus! 

-- Sim, marechal, eu vi tudo isso e ouvi muito mais!

-- Dizei, dizei tudo!

-- Gomes Freire, foi feito coronel na Russia e em Portugal era apenas sargento-mór... 

-- Oh! 

-- A imperatriz offereceu-lhe o commando da sua guarda. 

-- Oh! 

-- E o ambicioso, marechal, o ambicioso, apenas lhe respondeu: 

Senhora, não... Tenho saudades da minha patria!

-- Campbell! 

-- Marechal! 

-- Falaes verdade, eu creio... 

-- Por Deus vol-o juro... 

-- Vejo que tendes razão, disse sempre na sua voz suffocado. 

Como um remorso o pungiu e espicaçou, como uma grande 

tristeza se lhe marcou no olhar. Então, muito desesperado, tornou: 

-- Não comprehendo bem como o accusam, não sei de provas... 

-- Marechal, eu saberei tudo... 

-- Coronel... Dou-vos esse direito! exclamou como se tomasse uma terrivel resolução. 

-- Apenas a vós de quem sou amigo, queria provar isto... Agora tenho um caminho... 

-- Qual?! 

-- O que vou seguir... 

-- E qual é?! 

-- Vou ter com D. Miguel Forjaz a sollicitar-lhe licença para ver o general... 

-- Coronel! Não vol-a dará! 

Como Campbell o olhava muito pasmado, Beresford, dizia: 

-- Não vol-a dará, eu o sei... Mas ha um meio... 

-- Oh! Pelo amor de Deus, dizei-m'o... supplicou o leal official. 

-- É simples... Eu se não posso consentir em que vejaes o general, não posso impedir que o governador da Torre de S. Julião ás ordens do governo central, o veja! 

--Quereis dizer?!... balbuciou um pouco embaraçado. 

-- Que tenho o direito de nomear os ofíiciaes para as commissões de serviço! 

--Marechal! 

-- Meu amigo, quero dizer que vos nomeio governador de S. Julião da Barra! 

Soltou um grito e quasi lhe cahiu aos pés, exclamando: 

-- Oh! Como sois grande! 

-- Amigo, não faleis assim... Tomareis conta do vosso logar mas sob juramento de que o cumprireis como um verdadeiro militar...

Como entendesse um respeito n'aquellas palavras do marechal, elle apenas disse estendendo a mão: 

--Juro!

-- N'esse caso lavrarei a vossa nomeação!

-- Obrigado! 

Sentou-se á carteira e escreveu a ordem, entregou-lha e abriu-lhe os braços: 

-Ide! 

Campbell, muito enternecido, balbuciou: 

-- Nunca esquecerei similhante favor! 

-- Amigo, ide apresentar-vos aos governadores do reino!

Quando elle sahiu radiante, o marechal, bradou: 

- Oh! Cumpri o meu dever! 

E ficou calado, por momentos a fixar a janella, embevecido como abstracto, murmurando ainda: 

-- Oh! É uma tragedia... É uma tragedia! 









XX 



O inquerito 





Entrava na sala o barão d'Eber. N'um canto o intendente da policia olhava a sua figura forte, de militar e os dois ajudantes mandaram-no sentar. O 

escrivão, ergueu a cabeça calva e ficava-se a roer a rama da penna. 

Havia um grande silencio. O barão estava de braços cruzados. Sobre o peito da farda abotoada. 

-- Sois o barão d'Eben? interrogou um dos ajudantes. 

-- Sim, sou eu! 

-- Conheceis Gomes Freire?! tornou um dos homens. 

-- Sim, conheço! 

-- Desde ha muito?! 

-- Desde ha um anno... 

-- E como vos ligastes com elle?! 

-- Porque o sabia um heroe, porque assistira á morte de seu lio Bernardim! 

-- Ah! Conhecestes Bernardim Freire, o traidor?! regougou o intendente da policia. 

-- Traidor! 

-- Sim... Pois não foi morto pelo povo de Braga, depois de ter deixado entrar os francezes na cidade?! 

-- Senhor... Eu conheço o caso, sei que era impossivel a resistencia! declarou o barão em voz irada. 

-- Bem... Adiante! ordenou de novo o sr. intendente. 

-- Conheceis então o general desde ha um anno?! tornou o ajudante do aho funccionario. 

-- Sim! 

-- Tinheis intimidade com elle?! 

-- Ia a sua casa! 

-- Ah! E o coronel Monteiro, conheceis?! tornou elle. 

-- Não, ... Apenas conhecia Antonio da Fonseca Neves a quem falara na deseripção d^uma fortaleza que eu desejava... 

-- Ah! E não conheceis o Monteiro nem o Ribeiro Pinto?! 

-- Não! 

-- Não sabeis tambem da conspiração?! 

Elle hesitou uns momentos e logo declarou: 

-- Com effeito Eonseca Neves, falou-me vagamente... 

-- Vagamente?! 

-- Sim ... 

-- Ah! E como vos falou elle n'isso?!... 

-- Não me recordo! Sei apenas que tratou d'uma sublevação!

-- Falasteis n'ella a Gomes Freire, não é verdade?! 

Elle, muito lealmente, declarou: 

-- Sim... 

Os dois ajudantes soltaram um suspiro d'allivio e o intendente da policia, deveras alegre, exclamou: 

-- E que vos disse elle?! 

-- Disse-me entre outras cousas e seguinte: Meu barão, tu não conheces Lisboa, nem o povo poriuguez, pois este quando não tem que falar sonha sempre com conspirações e já assim era antes de d'el-rei e sua familia partirem para o Brazil. Não deserédito a essas novidades que são levantadas no Caes do Sodre e outras praças publicas... 

-- Oh! E essa resposta não a d'esies a mais alguem... 

-- A Fonseca Neves, que se calou, redarguiu elle. 

-- Muito bem... 

O intendente de policia, tirou então uns papeis sobre a secretaria e bradou: 

-- Barão d'Eben! 

-- Senhor... 

-- Conheceis estes papeis! 

Elle acercou-se, viu-os, volveu da mesma forma: 

-- Sim! 

-- São vossos?! 

-- Sim... 

-- N'esse caso tambem é vossa esta proclamação! 

Eben, fez se pallido, olhou o papel que elle lhe apresentava e volveu: 

-- Reconheço a! 

-- Ah! Como estava em vosso poder! interrogou elle como se tivesse jogado uma boa cartada. 

-- D'uma simples maneira... 

-- Vejamos! 

-- Recebia-a pelo correio qumze ou vinte dias antes de ser preso! 

-- Ah! E que íizesteis diante de semelhante cousa?! 

-- Fiquei muito perturbado de ver que chamavam o povo á revolta! 

-- E então?! 

-- Então, no meio de tudo isso, não persistimos... 

-- Muito bem e que fizesieis?! interrogou com a mesma segurança. 

-- Fui mostrai- o à Gomes Freire! 

Os tres homens olhararam-se e sentiram um estremecimente. 

-- E que vos disse elle?! 

-- Senhor, Gomes Freire, é meu amigo e aconselhou-me... 

- A que fosseis denunciar a conspiração?! interrogou o intendente da policia muito ironicamente. 

-- Não! Isso seria indigno d'um militar como elle... 

-- Ah! E que vos aconselhou então o digno militar?! interrogou em modo escarninho. 

-- Que guardasse esse papel ou o inutilisasse, que o não mostrasse a ninguem, pois que d'ahi podiam fazer um crime! 

-- Oh! E achaes bello e digno o conselho?! 

-- Senhor, elle é meu amigo?! 

-- Negaes então ter tomado parte na conspiração?! 

-- Nego... 

-- Bem e que dizeis a este caderno que está cheio d'insidias e d'ultrages dirigidos ao marechal!

-- Ah! Conheço-o tambem! volveu elle de cabeça levantada. 

-- É feito por vós?! 

-- Sim... 

-- Odiaes então o marechal?! interrogou de bom modo o intendente. 

-- Não! 

-- Porque escrevestes então?! 

-- Esse papel não é obra minha! É apenas uma mera copia... 

-- Uma copia?! 

A custo o intendente continha uma risada ante a defesa assim architectada e exclamou: 

-- Explicae-vos... 

-- Sim, vou dizer-vos tudo! 

-- Recebi pelo correio com a proclamação um papel cheio d'insidias e que copiei! 

-- Para que?! 

Era um interrogatorio cerrado que lhe faziam e elle buscava defender-se a todo o transe diante da accusação que pesava sobre a sua honra. Ia dizendo sempre do mesmo modo: 

-- Eu copiei e enviei para Inglaterra o original afim de mostrar ao meu amigo duque de Susrex o estado de opinião em Portugal! 

--Ah !... Porém para que copiar?! tornou logicamente o funccionario. 

-- Por mera curiosidade! 

-- Barão! 

-- Senhor... 

-- A vossa defesa chega a ser ridicula! 

-- Senhor! 

-- Repito... Tentaes ludibriar a justiça! 

-- Mas... 

-- Vós fosteis o maior agente de toda essa conspiração. Sois o amigo dedicado do chefe... 

-- Que chefe! bradou elle deveras pasmado. 

-- De Gomes Freire! 

-- Pelo ceu não o deveis accusar, disse logo o barão. 

-- Porque?! 

-- Sempre se negou a tudo, senhores! declarou elle. 

-- Ah! N'alguma cousa então lhe falaram... 

Eben, mordeu os beiços e não achou resposta. 

-- Vejamos, dizei tudo, tornou o intendente. 

-- Que dizer! 

-- A verdade! 

-- A verdade eu disse, senhor, não sei mais nada... 

-- Ah! Não quereis dizer mais nada?! 

-- Nada mais sei... 

-- Fazei entrar o reu Pinto da Fonseca Neves, ordenou o intendente em voz terrivel. 

Era um homensinho miudo, atarracado e que entrou a receiar. 

Viu o barão e saudou o logo muito humildemente. 

-- Conheceis o reu presente?! perguntou o ajudante 

-- É o senhor barão... 

-- Ah! Vós conheceias a conspiração: não é verdade... Falae... Sois quasi uma testemunha... Não vos julgo implicado, declarou o intendente com certa esperteza. 

O homensinho, estremeceu d'alegria e disse logo: 

-- Conhecia apenas o Cabral que me falou n'isso e mostrou umas proclamações tão sediciosas que eu até disse que isso merecia ser atirado pela janella fóra! 

-- E onde foi isso?! 

-- N'uma casa 'em que todos frequentavam e onde me levaram d'olhos vendados! 

-- Ah! 

-- Até vi que era mal feito não ir denunciar... 

-- Sim... E porque o não fizesteis, interrogou o outro. 

-- Ah! É simples... Porque tinha um meu parente envolvido n'isso! 

-- Um vosso parente?! 

-- Sim. 

-- Quem era?! 

-- João Ribeiro Pinto... 

-- E que mais se passou n'esse serão?! tornou o funccionario. 

-- Dissera-me que era necessario salvar a patria e tinham o apoio de grande homens... 

-- Falaram d'alguem?! interrogou á pressa o intendente. 

-- Sim, falaram de Gomes Freire! 

-- E de quem mais?! 

-- E do senhor barão!

-- Ah! que tendes a dizer, barão?! interrogou de novo. 

-- Este senhor veiu perguntar-me se na verdade faziaa parte da conspiração... 

-- É verdade, atalhou o outro, logo muito á pressa. 

-- E que respondeu o barão, interrogou ainda o intendente. 

-- Que era falso emquanto a elle e que acerca de Gomes Freire nada o levava acreditar em tal, tornou o homem em voz mal segura. 

-- Bem e d'ahi, como terminou tudo isso? tornou um dos ajudantes. 

-- Terminou por me affirmarem os outros que na verdade tanto o barão como Gomes Freire estavam compromettidos! 

-- Senhores! exclamou o barão d'Eben n'um impcto. Juro-vos que é tudo falso... Gomes Freire não tomou parte em cousa alguma! 

-- Porque falam d'elle n'esse caso? interrogou o intendente. 

-- Pois não vêdes que careciam d'um nome para alugarem os adeptos e terem confiança!

-- Ah! E só havia o nome do general? 

-- Decerto: Se elle é um heroe, se tem fama... 

-- É boa a defeza mas reparae que esse heroe sabia da conspiração e não a denunciou! 

-- Querieis então que elle fosse um infame?! 

-- Um infame?! Ah! E que chamaes então ao seu procedimento?! 

-- Senhores, vôs sois cruéis e não sabeis o que e a honra d'um militar... 

-- Levem esse homem! ordenou o intendente de policia. Levem ambos! 

Então com o seu modo mais soberbo, mais altivo, bradou: 

-- Miseraveis! assim tentaram contra cl-rci nosso senhor! 

-- Mando entrar outro réu? disse o eserivão. 

-- Sim... mandae! 

Mas n'este momento D. Miguel Forjaz, muito grave no seu trajo negro apparecia e exclamava: 

-- Excellencia!... 

-- Oh! Senhor governador, v. ex.ª por aqui?... Que honra, que enorme honra! 

Elle baixou os olhos, tomou-o de lado e disse: 

-- Ouvi-me, senhor intendente, ouvi-me! 

-- Pareceis doente, senhor D. Miguel... disse elle muito cheio de cuidado. 

-- Eu venho para saber novas... 

-- Estão quasi feitos os interrogatorios. Breve irão todos ao tribunal! 

-- É que queria de vós uma coisa... uma bem simples coisa... 

-- Ordenaes, sennor governador! 

-- Ordenar?! 

-- Decerto... 

-- Já me basta o ser da governação, amigo! Escutae... 

-- Sou todo ouvidos... 

-- Aquelle meu parente, esse pobre general, é innocente, não é verdade? 

-- Gomes Freire? 

-- Sim. 

-- Sinto dizer-vos... 

-- O quê?!... 

Abafou um grito e continuou no mesmo tom triste: 

-- Pois o quê, é culpado?! 

-- Excellencia, ha muito contra elle... 

-- Meu Deus! 

-- No emtanto, disse o intendente da policia, fazendo-se familiar. No emtanto, é crivel que tudo se possa liquidar... 

-- Como! 

-- Para não vos dar esse desgosto! 

D. Miguel Forjaz olhou o sobranceiramente e bradou: 

-- Intendente, ó assim que cumpris o vosso dever? 

-- Excellencia... 

-- Oh! Por Deus, nem me quero lembrar do que dizeis... 

-- Mas para poupar V. Ex.ª... 

-- Sabei que acima de tudo, de parentes, de familia, de mim proprio, das minhas dores, das minhas torturas, colloco o rei, colloco a patria! 

Muito vermelho, o intendente curvou-se e elle accrescentou: 

-- É necessario fazer justiça, não é verdade? Pois a justiça que seja feita!... 

-- Senhor! 

-- Embora eu soffra, embora todos soffram. Acima de tudo, o rei! 

E saudou-o, foi-se, n'um grande ar altivo que obrigou toda a gente a murmurar: 

-- Que grande homem! 

O intendente, ainda todo encolhido, meditava. 

D. Miguel Forjaz, ao entrar na carruagem tinha nos labios um sorriso sarcastico, extranho e victorioso. 







XXI 



Sempre infeliz 







O novo governador dará as suas ordens, senhor general... Mas devo prevenir-vos que não espero nada de favoravel! exclamou o carcereiro diante do general que o olhou com pasmo a dizer: 

-- O novo governador?! 

-- Sim... 

--Temos então um novo governador?! bradou elle. 

-- Desde manhã tudo mudou... O outro mudou e o recem-chegado tomou posse... Teve mau ar... 

-- Ah! quer dizer que por si vae tomar a minha vida! 

Era extranho assim com o seu ar doloroso e o carcereiro compadecia-se d'elle, achava-o' deveras sympathico na meia submissão que usava alem adentro d'aquelle cárcere negro, estranho e compadecido cada vez mais, dizia: 

-- No emtanto é crivel... 

-- Que consinta em que o meu creado venha aqui, em que me dêem thesouras e tratem com mais piedade? 

-- Tudo depende dos senhores que dirigem o governo... 

-- Bem, meu amigo, quereis ir dizer ao senhor governador que lhe desejo fallar? 

-- Irei! 

Por Deus, mas defrontem-me com essa gente.

O carcereiro sahiu; rangeu de novo a porta chapeada e elle ficou só. Veiu lhe um desespero, murmurou: 

-- É uma infamia!

E sentia mais do que nunca essa infamia a chiccteal-o, via-se perdido, arrastado, posto de banda como um miseravel, obrigado a esquecer o mundo e a ser esquecido d'elle, quando tivera um passado brilhante, quando fóra o primeiro entre os primeiros e vira a côrte a temel-o. 

Lembrou-se então de que estava pagando tudo isso e vinha-lhe com a colera uma indignada revolta; via se pequenino, posto de rastos, sentia se o ínfimo, de todos o peor, e murmurava: 

-- Ah! Se pudesse justificar-me! 

Essa jusiincação acudia-lhe:lara e rapida, muito espontânea e muito clara aos labios, sentia que lhe bastava dizer algumas palavras para se resolver tudo. No emtanto não havia ninguem que o quizesse ouvir. 

De novo a porta rangeu nos gonzos, elle viu um homem que entrou, soltou um grito d'alegria e exclamou: 

-- Meu amigo! 

Reconheceu sir Campbell, vira-o com o seu fardamento e com o seu olhar endurecido e então correu para elle, cahiu-lhe nos braços com grande pasmo do carcereiro que ficara á porta. 

-- Oh! Que milagre! exclamou de novo o general. 

-- Milagre, meu amigo?! interrogou o inglez no mesmo enternecimento. 

-- Mas decerto... Se viestes... Se vos vejo quando não esperava jamais ver um amigo! 

-- General, tereis ainda de ver os outros... 

- Os outros! disse elle a lamentar-se. Os outros! 

-- Não sei porque fcUacs n'esse tom... 

-- É que não tenho mais amigos! bradou Gomes Freire apertando de novo a mão do inglez. 

-- Não digaes tal! 

-- Ah! A prova é que só vós viesteis aqui! 

-- E elles porque não vieram? Porque se lhes cortava decerto o caminho. 

-- Mal a vós, Campbell?! 

-- A mim?! 

--Sim... Como pudeste vencer tanta reluctancia como parece existir da parte d'essa gente em consentir que me visitem?! 

-- Foi Beresford! 

-- Elle! 

-- Sim... 

Gomes Freire, deveras pasmado olhou-o de face. Leu-se uma desconfiança no seu rosto, appareceram nos seus olhos evidentes signaes de receio. 

-- Elle! 

-- Sim... O meu marechal! 

-- Ah! E porque não me dá então as honras que me são devidas! 

-- Isso não pode elle fazer! volveu amargamente. 

-- Não percebo, n'esse caso! 

-- É simples. Beresford não manda aqui cousa alguma. 

-- Então quem manda?! interrogou logo muito sobresaltado. 

-- Os governadores do reino... 

-- A regencia? 

-- Sim... 

-- Oh! miseraveis!... exclamou elle muito fora de si, accrescentando: 

-- E eu a julgar-me victima d'esse estrangeiro quando são os portuguezes que me sacrificam! Eu a julgar-me victima de Beresford quando talvez devo accusar alguem que bem conheço! 

-- Acreditae, general, acreditae que Beresford fez o que poude! 

--Só poude darvos essa licença? perguntou desesperado. 

-- Nem essa mesma! 

-- Então?!

-- Poude nomear-me governador de S. Julião da Barra para viver mais peno de vós! 

-- Archibald! 

-- Meu amigo!

-- Pois sois o governador! 

-- Sim, por vossa intenção e por mercê de Beresford! 

-- Meu Deus... Acabam emfim os meus tormentos! 

Duas lagrimas rolaram pelas suas faces magras; a sua mão estendeu-se a procurar a de Gampbell e de seguida, o general bradou: 

-- Jamais esquecerei o que me fizesteis! 

-- General, eu nunca esqueci a Russia... 

-- Oczacow! 

-- Sim! 

Mais animado, satisfeito, n'um impulso, o general bradou: 

-- Oh! Ainda me recordo bem... Os nossos na avançada, os turcos na derrota... Ah! e as intrigas! 

-- Sim, as intrigas... Vós sahindo victorioso! 

-- Mas receando sempre a traição n'essas plagas, receando sempre o punhal d'um sicario... 

-- N'essa terra onde as imperatrizes se dão aos generaes... 

-- E onde os imperadores morrem pelo veneno! 

-- Ah! General... Vós podieis ter sido tudo ali n'essa Russia... 

--Tudo! 

-- Pois a imperatriz teve por vós um capricho... 

-- A que fugi... Receava mais essa mulher que um bando de turcos... Mas, Campbell, para que recordar... 

-- É bom! 

-- É bom recordar a felicidade antiga quando se é feliz... Mas quando se é desgraçado, de que vale essa evocação?! 

-- É o consolo! 

-- É o desgosto!

-- General! 

-- Eu sempre fui o dominador, sempre da minha honestidade fiz um escudo e por isso facil se tornava falar alto... Agora... 

-- Um dia falareis... 

-- Pois esperaes salvar me?! 

-- Decerto... General... disse elle a meia voz. Por isso vim... 

- Oh! 

-- Sim, para isso vim... Tenho comvosco uma divida. 

-- Não! 

-- Tenho! A divida mais sagrada do mundo... 

-- Corro um grande perigo, não é verdade?! 

-- Sim! 

-- Accusam-me de traidor?! 

-- Accusam! 

-- Quanto careço de coragem! bradou elle de repente. Mas hei-de t-ela... Quero tel-a atravez de tudo... Ainda não desanimeidentro d'estas paredes, ainda não tive o terror, ainda não temi o inimigo! 

-- É proprio de vós! 

-- Sim! Bem sei e vejo que não devo desanimar... Acredito ainda na nação que me conhece... Acredito ainda no tribunal...

-- Tambem eu! exclamou logo o inglez, accrescentando: 

-- Beresford será por vós! 

-- Ah! Archibad, eu não queria viver aqui só... Por vezes sinto me a fraquejar... Nas noutes, então?! Os meus olhos procuram uma distração, a minha voz quer ser ouvida por alguem... 

-- Eu virei 

-- Oh! Archibald, e não podereis mandar-me o meu creado, não podereis consentir em que fosse tomar um pouco d'ar para o terraço da fortaleza?! 

-- Só Beresford me poderá dizer... Vou escrever-lhe... 

-- Obrigado!... mil vezes obrigado! 

Agora o governador mal podia conter as lagrimas; sentia esse golpe bem fundo a ser-lhe vibrado, tinha um terror de si proprio e só uma vaga esperança o animava. 

-- Meu amigo, começou de novo o general. Meu amigo. Deve haver alguem que deseje visitar-me... 

-- Gomes Freire, é escusado pedir isso! respondeu o outro. 

-- Porque?! 

-- Jámais a regencia vos concederá tal! 

-- Dizei-me ainda, tornou elle no mesmo tom de desespero. E como corre todo esse processo! 

-- O vosso?! 

-- O d'elles... O meu, todo esse negocio, toda essa infamia... 

-- Foram presos muitos militares que estão em S. Jorge... 

-- Bem sei... 

-- Os civis estão no Limoeiro. 

-- Pois sim e o processo?! 

-- Ignoro... 

-- Guardam segredo! 

-- O mais rigoroso! 

-- Santa justiça, declarou elle n'um tom amargo e ironico. Santa justiça de boa gente... 

-- Aquietae-vos meu amigo, pediu o outro, aquietae-vos... 

-- Eu saberei ter mão nos meus impulsos. 

-- Sabeis que tudo depende de os guerrearmos tambem?! 

-- Como! 

-- Fazendo espalhar no povo que sois innocente... 

-- Espalhareis apenas a verdade! 

-- Por isso mesmo... 

-- E uma vez que o povo o saiba, acreditaes que me soltem?! 

-- Então será o momento da nobreza intervir... 

Gomes Freire sorriu, encolheu os hombros e exclamou: 

-- Ah! Bem se vê que sois extrangeiro e d'uma terra onde cada 

um sabe pugnar pelos direitos... 

-- Quereis dizer?! 

-- Que não acredito n'essa intervenção da nobreza! 

-- Não?! 

-- Não... Sabeis porque... Porque todos receiam ser castigados... 

-- Mas... 

-- Conheço-os, meu amigo... ninguem me salvará se a regencia o quizer! eis tudo. 

-- E o marechal?! 

-- Nem esse, ao que julgo! 

-- Porque o dizeis?! 

-- Se Heresford nem tem poder para me mandar as visitas, se para pôr ao meu lado um amigo, carece de o nomear governador da fortaleza... 

-- Tendes razão, disse elle baixando a cabeça. 

Mas de repente, n'um impeto, como se achasse o melhor dos meios, bradou: 

-- E el-rei?! 

- D. João VI?! 

-- Sim... O vosso rei... 

-- Meu amigo, el-rei está longe, está muito longo... 

-- O que não impede de receber uma carta... 

-- De quem?! 

-- Vossa... De certo vos conhece! volveu o outro. 

-- Não sei... Eu vivi muito fóra do reino, nunca andei na côrte a rastejar... Fui soldado e não lacaio... 

-- Mas o vosso nome! 

-- O que é isso para uma côrte de beatos!

-- General, se os da regencia vos ouvissem! 

-- Mais uma razão teriam, quereis dizer! 

- Não! Sinto que falaes n'um desafogo? 

-- Enganae vos, amigo, redarguiu elle logo com força. 

-- Engano-me?! 

-- Sim, enganae- vos... Foi sempre da mesma opinião, gritei-a sempre ahi pelas ruas, defendia na ponta da minha espada... Ah! não conheceis a minha vida... 

-- Mas el-rei é bom, sem duvida... Tenho ouvido d'elle cousas de bondade! 

-- Se é bom ou mau, não sei... Nunca se sabe o que é um principe, o que vale, o que decide... Isso, amigo meu, depende do tempo ou dos servos; dos conselhos ou da felicidade que se gosa quando se recebe o memorial... 

- Ah!... 

-- É a verdade! Depois esse memorial para chegar ás mãos de D. João VI, tem que correr muitas outras... 

-- Talvez d'amigos... 

-- D'amigos?! 

-- Porque?! 

-- Ah! não sabeis então que os meus amigos ficaram no reino não sabeis que só sahiram d'elle na Legião Portugueza a serem heroes?! Os outros, os-que partiram diante das bayonetas francezas não podem ser amigos d'homem como eu!... Depois, meu caro Archibald, esse memorial, assim humilde nas mão d'elles seria a minha eterna vergonha... Não, não, prefiro esperar! 

-- Esperaes commigo! declarou o outro muito satisfeito com semelhante linguagem. 

-- Esperarei! 

-- Mas hão-de vêr o que a nação lhes exige! 

-- Não exigirá cousa alguma, podeis crer?! 

-- Meu amigo! Caminhaes para o pessimismo?! 

-- Na logica... É uma nação morta!... 

-- Que pode ter alento d'um momento para o outro... 

-- Sim... Com a liberdade, declarou firmemente e de moda que o inglez estremeceu. 

-- General! exclamou elle. Ides ser franco... 

-- Sempre o fui! 

-- Sabeis que sou vosso amigo! Dizei me pois se tomastes parte n'essa conspiração?! 

-- Eu! 

-- Sim, vós... A maneira como falaes, essa ambição de liberdade! 

-- Não é legitima n'um preso?! disse a rir. 

-- Pois sim... Vejo tudo... Sois conspirador!

-- Não... 

-- Juraes... 

-- Juro-vol-o... Não fui conspirador só por esse crime! 

- Qual! 

-- Não encontrei homens capazes de levarem a cabo essa revolta! 

-- Por Deus! 

-- Sim... Mais ainda... Quando me contaram os seus planos desapprovei os, mostrei-lhes as razões... Eis tudo!

-- Acredito vos! 

-- Archibald, sabeis que vos falava verdade atravez de tudo. 

-- E eu saberei eseutar-vos e continuar a ser vosso amigo. 

-- Obrigado! 

-- A conspiração em coisa alguma altera a nossa amisade... 

-- E o meu ideal não succumbirá deante de qualquer amigo, nem mesmo dcante d'um irmão! Não conspirei, apenas porque não vi gente capaz de conspirar! É a verdade! 

Archibald Campbell, cada vez o admirava mais, sentou-se num canto do calabouço e exclamava: 

-- No emtanto, não ireis dizer isso aos que vos interrogarem... 

-- Direi tudo! 

-- General! 

-- Que importa! Eu não sei mentir, sei calar ou sei dizer verdades! Ouvi, meu amigo... Mandae-me militares ao inquerito porque a esses esbirros da justiça não responderei! 

Ficaram então mais algumas horas conversando e Gomes Freire, ao cabo d'uns momentos ria com o amigo, recordando os episodios alegres da sua lamentosa mocidade, da sua juventude gloriosa e revoltada como a velhice. 







XXII



Beresford 





O ajudante de campo de sir Archibald Campbell, apresentou uma carta ao marechal que a recebeu sorrindo: 

-- Estava de bom humor o senhor intendente da policia? 

-- Não sei, marechal... 

-- Como, não sabeis?! 

-- Nem sequer o vi! 

-- Anda então muito atarefado, o senhor intendente?! 

Não esperou resposta; abriu a carta que o funcionário lhe enviava, fez-se pallido e murmurou: 

-- Oh! Parece impossivel!... Foi só isto o que lhe deram?! 

-- Só, meu marechal! 

-- Elle não disse mais nada; sentou -se á secretaria e escreveu á penna: 

«Pateo do Saldanha, 29 de maio de I817, 8 horas. Pela manhã.

Sentia-se a penna rangendo no papel e o marechal, muito cançado ia escrevendo sempre com a mesma intensa velocidade: 



«Meu caro Campebell 





«Waton, informou-nos hontem que o seu desejo de deixar ao tenente-general o seu creado, não foi approvado. O vosso ajudante de campo veiu aqui no decurso do dia e eu mandei-o com recommendaçâo minha ao Intendente geral da policia, para que permitisse ao tenente-general aquelles artigos que o seu commodo exigia. Não sei qual foi o resultado porque o vosso ajudante não tornou aqui. 

«Urgi hontem e esta manhã tornei a escrever para que se fizes sem arranjos em ordem a Gomes Freire e os outros terem o que na realidade lhes fosse necessario e n'este instante recebi em resposta que a minha carta fora remettida ao intendente geral da policia, do qual, posto que- não tinha tido instrucção alguma, espero comtudo que terá dado as necessarias direcções e particularmente que terá mandado um breve para subintender a communicação com Gomes Freire e examinar, tanto quanto elle julgar necessario tudo quanto vae ou vem d'elle; tirando dos militares, por este modo, qualquer responsabilidade em casos inteiramente alheios das suas obrigações.

Vós continuareis a ter a guarda de sua pessoa, superintendendo os outros a communicação com elle e examinando quaesquer coisas que lhe sejam mandadas. tambem escrevi para que se lhe permittisse dar procuração a algum amigo para tomar conta da sua casa e dos seus negocios; mas tudo foi já para o intendente da policia, a quem heide mandar para saber o resultado. Estou certo que vós administrareis todos os confortos que estiverem em vosso poder a uma pessoa, nas suas, presentemente, infelizes circumstancias. A respeito dos arranjos para a vossa guarnição, temos aqui muito serviço extraordinario por causa d'este negocio e não vos podemos fornecer traje nenhum da cidade. 

Estimarei saber se alguma ordem ou pessoa da parte do Intendente de policia tem chegado a S. Julião para arranjar alguns commodos mais para o general Freire d' Andrade.» 



Vosso mui deveras 



Beresford



-- Levae isto, disse elle com desgosto. Eu vou sahir. 

O ajudante saudou-o e quando elle iranspoz a porta, Beresford, agarrando a cabeça entre as mãos, bradou: 

-- É infernal tudo isto! Mas que vida será a d'elle:

Tocou um timbre e bradou de novo: 

-- Que inferno! 

E para o creado que apparcceu, Beresford, exclamou: 

-- A sege! 

Olhou-se n'utn espelho e viu-se pallidp, sentiu um calafrio. Desappareceu-lhe a sua antiga ambição de ser rei diante do que via. 

O inglez não tinha a coragem de ir até ao crime. 

Quando o servo lhe veio dizer que estava prompta a carruagem, deseeu a eseadaria, saltou para a sege e deu ordem que o levassem á calçada da Ajuda, a casa de D. Miguel Forjaz. 

Atirou o seu nome ao porteiro, galgou as eseadas, ficou n'uma sala todo afogueado. 

O outro, appareceu mettido n*um roupão, muito sorridente, de braços abertos: 

-- Oh! marechal, a que devo tal honra!? 

-- Senhor governador! disse elle dignamente. Trata-se de vosso primo! 

- Primo?! 

-- Sim... Do general! 

-- Ah! Marechal, não me apoquenteis, por Deus! 

-- Apoquentar-vos?! 

-- Sim... Eu não tenho familia d'essa; vae... os traidores jámais entraram em nossa casa! 

Ante aquella resposta dada tão altivamente, o marechal, replicou: 

-- Não quereis n'esse caso melhorar-lhe a má sorte! 

-- Impossivel! 

-- D. Miguel! 

--Meu amigo! 

-- Reparae em semelhante desdita, reparac bem, por Deus!... 

-- Reparar?!

-- Decerto... 

-- Marechal: ha casos em que um homem de bem jamais repara... Essa é uma d'ellas! Gomes Freire, segundo o inquerito é um traidor vil... 

-- Segundo o inquerito?! 

-- Segundo as testemuhas, segundo os seus cumplices! 

-- Mas é vosso parente! balbuciou o marechal. 

-- Já vos disse que não tenho parentes de tal laia! 

-- Mas acaso não é um fidalgo, não é um general?! 

-- E que tem isso? 

-- Tem, que mesmo na prisão lhe são devidas as honrarias... 

Soltou uma risada e redarguiu: 

-- Quereis talvez que as sentinellas lhe prestem honras militares? 

-- As sentinellas! O desgraçado nem sabe da masmorra! 

-- Quereis que lhe mande dar o gabinete do governador? 

-- Basta, D. Miguel! bradou o inglcz. Basta! 

-- Acho muito exiranho, marechal, que venha aqui solicitar honras para um traidor! 

-- Para um homem! 

-- Um homem criminoso! 

-- Negaes lhe o que peço? interrogou com franca decisão. 

-- Sim! 

-- Pois bem... Sabe-s que acimi de vós ha alguem que lhe pode dar esse conforto! 

-- Acima de mim?! Quem?! 

Cavamente, altivamente, Beresford, declarou: 

-- O rei! 

-- El-rei está muito longe, mylord, e vós sabeis que ninguem se atreverá a pedir-lhe tal... 

-- Eu! 

-- Vos?! 

-- Sim, eu! 

-- Marechal, é mau esquecer os amigos como eu...  

-- Quereis dizer?! 

-- Que esse rei do qual falaes hoje já foi por vós bem mal julgado! 

Estavam face a face como dois leões, como duas terás e chegavam ao periodo das recriminações. 

-- Marechal, continuava elle, rcparac que não merece a pena indispormo-nos por causa de Gomes Freire... El rei fará muito por vós d'uma bem extranha memoria... 

-- E por vós! interrogou rapidamente o outro. 

-- Por mim, não o nego, nunca o neguei, mereço. 

-- E falaes?! 

- Falo... Eu estou bem acreditado no Brazil... 

-- E eu?! 

-- Vos?! Sabeis marechal que ha sempre invejosos... Viram que estaveis quasi com um pe no throno... 

-Por Deus! 

-- Não vos exalteis... Sejamos serenos, sejamos homens! 

-- Ah! Recieis homens... 

-- Grandes, dignos! Sim, D. Miguel Forjaz. Pois não castigaram os traidores? 

-- Que odio é esse?! 

-- O meu odio? volveu elle rilhando os dentes. Ah! não é odio! 

E sorriu, fez-se palido, decidiu: 

-- É justiça! Não tenho culpa de ser governador do reino quando meu primo é culpado d'alta traição. Cumpro o meu dever! 

Com nojo, Beresford, ergueu-se; ia fulminado mas o outro apenas disse: 

-- Marechal, sabeis que tendes deveres a cumprir. 

-- E eu sei que não cumprirei senão o que julgar meu dever! 

-- Ninguem vos pedirá senão disciplina! 

-- Falaes a um militar! 

-- Por isso mesmo... Se amanhã houver uma revolta, deveis censurar o throno d'el-rei... Sim, d'elrei... Vós desperdiçaes muito o poder, marachal! 

-- Não fallemos mais n'isso! disse elle. 

-- Como quizerdes! 

-- Bem... E que respondeis de vez acerca do general?! Notae que estou farto de ouvir infamias! 

Mas D. Miguel sentia -se vencedor e esmagando Beresford com o riso dizia-lhe ainda: 

-- Marechal, é uma má occasião para levantar-mos questões. 

-- Porém.... 

-- O quê! Mão acceitaes esse principio em que houve uma conspiração?! 

Como elle mal respondesse, o governador do reino tornou: 

-- Pois acaso não ha papeis que o demonstram? Não os tivesteis na mão? 

-- Sim! 

-- N'esse caso... 

-- Não foi a vós proprio que revelaram o caso? 

Elle, como allucinado, declarou: 

-- Foi! 

-- Marechal, sabeis que len. 

E a sua voz era tremula, o seu olhar vago na recordação de que concorrera para semelhante cousa. 

A vida do acampamento sem aquellas complicrções burocraticas entrava a apctecer-lhe, sentiu-se mais homem d'espada que arrancaria no momento dado e incommodava-se deante da logica do outro que pairava como de chacota. 

- É tudo! 

-- Custa-me no emtanto que o general soffra! 

-- Que general? exclamou o outro com o mesmo modo. Ah! Gomes Freire! Porém os juizes decidirão... 

-- Com mil raios! bradou Beresford. Acaso não podeis dar-lhe todas as honras inhercntcs á sua gerarchia?! 

-- Seria abrir um exemplo! 

-- Para quem?! 

-- Para os outros, para essa gente que está no castello, para os coroneis, para os outros officiaes! 

Depois sorridente, esfregando as mãos, acrescentou: 

-- No emtanto... 

-- O que? 

-- Se vos interessaes... 

-- Sim, interesso-me! 

-- O intendente da policio resolverá até onde fôr possivel... 

-- É um favor?! 

-- Sim,... 

-- Senhor, não posso acceital o! declarou solemnemente. 

-- Então não sei! 

-- Ria sempre, D. Miguel de Forjaz a irritar o inglez. 

-- Já há muito longe o tempo em que se entendeu com elle e sonhou em fazel-o rei. Agora achava-o muito cheio de honra, com muito de soldado, com a proverbial maneira dos homens d'armas a desolar-se diante duma infamia, a indignar-se. 

-- Então, olhou o grande relogio de pêndula comprida, viu as horas e disse: 

-- Marechal, quereis passar á sala de almoço? 

-- Obrigado! disse machinulmente, e logo tornou: 

-- D. Miguel! 

-- Marechal! 

-- Eu parto! 

-- Para onde? interrogou, como admirado. 

-- Para o Rei! 

--Para o Brazil?! 

-Sim! 

-- Impossivel! exclamou elle de chofre, encarando o. 

-- E porquê?! 

-- Sabeis acaso qual será a sentença pronunciada contra esses traidores?! 

-- Não! 

-- Sabeis acaso se as tropas obedecerão á pessoa que ficar em vosso logar?! É um momento critico, mylord... 

-- Quereis dizer... 

-- Que não deveis sahir de Portugal! 

-- Mas quero falar a S M. 

-- Depois! volveu elle muito seccamente, dizendo logo: 

-- De resto, sabeis que D. João VI em cousa alguma pode influir... 

-- Não irá á sua assignatura o decreto do condemnação?! 

-- Oh! acaso sabeis se serão condemnados?! perguntou velhacamente. 

-- Espero que sim! 

-- Reconheceis-lhes então a culpa^ interrogou mais uma vez. 

-- Oh! Pelo ceu! exclamou o marechal. Basta de comedias! 

-- Marechal! Eu estou aqui em nome d'el-rei! 

-- Senhor... O que se passou entre nós! 

-- Quiz experimentar a vossa fidelidade... declarou n'um tom ironico. Não sabeis então que em politica fazem-se muitas cousas assim! 

O inglez lançou-lhe um olhar desesperado e sem o saudar sahiu acellerado a dizer: 

-- Que homem! O que elle fez d'uma cousa tão pequena?! 

D. Miguel Forjaz, deixou-o partir e encolhendo os hombros: 

-- Como esses juizes são amorosos... 







XXIII 



A honra d'um prisioneiro 





O quarto, passeava Gomes Freire muito agitado, andava d'um lado para o outro, lançava olhares desesperados para a porta e sentia uma enorme tortura. Havia dois mezes que não sahia d'ali e que não via cousa alguma do seu destino; apenas via entrar de quando em quando uns homens que o 

interrogavam e que sahiam logo levando as suas imprecações, os seus desesperos, as suas coleras, partindo com tudo isso a irem embaralhar mais a sua situação. 

Acreditava em Beresford á força de ver como a gente o protegia-lhe via a inutilidade d'essa protecção ao recordar-se do pacto que o esmagava. Por um natural pudor calava-se. 

Parecia-lhe ama deshonra para si o ser victima d'um membro da sua familia. 

Rangia os dentes e via todo o proveito que elle tiraria d essa situação, a fama de inflexibilidade que lhe viria, as honras, os accrescimos paro a sua casa. 

Recordou-se então de que D. Miguel Forjaz, conseguiu pela astucia o que outros tinham conseguido d'uma maneira firme e honesta. 

Entrára no exercito e fora desde logo um d'esses que buscam viver e passar com os reis ou com os seus validos, fugindo á vida do acampamento e levando uma existencia dourada. 

Lembrou-se de que elle fora amigo do conde d' Alva e que comera na meza do regente que dormia nas alcovas das amigas de Carlota Joaquina, entregue na sombra, procurara ferir os seus inimigos. E soltou um grito ao lembrar-se tambem da carta que o doutor escrevera a seu respeito no tempo da guerra peninsular e onde lhe chamavam louco. 

Fóra essa carta que chegando ao reino e vinda d'um parente, obrigara os ministros a chamal-o; o obrigara a deixar o exercito e a partir para vir dar contas das suas convenções com o general Stocker. 

Ligava tudo isso e sentia que um grande rancor o invadia e sentia que devia sahir d'alli limpo de mancha para matar o outro. 

Com a sua grande imaginação via-se já meltido na sua farda, cingindo o seu cordão de S. Jorge e com a sua espada d'honra, via-se sahir d'aquella torre ante as continencias dos soldados e por fim entrar na sege. 

Pelo caminho, sem receio, apertaria convulsivamente o punho da espada e chegaria emfim a casa de D. Miguel. 

Saberia barricar-lhe a sahida e saberia obrigal-o a um duello. 

Matal-o-hia e seria feliz. 

Beresford, andava lidando por elle, havia de sahir d'ali. 

Mas n'este momento a porta abriu se de repente e Campebell entrou. Vinha pallido, trazia um papel na mão. 

-- Governador! bradou elle avançando para o amigo. 

-- General! 

-- Abraçaram-se como sempre, ficaram depois diante um do outro. 

-- Más novas? 

-- Isto! 

E Campebell começou a ler a carta: 

-- Meu caro! dizia Beresford. Só esta manha recebi a resposta de D. Miguel, informando me de que os governadores do Reino não teem objecção a que o tenente general Gomes Freire me communique do modo que elle desejar, alguma coisa que elle julgue necessario dizer, para que eu haja de communicar isso mesmo a sr. ex.ª os governadores.» 

-- Ah! que inferno! exclamou o general, deveras alanceado. 

Mas é sempre a mesma cousa... Não tenho cousa alguma a ver senão com esses homens! 

-- Ouvi, meu amigo, tornou Campbell consternado. 

«Vós sois a pessoa que elles nomearam para estar presente, quando elle receber a penna, tinta e papel... 

-- Canalhas! regougou o general. 

-- E emquanto elle escrever, accrescentou o coronel. Portanto eu não preciso dar outras instrucçÕcs senão que vejaes e olheis bem. Que vos parece o estado da sua cabeça e do seu juizo. Da informação que me deu o tenente Waddock, parece que elle está algumas vezes agitado. 

-- A minha cabeça, o meu juizo! bradou Gomes Freire com um sorriso triste. Ah! Julgam me louco! 

-- Não, meu amigo... Não! 

-- Mas Beresford, parece recear que eu enlouqueça, parece tomar me por um doido! 

-- Beresford parece apenas que receia de tantas commoções uma grande agitação para vós! 

- Ah! 

-- Senão vêde! 

E leu o ultimo período da carta, que dizia assim: 

«Podereis vós procurar-lhe por lá algum quarto melhor e seguro onde elle esteja menos arriseado a soffrer da sua saude. 

-- Ah! Receiam que eu endoideça?! gritou elle n'uma furia. Pois bem, prefiro isso! Seria o esquecimento, seria o descanço! 

-- General! 

-- Oh! meu amigo... Já não tenho illusões... 

N'um grande desespero atirou se para sobre a cama e bradou: 

-- Quero defender-me! 

-- Mas ordenae! 

-- Quero escrever a el-rei, quero escrever ao meu amigo duque de Susrex a narrar-lhe esta infamia! 

-- Podereis fazel-o. 

-- Quero que Beresford envie esses papeis da sua mão... 

-- Ah! 

-- Não o fará? 

-- Bem sabeis que por toda a parte ha espiões. 

-- E então... 

-- Se a ordem dos governadores é apresentarem todos os papeis que de vós pariam... 

-- Beresford recusará envialos?! 

-- Não... Terá no emtanto que lh'os mostrar... 

-- Ah! Já sei... Rasgal-os-hão... Ficarei na mesma... 

-- Esperae... 

-- Campbell... Eu estou totalmente perdido! 

Foi o seu primeiro momento de desanimo. 

O outro, como se tivesse a mesma convicção, disse: 

-- E se assim fosse?! 

-- Sei lá onde chegaria a infamia d'elles! 

-- Onde chegaria? 

-- Sim... Eram capazes de me degredar, de me. enviarem para as pedras d'Angoche ou de me fazerem passar o resto dos meus dias na casaraatta duma fortaleza! 

- Nunca! bradou o outro em extrema agitação. 

-- Pobre amigo! 

-- Nunca! declarou elle. Nunca!... 

Nos seus olhos lia-se uma intensa resolução, lia-se um fundo desejo de o salvar. 

-- Com o diabo! Porque dizeis isso! Não conheceis então os governadores de Portugal?! 

-- Conheço! 

-- Já vêdes... 

-- Vejo que saberei partir, ir eu mesmo ao Rio de Janeiro, arrancar o vosso perdão a el-rei, trazei-o commigo e soltar-vos! 

-- Soltar-me? 

-- Sim... Soltar-vos!... exclamou de repente. 

Gomes Freire, abanou lentamente a cabeça, esboçou um sorriso e volveu: 

-- Julgaes então que eu gostarei de ser perdoado?! 

-- General! 

-- Sim, julgaes? 

-- Mas... 

-- Não comprehendeis pois, não é verdade?! 

-- Mas não... 

-- Sabeis que um innocente não carece de perdão! 

-- No emtanto... 

-- Perdão!... Perdão!... Que e o que a clemencia dos reis atira aos culpados a quem deseja fazer mercê! 

-- Depois podereis rehabilitar-vos! 

-- Depois?! 

- Sim! 

-- Não quero... Ou saio do cárcere rehabilitado ou não saio senão á força para o degredo... 

-- General, sejamos praticos!... 

-- Primeiro sejamos honrados! exclamou violentamente. 

-- Honrados? 

-- Sim, meu amigo... Pois não reparaes que amanhã sahindo d'aqui por uma mercê real não passaria do general Gomes Freire que intentou uma traição e ao qual o rei perdoou. O que diriam todos?! 

-- A nação sabe que sois innocente! exclamou elle. 

-- Não me digaes isso! 

-- Porque, general?! 

-- Para não ter d'amaldiçoar a minha patria... 

-- Porque?! 

-- Por tudo... Pois sabe-se que está aqui um innocente e ninguem se levanta a vir buscal-o?! Que nação é essa?! Não sabe, não, coronel... Julga-me um traidor... 

-- Traidor! Mas ainda que tivesseis conspirado não serieis um traidor! 

-- Traidor a patria! Sei o que me chamam... Vós bem o sabeis... 

-- Amigo! começou de novo Campbell. Ha cousas que são surpresas dolorosas e que no emtanto devemos vencer! Acima de tudo deve estar a coragem para repellir as affrontas! 

-- Aconselhaes coragem a um homem preso?! 

-- Se estivesseis solto fácil vos seria tel-a! Sei o que valeis... 

-- Solto! Oh! Meu amigo... não peço mais que uma hora de liberdade... 

-- Uma hora! 

-- Sim... 

-- É pouco... 

-- É o bastante para poder vingar-me! 

-- Em quem?! interrogou o outro n'um grande sobresaho. 

-- N'aquelle que me perdeu!... Mas calemo-nos... Nem eu terei essa hora de liberdade nem vós podeis comprehender o qe as minhas palavras querem dizer... 

-- General... 

-- Dizei... 

-- Acreditaes que sou vosso amigo, não é assim! 

-- Creio firmemente... 

-- N'esse caso, acceitaes um juramento?! 

- Oh! 

-- Vamos... 

-- Acceito, amigo m,eu, desde que esse juramento não vos prejudique... 

-- Não me prejudicará! exclamou o inglez com toda a sua franqueza. 

-- N'esse caso, acceito e por Deus vos juro que de bom grado... 

-- Sereis livre ... 

-- Livre! 

-- Sim... Tereis essa liberdade que almejaes! 

-- Governador! 

-- Meu amigo... 

-- Agradeço-vos! declarou elle a sorrir. Agradeço-vos... 

-- E acceitaes! 

-- Isto era apenas um capricho meu! disse elle a sorrir. Não quero pela minha honra!

Depois mudou de tom e disse: 

-- Mandae-me antes papel e um barbeiro... 

-- Tudo vos será enviado!... Até logo! 

Quando Campbell sahiu, o general atirou se para sobre a cama e exclamou: 

-- Ah! Se eu podesse acceitar! Nem mais uma hora de vida o miseravel teria... nem mais uma hora!... 

Á porta da prisão, o governador encontrou o tenente coronel Waddock. 

Era um bom gigante louro, d'olhos azues, sentimentaes e humildes. O seu semblante impunha sympathia e o seu enorme corpazil impunha respeito. Lembrava um soldado do velho rei da Prussia, um forte e alto soldado cuja alma encerrada n'um corpo enorme era boa, candida e terna. 

Campbell estendeu-lhe a mão, elle perguniou-lhe em inglez: 

-- O nosso amigo?! 

-- Desolado... 

-- Chamo-lhe nosso amigo porque na verdade o sou, governador... Tanto como vós... 

-- Tanto sim, quero crer... Elle bem o merece... 

Affastaram-se para a explanada e o tenente coronel, continuava a dizer: 

-- Dizem-se tantas coisas em Lisboa acerca d'elle! 

-- O quê?! 

-- Oh! Tantos boatos! murmurou o outro tristemente. 

-- Quaes?! 

Tinham parado e estavam frente a frente. 

O sol pallido de setembro innundava-os e elles sorriam com uma grande tristeza, no maior desespero. 

-- Que vão ser todos condemnados! disse de repente Waddock. 

-- Condemnados ao degredo?! perguntou o outro. 

- Não! 

-- Á prisão perpetua? interrogou mais impaciente. 

-- Não! Á morte! 

-- O quê?! Á morte! exclamou no auge da colera. 

Mas logo sereno, volveu: 

-- Isso é fallas da turba! 

-- Não! não foi ao povo que o ouvi... 

-- Onde?! Onde o ouviste?! interrogou de novo. 

-- No palacio do intendente emquanto esperava Watson, com o vosso ajudante! 

Campbell, estremeceu, olhou o outro e redarguiu: 

-- Não o acrediteis! 

-- Quasi o não acreditei pelo menos em relação a este... 

Nem se atreveu a pronunciar o nome de Gomes Freire. Tinha dentro em si como um vago terror, via n'elle alguma cousa que não podia explicar: 

-- Pelo inferno! Isso e uma maneira de atemorisar... 

-- Assim o creio!... 

-- A ser verdade, meu amigo, a ser verdade... 

-- Oh! 

-- A ser verdade, volveu n'um impeto. Teriam a revolução! 

-- Revolução que como soldados devíamos subjugar! 

-- É possivel! 

-- Meu amigo, não pensemos em tal! 

-- É necessario recusar... 

-- Por elle?! 

-- Sim! 

-- Ah! Juro-vos que já recusei! 

Havia tanta firmeza n'aquellas palavras que o outro fixando o, declarou: 

-- Tambem eu! 

Trocaram um novo aperto de mão e foi cada um para seu lado. 

Gomes Freire, desesperava-se sempre e clamava: 

-- O que um homem faz... O que faz um infame! 

O mar vinha bater contra as paredes do forte e elle murmurava: 

-- Ah! É o destino... É o meu destino, este de soffrer... A liberdade! Ah! a liberdade... 

Duas lagrimas lhe corriam pelas faces e elle concluia a dizer: 

-- A liberdade, ... N'esta hora- ella seria para mim uma restea de sol que allumíasse e aquecesse... 

O soldado entrou com a tinta e com o papel. O general via ao longe a luz do sol. 

Campbell entrava tambem e exclamava: 

-- Amigo... Cá venho vigiar-vos! 

E sorriam, o preso e o guarda. 





XVIV 



Os presos d'estado 





Correra n'esse dia a noticia que no castello as familias dos presos lhes poderiam falar. 

Foi como um rasto d'alegria a penetrar em toda a parte, em todas as casas dos parentes dos desgraçados. 

Logo de manhã foi uma correria ao castello, mulheres e homens, com os seus farneis e com a sua enorme tortura, iam em busca dos que lhes eram queridos. 

Em face do portão das armas havia um soldado que os olhava pasmados e dizia: 

-- Mas não tenho ordens! 

Assaltavam-no com perguntas acerca dos presos ao verem-no tão serio e tão bondoso. 

Elle apenas olhava para o interior do pateo e dizia: 

-- Sei que estão lá em baixo... 

-- Nas prisões mais escuras?! perguntou uma voz de mulher. 

-- Sim... 

-- Era o neto d'aquelle creado dos Tavoras que buscara vingar-se. 

Nos seus olhos havia lagrimas, nos seus labios um sorriso nervoso e balbuciava: 

-- Não os deixam vêr?! 

-- Ah! isso não... 

Uma senhora d'edade, coberta de lucto e que se epeára d'uma sege, olhava-o enternecida e dizia: 

-- É irmão d'algum?! 

-- Ella olhou-a, e volveu: 

-- Não, minha senhora... mas conheço os a todos! 

-- Conheceis meu marido? interrogou n'uni soluço. O coronel Monteiro?! 

-- Conheço... É um bravo! volveu simplesmente. 

-- Disseram-me hoje que lhes poderiamos falar... 

-- Mas é mentira! É mentira! exclamaram muitas vozes desoladas. 

D'entre o povo que se juntava, sahiam commentarios que feriam os desditosos. 

-- Tambem era melhor! gritava um faiante de S. Miguel d'Alfama. Essa canalha alta entreter-se a fazer baralhas e ainda se lembrar de ter attenções! 

-- Pudera... Olhe lá se aos pobres fazem isso! grunhiu segundo. 

-- E os pabres não se mettem lá n'essas cousas de politica! exclamou uma velha rabugenta, accrescentando: Credo, anjo bento... Malditos maçons... 

-- Não ouvis esta gente? perguntou a senhora de edade para a pobre, que respondeu: 

-- Que quereis... É o povo... o povo a quem elles queriam dar a liberdade! 

-- Olha a fufia como canta! rosnou uma mulher que trazia um pequeno ao collo. Aquella tambem é das taes como a Ega que andou lá mettida com o Junot a comer dos pobres! 

Ouviram-se gargalhadas. A familia dos prisioneiros começava a ser insultada. 

Neste momento passou um official, a sentinella fez-lhe a continencia e a pobre correu para elle: 

-- Senhor, por Deus!... 

-- Minha senhora! disse elle galantemente. 

-- Por Deus, diga-me se não vão dar-nos licença para falar aos presos. 

-- Ah! não... 

-- Não?! 

-- Não, minha senhora! tornou de novo. Estão no mais rigoroso segredo. 

Mas já a mulher do coronel Monteiro se acercara e dizia: 

-- E estão bons?! 

-- Minha senhora, nem eu mesmo sei... Desde que entraram para aqui apenas recebem as visitas da justiça... 

-- Ah! 

Elle saudou e affastou-se. As duas mulheres ficaram face a face. 

Por fim a senhora d'edade sahiu: 

-- Meu Deus... E saber que elle está ali... 

Corriam-lhe as lagrimas a quatro e quatro pelo rosto engelhado e sentia-se que uma dôr funda a pungia, a retalhava. 

Toda aquella gente chorava desolada, uma dôr profunda alanceava e a joven, com os seus olhos enxutos, tomada d'uma infinita colera, bradou: 

-- Oh! Não é de lagrimas que temos mister!

-- Minha filha... balbuciou a esposa do coronel Monteiro. 

-- Não! É de vingança!... 

Ao ouvirem-na falar assim aflastaram-se instinctivamente d'ella que tornava: 

-- Ah! E tel-a-hemos! 

Mas, porem, a outra desfallecia. Tomaram-na nos braços, conduziam-na para a sege e a joven tomava logar junto d'ella. Os outros ficaram n'uma espera, n'uma grande espera. 

E quando deixou em casa a mulher do coronel Monteiro, ella, correu para o palacio de D. Miguel Forjaz. 

O governador mandou-a entrar. Estava á meza com a familia, na casa de jantar rica onde havia uma atmosphera de telicidade. 

Ella, da saleta contigua assistia a esse jantar pela porta entreaberta. Viu D. Miguel levantar-se e vir para o seu lado. 

-Senhora... Que me quereis falar?! 

-- Sim... 

-- Dizei! volveu elle á pressa. 

- Quero falar vos muito em particular ... 

-- Passemos a este gabinete! 

Introduziu-a n'um bello gabinete onde havia um rico mobiliario imperio e exclamou indicando-lhe uma cadeira: 

-- Sentae-vos! 

-- Estou bem... 

-- Vejamos o que vos traz a minha casa: 

-- Senhor... Correu hoje que seria permittida a visita aos presos do castello... 

-- Ah! assim foi... 

-- Fomos ali e negaram-nos a entrada... 

-- E quem ieis visitar?! interrogou de repente. 

-- Os presos implicados n'essa conspiração! 

-- Para esses não havia ordem... 

-- Bem sei... 

-- E que quereis de mim?! 

-- Venho dizer-vos que quero ir para junto d'elles! 

Como se visse uma doida na sua frente, o governador exclamou: 

-- Impossivel! 

-- Mas se devo lá estar! volveu seccamente. 

-- A que titulo?! interrogou de repente: 

-- Como companheira d'elles! declarou a joven. 

-- Companheira! 

-- Sim!... 

-- Não vos creio! 

-- Pois conspirei tambem... Eis tudo! 

-- Com a vossa edade... Com a edade de minha filha?! 

-- Ah! o desejo de liberdade vive nos corações novos! 

-- Falaes como uma creança! disse o governador. 

-- Falo como uma mulher desejosa do bem da sua patria. 

-- E quereis que vos tome a serio?! disse D. Miguel. 

-- Porquê?! Acaso me julgaes louca?! 

-- Julgo apenas que um amor vos prende a algum d'esses conspiradores... 

-- E se assim fosse? 

-- Ah! poderia apenas tolerar-vos d'esse modo! 

-- Pois bem... Amo um d'elles, amo e respeito... Amo-o como se elle fosse meu pae... 

- Ah! 

-- Esse homem está innoccntc e cu venho dízer-vos tudo quanto a elle se refere! 

Contou de íacto o que tratara com Gomes Freire, o que elle lhe respondeu, maneira como viveu na conspiração e os conselhos que o general lhe dera. Estava radiante ao falar assim e D. Miguel disse ao cabo d'uns momentos: 

-- E esse homem está preso? 

- Sim! 

-- Ides fazer essas declarações á justiça! disse o governador. 

-- De bom grado! 

-- Narrae-lhe tudo isso se quereis sacrincar-vos mas desde já vos digo que não o deveis fazer... 

-- Porquê?! 

-- Esse homem será absolvido! disse elle de repente. 

-- Juraes-me?! 

-- O seu nome? 

-- Gomes Freire! 

Elle empallideceu e disse logo n'outro tom: 

-- Comprehendo tudo... Quereis salvar o vosso amante! 

Ella muito pasmada, ficou sem achar uma resposta rapida ao mesmo tempo que o outro dizio: 

-- Não creio que tomasseis parte na conspiração... Jámais homens como elle vos admittiriam no seu gremio!... Acabaes de fazer uma invenção... Ide com Deus e não faleis de tal! 

-- Porque, senhor?! 

-- Ninguem vos acreditará! Ide-vos! ordenou. 

Porém esta n'um arranco indignado e selvagem, bradou: 

-- Ah! Pois seguirei o vosso primeiro conselho! 

-- O que?! 

-- Sim... Irei d'aqui á justiça, irei dizer-lhe tudo... Mostrarei como sou culpada e direi o que tenho contado a toda a gente acerca de Gomes Freire!... 

D. Miguel começava a irritar-se e então a joven, exclamou: 

-- No ultimo caso tomarei um navio e irei ao Brazil, entrarei n'essa côrte que detesto e narrarei ao rei o que se trama... 

-- Oh! Enlouqueceis? 

-- Julgaes?! 

-- Sim... Só assim se pode comprehender tanta coisa... 

-- Que miseravel sois! 

-- Senhora! 

-- Ah! direi que vim a vossa casa e que me fez dó ella, entre a vossa familia não tínheis remorsos do vosso crime. 

-- Do crime de defender a patria?! disse a meia voz. 

-- Defender a patria condemnando innocentes! 

-- São todos culpados! volveu o governador. Mas ainda que fossem innocentes tudo seria com a justiça... 

-- Com a justiça que os governadores do reino dominam! 

-- Senhora! 

-- Sim... Com essa justiça que os governadores do reino sabem mover a seu talante. Ora eis aqui o que direi ao rei! 

-- Podeis ir em paz e dízel-o... volveu a sorrir. 

-- De vós nada tenho a esperar? interrogou. 

-- Só a justiça! 

-- Justiça eu saberei fazer tambem por minhas mãos! ameaçou ella com colera. 

Depois, sempre a indignar-se mais, accrescentou: 

-- Vi hoje os desgraçados, vi hoje os miseraveis! Vi os pobres e os ricos cujos parentes estão accusados, chorando além á porta do castello... Se os visseis... 

-- Que quereis... É a dura praga das traições! 

-- Ah! senhor... E que castigo mereciam aquelles que entregaram Portugal aos francezes! 

-- Não discutamos... Senhora... sou um vosso servo... ide em paz... Podeis ir á côrte... Se el rei quizer ser magnanimo... 

-- Ah! Eu lhe direi tudo... 

De cabeça levantada foi para a porta ao mesmo tempo que D. Miguel exclamava: 

-- Só justiça faremos! 

Penetrou n'outra sala, tocou um timbre. 

Appareceu um creado e elle exclamou: 

-- Segue a mulher que sahiu d'aqui! Depressa... Não a percas de vista!... Que seja vigiada dia e noite... 

-- Sim, excellencia! 

-- Nada tens a ver com ella, entendes?! Pode proceder como quizer mas de forma que eu o saiba! 

-- Sim, excellencia! 

-- Vae! 

N'este momento o joven sahia o portão e o creado, um velhaquete, já ia no seu seguimento, murmurando: 

-- Oh! É uma conquista de s. ex.ª. 

D. Mipuel, entrava de novo na sala de jantar e seniou-se tranquillamente ao lado da filha que dizia: 

-- Quem era, meu pae? 

- Oh! Uma rapariga que desejava certa mercê! 

- Vós lh'a fizesteis, não e assim? 

O governador baixou a cabeça e replicou: 

-- Filha, ha mercês que se não podem fazer... 

-- Tratava se de algum dos conspiradores? interrogou de novo. 

Elle accenou afectuosamente e a joven disse: 

-- Que pena eu tenho d'elles! 

-- Tu tambem, filha?! 

-- Eu e todas as minhas amigas ... Outro dia a Souto d'El-rei, chorou... 

-- Ah! 

-- Sim... Diz que era muito bom o general Gomes Freire... Meu pae, elle é nosso parente! 

D. Miguel ergueu-se d'um pulo e bradou: 

-- O parentesco acaba onde começa a traição ao rei e á patria! 

-- Mas... 

-- Cala-te, filha... pediu elle, sentando-se de novo. 

O resto do jantar passou se em silencio. 

Parecia que uma grande desgraça separava os membros d'aquella familia ha pouco tão feliz. 

D. Miguel de Forjaz, quando se levantou de dar as graças a Deus, teve um estremecimento. 

Ao recolher-se ao seu gabinete, balbuciou: 

-- Mas que tenho eu?! Oh! não creio em pragas! 

Mas sem saber porque lembrou-se do bispo do Algarve, paralytico e sem fala, após o poderio. 







XXV 



Traidores á patria 





O tenente coronel inglez Waddock, viu partir a toda a brida a caleça do governador, após as palavras é que lhe ouvira, aquellas palavras tremendas que o tinham deixado perplexo. 

Então, sem saber como, excitado, louco, desceu a eseada e dirigiu-se á prisão do general. Elle dormitava. Era no outomno, já começava o frio. 

As paredes ressumavam agua, estabelecia-se como um fremito cantante no aposento da torre. 

Quando ouviu abrir a porta soergueu se no leito, exclamou: 

-- Quem é? 

-- Amigo... 

-- Ah! sois vós meu caro tenente coronel?... Com mil bombas! 

É bom logo pela manhã encontrar os amigos! 

Levantou-se, veiu para elle de mão estendida. 

Mas Waddock muito pallido, tomado d'um fundo desespero, ancioso e anciado, disse: 

-- Gomes Freire, temos que conversar... 

-- Como sempre, meu amigo, como sempre, desde que os senhores governadores do reino toleram as vossas visitas. Como vol-as agradeço, amigo, como vol-as agradeço e bem assim ao nosso governador! Se não tivessem vindo eu teria morrido d'aborrecimento. Oh! não sabeis ainda o que é este carcere! 

-- Oh! general... Um carcere como todos... 

-- Sim... O mal está só em ser carcere! exclamou elle rapidamente. 

Gomes Freire, aquelle homem que atravessara a vida como um gladiador a esmagar inimigos e a ser um bravo, soltava agora um suspiro de cançasso e confessava ao inglez: 

-- Nunca julguei que me aconteceria tudo isto! 

No rosto do outro havia uma extranha expressão, havia alguma coisa de deseonsolado que o general não via; e em voz tremula, como para dizer alguma coisa, Waddock exclamou: 

-- Desesperaes general?! 

-- E como não desesperar?! 

Mas de repente, com o seu velho brio, n'um esforço, bradou: 

-- E d'ahi não desespero não, amigo meu! Não tenho esse direito! O meu dever é outro... 

Com voz tremula, o inglez disse ainda: 

-- Qual? 

-- O de confundir toda essa gente, o de confundir esses miseraveis... 

Calou-se e ficou uns momentos recolhido; de seguida disse: 

-- Waddock, sabeis se enviaram a sua magestade o meu memorial?! 

Era aquella a pergunta que constantemente lhe acudia aos labios desde que enviara esse memoria?!

O tenente coronel, apenas poude balbuciar: 

-- Foi entregue ao governo por Beresford... 

-- Ah! foi entregue ao governo... N'esse caso bem posso desespesar... 

-- O marechal não tinha poder para enviar elle mesmo esses documentos! 

-- O quê?! Acaso Beresford não exerce uma dictadura. 

-- Só a exerceu quando não era necessario... 

-- Agora... 

-- O governo pediu-lhe o poder e elle entregou lh'o. 

-- Miseraveis! N'um momento que elles julgam terrível... Bem vêdes Waddock que eu tenho um inimigo... 

-- Sim, tendes! 

-- Um grande inimigo... 

-- É verdade. 

-- Mas elle ficava de cabeça baixa sem continuar ao mesmo tempo que o general exclamava: 

-- E não hei-de confundil-o?! Não hei-de mostrar a minha innocencia?! Ah! Acaso devo acceitar um perdão?! 

Waddock d'esea vez fez se pallido, tremeu-Ihe mais a voz, disse: 

-- Não! 

-- Então que fazer?! 

-- Esperar... 

-- Farto de esperar já eu estou, meu amigo... Oh! bem vêdes o que são os meus dias e as minhas noutes, de que horrores ellas são tomadas, de quantas dores, de quantas tristezas ellas são compostas... 

-- Ainda um pouco de esperança... 

-- Em quê?! 

Com um sorriso triste, o general perguntou pe novo: 

-- Em quê?! 

-- Nos vossos amigos... 

-- Ah! E que podem elles fazer?! Qual é a sua acção?! 

-- O que podem fazer?! 

-- Não se atrevia a ir até ao fim, balbuciou apenas aquellas palavras d'uma maneira extranha e disse ao cabo de certo tempo: 

-- Podem salvar-vos! 

A maneira como elle disse aquellas palavras chocou Gomes Freire que o olhou e murmurou: 

-- Salvar-me?! São impotentes para o fazer! São impotentes para luctar com o outro! 

D'esta vez o tenente coronel excitou-se, deixou a sua fraqueza, encarou-o com energia! 

-- General! 

-- Amigo! 

-- Sabeis que onde existe uma vontade ferina só ella manda?! 

-- Sei... 

-- Não acreditaes na vontade dos vossos amigos?! 

-- Acredito!

-- Não acreditais na vontade dos vossos amigoa? 

-- N'esse caso paia que desesperar?! 

-- A vontade d'elles pode ser enorme e boa, porém, acima de tudo isso ha tambem a vontade ferina dos outros! Amigos isto é uma velha questão... 

-- Um velho rancor... 

Com o seu sorriso triste, Gomes Freire disse: 

-- Peccados da mocidade! 

Mais do que nunca se lembrava do que fôra, mais do que nunca recordava essas scenas terriveis do seu passado em que degladiara os rivaes, em que se tornou grande e em que por amor muito soffrera. 

-- Chegamos ao epilogo... 

-- Triste epilogo... Ah! Se eu fosse ainda o mesmo... 

-- Acaso não sois?! interrogou no mesmo tom energico. 

-- Não! 

-- Porque, general?! 

-- Porque o povo vê em mim um miseravel! 

-- Ali! Mostrareis pois que não o sois! 

-- Pois sim! Mas tanto luctei para que elle acreditasse em mim... 

-- Chegacs ao desalento?! 

-- Por Deus, não! 

-- N'esse caso, eseutae-me... 

Parecia que finalmente o inglez ia desabafar, parecia-lhe que ia dizer-lhe alguma cousa que o prcoccupava e no emtanto conservava se calado, conservava-se da mesma apprehensao da qual o tirou o general ao dizer: 

-- Que tendes a dizer?! 

-- Muitas coisas... 

-- Falae... 

-- General... Se não tivesseis outra salvação senão na fuga, acceita-la-hias?! interrogou de chofre. 

Gomes Freire, muito pallido, ergueu-se e bradou: 

-- Nunca! 

-- Contava com essa resposta! declarou o inglez voltando á sua fleugma. 

-- Um homem nas minhas condições não foge! 

-- Tambem contava com essas palavras e mesmo desejava ouvil-as da vossa bocca... 

-- Amigo... 

-- Sim, desejava não só ouvil-as, começou de novo com um grande censo pratico. Mas tambem que m'as explicasseis! 

-- Não tem outra explicação do que esta: Estou innocente! 

-- É necessario proval-o! declarou desassombradamente. 

-- Proval-o-hei! 

-- Como?! Aqui encerrado, escrevendo memorias que não são entregues, amarrado de pés e mãos emquanto os vossos inimigos têem liberdade de acção! perguntou elle. 

-- Waddock! 

-- Sim... Chegou o momento de falarmos como dois amigos! 

-- Mas sempre falamos! 

-- Nem sempre... 

-- O que?! 

-- Da vossa parte é a natural reserva para com um estrangeiro, para com um inglez no qual deveis ver um inimigo. 

-- Não! mesmo esse Beresford apenas vejo um militar compadecido d'outro militar! 

-- Vós sois aqui um preso, eu sou o official do presidio! 

-- Do qual só tenho recebido favores!... Bem sei, amigo, que são os outros, esses esbirros collocados aqui pela intendencia, que exercem a sua acção contra mim! 

-- Ah! Quereis dizer que absolutamente confiaes em mim?! 

-- Sim! 

-- Muito em absoluto?! 

-- Oh! Sim! 

-- Dae-me a vossa mão e escutae, tornou elle. 

Com um sobresalto, Gomes Freire, estendeu lhe a mão e o outro continuou: 

-- Comprehendeis que as vossas memorias não são entregues, que não podem sahir do reino por forma alguma... 

-- Ah! 

-- Sim... É esta a verdade, a terrivel verdade! 

-- Mas... 

-- Escutae, meu amigo... E esta verdade é tanto peor quanto é certo que contra vós se trama ainda uma mais negra traição... 

-- Qual?! 

-- Breve a saberei?... 

-- Dizei, tudo! 

-- É cedo para isso... declarou no mesmo tom. 

-- Mas Waddock, o que se passa?! Eu estou aqui encerrado, não sei cousa alguma... 

-- Sabereis tudo... Mas primeiro ouvi-me. 

-- Ouço-vos! 

-- Deveis saihr d'aqui e ir ao Rio de Janeiro... 

-- Eu?! 

-- Sim... Deveis ir ao Rio de Janeiro e apresentar vos ao rei de cabeça levantada, deveis narrar-lhe todas as infamias de que sois victima e a coberto de sua pessoa soUicitar um tribunal militar que vos julgará! 

-- Waddock! 

-- Meu amigo... É isto... 

-- Mas acaso eu posso fazer isso?! 

-- Podeis! Ou antes deveis fazei o, por iJeus I É o vosso nome glorioso que vos impõe esse dever. 

-- Não! Seria um rebelde a valer! 

-- Rebelde! 

-- Decerto! 

-- Não ha rebeldia onde ha uma defeza legitima! 

- Oh! 

-- Sim, Gomes Freire, deveis correr ao encontro do rei! 

-- Não! 

-- Porque?! 

Travava-se entre elles uma lucta de generosidade. 

O general ao cabo de certo tempo, levado por um singular impulso, no desejo de vêr ate onde as cousas chegariam, bradou: 

-- Mas meu amigo, dizei-me: E que faria eu no Rio?! 

-- Obterieis uma audiencia de D. João VI. 

-- E n'essa audiencia?! 

-- Dir lhe heis tudo! 

-- Ah! Sim... Comprehendo! 

-- Comprehendeis, emfim?! bradou muito cheio d'alegria. 

-- Sim, comprehendo! 

-- Ah! meu amigo! 

Mas o general d'uma maneira grave, quasi severa, exclamou: 

- Comprehendo! Eu chegaria ao rei e dir lhe-hia: 

«Senhor, sou o general Gomes Freire, aquelle general que V. M. conhece, aquelle general que esteve na Russia e que andou com os francezes por ordem do governo portuguez, d'esse governo que V. M. deixou no reino... sou eu, que venho humildemente, aos pés de V. M. dizer-vos que me accusaram d'alta traição?! E eu, meu senhor, em vez de esperar que a justiça se pronunciasse, fugi da torre de S. Julião da Barra e corri ao Brazil a justificar-me!... Isto, meu senhor, tem muito maior desculpa do 

que d'um acto nobre, porém V. M. comprehende quanto eu devia luctar... E o rei, meu amigo, voltava- se para mim, dizia: Gomes Freire, eu te perdoo em nome dos teus feitos! Para alguma coisa elles serviriam!... 

Tinha uma terrivel impressão no rosto e berrava: 

-- Era isso o que eu não quero fazer, meu amigo! mas ainda que o quizesse não sahiria jamais d'esta torre maldita! 

-- Não sahireis?! interrogou o outro em voz sumida. 

- Não! 

-- E porquê?! 

-- Sou muito vigiado... 

-- Gomes Freire, sabeis que sou vosso amigo! 

-- Quereis dizer?! 

-- Que tenho ali uma farda d'fficial inglez, que tenho ali um barco fretado, que parte ao alvorecer d'amanhã um navio para o Brazil! 

-- Amigo! 

-- Sim... Quero dizer que vestireis essa farda, que tomareis esse bote e estareis salvo! 

-- Nunca!

-- Ah! 

-- Nunca! Que grande cobardia! Que tremenda cobardia! 

-- General... 

Foi com lagrimas na voz que o inglez supplicou: 

-- General! Fugi! 

-- Não! Não quero que me julguem culpado! Só os que teem medo fogem! 

-- Ah! 

-- Eu nunca voltei as costas ao inimigo! 

--Quando tinheis os braços livres e a espada! 

-Sim! 

-- Mas hoje! 

-- Hoje! Antes quero esperar! Agradeço-vos. 

Ao dizer aquellas palavras cahiu-lhe nos braços. 

Ambos soluçavam, ambos se viam agora bem unidos por uma enorme amisade. 

Parecia que no fundo das suas almas esse affecto tomava um enorme vulto. 

Instinctivamente olharam-se, Gomes Freire, bradou: 

-- Tu és bom! 

-- Tu és innocente, disse o tenente coronel, accrescentando logo: 

-- Ah! Vem commigo! Parte que eu respondo por tudo! Não é uma traição, e uma justiça! Campbell, sabe tudo! 

-- O que?! O governador! 

-- Sim, elle! 

-- Ah! Meus amigos... 

-- Acceitaes? 

-- E são os estrangeiros que buscam salvar-me! murmurou cada vez mais peturbado. 

-- Acceitas?! 

-- Não... Ainda é cedo! 

- Cedo?! 

Elle estremeceu ao pronunciar aquella palavra e encarou mais uma vez o amigo que dizia arrebatado: 

-- Meu pobre D. Pedro, meu pobre marquez d'Alorna, se tu os ouvisses, se fosse no nosso tempo, que grandes proezas teriamos praticado! 

Enxugou os olhos e como consolado, o exclamou: 

-- Amigo! Agora acredito na salvação. Acredito n'ella, por vós... Sim vós m'a dareis!

No rosto d'Woddock, passou uma nuvem curvou a cabeça e balbuciou: 

-- Só Deus sabe se te podemos salvar, por outro modo a não ser este de fuga! 

-- Porque?! gritou o general, fazendo livido. 

Cavamente, lentamente, o inglez respondeu: 

-- O tribunal reuniu hoje! 





XXVI 



Más novas 





Pela noute velha, tarde e más horas, entrou no pateo da fortaleza, a cabeça do governador. Uma sentinella cerrou a arma diante d'ella: 

-- Quem vem lá! 

Mas ao reconhecer o governador, apresentou a arma, calou o brado de contiaencia, diante d'um signal que elle lhe fez. 

E Archibald Campbell muito á pressa, dirigiu se para as bandas da secretaria onde brilhava uma luz. 

Bateu levemente na vidraça; Waddock que o esperava, ergueu-se d'um salto, correu a abrir a porta: 

-- Coronel! exclamou em voz commovida. 

-- Amigo meu!... 

Entraram; o governador cerrou as janellas, olhou o outro. 

Assim face a face mal se atreviam a falar. 

Só ao fim d'um quarto d'hora, muito a medo, Waddock, perguntou: 

-- O tribunal reuniu? 

Com desalento, Archibald Campbell, deixou se cahir n'uma cadeira, estendeu-lhe um papel que o outro leu soíFregamente em voz baixa; para dizer depois em voz alta: «Por tanto e mais dos autos hai por bem desautorados e privados de todos os privilegios, honras, dignidades de que gosavam n'este reino, de que igualmente hão por desnacionalisados os réus: José Joaquim Pinto da Silva, José Campello de Miranda, José Ribeiro Pinto, Manoel Monteiro de Carvalho, Henrique José Garcia de Moraes, José Franciseo das Neves, e Antonio Cabral Calheiros Furtado e Sousa que se constituiram réus do horrorosissimo crime de Lesa Magestade, de primeira cabeça e alta traição, classificado no paragrapho 5.° do titulo 6 da Ordenação, do livro 5.° e por isso incursos nas penas que lhe são impostas pela mesma ordenação no § 9, os condemnam a que com baraço e pregão sejam levados ás forcas que se hão de levantar no Campo de Sant'Anna e n'ellas padeçam morte de garrote para sempre; e depois de decepadas as cabeças sejam com os seus corpos, tudo reduzido pelo fogo a cinzas, que serão lançadas ao mar!» 

Quando acabou de lêr estas palavras, Waddock, coberto d'um suor frio, balbuciou! 

-- Que infames! 

-- Amigo... É a pena para o crime de lesa magestade... 

-- E quem são os miseraveis que assignam isto?! 

-- Homens que temem o governo ou se deixam ludibriar por elle! 

Muito pertubado, o outro leu o nome dos juizes: 

«Gomes Ribeiro, Leite, Vclasques, Girão, Araujo, Saraiva. 

Soltou uma gargalhada nervosa, gritou: 

-- Só um teve a coragem de assignar o nome inteiro. 

Ao mesmo tempo passava os olhos pelo documento e continuava a lêr: 

«E outro sim condemnam em confiseação e pcrdimcnto dos bens para o Fiseo e camara Real, em aftectiva reversão, e incorporação na corôa das de Morgado, tendo de Foro, constitumdo esses bens que sahissem da mesma corôa, no caso de as haver.» 

-- Ah! o confisco... Querem enriquecer! exclamou irado. 

Campbell disse então a meia voz: 

-- E esses pobres Pedro Figueiró, o coronel Monteiro, Manuel 

Ignacio de Figueiredo, e Maximiliano Dias Ribeiro, tambem são condemnados á forca perdoando lhes no emtanto o lançamento das cinzas ao mar... 

-- Ha outros que vão degredados... Cá estão: 

«Francisco Antonio de Souza a degredo perpetuo para Angola, Pinto da Fonseca Neves com dez annos de degredo para Moçambique, Franscisco Leite Sodré da Gama, a cinco para Angola.» 

Depois, com certa satisfação, disse: 

-- Ah! Não falam de Gomes Freire e apenas condemnam na expulsão do reino o barão d'Eben! 

-- Não te illudas, disse de repente o governador. 

-- O que?! 

-- Sim, não te illudas! Não falam de Gomes Freire, dizes... 

-- Porque lhe perdoam! Porque não lhe acham culpa! 

-- Esta sentença ainda não é publica! 

-- Não?! 

-- O marechal a sollicitou para mim! 

-- Mas não extranhas que não falem do general? 

-- Não! 

-- Meu amigo, que fazer?! 

-- Já lhe falastes na liberdade?! 

-- Já! 

-- E então! 

Com desalento, disse a meia voz: 

-- Recusou! 

-- Desgraçado! 

-- Sim, recusou... Eu expliquei-lhe tudo! 

-- Falaste-lhe de mim?! 

- Sim! 

-- Que alma a d'esse militar! Que grande general! 

-- Admiral-o?! 

-- Muito! 

-- Archibald, disse então o outro com a mesma energia. E se o salvassemos mesmo contra sua vontade? 

-- É possivel?! 

-- É facil! 

-- Como?! 

-- Iremos tomal-o á prisão, leval-o-hemos comnosco... 

-- Oh! Recusará sempre. Devemos antes aguardar a sentença! ou o absolvem e então será livre ou o condemnam... 

-- E n'esse caso?! interrogou cheio de anciedade. 

-- Devemos salval-o atravez de tudo! 

--Ah! Sim! 

-- Dei ordem em Lisboa para que uma ordenança viesse trazer-me noticias que por ventura soubesse! 

-- Preveniste tudo?! 

-Sim! 

-- Agora podemos falar a Gomes Freire! 

-- Sim! 

Abafaram-se nas suas capas, desceram para a prisão. 

Detraz d'uma peça, um vulto espionava-os, viu-os descer e ficou do alto a velos sumirem-se no carcere. 

Então correu para o alto da fortaleza e accendeu uma luz. Ouviu-se um bater de remos na agua e um barco affastar-se para as bandas de Oeiras. 

Era o encarregado de vigiar a Gomes Freire, por parte da intendencia que trocava um signal com os do governo. 

Entretanto, os inglezes entravam na prisão, olhavam o general que acordava sobresaltado e diziam ao mesmo tempo: 

-- Sabias o que se passa?! 

-- Não! 

-- Já sahiu a sentença! 

-- Ah! Sou condemnado?! exclamou sem um desfallecimento. 

-- Nem de ti falam! 

-- Ah! 

E não ficou alegre; teve apenas uma ligeira impressão e perguntou logo á pressa: 

-- E os outros?! 

-- Condemnados!

-- Todos! 

-- Sim! 

-- Á morte!... 

-- Uns á morte, outros ao degredo! 

-- Oh! Pobres homens... Mas que extranha revolução foi essa, que terrivel brincadeira... 

-- São condemnados e sem apello! Os bens confiscados... 

-- Miseraveis! 

Então ergueu-se na cama e bradou: 

-- De mim não falam?! 

-- Não?! 

-- Mentis! 

-- Não... não! 

-- Ah! Sois muito meus amigos! lhes disse. 

-- Juro-te! bradaram a um tempo. 

Com um extranho modo, Gomes Freire exclamou: 

-- Ouço os vossos juramentos e não vos acredito! 

- Mas porque?! 

Elle com a sua velha ironia, volveu: 

-- Tratando-se do confisco de bens, meu primo não me esqueceria! 

Elles, muito pallidos, interrogaram: 

-- Queres dizer?! 

-- Que mais tarde os parentes dos réus herdarão! 

-- Gomes Freire isso seria vil! 

-- Vil! Ah! E o que é essa gente?! 

Depois, acalmando se mais, balbuciou: 

-- Não creio, amigo, não creio que me perdoassem, menos creio que me esquecessem... Ahi ha sem duvida uma infamia maior! 

-- É possivel! 

-- Acreditaes tambem em verdade, não é assim?! 

-- Sim... 

-- Pois bem... Então esperae e vereis! 

-- Esperar?! exclamou Campbell. Ah! Não podemos esperar... 

-- Porque?! Que queres fazer?! interrogou logo o general. 

-- Quero salvar-te! 

Com um sorriso, Gomes Freire, disse: 

-- És louco... Se nem sequer falam de mim... -- Ouve-me... 

-- Bem sei... bem sei, disse em tom commovido. Sois bem generosos ambos... 

-- Não... Somos apenas justos! 

-- Aguardae então a obra da justiça, esperae a augusta decisão do tribunal! 

E riu ironico e terrivel, estendeu-lhe os braços, balbuciou: 

-- Adivinho alguma cousa de extranho! 

Poz se a procurar a roupa, dizendo: 

-- Nem ao menos me têem mandado o barbeiro... Oh! meus amigos, como quereria ver ainda a minha espada!

-- General, ainda a usarás! 

Muito baixinho, Gomes Freire, murmurou: 

-- No tumulo... 

Os inglezes, continuaram: 

-- Dentro em pouco el-rei voltará a Portugal... 

-- O rei! 

-- Sim... D. João V!... 

-- E esse tem tudo ruim comsigo.

Terás então o teu verdadeiro logar... 

-- Não acredito! 

-- Beresford vae partir! 

-- O quê?! o marechal vae partir?! exclamou elle. 

-- Sim. Vae para o Brazil; vae dizer ao rei que não tomou parte n'estas infamias! 

-- E quem vos disse isso?! 

-- O proprio marechal! 

-- Hoje? 

-- Ha momentos, deante da sentença! 

Gomes Freire, pediu então com grande interesse: 

-- Deixa-me ver a sentença! Quero lel-a! 

Entregaram-lh'a. A cada nome que lia, dizia: 

-- Mas nunca ouvi falar n'esia gente... Coitados! Que crime o seu! Não os conheço! 

Quando chegou ao fim soltou um grito d'alegria e bradou! 

-- Ah! Deus é bom... Salvou-o!... Ohl meu pobre Frederico? Eu serei salvo tambem! 

Archibald, olhou-o docemente e disse: 

-- O barão d'Eben foi salvo porque e estrangeiro! É prussiano e a sua morte seria uma complicação para esse governo que já não tem parecer! 

-- Oh! Não devo então acreditar que me salvarão! 

-- Que te salvaremos, sim! bradou o governador. 

-- Pela fuga? 

-- Sim... Bem ves que é o unico meio! 

-- E eu no momento em que tal succedcr, gritarei que atraiçoaes o vosso dever! 

Era enorme ao falar assim; encarava-os com audacia e elles apenas exclamavam: 

-- Gomes Freire! 

-- Sim, por Deus, mais uma vez vos digo que faltaes ao vosso dever! Eu poderia ver morrer um irmão! 

-- Oh! 

--Sim... Como soldado só vejo o meu dever! Elle manda-me ficar, eu fico... A vós, mandavos guardar-me... Pelo diabo! Guardae-me! 

Falava d'uma forma em que havia commoção, desalento, desespero, tudo a um tempo; e nos seus olhos tremiam lagrimas agradecidas para a bondade dos amigos. 

Foi Campbell que fallou. 

-- Gomes Freire, tu és um grande soldado e um grande amigo! 

Não queres partir por nós! 

-- O que?! 

-- Sim, exclamou Waddock, tu não queres partir por nossa causa... Eu já sei isso! 

Elle baixou a cabeça e murmurou: 

-- Por vós e por mim... 

-- Mas se queremos! 

-- Perder-vos?! 

-- Oh! não nos perderemos... 

-- Perder-me, então?! interrogou elle com força. 

-- Salvar-te! 

-- Ah! a posteridade o que me chamaria! Eu só para ella luctei, amigos!... 

-- Mas se te condemnarem?! 

-- Morrerei! bradou com firmeza, accrescentando: 

-- Morrerei amortalhado na minha farda, com a cabeça erguida a commandar o fogo que me varar! 

Bateram duas pancadas na porta da prisão. Ouviu se uma voz exclamar: 

-- Senhor governador... É uma ordenança. 

-- Lá vou! 

Campbell sahiu; na sua frente estava um soldado com um despacho. Raiava a manhã. 

Elle leu; levou as mãos á cabeça, ficou mudo com os olhos fixos no papel. 

Lá dentro, o general exclamava ainda: 

-- Sim, morrerei a commandar o fogo que me varar! 

Waddock! exclamou por sua vez o governador, n'um esforço. E para o tenente-coronel que se acercara, elle com mão tremula, estendeu o papel: 

-- Lê! 

Teve que se arrimar á parede, balbuciando: 

-- É impossivel! 

-- É certo! 

-- Ah! E fala o desgraçado em commandar o fogo! 

Soaram as cornetas no toque d'ulvorada. 

Gomes Freire no seu cárcere, sorria, saltava da cama, vestia-se á pressa e dizia: 

-- O toque d'alvorada... Oh! emfim ouço o; começo de novo a ser soldado! 

E n'uma grande alegria, voltava-se para os amigos que entravam de novo no seu cárcere, cabisbaixos, meditabundos. 

Na esplanada as cornetas tocavam sempre e o sol, um pallido sol d'outubro, nascia. 







XXVII 





Um ministro 





Carlota Joaquina, sorriu, encolheu os hombros, balouçou a cadeira de palha e tendo nos olhos vivos uma scentelha do seu temperamento, disse para o conde dos Arcos. 

-- Mas senhor ministro eu vejo avançar sempre a revolução. 

Elle, com um gesto de força, ousado, seguro, bradou: 

-- V. M. bem como el-rei parece não confiar em mim! 

-- Mas senhor. Estamos sobre um vulcão. 

Isto era em 1817, em julho, no jardim do paço no Rio de Janeiro onde ella habitava com D. Miguel, então menino. 

A rainha já tinha cabellos brancos, conservava na face uns restos de frescura e só nos olhos tinha ainda toda a sua belleza de dominio. Andava o Brazil em guerra com Artigas na banda oriental. 

As armas portuguezas tinham obtido victorias sobre o caudilho de gentios e agora a soberana receava mais do que nunca uma revolução em tudo egual á anterior que tivera logar em Pernambuco. 

Mas o conde dos Arcos assegurava lhe a paz e ella, sempre desconfiada, exclamava: 

-- Tudo isso é bom, conde, tudo isso desmentia bem a vossa força; mas deixae que vol-o diga, demostra tambem a vossa falta de censo politico. 

-- Magestade! 

-- Ah! Não me digacs cousa alguma. Eu tenho pratica de governar! 

-- Mas... 

-- Ouvi... 

-- Senhora, falae... 

Gravemente olhava a rainha, agitou os bofes da camisa, enxugou o suor. Um pássaro cantava n'uma ramada. 

-- Pois bem, tornou Carlota Joaquina, julgaes que somos aqui muito queridos?! 

-- Os brazileiros amam os seus soberanos! 

-- Resposta de cortezão, conde!

-- De ministro, magestade! 

-- Oh! Não faleis assim... 

-- E porque?! 

-- Fazeis-me acreditar que cousa alguma vêdes dos negocios! Se é assim que informaes el rei... 

-- El-rei!

-- Quereis dizer no vosso pasmo que jamais o informaes! 

-- Sua magestade, vive tão alheio aos negocios? 

Ella, com o mesmo sorriso velhaco e de dominio, bradou: 

-- Conde dos Arcos! 

-- Senhora!

-- O rei sou eu! 

Como o ministro a olhava cheio de pasmo, ella com um ar de commando, tornou: 

-- Já vol-o disse! O rei sou eu! Sou eu que não durmo, que tenho os meus agentes, que sei tudo! 

--V. M.?!

-- Eu sim... Sempre tive a mania da politica, n'ella creei cabellos brancos! 

-- Senhora... 

-- Todos estes que vêdes, declarou a sorrir. Sim todos estes! Pensae que desde o meu casamento até hoje, jamais tive uma hora de repouso... 

-- Oh! 

-- Sim... Em Portugal, diante da pouca intelligencia de meu marido, fiz-me politica. 

-- Mas... 

-- Quero chegar a um fim, escutae! 

Sorrindo sempre, a rainha accrescentava: 

-- Oh! E que de luctas! Conde, não estou a contar-vos isto por mero prazer! Obedeço a um fim, como vereis! Chamam-me por nomes, odeiam-me! É que me sentem o pulso! Rainha finalmente ao cabo de tantas luctas, não quero deixar de o ser... 

-- Senhora! 

-- Conheço a historia da revolução franceza, volveu ella sempre do mesmo modo. 

-- Porém... 

-- Ouvi, conde! Maria Antonietta não tinha a minha presença d'espirito! A America não é a França, bem sei! Não se cortam cabeças, mas podem expulsar se soberanos! Oh! E eu ter de me acolher á sombra do throno do rei d'Hespanha quando posso reinar, não quero! 

-- Onde V. M. vae... 

-- Vou á razão logica das cousas! 

-- Qual razão?! 

-- É verdade que os senhores governam sem prever. Porém eu!... 

-- V. M... 

-- Eu prevejo! 

-- Mas que prevê V. M.?! interrogou mais uma vez o ministro. 

-- Prevejo que este povo ardente uma vez entrado no caminho da revolução como a que estalou em Pernambuco, jamais deixará de pensar n'uma republica inteiramente egual á que a America do Norte possue e que a governa! 

-- Que dados tem V. M. para asseverar similhante cousa?! 

Pasmado, de pé, muito perturbado, o ministro encarava a soberana deveras excitado: 

--Oh! Eis o que vou dizer-vos. 

Agitou-se mais na cadeira, sofireou um bocejo e continuou: 

-- Ha reuniões secretas no Rio! 

-- É impossivel! 

-- É seguro! 

-- Como o sabeis?! interrogou no auge do pasmo. 

-- Pela minha policia... 

-- Mas... 

-- Sim, conde, sim... Pela minha policia! Senão vede... Ainda não ha ires dias que alguns coroneis se reuniram n'uma casa da rua das Violas! 

- Oh! 

-- Sim... Isto quer dizer alguma coisa! Acautellae-vos! 

-- Mas senhora... 

-- Quereis provas?! 

-- Decerto! 

-- Fazei vigiar essa casa! Bem sei que não se trata d'uma revolução para d'aqui a tres dias... 

-- Então... 

-- É bom prever... Depois basta ver a maneira violenta porque os jornaes falam! Olhae a Matraca. 

-- Mas nós faremos prender toda essa gente. 

Sorriu desdenhosamente e volveu: 

-- Se fosse em Portugal, dir-vos-hia: Conde, estabeleçamos o terror... 

-- E aqui?! 

-- Conde, digo-vos eu, annunciemos o governo! Sejamos um pouco liberaes, deixemos acalmar os animos... 

-- E depois?! 

-- Oh! E depois?! gritou ella erguendo-se d'um salto. Depois a vingança! 

Parecia louca, andava de um lado para o outro na sombra das arvores, affogucada, nervosa, clamando: 

-- Pelo inferno, conde... Eu podia ser hoje imperatriz! 

O conde dos Arcos curvou a cabeça e ella continuou: 

-- Tenho tudo a postos, tenho tudo combinado... As possessões hespanholas receberiam a independencia e por senhora uma princeza hespanhola! Era eu! Eu que governaria na America e seria a maior das soberanas! Tudo me desmancharam e eu ainda não olvidei... São duas vinganças a tirar, podeis dizel-o a el rei!... Uma delle, outra dos que buscam aida cercear mais o meu poder! 

Muito vermelha, de braços cruzados no peito, Carlota Joaquina, atirava as palavras com anciã e batendo o pé, declarava: 

-- E não os pouparei! 

-- Senhora! 

Na voz do ministro havia uma supplica, terno, nos seus olhos um pedido submisso: 

-- Senhora! 

-- Ah! não me conheceis, não! Nem vós, nem elle! 

-- El-rei?! 

-- Sim... El-rei! 

-- Mas reparae... 

-- Apenas reparo que o poder nos foge no Brazil...

-- Nós o tomaremos! 

-- E se fôr tarde?! 

Muito despreoccupado, o ministro declarou. 

-- Resta nos Portugal! 

Carlota Joaquina soltou uma gargalhada retunda e exclamou: 

-- Portugal! 

-- Sim, real senhora?! 

-- Não sabeis então o que se passa em Portugal?! 

O conde dos Arcos, com os olhos dilatados, todo n'um sobresalto, bradou: 

-- O quê?! 

-- Não sabeis então o que tem aífectado profundamente a vida da regencia?! 

-- Não sei?! Oh!

-V. M. deve fazer me a justiça... 

-- De crer que cousa alguma sabeis! 

«Apenas Beresford manda em Portugal! 

Tornou a si e tornou a íixal-o extranhamente: 

-- Que louco! 

-- Senhora! 

-- Bersford não passa d'um espantalho com os seus inglezes! 

-- V. M. affirma... 

-- Affirmo que Beresford é como um papão, apresentado a esse povo de creanças! Em Portugal, governam os meus amigos! Governa sobretudo D. Miguel Forjaz! 

-- Oh! 

-- E sabeis a que elle me diz?! interrogou ella. 

O ministro, pouco a pouco mais pasmado abanou negativamente a cabeça. 

Victoriosa, cheia de dominio, muito aspera, exclamou: 

-- Que rebentaria em Portugal uma revolução se acaso não fosse a sua previdencia! 

-- Ah! mas isso não tem importancia! declarou elle. 

-- Porque o dizeis?! interrogou unicamente. 

-- D. Miguel Forjaz, quer fazer-se valer! 

-- Conde! 

-- Senhora, podeis acreditar... 

-- Já vos disse que D. Miguel é meu amigo?! 

-- Verdade, senhora, mas é esta a minha opinião... 

-- Então os conspiradores presos são uns inventos?! 

-- Mas é tudo gente sem importancia! 

-- Sem importancia?! exclamou a rainha. 

-- Decerto! 

-- E Gomes Freire?! perguntou de repente uma voz. 

Voltaram-se e D. Ramiro de Noronha, o conde d'Alva, já velho, tremulo, mas com um riso pérfido nos labios, apparecia diante d'elles. 

Curvava-se galantemente a beijar a mão á rainha e saudava o ministro, dizendo:

-- Por lá se enturvam os ares, excellencia. E senão vêde como o exercito applaude as revoltas... 

-- O exercito?! 

O pobre conde limpava o suor e balbuciava: 

-- Mas o exercito tem officiaes inglezes e... 

-- Ah! Eu quando falo do exercito, volveu o conde, refiro-me a Gomes Freire e aos seus cumplices... 

-- Gomes Freire?! Mas eu conheci esse homem, vi que era um vassalo fiel... 

D. Ramiro encolheu 'os hombros e com a pupilia accesa n'um terrivel odio, bradou: 

-- Não sabeis que os ares de França toldam as cabeças?! Olhae que esse homem assistiu á morte de Luiz XVI. 

O ministro, sorriu e volveu: 

-- Oh! Como tantos outros, excellencia! 

-- Serviu com o Corso! 

-- Como tantos outros! 

-- Conde! atalhou a rainha n'um berro. 

-- Magestade?! 

-- Dir-se-hia que tambem sois jacobino! 

-- Oh! 

Porém elle sempre com o mesmo rir que gelava, accrescentava: 

-- Que falta de tacto tem esse pobre rei que me concebe em sorte! Até nos degraus do throno encontra quem deseulpe as revoluções armadas contra elle! 

-- Senhora! 

-- Conde dos Arcos: Que posso dizer-vos!? não é verdade que não sabeis o que se passa no Brazil?! 

-- Mas... 

-- É ou não verdade?! Ha pouco eu vos dava informações... 

-- Para mim desconhecidas, confesso! 

-Ah! E agora não desculpaveis os conspiradores! 

-- Senhora! 

Batendo o pé, a rainha, bradou de novo: 

-- Que ministro sois então, senhor conde dos Arcos! 

Como o visse confuso, bateu lhe no hombro, fixou-o, disse-lhe n'outro tom de voz: 

-- Procurae-me mais vezes e acreditae que tenho tambem o meu governo! 

-- Senhora!  

-- Não me faleis em lealdade ao vosso rei, bem sabeis que preparo o throno de meu filho... 

-- Como nós! 

-- Ah! não como vós. Disse ella cerrando os punhos. Não como vós! 

-- Oh! Mas V. M. duvida sempre. 

-- É o fructo da experiencia! E ficae sabendo que hei-de fazer de Miguel um rei! 

-- De S. A.? 

-- Sim! Pois que julgaes?! 

-- Ah! Mas o senhor D. Pedro! 

Sorrindo sempre, ella volveu: 

-- D. Pedro terá o Brazil se vós quizerdes! 

-- Eu?! 

-- Aplacae a revolução e meu filho mais velho enviará alguem, será imperador!... 

-- Oh! Magestade! 

-- Miguel, disse mais uma vez com firmeza, reinará lá em Portugal! 

Admirado, o ministro, 

-- Que deixaes então a el-rei?! 

-- Oh! A el-rei?!... Ainda não pensei n'isso! mas... 

-- Mas?! interrogou ao vel-a sorrir extranhamente. 

-- Terá o meu amor! 

A custo os dois homens poderam conter uma gargalhada e ao cabo d'uns momentos Carlota Joaquina, no mesmo tom lamentou: 

-- Estamos ha tanto tempo apartados! 

Depois, approximandose mais do conde dos Arcos, disse: 

-- Quereis ser o medianeiro entre mim e elle?! 

-- Senhora! 

-- Vamos! 

-- Mas sabeis... 

-- Que el-rei não me pode vêr?! 

-- Não é isso, senhora, disse então o conde d'Alva. Apenas deseja vêr V. M. 

-- Pois dizei lhe, meu amigo, que não lhe farei mal... 

Travessamente, movendo os olhos, dizia: 

-- Sou uma serpente sem veneno! 

Assim com o mesmo ar de desprezo e de ironia, ella, accrescentou: 

-- Oh! Conde, praticae essa boa obra! Dizei-lhe que tenho saudades! 

Com uma gargalhada, affastou-se, subiu a eseada que conduzia ao terraço, 

-- Que mulher! Mas que mulher! murmurava o conde dos Arcos. 

D. Ramiro, acercou-se da rainha e disse-lhe: 

-- A que obedeceis?! 

-- Ao meu plano... 

-- Senhora... Sabeis o que tenho no coração! 

-- Pobre conde, meu pobre conde! Tens o odio a Gomes Freire! 

-- E o amor... 

-- Por mim?! Oh! Sediço o velho amor de muitos annos... 

-- Sempre insatisfeito! 

--Oh! E ainda me chamam uma má mulher! 

Fugiu a rir e o conde com a sua grande colera, ficou-se tambem a murmurar como o ministro: 

-- Que mulher! Que mulher! 

Entretanto Carlota Joaquina, passou a uma sala onde costumava trabalhar e exclamou: 

-- O que eu seria se me ajudassem!... Mas quem?! Quero?! Talvez um revolucionario! 

E como Maria Antonietta, a mulher de D. João VI, sonhava amores com um jacobino, ali na sala do paço muito cheia d'indignação, muito excitada. 

-- O que eu seria! 

Uma voz occulta lhe dizia no emtanto que eila seria um flagello eterno. 









XXVIII 



Ainda um ministro 





D. João VI, levantou se e surveu uma pitada. 

O rei estava mais alliviado depois da oração. 

Era um pobre homem, d'aspecto vulgar, era um obeso, um adiposo. Já tinha cabellos brancos e tinha tambem na face as rugas dos annos. Crescia- 

lhe a papeira, luzia-lhe o rosto. 

Agora com a outra pitada suspensa, sorvendo a primeira com delicia, o soberano, sentava-se de novo. 

Foi n'este momento que a porta se abriu com estrondo. 

Deu um pulo, subiu lhe um grande calor de medo. 

Mas á porta, perfilado, grave, estava um creado: 

-- É S. ex.ª o senhor conde dos Arcos! 

Em voz roufenha e tremula, o rei, bradou: 

-- Oh! Que entre... Que entre... E tu nunca mais abras assim as portas. 

Suspirou, ficou á espera do conde, tomado de vesivel mau humor. 

-- Real senhor! 

-- Ah! és tu?! 

Açodadamente perguntou: 

-- Que tens?! Que te traz?! Não é a hora do conselho?! 

-- Nem mesmo o dia! 

-- Temos novidades?! 

-- Ah! Não, real senhor! 

-- Não ha nada de novo?! 

Muito tremulo fazia todas aquellas interrogações e por fim exclamava ante as negativas do ministro. 

-- É que não tenho um momento de socego! 

-- Serenae, meu senhor! 

-- Serenar?! Não desejo outra coisa... Nunca desejei mesmo... 

É terrivel, isto de governar povos!... 

-- Oh! Meu senhor... Mas bem vêdes que reina uma grande tranquillidade! 

-- Pois sim! Mas dou-me mal agora. O clima, está quente... Ah! Os meus bons frades! Ah! a minha Mafra! 

-- Senhor... Mas porque não volta V. M. a Portugal. 

Deu um pulo na cadeira e exclamou: 

-- A Portugal?! 

-- Porque não?! 

-- Ah! e todas essas revoluções?! 

-- Já vos disse, meu senhor, que são cousas sem valor! 

-- Conde... Para outro serão, para mim nunca! 

-- Mas V. M. tem talvez um meio de se aquietar: 

-- Qual?! 

-- A abdicação, disse decididamente o conde. 

Vinha-lhe de repente aquella ideia, n'um certo fim politico. 

-- Oh! 

-- Sim, a abdicação?! 

-- Com quem?! 

-- No principe D. Pedro! 

-- E o Brazil dar-me-hia semelhante licença?! 

-- Decerto! 

-- Ah! Então eu poderia repousar, poderia dormir á sombra sem receio.... Ah! sem receio, não! Estamos sobre um paiol a que não chegou o rastilho... 

Muito aborrecido, exclamou: 

-- Conde, sabes qual era o meu grande prazer?! 

-- Não, meu senhor! 

-- Ter nascido um simples fidalgo e tomar ordens! 

E o labio gordo do rei tremia de medo. 

--Jamais um rei que foi tão infeliz!... Ah! E ainda nos invejam! Eu, conde, nem familia tenho! 

O pobre rei fazia dó com a sua carantonha gorda e feia, com a sua cobardia e com os seus tormentos. 

Então o conde, lembrando-se a súbitas das palavras da rainha, murmurou: 

-- Tudo tem remedio! 

-- Remedio?! 

-- Sim, meu senhor... 

-- Mas qual?! 

-- O mais simples, disse elle no mesmo tom. 

-- Mas qual?! interrogou de novo D. João VI. 

-- Porque não vos dirigis a S. M... 

-- Á rainha?! 

No rosto do pobre homem mais do que nunca o terror, lia-se chapado o medo, parecia que lhe tinham aconselhado atirar-se ás cegas para um brazeiro. Revolvia-se, balbuciava: 

--Oh! Não... Não... 

-- Porque, meu senhor?!... Tereis a vida de familia! 

-- E julgas que não aprecio! 

-- N'esse caso... 

-- Pois sim... Mas immediatamente a nação, toda essa gente começa a clamar! 

-- Contra V. M.?! 

-- Sim, eu bem sei... Começam por dizer que a rainha governa... E assim tenho andado desde que me casei, sendo o ludribio, sendo o mandado pelo povo! É demais... 

-- Meu senhor... Ninguem poderia dizer isso... 

-- Ah! Vereis, se por acaso tal succedesse... 

-- Veria?! V. M. teria então abdicado! 

-- É possivel, sim... 

Mas logo, com desalento, disse: 

-- E ella?!... 

-- S. M. 

-- Sim... Ella... 

-- Não desejo outra cousa! bradou o ministro. 

Cheio de contentamento, D. João VI, esclamou: 

-- Isso e certo?! 

-- Sim, meu senhor?! 

-- Receber-me-ha de bom agrado?! perguntou ainda desconfiado. 

-- Sim, meu senhor! 

-- Ah! Conde, deixa me só! Quero pensar! 

-- Meu senhor... Pensae e dizei-me tudo! 

-- Ouve... ouve... Não ha complicações no reino... 

-- Em Portugal?! 

-- Sim! 

-- Tudo caminha bem... 

-- E os pedreiros livres! 

-- Quasi exterminados... 

-- Que os matem... Que os matem! 

O conde dos Arcos, com um ar desolado, murmurou: 

-- Meu senhor, sabeis que Gomes Freire está preso?! 

-- Gomes Freire!... Quem é? Quem é?! 

O conde sentiu então um grande pesar por esse monarcha que era a unica pessoa nos seus estados que ignorava o nome do general. 

-- Senhor, tornou elle, é um official que fez serviço na Russia. 

-- E está preso?! Olha, conde, que fez elle? 

-- Accusam-no de conspirador, mas... 

O rei, com um gesto de colera, exclamou: 

-- Ah! É heroe... Ah! chamas-lhe heroe! Olha, conde, vae-te. 

-- Senhor... 

-- Vae-te... Eu quero pensar no teu plano acerca da revolta! 

O ministro sahiu muito preoccupado e D. João VI, sentando-se na cadeira começou a lembrar se de Carlota Joaquina. 

Aquelle seu passado de ternura e de amor, aquElle desejo que lhe ficara bem vincado, bem palpitante na carne flaccida, ainda o dominava. 

Tinha medo d'ella e ao mesmo tempo sentia para ella uma attração, desejava rcpellil-a e queria unil-a ao peito. 

E passava na memoria todas as suas caricias, todos os seus beijos. 

Cahia a tarde, uma tarde quente do Brazil, ele sentia-se enlouquecido e sentia um desejo louco de a ver, desde que o ministro lh'a recordara. E então, elle João VI, gordo, adiposo, sentiu em si o namorado dos vinte annos, sentiu-se capaz de a querer de novo ao cabo de tantos annos de separação. Ao mesmo tempo queria guardar um certo mysterio, uma enorme reserva, desejava partir com o ministro e ir encontrar-se com a mulher. 

Assim ficou embevecido até á noute... 

Quando o chamaram para a ceia, exclamou: 

-- Que venha o conde dos Arcos! 

E comia, comia vorazmente, gulosamente, um pedaço de frangão, e dizia ao ver o ministro. 

-- Quero falar te! 

Atirou ás gucllas um copo de vinho e fez um signal aos creados para que sahissem. Então, a sós com o ministro, limpando a bocca ao guardanapo, muito á pressa, ergueu-se e disse: 

-- Vamos! 

-- Onde vae, senhor? 

-- Vamos ao encontro da rainha! 

-- Ah! 

Ficou surprehendido, baixou a cabeça e não se atreveu a recuar desde que o rei bradou: 

-- Será uma bella surpriza! Vamos! 

Deitou um olhar ao espelho e afivellou a espada. 

O conde olhou-o pasmado sem o reconhecer. 

-- Vamos... 

E dizia sempre alegre: 

-- Ah! meu amigo, nunca me senti assim! 

-- V. M. parece ter remoçado! exclamou o outro. 

-- Meu amigo, para mim no mundo não ha senão aquella mulher! 

-- É linda! disse o ministro para dizer alguma cousa. 

E o rei, por sua vez, de beiço cabido, reílectiu: 

- É linda! 

Esteve uns momentos calado e depois tornou: 

-- Como serei recebido? 

-- Com o amor que mereceis! 

-- Falaste-lhe? 

-- Sim, meu senhor... 

-- Quando?! 

-- Hoje! 

-- Estava no paço?! 

-- Sim, meu senhor! 

-- E que vestido trazia? 

-- Um claro! 

-- Oh! Devia ficar lhe bem... 

-- Muito bem. 

-- Vamos, conde, quero vel-a... Tenho necessidade de a ver! 

-- Ás ordens de V. M, 

Sahiram bem embuçados, foram a pé para as bandas do pallacio de Carlota Joaquina. 

Á entrada, o conde acercou-se da sentinella: 

-- Conheces-me?! 

-- Sim, excellencia! 

-- Vou falar a sua magestade. 

A sentinella apresentou armas e o ministro deixando que o rei se-lhe appoiasse no braço conduziu-o para a sala d'entrada. 

Um creado, ao vel-o curvou-se; elle interrogou: 

-- Sua magestade? 

-- Nos seus aposentos! 

E levantou um reposteiro a dar-lhe passagem para a ante-camara, onde a aia de serviço, bradou: 

-- Vós?! 

-- Sim, eu... 

O rei continuava embuçado e tremulo, o ministro perguntava de novo. 

-- Sua magestade? 

-- Precisaes falár-lhe? 

- Sim! 

-- Não sei se poderá receber-vos!... volveu ella com um sorriso equivoco. 

D. João VI tremia cada vez mais, appoiado ao ministro e buscava acercar-se da porta que deitava para o quarto da rainha. 

A aia deixava o ministro e dirigia se para o aposento de Carlota Joaquina. Mas D. João VI impaciente ia tambem em seu seguimento á medida que ella abria a porta do gabinete de toilette. 

-- Real senhora! exclamou a dama. 

Lá dentro nem uma resposta, apenas um ruido de falas mansas, doces. 

-- Real senhora! 

A porta estava entreaberta e a rainha perguntava: 

-- Quem é? 

D João VI, d'um salto, desembuçando-se affastou a aia e gritou: 

-- Sou eu, Carlota! Sou eu! 

A dama d'honor soltou um grito e o rei recuou pasmado. 

Carlota Joaquina estava no seu leito e tinha a seu lado o conde d'Alva. 

-- Ah! 

O pobre rei cahiu desamparado n'uma cadeira no gabinete e o ministro, muito vermelho; segurava o e dizia: 

-- Meu senhor! 

Deitou-lhe um olhar d'odio, de raiva, de colera. 

De dentro, a voz de Carlota Joaquina dizia: 

-- Que ministro? Ah! Por isso o estado não caminha! 

D. João VI fugia espavorido, com as carnes flácidas n'um tremor. (*) 





<num="*" pag=509> Este capitulo se não é rigorosameute hisorico, pertence ás innumeras anecdotas que na tradição ficaram acerca de Carlota Joaquina. 









XXIX 



Uma supplica 





Passava-se um dia inteiro sem que o governador e sem que o tenente-coronel entrassem no calabouço. 

Já ia adeantada a noute e Gomes Freire não socegava. 

Sentia n'aquelle isolamento uma terrivel anciã, o maximo do desespero. 

No fundo não comprehendia como o abandonavam após tantas promessas. O proprio carcereiro ao entrar com a comida mal o olhava e o desditoso perguntava a si proprio o mal que fizera novamente para assim o votarem áquelle terrivel abandono. 

Sem duvida tinham inventado alguma cousa nova a seu respeito. 

Mas de repente cobriu se de um suor frio. Julgou ter adivinhado tudo o que se passava. 

Naturalmente, o governo comprehendeu quanto os outros o estimavam e vingava-se roubando lhe semelhantes affeições. 

Abafou um gemido e sentiu-se desditoso. O mar batia nas muralhas. 

Já de maneira alguma podia socegar; pensava mil cousas, erguia-se do leito e entrava a passear pela casa. 

E via bem que do outro, d'esse primo outr'ora seu inimigo apesar de todas as cortinas, devia partir todo o mal que lhe tinham feito. Se não fosse assim sem duvida o tratariam melhor, dar-lhe-hiam as honras a que tinha direito. 

No meio do desespero, louco, ancioso, o general já não reflectia. 

Apossava-se d'el!e uma terrível colera, fechava as mãos n'um gesto de raiva e exclamava: 

-- Ah! Miseraveis... Miseraveis! 

Depois, mal contendo os soluços deirava-se cahir sobre o catre. 

Em cima, na plataforma da fortaleza andavam os soldados n'um festim por essa noute d'outubro antes de recolher. 

E sentia sempre em cima os folgares da soldadesca antes do recolher que lhe traziam recordações d'acampa'nentos ao luar em vesperas de batalhas por essa Europa nas margens dos rios largos da Prussia no meio dos gelos da Russia, nas paysagens quentes d'Hespanha onde os penachos das tropas republicanas, penachos vermelhos, eram grito d'alarme, de liberdade, de revolta. 

Jamais os pudera vêr sem um anciedade, jamais pudera assistir a uma d'essas batalhas com os soldados da revolução sem que no intimo do seu peito tivesse uma dôr. 

O passado mais do que nunca lhe apparecia e elle murmurava: 

-- Se tudo pudesse voltar! 

Mas era impossivel. Recordava bem a paz que a Europa assignalava e ao mesmo tempo estremecia ao recordar-se dos vislumbres de revolta que notava nos povos. 

Tinha como a previdencia de futuras luctas. 

Mas agora, elle via que já não podia ser povos contra povos mas sim nações a vingarem-se em luctas fraticidas. 

Aquelle velho espirito gaulez, espirito de liberdade, jazia no fundo de todos os povos, estava a germinar como uma semente que o vento revolucionário levava airavez os paizes que Napoleão como um destruidor assolara; praticando inconscientemente uma transformação nas ideas. 

Todos aquelles soldados que morriam pelo imperador, eram velhos republicanos que no corso admiravam o filho da revolução legendario e instrumento de Deus que queria fazer caminhar o mundo. 

Morria-se com o nome do imperador nos labios mas ao mesmo tempo os olhos erguiam se para aquella bandeira tricolor, a bandeira da republica que só tinha a mais uma águia como a indicar que activamente a revolução voaria por esses mundos fóra. 

O corso baqueara; mas a sua obra ficara imponente e augusta embora sem intenção. 

E agora os povos com essa semente nas almas, bebendo o credo escutado á soldadesca invasora e apprendiJo nos encyclopedistas, já não podiam supportar jugos, já queriam leis a anniquilarem os restos do despotismo. 

O general, sentia-se invadir por um enorme desalento, sentia uma dor mais aguda e uma deserença em si. 

Ah! se elle pudesse estar no meio d'esses povos no dia de luz!

Pela primeira vez, após tantas vicessitudes, elle sentia o desejo de liberdade. 

Preso, buscava sahir e via que nas nações havia a necessidade de se quebrar as algemas. 

Por isso elle meditava e por isso se enraivecia diante da injustiça de que era victima. 

Deixava pender a cabeça para a almofada. 

Soava uma corneta no íoque de recolher. 

Depois tudo se calava como por milagre. 

E elle, sósinho, já sem ter o ruido a distrahil-o, pensava mais, sempre mais acabava por não poder socegar. 

Advinhava cousas enormemente terríveis. 

Sentia uma funda saudade dos amigos e perguntava a si mesmo se elles não voltariam. 

De certo não voltariam porque do contrario já o teriam feito. 

Naturalmente fora exercida sobre elle uma cruel vingança. 

E isto no momento em que se sentia velho, sem alento, no fim da sua carreira quando devia ter uma existencia de relíquia no fundo da sua casa de provincia, a recordar. 

Bastava-lhe só a liberdade! 

Mais do que nunca a annuciava embora não sentisse fremitos de receio além no seu carcere. 

A noute ia decorrendo elle sentia-se vacillar. Era necessario repousar por uns momentos. 

Foi encostar-se de novo sobre a cama. 

Ao cabo d'uns momentos ouviu que mechiam na porta; soergueu a cabeça. O ruido cessava e elle julgou ter-se enganado. 

Por fim, ao mesmo tempo que de novo se deitava, viu abrir-se a porta ouviu o ruido dos gonzos. 

Tinha na sua frente a tenente-coronel Waddock que exclamava á pressa: 

-- Gomes Freire! 

-- Oh! És tu! Es tu finalmente!

D'um salto atirou-se aos braços, apertou-o comsigo: 

-- Ah! És tu! És tu finalmente! 

-- Sim, sou eu!

E Archibald?! interrogou Gomes Freire muito commovido. 

-- Archibald, não se encontra aqui! Eu mesmo não me encontro aqui durante o dia!

-- O que se passa?! interrogou o general muito pertubado. 

Waddock, lançou-lhe um olhar desesperado e volveu: 

-- Ah! Se tu queres ouvir-me... 

-- Se quero... 

-- N esse caso não pode ser aqui!

-- O que?! 

Olhava-o cheio de pasmo, na luz débil da lanterna que o tenente coronel accendeu. 

-- Sim, amigo, não pode ser aqui! 

-- Pois onde?! perguntou de novo. 

-- Lá fóra! 

-- Estou livre?! interrogou n'um tremor. 

-- Sel-o has hoje! 

-- Oh! Ainda tu não acreditavas na justiça! 

Waddock com o mesmo olhar compadecido, murmurou: 

-- E razão me sobejava! 

-- Porque?! interrogou vivamente. 

-- Já te disse que é necessario partir! 

-- Mas como? 

-- Deixa isso commigo! 

-- A fuga?! 

Franziu o sobreccnho, fixou o e volveu: 

-- Ouve pela ultima vez, Waddock, ouve! Não quero, não posso acceitar essa liberdade que me offerecem trahindo o seu dever de soldados! 

-- Gomes?! 

-- Sim, amigo, diz-me tudo na certeza que nem estremecerei! Condemnaram me, não é verdade?! 

De pé, soberbo e firme, encarou o inglez que erguia as mãos e exclamava: 

--Gomes, pelo que mais amas no mundo eu te supplico que venhas! Pelo que tiveres de mais sagrado, eu te peço que acceites essa fuga! 

Abanou lentamente a cabeça e redarguiu: 

-- O que tenho de mais sagrado é a honra, amigo meu! 

-- Por ella... 

-- Por ella?! ah! seria contra ella! 

-- Mas... 

-- Já disse... Podes falar que nem estremecerei! 

Nos olhos do inglez appareceram duas lagrimas. 

Gomes Freire viu-as e com um sorriso triste balbuciou: 

-- Agradeço-te, amigo, agradeço-te. 

-- O quê?! 

-- Esse pranto que acode a teus olhos! 

-- Oh! Gomes Freire! 

-- Mas mais te agradeceria que me falasses, que me dissesses d'uma vez a inteira verdade! 

-- Escuta n'esse caso! exclamou com segura decisão. 

-- Escuto. 

Elle ficou a ouvil-o e o inglez, começava em voz mal segura: 

-- Desde hontem que sei tudo isto e não tive a coragem de t'o dizer... Perdoa! 

-- Mas que sabes, finalmente?! perguntou de chofre. 

-- Sei que o tribunal te condemnou! 

-- Ah: 

Calou-se uns momentos, encolheu os hombros e tornou: 

-- Podes falar! Bem sabes que te ouvirei serenamente! 

-- Ah! Meu amigo! 

- Fala! 

No seu rosto desenhava-se uma bem energica repulsão, uma soberba maseara de valor se afivellava no seu rosto e elle muito direito, aguardava o final da revelação. 

- Fala! 

-- Pois bem! disse o outro como desvairado. Campbell não tem a coragem de t'o dizer ... 

-- Já sei... Fui condemnado á morte! 

-- Ah! sim... sim, meu pobre amigo!

Estendeu-lhe os braços, apertou o ao peito e balbuciou: 

-- Vês, não é necessario fugir! 

Sorriu, olhou-o bem de frente e disse: 

-- Não! 

-- Como?! Não?! 

--Não, mil vezes, não! Um soldado não foge á morte! Durante a minha vida encontrcia vinte vezes e nunca me quiz! Chegou o momento, é ir para ella, de cabeça levantada! Que dia é hoje?! 

-- São 16 d'outubro. 

-- Quando morrerei?! 

-- Em 18! 

Agora o inglez pouco a pouco mais cheio de pasmo olhava o general que parecia fazer contas ás horas que deveria viver. 

-- Olha! exclamou elle por fim. Dirás a Campbell que o quero vêr! Ah! Sabes outra coisa?! 

-- Meu amigo! 

-- Queria ser fusilado pelos soldados de Campo d' Ourique! O 16 que eu commandei... 

O inglez baixou a cabeça e murmurou: 

-- Gomes Freire! 

-- Sim! quero ser fusilado por elles! É melhor, sei que teem boa pontaria? Depois é um momento... Eu colloco me em face do pelotão, dou a voz de fogo com o meu ultimo olhar fixo no de vós outros e parto, deixo este mundo e vou para o outro aguardar a justiça que me farão! 

Quasi alegre bateu no hombro do amigo e disse: 

-- Podes obter isso?! Podes obter que os soldados do meu antigo regimento me fuzilem? 

-- Não! 

Disse aquella palavra com um estremecimento; ficou deveras admirado de a ter pronunciado e entrou a tremer dcante da interrogação do outro: 

-- Porquê?! 

Não sabia que responder; fazia-se pallido. 

-- Porque?! tornava o general. 

-- Ah! meu amigo, meu pobre amigo! 

Chorava convulsivamente e o condemnado fixava-o surprehendido. 

-- Meu pobre amigo! balbuciou de novo, entre lagrimas. 

-- Waddock! Que significa isto?! perguntou com funda decepção. 

-- Significa, Gomes Freire, qne não sereis fusilado! 

-- O quê?! 

Tremia tambem, estava suspenso dos labios do outro. 

-- O quê?! 

-- Não serás fusilado, exclamou de repente. Terás a morte dos outros, dos traidores, dos que vão ser justiçados no Campo de Sant'Anna! 

-- O que?! Oh! Que dizes!... Eu ouço-te?! 

Os olhos sahiam-lhe das orbitas, o rosto tornava-se-lhe violaceo e então em voz suffocada, o pobre general clamava: 

-- Enforcado?! 

O outro só poude accenar com a cabeça affirmativamente. 

Gomes Freire, diante de semelhante revelação cahiu desamparado sobre o leito. Então, o inglez tomou-o nos braços, confundiu com as d'elle as suas lagrimas e entre soluços, supplicou: 

-- Fujamos! 

-- Não? nunca! Era dizer-me culpado! 

-- Oh! meu amigo... Meu amigo! 

Aquelles dois homens abraçados representavam a dor humana em tudo quanto ella tem de mais terrível e de mais assombroso. 

Confundiam as suas lagrimas e deram ambos provas da sua generosidade. 

-- Vem! 

E elle respondeu sempre com energia: 

-- Não! 

-- Pelos teus! pelo que mais amas! 

-- Não tenho familia! só amo a honra e o meu nome! 

-- Por elle, pelo teu nome, mil vezes grande e glorioso! 

-- Nunca! A historia me fará justiça. 

-- Oh! Gomes Freire, pois tu não vês que és victima não d'um tribunal mas d'uma barbara vingança? 

-- Logar aos poderososi exclamou elle com um rir sinistro, erguendo-se e contendo as lagrimas. Deixa que os grandes se vinguem! 

-- Tu deves defender-te. 

-- Oh! 

-- Sim, deves vir commigo! Tenho tudo prompto... Iremos ao Brazil... 

-- Não. 

-- Á França, á Russia onde tens o teu parente... 

-- Seria um foragido, seria sempre um reu de alta traição! E tu, amigo meu serias mesmo aos meus olhos um militar que faltou ao seu dever! 

-- Queres então o patibulo?! interrogou buscando resolvelo. 

E aquelle heroe que passava a martyr, apenas respondeu: 

-- Que o levantem! Que me enforquem e me queimem, que arrojem as minhas cinzas a esse mar que um dia as fará transformar em brados d'odio! 

-- Gomes! Tu estás louco! Tu recusas ainda?! 

-- Louco, não, meu amigo, não! Estou sereno, muito sereno! 

-- Acceitas então essa sentença?! 

-- De que vale protestar! 

Com um olhar esgazeado, um sorriso de louco, o general disse: 

-- Ainda uma noite e um dial A.h! Tenho tempo! Mandar-me-heis o meu creado, sim? Quero barbearme e quero despedir-me d'elle! 

O outro nem soube responder-lhe: apenas poude baixar a cabeça e enxugar as lagrimas. 

O heroe com o seu ar de doido, andava d'um lado para outro a falar sósinho. 

Ás vezes ria, outras quedava se a apertar a cabeça entre as mãos e por ultimo encolhendo os hombros n'um brado formidavel exclamou: 

-- Ah! ah! O que é a vida! Enforcado! Enforcado!... 

N'um accesso atirou-se para a porta a bradar: 

-- Miseraveis! Miseraveis! 

E cahiu contra ella a chorar perdidamente cedendo emfim aos nervos excitados encarando a morte sem receio mas encarando com horror o approbio que ella lhe traria á sua memoria. 







XXX 



Outra supplica 





Foi no quartel general do pateo do Saldanha que lord Beresford, recebeu o governador do reino dois dias antes das execuções. 

O inglez na sua franqueza, ficando de pé emquanto o outro tomava logar n'um canapé, ouviu-o até final. 

D. Miguel, n'uma voz cançada, d'olhos pisados? 

O rosto murcho, dizia sempre. 

-- É necessario, senhor marechal, que todas as tropas estejam de prevenção... Receio tumultos e já agora quero reprimil-os o quanto possivel! 

-- Excellencia, não sabeis que vou partir?! 

-- Partir?! interrogou sem maior sobresalto. 

-- Sim... Deixo Portugal! Vou ao Brazil falar a sua magestade. 

-- Ah! Que mal fazeis! 

-- Porquê?! 

-- O rei não governa... E depois, francamente, não o deveis fazer! 

Altivamente, Beresford olhou-o e bradou: 

-- Eu apenas sei o que me cumpre fazer! 

-- Julguei pelas vobsas primeiras palavras que não era assim! 

-- Ah! Porquê? 

-- Fallaes em partir num momento em que o governo receia complicações, revoltas! 

-- Eu não sou o exercito! 

-- Sois o seu chefe! 

-- Darei as minhas ordens! 

-- Deveis aguardar que ellas se cumpram! 

-- Ordenaes?! 

-- Sim! 

-- É a primeira vez que um soldado obedece com repugnancia ás ordens do seu chefe! 

-- Senhor! 

-- D. Miguel, quereis escutar me? 

-- Falae! 

-- Pois bem, acho que deveis recorrer a el-rei! 

-- Para quê?! 

-- Para annular essas sentenças! 

-- Ah! 

-- É bom perdoar! 

-- Vós o dizeis! volveu o governador do reino. Porém só eu sei o que me cumpre! Não posso annular essas sentenças sem dar azo a que os pedreiros livres se ergam novamente! 

-- E falava como se em verdade tivesse domado uma terrivel conspiração, falava com uns grandes ares e com uns grandes modos que deixavam Beresford pasmado. 

-- Serão suppliciados amanhã, não é verdade? 

-- Sim! 

-- E Gomes Freire?! 

Baixou a cabeça, deu ao rostou maex|.ressão desolada e volveu: 

-- Tambem... Mas no dia seguinte!

-- D. Miguel... 

-- Marechal! 

-- Elle é vosso parente! 

-- É... Veiu emporcalhar a arvore da nossa familial 

Depois ergueu-se, e com ar estranho, declamou: 

-- É uma terrivel situação para mim, podeis acreditar! Elle é meu primo e eu como governador do reino devo fazer justiça! 

-- Justiça que d'outro modo podia ser feita! volveu o inglez acceitando a culpa de Gomes Freire. 

-- Ah! Não... O tribunal, só elle, tem poderes! 

-- Para condemnar á forca! 

-- É um cumulo! Sim, é um cumulo, com pezar o digo! Tenho provas! Ah! É a minha familia, é o meu sangue! Mas que importa se na historia ha exemplos de reis matarem parentes traidores! 

-- Não sois bem um rei! 

-- Represento-o! 

-- E os vossos companheiros? 

-- Elles o condemnaram mais do que eu! 

-- Mas já reparasteis bem na ulterioridade d'esse acto? 

Como suffocado, volveu: 

-- Senhor, tenho meditado dia e noute... Tenho fugido ao convivio da familia, não quero eseutar as supplicas porque devo ser forte! 

Passou a mão pelos olhos e terminou a dizer: 

-- Mas falemos no que me trouxe! 

Beresford sentiu se profundamente aballado e de repente exclamava: 

-- Senhor governador, e Já pensou na minha situação? 

-- Na vossa?! 

-- Sim! 

-- Qual é?! 

-- A de seu cumplice! 

-- Cumplice? Ah! Os magistrados supremos d'uma nação não teem cumplices... 

-- Ah! mas reparae... 

-- Que apenas deveis cumprir o vosso dever! 

-- Porem, senhor, eu sou mal olhado pela nação! Eu sou o estrangeiro que commando o exercito, eu vou soíFrear qualquer insurreição! 

-- Cumprindo o vosso dever de marechal! 

-- Que infamia! 

Sahia fóra das suas regras de tempera, parecia outro, excitava-se: 

-- Bem vejo tudo! O juiz vae dizer que eu sou o culpado! Só a mim verão, só eu serei o alvo! É o chefe das tropas, é o verdadeiro culpado! 

-- Culpado!? interrogou o outro. 

-- Sim! Ignoraes acaso como a nação vê esse acto que praticaes? 

-- Como um acto de justiça! 

-- E já chama d'avanço a esses homens: martyres! 

-- Martyres?! 

- Sim... 

-- Ah! Marechal, não posso acreditar-vos. Mas adiante, falemos do que me trouxe, repetiu elle. 

-- Quereis dizer que devo soffrear a insurreição porventura imminente?! 

-- Sim! só isso! Deveis cercar de tropas o campo de Sant'Anna... 

-- E contaes com essas tropas?! interrogou como para o amedrontar. 

-- Marechal! 

-- Sim! Tudo isto gere tanta indignação que em verdade... 

-- É a vós que pertence essa tarefa... 

-- Qual? 

-- A de disciplinar os soldados! 

-- Ha momentos em que só Deus pode conter uma turba! E mesmo assim é necessario fulminal-a! Sabeis quando, D. Miguel?! 

-- Sei... Quando nos espiritos entra a revclta contra o throno... 

-- Quando chega o momento de justiça! 

Fez um gesto de desafogo e accrescentou: 

-- Mas ide em paz, ide, senhor governador, que ainda é cedo para se reparar bem na situação! 

-- Marechal!

-- Só até ao dia em que Portugal arraste a esse acto que reputo mau! Depois parto, vou ao Rio de Janeiro, depor nas mãos do rei o mando que me deu, ou pedir-lhe uma situação definida n'esta terra que ajudei a conquistar aos homens e a alguns portuguezes meus amigos! 

-- Uma situação? exclamou elle. Mas se a tendes! 

-- Bem sei! A de defender do governo que vós infamaes! 

-- E quereis?... 

-- Ser livre! 

-- Oh! Recordae-vos... 

O inglez fulminou o com o olhar e exclamou: 

-- Ide em paz, senhor... Eu defenderei o throno das ameaças que julgaes iminentes! Defendo-o no emtanto como soldado encarregado d'uma missão e não como cumplice de suas ex.ª os governadores! 

E Beresford saudou e sahiu. 

D. Miguel Forjaz, muito aífogueado, desceu a eseada, murmurando: 

-- Ah! Tarde chegarás com a tua missão... A esse tempo!... 

No seu olhar brilhou uma seentelha estranha e ao saltar para a sege, tornou: 

-- Parece que me despreza, o marquez! Ah! Verá, verá o que lhe faço...

Quando chegou ao palacio do governo escreveu uma longa carta ao conde d'Alva, seu amigo e seu companheiro nos odios. 

E n'essa carta narrava o que se passara, falava de Beresford e recommendava-lhe o assumpto, terminando com a seguinte supplica: 

-- Demora o ahi... Deves demoral-o... 

Não lhe dizia para que e sorria ao traçar a sua assignatura n'essa carta que o outro lera cheio d'alegria: 

Ao mesmo tempo, no quartel general, Beresford chamava o ajudante de campo e rigido, calmo, exclamava: 

-- Senhor, deveis chamar aqui os commandantes de todos os regimentos da cidade! 

Quando elle sahiu, o marechal sentou-se na cadeira e ficou meditando. 

A' porta appareceu o seu velho Jack o qual lhe disse com certa tremura na voz: 

-- Mylord, o vosso almoço está servido! 

-- Não quero almoçar! 

-- Oh! 

O creado admirou-se porque pela primeira vez na vida o inglez perdia o apetite. 

-- Excellencia! tornou Jack. 

-- O quê?! 

Mas não estaes doente?! 

-- Não! Estou apenas entregue a um estudo para o qual não careço de til Vae-te! 

Disse-lhe aquillo n'um velho rasgo de confiança e com o seu aprumo militar. Mas d'ahi a momentos, Jack, voltou bradou: 

-- É o Sr. tenente coronel Waddock!

-- Que entre! 

-- E vossa honra não quer almoçar!

-- Não! disse sacudidamente. 

D'esta vez Jack retirou-se deveras convencido de que o marechal estava muito doente e disse o ao tenente coronel que volveu: 

-- Não admira! De resto todos o estamos! 

E entrou rapidamente na sala onde Beresford o aguardava. 









XXXI 



Na vespera da execução 





Miguel de Forjaz, no seu gabinete parecia meditativo após aquella conversa com Beresford. De quando em quando sobresaltava-se, erguia se, ia até á janella. 

Era elle o unico governador do reino que estava em foco. Todos os outros se tinham sabido recolher a tempo após a sentença. No animo d'esses homens havia talvez a impressão de que tinham feito justiça. 

Mas D. Miguel, meditava bem nas palavras do marechal e sentia um vago receio. Passava na mente todas aquellas cousas e acabava por murmurar, 

-- Mas tenho o clero ... 

Tocou a campainha. Entrou um secretario. 

-- Expediram se as circulares aos bispos? 

-- Sim, excellencia! volveu o outro muito encolhido. 

-- Bem... -- E como resposta a ella já se fazem preces desde junho! 

-- Ah! 

No seu rosto passou uma grande alegria e accrescentou logo: 

-- Não sabia. 

-- O quê?! Pois V. ex.ª não sabe que o senhor Salles de Mendonça fez as circulares em 3i de maio, logo depois da conspiração?... 

- Não! 

-- V. Ex.ª deu a ordem... 

--Ah! Falei n'isso... Sois dedicados, meus amigos... Executastes tudo sem segundo aviso! Muito bem. 

-- E como resposta a essas circulares nas quaes se sollicitava a cooperação do clero para o bom êxito das medidas que o governo adoptara, temos a ordem que o patriarcha fez publicar... 

-- Ah! Ha unna ordem?! Eu desde de ha mnito que não vejo cousa alguma... 

--Sim, excellencia... Ha uma ordem... 

Sahiu com muitas vénias e voltou d'ahi a momentos com um papel impresso que estendeu ao governador, dizendo: 

- Eil a! 

D. Miguel, com um vago sorriso nos labios começou a lêr: 

«Nos primarii presbyteri et Diaconi Santae Lisbonuensis Ecclesiae Principale Sede Patriarchali Vacante:

«Tendo chegado ao nosso conhecimento com indubitavel certeza pela portaria do governo d'estes reinos datada de 31 de maio do corrente anno, inserta na Gazeta Official d'esta cidade que houveram insensatos temerarios e atrevidos que ousaram formar o louco e destetavel projecto de estabelecerem um governo revolucionario, pretendendo sobre falsos e affectados prctexstos desviar alguns dos fieis vassallos e sempre leaes portuguezes de obediencia, fidelidade e respeito que por todos os direitos é devida a S. M. fidelissima o senhor D. João VI, nosso senhor, que haja por nossa felicidade, tão sabiamente nos governa, para o fim de fazerem uma sublevação que se chegasse a realisar se, aos culpados e aos innocenrcs seria fatal pelos immerciaveis males em que nos teria submergido e dos quaes pela vigilancia, sabedoria e zelo e acertadas providencias da auctoridade que em nome de S. M. nos governa, estamos livres: 

Conhecendo que todos os bens nos vém de Deus, vejo quaes foram os meios de que para isso se serviu, claro, fica que, a elle devemos dirigir as nossas oracções de graças.» 

O governador do reino sorria sempre ao vêr que o patriarcha dava os suas ordens para que em todas as egrejas se fizessem Te Deuns em acção de graças. 

E então, queria socegar ao ver que a religião estava do lado do governo a exercer a sua influencia sobre o povo. 

Cheio de gaudio murmurou: 

-- Ah! Falta só a cooperação do exercito! 

Aquelle homem sentia uma grande felicidade ao ver que os padres já tinham preparado o povo para receber mal os condemnados. 

D'ahi podia estar seguro; bastava-lhe apenas uma forte cintura de tropa e tudo seria resolvido. 

Foi n'este momento que o creado appareceu com um cartão. 

Leu-o attentamente, franziu o sobrecenho e bradou: 

-- Que entre! 

Fez um gesto ao secretario para que se retirasse, e viu entrar o tenente coronel Waddock. 

O inglez ficou perfilado, fez a continencia militar e o governador exclamou com um sorriso: 

- Oh! vós... 

-- Eu sim, excellencia, disse elle... 

-- Que desejaes?! Sentae-vos meu amigo! 

-- Senhor, estou aqui como vosso subordinado! 

-- Sentae-vos! 

-- Venho da casa do marechal!

Mais uma vez estremeceu e mais uma vez pediu que tomasse logar na cadeira. 

Porém Waddock com o seu olhar firme fixo no governador, sempre de pé, sempre fleugmatico, respondeu: 

-- Excellencia será curta a minha permanencia aqui! 

-- Que desejaes n'esse caso?! perguntou de novo. 

-- Venho da casa do marechal... 

-- E depois! 

-- Fui fazer-lhe uma supplica... 

-- Ah! 

-- Elle me respondeu que só v. ex.ª podia resolver o meu desejo! 

-- Mas da melhor vontade se estiver na minha alçada! 

-- Venho como irmão d'armas d'um desgrado! 

O governador estremeu. 

E elle, quasi eloquentemente accrescentou: 

-- Venho como soldado, excellencia... 

-- Falae! 

-- Venho, como um homem que da vida muito sabe porque n'ella muito soffreu... 

-- E quereis... 

-- Quero falar vos d'um desgraçado... 

Fingiu não comprehender onde elle queria chegar e exclamou: 

-- Trata-se. 

-- De Gomes Freire! bradou elle. 

-- Ah! De meu primo, do meu infeliz primo! 

-- Sim, excellencia! redarguiu com odio. 

-- Pois bem, fallae... 

Baixou a cabeça e a meia voz disse: 

-- Mas devo dizer-vos, senhor, que infelizmente não sou o arbitro do destino d'elle... 

-- Senhor... 

-- Já vol-o disse, excellencia... 

O tenente coronel, extranhou o tratamento e volveu: 

-- O marechal disse-me no emtanto que só na vossa alçada es-tava a resolução do meu pedido, que é como a expressão do sentir de todos aquelles que trazem ao lado uma espada! 

D. Miguel Forjaz, ergue-se d'um salto e muito li vido perguntava: 

-- Mas falae! 

-- Sou amigo pessoal de vosso primo não devo occultal-o... 

-- Vós?! 

-- Eu sim! Eu e sir Archibald Campbell... 

-- Oh! 

Mais livido ainda, n'um desespero, n'uma raiva, interrogou: 

-- Sois amigo d'elle?! Mas se não me engano, sois ajudante do governador da torre... 

- Sou! 

Vendo o que arrastava o pensamento de D. Miguel, elle bradou: 

-- Sou, mas socegue! Gomes Freire não quer fugir! 

-- O que?! 

-- Sim, não quer fugir é necessario que vol-o diga! Se quizesse teria muita facilidade n'isso! 

Bateu o pé raivosamente e exclamou: 

-- E vindes dizer-me isso? 

-- Com a lealdade que me caracteristica! 

-- Senhor! 

-- Excellencia! 

Olharam-se com colera e por fim o governador, exclamou: 

-- Devo então pensar que amaes os pedreiros livres?! 

-- Pensae-o se assim o quereis! 

-- Oh! 

-- Já volo disse! Sou antes de tudo um official e um subdito de S. M. britannica! 

Perante este argumento de D. Miguel, balbuciou: 

-- Que diz a isto o marechal?! 

-- O meu unico chefe é um militar! 

Foi como uma bofetada na face do governador que volveu: 

--Os militares tambem tem os seus deveres! 

-- É no cumprimento do meu que aqui venho! 

-- Falae! volveu já muito impaciente. 

-- Gomes Freire, como general tem direito a honras que sempre lhe negaram! 

-- Como culpado não tem direitos alguns! 

-- Nem mesmo o de morrer como soldada?! interrogou elle. 

-- Quereis dizer?! 

-- Nem mesmo o direito de ser fusilado?! 

O governador respondeu apenas: 

-- Não! 

-- Oh! Excellencia! 

-- O tribunal condemnou-o á forca... 

-- E vós podeis mandar que o fuzilem! 

-- É a lei! 

-- Bem, excellencia... Perdoae o ter vos roubado tempo. 

Saudou e foi para a porta. 

Mas de repente o governador, exclamou: 

-- Ainda uma palavra! 

Ficou a ouvil-o e o outro disse: 

-- Ha pouco falastes na amizade que vos liga a Gomes Freire... 

- Sim! 

-- Essa amisade não vos fará faltar ao vosso dever! 

Com um olhar de profundo despreso, volveu: 

-- Com mil perdões... Eu retiro-me! 

-- Ouvi! 

-- Não tenho reposta para V. Ex.ª 

-- Tenente-coronel! 

-- Senhor! 

Avançou para elle com raiva, fixou o e disse: 

-- Julgaes então... 

-- Faltarieis ao vosso dever! 

-- O dever d'um soldado é estar sempre ao lado da justiçai E a justiça é elle, é esse homem que vão matar! 

O governador tocou a campinha. Waddock olhou-o. 

-- Que ides fazer, interrogou. 

Não obteve resposta. Elle avançou de novo e em voz abafada disse-lhe: 

-- Por Deus! Não tentaes cousa alguma contra mim! Só tenho um chefe e esse chefe chama-se lord BeresfordI Não queraes levantar dificuldades! 

Apparecia o creado e o governador, pallido de mdignação, dizia: 

-- Não é nada! 

Waddock, ainda na frente d'elle, tornou: 

-- Agora, excellencia, resta-mc dizer-vos que acima de tudo colloco o meu nome e a minha dignidade! 

-- Quereis dizer... 

-- Que se tentaes emporcalhar-me vereis o que vale o tenente coronel Waddock. 

Com esta ameaça sahiu e bateu com a porta» 

O governador, apoplctico, como doido, atirou-se para a cadeira, gritando: 

-- Mas o que tem esse homem! 

E não houve um ebaier na sua conseiencia, não houve um unico a lembrar-lhe que procedia pela infamia! 

-- O que tem elle!? O que tem?! 

E não houve uma voz que lhe dissesse tudo, desde a justiça que assistia a esse homem até aos sofrimentos que o pungiam. 

Agora a idéa de D. Miguel era correr a casa de Beresford. 

Para lá foi n'uma grande pressa, encontrou-o na sala, e logo á entrada, bradou: 

-- Marechal! 

-- Excellencia! volveu serenamente o inglez. 

-- É necessario mudar a guarnição da torre, é necessario castigar alguns officiaes! 

Com um ar de pasmo, Beresford, volveu: 

-- Socegae... O dia está lindo e tendes assim os receios abalados? 

-- Senhor, escutaeme! Em nome d'el-rei, em nome da patria! 

-- Ah! Para que fazer essas evocações sagradas?! 

-- Mas reparae senhor, que a execução d'amanhã é feita sem segurança! 

-- Porque o dizeis? interrogou elle. 

-- Porque acabo de estar com o tenente coronel Waddock que me declarou a sua amisade por Gomes Freire! 

-- Ah! 

-- Admiraes-vos, não é assim?! 

-- Não! Se solto esta exclamação é porque em verdade acho que já o devieis saber! 

-- E achaes natural?! 

-- O mais natural do mundo! 

-- Senhor! 

-- Que quereis? 

-- Pois achaes natural?! 

-- Bastante natural, já vol-o disse. Entre officiaes bravos costuma haver d'essas amisades! 

-- Que levam longe! 

-- Muitas vezes! 

-- E estaes assim sereno?! 

-- Sim! Confio em absoluto n'elles?! 

-- Vós?! Não eu! 

-- Senhor governador só eu tenho que confiar! A vós cumpre mandar! 

-- N'esse caso não receaes... 

-- Complicações?! 

-- Sim!?

-- Não receio... 

-- Mas ainda assim desejaria... 

-- O quê?! 

-- Que alguem da minha confiança fosse commandar o regimento que ha-de assistir á execução! 

Beresford não se indignou, sorriu, volveu: 

-- Confiaes pouco em mim!

-- Oh! não... não... Muito confio em vós, marechal! Mas o governador da torre e o seu ajudante são amigos do sentenciado! 

-- Graças devieis dar a Deus! 

- Eu?! 

-- Sim! Não é verdade que se elles são amigos vós sois primo de Gomes Freire?! 

-- Sim! 

-- N'esse caso porque não deseonfiaes de vós?! 

Elle comprehendeu tudo; embatucou e fez-se pallido, concluiu por dizer: 

-- Desejava que o regimento d'infantaria n.° 19, aquartellado em Caseaes fosse assistir á execução! 

-- Irá se o quereis! 

Tomou-lhe o braço e exclamou com colera: 

-- Socegae que elle não fugirá! 

-- Bem sabeis! É pela lei! 

-- É pela lei do vosso odio! 

O governador, já bem ferido por tantos desesperos sahiu a resmungar vinganças, metteu-se na sege e ao chegar ao palacio, bradou ao primeiro secretario: 

-- Mandae chamar o coronel Amaral do 19 e o brigadeiro Vasconcellos. Depressa! Oh! E tenho só um dia! 

Com um grande medo o governador balbuciou: 

-- E que seria do governo se tudo falhasse?! 









XXXII 



Militares 





Pela noute o coronel Amaral, entrou no gabinete do governador. Era um antigo sargento-mór da guerra da península e que tinha o peito cheio de medalhas. 

D. Miguel Forjaz, que mal o conhecia mas que muito sabia das suas ambições e das suas victorias, ao vel o ergueu-se, mandou-o sentar e disse-lhe: 

-- Tenho prazer em vel-o, coronel! 

-- Grande honra para mim, excellencia, disse elle admirado. 

-- Mandei-vos chamar porque o vosso regimento interessa a 

sua magestade... 

-- Oh! 

-- Sim... Não admira que o vosso nome inspire tanta sympathia a el-rei! Sois um bravo! 

Elle muito lisongeado, balbuciou: 

-- Favores de V. Ex.ª... 

-- Não, coronel, não! Apenas digo o que sinto! 

-- E deveras lamento, posso jurai o, que só agora tivesse feito o vosso conhecimento... 

-- Ah! Eu tambem conheço muito a V. Ex.ª 

-- Sim! eu tambem estive na guerra da península! 

-- Recordo-me... Ereis ajudante de campo do general Gtocken... 

-- Sim... 

-- E isso traz-me á memoria um facto que tem relação com esse desgraçado Gomes Freire! 

O governador do reino estremeceu. 

O coronel continuava sempre: 

-- Elle tomou Basaens e Tujera, elle fora grande na campanha... Veiu uma ordem de prisão após suas victorias... 

-- É verdade! 

-- Vós ereis o portador della! 

-- É verdade! Vede bem que fatalidade! Em tudo me encontrei diante d'elle! 

-- E é ainda vosso parente! 

-- O lucto que entra na minha casa é a gala de justiça! Meu caro coronel, isto é terrivel! 

-- Bem terrivel! disse elle com certo ar de desespero que não passou despercebido ao governador. 

-- Mas que quereis! É o meu dever! 

-- Sim! 

-- Hei-de cumpril-o! Como vós cumprireis os vossos, não é verdade? 

-- Jamais falteis a elles! volveu. 

-- S. M. e eu o sabemos! redarguiu, accrescentando logo: 

-- Por isso vos chamei! 

-- Ah! 

-- Trata-se ainda de Gomes Freire! 

-- E que tenho eu a ver com elle? interrogou do mesmo modo desesperado. 

-- É o vosso regimento que deve assistir á execução! 

-- Ah! 

-- Vós vigiareis até final! El-rei vos nomeará brigadeiro... É o vosso ultimo serviço de coronel! 

-- Excellencia! disse elle deveras maravilhado. 

-- Sim... Assistireis a tudo! Confiacs nos vossos homens? 

-- São bravos! 

-- É o bastante para estarem ao lado da justiça! 

-- Sim, excellencia... Mas ha apenas uma coisa! 

-- Qual?! 

-- Fallar-lhe-heis! 

-- Para quê?! 

-- A pedir-lhe que tenha a máxima cautella amanhã no momento da execução! 

-- Excellencia! 

-- Meu amigo! 

-- Não farei isso! disse elle. 

-- Porque?! 

-- José de Vasconcellos, nunca admittiria semelhante pedido. 

-- Eu mandei-o chamar. 

-- Fallae-lhe mas com cautella! 

- Oh! 

-- Sim! Não admitte a menor observação aos seus encargos! 

-- Nem mesmo minhas?! 

-- Só de Beresford que é o seu chefe. Tenho a certeza! 

-- N'este momento o creado entrou e disse: 

-- Está alli o senhor brigadeiro Vasconcellos. 

-- Ah! que entre! 

Era um homem alto, magro, nervoso. Saudou o governador estendeu a mão ao coronel. 

D. Miguel, sorriu, indicou-lhe uma cadeira e exclamava. 

-- Meu caro brigadeiro, sentae vos! 

Elle obedeceu e de seguida murmurou entre dentes: 

-- Recebi a carta.de V. Ex.ª e apressei-me... 

-- Obrigado! 

-- Devia vir! V. Ex.ª representa el rei! 

-- Desejo de V, Ex.ª um serviço... 

-- Qual?! 

-- Trata-se da execução dos pedreiros livres! 

-- Já sei que estou nomeado para commandar as forças... 

- Por isso mesmo vos chamei! 

-- Nos olhos do brigadeiro passou uma seentelha e logo disse: 

-- Já tenho todas as instrucções! 

-- Mas...  

-- Hei de cumpril-as á risca! 

-- Era o que desejava de V. Ex.ª 

-- Para isso não era necessario que eu viesse! Sei o que me cumpre! 

-- Os coroneis dos regimentos não os commandam senão de 

- O quê?! 

-- Sim... Tudo está entregue ao tenente coronel. Nos temos o titulo mas só aparecemos em dias de gala ou de batalhas! Bem o deveis saber! 

-- Quereis dizer que não commandareis o vosso! 

-- Não! o tenente coronel vigiará! Eu assistirei apenas á execução! 

-- Coronel! 

-- Excellencia! 

-- E podeis enviar-me o vosso lenente-coronel?! 

-- Elle está actualmente em S. Julião. 

-- Mandae que venha! disse elle tocando a campainha. 

-- Vou escrever algumas linhas a Waddock! 

-- O quê?! 

Pôz-se de pé, ficou muito perturbado e exclamou de novo: 

-- Que nome dissesteis?! 

-- Waddock! É um bello inglez, soldado a valer... 

-- É elle o tenente-coronel do 19?! 

-- Sim, excellencia! 

-- Oh! Mas sabeis que esse homem é amigo de Gomes Freire?! 

-- Elle! 

-- Sim... 

-- Mandaes então que eu me imponha?! 

-- Decerto! 

-- Mas é necessario preparar uma scena ... 

-- Qual? 

-- É necessario que a justiça me exija isso no momento dado! 

-- Socegae! Será como quereis! 

-- N'esse caso, Waddock ficará de lado! 

-- Obrigado, senhor coronel! disse o governador. 

E elle volveu: 

-- Cumpro o meu dever!... 

-- Conheceis o brigadeiro Vasconcellos?! 

-- Sim, excellencia! 

-- E homem em que se possa confiar?! 

-- Abertamente! Um tanto rispido... 

Ergueu-se, saudou de novo e disse: 

-- Ás ordens de v. exª! 

Mas o governador, temendo tel-o molestado ainda se arriscou mais uma vez. 

José de Vasconcellos, de semblante carregado, disse: 

-- Já sei tudo, excellencia! 

E sahiu depois de saudar de novo. 

-- Eu bem vos disse! exclamou o coronel para o governador que murmurava: 

-- Extranho homem! É sempre difficil confiar... 

-- N'elle podeis confiar, excellencia! 

-- Asseguraes-mo?! 

-- Sim! 

-- N'esse caso vou dormir socegado! 

Era tarde, elle estendeu a mão ao coronel, que muito curvado balbuciava: 

-- Mil agradecimentos a v. ex.ª! 

-- A el-rei deveis agradecer! 

-- Quereis ser o interprete dos meus humildes respeitos para sua magestade! 

-- Sim coronel... De bom grado! 

Mais uma vez saudou e sahiu. 

Então o senhor governador, embrulhou-se na capa e murmurou: 

-- Não falta mais ninguem! 

-- Falto ainda eu, excellencia! disse uma voz roufenha. 

Voltou-se e viu João Gaudencio, o desembargador. 

-- Como estaveis aqui?! interrogou. 

-- Oh! muito simplesmente! 

-- Explicae-vos! 

-- Adormeci atraz d'aquelle biombo! 

-- Miseravel! rosnou o governador. 

-- Excellencia! Eu muito vos devo! começou o antigo official de justiça. Eu devo -vos este logar de desembargador por distinção de serviços... Não fui a conselho e os outros desembargadores não me toleram... Por isso... 

-- O que?! 

-- Desejava outro logar, excellencia! 

-- Qual?! 

-- Uma cousa mais em harmonia commigo!... 

-- Mas o quê?! 

-- Queria ser ajudante do senhor intendente da policia! 

-- Oh! 

-- Sim... Eu melhor do que outro posso desempenhar o logar! 

-- Mas é necessario ser do desembargo! 

-- Ah! acaso não sou desembargador?! 

-- João Gaudencio, toma cautella! 

-- Excellencia! 

-- Toma cautella commigo! 

-- Oh! Para representar amanha aquella scena com o coronel, podeis contar commigo! 

-- Miseravel! 

-- Senhor... Bem sabeis que nasei pobre... D'ahi as ambições... 

O governador corou, viu ali uma insinuação e exclamava por fim: 

-- Sabes o que se prepara em S. Julião! 

-- A forca! exclamou cavamente. 

-- Eu digo o que se prepara no interior da fortaleza! 

-- Ah! Tenho lá estado, sei tudo! São uns pobres homens! 

--O quê?! 

-- Sim excellencia.... Tanto o governador como Waddock são amigos do preso mas... 

-- Mas... 

-- Apenas o visitam e lhe falam... 

-- Só?! Achas pouco?! 

-- D'amanhã em deante não o visitarão mais! volveu em tom pesado. 

-- Bem... 

-- Voltam d'essas visitas com os olhos marejados de lagrimas... 

-- Elles! 

-- Sim! 

-- E não fazem mais nada?! 

-- São amigos d'elle! 

-- E não lhe darão a íuga? 

-- Gomes Freire não acceitará!

-- Como sabes?! 

-- Não perco o meu tempo em S. Julião... Tenho ouvido conversas... 

-- Oh! 

-- Sim... Bem sabeis que faço tirocinio para ajudante do intendente... 

-- José Gaudencio! 

-- Excellencia! 

-- E se por acaso esta noute... 

-- O que?! 

-- Elle tentasse fugir?! Se durante a noute acceitasse... 

-- Excellencia! Dentro em uma hora estará com elle o frade... 

-- Ah! bem sei... Até agora tem lá estado a justiça, de manhã estarei eu e pelas l0 horas o carrasco... 

-- Ah! Posso então ir socegado... 

-- Sim, excellencia, sim! 

-- Bem... boa noute! 

Mas o outro corria atraz d'elle e exclamava: 

-- Excellencia! 

-- O quê?! 

-- O meu logar?! 

-- Tel-o-has, bandido! 

-- São os melhores policias! redarguiu com uma risada. 

D. Miguel Forjaz ao metter-se na liteira, murmurava: 

-- É o ultimo acto! 

Encostou-se, cerrou os olhos e foi assim amodorrado até a casa. 

Na entrada para o seu quarto viu a filha que lhe estendia a face e lhe dizia: 

-- Meu pae... O seu beijo... Eu faço hoje annos! Qual é a sua prenda?! 

-- Hoje! 

-- Sim... Dá meia noute! Estamos a 18 d'outubro! 

O governador do reino ouviu bater cavamente a meia noute e mal roçou os labios na face da filha que dizia: 

-- Que tendes, meu pae?! 

-- Umas grandes preoccupações... Adeus! De manhã falaremos! 

Ao longe dobravam sinos, lá muito longe, como annunciando finados. 

Era na meia noite de i8 d'outubro e no campo de Sant'Anna pregava-se o ultimo prego nas forcas dos martyres da patria. 









VI 



Peregrinação 





Quando a fragata aproou á barra do Rio de Janeiro, logo em terra houve um grande movimento. Viam-se bandos de pessoas correndo para o caes, clamando: 

-- Noticias! noticias'do reino! 

E logo uma multidão de barqumhos foi ao encontro do navio airoso que trazia na tolda os passageiros. 

Eram officiaes que deixavam Portugal e vinham para o Brazil, eram funccionarios, com as mulheres, alguns commerciantes e meia dúzia d'inglezes, damas e creados que durante toda a viagem tinham sido encantadores... 

Em cima, arrumada á amurada estava uma mulher vestida de claro. Era nova, era bella. 

Quizeram falar com ella na longa travessia. Muitos olhos feridos na belleza de sua face a tinham procurado e no emtanto ella sem responder ás palavras d'amor era a mesma para todos, boa, delicada com alguma cousa de melancholico que agradava. 

Da razão de sua viagem ninguem sabia. Suppunha-se no emtanto que ia encontrar esses parentes no Rio. 

Quando as embarcações atracaram á fragata ella ficou na mesma, serena, grave, a olhar as aguas. 

Via-se que não conhecia ninguem, buscava mesmo passar despercebida.

Mas um joven official do regimento do Maranhão que voltava do continente e que fora um dos mais assiduos admiradores d'ella durante a viagem, acercou-se e disse com extrema delicadeza: 

-- Minha senhora... V. Ex.ª têm-me ás suas ordens para a conduzir a terra! 

Volveu para elle os seus olhos lindos e cheios de luz, agradeceu-lhe com um sorriso e balbuciou: 

-- Obrigada! 

-- Pois sim?! 

-- Acceito o seu offerecimento! 

Elle muito alegre curvou se agradeceu-lhe: 

-- Não sabe quanto sou feliz! 

-- Ainda mais uma vez obrigada!

-- Senhora... Que felicidade me daes! 

-- Porquê?! interogou ao acaso. 

-- É que bem sabeis como vos estimo! 

-- Oh!... 

Ruburisou-se e volveu logo: 

-- Estimar me é uma infelicidade! 

-- Para mim?! 

-- Para todos! 

-- Quereis dizer que não sabeis corresponder?! 

-- Quero dizer que não posso!... 

O joven ficou de cabeça baixa e ella a olhar as aguas. 

-- Sois casada?! perguntou elle muito timidamente. 

-- Não... mas não tenho no meu coração nem o logar para um irmão! 

-- Ah! 

-- Não tenho, meu amigo, não tenho! 

-- E cada vez sympathiso mais convosco. 

-- Loucura! 

-- Que importa! Se vos podesse ser util! 

-- Nem isso! apenas desejo de vós uma cousa! 

-- Ordenae! 

-- Que me leveis ao paço! 

-- A qual d'elles?! 

-- O quê?! Pois ha mais d'um?! 

-- Ha aquelle onde vive o rei e aquelle onde vive a rainha 

-- Não é o mesmo! 

-- Não... S. S. M. M. não têem vida commum! 

-- Começa uma maldição a cahir! 

Foi em vós terrível que ella soltou aquella exclamação. Mas depois, n'outro tom, quasi docemente redarguio: 

-- Pois indicar-me-heis o paço d'el-rei! 

-- Desejaes fallar-lhe! 

-- Sim! 

-- Oh! e vindes do continente para isso?! 

-- Iria ao fim do mundo! volveu ella. 

-- Mas sabeis quão grandes os embaraços... 

-- O quê?! Embaraços para fallar a el-rei?! 

-- Sim... necessitaes de apresentações, de cartas d'audiencia, de mil formalidades? Esperareis muito tempo... 

-- Aguardarei el-rei na sua hora de passeio! 

-- Raramente sahe! 

-- Oh! mas não importa! Fallar-lhe-hei apesar de tudo! 

-- É então muito grave o motivo que vos traz! 

-- É muito grave... 

-- Tão grave que vos obrigou a esta viagem, é certo!... 

-- Elle ficou mudo, começou a ver o desembarque dos passageiros e exclamou: 

-- Quereis descer! ... 

Galantemente offereceu-lhe a mão; ella acceitou sorrindo. 

E em baixo no bote, ao lado d'outras pessoas, o joven continuou com as suas interrogações: 

-- E não haverá em palacio alguem que me possa conduzir até el-rei?! 

-- Ha um homem que tudo pode. 

-- O seu nome?! 

-- O conde d'Alva? 

-- Pois fallarei ao senhor conde d' Alva! Conhecel-o, acaso?! 

-- Oh? Como posso conhecel-o, eu pobre official! 

-- É então quasi um rei! 

-- Mais do que um rei! É elle o confidente do D. João VI e o de Carlota Joaquina! 

-- Meu Deus! É o homem de quem preciso! 

-- Experimentae! 

-- Experimentarei! 

O bote estava a algumas braças de terra e a joven, sempre olhada pelos passageiros que a saudavam, disse: 

-- Careço d'uma hospedagem! 

Com os olhes molhados de lagrimas, o moço tenente, exclamou: 

-- Chamo-me João Menezes, tenho mãe e duas irmãs, as unicas pessoas que estimo no mundo, O meu regimento está de guarnição no Maranhão e eu raramente venho ao Rio... Quereis acceitar um logar á mesa de minha mãe?! 

-- Oh! 

-- Quereis?? 

E parecia suspenso dos labios d'ella. 

-- Não acceitarei? Eu sou uma cxtranha mulher que iria perturbar a vosso viver! 

-- Vós! 

-- Sim, eu! 

O barco atracava ao caes, ella foi das primeiras a sahir, e então ali encostando-se ao braço do official, dizia: 

-- É uma grande missão que me traz ao Brazil... Já vêdes que a ella e só a ella me devo dedicar... Não posso responder por mim... Não posso ser mulher e por isso não irei para o vosso lar... Arranjae-me antes uma hospedagem ... 

-- Senhora... 

-- Assim quero. Mais tarde sabereis tudo! 

Elle resignou-se e volveu: 

-- Permittireis ao menos que vos visite?! 

-Sim! 

-- Obrigado! 

E foi a conduzil a para uma hospedagem proximo do palacio real onde a installou. Parecia alegre, despedia-se e disse-lhe: 

-- Voltarei breve ... 

-- Oh! Mas não careço de vós para me auxiliardes... 

-- Sempre deveis carecer!... 

Saudou-a e sahiu; ella, olhou-se no espelho, sorriu dolorosamente: 

-- Que infortunio ser bella! disse de repente. 

Nem pensou em descançar; andou muito tempo de um lado para o outro no quarto. Quando as suas malas chegaram entregou-as á serva da hospedagem e como viesse a aquecer o sol cerrou as janellas. 

Mudou de traje n'aquella meia luz e mandou buscar uma sege. 

Quando desceu viu o official que chegava. 

-- Oh! senhor... 

-- Adivinhei... 

-- O que?! 

-- Que ieis ao palacio... 

-- E quereis?! 

-- Acompanhar-vos, se permittis... 

-- Vinde! 

 Saltou para a sege e ao vel-o a seu lado, começou: 

-- Mas que extranha e súbita sympathia é essa? 

-- Vejo-vos só! 

-- Oh! 

-- Lembro-me que se uma das minhas irmãs andasse assim gostaria d'encontrar alguem que lhe offerecesse o braço, alguem muito dedicado e muito respeitador que lhe desse um auxilio... 

-- Oh! Meu amigo... 

-- Que se daria por bem pago só em ouvir dos seus labios uma phrase como essa que acabaes de pronunciar... 

-- Seremos amigos se assim o quereis! 

-- Ah! não desejo outra cousa... 

-- Seremos amigos! E se alguma vez souberdes da minha vida o bastante para me repellir eu do mesmo modo ficarei vossa amiga! 

Elle estremeceu e perguntou: 

-- É então muito terrivel a vossa vida?! 

-- Muito! 

-- Que importa! 

-- Ah! Dizeis tudo isso porque não sabeis como alguma... 

-- Embora tivesseis praticado crimes seria sempre o mesmo! 

Sorriu, balbuciou: 

-- Crimes! Ah! Se soubesseis! Crimes! 

-- Mas senhora... 

-- Calemo nos... E cedo para isto! 

-- Sim... Falemos antes na maneira d'encontrar o conde d' Alva! 

-- Achaes difficil?! 

-- Acho quasi impossivel que elle vos receba! É um grande senhor... 

Muito meditativa a joven, retorquiu: 

-- Falar-me-ha! 

-- Tendes tanta esperança! 

-- Tenho quasi a certeza! Ha um não sei quê a dizer-me que o conde me receberá a bem... 







XXXIV 



A neta do creado dos Tavoras 





A sege parava á porta do paço real e ella apeava-se acceitando a mão que o tenente lhe estendia. 

Foram pelo pateo lageado e lá ao fim encontraram um creado. 

Ella avançava, perguntou de seguida: 

-- O senhor conde d' Alva! 

-- V. ex.ª não está no paço. 

-- Onde o poderei encontrar?! 

-- No paço da rainha! 

Mas n'este momento o conde de Arcos, o ministro, vinha sahindo e ella correu para elle, exclamando: 

-- Senhor conde! 

O ministro olhou-a, ficou indeciso e balbuciou tirando o chapeu: 

-- Minha senhora... 

-- Já não me conheceis?! 

-- Mas... 

- Não?! 

Não tenho a menor idéa! 

-- E no emtanto bastantes vezes me beijasteis quando pequenina... 

-- Quem sois? 

Ella tomou-o de lado e exclamou: 

-- Não vos recordaes de vosso primo, do senhor bispo do Algarve?! 

-- D. José de Mello?! O Tavora! 

- Sim! 

-- Mas... 

-- Eu sou a creança que elle educou... 

-- Tu?! a senhora?! Pois a neta... 

-- Do creado dos Tavoras que foi suppliciado. 

-- Quem o disse! Mas a que vindes ao Brazil?! 

-- Procurar um homem! exclamou: 

O ministro muito cheio de pasmo olhou-a e disse: 

-- Um noivo?! 

-- Ah! Não... Um homem que não conheço... 

Achava-a mystcriosa e sorria; disse-lhe logo: 

-- Sabes ao menos o seu nome?! 

-- Sim! Venho procurar el rei! 

-- Ah! 

-- Venho pedir-lhe uma audiencia, ou antes venho solicitar do conde d'Alva que me leve até sua magestade. 

-- Eu vos conduzirei se o desejais! 

-- Vós?! 

-- Eu sim... 

-- Oh! senhor conde, mil vezes obrigada! 

Mas o ministro, disse-lhe logo: 

-- E que desejaes d'el rei?! 

-- Alguma cousa que só a elle direi! 

-- É uma petição?! 

- Sim! 

-- N'esse caso antes o digacs ao seu ministro... 

E sorriu galantemente a tomar-lhe a mão, recordando-se do tempo em que a vira pequenina. 

-- E onde encontrar esses homens?! E não serão elles eguaes aos do reino?! 

-- Minha boa amiga. Tens um na tua frente! 

-- O senhor conde?! 

-- Eu! Por mal de mim.

-- Mas n'esse caso tudo vos direi... Ah! Com certeza que serei ouvida... 

-- Sobe... não é aqui o logar das audiencias! 

O joven tenente ficou no pateo e a neta do creado dos Tavoras acompanhou o conde. 

Todos se curvavam á sua passagem, todos se dobravam e ella muito excitada, entrava no gabinete onde o conde dos Arcos a mandava sentar. 

Depois, de pé, na sua frente, disse: 

-- Que desejas, então?! Sabes que te quero servir em tudo que te seja util?! 

-- Obrigada! 

-- Fala! 

-- Eu venho de Portugal muito exasperada com o que se passa! 

Atravessei os mares para vir narrar a eUrei as iofamias dos governadores do reinos! 

O ministro franziu o sobrecenho. 

-- Reina por lá a fraude e a injustiça... 

-- Oh! 

-- Sim, sr. conde e eu quero que justiça seja feita, pelo menos, áquelle que eu vejo innocente! 

-- Um noivo! 

-- Podia ser meu pae... declarou ella gravemente ao mesmo tempo que uma lagrima se desprendia das suas pestanas. 

-- E que lhe succedeu?! 

-- Está n'uma prisão... 

-- Porque?! 

-- Victima de falsidades! 

--Quem é esse homem?! interrogou o conde de chofre com intensa curiosidade. 

-- O general Gomes Freire! 

-- Desgraçada! exclamou o ministro. 

-- Excellencia! 

-- Sim... Vens ao Brazil pedir-me a unica cousa que não te posso conceder! 

-- Porque?! 

-- É um réu de lesa-magestade! 

-- Innocente! 

-- Que importa... A justiça mostrou-lhe a culpa! 

-- Justiça feita por um miseravel... 

-- Socega! 

-- Levar-me-heis aos pés d'elle?! 

-- Não! 

-- Oh! sr. conde... 

-- Não-... 

-- Porque?! 

-- Interessas-me demais para te expor a semelhante cousa! disse o conde fazendo se bastante pallido. 

-- Mas o que se passa então?! 

-- Passa-se que tudo ha-de seguir o seu caminho... 

-- Que caminho?! 

-- Nem eu sei, disse com desespero. 

-- Oh! sr. conde! 

-- Pois julgais que não falei eu mesmo a el-rei?! 

-- Vós. 

-- Sim, eu! 

-- N'esse caso interessae-vos pelo general?! 

-- Se o conheci muito... 

-- E porque não obiivesteis o seu perdão?! 

-- Trata-se d'um crime de tal ordem que nem el-rei pode perdoar! 

-- Mas então para quem appellar. 

-- Para Deus! 

-- Não ha senão elle?! 

- Só! 

-- E não podeis conduzir-me até el-rei?! 

-- É um perigo para ti! 

-- Que importa?! Exijo isso ou então eu procurarei o conde d'Alva... 

-- Não... Nem lhe fales n'isso! Eu farei com que D João VI te receba n'uma audiencia particular... 

-- Oh! Obrigada! El-rei pode ouvir-me e vós tambem! 

-- Eu?! 

-- Sim... Quero contar-vos o que se passa em Portugal! 

O ministro sentou-se e ella em voz forte, segura e vibrante começou a narrar todos os successos de Portugal. 

O conde dos Arcos ouvia-a em silencio. 

A joven n'um arranco, já tarde terminava a narrativa, exclamando: 

-- Aquella perseguição era um crime de D. Miguel de Forjaz, o primo de Gomes Freire. 

E o conde dos Arcos calouse como se meditasse. 







XXXV 



A audiencia 





D. João VI, mandou entrar a joven que vestia de negro, sorriu e disse ao vêl-a de joelhos: 

-- Mas erguei-vos! 

Queria ajudal-a a erguer-se e tornou ao vêl-a sempre de rastos: 

-- Mas senhora o que vos obriga a vir assim até aos meus pés? Sei que vindes de Portugal! 

-- E do fim do mundo viria, meu senhor... 

-- Que desejaes?! 

-- O perdão d'um homem que saberá vir até V. M. para explicar as infamias de que é victima! 

-- Quem é esse homem?! interrogou gravemente o rei. 

-- O general Gomes Freire!

-- Bem sei... O seu crime é enorme... 

-- Direi antes que a mentira o envolve. 

-- Careço de ver as causas! Quero fallar ao meu governo... 

-- Senhor, real senhor! supplicou ella. 

-- Bem vejo que muito vos interessa o general! Sois sua filha?! 

-- Não, real senhor, não! Eu desejava ter um pae assim! 

-- Mas que interesse é o vosso?! 

-- O de que a justiça seja feita! 

-- Mas... 

-- Senhor: a conspiração de que vos Fallam é pura mentira?! 

-- Mentira?! 

-- Sim, real senhor, apenas sei que oito homens se reuniam e conspiravam. 

-- Mas como sabeis tudo! 

Ella d'um salto ergueu-se e exclamou: 

-- Sei tudo porque em tudo entrei?! 

-- Vós?! 

-- Sim, real senhor, bradou com desassombro. 

-- E como andaes por aqui?! 

-- Porque fugi apesar dos esbirros que me seguiram... 

-- Sabeis que essa revelação é grave! 

-- Aos reis só a verdade se deve dizer! 

-- Pois sim! Pois sim! Quero ouvir dos vossos labios muitas verdades, mas deveis saber que eu tenho tambem um dever para comvosco... 

O molle rei ameaçava-a; ella com um ar altivo, dizia: 

-- Real senhor: quando deixei Portugal, deixei d'amar a vida: 

-- Senhora! 

-- Sim... Deixei tudo para só conquistar a liberdade do unico homem que existe em Portugal com uma verdadeira gloria! O seu nome soa na Europa onde a sua espada fulgia ao sol de mil batalhas! 

-- Que dizeis?! 

-- Que esse homem é o mesmo que na Russia obteve a patente de coronel e o cordão de cavalleiro de S. Jorge que só se dá aos reis! 

-- Elle! 

-- Que é o mesmo que tomou para V. M. Bosaens e Fizera na fronteira d'Hespanha... 

-- Elle?! 

-- Que é o bravo commandante da legião portugueza! 

O rei muito pasmado, exclamava: 

-- E que mais fez elle além de conspirar?! 

-- Senhor, meu senhor, juro-vos que Gomes Freire não conspirou! 

-- Porque o dizeis! 

-- Fui a sua casa convidal-o a tomar parte na revolta e dos seus labios só ouvi recusas e conselhos... 

-- Porque?! 

-- Porque esses revolucionarios sem influencia e sem nome careciam de uma figura prestigiosa para lhes dar alma!

-- E só aquelle acharam?! 

-- Se era o heroe que o povo amava! 

D. João VI estremeceu, fez-se livido; 

-- O povo?! 

-- Sim, real senhor, esse povo bom que vos guarda ancioso! 

-- A mim?! Por Deus, por Deus... Mas Gomes Freire, era o idolo da multidão! 

-- Sim! 

Então D. João VI com o seu ar bonacheirão e medroso, volveu: 

-- É um mau signal esse! 

-- O que?! 

-- O amor das turbas que só querem aos herejes! 

-- Senhor! 

-- Ide-vos! Ide-vos com a minha clemencia! 

N'um arranco, a joven exclamou: 

-- Um dia chegará em que V. M. ao entrar em Portugal ha-de ouvir da bocca dos sinceros esta historia que vos narrei! Ah! um dia o povo volo contará com lagrimas... 

-- Ouvi... 

-- Senhor... 

-- É muito amado do povo esse homem?! 

-- É o unico nome que a multidão respeita?! 

-- E se lhe perdosse, elle sahiria de Portugal?! 

-- Sahir de Portugal?! interrogou. 

-- Sim! 

-- Talvez... O general deve odiar os homens que lá governam... 

-- Bem... Voltae d'aqui a momentos... Eu preciso fallar a alguém! Voltae á outra sala. 

E quando ella sahiu, D. João VI, com um grande medo, balbuciou: 

-- Um amigo do povo! Oh! Nunca me perdoarão... É bem assim! 

Tocou a campainha e ao creado que se ajoelhava, ordenou: 

-- O senhor conde d' Alva! 

D. Ramiro entrou; beijou a raao do rei que lhe disse á queima roupa: 

-- Conde, quem é um tal Gomes Freire! 

O fidalgo estremeceu e redarguiu: 

-- Um hereje! 

-- Que o povo ama! 

-- Talvez! 

-- Pois bem... Esse homem está condemnado á morte! 

-- Eu sei! disse com odio. 

-- Vou perdoar-lhe para que saia de Portugal! 

-- Perdoar-lhe! gritou elle deveras transtornado. 

-- Sim... É um bello golpe. 

-- V. M. não pode perdoar, redarguiu. 

Na sala contigua a joven ouvia aquella voz severa a declarar o conde d'Alva, continuou: 

-- O perdão d'esse homem será uma audacia nova para os outros! 

-- O que! 

-- Sim... Demais V. M. teria de perdoar os outros! 

-- Que outros?! 

-- Esses que estão para morrer! Os cumplices... 

- Oh! 

-- Sim, meu senhor, no emtanto se quereis... 

-- Não... Não... 

Veiu para a frente d'elle, tomou-lhe o braço. 

-- Mas ouve, Ramiro, meu amigo, ouve... E se eu um dia for a Portugal não se lembrarão... 

-- De que?! 

-- Sim, não perdoei! 

-- V. M. ignora o que se passa... V. M. não recebera nenhum requerimento, disse elle em voz mal segura. 

-- Não! 

-- N'esse caso... 

-- Mas acabo de receber alguem de Portugal! 

-- Quem é?! interrogou com grande pressa. 

-- Uma mulher! 

-- A amante d'elle?! perguntou com mais fogo. 

-- Julgo que não... 

-- E quem é ella? Quem é?! 

Deu-se então uma scena verdadeiramente theatral. A joven abriu a porta e bradou: 

-- É a neta d'um que morreu no patibulo com os Tavoras! 

O conde d'Alva recuou, o rei ficou perplexo. 

E ella, sem importar com aquellas honras, desesperando a vida, accrescentou: 

-- É ella, é a mesma que vem clamar contra a justiça, contra a infamia de D. Miguel Forjaz! 

O conde d'Alvaempallideceu e ella ao vêl-o assim, tornou: 

-- Nem um só momento recuei I Se não obtenho o perdão de Gomes Freire, tenho ao menos que contar! Saberei dizer que no Brazil, deante d'um rei clemente, houve um homem chamado conde d'Alva que não deixou perdoar D. Miguel Forjaz! 

-- Senhora, volveu o conde. D. Miguel Forjaz, é meu amigo... 

-- Ah! Sois seu cumplice! 

-- Senhora! 

-- Sim! Vejo-o no vosso rosto! 

O rei queria pôr termo áquella scena, porém ella continuava: 

-- Mas eu saberei ir até ao final! 

-- Eu apenas tive uma opinião... 

-- Um odio... 

Vendo-se meio descoberto, titubeou: 

-- Mas se S. M. quer perdoar... 

O rei nem respondeu; elle tornou de novo: 

-- Se V. M. quer... 

-- Ouve, Ramiro, sahide senhora. 

-- Eu vou, real senhor e tenho a dizcr-vos que entrou em casa do senhor conde dos Arcos, vosso ministro... Se a justiça de V. M., me quizer alcançar, ali me encontrará! 

-- Sahi! bradou o rei 

D. Ramiro ao ouvir o nome do conde dos Arcos, fez-se mais pallido e exclamou: 

-- Real senhor, tenho a dizer a V. M. que tarde chegará o vosso perdão! 

-- Porque?! 

-- É hoje o dia 18 d'outubro... 

-- Quereis dizer! 

-- Que a esta hora já Gomes Freire morreu! 

A joven, sentiu uma vertigem e exclamou: 

-- Miseravel! 

Depois, perdendo as forças cahiu no sobrado sem sentidos. 

O rei foi-se espavorido e vermelho seguido pelo familiar emquanto os creados corriam a soccorrer a joven. 

E D. Ramiro, gritou-lhes: 

-- Levae essa mulher para a cadeia! 

N'este momento o ministro entrou; encarou-o, comprehendeu a scena: 

-- É uma ordem d'el-rei, senhor?! 

-- É uma ordem minha! bradou. 

-- Mas como acima de vós estou eu, ordeno que levem essa mulher para minha casa.

-- Senhor ministro! 

-- Senhor conde! 

-- Recolheis em vossa casa mulheres que nos insultam?! 

-- Calae-vos! Eu jogo o meu logar bem sei, mas jogo-o de bom grado, D. Ramiro... 

D. João VI, muito tremulo appareceu á porta e exclamou: 

-- Que é isto?! 

-- Real senhor, é que vos peço o perdão d'aquella desgraçada! 

- Sim... sim, conde! Vae-te com ella... - 

-- Senhor... obrigado... 

E sahiu atraz dos creados que conduziam o corpo da joven para a outra sala. 

O rei voltava-se para D. Ramiro e exclamava: 

-- Que terrivel scena... 

-- Senhor, que ruim ministro tendes! 

-- O conde?! 

-- Sim, real senhor... 

-- Oh! deixa-o... Poupa-me o trabalho de procurar outro.. 

Entretanto a joven recuperava os sentidos e exclamava: 

-- Mataram no! Oh! eu o vingarei! 

Ao ver o conde a seu lado, tornou: 

-- Perdoae sr. conde, perdoae. 

-- Minha filha, deveis socegar... 

-- Ah! para ter maior força no dia da vingança. 

Arrimou-se ao braço do fidalgo e disse-lhe: 

-- Sabeis que já não quero ir tão cedo a Portugal! 

-- Ficarás! 

-- Sim, ficarei! 

-- Tens aqui uma casa e uma familia! 

-- Não, excellencia! Eu tenho um convento... 

-- Amavas então esse homem?! 

-- Amava n'elle o resto unico do genio portuguez! 

Soluçava e ao mctter-se na sege via o tenente que a olhava. 

Seguiu-a até ali, viva como sempre. 

Mostrou-lhe um sorriso, disse-lhe adeus. Elle descobriu-se e a joven murmurou: 

-- Que infeliz rapaz!... 

Lá em cima, D. Ramiro dizia ainda a D. João VI: 

-- V. M. não deve tolerar o conde dos Arcos... Foi elle quem preparou outro dia uma secna desagradavel no paço da rainha! 

-- Elle?! 

-- Sim... S. M. m'o disse banhada em pranto! 

-- Ella?! EUa que recebia no seu quarto um homem que não reconheci! 

-- Senhor... Não acrediteis! 

-- Se vi! 

-- Ah! Como as apparencias enganam... S. M. estava com o seu confessor... O conde dos Arcos é que buscou separar-vos. Mas D. João VI, sorvendo uma pitada, respondeu: 

-- Deixa-me com politica! 

-- Politica?!

-- Sim, volveu o rei com a sua saloia esperteza. Eu vejo agora muito ao longe... 

-- Real senhor... 

-- Vae-te... Quero ficar só! 

Quando elle lhe beijou a mão, o monarcha, recommendou: 

-- E sobretudo não tentes nada contra essa mulher! 

-- Que mulher!

-- Aquella que o conde protege... 

-- Socegae, meu senhor! 

-- Em socego fico, redarguiu. 

Mas o conde d'Alva ao sahir, teve um riso de troça e de colera e exclamou: 

-- Ainda uma derrota que no fundo é uma victoria! 

E lembrou-se mais uma vez d'esse dia 18 d'outubro que ia a findar. 









XXXVI 



Os amigos de Gomes Freire 





Era noute, uma noute eseura, má, em outubro. Abriu-se a porta do cárcere onde estava Gomes Freire. 

Um vulto entrou embuçado n'uma capa, olhou o general que dormia serenamente e exclamou: 

-- Pobre d'elle... e foi tocar-lhe no hombro, a abanal-o. 

-- O que é?! O que é?! interrogou elle n'um sobresalto e passando a mão pelo rosto, tornou: 

--Ah! És tu Waddock... 

-- Sim... 

-- Dormia a somno solto e sonhava... 

-- Sonhavas... 

Parecia perturbado, disse aquillo muito tristemente. 

-- Sim... Julgava-me na Russia! 

-- Onde devias estar... 

Com um sorriso amargo elle, volveu: 

-- Oh! Que tempo aquelle... 

-- Porque não voltas?! 

Então o general com o mesmo sorriso triste redarguiu: 

-- Eu?! Mas acaso posso?! 

-- Sim... Gomes Freire....Mais uma vez venho offerecer-lhe a liberdade! 

-- Nunca... É a fuga, é a deshonra!... 

O inglez não se poude conter. Olhou-o de frente e bradou; 

-- A deshonra?! Pois maior deshonra é a que vão inflingir-te... 

Parecia louco, tremia, sacudia-se n'uma convulsão. 

-- Ah! a morte, volveu o general com desprezo. 

-- Sim a morte! 

-- Que importa! É collocar-me diante das espingardas como um soldado, d'olhos abertos a mandar o fogo... 

-- Que loucura! 

-- Não! Já sei como isso se faz... 

-- Oh! Gomes Freire, pobre amigo, tornou o official cahindo-lhe nos braços. Mas é que não serás arcabuzado... 

-- Então o que?! 

D'olhos dilatados, todo n'um tremor, quasi n'um berro, disse: 

-- O que?! o que?! 

-- Vae chegar o confessor... Vae chegar o carcereiro para te vestir a alva... 

-- Enforcado?!... 

E cahiu sobre o leito a soluçar, desesperado, banhado em pranto. 

-- Enforcado?!... Oh!... Miseraveis! 

-- Não queres fugir?! 

Elle não respondeu. Chorava o bravo soldado. 

Tinham batido dez horas. Estavam dobradas as sentinellas na fortaleza; ouviam-se alertas e soavam passos. 

-- Oh! Miseraveis... Miseraveis!... 

Agora sentia ainda no fundo do seu leito a colera mais estranha e mais sentida, um desespero louco lhe vinha e o seu pobre coração batia extranhamente. 

-- Morrer... Morrer assim como um bandido!... Que fiz eu a esses homens?! Waddock, meu amigo... E não veiu nada d'el-rei?! Mas que fiz eu... 

-- Tu eras uma sombra pesada em demasia para elles... 

Assim abraçados choravam; sentiam uma terrível colera e contra os governadores do reino. 

-- Gomes Freire! exclamou de novo o outro. Vem comigo! 

-- Como?! Como?! 

-- Vestireis uma farda ingleza... 

-- Não! Nunca! Então passaria por culpado... 

-- E acaso juntos, não teriamos forças para provar a tua innocencia?! 

-- Não quero! Um dia me farão justiça! 

-- Meu amigo!

-- Eu fui um louco e fui um infeliz, .. Fui um louco porque não me amoldei ao meu tempo... 

Tinha uma enorme exaltação, sentia uma vontade terrivel de clamar, de se indignar e concluia a dizer: 

-- Se eu fosse como elles, se tivesse sido mais cortezão de que soldado, hoje mandaria enforcar em vez de ser enforcado! Mas que importa?! Saberei morrer! Fui vencido! Oh! Mas pela traição... Recordo-me tanto de que prophetisaram isto! Foi na Russia... Ah! Se o meu Pedro fosse vivo! Se o marquez d'Alorna não tivesse morrido... 

-- Tens aqui um amigo! Tens além Sir Archibald!... 

-- É tarde!... 

E conteve um soluço, olhou o amigo e tornou: 

-- É tarde sim... ouve meu velho, escuta... Eu não tenho familia... Meu pobre tio foi victima d'uma infamia como eu! Mataram-n'o em Braga... 

-- Sim... Sim... Eu sei... O pobre Bernardim... 

-- Pois bem... Não tenho familia... Os meus haveres vão ser confiscados, não te posso dfeixar sequer uma recordação! 

Já não chorava, antes se aprumava e dizia de novo: 

-- Aquella espada que era toda a minha gloria entreguei-a ao official que me prendeu! Ganhei-a na Russia e quero offerecer-t'a! 

-- Oh! 

-- Reclama-a! Leva-a para Inglaterra ou quebra-a... Que não fique nas mãos d'elles!... 

-- Tu não morrereis! É impossivel! 

-- Não... É certo... É a minha sina! 

Calou-se. ficou de cabeça baixa e com firmeza interrogou: 

-- A que horas virá o padre?! 

-- Dentro em pouco... 

-- E o carrasco?! 

-- Ao alvorecer... disse elle n'uma voz tristemente alanceada tocou uma corneta, o general ergueu-se sobresaltado, e exclamou: 

-- Que é isto?! 

-- É o regimento que está na torre! 

-- Ah! 

-- Sim... É o regimento que vos deve guardar... 

Com furia, tomou-lhe o braço, apertou-o nervosamente e disse: 

-- Uma vez ainda... Queres partir! 

-- Não... 

-- Oh! Vem... vem... meu amigo... 

Lançou-se-lhe nos braços a chorar. 

Mas a porta abriu-se e o vulto severo do governador appareceu. 

-- É tarde: 

-- Archilball!... 

Lançou-se-lhe nos braços ao sentil-o tão amigo, ficou a soluçar contra o seu peito. 

Mas Waddock andava d'um lado para o outro, afflicto, desesperado, gritava: 

-- E não ha um remedio?!... Não ha um só remedio?! 

-- Ha! disse de repente o governador. 

-- Qual?! 

-- Por todos os modos arrancal-o d' aqui. 

-- Dizias que era tarde! 

-- Que importa... Saberei passar! Eu sou o governador! 

-- E eu sou o preso! disse o heroe com vehemencia. 

-- Queres dizer... 

-- Que não sahirei! 

-- Gomes Freire! 

-- Amigo... É a verdade! Não sahirei... 

-- Mas... 

-- Juro! 

-- Porém bem vês!... 

-- Vejo que não tendes o direito de me dar a liberdade. 

Os inglezes olhavam-se, pareciam combinar alguma coisa com esse olhar. 

Porém bateram á porta e uma voz exclamou: 

-- É o confessor!... 

D'esta vez um fremito os percorreu; tomaram as mãos do heroe, disseram! 

-- Mais uma vez, queres vir! 

-- E elle, muito dignamente, volveu: 

-- Não... Não quero... Mais vale morrer innocente de que salvar-me passando por culpado! 

Já no lumiar estava a figura negra do monge. 

O governador e o tenente-coronel estremeceram. O padre avançou, disse: 

-- Deus seja comvosco... e baixou humildemente a cabeça. 

Elles apertaram a mão a Gomes Freire no maior desalento e elle diante do padre, disse: 

-- Um extenso abraço, amigos! 

E passou dos braços d'um aos braços d'outro. 

Elles sahiram a chorar. O general, murmurou: 

-- Oh! Os meus ultimos amigos! 

-- Não... Não são estes os últimos, bradou o sacerdote. 

Na luz da lanterna collocada sobre a meza, o general anteviu um rosto, teve uma recordação vaga: 

-- Ah!... Vasco!... Vasco!... 

-- Eu sim... 

E aquelle antigo noviço que se tornara cadete para depois chegar ao generalato, estava alem alquebrado, velho, em face do heroe: 

-- Tu! 

-- Eu sim... Não sabes que mais ninguem te podia confessar... 

-- Oh! Como chegastes aqui?! 

-- No meu mister... 

-- O que?! Pois tu... 

Com uma dor intensa na voz e no olhar, o outro volveu mostrando os seus cabellos brancos: 

-- Era a vontade de Deus que cu morresse no claustro! Devia ser padre e fui soldado, de lá voltei para o habito! 

-- Oh! Amigo... E Maria da Penha... 

Em voz suflocada, o padre, redarguiu: 

-- Morta! Por isso recolhi ao convento... 

Gomes Freire, tornou ao fim de certo tempo: 

-- Sabes que vou morrer! 

-- Vi além que se erguia uma forca... Não pode ser para ti! 

-- Oh!... 

Já não chorava, olhava o sacerdote que accrescentava vivamente: 

-- Como nos velhos tempos, Gomes Freire, aqui tens o teu Vasco... 

- Oh! 

-- Aqui te entrego o habito que te salvaria! 

O general estava como louco a olhar a roupeta que o outro lhe estendia. 

-- Mas... Mas... 

-- Pensas que não estudei tudo?!... Eu tenho o meu passaporte... 

Ao arrancar a roupeta apparecia fardado de coronel inglez. 

-- Tu és frade, meu Vaseo?! Tu conseguiste chegar aqui pelo muito que me queres! 

-- Sou, Gomes Freire, sou o principal da Cartuxa! 

-- E não vês que commettes um crime?! 

-- Por Deus! Tu és para mim tudo! 

Mas o general, no seu grande desespero, acabava a dizer: 

-- Ouve-me, Vasco, ouve a minha confissão... 

-- Não ha tempo a perder, accrescentou com raiva, o sacerdote. 

-- Para que?! 

-- Para a tua fuga... 

-- Ah! Pois não te disse ainda... 

-- O que?! O que?! perguntou como doido. 

-- Que não fugiria?! Não te disse?! 

-- Sim... Mas... 

-- Vasco... Já não conheces então o teu amigo?!... 

-- Oh! 

-- Sim... Não penses em tal! Eu quero morrer... 

O frade que estava ligado a elle, accrescentou em voz fraca: 

-- Ó Gomes... E eu que pedi a Deus toda a minha velha energia quebrantada pelos desgostos. E eu que suppliquei essa graça... 

-- Amigo... Tu terás essa energia para me levares ao patibulo. 

O frade rangeu os dentes colericamente e disse entre soluços: 

-- Se morres, Gomes Freire, eu saberei vingar-te... 

-- Amigo! 

E elle não recusou essa vingança que o outro meditava ao dizer-lhe ainda: 

-- Vem... Veste esse habito! 

-- Vasco, tornou o general. Viste os homens que sahiram d'aqui?! 

-- Sim... Os inglezes! 

-- São o governador da Torre e o seu immediato! 

-- Bem... 

-- Sabes o que me disseram? 

-- Não... 

-- Que passasse aquella porta com elles! 

-- Para que?! 

-- Para fugir... 

-- E tu? 

-- Como viste, recusei... 

-- Que não resistas... Veste o teu habito... Ouve a minha confissão... 

-- Oh! Gomes Freire, não tenho coragem... 

-- Ouve-me... Careço de consolos... 

-- Que me dizeis que eu não saiba! 

-- Sabe o amigo... Não sabe o sacerdote!... 

-- Oh! Tu és uma alma justa... 

-- Não sei... 

-- Oh! Gomes Freire... e o padre deixou-se cahir sobre o leito. 

-- Inverga o teu habito, ordenou o general. 

-- É a tua ultima resolução? 

-- E bem a ultima... 

Cahiu de joelhos ao velo vestir o habito e disse: 

-- Agora... Ouve-me... Tu és o padre e eu o penitente! 

-- Mas... 

-- Ouve-me, reverendo! 

Era extraordinario aquelle homem tão proximo da morte, e ter semelhante coragem, a falar assim, com os olhos enxutos e a cabeça erguida. 

-- Gomes Freire! soluçou o outro. 

-- Amigo... 

-- Mas é a forca... 

-- Estás junto de mim para me consolares! Fica para me vingares, para a rehabilitação! 

-- Ah! Os miseraveis! 

-- Agora Vasco, só quero assim palavras de perdão!... 

Estava de joelhos diante d'elle e o outro não tinha a coragem de começar. 

Por fim, em voz baixa, começou a sua tarefa. 

Ouviu-se rumor na fortaleza. 

Sir Archibald Gampebll, recebia o commandante da força: o coronel que o governador do reino lhe enviava: 

-- Senhor! 

-- Coronel! 

-- Eu venho para commandar o regimento... 

-- E Waddock! interrogou com pasmo. 

-- Não lhe compete... 

-- Vós o commandareis!... 

-- Peço-vos todo o auxilio para manter a ordem... 

-- Que julgaes?! interrogou de repente. 

-- Que esse rebeldes tem amigos! 

Campebll olhou o coronel e redarguiu: 

-- E tem... 

-- Já vêdes pois... 

-- Coronel... Estaes. falando a um d'elles! 

-- Vós 

-- Por Deus que sim... 

-- Tambem vós! 

-- Desde ha muitos annos! Elle é um heroe... 

- Oh!... 

E voltou-lhe as costas. Foi de corrida juntar se aos funccionarios da policia que chegavam. 

-- Ah! Vil... Vil disse uma voz ao lado de Campebll. O miseravel então é amigo dos carrascos!... 

Na estrada de S. Julião vinha um vehiculo a todo o galope, o governador estava perturbado, arrastava-se nos braços de Gampebll. 

-- Vae ser terrivel! 

-- Ah! Ahi chega o carrasco!... 

A' porta da fortaleza apeava-se um homem embuçado. 

E bateram as onze horas. 







XXXVII 



Via Dolorosa 





Pardacenta apparecera a manhã. Na plataforma da fortaleza um terno de tambores aguardava um signal. 

Fóra dos muros, n*um terreiro, a forca erguia os seus braços negros, deixava pender o baraço. Nevava; estava frio; o Tejo murmulhava contra os 

paredões de S. Julião da Barra. 

Reinava ainda um grande silencio. Dentro em pouco tocaria a alvorada. 

Mettida na bruma a povoação de Oeiras, com o velho casarão do marquez de Pombal, estava queda, tristonha. Na estrada rodava um carro d'almocreve bem carregado. 

Em baixo, no carcere, a gente da justiça rodeava o general, que se erguera. 

Tinha os olhos pisados, estava vestido na sua farda ao lado de frei Vasco. 

Ardia uma luz sobre a meza a meio do aposento onde tanto soffrera. 

Chegara emfim o momento da sua humilhação. 

-- Resigna-te Gomes, murmurou o frade a meia voz, accrescentando logo: 

-- Eu te vingarei... 

O carcereiro entrou com um braçado de roupas, acercou-se e disse: 

-- É a hora! 

-- Ah! Vamos para a morte volveu Gomes Freire, sem o menor terror. 

-- É necessario que envergueis a opa! 

-- O que?! 

-- Sim... Aqui esta a alva de condemnado! 

E collocou sobre a cama a veste clara, uma camisa larga que o revestiria. 

O general olhou cheio de pasmo aquelle homem que assim lhe fallava. No seu rosto lia-se uma extranha dôr, e uma grande amargura. 

Tambem lhe embranqueciam as barbas e os cabellos. 

-- Vestir isso!... 

Com um gesto de repugnância, apontou a alva, abanou lentamente a cabeça e murmurou: 

-- Mas eu sou militar! Quero morrer com a minha farda! 

Em roda a gente da justiça calava-se; elle olhava-os, sentia-se desesperar. 

-- Como um ladrão!... 

-- Gomes... Agora é necessario, disse-lhe o padre muito baixinho. 

E elle, com uma santa resignação, despiu a farda, aquelle uniforme glorioso, arrancou-o com furia, ficou em roupas brancas emquanto Vasco lhe trouxera a alva chorando commovidamente. 

-- Devia ser eu o encarregado de tão vil tarefa... 

Não respondeu, tinha sangue nos olhos, tinha uma contracção nervosa, punha-se-lhe um nó na garganta. 

De repente, rufaram os tambores e elle exclamou: 

-- Ah! Emfim! 

-- Deveis descalçar-vos, rugiu a voz grossa d'um carcereiro. 

E elle, então, já resignado, com a tristeza no olhar, deixou-se cahir sobre a cama ao mesmo tempo que o frade ajoelhava a seus pés. 

Descalçava e já se approximava um carcereiro com o baraço para lhe ligar as mãos atraz das costas. 

Deixou-se amarrar; pela primeira vez sentiu um estremecimento que reprimiu.

Em cima, os tambores rufavam desesperadamente; a névoa afogava tudo. 

E a povoação tinha o mesmo ar tristonho, desolado, sem um grito, sem uma manifestação de vida na replante geada que cahia. 

Os passaros acoxavím-se nos ninhos. 

O espaço era cinzento, brumoso, muito pesado de côr, sem uma aberta. 

O general estava de pé no lagedo, muito transtornado, Corria-lhe pela espinha um calafrio, olhava serenamente frei Vasco que o olhava tambem. 

De repente os homens de justiça approximaram-se, um desembargador interrogou: 

-- Tem mais alguma cousa a dizer?! 

-- Apenas a Deus que me julga n'este momento, redarguia lentamente. 

O frade passou-lhe o braço em volta da cintura, amparou-o, levou-o assim com um carinho enorme até á porta. 

Elle sentia o frio das lajes a precorrel-o, era como a ante camara do tumulo. 

Mas levantava a cabeça: queria mostrar serenidade. 

Em cima acabava de se formar o regimento. 

Os soldados estavam firmes, serenos, com os tambores á frente, lá no terreiro o carraseo aguardava-a com os ajudantes junto á forca. 

Rufaram mais os tambores; houve uma manobra, soou uma voz de commando e a tropa poz-se em marcha para cercar o patibulo. 

Havia raros curiosos, gente de campo apenas que vinha ver morrer um homem. 

Elle passou o portão da fortaleza sempre de cabeça levantada. 

Então teve um calafrio vivo, sentiu em fremito, murmurou:

-- É feio! 

Viu os olhares dos homens de justiça fixos n'elle. Assim foi até ao patibulo, onde o mandaram esperar. 

Na manhã regelada, elle com o seu ar de torturado, aquedava-se. 

Recordava a sua vida atrazada, o que tora, o que fizera, o que seria. 

N'aquelle momento tudo lhe chegava de tropel, tudo lhe vinha n'uma anciã, n'um desencadeamente d'ideias, muito rapidas, muito velozes. 

E lembrava se d*uma manha assim, sobre os gelos, na Russia, no dia de epopea em que quasi regelou mas em que recebera uma espada d'honra. 

E que tambem nevava, tambem tinha uma grande commoção, tudo se passava no emtanto ao revez. 

Não amaldiçoava ninguem, lembravase dos seus amigos, sentia o braço de ir. Vasco a tomar-lhe a cintura. 

Mas um frio mortal o invadia, uma grande tremura o sacudia na mais formidavel sensação. 

Via como n'um sonho muito perturbadamente tudo aquillo, via os homens da justiça, vestidos de negro, via a tropa, os saldados, toda aquella velha guarda, alem na sua frente, e via tambem o carrasco. 

-- E Campbell! 

Lá estava como na Russia, outr'ora, fardado, firme, sem o olhar. 

Todos os seus sonhos morriam n'aquella hora, por essa manhã triste de nevoeiro diante d'uma forca. 

Era a sua vida tranquilla, a sua patria organisante que ia deixar, era tudo, a infamia e a torpeza que se impunham na terra que lhe fóra berço. Então sentia uma vertigem, sentia um desfallecimento e ficava nos braços do frade. Corriam para elle como se temessem vel-o morrer sem a humilhação de força: uma voz suou: 

-- É medo! 

Como se recebesse uma chicotada, estremeceu, voltou a si, disse: 

-- Faltava-lhes isso... Tenho apenas frio... 

Os soldados estavam impassíveis: corriam lagrimas n' algumas faces. 

Um veterano da guerra peninsular, deixou cahir a arma ao enxugar as lagrimas. 

E logo, houve um panico, logo se pintou o terror na face dos homens da justiça. Um d'elles correu para o commandante, exclamou: 

-- Coronel... É melhor que o regimento volte as costas á forca... 

-- A seu tempo!... 

Muito baixo, o outro, disse: 

-- Já... elles podem revoliar-se... 

-- Socegae... 

-- É que o general fez signaes maçonicos... É amigo de Waddock. 

O coronel Amaral redarguiu cynicamente: 

-- Tem as mãos amarradas. 

Rufavam de novo os tambores. 

Gomes Freire, muito baixinho, ao ouvido de Vasco, murmurou: 

-- Ouve-me... Mandem que se apressem... Não posso mais; Tenho frio... 

Parecia no emtanto que faziam prepositadamente, demoravam-se, tinham o prazer de o ver soífrer, tinham a anciã voluptuosa de verem tremer aquelle que lhe apontavam como heroe. 

O carrasco, um mulatão espadaudo, vestido de vermelho, estava sereno; mas de chofre, como visse que prolongavam a scena, disse emjoado: 

-- Porque esperam... 

-- Pela alvorada, foi a resposta. 

Eram ainda cinco e meia da manhã. 

E então, durante mais meia hora, sem a menor attençao, sem a menor piedade, elles deixaram-no ali ficar exposto aos olhares da turba e da commiseração dos soldados. Vasco, fallava lhe baixinho: 

-- Gomes Freire, que queres de mim, que devo fazer?! 

-- Amigo... Primeiro quero que não chores... 

-- Ah! 

-- Sim... São contagiosas as lagrimas... Não ves como os soldados choram... Estão ali alguns que vi no fogo; estão ali heroes... Quero despedir-me d'elles... 

-- Não t'o consentirão... 

-- Vasco... tornou elle. Na algibeira da minha farda está uma carta que eu escrevi... 

-- Bem... volveu o frade com rancor... 

- Leval-a-has... não tem subseripto, mas é para ser entregue a D. Miguel Forjaz... 

-- Sim! 

-- Mais nada... Mais nada!... Que demora! 

Agora tinha uma grande pressa de morrer, linha um grande desespero no olhar e accrescentava: 

-- Bem arrependido estou de ter amado bastante a minha terra! 

-- Gomes! 

-- Devia tel-a aleviado de semelhantes miseraveis!... 

-- É a hora, disse uma voz. 

E então no meio do silencio glacial, faziam-no avançar a passos breves para a forca. Davam as seis horas ao longe n'um sino d'uma egreja. Tocaram as cornetas na fortaleza. 

Elle avançava sempre, parava diante do regimento, muito sereno, muito altivo e ao ver lagrimas nos olhos dos soldados, o general sentiu um consolo. 

-- Quero falar lhes! pediu docemente. 

Mas já o desembargador deveras assustado, exclamava: 

-- Coronel... coronel... É bom voltar o regimento contra a forca! 

-- Nunca! exclamou elle com força. Jámais farei semelhante affronta... 

-- A um criminoso! disse o homem da justiça com raiva. 

-- Ah! não... aos meus bravos! O meu regimento pode bem ver morrer um traidor sem se revoltar!... 

Campbell deu dois passos para elle e gritou: 

-- Senhor! 

-- Que desejaes?! 

-- É muito solemne este momento para insultos! 

-- Como o entendeis... 

-- Calae-vos! Eu sou o governador da fortaleza e atravez de tudo vos farei calar!... 

Já Gomes Freire, junto da forca lhe agradecia com um olhar. 

Subiu a eseada sempre amparado por fr. Vaseo que lhe mostrava o crucifixo. 

Porém elle, antes de o olhar, dizia: 

-- Vasco... Vasco... Vês como acabam os nossos sonhos! 

-- Pó, terra, o nada... 

-- A infamia! concluiu com força. 

Depois volveu os seus olhos tristes para o Christo, soffreu um rude abalo ao sentir que o carraseo lhe punha a mão no hombro e murmurou: 

-- Devagar, senhor! 

-- Não vos desmancho os laços de rendas! rosnou brutalmente. 

Com um mau riso atirou-lhe a laçada ao peseoço e accrescentou: 

-- Bem vêdes que vos componho... 

Então o general com as lagrimas correndo a quatro a quatro pelas faces, disse: 

-- Soldados! 

Olhava o regimento e via que todos choravam, sentia um desejo mortal de lhes dizer que morria innocente, sentia uma colera surda, uma violencia brusea e exclamava de novo: 

-- Soldados! 

Mas já o desembargador bradava: 

-- Rufem os tambores! 

Na atirada brutal a sua voz foi abafada; o carraseo deu-lhe um empuxão e o corpo do general ficou a balancear no espaço, rigido, livido, roxo, na ignominia da forca. 

N'este momento a soldadeseca deixou as fileiras, ouviu-se um rumor, pararam os tambores e na confusão que se estabeleceu a voz do coronel soava: 

-- Firmes! Firmes! 

-- Miseravel! bradou Campbell fugindo espavorido ao lado de Waddock. 

O frade olhava-o como se ainda não acreditasse, increpava duramente o desembargador: 

-- Não me deixaste dar-lhe o cumulo da religião! 

E o bandido redarguiu com um riso: 

-- Ah! Era solemne e perigoso o momento!... 

Vasco com uma tristeza affastou-se, correu para a masmorra a procurar a carta na algibeira da farda do heroe. 

E o regimento entrava na ordem, partia ao som das cornetas emquanto o carraseo deixava correr a corda e pousava o cadaver no chão. Já outros accendiam uma fogueira. Começava uma scena canibalesca. 

As madeiras eram untadas de breu e de azeite. 

Lançavam lhes fogo, formavam uma roda e sobre aquelle brazeiro, na fumarada revolta, na chamma rubra, lançaram o corpo de Gomes Freire como na suprema purificação que para elles era a ignominia. 

Já Vasco voltava com o rosto transtornado, tudo só n'uma perturbação, agarrava contra o peito a carta dirigida a D. Miguel Forjaz. 

-- Meu irmão, disse uma voz a seu lado. 

Voltou se, deparou com Waddock que parecia louco: 

-- Que quereis?! 

-- É necessario que o vinguemos! 

-- Só a mim pertence essa vingança... 

-- Que fazeis?! 

-- Deus o sabe... 

Mas recuou, estremeceu, apontou os rolos de fumo negro e disse muito cheio de terror: 

-- Que é aquillo?! 

-- Queimaram-no... 

-- Ah!... Infames! 

Soltou um grito rouco e levou as mãos ao coração dizendo: 

-- Sim... Vão deitar ao mar as suas cinzas! 

-- A terra não as deve possuir! Lá em baixo, no fundo das aguas, estão melhor!... Ah!... que miseraveis! 

E com um brado extranho de dôr e de raiva, o frade cahiu desamparado no lagedo da fortaleza. 

Rompia o sol, um sol d'ouro fusco, doente, pallido, um sol de melancholia; e os passaros já começavam por sobre a fogueira a chilrearem. 

D'ahi a momentos, no Campo de Sant'Anna eram enforcados os outros accusados que ficaram na historia com o nome de Martyres da Patria. 

Beresford, n'essa mesma tarde, despedia-se do governador do reino com as seguintes palavras: 

-- Vou ao Rio de Janeiro! Vou dizer a el-rei que apenas obedeci! Não fui eu o assassino de Gomes Freire! 

Elles não lhe souberam responder. 

E fr. Vasco, pela noite, muito encolhido no fundo d'uma sege, dirigia-se para a Ajuda em procura de D. Miguel Forjaz. 

Quando disseram ao governador que se tratava do reverendo superior dos Cartuxos, mandou-o que entrasse. 

-- Meu irmão, a que vindes?! 

Quiz beijar-lhe a manga e elle retirando-a, disse: 

-- Venho cumprir uma missão... 

-- De quem?! 

-- D'um amigo meu, d'um irmão que foi mono hoje!

-- Senhor! 

-- Aqui tendes!... 

Estendeu-lhe a carta e o outro rasgando á pressa o sobrescripto fez-se pallido e exclamou: 

-- De quem é isto?! 

-- De Gomes Freire... 

D. Miguel Forjaz cahia desamparado n'uma cadeira e deixou-se ficar assim muito tempo, deveras perturbado. 

A carta estava no chão; tinha só uma palavra mas era escripta com sangue do martyr. 

-- Maldito! 

E aquella palavra crescia, tomava proporções, era como uma accusação feita com toda a revolta d' além do tumulo. 

Pela noite foram lançadas ao Tejo as cinzas do general, do homem que fora um dos primeiros homens de guerra de Portugal. 

E a noite estava serena, calma, com um luar doce que parecia querer gravar um epitaphio de luz sobre as aguas que serviam de tumulo ao grande heroe portuguez! 







XXVIII 





As noticias 







A filha do creado dos Tavoras quando lhe disseram que Gomes Freire fôra morto, sentiu um abalo profundo. Ficou como doida e a custo conteve uma imprecação. 

N'essa mesma tarde á hora do jantar despediu-se dos seus hospedeiros. 

-- Pois partis?! perguntou-lhe o ministro. 

- Sim... Parto... Já é escusada a minha presença no Brazil! 

-- Oh! Minha pobre creança, tornou elle, e que vaes fazer para Portugal?! 

-- Repousar... 

Foi muito serenamente que deu aquella resposta, foi como já desligada da vida, e accrescentando: 

-- Decerto em pouco vae partir um navio para o reino... Eu irei n'elle. 

Ninguem foi capaz de a dissuadir. 

As ultimas horas que passou em casa do ministro empregou as a meditar. 

Lembrou se primeiro d'esse homem a quem quizera tanto bem. Não derramou uma lagrima. Parecia que lhe tinham estancado todas as sensações. 

E veiu lhe depois a recordação do joven official que tantas provas d'amor lhe dera, chegou-lhe essa visão d'esse muito amigo e velho apaixonado. Só então pensou que podia ser feliz. 

Sem saber porque ligava-o á sua felicidade, enchia o peito com a imagem d'elle. Mas de repente os olhos seintillavam-lhe, vinha-lhe um enorme desespero e murmurava: 

-- Oh! E ainda penso na felicidade! 

Para ella tudo devia acabar desde que Gomes Freire morrera. 

E entrava a perguntar a si mesma como se ligara áquelle homem, o que a faria assim amal-o. 

Não o amava senão como portugueza, como uma mulher que se habituava a respeital-o a querer-lhe como a um pae. Porém a idéa de partir, muito forte n'ella, embaraçava-a, levava a a pensar na vingança. 

E acudia-lhe a idéa do miseravel conde d'Alva e do vil D. Miguel Forjaz, vinha-lhe o desprezo por ambos e sem saber porque sentia-se capaz de tudo para vingar a memoria de Gomes Freire. 

Porém que podia ella fazer, assim tão fraca, pobre mulher sem mais auxilio que o seu braço?! 

Quando chegou a noute e quando os eseravos lhe foram levar as suas malas a bordo, a joven, acompanhada pelo ministro, já dentro da sege, exclamou: 

-- Como vos agradeço, senhor o que fizestcis por mim?! 

-- Pouco foi! E como desejava fazer muito mais! disse elle. 

A rapariga baixou a cabeça e apenas redarguiu: 

-- Que poderieis fazer?!

-- Muito, se quizesseis... 

-- Muito?! 

-- Sim! Poderias ficar comnosco, poderias ficar em minha casa encontrarias todos os carinhos! 

-- Senhor... Mas se eu nasci para ser desgraçada... 

-- Não comprehendo... 

-- É simples, senhor! Mataram aquelle por quem eu tinha um grande affecto... 

-- Resigna-te! 

-- Resignar-me... 

-- Sim! Que contas então fazer?! interrogou como sobresaltado. 

-- Conto encerrar me n'algum logar onde possa estar só! 

Chegava ao caes; o ministro desceu e offereceu-lhe a mão. Já tinha aproado um bote a terra e saltaram para elle. 

Iam a caminho do navio; o ministro fallava sempre. 

-- Sabes que em minha mulher encontras uma mãe?! 

-- Senhor... 

-- Sim... Já te amava como filha... 

-- Então... 

-- Mas não posso... 

-- Ouve... 

-- Dizei... 

-- Depois ha alguem que te ama... 

-- Quem?! interrogou com um sobresalto. 

-- Aquelle pobre rapaz... 

-- A quem eu só daria desgostos... 

-- Mas porque?! 

-- Senhor... Eu tenho no fundo da minha alma alguma cousa a segredar-me que devo ser infeliz... 

-- Loucuras... 

-- Tenho no fundo do meu coração o pensamento que faria desgraçado aquelle que me amasse... 

-- Oh!... 

-- Sim... bem sei... Vi morrer minha mãe, vi morrer até minha familia. 

-- Mas...

-- Finalmente, esse homem que devia libertar a minha patria... 

-- És uma creança... 

-- Serei... 

-- Mas escuta... 

-- Nada me pode esquecer do que passei... 

-- Pelo ceu... Escuta... Que queres fazer?! 

Agarrava-lhe febrimente a mão, porem ella com a maior simplicidade volvia: 

-- Nada... 

-- Mentes... 

-- Não... Não minto... Quero apenas affastar-me do mundo!... 

-- Encontrarás facilmente um convento.... 

-- Sim... 

-- Aqui mesmo... 

-- Quero os do reino! 

-- Queres fugir aquelles que te amam... 

-- Quero estar só! 

Chegavam a bordo; ella ia logo para o seu quarto e disse ainda ao ver o ministro muito commovido: 

-- Perdoae... 

-- Já sabes que se alguma vez careceres d'um amigo... 

-- Senhor, eu sei! 

E uma lagrima, a sua ultima lagrima se lhe desprendeu dos olhos e se foi perder no seu alvo peseoço. 

Logo que o ministro partira, ella veiu para a tolda. Estava uma linda manhã. Chegavam passageiros. Envolvera-se n'uma capa e sentiu-se arrastada por uma grande loucura que debalde tentava abafar. 

Descera ao acaso para um bote dos que chegavam, foi conduzida a terra, e uma vez no caes sorria extranhamente: 

-- Para onde vou eu?! 

Mas caminhava sempre como se levasse um seguro destino, ia no mesmo passo seguro e rapido atravez as ruas a murmurar phrases sem nexo. 

Por fim chegou em frente do palacio de Carlota Joaquina. 

A sentinella cruzou a arma na sua frente; disse-lhe: 

-- Passe de largo! 

-- Desejo entrar, redarguiu com aprumo. 

-- O que! interrogou o soldado. 

-- Para entregar um bilhete ao sr. conde d'Alva! 

Foi-lhe dada a passagem. No vestibulo encontrou um creado e disse-lhe: 

-- O senhor conde d'Alva! 

-- Não sei se a receberá! 

Sahiu-lhe dos labios uma phrase expontanea: 

-- Aguarda me! 

O servo sorriu, levou-a pelo corredor. 

A joven tremia mas seguia sempre o caminho. 

Quando elle parou em face d'uma porta, ella seguiu o e bradou: 

-- Podes retirar-te! 

-- Mas... 

--Já te disse que o sr. conde me espera. 

O servo como se estivesse habituado a muitas aventuras semelhantes deixou-a só. E, ella empurrando a porta com força, entrou pelo aposento. 

O conde estava sentado em face da secretaria, ergueu-se n'um salto ao ver aquelle vulto de mulher, pintou-se uma grande surpreza no seu rosto ao reconhecel-a e exclamou: 

-- A senhora?! 

-- Eu sim... 

-- Sentae-vos! 

E começou a achar graça á aventura. 

-- Mas como entrasteis aqui, na praça?! 

-- Por meio da mentira?! 

-- Como?! Da mentira?! 

-- Sim! 

Fallava com muita firmeza, com grande força: 

-- Sim, por meio de mentira, é como vos digo... 

-- Oh! 

-- Admirae-vos?! 

-- Decerto... Sempre vos julguei muito pura e muito sincera... 

-- Outro tanto podia eu julgar de vós... 

Usava de ironia, sorria e replicava-lhe: 

-- Eu entrei aqui porque precisava fallar-vos, disse ao vosso creado que me esperaveis... 

-- Ah! 

-- E elle como habituado a visitas semilhantes, deixou-me passar. 

O conde d'Alva sorriu com fatuidade e volveu: 

-- Sim, por vezes procuram-me... 

-- Basta de demoras, senhor conde! 

-- O que tendes a dizer-me?! 

-- Bem pouco é... 

-- Fallae... 

-- Eu venho para vos fallar d'alguem que não amaste... 

-- O quê?! 

Como se a julgava louca, encarou-a. 

A joven tornou muito senhora de si: 

-- Sim, venho fallar-vos de Gomes Freire! 

-- A mim?! 

-- A vós mais do que a qualquer outro! 

-- Mas... 

-- A razão! 

-- Sim... 

-- É muita... Ereis seu inimigo! 

-- Eu?! 

-- Sim, vós... 

-- Como o sabeis?! 

-- Se não o soubesse bastava-me a vossa altitude d'agora e a d'outro dia no paço... 

O conde olhava-a sempre como admirado sem comprehender bem onde ella queria chegar; porem a joven alteando pouco a pouco a voz, accrescentava: 

-- É necessa rio que fallemos n'cste triste assumpto d'uma vez... Mas senhora... 

-- É ou não verdade que fosteis inimigo de Gomes Freire?!

Com um ar de satisfeito, o outro volveu: 

-- Que devo dizer-vos?! Sei apenas que o conheci no exercito, que outr'ora nos encontram-os! 

-- Senhor conde... Eu só quero fallar de Gomes Freire! 

D'esta vez, brutalmente, com um ar sacudido, bradou: 

-- Basta! Devo acaso ouvir mais tempo semelhante cousa?! Quem é a senhora para assim me impor a sua vontade?! 

-- Quem sou?! 

-- Sim, quem sois para assim chegardes a minha casa a fallar-me em cousas que não existem?! 

Era ainda ironico, era ainda o mesmo homem que buscava chalacear com o caso, com a actitude d'aquella mulher que mau grado seu se lhe impunha. 

Ella com o seu modo activo, vivamente, accrescentava: 

-- Sou uma mulher que achaes talvez extranha, senhor conde, no emtanto e esta a minha maneira de ser... Já estava a bordo do barco que devia conduzir-me ao reino e no emtanto voltei como vêdes! concluiu ella. 

-- Para quê?! interrogou no mesmo tom de troça. 

-- Para vos pedir contas... 

-- A mim?! 

-- Sim... A todos, accrescentou com faria. 

-- Sejamos rasoaveis, volveu ainda a sorrir. Devemos ser bem rasoaveis francamente! 

-- Senhor... Acaso não achaes que me deveis uma explicação! 

-- Quanto mais não fosse por delicadeza, volveu a rir. 

Ella com a sua serenidade olhava-o e accrescentava-a mais uma Vez: 

-- Seja pelo que for... 

-- Desejaes então ouvir uma historia...?! 

Não lhe respodeu. Muito pallida ficou á espera que elle acabasse. 

O conde com o seu modo risonho, como se não lhe ligasse importância maior, disse: 

-- Não deixa de ter o seu tanto ou quanto de trágico essa historia... 

Sempre com a mesma serenidade postiça aguardava que elle fallasse. 

Agora era toda ouvidos, vinha lhe como uma grande febre, sentia um enorme desejo de o ouvir até final. 

Aquella ambicionada explicação ia chegar finalmente, ia ser exposta d'uma vez para sempre. 

-- Fallae... 

Elle sentou-se, agarrava um cigarro e cruzando a perna tornava: 

-- Deveis sentar-vos tambem... É longa a historia... 

A joven obedeceu machinalmente, elle explorou o quarto com o olhar. 

-- Será bom cerrar esta porta! 

E foi cerral-a para de novo tomar o seu logar com o mesmo modo risonho. 

E a joven ficava a olhal-o muito cabisbaixa! 









XXIX 



A historia 





Em voz segura e levemente ironica, o conde começou: 

-- Já lá vão muitos annos, mesmo muitos... Eu era novo, tinha pretos os cabellos e um coração ardente! Ah! Ainda não conhecia a vida e sentia me capaz de todos os commettimentos... Só mais tarde uma audacioso corso riseou dos diccionario a palavra impossivel e no emtanio já eu tinha pensado nisso Era verdadeiramente assombrosa a forma porque eu sonhava... Haveis de fazer-me justiça... 

Não respondeu: ficou a escutai o da mesma maneira, callada, embebida nos seus pensamentos. 

O conde continuava: 

-- Não havia que recear o menor obstáculo e sabia ver de frente os inimigos... Amava muito, n'esse tempo... Oh! Se amava... 

-- Depois?! Depois?! interrogou ella. 

Parece que vos interessa a minha historia... 

-- Muito... Mesmo muito... 

-- Ah! n'esse caso eseutae com a maior aitençao... Tenho cousas bem comicas, tornou elle sempre a sorrir. 

-- Fallae... 

E ficou ainda do mesmo modo a ouvil-o. 

-- Tinha uma noiva, era linda...

-- Tenheis uma noiva?! 

-Sim... Era a sobrinha do Cardeal da Cunha... Fôra-me promettida... Ah! Quanto custa a arrancar isto do pó do esquecimento... Pois era linda essa mulher... Falla va-se d'ella na côrte era amada por muitos...

-- E só de vós gostava?! 

- Assim o julguei ou antes assim o sonhei... Como me fôra destinada, como devia saber que o seu noivo era eu, descançava... Aguardava ella no convento das Salesias, a hora em que devia tornar-se minha mulher... 

-- Ah! E chamava-se?! perguntou com mais interesse. 

- Tinha um bello nome... Para que recordal-o... Era bello muito bello mesmo... Um dia recebi a noticia de que alguem era por ella muito olhado durante as novenas 

-- Ah! 

- Sim. A perfida atra vez as grades do côro lançava olhares para um cadete do regimento de Peniche... Senti arder-me o sangue nas veias!... 

Pouco a pouco ella interessava-se mais pela historia. 

-- Sim... Sentia arder-me o sangue nas veias!... De novo alguem me avisou de que o mesmo cadete sahia por deshoras do convento! O coração deu-me um baque!

-- Oh! 

- Sim! Quiz saber! Morava então em Ajuda na mesma casa que hoje habita D. Miguel... 

-- O governador?... 

-- Sim, o meu amigo! 

-- Sois muito amigos?! 

-- Tanto que mal podia imaginar... 

- Adiante... adiante... sollicitou ella com grande pressa. 

- Pois bem... sahi de casa pela noite e embuçado, sahi com o desespero na alma e fui espionar... Era n'uma noite suave... Lembro-me que os meus passos soavam cavernosamente nas terras seccas! Tive uma attenta espera! Oh! Tão grande que mal imaginaes...  

-- Sim... sim... 

-- Estava ancioso. Ainda via a mentira n'essa denuncia... 

-- Não acreditaveis?! 

-- Não! Com franqueza o digo, não acreditava... E no emtanto a minha mão apertava nervosamente o punho da minha espada... Alli no escuro aguardei as horas!... O que eu soffri!

E passados tantos annos ainda essa recordação o amargurava, ainda uma grande colera se lhe desenhava no rosto ao exclamar: 

-- Estive assim muitas horas e muitas dores senti... Tudo andava em roda... Ah! Porque não morri?!... 

-- Senhor... Tinheis antes um bem differente destino... 

- Sim! 

-- Fiquei sempre ali ancioso e cheio de raiva, com uma louca colera e a amar cada vez mais essa mulher... Todo eu tremia... Mas não vinha ninguem... Havia em mim a cobardia de saber... Dei ainda alguns passos para me affastar... Porém como um bom 

voltei ainda muitas vezes... Deixei-me ficar... Tornava se impossivel sahir d'ali antes de manhã, ... Era necessario saber!... De repente um vulto appareceu no alto do muro... Era um vulto d'homem que trazia uma espada e que se debruçava... Olhei pasmado! 

D'ahi a momentos reparava que elle sempre curvado para o interior da qumta ajudava alguem a subir... E reconheci uma freira... Comprehendi tudo! 

-- Um rapto! 

-- Sim o rapto d'aquella que devia ser minha mulher, que me estava promettida !... 

Elle, continuava no mesmo impeto: 

-- Reconhecia-a quando o homem saltou lestamente para a rua e a tomou ao collo... Bateu-me em cheio um raio de luar... Arranquei da espada, gritei: Miseraveis!... De repente vi que apparecia uma sege, vi outro homem que levava a mulher ao mesmo 

tempo que o primeiro ficou na minha frente de espada nua a clamar: 

-- Quem sois?!

-- Um homem que te quer o sangue, respondi. 

-- Ah! Como sois exigente, respondeu elle e cruzou o seu ferro com o meu... 

A joven cada vez mais apaixonada pelo desenlace da tragedia escutava-o attentamente. 

-- Parecia que elle era um collosso, cahiu sobre mim bradava: 

-- É aviar senhor, é aviar que a manhã não tarda! 

-- Miseravel, gritei eu; e elle com um tom escarninho, disse: 

-- Ah! demorae-vos! Pois eu liquido... Senti o ferro a penetrar-me no peito, uma nuvem de sangue toldou -me a vista e eu cahi desamparado. Não ouvi mais nada, não dei acordo de mim senão quando no dia seguinte me vi estiraçado no leito com uma grande ligadura no peito... 

-- Oh! 

-- Sim... SofFri então muito ao lembrar-me da scena... Estava ao meu lado o cardeal da Cunha e José Maria de Mello! 

-- O bispo do Algarve?! 

-- N'esse tempo simples frade! 

-- Oh! Conheceis tambem esse! 

-- Muito bem... É meu amigo!... 

-- Não me admiro já de cousa alguma, accrescentou ella: 

-- Mas continuae! 

-- Sim... Veiu a justiça, veiu gente do paço... 

-- E depois... 

-- Era necessario descobrir o homem. 

-- O vosso adversario?! 

-- O mesmo... Elle commettera um sacrilegio... 

-- Em ferir-vos? interrogou pasmada. 

-- Não! O sacrilegio de roubar uma monja do seu convento... 

-- Bem... E depois?! 

-- Puzeram-se em movimento as justiças do reino... Levou-se a cabo muito trabalho, fizeram-se pesquizas e por fim. 

-- E por fim?! interrogou com mais pressa 

-- Não sabeis como adoro o acaso... 

-- Como eu... 

-- Pois o acaso fez-me saber o nome d'esse homem... 

-- Ah! 

-- Sim... Soubemos tudo... Era necessario prendel-o... 

-- E prenderam-no... 

-- N'esse tempo partiu para a provincia... Mas podemos rehaver a minha noiva que foi morrer n'um convento... 

-- Pobre d'ella... E o homem?! perguntou mais uma vez. 

-- Elle?! 

-- Sim. 

-- Consegui-u sempre cseapar-se! volveu com rancor. 

-- Porque?! 

-- Mercê d'um outro que era seu amigo, mercê d'um homem que muito podia n'esse tempo! 

-- Quem?! 

-- O arcebispo de Thessalonica, o confessor da rainha que o fez predoar... 

-- Mas tenheis uma espada!

-- Eu... 

-- Sim?! 

-- Tinha-a... Elle porem escapou-se.... 

-- Fugiu?! 

O conde corou e redarguiu: 

-- Não... Ausentou-se apenas. 

-- Para longe?! 

-- Para muito longe... Só voltou ao cabo d'annos. Joven a envelhecer... 

-- Oh! E então?! 

A essa pregunta agora era feita em voz mal segura. 

O conde tornou: 

-- Ainda fez com que nos encontrassemos... 

-- E fallastes-lhe... 

-- Oh! Não! As armas que se deviam jogar eram apenas as de ferro... 

-- Ah! Conde... Elle era pouco astucioso... 

Não! disse rapidamente o fidalgo, não... Esqueceu-me... Elle então com muita sinceridade, volveu: 

-- Eu não. Apenas aguardava a hora com que podesse feril-o... 

-- Que homem sois, redarguiu ironicamente. 

-- Não me desaffrontou... 

Por fim. 

-- O quê?! 

-- Poude vel-o preso, poudc velo posto de lado ao mesmo tempo que eu sahia... 

-- Boa vingança... 

-- Era ainda pouco... 

Ella num impto, d'olhos accesos com ira gritou. 

-- Sim. Querieis mais! 

-- Mais e mais... 

-- E então?!... 

-- Então não o esqueci... 

-- Querieis sangue?! 

-- Sim!... 

Tinha uma alegria infernal nos olhos e accrescentava: 

-- Queria vel o por terra mas... 

-- O quê?! O quê?! 

-- Elle expatriou-se... Eu tambem sahi do reino com a familia real... 

-- E nunca mais tiveste noticias?! 

-- D'elle?! 

-- Sim... 

-- Tive... 

-- Sempre?! 

-- Oh! Sempre... 

-- As ultimas deram-vos uma louca alegria?! 

O conde volveu; 

-- Não! 

-- Ah! 

-- Não... Achei que era demasiado... Eu não tive cousa alguma com isso... 

-- Uma ultima pergunta, disse de repente. 

-- Direi... 

-- Esse homem chamava-se Gomes Freire?! 

-- Sim... 

-- Ah! Foi o acaso que vos vingou... 

-- Só elle! concluio com força.

-- Pois é tambem o acaso que o vinga a elle, redarguiu com furia. 

Antes que o fidalgo tivesse tempo de se defender, correu para o seu lado. Appareceu-lhe um punhal na mão o qual se sumiu no peito do miseravel. 

Elle nem teve tempo de soltar um grito. Ficou por terra com a arma no coração e a verter sangue. 

Ao ruido do corpo ao cahir, a joven sentiu um abalo. D'olhos esgarçados, ainda admirada pela sua acção queria fugir, queria sahir d'ali. 

Mas receava muito voltar as costas ao morto como se temesse que elle a agarrasse. 

Parecia louca, abafava os seus gritos de desespero e de terror e deixava-se ficar alem bem presa. 

Mas de repente tomou animo, deu a volta á chave e sahiu para o corredor a embrenhar-se na capa. Partiu á pressa, chegou ao vestibulo. O creado dormia e a cordou ao ruido dos seus passos. 

Mal a viu ergue-se machinalmente, e deixoua passar. 

Ella então, na rua, exclamou: 

-- Porque fiz eu isto?! 

Sentiu-se emfim desgraçado, sentiu se vil, correu pelas ruas, Perdeu-se mil vezes e acabou por se deixar cahir n'um degrau a soluçar. 

Estava sem saber á porta do ministro. 

Quando raiou a manhã, vira o palacio como atravez um noveiro, atirou-se as portas e um creado ao vel-a, exclamou: 

-- Oh! Mas não partiu?! 

-- O senhor ministro... O senhor ministro... 

-- Recolhido ainda... 

-- Quero lhe fallar! Quero-lhe fallar. 

Assim foi para a sala como um authomato, ficou n'uma cadeira, muito turbada, a soluçar: 

-- Mas que foi isto?! Que fiz eu?! 

E debalde procurava explicar o seu crime. Não sentia remorsos nem alegria, não tinha em si senão um grande achatamento. Nem olhava a mão que pegara no punhal, não se atrevia a enxugar como ella as lagrimas que corriam pelas suas faces. 

O ministro apparecia no limiar da porta e bradava: 

-- Tu! 

-- Eu... Senhor... Eu sim... 

-- Mas não seguistes viagem... 

-- Não... Não... 

-- Oh! Como te agradeço!... Reflectiste... 

Abria-lhe os braços para um amplexo paternal, porém ella affastava-se e como um berro dizia: 

-- Senhor... Senhor... Eu acabo de commeiter um crime!







XXX 



A criminosa 





Matei um homem, dissera a joven ao ministro, e elle julgava-a louca. 

Approximava-se com maior carinho, com maior ternura e disse-lhe: 

-- Socega! 

-- Senhor... Senhor... 

-- Recuava para a parede como doida, muito espantada, toda o contorcer-se. 

-- Ouve... 

-- Sou uma criminosa mas não tenho remorsos do meu crime! 

Disse de tal maneiras aquellas palavras, fallou com tanta segurança que o ministro n'um mesmo impeto forte egual ao d'ella perguntava: 

-- Fallas verdade?! 

Agarrava-lhe um pulso, olhava-a de face. 

-- Sim! 

-- Mas a quem mastaste, onde, como?! Não o acredito! 

-- Oh! Podeis acreditar... 

-- Desgraçada! 

-- Dentro em pouco toda a cidade será alvoraçada... Perdoae senhor eu vim parar aqui nem sei como, ... 

-- Mas onde se deu isso... Se te deixei a bordo! 

-- Alguma cousa me arrastava para terra! exclamou com furia. O que?! Não sei!... Talvez o meu destino... Ah! ides ouvir fallar do meu crime... 

-- Mas... Mas... A quem assassinaste?! 

-- A um meu inimigo!... 

-- Tem tens acaso inimigos?!... Mas falla... falla... 

-- Matei o conde d'Alva! exclamou rapidamente. 

-- Oh!... 

E o ministro mal acreditava semelhante cousa; olhava-a muito pasmado e não queria comprehender. 

-- Tu?! 

-- Eu sim... Matei-o... Ouvi-lhe uma historia... Oh! Não podia... 

-- Desgraçada! 

-- Sim, senhor ministro, sim... Agora podeis entregar-me á justiça... 

-- Mas porque fizestes isso!... 

-- Elle tramara out'ora contra Gomes Freire!... 

-- Que dizes?! 

-- A verdade... Ouvia-a dos seus labios... 

-- Oh! Mas que horror... E tu, tu, uma mulher... 

-- Cumpri a tarefa que era de alguns homens... Só vos peço que aprecieieis isto... 

-- Infeliz! 

-- Entregae-me depressa á justiça... 

-- Oh!... És uma louca! 

-- Uma louca sim... É possivel. No emtanto posso jurar-vos que cumpri o meu dever! Vinguei o homem o que salvaria Portugal... Vinguei a viciima... 

O ministro sentiu um forte abalo, encarava aquella mulher e não a reconhecia! 

-- Ouve... Ainda uma vez, ouve... 

Deixou-se cahir sobre uma cadeira e erguia-se de salto. Os seus olhos fuzilavam, as suas mãos tremiam... Sentia uma extranha agitação ao fixar o ministro que accrescentava: 

-- É necessario que te salves! 

-- Eu... eu... 

-- Sim... Assim o quero! Muito o desejo... Não deve ser coberto de lama o teu nome... 

Com um sorriso extranho a joven accrescentava: 

-- Oh! o meu nome... Que importa! 

-- Creança! 

-- Sou a victima da minha familia... 

-- Isso não quer dizer nada!

-- Quer dizer tudo... O meu avô morreu na forca... 

-- És mulher! 

-- Mas que importa?! Senhor é justo que pague... 

-- Não!... 

E sahiu da sala rapidamente, deixou-a ali só durante uns momentos para voltar de seguida: 

-- Queres escutar-me?! 

-- Sim... 

Aquelle monasybalo sahiu-lhe dos labios como um parco suspiro. Sempre estirada na cadeira ouvia o ministro dizer: 

-- Dentro em pouco tudo se saberá... 

-- Bem sei... Só um creado me pode apontar... 

-- Não te apontará! 

-- Não meu senhor porque eu mesmo irei apresentar-me! 

-- Nunca!

-- Porque?! 

-- Porque eu não quero! 

Tinha uma grande firmeza na voz ao dar-lhe aquella ordem; tomava uma resolução decidida ao perguntar-lhe: 

-- Vejamos... Queres entrar n'um convento?! 

-- Indigna sou! 

-- Consulta a tua alma... 

-- Já a consultei senhor, exclamou ella. 

-- E não te sentes arrastada para um logar d'expiação! 

-- A cadeia! A forca!... 

-- Desgraçada... Pois não vês que busco salvar-te?! 

-- Perdoe-me... senhor, eu não tenho coragem... Seria uma vida inteira de tormento... 

- Oh!... 

-- De remorso... Quando a minha colera esfriar, chegar-me-ha... 

-- O arrependimento... 

-- Não! 

-- O que?! 

-- O remorso... Só o remorso! 

-- E não é elle um arrependimento?! 

-- Não, sr. ministro... Não... Acho que fui justa! Mas vejo sempre o sangue! 

-- Não tens a coragem de te vingares... 

-- Não! 

-- Que queres então fazer, desgraçada?! 

-- Entregar-me á justiça!... 

-- Nunca... 

-- Não é o meu dever?! 

-- Não!... 

-- Porque?! 

-- Acaso não achas justo o teu crime?! 

-- Oh! Mil vezes sim... 

-- N'esse caso... 

-- N'esse caso?!... 

-- Deves expial-o em socego, n'um claustro! 

-- Devo entregar-me... 

-- A Deus! 

-- Que não me receberá no seu seio!

-- Deves procurar um confessor! 

-- Oh! 

-- Sim... Elle te animará no santo caminho da resignação! 

Banhada em lagrimas a joven volveu: 

-- Não... não... Sinto que jamais posso ter essa coragem! 

-- Porque o dizes?! 

-- Do intimo da minha alma o sinto... 

-- Tu sentes isso?! 

-- Sinto? 

-- Então mais uma razão para te rojares aos pés do padre... 

-- Que lenitude me pode dar?! 

-- O que se dá aos desditosos... encontrareis n'um mosteiro! 

-- Senhor... 

-- Dize... 

-- E vós... não me achaes criminosa?! 

Elle muito embaraçado, n'uma enorme perturbação disse: 

-- Minha pobre amiga... Acaso posso ser juiz em semelhante causa?! 

-- Podeis! 

-- Não! ninguem tem direito de matar... 

-- Nem mesmo a lei?! Perguntou de chofre. 

-- A lei?! 

-- Sim... 

-- Ah! Ella tem esse direito! 

-- Para punir o crime! 

-- Decerto... 

-- E quando o criminoso está muito alto?! 

-- De mesmo modo! 

Com uma risada extranha ella accrescentou: 

-- No emtanto, senhor, é certo e bem certo que aos criminosos como o conde d'Alva ninguem se atreveria a punir! A lei era elle, elle a fabricava... 

-- Cala-te... 

-- Sim, meu senhor... É a verdade! Elle a fabricava... E então eu sentindo que jamais alcançava um homem assim, deliberei praticar um acto em nome da lei! 

-- Que lei! 

-- A lei que manda punir! 

-- Oh! 

-- Que manda castigar os traidores, os refalsados. Alem em Portugal, mercê d'injurias e d'intrigas mataram um homem... 

-- Gomes Freire! 

-- Sim... Que no Brazil eu vinguei-o! 

-- E com semelhante conseiencia ainda buscas entregar-te á justiça?! 

-- Senhor... 

-- Vamos, Falla... diga tudo! 

-- Pois bem... Não... Não, declarou como louco. 

-- Então... 

-- Então seguirei os vossos conselhos... 

-- E vaes entrar no convento, não é assim?! 

--Sim... Sim... 

-- D'este modo liquidas a tua situação!

Mas nos seus olhos havia um cxtranha luz, no seu rosto marcava-se uma terrivel colera contra si mesma. O ministro com voz branda, compadecido della sem saber porque, disse: 

-- Vou preparar tudo... 

-- Obrigada... 

Deixou-se estar assim na frente d'elle, deixou-se ficar a ouvil-o: 

-- N'esta casa ninguem sabe cousa alguma... 

-- Senhor... 

-- Ninguem o saberá jámais! 

-- Ah! e vossa esposa... 

-- Não... 

-- E devo acaso deixar-me abraçar por ella?! 

O ministro na sua grande perturbação, accrescentava: 

-- Ninguem o saberá! 

-- Escutae meu senhor, que ninguem me veja aqui... 

-- O que?! 

-- Sim... A vossa esposa virtuosa, as vossas filhas innocentes iriam beijar-me! E eu sou indigna... 

-- Partiremos breve... 

-- Já?! 

-- Sim... É um momento!... 

Um creado appareceu á porta, curvou-se, exclamou: 

-- Um officio para v. ex.ª! 

Rasgou-o com a mão febril, fez um gesto ao servo para que se retirasse e de seguida disse: 

-- Noticiam-me a morte do conde... Pedem-me que ache o criminoso... 

-- Aqui o tendes... 

-- E eu vou salval-o, exclamou de repente. 

Pegou no chapéu, fez um gesto á joven para que o seguisse. 

Ella muito perturbado foi em direcção á porta onde parava para dizer: 

-- Não sei se deva... 

-- O que?! 

-- De manchar com a minha presença a casa de Deus?! 

-- Julgas então que não ha mais peccadoras... 

-- Mas assim tão miseraveis... 

-- Anda... 

E tomou lhe a mão. A joven muito exaltadamente levou aos labios esse mão que apertava a sua e dizia: 

-- Senhor... senhor... Ah! Como vos sou grata... 

Elle partiu pela escada levando-a comsigo. 

Chegaram á rua, pensava uma sege e lado a lado muito em socego fizeram-se conduzir ao convento das oblatas. 

O ministro estava uns momentos com a superiora e dentro em pouco a joven era conduzida ao interior do convento. 

A velha abbadessa chamou para si, disse-lhe: 

-- Filha, ignoro quaes as suas culpas no emtanto digo-vos que n'esta santa casa encontrareis lenitivos para ellas. 

Curvou a cabeça e deixou se conduzir, foi assim com ella até á entrada da cella. 

O ministro estendia-lhe a mão e exclamou: 

-- Fica em paz! 

A joven ao ver-se só cahiu de joelhos diante d'um Christo e bradou: 

-- Meu Deus! Meu Deus! Dae me lenitivo ou matae-me... 

E ao fim da oração sentia um repouso, sentiu uma grande suavidade na alma como se Deus lhe perdoasse. 







XXXI 



O marechal 





Ao participarem a D. João VI a morte do conde d'Alva, o rei chorou: 

-- Fui amigo d'elle!... 

Esquecera tudo, guardava ainda aquellas lagrimas. 

E mandou que o seu ministro o representasse no funeral. 

Passou todo o dia em oração como se tivesse amago de aquelle crime. 

Pela noite á hora da ceia, recebeu uma carta. 

Era de Carlota Joaquina a pedir-lhe que a visitasse de dia, á vista de toda a gente. 

Elle encolheu os hombros e murmurou: 

-- Politica... sempre a politica. 

Como se tivesse cumprido o seu dever, sentiu um grande desejo de repousar. 

Mas já lhe annunciavam um nome que o fez erguer-se d'um salto:. 

-- É o senhor marechal Beresford!

-- Beresford?! Que entre, berrou espavorido. 

E teve a ideia que o reino estava perdido, letnbrou-se de muitas desgraças, a cahir sobre elle. 

Quando o marechal entrou, D. João VI muito tremulo, correu para elle: 

-- Vós?! 

-- Eu sim, meu senhor... Deveis perdoar-me o ter abandonado o meu posto... Mas graves cousas a isso me levaram! 

Quiz beijar-lhe a mão, mas o rei não lhe consentiu. Ergueu-o, perguntou cheio de medo: 

-- Mas o que se passa?! 

Sempre devorado pelos seus terrores, tornou: 

Outra vez os francezes?! 

-- Não, meu senhor... redarguiu com piedade bem visivel... D'esta vez os portuguezes!... 

O rei não comprehendeu; olhouo de frente e tornou ainda: 

-- Não percebo! 

-- Eu estou aqui, senhor, porque graves cousas me trouxeram... 

-- Mas quaes?! Sentae-vos! Sentae-vos!

-- Desembarquei e corri logo para o paço... 

-- Mas fallae... 

-- Tive que deixar o meu logar no reino porque... 

-- Oh! Porque?! 

-- Porque não sei quem governa Portugal... 

-- O que?! 

-- Sim meu senhor... Devemos definir bem a minha situação... Portugal tem os seus governadores que não me consultam... 

-- Ah! 

-- Sim, meu senhor... 

- Apenas isso?! 

-- E é tudo! 

O rei respirou; bradou de subito: 

-- Oh! e eu a julgar horrores... E como vão os frades de Mafra?! 

Beresford sentiu um grande desprezo por esse rei e redarguiu: 

-- Senhor... Os meus cuidados não me deram tempo de os ver.

-- Os vossos cuidados?! 

-- Sim, real senhor. Esses que me obrigaram a vir aqui! 

-- Mas o que desejaes?! 

-- Que vossa magestade me ouça... 

-- Amanhã, Beresford, amanhã... 

-- Seja como vossa magestade deseja... No emtanto... 

-- O que?! 

-- Receio que largo tempo leve a debater-se essa questão...

-- Ficarás comnosco... 

-- E Portugal?! Acaso não sabeis que mais do qjçie nunca lá se carece d'um braço... 

-- O que?! 

-- Sim meu senhor. Os governadores do reino tem excitado o povo... 

-- Que dizeis?! 

E o rei muito pallido, exclamava: 

-- Ha a revolução como a de França?! 

E elle parecendo recear que o viessem buscar ao Brazil, que o viessem arrancar do throno, exclamou: 

-- Dizei tudo!... Tudo! 

-- Foi morto Gomes Freire!... 

-- Já sei... 

-- Mataram muita gente em Lisboa... 

-- Sim... Sim... Grandes criminosos... 

-- Não venho discutir isso, senhor... Venho apenas dizer vos que todas essas medidas irritam o povo... 

-- E depois... depois... 

-- Depois?! Não será para extranhar que um dia se forme a revolução!

-- Nunca! 

-- Meu senhor estão muito exaltados os ânimos!... Os homens do governo não vêem isso! 

-- Mas o exercito?! 

-- Não tem um general! 

-- Vós?! 

-- Eu?! Sou um general sem mando... 

-- Como?! 

-- Ninguem escuta a minha voz no governo... 

-- Pelo ceu! 

-- Sim meu senhor, por isso eu venho até V.M.... 

-- O quê?! 

-- A pedir vos a minha demissão! 

-- Beresford! exclamou elle. 

-- Real senhor... 

-- Eu quero antes dar-te poder... 

-- Meu senhor, seria mal recebido... 

-- Não... Vem amanha! 

Fallaremos n'isto com o ministerio... 

Beresford receava muito que no ministerio fosse encontrar embaraços ao seu desejo, e respondeu: 

-- Mas V. M. não pode dar-me esses poderes sem auxilio de ninguem?! 

-- Porque o perguntas?! 

-- Porque desde que os vossos ministros entrem na conspiração o facto será publico. 

-- E então?!... 

-- Todos dirão que é um estrangeiro que governa Portugal! 

O rei baixou a cabeça e redarguiu: 

-- Fallar-lhes-hei... Deixae-me que lhes falle... 

-- V. M. quer talvez reflectir... 

Desolado o rei volveu: 

-- Não... Elles decidarão tudo! 

O marechal pintou a traços largos a miseria de Portugal: fallou das agitações, das - desgraças, dos impostos... Referiu-se a tudo aquillo com grande desembaraço a ponto d'obrigar o rei a dizer: 

-- Se tudo isso é tão grave devemos manter-nos pela força... 

-- Assim é em parte, meu senhor... 

-- Vós o mantereis!... 

-- Sim... 

-- Ah! É necessario fallar-lhes... 

Estendeu a mão a Beresford e reclamou: 

-- Terás um quarto no palacio. 

-- Senhor... Grande honra para mim... 

O rei mandou o conduzir aos seus aposentos e disse-lhe ainda: 

-- Vireis para a ceia! 

O marechal ceiou com effeito á mesa real n'essa noute, e começou a fazer uma bem extranha ideia d'esse rei portuguez que apenas conhecia de tradição. 

Muito melhor seria para o reino uma dictadura militar com um rei extrangeiro do que esse homem derigindo, esse homem que tinha muito de tolo e de frade e que no emtanto era o soberano de Portugal! 

Quando se recolheu pensava muito n'isto. Agora já não era a ambição que o assaltava era como um desejo de salvar Portugal 

E sentia-se realmente capaz de tentar o feito, de levar por diante essa obra que lhe agradava. 

No dia seguinte o rei foi visitar Carlota Joaquina e ficou nos seus braços durante trez mezes que o inglez teve de esperar cheio d'impaciencia. 

Não recebia pessoa alguma o monarcha ligado de novo á mulher como n'um feliz noivado. 

Seis mezes decorreram, depois outros dois. Em Portugal o governo esultava desde que Beresford não voltasse. 

E Carlota Joaquina parecia cada vez mais amorosa do marido como se quizesse demorar de proposito o inglez. 

Porem um dia, D. João VI recebeu o pedido de demissão conveniente assignado pelo marchal. 

Sobresaltou-se, exclamou: 

-- Devo tomar uma resolução. 

-- Sobre quê?! perguntou a rainha. 

-- Sobre Beresford?! 

-- Ora... Que parta... Que vá para Inglaterra... 

D. João VI quiz ouvir os ministros, apesar dos rogos da esposa. Teimoso não houve maneira de o dissuadir. 

E no dia seguinte referendava-se o decreto em que Beresford era nomeado governador de Portugal. 

N'esse mesmo dia o quarto de Carlota Joaquina fechava-se para o monarcha como se o seu amor tivesse acabado. 

E D. João VI viu partir o marechal e recolheu-se de novo ao seu palacio, no meado do anno de 1819. 

Agora ia representar-se o outro final de tragedia portugueza. 









XXXII 



A herança d'um Freire 









Gomes Freire! 

Quando annunciaram aquelle nome ao governador do reino, deu um pulo na cadeira, olhou o creado como se o julgasse louco e exclamou: 

-- Que dizes? 

-- Foi esse o nome que deram com este bilhete... volveu o servo. 

Elle olhou o bilhete e viu o nome em grossos caracteres. Fez-se pallido, sentiu-se desfalleceu e sem querer, repetiu: 

-- Gomes Freire... 

-- Sim, meu senhor... Trata- se d'um sugeito que está lá em baixo. Tambem extranhei o nome mas... 

-- E como é esse homem?! interrogou de novo, 

-- Sou eu, primo! disse uma voz á porta. 

Soltou um grito, fez-se muito mais pallido, sentiu um calafrio a percorrel-o e viu na sua frente um homem cujas feições lhe recordavam as do general quando era novo. Elle estava de braços cruzados sobre o peito e fulminava o com o olhar. 

D. Miguel Forjaz julgou-se victima d'uma mystificação, ergueu-se, mandou sahir o creado e exclamou: 

-- Não vos conheço... 

-- Sou bem esquecido! Chamo-me Gomes Freire... 

-- Senhor... 

-- O que?! 

-- É que a pessoa d'esse nome que pertencia á minha familia já deixou d'existir... 

-- Deixou no emtanto um herdeiro! 

- Um herdeiro! gritou elle com pasmo. 

-- Sim primo... E esse herdeiro sou eu! 

- Vós?! 

-- Sim... Duvidaes... Pois cu vos conto porque sou o herdeiro de meu tio, o general que foi assassinado... 

-- Assassinado! 

- Sim! 

-- Justiçado! 

O homem ergueu para elle um olhar vivo e redarguiu: 

-- Silencio, miseravel! 

Ficou pregado no seu logar ao ouvir essa voz terrivel que o mandava calar, lançou em volta um olhar desesperado e murmurou: 

-- Sou victima d'um sonho! 

-- Não! É a realidade... 

Agarrou-lhe o braço com força e gritou: 

-- Sabeis que um homem como eu, um homem que já não tem que perder, não hesita nunca?! 

-- Senhor... 

-- Ouvi me... 

Indicou lhe uma cadeira, sentou se n'outra muito á vontade e tirou uma pistola do bolso: 

-- Senhor... 

-- Socegae... Só no ultimo caso me servirei desta arma... E quando fallo do ultimo caso refiro-me como deveis comprehender a alguma tentativa contra mim... 

-- Mas... 

Muito livido, o governador do reino ouvia e sentia-se perturbado, não comprehendia ainda onde aquelle homem aucria chegar com semelhantes palavras. 

-- Não vos recordaes d'alguem que usa o meu nome?! 

- Vindes interrogar-me?! disse elle buscando mostrar-se forte. 

-- Respondei! ordenou o outro'em voz segura. 

Porém o governador quiz ainda ter uma audacia. Olhou-o de frente e redarguiu: 

-- Vede bem que estaes em minha casa... 

-- Fallaes-me em nome da delicadeza?! 

-- Não... Aviso-vos... 

Soltou uma gargalhada e volveu no seu tom altivo: 

-- Que miseravel! 

-- Reparae... 

-- Que estou em vossa casa eu o sei, que tendes ali os vossos servos, eu sei tambem... 

-- Que sou o governador do reino... 

-- E que sois um vil eu tambem o sei... 

-- Senhor! 

-- Basta! exclamou elle a erguer-se e segurando a pistola. Basta com mil diabos! Vim para vos fallar e hei de conseguir que me attendeis até ao fim... Os vossos creados como os vossos titulos não me amedrontram, tudo que possaes fazer contra mim não me preoccupa... Parece que já vos disse não ter cousa alguma a perder... Agora, silencio! 

O governador estendeu o braço para a campainha porem o outro apontou-lhe a pistola e exclamou: 

-- Na famalia dos Freire nunca houve senão um assassino... Vós! Agora eu tambem o serei se assim o quizeres! 

-- Mas o que desejaes de mim?! 

-- Que me escuteis! Sentae-vos e ouvi... 

Bricando com a arma via-o sentar-se e tomava por sua vez logar na poltrona; depois em voz baixa começou: 

-- Eu chamo-me Nuno Gomes Freire d'Andrade... 

-- Oh! 

-- Conheceis-me... 

-- Vós?!... 

E d'olhos esgazeados, todo tremulo, no auge do pasmo, o governador do reino, tornava: 

-- Sois o sobrinho de... 

-- Do homem que foi por vós assassinado. 

-- Por Deus... 

-- Calae-vos! 

-- Mas bem, vede que eu sendo governador do reino... 

-- Miseravel... 

-- Que quereis de mim?! interrogou de repente. 

-- Quero de ti apenas uma cousa... 

-- O que?! 

-- O meu nome rehabilitado! 

-- Como?! Como?? 

-- Este nome dos Freire d'Apdrade que desde seculos tem soado em todos os campos de batalha, que tem sido grande nas armas como nas lettras, que tem uma legenda d'heroicidade foi emporcalhada por ti...

-- Senhor... 

-- Sim... Tu chamas-te Pereira Forjaz e es nosso parente... 

-- Mas... 

-- Silencio... Eu chamo me Freire d'Andrade e sou o ultimo do nome... 

-- Porém... 

-- Queres dizer que ha parentes remotos... 

-- Sim... 

-- Que nem sequer conheceram o meu general, o unico amigo, o meu tio!... Esses que fiquem em paz... Eu sou o unico a respeitar essa santa memoria por ti emporcalhada... 

-- Reparae... 

-- Cala-te... Vê o que diz este jornal... 

Mostrou-lhe um numero do Correio Brazilienne e disse: 

-- Lê... 

Como o outro não encontrasse, agarrou de novo no jornal, procurou durante uns momentos e apontou-lhe as lettras com o cano da pistola, accrescentou: 

-- D'uma vez para sempre... Que tens a dizer: 

O jornal dizia assim... 

«É pois nossa opinião que a matéria que lemos allegado contra a sentença deve servir de fundamento a uma petição de recurso a el rei, o qual sem duvida attenderá aos parentes do condemnados a quem muita infamia, que todas sabem pela morte affrontosa de forca que padeceram os réus. E com D. Miguel Pereira Forjaz e primo do reu Gomes Freire d' Andrade, recommendaram-lhe que tambem assigne aquella petição, cujo despacho favoravel recomendará a bem da sua familia» 

-- Que tem a dizer?! interrogou o outro ao reparar que o governador desviava a vista do jornal. Vamos?! 

-- Eu?! 

-- Sim... 

-- Que tenho a dizer?!... Mas... 

-- D'uma vez... Sim ou não?! 

Com força, n'um grande impcto o outro respondeu: 

-- Pois bem... Não!... 

-- Não?!... 

-- Mil vezes não... 

Sentiu o cano da pistola na fronte, ouviu uma voz terrivel bradar-lhe: 

-- Reza o teu ultimo padre nosso, não quero que morras impenitente... 

-- Ouvi-me... ouvi-me... 

Estava gelado, estava pallido, todo n'um sobresalto, ouvia ainda o outro, exclamar: 

-- Sim ou não?... 

Teve então um grande momento de terror, fez-se livido e redarguiu: 

-- Sim... 

-Ah!... 

-- Mas ouvi-me... ouvi-me... 

-- Falla... 

-- Eu o rehabilitarei... Eu pedirei... 

-- Infame!... 

-- Sim... Juro- vos que irei sollicitar isso... 

-- Oh! Bandido... Queres ganhar tempo... 

-- Juro-vos! 

-- Cala-te... ou assignas essa petição ou morres... 

Tirava rapidamente um papel da algibeira e estendia-lhe na frente. 

-- Assigna... 

-- Um momento... 

E muito atrapalhadamente, no auge da perturbação, esmagado, balbuciou: 

-- Um momento apenas... 

Depois continuou: 

-- Quereis que eu vá assignar esse papel, quereis que vá supplicar esse perdão com os outros?! Mas não reparaes então no que isso é?!... 

-- Sim... 

-- Não vêdes que sósinho eu saberei ordenar?! 

Muito agitado, Nuno Freire, exclamou: 

-- Tens então poder?!... 

- Sim?! 

-- Muito poder?! 

-- Sim... muito... 

-- Para que deixaste morrer o general?! interrogou com furia. Falla... 

-- Oh! Mas se o condemnaram... 

-- Quereis dizer, miseravel, que podias pôr um entrave a essa morte d'ignominia... 

-- Oh!... mas... 

-- Queres dizer que chegaste ao extremo de concorrer para a morte d'um parente, de seres o seu assassino, o seu unico juiz?! E que queres de mim?! Piedade?! 

-- Escutae-me... 

-- Eu não queria a tua assignatura n'este papel... Seria a deshonra dos Freires esse teu nome aqui... Apenas desejava certificar-me do teu poder... Porque apesar de tudo eu lá no meu solar onde vivia retirado não acreditava no que me diziam... Agora tenho a certeza, Miguel Forjaz... 

-- Mas... 

-- E serei tambem o teu unico juiz... 

-- Attendei-me... 

-- Vaes morrer... 

Apontou lhe a pistola á cabeça e ia desfechar mas neste momento a porta abria se e um vulto apparecia no limiar. 

Nuno Freire baixou a arma, o recemchegado em voz calma, disse: 

-- Cheguei a tempo d'evitar uma vingança... 

-- Padre! exclamou o outro ao reconhecer Vaseo de Miranda. 

-- Nuno... Quando me deixaste eu advinhei tudo... Vim para salvar esse homem... 

-- Vós!... bradou elle deveras perturbado. 

-- Sim... Julguei vingar Gomes Freire... 

-- E ainda me prendeis o braço... 

-- Jurei á hora da morte do heroe que a minha vingança seria terrivel... 

Muito pallido o governador, não os entendia. 

-- E é assim que procedeis?! 

-- Decerto... Acho pouco esse tiro de pistola... 

-- Frei Vaseo... 

-- Muito pouco quando alguma cousa de mais terrivel se prepara... Dentro em duas horas este homem será entregue ao povo... 

-- Ao povo... ao povo?! exclamou no auge do pasmo. 

-- Sim... Chegou a Lisboa a revolução... 

O governador no auge do medo, muito livido, cheio de desespero, encarava-os, agitava a campainha e sentia-se de seguida agarrado. 

Fr. Vasco ia pelo corredor e gritava ao creado que se approximava: 

-- Vae-te... 

Voltou de novo e exclamou: 

-- Agora... Ouve... 

De longe vinha um grande rumor, o ruido d'uma multidão excitada e elle fazia-se pallido, atirava-se de joelhos: 

- Oh!... Matae-me... matae-me... 

-- Este anno de 1820 ha-de ser fallado, declarou o padre a sorrir. 

-- Matae-me! matae-me! supplicou elle. 

N'este momento entravam as filhas do governador muito açodadas, todas tremulas, banhadas em lagrimas: 

-- Meu pae... meu pae... apedrejam as vidraças... 

Nuno Freire sorriu cruelmente ao ouvir as pedras quebrando os vidros. 

Fr. Vasco olhava as jovens que seguravam o governador. 

-- Vamos... Nada temos aqui que fazer, exclamou o sobrinho de Gomes Freire. 

O frade ia para a porta e exclamava: 

-- É a herança d'um Freire em revolução... 

Os criados corriam d'um lado para outro, a multidão cada vez mais excitada já entrava pela casa e o frade exclamava diante d'aquelles homens loucos de raiva: 

-- Lá em cima! lá em cima! 

Nuno Freire, disse por sua vez: 

-- Fr. Vasco... Andae a ver de que côr é o sangue d'esse miseravel. 

-- Amigo... É egual ao teu! e arrastou o comsigo para a porta, onde o povo continuava a clamar: 

-- Morra o governador! morra o governador!... 

-- Emfim! disse o frade. Vingados... 

-- Eu ia matal-o... 

-- Não tinheis esse direito... 

-- Porque?! 

-- Eu estava primeiro... Mas cedi o meu logar... O povo e melhor justiceiro... 

-- Ah! Se meu tio lá no céu podesse ver tudo isto como a sua alma... 

-- Soffreria, atalhou o padre. 

-- O que?! 

-- Sim... Gomes Freire seria o primeiro a salval-o... 

E agarrou lhe o braço, exclamou: 

-- Nuno... E como podestes conter quasi dois annos a vingança! 

-- Estava longe... Na India a servir o paiz... Voltei e recolhi ao meu solar para meditar no facto... Estive alli um mez. Tive provas da infamia d'este homem e... 

-- Ah! Procurasteis-me... 

-- Para ouvir ainda o que não sabia... 

-- Agora ides satisfeito?!

-- Ainda não... Se elle escapasse?! 

-- Oh! Impossivel... Olhae... 

E mostrou-lhe um rolo de fumarada que se erguiam dos lados da casa do governador do reino. 

-- É a vingança! accrcseentou. 

-- Matam-no... E aquellas pobres senhoras?! exclamou o outro.

O frade, olhou-o e murmurou: 

-- Tambem me lembrava d'ellas... 

-- Não são culpadas... 

-- Não!... 

-- Oh!... Mas deixal-as morrer?! 

-- Amigo... Vamos salval-as, gritou de repente arrastando comigo o frade que o admirava. 









XXXIII 





Os reis de Portugal 





Vae meu amigo, vac, disse o rei agarrando muito a mão de Beresford, vae...

E parecia que alguma cousa a mais lhe queria ouvir. 

Porem calava-se como rcceouso, não se atrevia a fallar-lhe muito abertamente. 

O marechal, na frente d'elle, apesar da despedida parecia esperar ainda mais. 

-- Vae, repetiu D. João VI e a sua face gorda corou, entaramellou-se-lhe a lingua e accrescentou com toda aquella difficuldade: 

-- Conserva-me Portugal, conserva me Portugal. 

O inglez admirou-se. Julgou ver uma saudade na maneira porque o rei lhe fallava e respondeu: 

-- Senhor sabeis que apesar d'extrangeiro, já tenho amor a esta terra?! 

Esperava que o rei lhe agradecesse, esperava assim dos seus labios essa saudade tambem bem defenida e bem expressa. Mas D. João VI calou se e o marechal tornava: -- Sim meu senhor... Bem pouco tempo ali vivi mas amo esse bairro como se lá nascera... V. M. comprehende bem o que é saudade! 

Não disse nada, baixou a cabeça e então o inglez continuou: 

-- V. M. sahiu de Portugal ha doze annos... 

-- Sim. 

-- Doze annos longe de tudo quanto amava lá... 

-- Ah!... 

Era uma exclamação ambigua que Beresford tomou por um soluço e accrescentou: 

-- Mas um dia para o vosso povo voltareis... 

-- Hein?! interrogou D. João VI deveras pasmado. 

-- Sim, que voltareis... 

- Eu?! 

Avermelhava-se-lhe a face e titubeava ainda: 

-- Eu... eu... ah! não quereria voltar. 

-- Real senhor... real senhor... bradou o inglez, 

E D. João VI sumiu, volveu bonancheira e pausadamente: 

-- É o presente... 

-- O quê?! Pois não sentes saudades, meu senhor?! 

-- Não... saudades?! 

Parecia até admirado de tal pergunta e concluia: 

-- Portugal dá-me a impressão que tem muitas ideias francezas... 

Sem duvida chegava-lhe a recordação d'alguma scena muito penosa passada no seu reino, volveu-lhe a alma na agitação d'um terror e tornou: 

-- Não quero voltar.. 

-- Meu senhor... E eu a julgar que o vosso tormento era pela notalgia... 

-- Não... não, ... 

-- N'esse caso para que quereis ainda que se conserve essa corôa?! 

Elle sentou-se, fez um gesto molle e disse: 

-- Não sabes que o Brazil tambem se agita... 

-- Oh! Real senhor, exclamou com deserença. 

-- Sim... Sim... É esta a verdade! exclamou. Eu vejo tudo... 

-- V. M. engana-se... atalhou o outro. 

-- Marechal, começou elle servendo uma pitada, marechal, põe de parte a lisonja... 

-- Lisonja?! 

-- Sim... O mal dos reis é que jamais lhes Fallam francamente... 

- Oh! 

-- Sim... Amigo... tambem sei isso... 

Parecia outro homem; mostrava agora a sua esperteza de camponio ao accrescentar: 

-- É bem certo que nunca me dizem a verdade... 

-- Meu senhor... 

-- Não dizem, não... 

- E...?!... 

-- Vejo o contrario, redarguio na sua Falla mansa. Oh! Sim vejo bem o contrario... 

-- Meu senhor... 

-- Queres a prova?! 

-- Senhor... Pelo meu lado... 

-- Escuta: Portugal deve ter ideias francezas desde que as martyres fallam nellas... 

- Aqui?! 

-- Não sabes que para tentarem a republica?!... 

-- Um simples movimento... 

-- Ah! Como me lembro de Luiz XVI. 

Os seus dentes batiam uns nos outros, sentiu um grande terror. 

Beresford acabou por dizer: 

-- Se V. M. quizesse... 

-- O que?! 

-- Se V. M. no seu alto criterio quizesse... 

-- Mas o que?! 

Poderia ainda reinar como um grande soberano... 

- Eu?! 

Duvidava e o outro accrescentava: 

- Sim! 

-- Eu?! Oh! Mas como?! Onde posso encontrar apoio?! 

-- Apoio?! Oh! Meu senhor... Mas não tendes os vossos subditos, não tendes os vossos exercitos, os generaes?! 

Com um ar velhaco volveu: 

-- Quasi não creio... 

-- Em que, meu senhor?! 

-- Na dedicação, volveu desassonbradamente. 

-- Oh! Mas não vêdes então que todos desejamos servir-vos... 

-- A mim... 

-- A V. M... 

-- Não... Não... Deveis antes servir os meus filhos, volveu com indefferença. 

-- V. M. não vê como todos nos deixaremos matar... -- Portugal deves defendel-o porque é o património do meu filho... Fazer de mim um rei com toda a força do mando é impossivel... 

-- Senhor... 

-- Pedro, o meu filho deve ser o homem destinado a esse commettimento... 

-- Real senhor, se assim o quereis... disse ainda o inglez. 

-- Quereria... E então... 

-- Então... Poderíamos fazer de Portugal um grande paiz... 

-- Cheio de tranquillidade?!... 

-- Sim... 

-- E onde eu iria então para me recolher... 

-- V. M... Iria para reinar... 

-- Oh! Outro braço pode melhor manter o reino... Eu só ambicionava... 

-- O que?! 

O inglez parecia disposto a tudo, parecia desejar dar a felicidade a esse homem que ali estava a lamentar-se. 

-- Desejaria recolher-me a Mafra...

-- Meu senhor... Mas isso é... 

-- A abdicação?! interrogou matreiramente. 

-- Sim... 

-- E que mais pode desejar um homem como eu?! Pesa-me a corôa... 

E soltou uma risada, ergueu-se, bateu no hombro de Beresford e continuou: 

-- Vae pois amigo, vae... Deves velar por Portugal... 

-- Pois bem, eu saberei guardar a herança do sr. D. Pedro... 

-Elle te agradecerá, redarguiu um pouco animado e offereceu-lhe a sua mão a beijar, viu-o sahir da sala recuando e deixou-se cahir na cadeira, murmurando: 

-- Que terrivel cousa é ser rei! 

Na sala contigua, o principe D. Pedro cortava o caminho a Beresford: 

-- Marechal! 

-- Alteza... 

-- Dizei-me... Ides partir?! 

-- Sim, meu senhor... 

-- Oh! Que pena tenho... 

Elle ia agradecer porem o principe continuava: 

-- Sim... Que pena, que enorme pena... 

-- V. A. desejava talvez que eu não partisse... 

-- Não, marechal, desejava partir comvosco... 

-- Meu senhor... 

-- Sim... Queria ver Portugal de que mal me lembro... 

-- E que muito amaes... 

-- Onde reinarei, disse com orgulho, e tomando o marechal de lado, interrogou: 

-- Essa gente da regencia não é amada?! 

-- Oh! Não, não... 

-- O povo... 

-- Detesta esses homens... 

-- O exercito... 

-- Tambem... 

-- Não ambicionariam antes que um principe da casa de Bragança fosse vice-rei n'esse paiz... 

-- Decerto, meu senhor... 

Os olhos de D. Pedro fulguravam; e o marechal disse rapidamente: 

-- Por exemplo, se V, A... 

-- Ah! 

-- Sim se V. A. quizesse... 

-- Marechal, dizei antes se me deixassem... 

O inglez tomou-o de lado e bradou: 

-- Vosso augusto pae talvez não so offendesse... 

-- Quem?! 

-- El-rei... 

-- E sabeis acaso a opinião da rainha?!

Havia uma grande ironia na sua voz, um sarcasmo que obrigava o inglez a sorrir: 

-- Sabeis?! 

-- Não, meu senhor... 

-- N'esse caso, eu não faço cousa alguma... 

-- Perdoae... 

-- Oh! Beresford, um dia vos poderei dizer tudo... 

E affastava-se depois de lhe ter apertado a mão. 

E os seus olhos luziam muito n'um clarão extranho. 

O marechal metteu-se na sege e dirigiu-se para o caes pensando muito nas palavras d'el-rei e nas do infante. 

Aquella hora Carlota Joaquina, passando nos aposentos que tinha sido do conde d'Alva, suspirava e ia para janella do aposento a ver um official da guarda que passeava no jardim. 

Sem saber porque recordou-se de Portugal e murmurava: 

-- Como nos receberia o povo?!... 

E debalde procurava atinar com uma resposta. 







XXXIV 



A salvação 





Com effeito, D. Miguel Forjaz fôra salvo. Diante d'aquella immensa mó de povo que lhe invadia o domicilio, elle sentiu-se perdido. As filhas gritavam nos aposentos contíguos e vendo o perigo, o governador do reino, encommendou-se a Deus. Chegara a sua ultima hora. 

N'um repente passou-lhe diante da vista a sua tarefa, aquelle trabalho de sapo, vil e hediondo, a traição que fizera. E era a figura enorme de Gomes Freire que lhe apparecia, era n'um relance todo o seu crime. E no fim de tudo o que ganhava?! 

Ouvia um grito mais estridente e amaldiçou todo o ouro que lhe podia vir d'essa herança do general. 

-- Que miseravel! ouviu dizer junto delle. 

-- Morra! Morra! 

O povo amotinado rodeava-o, envolviao, gritava lhe aos ouvidos. 

-- Morra! Morra! 

E sentiu uma vertigem. 

Pausava-se-lhe no hombro uma mão pesada, um halito avinhado baforejava-lhe o rosto e elle bradava: 

-- Deixem-me! Deixem-me! 

-- Morra! Morra! 

O mulherio quo invadia o aposente clamava: 

-- Fóra, miseravel! Vamos matal-o, vamos matal-o! 

E atiravam se-lhe com fúria, com raiva, despedaçavam-lhe os bofes da camisa, exactamente na occasiao em que as suas filhas se achegavam lavadas em lagrimas e diziam: 

--Meu pae... Meu pae... 

As duas senhoras, todas tremulas, deveras assustadas, lividas, continuavam: 

-- Ouçam-nos! ouçam-nos! meu pae... Oh! o meu pobre pae... D. Miguel Forjaz, no auge de desespero quasi desfallecia e aquella gente entrava sempre no mesmo alarde e no mesmo clamor, assustava o, erguiam-se facas, lançavam se sobre elle n'uma furia. 

Um mais ousado ergueu um machado sobre a sua cabeça e as duas senhoras attiravam-se de joelhos, suplicando: 

-- Perdão... perdão... 

Mas n'este momento um homem passando por entre a turba, raivoso e indignado, affastava o que buscava assassinar D. Miguel e dizia: 

-- Isso é vil! É indigno do povo! 

-- Olha o fradepio! disse uma megera apontando a veste que fr. Vasco envergava. 

Elle recordou-se dos seus antigos tempos de cadete, saltou um grito que os conteve ao bradar; 

-- Para traz... É o governo que vol-o ordena! 

-- Ah! Queres defender o assassino! bradou uma açougueira. 

-- Não quero que o povo se enporcalhe, exclamou o frade a lisongear a vaidade da multidão. 

Já Gomes Freire se achegava tambem e D. Miguel ao vel-o sentiu-se mais do que nunca perdido. 

Porem em voz forte, rudemente, elle dizia. 

-- Para traz! 

Defendia as duas senhoras e tornava: 

-- Vejamos onde está uli um homem que se atreva a bater em mulheres?! 

Aquella phrase energica calava no animo de turba que recuava. 

E então elle, no mesmo tom, accrescentava: 

-- O povo não se deve deshonrar nem deshonrar a revolução... 

-- Bravo! bravo! gritou uma voz. 

E os outros calaram se, a entreolharem-se muito pasmados. 

O quê?! O quê?! perguntou lá detraz um homemzarrão. 

Pois vêem agora com isso?! O que vocês querem sei eu... 

-- Sim, sim! Querem salvar o maroto!

É uma nova onda se altiava, um novo redemoinho se tazia na turba que continuava a avançar: 

Senhores! clamou então fr. Vasco. Se quereis levar por diante a vossa obra! Então aqui duas mulheres e um velho, nós estamos aqui com elles! Vinde!

Ninguem se moveu; porem o homemzarrão gritou de novo: 

-- Bem sei... bem sei... aquelle e dos taes... 

E um sujeito accrescentou: 

-- Olha, aquelle é o frade que levou Gomes Freire á morte! 

Diante da semelhante revelação a turba mais se auKJtinou, volviam gritos rancorosos de todos os labios: 

-- Morra! Morra o frade! 

Vasco de Miranda, fez se pallido e sorriu, deu dois passos e cruzou os braços no peito: 

-- Aqui estou! 

Mas já Nuno Freire se collocava na sua frente. 

-- Outro dos do governo! berrou o homemzarrão. 

-- Infame! rugiu elle. Grande infame! 

-- Ah! Não gostas de revelação, tornou procurando avançar. 

-- És tu que ludibrias o povo... És tu que o enganas ... 

-- Eu?! Eu?! Olha que mariola!

-- Sim! tornou no mesmo tom de voz. Chamas me homem do governo! 

-- E não és?! 

-- Sou o unico parente de Gomes Freire! 

A turba recuou no auge de pasmo. 

E elle, com violencia, com segurança, accrescentou ainda: 

-- Extranhaes não é verdade que seja eu quem salve esto homem?! 

-- Decerto! Decerto, bradaram todos muito indignados. 

-- Pois não deveis cxtranhar! Diante da ira do povo dou me por pago! Diante do povo eu estou! Se querem iuniar mais um crime matae este homem! 

Arredou-se e a turba avançou irada porem elle collocou-se na frente novamente e exclamou: 

-- Eu morrerei com elle! 

As duas filhas do governador, agarravam-no febrilmente e supplicavam: 

-- Salvae nos! Salvae nos! 

-- Socegae senhoras, disse Nuno Freire. Socegae! 

Ellas tremiam muito e no auge do desespero diziam mais uma vez: 

-- Salvae-nos!... 

O frade tomava conta do governador e bradava: 

-- Que resolveis! não nos quereis dar passagem?... 

-- Sim... sim, gritaram algumas vozes. 

Porém o homemzarrão dominando tudo com a sua voz, exclamou: 

-- Vil canalha é o povo! Vem para fazer justiça e deixa-se embair! Pois não vêdes a infamia?! 

-- Vejo que buscas sangue! gritou Nuno Freire. 

-- O sangue d'um miseravel! 

-- Pois aqui o tens! comnosco o matarás! 

Deu alguns passos com as duas mulheres, passou por entre o povo ao mesmo tempo que o frade avançava tambem com o governador. 

Levantavam-se braços, soaram gritos, havia uma balburdia enorme, um terrivel esmagamento. 

Assim iam para a porta, ao mesmo tempo que o palacio era posto a saque e as labaredas envolviam a ala esquerda do edificio. 

A fumaceira cegava e asphixiava, elles, com grande custo conseguiam chegar ao ar livre onde a multidão se agglomerava. 

Tiveram um trabalho louco para passar, e quando se encontraram no meio do povo correndo todos aquelles beccos, olharam-se. 

Estavam todos lividos; parecia-lhes ainda um milagre a sua salvação. 

As duas senhoras agarravam-se cada vez mais ao sobrinho de Gomes Freire e murmuravam: 

-- Senhor, senhor... Fujamos! 

Passaram por entre a turba que não os reconheceu e assim chegaram á esquina do Pateo das Vaccas, metteram para os lados da quinta do Meio e alli n'um recanto se abrigaram. 

Vinha do largo o vozear da turba, soaram as vozes no mesmo berreiro, no mesmo clamor unisono e D. Miguel Forjaz, meio desfallecido, dizia: 

-- Senhor... senhor... 

Fr. Vasco largou-o; elle arrimou-se á parede para não cahir. As filhas correram a amparal-o e então em voz muito fraca balbuciou: 

-- Tende piedade de mim!

Ninguem lhe respondeu e elle continuou: 

-- Não tenho ninguem que me ame... 

-- E nós? e nós, meu pae, disseram ellas. 

-- Ah! Vós... Vós minhas filhas! exclamou. 

Nos seus olhos brilhou uma extranha seentelha, um sorriso lhe aflorou os labios e uma grande alegria se lhe estampou no rosto. 

-- Filhas! 

-- Meu pae... 

Estreitou-as n'um largo abraço e tornou: 

-- Julguei que nunca mais as via... 

-- Pae... pae... 

-- Ah! onde estão os nossos salvadores... 

Deu com os olhos no frade e no sobrinho de Gomes Freire e soltou um grito. 

-- Vós! Oh! Como vos agradeço... Eu vos darei tudo, tudo! 

-- Senhor! exclamaram elles como offendidos. 

-- Sim... Eu vos darei tudo, meus amigos!

-- De vós cousa alguma queremos! redarguiu o frade. 

-- Para que me repelem?! interrogou de novo. 

-- Senhor, disse então Nuno Freire. Fazei nos a justiça de acreditar que somos homens d'honra?! 

-- Decerto! Oh! Mas decerto, exclamou. 

-- Nesse caso fazei-nos tambem a justiça d'acreditar que não vos salvamos por vós!... 

-- Mas então... 

-- Agradecei a vossas filhas! replicou Vasco. 

-- Minhas filhas! 

-- Que não são culpadas e iam pagar... 

- Oh! 

-- Só por ellas... 

-- Mas vede tambem que eu não sou culpado, e ao dizer estas palavras D. Miguel Forjaz chorava. 









XXXV 





Em viagem 







Beresford levantava se ao alvoracer e vinha para a tolda. Andava sempre meditativo, tomado d'uma grande preoccupação. Lembrava-se do que vira no Brazil, do espectaculo extranho d'essa familia real antogonica, terrivelmente separada. 

E a sua imaginação transportava-se a Portugal. 

E assim na tolda, cercado d'homenagens, fallava com o coronel Campbell que o acompanhava: 

-- Anceio por chegar a Portugal! 

-- Ah! E eu, marechal, antes quereria recolher a Inglaterra. 

-- Mas porque?! 

-- É a nossa patria... Vivemos demais n'outros paizes, já trabalhamos... Agora chegou o momento de descançar assim que chegar a Portugal tenciono pedir-vos um favor... 

-- Qual?! 

-- Sollicitar-vos a minha demissão... 

-- Coronel... 

-- Sim... Devo ir para a Escocia, devo ir viver para o meu paiz... 

- Impossivel! 

-- Porque?! 

-- Tenho necessidade de muitos homens... 

-- Outros vos servirão! 

-- Se ha poucos como vós!... 

-- Marechal... É apenas isto o que tenho a pedir-vos... 

Retirou-se; e Beresford ficou a pensar no caso. 

No dia seguinte estavam á vista da barra de Lisboa. O marechal tremia d'impaciencia. 

Ao chegarem em frente de S. Julião extranharam não ouvirem salvas apesar de terem içado a sua bandeira. 

De pé, na arriurada, Beresford olhava a terra e murmurava: 

-- Ainda não viram... 

Campbell recordava se muito da tragedia passada alem n'aquella torre e disse-ihe: 

-- Marechal, alem se praticou uma das maiores infamias do mundo... 

-- A que não podemos obstar... Se fosse hoje... 

-- Que farieis?! 

-- Trago plenos poderes... 

-- Vós?! 

-- Sim... Sou como um vice-rei em Portugal! 

Mas ao longe, partindo de terra a toda a força de remos, avistava-se uma embarcação que o marechal fixava: 

Quando o barco abordou viu um oflficial que subia pela escada do portaló. 

-- Em nome do governo provisorio venho fazer a visita! exclamou á entrada. 

O commandante approximou-se com um modo altivo: 

-- Vem a bordo s. ex.ª o marechal Beresford! 

O official procurou com vista o marechal, fez a continencia, e exclamou: 

-- Saudo-vos, mylord! 

-- Não vem ninguem do governo, interrogou como offendido ao ver que enviavam um simples tenente. 

--  Do governo?! 

- Sim! 

-- Não, excellencia, não... O governo está reunido em sessão solemne... 

-- Ah! 

-- Manuel Fernandes Thomaz está a fazer approvar a constituição? 

-- A constituição?! perguntou muito pasmado: 

-- Sim, mylord. 

-- Mas que constituição?! 

-- A que foi decretada ha quatro dias... 

-- Como?! 

-- Depois da revolta... 

-- Que revolta?! interrogou o marechal fazendo-se muito pallido. 

--A de 24 d'agosto... A revolução de 20, como lhe chamam... 

-- Mas... 

Muito livido, todo perturbado, olhava Campbell. 

-- Sim, mylord, é este o caso. Se vossa excellencia quer desembarcar... 

-- Não!... Não posso ficar n'uma terra republicana! bradou enfurecido. 

-- Republicana que aguarda o seu rei... 

-- Como?! 

-- Sim... Aguardamos o sr. D. João VI. 

-- E o vossa constituição?! perguntou. 

-- Elle respeitará!... 

-- Impossivel... Mas como foi tudo isso?!... 

E o official contou como as cousas se passaram, fallou ds movimento do Porto, traçou a largos traços a questão em Lisboa e concluiu: 

-- A custo escaparam os governadores... 

-- O que?!

-- Sim, D. Miguel Forjaz, muito a custo conseguiu escapar á furia de toda aquella gente amotinada! 

-- E escapou?! perguntou rapidamente Campbell. 

-- Sim... Mercê das filhas que um frade de nome Vasco de Miranda quiz salvar a todo o transe... Ellas arrastavam comsigo o pae... 

-- Ficou impune! murmurou como penalisado. 

-- E esse frade salvou tal homem... 

-- Com a maior coragem... 

Campbell baixou a cabeça e disse: 

-- Marechal, eu bem vos disse que só deviamos pensar no socego. 

-- Sim... e vou partir de novo... immediatamente... 

O official estava pasmado e o marechal dizia: 

-- Commandante, deveis fazer-vos de vela para o Rio... 

Este cumprimentou-o e foi dar as suas ordens ao mesmo tempo que Beresford dizia ao official. 

-- E vós, podeis dizer ao governo que Beresford partiu e que o saúda!... 

Pouco depois do official descer o navio largou de novo para o Rio de Janeiro levando a D. João VI a noticia de que tinha um povo que o acclamava, que tinha uma nação recemconquistada por portuguezes a portuguezes com a revolução de 1820 

FIM DO 2º E ULTIMO VOLUME
