LUZ
COADA POR FERROS

LUZ
COADA POR FERROS
ESCRIPTOS ORIGINAES
POR
D. ANNA AUGUSTA PLACIDO
LISBOA
LIVRARIA DE A. M. PEREIRA
50, rua Augusta, 52

1863

A’ memoria de minha irman
D. MARIA JOSÉ PLACIDO

Mais alto podia ser o monumento da minha saudade, sempre viva; comtudo não excederia este, onde foram depositadas as lagrimas que a desgraça, no seu requinte de crueldade, o opprobrio e a ignominia arrancavam aos meus ?elhos.?

Grande parte d'estes escriptos nasceram na calamitosa época do carcere e do escarneo dos meus algozes, nunca saciados das torturas que me infligiram. Dedicar-te-hei, pois, estas paginas, onde por vezes apparece o teu nome como a estrella da manhan, rompendo a custo das sombras pesadas da noite: é um dever sagrado. Foste a minha unica amiga n’este mundo: não conheci affeição mais verdadeira.

Hoje que me acho só, filha, quando mal me amparo ás grades do sarcophago que te esconde, a nossos paes e familia, penso com tristeza nos nossos quatro irmãos, que ainda vivem, dos doze que eram. Nem um só se lembra de mim: todos esqueceram a que lhes serviu de segunda mãe! Ora, quando estes repellem a minha lembrança, para não afugentar a felicidade que lhes sorri, de que me admiraria eu, vendo que das muitas pessoas que me cortejavam nos dias opulentos, poucas ou nenhumas me conhecem hoje! Posso, porém, confessal-o: nunca esse mal, devido unicamente á pobreza, me foi espinho.

Se tu, lá do ceo, lanças a vista á terra, ó minha querida irman, pede ao Senhor que me adoce este meu ultimo transito, e proteja o orphão, que tanto amaste, no escabroso caminho da vida. São estas as únicas aspirações d'um coração crucificado pela dôr e pela crueza d'um mau destino.

Anna Augusta PlAcido.

30 d'outubro de 1862.


INTRODUCÇÃO

Não sabe talvez a auctora d’este livro, que estamos n’um paiz em que a primeira coisa que uma senhora de talento tem que fazer-se perdoar, é o seu talento mesmo. É tão commodo dispensar-se uma pessoa de ter espirito, que os semsaborões nacionaes formaram uma seita para castigar os que o teem; entre os homens a forma de punir o talento é desvial-o dos destinos publicos, não lhe recompensar o heroismo da lucta, e, depois de o desdenhar, calumnial-o um dia; entre as senhoras o que se uza, é espalhar o boato de que a sua superioridade não as deixa attender a mais do que ao egoismo e á vaidade, sem consentir nunca que as domine a vehemencia de sentimentos, que formam o condão e a sorte da mulher.

Não perdoam facilmente, essas a que os jornaes do genero chamam no dia immediato ao baile «rainhas da festa», que uma entre ellas, tão formosa como ellas, como ellas tão senhora, se permitta alem de conversar, sorrir, amar, dançar,—pensar ! As mães indicam-a ás meninas como perigosa, os burguezes evitam olhal-a, os noivos temem-se, e os tolos, que andam em maioria, dizem comsigo que uma senhora que tem espirito é uma senhora que se afasta do seu fim, e que elles não se acham preparados, de um dia para o outro, a conversar n’um baile com uma senhora que pensa, porque vão a um baile para se distrahirem, e não para terem trabalho.

Por isso, o que ha para estranhar em que de um talento tão delicado e grave como o da auctora de Luz coada por ferros se tenham arreceado uns, desconfiado outros, e alguns espalhado rumores na intenção de pôr em duvida se deveras ella propria, ella senhora, ella portugueza, ella que passou no mundo sem ninguem lhe observar nunca ares de litterata e ridiculos de preciosa, desastroso distinctivo das musas nacionaes, se é ella realmente, ella sósinha quem escreve os artigos que a Revista Contemporanea tem ufanamente publicado com as iniciaes de A. A.?!

Uso n’estes casos fazer antes conjecturas, do que indagações; é menos facil, mas vae mais depressa; e, quando digo é menos facil, não digo bem, pois que por pouca sagacidade que cada um tenha, sempre lhe hade chegar para dar razão a si proprio de uma pessoa, ou de uma coisa; cada creatura, assim como cada objecto, tem o seu typo, a sua feição e o seu caracter. Ainda que um homem caisse da lua ou viesse de Congo, chegando aqui como um perfeito selvagem que não viu nada, esperem lá que elle tomasse um punhal por uma colher; ha morte e sangue na sua forma, ninguem pode enganar-se: Mostrem-lhe o sr. T***, e digam-lhe que é Thomaz Ribeiro; por mais patavina que seja, elle não crê. Não vae agora ningurm dizer com segurança: isto é de fulano ou sicrano, mas exhala-se no ar não sei que perfume, que denuncia a verdade, e logo se pensa que se não é elle, é seu irmão, ou alguem da familia.

Dizer-se que alguns escriptores não teem estylo, e por isso se confundem, parece-me um engano; toda a gente tem estylo, assim como todos teem a sua cara, e da mesma maneira que não se encontram duas caras em tudo eguaes, assim não poderá encontrar-se dois estylos eguaes em tudo.

E impossivel ler um livro bem feito, sem lhe notar em cada pagina, assim como no todo, a architectura engenhosa; dir-se-hia um templo com o seu perystilio, a nave e as capellas lateraes; nos do elegante romancista, cuja influencia se suspeita nos escriptos da sr.a D. Anna Augusta, succede isso mais que em todos, e é o que justifica o numero de peregrinos e devotos.

Pois que! Na maneira singela, timida, feminil, dos romancinhos «Adelina», «Amor», «Recordação», não conhecem o pulso receioso de modestia d’uma senhora, que debalde tenta ás vezes dar os toques fortes da escola analytica, não conseguindo mais do que esboçar, com o sagaz instincto do seu sexo, os casos, caracteres e gestos, que a sua phantasia pede em metade emprestados ao conhecimento da vida social e á sua triste experiencia da dôr?

Nas «Meditações» causa certa estranheza, admirar tanto a miudo em escripta d’uma senhora o profundo da philosophia enfeitado brilhantemente pelas galas d’uma linguagem correcta e portugueza de lei; mas tudo isso se justifica para os que conhecem D. Anna Augusta, e para mim mais que todos, que tantas vezes tenho querido despertal-a das suas predilectas leituras graves para lhe fazer gostar a chamada litteratura facil, que não tem, coitada, contra si senão darem-lhe esse nome, e que envolve por fim de tudo o que o espirito humano tem produzido de mais agradavel; as novellas de George Sand, os contos de Alfredo de Musset, os folhetins de Julio Janin, os romances meio historicos de Dumas pae, as poeticas lorettes de Dumas filho, os Contos sem arte de D. José d’Almada, os proverbios de Feuillet, o Amor e Melancholia de Castilho, os paradoxos de Méry, os romances de Camillo Castello Branco, o Amaury, a Fanny, as historietas de Mérimée, e as Viagens na minha terra, e as Folhas cahidas, e o Garrett quasi todo, e todo lord Byron, e quasi tudo que a gente gosta de ler !

Ah ! Isso sempre teem havido contendas e amuos por causa dos classicos e dos romanticos entre mim e essa encantadora senhora, que tem tanto de instruida para me ensinar como de indulgente para me absolver! Já de uma occasião me fez ler a Nova Floresta de Bernardes, guardado á vista; e se não vivo na familiaridade de alguns excellentes auctores velhos, é porque nem sempre posso dar-me o prazer de ir, visitar a gentil auctora d’este livro, e fazer-me apresentar por ella aos seiscentistas do seu conhecimento.

A convivencia litteraria de um auctor favorito, necessariamente influe no estylo de um escriptor novo, e muito principalmente no de uma senhora, mais sujeita sempre pelas predilecções do seu sentir delicado a denunciar as suas sympathias; é talvez com applicação ás senhoras que escrevem, que vae ainda melhor o dito de Buffon: — «O estylo é o homem!»—Mas o que ha direito a esperar, é que não confundam o estylo que se assemelha com o estylo que lhe serve de norma, por mais parecidos que sejam. Hão-de ter visto aquellas fazendas chamadas damasco, que têem do avêsso outra frente; de um lado são, supponhamos, dores vermelhas n’um fundo escuro; do outro lado é o fundo vermelho, e as flores escuras; é o mesmo tecido, o mesmo trabalho, o mesmo estofo, —a imagem é que não é a mesma, e logo se reconhece; assim a um homem de lettras, e mesmo em geral a uma pessoa de gosto, não lhe é permittido hesitar um momento em reconhecer no estylo da senhora D. Anna Augusta uma physionomia, que, embora similhante á d’outro nas feições, sensivelmente se discrimina no todo.

Isto é bom dizer-se e accentuar-se, porque na nossa terra em uma noticia principiando a correr, não ha artes de a segurar. Haverá tres annos deram os jornaes noticia da morte do sr. Alexandre Magno de Castilho; elle reclamou, mas, assim mesmo, nunca conseguiu convencer bem a maior parte da gente de que estava vivo, porque a noticia havia-se espalhado, e elle, que estava doente de mais para poder por actos estrondosos persuadir o paiz que ainda pertencia ao numero dos que por cá andam, limitava-se a assegurar que se sentia vivo, o que não era sufficiente, n’uma terra da seriedade d’esta, para apagar a impressão de uma noticia em contrario!

O presente livro é mais que um devaneio de senhora, ou que um entretimento de mulher de espirito ; é o resumo talvez das angustias, desillusões, torturas, que tem atravessado na terra essa pobre alma, cujo unico crime tem sempre sido a sua propria superioridade, stygma fatal para os que precisam viver no mundo. O que não lhe haverá ganho de amarguras, esse talento de que tanto se tem fallado! Que de emulações de collegio, que de antipathias de infancia, que de invejas de sociedade, que de despeitos de amigas, que irreconciliaveis odios de toda a ordem, alguns até nascidos do amor !

É preciso ler esta obra com o respeito sagrado, que a desgraça suscita; a dôr vive aqui, nobre, serena, digna, como tem vivido sempre no destino de que este livro é historia. Não procureis só nos enredos o segredo d’essa existencia triste; é nas idéas, nas considerações, nas phrases d’analyse, que a todo o momento acodem ao reflexivo espirito d’esta senhora, que se revelam gradualmente os periodos da sua desventura; nem espereis encontrar em cada conto o mesmo typo de heroina, como se a auctora estivesse sempre em modelo para os seus desenhos; longe d’isso: differente até da moda litteraria, que não se occupa já senão dos trinta annos, preferindo as mães. ás filhas, as mulheres apparecem-nos quasi todas ao entrar na vida; Adelina e Paula teem dezoito annos, Sophia vinte e um, Julia não chegou ainda á edade da emancipação, e, quando se trata de Marianna, diz a auctora com cautella—«Marianna não tem ainda trinta annos!»

Um dos melhores merecimentos d’este livro é justamente o de se conhecer no enthusiasmo da paixão, na vehemencia das apostrophes, depois no tom resignado das almas superiores mas infelizes, em pequenos toques d’estylo, na serenidade de algumas queixas, no perfume de affectuosa sensibilidade epistolar, a intelligencia subtil e mimosa, que está mesmo revelando o sentimento feminil.

Ha inquestionavelmente o instincto litterario n'este talento; apesar de se haver dado ao trabalho de aprender, e de pensar constantemente em se instruir, parece ás vezes nada dever ao estudo, e haver nascido o que é hoje; tudo n’ella é rápido e espontaneo, e mil qualidades da sua indole transluzem n’esta obra.

Vêem-a formosa os que contemplam o retrato, que accompanha este volume; mas ha d’ella outro retrato ainda que fazer, não menos bello. É uma natureza simples e dulcissima; o seu respeito pelo talento toca a devoção, e tendo quanto se requeira para tomar a attitude de rival, é como amiga que se apresenta, tão despida de pretenções, como se não as pudesse justificar todas.

Tenho-a encontrado em diversissimas situações; sempre o mesmo ar sereno, afavel, resignado, santo. Nunca foi d’essas poetisas de lapis atraz da orelha, e é extremamente superior para ter vaidade, que é a tolice do orgulho; orgulhosa sim, deve-o ser, e se não o é de si mesma, é porque, altiva das qualidades de quem estima, não tem occasião de se gabar das suas.

Amante do ruido, dos espectaculos e das festas, sabe estimar da mesma sorte o silencio do campo: tanto a sua alma comprehende a religião da solidão. Agradam-lhe enfeites, a simplicidade encanta-a, seduz-se de um palacio, resigna-se n’um cárcere, consola-se na cella de um convento!

Eu quereria dizer-lhes ainda... Nada mais. Estimo tanto este livro, que ponho escrupulo em lhe tomar mais campo.

Julio Cesar Machado.






ADELINA
Les femmes voient tout ou ne voient rien, selon leur disosition d’âme; l’amour est eur seule lumière.

Balzac.

CAPITULO I
O Porto é o eden aonde mais infloram os amores angelicos, candidos, e infantis. Ninguem me desmentirá, creio. Aqui, não chegou ainda o contagio d’essa peste malefica que lavra já na capital, como em todas as capitaes dos grandes reinos.

Se ha aqui peccadora, empolgada nas garras satanicas de paixão menos pura, ai d’ella! por que as pedradas chovem-lhe compactas, e á penitente nem tempo lhe dão de repetir uma historia passada entre Jesus e os apedrejadores d’uma mulher, em Judea.

Estamos pois na cidade da Virgem.

É nesta divina padroeira que as mães descançam o cuidado de guardar intactos d’um desejo, ou pensamento equivoco, os coraçoes virginaes das filhas, muito além dos vinte e cinco annos, até que o marido predestinado lhes calque aos pés o gracioso e puro emblema da innocencia.

D’estes ha algum, vetusto arrapazado, que, sob o patronato de Baquet ou Augusto de Moraes1, deixa a esposa tristemente desilludida, vendo-o em trajes domesticos na primeira tarde d’essa celebrada lua,—saudosa para tantos como amarga para outros  -- e á qual uma das nossas primeiras e elegantes pennas chamou, entre muitas, lua de jalapa.

Vamos, porém, ao conto. As minhas galantes patricias, investigadoras conscienciosas da moralidade das vidas e da moralidade dos romances, já estão franzindo o sobrecenho ás apparentes ironias do exordio. Não terão motivo para velar o rosto pudibundo. O seu pudor natural as vela.

Uma hora da noite sôa na torre da Trindade, e logo depois ouvimos o passo rapido de dois elegantes frequentadores do club, descendo a escada.

-- Aonde vaes tão cedo, Luiz? -- diz um d’elles, de rosto entre o branco e o ruivo, cabellos e bigode loiros, uma dessas physionomias que nós admiramos nos bonecos allemães, ajuntando-lhe sómente um sorriso de velhaca finura, e astuta sagacidade.

O outro, é alto e magro, tem ar presumido, e affecta sentimental melancolia.

1 Alfaiates notaveis do Porto.


--  Recolho-me, Fernando -- disse o interrogado.  -- O espirito morre açaimado e esvaecido aqui na estreitesa d’este mundo em que se vê deslocado! Que horrivel coisa é a solidão moral, e ouvir estes homens que não fallam senão em primas-donas, cavallos, e toilettes! E são felizes! Fujo até de escutal-os para não ficar brutificado e boçal como elles. Mas tu que os aturas com tanta complacencia, ou com tão evangelica coragem, como tenho presenciado, recolheres tão cedo é admiravel!... a menos que não vás em cata de alguma deusa de duvidosa progenie, para acalentar-te o somno tardio da manhã!

-- Oh! continua que estás divino! -- replicou o interpellante -- não me faças perder agora o bocadinho mimoso, que deve seguir prefacio tão feliz... Estou já a imaginar que farei de tudo isso um picado saboroso para o folhetim de amanhã. Verás como te inquadro lá as maximas, collocando-te a par de Socrates, philosopho menos espiritualista do que tu. A proposito, ainda te inspiras dos negros olhos da gentil Adelina? Puro platonismo, já se vê... ou estás ecletico?... Descobriste talvez na sciencia plena novo apostolado? Portugal ha muito que nada apresenta de original nesse genero: caber-te-ha essa gloria. Desde já me tens a tirar sons agudissimos da theorba epica, e a dar-te as honras que Platão não gosou na decantada Athenas.

-- Ora, meu amigo -- atalhou Luiz -- estás enfadonho com tanta erudição ! Emprega melhor os teus philosophos, que eu não te aturo -- disse, e foi caminhando em direitura á travessa que vae abrir na rua do Almada.

Fernando olhou-o sorrindo desse geito que lhe era particular, e afagando as guias do bigode. Depois tomou pelo Laranjal, e foi dizendo, em monologo comsigo mesmo:

«Consegui só metade do que queria. Afugentei-o, mas nada colhi a respeito delia. Já me senti apaixonado por não sei que burguesinha dos nossos reciprocos affectos, e elle deu-me uma gargalhada, e não fui mais feliz com o expediente de hoje para o tornar alegre e fallador. Por ella tambem nada sei; e mais tenho estudado muito aquella mulher ! Ha ali uma vontade forte de mais, uma altivez, que não será muito agradavel para o mundo, e que me desgosta; mas é bella, tem espirito, o que é raro hoje, e deixemos lá os apologistas das innocentes estupidas, que nos matam com um riso parvo as expansões que não comprehendem. Além de que, a mulher tem oitenta mil crusados, o que é uma grande fortuna nesta epoca para quem não tem nem oitenta reis de seu, senão folhetinisando o mundo. A paixão, já se vê que a sinto, e que a tenho mostrado nos suspiros, que a bella finge não perceber, e nas poesias allusivas, que lê com indifferente semblante.

«Está dito! Amoroso como Bernardim, inspirado como o Tasso! Vou escrever... eu sei cá!... um poema! uma groza de sonetos! quero ser o Petrarcha d’esta Laura inédita! Heide ir adorar-lhe a porta todas as noites, escutar o rumor d’aquella ditosa morada, e espreitar-lhe a sombra atravez os cortinados do seu quarto. Heide fallar-lhe nos seus devaneios, coisa de que as mulheres gostam muito; dizer-lhe que a sinto em espirito adejanle a illuminar as trevas em que me jazia immerso o coração e a intelligencia! Ella hade amar-me, hade preferir o genio ao sandeu que eu desconfio a tem fanatisado com não sei que melindradas tristuras! A existencia seria depois bem formosa para mim! Casado, acaba-se o eterno artigo de fundo; o folhetim de todos os dias; e as maldictas provas para que eu já olho como para os sujos espectros da minha pobreza futura.»

N’este ponto solemne ia abismado o litterato, quando, chegando á esquina do Guichard, foi abalroado por um homem que corria pressuroso.

Firmou-se melhor nas pernas, ainda aturdido do embate, e gritou:

-- Ó sr., é muito... Ah! es tu? agora é destino! Ouve cá, Luiz!... -- como elle corre! corramos também... Olá, homem igual aos deuses alipedes, Mercurio roto, espera, e repara que te chamo eu, e que prometto fazer-te immortal -- foi elle dizendo, e dando-lhe palmadas no hombro.

-- Vae-te para o inferno, demonio, e não me appareças mais, que sinto desejos de te esganar!

-- Isso agora é serio, menino, retiro-me e lá te espero. Acceito o repto!

Luiz nem escutára o final. Livre do importuno, subiu pela rua do Santo Antonio ainda desesperado, cogitando na perseguição d’este homem de que elle não sabia o que devia julgar. Conhecia-o de pouco mais que tres mezes, desde que, vindo da provincia, lh’o apresentaram. Achava-o folgazão, e sempre prompto a rir-se das miserias da sociedade que elle conhecia melhor que ninguem, e aonde entrava e era estimado. Tinham-lhe dito que era um dos aspirantes á mão de Adelina, mas elle não tinha ligado importancia ao rival, certo e crente no resultado de seus planos.

N’aquella noite, decidia-se o seu destino de que já não duvidava. Adelina amava-o.

Em duas linhas, recebidas havia cinco horas, fallava-lhe na felicidade dos anjos, no viver santo da familia, e na harmonia de duas existencias ligadas á face do céo e da terra, com tudo que as torna respeitadas.

Anceiava por ouvir-lhe o complementa dos seus votos; esse sim tremendo de que poucas creaturas comprehendem o alcance!

Entretanto, Fernando scismava: «Para onde irá elle? ! Isto faz-me pensar que o caso está mais adiantado do que eu julgava... Pois hei de conhecer o desfecho da tramoia; estou resolvido a não o largar... E, depois, quem sabe? estes ares espiritualistas impressionam, e já vejo que as espertas resvalam na ladeira das tolas. Póde ser que seja bem succedido o maldito, mas eu não perco a occasião: hei-de desenganar-me.»

Coseu-se então com uma das portas onde projectava sua sombra um candieiro distante, e foi seguindo Luiz com olhar prescrutador. Viu-o, chegado ao cimo da rua, voltar-se, e procural-o talvez dois minutos n’essa rua, deserta áquella hora. Vacillou ainda, como se duvidasse da desapparição, e por fim tornou pela rua de Santa Catharina, a passo rapido.

Fernando saiu do escuro, e foi-o seguindo, a distancia de trinta passos, não duvidando já do caminho que levava. Perto de uma casa de rica apparencia, ouviu-o assobiar a sentimental melodia do Verdi no duetto da Traviata « Pariqi, ó cara noi la sceremo;» de prompto, como se fosse suspirado aquelle canto, a janella abriu-se com impeto, e appareceu o vulto de uma mulher.

Fernando conhecera-a. Não pôde vencer-se: foi-se aproximando, e escutou o seguinte:

«Amanhã fallarei á minha tia, Luiz. Creio em ti, e na felicidade. Dou-te a minha vida, e não quero que soffras mais, porque a minha alma accusar-me- hia. Minha tia é boa, ha-de escutar-me, e tu depois farás o resto, meu amigo. Estou que hade prezar-le muito, conhecendo o que és para mim...»

« Ó anjo !  --  respondera Luiz -- abres-me as portas do paraiso onde eu julguei que nunca poderia entrar. Sinto desejo de ajoelhar aqui, e adorar-te como faço na solidão do meu quarto, quando a tua imagem luminosa me apparece radiante como a da Virgem apparecendo aos apostolos...»

A expansão do amante feliz foi abafada por uma gargalhada estridente. Adelina fugiu. Luiz correu ao ponto escuro d’onde saira a cascalhada do riso. Viu Fernando de braços cruzados.

-- Que fazes aqui? interrogou Luiz.

-- O que faço em toda a parte: riu-me. Agora vou-me deitar. Boas noites.

Luiz ficou perplexo, com os olhos postos na janella de Adelina.

Attribuladas suspeitas lhe tumultuavam no coração, quando a voz de Fernando, já afastada, lhe trouxe a lettra e a toada da conhecidissima quadra:

La donna é mobile
Qual piuma al vento
Muta d’acciento
E di pensieri. 
CAPITULO II
Adelina era filha natural do coronel Borges da Silveira. Ficára, aos dez annos, sem mãe; e, n’essa edade, entrou como educanda no convento da Encarnação, em Lisboa, onde seu pae residia. Este, sem outras affeições no mundo, não poupou cuidados nem meios para lhe dar uma educação brilhante.

Adelina primava entre suas companheiras, que todas lhe queriam como irmãs; fazia as delicias, e era a esperança risonha do coronel. A morte, porém, com as suas garras inexoraveis amanheceu um dia a dilacerar os debuxos graciosos que lavrara o extremoso pae na tela da phantasia. O coronel conheceu a eminencia do perigo, e tratou logo de perfilhar Adelina, deixando tudo em ordem para que ninguem lhe contestasse a herança. Depois recommendou-a a um amigo, e entregou nas mãos de Deus a sua unica filha.

Morto, Adelina achou-se aos dezoito annos, senhora de bens de fortuna, mas estava só! ninguem que a dirigisse na vida! Lembrou-se de ouvir seu pae fallar-lhe muitas vezes em uma irmã que presava muito, e vivia no Porto. Nunca descobrira a verdadeira causa, mas, por meias palavras do coronel, conheceu que um desgosto de familia o afastava d’ella, sem comtudo poder esquecel-a.

Adelina escreveu a sua tia. Expandiu a dôr d’aquella orphandade tão sentida e pesarosa, gemeu inconsolavel aquella perda para que não ha no mundo compensação possivel. O coração de um pae é thesouro superior a todas as riquezas da terra. É ali onde buscamos o refrigerio, sempre certos de encontral-o nas adversidades e desgraças, por mais grandes que sejam, e maiores que o destino nos mande supportar.

Ai d’aquelle a quem falta na epoca das paixões o abrigo do seio paterno, esse sublime tabernáculo àonde Deus depositou, á sua similhança, a sabedoria e a misericordia!

A resposta de D. Suzana foi o chamamento ancioso de um coração a adoptal-a como filha. Adelina commovida, despediu-se saudosa das companheiras da sua tranquilla infancia, e saiu no vapor para a terra que ouvira o primeiro vagido de seu pae, do ente que fôra para ella uma religião, e cuja memoria vivia sagrada e unica na sua alma. A viagem pareceu-lhe longa; e, ao primeiro annuncio de que se avistava a barra, apressou-se a subir para a tolda, impaciente por conhecer essa cidade a que se sentia já presa por sympathia.

Fundeava o vapor na ribeira, e, ao primeiro lance de vista, Adelina sentiu um aperto de coração, uma melancolia quasi angustiosa como de presagio funesto que lhe conturbasse a alma. Não via as margens risonhas e magestosas do seu Tejo, aonde ella tanta vez fitára os olhos enlevada. Tudo ali era mesquinho e triste! Uns braços, e uma voz, chamando-a de perto, a arrancou a esta contemplação acerba.

D. Suzana reconhecêra na joven as feições de seu irmão. Estreitou-a ao peito, e Adelina conheceu que seria ingrata d’ahi em diante, queixando-se do destino e do seu isolamento no mundo, como horas antes fazia.

Encontrava em sua tia uma amisade affectuosa e sincera, e admirava n’ella um d’esses typos grandiosos que o mundo raro se apraz em nos mostrar, como a perfeição da virtude na terra.

-- Ouve, minha filha -- lhe dizia ella dias depois da sua vinda -- receio por ti as tempestades em que vaes entrar cheia de inexperiencia e de candura. Olhas, e vês-me no ultimo periodo da velhice, e ainda não completei quarenta e cinco annos! Tenho feito longos, e, ás vezes, dolorosos estudos sobre o coração humano, minha Adelina. Adivinhei a tua indole, o teu espirito, e a tua nobre alma pelo grito gemente que me enviaste, e que veio echoar deliciosamente n’esta solidão tristonha em que vivo. Presagio-te grandes infelicidades, filha; estremeço cada vez que uma voz prophetica me brada ao ouvido: « Ahi tens mais uma desgraçada.»

« Queres saber? Estas cans -- continuou ella, afastando os cabellos da fronte ainda magestosa e bella  --  nem sempre pesaram aqui. Fui o que tu és hoje, rica de crenças e de illusões formosas! O mundo é bello, mas os espinhos rasgam-nos a alma quando não lhe antepomos a circumspecção e a prudencia que só trazem os annos. O nosso espirito cega-se muitas vezes á primeira luz. Libamos o nectar sem reparar nas fezes negras e nauseabundas que se congelam no fundo do calix. Acordas hoje na sociedade, e sabes tu que mysterios assombrosos vão ahi? Que juizos se fazem, que reputações se criam? Deixa-me demonstrar-t'o n’um exemplo.

« Reparaste n’esta visinha que te olha com insolente curiosidade? Enche as suas salas com as primeiras notabilidades e illustrações d’esta terra que, com raras excepções, são tão illustres como ella. Vaes conhecer-lhe a biographia em quatro traços. Ha dez annos servia em uma casa, que eu frequentava com assiduidade. Soube depois que se casára com um embarcadiço que a espancava muito, por não sei que pundonores de marido honrado e grosseiro. O caso é que, morto elle, ella voltou ao seu antigo mister de criada, e veio para casa d’este homem, aonde pouco depois tomou já o ascendente de se fazer chamar, pelos companheiros, por sr.a Mariquinhas, e assim foi subindo até que hoje pompêa na melhor roda, e blasona das suas influencias com dois viscondes e quatro juizes da Relação, que a attendem nos seus pedidos. Se algum moralista menos tolerante se lembra de abocanhar a illegitimidade do seu viver, desde logo acha um defensor exaltado das suas virtuosas qualidades, e da caridade e amor do proximo, que a faz gastar todos os annos algumas libras a beneficio do asylo de beneficencia, e como priora da ordem do Terço, ou do Santissimo Coração de Maria.

« Em quanto ao resto, filha, livre-te Deus de a ouvir discursar a respeito d’alguma infeliz, esquecida de que não tem ouro para remir as suas faltas, nem um carro sumptuoso em que mostrar-se ao sol brilhante da opinião publica.

« E, como este, podia citar-te mil outros casos
« Tu conhecerás, com o tempo, tres ou quatro mulheres, rainhas na burguesia abastada, vivendo e alardeando os seus amores octogenarios, como os seus brasões, em que um ou outro critico encrava a medo alguma facecia burlesca. A melhoria d’esta sociedade honesta ahi está acurvada a acatal-as com tolerancia incrivel, e ninguem ousa denegrir o escandalo para que não se lhe fechem as portas, onde é uma honra entrar.

« Escandalo, filha, é a pobreza. O ouro tem um brilho que deslumbra, e dá um aroma de rosas ao fetido das chagas, moraes. É a unica desculpa para a infamia. Hasde rir-te, ou chorar algumas vezes, quando estiveres senhora dos galanteios d’esta deusa chamada fortuna, sempre prodiga com quem mais a arrasta no estrado da ignominia.

« Verás o homem, perdida a vista da razão, ou cynico para tudo o que lhe diz respeito, defraudar a honra alheia, e moralisar para os outros, esquecendo-se de si.

« É repugnante este quadro, minha Adelina, é. E acredita tu que sou generosa, ainda assim. Se a consciencia não fosse na maior parte d’esta gente uma palavra sem idéa, um broquel de covarde hypocrisia, eu diria que elles descarnam os outros com receio de que os conheçam, e pejo de se verem taes quaes são!...

« Ficas por tanto sabendo o valor d’esse metal maravilhoso, e por consequencia quanto os teus sorrisos serão disputados por alguns que tem gasto annos a descobrir um casamento rico, unica telha van por onde o oiro lhes póde cahir, a saciar-lhes essa ambição, que, á vista do que te expuz, é legitima. Quizera precaver-te contra as seducções de coração, e salvar-te talvez d’um pesar tardio, d’uma desgraça irremediavel, filha!

« Um dia hei de contar-te a minha vida, e a tua razão clara aproveitará com a lição tremenda que me deu o destino. Hoje, bemdigo-o. A minha velhice é solitaria, mas está livre d’esse jugo pesado imposto á mulher, e d’essas attribulações da esposa que vê fugir com a mocidade, ou mesmo antes, os carinhos do marido convertidos em completa indifferença e abandono, quando não é o aborrecimento, que é peior ainda.

Salva-te, pois, minha Adelina. Ás traiçoeiras e enganosas paixões mundanas oppõem-lhe o divino amor de Deus. Só esse é grande e sublime!

CAPITULO III
Adelina escutava sua tia com silencioso respeito e profunda admiração.

As pustulas da sociedade, assim a descoberto, nausearam-na a principio, e por fim tomou-a uma irritação quasi dolorosa. Alma extraordinariamente fadada, tinha crenças grandes e sublimes; possuia o germen do bem, prompto a desabrolhar, á luz do evangelho. O seu phantasiar era perfeito na pureza das creações que lhe deleitavam o espirito. Presentia na terra uma similhança identificada á sua. Sorria-lhe esta imagem, dormindo ou acordada: anciava por ella! A felicidade seria o que lhe mostravam agora; uma ficção irrisoria? Nada havia para ella que lhe parecesse tão sancto e seductor, como esse laço sagrado que une duas existencias, e converte a essencia de duas almas n’uma só.

Ahi temos uma romantica, dirão, rindo maliciosamente essas a quem uma noite perenne não deixa descortinar as magnificencias guardadas para o ente privilegiado, e chamam a irrisão em seu auxilio. Que importa? O escarneo das almas ignobeis não é sequer insulto.

Não, minhas senhoras, Adelina não era sequer romantica; não tinha estudado as paixões na linguagem vehemente de Alexandre Dumas, ou na tempestuosa de George Sand. A natureza revelava-se-lhe n'um som mysterioso e incomprehensivel para muitos. Embelesava-a essa poesia radiante que ora folga em gemer nas selvas sombrias, ora se exalta na campina em hymnos ao Creador.

Apresentada por D. Suzana n’essa Babylonia, Adelina inculpou sua tia de rigorosa nos seus juizos. Porque não vê os vermes, crê que não existem.

Encontra sempre Luiz de Albuquerque em toda a parte, e em todos os salões, onde as damas porfiam em arrancar-lhe um sorriso. A melancholia do mancebo floriu uma sympathia occulta n’aquelle coração sequioso de bens ignorados. Luiz tornava-se distincto no meio dos seus émulos por um nome celebrado já em remotas eras, e o resto d’uma casa defraudada pelas suas batalhas amorosas em Lisboa, e algumas outras de nome nos paizes estrangeiros, onde passára alguns annos.

Ficára-lhe de tudo isto uma reminiscencia amarga  -- dizia elle: -- « Morto para o amor, para esse alimento espiritual, sem crenças, sem esperanças e sem visões, via passar os seus dias n’uma aridez selvagem que nem a gota d’agua faz reverdecer.» Isto, junto a uma presença que nada tinha de desagradavel, não seria calculo, mas sortia o effeito que elle podéra desejar, se o fosse. As mulheres distinguiam-no, e viram com inveja e rancor que os gelos da montanha se desfaziam ao calor da chamma luzente que despediam os olhos de Adelina. O desgabo d’ellas, tornava-se em louvor d’aquella superioridade que o homem experiente adivinha. Luiz conheceu o que se passava n’aquelle coração virgem, e a sua vaidade incitou-o a não afrouxar a corrente magnetica, a que tinha presa a victima que lhe sorria. Indo ao encontro d’ella, admirou a candura angelica, a par da nobreza e dignidade que aformoseava a joven. Sentiu o remorso, elle, homem gasto e sem alma !

N’um momento de sincera commiseração disse-lhe que lhe fugisse, que era um desgraçado a quem o caminho da felicidade estava vedado, que não quizesse compartir as dores d’uma existencia maldicta.

Adelina respondeu-lhe com nobre e amorosa altivez, que nem mesmo esse convencimento a afastaria d’elle, e que encontraria no coração d’ella o talisman para conjurar a adversidade do destino.

Depois d’isto, passaram dois mezes de enlevamento, e no dia seguinte áquella noite que a vimos fugir da janella assustada com o riso do indiscreto, faltou a D. Suzana, que tentou debalde demovel-a dos seus projectos.

Luiz apressou quanto pôde o momento em que podesse chamar sua á fortuna que cobiçava.

Estamos na madrugada d’esse dia. Seis horas bate o martello do relogio de escada, na asa que D. Suzana habita. Adelina levanta-se da cama, e, vestindo á pressa o amplo roupão de seda, corre á capella, onde por uma licença especial vae dar esse juramento sagrado que lhe será manancial de amarguras não conhecidas.

Absolvida de suas innocentes faltas, recebe no seio o symbolo da sacratíssima paixão do Filho de Deus; e, pura e casta como Rebeca, espera com sancto recolhimento o esposo promettido.

Que fervor nas suas orações! Que melancholico scismar, e ao mesmo tempo que fé tão viva, que confiança tão acrisolada no amor immaculado e protector da Virgem Santissima! Evoca a memoria de seu pae, dá-lhe ainda lagrimas d’uma saudade pungitiva, pede-lhe que veja lá do céo a sua filha, que abençôe esta união, dando-lhe as virtudes necessarias para a tornar modelo no meio d’esta devastadora corrupção do seculo.

Reconcentrada em si, n’esse extase affectuoso que tão grato deve ser aos olhos de Deus, é que Sophia vae encontral-a absorvida. Sophia era a sua unica amiga ali. De tres mezes que a conhecia; e queria-lhe tanto que chegava a perguntar ao seu coração se amaria mais uma creatura saida do seio de sua mãe, esse bem que não conhecera, essa irmã por que tanta vez suspirára desconfortada! Estava esta longe de parecer-se com a imagem que Adelina phantasiava, mas teve a habilidade de se insinuar n’aquella alma bondosa, e de se lhe tornar, por assim dizer, precisa.

-- Está chegado o teu dia, menina -- dizia ella com um gesto dolorido. -- Alegro-me pelo complemento da tua ventura, e intristeço lembrando-me que hoje acabam as tuas expansões amigas. Apressei-me a ver-te ainda livre, quiz que fosse meu o ultimo beijo a que ainda não tem direito o marido.

--  Que coração tão apoucado tu me dás, Sophia!  -- respondeu Adelina abraçando-a. -- Creio que não posso amar Luiz, mais do que hoje; o seu logar, assim como o teu, é distincto. Mas sabes tu que tambem me sinto triste?! que sinto um pezo doloroso a opprimir-me a alma?... Anda, vem d’ahi até o jardim, vou colher o ramo de desposada, cuja primeira flor guardo para ti. Porque esse gesto de duvida? O teu Alberto deve presar-te muito; e na sua nova posição, já póde não receiar os encargos da familia que tão grandes medos lhe incutiam.

-- Tu não fazes idéa do que são os homens, Adelina. Esqueces que sou pobre ? Alberto está na carreira de se altear aonde a sua ambição o chama: verás que me sacrifica. Ha cinco annos que me illude com pretextos bem ou mal simulados, e por fim creio que acontecerá o que todos me prophetisam. Tenho sido muito infeliz, tenho gasto a minha vida n’estas intermittentes da esperança e desalento. Não reparas que estou envelhecendo, e sou mais velha do que tu apenas quatro annos? É isto Adelina, é o que te digo, não tenho de ser casada, a soledade na terra é o meu destino.

-- Esqueces então que te vou quebrar o encanto, minha tolinha. Deixa-me tambem ser propheta. De hoje a dois annos, estamos nós duas graves e sizudas matronas, fiando talvez mesmo na classica roca de nossas avós, e desdenhando a illustração dos nossos dias. Riremos então muito das nossas elevadas aspirações que nos pareceram tão sublimes, e acharemos que o verdadeiro e unico regosijo, é o amor da esposa e a doce contemplação d’um filho. Estaremos um pouco mudadas, minha amiga, mas creio que saborearemos uma paz invejavel, e só parecida com a primeira epoca da vida... Não estejas a sorrir-te, má; tenho crenças no que te digo! O peior são as saudades que já começo a sentir, tuas, e de minha pobre tia. Luiz quer que partamos esta mesma noite para Braga, e eu annui para me furtar aos olhares d’esta gente que me incommodaria, mas constranjo-me porque vos quizera ao meu lado testemunhando e compartindo a minha felicidade.

-- Pois eu suppuz que te fosse aprazivel a solidão, Adelina. O paraizo de nossos primeiros paes só era povoado pelos anjos do mysterio e do amor, que se acoitavam nas grutas sempre verdes d’aquellas margens ridentes que os olhos da nossa imaginação procuram ainda...

Esta conversação foi interrompida por D. Suzana que vinha lacrimosa, abraçar a sobrinha.

Começou, pouco depois, a afanosa lide de ajudar a noiva a vestir-se. Ás tres horas da tarde, Adelina caia nos braços de seu marido.

« Tua! -- exclamava ella -- tenho medo, atterra-me a felicidade demasiada que sinto aqui no coração onde a tua imagem está só, Luiz!

CAPITULO IV
No seculo dezenove, raream os prophetas, e accrescem as sybillas a quem só falta a cabelladura desgrenhada ao vento e as sandalias nos pés nus.

Nos dólmens druidicos dos celtas, nas florestas consagradas á magia, reina hoje o silencio e a mudez sepulchral, onde outr’ora se estorcia a rez destinada ao sacrificio; e na pyra já se apagou o fogo sacro, insuflado pelo espirito da pythonissa, que lia os successos felizes, ou as catastrophes, nas entranhas fumegantes da victima. Os clamores do triumpho ou os gemidos do terror já se não escutam ali. Os meninos encantados já não respondem ás consultas dos Trallios, predizendo-lhes o futuro em estiradas poesias. Os Fabios contemporaneos, quando perdem a bolça, lembram-se debalde dos Nigidios. Os oraculos emmudeceram; mas, como já o dissemos, as sybillas regeneram-se, guardando com recato mysterioso o espirito incubado no seio, e que lhes alimenta o septimo peccado mortal, graças aos enamorados, ás esposas ciosas, e ás jovens de crenças mais puras, desejosas por desencerrar o destino dos seus amores.

Adelina fôra má propheta.

Vamos encontral-a n’esse dia, por ella aprazado, para admirarmos a promettida transformação.

É tão aromatica e graciosa a athmosphera que a rodêa, que não podemos resistir ao desejo de a olhar muito, protrahindo um pouco as peripecias agoiradas por nós á predestinada da dor.

É pequeno aquelle recinto, mas recendendo o perfume da elegancia. Aquellas cortinas transparentes e caprichosas, quasi envolvendo no seu franjado o toucador, onde se empilham esses tantos vidrinhos de essencias, e outros accessorios indispensaveis, tem uma suavidade mysteriosa.

Adelina está recostada no sophá purpura e ouro, vendo a sua imagem perfeita no grande espelho de vestir que lhe está em frente. O seu roupão de cachemira côr de laranja, aberto adiante, deixa ver o rebôrdo do acolxoado de seda azul celeste, caindo graciosamente na saia de setim, egual na côr ao roupão. Aperta-lhe a cintura um cordão azul e preto, terminando com duas borlas eguaes. Uma camisa de dormir de finissima bretanha sem outro adorno mais que o seu alvissimo brilho, vem cingir-lhe os pulsos e a garganta, tão alva como ella. Um lencinho de blonde preto apertado debaixo da barba, inquadra-lhe maravilhosamente o rosto, dando-lhe um aspecto melancolico e encantador. Os pés, de uma correção pasmosa, calçam chinelas de pellica côr de flor de alecrim, cintadas de verniz, e repousam cruzados no banquinho de estofo egual ao sophá.

Está lendo o Camões de Garrett, e repete a meia voz, como sonhando:

«... Mais doce ainda
« De mais sabido prémio oatra esperança 
« Me acalentava... Ai de mim! um longo sonho  
« Minha existencia ha sido...

E, como se a poesia lhe acordára pensamentos dolorosos, pousou o livro sobre a pequenina meza de charão, que lhe estava ao lado, e caiu em profundo scismar. O toque da campainha q um criado tomando a permissão de annunciar o sr. Alberto de Sá, a chamou á vida real, tão differente d’essa por onde a sua alma folgava de altear-se.

-- Felicito-me de haver uma causa qualquer, que me ganhou a distinção de receber duas lettras de. v. ex.a -- disse Alberto, depois dos. primeiros cumprimentos, acceitando a cadeira que Adelina lhe apontara. Estou prompto a escutal-a, minha senhora.

-- E como sincera amiga, sr. Alberto de Sá, porque o sou na realidade -- Adelina, accentuando estas palavras, continuou:

-- É summamente delicado o assumpto em que vamos entrar; nem eu me atrevia a fazel-o sem invocar primeiro a sua lealdade cavalheirosa, que por mais d’uma vez tenho apreciado, e que me leva a pedir-lhe que seja franco comigo como se eu fôra sua irmã.

Alberto inclinou-se respeitosamente, e Adelina proseguiu: -- Sabe que sou amiga, direi antes, irmã d’alma de Sophia. Faz hoje dois annos, a esta mesma hora, que lhe vaticinava a felicidade opulenta, sem desejos a satisfazer, sem ambições a saciar. Menti; foi enganosa a luz que procurei nas trevas, e não só para ella!... mas não cuidemos dos outros... Sophia não me occultou as aspirações tão justas da sua alma em chegal-o a si, prendendo-o com essa cadêa tão florida e tão grata para os que verdadeiramente amam. Viu-o frio ás suas tentativas, e resignou-se ao soffrimento permanente do receio e dos cuidados em agradar-lhe no futuro incerto do seu amor. O sr. Alberto de Sá, apesar de lhe fallar, e dar mostras d’uma paixão acintosa, creio que não merecia esta dedicação. Eu quero convencel-o d’isto, ou antes quizera que v. s.a me convencesse a mim do contrario. Depois de sete annos, é injustificavel e indecoroso o abandono -- permitta-me a expressão.  -- Tenho visto as lagrimas da infeliz sulcar-lhe a face, tendo-lhe ouvido o gemer da agonia, sem poder confortal-a. Creio que me poupa a uma mais longa, e talvez enfadonha dissertação sobre estes factos: peço-lhe, como cavalheiro, que me diga se a não ama já, ou se alguma intriga miseravel, e que eu folgaria desfazer, deu essa causa que felizmente póde ficar em nada. Quiz ouvil-o, porque me interesso muito e penso no futuro d’ambos.

-- V. ex.a honra-me demasiado  --  respondeu Alberto. Infelizmente não posso mostrar-lhe o que sinto, só posso ouvil-a em silencio, escutar-lhe as exprobrações e calar-me. O appello de v. ex.a fortifica mais as minhas convicções: o futuro justificará o accusado. Nada mais tenho que dizer, minha senhora; beijo-lhe as mãos e retiro-me; conheço que estou sendo aos seus olhos um ente abjecto.

Alberto levantára-se disposto a sair com um ar de firmeza e dignidade, que tocou Adelina.

--  Não  --  disse ella  --  não sairá já, sr. Alberto de Sá. As suas palavras tem uma força de verdade que me espanta. A desillusão seria para mim terrivel, mas eu já sinto um abalo doloroso nesta crença fiel que eu tinha em Sophia, como a primeira e mais digna que senti e amei. Diga-me tudo, abra-me o seu coração sem repugnancia: sou digna da sua confidencia, acredite-me.

-- De certo, minha senhora, se algum dia duvidasse, estava hoje desenganado. V. ex.ª teve ainda ha pouco a bondade de chamar-me cavalheiro; é sagrada a minha vereda, não posso d’ella desviar-me. Mas, se me não engano, aqui vem quem pode desenganar a v. ex.a, respondendo por mim.

Era Sophia que entrava.

Alberto curvou-se diante das duas senhoras, tomou o chapéo, e saiu.

Adelina e Sophia ficaram silenciosas, sentadas no sophá.

CAPITULO V
Passaram cinco minutos de concentração profunda, e mudo discorrer. Aquelles dois semblantes tão differentes na expressão e nos toques da formosura revelavam a commoção violenta, e o esforço empregado para domal-a.

Adelina vacillava entre a voz interior que mansamente lhe repercutia as suspeitosas palavras de Alberto, e a bondade natural do seu caracter accusando-se da desconfiança malevola contra a sua unica amiga.

Esta, surpresa pelo encontro inesperado, sem saber o que se tinha passado, procurava dar-se ares de magoada tristeza, dando a furto um olhar para o espelho onde via Adelina, e impaciente por ouvir- lhe uma palavra que a orientasse no caminho, que devia tomar.

-- Ouve cá, Sophia -- diz Adelina -- Eu não comprehendi bem Alberto, mas as suas respostas foram nobres e grandes, em dignidade e força d’alma.

« Admiro-o, e condôo-me de ti, suppondo que algum inimigo de Alberto, invejoso de sua felicidade, te calumniou a ponto de o desvairar. Compungida pelo rompimento entre duas almas tão bellas, e que eu prezo tanto, chorando por ti a perda d’essas illusões brilhantes que talvez te ensinei a compor com a minha desgraçada imaginação, tentei curar o mal, chamando Alberto, e pedindo-lhe uma confidencia singela e verdadeira. Ouviu silencioso as minhas arguições, recusou responder a ellas, e saiu invocando o futuro, e apontando-me para ti. Aprehensiva como sou, dei-me a scismar, querendo vêr um mysterio no que não passa d’um erro. E o mais é, que quasi te culpo, minha pobre Sophia! Perdoas-me tu? Deves, pelo remorso, e pela sinceridade que emprego, tornando-te senhora até d’estes pensamentos maus. Ai, Sophia! quizera tanto contemplar em ti, vêr realidade aquellas visões formosas que nos doiraram o amanhecer! Lembras-te? Ha dois annos, e sempre, Sophia! Que amarga chimera!...»

Fallando assim, Adelina recostou o braço na borda da mezinha, e pendeu a linda e pensativa cabeça.

-- Tens razão, Adelina -- respondeu Sophia -- o despertar è negro e feio.

« De decepções em decepções, gasta-se a vida, consomme-se na febre da esperança, n’aquelles sobresaltos aprasiveis do coração, que nos fogem depois, deixando-nos logradas e feridas. Compensações não as ha, senão mediocres, mas nós devemos combater estes revezes com a razão e com o espirito. Eu estou na corajosa resolução de não dar mais um passo para convencer Alberto da injustiça do abandono ou da condemnação, depois do que acabo de ouvir-te. Acostumada ao soffrimento mesmo despoetisado pela incertesa do porvir, serei forte em sofrear os impulsos da dôr e da paixão, para que Alberto se não vanglorie da minha fraqueza, e a tome como falta de dignidade. Agora, Adelina, peço-te que não fallemos mais n’elle: o coração da mulher é ao mesmo tempo fragil e consistente como a hera que se desprende a custo do tronco... Fallemos de ti. Cada vez te encontro o parecer mais abatido, melancolico, e desgostoso. Olha para mim, e reanima-te, Adelina, vê-me como um modelo de infelicidade.

-- Tu, modelo de infelicidade! Que mal comprehendes a extenção d’essa palavra, Sophia!... És forte de mais, minha amiga, chegas a espantar-me com a rapidez da transição por que eu não esperava, sem comtudo te aconselhar a baixeza de mendigar d'Alberto a esmola d’uma falla ou piedade. Isso não! A mulher nunca deve abdicar do throno luzido onde o proprio Deus a collocou, dando-lhe por apanagio a altivez de coração que se não averga ás miserias da terra. Póde alguem duvidar d’isto, Sophia; mas conheço-as eu assim. Sabes tu quem são os infelizes? São aquelles que não teem fé, são os que já mal distinguem o prado viçoso onde lhe reverdecia o futuro, e sentem queimar-se a alma n’este torrão ágro calcinante, e maldicto da esperança! Tu, se és forte, Sophia, é porque ainda és rica de illusões; esperas, não digas que não; tens talvez a presciencia de que te verás em breve soberana d’esses ou d’outros affectos, e lhe fixarás os dominios. Eu nada ! Pobre de tudo que aligeira e encanta, o existir d’aqui, nada possuo que me alimente este anceioso desvanear do espirito, subindo aos alcantis nebullosos da imaginação. Os dias são-me iguaes em monotonia e cansaço d’alma, sedenta e ambiciosa. Tu sabes o que tenho passado com Luiz. Sabes que, demasiado altiva, não pude acostumar-me ás exigencias prescritas por elle e pela sociedade. Era preciso seguir de perto os triumphos amorosos de meu marido, aplanar-lhe muitas vezes o caminho, e gloriar-me das suas conquistas, prestando-me a receber mesmo as confidencias, e acceital-as com animo sereno e socegado. Lembra-me ainda do horror ingenuo da minha alma, quando, seis mezes depois de cazada, me vi affrontada assim, e viuva d’essa crença sagrada que eu tinha na ligação de duas pessoas que se amam. Tudo mentira, Sophia!... Luiz é de mais a mais uma d’estas creaturas incapazes de sentimento que não seja mau; deixa-me confessar-t’o. Aos primeiros bocejos de enfado, seguiu-se o aborrecimento, e após este o trato rude e insolente, a que eu correspondo com o silencio do despreso e do asco. Vê tu que viver este! A mente sempre afogueada, chamando e revendo-se n’uma imagem luminosa, meiga e acariciadora; e a materia caindo desluzida ao contacto mundano, e ante a nudez do raciocinio !...

-- É justo o teu queixume, Adelina, mas, permitte-me uma admoestação. Porque não fazes um estudo particular para afastar as visualidades, e assenhorear-te do que é real? ! Olha, não cries mundos novos, acceita este como elle é, minha amiga. És formosa, e sympathica. As primeiras elegantes mordem-se de inveja e de temor quando appareces. Eu não te digo que dês um passo n’essa senda tortuosa, em que é arriscado entrar e difficil o sair. Deus me livre de tal, Adelina. Mas, como verdadeira amiga, peza-me a tua solidão moral, que tão escura me pintas; receio que te marasme o corpo e o espirito, e lembro-te o meio de dispertares desta atonia. Ufana-te do que és, Adelina; repara nos olhos que te seguem fascinados, e presos ao teu natural encanto, e ahi tens já um incentivo para demover a desanimação que te acurva e faz esmorecer assim. Sae a tomar ar, passeia, e... digo? pensa algumas vezes em Julio, má. O pobre rapaz tem horas crueis, e outras de exaltação não menos magoadas...

-- Cala-te, cala-te ! -- atalhou Adelina -- não creio no que me dizes... aborreço-me, e chego a irritar-me. Mudemos de assumpto. As noites estão serenas e agradaveis, queres ir á noite até ao passeio? Consinto em ver ali o teu primo, e afilhado... Ouvil-o é que eu não posso nem prometto, menina... era o suicidio do espirito, certo e irremediavel. Agora sabes que mais? a conversação abriu-me o appetite. Vamos jantar?

-- Seja assim, creancinha -- disse Sophia, sorrindo, em quanto Adelina, já de pé, puxava o cordão da campainha.

CAPITULO VI
Duas horas depois, no aposento já conhecido, as duas amigas tomam o café a pequenos sorvos, e Adelina diz com um gesto de enfado que mais alinda a sua sympathica physionomia:

-- É admiravel que Luiz queira tomar parte no no nosso passeio ! Estranho-lhe a amabilidade, suppondo mesmo que te sou devedora da fineza. Olha tu que aborrecida companhia!... Repara como o destino é inexoravel comigo, a ponto de me ver constantemente contrariada nos menores incidentes da vida. Até este innocente prazer, a que me convidava o coração com tanta alegria, ahi está aguado com a resolução de meu bom marido!... Se soubesses como fiquei irritada quando o ouvi, e quanto custou a conter-me!...

-- E como estás fera! -- diz rindo Sophia. --  Sabes que me quer parecer, Adelina, que buscas illudir-te a ti propria, e que esse rancor, que apparentas, é superficial? De mais tu sabes que Luiz não era capaz d’essa condescendencia para obsequiar-me, nem eu o tomava como tal. Creio sinceramente que elle julga que a minha amizade te incita á reacção, e me odeia por isso mesmo. É por ti, Adelina; acredita que teu marido conhece o teu valor, e que essa indifferença de que o accusas, é talvez simulada para gozar da liberdade que o teu ambicioso coração lhe negava. Tenho conhecido, minha querida, que isto de maridos perdem toda a essencia de amantes, e mal d’aquellas que não vão amoldando o espirito ás fórmas do século!... E depois, tu deves sabel-o melhor do que eu; diz-se que entre casados ha certas intermittentes de senso commum, de bom gosto, e talvez mesmo de ternura. Por qualquer d’estes effeitos, um bello dia, esqueces as culpas e perfidias de teu marido, e vês a felicidade a sorrir-te mais mimosa e festiva, depois de tão longa provação.

-- Essa idéa tua enfada-me, Sopbia -- interrompeu Adelina -- Ai! não me falles no seculo. Deixa-o vangloriar-se dos seus desatinos, como velho libertino, que deleita o pensamento em torpezas, que lhe alquebraram o corpo. Inveja-me, se podes, esta força d’alma, revoltando-se á simples idéa d’essa voragem maldita, que o mundo nos apresenta a nós, as mulheres, doirando-nos o abysmo d'onde apenas se salvam aquellas que podem dar em exposição os seus salões, e castigam soberanamente com um só gesto d’alto desprezo os que se lembram de syndicar-lhes o viver intimo. Não cuides tu que isto é soberba: não é, Sophia. Tenho pensado muito. Na solidão d’este quarto, tenho-me interrogado a mim, para avaliar e conhecer os outros.

« Quem nos faz dar o primeiro passo, quem nos arrasta para o abysmo da perdição, é o homem. Que fazem elles, os maridos? Esquecem que a mulher tem a faculdade do raciocinio, esquecem que ella ouve, primeiro com impetos ciumosos e doridos, os escandalos por elles praticados sem recato. Á explosão d’esta dôr, ás lagrimas e aos justos queixumes, responde o enfado e o desdem. O tempo gasta a impressão dolorosa, chega a indifferença, e muitas vezes o despreso; e, depois, que virtude ha ahi que resista repellida pelo coração mal affeito ao desprazer, ao tedio, e á monotonia da vida que só o cansaço do marido creou? Sabes tu que soluços me rasgaram o seio quando soube que Luiz, o primeiro e unico amor da minha alma, me trahia sem pejo, abandonando-me sem dó, por creaturas indignas?

« Sabes que rancor fundo conservo ainda hoje á mulher que me matou illusões tão queridas ! ? Não sabes, não, minha amiga. Eu tenho um coração predestinado para o soffrimento, e para crear visualidades dolorosas que são só minhas. Já vês que desatei uma ponta do sudario. Perdoar! esquecer estas horas malditas, nunca, Sophia ! Aviltar-me aos meus proprios olhos, tambem não; só o coração me faria relevar a culpa, e esse, creio eu, é impossivel reviver.

Ditas estas palavras, Adelina levantou-se com vivacidade, e caminhou direita ao espelho, deslaçando o cordão do roupão, com mão distrahida. Minutos depois, Rosa, a sua criada de quarto, acudia a um toque phrenetico de campainha, e ajudava-a a vestir. As fartas pregas do vestido escuro, apenas visiveis na orla da saia que a grande manta quasi encobria, davam um realce maior a esta elegante mulher, que, em todas, as attitudes naturaes, tinha de sobra a distincção. Lançando a ultima vista ao toucador, as duas senhoras encaminharam-se á escada, tendo antes Adelina mandado previnir Luiz de que iam descer.

--  É pois verdade que os anjos, esse explendido adorno da mansão celeste, baixam algumas vezes á terra cegando os mortaes com o fulgor da divindade! E Fernando, o espirituoso jornalista, o amador conhecido da philosophia transcendental, cortando o dialogo, estendia as mãos que lhe foram tomadas com agrado pelas duas amigas. Depois de dois annos encontram’ol-o sempre o mesmo, sempre aquella alegria buliçosa, de que o anjo da amargura afastava as azas, e não ousava tocar: dom raro e especial em certas creaturas bem fadadas. Á porta do quarto de Luiz, Fernando assestou-lhe a luneta vendo-o afagar as guias do bigode, e gritou-lhe:

-- Olá, amigo, estás bello e radioso como eu creio que não estaria Marco Antonio ganhando os agrados da famosa rainha do Egypto ! E, na verdade, tens razão, meu amigo. A soberba Cleopatra, que se intitulava a rainha das rainhas, cairia fulminada do seu throno, se visse estas duas houris que te conduzo, e o mesmo Raphael, arrebatado e doido, queimaria as suas madonas que o fizeram immortal.

-- Basta, meu caro Parny do seculo dezenove --  disse Adelina graciosamente -- Venha a nós, miseras de engenho, com menos alambiques de galanterias Contentamo-nos com menos. Quer ser nesta noite o paladim de duas tristes e infortunadas damas ?

-- Prompto, e reconhecido a tão alta distincção, minhas senhoras. E tu, vens? --  diz elle voltado para Luiz --  Reveste-te pois de paciencia, que estou resolvido a reconhecer-te por meu Sancho Pança; e, se, como presumo, me vires enlevado em extasi esperitual, não te deslembres de me avisar no acommettimento dos muitos invejosos, que vai crear a minha dita.

--  Invejoso sou eu, ha muito, do teu bom humor  -- respondeu este tomando o chapeo -- Esqueces que as senhoras são pouco pacientes quando lhes entre-luz o ar livre, a lua, e as estrellas scismadoras. Gosar todas estas perolas do céo é o relevo da poesia para almas verdadeiramente inspiradas como a de Adelina, e da sr.a D. Sophia. Felizes, pois nós que vamos contemplar-lhes o dulcissimo arrobamento.

Adelina, já de lado, disfarçava o frenezi de impaciencia, que apenas se tornava perceptivel no avincado do sobrolho, e não correspondeu ao fino sorriso de Sophia, nem ao olhar do marido: saiu do quarto, e tomou o braço que Fernando lhe apresentava.

A noite estava clara, e serena, e convidava a alma a procurar outros mundos. Depois d’uma conversação que de galhofeira fôra descaindo rapidamente para as negras realidades da vida, Adelina foi-se reconcentrando pouco a pouco, esquecida de que alguem a observava.

Fernando, melancolico como ella, a face assombrada por uma nuvem escura que nunca por lá passára, olhava-a em silencio, e por vezes, como se uma idéa subita o salteasse, voltava a cabeça sobre o hombro esquerdo, e relanceava um olhar sobre Luiz e Sophia, que vinham seis passos distantes, em animada palestra.

-- Tremi, quando vi Alberto com Adelina -- dizia Sophia com assustadora meiguice. -- Receio tanto a ousadia d’aquelle homem ! Sabes que na minha pre sença chegou a incutir desconfianças a Adelina com o estudo das palavras, que bem custosas me foram de destruir ! Temo, Luiz, temo os embates da calumnia, e a da inveja ociosa, tanto, como a desgraça que começa a ferir-me. Os momentos apraziveis são curtos, e fica-me sempre depois na alma uma dôr mais funda, do que a recordação d’elles. O que não soffri eu hoje, ouvindo Adelina commentar as tuas fidelidades, e parecendo-me mesmo que seria possivel ainda uma reconciliação ! Felizmente, pelo lado d’ella, estou tranquilla. Tua esposa aborrece-te, Luiz, e eu conheço bem a tempera d’aquella alma: não verga, nem se muda.

-- É louco o teu receio, Sophia. E podeste lembrarte de tal? respondeu amorosamente Luiz -- Não: diz-me que isso é uma invenção da tua ternura, diz-me que sabes que a minha vida está toda concentrada n’este amor que obscureceu e fulminou todas as lembranças do passado; deixa-me esperar a recompensa dos tormentos que tenho padecido.

Luiz exprimia-se com a vehemencia da paixão, e ella com os olhos baixos, aos quaes forcejava dar um ar languido e amortecido, pendia-se-lhe do braço como caminhando a custo, e debaixo de penosas e violentas commoções. Estavam á porta do passeio. Já ali Adelina despertou, e conhecendo a preoccupação que a tomara, perguntou rindo a Fernando se fôra copa ella na excursão aeria; ao que elle respondeu seriamente, sentindo fugir-lhe pela primeira vez dos labios a graciosa zombaria que costumava brincar nelles. Sentados em cadeiras na mesma linha, a conversação correu ligeira, e banal. Julio, o primo de Sophia, juntara-se ao grupo, e contemplava Adelina com a teimosa presistencia do homem, que não desespera em seu estupido amor proprio, de que tarde ou cedo lhe conheçam o valor. Ella, porém, nem o via, se quer.

Davam dez horas, quando Adelina se levantou, queixando-se d’uma ligeira dôr de testa que a obrigava a recolher tão cedo. N’este momento, a lua escondida entre uma moita de roseiras, levantou-se palida e formosa illuminando a face das duas senhoras, já de pé; e mostrou-lhes a dois passos um homem que para ali caminhava. Ainda, na penumbra, Adelina reparou na exquisita elegancia d’aquellas formas varonis, e perguntou rapidamente a Fernando: --  Conhece este homem? O desconhecido ouviu-a, e fitou n’ella os olhos em que havia um não sei que de magnetico que lhe fez estremecer todas as fibras do coração.

Cagliostro devia olhar assim aquelles que por vontade ou sem ella a sua sciencia adormecia.

-- Ó Henrique, tu aqui! -- bradou Fernando correndo a elle com os braços abertos.

-- É verdade, meu amigo. Gosto do ar do Minho, d’esta opulencia da natureza, de que me chegam saudades quando entra a primavera na minha Lisboa, tão arida d’este viço explendido como esperança do infeliz. Não quero roubar-te agora a estas senhoras; mas, ámanhã, procura-me na Foz para onde volto já.

-- Pois seja assim: conta comigo, Henrique... Até ámanhã, -- disseram os dois amigos, no ultimo abraço.


CAPITULO VII
Não será cedo para a biographia de Sophia; ahi vae, tal qual a ouvi d’uma amiga e condiscipula sua. Filha unica d’um empregado publico, foi creada com mimoso extremo, satisfazendo sempre as vontades caprichosas de creança. Aos quatorze annos, ficou orphã de mãe. Um typho arrebatou-lh’a em breves dias, roubando-lhe esse sanctuario sacratissimo que a providencia põem ao nosso lado para nos recolher os vagidos, e primeiras lagrimas. E que ha ahi na terra que possa comparar-se-lhe? Que mais tocante, e grandioso ! Que sublimidade não tem o amor maternal!

Que differença d’este aos que se encontram baratos no mundo! Estes são profundos, exaltados e ardentes; são como os orvalhos de julho que reverdecem por instantes as plantas requeimadas, e logo após de curta vida, aos primeiros signaes de velhice, o sol impallidece, fenecem as flores, e quantas vezes mesmo das raizes que foram fundas não resta vestigio, nem signal!...

Ficou portanto, Sophia, senhora absoluta na casa, que o pae abandonava por muitas horas no dia, entregue á sua laboriosa repartição.

Sophia não era formosa, nem mesmo bonita. Era um d’esses typos que chamam a attenção do homem, e que nos desagradam a nós as mulheres, como tudo o que achamos pesado, duro, e opaco, a empanar- nos as illusões. Illusões! minha querida leitora --  se é que hei de ter uma ! --  Que palavra esta tão significativa das amarguras que temos forçosamente de libar! Quem deixou na primeira vereda da juventude de phantasiar e ver por mil prismas enganosos, arrojando-se denodadamente a mundos desconhecidos? Almas predestinadas ás chimeras com que o genio doura o infortunio, nenhuma.

Nenhuma; e para as que não me entenderem, que valeria acclarar a idéa?

Voltemos a Sophia. Lindos eram talvez os olhos pretos, fuzilando de espaço a espaço com um não sei que de febril, que vinha, beijando-lhe a face escura, reflectir-se no avelludado viço, inimitavel e purpurino dom da primavera da vida.

Pouco a pouco a imagem lacrimosa e moribunda de sua mãe lhe foi fugindo do espirito, e o espelho distraiu-lhe parte do tempo que lhe corria enfadoso e triste. O mestre de francez admirava-se do ar senhoril da menina, recebendo enfadada uma leve admoestação, do pouco ou nenhum estudo que fazia. É que já n’essa epoca ella tinha olhado á volta de si, e outros olhos lhe disseram coisas desconhecidas, que a abysmaram em meditativo scismar.

Na mesma rua vivia uma familia, onde existia um moço, tres ou quatro annos mais velho que Sophia. A menina estava sob a vigilancia de Margarida, pobre velha que muitos annos havia, tinha abandonado a casa de seus paes, lavradores do alto Minho, que a amaldiçoaram por causa de fraquezas que a pobre creatura expiou na miseria, e depois na servidão. Só no mundo, sem parentes, sem abrigo, veio ao Porto, onde entrou como criada em casa da avó de Sophia. Desde então uniu-se a esta familia com a dedicação d’uma boa alma, e deixou correr o boato de que morrêra, com a tenção de acabar ali. Já no seu leito de agonia, a mãe de Sophia chamou a antiga serva que a embalára nos seus joelhos, e pediu-lhe que não abandonasse a orphã, que lhe prestasse todos os cuidados que exigia a sua idade, no meio do desamparo moral em que a deixava.

Margarida não o esquecera. Todos os dias invocava Maria Santissima, pedindo-lhe o auxilio da sua divina graça para livrar a sua menina das tentações de satanaz, em humana figura. Era assim que a boa velha contava debellar o perigo, deslembrada do antigo anexim: « fia-te na Virgem...» e trabalhava, descuidada de maus pensamentos, nos arranjos domesticos que estavam a seu cargo.

Segura por este lado, pôde Sophia entregar-se a todos os seus acreançados anhelos.

Amou Ernesto, e deixou-se cair na torrente impectuosa e arrebatada das paixões, entrando n’uma carreira longa em faltas e devaneios que caros custam.

Debaixo de tão fraca espionagem, precisava ainda assim de illudir o pae e Margarida que a julgavam, nas suas horas de palestra, um modelo de innocencia e de candura. Foi assim que ella ganhou uma grande dissimulação de caracter, accostumando-se a não delatar as suas commoções. Era a inveja sobre tudo o que n’ella predominava com mais força. Depois de cobiçar ás meninas da sua idade os vestidos, e os enfeites, quando não a formosura, enchia-se de emulação, e queria vencel-as por algum dom sobrenatural que a distinguisse. Seu pae dava-lhe uma educação esmerada, de que ella aproveitava muito, com o incentivo que a impellia. Mais velha tres annos que Adelina, e aspirando sempre a um casamento que lhe garantisse a opulencia, e importancia na sociedade, via com raiva surda que os seus planos caíam sempre, e, por um acinte da fortuna, quem lucrava era mesmo alguma d’essas que ella mais detestava na sua odienta e rancorosa imaginação. Depois de muitos enganos, que por uma vã ostentação a tornaram ridicula, deu-se a acceitar o coração de Alberto, fingindo-se captiva pela primeira vez.

Alberto era pobre. Formara-o em leis a generosidade de um tio; mas suas excellentes qualidades grangearam-lhe valiosas protecções que deviam fazel-o subir na honrosa carreira da vida publica em que entrava com o coração puro. Alma sincera e nobre, vivendo a maior parte do tempo em uma quinta com a familia, que não tinha meios para supprir as necessidades que se criam n’uma cidade; habituado a esta singeleza de costumes e de praticas, entregou-se gostoso á paixão de que elle sabia haurir delicias futuras com a mulher que o enfeitiçara com fingidas meiguices, e falso brilho de sentimentos. Dedicou-se-lhe cegamente, até que um dia um acontecimento que, por pouco lhe ia custando a vida, deu em terra com um edificio que elle julgava indestructivel, e em seu logar achou o desprezo que extuingue mesmo a commiseração.

Sophia trahia-o, e atraiçoava Adelina, a sua amiga intima, a confidente dos seus amores e das suas esperanças malogradas. Esporeada pela sua paixão dominante, sentiu um goso inesperado ás primeiras demonstrações de Luiz. Nunca ella perdoara a Adelina a superioridade physica e moral que não podia deixar de reconhecer nos estorcimentos do odio.

Lucta, se a houve, foi de curta duração. Acceitou a infamia por capricho, e descuidou-se de Alberto de quem já se ia deveras enfastiando, com quanto as suas frequentes idas ao campo lhe dessem folga.

Havia tres dias que elle para lá partira, contando demorar-se oito, para saciar o coração faminto de sua carinhosa mãe que via n’elle o seu unico filho, e amparo. N’essa tarde passeiava elle sósinho e pensativo, debaixo de uma ramada, que lhe atirava ás faces, a cada tufão de vento, as folhas já raras e amarelecidas pelo outomno. O doer da saudade chegou- lhe fundo, junto com um sobresalto doloroso de coração. A estas horas que fazia a mulher amada? Chamava-o talvez; gemia na anciedade da dor que tambem vinha feril-o. Pensar isto, e não voar aos pés de Sophia era impossivel!

Mandou sellar o cavallo, subiu a despedir-se de sua mãe, de quem não valeram supplicas e rogativas, e partiu, ás seis horas, açoitado por uma nebrina de dezembro, em direcção ao Porto. Ás dez, desmontava no hotel em que costumava hospedar-se na Batalha, e corria sem tomar folego, para a rua do Sol onde morava Sophia. Costumava o pae d’esta demorar-se até á meia noite por fóra de casa, e ella nas noites que passava só, ou esperando Alberto, descia ao andar inferior, e d’ali, meia occulta pelas persianas, ouvia-o alguns momentos. Esperando Alberto um logar que lhe désse independencia para satisfazer a sua nobre ambição de casar com aquella mulher, menos que elle rica, nunca lhe exigira mais, contentando-se com o que lhe estava promettido.

Chegando á porta, bateu com o cabo do chicote tres pancadas sem interrupção, e a porta abriu-se, depois de alguns momentos, áquelle signal conhecido.

-- Sophia está cá, Margarida? -- disse elle sem deixar fallar a velha. -- Está, respondeu esta -- mas, depois que é noite, queixou-se da cabeça, e fechou-se no quarto, como costuma n’estas ocasiões, prohibindo-me de ir importunal-a
Assim que ouviu o signal chamou-me e manda- lhe dizer que não é possível vel-o hoje, e ámanhã lhe dirá o motivo. -- Não posso -- diz Alberto -- Vá, minha boa Margarida, peça-lhe um só momento ; que me diga uma só palavra, e retiro-me.

Margarida voltou com um papelinho que Alberto leu á luz do candieiro que alumiava a escada:

« É-me custoso não obedecer ao coração, meu querido amigo. Socega, isto não passa d’uma prostração nervosa. Commove-me o cuidado que te dou, e d’ahi mesmo tirarei forças para te apparecer ámanhã restabelecida : hoje era augmentar o mal que não posso vencer.»

Alberto, saiu pallido, opprimido, e n’uma concentração dolorosa. Aquelle carinho nas palavras poderia encobrir uma perfidia? Elle, a não estar já frio e agonisante, teria forças para reprimir o impeto d’um verdadeiro amor, sabendo que ella estava ali a dois passos, pedindo-lhe um minuto da sua vida? Não. Alberto, engolphado n’estas cogitações, foi andando ao acaso, e sem saber mesmo por onde caminhava.

Tinha-se passado meia hora, e elle sentia cada vez mais forte a necessidade da agitação e do cançaso physico. Já no fim da rua Bella da Princeza, retrocedeu, e por um desejo apaixonado volveu a olhar aquellas paredes que encerravam o unico thesouro do seu coração. Caminhava com os olhos fixos lá, quando distante vinte passos ouviu abrir-se mansamente a porta e escoar-se um vulto, tomando o lado opposto. Alberto, tremeu. Uma sezão infernal lhe turvou a vista. Depois, correu sobre elle, a tempo que Sophia assomava á janella, seguindo com olhar inquieto e afflictivo o que se passava. Junto do desconhecido, Alberto tocou-lhe no hombro, sem mesmo reflectir no que fazia. Este voltou-se tranquillamente: era Luiz.

Alberto, estacou, perdeu o dom da palavra, e apegou-se a uma porta para não cair, emquanto Luiz tendo-o conhecido, aproveitava o seu estado de desanimação para fugir a explicações que temia. 
No dia seguinte, foi chamada a toda a pressa a mãe de Alberto, que os medicos davam perigoso e atacado d’uma congestão cerebral. A pobre senhora veio assistir a um longo periodo de soffrimentos, de que felizmente no fim de tres semanas tirou o contentamento de ver seu filho restabelecido. Sophia não sentiu remorsos; o que ella procurava era uma explicação de que contava sair victoriosa; e não poucas horas de estudo lhe custára. Alberto, porém, cheio d’um nobre orgulho, respondia com um sorriso de desdem aos queixumes e lagrimas, de que Margarida vinha sempre bem provida. 
Por fim, conhecendo que era inutil contrafazer-se, despresou o fingimento; e apenas diante de Adelina tomava um ar penitente. Foi então quando esta, condoida sinceramente, e cuidando aclarar uma situação que podia ainda tomar-se segura, pediu a Alberto a conferencia a que assistimos, e de que não colheu os resultados que previra.

CAPITULO VIII
Decorreram seis mezes, depois d’aquella noite fatidica que devia mudar o destino de Adelina. A embriaguez de coração, infiltrada pela esperança, sentiu ella, mais do que outra qualquer, já affeita a essas commoções. A paixão rapida e violenta assenhoreara-se d’aquella alma, abafando os gemidos da consciencia dolorida, e os deveres de esposa.

Muitas vezes dava ella uma vista retrospectiva ao passado, a esses dois annos de escuridão, onde lhe apparecia a imagem do homem escolhido na innocencia das suas aspirações, com o sorriso de Satanaz, arrancando-lhe uma a uma as crenças virgens da sua alma.

O mundo tinha sido um dezerto, sem gota de agua que lhe refrigerasse a sede inextinguivel; e, quando agora lh'a aproximavam dos labios requeimados, como repellil-a, como resistir a essa sofreguidão em que o espirito não tomava pequena parte?

Henrique não era o que se diz um mau homem: era excentrico, ou por outra: um grande desgraçado. O que hoje lhe dava duas horas de contentamento, aborrecia-lhe amanhã. A mulher que, á primeira vista o tomava pelo anjo annunciado na sua phantasia, tornava-se dentro em pouco uma vulgaridade custosa de supportar. Dos delirios da paixão caía no marasmo do desalento, e na descrença do tedio. Com o seu ar poetico e inspirado, Adelina arrebatou-o a enlevos de poesia. Era a filha dos seus sonhos, a fada dos seus pensamentos que elle revia encantado; era a estrella que devia guial-o a essas regiões desconhecidas d’um amor santo e duradouro. Estava ali o segredo da sua inconstancia, e dos vôos vertiginosos que o fizeram infeliz até esse momento. Na sua ardente imaginação, cuidava sentir a chamma d’um fogo sagrado que o elevava ao ceo. E o seio arfava-lhe, e os labios entreabriam-se como se lhe custasse a sorver o ar impregnado de aromas que lhe embalsamava a nova existencia. Seria a prelibação da bemaventurança, se o demonio familiar de Henrique lhe não bafejasse logo á lembrança as dores que o esperavam.

É verdade que estava ali a mulher mysteriosa que podia accender as vertigens doidejantes da felicidade : era ella a que elle via chorar a cada novo combate em que o coração lhe saia ferido dos desenganos; mas... outro lhe chamava sua ! Entre elles, que abysmo a transpor ! quantas agonias pagariam o goso divino de apertal-a entre os braços?



Henrique amou com o enthusiasmo meditativo e fervido do infeliz, quando se apega á ancora, mas pouco depois mergulhava-se esta no occeano do fastio. O inferno da solidão moral aterrava-o, mas o seu fatal sestro não cançou.

Condoamo-nos do infortunio onde quer que elle esteja, e não levantemos a voz para maldizer as obras do Senhor.

Era assim qne pensava Adelina, quando a verdade terrivel se desnudou ante ella de falsas lentejoulas, apparecendo-lhe com todo o seu medonho apparato.

« O Henrique! Henrique! -- escrevia ella -- amaldiçoar-te, nunca! Mas, para que me appareceste? Por que me queixava eu, quando a vida me corria monotona, mas livre das angustias que me assombram a face, e me envelheceram n’um dia?

« Vae infeliz, foge me. Levas comtigo o veneno lento e mortifero da tua e da minha vida. Que outra mulher comprehenderia a tua alma ? Que outra teria a coragem de respeitar a força mysteriosa que te impelle, e chorar mais por ti do que sobre as desgraças que lhe acarretaste ?

« Se tu soubesses como eu te amava!... e o grande coração que tu esmagas, Henrique?... Sabes, sabes, mas não se vence o destino. Mysterios de Deus!... não nos revoltemos contra o que não nos é dado conhecer.

« Deixas-me, no desespero de não poder salvar-te: de mim pouco me lembra. Creio que o peso da ig minia, o odio contra mim própria, e o desejo de acabar, hão de matar-me.

«Que excesso de vida em seis mezes! e que horrível quietação eu sinto n’esta hora! Parece que se me despegam uma a uma as libras do coração, e este mal surdo é d’um peso que me brutifica. A tempestade, que lavra dentro em mim, pela sua mesma violência, fulminou-me, meu amigo.

«É tremenda a expiação do crime!... Parte! eu não te verei mais. A paz do Senhor vá comtigo, e nunca te sejam tomadas, no tlirono do Altíssimo, as contas da minha desgraça.

« Agora, adeus Henrique: n’este momento solemne abraço-te até á eternidade.»

Henrique, leu, apartando com as mãos a fronte incendiada pela febre; emquanto que Fernando, o amigo e confidente d’este amor infeliz, seguia com vista observadora as rapidas transições que se davam n’aquelle rosto arado pela amargura.

-- Tudo está acabado  -- diz Henrique com voz cava, e apresentando a carta a Fernando -- lê. Este, terminada a leitura, murmurou n’um suspiro: «pobre mulher! malfadada sorte!» e caiu em igual spasmo ao que tomava Henrique. Depois de dez minutos de amargo cogitar, Henrique levantou-se como sacudido por convulsão electrica, e exclamou:

«Seja assim. É preciso seguir os últimos preceitos d’esta mulher que eu infelicitei, e a unica que me acordou mais firmes as esperanças da felicidade.

Nem mais um dia n’esta terra maldita d’onde levo encravado o espinho do remorso, e onde a minha presença insulta a victima innocente. Fernando, abraça-me; transmitte ao anjo este aperto de mão; eu não poderia dizer-lhe senão blasphemias, contra Deus, o contra mim. A minha punição, diz-lhe, que é conhecer n’esta hora o valor do bem que perco. Consola-a, insta pelo meu perdão, e tu, meu amigo, lamenta-me : vou morrer só, é longe da patria.  Hontem, no accesso da demencia, lembrou-me fugir para Lisboa, e de lá passar á America onde tenho um tio. Está decidido. Em meia hora tudo findou.

« Sonhos de poeta! esperança! felicidade! amor! aqui vos deixo ! O condemnado vae só. Anda, vem comigo, -- disse elle arrastando Fernando para fóra do quarto -- ajuda-me na descida a este antro de trevas e de horrores.

Ás tres horas da tarde d’esse mesmo dia, saia a barra o vapor Lusitania, e Fernando que acompanhara á Foz o amigo, sentado na fraga d’um rochedo, e os olhos fixos na immensidade, procurou até perder de vista esse lenço branco que se agitava, esse signal que significava um adeus eterno. D’ali partiu com o coração torturado a cumprir o final da sua missão.

Adelina, não era já aquella viçosa e arrebatadora formosura: era o vulto magestoso da desesperança. A dôr sulcara-lhe as faces; os olhos assombrados por orla escura, tinham perdido o brilho, e volviam-se á terra, escondidos, debaixo das longas pestanas.

Toda vestida de negro, com os cabellos mais negros ainda levantados na testa e caidos para traz, deixava adivinhar n’aquella fronte pendida, os pungitivos pensamentos que a dilaceravam.

Quando Fernando acabou de fallar, ella deu um gemido surdo, e caiu n’um lethargo. Fernando contemplou-a assim um momento, ajoelhou diante d’ella, tomou-lhe as mãos apertando-lh’as carinhosamente, e disse-lhe baixinho: chore, chore Adelina, aqui tem um seio de irmão. Um soluço doloroso provou-lhe que fôra ouvido.

Desde então, formou-se um laço espiritual entre aquellas duas almas.

Fernando já de muito que amava Adelina. Da admiração respeitosa, passara a um sentimento mais vivo, conhecendo o viver da infeliz senhora trahida pelo esposo, e pela amiga que ella mais presava. Funda foi a sua dôr, quando tornado confidente de Henrique, seguiu passo a passo, as peripecias d’aquella paixão progressiva, que tão de prompto devia gastar-se!

Para Adelina, não foi mysterio o amor de Fernando; e esta idéa não a assustou. No desalento, e na descrença d’essas illusões que lhe tinham sido incentivo de mil pesares, pensava com complacencia no homem que tantas provas lhe dava d’uma affeição extremosa, sem nada pedir-lhe que a aviltasse aos seus proprios olhos.



É tão doce para a alma, sentir-mo-nos amados com esta obediencia passiva, e cega !

Adelina cuidava conhecer bem o caracter de Fernando. Debaixo d’uma apparente frivolidade, que thesouro de sentimentos nobres, que coração tão grande e bem formado!

Pobre mulher ! diremos nós tambem.

Pouco a pouco a imagem de Henrique afastou-se d'entre elles, sem que nem um nem outro fizessem n’isso reparo. Os dias tornaram-se curtos, as faces de Adelina brilhavam outra vez com o clarão do bem- estar da alma, e Fernando, que via e sentia tudo isto, fazia um esforço supremo para suffocar as suas impressões, sacrificando-se a si pela mulher amada.

Uma manhã, levantou-se Adelina triste sem motivo, e opprimida por sobresaltos extraordinarios no coração. Visionaria não era ella, e comtudo não pôde repellir os pensamentos melancolicos que a assaltaram. Depois de jantar, sentou-se n’um banco do jardim, debaixo d’uma acacia, e entregou-se a profunda meditação. Havia um quarto de hora passado ali, quando Fernando veio encontral-a.

-- Que tens tu, anjo? « Soffro, soffro muito, meu amigo. Vejo revoar no céo aves medonhas e agoireiras, ouço vozes sinistras, a predispor-me a novas desgraças.» -- Ó filha -- respondeu Fernando beijando-lhe as mãos que ella lhe abandonava -- não penses assim. Isso, é um desvario da tua imaginação. O céo, está cheio de pompas, a terra abre-se em
flores aos teus pés, e no meu coração tens um throno digno de inveja.

« Ó minha vida, deixa-me dizer-te tudo o que não posso mais calar; deixa-me cair aos teus pés como escravo e com uma só palavra da tua boca adorada, levanta-me acima do estrado dos reis: Amo-te, Adelina, amo-te!.. Não, não me escondas a face, deixa-me ler ahi toda a minha ventura embora me enlouqueça o peso da felicidade. Por que me foges tu? As aves de mau agoiro fugiram, as vozes sinistras calaram-se. Que eu sinta o teu amor responder ao meu, que o teu halito bafeje a minha face. Anjo! anjo ! falla-me; quero ouvir as harmonias do paraizo, o hymno dos bemaventurados.»

Adelina escutou tremendo ao principio; e depois, agitada pelo fogo interior que a devorava, curvou-se um pouco, murmurando palavras sem nexo, suffocadas pelas ardentes caricias de Fernando.

CAPITULO IX
Em quanto estes acontecimentos se passavam em sua casa, Luiz de Albuquerque que tudo conhecia, fingia nada saber, senão por dignidade, por falta de brios, e completa estranheza dos actos de sua mulher. Todo entregue ao amor de Sophia, com quem despendia grande cabedal, sentia-se todos os dias mais apaixonado e preso, a cada novo capricho a que esta o acorrentava.

Refalsada ao ultimo ponto, Sophia continuava a escarnecer a boa fé de Adelina, rindo, ou chorando, quando a encontrava alegre ou desgraçada.

Já não era segredo para ninguem a intimidade de Luiz e Sophia: só Adelina o ignorava. Absorvida no constante phantasiar do seu espirito, vagos rumores lhe chegavam do mundo: nem ella procurava mais. A sua solidão, só era povoada pela imagem e voz querida, e a leitura era a unica distracção que lhe agradava. Estudar os movimentos da sua alma apaixonada, adivinhar as impressões do homem amado, sonhar com um futuro compensador de tantos tormentos, era o trabalho incessante da sua imaginação!

Sophia era sempre a sua amiga, mas começava a ser-lhe aborrecida.

Já não a via elevar-se nos vôos expansivos do sentimento. O viver calculista e material tinha ganho sobre ella tão grande ascendente, que, sem que o percebesse, já não podia transfigurar-se.

Da exaltação arrojada e audaciosa, caiu nas vulgaridades rasteiras que enojam um espirito distincto como era Adelina. Lembrava-se ella então de sua tia, d’aquella voz carinhosa que não attendera, quando tentava desvial-a da embriaguez de coração prophetisando-lhe a desgraça.

Logo depois do casamento da sobrinha, D. Suzana deixou o Porto e foi fixar a sua residencia n’uma quinta que possuia distante dez leguas. Ali vivia, toda entregue a exercicios de caridade e devoção. Havia oito mezes que não via Adelina, quando uma circumstancia imprevista a levou ao Porto, onde não contava mais voltar.

Foi um contentamento misturado de lagrimas a aproximação das duas senhoras: ambas tinham soffrido muito. D. Suzana apertava a sobrinha ao seio com estremecido afago, em quanto lhe contemplava as feições demudadas pela intensidade da dôr. Depois d'um longo silencio, D. Suzana afastou um pouco Adelina de si, e disse com voz commovida:  -- Minha filha os decretos de Deus são imponderaveis. Venho a ti, fazer-te uma confissão penosa: oxalá que te aproveite. Escuta, minha Adelina.

--  Creio que já te disse, que fui como tu, formosa e rica de grandes crenças, mas amei, filha, e este amor perdeu-me. Adormeci um dia, e quando acordei, tinha perdido a honra, a estima de mim propria, e o bom nome da minha familia. O homem que me matou o futuro, era como todos: riu-se das minhas lamentações, e mais depressa me fugiu. Saiu de Portugal, e nunca mais o vi. Soube que vivia feliz, e casado no Rio de Janeiro com uma mulher que lhe levára grandes bens. Eu ficára sentindo os vaticinios amargos da maternidade, como expiação. Imagina o meu desespero, e as agonias por que passei. Despresada pelos meus mais proximos

parentes, escondida em casa d’uma mulher que nem o nome me sabia, ali fui mãe. Mãe infeliz, que devia remir a culpa pela abstinencia dos carinhos, e do goso santo de crear e ver crescer meu filho. Tiraram-m’o logo, e só depois de muitos annos consegui saber de meu pae qual fôra o seu destino.

Avalias tu, que dor me tem despedaçado o peito quando vejo essa porção da minha alma, e a vergonha abafa a voz que quer dizer-lhe: -- «Vem meu querido filho; diz-me que sentes o coração de mãe n’estes braços que te apertam.»

Ha dois mezes recebi uma carta do homem que tanto mal me causou. No leito de morte, lembrou-se dos deveres que tinha para com o orphão, e dizia-me que não tendo outro filho, perfilhava este, deixando-lhe uma fortuna de milhões.

Impõe, porém, uma condição. Exige que seu filho case com uma sobrinha de sua mulher, sem o que, não apparecem os papeis que o hão de reconhecer, e estão depositados nas mãos d’um amigo. Eu não quiz dar publicidade a isto sem ter noticias mais seguras, que felizmente chegaram hontem.

No proximo paquete espero minha futura nora, e o legatario das ultimas vontades do finado. Antes de tudo, corri logo aqui, minha Adelina, porque sei que grande dor vai ser a tua, e eu queria prevenil-a. Tenho, mesmo de longe, acompanhado os devaneios do teu coração, tenho pedido tanto ao Senhor por ti ! coragem, Adelina.

Teu primo, o meu filho, é Fernando.

« Fernando! Jesus!  --  disse Adelina juntando as mãos n’um aperto angustioso. E logo diante dos olhos lhe perpassou o reflexo abrazado do ouro, e o coração opprimido gemeu como se um peso enorme o esmagasse.

CAPITULO X
Fernando ama-me  --  pensava Adelina a sós comsigo -- mas terá elle coragem para regeitar os milhões de seu pae, sacrificando-me um tão brilhante futuro?... E devo eu consentil-o? --  acrescentava a triste. Não: terei força para suffocar os impulsos da minha dor; mas que eu o veja chorar-me, e comprehender a grandeza da minha dedicação.

Quando no fim de quinze dias chegou a futura noiva, Fernando, cuja vida se passava aos pés de Adelina, ou nos braços de sua mãe, que ensinava a ambos o segredo das grandes resignações, vio com bons olhos a sympathica creoula de quinze annos, que vinha trazer-lhe as riquezas e o fausto que elle sempre cobiçára. A imagem de Adelina escureceu, para dar logar a sonhos de ambiciosa grandeza.

A pobre mulher conheceu tudo.

Não se engana o coração que muito ama.

     O anjo do allivio fugiu da cabeceira da infeliz, que
o estalar da dor sobre-humana, e o medonho desespero lançara ás portas da sepultura.

Na vespera das nupcias, Adelina teve forças para levantar-se, e apparentando ó socego que não tinha, acceitou o convite do marido para surprehender Sophia que se queixara de enferma, fechando a porta a Luiz, impacientado. Furtava-se ella assim ao martyrio de contemplar na fronte de Fernando os tumultuosos pensamentos em que já lhe não cabia parte.

Sophia, esquecera-se de prevenir Margarida, muito certa de que Adelina, a unica pessoa que ia direita ao seu quarto com a familiaridade de irmã, não podia procural-a. Na forma do costume, correu esta ali, empurrando docemente a porta. Ao primeiro relancear d'olhos, recuou como ferida pelo assombro. Sophia não estava só Julio, o primo que ella em tempo quizera fazer amado por Adelina, suspendia-se-lhe dos braços em que ella amorosamente o apertava.

A esta vista, Luiz que acompanhára de perto sua mulher, deu um grito furioso e lançou-se como um tigre entre os dois culpados.

Increpou então Sophia de todos os crimes que lhe conhecia, fulminou-a com os nomes mais injuriosos, e saiu desnorteado pela mesma porta que dois minutos antes dera saida a Julio.

As duas mulheres ficaram sós.

-- Mais esta dor. Meu Deus! meu Deus! poupae-me  --  bradou Adelina.

Traíram-me todos! Atraiçoada por todos aquelles a quem dei entrada no meu coração. Tambem tu Sophia?! Oh! este mundo é maldito! Orphã de esperança, só no meio d’este cahos lamacento que eu adorei na pureza das minhas aspirações, que será de mim, Senhor? A cada passo mais descubro, e me entranho no abysmo. Abysmo medonho onde não ha borda a que se apegue mão salvadora. Como é pezada a minha cruz! Por toda a parte o engano, a traição, e a hypocrisia.

Nada me resta. Nem familia, nem marido, nem um amigo!... É de justiça. Jesus encontrou um só Cyreneu, e era o Justo, o Divino, o Rei dos mundos; eu sou a peccadora, o verme dos vermes, o átomo de pó que de turbilhão em turbilhão desapparece debaixo dos pés dos felizes.

Ó meu pae! porque me abandonaste? Não esqueças lá em cima a tua pobre filha. -- E duas grossas lagrimas correram silenciosas ao longo das faces já sulcadas por outras não menos queimadoras.

No dia seguinte Adelina desappareceu sem dizer a ninguem para onde ia. Veio a Lisboa bater á porta do convento onde fôra educada, pedindo que a recolhessem, e lá agonisa, se ainda vive.

Mudou logo de nome, e prohibiu que lhe fallassem do passado, e do mundo que ella odiava.


Fernando vive feliz. A ambição satisfeita abafou- lhe todos os outros sentimentos. Luiz congratulou-se da fugida da esposa, e reconciliou-se com Sophia.

Desgraçada foi só ella, porque só ella tinha coração.







MEDITAÇÕES
I
Quem póde contemplar-te, ó humanidade, sem sentir tedio da vida?

Não sabemos bem se devemos bemdizer, se amaldiçoar o infortunio que faz despontar a aurora de um talento. Ninguem diria, contemplando, nas apparencias da prosperidade, uma gentil senhora da nossa terra, ninguem diria que a natureza se esmerara em dotal-a com os primores da belleza, e os mais raros dons do espirito, feminil na suavidade dos prantos, mas varonil no arrojo dos pensamentos.

A desgraça empanou os bellos dias d’essa infeliz senhora; a perspectiva da pobresa levou-lhe ás amarguras do carcere mais essa nova agonia; a mãe carinhosa tremeu por si e pelo filho que lhe sorria ás lagrimas; e a infeliz, finalmente, sacudindo as farpas de muitas torturas que a sociedade applaude, pediu á sua alma energica ensaios de intelligencia que lhe promettessem para o futuro trabalhos de mais fôlego e mais segura garantia á sua subsistencia.

Diante de nossos olhos, passa a corrupção faustosa, e altaneira de insultantes galas.

Estorce-se pungida a alma, ou expede um grito blasphemo, vendo no escuro do quadro a desgraça escarnecida pelos canibaes da civilisação. Já que pois acolhes, ó mundo, a infamia com brandura, acceita agora a impiedade que só tu fazes.

Aos quinze annos, ha o acordar d'um sonho angelico. Buscam nossos olhos avidos a luz que os enfeitiça; rico d'opulencia desabrocha o coração, e em si recolhe maximas do bem que custam annos a destruir.



Não é aqui logar proprio, nem o será jámais para protestar contra a crueza que exercita a vingança com uma lenta morte. A vingança extrema, a vingança absurda, vinga tambem os opprimidos deixando o remorso na sua passagem.

O nosso fim é outro: é preceder de algumas linhas de singela gratidão o mimo litterario, se não antes a funebre elegia que nos enviou a ex.ma sr.a D. A. A., ha quatro mezes presa n’um antro da relação do Porto, n’um antro de miseria e indecencia, para onde fugiu perseguida pelos insultos que lá mesmo, dentro dos ferros, lhe espremeu fel nas chagas da sua deploravel vida. Peza-nos dizer que não houve caridade nem misericordia para com esta senhora. Justiça, se a houve, foi de tal natureza que a culpa se póde arvorar em accusação.

A nobre alma, que pensou e escreveu essas paginas que vão lêr-se, não nos pediu que as offerecessemos á commiseração do mundo, nem mesmo á sua admiração. Bem pudera ella dizer como um infeliz poeta de Inglaterra: «escrevo, porque é necessário»... escreve, porque o escrever lhe é um desafogo ás lagrimas.


N’essa edade feliz, a primeira das virtudes é a obediencia. Trespassam-te a um homem repulsivo, quando mal conheces a magnitude do sacrificio e o valor da mercancia.

Quando te é dado comprehender a melancholica existencia, a que te condemna a cubiça previdente d’um pae cuidadoso em demasia no porvir de seus filhos, é já tarde...

Possa Deus escutar a prece da victima, e não levar-lhe em conta amarga as lagrimas de sangue que me tem envelhecido a face e não podem lavar d’ella a lama que a sociedade me cospe.

Desalento! Os dias correm escuros e desconsolados sem que um raio d’esperança os avivente. Lucto com as trevas, e o meu espirito levanta-se radioso, sorve a existencia n’um manancial de gosos, electrisa-se d’uma excitação perenne, que é como a recompensa, grande e portentosa, de dores profundas e insondaveis.

Pareceste-me sublime, ó caridade. Voejei por perto do céo com as tuas azas d’anjo. Afastada das galas do mundo, procurei o mundo dos andrajos, praticando o bem sem ostentação, e humildando a grandeza que conheci.

A mão, que aconchegava a nudez e afagava o orphão desvalido, estendeu-se até á encherga do infermo. Com o balsamo refrigerante das chagas do corpo, levava a uncção da fé, que cicatriza as da alma. Conheci sensações que tem de si alguma cousa celestial.

É que eu dava ao proximo o amor de irmã extremosa; e aos meus uma parte grandiosa da purissima essencia da minha alma.

Pobre mulher !...

Este orbe de pura luz, que a rodeiava, converte-se de repente em luz infernal. Tanta lagrima que enchugara, a benção de tantos labios puros, tanta oração fervente não bastaram á redempção do anjo caído.

Aterrada pela culpa, interroga-se em sua consciencia e crê que é forçosa a expiação. A descrença infiltra-lhe um veneno corrosivo. Morre a fé e surge a desesperança, dilindo-lhe na alma a palavra Deus. Ao anciar da attribulação responde o riso insultador do Lucifer despenhado.

O estridor da procella da alma casa-se com o tripudiar das bacchantes que injuriam... Cae-lhe a alma vergada ao peso da ignominia. O espirito da inveja triumphante urra o hymno das victorias a cada contorsão da infeliz, a cada escarro que o mundo lhe cospe, a cada espinho doloroso que lhe incrava na fronte.

Ó mundo, tu não tens uma palavra de pae a quem te deu thesouros do coração, e outros que tu mais prézas.


O religião, tu abres os braços para esmagar os crédulos que te phantasiaram um refugio no desvalimento. Ao primeiro toque do infortunio, cáes alquebrada sob o peso de tua gélida inercia. A teu lado erguem-se triumphaes o crime e o roubo; e a impiedade, galardoada pelas felicidades da vida, é um desmentido á tua legenda do amor do proximo...

Perdão e misericordia para a infeliz, Senhor!

Acaso! tu não pódes ser Deus!...

Em frente d’esta magnificencia, d’este sumptuoso fausto da natureza, a alma, desfalecida no ingreme pendor do Golgotha, sente rejuvenescer a crença purissima da religião, haurida em dias d’innocencia dos labios estremecidos d’uma mãe.

Eleva-se o espirito ás regiões desconhecidas d’aquelle que em vão cavou no ouro a felicidade.

« A desgraça faz o impio.» Ouvi-o d’uma boca que respeito, mas desminto-o porque não ha ahi triaga que o meu calix me não entornasse no amago do coração; e eu sinto extasis quando contemplo as grandezas que o Senhor apresenta ás nossas vistas, e que passam desapercebidas e invisiveis para muitos.

Este soluço do mar é melancholico como o viver de infelizes... Recordar é viver e morrer n’uma só dôr.

Era bello o jardim das minhas esperanças, afagadas na virgindade do coração! Eram formosas e
tão frescas aquellas flores, que eu colhi na embriaguez d'um só dia! Arrobava-se-me a alma ao infinito, pagava-se do enfadoso viver de oito annos, de oito seculos de escravidão forçada, acceita, e acatada pelo mundo... Sentia interiormente o calor suave da paixão humana, e dirigia a Deus uma oração, linguagem mixta de agradecimento e de receio.

Além rugia a tormenta das ambições e da inveja exacerbada. Já a meus ouvidos chegava o grito de exterminio: o tigre recurvava as prezas para a victima inoffensiva. N'aquelle horto afflictivo, erguia supplices mãos ao Deus poderoso, e dizia como o Christo: «perdoae, Senhor, aos algozes do seu proprio sangue.» Remi as culpas da peccadora em desconto da abnegação e humildade.

O coração da mulher privilegiada é um sanctuario esplendido que se não devassa; mas que ella faculta com evangelica caridade, esquecendo a sua propria dor.

Homem sem alma, mulher vaidosa e vulgar, segue o teu caminho empedrado com a talha miuda que deixa aos teus pés mimosos o gosto de recalcal-a; não pares diante do vulto magestoso do verdadeiro infortunio. O insulto sandeu da vossa piedade é um ultrage aqui onde sobejam incentivos espirituaes, que me erguem acima do vosso lodo recamado de flores, em que se respira a morte.

A doutrina seguida aqui ensina a affrontar os felizes da fortuna com o olhar da bemaventurança que nos dá a consciência do opprobrio immerecido. Deixae passar alguns dias mais, e as féras hão de espedaçar-se umas ás outras, e a justiça de Deus será patente aos olhos dos que hoje, blasphemos, me condemnam em nome d’elle.

Paciencia e esperança.

« Pouco duram as alegrias n'este
« mundo, e sempre andam as 
« ditas a braços com as desgraças

Subtilezas ingenhosas de um espirito prescrutador e imaginativo, quem vos provou melhor que o infeliz, cercado das furias tenebrosas da saudade, que rala, e das torturas physicas que nos fazem vergar ao desconforto e aos desgostos da vida !

Como é funda a dôr de ver cair a unica folha verde da esperança, já reverdecida depois de murcha, e dizer no intimo da consciencia: «chegou o inverno; é a ultima!»

Ai! porque não esquecem os que soffrem os dias radiosos que passaram para não voltar! Sempre, a
 reminiscencia que o esplendor do sol, 
coado atravez dos ferros, acorda, e as trevas da noite, tão differente d’aquellas outras, avivam chegando-me aos labios um calix em que eu libo algumas vezes o desespero, e até a irreligião, mortas as crenças do bem que a desgraça extermina !

Eu vi as opulentas creações de Deus bafejar-me a fronte; entrei n’um paraiso de que o anjo da desgraça me expulsou. Seria pequeno o ambito para outra alma, que não a minha. Eu abri o espirito a todos aquelles perfumes, aspirava-os como emanações celestes, bebia-os n’uma embriaguez dulcissima, e caia por fim no enlevo que eu não tornarei a sentir mais !

Caprichos do meu negro e mau destino !

Quando chegava ao nascente o primeiro assomo da aurora, cujas azas transparentes me cobriam de esplendores, a que me eu via, a primeira oração de graças era um cantico mudo, um enlevo mystico, uma d’estas alegrias para que não ha, fóra d’alma, expressão humana. Depois, no meio d’aquella bem- aventurança, o piar gemebundo de duas rolas minhas companheiras de gloria e de amor, chamava-me á terra, onde eu, na minha descuidada ventura, cuidava não voltar mais!

Perdi tudo! Aquellas flores, aquelle viço d’alma, aquellas pompas tão minhas e que eu alindava, là vão perdidas... E perdida me vejo eu n’esta atmosphera pesada!... E quantas vezes os olhos cançados se fecham, para não ver o circulo negro e fatal que me
goteja sangue, e eu digo no silencio das minhas meditações :« Coragem ! eu hei de e devo dourar a vida com um raio supremo do meu espirito.»

Se o demonio maldito da duvida vem excruciar-me em horas de cerração, cantando a victoria, eu beijo o talisman santo que trago sobre o seio, vem uma lagrima ardente purificar-me da culpa, e, ao clarão subito do infinito, vejo radiar uma imagem divina toda fé, esperança e amor. Prostro-me á visão, acurva-se-me a fronte, e a voz, presa até então, solta-se gemente. Perdão, meu Deus, eu creio na vossa omnipotencia e justiça. Espero...

A esta luz, a escuridão foge, e eu sinto-me remoçar no meio das minhas desditas. Desconhecem-na aquelles que não tomaram o sabor amargo do desamparo e do infortunio, e os que olham para a terra como digna do culto admirativo, que eu tambem lhe dera -- se ella é tão formosa!  --  a não predominar ahi a sociedade que n’ella impera tão rica de estimulos, e prompta sempre a cuspir affrontas n'aquelles que ainda hontem acatara, quando cercados de vaidades, o ouro lhes dava prestigio.

Os andrajos custosos engrandecem aqui a alma á creatura, tanto quanto os singelos a aviltam!... Que importa que lhe luza na fronte uma estrella brilhante e distincta? A ostentação é necessaria com todos os os seus artificios, com todas as suas galas, e mal d’aquelle que não póde fazer uso d'ellas.

S. Francisco Xavier, o santo apostolo do Senhor,

reconheceu esta exigencia do mundo. Elle que passava as noites sem buscar abrigo, com a cabeça descoberta ao rigor da neve, elle que passou com os pés nus os areaes do deserto, debaixo do sol queimador da China e do Japão, que despia a remendada camisa, quando a trazia, para cobrir o primeiro necessitado que encontrava; na sua ida á côrte do Bungo como embaixador de Jesus, e nuncio apostolico do pontifice romano, rendida a sua humildade, trocou por momentos a sua velha loba por uma de chama- lote, finissima sobrepeliz, e estola de velludo verde guarnecida de brocado e franjas de ouro. Foi assim, cercado por trinta portuguezes de respeito vestidos egualmente de ricas e preciosas sedas, com suas bandas lavradas á ponta da agulha, e cintos semeados de perolas e joias, e seguidos de outros tantos criados e escravos com apparatosas galas, que Xavier se apresentou aos olhares pasmados dos bonzos, ministros de uma falsa religião, e que esperavam vêl-o, vil e despresado mendigo. Levava elle os olhos de todos, caminhando arrebatado em Deus, com um semblante tão grave e tão modesto que lhe grangeava de todos respeito e amor.

Se porém Xavier caminhasse só, e pobremente vestido, haveria alguem que reparasse n’estes attributos divinos?

Ó mundo, é assim que tu me appareces feio, a ponto de esquecer todas as magnificencias com que te dotou o creador, para quem eu tenho na minha alma
sagrado hymnos. E como não ha de ser assim, desde que desci ao inferno, e « arrancando da vista o véo espesso da inexperiencia » pude olhar-te tal qual és!...

Não te vejo eu d’aqui tão outro d’aquellas minhas poeticas e amorosas illusões? Não te vejo eu mau para os infelizes, verdugo dos teus, hypocrita vil que rodas aviltado em volta do metal infamado, que dá virtude e nobreza a miseraveis a quem eu não estenderia a mão!

Os mesmos raios vivificantes do teu sol bruxoleam trementes como lampada a extinguir-se, quando topam com os antros onde geme não só o crime, mas o infortunio extremo. O infortunio, sim. Que commetteram estes desgraçadinhos que entraram na vida pela porta da amargura?! Que culpa tem elles da infelicidade que os feriu no berço, para os arrastarem á masmorra, ao foco da corrupção e da immoralidade onde os atiram para não pejar as ruas e obscurecer a vista dos felizes?

Silvio Pellico nas suas horas de melancholica resignação, quando a alma forte se lhe não estremecia de horror, gostava de vigiar o que se passava debaixo da sua vista.

Lembrando-me aquella Odysséa christã, aquelle modelo de poesia evangelica, quantas vezes o meu olhar vae até aos corredores de lôbregas enxovias, e retraio-me attribulada pela indifferença e desamor da humanidade! Por entre aquellas grades negras, apparecem-me tres ou quatro duzias de creanças, o
mais d'ellas andrajosas com as faces lividas de fome e de frio.

O frio! tão intenso aqui, no centro d’estas abobadas denegridas donde resumbra uma humidade que regela! É uma dôr aguda que eu então sinto, sem palavra no coração humano que bem a diga. Os meus olhos, que já para pouco tem lagrimas, razam-se-me d’agua, e fico entregue a uma concentração amarga e dolorosa.

Vem-me logo ao pensamento o passado. Vejo aquelles dias festivos, cujo despontar me encontrava na cabana do pobre, acompanhado do anjo que me fugiu para o céo, e que eu sempre choro. Lembra-me ainda da cestinha que levava o pão branco para os pequenos, e da bolsinha que alegrava os tristes. Hoje, quizera ficar sem comer alguns dias e vestir estes nusinhos, como tantos outros que vinham contentes beijar-me a mão.

Não posso, e o meu coração affligido apresenta-me sempre este quadro, e até em sonhos os vejo perpassar no meu espirito.

Se procuro uma diversão ás minhas penas, já de si tão fundas, e que eu aggravo com as alheias, lá vejo um outro vulto de mulher que se ampara aos ferros com ar abatido e desanimado. Tem dezeseis annos, e a pallidez da face diz-nos que macerações occultas por ali passaram, e mal deixa ver os restos de uma primavera queimada ao nascer.

A logica da desgraça disse-lhe que todas as creaturas de Deus são irmãs, que os favorecidos da fortuna devem amparar os pobres, e, quando o não façam que mal é tomar-lhe um farrapo que se achou mal guardado !

Vae n’um mez que eu vi esta rapariga encostada ás grades da enfermaria para donde viera doente, e na sua attitude costumada. Estas janellas dão sobre a rua, mas são bastante altas. Eu contemplava-a com o olhar misericordioso e compassivo da minha alma, quando ouvi um grito afflictivo e o clamor de uma voz que chorava. Cheguei-me a outra janella, e vi uma mulher com os braços estendidos para cima, e n’um soluçar que cortava.

« Ó Margarida! -- dizia ella -- vir encontrar-te aqui, minha irmãsinha; e não poder fugir comtigo nos meus braços! E dizerem-me que morreras !... Ai! mil vezes morta te quizera eu antes, do que vir desenganar-me aqui.»

A pobre creatura estava suffocada, e sem poder sair d’aquelle sitio... Uma outra que passava foi, condoida, arrastando-a lentamente, emquanto ella com as mãos fechadas se voltava a cada passo.

Procurei então Margarida. Seguia a irmã com vista curiosa e triste. Não chorava, mas nos seus olhos havia o vidrado da commoção. De repente as feições volveram á petrificação do cynismo. Saiu da janella aos pulinhos, regougou uma cantiga asquerosa acompanhada de uma rouca gargalhada, e continuou a dança.

Eu fiquei estarrecida de tristeza e de pasmo.

Tornada em mim, disse em minha consciencia: Mundo, que pessima ordem a tua! Pervertes os opulentos, e nem aos miseraveis deixas a sua pureza!... Aos primeiros acolhes infamados; aos outros cospes o rosto, onde esculpiste o stygma eterno!...

III

« Se o lavrador não ouver de lavrar, « nem semear senão com bom tempo,
« nunca semeará, nunca chegará a co
« lher novidade.»

BARTHOLOMEU DOS MARTYRES.

Frei Luiz de Sousa.

Ó providencia! quem te denega, mesmo no phrenezi da agonia, ou no exaspero da dôr, engana-se a si proprio!

Os exemplos mais grandiosos e sublimes, estão de continuo diante dos nossos olhos, e da alma que os busca anciosa como fonte pura e inexhaurivel! Não os deixemos escurecer na hora da tribulação; procuremos antes o conforto seguro nesses mysterios assombrosos que os aposlotos da verdadeira luz da vida, com glorioso e modesto afan nos apontam, convidando-nos a seguir o seu ditoso caminho.

O espirito arrebata-se, contemplando os Vicente de Paula, Francisco Xavier, e tantos outros vultos sanctificados pelo martyrio e pela caridade, apresentando-nos a impiedade abatida, e os sacrilegios do reprobo tornados em glorificação ao Senhor Deus dos opprimidos, e dos mundos conhecidos e desconhecidos !

Quantas vezes a boca do idolatra e do herege cuspiu o vomito da blasphemia, ouvindo as palavras sagradas da verdade eterna; e de repente a dôr aguda da contricção veio queimar-lhe a fronte, abatida já pelo remorso, e elle corria depois sequioso, a procurar com os labios onde podesse libar o mel suavissimo da crença na divindade!

Religião! conforto dulcissimo que acalentas o magoado suspirar do infeliz, que o vigorizas no infortunio extremo! que doce melancolia lhe chamas á alma, depois de um extasis arrobado, ao supremo bem, a esse consolador amantissimo dos angustiados!

A sociedade, cadaver putrido coberto de sedas e de arminhos, nauzêa o justo quando a não vê debaixo do prestigio maravilhoso que lhe dás. A um aceno do Creador, o mundo saiu do cahos, mas tu a ti propria te creaste, para flagellação permittida, por aquelle que mostra aos afflictos o céo, depois do lenho affrontoso e da montanha ingreme a que tem de subir.

O seculo estorce-se debalde nas suas gonilhas malditas: ouvimol-o ahi bramir no atordoamento da sua cega imprevidencia, em logar de chorar e gemer.

A soberania da terra és tu, religião, tu que infiltras animo ao desgraçado, apupado por uma horda vil, egoista, malevola e immisericordiosa! Quem, senão tu, resgata do captiveiro do crime, e dá na celeste morada dos bemaventurados, um logar ao culpado que se abraçou á cruz de redempção, humilhado e contricto?!

Como é caritativo o teu manto, cubrindo a nudez do mendigo de alegrias! Quem ha ahi que possa tanto, essencia divina de Deus!?

És a luz que alumias o sem ventura, que dás vista ao incredulo, e cegas o atheu, confundindo-o e forçando-o a pensar nessa outra vida, eterna e perduravel, de que elle não curára longo tempo, deslembrado do fim da creatura.

Invejemos o horisonte dos chamados «pobres de espirito» tão ricos de dons celestes que não sentem as exhalações tábidas da terra. Sempre limpido e transparente, deixas-lhes adivinhar as delicias promettidas, ante-gostando já o amor da eternidade. Pesa-lhes a carne que os averga aqui, tolhendo-lhes subir a esse espaço infinito cujo esplendor os fascina. As suas aspirações, dom caridoso de um Deus todo bondade, são tão grandes, e ao mesmo tempo tão singelas, que não lhes quebrantam o animo. A materia bruta cá fica na terra; e a alma, purificada pelos dias de exilio neste destino da patria, pomba errante, vae colher o premio que almejava: -- ver a face divina e portentosa do Redemptor dos homens, gosando a gloria immutavel!... E que me fallem

agora na da terra!... Ai! quem deixará de seguir, ou pelo menos de ambicionar pôr os pés nessa vereda florida d’onde rescendem os perfumes do céo?!... Quem? Os eleitos de satanaz, aquelles que soprados por Lucifer escarneceram a fé e os seus mandamentos, desligando-se do seu principio e esquecendo os preceitos do Mestre: «Amae-vos uns aos outros. Perdoae as offensas por amor de Deus.»

Crença de mulher é a minha. Crença, senão illustrada, ao menos pura, pelo relevo da piedade evangelica que nos enche os olhos de lagrimas, cogitando nessas paginas segredadas por anjos, que Chateau- briand no «Genio do Christianismo,» e Rosely de Lorgues em «Jesu-Christo perante o seculo» e na «Cruz nos dois mundos» tão brilhantemente expõem á nossa alma, desentorpecendo-a do marasmo social que a atrophia.

O atheu que offendeu a Deus com horriveis impiedades, não temendo, nem querendo prever a sua justiça; esse, que rouba o orphão confiado na sua força maldicta, que arrasta a mulher a um sorvedoiro immundo de ignominias, que a lança n’um tremedal asqueroso e repugnante, sem dó, nem misericordia; esse ente, que se irmana com os vermes atascados na podridão physica como elle na moral; não lhe soará a hora tremenda da expiação nesta vida?! Hora solemne para a consciencia que accusa, exorando o perdão de tantos, e nefandos crimes!

Estudar de perto a humanidade, perscrutar-lhe
as tendencias e arrojos phantasticos para o bem sempre irrealisaveis, sempre abafados pela torrente impetuosa das paixões e desejos freneticos e desvairados da creatura; e as affeições, folha crestada pela ardencia de uma hora, que leve sopro de vento atira longe, murcha, e esquecida! Isto sim, que é esmagar o coração, é sentir fallecer todas as idealidades de uma imaginação rica! A cada raio luminoso, uma sombra, a cada sombra o abysmo negro e tenebroso da realidade!

Eis um livro magnifico para a inexperiencia, livro moral que devemos folhear a todo o momento, não afastando dos labios o amargor venenoso do fructo.

Desillusão! Desengano! Desesperança! Que palavras estas tão significativas para aquelle que vê além o tumulo, e cuja fronte começa a encanecer!

As chimeras nebulosas desappareceram, o phantasiar mundano passou com os annos de minguada mocidade; achamo-nos sós, e que terrivel não é esta soledade d’alma sequiosa e rica ainda de seiva, como as flores de abril! Por entre as nuvens escuras que nos assombram, lá começa depois a raiar o sol da vida, esse repasto angelico e espiritual que buscamos, qual fonte onde o noviço da sciencia pousa o labio sedento de riquezas a haurir.

É uma transformação completa. Somem-se todas as estrellas buliçosas que nos alumiaram o anceiar

da existencia, e sentimos o bem estar do espirito ao encontro da arca sancta, pesando-nos a tardança a que nos demos em gozar a doce aspiração dos enlevos do céo. É já ineffavel a luz que nos mostra o mundo, debaixo de um novo aspecto desconhecido até ahi.

Que venha à adversidade, que venha a desgraça com todo o cortejo das furias raivosas que nos malquistaram com a hypocrisia da época; que nos subvertam as tormentas que rebentam sobre a cabeça pendida; cá está a paciencia, a resignação e o valor para os perigos reaes, e a caridade do justo que perdoa, e bemdiz o inimigo inexoravel que lhe traz aqui uma dôr que servirá de realce á sua corôa.

Triumpho prodigioso da religião, salvei Solte-se o pranto copioso dos olhos que por tanto tempo desconheceram o pae. Retemperem-se as vivas saudades dos filhos, com as flores orvalhadas da vossa divina graça e misericordia. Chegue ao vosso throno aquelle cantico magoado e singelo do rei penitente:

Deste abysmo profundo, em que me vejo, Recorro a vós, Senhor ! Meus gemidos ouvi, prestae ouvidos
A voz do meu clamor !

Meu Deus! Se a nossos crimes attendesses,
Quem é que existiria?

Na vossa compaixão, e lei de graça
É que o homem confia.	
O povo israelita em Deus espera Durante a noite e o dia;
A luz da redempção, que em Deus existe, A todos alumia.

Hoje chora Israel passados erros,
E um dia sorrirá;
Que as nodoas de seus crimes o Altissimo
Um dia lavará.



IV

... Onde te arrebata o arrojo!...

Do que indicas, quem te ouve, nada alcança. Escuro enygma lhe é quanto revelas. OBERON (Versão de F. Eiysio.)
Ó noite, sempre que chegas magestosa como o sulco das lagrimas nas faces do infeliz, sempre que te apresentas, solitaria e innebulada como o meu destino, avultas-me uma imagem lacrimosa chorando-me saudades, e pungitivas lagrimas no coração ! Escuto então ávidarnente no silencio das trévas, no rumor surdo, d’esle negro e feio ambito, essa melodia suavissima d’anjo, esse lamento de poeta, tão expressivo de melancholico e mavioso queixume:

Não pedi tanto, Senhor !

Ao vêr-me só, sem alento,
Sem amparo, no tormento,
Sem coração, sem amor.

	Que vos pedi, Deus do céo?




Sinto-me depois desafogar suavemente. E’ a harpa santa que me adormece este ancear, o mais tormentoso da minha vida ! Amo este espirito que me falia assim de uma dôr que eu sinto, e que vem irradiar-se-me n’alma com um brilho divino.

É que eu, alma fadada para conhecer o bello sem o poder attingir, elevo-me ao infinito, procurando o sublime d’estas glorias, que eu adoro como minhas. Sinto-me endoudecer de amores, pelo auctor dos Lusiadas, por Garrett, e por tantos outros nomes illustres, que a minha phantasia se recreia em ver alindados de primores talvez desconhecidos.

Attráhe-me, arrebata-me, e fascina-me tudo o que o meu espirito abriga enlevado, saido d’essas almas ardentes, d’essas imaginações immortaes que se sentiam rejuvenescer a cada novo anno de vida.

Compenetro-me sedenta e faminta de cada nova creação de Alexandre Herculano, Mendes Leal e Castilho. Vejo pairar em volta de mim esses vultos grandiosos, essa pleiade distiacta, e unica que engrandece este Portugal, que busca esmagar-lhes o talento, e tão mal os preza como filhos.

Fulguram estas centelhas luminosas no meu espirito, destacando-se das feias sombras que o destino malfadado faz pezar sobre mim.

Eu então, borboleta doudejante, arrobada em delicias, corto os raios da tormenta, e subindo a esse orbe todo luz serena, não vejo as agruras da terra, nem quero já contemplar mundo que não seja este em que então vivo. Este outro, é negro e tristonho para os desposados do genio e do talento, que se vêem acossados como se a gloria fosse uma ignominia !

Fertil em creaturas estupidas, egoistas, abjectas e invejosas é esta maioria que se esforça em espesinhar o ente superior, que detesta porque o admira. De mim vinga-se ella dos arrojos da minha imaginosa phantasia chamando-me louca, rindo das minhas exaltações como ri das agonias incomprehensiveis do meu martyrio.

Obrigada a baixar á terra, desço contristada e saudosa a vista, procurando ainda entre outras a minha estrella já desmaiada pelo arrebol da manhã: choro-lhe o empanado do brilho; mas horas depois lá surge ella no meio da escuridão mais vivida, brilhante e radiosa!

Acho o segredo, e exulto com esta demencia escarnecida por esses a quem a santa doutrina de Jesu-Christo promette tanto, sendo tantos elles!



Desculpo-lhe a insolencia com um olhar de piedade, e de misericordiosa compaixão.

É esta a suprema arrogancia da consciencia e da dignidade humana. E’ saber repellir com senhoril despeito estas mil vespas que pairam no ar, zumbindo como mosquitos importunos. Falta-lhes, porém, o ferrão delicado que Alphonse Karr lhes encontrou com tão maravilhosa graça !

Mulher sou hoje.

Posso fallar assim com a prematura velhice da experiencia e da desgraça.

Acordada aos dezesete annos, fixei a aurora do meu caminho com o seio aberto a todos os rigores da vida, a todas as expansões amorosas que se me abriam na imaginação noviça.

Em uma sala de baile, no meio do esplendor das luzes e do aroma rescendente de mil vasos entumecidos de flores, uns olhos disseram-me ao coração «vive» -- um sorriso fez-me estremecer todas as fibras que estavam intactas.

Diluiu o tempo muitas idéas jubilosas da antemanhã d’este dia, desfizeram-se muitas impressões da infancia d’estas que ficam sempre gravadas n’alma; os annos correram morosos na tempestade; a vereda oscilou em volcanicas convulsões; mas esta visão primeira do amanhecer, aquelle olhar caido em seio virgem, jámais pôde ser esquecido!...

Ao pôr do sol, annos depois, ia eu sentar-me nas tardes de agosto ao sopé de uma cruz tosca d’aldêa

embalada pelo cantico dos segadores e o chilrear dos passarinhos.

Victima dos calculos e da ambição, achava-me só, e perguntava á minha alma se o reflexo que um dia me fulgira era um sonho, ou uma perdida realidade !

Ai!... que grito, que som humano poderá exprimir o que eu soffria n’estas horas de longa e cruel soledade !...

Era já talvez a adivinhação do martyrio, era seguir em espirito as phases d’este tormentoso trance por que estou passando; era a alma insaciavel a buscar essa parte distante que a devia tornar completa , um dia; e o meu anjo bom a chorar-me, e a afastar este prophetico destino...

De repente, senti-me arrebatada n'uma nuvem dourada, etherea e olorosa.

O espirito elevou-se embriagado com o celeste perfume saido desse raio divino que me batia no coração.

Estendi os braços para achegar a mim tudo o que houvesse de real ali; fechei os olhos cégos pelo fulgor esplendido que me cercava, e deixei-me ir na torrente feiticeira que adormecêra os meus pezares.

Esperára muito, mas conseguira chamar essa realisação ambicionada. Estava na esphera luminosa em que, afastadas as exhalações da terra, vemos identificar-se á nossa uma outra alma, uma affinidade sympathica, um enlevo que nos leva a scismar até no imponderavel da vida !

Completo este dia, cruzei as mãos sobre o seio, e disse no intimo da minha consciencia e n’um som só d’ella ouvido:

«Agora sim. Venha tudo, que tudo soffrerei por ti, e resignada! Abençoado sejas, anjo redemptor, ou astro fatal que te aproximas. Vem!. ............................»

A vida humana tem peripecias surprehendentes e maravilhosas.

Olhando á volta de mim, que assombrosa transformação no meu existir de dois annos!

O bem estar monotono sem desejos nem excitações, esses mil nadas possuidos, e que contentam a mulher que não tem outro afan mais que alindar-se no rosto, esquecida do espirito; nem esses me desanojavam dos tédios, e da insaciabilidade da alma que presentia já um mundo mais real, nas horas de magoada tristura.

Gemia sempre aquella aborrecida realidade sedenta do que não achava. Hoje, quando os meus verdugos me suppõem dias terriveis de desesperança e amargura, eu digo á alma que suba, á intelligencia que se illumine, e de prompto uma chamma mysteriosa me aclara esta difficil ascenção.

No meio do cahos, que me enluta o pensamento, radia a luz, e como Pithagoras, compondo a sua harmonia das espheras, entrego-me ao idealismo
vago e indifinido, e encontro um mytho só meu.

Venço o primeiro escolho, contrapondo-lhe a rara energia, o varonil esforço da minha ardente imaginação e vontade.

Acima da minha cabeça está a luz suprema e infinita que eu fito deslumbrada.

Essa luz compadecida convida-me a caminhar, apontando-me para um centro luminoso, cuja vista me torna febril.

É esta febre que as mulheres de Portugal apagam no regêlo do coração, rebatendo assim o estimulo mais attrahente da ambição da gloria, a unica que eu invejo e apprecio.

Fecha-se-lhe esse sanctuario explendido, e eil-as ahi sem prestigio, sem outro brilho nos fastos contemporaneos, senão o de boas governantes de casa, e boas mães de familia. A sua missão mais nobre é por certo esta, nem eu posso contestal-a. Folgo até que me extremem no meio d’ellas. Mas essa essencia preciosa absorve todas as faculdades grandiosas da mulher? Não.

É preciso que esta inactividade tenha fim, é preciso que nos desliguemos de certas apprehensões, procurando no livro e no estudo dos bons mestres um refrigerio para os tristonhos dias da velhice.

Sei que não podemos aspirar a um nome distincto como o de madame Stael, ou George Sand. A estas dotou-as a subtileza do engenho, a grandeza do genio, a vivacidade sublime que não possuimos desde
que a marqueza de Alorna, e Catharina Balsemão passaram sem herdeiras. Não dêmos ao homem a facil victoria da nossa inercia. Entremos desassombradas n’esse trilho em que os mesmos espinhos nos fazem esquecer outras dôres.

É, afagando esta idéa, que me arrojo primeira no exemplo, e com a esperança de ser imitada e seguida.

A desgraça, o horror d’esta minha situação nunca póde abalar a firmeza das minhas convicções, nem a crença verdadeira de que o infortunio causa, e me ha de trazer compensações desconhecidas. Começo a gozar d’ellas. Já não me lamento desde que algumas almas firmadas nobremente na sua consciencia, soltaram a favor da pobre encarcerada um brado ousado e animador.

Abriguei no seio essas pétalas aromaticas, com a commoção que não esquece jámais, e fica unica na alma.

Para a infeliz victima, d’uma ambição tão differente da de sua alma, principia no horisonte a despontar um novo raio vivificante e gracioso.

Ainda não ha muitas horas ouvia eu uma voz amiga, d’essas raras que chegam ao tenebroso d’esta morada, admirar a serenidade do meu sorriso.

Respondi mostrando-lhe por entre os ferros o sol que lhe batia de chapa. Fallei-lhe nas pompas que vejo surgir d’aqui; no enlevamento que me causa a lua, essa amiga confidente das minhas noites, e no

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fulgor das estrellas que me chamam lá de cima a tudo o que eu amo.

Nas divagações em que por vezes fico engolfada, vejo o passado como um sonho!

Vejo-me vestida de branco, envolvida no véo da desposada, a grinalda de laranjeira a domando-me a fronte acurvada ao pezo d’estes atavios, e estremecendo horrorisada como Iphigenia caminhava conduzida por seu pae ao sacrificio.

Preferivel era por certo o d'ella ao que me estava destinado!

O dia escureceu, a tempestade soou ao longe, remota e medonha nas quebradas da montanha asperrima que eu ia subir, com passo tremulo e ma seguro.

Uma pancada violenta no coração prophetisou-me o destino, e, como arbusto em flor desarreigado, caí, para me levantar mulher, e martyr.

Debalde fugira: pudera dizer como Elvira na doce linguagem dos prantos, pranteando o seu Hernani:

«	Questo odiato... ché quale immondo spettro, ognor m'insegue.»

Aos risos, succede a epoca dos desalentos. Ninguem vê a face arida a que torrão ágro rouba o viço; ninguem olha senão para bemdizer o acaso que fizera mais uma desgraçada, só ella escuta uma voz occulta que a está amaldiçoando.

As nuvens da procella cruzam-se.

O trovão ruge no ar, e os abutres espavoridos ao
primeiro assalto, voltam mais fortes á carnagem, e empolgam a andorinha que voejava saudosa do seu amado.

Farpearam-lhe o coração, arrancando-lhe as azas, penna a penna, mas a sua fé não cança, e quando póde, fugitiva vôa ao seu ninho querido, aonde as caricias e os afagos estremecidos a pagam do passado, e lhe fazem prezar mais o verdor da campina, e a frescura do valle.

A pobresinha desnudada, nem assim chora as pompas vistosas que perdeu. A natureza sorri ás suas amorosas expansões, pressente uma plumagem nova que a ha de abrilhantar, e desfere as azas arrebatada, a essa aurora sem sombras.

Os algozes deixaram-lhe a vida, cuidando desnecessario o ultimo golpe, e que o desgosto lh’o daria. Mas ella identifica-se no rigor dos ferros que a retem; e, lá do fundo do seu cantinho, encara o inimigo afoita, despresando-lhe o ladrido.

Vê as plagas remotas da soledade, as areias queimadas do exilio, as bestas-feras que lhe causam menos terror, e lhe farão menor damno do que as creaturas á similhança de um Deus de misericordia e de paz. Confiada no bem supremo dos infelizes, espera animada o anoitecer do seu destino: exercita-se n’um amor lodo espiritual, gosa o extasis celeste e divino, desprendendo então aquelles harmoniosos cantos que só d’um anjo são ouvidos.

As turbas procuram-lhe avidas as chagas, querem
escutar-lhe os gemidos. É que a humanidade, nos filhos de Jesu-Christo, é uma escandalosa mentira ! Não se saciam das dores grandes da victima inoffensiva, exultam a cada novo trago de absynto que a obrigam a sorver.

Ella aponta-lhes risonha para o céo e diz-lhes: «é ali!»

V

«Chi rende alia meschina «La sua felicita?

SILVIO PELLICO. Il mie
Que somno magnetico se apodera tantas vezes dos meus sentidos !

Então sinto a dôr, na recordação turbada e saudosa do passado, d’aquelles primeiros annos tão cheios do contentamento singelo da innocencia! mas é a dôr subtil que se subtrae á materia, e chega a innublar-me os olhos sempre postos nos horisontes do infinito.

Como é horrivel este plaino solitario por onde espraio a vista, e onde outr’ora folgavam imagens queridas, tão ledas e formosas!

Será isto fraqueza, minha alma? Ah! não esmoreças! 
Se não podes amesquinhar-te adorando os dogmas d’uma sociedade que tu palpaste com mão inexperiente, retirando-a ferida, não deturpes hoje, nem deixes esfriar no regelo do desconforto, a grande resignação e alegre conformidade nos trabalhos da vida -- justa e merecida compensação, dada por Deus.

Não, não procures mais o reflexo dos dias primitivos não toldados por nuvem escura!

Flôr murcha pelo tufão assolador que desbastou uma familia, vergontea debil de tronco eivado de serpes, cujos fructos são extinctos ou malditos, não olhes mais o passado ahi; curva a fronte impallidecida pelo gemer da orphandade, pobre noviça na atmosphera viciosa em que te pozeram as violencias do destino!

Deixa, pois, de chorar aquelles que, mais venturosos, dormem o somno eterno.

Além, vês? lá está a pedra insensivel onde as tuas lagrimas cáem e se congelam; e o pó sagrado, de tantos entes estremecidos não se eleva em columna ao céo, pedindo a tua redempção.

Que responde pois aos teus gemidos? Nada. Céo e terra é mudo!

Mudas são estas paredes, mudos os ferros que me reprezam aqui. No silencio da noite, só harmonisam com os meus gemidos estas gotas d’agua filtradas das abobadas que me vem molhar a face, já lenta do suor febril. 
Reina aqui a mudez que aterra a alma fragil, e
fortalece a ousada, que tem fé e crê no imprevisto, e na bondade divina.

Ai! quizera ver uma visão que me affiançasse que os meus sonhos não mentem, nem as minhas previsões!

Quando a terra nos falta com caridade e amor, a quem recorrer, se não subimos em espirito ao hemispherio celeste d’onde os anjos da nossa infanda fugidos para lá, exoram talvez o perdão das nossas culpas!

Meu pae! Minha mãe! E tu, minha filha do coração, Maria, vem tu responder aos meus prantos!

É pois verdade que o sepulchro não tem som que transpire?...

Deixem-me estas reminiscencias azedadas com o fel que me chegam aos labios os amigos de passadas eras!...

N’esta hora de torva melancholia, fujo ao mundo para escutar a harmonia d’anjo que acalentava os pezares d’uma infeliz alma que outros bens não tinha debaixo do céo:

Choram-te os anjos, flôr, caida á terra
Do regaço da Virgem. Pomba errante,
No ar, que empeçonhava humana halito,
Tu viste a luz radiante
D’aquelle amor do céo, arrobo d’alma! Voavas toda amor, toda delirio,
Sem ver gotejar sangue a triste palma
Das honras do martyrio.

Que fizeram de ti, manso holocausto
De fementidas aras lacrimosas?

De ethereas iIlusões sorveste um hausto
Que não era dos céos.

Ai ! vê se pódes, anjo, inda salvar-te !

Desfere para o céo teu voo ainda;
Ai foge para Deus, ó pomba linda,
Que eu vou buscar-te em Deus.

Não vás. Acceita o calix. Sobe a encosta
Por sobre espinhos que o teu pranto rega;
Acceita o teu calvario, acceita-o, victima,
Sê minha redempção !

Perdeste a luz do céo ? lança-te cega
Ás voragens da dor ! Á luz maldita
D'este inferno, verás, com fogo escripta,
A minha maldição!

Não vás sem me remir. Tens certa a gloria
É tua patria certa a luz dos anjos !

Que importa um dia mais no teu martyrio ?

Por ti me salvarei.

Reverdece na fé, pallido lyrio;
Bebe orvalhos do céo, recobra alento,
Por mais um dia teu d'agro tormento
Comtigo ao céo irei.

É o hymno que eu sagrei a uma desventura de que os mesmos algozes poderiam apiedar-se, se eu não tirasse d’ella incentivo poderoso para exhortar o animo abatido, e repovoar o meu céo da infancia, alindado com o phantasiar de infeliz.

O hossana, inspirado pela desgraça, sou eu que


o canto; e estas notas desferidas em desassombro de espirito chegam plangentes ao throno da summo intelligencia, onde as eleva minha vontade firme, e audaciosa esperança.

Vejo a tempestade ir ao longe de fugida, e exulto já na bonança que me promette a amenidade e frescura do ar, e as matizadas e brilhantes côres do arco iris.

Espero. Porque hei de eu descrêr?

Não vi eu a mão de Deus tocar severa e formidavel na arca em que o reprobo ía exultando com o mal feito, e meditando novas perfidias ?

Á maldição d’uma mãe afflicta, as ondas embatem o lenho condemnado, e, no meio da grita, Satanaz acolhe a imprecação do impio.

Salvaste a vida, que Deus não quiz, canibal ! Has de arrastal-a n’este inferno da vida em que cada sorvo de ar te custará mais tarde uma agonia.

Já me não vexa o pesado e hediondo jugo que me empobreceu. Acima dos bens que possui, ha outros de maior valia.

Rica de estimulos nobres, de dignidade no infortunio, e rara valentia moral, desafio-te, hydra, que recalco com pé orgulhoso, e fronte altiva.

Tocaste no que me podias roubar: mas fizeste-me descobrir um thesouro onde eu nunca julguei poder subir.

A victoria é minha.

Fraca porque sou mulher, pobre, opprimida pela

inveja e pelo odio, não hei de succumbir, ainda assim ! Ampara-me a voz que me chora na harpa da poesia santa e verdadeira do coração.

D'este alto que eu ganhei com tanto denodo, suffocando os impetos vertiginosos da dôr, contemplo o mundo, e como um grande espirito em frente das cinzas d’um grande rei, cruzo as mãos no seio, e digo: «Só Deus é grande!»

VI

<estrang lingua=frances>
«L’orgueil nous égare; et quand l'amour-propre nous a plongés au fond de 1’abime, nous regardons si une main secourable n’est pas tendue vers nous... Je vois le fond de 1’abime, mais je ne vois pas la main... le désespoir m’at«teint comme un carcan de fer rougi!... l’air manque à ma poitrine! la vie n’est plus en moi; la vie c’était mon amour.»

MERI --  André Chenier.
</estrang>

O caminho percorrido tem sido insondavel, ó Christo! mas de hoje em diante preluz-me já o pharol que guiará os meus debeis e curtos passos para a ultima morada.

A noite eterna já desce sobre mim: amortalha-me o crepe funerario da desesperança.

Sem céo que me sorria, sem estrellas que me fallem, sem luz que me alumie, sem espaço mesmo onde o espirito se refugie; morta, morta para tudo, que enfeita a existencia, e anciando sempre por ti, ó sol da vidal... que horrivel agonizar este!...

Anjo da minha mocidade, vizão mysteriosa das minhas noites de vigilia, sonhos arrebatadores que me dourastes 
uma quadra mimosa, aspirações sublimes de uma alma immaculada; e tu, ó meu paraizo de innocencia, d’onde fui arrebatada á força, não por   
tentação da serpente maldita; mas pelas garras do ouro inexoraveis -- adeus para sempre! que debalde os meus olhos, obscurecidos de lagrimas, te buscarão mais na terra, ninho adorado! Que devaneios nos teus salões espaçosos, que fragrancia a dos teus jardins, que aromas de pureza e de bemaventurança se me insuflavam ahi na alma! E tudo isto perdido, e perdida após também a esperança, caprichosa e adorada, que me tem sustentado o animo em tantas luctas sobrenaturaes! E agora te deixo, quando a velhice intempestiva não regelou ainda este coração malfadado, que tão grande foi em crenças, no quebradiço envoltorio que o Creador lhe deu!

Ha momentos na vida que assolam uma existencia inteira.

Que dôr esta da saudade e da recordação para infelizes!

Ai! o passado, Maria, o passado! Que sonho !... Feliz de ti que não conheceste as paixões mundanas, que não soubeste o que é essa torrente impetuosa que nos leva na sua correnteza aprazivel, para mais tarde nos fazer amaldiçoar o erro de um momento, que tão caro nos custa em dôres, e nos confrange para sempre o coração n’um estorcimento doloroso. Oh! como eu te invejo o destino, flôr caída do céo!

Devia remir-me a lagrima, que levaste da peccadora nas tuas petalas virginaes...

Olha, vê como arrastada Nos tremedaes da vida,
Se estorce em cruas dôres
A tua irmã querida! 1
Vê-a lançando a sonda a este mundo, que a repelliu, e recuar horrorisada! O bem, a virtude da caridade, o horror ao vicio, tudo é hypocrisia e mentira. As maiores torpezas, os crimes mais degradantes são o apanagio dos bafejados pela aragem bonançosa da fortuna e das considerações sociaes; escondem-se nas trevas, mas lá fulgura sempre em fachos do inferno que os alumia. Compaixão pelo infortunio ninguem a sente aqui; o egoismo mais miseravel reina entre aquelles que olham com soberania e impudor para os que não tem ouro que possa deslumbrar a podridão da alma. Olha, olha mais, e seja este o ultimo quadro. Vês, além, aquella mulher de trinta annos? Foi uma martyr da obediencia filial. Repara como ella passa a mão na fronte encanecida pelas angustias e trabalhos, não deixes sem reparo aquelle sorriso de supremo desdem do mundo, e o olhar humilde para o céo, quando a consciencia lhe está segredando «fostes bem merecidas!» Contempla-a impellida por furacão invencivel, caída n’um
 1 Versos a M. J. por***

pólo estranho onde lhe mingoavam as coisas que antes lhe pareciam indispensaveis á vida !

Caminha, caminha sempre ao seu lado.

Lá-vae ella ao romper da aurora, por manhã frigida e nebulosa, sósinha, escondendo-se a mêdo, ajoelhar no cemiterio onde lhe ficam todas as suas riquezas, onde estão os despojos queridos d'aquelles que lhe legaram a vida, votando-a duas vezes á desgraça. Logo, em seguida, lá voga mar em fóra o baixel que a leva a terra estranha, pobre, desamparada e desvalida. Ao seu lado, porém, sôa a voz de um anjo, vê-se uma mão amiga sustentando-lhe nobremente a coragem. Pouco depois, reconhecel-a- has tu ainda? Lá estão os verdugos, lá está o apparato temeroso do martyrio; lá está... basta, minha querida irmã!

Feliz de ti que não conheceste o que é este agonisar de espirito, este phrenezi impotente, esta dôr sem fim da memoria, dôr a que as mesmas lagrimas negam o seu alivio. Lagrimas ! O que são lagrimas? Pranto de mulher, diz o homem, como se cada uma d’estas gotas não tivera mais valor que todos os juramentos, que todos os gemidos que lhe sáem dos labios, onde transluz sempre a perfidia, o escarneo, e a mentira.

Escuta-me tu, filha adoptiva do meu coração, sombra querida do meu eden, anjo que eu busco sempre nas horas affictivas, como se podesses baixar lá da tua gloria á terra a cobrir-me com as tuas
azas alvissimas! Vem, vem sentar-te ao meu lado, espirito radioso, vem fortificar-me para as ultimas agonias com um raio fulgido do teu céo!

Quando me ouças o gemer intimo da paixão reprimida a custo, quando vires altear-se-me o seio em ondulações anhelantes, toca-lhe com o teu dedo frio de jaspe, e aquieta-o. Quando a saudade pungitiva e cruel d’aquelles dias, em que eu te via toda riso e esplendores, me alancear o coração, marejando-me os olhos de agua; murmura mansinho aos meus ouvidos as palavras de Jesus ás mulheres de Jerusalem: «não chores sobre mim.» Quando vejas que as attracções do mundo podem ainda fascinar-me, a ponto de esquecer que cada favor seu custa uma decepção amarga, levanta a pedra que te esconde, cinge-me nos teus braços, que tão doces me foram, arrasta-me, leva-me comtigo, ó filha, que me salvas assim de mais longas e indeterminadas torturas!

Ó Maria! voltemos ao passado, queres? Conversemos, conversemos d’aqui. Tu no teu leito de marmore, eu no pedestal da minha cruz. Terei ainda de subil-a?

Eras ha tres annos o que és hoje na essencia: um anjo.

Adorar, adoravam-te todos que te viam na face angelica a irradiação divina e maravilhosa do teu ser. A tua voz era um hymno harmonioso e santo, era a harpa melodiosa de David applacando os impetos vertiginosos de uma imaginação desvairada, de uma alma desgarrada do seu aprisco...

Lembra-me, como se fosse hontem, e breve findam quatro annos.

Era por tarde de maio, tepida e embalsamada. Anoitecia vagarosamente, e o ar refrigerante, que se levantava com o pôr do sol, vinha afagar-nos até á balaustrada da janella onde nos apoiavamos por entre as rosas e as tulipas que nos chegavam do proximo canteiro. Havia talvez uma hora que estavamos ali, na mesma posição, mudas e absorvidas em pensamentos e desejos oppostos.

Tu saudavas já a patria primitiva que antevias; eu sonhava, procurando na terra o impossivel! Na torre da Trindade soavam n’este momento as badaladas plangentes ás Ave-Marias: despertamos, juntamos as mãos, oramos em silencio, e caimos na mesma concentração melancolica.

Foi aquella uma hora fatidica! Sei que não posso esquecel-a mais.

De repente, no espaço immenso da minha phantazia, rebrilhou estrella fulgurante. Abriu-se o portico do templo enganador, cuja luz, eu cega de inexperiencia, almejava. Aquelle ser ideal, que eu alindava com as perfeições dos cherubins, estava lá, era elle, reconheci-o com os olhos fechados. Senti-me ebria de um gozo suavissimo, comprehendi em fim o mysterio das imponderaveis alegrias de nos sentirmos viver em duplicado.

Foi um seculo n’um minuto: tão enraizadas me ficaram aquellas imagens; e nem sequer vi cruzar diante dos meus olhos a lembrança assustadora da fragilidade humana... que tudo me escurecia a vizão formosa!... Entretanto, tu cortavas as folhinhas da haste que tinhas á mão, tecendo uma corôa verde e viçosa como a esperança.

A tua voz chamou-me, e eu não ouvi: volitava-me o espirito na magia do meu novo céo; a tua mão tocou na minha, e eu fiquei insenvivel ao contacto. Levantaste-te então nos teus pequeninos pés, os teus labios roçaram-me na face; e, n’um impulso subito, cingiste-me a fronte ardente com a grinalda. Senti a dôr aguda de um espinho trespassar-me, e estremeci. Olhavas-me com tristeza... Depois estendendo o braço, e elevando a voz presagiadora que eu escutei como a do anjo da annunciação, deixaste cair dos labios a prophecia:

Luz e trevas gloria e martyrio!...

VII

<estrang lingua=frances>
«Les souvenirs du bonheur passé sont les rides de l’âme!

«Lorsqu on est malheureux il faut les chasser de sa pensée comme des fantômes moqueurs qui viennent insulter à notre situation presente: il vaut mille fois mieux alors s’abandonner aux illusions trompeuses de l’esperance, et surtout il faut faire bonne mine à mauvais jeu et se bien garder de mettre personne dans la confidence de ses malheurs.

«A force d'être malheureux on finit par devenir ridicule.

X. DE MAISTRE
</estrang>

A desgraça é tão opulenta em visões e phantasmas medonhos, como a felicidade em idealidades risonhas e fagueiras.

O espirito, essa lustrosa lamina onde se espelham os pontos brancos ou negros do destino, mal se levanta á sua sublimidade, quando não foi provado pelas mil variantes da dor, do verdadeiro infortunio, e do extremo da agonia.

A creatura, que só vê trevas, em volta de si, alonga a vista, e procura o sol esplendoroso, no seu pensamento. Se o encontra, retalha as chagas com coragem, recreia-se no proprio martyrio, folga com entrar em lucta com a desgraça, e salvar-se do desalento e da demencia, com a fé em Deus, e o despreso de vís preconceitos, que os bem-aventurados da sociedade são os primeiros a supplantar e a esquecer. Comtudo, não a julgueis mais feliz, por isso, á creatura das trevas.

Por um lado, a inveja, a maldade, o odio do mundo que tão perigoso é affrontar; do outro o desgosto profundo, a dura experiencia, a miseria e o abandono: eis o apanagio de tudo o que a vontade omnipotente do Creador tornou distincto.

O homem, que escurece a vista curvado sobre a banca do estudo, aprofundando a sciencia e os mysterios do coração humano, á procura do balsamo para chagas innumeraveis, affigura-se-me suspenso á terra por um fio divino: tão perto o vejo revoar dos segredos de Deus.

Que horrivel solidão, que despovoado sem encantos não parecerá o mundo a essas almas privilegiadas, que, comprehendendo o que elle vale, se fizeram fortes de sua mesma amargura, e, sentindo faltar-lhes a esperança de que os entendam, abafam o germen sagrado do talento, gozam-se das suas proprias maravilhas, para que não lhe desvirtuem a sublimidade de seus devaneios!

Se todos, porém, assim pensassem, onde levaria o infeliz as suas magoas sempre pungentes, onde acharia fonte de agua pura que podesse saciar-lhe a sede inesgotavel de toda a alma que tem penado muito; onde buscar crenças que o exaltem, onde encontrar remedio para as suas dores senão no que
chamam riqueza intellectual; e d’onde espera tirar o vigor que conforta e ensina a ser grande pela consciencia immaculada!

E no emtanto, apesar mesmo d’estas reflexões que parecem verdadeiras, é necessario repetil-o, tanto eu receio que invertam o sentido das minhas palavras: No homem, o sublime do genio é a desgraça; na mulher, é a maldição do homem, e o castigo do Senhor. Só a estupidez dá a felicidade; o verdadeiro elemento da ventura é a inepcia, enfeitada com a satisfação propria do seu valor.

Não me contradigam quando a minha alma se levanta lucida depois de pesada vigilia, e um demonio implacavel me illumina com traços de fogo as sinuosidades escabrosas por onde caminhou a minha ingenuidade, quando tão outro via este mundo.

A mulher é um ente debil em razão e força. Quando a intelligencia desabrocha n’essa fronte que fôra mimosa, e o reflexo do espirito lhe irradia nos olhos, ha ahi um quadro imponente a estudar. Deslumbra-a uma luz demasiado viva; quer fitar esses horisontes grandiosos, e não póde; baqueia de repente no abysmo da desconfiança de si; maldiz o destino invencivel, e revolve-se nas convulsões do desespero. O mundo assombra-a. Dóe-lhe mais a ella vel-o atrozmente despoetisado, do que essas mil feridas que lhe gotejam o sangue mais puro do coração.

Que refugio ha então para a infeliz? Que porta

lhe está aberta, que olhar misericordioso procura o seu, senão para dardejar-lhe mais um insulto!

Mulher! mulher! quem ousará maldizer-te, quando tu passas de cabeça alta e olhar desdenhoso por entre as turbas enlevadas em gosos frageis, e onde tu só encontras o vacuo e a soledade?! As illusões, as chimeras saudosas e expansivas do passado, levaram-te a procurar no estudo o algoz que as devia matar uma a uma, mais dia menos dia. Ó santa e malograda ambição!

Quando a mulher se julga morta para as alegrias d’um amor exclusivo, quando o espelho protesta contra o ardor do coração, então busca um asylo na canceira do estudo; envelhece annos n’uma hora, e colhe um fructo amargo onde esperava gostosas distracções. O veio fertil, que explorou com tantos cuidados, deixou-a mais pobre em crenças -- pobre a ponto de mendigar do céo uma idéa salvadora. Qual? Ha por ventura meio de fugirmos a nós mesmos?

E o homem... é sem piedade! Accusa a mulher quando a vê cair, e não se lembra que elle é um tigre de ferocidade, depois de ter sido um anjo! Tão orgulhoso como Lucifer, baixando da gloria do paraizo aos antros escuros do inferno, ufana-se da sua obra execranda, ri de si proprio quando se vê n’essa época passada em que punha a mão no seio e o sentia arfar n’um jubilo casto e innocente. Escarnece o que houve de bom em si, e vitupera a
victima. Amaldiçôa-a, infama-a, e é assim que a impelle, e engolfa n’esse sorvedoiro formidavel onde parece que não chega o mesmo poder de Deus!

Quando se toca similhante disposição d’alma, esmorece-se a meio caminho da vida; odeia-se a existencia, e a morte nos apparece como unico e aprazivel refugio.

A sociedade é tão ironica, tão impiedosa e vingativa, que eu mesmo, quando a defino, tenho medo que cáia sobre mim um anathema não menos implacavel e amargo que o meu calix de peçonha. Affronta sem generosidade os pezares dos desgraçados com o ruido dos seus festins; calca aos pés os opprimidos, e eleva altares ás grandezas da terra por mais conspurcadas que estejam.

Ai ! como se sente a alma vergar, debaixo do peso da velhice prematura, da dura experiencia e dos trabalhos !

Que dôr funda, quando a mulher volta ao passado, e revê os seus virginaes contentamentos, deleitando-se em contemplar esses gosos em que passava de esperanças singelas ao doudejar infantil, occasionado pelo abrir d'uma flor querida, ou pelo fulgor d'uma estrella namorada!

Que viver tão phantasioso, e poetico!... Logo depois vem as paixões, esse cortejo embriagador de sentimentos desconhecidos, enlevo feiticeiro, delirar de coração virgem embalado pelo cantico dos anjos,
e pela linguagem devaneadora da sua imaginação.


É voar da terra ao céo, para cair depois no mais raso d’este positivismo atroz !	'
Aquelle coração que arfou junto do seu, aquellas pulsações que se reproduziam nascendo e morrendo juntas, aquellas falias suspiradas como a aragem da tarde: tudo o que levanta o espirito ás alegrias imponderaveis d’um amor grande em dedicação: tudo isso acaba, deixando apenas um espinho roedor, que a vae consumindo lentamente.

As idéas que espontaneamente floriam debaixo da influencia magnetica do astro adorado, escurecem na angustia de tão insupportavel dôr; e o mar, sereno até ahi, dos seus desejos, agita-se em convulsões de vida ficticia. Debalde tenta reagir por um esforço supremo de vontade: está condemnada a succumbir; e ainda lhe é forçoso abafar os gemidos para que não lhe insultem os ultimos paroxismos do coração. Do paraizo, baixa á terra; terra maldita, que foge sempre debaixo dos pés do infeliz, em quanto se enfeita para o egoismo que lhe devora os melhores fructos.

Ó sociedade, porque te assombras e offendes, quando o desgraçado te despreza?

Como eu te vejo asqueroso, e repugnante, mundo!

Os grandes esmagam os pequenos, os poderosos são insolentes quando a desfortuna lhes estende a mão, e o genio do mal saborêa o pasto que tu lhe offereces.

Que horas estas, meu Deus!...

0 AMOR!...

Este inferno d'amar!... Garrett (F. cahidas)
I
Em uma terra de provincia, vivia, ha trinta annos, uma pobre mulher com uma filhinha de pouco mais de dezoito mezes.

Victima de uma seducção, Maria, arrostou com o abandono do homem por quem se perdêra, e com a malquerença da sua familia, para crear ao seu seio a creancinha que tantos affrontamentos e agonias lhe custára. Desamparada por todos os seus, em virtude da tão nobre resolução de tornar evidente o escandalo que a visinhança propagava, Maria não enfraqueceu, acceitou com humildade a expiação; e sósinha, á custa de um trabalho penoso, pôde sentir as alegrias incomparaveis de mãe. Quando as amarguras da vida lhe pesavam, corria ella ao berço da
sua filhinha, do seu thesouro, e esquecia-se das suas magoas, e do resto do mundo, em tão doce contemplação.

Depois de um anno foram-lhe aguadas estas consolações com a lembrança do porvir. Maria, de uma compleição debil, nunca mais conhecera saude, desde que se entregára ao trabalho assiduo, para aleitar sua filha. Todos os dias se sentia enfraquecer mais; e conheceu, por fim, que a morte avançava para ella com passo seguro. Aquelle coração, onde só vivia uma imagem de anjo, estremecia, dilacerava-se a scismar no futuro da sua querida filha, do unico e santo estimulo que a chamara á virtude. Quem ampararia a creancinha?

Paula era tão galante, reunia já tanta graça n’aquella edade infantil! Os cabellos, escuros como os de Maria, enquadravam-lhe o rosto sobre o comprido e de uma palidez assetinada, onde brilhavam os olhos negros como duas estrellas fixas em noite de tempestade. Havia não sei que de attrahente n’aquella creança, que ajuntava á formosura um ar resoluto, energico e varonil.

Mezes depois, Maria agonisante, entregava sua filha nos braços de D. Candida de Mello, senhora exemplar em costumes e religião, e muito rica. Prometteu esta á moribunda adoptar a orphã como sua filha, e mais tarde achou a remuneração do beneficio.

Paula votou-se a amar a sua protectora com ternura filial, e o affecto extremoso da sincera gratidão
D. Candida não poupou esforços para tornar a sua pupilla superior ao nascimento que o destino lhe dera, e para que ella podesse aspirar a uma boa posição na sociedade de que a julgava muito digna. Paula, pela sua parte, habituada ao trato de uma senhora bem educada, rapidamente tomou um ar senhoril que condizia perfeitamente com a distincção da sua physionomia.

Aos dezoito annos, era os amores e as alegrias de D. Candida, como o fôra em pequenina da pobre Maria, e trazia em alarme o coração de meia duzia de fidalgos circumvisinhos. Paula, se olhava, não os via, deixando passar despercebidas as estrategias amorosas dos experientes mancebos.

Entre todos estes, notava-se Manuel da Cunha, consummado n’estas lides. A sua figura sympathica prestava-se, como um encanto irresistivel, para corações não amestrados na hypocrisia.

Quem se não enganaria com o ar melancholico do gentil moço? Que alma de mulher deixaria de sentir o desejo de prescrutar os pensamentos que passavam fogosos n'aquella fronte espaçosa, em que a custo se desprendia o sorriso, como o sol a esconder-se por entre densa nebrina! A sua força sabia elle que estava ahi: fizera de longo tempo um estudo particular, chegando á perfeição no fingimento, e dando-se por contente dos bons fructos que colhêra.

Paula, não deixou de exercer n’elle aquelle enthusiasmo da sensação a que o vulgo chama amor.



Não serei eu por certo que o diga. O amor é uma essencia sublime e delicada, que em raras almas fructifica. Encontra-se n’elle, á mistura, o anciar tumultuoso da paixão, e o receio, ou pesar, de profanar o idolo.

O coração, porém, de Manuel, se é que elle existia n’aquelle peito mal conformado, dera-se desde a infancia a uma prima com quem fôra creado. Adelaide, cheia de ingenuidade e candura, correspondia-lhe com o ardor de uma alma, que sente desabrochar a paixão no seio pelo companheiro dos folguedos da infancia. Pobre como Manuel, que era um filho segundo, vivia ella em casa de sua tia e madrinha presando-a como mãe, e sem outras aspirações mais que o amor que Manuel lhe acordára no coração. A innocente deixou-se cair nos braços do seu amado, embriagada com os aromas de uma flor de fructos amaldiçoados, e sem mesmo pensar na quéda.

Foi pouco depois que Manuel, incitado pelos dizeres dos amigos, e pelos gabos que nada tinham de exaggerados, reparou em Paula.

Era ella, realmente, singular, n'aquella edade.

Nunca se lhe conhecera a mais ligeira distincção por ninguem. Conhecendo a sua posição, era além de formosa muito altiva, e nem sequer baixava os olhos para aquellas estrellas buliçosas, que a cercavam como a astro brilhante.

Faça-se, porém, justiça á nobreza heraldica dos moços fidalgos.



Não havia um só, que désse á pobre rapariga a importância de uma nobre idéa, e que deixasse de rir da sua altiva isenção. Aos olhos d’elles que valia ella? Era uma d’estas rosas que nascem para arrebatadas á haste adornarem um arco triumphal, e, depois de uma hora, cairem murchas e esfolhadas aos pés do vencedor.

Maldito galardão do homem IA alma conturba-se scismando no horrível de certos destinosI...

D. Candida, educada em Lisboa, gostava de viver bem, e reunia quasi sempre ao seu lado uma sociedade agradavel, principalmente no inverno, quando o tempo lhe não deixava aproveitar os passeios ao campo. Era a sua a casa unica afastada da villa, onde se passava bem. Conversava-se, jogava-se, e o jantar ou ceia, servidos com esmero e magnificência, completavam o quadro d’estes prazeres. Paula, sempre presente, abstinha-se de tomar parte n’aquelles gosos, e isolava-se no vão da janella, prestando toda a attenção ao bordado que lhe saia das mãos como obra de fadas. D’ali via ella o céo assombrado por nuvens escuras, ouvia bramir o vento nas florestas, e gemer a andorinha pelo ninho derrubado. Em quanto os seus dedos costuravam, ella pensava, e muitas vezes lhe pareceu ver a sombra da mãe, que não conhecera, envolvida em vapores aerios, contemplando-a.

Foi n’uma d’estas tardes de novembro, negra e temerosa, que os seus olhos se encontraram com §s de Manuel da Cunha.

è
Sentado em frente d’ella, Manuel olhava-a com olhar caridoso e apaixonado. Paula estremeceu, e sentiu ao mesmo tempo uma sensação estranha de sobresalto e goso invadir-lhe a alma. A mão tremeu, e, por um movimento machinal e indefinivel para ella, levantou outra vez a vista para o mesmo ponto d’onde recuára fascinada.

Desde então, o horisonte perdeu a magia que exercia sobre ella; e, se ainda o olhava, era outra a imagem que se desenhava na amplidão azulada do espaço.

Manuel da Cunha era muito dextro para não conhecer o que se passava em Paula. Sem remorsos, o algoz extasiou-se de contentamento e esperança. D’aqui a declarar-se não foi muito. Entrava n'esta conquista o seu amor proprio, essa alavanca poderosa, esse demonio implacavel que estava cavando o abysmo a duas desgraçadas.

Paula, depois de um anno de enlevos, e illusões fagueiras, acreditava cegamente no amor de Manuel: dava uma fé viva e profunda ás palavras traiçoeiras d’aquelles labios queridos.

Sabia que a sua união com elle era impossivel, por dois motivos ambos egualmente fortes. Em primeiro logar, a pobreza; e, em segundo nunca a familia de Manuel consentiria nesta alliança. Apezar d’isso, Paula não esfriou, antes pelo contrario entregou-se toda a este amor infeliz, e ao mesmo tempo puro, que lhe não deixava pezar, Ás tentativas e tristuras de Manuel, oppunha ella a resignação, e o carinho, mostrando porém sempre, a força da vontade. O seu orgulho e prudencia instinctiva é que a salvavam.

Os despeitados calumniavam-n’a infamemente, depois de verem baldados todos os planos para desunirem os dois amantes. Fizeram saber a Paula os compromissos que ligavam Manuel com a prima; mas este, demasiadamennte sagaz, tinha-se anticipado contando-lhe com tempo uma historia de amores singelos que estava bem longe da verdadeira. Paula acreditou-o, e deu ás confidencias dos amigos um sorriso de despreso mortificante.

Ainda assim, não ficaram elles ociosos; e, valendo- se dos mesmos meios, voltaram-se para Adelaide. Manuel continuava a sua intimidade com ella, mostrando-se cada dia mais fervoroso. Quando ella lacrimosa o accusou, affectou elle um ar risonho e da maior serenidade. Chamou-lhe louca, bebeu-lhe as lagrimas entre afagos, e soube incutir-lhe que, já que os seus inimigos de tal se tinham lembrado para destruir-lhe a felicidade, bom era que vivessem na falsa supposição da sua assiduidade junto d’uma rapariga de tão pouca importancia, de que ella Adelaide não podia temer-se como rival. Assim evitavam-se as suspeitas, e os desgostos, que lhes estavam eminentes, descobrindo-se o seu segredo. Adelaide confiou tambem, e assim foi correndo o tempo para as duas illudidas e ultrajadas.

Por este tempo, D. Candida adoeceu gravemente.


Paula, desperta do seu sonho por aquelle annuncio d’uma perda, sobre dolorosa, irremediavel, e que ia lançal-a n’um mundo desconhecido, sósinha, e sem protecção, sentiu o exaspero que leva ao suicidio. Que esperanças lhe restavam, morta a sua segunda mãe, o seu unico amparo? Esta dôr vehemente, que se trahia aos olhos da inferma pelo tremor da voz que procurava alental-a, e pela ardencia do olhar que se fitava nella, fez-lhe lembrar a promessa que ella fizera vinte annos antes. Fez então um esforço, e puxando Paula a si com um movimento fraco, murmurou-lhe ao ouvido: «Animo minha filha, eu não te esqueço na terra, e vou esperar-te no céo.» Depois, fez chamar o administrador dos seus bens, e um tabellião, com quem esteve fechada duas horas. Ao cabo dellas, D. Candida quiz que viessem ali todos os seus servos. Despediu-se delles, um por um, pediu perdão a todos, e veio logo um padre tomar o logar vago á cabeceira de seu leito. Momentos depois, quando as portas se abriram de par em par, dando passagem ao Redemptor dos homens, ao filho de Deus que desce do seu tabernaculo augusto, na hora extrema dos mortaes, trazendo-lhes, com o seu divino corpo, o perdão, e a graça de caminharem afoitos para a eternidade, D. Candida tinha na face o esplendor de predestinada. Embebida toda em Deus, nem um pensamento dava á terra que ía consumir-lhe o corpo, desligando-lhe o espirito para voar á mansão gloriosa do justo. Os
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criados agrupavam-se de joelhos orando com lagrimas saudosas pela santa -- assim lhe chamavam;  --  em quanto Paula, ajoelhada tambem aos pés da cama, meio-velada pelo amplo cortinado, pallida como a estatua de marfim, com as mãos sobrepostas no seio, abafava as pulsações desordenadas, que a dôr lhe arrancava ao coração.

Quando terminou a ceremonia, e a campainha soou ao longe, accorde com os cantares plangentes ao Santissimo, Paula tinha desfallecido, e, depois da agonia, viera o turpor que tornava insensivel e quasi sem çomprehender o que se passára debaixo dos seus olhos.

Passaram-se instantes neste pezado lethargo. Um gemido, e o seu nome, pronunciado com voz fraca e tremida, accordou-a. Levantou-se espavorida, e correndo ao leito, exclamou; «Oh! minha mãe, minha mãe!» Viu os olhos já embaciados de D. Candida fitarem-se nella, e a mão direita que lhe pousava na borda da cama fazer um aceno quasi imperceptivel. Era o ultimo adeus áquella que tanto amára.

Paula deu um grito convulsivo, e caiu como fulminada sobre o cadaver.

II
Paula achou-se, de repente, senhora d’uma grande fortuna.

D. Candida, satisfeitos os suffragios pela sua alma, e mais alguns legados, instituiu-a sua unica herdeira. Esta lembrança mais pungia o coração amargurado de Paula. Achava-se só no mundo!... só não; restava-lhe Manuel, essa parte da sua alma; e contava com ella para lhe refrigerar os ardores da saudade.

Era, porém, cedo ainda. Oito dias se recusou ella a vel-o, e ás cartas queixosas de Manuel respondia em poucas palavras, e com o reflexo da tristeza que lhe morava na alma. Temia ser ingrata ás cinzas, ainda quentes, da sua bemfeitora, entregando-se a expansões, e contentamentos do coração.

Entretanto, Manuel da Cunha reflexionava.

Paula estava rica: caido havia o principal esteio a que elle se apegara sempre pressuroso, como a desculpa mais forte de a não esposar. De mais, conhecia a força de vontade de Paula, e elle descoroçoava já de poder domal-a. Acreditava tambem, que ella era bem capaz de impôr-lhe o sacrificio, ou o abandono.

Esta ultima idéa inquietava-o. Achava elle que o coração humano é frágil, mas também susceptivel de soldar depois de quebrado. E colheria outro o fructo que elle, com tanta sagacidade e fino estudo, não soubera conquistar?

Qualquer dos seus amigos, d’esses que blasonavam dos seus pergaminhos, se daria por feliz de nobilitar a galante menina, possuidora de tantos mil cruzados. Manuel em tudo pensava; mas, Adelaide? Como se haveria elle entre estas duas mulheres que lhe disputavam olhos e coração?

Findo o tempo de homenagem prestada á memoria de D. Candida, Paula não se esquivou mais á consolação de ouvir Manuel.

As lagrimas, caidas no seio d’elle, eram menos acres, mas caiam sempre, e vinham antepor-se aos gosos d’aquella alma extremosa, que em toda a parte via a sombra da carinhosa amiga, que lhe faltava.

    • Perdeste muito, minha Paula -- dizia Manuel, acariciando-lhe as mãos  --  mas, meu Deus! o teu soffrimento excede os limites racionaes. Dizes, --  e eu creio -- que sou uma parte essencial da tua existencia; que farias então, se te eu faltasse?

    • Não te sobrevivia Manuel -- respondeu Paula com intimativa, e continuou, com os olhos reluzentes d’um brilho desusado e subito --  atraiçoada por ti, que não és só uma parte, mas toda a minha vida...

    • Cala-te, doudinha! -- diz Manuel sorrindo, e levando-lhe a mão á bocca.

Paula susteve-se, e por momentos as suas faces conservaram o colorido que mais a alindava.

    • Sabes o que deves fazer, minha creança? --  continuou Manuel -- é ir passar algum tempo na tua quinta do Prado. Receio que adoeças aqui, debaixo d’estas funebres impressões, e que o meu amor não seja bastante forte para debellar o mal.

-- Já me lembrou isso, Manuel. Esta solidão, onde ha pouco havia tanto bulicio, atterra-me; mas tu deixarás de ver-me?

    • Deixar de ver-te, Paula! não sabes então como eu te amo! Que importa a distancia d’uma legua que se vence em meia hora n’um bom cavallo? Viverei lá mais comtigo do que n’esta casa onde a minha entrada póde causar-te desgostos que eu quizera evitar.

--  Pois sim, Manuel, parto ámanhã  --  diz Paula deixando pender a linda cabeça sobre o hombro d’elle.

III
Oito mezes depois, davam-se grandes mudanças. Paula resvalava n’essa ladeira mal segura de que nenhuma mulher no intimo da sua consciencia se levanta. O mundo sim, esse costuma fazer d’essas ascenções milagrosas quando o oiro o fascina.

Ella, porém, julgava-se a si, e acceitava espontaneamente o seu quinhão que tão caro devia custar- lhe ! Manuel da Cunha dera-lhe a sua palavra de que, mortos seus paes, a esposaria; e, se a não dera, nem por isso o amára ella menos. Sequestrada do mundo, sem affectos, sem outras ligações mais do que esta, Manuel era-lhe mais do que ella mesma suppunha. O seu genio melancholico, e desambicioso de prazeres nada queria d’essa sociedade, que a procurava hoje, tendo-a desdenhado hontem, e resolveu ficar vivendo ali para fugir-lhe completamente, entregando-se toda ao seu amor, estremecido e apaixonado.

Por este tempo, annunciava-se á venda uma casa magnifica toda cercada de jardins, feita por um brasileiro que, desgostoso da familia, destinou retirar-se. Sem dar peso aos juizos do mundo, Paula comprou a linda vivenda em nome do seu amante, e toda carinhos, pediu-lhe, ao entregar-lhe a escriptura, que a recebesse em sua casa.

Manuel foi grato a esta attenção; mas, por um capricho do coração humano, não podia esquecer Adelaide, que, por mais de um motivo, se lhe fazia lembrada. Adelaide estava convicta da infamia do homem por quem se perdêra, desde o appêllo que lhe fizera sentindo no seio o primeiro movimento do filho de ambos. Achando-o insensivel a esta nova, caiu n’uma apathia dolorosa, e não se atreveu mais a luctar.

Paula era feliz: imaginava-se amada.

Um dia levantou-se cedo, desperta por sonhos horriveis que toda a noite a flagellaram. Via Manuel no ponto culminante de uma eminencia tendo nos braços uma mulher que afagava: ouvia-lhe a voz, entendia-lhe as palavras, e debalde tentava correr, e se estorcia com phrenezi: não podia quebrar umas grossas cadeias que a ligavam. Para distrahir d’estas apprehensões, abriu a janella e contemplou a aurora a sair do seu manto, resplandecente de galas, fazendo rescender os aromas de mil flores, que a seductora vinha beijar. De repente feriu-lhe a vista um objecto, que pousava na larga soleira do portão, e que ella a principio não enxergára. Era uma destas canastras fechadas que os lavradores usam muito no Minho, para carga. Uma carta, e uma pequena chave, collocada em cima, excitou mais a curiosidade de Paula. Detinha-se a examinal-a, quando julgou ouvir um gemido. Chamou logo os criados, que correram, trazendo o fardo mysterioso, e a carta que era sobrescriptada a Manuel.

Paula rasgou o fecho com mão impaciente, e caiu n’uma cadeira muda de dôr e de pasmo. Adelaide entregava ao pae o filho, que ella não podia crear. Com um gesto imperioso, Paula despediu a gente que a rodeava, e foi depois n’uma tremura convulsiva abrir a canastra. O seu primeiro movimento, olhando a creancinha, foi de cruel repulsão; passado, porém, o momento da surpresa, tomou o menino nos braços, contemplou-o, e achegando-o a si «que culpa tens tu, innocente!?» disse ella com os olhos rasos de lagrimas.

A scena, que se seguiu a esta, foi terrivel. Paula quiz abandonar essa casa ao traidor, que a enganára tão desapiedadamente. Manuel debalde tentou apasigual-a; o excesso de afflicção foi tamanho que Paula, exhaustas as forças, caiu desfallecida, e assim a lançaram sobre a cama. Quando tornou a si, viu Manuel de joelhos, gemendo supplicante. O nobre coração da infeliz mulher patenteou-se. «Perdôo-te, Manuel, -- diz ella com voz meiga e firme  -- vae buscar o nosso filho.»

Procurou-se logo ama pelos arredores para crear o menino. Paula queria-o perto d’ella; amava-o já, adoptando-o como seu.

Apesar d’estas boas disposições, o seu viver perdêra a suave tranquillidade da confiança que lhe aformoseava a existencia. Lembrava-se, a todos os instantes, dos enganos em que andára illudida, duvidava sempre das palavras affectuosas de Manuel e as acções mais simples d’este eram desfiguradas pelo ciume atroz que a devorava.

Pobre Paula!

Quantas vezes a sua mão levou aos labios o veneno que escondia como o remedio extremo para o fogo que lhe consumia a alma!

Manuel conhecia o que se passava n’ella, avaliava aquella paixão intensa, mas começava a enfastiar-se de ver sempre aquelle olhar triste e desconfiado pezar sobre elle. D’aqui cresceram-lhe os infadamentos, e a reminiscencia trouxe-lhe mais vezes ao pensamento a imagem de Adelaide. Sentiu desejos de a ver. Não era ella a mãe de seu filho? Buscou as occasiões, e estas não faltaram. Adelaide, quando o avistou, abriu-lhe os braços esquecida de todo o mal, e Manuel, vencido d’esta doçura angelica, continuou a procural-a. Em sua casa, achava as cadeias tormentosas e pesadas d’um amor, que pretendia ser exclusivo na sua vida; fóra d’ella estava o encanto da sua primeira affeição, e a meiguice d’uma alma que se lhe entregava, nada. pedindo, desejando, e tendo direito a tanto!

Comtudo, Adelaide dissimulava. A sua resignação era apparente.

Sentia referver-lhe o sangue, com pensamentos ousados. Ultimamente, vencida por elles, e conhecendo o imperio que tinha tomado no animo de Manuel, decidiu-se a dar um passo insensato, que ninguem ousaria aconselhar-lhe.

IV
Era por uma linda e morna tarde de julho. Paula, nas horas em que Manuel a deixava, vagueava por aquellas ruas do seu pequeno parque, gemendo como a rôla solitaria.

A noite desdobrava-se vagarosa, e a lua cheia apparecia esplendida illuminando com o seu clarão prateado o cume das arvores onde os passarinhos se acolhiam regorgeando na guarida conhecida. O caminhar de Paula era moroso, e cogitativo, dirigindo-se a casa. A distancia de vinte passos, chamou-lhe a attenção o estrepito d’um cavallo.

Adiantou-se, cuidando ser Manuel, e viu, surpresa, uma mulher que desmontava com ligeireza, atirando as redeas sobre o selim do animal. Paula deu mais um passo, sem saber o que suppôr, quando a outra, voltando-se, a encarou com olhos penetrantes.

Aquellas duas mulheres, em frente uma da outra, tinham as almas pendentes dos olhares que se cruzavam. Paula adivinhou a rival.

Depois de dois minutos d’uma suspensão anciosa recobrou a voz, dizendo, ligeira mente alterada:

-- Que vem buscar aqui, sr.a D. Adelaide?

-- Venho -- responde esta com altivez  --  procurar meu marido, o pae de meu filho; retomo o que era meu, e tu me roubaste, mulher vil e infame !

Um clarão sinistro assombrou a fronte avincada de Paula.

-- Retire-se, senhora! -- disse ella com dignidade, apontando-lhe para a porta, e continuou:  -- Manuel da Cunha é livre para seguir o caminho que lhe convenha. Se os seus direitos são mais sagrados do que os meus, faça-os valer; mas lembre-se que se avilta, fazendo-o n’esta casa.

-- Engana-se -- tornou Adelaide com força -- queria com os seus artificios continuar a roubar-mo? ! Não: é uma resolução suprema; aqui esperarei Manuel; d’aqui não saio.

Dizendo isto, deu dois passos, tentando entrar. Paula estendeu o braço a impedir-lh’o quando uma mão lh’o fez baixar. Era Manuel, que presenciára esta curta scena, admirando a força que o amor inspirava á meiga e doce Adelaide. Esta, apenas o viu, correu para elle; Manuel baixou os olhos diante do olhar chamejante de Paula que a contemplava de braços cruzados; e disse commovido:

-- Paula, eu sei que sou um miseravel; mas tu és uma alma generosa; has de perdoar um crime de que só o coração é culpado. Enganei-me, e enganei-te a ti. A minha esposa é esta diante de Deus e dos homens. Hoje fico aqui, mas ámanhã deixo-te na tua casa.

Paula, a esta linguagem, comprimiu as pulsações horriveis do coração que sentia despedaçar-se-lhe. Encostou-se estatica e muda ao umbral da porta, e viu-os subir juntos, n’esta somnolencía de espirito que torna mais forte a reacção. Logo que os viu desapparecer, levou as mãos á testa, onde havia o ardor do inferno que dentro lhe ía, e soltou um grito sobre-humano. Quasi demente, correu após elles, e chegou á porta do quarto de Manuel, no momento em que a fechavam á chave.

-- Oh! que infame, que infame! murmurou ella com voz surda.

Começou então para a infeliz uma d’essas noites em que se descrê do céo, e a bocca só se abre para gemer e blasfemar.

Desvairada, corria por toda a casa, dando gritos medonhos e abafados, repellindo os criados que a olhavam espavoridos, e obrigando-os com ameaças a deixal-a. Depois d’esta excitação, vinha a atrophia moral que a prostrava, e momentos depois a recordação, como seta aguda, a fazia antes voar que correr, a ouvir os murmurios d’aquelle quarto!

Manuel não dormia, nem Adelaide. Pela primeira vez sentia o homem o remorso pungir-lhe na consciencia, e não achava argumentos com que socegal-a.

«Manuel  --  dizia Adelaide a medo -- não ouves tanto ruido, um alvoroço tão grande n’esta casa?

--  Socega que não é nada:  --  respondia elle para a tranquilisar -- é o cão que está aqui perto.

Ao amanhecer, Adelaide cançada das commoções da noite, adormecera, e Manuel levantou-se então mansamente, resolvido a ir chamar alguem que o coadjuvasse na saída. Temia o exaspero de Paula; sabia quanto ella o amava.

Abriu a porta, e pé ante pé, foi colar o ouvido ao quarto da infeliz -- Descança talvez, -- disse elle, não ouvindo movimento algum, e descendo a escada.

Paula estava immovel sobre um sophá; mas, sentindo passos, saiu pela quarta ou sexta vez do lethargo. Pareceu-lhe que saía d’um sonho doloroso; eram visões creadas pelo seu espirito; não podia crer na realidade. -- Vamos !  --  diz ella, -- Manuel dorme; mas elle me agradecerá acordal-o para me socegar.

Desgraçada!

Levantou-se, e correu ao quarto do seu amado infame. A um leve empuxão, a porta cedeu, e Paula caminhou até junto do leito. Á vista d’elle, recuou quasi cega e assombrada. Adelaide dormia com o seio descoberto, e os braços pendentes, agitando-se n’um sonho afflictivo. Paula reanimou-se. Caminhou segunda vez para o leito, e ouviu-lhe sair por entre os dentes cerrados:

«Vem Manuel, vem... fujamos !»

Paula contemplou-a assim tão linda, e cravou a vista no travesseiro onde estava o signal de que a cabeça de Manuel ali pousára. Empallideceu até ao jaspe; e levantando os olhos com resolução para a parede onde estava, preso por um laço de setim, o florete de Manuel, «nem eu, nem tu !» disse, e cravou o ferro com mão firme no coração de Adelaide Esta reergueu meio corpo, abriu uns olhos já embaciados pela agonia, e caiu para traz sem soltar um gemido.

Um sangue quente e vivo, borrifou as faces da assassina. A este contacto os cabellos de Paula eriçaram-se-lhe na cabeça, e um grito medonho e terrivel resoou.

N’este meio tempo, Manuel, opprimido por um presentimento oppressivo, retrocedeu, chegando a tempo de presenciar o final d’esse drama.

-- Paula! Paula! que fizeste -- gritou elle juntando as mãos com desespero.

-- Tanta gente... tanto sangue! -- dizia ella  --  este vestido vermelho não é proprio de desposada... Afastem-se: a noiva de Manuel da Cunha sou eu... ai! é preciso escondel-o; não venha essa mulher roubar-m’o.

Estava douda a criminosa, e assim viveu alguns annos.

Manuel da Cunha sobreviveu-lhe muito. Teve tempo de arrepender-se, e chorar com verdadeira contrição os seus crimes, pedindo perdão ás victimas que não podiam escutal-o. Expiaram todos; e seriam todos criminosos aos olhos do Senhor?

A campa esconde o segredo do julgamento divino.


RECORDAÇÃO
Ai! tu porque soluças? porque choras?

E que piedade o peito te enternece?

Devo ser hoje em victima off'recido
Como a filha de Jephte, e com o meu sangue Applacar o Senhor, acceso em ira?

Racine (Athalia).

I
« Desgraça a ti, mulher inspirada, que soubeste arrojar-te ás alturas do genio, ensoberbecendo-te com uma soberania, abastardada em ti, e que o homem te nega! Desgraça a ti, se abraças a harpa da poesia com cego impulso, e te transportas a esse mundo de que te arrastam pelos cabellos, até baixares ao lodaçal asqueroso de que não devêras sair nunca « para conhecer a felicidade. Louca! Esconde esses thesouros do teu espirito; sê avara dos teus gemidos e aspirações, se não queres que te escarneçam, e te apontem, como aspide venenosa na sociedade! Guarda para ti essas joias scintilantes de que alindas as regiões que julgam te são vedadas, esses que te apontam com risos e esgares de ironica piedade!

« Escuta-te a ti na hora inspirada; quando a consciencia te falla, suspira sósinha na viuvez da tua alma. Aceita, sorve esse fel sem queixume, quando t’o chega aos labios a mão que tu beijaste, infeliz!

« Dependencia! palavra maldita. Se não fosses tu,chamar-me-iam ainda anjo, e santa, e o typo da mulher nobre que conhece as suas faltas e chora não poder reparal-as. Agora, que és tu? Uma creação diabolica! -- Eva, cedendo á tentação da serpente, ouvindo as queixas do Adão, que, menos forte, se precipitou com ella.

« Acreditei em ti, Angelo! As tuas palavras eram-me a taboa da lei; quiz salvar-te da escuridão em que vivias, sem luz, sem esperança... não era isto o que me dizias? E perdi-me... Para que me enganaste? Para que aceitaste o meu amor, tão exclusivo e apaixonado, se presentias a quéda do teu coração infiel!? Porque me illudiste com chimeras até ao momento em que te vi a face toldada, e desfigurada, pela indifferença que ahi estava escripta ? E eu sempre a amar-te! Sempre a pensar no teu enfadoso viver, sempre a reforçar-me de coragem, e sem poder nunca dizer-te:  -- Sou eu que desato estes laços, para ti tão pesados, que te privam da liberdade. -- Recaia sobre mim o odioso, já que te fallece força para o supportar. O meu coração, cheio de uma poesia mysteriosa e amante, via-te no mundo como a obra perfeita de Deus, digna de toda a minha adoração e vassalagem. »

Marianna acabava de escrever estas paginas no seu album intimo. Uma tremura nervosa tomou-lhe o braço; a penna fugiu-lhe d’entre os dedos, e insensivelmente as mãos subiram a encruzar-se sobre o seio agitado por violenta pressão, emquanto a cabeça pendia para trás na espalda da ampla cadeira de estofo carmezim.

Foi assim que a encontrei, e fui devassar os segredos d’esta pobre victima de um destino malfadado.

Marianna ainda não tinha trinta annos. Era filha de um cavalheiro distincto do Minho, que á hora da morte recebeu a sua criada Eugenia, para perfilhar Marianna, lindo anjo de tres annos, que elle amava como sua filha unica. Deixava-lhe assim não grande riqueza, mas um nome respeitado, e a mediocridade decente.

Annos depois, Eugenia succumbiu a uma attração de coração, e, esquecendo o porvir de Marianna, entregou-se aos seus amores, não cuidando das rendas foreiras que faziam a maior parte da sua fortuna. Achou-se por fim roubada. Restava-lhe apenas uma quinta, distante do Porto tres ou quatro leguas, para onde se retirou, quando lhe faltaram outros recursos.

Marianna estava nos quinze annos. Herdára de seu , pae o porte distincto da sua nobre raça, e a altivez de coração que não mercadeja hypocrisias com a sociedade. Amavam-n’a os parentes por isso mesmo, com quanto lhe não perdoassem ser fllha de tal mãe. Creada assim, com uma educação apoucada, quasi a sós comsigo, de uma indole melancolica e meditativa, raro era que a seus labios assomasse o riso espontaneo de tal edade. Amava e respeitava sua mãe; reconhecia, porém, n'ella uma incoherencia de sentimentos, que a faziam chorar o protector que tão cedo lhe faltára. Fugia dos campos, e folgava de ir sósinha ao descair da tarde sentar-se nos cerros solitarios, e de lá interrogar a amplidão dos céos. Achava a terra um portento de maravilhas sublimes, mas embebia-se em outros scismares, que lhe davam mundos ficticios, a par dos quaes escurecia o positivo em que se encontrava só, sem uma alma que a amparasse.

D. Eugenia -- assim lhe chamavam depois de nobilitada pelo fidalgo  --  conheceu magoada o que se passava no coração de sua filha, comprehendendo a necessidade de chamal-a a distracções que a sua vida retirada não podia dar-lhe. Lembrou-se então d’um Recolhimento, onde, junto á convivencia de outras meninas da sua edade, ia achar Marianna o estudo, para que ella tinha decidida vocação.

Entrou Marianna no Recolhimento das orphãs do Porto, e achou-se de repente aquecida por um sol vivificante. Os livros, os estudos, serios de mais para mulher, que ella exigia com pasmo dos mestres, levavam-lhe o tempo veloz, descuidado, e feliz. A sua indole, ainda assim, não mudára. Era sempre a mesma scismadora Marianna, convivendo pouco com as companheiras, que desgostadas com isso, e com apontar-lh’a a regente, como exemplo estudioso e socegado, passaram a chamar-lhe a « phylosopha. »

No fim de cinco annos, já Marianna se tinha emancipado do refeitorio, e dos mestres, vivendo sobre si no seu quarto, ou casa, como lhe chamavam.

D. Eugenia quiz leval-a para a sua companhia; mas Marianna chorou, e pediu com instancia e firmeza, e conseguiu ficar. Entregue sempre ás suas contemplações, parecia-lhe o mundo despovoado.

Aos domingos, á hora de recreio, cravava ella os olhos nas moitas de alecrim, e lilaz, que bordam as ruasinhas curtas e mesquinhas do jardim de S. Lazaro, unico passeio publico do Porto, que defronta com o Recolhimento. Do centro d’esses bosquesinhos via ella sair muitos homens, um como enxame de abegões, zunindo, e volitando no circulo debaixo dos seus olhares. Fatigava-a o doudejante enlevo d’alguns, tanto quanto aborrecia os de olhar desdenhoso que passeiavam com sobranceria altiva; e retirava-se enfastiada da janella, fugindo sósinha para a cêrca, ou para o seu quarto onde o espirito se lhe deliciava nos panoramas brilhantes da phantasia.

Foi n’esta epoca que o visconde de*** veio da provincia encerrar ali sua filha Julia, retirando-a d’uma afeição que deslustrava sua alta prosapia.

Julia, depois do primeiro momento de atrophia cruel, apertada com o doer da saudade, resolveu vencer os obstaculos que a violencia impunha ao seu amor. Olhou á volta de si, e viu Marianna toda afagos e commiseração nos lindos olhos que se fitavam docemente na lacrimosa companheira. Lançaram-se nos braços uma da outra, e pela primeira vez ouviu Marianna os soluços da paixão arrancados no convulsivo estremecimento da dôr.

Era de um toque especial e muito para se ver esta scena pathetica, que apertava duas almas no communismo da sympathia.

Julia, já de si rica com os attrativos que devia á natureza, estava de encantar n’aquelle desafogo intimo e expansivo, em quanto Marianna a aconchegava ao seio, afastando-lhe os cabellos soltos que lhe escondiam a face, e perscrutando com piedosa curiosidade o segredo tormentoso d’aquella grande afflicção.

Julia era linda e insinuante, d’aquella garridice natural que tão bem condiz nas pessoas que, sem serem fatuas, conhecem o seu valor. Marianna era o perfeito constraste d’ella. Não menos formosa, via-se- lhe como passar na fronte espaçosa e liza, atravez da pelle fina e rosada, os pensamentos arrobados, as inspirações grandiosas, e a par d’estas, que singeleza d’alma, que transportes para o mundo ideal, que avistava nos seus sonhos, e que desdem tão candido e feiticeiro pelos dons que possuia em si, sem reparo, e pelos que a sociedade podia dar-lhe !

Desde então, nunca mais se deixaram. Marianna era tão querida de Julia, que esta não podia dispensal-a um só instante. Julia fallava muitas vezes na sua emancipação, de que não estava longe, pela edade; contava a Marianna todas as suas esperanças, e promettia-lhe um futuro risonho e feliz, se quizesse ir viver com ella, e testimunhar a ventura que a esperava.

Bem sabia Marianna que estas offertas eram de coração, mas a orgulhosa menina abanava a cabeça suspirando.

O visconde de*** dera ordens terminantes á regente para que sua filha não podesse corresponder-se com o homem que jurára roubar-lh’a; deixando-a, porém, debaixo de vigilancia, receber na grade as pessoas que a visitassem, o mais d’ellas parentes, ou amigos velhos da familia.

Julia apresentava a todos a sua amiga, e via com bons olhos quanto a festejavam.

Uma tarde, que passeavam na cerca as duas meninas, dando-se conta dos mais intimos pensamentos, veio a creada de Julia dizer a esta que alguem a procurava, entregando-lhe um cartão que não continha mais que um nome em relevo escuro: angelo.

Julia bateu as palmas com alegria infantil, e quasi sem fallar foi correndo, e arrastando Marianna. Esta deixava-se levar d’aquella attracção de risos que doidejam aos vinte annos nas nossas almas. Caminhavam, pois, galhofeiramente dispostas a ver o personagem excentrico que se assignava assim, desafiando a curiosidade. Já com a mão no fecho da grade, Julia parou como impellida pelo dom magico do presagio. Sacudiu o braço de Marianna, e disse-lhe: « Escuta Marianna!... se não queres amar, foge, foge dever Angelo. » Marianna sentiu uma pancada violenta no coração que a fez empallidecer, mas recobrando logo a serenidade do seu espirito « vamos, diz ella, não sejas avara, deixa-me ver essa maravilha. » Entraram.

II
Seis mezes depois, tudo no viver de Marianna, até ahi tão socegado e tranquillo, tinha mudado. A prophecia de Julia cumprira-se. Amava Angelo, amava-o perdidamente com a dedicação e o transporte d’uma alma na força primitiva de um primeiro e virginal affecto.

Angelo, pela sua parle, enlouquecia pela mulher que satisfazia as poeticas illusões dos seus primeiros annos. Olhava para o seu passado, agitado por mil convulsões amorosas; procurava ali nas cinzas revoltas as suas crenças esquecidas, e achava-as !

A historia do seu coração era longa e infeliz.

Orphão de paes, senhor de uma grande fortuna, com um nome illustre, que mais podia ambicionar este homem, que devia ainda á providencia um espirito distincto, e uma figura nobre e expressiva? E, comtudo, Angelo lamentava-se.

Nunca encontrára -- dizía elle -- senão cardos debaixo das moitas viçosas que lhe refloriam a vida. Após sempre de uma imagem que tantas vezes lhe illudia a mente escandecida, e se lhe escoava dos braços quando a razão lhe mostrava a nudez da creatura, Marianna era-lhe agora um novo ser, uma creatura excepcional.

Angelo tinha viajado muito. Viu os requebros e a graça exquisita das elegantes parisienses, o olhar morbido e seductor das formosuras peninsulares; conhecia porém que Marianna estava mesmo longe de soffrer uma comparação em lindeza e espirito.

Era elle primo direito de Julia, por sua mãe.

Instigado pela sua bondade natural, sabendo dos desgostos d’ella e do visconde seu tio, quizera concilial-os; e, para tomar uma parte activa em tal negociação, procurou sua prima, como vimos.

Esqueceria-se, porém, n’esse mesmo dia a contemplar Marianna, se Julia o não chamasse repetidas vezes á sua situação, fallando-lhe no que mais a interessava. Angelo, conhecedor do coração humano, viu que o de sua prima estava refractario ás theorias que vinha disposto a fazer-lhe ouvir. No seu entender, que bastos exemplos confirmavam, o casamento era para o amor, ainda o mais sublime, o caroço de uva que matou Anacreonte. Ainda assim fez-lhe observações sensatas, e comprometteu-se, sem responsabilidade do futuro, a trabalhar para que o visconde annuisse aos votos de sua filha.

D’esse dia em diante era certo Angelo, todas as tardes, na grade.

O visconde, convencido por elle de que Julia era immudavel, e que nada mais fazia que retardar-lhe alguns mezes o que ella ambicionava, escreveu a sua filha dando-lhe o consentimento, e communicando-lhe que breve a vinha buscar.

Foi custosa a separação das duas amigas, e mais seria se cada uma d’ellas não estivesse repartida por outras aspirações. Julia ia após a borboleta caprichosa da felicidade; Marianna ficava no enlevo do seu primeiro amor.

Que diremos de Angelo? Achava-se envolvido n’uma nuvem vaporosa e embriagante. Conhecia o poder que exercia n’aquella mulher tão grandemente fadada, e essa mesma superioridade de espirito lhe fazia antever que ella se arrojaria com elle aos horisontes infinitos da paixão que tudo cala.

Não culpemos o homem quando elle assim se arroga o poder de Satanaz, arrastando a um sorvedouro maldito creaturas predestinadas a cairem ao abysmo, por uma sina fatal.

Quem ousará tomar-lhe contas ?

Angelo, depois da saida de Julia, viu-se na necessidade de ser menos assiduo, e escrevia a Marianna longas cartas repassadas de sentimento.

Esta era inexperiente, nada conhecia do mundo; mas o seu espirito pensador adivinhava-lhe as ciladas. O que ella, porém, não podia, na sua adoravel ingenuidade, era duvidar da paixão de Angelo: tão identificado o achava com todos os extasis do seu coração, de que elle era o primeiro a fallar- lhe.

Esta situação não podia espaçar-se mais. Marianna não tinha ninguem no mundo; a affeição de sua mãe tinha-se resfriado com a separação, e D. Eugenia raras vezes procurava sua filha.

A quéda era certa: choremos o anjo, e ouçamo-la na seguinte carta:

« Angelo, eu sei que és rico, mas, por Deus! nunca me falles nos teus thesouros porque elles diante da minha alma nada valem. Se me offerecesses uma casinha coberta de colmo na encosta de um « monte solitario, eu respondia-te com mais intimativa, e mais crente na felicidade.

« Escuta-me, meu querido Angelo. Já podes ouvir-me desde que estas primeiras linhas devem ter acalmado essa grande agitação que se debatia n’um doer que me chegava. O meu coração é teu, ha muito, assim como a minha vida. Hoje, dou-te mais, dou-te a minha unica riqueza, dou-te a honra; sacrifico por ti este nome puro, e immaculado, que me legou meu pae. Eu já não combato as tuas idéas. Sei que no altar da minha alma cáe o juramento sagrado de seres meu; como eu me sinto orgulhosa, com a submissão, e apaixonada ternura de esposa ! Mas olha, meu amigo, eu não sei se o céo tomará parte nas iras da sociedade, e tu um dia, ligado a ella por liames mais fortes que os meus, te arrependerás de um mau passo.

« Eu de mim, sei o que posso comigo mesma.

« O absurdo de um rompimento entre nós, estabeleçamo-lo, se queres. Eu morrerei; mas tua amante, Angelo, tua escrava!

Marianna.»

Angelo, n’essa mesma tarde, ébrio da ventura que não lhe cabia no peito, apeiou de uma sege á portaria do recolhimento, e recebeu nos braços a tremula menina. Commovida, ia ella, mas não assustada. Forte na sua confiança e abnegação, entregava-se prompta a transpôr os escolhos que podiam assombrar-lhe a existencia. De delirios, e gosos suaves de espirito lhe foi ella, até que a mão de ferro do destino lhe pezou sobre a cabeça, tres ou quatro annos depois.

Angelo, não diremos que aborreceu Marianna, mas enfadou-se d’aquelle viver monotono, que fizera as delicias dos primeiros dias do seu amor. Enfastiado, detestou a penetração da infeliz que não se prestava ao engano. Se ella, no excesso de uma dôr sem limites, arrancava do seio um gemido oppressivo, Angelo interrogava-a com azedume, perguntava-lhe que mais queria fazer da sua vida, e se era elle a victima dos caprichosos devaneios da sua phantasia. Marianna, cravava os olhos no céo, estorcendo as mãos em silencio. Angelo então, debaixo de uma influencia satanica, redobrava de crueldade: queria, precisava ouvil-a. Assim a voz de Marianna elevava-se vibrante de commoção e de eloquencia apaixonada. Algumas vezes, Angelo caía diante da força persuasiva d’aquella nobre mulher que elle no intimo de sua alma presava. Outras, vencia o seu demonio, e ficava-lhe depois o remorso, e o pejo de atormental-a sem causa.

Por mais de uma vez, Angelo se tinha separado d’ella por alguns dias; e n'esta occasião fez-lhe ver a necessidade de ir até Lisboa cuidar de uma demanda que lá trazia pendente. Marianna não se oppoz. Viu-o partir com a pallidez na face, ambos mudos como o sepulchro que os chamava.

De lá escrevia-lhe Angelo diariamente, procurando mitigar as saudades de Marianna, promettendo-lhe um futuro deslumbrante.

A pobresinha, porém, já não podia illudir-se. A estas magoas occultas que a laceravam, veio juntar-se mais uma. D. Eugenia morreu, sem abraçar sua filha, mas perdoando-lhe.

Marianna succumbiu a tantas dôres. Caiu de cama com uma febre aguda, que dias depois tomou o caracter assustador de um typho, de que ella não devia restabelecer-se mais. Sempre fraca, e debil depois da doença, aconselharam-lhe os medicos a saida da cidade. Marianna aceitou o convite, e partiu para o solar dos seus antepassados.

Foi ali que eu a conheci n’uma primavera que fui passar ao campo, quando o meu espirito a sós comigo vagueava como os meus passos andando uma legua sem cançar. Ligou-me a ella, mais que a admiração e sympathia, o condão fatidico que ella exercia sobre todos que a contemplavam. Quando sai animei-a a esperar da bondade divina a compensação do martyrio.

Marianna ouviu-me com o sorriso triste da desesperança, e apontou-me para o pequeno cemiterio da aldêa que escondia as cinzas de sua mãe...

Poupem-me as almas piedosas a evocar todas as reminiscencias que me choram no coração, pela pobre martyr...

Tres mezes depois, aquella alma remida pelas agonias do seu muito padecer, caía aos pés de Deus, e eu recebia uma carta de lettra que reconhecia pela ver nas mãos de Marianna.

« Não amaldiçoe o desgraçado, minha amiga. Consinta que a chame assim, apegando-me a todos os vestigios, a todos os echos que me faliam do anjo.

« Só o desafogo pode salvar-me, se salvar-me é arrastar nos espinhos do meu caminho uma vida odiosa e infamada.

« Saio para sempre de Portugal, onde me fica o thesouro que eu, reprobo do céo, desprezei. Levo no coração a ferida que ha de matar-me. É a imagem da infeliz tomando-me as mãos, e sorrindo-me no adeus final.

« Como eu amei Marianna! como ainda a amo, já fria, já cadaver... É o phrenesi da demencia...

« E matei-a... Quando soube que ella me occultava o seu estado, abriram-se-me os olhos á minha cegueira, conheci o que me era aquella mulher sublime e privilegiada. Corri, quiz salval-a; era tarde.

« É a punição de Deus que começa agora para mim.

« Aqui tem o carrasco ajoelhado diante d’aquella que enchugou muitas lagrimas ao anjo; pede-lhe uma palavra de perdão, e de paz.

«Angelo.»

Respondi a esta carta do infeliz que eu não devia conhecer nunca. Soube, passado longo tempo, que morrêra em Hespanha passando os seus vinculos e haveres a um parente remoto.

Pouco sobreviveu a Marianna.

São tão vulgares estes quadros, que o romanceal-os é já uma impertinencia !

Mas taes quadros serão menos raros, quando cada innocente souber a historia d’uma criminosa.


PROPHECIA NO LEITO DA MORTE
« As tempestades que de presente padeço em minha sorte, não me deixam admittir imaginação mais serena: sendo sem duvida de maior perigo as iniurias do animo, que as da vida.»

D. F. Manuel  --  Epanaphoras.

Aspirar o veneno da dor na deleitação feroz do exaspero e da saudade excruciadora do passado, só o podem aquelles que, orphãos mesmo no pequeno mundo dos infelizes, pediram, debalde, á terra: paz, e misericordia; ao céo: esperança, e conforto.

Conheci e amei uma destas creaturas que a fatalidade marcou no berço. De muito creança tenho eu reminiscencias de D. Margarida Emilia Freire de Andrade: era o nome d’ella. Herdou, com o nome illustre, brios e elevação de caracter rara, de que os seus avoengos seriam no tumulo orgulhosos, como o foram de grandes feitos em remotas eras, se bizarras tradições não mentem.

Era-lhe adorno, junto á formosura, um espirito vivo, uma intelligencia não vulgar, e o dom da poesia; mas d’aquella poesia sentida, que brota em jorros de eloquencia, brilhante como a chamma que se apega brandamente ao estofo, e de repente céga a vista com o seu clarão inflammado: eis o retrato mal esboçado d’aquella alma superior.

São passados dezesete annos, e eu estou-a ouvindo ainda n’um desses momentos em que a inspiração a bafejava, e a sua nobre figura, que o farto vestido preto escondia, ganhava muito de encantos, deixando a posição habitual que a curvava um pouco para a terra. Vejo-lhe os olhos, grandes, negros e meigos, cobertos como de um véo de lagrimas, por entre os quaes faiscava o genio, do qual se lhe via o reflexo na fronte liza e espaçosa.

Fadada com tantos attributos significativos, na infancia de um destino risonho, aos olhos d'aquelles que lhe admiravam a sisudez precoce, e o discernimento são e improprio dos annos; quem agouraria áquella gentil Margarida, que se deixava namorar voluptuosamente do seu Douro, em cujas margens nascera, e tanto gostava de cantar; quem lhe agouraria o fundo calix de peçonha, que o mundo, com as suas terriveis e insondaveis peripecias, com o seu arcar monstruoso contra as creaturas privilegiadas, a forçaria a sorver?!...

Levantar a coberta emblematica e mysteriosa da martyr, atirando a indifferentes o segredo doloroso de tão nobre victima, custar-me-hia o remorso fundo e nunca perdoado... Respeitem os que soffrem a memoria dos que muito padeceram.

Vivia D. Margarida só, longe da mãe e das irmãs mais novas, que lhe desconheciam os enlevos, os extasis para um outro mundo, e o suspirar incessante pelo que se não encontra neste. Pae, pouco o conhecera ella. A sua meninice passára-se no recolhimento de Nossa Senhora da Esperança, vulgarmente dito das Orphãs, entre companheiras folgasãs e despreoccupadas inteiramente do que a tornava scismadora a ella.

Mais tarde, a mão da desgraça assentou-lhe em peso, e houve muito quem quizesse sondar-lhe a chaga, e refrigerar com o balsamo de consolações, estereis para as grandes almas, o ardor das agonias. Margarida, porém, afóra os momentos em que se transfigurava no parecer como as prophetisas das lendas, calava com ella o bramido flagellador, e sorria ás facecias dos filhos predilectos da sociedade esclarecida.

Muitas vezes, sentada eu muito perto do seu seio, a ouvi discorrer sobre as falsas conjecturas do mundo, e suas traiçoeiras e loucas exigencias de felicidade !

Tinha ella por mim uma destas affeições que tocam no extremo; e creio não mentir, affirmando que me queria como se eu fora sua filha.

 « Pobre anjo! -- me dizia ella puxando-me paro seu coração, e afastando-me da testa os anneis de cabello, que me cobriam as faces -- escutas-me como se quizesses que as minhas palavras te ficassem gravadas, e infelizmente não podes comprehender o que tenho aqui!... Presinto as tempestades em que tens de soçobrar tão rica do que nos faz pobres!

Adivinho-te a força na lucta, mas haverá ahi mão valedora que te salve? Deus!... Deus apontou-te uma gloria, mas gloria que eu não quizera chamar tua, ainda que grande e merecida. Vejo, sei que serás desgraçada quando pizares as flores desta tua primavera tão viçosa, e o sol do espirito te aclarar um horisonte infinito.

A tua innocencia seduz-me, o teu destino, por isso mesmo que os olhos de alma o antevêem, attrahe-me como me attrahem todos os abysmos que eu contemplo engolphada na fascinação. Encontro- me hoje em ti, quando o meu céo se povoou de estrellas e os seus raios me enebriaram de gosos e esperanças puras, que o mundo perverteu. Ah! eu não te digo que fujas das seducções, que te encantam os olhos e a pureza das aspirações! De que serviria isso?! O dique que mão humana tenta contrapôr ao rio caudaloso, serve-lhe acaso de barreira, quando a correnteza mais brava pelo impeço, lhe bate de envolta, levantando-o no marulho, e precipitando-o com ella na torrente?! Assim, a tua sentença está escripta, infeliz. Leio-a no teu semblante fatidico, nesse ar de meditação, que prescruta já os mysterios da vida, e no alheamento em que vas aos folgares, e se te suspende nos labios o sorriso !

Queria; mas sei que não posso assistir aos paroxismos da tua ventura: e encontrarás tu um Cyreneu que metta o hombro á tua cruz, filha da minha alma? Repara, vês aquelle homem que está ali, sempre ali, e sempre absorto em pensamentos só delle? É um desgraçado que nasceu tambem debaixo de uma constellação maldita. Elle caminha, talvez, já no seu occaso negro, como eu marcho tambem, e sem que as trevas me intimidem.

Naquella fronte bella e pallida, ha um annuncio sinistro; ha o poder da razão luctando com o poder supremo, ha Deus a matar-lhe aqui a alma que quer remir na patria dos infelizes.»

Longe fôra eu se acordasse na idéa todas as palavras e recordações que ahi estão de D. Margarida. Resta-me dizer que se cumpriu o vaticinio. Via-a cadaver a ella aos trinta e quatro annos, com uma pthysica polmunar que lhe foi levando em golphos de sangue os alentos vitaes, mas não os do espirito, que ella conservou até final, talvez com um tacto mais fino e apurado.

Morreu sósinha, longe de mãe e parentes, como tinha vivido:

Poucas horas antes de expirar, quando a morte já tinha imprimido todos os seus signaes naquelle rosto ainda formoso, chamou-me junto delia, limpou-me as lagrimas com a ponta do lençol humido e frio do suor agonisante, e disse-me com voz convulsa e fraca, apontando para a garganta: -- « sinto-a aqui !... só levo do mundo, que me foi verdugo, saudades tuas.

« Queria deixar-te como recordação duradoira as ruinas onde estão gravadas as armas dos meus antepassados, mas nem isso me é dado…..Não chores minha filha: eu vou descançar, e pedir a Deus que adoce o teu calix.»

Foram as suas ultimas palavras.

O homem apontado por ella, aquella sombra da minha infancia, a que eu só ouvi duas palavras que
nunca pude esquecer	 morto, morto depois da
terrivel escuridão da demencia, e quando lhe sobejavam incentivos para ser querido do mundo, e dos que lhe conheceram o valor do coração.

Sou eu a ultima. E que direi eu de mim, ó Margarida?

Cumpre a promessa sancta: que teu espirito desça a mim n’um raio de luz, e o Senhor, que te escuta as preces, perdôe ao meu algoz, e me acceite a purificação de dezoito mezes de agonias.


MARTYRIOS OBSCUROS
A moral é a base da sociedade ; se tudo, porém, é materia em nós, não ha realmente vicio nem virtude, e por consequencia não ha moral.

MR. DE CHATEAUBRIAND. O Ge-nio do Christianismo.

Para o desgraçado, que tem haurido a ultima gota do seu calix com a consciencia segura das agonias immerecidas, resta ainda um lenitivo grande. Deus escutou no calvario o peccador arrependido, e deu-lhe o ante-gosto das delicias do céo.

É quando a alma desgarrada vae acoitar-se espavorida na mansão nevoenta do imprevisto. Esperar, é ter fé e crença. É fugir ao mundo sedento de oiro, e de prazeres amargos na consciencia: é buscar, com ancia, o saboroso manjar dos anjos. Bem unico restante ao infortunado, ninguem póde roubar-lhe este contentamento santificado pelo martyrio, e que se lhe vae infiltrando progressivamente n’alma, até romper em brados animadores da esperança. Ai do infeliz, se esta phase fosse uma utopia que só lhe alimentasse o espirito com tantas visualidades creadas, cujo deperecer traria a morte de tantas grandezas sem macula, ás quaes se ala a imaginação depois de conhecido e experimentado o bem e mal. que rege a humanidade.

Achava-me eu n’este lance, ha dezoito mezes. Pouco antes, rodeada de familia, opulenta de carinhos e afagos, achei-me de improviso nas trevas escuras da orphandade e do desalento. A mão providente, que me amparára dias de existencia, caia ao longe enfraquecida pela dôr de não segurar as esperanças que fugiam !...

Eu era mãe, e, para fartar a raiva surda e implacavel dos gerados n’um só sangue, sorvia o fel amargoso da separação d’essa parte da minha alma -- do meu filho que me enchugava as lagrimas.

Um dia, cheguei á portaria d’um convento quasi em ruinas. Aberta essa porta, que ia roubar uma joia inestimavel ao meu thesoiro d’affectos, arrancaram-me o meu filho de sobre o coração, sofrego d’aquelle bem; apertaram-me braços desconhecidos onde caí sem alento, soltando um gemido abafado como em resposta ao chorar do anjo que me estendia os bracinhos atravez das grades.

Nada mais sei. Entre mim e o mundo descêra uma mortalha. Faltou-me a vida. Conduzida em braços á cela que devia habitar, abri os olhos esquecida, fitando com espanto tudo o que via, e se passava ao redor de mim.

Não havia ali logar para mais gente, e eu, caindo em mim, achava-me só. Só! n’aquelle mundo de trinta pessoas que ia assistir impassivel á agonia lenta e desesperada da minha saudade! Em todos aquelles rostos estava escripta a indifferença acostumada a vêr lagrimas queimarem o viço da face. Esta consideração irritou a dôr que me alanceava.

Chamei a abbadessa com um gesto, e pedi-lhe um momento de repouso e de soledade, de que eu contava tirar forças para tamanha afflição.

Deixaram-me.

Cai no aniquilamento moral, n’aquella atrophia que nos regela o pensamento e a vontade. Chamára antes pela morte, trocára com ella osculo amigo, afagava na mente o refugio seguro das tempestades da existencia, a sonhada eternidade do justo.

N’este cahos de espirito não senti abrir a porta da minha cela, e estremeci ao contacto d’uma mão fria e descarnada, pousando-me na testa ardente onde por momentos passára o delirio. Voltei um pouco a cabeça, e vi, em frente de mim, uma mulher que avultava pela pallidez e marmoreo da face, por onde o esplendor da mocidade devia ter passado ha muito. Aquelle olhar mavioso, que brandamente actuava sobre mim, as vestes singelas e magestosas que a enroupavam, tornavam-n’a aos meus olhos e espirito febril uma visão sobrenatural. Escutei assim, n’um spasmo de duvida, a voz tremula que me fallava:

« Pobre creança! não te entregues assim á dôr que mata. Tu choras o caminho percorrido, eu suspiro pelo final repouso, que já se me vae alongando! Desafoga no meu seio, filha; deixa cair aqui as tuas lagrimas, n’esta urna funeraria velada pelo anjo do infortunio.

« Hoje, não; socega, filha. Ámanhã hei de distrair-te os pesares contando-te as minhas magoas; bem mais acerbas do que as tuas. Quero abrir-te o sanctuario fechado ha trinta e dois annos! Socega... Lá toca a matinas. O côro dos archanjos e a paz do senhor seja comtigo.»

No dia seguinte, soavam seis horas no relogio da torre, e eu caminhava ao lado de Angelica, debaixo da arcada do claustro. Sentadas depois á sombra d’uma pereira que sobre nós inclinava os seus fructos sazonados, escutei uma singela historia que eu não pude esquecer; tão branda ás impressões de alheias dores estava a minha alma!

Nasci aqui, em*** de paes honestos, a quem por sso mesmo a fortuna adversa e caprichosa perseguia. Era meu pae um homem rispido; poucas complacencias tinha com as moderadas exigencias de minha mãe, que fôra sacrificada a conveniencias de familia. Sempre feliz, e sempre duvidando dos bens d’este mundo, fallava-me ella sempre a linguagem do céo, e trazia-me muitas vezes a ouvir missa a este convento, fazendo-me antever com um goso de santa que o meu futuro era a felicidade n’este habito.

Cheguei aos quinze annos contente com esta idéa tão afagada na virgindade do coração. Desfaziam-se ao calor d’ella os gelos melancolicos que me assombravam o rosto como o presagiar do martyrio.

Costumava ir eu passar com minha mãe parte da estação calmosa a uma pequena aldeia distante d’aqui duas leguas, aonde possuimos uma modesta casa. Em uma tarde de agosto achava-me só na quebrada de um monte, insensivelmente e sem saber como chegára ali. Sentei-me n’uma pedra e olhei o sol a fugir, ouvindo já o piar dorido da coruja nos arvoredos, e mais perto o cantico poetico da natureza a refazer-se de vida. Enlevada nas minhas contemplações, sobresaltei-me ouvindo o latido d’um cão e a voz d’um homem que o chamava.

N’aquelle ermo era admiravel que um companheiro se me deparasse! Olhei portanto com curiosidade em volta de mim, e descobri arredado vinte passos, e caminhando para mim, Carlos.

Aqui, Angelina cruzou as mãos no seio, pendeu a cabeça, e cerrou os labios que tinham sorrido tanta vez ao amor e á esperança!

Reparei eu então n’aquellas feições que deviam ter sido bem formosas; e n’aquelle marfim, amarellecido pelo tempo, indaguei os vestigios das passadas pompas, que tão rapidas nos fogem!

Sentia por esta mulher uma especie de respeitosa estima, á mistura com commiseração, sem conhecer ainda até que ponto d’ella era credora. Tinha olvidado por um pouco a intensidade do meu padecer, ouvindo-a; pedi-lhe portanto que continuasse, logo que a vi animada.

«Desculpa que me concentrasse um pouco revendo na imaginação esta época, a mais saudosa de quantas por mim passaram, filha! Basta, porém, que te diga que depois d’uma convivencia de todos os dias em dois mezes que ali passamos, nem eu nem Carlos tinhamos mais que o pensamento na paixão que sentiamos, e procuravamos os meios de nos ligarmos.

Quantas difficuldades porém se nos antolhavam!

Carlos era filho d’um rico proprietario, e estava de muito compromettido a casar com uma prima, senhora de grandes fazendas; e nada mais se esperava que a sua formatura em leis, que elle contava findar antes de dois annos.

Aproximou-se entretanto o tempo da partida, eu soffri pela primeira vez uma dôr desconhecida e incomportavel.

Não tive animo para a despedida, e caí gravemente inferma. Uma carta de Carlos, vinda de Coimbra, e chegada ás minhas mãos por intermedio da minha ama de leite que me presava como filha, foi o antidoto do veneno que me ía matando. Reanimei-me, até confessar a minha mãe este amor, accusando-me com remorso de o fazer tão tarde. A pobre mulher ouviu-me com espanto, quasi sem poder dar credito aos seus ouvidos, e, depois de indagar a verdade, reprehendeu-me brandamente pela não ter feito sabedora d’esse encontro primeiro, que tão fatal podia ser-me, e de todos os meus innocentes passos.

Fallou-me depois na minha antiga vocação e nos desejos d’ella, cuidando que esconder-me ao mundo era o supremo bem a que eu devia aspirar; e sobre tudo nos projectos de meu pae, que tractava já de recolher-me ao mosteiro por me ver em edade de me ir acostumando á vida monotona, e ás praticas religiosas.

Fiquei atterrada, e Carlos, a quem o participei, respondeu-me com a sincera pena d’uma alma toda minha e extremamente affectuosa.

Consegui á custa de lagrimas que minha mãe, apezar do medroso respeito em que vivia, não se atrevendo a contrariar meu pae, deferisse a minha entrada com varios pretextos; e pude ainda voltar no verão seguinte a esses mesmos logares que tinha corrido tão descuidada. Ali apertei Carlos ao coração, esquecida do futuro que me esparava.

Minha mãe, sabendo da chegada d’elle, prohibiu-me com boas razões estes passeios, o que me fez concordar com a sua vontade de pedir-me a meu pae.

Seria fastidioso contar-te todos os episodios e lances que pouco e pouco feneceram a flor reverdecida com o orvalho da esperança. Luctei em quanto pude para fugir d’esta casa cuja só vista me atemorisava. Meu pae dissera que consentia na nossa união, mas o pae de Carlos, instado pelo filho para dar o consentimento, entrára insultador em nossa casa, e meu pae, desde esse dia, mais intractavel que nunca, deixou-se possuir de um violento rancor contra mim por causa d’uma affeição que fôra causa de tal desgosto, e apressava a minha entrada pedindo a supressão do noviciado. Eu, já exhausta de animo, depois d’uma violenta resistencia, gastava a sensibilidade de minha alma n’um soluçar e gemer continuo, até que caía no entorpecimento de todas as faculdades. Foi quasi n’este estado que me arrastaram aos altares onde pronunciei votos irrevogaveis, achando-me freira, e para sempre desligada do mundo onde deixava Carlos.

O infeliz caiu perigosamente doente, ao mesmo tempo que eu me ia definhando de saudade e das angustiosas magoas de quem já nada espera.

No fim de tres mezes, Carlos poude levantar-se do leito, e procurou todos os meios de fallar-me: todos frustados, porque não me deixavam chegar á portaria nem á grade. Lembrou-se então da boa velha que já uma vez nos tinha salvado do desalento. Foi ter com ella, e convenceu-a a entregar-me uma carta.

Após os queixumes que me dilaceraram o coração, Carlos perdoava-me a fraqueza de não reagir, se eu tivesse agora a coragem de me deslembrar que era esposa de Christo, fugindo para os seus braços e trocando por elle os bens celestes.

Eu amava muito, filha! Porque não hei de confessar-t’o? Depois de momentos de hesitação e de receio, respondi vencida que acceitava, achando porém grandes difficuldades a transpor, que depois a ousadia da paixão me fez parecer faceis.

Vês aquella parte do muro mais alta e reparada?  -- me diz Angelina, apontando-me para o lado opposto onde nos achavamos.

Era n’essa época muito mais baixo e inclinado, deixando vêr a copa d’uma frondosa oliveira que um pouco o encobria com os seus ramos. Foi por ali que projectamos a fuga a horas do ultimo côro do dia, indo eu em trajes de homem que para este effeito Carlos me mandára. A minha anciedade e sobresalto era grande. Fingi-me doente para se não estranhar a minha falta, e no côro encommendando-me a Deus, e pedindo-lhe perdão com fervor, fechei os olhos ao perigo que eu já podia prever.

Á hora marcada, saí mansamente da cela com a trouxinha do fato debaixo do braço, que mudei já na cerca, e encobrindo-me com a ramagem cheguei ao logar indicado. Quiz, porém, a minha desfortuna que uma creada esquecendo-se d’uma roupa a veio apanhar, n’essa occasião, e vendo um vulto que julgou de homem, fugiu gritando. A communidade correu ao alarma tropeçando nos meus vestidos que eu tive a imprudencia de não esconder.

Isto bastava a dar suspeitas da verdade.

No entretanto, eu chamava Carlos muito assustada do arruido, e pedindo-lhe que se désse pressa em me lançar a escada. Senti, então que a encostavam ao muro, e impellida de fóra por uma corda que me fôra lançada, pude puxal-a a mim, dispondo-me a subir com muito medo, apesar das vozes animadoras de Carlos. Já então era perto o clarão dos lumes, e eu sem me voltar accelerava a subida, mas ao mesmo tempo a turbação do espirito embaraçava-me. Quando por fim ía a lançar o pé no ultimo degrau, e já via Carlos de cima da oliveira estendendo-me a mão para a descida, fui agarrada por dois braços. Dei um grito a que respondeu uma exclamação de Carlos, e cai desfallecida.

Fui d’ali levada ao tronco, onde estive seis mezes de castigo incommunicavel, e o primeiro a pão e agua. Findos elles, voltei á minha cela e foi-me permittido fallar com minha mãe. Soube então que Carlos, perdida a esperança, tratava com affinco nos preparatorios da sua ordenação. Em pouco tempo seria padre.

Senti um impeto de alegria pura! Aquella alma, identificada com a minha, adoptava o meu sacrificio como seu...

 Dois annos depois da minha profissão, estava esquecido o negro episodio da minha fuga, e eu recebia no locutorio, pela primeira vez, o padre Carlos.

Foi solemne aquella hora em que depois de tanto tempo nos viamos tão descuidados como o mundo que sonháramos. Abafados pela grandeza da dôr não houve lagrima expansiva que nos refrigerasse: ambos as tinhamos esgotado !

Passado instantes, o levita chamou-me como outr’ora, e conjurou-me a ter animo. Não sei o que lhe respondi, filha; o que é certo é que depois o via todos os dias, e que a minha paixão longe de enfraquecer, mais se ateava.

Menos infeliz, só me chamava algumas vezes quando atravez os ferros eu lia nos olhos que me eram vida o brilho do amor impetuoso e ardente, qual era tambem o que me queimava. Outras, porém, esta mesma proximidade irritava a chaga dolorosa da desgraça. Vinham então as horas satanicas da blasphemia, e depois as de inferno, e horror de mim propria.

Assim foi correndo o tempo até que pela morte do capellão, foi Carlos provido n’este cargo; e, sob pretexto da necessidade de estar aqui perto, comprou esta casa hoje em ruinas que está mesmo em frente da porta da entrada. Foi grande o meu contentamento com esta mudança, ainda que a maior parte do tempo o passavamos na egreja ou na grade.

Era no fim de dez annos amante extremoso, e um exemplo de paciencia e caridade christã. Quando eu, alma tibia, vacilava na fé, á sua voz, caía contricta e cheia de arrependimento aos pés do Deus que elle tão misericordioso me mostrava, apontando-me para a eternidade.

Estavamos em 8 de dezembro, dia em que se festeja a nossa padroeira Virgem da Conceição. Havia-me eu levantado n’esse dia á hora de prima com o coração angustiado, como se mão de ferro m’o apertasse ! Déram dez horas. Tomei o meu logar no côro junto da grade, ao lado da vigaria e das minhas companheiras de canto.

Vi o sacerdote caminhar serenamente para o altar, e começar o santo sacrificio. Arrobada em não sei que extasi, comos olhos fixos na Virgem, deixei vibrar toda a minha voz como se fôra inspirada por anjos... O orgão parou, e eu limpei duas lagrimas consoladoras como o orvalho da divina graça.

Estavamos no fim da missa. Já o acolyto mudava o missal, e eu esperava como todos a benção do sacerdote, que, mais que de costume um pouco curvado sobre o altar se demorava. De repente voltou-se, fixou os olhos espantados no sitio da grade onde eu estava; estendeu um pouco os braços, e caiu fulminado no primeiro degrau do altar.

Eu soltei um grande grito inclinando-me impetuosamente para diante, e da violencia da remetida, que fiz contra os ferros, tal embale soffri, que desmaiei. D’ali fui em braços, para, pouco depois, ouvir a noticia de que o padre Carlos estava morto d’uma apoplexia.

Era pois sósinha no mundo para soffrer e chorar!

Foi então que me valeu o verdadeiro conforto da religião, que eu desconhecêra até ahi, embevecida n’outros amores. Aqui tens, pois filha, o viver d’esta mulher, ha trinta annos ! A suspirar pela sepultura como o expatriado...

Ainda hoje chamo Carlos nas minhas meditações, ou nos sonhos que me apresentam o passado; e elle desce a confortar-me. Verdade terrivel é esta, filha! Ha na terra corações predestinados para nunca invelhecerem, e amarem sempre na terra ou no céo.

Angelina deixou cair a cabeça abatida sobre o meu hombro, e eu pousei os lábios com piedoso respeito na fronte da martyr.


IMPRESSÕES INDELEVEIS
Em uma tarde de agosto de 1857, subia eu o monte de Santa Luzia situado nas proximidades de uma casa de campo, distante cinco leguas do Porto, aonde eu costumava passar o verão. Gosava ali n’aquella solidão, de que eu tinha depois saudades, a liberdade de caminhar só, e ao acaso dos meus devaneios.

Umas vezes era a cabana do pobre que me attraía, era a creancinha quasi núa, o inferno que mal tinha umas palhas em que descançar o corpo exhausto de trabalhos e de fadigas.

A minha apparição era saudada sempre com alegria. Era um goso expansivo muitas vezes em lagrimas, e em bençãos que eu acceitava com custo e agradecida !

É que a minha alma recebia mais do que dava: era-me a caridade um incentivo para a vida que tão minguada era d’elles!

Outras, corria por entre as çarças, ligeira e fugitiva a um d’esses rumores surdos do deserto, que em algumas horas me pareciam harmonias.

N’aquella tarde, o espirito, gemendo insondaveis magoas, como a rôla na primeira hora da manhã, fallava-me do passado, das alegrias perdidas, e n’este cinto de ferro a que me vejo acorrentada sem salvação possivel. Caminhava encosta acima, olhando estas flores côr de purpura e oiro que a matizavam, e comparando-as com o meu destino.

N’aquella agra solitaria, quem viria admirar tanto viço, ou invejar-lhe a frescura ?

Fui sentar-me na pedra mais elevada, junto á capellinha da invocação da sancta.

Tirei o chapéo de palha e deixei bater-me na fronte o resplandor baço e avermelhado do sol a esconder-se no poente.

Era delicioso o quebrado da montanha a esta luz vaporosa, vendo além o pastor conduzindo o gado farto de pascigo, e, por entre a rama dos sobreiros, sair da pequena casa columnas de fumo, que o chamam ao seu pão negro, ganho com tanto custo.

Era surprehendente este quadro, mas os meus olhos afastavam-se da terra. Havia um anno que eu ali estivera com um anjo, uma perola da corôa do Senhor que para lá voltára depressa murchando como as rosas de Malherbe.

Deu-me o sorriso final, e o ultimo adeus ao mundo, cingida a mim, amparada pelos meus braços, e com a face junto da minha, aonde tanta vez tem roçado o halito da morte. Era minha irmã.

Buscava no horisonte aquella imagem, vi-a irradiar-se luminosa atravez uma sombra escura ao principio; ali me reconcentrava. Era amarga e dulcissima a visão !

Desperta d’esta somnolencia physica pelo som de uma campainha, e pelo cantico plangente de muitas vozes entoando o bemdicto, curvei-me para a base d’aquelle throno de fragas, e vi encaminhar-se, ao longo d’um curto plano, a procissão que conduzia o Pae amantissimo da creatura, descendo na hora extrema, ao miseravel como ao opulento, levando- lhe a fé no arraiar da eternidade.

Desci rapidamente por um atalho, e fui seguindo melancholica esta solemnidade, triste e poetica em toda a parte, e mais ali, aonde a mesma natureza nos diz: -- «pensa no Creador de tantas maravilhas, no nada da existencia, e nos explendores do céo! »

Chegados á porta de uma casa de colmo, procurei na imaginação os moradores que não podiam ser-me desconhecidos.

Era uma mulher, que deveria ter vinte e cinco annos, branca, fresca e sadia.

Conheci-lhe dois filhinhos que as bexigas lhe mataram um após outro em oito dias.

Velara eu os innocentes, e senti depois a dôr da pobre mãe, perdida a unica riqueza que possuia.

Vinda de outra freguezia havia poucos mezes; não lhe sabia mais que o nome; nunca perguntára a Luiza pelo pae de seus filhos, ou familia.

Adiantei-me pelo meio d’essa multidão, que me abria respeitoso caminho, e fui colher informações de uma visinha.

Era uma velha palradora, amiga de saber o que se passava na casa alheia, e de quem eu fugia sempre para a não escutar.

-- Pois é verdade, fidalga -- concediam-me este foro por ser da cidade -- é verdade, a mulher está muito malzinha! Isto são peccados, são... por mais que me digam, fidalga... já o espelho dos pequenos foi um aviso do céo.

Ainda hontem tão fresca, e de repente eil-a ahi está, apromptando-se para ir dar contas a Deus. E que contas ! Amereceie-se Nosso Senhor da sua alminha e a livre das penas eternas e do castigo.

-- Castigo, sr.a Rosa! porque o merece ella, a infeliz ?

-- Porque? Pois a fidalga não sabe essa historia que está espalhada em toda a aldêa?

-- Não, respondi eu rapidamente  --  lá vem saindo o Santissimo, depois me contará isso.

Escutem agora a narração que ouvi:

Luiza era engeitada; não conhecera outra mãe senão a que a tirara da roda, e aos cinco annos lhe pozera uma roca na cinta.

Enfezada e doente, resultado do mau passadio, e mesmo fomes soffridas, achou mais tarde um homem caritativo, que por compaixão, a tomou para casa para pegureira de gado.

Este homem, um dos mais ricos lavradores d’aquelles contornos, tinha um filho de vinte annos que era a sua alegria, e a alegria de toda a aldêa com a sua viola e os seus descantes. Moça que o ouvisse, esquecia-se do soito aonde a esperava o conversado, e invejava Joanna.

Esta, herdeira de grandes bens, bonita e engraçada, sentira tambem a pressão do encanto, e fallava-se já n’um proximo casamento, que seria o mais estrondoso e afamado n’aquellas dez leguas em redondo.

Assim foi  --  dizem os que não esqueceram aquella festa desejada.

Passaram-se annos de uma união perfeita entre os dois, que eram citados como exemplo invejavel.

A sombra escura que, por vezes, vinha offuscar aquella felicidade, era a lembrança de que a velhice os encontraria sós.

Joanna estremecia o marido. Dera pelo seu Manuel tudo que possuia e a mesma vida. Concentrava n’elle todos os affectos da sua alma amorosa, que repartiria, sendo mãe, com seus filhos.

Quando via uma creancinha, depois de afagal-a, afastava-se suspirando, e dizia a si propria, no seu pesaroso pensamento, que não merecera de Deus egual mimo.

Entretanto, Luiza tinha-se desenvolvido. Ninguem o predissera, mas estava linda, e no mimoso frescor dos dezoito annos.

Manuel raparou um dia n’ella e tentou-a com promessas e caricias. Luiza apartou-se irritada, procurou fugir-lhe, e isto deu-lhe um valor mais subido.

No fim de alguns mezes de assiduidade paciente, Manuel sentiu que a sua chamma era correspondida. Luiza caíra, abatida pelo coração.

Assustada Joanna, e desperta pela frieza do marido, que ella desconhecia, abriu tarde os olhos, mas exigiu com dignidade de esposa, e o ciume furioso de amante que a criada fosse despedida. Esta desgraça livrou os dois que se amavam d’uma situação embaraçosa. Luiza estava gravida : Manuel ia sentir os gosos santos da paternidade. Começou então uma epoca de doudice pela mulher que lhe completava esta ambição.

A pobre Joanna desmereceu sem culpa aos olhos d’elle: aborreceu a esposa e a casa conjugal; fóra d’ali estava o seu thesouro esperado no anceio de gosar um bem não conhecido.

A morada de Luiza, que elle se esmerou em tornar confortavel, era mobilada com trastes que elle levava da sua propria casa, esquecido de tudo, e de todos os deveres que o chamavam.

Joanna sentiu a agonia do desespero, e os phrenesis da paixão, que a tornava demente.

Accusações amargas, lagrimas choradas no refazer da resignação, tudo foi baldado para despersuadir Manuel, a quem tambem não faltava coragem para d’ella se livrar.

Joanna tentou ainda um novo recurso, infructifero como os passados.

Manuel foi admoestado pelo bom cura, que se prestou ás exigentes supplicas que lhe faziam, commovido d’aquella dôr tão grande e tão verdadeiramente sentida.

A desgraçada não resiste a tanto.

A febre prostra-a no leito, e toma um caracter assustador.

Chamado um medico de longe, Manuel ouve o brado da consciencia a pungir-lhe, quando lhe dão como infallivel a perda da que por tantos annos fizera a sua ventura.

Sente-se opprimido contemplando os estragos da paixão que elle despresára sem dó.

Joanna conhece-o. N’aquellas faces cavadas e macilentas começa a refluir um ar de vida a cada olhar carinhoso do homem que podia curar ainda as chagas que abrira.

--  Ouve, Joanna, murmurava baixinho Manuel, perdoa-me, perdoa-me que bem t’o mereço por este pezar que sinto. Já me não lembro senão de ti, dos nossos dias passados tão risonhos e felizes. Verás como elles renascem, verás; eu te farei prezar a vida que tu queres perder assim.

-- Amas-me tu, Manuel ? dizia a triste n’um esforço sobre-humano, deixando pender a cabeça desfallecida ao contacto d’uns labios estremecidos.

-- Não m’o perguntes, nem duvides, minha Joanna; trata de resistir, e não scismes, que me affliges.

-- Pois sim. Tu nunca mais me deixas, não? Quero que sejas a minha sombra, como és a minha alegria.

Cairam n'esse silencio expressivo do bem estar d’alma.

Uma voz, chamando com vehemencia Manuel, os desperta.

Joanna estremece. Sente no coração uma pancada sinistra, que lhe dá forças sobre-naturaes. Levanta-se direita, e caminha para a porta que divide o aposento d’onde escuta estas palavras de seu marido:

-- Um rapaz, dizes tu!? Tenho um filho ! um filho!... Espera, espera! eu vou comtigo vêr a mãe do meu filho!...

No momento em que Manuel saiu, ebrio de prazer, Joanna, como fulminada, cae no sobrado, soltando um longo gemido.

Tres semanas depois, Joanna sentada n’um banquinho, embrulhada na capa, os olhos fixos no soalho, e as faces cadavericas, está absorvida n'uma profunda meditação. A mocidade salvára-a da morte roubando-lhe esta esperança unica do desgraçado. Ao seu lado está um velho de cabellos brancos, uma d’essas physionomias doces e energicas que nos fazem lembrar os apostolos de Jesus. É o cura da freguezia, que tem velado a convalescença morosa e solitaria da infeliz.

-- Filha, não penses assim  --  dizia elle.  --  O teu pensamento é criminoso aos olhos de Deus. Volta para este supremo bem os teus sentidos, é d'ali que te virá o remedio. »

-- Remedio, não! Manuel está perdido para mim, está, sr. padre Antonio. De que me serve então a vida? -- e continuava soluçando.  --  E aquella mulher!... ai! e eu não hei-de odiar quem me rouba o unico bem que eu possuia ?! Que mal lhe tinha eu feito? Por que culpas me castigou Deus, e a ella a recompensa com o prazer de ser mãe; a ella que se tinha desviado do bom caminho! As doutrinas do Divino Mestre parecem-me...

Deus me perdoe!... Ha tres semanas que mal vejo meu marido. Ali estão os campos sem cultura, o tempo da sementeira a passar, e eu sem poder guiar os criados, que me perguntam pasmados o que hão de fazer ! No fim de tudo isto virá a fome, talvez. Manuel esquece n’aquella casa os deveres de marido e a sua mesma subsistencia. O tempo n’estes dois annos tem corrido escasso, e elle não se lembra d’isso, nem que tem duas casas a gastar, sem que elle dê uma hora ao trabalho!

-- Joanna, não te lembres tanto da terra, --  atalhou o padre.  --  Combate esse orgulho de mulher, com a resignação de christã. Sê mansa, e humilda-te a teu marido. A provação a que Deus te sujeita é dura e espinhosa, filha; mas secundará em gloria para a tua alma n’essa outra vida, que é eterna. Perdôa á peccadora, para que Jesus Christo, que deu o exemplo, perdoando á Samaritana, olhe misericordioso as tuas culpas, e te dê entrada no reino dos justos e dos infelizes.

Duas lagrimas cairam ao longo dos sulcos que outras mais ardentes tinham cavado no rosto de Joanna. Após instantes de abafado silencio, disse ella com maviosa amargura:

-- A sua voz já me vem de lá, sr. padre Antonio; já a escuto no meu coração, que perdôa. Perdôo, perdôo... Veja que chóro, e este chôro é agradavel, refrigera-me a alma.

Deixe-me agora descançar um bocadinho. Sinto uma fadiga no corpo, que mal posso sustentar-me sentada.

-- Pois sim, filha, socega; eu vou sair, e voltarei mais tarde -- disse o padre, enxugando as lagrimas compassivas.

Os dias correm,sem que Manuel se enfade d’aquelle viver, ou tente fugir ao enlevo que o prende. Quando vê a esposa, afasta os olhos, e foge logo que póde, para que um gesto da desgraçada o não venha accusar.

Esta acceita o calix amparada pela religião, e muitas vezes embala-se na remota esperança de que Manuel hade avaliar um dia a sua paciente e santa bondade.

Enganára-se. Manuel cria animo com essa mesma abnegação, começa a tratal-a com aborrecido enfado, e muitas vezes entra em casa com o fructo dos seus delirios nos braços, sem pejo da esposa, que afaga lacrimosa a creancinha.

Nem esta docilidade o desarma. Afflicto porque as terras já não produzem senão uma oitava parte, revolta-se contra ella,como a causa d’esta calamidade. Foi preciso tirar um pouco de dinheiro que tinham a juro, e em seguida teve Joanna de vender dos bens para supprir os gastos e empenhos de seu marido.

Luiza era outra vez mãe.

Aborrecida dos visinhos, que presenciavam o doloroso viver de Joanna, apontavam-n’a ao dedo, e não poucas vezes lhe chegavam aos ouvidos rumores surdos que a faziam tremer de desespero. Via-se quasi obrigada a não sair de casa. Quando ia á egreja, em redor d’ella abria-se um longo estrado, e via todos os rostos fugirem aos seus olhares.

Manuel consolava-a, mas ao outro dia um novo insulto fazia crescer a irritabilidade d’ella e ia recair tudo sobre a victima inoffensiva. Detestava, aborrecia Joanna, conhecendo todavia que não partia d'ella o mau acolhimento que lhe davam. Desejava-lhe a morte para satisfazer a sua ambição de mãe, e vingar-se dos que hoje a despresavam.

Á sua antiga e primeira indifferença, e mesmo piedade, suecedera o odio rancoroso e implacavel. Affligia Manuel sem motivo, accusava-o, e protestava fugir-lhe com os filhos. Este receio desvairava o louco, que nada mais via na terra!

Supplicava-lhe por tudo que o não fizesse, chorava, e no phrenezi que lhe causava a teima astuciosa, saía iracundo, respirando maldições contra O destino, que por toda a vida o acorrentava. Por mais que a esposa, refeita da paciencia dos anjos, tentasse abrandal-o, era impossivel conter-lhe a sanha irritada por uma grande dor.

Vociferava contra ella as injurias mais offensivas, e chegava por vezes a tomar como refinada maldade o silencio e as lagrimas da infeliz, revoltando-se porque não lhe deixavam exercer a tyrannia que talvez premeditava. Queria livrar-se d’ella a todo o custo; queria ver, se, afastando-a de si, poderia gosar mais remançosa a felicidade.

Distante tres quartos de legua, possuia elle uns pequenos bens herdados de um tio, e que andavam arrendados, havia muitos annos.

Pretextou a precisão de cuidar n’elles, e, despedindo o cazeiro, disse a Joanna que mudasse o necessario para viverem alguns mezes ali.

Foi terrivel a nova para ella, cuja comprehensão a desgraça tinha avivado. Sentiu o cançasso d’aquelle viver: quiz salvar seu marido do remorso de a expulsar.

Assim que anoiteceu, foi silenciosa dar um adeus ao unico bem que lhe restava. Era a sepultura de seus paes.

Meia noite ficou prostrada com a face na terra, como se escutasse um som conhecido e reanimador. Depois levantou-se serena, colheu uma folhinha de urze que ali rebentára, beijou-a, e guardou-a no seio como uma reliquia sagrada.

Entrou em casa, fez uma trouxinha de duas camizas e alguma roupa branca, e foi andando só e entregando-se sem escolha ao caminho que o destino lhe apontava. Ao amanhecer, estava distante umas quatro leguas, perto de Barcellos, e em frente de uma grande herdade. Pediu que a recolhessem; o cançasso da jornada tinha-lhe exhaurido as forças, mas não a coragem. Acolhida com commiseração pela dona da casa, santa creatura de oitenta annos, que devia a existencia ao seu viver tranquillo e patriarchal, ali ficou dias como hospeda, e mais tarde trabalhando e recebendo o salario de criada. Mudou o nome para Maria, e desde então nunca mais Manuel ou alguem da sua aldêa soube d’ella, cuidando mesmo algumas pessoas que ella se tinha suicidado.

Assim foi passando o tempo, mas a Providencia, que vela pelo justo infeliz, e pune o criminoso na sua propria consciencia, não dormia. De longe a longe, erguia-se um brado reprovador contra Luiza, e seu amante, já cortado de pesares, falto de força para reagir, vendo os seus grandes bens desbaratados, como se a maldição de Deus lhe pezára, propoz-lhe a saida para um outro logar, aonde a não conhecessem, e aonde elle podesse ir, a occultas, provar-lhe, que só a perseguição extrema d’ella, e dos filhos o separava. Luiza acceitou, vociferando contra o mundo, e maldizendo ainda a memoria d’aquelle que a obrigava a esconder-se.

Morreram ahi os filhos. Esta perda foi um abalo terrivel para ambos, mas o coração cobrava-lhes alentos, na esperança de outros.

Foi então que Luiza acordou uma manhã com os labios seccos e mudos, a face rouxa e os symptomas da morte infalliveis.

Os soccorros prestados foram inefficazes. Eil-a ahi estava a contemplar já de perto os umbraes d’essa outra vida mysteriosa e insondavel !

Não sei se alguem poderá imaginar, o pungir de alma dorida e piedosa, que eu senti, escutando esta tocante narrativa.

Levantei-me maquinalmente, e dei um passo para a porta da agonisante. Entrei, escondendo-me nas sombras escuras, aonde não penetrava a frouxa luz de uma candêa, á qual presenciei este doloroso e afflictivo quadro.

Luiza era quasi cadaver, apenas os olhos se moviam com rapidez medonha, procurando ou fugindo a uma visão que devia perseguil-a e atormental-a.

Manuel, que eu via pela primeira vez, estava livido como ella. Tomava-lhe uma das mãos, chamava-a, e fazia um gesto de desespero ao conhecer-lhe a insensibilidade.

Eu não respirava mais desafogada do que elle. Queria fugir áquella vista horrorosa, mas uma pressão occulta me tomava as forças e retinha ali. De repente, ouvi um pequeno ruido, e vi no circulo de luz funebre uma figura de mulher aproximando-se do leito com vagaroso passo.

Luiza encarou-a com o olhar já embaciado, abriu medonhamente a bocca e deixou sair um som rouco. O estertor fazia gemer o leito. As convulsões eram aterradoras.

Joanna petreficada, com os braços cruzados, contemplou-a assim dois minutos. Depois poz as mãos, ajoelhando ao lado de Manuel, e, curvando-se um pouco, murmurou:

« Vae, desgraçada! Completaste o teu fadario! N’esta hora suprema esqueço o mal que me fizeste para te abençoar como a uma filha que muito amasse. Chame-te Deus para a eterna mansão do seu reino immortal: deixe-te gosar do resplendor d’essa luz divina em que entra o arrependido contricto e perdoado.»

E uma lagrima foi rolar na face da moribunda, como o orvalho de graça regeneradora da culpa.

Um clarão momentaneo desfez os gelos da morte. Luiza ergueu meio corpo, juntou as mãos, lançou um derradeiro olhar para o céo, e caiu frio cadaver.

Manuel deu um grito gemebundo, e sentiu os braços da esposa a amparal-o.

Eu fugi com o coração entumecido pelo peso das lagrimas, e ainda hoje, no pesadelo das minhas reminiscencias, vejo com todo o seu apparato funebre este drama, escripto com a singeleza da verdade.

ÁS PORTAS DA ETERNIDADE
«Ainsi, prêt á fermer mes yenx à la lumieré.

«Nul espoir ne viendra consoler ma paupiére:

«Mon ame aura passeé, sans guide et sans flambeau
«De la nuit d’ici-bas dans la nuit du tombeau:

lamaRtIne -- Meditações.

Lisboa, quasi adormecida, caía no remanso que vae no inverno, da meia noite ás quatro horas da madrugada. Como alto e encapellado mar, a noite era feia de ver: o vento rebramia com furia nos telhados e chaminés abaladas, e a chuva caía abundantemente despenhando-se nas ruas com o fragor de torrente impetuosa.

No segundo andar d’uma casa da rua de * * * uma mulher vestida de preto, com os cabellos meio soltos, encostava-se a uma janella aberta, expondo a fronte d’uma pallidez requeimada da febre interior ao ar frigido e penetrante da athmosphera. Grandes e insondaveis luctas lhe roubaram das faces o mimo da infancia, não podendo comtudo sulcal-as com as rugas da velhice. Não agrada talvez aquelle rosto á primeira vista; mas, examinada de perto, vê-se que foi, e é ainda formosa.

É um d’estes compostos de graça e sobranceria, é um mixto de seduções, e de maneiras que repellem; é emfim um mysterio, e como mysterio ficará para o leitor.

Flor queimada ao desabroxar, lá te foi caminho para sempre a esperança e a lindeza primitiva. Feliz de ti, se após tambem te fugira a memoria, esse verdugo impiedoso e nunca farto, dos que muito esperavam do destino !

Vae, descança: as tuas dores magoaram o mundo? Tentou elle sequer sondal-as? Não: assim passarás desconhecida a dormir o teu derradeiro somno.

Que dor tão intensa, desde a resignação das lagrimas até ao infinito do desespero arido e mudo! Que rapidas e dolorosas mutações, que rasgar de coração é esse ! Um momento egual devia remir annos de culpa: serás perdoada, se os tens na consciencia, infeliz?

Dez minutos a contemplamos ali:

--  O tempo passa -- murmurou com voz surda.  --  Mundo! mundo! adeus!

Não te verei mais, não se fixarão mais os meus olhos enlevados no repontar da manhã, nunca mais o explendor do teu sol alumiará a triste realidade das minhas trevas!... E agora, nem lua, nem estreitas no céo! Tudo é tenebroso na hora de resvalar ao sepulchro; tudo, Senhor! Podereis vós perdoar-me? Ponde os olhos na minha miseria; esforço nobre era viver, se eu podesse esmagar o coração debaixo d’uma estupida e falsa dignidade, mas não posso meu Deus, não posso!

Disse; poz as mãos, fictou os olhos marejados de lagrimas na amplidão escura e immensissima do espaço, fechou a janella, e sacudindo as madeixas humidas que lhe assombravam as faces : vamos  --  diz -- a hora aproxima-se.

E com passo seguro, eil-a em frente do espelho levantando e recompondo os cabellos com um requinte de galanteio ironico e dorido. Depois despe o funebre vestido, trocando-o por outro, cuja alvura transparente unida á expressão da sua physionomia, lhe dá um ar phantastico e sobrehumano.

Prompta d’ahi, toma d’um cofresinho de charão um curto e elegante punhal com cabo de marfim, e um bracelete de cabellos escuros.

De joelhos exclama: « O mãe, ampara-me! --  e empunhando o ferro:  --  e tu não me falsees, talisman contra o soffrimento.»

Duas argolas de ouro finissimas se unem uma a outra no dedo annular da mão direita. Volteia-as entre os dedos tremulos, beija-as, e suffoca comprimindo o seio um soluço despedaçador que ali vinha quebrar de encontro.

Uma hora, lenta, repercutida em varios relogios, soou n’este momento, como um ecco lugubre. A desgraçada estremeceu, e levantando-se vagarosamente sentou-se a escrever; ouçamol-a:

«Meu querido amigo.

Mal lhe dirá o seu bom anjo n’esta hora, que triste despertar eu lhe preparo.

Não lhe disse eu tanta vez que me faltava coragem para viver? Era preciso acabar com isto. Ha quatro annos que sonho com o suicidio, sobrou-me tempo para acostumar-me á idéa da morte, tão magoada e assustadora para os felizes.

Que é isto de acabar? Uma mão onde o punhal seja leve, quatro dedos de ferro no seio, e um ai na eternidade.

Que viver era este meu? que esperanças o adoçavam, que futuro me entreluzia?... Por toda a parte a escuridão cerrada, horrores, e maldições!... Perdão, meu irmão, eu sei que offendo a sua nobre e sympathica alma; sei. Quando os seus olhos se fixam nos meus, vejo-me n’ella, e leio mais do que os seus labios me dizem. Quando a sua voz me diz: « pobre mulher! » ha ahi uma sinceridade tão tocante, uma piedade tão misericordiosa, que vale essa unica phrase, mil vezes mais ao meu coração, que mil idylios amantissimos de poeta. Poeta! Incauta, ou muito ingenua e inexperiente é a mulher, que acredita na afouteza ardente d’uma linguagem que as mais das vezes é unicamente forçada ao estylo!

Sabe o que eu queria, meu irmão? Era poder refundir-me no anjo que me crê, era esconder-me na sua affeição tão santa, e tão pura, era esquecer-me do que sou. Porque, olhe bem, meu querido amigo, eu sou uma miseravel! Morro, porque não posso vencer-me; morro, porque é preciso levantar uma barreira de gelo entre uma imagem adorada, e o meu malfadado coração. Sempre a amar aquelle homem, sempre! A cada novo insulto, a cada blasphemia que lhe sae dos labios mascarada debaixo da excessiva e ironica polidez; esta cabeça que tão ufana de si se levantou outr’ora, curva-se submissa como o animal humilde afagando a mão que o castiga.

Baixeza de sentimentos e instinctos lhe chama elle, mas não é, meu amigo, não. É uma cobardia que a mim mesma me revolta, é o ascendente do senhor sobre o escravo, é emfim este amor -- castigo de que eu não posso dessoldar-me. Não lhe admire a presistencia e intensidade, admire antes que a mulher forte e varonil não possa abafal-o, levantando a sua dignidade do charco ignominioso em que jaz. Vergonha é confessal-o! e maior ainda quando se morre para poupar a alma ás dores já previstas do triumpho d’uma rival feliz.

Oh! meu irmão, não despreze a minha memoria. Quem sabe, se a minha morte o salva do mau destino de amar-me? Eu sou uma mulher fatal. Por toda a parte tenho accendido impressões fortes, dedicações grandes, mas de repente, quebro umas, outras despedaçam-se contra o meu sestro maldito.

A morte, a desgraça, e até a demencia, é o meu cortejo; e que longo elle é, ó meu Deus!... Que reminiscencias n’esta hora solemne!... Deixe-me, já quasi dos aditos d’um outro mundo, conversar comsigo, meu irmão.

Que infancia, e alma tão poetica e disposta ao sentir intimo e desconhecido, eu já tinha aos dez annos ! Nos meus anhelos via sempre não sei que horisontes deslumbradores, por onde revoavam seres angelicos e de azas refulgentes, que eu chamava n’uma adoração muda e concentrada.

Minha sancta mãe olhava-me como votada ao infortunio, por uma superstição em que avultavam não sei que extranhas influencias, e agoureiras circumstancias, que presidiram ao meu entrar no mundo. Habituei-me portanto a ouvir fallar do meu destino com um recato mysterioso que estimulava o meu curto espirito e me fazia scismar. Talvez me engane, mas eu cuido que foi este o principal incentivo ás minhas cogitações tão improprias d’aquella edade. Accresceu a isto, o desenvolvimento rapido da natureza, que me tornou cedo mulher nas fórmas. D’aqui procedeu desattentarem os homens no verdor dos meus annos, outros enganarem-se com as apparencias, ferindo os meus ouvidos com a linguagem arrebatadora das paixões. Era de ver como eu, na innocencia da minha razão, acreditava o que não passava muitas vezes de mero galanteio.

Ditosa, edade 
A maldição de Deus pesou-me de leve no berço, para eu sentir mais tarde a dor sem egual que me devorou os mesmos instantes rapidos de ventura, logo esquecidos no pungimento da saudade, por esses que são ha muito puro espirito na mansão celestial...

Como eu me recordo do meu primeiro e infantil amor! Cedo se realisou o vaticinio que me fôra predicto.

Um dia acordei ajoelhada aos pés d’um cadaver: era elle. Mais velho do que eu quatro annos, Antonio Augusto era filho unico de abastada casa, e vivia muito na intimidade da minha familia. De bem menina me lembra, correr no jardim da nossa casa, por entre as roseiras que elle ceifava, ás duas mãos, atirando-me as pétalas ás faces, que lhe eram n’essa epoca eguaes em mimo e frescura.

Apesar de o chamarem «meu desposado» Antonio Augusto estava no meu pensamento como qualquer dos meus irmãos. A revelação devia chegar mais tarde.

D'uma saude muito debil, Antonio Augusto ia deperecendo lentamente como um lyrio que só devia reflorir no céo. Magro, pallido, grandes olhos negros, bocca mimosa assombreada por ligeiro buço, e um natural pendor para a melancholia, filha talvez do quebranto da doença, eis o seu retrato physico, que eu estou vendo no espelho da minha imaginação. Da alma pouco direi: era um anjo. Verdadeiramenle inspirado o julgavam todos, quando sentado ao piano arrancava do instrumento docil, sons d’uma maviosidade, que parece se dobrava a um milagre occulto que o fazia gemer.

Desde então, a musica exerceu uma influencia mysteriosa nos meus sentidos. Nos meus dias de mais amargura, o meu espirito refugia-se no canto, como invocação ás lagrimas rebeldes.

Nos intervallos em que a tosse o deixava, Antonio Augusto encarava-me com os olhos cheios de pranto, apertava as minhas nas suas mãos abrazadas, e dizia: « Se tu morresses comigo, não levava saudades do mundo; mas deixar-te !... E eu, que lhe dizia eu? Não me lembra: creio que tambem chorava, principalmente quando me lembrava que o não via mais.

Morreu: era o meu terrivel destino começando a sua interminavel carreira, debaixo da qual foram desapparecendo um a um todos os que me foram caros pelos laços de sangue e da affeição.

Depois... ai! Deus é bom, a sociedade razoavel, o mundo justo!...

Tudo mereci; vivi, e morro só.

Houve um homem que chorou muito, abraçado com os meus joelhos, abafando-me com os seus gemidos, e eu condemnada a conhecer breve o lance de tal momento, punha a mão na consciencia e achava lá o tedio e o enfado.

-- Um homem chorar -- dizia eu com ironico sorriso e inaudita barbaridade  --  Que queres ? --  me respondia -- És forte porque não amas, e eu sou fraco porque te amo muito, e sei que hei de chorar-te sempre!

Mentiu: mas eram verdadeiras aquellas lagrimas; e mereceria-as eu ?... A punição veio logo a caminho: amei. Amei, e amo, como eu creio que não se ama n’este mundo onde não cabe tanto quanto eu lhe dei. E hoje, vou apagar no tumulo os ultimos clarões d’este incendio que me consome a vida.

A morte vae ser doce, meu amigo.

Exore a minha alma, quando nuvens negras se amontoem sobre a sua cabeça; eu descerei a confortal-o.

Agora, adeus, meu querido irmão.

O Senhor me leve em conta as agonias d’este passo para me remir do crime.

Dois minutos mais para elle, e saudo-o já das portas da eternidade.»

Lacrada esta carta, escreveu outra com mão ligeira como se não podesse abranger o pensamento.

«Christiano.

Está a soar a hora do arrebol d’uma outra vida.

N’ella se vão acabar todos os vestigios materiaes que descem á terra, sem mesmo levarem o baptismo d’uma lagrima tua. Não te inculpo, mas o coração goteja-me sangue. Tanto esperei d’esta paixão infeliz, e tão pouco lhe mereci! A ti, dei-te tudo o que exalta a mulher, só tens aos pés de Deus as agonias infinitas que me envelheceram nos melhores annos da vida. Sirvam-me ellas de graça.

Se tu pezasses a dor da mulher que cáe, depois de grande lucta, diante de si propria!?... Nem tu, nem ninguem.

Aqui tenho uma pagina da tua carteira: « A desgraça tem ironias que vingam a moral. Adeus, anjo perdido; agora sei e sinto que não te verei mais.» Tens razão; nunca mais!... Este nunca mais, é atroz.

Vou morrer, Christiano.

Ha dez noites que os meus olhos mal se fecham, de cançados. Ha dez dias que as dores do inferno me são appeteciveis: devem ser mais brandas do que estas.

Se eu podesse contar com a tua piedade, supplicava-te que te esquecesses do que fui, considerando-me como irmã; e deixando-me chorar no mesmo seio que me abre as feridas. Sei, porem, que de pouco valeria a humilhação. O meu unico conforto é a lembrança de que um dia, quando te branquearem os cabellos, quando a consciencia fallar com os arrebiques emprestados por uma imaginação sempre avida do desconhecido, o teu espirito voltará ao passado á procura d’esta sombra esvaecida que te arrancará o sincero pranto do arrependimento. Comprehenderás então que eu era a mulher a quem não podiam ser estranhos os teus sonhos mais profundos nem as idéas menos lucidas que te passam na mente. Não quizeste, ou não podeste: a tua velhice correrá triste e isolada. Pensa então n'essas palavras que ha pouco tempo escreveste á minha vista: «Os castigos não são desgraças.»

Acceitemos, pois com coragem nosso calix; o meu em breve estará esgotado.

Sabes que dia é hoje? Vê se te recordas. Dois annos, vinte e sete de setembro, quatro horas da manhã!... Serão os teus passos, que de manso chegam ao leito onde repousa uma mulher que poucas horas depois recebias de joelhos? Lembras-te d’aquelle vestido de setim verde, d’aquelles adornos graciosos, d’aquelle colo e braços de rainha, como lhe chamavas? Tempo! tudo gastas, mesmo a reminiscencia no coração do homem; só a mulher conserva puro de mancha o amor que a sanctificou... Cuidava eu que a lembrança do repouso, depois de tão afanosa lide, me deixaria fallar-te com serenidade : vejo que me enganei.

Porque me aborreces tu? Oh! amada por ti, desafiava o proprio Deus a tirar-me a vida, e com a certeza do teu odio sou eu que a corto, desafiando o mundo inteiro a salvar-me.

Christiano! Christiano! o futuro me coroará na tua phantasia, quando o momento da justiça chegar.

A minha mão desfallece, o meu espirito succumbe. Não te ver mais! É preciso. Recolhe no coração as minhas ultimas palavras:

Morro por ti, morro amando-te... Estás perdoado.

A minha razão vacilla, os meus sentidos esmorecem, parece que já presinto a agonia do trespasse.

Chora-me, chora-me, cruz adorada, que eu tomei aos hombros com o enthusiasmo d’uma crença sagrada e grandiosa. Vem, vem depôr na face já fria da moribunda o beijo do adeus extremo; é a uncção para o caminho assombroso do esquecimento e da paz.

Oiço a voz do cantor da madrugada, É o primeiro annuncio da aurora; aurora sem dia! Faz por que me enterrem vestida como estou, que nenhuma outra mão me toque senão a tua. Guarda este punhal que me déste, tinto no meu sangue, e... é tarde. Adeus, adeus, meu chorado e saudoso amor; não te peço fidelidade ás minhas cinzas, peço-te um gemido para a martyr. »


Ás oito horas da noite d’esse mesmo dia, dois vultos embuçados em mantos escuros seguiam caminho do alto de S. João um esquife que conduziam quatro homens.

Era findo o drama.

A JULIO CEZAR MACHADO<marca num=1>
<nota num=1>Julio Cezar Machado, aquella flor graciosa do folhetim, alma juvenil, enthusiastica e sincera, mostra-se nos seus escriptos, e deixa em esboço traços apreciaveis do coração.

Quem o ouvir uma vez, estima-o; e eu que o escutei tantas, que lhe vi uma sombra melancholica entre um sorriso de delicada galanteria, e uma palavra de adeus, folgo de mostrar-lhe que chega até mim, como gota refrigerante no meu antro de agonias, n’esta infernal Estygia, onde o exilado virá um dia encontrar a sua amada, como a de Virgilio.

Depois falla-me de Lisboa, de Cintra, d’esse sonho fadado para os meus amores; e leva-me ainda mais longe pela saudosa recordação !

Lá está a asinhaga de Arroios, lá vejo erguida a cruz, aonde ajoelhei um dia ! </nota>

Onde ha ahi, espiritos fortes da religião d’alma, magoa mais intima, tristeza mais funda, dôr mais pungente, do que a da mulher que geme as amarguras do desespero, quando o espelho ainda reflecte a imagem d’um rosto formoso e melancholico, quando as flores da juventude, se não honvessem sido crestadas pela ardente lava das desillusões, ainda teriam as petalas esmaltadas e fragrantes, as sepalas viçosas e rigidas?

Onde ha ahi espectaculo mais afflictivo do que o quadro da mulher que se senta no limiar da existencia, passada por mil dissabores e infinitos pesares, para amaldiçoar os transportes d’um coração sensivel e dedicado? </nota>

Ella, a mulher! a companheira do homem, o ente a quem Deus concedeu a ternura d’amante, a dedicação d'esposa e o desvelo de mãe; o anjo ao qual a Providencia incumbiu robustecer o homem com o balsamo dos prazeres, e o nectar das consolações, desde o apertar das faxas infantis até o rematar do estadio da vida!

A sociedade não comprehende a aberração da natureza.

A sociedade despreza o circulo violaceo, que á volta d'uns olhos formosos fizeram noites de insomnias, e aconselha com um cynismo incrivel a cobrir com arrebique os vestigios da dôr. Vê desapparecer com o ultimo sorriso uma serie de illusões e sonhos de felicidade, e ordena imperiosamente que se suffoquem debaixo das pregas de riquissimo moiré antique e sob o peso de preciosos diamantes todas as expansões d’uma alma apaixonada e generosa.

Diante das idéas do seculo, a mão que vem calçada de ouro e gemmas não deve apertar senão a mão d'um automato ou um corpo escravo.

O agiologio póde esperar a martyr do dever. A burguezia nos seus desvãos tenebrosos sente pruir-lhe o desejo de ver sangrar os corações puros e nobres. Alma candida como a cecem, modesta como a violeta, e formosa como a camelia, é preza que as suas garras estão promptas a empolgar e polluir.

E o mundo não sabe vindicar os seus foros mercadejados. Impassivel e indifferente, assiste á agonia das victimas, e solta a gargalhada diante do holocausto. Insensato, quanto perde com o sacrificio da mulher!

Onde estariam as melhores paginas dos seus annaes, se em algum tempo não houvesse uma reação, um exforço contra as tendencias hoje tão desinvolvidas?


Como teria Lamartine sem Graziella escripto o mais esplendente, o mais romantico episodio das suas confidencias ?

Onde iria buscar Raphael a expressão divinal das suas madonnas, se o seu pincel não estivesse inspirado pelas graças do sexo, perante o qual fazia a genuflexão frequente?

Qual seria a Gerusalemme liberata, que Tasso cantára na sua lyra harmoniosa, se as cordas não fossem afinadas pelos enlevos de Leonor?

De que modo seria Bernardim o poeta das saudades e o auctor do mimoso livro Menina e Moça, se dos tectos reaes lhe não irradiassem os sorrisos feiticeiros de Beatriz?

Livremo-nos por um momento da pressão da epoca. Concedamos a eloquencia da palavra sentida, a quem sabe por experiencia o que valem as torturas d’um coração angustiado.

São folhas avulsas, que caem do livro intimo d'uma senhora. Leiam e respeitem o pesar que as dicta.

A primeira que hoje publicamos, e que é sagrada a uma das nossas mais floridas e espirituosas intelligencias; não será talvez a ultima.	a. l.

Que grande manancial de estimulos, para que eu procure com avidez sympathica o clarão do seu espirito, e me concentre depois, chorando essas horas em que lhe lembra « tudo quanto ha de triste, de amargo, e de miseravel na existencia » !

Sei eu bem o que é isso, meu amigo, sei o que é pairar o espirito desconfortado da terra por esses mundos, que a imaginação cria, e ter de baixar a este atascadeiro de ignominias, anhelante de escandalos, ancioso de torpezas ou desgraças, que o façam tripudiar e rir. Eu então, na rainha audaciosa phantasia, confronto-o, e voltando-me para a immensidade, ouso interrogar este mysterio de Deus.

E eu posso, meu amigo. Provada por todas as adversidades, recosto-me já fatigada n’este marco da vida.

São vinte e nove annos que me pezam, depois de ver morrer, uma a uma, as flores da primavera, que tão viçosas foram. Começaram logo a cair murchas da corôa, que me avergou a fronte no primeiro dia de martyrio.

Pobre victima das minhas chimeras, tão bellas, tão radiosas, tão grandes de doudejante devanear, vi-as sumirem-se, como, posto o sol, a noite absorve os ultimos anhelitos do dia. Então os olhos nas trevas palpam só o positivo, e fecham-se cegos e desluzidos.

Vem logo o pensamento auxiliar a realidade, e diz- lhe : «Não avalies as obras do creador pela natureza magnifica, explendida e fulgurante como ella é!»

Quando o homem entra no sanctuario reservado das suas paixões, tentêa-lhe a alma, se é que a alma enojada de tão immundo receptaculo não fugiu d’elle.

É o cynismo asqueroso, que lá domina, é muita: vez a infamia e a torpeza, mascarada com um falso brilho.

Desgraçado d’aquelle que se mostra distincto a esta raça degenerada. Accossado, mal ferido, eil-o caido no abysmo do cynico, se o anjo da meditação não vem confortal-o, apontando-lhe para o caminho predestinado.

A mulher ! Quantas abnegam a sua essencia, fazendo chegar ao ouvido do infeliz, que n’um calvario está remindo as suas culpas com resignação sublime, o grito triumphador de Lucifer exultando com o estertor do condemnado ? Existe uma d’estas, que me está voltejando agora aqui.

É uma fronte roxa de vertigens asquerosas.

O infortunio fez-lhe chegar ao lado um verdadeiro e nobre typo d’elle. Era um coração golpeado em todas as fibras; era além d’isso, uma amiga de pequenina, que a tinha estremecido, e depois a quizera guiar na senda da vida.

Vejo-as ainda ambas a fugir da meninice, sonhando um porvir casto de idealidades tão singelas como as suas almas, ambicionando já esse mundo tão aprasivel, em que lançar estes thesouros tão ricos e tão candidamente guardados.

Pouco depois veio o destruidor geral da innocencia e do bem.

Uma, entrou n'esse mundo tão differente do que o pensara, mas tentador, e de folguedos incendidos.

A outra, curvou a fronte, acceitando o seu calix predestinado, e encommendando-se á Virgem Santissima n’aquella mystica linguagem: «Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céo.»

Darei um nome a uma d’estas duas mulheres. Porque não?

Rosa agitava-se entretanto no tumultuar das paixões: queimou-se cedo, mas não viu n’alma a mancha do fogo, riu-se de si propria, e da ingenuidade das aspirações do passado, quando viu delidas as doutrinas, que a sombra de uma mãe expirante lhe gravára na alma.

Estudou a sociedade, adorou o cynismo hypocrita, envolvendo-se n’esta capa, que a deixava mal coberta a muitos olhos, mas o bastante para ser bem recebida e acatada, como eu vejo tantas outras, dignas como ella, d’essa distincção.

Não é porém aqui na minha terra abençoada, onde se reproduzem anjos, como Rubens os não soube crear na tela.

Emquanto cingiu a fronte de Angela uma aureola faustosa e opulenta, Rosa continuava a ser a confidente das agonias e das elevações do espirito, como era sua hospeda e companheira nos festins de campo e nos theatros.

Depois, abutres esfomeados agarraram-se cobiçosos na presa, e roubaram-lhe este inoffensivo viver.

A pobre mulher, toldada e escurecida a estrella do seu destino, conheceu os dias negros e a dependencia triste e amargosa para todos, como ella é, e mais para os que nunca a presentiram.

Suffocou com nobre coragem o impulso primeiro do coração.

Era a morte que a chamava, era o aniquillamento que lhe acenava, sorrindo atravez as grades de um sepulchro, que lhe escondia uma familia.

De repente apparecia-lhe uma imagem luminosa, quasi divina; via uns labios que mal balbuciavam a santa palavra de mãe.

Viver, era o supremo esforço de constante resignação. Disse-o na consciencia, suspirou e viveu.

Crente no esgotar do infortunio, correu a uns braços, onde deviam existir lembranças da infancia, laços mais sagrados ainda, e gratidão pela grandeza d'alma, que n’um recente acontecimento lhe mostrára.

Enganou-se. Vestigios do passado estavam perdidos, a ambição gerára o esquecimento, morrêra tudo ali !

Rosa chamada por... silencio, a terra cobre esta creatura; possa Deus perdoar-lhe e salvar dois infelizes de uma justa e maldita condemnação.

Foram quatro contra a desgraçada, que se debatia entre quatro pulsos de homem, e duas vozes feras e implacaveis de mulher. Rosa, negro o carão, a voz rispida d’um demonio, uivava palavras estranhas, chegando-lhe os punhos fechados á face serena e magestosa, como a do pugnador da fé offereceu o seio á frecha hervada de morte.

A fera vomitava chammas, obrigada, por este aspecto de suprema superioridade, a retroceder no seu ignominioso intento.

Ora aqui tem, Julio Cesar, um typo da obra prima do creador.

Acceite o conselho da sua admiradora. Fuja dos prazeres do coração, d’esses haustos ardentes, que lhe volverão depois em soro purissimo das suas illusões choradas.

Dê-me um pensamento.

Veja-me. Corajosa e soffrida, ninguem me rouba o contentamento santo de identificar comigo o anjo da amisade e da redempção.

O meu espirito evoca essa visão magica, povôa essa região encantada, em que ella me apparece, e onde é a primeira no throno explendido em que a colloquei.

Roubar-m’a, quem póde ? ! Se ella é tão minha, se o meu coração é o senhor omnipotente d’ella !

FIM.

