A Morte do Palhaço 
e 
O Mistério da Árvore 


de Raul Brandão 


K. Maurício 
A cada passo se formam por aí grupos literários. Há-os em todas as gerações. Os 
rapazes sentiram sempre necessidade de comunicar e juntam-se conforme o acaso, as 
afinidades ou as aspirações. 

É um momento delicioso que nos deixa para sempre um nada de poeira no fundo 
da alma -- algum pó dourado que teima em reluzir até ao fim da vida. Já o passado fica 
muito longe, já as figuras de apagadas mal se distinguem e ainda a poeira de sonho 
teima lá no fundo... E que essas horas são como a primeira flor das árvores: não há nada 
que as pague. Por melhores e mais conscientes amizades que mais tarde se adquiram, 
nenhuma chega à dos vinte anos, quando o homem não tem interesses a defender e os 
sentimentos estão em pleno viço. Não há um de nós que saiba ainda o que vale aexistência e todos de mãos dadas olhamos com sofreguidão e candura. É o começo 
delicioso duma aventura. Estamos juntos e unidos como irmãos e já sentimos o travor 
da separação: só mais um passo e cada um parte para o seu lado, sem às vezes se tornar 
a ver. 

Valia a pena determo-nos a olhar a vida, tingida de névoa azul como certas 
paisagens que só são belas de longe -- a vida como nunca mais nos será dado vê-la --, 
mas quem é que nessa idade se detém? 

Em qualquer recanto, num café, entre quatro paredes que não importam, porque, 
por mais denegridas que sejam, a nossa alma tem o poder extraordinário de tudo 
transformar, falamos ao mesmo tempo e com o mesmo entusiasmo, repartindo sonho àsmãos-cheias. É então visível e quase tangível a auréola que se forma sobre as cabeças de 
vinte anos. 

O que em nós vai secando pela vida fora está tão sensível que magoa tocar-lhe. 
Todos somos poetas, todos vivemos num estonteamento que se parece com o amor. 
Todos os dias são de primavera. Ainda que o casaco esteja no fio, a gente não sabe que 
mudaram as estações, e a existência, mesmo numa mansarda, é uma festa perpétua. 

À noite cada um estatela o seu sonho diante dos outros, e aquilo é um braseiro 
imenso ao qual todos se aquecem. Essas horas tão curtas são extraordinárias, porque o 
mundo pertence-nos e as asas da quimera, que nos protege e não sai do nosso lado, 
tocam o céu e a terra. De dia o grupo caminha às vezes pela rua fora, falando tão alto 
que toda a gente se volta: impregna-o uma atmosfera de mocidade e de beleza de tal 
forma magnética que as raparigas -- em que eles nem sequer reparam porque discutem 
metafísica -- sentem arfar-lhes o seio redondo que se forma, e seguem pensativas. 

Outro momento e tudo isto desaparece para sempre: a vida vai-nos modificar de 
alto a baixo na sua forja brutal, dando-nos uma têmpera mais rija e um sabor mais 
amargo... 

Do nosso grupo fazia parte um grande poeta, que se sumiu para sempre ignorado 
num buraco da província e um rapaz encolhido e calado no seu canto -- que veio a ser o 
maior poeta da sua geração; o Pita, que aparecia e desaparecia em relâmpagos quase 
instantâneos, embrulhado na capa misteriosa, e que deve a estas horas apodrecer com 
comodidade num cemitério africano; o Profeta, desenhador cheio de sonho, de figuras 
alucinadas, de paisagens irreais, e que acabou doido, continuando no hospital a criar 
monstros fantásticos, árvores em atitudes de humano desespero, uma obra extraordinária 
com ressaltos de loucura, um mundo em claro-escuro que só ele visionava para além do 
que nos é dado aperceber; e K. Maurício, que em certas noites irrompia, com o violino 

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debaixo do braço, à frente de um bando de noctívagos, de sonhadores, de desgraçados, 
que arrastava quase sempre para os arredores desertos da cidade. Tenho-o ainda hoje 
diante de mim tal como o vi da última vez, com um velho penante e um casaco no fio, 
mas fosforescente como um visionário. Nunca o ouvi queixar-se. Suspeito que passou 
fome e passou frio -- mas nunca ninguém, nem ele, deu por isso. Foi talvez feliz, foi 
decerto feliz esse homem que acabou com um tiro na cabeça, deixando-me os seus 
papéis -- notas, projectos, um diário, um esboço de novela e certas páginas singulares. 
Matou-se por um fantasma. 

K. Maurício, a quem conhecíamos pelo homem do violino, era de todos nós o que 
menos aparecia e talvez por isso mesmo o que mais me interessava. Falava pouco. Só eu 
conseguia arrancar algumas palavras a esse tipo que, tendo encontrado um dia o Sonho 
-- passou a viver para o sonho. Desdenhou a vida pelo sonho, a mulher pelo sonho. Mais 
velho que todos nós e mais artista também, não era só a sua extraordinária música que 
nos atraía -- era na verdade a sua figura, que o sonho parecia dia a dia consumir e 
devorar. Nos últimos tempos parecia mais uma sombra aureolada que um homem. Vivia 
numa trapeira, onde íamos bater de quando em quando. Debalde o chamávamos à 
realidade. Silêncio -- ninguém respondia. Mas todos tínhamos a impressão que lá dentro 
ardia uma forja: pelas frinchas da porta saíam faúlhas, cintilas, dourado... Dias depois 
reaparecia, e a sua dor, o seu sonho traduzia-os em sons extraordinários, numa música 
que nos raspava os nervos até ao fundo da alma. Era uma criatura singular -- posso eu 
dizê-lo que o conheci melhor que os outros, e que completei a figura pelos papéis que 
deixou. Dor e sonho -- é o que sai das suas notas. 
Sempre dor! A verdade é que a maior parte do sofrimento deste homem proveio 
de ter criado ao lado da vida outra vida imaginária. K. Maurício fez da existência -- e 
isto é que constituiu a sua originalidade -- um sonho. Fechou-se por dentro para sonhar -- 
isolou-se para sonhar. E, quando um dia quis reentrar na vida, titubeava como um ébrio 

-- com os olhos espantados: tudo eram ângulos e asperezas que o feriam. 
Aos que se alimentam de sonho chega o momento em que não podem viver. A 
realidade não perde os seus direitos. Raia o dia em que se impõe por força e então o 
sonhador é colhido e triturado por a ter esquecido. E o ponto trágico em que reconhece 
com espanto que não pode viver -- que não sabe viver, e procura a morte, não para se 
aniquilar, mas como quem busca um sonho maior, um sonho sem contrariedades e de 
que se possa à vontade fartar. 

O drama de K. Maurício foi este -- ter vivido tudo e nunca ter vivido; ter 
conhecido a vida através dos livros e não saber dar um passo na vida. Habituar-se a 
sonhar e ter medo de viver. 

O sonho na verdade não tem contrariedades nem limites e a vida está cheia de 
asperezas. Por isso é bom e fácil sonhar. O pior é que quem se fartou de quimeras e de 
noites escarlates não pode habituar-se à existência banal; quem viveu com mulheres 
imaginárias não pode contentar-se com mulheres de viela. Muitas vezes o quis desviar 
desse caminho. E insistia: 

-- Mas afinal que sonho é esse em que falas?
-- É para lá da vida, é a vida ideal. É talvez o céu. Em arte, é o livro que se entrevê 
e que gagueja, nunca atingindo o livro que imaginamos. É, em música, a aspereza em 
lugar dos sons e das vozes misteriosas que ouvimos em certas horas e que não podemos 
reproduzir. 
-- Mas explica-me... 
-- É uma labareda. É Hélia que só consigo ver quando a mereço, e que criei talvez 
noutro mundo. É o universo que os sonhadores acabarão por construir. 
Por isso sofreu. Vejam o Diário. Seu sonho, por exemplo, é Hélia -- a realidade é a 

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mulher que se vende, que lhe fazia medo e o desvairava. 

Porquê?... Como explicar a sensação de estrangulado que sentia ao pé dela, mãos 
geladas, o coração a galope? Eu compreendo... É tudo: a atmosfera da casa, que cheira a 
caldo requentado e a brutalidade, por onde cada um que passa deixa parte da sua força 
psíquica e do seu sonho -- fios ténues, que ficaram suspensos das paredes, e nos 
envolvem, e quebram a energia. Certo é que em torno da gente se forma um ambiente 
feito de outras ideias e de sentimentos; dos nervos torcidos pela dor e pela paixão; uma 
atmosfera de resíduos, de abortos de pensamentos, de sensibilidade, se destaca e erra. 
Eis porque sentimos que alguém nos é repulsivo ou simpático e que certos sítios fazem 
sonhar. A questão está em que a rede dos nervos se sensibilize e sinta o ambiente que de 
cada ser se evola, formado pelas suas ideias e pela sua emoção... 

Já viram que todas estas mulheres são mais ou menos doidas, de olhares 
espantados e uma linha que se quebra, ora ávidas como um velho seco e metálico de 
Balzac, ora perdulárias; viciosas e castas, com risos que de súbito desvairam? E que 
com elas toda a gente se desabotoa e da alma humana, esgoto de lama amassada em 
lágrimas, sabem o bastante para se sentirem apavoradas e enternecidas... Conhecem os 
velhos moles e viscosos, todas as repugnâncias e todas as perversões, e da humanidade 
deve formar-se-lhes no crânio uma ideia de pavor e de loucura. 

Para K. Maurício era mais do que isto... Para ele cada criatura se faz acompanhar 
na vida por outro ser. Por outro ser invisível que no silêncio se torce de dor e que com 
os nossos actos podemos a todo o momento magoar. Para além das figuras de desgraça 
ele via outras figuras de dor... 

Com esta imaginação e este feitio de encarar a vida, devia por força ser ele 
próprio quem cavasse a sua desgraça. A mocidade dos outros espantava-o: a forma 
como os mais se abriam em risos, tão naturalmente como árvores se enchem de flores, 
deixava-o amargo. Perguntava-se: terá toda a gente esta mesma luta consigo, para se 
acostumar a viver?... E, no entanto, não era a vida em si que o torturava: era a desigualdade 
entre o mundo exterior e a quimérica imagem que na sua alma construíra... Tudo 
nele era contraditório. A vida, ainda que aziaga, lhe parecia uma ventura. A ideia da 
morte perseguia-o. Havia dias em que o ruído duma folha caindo o sobressaltava, e 
desde os vinte anos que nunca mais pudera arredar a morte de ao pé de si. 

Sensibilidade exasperada, fizera-se por imaginação um ser desgraçado, de quem 
todos deveriam rir. Tinha-se rancor por ser tímido e torto. Exagerava tudo, com a mania 
de acarvoar os mais miúdos pormenores da existência, e abria olhares espantados, se se 
sentia ferido pela vida, como quem acorda de um sonho para a realidade agressiva. 

Há nos seus papéis uma parte que decerto se refere a essa época. Todas as folhas 
que deixou são encadeadas de pedaços amargos onde por vezes luz o oiro da quimera. 

«Tive esta noite uma sensação de frio no coração: não havia cobertor que mo 
agasalhasse... Que vale viver? Ilusão morta, ilusão nascida, até que se vai para a cova, 
transido e ainda absorto o olhar!... Ponho-me a repassar sensações antigas pela minha 
alma de agora, e é sempre a mesma coisa, só com o tédio em lugar da candura... Da 
mocidade ficou-me uma recordação amarga: correria de botas rotas atrás da ilusão. 
Quem foi que disse que era uma coisa que toda a gente sabia -- viver? E por certo a mais 
dura aprendizagem, para quem tiver nervos e coração...» 

Com que sorriso de piedade se desesperava por ter acreditado na arte e na virtude, 
quando só existe, hirto, o oiro. Aqueles que nascidos sem ilusão, ou que cedo a tinham 
arrancado, triunfaram, mercê da tenacidade: ele, que passara a mocidade absorvido no 
Sonho, quando acordou, já tarde, viu-se velho, cambado e escarnecido. E só tinha 
sofrido... 

«Porque é que me secaram?», pergunta num dos seus papéis: ilusão ainda, pelo 

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menos por esse tempo. Desta forma procura enganar-se, iludir-se sempre, numa prosa 
bravia, quase em literatura o tipo que se talhara na vida: feitio de encolhido, gestos 
desajeitados, ar de quem não sabia onde meter as pernas nem as mãos enormes. 

«Mentira!... É que nós todos não vivemos de máscara e não representamos como 
velhos actores? Quem há aí que seja a sós o mesmo que é cá fora e quem foi que em 
certas horas não representou até consigo mesmo? A Vida endurece e ai daqueles que 
persistem em sonhar; pobres dos que teimam em perseguir a quimera, sem quererem ver 
as duras pedras do caminho!» 

O que há a fazer ao sonho é escondê-lo e recalcá-lo, para que nos deixem viver 
ignorados. Para que não o escarneçam. Para que os outros -- os que não sonham -- o não 
despedacem com uma alegria feroz. Sonhar é um crime. Há uma altura na vida em que é 
forçoso escolher -- ou o sonho ou a vida prática. O grande golpe então é matar o sonho e 
adquirir o hábito das pequenas coisas. Há quem o estorcegue de repente a uma esquina; 
há quem leve mais tempo a liquidá-lo, misturando a vida prática com a vida quimérica, 
tentativa de que só resulta mais negro despeito. Creio que todos nascem com um 
quinhão de sonho, e que, mesmo nos que conseguem aniquilá-lo, há horas em que fixam 
o olhar num ponto doirado; e em que voltam a cabeça com saudade... Mas é tarde; a 
labareda está reduzida a cinzas... Talvez por isso mesmo odeiem secretamente os outros, 
os que sonham sempre, os que sonham até à velhice, com um ar extravagante de 
lunáticos, não dando a mínima importância às coisas da vida consideradas importantes. 
Pobres e ridículos sonham, e é esse o seu quinhão, melhor ou pior. Os homens práticos 
pouco a pouco caem no sorvedouro que os traga e leva como sombras inúteis, enquanto 
a caravana dos desgraçados lá segue o seu rumo à parte, de olhar extático, desprezada e 
secretamente invejada, sob os gritos de maldição. 

K. Maurício só era feliz quando se refugiava no sonho, só era feliz quando se 
calafetava por dentro, construindo à sua vontade um mundo quimérico onde era rei ou 
palhaço. E isto chegou a ponto de tocar as raias da loucura... Na realidade eu detesto 
esta figura fora da existência -- na realidade eu chego a invejar este tipo que se matou, 
embebido em sonho e à procura dum sonho maior. Diz-se que do túmulo do lúbrico 
Casanova sai ainda hoje uma mão de ferro que segura as raparigas pelas saias -- ao 
contrário, este homem, de tal maneira se entranhou no mundo da Morte, que nem a 
trombeta do juízo final conseguirá jamais acordá-lo... 
A sua vida, a sua alma, ele a estatela nas páginas esfarrapadas do livro que se 
segue e que deixou escrito. Entre a barafunda das notas destaca-se A Morte do Palhaço, 
romance incompleto, e quase autobiográfico: por isso lho publico, juntando-lhe o que 
nos seus papéis encontrei com título de Diário. Esta história de um palhaço sempre 
agarrado à sua quimera, não é afinal toda a sua história?... 

Onde nestas páginas acaba a Vida e começa o Sonho? Nem ele mesmo o saberia 
dizer. Esse Diário, sobretudo, que me parece completar um livro curioso e com bruscos 
ressaltos de alucinado, surpreende-me e revolta-me. Mas ponho-me a pensar: Que 
importa que eu o não sinta? A mesma irritação com que leio estas páginas, não quer 
dizer que são verdadeiras?... Que dor é que ele esconde e se adivinha nos esgares da 
prosa raspada e de monólogo, e na ideia que sente escorregadia como um olhar de 
fruste? Tem gestos arrepelados na frase, com ímpetos de energia, e logo cai exausto. 

Ele não sabia escrever! Não, ele não sabia escrever, juro-o, mas punha febre nos 
papéis, dum feitio tão áspero como a sua alma, e mesmo, se é curioso, é por esta mesma 
maneira feita de repelões: nunca pude deixar, ao lê-lo, de escutar o ruído abafado de um 
coração a bater... 

Que amálgama de lama e de dor, ao mesmo tempo pícara e comovente, não sai 

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para mim desta espécie de autobiografia! Há pedaços do Diário, folhas e folhas 
ingénuas, em que uma frase sentida fica, sugestiva e acuta, e de todas estas linhas uma 
fisionomia deve transparecer, de desgraçado, de quem afinal a gente não sabe se rir se 
chorar. Apenas corto algumas páginas. É que nunca se arrepiaram ao ter uma ideia, em 
que a gente foge de pensar e afoga apenas nascida?... 

É no Diário que, com uma singular ferocidade, se conta. Por ele é fácil 
reconstituir a vida desse homem, de uma sensibilidade exasperada, que sofreu sobretudo 
pela imaginação. Nada literárias, mas vivas e humanas, as folhas do jornal dão-me a 
impressão de escutar um homem que fala só, que diz num monólogo entrecortado e 
áspero o que sofre. Muitas vezes me pergunto até onde é sincero. Nem ele mesmo 
decerto o sabia. Cada um que tome deste livro o que quiser... O que é verdade, porém, é 
que, como Beyle dizia de Julien -- todos os dias era tempestade na sua alma. 

Certo é que às vezes irrita-me, e outras comove-me. Há horas em que consegue 
ainda levar-me a rasto como outrora e em que frases suas ficam a vibrar no fundo da 
minha alma. A minha vontade então era pregar bem alto a alguns imaginativos que 
tomem a vida a sério, se não quiserem ser despedaçados como ele: -- Não sonhem, 
vivam! Reparem que a existência atrás da quimera, sem querer ver as pedras do 
caminho, fê-lo morrer, depois de uma vida de casas de hóspedes, de vadiagem e de dor. 
A vida é dura, a vida não se fez para sonhar; para triunfar é necessário bater para os lados 
sem ver quem vem, agarrar-se a gente com sofreguidão, morder... Ai dos vencidos! 
Pobres dos que hesitam um instante! Auxiliar alguém é perder tempo: prà frente! prà 
frente!... Fora o sonho! Para que é que em pequenos nos mentem e nos dizem que há 
amigos e afeições?... Entra a gente na vida com ilusões, que só se perdem com pedaços 
de alma, quando muito melhor seria dizer-nos que há unicamente o dinheiro. Dinheiro! 

-- esta palavra faz vibrar os mais moles: gadanhos convulsos estendem-se ávidos, os 
olhares ferem como lâminas... Para que andamos a mentir uns aos outros, quando nos 
sentimos todos, aos trinta anos, capazes de sacrificar um irmão ao interesse?... 
Vêem um imaginativo que entra na vida? E um moço inteligente, tendo sobre a 
existência ideias lidas. A sua sensibilidade exaspera-se ao primeiro contacto com o 
mundo. Cheio de entusiasmo, talha uma vida de romance. Em breve, porém, encontra 
tropeços: a cada passo a alma se lhe magoa e todas as brutalidades o ferem. É que ele 
não viu que, ao lado da vida sonhada, é preciso viver uma outra vida dura, de todos os 
dias. Repugna? É necessário, porém, a gente afazer-se, esmagar toda a piedade e 
afeição, para não ser despedaçado. Quantos chegam a velhos a tal ponto vivem na 
mentira, acreditando que amaram, que souberam dedicar-se e que na vida se pode ser 
bom? Se procurarem bem no fundo da alma, esmiuçado cada um desses sentimentos, 
encontra-se apenas o egoísmo descarnado e duro... 

K. Maurício estoirou a cabeça com um tiro de pistola, e era na verdade o que tinha 
a fazer de melhor. Trabalhar como? Trabalhar em quê? Ele que, aos vinte e sete anos, se 
sentia em imaginação capaz de tudo, mas que na verdade era incapaz, o miserável, dum 
esforço que não caísse logo num desânimo de dias. A mais leve contrariedade bastava 
para o desalentar. 
Estou a vê-lo esguio e calado, com os olhos em brasa, o casaco no fio, o violino 
debaixo do braço e à sua volta todos os grotescos que levava de noite para as bandas do 
Sonho. Só para eles fazia vibrar até à dor o violino. E o seu poder era então 
extraordinário. Com o violino na mão, arrastava-os como um rebanho, para o sonho ou 
para o crime. 

Corriam os arredores da cidade, as ravinas onde o luar escorre e um braço de 
árvore rompe a silvar de entre as pedras. Sobre as oliveiras de tronco carcomido, com 

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um único galho e uma folhinha a nascer, caía um luar triste que as nuvens prestes 
sufocavam escurecendo o quadro -- para quase logo o monte outra vez aparecer com a 
fuga das árvores de súbito estancada... Era nesse sítio deserto que gostava de tocar só 
para os desgraçados. 

Sob a claridade vaga, a paisagem parecia criá-la a música, outra paisagem 
estranha, escalvado e soturno lugar de sabat: oliveiras torcidas e cinzentas, convulsos 
no ar os braços, despenhando-se pela vertente; à esquerda um calvário, três cruzes como 
três forcas no alto, em baixo a nódoa da planície, o borbulhar de multidão esparsa, que 
se imobilizara petrificada. Era um mundo de fantasmas o que enchia a noite... Os sons 
entranhavam-se na escuridão e faziam estremecer as sombras até que ele parava de tocar 
e o silêncio caía como a tampa duma cova... Outra vez a música começava num 
gorgolejo, arrepiada de dor, vaga, dúbia claridade misturando-se ao luar entre nuvens, e 
perturbava-nos como um crepúsculo sobre águas mortas: pouco a pouco alastrava-se 
pela paisagem, sinfonia de almas a errar numa névoa lilás... 

Na noite acarvoada, as névoas empastavam-se, com feixes macabros de luar, o 
vale a repercutir agora as risadas do violino, a Catedral duma imobilidade acusadora no 
alto. E, esguio, K. Maurício evocava uma planície rasa, sem árvores, duma única cor 
monótona, onde como um rebanho, nessa claridade de agonia, passavam, com olhares 
de desespero, os grotescos, os sonhadores e os doentes... 

Ninguém bulia. Que quimera dolorosa, com espirros escarlates de sonho, lhes 
incendiava as almas, chuva de estrelas cadentes na noite negra e funda! Cada um se 
punha para o seu lado a sonhar e aquilo quase os aureolava, aos pobres, todos eles 
grotescos, doentes e tímidos! Cada um se agasalhava com a púrpura daquela quimera, e 
puxava a si, dedos afiados e sequiosos de gozo, os restos enlameados do seu próprio 
sonho. Era um bando que se sumia no negrume e a que o negrume dava relevo e 
mistério -- o bando de espectros que o seguiam como sombras. 

A música do homem do violino corria com o luar e dizia-lhes tudo o que eles não 
sabiam exprimir: o mal da vida, a dor inquieta que por vezes, sem causa, lhes premia o 
coração, o que era a morte, a ambição e o amor. O espectro duma oliveira torcia-se, 
esvaída da dor que o violino espalhava. E encolhidos, de olhares extáticos e arrepios de 
febre, punham-se a pensar: Que mal excepcional é este de viver? E porque é que tanta 
criatura que sofre crava as unhas desesperadas na vida, sem a querer largar?... 

Porquê esta ânsia de querer viver a vida dura e egoísta ou, o que é pior, 
aborrecida? Os dias seguem-se aos dias, o sol não aquece, os amigos têm sempre a 
mesma cara e a mesma afeição, que afinal irrita e desespera. Cuidado, porém, em não a 
experimentar, se a gente quer ter ainda ilusões na alma! Todas as manhãs se acorda com 
um pedaço maior de secura e esta pergunta: Para quê? Para que vivo? Para que nasce o 
sol, a água corre e as árvores continuam a ter flores a cada primavera que chega? Parece 
que já se assistiu a tudo, depois de a gente ter visto como todas as coisas são 
incompletas e diferentes do ideal que talhamos. Se tudo se sonhou, como não achar tudo 
pequeno e não ter em frente das sensações de perigo ou de prazer ou -- era só isto? -- de 
espanto, que sobre cada uma repetimos -- únicas palavras que o tédio sabe dizer, depois 
da imaginação ter falado. A mesma coisa sempre, as mesmas caras, as mesmas emoções, 
as mesmas ideias remoídas, e também a mesma raivosa aspiração de ideal, a luta 
entre a lama e a alma, a sofreguidão inapaziguada de sonhar. 

A vida é boa quando de todo se perdeu e se tem pena de não se ter vivido, como a 
água dum rio, depois de haver chegado ao mar, chora por não apanhar mais sol e banhar 
mais raízes de árvores. Custa a perdê-la, porque se tem sempre a esperança de se 
encontrar um lugar, um momento, em que se construa a quimera; custa a perdê-la, pelo 

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que está fora dela -- o Sonho. Como um tronco que arde e se extingue, tem-se pena de 
não se deitar mais labareda e de se não ser ainda brasido; por tudo o que se não realizou, 
por tudo o que se deixou fugir. Quando se morre, o que se debate ainda dentro de nós 
com fúria -- é a quimera. O que me custa a deixar não é o corpo, é a alma inquieta. Com 
a morte agarrada a mim, porque é que cravo as unhas na vida, raivosamente? Porque 
quero sonhar, tirar das coisas, das árvores, da luz, das flores, materiais para ilusões. Ao 
que cada um se prende é às suas aspirações, às suas penas e não à matéria e ao corpo!... 

Morrer é não sentir, não ver, não ouvir, e o que custa, não é perder tudo isto 
sempre igual, sempre a mesma coisa, deixar as pedras com que arquitectamos para 
além. Vede: a vida aborrece, mas cada um guarda no seu íntimo a secreta esperança de 
realizar não sei o quê... Muitas vezes nem se sabe... E se a ilusão cai por terra, morta e 
inerte, fica sempre a aspiração de sonhar, a raiva de tecer mais doirado... 

As mesmas acções, as mesmas cores, direis vós... Cá fora é certo, mas dentro o 
cenário muda: o cenário está em brasa. Queres ser rei? Queres vingar-te?... Sonha! 

Raul Brandão 

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A Morte do Palhaço 

I 

A CASA DE HÓSPEDES 

Singular ligação a destes tipos que o acaso reunia naquela casa de hóspedes da D. 
Felicidade: um doido, um anarquista, o Pita, a patroa, o Gregório, antigo chefe de 
repartição, que havia anos estava encarangado num quarto, uma velha que só saía de 
noite, e essa figura amarga, o Palhaço, que passava horas como se só a si próprio se 
escutasse. Todos tinham chegado ao fim da vida, de unhas arrepeladas para o gozo, com 

o aspecto das coisas servidas que se deitam fora. Usados pela existência, pela ambição e 
pela febre, arregalavam os olhos para a vida. Neles havia o que quer que era que 
inquietava e fazia pensar. Em vez de ficarem duma secura atroz, tendo analisado de 
perto todos os sentimentos, o amor e a amizade, a experiência dera-lhes tintas de sonho 
ao desespero: e era como se um bicho de esgoto criasse asas e se pusesse a voar. O 
Doido sonhava -- e todas as suas visões vagas caminhavam numa atmosfera de beleza, 
para de súbito, num pormenor, ficarem grotescas, aos pulos como um sapo. O 
Anarquista tinha gestos de profeta, e na sua eloquência havia rasgos de visionário: como 
um vendaval que arrombava portas, assim ela entrava pelo sonho dentro, engrandecida. 
Evocava as multidões, a miséria humana, a dor humana. O Pita era um misto de filósofo 
e de ladrão. Sabia tudo, vendia tudo. Amara princesas e trazia um velho xaile-manta, 
que de tanto ter visto a miséria parecia arrepiado. A Velha passava o dia a contar as 
rugas diante do espelho, na raiva de se sentir escarnecida. Meditava quanto tempo podia 
amar ainda, enganava-se e convencia-se de que não estava velha nem feia. Punha floresno seio estancado e raso como uma tábua e arrepiava os cabelos. À noite saía, rodava 
nos sítios escuros à espera duma aventura de amor, ou, desvairada, ia pelas ruas da 
cidade, a arrastar um xaile púrpura. 
O Pita às vezes seguia-a e espiava-a, com o olho cheio de curiosidade, ruminando 
lá por dentro: 

-- Encontro-as às vezes nas ruas, caiadas aos sessenta anos e sonhando ainda com 
a juventude. E são as que se atrevem, as que se expõem aos riscos, porque muitas como 
esta arrastam pelas casas de hóspedes o seu sonho inapaziguado de amor... Fá-la tímida 
e má o ter de viver duas vidas, uma de imaginação, outra de realidade. Por isso tem o 
olhar desvairado para dentro, de quem segue um sonho e anda neste mundo por acaso. 
Esta cidade trágica fez-lhe um cenário perfeito, com a noite em que a escumalha vem à 
tona, as ruas esganadas e o vício... atrever-se-á ela? Duvido... Viver é tudo!... Viver!... 
Se todos estes seres se juntavam e conversavam, as suas palavras ardiam ou 
gelavam: causavam arrepios, como lâminas que de repente se desembainham e ficam no 
ar suspensas: eram feitas de cadáveres ou de claridades... Umas vezes pendiam para o 
sonho; outras para a terra. 

Vocês todos têm pensado na vida destas criaturas? Desde a mocidade que não 
tiveram risos. Depois o pequeno emprego, nunca o gozo satisfeito, a imaginação e o 
apetite sempre alerta. As mulheres! Ainda um dia hei-de ter aquela mulher, quando tiver 
dinheiro!... Nunca satisfizeram o seu amor e o seu desejo. Aturaram as insolências dos 
patrões e o desprezo do Metal. Nunca tiveram na vida ocasião para praticar um crime 
que lhes desse o oiro ou o poder. Correram casas de hóspedes a ruminar ideias de 
ambição ou de ódio, e essas mesmas diluídas e derrancadas... São sórdidos, têm pe


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quenas manias e inéditos recantos de alma, e nunca, como os pobres cavadores, viveram 

o contacto da natureza, das grandes árvores, da água e da luz. 
Acontecia que à mesa, depois do jantar, na obscuridade que o Pita amava, ficavam 
de conversa. A princípio o Palhaço não falava... Quase sempre fugia para o quarto. Mas 
de uma vez, que se falara de amor, escutara e discutira -- daí ficaram com o hábito de se 
exasperarem com conversas, que o Pita tingia de sonho... 

O Pita era um homem de barba hirsuta e olhar vivo nas órbitas fundas e sem 
pálpebras. Unhas, roera-as todas. Tinha a ciência da vida, visto que andara sempre aos 
pontapés de toda a gente e se dava com a ralé. Vivia à custa de mulheres, e como duma 
vez lhe perguntassem como arranjava ele, dono de semelhante caveira, que as mulheres 

o amassem, disse com desprezo: 
-- A mulher é uma esfinge. 
Nessa noite o Anarquista lia uma proclamação para abrir o seu jornal A Miséria. 
Com o manuscrito na mão, o olhar incendiado, perguntou: 

-- Pita, que lhe parece?..
. 
E ele, seco, respondeu: 
-- Muita filosofia... 
-- Mas que diabo, Pita! Você sabe que estimo a sua sabedoria... Diga a sua opinião 
sincera... 
Todos se absorvem no Pita, que passou a mão pela bola de bilhar que usa em vez 
de cabeça e a seguir falou: 

-- Não está mau de todo... Muito palavreado... Fale na terra e fale na miséria... 
Sabe que em Setúbal, nos arrozais, para ganhar apenas o pão negro, mulheres trabalham 
na água como bestas, até se cortarem pelas virilhas? Sabe que há pequenas de oito anos 
que se chegam à sua beira com um ar de vício e têm esta frase trágica: -- Eu faço tudo!... 
--? 
Muito decorativo, citou o vício, que, apenas noite, corre como um esguicho de 
lama pelos recantos negros da cidade. É a fome?... É, disse ele. E além disto os 
burgueses estão dando à ralé, cheia de apetites e quimeras, um espectáculo desaforado... 

-- Oh Pita!... 
-- Desaforado... Cite factos, encha-me esse papel de factos e bote então se quiser a 
filosofia de fora. O palavreado não é mau, mas é porque os pobres conhecem melhor a 
miséria e o crime que um desgraçado me falava uma noite em fazer saltar tudo... 
-- A miséria e o crime -- disse o Doido -- são velhos como a terra... Você tem visto 
tudo e tem sido tudo: já foi rico e já viveu de arranjar mulheres para os outros... Mas 
escute: a questão é mais funda... Suponha que sobre esta mesa está a palpitar o Coração 
Humano... Há coisas eternas. O que fez crescer o anarquismo, como uma raivosa maré 
de lama -- é esta coisa simples: o ódio aos ricos e a inveja... Você, eu, todos os que aqui 
estamos juntos, o que daríamos para ter o Oiro, o Oiro com que se pagam as mulheres 
mais lindas, as quiméricas mulheres todas feitas para o gozo, e sobre cujo olhar negro a 
gente se debruça como sobre um passado lendário; o Oiro com que se tem o amor e se 
deitam a perder os nossos inimigos?... Eu, vocês todos, temos feito de há muito este 
raciocínio: a vida dura dez, vinte anos, depois segue-se... 
-- A cova... 
-- O nada. Portanto vale a pena gozar de todo o nosso cérebro e de todos os nossos 
nervos. Deixar o coração bater o mais que puder, satisfazer a valer todas as paixões... Só 
o Oiro é que dá isso e ninguém recuará diante de um crime, certo da impunidade, para o 
obter. 
-- Às vezes corre-se-lhe o risco... 
-- Outrora esta vida era transitória... Quanto mais se sofria, mais duro era o pão e a 
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dor mais negra, maior também na vida eterna era a felicidade. O ódio contra os ricos, os 
que gozam enquanto as mais criaturas sofrem, existia, mas havia a certeza que iam para 

o inferno. Pagavam caro os beijos, a felicidade, o sonho... Agora a ilusão caiu por terra, 
a vida é sôfrega e a maré dos que estão ávidos de gozo sobe... 
E o Pita resmungou, com o olho a luzir: 

-- Vai ser um rico saquezinho... 
-- Com mulheres violadas, sangue, apetites desenfreados, vaias contra a arte e o 
belo... 
-- É o Oiro, é o Oiro que tudo pode e tudo faz!... O Oiro que era ainda capaz de 
fazer levantar da cama o próprio Gregório! 
E a dona Felicidade, que levantava os pratos, deu um suspiro tão fundo como se 
nela suspirassem todas as Donas Felicidades, desde a Dona Felicidade das cavernas até 
à Dona Felicidade contemporânea. 

Pita, a essa hora da noite, tinha espirros de génio pela caveira, numa excitação 
contra a vida e contra a dor. Pelo começo da noite é que Pita principiava a ser amargo, 
com um grande desprezo pela sociedade. Pita também a essa hora estava algo na 
mentira: embebedava-se com as decorações sobre a miséria e sobre o coração humano, e 
a fantasia fazia-o perder-se, fazer grande, como um pintor que na febre atirasse 
broxadas de génio para a tela. Pita parecia uma evocação de Poe. Pita sentia, depois da 
bebida, o frio dos desgraçados, a febre dos noctâmbulos: sabia a enxurro: e tinha na 
fantasia toda a púrpura e toda a lama que as borboletas têm nas asas, e que ele apanhara 
ao roçar-se pelos boeiros imundos da cidade: 

-- E aqui tem o amigo... O raciocínio é um vício com o qual se chega a tudo -- até a 
ministro... Teoria vai, teoria vem -- palavras leva-as o vento... A verdade amarga e única 
é esta: é que na vida é preciso sonhar, para não se morrer transido, tantos são os 
pontapés que a gente leva na alma e noutra parte. Ou então tem a gente a necessidade de 
se endurecer e de pôr o coração como uma pedra. 
-- Pita!... 
-- Como um calhau... Vá a um sítio aonde se sofra -- ao hospital. Tenho-o defronte 
da minha mansarda, o luzeiro sempre a arder nas janelas. O que está aquela pobre gente 
toda a noite a tecer?... Aquele estupor de alambique de sofrimento toda a noite 
resfolga... 
-- De quê!... 
-- De alambique -- disse, seco. -- É uma imagem... E há coisas que se não curam, 
que é o que me revolta... Deixe-os sonhar... O sonho é tão necessário prà vida como o 
pão. 
-- Eu, para meu uso, até os tenho inventado para certas horas de sofrimento -- e 
quantas noites passo a imaginar ser rei ou ser carrasco!... 
-- Atire-se-lhes com um pedaço de sonho, como se fosse um pedaço de pão!... 
-- O pior, Pita amigo, é que o sonho desvaira-os... 
-- Pois a questão essencialmente reduz-se a isto: pertence aos homens de Estado 
saber canalizar o sonho da ralé, e desde que hoje ele se não pode aproveitar nem para 
fazer conquistas, nem para fazer heróis -- todo o esforço deve tender a conservá-lo como 
lume sob cinzas, inofensivo e latente. Destruí-lo, arrancá-lo, é uma tolice, pois que outro 
virá -- creia na minha experiência da vida -- substituí-lo, e quem sabe se mais perigoso!... 
Caiu em meditação o Pita. Oito horas da noite e a calva incendiada por entre o 
pêlo sem cor. Nunca mais o puderam levar a falar sobre o mesmo assunto. Tinha um 
grande desprezo por esta porcaria de vida e fugia agora para o pequename, a tromba a 
bamboar-se-lhe sobre a boca, numa festa. Tirou da algibeira uma boquilha de âmbar 

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com uma mulher em pelota e um prospecto da casa John & Fixley, London -- Segurança 
e Método, preços módicos. Assassínio de todas as sogras com o maior respeito e sem 
intervenção da polícia. 

-- Pita, estás aqui estás na Penitenciária. Vê no que te metes, Pita!..
. 
E ele, descendo as escadas, com júbilo na voz rouca: 
-- Vou-me até ao pequename. A vida é uma quimera!... 
O Pita sabia tudo: conhecia os segredos de todas as famílias e os vícios de todas as 
mulheres: em cada noite seria capaz de dizer quem estava para meter uma bala nos 
miolos, falido e desonrado, e quem adormecia no colo de nuvem da mais linda mulher 
da cidade. As suas conversas faziam frio: tinham dentro pesadelos e lama. Fora amigo 
íntimo dum banqueiro, jornalista assalariado para cobrir de infâmias os inimigos do 
outro. Tinha tido dias em que fora rico e pagara todas as suas fantasias -- e noites em 
que tremera de frio à porta dos cafés, com a lista e preços das criaturas que se vendem. 

Das suas conversas com ele, o Palhaço saía sempre com a cabeça cheia de fantasia 
e com um sabor amargo à vida -- lama negra, onde vestígios, espirros de oiro, tivessem 
sido esquecidos. A sua experiência do mal de viver dava-lhe, à fantasia rútila, recantos 
cheios de inédito e de amargura, e era como se a sua alma fosse sacudida diante dele de 
toda a poalha negra ou escarlate que a existência lhe deixara... Depois do circo 
passeavam juntos até às primeiras tintas de alvorada. Àquela hora só noctâmbulos 
esguios se quedavam pelas esquinas, figuras que, ao pé dos restos de cartazes púrpura, 
de grandes letras, faziam destaque e evocavam, perto da pompa e da grandeza, a miséria 
da cidade... 

Depois da conversa com o Pita, o cérebro em lume, ia pelo bairro pobre e 
desdentado, procurando ver materializado o rasto de que ele lhe falara, como um manto 
que cada um arrastasse, invisível e tecido a ideias e a sofrimentos... 

-- Pois quê!... -- lhe dissera o Pita -- Donde provém que as feiticeiras leiam no 
passado do homem?... Nada se perde, cada um traz consigo, cometa que arrasta a cauda 
de lama ou de oiro, todo o seu passado, vestígios de ideias, crimes, horas de amargura e 
horas em que se beijaram lábios de mulher, por quem a gente se perde... Creia na minha 
experiência da vida!... 
-- E para ver?... Para ver esse rasto que cada um traz consigo a nimbá-lo, luaroso e 
ferido de lágrimas?... Serás tu, Pita amigo, o Diabo, e queres em troca a minha alma?... 
-- Não, não sou, com pena o digo, o Diabo... Quem me dera ser o Diabo, para ser 
moço, ter todo o oiro e todas as lindas mulheres da terra! Aí o pequename de seios 
duros e lácteos de estátua! O oiro que dá o poder, a consideração pública, os sorrisos de 
lábios de papoila das moças e a riqueza dos brancos!... Não sou o Diabo! 
E, apontando com o seu dedo nodoso e descarnado para a cidade, disse: 

-- Vai sofrer, espremer da Vida a experiência. Deixa que te calquem o coração, 
assiste ao despedaçar do teu sonho, à tua humilhação, e depois saberás... 
Tomado de respeito por tanto saber, com humildade se despediu: 

-- Muito boas noites, senhor Pita!... Então não toma mais nada?... 
-- Não tomo. Podes-te ir embora. Boa noite... 
Com a cabeça a escaldar, parecia-lhe agora ver realmente o que Pita lhe afiançara 
existir... Cada criatura que passava arrastava consigo uma cauda -- poalha luminosa de 
oiro ou cinza, feita de luar ou de escarlate. Lentamente pôde distingui-los, classificá-los, 
conforme o manto régio ou pobre que traziam. E na noite havia-os que deixavam um 
grande rasto rútilo, como estrelas cadentes, onde gemiam ais de mágoa, prolongados 
como um som de viola que se parte. Míseros, ressequidos e sacudidos pela dor, traziam 
uma cauda cor de cinza, com chuveiros de miríades de centelhas de lágrimas, e a poetas 

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nimbava-os uma poalha de luar e de oiro. Velhas ardidas eram envolvidas por uma 
atmosfera baça, onde o imortal amor ainda luzia. E alguns deixavam atrás de si restos de 
mantos todos púrpuras, que se iam perder na lama e no esquecimento; outros, 
criminosos decerto, caminhavam numa nuvem negra, onde pedaços sangrentos 
escorriam como punhaladas, e havia-os todos verdes, de cambiantes infinitos. Muitos 
arrastavam caudas enormes pela lama, despedaçavam-nas de encontro às esquinas, e 
alguns procuravam deitá-las fora para não mais pensarem num passado tenebroso. 

-- O homem material -- pensava o Palhaço -- não existe. A vida é uma convenção. 
O que existe é sonho, o sonho é a única realidade. Sonhar! Sonhar!... 
13



Da existência ficara-lhe o olhar desvairado, p'ra dentro, de quem segue na alma 
um sonho e anda na vida por acaso; o olhar daqueles em quem a vida interior é enorme 
e que ficam surpreendidos quando a dor lhes diz que o mundo existe. Só gostava de 
viver à noite. Tudo o que de dia é anguloso e duro, logo que escurece se dilui, e a meia-
tinta acarvoa a casaria lôbrega e tortuosa. Os becos que surgem como boeiros rasgados 
para o interior dos bairros viciosos, as covas das escadas, cheias de mistério, os tipos 
que só a essa hora aparecem, rentes às muralhas, envoltos na sombra, a esconder vícios 
e lágrimas, davam-lhe, nas noites febris, a sensação de um galope através dum sonho. 

As paredes não eram diques à sua percepção, que ia até ao fundo das casas buscar 
os que sofrem e até ao fundo das almas tirar, para a luz, a miséria e o vício. Em tropel 
passavam, por dentro do seu crânio, imagens mordidas de delírio, as velhas sequiosas de 
amor, que, com dedos descarnados, agatanham para si restos de mocidade, a maré dos 
grotescos, os impotentes, os que não têm a piedade de ninguém, atirados para a vida e 
calcados pela vida, e os ambiciosos, que caminham rentes às paredes, de unhas cravadas 
na sua quimera, botas rotas, pés frios e feridos, e o cérebro em brasa... 

E assim as casas, as paredes e as coisas, de ouvir tanto grito, de se sentirem 
palpadas por mãos febris, tomavam naquelas noites formas de delírio e tinham vozes de 
tédio, de dor ou de ferocidade. Era um murmúrio indefinido, um ambiente nervoso, que 
a sua sensibilidade recolhia e traduzia em sonho. Já no seu covil tinha tido a mesma 
sensação a primeira vez que ali dormira. Pusera-se a pensar, o coração premido e 
vontade de chorar como se uma parte do seu ser tivesse sido aniquilada ou uma 
escarlate quimera fosse para sempre perdida: Quantos desgraçados, de tanto sonhar, puseram 
em brasa estas paredes negras? Quantas ambições aqui nascidas não foram 
despedaçadas e aí estão mortas pelos cantos?... Estes muros, que estremeceram com a 
dor ou se aqueceram com o sonho de outros, não serão para mim agressivos, por ser 
muito diferente o quimérico ideal que construo?... 

Vivia num ambiente falso e fora da realidade. De tanto sonhar não podia senão 
sonhar. Às vezes exclamava de si para si, quando saía por acaso da atmosfera em que 
vivia submerso: -- Valeu a pena? Valeu a pena? Estou cansado, exasperado, depois 
duma velhice de fome e de misérias, com longas horas de ódio e olhares hipnóticos 
sobre a felicidade dos outros. A mocidade sobretudo fere-me. Eu nunca fui moço, nem 
nunca fui amado, e que fingidos risos de indiferença, que me fazem doer as faces, tenho 
pelo que chamo banalidades -- saúde, amores, ter vida! Com risos curvaria o meu bico 
sobre as desgraças dos infames que têm vinte anos. Eu nunca os tive: fui sempre banal 
como um velho cartaz de esquina. Há dias em que me deito na cama e não tenho vontade 
de me levantar. Olho em roda. Toda a vida me parece aborrecida e vazia. E aflige-me 
não ter sido moço, não ter vivido como os outros e insulto a minha quimera que me 
parecia de oiro, por quem me esgotei, para afinal a encontrar gelada... -- Juntem todas as 
saburras dos misteres que aturara para viver. Representara pela província, fora pateado, 
e dessa existência errante, de acaso, fizera também sonho amargo... Até chegar a ser 
Palhaço, quantas profissões! Actor, cocheiro de praça e mendigo. Da existência de 
noctâmbulo ficara-lhe um morcego a esvoaçar-lhe no crânio. Por fim, veio trabalhar 
para o circo. Só saía de noite. De dia ficava no covil do 4º andar, ruminando pedaços de 
sonho gastos e esquecidos. 

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II 

HALWAIN 

Um grito, um grito na noite, um grito fundo que me interessa como se fosse eu 
próprio que gritasse... 

Esta noite encontrei-o enforcado numa oliveira, num arredor da cidade. O luar 
escorria sobre a ravina, e naquele sítio desolado, triste e inquietante, ele era cómico, 
pendurado na árvore, mais esguio, a calva a luzir-lhe como uma hóstia, mole, 
repugnante e coçado. Diário? Nem este velho bêbado teve nunca diário! Foi decerto 
para se dar ares de incompreendido que deixou estas folhas ao pé da árvore. Como se a 
sua miséria fosse diferente das outras misérias! Escorraçado e azedo, perseguiam-no 
como um lobo, até que o fizeram andar com fome e morrer como merecia... 

Eu nunca conheci um homem mais pitoresco do que este canalha! Nunca também, 
como diante deste trapo de enforcado, compreendi melhor a minha alma... Estou seco, 
sem emoções, e cheio de raiva. Eu ainda venho a endoidecer. Não tenham pena de mim. 
Esta maneira que tenho de escrever a golpes, inquieta-me até. E há quem escreva tão 
bem!... Muita gente anda iludida sobre a minha alma. Eu rio-me... Mas vamos lá a 
contar a história do velho clown Halwain. 

Muitas vezes me contou com redondos olhares de inveja as suas noites no Circo... 
(Decididamente eu hoje não posso fingir e escrever como das outras vezes. Muito me 
hei-de eu rir, quando eles lerem a história da minha alma!...) Na claridade branca dos 
reflectores, ele fez intermédios que faziam mal: quis ter génio à força, e as suas farsas 
afinal, longo e rapado, incomodavam como um remorso. Lembrava misérias, deboches 
a uivarem com fome, e era lamentável e triste como uma tumba. De chapéu alto e 
casaca enorme, rígido e longo, parecia um cadáver fugido ao cemitério. Pouco a pouco 
empregaram-no em serviços ridículos: era ele quem levava pontapés dos outros 
palhaços, e, como ninguém lhe dava palmas, tiveram de o pôr na rua, porque metia 
medo... 

Começou então a sua vida de miséria. Com um usado tapete, um fato de 
mascarada e uma cabeleira de três pontas, foi de rua em rua a pedir esmola e a 
clownear. Foi assim que eu o conheci, e só eu com ferocidade me ria, não das suas 
farsas, mas da sua alma e da sua desgraça -- para ter que me rir de alguém, para me 
vingar nele da minha nulidade -- e para me rir de mim!... (Eu hoje escrevo muito mal, 
tenho nos ouvidos sempre esta zoeira, e não me larga a ideia de que endoideço...) 

Velho, com fome, enquanto outros na claridade dos circos eram aplaudidos! Que 
raiva de morte! Ainda se se tem consciência de ter génio!... Mas assim: com a certeza da 
nulidade, da miséria, da velhice, quando há alguém que triunfa e que é belo!... E ver-se 
a gente, por dentro, odiento, mesquinho, impotente, tenho a certeza de que os outros são 
indiferentes ou, o que é pior, bem pior -- o que dá vontade de assassinar -- o saber-se que 
os outros dizem: coitado! 

Coitado de quê! Tivesse eu energia para o assassinar, dizendo-lhe: tenho mais 
vida, vês, tenho mais génio do que tu!... Eu não quero amigos! Eu não preciso de 
amigos para nada! Eu agora vou-me rir de tudo o que não posso fazer, ouves?... 

Esse homem levou anos a imaginar-se aplaudido pelas multidões. A sua arte seria 
uma arte diferente da dos outros, a escorrer sangue. E desconhecido, sonhava sempre, 
cada vez mais aplaudido -- e cada vez mais ignorado. E os anos passaram sobre aquele 
sonho inútil. 

15



Começaram a cavar-se-lhe rugas da inveja, aos cantos da boca. Habituou-se a 
tudo: a pontapés, a dizer bem dos que odiava, para que eles consentissem que tivesse 
algum talento, a ter sempre um riso nos lábios espremidos, a passar horas mortais 
ouvindo dizer bem dos outros... E nem uma mulher em quem bater? Nem uma pobre 
alma miserável que fizesse sofrer para se consolar. Ninguém para torturar, ninguém!... 

(Eu hoje estou doente. Nunca escrevi pior. Esta história não ficava mal com 
descritivo e a análise dessa velha alma, coçada e cheia de ódios miúdos, através duma 
cidade lôbrega e comida pela Peste e pelo Vício -- a análise da minha própria alma... 
Mas não posso mais. Sinto que daqui a duas horas estou doido. Antes porém quero 
dizer-lhes uma coisa: acreditem que tinha algum talento. Fui sempre um desgraçado, 
sem felicidade e sem paz. E os outros são felizes... E também não me importo de o 
dizer, porque já não me podem fazer mal: -- Fui eu que o matei. Enforquei-o por maldade, 
para me ver livre dele, que me afligia e valia muito mais do que eu -- o meu 
miserável companheiro!...) 

Foi então que o Pita, que andava sempre a meter o nariz nos papéis dos hóspedes 
da D. Felicidade, disse de si para si: «Estás pronto!...» 

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III 

CAMÉLIA 

Rompeu a sinfonia, numa música estranha, com notas que pareciam sedas 
rasgadas, uivos dolorosos, e esgares de alegria transformados em gritos... A multidão, 
em volta da arena enfarinhada, tinha enlouquecido -- mar de cabeças a ferver; -- e o gás 
assobiava em leques e borboletas de fogo, na púrpura do circo, onde as colunatas 
brancas e finas subiam, sustentando por milagre a abóbada do tecto. 

Logo ao primeiro compasso as mulheres, vestidas de escarlate, loiras e fardées, 
tomaram um e outro lado da rampa, e dois criados, de casaca e laço branco, pentearam a 
arena. 

Um sussurro... Arabela e Siwit, leves, dum único salto gracioso, vestidos de gaze 
clara e transparente, com flores a sangrar, saltaram sobre o cavalo todo negro, 
escumante, aos corcovões de fúria: logo ela, dum pulo, apareceu de pé sobre a sela, na 
gracilidade e no triunfo da sua beleza fina e graciosa. Arrancou o cavalo na carreira em 
volta da arena, a cabeça em onda, o focinho negro quase a tocar-lhe as pernas, babado e 
raivoso. Apanhou-o Siwit e enlaçou Arabela, erguendo-a, segurando-a nos braços, sem 

o mínimo esforço, como quem ergue uma pluma. A música, em golfadas luminosas, 
subia para se apagar como uma fonte que se estanca. As palmas, marteladas, estrugiram 
quando caíram aniquilados sobre a sela... A música ia então a passo, vagarosa, e um 
vento fresco entrou no circo, trazendo da caixa o cheiro a cavalariça, a suor e a pele 
orvalhada de mulher... 
A esse tempo o Palhaço, tendo acabado de riscar a boca de vermelhão e de 
empoar toda a calva, luzidia como uma bola de bilhar, espreitou de cima, do corrimão. 
O circo visto do alto, batido da claridade, parecia mover-se, rodopiar, afundar-se, com a 
maré de cabeças a ferver e o galope do cavalo, que recomeçara com a música. 

Odília, postos os arames no momento de descanso, apareceu, branca sob a luz dos 
reflectores, vestida de cetim branco, e até os cabelos, que usava empoados, pareciam 
cortados numa pétala de flor. Somente, a fazer destaque em todo esse poema branco, o 
guarda-sol, que lhe servia de maromba, era inteiramente negro, com grandes flores 
púrpuras. A fanfarra tocava não sei que música, fugidia e extática por vezes. E os 
reflectores brancos batiam-na, diluindo-a em branco, enxurrando branco e leite sobre 
aquela figurinha pálida como as mortas. Avançou no arame, a passos curtos e leves de 
ave, movendo sobre a cabeça a nódoa nanquim do pára-sol, onde flores esvoaçavam 
num enxame. 

Apenas Odília terminou, uma avalanche de palhaços veio entre risadas, gritos 
estrídulos e berros, até ao meio da arena -- bando de caricaturas loucas no frenesi dos 
gestos, nos esgares das bocas: uns de cetim todo negro, outros de cetim escarlate ou 
verde, calvos e ossudos, dançaram uma farândola de epilepsia, para soltarem de repente 
as mãos, caindo em baques pícaros e aos rugidos. De repente imobilizaram-se, bateram 
os dentes, com bocas rasgadas até às orelhas, só bocas, numa expressão de terror 
cómico. 

Não sei que aflitiva tristeza correu por todo o circo, agora petrificado, quando os 
criados cobriram de veludo um estrado de madeira. Em torno, todos os clowns se 
sentaram em silêncio. Uma mulher desceu a rampa, com um triste, um cansado sorriso à 
flor dos lábios. Serena subiu para o meio do sangue estagnado do estrado, e parecia uma 
flor atirada para uma mesa de autópsia. Os palhaços calvos e hirtos, de olhares fixos, 
batiam os dentes de medo, e ela sempre com o mesmo sorriso resignado contorcionou


17



se como um aranhiço, sorrindo sempre... Até que no meio dos palhaços, que fugiram de 
roldão, foi arrebatada como uma castelã roubada por mendigos, numa noite de pesadelo 
e de loucura... 

E a música recomeçou o galope -- e os cavalos escavaram a arena, montados por 
mulheres e homens do circo. Que velha, que encantadora alegoria, representava aquela 
perseguição, à roda, sempre à roda, em que as raparigas defendiam flores escondidas 
nos seios, que os homens procuravam roubar-lhes com beijos?... 

Visto de cima donde o Palhaço se instalara, o circo retomava o seu aspecto de 
delírio, de redemoinho afunilado onde apenas cabeças sobrenadavam e braços faziam 
gestos de desespero. Ao fundo a galopada dos cavalos acelerava-se, à roda, sempre à 
roda, negros e em pêlo... 

O último bravo lançado, o tinir da rede acabada de estender, e os voadores com 
sorrisos postiços, ele vestido de branco, moreno e forte, ela, frágil e loira, toda vestida 
de negro, treparam pela corda, marinharam até ao alto e, sentados cada um no seu 
trapézio, sorriram. A música aniquilara-se, tomada de espanto, e a multidão erguia a 
cabeça ansiosa. Siwit suspendeu-se no trapézio, seguro pela curva das pernas, os braços 
estendidos, esperando Arabela, que rasgou o silêncio com um grito e, lançada pelo ar, o 
cabelo a esvoaçar, toda ela envolta em poeira luminosa, com reflexos de oiro, veio cair-
lhe, com um solavanco, nas mãos arrepeladas. 

Era agora a sua vez. Desceu as escadas, apegando-se ao corrimão, atravessou o 
corredor, entrevendo nos camarins, pedaços de estofos, cartazes, pinceladas, notas 
escarlates, leques de gás, uivos vermelhos de tecidos, cabeças enfarinhadas, bocas 
rasgadas, colos, músculos de pernas... 

A vida misteriosa e errante dera-lhe aspectos e linhas que tudo sabiam exprimir: 
canduras e vícios, a lama, as perversões mais ignóbeis das cidades e o olhar terno das 
virgens... Tinha tiques, olhares em gume, simples gestos, que bastavam para sugerir 
desgraças, mágoas, miséria e tudo o que fere as almas sensíveis. Dir-se-ia que vivera 
tudo e tudo conhecera: já fora cocheiro, mendigo e director de bancos poderosos, poeta 
e príncipe, bandido na Calábria, e porventura amado por uma linda mulher, que de 
paixão se finara. Cá fora, finda a noite de circo, emudecia numa tristeza abandonada, e 
absorto dobrava-se à beira da sua alma, como na margem dum lago... Apenas, porém, 
entrava na arena, enorme, esquelético, calvo e vestido de púrpura -- assim tivesse 
atravessado um rio de sangue ou a vida -- logo a sua figura se transformava, e nunca 
palhaço soube exprimir como ele o lado grotesco da desgraça e a amargura do riso. Ia à 
morte e desconjuntava-a: entortava-lhe as pernas, punha-lhe a foice à banda e descobria-
lhe a calva. Dir-se-ia que o seu riso era feito da experiência da vida e que esse palhaço 
estranho fora construído com a lama de todos os vícios e com as lágrimas de todas as 
amarguras... 

Era indiferente à multidão. Parecia que para ele só representava as farsas cínicas, 
sempre a mesma maneira de interpretar a vida que fazia frio. Lembrava um pícaro 
cadáver, anguloso e torto, que viesse fazer escárnio da cova. Às vezes a multidão 
enregelada pateava-o com fúria -- e ele nem reparava. Depois sublinhava, tinha tiques 
que nunca mais esqueciam -- e forçoso era que conhecesse tudo e tudo desprezasse, para 
assim tirar da Vida e da Dor, da Morte e do Amor, motivos de escárnio, de afinal o 
público não saber se rir se chorar. 

Quando entrou na arena ainda Odília trabalhava no trapézio. Era uma figura de 
doença a desconjuntar-se, vestida de gaze verde, na cúpula do circo. Sorria. A cada 
momento parava, oferecia-se, agradecia com beijos atirados à multidão indiferente, 
ávida de perigos e de sensações fortes. Desceu a corda, saiu, com o mesmo resignado 
sorriso na boca, como uma pobre criatura que se despede... 

18



Que se sabia da vida do Palhaço? Apenas terminado o trabalho, desaparecia, e 
toda a noite ou todo o dia o passava no covil da casa de hóspedes, a tecer ideias e a 
sonhar... O bico aguçara-se-lhe, mais salientes as maxilas, mais funda a ruga que lhe 
cortava a face, e duas ou três mechas de cabelo no crânio -- máscara pícara e sinistra. A 
figura ossuda criara maiores angulosidades e feitios desengonçados. Encontrou por 
acaso algum de vocês um homem que aflija como um remorso? Um velho que sintetize 
uma vida cheia de ilusões a princípio, depois batido e escarnecido, que dê medo de 
sonhar e vontade de só pensar no oiro e na prática?... Tem-se um arrepio. A minha 
quimera despedaçar-se-á como a dele e terei um fim de vida, por muito querer sonhar, 
de vilipêndio, de escárnio, e, o que é pior, sem ilusão?... 

Assim, de toda a quimera antiga, de todo o sonho que lhe esbraseara as noites e 
lhe varria as tristezas, só aquilo restava. Em vez de ser um grande actor que 
interpretasse, duma maneira única, a miséria, a morte e o amor, era apenas um pobre 
palhaço de circo... Caída na lama, a quimera parece sempre grotesca. 

Foi nesta ocasião que apareceram no circo Camélia e Lídio. Vinham juntos, juntos 
percorriam o mundo, vivendo uma vida livre, de amor e perigo. Raro falavam com os 
outros artistas, e em torno deles se formara uma lenda. Eram talvez filhos de príncipes, 
fugidos para se poderem amar, ou criminosos, com um passado de remorsos e dor... 
Com eles andava sempre um grotesco clown, que nem sei bem como se chamava. Nesse 
tempo passavam pelo circo tantos nomes que apenas conservo no fundo da memória 
vestígios de cartazes, oiro e escarlate, como restos de pompa e de grandeza da minha 
vida de então. Eu nunca tive memória e de tanto sonhar tudo confundi, realidade e 
quimera... Todos o conheciam e sabiam que vivia no circo para fazer rir o público. Era o 
faz-tudo, o sofredores: levava os pontapés a valer e os tombos que magoam deveras. A 
multidão chamava-o como um cão, por assobios, e, por não ter graça nenhuma e ser desajeitado 
e se pôr às vezes a chorar -- toda a gente se ria. 

O circo era enorme e todas as noites a Cidade esguichava para ali a multidão, 
ávida de perigos alheios, e, entre leques de gás a assobiar, tenho ainda no cérebro a 
visão do público, de olhares fixos no prato da arena toda branca... O riso soprava por 
vezes como uma ventania furiosa. 

Pôs-se o Palhaço a amar Camélia. Lídio e Camélia e ele eram os artistas que a 
multidão aplaudia. Do outro clown também se riam com ferocidade: nunca ali aparecera 
um palhaço como ele. Torto, anguloso e, no quadrilongo da face, os olhos furados a 
verruma. Nunca o vi senão de seda preta e na cabeça, posto ao lado, um chapéu alto 
velhíssimo e rapado -- um chapéu que fazia estancar as gargalhadas e pensar na 
miséria... O Palhaço era o seu único amigo. 

Visto que se pusera a amar Camélia, o clown atraíra-o como a decifração dum 
mistério, ou como a desgraça alheia encanta a nossa própria desgraça. Encontrava-o 
sempre deitado à porta do camarim de Camélia e nos olhares do louco surpreendera 
porventura um mundo de amor. Era decerto como ele um infeliz. A pouco e pouco 
conquistara-lhe a amizade. Bebiam juntos e, de noite, terminado o espectáculo, partiam 
de conversa pela cidade. Era singular o diálogo, cheio de grosserias e de ideal, palavras 
raspadas na alma de cada um, gritos, frases que estremeciam de dor. 

A Cidade para aqueles sítios é cheia de negrume e de velhos palácios e casebres 
onde gerações inteiras passaram a vida, com as suas angústias e as suas alegrias. 
Corações bateram, almas floriram. Teceram-se obras de génio e canduras. Não há ali 
pedra que não saiba contar crimes e amores e, decerto, cada calhau, a princípio inerte, 
criou coração, sensibilidade e alma. Ou querem acaso sustentar que as coisas ficaram 
gélidas, sem se influenciar por todas as vidas dos que por ali transitaram?... A mim, 

19



nestas noites de luar caladas e misteriosas, me parece distingui-los, aos duendes, 
errantes em torno de cada prédio, e revivendo antigos dias de felicidade e de angústia. 
Vejo distintamente que se despegam das pedras, ideias, gritos, falenas escuras, que 
esvoaçam um instante e se perdem na noite, com um sussurro de asas ou de vozes 
tristes. 

E tudo na treva é fantástico. Uma escada esganiça-se entre dois prédios, 
confundidos e enormes, e, arredado, um lampião luz na esquina dum beco. Parece que 
vão cair um sobre o outro, que são feitos de sonho e de pesadelos petrificados. 
Adivinha-se um começo de ruela num esgar, e umas escadinhas escusas trepam até ao 
negrume opaco... 

Passo ruas, passo por monstros de feições carcomidas que sustentam pedras -- e há 
que tempos que eu noto a contracção dolorosa duma cariátide, só ela imóvel e fixa na 
noite, angustiosa e eterna como aquele latido de cão que lá ao fundo uiva no risco negro 
das terras. Há que infinito me entra pelos ouvidos, ao mesmo tempo que a fixidez 
angustiosa da figura pelos olhos, dando-me a mesma impressão de espanto e dor!... 
Silenciosos caminhavam na campina, entre espectros de árvores e um fio de luar 
entornado. E perseguiam-nos os gritos dos casebres, o aflitivo vozear das pedras 
leprosas e dos prédios altos, riscados de chaminés. 

-- Foi o amor, então? -- perguntou um. 
-- Foi o amor -- respondeu o clown. -- Foi o espanto, foi como se o mundo em torno 
desabasse. Não me lembra o que era, nem quero pensar nisso, para não deixar de a ver. 
Rico ou pobre, príncipe ou mendigo, tudo troquei por ela e ganhei com a troca... 
-- Mas ela não te ama. Vives como um cão escorraçado... Ela despreza-te... 
-- Não me despreza. Nem me importo. E depois amo-a. Vou para casa, com febre, 
transido, e cismo e sonho -- e tudo isto no infinito se realiza afinal... 
-- Se realiza?... 
-- É como uma brancura, uma grande árvore, cujos galhos secos, de cada vez que o 
meu coração estala e o meu amor e o meu sonho vão sendo maiores, se cobrem de 
flores... Não vivo senão para isto, e, quanto mais humilde e mais batido, quanto maior 
for a minha dor, sinto bem que mais feliz serei depois... 
-- Tudo se realiza então?... 
-- Tudo. As árvores que não chegam a dar flor e as ilusões que não acabaram de 
criar-se... 
Deram com um muro. Saltaram-no. E tomaram por um olival, mudo sob o luar, o 
Palhaço esguio, o clown torto e de chapéu alto. As árvores desciam a encosta, aflitivas 
de imobilidade. Faziam ambos na noite gestos desesperados. 

-- Realizar... Tornar material o pensamento, apenas porque o transmito da alma 
aos nervos, dos nervos aos músculos!... Um Poeta sonha e, embora não congele, em 
matéria, ideias e sentimentos -- podes tu acaso crer que não tomem corpo, não vivam, e 
se não realizem no infinito?... Tudo: a pena que as arvores têm, porque não chegaram à 
primavera, para noivarem, os amores irrealizados, as ilusões que flutuam, se 
desprendem e vão como claridades, como suspiros de mágoa, viver pelo infinito fora... 
-- Mas ela adora-o e tem, apenas, piedade de ti... 
-- Ela que me importa!... A que eu criei, porém, servindo-me de Camélia como 
material para sofrer, como barro para criar; a que eu fiz viver com a minha febre e os 
meus nervos, com as minhas lágrimas e todo o meu cérebro, essa é a noiva que me 
espera... Deixai-me sofrer, ser miserável, batido e escarnecido... Há que tempos que eu 
ando tecendo a minha teia de fios de prata, de estrela para estrela! 
-- E sofres, e dão-te pontapés e toda a gente se ri de ti, clown!... 
-- E quanto mais sofro, e mais sinto a vida extinguir-se-me -- mais ela vive; quanto 
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mais humilde e rasteira, mais bela; e, quanto mais crescem as minhas penas, mais o luar 
faz crescer os seus cabelos. Pela simples razão de que é por ela que sofro... 

-- Contanto que ela não te escorrace... 
-- Contanto que eu saiba segui-la e sonhar, olhá-la e sonhar... 
21



IV 

SONHO E REALIDADE 

Pôs-se a amar Camélia, mas nunca o disse a ninguém, porque morreriam a rir do 
Palhaço, torto e tão desajeitado!... Todo o luar do seu sonho tomara enfim corpo e, 
como de nuvens espumosas dum poente se criam feérias, assim, como o que havia de 
vago e de impalpável na sua alma, a envolvera, idealizando-a. E, visto que nunca amara 
e estava velho e seco, pôs-se a querê-la por todas as que nunca tinha beijado e pelas 
carícias que ignorava, náufrago que se agarra à única tábua de salvação. 

Deixem-no sonhar!... Mas ao mesmo tempo começou a dor a retalhá-lo, como 
uma lâmina que lhe arrancasse a cada minuto, com esforço, fibras, nervos, pedaços de 
coração e de cérebro. Via-se velho e seco, tendo perdido a vida sem realizar e sem 
conhecer a febre de viver por uma mulher, a angústia da dúvida, a recordação dos beijos 
que por muito tempo sabem na boca a medronho ou a fel. 

Achava-se pícaro e sinistro: o sonho tinha-o tocado, dando-lhe aspectos de 
visionário ou de louco. Estava calvo, o nariz aguçara-se, formando com o queixo um 
bico formidável de ave de rapina, e, sobretudo, havia nas suas faces um rictus 
indecifrável, misto de riso e de concentração dolorosa. 

A sua timidez era enorme -- maior o seu orgulho. E com isto encontrava na alma 
delicadezas em que nunca pensara, carícias, restos de olhares, balbuciações quase 
infantis, que o deixavam absorto e aniquilado. 

Era certo: Camélia não o podia amar, e nem ele se atrevera a dizer-lhe a sua 
paixão. Antes queria viver arredando a realidade sempre má e brutal. Sonhar ainda, 
sonhar sempre, mais valia que ouvi-la rir-se, despedaçar com o escárnio o seu amor. 
Tinha então, nas noites de circo, quando clamava, ao mesmo tempo que Camélia 
galopava no corcel negro, confissões que se arrependiam, olhares que exprimiam a 
paixão, para logo se transformarem, sem se atreverem a ir até ao fim, em hilaridades. As 
suas palavras ardiam por vezes, para de súbito caírem como bexigas a estoirar. Os seus 
gestos começavam num frenesi a contar o que sofria, para acabarem por se torcer em 
epilepsias de cómico; e a sua boca ia num esgar a vociferar, arrebatado, doido, a 
narração da dor, e terminava numa gargalhada estrondosa de palhaço. O orgulho não o 
deixava. Se ia a confessar-se, uma voz lhe pregava na alma: -- Olha que ela vai rir-se de 
ti! Pois tu não vês como és desprezivo e cómico, Palhaço! Olha que ela vai fazer 
escárnio do teu amor, da tua paixão, das tuas noites febris!... Beija com sofreguidão, 
calvo e grotesco, a sua carne de mármore, a vaga do seu peito, mas em sonho! Afunda-
te, passa horas à beira dos seus olhos misteriosos, negros e profundos como lagos, mas 
em imaginação!... Que mais queres tu? Diz-lho e nem permitido te será sonhar! Diz-lho 
e os seus risos despir-te-ão, mostrar-te-ão sem ilusão, ser grotesco, palhaço que arrancas 
gargalhadas à multidão, mesmo quando sofres... Se tu visses como a tua dor é pícara!... 

E o diálogo persistia entre ele e a dor, ficando sempre vencido, esmagado: -- És 
um desgraçado; és um desgraçado! Nunca amaste, não sabes nada de amor e atreves-te! 
Que lhe vais tu dizer? Com que palavras lhe vais contar o que sofres e o que crias na 
imaginação em brasa?... Olha bem para dentro de ti!... Vê que na tua alma, por mais que 
procures, nada encontras de belo, de grande, que lhe possas oferecer em troca da sua 
boca... Ideias, sentimentos mesquinhos, palavras que já nem sabes donde nascidas. Tu 
não tens pena de ti?... Grotesco, velho, servido -- ninguém pode ao ver-te deixar de rir, 
enquanto para ela só encontraste ainda esta frase que a defina: -- uma aparição!... 
Passaste a vida a sonhar abraçado a uma quimera que queimaste, e agora, quando a 

22



queres agarrar e deter, encontras apenas os teus braços descarnados. Nada. Fazes 
piedade! 

Quiseste fazer rir e agora fazes rir. Viveste de sonho, tentas voltar à realidade -- e 
a realidade atira-te para o sonho. Se abres a boca para falar de amor, todos desatam a rir. 
A realidade vinga-se. A realidade não cria palhaços como tu, a realidade cria homens, e 
os que se esquecem de viver não devem acusar a vida. Tens de ser palhaço até à morte.
É inútil quereres voltar para trás, e por cada grito de dor que soltes conta com uma 
risada de escárnio. Fizeste da vida artifício, para representares as tuas farsas, e agora 
teimas em recomeçá-la?... Palhaço! Palhaço!... Davas tudo para não sonhares -- para 
viveres -- e a realidade obriga-te a caminhar até ao fim. Palhaço! Palhaço!... Talvez 
todos os homens, num dado momento da vida, perguntem a si próprios, numa angústia: 

-- Errei a vida? O meu amor foi o verdadeiro amor? O sonho que sonhei o melhor 
sonho? Felizes os palhaços que são palhaços até à última hora com a mesma convicção 
-- e que não sentem este desespero e este fel. Palhaço! Palhaço! A tua vida foi um sonho 
-- agora sonha! Quem se habituou a sonhar, tem de sonhar sempre, de se fechar por 
dentro com o seu sonho, para fugir à realidade. Agora só te resta fazer do amor sonho e 
da morte um sonho maior e mais belo. 
No covil do quarto vivia desesperado. À noite no circo, parecia desvairado e a 
multidão dera em o aplaudir nas suas farsas, em escancarar a boca de riso. Nunca outro 
palhaço fora grotesco como ele na comédia do amor, que todas as noites representava, 
juntando-lhe de cada vez mais um pormenor, sempre velha, sempre viva e cheia de 
interesse... Quando Camélia aparecia sobre o corcel negro, linda e frágil, leve na gaze 
glauca como se fosse desaparecer, avançava todo torcido, a babujar-lhe tímidas 
palavras, dizendo-lhe a sua paixão de uma forma tão pícara que o riso caía como uma 
montanha que desaba. Até Camélia ria -- e fugia num turbilhão, levada pelo cavalo 
negro a galope, enquanto o bobo caía despedaçado pela dor, com desesperos tão bem 
fingidos e lágrimas tão cómicas que a multidão aplaudia com delírio. Às vezes as suas 
palavras eram dolorosas, as suas frases afligiam, mas ela ria também e então o Palhaço 
exagerava tudo e dava uma cambalhota, com medo que passasse a escarnecê-lo, depois 
de ter gargalhado da farsa... 

Um dia, fora do circo, ia talvez falar-lhe a sério da sua paixão -- mas ficou 
empedernido. Nem sequer um gesto... E ela passou e olhou-o com a soberana insolência 
da juventude... Outra noite procurou convencer o clown a fugirem com ela, no fim do 
espectáculo, para a violarem, num recanto, sob a mudez da noite -- mas o clown 
ameaçou apunhalá-lo. 

Nessa noite recebera do Pita um recado para aparecer em casa, depois do circo, 
com mais dois ou três palhaços. Voltavam silenciosos, a grandes passadas na noite, 
ainda com os trapos da representação. 

Três horas da manhã. Junto ao arco, na rua enlameada e negra, o Pita tinha tintas 
de diabo de mágica que vai perder uma alma. Agarrado à Velha, fazia gestos de 
epilepsia, parecia querer convencê-la, levá-la, diluí-la no negrume dum boqueirão de 
viela, escancarado como duas maxilas formidáveis. A sombra do lampião desenhava a 
carvão na muralha um aranhiço enorme... 

-- Pita! -- berrou-lhe. 
-- É o Gregório que está a morrer... E eu quero que ele leve para a cova a ilusão da 
mulher seduzida. 

Mostrou-lha com um gesto, e depois arrastou-a pela lama, e partiram. 

O Gregório estoirava. Fora sempre pálido como os ofícios que escrevia. Nunca 

vira mulheres: passara a vida sobre o papel da repartição. Nunca tivera lágrimas, 

23



coração, alma. Ouvira falar em árvores e paisagens e havia anos que a doença o atirara 
para um quarto da casa de hóspedes de Dona Felicidade. Hóspedes eram, bem sabem, o 
Pita, uma troupe de palhaços, o Anarquista e o Doido. Pelos fins dos meses havia 
terrores, pragas. O Pita, porém, intervinha com a sua ciência da vida: fechavam-se as 
navalhas e a Dona Felicidade escrevia garatujas de contas no livro das Perdas e Danos... 

Às vezes o Pita metia-se no quarto do Gregório a encharcá-lo de quimeras. 

-- O pequename!... Você nem sabe o que perdeu, meu rico senhor Gregório... Há-
as por aí das mais belas carnações de frutas, polpas aveludadas, olhos verdes e quietos 
como lagos... O pequename, amigo Gregório, é a consolação do mal de viver... 
-- E os requerimentos, ilustríssimo e excelentíssimo senhor?... 
O Pita tinha piedade dos grotescos que nunca amaram nem viveram, e que trazem 
na alma apenas restos de frases, detritos de ideias, concepções em feto. E, pois que o 
Gregório nessa noite agonizava, ele, que, ao contacto da morte, deitava sempre a 
filosofia de fora, pôs-se a tecer: 

-- O que alguns têm no pequename a mais, tem este desgraçado a menos. Ir para a 
cova sem ter possuído ao menos uma mulher, sem lhe ter lido nos olhos poemas de adoração 
e de perversidade! Vou-lha arranjar!... 
E foi. 

O Gregório morria. Tinha ainda uma hora de vida quando Pita fez um sinal com o 
dedo curto e a porta do quarto se abriu. Os palhaços, escarlates uns, cor de poente, leves 
como nuvens, entraram, e, cobras que se enlaçam num molho, torceram-se, deslocaram-
se, tiveram génio, risos, gargalhadas, subitamente desfeitas pelo terror. Outro gesto do 
Pita e, quais pedaços de nuvens do poente varridas pelo vento ou pela noite, a troupe 
colorida dos clowns se desfez, a Dona Felicidade, com a boca cheia de pragas, pôs-se a 
uivar à porta: 

-- Paguem a conta! Paguem a conta! Ou morrem de fome!... 
-- Primeiro acto, senhor Gregório! -- E deu um assobio, o Pita. 
Então o Gregório, que nunca vira árvores nem paisagem, pediu-lhe com 
humildade uma leve explicação: 

-- As árvores? Como são as árvores?... 
-- Como cabelos de mulher ao vento, como pragas a silvar raivosas entre a 
penedia. Há-as todas verdes, há-as roxas, há-as em brasa, conforme a sua floração. 
E como os seus olhos se abrissem ávidos e perguntasse: 

-- E a paisagem?... 
-- Como mulheres deitadas, de enormes seios duros e verdes, inteiramente diluídas 
em verde, meu rico senhor Gregório. 
E pois que ele ficara absorto, de olhar perdido, num esforço de imaginação para 
ver, o Pita escreveu na parede a lápis: intervalo de vinte minutos para sonhar. 
Depois, a outro sinal, o Anarquista entrou e, em palavras frias, em frases incisivas 
e curtas, pôs-se a narrar a miséria, os que morrem despedaçados na engrenagem da vida, 
os exasperados, o Oiro que tudo calca e de tudo triunfa, e, num gesto largo, como se 
arredasse as paredes do quarto, fez-lhe ver a Multidão, no futuro, tolhida de fome e de 
ideal, despedaçando tudo, aniquilando tudo num enxurro raivoso. 

-- E nunca mais haverá requerimentos? -- perguntou numa ansiedade o Gregório. 
-- Nunca mais! Nunca mais!... 
E o poeta avançou e recitou um grande poema de amor, complicado e bizarro, até 
que o Pita baixinho resmungou: 

-- Abrevia, menino, abrevia, senão ele estoira antes de findar o espectáculo. 
Efectivamente o Gregório agonizava quando o Pita introduziu a Velha, ainda a 
24



fazer-lhe supremas recomendações e procurando compor-lhe um molho de cravos de 
papel que ela trazia no seio. 

-- Faça-se silêncio, respeitável Dona Felicidade. 
E todos arrumados à porta, os palhaços, como restos de mantos pomposos, o 
Doido estarrecido, esperaram, enquanto o Pita espreitava pelo buraco da fechadura... 
Quando entraram no quarto, o Gregório tinha os cabelos revolucionados e o olhar 
perdido. A mulher acocorara-se a um canto. 

-- Não quero morrer ainda! Não quero morrer!... 
-- Viste tudo, Gregório... O estupor da vida é assim e agora seria repetir sempre a 
mesma coisa, maçada inútil, meu rico amigo!... A morte liberta. Vais ser árvore, paisagem, 
cor, nuvens de poente... Vais ser livre... Restos de chefe de repartição hoje, 
amanhã lábios de mulher ou alma de Poeta... Papelada fria que em breve se 
transformará em emoção e em lágrimas... É o último esforço: mais uns minutos de dor 
apenas, para nunca mais pensares... 
-- Pita, senhor Pita, ilustríssimo e excelentíssimo senhor, que é que fez à minha 
alma?... 
-- Abri-lhe um rasgão para que o sol entrasse; cores do poente, espirros de lume, 
enchi-te de quimeras antes de morreres... 
E todos se curvaram em volta do catre, os palhaços mascarados, roxos, purpúreos, 
a Dona Felicidade, o Poeta, para verem o ultimo esgar do Gregório, enquanto o Pita 
berrava: 

-- Pode cair o pano! 
25



Esta estranha sabedoria do Pita, o seu conhecimento da mulher, fez com que ele, 
naturalmente, pensasse em o consultar. Conhecia-as a todas, e dava-lhes conselhos 
práticos, penetrados de sabedoria, que elas escutavam com avidez. Sabia interessá-las 
como um amigo discreto e conceituoso ou como um velho armário onde se encontra de 
tudo, remédios para males amorosos, filtros que entontecem e perturbam, meias-coroas 
para ocasiões de desgraça e uma grande benevolência por todos os vícios e por todos os 
crimes. Passava-lhes a mão pelo queixo, beijava-as ao pé da orelha e, quando os 
amantes saíam, rompia ele também por detrás da mobília, com as palavras que alucinam 
e põem vibrações quase dolorosas nos nervos das raparigas. 

Era-lhes indispensável: escrevia-lhes cartas de amor alucinantes e ia entregá-las 
em troca do vil metal; consolava-as quando Alphonse fugia; sentava-as nas pernas e 
desfiava o rosário do vício, com o olho lúbrico a apalpar-lhes o colo. 

Assim, como lhe perguntasse pasmado porque é que as mulheres o adoravam, o 
Pita passou a mão pela calva, acendeu uma antiga ponta de charuto e falou 
conceituosamente: 

-- O pequename, meu amigo, é afinal fácil de levar: basta lisonjear-lhe o vício. Na 
alma de cada mulher, há sempre um pequenino diabo escarlate. Basta acordá-lo, se ele 
dorme; basta saber-lhe dizer palavras que o façam saltar, vivo e astuto... Às 
abandonadas, não lhes quebro a ilusão da volta do amante, mas lentamente lhes sugiro 
que há carícias extraordinárias que elas ignoram, braços que sabem enlear como cobras 
e fazem esquecer a amargura da vida, os dias sem dinheiro, a desonra e os credores 
até!... Às que amam, digo-lhes que ainda não é bastante, que a única coisa boa da vida é 
o amor e que elas não têm nos olhos nem na boca o sorriso extasiado de quem éverdadeiramente adorada. Às mulheres que têm o risco da primeira ruga na face e a 
ranhura do desgosto de começar a envelhecer na alma, conto-lhes que o amor é imortal 
e que o oiro tudo pode. O amante que sabe fingir e que se paga, a quem se atira com 
desprezo dinheiro, tem beijos dum raro sabor e nos seus braços passam-se horas 
esquecidas, que a ilusão tece de oiro e de púrpura... E a todas ensino que, do amor, é 
necessário saber-se espremer o metal dos velhos, as notas de banco dos ricos que amam 
as rapariguinhas perversas... Eis o meu segredo, vê tu! Banal como uma verdade sólida 
e antiga. 
-- Pita, senhor Pita, tenho uma coisa a pedir-lhe... 
O seu olhar era incerto. Os dedos contraíam-se-lhe e a palavra saía-lhe sacudida. 
Enfim, como quem toma uma grave resolução, disse: 

-- Vai um cálice de genebra? Tome alguma coisa, senhor Pita. Peço-lhe que tome 
alguma coisa... Trata-se da minha vida... 
Então o Pita lhe disse com certeza absoluta: 

-- Você ama. 
E ele confessou a tremer: 
-- Amo. 
O Pita coçou a calva, afastou as farripas gastas do cabelo e num grande silêncio 
encheu devagar o copo de genebra. O galego havia adormecido encostado ao balcão, e 
tudo no café era triste, aflitivo e mesquinho -- as mesas de mármore sujo, desertas como 
lápides funerárias, as garrafas cheias de poeira enfileiradas no armário... 

-- Procedamos com segurança e método. Você ama. Está bem. Amar uma linda 
mulher ou amar uma ideia, amar seja o que for a valer na vida, é um bordão a que nos 
apegamos e que nos ajuda a caminhar até à velhice. Debruçar-se a gente sobre os olhos 
de uma mulher consola de todas as desgraças e de todas as misérias e até de crimes. 
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Perseguem-nos os credores, a falência vai abrir-se -- olha-me amor, e sorve-me da alma 
todas as inquietações e todos os desesperos: quando me lembro de ti, a pistola aperrada 
e pronta para me liquidar -- não é necessária já, pois já tudo esqueci... E ela ama-te?... 

Ele disse com simplicidade, muito humilde: 

-- Olhe para mim..
. 
E acrescentou estas palavras terríveis: 
-- Nenhuma mulher se importou comigo. Eu nunca fui amado. 
O Pita olhou-o, perdido já nas ideias que se lhe esboçavam no crânio, como 
nuvens trazidas por uma ventania: 

-- És um desgraçado... Que importa ser-se ou não grotesco, para que lábios como 
ventosas nos suguem apaixonadamente?... Crês tu acaso que os tipos de beleza ideal é 
que são amados com maior sofreguidão?... Burro, que não conheces a alma humana, 
nem o coração das criaturinhas, ávidas de mistério e de dor, de dedicação e de martírio... 
Oh, e só por isto vale a pena: calculas que vaidade, que inigualável prazer, não é o dum 
sapo amado por uma flor rara?... 
Afiançou-lhe que era belo, pelo sofrimento, pela vida, pela desgraça. 

-- De resto as mulheres são curiosas e têm o diabo na alma: o abismo atrai-as. A 
sabedoria consiste em encantá-las ou surpreendê-las: despertar-lhes o interesse, a 
curiosidade, porque se é pícaro, perverso ou admirável de beleza -- que importa! Depois, 
as mulheres amam os extremos: toda a audácia ou a excessiva timidez, os assassinos e 
os santos, os heróis e os nulos. Não sejas tímido, ou antes, não desconfies de ti: põe-te a 
querê-la a valer, a querê-la com todo o teu coração e todo o teu cérebro. Não duvides e 
será tua. A vontade é omnipotente: amolece, arrasta montanhas e faz estremecer os 
corações. Não sei que ambiente de força trazem consigo os que querem -- que todas as 
energias se quebram, e a própria natureza é abalada. Quer! Quer! Ouviste? 
-- Não posso: não tenho energia, nem força. Sinto vontade de morrer... 
-- Porque não experimentas tu as mulheres que se vendem? 
-- Aborreço-as... 
-- Compreendeste-as mal, eis tudo... Essas criaturas que tu desprezas são um 
pouco como tu e como eu: batidas pela vida, escarnecidas e com uma alma onde a 
candura se esconde para não sofrer... Olha-as: passam na rua lindas, fáceis, com sorrisos 
humildes, a oferecerem a sua nudez às pancadas e aos beijos... Sob o véu de cada 
criaturinha esvoaçam dois olhos negros, que nos prometem beijos que, por meia hora, 
fazem esquecer amarguras e quimeras. Que importa que sejas velho, feio e grotesco? 
Encontras, por uns miseráveis cobres, carícias que se não pagam, abandonos, olhares 
que valem um mundo. Por momentos farão a primavera no boeiro negro da tua alma. 
São elas -- escuta -- que dão aos mendigos, aos tímidos e aos grotescos escorraçados pela 
vida e pelas vaias da ralé a ilusão do amor!... Compreendes bem isto? Como tu, como 
eu, vivem sob o desprezo público, cuspidas pelos ricos, e no entanto sofrem, são 
curiosas e dignas da piedade humana... Precisas de bater em alguém? Aí as tens lindas, 
fáceis, sem a protecção da lei e à mercê das tuas perversões. Como todos os 
escorraçados, são humildes e os beijos das suas bocas têm o sabor da experiência. O 
amor à venda! O gozo sem responsabilidade! As horas tecidas a oiro, quimera de asas 
abertas -- sem reverso de medalha, sem amargura e remorso! E queixas-te, estúpido! 
-- Não, senhor Pita, por mais que queira não posso. O que me oferecem é a 
voluptuosidade. Depois, além de grotesco e tímido, ela ama outro. E é enfim o meu 
primeiro, o meu único amor... E note: eu nunca na realidade amei -- sonhei. Passei a 
vida a sonhar que era amado -- e nunca fui amado! Elas passaram por mim na rua -- 
extraordinárias, feitas às vezes de um nada de brancura, de um nada de sol, agasalhadas 
em peles sumptuosas -- ou descalças e rotas com um seio que as iluminava como um dia 
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de primavera -- e nem sequer olhavam para mim... Mas eu não as esquecia: levava-as 
para casa -- e sonhava com elas. Foram todas minhas amantes em sonho... Umas vezes, 
virgens e pudicas -- outras vezes voluptuosas... À minha vontade, encerrado na 
escuridão do cubículo, apertava-as nos braços, e violava-as como num saque... E sonhei. 
E contentei-me em sonhar -- até que deparei com esta mulher que quero possuir. Agora 
que sou ignóbil, agora que só me resta a morte -- encontro o meu sonho real e tangível. 
Amo-a duma maneira extraordinária, amo-a como quem se despede da vida. 

-- Mas então diz-lho... 
-- Repare para mim, olhe para mim. Seria bajulá-la. Não vê? Não compreende que 
a minha fealdade não é só por fora, mas por dentro? E não percebe que se ela calcasse 
aos pés este amor -- o meu último amor -- seria para mim pior que a morte! Ela resume 
todas as mulheres que amei em sonho e que nunca na realidade possuí. Eu nunca fui 
amado! 
Não sei bem que impressão amarga e simultaneamente cândida havia naquele ser 
grotesco, tão humilde a confessar que amava. Não sei também que baque o Pita sentiu, 
que se transfigurou comovido e lhe disse: 

-- Tens então uma única coisa a fazer... Vou-ta dizer sem frases, como se fosse teu 
amigo desde pequenino... Morre por ela... A vida é lastimosa e estúpida para nós que 
não cremos e estamos gastos e nulos. A vida é uma série de desgraças, de maldades e 
coisas importunas e reles. Tens vivido, tens imaginado tudo, tens visto corações, 
lágrimas, desesperos. Que mais te pode restar? Vinte anos piores, dias a sucederem-se 
aos dias -- noites de circo, a D. Felicidade, as minhas palavras que se repetem, o teu 
sonho que já nem te ilumina, pois que estás gasto e aborrecido até de sonhar. És 
grotesco, é verdade. Mais um passo e ficas sozinho dentro dum palácio desabitado. Eis 
aqui que aparece agora uma bela ocasião de morreres, o prazer único de morreres por 
uma criatura que adoras. Não a deixes fugir. Será a melhor coisa da tua vida, um fim 
como tu não merecias. Morre por ela... Depois de estares seco, morrerás com este 
encanto: o da tua alma se cobrir como as árvores!... 
Uma pausa e depois insistiu: 

-- Mata-te -- porque morres em estado de graça. Despida da matéria, a tua alma 
adquire a tensão máxima, uma força, uma expansão inexprimível. Supõe que depois de 
morto vais possuí-la na outra vida. Imagina a tua alma acompanhando-a sempre -- até 
nos momentos mais secretos, hein?... Contemplá-la e talvez seduzi-la... Não sei!... Mas 
decerto rodeá-la duma atmosfera de ternura e sonho -- duma atmosfera imaterial e viva 
que há-de acabar por impregná-la. 
-- E o outro? 
O Pita coçou a calva: 
-- É verdade, há o outro... Há o outro que é matéria sólida e que vem meter o nariz 
num caso destes tão espiritual... Mas tenta. É uma experiência, dirás... Mas é uma 
experiência que te não custa nada -- se a alma existe. Larga essa carcaça ignóbil, vai 
enfim para ela em espírito, rodeá-la de dia e de noite... Adeus! 
Eu não sei bem explicar o coração do Pita. Decerto havia nas suas palavras uma 
grande sinceridade e juntamente o prazer de dizer coisas belas e estranhas, mas, num 
canto da alma, uma porção do seu ser pôs-se a rir com escárnio e lhe disse baixinho: -- 
Miséria humana! Grande malandro que tu és e te pões a aconselhar a esse desgraçado 
que morra, porque no fim de tudo o que tens é inveja, estupor! O que tu não podes é 
entrever a possibilidade de ela o vir a amar e de ele ser feliz com uma linda mulher, 
quando tu és desgraçado!... O que tu tens simplesmente é inveja, Pita!... Quanto à 
alma... O que na realidade me interessa não é a alma, é o corpo. O corpo é que eu queria 
imortal. Só quando se chega à minha idade é que se aprecia bem o cadáver. E depois 

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uma alma não digere, nem toma nada... Olha que espiga!... 

E o Pita, sabedor da vida e de todos os seus escaninhos, concluiu: -- Inveja, 
dizes?... Vai para o diabo que te carregue! Sou assim, que queres? O homem é mau e 
estúpido! De que valem as tuas palavras, não me dirás, falador?... 

E seguiu através das ruelas, sozinho, a discutir. Nunca, como nessas noites em que 
monologava perdido pelos bairros excêntricos, afogado em sonho, parando, 
gesticulando, apressando de novo o passo, conforme a teia das suas ideias se 
emaranhava ou desemaranhava -- nunca o Pita se parecia mais completamente com um 
diabo pelintra, com um diabo de mágica caído na desgraça e na pobreza -- mas 
discutindo sempre, negando e sorrindo até à morte. 

29



V 

A ÚLTIMA FARSA 

O circo estava ainda a meia luz e o prato da arena deserto quando o Palhaço 
entrou. As cariátides de mármore branco que sustentavam os balcões diluíam-se na 
púrpura dos estofos em atitudes de esforço. Rompeu a sinfonia, os moços de calções 
vermelhos abriram alas no estrado, e o lustre, como uma grande flor que se abre, 
desceu, dando toda a claridade à sala. Em cima, no alto, luziam riscos de fogo dos trapézios, 
uma confusão de redes, de arames cruzados, e, então, enquanto uma mulher a 
cavalo furava com a graça do voo arcos de papel branco, o público indiferente ficou 
silencioso. 

Seguiu-se um trabalho de agilidade e de força: os três Fersts desceram a rampa 
num pulo, e um palhaço, vestido de lilás e de carapuça branca, começou aos encontrões 
às barras onde eles trabalhavam. Saltavam como pedaços de estofo atirados pelo ar. 
Suspendiam-se pelos pés, tão equilibrados e seguros que a multidão, já ruidosa, 
principiou a aplaudi-los. 

Coube depois a vez aos patinadores, ela grácil e rápida, desaparecendo no estrado, 
floco de espuma lilás levado pelo vento, eles grotescos e pançudos, como sapos verdes, 
amarelos, roxos, negros, que a perseguissem, aos pinchos desajeitados. E ela fugia-lhes 
sempre, graciosa, de braços arqueados e um sorriso postiço nos lábios vermelhos. 

Todo o vasto circo cheio de ruído era extraordinário de colorido. A atmosfera 
aquecera. A música hílare em torrentes de sons acompanhava os trabalhos de agilidade e 
fantasia, que o público acentuava com palmas, com gritos, com ahs! de satisfação, com 
silêncios de espanto, com assobios de protesto. As mulheres, recortadas na luz artificial, 
pareciam mais belas, os movimentos perfeitos. Ah!, exclamava a multidão, que dali 
levava um resquício de claridade, alguma alegria e um pouco de ritmo e de sonho, para 
esquecer o negrume da vida. 

Na claridade violenta do circo, Camélia apareceu enfim sobre o cavalo negro, toda 
branca, e passou rápida, esbelta e loura, a sangrar na luz púrpura, rósea e evocada num 
sonho, imagem que se desdobrava, na fúria do galope e no triunfo da música, como uma 
figura de quimera, conforme os jactos dos reflectores. As cores, restos de poente, 
escamas de sol, escorriam sobre o cavalo negro, até que, entre a rajada de palmas, caiu 
no selim, com uma graça de cisne, toda branca outra vez... 

O Palhaço, numa cabriola, veio então rojar-se-lhe aos pés, amoroso e cómico... 
Todo de seda negra, ferida de escarlate, junto à gracilidade de nuvem de Camélia -- céu 
de catástrofe onde o luar aparecesse -- dava a impressão dum salteador que tentasse 
violar uma virgem. Era certo que os seus olhos, na face longa e amarela, tinham 
desespero, amargura, falavam de ilusões despedaçadas, mas os seus braços 
desengonçados, todo o corpo anguloso e torto, abririam risos de escárnio até na 
quimérica ventura dum noivado. Aquele pedaço de clowneria estrelava-lhe todo o resto 
da noite. 

Para que ela se não risse, fingia o amor (bem sentido e cavado na sua alma, na 
verdade), fazia da paixão um riso e de tudo o que tinha em si de ternura, como uma 
árvore que foi forca e se cobriu de floração -- uma gargalhada. Não, não queria que ela 
se risse ou tivesse piedade, mas no feitio lambão por que passava a mão pelo seu peito 
marmóreo e lácteo de estátua, para depois chupar com gula os dedos, havia amarguras 
inéditas; no olhar raivas e, em todo o corpo desengonçado de clown, ímpetos de a 
morder e fugir com ela presa nas garras. 

30



Um minuto de pausa: a mulher toda branca caiu outra vez sobre o dorso nu do 
cavalo; de dentro, com a lufada fresca do ar, veio o cheiro a cavalariça misturar-se ao 
ruído das palmas. E logo a galopada, no estridor da música, recomeçou, e Camélia, 
como a fantasia dum poeta, verde, escarlate, a sangrar como um crime, incarnou outra 
vez a quimera, sobre o cavalo negro e raivoso, e de rastos, agarrado às crinas do animal, 

o Palhaço desatou aos gritos, despedaçado de encontro à arena -- restos dum amor do 
passado, ilusões mortas, venturas para sempre perdidas na lama e no esquecimento... E 
as palmas da multidão caíram como granizo. 
A seguir Lídio trabalhou. A toda a altura do circo, enorme, e sem rede, fazia 
trabalhos de prodígio e de perigo, com a sombra de um sorriso nos lábios, enquanto o 
circo hipnotizado sentia a impressão da queda num abismo. 

Para tirar àquela parte do espectáculo o aflitivo de pesadelo, o empresário, como 
quem atira para uma cova negra um galho de macieira em flor, fazia coro aos trabalhos 
de Lídio com um bailado em que entravam as mulheres mais lindas do circo. E 
catadupas de luz jorravam do palco... Mão-cheia de flores atiradas para a arena, com 
risos claros, vinham de roda, de súbito estacadas para Lídio. Ao meio o Palhaço tinha 
ímpetos de paixão, na indecisão da escolha, e elas dançavam desfeitas em papelinhos 
multicores levados pelo vento... Lídio no trapézio equilibrava-se num perigo enorme!... 

Quem cortou a corda do trapézio? 

O Palhaço não o disse, mas é certo que havia tempo que os seus olhares luziam de 
ódio para Lídio e que a sua conversa sacudida, nervosa e tecida de rancor, se estancara. 
Na arena tinha noites em que a dor se misturava por demais às suas farsas e em que a 
multidão o pateava raivosa. Os seus gestos, em linhas quebradas, exprimiam ferocidade 
e em toda a face, comprida e amarela, se lia (o que transformava de súbito os risos em 
pasmo e a gargalhada em terror) não sei o quê de sinistro... 

Reparem na grande farsa que ele agora representa para Camélia e para todo o 
circo, que não sabe se há-de rir ou pateá-lo -- a sua última farsa -- amar ou morrer. Amar 
ou morrer! Amar ou morrer!... Pode-se porventura exigir dos outros que nos amem? 
Impor a uma mulher que nos ame, quando somos velhos, desajeitados e grotescos?... 
Piedade? Mas eu não quero a tua piedade -- quero o teu amor!... E começou a passear na 
arena a figura angulosa e enorme, com o bengalão a rasto e o aspecto de velho amoroso 
e ridículo. Todo o circo se riu enfim. Outro salto e os risos estancaram. -- Mas repara, 
repara, não no que há em mim de grotesco -- no que eu sofro, no desespero com que me 
agarro a este amor que é a minha própria vida!... Deixa-os rir a eles, mas ao menos não 
te rias tu porque passei a vida a sonhar e esqueci a realidade... -- E ei-lo o homem que 
sonha, o homem de olhar perdido que não vê, que não ouve, que anda aos tropeções na 
vida porque sonha; o espanto e a dor do palhaço grotesco que cai de repente na 
realidade e a amarga... O homem que é feliz e tudo desdenha -- até que o amor o puxa 
para a realidade. E abria a boca enorme e desdentada, e piscava os olhos pintados de 
vermelho, ria-se ele próprio da farsa dolorosa que representava -- amar ou morrer! Amar 
ou morrer! E com ele toda a multidão outra vez gargalhou. -- Que fiz para ser assim?... 
Eu nunca fui amado! Eu nunca fui amado!... Uma vida de miséria e sonho, atrás de um 
ideal, sacrificada a um ideal, que só na velhice compreendi que me iludiu. E agora não 
posso voltar para trás! Viver para um sonho, se esse sonho nunca se alcança, se se torna 
em barro disforme, de que toda a gente se ri, nas mãos secas da velhice, viver assim é 
ser grotesco? Oh, na vida só o amor existe! Só o triunfo existe! Mas é tarde para a 
recomeçar! -- E era o corpo, era a fisionomia, eram os gestos ao mesmo tempo cómicos 
e trágicos, era o próprio chapéu alto arrepiado, que iam desenvolvendo a farsa, fazendo 
ressaltar os pormenores amargos, e narrando as saburruras de toda a sua existência, o 

31



sonho de todas as suas horas inúteis, as quedas e as desilusões, numa mescla que fazia 
rir e calafrios ao mesmo tempo. -- Amar ou morrer! -- Um esgar... A figura do homem 
que arrastou a vida sem amor -- do pobre sem amor. E a sua atitude exprimia o 
sofrimento de se contentar com desprezíveis mulheres do acaso; o dia de primavera em 
que se depara com uma criatura ruça e sumarenta que passa, e nem sequer nos olha. E 
até a paisagem se via através dos seus gestos -- um fundo roxo, fios de sol que reluzem 
na água e, no primeiro plano, uma abelha a zumbir no pé de urtiga onde o orvalho 
deixou suspensa uma gota que rebrilha como se fosse uma estrela... Outro grito: e ele 
encontra a mulher que ama -- a mulher que o há-de amar; a mulher que, depois duma 
vida ridícula, de pobre, de ignorado, de sonhador, o há-de amar antes da morte -- a 
mulher em quem há-de cevar-se até esquecer as suas noites geladas de sonho -- as suas 
noites esbraseadas de febre. Outro salto, outra exclamação e palavras mascavadas de 
palhaço que até a dor tornam ridícula. -- Pergunto então: um palhaço não tem direito ao 
amor, embora seja belo por dentro e a alma se lhe abrase em amor? Quem passou a vida 
a sonhar, se chega ao momento em que a vida não se compreende sem amor -- não tem 
direito a ser amado? -- Então, tal foi a sua atitude, de penante ao lado, que todo o circo 
gargalhou com estrondo, ao mesmo tempo que ele gritava mais desesperado e mais alto: 

-- Amar ou morrer! Amar ou morrer! 
Quem cortou a corda do trapézio?... Lídio, apenas sentado, sentiu um estalido e o 
seu olhar estoirado de angústia nunca mais se tirou do único fio por que a corda ainda 
pendia -- tão leve, tão fino... 

Descer?... O mais pequeno movimento era a morte, a queda na arena, 
despedaçado. O bailado se petrificara, poeira de oiro e de sangue, afinal abandonada 
pela ventania. Ninguém bulia e no silêncio sentiam-se bocas mastigar em seco e dentes 
que se chocavam de terror... O perfil fino de Camélia cortara-se de pavor e o Palhaço 
não tirava dela os olhos pequenos e quietos, encostado ao bengalão, o chapéu velho 
cada vez mais arrepiado. Gelada, a boca torcia-se-lhe de terror... Um minuto enorme de 
silêncio em que aquela figura grotesca fitou Camélia e em que Camélia o compreendeu 
enfim: 

-- Amar ou morrer? Amar ou morrer?
E ela num ímpeto gritou: 
-- Amar! Amar! 
Então devagar, todo negro, com flores escarlates na túnica, muito devagar subiu a 
corda -- e ninguém respirava. Devagar, segurou, pela parte superior, o trapézio tecendo 
com os braços a vida para Lídio, que logo desceu, quase inerte. 

...Viu-se então um trapo negro, bordado a cores escarlates, vir de cima, lá do alto 
do circo, e com todo o ruído das bexigas de porco, que prendia na túnica, o Palhaço 
estoirou na arena, grotesco até na morte... 

A música, desvairada e hílare, rompeu numa marcha de triunfo, e a multidão, 
entendendo que tudo aquilo era uma farsa de génio, sacudiu-se na tempestade 
estrondosa do riso, enquanto a poeira do bailado, borboletas de fogo, de luz, verdes, 
escarlates, roxas, sob o jorro dos reflectores, desaparecia num terror pânico. 

Na galeria, o Pita, a guedelha em pé no crânio rubro, acompanhado da D. 
Felicidade e do Poeta, rompeu em berros de triunfo: 

-- Fora o autor! Fora o autor!... 
32



Diário de K. Maurício 

O Diário de K. Maurício é constituído pelos pedaços de alma que aí vão. É um 
monólogo destacado e rouco, com frases incompreensíveis e quase sem ligação. Alguns 
pedaços eu corto: é que há coisas que se não publicam -- farsa para que os outros se 
riam, dores para que os outros sintam piedade. Lembra-me um clown que tivesse por 
força de fazer rir a multidão ignara. Esses corto-os e para mim os guardo; os outros aí 
vão, apesar de ver que perdem o interesse com que sangram aqui, no caderno de papel 
gelado, nestes sarrabiscos que têm vida e contam a sua dor. 

Tal como são, dão-me, porém, o que nesse tempo, já remoto, se chamava um 
estado de alma. Parece que ele, em noites de desespero, fazia literatura da sua dor, para 
se esquecer. São frases bruscas às vezes, páginas entrecortadas e monólogos espremidos 
do fel. E de súbito, num acesso, julga-se ouvir uma boca dizer-nos, na noite e ao ouvido, 
segredos que nos transem. 

Todo este Diário é áspero, com frases inacabadas, monólogo de quem vai numa 
subida a pique, mas, como é vivido e sofrido, amo-o e enternece-me, como se o próprio 

K. Maurício, numa longa conversa, me mostrasse a sua alma de grotesco, incompleta, 
mas tão dolorida e tímida, que me enche de piedade. A cada ilusão morta, como a sua 
sensibilidade estremece e como ele chora! Que estranho pessimista este, tão ingénuo! 
Decerto que nem sempre foi sincero, mas no Diário raramente pensou que teria leitores, 
assim como em todas as páginas que a seguir transcrevo, e em muitos pedaços atirados 
para o papel numa sofreguidão de se contar... 
Às vezes termina o monólogo, para se seguirem, como em todas as páginas do 
Diário em que a dor raciocina, bruscos ressaltos de loucura e sonho. Esta mecânica 
ingénua de opor à realidade o sonho, a uma ilusão morta uma ilusão viva, de quantos 
imaginativos não é o único amparo!... Amálgama curiosa, duma decifração difícil às 
vezes, incompleta, com notas para livros -- notas que eram apenas uma maneira de se 
iludir -- não é bem uma vida, bem uma alma? Quantas vezes, ao lê-lo, me parece que 
escuto uma voz que me conta toda a minha mocidade, com cansaços súbitos, 
desesperos, e este: amanhã! amanhã! que sem cessar me repito. 

33



«Sabes que não tenho a culpa. Há outro ser dentro em mim que faz, sob a minha 
vista, tudo o que é mau, sem que eu tenha energia para protestar, nem para me opor... 
Porque é que eu sofro com tudo e porque apenas as coisas simples e inesperadas me 
encantam? Um galho de árvore tocado de luz clara, que porventura encontro no 
caminho, um sorriso de mulher que passa e que eu nunca saberei quem é, apesar de o 
guardar no coração, um desmaio de céu ao sol-pôr... E, ainda nestas coisas, o prazer 
vem tecido de amargura: e uma tristeza deliciosa, como a dum amor que vai findar e de 
que a gente se apressa a beber os últimos olhares, feita, eu sei!, da pena de não ser a 
árvore, o sorriso, de os não ver todos os dias, de talvez os não sentir mais fundo... Para 
os outros gozos de que falas e para que vou de propósito, levo então sempre comigo um 
dos múltiplos seres de que sou composto, acordado e de pé -- a Dúvida. Não me 
abandono nunca: vou a raciocinar, já de antemão tendo visto tudo, e tendo medo da 
amargura que resta sempre na alma... Duvido de tudo, até das coisas mais simples, de 
forma que, apesar da minha sensibilidade, parece que feita de propósito para o gozo -- 
converto-o sempre em dor. Sou como uma guitarra afinada demais e a que estalam as 
cordas... 

Vocês têm reparado numa coisa?... Que se vertem lágrimas unicamente por 
vermos os olhos de outros doentes... É por uma questão de alma idêntica que damos 
esmola e que temos pena das desgraças alheias. A piedade é afinal por nós e não pelos 
outros... 

É como quando sei que estou a fazer uma coisa má e continuo; quando sei que 
estou a fazer sofrer alguém que amo e continuo. Há uma parte do meu ser que se 
revolta, mas não sei que fatalidade me impele e me faz ainda, para me esquecer, fazer 
pior... 

Hoje, por exemplo, foi para mim um dia de exaspero, destes dias em que não amo 
ninguém -- e agora bastou esta macieira, como uma frase sentida e arrancada do fundo 
do coração numa conversa estéril e seca, para me arrasar os olhos de lágrimas... Como 
eu sou contraditório! 

A desgraça nos outros aflige-me por egoísmo. Quando alguém me descreve um 
doente ou eu o vejo, tenho pena do egoísmo: começo a ver aquela doença em mim. E é 
por um raciocínio idêntico que dou esmola. Egoísmo -- egoísmo e vaidade. 

Encontro a dor no fim de tudo. Não vou para um prazer sem pensar no fim, na 
desgraça que em tudo se aninha, no tédio de ter realizado... E na minha alma se faz a 
pouco e pouco um grande vácuo, um amargo tédio por a vida ser só isto, por o sol 
brilhar só duma forma, e por já ter imaginado todas as coisas... E no entanto eu não vivi 
senão por imaginação. 

Sou apenas um duro egoísta, sem alma, capaz de me enternecer, duma grande 
sensibilidade, mas não duma grande dor? De tudo sentir, mas não de sofrer muito? 

Eu que me comovo com uma palavra sentida, serei tão incompleto e tão grande 
egoísta, que não seja capaz de sofrer? Homens de génio há que morrem-lhes os filhos e 
ficam secos, e porque um certo dia, numa certa hora, pisaram um bicho, é como se lhes 
tivessem calcado o coração! Assim conheci eu alguém, que fugia de casa a chorar de 
todas as vezes que lhe podavam as fruteiras do quintal e que deixava a mãe a morrer à 
fome! 

34



Esta piedade que eu sinto por tudo o que na vida magoa, não é um egoísmo? Não 
é antes piedade por mim próprio e um dilacerar da minha própria alma?... A minha 
desgraça cavo-a eu e com que fúria! Pormenores que para os outros passam 
despercebidos, miúdos casos da existência que para nada importam, com que furor, 
ainda que se rompam fibras, eu não os cavo -- coveiro que anda a abrir a própria cova 
para enterrar o quê? Restos que para nada importam, porque a alma, ilusões, tudo já 
despedacei. O meu infortúnio faço-o eu, maldita sensibilidade! A minha alma corcova, 
com pedaços torcidos, paralisias em parte e noutras tão sensível que se lhe não pode 
tocar... 

A minha face empederniu-se. Apenas nas horas de dor um rictus ma corta, com 
uma expressão de amargura. Poderosa máscara arrepelada de dor, tenaz formada pelo 
nariz recurvo e pelos fortes maxilares salientes. Depois há nos meus olhos quietos e 
baços, nas menores linhas da minha figura, não sei que canalhice, que massa de 
lágrimas e de esgoto!... 

De tudo o que queria ser se fez em mim uma grande derrocada. Por vezes ainda 
um resto de ambição brilha num ímpeto, como uma lâmina que se desembainha, mas 
logo cai prostrada e morta... 

Esta mesma secura em que vivo me aterra. Sou como uma criatura que visse o 
fundo de todas as coisas: no amor o interesse, na caridade o egoísmo. Estou seco como 
um mirrado galho de árvore ao fim do estio e em tudo encontro o fastio e o tédio. 

O mesmo horror da morte me passou. Encolho os ombros agora, e, de entre tudo, 
só uma coisa me resta: o Sonho. No covil do meu quarto, donde agora nunca saio, 
agarro-me com sofreguidão à mais miúda ideia, até que de a exagerar me canso. Tanto 
sonho que a queimo. Tenho mesmo os sonhos divididos, de forma que tudo o que eu 
queria ser, os triunfos que sonhara, as grandes coisas que imaginara, as vejo, as tenho 
aqui comigo, conforme a minha vontade omnipotente. E há dias em que me deito cedo, 
dizendo-me: Vou ser Deus! Deus! 

É por isto que eu fujo de conversar. 

Sou tão comediante, que nunca digo o que penso e o que sinto. Também nunca 
oiço o que os outros dizem, e, enquanto finjo escutar atento, penso no que vou dizer. 
Assim o que digo são restos de frases, palavras que trago na cabeça. E da conversa saio 
sempre humilhado e irritado... 

Desato a chorar com uma pena de mim!... Estou aqui, estou doido. 

Às vezes vou passear com outros e no fim duma hora acordo persuadido de que 
tenho conversado muito. Na verdade tenho ido mudo: a conversa tem sido comigo, 
sempre comigo, destacada, feita de pedaços, e não sei discriminar onde começa o sonho 
e acaba a realidade... 

Eu nunca estou só. Quando me isolo é que estou mais acompanhado: torturas, 
sombras, ilusões... 

Quando, alta noite, na cidade toda negra, vejo uma janela que ainda luz, me digo: 
Tu, quem és, tece, tece, ainda que tudo seja vão, se quebrem os fios e nada te reste por 
fim: tece, ainda que na engrenagem te vão ao certo pedaços de coração, de nervos e de 
alma... 

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Desolação infinita destas noites de invernia brava, com o mugir da água escura e o 
mar a buzinar na costa. Todos se deitam cedo, e eu encosto a testa, a escaldar de febre, 
aos vidros da janela... Como ninguém me conhece! Como eu próprio me conheço mal!... 
Deus! E uma cova negra, de infinito, diante de mim... Só o mar brame numa tristeza que 
me faz chorar... 

Passo o dia a espancar o pressentimento duma catástrofe e é singular como a 
desgraça me aproxima dos desgraçados. A desgraça não isola como a felicidade. Eu 
faço parte da legião dos que sofrem e não é por mim só que eu falo nem sinto: vejo adesgraça em tudo. É que em tudo acarvoo e só me sossega o sonho, construir outra vida 
imaginária. E como um espinho a espicaçar-me persiste, até que me enche, por fim, uma 
amargura infinita, uma desolação, que esta noite de ao pé do mar, a água escura, a 
ventania revolta, mais acarvoam, com o meu destino, a minha sorte, o meu futuro assim 
negro... 

Na vida eu não tenho senão, não direi amigos, mas pessoas por quem me apaixono 
e inimigos. Nunca indiferentes. 

Porque é que eu faço de propósito coisas que fazem sofrer? Que prazer encontro 
nos espinhos que me dilaceram?... E o pior é que eu sou diferente dos solitários que só 
se ciliciavam a eles: sou diferente porque sofro e faço sofrer os outros. 

Oh, os meus amigos! Eis que hoje, porque um deles é feliz, me ponho a raciocinar 
sobre a amizade, e muitas coisas que sentira sem saber exprimi-las e que lera sem saber 
compreendê-las, me aparecem agora nítidas. É que eu já alguma vez me alegrei com a 
felicidade de um amigo? Que é que senti, senão esta alegria exterior, adquirida e 
ensinada, quando alguém com quem vivo é feliz? Inveja ou raiva -- e sorrio, a boca seca, 
o olhar perdido numa quimera de desastres e de amarguras... E no entanto sinto anecessidade de me dedicar, de amar, de sofrer com a dor alheia. É isto afinal: eu só sou 
amigo dos outros quando eles sofrem, e preciso que me sejam inferiores, que sejam 
perseguidos pela desgraça, para eu os amar. 

Que os indiferentes ou os meus inimigos sejam moços, belos, ricos, que me 
importa? Mas que aqueles que vivem comigo sejam mais felizes do que eu, tenham 
mais talento, calquem a minha vaidade a todos os minutos e me venham contar, para eu 
me alegrar, os estúpidos!, como são felizes, enraivece-me e faz-me sofrer. Quem odeio 
são os meus amigos -- se triunfam... 

E isto obriga-me a pensar nos desgraçados e nos grotescos, na dor dos impotentes, 
na miséria dos que têm de ser nulos toda a vida; neste roer da inveja, que enche de 
rugas, que entorna fel na alma e faz das noites um monologar contínuo, cortado de 
ilusões e de quedas, e da vida um desespero. Que livro, o livro dum incompleto, que 
narrasse a sua ambição e os seus ódios, que estatelasse com orgulho toda a sua alma, 
para que os outros se rissem da sua impotência! Revoltante e humano, surpreenderia 
pelos recantos inéditos de alma, se dissesse toda a amargura reles, mas que faz sofrer e 
que despedaça muito mais do que as grandes desgraças, que na sua grandeza têm quase 
uma compensação, e que não deixam para toda a vida os vestígios saburrentos destas 
misérias irritantes. Esse esguicho de lama daria talvez a sensação de riso e de arrepio 
dum clown enforcado num ramo de azinheira, em sítio ermo e bravio... 

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Com que extraordinária sinceridade me ponho, numa fúria, a descobrir, nos 
outros, vícios e defeitos que eu mesmo tenho e a odiá-los por isso!... Tenho a certeza de 
que é invejoso! -- digo-me. Mas porque é que me encarniço a procurar nos que amo más 
qualidades? Sou sincero quando, sem raciocinar, imediatamente, ao encontrar nos 
outros um defeito ou um vício, os rebaixo a meus próprios olhos, para me demonstrar 
que são indignos de ser meus amigos?... Não, não é por isto: eu é que sou invejoso e, 
por inveja, é que os humilho com fúria na minha própria alma... 

Egoísmo absoluto, secura de alma que me desespera. Nem uma ideia a que me 
agarre, nem ao menos sentir, ter uma dor de alma tão forte que me faça esquecer... 
Esquecer! Felicidade de ser árvore!... 

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Como é pequena a Dor que eu, imaginativo, engrandecera! Ó quimera da vida! 
Pois a vida é isto? Estes apertos de mão, esta mentira, este monólogo entrecortado de 
risos, de lágrimas e de infâmias? Este sonho e esta lama? Esta inveja e esta vaidade? 
Isto é que é a vida? Ou eu sou diferente?... 

Os pessimistas! Mas eu adoro-os, tanto quanto os optimistas me irritam comocriaturas que não têm alma. Que é ser pessimista? É crer na vida como ser diabólico, 
blasfemar é ainda acreditar em Deus. Pois não são só os que sofrem, aqueles a quem 
magoaram nas suas ilusões, e que, como uma grande sensibilidade, a vida brutaliza, que 
se põem a dizer mal dela? 

Dá-se comigo uma coisa curiosa: é que muitas vezes me acontece estar a dizer 
palavras falsas e a representar, sabendo-o. Digo-me: Estás a representar! -- e apesar 
disso continuo, com o mesmo sorriso fingido e as mesmas palavras feitas para a galeria. 

Diálogo: 

-- Porque não fazes isso?... 
-- Já o fiz, porque já o sonhei: já tive a imaginação do triunfo, de ter vencido, de 
ver os sorrisos amarelos dos meus inimigos. O resto agora é o estupor da realidade: é 
transformar uma coisa alada, de sonho, numa obra fria e de pedra, torturante sempre e 
tão seca, tão dura! 
Tenho vontade de chorar, de me desfazer em tristeza, de me pôr a dizer baixinho o 
que sofro, as iniquidades que me nascem na alma: há certas horas em que a gente tem 
necessidade de dizer tudo, de contar a sua vida: creio que a confissão cristã é obra dum 
grande psicólogo... 

Ao contacto da vida cada vez me degrado mais. Fujo para o sonho com um «ah!» 
de satisfação... E há dias em que me enlameio na vida para me encharcar com mais 
alegria no sonho. 

Fecho as janelas e as portas -- fecho tudo -- porque só a noite é propícia ao sonho -- 
e reentro na minha vida habitual, na única em que me sinto viver, em que sou rei e amado, 
com os fantasmas que criei e que vivem na minha companhia. Até as paisagens de 
sonho me parecem mais belas que as da realidade. 

Já vivi numa cidade construída de restos de sonho que uma ventania de loucura 
atirara para a planície, como nuvens aglomeradas num fundo azulado de tempestade. 

(Às vezes os meus sonhos riscam-se de carvão, mordem-se de delírio -- e há 
fisionomias que depois encontro na vida e que já vi com linhas diferentes que as 
desfiguravam. Na rua surpreendo às vezes olhares de quem me conhece, logo reprimidos...) 


Era uma cidade edificada ao pé duma laguna vítrea como o olhar dum morto: água 
gélida e polida ao fundo da planície, que nenhuma charrua lavrara, Nínive construída 
duma só pedra enorme e negra. 

...Sei que a multidão, no silêncio e no negrume, arrancava de súbito em correrias 
pelas ranhuras esganadas das ruas, sem destino e sem sentido. Curvada, numa dor 
contida e atroz, sumia-se na noite e deixava um risco de som magoado como uma viola 
que se parte. Ficaram-me na memória restos de frontes aflitivas, linhas, esgares, corpos 
hirtos e rapados. Toda a turba fugira, subindo um calvário, descera o monte, alagara o 

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vale, terras nuas até ao horizonte acarvoado, com um brilho de dúbia claridade quieta ao 
meio... E, porque as nuvens alastrassem, desaparecera, comida da treva, como se a 
tragasse, num grande silêncio, a própria noite. 

Mas a claridade cortou outra vez o céu, uma claridade baça, imóvel, em feixes, 
alumiando metade do monte, metade do vale, deixando o resto no nada, uma grande 
mancha alastrada sobre a vertente da esquerda, e a multidão apareceu, indecisa, fugidia, 
adivinhada extensa na luz dúbia, a encher toda a planície, como num carvão de 
Sequeira, e troncos contorcionados, faces arrepiadas, contracções de dor, misturavam-
se, a subir, a esgadanhar-se, numa fúria de vida... E, como a luz caísse então para o 
fundo, toda a planície se coalhava da turba. E os gestos que eu fazia repetia-os a 
multidão, e risos baixinhos, como um chapinhar de maré, iam agora do princípio ao fim 
da planície... 

Sucede-me às vezes ir pela rua fora e ter a impressão de que toda a gente parou a 
olhar-me. Não me volto para não endoidecer, porque tenho a certeza que dava com a 
multidão parada, imóvel, a olhar para mim, não com a mesma cara indiferente em que 
fingem não me conhecer, mas com a outra dolorosa, com a cara trágica da verdade com 
que as encontro no sonho. Os risos, oiço-os e perseguem-me como o chapinhar da maré 
que sobe... 

Eu estou doido! A minha vida é uma contínua humilhação em busca dumaquimera. Depois pergunto-me: Para quê? É que vale a pena? Não me engano? Quem me 
diz a mim que não sou tão nulo como os outros, absolutamente como os outros?... 
Enregelo-me só de pensar em tanto esforço perdido, se penso que trabalho para que os 
outros tenham pena de mim. Como eu os odeio! Com que risos, que me fazem doer as 
faces, não os escuto contar-me como triunfam! Para que consintam que eu tenha valor, 
lhes sorrio, com fel na alma, a boca seca: humilho-me, encolho-me, não tenho opinião e 
depois a sós enraiveço-me. A voz cá dentro começa a acusar-me: Para que te humilhas, 
besta? E diz-me como sou vil, mostra-me a minha alma mesquinha e a sangrar... 
Depois, esta mesma certeza de nulidade faz com que eu me ponha a pensar na morte 
deles, um a um, ou em fugir para muito longe: nunca mais ver ninguém que por mim 
mostrasse um interesse, que eu sei fingido, uma amizade que me enraivece, porque se 
parece com a compaixão... 

Eu não compreendo a amizade assim, nem o amor assim. Parece-me gelado e faço 
sempre até da secura uma paixão. A piedade que tenho pelos bichos estende-se até às 
duras pedras dos caminhos. Acredito que tudo sofre, que tudo tem alma e emoção -- as 
árvores, as criaturas e os calhaus. E até, sabei-o, já uma vez me aconteceu ter lágrimas 
pela sorte de uma pedra que nem minha conhecida era. 

Muitas vezes me parece que sou composto de duas criaturas: uma cheia de 
emoção, sendo capaz de correr perigos para salvar um bicho da morte, outra que dentro 
em mim se encarniça, raivosa e má, com invejas, pragas, coisas mesquinhas, 
tumultuárias e indefinidas... 

A vida parece-me uma má tragédia onde as criaturas são despedaçadas por entre 
lágrimas, berros de pavor e risadas de escárnio. Tenho visto gente crescer, amigos 
mortos, catástrofes, árvores que se cobrem de flor, noites tão húmidas de luar e de vozes 
dispersas que dão vontade de morrer. Que faço eu aqui? Não acredito em nada a valer, 
não tenho fé, nem sou capaz de me sacrificar por uma ideia: vou no vagalhão, 
empurrado, arrastado ao sabor das ventanias. Parece-me que já vi tudo e já senti tudo. E 
no entanto tenho medo de morrer e ponho-me a pensar às vezes que só vale a pena viver 
para sonhar noutra vida melhor: para tecer quimeras, ideias... Mas tudo isso é tão 

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fugitivo!... 

Vi que a multidão é má e se ri e despedaça, indiferente, criaturas; vi que há 
homens tão desgraçados que até na dor são ridículos. As suas amarguras fazem rir a 
multidão. Nascem para sofrer, eternamente perseguidos, encolhidos, habituando-se até à 
desgraça... 

Outros têm na vida um método e vão por aí fora e tudo subordinam às suas ideias, 
torcendo a vida p'ra que ela caiba dentro de regras. Riem, choram, atropelam-se. 
Sofrem e f azem sofrer. E as árvores gelam de flor, há noites de tanto luar que fazem 
palpitações de coração. Tudo em torno é indiferente a esta tragédia, em que uns não 
sabem para que representam há tantos séculos, e os outros, de tanto escutarem, vão 
ouvindo por hábito sempre as mesmas coisas, monótonas e repetidas... 

Para afinal morrer!... É certo: todo este sonho, esta luta, toda a vida feita de 
desesperos e de lágrimas, de coisas encadeadas, umas ridículas e outras dolorosas -- para 
afinal morrer!... Se olho para trás, é a mesma cadeia, tecida a lama da vida e a oiro do 
sonho, amassada nas mesmas lágrimas; se me ponho a ver o que me espera, é a mesma 
coisa ainda: caras que envelhecem e se fazem duras, corações petrificados, o mesmo 
tédio, a mesma rua comprida e estúpida. Que estás tu aqui a fazer?... Ah sim, os 
outros!... Os outros não me importam -- se não os odeio... Para que é que eles me 
humilham? Para que é que eles triunfam na vida? Para que é que são felizes, quando eu 
me desespero?... 

E a verdade negra é que esta mesma inveja me dilacera... Quando me ponho a 
odiá-los, ao sorrir-lhes, uma voz se encarniça dentro de mim, a bradar-me: Sou um 
invejoso! Sou um invejoso!... E depois tenho a noite perdida, deprimido, humilhado, a 
cara a doer-me de lhes ter sorrido, na alma o rancor, a vontade de romper um dia a 
cuspir-lhes o meu ódio... 

Mas isto não dura, pois que eu nem no ódio tenho energia... 

Esta noite bem vi que falavam de mim e que se riam de mim. Bem o sei e bem o 
sinto, e é humilhado, rasteiro, que eu me ponho a escutá-los, a falar-lhes... 

Acontece-me às vezes não ver um amigo dois meses: quando outra vez o 
encontro, é para mim um desconhecido. 

Suspendem-se na minha alma teias de aranha, como num cubículo de há muito 
abandonado. Não sei o que hei-de fazer. É um tédio vago, feito de névoa alastrada, que 
só foge com a vinda da noite, para que vou desesperado como para um princípio de 
cova, um começo do mistério do não-ser. Aborreço-me a mim próprio, depois de ter 
aborrecido tudo: fico absorto, sem bulir, desesperado por não sentir, nem pensar. 

É por isto que eu fujo de conversar. 

Não é por ser comediante que nunca digo o que penso e o que sinto. Também 
nunca oiço o que os outros dizem, e, enquanto finjo escutar atento, penso em ti -- vivo 
para ti... Assim, o que digo são restos de frases, palavras que eu trago na cabeça. E da 
conversa saio sempre humilhado e irritado... 

Às árvores, para dar flor há-de-lhes doer. 

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Ando a passear na vida uma imaginação desgraçada, que me faz achar tudopequeno na realidade. É assim que por imaginação tenho sofrido tudo e sentido tudo: 
portanto, se uma desgraça cai sobre mim, ou se vou entusiasmado para um prazer, 
acontece-me amiúde ter um -- era só isto! -- de espanto. Tanta vez tenho assistido à 
minha perda e à dos outros, a escarlates quimeras, que ser morto ou ser rei, enforcado 
ou carrasco, não me espicaçaria com novas sensações. Estou gasto e velho, porque, sem 

-- ó desgraça! -- ter vivido, tudo vivi. Eis a razão de ao lado da minha amargura, do feitio 
azedo, de perseguido, que há em mim, uma outra porção da minha alma estar cheia de 
ilusões, de candura e de lágrimas: é que tem sido por imaginação e não na realidade que 
vivi. 
Tenho medo de morrer. Porquê? Pelo desconhecido: e muito mais me aterra outra 
vida, consciente, do que o repouso, ser couve, árvore, macieira do meu quintal. Tivesse 
eu a certeza de que a morte era apenas a transformação e nada de pior, e, morto, me 
plantassem uma árvore, um simples espinheiro na cova, e toca a ser seiva, a ser flor, a 
apanhar sol, sem sofrer e sem coração e sem pensar. O que me aterra é encontrar-me 
depois com não sei quê de espantoso, de cova... -- O que me aterra e o que me atrai. 

Serei eu incompleto? Sou apenas um duro egoísta, sem alma, capaz de me 
enternecer mas incapaz duma grande dor? De tudo sentir, mas não de sofrer muito? 

Homens de génio há que morrem-lhes os filhos e ficam secos, morrem-lhes as 
mães e ficam secos, e porque um certo dia, numa certa hora, pisaram um bicho, é como 
se lhes tivessem calcado o coração!... Assim, conheci um homem que fugia de casa a 
chorar todas as vezes que o hortelão podava as fruteiras do quintal, e deixava a mãe 
morrer à fome! E estes homens sabem descrever a dor como ninguém, contam-na, por 
imaginação, nos seus livros, tão sofrida que nos fazem chorar. 

Um pobre homem que sofra muito, e que nos conte a dor, é muito menos capaz de 
nos transmitir essa sensação do que um homem de génio. Porque um sofreu apenas, sofreu 
como uma árvore que se corta, sentiu a dor: não a comentou, não a explicou, não a 
transmitiu ao cérebro, não a armazenou: sofreu como um simples, e, se a quiser contar, 
tem duas ou três palavras apenas: falta-lhe a imaginação da dor. Algumas vezes essas 
duas ou três palavras valem por todas as páginas do outro; mas valem só para quem 
tenha imaginação para as receber, para as sentir e para com elas criar... 

Não! A grande dor, tão humana, talhada de uma só peça, que aniquila e parte o 
coração e o crânio, não a sentem; perde-se, desfeita em múltiplas sensações, que vão 
despertar ideias. Por isso mesmo também os nervos se lhes torcem e vibram com a água 
que corre, com tons violáceos de montes, ou com a saudade, com a alma duma árvore, 
pois que eles até sentem as coisas agressivas ou de braços abertos... 

Enriquecem o seu cérebro, a sua personalidade, e o seu génio é cada vez maior. 
Egoístas duros, tiram dos outros o que lhes pode aproveitar, dos amigos o que lhes pode 
servir para a sua alma: incapazes de sofrerem, de se dedicarem, de viverem a não ser 
para eles próprios. 

Quanto mais desenvolvem a sua personalidade, feliz e rica, menos aptos para 
sofrerem a grande dor e mais prontos em sentirem piedade por tudo, pelos bichos, pela 
paisagem, por uma árvore que se esgalhe num fundo opalino, por um azul do céu que os 
enterneça, lágrimas nos olhos a uma palavra sentida, coração como uma pedra diante 
duma grande desgraça. 

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Às vezes para fugir a mim mesmo percorro os arredores desolados da cidade. 
Deito-me na terra ao pé duma poça e ponho-me a cismar... 

As rãs verdes atiraram-se à água: pelhau! pelhau!... Últimos dias de Abril e um 
calor de forno. Debrucei-me à beira da lagoa, à sombra, estendido nas agulhas dos 
pinheiros. Ao lume da água esverdeada e lisa nasciam salpicos de floração pequena e 
viva e verdes tufos de erva. 

Apenas me estendi, que logo as rãs deitaram a cabeça de fora, o olho esbraseado e 
vivo posto em mim. Decerto o meu aspecto as tranquilizou, e adivinharam porventura a 
simpatia que eu tenho pelos bichos inocentes, pois que sacaram a barriga para o sol... 

Já à beira do caminho encontrara muitos sapos que nem buliram sequer, extáticos 
para o sol, para as árvores, para a primavera, na felicidade de se sentirem viver e 
crescer: à beira dum caminho, um tinha outro às costas; em cima dum calhau, outro 
parecia petrificado, a babar-se, numa fascinação. E toda a lagoa fremia de vida: 
pequenos bichos viviam com ferocidade, álacres, e corriam, nasciam, morriam contentes. 
Rãs pançudas coaxavam com satisfação, por estar calor e por vir a primavera; e 
uma tinha um coá-coá de baixo, tão glutão, que eu mesmo me senti rir, enternecido. As 
árvores medravam, cobriam-se de flor. Não tive mão em mim, que não me pusesse de 
ouvido à terra, a escutá-la estremecer, desentranhando-se em vida e em amor. Que bafo 
é este procriador que atravessa a matéria, a fecunda e a transforma em seres e em vida? 
Que força é esta, única, cega, que cria, organiza, e além transforma? Quem me diz a 
mim que ainda não hei-de vir a ser rã, ou espinheiro de valado, e que, morta a razão, não 
terei enfim a felicidade dos bichos -- a de se sentirem viver?... 

A imobilidade não existe, a morte é uma transformação apenas... Ser hoje homem, 
amanhã ser sapo ou ser flor, que importa? Tudo se paga; a felicidade que estes bichos 
têm não me pertence: nem sou vivaz como este espinheiro florido, nem o sol, a luz, a 
primavera, me impressionam como a eles. Se raciocino, eles não têm coração para ser 
despedaçado, nem alma para que os outros se riam. 

Que é Deus? É esta força inconsciente, cega, fecunda, que rebenta na matéria, 
enche de flores as árvores, de emoção os poetas, e, cega como o destino, forte, sem 
piedade, tudo transforma, e leva, num aluvião, corações, lágrimas, cérebros, para irem 
mais tarde, numa outra primavera, cobrir de flor as cerejeiras?... 

Borboletas noivavam, perseguiam-se aos pares, amarelas, escarlates, cor-de-rosa -- 
pequenas flores a voar, a estremecer na luz, a poisar de leve nos galhos... Borboletas, 
árvores, bichos, a cada primavera que vem, toda a terra estremece, de tal maneira que 
me quer parecer que ela é também viva e se sente feliz por viver e noivar.

Porque é então que tenho medo de morrer? É esta transformação que me aterra?... 
E eis o que na primavera, diante da Vida, me ponho a pensar. 

Se eu pudesse com a consciência de mim próprio ir ser árvore de caminho, 
macieira de quintal, deitar galhos, encher-me de floração, ser feliz com o sol, com a 
primavera, com o azul, dizer comigo muito contente, e muito baixinho: Olha, lá vai 
aquele homem trabalhar, sofrer... -- que me importava a morte?... Se eu soubesse que, 
bicho, forte, vivaz, à espreita numa toca, dizia comigo: Espera, lá vai aquele poeta a 
tecer!... -- até era amigo da Morte!... O que me custa, afinal, é a perda da minha 
personalidade: habituei-me, de tal maneira, ao sofrimento, que me custa a deixá-lo e a 
ser feliz. E vale realmente a pena? Vejamos: o que faz a minha desgraça, e a nossa 
desgraça, é a consciência e o raciocínio. E é isto exactamente o que me custa a perder. 
Porventura um bicho se põe a pensar: fiz mal ou fiz bem?... 

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E eis que também, ao ver grandes árvores fortes, sinto que tenho pena de não ser 
assim, de não deitar galhos, dar sombra, esfuracando a terra com raízes. Decerto alguma 
porção do meu ser se lembra de ter sido pinheiro... Vocês nunca ouviram, numa noite 
babada de luar, um escorrer triste de água, como vozes a chamar, a chorar? É a água que 
se lembra de ter sido árvore, gente, e reluz... Para a minha esquerda tudo está coberto de 
floração: parece que bandos de borboletas cansadas poisaram sobre os galhos dos 
pomares anainhos... 

Tudo isto vive em ferocidade, desde as árvores até às couves luzidias e verdes 
daquela pequena horta... 

A terra fermenta e dessa podridão saem árvores, bichos, ilusões... Ponho-me a 
cismar: o que é a vida diante desta cova eterna -- o infinito? Que é viver? Sinónimo de 
sofrer? E a morte de que tinha pavor, a morte que o desvairava?... 

...Sempre a mesma coisa, as mesmas palavras remoídas, as mesmas caras -- que 
me irritam -- as mesmas ideias, que me surpreendo a repetir... Mas para que vivo eu? E o 
que é a vida?... Sou igual a esta árvore e o mesmo sopro procriador que a enche de 
floração é que me tolhe de sonhos?... 

Se me surpreendo a cismar, de noite, e olho para a cova do infinito, tenho medo 
que me fuja a razão. Indago, olho para trás, para toda a minha existência, a ver se 
decifro o enigma que me tortura... Pois a vida é isto? Estas lágrimas e esta dor, estes 
apertos de mão fria, este tédio e esta lama, este desespero de querer sonhar?... E o que 
represento eu diante do infinito, o que é a humanidade diante do que não acaba -- buraco 
escuro onde a poalha dos mundos nasce, envolvida no mesmo mistério que neste Abril 
salpica de floração as macieiras? 

Sensibilidade exasperada, com ímpetos de louco, sinto-me como fora do meu 
lugar, em busca nem eu mesmo sei do quê, enquanto à volta de mim a vida se sucede 
harmónica e viril. A primavera tudo enche de floração, a morte cobre tudo de vida. 
Aborrecido, eis-me sem energia e sem vontade, a não ser às rajadas de nervos -- e tudo o 
resto no mundo me parece vivaz e forte. 

O que faz a minha desgraça é a consciência e a razão. Por lógica sou obrigado a 
concluir pela felicidade do não-ser, de entrar no bafo procriador, que tudo enche de vida 
e de emoção, de fazer parte do inconsciente, de ser a força que se não pode separar da 
matéria, com as suas combinações químicas, hoje árvore, amanhã luz, seiva, água 
corrente, tudo menos homem, porque esse raciocina e sofre, enquanto o resto sente, 
sofre talvez, mas não é desgraçado, porque a desgraça provém não do sofrimento em si, 
mas da razão... 

Fico horas estendido na terra a ver crescer as ervas e no meu crânio vai um ruído 
de fermentação, como se eu próprio me diluísse na matéria. Imagino a Morte e a Vida. 
Toda a terra ferve em decomposição de cadáver: brotam as árvores, que por seu turno se 
enchem de floração e mais tarde morrem: ela própria é um vasto cemitério, regado a 
lágrimas e a amargura e de onde a fecundidade, a emoção e a vida renascem. A química 
produz, conforme a substância da matéria, a Vida, a Morte, a Luz e o Amor. Portanto, a 
vida é sem destino, sem outro fim que não seja viver. E viver para morrer é irrisório. 

(E no entanto, o que eu tenho é um medo enorme da morte... Posso fugir, procurar 
esquecer, ler os meus filósofos, que o terror da morte não me deixa. Descarnada e triste, 
encontro-a no fim de tudo, em todas as coisas. Até este galho de macieira, tão coberto 
de floração que me enternece, a própria fecundidade, a minha emoção, ma fazem 
lembrar. Confesso-o, confesso-o, tudo é vão, filosofias, palavras, sistemas!... Só existe 
uma única coisa boa: viver, viver!...) 

Quem me dera a mim, em lugar de uma criatura levada pelas rajadas dos nervos 

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como por desencontradas ventanias, ser um homem de emoção sempre igual e sempre 
pronta. Deveria na minha vida ter tido uma grande desgraça que me afastasse deixando-
me mais forte e sozinho: teria um quintal com uma grande árvore, e aí, com os meus 
filósofos, construiria um sistema para meu uso, com pena da humanidade e lágrimas e 
emoção diante de tudo -- das árvores e dos bichos. E quando morresse seria enterrado ao 
pé da árvore (porque o cemitério ainda me desvaira mais do que a morte) e ajudá-la-ia a 
crescer, a botar mais flor e mais galhos. 

Ponho-me a ver e no fundo do meu ser não encontro senão egoísmo e vaidade. Se 
sou bom é por vaidade e por comédia: represento para me enganar a mim e aos outros. 
Quando uma doença ou a morte dos outros me torcem os nervos, porque é que tenho 
pena, canalha? É porque me vejo logo a mim, estendido, doente, morto... 

A verdade é que a minha alma é seca como uma pedra, e não é pelos outros que 
choro, é por mim. 

Digo estas coisas nem sei bem porquê: é como se no fundo do meu ser algumavoz murmurasse as palavras que repito. Às vezes surpreendo-me a dizê-las, a fingir 
sentimentos, a mascar frases que já ouvi. Comédia! O que dentro de mim murmura é 
aprendido, ensinado, visto que não sinto. Ainda hei-de espancar tudo quanto em mim é 
fingido e mostrar-vos depois a minha alma, a sangrar, cheia de ódios, viscosa, mais 
viva... Isto é tudo fingido. Outrora eu me supunha desgraçado por ver que em troca do 
amor, da paixão que punha nas mais miúdas coisas da vida, em todos os sentimentos 
que, exasperado, engrandecia, não encontrava senão cansaço ou afectos que me 
pareciam gelados. Depois pus-me a pensar: mas eu é que sou doente, e a vida foi-se às 
ilusões, arrancou-as e deixou-me a alma nesta secura. 

O amor e amizade que procurava não existem, nem podem existir, eu bem o vejo 
agora. Era tudo falso, aprendido, inventado. (Mas esta invenção é ainda a única coisa 
boa da vida para mim. E as lágrimas que chorei, tenho pena de já as não chorar, e tudo o 
que sofri sobre as minhas ilusões mortas, quem mo dera sofrer ainda!...) 

Como a vida me repele, cada vez mergulho mais fundo no sonho. Sonho mais, 
sonho acordado. Ando aos tropeções na vida. 

O sonho é o único refúgio que me resta. A amizade é uma mentira, a vida fere-
me? Reentro no sonho. O amor é grosseiro? -- tenho Hélia, que criei, à minha espera... 

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Na minha alma é tudo vago e inacentuado, como nos dias cinzentos de névoa... 

Tudo é ilusão e mentira. As árvores que eu amo sobretudo na terra, as coisas e as 
criaturas, são ilusões: a gente é que as cria, as faz belas ou tristes, sofredoras ou hirtas; a 
morte e a vida, transformações que para nada importam; o homem, uma quimera com 
ânsia na alma... 

Portanto só o sonho nos resta e só por ele vale a pena viver. 

No fundo do meu ser se amontoou um grande, um profundo asco pelas criaturas. 
Sob a máscara da virtude encontro o egoísmo e a vaidade. Acho que só vale a pena 
dominar, conduzir a multidão estúpida e ignara, para passar a vida e esquecer esta luta 
continuada de exasperos e de aspiração que na alma de cada um se debate. Mas se vou a 
lutar pergunto-me com tédio: Para quê?... E há dias em que tenho pena de não sofrer 
como outrora... Horas e horas aperto a cabeça nas mãos e pergunto-me raivoso: mas que 
ideia faço eu de mim e da vida? Que é que eu significo? 

Encontro a dor no fim de tudo. Não vou para um prazer sem pensar no fim, na 
desgraça que em tudo se aninha, no tédio de ter realizado... E na minha alma se fez 
pouco a pouco um grande vácuo, um amargo tédio por a vida ser só isto, por o sol 
brilhar só de uma forma e por já ter imaginado todas as coisas... E no entanto eu não 
vivi senão por imaginação. 

É sempre a mesma coisa há meses, a mesma ansiedade sem causa, que não sei de 
onde provém. Parece-me que espero uma desgraça desconhecida, uma catástrofe que 
ignoro -- e que nunca chegará. Que nunca chegará, ouves bem?... Vivo alheado, o 
cérebro espalhado por todas as coisas: apenas esta inquietação me domina e enche. Se 
saio do sonho, não sei viver. Sobressalto-me com o menor ruído imprevisto: a porta que 
se fecha é para mim uma angústia. Compreendes isto? Antes a catástrofe que espero 
caísse sobre mim e me estatelasse no solo, do que este terror contínuo, a inquietação do 
que é vago, o aflitivo do nada... 

E eis-me assim absorto: as ideias não me prendem, as coisas não me prendem: vão 
e vêm sem se fixarem no meu espírito, num redemoinho. O findar das tardes, nesta 
primavera, é-me então doloroso. Quase nunca saio: é na prisão do quarto andar que teço 
as minhas ideias. Vês tu? Às vezes tenho esta ilusão: de que o meu quarto está cheio de 
teias de aranha, a tal ponto tenho aqui imaginado e sofrido... Sobretudo ao fim da tarde é 
tão triste! A luz entra pelas grades, pálida como clarões de almas que se extinguem. O 
crepúsculo enche-me de nostalgia. Lembro-me de coisas de outrora, e é como se sobre 
mim passasse o afago de olhares tristes de todas as mulheres. Tenho pena do que não 
vivi, do que não gozei, da luz e das árvores que não vi, de todos os sonhos que me não 
lembram; do meu quimérico passado, há mil anos, quando fui Rei e Poeta; e parece que 
uma parte do meu ser morre nesse instante, irremediavelmente, na luz que se extingue. 
Amanhã já não serei o mesmo: a minha alma deve fazer diferença. Deixa-me explicar-te 
isto melhor: é como se eu fosse composto de diferentes seres, cada um com as suas 
ideias, os seus sonhos e as suas ilusões, e, por cada tarde que finda, na luz que cerra os 
olhos, um desaparecesse para sempre, levando-me uma parte de ventura e de tristeza... 

Há tardes que se evolam como perfumes; enchem de nostalgia e enervam... 

Eu nunca estou só. Quando me isolo é que estou mais acompanhado. 

45



Aí vem, aí vem a desesperada hora do crepúsculo... É dia de entrudo hoje. A rua 
está muda. Só a chuva cuspinha, há lama negra, um lampião começa a brilhar com uma 
tristeza feita de tédio e de coisas miúdas, vazias e nulas, e um bêbado dá arrancos, com 
baques pícaros nas lajes... 

Bem sei, é a desesperada hora do crepúsculo; escusavas, bêbado, de mo vir 
lembrar com os teus berros duma amargura que põe os cabelos em pé, e com os teus 
tombos pela lama mole e negra, que me degradam, como se me salpicasses de vómitos, 
e me fazem pensar no suicídio... Aí vêm os mortos, aí vem Hélia, de mãos estendidas 
para mim, aí vem a noite, os fantasmas, a cova, bem o sei... Cala-te! É inútil, tudo é 
inútil: não é a luz do candeeiro que faz surgir os espectros, quando a minha alma está 
cheia deles, como de negras falenas. Tu, para quem escrevo estas últimas linhas, 
homem, escuta... A ciência é vã como os berros daquele bêbado que se roja pela lama. 
Não creias! Não creias! Que não acredites no desconhecido, quando a tua alma é feita 
de uma porção de infinito amassado em terra! Não acredites que os mortos voltem, e 
não tarda que eles venham chorar desesperadas lágrimas ao pé de mim!... 

Vomita, estúpido, vomita na alma!... A esta hora os poetas começam a sonhar, os 
criminosos a tecer os crimes, e quantos dramas no escurecer, quando as lágrimas se não 
vêem e só os soluços se ouvem, se passam entre paredes frias, nesta aflitiva hora do 
crepúsculo! A pobre costureira, que se debruça sobre o tecido para ver ainda, por certo 
se lembra dum amor já findo e deixa cair lágrimas sobre o linho gelado como as suas 
ilusões mortas; e tu, cuja janela aberta dá para o mar largo, em que estás a cismar, de 
olhos absortos, como se o visses, ao afogado, teu noivo, aparecer para as suas núpcias?... 
É certa, é certa, pois, aquela história da rapariga a quem o namorado morreu no 
mar e que o viu um dia, nesta hora angustiosa do crepúsculo, sair lívido e amortalhado 
da espuma, levando-a para sempre consigo?... 

Tudo tem vozes, a esta hora, as ervas humildes e as secas pedras. Tudo tem bocas. 
Lembra-se a gente de olhares que não sabe já de quem são, de perfis perdidos, de 
corações que cessaram de bater... 

Tudo em mim me diz que tu existes. Não viveste, mas és uma criação do meu 
espírito. Existes mais do que se pertencesses à realidade. Como, de contrário, explicar 
as lágrimas que choro por ti, o estado de alma indefinido em que fico nas horas tristes 
do dia, quando parece que a minha emoção se espalha pelas coisas e uma ânsia erra? 
Pertences ao sonho e és a única mulher que amei. Amei-te e adorei-te. Sonhar é bom -- 
mas não é tudo... E depois escuta: ainda esta noite, quando eu bebia o luar, senti que te 
tinhas sentado ao pé de mim... Ouvia a tua respiração lenta, e não me voltei para que 
não fugisses, mas, sem que reparasses, devagarinho, pude ainda ver os fusos dos teus 
dedos. Outras vezes acordo alta noite, certo de que me chamaste, e já tenho também 
sentido, quando choro muito, que me poisas a mão no coração, pois que a dor súbita se 
estanca... Como, de contrário, explicar a própria vida, amarguras, lágrimas, tédio e 
rotina, a vida que só tem de belo o sonho?... 

Ainda esta tarde, na hora de crepúsculo sobre todas amada que escolho para 
pensar em ti, eu tive uma visão... É singular! Muitas vezes tenho visto os meus mortos 
queridos, e minha mãe quantas noites não tem aparecido ao pé de mim, desfeita emchoro!... É singular como os sábios negam aquilo que não sentem ou não viram!... 

46



Espera!... Espera!... Vou sonhar e vou criar à minha vontade a atmosfera para 
viveres comigo. 

Foi noutro tempo, num tempo em que me parece que era sempre Maio, e longe de 
todos os corações gelados e dos sorrisos postiços. Havia árvores, árvores com grandes 
cabelos verdes soltos, um caminho que eu tantas vezes andei, de coração inquieto... 

Vivíamos juntos e amávamo-nos, nesse sítio arredado e melancólico, com grandes 
árvores, uma antiga casa fidalga, e a vida livre, primaveras a noivarem, paz, invernos 
bravios sonhando ao pé do lume, e livros de poetas. Tempo lindo, saímos ambos: às 
vezes em Maio, no ar fino e doirado, as árvores deitam a primeira flor como um cândido 
sorriso ou um coração que pela primeira vez estremece. Levava um livro comigo e 
Hélia escutava. As minhas palavras animavam a paisagem: davam alma às coisas, às 
árvores, às águas das lagoas. Toda a minha alma se desprendia ao pé dela e a emoção 
espalhava-se pelas coisas. Aquecia. Ao ver grandes árvores, chorava: as árvores davam-
me a impressão de me achar entre amigos a quem tudo se confia: sentia-me bom. Contava-
lhes o que as pedras sofrem, o que as coisas sofrem. Líamos ou olhávamos as 
montanhas. Descobriam-se carreirinhos entre os pinheiros bravos: lenhadores rachavam 
árvores; um bom homem montado no seu burro partia; uma nuvem lilás errava quase a 
desfazer-se no céu. Para onde? Para onde? Onde iam dar todos os misteriosos carreiros 
da floresta? Como quereríamos ser a nuvem, partir, seguir todos os caminhos por entre 
os pinheiros, ser lenhadores, o saloio que lá vai no trote alegre do burro e que alguém 
num lar espera, as próprias árvores, a luz, a água que corre, a chuva, o sol; desfazermonos 
nas coisas, ser, com a mesma alma, a alma das montanhas e das ervas humildes... 

A casa tinha uma varanda de pedra e era lá que te encontrava sempre, com o teu 
sorriso triste e o olhar doce e resignado. É certo, amei-te, como porventura tenho amado 
todas as criaturas que encontro na vida, tristes, humildes e cansadas... O amor em mim é 
tecido de piedade. Nunca as mulheres triunfais me fizeram bater o coração como as pobres 
criaturas melancólicas, feias, arredadas, cujos sorrisos têm mágoas e cujos olhares 
são velados pelas lágrimas... Tenho vontade de as consolar e de as beijar. Será por 
humildade? Será por egoísmo, porque me sinto, eu próprio, assim encolhido e doente, 
incapaz de beijar com sofreguidão lábios rubros de vida e de saúde, lábios moços? Ou 
porque o amor que sabe a lágrimas me tenta?... 

Espera... Não és apenas uma mera criação de sonho... Quando escrevo, sozinho, 
fechado, acontece amiúde estar com medo de voltar a cabeça para trás: tenho a certeza 
absoluta de que está alguém comigo, a olhar para mim... 

Hoje beijaste-me. 

Nesta hora aflitiva do crepúsculo, quantas criaturas, transidas pela vida, se põem a 
tecer quimeras, sonhos fugidios, nuvens!... Da terra começa a sair o hálito violeta da sua 
evaporação: nas almas se criam ténues figuras de sonho, de ilusões queridas. Tenho 
vontade de chorar e ainda hoje me não aconteceu desgraça... Alguns criam espectros 
negros e desesperados, a outros vem Hélia, de mãos febris estendidas, beijá-los na boca. 
Dir-me-ás com o teu sorriso de mágoa: -- Sonho, é sonho tudo!... -- Como se eu não 
tivesse a certeza de te ir encontrar no infinito, pois que nada se perde senão a vã 
realidade! Tenho muitas vezes, até irem altas as estrelas, cismado em ti, amor; criei-te 
de lágrimas, de aspiração, de tudo o que em mim próprio é imortal; e agora és tu mesma 
que, aqui a meu lado, me contas a alma desta história. 

47



Sonhar! Mas eu já não posso sonhar só isto. Preciso de sonhar mais -- dum sonho 
sem limites que me satisfaça. 

Dias há em que me deito na cama e não tenho mais vontade de me levantar. Olho 
em roda. Toda a vida me parece aborrecida e vazia. A minha falta de energia exaspera-
me. Estou gasto e com rugas aos trinta anos. Estou cansado e esgotado, sem imaginação 
e sem nervos. Aflige-me não ter sido moço, não ter vivido como os mais, e insulto a 
minha quimera que me parecia de oiro, por quem me esgotei, para afinal a encontrar 
gelada e fugidia... Errei o caminho: não era por aqui. 

Voltar à realidade? Mas eu cheguei ao ponto em que desconheço a realidade. A 
realidade tem para mim formas monstruosas. Ainda falo como os outros -- ainda falo 
mas como num sonho. Titubeio. Caminho à pressa pelas ruas, para me meter dentro do 
meu cubículo. E não me larga a impressão daquele beijo que me deste e que me devorou 
até ao fundo da alma, deixando-me na boca uma frescura deliciosa que nunca mais 
passa. 

Petrificado. Uma luz pastosa, uma toalha de luar, atmosfera feita de sons 
magoados, estendida sobre a planície seca, lisa até ao infinito. De súbito, como um riso 
que se estanca apavorado, o som cessou, ficando no ar uma inquietação vaga, um terror 
de vida suspensa. A luz espalha-se para o fundo, como uma nódoa que se alastra e come 
a treva; subia pelas coisas, descia, esbranquiçada, mole e a flutuar, esparralhada... Num 
soluço de claridade senti que alguém vinha: não podia olhar, voltar-me, encerrado na 
prisão da minha capa de pedra. Fazia esforços para mexer um dedo, um dedo apenas. 
Dizia-me: -- Estou a sonhar! Estou a sonhar, sossega! -- e parecia-me, que, enfim, como 
quem ergue uma torre, conseguira abrir uma fresta de pálpebra, pois que, mar represo 
que encontra saída, um esguicho daquela mesma luz esbranquiçada se me precipitara 
com ruído no crânio... E outra vez me beijaste. Tenho-o na boca, o teu beijo delicioso e 
gelado. 

48



Era em Abril e toda a floresta parecia sonhar. As velhas árvores, os velhos troncos 
tinham gritos: estremeciam. O luar tecia, prendia os seus cabelos de prata nos galhos 
negros. Por vezes uma árvore parecia aureolada: outras dir-se-ia que, atrás dos troncos, 
em emboscadas, me esperavam de espadas desembainhadas, para me matarem. Havia 
vagas claridades suspensas nos ramos, caídas como mantos -- e todas as montanhas, 
extáticas sob o luar, falavam baixinho. Noite de luar, noite de primavera! Oh, os montes 
na calada, na voluptuosa noite, pareciam seios a palpitar!... O brasido do sol ferira 
troncos, que escorriam o seu último sangue, já exaustos, já moribundos. E o sussurro 
crescia, o sussurro aumentava. A montanha era um enorme coração que começasse a 
bater sob o luar misterioso, que eu ouvia cair como água duma fonte... Andei, era a 
hora: lá no alto, ao pé da cruz, a esperei -- pois que não tardaria que ela viesse, eu bem o 
sabia. 

Por baixo de mim a pedra, a terra húmida, estremeciam: todos os detritos, o velho 
pó que havia sido outrora flor, a cinza que fora cérebro, a terra que se lembrava de ter 
batido em coração -- se haviam posto a falar, a agitar-se como milhões de pequeninas 
almas, e toda a montanha tinha vida, gritava sob o luar a escorrer, prendendo-se em fios 
nas árvores, desembainhando punhais nas moitas... 

És tu que vens? És tu? Uma grande serenidade caíra sobre o meu coração, que 
nunca pulsara tão rítmico, tão forte, tão alto... Olhei-te: estavas atrás de mim, de mãos 
estendidas, e na tua boca, em todo o luar de que és feita, havia um sorriso extático... 

Há que tempos, há que tempos eu o esperava! Todo o meu desespero era remorso, 
todos os meus gritos, todas as minhas palavras vãs, não exprimiam senão a pena de não 
te ter sabido amar, senão a certeza de que nunca me perdoarias -- de que eras feita de 
luar e eu de lama negra. 

Desci até à matéria, muitas vezes fui atrás de seres grosseiros que me atraíam. 
Muitas vezes me enlameei -- mas só tu, que não existias, foste o meu verdadeiro, o meu 
único amor. Trouxe-te sempre escondida como num sacrário e as melhores horas do 
meu dia reservei-as sempre para pensar em ti, para sonhar contigo, que não existes -- e 
foste sempre para mim a única realidade. 

Estendi-te os braços, caí a soluçar, desfeito em lágrimas... 

É dia de entrudo hoje. Toda a vida é aborrecida e nula. Só tu me restas, minha 
vida. A vida é como aquele bêbado que anda aos tombos na lama e que me degrada, 
apesar de eu o não ver... Espera! Espera! Só o sonho existe. Criei-te. Vou eu mesmo 
procurar-te: daqui a duas horas a pistola aperrada terá, enfim, por uma ligeira pressão no 
gatilho, para sempre unido à minha vida a tua vida... 

49



Ó Morte libertadora, tu que acalmas todos os desesperos e resolves todas as 
dúvidas, aperta-me enfim nos teus férreos braços. Morte! Estou cansado. Tenho de há 
muito uma ferida no cérebro e o coração estoira-me de bater. Adivinho em ti o sonho 
sem limites. Tudo o que me pode acontecer de pior é procurar o desconhecido e 
encontrar o nada. Mas isso mesmo vale mais do que o tédio e a aborrecida, a nula vida. 
Virei já do avesso todos os sonhos, esgotei-os, fui tudo em imaginação e não o fui na 
prática, falho de energia. Imaginei ser Deus e imaginei ser árvore. Estou farto de ver o 
sol e assisti já a várias primaveras. Conheci homens e países. Faço trinta anos e a vida 
vai para mim -- se não tenho a coragem de procurar-te -- reduzir-se a um hábito: 
adormecer com o mesmo sonho, cumprimentar com o mesmo frio sorriso, fingir que 
tenho afeições e admirar o que os outros admiram. Resignar-me. Perder o que em mim 
resta, como num lar que não tarda a apagar-se de todo. 

Que posso eu ainda ser? Porventura um aguerrido soldado, de coração forte?... 
Mas já na dura Idade Média, com férreos guerreiros, escalei por surpresa, nas noites 
turvas, de unhas cravadas na penedia e respiração oprimida, negros castelos no alto de 
montanhas a pique. Entrei em combates e de um me lembro, em que os rudes campeões, 
defendendo o território, comungaram ao alvorecer com terra da sua pátria, para assim 
significar que saberiam morrer por ela. De outro sei que tinha um amigo e ligados nos 
atirámos ao ardor da refrega, morrendo juntos, de mãos unidas e sorriso na boca... 

Dirigir povos? Ser poeta? Ter a banal popularidade e forçar a admiração dos meus 
inimigos? Calcá-los aos pés, insultá-los, dizer-lhes com rancor: -- Venci?... -- Mas tudo 
isso o sonhei já e mais, visto que criei e fui Deus. 

Depois, a época é banal. Cada um tem de reduzir o seu sonho, de o tornar 
medíocre e de se sujeitar, para vencer, a sorrir com a multidão ignara; de misturar o seu 
egoísmo a todos os egoísmos, e por último, confesso-o, a minha energia, consumi-a a 
tecer, os meus nervos estão gastos de arquitectar quimeras, o meu cérebro e o meu 
coração puídos de tantas coisas aquecerem... De forma que descer para a realidade é 
uma tortura, tão pequena e tão aborrecida a encontro. 

A razão! Só a razão fria, gelada, é que eles admitem. E a intuição, porque não? 
Pois não é como se um homem se servisse apenas duma das mãos, tendo duas? Não será 
incompleto tudo quanto fizermos apenas com uma parte da nossa alma? 

A razão não basta, a razão tem sido educada, arrastada, habituada a seguir a 
rotina, a andar pelo velho caminho árido e seco. A maravilhosa intuição é que por vezes 
nos vale para arrancarmos um pedaço ao desconhecido. 

Para quantas criaturas esta vida exterior, fingida e nula, não é apenas um trabalho 
de forçado, com a grilheta na imaginação? Quantos desgraçados nunca encontraram na 
vida nem o amor, nem a amizade e se refugiam no sonho? 

Conheci um poeta pobre que em vez do amor tinha de se contentar com as 
mulheres perdidas. A sua poesia era cheia de febre e de aspiração: as criaturas pálidas e 
sonhadoras que passavam nos seus versos pertenciam ao céu -- e, às noites, amava as 
mulheres perdidas. Fazia-as soltar os cabelos, dizia-lhes palavras de paixão. Chorava 
verdadeiras lágrimas. 

O estupor da vida que nos encharca a alma de quimeras, para as não podermos 
realizar; que nos dá a imaginação -- e a vida prática; que nos deixa sonhar, para depois 
nos atirar das estrelas à terra! E porquê? Para quê? Que crime cometi eu, Senhor, para 
que tu a cada momento me castigues, a cada instante me faças tropeçar e fazer parte do 
infinito e das ruas da cidade, da Via Láctea e da multidão?... 

50



Há dias em que acordo não sei para quê. Vejo as mesmas caras, os mesmos 
corações, a mesma luz. Fugir, só se for para a morte, visto que não tenho forças para me 
refugiar num grande trabalho ou num grande ideal que me absorva. 

Resta-me isto: habituar-me à vida, habituar-me a ponto de não ouvir, de não ver, 
habituar-me até a aplaudir. Roçar-me pela vida prática até ficar, ao seu contacto, 
idêntico a todos. Encher a alma de palavras, de frases aprendidas, de sentimentos falsos, 
de crenças usadas e banais. Ser toda a gente. Sorrir ao que os outros sorriem, admirar o 
que eles admiram... E no entanto, se me vejo assim, se me visiono daqui a anos assim -- 
recuo de pavor... Ali está sobre a mesa a pistola aperrada. É melhor morrer, estoirar o 
cérebro, onde resta ainda um vestígio de sonho, do que acabar daqui a anos, esvaziado e 
grotesco como uma bexiga rota... 

É certo, porém, que não é sem um sentimento de piedade por mim próprio e 
lágrimas que eu deixo a vida. Por duas vezes senti já o anel de ferro da pistola no 
crânio; por duas vezes o braço me caiu cansado e inerte. Espera... Quem vivesse mais 
alguns anos a ver... Talvez que este sentimento de aspiração seja um presságio. Poderás 
ainda realizar, ver a quimérica felicidade. Depois, me lembram agora porventura apenas 
as coisas boas e simples que tive na vida: um sorriso, primaveras, o encanto duma 
amizade longínqua... 

Mas não te vês, não te sentes tu próprio aborrecido e vazio? Não é apenas o 
tedium vitae dos antigos. Estás cansado, consumiste-te, ardeste, sonhaste demais: nunca 
a tua vida poderá prolongar-se assim: resta-te entrares na vida prática, seres nulo e banal 
-- ou então morrer. 

Morte, tu que os homens têm vestido de horror, boca muda e enigmática, olhos 
vazios como covas. Morte consoladora -- és tu afinal que me restas. Há criaturas 
desonradas -- tu abres-lhes os braços. Libertas. Consolas de todas as amarguras. Igualas. 
Desgraçados ou reis, beija-los com os mesmos lábios gelados. Às criaturas a quem os 
nervos, por já não poderem mais, estalam -- tu abres-lhes os braços. Aos que se sentem 
humilhados, arredados, oprimidos pela injustiça -- tu abres-lhes os braços. Aos 
criminosos e aos párias -- tu abres-lhes os braços. Morte, Morte consoladora, abre-me, 
pois, os teus férreos braços.» 

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Os seus papéis 

Restam ainda de K. Maurício, entre papéis inúteis, rabiscos, notas, caricaturas, os 
contos que a seguir publico, pois que de alguma forma completam a sua curiosa 
fisionomia intelectual. 

Este Palhaço, de quem toda a gente se ria depois de escarnecido e de ver em 
farrapos a sua quimera, que não pôde realizar, encontrando sempre o nada, entre os 
braços descarnados, quando queria agarrá-la -- mergulhava mais fundo no sonho. E 
ainda assim ficava grotesco como um sapo que fizesse namoro a uma estrela. 

As páginas dos seus últimos dias formam um volume para mais tarde, 
completando, com esta Morte dum Palhaço, o livro a que ele próprio pôs o título de A 
Vida, autobiografia de K. Maurício. 

O sonho, a incapacidade de equilibrar as duas vidas -- a vivida e a sonhada, 
fizeram desta criatura um ser curioso. E é apenas por isso que a amálgama dos seus 
papéis se publica. A sua aptidão para sofrer, a rede dos seus nervos sensibilizando-se 
com miúdos pormenores da existência, com a vida das pedras e das árvores, com a alma 
do que é inanimado, a sua emoção paradoxal, deram interesse à sua prosa e à sua 
fantasia. Mais nada. 

Esta feição, que transparece na primeira e segunda partes do seu livro, completa-
se com as páginas que se seguem e com o volume a publicar-se. A vida é má, 
tumultuária; a vida não vale o que por ela se sofre -- e no entanto ele tem um medo 
enorme de morrer. A vida é restrita, igual, repetida -- e eis que K. Maurício se põe a 
sonhar no desconhecido. 

Singulares criaturas devem nascer por este fim de século, em que a metafísica de 
novo predomina e a asa do sonho outra vez toca os espíritos, deixando-os alheados e 
absortos. A necessidade do desconhecido de novo se estabelece. A ciência, que por 
vezes arrastara a humanidade, que a supunha capaz de ir até ao fim -- bateu num grande 
muro e parou. Que importam o princípio e o fim? 

Ora é exactamente o princípio e o fim que importam. O caminho é estéril, seco e 
aborrecido. Para lá do muro é que está a verdade e o belo -- Deus. E todas as criaturas se 
puseram a cismar, e sentiram a necessidade de um ideal. A Fé cristã embotara-se. Era 
preciso inventar-se outra coisa. 

A alma do homem toca o infinito. Se as suas mãos débeis não podem já com uma 
durindana, os cérebros e os corações estão em brasa. Ganhou-se em nervos -- perdeu-se 
em equilíbrio. Não se assalta um castelo de armadura e mãos enclavinhadas na penedia, 
mas conquista-se o outro mundo... 

De tudo isto, da fadiga produzida pelo exaspero crescente da luta pela vida, devem 
nascer criaturas singulares, aberrações extraordinárias, curiosos cérebros cheios de 
sonho, nervos capazes de sentir o que por ora é do domínio do sonho... K. Maurício não 
pertence um pouco a estes seres, pela sua sensibilidade, e sobretudo pelo seu 
desequilíbrio e pela incapacidade de realizar?... Tímido e fugindo à vida, quase sem 
saber exprimir-se, exagerando miúdos pormenores sem importância, quando passava 
gelado pela verdadeira dor, com meses de inércia, absorto no sonho, para de súbito 
romper numa audácia de que todos o julgariam incapaz, temendo a morte e desejando-a 
com a mesma sinceridade, contraditório e lógico -- não é um ser cómico e pícaro, 
sinistro quase, desgraçado e profundamente humano e dentro da sua época? 

52



A luz não se extingue 

Uma luz que se apaga e mais nada! Desde há séculos, talvez desde 1122, que esta 
lâmpada arde na capela. Fundação de quem? Quem foi o pobre ou o rico que deixou ao 
convento primitivo uma doação em troca da luz que arde há tantos anos? E o que se quis 
perpetuar por esta forma? Uma catástrofe ou uma esperança? Acendeu-a, numa hora de 
dor, qualquer mulher ajoelhada aos pés da Cruz, cumprindo uma promessa pelo filho 
em perigo? Pela Pátria em perigo? Ignoro-o. Os títulos do convento nem sequer 
mencionam o nome do fundador. Só sei que, hoje mesmo, a luz se extingue. O padre a 
meu lado insiste: 

-- Hoje mesmo. 
-- Apaga-se? 
-- Apaga-se. Há oito séculos que esta luz arde sem sabermos porquê? Mas hoje, 
esta noite, a lâmpada não é renovada e a luz morre. 
-- Morre! E até agora nunca se apagou? 
-- Nunca. Das casas do cabido vinha o rendimento para a luz e o rendimento 
acabou. A luz extingue-se esta noite.
Apagar uma luz é nada. É um facto insignificante e vulgar. Mas uma luz que arde 
há tantos séculos, dia e noite, uma luz que perpetua não sei que dor, que suprema 
angústia ou que suprema esperança, faz-me cismar na vida e na morte. 

Do convento antigo resta a velha igreja de pedra e uma torre de granito com 
ameias. A frialdade aqui dentro vem do claustro húmido, com dois túmulos encravados 
na parede, e deste conjunto de edificações sobrepostas. Até na igreja há acrescentos de 
diferentes épocas. A capela românica, metida na muralha, é talvez a igreja primitiva. Só 
se dá por ela ao pé do altar. A abóbada é achatada, o granito de grão áspero esboroa-se, 
e já há muito que a chuva, que se infiltra dos telhados, a teria arruinado se a não 
escorassem grossas traves de castanho. Cheira aqui dentro a terra e a sepulcro, e o ambiente, 
a escuridão palpável, põe-me em frente da grande realidade do além. 

Sento-me para assistir à agonia da luz que arde há oito séculos, renovada num 
subterrâneo pelas mãos dos vivos e dos mortos -- e agora mesmo vai morrer. Mais uns 
minutos passam, o tempo roda e a agonia irrisória deste fio de luz prolonga-se e assume 
no meu espírito proporções de tragédia. Parece-me que outra coisa maior vai morrer no 
mundo. Para todo o sempre, a dor que a acendeu e a sustentou ao lume da vida vai 
desaparecer na treva espessa. Outra morte maior avança, mais calada, mais profunda -- a 
morte definitiva... Só faltam alguns segundos. A camada de azeite, fina como um papel, 
reduz-se cada vez mais. O padre senta-se num banco puído, ao meu lado, com aquele ar 
meditativo dos seres habituados ao silêncio e à sombra. Ao pé do altar estão duas 
mulheres amachucadas como trapos, duas nódoas mais escuras na treva opaca da capela. 

A luz amortece e crepita. Vai morrer. A luz vai morrer! Mas do altar um farrapo 
negro de mulher ergue-se; do farrapo saem mãos esguias que tocam a lâmpada e a luz 
reacende-se. Recuam as trevas e o vulto ajoelha-se numa prece balbuciada. Não distingo 
as feições nem sequer os traços das figuras. Confundo o ser que sofre ao meu lado com 
o outro que há séculos acendeu pela primeira vez a lâmpada. Confundo com a dor a 
sombra que se destacou da sombra e ergueu lentamente os braços. A dor não morre. O 
que não morre é a dor! Tenho-a aqui presente. A dor não data de há oitocentos anos, 
mas de sempre. Tão antiga como o homem, nossa eterna companhia, dura e benéfica, 
caminha connosco e ao nosso lado. 

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Agora o drama insignificante cessou, e não me interessa a lâmpada, nem a velha 
capela glacial, nem as mulheres amarfanhadas suplicando. O que me interessa é a 
continuidade da dor. Sempre a dor! A de há séculos e a de hoje, a que acendeu pela 
primeira vez a lâmpada e a que a não deixou apagar-se. Sempre este grito sufocado, o 
gesto repetido, as mãos erguidas e o choro correndo desde que o mundo é mundo. Pelo 
amante ou pelo filho? Pela Pátria? Pela dor ignorada dos seres que a vida calca, pela 
ânsia que nos devora, pela aspiração tão inerente à alma como o pólen à asa, para voar. 
A dor nunca se extingue... Luz e dor andam ligadas e não há que separá-las. São talvez 

o melhor da vida -- a dor que nos redime, a luz que nos sustenta. 
Mas então -- pergunto -- é a dor que não se extingue ou a luz que não se extingue? 
Nem a dor nem a luz. 
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O Mistério da Árvore 

Esgalhada e seca, os seus frutos eram cadáveres ou corvos. Ninguém se lembrava 
que tivesse dado folhas nem flor, a árvore enorme que havia séculos servia de forca: 
ninguém se deitava à sua sombra, e até o sol fugia da árvore estarrecida e hirta que 
havia séculos servia de forca. 

Em frente ficava o Palácio Real, construído num bloco de pedra escura, e só o 
Rei, de alma igual à sua alma, nua e trágica, se pusera a amá-la, a árvore triste que havia 
séculos servia de forca. 

Que doença estranha, lenta mas tenaz, matava o Rei?... Só amava os crepúsculos, 
as agonias da luz, o passado, e a multidão silenciosa vinha vê-lo, ao fim da tarde, de 
cabeça encostada aos vidros das janelas, fixo o olhar nas águas verdes e limosas e no 
espectro da árvore levantada diante do Palácio. Tudo o que era vivo fugira de ao pé 
dele, porque o Rei mandava punir a mocidade e o amor, e dez léguas à roda o país tinha 
sido assolado pelos seus guerreiros brutais. Mandara queimar tudo, devastar tudo no seu 
reino. Nem uma folha nem uma ave -- nem um sinal de vida. De pé unicamente a árvore, 
desde séculos estarrecida e hirta, a árvore maldita que no seu reino servia de forca. 

No silêncio tumular do Palácio os passos do Rei ecoavam pelos corredores 
desertos, lentos ou precipitados, conforme o pensamento tenaz que o devorava, gastando 
pouco a pouco as lajes duras do chão. Não podia amar. Nem a voluptuosidade, nem o 
ideal, nem o amor, nem a carne láctea das mulheres: tudo lhe era vedado. Horas atrás de 
horas se ouviam no Palácio os passos do Rei doente, toda a noite, toda a noite a rondar... 

Sucedeu que veio a primavera e todas as árvores, para lá do território assolado, 
estremeceram e se cobriram de flor. Borboletas nascidas do seu hálito noivavam no 
azul, e dois mendigos amorosos, de países lendários, entraram e perderam-se naquela 
terra praguenta, ela envolta na poalha dos cabelos louros, ele feliz e esbelto, preso ao 
seu olhar. Eram pobres. E assim, apenas vestidos, vieram enlaçados com a primavera 
cobrindo a terra erma que calcavam de vida e de amor. Eram pobres e felizes. Flores 
esvoaçavam pela sua nudez, e as macieiras dos quintais deitavam galhos fora dos 
muros, de propósito para os ver passar. 

Azul, sonho, entontecimento, toda a atmosfera estremecia. Só o Rei no Palácio 
deserto vivia braço a braço com a dor. A vida, a luz, as árvores enojavam-no. Queria 
todo o país negro, deserto e escalvado; e o amor que trespassava a terra e os bichos, a 
própria morte que tudo transforma, lhe pareciam abominação e afronta. Odiava a vida. 
Mas deitava-se e sentia palpitar as fragas: os montes eram seios duros, as árvores 
cabelos ao vento. Para não ver, encerrava-se no Palácio construído dum bloco de pedra, 
e sozinho ficava então de olhos postos na árvore. Contemplava-a. Como o Rei, ela era 
seca e hirta -- fora-o sempre -- e os seus frutos cadáveres ou corvos. À passagem de 
Abril e dos mendigos, tudo à volta se transformava: só ela quedava inerte diante da vida 
e do amor, a árvore trágica que havia séculos servia de forca. 

Um dia o Rei soube que dois seres felizes haviam transposto as fronteiras e 
mandou-os logo prender. Nas últimas noites sentira-os nos espinheiros túmidos, nos 
sapos dos caminhos que pareciam extáticos, nas coisas que estremeciam, na noite 
magnética cheia de murmúrios, no vento que atirava para o castelo ramos luminosos de 
árvores. Punha-se de ouvido à escuta, e a terra, a noite e o mar sufocados iam talvez 
falar, iam enfim falar!... 

Quando os soldados os trouxeram ao Palácio, com eles entrou um bafo novo: 
cheiravam a sol e à lama dos caminhos e pegava-se-lhes húmus aos pés descalços. A 

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vida rompeu por aquele túmulo dentro e, pois que iam morrer, dir-se-ia que a morte, em 
lugar da foice simbólica, pela primeira vez trazia nas mãos um ramo de árvore. 

Dois mendigos e amavam-se! Nem sequer eram extraordinariamente belos, mas 
deles irradiava uma força imensa -- daquela moça sardenta, com resquícios de palha 
pegados aos cabelos, daquele homem cuja carne aparecia entre os farrapos. Não davam 
pelo Rei, não davam pela Morte. Amavam-se. Atreviam-se num país que ele mandara 
assolar para que nunca mais diante dos seus olhos pudesse aparecer a imagem da vida e 
do amor! 

Olhou-os o Rei durante alguns minutos em silêncio, e depois fez um gesto aos 
carrascos, que logo se apoderaram deles e os levaram. Sorriam-se os mendigos cheios 
de terra e ervas, e, enlevados, olharam um para o outro, ignorando o que se passava em 
volta -- olhos nos olhos, mãos nas mãos... 

Noite negra, o Rei subiu sozinho ao terraço. Restos de nuvens, restos de mantos 
esfarrapados arrastavam-se pelo céu. A árvore onde os dois haviam sido enforcados mal 
se distinguia no escuro; mas de lá vinha um frémito, a sua agonia talvez, e uma 
claridade, os seus corpos decerto. Em vão reduzira tudo a cinzas -- por baixo das cinzas 
latejava a vida. Toda a terra parecia fermentar. Ouvia murmúrios. Se as árvores 
falassem! Se as árvores e as coisas dissessem tudo o que sabem! A água chalrava, 
perdia-se em fios pela terra. Mas então ele não mandara secar as fontes? Vozes, mais 
vozes ainda no escuro, a voz baixinha e humilde das árvores cheias de folha, que o 
vento chegava umas para as outras... Mas então ele não mandara despir para sempre as 
árvores? Pior... Mais fundo ainda, no negrume opaco da noite, o sussurro da vida -- 
como se ele não tivesse mandado espezinhar a vida!... Encostado à muralha, passou a 
noite absorto. As nuvens galopavam, o grasnido dos corvos afligia-o... Porque não iria 
ele também ser macieira, mendigos, húmus? Transformar a dor em felicidade? Beber o 
sol arrastado no aluvião da vida? Oh, como odiava a mocidade, a ternura, os lábios 
moços que se beijam!... 

Só a árvore esgalhada e seca o prendia ainda, a árvore sinistra que no seu reino 
servia de forca. 

Ficou até de manhã de olhos postos naquele fantasma triste e enorme, negro como 
as ideias negras que tecia, seco como a sua própria alma -- a árvore desmedida que no 
seu reino servia de forca... Começaram os cerros a tingir-se de violeta, as árvores a 
azular, e a forca, em que se absorvia, a destacar-se de entre a névoa, a árvore esgalhada 
e imensa que havia séculos perdera a seiva e a vida. 

De súbito, ficou imóvel de espanto. Aquecida com o amor de dois mendigos, tinha 

o galho em que pendiam enforcados cheinho de flor. Dura e má como as pragas juntara 
no ramo que os cobria toda a flor que a terra assolada não pudera produzir. Era nada, 
quase nada, algumas flores miudinhas prestes a sumirem-se ao primeiro sopro -- era dor 
estreme e sonho estreme. Nos seus braços haviam sido enforcados muitos desgraçados e 
as suas raízes mortas pelas lágrimas de aflição. Tolhida com os gritos, não bebia água 
nem sugava húmus. Vira passar homens, primaveras e reinados, sem se comover, mão 
arrepelada a amaldiçoar a terra e o castelo. Assistira a transformações de solo, a 
tempestades, a cataclismos e a guerras, sempre petrificada como a morte -- e naquela 
noite, trespassada pelo amor dos dois mendigos, desentranhara-se em ternura, como se 
nela se concentrasse toda a paixão, a primavera e o noivado da terra -- a árvore maldita 
que desde séculos servia de forca. 
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Primavera abortada 

Era uma floresta enorme e silenciosa. Os esqueletos negros das árvores pareciam 
séculos petrificados. Nada bulia: a vida parara ali, estancada e lúgubre. As raízes em 
garra mordiam a terra, e, entre os troncos, um Deus sinistro aparecia -- vaga realização 
do espanto. Estava desde o princípio das coisas, quieto e hirto, à espera, no interior da 
floresta. O seu corpo disforme perdia-se na noite; a sua cabeça mergulhava nas patas, a 
caverna da boca prestes a triturar os homens e as coisas. Não se sabia bem, nem se 
descrevia bem: parte perdia-se na sombra; parte era construída com restos de pesadelos, 
pedaços de sonho e de ânsias dispersas. Uma casa caíra por terra, como um mundo que 
desaba. 

Ao pé não se via senão o horror, mas quem o espreitava de longe ficava surpreso 
diante do seu aspecto de ferocidade e de lascívia. Tudo fugia da floresta: as árvores, que 
ali cresciam desde a criação do mundo, estarreceram e não deram mais sombra nem flor, 
as aves caíram geladas. À volta o terror e o silêncio dominavam o Deus, misterioso e 
assustador como todas as coisas de que se não sabe o princípio. Inacabado, esboçado, os 
seus olhos e as suas mãos, todo o seu corpo mergulhava no sonho e cada homem à 
vontade lhe acrescentava novos aspectos e pormenores... 

Supunha-se no país que ele se formara de aspirações irrealizáveis, da ânsia, das 
noites de febre dos doentes, dos sonhadores e dos poetas; de tudo o que não tem destino, 
das tristezas vagas do crepúsculo, de quimeras inacabadas, de crimes, do sonho dos 
grotescos, que ali se petrifica no Deus solitário e incompleto assombroso de 
imobilidade, entre a floresta silenciosa, e reclamando sempre sofrimento, gritos, 
lágrimas. 

O Deus sustentava-se de dor. Nos noivos de cada ano escolhiam-se à sorte os 
sacrificados para o apaziguarem. Sacerdotes, vestidos de túnicas brancas, como quem 
desfolha flores à beira duma cova, ofereciam ao monstro a vida dos amorosos. O fim do 
sacrifício era um findar de ceifa, em que a terra ficasse estivada de corpos moços, de 
papoilas sangrentas. 

No país aterrorizado, todos os anos pelo princípio da primavera, para apaziguar a 
cólera do Deus, se fazia a escolha dos noivos. Ninguém se atrevia sequer a olhá-lo: 
parecia que as suas garras se cravavam em toda a terra, a esmagar a Vida e o Amor... 

E um grande terror na primavera, época dos noivados, pesados nos corações. 
Quem viveria? Quais dos que, de mãos enlaçadas e olhos nas estrelas, às noites falavam 
do amor, escapariam à morte? E a incerteza andava nas almas dos enamorados como um 
espectro negro a rondar. Se os seus olhos se prendiam, logo se afastavam uns dos outros 
com horror, e muitas mãos gelavam entre mãos queridas. Donde vieste tu, meu amor? 
Porventura existes ou não passas duma imagem que na minha imaginação criei? Se te 
beijo cuido por vezes que és morta. Fala, fala mais, embora as tuas palavras sejam vãs, 
para que eu me convença de que ainda existes... E de ano para ano, nesse país onde o 
Deus dominava, as almas se purificavam, pois que ninguém ao certo saberia dizer se o 
seu noivado se continuaria no infinito. O amor transformara-se. Já se falava baixinho, e 
os olhos arrasavam-se de lágrimas: o amor, pouco a pouco, se mudara em sentimento 
religioso. De forma que, quando o Poeta de cabelos flavos veio para casar com a 
Princesa e reuniu em volta de si os noivos desse ano, nenhum estranhou as suas 
palavras. As suas palavras são talvez incompreensíveis e metafísicas para ti que me lês, 
mas não o foram para os noivos do país quimérico, onde o Deus feroz existia. Disse o 
Poeta que o amor era imortal -- e só no infinito se sublimava. As criaturas que morriam 

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sacrificando-se pelos outros iam ter o seu noivado eterno para lá das estrelas, onde as 
quimeras tomam corpo e todas as aspirações se realizam. Disse tudo o que só a intuição 
dos poetas adivinha e os sábios ignoram. E, pois que a primavera chegava, todos 
aceitaram as suas palavras, e todos se submeteram à morte. Cada um desejou no infinito 

o amor infinito e cada par de noivos procurou com ansiedade nas árvores a primeira 
floração -- e às estrelas cada noite se prendiam novas aspirações. Ficavam horas de mãos 
dadas, a olhar o céu, sorrindo... 
-- E lá como seremos nós então?... 
-- Como a pureza, como a brancura... 
Cada ano, em Abril, a procissão dos noivos entrava na floresta como um soluço 
que a atravessasse. Era ao cair da tarde, ao fim do dia pálido e melancólico. Caminhava 
a fila, numa tristeza feita de saudade do que se perde com a vida de aspiração e de 
sonho. Brancos, iam enlaçados aos pares. Deles seriam escolhidos os que iam morrer -- 
e, entrando na floresta, não sabiam bem se caminhavam para a morte se para o amor... 
Sabiam que iam morrer para apaziguarem o Deus e para que houvesse menos dor no 
mundo... 

Atrás iam os sacerdotes, vestidos de linho e a cantar. 

Ora nos princípios de Abril desse ano, tinha havido um calor excepcional. Alguns 
dias de chuva e vento desabrido, e depois, de um dia para o outro, uma corrente 
magnética atravessou o espaço. 

O vento cessou, descerrou-se o sol: ouro embebido em azul -- entontecimento -- e 
as árvores, trespassadas de luz, estremeceram e desentranharam-se logo em flor. Noites 
quietas, caladas, mornas, e um luar majestoso. 

De noite, tarde, saí. Parecia verão. Ainda fim de inverno e uma noite como esta! 
Uma noite translúcida, uma noite misteriosa e suspeita... Cada noite que passa entranha-
se na alma com ânsia e terror. Magoa-me e deixa-me extático. Mais uma que foge! E 
outra ainda!... E quantas mais, para as não tornar a ver, para não tornar a sentir este 
mágico esplendor? Uma a uma somem-se no silêncio, tão grande que o sinto de 
encontro ao meu peito -- e uma a uma recolho-as e calo-as dentro de mim mesmo, para 
as levar para a cova... Mas esta noite de verão ainda no inverno inquieta-me e surpreende-
me; esta noite assim quieta, branca, impassível e calada, aflige-me. Paro. Dou 
mais dois passos e detenho-me. Espero uns momentos, e de repente desenrola-se diante 
de mim um drama que não previa... 

O vento morno acalma, a temperatura modifica-se, e tenho a sensação imediata de 
que a noite cristaliza. Então a mais extraordinária dor a que jamais assisti se passa 
diante dos meus olhos -- a dor que se não ouve. Uma tragédia no silêncio. Uma tragédia 
sem gritos, sem rumor, sob o céu empoado de estrelas. Uma tragédia como não li em 
livro algum e de que nem Shakespeare se lembrou. Diante de mim estavam as árvores 
carregadas de flor, as cerdeiras bravas, os abrunheiros e os salgueiros, toda a floresta 
imensa que me envolve, desentranhada em emoção, iludida por aquela primavera 
antecipada e fictícia. Flores por toda a parte, em todos os galhos; flores nos espinheiros; 
flores nas sebes; flores nas macieiras vergadas de flor. E de repente um frio instantâneo 
e mortal, um frio que aperta e fere com arestas finas que entram na pele, colhe-as e 
destroça-as. As flores geladas caíram por terra. 

Doeu-me o coração. Por pouco não gritei. E o silêncio cada vez maior, a angústia 
cada vez mais pesada... Nem um frémito. Só luar a torrentes, o mágico luar e aquela dor 
inocente, aquela dor monstruosa na imobilidade congelada. A esta mesma hora no vasto 
mundo a dor calca aos pés e tritura, sem se deter com gritos, insaciável como o velho 

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Deus da floresta para o qual avança a fila dos noivos, branca e resignada. Quantos 
beijos perdidos se morressem! Quantas horas perdidas se o Deus os recolhesse! 

Olhei para o alto. Nunca o céu foi mais belo nem as estrelas mais lindas. Eis a 
harmonia dos mundos... Porque a harmonia subsiste. Não há nada que a altere -- pensei. 
Ou será aquilo lá em cima também dor que não se ouve? Será aquilo doirado dor 
tumultuária, imensa, frenética, cujos gritos não chegam cá abaixo?... 

Brancura de luar ou brancura de neve, é indiferente para o caso. São muitos. São 
inocentes e morrem. Seus olhos debalde interrogam este mesmo céu, onde as estrelas 
parecem faúlhas do meu lume atiradas para o espaço... Será tudo dor? Será tudo aquilo 
só dor? 

O frio aumentara na noite côncava e tão branca como a neve das estepes. 
Adivinho no silêncio um «ah!» de pasmo: as árvores contraíram-se e gritaram de aflição 
(toda a flor morreu); mas, como não têm boca para gritos, o grito não se ouve. E que 
importa gritar, se o som vai só até cem passos de distância? Depois passou não sei que 
comunicação misteriosa, que corrente de sensibilidade, de tronco para tronco, de raiz 
para raiz. Uma interrogação no ar: -- Porquê? Mas porquê?... As árvores, surpreendidas, 
não entendem porque sofrem. Ninguém sabe porque sofre. E o silêncio glacial, a 
atmosfera cada vez mais contraída de frio, quase a estalar como um vidro, e lá no alto, 
sempre, o inalterável panorama celeste... Todas as flores murcharam. Ninguém ouve o 
grito imenso que neste mesmo momento sai de tantas bocas inocentes -- das bocas dos 
sacrificados, dos que morrem obscuros por uma ideia ou por um sonho, ou mais 
simplesmente dos que oferecem a sua vida por outra vida. O Deus monstruoso reclama 
sempre mais vítimas. 

Só a dor existe, só a dor cega e sem boca para gritar, que neste mundo 
extraordinário se estorce -- a dor incógnita. É uma coisa imensa, é uma coisa ilimitada 
que anda aos tombos no universo. É uma coisa imensa, cujos gritos ninguém ouve. É a 
dor feita de todos os sacrifícios, de todas as dores desconhecidas e caladas... Lá em cima 
Procion e Vega reluzem brancas e azuladas, Aldebaran e Arcturus vermelhas como 
fogo, e a maravilhosa Vega cintila com brilhos azuis, verdes e escarlates: é outra imensa 
floração de dor. 

Na terra, um charco de sangue; sobre o sangue, a devastação das flores; à volta, a 
floresta imensa e despida, a floresta trágica que se revê nas lagoas pútridas como num 
olhar de morto. Só o Deus -- dor, feito de velho granito --, o Deus inalterável enterra as 
patas monstruosas no húmus e continua a exigir mais vítimas... 

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Santa Eponina 

Santa Eponina era tão pálida e tão linda, que, ao vê-la, as multidões ficavam 
extáticas, as árvores estremeciam e os bandidos das montanhas, conquistados, vinham 
rojar-se-lhe aos pés. Era uma flor -- a flor humana. Mais que beleza havia nela encanto e 
alguma coisa que não pertencia à terra -- expressão de inocência e ao mesmo tempo de 
espanto diante do mundo, como se a figura doirada e branca pressentisse a desgraça e a 
dor. 

Fora criada entre mulheres vestidas de brocado, num berço de oiro, sobre o qual o 
rei e a rainha se curvavam, absortos naquela pureza que lhes sorria entre rendas. 
Cresceu e vinham cavaleiros de países afastados para se baterem por ela, e trovadores, 
guiados pela sua fama, esperavam à noite sob o balcão do castelo real que ela 
aparecesse para a cantarem. Não caminhava: chama clara que desliza, ninguém a 
recordava senão como uma brancura e um olhar de piedade que passasse.

Já em pequenina seu ascendente era enorme sobre os homens e os bichos. Às 
vezes fugia do castelo, perdia-se na velha floresta entre troncos que não tinham idade e 
ia comer pão de rala na cabana dos lenhadores ou caminhava direita a um buraco 
sinistro donde ninguém se aproximava sem terror. Era a cova de um santo, de um santo 
tremendo que só pregava cóleras. 

-- Onofre! Onofre! -- gritava, batendo as mãozinhas. E para dentro da caverna 
fazia: 
-- U! u! u!... 
Logo se sentia um rugir de folhas e de entre a esteira de esparto, a vasilha de água 
e alguns ossos esburgados, emergia, rosnando com ferocidade, a cabeça hirsuta de um 
bicho, metade pedra, metade sapo, com a boca maior que o antro escuro, e que ao vê-la 
ficava logo dominado, transformando-se todo num riso sem dentes. 

-- Vamos ver os bichos!... 
E lá o levava pela mão, ralhando quando ele estorcegava nos gadanhos os ninhos 
e as aves, até à lagoa, onde as feras que o santo subjugara, aproximando-se-lhe de rastos 
até aos pés, vinham beber ao fim da tarde. 

Como aprendeu o sofrimento e a miséria da vida? Não sabia nada da dor e só 
cismava na dor! Debruçada sobre as muralhas, parecia interrogar a mudez. Toda a noite 
ficava encostada às ameias, embebida num grande sonho de que só acordava quando 
ouvia uma voz a chamá-la. Não eram os corvos, nem uma grande águia que todas as 
noites recolhia ao ninho no alto do castelo. Não era o murmúrio das águas que ali 
chegava como um eco. Era uma voz interior que a sacudia toda e a tornava mais bela. 
Para que Deus perdoasse ao mundo, devia ser calcada como as ervas rasteiras. Ser nada 
nas mãos de Deus -- para que Deus a ouvisse. 

Como soube que nas concavidades dos montes, nas noites caladas e túmidas de 
luar, há mendigos sequiosos de amor? Desgraçados que passam a vida à espera de uma 
boca que lhes estanque a sede que os devora? Sonhos desesperados e febris, fomes, 
almas que se perdem, criaturas que raivam com urros bravios, chagas e podridões, e 
que, entre pragas, pedem a Deus alguém que lhes beije a boca gretada? 

-- Vou partir sozinha... -- anunciou um dia. 
Opuseram-se os pais. Mas ela todo o dia e toda a noite chorou. Vieram bispos, 
santos e o velho solitário, seco e nodoso, que parecia o tronco de uma árvore, e que 
disse: -- É a vontade de Deus. -- Ofereceram os reis os seus tesouros, construíram-se 
templos, fizeram-se promessas. E a santa Eponina, sem uma queixa, todo o dia e toda a 
noite chorava. A voz chamava-a, cada vez mais alto a chamava. Até que vieram os 

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castigos, e dois anos as terras de semeadura não deram pão. E o velho solitário 
incessantemente pregava nos campos: -- Deixem cumprir a vontade de Deus! 

Vê-la morta! Antes vê-la morta do que deixá-la partir por esse mundo, pura como 
um lírio, entregue às mãos do diabo! Era a única filha daqueles reis, a graça da sua 
velhice, e delicada como uma flor. Mas outro ano estéril veio. A corte heráldica, 
recortada em oiro, desapareceu, fugiu; os homens esmolaram, reduzidos a osso. 
Ressequidas sob a vastidão implacável do céu, as campinas pareciam planícies doutro 
mundo já morto. As águas encharcaram, os campos converteram-se em ossários de 
pedra. Ao longe via-se passar um bando de fantasmas: era a população que emigrava, 
mostrando os punhos ao palácio, onde o rei teimava em não deixar partir a filha. 
Secaram por fim as fontes, e o velho castelo foi abandonado pelos escravos que fugiram 
e as ameias desguarnecidas pelos soldados desertores. O velho rei teve de fechar as 
portas por suas próprias mãos. Até que um dia, o solitário, vestido com um saco, foi 
bater com um grande calhau nas portas chapeadas e clamou: 

-- Cumpra-se a vontade de Deus! 
-- Só temos esta filha, esta única filha! 
Mas ele estropiou com o calhau no velho castanho denegrido, e o eco repercutiu-
se nas abóbadas solitárias e nas almas imersas em negro desespero. 

-- A vontade de Deus! A vontade de Deus! 
O castelo no alto da montanha era um altivo ninho de águias. Abriram-se as 
portas, e santa Eponina desceu o monte. De toda a parte tinham vindo os bispos de 
grandes barbas de luar, os cavaleiros andantes refulgindo ao sol como espadas, e o povo 
de alma rude e piedosa que em baixo se amontoara chorando em silêncio. Seu pai e sua 
mãe choravam. Abençoaram-na os velhos bispos, estendendo as mãos sobre o vale; 
partiu um soluço da multidão que caiu de joelhos, quando ela desceu o monte, sem que 
ninguém a detivesse, deixando-os para sempre -- santa Eponina virgem, filha de reis, 
com florestas, riquezas e guerreiros fortes. 

Oh como a noite é grande, imóvel, calada, misteriosa, nos sítios ermos, nas 
grandes florestas podres de velhice; nos montes escalvados só pedra e luar, onde as 
sombras fantásticas se cosem com o fraguedo, à espera de uma alma errante que se 
atreva a passar! No alto do castelo os velhos reis escutam numa profunda angústia. Vão 
devorá-la as feras? Vão estrangulá-la os bandidos? Vão ultrajá-la os homens sem alma 
que rondam na imensa solidão do país despovoado?... E de repente ouvem na noite 
branca e quieta um grande grito... De dor? Não, um uivo de alegria, um grito frenético 
de prazer, o urro dos homens bestiais no momento em que saqueiam uma cidade. Mais 
fundo ainda, na noite de luar derretido e coalhado, o rugido das feras tresnoitadas sob a 
magia do luar e o império da natureza. Outra vez o silêncio... E os velhos reis 
debruçados sobre as ameias choram. E agora -- oiçam! oiçam! -- o estertor, na noite 
negra, das mil almas sequiosas que a esperam -- o grito do desespero, da podridão 
humana, dos fundos incógnitos da treva. Oiçam! Oiçam! Ouve-o o velho rei trémulo, 
que pede a Deus a morte, ouve-o a rainha só dor, que pede a Deus um milagre, ouve-o a 
multidão, que se roja na terra chorando silenciosamente. 

Só Onofre, seco e feroz, clama: 

-- Cumpriu-se a vontade de Deus! 
Souberam-no os desgraçados, os que viam prestes a realizar-se os sonhos de 
volúpia das noites solitárias, os irrealizáveis sonhos de volúpia que os aqueciam nas 
noites infindáveis. Souberam-no as feras que vão violar as feras e às quais só o cansaço 
e a dor deixam prostradas. Souberam-no os dementes, que viam diante de si a luxúria e 
a morte, e diziam-no em segredos que as bocas pegajosas e imundas só contam a medo 

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à lua branca como um cadáver. Ela entrava nos covis e seus beijos tinham uma frescura 
de que ficavam anos com a impressão e a saudade. Entrava nas cidades dos leprosos, 
nas cidades abandonadas onde as figuras se escoam como fantasmas; nos bairros sem 
nome das grandes capitais desordenadas que recebem o lixo humano e propagam em 
conúbios monstruosos o lixo humano; nas cavernas profundas onde o sol se recusa a 
penetrar e só um fio gelado de luar desvenda o remexer das larvas. Por toda a parte ela 
aparecia branca e sem um queixume, dando a boca como uma fonte de água pura aos 
ladrões e aos carrascos. 

E mais extraordinária era ainda por não compreender -- branca, inocente e límpida 
entre os chascos, sem compreender a lascívia, os desejos, o sonho de volúpia das almas 
tenebrosas. Foi de todos. A filha de reis, criada mimosa num berço de oiro, fez-se trapo, 
pior que trapo, obedecendo à voz que a tornava mais rasa que a lama, e saindo pura detodas as impurezas. A matéria não importa -- se o espírito está com Deus. Que digo! À 
matéria é preciso degradá-la. 

Foi dos mendigos e dos leprosos. Esperavam-na cosidos com a noite para caírem 
sobre ela sem palavra, beijando-lhe os cabelos de oiro. Andou com os ladrões nas 
estradas e nas mãos de meretrizes. Desceu aos antros. Vinham as matilhas esperá-la à 
beira dos caminhos, nos sítios ermos e bravios e nela cevavam a sua voluptuosidade e o 
seu grotesco sonho de amor. Havia monstros que não se atreviam a aparecer à luz do 
dia, e na noite profunda só o olhar cego e frio, átono e frio, imóvel e frio, lhes luzia. 
Batiam-lhe. Sujeitavam-na a extraordinárias carícias, a lascívias que durante muitos 
anos haviam imaginado. Dormiam à sua sombra. E ela, sempre com o mesmo sorriso de 
piedade e de tristeza, abandonava-se alheada. Atiravam-na fora como um trapo, e santa 
Eponina erguia-se e partia com a sua candura imaculada. De toda a parte acorriam os 
mendigos ascorosos, caravanas de leprosos: alguns arrastavam-se pelos caminhos, com 
rugidos, outros blasfemavam na noite, não querendo morrer sem a terem possuído. 

-- O que eu quero? O que eu quero é dormir contigo, bem junto a mim, à minha 
carne onde as chagas supuram, é sentir a tua frescura na crosta desta pele que requeima 
como uma brasa -- ó minha amada! -- E as fauces abriam-se em risos que já não eram da 
vida mas do túmulo. -- Dá-me a tua boca! O que eu quero de ti é a tua boca! -- E ela 
curvava-se sobre os seres imundos que não tinham boca e que insistiam de entre a 
podridão: -- Beija-me na boca!... 
Desceu mais baixo ainda, não por amor dos homens, mas por amor de Deus, 
ignorando a matéria e saindo pura de todos os enxurros humanos -- santa Eponina, filha 
de reis, com escravos, florestas e guerreiros fortes. Desceu mais baixo que as mulheres 
mais baixas. A vida acabou por lhe parecer imensa floresta apodrecida onde os homens 
são monstros. Desceu tão baixo que chegou a ter o verdadeiro sentimento da vida, o da 
grande floresta putrefacta onde vagueiam seres de sonho e formas de dor mutilada, 
mãos geladas que tacteiam no escuro, formas cegas e formas hesitantes de pesadelo. 
Sentiu os contactos viscosos dos homens em esboço, só ventres obscenos, só infâmia, só 
grotesco e desespero... 

Oh, que figura pálida e branca, na cabeça o sol enrodilhado e um fio de oiro a 
escorrer-lhe pelos ombros abaixo! Que figura para ser apanhada e levada para as 
cavernas, entre risos bestiais, cevando-se nela todas as brutalidades do instinto! Que ser 
inerte e delicado, sem resistência, para se apertar entre as garras, ouvindo-se bater-lhe o 
coração como o dum pássaro que se afoga -- e sentindo-o morrer devagar!... 

E desceu sempre, desceu mais, desceu tão fundo que acabou por ser imaterial. 
O castelo ainda lá está em cima como um altivo ninho de águias. Os velhos reis 
morreram. Abateram os tectos, e nos corredores, abobadados, nos grandes pátios 

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desertos onde a erva inútil cresce, clama, ainda e sempre, aquela voz frenética que se 
apoderou das ruínas: 

-- Cumpriu-se a vontade de Deus! Cumpriu-se a vontade de Deus! 
1895 

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Obra revista por José Barbosa Machado a partir da edição de 1926 da "Seara 
Nova". 
© Projecto Vercial, 2002-2003 

http://www.ipn.pt/literatura 

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