A questão da defesa do português.

 

Nenhuma língua está sózinha no mundo. Nem este assegura, de forma óbvia e automática, a permanência das línguas. Todas as línguas estão sujeitas à possibilidade real do seu desaparecimento. Por isso, é preciso encarar lúcida e esclarecidamente este facto e decidir se se deve ou não proceder à sua defesa. Esta decisão constitui o ponto de partida.

 

Suponhamos que a decisão é afirmativa, ou seja que foi tomada a decisão de defender a língua portuguesa. Isto representa um acto voluntário e de soberania. De uma forma consciente, determinada, sistemática e transgeracional é necessário avaliar os riscos que se colocam à língua, definir acções concretas para limitar os seus estragos, e avaliar ciclicamente, quer a adequação das medidas tomadas, quer a definição dos objectivos que constituem a defesa da língua.

 

São quatro as características de que se deve revestir um esforço destes.

 

Deverá ser consciente.

Historicamente o aparecimento das línguas aconteceu naturalmente, sem a intervenção de uma força criadora exterior, que a projectou e construiu. Constitui aquilo que na literatura das teorias dos sistemas globais se chamam "fenómenos autocatalíticos e autoorganizativos". É até possível ter até uma certa visão Darwiniana, de competição entre vários tipos de organizações humana, evoluindo-se para formas de organização, simultaneamente cada vez mais complexas e mais capazes.

Atingindo-se um determinado estágio organizativo, já não é viável deixar ao sabor do acaso a defesa e manutenção das estruturas organizativas. É necessário melhorar as estratégias e os processamentos de informação que conduzem à eficácia da acção sobre o meio ambiente, de forma a garantir o melhor, quer em termos de aproveitamento das oportunidades, quer em termos de resposta às ameaças.

Quer isto dizer que é através da acção consciente dos seus membros, da mesma forma que o médico ajuda o organismo a curar-se, que se poderão melhorar as capacidades da língua. Sem esta acção consciente, tal como no exemplo da medicina, os problemas atingem maior gravidade e as curas são mais longas. E evidentemente, nalgumas situações, só uma acção consciente poderá evitar o pior.

Deverá ser determinado.

O sentido em que aqui está empregue a palavra determinado não tem nada a ver com o principio da causalidade, em que os eventos anteriores determinam os eventos posteriores. Tem mais a ver com actos de soberania, como aquilo que se chama de "vontade política", ou seja deverá ser um esforço continuado e sustentável.

Nenhum ser vivo tem dúvidas sobre se deve ou não defender-se. É o chamado "instinto de conservação". Que está sempre presente e actuante. Pode afirmar-se que os organismos estão determinados a sobreviver.

Determinação, perseverança, tenacidade são qualidades muito importantes. Nem poderia ser de outro modo.

Para ver isto bem, consideremos um exemplo simples, em que um determinado organismo AZUL, durante um curto período, digamos um minuto todos os dias, fica com o instinto de conservação "avariado", inoperante. No mesmo ambiente, existem os organismos ROSA, em tudo idênticos, mas que não padecem daquele mal diário.

Vamos referir o aZul pela letra z, e o Rosa pela letra r.

Pela própria definição daquilo que se chama "instinto de conservação", a probabilidade de sobreviver, por um período de 24 horas, de quem o tem em bom estado é necessariamente superior à probabilidade pz de quem o tem inoperante. Consideremos ser pr, pz o valor dessa probabilidade, respectivamente para os rosas e para os azuis.

Podemos admitir que se a probabilidade de sobreviver a um dia é pr, então a probabilidade de sobreviver a dois dias será pr pr=pr2. Desta forma, ao fim de um ano, os ROSAs terão uma probabilidade pr365 de sobreviver, e os AZULs terão pz365.

Se a diferença entre eles for muito pequena, digamos, 1 ponto percentual, pr=0.99 e pz=0.98, encontraremos que ao fim de um dia, pr/pz= 1.01020, mas ao fim de um ano, (pr/pz)365= 40.6751. Ou seja, uma pequena falta de determinação, pode fazer muitos estragos.

Da mesma forma, o esforço de defesa da língua deverá ser determinado, porque só a determinação assegura a constância da acção. E essa determinação deverá manter-se defronte das dificuldades. Este último ponto é muito importante.

Para avaliarmos melhor a importância deste último ponto, vamos ver o que acontece se a situação for mais adversa. Neste caso, embora a diferença entre os valores continue a ser de um ponto percentual, como a situação é mais adversa, a probabilidade de sobrevivência é menor. A diferença continua a ser de 1 ponto percentual, mas as condições são mais adversas, teremos que pr=0.49 e pz=0.48, ao fim de um dia, pr/pz= 1,02083 mas ao fim de um ano, (pr/pz)365= 1855,7418. Ou seja, quando as situações são mais difíceis, uma pequena falta de determinação deita tudo a perder.

Não podemos deixar de referir que qualquer que seja a avaliação que se faça, conclui-se que as condições globais para o Português não podem ser consideradas "favoráveis", pelo que é necessária, cada vez mais, determinação na sua defesa.

 

Deverá ser sistemático.

O trabalho já desenvolvido não deve ser perdido, desperdiçado. Os mesmos caminhos não devem ser experimentados duas vezes.

Em termos da inteligência artificial, qualquer problema resume-se a uma busca num espaço de estados. A busca deverá ser sistemática no sentido de: a) procurar em todos os lugares, e b) não visitar duas vezes o mesmo local.

Mas não se esgota aqui a noção de sistemático. A busca anteriormente referida só pode ser efectuada sistematicamente enquanto o problema for o mesmo. Por isso, a identificação das ameaças, sua interligação e sua evolução também tem de ser sistemática. Só desta forma será posível articular esforços e experiências, bem como orçamentar recursos e avaliar prazos.

 

Deverá ser transgeracional.

Os pontos anteriores tornam bem claro que uma língua, enquanto entidade multigeracional de indivíduos, obriga também a um esforço multigeracional para a sua manutenção e defesa. Portugal não é fruto apenas dos acontecimento no sec XII, ou da gesta de quinhentos, ou da restauração de 1640, ou ... . Todas as gerações tiveram e terão desafios a enfrentar.

É necessário que existam escolas, não no sentido de prédios onde existem aulas, mas no sentido de "determinada forma de pensar". Um pouco semelhante à forma como em pintura se fala das obras da escola flamenga. Deste modo facilita-se a continuidade operativa das instituições.

 

Porque é importante a defesa do português.

Certos teóricos consideram que Portugal é um dos poucos estados-nação existentes actualmente. No seu entender é necessário distinguir entre uma nação, composta por um povo, uma língua e um território (sendo este último o menos importante), e um estado, um conjunto de instituições que governam, legislam, administram um determinado território, as suas populações e os seus recursos. Um dos poucos exemplos em que o estado coincide com a língua é exactamente Portugal. Noutros exemplos, em que a mesma língua está (ou esteve) dividida entre dois estados: Vietnames, Coreias, Curdistão as coisas complicam-se. Se no mesmo estado coexistem várias línguas (Bósnia, Irlanda, ..) as coisas também podem ser difíceis.

Convém referir aqui o conceito de "Big Melting Pot" que os EUA consideram que a sua cultura é, e que lhes tem permitido receber e integrar vagas sucessivas de emigrantes de línguas tão díspares. A língua Basca, ou a língua Cigana ou a língua falada pelos palestinianos são outros tantos exemplos, onde a falta de estado, ou a precaridade do território não é determinante. Agora imaginem obrigar os palestinianos a falar hebreu, e esquecer a sua língua. Havia de ser bonito.

A língua é uma componente da identidade autónoma da nação. Perguntem-no ao noruegueses que se diferenciaram dos suecos, aos gregos que consideravam bárbaro quem o não falava, ou aos bascos, ou ... . Ou aos portugueses, se querem aprender espanhol. Com mais facilidade dirão que sim ao francês, inglês, russo, alemão ou chinês. Mas o espanhol é perigoso. Pode dar origem a confusões. Em múltiplas dimensões. É tradicionalmente olhado com algum preconceito negativo. Exactamente porque põe em perigo a língua portuguesa, e por isso a nação portuguesa.

A defesa da nação, da cultura, da identidade de um povo, passa pela defesa da língua. Só que esta defesa é cultural, não é militar. Não é o mesmo que a defesa do território.

Sendo assim vejamos quais os parâmetros importantes.

 

Qual a medida da saúde de uma língua?

Se queremos defender o português, temos de saber como ele está, para ver se acções concretas que são efectuadas têm ou não algum efeito. É pois necessário arranjar uma medida, que sirva de termo de comparação entre o antes e o depois, para se poder abalizar da efectividade das acções.

Mas não é esta a única vantagem de uma medida.

Para definir uma medida é necessário fazer alguma teorização. Como todas as medidas são imperfeitas, a natureza do próprio método científico se irá encarregando de tornar salientes as deficiências da medida em uso. Desta forma, será necessário proceder à sugestão de novas medidas. É exactamente aqui, com o refinamento/aperfeiçoamento das considerações teóricas que são necessárias para a definição da medida, que de uma forma sistemática, inerente ao próprio método científico, e com base num "escola de pensamento", baseada na linguistica clássica, mas que vá também beber conhecimentos no ecletismo multidisciplinar das ciências da complexidade, é exactamente aqui , dizíamos nós, que de uma forma sistemática se poderá teorizar uma certa "Ecologia das Línguas", com as sua populações, ritmos e factores de crescimentos, variáveis limitativas e estratégias competitivas.

Assim, que medidas são possíveis? Medidas que nos indiquem a saúde do uso do português? Medidas que avaliem a dimensão do uso do português?

E quanto ao número que representa essa medida? Deverá esta medida ser representada por um escalar, um único número, ou um vector, múltiplos números para representar múltiplas dimensões avaliativas? Deverá depender do momento do tempo? (Sem dúvida, porque estamos preocupados com a evolução temporal). Deverá depender da área geográfica? Deverá entrar em linha de conta com todas as línguas faladas ou apenas com aquelas que nos estão mais próximas, como o francês, o espanhol ou o inglês, deixando de lado o tailandês e o próprio chinês?

Estas questões e muitas outras são relevantes. Mas não nos podemos esquecer que estamos apenas a começar. E quando se começa, convém não complicar. Só depois, quando as insuficiências iniciais são desnudadas pela prática, é que a evolução no sentido de uma maior complexidade métrica fica preparada. Por isso, vamos procurar manter a medida simples, digamos um escalar, e só estamos interessados na sua evolução temporal.

Será pois uma medida global, do conjunto, que não distingue (nesta fase) áreas geográficas.

Um outro problema que se pode colocar é o da possibilidade de solução. Será possível uma medida destas, para uma fenomenologia tão complexa?

Em vários campos do conhecimento humano se coloca esta problemática. Na física estatística, os fenómenos estudados abrangem sistemas com números de partículas realmente colossais. E lá encontramos uma grandeza, a temperatura, que é escalar e representa uma propriedade do conjunto. A temperatura não é a única medida de interesse neste campo. Outras grandezas, como a energia, a massa, a entropia têm também importância. Mas isso não diminui a centralidade da temperatura, antes a completa. Vejamos então uma sugestão para essa medida.

Sugestão para a medida da saúde de uma língua: hpt

Estamos pois interessados em encontrar um escalar, que não dependa da posição geográfica e que represente "a saúde " ou a "importância cultural" de uma língua num dado momento. Para a sua construção, deveremos entrar com que informação, relativa quer à própria língua, quer às outras línguas, quer à população em geral?

Uma medida possível será o número total de indivíduos que usam o português como primeira língua. Seja esse número npt. Seja N o valor da população mundial. Representando pelo índice-string "ii" a língua, e fazendo-o variar por todas as línguas, teremos que N=S nii , pois cada indíviduo tem sempre uma primeira língua e apenas uma.

Por outro lado seja mpt o número das pessoas que compreendem o português. Tem-se que mpt inclui todos os npt. Pelo que, qualquer que seja a língua, teremos sempre que mii ³ nii.

Pelo que teremos que N<S mii , pois existem indivíduos que compreendem mais do que uma língua, e existem línguas, como o latim ou o esperanto, que dificilmente serão a primeira língua de alguém.

Poderemos dizer que quanto maior o produto nptmpt, maior será a saúde do português. E tem-se que nptmpt> npt2

Uma medida relativa será mais apropriado, já que é completamente diferente 100 falarem a mesma língua num conjunto de 105, ou de 10.000.

 

Por isso, podemos definir a seguinte grandeza adimensional:

 

h pt=(nptmpt/N2),

 

que iremos chamar de "importância cultural", "importância comunicativa", ou simplesmente "importância" do português.

 

 

Esta medida, h pt , é um escalar, depende do tempo mas não da localização geográfica, e é independente das estatísticas das outras línguas. Só depende da relação da população mundial com o português, sem a mediação de nenhuma outra língua.

Poderemos ser tentados a considerar não N, a população mundial, mas E, a população europeias ou europeia+americana, ou .... É claro que se substituímos N por um E que seja um subconjunto de N, estamos a introduzir regras adicionais. Sem prejuízo de considerações futuras, cremos que este momento ainda é muito precoce para a sua introdução. Vamos continuar com um parâmetro global, e é com base neste que as restrições, sejam elas de ordem geográfica, etária, económica, ou outras, serão futuramente colocadas.

Para o cálculo deste parâmetro hii entram apenas três números, relativamente fáceis de obter: o nii , o mii e o N.

Relativamente a estas contagens, consultar, p. ex.:

http://www.unilat.org/dtil/lenguainternet/pt/lingua/lingua_indice.htm,

 

É evidentemente possível elaborar medidas mais complexas, onde sejam introduzidos parâmetros que representem a relação entre pares de línguas, como seja o caso de um parâmetro que represente "o número de pessoas que tem xx como primeira língua e também compreende a língua yy". Para cada língua xx, iremos obter um vector com uma dimensionalidade equivalente número total das línguas conhecidas! (embora possa ter algumas componentes nulas). A introdução deste tipo de informação é neste momento, desaconselhável. Ficamos com um conjunto enorme de vectores, e o preenchimento dos seus parâmetros a partir dos dados reais vai ser caríssimo. Se, para simplificar, procurarmos trabalhar apenas com um subconjunto destes vectores e das suas dimensões, ou seja, se só considerarmos um determinado número de línguas como relevantes, caímos novamente na discussão anterior relativa ao parâmetro E. Não quer dizer que não tenha interesse, ou que não venha a ser feito. Parece-nos é que é prematuro. É mais adequada e sensata a posição de que primeiramente deveríamos trabalhar com modelos simples, e depois é que se partia para as complicações. Vamos assim evitar (por agora) integrar nesta medida h a informação detalhada relativa à interacção entre línguas, bem como outras informações, como a importância económica.

Iremos ver que a defesa do português transforma-se na tarefa de maximizar o h pt . Esta medida tem algumas propriedades interessantes. Tal como o rendimento energético de um dispositivo, só pode apresentar valores entre zero (0%) e um (100%). Além disso, as línguas como o latim ou o esperanto, são consideradas como tendo uma importância muito reduzida, pois nlatim @ zero, assim como o nesperanto . Por outro lado, línguas com um n elevado e um m também, como é o caso do inglês, rapidamente se catapultam para o topo das importâncias. Com base neste parâmetro h, até é possível estabelecer um "ranking" de importância para todas as línguas e determinar o lugar do português nesse ranking.

O objectivo de uma política de saúde para o português, será o de aproximar o hpt dos valores de h da língua imediatamente acima no ranking, e o distanciar dos valores de h da língua imediatamente abaixo. Vejamos como pode isso ser feito.

 

Estratégias para o português

Comecemos por notar que, mesmo para N = Cte, tem-se que Shii¹ Cte. Quer isto dizer, que em termos da importância de uma língua, não nos encontramos naquilo que em teoria de jogos se chama "jogos de soma nula ou constante", pois a importância de uma língua pode aumentar sem que para isso tenha que diminuir a de outra.

Isto porque embora o Snii=N, o Smii> N, donde posso aumentar o mpt, sem prejudicar nenhuma outra língua e isto mesmo na hipótese extrema de se considerar a população mundial, N, como uma constante!

Por outro lado, já não será possível fazer o português subir um lugar no ranking, sem que outra língua desça. Mas esse não é o nosso objectivo. Será quando muito um efeito secundário do nosso objectivo, que é aproximarmo-nos do ranking imediatamente acima, e distanciar-nos do ranking imediatamente abaixo.

Seja hcima a importância da língua imediatamente acima no ranking. Seja hbaixo a importância da língua imediatamente abaixo da nossa. O que se pretende é diminuir a diferença para a língua de cima, e aumentar a diferença para a língua de baixo. Ou seja, (hcima-hpt) tem que tender para zero, para o português se aproximar dela, mas (hpt-hbaixo) não pode tender para zero, para o português se distanciar dela.

Posso assim considerar o índice:

n = ((hcima+hpt)/(hcima-hpt)) / ((hpt+hbaixo)/(hpt-hbaixo)).

 

Este índice tem propriedades interessantes, pois tem-se sempre : hcima > hpt > hbaixo.

Obviamente, o lugar para o português é entre o de cima e o de baixo, e não é razoável a situação em que hcima » hbaixo , que daria lugar a indeterminações,.

Vemos que este índice n (que é sempre positivo) valerá quase zero se hpt» hbaixo , mas por outro lado este índice tenderá para infinito à medida que o português se aproximar da língua de cima, ou seja que hcima-hpt tenda para zero.

 

Sendo assim, o objectivo estratégico será o de aumentar o n o mais possível.

 

Diz-nos o bom senso moral que embora o n dependa de três variáveis, ou seja, n= f ( hcima , hpt , hbaixo ), para o manipular deveremos apenas mexer na nossa língua, no hpt , e evitar tentações de diminuir o hcimaou o hbaixo, "sabotando" as outras línguas.

Seguidamente iremos concentramo-nos exclusivamente em formas de aumentar o hpt .

 

Como aumentar o hpt ?

Recordando que h pt=(nptmpt/N2), onde N representa a população mundial, para aumentar o h pt poderei aumentar quer o npt , o número de pessoas que falam o português como primeira língua (... campanhas de alfabetização (e paz) em África e noutras regiões de forte presença da cultura portuguesa, ...), quer o mpt , o número de pessoas que entende o português. ( ... , português computacional, difusão da cultura portuguesa pela Internet, programas comunitários de apoio à tradução e às edições bilingues, canais de rádio e televisão em português na Europa e no Mundo, Nobel da literatura, ...) .

 

Programa de acção

Construção de um observatório para as medidas estatísticas. Este observatório pode até nem ter um nome pomposo. Pode até ser um conjunto de vários gabinetes geograficamente dispersos, pertencentes a várias universidades/ institutos/ /organizações. O que é importante é que de uma forma regular construa um relatório onde conste a avaliação no terreno da evolução dos parâmetros estatisticamente relevantes. Deverá também ser aplicado um príncipio de separação das águas. Ou seja, este observatório, observa. Não faz, não investiga os avanços teóricos da teoria da medida.

Organização Internet: A Internet constitui um veículo excelente para a difusão cultural. É necessário que na Net se encontrem informações em português. Por isso, e como os motores de pesquisa americanos são enviesados, é necessário potenciar politicamente o aparecimento de alternativas. O SAPO é um exemplo do que pode ser aproveitado. Porque não apoiá-los para o aparecimento de uma rúbrica referente ao português On-Line? Onde encontrar os diversos autores? Os diferentes recursos? As ferramentas computacionais? E em nome do parâmetro mpt, apoiá-los também para que as suas páginas sejam também bilingues.

Ver, p. ex, as páginas citadas em:

http://www.portugues.mct.pt/outros.html

 

Uma página bilingue é uma montra internacional da nossa cultura.

 

É preciso alargar os horizontes, cativar para o português. Não podemos ter apenas uma visão afunilada, paroquial. Nesta linha de ideias é conhecida a profundidade do impacto externo que a colocação na Net dos jornais portugueses, diários e não só, teve e continua a ter. Tais iniciativas deverão ser apoiadas, para os diários, semanários, desportivos, regionais e outro tipo de publicações periódicas, tendo como contrapartida a autorização de acesso do observatório às estatísticas de consulta, números, IPs de origem, horas, assuntos, ... . Estas iniciativas poderiam ser colocadas no contexto de um programa comunitário de desenvolvimento da Net, quer pela via indústria de conteúdos, quer pela via do comércio na Net, quer pela via dos melhoramentos dos acessos. É importante saber que existe uma apetência, um mercado, por informações em português.

 

FCT e outras instituições científicas públicas: As instituições de investigação deveriam ser levadas a concluir que a colocação na Net dos resultados da investigação, em português e outra língua, é um resultado natural para os seus relatórios. Aqui, uma acção pedagógico-legislativa poderá ser efectuada. Os próprios regulamentos de apoio à investigação deveriam deixar de ser omissos nesse ponto. Seria fácil obrigar administrativamente todos os bolseiros a entregarem todos os seus relatórios e artigos em formato electrónico, para colocação na Net. Pedir sempre o suporte electrónico.

 

Organizar o apoio comunitário à tradução On-Line. Como se viu, o parâmetro mpt é muito importante. A procura pelos centros documentais portugueses tem que ser potenciada. Mas isso só pode acontecer se quem não fala português começar a entender que existem informações úteis em língua portuguesa. É aqui que o papel da tradução( manual, automática ou assistida por computador) é importante. A disponibilização sistemática de versões traduzidas para outras línguas é importante para a propaganda do português, da investigação em Portugal, das actividades económicas portuguesas.

Se o nosso lugar no ranking fosse outro, como os ingleses, não teríamos de nos preocupar com isto. mas não estamos. Nem podemos fazer como os franceses, de pretender que estão, de terem passado leis que obrigavam qualquer francês, bolseiro do CNRS, a apresentar as suas comunicações em francês, independentemente da geografia, da audiência. Os resultados foram evidentemente catastróficos.

Esta organização dos apoios comunitários poderá ser feita aproveitando várias linhas de apoio, desde a tradução automática (Exemplo: Projecto para a tradução automática de toda a obra de ..., ou de toda a documentação sobre ...), até projectos bilaterais, onde nós traduzíamos o que era nosso, para eles e eles traduziam, o que era deles, para nós. Aqui, a escolha das línguas parceiras terá muito a ver com a evolução desejada para o parâmetro n.

 

Criar programas de apoio à penetração das indústrias culturais nos mercados para onde a imigração portuguesa é mais marcante (França, A. do Sul, Palops, Luxemburgo, Canada, Venezuela, ...). Não esquecer que é necessário defender o npt. E a sua defesa passa necessariamente por ajudar os lares de origem portuguesa a conservarem o português como língua materna. E nos casos em que o indivíduo se perca para o npt, que 2ª geração subsequentes não se perca para o mpt.

Não esquecer os factores demográficos para a alocação de recursos. As taxas de crescimento das populações são parâmetros importantes. mas aqui a teoria já terá de ser mais aprofundada. Já não estamos a falar de um factor n global, mas sim de algo com características regionais.

 

Aprofundar o modelo teórico (teoria dos jogos, crescimento de populações em competição, modelos de difusão e ocupação do espaço, ...), de forma a melhorar as estratégias face à ameaça Francófona (Cabo-Verde, Guiné, ...), quer à Anglófona (Global!): Bolsas e programas de investigação nas áreas relevantes, de forma a formar uma pool de especialistas, utilizáveis não só nesta área, mas em muitas outras.

 

 

 

Março 1999

 

Eduardo Capela