PROPOSTA DE ESTRUTURAÇÃO DA ÁREA

DO

PROCESSAMENTO COMPUTACIONAL DO PORTUGUÊS

 

1. Introdução

 

Apesar de o português ser uma das línguas mais faladas a nível mundial, o seu peso nas instituições internacionais é desproporcionalmente reduzido quando comparado com o de outras línguas europeias. A análise das razões desta posição desfavorável em que a nossa língua se encontra nunca foi feita de forma aprofundada. É, contudo, claro que a situação não é nova e que as suas raízes se relacionam estreitamente com a falta de protagonismo que os países de língua portuguesa têm internacionalmente. A sensação de sub-alternidade nacional no quadro internacional presidiu demasiadas vezes à nossa actuação governamental com as consequentes opções erradas daí resultantes: Para quê fazer grandes esforços? Para quê encontrar as pessoas certas? Para quê reunir as necessárias competências?

É, contudo, compreensível (embora indesejável) que, nesse quadro, as tendências governamentais tenham oscilado entre o laxismo e a impotência e que as opções técnicas e científicas necessárias para alterar este estado de coisas tenham sido relegadas para planos secundários, tanto mais que elas não dão resultados imediatos.

Não se queira extrair daqui uma crítica mais ou menos apressada, que seria em muitos casos injusta a esta ou àquela actuação. O que se passa actualmente é mais um reflexo de um modo de estar nacional do que a consequência imediata do comportamento desta ou daquela personalidade, desta ou daquela instituição.

Convém, no entanto, notar que de há algum tempo a esta parte se tem verificado que novas energias apareceram e, consequentemente, novos modos de actuação e de enquadramento internacional têm surgido. Têm-se cometido vários erros mas o saldo global é bastante positivo. A ruptura a que temos vindo a assistir trouxe consigo uma certa necessidade de identificação com modelos até aqui exteriores à sociedade portuguesa.

Em relação ao uso da língua, não fosse a vaga de fundo europeia de preservação das línguas nacionais, o português ainda correria maiores riscos de ser encarada como uma língua menor (veja-se o anseio com que se utilizam, sem justificação, no português escrito e falado termos estrangeiros, que nada acrescentam).

Por uma razão ou por outra, também aos que se dizem seus defensores se estendeu esta euforia. Para aqueles que há longo tempo pugnavam pela dignificação do estatuto da língua portuguesa, as possibilidades de mudança foram a luz ao fundo do túnel, para os outros a recusa mais ou menos silenciosa ou ainda a fuga para a frente.

Não é possível ignorar hoje que a sobrevivência de uma língua depende do seu tratamento automático e das decorrentes aplicações tecnológicas. Apesar dos esforços de alguns grupos isolados, a língua portuguesa tem a este respeito um atraso significativo em relação a quase todas as outras línguas europeias. É, pois, urgente recuperar esse atraso, mas é preciso ter em conta que saltar as etapas necessárias pode significar ficar onde se está. A tentação de obter resultados imediatos pode levar (e em alguns casos já levou) a apostar mais no espectáculo do que na criação e desenvolvimento de infra-estruturas linguísticas. E tal tentação poderá ser fatal ao êxito de uma política de afirmação do português enquanto língua internacional. A evolução tecnológica é actualmente demasiado rápida para que nos possamos dar ao luxo de cometer erros estratégicos. Como infelizmente todos sabemos, certas opções erradas não se limitam a desperdiçar energias e recursos elas estendem-se para além de elas próprias e comportam-se mais como retrocessos do que como avanços.

 

2. Alteração do Estado de Coisas Vigente

 

É, pois, a partir de uma investigação e desenvolvimento sustentados e bem articulados que se pode esperar obter resultados significativos e reprodutivos no domínio da língua portuguesa. Sem ambições de exaustividade, formularemos a seguir uma proposta simples que em nosso entender poderia ajudar a reestruturar a investigação no âmbito do tratamento automático do português. Julgamos ser mais ou menos consensual que:

 

  1. O estudo linguístico sistemático da língua portuguesa é nitidamente insuficiente quando os objectivos são o seu tratamento informático;
  2. Não existe um plano de optimização dos recursos humanos e materiais existentes;
  3. Não existem motivações suficientes para que os grupos partilhem entre si os seus recursos e conhecimentos;
  4. Não existem processos fáceis de criação de ambientes pluridisciplinares; nas raras situações tentadas, pouco se acrescentou ao simples somatório de cada um dos discursos;
  5. A implementação de modelos de concorrência entre os grupos (necessária e saudável) acaba por ter efeitos perversos no seu inter-relacionamento. Os grupos são demasiado pequenos e, muitas vezes, com escassos recursos para sozinhos poderem levar a bom termo um trabalho de qualidade e, nesse quadro, optam por soluções de sobrevivência em que se produzem resultados excessivamente limitados;
  6. As aplicações tecnológicas (indústrias da língua) apresentam deficiências graves (mesmo nos raros casos em que procuram uma certa qualidade) devido a estarem baseadas em estudos deficientes, muitas vezes apressados e quase sempre demasiado restritos para poderem ser usados noutras aplicações;
  7. Continua a faltar base de confiança entre as instituições governamentais e os investigadores.

 

Esta enumeração não é, como se disse, exaustiva e muito mais se poderia dizer sobre o assunto. Contudo, estes pontos são suficientes para podermos estabelecer uma linha orientadora que permita encontrar soluções que venham melhor qualitativa e quantitativamente a situação actual.

Consideramos, assim, que uma nova política neste domínio deverá ter em conta os seguintes aspectos:

 

  1. Com os recursos existentes, aumento a curto prazo de massa crítica entre os investigadores do domínio;
  2. Criação de condições mais favoráveis à obtenção de bolsas de doutoramento no país e no estrangeiro;
  3. Abertura de lugares de investigação (doutorados), quer de natureza permanente, quer de curta, média e longa duração;
  4. No domínio das relações comunitárias, estreitamento do intercâmbio entre as estruturas nacionais e as da Comunidade Europeia;
  5. Fomento de uma participação ampla dos investigadores na política da língua portuguesa, a nível nacional e perante as instituições comunitárias;
  6. Articulação e criação de canais que permitam um melhor intercâmbio com a indústria do sector.

 

A concretização destes objectivos, quanto a nós essenciais para dinamizar de forma eficaz a área do tratamento automático da língua, deveria passar pela criação de uma Ģinstituição de acolhimentoģ, de tipo Complexo, em que pudessem participar as equipas que presentemente se encontram dispersas e que dispõem de trabalho válido no domínio.

À partida, esta instituição seria simplesmente um lugar físico para reunir as equipas que o desejassem. Posteriormente, avaliar-se-ia da necessidade de lhe dar um carácter mais institucional, com um quadro de serviços de apoio e um quadro de investigadores.

O formularmos assim a proposta tem que ver com o facto de ser do conhecimento geral que o êxito de uma instituição destas está fortemente relacionado com o modo como se constitui e evolui. Há que impedir a cristalização a que chegam facilmente estruturas deste tipo e que leva a que se transformem em sorvedouros prejudiciais de recursos humanos e materiais. Uma instituição que arranque com um carácter informal, sem necessidade de diplomas legais de criação, permite, de acordo com a sua evolução, optar mais tarde por soluções fundamentadas.

Essa instituição deveria estar na dependência da pasta da Ciência e Tecnologia, cabendo a sua gestão aos investigadores que a integrassem. Deveria também dispor de um conselho consultivo, constituído por investigadores, representantes da indústria e representantes do poder político.

Como nota final, não queremos deixar de mencionar a política da língua portuguesa especificamente direccionada para os Países de Língua Oficial Portuguesa. Não tratámos aqui a questão por entendermos que a sua complexidade e importância merecem reflexão particular, em momento próprio. Estamos em crer, contudo, que no âmbito de actividades da instituição que se propôs se podem enquadrar as políticas de língua a desenvolver.

 

Lisboa, 11 de Janeiro de 1999

 

Samuel Eleutério

Elisabete Ranchhod