Mudar qualquer coisa não costuma ser fácil.
Comportamentos e hábitos repetidos anos a fio, mais ainda.
Mas a mudança de comportamento citada é o que o Movimento Música Curitibana está tentando provocar nas pessoas e na cena musical local.
Provocante e envolvente são duas boas palavras para designar o Movimento.
Provocar o pensamento, fazer refletir, e a partir dessa reflexão provocar a ação, a mudança, o movimento, a quebra do padrão.
E envolver com a sinceridade e a verdade que o trabalho dos participantes tem conseguido passar.
Parece que os próprios músicos muitas vezes não sabem como trabalhar suas carreiras, administrá-las, plantar e colher.
Muitos de eles não sabem se organizar, ou acham que não precisam se preocupar com isso, e acabam ficando naquele amadorismo que os impede de crescer na profissão e mantém na cabeça das pessoas aquela idéia de que trabalhar com arte não é trabalho, é hobby.
A idéia de que «tocar não é emprego».
Alvaro Jr., principal responsável por o Movimento, tem procurado mostrar que as coisas podem e precisam ser diferentes, para que o trabalho de tantas bandas seja reconhecido como arte, como o que realmente é.
Um fruto de criatividade, sensibilidade, empenho, horas de dedicação.
Ele acredita que a busca por o reconhecimento deve ser integrada, que essas pessoas precisam estar unidas trabalhando e representando sua vontade de crescer com música, e quebrando o tal amadorismo da cena local.
Mostrando aos músicos que não se pode levar as coisas no jogo de cintura, e mostrando às pessoas o comprometimento e a paixão com que eles trabalham na sua arte.
Como quem esculpe uma peça, buscando o melhor.
O Movimento Música Curitibana quer atingir por todos os lados.
«Trata-se de uma união que ataca através da imagem, conceitos, símbolos, ícones e sinais que farão nossas vozes serem ouvidas, vistas e lembradas.
Queremos mostrar que Curitiba possui nichos musicais evoluídos e que podem receber investimentos para que gerem frutos não só financeiros mas também sociais, já que a capital desenvolve música cultural e com conteúdo, fugindo assim de padrões baixos, composições dirigidas.
E fazer com que seja criado um mercado mais forte, secundário, mas não de menor qualidade.
Um mercado paralelo que pode ser representado por nós, músicos, estando entre a lacuna da independência total e do estrelato que produz ao invés de arte, artesanato.
Esta combinação é fatal e certeira.
As produções e os músicos dessa década andam robotizados, coisa que inibe a verdadeira expressão.
Músico / banda virou algo inventado por empresários e patrocinadores.
Estes pouco opinam sobre resultados.
Essa cultura ' chula ` promove estrofes e refrões fáceis.
Vamos procurar interferir na sociedade de forma inteligente como uma nova ' Geração Coca-Cola ', como uma nova safra, uma nova garrafa», diz Alvaro.
A organização, o empenho, o trabalho árduo no projeto e a paixão dos participantes já têm trazido bons frutos.
A mudança de comportamento começou.
Saiba mais:
Número de frases: 28
http://www.movimentomusicacuritibana.com.br Antes da entrevista, acompanhei Eduardo num almoço.
Ele pagou a conta com o cartão de débito.
A moça sorriu, ele disse «obrigado».
Fomos embora.
Uma cena normal, nada cinematográfica.
Volta.
Ele pagou a conta com o cartão de débito.
A moça olhou para o lado enquanto Eduardo digitava a senha.
A moça sorriu, ele disse «obrigado».
Fomos embora.
Uma cena normal, nada cinematográfica?
Não para Eduardo:
-- Cara, esta olhadinha para o lado na hora em que você coloca a senha do cartão é incrível.
É um marco do nosso tempo.
Um movimento dos dias de hoje.
É um gesto tão importante quanto, sei lá, quanto alguma coisa que o homem das cavernas fazia.
Todo mundo tem a sua maneira particular de olhar para o lado para não ver a senha, é um gesto muito pessoal e muito solitário.
Ainda vou colocar isso num filme.
O Eduardo em questão é o Eduardo Valente.
Ele é cineasta, formado na Universidade Federal Fluminense, aqui do Estado do Rio, e essa certamente é a parte fácil de definir.
Falar sobre a sua relação com a sala escura é um pouco mais complicado -- é entre direção de filmes, aulas, organização de mostras e festivais, avaliação de roteiros e textos críticos que a vida desse rapaz de 31 anos, absolutamente fascinado com os pequenos detalhes do mundo, acontece.
Para quem é do Rio e gosta de cinema, talvez uma reportagem sobre Eduardo soe um pouco enfadonha, já que -- por mais de uma vez -- foi possível ler sobre o cineasta, até, como os links indicam, num mesmo veículo.
Mas a repetição do tema não é escassez de pauta, porque a verdade é que não faltaram assuntos na conversa de mais de duas horas que tivemos, em que, cabe aqui dizer, Não falamos a fundo sobre:
o prêmio recebido em Cannes em 2002 de melhor curta-metragem universitário;
o fato desse prêmio ter sido entregue por as mãos de Martin Scorsese (presidente do júri daquele ano);
a residência por quatro meses em Paris com bolsa da Cinéfondation (entidade ligada ao festival de Cannes que incentiva novos diretores);
a relação quase afetiva com a França e com o maior festival realizado por lá;
o começo, no ano que vem, das filmagens do seu primeiro longa-metragem;
enfim, sobre tudo aquilo que já foi e poderia ter sido conversado com Eduardo Valente.
Não que a lista acima não seja interessante e que -- volta e meia -- esses assuntos não voltem à mesa.
O caso é que a ênfase agora é na sua carreira de crítico de cinema, certamente, a frente em que ele atua com mais freqüência.
Fosse na Contracampo, respeitado (talvez, o mais respeitado) site de crítica de cinema no Brasil, onde Eduardo fez parte da equipe editorial por seis anos, seja na Cinética, projeto virtual inaugurado em maio deste ano.
A verdade é que diversos assuntos surgiram quase espontaneamente.
Porém, num primeiro momento, a conversa girou em torno do nova empreitada de Eduardo.
-- Como assim sair da Contracampo, desfazer o time mais que vencedor que se formou nos últimos oito anos da revista eletrônica e começar tudo de novo?
-- Como assim levar para a Cinética uma turma que já escrevia na Contracampo?
Por que correr esse risco?
Foram essas, sem dúvida, as primeiras perguntas que passaram por a minha cabeça.
Mal sabia, no entanto, que a primeira resposta fora dada um tanto antes, ainda dentro do restaurante, logo após o digitar da senha do cartão:
Eduardo precisa (e gosta) de observar o mundo de dentro, interagindo, aguçando e modificando sua visão à medida que vive.
A contemplação diante do inclinar de cabeça da moça do caixa não me parece -- em termos sentimentais e afetivos -- muito distante das respostas a seguir.
Pergunta óbvia, porém importante:
Por que sair da Contracampo?
Quando uma nova revista se fez necessária?
Quando a Contracampo surgiu (1998) era uma coisa meio inédita.
Você não tinha essa quantidade de sites.
A Contracampo ia contra duas lógicas -- uma geracional e a outra do meio.
A geracional dizia que a juventude não tinha interesse em correr atrás, em refletir sobre arte, em formar um movimento.
Um discurso pós-anos 80 de geração alienada.
A questão do meio dizia respeito à Internet, vista, na época, como veículo de rapidez de informação, acesso rápido, imediatismo tanto de quem procura a informação como de quem a produz.
Íamos contra isso tudo.
A Contracampo surgiu de uma vontade de um grupo de pessoas de falar sobre cinema e não encontrar isso nos meios tradicionais.
Depois de oito anos, tinha uma série de processos tanto internos quanto da relação da revista com o mundo exterior que eu não digo nem que tenha involuído ou evoluído, simplesmente mudou.
Os maiores interesses do Ruy [Gardnier] e do Junior [Luiz Carlos Oliveira Jr], atuais editores da revista, não eram os mesmos interesses que Cléber [Eduardo], Felipe [Bragança] (antigos «contracampistas» e atuais editores da Cinética) e eu tínhamos.
Ficou claro que tanto por o lado pessoal, todo mundo é muito próximo e muito amigo, quanto pelo lado de qualidade do material que estava sendo produzido, fazia mais sentido a gente estar fazendo duas coisas diferentes em vez de tentar encaixar uma só revista em duas ou mais coisas que a gente queria fazer.
Isso levava a desgastes tanto na relação interna quanto na produção.
Você pode citar exemplos da diferença entre as duas revistas?
A Contracampo é mais semelhante a uma idéia de uma revista impressa que usa a internet como meio de difusão.
Por quê? A idéia de ela é ter edições mensais, bimestrais, fazer toda uma pesquisa sobre um tema antes de fazer matéria sobre ele.
As pautas são completas.
A revista produz todo um saber, um raciocínio, uma pesquisa.
A Cinética raramente trabalha com pautas.
Quer fazer as coisas de forma muito mais rápida.
O próprio nome foi escolhido por conta disso.
É uma questão de você ter a velocidade mesmo, de uma coisa que está em movimento, o pensamento em movimento, então, na maioria das vezes, não é fruto de uma longa pesquisa sobre o assunto, é uma resposta imediata em movimento de determinadas coisas que você está vendo e que podem ser revistas no futuro, repensadas, colocadas de outra forma.
A gente tem um projeto de intervenção nesse sentido.
Se você tem um diálogo que se dá a partir de determinada obra e um público, a gente quer colocar o papel da crítica como um terceiro vértice que intervém nesse diálogo entre obra e público, diretamente.
Em esse sentido, a Cinética é muito relacionada ao produto do seu tempo.
Alguns dos textos da Cinética, se retirados do momento em que foram escritos, talvez não tenham tanta importância.
Mas a gente quer que tenha importância, que os textos sejam considerados importantes, enquanto as pessoas estiverem lendo na hora.
Uma diferença é que a obra em si para a Contracampo tem uma presença importante.
Para a gente, da Cinética, é sempre a obra em relação a alguma coisa.
Seja em relação a nós críticos, seja ao público, seja a hoje, ao momento histórico.
E hoje você enxerga mais algum site tão resolvido editorialmente quanto a Contracampo ou a Cinética?
Quando a Contracampo surgiu, quase não havia patamar na Internet.
Estava muito distante de todo o resto que já havia sido feito.
Hoje, tem exemplos até interessantes, como o Cine Imperfeito (site que terminou este ano) e alguns outros que foram surgindo e usavam a Contracampo como referência de alguma forma.
Mas não chegavam a ser um meio de cinema que fazia exatamente uma concorrência.
Por exemplo, o Críticos.
com. br não faz exatamente isso, pois se incumbe quase apenas de fazer a crítica dos filmes que estão em cartaz.
Eu vejo alguns sites que fazem atualidades, vários, Cineweb, Omelete, Cinequanon, que fazem uma revista de atualidade, seja no sentido de notícia ou de crítica das coisas que estão em cartaz, e ainda assim uma crítica não muito diferente das que estão nos grandes meios.
Não consigo ver uma linha editorial, uma idéia de mundo, uma idéia de revista ...
não tem.
Hoje em dia, com linha editorial no Brasil, só a Cinética e a Contracampo.
E ser um veículo editorializado é fundamental?
Eu não acredito no jornalismo não editorializado.
Todo jornalismo, assim como todo cinema, é uma tomada de posição sobre determinada coisa.
A necessidade de se ater aos fatos não esconde a verdade maior de que tem alguém por trás daquele relato dos fatos.
Você pode ouvir os dois lados, que é uma questão, mas eu não acho que é um problema exercer o jornalismo que toma um dos lados, eu acho que é um problema quando o jornalismo faz isso escamoteadamente, que eu acho que é o que a maioria do jornalismo faz sob o manto da imparcialidade.
Você tem exemplos de algumas posições editorais da Cinética?
A gente não entrevista cineastas em época de lançamento de filme, pois a gente sabe que todos os lugares do mundo entrevistam a mesma pessoa, e todas as pessoas fazem a mesmas perguntas.
Por mais que a gente se dedicasse a perguntas diferentes ...
até por experiência pessoal de realizador, eu posso dizer ...
você, na época do lançamento do filme, acaba criando um certo discurso de repetir determinadas coisas.
Um discurso que talvez, até mesmo para o próprio realizador, não seja o mais interessante.
Por isso, a gente prefere entrevistar cineastas no processo anterior, ou durante a realização do filme.
Como a gente considera nossa crítica eternamente em processo, o processo de realização nos interessa muito.
A Cinética também tem o plano de fazer outra coisa.
A gente quer falar com cineastas dos quais não gosta.
Embora a gente não tenha conseguido fazer isso até agora.
A gente ainda não conseguiu achar a maneira certa de fazer isso.
Mas esse é um dos projetos da revista, falar com diretores que não gosta, com partes do meio cinematográfico que não admira.
Assumindo isso?
Assumindo isso.
Se eu for conversar com o cara sobre os filmes de ele que eu não gosto, eu vou conversar com ele sobre isso.
Eu vou dizer pra ele as coisas que eu não gosto no filme de ele, ele vai me dizer por que ele o defende e daí vai sair alguma coisa.
A gente não sabe se os próprios cineastas estão preparados pra fazer isso hoje em dia, então a gente não teve o animo e a coragem pra começar esse esforço.
A gente acha que isso é o mais honesto.
Não achamos que a crítica deve ficar escondida, num castelo de algum determinado lugar, apenas vaticinando.
Eu posso estar errado, o diretor pode me dizer coisas interessantes sobre o filme de ele.
A gente ainda quer estender isso às grandes distribuidoras, às majors.
Se quiserem conversar ótimo, mas se eles não quiserem conversar é importante demarcar que eles não quiseram conversar.
É assim:
não vou perguntar qual é o line-up de lançamento de ele para o ano que vem.
Vou lá perguntar por que determinada coisa é feita, por que determinada não é, botar em questão, se o cara quiser responder a gente vai estar lá pra ouvir dando a cara à tapa mesmo.
E qual é o retorno que o meio cinematográfico dá em relação às suas críticas?
Elogiam ou tacam pedra?
Os cineastas, na média, respondem da mesma forma.
Se você escreve bem, tem muita procura de gente dizendo, «é muito necessário pessoas como vocês, porque a crítica está morta e blá, blá ...».
Se você escreve mal de eles, você escuta isso, «a crítica é ressentida, cineastas frustrados, pessoas que escrevem fora da realidade da realização e blá blá ...».
Mas eu também já ouvi diretores dizerem que aprenderam coisas sobre os próprios filmes lendo os meus textos.
Isso é um elogio mais interessante, importante, porque é quando finalmente alguém reconhece, no bom sentido, não no de admitir, mas de concordar mesmo, que a crítica serve pra isso, ela ilumina coisas sobre cinema que, eventualmente, estão acima da gente.
Mas, no seu caso, é difícil ser crítico e ser realizador também?
Como é lidar com o seu próprio espírito de crítico enquanto dirige um filme?
Eu tenho muito mais facilidade de analisar, de perceber e de falar a respeito da obra dos outros do que dos meus filmes.
Eu acho que eu sou a última pessoa indicada pra falar sobre os meus filmes.
Eu acho que no processo de realização artística existe um componente enorme de intuição, de sensibilidade que se dá para além da consciência racional.
Você acha que a crítica dos grandes jornais cumpre esse papel, o de tentar entender racionalmente esse componente de intuição e sensibilidade inerente a todo processo artístico?
Por a lógica dos cadernos de programação cultural dos grandes jornais, a crítica é colocada no lugar de orientadora de programas.
Em a minha visão, a maioria das coisas que as pessoas chamam de crítica não é crítica, e, num segundo momento, a leitura das pessoas não é crítica.
Por sua vez, a crítica acaba moldando também esse leitor para que ele queira apenas isso do texto.
Não adianta o cara ser um ótimo crítico se quem lê não lê com olhos críticos.
Se o cara que abre a revista ou o site só está querendo saber o programa que ele vai fazer no fim de semana, não adianta.
Assim como o cinema só se completa quando alguém vê o filme, a crítica só se completa quando alguém, de fato, lê o texto.
E o que habilita alguém a ser crítico de cinema?
O crítico, pra mim, seja por que meio for, seja porque estudou, seja por assistir a muitos filmes, autodidata, a forma não importa, tem que ter um saber, ou uma percepção, um olhar especial.
O crítico tem que ter dois talentos, o talento da percepção, de um olho muito bom, e ele tem que ter uma escrita muito boa.
às vezes, tem crítico que tem sacadas incríveis e o texto de ele é sofrível, muitas vezes isso atrapalha.
Você consegue ver que ali tinha uma ótima idéia, mas o cara não conseguiu passar isso no texto.
Você parece contrário ao tipo de crítica de jornal que diz «vá ver esse filme porque ele é bom», ou, o oposto,» fuja desse filme porque ele é horrível».
É isso mesmo?
Existem muitos textos que eu gosto muito que, em muitas vezes, no final, eu não sei se o cara gostou ou não do filme.
Porque isso de dizer «é bom ou é ruim», que virou o mais importante da crítica, às vezes é desimportante.
Certamente, é o menos importante.
Eu acho que a crítica dos grandes jornais virou esse jogo, né?
Seja por os bonequinhos, seja por as estrelinhas, seja por o «gostei» ou «não gostei».
Penso diferente:
uma constante pra mim é ver filmes que eu não gosto gerarem uma reflexão muito mais interessante do que filmes que eu gosto.
Meu papel é de crítico, não é de polícia.
Sobre o cinema nacional:
no primeiro editorial da Cinética, vocês praticamente repetem o lema de Paulo Emílio Salles Gomes, o de que todo filme brasileiro deve ser visto.
É isso mesmo?
O cinema brasileiro conseguiu provar que a gente estava errado.
Em o penúltimo editorial da revista, já mudamos de idéia.
O caso é o seguinte:
existe uma quantidade enorme de filmes sendo lançados aqui no Brasil por gente que não se interessa por cinema.
Eu não me incomodo com filme ruim, só acho que o filme tem que ter um olhar.
Por mais que eu o odeie, eu vou poder me colocar contra esse olhar.
Agora, alguns dos filmes brasileiros mais recentes chegam ao ponto de parecer que não têm esse olhar.
Eles não são feitos por ninguém!
Depois que começou a ter tecnologia digital nos cinemas, começou a ter uma série de documentários que são programas de televisão no cinema.
Como eu não assisto a tudo que se produz na televisão brasileira, e o meu compromisso é com as salas de cinema, então eu não quero ver esses filmes.
Porque eu vi alguns já e já me encheram o saco.
Eu acho um despropósito em vários sentidos.
Acho que os filmes não se propõem a serem vistos no cinema.
Acho que eles não foram pensados pra isso, pra essa linguagem.
Os cinemas não ganham nada, porque esses filmes são, eminentemente, sempre fracassos de bilheteria.
O espectador também não ganha nada ...
Esses filmes deviam ficar contentes em passar no GNT, o diretor tem que saber que um filme no GNT, se passar durante uma hora, terá muito mais audiência do que os filmes têm no cinema brasileiro.
Esse fetiche do filme passar no cinema é uma coisa que eu não consigo entender.
Se o cara acha que o filme de ele é cinema e quer lançar, não tenho nada contra, porque eu sou contra censuras estéticas e ideológicas, mas só acho uma perda de tempo de ele, meu, então eu não quero mais ver assim, eu estou fora, pra ver televisão eu assisto à televisão.
Então entramos nessa questão eterna.
A diferença entre TV e cinema.
Você saberia definir?
Há diferença no documentário e na dramaturgia, isto é, na ficção.
A questão do documentário é muito clara pra mim.
Em a TV, o documentário não se pensa internamente, como se pensa no cinema.
Então, um filme como Intervalo clandestino, embora seja um monte de entrevista, acaba tendo intervenção no som, um Dolby 5.0, que ecoa por a sala inteira.
O filme acaba se valendo do cinema para acontecer.
Diferente de um filme que pega Santos Dumont, um tema super chapa-branca, entrevista um monte de gente ...
Se ele acha que é cinema tudo bem, eu não vou lá ver.
A diferença na dramaturgia é um pouco mais complicada.
Jorge Furtado fala muito sobre isso.
A questão não é de equipamentos, porque você produz muita coisa em TV com película, e em cinema com digital.
Não tem a ver também como você enquadra as pessoas.
Porque, embora na TV você use mais o close, o close é uma arma do cinema desde 1900.
Inclusive isso veio do cinema.
A questão principal é a relação do espectador com o meio.
Em o cinema, você pressupõe o espectador voltado para apreensão daquela obra durante o tempo que ela dura naquele determinado momento.
O cinema pode se dar ao luxo de complicação da trama e da própria linguagem, porque supõe toda a atenção do espectador.
A TV é mais um eletrodoméstico.
A linguagem da TV tem que ser mais repetitiva.
Toca o telefone, a pessoa perde a atenção ...
A pessoa pode perder um capítulo e ter que assistir a outro, então a TV tem que ser óbvia e eventualmente caricatural.
E como se dão as diferenças estéticas?
Em a parte estética existe sim uma questão industrial de produção.
A televisão é industrial no Brasil e o cinema não é, aquelas imagens devem ser produzidas muito rapidamente e em muita quantidade.
Em a média, elas são sim menos cuidadas.
Onde enquadra, de onde enquadra, daqui pra onde ...
Qualquer um que já foi a uma gravação de novela sabe que não é a coisa em que gastam mais tempo de discussão, enquanto no cinema é, às vezes, exatamente onde se gasta mais tempo de discussão.
Mas as coisas que passam na TV brasileira são necessariamente piores do que as que passam no cinema?
Não.
Tem novelas e séries de TV melhores que alguns filmes brasileiros que passam no cinema.
Mais interessantes na linguagem.
Alguns filmes brasileiros que passam no cinema são feitos como lingüiças de fábricas industriais.
Número de frases: 205
* * * [Continue lendo a entrevista com Eduardo Valente, ainda dentro do Overmundo, por aqui]
Queridos editores da Revista piauí *
Acabo de ler o texto de apresentação inserido no número zero da piauí.
Devo dizer que a considero uma boa e honrada declaração de intenções que só serão melhores se e quando concretizadas.
Por duas vezes, no entanto, o texto fala da perplexidade dos editores por terem escolhido este nome, piauí.
Em uma de elas, falando em obscuridade, confessam não saberem o porque da escolha.
Para mim, no entanto, não há mistério nenhum na escolha que fizeram.
Eu diria mesmo que nem tiveram escolha:
verbalizado, o piauí se impôs a ponto de, já hoje, ser impossível pensar na revista com outro nome, inclusive porque todos os seus colaboradores têm, ou tiveram, ligações com o Estado mais Charmoso do Brasil.
Mas isso é apenas um mínimo detalhe.
Em a realidade o nome se justifica desde o primeiro parágrafo do texto «piauí vem aí».
Em ele se diz que «falará de pessoas, da vida concreta das pessoas» tudo a ver (até as exceções, mas deixa pra lá) com o povo desta Terra Querida.
Acerca da promessa de «bastante coisa para ler e ver em piauí» aí temos outro bom indício de que o nome é mais do que adequado às declaradas intenções dos editores:
a gente tem um mundo de coisas interessantíssimas, inéditas e surpreendentes para ler e ver no Piauí.
Mais do que tudo, no entanto, o que parece ter sido escrito por quem Sabe Por que colocou este nome na revista é que " Ela dará importância ao que, por ignorado, é tido como insignificante.
Tratará de achar novidade no que, por esquecido, parece velho e ultrapassado».
Não pode haver mais forte justificativa para essa revista chamar-se piauí!
Claro que sei que a revista não terá como tema exclusivo, nem prioritário, o Piauí.
Mas no que depender de mim, terá em ele um dos grandes fornecedores da sua matéria prima.
Ainda que em lombo de jegue, a Terra Querida de tantos piauienses contribuirá muito para que piauí espelhe a bagunça nacional.
Quem viver verá!
Beijos e abraços
De o
Joca Oeiras, o anjo andarilho *
Número de frases: 24
Carta que escrevi aos editores de piauí quando recebi, de uma amiga, a propaganda que ela ganhou em Parati e me enviou por carta Tá, você já sabe, mas deixa eu falar.
O You Tube é a nova MTV.
Aquela MTV do início da década de 90, até os primeiros VMBs, em que só dava Sepultura, Titãs, Marisa Monte, etc..
A MTV que fez a gente querer ver música, comparar as bandas a partir do que elas tinham para te mostrar.
Se fosse um playback na frente de um chroma key, eu que não ia querer ouvir aquilo.
Nada de fantástico.
Pois é, justamente por aí.
Assim como nem todo mundo tem o canal 9, a partir de meio-dia, ou o sei lá o que em UHF, nem todas as internets tem uma conexão que acompanhe o pensamento rápido do YT, mas isso vai se resolvendo aos poucos.
O fato é que toda aquela gritaria de mp3, napster, imúsica, iPod, pode ter que ser repensada.
Não que vá acabar, entrar em crise, nada disso.
Mas, tal qual a gente tenta achar que conhece, já era.
Vai ter que passar por o YT.
Quem não está lá, nem que seja num videozinho safado de celular com o som estouradasso, é porque merece os fãs insensíveis (obsoletos?)
que têm.
Dá pra ficar horas procurando arquivos históricos só por recombinações de nomes, variações de search.
É uma navegação quase tão automática, depois que você pega a onda, quanto zapear com o controle remoto.
Não que eu fizesse isso com a MTV, ficava ali direto, fiel, com a Astrid, o Zeca Camargo, o Thunderbird, a Chris Couto, a Cuca.
Mas os tempos (o século, a década, a semana?)
mudaram.
E a evolução que virá, olha a viagem, pode até passar por tipo um orkut ligado ao YT, em que combinações das mais aleatórias juntariam pessoas com perfis e vídeos parecidos para trocar informações, dicas, gostos, trocarem cantadas e encontros para consumação.
Bem melhor do que as fitas cassete ou vhs que a gente fazia há quinze anos pra mostrar uma banda nova no colégio para os coleguinhas, tirando uma onda indie muito antes de qualquer coisa.
O YT vai ser isso, criar hábitos muito antes de qualquer coisa.
E tem muito qualquer coisa vindo por aí.
Se a revolução não for televisionada, dá uma procurada lá que você vai achar.
Qualquer coisa, eu boto o link aqui.
Começou agora, e o melhor é isso.
Número de frases: 26
((publicado primeiro no www.sobremusica.com.br) Já tomei o primeiro banho do ano (hoje de manhã), fiz o primeiro cocô (hoje ao meio-dia), terminei o primeiro texto (de madrugada), pisei na cachorra pela primeira vez (há algumas horas), comi o primeiro sorvete de baunilha (há 2 minutos), ouvi a primeira música no computador (" Dammit "), ouvi o primeiro cd (Ramirez), gravei o primeiro cd (The Appleseed Cast), fiz a primeira ligação (meu colega que achava que eu não iria para a casa do nosso amigo ...),
soltei o primeiro pum (logo depois da virada), fix o primeiro xixi, tive a primeira boa idéia (Rap da Tsunami), joguei a primeira caneta fora, procurei a primeira palavra no dicionário (' alíquota '), entrei no primeiro site (este), li meu primeiro e-mail (a Luiza reclamando que estava trabalhando de madrugada), deletei o primeiro e-mail sem ler (mensagem de feliz ano novo Com Figuras), vi o primeiro programa na TV (Jornal de hoje) e falei «Bolívia» pela primeira vez (agora).
Ainda falta pegar o primeiro ônibus (amanhã, creio eu), dar o primeiro beijo, cortar a primeira unha (farei agora), passar o primeiro trote, quebrar o primeiro cd, dar o primeiro chute no computador, terminar o primeiro Campo Minado, comprar a primeira Coisa, lamber o primeiro pote de sorvete, ganhar do Caio no xadrez primeira vez, cortar o primeiro cabelo, cheirar o primeiro sabonete, comer o primeiro Queijo, compor o primeiro funk, enfiar a primeira garrafa de leite no olho, assistir ao primeiro filme, limpar a primeira orelha, embrulhar o primeiro presente, tropeçar na primeira pedra, imitar a primeira galinha (a última foi dia 31), comprar a primeira Droga, quebrar o primeiro vidro, enrugar a primeira Testa e babar quando ver algo apetitoso.
Número de frases: 3
Eu poderia ficar o dia inteiro escrevendo isso, mas poupaei-vos-.
A peça Inimigo do Povo parte de uma premissa simples:
o poder da maioria está nas mãos da minoria.
Essa constatação é tão verdadeira nos dias de hoje quanto na época em que o texto foi escrito por Henrik Ibsen, em 1882.
O espetáculo conta a história de um médico de uma estância balneária que descobre uma falha no sistema de encanamentos de sua cidade.
Para resolver o problema, os poderosos da região teriam que desembolsar um bom dinheiro.
Com isso, o médico precisa enfrentar o poder da imprensa e do prefeito, o próprio irmão, para conseguir beneficiar a população.
Essa pequena sinopse no melhor estilo dos guias de teatro até que sugere uma peça empolgante, porém, a montagem dirigida por Sérgio Ferrara, em cartaz no Tuca, dá brechas para o espectador dar uma boa cochilada nos 50 minutos iniciais.
Com cenas monótonas e pouco criativas, parecia ser difícil chegar ao final dos 90 minutos de peça.
Atores declamam o texto sem explorar possibilidades para o mesmo e algumas cenas são desnecessariamente longas e estáticas.
A peça melhora nos 40 minutos finais, quando o texto mostra o porque foi necessário montar esse espetáculo.
Os eternos jogos sociais são explicitados muito bem, com todas as suas relações políticas, demagogias, imprensa comprada, influência em cima da população.
A revolução dos «vira-latas» é difícil de vingar quando o poder da informação e o econômico andam juntos.
O espaço cênico é delimitado no chão com fita adesiva branca, estilo Dogville.
Por fora da linha, é como se os atores estivessem numa coxia -- esperando à vista do público o momento de entrar em cena.
Contudo, os dois espaços se confundem na metade do espetáculo, quando personagens atuam fora do limite demarcado e vice-versa.
Se essa mistura é proposital, uma explicitação maior daria conta do recado.
Em o elenco, nomes jovens relativamente conhecidos, como o filho da Marie-Gabi, Theodoro Cochrane, e Chico Carvalho, ator de A Noite no Aquário, de Sérgio Roveri, em cartaz no Espaço dos Satyros.
Aliás, a interpretação de Carvalho se destaca justamente por a oposição de seus papéis nessas duas montagens.
Em Inimigo do Povo cada gesto seu é meticulosamente calculado, dentro da proposta de seu personagem.
Como também fazemos parte desse quarto poder detentor da informação, nos reservamos o direito de não falar dos outros atores.
Alguns expressivos e com interpretação forte, outros nem tanto.
Número de frases: 22
Mas não queremos magoar ninguém, não agora.
Lançamento do SMD da banda Sub-Versão
A banda Sub-Versão lança neste mês na rede overmundo o seu mais recente álbum intitulado «Novo Manual do Guerrilheiro Urbano» São 7 músicas que vão ser disponibilizadas para download no site com o melhor do rap e do rock nacional e o selo de qualidade na faixa Marcha da Revolução, assinado por o bandolinista Hamilton de Holanda, uma das atrações a parte deste disco.
As cópias do trabalho foram prensadas em SMD (Semi Metalic Disc) uma nova tecnologia que surge para tentar baratear o custo com a produção de CDs e consequentemente seu preço final.
A Sub-Versão tem quase 10 anos de ativismo social em Brasília e promove sua luta através do rap rock politico de suas letras.
É parceira de duas ONGs do Distrito Federal (COMPRAV e Atitude) onde exerece na prática suas idéias de transformação social.
Musicas Disponiveis:
1-Prece Urbana
2-Veias Abertas
3-Fantoches 4-Novo Manual do Guerrilheiro Urbano
5-Marcha da Revolução
6-Sexto Sentido
7-Trilha Sonora
Entre em contato:
sub versao@hotmail.com
(61) 9667-6413 (Carol)
Caixa Postal 3229 CEP 71010-970
Guará -- DF
Brasil mais informações:
Número de frases: 19
A 3ª edição do Seminário Nacional de Arte, Cultura e Cidadania revelou talentos, apresentou novidades e movimentou o município de Natividade.
O evento anual é uma iniciativa do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Tocantins -- UFT e conta com o apoio da Prefeitura de Natividade e de instituições privadas.
Paralelamente, aconteceu a Semana de Arquitetura, promovida por o curso de Arquitetura e Urbanismo da UFT.
Para uma das organizadoras do evento, professora da UFT Maria Alice Descardeci, a comunidade recebeu muito bem o seminário, principalmente os jovens e adolescentes, cujas participações surpreenderam os organizadores.
Elves Lima da Silva, estudante do Colégio Agrícola de Natividade, por exemplo, afirmou que «o seminário serviu para atualizar os meus conhecimentos, achei ótimo, pois este trouxe interação para a cidade e é uma forma de ensinar com a arte».
Em entrevista ao Caderno Extra, o prefeito de Natividade, Albany Cerqueira (Tiquinho), também se pronunciou, ressaltando dois pontos importantes:
o econômico, pois o evento movimenta a cidade financeiramente, e principalmente o cultural, pois, segundo ele, «quando a comunidade entra em contato com novos horizontes, é como se uma semente fosse plantada num solo fértil».
E como não podia deixar de ser num Seminário de Arte e Cultura, o evento trouxe ainda, uma rica programação cultural durante os seus 4 dias (de 25 a 29/10), com muita música, teatro e exibição de filmes, além da realização de um concurso de desenhos
Em o encerramento, alunos, professores e a comunidade de Natividade se despediram, na certeza do reencontro no próximo ano, pois o seminário foi um sucesso e já faz parte da agenda da cidade e da universidade.
Assim, pouco a pouco, a universidade salta os muros e começa a viver a extensão como prática de aprendizado.
Oficinas
A estudante de jornalismo da UFT, Gabriela Glória de Castro, ofereceu oficina de fanzine e ficou satisfeita com o resultado obtido.
Para ela, o que falta é o incentivo, por isso é tão importante esse tipo de ação, pois, após a oficina muita gente demonstrou interesse e vontade de aprender mais sobre fanzine -- uma espécie de boletim informativo alternativo, todo feito à mão, com recursos de desenhos e colagens.
Palestras
O Seminário trouxe importantes nomes da comunicação para realizarem debates e palestras.
Um de eles, o professor Adolpho Queiróz, da Universidade Metodista de São Paulo e vice-presidente da Intercom -- Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, em entrevista ao Caderno Extra, falou da importância de eventos como esse para o fortalecimento e articulação da comunidade, bem como para a disseminação da cultura regional.
Sua palestra comprova a eficiência de programas assim.
Ele veio relatar sua experiência de extensão:
o Salão Universitário de Humor em Piracicaba -- SP, evento o qual coordena e foi um dos fundadores há 15 anos.
O professor afirmou ainda, que é preciso que a universidade ultrapasse o campus e atinja a população, pois acredita que «a vivência adquirida num evento como o Seminário estreita as relações entre alunos, professores e sociedade e ajuda a universidade a crescer, dividindo conhecimento com a comunidade».
Natividade
Situada a 218 km de Palmas, a cidade é conhecida por o seu potencial cultural, por suas obras arquitetônicas seculares e por as belezas naturais.
Todas estas características já lhe renderam o tombamento de algumas de suas construções e o reconhecimento como Patrimônio Histórico Nacional, por o IPHAN -- Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Além disso, concorre à vaga de uma das 7 maravilhas do Brasil, num concurso promovido por a Revista Caras.
Assim, o Seminário tem como um dos objetivos colaborar com a preservação e divulgação deste rico município tocantinense.
Número de frases: 25
O inefável não está nas palavras ou sentimento, a meu ver, nossos seres que a experienciam ...
Ele permeia toda essa vastidão, fazendo nós todos parte de ela.
Uma visão que nos vem de sobressalto é a de momentos de pânico, caracterizando uma situação peculiar do acontecimento da inexpressibilidade.
Contudo, já que ele esta ao mesmo tempo em tudo, poderá ser encontrado nas mais singelas ocasiões de nossas vidas.
Como ao passar a tarde no Parque Marinha numa roda de amigos, em meio a conversar regidas por a lógica, uma pequenina garotinha, com pouco mais de um ano, caminha em nossa direção, corre um pouco, e sem prévias para e logo diz com ênfase:
«Aqui!», e senta-se ao solo sem prestar satisfação a ninguém, simplesmente se senta.
A atitude que levou a pequenina garota a escolher aquele lugar permanecerá uma incógnita para minha rude capacidade de compreender o ato inefável, tendo guardado deste momento uma profunda sensação de aprendizagem, pois tive o deleite de divagar na inexpressável inocência desse pequenino ser ...
Este singelo ato abriu-me portas para uma nova percepção de tudo aquilo que é tão sutil e que não se pode ser manifesto em simples grunidos (nossa fala) ou em símbolos (a escrita).
A o me deparar com esses momentos, vislumbro o grande poder do «dizer não manifesto», mantendo suas peculiaridades imaculadas, sendo ímpias todas as tentativas de descrever o indescritível.
Triste e amargo é o labor dos poetas, fazendo de seus corpos pontes entre esses dois mundos, cosendo uma colcha de retalhos, cada um de seu jeito, onde sua vazão são os ouvidos e mentes daqueles que se prepararam para gozar do tênue e intrinsecamente ecoar do inefável.
Número de frases: 10
Não sei onde foi para o link de subir o arquivo, então ...
à Espartana
Ficamos calados.
frente a frente
como se pudéssemos assim falar por horas.
como se simples fôssemos.
Mas não o somos.
Não calados.
Equilibrados.
Em a garganta morta do silêncio,
Tateamos traços,
Que enterram e retornam,
nada além de nossos.
Nossos velhos traços.
E ficamos calados.
Debaixo de chuva,
Em os vãos ocos do inverno,
Emudecidos, esperando-nos ligar.
Furar o espaço,
nos fecharmos em abraços.
Mas calados assim,
Nós somos escassos,
Frutos inertes de um mudo fracasso,
Até as fronteiras, até os confins.
Inválidos assim.
Número de frases: 25
Somente calados.
A Relação do escritor paulista e a cidade do Natal
Em este ano de 2008, estará completando os oitenta anos da visita do escritor paulista Mário de Andrade ao Rio Grande do Norte, quando aqui sentiu, viu coisas interessantes, conversou, fez amizades e levou uma imagem sobre Natal e o Nordeste que marcariam sua obra.
Mas como esta visita repercutiu em Natal?
Como a imprensa da época tratou este assunto?
Em 1928, o paulistano Mário Raul Moraes de Andrade já era uma figura consagrada na nossa literatura, desde 1922 quando ocorreu em São Paulo, a Semana de Arte Moderna.
Movimento cultural, do qual foi um dos líderes e exerceu grande influência em outros escritores.
Em este mesmo ano publicou seu livro «Paulicéia desvairada», que provocou forte reação do público e da crítica.
A partir de 14 de agosto de 1924, o consagrado autor passa a manter com Luis da Câmara Cascudo, uma profícua troca de correspondências, onde decide realizar uma segunda «viagem etnográfica» por o interior do Brasil (a primeira ocorreu em 1927 e visitou a região Norte).
Possuído por uma irrequieta e curiosa vontade de descobrir o que o Brasil dos «rincões» guardava, o escritor paulista não se contentava em ser um pesquisador de «gabinete».
A viagem era parte importante do seu processo de descoberta e contemplação da nossa cultura.
A época do planejamento e concretização desta viagem, Mário era amigo do paraibano, radicado no Rio Grande do Norte, Antônio Bento de Araújo Lima, que seria um dos seus acompanhantes durante esta empreitada.
A viagem ao Nordeste já estava planejada e orçada desde 1926, mas apenas em fins de 1928 pode ser concretizada.
A chegada por o mar se deu no Recife, em 3 de dezembro, de ali em diante seguiram por terra e só retornara a São Paulo em 20 de fevereiro do ano seguinte.
As cidades de Natal, Recife e Parahyba (atual João Pessoa) foram suas principais bases para seus levantamentos e pesquisas e Natal foi local de permanência mais demorada.
Passaram um mês e meio na capital potiguar, treze dias na pernambucana e onze dias na paraibana.
Mário chegou a Natal no dia 14 de dezembro, uma sexta-feira, tendo sido recepcionado na estação ferroviária da «Great Western» por Câmara Cascudo, de quem era hóspede.
Afirmou ao jornal «A Republica» que sua visita ao Rio Grande do Norte se prendia a «estudos literários».
Em o mesmo trem que trouxe o escritor paulista, uma pequena notícia social informava que, igualmente chegou de Recife, havia desembarcado o acadêmico do 1º ano do curso jurídico, o jovem Afonso Bezerra, sem haver nenhuma indicação de algum contato deste e Mário de Andrade.
A visita do escritor movimentava a intelectualidade da cidade.
O colunista Aderbal de França apresentou Mário de Andrade como «vanguardeiro de uma das principais correntes do pensamento brasileiro».
Ele Perguntava;
«e a que veio o notável escritor de «Macunaíma?»,
para mais adiante responder «na sua simplicidade habitual, estudar as tradições da nossa terra, para decantá-las na feição moderna que tão bem sabe lapidar os hábitos conservadores da nossa raça».
Não faltou na coluna uma referência ao falecido poeta potiguar " Ferreira Itajubá;
Mario de Andrade se desagrega das ruas, cheirando a indústria da paulicéia e vem as ruas com anseios de progresso da terra de Itajubá, que se vivo fosse vivo, seria, talvez, aqui, um da «escola paulista».
Finalizava Aderbal apresentando uma idéia de certo pioneirismo que esta visita apresentava a cidade «Vem, dentro do seu modernismo, ver de perto o que possuímos aí por os recantos da cidade e do interior, porque em verdade, a vida do norte vive sempre tão ignorada dos intelectuais do sul!».
Em o dia seguinte, Mário e Cascudo visitaram o governador Juvenal Lamartine no seu gabinete, em visita de cortesia.
Esta visita se repetiria no dia 18, e ficaram registradas.
Oscar Wanderley, comenta em artigo publicado em 8 de janeiro, uma visita feita por o escritor, junto com Cascudo e Antônio Bento, a redação do jornal «A Republica», então um ponto de encontro dos intelectuais da terra.
Já nos primeiros dias, além de Cascudo e Bento, Mário vai criando na cidade um círculo de amigos como Barôncio Guerra, Cristóvão Dantas, Jorge Fernandes e outros.
Estes são os companheiros de banho de mar (principalmente na praia da Redinha), de passeio, de descanso, de pesquisa.
Em toda parte, «gente suavíssima que me quer bem, que se interessa por os meus trabalhos, que me proporciona ocasiões, de mais dizer que o Brasil é uma gostosura de se viver», conforme escreveria o autor no futuro.
As impressões da cidade sobre o escritor paulista
Os jornais natalenses não são prolíficos sobre a opinião gerada na comunidade em relação à visita do escritor a cidade.
Oscar Wanderley, entretanto, narra as impressões de uma visita noturna a Mário de Andrade, na «Vila Cascudo».
Além de Oscar e do próprio Mário, estavam presentes, o anfitrião Cascudo, Vicente Gama, Alberto da Câmara, Arary Britto, e o desportista José Hugo, o «Zezé».
Mário acolheu a todos com familiaridade, estava ao piano, bebendo café, debatendo, ou reverentemente escutando e anotando freneticamentery Brittoressitas horas noite a dentro, onde o jornalista as toadas e canções que lhe eram apresentadas, principalmente por Vicente Gama e Arary Britto.
Entre goles de café, Mário comentava com os presentes aspectos de «bruxarias».
Sobre este comentário, Wanderley afirma que o jornalista Damasceno Bezerra, lhe informou estar o escritor paulista desejoso de visitar «um Catimbó lá para as bandas do Alecrim».
Mário de Andrade é apresentado com «mãos longas, de dedos muito finos, cor de marfim velho, na extremidade de dois longuíssimos braços, que faziam gestos despreocupados, entremeando as nossas primeiras saudações».
Wanderley deixa escapar em suas linhas que a esta inimitável figura paulistana, já estava se tornando habitual, ao dia a dia da ensolarada capital nordestina, de vinte poucos mil habitantes;
«Não sei se todos os senhores já o virão por aí, a caça de Sambas, de Cocos, de Pastoris, de Cheganças, de Bumbas-meu-boi.
Viram-no, de certo».
O autor do artigo enaltecia o nacionalismo da obra de Mário, sendo este «um dos raros escritores que conseguiram fugir da epidemia onseguiram escritores que fugiram do romantismo ingenuo e de autoria de Oscar Wanderley foi uma visita a redaçecer do romantismo ingênuo e inconseqüente».
O encontro só acabou após as vinte e duas horas, onde o autor de «Macunaíma» deixou uma impressão de " honestidade estrutural do caráter do artista-escritor.
A Natal popular e outras paisagens
É nesta condição de «honestidade cultural» que o pesquisador organizado, aliado a sua infatigável capacidade de trabalho, parte para conhecer, junto com Câmara Cascudo, Antônio Bento e outros, o Boi, o Fandango, a Chegança, os Congos, o Catimbó, seus mestres e feiticeiros.
Busca os bairros populares, «sem iluminação, sem bonde, branquejado por o areão das dunas».
Mário de Andrade mostra sua predileção por a Natal menos visível, dos bairros proletários, com suas brincadeiras populares.
Em as praias de Areia Preta e da Redinha, o escritor encontrou;
«Sambas, Maxixes, Valsas de origem pura, eu na rede, tempo passando sem dizer nada», (conforme comentaria em seu futuro livro» O turista Aprendiz ").
Para ele, a Natal do final dos anos de 1920, era uma cidade que se mostrou alegre, mas com relações distintas, onde o escritor paulista não deixa de lado a crítica social:
pois, «se saúde, facilidade, bem-estar fosse dedutível da alegria, o proletário nordestino vivia no paraíso».
O escritor comenta, numa anotação feita em 2 de janeiro de 1929, o que via da cidade;
«Não há mocambo.
O mangue fica da outra banda do Potengi, onde ninguém mora.
Em o Alecrim, como em Rocas, as casas são cobertas de telha e muitas de tijolo.
Se enfileiram pequititas, porta e janela de frente, em avenidas magníficas, todas com o duplo de largura da rua comum paulistana».
Mário realizava um roteiro até então pouco usual de introdução às cidades nordestinas.
Apreciando a cultura, festas populares, arte, história, mas também as comidas e as bebidas locais, as praias e os banhos de mar.
Durante sua permanência em Natal, junto com Antonio Bento, o escritor vai a fazenda «Bom Jardim», na região de Goianinha, conhecer e se encantar com o trovador» Chico Antônio», como era conhecido Francisco Antônio Moreira.
Para Mário, «Chico Antônio não sabe que vale uma dúzia de Carusos».
Depois de algum tempo desfrutando das benesses da capital e da região próxima ao litoral, chegou à hora de seguir em direção ao interior do estado.
Dois relatos sobre a visita ao sertão são publicados no jornal " A Republica ";
uma foi a série de crônicas de viagem produzidas por Câmara Cascudo, intituladas «Diário dos 1.104» e a outra foi o interessante material escrito por «Antonio Bento Macau-Assu-Seridó removeme», escrito no dia 27 de janeiro.
A despedida da cidade
Em o dia 25 de janeiro, Mário de Andrade realiza uma última visita de cortesia ao governador Juvenal Lamartine.
Em o outro dia, as oito da noite, no tradicional Hotel Internacional, ele é homenageado com um jantar, onde estiveram presentes, além de Câmara Cascudo, Antonio Bento, Cristóvão Dantas, Lélio Câmara, Omar O'Grady, Luiz Torres, Nunes Pereira, Adauto Câmara, Jorge Fernandes e Gonzaga Galvão.
Juvenal Lamartine foi convidado, mas não foi, mandou seu ajudante de ordens, o capitão Genésio Lopes representá-lo.
Em a manhã do dia 27, o escritor paulista ta poronio bantes nesta empreitada.
Norte, omtemplaçseguiu num automóvel para a cidade da Parahyba (atual João Pessoa), em companhia de Antonio Bento e a convite de José Américo de Almeida.
Qual foi a principal marca que a visita de Mário de Andrade deixou em Natal?
O engenheiro agrônomo potiguar Garibaldi Dantas, numa interessante crônica, publicada no dia 6 de abril de 1929, em «A Republica», apontava a validade da iniciativa de Mário de Andrade em visitar e pesquisar as tradições nordestinas, mostrando a intelectualidade local a importância do que possuíamos em termos de cultura.
Dantas criticou duramente a intelectualidade potiguar, afirmando que «ao invés de ficarem nas eternas questiúnculas bizantinas de escolas estrangeiras, fossem ao nosso interior, e de lá trouxessem estes motivos interessantes que um dia poderão ser gênese de algum trabalho formidável e original».
Conclamava os «literatos do norte» a evitarem a triste idéia corrente de crescer e fugir do meio.
Dantas afirmava, certamente baseado na experiência de um engenheiro agrônomo que conhecia o interior, que " o Brasil não está nas capitais.
Está no sertão rude, brutal, desconhecido mesmo».
Dantas afirmava que a corrente de brasileirismos criada por a Semana de Arte Moderna de 1922, mesmo com seus exageros, «terá um dia a sua significação formidável, na formação de uma mentalidade brasileira».
Ele não estava errado.
Número de frases: 80
Rostand Medeiros -- [rostandmedeiros@gmail.com] Certa feita, conversando com um amigo educador / artista, que reside na cidade de Olinda, em Pernambuco, sobre o modo da esquerda governar, ele externou para mim algumas preocupações referentes ao modelo de gestão de muitas administrações progressistas que ele conheceu e que se moldam facilmente à cultura política das oligarquias locais e realizam, mesmo que de forma mais eficiente, uma gestão cuja prioridade são apenas as grandes obras, os programas assistenciais e os shows com grandes artistas ligados à cultura de massa, o que acaba lembrando uma canção do Cazuza:
«Um museu de grandes novidades» ou parafraseando Belchior:
«Minha dor é perceber que apesar de tudo que fizemos, ainda somos os mesmos, «pensamos» e administramos a coisa pública como os velhos coronéis."
E o meu amigo fez o questionamento porque, ocorrendo o término do mandato (sem reeleição), uma outra administração ligada a partidos conservadores, com inteligência e perspicácia pode fazer a mesma coisa:
realizar grandes obras, investir em programas sociais e prosseguir na organização dos mega shows e, conseqüentemente, passar para a população a idéia de que não haverá necessidade de se votar na esquerda novamente.
Se na época não consegui imaginar isso como uma possibilidade real, decorridos alguns anos dessa conversa, reconheço que essa opinião é pertinente e esse texto foi escrito para ajudar na reflexão sobre o assunto, na linha de que tudo que é sólido se desmancha no ar e de que o que é novidade facilmente torna-se comum, e por isso todo indivíduo ou organização que deseja ser sempre considerada e reconhecida deve continuadamente buscar se aprimorar naquilo para que foi criada e facilitar as coisas para que novas descobertas e novas invenções possam ter lugar.
E isso só acontece num ambiente de autonomia e que favoreça condições e oportunidades para a construção e reconstrução subjetiva dos indivíduos.
Em esse sentido, considero duas questões primordiais.
Em primeiro lugar, atenção especial para a mudança de valores e práticas de relacionamento político pautado nos antigos procedimentos da elite dominante, como o clientelismo, o paternalismo, o autoritarismo etc ...
Em segundo lugar, atenção especial àquilo que aponta para a criação de sujeitos mais solidários, mais livres, mais ousados, àquilo que cria e dá sentido à realização plena das pessoas (refiro-me aqui à produção artístico / cultural).
Em o primeiro caso se faz necessário (re) construir, fortalecer ou criar estruturas formais e informais de participação «real» da população nas decisões sobre os rumos do governo, como os conselhos, as conferências, as câmaras setoriais, os fóruns e as redes, além do incentivo e apoio à organização da sociedade civil através das ongs, e cooperativas.
Assim, se viabilizaria um ambiente favorável à gestação de novas idéias e recursos para resolver ou atenuar velhos problemas, o que também pode garantir a criação de um antídoto para evitar o retrocesso de condução antidemocrática das decisões, a partir da eleição de partidos ligados às velhas elites dirigentes, após suceder-se um governo de esquerda.
Em o segundo caso, democratizar o acesso aos meios de produção artística e dos meios de produção e difusão da informação, com orçamento decente e gestores comprometidos, preparados e que saibam ouvir os interessados no assunto, o que resultará em diretrizes e ações que garantirão à maioria da população a possibilidade de se expressar de maneira que não fiquem apenas se comportando como meros consumidores de um bocado de lixo que é comercializado como produto cultural e cujos conteúdos -- carregados de intolerância (inclusive religiosa), vulgarização do sexo, preconceitos vários, individualismo exacerbado, banalização da violência, etc., -- vão na direção contrária de tudo aquilo que defendemos, formando o «caldo» da cultura que conduz ao retorno e sustentação da nova / velha direita.
E isso é tudo que muita gente que ousa lutar e acreditar em outro país menos deseja, mas que será inevitável, caso opiniões como a nossa não sejam levadas em consideração a tempo.
P.S.:
Segundo o pensador italiano Norberto Bobbio a esquerda orienta-se por um sentimento igualitário e a direita aceita a desigualdade como natural.
Embora no Brasil seja praticamente impossível perceber a diferença através dos discursos e propaganda em época de campanha eleitoral.
Quanto as questões que apresento no texto acima percebo que o modelo de gestão do Ministério da Cultura aponta para o que escrevi acima.
Apesar da necessidade de aumento do orçamento e da capacitação técnica e redução da burocracia para o acesso dos pequenos empreendedores culturais do interior e das periferias aos editais.
Em Recife, em visitas a comunidades periféricas e em conversas com artistas e arte-educadores populares e também com o Secretário de Cultura, João Roberto Peixe, que nos concedeu audiência de quase duas horas no ano de 2004, pude perceber que muito daquilo que queremos / sonhamos já é realidade.
Em a oportunidade, o secretário me entregou cópias do relatório de gestão 2000/2004 e da I Conferência Municipal de Cultura do Recife, da qual tive a honra de participar.
«José de Oliveira Santos «--» Zezito Professor» de história e ativista cultural -- e-mail.:
Número de frases: 22
zezito2002@ig.com.br O disco Córtex, do Cravo Carbono, começa no tranco.
A música de abertura não tem aquela introdução instrumental típica.
Antes da banda começar a tocar, o cantor anuncia, como se estivesse com megafone:
«me espanto com quem não se espanta."
E emenda:
«eu não gosto de gente que não gosta de gente."
Como então não gostar do que vem depois?
O problema -- que no final se revela uma vantagem -- é que o disco não é tão fácil de cantarolar junto, nem tem melodias perfeitamente assobiáveis.
É complicado, na primeira audição, entender o que está rolando, qual é a marra do som, até porque estilos musicais e poéticos colidem uns com os outros o tempo todo, faixa a faixa.
Só depois de ouvir todas as músicas, lá por a terceira vez, é que as coisas começam a fazer sentido.
Para mim foi um pouco mais tranqüilo:
conheço a banda e seus componentes há muito tempo.
Sei do que estão atrás, que imagem do mundo (a partir de Belém do Pará) lhes interessa.
Lembro do show no Pimenta Café, com som transbordando ali para a Praça do Arsenal.
Foi uma das noites com som mais psicodélico da minha vida.
Parecia kraut-rock de raiz (ou melhor: kraut-rock de raizeiro), energizado por clorofila amazônica, com improvisações indutoras-de-transe que duravam dezenas de minutos (e para mim poderiam durar muito mais ...)
Lembro antes, por volta de 1997, do primeiro encontro, no canteiro de obras que estava convertendo os antigos armazéns do porto de Belém no atual «Boulevard da Gastronomia».
Foi lá que o projeto Música do Brasil filmou as apresentações de Mestre Vieira, Mangabezo -- e o Cravo Carbono tocou Mundo-Açu, canção de letra curta que merece ser citada:
«Amazonas / Seguras ao pêlo / Rios / Negros / Fios / De Cabelos / Nheengatu / Nem eu / Nem tu / Mundo-açu / Borboletas / Azuis / Em o cinza / Céu / De aço».
Fui perguntar para o Lázaro Magalhães, cantor compositor da maioria das-letras, quais eram suas influências poéticas e ele me falou de Renato Russo e o do rock brasileiro dos anos 80.
Fiquei ainda mais intrigado, pois as vertentes algo concretistas (mas não totalmente ...)
que ouvia nas músicas do Cravo Carbono, se tinham a ver com algum lado de Arnaldo Antunes nos Titãs, pareciam vir de um mundo bem distante do ambiente mais coloquial e até romântico de Cazuza, Renato e o resto da turma.
Permanecemos meio que em contato este tempo todo, já bem uma década.
Pio Lobato, um dos guitarristas, desenvolveu em paralelo seu trabalho pop-mtno-musicológico que deu nos Mestres da Guitarrada (Vovô, brilhante e versátil baterista do Cravo Carbono [escute o seu trabalho com bateria, surdo e tarol em A Marcha], é também baterista dos Mestres da Guitarrada) e nas tecnoguitarradas.
O Cravo Carbono, sempre pioneiro na utilização da internet para a divulgação do seu som, facilitava a audição das novidades, que não mais exigia a longa viagem até o Pará.
Tanto que seus componentes participam do Overmundo desde que o site entrou no ar, já tendo colocado por aqui todas as músicas do seu segundo disco, o Córtex, bem antes de seu lançamento.
Há também o blog, a página na Trama Virtual, no MySpace, os vídeos no YouTube.
É rápido ter acesso até aos bastidores de sua produção.
Mas como ia dizendo:
é uma banda de personalidade forte, única:
o sentido do som não é dado de mão beijada, na primeira audição.
Também pudera:
as referências não são muito comuns.
Até o nome da banda é criação de ficção científica:
seria " uma suposta nova droga do sertão que apareceria na floresta -- uma especiaria, um emplasto, uma goma de mascar biopirateada."
Notou os verbos no condicional?
Seria, apareceria ...
Nada é o que parece ser.
E fica bem melhor assim, escapando de todo esquema classificatório rígido.
Como definir Córtex.
É rock?
É, também ...
É mais rock deslocadamente (no bom sentido desconstrucionista) alemão (ou tcheco?
ou japonês?),
feito numa região do planeta (o delta do rio Amazonas) que o saudoso Terence McKenna, num filme do luso-galátiko Edgar Pêra, já indicou ser a localização exata para a vagina de Gaia.
Então o rock é também samba e muito mais ...
Arraial é meio zouk, ritmo contrabandeado da Guiana Francesa para as festas das aparelhagens paraenses.
Vale Quanto Pesa lembra um afoxé.
Canção à Prova DÁgua começa meio bossa e vai ficando pesada, enquanto Lázaro canta que «agora me importa o vazio» e repete quatro vezes seguidas que «o meu deus [com letra minúscula mesmo] é o amor» (está aqui a influência de Renato Russo?).
Aplausos de Auditório é um samba de roda?
Em Espaço Para Passear, o mundo-açu (açu, em nheengatu, significa grande) reaparece cercado por efeitos de dub secreto.
Café Br é tecnoguitarrada com vocal.
Alto do Bode é uma guitarrada / reggae tocada e composta por Bruno Rabelo, o outro excelente guitarrista / baixista, além do Pio Lobato (como se não bastasse apenas um excelente guitarrista / baixista na mesma banda ...:
escute o solo / acompanhamento do Bruno em Supernada para comprovar meu elogio).
Supernada resume um pouco a filosofia estética de Córtex.
A canção é interrompida algumas vezes para o vocalista declarar:
«às vezes um parêntesis enorme é necessário» (e como entendo bem essa necessidade!
eu que sempre escrevo com muitos longos parêntesis, conscientemente contra as regras do bom estilo ...)
E a letra continua:
«inventando uma dança danada / para a manifestação do nada / para a amplificação do nada».
Pensando bem:
o que, neste nosso mundo-açu, não é amplificação do nada?
O som do Cravo Carbono tem obsessão por o nada, por o vazio (é uma dança tribal em torno do vazio), não para exorcizá-lo mas para quem sabe fazer o nada trabalhar a nosso favor ...
Certamente: há diferentes amplificações do nada.
Algumas não valem nada, mas o nada parece simpatizar com o Cravo Carbono e através de sua música conseguimos ouvi-lo (o nada, é claro ...)
em vigorosa roupagem.
Xiiii ...
O texto foi ficando bem maluco.
Será viagem da goma de mascar biopirateada?
Tô com medo de afastar os novos ouvintes -- e a intenção era só atrair gente curiosa ...
Tá na hora de terminar.
Mas antes colocarei mais cravinho no caldeirão do vazio.
Escutando Córtex, meio por nada, fiquei com uma saudade danada dos Talking Heads.
Uma coisa me lembrou a outra.
Coloquei o CD do 77 para tocar.
É também um disco bizarro, felizmente.
Em o encarte, há o seguinte texto:
«As canções, escritas primariamente por Byrne, são vinhetas poéticas, pequenos pedaços de vida às vezes revelando obliquamente insights surpreendentes.
Havia um otimismo nessas primeiras canções dos Talking Heads, uma celebração da simplicidade, uma maneira especial de olhar para o ordinário."
Otimismo?! 77 é o disco que tem Psycho Killer ...
Mas por alguma razão, de otimismo realmente estranho, posso usar a descrição dos Talking Heads para aplaudir o que há de bacana no Cravo Carbono.
Escute Marx Maré (dois), a quase-micro faixa que encerra o Córtex.
Tem apenas um fantasma-dub de letra, mas faz todas as outras canções ganharem sentido e otimismo, com radical pós-simplicidade oblíqua ...
E então você pode escutar o disco todo novamente.
E assim infinitamente ...
Leitura complementar:
Música para Confundir, o texto que Vladimir Cunha escreveu sobre o Cravo Carbono aqui no Overmundo.
Para comprar o Córtex, ver o site da gravadora / loja " Ná Figueredo.
Número de frases: 88
«talvez voces não estejam certos, e essa vida louca pode ser uma vida certa, ou tudo aquilo que dizem e aquilo que fazem, é o motivo dessa vida de vadiagem "
vou ignorar suas palavras e fazer com que sejam motivos de piadas, vou começar a rir, pra esquecer do caminho que me leva ao caminho sem dormir!
ref:
piadas absurdas, piadas mal contadas, piadas malditas é o motivo da invernada.
As vezes de manha eu acordado, por os mesmos motivos que dizem que eu tenho exagerado, talves isso seja a saida de uma vida aprisionada.
entrando num regime forçado, entramos num regime forçado, acabados num regima forçado, feito por os restos de um cigarro!
as vezes eu me pego, fazendo um canudo imaginando num espelho o seu conteúdo ...
esse mar de ilusões, esse mar de ilusões!
que são feitas por esses malditos, palavras que por eles são ditas.
são palavras vindas de um lugar onde são feitas todas suas estupidez, todas suas maldades, suas atitudes e seus falsos gestos de caridade, que na verdade não tem amor não tem carinho nem amizade!
acabado num quarto, solitário, desprezado acompanhado da televisão!
ouvindo um sufoco muito louco, mais um povo reclamando da situação.
enquanto isso acontece do outro lado, 5 ou 6 carros importados quanto mais ainda é bom, não sei se tudo isso esta bem visto, mais é disso que eu preciso pra poder lavar minhas mãos!
enquanto isso acontece do outro lado.
5 ou 6 carros importados e quanto mais ainda é bom, não sei se tudo isso esta bem visto.
Mais é disso que eu preciso pra poder sair do abismo e não ter medo da ocasião.
ref:
piadas absurdas, piadas mal contadas, piadas malditas é o motivo da invernada.
ref:
piadas absurdas, piadas mal contadas, piadas malditas é o motivo da invernada.
Por esses motivos ...
Número de frases: 21
O Tocantins já foi bastante associado na mídia -- preconceituosamente, diga-se de passagem -- aos índios.
De forma pejorativa, muita gente responde com o seguinte comentário ao ouvir que somos do Tocantins:
«Ah, e lá tem muito índio?».
A frase é seguida geralmente com um ar de espanto, de coisa exótica.
Sim, o Tocantins tem várias tribos indígenas, graças à Deus não foram todas exterminadas.
Mas o estado cravado no coração do Brasil, e fruto de lutas seculares, tem uma trajetória capaz de provocar outros referenciais interessantes.
De qualquer forma este artigo é sobre índios e brancos.
Aqui estão presentes as etnias Krahô, Apinajé, Krikati, Karajá entre outras.
Elas são alvo de pesquisas interessantes, uma de elas de um grupo organizado por o professor da Facomb -- Faculdade de Comunicação da UFG, Nilton José.
Trabalhando com jornalismo comunitário, eles desenvolvem um projeto interessante e visitam freqüentemente os Krahô.
Em seminário realizado em Palmas-TO, no Ceulp-Ulbra, para estudantes de Jornalismo e Publicidade, o professor Nilton contou um pouco da experiência que é discutir formas alternativas de comunicação com os Krahô.
Eles têm exata noção do que é e para que vai servir, por exemplo, uma rádio comunitária na aldeia.
Isto, caso o governo federal, através de sua agência reguladora, se digne a analisar o pedido.
Em esta área tudo é proibido, tudo é muito vigiado, a fim de garantir os «direitos adquiridos» das grandes empresas privadas, e das tvs governamentais, que trabalham pouco ou nada a serviço da comunidade.
De o alto de sua sabedoria, o cacique disse ao professor que quer muito a rádio, mas não quer profissionais brancos, de fora, fazendo comunicação para índio ouvir.
«Nós mesmos vamos fazer as nossas notícias ', teria afirmado o cacique à equipe da universidade.
Ele sabe que para ser genuína, sua comunicação deve ser feita por eles mesmos, para eles próprios.
A noção do que é notícia, do que interessa à sua comunidade, e da linguagem, é peculiar ao seu universo.
E no vai e vem das discussões, o cacique Krahô foi além.
Segundo relatou o prof. Nilton José, do seu jeito próprio o líder indígena expressou uma crítica mais profunda.
Disse estar cansado da visão que o branco tem do índio, e da forma como se refere à sua cultura, com o olhar do superior sobre o inferior.
Para arrematar, tocou na questão da linguagem, ao comparar o processo de aculturação que o branco faz sobre as nações indígenas, ao que o Norte Americano faz com o brasileiro -- para não dizer com «o resto do mundo» -- na pregação de valores, na influência musical, literária, e cultural em geral.
O cacique disse ao professor, que neste aspecto, sua aldeia Krahô está para o branco bem à frente do que nós em relação aos americanos:
«nós pelo menos falamos a sua língua.
E vocês, já falam a de eles?"
perguntou. Um pensamento simples, e muito revelador.
De a ótica do dominado, falar a língua do dominador é o primeiro passo.
Fiquei pensando nas nossas tribos urbanas, compostas por adolescentes extremamente influenciados por a cultura, música, programas de TV americanos.
Grande parte de eles canta letras em inglês tosco, sem compreender o que significa.
Sorri sozinha da sabedoria do cacique Krahô e sua lição.
Ele compreendeu como deve lidar com nós.
Ele, líder de uma tribo, sabe o que quer para sua rádio comunitária.
Aliás, sabe que precisa de ela, e o uso que fará deste instrumento.
Afinal, índio quer se ver e quer se ouvir.
Quer reafirmar sua cultura.
Não quer se perder no que é do outro.
E nós?
O que queremos da nossa comunicação?
E mais, o que queremos da produção cultural do primo rico?
Como vamos lidar com suas tantas mensagens subliminares ou não?
É preciso decidir se vamos consumir o conceito de belo do americano e do europeu, se vamos nos espelhar no que não é nosso e seguir criticando de forma destruidora o que é nacional.
Em um mundo cada vez mais sem fronteiras e sem barreiras, o cacique nos deixa a lição elementar.
Podemos interagir, podemos gostar do que vemos na TV, podemos cantar belas canções em inglês, sem problema.
Aliás, adoro a literatura inglesa, mas precisamos elevar o nível da discussão e da convivência.
De preferência de igual para igual, e preservando o que é nosso.
Uma idéia simples e revolucionária, como a frase do Cacique Kahô.
Uma idéia que vale para nós que fazemos imprensa, e para os que fazem educação.
Afinal por a informação e por a educação é que se constrói o mundo.
Número de frases: 48
Em outubro de 2002, o artista plástico colombiano Santiago Plata colocou sua mochila com uns cem quilos nas costas, montou sua bicicleta e começou seu percurso por a América do Sul disposto a contribuir para o resgate de um tipo de arte que a maioria das pessoas não parece encarar como tal:
a rupestre.
Três anos depois, o projeto de «visitar» este antiqüíssimo tipo de iconografia, que deveria durar 24 meses, já quase dobrou o tempo de duração e, na avaliação de Santiago, ainda está no meio.
Um pouco do que foi feito até agora pode ser conferido na exposição América do Sul Rupestre, no Espaço Arte e Design da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba.
É lá que estão alguns dos «decalques», digamos assim, dos escritos e desenhos que ele encontrou nas pedras milenares do sul da América até agora, expostos em telas captadas através de um processo chamado» frotagem».
É quase como uma impressão feita quando ele coloca sobra a imagem um fio de pvc e uma tela branca, que são friccionados com carbono e caroço da semente de abacate para colorizar.
«A imagem fica impressa na tela sem que nenhum dano lhe aconteça», explica ele, que está em Curitiba há dois meses, de onde também foi pesquisar e encontrou raridades no Estado vizinho,» Santa Catarina.
«A arte rupestre está sendo depredada por o comércio ilegal de pedras e por o vandalismo de pessoas que rabiscam seus nomes e corações nas pedras que deveriam ser resguardadas», conta ele, que tenta mudar esse comportamento fazendo palestras nas quais explica a conseqüência danosa para a cultura de uma brincadeira aparentemente inofensiva.
«Quem sabe se mostrarmos que são as marcas dos ancestrais dos ancestrais dos nossos ancestrais as pessoas passem a cuidar mais», argumenta Santiago, um bacharel em Belas Artes na Universidade Nacional da Colômbia, que traz na bagagem também uma especialização em imagem pictórica.
«Esta arte está nas paisagens mais lindas e especiais da terra e aproveito também, par pintar esses lugares
e depois compartilhar com outras pessoas através dos meus trabalhos», emenda ele que faz pintura também, mas não as comercializa neste projeto nem para levantar uns trocados para custear a viagem que transcorre sem nenhum apoio oficial.
Só com amigos ajudando.
Mas se são belos os lugares que guardam essa memória cultural da humanidade, eles também são de difícil acesso e complicam a vida de órgãos que deveriam preservá-los.
«O Estado não tem capacidade de proteger como deveria, de manter a vigilância nestes lugares, o que deixa a arte rupestre vulnerável», pontua seu defensor.
Quando é um lugar com potencial turístico, a atenção até aumenta, mas para gente como Santiago, isso é pouco, muito pouco.
Até porque o processo agressivo de globalização só contribui para acelerar a deterioração desse tipo de vínculo identificatório.
«Empresas e Estado só mostram interesse se existe chance de explorar turisticamente», alerta.
Seu sonho se completaria se conseguisse um espaço para abrigar suas obras para que mais gente possa através de elas entender o valor da arte rupestre.
«É uma forma também de conhecer o patrimônio cultural da humanidade já que este tipo de linguagem é parte de nossa identidade», defende o colombiano.
Até agora, Santiago Plata já passou por o Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Paraguai e Brasil.
Em todos os lugares montou uma exposição, sempre contando com apoio local de pessoas que oferecem alojamento e até comida.
Quando não encontra um abrigo também não tem problema:
monta sua barraca e prepara a refeição em algum canto.
Agora, ele quer terminar de percorrer o Brasil, depois parte para Venezuela e chega as Guianas, antes de voltar para casa.
Mas, não está em seus planos parar o projeto, não.
Ele quer mesmo é ir para a América Central e sonha ainda mais alto, por que não?
«Comecei por o meu continente, quem sabe no futuro atravesso o oceano», diz ele, que no carnaval fez uma pausa para ver de perto no Rio de Janeiro o desfile da Vila Isabel, sobre a América Latina, e se emocionou.
«É muito bonito ver esse ressurgimento da identidade latino-americana, os povos juntos em prol de uma cultura, porque não é a economia que vai nos aproximar, é a cultura», analisa, coberto de razão.
Serviço:
Exposição:
América do Sul Rupestre, obras de Santiago Plata.
Onde:
Espaço Arte e Design da UFPR (R. Gal.
Carneiro, 460).
Quanto:
entrada franca.
Quando:
Até 24 de março.
Informações:
Número de frases: 39
(41) 3360-5251. Desde o ano de 1993, Porto Alegre tem uma lei de financiamento à produção cultural bastante original, peculiar e progressista.
Não é a renúncia fiscal ordinária no comum das legislações e mecenato, nem é o simples talante do governante que determina que fato cultural receberá o incentivo.
É conhecida como Fumproarte.
O diploma foi constituído em lei após intenso e demorado debate de mais de três anos e concluído com aprovação da unanimidade dos então integrantes da Câmara de Vereadores.
Referência inclusive além dos limites da cidade, a lei que criou o Fumproarte trouxe inovações básicas:
-- Há uma Comissão de Avaliação e Seleção (CAS) para examinar os projetos e indicá-los ao recurso.
Os integrantes da CAS não podem concorrer a financiamento do Fumproarte enquanto sejam parte da comissão.
-- É financiado até o limite de 80 % dos recursos necessários ao projeto, devendo a parte faltante ser preenchida por o produtor de um modo que não ingressem em ela recursos públicos municipais.
-- É requerida contrapartida de interesse público ao projeto.
Há outras peculiaridades, uma de elas de fundamental importância.
Diz a lei que o Fumproarte terá sempre o mesmo valor orçado para o Funcultura, este outro um fundo em que o Município aplica recursos para projetos da exclusiva decisão e arbítrio do gestor.
Os editais anuais do Fumproarte (atualmente são dois), somados, devem resultar na mesma quantia do orçamento público destinada para o Funcultura.
Há uma permanente tensão na cidade para habilitar uma outra lei que implique financiamento à cultura por renúncia fiscal local (aqui iptu, issqn, itbi).
Mesmo os gestores mais assanhados defensores da privatização do público não têm demonstrado interesse final em regulamentar a lei, que existe há muito, porque perderiam uma receita certa daqueles tributos para projetos culturais que, ainda que ao talante do gestor estimulados, como sói acontecer em nove entre dez casos a examinar ou já examinados, substituiriam gastos de outras prioridades de eles.
O edital do Fundo Municipal de Apoio à Atividade Artística e Cultural (Fumproarte) para o segundo semestre de 2007 já está à disposição.
O período para inscrever projetos será entre os dias 2 e 20 de julho.
Cada proponente pode apresentar um único projeto por concurso.
Não são aceitos projetos de proponentes que tenham projeto aprovado, em fase de execução junto ao Fumproarte, na data de encerramento das inscrições.
Para orientar os artistas e pesquisadores interessados no financiamento, será oferecido treinamento gratuito nos dias 1º, 5, 13, 15, 19 e 21, em diferentes horários, sempre na sede da Secretaria Municipal da Cultura, na avenida Independência, 453.
As inscrições, gratuitas e limitadas, são recebidas na gerência do Fumproarte, por telefone (51 3289-8016 e 3289-8017) ou e-mail (fumproarte@smc.prefpoa.com.br).
É necessário informar o dia e hora desejados, nome completo, telefone para contato e área artística.
As turmas têm entre dez e 25 pessoas.
O ministrante é Álvaro Santi, gerente do Fumproarte e ex-coordenador de Música da SMC.
Até 29 de junho, também estão abertas as inscrições para entidades interessadas em participar da eleição dos membros da Comissão de Avaliação e Seleção (CAS) do Fumproarte.
Podem participar entidades sem fins lucrativos, representativas da área artístico-cultural, que tenham no mínimo um ano de existência legal comprovada.
Número de frases: 25
O Brasil, definitivamente, está parte da rota do rock internacional.
Grandes e pequenas bandas fizeram a festa dos fãs brazucas do gênero no ano passado.
Internamente, o negócio anda aquecido também.
Depois de anos de domínio do pagode e do pop, as bandas de rock nacionais voltaram a ter um destaque no cenário musical brasileiro.
Mesmo assim, ainda não se pode falar de uma explosão do estilo.
Artistas como Pitty e CPM 22 já são parte do mainstream musical, enquanto outros, menos famosos, alimentam a cena independente.
Nem sempre foi dessa maneira.
O gênero já foi alvo de críticas ferozes que o acusaram de atentar contra a cultura nacional e promover a alienação, de entre outras coisas.
Por isso, num momento em que o cinema brasileiro resolveu revisitar o passado musical do país através de filmes como Coisa Mais Linda, Fabricando Tom Zé e Vinícius, veio bem a calhar o resgate, via internet, do filme Ritmo Alucinante -- A Explosão do Rock no Brasil, do diretor Marcelo França.
Rodado em 1975, o documentário registra o que deve ter sido o primeiro grande festival de rock do país.
Organizado por Nelson Motta, o Hollywood Rock reuniu nomes como Raul Seixas, Rita Lee & Tutti-frutti, Erasmo Carlos e Celly Campelo.
O documentário registra performances desses artistas e algumas curtas entrevistas.
Quem abre o filme é Rita Lee, com sua banda pós-Mutantes, o Tutti-frutti.
Ver a perfomance da cantora há mais de 30 anos atrás é entender a sua importância para a história do rock no Brasil.
Se hoje Rita é uma senhora (quase) comportada, a menina no palco do Hollywood é uma feminista sexy e endiabrada, que valeu do câmera indiscreto um zoom nas partes baixas.
Em seguida, entra em cena o Vímana, banda conhecida apenas do mais aficcionados do rock da época, mas que teve em sua formação Lulu Santos, Lobão e Ritchie (aquele que cantava Menina Veneno, lembra?).
A banda, que fazia uma espécie de rock progressivo, teve problemas no som e apenas uma performance ficou registrada no filme.
Mesmo rótulo musical levou o som d' O Peso, outra banda que ficou guardada no baú dos anos 70, mas que merece um resgate rápido.
O vocalista Luiz Carlos Porto tinha um estilo rock-sexy-blueseiro e um vozeirão impecável.
E a banda acompanhava na psicodelia.
O amigo do Rei, Erasmo Carlos, é o terceiro a aparecer.
Em o filme, o cantor está a cara do Elvis Presley.
Porém, o som de Erasmo vai além dessa imagem.
Ele se apresenta com um sopro fazendo as vezes de guitarra e aparece num depoimento revelador sobre a época.
Erasmo defende a brasilidade da sua música.
«Eu nasci aqui (no Brasil), faço música aqui.
Então se eu sou brasileiro, a música que eu faço é a mais brasileira possível», dispara ele.
Celly Campelo também fala sobre as dificuldades de se fazer rock no Brasil, passando por temas como a obrigatoriedade de gravar versões de músicas estrangeiras.
Mas, o filé está no final, onde Raul Seixas manda o seu recado.
São mais de 20 minutos com o cantor, que já era o maior nome do rock nacional à época, enlouquecendo a platéia e sendo ovacionado por ela.
Ritmo Alucinante -- A Explosão do Rock no Brasil é apenas a ponta de um iceberg que ainda precisa ser explorado:
o de imagens do rock brasileiro nos seus primórdios.
A peróla pode ser vista no site Milvinil
Número de frases: 33
Publicado originalmente na revista Alternativa.
O documentário de longa-metragem «Dom Helder -- O Santo Rebelde», de Érica Bauer, em cartaz no Cine Cultura, em Goiânia, narra a trajetória de Dom Helder Câmara, um dos líderes político-religiosos mais importante e polêmico do Brasil no século XX.
Ao longo de sua vida Dom Helder foi um incansável combatente à ditadura militar implantada no Brasil e também defensor de uma igreja católica mais próxima ao povo.
A o ver d..
Helder, com toda a sua vitalidade, defendendo a igreja como instrumento de concientização do povo, sonhando com o papa fechando o Banco Ambrosiano do Vaticano e distribuindo todo o seu capital aos pobres do mundo, me vieram à mente as palavras de Milan Kundera, proferidas através do seu personagem Kostka, do romance " A brincadeira> ' (Janeiro, Nova Fronteira, 1967):
«Antes de fevereiro de 1948, meu cristianismo agradava aos comunistas.
Eles gostavam muito de me ouvir explicar o conteúdo social do Evangelho, esbravejar contra esse velho mundo carcomido que se demonstrava sob seus bens e suas guerras, e demonstrar a semelhança entre o cristianismo e o comunismo.
Para eles, tratava-se de atrair para sua causa o maior número possível de pessoas e, portanto, também aqueles que tinham fé.
Mas, depois de fevereiro, tudo começou a mudar ...
Muitos cristãos, católicos e protestantes, não me perdoavam.
Consideravam uma traição eu ter-me solidarizado com um movimento que tinha o ateísmo como bandeira.
Por seu turno, vozes comunistas se elevaram para dizer que um homem com condições religiosas tão definidas não podia educar a juventude socialista."
O escritor tcheco, que publicou seu romance na Primavera de Praga, em 1967, sustenta que " as igrejas não compreenderam que o movimento operário era a escala dos humilhados e dos necessitados, famintos de justiça.
Elas não se preocupavam em instaurar, com eles e para eles, o Reino de Deus sobre a Terra.
Aliaram-se aos opressores, e assim tiraram Deus do movimento operário.
E pretendem censurar o movimento por não ter um Deus!
Que farisaísmo!
E claro que o movimento socialista é ateu, só que eu vejo nisso uma reprovação divina, dirigida a nós!
Reprovação por a dureza com que tratamos os miseráveis e os sofredores.
É claro que as teses do marxismo têm uma origem profana, mas o alacance que os comunistas de primeira hora lhe atribuíam era comparável ao alcance do Evangelho e dos mandamentos bíblicos», como diz Kostka.
Em nossos dias, a religião continua sendo um fator típico da inteligência humana.
Mesmo os que se dizem ateus cultivavam o Absoluto sob formas leigas ou secularizadas.
É o caso do comunismo, ao qual o judeu Karl Marx deu a estrutura de um messianismo sem Deus;
o proletariado sacrificado na luta de classes seria o Messias, que, morrendo, prepararia o surto de um homem novo, morigerado e pacífico.
As categorias religiosas do judaísmo foram transpostas por Marx para o plano da sociologia e da política;
sobrevivem, porém, no esquema do pensamento marxista -- o marxismo cultua religiosamente certos valores meramente humanos ou profanos.
Este esquema caricatural já não satisfaz a muitos comunistas de hoje e o senso religioso, inato em todo homem, vem de novo à tona, apesar das tentativas de erradicação a que o marxismo o submeteu.
Ora, até nos desvios o cristianismo se assemelha ao comunismo.
Assim como Stalin mandou fuzilar comunistas fiéis que criticaram seus atos sanguinários, também os cristãos mostraram sua faceta sangrenta em diversos momentos da história, como nas Cruzadas e na Inquisição.
A o se dividir em diversas denominações, o cristianismo deixou de olhar para o Evangelho e cada uma das várias igrejas passou a olhar para si própria, para o poder e para o ouro.
O stalinismo, ao afastar-se dos princípios básicos do socialismo primitivo humanitário -- o mesmo que d..
Helder pregava, colocou o Estado acima da coletividade.
Os valores de justiça, paz, solidariedade, de uma sociedade igualitária deixados por Cristo foram esquecidos, tanto por o cristianismo, como por o comunismo, que deixaram de priorizar o ser humano.
De o mesmo modo que a Igreja Católica prega que Deus é uno e trino, o Estado deveria reconhecer o homem enquanto indivíduo e coletivo, respeitando-o individual e coletivamente.
Em a minha modesta opinião, tanto a doutrinação dogmática do marxismo quanto a evangelização dogmática do cristianismo caminham na mesma direção:
privilegiar a história dos homens em seu compromisso por a transformação social em função do projeto de uma nova sociedade menos injusta e desigual.
Ou seja, marxismo e cristianismo são faces da mesma moeda.
Tomemos como exemplo o clássico «A Utopia, de Tomás Morus (1478-1535), católico fervoroso decapitado no reinado de Henrique VIII e canonizado por a Igreja Católica em 1935)».
Morus teve a particularidade de ser cultuado tanto por os cristãos, quanto por a Revolução Russa, que lhe erigiu uma estátua em homenagem às idéias socialistas de sua célebre «A Utopia», em que descreve um Estado imaginário sem propriedade privada nem dinheiro.
Humanista e jurista, o ex-chanceler do Reino da Inglaterra mostrou nesta obra toda a sua preocupação com a felicidade coletiva e a organização da produção, mas de fundamento religioso, bebendo na fonte de «A República» e «As leis» de Platão.
Lançou, assim, as bases do socialismo econômico, ao cunhar a expressão «utopia», dando início a um gênero literário que faria fortuna nos séculos seguintes, desde» A Nova Atlântida», de Francis Bacon, e «A Cidade do Sol», de Companella, até os escritos dos socialistas do século XX, chamados utópicos.
Número de frases: 41
Qual a explicação para o SBT passar o mesmo episódio de «Arquivo Morto» que havia passado umas duas semanas atrás?
Qual a explicação para o SBT mudar tanto os horários das séries, como se as randomizasse?
Por que a exibição das séries chamavam-se «Séries Premiadas» e agora se chamam «Tele Seriados»?
Qual a explicação para o SBT exibir outro episódio da mesma série, em sequência, também um episódio recentemente exibido?
Silvio Santos estará sentindo o peso da idade?
Ele pessoalmente altera a programação de sua tv, semanalmente.
Cria e elimina programas arbitrariamente.
Contrata profissionais e os demite após algumas semanas.
A criatividade no SBT é nula.
Adapta roteiros de novelas mexicanas que não têm qualquer relação com a realidade brasileira ou com qualquer realidade.
Em a novela «Maria Esperança», um rapaz em cadeira de rodas está para morrer mas por algum motivo recusa deixar o dinheiro para a família com quem vive.
Se ele odeia tanto a família, por que ainda vive com ela?
Para resolver o problema da herança, decide se casar com qualquer mulher que aparecer por a frente.
Como assim?
Por que ele não faz um testamento e deixa a fortuna para uma instituição de caridade?
Alguém da família de ele [a mãe?]
afirma que antes que ele case e deixe a fortuna para outra pessoa que não ela, o matará.
Como assim -- parte 2?
Se ela o matar, por acaso terá direito a ficar com a herança?
E estes absurdos são só do que vi na propaganda da tal novela.
Mas eis que Sílvio Santos aparece com uma boa notícia:
a volta do «Viva a Noite», um dos programas mais divertidos e espontâneos da televisão brasileira, ícone dos anos 80.
Ele só não avisou que não seria o Gugu a apresentar o novo programa, mas a cantora Gil, incapaz de formular uma frase sequer.
E começa o programa com a apresentação do cantor Dudu Nobre.
Aquele que não faz shows em lugar nenhum, não toca na rádio, ninguém conhece nenhuma de suas canções, mas aparece em todos os programas de tv.
Sílvio Santos sempre foi uma figura bizarra.
Alguém sem personalidade definida, que nunca soube exatamente o que fazer com sua emissora de televisão, aguardando sempre o surgimento acidental de alguma personalidade interessante que lhe dê audiência e anunciantes.
Quando simplesmente não recolhe talentos de outras emissoras ou copia descaradamente atrações dos concorrentes.
O «Viva a Noite» foi um achado, bem como o «Jô Soares Onze e Meia», que gerou uma fila de espera de anunciantes por mais de uma década.
E teve até jornalismo de referência, com Bóris Casoy e Lílian Wite Fibe, sem falar no acordo com a Warner e com a Disney, que realmente abalaram outras emissoras, com seus blockbusters, hoje mal aproveitados [por exemplo, o sensacional «Uma Outra História Americana», com Edward Norton, foi exibido de madrugada sem anúncio nenhum].
Os outros programas de sucesso foram catados em outras emissoras.
Chaves, Simpsons, Bozo, Angélica, Mara Maravilha, Serginho Groisman, Hebe, Ratinho, Casa dos Artistas, Ídolos, Broz, Rouge, A Praça é Nossa e mais uma lista sem fim ...
veio tudo de outras emissoras, do Brasil e outros países.
Sílvio Santos parece incapaz de criar algum programa original ou aceitar a sugestão de alguém.
Joga dados com uma emissora que já teve faturamento de mais de um R$ 1 bilhão ao ano.
Suas duas maiores demonstrações de loucura recentes foram estas:
A exibição exaustiva de suas marchinhas de carnaval pré-histórico sobre imagens representando músicos tocando instrumentos de salsa e não de samba.
A demolição de uma sinagoga tombada para construir um shopping center.
Sílvio Santos, que é judeu, não tem medo do castigo de seu Deus.
Envelhecer é normal.
Todos nós passaremos por isto.
Mas se um dia eu ficar bilionário, vou deixar um exército de pessoas preparadas para tomar conta do patrimônio da família, quando eu começar a ficar gagá.
Roberto Marinho, quando começou a ter dificuldades, deixou as Organizações Globo nas mãos de seus filhos.
No entanto, Sílvio Santos parece não ter ninguém para ocupar sua cadeira.
Suas filhas parecem mais interessadas em frequentar igrejas evangélicas do que a empresa do pai.
Em os anos 80, o senhor Senor Abravanel [nome verdadeiro de Sílvio Santos] ironizava Roberto Marinho, solicitando que o dono da Globo, por estar «mais próximo da eternidade», deveria relaxar e deixar de lado sua obsessão por audiência.
20 anos depois, quem está próximo da eternidade é o dono do SBT e do Baú da Felicidade.
É triste testemunhar a decadência de um ex-empreendedor como Sílvio Santos.
Decadência provocada por sua falta de confiança na espécie humana.
O ex-camel ô carioca acredita que só ele tem talento.
Só ele sabe conduzir uma empresa.
Só ele consegue ter idéias.
Só ele é quem sabe tudo e ninguém mais no planeta sabe nada.
Por isso não nomeia executivos capazes de tocar os vários setores de sua empresa, como as direções artística e operacional do SBT.
A Globo tornou-se uma da mais influentes emissoras de tv do mundo graças ao trabalho de Walter Clarke e do Boni.
Todas as outras redes de tv tiveram e têm diretorias competentes.
Vide o caso da TV Record, a primeira ameaça real à TV Globo desde o fim da TV Tupi.
Só quem nunca teve nem terá jamais algo semelhante é o SBT.
Porque um homem capaz de derrubar uma sinagoga é alguém que está acima da humanidade.
Um megalômano.
E a história da humanidade demonstra que o fim de todo megalômano é a ruína.
Número de frases: 61
Ainda dá tempo de acordar para a vida, Sílvio Santos.
Levantamento feito por o jornal carioca O Globo junto às principais editoras do País revelou que apenas um livro de autor brasileiro figurou entre as dez obras de ficção adulta mais vendidas no Brasil em 2007: «Elite da tropa» (Editora Objetiva), obra cujas vendas foram alavancadas por o filme-sensa ção «Tropa de elite».
O livro ficou em oitavo lugar, atrás de obras de autores do Afeganistão, Austrália, Índia, Unidos e Espanha.
Em a verdade, a pesquisa apenas confirma uma enquete, realizada via internet, do Instituto Cultural Aletria, de Belo Horizonte que constatou:
o brasileiro lê pouco romance brasileiro.
Pouco mais da metade dos internautas que participaram da pesquisa (58 %) disseram ter lido de um a cinco livros de autores brasileiros em todo o ano de 2007.
Apenas 13 % leram mais de 20 livros no ano.
A metade, no entanto, declarou que sequer leu uma obra de autor brasileiro.
O pesquisador do Instituto Cultural Aletria, Marcelo Almeida, explica que o objetivo da pesquisa foi avaliar o interesse do público que freqüenta o site por literatura, especificamente a leitura de escritores nacionais.
«A matéria do jornal O Globo causou impacto, e até certo desconforto.
Por isso o Instituto quis saber o quanto a pesquisa estava correta», conta Marcelo.
«Foi interessante notar que o público do Instituto Cultural Aletria, composto em sua maioria por adultos (professores, formadores de opinião e artistas) demonstre tão pouca leitura de autores nacionais, assim como constatou o jornal pesquisando o público brasileiro em geral», prossegue.
«O engraçado é que, na escola, somos educados, do ponto de vista da leitura, por meio de livros de autores nacionais:
Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Drummond, só para citar alguns exemplos.
Ainda assim, não nos tornamos fiéis a esses autores quando abandonamos a escola, ou seja, na fase adulta», acrescenta o pesquisador.
«Duvido muito que a obra dos autores brasileiros não tenha qualidade.
Então, ficam as dúvidas:
será que somos vítimas do mercado estrangeiro de best-seller?
E, ainda, qual será a falha no ensino da literatura nas escolas que nos deixa vulnerável a essa indústria?
Onde está o vácuo entre os renomados e até os novos escritores brasileiros que não suportam mais a concorrência estrangeira?
São questões que precisamos debater, e muito», conclama Marcelo.
O pesquisador conta que essas questões preocupam os responsáveis por o Instituto Cultural Aletria.
Por isso, o site tem promovido pesquisas sobre a tradição oral e sobre literatura no Brasil.
«Descobrimos, por exemplo, que uma das falhas do educador é não saber ouvir os alunos», conta Marcelo, acrescentando que outras falhas detectadas foram autoritarismo e a facilidade do professor em desistir de um aluno hostil à leitura.
São pesquisas, segundo Marcelo, altamente relevantes para o público brasileiro e que podem contribuir para que o leitor brasileiro ' faça as pazes ' com o autor brasileiro.
Número de frases: 25
«O tempo não tem consideração».
Um argentino com nome de capital sul-americano escreveu isso certa vez.
Foi Santiago.
Santiago Badariotti Merlo (para ser mais preciso) era um ser absolutamente fascinante, detentor de um conhecimento único sobre dinastias e aristocracias de todo o mundo.
Aliás, a sua paixão era justamente escrever sobre as grandes famílias, aquelas que, para ele, tinham algo de especial, um quê divino, uma fantasia de castelos, riqueza, luxo e cultura.
Porque o que tinha de mais caro era a sua cultura.
Não escondia isso, dizia-se inclusive assustado e se perguntava por que nascera tão interessado em línguas, em música, em cinema, em tudo, quase.
Podia variar do erudito ao prosaico num minuto, sabia tocar Beethoven (o que fazia questão de fazer vestindo um fraque -- «É Beethoven», dizia ele), mas não se furtava a apreciar com paixão uma luta de boxe.
Santiago não falava português perfeitamente, mas também parecia já ter esquecido o espanhol.
Dominava línguas praticamente mortas, que aprendera muito novo em suas leituras e viagens por o mundo.
Falava uma fala só de ele.
Dançava bem, rezava em latim, escrevia lindas poesias, enfim;
claramente, um pessoa especial, um personagem digno de ser documentado.
Não à toa, João Moreira Salles (" Entreatos "), em 1992, decidiu filmar o mordomo de sua casa.
O sujeito das memórias de sua infância, das brincadeiras das grandes festas, do piano noturno, das danças com castanholas.
O diretor até então não era um dos mais conhecidos documentaristas nacionais.
à época, era um jovem de 29 anos, que, de maior expressão, havia realizado apenas um programa de TV chamado «América», uma espécie de investigação sobre o imaginário cultural norte-americano.
João chamou uma amiga para ajudá-lo nas entrevistas e levou, com eles, o experiente fotógrafo Walter Carvalho.
Foram todos ao apartamento de Santiago, que já não trabalhava mais na «Casa da Gávea» (o atual Instituto Moreira Salles).
O homem já beirava os 80 anos, embora não aparentasse.
O enquadramento rigoroso qual Yasujiro Ozu e as imagens em preto e branco dariam um tom de austeridade e respeito à sua figura.
Durante cinco dias, João filmou nove horas de conversa.
Teve tempo de perguntar o que quis, filmar à maneira que quis, colher os depoimentos que quis.
No entanto, alguma coisa deu errado.
-- Até hoje, é o único filme que comecei e não terminei -- diz o diretor.
João não montou o filme e as imagens de Santiago ficaram intocadas até o ano passado, quando, acometido por uma crise pessoal e profissional, resolveu retornar às suas memórias de infância, à família, à casa e, conseqüentemente, ao mordomo.
Reviu todo o material que registrara.
De essa vez, com a ajuda dos montadores Eduardo Escorel e Lívia Serpa, pretendia achar um caminho para, finalmente, organizar as imagens de Santiago, fazê-las filme.
João conta que o começo foi complicado.
-- O Escorel tem um talento que eu não tenho, o de olhar imagens soltas e dizer se aquilo dá filme ou não dá.
A primeira vez que ele viu o material, ficou na dúvida.
É claro que Escorel ficou na dúvida.
E só três meses de ilha de edição foram capazes de mostrar a João o que, agora, lhe parece óbvio -- o filme nunca fora sobre Santiago.
O que ele notou, ao rever 13 anos depois aquelas velhas imagens, o fez repensar todo o formato do documentário.
Os fotogramas não contavam a história do seu mordomo.
Nunca contaram.
O que o cineasta pode perceber hoje lhe fugia à compreensão em 1992: para o filme existir, João precisaria se expor.
-- Não tinha a noção de que, na verdade, não fiz um filme sobre Santiago, mas sobre a minha relação com ele.
Não havia ali uma relação de documentarista e de documentado.
Havia uma relação de patrão e mordomo, de, em última instância, chefe e criado.
Se é difícil de visualizar isso, imagine um sujeito postado numa cadeira, no umbral de uma porta, pronto para começar o depoimento acerca dos anos mais felizes de sua vida.
Equipe pronta, som, câmera, ação!
O sujeito levanta a cabeça e começa a falar.
Corta!" Santiago, você pode voltar com a cabeça ali.
Começe a falar ainda com a cabeça encostada».
Ou, ainda:
«Santiago, não reze desse jeito, reze com as mãos juntas ";
«Santiago, antes de falar, pense na minha família».
Pois foram com esses imperativos que João se deparou na ilha de edição.
Quando os percebeu, descobriu o norte para o seu documentário.
«Santiago» não seria um filme sobre Santiago, e sim sobre como o cineasta não entendeu o mordomo durante aqueles cinco dias, usando-se de artifícios de montagem, som e repetição para dizer o que bem desejasse.
-- Em as entrevistas, não queria ouvir o que Santiago tinha a me dizer.
Queria que ele dissesse o que eu queria ouvir, que ele se parecesse com o Santiago da minha infância, com o meu Santiago.
De aí as ordens, os planos repetidos.
Essa relação de patrão e empregado é também uma alegoria do que acontece em todo filme, entre o documentarista e o seu objeto.
É preciso ter consciência disso, mesmo quando se filma o presidente, a palavra final sempre será de quem está com a câmera na mão.
Filme para poucos (?)
E o filme saiu.
Está pronto, mas sem data definida para lançamento.
Em a verdade, João nem sabe ainda se deseja lançá-lo, acredita que é um filme para poucos.
Em o final de novembro, o longa passou no Festival Nacional de Documentários de Amsterdã, e isso o cineasta cogita:
-- Acho que é um filme para passar em mostras e festivais de documentário, de preferência os não competitivos.
Ele alega que tudo o que é visto na tela é muito pessoal e lhe falta certeza para afirmar se mais alguém se interessaria por a história de Santiago, de ele -- João -- e de sua família (que, inevitavelmente, se misturam na tela).
Também parece acreditar que as divagações sobre a realização de um documentário não falam para muita gente.
O temor de João se justifica?
Pergunta ingrata esta, porque é só assistindo ao filme que se pode chegar a alguma conclusão.
Nos quase 75 minutos, o que se vê na tela é uma «aula» sobre os bastidores de um documentário e as artimanhas que um diretor pode realizar para conseguir o que entende como certo.
Tudo perpassado por um off escrito por João, mas lido por seu irmão, Fernando.
Aqui, a pergunta faz-se inevitável:
por que o próprio diretor não narrou o filme?
-- É porque tem de se desconfiar.
Desconfiar de tudo.
Fui eu quem escreveu, mas foi meu irmão quem leu.
E aí, o que é verdade?
Existe verdade?
Eu não acredito.
Para mim, cada vez mais, um documentário é sobre o encontro de duas pessoas.
De quem documenta e de quem é documentado.
O off do meu irmão serve como um grau a mais nesta questão do que é verdadeiro e o que não é.
Não faltam cenas que explicitam esta dicotomia.
O filme já começa assim:
imagem se aproximando de um retrato, lentamente, música emocionante tocando, câmera se aproximando ...
Entra off:
«Este seria o primeiro plano do meu filme ...».
O mais curioso é que o off surge quando -- é o que diz quem estava na exibição -- já se está envolvido com a cena.
É um soco para fora da tela, como quem avisa:
Viu como é fácil te emocionar?
As autocríticas e auto-ironias continuam.
Há a cena da folha caindo na piscina em sucessivos planos e o narrador entregando que por ali, provavelmente, havia uma mão ajudando o suposto vento e provocando aquele acaso.
Afora, é claro, as imagens verdadeiramente constrangedoras de João dando ordens a Santiago, a ponto do ex-empregado pedir «stop» quando o ex-chefe o pressiona demais.
-- Eu tenho vergonha de muita coisa que falei no filme.
Mas as coisas vergonhosas têm de estar lá para o filme valer -- explica o documentarista.
Se o filme é uma «reflexão sobre o material bruto» (como é dito num intertítulo), é também uma reflexão sobre o tempo, aquele da frase de Santiago que abre este texto, o tempo que «não tem consideração».
Porque é do tempo que se vale Santiago nos seus estudos de meio século e 30 mil páginas, sobre um passado aristocrata ainda presente no relógio do seu apartamento.
E, sim, é do tempo que se vale João para fazer o documentário, um tempo não muito bem perdido, mas transcorrido em 13 anos e muitas mudanças.
-- Se 13 anos se passam, você tem de incorporar a passagem do tempo.
Em a verdade, o que deu liga para o filme foram os 13 anos que ele ficou parado.
Estranho seria se eu fizesse o mesmo filme que queria realizar em 1992.
O que mudou no tempo?
Mudei eu.
Não precisa conhecer João a fundo para perceber que ele mudou.
Basta assistir às suas obras.
O que se via em sua filmografia até «Santiago» era uma crescente preocupação em depurar e aplicar à sua maneira algumas regras de documentário ensinadas por grandes cineastas e ídolos por confissão, como Jean Rouch, Robert Drew e, o seu grande mentor, Eduardo Coutinho.
Em «Entreatos», seu último filme, João parece ter radicalizado na cartilha de dogmas de filmagem, daquilo que não se pode fazer em hipótese alguma enquanto a câmera roda e, mais tarde, na ilha de edição.
Em o longa sobre a eleição de Lula em 2002, por exemplo, não havia imagens de cobertura, trilha, nada foi filmado duas vezes -- tal ortodoxismo não era à toa -- o diretor aprendeu com os anos que o documentário, além de tratar do objeto, deve pensar também o próprio fazer cinematográfico.
Até aqui, ok, porque o que não falta a «Santiago» é preocupação com esse «pensar cinema».
Mas e quanto às outras regras?
Off não era coisa do passado, de uma já ridicularizada escola inglesa de documentário, ancorada por Grieson e cia?
E o que falar da trilha e das brincadeiras de edição?
-- Quis fazer um filme sem ortodoxia.
Quem realmente disse que não pode colocar trilha?
Se acho uma música bonita, por que não posso colocar?
O filme não tem imposição.
Vale tudo!
Acabaram as regras.
Tudo o que eu tentei eliminar em «Entreatos» pus aqui.
A única coisa que eu não queria era ser convencional.
E isso, acho que consegui.
Acho que o filme realmente apresenta alguma proposta nova.
Nova, não no sentido da espera que houve para o filme ficar pronto.
Isso, o próprio Coutinho fizera no que João considera o melhor documentário brasileiro de todos os tempos, «Cabra marcado para morrer».
Outros cineastas têm também esta prática, como o lituano Jonas Mekas, que deixa seus negativos «descansarem» por uma ou mais décadas para depois revisitar o material com o olhar completamente diferente da data em que registrara as imagens.
O que parece ser original aqui é mais a entrega generosa da imagem de si mesmo que João oferece ao espectador.
Autocrítica que faz compreender muito sobre a relação do homem com o tempo.
Faz lembrar, inclusive, o que disse certa vez «Mário Peixoto» (" Limite ") a Walter Salles, irmão de João, em analogia ao ponteiro de um relógio, que não conta «mais um segundo, mais um segundo, e sim, menos um segundo, menos um segundo».
Walter ficou tão impressionado com a frase que, na primeira oportunidade, colou-a na tela, em «Abril despedaçado».
Pois bem, Santiago, com o seu dizer dolorido -- «o tempo não tem consideração», parece ser o Mário Peixoto de João.
-- Sei que agora estou num beco sem saída.
Fiz um filme diferente de tudo o que tinha feito.
Mas, para o futuro, não posso fazer um outro «Santiago».
Não posso repetir a fórmula.
Não sei o que fazer, mas tudo bem, mudei de profissão, agora faço jornalismo -- afirma João, numa fala menos irônica do que pode aparentar, em referência ao seu mais novo projeto, a «Revista Piauí».
Sentimento universal
É possível que as imagens de Santiago dançando e tocando castanholas falem mais para João do que para qualquer outra pessoa.
Bem como os trejeitos, o modo de se mexer e a língua peculiar do argentino sejam compreendidos mais por os Salles do que por qualquer outra família.
De certo modo, o próprio diretor afirma isso quando diz que este é o filme em que menos se importa com a opinião das pessoas:
-- É muito pessoal.
Era um filme necessário.
Eu precisava fazer.
Sim, é de se compreender a posição do cineasta.
Ele se expõe, abre seu lar de toda infância e adolescência (João saiu da casa no começo dos seus 20 anos) e fala muito do dia-a-dia da sua família.
Mas o ambíguo é que, ao se expor, João, talvez menos racionalmente do que possa imaginar, acaba jogando luz sobre um sentimento universal:
mais uma vez, o medo da finitude.
Em o filme, João faz analogia entre uma cena de Fred Astaire e Cyd Charisse dançando fortuitamente (de modo «lindo e gratuito ") após uma caminhada, em» A Roda da Fortuna», e a nova fase da sua vida ao sair da «Casa da Gávea».
«Lindo e gratuito» parece ser a resposta mais adequada contra um tempo que passa sempre e continuamente.
«Santiago» é profundo e poético em vários aspectos e de diferentes maneiras, mas aparenta guardar em si uma função central:
a tentativa do diretor de compreender, de fazer as pazes com o tempo.
Em a prova maior de que olhar para trás vale a pena, o documentário é refeito por um novo viés, uma observação póstuma, que espera os planos correrem até onde a imagem escapou, até onde a fala terminou e, finalmente, sem as ordens de João, Santiago pôde relaxar:
as expressões mais naturais do mordomo pulam à tela justamente no final de cada take, quando a entrevista havia sido encerrada.
Em o filme, João justifica-se, desnecessária (uma vez que aquilo já estava claro na tela) porém compreensivelmente (tudo ali é muito pessoal), com uma frase do cineasta " Werner Herzog:
«O mais bonito é o que acontece depois do plano terminar».
* * * É difícil julgar, porque o plano sempre termina, por mais que ele se prolongue, alguma hora alguém aperta o botão e a câmera pára.
Em estes momentos, o que fica à memória é um Santiago que não era só empregado, um João que não era só patrão, num exercício de imaginação que transcende a tela e sugere -- depois de 13 anos do encontro e com o filme montado -- uma reflexão:
na relação de João e Santiago, ao menos, o tempo teve consideração.
Número de frases: 154
kynemas, filmes in fluxos
«conectar o cinema a as
geografias urbanas e cyberais."
Em esse seu longa de estréia o cineasta e artista multimídia, Pedro Paulo Rocha, nos propõe 80 minutos de imersão sensorial num kaos plástico e sonoro.
Quem espera ver um filme realista, onde personagens vivem estórias, será surpreendido por um fluxo ininterrupto de imagens e sons, com muita cor e música em ritmo alucinante.
A câmera mergulha num oceano de abstrações e cores na paisagem urbana.
Filme concebido para ser uma obra eletrônica in progress;
kynemas é um manifesto plástico sonoro sobre as formas nascentes de cinema na contemporaneidade;
Um filme ininterrupto para constantes novas versões, jogos de armar na internet, com teclados interativos, redes de artistas, memória eletrônica, ciclo de exibição e laboratórios de tvs digitais.
«Estamos diante da emergência de novos cinemas expandidos,
de cinemas para hipertelas, suportes virtuais, interativos, móveis».
«O cinema está na pele da subjetividade contemporânea, cada vez mais miscigenado na cotidianeidade do vídeo, da música e do computador.
Sub way, kynemasvideos palimpsestos».
Em a fronteira entre artes plásticas, cinema e arte eletrônica, kynemas sugere ao espectador uma experiência única com a percepção.
O artista define o filme como " uma provocação plástica para olhos e ouvidos livres;
Um invento de pura vibração, de cor e luz, mas também de sangue e fúria.
É uma sinfonia urbana, anarcocromática, que nasce dos ritmos das imagens e da cidade."
«O filme é um gesto poético que não exclui a violência da imaginação contra o absurdo e o horror que essa sociedade produz.
Em esse sentido, as cores e as músicas do filme sangram».
Kynemas foi realizado eletronicamente na montagem, mistura samplers, re-criações plásticas e derivas de filmagens por a cidade.
O filme experimenta «as passagens sensorias», de uma linguagem a outra.
dilata o espaço sensorial da cidade, mistura música, artes plásticas, fotografia, vídeo, arquitetura, mares de cores, ruídos e ataques sonoros, rajadas de imagens e músicas, fragmentos de memória.
Dziga Vertov, Stan Breakhage, Godard, Ozualdo Candeias, Glauber Rocha entrelaçados através de frames e paisagens, melodias, canções, derivas, música eletroacústica, vozes, poesia sonora, fotogramas, catástrofe e lixo urbano.
Máquinas ritmicas de montagem, percussão com gotas.
pianos. chuvas.
Sons de ferros.
filmagens ao acaso.
Imagens filmadas na moviola.
Pixel. Tv.
Cinema. Textura de imagens.
Vitrais criados com telas sobrepostas.
Fusões sobre fusões.
Contraponto e assincronia entre imagem e som.
«O processo de criação foi marcado por um movimento de desconstrução da estrutura fechada do filme».
«A imagem como música eletrônica, elementos ritmicos que podem se recombinar;
e a música como imagem manipulável, montagem, massas plásticas que se justapõem e se chocam;
samplers, assemblagens, readmade-visual sonoro."
O processo de montagem foi levado as últimas conseqüências.
O filme passou a ser uma memória live do processo de criação;
De uma partícula sonora, a um frame, a um micro-filme, todo o material pode compor a galáxia de possiblidades e se retraduzir dentro da obra in fluxo.
O processo seria ininterrupto, «infinito ao cubo», através de uma rede de conexões de memórias abertas e compartilhadas.
Kynemas foge as definições e preconceitos do que seria ou não seria cinema.
Esse filme poderia ser chamado de " pintura eletrônica ou grafismo urbano;
não importa se é artes plasticas, cinema ou uma experiência no espaço, instalação, imersão;
o que importa é sugerir um contra fluxo nômade em que uma linguagem pode sugerir outra, misturando o que está separado.
Tudo pode ser cinema;
kynemas é imagem e som em movimento.
É música.
Arquitetura. É limite, experiência.
Cinema, quasi-cinema.
«O nome kynemas foi escolhido para marcar novas formas de cinemas nascentes nessa contemporaneidade tecnológica.
Um gesto plástico para amplificar as possibilidades de se fazer cinema na atualidade».
Ser um cineasta na era eletrônica é ser " um experimentador de linguagens, um artista crossover que atravessa todos os meios sem fronteiras.
O cinema se transformou em arte híbrida cada vez mais, que sempre incorpora outra."
O filme começa num oceano de cores e pixel, pontuados por vozes de diferentes personagens e canções.
Uma personagem imaginária que diz «vê como sonorizo isso»,» o que os olhos não podem ver», «kaos»,» kynemas», «vc é a personagem sonora do filme» «uma personagem imaginária «" som»,» imaginamos cidades».
«em cada imagem existe também um invísivel a ser decifrado." "
Imagens quase-abstratas, com cores fortes, tempo sincopado, simulando uma atmosfera cósmica;
imagens que praticamente transbordam a tela e explodem no espaço."
O filme exige esse esforço visual para vermos além da abstração;
» ...e esse invisível é a própria cidade que vai surgindo;
ganha contorno meio as abstrações aparentes um visível no mar urbano».
Viajamos num roadmovie por São Paulo, invandindo universos mais documentais, filmando encontros inesperados com pessoas anônimas, moradores de rua;
falas improvisadas para diálogos absurdos;
cenas noturnas, duplos de imagens, vozes, «ver, vvvvvvvv, des, ver, rrr, desver, vermelho no vermelho»,» um espelho reflete estilhaços da cidade», frames entrelaçados de frames numa hiperficção sensorial ..." "
disparo " " rajadas de sons e imagens "
«no corte que pisca um frame de instante."
kynemas " ataques de imagens, rajadas de sons, "
«disparo» " num salto sem instante "
adad zzum / mz.
Número de frases: 70
midia /
Graças a Deus não estou trabalhando em nenhum jornal:
primeiro esforço léxico do dia;
oxalá não tivesse aula foi o segundo.
E assim, com três deuses invocados de manhã bem cedo, além de um gole de café, começou -- para mim -- a estréia do Brasil na Copa do Mundo 2006.
Em alguns pedaços da minha rua, tirinhas verdes e amarelas amarradas a barbante como rabiolas disputavam irregularmente o espaço aéreo com fios elétricos clandestinos.
Patriotismo e Malandragem a céu aberto;
elementos que aliados ao sincretismo religioso que nos acomete sempre que chuteiras acetinadas feitas sob encomenda por grandes corporações passam a representar o que há de mais sagrado no pé de um moleque ralado em asfalto, cheio de ceroto e sede;
formam a santíssima trindade de nosso futebol.
Melhor dizendo, de quem torce por ele.
O dia tinha cara de jogo mesmo, de final de campeonato, bandeiras desde cedo, um sol de rachar, e uma sensação esquisita de domingo eterno em plena terça-feira, como uma terça-feira gorda que mesmo longe do Carnaval nos dá a licença para a putaria sem culpa, um País de Cocagne para cada esquina.
Tudo pode;
nada acaba.
Nem essa bosta de aula, era preciso comprar gelo urgentemente, e Paulo Freire não poderia me ajudar.
Parecia tarde, mas o professor dispensou a turma cedo.
às onze e pouco da manhã, a cidade já havia se transformado.
O que antes era apenas o prenúncio de toda a desordem que se pode aceitar socialmente, agora acabava de se confirmar.
Manaus, de cabo a rabo, parecia um único e imenso arredor do Olímpico de Berlim, que fica no país imaginário da Alemanha.
Trânsito completamente engarrafado do Centro para os bairros -- mas isso acontece todo dia, oras!--.
Tudo bem, é verdade, o trânsito é sempre uma confusão, mas e o festival de buzinas?--
algum dia foi diferente disso?--
Não, é sempre assim mesmo.
Será que Manaus vive um eterno pré-jogo?
Foi então que me veio o estalo, aquela iluminação das coisas óbvias.
O futebol, que numa Copa do Mundo chega a seu ponto máximo de representatividade, é a desculpa perfeita, inegável, irrepreensível, e que pode ser compartilhada simultaneamente por todos, e talvez por isso ele seja tão importante para nós, bons e malandramente patrióticos brasileiros.
Analisando bem, o que acontece num dia de jogo do Brasil em Copa do Mundo é o que acontece todos os dias do ano em qualquer lugar, apenas levado quase ao extremo:
gente saindo mais cedo do trabalho (ou faltando), bebendo em horário comercial, fazendo churrasco na calçada, grafitando logradouros, gritando no meio da rua, escutando samba em alto volume, e por aí vai.
A diferença é que existe uma espécie de acordo tácito entre os homens que os faz revezar nesse esquema.
Se hoje faltou o fulano;
espero até semana que vem por a minha vez.
Hoje, nessa rua, só as casas ímpares podem fazer festa;
amanhã, as pares.
Dia de jogo é alforria, todos juntos podemos largar os compromissos mais cedo, gritar por as ruas, sacros e incuravelmente bêbados.
Em o mais, ninguém dá bandeira pra não mostrar que o que realmente une a nação não é o ideal patriótico da chuteira, mas a capacidade de nos convencermos de que isso é verdade, algo como aquele truque do diabo fingir que não existe.
Acho que não seria um exagero dizer que o brasileiro torce apaixonadamente mesmo é contra a Argentina, porque se ela acabar com a nossa hegemonia vai melar todo o esquema.
Finalmente cheguei na casa do Pablo.
Oito caixas de cerveja e duas garrafas de vodka, churrasco, começamos os trabalhos logo.
Faltavam três horas para o jogo, a grande estréia do Brasil contra a Croácia.
Em o final das contas assisti ao único gol já no replay, mas tomei banho de mangueira na rua, gritei com todos os que passavam na frente da casa, xinguei o Parreira, e depois do jogo todos continuamos com a festa, depois de perder alguns minutos falando sobre como um a zero é muito pouco para essa seleção de grandes astros, enquanto rabiolas verde-amarelas balançavam sobre nossas cabeças, encobrindo o gato * de energia que garantiu nossa trasmissão do jogo, diretamente do país imaginário da Alemanha.
* gíria para ligação clandestina
O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A idéia é relatar a diversidade de manifestações que ocorrem em torno da Copa do Mundo por o país afora.
Número de frases: 42
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag especial copa, no sistema de busca do Overmundo.
As estradas fechadas por os galhos de árvores, esticados como arcos de uma festa junina, não impediriam a chegada de um caminhão baú levando mais luz ao sertão nordestino.
Os facões estavam a postos para desbravar os galhos que, se por um lado representavam uma estrada se fechando sobre nós, por outro gritava ao mundo que o sertão é vivo, se expande sobre tudo e todos.
E assim íamos todos, no desejo de vivenciar aquele dia único:
uma sessão de cinema ao ar livre, com direito a trilha sonora dos bichos e ao escuro da noite estrelada sertaneja.
Chegando ao cenário da futura sala de cinema itinerante, montando-se a estrutura, tendo-se as cadeiras enfileiradas, saímos em direção ao público.
Andamos uns três quilômetros e encontramos uma casa.
O ator principal do filme, o tropeiro Alcindo, desce do carro, cumprimenta os moradores e anuncia a novidade:
é dia de cinema na Vazante.
E de casa em casa o convite era feito.
Andamos 4 leguas, de acordo com o tropeiro, e chegamos na cidade de Conceição da Crioulas.
O tropeiro e sua tropa de reveladores saem por a cidade, convidando a todos.
Somos recebidos com grande simpatia e acolhimento, com direito a cafezinho, canjica, sorrisos e abraços calorosos.
Trabalho feito.
É hora de voltar e esperar.
Ansioso, o filho do tropeiro, diretor do filme, espera na boca da estrada a platéia que estava por chegar.
E aos poucos eles vão aparecendo na estrada escura.
«Vai pra onde», pergunta ele.
E alguém do grupo responde «Eu vô para o cinema».
E assim continuam chegando, vindo a pé, de carro, cavalo ou moto.
Iniciada a sessão, é hora de distribuir a pipoca.
Os olhos pregados no telão emocionavam a todos.
O tropeiro sentado na platéia se vê espelhado no telão;
a esposa do tropeiro assistia por a janela da casa grande e não desgrudava do seu saquinho de pipoca;
o diretor do filme aproveitava aqueles minutos de realização de um sonho ao lado de sua esposa;
todos da produção esbanjavam disposição, simpatia e satisfação que jamais serão esquecidos;
o fotógrafo capturava os segundos indizíveis em imagens e a neta do tropeiro, esta que vos fala, contemplava este cenário único que em nós permanecerá vivo, eternamente.
E assim a noite se fez.
Não houve estrada, poeira ou distância que atrapalhasse uma das noites mais luminosas que o sertão de Pernambuco já viu.
O projeto Revelando os Brasis, em 2005, propiciou a 40 cidadãos, sem experiência na área do áudio-visual, a produção de vídeos que falassem um pouco da cultura / vivências / histórias dos pequenos municípios do nosso País.
Meu pai foi um daqueles que tiveram a oportunidade de produzir um vídeo em seu município -- Carnaubeira da Penha -- PE.
Em seu filme, ele retrata a história dos Tropeiros, homens que transportavam alimentos no lombo de jumentos.
Se por um lado o filme é universal pois remonta a história de trabalhadores que configuraram o transporte de gêneros alimentícios no sertão nordestino, por outro é uma história particular:
do meu pai sobre o meu avô.
Número de frases: 34
O pequeno relato que seguiu reviveu um pouco da experiência emocionante da exibição do filme no terreiro da casa do Tropeiro.
«Em esse tempo que eu parei aqui tantas pessoas passaram por mim:
empresários, mendigos, boys ...
e até o zé doidim, que eu mesmo reconheci!
Pessoas com mundos totalmente diferentes, mas que, naquele momento, naquele cruzamento, se cruzaram!
Interessante, né?!!
Todos os dias, em vários lugares, milhares de pessoas se cruzam mas não se falam, pois não se conhecem, e nem ao menos se importam com isso».
Fernando Catatau (" Cidadão Instigado)
«Avulsos, caminham sob o mesmo sol, a mesma lua e um céu sem holofotes, apenas céu, estrelas e demais astros.
Avulsos». (" Henrique Araújo», " Avulsos ")
O nome de ele é Francisco, tem 30 anos, três filhos e uma carteira de índio.
«Tapeba», diz o documento emitido por a Funai e exibido com orgulho.
Palmilha, a cada dois dias, a distâcia que separa a aldeia Ponte da casa de um amigo que mora no Icaraí, litoral de Caucaia, na " Região Metropolitana de Fortaleza.
«Sem tomar café nem comer nada, me larguei na estrada às cinco da manhã», diz e solta um riso nervoso, cheio de expectativa por a reação do interlocutor.
Lá, Francisco deixa parte da produção artesanal da aldeia -- cordões, brincos e pulseiras feitos principalmente de sementes.
«Hoje ele não tava em casa, andei um pouco por aí e agora tô voltando».
Em a estradinha asfaltada que corta a cidade de ponta a ponta, Francisco aguardava à sombra do extenso muro caiado.
De o lado de dentro, um grande jardim e uma área de lazer excepcionalmente arborizada se punham em desacordo com a paisagem da rua, dominada por pequenos alpendres sob os quais homens e mulheres bebiam ruidosamente.
Um pé suspenso, outro servindo de apoio ao corpo extenuado, o índio, em meio à poeira que se ergue do acostamento, vê o Santana verde aproximar-se devagar.
O veículo estaciona atrás de um dos ônibus da empresa Vitória, única a realizar o transporte de passageiros entre Caucaia e Fortaleza.
Metido nuns trapos, Francisco carrega uma sacola que, quando aberta, revelaria uma segunda e uma terceira.
Dentro desta última, um peixe ainda fresco.
«Entra aí, Chico», convida o motorista.
Antes, ainda no Icaraí, em frente a um condomínio a poucos metros da praia, o Santana encostara num ponto de ônibus.
Como Francisco e debaixo do mesmo sol, aguardava a condução para casa.
Eram 12h30, e o homem de aparência exótica retornava de uma corrida.
Após informar-se sobre o preço da passagem cobrada nos ônibus que seguiam para Fortaleza e já com o carro em movimento, confidenciou:
«Comprei esse carro apenas pra fazer lotação, mas, hoje em dia, é difícil, a gente tem que pelejar pra fazer pelo menos o dinheiro da gasolina».
«Não entrei naquele ônibus porque tava muito cheio», explica-se Chico sentado no banco de trás do carro.
Retornava, finalmente, para a aldeia onde o aguardavam a esposa e três crias -- uma de três meses, uma de 6 anos e outra de 9." Hoje tá difícil de conseguir alguma coisa», emenda o índio.
O motorista aproveita a deixa e costura a sua própria cantilena.
Os dois conversam, escutam e lamentam.
Mais lamentam, cada qual a seu modo, do que conversam ou escutam.
A miséria de Chico, entretanto, é magnética como os olhos azuis de Maria Sharapova.
Peleja do «artista» quando vivo
O espaço -- mercado persa -- é amplamente ocupado por famílias vivendo em casas de taipa, catadores de material reciclável e algumas lanchonetes erguidas precariamente sobre declives.
Muitos passageiros de pé, outros tantos sentados ocupando as cadeiras de plástico encardidas dos estabelecimentos.
A o lado, uma agência da Caixa Econômica Federal.
Em o início de cada mês, filas intermináveis se formam na entrada do banco, chegando até o escuro sob o viaduto.
Lá, a fuligem é uma espécie de segunda pele, que só sai com muita água e sabão.
Em a avenida, entre ônibus intermunicipais e coletivos que circulam em Fortaleza, o fluxo é intenso.
Dois anos enfurnado no desvão logo abaixo do viaduto que corta a avenida Mister Hull (Br-222), ao lado do terminal de ônibus do Antônio Bezerra, no bairro de mesmo nome, disputando passageiros «à tapa», cobrindo viagens ao seco interior do Estado e retornando com alguns» gatos-pingados».
Um pouco antes, mototaxista.
Chegou a comprar duas vagas, mas desistiu do negócio.
«Não sou morredouro, saio logo antes do fim», confessa o homem de bigode ralo e barba de três dias.
Agora, havia empreendido viagens, ganhara o suficiente para viver e adquirir, a prazo, um computador novo.
«R$ 2,4 mil, faz tudo.
Comprei mesmo com uma única intenção».
De a porta do Santana, o motorista retira um feixe de CDs de bandas e cantores famosos.
Os discos, cerca de trinta, eram envoltos por capas impressas em preto e branco.
«Tenho agora de comprar uma multifuncional e uma moto.
Depois, é sair por o mundo vendendo CDs».
Largar antes do fim, ser imorredouro, ir adiante.
às cinco, sem café-da-manhã.
«É assim que tem sido, mas a gente tem que ir em frente.
Quando escuto histórias como essa do índio, dou graças a Deus por ter este carro velho mesmo, de ganhar, todo dia, meus vinte ou trinta reais», consola-se.
Chico descera há bem pouco, sem pagar, deixando para trás um rastro de não sei que sentimento.
Era uma vida injusta com todos.
Ainda no carro, o membro da aldeia Ponte, filho do cacique e homem de pernas muito bem aprumadas havia apontado até onde, há muitos anos, se estendiam as terras indígenas em Caucaia.
De os dois lados da via que conduz, a cada carnaval, levas de turistas vindos dos mais variados lugares do Brasil, largas faixas de uma terra parda, hoje ocupadas por construções diversas e muitos postos de gasolina.
«Aquele ali não foi para a frente, foi impedido.
Mas tem o vizinho, que conseguiu autorização da justiça.
Não entendo é como um consegue e o outro, não, já que é tudo terra do índio», questiona-se Chico, que vive apenas do artesanato tapeba.
Em aquela manhã, porém, os cordões feitos com sementes não haviam garantido nada para o almoço, e o peixe que, na sacola, exalava um odor apurado, lhe tinha sido dado por um homem que encontrara na rua.
«Quando ganhei de ele, ainda de manhã, estava bem fresco, duro.
Agora, parece que amoleceu».
Chico, porém, insiste em permanecer duro.
Número de frases: 67
Pedra. Palavrinha comprida que, em termos gerais, refere-se ao estudo da música de diferentes culturas ao redor do planeta.
A criação do termo em si é atribuída a Jaap Kunst, um pesquisador holandês que usou-o como subtítulo de um livro publicado em 1950.
Uma tendência de quem ouve o termo pela primeira vez talvez seja pensar que o etnomusicólogo estuda, por exemplo, as músicas daquela tribo aborígene da parte mais remota do planeta.
De fato, alguns etnomusicólogos estudam isso.
Mas alguns outros estudam as músicas produzidas por as diferentes «tribos» urbanas.
Tudo isso é da conta da etnomusicologia.
Por a sua abrangência, a etnomusicologia tem uma abordagem interdisciplinária da produção musical:
ela usa ferramentas da teoria e análise musical, musicologia comparada, acústica, antropologia, sociologia, folclore, lingüística, história, psicologia, ciência política, economia e outras disciplinas.
O grau de envolvimento do pesquisador numa ou outra área depende muito da cultura que se deseja pesquisar.
Por exemplo, um etnomusicólogo que trabalha com a tradição musical de uma tribo na Amazônia vai precisar de ferramentas diferentes das de um pesquisador de funk no Rio de Janeiro.
A coleta e análise de dados em ambas as tradições envolve diferentes tecnologias;
tecnologias estas que um pesquisador vai precisar dominar se quiser entender com profundidade uma determinada cultura musical.
Isto não tem necessariamente que ver com o grau de desenvolvimento da tecnologia utilizada por a tradição musical que se deseja estudar.
Por exemplo, em 1898, um grupo de antropólogos de Cambridge interessado em pesquisar o Estreito de Torres (inclusive sua música) utilizou-se do que havia de mais moderno em equipamentos na época:
fonógrafos (que gravavam o som em cilindros de cera), câmera para filmar e câmeras fotográficas.
Mas é claro que as perspectivas sobre a área de estudo da etnomusicologia também mudaram um bocado por conta da tecnologia hoje disponível.
Sendo a Internet um espaço extremamente eficiente na produção, distribuição e consumo de músicas, é inevitável que uma parte fundamental do metier do pesquisador, seja saber navegar nesse meio e usá-lo efetivamente como instrumento e objeto de pesquisa.
Esta preocupação em registrar o modo como a música acontece in loco ainda é um dos pontos principais em pesquisa etnomusicológica.
Em a verdade, um aspecto que me chama a atenção no estudo fascinante da etnomusicologia é que ela não se restringe à análise do produto musical acabado.
A o pesquisador sério interessa também entender a música como processo.
O objeto de estudo da etnomusicologia é algo que está sempre sendo discutido e redefinido.
Em um primeiro momento, imaginou-se que sua área de abrangência eram as culturas fora da tradição européia ocidental;
excluía-se, então, os gêneros musicais populares do mundo ocidental.
Depois, procurou-se focar seu objeto de estudo nas tradições musicais de povos não-alfabetizados, ou ainda naquelas que eram transmitidas oralmente.
Segundo o verbete «etnomusicologia» do The New Grove Dictionary of Music and Musicians, a etnomusicologia hoje volta-se para músicas em contextos locais e globais.
Embora esteja preocupada com tradições musicais vivas (incluindo-se canções, dança e instrumentos), alguns estudos recentes também têm investigado a história da música de diferentes tradições.
Etnomusicologia é uma disciplina que primeiro buscou examinar «música em cultura» (Merriam), e então «música como cultura», onde a pesquisa de campo constitui-se uma de suas metodologias essenciais.
(Algumas idéias e conclusões presentes nessa introdução são minhas.
Mas eu também expandi e adaptei fatos e idéias mencionados por outros autores em outros textos.) * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Gostaria de convidá-los a visitar o blog sobre músicas urbanas no Brasil
http://eamusica.blogspot.com/ Os posts são basicamente resumos de leituras que tratam de música brasileira e de música eletrônica.
O blog é em português.
Espero que você apareça e comente.
Um abraço,
Número de frases: 34
Ieda Sobretudo, um resgate ...
«Esta obra é o marco do resgate da Ribeira, o bairro-berço de Natal.
Representa ainda o ato final no processo de revitalização desta parte tão querida da cidade ...».
As palavras da placa de aço dão o mote da razão de ser de mais um espaço que nasceu para guardar a memória da cultura popular.
E se todo museu é um mundo de possibilidades, com o recente Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, não poderia ser diferente.
A implantação do Museu vem completar o hiato que havia em terras potiguares em relação à cultural original do povo.
A missão da nova casa de cultura é reverberar os testemunhos materiais e imateriais da Cultura da Tradição do Estado, proporcionando uma leitura geral das manifestações folclóricas do Rio Grande do Norte.
O ponta-pé inicial fica por conta da exposição de longa duração denominada Atos de Memória:
Tradição e Cultura do Povo Potiguar, que está dividida em quatro eixos temáticos:
O mundo encantado dos Folguedos e das Danças Tradicionais no RN;
O mundo mágico:
encantos e encantamentos do João Redondo;
Saberes e Fazeres do Povo Potiguar;
Atos de Memória:
Arte, Fé e Religiosidade do Povo.
Entrando museu adentro, uma fartura de pequenos seres feitos de madeira, pano e, sobretudo, criatividade, dão as boas-vindas a quem vem chegando.
São eles, os bonecos João Redondo, representantes fiéis do teatro popular, manifestação presente no interior do Nordeste.
Abaixo dos bonecos que provocam encantamento, estão fotografias de seus principais criadores:
Gapó, João Viana da Costa, Francisco Ferreira Sobrinho, Miguel Relampo, Antônio Rato, José Targino Filho e o maior de todos, mestre Chico Daniel.
Além do Teatro Popular de Bonecos, outro traço marcante do povo nordestino é a religiosidade.
Por isso mesmo, não poderia faltar no Museu uma representação do ' Quarto dos Santos ' -- os oratórios domésticos instalados, geralmente, na sala de visita.
Em eles, os fiéis não guardavam apenas seus santos, mas também tudo o que fosse relacionado com sua fé:
medalhas, terços, santinhos, rosários, velas, enfim, um verdadeiro memorial de fé, culto e devoção.
Mas não apenas a religião católica se professa no ambiente.
Em o museu, todos os cultos comungam de um mesmo propósito:
representar o verdadeiro mosaico e sincretismo que é a religiosidade do povo nordestino.
Cultura e espaço
Em síntese, a iluminação interna do Museu se apresenta como um componente de destaque.
A luz do lugar não é natural.
O espaço é tomado por uma penumbra que causa introspecção, transmite sentimentos.
Faz com que o visitante se aproxime mais dos elementos expostos, gerando um maior entendimento entre o observador e os objetos.
Hélio de Oliveira, Coordenador do Projeto Museológico e Expográfico, revela que um outro aspecto cuidadosamente pensando foi a própria arquitetura do Museu.
«Toda a ambientação do Projeto Expográfico foi elaborada em relação ao acervo que iriam contemplar estes módulos.
Discuti com o arquiteto, e chegamos à conclusão de que colocaríamos os folguedos populares num círculo, e a religiosidade ficaria num espaço em forma de cruz, já que tínhamos quatro religiões, que formam a religiosidade do povo brasileiro».
Quanto ao acervo, Hélio conta que o Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão dispõe de mais de 2000 peças materiais.
São esculturas, artesanatos, brinquedos populares, pinturas, e dezenas de outras coisas que representam o cotidiano cultural do Rio Grande do Norte e que contemplam, ainda, cerca de quatrocentos artistas populares, valorizando, assim, o homem e sua produção.
«Começamos a visitar os produtores, e aos poucos fomos conseguindo o acervo.
A grande maioria foi adquirida através de compra, salvo quando os produtores já eram falecidos».
De entre aqueles que têm suas obras expostas, estão os seridoenses Luzia Dantas (artesã e santeira), Ivan do Maxixe, Júlio Cassiano (escultor de madeira pintada com esmalte sintético);
de Acari, Chico Santeiro, Dimas Ferreira (escultor de granito), Gregório, Galego e Jordão.
Em a pintura ingênua, estão trabalhos de Ivanize do Vale, Nivaldo Rocha, Iaperi Araújo, Iaponi e Maria do Santíssimo.
De a ruma de bens culturais que constituem o acervo do Museu, o escritor e folclorista, Deífilo Gurgel diz o seguinte:
«Eu achei muito bom.
Eu senti que houve muita inspiração por parte de quem fez a montagem do Museu».
E houve mesmo.
Há algum tempo, Hélio de Oliveira começou, com a ajuda de estagiários e alguns consultores, a elaborar a proposta conceitual do que seria apresentado no Museu.
«Quando Dácio me convidou, eu passei um tempo trabalhando sozinho e com três estagiários, pessoas que auxiliavam na compilação do material pra que eu começasse a ler e, começasse a entender que universo eu iria trabalhar para apresentar.
Tínhamos vários consultores espalhados por o RN, que nos informavam do que estava sendo produzido em termos de arte nos municípios».
Findado o tempo de muita pesquisa dedicada à elaboração do Museu, Hélio recebeu o aval que precisava.
«Depois de um tempo, eu apresentei a proposta, ele gostou, eu comecei a trabalhar ...
já estamos há mais de dois anos elaborando este projeto que não se estanca aqui», garante o Coordenador que ainda arremata:
«Ele tem uma continuidade».
Tradição e Contemporaneidade
Umas das grandes novidades que o Museu apresenta, é a união da tradição com a contemporaneidade.
Além do acervo material, o espaço conta ainda com mais de 200 horas de conteúdo digital, acessadas através de oito pontos de multimídia espalhados por as dependências do " Djalma Maranhão.
«Os meios de comunicação avançam, e o Museu não pode ficar pra traz.
Nós temos que nos adaptar à nova realidade.
Então essas são as novas formas de comunicação que temos com o público, especialmente o público mais jovem, que fica mais à vontade com as informações do Museu numa linguagem mais moderna», analisa Hélio.
Para o maior folclorista potiguar em atividade, os novos modelos de propagação da cultura são, na verdade, um mal necessário.
Saudosista e tradicional, Deífilo Gurgel fala como deveriam ser as coisas:
«Eu gostaria muito que as futuras gerações tivessem a mesma possibilidade que eu tive, de estudar essas coisas ao vivo.
Não através de livros, de vídeos, filmes, essas coisas ...
por que se você vê ao vivo, você tem a oportunidade de dialogar.
E através desses registros eletrônicos, não tem.
Aquilo ali é uma coisa meio morta, parada ...
ao vivo é outra coisa», sentência o folclorista.
De o verdadeiro maniqueísmo que é a junção de um acervo cultural material com o digital, Dácio Galvão é pragmático e vê a união com bons olhos.
«O hibridismo dos testemunhos materiais e imateriais, mostram, não somente a dinâmica da cultura potiguar, mas, fundamentalmente, os vários aspectos das produções do Estado.
E a virtualidade é algo que dinamiza.
É um conteúdo muito diverso, muito consistente, que vai colocar o jovem, o turista, o intelectual, um pesquisador e mesmo aquele desatento à cultura, num mesmo nível de curiosidade.
É uma produção muito bem feita, muito bem editada, que vai possibilitar, não só o deleite estético, mas a pesquisa também».
Movimento dançante
O Estado do Rio Grande do Norte é privilegiado em matéria de danças da tradição folclórica.
Primeiramente, porque continua resistindo e dançando sem perder a estima.
E, em segundo lugar, porque a província potiguar é a única no Brasil que ainda mantém vivos os quatros grandes autos populares:
Boi, Fandango, Chegança e o Congo.
E, ainda a Lapinha, o Pastoril e os Caboclinhos.
Em o Estado se manifesta, ainda, outras danças populares, desde o Zambê de Tibal do Sul -- uma referência nacional, à Sociedade Araruna, única do país e orgulho dos potiguares.
Falecido no dia 13 de agosto, poucos dias antes da inauguração, Cornélio Campina não teve tempo de prestigiar o Museu e nem pôde ver a sua Sociedade sendo representada com as dezenas de manequins trajando as roupas típicas do grupo.
De uma ocasião anterior à inauguração do espaço, os periódicos da cidade registraram a fala simples de Cornélio.
«É uma beleza.
Tudo o que vier para o bem das tradições eu estou gostando».
Sorte diferente teve Seu Correia, mestre do Congo da Vila de Ponta Negra.
Em visita ao Museu, o guerreiro da Vila diz ter ficado «satisfeito» com a representação do seu grupo.
«Achei muito bacana.
Muito organizado.
As pessoas podem conhecer mais sobre o Congo.
O Congo tem história pra contar».
Uma brincadeira que começou com o pai do Mestre Correia, Sebastião Francisco Correia, no longínquo ano de 1912, hoje, O Congo de Calçola de Mestre Correia continua sendo uma herança de família.
«Quando eu fechar os olhos, o Congo já vai ter raízes ..."
Abrindo as portas
Inaugurado no dia 22 de Agosto, Dia Nacional do Folclore, os cerca de 400 metros quadrados do piso superior da rodoviária velha transformados numa verdadeira casa de cultura ficaram pequenos para tanta gente.
Autoridades, jornalistas, músicos, repentistas, pintores, artistas plásticos, escultores e muitos outros tipos.
Em a ocasião, o livro de visitas registrava mais de 300 assinaturas.
Uma de elas era da escritora Mailde Pinto Galvão.
Diretora de Documentação e Cultura no Governo Municipal de Djalma Maranhão, ela diz ter ficado maravilhada com a lembrança que tiveram do ex-prefeito.
«Acho que foi uma homenagem muito digna de quem era Djalma."
Emocionada ao falar sobre o homem que levou leitura e alfabetização para o povo na Natal da década de 60, através da campanha De pé no chão também se Aprender a Ler, Mailde acredita que com a construção do Museu «fizeram uma homenagem não só a Djalma, mas à cidade».
Um multiplicador de conhecimento, este é um museu que se propõe redimensionar frequentemente os seus módulos e sua expografia, gerando, como assegura Dácio, «uma identidade maior, uma auto-estima mais aprofundada daqueles que visitarem o Museu».
Hélio de Oliveira corrobora com este conceito.
«Não existe nada permanente, tudo tem um tempo, por isso, usamos agora, exposições de longa duração, com um tempo estimado de três anos, onde as peças poderão ser substituídas, mas sem perder a informação e o conteúdo».
Aliado a isso, o Museu conta, ainda, com a galeria de exposições temporárias, um espaço que tem o objetivo de dinamizar ação cultural da casa.
«A nossa intenção é que o museu não tenha um caráter da limitação de um depósito de peças, mas um caráter educativo e pedagógico.
Ele é totalmente diferente da idéia de museu de antigamente», defende Dácio Galvão.
Contando com um espaço para programação educativa, oficina de restauração e conservação e auditório -- que leva, merecidamente, o nome de Cornélio Campina, outra preocupação do Museu é com a comunicação e, sobretudo, com a publicação daquilo que vem sendo pesquisado em solo potiguar.
Com o selo do Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, no dia da abertura das portas, os leitores ganharam mais uma obra de peso.
«O reinado de Baltazar», do folclorista Deífilo Gurgel, que é uma homenagem ao mamulengueiro Chico Daniel.
Também estão previstos o lançamento de dois Cds, um do poeta popular Xexéu e outro com músicas da linha da Jurema (religião descendente das culturas afro e indígena).
Os idealizadores do lugar percorreram grande parte dos museus do Nordeste que dizem respeito à cultura popular e perceberam, segundo o Presidente da Fundação Cultural Capitania das Artes, Dácio Galvão que, «sem falsa modéstia, o Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão não deixa nada a desejar».
Sobranceiro, Dácio ainda lança o desafio:
«Se você fizer um levantamento, desses museus ...
de Salvador, do Rio de Janeiro, de São Paulo, você vai, seguramente, ter um orgulho muito acentuado do nosso Museu».
Para «Hélio de Oliveira,» o museu, sem sombra de dúvida, poderia ser instalado em qualquer parte do Brasil, não fazendo vergonha a ninguém».
De as sentenças do Presidente e do Coordenador, o referido é verdade e dou fé.
Djalma Maranhão -- Memória
Plural e dionísico, sentimental e romântico, Djalma Maranhão vivia permanentemente em contato com todas as classes.
Como dizia o poeta José Conde, «Maranhão» transformou Natal numa verdadeira Passárgada cultural».
Nascido na capital potiguar no dia 27 de novembro de 1915, Djalma era filho de Luís Inácio de Albuquerque Maranhão e de dona Salomé de Carvalho Maranhão.
Homem simples, inteligente e que sabia exatamente o que queria da vida, não transigia nas suas idéias.
Primeiro prefeito a se eleger diretamente por o voto do povo na Natal de 1960, acabou sendo preso durante o Golpe Militar de 1964.
Em uma mensagem dirigida ao povo brasileiro datada de 1965 e enviada de Montevidéu, lugar de seu exílio, Djalma Maranhão explicaria qual teria sido o seu grande infortúnio.
«Meu crime maior foi alfabetizar vinte e cinco mil crianças, na pioneira campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, reconhecida por a Unesco como válida para as regiões subdesenvolvidas do mundo, num país de humilhante maioria de analfabetos e lutar para dar ao povo, acesso às fontes do saber, no plano de democratização da cultura.
De fazer Feira de Livros, de construir uma Galeria de Arte e estimular o Teatro do Povo.
De restaurar e promover a revalorização dos Autos Folclóricos.
De abrir Bibliotecas Populares que estabeleceram recordes nacionais de empréstimos de livros, numa cidade que não tinha biblioteca pública».
«É difícil fazer um resumo do que foi aquele tempo em poucas palavras.
Mas posso dizer que foi um período de grande efervescência cultural na cidade».
É com esses dizeres que a escritora Mailde Pinto Galvão sintetiza o governo de Djalma Maranhão.
Se ele morreu de «saudade» como alguns defendem, não se sabe.
O fato é que mesmo sendo preso, exilado e vilipendiado de todas as formas, Djalma Maranhão não perdeu o foco do seu trabalho:
lutar por a cultura do povo.
«Caso venha a morrer no exílio, peço que meu corpo seja transportado para Natal.
O caixão coberto com a bandeira da campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, e que, na hora em que o corpo baixar a sepultura, as crianças da minha cidade, que se alfabetizaram nos Acampamentos Escolares cobertos de palhas de coqueiros, cantem o nosso Hino, o Hino de Pé no Chão.
Companheiros, meus irmãos:
mesmo distante continuo presente na Cidade.
O vento trará minhas palavras e cada alvorada recordará a claridade da minha luta, permanentemente lembrada por o coração do povo», eis o homem.
Número de frases: 136
«Arte engajada, em Cuiabá, deixou de ser ´ caminhando, cantando e seguindo a canção ´ para ser ´ caminhando, cantando e carregando caixa ´.
Arte engajada não é mais o que você escreve na sua letra, mas sim o que você faz».
A frase de Pablo Capilé, uma das mentes por trás da movimentada cena independente de Cuiabá, reflete muito bem como as coisas funcionam na «Hell City» brasileira.
Enquanto em outros lugares as cenas geralmente nascem de modo natural e desorganizado, em Cuiabá a coisa é metodicamente pensada, planejada, articulada e executada do modo mais profissional possível, com todo mundo atuando de algum modo.
E se o rock independente cuiabano hoje é conhecido em todo país, muito se deve ao Espaço Cubo, do qual Pablo é um dos fundadores.
O trabalho desenvolvido por o instituto vai desde formar tecnicamente músicos até auxiliá-los na hora de colocar o pé na estrada, passando por oferecer um palco para as apresentações e suporte para divulgação do trabalho.
Entre um «saca» e outro Pablo foi, aos poucos, nos ajudando (eu e Thiago Foresti -- jornalista de SP) a enxergar o que é a cena cuiabana e a montar o quebra-cabeça que é o Espaço Cubo, com suas diversas frentes de trabalho atuando como múltiplos braços por todo cenário musical cuiabano.
Cenário pré-Cubo
Em meados da década de 1990, Cuiabá era dominada por bandas covers e quem se arriscava a desenvolver um trabalho autoral não encontrava palco para tocar.
De aí a necessidade de trabalhar na formação de uma cena para que uma produção mais interessante surgisse na cidade.
Em os anos 90 teve um show dos Garotos Podres em Cuiabá e lá morreu um cara.
Depois que rolou isso a resistência com relação ao movimento rock, underground e alternativo ficou maior e com o tempo o circuito de bar cover foi o que começou a predominar», explica Bruno Kayapy, guitarrista do Macaco Bong -- talvez a melhor banda da cidade.
Sem palco não há cena
Com a realização da 1ª edição do festival Calango, em 2002, os produtores da cidade perceberam que não havia uma cena na cidade e que era necessário dar continuidade ao trabalho incentivando uma produção autoral e formando público.
«A gente precisou trabalhar o processo de criação de uma cena e o Espaço Cubo veio num primeiro momento fomentando o trabalho autoral para a gente sair do circuito de bar.
O segundo ponto foi fazer os eventos periódicos», diz Ynaiã Benthroldo, baterista do Macaco Bong.
Consolidado o Calango (que realiza sua 5ª edição nos dias 31/08, 01/09 e 02/09) e com a criação do Grito Rock (que se espalha por todo o país durante o carnaval) e da Semus (Semana da Música), o calendário de festivais em Cuiabá se fortaleceu incentivando os artistas locais e proporcionando intercâmbio com bandas de outros locais do país.
Dentro dessa perspectiva, a criação da Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes) contribuiu muito para articulação independente ao unir vários festivais numa única associação.
Hoje, a Abrafin conta com 22 festivais e acaba de receber uma verba de R$ 2 milhões do governo através de leis de incentivo.
«Em Cuiabá, temos o Calango, o Grito Rock e a Semana da Música na Abrafin.
Acho que Cuiabá é a cidade que mais têm festivais dentro da Abrafin», arrisca Pablo ao apontar os resultados do trabalho que vem sendo desenvolvido desde 2002 por o Espaço Cubo.
Com a criação do Circuito Fora do Eixo, em 2006, o cenário ganhou ainda mais gás criando uma articulação fora do eixo RJ-SP e permitindo o crescimento do cenário independente em regiões antes ignoradas por os grandes centros como o Norte e o Centro-Oeste.
«Como os cenários locais estão cada vez mais fortalecidos, as bandas podem funcionar localmente.
Elas não precisam mais pensar na perspectiva de estourar nacionalmente.
As bandas hoje já conseguem sobreviver no circuito Centro-Oeste " -- Norte, garante Pablo.
O Cubo é visto por Pablo como um projeto visionário que não trabalha para alcançar um objetivo, mas sim para avançar dentro de um conceito.
Além disso, segundo ele, o Cubo trabalha com um esquema de códigos abertos, o que permite uma transformação constante do instituto.
Para Bruno, " a partir do momento em que uma cena se forma ela tem obrigação de deixar de pensar como cena e passar a pensar no mercado.
Ela tem que pensar cadeia produtiva, então isso já abre outro leque e leva as entidades a se aglutinarem e a começar a partir para um outro estágio».
Nova lógica
Pautado por a organização e por o engajamento, o Espaço Cubo atua como uma empresa com núcleos responsáveis por cada área enquanto Pablo age como um gerente, cobrando de todos e garantindo que a máquina ande.
Para ele, a criação do Cubo Card foi o principal fator que levou a cena cuiabana a movimentação que ela possui hoje.
«O Cubo Card é um sistema de crédito que fez girar a cena toda.
O cara começava a trabalhar como roadie e recebia um número x de crédito com os quais podia ensaiar, gravar, entrar de graça em shows, comprar cds ...».
O Cubo trabalha com a idéia de que a lógica hoje é outra e o que emperra a cena em outros locais, para Pablo, é a dificuldade de algumas bandas perceberem a mudança.
«As grandes gravadoras já acabaram.
Quando você sabe que algo daqui a cinco anos não vai funcionar mais é porque ela já morreu.
Quem estourou depois da Pitty?
Ela é a última e ponto!
Acabou aquela lógica.
Existem os que já estão no altar, mas o resto é cena independente.
A lógica inverte porque ao invés de ter cinco na major, tem 200 rodando o país».
Outro problema detectado por o Espaço Cubo são os vícios que imperam na maioria das cenas.
De acordo com Pablo, como as cenas geralmente nascem com a música como fim, elas acabam ficando suscetíveis a vícios como o amor à causa, a atitude rock and roll, o sexo e drogas.
«Esses elementos estão muito próximos do ambiente rock e quando esse ambiente se pauta nesses elementos ele se torna extremamente alienado.
Essa coisa do cara estar fazendo por amor é balela».
Avesso ao regionalismo, Pablo acredita que não há mais espaço para isso na música atual.
Ele defende a diversificação e ataca:
«O rock gaúcho é um dos rocks mais atrasados do país, até por essa perspectiva de pensar ´ rock gaúcho ´.
Não existe mais mangue-beat, existe respeito, mas é aquela coisa de querer jogar o tambor no lixo, porque o som agora é mundo.
Acho que a lógica do som regional também está morta.
Não dá mais para esperar que uma banda de Cuiabá tenha uma pegada regional.
A identidade agora é mundial», arrisca.
Artista-pedreiro
Além de primar por a organização, dentro do Espaço Cubo não há espaço para estrelismo.
A cena cuiabana pensa e age coletivamente, inserindo o máximo de pessoas possíveis no processo e exigindo o máximo de cada um.
Em a Casa Fora do Eixo (principal palco da cena independente), por exemplo, é comum ver Pablo na bilheteria, Ynaiã no caixa do bar e Bruno como rodie de bandas recém-criadas que estão ensaiando.
«Uma das coisas que a gente matou em Cuiabá foi essa coisa de dom divino.
Artista é igual pedreiro, se o cara não ralar ele não vai se qualificar.
Não existe mais essa lógica, porque essa é a lógica do mito, a mesma da indústria cultural.
Essa lógica vem pra conseguir vender em larga escala, porque pra isso ela tem que dizer que você é melhor que o outro, que você tem um dom diferente.
Aí todo mundo te vê como iluminado e te compra.
A gente matou isso aqui», diz, satisfeito.
Perguntado sobre o futuro, ele é curto e direto:
«De aqui a 10 anos vão ter saído 50 bandas boas de Cuiabá», prevê.
Desvendando o Espaço Cubo
Calango -- Festival independente que tem como objetivo desenvolver a cadeia produtiva da música em Mato Grosso (MT).
Volume (
Voluntários da Música) -- Organização criada com o objetivo de estimular a organização, qualificação e profissionalização da cena musical, oferecendo oficinas, workshops e palestras com músicos profissionais periodicamente.
Realiza a Semana da Música (Semus).
Cubo Mágico -- É a frente mercadológica do Espaço Cubo, formada por a junção dos núcleos de Comunicação, Discos, Eventos e Sonorização (ensaio + gravação).
Tem como princípio produzir Cubo Cards e prestar serviços de assessoria ao mercado independente da cultura.
Imprensa
Zine -- Tem como principio a elaboração de políticas públicas para a comunicação independente, com fins ao estímulo da formação, distribuição, produção e circulação dos agentes envolvidos nessa cadeia produtiva.
Grito
Rock -- Festival que busca fomentar e profissionalizar a cena independente durante o carnaval.
Foi do Grito Rock que nasceu o Circuito Fora do Eixo.
Número de frases: 77
Casa Fora do Eixo -- Casa de shows administrada por o Espaço Cubo onde se apresentam os principais nomes da cena independente de todo o país, além de ceder espaço para bandas ensaiarem.--
Rumo à Extinção?
Foi com esta pergunta na cabeça que entrevistei a professora Pita Belli, coordenadora do Festival Universitário de Teatro de Blumenau (FUTB) há vários anos.
Disse a ela o que falava a ' opinião pública ':
que o FUTB estava fadado à extinção, que não haveria a edição 2007, que faltava dinheiro, que faltava apoio da Universidade Regional de Blumenau (FURB), da Prefeitura Municipal de Blumenau e do Teatro Carlos Gomes.
Para entender do que se trata o FUTB, sugiro a leitura do texto Festival Universitário de Teatro de Blumenau, aqui no Overmundo uma visita ao Site Oficial do Evento.
Os Fatos
A polêmica surgiu quando o reitor da universidade, Professor Eduardo Deschamps, declarou, meses atrás, que a FURB não poderia arcar com as despesas do Festival.
Para integrantes do meio cênico blumenauense, era a mensagem para o fim do evento que há vinte e um anos integra cerca de 20.000 pessoas a cada edição.
Segundo a professora Pita, a universidade nunca disse que deixaria de realizar o evento, mas que não poderia custeá-lo.
Para isso, colocou à disposição dos coordenadores do FUTB uma equipe especializada na captação de recursos do NUPEX (Núcleo de Pesquisa e Extensão Universitária).
Houve anos em que não se conseguiu patrocínio e a universidade teve que arcar com todas as despesas.
Isso não pode mais acontecer por um motivo essencial:
a FURB, antes, centralizava em si o Ensino Superior da região de Blumenau.
Com o surgimento de várias outras faculdades e universidades particulares, viu sua receita diminuir a cada ano, num processo de queda que ainda não terminou.
De essa forma, fica realmente difícil para a universidade arcar com todas as despesas de um evento desse porte.
Mesmo não podendo suportar as despesas, a FURB continua auxiliando -- e isso a professora Pita Belli fez questão de frisar bem -- na realização e divulgação do evento.
Onde Anda O Poder Público?
Ora, sendo o FUTB já conhecido nacionalmente e em países do Cone Sul da América Latina, recebendo uma média de 25.000 pessoas por edição, nos últimos cinco anos e elevando o nome do município de Blumenau a nível nacional, poderia se esperar algum apoio da Prefeitura Municipal.
Acontece que não existe tal apoio.
«O FUTB surgiu entre uma parceria da FURB e da Prefeitura, mas com o tempo, o poder público acabou se abstendo da responsabilidade, que fica toda com nós.»,
diz a professora Pita.
De fato. Hoje, o auxílio que existe é mínimo e indireto.
A Prefeitura, através da Fundação Cultural de Blumenau, somente auxilia na divulgação do evento de forma que nada gaste com isso.
O que há, na verdade, é uma tímida divulgação eletrônica no site desta entidade (www.fcb.com.br) e notas em flyers de outros eventos patrocinados ou realizados por esta entidade.
Não fosse o dinheiro recolhido por o NUPEX, a 21ª. edição do FUTB não aconteceria.
Há cerca de um mês, a coordenadoria do festival recebeu R$ 300.000,00 via FunCultural (órgão do Governo do Estado responsável por a Cultura) e R$ 30.000 da FunArte (órgão federal que tem uma verba pré-determinada para realização de festivais desse gênero).
Pergunto à professora Pita Belli sobre os R$ 200.000,00 de dívida da edição de 2006 que teve de ser paga com o dinheiro enviado por o Governo do Estado e ela me esclarece:
«Em a verdade, essa verba deveria ter vindo no ano passado, mas em função das eleições, atrasou -- então tivemos de nos virar como pudemos».
Está claro.
Com um ano de atraso, a verba estadual só podia mesmo ser direcionada para o pagamento de dívidas.
Mas ainda existe a iniciativa privada, que através da L.I.C. consegue abater do pagamento do ICMS quantias importantes para apoiar eventos culturais.
A saber, as empresas que apóiam culturalmente o 21º. FUTB são Sulfabril, Haco Etiquetas e Brandili.
Esta edição, pelo menos, está garantida e fadada ao sucesso.
Previsões Para O Futuro De o FUTB
Quando pergunto à professora Pita sobre o futuro do Festival Universitário de Teatro de Blumenau, ela responde categórica:
«Todos os festivais do gênero, do Porto Alegre EnCena ao Festival de Teatro de Curitiba, todos correm risco de extinção."
O que faz a diferença, segundo a professora Pita, é a capacidade das coordenadorias desses festivais de conseguirem apoio junto ao Estado e a empresas.
Mas ainda é otimista:
«Esse é o primeiro ano que temos uma equipe especializada em captação de recursos à disposição, e nesse primeiro ano de trabalho conjunto, essa equipe conseguiu captar recursos suficientes para a realização do FUTB.
A tendência é melhorar na edição seguinte».
Em a verdade, destaca a coordenadora do evento, o importante é que não se deixe de realizar o FUTB ou qualquer outro festival do gênero por um ano sequer.
Se um festival pára por uma edição, é muito difícil conseguir reavivá-lo.
Sem dúvida que sim.
Mas é preciso ver quem ganha com o FUTB (e ganha muito bem) e teria um grande rombo em sua receita com a extinção do evento.
Mais Uma Polêmica
Falemos de quem ganha.
Em uma pergunta que não estava na pauta da entrevista, pergunto à professora Pita como é a relação da coordenadoria do FUTB com o Teatro Carlos Gomes (TCG), onde o evento se realiza.
O Carlos Gomes possui dois auditórios:
um menor, para trezentas e o grande auditório, com capacidade para 900 pessoas.
Como é o único espaço capaz de suportar um evento do porte do FUTB, o TCG era, até ano passado, o único espaço utilizado para a realização dos espetáculos.
Uma boa saída encontrada foi a utilização de espaços públicos.
Um de eles, o mais importante, é o ginástico do Conjunto Educacional Pedro II -- colégio público que cede o espaço para a realização do evento.
Com essa alternativa, indicam fontes seguras que passou a se economizar R$ 30.000 por dia, que era equivalente ao aluguel do pequeno auditório, com capacidade para 300 pessoas.
O Teatro Carlos Gomes é mesmo um espaço intrigante.
Particular, pertencente a uma sociedade específica, aluga o espaço como realmente deveria ser:
precisa-se do espaço, existe um espaço, cobra-se por ele, paga-se por ele e está tudo resolvido.
Acontece que nos últimos anos o Teatro Carlos Gomes recebeu cerca de R$ 3.000.000 (Três Milhões De Reais) do Poder Público relativos a reformas internas, externas entre outras coisas mais.
Ora, se a entidade particular recebe dinheiro público, poderia ceder o espaço a esse público pagante de impostos, ou pelo menos viabilizar um desconto para a realização de um evento, este sim, de utilidade pública.
Mas acontece justamente o contrário.
«Além de ser um dos teatros mais caros para alugar do Brasil», ressalta a «Professora Pita,» o preço do aluguel fica ainda mais caro durante o FUTB».
Entende-se.
Não é somente o Grande Auditório, mas a maioria dos espaços do prédio do TCG são utilizados durante o FUTB, o que acaba privando a entidade de locar espaços para outros eventos, quando ainda os há.
O que não se justifica, e isso digo eu, é uma entidade particular receber dinheiro público e não ser diretamente acessível por esse público.
«Em o entanto», continuar «Pita,» quase sempre conseguimos um desconto do valor inicial que eles nos passam».
Felizmente, diríamos.
Enfim, Alívio
Saio da entrevista mais calmo.
Parece que o Festival Universitário de Teatro de Blumenau ainda tem um longo caminho por a frente.
Um milagre, poderíamos dizer, ante as dificuldades que enfrenta para ser realizado:
a cegueira do Governo Municipal, o atraso do Governo Estadual, a esmola do Governo Federal e a falta de sensibilidade de entidades particulares que exploram um evento tão necessário -- e que enfrenta tantas dificuldades como este.
Blumenau aguarda sua visita.
O Festival aguarda sua visita.
E que abram-se as cortinas!
PS:
Número de frases: 75
o Festival Universitário De Teatro De BLUMENAU Acontece DE 06 A 14 De Julho Em BLUMENAU, SC.
Imagine um grupo de assistência social a meninos de rua que atua com o fornecimento de alimentação, roupas e realizações de pequenas atividades com o objetivo de melhorar, de alguma forma, o dia-a-dia de crianças carentes.
Um grupo voluntário, sem sede nem recursos financeiros, mas com o principal combustível dessa idéia:
saber que tem poder para fazer brotar o mínimo de esperança num ser que mesmo tão novo já desacredita na sua própria existência e principalmente na possibilidade de um futuro diferente, por estar inserido numa rotina de vida onde fome e miséria fazem parte da rotina diária.
O ano era 1985 e a vontade de fazer desse projeto de assistência algo concreto e realmente eficiente era forte e necessário não só para as crianças em questão, mas também para esse grupo, até então pequeno, alimentar uma idéia e uma paixão:
o serviço social.
Quando se quer mesmo se consegue, e foi assim que se deu inicio à idéia de ter um abrigo e solidificar as ações, trabalhando na raiz do problema e mudando sua metodologia de trabalho.
E como conseguir isso?
Foi buscando respostas e correndo atrás do que era sonho, que a Casa Pequeno Davi, hoje uma ONG que atende a mais de 400 crianças carentes, nasceu realmente.
Com atividades educacionais e culturais, está situada numa comunidade carente daqui de João Pessoa, o Baixo Roger.
O Baixo Roger é um bairro problemático:
visto por ser onde se localiza um dos presídios e também o maior depósito de lixo da cidade (desativado em 2003), o índice de famílias carentes e que sobreviviam com o que catavam do lixão era grande.
A coisa mais comum era ver crianças recolhendo restos de comida e fora da escola, vítimas do trabalho infantil imposto por os seus próprios pais como único meio de sustentação familiar.
Algo realmente absurdo e perigoso, mas que começa a mudar com ações da Casa Pequeno Davi.
Que ações são essas?
A Casa diferencia-se principalmente por o sucesso do seu trabalho:
funciona como ONG responsável por a recuperação de crianças suscetíveis a uma vida marginal, dando incentivo direto a famílias carentes com ações culturais e apoio escolar.
Com escolinhas de música, serigrafia, futebol, programas de inclusão digital, pintura, artesanato e um competente setor de serviço psicosocial, a criança (de 7 a 17 anos), quando chega a Casa, é encaminhada e encaixada em alguma das atividades oferecidas se acordo com seu interesse.
A partir daí um contato pessoal com ela é iniciado:
acompanhamento escolar (a ONG tem convênio direto com as escolas públicas do bairro) e familiar (reuniões mensais com os pais), tirando-a das ruas e oferecendo-lhes novas perspectivas.
Como a procura das famílias por o serviço é grande, foi necessário que se buscasse uma forma de organizar e selecionar as crianças para a participação no projeto para que houvesse sempre a qualidade do atendimento.
Assim, no inicio do ano, abrem-se inscrições para todo o bairro e é feito um processo de seleção com aquelas realmente mais necessitadas.
A direção, sabendo de possíveis limitações por conta de espaço físico, preenche as 400 vagas e começa sua programação anual, ou seja, há a preocupação de ser um trabalho direcionado, efetivo, concentrado e sério, e é essa organização e competência que a faz destacar-se das outras ONGs.
Mas para que todo o programa pensado funcione, é preciso também algo que para muitos é o principal problema:
apoio financeiro.
Com 21 anos de existência e experiência, a Pequeno Davi já encontra hoje meios que supram essa necessidade, com doações dos simpatizantes do seu trabalho e, principalmente, a inclusão em alguns programas de financiamento social, conseguido através da elaboração de projetos enviados à instituições como UNICEF, CORDAID, UNDIME, UNCME e RESAB, por exemplo.
Fui conversar com Joelma, uma das responsáveis por esse projeto, e pude perceber ainda mais a paixão, a luta e a crença numa sociedade melhor, a começar por o seu bairro.
Perguntei e ela me falou que todo esse trabalho voluntário é importante, mas o essencial é que haja uma forte pressão das ONGs frente ao governo em prol dos seus objetivos.
Organizar-se de forma a apoiar e cobrar políticas públicas para cultura e educação, por exemplo, afinal são eles que têm realmente poder e meios para solucionar as deficiências do seu povo.
Não é raro ver a acomodação de certos governantes frente ao sucesso do trabalho social voluntário, e isso é uma grande preocupação, mas a direção da Casa Pequeno Davi tenta tomar todo o cuidado e agir junto ao estado para que situações como essas não ocorram.
«O nosso papel não é só suprir uma necessidade da comunidade com nossas atividades, mas também chamar um pouco a responsabilidade do estado e município.
Temos essa preocupação de não estar substituindo, tentando muitas vezes trabalhar em pareceria:
o governo lança um programa e tem na Casa o espaço para execução ou orientação de como deve ser feito».
Assim a idéia funciona.
Acho que temos que aplaudir qualquer iniciativa do tipo, e quando ela dá certo aplaudirmos ainda mais e apoiarmos, porque manter-se com um trabalho que realmente dá resultado por 21 anos não é brincadeira.
É realmente impagável assistir a crianças numa apresentação de dança num bairro distante ou em algum festival de arte da Pequeno Davi e pensar que se não fosse aquilo elas estariam sem estímulo algum, sem auto-estima.
Cultura e educação dignificam e estimulam a própria comunidade a dar continuidade ao projeto, já que muitos dos voluntários e professores foram educados e assistidos por a própria quando crianças.
É também um trabalho que retorna.
Saber que se é importante, independentemente da classe social, e que acreditar impulsiona o realizar.
Pode soar clichê, mas acredite, isso faz toda a diferença.
Para saber mais sobre a Peqeuno Davi visite o site e blog de eles.
Para entrar em contato:
Fone /
Número de frases: 43
Fax (83) 3241-5263 ou casa@pequenodavi.org.br
Pioneiros do Pantanal, que se prezem, sabem da super existência da ' famosa ' família Espíndola.
Cada integrante, que compõe o glorioso Espíndola Canta, tem um jeitinho especial de ser, e tem também uma característica marcante.
Sérgio, Humberto, Celito, Geraldo, Alzira, Tetê e Jerry fecham o núcleo dos irmãos, e somam-se com Gilson, primo, e com os filhos, que também fazem parte do cenário musical.
«Este encontro familiar resiste naturalmente ao lugar comum e não se acanha em fluir sangue de todas as veias e veios musicais marcantes na paisagem sonora rural e urbana do país», retratou minuciosamente a mestre em Ciência da Comunicação e Pesquisadora de Sonoridades Ambientais, Marta Catunda.
A irreverência de Jerry, junto da responsabilidade de Sérgio e Humberto, ao lado dos ' igualitários ' Celito -- Geraldo -- Gilson, com as maravilhosas e aborígines irmãs Alzira e Tetê, e as crianças, que não são mais crianças, Dani e Iara, formam um grande documentário que vai ao ar amanhã.
O documentário da família Espíndola encontra-se no acervo do Mis -- Museu da Imagem e Som de Campo Grande e foi ao ar através da TVE Regional.
O vídeo inclui inúmeras músicas, depoimentos e curiosidades sobre a carreira dos Espíndolas, e também toda a trajetória que marcou o universo musical do Sul do Pantanal.
Número de frases: 8
www.espindolacanta.com.br
Antes de começar, precisamos embarcar numa viagem no tempo.
Há toda uma necessidade da história ser contextualizada.
Perguntas podem ser respondidas antes mesmo de serem formuladas e ...
Opa!, hora do nosso embarque.
Imaginem uma terra de índios guerreiros.
De um lado, banhada por o Rio dos Camarões (em Tupi-guarani: rio Potengi), do outro o Atlântico.
Nativos da esquina do continente Pindorama (Terra das Palmeiras, primeiro possível nome do Brasil), os índios Potiguares -- comedores de camarão -- não se entregaram fácil aos portugueses no século XVI, e tiveram que aturar os holandeses no XVII.
Novamente sob comando português, Natal viveu sua história tranqüilamente até meados do século XX.
Bondes, boemia, poesia e música instrumental dominavam a cena.
Deflagrada a Segunda Guerra, a posição geográfica privilegiada da cidade logo a tornaria uma importante base aliada.
Tanto que Getúlio Vargas e o então presidente norte-americano Franklin Roosevelt encontraram-se no ponto das Américas mais próximo ao continente africano para acerto dos detalhes da cooperação.
Durante os anos de Guerra, mais de 15 mil soldados norte-americano circularam por a esquina dos Potiguares.
Máquinas de chopp, fliperama, carros possantes e casas confortáveis no ' estilo de eles ' provocaram um rebuliço no comportamento local.
A pouca referência que sobrou da cultura indígena, praticamente dizimada durante a invasão dos ' descobridores ', não foi poupada nesta nova invasão.
Sem lenço nem documento, o fim da IIª Guerra Mundial deixou o «Trampolim da Vitória» atordoado.
Sem rumo, assistiu de perto ao flerte com a vanguarda do poetas visuais em 1967;
foi um dos palcos do «desbunde» na década de 1970, mergulhou no underground oitentista e ...
Aqui pode ser nosso caminho.
O rock potiguar autoral mergulhou fundo, com fôlego suficiente para só voltar à tona na era da web.
Reflexos
Pretensão globalizada?
E os anos 1990?
Não que as coisas tenham deixado de acontecer, a questão é a força e a repercussão com que elas acontecem.
Atualmente a capital do RN transpira rock.
Autoral, cover, misturado, progressivo, experimental, indie, emo:
números não-oficiais apontam mais de 100 bandas, das mais variadas vertentes, em atividade.
Reflexos da visita do Tio Sam?
Talvez. Coincidentemente, o fato também vem atrelado à outra característica do mundo moderno:
o acesso à informação.
Sem exageros, boa parte do movimento da já quase considerada capital doA-rock-no-Nordeste nos quesitos opções de shows de rock ao vivo, e quantidade de bandas dentro do circuito, é gerado na rede.
Seja em lista, a ' febre ' Orkut ou sites especializados, a ordem do dia é criar redes para articular movimentos reais.
Criada há pouco mais de dois anos, a partir de entendimentos entre Eduardo Caldas, músico da banda Montgomery, e Cruz, do selo Mudernage / Ícone Estúdio, a lista de discussão RN Rock já deu vida a três edições do festival P.I.P.O.C.A. (Projeto Independente Potiguar da Canção Autoral), duas reuniões de ' corpo presente ' e uma versão local do campeonato «Rock Gol».
Em o início de janeiro a lista estava com cerca de 150 associados.
Não precisa nem dizer que a panfletagem virtual também rola solta!--
além de contatos, resenhas, notícias do segmento, picuinhas e boas idéias.
Entre os próximos planos do ' coletivo virtual ' figuram o lançamento de uma coletânea, possível criação de um novo site e / ou incrementar o que já existe, realização do IVº Pipoca e a implementação de um prêmio aos destaques do ano.
Por enquanto são planos, mas os números são animadores.
Em 2005, o Pipoca (festival totalmente independente, diga-se de passagem) reuniu 20 bandas de rock e um público médio estimado em 2 mil pessoas.
Quatro noites entre outubro e novembro que comprovaram o potencial da iniciativa, um espaço que já maturou bandas como a própria Montgomery (influenciada por o rock britânico), Seu Zé (MProckB com toques regionais), Os Bonnies (rockabilly), Allface (emocore), Peixe Coco (rock-rap-reggae), Zero 8 Quatro, Jane Fonda, Alfândega, entre outras.
Com a palavra, Cruz
Cruz, produtor musical do Selo Mudernage / Ícone Estúdio, roqueiro desde os tempos da extinta Cabeças Errantes (banda que agitou Natal nos anos 1980):
O Começo:
«A pedra fundamental do fórum RN Rock surgiu da iniciativa Nordeste Independente (lista de circulação mais regionalizada).
Em 2003, eu e Eduardo Caldas (jornalista e músico) conversamos sobre o funcionamento da coisa.
Estava começando a rolar uma certa interatividade regional provocada por a ' Ni ', que podia funcionar de maneira mais localizada.
Fizemos uma lista dos que tinham afinidade com o rock do RN (músicos, bandas, jornalistas, produtores, selos, etc.), e criamos a lista.
Digo que é um bom efeito colateral da Ni».
Para 2006: " Estamos num bom momento de amadurecimento da funcionalidade prática da lista.
As idéias estão sendo discutidas com mais eficiência.
Em o resumo de 2004, Eider Rodrigues (da banda Brigitte Beréu) escreveu algo engraçadão que sintetizou bem o primeiro ano: '
Enfim, meu bom Genésio, criou-se uma lista pertinente entre os músicos locais (leia-se roqueiros), e apesar dos momentos de 6ª série, e todo mundo se pegando no recreio, essa foi a maior realização do ano Rock '.
Bem, acho que agora estam os num momento talvez de pré-vestibular.
O site RN Rock prova que estamos no caminho certo!».
«Atualmente (em janeiro) se está trocando idéias sobre uma compilação com bandas do RN.
Já estamos discutindo o IVº Pipoca, e algumas oficinas na área do aperfeiçoamento do exercício da independência também estão para surgir».
Com a palavra, Caiuã
Caiuã Gomes, músico da banda " Bode Rocco
«A lista funciona como um meio de organização que vem dando certo.
Desde que entrei já fiz contatos com quase todos que estão envolvidos no rock em Natal.
Além da coletânea, acho legal pensarmos num calendário de eventos para 2006."
Com a palavra, Rodrigo
Rodrigo Cruz, músico, estudante de marketing e um dos responsáveis por o site " Rock Potiguar:
«Arrisco dizer que o que há de melhor na nossa música rock é decidido através desse grupo.
O fórum facilita reuniões reais, que sempre contam com um bom número de pessoas».
Um causo
«Queria agradecer aqui, perante a lista, ao Cruz, e informá-lo (a ele ou a quem mais interessar) que consegui terminar minha faculdade!!! (
arquitetura) Agradecer, pois ele, Jorge Lima (produtor musical) e Wilberto Amaral (do Estúdio Megafone) me deram verdadeiras aulas sobre estúdios e selos.
Apresentei um projeto de final de curso que foi considerado complexo por muitos arquitetos.
Valeu, mesmo!
Bom, no mais, estou formada!
E quem precisar de projetista de estúdio, estou aí!
Para 2006, espero poder estar mais presente no rock potiguar, prestigiando os shows de todos».
Aline (
Número de frases: 74
mensagem postada na lista «RN Rock)» Um dia surgiu, brilhante / Entre as nuvens, flutuante / Um enorme zepelim.
/ Pairou sobre os edifícios ..."
Em aquele 22 de maio de 1930, o Recife viveu momentos inesquecíveis com o aparecimento da gigantesca máquina voadora prateada que competia com o sol na disputa por um lugar ao céu.
Era a viagem inaugural do Graf Zeppelin na linha Friedrichshafen -- Recife -- Janeiro e o surgimento da glamurosa era dos dirigíveis no Brasil.
A partir daquele dia, o Recife, por sua posição geográfica estratégica, seria escala obrigatória dos zepelins na rota Europa -- América do Sul.
Em o final de tarde daquela quinta-feira, o cruzador das nuvens sobrevoava a catedral da Sé de Olinda à procura do campo de pouso.
Aos poucos, os seus faróis de proa e popa acesos dimensionavam a grandiosidade da aeronave.
Após algumas tentativas de atracamento, a aeronave conseguiu ser amarrada à torre de ferro construída no Engenho Jiquiá especialmente para o dirigível.
Claro que aconteceu de tudo nesse dia, até uma mulher que, na tentativa de ajudar, amarrou um dos cabos a um pé de macaíba, que não resistiu e foi arrancada.
Os navios aportados no Recife acionaram em conjunto suas sirenes, assim como o carrilhão do Diário de Pernambuco.
A chegada do Zeppelin era o acontecimento da cidade e não se falava em outra coisa.
Conta-se que mais de 15 mil pessoas usando todo tipo de transporte (2 mil conduzindo automóveis e os bondes ficaram lotados!)
correram (Lá vem o zepelim!)
até o campo do Jiquiá para conferir a imensa baleia de prata.
«Noite memorável, histórica, foi bem tarde que o zepelim surgiu no céu recifense, grande multidão o esperava.
Fui o primeiro brasileiro a ter contato com dirigível e com seu comandante ilustre e com o infante de Espanha, o mais significativo passageiro», disse Gilberto Freyre, então secretário particular do governador Estácio Coimbra.
O Zeppelin atracou sem incidentes e seus passageiros e tripulantes foram saudados de uma forma tal por o governo e povo pernambucano, que jamais seria esquecida por o seu comandante Hugo Eckener, que lamentou o incômodo causado à população recifense por os estrondos dos motores que assustara o povo e as aves nativas da bela cidade, que carinhosamente recebia o dirigível com tanto entusiasmo.
Palavras do comandante.
Em a sua viagem de volta, o Zeppelin atracou no Jiquiá, permanecendo por dois dias, abastecendo-se de galinhas, ovos, água mineral, conservas e mil quilos de gelo da saudosa Fratelli Vita, além de 18 sacos de correspondência.
De Lisboa, o comandante enviou mensagem telegráfica ao governador de Pernambuco, enfatizando " a mais fidalga acolhida por parte da população e das autoridades pernambucanas.
Vou sugerir que um futuro Zeppelin passe a se chamar Pernambuco».
Mal sabia ele que foi gente correndo pra todo lado, num misto de medo e admiração.
Gente usando de amizade junto aos policiais para entrar no campo.
Teve de tudo!
Até o empreiteiro da torre adoeceu com febre de tanto se expor no lamaçal, perto do campo.
O dirigível
A aeronave construída entre 1926 e 1929, media 236 m de comprimento, 30,5 m de diâmetro e 33,5 m de altura.
Voava a uma velocidade média de 110 km/h e a uma altura de 150 a 200 m..
Possuía cabines confortáveis para 20 passageiros, salão de festas, sala de leitura, sala de jantar e toaletes.
Sua tripulação era composta por 26 pessoas.
Sua cor prateada refletia melhor os raios solares e não aquecia a câmara de gás, pois era uma tinta aluminizada sobre tecido de algodão que recobria as estruturas metálicas internas do dirigível.
O seu volume de gás hidrogênio dava para iluminar um combustor durante 235 anos.
Poderia navegar 10.000 km sem aterrissar e pesava 55 t.
Foi o primeiro e único dirigível a cruzar o oceano Pacífico e dar a volta ao mundo, realizando 590 viagens (65 ao Recife, entre 1930 e 1936).
Passava por a cidade duas vezes por mês, trazendo passageiros, mala postal, carga e filmes de cinema.
Entre os passageiros ilustres, o próprio presidente Getúlio Vargas que ia do Recife ao Rio, e na viagem inaugural vinha o infante espanhol D. Alfonso de Borbón.
Foi substituído por o Hindenburg, outro famoso dirigível, que atracou duas vezes no Jiquiá, cujo incêndio no ano de 1937, em New Jersey, encerrou a romântica era dos dirigíveis.
A tragédia do Hindenburg causou a morte de 26 pessoas que pularam da aeronave ou morreram queimadas, e enterrou a imagem dos dirigíveis como a forma mais segura e confortável de se navegar por o mundo.
Atualmente, o hidrogênio, altamente inflamável, foi substituído por o hélio, mas o glamour perdeu-se no tempo.
O Campo do Jiquiá:
um patrimônio abandonado
O Campo do Jiquiá, situado no sul do município, era administrado por a empresa Herm Soltz & Cia e possuía uma torre de ferro de 16,5 m de altura e 3,5 t de peso, fortemente presa a cabos de aço e piso de cimento.
Foi construída em 1930, especialmente para aterrissagem do Zeppelin.
Para recepcionar os passageiros, tripulação e convidados, o campo do Jiquiá contava com um pavilhão de 315 m² com sala de embarque e despacho de cargas, posto médico, loja de selos e charutos, bar, sala de imprensa, cozinha, refeitório, dormitório de oficiais e estação de rádio, além de uma pequena fábrica de hidrogênio e um depósito de gás.
Essa torre de 1930 foi substituída, em 1936, por outra de 19 metros, montada no mesmo lugar com peças trazidas da Alemanha.
Hoje a torre, localizada no bairro de Jiquiá, é tida como a única de atracação de dirigíveis remanescente no mundo.
Em 1982, foi tombada por o Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco.
Há projetos para restauração da torre e criação de um sítio de preservação histórico e ambiental de 54 ha, inclusive com a recuperação do manguezal das margens do rio Jiquiá, mas os projetos não saem do papel.
Enquanto isso, a estrutura vem se deteriorando e já se pode ver muitas invasões na área.
O piso de madeira das duas plataformas está destruído e a ferragem mostra sinais de corrosão.
Em 1981, sete sobreviventes dos tripulantes do Graf Zeppelin realizaram uma visita sentimental, patrocinada por o Governo de Pernambuco, Aeroporto de Frankfurt e Varig, à única torre de atracação ainda existente no mundo.
Em emocionada solenidade foi descerrada uma placa comemorativa, atualmente perdida.
O Zeppelin teve direito até à poesia (" Graf Zeppelin ") do grande Ascenso Ferreira, poeta pernambucano da primeira fase do Modernismo, que reproduzo a seguir.
Graf Zeppelin
W Z!
K D K A!
U Z Q P!
Alô, Zeppelin!
Alô, Zeppelin!
Alô, Zeppelin!
Usted me puede dar nuevas del Zeppelin?
Dove il Zeppelin?
Where is the Zeppelin?
Passou agorinha em Fernando de Noronha.
Ia fumaçando!
Chegou em Natal!
(Augusto Severo, acorda de teu sono, bichão!)
Alô, Zeppelin!
Alô, Zeppelin!
Rádio, rádio, rádio!
W Z -- Q P Q P -- G Q A A ... =
Jiquiá!
Apontou!
Parece uma baleia se movendo no mar.
Parece um navio avoando nos ares.
Credo, isso é invento do cão!
Ó coisa bonita danada!
Viva seu Zé Pelim!
Vivôôôô!
Deutschland über!
Atracou!
Número de frases: 81
Esta matéria não seria possível, sem as informações compiladas de Fernando Chaves Lins, do sítio virtual AeroFans e Camilo Soares do Le Mangue Está começando o maior espetáculo brasileiro da «vida real», a principal fábrica de celebridades instantâneas do país.
Senhoras e senhores, entra no ar a 7ª edição do programa Big Brother B rasil, vulgo BBB, agora com novidades:
a versão caliente BBB Só Para Maiores, que será exibido nas madrugadas, por a Rede Globo de televisão;
e as câmeras exclusivas nos banheiros e na piscina da casa, para o deleite dos assinantes do portal Globo.
com. Mais invasivo que nunca.
Os personagens da novelinha já foram apresentados.
Com média de idade de apenas 25 anos, diversos sendo loiros (mesmo que oxigenados), eles exercem profissões tão díspares como as de modelo, hostess, tradutor e produtor de marketing.
Um quadro inverso à realidade brasileira, em que a perspectiva de vida é de 71 anos, negros e pardos representam 45 % do contingente populacional e em que a maioria das pessoas trabalha nos setores de serviços, na área agrícola ou no comércio, segundo dados do IBGE.
Em um país em que a população oscila, cada vez mais, entre pessoas subnutridas ou com sobrepeso, o programa se apega à estética da mídia, escalando integrantes de porte atlético.
Todos eles.
Ainda assim, o BBB é chamado de «show da vida real»!
Com certeza, o Big Brother Brasil não se assemelha em nada à minha vida.
Não me pareço com aqueles personagens nem vivo confinado numa mansão, alternando meus horários entre piscina, academia de ginástica e confabulações em grupo.
Mas resta um único alento.
Em uma tentativa de simular a diversidade brasileira -- ou simplesmente consolar segmentos marginalizados, foram escalados um participante negro e outro nordestino, do total de 16 integrantes do programa.
A mesma fórmula das edições anteriores.
Contribuições
Em um mundo em que a influência de um artista é medida por seu tempo de exposição na mídia, e não mais por sua produção cultural, o BBB traz grandes contribuições.
Em um mundo em que a curiosidade sobre a vida íntima dos famosos não para de crescer, a ponto de tornar imperceptível o limite entre o público e o privado, o BBB é emblemático.
De um dia para outro, o programa eleva um grupo de anônimos à categoria de estrelas globais.
Para o bálsamo de milhões de telespectadores, pode-se acompanhar, em horário nobre, seus dramas e romances, o desenvolvimento de amizades e desafetos e até suas trocas de roupa.
Tudo isso mostrado em ângulos e closes estratégicos.
Tudo editado de maneira a acentuar os traços da personalidade de cada participante, criando os personagens típicos de um folhetim.
Uau! Nenhuma novela é tão convincente, tão «real».
Nenhuma revista ou programa de fofoca jamais conseguiu ser tão detalhista.
A o público, não interessa que a fama destes personagens seja passageira -- como é de todas as outras celebridades instantâneas (incluindo as clássicas marias-chuteiras, marias-pandeiro, as inúmeras modelo-atriz e-dançarina de pouca roupa " e as passistas que se destacam a cada Carnaval).
O bom é devorá-las.
A digestão é rápida, mas logo é oferecido o prato seguinte.
Número de frases: 28
Em o pavilhão dos países do 5º Festival América do Sul, que aconteceu de 30 de abril a 4 de maio em Corumbá, encontrava-se em exposição o projeto da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) «Memória Fonográfica de Mato Grosso do Sul».
A iniciativa tem como objetivo resgatar toda a discografia dos artistas sul-mato-grossenses desde 1950 até as gravações atuais.
Os discos antigos de vinil, no projeto, foram todos remasterizados em mídia digital e armazenados num banco de dados que ficará disponível para consultas no Museu de Imagem e do Som (Mis de Campo Grande.
Cerca de 8000 músicas já foram digitalizadas e tanto gravações antigas quanto aquelas de artistas atuais, que já estão disponibilizados em CDs, compõem o banco de dados musical em formato " MP3.
«A idéia do projeto é que todas as pessoas que tenham interesse em conhecer a música de Mato Grosso do Sul, em seus diversos estilos, possam acessar o banco de dados e consultar a obra do artista por meio da capa e contra-capa do disco, ficha técnica, encartes internos com as letras das músicas e releases que contam sua trajetória, explicou o idealizador do projeto, Carlos Luz.
Depois da consulta, os interessados vão poder comprar os CDs dos artistas a preços populares para combater a pirataria.
Os preços variam de 5 a 20 reais.
Há seis anos foi iniciado este acervo da cultura musical sul-mato-grossense, que vai ser exclusivo do Mis e é direcionado a estudantes de escolas e universidades.
«O legal é que o acervo vai mostrar as músicas que são feitas desde a época do Mato Grosso Uno.
As músicas foram classificadas em diversas vertentes, entre elas:
Baileiros, Coletâneas, Eletrônico, Erudito, Festivais, Folclore, Instrumental, Música Latina, MPB, Poesia, Música Pop, Música Raiz, Rap, Samba e Pagode e Setanejo.
«As pessoas vão conseguir visualizar todos os ritmos criados e tocados em Mato Grosso do Sul», explicou Carlos.
A fundação de cultura está buscando parceiros para a implantação de terminais de consulta da biblioteca da música sul-mato-grossense.
O projeto já foi aprovado por a lei Rouanet e empresas patrocinadoras podem descontar o investimento no imposto de renda.
«O patrocínio também vai possibilitar que a pesquisa das músicas continue, pois muitas músicas daqui foram gravadas fora do Estado, pois na época não havia estrutura adequada em Mato Grosso do Sul», concluiu Carlos Luz.
Festival América do Sul
O Festival América do Sul (FAS) acontece todo ano em Corumbá, cidade de Mato Grosso do Sul, considerada a capital do pantanal.
O evento, produzido por o Governo do Estado de MS, busca produzir ações concretas para a aceleração da integração das nações sul-americano promovendo um grande encontro que revela a diversidade cultural no continente, além de discutir temas relativos ao meio ambiente, à cultura, ao turismo e ao desenvolvimento sustentável.
Quem visita a cidade durante o período do Festival América do Sul passa a conhecer a música, artes plásticas, artesanato, cinema, dança, literatura e o teatro sul-americano.
Esta é uma iniciativa inovadora em todo o continente.
Número de frases: 20
Francinne Amarante Tudo começou quando li no Overmundo sobre um lugar conhecido nacionalmente em Belém, do Pará, por sua pizza de jambu.
Fiquei surpresa e feliz.
Agora entrei para o rol das pessoas que já ouviram falar de pizza de jambu.
Segundo Vladimir Cunha, que deu a dica no site, esse lugar, «Café Imaginário é também um dos pontos preferidos da turma que gosta de música instrumental e de espaços alternativos em Belém» e é frequentado por «artistas, músicos, jornalistas, artistas plásticos e demais integrantes da fauna boêmia local».
Pra quem não sabe, jambu é uma erva típica da região norte do Brasil, mais precisamente do Pará.
Também é conhecida como agrião-do-pará.
O jambu é muito utilizado na culinária paraense, podendo ser encontrado em iguarias como o tacacá (ai, que delícia!)
e o pato no tucupi.
Que novidade para uma paulista!
Adoro tacacá, mas nunca imaginei o jambu como ingrediente de uma pizza.
Fiquei louca para experimentar.
Morei quando criança em Belém, mas saí aos 4 anos e nunca mais voltei!
De aí, foi um passo para descobrir um pouco mais sobre meu querido jambu e compartilho aqui as informações do site Biopirataria.
org:
* A medicina tradicional recomenda suas folhas e flores na elaboração de infusões no tratamento de anemia, dispepsia, malária, afecções da boca (dor de dente) e da garganta e, contra escorbuto, e também como antibiótico e anestésico.
* Existem Patentes sobre o princípio ativo da espécie em nome de companhias japonesas, para produção de cremes cosméticos -- máscara facial.
Em o Japão é usada ainda, para proporcionar hálito fresco, em produtos como goma de mascar e creme dental.
Segundo a organização, que considera «questionável a prática de patenteamento de plantas e cultivares tradicionalmente usadas por as comunidades da Amazônia e o registro de seus nomes como marcas», há também registros por empresas dos Eua (em 1973), Inglaterra (1976) e União Européia (2001).
Apesar da história da biopirataria ter começado nos idos de 1500, com o pau-brasil, essa questão é muito atual e promete muito «pano para manga» no futuro.
É uma questão de soberania nacional!
Número de frases: 20
Vamos desenvolver essa discussão?
Os livros do Projeto Comunicação Capixaba (Coca) são um esforço de reportagem, como se diz nas redações.
É um trabalho profissional de quem ainda é aluno.
É obra da conjunção de esforços que ultrapassam os limites do campus universitário.
Recém-empossado como professor do Departamento de Comunicação da Ufes, em maio de 2004, foi-me destinada a disciplina de Administração e Mercadologia em Jornalismo, cujo objetivo é preparar os alunos para enfrentar o mercado de trabalho.
Saído exatamente do mercado, trazia com mim a consciência de uma de suas maiores demandas:
a produção de publicações institucionais.
Por que não ensinar os alunos a fazer livros, da idéia inicial à edição final?
Mas sobre o que escrever?
A comunicação capixaba padece de falta de memória.
Muito do que se construiu no século XX está se perdendo por inexistência de registros e por o desaparecimento das fontes que guardam nos corações e mentes o passado que viveram.
Em uma conversa com a jornalista, cineasta e ex-professora da Ufes Glecy Coutinho, ela alertava-me sobre a necessidade de se registrar essa memória.
Mas não bastam boas idéias e disposição para fazer -- um projeto não se realiza sem recursos.
A o governador Paulo Hartung e ao então superintendente de Comunicação do Governo do Estado do Espírito Santo, Tião Barbosa, não faltou sensibilidade para a importância da iniciativa -- a Imprensa Oficial se responsabilizou por a impressão do livro, que é distribuído gratuitamente a escolas, bibliotecas públicas, núcleos de pesquisa e veículos de comunicação.
Durante as aulas, metade do tempo é dedicado à discussão da comunicação, do capitalismo e do mercado de trabalho contemporâneos.
Em o segundo tempo, dedicamo-nos ao planejamento e à execução dos livros.
Os escritores são agrupados em duplas ou trios, que assinam os capítulos elaborados segundo pauta decidida coletivamente, mas com plena autonomia discursiva.
E aqui cabe uma abordagem acerca da importância da memória.
O passado pode ser observado e narrado de diferenciadas formas.
Um fato concreto pode suscitar, pois, diversas memórias.
Depende de como foi registrado no tempo próximo de seu acontecimento e, principalmente, do tempo de quem o relembra, de quem o relê e o reconta.
Memória não é passado, é leitura presente do que passou com vistas a um futuro desejado.
E por que a memória é importante?
Importa por o fato de ela ser a principal referência para a constituição de nossa identidade.
Entendendo-se identidade como o autoconhecimento e a diferenciação em relação ao outro, a memória é o que nos dá elementos para nos conhecermos e demarcarmos nossas peculiaridades no mundo.
A comunicação capixaba, como de resto o Estado do Espírito Santo, carece de memória.
Sem sabermos o que fomos, sem conhecermos nossa caminhada, falta-nos algo essencial na construção de um futuro melhor e com maior autonomia social, cultural, política e econômica:
falta-nos** uma identidade concreta e objetiva.
E identidade é memória em ato.
O passado sempre teve um futuro.
E o futuro não prescinde do passado.
Somos aquilo que lembramos, mas também o que esquecemos.
Memória é consciência e inconsciência;
similaridade e diferença;
lembrança e esquecimento;
busca, invenção e reinvenção;
crença. E como exercício, memória não é algo que se completa ou termina;
permanece. Como a vida, e sendo elemento primordial da Humanidade, é algo sempre incompleto.
Obra coletiva, é projeto que se faz e refaz ao longo das existências.
É pegada e caminho;
sonho e horizonte.
José Antonio Martinuzzo
Professor organizador e editor do Projeto CoCa
Biblioteca Virtual do Projeto Coca O site do Projeto CoCa foi criado para atender a uma dupla finalidade.
A primeira, disponibilizar os livros do projeto a um número maior de pessoas, visto que a tiragem dos volumes é reduzida e a aquisição restrita ao dia do lançamento.
Com os livros digitais (e-books), não só os capixabas, mas pessoas de todo mundo poderão ter acesso irrestrito a esse benefício.
A outra finalidade é demonstrar o potencial das bibliotecas virtuais como uma possibilidade viável e barata de difundir livros e conhecimento.
Acompanhando uma tendência mundial, desejamos abrir as discussões acerca do tema na Universidade Federal do Espírito Santo, aliando debates sobre a nova mídia, formas alternativas de apropriação dos bens culturais e ações práticas.
Para demonstrar o processo adotado em todo o mundo para digitalização de livros, os arquivos aqui disponíveis foram totalmente produzidos a partir de originais impressos, com a ajuda de um escaner e um programa de reconhecimento ótico de caracteres (OCR).
Através desse método, outras universidades do país, como a USP, já mantêm suas bibliotecas virtuais há alguns anos e no exterior a prática já é conhecida de longa data.
As vantagens são indiscutíveis.
O custo de aquisição de um livro digital é zero, seu potencial de propagação é enorme, eles são imunes à ação do tempo e não dependem de enormes áreas físicas.
Todos os livros do CoCa estão disponíveis no Balcão de Cultura do Overmundo, assim como no site do projeto:
www.comunicacaocapixaba.com.br Livros já Lançados:
-- Rádio Club Espírito Santo -- Memórias da Voz de Canaã;
-- Balzaquiano -- Trinta anos do Curso de Comunicação Social da Ufes;
-- Diário Capixaba -- 115 anos da Imprensa Oficial do Estado do Espírito Santo;
-- Impressões Capixabas -- 165 anos de jornalismo no Espírito Santo.
-- Roda VT!--
A Televisão Capixaba em Panorâmica --
Comunicação Organizacional -- Um Século de História no Mundo e 50 anos no Espírito Santo
Número de frases: 61
Marcus Vinicius Jacob Paiva " Idealizador do Coca On-line
«Quem produz e consome cultura, não importa o grau de instrução ou a sua posição na escala social (pode ser até analfabeto), participa da elite da nação».
Este pensamento foi emitido, com muita propriedade, por o poeta oeirense Fred Maia, Gerente da Secretaria de Articulação Institucional do Ministério da Cultura/MinC, na palestra que proferiu no dia 16 de novembro deste ano, à tarde, na Câmara Municipal de Oeiras, cumprindo a programação do evento.
O que nem o Fred Maia nem ninguém poderia imaginar, àquela altura, é que esta elite se demonstrasse tão grande e entusiástica, algumas horas depois, na noite de sexta-feira e, principalmente, na noite seguinte -- o inesquecível sábado -- 17 de novembro de 2007 -- do encerramento do Festival.
Em aquele dia, já nas primeiras horas da noite, antes mesmo do início das apresentações, era possível notar, que, a par dos «habitués» personagens dos eventos do Café Oeiras, muitas de pessoas pouco encontráveis naqueles arredores, principalmente mulheres, que se produziram para participar de uma festa (dá para imaginar o trabalho triplicado que tiveram os salões de beleza), gente para quem, estar ali, significava curtir acontecimento.
O que, no início da noite, como afirmei, era possível notar, revelou-se, poucas horas depois, mais ou menos no momento da chegada do governador Wellington Dias e de seu staff políticol, impossível ignorar:
agora, ás centenas, as pessoas se acotovelavam, transbordando o charmoso espaço urbanístico do Café Oeiras.
Diante da situação que se apresentava -- calor sufocante de mais de 40 graus num ambiente superlotado -- poderia parecer, à primeira vista, que seria sobremaneira penoso permanecer naquele lugar, mas, ao contrário disto, a atmosfera que se criou -- e que, diga-se de passagem, já tinha existido no dia anterior -- foi carregada de uma energia supinamente positiva, o que tornava o ambiente, apesar de tudo, agradabilíssimo.
Não foi apenas durante o belo show do Geraldo Azevedo, nem também, no apoteótico espetáculo do oeirense Vavá Ribeiro, não, o clima de euforia perspassou a noite como um todo.
A Dança dos Congos
O grande homenageado no IV FestCult, o grupo folclórico «Congos de Oeiras» apresentou-se na abertura, dia 14 e no fechamento do evento, que ocorreu no sábado, 17 de novembro deste ano, tendo sido, ambas as apresentações, muito elogiadas por o público presente.
A congada chegou ao Piauí no início da colonização do Estado, trazida por os negros que acompanhavam o primeiro governador da Província, João Pereira Caldas (1759).
É originária do Congo, país africano de onde vieram muitos escravos para o Brasil.
A dança é uma louvação a N. Sra. do Rosário e a São Benedito, santo negro a quem os escravos tinham grande devoção.
A tradição da dança e da devoção é preservada por o grupo constituído por moradores do bairro Rosário, de patente identidade comunitária.
O grupo passa por uma importante fase de elevada auto-estima, resultado das apresentações que fez, nos últimos três anos, em Olímpia-SP, conhecida como a Capital Nacional do Folclore, e em várias outras cidades paulistas.
Há, inclusive, boatos segundo os quais, o grupo teria sido escolhido para participar do desfile de abertura do Campeonato Mundial de Futebol, em 2010, na África do Sul, o que bem demonstra o estado de graça que reina entre seus integrantes.
Os reflexos de tudo isto são visíveis nas coreografias, cheias de leveza e dinamismo que tem marcado as últimas apresentações do grupo sendo que o belo espetáculo que fizeram no Festival de Cultura de Oeiras foi emoldurado por o clima arrebatado que envolveu-nos a todos e temperado com a emoção própria de quem está sendo homenageado.
Justíssima lembrança, aliás, é preciso que se diga!
Número de frases: 19
veja mais fotos do IV Festival de Cultura de Oeiras
Dirigia-me à parada de ônibus costumeira na Estrada da Cacuia, quando senti uma brutal vontade de mijar.
Fiquei apavorado.
Para quem não sabe, mijar na rua dá cana, e a polícia carioca está de olho nos mijões -- no último dia 9 prendeu três na Zona Sul e não é improvável que esteja em curso alguma ação na Ilha do Governador.
Antigamente era a maior moleza:
em caso extremo, a gente corria para trás de uma árvore providencial, fingia não perceber o ar de reprovação dos transeuntes, e estava tudo certo.
Era só não olhar muito para os lados ao guardar o boneco e seguir em frente, cabeça erguida, racionalizando o caso como um pecado venial.
Em isso as mulheres sempre levaram nítida desvantagem na hora do aperto, a menos que estivessem em grupos, voltando para casa depois de uma grande farra.
Em os meus tempos de biriteiro e mijão de rua fiz muita paredinha para essas companheiras de infortúnio.
Hoje são senhoras que regulam com mim em idade e têm verdadeiro pavor da minha memória de cronista.
Em a literatura temos em «Vidas secas», de Graciliano Ramos, a mijada antológica de sinha atrás da igreja, e não me consta que tivesse arrumado encrenca com o soldado amarelo.
Mas agora a ordem é prender os mijões, lavrar a ocorrência e levá-los à presença do juiz.
Por o que declarou um policial, serão fatalmente condenados a distribuir cestas básicas ou a prestar serviços comunitários.
Se querem saber, acho um exagero.
Mijar na rua não é caso de polícia, é caso de banheiro público bem-cuidado nos principais logradouros da cidade e de campanha nacional criativa, sem esculhambação moral.
Quanto a mim, aflito como estava, mijei num terreno baldio ali perto, sob o olhar solidário de um cão sem dono.
Número de frases: 16
Os primeiros cinco anos de estudo foram completados numa pequena escola pré-fabricado igual a mais de mil outras, antepassadas dos Centros Integrais de Educação Pública [CIEP's] do Rio de Janeiro, espalhadas por o Rio Grande do Sul e que abrigaram os filhos pobres do estado a partir da década de sessenta do século passado.
Os poucos recursos não impediram um convívio divertido e caloroso com colegas e professores, o início de amizades duradouras, boa nutrição e uma instrução suficiente para seguir adiante sem maiores percalços.
E o mais importante, provavelmente:
«O Velho e o Mar» emprestado por a professora regente da quinta série foi uma chegada apaixonante ao mundo da literatura.
Embora em 1972 o ensino fundamental tivesse dado nome à unificação dos antigos primário e ginásio, no ano seguinte, e por alguns mais, as escolas de Porto Alegre ainda estavam divididas e organizadas segundo aquelas divisões.
E assim, o Grupo Escolar Gabriela Mistral, que era uma escola primária, não podia mais ensinar seus alunos egressos da quinta série:
era preciso matricular-se em outra instituição.
Foi aí que começou a aventura daquele grupo de dezenas de crianças que saíam da escolinha de madeira.
Não havia vagas de sexta série nas escolas públicas das redondezas ...
As opções disponíveis oferecidas às famílias obrigariam meninos e meninas de onze para doze anos terem que tomar ônibus para ir e vir dos estudos diariamente.
Durante aquelas férias de verão surgiu uma solução contemporizadora:
o governo do estado «comprara» vagas numa escola privada gerida por freiras franciscanas:
o Ginásio São Francisco de Assis, ao qual se podia chegar caminhando apenas trezentos e cinqüenta metros ao longo da mesma avenida onde ficava para trás a velha escolinha.
O choque foi inevitável.
As freiras eram exigentes com uniforme e disciplina.
E aquelas crianças pobres, recém chegadas por «ajuda» do governo, tinham hábitos, carências e cores muito distintas daquelas que eram educadas há anos no prédio de três andares de alvenaria.
Para entendê-lo a gurizada teve até que aprender uma palavra nova:
clausura. Ela era o andar mais alto da construção e lá moravam as irmãs.
Ninguém, além de elas, podia ir até lá.
Em o Ginásio havia alunos que chegavam trazidos de automóvel por suas famílias.
Isso, por exemplo, era uma diferença extraordinária em relação à comunidade da antiga escola.
Para piorar as condições da adaptação o grupo novo foi dividido em dois turnos.
E no turno da manhã ficara apenas uma turma de novos alunos.
Esta era a que eu e meus amigos de sempre freqüentávamos.
Terminado o período de tolerância para início do uso dos uniformes, o primeiro golpe:
difícil encontrar uma calça de cor cinza-chumbo, aliás, uma cor que eu não conhecia, nas lojas barateiras da cidade.
A velha tia que morava com minha família, com esforço, encontrara algo similar àquele tom que o colégio prescrevera.
Mas no primeiro dia de exigência de uniforme, veio o choque brutal para um guri que nunca faltava às aulas:
a inspetora proibiu a entrada porque a calça era diferente do exigido e a caderneta de freqüência -- outra novidade enorme -- foi carimbada com a palavra «ausente» em vermelho.
Mas como a sabedoria popular garante que não há bem que nunca acabe e mal que sempre dure, as novidades foram se transformando em nova rotina, as diferenças em aproximação de crianças para brincar, os hábitos, carências e cores perdendo pouco a pouco a importância.
O melhor de tudo é que naquele mesmo ano ganhei meu primeiro apelido.
Fiquei radiante.
«Passarinho» era muito melhor que o meu vetusto nome de senhor, homenagem a um padre amigo da família, diferente demais dos Marcelos, Cláudios, Paulos Ricardos, etc. em moda à época.
Além disso havia a professora de Estudos Sociais.
Ela tinha dezoito anos e usava uma franja irresistível.
Todos nós queríamos, nas leituras em voz alta, ser «Kibernetes», o personagem dos quadrinhos que eram o recurso de narrativa utilizado por o livro de geografia.
Por outro lado, passei muitos anos sem saber, de fato, qual a importância histórica de Libero Badaró e Pedro Ivo e porque estudáramos esses personagens num livro tão difícil de compreender.
Só muitos anos mais tarde entendi porque nosso professor de educação física, que nos fazia correr por as ruas, preferia ao viço da professorinha, a exuberância da professora de língua portuguesa, aquela «coroa» de trinta anos ...
E eis que acontece a reviravolta.
Em o ano seguinte, a escola passa a ser integralmente pública e muda de nome.
A partir de 1974 tornamo-nos alunos do Escola Estadual São Francisco de Assis.
Até o uniforme mudou.
Um xadrez miúdo -- carijó -- nas calças e um laranja desmaiado nas camisas substituíram nossas vestimentas que, de qualquer maneira, já haviam ficado muito curtas mesmo.
A caderneta de freqüência foi abolida e ninguém deu muita bola porque raríssimas vezes faltávamos.
Chegávamos muito cedo na escola para ficarmos contando uns aos outros o episódio d «O Homem de Seis Milhões de Dólares» que todos haviam visto na noite anterior e houve a inesquecível reunião para ouvirmos juntos a redação -- era uma história de ficção científica -- do colega Tourão, que de tão boa, tinha sido escolhida para ser lida num programa da Rádio da Universidade.
Perdemos a beleza juvenil da professorinha e ganhamos uma professora de história que todos dias chegava na aula e nos dizia para fazer um resumo do capítulo do livro.
Ninguém agüentava mais aquilo.
Até que um dia ela entrou e disse:
-- Hoje quero que vocês façam uma sinopse do capítulo oito!
Como ninguém conhecia a palavra sinopse, nos mantivemos iludidos e animados até que alguém pediu uma explicação à professora e todos compreendemos que tínhamos que fazer a mesma tarefa chata que fazíamos há meses ...
Em estes anos havia um grupo de colegas de outras turmas que montavam espetáculos de teatro na escola fora dos horários de aulas.
Eram uma espécie de dramalhões novelescos e peripécias de capa e espada.
Todos íamos assistir.
Havia cenários e luzes que nos impressionavam.
Era uma organização autônoma de alunos.
É lógico que só criticávamos.
E, penso hoje, que à exceção da admirável capacidade de mobilização e desejo de criação, os espetáculos eram muito fracos mesmo.
Muitos de nós crescemos muito rápido e, na sétima série, aprendemos os fundamentos do basquete.
Foi o suficiente para obtermos um título de campeões entre escolas públicas da cidade.
A vontade de jogar todos os dias nos recreios, sem ter bola apropriada, nos fez, um dia, jogar -- excluídos os quiques, bem entendido -- com um grande limão de uma árvore da escola.
Arrancar frutas era terminantemente proibido.
E, no dia seguinte, lá estavam todas nossas dez mães na diretoria, sabendo o porquê de termos sido advertidos por indisciplina.
Mas entre todas as impressões da transição do ambiente público e laico para o religioso e privado e, um ano depois, de volta à condição original, talvez a mais simbólica tenha ocorrido durante uma aula de Artes.
Toda turma recebeu pincéis e tintas e, muito excitados, subimos à antiga clausura das freiras.
A professora nos determinou que pintássemos, em tema livre, todas as paredes e o forro rebaixado daquele lugar que nos era tão misterioso e inacessível havia pouco tempo.
Tempo que nos marcou, por certo, para sempre.
à frente, nos aguardava a inevitável separação do grupo causada por a necessidade de seguir rumo ao ensino médio em muitas escolas diferentes.
Número de frases: 67
A partir do que me acontece com a música vou falar um pouco de coisas gerais, do mundo, da vida.
De a arte contemporânea e das referências antropofágicas e autodidatas, talvez.
Quem sabe possa falar também sobre processo criativo, lúdico e espontâneo.
Talvez passe por ingênuo.
Em todo caso, o ponto é:
toco piano.
Coloco as mãos sobre as teclas, os pés nos pedais e aqueço o sangue nas veias.
A partir daí, fica fácil descobrir que não vou falar apenas de mim, já que sangue é o que corre nas veias de todos.
É estranho teorizar sobre o que não se vive.
Só se pode dizer algo relevante ao conhecer por dentro.
A linha de corte é um caldo subjetivo enriquecido.
E desamedrontamento interno.
Muitas coisas não são feitas porque o descrédito condiciona a ver como miragem qualquer ato que não passe por os caminhos ortodoxos.
Isso me dá no saco.
E um pouco de asco também.
É como se um mascarado incógnito proibisse dança leve porque teme dar a cara a tapa e amolecer o quadril.
Não sei, não sei ...
Um fluxo de consciência às vezes é melhor que a arquitetura sóbria de casarões antigos.
Papéis de parede floridos ficam ainda aquém do jardim ali fora.
Ou dentro do estômago.
Gosto do jogo:
âmago mago.
Amassar o pão.
O primeiro nunca sai ideal.
Cru por dentro e cascudo por fora, sem sal, muito salgado, adocicado, duro de roer.
Depois de algumas fornadas, tudo melhora.
Se encontra a medida certa sem tanto esforço.
Sem nenhum esforço, até.
E é mais ou menos essa a evolução auto-didata possível em qualquer âmbito da vida.
Toicinho Batera (o baterista Lourival Galiani), ao falar sobre o documentário no qual é retratado, Sistema de Animação, disse:
«Acho que o pessoal vai gostar do filme, porque a gente tá no tempo do ' qualquer coisa ', então qualquer coisa serve».
Talvez seja o jeito de ele de definir a pós-modernidade.
Em matéria de música, o Toicinho é mais comportado e estudou muita teoria, sabe o que faz conscientemente quando toca jazz com músicos que lêem partitura.
É um contraponto interessante à minha vivência sonora.
Sem dúvida tudo o que já ouvi me fez a cabeça -- e passei cinco anos dedicando a maior parte dos meus dias a ouvir música-(Hermeto Pascoal, Tom Zé, achados imperdíveis no Overmundo, grupos novos no myspace, last.
fm etc., Keith Jarret, Orquestra Popular de Câmara, Itiberê Orquestra Família, Erik Satie, Bach, Naná Vasconcelos, Phillip Glass, Ravi Shankar, batucadas, sambas, choros, coros, Beatles, Stones, Pink Floyd, Syd Barret, John Coltrane, Moacir Santos, Tom Jobim, Chico, Nação Zumbi, cocos, maracatus, jongos, mambos, Novos Baianos, fulanos e sicranos, além dos beltranos).
Tudo isso formatou minha percepção musical.
A citação desses nomes todos não é, nem de longe, atribuindo reflexos sonoros das influências no som que faço.
Todos eles são peixes grandes, e eu alevino miúdo nadando contra a corrente (ou numa corrente atípica).
Por o que ouvi até agora, minha música se parece em alguma medida ao dodecafonismo e à música serial, sucessora do primeiro.
O engraçado é que nunca tinha ouvido essas coisas antes de alguém apontar semelhança.
Além do que os caras chegavam a algum ponto sempre tendo em mente a representação gráfica do que faziam sonoramente.
Ou vice-versa.
A música erudita em geral é muito apegada aos cânones formais.
A o registro em pauta.
Isso rende obras lindas, ninguém duvida, mas ao mesmo tempo engessa possibilidades do som.
Já me falaram também de John Cage, e dos quase cinco minutos de silêncio que geraram fama.
Mas ele também não é nenhuma referência pra mim.
Gosto do Uakti, por exemplo, e do cara que estava antes de eles lá, o Smetak.
Mas ainda em eles também não me reconheço.
O Hermeto é foda (disse num show ao qual assisti: «Todo mundo é músico», além de ter um disco chamado Só Não Toca Quem Não Quer).
Foi uma paixão visceral ao longo de alguns anos.
Já vi chama de vela dançar em ambiente sem vento com a música de ele.
Tem aliás um disco muito bonito chamado Piano Solo -- Por diferentes caminhos.
Lançado por a extinta Som da Gente.
Montanha-russa ...
Loop.
Rebobinar a fita.
Toco piano.
Toquei piano algumas vezes.
A primeira não faz mais que dois meses.
É uma viagem ao centro de si mesmo o processo de deixar sair a mistura que viraram as coisas que entraram por um ouvido, fizeram a volta no cérebro, liberaram neurotransmissores, passearam até as extremidades, deixaram impressão nas células e saíram por o outro.
Sem se cobrar perfeição é possível fazer uma gravação amadora, tocar sem juízo mesmo e ver no que dá.
Comecei com Piano livre
e fui ...
PianObrer
e Depois da faxina.
Posto nesta colaboração a última criação sonora que fiz, ainda antes da viagem ao Rio, motivado por coisas que aconteceram à minha volta:
um amigo que se envolveu num acidente e uma amiga que teve um problema de saúde.
Relativizei meus problemas complicados e caiu a ficha de que a vida é uma coisa séria (no sentido de real).
O título que dei à música é A complexidade da vida (parte 1 e parte 2), mas poderia ser também com crase, uma ode, à complexidade da vida.
à diversidade de caminhos e à descoberta da capacidade de fazer arte no meio de algum ponto periférico da confusão que o mundo é.
Número de frases: 72
Tendo como tema «Etnologia da Solidão», o fotógrafo Marcelo Reis expõe seu trabalho fotográfico, realizado na cidade de São Paulo entre os anos de 2002 a 2005, na Caixa Econômica Federal.
A mostra que teve início no dia 24 de agosto, ficará aberta ao até 30 de setembro.
As fotografias em preto e branco, 80x70, retratam de maneira singular elementos gráficos encontrados na grande capital paulista.
O evento compõe o Festival Nacional de Fotografia, A Gosto da Photographia ano II, promovido por a Cada da Photographia.
De acordo com Marcelo Reis, suas fotografias não tiveram como ponto de partida o tema atual da exposição.
Inicialmente a sua busca era de documentar a sensação que se tem diante de uma grande metrópole.
O trabalho surgiu através de uma oficina em que o fotógrafo trabalhou com ex-moradores de rua, onde ele passou a perceber uma espécie de cidade invisível, a partir do olhar de eles:
«A idéia da exposição é justamente unir essa sensação que esses indivíduos tiveram da cidade de São Paulo com a minha sensação, então a idéia da solidão traz um pouco da nossa condição de pessoa na grande cidade,», disse Reis.
São várias as impressões causadas diante das imagens capturadas por Marcelo Reis.
O fotógrafo Edgar Oliva diz que as fotografias o remete a uma situação construtivista, através dos planos bem direcionados existentes no trabalho do fotógrafo:
«Além de uma situação bem orgânica, ele faz um contraste entre o inorgânico e o orgânico, mesmo quando ele explora as formas puramente inorgânicas, então tem uma visibilidade muito forte, uma denotação muito forte do orgânico no trabalho do Marcelo.
É como se a vida pulsasse dentro do concreto.
Ele passa isso para a gente», disse Oliva.
Além das fotografias, quem visitar a exposição verá o texto da antropóloga Marinilda Lima sobre o ensaio fotográfico de Marcelo Reis.
Segundo Marinilda, o texto foi pensado a partir do processo de construção das fotografias, e o fato de conhecer a capital facilitou a sua elaboração:
«A partir do momento em que Marcelo me falou da experiência de estar fotografando São Paulo, e quando eu vi as fotografias eu pensei muito na pós-modernidade, na construção das megalópoles e, principalmente, na fragmentação, tanto temporal quanto espacial do homem, e é isso o que ele traz, assim, de maneira fantástica, essa procura incessante.
Essa fuga incessante, a solidão, o arranha céu que achata a figura humana, e é isso o que Marcelo traz nas fotografias».
Para Edgar, o texto de Marinilda consegue traduzir através de palavras a mensagem que Marcelo Reis procurou expressar através das imagens.
O grafiteiro Dennis Sena diz que a leitura da antropóloga diante das fotografias de Marcelo Reis se encaixa perfeitamente com sua obra.
Número de frases: 19
Santa Catarina, eu repito, não é um estado de espírito.
Preciso provar?
Pois bem, então o faço através deste relato a respeito do I Encontro de Literatura e Artes e do III Fórum Brasileiro de Literatura de Blumenau, acontecido no passado mês de agosto.
Idealizado por as professoras Tuca Ribeiro e Marilene Schramm, o evento foi acolhido por a FURB -- Universidade Regional de Blumenau, por a Fundação Fritz Müller e por a Fundação Cultural de Blumenau, com o apoio da SEB -- Sociedade Escritores de Blumenau.
Ficção, Leitura E Identidade
Foi com este tema que o escritor Godofredo de Oliveira Neto, blumenauense radicado no Rio de Janeiro, começou o evento.
Godofredo, um dos maiores autores paridos por este estado e, atualmente, um dos maiores nomes da literatura brasileira, teve uma fala rica em reflexões a respeito da identidade do escritor e do leitor.
Autor de romances importantes na bibliografia nacional, como Pedaço de Santo e O Menino Oculto, Godofredo saiu aos 17 anos de Blumenau.
Foi para a França, voltou, e já vive há bastante tempo no Rio.
Mas o que isso teria a ver, afinal, com a sua escrita e a relação desta com o solo blumenauense?
Talvez sejam necessárias raízes para se escrever e talvez essas raízes tenham importância desigual na composição literária.
Nada melhor para provar que, de fato, a relação do escritor com suas origens influenciam o seu texto.
Para quem já o leu, é clara o contato que Godofredo mantém com terras catarinenses.
E imagino que O Bruxo do Contestado, o primeiro romance famoso do autor, exemplifique o que tento dizer.
E O Diabo?
Boa pergunta.
Muito boa mesmo!
Pois que ele, o Diabo, talvez nunca tenha sido tão estudado e respeitado antes.
É que a Profa..
Dra. Salma Ferraz, da UFSC -- Universidade Federal de Santa Catarina, grande estudiosa literária influenciada e protagonista em terras brasileiras da Teopoética (estudos comparados de literatura e teologia) veio nos falar sobre As Malasartes do Diabo na Literatura Ocidental.
Salma fez um panorama, portanto, comparando os estudos literários que remetem ao Santíssimo (falo de Deus), mas que dificilmente remetem ao tinhoso.
Explanando, portanto, a Bíblia, a Torá e o Corão, partindo daí para análises de teólogos a respeito da figura do Diabo, utilizando-se também de algumas súmulas católicas e finalmente retomando análises literárias, Salma nos mostra que o Diabo, afinal, não somente é parte importante e necessária da fé ocidental, como uma grande figura merecedora de análise.
A o final de sua fala (uma hora e meia sem respirar -- fala substancial, sem dúvida), Salma lançou seu novo livro de ficção.
Depois de O Ateu Ambulante, livro recheado de contos premiados e, por assim dizer, questionadores, Salma lança um livro mórbido.
A Ceia dos Mortos não poderia falar sobre outra coisa se não sobre morte.
O que se lê, adianto, são variações sobre o mesmo inevitável tema.
E variações variadas, contundentes, merecedoras de leitura.
Tem Lugar para a Poesia?
Tem sim, leitor.
Em a terceira noite do evento, aconteceu a mesa-redonda Poesia Blumenauense:
De Onde Viemos, Para Onde Vamos, onde tive o prazer de compartilhar a fala com grandes autores, merecedores de leitura e atenção.
Ali estavam, portanto, o Prof. Dr. José Endoença Martins, o Ms..
Marcelo Steil, o poeta Mauro Galvão e este que vos escreve, Marcelo Labes.
Falando sobre a poesia produzida em Blumenau desde o século XIX, quando ainda era escrita em língua alemã, Marcelo Steil construiu sua fala sobre as noções marxistas de ideologia os respectivos reflexos desta na criação literária.
Em seguida, rompendo estruturas, o professor José Endoença Martins referiu-se não somente à teoria de sua autoria sobre a poesia blumenauense, como foi além, reconstruindo sua carreira poética e acadêmica, chegando à pós-modernidade e explicando, por exemplo, estudos seus sobre negrice, negritude e negritice.
Em seguida, Mauro Galvão contemplou a pós-modernidade presente em seu texto, mas principalmente refletiu a necessidade de se ler, seja lá o que for, incluindo aí a quebra de limites imposta por a internet e seus possíveis reflexos na leitura do objeto-livro e nos hábitos de leitura e escrita da contemporaneidade.
Finalizando, foi a minha vez de falar e não podia perder a oportunidade de explicar às pessoas que nos ouviam que, baseado no que tinha ouvido nos dois dias anteriores, a leitura dos poetas que me acompanhavam na mesa-redonda não era somente necessária, mas obrigatória.
Não porque eles precisem vender livros, mas porque precisamos de leitores críticos.
De essa forma, uma vez que tratamos de literatura blumenauense, imagino que seja um caminho interessante iniciar a crítica a partir de nossa realidade.
Um Evento Que Ainda Promete
A professora Tuca Ribeiro não escondeu suas intenções.
«Queremos iniciar aqui uma nova Jornada Literária, uma nova FLIP».
De fato, o primeiro passo foi bem dado.
Discutindo leitura, identidade, ficção, o diabo na literatura ou os caminhos da poesia escrita em Blumenau, imagino que possamos ter participado de algo maior.
A partir do momento em que o pontapé inicial foi dado, resta-nos esperar por o ano que vem para sabermos o que de fato acontecerá.
De qualquer forma, o que ficou claro durante este evento é que não há somente pessoas interessadas em discutir literatura, conforme as pessoas presentes que falaram a respeito de seus e outros textos.
Sobretudo, e digo isso baseado nos presentes, há pessoas interessadas em ouvir o que se tem a dizer a respeito do texto literário.
De essa forma, o que se pode esperar é que a semente germine.
Germine e dê frutos e se torne uma grande árvore.
Árvore de textos ou qualquer coisa assim.
Número de frases: 50
Pra simplificar, Rádio Livre é uma rádio que não tem autorização para funcionar, mas funciona.
Não tem padrinho, não é pirata e não é comercial.
É obra de quem não concorda com a mídia do jeito que está e resolveu botar a mão na massa.
Mesmo com a Lei 9612/98 de Radiodifusão Comunitária, não se consegue no Brasil, dar voz às minorias, ou seriam maiorias ...,
enfim, só tem lugar num veículo de comunicação quem tem poder para influenciar governantes.
mais de 4400 pedidos de concessão de rádios comunitárias estão encalhados no Ministério das Comunicações.
Enquanto isso, a repressão exercida por a ANATEL, invade as rádios sem concessão, toma os equipamentos e, em muitas vezes, acompanhada de policiais, usa de violência.
A Lei É Cega
Existe uma lei, criada em 1998, que se propõe a regulamentar as atividades de rádios comunitárias no Brasil.
Apresentando antes restrições que facilidades, ela permite a existência dessas rádios, desde que com alcance de no máximo 25 watts, e só podendo ser uma rádio por comunidade.
Em outras palavras essa lei dificulta, restringe, tudo o que não deveria fazer.
Ser uma Rádio livre é justamente não aceitar essas condições.
O artigo 223 da Constituição assegura a existência de três eixos complementares na mídia:
o estatal, o privado e o público.
Mas na prática só os dois primeiros se concretizam.
O Mito do Espectro
A idéia de que o espectro é pequeno e não comporta um número ilimitado de rádios e de que um transmissor pode derrubar um avião, por causa da interferência nas freqüências nas transmissões dos aeroportos, é um mito que a grande mídia criou.
Logicamente o espectro é limitado, e é possível que interferências possam derrubar aviões, mas a freqüência usada por aeronaves é superior à freqüência usada por as emissores de rádio.
Além disso, não existe sequer um caso registrado no planeta de algum acidente relacionando rádios livres e quedas de aviões.
Enfim, vamos libertar as rádios livres.
Número de frases: 20
Se você navega por sites gringos, com o olho condicionado, encontra reportagens de altíssima qualidade.
Isso é resultado da explosão do jornalismo digital nos últimos dois anos.
Texto, áudio, vídeo, foto, mashups, mapas reunidos por criativos jornalistas resultam em histórias contadas de um jeito que jamais se viu.
Alguns chamam de multimídia.
Eu gosto da expressão hipermídia.
Em o Brasil, esse processo é mais lento.
Pouca gente, até agora e infelizmente, apostou em boas reportagens digitais.
Há apenas um centro de excelência, montado no Jornal do Comércio em Recife.
Quando estive na direção da Agência Brasil, tentei construir algo.
às vezes, surge coisa interessante no G1.
São exceções.
A regra é produzir com pouco orçamento materiais quase amadores.
De aí o pioneirismo da Garapa, produtora de jornalismo multimídia montada por Paulo Fehlauer, Leo Caobelli e Rodrigo Marcondes.
São poucos os trabalhos disponíveis no site do coletivo.
Mas esse pouco já permite dizer que estamos diante de grandes contadores de histórias.
Em especial, destaco o trabalho de Caobelli sobre a cobertura do caso Isabella por a imprensa.
A inspiração da Garapa é o MediaStorm, de Brian Storm, ex-diretor da MSNBC que resolveu apostar seus dotes e dólares na construção de uma produtora digital para a rede.
O MediaStorm tem trabalhos publicado por veículos da grande mídia americana, entre os quais a própria MSNBC, o Washington Post e o Los Angeles Times.
É impossível não se emocionar com trabalhos como o Blodlines, finalista do Emmy, ou o sensacional Kingsley Crossing, vencedor do Emmy.
Em a época do vídeo fácil, do You Tube, o MediaStorm tem apostado em trabalhos de altíssima qualidade, baixo orçamento e muita criatividade.
E tem contribuído para ampliar os horizontes de quem trabalha contando histórias no mundo digital.
Fehlauer, Caobelli e Marcondes resolveram entrar nessa briga.
Por enquanto, estão fazendo na raça.
Logo logo, espero, alguém vai sacar e vai bancar para eles condições de seguirem aperfeiçoando essa linguagem.
Leiam, abaixo, uma entrevista que fiz com eles por e-mail.
As respostas foram enviadas por o Fehlauer.
Leia mais também no Blog em Busca da Palavra Justa.
Quando a Garapa foi fundada, por quem e qual a idéia de vocês com isso?
Acho que ainda estamos nesse processo, descobrindo uma linguagem.
A Garapa foi meio que gerada, espremida mesmo, quase como uma vontade coletiva dos 3 sócios, que colidiu num momento muito oportuno.
Voltei de Nova York com muita vontade de explorar esses novos caminhos do jornalismo, tendo participado um pouco desse debate por lá.
Chego ao Brasil e encontro o Leo, que trouxe o Rodrigo de Londres pensando em fazer algo na mesma linha.
Somos 3 " garapeiros ":
Leo Caobelli, Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes, três jornalistas-fotógrafos indignados com a mesmice do nosso jornalismo.
Falem um pouco das influências.
Dá para perceber que Brian Storm e seu MediaStorm são referências de vocês.
Quem mais?
A MediaStorm é definitivamente uma inspiração.
Por o que sabemos, é a única empresa dedicada à produção desse tipo de conteúdo.
É incrível que eles consigam fornecer ao mercado editorial peças com mais de 10 minutos de duração, um tempo relativamente longo para a internet.
As agências VII Photo e Magnum têm trabalhos belíssimos, mais ligados à tradição fotográfica.
Acho que também somos influenciados por uma tradição de documentaristas, fotógrafos e cineastas, e, por que não, romancistas, cronistas.
Em o fim das contas, queremos contar histórias, e estamos explorando os meios que nos parecem mais interessantes.
Vocês partem da fotografia para o exercício da narrativa hipermidiática.
Esse tem sido um caminho natural nos Estados Unidos.
O último Pulitzer premiou uma fotógrafa que fez um trabalho, fantástico, audiovisual.
É esse o caminho para os fotógrafos agora?
Não sei se para os fotógrafos de forma geral, tem muita gente que não quer saber disso, mas achamos que há um espaço a ser ocupado.
Em os Eua, há até uma certa pressão sobre os fotojornalistas.
Muitos são obrigados por os jornais a levar câmeras de vídeo e gravadores de áudio para a rua.
Por outro lado, ainda tem muita gente que não abre mão do filme.
Mas não há dúvida que a internet abriu muitos caminhos, e há uma geração de fotógrafos e jornalistas que quer explorá-los.
Há uma linguagem a ser desenvolvida, e um público a ser formado -- público esse, é bom lembrar, que se habituou rapidamente aos vídeos curtissimos do YouTube e congêneres.
Com a internet, os formatos se diluíram muito, fica difícil delimitar os conteúdos.
E, se os campos se cruzam, é natural que a fotografia se ligue a outros formatos.
As ferramentas são cada vez mais acessíveis, e o fluxo de informação cada vez maior.
Acho que a idéia é achar formas de expressão que se encaixem nesse fluxo, e acho que essa é a nossa busca.
Qual a sua avaliação do trabalho realizado por os veículos jornalísticos online?
Você acha que os grandes abrirão espaço para esse tipo de trabalho?
O mercado brasileiro é bem diferente do americano, bem menor, bem mais concentrado, tradicional, familiar, é até injusto comparar.
Por os contatos que tivemos recentemente, percebemos que essa abertura deve começar por os veículos essencialmente online, como os grandes portais.
A estrutura dos grandes conglomerados da mídia impressa ainda é arcaica, conservadora, pouco atenta às mudanças.
É impensável, por exemplo, uma integração de redações como as que têm passado os grandes jornais dos Estados Unidos.
Aqui, impresso é impresso, online é primo pobre, e a lógica nesse caso costuma ser a do máximo lucro com mínimo investimento.
Mas em algum momento essa abertura vai acontecer.
Grande parte do público desses veículos têm acesso a banda larga, e há um potencial de geração de receita com publicidade ainda pouco explorado.
Quando o primeiro grande veiculo investir, a concorrência vai ter que correr atrás.
Número de frases: 67
Acreditamos que, num momento não muito distante, a produção online vai se dissociar bastante do conteúdo impresso.
Cartola e Oscar Niemaier são dois ícones da cultura brasileira que recentemente tiveram suas biografias reverenciadas, cada uma a sua maneira, em bons documentários.
A disputa não é parelha e já começa por o apelido versus sobrenome.
Cartola -- Música para os Olhos não explica sequer a origem da alcunha de Agenor de Oliveira, criador da Escola de Samba da Mangueira, nascido em 1908, falecido em 1980.
Oscar Niemeyer -- A vida é um sopro, informa até que o mais longevo e notável de todos arquitetos vivos (completará um século em novembro) foi homenageado por a Escola de Samba Unidos de São Lucas no desfile de carnaval do Rio em 1989.
Melhor financiado, o documentário de Fabiano Maciel levou oito anos e várias viagens internacionais para ficar pronto e provavelmente seja o melhor já feito sobre Niemeyer, que foi entrevistado diferentes vezes naquele período.
Talvez isto tenha conferido ao filme um certo ar de autobiografia, pois mesmo que dezenas de personalidades tenham sido convidadas a depor (José Saramago, Eduardo Galeano, Eric Hobsbawn ...)
Niemeyer sempre teve a última palavra.
Possivelmente a única crítica possível, aquela pra cobrar perfeição mesmo, é que alguns argumentos críticos importantes não foram respondidos por o arquiteto e caberia ao entrevistador insistir.
É certo que a aura de um centenário intimida qualquer perguntador, imagina quando ele é genial (e não se brinca com esse adjetivo).
Mesmo quem conhece a fundo a biografia de Niemeyer (que só perde para a rainha Elisabeth como celebridade há mais tempo no topo, livrando décadas de Fidel Castro e Mick Jaeger) vai encontrar novidades.
Antes de comparar, é preciso diferenciar os graus de dificuldade.
A tarefa de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, que dividem roteiro e direção dos 85 minutos dedicados a um (materialmente) pobre sambista nascido e criado nas favelas do Rio, e ali falecido há mais de um quarto de século, era infinitamente mais difícil.
Não há elogio suficiente para a pesquisa de imagens feita por ambos.
As centenas de horas despendidas em diferentes arquivos nos trazem cenas absolutamente comoventes, como no reencontro em que um já envelhecido Cartola canta ao violão um samba para seu pai.
A o filme não falta reverência ao mestre e suas composições, que também são notáveis por a sofisticada simplicidade para quem escuta e suma complexidade para quem executa.
Chico Buarque que o diga.
Entretanto, falta flagrantemente aos realizadores um mínimo sentido de método.
Não sabemos nunca quem está sendo entrevistado, nem quando.
Não há uma linha de tempo para que o leigo possa agrupar mentalmente aquilo que o filme vai revelando.
Várias pequenas histórias são iniciadas sem que uma acabe para que a outra comece.
Raras são contadas até o fim.
Que doença atacou o nariz do sambista e por que diabos a operação em ele ficou incompleta?
As poucas histórias inteiras exigem memória e capacidade associativa de um bom detetive porque estão embaralhadas.
Li e ouvi eses dois realizadores dizerem que essa bagunça foi proposital, que refletia a conversa de boêmios, tal qual Cartola vivia.
Ora, essa desculpa é conhecida desde que a sala de aula foi inventada.
Justificar-se desta maneira ou aceitar uma justificativa destas é preguiça intelectual.
Sendo o carnaval do Rio um dos maiores espetáculos da terra, Cartola foi das figuras mais centrais na concepção atual deste que é talvez o mais internacional entre os patrimônios culturais do Brasil. (
Alguém aí apostaria na arquitetura?)
Que se elogie a iniciativa dos diretores em resgatar a memória de Cartola, mas que voltem à mesa de corte para remontar a história (e incluir intertítulos nas muitas vezes que falta qualidade ao som) para que esta cine-biografia esteja à altura do mestre.
Conteúdo pra que seja definitiva não falta.
Número de frases: 31
Pessoas com mais de 90 anos e com boa saúde, geralmente possuem hábitos de vida saudáveis (caso contrário já teriam ido descansar no cemitério).
Uma dessas pessoas é a freira franciscana brasileira Eva Michalak, de 94 anos, residente na cidade catarinense de Rodeio, no Vale do Itajaí.
Em o vídeo disponível no link abaixo [TV Cultura, Repórter Eco] pode-se notar 3 particularidades:
a vivacidade de movimentos da freira, seu cultivo de árvores frutíferas para uso no seu convento e sua prática particular de sempre ter os pés descalços em contato com o solo.
Este último hábito, na minha opinião, é o responsável por a excelente saúde desta senhora.
http://www.espacoecologiconoar.com.br/index.php?
option = com content & task = view & id = 1685 & Itemid = 46
Para quem não acha que minha opinião acima tem fundamento, relaciono abaixo mais alguns fatos vinculados a este tema:
1.
A pessoa que mais viveu no Brasil, desde Pedro Álvares Cabral, foi a mineira Maria do Carmo Jerônimo, que nunca usou calçados, e viveu 129 anos com ótima saúde.
2. O país do planeta Terra onde as pessoas vivem mais tempo, em média, é o Japão, onde todos andam descalços dentro de casa.
3.
Eu tenho uma tia [mora em Araraquara-SP] que sofre de um mal crônico nas pernas, chamado de erisipela [inchaço, inflamação e dores nas pernas].
Quando ele vai à praia, esses sintomas somem após 3 dias de ela andar descalça nas areias úmidas da praia.
Tudo isso são coincidências?
Pode ter certeza que não é!
É muito comum as pessoas colocarem os pés descalços no chão apenas alguns minutos por dia, na hora do banho de chuveiro.
à noite, os pés descalços ficam sem contato com o solo.
Uma vez eu li que as pessoas deveriam funcionar como pára-raios (ou árvores) ambulantes, para aterrar as energias do céu (presentes no ar ambiental) na terra.
Para fazer esse aterramento de forma eficiente, devemos evitar colocar um isolante (calçado) entre a sola de nossos pés e o solo (portanto, ficar descalços).
Que ocorreria a uma árvore se isolássemos suas raízes do solo (da Mãe Terra)?
A mesma coisa ocorre com nós, só que demora mais tempo ...
Afinal, qual é a sua desculpa para não colocar os pés no chão na sua casa?
Abraço, Rui.
Mais informações:
Número de frases: 25
http://saudeperfeitarfs.blogspot.com Fizemos, jornalistas escritores de Porto Alegre, uns poucos ainda, de uma listagem de mais de centena de pesquisa concluída por Luiz Antônio Pinheiro, a primeira sessão do que pretendemos seja mensal encontro literário.
Ocorreu em 13 de setembro e já durou todo o tempo das duas horas previstas para os encontros regulares e mais um tantinho, que a conversa fluía gostosa, de atualidades, reminiscências e planos.
E o vinho, mesmo com um calor de 25 graus já encerrando o inverno, estava delicioso, servido por a casa que nos abrigou e abrigará por tempo indefinido para o futuro, o Sebo Livraria Nova Roma.
Ambiente agradável ao encontro ameno, Nova Roma é um mini-bar, uma biblioteca, uma livraria, um recanto de encontros literários.
Poetas gaúchos também se encontram ali, na antiga Rua da Ladeira, a General Câmara, no número 428, coração do Centro da capital do Rio Grande.
Não nos víamos há algum tempo, pelo menos juntos.
E reminiscências se impuseram às atualidades até que alguém perguntou por o nome que daríamos a nossa espontânea associação que pretende, além de conversar sobre a produção literária de cada um, saber de cada qual um pouco mais do porquê escrevemos, e até do para quê e quem, ou do como editamos nossos livros, que fazemos para aproximar leitores e como mantê-los próximos, uma vez conquistados?
A idéia generosa partiu do Pinheiro, que até levou o filho moço para fotografar o evento, e recebeu gentil atenção do André, da Nova Roma.
Ele próprio um dos melhores amigos dos livros, de autores e leitores (que podem saber do acervo do Sebo Nova Roma por o fone 51 3227-0797).
Um bom começo, em prosa solta, que promete chegar em breve a espaços literários outros, como a Feira do Livro de Porto Alegre, que já será em 26 de outubro, localizada a meia quadra da Nova Roma, agora também nossa sede, de jornalistas escritores de Porto Alegre.
É certo que também queremos chegar aos espaços literários existentes na imprensa local, mas essa é já uma conversa para um outro momento.
Por ora, procuramos um nome para a nossa nova cria.
O batismo será em breve, já no próximo encontro.
Depois do nome ...
o mundo!
Número de frases: 15
Localidade de São Domingos, no município de Arcoverde, sertão de Pernambuco:
Seu Né, o último remanescente do bando de cangaceiros liderado por Virgulino Lampião, recebe a visita de familiares que acabam de chegar do Recife.
Trazem com si o primeiro CD gravado por Tiné, seu neto-sobrinho -- um jovem de classe média educado na capital -- e ao soar a primeira faixa do disco, o já idoso Seu Né se levanta da cadeira, se põe a dançar e exclama:
«Isso é que é música!!"
Cerca de seis meses depois de lançado o CD, um produtor musical japonês, Makoto Kubota, em visita ao Brasil com a finalidade de conhecer mais a fundo o carnaval e a música produzidas em Pernambuco, se encanta com o disco e resolve incluir a faixa «Vento Corredor (composta por mim e por Tiné) na coletânea Nordeste Atômico, Vol. 1, lançada no Japão em 2005)».
Participam da coletânea 13 artistas pernambucanos e 01 paraibano.
Em 2006, a cantora argentina Florência Bernales, também em visita a Pernambuco para conhecer o carnaval e a produção musical do Estado, descobre o CD já citado e decide regravar a mesma «Vento Corredor» no seu próximo disco que será dedicado à interpretação e à recriação de canções latino-americanas, contemplando compositores consagrados como o venezuelano Simón Diaz e o brasileiro Elomar, mas também abrindo espaço para canções e músicos ainda desconhecidos para além do seu local de origem.
Que CD é esse?
Quem é esse Tiné?
Você tem razão em estar se questionando, afinal de contas o disco em questão, apesar de relativamente conhecido por o público da região metropolitana do Recife e da região de Arcoverde, é praticamente inédito no resto do país.
E é justamente esta a razão que me levou a escrever este texto:
tentar torná-lo um pouco mais acessível ao público brasileiro ...
e mundial.
...
Este disco nasceu de uma idéia inusitada, imaginada por Tiné, de estabelecer uma parceria entre os nossos ofícios de compositor e arranjador.
Partindo das melodias vocais e das letras criadas por ele, escolhi a instrumentação e compus as partes dos coros, das cordas, dos sopros e da percussão, definindo a estrutura formal das canções, de modo que os arranjos se tornassem quase que inseparáveis das composições.
Natural de Arcoverde, mas criado em Recife, Tiné manteve o vínculo afetivo com a sua cidade natal, podendo assim, assimilar a impressionante musicalidade do Samba de Coco Raízes de Arcoverde, e ao mesmo tempo se aventurar na multiplicidade de informações que a cena musical da capital permite absorver.
Tendo como referência fundamental a tradição musical do sertão (o samba de coco, o baião de viola) e outras formas musicais que lhe são familiares (o choro e o samba, por exemplo), procurei criar uma música que demonstrasse claramente essas influências, ao mesmo tempo em que abrisse caminhos e idéias originais, e até mesmo estranhas a essas tradições.
Um elemento importantíssimo nesse processo foi a técnica de contraponto.
Utilizada há séculos por compositores eruditos com extrema complexidade, pois consiste no emprego de duas ou mais melodias simultâneas ao invés do simples acompanhamento, mas também utilizadas em formas populares como o próprio choro, esta técnica possibilita um notável enriquecimento da textura musical e foi o principal método de composição empregado nos arranjos.
Mas tudo isto soaria falso se não ficasse clara a qualidade das composições e o talento dos músicos convidados, revelando amplo domínio e experiência no trato com as formas musicais abordadas aqui.
Assim tornou-se possível esse disco, trilhando o caminho da elaboração, sem prejuízo da fluência e da naturalidade tão vitais para a música brasileira.
Caçapa.
Recife, fevereiro de 2004.
Texto extraído do encarte do CD «Segura o Cordão» ...
Muitos ouvintes (inclusive alguns daqueles que admiram o disco) referem-se ao «Segura o Cordão» como sendo um disco de música regional, ou roots, como preferem outros.
Acredito que esta classificação, ou rótulo, carrega um tom um tanto pejorativo e reducionista que atrapalha um pouco a justa apreciação do seu valor (ou da sua falta de valor, decida você mesmo!)
como obra musical, e talvez até afaste um público em potencial (mesmo que este seja pequeno) em Pernambuco e no Brasil.
É claro que o disco demonstra uma inegável fidelidade ao espírito da tradição musical brasileira, e especialmente a do sertão nordestino;
mas também é fato que outros elementos e processos musicais foram fundamentais para o resultado final (fato este que não interfere necessariamente no seu valor artístico, é bom lembrar).
Ao lado da força rítmica do samba de coco e do baião, da sonoridade áspera das violas, do modalismo melódico e harmônico, encontra-se a técnica de composição nascida na Europa e que exige consciência e raciocínio no trato com o material musical (o contraponto);
encontra-se a idéia (disseminada por o rock dos anos 60) do ábum conceitual, na qual todas as partes, e até mesmo a ordem das faixas, influenciam no resultado final;
encontra-se a utilização de ferramentas digitais fundamentais para o processo de composição dos arranjos:
o software para editoração de partituras e a linguagem MIDI para criar as «plantas baixas» e as «maquetes» sonoras apresentadas aos músicos convidados antes das gravações.
E mais importante do que tudo isso:
como explicar a indentificação imediata de um japonês, de uma argentina e de um ex-cangaceiro ao entrarem em contato com o disco?
Será que isto é mesmo música regional?
...
Ficha Técnica
Segura o Cordão -- Tiné (2004)
01. Mané Bacurau (Tiné)
02. Vento Corredor (Tiné e Caçapa)
03. Grito, Relampo, Trovão (Nilton Jr.)
04. Lula Calixto (Tiné)
05. Festa no Coco (Assis Calixto e Geraldo Lima)
06. Sete Cachorro (Tiné)
07. O Pato (Neuza Teixeira e Jaime Silva)
08. Cobrinha (Tiné)
09. Lavandera (Tiné)
10. Cruzeiro Velho (Tiné)
11. Batalha (Tiné)
12. Um Vento Só (Tiné)
13. Almu'Addin (Hugo Linns)
14. Segura o Cordão (Tiné e Nilton Jr.)
Produção musical e arranjos:
Número de frases: 55
Caçapa " não li e não gostei."
Começo citando Oswald de Andrade;
a tradução metafórica desta afirmação é certamente o sonho (inalcançável?)
de alguns críticos de música (neste texto tratarei das exceções e ou será que ...
não sei), mas quem pode culpá-los por tais desejos (ocultos?)?
Quando um artista apresenta o seu primeiro trabalho, por força do (mal?)
hábito discorrem uma folha corrida de influências, alguns artistas (ingenuamente?)
caem na armadilha de tomar por elogio afirmações inexatas ou falsas e assim parecem ficar desde cedo reféns destas tais influências.
Vejo uma mesma crítica sendo copiada e tomada como voz corrente dos outros críticos, seguem as ondas que lhes vislumbram, e assim invés de ondas e grandes discussões em torno de um trabalho, vemos um lago, parado, morto, com mínimas movimentações:
os ventos públicos:
só.
No caso de artistas já conhecidos, com um grande número de discos lançados, penso que a confusão é maior.
Tiro com exemplo recente o lançamento do disco de Caetano Veloso, Cê.
Em a voz corrente e inerte da crítica, Caetano em 14 anos só lançou um disco que se valesse por o seu grande talento, o disco Circuladô, nem falo do Circuladô Vivo ...
Críticos não gostam de discos gravados ao vivo ...
Afora o novo disco, o único trabalho relevante de Caetano Veloso nestes últimos anos teria sido o disco Circuladô, mas como comparar Tropicália 2 com Noites do Norte ou com Livro.
Há quem goste de um de eles, de todos, de nenhum ...
O que não pode haver é preguiça ou desleixo no momento da criação de uma crítica musical, não digo que devamos esquecer os discos de outrora, mas temos o dever de tratar cada trabalho de forma única.
Os críticos formam uma vertente importante neste carrossel de acontecimentos que permeiam a música popular, eles valem mais do que pensam e menos do que imaginam.
Amo a velha decadência da crítica, espero participar da nova decadência da crítica musical, mas primeiro vou ver se me torno um músico ou poeta frustrado, depois disso me sentirei livre pra atuar, por enquanto mando este fragmentos de idéias, sonhando por cadência na decadência da proesia.
p. s.:
Tenho que admitir que tive bastante dificuldade em escrever este texto, ele me pareceu descambar para uma técnica dissertativa e para a responsabilidade na escrita, sou irresponsavelmente eu graças a eus.
Número de frases: 22
Há 50 anos morria, em seu apartamento de Copacabana, no Rio de Janeiro, o marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, que em meio século percorreu 40 mil quilômetros de terras do então temido, inóspito e desconhecido sertão da região oeste brasileira.
Em grande parte dessa jornada, iniciada em 1889, Rondon, descrito por o cientista Edgar Roquette-Pinto como «o ideal feito homem», construiu mais de seis mil quilômetros de linhas telegráficas.
Outra importante missão desse militar e engenheiro estava concluída:
ele colocava o gigante estado do Mato Grosso no mapa, ligando-o também a Goiás, Rio de Janeiro, Paulo e região sul, permitindo sua expansão econômica, e mostrava à então pouco amistosa Argentina que o Brasil estava pronto para repelir qualquer tentativa de crescimento, em nossa direção, de sua província de Misiones.
As linhas telegráficas, que os índios bororo e pareci chamavam de «língua de Mariano», seriam utilizadas por décadas, apesar de, ainda no início do século XX, o cientista italiano Guglielmo Marconi registrar a primeira patente do telégrafo sem fio e fazê-lo funcionar com êxito comercial.
Mas Cândido Rondon iria surpreender o mundo com muito mais:
ele aplicou em nome do Exército Brasileiro, e da própria nação, uma política humanitária no trato com os índios.
A política de hoje, de todos os países do mundo para suas minorias populacionais, continua baseada naquela que Rondon e seus colaboradores formularam em 1910, no Serviço de Proteção aos Índios (SPI).
E a chancela dessa política planetária é da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Descendente de índios bororo, guaná e terena, Cândido Mariano da Silva Rondon nasceu no Mato Grosso, em 5 de maio de 1865.
Órfão de pai e mãe ainda criança pequena, foi criado por um tio que o enviou ao Rio de Janeiro para os estudos militares e " ser alguém na vida."
Em 1889, aos 24 anos de idade, Rondon foi nomeado ajudante do então major Antonio Ernesto Gomes Carneiro na Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas, no Mato Grosso.
É com esse oficial (" o único chefe que eu tive ") que ele se definiu como uma das mais generosas figuras da Humanidade.
O militar narrou para a escritora Ester de Viveiros, sua biógrafa no livro " Rondon conta sua vida ":
Gomes Carneiro se revelou o grande conhecedor do problema indígena, o nobre defensor dos donos das terras que atravessávamos, nossos irmãos das selvas.
Proibiu, terminantemente, em cartazes que mandou afixar ao longo da linha telegráfica, que em eles se atirasse, ainda que fosse para os assustar:
«Quem dora em diante, tentar matar ou afugentar os índios de suas legítimas terras, terá de responder, por esse ato, perante a chefia da Comissão».
Rondon anotaria, mais tarde, em seu diário da selva que entre os anos de 1892 e 93, " fui, desde logo, estabelecendo o lema que nortearia todo o meu trabalho no sertão, em relação a nossos irmãos, os índios:
«morrer, se necessário for;
matar, nunca."
Quem se lembra, hoje, do marechal Cândido Mariano da Silva Rondon?
Poucos podem responder:
«sim, eu me lembro».
Sem cultura e com educação deficiente, o Brasil é um país sem memória.
Em 1957 a escritora Rachel de Queiroz já lamentava:
«que sabe o brasileiro em geral de Rondon?
Que era de origem índia e dedicou sua vida à reabilitação e à dignidade do silvícola.
Que hoje está velho e cego. ( ...)
Quem foi esse homem, como viveu nos anos que lhe preparam a grandeza?"
De os índios, Cândido Mariano da Silva Rondon recebeu o título de pagmejera (grande chefe).
Os caciques se tratavam por uma titulação menor:
chemejera. Quando surgia na mata ou num picadão recém-aberto, Rondon era saudado por os índios:
«Paqui-megera, aregodo / Boe-migera curireu!" (
«Nosso grande chefe chegou!
O grande chefe bororo!")
Como todo gênio humanista, Rondon era um homem simples, de bom trato, amigo das pessoas, sem qualquer distinção.
Em a hora da comida, em meio à selva densa, era o último a fazer a refeição: " ( ...)
o chefe fica com as sobras. ( ...)
A comida é, antes de tudo, para o soldado. ( ...)
Minha maior preocupação era manter alto o ânimo da turma."
Em seu fervor militar e positivista, fazia atos solenes em datas históricas.
Em o dia 7 de setembro mandava hastear a bandeira, tocava o hino nacional num gramofone e soltava fogos de artifício.
Os índios se aproximavam, ariscos e curiosos e logo entravam na festa.
O ex-presidente Theodore Rooosevelt, dos Estados Unidos, homem que expandiu o império por o mundo com a política do «big stick» (grande porrete), que dividiu a Colômbia e criou um novo um país, o Panamá, para a construção do canal entre os oceanos Pacífico e Atlântico, e que enfrentou grandes capitalistas saqueadores da economia do povo americano, respeitava Rondon reverentemente.
Tratava-o de " senhor coronel Rondon."
Em a expedição que fez com o chefe militar brasileiro, Theodore Roosevelt submeteu-se à liderança de ele.
Em os depoimentos à escritora Ester de Viveiros, Rondon contou com singeleza vários momentos de glória que viveu em meio ao sertão desconhecido.
Para um encontro, em 1909, onde estavam duzentos índios, num dia de sol forte e escaldante, em pleno sertão mato-grossense, ele vestiu «a túnica de gala azul-ferrete» (azul escuro, brilhante), de lã, com as insígnias de tenente-coronel do 5º Batalhão de Engenharia.
Rondon impressionou chefes e comandados, mostrando-se amigo e distribuindo presentes.
Certamente a imagem daquele pegmejera de pele azeitonada, como a de eles, ficou na lembrança de todos.
Quem fez a mais bela imagem de Rondon e de suas expedições científicas foi o jornalista e escritor Edilberto Coutinho, que o comparou a um príncipe da Renascença.
O príncipe saía às ruas de Florença, no Quatrocento (século XV), com seu séqüito de luminares:
pintores, escultores, poetas, alquimistas e escritores.
Rondon viajava por o sertão com seus expedicionários:
médicos, geólogos, antropólogos, geógrafos, botânicos, astrônomos e mais doutores, a nata de pesquisadores e cientistas brasileiros da época.
O príncipe se encantava com Michelangelo, Sandro Boticelli, Sanzio, Leonardo da Vinci.
Rondon via, ouvia e apoiava a ação de Roquette-Pinto (antropólogo), Eusébio de Oliveira, Francisco Moritz, Cícero de Campos (geólogos e mineralogistas), J.G. Kuhlmann, Adolfo Lutz, Alípio Miranda Ribeiro (zoólogos), Alfredo Coqniaux, H. Harns (botânicos).
Candido Mariano da Silva Rondon foi o único marechal do Exército em tempo de paz.
A patente só foi concedida a generais-de-quatro estrelas em tempos de guerra.
Em o final dos anos 50, um jovem oficial médico ia subir as escadarias do então Ministério da Guerra, perto da estação Central do Brasil, no Rio, quando notou que tudo parecia ter parado no tempo.
Militares de todas as patentes perfilavam-se em continência.
Civis mantinham-se em solene reverência.
Era o então marechal Cândido Mariano da Silva Rondon que se dirigia vagarosamente, amparado por uma filha, ao edifício.
Estava cego aos 90 anos de idade.
A cena, segundo o oficial, foi emocionante e inesquecível.
Edilberto Coutinho mostrou que os diários de Rondon registraram o apoio que as expedições científicas e de engenharia militar recebiam dos indígenas:
«esforcei-me para que a sociedade se interessasse de fato por a sorte desses irmãos primitivos, sem cujo auxílio não me teria sido possível levar a cabo as tarefas que me haviam sido confiadas por as autoridades da República."
Em meio às tremendas dificuldades da construção da linha (telegráfica), entre 1900 e 1906, Rondon teve oportunidade, várias vezes, de socorrer os índios, " refreando a insolência dos desalmados chefetes dos sertões."
Conseguiu salvar, em Ipegue e Cachoeirinhas, " os últimos pedaços de terras que os terenas e quiniquinaus ainda possuíam, de seus antigos e vastos domínios."
Rondon fez o levantamento daquelas terras e obteve, do governo do Pará, a garantia do reconhecimento da propriedade dos índios, com todas as formalidades legais.
O oficial escreveria em seu diário:
«o meio empregado para resolver questões ali na fronteira é o artigo 44, parágrafo 32!
44 é o calibre da Winchester (espingarda) e 32 o das pistolas de repetição."
«Súbito, senti no rosto um sopro e divisei algo, rápido e fugaz, como se fosse um pássaro que cruzasse o caminho, na altura dos meus olhos, bem perto de mim.
Em um movimento instintivo, meu olhar procurou segui-lo e o que vi não foi um passarinho, mas ( ...)
uma flecha com a ponta cravada no chão.
Errara o alvo! ( ...)
Embora muito rápido, o meu movimento não impediu que segunda flecha me viesse passar rente à nuca, roçando o capacete.
E vi, bem próximo, dois nhambiquaras possantes, peito largo, cabeça grande, rosto de maçãs salientes.
Firmes nas pernas, bustos inclinados quase horizontalmente, arcos retesados, estavam prestes a desferir novas flechadas.
Os olhos de ambos fitavam os meus, duros, penetrantes, implacáveis como as pontas de suas flechas silenciosas.
Dois tiros partiram da minha Remington (carabina), sem pontaria."
Assim Rondon descreveu o ataque que sofreu de índios nhambiquaras, que quase o matou.
«Sem pontaria», narrou ele.
Rondon errara de propósito.
Não abatera os atacantes.
Era um atirador excepcional.
Poupou-lha vida, acreditava em negociação amistosa.
Em os anos 40, época da Segunda Guerra Mundial, registrou-se uma discussão entre oficiais brasileiros e americanos, a respeito de seus líderes históricos.
Em a época os cinemas exibiam o filme «O intrépido general» Custer, com Errol Flynn, exaltando a figura daquele militar.
Para por fim à conversa, um brasileiro afirmou:
«vocês tiveram o (general) George Armstrong Custer, comandante do 7º Regimento de Cavalaria.
Nós temos o general Cândido Mariano da Silva Rondon, que comandou o 5º Batalhão de Engenharia."
Custer foi um sanguinário, ambicioso e medíocre chefe militar, predador de índios.
Foi morto ingloriamente na batalha de «Litttle big» (" Grande chifrinho ") por os siox.
Rondon, como narrou «Edilberto Coutinho,» terá sido, certamente, o único desbravador de terras selvagens, em qualquer época e lugar, a sair de sua empresa sem uma nódoa sequer de sangue no uniforme que tanto honrou."
Seu mais dileto e notável discípulo, o antropólogo Darcy Ribeiro, o chamou de santo-herói.
O jornalista e poeta Bastos Tigre descreveu sua liderança numa inspirada ode:
«Comandas.
E no olhar tens um tal magnetismo
E tanto em ti confia a grei que te acompanha
Que, às cegas, desceria ao mais profundo abismo,
Galgaria, ao teu mando, a mais alta montanha."
O mestre da poesia Carlos Drummond de Andrade lembrou:
«Ó Rondon, trazias com ti o sentimento da terra ( ...)
«Eras um dos nossos voltando à origem
e trazias na mão o fio que fala
e o foste estendendo até o maior segredo da mata."
Rondon aderiu, ainda na mocidade, às idéias de Benjamin Constant, considerado o «Fundador da República» e ao positivismo do filósofo Augusto Comte, fundamentado na «religião da humanidade» que influenciou gerações de brasileiros na passagem do século XIX ao século XX.
Com o positivismo, Rondon aprendeu a aplicar métodos de matemática e das ciências experimentais na apreensão das leis e princípios que regem o desenvolvimento da humanidade.
Sua visão do índio se tornou mais e mais clara com o passar do tempo.
Afinal, era um de eles.
Seu diário, nas selvas, registrava estas palavras:
«como positivista e membro da Igreja Positivista do Brasil estou convencido de que os nossos indígenas deverão incorporar-se ao Ocidente, sem que se tente forçá-los através do teologismo."
Augusto Comte o ensinou ainda:
«importa, mais do que a própria vida, o espírito com a que vivemos."
O já legendário coronel brasileiro fez, em 1913/14, uma difícil e histórica expedição científica à Amazônia, com o ex-presidente Theodore Roosevelt, dos Estados Unidos.
Eles cumpriram um percurso de três mil quilômetros, descobriram e percorreram um rio de 712 quilômetros, o rio da Dúvida, formado por os rios Castanha e Ariapuanã.
Em homenagem ao estadista americano, Rondon batizou o rio com o nome de Roosevelt.
A expedição levou, para o Museu de História Natural, de Nova York, uma coleção de 2.500 aves, 500 mamíferos, répteis, batráquios, peixes e insetos, muitos desconhecidos por a ciência.
Em o dia 20 de janeiro de 1958, o professor Darcy Ribeiro pronunciou emocionado discurso, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, diante do corpo do " marechal Cândido Mariano da Silva Rondon:
«quero falar de Rondon vivo, do seu legado de lutas e ideais que desde agora nos é entregue. ( ...)
Quero recordar aqui os quatro princípios de Rondon, aqueles que orientam a política indigenista brasileira desde 1910, mas constituem, ainda hoje, a mais alta formulação dos direitos de 60 milhões de indígenas de todo o mundo.
O primeiro princípio de Rondon, «morrer, se preciso for, matar nunca», foi formulado no começo deste século quando, devassando os sertões impenetrados de Mato Grosso ia de encontro às tribos mais aguerridas, com palavras e gestos de paz, negando-se a revidar seus ataques, por entender que ele e sua tropa eram os invasores e, como tal, se fariam criminosos se de sua ação resultasse a morte de um índio."
E seguiu Darcy Ribeiro em sua homenagem a Rondon:
«o segundo princípio é o do respeito às tribos indígenas como povos independentes que, apesar de sua rusticidade e por motivo de ela mesma, têm o direito de ser eles próprios, de viver suas vidas. ( ...)
O terceiro princípio de Rondon é o do garantir aos índios a posse das terras que habitam e são necessárias à sua sobrevivência. ( ...)
O quarto princípio de Rondon é assegurar aos índios a proteção direta do Estado, não como um ato de caridade ou de favor, mas como um direito que lhes assiste por sua incapacidade de competir com a sociedade dotada de tecnologia infinitamente superior que se instalou sobre seu território."
Darcy Ribeiro finalizou seu discurso: " ( ...)
sejam minhas últimas palavras um compromisso e um chamamento diante do corpo de Rondon.
Marechal da Paz. Marechal do Humanismo.
Protetor dos Índios.
Aqui estamos os que cremos que a obra da vossa vida é a mais alta expressão da dignidade do povo brasileiro».
«Agora dormes
Um dormir tão sereno que dormimos
Em as pregas de teu sono
Os que restam da glória velhos feiticeiros
Oleiros cantores bailarinos
Extáticos debruçam-se em teu ombro
ron don ron don
repouso de felinos toque lento
de sinos na cidade murmurando
Rondon Amigo e pai sorrindo na amplidão."
O lamento é de Carlos Drummond de Andrade em seu " Pranto geral dos índios."
Durante muito tempo, nas terras de Mato Grosso, remanescentes de povos bororo, terena, nhambiquara, urami, kepi-keri-uate, tacuatepe, parauate, ariqueme e tantos mais, sem seu Grande Pai, diziam ouvir o grito de despedida que ele tanto fez ecoar no imenso sertão do oeste:
«quiaregodo-augai!
Quiaregodo-augai!
Hu! Aerogodugue!" (
que saudade!
Que saudade!
Que saudade de vocês.
Sim! Não mais voltarei!")
Seria oportuno que os militares de hoje exibissem, para seus comandados, filmes e documentos sobre as expedições de Rondon, que narram histórias de homens que vão ao encontro do desconhecido, enfrentando toda sorte de perigos, com honra, lealdade e dignidade.
O tenente Vinícius, que ordenou a entrega de três jovens, no morro da Providência, no Rio de Janeiro, para serem martirizados por traficantes de drogas, alegando ter sido desacatado por um de eles, deveria antes se espelhar na figura de Cândido Mariano da Silva Rondon que, já oficial superior, foi destratado por um velho índio bêbado.
Impávido, o humanista Rondon reagiu ordenando que seus oficiais e soldados tratassem com zelo o pobre homem.
Número de frases: 155
Eloy Santos é jornalista
Prezados amigos, colegas e leitores,
Já se encontra no ar a edição número 5 de «História, imagem e narrativas» (ISSN 1808-9895 -- http://www.historiaimagem.com.br).
Comemoramos nossos dois anos de publicação com uma edição toda especial, com um número maior de artigos e com um encarte especial virtual sobre uma das mais importantes mídias conhecidas:
as histórias em quadrinhos.
O encarte especial vem com 11 artigos novos, links para artigos anteriores sobre HQ's e História e uma exclusividade:
duas HQ's publicadas no site.
Além do encarte, a edição tradicional traz mais 16 artigos e uma resenha, perfazendo um total de 28 matérias.
Estamos também com novidades na seção de painéis, com duas colaborações que falam de charges e caricaturas.
A revista começou em 2005 com um projeto que procurava viabilizar e propagar de forma eficiente os estudos históricos dentro de uma visão inter e transdisciplinar.
Com o tempo ela foi assumindo uma identidade mais flexível, mais condizente com a idéia de integrar a pesquisa em Ciências Humanas com estudos literários, artes e comunicação.
Em meio às edições anteriores os leitores hão de notar uma influência significativa de Edgar Morin na proposta, além de, é claro outros pensadores não menos importantes desta virada de milênio.
A primeira edição chegou com alguns trabalhos realizados por mestrandos, mormente do Rio de Janeiro (UFF e UFRJ) e trouxe várias opções de navegação, opções estas que se mantém até hoje.
Elas consistem na divulgação de eventos Brasil afora e do exterior em nossa agenda, na divulgação de painéis apresentados em eventos nacionais, nas dicas de livros relacionados ao escopo da publicação e em links variados.
Completando esse quadro, temos também um banco de imagens que recebe doações, visando favorecer os pesquisadores que têm dificuldade para acessar ou para arcar com os altos custos da pesquisa com imagens cujos direitos pertencem a grandes instituições e empresas.
A edição 2 seguiu de maneira relativamente próxima a edição 1, sendo que contava com um número maior de artigos e um conselho consultivo mais consistente.
Em ela também figuraram artigos de professores adjuntos de universidades federais e pós-doutorandos que avaliaram muito positivamente a proposta e contribuíram com um pouco de suas pesquisas.
Já a edição 3 cresceu exponencialmente.
De o número 1 ao número 3 tivemos artigos voltados aos quadrinhos juntamente com os demais ramos de pesquisa entre História, Literatura e Filosofia enfocando as artes.
O número 4 veio com o dossiê «Medo», que teve uma enorme visitação num momento como o atual em que se discute o problema do terrorismo, a violência, as desigualdades e tudo o mais que possa promover o temor nas sociedades através dos tempos.
Enfim, chegamos à edição atual.
Veja o sumário em Segue, abaixo, o editorial da presente edição:
A redescoberta dos quadrinhos em tempos de mídia planetária
por Carlos Hollanda
Entre as idéias mais criativas e inteligentes nas artes, na literatura e na comunicação contemporâneas podemos certamente destacar as histórias em quadrinhos.
Esta mídia, que vem desde o século XIX agregando leitores e consumidores, desde os analfabetos até os eruditos, passou por muitas mudanças promovidas por os avanços tecnológicos, especialmente os mais recentes, que permitem aos artistas e escritores uma agilidade sem precedentes em sua produção.
Uma agilidade que atualmente já não é mais tão dependente do poder econômico das grandes editoras ou das grandes distribuidoras, muito embora a hegemonia destas se mantenha em termos de mercado.
Contudo, com o advento da Internet e de iniciativas localizadas, regionais, de autores e editores independentes, além dos chamados «scans» (histórias em quadrinhos digitalizadas via scanner e disponibilizadas em sites de compartilhamento, com ou sem autorização), o público passou a ter um acesso nunca antes imaginado a esse divertimento e a essa expressão cultural que não pára de se desenvolver e estimular novos criadores ou pesquisadores na área.
Em seus primórdios as HQ's eram um entretenimento barato, acessível mesmo para aqueles que viveram a Grande Depressão dos anos 30, nos Eua e suas repercussões em outros países.
Hoje, as editoras redescobriram um mercado que só tende a crescer e investem em publicações para públicos diferenciados, sobretudo o adulto, que constitui uma significativa parcela do mercado e consome títulos de alto custo, em edições luxuosas, com capa dura e papel couché impresso em cores.
Isso, é claro, no Brasil, pois em países como Eua, França e Japão, por exemplo, o consumo de quadrinhos sempre foi muito grande, possuindo as HQ's, em muitos casos, status igual ou próximo às artes tradicionalmente consideradas nas galerias e nos círculos eruditos.
Nossa edição especial comemora 2 anos de muito trabalho e satisfação entre pesquisas e práticas ligadas à mídia e às Ciências Humanas.
Começamos, logo na primeira edição e no primeiro artigo, com os quadrinhos.
Em o momento histórico do primeiro lançamento estávamos em meio ao boom de várias expressões quadrinísticas motivadas, entre outros fatores, por a chegada dos novos filmes de super-heróis, assim como as demais produções cinematográficas relacionadas aos comics norte-americano.
Com isso, a linguagem dos quadrinhos e seus personagem vinham ganhando novo fôlego, fazendo com que a indústria aproveitasse o interesse gerado por o estímulo ao imaginário e derramasse diversos brinquedos, brindes, badulaques mil no mercado.
Hoje, não muito tempo depois, tal fenômeno difere bem pouco.
Os meios de comunicação vão-se tornando mais acessíveis, a informação deixa de ser privilégio de poucos, enquanto reiteram-se a cada momento os contornos de uma mídia planetária.
Que conseqüências isso poderá ter nos anos vindouros?
O que implica a absorção massiva de tantas informações?
O que elas levam e trazem e quais seus efeitos a médio e longo prazo?
Algumas das análises de nossos articulistas traçam um perfil do processo, enquanto outros preocupam-se em decodificar, por intermédio da semiótica e outras ferramentas conceituais, os elementos socioculturais transmitidos nos quadrinhos.
Para tornar claro o que definimos como «mídia planetária», eis um excerto do artigo» Estratégias de mídia no cenário global», de Denis de Moraes, na revista Contracampo no. 2:
Em o contexto de economia globalizada e de cultura mundializada que caracteriza o capitalismo tardio, as tecnologias propiciam ao campo da comunicação um dinamismo sem precedentes.
Elas tornam disponível, a camadas ponderáveis de audiência, um estoque inimaginável de dados e imagens, de opções de entretenimento e de simulacros.
Os aparatos de divulgação disponibilizam signos sociais que assumem significação mundial.
Não apenas marcas de produtos (Benetton, McDonald's, Levi's, Mitsubishi, Microsoft, Kodak, Panasonic, Visa, IBM, Nestlé, Phillips, Calvin Klein, Nike etc.), como também referências culturais (artistas, ídolos esportivos, estilistas, pensadores, programas de televisão, filmes, vídeos etc.) afirmam-se perante os consumidores, sem procedências nitidamente identificadas.
Tais signos prefiguram uma memória coletiva partilhada por pessoas dispersas nos rincões geográficos.
Não mais uma memória enraizada em tradições nacionais, regionais ou locais, mas traçada e reconhecível em estilos de vida universais.
Em torno de símbolos desterritorializados (o jeans, o tênis, o carro importado, a pizza express, a macarena, os drive-thrus, as excursões à Disneyworld) agregam-se grupos sociais de diferentes hemisférios, continentes, países, etnias, raças, crenças e idiomas (embora a supremacia do inglês o credencie como intercomunicante global).
O cidadão comum ufana-se de consumir produtos idênticos aos das lojas de Londres ou de Frankfurt, e a publicidade faz questão de amplificar o encantamento cosmopolita:
«It's a planet Reebok», «O mundo fala primeiro através da CNN», Descobrindo o mundo com o Discovery Channel».
Bastaria lembrar o culto transterritorial e multicultural aos astros da NBA norte-americano.
Aqui entendemos que os quadrinhos constituem uma parcela importante em todo esse processo, veiculando sistemas de crença, ideologias, modelos comportamentais, além, é claro, de produtos, marcas etc..
Mas, vale dizer, os quadrinhos não se resumem a super-heróis, humor, ou, melhor ainda, aos comics e aos mangás (" mangá «é» história em quadrinhos», em japonês).
Há um bem amplo espectro criativo na produção dos quadrinhos que, sim, veiculam ideologias, crenças e tudo o mais.
Porém, as nuances variam muito de país para país, de região para região, de cultura para cultura.
Em esta edição procuramos dar um dessa variedade ao leitor, suscitando, entre outras coisas, as análises de especialistas em quadrinhos estrangeiros e nacionais.
Além de nosso «Encarte Especial Virtual» sobre histórias em quadrinhos, trazemos outros 16 artigos da temática tradicional desta publicação e uma resenha.
Os assuntos trazem à baila os problemas climáticos, as questões identitárias nas regiões Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste do Brasil, análises sobre obras literárias, cinema, entre a História Antiga e Contempoânea.
Não poderiam faltar nesta nossa comemoração autores que lançam seus olhares para as fotografias, os mitos, bem como a memória de escravos, imigrantes e as heranças culturais e arquitetônicas.
Esperamos que o conteúdo aqui disponibilizado proporcione a você, leitor (a), uma ótima leitura e, quem sabe, algumas boas descobertas.
Uma vez que como editores, autores e leitores, somos co-participantes da construção desta revista, parabéns a nós todos por esses dois anos completados.
Carlos Hollanda
Mestre em História Comparada (PPGHC-UFRJ)
Prof. Assistente do Departamento de Teoria e História da Arte (Bah) da EBA-UFRJ
Número de frases: 65
26/09/2007 Acabei de assistir a versão pirata de «Tropa de Elite» inteirinha em 12 capítulos.
Assim como a primeira trepada, o primeiro baseado, a primeira bronha, o primeiro sutiã, etc, assistir pela primeira vez um longa brazuca inteirinho no you tube foi du caralho!
Digo de cara que o filme é bom, e se pensarmos num dos temas que ele aborda, assisti-lo com uma imagem em baixa, um som fuleiro e numa tela pequena faz dessa «versão pirata» uma especie de vinil antigo do filme.
Tipo sobra de estúdio.
Lado B, vinil pirata, lembra?
Em a época era uma cópia especial, não era contravenção.
O filme oficial eu não sei, mas essa «versão pirata» é sem dúvida melhor que Cidade de Deus.
Se o diretor do filme está feliz por terem pego o garoto que fez as cópias, deveria ficar ainda mais por conta da película em questão entrar para a história do cinema brasileiro justamente por o mesmo fato.
O primeiro longa metragem brasileiro a ter se manifestado na era digital e com todas as questões que a envolvem.
E aproveitando vou me ater a uma questão para mim preciosa e da qual já falei aqui no overmundo.
Um filme financiado com dinheiro público deveria ter DVD's baratos para serem vendidos nas ruas, caso contrário o crime «organizado» vai lá e faz.
Nem todo mundo tem dinheiro para ir ao cinema e uma pesquisa recente no globo online comprovou isso.
A maioria da pessoas respondeu que vão continuar comprando piratas por o simples fato de não terem dinheiro para ir ao cinema.
Acredito que não precisamos ter um modelo audiovisual que imite o modelo americano com apenas o sistema filme-distribuidora (poucas) salas de cinema.
Podemos inventar o nosso modelo e ele pode passar por uma maior democratização da cultura num país fudido.
Finalmente temos um caso-filme de polícia para comprovar a possibilidade das salas de casa virarem salas de cinema por um preço popular.
Claro que eu vou querer ver a versão oficial desse filme no cinema, as duas maneiras de assistir o filme são bem diferentes e interessantes.
O que não é legal é a falta de possibilidade de acesso.
E o mais importante de tudo é que o filme é bom.
Se não fosse nem versão pirata faria tanto barulho.
O único vacilo do filme é não colocar a versão do DJ Batutinha, a matadora " megamom.
Número de frases: 21
mp3 e optar por a versão do Tijhuana para ser o tema musical do filme.
Em os últimos dias, estive em companhia de uma mulher em decomposição.
Ela estava ali, como uma sombra à minha frente nos ônibus, nas filas, na mesa do almoço, antes de dormir.
Não, apesar do meu estado de espírito ultimamente, não se trata de um alter-ego.
A repórter de TV de «Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi», primeiro romance de Cecilia Giannetti lançado semana passada por a Agir, está à espreita.
Alucinante e alucinógena.
A vaidade como obsessão e a indiferença como padrão jornalístico já estão praticamente incorporados na vida estéril daquela fêmea meio robótica quando uma cena chocante causa um curto-circuito.
Acaba a rotina, começa o fluxo de pensamento.
Bem-vindo ao caos.
Fico imaginando se um cineasta aventureiro pirasse na batatinha e resolvesse filmar aquilo.
Funcionaria como um meta-filme em que a personagem está no cinema e vê a tela derretendo em múltiplas cores.
No decorrer da história, há ares expressionistas, sombrios e estranhos dentro da personagem, e impressionistas -- aqueles fragmentos de cores que, unidos, em geral formam alguma coisa.
E formam alguma coisa?
«Meus amigos perdiam seus contornos um pouco a cada dia:
Uma vez um de eles apareceu com o nariz no lugar do pescoço;
o outro, a orelha no lugar da boca;
um terceiro alojou uma ferradura no lugar do coração».
Cheguei ao meio do livro com a sensação de que não estava entendendo mais nada -- e caí na bobagem de interromper no meio, agora que sei que é um livro bom de ser lido de uma ' vezada ' só.
Perdidona, me senti que nem naqueles livros de imagens em que se fixa o olhar para ver pular do papel uma forma em 3D.
Como me irritava ficar dezenas de minutos de olhos em pontinhos alinhados e daqui a pouco um amigo do meu lado gritar:
Caramba, É Um Barco!
Aqui, Aqui, Um Barco, Que Lindo!!!!
E eu, invejosa e desesperada, tentando enxergar uma ligação entre pontos que pudesse parecer com aquilo.
Humpf. Mas voltando ao livro:
lá por a metade, como disse, estava meio com essa sensação.
Mas foi só deitar na cama e comecei, sem querer, a traçar a narrativa que, sim, está presente, sutil e impiedosa, com auxilio enlouquecido das ilustrações de Cristiano Menezes.
Repare que ninguém falou aqui em verdade.
Há uma tentativa de suicídio, uma tatuagem mal-apagada, uma mudança de apartamento ...
Há quase mini-contos espalhados no caminho, com direito a um homem sem cabeça e chineses agitados.
«Assim penso ter apreendido o significado da fé:
crendo distraidamente no que não pode ser."
Há a Central do Tédio, há Baiano, Tio Santo e Doca, o menino que quer ser Erê.
Há beleza pouco óbvia.
Tudo com o Rio de Janeiro ao fundo, embaçado, ruas que conheço derretendo bueiro abaixo.
Chego ao fim (fim?),
fecho o livro e a lombada marcada deixa a capa meio entreaberta.
Vejo então o trecho da dedicatória de Cecília:
«Heleninha ...
Meu Rio de Janeiro fragmentado ...
Gosta?" ô.
* * A dedicatória foi escrita na terça-feira passada, durante o lançamento, claro.
Bar de quintal e garagem, fila de respeito para comprar o livro e pegar o autógrafo da autora, que é editora do Portal Literal, assina coluna semanal na Folha de São Paulo e participa de uma pá de projetos literários.
Não entendo essa coisa de lançamento, assim como não entendo velórios.
A maior interessada (no caso do lançamento, hohoho) parece ter oportunidade escassa de curtir seus convidados, entre assinaturas e goles de vinho.
Uma vez li que o Nelson Motta botou o vendedor de um livro de ele para pegar os endereços (não sei se é uma prática corriqueira).
Mandaria as dedicatórias por o correio e curtiria sua festa.
Sei que tem cara de grã-fino, mas que faz sentido, faz ...
Mas mesmo com obrigação de assinar centenas de livro, Ciça estava curtindo.
Fiquei feliz em notar que o feudinho literário carioca estava todo presente para prestigiar:
editores, jornalistas de cadernos literários, designers, escritores «da nova geração». (
é engraçado ficar acompanhando de longe as conversas do feudinho, o prêmio tal anunciado hoje ...
a reação de um editor à tal capa ontem ...
parece aquela coisa de ligar a TV numa novela que você quase nunca vê e ficar rindo ...
só até se envolver com as histórias e adentrar no mundo da ficção).
Fiquei mais feliz ainda ao ver que na fila, à minha frente, uma turma de jovens e velhos importados diretamente da infância de Cecília na Ilha do Governador a levou às lágrimas.
Recebi minha dedicatória-pergunta (" Gosta?")
e fui conversar com o editor do livro, também amigo.
Lembramos de como a trajetória daquela obra foi enviesada.
Uma novela que começou em 2002, superou uma perda total da história num micro que deu pau e ainda uma troca de editora.
«E posso te garantir, Aragão, que todas esses solavancos fizeram bem ao livro, cada versão foi ficando melhor», disse-me ele.
«Males que vêm para bem, males que vêm para bem», fui embora repetindo, como um mantra.
* * Quanto é nossa participação na história proposta por o autor dependendo de como estamos naquele momento da leitura?
Em tempos estranhos, pode bater completamente diferente de como agiria se fosse um período primaveril.
Independente disso, alheia a humores está a certeza de um livro milimetricamente pensado -- mas longe de ser um engodo, ele conta com palavras assustadoramente no lugar para formar esse mosaico disforme que deixa o Rio incompreensível.
Achei bom para a cacete, mesmo depois de tanta expectativa ao acompanhar, mesmo que a distância, aquele Frankenstein sendo construído.
Fiquei com vontade de continuar acompanhando Ciça em suas aventuras literárias (e, por acaso, ultimamente meio barra-pesadas):
comentei com ela que ia emendar com a leitura de «Muito longe de casa -- Histórias de um menino soldado», de Ishamel Beah (foi Cecília quem traduziu).
Para quem não sabe, este é o rapaz de Serra Leoa que, bem antes de vir para a Festa Literária de Parati com uma carinha meio deslumbrada (eu também ficaria), foi soldado-mirim e fez coisas terríveis na guerra que devastou seu país.
O livro trata disso.
Leve como eu queria.
Mas foi a própria Ciça quem alertou.
-- Não faça isso com você agora.
Too much, too much ...
Número de frases: 73
Em meio a uma confusão, um personagem se resolve e, através da imaginação, se desenvolve
Maria Eduarda Borelli " Mariana Faria
«Acredita, bonita!».
Essa é uma das várias frases e gírias irônicas que o designer e artista contemporâneo Virgílio de Andrade lançou e consagrou na cena underground de Belo Horizonte.
A expressão foi criada como uma brincadeira em resposta à atitude falsa e bajuladora das personalidades da noite urbana.
Vivendo num mundo de exibição e superficialidade, estas pessoas realmente acreditam em si mesmas e nos elogios afetados que trocam entre si.
É aí que entra a piada inteligente de Virgílio.
Mas o que um jovem estudante de 23 anos, nascido em Patos de Minas, tem de peculiar?
Virgílio é simples, e ao mesmo tempo complexo.
Uma figura que leva tempo para se compreender, e que se esforça para compartilhar com o mundo os seus pensamentos, críticas e ironias.
Até aí tudo bem, já que os jovens têm mesmo essa tendência a ser rebeldes e revolucionários.
A diferença está no modo como isso é feito.
Esse mesmo homem do qual falamos, vindo de uma família tradicional e conhecida no interior, é tímido desde criança e sempre gostou de inventar personagens.
Com a sua «criatividade à flor da pele», inventou, já adulto, a personagem performática Dama Dorme e se tornou ícone num universo noturno que ele mesmo critica, mas não hesita em dizer que adora.
Virgílio é assim, uma figura paradoxal, de múltiplas facetas.
Ao mesmo tempo em que se destaca simplesmente como sendo Virgílio, com seu visual incomum, ele também é capaz de encarnar características da personagem Dama Dorme, numa relação de mão dupla que nem ele sabe explicar.
Virgílio Antônio Rodrigues de Andrade
Em a cidade onde nasceu, na região do Alto Paranaíba, Virgílio não é conhecido como Dama Dorme e sim como filho do falecido «Antônio do judô», já que seu pai, Antônio da Silva Andrade, foi o primeiro mestre da luta, em Patos de Minas.
Apesar de hoje parecer improvável e talvez até impossível, Virgílio já foi campeão mineiro de judô, quando era criança e passava o dia na rua, brincando de subir em árvores.
Uma atividade «bem interior».
A tristeza da perda do pai, que faleceu de câncer em 2004, veio acompanhada de outro desgosto:
seus parentes paternos não o vêem com bons olhos e o culpam por a morte de seu pai.
Ele conta que, na época do falecimento, a sua homosexualidade ainda não era explícita, mas, no fundo, todos sabiam.
Para Virgílio, esse preconceito da parte da família chega a ser uma irônica manifestação da mentalidade provinciana, já que existem pessoas de índole questionável em sua família.
Ele acusa os parentes de serem «cabecinha», e acrescenta:
«tenho certeza que o meu pai me aceitava como sou, porque ele dizia que me amava».
Virgílio é também conhecido como filho de Maristela, a vanguardista de Patos de Minas, que cursou Educação Física na capital mineira e foi a primeira mulher a usar calça jeans na pequena cidade.
Hoje, ele mora num apartamento com a mãe, de 59 anos, a quem se diz muito ligado, e uma de suas duas irmãs mais velhas.
Segundo ele, elas o apóiam integralmente.
Muitas das roupas que usa em suas performances vêm do armário da mãe, considerado por ele, «extravagante».
Assim, ele busca a sua própria moda, que considera ser a sua atitude e busca constante de sua identidade.
Apesar de ter sido sempre bem aceito e amado por seus pais, Virgílio considera péssima a idéia de visitar o interior.
É como se sentisse «um peixe fora d ´ água».
Mesmo assim, costuma visitar a família da mãe duas vezes por ano.
Segundo ele, por ser uma cidade muito tradicional, um homossexual performático jamais será bem aceito.
Lá, Virgílio conta que as pessoas o vêem como um travesti, e nem fazem perguntas sobre sua vida.
Considera essa atitude uma conseqüência do tabu.
Porém, apesar de ser muito diferente de seus conterrâneos, ele também faz parte da tradição da cidade, já que seu avô Romeu Rodrigues se mudou para Patos em 1920 e ajudou a construir o município.
A os 14 anos, Virgílio se mudou para a capital mineira para cursar Artes Cênicas.
Fez teatro no Net, mas se decepcionou com os padrões «Globais».
Foi então que começou a se interessar por o mundo da moda.
Encantou-se por o assunto, descobriu as performances e se empenhou.
É, hoje, aluno de uma faculdade de Design de Moda, onde começou a seguir a linha da arte performática:
começou a sair «louca», se produzindo para as festas.
Quando questionado sobre a impressão que causa em seus colegas de curso, ele diz achar ser considerado «mais um bicha aluno de moda».
Segundo ele, essa é a pior das opiniões, de um povo «cabecinha».
Vanguardista como a mãe e empreendedor como o avô, Virgílio pretende transformar Dama Dorme, que já tem logomarca própria, numa marca de roupas, usando a personagem também como um grande marketing.
Quando formar, pretende ter seu próprio atelier, para mostrar suas criações.
Porém, acaba de lançar a marca Duotonee, com outras duas estilistas.
Segundo ele, a marca «aposta no conceito de experimentação que une moda e artes visuais».
Em julho, a nova coleção de bolsas e camisetas será apresentada no Encontro Nacional de Estudantes de Design (N Design).
Virgílio pretende dar passos mais largos:
ele quer ser reconhecido e bem sucedido no que faz, e inclusive mostrar sua arte fora do Brasil.
O projeto mais ambicioso, no qual se envolveu com Thiago Marini, é uma exposição de fotos, num museu de Londres, que mostra diversas personagens da cultural brasileira, interpretadas por Dama Dorme.
Mesmo que, atualmente, seja ignorado por os rapazes que foram seus antigos colegas e amigos de Patos, foi lá que encontrou o seu melhor amigo, primo por parte de pai e «eu interior», Daniel Fonseca.
Apesar de seu estilo de vida ter se afastado da pequena cidade mineira, ele ainda sente falta do «matão» e do sossego.
É o que se costuma dizer:
você pode tirar o menino de dentro do interior, mas nunca o interior de dentro do menino.
Dama Dorme
A personagem performática de Vírgílio é conhecida como Dama Dorme, e vive num mundo alternativo regado a drogas e música eletrônica.
É considerada por ele como «escrachada»,» podrona «e um» clown», «palhaço total», que atrai a curiosidade das pessoas.
A inspiração para o nome veio do remédio Dalmadorm, que tem a capacidade de diminuir o tempo necessário para início do sono e, ao mesmo tempo, de aumentar a sua duração.
Apesar da sua ingestão não poder ser feita juntamente com bebidas alcoólicas, uma vez que o álcool intensifica o efeito, podendo ser prejudicial, essa é a forma que Virgílio e seus amigos encontravam para se divertir.
De acordo com ele, era tomar e " NÚ!":
o efeito vinha na hora.
Ele diz que o nome era algo que sempre esteve em seu subconsciente, e essa foi a forma de se manifestar.
Segundo ele, este é um nome «péssimo» para um artista contemporâneo performático.
Mas não pretende mudá-lo por ser um «um nome forte».
Depois de muitas aparições marcantes nas boates da cidade, Dama Dorme foi convidada a aparecer nas festas e a ganhar dinheiro com isso.
Os pocket shows que começou a fazer não eram como os dos demais artistas e drag queens e, assim, ela começou a se destacar.
Ela diz que não há nada de glamouroso nas suas apresentações, apesar de haver muito empenho na produção de cada show.
Muitas das personagens, roupas e maquiagens são criadas na hora.
O público deve ir preparado para demonstrações que, às vezes, são agressivas, nojentas e, até mesmo, epilépticas.
Cada noite, Dama Dorme encarna uma personagem diferente, em performances expressionistas que diz serem uma «explosão total».
Todas as aparições são embasadas em algum tipo de crítica, geralmente ligada ao que está na moda.
Segundo ela, a intenção é «criar uma nova experiência estética nas pessoas».
Além de chocar, é claro.
O último evento que organizou com os amigos foi realizado no «inferninho» Mary in Hell, que fica na região da Savassi.
O nome da festa, Se todo mundo toca, a gente também toca, foi uma maneira engraçada e simpática de criticar a profissão de DJ, que vem se multiplicando como uma forte tendência.
Em esta mesma noite, além de ter fingido tocar nas picapes, Dama Dorme se apresentou como a personagem Cagada Di Paloma, coberta de chocolate e com uma pomba de isopor presa à cabeça.
Foi mais uma crítica a outra personalidade da noite underground:
a mulher que se acha muito moderna e gosta de chamar atenção nas festas, nomeada por Vírgilio como a «moderna de merda» das pistas.
A Dama Virgílio
Virgílio e Dama Dorme realmente parecem ser uma pessoa só.
Mas qual a separação entre eles?
Ele é um homem barbudo que se diz tímido desde a infância.
Ela é uma mulher que, de tão impactante, chega a ser assustadora.
«Sou muito Virgílio, e adoro a Dama Dorme.
O Virgílio é meigo, a Dama Dorme é trasheira».
Dama Dorme é o alterego e a principal válvula de escape de Virgílio.
Dama Dorme é «muito maior e mais famosa que Virgílio».
Ele, que muitas vezes não sabe se é ele ou ela, tem uma vantagem:
pode escolher qual personalidade quer ter, em diferentes momentos da semana.
Como um homem que a noite vira lobisomem, ele vira a Dama Dorme.
Durante a semana é ele, um rapaz sério e dedicado ao seu curso, aos seus negócios e às suas idéias.
Em os fins de semana é ela quem se esbalda, aproveita cada festa como se fosse a última.
Mas isso não quer dizer que ele não possa aproveitar, e nem que ela possa expor suas opiniões.
O que se sabe é que, aos Domingos, é sempre ele quem tem que agüentar as conseqüências de tanta badalação.
Ele diz que a Dama Dorme atrapalha o Virgílio, porque, depois de tudo, ele sente o que chama de «travamento, auto-flagela ção».
Mas que, apesar disso, ela é mesmo um alívio.
«Não sei mesmo explicar», diz.
É difícil entender como um jovem com tantas tatuagens e enormes óculos de grau, que fala com simpática afetação e deboche, pode dizer que sente pânico ao ser observado.
Virgílio pode, assim, ser considerado a personificação do ditado «quem vê cara não vê coração».
«Tento gostar de mim ' no carão ' e fingir que não estou importando com o que os outros pensam, mas no fundo estou sim», confessa.
Enquanto isso, Dama Dorme é famosa, poderosa, segura de si e cheia de atitude.
Talvez essa seja uma explicação:
apesar de Virgílio e Dama Dorme partirem da mesma pessoa, são duas identidades quase independentes que se complementam e interagem, dando força um ao outro.
Número de frases: 107
O que se pode perceber é que, talvez, a essa altura, um não exista mais sem o outro.
O efeito orégano
Uma brincadeira com bonecos da linha Playmobil acabou inspirando, 30 anos depois, a criação de uma das mais promissoras séries recentes da ficção científica nacional.
Em seu DNA, Hegemonia -- O herdeiro de Basten, primeiro capítulo de uma série de seis livros, carrega ainda as experiências que seu autor teve ao testemunhar à repressão a movimentos grevistas em sua cidade natal, Volta Redonda, as contradições religiosas que envolviam a família e vizinhos, além de uma enorme variedade de filmes, livros e seriados de TV consumidos ao longo destas décadas.
Em a entrevista a seguir, concedida a partir do cyberpunk município fluminense de Macaé, onde ele trabalha como jornalista, o escritor compara a ótima recepção de sua última publicação com a do livro anterior, também de FC, Fáfia;
dá informações exclusivas sobre o futuro da saga;
e ainda explica sua interessante teoria denominada de «efeito orégano».
Com vocês, o xará do físico que comprovou o comportamento de onda dos elétrons, Clinton Davisson.
Apesar de trabalhar cotidianamente com a não-ficção, você já lançou dois livros de ficção científica.
Além do Fáfia e do recente Hegemonia, já foram produzidos muitos outros textos literários, como contos ou roteiros?
Sim, na área de literatura, eu já havia escrito um romance aos 14 anos, em 1985, chamado Armadilha espacial.
Tenho muitos contos, crônicas que publico no jornal e fiz muito jornalismo literário em Macaé.
Já escrevi peças de teatro em Volta Redonda nos anos 80.
Eu fazia parte de um grupo da prefeitura da cidade e a gente encenava as peças no meio da rua, na inauguração de praças, etc..
Também sou músico, fui vocalista de algumas bandas em Juiz de Fora e compus várias músicas.
Ultimamente tenho investido em roteiros e estou trabalhando com um projeto de uma produtora de São Paulo sobre um curta-metragem sobre viagem no tempo.
Ao mesmo tempo, por mera coincidência, estou levantando fundos para outro curta, em Macaé, também sobre viagem no tempo.
Em um dos textos de apresentação de seu último livro, informa-se que a idéia por trás da saga já estava embrionariamente na sua imaginação desde os cinco anos de idade.
Poderia fazer um resumo desses mais de 30 anos de planejamento, de como foi a evolução da trama até ela começar a incluir conceitos de teoria política, ciências exatas e sociais?
Pois é, começou antes mesmo de aprender a ler, com uma brincadeira de Playmobil com meu irmão.
A gente brincava de super-herói, de Guerra nas estrelas, essas coisas.
Só que, como ele era o irmão mais novo, eu, como todo bom tirano, não deixava que ele fosse o Han Solo, o Luke, nem o Darth Vader.
Como ele também não queria ser a Princesa Leia (risos), eu inventava personagens para ele.
Com o tempo, a gente acabou abandonando o Han Solo, o Luke e o Darth Vader, para ficar com os novos personagens.
Um de eles era o Ron, o protagonista deste primeiro livro.
Com certeza Ron nasceu em 1979, como um velho durão, mas também paizão.
Muito inspirado no personagem Jock Ewing na telessérie Dallas, também com uma pitada daqueles mestres de filmes de kung fu.
De aí os cabelos brancos e o sobrenome Schowlen, que é um anagrama para Shaolin.
Como vê, até por causa da minha idade na época, a evolução se deu através de uma linha do imaginário puramente infantil.
Por exemplo, quando eu assisti à série Cosmos do Carl Sagan em 1980, eu tinha nove anos e escutei, pela primeira vez, falar da esfera Dyson.
Então pensei:
«Nossa, isso é muito maior do que a estrela da morte!».
A partir daí, a esfera Dyson entrou na brincadeira.
Com o tempo, tudo que eu via, estudava, assistia, lia, escutava, era assimilado por o universo disoniano. (
A razão de ser esfera Dison, e não Dyson no livro, tem uma razão que eu não vou contar).
Com o passar dos anos, a história foi amadurecendo e ganhando contornos mais complexos à medida que eu ia absorvendo coisas mais diversificadas.
O lado infantil foi dando espaço a algo mais profundo.
Mas a idéia de usar ciências sociais, como política, sociologia, teologia e antropologia, na história também veio bem cedo.
Meu vizinho, por exemplo, era evangélico e veio uma vez me explicar que meus pais iriam para o inferno porque eram kardecistas e crioulos.
Eu tinha sete anos e fui perguntar no centro kardecista sobre o assunto e aí me explicaram que quem ia para o inferno eram os macumbeiros (era como eles se referiam às religiões africanas).
Chegou a um ponto em que fui falar com os tais macumbeiros e eles disseram que eram os católicos que iriam para o inferno.
Essa discussão está presente neste primeiro livro.
Até a questão da política também surgiu na infância, porque cresci em Volta Redonda de frente para a Companhia Siderúrgica Nacional -- CSN.
Lembro que, com menos de 10 anos de idade, eu assistia a verdadeiras guerras em frente à minha casa, por causa das greves.
Em tempos de ditadura, greve na CSN tinha tiroteio, quebradeira, tudo.
Meu contato com política começou assim, na prática antes dos livros.
Talvez por isso, nunca me deixei iludir com ideologias.
Jamais vou escrever um livro fazendo apologia ao capitalismo, anarquismo ou ao comunismo, o que é uma pena, porque dá dinheiro (risos).
Desde muito cedo, eu aprendi que o ser humano chegou a um alto nível tecnológico no que se refere às ciências exatas, mas ainda está engatinhando em ciências sociais.
E não entendo porque existem tão poucas obras explorando isso.
E algumas o fazem de maneira assustadoramente ingênua, criando vilões capitalistas ou comunistas.
Ora, pensar em política e nos problemas sociais é a grande pauta do século XXI.
Eu hoje vivo em Macaé onde se tem tecnologia para se tirar petróleo de 3 mil metros de profundidade, mas falta água na cidade, temos problemas de saneamento básico, moradia e está na lista das mais violentas do Brasil e, consequentemente, do mundo.
Macaé é cyberpunk! (
risos) Em 2000, logo após a publicação de seu livro de estréia, uma versão preliminar de Hegemonia venceu um concurso promovido por uma revista especializada em FC.
Qual foi a importância de tal incentivo para a concretização do projeto?
Bom, eu contava as histórias também desde que tinha uns 10 anos para alguns amigos da escola.
Mas foi só depois do prêmio que eu percebi que este universo tinha um potencial forte.
O conto foi escrito às pressas, cheio de escorregões e, ainda assim, conseguiu se destacar num concurso em nível nacional.
Não me iludi pensando que era um escritor maravilhoso, acho que tenho um longo caminho por a frente, mas eu tive a confirmação de que esse universo tinha potencial para mexer com as outras pessoas e não era apenas uma loucura particular minha e do meu irmão.
A partir daí, passei a mostrar trechos e histórias para outras pessoas com mais confiança.
É possível comparar a aceitação de seus dois livros?
Como foi o impacto inicial de Fáfia, em 1999, e o de Hegemonia agora?
O que mudou entre um ponto e outro em relação à sua experiência como escritor?
A aceitação do Fáfia tem dois lados extremos.
De um lado, eu estava numa faculdade federal, e, lá dentro, o Fáfia foi recebido com entusiasmo por alunos e professores.
Por quê? Porque é um livro extremamente pessoal que tem um lado metalingüístico forte e perceberam isso lá dentro.
De o outro extremo, a casca de ele, mistura futebol, ficção científica e muito humor.
Era muito leve, muito Sessão da Tarde.
Então o aspecto comercial não funcionou.
Algumas pessoas vieram me falar que ficção científica brasileira tinha que ser séria, não podia brincar porque carecia de credibilidade.
Mas, talvez por isso, tenha tão pouco humor em Hegemonia.
Só depois que o Jorge Calife fez uma resenha elogiando o Fáfia há uns três anos, que perdi um pouco o rótulo de «maluco que escreveu um livro doido».
Agora, a reação com o Hegemonia está sendo ótima.
É um livro pessoal também?
Sim, mas tive o cuidado de embalar numa casca mais palatável e o tema é muito mais denso.
O livro vem ganhando uns fãs entusiasmados, gente querendo logo a continuação, perguntando se não tem camisa para vender, até pessoas dizendo que tem que virar filme.
Mas teve também o que eu chamo de «efeito orégano».
Eu explico:
uma vez eu trabalhei como cozinheiro numa cantina de colégio que não tinha fama muito boa.
Logo no primeiro dia, fiz pizza e coloquei o orégano dentro da pizza, como via fazer nas melhores pizzarias.
Mas a vida é uma caixinha de surpresas, não é que vieram vários alunos reclamar, dizendo que a pizza estava sem orégano?
Eu então abria a pizza do cara e pegava com a mão o orégano e mostrava.
Com o Hegemonia percebi essa desconfiança.
Eu coloquei muitos detalhes sutis e deixei muitas pontas soltas para responder durante a trilogia, porque não tem graça entregar o ouro logo de cara.
Mas então teve vários amigos, bem intencionados até, me chamando no canto e dizendo:
«Cuidado, você esqueceu de colocar essa explicação no livro!».
Eu pergunto:
Por que o J.J. Abrams pode deixar toda a primeira temporada de Lost sem responder " O que a Katie fez?" e eu não posso?
Mas existe isso no Brasil, às vezes você tem que abrir o livro e mostrar o orégano para mostrar que sabe cozinhar.
Você tem o rumo de todos os próximos cinco livros traçados em sua mente, ou mesmo esboçados no papel -- ou na tela do computador?
Sabe em detalhes como vai ser a conclusão de sua dupla trilogia ou ainda há trechos em aberto?
Eu costumo dizer que Hegemonia não é uma história e sim uma doença crônica que eu carrego.
Eu sei como tudo termina, tenho até biografia de todos os personagens, o desafio para mim não é a história em si, mas como contá-la.
Mas claro que há vários trechos em aberto, caso contrário, tiraria a graça de escrever.
A personagem Marla Trillina, por exemplo, nasceu só em 2004 e não estava presente no conto original.
E sim, tenho uma pilha de cadernos com rabiscos, alguns com mais de 20 anos, a maioria sobreviventes das minhas tentativas frustradas de começar a escrever a história.
Em o computador eu tenho a cronologia de tudo o que vai acontecer.
O meu problema sempre foi não saber por onde iniciar a saga, então eu tive essa idéia:
ao invés de começar por o começo, por uma questão de princípios, eu fiz uma prequel (risos).
A primeira trilogia está sendo um prelúdio da história original.
Por falar em duas trilogias, é inevitável a comparação entre sua epopéia e a dos filmes de Guerra nas estrelas.
Até o lançamento do primeiro livro leva a isso, já que ele foi apresentado ao público durante um evento dedicado aos fãs da série, a Jedicon, que ocorreu em São Paulo no final de 2007.
Os filmes de George Lucas são mesmo sua principal referência no gênero?
Que outras obras, cinematográficas, televisivas ou literárias, servem de inspiração para seu trabalho?
Eu falo que George Lucas é meu Flamengo.
Aquela paixão de criança que não vai morrer.
Eu sou daquela categoria de fãs de Guerras nas estrelas que ama a saga mesmo sabendo de todos os defeitos e também dos muitos acertos de George Lucas.
Fui um dos «fundadores» do Jedicon e tive a honra de ser o apresentador do primeiro evento em 1999 em São Paulo.
Mas acho que há muito tempo deixei Star wars para escanteio como referência principal.
De modo algum menosprezando a série, porque, mesmo a nova trilogia, que tanto gostamos de criticar, tem coisas que acho geniais, que poucos perceberam, como a ascensão de Palpatine ao poder, escancarando as falhas na democracia ou a grande sacada de mostrar Anakin tendo que escolher entre dois lados que mentem e tentam manipulá-lo.
como se ele fosse um eleitor tentando descobrir qual dos partidos é o menos pior.
Mas acho que minhas maiores referências hoje são literárias.
Comecei a ler bem garoto, todos os dias eu ia pegar livros na biblioteca da cidade.
Pegava um do Julio Verne, lia num dia e entregava no outro para pegar o H.G. Wells, depois do Tolkien, do Alexandre De umas e assim por diante.
Me identifico com o Tolkien por as biografias que li;
temos maluquices semelhantes, manias parecidas como criar mundos, línguas, costumes de seres que você nem sabe se vai usar para alguma coisa.
Mas acho que o Frank Herbert é uma influência maior, porque ele provou que se podia fazer ficção científica inteligente e eficiente usando elementos de sociologia e política.
Fora dessa esfera de ficção científica, tenho como referência o Dostoievski, adoro a maneira como ele cria personagens maravilhosos.
O Herman Melville, o Borges, o Guimarães Rosa, a Clarice Lispector, o Machado de Assis, o Douglas Adams.
De os vivos, sou fã da britânica Sue Townsend, pouco conhecida no Brasil, o Stephen King que é uma espécie de Spielberg da literatura, só vão aceitá-lo como genial depois que morrer porque faz um sucesso exagerado.
E, principalmente, o Carlos Heitor Cony, que conheci pessoalmente numa aventura entre Rio e Juiz de Fora e que, para mim, é o maior escritor brasileiro vivo.
Seu livro de estréia, O ventre, sobre a bizarra história sobre o relacionamento entre dois irmãos e a paixão de ambos por a mesma mulher, narrado em primeira pessoa, é para mim, a maior influência direta a este primeiro Hegemonia.
Como foi o contato inicial com a editora que publicou Hegemonia -- O herdeiro de Basten?
A vendagem deste primeiro capítulo de sua saga já lhe garantiu o contrato para os próximos lançamentos?
Fiquei sabendo através de uma lista da discussão que a Arte & Cultura estava pretendendo lançar um livro de ficção científica e estava aceitando originais.
Mandei três capítulos e fui aprovado uma semana depois.
A partir daí, foi uma suadeira para terminar em oito meses o que eu não conseguia concluir há sete anos.
Sobre a continuação, sim, as vendas estão boas e eu tenho a sorte de ter, no meu editor, um verdadeiro fã que acredita no sucesso do livro já faz planos para lançar no exterior, fazer HQ e até videogame.
Só acho que, por isso mesmo, eu tenho que suar muito, a exemplo do que o André Vianco, por exemplo, fez:
correr mesmo atrás do leitor, ir a eventos, livrarias, para que a continuação seja publicada como bom negócio para a editora e não como um risco.
Mas, ao que tudo indica, devo publicar a continuação em 2009.
A propósito, deixa eu dar um furo de reportagem para você, o segundo livro já tem nome:
Hegemonia -- Os anéis de fogo.
Quem leu o primeiro, já sabe que anéis são esses ...
Além de jornalista, você é cartunista.
O universo que você criou é muito visual, com naves gigantescas, planetas exóticos e aliens multiformes.
Já pensou em adaptar a história para os quadrinhos?
Em a verdade, nos quadrinhos que eu faço, Os invasores, há uma participação dos frânios, a raça de insetos da Hegemonia numa versão bem humorada.
Assim como no livro, eles são divididos em duas sub-raças, as mabéias, as baratinhas marrons e os slystacs, verdes.
A inspiração veio do tempo em que eu trabalhei na Petrobras onde há essa diferença de classes, os concursados, de crachá verde e os terceirizados, de crachá marrom.
Mas, como eu disse, já existe esse projeto da editora de levar o primeiro livro para os quadrinhos.
Tive várias conversas sobre o assunto com o Osmarco Valladão, criador da capa do livro, mas queríamos fazer algo com a qualidade comparável a da capa.
Para isso, precisaria de, pelo menos, um ano trabalhando intensamente e exclusivamente.
Não sei se isso é viável no Brasil.
Seu nome é o mesmo do de um físico americano ganhador do prêmio Nobel nos anos 30.
Partindo do pressuposto que isso não é uma coincidência, qual foi a importância desta ciência na sua formação intelectual e qual a sua intimidade com o assunto, já que neste seu livro surgem vários conceitos teóricos próprios da física, como as propriedades de estruturas giga e nanométricas ou ainda a conversão de matéria em energia?
Meu pai é formado em física e dá aulas até hoje em Juiz de Fora.
De aí veio esse nome esquisito que eu rejeitei desde pequeno, tanto que «criei» um apelido para mim.
Todo mundo da família e os amigos próximos me chamam de «Tato».
Quando eu jogava futebol, estava escrito «Tato» nas minhas costas e não Clinton Davisson que, para mim, é quase um nome artístico.
Mas eu herdei do meu pai a paixão por a física e astronomia.
Ele tem, até hoje, uma pilha de enciclopédias de ciências;
antes de aprender a ler, eu folheava aquelas fotos de foguetes, planetas e achava o máximo.
Meu pai também adora ficção científica, só que muito mais para o lado de Star trek.
De a minha mãe herdei o amor por a literatura, ela me fez ler o meu primeiro autor nacional, o Luiz Fernando Veríssimo, que é fera.
Aliás, sempre me incomodou essa separação entre literatura e ficção científica.
Vejo certos autores que se esmeram em conceitos científicos e esquecem de criar personagens que vão além de um cientista que está ali para vomitar conceitos.
Se meu pai e minha mãe puderam se casar, a ficção científica também pode casar com a literatura, não é? (
risos) Fora a conclusão da saga da Hegemonia, você tem planos para trabalhar com a FC em outros projetos?
Em ficção científica tenho apenas estes curtas que devem ficar prontos até o fim do ano e o meu projeto de mestrado que envolve ficção científica no cinema dos anos 80.
Depois da terceira parte do Hegemonia, vou dar um tempo na FC e engatar um romance que venho rascunhando há um tempo que se chama O moinho de vento sobre a juventude dos anos 80, um projeto bem pessoal e que não vai ter nada de ciência, ou sobrenatural.
Os primeiros rascunhos ficaram parecendo uma versão abrasileirada do The body do Stephen King, que deu origem ao filme Conta com mim, por isso achei que precisava amadurecer um pouco antes de retomar.
A longo prazo, tenho um projeto de romance histórico sobre a Guerra do Paraguai, também com nada de ficção científica.
Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
O livro Hegemonia foi resenhado no Overblog:
Número de frases: 166
http://www.overmundo.com.br/overblog/o-retorno do-principe
A figura de Bispo sempre me intrigou.
Este ensaio é antigo (publicado apenas nas poeiras da minha gaveta).
mas decidi postar por aqui depois que vi as palavras frevando ladeira a baixo sem freio ao fazer um comentário em História de doido da Nattércia Damasceno.
comentário tava ficando grande demais..
Uma obra de arte, ao entrar no circuito social, tem o poder de extravasar as intenções do próprio autor que a criou -- o que pode ser considerado uma de suas características mais interessantes.
Desta forma, o público pode se deparar com uma obra e fazer uma leitura completamente diferente daquela que estava prevista por o autor.
E o que dizer então daquelas obras produzidas por alguém que nega ser um artista ou que seu trabalho seja considerado arte?
Este caso um tanto incomum se aplica a Arthur Bispo do Rosário e sua produção.
Confinado numa colônia psiquiátrica durante grande parte da sua vida (50 anos), ex-pugilista, ex-sinaleiro da marinha e ex-funcionário da Light, o sergipano do município de Japaratruba seria internado no final da década de 30 sob o diagnóstico de esquizofrenia paranóide.
Em o período em que viveu, Arthur Bispo transformou restos de tecido de cobertores velhos, roupas, sucata, utensílios utilizados na colônia ...
em mantos, instalações, estandartes e «estranhos» objetos que durante um certo tempo só chamavam atenção de alguns funcionários e internos do Núcleo Ulisses Viana da Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira.
Bispo não considerava arte aquilo que fazia até mesmo quando suas obras ficaram famosas e ganharam notoriedade em todo o mundo.
Bispo se considerava o próprio messias.
Em seus delírios ele era Jesus e desde o dia em que dizia ter recebido a visita de 22 anjos anunciando a sua missão na terra, estava obstinado a trabalhar intensamente na representação de seu mundo.
O interno sisudo da colônia transformaria sua cama numa Cama-nave e construiria um Manto da Apresentação necessário para o dia em que fosse encontrar-se com Deus.
Tudo isso, segundo Bispo do Rosário, era produzido sob a enorme pressão de um anjo vingador que o mandava trabalhar sem parar ou, caso contrário, nas palavras do próprio " Bispo:
«Se eu desobedecer, me pega, me enrola lá em cima, em sonho assim, eu caio no chão, ele me suspende, eu fico descontrolado, qualquer coisa me pega em sonho e faz de bola ( ...)».
Mestre da Bricolagem
Ao contrário do outros internos que recebiam tinta, papel e telas para trabalhar nas oficinas de arte terapia, Bispo pescava seus materiais ao seu redor ou conseguia-os através de funcionários de sua confiança.
Materiais que iam desde cabos de vassoura e madeira de caixas de feira;
tecidos dos cobertores, linhas desfiadas dos uniformes e de outros tecidos a plástico, copos, garrafas, talheres de metal, canetas esferográficas, aparelhos de barbear, isqueiros, peças de vestuário, calçados, peças de carros e máquinas, ferramentas velhas, brinquedos, embalagens de alimentos ...
O conjunto de sua obra reúne centenas de peças.
Algumas são miniaturas que ora parecem remeter ao seu passado na marinha como pequenas embarcações, barcos veleiros, ringue de boxe;
ora à sua infância no meio rural com lembranças de galinheiro, carroça, curral, bois, gaiola ...
Há também cenas urbanas tais como o painel com campanha política, viaduto com engarrafamento de carros ...
Painéis os quais Bispo chamava de vitrines são bastante numerosos.
Alguns reúnem vassouras e rodos velhos, bolas de borracha e plástico, canecas, lixo hospitalar (seringas, êmbolos e agulhas) e outros com os mais variados objetos (bules de plástico, garrafas térmicas velhas, pedaços de bonecas, caixas de cotonetes, peças de carros e armações de óculos).
Mas a parte que possivelmente chamará logo a atenção de quem observará a sua obra são os seus ' fardões ', estandartes e o Manto da Apresentação.
São vestimentas com impressionante quantidade de detalhes bordados.
Os mantos são ricos também em cores e assim como o estandarte e algumas de suas miniaturas possuem um traço em comum da autoria:
textos e palavras.
Em grande parte dos objetos estão escritas e bordadas inúmeras palavras e frases.
Bispo escreveu nomes de pessoas, descrições físicas, frases de propagandas, manchetes de jornais, nomes de ganhadoras de concursos de beleza, números e algarismos romanos.
Também é possível encontrar uma narrativa do próprio autor que relata a sua missão na terra, seus encontros com anjos, santos e com Deus.
Um olhar atento às suas obras é um verdadeiro mergulho ao mundo de Bispo.
As palavras e números se misturam a pequenos desenhos que em certos momentos seguem uma lógica, em outros são apenas fragmentos.
É como se o inconsciente de Bispo se expandisse da sua cabeça e saltasse para os nossos olhos;
sua realidade diagnosticada de psicodélica por a nossa lógica, viesse ao mundo se explicar ou simplesmente deixar mostrar-se.
Diagnósticos psiquiátricos não são suficientes para explicar o que impulsionou o interno da Colônia Juliano Moreira fazer aquela arte que ganharia o mundo, mas o pequeno município sergipano de Japaratuba aponta algumas pistas para o seu entendimento.
A cidade em que nasceu (a 54 quilômetros da capital Aracaju) preserva traços fortes da religiosidade popular como a penitência e o respeito aos quarenta dias de jejum da Quaresma, religiosidade que é uma constante em na obra de Bispo.
Outra característica da cidade que o consciente de Bispo absorveu foram os traços de diversidade das manifestações da cultura popular local.
Em os Dias de Reis diversos grupos que se preparam o ano todo para a data, saem às ruas apresentando suas danças e seus teatros populares.
Com cores vibrantes e porta estandartes o Cacumbi, faz sua homenagens a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito.
A Chegança encena batalhas entre reis mouros e capitães da marinha, todos devidamente trajados e caracterizados com espadas de madeira e latão.
Traços destes folguedos e de seus apetrechos bem como o uso de muitas cores estão presentes em trabalhos de Bispo como os estandartes e mantos.
A técnica do bordado característica do artesanato de Japaratuba, Bispo parece ter herdado também de sua cultura originária.
Bispo e a arte contemporânea
Comparar a arte de Arthur Bispo do Rosário com a arte que era feita na época em que viveu é algo quase inevitável, assim com é também difícil tentar explicar ou entender como um interno de um hospital / colônia do Rio de Janeiro teria uma produção que se assemelhava e trilhava caminhos parecidos com os movimentos de arte contemporânea.
Enquanto artistas da Pop Art reproduziam objetos para criticar uma sociedade de consumo, Bispo fazia suas vitrines formadas por objetos comuns na intenção de representar o seu mundo para Deus.
Outra obra que pode impressionar por a semelhança seria a «" Roda da Fortuna de Bispo» com a «Roda de Bicicleta» de Marcel Duchamp.
Além do reaproveitamento de sucata, dando poesia a utensílios comuns, Bispo construiu objetos como um tabuleiro de xadrez com diversas peças, uma pipa de pano e os «Orfa» representações próprias de determinados objetos.
Teria Bispo tido acesso a informações, talvez através de revistas, sobre arte contemporânea como, por exemplo, sobre a obra de Duchamp?
Teriam suas antenas sensíveis de artista captado, de alguma forma, as transformações em andamento no campo da arte?
Teriam os dois artistas, o brasileiro e o francês, chegado a resultados semelhantes, (porém com objetivos ou intenções distintas) um por romper conscientemente com cânones consagrados, o outro por desconhecê-los?
Jamais teremos confirmação destas ou de outras hipóteses.
O que importa, na verdade, é que o diálogo possível entre a obra de Bispo e a arte contemporânea nos aponta algo que faz parte da essência humana:
a necessidade de criar.
E o lugar privilegiado da liberdade de criar é a arte.
Em o final da década de 70 e início dos anos 80 a produção de Arthur Bispo do Rosário não respeitaria mais os limites do Núcleo Ulisses Viana e da colônia psiquiátrica onde ficava alojado.
Em uma matéria que tinha como objetivo mostrar o estado de calamidade dos hospitais e colônias psiquiátricas, o jornalista Samuel Wainer fazia uma reportagem para um dos programas de maior audiência da televisão brasileira, o Fantástico da emissora Globo.
Bispo, junto com os Mantos, suas «vitrines» e outros objetos apareceria em rede nacional ainda como apenas um coadjuvante da triste história dos manicômios.
Isto, no entanto, seria suficiente para atrair visitas de inúmeras pessoas interessadas em seus trabalhos:
artistas plásticos, jornalistas, psiquiatras, pesquisadores, estudantes e intelectuais.
Jornais e revistas semanais publicariam matérias sobre a sua arte.
Em um vídeo feito por o fotógrafo e psicanalista Hugo Denizart, após um longo diálogo, Bispo responderia à pergunta do fotógrafo sobre o fato de ele se transformar em Jesus Cristo da seguinte forma:
«Não vou transformar não, rapaz, você está falando com ele.
Tá mais do que visto.
Mas pra quem enxerga, pra quem não enxerga não dá pé».
Falaria dos objetivos de criar tantos objetos, além de reforçar de onde vinha a sua motivação:
«É severo para mim.
É sentado num trono todo azul, diz só:
Jesus Filho, tem que executar o seu canto, aí embaixo, faça isso e isso.
Eu nem falo nada, tenho que executar tudo».
Apesar de toda a repercussão em torno de sua obra, Bispo mantinha total indiferença a essa notoriedade, ligado somente ao preparo para o dia da sua apresentação.
Bispo viria a falecer no ano de 1989, e logo depois toda as sua produção seria montada em diversos museus de arte contemporânea, participaria em exposições em Nova York e bienais européias.
Em os dias de hoje, a riqueza da obra de Bispo continua causando espanto e admiração de diversos olhares.
A Secretaria de Cultura do Estado de Sergipe em parceria com a Prefeitura Municipal de Japaratuba trouxe, em janeiro de 2002, os restos mortais para a sua terra natal e montaram uma exposição em sua homenagem.
Talvez Bispo esteja pouco ligando para isso.
Sentado ao lado do seu pai deve estar em paz com si mesmo.
A paz daqueles que cumpriram sua missão na terra.
Mais:
-- BURROWES, Patrícia.
O universo segundo Arthur Bispo do Rosário.
Janeiro: Editora FQV, 1999;
-- HIDALGO, Luciana.
Arthur Bispo do Rosário, O senhor do labirinto.
Rio de Janeiro: Rocco, 1996;
Número de frases: 88
Algumas obras
Publicado no www.buszine.blogspot.com
Saí de Cuiabá numa quinta-feira, às 7h30 da noite rumo ao 12º Festival Goiânia Noise, foram 951 Km que pareceram bem mais perto, logo porque no dia, viria uma das melhores bandas que esse Brasil já fez.
Los Hermanos!! (falo isso seguramente).
Fui a viagem inteira pensando no show, e na felicidade da oportunidade de vê-los.
A viagem de ônibus foi até rápida, de tão ansioso que eu tava.
Cheguei lá por volta das 15h, muito atrasado, pois o festival começava às 18h.
Por isso, me apressei ao ponto de chegar no local do evento bem na hora.
Quando entrei no «tal» lugar, vi um espaço privilegiado e lotado.
O Espaço Cultural Oscar Niemayer, além de grande e sofisticado é novinho!
Belos palcos e boas bandas, e ainda uma galera que se mostrava antenada.
Minha ansiedade aumentava a cada banda que entrava, pois cada uma que saía ficava mais perto do grande show da noite, e olha que foram 11 bandas só no dia.
Tinha acesso ao Backstage, que é o lugar onde ficam os músicos, e pude observar a movimentação das bandas, os papos, o que acontecia, os jornalistas de lá de «trás», um lugar belíssimo em festivais, sempre conhecemos pessoas que estão vindo de outros estados, as conversas sempre são sobre música, cena de cada estado, todo jornalista gosta de falar sobre sua cena, e como é no seu estado (às vezes, falamos de mulher também), e ainda, experimentamos a solidariedade, dividindo as entrevistas, informações, essas coisas sempre são bem-vindo.
Lá pude fazer amigos, onde pudemos trabalhar juntos, trocar experiências e contatos.
Conheci pessoas de Fortaleza a Porto Alegre, além de pessoas que movimentam a «mídia» da cena Goiana.
Tudo estava bom, mas sempre que olhava para o relógio, percebia que o grande momento tava chegando, afinal não é todo dia que a gente vê o show do Los Hermanos, não é?
Era incrível pensar que daqui a alguns instantes, eu veria essa grandiosa banda.
A hora foi passando, quando de repente, me falam que eles já tinham chegado, já fiquei atento, perto da porta do camarim.
Passavam os minutos e não saía ninguém, de vez em quando a porta se abria, e alguém saía, e sempre era uma pessoa que nunca tinha visto na vida.
Quando, sem querer, vejo o Amarante passando, conversa com alguém, e logo entrando no camarim novamente, fiquei como uma criança de 8 anos vê um elefante no zoológico, nem lembro como reagi.
Depois, como já estava mais calmo, fiquei conversando com alguns músicos, assim me distraí, me liguei na conversa e deixei o tempo passar, quando estou no ápice de uma boa conversa, vejo alguém chegando perto, eu vejo os outros caras olhando pra essa «tal» sombra que chegava perto, quando viro pra ver, era o Gabriel Bubu, o baixista, e ele pára e diz: --
Iai cara, tu já tocou?
Olhando pra mim, enquanto tomava uma Pepsi, eu digo: --
Não!! Não sei porque não falei que não era músico, e sim jornalista, acho que o surto foi tão, que não pensei me nada.
Então, outro jornalista do Ceará, Felipe Gurgel, um amigo que fiz durante o festival, e que também toca no Café Colômbia (ótima banda, se valer o comentário), puxou um certo assunto sobre outra banda que o Bubu tocava, ele se entusiasmou e o diálogo foi acontecendo, passando alguns instantes, interrompi e disse: --
vamos tirar uma foto?
Claro, vamos lá!
Animadamente ele respondeu.
Nem lembro mais do que aconteceu, só me toquei de verdade quando o vi entrando no camarim novamente.
Entusiasmei-me na hora, fiquei mais eufórico ainda, continuei a transitar por o camarim, a conversa com as outras bandas ia ficando cada vez mais interessante.
Quando começou o show do Matanza, que antecedia Los Hermanos, fui lá ver um pouco do show, fiquei vendo a agressividade, pois é uma banda de countrycore (é assim mesmo?),
quando alguém passa por mim, dou uma olhada, é o Alex, trompetista, fui logo lá e disse: --
iai cara (agindo como se conhecesse) e ele disse:
Opa, como é que tá?
Pô cara, sou teu fã, continuei dizendo.
Que legal, obrigado aí, vamos tirar uma foto?
Já falei com a máquina na mão.
Claro!! Chamei uma mulher que tava do lado e pronto, já tava alegre, pensei, será que alguém vai acreditar?
Continuei vendo o show, me divertindo com a galera subindo no palco e se jogando, a todo o momento eu pensava, agora ele morreu!!
Em esse momento da noite, eu já tinha visto todos eles transitando, menos o Bruno Medina, que não tinha saído do camarim, até onde tinha visto.
De repente vejo um cara que parece muito o Camelo, era o Alex Werner, que é o responsável por toda a produção, desde o agendamento dos shows, até a assessoria de imprensa, cheguei perto de ele e disse:
Ae Alex!! (ele é o que grava muitas cenas da casa em Petrópolis / RJ, do documentário Além do Que se Vê, que é o bônus do DVD Cine Íris), eu já o conhecia mais ou menos, pois tínhamos trocados vários e-mails, e ele logo me reconheceu, demos uma rápida conversa, mas não foi muito, ele tinha que resolver algumas coisas.
Voltei a ver o show, passa alguns minutos, sem querer olho para o lado, em direção à cortina que separa o palco com o camarim, vejo o Bruno Medina, tecladista, por o pequeno espaço que estava aberto, na hora chamei o Felipe, e dei à ele a máquina fotográfica, vou em direção a cortina, e a abro num ímpeto, bruscamente, quando vejo todos eles, a melhor banda do Brasil, sentados nos degraus esperando a hora do show, eles estavam conversando e pararam com minha chegada, todos eles, de repente, ficaram me olhando, eu tomei um susto, na hora nem sei o que pensei, tirei todo o fôlego que consegui tirar e disse: --
vamos tirar uma foto?
O mais engraçado era que eu nem sabia o que falar, acho que tava até de cabeça baixa, embora faça pouquíssimo tempo, nem me lembro muito dessas partes, de tão feliz que eu tava.
Sentei do lado, e por alguns segundos estive lá, com os meus maiores ídolos, todos com mim, como amigos, depois levantei, e fui apertar a mão de cada um de eles, virei e o Camelo tava me olhando, esperando eu dizer algo: --
Obrigado cara, é um prazer imenso de conhecer, disse, ele acenou com a cabeça e disse «valeu», olhando profundamente nos meus olhos, tinha tanta coisa pra dizer pra eles, mas não conseguia dizer nada.
Não sei se é por o fato de eu amar a banda, mas às vezes, penso que nossa conversa foi telepática, quando apertei sua mão, era como se dissesse pra ele o quanto eles eram importantes pra mim e o quanto a música de eles tinha relevância, e que fazia muita diferença no meu modo de pensar e agir.
Em tudo, lembrei dos amigos, do amor, da saudade, de todos os momentos que passei na vida ouvindo cada música de eles, e finalmente, estavam ali, os caras que idealizaram tudo, que criaram aquelas maravilhosas letras e os incríveis arranjos, estavam na minha frente.
Depois de apertar a mão vejo o Amarante olhando pra mim, esperando eu cumprimentá-lo, virei e disse:
Cara, nem sei o que dizer:
Pô, cara, valeu, disse ele com aquele sotaque carioca, aí pensei, meu Deus, sim é ele, o cara do Quem Sabe, uma das músicas que mais externa o que acontece com mim, nem sabia como reagir.
Quase perguntei pra ele:
Anna Julia te incomoda?
Claro que não faria essa maldade.
Subi um degrau e estiquei a mão para o Barba, naquele momento era muito difícil, mas fiz tudo pra não chorar na frente de eles, rsrs.
Mais uma esticada de braço me levou ao Bruno, que mesmo com sua famosa timidez, que foi visível nesse encontro, foi simpaticíssimo, abrindo um «sorrizão» ao agradecer.
Quando terminei, no momento exato, o cara lá do palco disse: --
Los Hermanoooos, e eles levantaram e saíram, eu claro, acompanhei até o palco, acho que alguém deve até ter pensando que eu era alguém da banda, rsrs.
Em a deixa, seguindo-os, fui parar lá no palco, de onde assisti ao show inteiro, a primeira música foi Pois é, eu tava até com medo, pois o Matanza, que toca countrycore, tinha feito um show de peso total, com aquelas musicas que só falam de inferno e mais abaixo, onde é muito típico o puúblico «beber e brigar», depois Los Hermanos, com sua calmaria, pensei logo, todo mundo vai embora.
E quando ele entraram, tocando Pois é, aí eu pensei, olha a música que eles vão começar, pensei que só gostasse de ela, mais lenta que isso só Fez-se Mar.
mesmo, mas incrivelmente eu estava errado, nos primeiros acordes da música, deram-se gritos de loucura, e a música foi entoada numa só voz, em uníssono.
Lindo demais para um fanático como eu, que deliciei tudo isso de um lugar privilegiado.
O show foi perfeito, confesso que quase fui as lágrimas em Casa Pré-fabricada e De Onde Vem a Calma, quando começou Quem Sabe, quase o teatro caiu, na parte em que os músicos param e o Amarante canta quem sabe o que é ter e perder alguém, ele simplesmente se calou, sendo levado por a delirante galera, que cantou a fio, muito bonito de ser ver.
Segundos depois, um carinha sobe no palco e tenta abraçá-lo, sendo tirado ferozmente por o segurança, não adiantou nada, imagino eu, em contrapartida o Amarante se joga na galera, faz um lindo «mosh».
Pra mim e para alguns, é como se ele dissesse, ao segurança, não precisa tirar os caras de perto, eu sou de eles.
Ele foi sugado, camisa rasgada, cabelo puxado, microfone quebrado, depois, lá atrás ele ainda disse que achava que tinha pisado em alguém.
Depois de tudo, vi que valeu a pena, são momentos que nunca vou esquecer, a materialização de um sonho.
De aqui a alguns anos, quando meus netos estiverem ouvindo e «pirando» com eles, eu direi, sim conheço, um dia fomos amigos, claro, sei, eles não irão acreditar.
Mas o que importa?
Tá aqui a foto.
Número de frases: 71
Todos aqui tem acesso a internet, e assim como vocês eu estou sempre procurando algo interessante na rede.
Adoro encontrar blogs e sites bem escritos, que tratem de cultura, atualidades, etc..
Mas não é disso exatamente que quero falar hoje.
Mas de algo que percebi em alguns desses endereços.
Parece que ter alguma cultura deixou de ser um prazer para ser algo que separa as pessoas, quem detém algum conhecimento está acima do resto.
Me assusta o tamanho do ego de alguns escritores que estão por aí, que se acham muito acima dos outros por terem lido mais, saber mais.
Não aceitam o diferentes opiniões, acham que têm o rei na barriga e que não tem mais a aprender.
Dizer que cultura é algo acessivel a todos pode ser bonito mas é falso, demagógico mesmo.
Não que se deva adorar a cultura de massa, mas sou contra preconceito com os que gostam de algo de massa, isso não deveria tornar pessoas inimigas.
Pessoas se rotulam e dividem muito facilmente, e muito superficialmente.
Deve ser o final do ano ou o tal «espírito do natal» que tenham me deixado mais sensível a isso, mas eu gostaria mesmo que as pessoas respeitassem mais a diferenças, não julgassem umas as outras por o tipo de musica que ouve, por o tipo de livro que lê (ou não lê).
Essas coisas podem ajudar a identificar pontos comuns que talvez ajudem numa amizade, mas também é possível se juntar ao diferente.
Quando um intelectual por exemplo vê uma pessoa de alta sociedade torcendo o nariz para alguém só por essa pessoa estar mal vestida, acha um absurdo, porém quando o mesmo intelectual passa por alguém lendo uma capricho logo torce o nariz.
A forma como excluem é a mesma.
Um dia sonhei que emos e roqueiros andavam juntos, pagodeiros e roqueiros andavam juntos, patricinhas e roqueiros andavam juntos!
pseudo intelectuais e ...
tá bom já que era um sonho os pseudo deixavam de ser pseudo ...
enfim, todos viviam felizes, entenderam que nada seria do preto sem o branco.
Viam além do esteriótipo.
Quem sabe um dia, quem sabe utopia.
Número de frases: 20
Bom ano novo para todos.
Em as aulas de literatura brasileira do Ensino Médio, os únicos autores representativos das primeiras décadas do século 20 são Machado de Assis, Lima Barreto, Graça Aranha, Monteiro Lobato ...
Machado encerrava o realismo, enquanto os outros três eram expoentes do pré-modernismo.
Eu sempre tive a certeza de que o Brasil não teve, naqueles anos, apenas estes quatro autores.
De fato, houve muitos outros, alguns de eles considerados hoje importantes.
E mais:
houve gente muito mais popular do que estes citados, como Coelho Neto, também autor, segundo Roberto de Sousa Causo, que é formado em letras por a USP, do principal livro de ficção científica escrito no Brasil:
«Esfinge», de 1906.
A discussão sobre os critérios que levam os professores de português a considerar uns e não outros como os mais importantes até poderia gerar polêmica, mas a questão é que todo autor brasileiro respeitado por os meios acadêmicos tem como foco os problemas sociais.
Para os professores de literatura brasileira, escritor brasileiro que não fala sobre as mazelas dos pobres coitados brasileiros não pode ser considerado escritor.
Também foi notável a crítica voraz que os modernistas faziam a Coelho Neto.
No entanto, em seu tempo, foi um respeitadíssimo autor que chegou à presidência da Academia Brasileira de Letras e foi parte indispensável da cultura e história do Brasil.
Foi ele quem deu ao Rio de Janeiro o apelido de «Cidade Maravilhosa».
Infelizmente as centenas de obras de Coelho Neto são hoje raras, demonstrando todo o desrespeito deste país para com sua própria cultura.
Domínio
Público Aqui no Brasil, quando o governo arruma emprego para um jovem, diz que está «inserindo os jovens brasileiros no mercado de trabalho».
Quando dá comida para uma criança faminta, afirma estar «combatendo a desnutrição infantil em todo o território nacional».
Com esta mesma política, o Ministério da Cultura criou o site «Domínio» Público [www.dominiopublico.gov.br].
Publica meia dúzia de obras, mas propagandeia que está salvando e documentando a cultura brasileira.
O que é uma bobagem.
Como um autor do porte de Coelho Neto, responsável por mais de uma centena de livros, pode ter disponibilizado no «Domínio Público» apenas, exatamente, meia dúzia de textos?
Pelo menos as novas gerações de leitores poderão ter um pequeno exemplo do que já foi escrito no Brasil, nas primeiras décadas do século 20, além dos pré-modernistas.
Antes de resenharmos os contos publicados no «Dominío Público», vamos resumir a biografia deste maranhense de sangue português e índio.
Nascido em Caxias, Maranhão, a 21 de fevereiro de 1864, mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro aos seis anos de idade.
Mas aos 19 anos veio para São Paulo estudar direito no Largo São Francisco, morando na mesma pensão que o realista Raul Pompéia.
No entanto, desistiu do direito, dois anos depois e voltou para o Rio, onde adentrou à boêmia com Olavo Bilac e Paula Ney.
A enxurrada de livros publicados começou imediatamente, bem como colaborações em jornais.
Em 1891, entrou para a política, chegando a deputado federal por o Maranhão.
Escreveu sob muitos pseudônimos, especialmente para fugir à perseguições políticas que poderiam ser desencadeadas por suas críticas ao governo.
Foi Coelho Neto o autor mais popular do Brasil até a chegada dos modernistas, que o atacaram duramente, especialmente após textos do pré-modernista Graça Aranha.
E deve ter sido este o motivo principal que levou o maranhense ao esquecimento.
Principais obras, de acordo com a Academia Brasileira de Letras, do qual chegou a ser presidente:
Rapsódias, contos (1891);
A capital federal, romance (1893);
Baladilhas, contos (1894);
Fruto proibido, contos (1895);
Miragem, romance (1895);
O rei fantasma, romance (1895);
Inverno em flor, romance (1897), Álbum de Caliban, contos (1897);
O morto, romance (1898);
A descoberta da Índia, narrativa histórica (1898);
O rajá do Pendjab, romance (1898);
A Conquista, romance (1899);
A tormenta, romance (1901);
Turbilhão, romance (1906);
Vida mundana, contos (1909);
Banzo, contos (1913);
Rei negro, romance (1914);
Mano, Livro da Saudade (1924);
O polvo, romance (1924):
Imortalidade, romance (1926);
Contos da vida e da morte, contos (1927);
A cidade maravilhosa, contos (1928);
Fogo fátuo, romance (1929).
Publicou, ainda, peças de teatro (vários livros), crônicas, críticas, obras didáticas, discursos e conferências.
Coelho Neto converteu-se ao espiritismo por volta de 1923.
Em 2002, a Unicamp lançou uma coletânea de crônicas de Coelho Neto.
Segundo a organizadora da edição, «Ana Carolina Feracin da Silva,» apesar da importância de Coelho Neto, o escritor é praticamente desconhecido do público atual.
Ganhou ao longo do tempo a pecha de ser adepto de uma literatura estéril e ornamental, que não teria compromissos com questões sociais e políticas.
A pesquisadora credita esse tipo de equívoco a um certo desconhecimento da obra de Coelho Neto e do movimento da crítica literária do início do século passado, que elegeu alguns cânones e desprezou outros literatos. '
Os críticos talvez tenham feito esse tipo de análise com base numa parte da sua obra, quando ele já era acadêmico e evidentemente já não mantinha mais a mesma postura da juventude ', avalia."
O site Domínio Público disponibiliza três romances, uma coletânea de textos escritos em homenagem a seu filho falecido e um conto de mistério, «O Duplo».
A o analisarmos estes textos, podemos compreender a crítica dos modernistas.
A Conquista
Texto oriundo do Núcleo de Educação à Distância da Universidade da Amazônia, em Belém do Pará.
Começa falando de celtas, musas e classicismos diversos.
Em as primeiras páginas o leitor tem a impressão de estar diante de um escritor expulso do seio romântico por não ser suficiente romântico.
Tem adiante 193 páginas, temperadas por citações latinas e francesas, a conquistar como se fôssemos peregrinos.
Só para corajosos.
O romance, autobiográfico, é quase uma peça de teatro, pois contém basicamente diálogos.
Lá por as tantas, percebe-se um certo flerte com o realismo.
Porém, o livro foi escrito já numa época de anarquização da literatura promovida por os modernistas.
Trecho:
«Quando chegaram ao largo do Rocio, Anselmo fez uma observação sutil citando Herôdoto.
Em Babilônia havia, ao menos, um subúrbio sagrado onde avultava, entre cedros e loureiros, o templo de Mylitta, ainda assim o historiador clama contra a vergonha Que diria ele se, revivendo, viesse, tantos séculos depois, olhar a prostituição que aqui transborda e vai invadindo, como um vírus, todas as artérias da cidade?
Lá, ela estava confinada, aqui expandiu-se -- é um polvo que lança os tentáculos a toda parte.
Não há uma rua em que se não encontre a aranha emboscada na sua teia."
A Partida
Romance sobre a fuga de Maria e José e o nascimento de Jesus.
Trecho:
«Era a hora silenciosa e triste do crepúsculo.
Abrumados de ouro os montes, em duros perfis, esmaltavam de negro o horizonte abrasado.
Abriram-se as primeiras estrelas.
Subiam da terra, como o fumo das aras, panos alvos de névoa."
Mano Poemas e textos dedicado a seu filho, o Mano, morto após uma contusão durante um jogo de futebol.
O Turbilhão
É um turbilhão mesmo.
Parece um samba de crioulo doido.
E aqui, a íntegra do conto " O Duplo ":
O Duplo --
Temos, então, um caso de desdobramento da personalidade do meu querido amigo?
-- Quem te disse?
-- Laura.
Benito Soares ficou um momento encarado no coronel.
Por fim, meneando com a cabeça, desabafou contrariando:
-- Laura ...
Laura faz mal em andar contando essa história por aí.
-- Que tem?
-- Ora!
Que tem ...
Há dias, em casa do Leivas, pouco faltou para que eu rompesse com o Malveiro, a propósito do que se deu com mim, e que lhe contaram não sei onde, entendeu que me devia tomar à sua conta, expondo-me à risota de uns petimetres ridículos que o cercam.
Fiz-lhe sentir que não me agradavam os seus remoques e deixei-o com os tais mocinhos, que lhe laudem os versos quando ele lhes paga a cerveja ou o chá, aí por essas casas.
Não ando a pregar doutrinas:
não sou sectário, não freqüento sessões nem leio, sequer, as tais obras de propaganda que pretendem revelar o que se passa no Além da morte.
Sou religioso à velha moda, observando a doutrina que aprendi, ainda que não ande beatamente por as igrejas de círio e ripanço.
Cumpro rigorosamente os Mandamentos e os marcos que limitam a minha Crença são os quatro evangelistas;
fora de tais «termos» não dou um passo -- nem para diante, seguindo os reformadores, que pregam o novo Credo, nem para trás acercando-me de altares pagãos ou adorando ídolos grosseiros.
Onde me deixaram meus pais, que foram os meus iniciadores, aí ficarei até morrer.
Contei a Laura a tal história como contaria um acidente qualquer de rua, sem cuidar que ela fizesse do caso assunto de palestra nos salões que freqüenta.
O resultado disso é o que se está dando com mim, aborrecendo-me, irritando-me, porque desconfio de todos os olhares e, se alguém sorri à minha passagem, imaginando que comenta o meu caso, fico logo pelos cabelos.
-- Mas, afinal, como foi?
Com mim podes abrir-te sem receio.
Sabes que, além de discreto, não sou dos que zombam do sobrenatural.
Os fatos ai estão:
produzem-se, reproduzem-se e, se ninguém os explica, muitos dão de eles testemunho e provas e eles, efetivamente, manifestamse visível, sensivelmente.
Os cépticos encolhem os ombros sorrindo, os adversários, à falta de argumentos com que os destruam, bradam contra os que os apregoam.
A verdade, porém, é que nos achamos diante de uma porta de bronze que nos veda um grande mistério, ou melhor -- Mistério.
Mas já é muito havermos chegado à porta.
Sente-se que além dos túmulos, que são limiares de outro mundo, há alguma coisa que ...
ninguém sabe o que é.
A porta mantém-se fechada, deixando apenas passar um rastinho de luz no qual flutuam indícios, revelações vagas, como átomos nos raios de sol.
Mas deixemos as dissertações para mais tarde.
Vamos ao teu caso.
Foi, então, um desdobramento da tua personalidade ...?--
Não sei que foi.
Digo-te apenas que passei os minutos mais angustiosos da minha vida.
Saindo do Alvear, subi vagarosamente a Avenida até a Tabacaria Londres, onde comprei charutos e estive um instante a conversar com o Borges sobre coisas da vida.
O Borges anda com a mania dos Marcos;
possuí não sei quantos milhões, e espera que a Alemanha recomponha as finanças para aturdir-nos, a nós e ao mundo, com a vida maravilhosa que tem toda em plano.
O que me está parecendo é que o pobre está com o juízo em pior estado de que as finanças germânicas.
Enfim, deixando o Borges, dirigi-me, sem mais empeços, para a Galeria, onde comprei os jornais.
O meu bonde apareceu logo e logo foi assaltado.
Não consegui uma ponta e fiquei entalado no banco da frente, entre um obeso cavalheiro ruivo e uma matrona anafada, dessas que se esparralham.
O bonde partiu e, oprimido por as duas enxúndias, dificilmente consegui abrir um dos jornais.
Pu-ma ler, ou antes:
a olhar a página porque, em verdade, a minha atenção vagueava, aí por longe.
Os olhos passeavam por as palavras, sem que o espírito lhe colhesse o sentido, como deve acontecer com os aviadores que vêem, de muito alto, todo o panorama de uma cidade em mancha, sem distinguir os bairros, as ruas, os edifícios, apenas o alvejamento das casas, a placa cintilante do mar, o relevo dos montes.
Sentia-me atraído por alguma coisa.
Voltei página
do jornal -- a mesma confusão, o mesmo empastamento.
Foi então, que levantei a cabeça, olhando em frente e vi, meu amigo, vi ...!
-- Viste ...?
-- A mim mesmo, a mim!
Eu, eu em pessoa sentado defronte de mim, no banco da frente, que dá costas à plataforma.
Era eu, eu!
como refletido num espelho, e certo estremeci vivamente, incomodando os meus companheiros laterais, porque ambos voltaram-se encarando-se de má sombra.
Pasmado, sem poder desfitar os olhos daquele reflexo, que era, em tudo, eu:
nas feições, na atitude, no trajo, não parecido, mas reproduzido em exteriorização, pensei de mim comigo:
«Se tal se dá é que o meu espírito, alma, ou lá o que seja, exalou-se de mim, deixando-me apenas o corpo, como a borboleta deixa o casulo em que se opera a metamorfose.
Assim, pois, o que ali se achava, no bonde, era uma massa inerte, sustida por os dois corpanzis que ladeavam.
E, em menos de um segundo, vi todo o horror da cena, que seria cômica, se não fosse trágica, que se daria com a retirada de um daqueles gordos.
Desamparado, o meu corpo vazio tombaria.
Daria-se-, então, o alarma:
todos os passageiros de pé, a verificação da minha morte, o reconhecimento do meu cadáver por o condutor e a minha entrada fúnebre em casa».
Que angústia, meu amigo!
E o outro lá estava em frente a olhar-me, como se gozasse com o meu sofrimento.
Lembrei-me, então, de fazer um movimento com os braços, com as mãos;
o receio, porém, de ser a minha vontade atendida por os nervos fez-me hesitar.
Mas eu pensava, raciocinava.
Sim, mas o corpo não esfria de repente e tais pensamentos e tais raciocínios podiam ser ainda restos de energia d' alma que me houvessem ficado nas células, como fica nas polias o movimento ainda depois do motor parado.
Sentia-me rígido, petrificado e tinha a sensação de frio, como se me fosse congelando, a começar por os pés.
E o outro sempre encarado em mim.
Fiz um esforço supremo como se quisesse levantar o bonde com todos os passageiros que ele continha e, arremessando os braços, pus-me de pé.
A matrona levantou a cabeça com atrevimento e olhou-me com tal carranca que eu pensei que me fosse agatafunhar ou, com a força dos braços, que eram duas coxas, atirar-me do bonde abaixo e o ruivo roncou ameaçadoramente, aprumando a cabeçorra quadrada de ulano com entono de desafio.
Mas que me importavam ameaças A minha alegria era grande e tornou-se maior quando, ao procurar com os olhos o meu outro «eu», não o vi mais.
Teria descido?
Não! Não descera.
Tornara a mim, atraído por a vontade, na ânsia de viver, no desespero em que me vi, só comparável ao de alguém que, indo ao fundo, sem saber nadar, debate-se agoniadamente conseguindo elevar-se à tona e gritar a socorro.
E tudo isso, meu amigo, não durou, talvez, um minuto e eu guardo de tais instantes a impressão penosa de um século de sofrimento.
Eis o meu caso, o caso que tantos aborrecimentos me tem trazido por a tagarelice de Laura, a quem o contei, e que o repete por aí, a todo o mundo.
E crença que D. Juan de Maraña, encontrando-se, certa noite, com um saimento, perguntou a um dos que conduziam o esquife:
«Quem era o morto?"
E logo lhe foi respondido: --
É D. Juan de Maraña.
Querendo o fidalgo verificar o que lhe dizia o farricoco e outros sinistramente repetiam, afastou o sudário e viu.
Efetivamente: o defunto era ele.
E tal visão foi que o levou ao arrependimento.
Pois com mim a coisa foi num bonde.
Eu vi-me, como te estou vendo;
a mim, entendes?
a mim!
Como explicas tal coisa?
-- Essas coisas, meu amigo, não se explicam:
Número de frases: 183
registam-se, são observações, fatos, elementos para a Ciência do Futuro, que será, talvez, Ciência da Verdade.
Cerca de 126 milhões de eleitores decidiram os novos governantes para o país e seus Estados.
Durante intermináveis dias de propaganda eleitoral os candidatos pediram votos e através de inúmeros comerciais o TSE «vendeu» o conceito do voto como instrumento democrático.
O voto como instrumento democrático.
Eis a questão.
Após o reinado da didatura de 64, o país entrou, supostamente, num regime democrático.
Em a verdade, não somos uma democracia e se somos porque o seu principalmente instrumento, o voto, é obrigatório?
Qualquer cidadão brasileiro a partir de 18 anos é obrigado a votar.
Caso não o faça é punido com várias restrições à sua cidadania.
Democrático? Não, isto chama-se autoritarismo.
E é a partir dessa obrigatoriedade de votar que nasce a grande maioria dos problemas brasileiros.
Não há, em primeiro lugar, a condição de escolha de um Congresso Nacional constituído por cidadãos responsáveis e comprometidos com o desenvolvimento do país.
Por que? Porque foram escolhidos por uma legião de eleitores que votaram sem conhecer as propostas desses candidatos.
Votaram porque mandaram, votaram porque têm que pagar o favor recebido ou até o valor recebido.
É patético ver nos meios de comunicação a pose dos chamados «campeões de voto».
Por o número de votos desses candidatos se sabe exatamente quanto ele gastou.
E são esses cidadãos que irão legislar o nosso futuro.
Em que leis irão votar?
Que projetos irão apresentar?
Em a verdade, eles já assumem seus mandatos em busca de oportunidades que lhes permitam o retorno do «investimento» em suas candidaturas.
É assim que nascem os mensalões, os sanguessugas e inúmeros outros atos criminosos que não chegam ao domínio público.
Meus senhores e minhas senhoras, meus amigos e minhas amigas, brasileiros e brasileiras, é tudo conversa e ninguém está a fim de resolver nada.
Os políticos vão continuar fazendo caridade para os mais pobres e humildes em troca de mais de 60 milhões de votos e de suas incapacidades de julgamento.
Sabem que com uma boa conversa e um cartão social de R$ 100,00 eles podem continuar fazendo o que quiserem neste país.
A impunidade existe é para que se fique impune.
Qual o Congresso que vai acabar com o voto obrigatório neste país?
Nenhum. Afinal, essa é a maior «democracia» da América Latina.
Número de frases: 27
Pesquisador que mistura hip hop com o som de bateristas brasileiros, Rodrigo Nuts transforma a vitrola em instrumento musical
O DJ paulistano Rodrigo Nuts discoteca na noite há mais de 10 anos.
Suas habilidades no manejo dos discos de vinil classificam-no como um turntabalista.
Neologismo derivado do inglês turntable (toca-discos, vitrola), surgiu para identificar DJs de rap que transformam o uso dos aparelhos para além de suas meras capacidades reprodutivas, usando-os como instrumentos musicais.
Talvez no Brasil devêssemos chamá-lo de «vitrolista», mas essa é uma outra discussão.
Em a verdade, essa especialização dentro da cultura hip hop é uma volta às origens:
nos bailes que desembocam na consolidação da música rap, o recurso principal dos DJs para garantir exclusividade e inovação nos seus sets era estender as introduções ou pontes instrumentais de canções de funk, soul ou rock utilizando dois discos idênticos, sem perder o balanço.
Nuts é um pesquisador na área.
Começou no rap, e foi músico contratado d' O Rappa.
Ele já fez produção e remixes para Marcelo D2, Otto e Nação Zumbi, entre muitas outras atividades.
Mas aqui é o seu trabalho mais autoral que importa.
Ao lado do DJ Zé Gonzáles, Nuts forma o DZ Cuts, duo responsável por sessões de discotecagens dinâmicas, onde cada rap é tocado até seu primeiro refrão.
Um repertório opulento, fruto de anos de pesquisa musical, discos sendo garimpados e colecionados.
Responsáveis por concorridas mixtapes, de edições limitadas, já fizeram produção para a Sabotage, Gilberto Gil e Sepultura, entre outros e se apresentaram na edição brasileira do festival de nova música eletrônica Sonár Sound.
Corta para Los Angeles, alguns anos atrás.
Como preparação de uma sessão de fotos com James Gadson, Earl Palmer e Paul Humphrey, três grandes bateristas de funk, o fotógrafo B + resolve mostrar aos instrumentistas como são utilizadas as batidas gravadas por eles nos anos 1960/70 nos toca-discos.
Escala alguns DJs para comparecerem ao estúdio, e a coisa toda dá samba.
Com sets de percussão e de toca-discos montados, os djs e bateristas começam a tocar.
B + filma tudo, e edita um curta-metragem chamado Keepintime:
Talking Drums and Whispering Vinyl, que inclui as jams e os depoimentos.
Para as exibições, organiza eventos onde o encontro é retomado no palco.
Em 2002, a formação de Gadson, Palmer, Humprey, mais o percussionista Derf Recklaw e os DJs Babu, Cut Chemist, Nu-Mark, Madlib, J-Rocc e Shortkut se apresentam para mais de 5000 pessoas num teatro:
as sessões de improviso são novamente filmadas, e daí sai o longa Keepintime:
A Live Recording.
A intensidade dessas jams sessions de balanço é impressionante na telona (o filme foi exibido no Cinesesc durante a 1ª Mostra de Cinema Hip Hop de São Paulo), a impressão que fica é de um coletivo com muita liberdade musical.
Corta pra São Paulo.
A versão daqui de o Keepintime incorporou mestres das batidas nacionais como os bateristas brasileiros João Parahyba (Trio Mocotó), Mamão (Azymuth), Wilson das Neves e o DJ Nuts -- que também fez as vezes de guia da rapaziada.
Filmado, Brasilintime:
batucada com discos segue o esquema anterior:
exibido primeiramente como curta.
O longa está na boca do forno.
Esse novo encontro foi ainda mais exuberante.
Nuts grava Cultura Cópia, um set mixando balanço brasileiro dos anos 1960.
É ouvir pra sacar que esse papo que DJ não é músico é falta de experiência.
Aí que tá o problema:
isso é difícil.
O CD só foi lançado no exterior, e com edição limitada, por a Mochilla, produtora de B +.
Nuts acabou de finalizar mais um:
Disco É cultura!
De essa vez, apesar do extremamente funky, não é um disco de pista.
A audição cuidadosa de seus 77 minutos revela mixagens de sutileza muito mais elaborada.
A seleção é direcionada para a década de 1970, e inclui mais de 40 músicas de artistas como Airto Moreira, Flora Purim, Vinícius de Morais, além de samba-rock e pontos de candomblé.
Com BPMs variando bastante, parece ordenada pra formar pequenas narrativas, como capítulos de um conto ordenados sem quebra de página.
Resta saber onde conseguir.
Número de frases: 44
O Brasil é um país que possui alguns políticos bem intencionados, mas a maioria, fica abaixo da MGH -- Média de Grandeza Humana, índice que um dia, será reconhecido por a ONU.
São 507 anos de história e nesses séculos, aconteceram fatos e fatos:
escravidão, perseguição aos menos favorecidos, miséria quase absoluta, revoluções sufocadas, cangaço, racismo (ou insinuações) e por último, o empobrecimento intelectual de quase toda população jovem e adulta.
A distribuição de renda é tão desigual (e perversa) que até as manchetes dos jornais sensacionalistas (tipo paparazzo), perdem espaço, à medida que são estampadas notícias retratando os recordes negativos brasileiros no IDH -- Índice de Desenvolvimento Humano.
O «Governo do Presidente Lula» tem a responsabilidade de não cometer os mesmos erros neste segundo mandato.
Será cobrado por os eleitores que depositaram um voto de confiança, e questionado, por aqueles que não confiam na sua capacidade política e administrativa.
O crescimento do país será o marca-passo fundamental nos próximos três anos.
Se o «coração brasileiro» parar de bater, o povo não saberá perdoar.
Quais serão os médicos e enfermeiros responsáveis por o combate à doença crônica, Inercias brazilis, diagnosticada e isolada no Hospital Brasil?
Os mesmos indivíduos investigados por o Ministério Público continuam participando dos cargos administrativos e políticos de um Brasil doente!
A sociedade não aceitará doses homeopáticas para o combate a uma endemia (logo será uma epidemia) bem brasileira (corrupção), que tem como vetor o mosquito Impunis brasis, e como conseqüência:
a morte de milhões de brasileiros.
O parasita Corruptus safadus precisa ser combatido!
Qual será a dose e o tipo do remédio?
O PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) avança movido a manivela nos belos e problemáticos «Brasis» -- gigantes por natureza e anões na esperteza.
As Universidades de Norte a Sul possuem a capacidade incontestável de monitorar a corrida da «Locomotiva Brasil».
Qual é o motivo da não utilização de cientistas, técnicos, pensadores e a infra-estrutura geral (formada por mão de obra especializada) na escolha e coordenação dos projetos estratégicos do Governo Lula?
O projeto de Transposição do Rio São Francisco (Região Nordeste), as Hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio no Rio Madeira (Região Norte), a Usina Nuclear de Angra III (Região Sudeste) e outros empreendimentos energéticos -- precisam de análises detalhadas e uma maior discussão na sociedade brasileira.
Os que se acham sábios e estrategistas, querem sozinhos, conduzir o «Trem Tupiniquim», e ao mesmo tempo, realizar as tarefas de maquinistas e foguistas -- estamos atrasados!
Toda viagem necessita de planejamento!
Existem pontes, viadutos, barreiras naturais, artificiais e o tempo -- que por meio de mudanças bruscas -- pode causar acidentes no percurso.
Quem anda na cabeça dos outros é piolho!
Quem ouve a sabedoria é filósofo!
Quem anda nos trilhos do planejamento é o desenvolvimento!
Sites:
Número de frases: 25
http://lailtonaraujo.blig.ig.com.br/
Desde de 1980 a música eletronica vem se tornando umas das mais tocadas em festas e eventos no mundo inteiro, a cada vez mais modificando o seu estilo o seu ritmo e suas batidas ...
Venho mostrar para vocês um estilo diferente mas contagiante e vibrante para todas as festas e raves, experimental este é o ritmo que vem tomando seu espaço juntamente com todos os outros ritmos todos vão adorar ...
Conto com a participação de todos aficcionados a música eletrônica para que este estivo dure por muitos e muitos anos para frente ...
Este é apenas o começo ...
Número de frases: 5
Dj Baron Sanca a 1000 gral the music eletronic e Dance hall the best ...
Campo Grande (MS) -- Em14 de março foi comemorado o dia nacional da poesia.
Em uma data como essa, nada melhor do que investigar e saber o que anda acontecendo no cenário poético e literário sul-mato-grossense.
Muitos não sabem, mas a poesia de Mato Grosso do Sul não é representada apenas por os versos do escritor Manoel de Barros.
A poesia no Estado vêm se consolidando desde a primeira edição da Noite Nacional da Poesia, organizada por a União Brasileira de Escritores em parceria com a Fundação de Cultura de Campo Grande.
O atual diretor-presidente da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), Américo Calheiros, também foi um dos principais incentivadores da expressão poética e que idealizou a vinda de grandes expoentes da cultura nacional à Capital para desenvolver a produção literária local.
Quem contou trechos desta história poética foi o poeta sul-mato-grossense Ruberval Cunha.
Hoje, ele desenvolve projetos na Biblioteca Isaías Paim, uma das unidades da FCMS.
Em uma conversa descontraída, durante o intervalo de uma homenagem que estava recebendo numa escola pública de Campo Grande, ele contou sua história, falou sobre o público, poetas do Estado, projetos da biblioteca e explicou sobre o improviso Guaicuru, técnica que utiliza para disseminar o gosto por a poesia:
Como surgiu seu interesse por a poesia?
Ruverval Cunha -- Eu já gostava de escrever desde 8 ou 9 anos de idade.
Em aquele tempo havia muita pressão social, diziam:
«homem não escreve», e eu era muito tímido.
Então eu escrevia e guardava meu material.
Até que um dia uma amiga encontrou um poema meu no caderno, já no 1° ano do segundo grau e esse poema foi disseminado por a sala.
A maioria das meninas o tinham anotado.
Até que eu saí da escola Mace e fui para a escola pública.
Aí é que eu comecei a me assumir como alguém que escrevia.
Os professores achavam que eu era um aluno inteligente, então criou-se esse mito e os professores queriam que eu saísse líder de sala.
Creio que essa leitura se deva em parte por a disparidade existente entre o ensino das escolas públicas e particulares.
O menino que era um dos mais populares da sala, estava sempre na balada e estudava há 9 anos na escola, ou seja, era o oposto de mim, também saiu candidato a líder.
Aí eu me tranqüilizei, achava que ele ganharia.
Mas, acabei ganhando.
Aí eu comecei a me abrir mais, ter maior contato com as pessoas e foi diminuindo minha timidez.
Fiz cursos de teatro e comecei a usar isso como uma porta para alavancar a produção poética.
Isso lá em 1988.
Então a partir dessa época você não largou mais a poesia?
Ruberval Cunha -- Foi nessa época em que eu ganhei meu primeiro concurso de literatura, que considero meu início.
Após ganhar um com concurso escolar aberto à comunidade, ganhei o terceiro lugar no Concurso da Noite da Poesia e este ano comemoro 20 anos na estrada da poesia.
Como você costuma despertar o interesse das crianças por a poesia?
Ruberval Cunha -- Primeiro aproximando a realidade da poesia da realidade de elas, fazendo uma adequação lingüística, desmistificando que o poeta é um ser de outro mundo.
Desmistificando que a poesia está apenas nos livros e que ela é apenas romântica.
O que é mentira.
O que aconteceu é que ela foi aceita assim, por a maioria das pessoas que não têm contato com outras partes do universo poético.
Sempre falo para os jovens que a poesia pode ser cômica, social, popular, regional, urbana, etc..
Você quer falar mal de alguém?
Ao invés de ir para uma gangue e sair na porrada com alguém, use o livro, use o texto, use a poesia.
Você pode usar a poesia para montar uma peça de teatro, considerando-se a letra podemos dizer que você tem poesia como base na maior parte das músicas que aí estão, exceção feita àquelas que são instrumentais.
Acredito que essas aproximações sejam um bom caminho para começar a desmistificar essas relações e estabelecer contato com a poesia.
Digo que a poesia de hoje é um pouco diferente da poesia romântica, realista, parnasiana.
Esses estilos de produção são uma base, mas hoje você não tem uma obrigatoriedade de usar a rima, de centrar a produção no eu lírico.
Por exemplo, a idéia do Hip Hop é uma coisa que para os adolescentes é muito interessante.
Dentro do Hip Hop, mais especificadamente o Rap.
Eu costumo dizer que esta é uma das formas de manifestação da poesia urbana.
Você traz todos os seus anseios sociais e pode mostrar as necessidades das comunidades, sua vivência, seu descontentamento, sua linguagem.
Isso aproxima.
Quando trabalho com o improviso guaicuru também, porque as pessoas tem a oportunidade de auxiliar de maneira mais direta, de co-participar, de utilizar parte de sua linguagem e se reconhecerem no poema.
Como é que surgiu a idéia do improviso Guaicuru?
Ruberval Cunha -- Eu agreguei algumas técnicas do teatro, do repente, da música e do discurso poético.
Utilizo um figurino, pinto o rosto, utilizo elementos do nosso Estado como berrante, chapéu de palha, caso o trabalho seja voltado para o regional e se for algo que tenha uma temática mais universal, busco outra roupagem.
A o que se agrega a co-participa ção das pessoas.
O repente nordestino é cantado, a trova gauchesca também, o improviso guaicuru até pode ter em sua execução passagens que sejam assim, mas o trabalho como um todo não é, ele trabalha não com um mas com diversos motes, cerca de 20, 30 ou 50 palavras vindas do público.
A partir daí, monto um poema instantâneo.
A influência para montar este tipo de trabalho foi o cordelista e repentista Rachid Salomão.
Eu já escrevia poesias, tinha ganhos alguns prêmios em concursos e um dia, quando ele lançou o opúsculo intitulado, «De a Lama para a Glória», pude vê-lo trabalhando com improvisos.
Sentado na poltrona do Teatro Aracy Balabanian, escrevi uma trova popular.
Alguém observou e quando o Rachid desceu para ir autografar sua obra, alguém o segurou por o braço e disse:
Rachid você ganhou um filho, o rapaz ali também é repentista e apontou para o lado onde eu estava.
Olhei para trás para ver quem era e não tinha mais ninguém atrás de mim.
Então perguntei.
Eu? É você mesmo, vi você escrevendo algo no papel enquanto ele falava.
Eu respondi -- Moço fazer no papel é uma coisa, fazer o que ele faz é outra.
Bem, a verdade é que isso gerou um convite do Rachid para realizarmos algo em conjunto e a oportunidade apareceu na época em que comemorava-se a semana do folclore.
Uma escola estadual nos convidou para realizarmos um desafio para os seus alunos.
Aceitei a proposta com a ousadia dos inocentes, uma por imaginar que o público seria uma sala de aula com uns trinta alunos e, também, por desconhecer a história do Repentista do Oeste, como Rachid se auto-intitulava no campo do repente.
Isso sem contar sua vivência cultural, tendo ganho concursos de repentes em Santos, trabalhado em circo, ter sido um dos fundadores do futebol feminino no país, atuar a mais de 40 anos no jornalismo, etc..
Ele (Rachid) era bem alto, calvo, tinha miopia grave nas duas córneas e era bem barrigudo.
Eu era super magro, baixinho e com um cabelo rabo de cavalo bem grande.
Quando eu vi o público de aproximadamente umas 600 ou 800 pessoas tremi feito vara verde e disse ao Repentista do Oeste:
e agora?
Ele calmamente respondeu:
não se preocupe, o que você mandar eu respondo.
Então retruquei:
Como é que eu mando?
Ele disse:
você me apresenta em verso e eu te apresento em verso.
Pensa aí rapidinho e se você não der conta, faço uns cinco minutos de improviso e vamos embora.
Aquilo me relaxou e eu o apresentei em verso.
Normalmente eu não me recordo dos improvisos feitos, mas tenho gravado na memória até hoje parte do primeiro improviso que fiz na vida.
Eu o apresentei dizendo:
Contra este homem não há revide / contra ele não há solução / o primeiro nome é Rachid / e o segundo é Salomão.
Ele retrucou:
trouxe aqui com mim / um cara muito legal / apresento meu amigo / o nome de ele é Ruberval.
Em o momento seguinte, sob aplausos do público, formado por adolescentes e membros da comunidade, os versos pareciam brotar de maneira espontânea.
Algo que de imediato chamava atenção em ele era a barriga imensa.
O verso seguinte dizia:
Com tudo eu faço verso / pois tudo ao meu olhar se assanha / a única coisa que não cabe no meu verso / meu amigo Rachid / é sua banha.
A molecada então gritava baleia, baleia.
Ele olhou bem tranqüilo e já respondeu de imediato.
Apesar da minha banha / sou homem por demais sereno / me tragam um homem de verdade / este aqui tá muito pequeno.
Disse o último verso batendo com a mão em minha cabeça.
A molecada adorou e gritava:
anãozinho, anãozinho.
A brincadeira durou cerca de 45 minutos e paramos quando ele me disse cochichando no ouvido:
no próximo vou falar bem de você e depois você fala bem de mim, terminamos empatados, nosso tempo já estourou.
Foi a primeira vez que participei de um desafio na vida e ali descobri que tinha um dom, ao qual agreguei o teatro, o discurso poético e a participação direta das pessoas, uma vez que não sabia tocar violão para tentar fazer o repente nordestino ou a trova gauchesca.
Por falar nisso, ainda não sei tocar, tenho que arrumar um tempo e aprender.
Foi assim que o improviso nasceu, meio de improviso e com a ousadia dos inocentes.
Até hoje dou graças a Deus por o desconhecimento que tinha da história do Rachid.
Essa técnica de teatro e improvisação outros poetas daqui utilizam?
Ruberval Cunha -- O Emmanuel Marinho já fazia algumas coisas relacionadas ao teatro em Dourados, depois ele foi buscar outros horizontes fora do Estado e até hoje transita no meio cultural unindo linguagens.
Aqui em Campo Grande, comecei na Noite da Poesia com a declamação clássica e observando nomes como a Ladarense, Sagramor Farias e Dolores Guimarães, a primeira a ser publicada no Correio do Estado (Cantinho da Poesia).
O cenário se resumia apenas às declamações clássicas.
E eu as utilizei inicialmente, mas algo me incomodou.
Eu queria dizer de outra forma.
Trabalhar com a idéia de performance foi uma coisa que a gente começou neste concurso (por aqui) e hoje existem vários adeptos.
Até porque as pessoas do teatro passaram a trabalhar a poesia.
E isso acabou ganhando uma dimensão um pouco maior.
Hoje tem muita gente fazendo performance poética, tem muita gente trabalhando o casamento das linguagens.
Quanto ao improviso guaicuru, o José Mauro Messias, recentemente falecido, tentou trilhar por esse caminho, se inspirando no seu trabalho de improviso nesta vertente, da mesma forma que minha base foi o Rachid Salomão e seu improviso.
Adaptei e montei o meu estilo.
O Poeta das Moreninhas, como era conhecido também, usou a base do improviso e tentou montar o de ele a partir daí.
O improviso, a performance poética e a participação direta aproxima o público do que está escrito, intermediado por o corpo, por a voz, por a dinâmica de ocupação do espaço.
Isso, normalmente, gera um maior interesse das pessoas por a poesia.
Quando começaram a ser feitas as Noites Nacionais da Poesia no Estado?
Ruberval Cunha -- A Noite Nacional da Poesia é um concurso que acontece a nível nacional que tem uma data de palestras e uma data competitiva.
Ela oferece premiação e dinheiro para o melhor texto e para os melhores declamadores.
Aqui no Estado, ela foi criada dentro da União Brasileira de Escritores, na época de Guimarães Rocha e do Julinho Guimarães que fez parte da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.
Era um grupo de pessoas que ajudaram a alavancar isso.
Guimarães foi um dos grandes mentalizadores que teve contato com o pessoal de fora, da União Brasileira de Escritores de São Paulo.
Essa idéia foi levada a uma esfera política.
Dentro desta esfera, eles compraram a idéia e a transformaram em lei.
Ela passou a ser uma realização da prefeitura de Campo Grande, com a execução da Fundação de Cultura do município (Fundac), com a União Brasileira dos Escritores.
Ela começou e veio evoluindo.
Antigamente a noite era dominada por a participação e premiação de escritores e declamadores de Corumbá, um dos berços culturais do Estado.
Vinham e ganhavam a noite, participavam trazendo ônibus lotados para o antigo Paço Municipal.
Nomes como Artêmio Sanches, Marluce Brasil de Castro, a própria Sagramor Farias e tantos outros.
Até hoje eles participam, movimentam a noite, pessoas como por exemplo:
o Balbino, um batalhador da cultura e trovador popular, o Benedito C.G., poeta e professor de literatura, só pra citar alguns.
Aos poucos Campo Grande começou a se fortalecer e começaram a aparecer novos expoentes no evento.
Históricamente, se não me falha a memória, a primeira mostra não competitiva foi em 1986.
A segunda já foi competitiva e aconteceu em 1989, persistindo até os dias atuais.
Com o tempo, a Noite ganhou inovações, deixou de ser realizada em âmbito estadual para se tornar nacional.
Passou a realizar palestras com grandes nomes da cultura do País, idéia do professor Américo Calheiros, atual diretor da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.
Ele achava que a noite precisava melhorar ainda mais a sua qualidade em termos da escrita poética.
Segundo ele, ela precisava ser dinamizada para aparecerem novas pessoas.
A vinda de grandes expoentes para realizar palestras, não só agregou em termos de conhecimento para os que puderam assistir, mas também começou a abrir algumas portas para intercâmbio de idéias, para que as pessoas de fora passassem a ter uma noção das coisas que são produzidas aqui.
Vieram nomes como Adélia Prado, Nélida Piñon, Wally Salomão, Thiago de Mello, Arnaldo Antunes.
Isso propiciou aos poetas daqui uma outra visão sobre seus trabalhos, uma outra porta para o conhecimento, comparando seus trabalhos com outros, vendo pelo menos outras janelas poéticas e podendo indagar, ser indagado, trocar ao vivo e em cores, informações, impressões ou pelo menos vislumbrar novas possibilidades.
Eu fui muito beneficiado por a Noite Nacional da Poesia.
Eu me considero um dos filhos desse evento.
Atualmente, o Américo criou também o «Espaço da Poesia» realizado na própria Fundação de Cultura do Estado, toda última sexta-feira do mês, durante o período noturno e com entrada franca, onde ele agrega diversas linguagens artísticas, com destaque para a poesia, que circula juntamente com outras linguagens artísticas como:
música, mini-palestras, declamações performáticas, poemas visuais, lançamento de livros, dança, teatro, etc..
Lá existe uma interação entre as artes.
O que é muito interessante porque abre a possibilidade da quebra de paradigmas, abre espaço para que a informação transite entre os segmentos artísticos e sociais.
Faz com que as pessoas possam circular um pouco fora do seu nicho.
Quanto mais nós tivermos este tipo de relação, eclética e plural, esse dialogismo entre áreas diversas, maior será o fortalecimento cultural.
E mais, logicamente maior se torna o fortalecimento da expressão poética também.
Como surgiu a idéia de fazer o projeto «Vêm ler o mundo» na biblioteca Isaías Paim?
Ruberval Cunha -- Eu já havia trabalhado no núcleo de literatura da Fundação de Cultura anos atrás, quando voltei, depois de três anos no Detran aliando o trânsito à arte-educa ção, como instrumento de sensibilização, queria fazer algo novo, exercer uma outra função na Fundação.
A intenção era trabalhar com escolas públicas municipais e estaduais.
Em cerca de 8 meses, atendemos mais ou menos 12 mil pessoas.
Em o ano passado foram 20 mil pessoas.
Visitávamos as escolas porque normalmente elas não tem acesso à produção cultural, além da chance de quebrar paradigmas, de contestar a idéia de que as pessoas não gostam de poesia.
Como dizer o que as pessoas gostam ou não sem o contato com aquilo que dizem gostar ou não gostar?
Alguém pode dizer que alguém beija mal sem nunca ter beijado a outra pessoa?
Possibilitamos o contato com a poesia para que as pessoas possam começar a descobrir a poesia e realmente dizer se gostam ou não gostam.
Mas aí eu pensei que a poesia é apenas uma das expressões da linguagem, temos teatro, dança, cinema, contação de histórias ...
Passamos trabalhar com duas frentes para incentivar a leitura e o contato com a cultura.
Uma trabalhando com a visão semiótica fazendo a leitura de signos.
E outra, com enfoque mais literário.
Nós queremos mostrar para as pessoas que você lê não só o que está escrito, mas também o que não está.
Em os livros, por exemplo, você lê os espaços em branco, o contexto cultural.
Mostramos que nós lemos as roupas que as pessoas vestem, o carro que elas usam, seu espaço social.
As pessoas já fazem isso, mas não têm essa noção.
O projeto «Vêm ler o Mundo», abriu espaço para que trabalhássemos com os artistas da terra, resgatando nossos valores, dando uma noção das diversas expressões que aqui existem.
A intenção é, também, formar um público leitor e quem sabe, futuramente, consumidor dessa produção cultural.
A idéia é trabalhar com dança, música, teatro, filatelia.
Levamos uma pessoa para contar um pouco da história de ela, e para falar como é possível ler aquele segmento artístico.
O filatelista, por exemplo, vai contar a história de ele, há quanto tempo coleciona, sobre o valor de um selo, como os filatelistas dão a idéia de valor, como se chega ao conceito de raridade, ou seja, quais são os elementos possíveis de se ler.
Vai mostrar o que existe no selo para ser lido.
Essa é a idéia do projeto «Vêm ler o mundo».
Trabalhar essa visão e agregar às outras expressões artísticas.
Qual é a intenção do projeto «Todas as letras»?
Ruberval Cunha -- O projeto «Todas as letras» está mais ligado à idéia da literatura:
na crônica, na prosa, no conto, na poesia.
Para utilizar isso como um elemento que possa encantar as pessoas.
Que possa estabelecer com as pessoas uma identidade.
Porque é muito mais fácil transformar um texto e gerar com essa transformação um encantamento, seja por o corpo, por a voz e / ou por o conjunto de tudo aquilo que a gente já falou.
às vezes você pode fazer uma discussão e guiar uma pessoa para que ela vá descobrindo alguma coisa no texto e depois deixá-la solta para que ela curta a liberdade de ele.
Você pode gerar a curiosidade, o encanto, o desafio inicial e isso pode ser o estopim de um novo leitor.
Sabemos que são necessárias outras ações para consolidar ou aumentar essas possibilidades, mas o pontapé está dado.
Como foi a receptividade das crianças que já participaram destes projetos?
Ruberval Cunha -- Ano passado nós fizemos uma avaliação dos projetos utilizando questionários na maioria dos locais onde visitamos.
A avaliação formal coube aos professores, coordenadores e diretores ou responsáveis.
A informal através da receptividade das crianças;
você sente por os aplausos, por a atenção.
No caso dos adolescentes, por a manifestação em conversas após o evento e idéia que eles têm de que aquele exemplo pode ser seguido, por a vinda de eles para «trocar uma idéia», mostrar um texto, em alguns casos até por o pedido de autógrafos, perguntas sobre onde fica a biblioteca, se existe um site que eles possam consultar, etc..
Em o ano passado, considerando as avaliações formais aplicadas, tivemos um índice de aceitação de aproximadamente 99 %, com resultados avaliados como bom ou ótimo com relação ao desenvolvimento destes projetos.
Agora estamos trabalhando com algumas filmagens realizadas em máquina digital, depoimentos de professores e alunos avaliando o projeto.
Alguns perguntam se haveria condições de nós retornarmos e realizar apresentações do projeto com outras turmas.
Além da difusão da leitura, os projetos cumprem outra função:
difundir o nome da Biblioteca Pública Estadual Dr. Isaías Paim.
As bibliotecas são ou pelo menos deveriam ser um espaço privilegiado para o conhecimento, para a leitura, para o encontro das pessoas possibilidades de leitura.
Esse espaço da biblioteca, de uma maneira geral, acaba sendo desconhecido por a maioria das pessoas.
Tem gente que ainda vincula às bibliotecas a um quarto de castigo, a um aprisionamento à vontade do outro, a uma obrigação e não ao aprendizado, ao prazer.
Queremos quebrar um pouco isso, queremos levar público às bibliotecas também.
Embora tenhamos descoberto ao longo deste um ano, que é mais difícil levar o público dos locais mais distantes para o centro, mais especificamente para a Dr. Isaías Paim, porque essas pessoas têm dificuldade de deslocamento.
Este ainda é um dos problemas que enfrentamos.
A falta de um ônibus que atenda continuamente, nos dando condições de alternar os projetos uma semana na biblioteca, outra semana nas escolas.
Vamos terminar com um improviso Guaicuru?
Ruberval Cunha -- Em este momento / onde o ser humano caminha lentamente / passo a passo / a poesia é um homem que anda / devagar durante a tarde.
Despem suas roupas / para entender o que os outros não vêem.
/ O seu quarto é o mundo / e a roupa que lhe veste / pequenos pensamentos.
/ O poeta não reflete apenas / ele troca a roupa das palavras.
/ E essa brincadeiras de palavras e de sonhos / de memórias / de pequenos aeroportos / faz com que os homens não partam / nem cheguem / apenas vislumbrem a essência de ser.
/ Os poetas são / mais do que as palavras podem alcançar.
/ E talvez por isso, / às vezes, / a poesia seja silêncio num papel em branco.
/ Este pequeno vestido onde a prepotência cabe / ser guardada no armário, / para que os homens se lembrem que ela existe / mas para que não a retirem.
/ E por ser diferente, / a poesia é apenas buscar a velha raiz / e achar então / uma semente.
Número de frases: 210
/ A poesia é esta arte igual / de ser diferente.
Para gerenciar bandas, estúdio e selo, dupla mostra que é realmente dinâmica e justifica o nome ao estilo dos super-heróis
Foi para gerir legalmente a vida de sua banda punk Beijo AA Força que o curitibano Luiz Ferreira e o paulista Rodrigo Barros criaram a Homem de Ferro, em 1986, emprestando o nome de uma suas melhores músicas.
Sob esta marca construíram uma história de sucesso também quando o assunto é produção.
E mais recentemente a dupla se revelou uma boa preservadora da memória cultural paranaense -- seja resgatando histórias passadas como registrando as que estão sendo contadas agora.
Informalmente chamada Central Homem de Ferro, a empresa hoje abriga na verdade vários projetos.
As bandas dos dois, Beijo e Maxixe Machine, o estúdio Chefatura, o selo Sem Suingue, e o projeto A Garagem que Grava (GGG).
Eles se mexem para todos os lados acostumados que estão a se produzir e divulgar -- têm até um programa de rádio e fazem trilha para teatro e cinema.
Parte de suas mais recentes conquistas teve apoio do município de Curitiba através do projeto Residências do Rebouças, que selecionou propostas culturais para serem desenvolvidas no bairro Rebouças, numa tentativa de transformá-lo numa região para artes, cultura e lazer.
Porém, eles nunca sobreviveram exclusivamente do apoio público que, aliás, está em fase de avaliação por a atual administração, que decidirá sobre sua continuidade.
O que se sabe é que a Central não vai ser excluída se o projeto for adiante.
A Grande Garagem resultou até agora no lançamento de duas caixas com 16 CDs de bandas curitibanas gravadas ao vivo na garagem da sede da Central.
Entretanto, a GGG é só um dos projetos da Central, que já ofereceu como contrapartida ao apoio público, atividades com estudantes da rede pública de ensino, que tiveram a chance de ver de perto como é feita uma gravação de áudio, participando de algumas experiências.
Outro projeto é o Poetas em Movimento, que gravou 32 poetas contemporâneos lendo e comentando suas criações, não desprezando os autores pop e suas bandas de rock, numa visão bem contemporânea do que seja poesia.
Os CDs serão distribuídos apenas para bibliotecas e incluem gravações com Mário Bortolotto, Thadeu Wojciechowski, Tavinho Paes e Chacal.
A Central também está participando, aí como empresa contratada cujos donos estão curtindo à beça o trabalho, da digitalização do acervo do jornalista paranaense Aramis Millarch, que fez história nos 60 e 70 escrevendo e gravando tudo que os amigos, do calibre de Vinicius de Moraes (para ficar no mais famoso), cantavam e tocavam em sua casa, onde sempre faziam uma parada ao passar por Curitiba.
A dupla também andou metendo o bedelho no filme Punks na cidade, sobre o movimento do qual fizeram parte em Curitiba, assinando a trilha sonora e co-produ ção.
Encerrando o ano passado, ainda participaram com a Beijo AA Força do projeto Ultralyrics, do diretor teatral Felipe Hirsch, que produziu um livro com o poemas do poeta paranaense Marcos Prado.
A Beijo entrou com as músicas que fizeram com Prado, um de seus principais parceiros, morto em 1996, aos 36 anos.
Esses dois puderam começar 2006 com a consciência tranqüila de terem feito sua parte.
Desde os anos 80
A Beijo AA Força (BAAF) nasceu em 1983, após alguns ensaios para logo estrear no Primeiro Festival Punk de Curitiba, produzido por a banda.
Desde o começo, eles misturaram referências do punk e hardcore ao samba e foi isso que os tornou conhecidos.
Entre idas e vindas, Rodrigo Barros (guitarra e voz), Ferreira (guitarra e voz), Renato Quege (baixo e voz) e Mola Jones (bateria) fizeram mais de uma centena de shows e tiveram formações diferentes, com até 8 músicos no palco.
Em o currículo da primeira fase estão uma K7 (O que quer o Brasil que me persegue, 1987), 05 coletâneas (Cemitério de elefantes;
Tinitus1 e 2, Ciclo Jam e Fogo, lançadas entre 1988 e 2003), um LP (Musica ligeira nos Países Baixos, 1992) e um CD (Sem suíngue, 1996).
Mais recentemente, vieram com Companhia de Energia Elétrica Beijo AA Força -- 20 anos, para celebrar as duas décadas de atividades, com 16 versões do autêntico punk curitibano, com suas letras ásperas e cínicas.
E ano passado reuniram num disco as principais parcerias com o poeta curitibano Marcos Prado.
Em 1995 nasceu o Maxixe Machine, banda que ganhou vida também para que o Beijo pudesse exercitar seu lado punk com mais tranqüilidade.
Em a formação, Rodrigo Barros (violão / voz), Luiz Ferreira (cavaquinho / voz), Walmor Góes (violão / voz), Therciano Albuquerque (teclado / voz), Cláudio Kobachuk (bateria e percussão).
Em o repertório, sambas antigos mesclados com sambas novos, composições próprias.
O CD de estréia foi trilha do filme Barbabel.
Em 2001 veio o ao vivo Folias de Momo, com 17 marchinhas de carnaval, com canções de Braguinha, Lamartine Babo, Assis Valente, Chiquinha Gonzaga e outros grandes compositores do gênero.
Em 2004 foi a vez de Maxixe Machine e Seus Ritmos Elegantes, que marcou nova fase da formação apresentando canções inéditas, com lindas baladas, boleros, valsas, polkilhas étnicas e, claro, o samba.
Número de frases: 34
O Tal Grupo Assim Assim estréia o espetáculo teatral «O Amor e Outras Catástrofes», concebido por Karyne Fratari e interpretado por Fernanda Pimenta, Geórgia Cynara, Karyne Fratari e Mary Baleeiro, com a participação das obras do artista plástico Guilherme Wolguemut (veja ficha técnica em anexo).
As apresentações serão nos dias 11, 12 e 13 de agosto, sexta e sábado às 21 horas e domingo às 20 horas, no Centro Grande Hotel de Referência à Memória de Goiânia.
Os ingressos custam 10 reais (preço único) e estão à venda na locadora C.A.R.A. Vídeo da rua 10, Centro.
A montagem conta com o apoio do Espaço Quasar, C.A.R.A. Vídeo, Armarinhos Cristal, zeroum comunicação, Casa da Cultura Digital e Mitocôndria Estúdio de Idéias.
O espetáculo
A montagem de «O Amor e Outras Catástrofes» envolve teatro, dança, música, video e artes plásticas, numa investigação da linguagem cênica, com o objetivo de discutir e criar um fazer teatral com a participação do público.
«O espetáculo busca a multidisciplinaridade e o diálogo com outras instâncias da arte, por meio do envolvimento de profissionais das mais diferentes linguagens, e também a interação das intérpretes-criadoras com o público, quando experiências de amor vividas por todos virão à tona e serão refletidas em movimentos, reações e interpretação», conta Karyne Fratari, atriz idealizadora da peça.
Tema universal contemplado, desde a Antiguidade, por todas as formas de manifestação artística, o amor é tratado na montagem de forma realista e delicada;
trata-se de uma visão feminina contemporânea, expressa de modo experimental, que, segundo Fratari, traz à tona as fragilidades, medos, devaneios, experiências e loucuras causadas por esse tão complexo sentimento.
«Crimes passionais, derrocadas de impérios, guerras e grandes tragédias reais ou da literatura fazem do amor um tema eternamente intrigante e provocador», analisa Karyne.
O elenco também é composto por a atriz Fernanda Pimenta, por a bailarina Mary Baleeiro e por a videomaker e violinista Geórgia Cynara, que assina a edição da video-instala ção e a ambientação musical do espetáculo.
A montagem conta ainda com a participação do artista plástico convidado Guilherme Wolguemut, autor das obras de arte intituladas O amor liquido, elaboradas especialmente para a peça, e que serão desconstruídas por o público ao final de ela (veja currículos em anexo).
«O Amor e Outras Catástrofes» é dividido em sete momentos, que ocorrem em sete espaços diferentes:
o primeiro se inicia na rua, em frente ao Grande Hotel;
no segundo, que se passa no hall do primeiro andar do prédio, o público poderá assistir à video-instala ção composta por depoimentos de anônimos falando sobre suas experiências amorosas e dar o seu próprio depoimento, escrevendo nos cadernos presentes no cenário.
O terceiro momento ocorre numa sala escura, na qual o público terá a oportunidade de experimentar sensações táteis, auditivas e olfativas referentes ao amor.
Em o quarto, que ocorre num corredor, estará a instalação Pisando em ovos, montada por o próprio grupo.
Em o quinto momento, Karyne Fratari, Fernanda Pimenta e Mary Baleeiro desenvolvem, respectivamente, as cenas O expurgo, Em a falta de papel higiênico e como se me amasse, todas falando de estados internos comuns aos que vivem as consequências do amor.
Em o sexto, o público participa da construção da cena Vinho e cristal, onde as quatro intérpretes-criadoras constroem vários começos, meios e fins de histórias.
E no sétimo momento, as obras de arte O amor liquido, de Guilherme Wolguemut, serão desconstruídas por o público, num cenário composto também por elementos que mostram pequenas e grandes catástrofes cotidianas.
Agenda
Além da estréia no segundo final de semana de agosto, o Tal Grupo Assim Assim já tem a segunda apresentação marcada para os dias 1º, 2 e 3 de setembro, sexta e sábado às 21 horas e domingo às 20 horas, também no Centro Grande Hotel de Referência à Memória de Goiânia, com ingressos a 10 reais (preço único).
Segundo o grupo, essas primeiras apresentações serão importantes para angariar mais patrocinadores e apoiadores e para elaborar um projeto consistente de circulação do espetáculo por o Brasil e exterior.
Serviço
Espetáculo: " O Amor e Outras Catástrofes "
1ª apresentação:
11, 12 e 13 de agosto
2ª apresentação:
1º, 2 e 3 de setembro
Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 20h
Local: Centro Grande Hotel de Referência à Memória de Goiânia (Avenida Goiás, esquina com Rua 3, Centro)
Ingressos: R$ 10,00 (preço único), à venda na locadora C.A.R.A. Vídeo (Rua 10, Centro, ao lado da Catedral Metropolitana de Goiânia)
«Ficha Técnica O Amor e Outras Catástrofes (Goiânia, agosto/2006) "
Concepção: Karyne Fratari
Produção, Cenografia e Figurino:
Tal Grupo Assim Assim
Elenco: Fernanda Pimenta, Geórgia Cynara, Karyne Fratari e Mary Baleeiro
Artista convidado:
Guilherme Wolguemut
Ambientação musical, Produção Audiovisual e Identidade Visual:
Geórgia Cynara Currículos
Karyne Fratari -- Atriz profissional, graduada em Administração em turismo por a Universidade Católica de Goiás, tem participações em oficinas de dança e teatro ministrada por nomes como José Celso Martinez, além das ministradas nos vários festivais que participou.
Além de indicações, foi premiada como melhor atriz no X Festival de Teatro de Goiás (2002) e IV Festival de Poesia Encenada (2002).
Integrou o Grupo de Teatro Guará (UCG) de 1998 a 2005, onde, dirigida por Samuel Baldani, atuou nas peças O Auto da Compadecida, Se meu Ponto G Falasse e Torturas de um Coração.
Integrou o Núcleo de Pesquisa em Artes Cênicas do Espaço Quasar (2003/2004) e participou do Ateliê de Coreógrafos Brasileiros em Salvador (2004) no espetáculo Construindo Janice, de Kleber Damaso.
Seu mais recente trabalho foi a montagem de Jorge Tontim, adaptação de Molière feita por de George Dandin, por meio da Ley Goyazes.
Atualmente se dedica à montagem de O Amor e Outras Catástrofes.
Fernanda Pimenta -- Atriz, participou de oficinas de teatro no grupo Guará, da Universidade Católica de Goiás, no Goiânia em Cena (oficina de montagem com Marcelo e Lua), oficinas de dança contemporânea no Espaço Quasar, dentro do projeto Formação Intercâmbio, com Graziela Rodrigues e Nirvana Marinho.
Participou das performances Roda, A voz da felicidade, do espetáculo Torturas de um coração (atriz substituta), e Escola de Mulheres, de Molière.
Atualmente integra o Grupo de Teatro Guará, da Universidade Católica de Goiás, onde participa da peça Escola de Mulheres de Molière, na qual ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival da FETEG / 2006, e está na montagem do espetáculo O Amor e Outras Catástrofes.
Maryanne Baleeiro -- Cursando Educação Física na Universidade Estadual de Goiás, participa desde criança de oficinas de teatro e dança.
Participou do Por Quá?,
grupo experimental de dança da UEG, durante três anos, dando aulas de dança contemporânea para a comunidade e logo em seguida entrou para o Núcleo de Pesquisa em Artes Cênicas do Espaço Quasar, trabalhando com Kleber Damaso e Letícia Ramos.
Bailarina -- intérprete convidada no Ateliê de Coreógrafos Brasileiros em 2004, com o espetáculo Construindo Janice, de Kleber Damaso.
Trabalhou na produção de festivais, como Goiânia em Cena, Paralelo 16 e Goiânia Mostra Curtas e também da ONG Casa da Cultura Digital.
Atualmente está na montagem do espetáculo O Amor e Outras Catástrofes.
Geórgia Cynara -- Musicista, jornalista, roteirista, editora de TV e vídeo, pesquisadora, compositora e arranjadora de trilha sonora para cinema.
É formada em Comunicação Social (habilitação Jornalismo) por a Universidade Federal de Goiás (2005), e atua em Assessoria de Comunicação, Jornalismo Cultural e de Terceiro Setor (voluntariado na Casa da Cultura Digital).
Fez o Curso Técnico de Música na mesma universidade, em Violino e Bandolim (1999), hoje atuando como instrumentista e vocalista das bandas Cine Capri e Tokyo Radio Station.
Foi premiada como compositora (2º lugar) no Festival SESI 2004, com a música Caminhos Pisados (banda Actemia).
Com Resquícios, também de composição própria, ficou entre os 10 finalistas V Festival Universitário da Canção, Cultura e Arte de Blumenau (Santa Catarina, 2005).
Participou do elenco do grupo de Teatro Mutambeiros (Goiânia-GO, 1999).
Foi preparadora vocal do corpo de dança do Núcleo de Pesquisa do Espaço Quasar para o espetáculo Descoberto Incolor (Goiânia, 2005).
Participou de oficinas com figuras ilustres da pesquisa em cinema e produção cinematográfica no Brasil, como Ismail Xavier, Walter Lima Jr., Dib Lufti, Di Moretti, Sérgio Kieling, Sergio Penna e Luis Carlos Lacerda.
Dirigiu, roteirizou, gravou e editou os vídeos universitários Avenida 24 de outubro e Anos 80 -- a década que não terminou, FACOMB -- do que você tem medo?
e o vídeo institucional Jovem Tec Cidadão, da Fundação Pró-Cerrado.
Foi membro da Comissão de Seleção de Filmes para a Mostra da Associação Brasileira de Documentaristas/Seção Goiás, dentro do VIII Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2006) -- mar / 2006.
Ministrou os minicursos Noções Básicas de Comunicação Social e Técnicas de Pesquisa e Navegação na Internet para jovens carentes atendidos na Casa da Cultura Digital, e a Oficina de Roteiro do Centro de Democratização da Informação (fevereiro e março / 2006).
É responsável por a co-direção, roteiro, edição, direção de arte e trilha sonora original (composição e execução) do documentário AnoniMATO (Goiânia, mar / 2006), que foi selecionado para os festivais II CINEPORT, Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, na categoria Andorinha Digital (1 a 11 de junho de 2006 em Lagos, Portugal);
29o Festival Guarnicê de Cinema (prêmio de Melhor Edição), na categoria vídeo (13 a 19 de junho em São Luís, Maranhão);
10o Florianópolis Audiovisual Mercosul -- FAM 2006, na 8a Mostra de Vídeos Mercosul (02 a 09 de junho de 2006, em Florianópolis, Santa Catarina);
III Mova Caparaó (5 a 8 de julho em Pedra Menina, Santo) e 4 th Imaginaria Film Festival (1 a 7 de agosto em Conversano, Italia).
Atualmente está montando o vídeo Guia Espiritual para Uso em Escadas Rolantes, com direção de ela e roteiro adaptado do conto homônimo de Bruno Zeni, redator da Revista Ácaro (Editora 34), e fazendo a indentidade visual, produção audiovisual, ambientação musical e assessoria de imprensa do espetáculo teatral O Amor e Outras Catástrofes, idealizado por Karyne Fratari.
Guilherme Wolguemut -- Estudante de Direito, artista plástico, não formado.
Trabalhou como artista plástico desenvolvendo técnica de desenho em folhas de acetato no espetáculo Construindo Janice, desenvolvido por o coreógrafo Kleber Damaso e realizado por o Núcleo de Pesquisa em Artes Cênicas do Espaço Quasar.
O espetáculo foi selecionado no Ateliê de Coreógrafos Brasileiros ano III, produzido em Salvador e apresentado no Teatro Castro Alves no ano de 2004.
Realizou Exposição Individual na Casa da Cultura Digital na cidade de Goiânia, onde também ministrou oficina de técnica de desenho em acetato para a comunidade.
Trabalhou em conjunto com as bailarinas Letícia Ramos, Viviane Domingues, Marta Cano Favela (México), Aki Katae (Japão) e o coreógrafo Kleber Damaso, na realização da performance de interação plástica e dança para inauguração da Concessionária Govesa da Avenida T-63.
Desenvolve projeto de Iniciação Cientifica na área de Assistência Social, estudando os projetos Bolsa Escola, Renda Cidadã e Programa Nacional do Primeiro Emprego, como políticas de inclusão ao mercado de trabalho.
Desenvolve monografia na área de Direito Ambiental, tendo como objeto de estudo a participação popular na elaboração de políticas ambientais.
Participa do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil Noturno em Bares e Restaurantes (PETIN-BR), junto à Delegacia Regional do Trabalho, através do Instituto Dom Fernando integrado à Universidade Católica de Goiás.
Mais info:
Karyne Fratari:
99862362/ 62-39419560
Assessoria de Imprensa: Casa da Cultura Digital
Número de frases: 85
Geórgia Cynara: 9112-3393
Já disse:
Jataí é uma cidade a ser inventada.
E qual lugar não é assim?
La vêm de novo o novo e é preciso criar um futuro diferente.
Mais: imaginação e coragem para agir na direção de algo que «não existe», mas insiste, como promessa.
Os projetistas de projetos em suas salas de ar condicionado, cientistas do futuro, disseram:
Jataí é uma cidade turística!
Esqueceram duas coisas só:
de avisar aos turistas e de recrutar poetas.
Só poetas podem fazer cumprir esse tipo de profecia, criando novas rimas e metáforas, slogans de uma «nova sociedade».
Rimar é trazer de novo (como novo) coisas antigas.
Metáfora é conciliar opostos, criar novas realidades.
(Pois bem, me pergunta esse demônio socrático -- que só aceita coisas claras e distintas -- seriam os publicitários os novos poetas?
Poesia de provérbio geralmente não traz novidade;
por isso o lance é interferir no óbvio e criar o novo.
Ando lendo Lemisnki demais:
melhor sentar pra continuar.)
Eu e meu inconsciente musical brasileiro:
muitas vezes só vou entender o que sinto pensando um pouco mais sobre a canção que de repente não saí da minha memória.
Nota essa aí:
o flanêur por aqui sempre cantarola.
Aí é que está a questão:
se queremos abrir espaço para a imaginação, talvez um bom caminho seja cantar uma canção e inventar novas musas (e metas).
É que nesse cerrado a dama de vermelho é a musa do lago e por isso insistem em cantar a maldade que fizeram contra a Cabocla Teresa. (
O complexo de Édipo sertanejo traz em sua narrativa de quando em quando -- pra não dizer «de quando em sempre» -- uma dama que paira no ar em sua perigosa perfeição, um rival «maldoso» que a dessacraliza e quebra a harmonia de um tempo idílico, deixando quem ocupa a posição de quem canta, na mira das cervejarias:
o ideal romântico de «amor eterno» e a busca moderna por «prazer constante» formam uma contradição como ensina Jurandir Freire Costa.
Geralmente não há espaço para vozes femininas nessas canções:
ou a mulher é «coisa perigosa» ou ideal idealizado petrificado e calado.
Cansei desse discurso cansado).
Precisamos de outras palavras ...
tanto para fugir da idealização extrema do amor-romântico.
quanto para que possamos conversar sem nos considerarmos movidos por sentimentos transcendentes.. para que abandonemos a esperança mágica (e messianica) de que uma pessoa pode resolver todos os problemas.
Até porque inventaram que essa deve ser uma cidade universitária.
Parece legal:
trazer um monte de cursos novos pode gerar perspectivas ...
mas vamos lá:
muitas pessoas entram na internet pra conversar com os vizinhos!
Sem cultura os horizontes não aumentam:
novos cursos sem espaço para a pesquisa e invenção não geram novidades.
Não chamo de novidade novos núcleos de greve e gente com condições difíceis de trabalho ...
Mas não é só assim:
vamos pensar que podemos fazer diferenças.
Tem por aqui umas pessoas que estão tentando fazer «coisas» novas.
Mas para isso é preciso inventar espaço para a arte e para «outras vozes».
Sons -- Mas algumas «coisas» estão acontecendo.
É assim agora toda quarta-feira num dos botecos da cidade (" não citou o nome?»,
«cobram os 10 %!"):
o dia não é o mais apropriado, mas é sempre em ele que dão espaço para outras rimas e metáforas que não são «lugar comum» nessas paragens.
Você pode sair de casa com a certeza de ouvir boa música, com a apresentação de diversos nomes novos encabeçados por Itibiri Sá Burunga e Marcelo Resende.
Além de apresentarem composições próprias a dupla canta temas entre a MPB e o rock nacional.
Em uma sociedade ainda bastante patrimonialista e clientelista a MPB tem muito para fazer.
É que MPB é coisa republicana.
Melhor me explicar melhor: (
1) República tem no nome o bem comum e (2) MPB pressupõe uma descrição da sociedade.
A MPB foi muito importante para que se inventasse uma sociedade democrática.
Mas na Democracia domina o desejo popular e também por isso a MPB tornou-se segmento de mercado.
O desejo popular (que estava contido, sem muitos espaços) apareceu também em canções que dominaram o palco (e as rádios).
Democracia não é o regime do consenso:
mas o regime em que as diferenças podem conviver sem que se recorra a violência ou a outros meios autoritários «para manter a ordem».
Rima sempre acontece Metáforas a gente tem que inventar.
Conciliar República e Democracia é uma trabalho novo e enorme (leia o que escreve sobre isso Renato Janine Ribeiro):
e A banda (de Chico Buarque) que em certa ocasião atravessou a cidade falando coisas de amor e fez todos se alegrarem em torno desse sentimento, me parece que ainda tem muito a fazer por aqui.
Uma canção é pra isso, como nos ensina o Skank hoje:
«Uma canção é pra acender o sol /
Em o coração da pessoa /
Pra fazer brilhar como um farol /
O som depois que ressoa / ( ...)
Pra consertar, pra defender a cidadela /
Pra celebrar, pra reunir o bairro e favela».
Boca Livre-Outras iniciativas interessantes estão acontecendo.
Uma de elas é a Rádio Web Boca Livre idealizada por Marquinho Carvalho, um estudioso da música popular brasileira empenhado em abrir caminho para o que há de vir.
Aádio Boca Livre tem feito um grande trabalho nesse sentido:
para constatar isso é só conferir a diversidade do que rola em sua programação.
Outras Vozes:
Valeria lembrar de outros lugares e vozes.
Uma desses espaços é o projeto UNIVERCIDARTE, uma festa de arte dentro do Campus da Universidade Federal de Goiás que tem se transformado numa tradição.
Esse pojeto, no úktimo sábado deu espaço para exposição de fotografias, apresentação do grupo de teatro Zi-balangos, projeção do cur-ametragem «Jataí em 1962, e o show de lançamento do CD de Itibiri Sá Burunga, Sombra Azul (Itibiri Disponibilizou também Todo esse álbum para os habitantes desse Overmundo: você pode procurar por a tag» Itibiri " ou clicar aqui).
Começa por volta das 8 horas e o ingresso é 5 reais.)
Alí também podiam se ler nas paredes os poemas de Alessandro Luz e Vinicius Henrique (dois poetas que precisam aparecer mais ...).
É isso.
Pense como pensante e não como pensado. (
Pesado isso, ein!)
Um sorriso e um convite:
invente outras cidades!
Número de frases: 85
Diferente de todos esses filmes medíocres que não acrescentam nada na vida das pessoas, o documentário Estamira de Marcos Prado chega com um toque singular e reflexivo.
É possível ter dignidade mesmo quando se vive num «lixão»?
O que é insano e o que é razão quando o que se tem para comer são restos podres e mofados?
Quem é Deus nesse mundo tão cruel e hipócrita?
Essas indagações fazem parte do imaginário do documentário vencedor de 23 prêmios, entre eles nacionais e internacionais.
O cenário é no Aterro Sanitário do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, lá por dia mais de oito mil toneladas de lixo são jogadas nos mais de 1.200.000 metros quadrados.
Uma situação deplorável que mistura humanos com animais carniceiros, e os dois buscam a mesma coisa:
sobreviver.
Apesar do vídeo ter só sonoras, não dá aquela vontade de ir embora do cinema.
Pelo contrário, instiga -- se ainda mais a cada cena.
O filme é bem singular, corajoso e com uma linguagem muito própria.
Ausente de qualquer «estrelismo» de diretor.
O filme é livre, entra fielmente como um observador do cotidiano, da vida, do pensamento e do comportamento daquela senhora revoltosa, doente, louca e cheia de tormentos e crenças.
E mostra a realidade «assim como ela é», sem maquiagem ou panos quentes.
Escancara a opinião de uma mulher que para muitos é apenas uma pobre coitada, com problemas mentais e que não presta para nada.
E que na realidade, é tudo ao contrário.
Não é possível classificar o filme facilmente ou colocar rótulos ou estereótipos.
Cada cena nos convida a entrar ainda mais naquele mundo varrido de Estamira, e a cada passo entendemos os motivos que levaram uma senhora de 63 anos, estar há 20, vivendo no lixão.
Sim, por que para ela, estar no aterro todo dia é um emprego como qualquer outro.
É de ali que ela tira o que comer, o que vestir, a decoração de sua casa.
E todo o resto.
Ali ela tem amigos de trabalho e até possíveis maridos.
O filme tem vários sentidos ...
Cada um de eles bem complexos que nos transmitem divergentes sensações.
Realmente, Marcos Prado não teve medo de arriscar e explorou muito bem cada cena.
A construção do filme é tão bem elaborada e tão sólida que mesmo a cena mais bizarra não nos remete a pensar coisas do tipo:
coitada ou que tolice!
Estamira é por si superior.
Em nenhum momento o filme nos passa essa sensação de dó e piedade.
Mas sim, o de indignação e horror por o que acontece com inúmeras pessoas no mundo inteiro que não tem a mínima condição de viver dignamente.
O filme pode não ter nada disso.
Mas Estamira está nos cinemas nacionais e internacionais, e uma vez vista, fica a sensação de que estas imagens e a dialética não tem nada de insano.
Pelo contrário, como diz o determinado trocadilo.
Número de frases: 33
«Tão simples né?».
O bairro da Bomba do Hemetério está mudando a sua imagem no Recife.
Conhecido por as freqüentes matérias nas páginas policiais, o local agora ganha reconhecimento por uma das mais promissoras orquestras de frevo da cidade:
a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério.
Formada há cinco anos por o maestro Francisco Amâncio da Silva, 30, conhecido por todos como Forró, a orquestra é composta por 21 membros, entre técnicos e músicos, todos moradores do bairro.
Com pouco tempo de estrada o grupo já coleciona vários prêmios, participações em importantes festivais, trilhas de filmes e se prepara para lançar seu novo CD intitulado A bomba jorrando Cultura.
Segundo Forró, as idéias começaram a surgir há dez anos quando, individualmente, ele começou a pesquisar a origens do frevo, o seu estado atual e as novas perspectivas a serem exploradas.
Depois que o seu trabalho ganhou consistência, foi natural dividir essa idéia com os amigos músicos do bairro.
Em os últimos três anos, a orquestra venceu no mínimo dois prêmios a cada ano, no Concurso de Música Carnavalesca Pernambucana.
Porém, a faceta mais interessante do grupo é a sua versatilidade entre o espetáculo na rua e nos palcos.
O conjunto ganhou este ano o prêmio de melhor Orquestra Itinerante do Estado, apresentando uma nova forma de performance nas ruas, procurando interagir com o público, dançar e se movimentar.
O novo maestro aposta na desburocratização da figura do regente.
Segundo ele, a caracterização do ofício -- sua roupa e expressão -- foi, durante muito tempo, associada a uma imagem séria e distanciadora.
Forró faz questão de vestir bermuda, óculos Ray-Ban e camiseta com estampas fortes, enquanto rege o grupo no ritmo apressado e expansivo dos seus braços, um estilo nada convencional entre os maestros.
Os frevos compostos por os músicos são marcados por síncopes, breques (como são chamadas as pausas abruptas) e por as mudanças de ritmo.
Forró afirma que faz suas composições «pensando no passista e nas possibilidades que a música pode propiciar à sua dança».
As novas composições do grupo poderão ser conferidas no CD que deverá ser lançado no segundo semestre.
Ele foi gravado todo na Bomba do Hemetério e aguarda apenas a finalização da arte da capa.
Quem pensa, entretanto, que Forró está restrito a realidade local está muito enganado.
O maestro toca há três anos com o DJ Dolores e a Aparelhagem, um dos projetos musicais mais bem sucedidos do estado.
Apesar do músico se admitir um pouco tecnofóbico, e ainda não ser muito familiarizado com o computador, ele aplaude a fusão com a cultura eletrônica e com a possibilidade de efeitos e distorções aberta por a tecnologia.
A última faixa do novo CD da sua orquestra será um remix de Dj Dolores, que numa só música utilizará fragmentos de todas as outras 11 do álbum.
A parceria com o DJ recifense resultou na participação da orquestra na trilha sonora do novo filme de João Falcão, A Máquina, assinando duas faixas.
A orquestra também atua como uma grande fonte para revelar novos talentos, que dificilmente teriam espaço.
Um bom exemplo disso é o percussionista Cícero Vasconcelos, 23, conhecido por todos como Baton.
Até o ano passado, o músico se dividia entre a vida de manobrista e a rotina de ensaios e shows do grupo.
«Eu sempre toquei percussão em outros conjuntos e faço música desde a minha adolescência, mas o trabalho tem me estimulado a me concentrar e a investir cada vez mais na minha carreira», afirma Baton.
Além disso, a orquestra lidera o projeto Escola Comunitária de Música da Bomba do Hemetério, que beneficia cerca de 60 crianças com aulas de iniciação musical.
Com tantas novidades, não faltam motivos para o bairro deixar as páginas policiais e ganhar visibilidade por a sua importância cultural.
Número de frases: 29
* Matéria veiculada no Jornal Universitário O Berro, da Universidade Católica de Pernambuco.
Banda de Rock e Blues caririense Los The Os tem um público seleto na região e mostra que veio pra ficar.
A Região do Cariri tem uma peculiaridade artística natural.
E a música está totalmente incorporada nesse aspecto.
É certo que existem gêneros e estilos musicais para todos os gostos, mas atualmente a conjuntura da música popular anda deixando muito a desejar.
A comunicação massiva da musicalidade sem respaldo assola a grande maioria das FMs, é como se tudo fosse ditado:
é isso que toca, é isso que você vai escutar.
Hipnose mídiatica a parte, ainda há salvação para a música de boa qualidade.
Tendo como base, estilos musicais como o Rock e o Blues, nascem bandas caririenses com atitudes próprias que animam um público seleto e sedento por mais espaços.
A Los The Os www.fotolog.com/lostheos é um exemplo disso.
Nascida há 3 anos, a banda é composta pos amantes da boa música e remanescentes da cena musical alternativa do Cariri.
A Los The Os, que tem esse nome, digamos assim, sui generis, foi escolhido para sugestionar as pessoas propositadamente.
Em três línguas se diz a mesma coisa «Os» e muita gente não percebe a simplicidade do nome.
A banda é composta por:
Michel Macêdo, guitarra, Uly Germano, guitarra, Alessandro Ádamo, vocal e gaita, José Wilker, baixo e Cícero Roge na bateria.
Sob a influência de músicos como Buddy Guy, Jimmy Hendrix, Fredie King e Stevie Ray Vaughan os rapazes da Los The Os apresentam um repertório arrojado de canções marcantes de blues e rock.
«Há tempos que a música dita alternativa povoa o mundo caririense, bandas antológicas como a extinta Pombos Urbanos já faziam a diferença na década de 80.
A região tem excelentes músicos onde posso citar Lupeu Lacerda e Lamar Oliveira que estão sempre acompanhando bandas que se propõem a fazer um som diferente e de qualidade " Relata Michel Macedo, guitarrista da Los The Os, que também é integrante da Glory Fate, banda de Heavy Metal do Cariri.
Embora exista um público fiel a esse tipo de música a cena musical alternativa ainda necessita de mais espaço no Cariri.
Existe a necessidade de mais eventos interessantes que atendam a gostos diferentes a exemplo do Festival de Guaramiranga, (durante o carnaval, intérpretes de jazz, instrumentistas virtuoses, veteranos ou jovens desbravadores do blues de diversos lugares do país e do mundo se encontram para quatro dias de muito jazz, blues e ritmos regionais) cidade da região da Serra de Baturité distante 123 km de Fortaleza.
É importante que se tenha espaço para todos os estilos, é primordial que a democracia exista, mas ultimamente na região o que se vê são grandes eventos para um só público.
«Bons artistas, o Cariri tem muitos, público também, o que falta é mais incentivo a bandas como a nossa onde a proposta é de se fazer um som de qualidade.
Além do que já tocamos estamos com um projeto de realizar um show só com musicas dos Beatles, salientando que está previsto para maio desse ano o lançamento de um CD independente com músicas autorais."
ressalta Uly.
Uma mostra de que existem pessoas interessadas em ouvir Blues e Rock aqui na região foram as considerações do editor da revista Blues n ´ Jazz, -- a única do gênero no Brasil-Helton Ribeiro;
o jornalista, que estava na região ministrando um curso de Jazz no Centro Cultural Banco do Nordeste, ficou surpreso com a quantidade de pessoas num Show da Los The Os, em fevereiro desse ano no Café Estação na cidade do Crato.
Os músicos da Los The Os se respaldam nos grandes nomes da música mundial, mas não deixam de reconhecer o talento dos artistas cearenses.
Eles citam o músico Artur Meneses, da Blues Label, como o melhor guitarrista de blues do Ceará.
Não é um alerta, nem um desabafo.
É simplesmente uma verossímil constatação.
A música merece respeito em todas as suas nuances.
Existem ouvidos atentos para cada acorde, cada nota, cada timbre.
E o estilo?
A escolha é livre.
Mais ...
www.orkut.com/ Community.
Número de frases: 36
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O filme «Corra Lola», Corra» pode ser considerado uma daquelas produções cinematográficas onde cada elemento tem função estrutural fundamental.
Antes dos créditos iniciais, surge na tela uma carranca que logo identificamos como um pêndulo de relógio.
Segue-se uma figura de um relógio monstruoso que nos abocanha.
A música inspira um suspense típico de filmes de terror:
acorde dissonante suspenso predominantemente no grave.
De essa forma o diretor apresenta o personagem principal da trama:
o tempo.
Depois estamos num campo neutro cheio de indivíduos anônimos onde, vez por outra alguma figura é destacada «ao acaso» e somos obrigados a reparar em ela e atribuir-lhe qualidades.
Os personagens destacados são todos atores que participam do filme.
É a maneira do diretor os apresentar como pessoas colhidas da multidão.
O último destaque é o segurança do banco do pai de Lola que chuta uma bola para cima.
A câmera sobe como se representasse a visão da bola para a multidão lá embaixo e todos se reposicionam, fundindo-se, formando no chão, a frase Lola Rennt (Corra, Lola) que é o título original do filme.
Pequenas ocorrências aparentemente insignificantes contribuindo para a construção do todo.
Surgem os créditos onde Lola é retratada como um desenho animado em desabalada corrida enfrentando inúmeros perigos no percurso.
Entre eles, um relógio monstruoso.
A personagem dá socos nos créditos e alguns de eles, ao acaso, transformam-se em monstros ou coisas do tipo.
Uma cena de videogame com trilha sonora tecno.
Todo o filme é estruturado a partir de algumas constantes temáticas:
a idéia da repetição, dos relógios, da influência do acaso, do número 20, da cor vermelha, da espiral e da relação entre gritos e vidros quebrando.
Essas figuras servem como costura essencial para o filme e conferem a ele uma unidade sólida.
Para falar sobre cada um desses itens e da maneira como cada um de eles está manifesto no filme, vou realizar uma operação de acaso que definirá a estrutura dessa parte do trabalho ...
acaso -- um dos mais importantes elementos temáticos do filme.
A sua estrutura ternária serve para mostrar o quanto pequenas mudanças aleatórias de conduta, observadas em perspectiva, podem acarretar em significativas alterações no futuro.
Lola tem 3 chances para salvar Manni dos gangsters e em cada oportunidade, devido a pequenos detalhes, os resultados variam entre o desastre de causar a própria morte ou do namorado e a possibilidade de resolver o problema e ainda ficar com o dinheiro.
Em várias oportunidades durante o filme, quando Lola de alguma forma intercepta outros personagens, surgem os flashfowards:
são rápidas seqüências fotográficas que representam cenas do futuro de cada pessoa interceptada e que pretendem mostrar para o espectador que dependendo da maneira como Lola os aborda, seus futuros tomam caminhos totalmente diferentes.
A senhora com o carrinho de bebê, por exemplo, na primeira corrida acaba perdendo a guarda do bebê, enlouquecendo e tornando-se uma seqüestradora de crianças;
na segunda corrida, ganha na loteria e na terceira corrida, acaba se filiando a uma seita religiosa.
Em as escadarias de seu apartamento, logo no começo das corridas, dependendo da maneira como a protagonista interage com o menino com o cachorro -- simplesmente se esquivando com medo, enfrentando-os e sendo derrubada escada abaixo ou voando por sobre os dois -- interfere consideravelmente no desenrolar de cada corrida;
A secretária Jutta só tem tempo de dizer ao pai de Lola que o seu filho não é de ele quando, por acaso, Lola se atrasa na segunda corrida devido ao tombo nas escadas do seu prédio e, como na primeira corrida, distrai Herr Meier, momentos antes, na saída de sua garagem -- ele estava se dirigindo ao banco para pegar o pai de Lola -- fazendo com que o seu carro colida com outro na rua;
é o acaso que permite a Lola salvar o homem na ambulância na terceira corrida, que faz com que ela se dirija ao cassino, para que, apostando no acaso (na roleta), ganhe os 100 mil marcos.
Vale observar que a chave para tantas variantes se encontra em grande medida nas mudanças de atitude de Lola frente à missão que tem por a frente.
O diretor constrói o personagem não como alguém que vive uma mesma situação 3 vezes, mas como alguém que possui 3 chances de alcançar o sucesso:
um personagem de video-game com 3 «vidas»!
Lola parece aprender com as experiências passadas a evitar novos erros fatais.
Repetição -- outra referência fundamental dessa produção.
Temos uma estrutura formal onde a mesma situação é repetida 3 vezes, como já foi dito antes, até que a protagonista consiga alcançar o seu objetivo;
ao telefone, na introdução, Lola e Manni repetem várias vezes a palavra die Tasche (a bolsa) quando é relatada a situação da blitz no metrô;
o tique-taque dos segundos que restam para o fim do prazo estipulado, onipresentes, soando subliminarmente;
os passos de corrida de Lola;
a fotografia toda baseada em padrões repetitivos:
colunas em fila debaixo dos trilhos do metrô, prédios com janelas idênticas, o próprio metrô, a fileira de freiras no caminho, o chão por onde Lola corre visto de uma tomada do alto com padrões quadrados, o eletrocardiograma dentro da ambulância, a faixa listrada do lado direito da cena da morte de Manni;
a escolha de uma trilha musical baseada em padrões repetitivos tecno que funcionam como uma espécie de substituto para os sons dos ponteiros do relógio:
um fator de incremento para a tensão nos momentos de corrida.
As letras das canções também trazem versos repetitivos como em Running Three (tema da terceira corrida):
«I want to go / I want to fight / I want to rush / I want to run / I want to see you again / under the setting sun / ..."
gritos e vidros quebrando -- um dos elementos que acrescenta um componente fantástico ao filme, e que está relacionado a um gesto genérico:
um momento de acúmulo de tensão que leva a um fim explosivo seguido de profundo silêncio, que pode ser encarado como uma miniatura da estrutura formal de cada uma das duas corridas iniciais com respeito a seus desfechos e mesmo ao seu conteúdo musical:
depois de 20 minutos de tensão ao som de uma trilha musical tecno alucinada, ocorre, inevitavelmente o momento crucial da morte de um dos protagonistas, seguida da execução de um fragmento da estática e tranqüila textura homofônica de cordas que forma a base para a obra The Unanswered Question do compositor norte-americano Charles Ives que possui relação com o silêncio depois do explodir dos vidros.
tal efeito fantástico ocorre na introdução quando Lola pede calma a Manni ao telefone, no escritório de seu pai durante uma discussão na primeira corrida e no cassino, na terceira corrida quando ela acaba ganhando o dinheiro.
Aqui, além de quebrar todos os vidros do ambiente, Lola consegue influenciar a roleta a seu favor através desse recurso.
Em a segunda corrida, o gesto grito-vidros quebrando está presente de forma sutil na relação:
sirene de ambulância-chapa de vidro quebrando no cruzamento.
Aqui, porém, como nas cenas que acabei de citar, Lola é a responsável por o «efeito», por a colisão, por ter distraído o motorista momentos antes.
espiral -- o gesto espiral permeia todo o filme.
Voltando para a estrutura formal macrofórmica, temos uma estrutura circular, que acaba sendo retomada continuamente depois de transcorrido todo o seu percurso, mas que nunca é retomada como antes, como um padrão espiral.
O fato de Lola parecer estar sofrendo um constante aprimoramento como se estivesse aprendendo com os próprios erros entre uma corrida e outra, acaba sugerindo que a cada nova tentativa, Lola estaria num estágio superior como ser-humano:
desde a criança tola que não sabe o que fazer e que acaba morrendo violentamente (primeira corrida), até o ser angelical que salva um paciente terminal dentro de uma ambulância em movimento a caminho do ponto de encontro com Manni apenas olhando em seus olhos e segurando sua mão.
Pode-se visualizar a imagem de uma espiral divergente.
Em termos de cenário, maquiagem e fotografia, temos diversos momentos onde aparecem espirais:
na apresentação dos créditos como uma textura de fundo;
a câmera na cena onde a mãe de Lola fala ao telefone descreve um percurso espiral ao seu redor que acaba transportando a cena para o desenho animado de Lola na TV da sala;
no início de cada uma das corridas (em formato de desenho animado) ao percorrer as escadarias do seu prédio, que nesses momentos parecem não ter fim e possuem o formato de espiral convergente;
a porta de seu prédio possui um ornamento em forma de espiral;
o nome do prédio de onde está situada a cabine telefônica de onde Manni se comunica com Lola se chama Spiralle;
os desenhos da cama de Lola e Manni nas cenas de flashback que sucedem ambas as mortes são em formato de espiral;
o cabelo da moça no fim da cena do cassino na terceira corrida foi penteado em formato espiralado.
Por fim, o movimento circular da roleta, que apesar de ser circular sempre aponta para um destino diferente, é imitado por Lola na introdução quando a protagonista se concentra para tentar achar em sua mente alguém que possa lhe emprestar o dinheiro:
a câmera descreve um movimento circular em torno da personagem e vão aparecendo «resultados parciais» em sua mente até que o movimento giratório vai perdendo força (como na roleta) e o personagem sorteado acaba sendo o seu pai.
a trilha musical que acompanha Lola em suas 3 corridas é constituída de músicas que possuem a mesma estruturação formal, mas que apresentam sempre arranjos e letras diferentes, enfatizando a novidade de cada corrida apesar do início idêntico:
a música é retomada mas nunca da mesma forma.
As letras, como já foi visto no item repetição, possuem, em grande medida, versos que apesar de iniciarem de forma idêntica, logo são variados como mais uma alusão subliminar ao padrão espiral.
Vale dizer que o diretor Tom Tykwer declarou-se grande admirador do cineasta Alfred Hitchock e chegou a afirmar que a idéia das espirais em seu filme pretendia ser uma homenagem:
uma referência explícita ao filme Vertigo.
relógios -- sendo o tempo o grande protagonista, e vilão, da estória, não podiam deixar de faltar inúmeras referências a ele no decorrer da trama.
Um relógio surge monstruoso antes da introdução e durante os créditos firmando-se como elemento fundamental de costura do filme.
Relógios foram dispostos em diversos locais do percurso de Lola em direção a Manni para por o espectador a par do tempo que resta a Lola para evitar que seu namorado assalte o supermercado em frente à cabine telefônica e salvar sua vida.
O relógio mais importante, sem dúvida, é o que fica situado ao lado do supermercado:
é ele que Manni consulta para saber se é a hora de entrar no estabelecimento e realizar o assalto.
Há um relógio no quarto de Lola que serve como start para que o espectador «acerte o seu relógio», outro na sala de seu pai que, por ser de vidro se espatifa quando Lola grita na primeira corrida e uma senhora dá as horas a Lola quando esta sai do banco.
O formato do relógio também faz parte do design geral:
circular e fragmentado (roleta), divide o tempo marcando os segundo em tique-taque (repetição).
O relógio define os lapsos temporais dentro dos quais os eventos se sucedem e funciona como um tirânico mecanismo de precisão que deve servir como fria referência na luta da personagem principal por a vida de seu amor.
a trilha musical tecno é utilizada nos momentos em que Lola se encontra correndo contra o tempo, nas ruas, e cessa toda vez que surge uma situação de diálogo alheia a isso:
quando se perde a noção do tempo e se faz necessário perguntar as horas para reiniciar a corrida.
Existe uma relação estreita, portanto, entre o correr dos segundos no relógio e os momentos em que Lola literalmente aposta corrida com o tempo, nas ruas.
Em os momentos em que o tempo pára, nos finais, cessa também o ritmo tecno, que é substituído por algo que dá a idéia de suspensão temporal:
os acordes prolongados em pianissimo e a harmonia ambígua de Charles Ives, ou mesmo o simples silêncio dos momentos íntimos à cama.
-- existem 4 referências importantes a esse número no decorrer do filme:
a primeira é bastante óbvia e diz respeito ao prazo de 20 minutos que Manni estipula para iniciar o assalto ao supermercado.
Em esse lapso de tempo Lola deve conseguir 100 mil marcos para dar ao gangster patrão de Manni, caso contrário seu amado será assassinado.
O segundo é o tempo de duração real, para o espectador, de cada corrida é sempre equivalente aos 20 minutos estipulados por Manni.
Todos os eventos mostrados durante as 3 corridas ocorrem quase simultaneamente a elas, sendo que os eventos paralelos à corrida de Lola foram filmados com técnicas diferentes e possuem uma imagem levemente desfocada.
O filme possui, portanto 81 minutos, sendo que mais ou menos 20 para a introdução e mais ou menos 60 para as 3 corridas (20 cada).
O terceiro não é tão significativo e diz respeito ao dinheiro necessário para Lola comprar a ficha de 100 marcos na entrada do cassino, faltam 20 centavos de marco, e o quarto é que Lola ganha o dinheiro de Manni apostando insistentemente no número 20 da roleta, na terceira corrida.
cor vermelha -- Existem várias referências à cor vermelha no decorrer do filme:
o cabelo de Lola, cuja corrida acaba nos remetendo à corrida de um portador da tocha olímpica, a ambulância, o cenário e a luz dos momentos íntimos entre Manni e Lola, a primeira bolsa, do assalto ao supermercado, além de referências aqui e ali por toda parte.
Outra referência relacionada a cores é muito importante e diz respeito à maneira sutil como o diretor procurou dar a dica de como deveríamos encarar cada uma das corridas.
Em todas as corridas, inevitavelmente, Lola consegue o dinheiro e o deposita em bolsas.
Em a primeira corrida, depois de assaltar o banco, ambos fogem com o dinheiro em bolsas vermelhas;
na Segunda corrida o dinheiro do assalto ao banco do pai é colocado numa bolsa verde e o dinheiro ganho no cassino, numa bolsa dourada (amarela).
Tais cores remetem às cores de um semáforo:
pare, siga e preste atenção.
Em outras palavras, a primeira corrida está sob o signo da insensatez e insegurança e Lola age como um carro desgovernado;
foge de medo do cão nas escadas, se submete à autoridade do pai, não consegue o dinheiro, é levada a participar do assalto ao supermercado e acaba morta.
Coincidentemente a palavra falada por Lola quando de sua ressurreição é stop (pare);
na segunda corrida Lola assume as rédeas da situação e se impõe, procura enfrentar o garoto das escadas e sofre a queda (a deixa para entendermos que ela está sendo guiada por uma determinação extremada que pode levar ao desastre), consegue o dinheiro passando por cima da autoridade paterna, chega a tempo de evitar o assalto, mas não consegue evitar a morte de Manni que não vê o sinal verde para a ambulância, que o atropela.
A letra da canção tecno que acompanha sua segunda corrida diz:
«Just go go, never stop and never think / Te o do de o do the right thing / ...";
e finalmente, a terceira corrida é a corrida da reflexão, da inspiração divina, da atuação de forças transcendentais:
depois de não conseguir encontrar o pai, Lola reza por uma saída correndo de olhos fechados pedindo um sinal e um caminhão a acorda quando por pouco não a atropela, e com isso Lola visualiza o cassino, gastando os últimos segundos de sua corrida apostando tudo o que pode na roleta.
Por fim ajuda a ressuscitar um paciente terminal dentro da ambulância.
Número de frases: 113
Vinte anos após sua a morte, a artista plástica Lídia Baís é alvo de peças, teses, biografias e sua obra é finalmente restaurada e reunida em exposições
Lídia Baís está mais viva do que nunca.
A famosa frase que sempre profetizava aos familiares -- ' por minha causa vocês vão ficar na história ' -- aos poucos vai fazendo sentido.
Virou peça teatral, objeto de estudo acadêmico e biografia.
Sua pequena obra começa a ser restaurada e os quadros expostos coletivamente, além de causar frisson no meio universitário, atraindo estudantes fascinados por sua história.
Em 2005 foi uma das personalidades homenageadas do Festival América do Sul.
É a volta por cima da campo-grandense que encaixotou os próprios quadros, viveu reclusa grande parte da vida e, sem dúvida, foi a primeira pessoa considerada artista em Mato Grosso do Sul.
Lídia Baís viveu entre 1901 e 1985.
Seu pai, Bernardo Franco Baís, foi um dos fundadores da cidade e comerciante de sucesso.
Após passar por vários internatos, a moça acabou indo morar no Rio de Janeiro para estudar pintura com Henrique Bernadelli, em 1926.
Em o ano seguinte, fez uma viagem com o tio Vespasiano Martins para a Europa e entrou em contato com o surrealismo.
Além disso, foi colega do pintor Ismael Nery durante uma temporada européia entre 1927 e 1928.
Após o verdadeiro petardo cultural a que foi submetida, Lídia retornou ao Rio de Janeiro, estudou com os irmãos Bernardelli e fez estágio na Escola Nacional de Belas Artes com Oswaldo Teixeira.
Em 1930, a família a obriga a retornar a Campo Grande, então uma cidade de 25 mil habitantes.
Em esta época troca correspondências com o poeta Murilo Mendes, que lhe passa um pito na última das cinco cartas encontradas.
«É preciso que você abandone completamente as fórmulas antigas, que de nada lhe adiantarão», ordenava o poeta.
O estilo de Lídia pode ser dividido em dois períodos.
A maior parte dos quadros segue o acadêmico-realista, a fórmula antiga a que se referia Murilo Mendes, como os retratos que ela fez de todos os irmãos, por exemplo.
Mas o que impressiona e a diferência é a fase modernista, em que flerta com o surrealismo.
Ou no ousado Última Ceia de Nosso Senhor Jesus Cristo, em que se põe como o apóstolo preferido de Cristo.
A artista tentou então abrir o próprio museu na década de 40, o Museu Baís.
Como não conseguiu, mandou recolher a obra e se dedicou cada vez mais à clausura religiosa.
Com isso, Lídia se tornou a artista biruta de Campo Grande.
Todos sabiam que um dia havia pintado, mas nunca viam seus quadros.
Durante toda a sua vida, teve uma única exposição individual.
Foi em dezembro de 1929 na Policlínica Geral do Rio de Janeiro.
Não existem catálogos e uma das poucas provas do vernissage é uma foto em que Lídia aparece ao lado de Povina Cavalcanti, Murilo Mendes e amigos.
Lídia só viu parte de seus quadros expostos novamente em 1979 e em 1983, dois anos antes de falecer.
Em as últimas décadas de vida, no entanto, fechou-se e se dedicou à vida religiosa.
Escreveu por volta de 1960 o livro «História de T. Lídia Baís», em que repassa a sua vida e tenta se disfarçar ingenuamente atrás do codinome Maria Tereza Trindade.
O reaparecimento de Lídia Baís na cena artística de Campo Grande começou em 2003, quando o artista plástico Humberto Espíndola aceitou dirigir o Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande com a condição de que o Governo do Estado assumisse o compromisso de restaurar a obra de Lídia Baís.
Ele deixou o Marco em dezembro de 2005 com o saldo de 25 quadros da artista restaurados com o financiamento da Secretaria e Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.
Com o belo trabalho de restauro da sul-mato-grossense radicada no Rio de Janeiro, Áurea Katsuren, finalmente a obra de Lídia pôde ser reunida pela primeira vez numa exposição coletiva em Campo Grande.
A relação de Áurea com o trabalho de Lída começou em 1995, por meio de Espíndola, quando ocupou o cargo de Secretário de Cultura de MS e encontrou as obras de Lídia empilhadas no banheiro da sede do órgão estadual.
A restauradora foi a responsável por o primeiro lote de 25 quadros e atualmente trabalha em quatro quadros do segundo lote.
Ela lembra que recebeu alguns quadros em estado deplorável, como o importante Micróbio da Fuzarca, que chegou todo rasgado.
A obra de Lídia, aliás, foi vítima do descaso com a memória e a falta de sensibilidade.
Em o casarão da família, Morada dos Baís, o primeiro prédio de alvenaria de Campo Grande construído em 1918, o exemplo está vivo para todos que vão visitar o lugar.
Depois que o pai de Lídia foi atropelado por o trem que passava em frente à sua casa, a Morada foi transformada na Pensão Pimentel até 1979 e depois deu lugar a vários tipos de comércio, como escolas, sapatarias, casa lotérica, até chegar ao esquecimento e devastação.
O lugar quase desabou literalmente, até ser revitalizado em 1995.
Ninguém sabe a autoria, mas o fato é que pintaram as paredes de branco e com isso apagaram vários murais de Lídia.
Sobraram três.
Quer dizer, dois e meio.
Quem entra no antigo refeitório transformado em quarto da artista, com a cama, cadeira de balanço, chapéus, fotos, material de pintura e os instrumentos pessoais (violão e harpa), estranha a parede com apenas a metade de um mural de Lídia.
Quando o lugar começou a ser reformado, os pedreiros foram demolindo a parede com a obra junto.
Sobrou a parte superior, uma homenagem de Lídia a Joana D' Arc, que aparece em cima de um cavalo numa paisagem rural.
Mais um ato que a artista jamais perdoou.
Desconfia-se que, assim como alguns dos seus quadros, que os murais tenham passado por uma indisfarçável repintura.
(corta para matérias do Correio do Estado e sites em 12/07/2006 anunciando a parceria da Fundação Municipal de Cultura e o Instituto Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional (Iphan) para a restauração dos 3 painéis (2 e meio?)
de Lídia na Morada dos Baís.
O trabalho será comandado por a restauradora do Iphan, Eliane Silveira Fonseca Carvalho.
O 3 painéis são o por a metade em homenagem a Joana D' Arc, um retratando a Santa Ceia bem careta e outro, o mais bonito e ousado, mostrando Nossa Senhora cercada de anjos.
Em a mesma matéria afirma-se que o Museu Lídia Baís espera para agosto 7 obras restauradas no Rio de Janeiro)
Ainda na Morada, em cima da pequena cama de Lídia, que media apenas 1,45m e pesava menos de 40 quilos, pode-se ver sem moldura um dos quadros mais importantes, o Retrato da Família Baís, em que faz uma espécie de árvore genealógica da família.
Lídia era a caçula de nove irmãos.
O chassis do quadro foi consumido por os cupins e caiu da parede, mas a restauração já está sendo estudada por Áurea, dando continuidade ao processo de valorização que a obra de Lídia já passa.
Em novembro de 2005, por exemplo, estreou nos palcos de Campo Grande o monólogo Amor Sacro e Profano, passando a limpo a conturbada vida de Lídia na interpretação da atriz corumbaense Bianca Machado.
O livro da professora Alda Maria Quadros Couto, Territórios do Assombro -- Biodestino de Lídia Baís também é aguardado com grande expectativa, já que a autora trata o lado místico da artista.
Louca, suspeita de ter permanecido virgem por toda a vida, alucinada, capaz de entrar em transes que duravam semanas, Lídia Baís se torna também objeto de estudo dos universitários atraídos por suas histórias inacreditáveis e rompantes proféticos.
Em uma montagem, por exemplo, constata-se o espírito provocador de Lídia.
Em um quadro em que faz uma espécie de colagem, pode-se ver o rosto da artista, emoldurado por um chapéu branco dos anos 30, dentro do círculo e por sobre a faixa ' Ordem e Progresso ` de nossa bandeira.
E uma legenda: '
Devido a uma visão, Lídia Baís foi colocada dentro da Bandeira Nacional '.
Para completar, entre parênteses, está escrito: '
Mais tarde entenderão por quê! ..."
Um dos artistas que mais batalharam para a manutenção e valorização da obra de Lídia Baís foi sem dúvida Humberto Espíndola.
Confira abaixo a entrevista concedida por o maior ícone das artes plásticas do Centro-Oeste sobre Lídia Baís:
Quando você tomou conhecimento que existia Lídia Baís?
Ela marcou a minha infância quando vi suas pinturas.
Nós éramos vizinhos.
Ia para a missa todo dia com a minha mãe e passava sempre na frente da casa da Lídia.
às vezes, quando ela estava de boa veneta, cheguei a entrar.
Uma vez a vi pintando uma das alegorias.
Acho que era o Juízo Final.
Este quadro me impressionou muito.
Inclusive queria que meu pai fosse contador de ela.
Vivia se envolvendo com vigaristas e aproveitadores.
A Lídia era fantástica, uma mulher que queria montar um museu, fazer arte.
Para mim era uma figura de pintora.
Por que ela não participou da Semana de Artes realizada por o grupo de vocês na década de 60 e que impulsionou as artes plásticas daqui?
Com a fundação da galeria do extinto Diário da Serra e da associação de artistas plásticos ela ficou animada.
Queria dar um terreno para a produtora cultural e escritora Aline Figueiredo e eu batalharmos a construção do museu de ela.
Mas Campo Grande era um ovo, o terreno era no fim do mundo e achávamos que não valeria a pena.
E naquele momento, em 1966, não nos interessava fazer o Museu da Lídia Baís porque era uma obra encaixotada e nos interessava o movimento coletivo.
Lídia afinal tinha já vivido a sua obra e seu tempo e nós estávamos em plena efervescência.
Não lembro por que ela não participou.
Não sei se ela não quis, se as obras não estavam em condições.
Mas certamente foi convidada para a exposição de 66.
Ela já havia tentado montar o museu nos anos 40.
A Lídia nunca desistiu de ter este museu?
Acho que na década de 60 foi a última insistida.
Depois entrou em crise e eu e a Aline fomos morar em Cuiabá.
Quando voltamos a nos encontrar para fazer o verbete do livro da Aline no final da década de 70, a Lídia já não queria dar entrevista.
Estava sozinha e comentou com mim e com a Aline que «agora estava trabalhando para tirar seu nome da história».
Ela batalhou a vida inteira para botar o nome na história e no final dos anos 70 e 80 falava isso.
Uma coisa impossível, mas era o que ela falava.
Um sinal de que não queria saber de mais nada.
Mesmo assim fiquei sabendo através da peça Amor Sacro e Profano que em 1980 fez uma exposição no Paço Municipal, a única individual que ela fez em Campo Grande em vida.
E uma das últimas aparições públicas de ela aconteceu em minha exposição, por volta de 1978, das Rosas Rosetas.
Ela apareceu com um véu por cima da boina amarrado, toda bonitinha, com o sorriso de Mona Lisa de ela.
Ela adorava que fizesse esta referência (emociona-se) ...
Sua batalha para restaurar a obra de Lídia vem desde a época que você foi Secretário de Cultura?
Sim.
Quando virei secretário as obras de ela já estavam lá.
Já tinham sido doadas por a família ao governo do Estado por volta de 1988 e 1989.
Quando cheguei fiquei horrorizado.
Porque os quadros da Lídia estavam amontoados num banheiro.
E constatamos que haviam repintado parte da obra.
Os quadros mais difíceis de serem restaurados por a Áurea são justamente estes que foram repintados.
Uma das mais importantes alegorias também tinha sido repintada até com certo efeito, mas quando mexemos na moldura apareceu a pintura velha por baixo.
Aí mandamos para a Áurea.
Tem o caso da perda dos painéis de ela na Morada ...
Sim.
Pintaram as paredes e conseguiram salvar pouca coisa.
E não sei quem fez a dita restauração, que deve ter sido no mesmo estilo do processo de repintura dos quadros.
Aí teve uma cagada.
As obras da Lídia Baís eram todas de posse da Fundação de Cultura de MS.
Mas fizeram um comodato e cinco das obras foram cedidas para a Morada dos Baís, que é comandada por o município.
E foram escolhidas por eles, arbitrariamente, as obras que teriam mais a ver com a casa.
Não conseguimos recuperar de volta para o Marco e nunca vamos conseguir.
E não sei se quem restaurou os murais das paredes teria também repintado estas cinco obras.
Só sei que este documento de comodato não foi localizado no Museu e tudo indica que na época em que o Wilson Martins era governador a primeira-dama, que era sobrinha de Lídia, deve ter resolvido ceder este comodato.
Um destes cinco quadros é a Última Ceia do Nosso Senhor Jesus Cristo.
Você arriscaria dizer que é uma das mais importantes das suas obras?
É um dos mais curiosos, que mostra a ousadia de ela.
Mas é uma ousadia ingênua.
Apenas se botou como uma apóstola e coloca o Judas como diabinho.
Mas se ela fosse realmente uma esotérica mais profunda, ela se pintaria como Maria Madalena no lugar de São João.
A Lídia teve este sentimento de ensimesmar-se que parece comum a vários artistas sul-mato-grossenses, como Manoel de Barros, Jorapimo e Almir Sater.
Um estilo mais recolhido, que alguns críticos como Aline Figueiredo relacionam ao isolamento histórico imposto à região.
A Lídia inaugurou um estilo do artista daqui?
Ela foi a primeira vítima do isolamento isso sim.
Não é um estilo.
Ninguém vai querer criar um estilo destes.
A gente é vítima deste isolamento, desta circunstancia social, desta sociedade ruralista, agrária, paternalista, machista ...
Nós ainda somos vítimas.
Até mudar este panorama cultural e sócio-cultural de MS, até isso aqui ter uma população ...
Tem cidade que é mais aberta à cultura.
Campo Grande precisa chegar ao seu milhão de habitantes para ter uma vida cultural da qual a gente possa usufruir como artista.
A Lídia foi a primeira e ainda continuamos vítimas desta sociedade que não nos consome.
Este é o problema.
Por isso estamos recolhidos.
Porque não somos consumidos e solicitados.
A Lídia tentou muito se projetar e até enlouqueceu por causa disso.
Coisa que em Goiás não acontece.
Mesmo em Cuiabá.
A sociedade cuiabana consome.
E olha que quando chegamos lá na década de 70 não havia artistas.
Uma cidade pequena que se abriu ao movimento cultural e resolveu consumir, com inclusive pseudoartistas sendo consumidos.
O importante é que existe uma intenção social de consumir cultura.
Aqui não existe esta intenção por parte da sociedade.
Existem até ações governamentais tentando estimular, mas não existe uma vocação espontânea da sociedade.
Como foi para você ver a obra da Lídia desencaixotada?
Maravilhoso.
Muitas obras a gente só conhecia em branco e preto dos catálogos.
Então foi demais ver estas obras pessoalmente.
Desde criança já era aficcionado e fã.
E como eu era o artista mais velho e o primeiro artista daqui que se projetou, partindo para fazer um movimento cultural, achei que a obrigação era minha carmicamente.
Ela já tinha saído de um poderoso Adhemar de Barros, da família de ela que era milionária e já tinha chegado a mim, um rapazinho de 21, e a Aline, uma menina de 18 anos.
Já estava pedindo a esta juventude para ajudá-la.
E fiquei com isso na cabeça.
Quando tive oportunidade lutei por isso, mas achei muitas barreiras, porque era uma época muito difícil.
Então uma das condições para entrar para trabalhar no Marco foi retomar este projeto de restauração.
Então já cumpri parte da minha missão!
Quem seria um artista parecido com a Lídia no Brasil?
Sei que existem muitos artistas como ela na América do Sul, que se sentiam injustiçadas, desistiram da carreira ...
Mas não saberia dizer um específico.
Ela é ela.
Não tem comparação, apesar da obra pequena de uma centena de quadros.
Ela produziu de 26 a 32 principalmente e desistiu. (
Humberto até agora criou cerca de 2 mil quadros).
A maioria dos quadros de ela não tem data.
Por que isso?
Ela não escrevia.
Eu mesmo os primeiros 20 anos de minha obra também não colocava a data.
O artista não se preocupa com isso.
Mas pode-se chegar a estas datas com pesquisas.
A obra de ela será desvendada à medida em que a biografia de ela for aumentada.
Já teve tese defendida por Paulo Rigotti, agora o livro da professora Alda Couto, a reedição da autobiografia que ela deixou, mais encenações da peça de teatro ...
Pode-se falar que a Lídia está mais viva do que nunca ou começando agora a ressurgir?
Ela está sendo conhecida por a nova sociedade.
Não são mais aquelas pessoas que a conheceram, que são campo-grandenses da gema, que viram Lídia Baís por as ruas de saia pregueada, que achavam ela biruta, que sabiam que ela era uma pintora que não deu certo por alguma razão, mas que nunca viram as obras.
Agora com o Marco, nesta exposição de Corumbá, nestes escritos sobre a vida de ela, a Lídia está começando um novo ciclo.
Chegou a hora de ela e jamais será esquecida.
Ela conseguiu finalmente colocar o nome na história de uma forma definitiva.
Já está.
Se tornou o alvo predileto de todos os estudantes.
É uma virada e uma conquista irreversível porque sua obra tem uma temática, um conteúdo psicológico, mostra a própria evolução da sociedade da qual ela foi vítima e que assume os seus valores tardiamente.
Você já se sentiu meio Lídia Baís neste sentido?
Não.
Porque nunca me senti só.
E a Lídia era sozinha e frágil.
Em os anos 20 e 30 a mulher nem votava.
Eu tive a Aline, o movimento, lutamos, fincamos pé, gritamos feio ...
Conseguimos arrancar dinheiro para fazer as coisas, abrir espaços públicos, fomos para a universidade, fundamos museu em Cuiabá, voltei para cá para ser secretário ...
Número de frases: 195
Nós tivemos uma luta bem diferente.
A Parada do Orgulho GLT de São Paulo é, disparado, a maior do mundo.
A estimativa é que, neste domingo, dia 10 de junho, convenientemente pertinho do Dia dos Namorados (leia-se Dia de Vender Flores, Celulares, Jóias e Ir a Restaurantes Chiques), uma Paulista ensolarada tenha recebido mais de 3 milhões de pessoas, entre elas cerca de 300 mil turistas de diversos estados brasileiros e de diversos países.
Não, isso não é uma resenha sobre a Parada Gay, mas a festa da afirmação da diversidade influenciou e muito o movimento na Praça Roosevelt e a apresentação do espetáculo Amores Dissecados, em cartaz no Satyros Dois, já que o amor se expressava livremente nas calçadas e muretas.
às 8 da noite, a praça estava cheia, ocupada, como sempre deveria estar e como eu não me lembrava de ter visto desde as Satyrianas.
A festa disputava, ainda, com a quermesse junina da Igreja da Consolação.
Muita gente bebia, muita gente se divertia, muitos casais se beijavam.
Em este clima, depois de um pequeno atraso de meia hora, Amores Dissecados, espetáculo do grupo Teatro Insano, do Abc, começa revendo e recriando um espaço que já é alternativo.
Peça andada no Satyros?
Calma, é só a primeira cena, um breve monólogo regado a uma taça de vinho vermelha.
Logo, o público se acomoda em cadeiras dispostas no próprio palco, para assistir ao resultado de um processo colaborativo dirigido por Marcos Lemes.
E os cinco atores se acomodam ao lado do público, de onde saem para ir ao centro do palco realizar esquetes e para onde retornam após a exibição, sem nunca utilizar as coxias.
Aliás, as coxias, para eles, são as cadeiras vermelhas, onde realizam as incontáveis (mentira!
Dava pra contar, mas me deu preguiça) trocas de roupas.
Ao lado de cada um, uma mala, de onde saem e para onde voltam os figurinos realistas.
Rosas vermelhas, fotos, batom, vestido de noiva, vinho.
A peça usa quase todos os ícones mais óbvios do amor e se foca na nossa dificuldade em amar de maneira simples.
O amor tratado ali, por meio de tantos clichês com os quais todo mundo se identifica, é o amor complicado, o amor que nós complicamos.
Embora algumas cenas encontrem ligações muito bonitas e criativas entre si, outras parecem perdidas no espaço e só se relacionam com o espetáculo por o tema.
No entanto, a complexidade temática e o risco de assumir um processo colaborativo tão amplo tornam o deslize do grupo em algumas transições absolutamente perdoável.
Pode parecer fácil abordar o amor, mas não é bem assim.
Em a verdade, poucas coisas são mais difíceis do que falar de sentimentos e de coisas banais e cotidianas com alguma grandeza.
Em este sentido, as atuações, em alguns momentos, têm sutilezas que expressam com verossimilhança nossos gestos cotidianos, mas para a maior parte das cenas, falta força e expressividade.
Falta algo como um desespero passional tão angustiante que envolva o espectador e o incomode ou um romantismo que faça o público sorrir sem perceber.
O Teatro Insano traz poucas novidades, é verdade.
Isso porque opta justamente por trazer situações que conhecemos muito bem.
No entanto, para apresentá-las, encontra algumas soluções bacanas, como o uso de um gravador, uma discussão cuja maior parte acontece no escuro -- aumentando a intensidade das falas -- e uma quebra na teatralidade para tentar entender o amor (onde é que fica essa coisa afinal?
Amar dói?
Se dói, onde dói?),
interagir com o público e, por que não?,
promover um bailinho.
Vale destacar, ainda, duas cenas que exploram os silêncios de maneira muito interessante.
Uma de elas se passa num boteco, em que dois amigos percebem, em meio a um monte de bobagens ditas ao léu, a solidão em que estão imersos.
A mensagem da peça ganhou muito com essa apresentação em plena Parada Gay, haja vista a quantidade de casais assistindo sorridentes e grudadinhos ao espetáculo.
É pena que os casais gays não prestigiem tão livremente o teatro em dias «normais».
Para mim, foi novidade, sim, mesmo que na Praça Roosevelt, ver tantos casais tão à vontade na platéia.
Foi novidade e não deveria ser.
Afinal, será que é preciso esperar por a Parada Gay para ir ao teatro bem acompanhado?
Foi bem bonito assistir a peça ao lado de eles, mas eu preferiria fazê-lo todos os domingos e não só uma vez por ano, quando a sociedade «consente».
Número de frases: 39
Cinema vandalizado, juventude transviada:
pesquisador reconstrói a chegada do rock em Salvador, com a Jovem Guarda.
Em os últimos sete anos, era possível ver José Castro Jr, 30 anos, caminhando ocasionalmente, algo como assustado, por as ruas do Campus do Canela da UFBa, agarrado a uma maçaroca suada de discos de vinil.
O trabalho formigueiro de Zezão, como é conhecido, varreu sebos obscuros e até arquivos de rádios rendidas para a religião.
A coleção já tem mais de dois mil discos, que ele guarda com tranqüilidade num apartamento no centro de Salvador, aos pés do Quartel dos Aflitos e de frente a um motel com luminoso piscante.
Este dinossauro do rock baiano, figura capilar com ares de DJ messiânico, é uma autoridade local no gênero filtrado de influência americana.
Zezão prepara uma pesquisa de mestrado sobre a história do rock na Bahia, em especial, como o fenômeno da Jovem Guarda foi assimilado por a geração do final dos anos 50 e ínicio dos 60. Em esta época, Salvador enfrentava o início de uma fase de crescimento que explodiu com a indústria petroquímica, nos anos 70.
Com Zezão não adianta discutir grunge e outras coisas mais modernas.
Ele vai brandir uma clava pré-histórico do rock, com aquela sonoridade arenosa das agulhas.
A obsolescência e a memória formam o banquete de Zezão.
Ortodoxo, costuma dizer que «Kurt Cobain» queria fazer
sucesso, quando fez, não segurou a onda».
Em 1956, na primeira exibição do filme Sementes da violência, em Salvador, no atual (e em ruínas de eternas promessas de arteplex) Cine Glauber Rocha, a galera, incluindo Raul Seixas, que estava na platéia, ficou tão ensandecida ao ponto de vandalizar o cinema.
Anos mais tarde, Tom Zé contou que também viu o filme na época e imediatamente sentiu vontade de compor.
A reação, segundo os jornais da época, foi mundial:
cinemas foram destruídos na Grã-Bretanha, Canadá, Unidos.
O filme dirigido por Richard Brooks, com Glenn Ford e Sidney Poitier, abordou temas tabu na época como racismo, tensão sexual e violência juvenil, e tinha na trilha sonora a canção Rock around the clock.
Cultura de massa enlouquecendo as massas e semeando o rock.
O primeiro grupo de rock na Bahia, segundo nosso dinossauro, foi Waldir Serrão e seus Cometas, em 1957.
Também surgiu o primeiro programa, Só para brotos, na Rádio Cultura da Bahia (atualmente na mão dos crentes).
Grupos obscuros também surgiram nas cidades do interior, com discos de rotação menor.
De essa época ficaram discos como o de Thildo Gama, com versões de standards do rockabilly.
Gama depois integraria a formação de Os Panteras, primeira banda de Raul.
Zezão conta que está produzindo o grupo Bahia Jazz Quartet, com músicos da época e da geração seguinte, nos anos 70.
Figuras como Lula Nascimento -- baterista, tocou no Jessildo Caribé Trio com Bira, do Jô Soares, e «Don Salvador,» o papa da afro-bossa no Brasil " -- lança Zezão).
Em o cenário atual de bandas baianas, Zezão aponta os ingredientes da moqueca:
«Noventa por cento é fruto da mescla de hip-hop com mangue beat, grunge e metal.
Dizem que a Tropicália foi a época das misturas, mas a década de 90 foi mais radical.
Ele coloca a divertida Retrofoguetes (instrumental com proposta surf-music que é extrapolada de maneira magnífica por o power trio), e a Honkers (cujo vocalista costuma despir-se nas apresentações e comanda uma legião de fãs adolescentes), como dignos de nota por a «relação medular com o rock».
Sobre Pitty, " ela teve que fazer pequenas adequações na postura hardcore, são concessões que os conjuntos costumam fazer.
Número de frases: 30
Ao vivo, continua pancada, mas pra gravar teve que tirar o pé do acelerador um pouco».
Dia 26 de abril é o Dia do Tropeiro no Estado de Santa Catarina.
Foi a data da morte, em 1733, do padre Cristóbal de Mendonza e Orelhana, primeiro tropeiro brasileiro vindo do pampa argentino, em 1732, com destino no Rio Grande do Sul, chegando em Santa Catarina no ano seguinte.
Durante 250 anos os tropeiros foram responsáveis por toda a comercialização e transportes de produtos e informações no Brasil.
Uma justa homenagem.
A palavra «tropeiro» deriva de tropa, numa referência ao conjunto de homens que transportavam gado e mercadoria no Brasil colônia.
O termo tem sido usado para designar principalmente o transporte de gado da região do Rio Grande do Sul até os mercados de Minas Gerais, posteriormente São Paulo e Rio de Janeiro, porém há quem use o termo em momentos anteriores davida colonial, como no «ciclo do açúcar» entre os séculos XVI e XVII, quando várias regiões do interior nordestino se dedicaram a criação de animais para comercialização com os senhores de engenho.
Ao longo do tempo os principais pousos se transformaram em povoações e vilas.
É interessante notar que dezenas de cidades do interior na região sul do Brasil e mesmo em São Paulo, atribuem sua origem a atividade dos tropeiros.
O comércio de animais foi fator determinante para integrar efetivamente o sul ao restante do Brasil, apesar das diferenças culturais entre as regiões da colônia, os interesses mercantis foram responsáveis por essa fusão e indiretamente, por a prosperidade tanto da grande propriedade estancieira dos estados do sul, como de pequenas propriedades familiares, em regiões onde predominaram populações de origem européia e que abasteciam de alimentos as fazendas pecuaristas.
Uma vida de tropeiro
Eles viajavam grandes distâncias, durante semanas seguidas, conduzindo gigantescas tropas de gado.
Os veículos não eram caminhões-boiadeiros, mas pequenas mulas, que cumpriam com valentia o trabalho.
A saudade de casa, a falta de notícias da família, o sofrimento físico no caminho.
Tudo fez parte da vida dos tropeiros, homens que se arriscavam para impulsionar o desenvolvimento do Brasil.
Em Santa Catarina, as homenagens a estes heróis viraram a lei de número 13.890, do ano passado, que estabelece o dia 26 de abril, no caso, hoje, como o Dia do Tropeirismo.
Vivendo atualmente na localidade de Monte Alegre, em São Joaquim, na Serra Catarinense, Vidal Cândido da Silva Neto, 78 anos, é um dos homenageados.
O mais velho entre 10 irmãos, ele concluiu o antigo ginasial na escola e voltou para a fazenda, onde vivia com a família.
Em 1953, sua mãe morreu, a situação ficou difícil, e ele, com 25 anos, precisou ajudar ainda mais.
Os irmãos saíram para estudar, e Vidal continuou no campo.
Foi quando virou tropeiro.
As primeiras viagens foram longas.
Com mais cinco cavaleiros, comprava gado na região de Cruz Alta (RS) e levava até São Joaquim.
Em uma destas lidas, conduziu 512 cabeças.
A dificuldade era maior quando os animais paravam para beber água nos riachos ou, então, quando se perdiam, e Vidal e seus companheiros eram obrigados a procurá-los na mata.
Vidal não lembra detalhes da viagem mais longa.
Diz apenas que saiu de São Joaquim com 30 touros e foi até Guarapuava (PR), de onde voltou, após bons negócios, com 260 bois.
Ele recorda da tensão na descida da Serra do Rio do Rastro, quando muitos animais rolavam montanha abaixo.
Alguns eram resgatados;
outros, jamais encontrados.
O joaquinense guarda uma passagem por Vacaria (RS), quando uma grande nevasca surpreendeu a tropa, e, isolado, dormiu sobre a montaria da mula.
às vezes faltava comida.
A chuva, o vento e o frio eram companhia da maioria das viagens.
No entanto, Vidal nunca pensou em desistir e, hoje, orgulha-se do que fez até os 60 anos.
Ficou a saudade das viagens, da receptividade dos moradores e, principalmente, dos amigos -- todos falecidos, mas que conservam, em suas famílias, a história de uma nação.
Hoje, vive em sua fazenda, a Fazenda Ipê, onde recebe hóspedes em sua pousada.
Número de frases: 36
www.fazendaipe.com Desejo de Esbranger no Redemoinho da Vida
Conheço a música de Paulo Freire há alguns anos, admiro e aprecio muito o trabalho de ele.
Tanto como músico quanto como escritor.
Pode ser chamado, tranqüilamente, de «uma pessoa do bem».
Já que o Overmundo propicia que até quem não é jornalista profissional tenha seus momentos de comunicador social, publico aqui a entrevista que fiz com o violeiro, por e-mail, estes dias.
Espero que mais gente conheça a arte do caipira cosmopolita.
E peço que qualquer descompasso na entrevista seja creditado (ou debitado) ao entrevistador inexperiente, com mais vontade que formação.
De qualquer maneira, a «prosa» me deixou muito contente.
O tom é aberto e informal.
-- Como foi o início da tua relação com a música?
Aproveitando o gancho, qual é a sensação atual sobre O Canto dos Passos, romance ficcional da tua juventude que, até onde percebo, é também autobiográfico?
Paulo Freire:
Estudei música quando menino, meus pais me levavam à aula de piano e flauta.
Mas, para isso, tínhamos que parar de jogar futebol na rua com os meninos.
Então não consegui aprender nada.
Depois, o Tuco, meu irmão mais velho, começou a tocar violão e foi me puxando para o mundo da música.
O Canto dos Passos me dá uma sensação muito boa.
Pois foi um romance de uma sinceridade total.
Tem alguns aspectos autobiográficos -- mais no nível das idéias que vivia discutindo com os amigos naquela época.
Eram tempos de muitas conversas e ações.
O mundo fervilhava e queria agarrar tudo.
Não parava de viajar e solidificar namoros e amizades.
A intensidade do Canto dos Passos me agrada muito.
-- Indo mais atrás, a infância, como foi?
Que lembranças tens?
Como é ser filho do Roberto Freire?
A terapia desenvolvida por ele (a Somaterapia) te influenciou em alguma medida?
PF:
Em os tempos de menino gostava muito de praia (São Sebastião), brincar na rua em São Paulo (bairro das Perdizes).
Já tenho uma certa idade, então nos tempos de menino -- década de sessenta -- em São Paulo, fazíamos fogueira na rua, soltávamos balão, jogava muito futebol, fazia grandes passeios de bicicleta, com uma turma muito legal da rua onde morávamos.
Meu pai, no tempo de minha infância, estava envolvido em ações políticas, às vezes tinha que sumir um pouco devido a perseguições da ditadura.
Minha mãe, Gessy, é que cuidava mais da turma (somos três irmãos homens), sempre num clima de muito amor.
Não sei se a Somaterapia influenciou em algo na nossa vida, mas a robertofreireterapia e a gessyterapia certamente nos orientou os caminhos.
-- Há pouco tempo li uma entrevista do Almir Sater, na qual ele dizia que, depois que teve filhos, passou a ter menos contato com a viola.
Ele disse que «tocava melhor» antes de ter filhos.
Também tens essa sensação?
PF:
Entendo bem o Almir.
É o seguinte, tocar viola é uma delícia, mas cuidar dos filhos é muito melhor!
A gente prefere ficar com a meninada.
Agora, não sei se tocava melhor.
Não consigo fazer algumas coisas daqueles dias, mas hoje em dia conheço alguns atalhos e perco menos tempo com bestagem.
Ah, e para este meu novo CD, Redemoinho, andei estudando muito viola.
-- Quais são os espaços atuais para a música interiorana nos meios de comunicação?
E que mestres violeiros estão «escondidos» do olhar público e mereceriam ser mais conhecidos?
PF:
Depende das pessoas que atuam nestes meios de comunicação.
Existem os que gostam do cheiro do café passado no coador de pano, de meter o pé no riacho, ou ficam debaixo de uma mangueira escutando passarinho.
Esses nos dão espaço.
Em relação aos mestres violeiros, tem uma enormidade por aí, na roça e na cidade.
Cito aqui três que não são conhecidos e tocam uma viola de arrepiar:
Manoel de Oliveira, Índio Cachoeira e Badia Medeiros.
Recomendo o seguinte, procurem na roça, ou até na cidade, entre as pessoas que se envolvem com as festas populares, no meio desse povo é que eles se escondem.
-- Queria também que falasses um pouco dessa mistura interior / cidade, ou tradicionalismo / cosmopolitismo, que te caracteriza ...
PF:
Nasci em São Paulo, capital.
Sempre gostei de ir para o interior e para as praias -- caipira e caiçara.
Viajei muito.
Como diria Badia Medeiros, procurei ser «esbrangente», uma palavra do sertão que significa o movimento contrário de abranger.
Essa mistura a que você se refere é o desejo de esbranger.
-- Li teu livro Zé Quinha e Zé Cão, aí quando assisti «2 Filhos de Francisco» fiquei pensando que alguém poderia ter a idéia de filmar teu livro, que é simbolicamente muito rico.
O que achas desse devaneio?
PF:
Já me falaram isso e gostei muito da idéia.
Tomara que surja esta oportunidade!
-- Aproveitando o gancho:
já fizeste trilhas sonoras?
PF:
Sim, bastante!
Para cinema, TV, teatro e dança.
Gosto muito de misturar a música às outras artes. [
Em o currículo do violeiro, é possível conferir alguns dos trabalhos que fez nessa área] --
Quais são teus projetos atuais, além de espetáculos musicais?
Sei que tens uma parceria com o SESC, e fazes também trabalhos com a Ana Salvagni, que envolvem poesia, contação de histórias ...
PF:
O SESC é nosso parceiro para as criações e também funciona como provocador, quando convida para algum projeto que, aparentemente, não tem relação com seu trabalho.
O trabalho do SESC na área cultural é um assunto muito sério.
Agora em dezembro lanço um livro infantil «O Céu das Crianças», por a Companhia das Letrinhas.
E sigo fazendo shows em diferentes formatos:
um com a Ana Salvagni, outro com Wandi Doratiotto;
com o formato de Trio -- junto a Tuco Freire e Adriano Busko, Quinteto -- para o lançamento do Redemoinho, o Esbrangente -- junto com Roberto Corrêa e Badia Medeiros.
E divulgo tudo na agenda de meu site:
www.paulofreire.com.br -- Tens alguma opinião formada sobre as rádios livres e comunitárias?
PF:
Participei de alguns programas na Rádio Muda, aqui de Campinas, com muita alegria.
Gosto demais do princípio da rádio livre e da comunitária.
E também do envolvimento das pessoas que trabalham nestes espaços.
-- Sei da tua participação, há pouco tempo, numa discussão sobre a chamada «era digital».
Como é o processo, da feitura à distribuição, nesse contexto?
Conheces alguma experiência colaborativa na internet?
PF:
Esse é um mundo fascinante que estou apenas arranhando.
Enquanto tem tanta gente mergulhando ...
A Tratore -- que distribui meus discos -- trabalha também com este meio.
Eu procuro ocupar alguns espaços.
A questão é que ainda penso no CD como um álbum, com conceito, músicas que se seguem umas às outras.
Não tenho a pressa do digital.
Em esta discussão teve menino que quis me elogiar dizendo que tem CD meu que ele já baixou todinho por a internet, quer dizer, a importância de estar na rede.
Mas e os direitos autorais?
Ih, isso é conversa longa ...
[A o ler esta resposta, fiquei achando que, num meio como o Overmundo, no qual essa discussão é tão viva, valia um complemento ...
e provoquei o Paulo Freire.
Ele respondeu:
«Em relação aos direitos, acho que ainda estou tateando no assunto.
Ainda mais que existem vários aspectos a se soltar ou proteger.
Por exemplo, tenho um Cd preso numa gravadora, o «São Gonçalo».
Ficaria muito feliz que ele fosse espalhado no mundo internético.
Não ganharei nada, mas o menino vai correr o mundo.
Em vez de ficar trancafiado numa cela.
Por outro lado, os que produzi independente luto por eles.
Lá vai uma certeza:
sou a favor que se libere toda a propriedade intelectual ...
desde que sejam liberadas todas as outras propriedades:
imóveis, móveis.
Geral. Meu pai, por exemplo, passou a vida produzindo livros.
Não investiu em imóveis, poupança, nada, só em sua arte.
Por que ele deve deixar que usem toda a sua produção se precisa pagar aluguel para morar numa casa?"] --
Como é o trabalho com a Orquestra Popular de Câmara?
PF:
Faz uns 6 anos que saí da Orquestra.
Mas são grandes amigos e continuo fã de eles. [
Em este link, é possível ouvir o trabalho] --
E o Redemoinho (com a participação de Adriano Busko, Tuco Freire, Lara Ziggiatti, Mané Silveira, Dalga Larrondo e Guello), como foi fazer esse disco?
Qual é o «tom» de ele? [
Aqui, quem tiver curiosidade pode ouvir trechos das músicas do novo cd, que pode ser comprado através do catálogo online ou entrando em contato com Ana Salvagni por o e-mail anasalvagni@kweb.com.br]
PF: Redemoinho foi justamente para dar uma rodopiada em minha trajetória.
Trazer alguns assuntos que estavam escondidos, buscar minhas influências que não fazem parte do mundo da viola.
Escrever arranjos para músicos que admiro, deixando campo aberto para suas criações.
Por estar tão envolvido com a contação de causos, quis fazer um CD puramente instrumental.
Trabalhar músicas inéditas.
Além de fazer toda a produção.
E tudo com muito prazer. [
O CD foi lançado por o selo Vai Ouvindo] --
Sinto na tua música uma transcendência espiritual.
Então, uma pergunta sobre o processo criativo musical / artístico.
Como é o teu?
PF:
Vai ouvindo ...
Tô tocando assim, à toa.
Surge uma idéia.
Opa! Deixa ver se agarro ela.
Vem um sentimento de novidade.
Hmm. Peraí, e se eu pegar um outro caminho?
Ah, por aqui não.
Ali é mais bonito.
Já viro as rédeas.
Agora tenho que tocar direito.
Repete e repete.
A idéia vai crescendo.
Se ela realmente me agrada, fica morando dentro de mim.
Aí trabalho em qualquer lugar, em casa, hotel, ônibus, andando na rua, correndo no parque, bestando embaixo da mangueira, esperando alguém chegar ...
quer dizer, fico por conta da criação.
Remissões (ou links):
Blog, para conhecer o lado escritor do violeiro
Selo Vai Ouvindo, criado para produção independente
Verbete na Wikipedia
Site oficial
Currículo do violeiro
Vídeo com trechos da participação de Paulo Freire no Projeto Viola Bem Temperada
Galeria de fotos, no próprio site oficial
Um texto da Cida Almeida que encontrei aqui mesmo no Overmundo, falando sobre Guimarães Rosa e o Grande Sertão, uma das inspirações.
Para receber a newsletter do músico, escreva para vaiouvindo@paulofreire.com.br
Mais no Overmundo:
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caipira
viola-caipira.
Número de frases: 166
As cinzas da noite espalhavam em brasa no quarto de Cícera.
Toda a solidão de uma vida oprimida entre suas coxas lhe ardia.
A televisão a convidava para comprar uma nova marca de detergente, sabonete e palha de aço.
Mas, para viver a sua vida nunca, never more.
Casara cedo, muito jovem e tola.
Não conhecia nada da vida.
Cria no noivo, experiente e de olhar interessado, penetrante ...
Acreditava que ele poderia fazê-la a mulher mais feliz do mundo.
Não o conseguiu.
Teria sido sua culpa?
Há anos, reclusa à vida doméstica:
passava, encerava, cozia, pregava botões e cerzia as meias.
Em troca de quê?
Todos os dias, rádio na cozinha, lamentos sonoros de amor eterno respingados a óleo quente da frigideira, comida no forno, lavagem de cuecas e muita, muita vista grossa ...
à tardinha, com almofadas embaixo dos cotovelos, reclinava-se à janela sisuda a comparar a sua vida com a dos passantes.
A visão de uma mulher magra e jovem lhe era imperdoável, capaz de estragar até o fim de semana.
Roia as unhas.
Revolvia gavetas, revolvia gavetas, procurando nem ela sabia o quê.
Chorava nos portais da cozinha.
Chorava por detrás das portas.
Chorava. Cheirava esmaltes.
Em o banho, perdia horas se ensaboando, se esfregando, catando o surro, sensação de sujeira, muita sujeira.
Cuidava das plantas no jardim, matava formigas, caçava baratas, limpava ratoeiras ...
Um dia, recebeu um telefonema diferente:
seu marido sofrera um grave acidente.
Morrera! Solicitavam-na para fazer o reconhecimento do corpo.
Desligou o telefone e poisou-o no console.
Não chorou.
Não sabia o que pensar.
Não sabia o que fazer.
Não sabia para onde ir.
Não sabia a quem procurar.
Não sabia nada de coisa alguma.
Foi ao quarto, ficou de quatro e pegou embaixo da cama uma encadernação vermelha amarrada com uma fita puída.
Abriu-a.
Era um álbum de fotografias.
Pequeno, feito de cartolina, comido por cupins, cada página separada por papel manteiga amarelado.
As fotos, à medida que passava as páginas, caíam pesadas.
Ela as recompunha.
Fitava-as.
Não, não as reconhecia, não reconhecia nada nem ninguém.
Sorriu aliviada e gargalhou com uma estranha sensação de liberdade.
Número de frases: 42
(Em a foto acima, DJ Ferville, à direita, ao lado do DJ Yes América)
A crise que, dizem, o drum ' n ' bass enfrenta nas pistas de dança não foi o suficiente para abalar, pelo menos, um dos grandes representantes do estilo no interior paulista:
o produtor e DJ Charles Ferville.
O DJ, que mora em Assis (cerca de 500 km Oeste da capital), mantém ao lado do também produtor e DJ Antônio Garcia (ou Monkey'G), da vizinha cidade de Marília, o projeto BassFuture (algo como " grave do futuro "), com o qual já lançaram um disco de vinil com remixes e cinco CDs independentes.
O projeto alçou os dois ao nível do primeiro time de DJs do gênero.
Em 2002, Monkey'G foi convidado para tocar no Skol Beats e foi considerado no site oficial do evento um dos destaques daquele ano.
Ferville, por sua vez, é amigo do top DJ Marky desde 1993, com quem já tocou em algumas ocasiões.
«Hoje em dia, todos os lançamentos de ele eu consigo ter e tocar em vinil», se orgulha.
Ele também foi responsável por o lançamento de sucessos dos DJs Patife e Ramilson Maia em casas noturnas paulistanas.
«Lancei o Sambassim, do Patife, e o Tem que Valer, do Ramilson, na Espaço Nation (extinta casa noturna em São Paulo)», lembra.
Além disso, leva o ritmo às rádios da região como convidado em algumas estações.
Em Assis, na Rádio Cultura 2 FM, ao lado do DJ Silvio Cezar;
em Tupã, na 2 FM;
em Marília, na Transamérica FM;
e em Cândido Mota, na " Voz do Vale.
«Sempre que participo toco d' n ' b remix com vocal e misturo minhas produções», conta Ferville.
O produtor mantém ainda o selo Drumm Soundz Records, por o qual divulga e lança produções do BassFuture, além de músicas de ele e de Garcia em projetos solos ou paralelos.
Outro trabalho realizado por o DJ no interior são os cursos de discotecagem, alguns de eles, em entidades assistenciais das cidades.
«Tenho um projeto chamado DJ Escola.
O último que fiz foi por a Casa da Menina São Francisco de Assis, em Assis mesmo.
Minha iniciativa é para chegar perto de quem realmente gosta de som e quer se aperfeiçoar, mas não tem recursos materiais e financeiros para fazer um curso desse tipo».
Outros estilos
Ferville, com seu BassFuture, pode ser considerado um resistente do drum ' n ' bass no interior (que vive uma febre de psytrance).
Mas como fazem vários outros DJs, ele também toca outros estilos, especialmente, nessa fase de crise que vive seu gênero predileto.
«A cena de drum ' n ' bass no interior está fraca.
Por isso, atualmente, procuro reciclar bem o que as pessoas irão ouvir em meus sets», diz.
O próprio BassFuture, aliás, já produziu faixas de breakbeat, além de d' n ' b.
«O drum ' n ' bass está passando por mudanças, já que ficou no auge por vários anos.
Hoje, está havendo uma reciclagem e isso dará novo fôlego à cena», diz Garcia, que atualmente mora na capital e toca também techno e eletrohouse.
O fato é que, em crise ou não, o drum ' n ' bass está bem representado no interior de SP.
Os dois têm conseguido superar os limites regionais e já têm produções até no exterior.
Garcia, ironicamente, teve uma faixa de house, mixada por Patife (um dos tops do drum ' n ' bass) e Júlio Torres, incluída na revista inglesa " DJ MAG.
«Foi uma brincadeira que fizemos e o Júlio, que toca house, remixou uma faixa de d' n ' d minha e eu remixei um house de ele."
Além disso, produziu e participou do programa de rádio Ministry of Sound, de um clube de Londres, em parceria com a rádio Transamérica.
Quer ouvir o som dos caras?
Abaixo, uma lista de endereços para você encontrar os sons de Ferville e Garcia.
www.buscamp3.com.br/djferville
www.fiberonline.com.br/bassfuture www.mp3.de/djferville
www.tramavirtual.com.br/dj ferville
www.buscamp3.com.br/charlesferville www.djgarcia.multiply.com
Número de frases: 40
www.djgarcia.tk Filme fala da cultura Yanawana e pinturas corporais viram estampa de tecidos
Em 2003, após a realização do II Yawa -- festival que acontece durante sete dias, na aldeia Nova Esperança, situada na terra indígena do rio Gregório, em Tarauacá -- os Yawanawa perceberam que sua cultura, identidade e espiritualidade estavam vivas em pleno século XXI.
O Yawa reúne dança, expressão artística, manifestação cultural e espiritual.
O festival foi o primeiro passo para a realização de um projeto de desenvolvimento de produtos que retratasse a cultura do povo Yawanawa.
O resultado foi a produção do documentário Yawa -- A história do povo Yawanawa e a criação da grife Yawanawa.
Estampas Yawanawa
A grife surgiu a partir da oficina Kuran Kene, realizada por a Organização de Agricultores e Extrativistas Yawanawa do Rio Gregório -- OAEYRG.
O projeto buscava apoiar os ricos conhecimentos da arte, desenho e pinturas corporais criados por os velhos e mulheres Yawanawa.
Em a oficina foi levantada a história de origem e dos desenhos tradicionais.
Os desenhos foram transformados em estampas numa linha bem elaborada de ecoprodutos, que levam a marca Yawanawa, que hoje circula por o mercado nacional e internacional.
Em Rio Branco pode ser encontrada na multimarca Iris Tavares.
Filme dos Yawanawa pede por a paz ao mundo
Com 50 minutos de duração, o filme Yawa -- A história do povo Yawanawa, dirigido por Joaquim Taska Yawanawa, financiado por a empresa de cosméticos norte americana Aveda Corporation, parceira de projetos de desenvolvimento sustentável dos Yawanawa traz narrativas com opções nas línguas Yawanawa, português, espanhol, alemão, italiano, japonês, inglês e coreano.
O filme-documentário retrata o Yawa, festival que acontece durante sete dias, na aldeia Nova Esperança, situada na terra indígena do rio Gregório, em Tarauacá.
O Yawa reúne dança, expressão artística, manifestação cultural e espiritual do povo Yawanawa.
As imagens captadas por as lentes de Joaquim e Josh trazem poesia, embaladas por uma trilha sonora envolvente.
Pajés da tribo saúdam o mundo com uma mensagem positiva.
Rituais ofertam boas energias.
Olhares serenos diante da câmera dedicam pedidos de paz em seus rituais.
O documentário Yawa circula por festivais etnográficos de vários países.
Para Joaquim o Yawa representa a realização de um antigo sonho dos anciãos " Yawanawa.
«Gravar nossas imagens para que elas não se percam no tempo e no esquecimento das futuras gerações.
Esperamos que, através de nossos cantos e nossas imagens, possamos inspirar e incentivar outros povos indígenas ao redor do mundo a valorizar e buscar suas próprias tradições e raízes culturais e espirituais».
Arte Yawanawa
O conhecimento das artes -- cerâmica, desenhos, armas de madeira e cestaria -- é uma tradição concentrada entre os mais velhos, que transmitem esse conhecimento às novas gerações.
O povo Yawanawa traz em sua cultura uma diversidade de desenhos corporais, muito utilizados na festa do mariri (saiti).
Os desenhos são feitos com urucum e / ou jenipapo.
Eles utilizam, às vezes, uma resina cheirosa para fixá-los à pele.
Saias de palha de buriti, cocares de taboca desenhados e braceletes de palha são também utilizados como enfeites durante as festas rituais.
Fabricam armas (lanças, arcos, bordunas, flechas e punhais utilizados tradicionalmente na guerra) com taboca e madeira de pupunheira brava, e enfeitadas com desenhos, linha de algodão e penas de arara, tucano e papagaio.
O trabalho de armas é uma prática exclusivamente masculina, já o desenho é uma atividade vinculada à esfera feminina, da mesma forma que a cerâmica e a cestaria.
Número de frases: 31
«A Arte é um canal multireferenciado e fantástico de expressão e comunicação "
Aliar a linguagem circense ao processo de alfabetização como forma de atingir o pleno desenvolvimento de crianças de cinco a seis anos de idade.
Esta é a visão metodologia adotada por o projeto «Alfabetizando e Muito Mais!», desenvolvido por a Escola Picolino, que há 22 anos vem atuando nas comunidades populares vizinhas ao circo, no bairro de Patamares.
Em entrevista ao repórter Juracy dos Anjos, a coordenadora pedagógica da Picolino, Márcia Nunes, releva a importância do projeto para o desenvolvimento intelectual e social dos estudantes e de como a metodologia centrada na arte-educa ção pode ajudar no aprendizado das crianças, ligando a grade curricular tradicional às práticas lúdicas.
A expectativa para o futuro, de acordo com a educadora, é ampliar o atendimento para todas as faixas-etárias.
Confira a entrevista completa:
Juracy dos Anjos -- Qual a importância social deste projeto?
Márcia
NUNES -- O projeto " Alfabetizando e Muito Mais!" é uma das ações que íntegra o programa social, global, desenvolvido por a Escola Picolino:
Arte, Circo e Educação, que contempla várias outras ações de atendimento sócio-educativo a centenas de crianças, adolescentes e jovens, na sua maioria, vindas de famílias de situação econômica de baixa renda.
Com a missão de educar, a Picolino realiza um processo de educação continuada, que vai até à profissionalização dos seus, acompanhando-os na inserção do mercado de trabalho.
De modo geral, o projeto abre possibilidades de auto-sustenta ção e melhoria da qualidade de vida dos alunos e suas famílias.
Como surgiu a idéia de criar este projeto?
O Alfabetizando surge com o propósito de oferecer o mais cedo possível o contato da criança e da sua família a processos educativos, inclusivos e de acesso aos bens culturais e sociais.
Atendíamos, anteriormente, a grupos de criança a partir dos sete anos de idade.
Mas fomos vendo, no decorrer dos nossos 22 anos de existência, e com o início da escolarização na rede pública também a partir desta idade, que ficava uma imensa lacuna com esta parte da primeira infância.
Percebemos também com o apoio escolar que damos aos nossos alunos, uma realidade difícil:
baixa escolarização e altos índices de repetência.
Pretendemos, além de oferecer aulas de circo e atividades complementares (oficinas de jogos, leitura, escrita, iniciação musical, capoeira, dança, entre outras), que os alunos façam, duas ou três vezes por semana, durante um turno regulamentar, o processo escolar normal, a partir da alfabetização até a 4ª série do Ensino Fundamental.
De que forma a metodologia centrada na arte-educa ção pode auxiliar a alfabetização das crianças?
Embora a arte-educa ção, infelizmente na América Latina, tenha, de modo geral, se voltado como um instrumento de mudança para uma população pobre economicamente, ela é um bem para todos e que não fica «limitada» a um segmento social.
Em a verdade, sendo bem realizada já é bastante interessante e em muito tem atendido a alguns anseios de mudanças.
A Arte é um canal multireferenciado e fantástico de expressão e comunicação.
É gesto, imagem, movimento, cor, forma, cheiro, espiritualidade, conceitos ...
É ação.
E isso pode aproximar as crianças para outros tantos símbolos, representações e linguagens.
Incentivar a alfabetização e letramento por as artes é atribuir significados diferenciados e caminhos múltiplos de aprendizagens para os alunos.
Como as crianças se relacionam com a linguagem do circo?
Cada estudante faz um contato muito próprio, singular com o circo, de acordo com sua própria história de vida.
Porque trabalhar somente com crianças de cinco a seis anos?
Em 2005, iniciamos com crianças de quatro anos e que este ano estarão na alfabetização.
Este ano, a escolha tem relação com os desafios que serão lançados e que são mais pertinentes a esta faixa-etária de cinco a seis anos de idade.
Quando tivermos uma estruturação física que comporte os menores de cinco, certamente o faremos, abrindo espaços para as crianças que se encontram na educação infantil.
Vai ser maravilhoso!
Porque diversas crianças já foram atendidas por o projeto e queremos ampliar este número.
Qual a duração do curso e as disciplinas que são trabalhadas?
Ofereceremos aulas, das 8h às 13 horas, de leitura, escrita, jogos, matemática, estudos da natureza e da sociedade, práticas ambientais, de música, circo, dança e acompanhamento dentário.
As crianças têm direito também a um café da manhã, lanche e almoço.
A alfabetização é realizada durante um ano e depois seguiremos da 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental.
Quais os resultados obtidos desde o lançamento do projeto?
Crianças mais expressivas, que gostam de estudar e ir à escola.
O desenvolvimento da socialização, da linguagem e do corpo.
E aos poucos um trabalho de ordem familiar.
Existe alguma empresa que apoio esta iniciativa?
Tivemos o apoio da Le Biscuit na doação de material escolar e da Brinquedos Rosita, que doou brinquedos no dia das crianças e no final do ano.
Não temos ainda uma parceria permanente.
Quais são as expectativas para o futuro?
Melhorar a qualidade cada vez mais do atendimento;
Regulamentar a escola e atendermos até a 4ª série do Ensino Fundamental, assim como as crianças menores de cinco anos.
Número de frases: 49
Ajudar as crianças a desenvolverem-se integralmente e que possa com esta base educativa continuar sua escolarização e ter maiores chances de viver com qualidade e de ter um bom trabalho.
Política Em o dia 13 de Dezembro de 1968 é baixado o ato institucional nº 5 (Ai-5), em resposta ao discurso feito por o deputado Marcio Moreira Alvez, que propunha o boicote ao desfile militar do 7 de setembro.
O ato extinguiu os poucos vestígios da liberdade existente no país, assim como legalizou a pena de morte e a prisão perpétua.
A euforia dos estudantes das universidades foi posta a baixo, acabaram-se as greves, visto que os alunos que fossem pegos participando de movimentos semelhantes seriam expulsos dos órgãos de ensino.
Jornais, peças de teatro e musicas deviam ser passadas a censores escolhidos a dedo por o estado, para só depois serem publicados.
Muitos jornalistas chegaram a fazer amizade com os censores de seus jornais.
Chegavam a embebedar o homem com o intuito de não terem suas matérias vasculhadas e editadas, o que muitas vezes chegou a acontecer.
Esquerdistas radicais optaram por a luta armada, o que ajudou os capitalistas a reforçarem a imagem de terrorista dos comunistas.
O silêncio tomava conta da multidão, o terror se espalhava por cada canto das cidades.
Música
Os músicos da época deram vida às entrelinhas.
Metáforas eram incorporadas a cada verso da poesia, escondidas em palavras comumente utilizadas no cotidiano.
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado ( ...)
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Considerado um dos «hinos» da ditadura militar, a música Cálice de Chico Buarque e Gilberto Gil faz forte referência ao período retratado.
O cálice que o eu-lírico busca afastar na sinfonia, é na verdade o silêncio, o cale-se.
Cada artista tinha seu meio de driblar a censura.
O cantor e compositor Chico Buarque chegava a mandar canções enormes para os censores, com uma introdução e um final sem forte importância, mas com um miolo rico e expressivo.
Os censores cortavam tudo e deixavam exatamente o que o músico queria, ficando ambos satisfeitos.
Em os anos que se seguiram pós-ditadura, os mesmos músicos que contextualizavam em seu auge, concentravam em produzir musicas que abordavam os anos de chumbo.
Em um tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
De as nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações (
Chico Buarque -- Vai Passar)
Televisão 1970, a Copa do Mundo chegava para esconder o que acontecia nos porões da ditadura militar.
A televisão se ocupava em transmitir somente informações relacionadas ao futebol ou a algo sem muita importância.
Iniciava nesse momento um processo de «emburrecimento» da população, que assistia muito à televisão, mas pouco ficava sabendo sobre política ou cultura.
As emissoras não transmitiam noticias relacionadas aos males do governo, pois temiam fortemente a represália das forças militares.
O General Emilio Garrastazu Médici, então presidente, vinculava o sucesso da seleção brasileira de futebol ao seu governo, enquanto nos bastidores a repressão alcançava seu auge.
Militantes esquerdistas seqüestravam embaixadores, e exigiam em troca que os telejornais noticiassem as torturas que ocorriam sobre o «pano de confetes».
Os militares eram obrigados a acatar a ordem dos esquerdistas, e os demais países do mundo começavam a ficar sabendo do que estava ocorrendo no Brasil.
Muitos países chegaram a cortar relações com o Brasil, até que a política vigente no país tomasse rumos contrários.
Pode-se dizer então que da mesma forma que a televisão massificou a população e contribuiu para a destruição de uma geração de jovens, teve também forte importância no processo de abertura do Brasil e a construção de uma democracia, ainda que duvidosa.
Hoje
E fica esquecida a pergunta numa gaveta entreaberta de um antigo armário.
E hoje, qual a luta?
Dias em que o sol assola nossa nuca criando a molesa típica do mito baiano.
Olhamos para tanta pobreza, miséria, e não é possivel que achemos que esta tudo certo, que a luta chegou a seu fim.
É impossivel achar que esse modelo capitalista é o correto -- longe de mim negar o quão capitalista sou
Mas perdido numa aula de historia segunda-feira de manhã escuto um amigo comentar bem atrás de mim, que boa era a época da ditadura, que se tinha algo para lutar.
Acontece que a briga ficou mais fácil, o oponente deixa que falemos abertamente, sem tamanha censura ou repressão.
Esta na hora de darmos os braços e batermos panelas, vestígios da sabedoria do povo brasileiro.
Um outro Brasil é possível, utopia de bêbado, mas esperança de um cidadão
«Ideologia, eu quero uma pra viver "
Número de frases: 53
Bernardo Biagioni Originalmente publicado no Motocontínuo
O storyline da peça reverberou na história pessoal de um ente querido.
A família, as loucuras de sair de casa, como as relações ficam conturbadas quando têm de ser retomadas.
A atual situação desta pessoa poderia ser muito bem o que aconteceria se A Noite do Aquário, de Sérgio Roveri, não tivesse o desfecho que teve.
Composta por três tristes figuras, a desmantelação do seio familiar é o mote do espetáculo.
Parte integrante do projeto E Se Fez A Praça Roosevelt em 7 Dias, empreendido por a Companhia Os Satyros, que finda nessa semana, temos uma história há muito recontada, mas agora poeticamente transposta ao teatro.
A mãe (Clara Carvalho) recebe a inesperada visita do filho mais velho, José, (Germano Pereira), após 8 anos de exílio e apenas 4 cartas endereçadas à família.
Ressentida, ela luta para não projetar no filho a imagem do marido que saiu para São Paulo trabalhar e nunca mais voltou.
Completa o triângulo o filho mais novo, Pedro (Chico Carvalho), que se coloca entre o apoio à mãe e a saudade do irmão.
Por falar em Chico, muitas vezes a bondade registrada na leveza de sua atuação e o excessivo gestual destoam da simplicidade contida do espetáculo, mas Clara Carvalho, conforme impressões de amigos, é a «mulher que parece que vai explodir a qualquer momento» e é verdade.
Clara segura a intenção no olhar, explora a força interior e coloca-se à frente dos outros dois.
Germano é correto em seu José.
Junta-se a aridez da concepção, conjugadas à luz, ao som e à cenografia, trazendo um contraponto especial com a água sempre relatada do porto fictício onde moram a mãe e Pedro, graças à mão do diretor Sérgio Ferrara.
A chegada do forasteiro, como sempre, é o fio que desestabiliza aquela aparente calma na ilha da qual todos estão saindo -- o porto vai fechar;
a solução reside em José.
O trauma da perda do marido é o que vai destruir tudo.
Sobram apenas a melancolia da lembrança da mãe no dia em que foi tentar encontrar o marido em São Paulo e se deparou com o prédio em forma de onda (o Copan) e a praça que foi inaugurada com a voz de Elis Regina (a Roosevelt).
O que sobrevem é a metáfora da raiz da árvore que consegue atravessar o concreto.
O instinto de liberdade, quando chega, não pode ser controlado.
E é o que faz a mãe no desfecho da peça.
Voltando à pessoa a quem me referi no começo:
hoje, o problema é fazer com que aqueles que se quis salvar voltem para a ilha, para conseguir, enfim, se libertar.
No caso do espetáculo, apesar de ser uma saída hedionda, ainda assim é belo e poético. Como
o cair da água no rosto árido.
+ Blog do Sérgio Roveri
Número de frases: 25
P.S.: Não é possívelachar foto na resolução solicitada por o Overmundo na internet.
Coleções, ofertas e a avidez por som movimentavam os sebos de LPs -- já que o leque temporal oferecido por os vinis é mais amplo que o equivalente em CDs -- além do que eles resistem melhor ao tempo.
A satisfação ao escutar um disco bom que você encontrou ou descobriu é uma daquelas alegrias que quem gosta de música merece ter na vida.
Acontece que sair pra comprar um disco de vinil na cidade de São Paulo tornou-se uma experiência ingrata.
A oferta dos discos de vinil está diretamente ligada com a história da radiodifusão no Brasil.
Hoje em dia são mais de 3 mil emissoras comerciais espalhadas em todo território nacional, sem contar as atuais comunitárias e piratas.
A coisa toda começa a tomar forma por aqui a partir dos anos (19) 30.
Precedida por as transmissões da Rádio Clube de Pernambuco, fundada por Oscar Moreira Pinto, no Recife, em 1919, a irradiação do discurso de Comemorações do Centenário da Independência do então presidente Epitácio Pessoa em 1922, no Rio de Janeiro, deu a largada para a inauguração da primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, criada por o antropólogo Roquette Pinto.
Mas é no ano de 34, através de um decreto que autoriza comerciais em 10 % de suas programações, que as rádios se generalizam e caem no gosto popular, gerando ídolos como Francisco Alves e Vicente Celestino, entre tantos outros.
A relação entre rádio e poder, através da comunicação, entra no campo do entretenimento.
A década de 40 é considerada a Época de Ouro do rádio no Brasil, com radionovelas, jornalismo e cobertura esportiva, em 55 já eram quase 500 emissoras em todo o Brasil.
Desde cedo as gravadoras perceberam o alcance do rádio, e uma das maneiras de influenciar as programações era dar lançamentos.
Graças a essa prática, o acervo de uma rádio do interior de São Paulo, por exemplo, era gigantesco, inclusive com discos virgens de agulha.
Durante os anos 90, com a ascensão do formato CD e a maioria das emissoras sendo compradas por grupos ligados às diversas vertentes evangélicas, esses acervos foram despejados em sebos.
Os preços eram irrisórios, a seleção era farta.
Em a mesma época, com o hype internacional do acid jazz, onda que privilegiava as realizações de músicos vindos da escola do jazz que combinavam balanço e tranqüilidade, os olhos voltam-se para o Brasil.
Os sabores sonoros produzidos por aqui durante as décadas de 50, 60 e 70 reapareceram como interessantes para os DJs gringos.
Talvez por conta de uma combinação entre a procura de estrangeiros por música brasileira e a evidência da figura dos DJs, não mais simples discotecários, as bolachas de vinil tornaram-se interessantes para outros grupos que não os colecionadores, músicos ou pesquisadores.
Hoje em dia um long-play qualquer não sai por menos de R$ 10, o que limita sua vontade de se arriscar.
Os discos mais caros são normalmente os clássicos do rock, do funk e do soul, mas o quesito ' raridade ' conta muito:
um disco como Coisas, de Moacir Santos, é encontrável a preços exorbitantes graças às poucas cópias prensadas.
Até os preços das vitrolas domésticas sofreram reajuste para a cima, já que não há mais produção nacional, e as profissionais importadas continuam bem inacessíveis.
Essa situação particular seria remediada com uma oferta de aparelhos de fabricação nacional nas diversas faixas de desempenho desejadas.
Quanto aos discos, é outra história ...
Existe um circuito de sebos com visibilidade na cidade, que vai do Centro a Pinheiros (feiras do Bixiga e da Praça Benedito Calixto, área das Grandes Galerias), realmente especializado.
Os disqueiros, que não contam suas fontes nem sob ameaça de morte, além de terem abastecido suas caixas e prateleiras através de constantes viagens ao interior para aquisição do acervo de rádios incorporadas por igrejas evangélicas, costumam se manter atentos às seções de obituários dos jornais.
Algumas ligações podem render itens valiosos.
O que aconteceu com o sebo Jovem Guarda é um ótimo exemplo.
Com dois endereços no bairro da Moóca, o Jovem Guarda tem de tudo, e como bom sebo demanda tempo e paciência.
Uma de suas unidades é um imenso galpão que, além dos vinis, tem móveis e roupas.
A outra é um verdadeira mansão cor de rosa, lotada de coisas antigas.
Pra entrar lá você tem que tocar a campainha -- há uma sala com discos e mais discos empilhados.
Em o último ano esse sebo sofreu uma transformação.
Antigo ponto pra descolar discos bons e baratos, o Jovem Guarda definitivamente se aliou ao circuito -- os preços foram catapultados para a tabela «oficial» dos disqueiros, e um disco raro pode ser conseguido lá, com um simples telefonema do dono para os seus fornecedores.
Foi o que aconteceu quando o DJ NuMark, do grupo estadunidense de rap Jurassic 5, pediu uma cópia do Tim Maia Racional -- acabou levando por 200 dólares.
Os programas de troca de arquivos na rede com certeza abrandaram o fetiche por discos de vinil, mas como em muitas equações, há um resto.
O hábito de descobrir ou encontrar um disco com capa original se tornou prazer pra muita gente, e isso deve continuar.
Só que São Paulo tem mais de 17 milhões de histórias em movimento -- sebos abrem e fecham as portas com facilidade.
A bateção de pernas em alguns lugares ainda compensa, é só procurar.
Abaixo listei alguns endereços para quem quiser se aventurar na caçada por o desconhecido.
Sebo Jovem Guarda
Rua da Mooca, 3401 e rua dos Trilhos, 1212.
Tels:
6606-0127 e 6601-2748
Memória Musical R. Brigadeiro Galvão, 48 (esquina com Av..
Angélica) Barra Funda
Tel: 3667-9525 ou 3663-2354
Sebo Mundo do Livro R. Clélia, 2.130 Lapa
Número de frases: 48
tel: 3482-0602
Domingo, pouco mais de 10 horas da manhã.
Primeira anotação:
o céu de Pentecoste (103 km de Fortaleza) é impressionista.
O azul causa espanto, as nuvens parecem borradas.
A segunda:
na «sede», como é chamada a zona urbana da cidade, quase nenhum movimento.
Bares vazios, barracas de feira desmontadas e empilhadas sob um espaçoso galpão.
Alguns comércios atendem a clientela local.
Uma senhora caminha devagar, outra costura na calçada.
Aqui e ali, motocicletas cruzam os estirões calçamentados.
Em a pracinha em frente à Dr. José Borba, principal avenida de Pentecoste, silêncio.
Sob o cajueiro, o vendedor de picolés descansa.
Olha o peixe esculpido ao lado do coco e do caju de concreto e suspira.
O calor na cidade espanta qualquer forasteiro.
As histórias contadas por o grupo de jovens que teima em vencer a pobreza e driblar a censura atraem.
«Onde fica a rádio do Avelino?».
Repetida algumas vezes, a pergunta nos leva à Rádio Difusora Vale do Curu, que transmite na amplitude modulada 1560 Khz.
De lá está sendo veiculado, naquele instante, um dos produtos radiofônicos do Programa de Educação em Células Cooperativas (Prece).
Em o pequeno estúdio da rádio, Edílson Costa, 25 anos, comanda o Coração de Estudante, que vai ao ar das 9 às 11 da manhã.
«A gente fala de política, discute a realidade da nossa comunidade», explica.
O Prece, que nasceu e foi criado em Cipó -- comunidade localizada na zona rural, a 18 km da sede de Pentecoste --, tem, hoje, além de uma hora de programação diária, outras tantas atividades que, somadas, vêm mudando a cara da realidade de muitos jovens do Vale do Curu e regiões próximas.
Desde o seu surgimento, em 1994, o cursinho pré-vestibular, por exemplo, já aprovou mais de 140 estudantes na Universidade Federal do Ceará (UFC).
Ciências Sociais, Pedagogia e Agronomia são, de longe, os cursos mais procurados.
«Houve um tempo em que era química, por influência do Manoel, criador do projeto», fala Edílson.
Seja em química ou matemática, todos os anos, desde 1996, quando Antônio Alves Rodrigues conseguiu um primeiro lugar em pedagogia, abrindo uma brecha e tanto no paredão do vestibular, aproximadamente 20 % dos alunos inscritos por meio do projeto conseguem vencer a peneira do certame.
Entram na universidade, se formam e voltam nos finais de semana.
Alguns, durante a semana também.
Caso de Jocélio Simplício, 21 anos, estudante de Ciências Sociais.
Terminou os estudos na Escola de Ensino Fundamental e Médio Tabelião.
Conheceu o Prece no último ano do ensino médio, em 2003.
O grupo havia criado uma célula na zona urbana de Pentecoste.
A aprovação não demorou:
seria engenheiro de pesca.
Com o tempo, percebeu que aquela não era a sua praia.
«Tinha começado a me envolver com política, discutia no grupo.
Queria Ciências Sociais», explica.
Novo vestibular.
Por pouco, não entra de primeira.
Em o ano seguinte, outra tentativa.
Desta vez, com sucesso.
Hoje, tantas as idas e vindas, Jocélio sabe de cor o cenário que margeia a estrada que leva a sua cidade.
Pentecoste tem um ímã que atrai esses meninos e meninas.
Marciano é outro.
Manoel, o primeiro a deixar a comunidade do Cipó para estudar na capital, ainda nos anos de 1960, também.
Hoje, formado em agronomia, Marciano cursa o mestrado da UFC.
Manoel Andrade, químico e fundador do Prece, realiza os estudos de seu pós-doutoramento nos Estados Unidos.
Ambos mantêm laços estreitos com o projeto.
Marciano apresenta um programa de rádio às segundas-feiras, das 13 às 14 horas.
Fala de questões agrárias, divulga informações importantes e estimula a produção dos pequenos agricultores da região.
De os Estados Unidos, Manoel tem cadeira cativa no programa apresentado por Edílson.
De Cipó Para O Mundo
«O campo é um lugar atrasado, não por ter que ser atrasado, mas por falta de políticas públicas;
ele pode ser diferente, isso só depende de nós.
Em São Paulo, por exemplo, as pessoas não precisam sair de Campinas para ir morar na capital, não precisam sair de Americana para morar lá.
Aqui nos Eua você tem uma cidade com dois mil habitantes que tem tudo, boas escolas, hospitais, boas universidades.
Isso depende de nós, é possível», incentiva Manoel, durante a sua participação no Coração de Estudante do último domingo, 3 de junho.
Edílson provoca a discussão;
ele devolve:
«Se eu tivesse a oportunidade de falar para todas as pessoas de Pentecoste, a primeira coisa seria acreditar que é possível.
É não acreditar que tudo é uma fatalidade, coisa do destino, que o bom está em outro lugar.
As pessoas costumam dizer que os políticos têm força.
Eu acho que o povo tem força, os políticos têm influência».
O Prece comprova a validade das palavras de seu criador.
Hoje, são 13 Escolas Populares Cooperativas (EPCs) espalhadas por Pentecoste e municípios vizinhos, atendendo a cerca de 700 estudantes.
Em Fortaleza, dois bairros contam com células do projeto:
Benfica, onde se localiza o Centro de Humanidades da UFC;
e Pirambu, um dos bairros com maior índice de criminalidade da capital.
Além das células escolares, o Prece também desenvolve trabalhos na área da governança e controle social, comunicação, esporte e cultura.
Segundo Manoel, o movimento gerado a partir do grupo que deu início a tudo vai muito além do simples ingresso no ensino superior.
«O programa vai além.
A iniciativa maior advém da transformação da comunidade, resgatando a melhoria da qualidade de vida de quem nada tem além de coragem, esperança e força para mudar».
Arando A Vida, Cultivando Sonhos
Fazer um programa diário é tarefa das mais complicadas.
Em o rádio, ao vivo, as dificuldades se intensificam.
Em uma cidade do interior, onde esses veículos encontram-se invariavelmente sob o mando de políticos, é quase uma missão impossível.
De aí a importância do trabalho desenvolvido por jovens «precistas».
Marciano, Gleison, Clara, Elvis, Edílson e Jocélio são apenas alguns de eles.
Problemas técnicos que surgem no meio de entrevistas com políticos de oposição, pedidos excêntricos vindos da coordenação da rádio e a já costumeira falta de verbas também são apenas algumas das dificuldades enfrentadas por a equipe que produz, diariamente, o programa Coração de Estudante.
Anunciar a inauguração de uma praça em São Gonçalo, município vizinho a Pentecoste, em homenagem ao pai do dono da rádio.
Jocélio anota o pedido, feito por o próprio coordenador da rádio.
O veículo pertence a um deputado.
Anota tudo, letra após letra, e o homem vai embora, satisfeito.
O programa acaba, e nada de inauguração de praça.
«A gente não faz esse tipo de coisa.
Eles sabem disso, mas ficam insistindo», conta Jocélio.
Apesar das dificuldades financeiras, eles cortaram a publicidade e passaram a pagar um pouco mais no final do mês.
«A gente pagava R$ 300.
Com o corte, passou para R$ 350.
Essa publicidade se chocava com o que a gente dizia, com os nossos comentários no programa», emenda Marciano.
Os causos envolvendo o dia-a-dia na rádio se sucedem.
Uma tarde apenas é muito pouco para ouvir o que têm a dizer os jovens comunicadores, suas preocupações, seus problemas.
E também para falar do espanto e da alegria que sentem ao ouvir o primeiro programa de rádio produzido por Overmundo.
«Volta aí de novo, só para a gente ouvir aquela abertura que ele fez», pede Marciano.
Marcelo Rangel e Eduardo Ferreira, sem saber, passaram uma tarde inteira dando toques sobre locução e outras coisas para o grupo.
Em o final da oficina de rádio realizada por estudantes de jornalismo da UFC no último domingo, o pedido.
«Deixa o programa gravado aí no PC».
E a promessa:
«A gente grava outros e manda num CD».
EDÍLSON, O Locutor
Edílson é moreno, aproximadamente 1 e 65 de altura.
Nasceu em Cipó.
Tem 25 anos.
Difícil sorrir.
A os quatorze, mudou-se com os pais e a reca de irmãos -- doze ao todo -- para a sede.
Completou os estudos.
Conheceu o Prece ainda no ensino médio.
Ouvia falar dos alunos, sete no início, que estudavam debaixo do juazeiro ou na antiga casa de farinha.
«Quando vi, estava freqüentando o grupo todos os fins de semana, indo de pau-de-arara mesmo», conta.
A viagem até Cipó é difícil.
De pau-de-arara, são cerca de duas horas através de estrada carroçal.
«A viagem era uma tormenta.
Saía de casa na sexta-feira e só voltava na segunda, de madrugada.
A gente, uns quarenta estudantes, chegava lá suado e coberto de poeira», conta.
Depois de um ano estudando no Prece, Edílson Costa, ex-agricultor, prestou vestibular.
Número de frases: 115
Entrou para o curso de Pedagogia da Terra, ministrado por a Faculdade de Pedagogia da UFC em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST).
A terceira noite do projeto Quarta Musical * (27/9), em cartaz na Casa da Ribeira até o fim de novembro, vestiu-se de preto para receber a banda Deadly Fate, legítima representante do lado melódico do heavy metal potiguar.
O atraso de quase meia hora só aumentou a expectativa da legião de fãs que lotou o teatro para assistir o show «Secret Land» -- título do novo CD do quarteto formado por Oruam Mauro (vocais e guitarra), Wilberto Amaral (bateria), Onofre Neto (guitarra) e Marcos Flávio (baixo).
Para quem não faz idéia do que seja heavy metal melódico, podemos simplificar dizendo que é um subgênero do rock pesado que enaltece as melodias, flerta com a música erudita e é marcado por um vocal mais agudo que outras vertentes do rock.
Esmero
Antes da apresentação, ainda com as cortinas fechadas, deu para notar que o perfil da maioria do público era de uma turma na casa dos trinta e poucos anos, que solta piadinha no escuro do anonimato e adora ' brincar ' com tecnologia (dezenas de celulares fotográficos estavam a postos para registrar todos os movimentos).
Devidamente apresentados no telão, a platéia foi ao delírio logo nos primeiros acordes -- ok, tinha uma torcida organizada que deve ser levada em consideração.
O cenário e a direção foram de João Marcelino e a produção de Tatiane Fernandes.
Como era de se esperar, «Secret Land» foi de um esmero pouco visto por quem freqüenta o circuito pop-rock natalense:
riffs alucinados, bateria sincopada e clima etéreo potencializado por as participações especiais da cantora Valéria Oliveira, do maestro e violinista Oswaldo D' Amore, do violonista Carlos Moreno e da flautista Emille Dantas (que também cantou) -- até um pequeno leprechau soltou bolhas de sabão numa das músicas.
Gás Carbônico
Mas nem tudo são flores:
a iluminação estava totalmente fora de sincronia, fato que comprometeu muito a performance (o iluminador que tinha ensaiado com a banda levou falta) e o vocalista Oruam não estava em seus melhores dias.
Apesar do cenário bem resolvido, as projeções abusaram de efeitos simples demais para o porte da proposta, e o figurino (colete preto e calça preta) poderia muito bem vestir uma versão dark dos Menudos.
Um dos pontos altos do show foi a interpretação calminha para o mega hit atemporal «Love of my Life do Queen de Fred Mercury», apenas voz, o violão de Carlinhos Moreno e o coro do público.
Outro momento também tirou, literalmente, o fôlego da platéia:
quando a banda anunciou Excalibur (música registrada no primeiro CD), o cenário descortinou duas potentes motos estilo custom (tipo Harley Davidson) que interagiram com os instrumentos no breu completo da sala.
Depois de saírem em disparada por o corredor, a fumaça tomou conta do lugar e muita gente teve que sair para não passar mal com a overdose de gás carbônico.
O efeito foi interessante, mas deveriam ter deixado essa participação mais para o final, eu mesmo vi as luzes se acenderem do foyer da Casa da Ribeira com o sufoco.
Número de frases: 19
* saiba mais sobre o Quarta Musical no blog Ruído Muderno Em a década de 40, enquanto o mundo sofria com os tormentos da segunda Grande Guerra, no sertão de Sergipe, mais precisamente na pequena cidade de Nossa Senhora da Glória, uma menina de pouco mais de 10 anos, alheia ao destino da humanidade, brincava com cores e papel.
E, mesmo diante de sua cinzenta e árida paisagem, mergulhava absorta num universo colorido de formas suaves e tranqüilas.
A menina fabricava sua própria tinta.
Fazia-a do papel de seda e do crepom molhados.
De o sumo da faveira, produzia a tinta verde que faltava às duas paisagens, utilizava leite de manga para dar brilho à cor e pintava o Sertão.
Assim nascia a artista plástica Maria Oliveira Barreto, sorvendo cores do próprio ambiente árido sertanejo para recriá-lo mais bonito.
A partir de então, cores e formas passaram a impressioná-la cada vez mais e descobriu-se artista, capaz de colorir o mundo.
Tudo ao seu redor passou a lhe pedir cores e a tudo pintava:
cabaças, moringas, toalhas, copos.
Em a década de 70, seu impulso de expressão pictórica fê-la dar vida e profundidade a compensados e duratex.
As cores com que a tudo a artista gloriense vem tingindo ao longo de sua vida refletem uma busca constante de algo que possa sublimar a mediocridade humana diária, de algo que possa tornar a humanidade melhor.
«Eu pinto por uma necessidade de expressão, eu preciso pintar», diz Maria Barreto quando se lhe indagam os porquês de sua arte.
Essa necessidade tornou-se maior e mais presente quando, em 1998, sofreu uma profunda decepção e de ela soube extrair forças para viver cada vez mais intensamente sua vida e sua arte.
Dona Maria decidiu aperfeiçoar-se na técnica pictórica e procurou um artista plástico que conhecia para pedir-lhe que a ensinasse e, embora não obtivesse o que buscara, soube revestir-se de força ainda maior para, sozinha, construir o próprio caminho por as artes plásticas.
Comprou telas, cavaletes, tintas e começou a explorar as possibilidades de que dispunha.
Inicialmente, pintava com tinta acrílica à base de água, mas desistiu dessa técnica porque a tinta secava rápido demais.
E, aplicando cores dissolvidas em óleos secantes sobre telas, perfez inconscientemente os caminhos que perfizeram os artistas da Europa no final da Idade Média.
Grandes nomes como Van Gogh, Mondrian e Rembrandt deixaram imortalizadas obras-primas utilizando o mesmo óleo sobre tela e desenvolvendo novas maneiras de explorar as possibilidades dessa técnica.
Indiferente a esses dados históricos e às descobertas de seus predecessores, essa nordestina aprendeu sozinha as vantagens da pintura a óleo.
Isso lhe permitiu obter efeitos de grande riqueza com a cor, os contrastes de tons e o claro-escuro, pois o óleo seca relativamente devagar, com pouca alteração na cor, o que possibilita igualar, misturar ou graduar os tons e fazer correções com facilidade.
Suas telas ilustram algumas formas de trabalhar essa técnica:
na representação de paisagens, em combinações cromáticas e em camadas para expressar determinadas atmosferas.
Maria Barreto tem certa predileção por flores e paisagens e, quando se refere a seus quadros, afirma:
«Gosto de todos como filhos».
O público, contudo, apresenta algumas preferências e as telas mais comentadas são «A casa de Antônio de Honório e Mariazinha».
Sua primeira aparição pública se deu em agosto de 1999, quando, vencendo a timidez, decidiu expor duas de suas telas, «O carro de Boi» e «O farol», no Memorial do Sertão, em Nossa Senhora da Glória.
A partir de então, pedidos para que ela os expusesse novamente não mais faltaram e em março de 2000, no Espaço Cultural Deputado Djenal Queiroz, na Assembléia Legislativa, em Aracaju, houve sua primeira exposição individual:
«Sertaneja retrata o Velho Chico».
Lentamente, o público está conhecendo os trabalhos dessa pioneira artista plástica do Sertão que, com certeza, está pintando seu nome na história dessa região.
Maria Barreto já expôs seus trabalhos em diversas ocasiões e eventos.
* 13/08/99 -- Memorial do Sertão, em N. Sra. da Glória.
* 30/12/99 -- Feira de Ciência e Cultura do Colégio N. Sra. da Glória, na AGEC, em N. Sra. da Glória.
* 29/10/99 -- Sexta Especial, na AABB, em N. Sra. da Glória.
* De 15/02/00 a 10/03/00 -- 1ª exposição individual «Sertaneja retrata o Velho Chico», no Espaço Cultural Deputado Djenal Queiroz, na Assembléia Legislativa, Aracaju.
* De 07/04/00 a 17/04/00 -- Em o BANESE de N. Sra. da Glória.
* 29/01/01 -- 1ª Feira de Artes dos Municípios do Alto Sertão Sergipano (Implantação do Portal Alvorada no Município) em N. Sra. da Glória.
* De 24/05/01 a 25/05/01 -- Encontro Cultural promovido por o PET e por o Projeto Luz do Sol, na AGEC, em N. Sra. da Glória.
* 01/08/01 -- Diagnóstico participativo Local, organizado por o SEBRAE na AABB, em N. Sra. da Glória.
* de 04/10/01 a 07/10/01 -- 1º Festival de Arte, Cultura e Esporte, em Canindé do São Francisco.
* 31/10/01 -- Gincana do «Cantinho da Sabedoria», no Jardim» Pequeno Príncipe», em N. Sra. da Glória.
* De 08/03/02 a 31/03/02 -- Comemoração ao Dia Internacional da Mulher, no Espaço Cultural da Assembléia Legislativa, Aracaju.
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* 17/03/02 -- Instalação a Associação Cultural do Sertão Sergipano (ACSER), em N. Sra. da Glória.
O domingo veio para confirmar a triste especulação do fim de semana.
Esta não foi uma edição muito feliz do Abril para o Rock.
Em uma rápida comparação, na sexta-feira do ano passado o Placebo e o Los Hermanos arrastaram um público de nove mil pessoas.
Este ano, os três dias juntos não devem ter conseguido esta marca.
O motivo é constrangedor:
o que todos queriam mesmo, era a repetição dos sucessos criados por a MTV.
A última noite do evento não passou dos três mil espectadores.
Uma média de 200 no primeiro show, o da pernambucana Iupi.
Banda legal, bem montada.
Errou numa introdução acústica, com um violoncelo para causar boa impressão.
O bom de eles é realmente a música rápida.
A grande injustiça do domingo veio com o Cidadão Instigado (CE).
Show bastante aguardado, que foi prejudicado por a aparelhagem técnica.
Em o palco, o vocalista Fernando Catatau se dividia entre cantar e reclamar com a mesa de som.
Pernambuco mandou bem nos shows.
Carfax e Parafusa mostraram firmeza de bandas prontas para exportação via gravadoras.
Ambas com uma boa ajuda do coro do público.
A Parafusa foi responsável por um dos shows mais legais de todo o domingo, com direito a um bem escolhido cover dos Mutantes.
O que pareceu equivocado foi mesmo repetir o show da Volver, sob o suposto pretexto da presença de Frank Jorge, que era minoria no repertório.
O Maquinado, de Lúcio Maia, ficou um tanto distante.
Parece uma ótima banda para lugares menores, mas um pouco perdida num pavilhão que estava bem vazio.
De fora, Camille conquistou a cidade bem fácil.
A francesa agradou tanto, com tantos gritos, sorrisos e aplausos, que se ela simplesmente fizesse um barulho qualquer com a boca, todos gostariam.
E ela fez isso, e todos gostaram.
Com direito a uma rápida invasão no palco e os novos fãs dançando e cantando junto com ela.
Um de eles era o guitarrista da banda Mellotrons, Enio, entrou até numa mistura de quase lambada com forró.
O presente do Abril foi o show de Lafayette e os Tremendões.
De longe, o mais divertido.
Enquanto a banda Del Rey faz versões de Roberto Carlos bem swingadas, os Tremendões tiveram a sacada que o Rei sempre foi rock.
Os arranjos eram pesados, bem montados, super contagiantes.
Teve direito até participação de parte da Orquestra Imperial no palco.
Se alguém tinha alguma energia guardada da maratona do Abril para o Rock, ela foi embora com a Cachorro Grande.
Volume mais alto da noite, com o pouco que restava do público coladinho, dançando e se divertindo no palco.
Em a seqüência, a Orquestra Imperial fez um encerramento em grande estilo.
Partido alto na voz de bambas da MPB, com clima calminho para lembrar que vem uma semana por a frente.
A partir desta semana, algumas poucas pessoas vão fazer o download das maravilhosas músicas da encantadora Camille, comprar o ótimo disco do Forgotten Boys ou dar força ao hype do fofo Montage.
Todas as outras vão continuar apenas reclamando.
Em a sua 14ª edição, o Abril para o Rock descobriu, assim como festivais vizinhos, o que é desperdiçar uma boa programação com um público que simplesmente não tem boa vontade com o novo.
Mais em:
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www.popup.mus.br Jovens da periferia costumam aparecer na TV apenas em matérias sobre violência.
Mas num programa exibido em BH, são eles que estão por trás das câmeras e cobrem os fatos importantes de onde vivem
O programa de televisão Rede jovem de cidadania é um projeto da ONG Associação Imagem Comunitária (AIC).
O seu principal ideal é viabilizar a produção e exibição de conteúdo locais elaborados por jovens moradores de periferias.
Criada há mais de onze anos, em Belo Horizonte, a Associação Imagem Comunitária investe em ações que fazem a ponte entre grupos minoritários e a mídia.
Os objetivos dos seus principais projetos são construir uma via de acesso de minorias à produção midiática, ou seja, colocar uma câmera (ou um microfone, computador) na mão de quem nunca teve e, ao mesmo tempo, viabilizar a exibição desse conteúdo.
Eles não são mais o alvo das matérias sobre violência urbana, simples infografias sobre a exclusão social.
«Acho que a imagem da juventude da periferia nos grandes veículos ainda é muito negativa, associada à violência e à marginalidade.
A juventude das vilas, favelas e aglomerados é excluída simbolicamente.
Há uma enorme efervescência cultural protagonizada por os jovens das periferias que é ' invisível ' no circuito midiático», afirma Rafaela Lima.
Agora eles estão por trás das câmeras, para que eles mesmos façam a cobertura midiática dos locais onde vivem, mostrando, assim, o que é a comunidade com os seus próprios olhos.
De quem vive para quem vive, buscando superar a imagem estrábica sobre esses jovens nos grandes meios de comunicação.
Os temas abordam, normalmente, os problemas das comunidades.
«É legal falar sobre o Rio Amazonas, que ele está sendo poluído?
Sim, é legal, mas vamos falar sobre Rio da Onça que passa do nosso lado e está sujo», explica o correspondente Rodrigo Nunes.
O objetivo é mostrar tudo o que acontece nas vilas e favelas e que costuma ser ignorado por a maior parte dos meios de comunicação.
«A Rede é importante porque ela aponta caminhos para outras organizações também batalharem por aqueles que de alguma forma estão ' escondidos '», defende outro correspondente, Jefferson Sabino.
São mobilizados mais de 250 grupos e entidades ligadas à juventude em Belo Horizonte.
O material é produzido por cerca de cinco mil pessoas e alcança um público de 500 mil telespectadores, ouvintes, internautas e leitores.
«Acho que a Internet é um espaço com grande potencial para os processos de construção coletiva do conhecimento.
E acredito que, exatamente por isso, o combate à exclusão digital é uma causa das mais fundamentais a todos nós que lutamos por a democratização da comunicação», explica Rafaela Lima.
Os suportes são variados:
o jornal Tá na Rede (com uma tiragem de 30 mil exemplares), programas de rádios, webzine e o programa de televisão, com quadros de humor, ficção reportagens e debates, exibido na Rede Minas, todo sábado, às 18:00 horas.
Os realizadores disponibilizam alguns trechos no site.
Em 2005, a AIC recebeu o reconhecimento da Unesco como uma das vinte experiências latino-americanas que passam a fazer parte do programa Se Buscan -- Levantamento das Melhores Práticas de Produção de Conteúdos Locais.
Essa iniciativa da Unesco tem objetivo de construir uma rede de projetos de comunicação alternativa na América Latina, para o desenvolvimento e troca de experiências, metodologias.
Outras ações
O trabalho do AIC não começou e não se resume ao RJC.
Ele teve início em 1993, quando a associação já apontava para experimentações e novos rumos no campo da comunicação.
Já participaram de suas ações moradores de rua, usuários de serviços de saúde mental e a população de favelas e vilas.
A AIC tem um currículo extenso de projetos, programas e experimentações audiovisuais produzidas em diferentes áreas.
Apresentou programas ligados à saúde pública na TV Sala de Espera, exibidos nos centros de saúde regionais.
Foi vencedora Festival de Vídeo Jovem Por a Paz, em 1999, com o programa Briga entre escola.
Com a Mostra de Arte e Loucura exibiu, em 2003, trabalhos multimídias e de artes plásticas cujos autores eram usuários do sistema de saúde psiquiátrico.
Número de frases: 34
A partir desse ano, a AIC tem focalizado o seu esforço em trabalhos de acesso público aos meios de comunicação, como o projeto Cuco, iniciado em 2004, e por meio do qual forma agentes jovens para o desenvolvimento das comunidades com a utilização de recursos midiáticos.
Ação cultural do Instituto Aviva, IMATERIAL.ORG é um espaço virtual colaborativo dedicado à cultura brasileira de natureza imaterial
Folias, catiras, doce de manga, a confecção do balaio, casas de pau-a-pique, mercados, contos, poemas, músicas ...
Essas são algumas das contribuições culturais já recebidas em forma de vídeos, fotos, textos e áudios que se encontram disponíveis no www.imaterial.org.
Trata-se de um website dedicado à cultura imaterial que acaba de ser lançado por o Instituto Aviva, entidade mineira sem fins lucrativos que, desde 2005, vem realizando projetos na área cultural.
Atuando de maneira informal, o IMATERIAL.ORG dá ênfase à participação popular, livre e ágil, e cria um «ponto de encontro» virtual entre pessoas que ofertam e compartilham conteúdos culturais de natureza imaterial, segundo seus valores e juízos pessoais.
Tudo isto resulta num grande banco de dados de conteúdos variados que, categorizados e em conjunto, somam-se e adquirem maior expressividade na forma de memória viva e mutante.
Formalmente, por «patrimônio imaterial» entende-se, a partir da «Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco, de 2003», práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas -- junto com instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados -- que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.
Esse patrimônio, que se transmite de geração em geração, é constantemente recriado por as comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade e contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana.
Tomando esse conceito como principal referência, o IMATERIAL.ORG, de maneira informal, organiza o seu conteúdo em categorias inspiradas nos Livros de Registros do Patrimônio Imaterial, instituídos por o Decreto 3551 de 2000: Saberes, Celebrações, Formas de expressão, Lugares e outras categorias que poderão ser criadas.
Patrocinado por o Fundo Estadual de Cultura do Governo de Minas Gerais, o portal IMATERIAL.ORG tem a proposta de ser um espaço compartilhado, construído colaborativamente por os internautas.
Acessível a qualquer pessoa e sem fins lucrativos, o portal oferece ferramentas para receber, gerenciar e disponibilizar conteúdos (de natureza imaterial) nas formas de foto, vídeo, áudio e texto.
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publicar editoriais e artigos sobre a cultura imaterial;
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publicar uma revista eletrônica, que apresentará um apanhado mensal sobre os novos conteúdos do portal;
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Org. A busca no banco de conteúdos imateriais pode ser feita por palavras-chave, por nuvem de tags, por imagens ou de forma georeferenciada, através do Google Maps», que mostra o conteúdo e sua localização geográfica.
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Elias Rodrigues de Oliveira, diretor-presidente do Aviva, afirma que, por ser uma área relativamente nova nas políticas públicas culturais, o acervo «imaterial» formalmente registrado é até hoje apenas embrionário, se comparado à imensa potencialidade deste patrimônio brasileiro.
«Positivamente, o Registro do patrimônio de natureza imaterial por as instituições do governo significa o reconhecimento deste valor na cultura popular.
Este gesto promove o sentido de pertencimento nas comunidades, grupos e indivíduos detentores inatos deste patrimônio e renova o sentido de identidade, valorizando a diversidade cultural dos povos», afirma Oliveira, que é Arquiteto, Artista Plástico, Arte-Educador e Empreendedor Cultural.
O IMATERIAL.ORG tem sua origem nas conexões entre os projetos culturais do Instituto Aviva, que tem em seu estatuto os objetivos de preservar o patrimônio histórico, artístico, material e imaterial, bem como promover a educação informal nas áreas de informática e inclusão digital.
Assim, há uma conexão entre os projetos que o Aviva desenvolve desde a sua fundação:
«Percebemos como o projeto ' Arte na Infância ', desenvolvido desde 1999, ao ser realizado no interior, levou-nos ao projeto ' Estética Interiorana ', cujos registros fotográficos resultaram no livro ' Estéticas do Interior -- Imagens ', lançado em 2005, que traz leituras poéticas e espelham a maneira-mineira da infância rural do autor.
São imagens-imagina ção, imagens-lembran ça, memórias que formam identidade sócio-cultural:
patrimônio imaterial da cultura interiorana mineira.
Hoje, o projeto IMATERIAL.ORG é o nosso jeito-mineiro de achegar ao povo brasileiro», considera Elias Rodrigues de Oliveira.
Mais informações:
Sobre portal IMATERIAL.ORG:
www.imaterial.org Sobre atuação do Instituto Aviva e de Elias Rodrigues de Oliveira:
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Luciana Amormino
Assessora de Imprensa -- Ciranda Comunicação e Cultura
(31) 96020439 E-mail:
Número de frases: 37
luamormino@gmail.com Texto publicado no site Pílula Pop em 24/10/2006.
A AESO (Faculdades Integradas Barros Melo) teve a idéia de colocar em prática o Microfonia, festival de bandas universitárias que premia uma banda com a gravação de um disco e uma vaga no Abril Para o Rock.
Em o ano de estréia, 2004, a final teve a apresentação da dupla Mombojó e Los Hermanos, que levou os pernambucanos ao delírio.
Para 2006, correu o boato de que o nome da vez seria o Foo Fighters.
Isso sim é delírio!
Depois, disseram que o trabalho ficaria por conta de Volver, Cachorro Grande e Pato Fu.
De última hora os patos não fecharam contrato.
Sobraram as outras duas.
Não por a qualidade das bandas, mas por o excesso de pé no chão, as expectativas já não eram as mesmas.
A abertura desta edição ficou por conta das finalistas:
Johnny Hooker, uma espécie de glam-eletronic fashion-band que conseguiu levantar o público -- que não lotou o Circo Maluco Beleza, diga-se de passagem -- e impressionou com a cover de «Smack My Bitch Up», do Prodigy.
As músicas próprias também eram boas.
Esses meninos prometem.
A segunda banda a se apresentar foi a Sweet Fanny Adams.
Nome, repertório e a cover (do Dirty Pretty Things) são de banda indie de sucesso, mas o visual feioso é à la Grease -- Em os Tempos da Brilhantina.
Indie que é indie não usa jaqueta de couro, oras ...
Mas ok, os caras mandaram bem e já estão preparando turnê no Sudeste.
A terceira banda foi a Monomotores:
a única finalista que tocou suas músicas em português.
Chamou mais a atenção dos jurados provavelmente por isso, além de ter uma fiel legião de seguidores que se matavam na frente do palco.
A última a se apresentar foi a Fiddy, que trouxe um hardcore com pinta de Slipknot, com direito a máscaras de Jason (Sexta-feira 13), versão de «A Pipa do Vovô» de Sílvio Santos e muitas cabeças balançando.
Chinfra de sobra.
Depois da apresentação das finalistas, foi a vez do melhor do festival:
Volver e Cachorro Grande.
A Volver iniciou com o hit «Vc Q Pediu».
Os pernambucanos embalaram a platéia com várias inéditas, entre elas a ótima «Tão Perto, Tão Certo».
Os rapazes fecharam com uma ótima cover de Renato e Seus Blue Caps, banda da jovem guarda que é uma brasa, mora?
Em a seqüência, a Cachorro Grande trouxe hits como «Desentoa»,» Hey Amigo!" e «Você Não Sabe o Que Perdeu».
Os gaúchos fizeram o público cantar bem alto e dançar de rostinho colado em «Sinceramente».
Em a hora de " Vai T Q De a, esgotaram a cota de experimentalismos da noite inteira:
esfriaram o público com improvisos instrumentais de quase meia hora.
Pelo menos foi o que pareceu, tamanha a chatice que estava.
Mas conseguiram se redimir com «Sexperienced» e ficou tudo bem.
Depois da Cachorro Grande, chegou a hora do resultado.
A grande vencedora foi a Monomotores, que ganhou a gravação de seu disco e uma vaguinha garantida na 15ª Edição do Abril Para o Rock.
A impressão que ficou é que se a primeira fez " tchan!"
e a segunda fez «hã?»,
Número de frases: 37
o público espera e torce muito para que a terceira edição do Microfonia faça Você sintonizou a Nova FC FM, onde só toca cinema de Ficção Científica de Qualidade!
Mas por que nova?
Nova FC como eram novas a Nova História, a bossa-nova ou o cinema novo?
Toda suposta vanguarda se pretende nova.
Mas entendam nova dicionariamente, como recente, novidade.
Pelo menos por enquanto.
Nova também por tratar especificamente da manipulação genética da espécie humana.
A FC, que já tratou da viagem no tempo, do contato extraterrestre e da inteligência artificial, recorre agora ao interior do organismo e problematiza a própria condição humana.
Está em cartaz, quentinho, saído do forno, o Filhos da Esperança, filme que trata da infetilidade.
Estamos no ano de 2027 e o último ser-humano nasceu em 2009.
Não se sabem as causas dessa epidemia de infertilidade, mas a espécie humana, sem perspectiva de perpetuar novas gerações, mergulha nas suas consequências:
caos, guerra civil, anarquia, terrorismo, enfim, o colapso total da civilzação e a volta à barbárie.
Se o tema da infertilidade pode ser considerado como FC?
Acredito que sim.
Já muito se especulou sobre o que é ou não FC (O que é FC?
Bráulio Tavares Ed. Brasiliense, 1986, FC:
Ficção, Ciência ou uma Épica da Época, Raul Fiker, LPM, 1985, etc).
A beleza do termo é que usa dois conceitos aparentemente contraditórios e, assim, dois e dois são cinco e o ano 2027 está logo ali na tela.
Já A Ilha trata das implicações da clonagem de uma perspectiva bem interessante:
a dos clones.
Em essa distopia a clonagem é realizada secretamente e financiada por milionários que estão com rim pebado, o pulmão estragado ou o coração desenganado.
Se você clonar apenas os órgãos, há um grande índice de rejeição.
Eles devem sair de um ser vivo, saudável e bem alimentado.
Por isso os clones vivem num subterrâneo, escondidos do mundo, adultos com mentalidade de crianças, esperando para passarem no fio da faca.
Eles não sabem de nada disso, naturalmente.
Acreditam que a superfície do planeta foi devastada por uma bomba nuclear e que são os últimos sobreviventes da espécie.
Claro, podem ganhar na loteria que oferece seletíssimas hospedagens na tal Ilha, último paraíso terrestre habitável.
Uma fina ironia, pois na verdade vão virar presuntos.
O herói, que não entende o propósito da sua curta existência, que não compreende porque seu «financiador» não o procura, recebe a lacônica lição de um encanador do subterrâneo:
«Só porque você come o bife não quer dizer que vai conhecer a vaca."
Mas a Nova Fc não é tão nova assim.
Desde Gattaca, que é de 97, e outros, se a gente procurar bem, a evolução genética da espécie é abordada.
Até mesmo Matrix, que revolucionou a FC no começo do milênio, presta o seu tributo ao código genético:
ou de que outra forma você insere um software no cérebro de um ser humano?
A principal caratcteristica dessa nova e boa safra de filmes de FC é que ela explora o mais perfeita máquina já concebida nesse universo:
não, não é o cumptador.
É o corpo humano.
Ou, melhor ainda, é sobre como se comporta cientificamente a ficção que somos nós.
Se o tema é bom, não quer dizer necessariamente que o seu tratamento também o será.
O Clone, filme fracês de 2004, tem uma premissa interessante (mulher estéril não pode ter filhos e acaba criando um clone que vai se tornando cada vez mais assustadoramente parecida com ela mesma) mas o andamento, sabe como é?,
filmes francês às vezes é foda.
O ponto é que a manipulação genética é pródiga nesse dilemas morais e paradoxos temporais.
E o debate é aplamente contemporâneo.
Parece que foi ontem que um cientista maluco clonou uma ovelha e botou fogo no circo.
Não sabemos, hoje, como andam as pesquisas de ponta no assunto.
O que andam fazendo nos subterrâneos do Projeto Genoma e de outros grande laboratórios por aí.
Mas provavelmente deve ser aquele tipo de coisa " mais estranha que a ficção."
2027,7 encerrando a programação.
Sempre de olho nos lançamentos da Nova " FC!
Número de frases: 49
«Quando entro no palco não sei se tenho 26 ou a minha idade real», declara o cantor Roberto Silva, com juventude para dar e vender, aos 87 anos.
Tempo mais do que suficiente para acompanhar a evolução hi-tech do mercado fonográfico.
Roberto começou em 1938 -- mais precisamente em 2 de janeiro, ou seja, há quase exatos 70 anos -- gravando aquelas bolachas de 78 rotações.
Foram 350, ao todo.
Depois imprimiu a voz potente em 38 long plays até chegar ao moderno formato de CD, em lançamentos individuais e coletivos, com destaque para a participação no show ' O samba é minha nobreza ', que ficou em cartaz no Cine Odeon, entre abril e junho de 2002.
O nome do cantor de rádio no letreiro imprimiu um charme a mais no espetáculo, que rendeu, ainda, um primoroso álbum duplo, feito em paralelo à gravação do CD solo Volta por cima, reunindo clássicos, como ' Gosto que me enrosco ` (Ataulfo Alves e Sinhô), ' A primeira vez ` (Bide e Marçal) e ' Normélia ' (Raimundo Olavo e Norberto Martins), um de seus maiores sucessos.
Roberto adora ser convidado para trabalhar.
Não por o cachê, mas por a satisfação de pisar mais uma vez no palco e amealhar aplausos do público -- majoritariamente feminino, observa a mulher Syone Costa, 63 anos.
Ela jura que não é ciumenta e, para dizer a verdade, até se diverte quando lembra do assédio que o marido sofre.
Engana-se quem pensa que só as senhoras esticam o olho para o cantor.
«Há muitas moças também».
Ponto para o ego de Roberto Silva, que vem participando de um punhado de coletâneas nos últimos tempos -- cantou ' Escurinho ` com Fernanda Abreu e ' Juracy ' com Caetano Veloso em álbuns da Casa de Samba.
Também está na caixa Timoneiro, de Hermínio Bello de Carvalho, e nos discos Ganha-se pouco, mas é divertido, de Cristina Buarque, e Ninho de Cobras, ao lado de Paulo César Pinheiro, Dona Ivone Lara e Monarco.
Monarco da Portela, aliás, é um dos autores que sempre falam de Roberto Silva com gratidão.
Em uma época em que as gravadoras detinham a palavra final sobre o repertório dos artistas, que se contentavam em sugerir uma faixa ou outra, Roberto atendia a todos os compositores com a mesma gentileza.
Talvez porque ele mesmo fosse co-autor de duas músicas, sob o pseudônimo de Rosilva -- ' Não posso mais ` e ' Trouxa ', escritas com Geraldo Barbosa e " Miriam Nascimento.
«Foi uma brincadeira.
Cada um fez um pedacinho».
Foi a partir de encontros informais na rádio que Roberto virou um dos principais intérpretes de sambas de Wilson Batista, sobretudo daqueles que também eram assinados por Jorge de Castro.
Tudo começou com ' Mãe solteira ', em 1954.
Roberto lembra que achou a letra trágica e duvidou se cairia no gosto popular, mas resolveu gravá-la assim mesmo.
Os três levaram um susto quando a música estourou.
De a dupla, o botafoguense Roberto gravou muitas maravilhas, entre elas ' Samba rubro-negro ` (1955), ' Me dê seu boné ` e ' Samba do tri-campe ão ` (1956), ' Levanta a moral ` e ' Vagabundo ` (1957).
Roberto vendeu 22 mil discos com a marchinha ' Vagabundo ', um número considerável para a época.
Raimundo Olavo também integrava o primeiro time de compositores do intérprete. '
Mandei fazer meu patuá ', de 1948, parceria de Olavo e Norberto Martins, fez um sucesso retumbante.
Em o ano seguinte, gravou quatro músicas de ele com outros parceiros: '
Você diz que é baiana ', com Elpídio Viana, ' Você foi fazer feitiço ` e ' Velho ditado ', com J. Kleber e ' Juracy me deixou ', com Oldemar Magalhães.
Olavo fornecia sucessos, mas ficava bravo quando Roberto gravava outros autores num dos lados da bolacha de 78 rotações.
«Ele era muito ciumento, mas sabia que as músicas apareciam logo e combinavam com a minha voz».
Os dois se conheceram por volta de 1946.
O compositor potiguar era ouvinte do programa Seqüência G3, dirigido por Paulo Gracindo na Rádio Tupi, e resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro como alfaiate e compositor.
«Quando ele me procurou, havia acabado de chegar do Rio Grande do Norte e trazia na bagagem umas músicas sincopadas, brejeiras.
Perguntei o que ele tinha de melhor e ele me entregou ' Normélia '.
Gostei na hora e disse que gravaria.
E gravei em 20 dias», recorda o cantor.
Roberto Silva entra no túnel do tempo para traçar um paralelo entre a indústria de discos de ontem e a atual.
«Apesar da quantidade de gravadoras, acho que lançar disco é mais difícil hoje em dia.
Antigamente, elas tratavam de tudo para a gente.
Mas escreve aí na matéria que se aparecer um convite para fazer show ou disco eu aceito», avisa.
Reverenciado por os sambistas da atualidade -- entre seus fãs confessos está o criterioso João Gilberto, Roberto tem disposição de sobra para mostrar sua levada sincopada e dolente, aprendida na escola de Mário Reis, Vassourinha e Luís Barbosa, por o Brasil afora.
«Felizmente, ele teve muito juízo nos áureos tempos da carreira e soube guardar dinheiro.
É por isso que não temos problemas financeiros», diz Syone.
«Quando o sujeito faz sucesso só não vive bem se não quiser», acredita Roberto, que antes de virar astro da música deu expediente como lustrador de móveis, marmoreiro e até mecânico.
Elegantíssimo, Roberto ficou conhecido como ' Príncipe do samba ' quando fazia parte do elenco da " Rádio Tupi.
«Foi o apresentador Carlos Frias quem cunhou este apelido, e não Carlos José, conforme achei outro dia na internet.
Os dois foram meus amigos, mas é sempre bom esclarecer», diz, emendando mais duas correções históricas:
Roberto Napoleão (o sobrenome Silva é exclusivamente artístico e foi criado por Evaldo Rui, provavelmente em homenagem ao ídolo Orlando Silva) nasceu na Praça Cardeal Arcoverde, em Copacabana, e não no Cantagalo, como reza a lenda.
«Meu pai construiu uma casa bem ali onde fica a saída do Metrô», situa.
Descendente de italianos, Gilisberto era chapeleiro e andava na maior linha.
«Ele e mamãe gostavam muito dos sete filhos.
Papai morreu com 44 anos e nem chegou a ver minha carreira decolar», lamenta.
De a mãe, Dona Belarmina, restou muita saudade e um episódio triste.
Ele conta que estava fazendo o primeiro disco da bem sucedida série Descendo o Morro, em 1958, e varou a noite nos estúdios da Copacabana.
«Gravei um samba que mamãe gostava demais, ' Agora é cinzas ', de Bide e Marçal.
A escolha do repertório era bem democrática e este samba entrou por sugestão minha.
Sei que cheguei em casa com o dia clareando e recebi logo a notícia de que ela havia falecido.
Eu cantando e mamãe partindo, exatamente como diz a letra: '
Você partiu de madrugada / E não me disse nada / Isso não se faz / Me deixou cheio de saudades '.
Até hoje, quando canto este samba, me vêm lágrimas nos olhos», confessa.
Os quatro álbuns da coleção foram idealizados por o flautista Altamiro Carrilho (autor de ' Maria Tereza ', o primeiro sucesso do cantor nas rádios).
Roberto ainda se recorda das favelas que serviram de cenário para as capas dos long plays.
Em o disco inaugural da série, ele posou na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana.
Em o Descendo o Morro 2, o intérprete foi clicado num morro em Santo Cristo e, no terceiro, numa birosca na comunidade de Nova Brasília.
Além de dirigir as gravações, Altamiro também tocou ao lado de músicos legendários, como o trombonista Raul de Barros, o cavaquinista Canhoto e os violonistas Jayme Florence, o Meira, e Dino Sete Cordas.
Embora reeditada em CD por a EMI, a coleção permanece com status de raridade porque esgota assim que chega nas lojas.
«É a melhor série da carreira de Roberto Silva.
Em essa época quase não havia produtores no mercado e eu resolvi assumir essa função.
O dono da fábrica, Emilio Vitalle, tinha grande confiança no meu gosto musical e me deu carta branca para trabalhar.
Eu e Roberto fizemos uma relação dos grandes compositores e escolhemos os melhores sambas de cada um, mesclando novidades e coisas antigas.
O sucesso da coleção foi muito maior do que a gente esperava e só ficamos nos quatro discos porque eu fui para a Polygram no meio do caminho», conta " Altamiro Carrilho.
«Roberto é muito simples, muito modesto.
às vezes a gente ficava gravando até altas horas porque a sirene das ambulâncias e dos bombeiros interrompia a gravação», emenda o flautista, lembrando que Roberto foi o primeiro cantor de rádio a registrar um samba-enredo com acompanhamento de um regional: '
Exaltação a Tiradentes ' (Mano Décio da Viola e Stanislau Silva), que rendeu o campeonato a Império Serrano no Carnaval de 1950.
«Sou um homem e um artista muito feliz "
Roberto e Syone levam uma vida boa, com direito a muitos passeios, viagens e exercícios físicos diários.
«Depois de uma determinada idade, tudo envelhece.
A gente só não pode é se entregar», defende ele, sob o olhar de aprovação de ela.
«Doença aqui não tem vez.
A nossa rotina é gostosa.
Cuidamos um do outro e nem temos mais tantos compromissos», diz Syone, belíssima e bem apanhada como " Roberto.
«Ele continua muito vaidoso:
demora para se vestir e quer saber se a roupa está combinando.
Gasta quase uma hora na frente do espelho!»,
entrega. Para manter a saúde da voz, evita gelado e praticamente não bebe álcool (" às vezes saboreio uma Malzibier ").
Cigarros e noitadas também ficaram no passado (" fumei por mais de 40 anos, agora chega ").
O passado é assunto recorrente quando ele visita os cantores Gilberto Milfont e Dóris Monteiro, amigos de longuíssima data.
Aliás, o amor de Roberto e Syone também é antigo:
vem dos tempos em que ela posou para capas de discos do cantor.
«Ele queria que eu fosse cantora e chegou a me inscrever num concurso, mas não fui porque era muito inibida», admite a mulher.
«Ela tem uma voz maravilhosa.
É pequena, afinadíssima e bem macia», enumera.
Antes de dividir o mesmo teto, este casal enfrentou um encontro, um desencontro e um reencontro.
«Fomos namorados quando eu tinha 19 anos, mas ele não me disse que era casado.
E o mais engraçado era que me levava de Cadillac para cima e para baixo e me apresentava para todos os amigos como ' minha pequena '», recorda Syone.
«Quando descobri, fui forçada a terminar.
Eu respeitava meus pais e eles não mereciam me ver desmoralizada.
Imagina o escândalo que isso representava naquela época!».
Roberto ainda passou um bom tempo correndo atrás de Syone.
Telefonava e mandava bilhetes apaixonados através do compositor Buci Moreira, que era vizinho de ela na Rua do Riachuelo, Centro do Rio.
A jovem ligava o rádio de pilha escondido para ouvir o ex-namorado cantar ' Sombra do passado ' (Ary Monteiro e Raymundo Olavo) e lembrar das tardes que curtiram embaixo de uma amendoeira, na Ilha do Governador.
Cada um seguiu a sua vida, constituiu família, para usar uma expressão da época.
«Só nos reencontramos 30 anos depois, ele viúvo e eu divorciada».
Quem olha para os beija-flores que matam a sede na janela do apartamento de Roberto e Syone, na Rua Santa Clara, em Copacabana, fica com a impressão de que nada desequilibra este casal.
«Sou um homem e um artista muito feliz.
Tudo o que fiz, fiz bem, sempre procurando me aperfeiçoar».
De o cantor Ciro Monteiro também só guarda boas lembranças.
«Os compositores mostravam as músicas primeiro para ele e só chegavam perto de mim quando ele não queria gravar.
Natural, porque éramos do mesmo gênero, só que ele tinha mais fama.
Eu não gostava, mas depois ficamos amigos.
Lembro que ele me chamava de ' mistura fina ' porque eu era magrinho e andava de terno branco, parecido com a embalagem do cigarro que tinha esse nome».
A memória de Roberto Silva vai longe quando tenta reconstituir os encontros musicais que presenciou no badalado Café Nice, que ficava no Largo da Carioca, região central do Rio de Janeiro.
«Era ali, no meio da farra, onde surgia o repertório de muitos cantores e a programação das rádios quentes da época».
O poeta da Vila foi um dos nomes com quem Roberto levou uma prosa naquele balcão.
«Noel Rosa era aquele autor alucinante.
Foi uma emoção muito grande conhecê-lo».
Ele também iniciou amizade com Ataulfo Alves, Wilson Batista, Geraldo Pereira e Nelson Cavaquinho, por exemplo, no Nice.
Número de frases: 117
«Os compositores sabiam que eu não era um intérprete tão ruim e se alegravam em me mostrar suas músicas», brinca o príncipe do samba.
Depois do grande sucesso de público na primeira temporada, volta em cartaz Barrela texto de Plínio Marcos que por a 1ª vez está sendo montado em Salvador.
Plínio Marcos de Barros nasceu em Santos, em 29 de setembro de 1935, e faleceu em São Paulo, em 19 de novembro de 1999.
Filho de um bancário (Armando) e de uma dona-de-casa (Hermínia), tinha quatro irmãos e uma irmã.
Estudou até a 4ª série e começou a vida profissional como palhaço de circo ficando mais fixo em circo depois que saiu do quartel, com 19 anos.
Mas, desde os 16, já estava trabalhando como palhaço.
Barrela
é o seu primeiro texto, escrito aos seus 22 anos, escrveu ainda o conhecido Navalha na Carne, Dois Perdidos em Uma Noite Suja, Abajur Lilás, de entre outros.
A partir da real situação carcerária do País, Barrela se propõe a discutir problemas atuais ...
Direto de 1958, ano em que foi escrita.
Atualmente, vivemos uma situação de calamidade, por conta da violenta ofensiva da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo e por todo o país.
A problemática gira em torno da aglomeração das unidades prisionais e seus efeitos, evidenciando ainda a incapacidade do Estado em garantir um modelo prisional que diminua a população carcerária e recupere os detentos para reinserção na sociedade.
Salientando problemas como a superpopulação de presos, o uso de aparelho celular por os detentos, as precárias condições de saúde e higiene em que se encontram estas pessoas e a lentidão da justiça, cujo exemplo mais explícito é a omissão das varas de execução criminal na análise dos processos.
Em 1994, um censo oficial do IBGE, divulgou que dos 297 estabelecimentos penais existentes no Brasil, 175 se encontram em situação precária e 32 em construção.
A população carcerária gira em torno dos 130 mil presos, dos quais 96,31 % são homens e 3,69 % são mulheres.
Quanto aos motivos da detenção, 51 % dos presos cometeram furto ou roubo, 17 % homicídio, 10 % tráfico de drogas e 22 % outros delitos.
Barrela, é um espetáculo que leva o espectador, em especial os jovens, a pensar ao mesmo tempo sobre o ser, a escolha do desejo, a miséria, a sociedade e a liberdade, assumindo assim o seu aspecto Educativo, Social e Artístico.
Num momento em que as questões de gênero e de violência são tão abordadas, entendemos que espetáculos com este teor ajudarão não somente aos detentos, mas a sociedade brasileira como um todo a entender que algo precisa ser feito para democratizar a educação, o trabalho, a saúde, refletindo todos juntos este problema social do sistema penitenciário, garantindo e protegendo a dignidade do indivíduo, bem como mantendo e defendendo os direitos humanos de todas as pessoas.
Confiram o serviço da peça neste link:
www.overmundo.com.br/tag/barrela Assista também ao trailler da peça:
Número de frases: 20
http://www.youtube.com/watch? v = wd8 YDrQz58
Hermila Guedes, a Suely que levou o cinema brasileiro aos céus, e as dificuldades do sucesso *
«Meu Deus, o que é isso?
Por que isso?»,
Hermila Guedes pergunta a si, tentando entender o próprio sucesso.
Se já pensou em desistir da carreira?
A atriz não hesita:
«Várias vezes», responde.
Como a toda pergunta que faço, a jovem metralha a resposta, pára, respira e olha fundo nos meus olhos, como se esperando uma reação, uma próxima pergunta ou o final da entrevista.
Hermila tem um aperto de mão forte, não guarda uma grande distância do ouvinte.
Mas está cansada.
Esperava que sua vinda a Curitiba -- esteve em dois espetáculos no FTC:
As três viúvas de Arthur, na Mostra Oficial, e Angu de Sangue, sensação no Fringe -- fosse divertida.
Não foi.
Sessões intermináveis de fotografia e entrevista após entrevista.
Não veio desavisada:
quando Karim Aïnouz a convidou para o papel de O Céu de Suely, a alertou:
depois do sucesso de Madame Satã, a protagonista de seu próximo filme seria muito assediada.
«O filme é seu, está em suas mãos», lhe disse o diretor.
Ela considera que o trabalho veio como um presente, mas que existe uma Hermila antes e outra depois.
«Tem o lado bom e o ruim.
Sempre vão estar me cobrando uma Hermila-Suely».
Apesar disso, para ela, Suely é um papel que vale o reconhecimento.
Em dezembro, representou Elis Regina num especial da «Rede Globo,» a televisão te ajuda a te espalhar por o mundo», diz.
Também atuou em Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes.
Já contracenou com um copo de leite -- no curta homônimo.
«O difícil foi beber litros de leite misturados com [iogurte] Danone.
Eu odeio leite».
Chegou aos ensaios de Angu de Sangue bastante tímida, dizendo-se sem experiência.
Mas, segundo o diretor da peça, Marcondes Lima, Hermila é uma atriz nata, que era muito insegura, tinha medo de cantar e pensava em desistir.
Em uma das cenas mais fortes do espetáculo, vai ao microfone para cantar um conto -- que fala da história do estupro de uma menina -- acompanhada da manipulação de um fantoche que representa a criança.
Sempre que canta a música, lhe dá vontade de chorar, especialmente quando lembra da sobrinha, recém-nascida.
«Não sou acadêmica, estudiosa, mas preciso ser.
Compenso a minha falta de informação com a entrega mesmo».
Marcondes lembra que, apesar de ela não ter feito cursos, tem dentro de si as preposições do Stanislavski e de outros teóricos do teatro.
Até agora, Hermila Guedes parece ter feito as melhores escolhas possíveis.
Em o premiado Baixio das Bestas, que estréia em maio, representa uma prostituta.
Não tem medo de ficar marcada com estereótipos.
O seu grande desafio será conseguir viver com o estigma do seu próprio nome, «esse nome que já está pesando quando eu ouço».
* Matéria originalmente publicada no Jornal do Estado do dia 06/04/2007.
Link sugerido:
Assista ao curta Copo de Leite, com Hermila Guedes, no Porta-Curtas:
http://www.portacurtas.com.br/filme abre pop.
Número de frases: 43
asp? cod = 2617 & exib = 2486
Há mais ou menos uns 100 anos, existia um lugar muito, mas muito distante nos confins do Estado do Piauí ...
Em esse povoado existiam apenas duas famílias, com seus filhos, netos e bisnetos.
Eram as famílias Sanches Leal e a família Ramos.
Só existiam duas casas nesse povoado que pertenciam às respectivas famílias.
Todos os dias um senhor de nome Tertuliano Sanches saía pra caçar «veados» perto de um poço onde estes animais bebiam água.
Tertuliano levava seus filhos e netos junto com ele, era uma felicidade só.
Passaram-se os anos, as famílias cresceram, os filhos de seu Tertuliano Sanches casaram-se com os filhos de seu Antônio Ramos, que casaram com os filhos destes, e assim por diante ...
Bom, à medida que o lugar crescia era preciso de um nome para esse povoado, afinal o que diriam quando perguntassem?
Moro em lugar nenhum?
Pois bem, juntaram-se os habitantes daquele povoado, e decidiram que o lugar se chamaria «poço dos veados», já pensou?
O nome dá pra imaginar de onde vinha, era exatamente do poço onde seu Tertuliano caçava os animais para alimentar sua família.
Imaginem como se chamaria uma pessoa que nascesse nesse lugar, nem eu sei como se chamaria, poçoveadense????
Bom, continuando nossa história ...
O povoado cresceu e com o passar dos anos viu-se a necessidade de escolher um nome melhor, afinal, o povoado seria emancipado e se tornaria cidade.
Em essa época não existiam mais nem o senhor Tertuliano e nem muito menos o senhor Antônio Ramos, mas sim seus filhos, o patriarca da minha família, Antônio Elpídio Ramos, meu avô e filho de seu Antônio, e a matriarca Isabel Antônia Leal Ramos, minha avó e filha de seu Tertuliano Sanches.
Pois bem, foi o meu querido avô, que se tornou o primeiro prefeito deste povoado, que mudou o nome para «Alegrete».
Desde criança os meus antecessores me diziam que este nome veio porque as duas famílias eram muito felizes e alegres, daí o nome Alegrete de alegria!
Mas fui crescendo e vi que a verdade é que o nome Alegrete dado por o meu avô foi porque Alegrete quer dizer terra onde o sol nasce, e como meu avô era fazendeiro, deu esse nome ao lugar.
Mas, cá entre nós, poço dos veados seria mais engraçado, né??
Mas Deus me livre de ser chamada assim ...
Bom, eu sou Isabela, uma das netas do seu Antônio Elpídio e da Dona Isabel Antônia.
Hoje a cidade de Alegrete do Piauí tem exatamente 15 anos, fez aniversário dia 29 de Abril, e possui cerca de sete mil habitantes hoje.
De as pessoas que falei nessa história, resta apenas o meu avô, Antônio Elpídio Ramos, que está hoje com 87 anos.
O aniversário de ele até hoje é comemorado e é feriado na cidade, o dia 12 de setembro, e ainda tem uma praça com o nome de ele, a única da cidade por sinal.
Espero que tenham gostado da história da minha cidade que amo tanto, e também um pouco da história da minha família, de entre várias que ainda existem.
Se quiserem podem visitar o meu orkut e ver a comunidade Casa de Vovô Antônio Elpídio, lá vocês irão encontrar alguns descendentes de ele, mas só alguns, porque ele teve simplesmente 15 filhos!
Mas isso já é outra história ...
Número de frases: 28
O artista em questão é Cláudio N.
Nascido em Paulo Afonso e morando atualmente em Recife.
Mas sua obra até agora já extrapolou diversos limites territoriais e artísticos.
Como é possível sendo ele «apenas» um cara que, como nós, com seu 4-track analógico e um computador, somente lançou disco no ano passado sob a alcunha de Chambaril, por o selo Bazuka Discos, do Coquetel Molotov?"
Sempre fiz música em casa», admite Cláudio, que, assim como muitos dos DJs e artistas que enveredam por a dita «música eletrônica», adotou softwares como instrumentos e o ato de» ctrl + c «e» ctrl + v " como acordes.
Mas aí é onde residem as diferenças entre cada artista, DJ e produtor musical.
Alguns se atrevem mais e outros menos a encarar o sampler como ferramenta de trabalho.
Alguns apenas pontuam seus trabalhos, outros executam como peças decorativas, mas Cláudio utiliza tudo, absolutamente tudo que cair em suas mãos, como material de trabalho.
Ainda assim, seu passado egresso como guitarrista de bandas como Astronautas foi bem proveitoso para construir material inédito a também ser vítima de seus próprios remixes."
Eu também sampleio jams que eu faço.
Mas eu acho mais proveitoso samplear outras pessoas do que você mesmo.
É muito tempo perdido para você produzir e escolher as partes boas."
Quer provas de sua criatividade e capacidade de colagens?
Escute a música com sugestivo nome de «Desculpa Aí».
Como assim «desculpa aí»?
Cláudio explica: "
Já sampleei muita coisa de Costinha, o contador de piadas ...
DJ Malboro sampleei bastante, aqueles de Funk Brasil.
Mas quanto a ele, eu posso até passar sem creditar porque são partes tão ...
DJ Malboro não é um criador.
Estou roubando de quem já roubou, nesse caso».
Com toda a autoridade que Afrika Bambaata deu um dia, passo agora a fazer uma colagem de textos e samplear frases que atribuíram ao trabalho sonoro do Chambaril de Cláudio N." Chambaril tem tudo a ver com artistas como Avalanches e Go!
Team, apesar de completamente imersa na cultura local " (1)."
Guardadas as proporções, lembra ' Sobrevivendo no Inferno ', do Racionais MC's, dada a enorme quantidade de auto-informa ção misturada a informações ' recebidas ', na forma de samplers " (2)."
Os tracks são bacanas e também é divertido reconhecer de onde o moço cavou seus samples.
Segundo o próprio, a matéria-prima foram discos de um real, comprados ali, na Dantas Barreto " (3).
«O disco é a experiência pública mais radical já praticada em Pernambuco na área do sampler e da apropriação de pedaços de composições alheias, beirando o exagero e a cara-de-pau, o que é bom» (4).
Em os primeiros dois minutos parece que não vai para lugar nenhum, mas depois fica mais interessante.
Uma combinação de electro com música brasileira e umas vozes que não entendi o que diziam, mas soavam muito bem " (5).
«Entre grooves de disco music, álbuns falados, levadas jovem guarda e violões de fossa, não é possível reconhecer quase nada, fora um Costinha contando piadas aqui e a orquestração de Rogério Duprat para ' Deus lhe pague ', de Chico Buarque», acolá» (6).
E caso nada disso agrade o seu gosto musical, você pode compartilhar da opinião do leitor de um blog que disse: "
Chambaril é uma porra eletrônica que eu não entendi o porquê da existência».
Referências:
(1) Gui Barrella, Peligro Discos (
2) Lucio Ribeiro, Popload (
3) DJ Dolores (
4) Julio Cavani, Diario de Pernambuco (
5) Diplo (
Número de frases: 38
6) " Alexandre Matias
«This multilingual reader brings together literary and cultural critics from Africa, Europe, and the Americas to validate and re-evaluate the legitimacy of Afro-Brazilian studies and culture as a field of academic inquiry worthy of canonical inclusion.
The thirty two multifaceted essays adopt an interdisciplinary approach in order to uncover the intellectual nature of Afro-Brazilian cultural production.
Issues addressed include race relations, Afro-Atlantic Diaspora, gender, sexuality, identity formation, cultural diversity, performance, and popular culture.
Contributors are Kim Butler, Henry Drewal, Anani Dzidzienyo, Steven White, Carolyn Richardson Durham, Joel Zito Araújo, Edimilson de Almeida Pereira, Cuti (Luiz Silva), Zilá Bernd, Niyi Afolabi, Cheryl Sterling, Emanuelle Oliveira, Bolaji Campbell, Lesley Feracho, Moema Parente Augel, Ronald Augusto, Dawn Duke, Maria Nazareth Fonseca, Eduardo de Assis Duarte, Márcio Barbosa, Manuel García Castellón, Fábio Durão, and John Rex Gadzekpo." (
excerto do meu ensaio " Transnegressão ")
Em o período em que morei na cidade de Salvador, Bahia, final da década de 1980, fui procurado, certa ocasião, por uma estudante alemã que desembarcara no Brasil disposta a realizar um minucioso estudo sobre a literatura negra brasileira.
A jovem estudante demonstrava grande entusiasmo diante de tudo o que se lhe apresentava.
Antes de Salvador havia passado por São Paulo e Rio de Janeiro, onde conheceu, respectivamente, o genial Arnaldo Xavier e o glorioso Ele Semog.
Posteriormente, estes poetas encaminharam-na a mim e a outros escritores também residentes em Salvador.
Tivemos, se bem me lembro, dois ou três encontros de trabalho envolvendo entrevistas e leituras comentadas de poemas.
Em uma dessas reuniões, apresentei-lhe sem prévio comentário um poema caligráfico-visual.
A jovem alemã, cujo nome prefiro omitir, se pôs a examinar e re-examinar aquelas traços opacos de sentido, e que, de resto, não ofereciam senão mínimos índices de informação verbal.
Com um misto de desconfiança e inquietação, parecia procurar na folha de papel a porta de entrada ou, desesperadamente, a primeira fresta por onde escapar.
Não demorou muito para que ela, erguendo a cabeça loira, me fizesse a seguinte indagação.
Onde está o Negro neste poema?
Com efeito, até hoje não sei ao certo a que negro a loira estudante quis se referir.
No entanto, sua indagação me forneceu algum material para reflexão.
Assim, cheguei à conclusão de que tal pergunta traz em seu bojo algo como uma expectativa ready-made no que diz respeito às constantes que, supostamente, deveriam servir de marca, de escopo a uma poética negra.
Apresento agora ao leitor algumas variantes que talvez traduzam ou, melhor, que talvez façam vir à tona aquilo que restava subjacente ao questionamento da minha entrevistadora: (
1) onde está o típico?; (
2) onde estão as palavras chibata, tronco, quilombo, liberdade?; (
3) o que é feito do Lamento, da Dor, da Magia Negra?; (
4) onde está o almost extinct?
Sob o véu esbranquiçado desta (s) pergunta (s), resta uma expectativa consagrada à força da repetição e de uma tradição reducionista.
Felizmente, uma parcela pequena, porém viva, de escritores negros vem nos oferecendo, há algum tempo, outros e necessários escurecimentos.
Por meio de suas obras, conseguimos vislumbrar o posicionamento mais radical, ou mesmo plural, da idéia de transnegressão.
Atentos ao risco da diluição -- os esclarecimentos do controle institucional da interpretação, que acompanha como sombra os bem-intencionado defensores de uma «verdadeira» literatura negra;
estes autores transnegressores e seus poemas vão, aos poucos, tornando cada vez mais complexa qualquer definição pretensamente consistente e acabada a respeito das linhas de força do total desta escritura.
Portanto, a pergunta angustiada da estudante germânica também comparece com um peso considerável nos critérios de gosto e de valoração da maior parte daqueles que têm fundamentado o seu sucesso debruçando-se sobre o caso ímpar dessa literatura, quer seja através da organização de antologias fortemente temáticas, onde os conteúdos inessenciais se sobrepõem à realização poética mais penetrante, quer seja através da publicação de ensaios que investigam estes objetos literários tão só como exemplos de uma afirmação identitária, cuja função básica consistiria em amplificar e dar nobreza documental aos anseios de uma coletividade ou segmento étnico.
Em outras palavras, toda essa fortuna crítica aponta para a responsabilidade social do escritor;
o compromisso histórico do poeta como porta-voz de questões situadas aquém ou além do âmbito mesmo da invenção verbal.
E segundo estes intérpretes, almas quase renomadas, tal literatura, para fazer jus ao apodo negro, precisa dar mostras claras, incontestes da presença do Negro.
Ou seja, o texto examinado (" a patient etherised upon a table», T. S. Eliot) precisa responder afirmativamente e com provas cabais àquela pergunta da estudante estrangeira;
deve sustentar o paradigma imaginado, promovê-lo à verdade irretocável, que possa ser reificada ao longo de um discurso-livro de, pelo menos, umas duzentas páginas e que, por um efeito dominó, faça escola e granjeie defensores argutos e / ou indignados.
As provas de que há um negro entremeado ao texto, insuflando-lhe vida, são identificadas por a freqüência com que aparecem, por exemplo, além daquelas palavras já mencionadas acima, as de origem africana que adoçam e singularizam a fala do brasileiro, tais como:
moleque, bunda, cachaça, empate, etc..
Ou ainda, outra prova, por uma insistente reiteração de um nós negros, ideologicamente correto, indicando uma espécie de irredutível essência negra que cumpriria, principalmente ao criador e complementarmente ao exegeta, preservar a todo custo, como se tal essência fora um santuário repleto de ex-votos curiosos ou uma reserva natural ameaçada.
Como conseqüência, temos a literatura feita por os negros comodamente atada ao tronco da temática transitiva ou circulando livremente por a senzala de um estreito ismo.
O grande dano deste traçado programático, delimitador e, de resto, extremamente eficaz para confinar esta prática poética dentro do universo dos estudos culturais e das literaturas de testemunho, é a exclusão sumária de outros textos / autores que apontam hoje -- ou que apontaram no passado -- para zonas limiares, imprecisas, abertas à sedução da impermanência dos significados, onde a inteligência em movimento costuma puxar o tapete à mediocridade conformadora;
o esforço dos poetas / escritores que focalizam a sua atenção mais no como dizer e menos, bem menos, no que é urgente dizer talvez ao ouvido do pesadelo da História.
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e Em o Assoalho Duro (2007).
Número de frases: 44
Despacha no blog www.poesia-pau.zip.net
A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), começou a ser instalada em Santarém, a ação se deu depois de visita da comissão chefiada por o professor José Seixas Lourenço, ex-reitor da Universidade Federal do Pará, que poderá integrar o pólo de universidades européias que está se formando em Caiena, capital da Guiana Francesa.
A proposta foi apresentada ao presidente do Conselho Regional da Guiana Francesa, Antoine Karam, durante a reunião do Programa Operacional de Cooperação Transfronteiriça (P.O. Amazônia), que se realizou em Alter-de-Chão, com a participação de representantes dos governos do Pará, Amapá e Amazonas, além de representantes da Guiana Francesa no mês de julho.
A proposta de Karam veio como adesão à idéia do vice-governador Odair Corrêa, manifestada durante a instalação da comissão de implantação da Ufopa, dia 4 de julho, em Brasília.
Em aquela ocasião, ele sugeriu que a Ufopa tivesse um caráter pan-amazônico, com vistas a ampliar e melhorar as condições do ensino, da extensão e da pesquisa na região.
«Por longos anos, os nossos países ficaram dando-se as costas um para o outro, mas agora é o momento de modificarmos esta postura, intensificando o relacionamento entre nossos povos, assim como a cooperação tecnológica e científica», disse Karam.
O presidente da Região da Guiana Francesa acrescentou que deseja ver a Ufopa com um núcleo instalado em Caiena, ao lado de universidades famosas como a Paris e a de Nice, especialmente, por se localizar numa posição estratégica para o programa de cooperação fronteiriça que está sendo iniciada entre a Guiana Francesa, o Suriname e os Estados brasileiros de Pará, Amazonas e Amapá.
A idéia visa distribuir conhecimento, ampliar a excelência e melhorar a qualidade de vida na região.
«Por muitos anos, nossos povos se deram às costas, mas chegou à hora de mudar essa postura e iniciar um processo de grande sucesso para todos.
A História nos afastou por longos anos, mas a geografia nos une.
Tenho certeza de que estamos condenados ao desenvolvimento e à felicidade duradoura», comentou Karam.
Em reunião Técnica, em 06 de agosto no auditório do Centro Integrado de Governo -- CIG.
Com o tema, Por a comissão de instalação da UFOPA, representantes de várias organizações reuniram-se para debater sobre o processo de aceleração de implantação da Universidade Federal do Oeste do Pará, onde estiveram presentes o coordenador da comissão de instalação da Universidade Federal do Oeste do Pará -- UFOPA, José Seixas Lourenço, por o Governo do Pará, o Secretário de Estado de desenvolvimento, Ciência e Tecnologia -- SEDECT, Maurílio de Abreu Monteiro, Iracy Gallo Ritzmann Secretária de Estado de Educação -- SEDUC, e o Professor e Dr. Alex Fiúza de Mello, Reitor da Universidade Federal do Pará -- UFPA.
A pauta da reunião versou a respeito da implantação da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) em Santarém, que já está entrando em sua reta final dos trâmites de aprovação.
Em o último dia 04 de julho foi instalada a Comissão de implantação da mesma, presidida por José Seixas Lourenço e composta por profissionais do campus da UFPA e da UFRA em Santarém, da CAPS e da SEDUC.
Com apoio do Governo Federal, através de recursos do PAC e do Governo Estadual.
A UFOPA irá atender a uma demanda considerável numa região onde 15 mil jovens terminam o ensino médio sem muitas perspectivas de ingresso no ensino superior por a pequena quantidade de cursos ofertados na área, mesmo com a presença da UFPA e da UFRA e de outras instituições particulares.
Com a criação da universidade a necessidade de formação de professores para o ensino fundamental e médio será suprida.
A principal expectativa é que no primeiro semestre de 2009, o congresso sancione a lei para que a Universidade seja criada formalmente, o que significará a abertura de 432 vagas para novos professores e cerca de 300 vagas pata técnico-administrativo, tanto a nível médio como superior.
Número de frases: 19
Rita Martins
A propósito da colaboração «Beco da quarentena» do nosso festejado overmano Filipe Mamede, é impossível deixar de lembrar de «Uma História de Amor na Munguba», texto que escrevi em 2004 na primeira vez que estive em Parnaíba.
O seu Augusto, dono do bar a que se refere a história faleceu, após breve enfermidade, no final de 2006, aos 61 anos.
Segundo relatos, um filho adotivo do Augusto continua levando o negócio, embora eu não acredite que isto dure.
A propósito, a região de Parnaíba denominda «Quarenta», conta a lenda, tem esta denominação devido a uma puta excepcionalmente bonita e gostosa, cujo michê era 40 reis, valor considerado exorbitante por os freqüentadores da Zona.
Acredito, no entanto, que o nome se deva a constantes quarentenas que eram impostas por as autoridades sanitárias após as enchente que assolavam a referida região onde, até hoje, o esgotamento corre a céu aberto Abaixo, reproduzo
Uma história de amor na Munguba
O poeta Elmar Carvalho, fico-lhe (e) ternamente grato por isto, foi quem primeiro me falou do «Bar do Augusto».
Situado na Munguba, antiga região do baixo meretrício em Parnaíba o Bar, pilotado por seu dono, é freqüentado por inúmeros intelectuais da Parnaíba.
Quem o conhece sabe que sua principal atração são os mais de dois mil LPs.
que, exclusiva e carinhosamente manuseados por o Augusto, são colocados a serviço dos ouvidos nostálgicos de seus seletos freqüentadores.
Em as paredes do Bar, fotos de freqüentadores e até um poema do próprio Elmar.
Conversei muito com o proprietário do bar, pessoa muito simpática e agradável.
Ainda assim não me atreveria a escrever sobre o que ele significa para os seus freqüentadores entusiastas (isto o próprio Elmar já fez com grande propriedade).
Mas, da conversa com o seu Augusto, descobri uma cativante história de amor vivida por ele antes que o «Bar do Augusto» se tornasse o que é.
E esta é uma história que vale a pena ser contada:
Em 1966 o nosso herói Augusto Machado de Oliveira (o seu Augusto) era um jovem mancebo de 21 anos que trabalhava num bar próximo ao Porto das Barcas.
A Zona do baixo meretrício funcionava a todo vapor nas proximidades da Quarenta.
Foi num bar lá perto da zona que o Augusto conheceu a Dona Maria Vicência Alves, que, aos 43 anos, era a proprietária da " Boate Estrela do Ponto 4, cabaré fartamente freqüentado por as putas e seus potenciais fregueses.
Foram vítimas de uma paixão fulminante que resultou, poucos meses depois, no seu casamento comemorado com festa e tudo o mais a que os noivos tinham direito.
E o Seu Augusto passou a administrar, junto com a sua amada esposa, aquela Boate.
Em a primeira noite em que fiquei sozinho no cabaré -- me contou ele -- teve briga e até facada e eu fiquei meio apavorado.
Contei a ela a respeito do meu estado de espírito!
Não, se preocupe, meu bem -- ela disse -- você logo se acostuma!
O casal se desfez, no entanto, dezessete anos depois, quando a morte levou a Dona Vicencia.
O nosso Augusto estava, aos 38 anos de idade, viúvo.
E sabem o que aconteceu?
Nunca mais se casou!
O amor por aquela mulher 22 anos mais velha do que ele o fez manter a viuvez que ostenta até hoje.
Uma linda história de amor difícil de acontecer nos dias que correm, vocês não acham?
Grandes enchentes ocorreram alagando toda a região da quarenta, o que acabou resultando no desaparecimento da Zona.
Hoje o seu Augusto, ainda viúvo, vive feliz tocando o seu Bar que se chama " Recanto da Saudade do ponto 4 ou, simplesmente, Bar do Augusto.
De alguns fregueses ele sabe de cor as preferências musicais e estes nem precisam pedir para que o seu Augusto toque as músicas que lhes tocam o coração.
Gosto de pensar que nome do bar mistura a saudade que o Seu Augusto ainda sente por a amada Vicência com a saudade das músicas do passado que sedimenta a sua nostálgica freguesia!
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Munguba: árvore também conhecida como mungubeira.
O nome vem do tupi mo ' guba (Dicionário NovoAurélio)
Poema de Elmar Carvalho reproduzido numa das paredes do " Bar do Augusto "
Postal 1 *
Elmar Carvalho As águas podres
De a vala da quarenta
Tomam banho nas águas puras do Igaraçu
Em as imediações da Munguba
Onde bêbados pobres de dentes podres
Dizem coisas doces por entre
O bafo azedo do vômito e da cachaça
Um bolero, o tilintar dos copos, os ruídos
De a noite e os gemidos de camas e casais
Completam as cenas e o cenário *
Número de frases: 50
Integra o poema " Três postais da Parnaíba "
Dam Camargo entrou em contato com mim através do email do Overmundo por causa do texto que escrevi sobre a festa do Anime Center.
Sua mensagem dizia assim:
ola hermano ...
eu sou o inventor da cyber-umbanda que baixa entidade de yugi oh.. huahuahau ...
gostei bastante do texto.. alias gostaria da sua permissão pra divulgar ele no fotolog do anime daiko ...
descobri o blog por acaso ...
eu estava fazendo uma pesquisa sobre teatro e anime ...
para minha tese de conclusão da graduação.
aí vi o nome do grupo.. e tive essa agradável surpresa ...
qqer informação q vc quiser sobre o grupo..
Claro que estava querendo todas as informações sobre o seu grupo, o Anime Daiko -- cada dia fico mais impressionado com a cultura japonesa-pop brasileira (e agora descubro que a maioria dos animês são proibidos de passar na TV aberta brasileira antes das 20hs sob a alegação de que são muito violentos ...
Aí o pessoal vai baixar vídeo pirata na internet ...
É o Estado contribuindo para a pirataria ...)
Mas fiquei ainda mais surpreso com o que o Dam ia me contando:
como assim, o inventor?!!!
Achei que o Anime Daiko era uma entre centenas de outras bandas semelhantes ...
Nada disso:
é a única.
Se eu fosse mesmo ligado em grana, viraria um Brian Epstein nipo-tropical agora.
Não tenho nem sombra de dúvida:
o fã-clube vai crescer por o mundo afora rapidinho.
A combinação entre música de animê e dança tribal é comercialmente explosiva, ideal para fundamentar uma nova moda adolescente global.
E o Dam, que hoje tem 24 anos, vai ser o pai da nova onda, o Elvis do novo culto (e Londrina nossa Memphis, hehehehe).
Boas idéias não faltam para o rapaz, como esta conversa por email (reveladora de uma biografia tão brasileira ...)
comprova:
Como você começou a se interessar por animes e taikôs?
Com que idade?
Você tem parentes japoneses?
Já em Araçatuba você gostava de cultura japonesa?
Bom ...
Meu primeiro anime foi o Macross, meu pai alugou um VHS pra assistir e fui no embalo, eu devia ter uns 4 anos de idade.
A primeira vez que eu vi um taikô foi numa festa de Bon Odori -- eu tinha 10 anos.
Não tenho nenhum parente japonês, mas sempre tive um monte de amigos descendentes.
Assisti Macross e depois Jaspion, fiz uns 11 anos de karatê, freqüentava festivais de cultura japonesa lá em Araçatuba.
Como foi criado o Anime Daiko?
A idéia de juntar os taikôs com a música dos animês surgiu como?
O grupo se formou em 2004, mas a dança começou a nascer quando eu tinha uns 8, 9 anos.
Eu tinha ganhado o LP do Jaspion, aí eu ficava pulando no sofá da minha mãe, fazendo as poses de ele junto com o clímax das músicas ...
Mais tarde, comecei a ir a eventos de cultura japonesa na minha cidade, Araçatuba.
Fiquei fascinado com uma dança que todo mundo podia participar, que se chama Bon Odori ...
Uma dança tradicional japonesa, uma festa que se faz para os antepassados já falecidos, pra agradecer por a colheita.
Aí chega eu e 3 amigos, no meio do povo dançando certinho ...
E fazíamos coreografias do tipo «macarena»!
Quando cheguei em Londrina fiquei sabendo que o Bon Odori era muito forte aqui, só que era diferente ...
Eles faziam macarena ...
E era da coreografia oficial mesmo!
Eles chamam de Matsuri, ou Bon Odori moderno, que é voltado para jovens e é um pouco mais rápido.
Um dia no meu apê comecei a brincar com as músicas de anime e Super Sentai especificamente, mas ninguém sabia disso.
Eu ia pra esses Bon Odoris, e junto com um amigo meu, começamos a fazer os passos da fusão ...
Então uma amiga minha (a Kátia Horita, que era a dona da K2, loja de mangá de Londrina) falou que bem que a gente podia montar um grupo de Bon Odori com música de anime ...
E apresentar no evento daqui.
Falei que já fazia algo assim sozinho, e ela contou que tinha um irmão que tocava taikô ...
Combinamos de ensaiar nos domingos ...
E até hoje é nos domingos que o Daiko ensaia.
Eu fiquei com o primeiro ano da presidência do grupo e levei o Daiko pra Anime Friends, graças a ajuda do Elton Azuma e a Kaká Horita, do zine ETHORA, amigos a quem acho muito legal ter a oportunidade de agradecer publicamente.
E teve pessoas que me deram o maior apoio no nosso evento de estréia, como a Petra Leão, a Érica Awano e o Marcelo Cassaro.
De aí para a frente o grupo só cresceu, indo para o Rio, Maringá, Presidente Prudente.
A gente ia pra eventos de cultura japonesa em geral, mas acabamos nos especializando em eventos de anime.
Mas apesar disso em alguns raros casos a gente vai a eventos de cultura japonesa ...
Mas isso tem que ser negociado com a atual presidente.
Qual a sua função no Anime Daiko?
Como o grupo funciona?
Tem quantas pessoas?
Atualmente eu sou responsável por a parte de espetáculos (negócio, horário e espaço).
Sou também apresentador do grupo, danço no palco.
Também cuido da parte de coreografia!
Vocês ensaiam sempre?
Quantas músicas vocês tocam em cada show?
Quais são os maiores sucessos dos shows?
Religiosamente aos domingos, independente de ter evento ou não.
Atualmente estamos com 8 músicas no repertório.
As que o pessoal mais dançam são a música do YuYu Hakusho, Hey Jimmy.
Em o último Anime Center fizemos a pré-estréia da música nova (Tenchi Muyo) que o pessoal adorou ...
Há outras bandas parecidas no Brasil?
E no mundo?
Olha, que junte anime e taikô, não existe mais nenhuma no Brasil, e no exterior até onde eu sei ninguém resolveu fazer isso ainda.
Vocês já se apresentaram aonde?
Em que lugares vocês têm mais público?
Londrina, Paulo, Janeiro, Presidente Prudente, Maringá.
Curiosamente nós temos mais público no Rio do que na própria Londrina.
Como são criadas as coreografias?
Antes de pensar na coreografia, a gente escolhe a música ...
Assiste ao anime pra ver que poses da pra tirar de ele ...
Mesmo que tenha muitas ...
É preciso ver se ficam legais na dança ...
De aí a gente cria passos pra essas poses ...
E vê se a melodia da música repete legal e encaixa com os movimentos.
Caso não encaixe a gente parte pra outra.
Como o público aprende as coreografias?
Normalmente eu faço um workshop na hora com as coreografias novas ...
Eu fico dançando lá no palco o tempo todo ...
Aí o povo pode pegar de fora ...
E entrar lá para o meio, onde há membros do grupo orientando a galera.
Você imaginava que a sua invenção iria fazer tanto sucesso?
Acho que pode fazer mais, pode virar uma febre até mundial!
Você está preparado para ser o criador de uma nova tradição pop?
Hahaha ...
Olha, eu até esperava que o público curtisse muito, porque acho que todo fã sonha em dançar fazendo poses ...
Eu só não tava preparado para a velocidade com a qual as coisas aconteceram ...
E como se propagou ...
Ainda hoje eu não consigo saber a dimensão que tomou ...
Ahnn bom ...
Espero que vire uma febre mundial mesmoo ...
Quero dominar o mundo!
MUAHAHAHA ... Taa ...
Falando sério:
acredito que eu tô preparado para o que vier ...
Graças à minha família ...
Sempre fui orientado a manter a humildade e a escutar os outros ...
Acho que enquanto eu mantiver isso estarei preparado pra tudo!
Você está fazendo universidade de artes cênicas.
Por que escolheu artes cênicas?
Explica para a gente o que você está estudando para sua monografia de graduação?
Há outras pessoas estudando a mesma coisa?
Então:
eu escolhi fazer artes cênicas porque eu quero ser dublador, e pra ser dublador tem que ser ator, e quero fazer o melhor que eu puder.
Por isso resolvi fazer um curso superior e nesse caminho até meu sonho surgiu o Anime Daiko.
Minha monografia consiste em fazer as pontes de ligação existentes entre o anime / mangá e o teatro.
Em a verdade, são alguns experimentos com isso ...
Tem uma cena para a demonstração das teorias que estou levantando.
Olha, se existe semelhante não é divulgado, porque raramente alguém do teatro se interessa por anime.
Em o japão existem alguns experimentos, performances, e provavelmente há algum material escrito, mas eu mesmo nunca vi ou soube que exista.
Número de frases: 123
Que determina a razão de viver
De o It Again
Quem já não teve diante de si um amigo (a) apaixonado (a) que se tortura em incertezas sem fim?
Diz que não sabe se liga ou se não liga, se namora ou não namora, se «casa ou se compra uma bicicleta» ...
A situação é cômica:
o «ser humano» sabe o que tem que fazer, mas parece precisar de uma confirmação externa para tomar uma atitude.
Em essas condições, o conselho mais simples (e digo simples porque ele parece ser sugerido por a própria pessoa que o pede) resolve.
Assim, algo do tipo «se acredita, tenta» ou «se dá pé, namora» como que por um passe de mágica transforma aquele miserável sofredor num exultante otimista.
E, assim é a vida:
complexa e cheia de mistérios, mas, as vezes, uma atitude simples e ativa promove a resolução de conflitos internos intermináveis ...
«De o It», a música que abre o disco «InCité» de Lenine, de onde peguei emprestado as citações acima, faz uma espécie de coletânea dessas soluções simples e práticas do cotidiano:
«Tá cansada, senta
se acredita, tenta
se tá frio, esquenta
se tá fora, entra
se pediu, agüenta."
Quando ouço esta canção, fico logo pensando na realidade cotidiana onde o compositor foi colher essa imensa coletânea de ditos proverbiais.
Recordo-me, inclusive, de uma vez, há muito tempo, quando saí para passear com algumas pessoas mais adultas.
Passado algum tempo do passeio, um dos filhos mais novos de um colega queria deixar a bicicleta no meio do caminho porque estava aborrecido e cansado com o passeio.
Eu já ía então me dispondo a carregá-la, quando o pai (de modo discreto) me impediu ensinando, ao filho, que era ele quem devia carregar suas coisas.
Em outras palavras, ele estava dizendo:
«Você não pediu para vir com a gente?
Se pediu, agüenta."
Infelizmente, não tenho mais contato com essas pessoas.
Mas, guardei a didática do «se pediu, agüenta» que estava alí sendo ensinado num simples passeio de bicicleta.
Guardei isto sobretudo, quando tive que enfrentar as provas e trabalhos ao final de cada semestre universitário.
De alguma maneira, penso que acabei incorporando o senso de dever de «carregar minha próprio bicicleta» e arcar com as conseqüências de se sair de casa.
A vida prática está cheia dessas soluções modestas cuja eficácia as vezes parece inverossímil.
Entretanto, grandes pessoas já mostraram como é possível tratar de assuntos complexos e abstratos a partir desses ditos populares.
Assim fez Cristo que inúmeras vezes falou do «Reino dos Céus» a partir de aspectos da vida prática como, por exemplo, o gesto de um pescador ou o trabalho de um semeador.
Em um de seus ensinamentos, ele cita o seguinte provérbio popular:
«Ninguém acende uma candeia e a esconde num jarro
ou a coloca debaixo de uma cama." [
Lucas 8:16]
Em esta passagem, Cristo tinha acabado de contar uma parábola (Lucas 8:4-18).
A o final de ela, seus discípulos pedem que ele a explique.
E estre trecho citado é o final desta explicação, onde Cristo utiliza-se deste ditado popular para resumir o que se passa com alguém que teve sua vida transformada:
esta pessoa não oculta sua felicidade, assim como ninguém oculta a luz da lamparina (ou candeia) debaixo de uma cama ou dentro de um jarro.
Portanto, parafraseando os provérbios de «De o It», quem tá feliz deve requebrar!
«Tá feliz, requebre
Número de frases: 40
Se venceu, celebre "
Dá pra imaginar Caetano falando de Dévendra como Devendra fala de Caetano.
O Devendra em questão é o cantor texano Devendra Banhart, 25, nome confirmadíssimo no próximo TIM Festival que rola de 26 a 29 de outubro no Rio e em São Paulo.
O Caetano é aquele mesmo, o que dispensa apresentações.
Banhart é uma das mais citadas «revelações» do rock atual e não se cansa de falar de Caetano em entrevistas e performances como a que o cantor fez no último fim-de-semana, no pequeno Beach Stage do SummerSonic, um dos maiores festivais de música pop do Japão que teve entre suas estrelas este ano Metallica, Linkin Park, Daft Punk e Massive Attack.
Fora dos palcos badalados onde estiveram ainda algumas das melhores bandas da última semana como Artic Monkeys, We Are Scientists e My Chemical Romance, Banhart tocou para um público reduzido mas interessado e deu uma pequena mostra do que poderá ocorrer quando o rapaz pisar nos palcos brasileiros.
O show começou com alguns minutos de atraso e, ao contrário do que se via nos outros stages, não houve protestos.
O clima de praia e o lindo entardecer impediam qualquer queixa.
Banhart entrou sem camisa e com um extravagante colar de algo bastante brilhante, um visual que lembrou bastante o ídolo Caetano dos anos 70.
Cabelo e barba compridos, o moço se comunicou com o público num japonês farofa e mandou música.
Complementando a banda, um ser vestido de alienígena criava coreografias destoantes, mas que nem de longe atrapalhavam a performance musical mesmo quando o moço, num momento Chacrinha, resolveu presentear a platéia com um par de tênis tamanho 41 Usa.
A performance começou leve mas vigorosa e foi conquistando a platéia que estava longe de ser formada por fãs, daqueles que recitam as letras junto com o cantor.
Os pouco mais de 100 seres estavam abduzidos por a mistura musical que foi rotulada de folk, mas que, a ouvidos mais atentos, está muito bem calcada no rock ' n ' roll e foge de quaisquer modismos.
Quando o show parecia estar engrenado, Banhart surpreendeu o público com um convite.
«Há alguém na platéia que componha suas próprias músicas?»,
disse o cantor para um grupo de incrédulos.
Um rapaz ocidental de aparentes 40 anos que assistia ao show junto com um amigo japonês levantou timidamente o braço.
John Koch subiu ao palco e foi apresentado por Devendra, que lhe passou a guitarra enquanto sua banda deixava o stage para o moço.
Ele demorou alguns segundos para acreditar no que estava acontecendo e mandou, em japonês, uma canção non-sense, mas que foi rapidamente comprada por a platéia.
Mais tarde, o aspirante a star revelou-se um experiente músico que, com sua banda Troll, gravou dois álbuns entre 2001 e 2003.
Antes que o rapaz cansasse com a repetição, Banhart voltou ao palco com sua banda, deu uma canja como baterista e um selinho de despedida no moço.
A partir de ali, a platéia estava ganha.
Banhart largou a guitarra e soltou o corpo, dançando e ocupando o espaço, apertando os mamilos e acariciando os cabelos.
A penúltima canção, o músico dedicou a seu «herói» Caetano Veloso.
Em o finzinho, uma enérgica citação de Tropicália (Viva a Bossa, sa / Viva a palhoça, ça, ça) mostra que a homenagem não é brincadeira.
Não se sabe se Caetano vai aparecer para ver Dévendra.
Devia. Apesar de não ser um músico acomodado nas glórias do passado ou em sucessos populares como o do álbum ao vivo em que regravou «Sozinho» (" Quando a gente gosta / é claro que a gente cuida "), há muito tempo Veloso não lança um material provocativo artisticamente.
Sua obra contemporânea não é conhecida por os mais jovens e o compositor perdeu o diálogo com a atualidade que costuma enriquecer a já vasta obra de veteranos, vide o caso David Bowie.
Já de Devendra Banhart se pode esperar um show com força, poesia e beleza, referente ao passado, mas completamente autoral. Quem
sabe Caetano se anima e sobe no palco para cantar uma de suas «próprias músicas».
Número de frases: 30
O público -- e Devendra -- iriam aplaudir, com certeza.
O fato de haver uma produção poética «ainda sendo feita», um gesto, por assim dizer,» em tempo real», fugaz e live, ou que não se estabeleceu, não justifica o silêncio nem a esquiva crítica entre-dentes a seu respeito.
Em outras palavras, insiste-se na alegação de que devido a essa sua condição de fenômeno in progress, a poesia atual acabaria por impôr um óbice à tarefa crítica, visto que, por definição, esta atividade teria a função de regular e julgar, calcada sobre certa estabilidade de valores, apenas aquele objeto cuja trajetória pudesse ser abarcada desde o ponto-zero do seu impulso, passando por suas correções de rota e chegando até o seu provável termo de repouso.
Portanto, uma experiência tão fugidia talvez não permitira a prospecção judicativa de seu conjunto.
Por causa de sua base larga;
sua radicalidade que atinge os antros da terra;
suas ferramentas argênteas, a crítica se mostraria, supostamente, sem condições de perscrutar semelhante alvo em movimento, esse ser transitório.
Vantajosa inadequação da crítica, às vezes tão fora do lugar!
O mundo é leviano demais para a sua lerdeza magnânima.
Mas, o crítico está (ou deveria se sentir) implicado nas imposturas e nos dilemas que denuncia e anuncia.
Portanto, a poesia contemporânea, como fenômeno inconcluso, filha e protagonista de um presente contínuo, signagem manifestada dentro do «horizonte do provável» do nosso tempo, não estaria em situação de ser mapeada «cabalmente», pois como coisa viva, algo de sua efemeridade escaparia por as beiradas do escalpelo crítico consagrado.
No entanto, há aí um problema de distorção.
Parece estar-se exigindo, para o caso, uma crítica monumental, ou um olhar telescópico que, enquadrando o mais ínfimo exemplar dessa poesia, capturasse o mundo e o tempo conhecidos que envolvem-no.
Mas, o fazer, o saber e o julgar inextrincáveis à atividade crítica, devem ser colocados numa perspectiva provisória, menor.
Em outras palavras, crítica é leitura aplicada;
uma forma de interpretação ou de abordagem.
Isto nos faz supor que sua atividade também se relaciona ao possível, ao impermanente das limitações e das parcialidades do sujeito.
Portanto, a leitura, ou a crítica, condizente com a poesia contemporânea, deve ser, tal como ela, uma coisa em construção, ainda não canônica e não canonizada.
Seqüência de interpretações e uma constante confrontação entre elas.
Uma crítica, por assim dizer, «câmera-em a mão», ou para usar um lugar-comum, crítica mais como transpiração do que como inspiração.
Leitura interessada, severa e experimental embrenhada na nervura do dissenso.
A o almejarmos e superestimarmos uma crítica totalizadora que «de fato» venha a dizer, quem sabe um dia (pois estranhamente ela não se encontra aqui entre nós) aquilo que queremos e merecemos (ou necessitamos) ouvir acerca da produção poética atual, acabamos também reservando um espaço excessivamente pernóstico, cheio de dedos, para os deslocamentos desta mesma poesia perante a nossa recepção.
às vezes fala-se a propósito da poesia contemporânea nos termos de que trataria-se-de uma experiência capaz de provocar um estranhamento e um incômodo em determinadas zonas da audiência similares àqueles causados, por exemplo, por a arte contemporânea.
Isto é um absurdo.
A produção poética de agora-agora passa longe de qualquer gesto iconoclasta, não põe em cheque os próprios limites, não tem sequer a ousadia da frivolidade que, diga-se de passagem, sobra à anti-arte.
Então, por quê reivindicar para ela um discurso crítico sobrenatural, que fale a língua do «meu tio iauaretê», na presunção de glosá-la eruditamente e de uma vez por todas?
Desde a realidade insossa das manifestações poéticas atuais, talvez se possa arrancar uma resposta cínica para o caso:
a expectativa ansiosa por o advento dessa crítica para acabar com todas-as-críticas, que faça justiça à pretendida originalidade da poesia atual, não passa de uma tentativa de niquelar a irritante normalidade e eficiência dessa mesma poesia por meio da chantagem cult de um metadiscurso que assomaria para pôr as coisas em ordem, problematizando uma farsa com outra.
(*) Considerações a partir do artigo " Ler a nova poesia, quem é capaz?"
de Cândido Rolim, publicado aqui no Overmundo.
http://www.overmundo.com.br/overblog/ler a nova poesia quem-e-capaz
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e Em o Assoalho Duro (2007).
Número de frases: 34
Despacha no blog www.poesia-pau.zip.net
Perfil MARY SALDANHA
d' aprés Millôr Fernandes
Mary Saldanha nasceu em Natal, capital do Rio Grande, o do norte, tal e qual o ex-presidente Café Filho, o escritor e folclorista Luís da Câmara Cascudo, o ex-jogador de basquetebol Oscar Schmidt e o cantor Gilliard (lembra-se de ele?).
Poderia ser gaúcha, mas como -- já foi dito aí em cima-Y nasceu no Rio Grande do Norte, é potiguar mesmo.
Como potiguar quer dizer comedor de camarão, ela não só come como cozinha ótimas receitas com os tais crustáceos decápodes.
Mas não dá as receitas.
A não ser que você implore.
Pra criar usa falanges, carpos e metacarpos, além de eminências tenares e eminências hipotênares, lumbricais e interósseos, isto é, músculos e ossos daquilo que os anatomistas chamam de quirodáctilo.
Calma, calma, não corra aos dicionários;
quirodáctilo é o nome científico das suas mãos.
Aliás, com as suas duas mãos consegue executar uma terceira para os melhores tecidos que faz.
Tem uma filha dourada a quem chama de Thera, misteriosamente nascida, há alguns poucos anos, da raça cocker spaniel.
O que ela faz, e o que não faz deixa para os outros fazerem.
Tem muitos amigos, nenhum inimigo, quatro irmãs (uma família essencialmente de mulheres), um monte de sobrinhos, uma máquina de costura velha, uma porção de teares manuais, muita determinação profissional e quando crescer quer ser menina outra vez.
Já foi jornaleira e revisteira, mas cansou-se das letras.
Tem uma saúde de ferro, mas preferia de alumínio, que não enferruja.
É mulher, o que até um cego pode ouvir com clareza.
Fala muito, mas às vezes cala e consente.
Muitas vezes até se arrepende e acaba colocando fogo às vestes depois de botá-las bem longe do corpo.
É aficionada por filmes cabeça, embora nem sempre tenha cabeça pra entender certos filmes não-cabeças.
Rambo, nem pensar --e Rambo pensa?
Uma das suas ambições era ser rapsoda, mas contenta-se mesmo em ser designer:
para isso estuda numa Universidade Católica, muito cristã por sinal.
Entrou na universidade já madura, mas não pretende jogar as cascas fora.
Perfeccionista nata, tece tecidos que são o melhor que existem no artesanato local.
E nos distantes também.
Vive atarefada, o que a torna azafamada e, mais que isso, afamada.
Sua agenda de papel lembra bíblias evangélicas:
repletas de texto e rôtas.
Adora voar em aviões de rosca, mas nunca entrou num.
De a rosca mesmo, ela só conhece mesmo é o furo.
E a massa.
E as maçãs.
É professora de mãos cheias.
Mas como a maioria dos professores, quase sempre sai da lida de mãos vazias.
E é ótima nas artes do artesanato em teares.
É tão boa que está sempre dando cursos em ali e alhures.
E dalhures.
É a professorinha de tecelagem mais viajada da Guaicurúndia.
Já esteve em terras distantes:
Porto Murtinho, Ponta Porã e outras plagas.
Até esteve além mar, conhecendo o artesanato das terras lusitanas.
Possui dois instrumentos de audição, dois de visão, um (bifurcado) de olfato, um gustativo (devidamente alimentado), mas é boa mesmo no tato, principalmente quando fica cheia de dedos.
De aí sua habilidade com as mãos.
Gosta do vento (não fosse natalense), mas não vive de brisa.
Por isso, precisa vender seus tapetes, caminhos de mesas, jogos americanos, mantas e cachecóis, que produz trabalhando de sol a sol, isto é, de auroras a arrebóis.
Por isso, pra encerrar este perfil feito cara a cara, ela convida:
«Passa lá.
Passa lá no Ateliê Terra & Trama.
Fica em Campo Grande (MS), na Cândido Mariano, 2570, quase esquina com a Dr. Arthur Jorge, pertinho da Maternidade.
Você também pode chamar 67.3321.6994 ou o telemóvel 9903.1252».
Depois dos nossos comerciais escancarados, com as devidas escusas aos leitores do Overmundo (um comercialzinho de arte só, gente!),
só desejamos informar que numa pesquisa que fizemos entre seus alunos, clientes e usuários (da tecelagem), descobrimos que 63,3 por cento acham tudo o que ela faz sensacional.
Os outros 36,7 por cento não responderam por uma questão de ética:
são da família.
Ela tem trabalhado muito e sabe que está com os dias contados (exatos 17.197 dias quando este texto foi concluído).
Número de frases: 57
Campo Grande, 6 de fevereiro de 2007 Luca Maribondo Em uma noite qualquer de janeiro, ao final dos merecidos aplausos por o espetáculo O Avarento, Paulo Autran pedia um segundo a mais da atenção da platéia para recomendar A Casa dos Budas Ditosos, monólogo interpretado por Fernanda Torres e que dividia o mesmo palco do Teatro Cultura Artística com seu espetáculo.
Muito mais do que política de boa vizinhança, o ator indicava uma das obras mais libertárias dos últimos tempos.
Adaptada do livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro, a peça conta a vida sexual de uma mulher de 68 anos que viveu sua vida inteira em função do prazer, sem pudor algum.
A o sair da sala, ouvi um casal saindo e comentando sobre este espetáculo:
«Fulano assistiu essa peça que ele indicou, e disse que é pornô."
Imediatamente comecei a rir.
Como pode um espetáculo ser «pornô» se a protagonista fica as duas horas da peça sozinha, sentada numa cadeira, mostrando apenas as pernas do joelho para baixo?
Intrigado, pesquisei a definição para pornográfico no Houaiss e concluí:
se for no sentido de «explorar o sexo tratado de maneira chula», definitivamente a peça não tem nada de pornô.
Agora, se interpretarmos como uma peça «que demonstra, descreve ou evoca luxúria ou libidinagem», aí sim, é deliciosamente pornográfica, no sentido menos pejorativo possível da palavra.
Considerando que o texto é considerado bastante avançado até mesmo para pessoas que se acham com mente mais aberta, fiquei imaginando o quanto os relatos daquela senhora baiana não soariam como um escândalo agressivo aos ouvidos da classe média-alta paulistana que vai ao Cultura Artística para pagar dez reais numa taça de espumante nacional.
Suas histórias seriam suficientes para que muita gente se levantasse da poltrona logo nos primeiros vinte minutos, mas não é exatamente isso o que acontece, ou esta terceira temporada na cidade não teria sido prorrogada até agora.
E jamais estaria naquele palco elitista.
O fato é que Fernanda Torres se entrega de uma forma tão intensa à personagem, conferindo-lhe um senso de humor e uma presença de palco tão impressionantes, que a platéia fica cativada do início ao fim, hipnotizada por o relato daquela libertina fantástica.
A primeira vez que vi assisti a esta peça foi em sua primeira temporada, no pequeno e intimista teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (onde paguei menos de dez reais por o ingresso, vale frisar).
Já no teatrão chique de mais de mil lugares no meio dos puteiros da Nestor Pestana, o espetáculo continua excelente e a transposição do relato para o formato de uma palestra funciona ainda melhor.
Assistindo por a segunda vez nesta temporada, percebi que aconteciam dois espetáculos em paralelo, um de frente para o outro:
a atriz e seu monólogo, e do outro lado as reações de uma verdadeira horda de velhinhas chiques e cintilantes, ostentando jóias aparentes, todas maquiadas e perfumadas como se fossem a um baile.
Em meio a elas, vários casais de classe média em geral mais velhos, todos igualmente bem-vestidos e reagiam da mesma maneira, apesar da ausência dos paetês, lantejoulas e maquiagens pesadas.
Com certeza muitos estavam ali por ser um sucesso de bilheteria com uma atriz da Rede Globo em cartaz.
E isso não basta quando o espetáculo não é comédia, mas felizmente a peça em questão preenche todos os requisitos básicos do grande público de teatro comercial.
Ingressos destacados, poltronas aquecidas com as respectivas bundas, e entra a personagem no palco.
Todos começam a se deliciar com as histórias extremanente bem-humorado de sua primeira relação sexual, seu desvirginamento e as dezenas de peripécias que aprendeu com sua melhor amiga Norma Lúcia (que by the way será interpretada por Hebe Camargo na versão do texto para o cinema, e isso é sempre importante ressaltar).
As reações são positivas e aparentemente liberais, até que ela começa a falar de incesto.
Primeiro vem o tio e a platéia estranha, apesar de ainda se divertir -- chegando a aplaudir em cena aberta a versão sacana que ela cantarola para Eine Kleine Nachtmusik de Mozart.
E então vêm as relações sexuais com o irmão e o teatro mergulha no mais absoluto silêncio que paira por aproximadamente uns dez minutos.
Se as luzes se acendessem, como acontecia na temporada do CCBB, a atriz se divertiria com uma platéia de mil pessoas ruborizadas.
Como toda tortura tem seu fim, o momento tenso passa e ela volta a assuntos mais amenos, trazendo todos de volta para suas zonas de conforto.
Entre uma gargalhada e outra, ela solta alguma como " ( ...)
porque toda mulher já deu o cu ( ...)»,
e a platéia pudica reage com silêncios ou risadinhas abafadas e incômodas.
Essas alfinetadas são constantes, e são feitas com a rara sensibilidade de provocar (e muito!)
sem necessariamente agredir as pessoas que, queiram ou não, são forçadas a encarar diversos tabus extremamente fortes em nossa sociedade, como monogamia, heterossexualidade, castidade, incesto ...
Depois de tanto libertarismo, depois dos aplausos e no caminho até a saída do teatro, fica a cargo de cada pessoa se questionará seus próprios bloqueios ou se vai simplesmente engavetar aquela peça junto com todas as outras porcarias que viu, inclusive ali naquele mesmo palco, e partir para a pizzaria mais próxima logo em seguida.
Mas independente desta escolha, a arte já terá cumprido o seu papel com grande sucesso:
Número de frases: 35
provocar. Em este caso, de forma primorosa, com humor e muita elegância.
Idealizado sob o pretexto de proceder a um mapeamento das experiências escolares dos participantes do Overmundo, e de favorecer a troca dessas experiências, o Projeto Reminiscências de Escola reúne um conjunto de crônicas, enriquecidas com significativo material iconográfico, cujo alcance ultrapassa seus objetivos originais, permitindo uma rica reflexão sobre o sentido do espaço escolar, tradicionalmente entendido como lugar onde alunos, e também professores, se submetem inquestionavelmente à regulação de seus corpos e mentes.
Ocorre que, ao nos dispormos a atender ao convite do Joca -- idealizador do projeto e um de seus colaboradores -- e trazer para o Overmundo nossas memórias ordinárias dos tempos escolares, acabamos conferindo à noção de espaço escolar sentidos subterrâneos que contradizem a idéia de escola como instituição necessariamente baseada em relações de saber e autoridade que reproduzem as hierarquias econômicas, sociais, culturais, étnicas, religiosas e sexuais.
Construídos com as tintas e os pincéis de nossas lembranças particulares, esses sentidos se oferecem como um desvio de traçado que permite vislumbrar a escola como lugar de produção, ainda que sorrateira, de identidades e subjetividades contra-hegem ônicas.
Como foi construído esse desvio de traçado?
Memória, crônica do cotidiano, linguagem e reinvenção da escola.
Existe hoje uma tendência no campo da educação que entende que a «reinvenção da escola» passa por o trabalho com a memória que, realizado por intermédio da narrativa de experiências, traz à tona o passado do qual extraem-se lições que permitem repensar o presente.
É nessa perspectiva, da arqueologia da memória, que o projeto se articula, ao motivar os autores a resgatarem de diferentes espaços e tempos, como numa cartografia, suas lembranças de escola.
Como aponta " Perez (2005):
«Em um tempo veloz e fugaz, em que a alienação, o isolamento e o silenciamento das experiências nos forçam a perder nossa memória coletiva, rememorar e compartilhar memórias é uma ação rebelde que adquire um caráter de resistência política:
a memória compartilhada é uma forma de não sucumbir ao esquecimento que o tempo acelerado da vida social nos impõe."
Em esse sentido, os textos que compõem as Reminiscências de Escola não se constituem como um apanhado fragmentário de recordações individuais, mas como um conjunto coerente de memórias de escola que possibilita pensar a transformação do «agora» por intermédio do exame dos acontecimentos vividos outrora.
Como diz Walter Benjamin (1985), recuperar o passado é indispensável para quem está disposto a não compactuar com a inércia da história.
Para ele, irrecuperáveis são as imagens do passado que não se sentem visadas por o presente.
«Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo que quer apoderar-se de ela (Benjamin, 1985, p. 224).
Por isso, o materialista histórico «considera sua tarefa escovar a história a contrapelo» (id, ibid, p. 225).
Pois, ao meu ver, esta é a tarefa que pode ser vislumbrada nos textos.
Embora o tom nostálgico esteja presente em alguns, o conjunto da produção está longe de se constituir na perspectiva lamuriosa do «ai, que saudades que eu tenho ...»,
trazendo, ao contrário, imagens da escola que relampejam irreversivelmente no momento em que são reconhecidas no agora.
Os acontecimentos «presentificados» nas narrativas memorialísticas contêm o germe da mudança porque se alimentam da utopia, e não do choro por o leite derramado.
Por isso, são lembranças instituintes, jamais conformistas.
A teoria da história da modernidade, ao desvalorizar o passado como «águas passadas» em detrimento do futuro que, supostamente, conteria o progresso, o novo, dificulta que entendamos as origens como opção de construção do devir.
A essa opção, Boaventura de Sousa Santos chama de conhecimento-emancipa ção, que permitiria conviver com as experiências esquecidas e com as aspirações impronunciáveis, «através da prática de uma sociologia das ausências, que nos permite conhecer o que ainda não existe, numa realidade que sendo tão nossa nos escapa» (apud Perez, 2005).
Não me parece demais supor que os textos reunidos em Reminiscências de Escola se articulam como conhecimento-emancipa ção.
O texto «Reminiscências reúnem amigos após 43 anos», de Nivaldo Lemos, explica perfeitamente que o trabalho com a memória pode romper com a idéia de que a história é um tempo homogêneo e vazio, sendo, ao contrário, um tempo saturado de ' agoras ' (Benjamin, 1985, p. 229).
Além do trabalho com a memória, a «reinvenção da escola» não pode prescindir das contribuições daqueles que, no dia-a-dia, fabricam a história da escola, fazendo do espaço escolar um lugar de negociação de saberes, valores, culturas e linguagens.
Michel de Certeau, autor que prezo porque me ensina que o mundo não está dado, mas que pode ser fabricado, diz que o homem ordinário não se submete passivamente aos desígnios da razão técnica que anseia por atribuir lugares e papéis fixos para pessoas e coisas.
Ao contrário, graças às artes de fazer, às astúcias sutis, às táticas de resistência, o homem comum escapa astuciosamente ao instituído, instituindo mil maneiras de reinventar o cotidiano, alterando objetos e códigos e reapropriando-se do espaço e do tempo a seu próprio jeito (Certeau, 1994).
Entre outras coisas, é isso que as crônicas de Reminiscências de Escola mostram -- que o espaço escolar não é algo dado e fixo.
O recurso de escavar nossas memórias nos permitiu trazer à tona fatos insignificantes de nossa vida escolar que revelam que as artes, as astúcias e as táticas têm o poder de conferir a esse terreno uma dimensão contrária à da regulação, como pode ser exemplificado nessas colaborações de Ériton Bercaço, André Pêssego e Nivaldo Lemos.
Em Nossa mãe e o muro que nos unia -- Reminiscências, o muro do título, construído por o Estado para cercar a casa-escola em que moravam Ériton, seus três irmãos, seu pai e sua mãe, professora da escola Pluridocente Aliança, foi «implodido» por a árvore plantada por um dos irmãos.
«A árvore cresceu, suas raízes surgiram por sobre a terra e racharam o muro, os galhos e folhas racharam o céu, fizeram sombra para a gente brincar.
Mas, a ousadia da árvore foi mal vista.
Depois que minha mãe se aposentou, mudamos de lá e fiquei sabendo que a castanheira foi cortada ...
Ela não sabia que não podia ir além daquele muro cinza, que nos cercava."
Em Retrato d' uma escola, sem retrato, André conta o seguinte episódio ocorrido numa escola oficial, fruto de convênio Igreja / Estado, em Gilbués (Piauí), na década de 50.
«Eu, se para os olhos dos adultos e das professoras tinha um mérito -- já entrei alfabetizado, já sabia tabuada ' na ponta da língua ' -- para com os demais meninos:
débito enorme, impagável.
Era de tal ordem a rixa que eu evitava dar resposta certa do que sabia.
Não me convinha -- ficava mal visto, não ia ter com quem vadiar.
O recurso mais usual era fingir que não sabia.
Mesmo correndo o risco de pegar algum castigo, os usuais (copiar tantas vezes, não sair para o recreio, etc)."
Em Dores e alegrias de uma escola à beira-mar, Nivaldo traz a seguinte passagem de sua experiência na Escola Estadual Darcy Vargas (Ilha da Marambaia/RJ), em que chegou em 1965 para cursar o antigo curso ginasial.
«Para fugir da rígida disciplina do colégio, eu e Célio nos tornamos coroinhas e passamos a acompanhar o padre nas missas realizadas nas ilhas.
Como eu sabia que ele era chegado a um vinho (certa vez de tão bêbado celebrou um casamento em cinco minutos, repetido sobriamente depois a pedido dos noivos), na hora da consagração colocava mais água do que vinho no cálice.
O padre ficava irritadíssimo e chegava a se servir ele próprio, subvertendo os cânones cerimoniais.
Depois, dava-me uma bronca e acabava achando graça.
O resto do dia a gente passava à toa por as praias desertas, retornando só à tardinha ao colégio."
Se não fossem as artes e as astúcias, o muro poderia ter constrangido a infância de Ériton e seus irmãos, André contaria com a simpatia das professoras, mas com a irrestrita antipatia de seus pares, e Nivaldo teria sucumbido ao férreo regime disciplinar da escola.
De essas e de muitas outras táticas se utilizam um número infinito de crianças e jovens para sobreviverem às situações difíceis e desconfortáveis que a escola lhes impõem sem que, na maioria das vezes, os professores disso se dêem conta.
De aí a importância desse conjunto de crônicas, que, ao puxar por a memória, podem contribuir para o entendimento de que é impossível se pensar currículos oficiais sem considerar as inúmeras maneiras por as quais crianças e jovens subvertem a sisudez da escola através de práticas que a instituem como lugar de pertença, aonde são deixadas marcas alteritárias e construídas utopias.
Outra dimensão dos textos de Reminiscências de Escola que concorre para que o projeto possa trazer contribuições à necessária «reivenção da escola» é o gênero das colaborações que se aproxima da crônica.
Segundo Coutinho (1986), " Produto de notícias efêmeras, aparentemente despretensiosas, a crônica nutre-se do dia-a-dia, da vida cotidiana, da pressa dos homens, da linguagem despojada e coloquial, da gratuidade, de conversas, do humor lírico ou amargo, enfim:
retira o máximo do mínimo».
Para dimensionar a importância deste gênero na fabricação do cotidiano, especificamente do cotidiano escolar, valho-me mais uma vez de Walter Benjamin.
Colocando em xeque os documentos historiográficos oficiais, cuja empatia com os vencedores de sempre confere à escrita da história uma dimensão gloriosa que exalta os representantes dos dominadores, Benjamin (1985) aponta a crônica, identificada com os restos, com os detritos, com o «desimportante», como uma saída para essa versão oficial da historiografia.
Segundo ele:
«O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história» (p. 223).
Entretanto, não foi apenas a atenção aos «pequenos acontecimentos» das trajetórias escolares que me pareceu conferir importância aos relatos do Projeto.
A estratégia própria do Overmundo, dos textos colaborativos, concedeu às escrituras a força de linguagem, de palavra trocada que, em se dando a ler, perde a arrogância de bastar-se a si mesma, precisando do eco que instaura no leitor.
Para Certeau (1990), essa escritura, que tem uma dimensão literária, distingue-se do sistema científico que se recusa a ceder a palavra.
E essa dimensão literária certamente está presente nos relatos que compõem Reminiscências de Escola.
Manoel de Barros, em Gramática expositiva do chão (Barros, 1990), diz que «nosso paladar de ler anda com tédio».
Que o digam aqueles que se vêem constrangidos a ler os textos que falam de escola numa linguagem burocrática que não cede um milímetro de espaço para que os leitores em ela se instalem, se revigorem, buscando em ela subsídios para a transformação.
Esse não é o caso dos textos do Projeto, cuja dimensão poética é um convite à leitura.
Diferentemente daqueles textos em que o que prevalece é a palavra autoritária que permanece sempre a mesma, como se tivesse uma existência monumental, sagrada, que proíbe qualquer profanação textual, qualquer reinvenção, nos textos de Reminiscências de Escola a palavra tem uma abertura semântica, é plurissignificativa, fluida, inacabada, dinâmica, convidando, portanto, os leitores a se atreverem a reinventar a escola.
Referências bibliográficas
Barros, Manoel de.
Gramática expositiva do chão.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990, p. 312.
BENJAMIN, Walter.
Sobre o conceito de história.
In:. Obras Escolhidas I:
magia e técnica, arte e política.
São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 222
Certeau, Michel de.
A invenção do cotidiano:
artes do fazer.
Petrópolis / RJ:
Vozes, 1994.
Coutinho, Afrânio.
Ensaio e Crônica.
In: A Literatura no Brasil.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1986 Pérez, Carmem Lucia Vidal.
Lugar, memória e formação de professores.
A escola como centro (re) criador da memória, da história e da cultura local.
Trabalho apresentado no XIII ENDIPE, Recife, 2005.
Disponível em http / www.
13 endipe.
com /paineis/paineis autor / T 918-2.
Número de frases: 90
doc Acesso em 12/12/2007
Em um primeiro momento não se pode definir.
É música?
Teatro? Circo?
Ou Poesia?
Utilizando as próprias palavras do seu idealizador, Fernando Anitelli, é tudo isso, misturado num «Sarau Amplificado»!
Conheci o trabalho do grupo por a internet, através de uma amiga, e, ano passado tive a oportunidade de ir numa das apresentações.
É realmente algo mágico.
A sonoradidade, as cores, os versos simples e belos:
» ... Me jogo da panela, pra em ela eu me perder, me sirvo à vontade, que vontade de te ver ..." (
Pratododia -- Youtube).
O Teatro Mágico é assim, simples e belo como o circo, fantástico e emocional como o teatro, compassivo e verdadeiro como um poema, e assim a vida deve ser ...
O grupo é original de São Paulo mas tem se apresentado em muitos lugares no país, espero que em breve todos possam ter a oportunidade de conhecer e se encantar os excelentes artistas da trupe.
Para quem tá curioso pode fazer uma busca no Youtube e ver trechos de vários espetáculos.
Vale a pena também uma visita no site do grupo:
www.oteatromagico.mus.br Por lá se pode ouvir algumas musicas e ver todas letras!
Eles possuem também um blog onde tem sempre a agenda atualizada dos espetáculos.
Então, «sintaxe à vontade», experimentem, dilacerem e devorem músicas com o tempero de muita brasilidade e civilidade.
Essa é minha primeira colaboração aqui, desculpem se estou sendo redundante na dica, mas fiz uma busca e não encontrei nada a respeito do grupo.
«Todo mundo é um pedacinho do outro! ...
todo outro é um pedacinho do mundo!" (
do Site)
A os que já conhecem, divulguem por aí!
Número de frases: 23
A os que estão se aventurando pela primeira vez no Teatro Mágico, sejam bem vindos!
nos. tal.
gi. a
s. f..
Tristeza e abatimento mais ou menos profundos causados por o afastamento de lugares, pessoas ou coisas que se amam e por o desejo das tornar a ver.
con.
su. me o
s. m. 1. Ato ou efeito de consumir.
2. Utilização de um bem material para satisfação das necessidades econômicas do homem.
O significado de palavras como consumo e nostalgia, aparentemente tão distintas entre si, toma hoje caminhos que se permeiam e se aproximam cada vez mais.
Se poderíamos chamar de nostálgico, algo que não mais existe ou encontra-se distante (de acordo com a definição dos dicionários), então existe uma quantidade enorme de pessoas que se tornaram agora nostálgicas, não por seus entes ou por a recordação de lugares, mas por conta de produtos que foram criados por outrem, e que lhes causaram tal impacto que mereceram, no seu imaginário, um lugar a parte.
Foram produtos planejados para serem consumidos, que ganharam o mercado e desenvolveram relações afetivas com os consumidores, de forma que seu fim precoce, ou não, deixou marcas nos seus «compradores».
Hoje, talvez mais do que antes, devido às variadas formas de acesso à informação, registro e memória, o recall de produtos culturais materiais e imateriais torna-se evidente através desta nostalgia do consumo.
Por exemplo, a volta de certos produtos alimentícios às prateleiras dos supermercados, após algum tempo ausente das casas de Classe Média, denota essa demanda por a nostalgia, da qual o mercado se apropria e manda de volta aos consumidores com um reforço a esse lado nostálgico.
O produto ganha por o mercado um valor extra.
É atribuído a ele o nobre rótulo de «clássico».
Um clássico por ter feito parte da vida cotidiana de diversas famílias por algum tempo, mesmo que de forma superficial, mas que é trabalhado de forma a ter o seu papel supervalorizado no comportamento dos indivíduos.
Os meios de comunicação e difusão de informação, como vitrine destes produtos culturais, exercem papel predominante ao estabelecê-los no imaginário do consumidor.
E se estes produtos chegam até a mídia, é por conta do poder do mercado, que por sua vez parte da aceitação prévia destes produtos por a Classe Média, a quem novamente a mídia se dirige.
Sendo assim, o revival de temas, músicas e produtos é uma tendência que surge da e para a Classe Média, beneficiando o mercado, com o retorno destes produtos, que podem ser considerados até supérfluos e dispensáveis (até porque para alguns de eles, sua permanência no mercado não se manteve).
Em este revival consumista, os produtos culturais retornam associados uns aos outros buscando força no imaginário dos indivíduos, ligando sempre a ações, lembranças e fatos marcantes de sua vida.
O desejo, aliado às ilusões e sonhos criados por o mundo da publicidade, ajuda no sucesso da retomada dos produtos esquecidos de outrora.
Ou seja, uma formação do consumo e de uma nostalgia tardia que se abate sobre os adultos ao alegarem não haver no tempo presente os mesmos ícones e valores que adquiriram em sua infância.
A nostalgia, em si, se configura como um produto que pode tanto ser consumido por aqueles que vivenciaram o contexto escolhido ou simplesmente por aqueles que querem experimentar de maneira diluída uma época que não foi vivenciada.
De a moda ao cinema, da música aos alimentos, dos programas de TV às festas temáticas, tudo torna-se produto de consumo nostálgico, do qual só não se pode prever em quanto tempo se concretizará ou qual será a sua duração.
Uma vez que iniciada, a nostalgia por produtos culturais não terá mais fim, podendo ser resgatada sempre que houver menção ou aproveitamento por parte do mercado.
Tênis Montreal, Palhaço Bozo, calças de boca de sino, Os Trapalhões, Atari, Blitz, Smurfs, Tamagotchi, Salgadinhos Zambinos, Prince, Macarena, MacGyver, Playmobil, Lanchonete Karblen, New Kids on the Block, brincos de argola grande, TV Pirata, Lanches Mirabel ...
são alguns exemplos de produtos e marcas que, bem ou mal sucedidos em suas épocas, podem retornar ao imaginário do público consumidor de Classe Média, por o poder de exposição que tiveram na mídia em suas épocas, que se fixaram na mente dos que eram então jovens ou adolescentes em certa época, e que dependendo do grau de interesse do mercado, podem reconquistar os antigos consumidores, além de ganhar outros novos adeptos.
A possibilidade do consumo da nostalgia parece o tempo todo estar vivo na mente das pessoas, cujas lembranças evocam mais facilmente os produtos do que os momentos.
A todo instante, o consumo de novos produtos pode nos fazer lembrar de produtos aos quais estávamos anteriormente ligados.
Se, por exemplo, uma dona de casa compra um sabão em pó, gostando ou não do seu resultado, ela pode eventualmente lembrar-se dos efeitos que alguma antiga marca fazia nas roupas e como isso interferia em seu trabalho.
Lembranças da vida sem computador, quando tudo era feito em máquinas de escrever.
Quando os jogos de video-game possuíam uma resolução gráfica baixíssima em relação aos novos jogos para computador de última geração.
Ou quando ia-se a cinemas de bairro para ver as aventuras e filmes de sucesso nas férias.
De a mesma forma que, para uma geração, esta nostalgia pode significar muito, para outra, estes produtos não foram assimilados ou incorporados de tal forma que produza efeito nostálgico significativo.
Número de frases: 35
Os exemplos de nostalgia e os produtos podem ser diferentes, mas no final acaba prevalecendo a força das marcas, do mercado e dos bens simbólicos que foram adquiridos, gerando um desejo contínuo de estar susceptível a adotar o revival de artistas, filmes, músicas, entre outros exemplos, como forma de saciar um desejo, que pode ter sido até gerado por o mercado.
O que faço, eu, Rodrigo Sampaio, 25?
Cuido da boa música na bela e tricentenária São João del-Rei, cidade ritualística e musical.
Imaginem-me, maestros.
A andar por o cais do rio com a aba do sobretudo cobrindo metade de meu rosto, em dia frio de inverno;
a fazer com que sob minha batuta se erga o dia quente, no verão chuvoso.
A religiosidade dessa cidade me encarna.
Por outro lado, dentro de igrejas austeras, faço com que as flores se acomodem ao abrigo das narinas, das orelhas, das axilas dos santos.
Desencarno esta cidade.
Deixarei o conservatório de música, voltarei a ser de carne e osso.
Eu também sou dos jornais.
Folheio o jornal, levanto-me, posto-me à janela e vejo a rua sinuosa, quando os lampiões estão quase acesos.
Eu os vejo acesos.
Em meio à algazarra do fim de tarde, o meu ouvido de dentro, expressão de Villa-Lobos ao compor com ele em ambientes barulhentos, ouve meus momentos felizes à frente desta casa, a resposta calorosa do público com longos e sonoros aplausos no pedido de bis.
Meu ouvido de dentro já ouve a fechadura quando, ao virar a chave desta sede por a última vez, saberei que este corriqueiro gesto será o fim de um período de dois anos de muito trabalho, dedicação, lutas, conflitos, alegrias, emoções e, principalmente, a sensação do dever cumprido.
Quanta saudade, minha querida Sociedade de Concertos Sinfônicos, ou simplesmente, «Sinfônica» de São João del-Rei.
Tudo começou em 1997, quando por idealismo, paixão e amor, o já saudoso professor Ary Rodrigues assumiu a presidência da Sinfônica.
Em esta época, ainda jovem no meio musical de São João del-Rei, tornei-me membro do coro no naipe dos baixos.
A sede se encontrava em situações precárias;
a orquestra e coro, suponho que desarticulados, pois apesar de quatro anos de música no Conservatório Estadual nunca tinha ouvido falar da Sinfônica.
Começaram os trabalhos administrativos e musicais e aos poucos a sede ganhou um novo forro para seu salão principal.
Foram retomados os ensaios do coro e orquestra.
Em essa mesma época, ingressei na orquestra Lira Sanjoanense também no naipe dos baixos. (
Minha iniciação musical aconteceu na Associação dos Coroinhas de Dom Bosco da Catedral do Pilar, onde aprendi flauta doce e participava do coro dos coroinhas).
Em o início era um casamento perfeito.
Tudo era novidade e havia sempre o aprendizado.
E a possibilidade da prática musical era o principal benefício daqueles tempos.
Fui aprimorando meus conhecimentos musicais dia-a-dia tanto nas orquestras quanto no Conservatório.
Ingressei também no Bacharelado em Piano por a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), mas sempre com um pé aqui e outro em Belo Horizonte.
O tempo foi passando e sete anos após meu ingresso nas duas orquestras aconteceu um fato que marcou o início de uma trajetória curta e rica que viria a seguir.
Era início de 2003 e retomamos as atividades do coro e orquestra da Sinfônica para realizarmos o concerto de reabertura do Teatro Municipal.
Em esta época, se não me falha a memória, assumi a função de preparar o coro por não ter quem fazê-lo.
Apesar de novo e desafiador para quem não tinha experiência neste trabalho, assumi a tarefa e após o adiamento da reabertura do teatro (marcada para início de fevereiro), marcamos nossa primeira apresentação para o dia das mães na Igreja de São Francisco de Assis.
Em aquele 11 de maio de 2003 foi despertada em mim a vontade de fazer algo mais.
A o ouvir a primeira parte do concerto que era só orquestral, pensei com mim mesmo, as coisas não estão no seu lugar.
Tudo está embolado, confuso, e neste meio do caminho, a intenção musical perde-se também.
Não é justo com os músicos que ali dedicam parte de seu tempo para manterem a tradição musical sanjoanense trabalharem aquelas peças daquela forma, pois as notas eram executadas, mas era preciso apenas limpar e pôr cada coisa no seu lugar;
faltava ser especial, faltava ter algo mais.
Em esta mesma época comecei a ensaiar o coro da Lira Sanjoanense para a tradicional festa da Assunção de Nossa Senhora.
E foi ali, na Catedral do Pilar, na missa solene do dia 15 de Agosto de 2003, que fiz minha primeira regência à frente de um coro e orquestra.
Eu que um dia estive ao lado do altar ajudando as funções litúrgicas e durante estas funções apreciava as orquestras, subi lá em cima, no coro da igreja, com a batuta em mãos, pronto para o ecoar dos sons aos meus gestos.
E como foi especial aquele dia ...
O ouvido de fora me chama para a cidade.
Os lampiões acesos na rua sinuosa, os velhos acolchoados conversando de braços cruzados, o garoto passando com o embrulho da padaria.
Ignoro o jornal, folheio o jornal.
Penso na cidade.
Para mim, acima de tudo, acima de seus problemas, de suas cúpulas políticas, de suas cúpulas com cruzes que apontam o céu, tem essa riqueza e qualidade de um repertório próprio (do chamado Barroco Mineiro), tem a qualidade dos músicos que hoje residem em São João Del Rei, pois muitos que se aperfeiçoaram fora (com graduação em música, inclusive), hoje atuam aqui podendo devolver à cidade uma maior gama de conhecimentos adquiridos.
Ademais, considero com prazer a vinda de músicos de outras paragens e que atuam na cidade graças ao vínculo empregatício no Conservatório ou na UFSJ.
Sim, temos três orquestras e quatro bandas oferecendo aos músicos da cidade um campo de atuação muito rico e diversificado, temos o Conservatório Estadual de Música, que possibilita o acesso da comunidade ao aprendizado musical gratuito a partir dos 6 anos de idade, e que hoje em dia possui cerca de 1500 alunos.
Alvíssaras!, a criação do curso de música na UFSJ que ainda engatinha, mas que com certeza colherá muitos frutos.
As luzes dos lampiões ao longo da rua sinuosa, que vejo apagadas.
Nenhum sinal dos velhos, crianças passam de bicicleta.
Maestros, deixo a Sinfônica.
É o fim, é o recomeço?
Giro a chave, tranco a porta, fico sobre o degrau:
Número de frases: 55
o ouvido de dentro me diz que sim.
por Ronald Augusto e Cândido Rolim
O conceito de cânone como algo incondicional, pressupondo a neutralidade de um conhecimento-catálogo, supostamente desinteressado e que exerce seu poder por meio de uma regra geral de onde se inferem regras específicas, só pode se coadunar (e aqui podemos lembrar Borges) com a idéia de religião e de cansaço.
Em o que respeita à área das letras, hoje, a academia e certa mídia especializada constituem a instância de poder de cuja função se espera a classificação do que é e do que não é canônico, fazendo, assim, em versão secular as vezes da figura do Concílio da Igreja que tem ou tinha como atribuição decidir quais os santos passíveis de canonização.
Ora, sob esse aspecto a idéia de cânone reproduz um modelo que mais aprendemos a apreciar do que a prestar-lhe respeito crítico.
Analisando o significado do cânone ainda do ponto de vista religioso, sabe-se também que sob tal rubrica era concebida a lista autêntica dos livros considerados inspirados divinamente.
Em esta acepção, opõe-se o livro apócrifo.
Em outras palavras, o livro apócrifo carece de identidade e não é endossado por sopro divino.
Isto posto, pode-se considerar o seguinte.
Ora, a estética da modernidade está calcada, em boa medida, justamente numa espécie de elogio da escritura apócrifa em prejuízo do exemplar canônico, autárquico.
Seu interesse se direciona para o texto-colagem, como forma de diversão plagiotrópica, onde a intertextualidade, a metalinguagem e a ironia redimensionam o papel centralizador do autor.
A linguagem apócrifa da contemporaneidade embaralha cópia e original e diz que quem engendra o texto de chegada -- texto do qual o leitor se ocupa a cada derradeira leitura -- é o atrito entre os diversos textos laterais, anteriores e posteriores a ele.
O autor é, portanto, a máscara cambiante que afivelamos à tradição para melhor ocultar seu rosto terrível.
Assim, a modernidade, desierarquizando as linguagens, movimenta-se em oposição ao cânone.
Em a verdade, ela antes treslê do que nega esta forma de condensação da informação.
Como transculturação da Ilustração, a modernidade se caracteriza por a secularização total, isto é, investe num questionamento sistemático -- não importa em que esfera do saber -- daqueles preceitos e conceitos impermeáveis, cujo efeito sobre nossos afetos e mentalidades é, em muitos aspectos, arrasador.
No entanto -- e aqui poderia-se-falar numa contradição entre termos, a modernidade admite suas investidas canônicas ao mesmo tempo em que opera através de sucessivos lances dessacralizantes.
A impossibilidade de um cânone hegemônico é defendida por a modernidade através do pensamento crítico de artistas e escritores como Duchamp, Nietzsche, Freud e Pound (não obstante o conceito de paideuma do último).
Em contrapartida seus epígonos, ou os que se sentem herdeiros dessa linhagem, mais por pragmatismo que por incompetência, tendem a instituir algo como um contracânone, emergente e alternativo, em que os textos destes pais fundadores ocupam o ponto mais alto.
Ponto de fuga e de virada, interessado em redefinir posições da força e de dominação.
Entretanto, a entronização de uma nova perspectiva canônica patrocinada, por exemplo, por o relativismo multicultural, relega a segundo plano a pergunta decisiva acerca da razão de ser de qualquer cânone e suas eventuais reencarnações.
Até onde podemos supor, parece tratar-se, grosso modo, de convencional substituição, e a este respeito ocorre-nos o seguinte pensamento de «Hannah Arendt,» o substituto ainda tem alguma coisa a ver com aquilo que vai substituir».
A concepção de cânone como algo culminante, acervo de obras acima de qualquer suspeita, força simbólica capaz de nortear a formação ou o projeto utópico de uma identidade nacional, começa a ceder terreno a uma angulação mais insignificante, menor, ou que retroage até a esfera privada.
Os cânones se configuram, então, a partir do registro do irredutivelmente pessoal, dos condicionamentos subjetivos.
São os poetas que acabam por dar nome às escolas.
Aquela forma exclusivista de cânone não precisa ser necessariamente eludida do nosso horizonte de referências, o que acontece é que seu lugar já não é mais central nem determinante.
Resta dizer que, talvez, ainda seja de alguma utilidade atravessar -- mesmo que com um certo desconforto -- a série dos cânones históricos para se chegar ao entendimento do não-cânone da contemporaneidade que aceita a parcialidade por se recusar ao consolo metafísico dos modelos consagrados.
O objetivo não é mais canonizar, porém passar antropofagicamente através da medula do (s) cânone (s).
Em qualquer âmbito artístico onde atue um olho crítico, prepondera, quase sempre, a fuga da vigilância de uma ordem estética universal, ditada de cima.
Como a modernidade notabilizou-se por a prevalência da crítica sobre o cego arranjo místico do instrumento, torna-se perfeitamente plausível a existência de uma pluralidade criadora, arredia às essências ditadas por um conduto estético.
Apesar de se dispor a um jogo mais franco e aberto com a multiplicidade, o artista moderno não abre mão de um comportamento de linguagem particular.
Assim, quanto à valoração de uma certa pluralidade (se seria pasteurizante ou não), vale dizer que, se a unicidade estética pretendida (e fundada) por o cânone frustra a liberdade radical da modernidade, uma pluralidade onde tudo cabe e tudo se aceita, por sua vez, soa como um comportamento acrítico ou, pior, como um atestado de limitação e impotência de se levar a termo um projeto estético mínimo.
A suposição de que a contemporaneidade preconiza o ecletismo regressivo, ou o pluralismo anódino, faz um certo sentido na medida em que estamos experimentando, como nunca, o assomo de realidades híbridas e narrativas históricas cada vez mais polifônicas e fragmentárias que requerem, portanto, abordagens inconclusivas e indecidíveis.
Tudo isso também deita raízes num estado de espírito, digamos, finissecular e um tanto retrospectivo tendente a desbastar o gume dos impasses e dos atritos em benefício da negociação e da tolerância -- às vezes puritana, como é o caso do viés politicamente correto dos fast thinkers.
Assim, haveria tempo e vozes para tudo sem o risco da superficialidade?
Acreditamos que não, pois o projeto poético parte de uma condensação da linguagem, decorrente de um rigoroso processo de escolha e configuração de signos.
A antinomia entre novo e velho é tipicamente modernista.
De outra parte, a contemporaneidade pós-moderna dispõe deste oxímoro de modo diferente.
O novo e o velho convergem para um presente sem margens, eterno, que os anula.
O tempo se espacializa, não é mais sucessão.
É mosaico simultaneísta.
Assim, o novo não se concebe mais como reação ao convencional, ao perempto;
o novo -- agora um fait accompli -- se detém apenas como mais uma possibilidade performativa tão válida como qualquer outra:
pressauro (Augusto de Campos dixit).
Por isso, não é raro ocorrer na poesia de agora-agora o pastiche do passado assim como do futuro.
O fato é que, oscilando para trás ou para frente, a poesia contemporânea incorpora como um fim aquilo que, seja para a tradição, seja para a modernidade, era tão-só um meio, a saber, sua mise-en-scène reivindicativa de lances utópicos:
um novo éden, um canto contra a usura, um mundo antes icônico que canônico.
Evidente que o poeta pode manejar um cânone das mais variadas formas.
Indício de atualidade, isto é:
se o fizer com radicalidade, fazendo-o alcançar uma transitividade, uma vez que a pregnância, a intransitividade e a suficiência estão na raiz do cânone.
Um projeto radical e novo de linguagem respiraria dentro de uma forma cristalizada?
Seria possível o acróstico, o epinício, a sextina, o soneto, senão como reutilização desconstrutiva, irônica e auto-referente?
Os poetas contemporâneos não se envergonham de um certo virtuosismo técnico a que se submetem ludicamente.
Transitam com leveza por o círculo vicioso da competência.
Sua erudição é um banquete após uma expedição de conquista.
O refinamento é tudo.
Em uma espécie de réplica soft ao politicamente correto, re-instauram o poeticamente correto.
Se a geração anterior, representada por os escritores do alto modernismo e das vanguardas de 50 / 60, não dominava a arte extremamente difícil de ser sincero sem ser ridículo, esta pelo contrário, domina-a, mas com tal virtuosismo que chega ao ponto de transformá-la em algo empetecado, uma variedade de cinismo fashion, um esnobismo.
A força de se desfazer dessa forma de ingenuidade (à qual se entregou o modernismo, e do mesmo modo as vanguardas), paga-se um tributo cruel a esta inteligência saturada, secular, mundana;
forma rarefeita do impacto uniformizante da tecnologia digital.
Ronald Augusto Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004).
Blog: www.poesia-pau.zip.net
Cândido Rolim Poeta e ensaísta.
É autor de, entre outros, Pedra Habitada (2002), Exemplos Alados (1997).
Tem artigos publicados em sites de literatura.
Número de frases: 66
A Favela Prainha fica no município de Duque de Caxias na baixada fluminense do Rio de Janeiro que possui 800 mil habitantes é a sexta cidade mais rica do Brasil, porém, a riqueza é muito concentrada.
A cidade é partida não apenas por a linha do trem.
A banda de lá com cultura e lazer, a de cá reprimida, calada e sem direito a nada.
Em a semana em que todas as metoreologias e cartomantes pessimistas indicavam chuva e mau tempo para o sábado, dia 21 de junho, o que poderia «melar» a festa preparada por os moradores da favela Prainha e favelas vizinhas durante tanto tempo, sendo eles co-patrocinadores de suas idéia.
Eles produziram filmes sobre a comunidade e seus personagens, isso para agitar a comunidade, elevar moral e mexer com o brilho ofuscado da identidade do bairro.
Entre o otimismo da vontade e o pessimismo da razão, ficamos com o primeiro e seguimos na luta.
A festa é a primeira sessão de cinema das redondezas.
O Cineclube Coaxo do Brejo tende a dar voz e vez para a cultura local desenvolvendo e registrando-a.
A primeira sessão contou com a participação do grupo Tribo Negra do Afroreggae, de Vigário Geral, que abriu o evento.
A gurizada da favela se amarrou e todos dançaram.
De o menor de no máximo dois anos, aos setentões.
O MC João Xavi de São João de Meriti, após ser pego de supressa tipo Faustão, não afinou o tom e entoou o ar e o tom certo que a favela gosta e quer ouvir:
cultura, emprego e lazer.
O mano vindo da 5 de maio, também representou muito bem, Bob-ES (que lembra «Malcon-X» à lá Brasileira), é negro e a música do gueto, do pobre e preto ocupando os espaços antes vazios.
Bom, você pode me perguntar, cadê os filmes, afinal isso é um Cineclube, não é?
Pois bem, amigo!
Em aquele momento o curta metragem da Cidade de Deus-.-CDD), «O que é favela?»,
do mano Ulysses, já estava tomando forma nos olhos antes fundos, vazios e sem perspectivas.
Logo em seguida, o curta que tratava da história local seria exibido.
Todos esperavam por este filme, os pedidos eram muitos:
Cadê o filme?,
Filmou minha casa?
Eu saí no filme?
nos perguntavam aflitos.
O povo que sempre foi enganado pedia para não enrolar mais e que o filme fosse logo passado.
Quando o Coaxo do brejo (o curta) pintou na branca e pálida tela, dando cor, todos se viam e davam vida ao evento e interagiam com ele.
Olha ali!
Eu conheço?--
diziam eles.
O reflexo da luz do projetor na tela, mostrava nos olhos dos guris uma luminosidade sem igual, antes nunca vista.
Pareciam vaga-lumes, mas ainda não tinha acabado.
O coletivo ANG formando por os irmãos Cabeça, Big jam e Kiala da favela vila ideal, com as rimas de improviso fecharam a conta da noite.
Muita atitude e ousadia do inicio ao fim.
Assim que é o Coaxo do brejo, que já nasceu grande e com muita responsabilidade e que só aumenta a cada dia.
Até a próxima sessão deste cinema grande e diferente!
por Bender Arruda
Número de frases: 36
cineclubecoaxodobrejo@gmail.com O primeiro aviso veio por e-mail.
A assessora de imprensa do teatro onde ' seu ` Pedro da Rabeca ia tocar alertou:
«Olha, não vai ser fácil entrevistar ele não.
Ele quase não fala, é bem ' do interior ' mesmo.
Caladão, na de ele.
Mas você pode tentar, se quiser».
O segundo aviso foi dado por o Marcelo, o diretor do teatro, minutos antes da entrevista.
«Seu Pedro quase não fala, ele é tímido e talvez nem saiba como responder para você.
Vá com calma, com muita paciência, talvez você consiga».
Eu não sei se foi porque estávamos só nós dois e mais o filho e o amigo de ele, seu Milton, o tocador de pandeiro que acompanha o show e também faz as vezes de backing vocal, ou se foi porque ele estava nervoso e desatou a falar para se acalmar.
Sei que «seu» Pedro falou, falou e falou, contou histórias de quando era criança.
Emendou com a história da compra da «rebeca» que o acompanha há quase 40 anos, depois com as rezas que faz em maio em louvor a Nossa Senhora.
Falou também que a esposa sente ciúme da «rebeca».
Contou que quer gravar um CD, que o filho nunca tinha visto um teatro.
Que faz roça de dia e toca de noite até a hora que o sono vem ...
Entre uma história e outra, pausa para tocar -- «uma serenatinha para a senhora», ele disse.
Depois, um belo show de mais de uma hora, com baião, cantiga de reisado, forró, samba e prosa com uma platéia curiosa e atenta.
Ver a simplicidade daquele homem encanta e pensei mesmo em transcrever a entrevista do jeito que ele fala, mas não teria a mesma graça, a mesma poesia.
«Seu» Pedro conta que o interesse por a rabeca apareceu quando ainda era pequeno e via o avô tocar.
«Eu vivia pedindo a ' rebeca ` de ele, insisti tanto que um dia ele disse: '
toma menino véi, leva logo esta rebeca pra ti, mas eu sei que tu vai é quebrar ela, porque tu não sabe tocar é nada '.
Aí eu levei, pedi para o meu pai trocar as cordas, ajeitei ela todinha e comecei a tocar.
A primeira música que aprendi foi uma de divindade, musiquinha de reisado, aí depois disso eu não quis saber mais de nada, porque quem gosta de tocar não quer mais outra coisa, não», lembra.
Modesto, diz que seria um grande músico se tivesse tido a oportunidade de estudar.
«Eu toco porque aprendo a música na hora que eu escuto.
Eu sou ' tão de um jeito ' que se a senhora pedir para a eu tocar uma música eu toco, mas não sei dizer que tom é aquele que eu toquei.
E eu acho bonito demais quem sabe dizer os tons todinhos, explicar o que foi que tocou».
A os 62 anos, ele sonha com o primeiro CD, para poder deixar registrado o que aprendeu nos mais de 45 anos enrabichado com a rabeca.
«Eu tenho vontade demais de ter o meu CD, mas o pessoal diz que tem que ter doze músicas só da gente mesmo ...
aí eu não sei.
Só se eu gravasse com música dos outros, mas aí eu não sei se pode, né?
Se aparecesse um jeito de eu gravar, eu ia achar bom demais».
O dia-a-dia do «seu» Pedro é igual ao de todo trabalhador de roça.
Ele mora no Roncador, zona rural de Timon (MA).
Acorda cedo, vai cuidar da plantação, corta lenha, faz trabalho braçal.
No meio da entrevista, me mostra as mãos calejadas da peleja com enxada e diz que de noite é hora de ser mais feliz um pouquinho.
«Eu pego a minha ' rebeca ` e fico tocando.
Minha ' véa ' reclama, que ela tem um negócio de ver uma tal de novela todo dia e diz que eu atrapalho ela.
Aí eu saio logo de perto, vou para a casa do forno e fico tocando até o sono chegar.
Ela pergunta se eu não abuso de tocar, eu digo logo a ela que não abuso não, que fico alegre quando estou tocando».
O violinista Sérgio Mattos, músico erudito e rabequeiro, foi quem apresentou Pedro da Rabeca ao público de Teresina.
Fez questão de esclarecer a diferença entre o instrumento e o violino, considerado por muitos como «o primo rico».
«Uma rabeca não é só um violino mal feito, como muita gente pensa.
É um instrumento especial porque cada rabeca é única, ela não é produzida em série.
Cada uma traz com si uma grande história», disse.
Taí «seu» Pedro e a de ele pra confirmar.
Número de frases: 46
Fala-se muito -- pelo menos aqui no Japão -- dos cem anos da imigração japonesa ao Brasil que serão comemorados no ano que vem.
No meio dessa história, estão os cerca de 1.500.000 japoneses e seus descendentes.
São pessoas que, apesar de viverem num país miscigenado e de serem brasileiríssimas, ainda são reconhecidas como «japonesas», seja nas piadas, seja na relação social com os brasileiros considerados mainstream.
Em seus documentários, o paulistano Hélio Ishii vem procurando desvendar as inúmeras questões por trás do movimento migratório Japão -- Brasil -- Japão.
Cartas mostra a experiência migratória sob a perspectiva de quatro personagens, todas mulheres.
Já Permanência aborda o mesmo fenômeno social por o recorte da segunda geração de imigrantes.
Em ambos os filmes, é comum a forte vinculação do diretor com as narrativas de seus personagens, como vocês poderão ler no texto abaixo.
Programadas para compor uma entrevista, as perguntas acabaram sendo utilizadas por o diretor como um roteiro na elaboração de uma reflexão bastante viva e pessoal.
por Hélio Ishii
Acho que o interesse por a imagem em movimento é comum a minha geração que viu surgir as primeiras câmeras de vídeo domésticas.
Meu avô por parte de mãe era fotógrafo e cinegrafista e pai de 9 filhos, todos fascinados por a fotografia.
Fotografar, então, era uma coisa comum em casa.
Bem mais tarde, quando surgiu o vídeo doméstico, meu tio já herdeiro da loja de meu avô fazia seus eventos sociais e eu, com meus 18 anos, o ajudava segurando a luz.
Claro que na época não tinha a menor idéia que isso poderia se tornar uma atividade profissional.
Nasci em São Paulo, filho de um japonês com uma nissei (descendente de japoneses de segunda geração) e, para mim, essa mistura sempre foi conflituosa.
Em o Brasil x Japão, sempre torci para o Brasil.
Fui parar no curso de Ciências Sociais mesmo sabendo que meu nível escolar era muito melhor em exatas e quase zero na área de humanas.
Até hoje não entendo esta decisão.
Em a faculdade, tive contato com pessoas muito diferentes e a pressão acadêmica me perturbou bastante.
Agora posso rir, mas era uma coisa séria não entender Marx, Hegel e não ter idéias geniais como meus colegas.
Enfim, desencanei de levar a coisa muito a sério e fui fazer matérias na psicologia, na escola de arte, me inscrevi no coral e na canoagem, ou seja, ficava o dia todo na universidade aproveitando do jeito que achava melhor.
Contudo, sempre mantive uma admiração dos caras que tinham boas sacadas lá na Sociais.
Em o último ano, fui procurar estágios e fazer, também, licenciatura e vi que naquele ano 90-91 a coisa tava travada.
Depois do plano Collor, até aqueles bicos de câmera que eu fazia sumiram.
Soube, então, que um amigo meu da Sociais foi para o Japão e ia pegar a grana e viajar por o leste europeu.
A Sueli, (personagem do filme Cartas) que se formara em administração e trabalhava na Telesp, também foi.
Eu naquele momento nem pensava em ir porque, afinal, eu odiava as coisas relacionadas ao Japão.
Mas, a coisa apertava e a pressão para arrumar um emprego e me sustentar era cada vez maior.
Não deu outra.
Financiei a passagem e fui para o Japão.
Algumas coisas me motivavam e uma de elas era comprar uma câmera de vídeo e sair gravando por lá.
Outra coisa era morar sozinho ...
De resto, não me lembro de grandes planos ...
Nem pequenos.
Poderia me encontrar com a Sueli.
Em poucos dias, percebi que minha vida virara de ponta cabeça.
Fui para perto de Kyoto e trabalhava 10 a 11 horas por dia, de segunda a sábado, numa semana de dia e a outra a noite, lixando carro na fabrica da Nissan.
Em 6 meses, devo ter falado 2 vezes com o japonês da minha frente, deixei a barba crescer e não tive tempo de encontrar ninguém dos meu conhecidos no Japão.
Estava quase pirando, ao ponto de não responder mais as pessoas e dar de ombro com alguns japoneses na entrada do banho ou do refeitório.
Assim que quitei a divida (da viagem) com a empresa, sai de lá correndo e só tive noticias ruins de alguns poucos colegas de fábrica.
Trabalhei mais 1 ano em outros locais e, quando retornei ao Brasil, a idéia de um vídeo da vida no Japão ainda existia e era de um espírito de revolta enorme com o Japão.
Se tivesse conseguido fazer um doc naquela época, acho que seria muito diferente de Cartas.
Depois da morte da Sueli, a idéia de ir para o Japão virou sinônimo de morte.
Ouvia sempre a mesma lenga-lenga de conhecer a terra dos nossos avós, conhecer a cultura, a língua ...
Era muito revoltante.
Ao mesmo tempo, via que as coisas daqui não estavam melhorando.
Em 93 -- 94, fazia o curso de economia e trabalhava na Secretaria de Agricultura de SP.
Passava o dia rabiscando um projeto de uma produtora.
Queria fazer o documentário.
Não lembro a data, mas saí da Faculdade e, também, da Secretaria e comecei a montar a Cia..
Paulista de Vídeo.
O início foi muito trabalhoso, mas conseguimos, ao longo de 5 anos, nos equipar e começar a nos preparar para produzir nossas idéias.
Como nada é fácil, em 98 faleceu um grande mestre, conselheiro e amigo nosso Denoy de Oliveira e, em 99, uma briga na sociedade faz voltar a estaca zero na produção.
Bom, Cartas teve que esperar muito.
Em essa época os amigos e companheiros de projetos se juntavam para produzir peças de teatro, vídeos experimentais e quem tinha um cliente encaixava os outros nos trabalhos e até hoje é assim.
Boa parte do Virgulino vem desde a época dos anos 90.
Em o meio desse contratempo, apareceu a internet com toda as possibilidades.
Fizemos muita coisa experimental como Fora de Sync, um documentário experimental que chamava as pessoas a interagir e criar vídeos a partir dos nossos.
Com ele, fui para o Festival de Cinema da Bahia que me ensinou que festival não pode ser o único caminho de uma obra.
Também para internet tivemos o Narco Talk Show que era um formato mais sofisticado para uma internet que não permitia muitos movimentos.
O tema, claro, era o de sempre:
gente à margem ...
Quando, finalmente, em 2002, consegui trocar o equipamento analógico por o digital, retomei a idéia dos documentários, pois voltava a ser possível ter «custo zero» com uma qualidade razoável.
Começamos a gravar muito.
Comecei na Bahia com Meninas do Samba o qual ainda não terminei.
É a historia das mulheres que dançam samba por o mundo.
Tenho 2 historias fabulosas, mas espero conseguir mais 2 para completar o doc.
Comecei Cartas a partir do meu casamento com a Yumi que é japonesa.
Foi hora de repensar e ponderar tudo aquilo que tinha ficado guardado.
Então, comecei por o começo:
1990, quando «todos» fomos ao Japão e, daí, nossas percepções e conseqüências.
Descobri, sobretudo, o óbvio, que não somos japoneses.
Tão óbvio mas, naquele instante e até hoje, tão confuso.
Descobri outra maneira de pensar nisso que fica mais desestabilizadora:
os japoneses do Brasil não perceberam que não são japoneses.
Aliás, é uma minoria que crê que é maioria.
Em o Brasil, a era dos migrantes, com discurso de vencedores, de empreendedores, aquele discurso da «força de vontade», já não cola mais.
Claro que é um discurso que ronda outras esferas, mas ouvi essa ladainha milhares de vezes, inclusive para se comparar as duas migrações Japão-Brasil Japão.
Isso acho que, essencialmente, é um discurso masculino e que, quando estava fazendo Cartas, isso ficou claro.
O modo de expor dos homens, muitas vezes, é «se deu bem ou se deu mal»,» foi fácil ou foi difícil», «venci ou fui derrotado».
Ou ficam na estatística.
Isso não representa a maioria.
Não penso em tudo isso quando faço a edição, mas sei quando o papo tá com essa pinta.
Em Cartas, fiz 8 ou 9 entrevistas de mais de 2 horas cada.
Sempre conversando eu, o câmera e a pessoa.
Começo falando da infância e, aí, vai até os dias atuais.
Nada de especial. Em o início, tinha um roteiro, mas vi que é impossível ficar preso a ele.
É preciso ouvir e sacar algumas coisas.
Há os terríveis momentos que são aqueles quando você desliga a câmera e a pessoa te revela coisas que ficaram no caminho.
Por exemplo, em Cartas, Gisele, a jovem que foi criança (para o Japão), me disse que tinha nascido no Paraná e, depois, foi morar em SP.
Em a despedida, ela me fala que tinha nascido no Paraná porque seus avós eram contra o casamento dos pais e, então, eles decidiram fugir!
Isso foi não saber ouvir.
Procuro não saber antecipadamente da história.
Espero a performance do momento da gravação.
Realidade???? É toda aquela discussão.
Em Cartas, queria o mínimo de interferência de imagem referendando a fala.
Queria dar a liberdade às pessoas elaborarem, naquele momento, o discurso que quisessem.
Procurei pessoas próximas que tivessem a experiência de emigrar ao Japão ou que me pudessem apresentar outras.
Os 3 primeiros depoimentos foram os que ficaram no doc e, durante o processo foi feita a escolha das cartas da Sueli.
Vi que acompanhar uma longa trajetória era mais interessante de entre os depoimentos.
Cartas foi gravado com meu grande amigo Erick Mammoccio e editado por mim.
A trilha foi cedida por o grande músico Camilo Carrara que na época tinha acabado de gravar as canções infantis japonesas (provavelmente para o álbum Canção do Sol Nascente).
Em 1 ano e meio desde a primeira gravação, o doc estava pronto.
Em o fundo, acho que tudo que faço tem o mesmo tema.
O enorme esforço que dispomos para uma coisa dar certo e nem sempre os planos se realizam.
Mas o bacana é o processo, o caminho que cada um seguiu.
Cartas, antes de tudo, era uma resposta àquilo que eu já disse.
Mas também mostra a questão da descoberta da identidade, da descoberta de um Brasil pobre, sujo, desvalorizado e cada um fazendo parte disso, sem escapatória.
Acho que também mostra o mundo do trabalho dos brasileiros além da organização social, escolar e familiar na qual os brasucas estão inseridos.
Mostra também a vida.
A vida de jovens no Japão.
Possibilidades e ...
Permanência pra mim tem um outro sentido.
Já foi feito pensando naquilo que vemos hoje.
Uma busca de explicar tudo sobre o Japão.
E vai uma equipe gravar por 1 mês e revela o Japão que ninguém conhece, mas que parece muito igual àquilo que queremos ver, ou seja, moderno sem deixar de ser tradicional.
Fora a questão do Fast Film (filmagem rápida), me identifico muito com a segunda geração e queria saber o que se passava com eles.
Os assuntos de eles são geralmente menos notados porque no degrau das prioridades -- os sem-escolas ou delinqüentes -- a urgência parece ser evidente.
Perto disso, seus problemas parecem ser coisa de classe média e todo aquele papo.
Acho que em Permanência, o pessoal da fábrica vem com uma pinta de estereótipo dos jovens sem compromisso e com gastos inúteis. (
Permanência foca-se nos jovens que estudaram / estudam em escolas japonesas e sofreram / sofrem um processo de aculturação diferenciado dos «jovens de fábrica», aqueles que abandonam a escola -- japonesa ou brasileira -- e ingressam no mundo do trabalho como seus pais.)
Talvez tivesse que dizer que também que tem um fator que é tempo.
Entrevisto quem estiver por perto.
Dentro do limite do tempo que tenho, faço o possível para pegar vários perfis.
A coisa interessante que acho ao trazê-los (os «jovens de fábrica ") é que também pude trazer as impressões de uma» brasileira " (uma personagem do filme, jovem de nacionalidade brasileira, mas que fala apenas japonês) em relação a eles, brasileiros.
Isso eu acho interessante.
Brasileiros??? Quem???
«Eu sou brasileira também e não falo português, tenho medo do jeito dos homens brasileiros, não encontro com eles nas baladas ..."
Volta a questão da identidade e a formação de elas.
Permanência também traz pra mim uma coisa que aquele velho Tomekiti de 99 anos (personagem que aparece no filme citado) sintetiza.
Ele disse " se os brasileiros puderem, voltem, porque tem muita coisa pra fazer aqui ainda.
«Um depoimento em japonês falando de um sentimento sobre um outro lugar, o Brasil.
Um lugar que ele entende sendo seu.
Como é possível?
Os projetos aparecem quando enxergo a possibilidade de viabilizar
produção dos temas.
Os temas são os de sempre.
O que muda é uma chance, uma coincidência, um exato momento de sorte.
Em a produção que fazemos, é isso que decide.
Uma pessoa que surge, um dia de folga, uma vontade, aqueles 5 minutos.
Em os documentários ainda acho que dá pra pensar num «solo», um voz-e-violão no vídeo.
Mas na ficção é um desafio.
Escrevi para os participantes do projeto Mina e Lisa (projeto de seriado para a internet protagonizado por duas adolescentes nikkei, ou seja, descendentes de japoneses) o que este é pra mim:
«antes de mais nada Mina e Lisa é um projeto coletivo.
Ou seja, não dá para fazer sozinho, dá «trampo».
Em o fundo, acho que é isso.
É apenas uma prova da nossa capacidade de fazer algo coletivo apenas por o fato de ser coletivo.
Não há um fim extraordinário.
Ainda mais acho que os resultado desses trabalhos são repetições do tema que outros já trabalharam melhor.
Se ficarmos pensando muito, descobriremos que o melhor é não fazer.
Assim, por a falta de autenticidade, me deixo levar por os encontros e reencontros com os outros.
Voltando ao tema das migrações tento sabotar as idéias e pensar que o paradoxo dessa ida dos descendentes ao Japão foi não só a descoberta da identidade brasileira, mas a desilusão com o Japão
dourado dos primeiros imigrantes.
Não tenho idéia se isso ocorre, mas vejo, a partir daí, algumas pessoas sendo obrigadas a repensarem o discurso ou manterem um discurso desconexo sobre o Japão contemporâneo.
Isso abre espaço pra pensar muita coisa.
Adaptação, identidade, trajetórias ...
É a partir daí que parto ao tema porque me é muito próximo.
Se eu fosse negro, talvez o sentimento de exclusão fosse mais forte em mim.
Mas, fazendo parte de uma minoria que se acha maioria, as sutilezas da exclusão são maiores.
Um projeto dentro das migrações que ainda me interesso é sobre o retorno das crianças ao Brasil.
Bom, eu e a torcida do Flamengo, não?
Mas vamos ver se consigo tocar esse.
Voltando ao tema das migrações tento sabotar as idéias e pensar que o paradoxo dessa ida dos descendentes ao Japão foi não só a descoberta da identidade brasileira, mas a desilusão com o Japão
dourado dos primeiros imigrantes.
Não tenho idéia se isso ocorre mas vejo a partir daí algumas pessoas sendo obrigadas a repensarem o discurso ou manterem um discurso desconexo sobre o Japão contemporâneo.
Isso abre espaço pra pensar muita coisa.
Adaptação, identidade, trajetórias ...
É a partir daí que parto ao tema porque me é muito próximo.
Se eu fosse negro talvez o sentimento de exclusão fosse mais forte em mim.
Mas, fazendo parte de uma minoria que se acha maioria, as sutilezas da exclusão são maiores.
Um projeto dentro das migrações que ainda me interesso é sobre o retorno das crianças ao Brasil.
Bom, eu e a torcida do Flamengo, não?
Número de frases: 172
Mas vamos ver se consigo tocar esse.
1970 Jogavam Brasil e Romênia, nos campos de honra mexicanos, por a Copa do Mundo.
De a birosca de esquina vi quando o carro preto desceu a rua Carandaí, em Marechal Hermes, o rádio transmitindo a partida em alto volume.
Parou em frente ao 112, os três homens saltaram e invadiram a casa.
Fizeram um barulho medonho lá dentro, mulheres e crianças botando a boca no mundo, e em apenas dois minutos, não mais do que isso, trouxeram agarrado por o cangote o Haroldo comunista, coberto de sangue.
Abriram rapidamente a mala do carro e o enfiaram ali.
Iam dar a partida, quando o rádio de eles explodiu num grito de gol, e assim toda a rua, todas as casas, todos os botecos.
Os três homens pularam, se abraçaram, vibraram com a alegria geral.
Um de eles chegou a despentear com um carinho ruidoso os cabelos de uma das filhas do tal comunista, parada ali perto, toda chorosa.
Mas logo se mandaram.
O Haroldo nunca mais voltou.
1995
A morte do enfermeiro Nestor, na versão dos amigos de copo e sueca:
na véspera, o homem da limpeza tinha-o flagrado sodomizando o cadáver ainda quente de uma loura bonita no hospital do bairro.
Encalacrado até a alma no recente escândalo dos remédios, o homem da limpeza não teria mesmo colhão para denunciá-lo, mas já pela manhã, provavelmente apavorado com tudo aquilo, Nestor se atirava na frente de um trem direto, na estação de Marechal Hermes.
Quem era o tal homem da limpeza?,
perguntei, tirando do bolso da camisa um bloquinho de endereços.
Não me responderam.
Eu que me virasse para enfeitar minha reportagem, se quisesse, rosnou o mais lombrosiano do grupo, não queriam problemas com a polícia nem com a direção do hospital.
De a outra vez ... (
De a outra vez, por o que eu tinha apurado ali no bar da Amendoeira, pegaram um outro enfermeiro, completamente embriagado, dançando com uma defunta no salão do necrotério, ao som de uma dupla sertaneja no radinho de pilha.)
E o lombrosiano me piscou um olho vermelho, coruscante de maldade:
não me custaria nada, disse ele, deixar toda essa porra de lado, em atenção ao necrófilo suicida.
Ciente.
2004
Isto aconteceu há coisa de um ano, numa ruazinha de Bangu, mas não ganhou mídia.
Quer dizer, acho que não ganhou.
Se ganhou, não vi, nem ouvi comentários a respeito.
Em essa noite, a casa 37 estava de portas e janelas escancaradas, os vizinhos entrando e saindo numa ansiedade louca, a mãe aos prantos -- por volta das quatro da tarde sua filha de doze anos fora achada morta, vítima de estupro, no terreno baldio ali perto.
Veio a polícia, fez o seu papel de costume e se mandou.
Veio o traficante da área, serenou como pôde os ânimos e prometeu vingança, não ia sossegar enquanto não pusesse as mãos nesse calça-frouxa que vinha sujar a boca.
No calor da revolta, os vizinhos da pobre mulher descreveram um moço que não era de ali mas tinha cara de tarado:
uma sobrancelha assim, um nariz assado, uma boca assustadora.
Deixassem com ele, disse o outro.
Em a manhã seguinte, alguns moradores viram quando um garoto de bicicleta, com uma bolsa de plástico dependurada do guidom, apontou na esquina.
Vinha parando de casa em casa, batendo palmas no portão.
Quando era atendido, abria a bolsa, puxava pelos cabelos uma cabeça recém-cortada e disparava:
«O homem mandou perguntar se é este?"
Por via das dúvidas ...
Número de frases: 39
Pois que vivemos numa cidade assim:
pequena, em fase de decrescimento;
colonizada e ainda não emancipada;
geográfica e culturalmente cercada de montanhas onde o vento não chega a soprar.
Se metaforicamente Blumenau é uma cidade estagnada, o que se pode esperar na prática?
Creio que não muito.
Mas vamos falar de literatura.
Crê-se que a literatura começou por aqui ainda no século XIX.
Ainda que se ativesse à literatura colona de nostalgia do país de origem, já por os 1860 começava a haver uma escrita voltada para a localidade de onde se escrevia.
Seguindo a tendência romântica, o escritor local evocava a natureza brasileira e sua família guerreira.
Fossem naturalistas, deus nos livrasse de lermos a realidade dura de quem se embrenhou por esse buraco quente no meio da Mata Atlântica.
Acontece que chegou 1922, a Semana de Arte Moderna que inaugurou oficialmente a evolução poética brasileira e Blumenau pareceu não receber a notícia.
Estariam muito mais preocupados com o rio, que poderia transbordar de uma hora para outra, com o movimento integralista -- ramificação local do nazismo de Hitler -- ou, posteriormente, com a castração nacionalista de Vargas que os impedia de continuar a ser estrangeiros no Brasil.
A realidade bateu à porta do povo germânico local.
Mais um motivo para agarrar-se aos braços do romantismo e sofrer como os jovens idealistas franceses de quase duzentos anos antes.
Blumenau sofreu com o nacionalismo, mas não muito.
Em breve, com a ditadura militar, conheceria o fenômeno mais interessante de sua história:
o vigor da indústria têxtil e o milagre econômico que fez boa fração da população local conhecer o conforto gerado por o milagre econômico.
Por essa época, uns baianos estavam cantando tropicalismos verdejantes.
Por o Brasil, ecoavam superevoluções ou revoluções culturais, tendo como nomes Gil, Caetano, um Chico «poeliticamente» mais emocionante do que nunca;
havia Mutantes e tudo o que isso pode querer dizer;
havia Glauber Rocha e Neville d ´ Almeida;
havia Hélio Oiticica.
E houve, principalmente, porque falamos de literatura, PanAmérica, de José Agrippino Soares, um livro -- porque não se pode denominá-lo romance ou qualquer outra coisa -- que fez tanto quanto Guimarães Rosa e seu Grande Sertão, mas fez mais:
Agrippino chegou àquilo que se chama reflexão sobre a modernidade, evocando o caos, a violência e o prazer gratuito do sexo para explicar a vida metropolitana que ultrapassaria as barreiras do real, como nos dias de hoje.
No entanto, com tanta coisa acontecendo, as coisas por aqui iam bem, mas em outros pontos.
Empresas como Artex, Teka, Sulfabril e Cia..
Hering tinham em seu rol de empregados gente suficiente para transmitir o pensamento operário por o ar.
A estagnação, o silêncio e o etilismo tornaram-se endêmicos e, por o que se percebe hoje, incuráveis.
Em os anos de 1980, finalmente uma esperança.
Enquanto Lindolf Bell colhia os frutos plantados por sua Catequese Poética -- embora interessante o movimento de Bell, sua poesia não deixou nunca de estar impedida de fazer pensar por os morros que circundam Blumenau -- um grupo de poetas ditos experimentalistas iniciavam um movimento tímido para a mídia, mas talvez o mais importante dos 156 anos de história dessa cidade:
tendo o moderno surgido em no início do século XX e tendo já passados oitenta anos desse apogeu, era hora da poesia superar a própria poesia e seu tempo.
Com nomes como de José Endoença Martins, Douglas Zunino, Mauro Galvão e Dennis Raddünz, a cena poética não possui apenas pensadores, mas provocadores da teoria literária, sobretudo provocadores de um público leitor -- leitor?--
acostumado às convenções de facilitação da leitura.
Pela primeira vez, a nau do pensamento vai de encontro ao mar-mundo.
Blumenau deixa de ser o centro do universo de quem escreve e lê.
A década seguinte, de 1990, é marcada por a efervescência literária.
Surgem nomes como o de Tchello d ´ Barros e seus poemínimos, grande responsável por a criação de uma agremiação literária a qual se deu o nome de SEB, Sociedade Escritores de Blumenau.
É por esses anos que é criada também a ALB, Academia de Letras de Blumenau.
Em um respeitado jornal catarinense, pôde se ler a mais complexa intriga escrita entre membros das duas agremiações.
Pois que na ALB não constava nenhum escritor da SEB e ambas não se reconheciam como parceiras, mas como concorrentes.
O início do século XXI, se encarado como um período de forte simbologia pós-moderna, fez a literatura em Blumenau virar de pés para o ar.
Contando com uma Sociedade de Escritores que não escrevem -- se levarmos em conta a teoria literária de Roman Jakobson, para quem a literatura representa uma «violência organizada contra a fala comum» -- a não ser o óbvio dentro da forma mais óbvia:
prosa fútil representada em versos esquálidos e uma Academia Literária oficializada cujos escritores não figuram como intelectuais, muito deixou de se fazer em prol da boa literatura.
Há ainda resistência.
Urda Klueger e Viegas Fernandes da Costa são nomes muito importantes.
Urda, romancista romântica, mas cronista política de grande ação, ao mesmo tempo em que não deixa de lado a nostalgia -- ou seria um retorno crítico ao passado infantil?--
mostra-se atenta a fatos para os quais a mídia de massa brasileira não dá importância, sobretudo na temática social.
Viegas escreve.
Escreve e isso quer dizer muito, principalmente em se falando de um historiador com formação esquerdista -- hoje apenas politizada -- que vaga entre o erótico e o social com muita astúcia.
A essa altura, devem estar surgindo em Blumenau mais uma ou outra sociedade literária;
resistentes devem estar escrevendo sobre o que acontece às suas voltas e eu componho este breve resumo.
Mas uma pergunta deveria tocar os ouvidos de todos:
para onde vai a literatura blumenauense?
Se a houver, é claro.
Número de frases: 55
Esta entrevista foi feita por o Instituto Nangetu para a construção de arquivos de memória do Terreiro, participam Táta Kinamboji e Táta Iya Tundelê e aconteceu no final de agosto no Mansu Nangetu.
Ivonildo dos Santos (59 anos), o Banjo, é Huntó e mantém o Terreiro de Omolu Sade, em Icoaraci, e mestre na musicalidade da religiosidade afro-brasileira.
Baiano de nascimento, vive em Belém desde meados da década de 1980, e aqui se dedicou a ensinar o que aprendeu a filhos de terreiros de várias origens, sendo reconhecido por o Departamento de Patrimônio Histórico da Fundação Cultural do Município de Belém como a matriz geradora da musicalidade do candomblé praticado em Belém.
Como a maioria dos mestres em cultura popular, vive sem salário ou aposentadoria, recebendo doações para sobreviver.
Aqui ele fala de sua trajetória religiosa e musical, de sua vida e suas necessidades, e fazemos neste resumo de conversa a nossa homenagem ao trabalho desse homem.
Instituto Nangetu:
Em resumo, quem és tu, que conhecimentos tu guardas?
Nego Banjo:
Meu nome é Ivonildo dos Santos, nasci em Santo Amaro da Purificação, eu estava com a idade de dois anos quando fui suspenso (escolhido, destacado) no Ilê-Axé do sr. Benedito, que era feito na casa do Ciriáco, que era angoleiro.
A os quatro anos fui suspenso na casa Kassu Lemdembê, da nação Ketu, onde minha mãe e minhas irmãs eram iniciadas.
A os doze anos fui confirmado no cargo de Alabê para o Orixá Xangô na casa do sr. Cícero Fernandes de Araújo.
Aprendi o que sei com muitos Mestres:
com Nuca de Jacó, em Santo Amaro, e Manoel Cremildo da Cruz no terreiro de Sr Benedito Gamoiace de Peraculê Grande, que foi feito por o finado Ciriáco, fundador do Tumba Junssara, que era irmão carnal e filho de santo de Bernadino da Paixão, fundador do Bate Folha.
Também aprendi junto com o sr. Rosalvo da Cruz, ou Táta Kalendé, e Maria Rosália dos Santos, ou Mametu Sindalucaia e com Jilobi de Nanã -- era eu que levava as maiongas (banho ritual) do inicio das suas iniciações.
Aprendi a tocar com a idade de quatro anos com o sr. Mário, que não era confirmado, mas que sabia tocar e ensinou não só a mim, como a várias pessoas em Santo Amaro.
Depois que fui para a casa de sr. Cícero, por motivos dos meus conhecimentos anteriores de toques e cânticos, fui escolhido por o Orixá Xangô para ser seu primeiro Alabê.
Em este período marcava-se presente na minha iniciação Antônio Pegigan, da Corcunda de Yayá, sr. Dagoberto, Ogã confirmado para o caboclo Pena Verde, angoleiro e meu pai pequeno, e sra..
Guiomar de Oxum, minha mãe pequena, com eles eu continuei meus aprendizados e a essas pessoas eu agradeço tudo o que sei.
Meu caminho foi assim, eu ainda criança ia com minha mãe para o terreiro e lá aprendi a tocar muito cedo.
A os doze anos fui confirmado no cargo de Alabê de Xangô do Babalorixá Cícero Araújo na cidade de Salvador, e desde então assumi a função e a exerço até hoje, somando mais de quarenta anos, e continuarei com essa função enquanto Xangô me permitir.
In:
e a escolha por Belém?
Nb:
Eu conheci Belém em 1981, numa obrigação (ritual de passagem) do sr. Pedro Corre-beirada, que morava alí na Pedreira, mas quando em vim pra ficar foi em 1985, vim trazendo o Babalorixá Valmir da Luz Fernandes e as circunstâncias fizeram com que me radicasse na capital paraense.
Valmir é do Orixá Odé, é filho de meu pai Cícero, tinha sido iniciado em Salvador um tempo antes, e nesse momento ele tinha acabado de se tornar Babalorixá por as mãos de meu pai.
Mas ele sozinho em Belém não daria conta de formar o seu Ilê Axé de acordo como tem que ser a casa de um filho de Cícero, então eu vim com ele por que eu tinha a vivência do terreiro de Xangô, por que eu sabia cantar, tocar, dançar, sabia os segredos dos ebós, sabia fazer as comidas de santo, enfim, eu sabia os fundamentos da religião, e por isso fui designado para ensinar os filhos do Valmir, que seriam netos de Cícero, e ajudar o próprio Valmir naquilo que ele se sentisse inseguro.
In:
e por que ficaste?
Nb:
Hoje tem candomblé quase todas as semanas aqui, e tem sábados que tem dois, três terreiros tocando no mesmo dia.
Mas nesse tempo tinha muita Umbanda, Tambor de Mina ...
Mas Candomblé só tinha o Angorense Bessenvi, que era filho do finado Rufino de Dandalunda, o Walter de Nkossi iniciado por a dona Branca, o Manoel da Jóia, que vem do Zé do Macotó, a Esther de Iansã, a Iyalorixá baiana Dewi, que já morava e cultuava o candomblé há algum tempo por aqui, e o Hydee de Oxalá, e talvez mais um ou outro que eu esteja esquecendo agora.
Mas o importante é que os terreiros de Candomblé a gente contava nos dedos da mão, e sem a prática como temos em Salvador -- de ter candomblé todos os dias, eu achei importante ficar um pouco mais por aqui para acompanhar os primeiros anos do Ilê-Axé.
Eu morava num quartinho nos fundos do terreiro, que era chamado de Ilê Bahia -- no lugar onde hoje é a cozinha, e quando os filhos da casa tinham alguma dúvida ou queriam aprender alguma coisa eles sabiam que iam me encontrar lá.
Então todo dia aparecia ao menos um pra aprender alguma coisa, o bom é que todos os dias eu fazia as mesmas coisas que fazia em Salvador, e mesmo que não tivesse a quantidade de festas que tem na Bahia, os filhos do Nilé podiam tocar, cantar, dançar todo santo dia e todo dia santo.
In:
Então foi em nome do Axé do seu pai Cícero que ...
Nb:
Em essa época outras casas já me chamavam pra ensinar também, aqui na Nangetu, que é filha do Jorlando, eu ensinei os toques de Angola ao Kongoande, para o Kamugeji, para o Kitamukuene, ensinei as autoridades a dançar, corrigi passos de Muzenza ...
Sabe como é, vocês também estavam a maior parte do tempo sozinhos, o Jorlando vinha mas não ficava aqui o tempo todo, ai eu comecei a ensinar.
Depois o Carlinho de Gongombira, que é confirmado por a Mametu Samba Diamongo para o Ajunsú de Jorlando, se encarregou de manter a prática dos toques e dança no Mansu da Nangetu, mas quando ele chegou eu já tinha começado os trabalhos.
Também ensinei toques e cantigas aos Ogãs do fundamento da mãe Dewí, como o Romeu, o Omilodé e o Makaibê, e fui eu que fundei terreiro da Zazá de Oxumaré, que é neta da Dewí, filha do Odé Bessí -- Sr. Guilherme, também ajudei no Odé Mussamburá -- que era filho do Edson de Oxum, fundei o terreiro de Obá Loqueji, e tantos outros ...
Eu ensinei muita gente!
In:
E teu trabalho foi só em candomblé?
Nb:
Não, mas tudo tem relação.
Quando decidi ficar em Belém montei uma oficina e com ela consegui viver por vários anos, a marcenaria me sustentou enquanto minha saúde permitiu, mas hoje já não consigo agüentar a lida da oficina.
Em essa marcenaria fiz muitos instrumentos musicais pra terreiros -- atabaques;
e ' cadeiras de cargo ` (cadeiras que ficam em destaque nos terreiros, destinadas ao uso exclusivo de sacerdotes), por exemplo:
eu fiz a cadeira de cargo da Ekedi Kiriobá, que é confirmada por o Pai Jorlando de Salvador, fiz a do Táta Kinamboji, do Táta Kongoandê, no Mansu Nangetu, fiz cadeiras do Ilê-Axé do Nilé, e de muitos outros, é difícil eu ir numa ' casa de santo ' que não tenha cadeira minha.
Passei a maior parte da minha vida em Belém em rodas de conversa nos terreiros e em rodas de samba nos quintais das casas dos sacerdotes, nas conversas contamos estórias, relatamos mitos e trocamos experiências, nas rodas de samba treinávamos toques e incentivávamos a dança.
De as rodas de samba informais foram formados dois afoxés (Italemi e Bandagira) que são liderados por sacerdotes e desfilam na avenida dos festejos oficiais no período do carnaval, somando a outro que já existia e que hoje está extinto, o Axé Dudu, dirigido por o CEDENPA.
Com os Afoxés difundimos a nossa crença e visão de mundo para além dos muros dos terreiros, e eu componho para os dois e tem ano que ambos cantam música minha.
In:
e qual a tua importância para a cidade?
Nb:
O que eu construí, e que eu vou esperar que no futuro se reconheça, é a música que fiz para os Afoxés e que divulgam a nossa cultura religiosa, e (a qualidade do) o candomblé que se faz hoje, e que eu sei que vai continuar assim, em Belém, Ananindeua, Marituba, Santa Bárbara e até Macapá ...
In:
Queres registar mais alguma coisa?
Nb:
Quero agradecer a entrevista, e dizer que meu desafio é conseguir viver com dignidade sem abandonar o candomblé, e pra isso estou procurando meios de sobrevivência ...
Pois se eu não tenho aposentadoria é por que minha vida foi em candomblé, e não dava para conciliar empregos com a vida nos terreiros, e com a situação em que me encontro hoje já pensei até em vender minha casa e investir em canoa e ir viver de pesca na Bahia.
Eu estou vivendo da ajuda dos amigos em troca de aulas de canto -- e não recebo dinheiro, pois eles também não tem muito a dar -- dou aulas em troca de alimentos e vale-transporte, mas tem dia que eu não sei o que vou dar de comer aos meus filhos, e me magoa saber que aqueles que estão bem de vida, fingem que me esqueceram ...
Número de frases: 64
Essa ingratidão me dói.
Passados mais de quarenta anos de " A Estética da Fome [Glauber Rocha/1965 "] vimos o cinema brasileiro entrar em ascensão, decadência, letargia, retomada e agora num acomodamento em torno das leis de incentivo e editais.
O nosso Cinema [como forma artística de expressão] resiste na obra de um ou outro realizador, com a atividade se concentrando [seguindo a lógica do Mercado] nos centros urbanos de maior atividade econômica e financeira.
Não se trata de solicitar status, deixar registrado ou exigir reconhecimento da existência de obras cinematográficas em todo o Brasil.
Não existe [e nem há necessidade de existir] quem ou o quê possa dar ciência sobre essa questão.
Filmes de ficção e documentários são atualmente ocupação de espectadores, críticos, técnicos e artistas por todo o país.
Os avanços na tecnologia [com o conseqüente barateamento nos custos de produção] é uma das principais causas da proliferação do cinema no Brasil.
Entretanto, nossos filmes de vitrine quando não imitam tentam fugir da gramática cinematográfica das Metropolis.
Não conseguiram, não conseguem e não vão conseguir.
A caneta que usam tem a cor definida, o papel desenvolvido, os movimentos dos membros educados sob as receitas, as conexões neurolingüísticas engendradas e o sorriso de lerda satisfação filial intima [da] mente ligados às Metrópolis.
O nó não está na herança / filiação eurocêntrica, nem em Hollywood.
Está sempre na imitação, em seguir as estradas criativas desenvolvidas sob características que não refletem a nossa organização social.
O resultado:
obras acéfalas ambientadas em estereótipos de favelas, sertões, guetos, ruas e diálogos, lugares e situações que de tão inverossímeis e risíveis passam do ponto do ridículo.
Não se trata de ruptura, mas de continuidade.
Não há necessidade de reinventar o Cinema em cada filme.
Os elementos constitutivos de uma orquestração cinematográfica estão dispostos, em desenvolvimento contínuo e cada vez mais à disposição daqueles que tenham a ousadia de trilhar esse caminho.
Continuidade no sentido de dar seguimento na utilização dessas ferramentas:
conceituais, estéticas e materiais.
Evidente que toda criação não parte do zero, mas a partir de conceitos e determinações histórico-pessoais de quem lança a proposta da realização do filme.
Os sujeitos que o realizam estão marcados por motivações impregnadas de valores aos quais podem dar continuidade reafirmando ou contestando-os.
Continuar no sentido de seguir em frente, de construir a estrada e indicar um novo caminho e não retornar ao começo da jornada.
E uma vez com as mãos na ferramenta, faz-se necessário que se as use.
A idéia de realizar um filme independente do grupo que chamo de «independente / dependente» surgiu no início de 2004.
Em aquela época eu e Geraldo Cavalcanti percebemos a possibilidade de realizarmos uma obra em linguagem cinematográfica nordestina, sertaneja, brasileira e universal.
Em a totalidade porque coletiva e engendrada por profissionais de formação diversificada, ambientada numa região estereotipada ao extremo e que teria a sua existência construída [sob a lógica do «paternalismo» artístico] com quem não tem o direito de fruir cinema:
os não-incluidos.
Surge a idéia de Cinema Processo [Viva o Cinema Brasileiro!
e Mariposa Blanca], entendido não como forma nem estética, mas logística de produção em aberto.
Um sistema que possibilite realizar filmes com o mínimo de dinheiro e o máximo de qualidade artística que o ambiente social / profissional determinado permita.
Não se trata de uma alternativa possível, mas de uma empreitada.
Só será possível tanto quanto for firmado o compromisso com cada um dos atores / sujeitos necessários para a realização do filme, de que não se trata de realizar um filme, mas de realizar um filme que tem que ser realizado.
Assim sendo, o Cinema Processo aponta as condições materiais necessárias para tornar uma obra cinematográfica realizável, com ou sem muito dinheiro.
Evidente que não se possa prescindir de sua existência [do dinheiro], mas de minimizar ao máximo a sua ingerência na decisão de se realizar um filme.
Cinema Processo é a constatação de que é possível realizar filmes com características verossímeis aos atores sociais de determinada região /sociedade/povo.
Uma obra, um regimento dos artistas locais de vanguarda, um acordo entre esses técnicos e artistas de que a referida obra tem que impor a sua existência, a conexão das redes de interesse para que essa obra tenha vida.
O processo de realização fazendo parte da própria obra para se fazer cinema no sertão, no Brasil e em qualquer lugar do mundo.
Os não-incluidos estão convidados a se incluírem.
O filme Viva o Cinema Brasileiro!,
obra primeira do Cinema Processo, tem a força do verbo e a euforia da aclamação.
Um Viva!
ao cinema nordestino, brasileiramente brasileiro, no seu atrevimento por buscar furar o bloqueio.
Um filme criado, encenado e protagonizado por pessoas simples e comuns ao universo local / mundial.
Um filme com a marca da cor, da areia, da música e da noite do sertão / deserto / oásis.
Ousar sonhar,
Ousar viver.
Natal / RN
25 de maio de 2006 Buca Dantas
Viva o Cinema Brasileiro!
diretor
Geraldo Cavalcanti [assistente de direção / roteirista de Viva o Cinema Brasileiro!
/ co-diretor, com Guaraci Gabriel, do filme Mariposa Blanca]
O momento sublime da criação, a espontaneidade no processo criativo, são algumas das maravilhas com que o cinema processo nos beneficia.
Testemunhar aquelas pessoas que vivem nas regiões mais insípidas deste país;
muitas de elas nem sequer ouviram falar de cinema, vê-las interpretar as suas próprias histórias, numa relação de jogo com a vida, foi mágico.
O cinema processo pôde descobrir o potencial artístico que há nessas regiões castigadas por a má vontade política daqueles que administram esse país.
Um povo ávido por contar as suas histórias e assim poder re-significar a sua existência;
Afinal, o que seria da humanidade se não fosse a capacidade que temos de contar as nossas histórias, narrar os nossos feitos, falar de nossas experiências ...
que graça teria viver?
O cinema processo pôde levar às comunidades mais carentes e caladas a oportunidade de falarem de elas mesmas;
e foi mais além, são crianças, jovens e velhos, homens e mulheres que além de contadores também são interpretes das suas próprias histórias.
Riccard8 San Martini [
direção de arte / figurinista de Viva o Cinema Brasileiro!]
O «cinema processo» mudou a minha forma de criar, de trabalhar, de tolerar, de me adaptar e de viver!
O «cinema processo» me causou dor, calor, sede, fome, vermes, angustia, saudades, mágoa, lagrimas, euforia, desapego, liberdade, entusiasmo, vida interna, amor e ação!
E viva o cinema brasileiro!
Luiz Gadelha [
músico convidado para a trilha sonora de Viva o Cinema Brasileiro!]
Tudo sendo criado instantaneamente:
ações, roteiros, luz, musica.
Um filme inteiro.
Estava lá pra compor uma canção, especificamente da última cena, juntamente com Valéria Oliveira.
Uma canção pra um filme em cinema-processo!!!
Não sabíamos o que seria do filme minutos à frente, ninguém sabia!
Tudo era uma grande surpresa.
O roteiro sendo traçado por a equipe em conjunto e por os novos atores:
moradores da região que se aproximavam pra saberem do que se tratava aquele amontoado de gente.
Refizemos a musica varias vezes, visto que o filme tomava seu destino sozinho.
Era esse o processo:
música-processo pra cinema-processo!
As locações, as idas até elas nas vans, chacoalhando nossos equipamentos, a expectativa do que iríamos ver, as paradas para o almoço, os habitantes locais, pessoas simples, lendas, começos de vidas, vidas cheias de tramas pra se contar, dezenas de roteiros reais que dariam rolos e rolos de filmes ...
celebrando as vidas brasileiras, do português arrastado, do bem pronunciado, do reinventado, do arcaico, do quase mudo, do que berra, do que chia, do que dobra os erres, do que traduz nossa arte cotidiana que só vira musica, escultura, peça de teatro, pintura, bordado, livro, contos, cinema por que nunca se esgotam suas possibilidades;
a cada segundo nasce um novo sonho, de pegar no papel e escrever, de pegar um instrumento e tocar, de ir ao palco e declamar, de segurar uma câmera na mão e registrar pra sempre o que olhos captam como poesia.
O diretor, o diretor de cena, o diretor de fotografia, o cenógrafo, o roteirista, a produção, o elenco, os músicos, os auxiliares, o motorista;
todos escreviam estrofes desse poema, que leva um pouco de cada um, do imaginário, da realidade, das frustrações, das conquistas nesse processo humano de fazer cinema.
Foi o que mais sentir:
humanidade, solidariedade, equipe, família;
como são aqueles que ficam juntos a qualquer custo, a qualquer sonho que pedir por socorro.
Kayonara Souza [
produtora executiva de Viva o Cinema Brasileiro!]
O Viva o Cinema Brasileiro!
foi pré-produzido e produzido sob muita adrenalina (é isso mesmo!),
num tempo corrido e inadiável:
tinha que acontecer!
Sob quaisquer condições -- era essa a condição -- e hipóteses.
O processo do filme foi de completa Transformação.
Transformação da idéia para a obra produzida, da realidade dos agricultores para o sonho, da mente e coração de toda equipe, dos conceitos já engendrados para o renovável, da paisagem seca para a produtiva, da falta de verba para o excesso criatividade e competência.
Número de frases: 97
E o processo continuará a cada exibição do filme, a cada aprovação ou reprovação.
Hoje eu ri, chorei, me emocionei, fiquei cansada, fiquei triste, fiquei feliz de novo, fiquei tranquila e continuo cansada ...
Número de frases: 2
nossa que sábado!
Meu primeiro contato com o Casca Verde foi meio de espanto.
Convidada pra ser jurada do prêmio Solcultura de Música, deparei com o nome do grupo (e também do Coco Doce) entre os grupos a que eu deveria dar uma nota.
Não conhecia!
Falei com o organizador do prêmio sobre a minha ignorância e ele:
«é que eles ainda não estão muito conhecidos aqui, são da zona rural».
Fiquei com o nome na cabeça.
Aí recentemente vi no jornal que o projeto Cultura Casca Verde ia lançar seu primeiro CD numa festa na praça João Luís Ferreira, justamente numa manhã de sábado em que eu estava de folga.
Lógico que fui cedo pra lá, tinha que saber do que se tratava, porque se estava concorrendo ao prêmio Solcultura era coisa boa e eu já estava triste de não conhecer.
Fiquei observando a movimentação, me sentindo mais por fora que umbigo de vedete.
Vi que o Casca Verde era mais que música, uma banquinha montada na praça João Luís Ferreira exibia, além dos CDs, bolsas de chita (um luxo!),
blusas bordadas, vestidos coloridos e biojóias;
tudo produzido por as comunidades que participam do projeto.
Aí começou o show.
Começou com a cantoria dos mestres Emiliano e Raimundo Branquinho, moradores de povoados da zona rural de Teresina, depois teve cantiga de reisado, bumba-meu-boi e muita dança.
E foi juntando gente na praça.
Quando as meninas do Coco Doce começaram seu show -- cantando as músicas das rodas de Birim, seguras, bonitas e afinadas, já tinha gente dançando.
Depois veio o Erva Rasteira, com forró, xote e maracatu e finalmente o Casca Verde, misturando cultura regional com ritmos africanos.
A essa hora, sob o inclemente sol do meio-dia, de um lado um grupo de amigos se sacudia, do outro um casal dava um show de forró.
E eu pensando:
como é que eu não tinha visto isso antes?
Trocando conhecimentos
Os professores e atores Chiquinho Pereira e Luciano Melo estão entre os principais responsáveis por o projeto Cultura Casca Verde, que começou há cerca de três anos, envolvendo os alunos da Escola Areolino Leôncio da Silva, do povoado Boquinha, zona rural de Teresina.
A escola é a única num raio de muitos quilômetros e crianças e jovens de trinta comunidades assistem a aulas lá nos três turnos.
Luciano conta que as primeiras atividades do projeto foram as oficinas de música para os estudantes.
«O que a gente queria era que eles reconhecessem o reisado, o bumba-meu-boi, o birim como criações artísticas que são.
A idéia sempre foi valorizar essa arte entre os jovens, para que ela não se perca.
O Cultura Casca Verde não quer só fazer aquela história de resgate, quer é mostrar que é bonito, que tem valor artístico e cultural aquilo que eles vêem seus pais e avós fazendo desde que nasceram».
Com cerca de 20 anos trabalhando com teatro e com arte de um modo geral, Luciano revela que aprendeu uma grande lição:
que é essencial estar aberto para conhecer e trocar experiências.
«Nós professores não estamos lá para ensinar arte às comunidades da zona rural.
A coisa só acontece se houver uma troca, nós também aprendemos com eles, com os jovens, com as crianças e com os mais velhos».
«Se transformam em deuses quando cantam e dançam "
As trinta comunidades que freqüentam a Escola Areolino Leôncio da Silva começaram a ter contato com as oficinas de arte na época das gravações do filme «Os Amores de Teresa», de Chiquinho Pereira, que conta histórias do cotidiano de elas.
Chiquinho explica que os mais velhos falaram sobre as manifestações culturais que marcaram suas vidas e os alunos representam a história de Teresa.
O filme tem uma parte documental, com cenas das festas do Divino, das rodas de Birim, do Reisado e dos Novenários de Maio.
O ator e diretor é apaixonado por o que vê e aprende na zona rural, no interior.
Chiquinho sonha com o crescimento do Casca Verde porque vê no projeto uma forma das comunidades aprenderem a se valorizar e com isso resolver problemas graves que se arrastam por décadas.
«Uma das comunidades que participa do projeto é muito carente, carente de tudo.
Vivem cercados de latifúndios, mas têm uma cultura que encanta.
A terra é a deusa, é a ela que eles prestam homenagens em suas festas.
Ainda vivem como numa tribo e, quando chega o tempo das festas, das suas manifestações culturais, eles se transformam, conseguem uma força que não se sabe de onde vem.
Em o dia-a-dia os problemas são muitos, as crianças adoecem, têm vermes, muitos adultos são alcoólatras;
mas quando cantam e dançam eles todos são deuses.
Eles valorizam e se apegam ao lado espiritual porque de material eles não têm nada.
Então, a cultura de eles é que é importante, eles já percebem que o Cultura Casca Verde é o que eles têm de bonito para mostrar», divaga.
A cor da casca
O nome do projeto, de acordo com Chiquinho Pereira, tem a ver com a banana casca-verde, muito comum nestas bandas há alguns anos.
Hoje quase não se vê mais.
«Antigamente, no mercado do Mafuá, a banana mais barata que existia era essa da casca-verde, era tão barata que às vezes fazia lama no chão;
mas ela era especial porque alimentava os pobres e os mais pobres.
E mesmo com a casca verde, era saborosa e macia por dentro.
Essa banana foi estudada por a Embrapa e um cruzamento de ela com outras espécies resultou na banana-peroá, mais vistosa e tipo exportação.
O Casca Verde é hoje como essa banana, verde por fora mas maduro por dentro.
E misturando, pesquisando, trabalhando, vai ser mais forte, mais bonito, tipo exportação».
Bons resultados começam a aparecer.
O grupo Casca Verde ganhou recentemente o Festival Chapadão (é chapadão de Chapada do Corisco, hehe) e na última semana conseguiu destaque na TV e nos jornais.
O projeto tem o apoio das secretarias de Educação do Estado e do Município, da Universidade Estadual do Piauí, do Programa de Combate à Pobreza Rural e da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, além da ajuda de dezenas de amigos.
O CD Cultura Casca Verde e o DVD «Os Amores de Teresa» estão à venda na Toccata Discos (Rua Anfrísio Lobão, 922, loja1, Jockey-ao lado do Pão de Açúcar.
Telefones: 86-3233-2151/5181).
Número de frases: 60
O e-mail do Cultura Casca Verde é cameloambulante@hotmail.com.
A filosofia está na moda.
Nietszche na banca de revista é hoje um grande clichê:
sucesso de vendas (como livro ou objeto de decoração).
Alguns programas na televisão trazem a promessa de uma fácil introdução à filosofia.
No entanto, parece que falta ainda espaço para diálogo, para que quem lê e observa possa questionar e ter voz.
Sem esse espaço de crítica apenas colocamos mais um elemento entre as sombras da caverna.
A internet tem um grande potencial para promover esse tipo de diálogo.
A idéia de criar uma cultura livre e conversacional, rima com o intento de substituir a razão por a imaginação e solidariedade, como queria Richard Rorty.
Ao invés de procurar ocupar a posição de alguém que pretende ter a razão universal e atemporal, deveriamos aprender a aceitar nossa finitude e pensar o mundo a nossa volta procurando alternativas para o tornar melhor.
A imaginação se liga a necessidade de alguma utopia que nos direcione para a sociedade que queremos construir, para o tipo de ser humano que queremos ser.
Em esse sentido, o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. desenvolve um trabalho que merece ser destacado.
Há cerca de dez anos, junto com o grupo de pragmatismo e filosofia americana, mantém um site em que divulga textos de filosofia.
De curriculo vasto e com vários livros publicados, Ghiraldelli Jr. abandonou a vida acadêmica para se dedicar exclusivamente ao ofício de ser filósofo.
As academias não costumam ter espaço para a imaginação, a burocracia tende a promover certa mediocracia que tolhe o diálogo e as possibilidades do pensar.
Então, com este trabalho na internet Ghiraldelli Jr. mantém a tentativa de desafinar o coro dos contentes e trazer a filosofia para uma posição mais aberta.
Não se trata apenas de comentar os clássicos ou de reverenciar o cânone:
o site disponibiliza trabalhos de autores contemporaneos promovendo um link com parte da melhor produção atual em filosofia.
Em ele você pode encontrar textos de filósofos contemporaneos, como Jürgen Habermas, Robert Brandom, Gregory Vlastos etc.
Hoje o site funciona como um verdadeiro portal, indispensável para quem no Brasil se aventura a estudar autores como Richard Rorty ou Donald Davidson.
O site fornece textos que não seriam encontrados de outro modo em português.
Como o interesse é de dialogar e expandir o debate, você encontra mesmo uma introdução a obra de Donald Davidson, disponibilizada gratuitamente em versão preliminar por o professor Paulo Ghiraldelli Jr.
Além disso, existem diversos textos sobre temas contemporâneos, que tratam da filosofia a partir da cultura de massa, textos sobre filosofia da educação, filosofia da religião etc..
Mas, existe mais ...
O portal oferece vários vídeos em que o professor Paulo Ghiraldelli Jr. didaticamente trata de diversos temas filosóficos:
introduzindo pensadores como Habermas, Rorty, Adorno, Sócrátes ou falando de questões como «o que é política?»,
«qual a função da filosofia?"
etc.. Essa iniciativa desacraliza o saber filosófico e o coloca ao alcance de todos, para que, instigados possam segtuir questinando, lendo e aprendendo.
Ainda assim, alguém pode dizer que falta um espaço pra diálogo.
Essa crítica não procede, já que o site possui um grupo de debates que, por email, esta aberto a todos que queiram discutir filosofia e aprender um pouco mais.
Porém a iniciativa mais ousada de Ghiraldelli Jr é promover todos os dias úteis às 23 horas num canal de TV on line, aulas gratuitas ao vivo, que depois são compementadas por intensos debates.
O que mais falta de dizer?
Podcast, blogs ...
muita coisa.
Que os que se interessem procurem ler, ver, ouvir para aprender, debater, dialogar etc..
Iniciativas desse tipo só podem ser aplaudidas e incentivadas num país que pouco interesse tem para com a educação e a cultura.
Confiram!
Número de frases: 37
Um não-Manual para contadores de histórias e afins
O tema é bem simples.
Mais simples ainda do que o aspecto a que se refere:
A mitologia e a mania dos seres humanos viverem, incansavelmente, contando e ouvindo histórias.
Como surgem as histórias?
De onde elas vêm?
Para que servem?
Uns acham que elas pairam por aí, desde que o mundo é mundo, contaminando as mentes, se infiltrando nos sonhos de alguns loucos que as registram para que se perpetuem como retratos, exemplos, lições para a humanidade.
Outros acham que elas são construídas de forma cerebral, pragmática, a partir de fórmulas precisas, que capturam o modo de ser das pessoas, a maneira como elas percebem os fatos do cotidiano, e se emocionam, ficando fascinadas por eles, como diante de truques de mágica.
Os dois conceitos parecem exatos.
E são.
A o que se sabe, o conhecimento humano só se estabelece assim, aos trancos e barrancos, por intermédio de saltos e tropeços ao acaso.
Pragmatismo e empirismo.
Ciência e acaso.
Razão e emoção.
Sendo este, para o bem e para o mal, o sentido de nossa existência, é esta também a energia que nos impulsiona no ato de contar, ler e ouvir histórias.
Estudiosos das linguagens humanas como Noam Chomsky, por exemplo, são enfáticos em afirmar que o que nos move, em todos os aspectos de nossa vida, são os impulsos emocionais, a reação irreprimível que temos diante de uma ação ou agressão do meio.
Talvez não seja um acaso que um dos mestres absolutos da literatura fantástica John Ronald Reuel Tolkien (' Senhor dos Anéis '), tenha sido lingüista como Chomsky.
Todas as linguagens, ou seja, toda a capacidade que temos de interagir com a natureza, transformando-a, comunicando-nos uns com os outros e, da mesma forma, nos transformando também, por intermédio da fala, da música, dos signos escritos, das cores, etc. estaria relacionada, diretamente à reações emocionais muito básicas, gravadas há séculos e séculos, no nosso cérebro primitivo.
Simples como água corrente.
Segredos e truques de linguagem, uns adquirem com o tempo -- talvez o melhor mestre desta arte -- outros, obtém seus macetes a partir de um (sempre acessório) método.
Histórias.
O prazer de escrevê-las não devia ser conspurcado por nenhum frio método científico e, realmente, não é isto o que propomos aqui.
A razão é mais do que evidente:
É impossível.
Ninguém vira um escritor, ao menos razoável, seguindo apenas métodos.
A bula não é a cura.
A receita não contém todos os segredos do bolo.
Há que se ralar, ralar e se conformar com o fato, inquestionável, de que todas as histórias já foram criadas e contadas.
Há muito tempo.
É com este modesto propósito que decidimos trazer até vocês -- aqueles que não conhecem, é claro -- o trabalho fantástico de dois mestres contadores de histórias que se dedicaram, juntos, um a partir do outro, a definir como e porque as histórias são contadas.
Em o processo, eles nos ensinam também a tirar o melhor proveito do ato de contá-las, nos dando pistas de como elas funcionam enfim;
como as mil faces ou versões de um mesmo fato podem resultar numa experiência sensorial inebriante e inesquecível, ou num enfado decepcionante.
Simplificado sob sua forma mais elementar, o sistema de autoria de Chistopher Vogler baseado na obra de Joseph Campbel, reproduzido a seguir, não é, absolutamente, um manual.
São estruturas narrativas extremamente flexíveis que podem -- e na verdade devem -- ser alteradas sempre, segundo as particularidades de cada história, de cada platéia, de cada tipo de leitor.
A ordem estabelecida pode ser invertida ou alterada de inúmeras maneiras.
Algumas partes podem, inclusive, ser suprimidas, apenas insinuadas ou subentendidas em entrelinhas, etc.
Deve-se levar em conta, sobretudo, que as estruturas narrativas mudam muito com o tempo e no espaço.
Para se conquistar e reter a emoção de leitores ou platéias, o fator surpresa é sempre fundamental.
O uso de estratagemas, cada vez mais inusitados, é uma regra constante.
Os mapas da estrutura narrativa aqui expostos, bem como o papel desempenhado por cada um dos arquétipos citados neste contexto, devem estar a serviço, portanto, da narrativa, do desenrolar de seu transcurso, que precisa ser sempre surpreendente.
A melhor chave para se entender a proposta de Joseph Campbel (' O homem das mil faces ` ou ' A Jornada do Herói ') e Christopher Vogler (' A Jornada do Escritor ') talvez seja compreender que, apesar de serem muitas, quase infinitas, as variações possíveis no ato de se contar uma história, no fundo, estamos contando sempre as mesmas caquéticas e míticas histórias, de uma mesma Jornada Ancestral que pode ser concebida como uma saga-matriz, única, comum a todos os seres humanos, que é a seguinte:
«Um homem (ou mulher), faminto e sem alternativa, sai de sua caverna em busca da comida que terá que conseguir a qualquer custo «ou» Um herói (ou heroína) sai de seu seguro mundo comum para se aventurar num mundo hostil e estranho».
Tudo nesta proposta é simbólico.
A ' Jornada ' pode ser externa ou interna, íntima, ou seja, pode ser uma aventura física propriamente dita, com heróis, vilões, etc. ou uma história que se passa na mente e / ou coração do personagem.
O que se segue, a história em si, são as surpresas ocultas nas curvas -- a Vida -- até se chegar ao destino inexorável do homem -- a Morte.
A seguir, as etapas da Jornada do Herói, seguindo o roteiro criado por Christopher Vogler, dirigido à roteiristas e escritores em geral.
A Jornada do Escritor
1-Mundo comum
A maioria das histórias leva o personagem principal para fora do seu mundo comum, cotidiano, em direção a um mundo especial, novo e estranho.
Antes de mostrar alguém fora de seu ambiente costumeiro, obviamente primeiro deve-se mostrá-lo em seu mundo comum, para traçar um contraste nítido entre esse universo ordinário e o mundo especial no qual esta alguém adentrará.
2 -- Chamado à Aventura
A o herói é apresentado um chamado à aventura, um desafio de grande risco.
Uma vez apresentado esse chamado, o herói não pode mais permanecer indefinidamente em seu mundo comum.
3 -- Recusa do chamado
É normal qualquer herói sentir medo após ser chamado à aventura.
Quando o herói recusa, é necessário que em algum momento surja alguma influência para que ele vença esse medo.
Pode ser um encorajamento do mentor;
uma nova mudança na ordem natural das coisas.
Quanto maior for o medo do herói em entregar-se à aventura, maior será o vínculo emocional do espectador com a ' aventura '.
4 -- Encontro com o Mentor
Em esse ponto da história, o herói já deve ter encontrado um mentor.
A relação entre o mentor e o herói é um dos temas mais comuns na mitologia.
A função do mentor é preparar o herói para enfrentar o desconhecido quando ele atravessar o primeiro limiar.
O Mentor só pode ir até certo ponto com o herói, a partir do qual o herói deve prosseguir sozinho ao encontro do desconhecido.
É importante frisar:
Um herói pode ter vários mentores.
5 -- Travessia do Primeiro Limiar -- fim do primeiro ato
O herói encorajado ingressa enfim no mundo especial, dispõe-se a enfrentar a s conseqüências de lidar com o problema ou o desafio apresentado por o chamado á aventura.
Este limiar geralmente marca a passagem do primeiro para o segundo ato
6 -- Testes, Aliados e Inimigos
O herói encontra seres, coisas ou elementos que o experimentam, desafiam ou estimulam a seguir na aventura, aprende em suma as regras deste mundo especial no qual ingressou.
Estes testes e encontros com aliados, geralmente, se dão em espaços físicos especiais, espécies de ante-salas de ' postos de fronteira ' entre o mundo comum e o outro mundo.
7 -- Aproximação da Caverna Oculta
O grande portal da aventura, local ou estado onde os maiores desafios podem ou devem estar à espreita do herói.
Segundo limiar a ser atravessado este deve ser um lugar aterrorizante que não pode ser evitado por que é lá que está escondido o objeto da aventura, aquilo que o herói precisa conquistar para que a sua aventura faça sentido.
8 -- Provação Suprema
Rito de passagem.
O herói entra na caverna oculta e passa por seu maior desafio ou sofrimento, no qual quase sucumbe.
É o momento de vida ou morte, de maior suspense porque o expectador não sabe se o herói conseguirá escapar da força hostil contra a qual está se defrontando.
-- Recompensa -- Fim do segundo ato
Momento de alívio.
Conseguindo sobreviver á provação suprema o herói adquire o direito de se apossar da recompensa, o objeto de toda a aventura.
Momento de esclarecimento, compreensão, lucidez, encontro de uma solução para todos os dramas e dúvidas vividos por o herói até aqui.
Redenção.
10 -- Caminho de volta
Obstáculos e novos desafios representados por a perseguição que o herói passa a sofrer das forças vingadoras, remanescentes daquelas contra as quais combateu que, em geral não foram totalmente destruídas.
Momento no qual o herói decide que precisa voltar ao mundo comum, de qualquer modo, e que existem ainda novos desafios em sua vida, daqui para frente.
-- Ressurreição
O herói precisa passar ainda por a última grande provação que é destruir definitivamente as forças vingativas que o perseguiram e o encontraram.
Novo momento de vida ou morte no qual o herói vence com louvor e cruza enfim o terceiro limiar sendo totalmente transformado por a experiência.
12 -- Volta com o Elixir -- Fim 3o ato
O herói retorna ao mundo comum com uma bênção ou um tesouro que beneficia este mundo comum.
Caso não traga este elixir, esta prova material de que viveu e venceu a aventura, o herói terá que recomeçar seu caminho de novo.
Os arquétipos
1. Arauto -- aquele que anuncia ou chama a mudança, o que motiva.
Nova energia, pessoa, condição ou informação que desequilibra de vez o herói, obrigando-o a tomar a decisão de enfrentar o desafio principal.
É o arquétipo do arauto que entrega ao herói ' o chamado á aventura '.
O Arauto pode ser, portanto, uma pessoa boa ou má, ou mesmo uma força, um elemento da natureza.
2.
Camaleão -- aquele que introduz a dúvida, a confusão, que imprime suspense na história porque não se sabe exatamente de que lado ele está-aquele que não é o que aparenta ser, volúvel.
Mais uma função dramática do que um arquétipo comum, o camaleão pode ser usado por qualquer personagem segundo as necessidades da história.
3.
Guardião de limiar -- obstáculos, empecilhos (humanos, animais, físicos ou não, como neuroses, medos, demônios interiores ou exteriores, vícios, dependências psicológicas, limitações pessoais) que se antepõe ao herói diante de um importante ponto da jornada que precisa ser ultrapassado-capatazes do vilão ou mesmo aliados do herói com a função de testar sua disposição para os desafios que virão.
4.
Herói -- Palavra grega = ' proteger e servir '.
disposto ao sacrifício para beneficiar o próximo -- ego, ser distinto dos demais-o que se destaca, distinto do grupo, aquele que se separa da tribo para defendê-la.
Função de ser a janela através da qual se enxerga a história e que deve possuir características variadas tantas quanto pode possuir uma pessoa (mistura de características universais).
Crescimento, processo, ser em transformação-aquele que mais cresce com a experiência da jornada -- disposto a tudo ou relutante de tudo que por fim se decide ou é levado a se decidir por as circunstâncias.
Solitário, solidário ou catalizador.
Ser que se acha separado em várias partes que precisam ser incorporadas para se tornar um ser integral.
5.
Mentor -- velha ou velho sábio.
Aquele que guia-inspiração divina, deus ou aquele que entusiasma (' en theos ') id (dentro de nós) consciência, um dos pais-madrinha ou padrinho -- professor, mestre, aquele que presenteia e recompensa (dá a chave, o segredo) com o talismã -- provedor, inventor -- motivador-o que planta e inicia (inclusive sexualmente) aquele que dá o exemplo (bom ou mau).
Mentores podem ser ' caídos ', relutantes e patéticos, continuados (designam missões), múltiplos (vários mentores, um por cada missão), cômicos (como amigos confidentes) xamãs, flexíveis (pode estar conjugado em qualquer outro arquétipo).
6.
Pícaro -- aquele que zomba com sabedoria da ordem mal estabelecida, do que não é real ou não deve ser levado a sério.
Inimigo natural do status quo.
Aquele que alerta que é necessária uma mudança.
Aquele que alivia as tensões que estão prestes a produzir uma explosão fora de hora.
Geralmente, os pícaros são coadjuvantes, mas, em muitos casos podem ser utilizados como muito acerto como heróis (heróis picarescos), neste caso costumam ser heróis catalisadores, que mudam o caráter dos outros personagens sem mudar a si próprios.
7-Sombra -- entidade conflitante, energia do lado obscuro, aspectos não expressos, irrealizados ou rejeitados de alguma coisa, ou ser, partes obscuras de nossa personalidade, recalques escondidos.
Estas qualidades, do ponto de vista do herói, aparecem, normalmente, nos antagonistas, inimigos e vilões, mas, podem ser também aliados que discordam da forma como o herói se conduz na história e tentam fazer de outra forma, criando um conflito.
Como o Camaleão o Sombra pode ser utilizado como função dramática em qualquer personagem.
Número de frases: 124
Desde a divisão do Estado, em 1977, o Mato Grosso de cá, cuja capital é Cuiabá, com sua carga secular, do alto dos seus quase 300 anos, se desenvolveu economicamente, viu surgir inúmeras cidades com potencial para o agro-negócio, a população cresceu mais que o dobro, bateu recordes nacionais de produção agrícola e pecuária, mas, mais importante que isso, no meu ponto de vista, abriu largas fronteiras em sua produção cultural, está experimentando um momento efervescente e aponta para um futuro que promete muito.
Cuiabá, por exemplo, vive uma explosão de novos talentos em todos os segmentos da produção artística e cultural como poucas vezes se pode ver.
A carga de urbanidade é muito acentuada, na arquitetura e urbanização da cidade;
no comportamento da juventude;
nas manifestações musicais como o hip hop, o rock e suas várias vertentes, aqui muito bem representadas;
na literatura;
no esporte como o skate, bikers, rollers;
na noite cuiabana, que sempre foi famosa por a sua extraordinária oferta e farta movimentação.
Desde a década de 80, passando por os 90, e agora nessa primeira década dos 2000, Cuiabá confirma, definitivamente, sua tendência cosmopolita e vocação para comportamentos típicos dos grandes centros urbanos.
Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, Festival Calango, Consciência Hip Hop, Bienal de Música Contemporânea, Festival Nacional de Teatro, a estreante Semana da Arte Urbana, que vem para ficar e se efetivar no calendário anual da cidade, são alguns eventos que demarcam novos territórios na capital e que dialogam com movimentos contemporâneos das grandes cidades do Brasil e do mundo.
Não tem muita diferença no comportamento e nem nas criações e / ou produtos que essas atividades estão gerando.
Estão num nível que se assemelha ao dos grandes centros.
A questão agora passa a ser de legitimar um mercado interno compatível com toda essa oferta.
Criar-formar demanda, criar espaços para a auto-sustentabilidade, gerar mercado, criar redes de sustentação dos própros negócios.
É o tempo da segmentação mercadológica, a anarquia se instaura e novas oportunidades de negócios surgem a todo instante ou são inventadas a cada tempo que passa.
A cabeça humana desconhece limites, se adapta, as formas vão surgindo de acordo com o comportamento da sociedade, sempre mutante, e é assim que os novos modelos surgem, das novas demandas.
Algumas experiências já se acumulam e estão mais próximas de resultados concretos nesse pedaço de mundo.
O trabalho que o Espaço Cubo vem fomentando há alguns anos com idéias novas de relações profissionais internas e de mercado, é um dos trabalhos que têm se destacado nesse contexto.
Planejamento estratégico, novos modelos de negócios, o sistema Cubo Cards, distribuição de produtos, quer dizer, estão pensando toda a cadeia produtiva e propondo ações dentro de um contexto de negócios que apontam para modelos abertos (ver: open business).
Um dado importante que tenho observado nesse fenômeno é uma certa tendência para o surgimento de núcleos (instintivamente, ou não) com conceitos mais voltados para o coletivismo, para o compartilhamento de conhecimentos, mudando a relação com o direito autoral.
Com a web 2.0, que oferece ferramentas para o compartilhamento de experiências criativas ou para a construção coletiva do conhecimento, a questão do direito autoral passa necessariamente por novos modelos, como o Creative Commons ou o Copyleft.
É caminho sem volta e muitas iniciativas já vislumbram novas possibilidades de circulação.
Com as experiências que vêm acontecendo, podemos constatar (ao contrário do que se pensava) a revelação de novos autores-criadores que utilizam a internet para a distribuição gratuita de seus produtos, fazendo com que sejam conhecidos.
Deixam assim de ser reféns dos comportamentos gulosos da indústria cultural que, na realidade, nunca protegeu o direito de ninguém, de nenhuma autor, a não ser os seus próprios interesses.
Os novos grupos que estão aparecendo na cena cultural contemporânea em Cuiabá respondem por os seguintes nomes:
Arcada Dentária, Jovens Arteiros, Fábrika de Estagiários, Associação Cultural dos Produtores Independentes, Rude Poema, Poetas na Praça, a Samba de All Stars que está em processo de renovação e outros grupos que vêm se movimentando e ainda buscam se definir.
Conversando com o Arthur, falamos do Coletivo Arcada Dentária, um núcleo de escritores degenerados e ilustradores prostituídos, como se auto-definem.
Em que pese o teor auto-crítico, vejo-os, muito mais, tirando uma onda no próprio fazer artístico que hoje está muito mais ligado à idéia de mercado que qualquer coisa.
Desencanto, tudo parece se mover em sintonia com o desencanto e suas múltiplas faces.
Final dos tempos?
Final do encantamento que sempre alimentou nossa alma e ainda hoje nos motiva a continuar acreditando no homem, apesar de suas peripécias decadentes e destruidoras?
A construção coletiva abre uma perspectiva nova para o mundo?
Será que há tempo para a redenção e finalmente o ser humano irá resolver velhos e problemáticos dilemas?
Visões infernais se substanciam de velhos e novos profetas num tempo de apocalipse provável, alardeado por a ciência.
Toda hora é hora de apocalipse.
Arthur falou sobre o início do Coletivo Arcada Dentária, disse que num certo dia o jovem escritor Danilo Fochesatto ligou e disse pra ele entrar num blog com o seguinte endereço:
www.arcadadentaria.blogspot.com -- " De aí entrei e pirei, já tinha lá uma porrada de textos de vários colaboradores.
Literatura de uma gurizada nova que está aparecendo por aí.
Empolguei na hora e entrei fundo com ele na parada e não paramos mais.
É interessante que surgiu despretenciosamente, só queríamos abrir um espaço independente para a moçada nova.
Tá saindo agora o livro de contos do Danilo (o Fochesatto), já saiu o primeiro zine impresso a partir dos laboratórios no Festival Calango, quando trouxemos o Nélson Provazi da editora Baleia (de São Paulo).
Tem mais dois novos escritores querendo lançar por o coletivo, esperamos com isso fortalecer nosso projeto de editora."
A Fábrika de Estagiários começa a se mexer, é um segmento dentro do Coletivo d'A Fábrika que irá priorizar os movimentos jovens, tanto para a realização de eventos, para edição de obras, bem como para investir na formação de novos agentes culturais.
Talita Marimon, 19 anos, coordenadora dessa frente do Coletivo, dispara:
«Estamos em fase de agregar pessoas para nosso projeto.
Estamos formando um grupo afinado com as idéias gerais que esboçamos num pré-planejamento para colocar tudo no papel em forma de projetos para o ano que vem."
Ela emenda ainda:
«Cuiabá deu um susto em todo mundo por a quantidade de eventos que vêm sendo ofertados, principalmente nesse mês de novembro.
A programação cultural da cidade está crescendo como um todo, em todos os segmentos, isso anima muito a gente a fazer parte desse processo."
A Fábrika de Estagiários está preparando, em parceria com a galera do " Jovens Arteiros, que se define como um movimento cultural independente, um evento cultural com característica multimídia, abrindo espaços para apresentações de bandas, mostras de vídeos, exposições de fotografias e artes plásticas e outros agitos.
Em o comando Giulia Medeiros, de apenas 15 anos.
Ágil, bem falante, ela sabe muito bem o que quer.
Senta em qualquer mesa para discutir assuntos que a princípio parecem ser apenas de ' gente grande '.
Giulia aponta para o futuro, mas já é presente.
Um tempo presente, mas que aponta para um futuro brilhante.
Quem sabe a luz que anuncia outros movimentos, mais solidários, mais voltados para os interesses da coletividade.
A revolução já começou?
Número de frases: 57
Natália Amorim
Abarcando a muitos com alcunhas como «estética da periferia» e «gueto globalizado» os discursos que roubam a fala e mimetizam o conhecimento de parcela dos nossos criadores é hoje um grande negócio para a economia cultural.
Emparelhar a produção dos criadores, artistas e pensadores, que não vivem sob o teto dos bairros da elite, classificando-o essa produção com termos como «estéticas das periferias metropolitanas»,» gueto globalizado», «constituição do comum» e outras alcunhas, parece ser a nova moda da mídia e acadêmicos.
Os que assim adotam tais denominações, longe de conceber esses espaços de convivência plurais (homem / mulher / criança /bicho/planta/ construções) em sua heterogenidade, singularidade e afetos, procuram abarcar numa linguagem que caí muito bem ao gosto do «statos quo» de uma elite cultural e intelectual que pesa, mede, cartografa, mapeia e pesquisa, tornando «coisas» a todos os que não habitam nos «bairros nobres» das metrópoles, estes sim, espaços identificados singularmentes em seus nomes, cantados em prosa e verso, e dramatizados em cadeia nacional, cujo o imaginário e a singularidade parece coabitar e pertencer apenas os que em eles o partilham como morada.
Quando a palavra «periferia» não havia caído no gosto duvidoso da mídia e da elite artística e cultural nominava-se aos bairros afastados do centro das capitais e cidades por o seu nome, eram espaços urbanos que existiam em suas singularidades:
Neves, Coqueiro, Marambaia, Ramos, Barreto etc..
Hoje, todos esses espaços, legitimados em sua história e afetos foram jogados no lugar comum de «periferia», então criou-se uma» estética da periferia», o que se tornou mais um produto a ser explorado de forma comercial, por a mídia, intelectuais, acadêmicos e produtores.
Exposições, programas de TV, Seminários etc. e o mais interessante e que em sua maioria concebidos e produzidos por pessoas que não moram em ela.
Sob o título Constituição do Comum -- Cultura e Conflitos do Capitalismo Contemporâneo, esteve em Belém um Seminário do programa Cultura e Pensamento do MINC -- Ministério da Cultura tendo como curadores Ivana Bentes e Giuseppe Cocco em parceria com centros de pesquisas, e Universidades UFRJ e UFPA.
O título Constituição do Comum que no folder se propunha a abranger questões como:
Movimentos, Migrações, Racismo, estéticas das periferia metropolitanas, políticas da expressão, funk, hip-hop, tecnobrega, quilombolas entre outros, soou estranho e foi ininteligível a princípio, a exceção dos acadêmicos participantes que compartilhavam da mesma linha de pensamento -- mais tarde explicada ao público por se tratar de um termo criado por Antonio Negri e adotado como condutor do que ali ia se debater.
Em as mesas compostas em sua maioria por acadêmicos o que se ouvia era a inexpressiva produção dos debatedores que não alçavam vôo além do que a simples constatação, perdidos em sua verborragia vazia e sem sentido de uma produção alienada alheia a práxis, com exceções de poucos detentores do real conhecimento, o que conjuga reflexão e ação, que alí estavam como Zélia Amador, firme em sua luta por as cotas para negros, sabedora ela na sua própria pele do que fala e pratica.
Temas como a busca eterna da identidade perdida, questão que nossos acadêmicos que versam sobre cultura adoram verborragir, e dar voltas e mais voltas sem sair do lugar, os mesmos que partilham e importam idéias e conceitos como o «gueto globalizado», a» estética da periferia «e a» Constituição do Comum», já que hoje, os mesmos que adotam tais termos, por vezes vivem em espaços perdidos de seus sentidos simbólicos e afetivos expressos numa porta antiga, numa madeira ou grade descascada, ou numa rua de areia, já que os espigões proliferam por os bairros centrais das metrópoles, para onde anseiam ir as massas da elites econômicas, culturais e intelectuais do Brasil.
A mesma elite que faz com que a UFRJ, a segunda maior universidade do país não tenha bandejão, mas apenas restaurantes internos particulares.
Em a ausência dos reais representantes dos temas ao qual o evento se propôs a debater, tecnobrega, funk, hip-hop, produção independente de música, o que se ouviu foram as falas desapropriadas que partiam apenas da observação passiva e afastada, que coloca-nos a todos como «objetos de estudo» e nos «coisifica» e «periferifica».
Ecos distantes angustiantes e angustiados, no entanto cientes do seu papel de oferecer a um público «diverso» o pensamento da produção da elite acadêmica e intelectual do país.
Os discursos culturais -- reflexos de uma história que ditou a produção cultural, e tem ditado as políticas públicas partindo do monopólio da região Sudeste, ou Sul maravilha, ainda tenta perversamente enquadrar de forma uniforme a riqueza da criação artística e cultural do país, servindo-o aos jogos do mercado, ao neo-liberalismo, e ao bolso da pequena elite cultural do país que se beneficia dos que não conseguem ou se negam a entrar na máquina criada, e buscam de uma outra forma de compartilhar e expressar criações, idéias e arte.
Chegando hoje ao absurdo de captarem recursos, e fazer projetos culturais para falar destes, apropriando-se da criação e idéias de um cem número de criadores para mimetizar o conhecimento.
Com propostas de sair de um mar de anônimos os grupos de criadores, e artistas, que se espalham por as cidades são agora alvos de produtores e captadores de recursos para que surjam como pessoas físicas e jurídicas, enquadrados num modelo instituído por as pessoas pensantes que formularam e formulam as políticas públicas e privadas do estado e do mercado hoje no país, agora re-designado de «capitalismo cognitivo».
O que representa realmente o «gueto globalizado»?
O que se entende por democracia?
E as quantas anda a amnésia coletiva da elite econômica, cultural e artística, que dá as coordenadas no país?
A «Constituição do Comum» também pode designar a produção acadêmica do país?
Obrigados a ouvir frases como «vivemos no capitalismo e não tem jeito mesmo», os» grupos artísticos tem que se adequar " saímos do Seminário com um sentimento estranho, que hora nos desnorteia, mas também nos fez mais solidários, nós que estávamos ali presentes, co-partícipes do que há por vir, e por o respeito de podermos falar de nós mesmos, de nossos símbolos e ícones, do nosso jeito e formas de ser, pensar, criar, e se expressar, respeitando os construtos mentais diversos que constituem o que se chama Brasil, oriundos de formações étnicas e geográficas múltiplas.
Respeito ao nosso direito de ainda sermos solidários e cooperativos e também respeito ao nosso direito de sermos utópicos, e de nossa luta por não sermos coisificados e legados ao lugar Comum.
28/09/2007 -- Belém -- Pará -- Amazônia -- Brasil
Natália Amorim é cenógrafa, figurinista, arte-educadora, especialista em arteterapia, técnica em Gestão Cultural por a SECULT -- Secretaria de Cultura do estado do Pará, é também poeta e fotógrafa, atual moradora do Bairro da Marambaia em Belém-PA.
Número de frases: 27
Que visões cada um tem?
Número de frases: 1
Que visão é pertecente de um mundo real?.
Pesquisa multidisciplinar que envolve arquitetos, engenheiros, psicanalistas e historiadores procura entender o que as pichações tentam comunicar
O espaço urbano -- ruas, avenidas, viadutos, prédios, muros -- é um local de conflitos visuais.
Tudo o que vemos em ele diz algo a alguém, com interesses distintos.
Discutir esse bombardeio de imagens e símbolos nas ruas é o papel do Projeto Guernica criado por a Prefeitura de Belo Horizonte.
Ele é, desde a sua criação, um espaço tanto para a manifestação quanto para a reflexão e contextualização da arte urbana.
A discussão surgiu a partir de um ato simples e transformador:
escutar. Em 1999, a Prefeitura de Belo Horizonte buscou entender o que as pichações, que tomam indistintamente centro e bairros da cidade, tentavam comunicar.
De essa iniciativa surgiu uma pesquisa multidisciplinar que envolveu arquitetos, engenheiros urbanos, psicanalistas, historiadores, jornalistas.
A cidade é o suporte do grafiteiro.
O que ele enxerga como tela não é certamente visto assim por outros.
A pesquisa buscou ouvir os diferentes lados desse convívio.
«O diálogo entre prefeitura e pichadores foi aberto, pois anos de experiência demonstraram o fracasso contínuo da abordagem repressiva», afirma José Marcius Carvalho Valle, um dos coordenadores atuais do Guernica.
Os trabalhos giram a partir do eixo reflexão -- ação.
«Os meninos só vão para o muro depois de uma conversa.
Ou seja, a idéia é manter um canal de comunicação entre o muro, o que os jovens querem dizer e o patrimônio público.
E que esse diálogo seja mantido e levado por eles», afirma.
Para a psicanalista Maria Ines Lodi, autora da dissertação de mestrado A Escrita das Ruas e o Poder Público no Projeto Guernica de Belo Horizonte, o Guernica não é um espaço para a formação de grafiteiros.
A os participantes é colocada a pergunta «o que você quer fazer?».
Cabe a prefeitura oferecer o equipamento e o material.
O objetivo é deixar claro que existe «vida» fora do grafite:
ilustração, computação gráfica, fanzine, pintura, etc..
Em a visão da coordenação, o caminho a ser tomado por os jovens é uma procura que parte unicamente de eles.
«O Guernica vê o grafite como um meio, não como um fim em si», afirma Maria Inês.
Com o andar do projeto, parcerias importantes reconheceram o talento dos jovens envolvidos e a seriedade do mesmo.
Hoje, mais da metade dos componentes da oficina do grupo Giramundo é constituída por artistas provenientes do projeto.
Há cada vez mais trocas com outros grupos culturais da cidade.
Para Ramon Martins, participante desde o seu primeiro ano, a formação de redes e pontos de produção cultural é uma meta do trabalho.
O artista plástico, e ainda grafiteiro, embora não mais integrante do Guernica, já expôs suas obras na Bélgica e na França.
«Foi uma experiência muito interessante.
Aprendi muito com o projeto, mas agora que estou me formando em artes plásticas, vou seguir outros caminhos», afirma.
A coordenação e os monitores se reúnem semanalmente.
Algumas vezes, convidados participam de um debate sobre a relação entre arte e inclusão social.
Figuras importantes como antropóloga Alba Zaluar, o urbanista Rodrigo Andrade e o filósofo Moacyr Laterza já participaram de conversas com os integrantes, para uma reflexão maior sobre temas como a violência, o espaço urbano e a solução artística.
O objetivo é pensar o grafite / pichação não como um fênomeno isolado, e sim concebê-lo como parte da comunicação visual das ruas.
Pichador ou Grafiteiro?
A dúvida quanto à nomenclatura acabou por revelar um debate mais profundo.
Com os contatos que a coordenação fez com outros projetos de arte urbana internacionais, principalmente em Nova Iorque e Roma, observou-se que fora do Brasil não se acentua tanto a diferença entre pichação e grafite.
Tudo é chamado de grafite.
Para o coordenador do projeto, tal separação é excludente e discriminatória podendo levar a equívocos tanto na abordagem dos pichadores / grafiteiros como na discussão relativa ao respeito ao patrimônio e paisagem das cidades.
«Torna-se pichação aquilo que é incompreensível para nós e que aparentemente não tem nenhum conteúdo.
É preciso relativizar este conceito, não só porque atrás do ' picho ' temos um dizer e um conteúdo, como eventualmente determinadas peças publicitárias poderão agredir muito mais à paisagem urbana», afirma Valle.
O monitor Emerson Silva ressalta que não importam quais são os «muros», a arte é a mesma, portanto o artista também é.
«A distinção surge, na maior parte das vezes, por uma necessidade de categorização e rotulação», aponta.
Já Lodi afirma que a diferenciação se dá, principalmente, na formação dos grupos.
O pichador seria então a primeira fase do grafiteiro.
Apesar de não ser uma delimitação bem definida, as «gangues» de pichação são muito fechadas e competem entre si, já as equipes de grafiteiros (como eles preferem ser chamados) se envolvem mais em trabalhos comunitários e têm objetivos mais «maduros».
* Contato com a coordenação do Projeto Guernica pode ser feito à rua Paraiba, nº 29, 10º andar até o próximo dia 22 de junho.
Número de frases: 48
Após essa data a coordenação estará localizada na Secretaria Municipal Adjunta dos direitos de Cidadania, na Rua Espirito Santo, nº 505.
O Grupo Teatral Mamulengo de Cheiroso completa 28 anos criando espetáculos que alimentam a imaginação, cheios de cultura popular.
Em o currículo vários festivais e apresentações em muitas cidades brasileiras e em outros países.
Em novembro o grupo sergipano faz uma série de apresentações na Península Ibérica com o espetáculo «Festança com o Mestre Cheiroso».
O texto e a direção são de Aglaé Fontes de Alencar.
Essa oportunidade de expansão da cultura de Sergipe foi possível graças a um intercâmbio realizado por o Centro de Criatividade durante o I Encontro Ibérico que aconteceu este ano em Aracaju.
O Espetáculo faz uma homenagem as danças e folguedos do folclore nordestino, em especial o sergipano.
Os atores Augusto Barreto, Rinaldo Machado, Ananda Barreto e Zé Américo Lima vão apresentar o Reisado, São Gonçalo, Parafuso (este grupo folclórico só existe em Sergipe), Samba de Coco, entre outros.
Os trabalhos na Oficina para a confecção dos Bonecos e adereços estão a todo vapor.
As cores, formas e religiosidade das danças e folguedos estão retratadas em cada elemento que vai compor o espetáculo.
As apresentações serão feitas entre os meses de novembro e dezembro em Portugal e Espanha, países que foram responsáveis por a introdução de vários elementos da cultura nordestina.
Agora Sergipe leva de volta o que os colonizadores trouxeram e a cultura do povo preservou.
Número de frases: 12
Aqui, na pequena cidade de Potengi, interior do Ceará, região do cariri, conhecida como a terra dos ferreiros, devido a grande quantidade de pessoas que exercem essa atividade, vivemos cercados de cultura popular, aqui é a terra de seu Franculi, mestre que trabalha com metal, que faz miniaturas de aviões de todos os tipos, e já fez até um aeromodelo que voou, e tá construindo um ultraleve, é também a terra do reisado do sassaré, um reisado de caretas que existe a mais de 60 anos aqui na cidade, e vivendo no meio de toda essa força da cultura popular, foi que nós percebemos, que esses grupos passam despercebidos aqui, enquanto recebemos em nossa cidade visitas de europeus, que costumam vir visitar seu Françuli e Mestre Antonio do reisado do sassaré, as pessoas daqui não valorizam, e muitas vezes desconhecem a nossa culutra, foi aí que resolvemos fazer um trabalho voltado para esse resgate, então, chegamos a conclusão que nosso povo vive mais ligado nas coisas de fora, nas musicas, nas artes, enfim, percebemos que nosso potencial cultural está ficando para trás, aí resolvemos que deveriamos fazer uma junção de toda essa cultura popular aqui da nossa cidade, com esse estilo mais urbano, e criamos a banda Ferréros, que leva o Mestre Antonio ao palco, que mexe com os aviões de Seu Françuli, enfim, fazemos uma música onde procuramos juntar o baião, embolada, repente, aboio, som dereisado, com rock, hip hop, reggae, blues, e estamos conseguindo aos poucos chegar ao nosso objetivo que é fazer esse resgate de nossa cultura popular, pois temos participado de vários eventos, e sempre levamos a apresentação do reisado do sassaré no nosso palco, ouvimos muitos comentários da idéia de misturar o som das marteladas dos ferreiros dentro das nossas musicas, agora a banda está com um projeto de fundar uma ONG, em que vamos poder captar recursos e transformar todos os nosso projetos e sonhos em realidade, vamos aos poucos construir um movimento cultural organizado dentro de Potengi.
Não sei como publicar musica aqui, pois sou novato no Overmundo, mais tem duas musicas de um ensaio aí nesse link:
Número de frases: 2
www.buscamp3.com.br/ferreros [Música Incidental]
Off: Um casal apaixonado está fazendo amor.
Ela está de costas para ele.
Os dois se entreolham e ele a beija no rosto apaixonadamente.
Prendi sua atenção?
E quem sabe se eu dissesse:
[Música Incidental]
Off: Um casal está fazendo sexo intensamente.
A mulher está de quatro.
Ele a penetra por trás.
Os dois se entreolham e o homem lhe dá um beijo no ouvido.
Um pouco mais ousado, mas direto ao ponto.
Você já deve até ter a imagem na sua cabeça.
Agora, tire a citação à música incidental, o off e substitua por um diálogo:
Mulher:
Ai, amor.
Vem.
Homem:
Fica de quatro.
Mulher:
Assim está bom?
Homem:
Vira pra cá, deixa eu te dar um beijo.
Mulher:
Ai, amor, adoro beijo no ouvido.
Mas esta não é uma história de sexo explícito.
O exercício acima foi só para prepará-lo para a nossa conversa.
E a idéia é mesmo conversar.
Trocar idéias, ouvir histórias.
O que afinal é cinema para você?
Digo, o cinema, como a grande maioria de nós está acostumada a conhecer, é uma sala (ou o ato de entrar nessa sala) escura, cheia de poltronas, com uma tela enooorme, um sistema de som quase ensurdecedor, onde assistimos a um produto audiovisual.
Audiovisual, não é?
Carlos Eduardo Pereira, o Cadu -- como eu o conheci --, é pesquisador de cinema e programador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM), é músico, pianista, e mestrando em etnomusicologia na Escola de Música da UFRJ.
Graciela Pozzobon é atriz, premiada nos festivais de Brasília, do Rio e de Gramado por a sua atuação no curta Cão Guia de 1999, dirigido por Gustavo Acioli, entre uma série de outros trabalhos, é formada por a Casa de Artes de Laranjeiras (Cal) e estuda Artes Cênicas na Unirio.
[Não, eles não são o casal acima!
Mais respeito, gente ...]
Acontece que Graciela e Cadu atuam em flancos diferentes do front (ou teatro de operações, se preferir) do cinema, e ambos são legítimos representantes de categorias únicas -- únicos no Rio e raros no Brasil.
Ele é pianista de cinema mudo.
Ela, narradora de audiodescrição.
A grosso modo:
ele executa músicas para filmes sem som e ela narra cenas sem diálogos para deficientes visuais no cinema.
A o meu ver, ele traduz num som abstrato uma imagem concreta, enquanto ela, num som concreto uma imagem abstrata.
Ou foi mais ou menos assim que eu tentei sempre aproximá-los nas conversas que tive ora com um, ora com outra.
Cadu se remete à História (com agá maiúsculo) do cinema para dizer que " Cinema silencioso praticamente nunca existiu.
A primeira exibição pública dos irmãos Lumière, em 1895, teve um pianista acompanhando o filme.
Uma das principais razões para que os filmes fossem acompanhados de música era porque os projetores eram muito barulhentos.
A música servia para encobrir o ruído." (
Poucos dias antes de entrevistá-lo, eu havia assistido a uma apresentação sua, ao piano, acompanhando uma sessão de lanterna mágica -- uma espécie de projetor de slides, precursor do cinema, que surgiu por a metade do século XVII --, antecedida por uma palestra de Hernani Heffner sobre o raríssimo aparelho, e pude comprovar, se não o barulho do projetor ou a monotonia dos slides, ao menos o entreter que a música ajuda a compor na situação de alguém que «expecta» uma série de imagens na parede de uma sala escurecida.)
Nunca foi silencioso, mas é dito mudo.
E cinema mudo, hoje, é naturalmente descrito por exclusão (é cinema, mas é cinema mudo: repare aí o adjetivo que qualifica subjetivamente e exclui objetivamente o que é o quê).
«O som», diz Cadu,» redimensiona a imagem.
Eu digo alguma coisa que o filme sugere, mas é algo que não está dito propriamente, porque o som constitui na verdade uma outra dimensão daquele objeto fílmico.
Eu digo que a visão está muito próxima da razão, porque é através da imagem que você consegue medir, contar, enxergar ou não em três dimensões, é um procedimento muito natural.
Já o som pode significar uma coisa para você e outra para mim.
Eu até fiz um trabalho em que questionava se o som pode ou não ser considerado uma linguagem, justamente por conta dessa ambigüidade semântica.
A música é mais emocional."
Em o cinema audiodescrito, são as brechas de música (ou de silêncio) as mais aproveitadas por o narrador para explicar os detalhes da cena.
Quando os personagens falam, é hora do narrador se calar.
Em o mais das vezes, é no momento em que o cinema se torna «mudo» que a audiodescrição é feita -- sempre no intuito de tentar auxiliar o deficiente visual a enxergar a cena da forma como o espectador comum a recebe.
«Uma obra cinematográfica é composta de muitos aspectos e você tem que saber julgar quando o diretor está usando de algum recurso que seja fundamental para contar aquela cena.
Então é importante ter noção de luz, de posicionamento de câmera ...
Eu tenho um exemplo de um filme em que a cena é assim:
um nadador se atira na piscina de cabeça.
E você imagina na sua cabeça essa cena. [
Faça o teste!]
E se eu te falar que a câmera estava posicionada dentro água?
Muda tudo, não é?"
Off: Eu acenando com a cabeça, embasbacado por a surpreendente obviedade do exemplo.
O que encanta na pergunta implícita nesse breve apanhado sobre as duas profissões é a discussão acerca do estatuto do cinema que não é exatamente-audiovisual.
Pergunto a Graciela se a audiodescrição não faz do filme um livro falado, se a coisa não deixa de ser cinema.
A pergunta é dura, e ela sente isso:
«É diferente ouvir a história contada.
Estar dentro da caixa preta, ouvindo os diálogos originais, o som alto.
Não é a mesma coisa que sentar e contar a história a alguém.
Provavelmente deve ter começado assim a audiodescrição, com um amigo do lado, que fica falando, atrapalhando o filme dos outros."
De aí concluo que minha concepção de cinema talvez fosse conceitual demais e muito pouco prática.
A seqüência da entrevista com Graciela foi uma pááá ...
Off:
Faço o gesto de um tapa.
... na cara.
Não deve ser mais complicado assistir a um filme confiando só na memória auditiva, que em geral é muito mais curta que a nossa infalível memória visual?
Ela faz um gesto de quem não estranha a pergunta, mas sorri:
«Uma vez um cego me deu um pááá na cara e disse assim: '
Não adianta querer fazer de conta que é cego e achar que é só fechar o olho.
É diferente, entendeu?
Porque, não tendo visão, você aguça outros sentidos, você tem um outro caminho.
Então, a gente é que é muito prepotente!
Um monte de gente vem assistir e diz ' Vou ver como é que é.
Vou fechar os olhos '.
Aí, primeiro, fica espiando, porque é impossível ficar uma hora e meia de olhos fechados no cinema.
E, segundo, não basta isso!
É outra compreensão da vida, outra atmosfera." (
Eu, que no dia seguinte assisti a uma sessão do filme Coisa de Mulher, na Mostra de Cinema Nacional Legendado e Audiodescrito, em cartaz no CCBB-Rio, tive o cuidado de Não fechar os olhos para conferir o trabalho de Graciela e achei uma pena que a adesão dos cegos não venha sendo tão alta, como me informou Helena Dale, fonoaudióloga da ARPEF, Associação de Reabilitação e Pesquisa Fonoaudiológica, diretora do CPL, Centro de Produção de Legendas, e curadora da mostra.)
Em momentos -- e por que não?--,
em climas diferentes, pianista e audiodescritora ressaltaram a importância da sensibilidade, do olhar (!),
e de ele mesmo:
do clima.
«Hoje em dia», Cadu brinca,» as pessoas acham que cinema mudo é filme do Chaplin.
Mas não.
Vai do melodrama ao cinema instrumental, do documentário ao expressionismo.
Cada um desses gêneros pede um tipo de acompanhamento musical diferenciado.
A coisa da sonoplastia dentro do desenho animado ou da comédia é algo que cai muito bem, mas dentro de um filme que tenha uma amplitude psicológica um pouco maior já não é tão adequada».
Com sonoplastia, ele quis dizer o traduzir em efeitos sonoros alguma coisa que acontece na tela.
Um chaveiro cai [tliiim].
Cadu me explica que no jargão da música para cinema mudo, este tipo de prática ficou conhecida como mickeymousing, justamente porque era muito usada em animações infantis.
«O principal é que a música tenha a ver com o clima do filme.
Quando o cinema surgiu, não havia salas específicas para as sessões.
Elas aconteciam em feiras, circos, cafés, lugares em que já se tinha música.
E isso facilitou a junção das duas linguagens.
Mas logo de início a música começa a ter funções específicas dentro do cinema, exatamente essa questão da funcionalidade dramática a partir do filme.
A música precisa estar de alguma forma relacionada com o clima do filme.
De alguma forma, as duas coisas tomam corpo e se juntam para criar um espetáculo, com dimensão maior do que apenas imagens mudas em movimento."
Tateando, tateando, descobri que a sonoplastia é também um elo possível com o cinema audiodescrito.
Lembrando sempre da importância da acessibilidade, Graciela conta que " Os cegos estão acostumados a assistir a filmes sem audiodescritor, eles têm uma capacidade impressionante de ouvir um barulho e deduzir do que se trata.
Então, preciso deixar que eles ouçam ruídos importantes.
Eu não preciso dizer que o carro freou e o motorista buzinou.
Se o chaveiro cai [tliiim], você não precisa narrar, mas se cai dentro de um bueiro, você precisa dizer que foi num bueiro."
A descrição mais precisa do que é audiodescrição veio em seguida:
«Eu, como audiodescritora, sou uma ponte entre o cinema e o cego.
Eu não posso interpretar, não posso julgar, não posso explicar.
A função da audiodescrição é ser imperceptível.
É um trabalho de escolhas, você tem de escolher a melhor palavra para descrever aquilo " E aí, talvez, mais um paralelo:
segundo Graciela, na audiodescrição, " Você manipula emoções.
Você tem que estar no clima.
Você passa de uma emoção a outra com muita rapidez.
Então, se você tem esse repertório de emoções, que é com o que o ator trabalha, é muito mais fácil."
Quem chegou até aqui atraído apenas por o casal que fazia amor com uma música incidental lá no primeiro parágrafo deve, afinal, ou estar muito decepcionado ou estar no mínimo curioso para saber exatamente como é o trabalho de um pianista de cinema mudo ou de uma audiodescritora.
Isso, aos pouquinhos você vai ver.
Minha curiosidade inicial ficou por conta da roteirização, o que é e o que não é improviso na dinâmica de ambos.
Cadu diz que ele mesmo escolhe as músicas que irá tocar.
Já na virada para o século XX, ele conta, Thomas Edison, inventor do cinetoscópio -- um projetor de filmes perfurados anterior ao cinematógrafo --, se mostrava bastante preocupado com a adequação das músicas aos filmes.
«Em geral, os músicos eram muito criticados por a escolha inadequada de trilhas sonoras.
Isso, durante toda a época do cinema mudo."
Em o Brasil, o cinema foi uma escola e uma oportunidade de trabalho para músicos amadores e mesmo grandes compositores.
Ele cita Villa-Lobos e Radamés Gnatalli, entre os músicos eruditos.
Pixinguinha e Benedito Lacerda, entre os populares.
«Alguns filmes, especialmente grandes produções, tinham a música pronta ou uma indicação de tudo o que acontecia na tela, tipo um roteiro, em que eles indicavam a música ou como a música deveria ser.
Mas na maioria das vezes não era isso que acontecia.
Acontecia que a música chegava aqui atrasada ou não chegava.
Era raro você ter -- e hoje em dia são pouquíssimas -- partituras de época.
A gente tem algumas aqui [na Cinemateca], mas que, na verdade, foram compiladas mais tarde por outros músicos.
Então, eu não me sinto obrigado a tocar uma partitura compilada por outra pessoa e que não é da época.
Assim, basicamente, sou eu que escolho as músicas e também improviso um pouco na hora, até para me ajustar ao filme», diz.
Em a voz de Graciela, " O estudo é assim:
eu recebo uma cópia do filme com o timecode aparente e vou assistindo e marcando o tempo.
Quais são os buracos em que tenho tempo para falar, quando tenho uma informação importante a dizer.
Eu construo um roteiro em cima disso e vou para o estúdio criar arquivos de som para esses intervalos.
Por exemplo, eu sei que, no minuto 30 minute8 second, eu tenho dez segundos para falar.
Então, crio esses arquivos de som, que depois serão mixados ao som original do filme."
Aí, uma pausa:
Graciela atua como audiodescritora sobretudo em dois eventos distintos:
a Mostra de Cinema Nacional Legendado, que já contava com sistema de closed caption e a partir deste ano inclui também o «e Audiodescrito» no título, a fim de contemplar os deficientes visuais;
e o Festival Assim Vivemos, de filmes sobre deficiência em geral.
Os dois são abertos ao grande público, mas Graciela conta que, no festival, concentrado em duas semanas, ela recebe turmas de portadores de síndrome de down, por exemplo, que enxergam, mas têm dificuldade de ler as legendas.
O que os audiodescritores fazem, nesses casos, é uma leitura de legenda, através do mesmo sistema de audiodescrição.
O sistema em questão é uma cabine acústica, como as de tradução simultânea, em que o audiodescritor -- geralmente eles trabalham em pares, para facilitar uma pré-divis ão dos diálogos, " Graças a Deus!" -- narra as cenas, enquanto o público ouve tudo por meio de fones de ouvido.
A audiodescrição lá é feita ao vivo.
«Ao vivo é uma loucura.
Este ano, por exemplo, de 36 filmes, só seis são brasileiros, então, com os estrangeiros a gente tem de fazer uma espécie de dublagem.
Eu dizia: '
A mulher entrou no quarto, acendeu um cigarro, sentou, olhou por a janela.
Ela está vestindo um sobretudo rosa.
Oi, fulano, tudo bem? '
Uma pauleira!"
A Mostra de Cinema Legendado e Audiodescrito também utiliza um sistema de fones de ouvido, mas a audiodescrição é pré-gravada, por meio de um programa desenvolvido por a equipe de Helena.
Durante a sessão a que assisti, os fones sem fio sofreram por diversas vezes uma interrupção que me obrigava a apertar um botão para mudar de canal.
É mais ou menos como acontece com as linhas cruzadas de telefone sem fio.
A freqüência usada por os fones é a mesma de rádios locais e, como a sala não era blindada, há uma série de interferências no decorrer do filme.
A blindagem, mencionada por Helena, me remeteu diretamente ao inglês blind (" cego ") e fiquei pensando se o objetivo da sala escura do cinema não é «cegar» o expectador para o que está ao seu redor, como na metáfora da caverna, de Platão.
Cadu me confessa que geralmente não faz um ensaio geral.
«Eu vejo o filme uns dois dias antes."
Em a sessão a que assisti, de lanterna mágica -- o que é naturalmente bem diferente de uma sessão de cinema mudo --, havia um pequeno complicador:
a narração de Reynaldo Roels Jr., curador do MAM, de algumas cenas projetadas nos «slides». (
Em a verdade, era a historinha de A Bela e a Fera.)
Por causa disso, " Além de me preocupar com a imagem, eu tinha que tocar e sincronizar com a fala, sem me sobrepor.
Eram três elementos diferentes», o que justificou um ensaio, durante a tarde.
Mesmo assim, como o ensaio foi no claro, e na hora da exibição Cadu conta apenas com uma lanterninha para iluminar partitura e teclado, ele diz que estranhou um pouco.
Eu, humilde mortal, não consigo conceber alguém que toque ao piano apenas com aquela luzinha, mas Cadu relata duas histórias curiosas.
A primeira foi de uma vez em que tocava com uma lanterna à pilha (" Hoje em dia estou usando uma lâmpada de geladeira ") e a pilha acabou no meio do filme.
«Eu tive que continuar no escuro total, só com a luminosidade da tela."
A segunda história foi de quando ele havia ido tocar em Angra dos Reis (RJ), num projeto em parceria com o Cineduc.
«A gente levou um grupo de crianças para fazer brincadeiras óticas e eu fiz uma sessão de curtas mudos num cinema que tinha um piano.
O problema é que eu cheguei lá no dia -- a gente, claro, não tinha como ir antes para ver o espaço -- e o que aconteceu foi que o piano ficava na coxia e não se tinha como trazê-lo para o palco.
Não tinha ângulo ou demandaria que dez pessoas o carregassem."
De onde estava o piano, Cadu não conseguia ver a tela.
Mas conhecia os filmes, pois já havia tocado algumas vezes acompanhando-os.
«De aí eu coloquei um amigo na porta da coxia para ficar olhando o que acontecia na tela.
Como eu sabia mais ou menos que música usar em cada trecho, eu disse a ele assim: '
Quando estiver acontecendo tal coisa, você me avisa, dá um sinal.
E avisa quando o filme acaba. '
Eu fiquei tocando e olhando para ele."
Se Cadu já tocou às cegas, Graciela diz que um dos maiores erros em audiodescrição é narrar antevendo o que acontece na tela.
«Porque depois que você já viu o filme 300 vezes, você sabe que aquela senhora que está entrando é a mãe do cara, mas você só soube disso por causa dos diálogos.
Então, tem que ter o maior cuidado pra não dizer: '
Agora entrou a mãe do cara. '
Como assim a mãe do cara? ' "
Ver o filme como se fosse a primeira vez:
isso é o mais importante.
E sensibilidade para perceber os ritmos:
«Em um filme do Bergman, por exemplo, os silêncios são fundamentais.
Se eu não perceber isso e ficar tagarelando, dizendo ' Oba!
Que bom que tem um tempo enooorme ' e ficar descrevendo tudo, falando da cortina ...
Se não deixar o cara receber aquele silêncio também ...
eu estou indo contra a obra."
«O andamento musical», diz Cadu,» não está muito ligado com a sincronia, mas com um timing de ação, de cena."
Palavra de quem também compõe para cinema.
Ele certa vez foi convidado por a Funarte para compor uma trilha para orquestra.
«A Funarte queria um filme mudo brasileiro que tivesse trilha.
De aí eles me ligaram para saber se tinha.
Não tinha.
Eles então propuseram de eu fazer uma trilha.
A gente escolheu Brasa Dormida, do Humberto Mauro, um filme importante, sofisticado.
E foi um trabalho canino!
Eu tive que fazer tudo à moda dos antigos compositores de cinema clássico.
Cronometrava todas as cenas, para saber o tempo.
Usava um metrônomo para saber o andamento e poder colocar na partitura o que coubesse naquele trecho.
Foram 500 páginas de música orquestrada, e nunca foi tocada."
Acontece que, além de problemas de politicagem e patrocínio, orquestra é uma coisa caríssima.
«Acho que só cinema mesmo pode ser mais caro que uma apresentação de orquestra, que é uma coisa inacreditável de complexa."
Graciela conta que audiodescrição, em comparação com preços de equipamentos em geral, mão-de-obra etc, é algo relativamente barato, sobretudo no caso de se inserir um áudio a mais nos DVDs.
O sistema seria muito próximo do que é a tecla SAP hoje, você poderia acionar ou não para ouvir a narração.
Em o Brasil, apenas um DVD conta com isso.
Pasmem! O filme do Padre Marcelo Rossi.
E assim mesmo só por a insistência do audiodescritor, que gravou quase que por conta própria, para mostrar que não era algo tão complexo.
Graciela não entende exatamente por que as empresas não investem no mercado.
«São cinco milhões de cegos no Brasil.
A audiodescrição representara uma oportunidade incrível de vender um produto para este público», lembra.
Mas ela acredita que assim que a coisa for descoberta, vai virar moda.
«E, aí, vai ficar feio para quem não der acessibilidade."
A entrada de Graciela no mundo da audiodescrição (" da áudio», como ela chama, intimamente) é uma aventura à parte.
Ela foi chamada, em 2003, para o Assim Vivemos, por conta de seu trabalho como intérprete de uma moça cega no curta Cão Guia.
Em a época, para viver uma deficiente visual, ela fez o curso de reabilitação do " Instituto Benjamin Constant.
«Eu ganhei minha bengala, saí, peguei ônibus ..."
Quando recebeu o convite para narrar os filmes, ela, então, pesquisou e teve grande dificuldade para encontrar material.
Até que começou a se comunicar com Marie-Luce Plumauzille, que há já 15 anos é o nome da audiodescrição na França.
Cadu é formado em cinema por a UFF.
Havia trabalhado no MAM como estagiário e prestador de serviços.
Como também era músico, o pessoal do RioCine o convidou para acompanhar um filme, «Uma coisa esporádica», ele lembra.
Certa vez, o ex-diretor da Cinemateca, Cosme Alves Neto, lhe disse que tinha o grande sonho de fazer sessões de filmes mudos com acompanhamento de música.
Em 1987, houve uma reforma no auditório da Cinemateca e o sonho começou a se tornar realidade.
Realidade me parece ser algo muito subjetivo para o universo auditivo de uma audiodescritora e um pianista de cinema mudo.
O grande mestre Niemeyer já dizia que, antes de esboçar o desenho de suas obras, ele tenta descrevê-las em palavras.
Você, que chegou ao fim da minha longa história, iniciada há mais de 20 mil caracteres com uma cena de sexo explícito, deve se perguntar, onde diabos a fala de Niemeyer se encaixa entre Cadu e Graciela.
A ligação, o fio da meada -- sutil ou não -- está na narrativa.
Número de frases: 244
Uma narra com a voz, outro com a música, e eu, aqui, me recolho às letras.
Andava o ano de 1972.
Quando na idade eles não passam de onze, os anos não correm, passeiam olhando os arredores.
A escola tinha um nome muito belo:
Gabriela Mistral. Era uma homenagem à poeta e educadora chilena que recebera o prêmio Nobel de literatura em 1945.
O prédio, feito em madeira, com técnicas de pré-fabrica ção, tinha centenas de iguais espalhados por a capital e interior do estado mais meridional do «país de dimensões continentais» do qual, na quinta série, já se aprendia a geografia encravada na disciplina que então se designava «estudos sociais».
Aliás, o «quinto ano», justamente naquele ano, se fizera feminino e acabara o exame de admissão, mini-vestibular por o qual meus irmãos mais velhos tiveram que passar para sair do primário e ingressar no ginásio.
-- Que bom que não pulei do quarto ano para o primeiro do ginásio!
Assim pensava, depois de entender o que era a «reforma do ensino» que transformara os primeiros oito anos de freqüência escolar em «ensino fundamental».
Até então, dependendo das notas, era possível prestar o exame de admissão ao final do quarto ano de estudos, dispensando-se a revisão de conteúdos que era a característica do quinto.
Pois na tal escolinha de madeira vivi algumas inesquecíveis histórias de guri.
Anos mais tarde aprendi que aquela arquitetura e a intenção de espalhar escolas por todo o lado lá no sul era a primeira e mais modesta edição dos prédios modulados em concreto que se esparramaram por o Rio de Janeiro depois do fim da ditadura.
A quinta série era a primeira vez em que se tinha mais de um professor na mesma turma.
Havia pelo menos uns quatro, que dividiam o conteúdo em disciplinas.
Embora não esteja muito seguro, penso que eram algo como:
Matemática, Língua Portuguesa, Ciências, Estudos Sociais, Artes e Religião.
E lá estavam os filhos da classe média baixa de um bairro de trabalhadores.
Era gente pobre, mas que tinha uma renda suficiente para alimentar, vestir e educar suas crianças sem depender de transporte escolar, automóvel ou pagar por a escola.
As professoras, e os poucos professores, eram vistos como figuras a se respeitar, já se ultrapassara os tempos em que havia castigos físicos aplicados aos alunos e se estava muito longe dos tempos em que as crianças começaram a deixar de ver os professores como figuras de referência da sociedade que estavam sendo orientadas a se engajar.
Conviviam gentes de todo o tipo:
cores, religiões e posses eram diferenças adjetivas.
Em a hora da escola e da brincadeira aquela heterogeneidade era mais um ingrediente de vivência rica em descobertas e curiosidade.
Ficava encantado, por exemplo, com a quantidade de coisas penduradas na parede da casa de um dos meus amigos que era negro.
Em a casa de ele, como na minha e na de outros colegas, as crianças eram tratadas como filhos da comunidade.
Não faltavam jamais cuidado e alimentação -- que se chamava merenda -- para toda a gurizada que estivesse por ali;
solidariedade inesquecível!
Já mais para o final do ano, aconteceu um episódio que marcaria para sempre minha memória afetiva como uma abertura de um novo caminho para ver o mundo.
As turmas de quinta série, por terem vários professores, tinham também uma professora regente de classe.
A da nossa turma se chamava Lia.
A imagem vaga que carrego é de uma mulher esguia, elegante, cabelos claros sempre arrumados;
do comportamento, lembro que era exigente e dedicada.
Certo dia, ela me chamou ao final de uma aula e me entregou, por empréstimo, um livro.
Identificara em mim, entendo hoje, um potencial leitor que provavelmente teria prazer em ver o mundo por meio de letras, palavras e sentenças.
O livro era uma novela.
O número de páginas, isto é, a «grossura» do volume não amedrontariam o pequeno curioso.
E, embora já convivesse com a presença de livros em casa, pois a família, que não tivera oportunidade de muita instrução lá na área rural de onde migrara, ainda assim ou talvez por isso os julgava um valor, considero aquele, até hoje, como o primeiro livro da minha vida.
Este ano, encontrei um exemplar em ótimo estado num sebo.
Comprei e presenteei-o à minha filha, de onze anos.
Ela, que já tem a leitura com hábito há algum tempo, não gostou do final da história.
Quando, ao conversarmos sobre o enredo, me veio à mente o nome «Salvador», ela ajudou-ma lembrar o nome do personagem principal:
Santiago.
A novela que a professora Lia me apresentou no ano de 1972 foi «O Velho e o Mar», publicado pela primeira vez exatos vinte anos antes por Ernest Hemingway.
Número de frases: 42
Tropicalizando um restaurante americano
Minha mãe nunca aprovou o uniforme das meninas da seleção brasileira de voleibol.
Eu me lembro que ela achava ofensivo o fato das nossas atletas terem que disputar torneios internacionais trajando um micro-shortinho que mais revelava do que ocultava parte das virtudes ou infortúnios.
Como eu nunca me liguei muito em voleibol e nem achava as nossas jogadoras especialmente atraentes, salvo uma ou duas, talvez não seja a pessoa mais legitimada para tratar dessa questão.
Eu não gostava do esporte porque as jogadoras não eram atraentes ou eu não achava as jogadoras atraentes porque eu não me ligava muito no esporte?
De qualquer forma, sempre que perguntado sobre o assunto, eu dizia que gostava da Fernanda Venturini e da Leila.
Mais lugar comum impossível.
Hoje eu fui jantar no restaurante da cadeia Hooters, em Brasília.
Lembrei muito das jogadoras da seleção feminina de voleibol e, consequentemente, da minha mãe.
Fazer análise não é mais uma opção.
Eu sabia que havia sido instalada no Brasil, mais especificamente em São Paulo, a primeira filial dessa cadeia de restaurantes.
Soube assim como quem ouve falar que descobriram uma vacina para uma doença que você nem sabia que existia;
como quem vê na televisão que a previsão do tempo para o dia seguinte em Frankfurt é de céu nublado, sujeito a pancadas de chuva no final da tarde.
Como eu não vou viajar para Frankfurt no dia seguinte, essa informação não me diz muita coisa.
Como eu nunca pretendi, de livre e espontânea vontade, ir ao Hooters, eu também não tive grandes motivos para comemorar o ingresso de mais essa cadeia norte-americano de restaurantes no Brasil.
A propósito, se você está se perguntando, a resposta é não.
Não existe uma filial do Hooters em Frankfurt.
Talvez eu tenha agora um motivo para visitar a Alemanha.
O Hooters, para quem não sabe, é uma cadeia de restaurantes nascida nos Estados Unidos em 1983.
Os restaurantes da cadeia são conhecidos por sua alta culinária especializada em asas de frango fritas, cebolas fritas e outras comidas gostosas, ainda que quase todas fritas.
Mas, sinceramente, podemos contar nos dedos o número de pessoas que freqüentam o local por a diversidade e sabor de seus pratos.
O Hooters é internacionalmente reconhecido por as suas atendentes que andam de patins e são suuuper simpáticas com os seus clientes.
É, na maior parte das vezes, essa simpatia que faz com que as pessoas freqüentem o estabelecimento.
Se eu dissesse que eu fui ao Hooters de Brasília para ver as meninas eu estaria mentindo.
Se eu dissesse que lá fui para matar a fome também.
Eu fui ao Hooters por total falta de opção.
E ao entrar naquele aconchegante e natural ambiente percebi que não poderia dormir sem escrever alguma coisa aqui no overmundo sobre o que vi.
Pensei em mandar um textinho para o «guia», mas talvez a narração tenha se alongado demais.
O Hooters de Brasília fica nos fundos de um hotel bem bacana no setor hoteleiro norte.
De as mesas você pode ver a piscina e as quadras de tênis e vôlei do hotel (talvez tenha surgido daí a minha inspiração).
Eu estou em Brasília para um seminário e, ao chegar tarde da noite no hotel, um amigo que também se encontra hospedado por perto me recebeu perguntando:
«Quer jantar num restaurante de comida americana?"
Eu nunca entendi bem esse conceito de comida americana, mas sei que esse tipo de restaurante tem se tornado bastante comum no Brasil.
Em o Rio já abriram uns três ou quatro restaurantes que se dizem genuinamente americanos.
Dada a completa ausência de opção, acompanhei esse meu amigo na caminhada para o restaurante.
Quando cheguei e percebi para onde estava sendo levado não pude ficar mais satisfeito.
Pena que eu não tinha trazido na mala a minha bermuda safári e o binóculo de explorar das savanas.
O Hooters de Brasília, como eu vim a saber depois, abriu faz pouco tempo e ainda não começou a fazer divulgação.
Nem precisa, pensei eu, pois o lugar estava cheio.
Mas certamente, sem desmerecer o local, boa parte da clientela era derivada do próprio hotel.
Digo isso porque em algumas mesas você encontrava aquelas típicas pessoas de hotel.
As pessoas de hotel são aquelas que têm um compromisso importante no dia seguinte, mas como o agora é a noite anterior ao relevante dia seguinte, a única opção remanescente é freqüentar o restaurante do hotel.
De aí surgiu o meu primeiro espanto.
O Hooters é tradicionalmente freqüentado por homens.
Hoje, das cinco mesas da frente do restaurante, duas estavam ocupadas por mulheres sozinhas.
Elas realmente pareciam pessoas de hotel.
Quando, pouco tempo depois, as garçonetes começaram a dançar de forma sugestiva e pouco coordenada a música «It's raining», eu não pude deixar de prestar atenção na reação daquelas duas mulheres.
Uma de elas, que parecia estar um tanto quanto constrangida, saiu logo em seguida.
A chegada do Hooters em Brasília se assemelha ao impacto de um meteoro.
É um corpo celestial que vem de longe e, ao se chocar com o solo, espalha pedaços por todos os cantos, destruindo a civilização, bagunçando o eco-sistema, ou seja, simplificando um bocado as coisas.
Em os Estados Unidos, o Hooters é freqüentado basicamente por homens adultos e raramente por crianças.
Já o estabelecimento de Brasília, conforme me relatou uma das meninas, é de uma complexidade atroz.
Ele é bastante freqüentado por mulheres, que geralmente são hospedes, e -- esse detalhe é simplesmente incrível -- por famílias que levam as suas crianças no domingão para almoçar entre as garçonetes de micro-shortinho, decotes ousados e danças sugestivas.
Em a minha época não tinha isso!
A dinâmica do Hooters é basicamente a seguinte:
a garçonete é instruída a buscar uma certa interação com os integrantes da mesa.
Nada mais típico!
Interação é o sobrenome do Brasil.
Em a bandeira deveria constar «Interação e Progresso»!
A atendente da nossa mesa era suuuper simpática.
Uma gracinha.
Eu fiz o meu pedido e fiquei vendo um jogo de futebol que passava no telão.
Como já disse em outras searas, com mulher e futebol não tem erro:
é sucesso na certa.
O meu amigo começou a puxar uma conversa bastante reflexiva, mas sem grande êxito.
Ele queria que eu mergulhasse em águas profundas, mas a minha cabeça estava brincando de baldinho na piscina rasa do clube.
Aquelas mulheres passavam de patins pra lá e pra cá e o futebol comia solto no telão.
Conversar com o meu amigo, na melhor das hipóteses, era a terceira opção.
Quando o nosso pedido chegou, o som ambiente, num volume fora do normal, começou a tocar a música «Man! I feel like a woman», da Shania Twain.
Eu pensei que tinha dado problema na jukebox.
O volume estava muito alto, impossibilitando a conversa nas mesas.
Em esse instante, logo após a musa da country-pop-music falar «Let's go, girls!»,
todas as garçonetes se posicionaram no centro do restaurante e, perfiladas, começaram a dançar uma sugestiva coreografia.
Pode parecer inusitado, mas eu lá entendo um pouco de coreografia, dança e afins.
É uma coisa de família.
A coreografia das meninas não era grandes coisas.
Mas o fato em si de estar num restaurante em que as garçonetes estavam dançando «Man! I feel like a woman» me fez pensar.
Imagine o que acontece quando oito mulheres se põem a dançar assim com fregueses um pouco mais animados.
Antes de sair fiz questão de perguntar a uma das meninas se elas já tinham tido problemas com clientes que não entenderam bem a proposta saudável do local.
Ela me disse que no breve espaço de tempo em que essa filial esteve operando, três clientes já tiveram que ser expulsos por indisciplina.
Faço uma idéia.
Como toda rede de restaurantes, o local funciona através de um regime de franquia.
O pessoal é treinado para fazer os mesmos procedimentos da matriz, a mesma marca é cedida e etc..
Mas será que não dava para incorporar alguma música brasileira nos shows intermitentes que ocorrem no lugar?
O Brasil tem músicas tão mais autênticas do que esses hits americanos de festa de casamento.
Fiquei imaginando essas meninas interpretando clássicos do funk carioca como «Ardendo, Assopra» e «Cabô Caqui».
O fato que mais me chamou a atenção nesse episodio todo foi acompanhar a interação das garçonetes com os demais clientes.
Eu e meu amigo optamos por a tática da discrição.
Em os dois falávamos com a garçonete apenas o essencial.
Não éramos rudes, mas também não contávamos para ela sobre as nossas desilusões com o amor, com a flutuação da taxa de juros e com a precoce eliminação do Flamengo na Taça Libertadores da América.
Em a mesa ao lado, a mesma garçonete, que parecia ser amiga íntima de alguns homens que estavam sentados num grupo de cinco, chegou até mesmo a falar no celular de um de eles.
Fiquei pensando:
com quem será que ela esta falando?
Em a outra mesa de trás a garçonete parecia já fazer parte do círculo de amizade do grupo.
Só a nossa mesa, e a do quarteto de executivos coreanos, parecia não estar envolvida na festa.
Por um momento eu me senti como quando você vai a um restaurante com música ao vivo e toda a lotação do local, exceto você, faz parte da família do cantor que vai se apresentar.
Outro dia eu fui num restaurante em Botafogo, no Rio, e depois de me sentar, pedir um crepe e jogar alguma conversa fora, a cantora da noite, que fazia o seu show na parte interna do estabelecimento, veio ao jardim (onde estava nossa mesa) e me perguntou:
«Eu conheço vocês de algum lugar?».
Respondi que não.
E então percebi que havia sido a primeira platéia espontânea que aquela senhora tinha tido em toda a sua trajetória artística.
Depois de pedir a conta e conversar com algumas meninas para entender um pouco mais o sentido daquilo tudo, fiquei com a impressão de que a casa será um sucesso.
Não sei por qual motivo, mas as circunstancias são muito favoráveis.
Um detalhe:
se nos Estados Unidos não é comum ter crianças nesse restaurante, o cardápio contempla -- tanto aqui como lá -- um «Kids Menu».
Agora não tem mais desculpa para você não levar o seu filho para brincar e cantar com as garçonetes de patins.
Se o Hooters é um meteoro que já colidiu com a cultura da capital federal, agora nos resta apenas esperar por a próxima colisão.
A o que tudo indica, o próximo objeto espacial que vai colidir com o planeta é o asteróide Apophis.
Ele foi assim batizado, em homenagem ao deus da morte egípcio, porque o impacto do mesmo poderá representar o inicio do fim do mundo como conhecemos.
As chances de impacto, previsto para 2036, são de 1 para 45.000. É mais fácil o Apophis acertar o alvo do que você e mais cem amigos ganharem num bolão da mega-sena.
Enquanto o segundo impacto não vem, vá ao Hooters.
Talvez você perceba que o Apophis já colidiu e você nem foi avisado do surgimento de uma nova civilização, ou, alternativamente, que o asteróide da morte está demorando demais.
Número de frases: 111
Alguns já sabiam:
naquele dia não haveria aula, os professores liberaram as turmas de jornalismo para assistir ao debate no auditório da faculdade.
O motivo do evento era o aniversário de quarenta anos das primeiras manifestações contra a ditadura militar.
Era importante que os estudantes discutissem quais as consequências da ditadura militar na prática da atividade jornalística.
Porém, muitos estavam ali apenas para ganhar presença ou pra fazer sei lá o quê.
O debate, que era para começar às dezenove horas, só veio iniciar sete e vinte.
Em esses vinte minutos, eram muitos os ruídos vindo das pessoas conversando.
O atraso incomodava a todos.
Tudo bem, tá perdoado.
Em o Brasil tudo sofre atraso.
O silêncio só começou depois que o professor Dilson, um dos organizadores, resolve chamar os convidados para a mesa.
A dupla Messias Pontes e Augustinho Glósson se apresentava para a platéia.
Jornalistas renomados e radialistas experientes, apesar de pouco conhecido daquela molecada, iam ser a atração daquela noite.
O silêncio durou pouco.
De aí vieram a inquietação, os bocejos, os cochichos, as conversas e o entra e sai na porta.
«Surgimento da imprensa alternativa, que vai dar uma nova realidade ...
blá, blá ...».
«Foi um momento muito importante para o jornalismo brasileiro, blá, blá ...».
A menina ajeita os cabelos enquanto o colega ao tira meleca do nariz.
«Existe a censura nos jornais até hoje ...
blá, blá ...».
Um fala ao celular enquanto o outro anota no papel a fala de um dos convidados.» ...
Assis Chateubriand teve muito mais poder em vida que o Roberto Marinho ..."
Aplausos para o primeiro convidado.
Depois as pessoas correram para sentar nas cadeiras da frente, após ouvirem do convidado:
«pessoal vem sentar aqui em frente, pois eu gosto de falar olhando nos olhos».
A câmera registra tudo enquanto disparam alguns flashes fotográficos.
«A grande imprensa nunca absorveu João Goulart», continuava o convidado enquanto as três amigas iam embora.
«Quem manda no Brasil hoje é o Banco Central», bradava o convidado, enquanto dois professores conversam baixinho e uma menina arrumava a bolsa.
«Acordo já pensando a quem vou fazer o mal.
O jornalista precisa ser mais ousado».
Risadas, enfim.
Abrem-se para as intervenções dos estudantes.
A primeira pergunta é sobre as relações entre religião e imprensa.
Aplausos para quem perguntou.
Depois disso, um manifestante da Une, que soube do evento, resolve fazer uma pergunta e se perde numa longa intervenção sobre o movimento estudantil.
De essa vez, muitas risadas e palmas irônicas.
Vinte e trinta, hora da debandada.
Ficam poucas pessoas no auditório, o bom estudante não pode perder a hora do intervalo por nada.
Outro estudante resolve perguntar também e, mais uma vez, se perde, fica falando coisa com coisa durante uns dez minutos e só é interrompido com mais palmas irônicas e muitos risos.
às 21:53, saíram os últimos «sobreviventes» do debate.
A ditadura militar foi um dos momentos mais tristes e marcantes da história recente do país.
Relembrar e discutir esse período engrandece a formação acadêmica dos estudantes de comunicação pois, durante o regime, os jornalistas sofreram as mais terríveis perseguições dos censores.
A falta de interesse de alguns só faz aumentar o estereótipo de que estudante de faculdade particular não se importa com a realidade do país.
Número de frases: 44
E uma discussão tão importante se transforme num momento qualquer.
Ian MacKaye é um roqueiro que certamente está na memória de muitos dos admiradores do hardcore norte-americano dos anos 80, da época em que música e atitude realmente sigificavam algo.
Em seu currículo passaram grupos fundamentais como o Minor Threat, Embrace e a mais famosa de elas, sendo referência para diversas bandas até hoje, o Fugazi.
Hoje, com mais experiência, mas com a mesma garra e vontade de fazer música que sempre norteou a sua carreira, Ian MacKaye vem ao Brasil para mostrar o trabalho de sua nova banda:
The Evens.
A turnê sul-americano do The Evens começa no dia 22 de março em Santiago (Chile) e se encerra no dia 31, no Rio de Janeiro.
Ao todo serão oito shows, sendo seis em território brasileiro, nas cidades de Porto Alegre (25/03), Recife (27/03), São Paulo (28/03), Curitiba (29/03), Londrina (30/03) e Rio de Janeiro (31/03).
Formada em 2001, The Evens segue por a cartilha do rock básico, porém eficiente.
Guitarra e bateria são suficientes para Ian MacKaye e sua esposa Amy Farina mostrarem o seu som que pode ser considerado um hard-folk.
Com The Evens, encontramos um Mackaye mais discontraído do que nas suas bandas anteriores dividindo os vocais nas músicas com sua parceira de trabalho.
E para bons ouvidos, estas definições já seriam a garantia de que The Evens, liderado por a guitarra de som mais grave de Ian, faz um rock competente e seguro de si.
Ao lado de Amy, MacKaye com The Evens gravou dois discos:
«12 Songs (2005) «e» Get Evens (2006)», ambos lançados por o selo americano Dischord, do qual ele foi fundador.
Ian MacKaye -- Uma das primeiras bandas de Ian MacKaye, o Minor Threat, foi fundamental no lançamento das idéias do movimento straight-edge, que, basicamente, rejeita o consumo de álcool e drogas.
Sua outra banda, o Embrace, é tida como uma das precursoras de alguns dos elementos que deram origem ao que hoje é conhecido como emo.
Já o Fugazi incorporava a sonoridade pós-rock em sua música e construiu uma carreira altamente respeitada -- hoje num hiato, sem definição sobre o futuro do grupo.
Revista -- O show do The Evens no Recife marca o pré-lançamento do segundo número da Revista Coquetel Molotov e acontece no dia 27 de março, às 21h, no UK Pub, em parceria com a Red Bull e Saraiva Mega Store.
A publicação do coletivo musical recifense traz em seu segundo número entrevistas com artistas dos mais diferentes estilos como Wander Wildner, My Cat Is An Alien, Mellotrons, Kassin, Nation Of Ulysses e Daniel Johnston, entre outros, além de seções de resenhas de discos e shows ao vivo.
Turnê The EVENS -- América do Sul
Santiago 22 de Março -- 22h
Galpón Victor Jara Plaza Brasil
Shows: The Evens + Perrosky
Buenos Aires
23 de Março -- 22h
Niceto Club Niceto Vega, 5510 -- 4779-9396
Porto Alegre
25 de Março -- 17h
Santander Cultural Rua Sete de Setembro, 1028 -- Tel:
(51) 3287-5500 Ingressos:
R$ 10,00 c / desconto de 10 % para cliente Santander Banespa
Recife 27 de março -- 21h
UK Pub Rua Francisco da Cunha, 165, Boa Viagem -- Tel:
(81) 3465-1088 Shows:
The Evens + Melotrons
Ingressos: R$ 5,00 (Mulheres entram gratuitamente até às 22h | Clone de chopp até 0h)
SAO Paulo 28 de Março -- 21h
Teatro do Sesc Vila Mariana Rua Pelotas, 141 -- Tel:
(11) 5080-3000 Ingressos:
R$ 20,00; R$ 15,00 (usuário matriculado);
R$ 7,50 (trabalhador no comércio);
R$ 10,00 (Maiores de 60 anos, estudantes e professores)
Curitiba 29 de Março -- 20h
Espaço Cultural 92 graus
R. Des. Benvindo Valente, 280 -- Alto São Francisco -- Tel:
(41) 3308-2792 Ingressos:
R$ 15,00 Londrina
30 de Março -- 23h
Victoria Café Rua Araçatuba, 96 Ingressos:
R$ 12,00 (antec.)
e R$ 15,00 (no local)
Rio De Janeiro 31 de Março -- 20h
Áudio Rebel Rua Visconde de Silva 55, Botafogo -- Tel:
(21) 3435-2692 Mais informações:
Número de frases: 53
www.dischord.com/band/theevens Passou na Sessão da Tarde «de Pura Liberdade».
Diz que é a história da amizade entre um garoto e um cavalo.
Aí volto a me indagar até onde vai a falta de criatividade desses cineastas.
É que eu tô contando, e me parece que toda semana passa algum filme relacionado a uma amizade «Humano x Animal».
Os animais campeões, lógico, são os cachorros!
Já vi desde cachorro basqueteiro, policial, salva-vidas, astronauta até cachorro detetive que, inclusive, sabe ler!!
Em segundo lugar estão os macacos, não importa o seu tamanho.
A raças mais vistas são Chimpanzé e Orangotango mas, e quanto aos gorilas?
Sim, ou já se esqueceram que na semana passada passou «um tal de Zamora, uma gorila não sei das quantas».
Pena que ainda criança eu descobri um zíper na fantasia de um ator.
Claro, ou vocês acham que iriam deixar um macacão «adestrado» contracenar com uma criança?
Depois vem o quê?
Um papagaio, tipo o Paulie?
Um rato, como Stuart Little?
Nossa!
Nem os gatos, que são bem comuns nas nossas vidas, são tão explorados como os Porcos!
O Babe ganhou dois filmes:
um no campo, outro na cidade e talvez o próximo seja «Babe -- O porquinho atrapalhado no espaço».
Quem sabe um filme pra cada canto do mundo por onde ele passar?
«Babe, o porquinho atrapalhado na Faixa de Gaza "
Dizem até que a Xuxa vai largar os duendes para entrar na onda assim como «Eliana e os golfinhos».
Onde foi que eu amarrei meu jegue?
Número de frases: 22
«Presente» de Lenissa Lenza, aposta na formação de novos quadros como estímulo à cadeia produtiva do cinema em MT
Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça.
A premissa do cinema novo, num de seus aspectos, evidência a discussão sobre a desmistificação de se fazer cinema no Brasil, contrariando uma escola numerosa de cineastas brasileiros que vê no ofício uma metodologia de trabalho intrincada para a concepção de sua obra final.
Embora majoritário esse campo do pensar, há aqueles que crêem na constituição de um cenário cinematográfico partindo de uma experiência laboratorial.
A cineasta e produtora cultural do Espaço Cubo, Lenissa Lensa, diretora do curta-metragem «Presente», recém rodado em redutos cuiabanos, é uma das que aposta nessa idéia, e vem lançando mão desta prática, reunindo em sua produção novos quadros atuantes no cenário audiovisual no estado com vistas a sua formação.
A proposta tem como foco fomentar a cadeia produtiva do cinema em MT, estimulando esses agentes para a continuidade dos trabalhos através da organização coletiva de núcleos de cinema, que pensem constantemente na manutenção da produção audiovisual local.
Ainda em etapa de pós-produ ção, «Presente» teve encerrado nesta semana seu processo de edição.
Agora será a vez do tratamento das imagens e produção do áudio, que terá a frente dos trabalhos os novatos em cinema, contudo reconhecidamente uma das revelações do cenário fonográfico independente no país, a banda cuiabana Vanguart, recém chegada de uma temporada em terras paulistas.
«A produção toda contou com pessoas ou grupos inexperientes em cinema, mas com muita qualidade criativa e profissional.
Ter mais um cargo seguindo essa linha é perfeito», diz Lenza, que assinou a assistência de direção do videoclipe da banda nomeado Cachaça, indicado neste ano ao prêmio de melhor produção independente do gênero por a MTV.
Esta é a primeira vez que um grupo musical da cena independente desenvolverá trabalhos focados na direção de áudio de um filme.
Em a coordenação da equipe está Douglas Godoy, baixista e produtor musical, que por três anos compôs a equipe de sonorização do Espaço Cubo, produzindo materiais de bandas como DonaLua, Deefor, Vanguart, The Breeze, entre outras.
Em andamento desde o dia 05 de dezembro, a previsão é que os trabalhos se estendam até o final de dezembro, quando todo o material estará pronto para a etapa final da pós-produ ção que consistirá na transferência do material digital para película.
«Presente» é uma realização da Próxima Cena em parceira com a Produtora Vip.
Além do estimulo a cadeia produtiva do segmento, a promoção do hibridismo entre poder público, terceiro setor e iniciativa privada também foi um dos objetivos do projeto.
Ficha Técnica
Direção -- Lenissa Lenza
Fotografia -- Marcelo Biss
Direção de Produção -- Bárbara Varela
Figurino -- Bárbara Rosa
Direção de Arte -- Sergio Kolling
Direção de Elenco -- Giovani Araújo
Continuismo -- Verônica Mello
Produção -- Janna Paula, Davy Leão
Assistente de Direção -- Julio Cesar Custódio
Assistentes de Produção-Vitor Torres, Talyta Singer
Assistente de Figurino -- Giulia Medeiros
Maquiagem -- Carlos França
Comercial -- Flávio Jamal
Maquinista -- Edson Jesus Costa
Assistente de fotografia 01 -- Nilson
Assistente de fotografia 02 -- Ricarte
Eletricista-Jean Motorista -- Kit Gregory
Número de frases: 33
Elenco Lígia -- Bruna Menesello
Ser invisível é sofrer a indiferença, é não ter importância.
Essa maneira de discriminação está cada vez mais inserida na sociedade.
Vivian Fernanda Garcia da Costa
Mateus de Lucca Constantino A invisibilidade social é um conceito aplicado a seres socialmente invisíveis, seja por a indiferença ou por o preconceito.
Em o livro «Homens invisíveis:», o psicólogo Fernando Braga da Costa conseguiu comprovar a existência da invisibilidade pública, por meio de uma mudança de personalidade.
Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari na Universidade de São Paulo.
Segundo ele, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são «seres invisíveis, sem nome».
Há vários fatores que podem contribuir para que essa invisibilidade ocorra:
sociais, culturais, econômicos e estéticos.
De acordo com psicólogo Samuel Gachet a invisibilidade pode levar a processos depressivos, de abandono e de aceitação da condição de «ninguém», mas também pode levar a mobilização e organização da minoria discriminada.
Massa invisível
Um dos principais causadores da invisibilidade é a questão econômica.
«O sistema capitalista sobrevive sob a lei do mais valia, na qual para que um ganhe é imediatamente necessário que outro perca.
De esse modo a população de baixa renda é vista como um vasto mercado consumidor, e essa é sua única forma de visibilidade», explica Gachet.
Para a universitária Sabrina Ribeiro Rodrigues a invisibilidade não só é provocada por o fator econômico.
«A educação familiar é determinante para a maneira como as pessoas tratam o outro», completa.
A bibliotecária Marlene Araújo acrescenta ainda que existe preconceito com as pessoas que não estão adequadas aos padrões de beleza.
«Se fosse loira, alta e de olhos claros, com certeza me tratariam de outra maneira», ressalta.
«Para mim o fator econômico não é o principal causador da invisibilidade social, e sim o status que adquirimos diante da sociedade.
Se um professor de uma faculdade particular aqui do Brasil estiver numa faculdade renomada como a de Harvard também se sentirá invisível», explica a universitária Vanessa Evangelista.
Segundo Gachet o preconceito que gera invisibilidade se estende a tudo o que está fora dos padrões de vida das classes hierarquicamente superiores.
Muitos são os indivíduos que sofrem com a invisibilidade social, como por exemplo, profissionais do sexo, pedintes, usuários de drogas, trabalhadores rurais, portadores de necessidades especiais e homossexuais.
Conseqüências
A invisibilidade social provoca sentimentos de desprezo e humilhação em indivíduos que com ela convivem.
De acordo com Gachet ser invisível pode levar as pessoas a processos depressivos." '
Aparecer ' é ser importante para a espécie humana, ser valorizado de alguma forma é parte integrante de nossa passagem por a vida, temos que ser alguém, um bom profissional, um bom estudante, um bom pai, uma boa mãe, enfim, desempenhar com louvor algum papel social», diz.
Outra conseqüência dessa invisibilidade é a mobilização dos «invisíveis», grupos de pessoas que se juntam para conseguir» aparecer " perante a sociedade.
Muitos são os exemplos desses grupos:
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra), a Central Única de Favelas (CUFA), fóruns nacionais, estaduais e municipais de defesa dos direitos da criança e do adolescente.
Esses grupos também podem ser encontrados no crime organizado, o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).
A invisibilidade social já está cotidianamente estabelecida e a sociedade acostumou-se a ela, passar por um pedinte na rua ou observar uma criança «cheirando cola» numa esquina é algo corriqueiro na vida social, segundo Gachet aceitar isso é violar os direitos humanos.
«É preciso não só ver esses invisíveis, mas é preciso olhar para eles e sentir junto com eles, é preciso ' colocar óculos em toda humanidade '», finaliza.
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Número de frases: 34
Uma das vantagens de se morar bem longe do Brasil, como no Japão por exemplo, é que lugares também distantes e quase inace$$íveis acabam fazendo parte da vizinhança, a poucas horas de viagem.
Um de eles é Bali, na Indonésia.
Com uma cultura acumulada de praticamente cinco mil anos, esta ilha que já sofreu a invasão dos holandeses e japoneses, tem sofrido nas últimas décadas mais uma invasão por parte do homem branco -- a turística, claro.
E eu, após anos sem ver um sol decente (o do Japão chega a esquentar muito mas tem uma luz de péééssima qualidade) nem preguiçosos cenários paradisíacos, avistei a costa da ilha extasiado -- a paisagem tropical sempre enaltece o espírito que clama por dias de vagabundagem.
E esses dias passei no vilarejo de Canggu (pronuncia-se " Changu "), hospedado na casa de caridosos amigos, uma casal de brasileiros com duas lindas filhas pequenas.
Aluguei uma pequena moto e adotei, sem muita escolha, a rotina do meu anfitrião surfista, que começava seu dia às cinco da manhã e se recolhia às dez da noite.
Perfeito para a fotografia.
Procurado por alguns por causa de suas ondas, ditas perfeitas em certas condições, e por outros por os seus preços e beleza natural, Bali é mais um dos vários lugares do leste asiático que, diante de tamanha demonstração de tecnologia, poder aquisitivo e exuberância física por parte de seus invasores, teve a parcela mais jovem de sua gente simples se descobrindo miserável.
E esta consciência eu vi por vezes refletida na atitude de alguns vendedores de rua, que vendiam por «encheção de saco» e chegavam a fazer, em alguns casos, acusações de hipocrisia do tipo «Isso pra você isso não custa nada, então leva logo a porra do cartão postal, pô!».
Por o que percebi, os nativos e os estrangeiros residentes vivem de forma completamente diferente.
Enquanto que mesmo na modesta geladeira da casa de meus amigos só havia produtos importados, incluindo o indefectível creme de basil para o café da manhã, na casa dos balineses em geral parecia mal haver geladeira.
E no único dia em que precisei alugar um carro, Ketut, meu guia, usou a viagem de ida para fazer a social e a de retorno para me propor mil negócios no melhor estilo sacoleiro.
Ele também sonhava em ser turista um dia, enquanto muitos turistas acabam abrindo mão de seu mundo moderno para sempre ao descobrirem os encantos de Bali.
Devolvi a moto, guardei as câmeras, bebi meu último suco de goiaba com menta e vim embora com a cara mais corada.
Em as lembranças desse paraíso, o olhar sonhador dos vendedores e a simplicidade muito digna do pessoal dos vilarejos.
Em a cabeça, o pensamento de que este mundo é mesmo muito esquisito.
Número de frases: 16
O bicho-grilo fã de Raul Seixas e Zé Ramalho, que pode ser encontrado em qualquer canto do País, é uma das figuras mais legais que existe no Brasil.
Ele vende trampos de durepox na rua, conserta carros em oficinas e borracharias, tem bar, defende as coisas que ele gosta -- sempre naquele tradicional sotaque de maconheiro -- e freqüenta a porta do Centro Cultural São Paulo, São Tomé das Letras ou qualquer acampamento de praia.
É um ícone cultural brasileiro.
Tanto quanto os meninos que amam as bandas de metal.
Só de ter entre seus personagens um figura como esses -- o Zé Elétrico --, é claro que o filme Árido Movie já tem méritos demais.
Interpretado muito bem por o José Dumond, ele é descrito no release do filme como um índio remanescente da região (sertão pernambucano) e dono do posto de gasolina (o Oposto), localizado na entrada da cidade para onde convergem os principais acontecimentos do filme.
Além disso, ele é um daqueles caras que usa todo esse background bicho-grilo e suas origens indígenas pra filosofar sobre a natureza, o capitalismo e o gosto por a erva do capeta.
O forte do filme, ao meu ver, é não ficar só no papo do sertão mítico e cheio de belezuras -- que também rende coisas boas --, mas usar aquilo pra falar como a temática sobre as relações com a cidade e com o capital político gerado por a pobreza, a falta de água, a devastação da cultura indígena e a violência da região do polígono da maconha.
Papo de maconheiro
Não é por acaso que o núcleo maconheiro da trama tenha sido o que mais tenha me chamado a atenção.
Pra explicar o porquê, é melhor contar um pouco do filme.
A história central é a seguinte:
o apaulistado Jonas (Guilherme Webber) -- homem do tempo que entra todos os dias em rede nacional para falar de precipitações e massas de ar -- recebe a notícia que seu pai foi assassinado.
Mesmo sem mal conhecer o falecido, ele decide atender o pedido de sua avó -- outra completa desconhecida --e ir ao enterro numa cidadezinha pequena encrustada no sertão amarelo e pedregoso de Pernambuco.
Chegando lá, o neto é ordenado a buscar vingança por a morte do pai e matar o índio responsável por o assassinato, que parece ter cometido o crime pra defender a honra da irmã.
A coisa vai se desenrolar nas eleições locais, na política da seca e na forte produção local de maconha, mas isso é outra história.
Voltando aos bicho-grilos ...
Com a desculpa do apoio ao amigo, os três amigos maconheiros do homem do tempo resolvem segui-lo, pra ver se conseguem desbravar uma plantação da erva.
Rapidinho, eles acabam conhecendo o bar do posto do Zé Elétrico e a maravilhosa índia Wedja (Suyanne Moreira).
De aí, pra tirar eles do alcance da jukebox do Oposto só com a motivação maior.
Os três personagens -- Bob (Selton Mello), Vera (Mariana Lima) e Falcão (Gustavo Falcão) -- lembram um pouco os quadrinhos dos Freak Brothers, do Gilbert Shelton.
Tanto naquele desespero por maconha, na falta de caráter e na despreocupação completa com a situação da seca, como na conversa fiada que não vai pra lugar nenhum, repleto de chavões.
E a trajetória de eles -- do encontro com o personagem encarnado por o José Dumond ao seu trágico bota-fora para o Recife -- acaba rendendo o que o filme tem de melhor.
Bicho-grilo
Acaba parecendo muito um drug movie mesmo.
Isso muito também por a ação do Zé Elétrico, que também morou em São Paulo e se meteu nos negócios mais variados.
Muito mais que um retirante do semi-árido ou um representante da sabedoria popular -- que a narrativa brasileira já retratou das mais diversas formas.
Zé Elétrico é um bicho-grilo.
É outra categoria de personagem que não cabe na descrição dos romaces realistas dos anos 30, assim como o brega que toca nas radiolas de seu posto ou o Raul Seixas que estampa uma de suas camisetas.
O bicho-grilo é meio essa versão brasileira do hippie.
Eu não tenho dados históricos e muito menos sociológicos.
Minha hipótese é que tudo começou na importação dos valores da contra-cultura, do paz e amor nos anos 70.
Se, até então, essa coisa era meio de jovens mais da classe média, que gostavam de música estrangeira, os valores se alastraram para todas as regiões brasileiras, em todos estratos sociais e até faixas etárias.
O negócio é que durante os anos 70 e 80, não tinha esse papo de show internacional toda semana, Internet, TV a cabo e tudo mais.
O Brasil era um País fechado econômica e culturalmente e a importação de produtos e valores culturais custava caro e quando vinha era consumida vorazmente.
O jeito era o pessoal se virar com o que tinha e inventar o resto.
Pra se ter uma idéia (agradeço ao meu pai por a informação), até os discos dos Beatles saíam na ordem errada, imagina o resto.
à brasileira
Mesmo assim, o hippismo acabou virando um fenômeno daqui de o Brasil e que perdura e perdurará por muito tempo ainda (ontem, inclusive, eu vi um monte de hippongos de uns 15 ou 16 anos num show aqui em Pouso Alegre).
Os bicho-grilos nem se ligam mais no acid rock ou na música de protesto americana.
No máximo curtem a Janis Joplin, o Hendrix, o Lennon, o Dylan e o Led Zepellin.
Aqui, eles preferem abraçar o Raul, o Zé Ramalho, o Zé Geraldo, o Belchior e até alguns novos ídolos como o Ventania.
Em o interior do País inteiro, é facílimo encontrar esse pessoal.
Eles estão em todo canto e não é um fenômeno de uma esfera social.
Tem hippie em todas as classes sociais, todas idades, origens, raças.
O que une eles é a vontade de viver uma vida alternativa, que não se apegue tanto ao trabalho, que fique em convívio com a natureza (mesmo que seja uma calçada de cimento) e o protesto contra nossa sociedade.
Os bicho-grilos acham que as pessoas vivem uma vida de merda e não desfrutam das coisas mais bonitas e importantes que nos são oferecidas.
Por isso são agentes de um constante protesto contra os produtos de consumo, os modismos e, muitas vezes, até as novidades.
Com isso, inclusive, acabam caindo num discurso conservador de buscar a natureza e abrir mão da sociedade estabelecida.
São também defensores do artesanato, da espiritualidade e, em diversos momentos, de um estilo de vida que se aproxima da mendicância.
Além, é claro, de adorar tocar as canções do Raul no violão ou «Asa Branca» na flauta doce.
O ideal de uma sociedade alternativa, do sexo livre, de criar os filhos soltos por aí, de vestir pouca roupa e curtir bastante a vida -- conversando, nadando na cachoeira, tomando uma cervejinha e fumando um morrão -- está na utopia que as músicas de eles mostram.
A popularidade de tal fenômeno no Brasil é pra mim um mistério.
Eu gostaria muito de saber a razão de tanto sucesso.
Acho que os bicho-grilos merecem muito mais do que um personagem num filme.
Valeriam ficções, documentários e estudos inteiros.
São muito interessantes e acho que a persistência de eles em existir e criar um mundo a parte é, no mínimo, uma coisa pra lá de curiosa.
Nunca fui hippongo e, na verdade, já até cultivei um pouco de birra de eles no passado.
Hoje, simpatizo.
E acredito que as pessoas só vão começar a entender o País quando procurarem entender esse tipo de manifestação que se alastra por tudo quanto é canto.
Número de frases: 60
Valeu o Zé Elétrico por me fazer pensar isso!
I Minha leitura (toda leitura?)
é uma espécie de escritura.
Gosto de ler, mas gosto de ler aos pedaços, compondo ou decompondo trechos de livros diferentes que carrego com mim enquanto desloco-me por a cidade.
Minha leitura é, em geral, um mosaico onde misturam-se nomes e estilos que lembrariam aquela experiência da poesia dadaísta de juntar palavras soltas num saco, tirar uma a uma ao acaso e fazer seu poema.
Já li muito em vários autores sobre a idéia de que a humanidade tem, na verdade, escrito um único e imenso livro em que gerações de autores, uns mais ou menos anônimos que outros, têm trabalhado nesse projeto sem mesmo saber.
Será que tento alcançar esse livro à custa de desmontar e remontar as pequenas partes (também chamadas livros) de que ele se compõe?
Enquanto viajo secreto no ônibus que cumpre o percurso de casa para o trabalho e de volta para casa, envolvo-me nesse jogo de encontro e desencontro.
Imagino-me atravessando um lago ou rio de águas claras (por conta da minha imaginação) onde escolho pisar nas pedras que me conduzirão à outra margem.
Chegarei? Talvez não seja importante chegar a algum lugar, acabarei sendo pego por o raio no meio do caminho, no eterno meio do caminho.
Pode-se pensar que essa leitura assim fragmentada seja intencional, fruto ou mecanismo de um processo de pensar, discutir, o ato de ler, a relação com o livro, etc..
Mas é um movimento natural, quase sem querer.
Há em ele uma esperança, uma curiosidade infantil que talvez possa não interessar a mais ninguém.
Hoje mesmo, enquanto escrevo tudo isso, tenho ao meu lado dois livros.
Um é «esculpir o tempo» do cineasta Andrei Tarkovski, e o outro trata-se de «a câmara clara», de Roland Barthes, que logo estarei a alternar diante de meus olhos, saltando entre as páginas como se estivesse utilizando a velocidade da luz.
Talvez possa-se fazer um traçado do meu caminho aparentemente errático entre páginas e parágrafos, talvez haja um sentido que persigo ou me que persegue.
II
Abrir um livro à esmo é um secreto prazer, ninguém sabe que você está fazendo isso, qualquer um a sua volta vai acreditar que você está apenas retomando a leitura de onde você parou.
Mas você sabe que não, você sabe que está brincando, jogando um jogo de possibilidades inesperadas.
É bom ler assim, combinando partes diferentes de um mesmo livro, ou mesmo de livros diferentes.
às vezes levo com mim dois, três livros e sinto a continuidade de um no outro, e sei que a continuação possível de um parágrafo qualquer pode estar nas mãos de qualquer outro leitor que esteja com mim no ônibus, no bar ou na praia;
peças perdidas de um quebra-cabeça.
Dedico-me assim a perseguir o livro espalhado por entre os livros.
Abrir as páginas de um livro a esmo, sem a intenção de um oráculo ou profecias, mas apenas para seguir um caminho qualquer.
Imagine um pequeno lago, um riacho que seja.
Atravessá-los escolhendo as pedras que parecem mais firmes, mais seguras, e que podem não ser.
III
Circulamos cada vez mais em espirais e espirais através da cidade ...
em busca do centro de que coração?
Gosto de ler nos meus percursos e cada vez mais sinto-me atravessado por a cidade em minha leitura.
A o fluxo intenso de palavras de um livro sobrepõe-se a voz da menina bonita que está ao meu lado e que fala ao celular, enquanto o onibus navega produzindo mil ruídos, quase que uma pontuação para as frases que percorro em silêncio.
Em um insistente silêncio, porque não quero impor minha voz ao todo sonoro que me embala, que evoca tantos elementos e narrativas, entrecortando, entremeando o texto escrito que carrego nas mãos.
Poderíamos pensar numa poesia da leitura, lembrar que os concretistas já haviam incorporado os signos da publicidade e da imprensa, bem como a sonoridade de um novo mundo, que se abria recortado por as novas mídias eletrônicas, à sua produção poética.
Hoje podemos fazer isso com o livro, qualquer livro, aberto nas mãos.
às vezes queremos que o mundo pare para tenhamos a tranquilidade e concentração que julgamos necessárias à leitura, mas por tantas outras vezes seria interessante deixar-se ao sabor da experiência das livres associações que podem ocorrer entre um texto, uma menina bonita ao celular, um sinal fechado, o ruído do motor cansado de um onibus ...
experimentar e descobrir que linguagem podemos construir com esses elementos, que podem se somar ou até desmentir uns aos outros.
Imagino para um futuro próximo (desconhecendo as experiências que já podem estar em desenvolvimento) um livro sensível aos estímulos externos, do ambiente, e que mude seu conteúdo de acordo com esses estímulos, conduzindo-nos à surpresa.
Um livro aberto, que se reescreve contínuamente, por todos, por tudo.
Imaginemos então um livro sensível aos sentimentos e às estações do ano.
Número de frases: 39
Somos já um pouco esse livro e Jorge Luis Borges ensinou-me que o universo é uma biblioteca.
Alunos da PUC Minas, do curso de Publicidade e Propaganda, estão com um projeto muito interessante, um Roteiro Interativo.
Todos os formandos de Comunicação Social na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais devem desenvolver um Projeto Experimental para concluir o curso de graduação.
Durante três períodos fazem pesquisas, selecionam um tema e o desenvolvem, no caso apresentado, os alunos Alysson Morelli, André Bretas, Gabriel Chaves, Marcelo Volker, Tiago Morais e Virgínia Gontijo, formandos do primeiro semestre de 2007, estão trabalhando num projeto de interação entre o espectador e o vídeo.
A partir de pesquisas, o sistema wiki foi eleito como o mais interativo e fácil para divulgação do projeto.
Com a participação dos internautas o roteiro será escrito e logo filmado e transferido para um dvd, que também será interativo.
O projeto é audacioso mas este grupo está muito interessado em conclui-lo, para que possam provar o papel do espectador hoje, que não está alí na poltrona somente para ver o conteúdo apresentado por outra pessoa, mas sim para ver o que ele mesmo ajudou a desenvolver.
Para facilitar a participação de todos, foram criados tutoriais em português e inglês, ensinando o uso do sistema wiki do site Cospire.
com. Acesse agora e interaja com este projeto que mudará seu modo de ver o vídeo.
Português
Número de frases: 10
Inglês A contracultura é a crista movente de uma onda.
E uma onda contra-cultural começou a ganhar forma no final dos anos setenta, aportando por terras potiguares.
Enquanto a boa família natalense com suas criancinhas com pás e brinquedinhos de areia se banhava nas piscininhas naturais da Praia do Forte, os ventos sopravam em outra direção.
Filmes como Easy Rider e Woodstock eram exibidos na sessão de arte do cinema Rio Grande e, além de Mutantes, Caetano e Gil, os discos dos Beatles e dos Rolling Stones evaporavam das prateleiras.
Enquanto a ditadura comia solta no Brasil, em Natal, quem não fosse «careta» freqüentava a praia que era sinônimo de desbunde, efervescência e novas possibilidades.
Foi aí que se descobriu a Praia dos Artistas.
Arte e cor eram trazidas por uma grande leva de estudantes universitários e pretensos artistas locais, que tinham naquela praia, um verdadeiro ancoradouro.
Movimento hippie, baseados, «eu sou apenas um rapaz»,» como nossos pais» ...
Inconformismo e irreverência eram os substantivos daqueles que enchiam as areias da Praia dos Artistas.
Eram atores, dançarinos, artistas plásticos, poetas, ensaiando o que ia ser a época de ouro da cultura da cidade.
Por a verve transgressora que tinham, ali, a maioria era incompreendida por os incautos provincianos.
Mas muitas outras cenas faziam parte dessa trama.
Em frente ao Bar Caravela, de microfone em punho e soltando gírias pra todo lado, Big Terto (Tertuliano Pinheiro, hoje publicitário renomado em Natal) organizava campeonatos de surf que deixavam a praia com um colorido diferente.
Moças com pouquíssima roupa e rapazes fogosos disputavam cada metro quadrado do lugar.
A mulherada de biquíni «top cortininha» e bandô reinava.
A parte inferior era baixa, mas reta, não super cavada.
Um escândalo ...
Ali da Galeria
Na contramão da tamanha ebulição que era esse cenário, em 1977, o presidente general Ernesto Geisel teve a brilhante idéia de dissolver o Congresso Nacional e legislar por ele mesmo.
Esse foi o estopim que instigou naqueles jovens um abalo inquisidor.
O primeiro de eles foi o poeta, escritor e artista plástico, " Eduardo Alexandre.
«Em aquele momento, foi que me veio o impulso de ir ao muro e protestar contra todo aquele absurdo.
Comecei a preparar material para as primeiras exposições, a partir de oficinas que fazia no quintal lá de casa, com o pessoal da minha rua e adjacências do Tirol."
A partir de ali, Eduardo Alexandre deu vida a um dos mais importantes movimentos de contestação política e engajada através da arte.
A Galeria do Povo, como era conhecida, era um movimento artístico a céu aberto, que realizava exposições espontâneas de poesias, crônicas, artigos, recortes de jornais e revistas, artes visuais, esculturas e faixas de manifestações políticas;
e tudo isso, ali na Praia dos Artistas.
Com mais de 200 exposições entre os anos de 1977 a 1986, nos muros da Galeria do Povo travou-se uma luta permanente contra a ditadura militar, expondo o descontentamento do povo com as suas iniciativas e juntando-se a lutas como a da retomada da caminhada democrática, da anistia, das eleições diretas, entre outras tantas.
As exposições eram realizadas aos sábados e domingos a partir das 10h, " e nós não repetíamos trabalho, obrigando o pessoal a produzir sempre, para que tivessem seus trabalhos expostos.
As exposições eram, portanto, sempre diferentes, inéditas, e normalmente traziam uma palavra de ordem em forma de faixa de manifestação ou em letras recortadas de papel e afixadas ao muro.
«Por uma Democracia Verdadeira, Por um» Brasil Feliz!";
«A o Povo Brasileiro, o Direito de Escolher os seus Próprios Destinos:
Por a Convocação da Assembléia Constituinte»!»,
por exemplo».
Em a Praia dos Artistas, Eduardo Alexandre e a Galeria do Povo seguiam arrancando os cabelos da Ditadura, até que «numa tarde de 1978, chegou ao muro da Galeria, o artista plástico paraibano Sandoval Fagundes, que, à época, morava em Natal e mantinha um ateliê na Rua Padre Pinto».
Artista e artista conversaram e Sandoval sugeriu que fosse ampliado «aquele movimento com música, teatro, dança, receitando a realização de um festival».
Eduardo topou na hora a empreitada, sugerindo, então que o Festival, «que se chamaria Festival de Artes do Natal, se realizasse na Fortaleza dos Reis Magos, daí a ficar conhecido como Festival do Forte».
O Festival
O Festival começou tímido.
Realizado na Fortaleza dos Reis Magos no dia 30 de dezembro de 1978, o festival «foi de apenas um dia», mas já contava com música, artes plásticas, poesia e fotografia.
O segundo foi realizado no ano seguinte, «também num só dia, mas no Centro de Turismo, com uma produção praticamente solitária de Carlos Gurgel».
Em 1980 não houve festival, que voltou com força total no ano seguinte e de volta à Fortaleza com versão de três dias, reunindo novamente todas as artes.
«As exposições foram ampliadas e levadas agora às salas internas da edificação».
Sobre essa edição, Eduardo Alexandre conta que «foi uma trabalheira danada colocar os quadros naquelas paredes de pedra».
Para o evento, realizado sempre em dezembro, vinham caravanas de outros estados, como Paraíba, Pernambuco e Bahia.
Além do público composto por pessoas de fora da província, por os palcos dos Festivais do Forte passaram várias atrações de peso.
De Jards Macalé ao grupo teatral e performático Gato Lúdico, passando por a poesia alternativa do Aluá, até Chico César e a trupe Jaguaribe Carne passaram por o Festival.
Sobre Jards Macalé, o jornalista e agitador cultural Yuno Silva é quem ' reza ' uma lenda ainda passada de pai pra filho.
«De passagem por a cidade, o Macalé chegou para a apresentação e foi ficando, ficando e, nessa brincadeira foram uns dois meses.
Em a casa de um, de outro, noites e dias regados a muito álcool, nicotina e cannabis.
Sei que ninguém agüentava mais e tiveram que pedir pra alguém da família vir buscar».
Porque Parou, Parou Porquê?
O tempo passou.
A Praia dos Artistas há muito não merece ser chamada assim.
O lugar deixou de ser o berço de artistas e deu lugar a outro tipo de oferta.
Sem falar que as prioridades também mudaram.
Veio a família, as responsabilidades, o capitalismo selvagem, «o gel com brilho, a poluição e o peso de ser engolido por o famigerado sistema».
Mas como diz o artista plástico, sempre de bigode e cabelão, «Marcelus Bob,» os tempos de Festival do Forte e da Galeria do Povo na Praia dos Artistas deixaram saudades, mas ainda temos magos circulando por aí».
Número de frases: 57
Crítica e metacrítica
Um escritor de ficção científica recém-publicado que é ao mesmo tempo bastante crítico quanto ao futuro da ficção científica.
O autor em questão lançou seu livro, Macacos e outros fragmentos ao acaso, em meados do ano passado, após tê-lo deixado quase uma década à espera da sua conclusão, tempo em que ele, jornalista de profissão, se estruturou num novo país.
Falando diretamente da Flórida, após uma brevíssima passagem por seu Rio de Janeiro natal, o autor fala de como o livro mudou sua vida uma vez enquanto o escrevia e de como pode voltar a mudá-la, agora que o publicou, descreve o modo pouco usual como encara este gênero literário em que se aventurou e sobre o desenvolvimento de um projeto colaborativo de sua criação.
Com vocês, o metacrítico da FC, Jorge Moreira Nunes.
Macacos e outros fragmentos ao acaso acabou sendo sua estréia como autor de um livro de ficção científica, mas ele contém material que foi escrito há quase dez anos.
Dá para fazer uma checagem no seu arquivo e conferir se há mais textos, entre inéditos e publicados, de sua autoria?
Ainda há outros textos fictícios escritos antes da produção do livro e no intervalo de mais de oito anos até o lançamento do romance?
Tenho alguns textos inéditos, mas que não vejo porque publicar em lugar algum, por várias razões.
A maioria não tem a qualidade mínima que mereça o esforço, outros são apenas esboços de projetos, num total de meia-dúzia de textos.
Depois que me mudei para os Eua, minha produção literária congelou-se completamente.
Não escrevo nada que mereça ser chamado de literatura há oito anos.
Qual é a sensação de lançar um livro, e logo a obra de estréia, de modo tão isolado?
Ela acabou saindo distante do tempo em que foi escrita, em 1998, e você mesmo está bem afastado da cidade em que a história se passa, o Rio de Janeiro.
E tanto o tempo quanto o espaço são personagens importantes para o romance.
Acho que não houve um «lançamento» de verdade, mas apenas uma «impressão», que aliás foi bancada por mim.
Nunca tive a ousadia de submeter os originais a uma editora para avaliar suas possibilidades, mesmo porque não acho que o livro teria boa receptividade entre os editores mainstream, apesar de ter ganhado a bolsa para obras em fase de conclusão, da Biblioteca Nacional, em 98.
Queria apenas me livrar dos originais e colocá-los no mundo para que seguissem o seu caminho, e para isso não seria necessária minha presença física no Rio.
Já que a minha intenção seria distribui-lo de graça, não houve também uma necessidade de seguir um plano de marketing para divulgá-lo e promover vendas.
É claro que a intenção será sempre a de que as pessoas leiam o livro, mas gosto de observar como ele se comporta sem uma interferência mercadológica.
Pessoalmente, para mim foi muito importante me livrar do trapézio machadiano na cabeça que ele representava desde que ficou pronto.
Os distanciamentos, tanto no tempo quanto no espaço, não trouxeram maiores conseqüências.
Estive no Rio, agora em dezembro, e o cenário do livro não mudou nem um pouco.
Talvez o fato de situar a história na virada do milênio tenha tirado um pouco da sua atualidade mas, como você bem salientou na sua resenha, Macacos trata de um Rio de Janeiro de todos os tempos.
Como foi o processo de montagem da estrutura do livro?
Há quanto tempo você cultivava a idéia montar uma história que contextualizasse vários de seus contos num romance de metalinguagem?
Jamais tive essa idéia, isto é, de caso pensado, e nem parei um dia e decidi:
«Vou escrever um livro».
Macacos surgiu de repente, quando percebi que era possível construir uma espinha dorsal que reunisse em torno alguns contos meus, usando uma espécie de corrente de palavras que eu andava a escrever e que depois viria a ser Macacos.
A corrente era uma brincadeira pessoal, uma verborragia cheia de associações psicanalíticas reunidas com alguma preocupação literária, por assim dizer, mas sem qualquer aplicação prática nem maiores intenções.
A metalinguagem foi usada para facilitar a conexão entre os diversos contos:
nada melhor para colocá-los no mesmo saco que as críticas de Vlad ...
E assim o livro foi sendo escrito por o caminho, à medida que as associações entre os contos e a corrente surgiam e sugeriam enredos, quase de forma espontânea.
E a seleção dos textos que fizeram parte dessa experiência?
Você aproveitou «Saviana», por exemplo, mas deixou de lado outro conto escrito originalmente para coletânea Intempol,» O furacão Marilyn», quais foram os seus critérios de escolha?
A Intempol foi um grande estímulo para a elaboração do livro.
O surgimento daquele universo compartilhado e suas possibilidades me fizeram ter vontade de escrever.
Assim que Octavio Aragão criou a sua lista de discussão, escrevi «O furacão Marilyn» e «O ovo e a galinha», minhas primeiras tentativas de contribuir para o universo.
Esses contos foram escritos sem qualquer pretensão, meio que de brincadeira e de uma penada só.
Já «Saviana» mereceu uma maior atenção, porque a Intempol já ganhava uma dimensão mais consistente.
O critério de escolha foi muito simples, porque a minha produção é bem limitada:
de todas as minhas tentativas, os contos que estão no livro são os únicos que considero sofríveis para publicação.
Entre os dois personagens principais de seu livro há um único consenso, ainda que com alguma diferença de intensidade:
a crítica à FC como gênero literário.
O antagonista Vlad a classifica como masturbação e diz que «essas histórias não têm absolutamente nenhum motivo que não seja tentar inflar o ego de quem as escreve».
Já o personagem narrador diz acreditar que «a ficção científica já morreu e não sabe».
E você mesmo, como autor, não personagem, qual sua opinião a respeito do assunto?
Eu e Vlad somos bastante preconceituosos, é verdade ...
O fato é que posso estar falando sem conhecimento de causa, porque minhas leituras de FC são bastante limitadas e restritas a alguns clássicos do gênero, e àqueles continhos do tipo da Asimov Magazine, mas intuitivamente penso realmente que a FC anda nos seus estertores.
E, como todo preconceituoso, tenho o mau hábito de não gostar de várias coisas mesmo antes de conhecê-las, e uma dessas coisas é a FC pós-moderna e os seus subgêneros, tais que cyberpunks, pulps e afins.
Talvez o meu encanto com a FC tenha se desfeito ao mesmo tempo que se desfizeram os sonhos de futuro que minha geração possuía.
Durante a virada de 60/70, era quase certo que o futuro próximo nos reservaria viagens interplanetárias, hotéis na lua e outras maravilhas tecnológicas.
A FC era baseada nesses sonhos, ao mesmo tempo que os alimentava.
Depois que o futuro desmoronou, perdi o interesse e não mais acompanhei o mainstream.
Quanto à FCB, há coisas boas e outras nem tanto.
Desconfio que há uma certa tendência para o pastiche, para simular fórmulas alheias retiradas dos ídolos dos escritores.
Faltam, é verdade, aquela obra emblemática, aquele autor consagrado, apesar de haver gente com bastante talento escrevendo.
Talvez seja uma questão de estatística, como diria um macaco:
se a gente produzir bastante, um dia, por força estatística, pode ser que alguém traga a redenção para a FCB.
E por que, de entre tantas possibilidades existentes, você, um jornalista, escolheu a ficção científica para expressar seu lado literário?
Não sei se foi uma «escolha», porque não decidi delibradamente escrever FC.
Apenas escrevi o que imaginei, e se o resultado pode ser chamado de FC, não há problemas.
Mas prefiro deixar a catalogação do livro em aberto.
O projeto colaborativo Macacos é uma das bases do seu primeiro livro.
Quando e de onde veio a idéia para elaborar tal iniciativa e o que você tem achado da evolução da experiência ao longo dos anos?
A idéia de abrir a corrente veio como conseqüência natural do livro, e foi muito interessante trazer para a realidade o conceito contido no livro.
Quer dizer, até agora a corrente tem cumprido no mundo real exatamente a função que lhe foi atribuída inicialmente no livro.
Se ela vai seguir o destino que o livro lhe preparou, isso é outra história, mas por enquanto a realidade está acompanhando a ficção.
A evolução de Macacos foi realmente impressionante durante esses anos.
Por algum tempo, o website ficou estacionado num canto distante da internet, e tinha muito poucas colaborações, ainda que chegassem duas ou três contribuições à corrente por mês.
Depois que ela encontrou seu domínio próprio (www.macacos.net) a coisa decolou.
Hoje, mais de 90 % da corrente foram acrescentados por os visitantes do site, que escrevem de tudo ali.
Isso com pouca ou nenhuma divulgação.
Não posso deixar de reconhecer, no entanto, que ela recebeu um impulso fantástico de um entusiasta de primeira hora:
Carlos Alberto Teixeira (CAT), d' O Globo, que dedicou uma sua coluna inteira para a corrente, muito antes do livro ser lançado.
Ao longo do texto, são citados vários autores de diversos estilos, Nietzsche, Borges, Eco, Poe, Clarke, Miller ...
Quais são os escritores que mais o influenciam na hora de elaborar seus trabalhos de ficção?
E o que você anda lendo atualmente?
É difícil listar os autores que me influenciaram, porque acho que essa influência está num nível inconsciente, mas com certeza esses que você citou estão presentes, e mais pelo menos uma centena de outros, ainda que eu não consiga identificar nada desses autores no meu texto (quem me dera!).
Não procurei reproduzir nenhum estilo específico no livro, e também acho que ainda não desenvolvi um estilo próprio, para que possa ser analisado sob uma ótica de influências.
Quanto às leituras, tenho lido muito pouco, mas no momento leio um livro bem interessante sobre o xadrez -- O jogo imortal, de David Shenk, sobre como a dinâmica do jogo parece ser um simulacro em menor escala de todos os dramas vividos por a humanidade.
Aparentemente, ao final do livro você fez uma pesada sessão de autopsicanálise e até de autoexorcismo.
Como foi passar por tal experiência e, quanto à sua relação com a crítica e com a autocrítica, algo mudou depois de escrever e, finalmente, publicar a obra?
De novo, tudo me parece um processo inconsciente.
Não estruturei o livro deliberadamente com essa intenção pessoal, mas ela acabou surgindo com o seu desenvolvimento.
E, coincidência ou não, o livro transformou mesmo a minha vida, começando por o fato dos originais terem ganhado o prêmio da BN.
Isso me valorizou como profissional e me abriu portas aqui nos Eua, onde acabei por me fixar, abrindo um jornal.
Embarquei para cá exatamente dez dias depois de receber a premiação por Macacos durante a Bienal do Livro de 99, e o deixei de molho desde então.
Agora, oito anos depois, parece que ele está a fim de transformar a minha vida novamente ...
Em este intervalo de mais de oito anos entre o começo e o fim de Macacos você pensou em voltar a desenvolver algum novo projeto?
Em o futuro próximo há a possibilidade de sair mais algum livro seu ou alguma nova experiência interativa?
Durante este período estive muito ocupado com a estruturação da minha vida profissional aqui nos Eua, empenhado na construção e consolidação do meu jornal como empresa.
Hoje, já posso relaxar um pouco e voltar a pensar em coisas como literatura e música, duas paixões (e frustrações).
Tenho algumas idéias gravitando, mas preciso antes resgatar o hábito de escrever regularmente e desenvolver uma certa disciplina.
Não acredito que um possível novo livro venha nos moldes de Macacos, acho que ele já foi para o mundo.
Possivelmente será alguma coisa mais convencional, uma história simples.
Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
O livro Macacos e outros fragmentos ao acaso recebeu duas resenhas no Overblog:
Número de frases: 98
Mais! / 10-11.
Se a pessoa for a São Paulo e não sair para lugar algum, não for ao cinema, ao shopping, ao teatro, não encontrar ninguém, não ler um só jornal nem ver TV, e mesmo sem ter feito nada disso for assistir a uma peça de José Celso Martinez Correia, a vivência desse espetáculo lhe garantirá uma experiência total da cidade, dessa urbe cosmopolita e corrompida, inocente e safada, amordaçada por os grilhões da grana mas com doses industriais de vida e tesão pulsando a cada arquejo.
A experiência intelectual, artística, estética e, sobretudo, existencial, oferecida por um espetáculo de Zé Celso e seu grupo Uzyna Uzona, sediados no espaço do Teatro Oficina à rua Jaceguay, 520, Bixiga, é inigualável.
Aliás, eu não entendo por que o pessoal de teatro das cidades não freta um ônibus, ou avião, ou seja lá o que for e não vai ver «Os Sertões», da mesma forma que o povo de música se organiza para ir ver Rolling Stones, U2 ou Madonna.
Zé Celso é uma síntese.
Ele simboliza a pulsão primitiva e orgiástica de uma cidade, uma urbe viva, que se vende e se curva ante a força da grana que ergue e destrói mas mantém a resistência surda dos seus guetos e muquifos, das suas favelas, vilas e cabeças-de-porco, com seus saberes e prazeres bem longe do cardápio dos deleites oficiais dos engravatados.
Ou seja, o público de Zé Celso vai ao seu teatro porque sabe o que se passa ali dentro, porque assume participar -- e há muitas formas de participação -- daquele acontecimento teatral, onde nos reconhecemos como» ...
uma só nação de alvorotados, endividados, individuados, destroçados, solitários, no inferno de Dante Marcola Jabor."
Ao mesmo tempo, numa espécie de milagre interno, nos reconhecemos também como " células humanas que contagiam o organismo do país apodrecido aprontando-o para regeneração e crescimento."
E que teatro é esse?
O que propõe, o que quer fazer?
Começa com o edifício teatral propriamente dito do Teatro Oficina que não é um teatro tradicional, modelo italiano, com platéia, camarotes, palco e cortina, como 90 % das pessoas pensa que são todos os teatros existentes.
O Oficina, a rigor, é um corredor de trinta metros de comprimento, com seis metros de largura, e uma altura total de uns dez a doze metros.
Encostados às paredes mais compridas, bancos de madeira, com um balcão acima de eles onde cabem mais bancos, tudo com um metro de largura, o que reduz o espaço cênico a um corredor comprido, de trinta metros por três.
Os atores se deslocam acima e abaixo desse corredor, com piso de terra, que tem uma parte em declive.
Há ainda uma fonte, com água corrente, lugar para os músicos num pequeno palco e todos os espaços podem e são utilizados por os atores e por a cena.
Mas não pense que é um teatro tosco.
Os espetáculos dispõem de moderníssimos aparatos tecnológicos, som perfeito, luzes espetaculares, projeção digital, e uma das paredes dessa estrutura, num trecho de uns dez metros, é de vidro, mostrando por transparência os prédios de São Paulo.
Uma árvore imensa, com seus 15 metros de altura, também cresce no local e foi incorporada à estrutura do teatro.
Mais do que o espaço, porém, é o que se passa ali dentro, colocando José Celso Martinez Correia na galeria dos grandes nomes do teatro brasileiro, com um poder quase metaplásico de renovação, de crescimento, de surpresa, de novidade.
O espetáculo «Os Sertões» demonstra isso.
A rigor, não é " um espetáculo ":
é um complexo, uma «pentalogia» de cinco espetáculos, cada um de eles com seis horas de duração.
O épico euclidiano se transforma num épico brasileiro / universal, dividido em «A Terra», O Homem I», O Homem» II», «A Luta I» e «A Luta II».
Em essas trinta horas há uma síntese completa da nossa história como seres humanos, pertencentes à Humanidade, como brasileiros, e como seres pulsantes, cheios de tesão, de dores, de amores, de ambições e quimeras, de maldades e momentos de ternura.
Há um sentido profundamente shakespeariano na obra, quando trata da luta do homem com o seu destino, essência da tragédia.
Para quem conhece Shakespeare, é um prazer sem igual desfrutar das referências e interpolações, estabelecendo essa ponte viva entre o homem shakespeariano, hamletiano, renascentista, e o homem de hoje, proposto e desejado por o teatro de Zé Celso, um homem renovado, refeito, renascido, «desmassacrado».
Zé Celso explica que, um dia, cansados, esgotados de trabalho, os atores pensavam que iam fazer um espetáculo fraco.
Mas nada disso aconteceu.
«Atingimos no ser-estar, serestando nos sertões nesta noite uma tranqüilidade na execução da peça, um estado de inocência criativa com o público junto que nos fez experimentar sem poder definir ainda o'desmassacre ', ou mais precisamente, o início do desmassacre.
Dentro deste mundo sob o Terror, o nascimento de um sentimento novo, o fim absoluto da paranóia, do estresse, para a continuidade desta felicidade guerreira."
E o «desmassacre» não acontece somente com os atores.
O público que está ali, durante as seis horas que dura cada um desses espetáculos, é incorporado numa experiência cheia de epifanias que faz o tempo voar.
Começa às seis horas da tarde, e quando você vê é meia-noite, o espetáculo terminou, todo mundo dançando e celebrando, e você não quer ir para casa, quer ficar ali, morar ali, incorporar-se àquela trupe de loucos, como o vigia do estacionamento que virou ator e é uma das mais belas figuras do espetáculo.
Uma «rave» movida a endorfinas, movida a Tesão, movida a Alegria, movida a Arte.
O público que vai a «Os Sertões» é completamente diferente daquele que vai a ver «Sweet Charity» o musical onde oferece às platéias de novos-ricos que pagam R$ 60,00 para ver esta edulcorada história de amor.
Em o Teatro Oficina pagamos R$ 30,00 (eu, como sou da classe teatral, só paguei R$ 10,00) mas a quantia é irrelevante para a qualidade da vivência que temos ali.
Nada tenho contra o teatro de entretenimento, sobretudo quando é de boa qualidade, como provavelmente deve ser o espetáculo de Cláudia Raia.
Mas o teatro, enquanto Arte, tem outros objetivos.
O teatro, em sua acepção mais profunda, tem como finalidade levantar o véu que separa o visível do invisível e deixar-nos ver dentro de nós mesmos, ainda que por um instante, quem somos, de que matéria somos feitos.
Isso o teatro de Zé Celso faz com maestria.
Se quisermos, podemos sair do nosso banco e entrar em cena junto com os atores, como figurantes da construção do arraial de Canudos, ou situações outras propostas por a peça.
Podemos entrar em cena, nos misturar à ação, experienciar com vividez o que está acontecendo, como no antigos rituais dionisíacos onde os homens experimentavam diversas alteridades, incluindo a divindade.
Ser deus por um minuto, quem não gostaria de?
Mas nada disso é obrigado.
Se você, como público, quer ficar sentado no seu lugar, ninguém lhe aborrece, nem lhe obriga a nada.
Mesmo assim, o véu se levanta e a pessoa que entra naquele espaço e comunga com aquela ação jamais sai de ali a mesma.
Sai se conhecendo mais, integrando suas experiências num outro nível, entendendo melhor seu semelhante, desfrutando mais dos seus momentos de Alegria e Tesão, sabendo-se homem, mulher, " demasiadamente humano ...
para a produção de uma paz sem pieguismo, uma paz de criação por devoração antropofágica e de vitória sobre o mais forte, não em poder de estrutura, dinheiro ou armas, mas em poder da presença trans-humana.
Aqui se luta por o apaixonamento da condição contraditória humana, através do re-apaixonamento por os homens do seu planeta quase inviável, em sua Terra."
Nota: os trechos entre-aspas foram tirados dos programas das peças, que podem ser lidos na íntegra, junto com outras informações, no site http / www 2. uol.
com. br / teatroficina /
Clotilde Tavares, escritora
Número de frases: 53
clonews@digi.com.br www.clotildetavares.com.br
Sob o signo de Éblis (www.editoraeblis.zip.net), vem à luz uma proposta editorial simples:
a edição de livros de poesia, primeiramente os nossos.
Sobre o futuro, e desde o ponto de vista da editora, digamos que pertence a Éblis.
Invertemos a força disjuntiva de Éblis e a dispomos na direção contrária, forçando-o a jungir nossos projetos poéticos.
Já no prelo estão os dois primeiros livros da editora:
de Ronald, Em o assoalho duro;
de Ronaldo, Solecidades.
Ambos sairão com uma edição de trezentos exemplares.
Específicos em suas singularidades, os dois livros se completam (e também se contrastam) no trabalho editorial a que nos propusemos, o qual pressupõe a poesia e o livro como objetos estéticos nascidos da posse da alteridade de nós mesmos, por a consciência e por a análise, por o exercício e por a experimentação, mas sem desprezar a colaboração do acaso.
Poesia-coisa e livro-objeto como resultado de um senso ludodáctilo, de uma inteligência lúcida, vertiginosa, às voltas com seus limites, recusando-se, sempre, à dissipação e ao descanso fácil.
Nos interessamos tanto por o trabalho poético e como por o seu resultado concreto:
o livro de poesia.
A poética do suporte.
Empresamos uma editora cujo foco é pôr em circulação a poesia que não se contente com a corriqueira satisfação da moeda literária vigente, que cai sempre, inevitavelmente, ora com a cara cult, ora com a coroa provinciana.
Não somos quixotescos, mas investimos na Editora Éblis nossos próprios recursos estéticos e nossos próprios bens éticos.
Não obstante, a Editora Éblis se situa, isto é, para o bem ou para o mal, representa um gesto político contra o pano de fundo de um sistema literário, entendido aqui como a representação especular, mas com suas particularidades, dos imperativos sócio-econômicos abrigados sob o arco ideológico do livre mercado que exige competência a quem quer se estabelecer.
Mas, como adequar o fracasso e o impreciso constitutivos da prática poética, que é, antes, improdutiva, impertinente e não-utilitária, a essa «eficiência de rebanho» requerida pelo modo capitalista de produção?
A condição mesma do poema como ser de linguagem, inadequado à comunicação do que quer que seja, exceto a de sua própria realidade estética, já o consagra como coisa invendável ou inviável, economicamente falando.
Caberia, então, perguntar sobre a função de uma editora quase imaterial, cujos livros terão tiragens de não mais de trezentos exemplares, e os volumes magros com cerca de vintes e poucos poemas?
Ou ainda, e quanto às questões relativas à difusão da leitura ou sobre a literatura como coisa para poucos, etc.?
Caberia, mas quem se habilita a responder sem repetir clichês decadentistas ou multiculturais?
Ronald
Augusto & RONALDO Machado editores
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004).
Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature:
a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore:
The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring -- Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2002, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de.
Artigos e / ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura:
Babel (SC / SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno de Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS);
Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e.
cummings (MG);
Revista AT (MG);
Revista Roda -- Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG);
www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org;
entre outros.
Assina os blogs:
www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.zip.net.
Ministra oficinas de poesia e é integrante do grupo os poETs.
E-mail:(dacostara@hotmail.com).
Número de frases: 42
Tente procurar a palavra abilolado nos dicionários convencionais.
E abilolação?
Procure também.
Se você ficar muito curioso mesmo, ponha na pesquisa do Google ou nos dicionários on-line na internet.
Faça isso.
O mundo está cheio de ferramentas ...
Em os dicionários que tenho aqui em casa, nada encontrei.
Tentei um dicionário infalível indicado por o meu vizinho.
Nada também.
Em a internet, encontrei algumas coisas ...
Você já sabe o que é abilolado?
Já praticou uma abilolação?
Pode até ser que você conheça o termo e os seus possíveis significados, mas nada se compara a vivência dos multi-talentosos Vinicius Stael, Gabriel Naegele, Flavia Naegele, Magna Telis, Wanderson Carvalho e Leonardo Libanio, mais conhecido mesmo como Leleo.
Eles fazem parte do «grupo ativo» da Cia..
Abilolada de Teatro de Cantagalo, interior do Estado do Rio de Janeiro.
Para os abilolados, há os «ativos», os» passivos «e os» inativos " dentro da Companhia.
Não tente perguntá-los sobre isso.
Coisa de gente abilolada mesmo.
Você não vai entender muito bem.
Se você acha que vai ser mais um artigo sobre os percalços e as agruras de fazer teatro amador e, por isso, vai desanimar da leitura só porque vai ler mais do mesmo, pode, então, continuar com o olhar atento às próximas linhas e mudar os seus (pré) conceitos.
Sem dúvida, você vai até saber das histórias desses atores que (se) superam em muitas armadilhas impostas por a rotina que é fazer arte no interior do país e longe das badaladas e concorridas cenas culturais do Rio de Janeiro e São Paulo.
No entanto, os abilolados de Cantagalo são bem mais que isso.
Apesar de serem extremamente brincalhões e inusitados, eles têm histórias sérias para contar sobre si mesmos e sobre a trajetória de sucesso da Cia..
Abilolada de Teatro. Os abilolados surgiram em meados de 2001 com um nome muito pomposo e, podemos até dizer, sisudo:
Cia.. Dionísiaca de Teatro.
Os meninos, muito jovens ainda, sentiram a necessidade de fazer alguma coisa por eles mesmos, por o futuro de cada um como cidadãos, por uma identidade cultural, por o município e por o país.
Enfim, tiveram sonhos típicos da adolescência de um dia poder mostrar pensamentos e vontades, discutir, estudar e experimentar essa arte tão antiga e tão atual, que é o teatro.
Depois de muito estudo e preparação, sem apoio e sem crédito algum, estrearam em 2003 com «O antiamor no dia dos namorados»,» uma comédia adolescente com tudo explicado " -- assim define o espetáculo Gabriel Naegele, estreante na direção, no palco e no texto -- e vislumbraram um mundo de alegrias e lutas intermináveis para os que são corajosos amantes da arte.
Com as vestes dionisíacas, mas já abilolando, fizeram muitos espetáculos, intervenções, propagandas e participações em curtas metragens.
Fizeram de tudo.
Mas levaram tudo muito a sério também.
Estudaram muito por conta própria e em cursos e workshops.
«Apesar de toda maluquice, a gente também tem seriedade.
Senão não estaríamos aí.
É na maluquice que a gente se diverte e ainda trabalha com seriedade.
E não sei se isso é tão maluquice assim.
Maluquice é quando as pessoas não costumam se divertir no trabalho.»,
pontua Gabriel.
Uma característica muito peculiar desses talentosos artistas no início da trajetória de eles foi a de fazer tudo o que usavam nos espetáculos.
Desde o texto, a direção até a divulgação, maquiagem e figurinos.
Tudo era feito, pesquisado e idealizado por os integrantes da " Companhia Teatral.
«Em o início, éramos nós mesmos cuidando de tudo e tentando fazer tudo.
Depois nós começamos a compreender que era importante ter outros profissionais pra ter outros olhares», diz Gabriel.
De uns tempos pra cá, entenderam que podiam continuar com essa característica e ainda dialogar com outros grupos atuantes no país.
Essa iniciativa foi muito importante para o crescimento da companhia, por conta das oportunidades que acabaram sendo geradas.
Através desse novo jeito de produzir um espetáculo, puderam desenvolver várias outras habilidades, formando assim além de atores, maquiadores, cenógrafos, diretores, figurinistas, animadores de festa, produtores de eventos e por aí vai ...
Desconfio que a abilolação tenha surgido nesse processo.
Um grupo multifacetado em seus talentos e experimentações já não se continha em ser um grupo de nome pomposo.
Tá certo que Dionísio merece a homenagem, já que «o culto ao deus Dionísio é considerado como o marco inicial do teatro», explica Gabriel Naegele.
Mas eles precisavam de uma marca, algo que os definisse melhor, que lhes desse mais alma e vigor criativo.
Escolheram uma penca de nomes e chegaram a, dentro da comunidade de eles no orkut discutir qual seria o melhor nome para o grupo.
Acabou ficando Cia..
Abilolada de Teatro. O mais ferrenho defensor do novo nome foi Vinicius Stael, ator que agora se embrenha na incrível arte de ser palhaço.
Lumbriga, nome do palhaço criado por Vinicius, é a autoridade mais competente para definir o abilolado:
«ser abilolado é um dom.
Além de um dom, é uma luta porque se manter abilolado e nessa loucura de fazer teatro é realmente muito difícil, mas a vitória nos faz sentir bem.
Você nasce abilolado e vai morrer abilolado."
Mas como todo palhaço que se preza, vem para confundir e não para explicar ...
Leleo, figurinista de mão cheia, termina a definição: "
O mais importante do teatro é você pôr em prática toda a sua maluquice.
A gente tem tanta idéia bacana e fica repreendendo no dia a dia pra não sair por aí fazendo doideira.
Então a gente traz para o teatro e acaba dando certo».
Depois que a Cia..
Abilolada de Teatro nasceu das cinzas de Dionísio, mais ou menos em julho de 2006, com toda a bagagem que já traziam das experiências anteriores, o grupo criou asas e ousadia e voou bem mais longe.
Com o espetáculo «Bonecos de Lia» ganharam estrada.
«Lia, na verdade, foi a primeira arriscada que nós demos e alcançamos sucesso em alguns festivais».
E alcançaram mesmo.
Só no Festival de Macaé/RJ foram indicados em onze categorias (de entre estas, melhor ator de teatro infantil, melhor atriz coadjuvante e melhor cenário) e foram vencedores de sete categorias, incluindo os prêmios de melhor direção, melhor ator coadjuvante, melhor maquiagem, melhor iluminação, melhor figurino, melhor texto e melhor espetáculo infantil.
Não é pouco para um grupo de teatro que (agora os percalços!
Pare de ler se quiser!)
queria apenas transformar um porão numa sala de teatro para ensaiarem e fazerem as próprias apresentações e, por pura falta de apoio, foram parar num clube antigo, numa salinha ao lado do banheiro.
«Uma salinha abandonada, cheia de teia de aranha, lixo e tudo mais».
Sorte a nossa que não ficaram num porãozinho de Cantagalo.
Como não é a cara desses abilolados lastimar por os abandonos a que são submetidos, com muita arte e manha tomaram para si cada centímetro do espaço e o transformaram em QG com o material que já possuíam de cenários antigos, uns pregos, um pouco de tinta e muita abilolação."
A gente invadiu e o espaço agora é nosso», conta Flávia no meio de muitos risos e confusão.
Atualmente, estão montando um outro espetáculo infanto-juvenil, «Maria no Mundo das Nuvens».
Em esse novo trabalho, a Cia..
Abilolada de Teatro está buscando vôos ainda maiores.
Conseguiram uma ficha técnica mais complexa e recebem orientação para aprimorar a expressão corporal e a preparação vocal.
Além disso, possuem supervisão de movimento e supervisão de texto."
A gente está fazendo toda essa preparação para dar conta de ter mais qualidade e de continuar evoluindo.
Em «Bonecos de Lia», nós tivemos uma crítica muito bacana, muitos elogios e em contrapartida tivemos também muitas dicas de possíveis melhoras.
A gente está tratando disso agora, tentando melhorar para atingir um patamar maior e ficar mais próximo ao profissionalismo sem sair do amadorismo», comenta Gabriel.
Quando lancei a pergunta que todo mundo faz ao artista do interior sobre «bater a poeira das botas, não olhar para trás e ganhar o mundo», recebi essas respostas:
Flávia -- A questão de sair e buscar conhecimento é legal, mas lá (nas grandes cidades) já tem muita cultura, muito trabalho.
A gente quer trazer um pouco de cultura para o interior e dar continuidade a isso aqui.
Gabriel -- Eu tenho um pensamento que acompanha o de Flávia nuns pontos e destoa em outros.
Depois que inventaram ônibus, avião e carro, (risos) você não precisa morar em lugar nenhum.
Pode pipocar de um lado para o outro.
Eu gosto muito dessa vida de mochileiro.
Atualmente, estou trabalhando com um grupo lá do Rio e aqui em Cantagalo.
São trabalhos paralelos e distintos, mas estão coexistindo sem nenhum problema.
Eu acredito que a cultura do interior vá se fortalecer com pessoas inteligentes, só que daqui a alguns anos.
Não vai ser para agora.
A gente vai resistindo e tentando abrir espaços, só que pra abrir espaço aqui é preciso ter o reconhecimento lá fora (nas grandes cidades).
Quando a gente for reconhecido lá, aqui eles vão nos respeitar.
Eu vou continuar batendo na tecla em Cantagalo, mas sem me esquecer de que tenho oportunidades no mundo aí fora.
E é até um pouco de ignorância se fechar num mundinho e achar que isso basta.
É bacana existir e produzir em Cantagalo, mas ter a oportunidade de alçar vôos, conquistar outros lugares, outras platéias, outras pessoas.
Acho que a gente tem que continuar trilhando esse caminho.
Vinicius -- Eu pretendo me manter em Cantagalo, mas quero provar que o povo de Cantagalo pode fazer diferença aí fora também.
Dizem que o pessoal do interior não é inteligente ou é menos inteligente.
Eu quero provar o contrário:
nós podemos sair daqui pra nos dar bem lá fora.
Quero fazer o meu espaço em Cantagalo, buscar sempre informação fora e trazer pra cá.
Estou aberto a tudo.
Leleo -- Quando a gente escolhe uma profissão ou a gente quer realização ou quer reconhecimento profissional.
Eu quero realização profissional.
Até ser reconhecido tem que batalhar, tem que dar o couro, ralar bastante.
Ir para uma cidade grande e ser mais um com todo mundo querendo te engolir?
Cantagalo tem cinco distritos com zona rural e tem muita criança que nunca imaginou assistir a uma peça de teatro ...
Quer ser ator?
Que bom!
Você só precisa de uma platéia, um palco e um bom texto.
Reconhecimento em termos de dinheiro e fama é outra coisa.
Não cabe, agora, pensar nisso não.
Também não é preciso se fechar em Cantagalo ...
Mas que essa cidade está precisando muito mais de nós, isso está.
Finalmente, vamos dizer que a Cia..
Abilolada de Teatro enfrenta obstáculos enormes nas terras de Euclides da Cunha para sobreviver e mostrar a sua arte.
Os atores sofrem por a falta de apoio da prefeitura, das empresas e fábricas da região ...
Isso tudo também é verdade e foram eles mesmos que relataram, mas chorar por o dinheiro não derramado nas contas abiloladas do grupo não faz muito o estilo desses atores.
E pra não chover no molhado, eu paro por aqui.
Número de frases: 123
«Em o pó que habito não terei as rosas,
As doces preces que os felizes têm;
Pobres ervinhas brotarão viçosas,
E o esquecimento brotará também».
(Pressentimento, Tobias Barreto, 1868.)
Tobias Barreto foi um poeta que não recebeu, necessariamente, o reconhecimento que merecia.
Menosprezada por a crítica, sua obra poética não foi explorada o bastante, tampouco evidenciou-se sua qualidade estética.
É necessário que se revele ao público esta boa produção, que se revejam posições críticas a seu respeito e que se faça justiça.
Tobias Barreto de Menezes (07-06-1839/26-06-1889), mestiço, pobre, nasceu na vila de Campos, província de Sergipe, e faleceu em Recife, Pernambuco.
Bacharel em direito por a Faculdade do Recife, foi jornalista, advogado e deputado provincial.
Destacou-se no campo da filosofia por sua atuação polêmica contra o conformismo retórico.
Questionou a concepção de física social do positivismo, relacionou o conceito de cultura à constituição de normas para a compreensão do social e do humano.
Entendia a metafísica como teoria do conhecimento divergindo profundamente do positivismo.
Admitia a liberdade humana como realidade não empírica.
Defendeu o liberalismo na política, a emancipação feminina e a libertação dos escravos.
Foi uma figura central na Escola do Recife, disseminando o pensamento filosófico alemão no Brasil que, naquela época, sofria forte influência da cultura francesa.
Certamente, foi um importante pensador brasileiro no século XIX.
Publicou Ensaios e estudos de filosofia e crítica (1875), Dias e Noites (1881), Estudos alemães (1883), Menores e Loucos (1884), Discursos (1887) e Questões vigentes de filosofia e direito (1888).
O restante de sua obra, dispersa em jornais, foi reunida em três edições de Obras completas, em 1925, 1963 e 1989.
Dias e Noites foi seu único livro de poesias e, por o que sei, teve sete edições.
O que observo nos estudos que se fizeram até o momento sobre sua obra é que boa parte dos críticos classificam-no como um grande pensador, filósofo e revolucionário das idéias, não como poeta.
Realmente o foi, leve-se em conta que a maior parte de sua produção tenha tido cunho filosófico, conta-se apenas um único livro de poesias.
Entretanto, ao contrário de outros autores de «livro único», como o paraibano Augusto dos Anjos, que tiveram seu nome registrado na história literária brasileira, Tobias Barreto é sempre colocado num segundo plano.
Sua obra, quando mencionada por alguns críticos ilustres, ocupa pouquíssimas linhas em que se delineiam comentários não muito amistosos.
José Veríssimo (1) chega mesmo a afirmar que sua educação roceira e rudimentar fazia sobressair-lhe nos textos mais o aspecto rústico do que o letrado de sua personalidade, o que justificaria sua predileção por a vulgaridade, que não raro chegava ao chulismo da expressão.
Afrânio Coutinho (2) afirma que sua produção lírica descai para o mau gosto e para a banalidade, que Dias e Noites (1881) nada vale e ninguém se lembraria de Tobias Barreto, não fossem as apologias de seu amigo Sílvio Romero.
Sugerindo ainda que alguns de seus textos nada mais eram que plágio de poesias de Casimiro de Abreu.
E ainda, além disso, quase sempre a crítica coteja sua produção com a do poeta baiano Castro Alves colocando-se em evidência esta em detrimento daquela.
Não pretendo aqui, por puro bairrismo, supervalorizar a obra do sergipano encontrando-lhe forçosamente traços de genialidade turvados por o visível preconceito a ele dirigido por a crítica.
Tampouco colocá-lo nos píncaros da glória como fazem, o mais das vezes, com o seu contemporâneo baiano.
Busco, sobretudo, uma reflexão equilibrada sobre o real valor literário que pode ser atribuído a vários poemas seus e, de certa forma, pretendo, mesmo que de maneira incipiente, dissipar a densa nuvem de segregação que se instaurou sobre sua obra poética, obscurecendo-lha importância no cenário literário brasileiro.
Talvez o primeiro contato com a poética tobiática não pareça despertar no leitor a sensação de grandiosidade e altivez que se nota em alguns poemas de Castro Alves ou de Gonçalves Dias.
Entretanto, «genialidade» não é algo que se possa requerer de nenhum artista, tampouco constância.
Os grandes nomes de nossa Literatura não produziram somente obras-primas.
Uma análise criteriosa (talvez tendenciosa) de qualquer grande obra quase sempre termina por encontrar-lho que se poderia chamar, levianamente, de falhas.
Houve os que, pretensiosamente, encontraram-nas em Os Lusíadas!
É mister, portanto, concordar-se que há em elas textos a que se possa atribuir valor literário e outros desprovidos deste.
O que se percebe nitidamente em determinados críticos é uma predisposição gratuita a depreciar os poemas de Tobias Barreto e uma mesma predisposição a supervalorizar poemas outros de outros autores.
O poema Ano Bom (3), por exemplo, é uma amostra de pobreza poética, ausência de lirismo e, talvez, chulismo de expressão.
Parece não ter havido nenhuma outra preocupação formal, tão somente a de rimar o final dos versos.
O poema está distribuído em doze estrofes de quatro versos à maneira das quadras populares, com rimas somente no 2º e 4º versos de cada estrofe, mantendo-se o 1º e 3º versos ímpares.
Estranhamente ao que estava em voga na época (a preferência por versos livres e brancos), o texto é decassílabo.
Em seus versos, repletos de um prosaísmo extremo, há quase ausência de conotação:
Chega a viola, o único pecúlio
De um dos muitos escravos da fazenda:
Mas falta arame;
manda-se um moleque
Buscar depressa um carretel na venda.
Volta o emissário;
a coisa está completa;
E o sertanejo afina o instrumento. ( ...)
Além de sua linguagem, em alguns momento, beirar o mal-gosto:
Nem sequer sabe dar uma embigada! ...
Salva-se no texto a temática que, segundo o título e a data de sua criação, sugere uma festa de Reveillon aristocrática (que pode ser percebida por a presença do piano -- instrumento incomum nas camadas sociais mais modestas) cuja harmonia é interrompida por a presença inusitada de um sertanejo rudemente caracterizado que pede uma viola -- instrumento representativo da camada popular -- para demonstrar sua cultura.
A oposição entre o aristocrático e o popular, que deixa transparecer o preconceito e a discriminação entre os dois extremos da sociedade, consiste numa abordagem mais equilibrada e reflexiva das questões sociais, sem apelos a idealizações, característica notória de uma poesia mais madura da fase condoreira do nosso Romantismo.
O que não se pode, entretanto, é afirmar que as poesias de Tobias Barreto são chulas ou grosseiras tomando-se por parâmetro um único poema, ou alguns menos burilados.
Castro Alves produziu também, se não grosserias, ao menos poesias sem poeticidade, prosaicas ou simplesmente descritivas e nem por isso rotulam-no de poeta medíocre.
Tobias Barreto, a exemplo de qualquer outro poeta, produziu também seus textos medíocres, contudo, em sua antologia podemos destacar composições dignas de figurar em qualquer compêndio de Literatura Brasileira ao lado de outros grandes nomes.
Veja-se, por exemplo, Eu Amo o Gênio (4).
Um lirismo ímpar e envolvente é trabalhado em cinco quartetos decassílabos, também à maneira de quadras populares, com rimas apenas no 2º e 4º versos de cada estrofe, trazendo o 1º e 3º versos ímpares, traço marcante na produção do vate sergipano.
A musicalidade presente no texto, que justifica o subtítulo Modinha deixa evidente não somente seu estro lírico, como também sua profunda habilidade em adequar os aspectos formais aos aspectos temáticos, utilizando estruturas funcionais, o que comprova seu domínio sobre as técnicas de produção do artefato poético.
Não parece haver chulismo de expressão, tampouco mau gosto ou banalidade nos fragmentos que se seguem:
( ...) Há sempre um gozo no correr das lágrimas,
Há sempre um riso no murchar da flor ...
Quando sublime de sofrer, um ' alma
Rompe dos prantos o sombrio véu.
São glórias tuas, virginais desmaios,
Quedas de rosas nos jardins do céu.
Percebe-se, na elaboração do poema, a maestria com que trabalha as oposições luz / trevas, Deus / sofrimento.
Refletindo sobre o efeito catártico deste, sobre o júbilo divino por a redenção das almas.
Aqui ainda temos um Tobias menos céptico, menos contestador, contava apenas vinte anos.
Mesmo assim, é notória sua habilidade e sua erudição.
Procedimento reflexivo ausente, por exemplo, na produção do poeta Casimiro de Abreu quando aborda temas semelhantes, repleta de superficialismos, clichês e apelos sentimentais lúdicos desprovidos de uma abordagem mais profunda:
Que pode haver maior do que o oceano,
Ou que seja mais forte do que o vento?!--
Minha mãe a sorrir olhou pr ' os céus
E respondeu: --
«Um ser que nós não vemos
«É maior do que o mar que nós tememos,
«mais forte que o tufão!
Meu filho, é -- Deus! (
5) Isto parece contrariar a sugestão de plágio, haja vista a erudição, a superioridade formal, o tom grandiloqüente e inquiridor e a lucidez do sergipano.
Há em Tobias Barreto uma sensibilidade poética capaz de construções líricas que conseguem renovar a sensação do inusitado já adormecida em metáforas e temas gastos como é o caso de O Beija-flor (6), veja-se:
E a fresca rosa orvalhada,
que contrasta descorada
do seu rosto a nívea tez,
beijando as mãozinhas suas,
parece que diz:
nós duas! ...
e a brisa emenda:
nós três! ...
Entretanto, talvez sua maior força resida em sua veia filosófica.
Sua grande erudição permite-lhe abordar de forma estética notável temas viscerais da condição humana, a exemplo de Escravidão (7).
O texto é composto de duas oitavas com esquema rímico fixo (ABBCDEEC) em redondilha maior, ou seja, há um retorno à estrutura medieval, característico do estilo Romântico.
Sua temática, contudo, além de questionar a estrutura escravista do regime monárquico em vigência, opondo-lha República e a Abolição, procede a uma reflexão filosófica profunda acerca da Divindade dogmática como instituição mantenedora das desigualdades sociais, e conivente com a exploração do homem por o homem:
Se é Deus quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.
Encontramos um eu-lírico céptico e questionador de todos os dogmas religiosos que não se furta a apontar as falhas Divinas:
( ...) Em esta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus.
Postura que se mostra muito mais eloqüente e incisiva em Ignorabimus (8) (convém transcrever o soneto completo):
Quanta ilusão! ...
O céu mostra-se esquivo
E surdo ao brado do universo inteiro ...
De dúvidas cruéis prisioneiro,
Tomba por terra o pensamento altivo.
Dizem que o Cristo, o filho do Deus vivo,
A quem chamam também Deus verdadeiro,
Veio o mundo remir do cativeiro,
E eu vejo o mundo ainda tão cativo!
Se os reis são sempre os reis, se o povo ignavo
Não deixou de provar o duro freio
De a tirania, e da miséria o travo,
Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,
Se o homem chora e continua escravo,
De que foi que Jesus salvar-nos veio? ...
Encontramos sua forma mais sublime em O Gênio da Humanidade (9).
Composição distribuída em sete estrofes de dez versos, com esquema rímico (ABABCCDEED), em redondilha maior.
Mais uma vez consegue harmonizar os aspectos formais aos temáticos numa composição de grande densidade poética.
Sua musicalidade acentuada se distribui num ritmo que, ao longo do poema, parece que se vai tornando mais intenso, assumindo na segunda metade uma conotação quase dramática que produz no leitor uma espécie de efeito catártico.
O sergipano mergulha profundamente em movimentos reflexivos que demonstram sua erudição filtrada, é claro, por sua sensibilidade e sua habilidade artística que lhe permitem aproximar questões fundamentais para a humanidade à plasticidade estética da poesia:
Sou eu quem assiste as lutas
Que dentro d' alma se dão,
Quem sonda todas as grutas
Profundas do coração:
Quis ver dos céus o segredo;
Rebelde, sobre um rochedo
Cravado, fui Prometeu;
Tive sede do infinito,
Gênio, feliz ou maldito,
A humanidade sou eu.
Não há, no entanto, uma unicidade de pensamento poético ao longo da obra, o que denota que não houve uma pretensão de fazer uma proposta poética definida.
De aí encontrarmos posturas contraditórias em relação a determinados temas.
Contudo, isso não lhe diminui o valor, apenas mostra que suas poesias foram compostas isoladamente e só depois coligidas para a publicação.
Em o poema Pressentimento (10), por exemplo, não mais encontramos um sujeito lírico céptico, que afronta a Divindade exigindo-lhe, ao menos, resignação (11), mas alguém cansado, de quem a fé vai-se desvanecendo no decurso da jornada:
Sofrendo, aos poucos minha fé se apaga
Ao longo de quatro estrofes de oito versos, o sujeito lírico se deixa esvair em notas de pessimismo e lamentações, bem à moda dos poetas da segunda geração, na tentativa de evadir-se para a morte.
Caracteriza sua existência como um martírio que o oprime e que se lhe opõe aos ideais:
Meu Deus! ...
não mais este laurel de espinho,
Não mais a dor, que o coração devasta;
Minha alma é farta de martírios ...
basta!
Tudo conspira para o meu tormento;
Estranha nuvem denegriu-ma sorte,
A exemplo do que diz Vicente de Carvalho: (
A felicidade) Existe, sim:
mas nós não a alcançamos / Porque está sempre apenas onde a pomos / E nunca a pomos onde nós estamos. (
12), o «eu», atormentado por as limitações que lhe são impostas por a existência, localiza sua realização num outro plano, que não seja a realidade que se lhe apresenta, e suplica a Deus que o deixe partir:
Deixai esta ave procurar seu ninho.
Entretanto, fica explícito no poema o sentimento da injustiça sofrida por o «eu».
Ser de quem a vida privou da sorte, de quem foram usurpadas oportunidades ou possibilidades de realização.
Note-se a oposição que é feita no 5º e 6º versos da primeira e da quarta estrofes:
Em o meu sepulcro não terei as rosas,
As doces preces que os felizes têm;
Em o pó que habito não terei as rosas,
As doces preces que os felizes têm;
E numa espécie de refrão de vaticínio que é repetido ao final de cada estrofe:
Pobres ervinhas brotarão viçosas,
E o esquecimento brotará também.
É como se o «eu» já vivesse esquecido em vida e o pressentisse em morte.
É como se sempre fosse colocado em segundo plano, sempre preterido em detrimento de outrem.
Contudo, vaticina:
Pobres ervinhas brotarão viçosas, como quem diz:
Minha semente foi lançada e, embora timidamente, germinará!
Curva-se, contudo, diante de algo mais contundente: ...o
esquecimento brotará também.
Algo que, possivelmente, sufocará suas ervinhas.
É, no mínimo, estranho que tais procedimentos poéticos tenham passado despercebidos aos olhos da crítica.
Se sua popularidade não alcançou o nível nacional como a de seu contemporâneo baiano, talvez seja por o fato de Castro Alves ter partido do Recife para o eixo Rio-São Paulo aos vinte e um anos de idade (em pleno auge de sua produção) com recomendações do ilustre José de Alencar.
Enquanto Tobias Barreto permaneceu restrito ao cenário pernambucano.
Se não se pode encontrar na obra poética do sergipano -- como já foi dito -- traços de genialidade, ao menos se deve reconhecer que seu estro poético não está aquém do de os poetas de sua época.
Repito: genialidade não é algo que se possa exigir de artista algum.
Se seu nome não é divulgado ou reconhecido como deveria e merecia, talvez por a hegemonia imposta por parâmetros sulistas em relação à produção cultural nacional e por a tendência, não sem pretensões, de se lhe depreciar a obra em favor das obras de autores outros.
Urge, ao menos, que se reconheça sua importância no cenário literário nacional, se não como gênio, ao menos como o precursor do condoreirismo que fez de Castro o reconhecido gênio;
como precursor de novas idéias mais realistas.
Busque-se mostrar sua boa produção.
Que seja apresentada ao público de nossos dias e que o veredicto popular se faça valer.
Que se revejam posições críticas.
Que se debrucem sobre seus textos novos críticos.
Que se lhe faça justiça.
Notas (
1) In «História da Literatura Brasileira», José Veríssimo, Ministério da Cultura -- Fundação Nacional do Livro -- Biblioteca Virtual Nacional, p. 168.
(2) In «A Literatura no Brasil», Vol. 3, Parte II / Estilos de Época -- Era Romântica -- 4ª Edição, revista e atualizada, Global Editora -- SP, 1997, p. 206.
(3) Tobias Barreto, 1º de janeiro de 1882.
(4) Tobias Barreto, Itabaiana, 1859.
(5) In «Deus!»,
dezembro de 1858, Casimiro de Abreu -- Nossos Clássicos/Poesia, 1958;
Livraria Agir Editora, RJ, p. 45.
(6) Tobias Barreto, 1860.
(7) Tobias Barreto, 1868.
(8) Tobias Barreto, 1880.
(9) Tobias Barreto, 1866.
(10) Tobias Barreto, 1868.
(11) Essa lágrima invisível / que verteis límpida e calma, / Tem nome caindo n ' alma, / Se chama: --
resignação! (Dia de Finados no Cemitério -- Tb, 1863).
(12) Citação feita por Marilena Chaui em " Convite à Filosofia ";
editora Ática S.A., SP, 1996;
p. 357.
Bibliografia
Barreto, Tobias.
Dias e noites -- Edição Comemorativa;
Editora Record -- Instituto Nacional do Livro, Ministério da Cultura, RJ, 1989.
Barreto, Tobias.
Crítica de literatura e arte -- Edição Comemorativa;
Editora Record -- Instituto Nacional do Livro, Ministério da Cultura, RJ, 1990.
Veríssimo, José.
História da literatura brasileira, Ministério da Cultura -- Fundação Nacional do Livro -- Biblioteca Virtual Nacional, 2000.
Coutinho, Afrânio.
A literatura no brasil, Vol. 3, Parte II / Estilos de Época -- Era Romântica -- 4ª Edição, revista e atualizada, Global Editora -- SP, 1997.
MONTELLO, Josué.
Os teólogos da civilização -- «A polêmica de Tobias Barreto com os padres do Maranhão, RJ, Livraria José Olympio Editora, 1978».
Abreu, Casimiro de.
Deus!-- Nossos Clássicos/Poesia;
Livraria Agir Editora, RJ, 1958.
CHAUÍ, Marilena.
Convite à filosofia;
editora Ática S.A., SP, 1996.
HOUAISS, Koogan.
Número de frases: 225
Enciclopédia e dicionário digital, Versão 1.0, 1998.
Virgínio Santa Rosa, nascido em Belém em 1905 e falecido no Rio de Janeiro em 2001, foi uma figura extraordinária sobre quem várias alcunhas se ajustavam sem qualquer desonra ou demérito.
Ele foi pioneiro, viajante, visionário, aventureiro, engenheiro, político e escritor.
Era integrante da grande seara de homens que o Brasil produziu em abundância no século passado e que quase sempre terminavam no ostracismo apesar de viverem intensamente e terem colaborado de maneira efetiva com a sociedade de sua época.
Descobri-o primeiramente como engenheiro ferroviário ao pesquisar sobre a vasta região Norte do Brasil para um trabalho e me deparar com uma grande obra que ele revitalizou e defendeu ardentemente no período da Segunda Guerra e que hoje é apenas memória pois os governantes do Regime Militar desativaram-na em 1967 e destruíram-na* completamente em 1974.
Foi A estrada de ferro Tocantins que chegou a ter 118 km de trilhos em operação, entre Alcobaça (hoje Tucuruí-PA) e Jatobal (PA) em plena selva amazônica, marginando o rio Tocantins.
O projeto, um sonho de meados do século XIX para facilitar a navegação no rio, vencendo as cachoeiras, só foi executado a partir de 1908, sofrendo constantes interrupções na construção e depois na operação.
Em os duros anos da guerra, ele revitalizou a estrada, pois a entendia importante como meio de transporte entre sul e norte do Brasil em caso de bloqueio dos portos do litoral brasileiro por os alemães.
Acalentava ainda como um sonho particular a sua extensão rumo sul como eixo importante para a integração nacional, política que JK poria em andamento a partir de 1958, construindo a rodovia Belém-Brasília.
Para Santa Rosa, a via férrea era mais importante que a rodoviária por a economia proporcionada no transporte.
A o deparar-me com seu visionarismo descobri-o também político.
A sua atuação não se deu apenas no campo político-partidário.
Em 1935, no Rio de Janeiro onde estudou o curso superior e formou-se em 1927, filiou-se à Liga de Defesa da Cultura Popular, corrente ligada à Aliança Nacional Libertadora.
Sem dúvida, a criação do Estado Novo adiou muitos de seus projetos políticos, retomados logo após o seu fim em 1945.
De 1951 a 1959, foi deputado federal por o estado do Pará.
Entretanto, o que mais me atraiu na garimpagem a cerca desse visionário que disse em documento enviado a seus superiores do Ministério de Viação e Obras Públicas, em 1941, que seria importante ligar Belém do Pará a Porto Alegre por trem foi ter sido também um homem ligado às letras.
Ele escreveu cinco livros, talvez a maioria de eles esquecida do público brasileiro.
Foi tão variado nos temas abordados quão foi múltiplo durante a vida.
O seu primeiro livro é A Desordem (ensaio), 1932;
depois vieram O Sentido do Tenentismo (ensaio) e Paisagens do Brasil (viagem), 1933;
A Estrada e o Rio (romance), 1964, sobre a estrada de ferro Tocantins;
e em 1980 Dostoievski, um Cristão Torturado (ensaio lítero-biográfico).
De entre todos, o mais conhecido e citado é o Sentido do Tenentismo, surgido pouco depois dos eventos revolucionários de 1930, tendo Nélson Werneck Sodré assim se pronunciado sobre a sua importância:
«O Sentido do Tenentismo tem características pioneiras, portanto.
Deve ser visto na situação em que apareceu, e quando se apresentou como algo de insólito.
E representa, sem a menor dúvida, uma das mais sagazes interpretações que a história política brasileira conhece, e uma contribuição importante para o conhecimento do período republicano e da fase de ascensão burguesa em particular».
Número de frases: 26
Quem assiste à pequena menina de vestido branco que, silenciosamente, gira por segundos sobre um gramado de intenso verde, percebe a suavidade e leveza da ação.
A arte de Bárbara Rodrigues pede instantes de suspensão para o deleite do espectador em sua exposição intitulada ' projeto para dias perfeitos '.
Em o vídeo «Pecíolo», de 2008, a artista realiza a brincadeira infantil de dar voltas até sentir-se sem equilíbrio, enquanto a câmera gira em torno de ela, apresentando uma dupla rotação.
Um ato vertiginoso, porém um tanto prazeroso.
Mas o que seria a vertigem?
O medo de cair?
Em esta exposição, vertigem não é o medo de cair.
É outra coisa.
É o desvario que nos acompanha, nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda.
Bárbara nos oferece a vertigem diária necessária para nos sentirmos humanos, vivos e pulsantes ...
como o assovio delicado que é a única trilha sonora possível para o encontro com o outro em suas ' rotações pessoais e alheias '.
O caminho nos vai transformando, as características dos lugares, alguns mais próximos afetivamente que outros e assim Bárbara inicia um processo de investigação de nuvens, numa tentativa de estar mais próxima de elas.
Sentir as donas do nosso tempo tão próximas e tão distantes.
O olhar para o céu, que geralmente realizamos sem deter-nos por mais que segundos, nos desenhos de Bárbara Rodrigues serve de passagem para uma leitura em trânsito fora de nosso cotidiano e de todas as vinculações existentes com a vida numa metrópole e tudo que esse fator pode gerar.
Há possibilidades de se ver além, seja o que existe dentro de nós, seja o que fora se propaga.
Em a série de desenhos / gravuras «projetos para dias perfeitos», de 2008, a artista nos apresenta nuvens assim como a realidade:
diversas formas que variam dependendo essencialmente da natureza, dimensões, número e distribuição das partículas que as constituem e das correntes dos ventos que as levam de um lado ao outro.
Em a delicadeza do papel vegetal, a forma e a cor das nuvens dependem da intensidade do movimento do risco das leves mãos da artista e da cor da luz que reflete no céu da cidade de Recife.
Com isso, Barbara torna os dias perfeitos na presença e na ausência de nuvens ou até mesmo quando chegam anunciando tempestades.
Perto das nuvens da artista nos tornamos seres pequenos, mas não incapazes de encontrar a leveza constante.
As nuvens nos trazem sentidos, tudo repousa.
Suspensos, entregues, sem nenhum pé no chão, flutuando.
Agora olhamos para baixo, abrimos os olhos e pisamos nas nuvens.
Nosso caminhar é confiante, tal qual a trajetória dessa ' menina mulher ' que deseja dias azuis para que possamos sentir a vertigem que é olhar o céu e ver as nuvens passando, se transformando.
Os pés já não buscam solidez.
Não há medo de cair já que o chão é inexistente.
A queda só dói quando há chão.
Queda sem chão tem outro nome e nos dias perfeitos de Bárbara Rodrigues, chamamos de vôo.
Giramos, giramos e de repente nos descobrimos voando.
Acabo de abrir uma janela e ver que as nuvens dormem quietas sem perceber que o vento as modela bem lentamente.
Não há tempo para um sonho prolongado.
E os sonhos não se prolongam quando chegam na melhor parte, ainda mais para estas meninas nuvens que se dissipam levando leves sonhos com si.
Nuvens estão no céu a todo tempo se formando, sonhando novos sonhos, caminhando por outros lugares.
Bárbara Rodrigues nos diz que o movimento das nuvens se seguirá, ' crescendo de manchinhas a tempestades '.
Acredito em ela.
Afinal, ela está mais próxima das nuvens do que eu.
Ela consegue pegar as nuvens com as mãos.
Marcus Vinícius é doutorando em Arte Contemporânea Latinoamericana por a Facultad de Bellas Artes da Universidad Nacional de La Plata, na Argentina.
Número de frases: 38
por Ronald Augusto
1 Não obstante ser um bom livro falta-lhe coesão.
Um conjunto de poemas esforçados.
O autor tenta forjar uma coesão, mas da seguinte maneira:
todos os poemas se compõem, a rigor, de duas estrofes, uma cuja extensão é variável (pode ter de 10 a 20 versos, mais ou menos), e outra «estrofe» que é um verso derradeiro isolado.
É claro que isso não constitui um fio condutor, sequer uma «linha» condutora.
Parece mais um formalismo sem função.
Referências intertextuais.
Diálogo culto com criadores de outras artes.
Normalidade irritante.
2
O autor se vale do verso metrificado com senso contemporâneo, isto é, utiliza-o numa perspectiva irônica, às vezes sarcástica.
No entanto, a opção por a tonalidade farsesca com relação ao modelo consagrado do verso medido, em certas ocasiões, acaba por se esgotar em si mesma.
Mas mesmo aí, o autor se mostra, com freqüência, muito esperto.
A leitura ou a releitura do recurso ao metrônomo não está condenada, desde um ponto de vista atual, a ser feita sempre em registro kitsch.
O riso não precisa dizer sempre a última palavra.
Por exemplo, o verso do poema da pág. 9: «não sou Ledo nem Ivo, mas me engano».
3
Uma paisagem sem perspectiva.
Opacidade de um discurso que nos remete a uma «passagem sem trânsito».
Enunciação no vazio «enquanto o quando não vem».
O poeta nos ministra a imagem de que os significados se esvaem por detrás de «faces esfumadas».
A linguagem como que se recusa a plasmar-se.
É como se o poeta se pronunciasse, mas a contragosto.
A «linguagem poética» não consegue dar conta de toda a «niilina» de que está embebida a visão do poeta.
Não se trata de verso nem de prosa.
Ou melhor, parece uma prosa cheia de fraturas.
«O fosso por o lado avesso».
4
Um bom livro.
Ele tece uma teia de coesão.
As peças se encaixam à maneira de mosaico, isto é, uma peça se resolve ou se dissolve no som e no sentido da outra.
Narrativa de fragmentos.
Excertos de falas, coros de tragédias.
O tom, necessariamente, hierático, solene, atenua-se por a rarefação da linguagem bastante essencial, por a imagética cortante.
Pontos luminosos de uma fabulação-falação remota.
Mas a certa altura, a tensão da linguagem cai, os efeitos poéticos não inquietam mais.
Sobram pormenores.
Uma certa linearidade no uso da metáfora.
Poemas da pág. 58 e da pág. 127.
5
Os poemas coincidem com o título do volume.
Ressonâncias da poesia de e.
cummings surgem aqui e ali.
Aliás, isso fica a olho nu na estética do corte e recorte abruptos do verso, que o autor experimenta com algum êxito.
Cacos (que jamais se unirão) de um provável espelho textual:
«estilhaços cubistas ";
uma cena urbana algo difusa;
e, por fim, alguns vocábulos que o autor fratura intencionalmente interrompendo, retardando a música do verso, assim:» ...
a seguir as gen-/ tes ...";
coragem de cor-/ ações ...";» ...
assombro no radia-/ dor ...»,
etc.. Soluções um tanto virtuosísticas dentro uma recolha de bons poemas.
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004).
Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature:
a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore:
The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring -- Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2002, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de.
Artigos e / ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura:
Babel (SC / SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno de Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS);
Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e.
cummings (MG);
Revista AT (MG);
Revista Roda -- Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG);
www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org;
entre outros.
Assina os blogs:
www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.zip.net.
Ministra oficinas de poesia e é integrante do grupo os poETs www.ospoets.com.br.
E-mail:(dacostara@hotmail.com).
Número de frases: 71
Há uns oito anos atrás tive meu primeiro contato com a obra de Maurício Pereira:
o cd «Mergulhar na Surpresa».
Desde então cada vez que o ouço mergulho de novo, na surpresa que é ouvir «arte» ...
Desde então mudei de cidade muitas vezes, passei por umas cinco, acho:
interior de Minas, Capital do Rio, interior de São Paulo e finalmente, há alguns meses atrás me mudei pra São Paulo, capital.
Fuçando na internet achei o site do Maurício (e eu nem sabia que ele tinha site, pois tem).
www.mauriciopereira.com.br
Bem o fato é que mandei um e-mail, desses de fã mesmo, falando que gosto muito da música de ele e tal, nada que ele não tenha ouvido antes ...
Esse e-mail gerou uma resposta e a informação de que haveria um show de lançamento do cd novo de ele «Pra Marte», no Sesc Pompéia, dias 29 e 30 de setembro.
Como sou nova na cidade e não sei ainda a localização do Sesc Pompéia pensei em convidar alguém pra ir com mim, claro, assim além de compania, ainda conseguiria chegar lá sem maiores dificuldades, comecei por as pessoas mais próximas, depois passei para as menos próximas, convidei até gente desconhecida, no entanto ...
não rolou ...
afinal de contas ninguém queria ir num show de um cara que não conhecia, por mais que eu dissesse que é bom (e o pior é que eu nem tinha um cd de ele pra provar como é bom!).
Imagina meu desespero, eu, euzinha pronta pra dar de cara com o Maurício Pereira e ninguém pra me acompanhar ...
muito azar não?
A sorte dos mortais, no entanto, é que às vezes, raras vezes, o Universo conspira a nosso favor, e pude ir ao show acompanhada da melhor pessoa que meu coração pôde suportar ...
O teatro, as luzes, o silêncio, aplausos e a presença de ele.
Não foi apenas um show, foi um encontro, um encontro entre o criador e seus admiradores ...
Um clima intimista, uma platéia seleta (integrantes do Karnak, do extinto Mulheres Negras e sabe-se lá de que nobres bandas mais ...)
E então ...
Voilá!
O espetáculo começa.
Dizer que o Maurício é pura poesia seria injustiça, seria menosprezá-lo, há muito mais que poesia em ele, há uma inteligibilidade indescritível, um senso crítico desnorteante e todo aquele carisma, aquela humildade, aquela humanidade que só os grandes conseguem ter (sem nem sequer se dar conta disso!).
Um show "»!
E então a pergunta que não quer calar é:
por que tão pouca gente conhece o Maurício?
Espero que alguns, inspirados por este texto tenham curiosidade e procurem ouvi-lo, uma coisa garanto:
é pra lá de bom!
P.S.:
Dois cds de ele estão disponíveis na rádio uol:
«Mergulhar na Surpresa «e» Pra Marte».
Número de frases: 30
A maranhense Antônia Cícera, 22 anos, mora em Rio Branco há cinco anos.
Trabalha como vendedora numa pequena loja próxima ao Terminal Urbano de Rio Branco.
Desde que chegou ao Acre, ela acalentava um sonho:
comprar um aparelho de telefone celular.
O telefone celular sonhado por ela, não era um qualquer.
Tinha que ter câmera fotográfica.
Mas, como recebe mensalmente um salário mínimo, a aquisição não era tarefa fácil.
Necessitava que fosse feito algum sacrifício.
Por isso, ela passou dois anos juntando centavo por centavos peara concretizar o sonho.
«Faz 15 dias que comprei meu primeiro celular.
Poderia ter comprado um mais simples, mas queria tirar fotos dos amigos.
Como não tenho cartão de crédito nem cheque, a solução foi juntar dinheiro para comprar a vista.
O meu trabalho não exige, mas sempre sonhei em ter um celular», diz orgulhosa, Antônia Cícera.
Se Antônia enfrentou tantas dificuldades para adquirir o telefone sonhado, o mesmo não se pode dizer da estudante Suanni Kelli, 17 anos, que usa dois celulares e diz que ele é essencial em sua vida.
«Uso i meu e o da minha mãe.
Mesmo com o telefone convencional todos na minha casa têm celulares», afirma.
Quando o primeiro aparelho celular foi lançado, há 20 anos, Suanni ainda nem tinha nascido.
Mesmo assim, a adolescente diz que não imagima como seria a sua vida sem celular.
«Com ele posso falar a qualquer hora com as minhas amigas, marcar baladas e ainda facilita na hora da paquera.
Isto é, ele é essencial na minha vida», destaca Suanni.
Outra que parece ser prisioneira da tecnologia é a vendedora Suellen da Silva, 20 anos.
Radical, ela compara a importância do aparelho às suas roupas intimas:
«Deixo o aparelho ligado 24 horas.
Sair de casa sem o celular é como sair sem calcinha», explica.
Casos como os mencionados podem ser considerados normais, se levado em conta que no Brasil já existem mais de 82 milhões de celulares, o que dá praticamente um celular para cada dois habitantes.
O grande número de aparelhos em funcionamento se deve à grande facilidade de se comprar um aparelho celular.
Estes podem ser encontrados a partir de R$ 1, dividido em 10 vezes no cartão de crédito, ou até mesmo de graça, no caso dos pós-pagos.
A facilidade na aquisição vem acompanhada da rápida evolução nas telecomunicações, que incita os consumidores a mudarem constantemente de telefone, ter dois ou três aparelhos celular ou mais de um chip de operadoras diferentes.
Ou até mesmo que seria possível reciclá-lo, como no caso do telefone que vira flor.
Há quem abomina o aparelho
Mesmo com todas essas vantagens, há aqueles que não são adeptos da onda dos celulares.
São pessoas como a autônoma Maria das Graças Bernardo, 53 anos.
Natural do Seringal Nova Vida, no Amazonas.
Há 21 anos ela trabalha vendendo bolos e biscoitos em frente à " Galeria Meta.
«Nunca quis.
Não gosto daquele ' troço '.
Em a verdade tenho medo, não sei como funciona e sinceramente, nunca precisei de um», salienta.
Se maria das graças teme a tecnologia, o supervisor operacional Eloy Pereira, 42 anos, detesta a idéia de ter um por outro motivo.
«Não gosto de ser perturbado.
Preciso de um celular pra quê?
Se passo o dia no trabalho e a noite estou em casa.
Se alguém quiser me encontrar é só ligar no convencional», diz Eloy
O celular também pode causar brigas conjugais, como aconteceu com o carteiro Elton John, 30 anos.
«O meu celular causava muita desconfiança em casa.
Minha mulher vivia discutindo com mim.
Um dia resolvi me livrar de ele, joguei-o na parede e ele de despedaçou.
Desde este dia minha vida conjugal melhorou bastante», desabafa.
Se para alguns o celular se impõe como necessidade, levando muita pessoas a completa dependência, para outros continua a ser objeto fútil sem grande importância.
A questão é:
será que muitas dessas pessoas sabem realmente por que possuem ou devem possuir um celular?
Os celulares que de antes era artigo de luxo e estavam presente apenas em camadas mais elevadas da sociedade, hoje se encontram disseminada nas camadas mais populares e nesta chega das formas mais adversas, pois para muitos não possuir um celular é como estar excluídos dos grupos.
Celular que vira flor
Projeto criado por a universidade de Warwinck, no Reino Unido em dezembro de 2004, apresenta um celular feito de biopolímero, uma espécie de plástico biodegradável, que contém em seu invólucro uma semente de flor.
A semente fica protegida por uma janela de plástico transparente á vista do usuário.
Em vez de descartar o celular e receber uma semente de flor nos postos de reciclagem, como acontece hoje na Europa, o usuário literalmente plantaria seu telefone.
Dentro de alguns dias, a degradação do plástico alimentaria a semente fazendo a planta brotar.
O projeto prevê que o invólucro reciclável esteja no mercado em 2008 e um telefone celular 100 % biodegradável surja em 2025.
Para a manicura Maria Tereza Torres, que troca de celular todo ano, essa idéia é genial.
«Todo ano troco de aparelho.
Fico ansiosa para saber qualserá o próximo lançamento.
Já comprei seis de operadoras diferentes.
Não vivo sem celular, levo-o até mesmo para o banheiro.
Este celular biodegradável é uma ótima idéia para preservar o meio ambiente, se já estivesse à venda com certeza já teria um jardim na minha casa», empolga-se.
O primeiro celular
Há 20 anos foi criado por a Motorola o primeiro celular o dinaTAC 8000 X, que pesava três quilos.
Atualmente grande parte de eles está abaixo de 300 gramas.
Não se imaginava como os celulares seriam populares, nem como a tecnologia nas telecomunicações avançaria.
Hoje ele tira fotos, filma, tem acesso à internet.
Serve não só para se comunicar, mas como ferramenta essencial de trabalho, para diversão, ou simplesmente acessório.
Para uns poderia ser classificado tão necessário como um relógio e para outros, apenas consumismo.
Número de frases: 70
Ser dj de uma festa é uma sensação muito doida.
É colocar as músicas que você ouve em casa e no carro, muitas vezes sozinho, em julgamento público.
Dia desses, teve uma festa em homenagem aos " Anos 80 na casa Miss Modular.
Fui chamado para ser um dos dj's da noite.
Dj Mocó.
-- Você tem as «podreiras» dos anos 80?--
me perguntou o produtor da festa.
-- É craro, psit.
Os " Anos 80 estão na moda.
Em a moda mesmo.
Quando cheguei, entrei sozinho por o elevador com mais quatro mulheres que nunca tinha visto.
O elevador fechou a porta e ficou aquele silêncio normal de elevador com pessoas que não se conhecem.
Um olhando para o chão, outro para os botões e outro para o visor com os números passando.
Uma de elas abriu a boca:
-- Será que alguém vem fantasiado de " Anos 80?
-- Hein?!
Putaquepariu.
Eu jurava que elas estavam fantasiadas de " Anos 80.
Saias estampadas, colares, pulseiras, rosa, rosa e tome cor-de-rosa.
Devem fazer parte da comunidade «Eu uso Rosa».
Entro na festa.
Em a parte de cima, está dj Big colocando os «Anos 80 lado B. Embaixo, está um cara que não sei o nome colocando» Anos 80 lado AA.
Toca «Pluct Plact Zum».
-- Porra, é Balão Mágico?--
perguntou Cris.
-- Não, é Raul.
E então percebi que realmente parece.
Raul foi sensacional.
Pediram para ele fazer uma música infantil e ele fez uma como deveria ter sido feita.
Subi para pegar uma cerveja e fiquei ouvindo os «lado B» com Big.
Encontrei com um amigo, Matéria, que estava embaixo, e subiu pirado:
-- Porra, aí é foda, lá embaixo o cara botou Rpm.
Aí é foda ...
Em a semana que antecedeu a festa, eu fiquei baixando algumas músicas por a internet para tocar lá, mas só lembrei de «Não se Reprima do Menudo» no último dia.
Fiquei puto por não ter conseguido baixar.
Depois de uma hora, desço de novo e já é outro dj.
Dj DonJorge. Ele estava tocando «Não se Reprima».
«Meu Deus!,
ainda bem que eu não consegui baixar essa música."
Agradeci a tudo.
A cena estava tragicomicamente nostálgica.
DonJorge, na cabine, pulando como a porra (isso, Don, não se reprima) e a galera meio parada tipo «é, legal».
Fiquei com receio, pois tinha levado coisas «normais», mas também tinha levado Metrô, Sempre Livre, Inimigos do Rei ...
Balão Mágico.
Subo de novo e, logo depois, chega Matéria, pirado:
-- Tá foda, o cara agora botou «Meu Ursinho Blau Blau».
Depois de duas horas, chegou minha vez de ser dj.
Comecei com " Herva Doce:
«Moreno alto, bonito e sensual, talvez eu seja a solução para o seu problema ..."
² E a multidão aplaudiu e dançou pra caralho ao reconhecer a música.
Entrei com tudo.
Porém, quando a primeira parte da música acaba, entra o solo de guitarra e então a música se repete até chegar novamente no refrão, que fica repetindo por infinitas vezes até a música ir abaixando.
Essa característica refrão refrão até-sumir está presente em 99 % das músicas dos anos 80.
Aí fudia tudo, pois, quando repetia o «moreno alto, bonito e sensual ...»,
a reação era como se as pessoas dissessem «de novo?!».
E foi assim a noite toda.
«Encontrei uma barata na cozinha, eu olhei para a ela, ela olhou pra mim ..."
³ E as pessoas ao reconhecerem a música dançavam, pulavam, mas quando a música voltava do solo, ninguém agüentava mais.
Constatei que «Anos 80» é insuportável.
Ou só suportável por dois minutos.
Deveria ter colocado só o começo das músicas.
Percebi que foi isso que aconteceu com o «Não se Reprima».
Imagino que no começo da música ninguém se reprimiu.
Porra, imagine então dj DonJorge no começo da música?
«Canta, baila sien parar ...
não segure muito teus instintos porque isso não é natural.»?
O tempo foi passando e botei A-Ha, Cindy Lauper, R.E.M., Cure, Morrisey, Ira!,
Lobão, Camisa de Vênus ...
De repente, chega um cara, forte pra caralho, gigante, camisa colada, cara de jiu-jitsu, com não sei quantos colares, não sei quantas pulseiras e não sei quantas tatuagens.
Ele grita por causa do som alto.
Eu também:
-- Pô, eu queria pedir uma música.
-- Diga aí.
-- Pô, eu não sei o nome ...
chega aí para a eu cantar ...
Putaquepariu.
-- Diga qual é?
-- Pô, eu não lembro do nome ...
Chego mais para frente.
-- É aquela assim:
«Bom dia, amiguinhos, já estou aqui, tenho muitas coisas pra nos divertir ...»?
Um cara que nunca vi na vida, todo fortão, cantando no meu ouvido «Bom dia, amiguinhos, já estou aqui».
Em os segundos que esse cara estava cantando, eu pensei:
«puta merda, o cara é gay e está me paquerando, cantando no meu ouvido ' bom dia, amiguinho, já estou aqui '», e, depois que ele se afastou do meu ouvido, ele gritou «da XUUXA».
-- Porra, man, tenho não.
Ele fez cara de triste, um sinal de legal com a mão e saiu.
Botei Paralamas com «amor sem palavras, cinema mudo ...»?
Engenheiros com «eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada ...»?
e Matéria vinha:
-- Porra, tá foda.
Engenheiros tá foda.
Com o tempo, os entusiasmos já estavam ficando menores até no começo das músicas.
Apelei para o Balão Mágico.
Balão Mágico é realmente superfantástico.
As músicas eram muito bem feitas.
Arranjos, letras, harmonias e, principalmente, melodias.
Fiquei pirado quando, num dia qualquer de 1986, liguei a televisão para ver Balão Mágico e, sem saber que tinha mudado, entrou uma loira cantando «bom dia, amiguinhos, já estou aqui».
Pelo menos era uma loira.
Botei «Se Enamora» com Simony de voz de menina gripada:
«Quando você chega na classe, nem sabe quanta diferença que faz e, às vezes, faço que não vejo e nem ligo e finjo ser distraída demais.»?
Todos foram ao delírio e a música foi para o refrão:
«Se enamora, quem vê você chegar com tantos sonhos, quem vê você passar perto das flores, parece que elas querem te roubar ...
se enamora ..."
E então veio a parte 2 e as pessoas já estavam de saco cheio.
Poucos dançavam.
Matéria estava balançando a cabeça negativamente.
Ninguém mais agüentava o duelo de vozes entre Mike e Simony.
Nem eu.
Eu não queria ouvir mais nada dos anos 80.
Entrei em pânico, não sabia mais o que botar.
O refrão já estava sendo repetido por a 4ª vez.
«Se enamora, a gente, de repete, se enamora ..."
e eu procurando algum CD e não achava nada, olhava para as pessoas e ninguém mais dançava e o refrão repetindo, só que agora num tom acima, com o coro do Balão Mágico berrando " se enamora, quem ver você chegar com tantos sonhos ..."
e eu sem mudar de música, sem saber o que botar ...
Tinha uma menina que já estava de braços cruzados me encarando, batendo o pé no chão.
O refrão continuava, só que agora com o volume abaixando.
Achei Barão Vermelho, com Cazuza.
Joguei no player e entrou «Para o dia nascer feliz».
Chega então o outro dj da noite, dj Batata e diz que é a vez de ele.
-- Man, lá em cima só tá rolando anos 90 -- disse ele.
-- Porra, covardes!
Ele diz para a eu colocar mais uma música enquanto ele arruma os CDs de ele.
Botei Pepeu:
«Você pode fumar baseado / baseado em que você pode fazer quase tudo»?
e Matéria foi o único que dançou e cantou a música toda.
(1) Eduardo e Mônica, de Renato Russo.
Gravação: Legião Urbana, disco «Dois», EMI, 1986.
(2) Amante profissional, de Roberto Lly.
Gravação: Herva Doce, disco «Amante Profissional, RCA Victor, 1985».
(3) Uma barata chamada Kafka, de Paulo Moska, Marcelo Marques, Jason Mizzel, Luiz Peixoto, Joseph Simmons e Raimond White.
Gravação: Inimigos do Rei, disco «Inimigos do Rei, Epic/CBS, 1989».
(4) Não se reprima, de Carlos Colla, Fernandez Monroy e Carlos de la Torre.
Gravação: Menudo, disco «Mania», CBS, 1984.
(5) Amiguinha Xuxa, de Messias Correa e Rogério Endé.
Gravação: Xuxa, disco «Xou da Xuxa, Som Livre, 1986».
(6) Cinema Mudo, de Herbert Vianna.
Gravação: Os Paralamas do Sucesso, disco «Cinema Mudo, EMI, 1983».
(7) Toda forma de poder, de Humberto Gessinger.
Gravação: Engenheiros do Hawaii, disco «Longe demais das Capitais, BMG, 1986».
(8) Se enamora, de Giovanni Garofalo, Giovanni Gastaldo, Voncenzo Giufre, Maurizio Monti e Edgard Pocas.
Gravação: A Turma do Balão Mágico, disco «A Turma do Balão Mágico, Som Livre, 1984».
(9) O mal é o que sai da boca do homem, de Pepeu Gomes, Galvão e Baby Consuelo.
Gravação: Pepeu Gomes, disco «A o vivo em Montreaux, Elektra/WEA, 1980».
Número de frases: 143
Com direção de Zélia Monteiro e assistência de Valério Cano Bravi, Área de Risco é um trabalho interpretado por seis artistas com qualidades de movimentos muito diversas entre si.
De um lado há a participação da veterana Lu Favoreto (Cia Nova Dança 8), que demonstra domínio do exercício da improvisação e do jogo do corpo com a sonoridade presente.
Ela tem «controle» (entendendo aqui tratar-se de um tipo de controle que não é tanto racional, quanto intuitivo) da ação física que empreende no palco, e entra no jogo alheio com grande desprendimento de movimentação.
Por outro lado existem as especificidades dos corpos dos demais intérpretes, com quem contracena durante os quase 60 minutos de espetáculo.
São corpos com histórias e percursos distintos nas artes cênicas realizando o mesmo conjunto de improvisação.
Um exemplo bastante claro aparece na relação entre a atuação de Donizete Mazonas, que é principalmente um homem de teatro, com a atuação da dançarina Lu Favoreto, porque eles criam interações de movimentos usando cada qual de vocabulários e expressividades bastante distantes.
De aí nascem diálogos entre línguas diferentes.
A pontuação do início e do final dos fragmentos que compõem o conjunto do espetáculo é determinada sobretudo por a iluminação, que ora desenha uma área cênica no centro do palco, ora desvia o foco para o proscênio ou para a lateral, ora se difunde por toda a extensão do teatro.
A luz, neste espetáculo, é a coordenadora dos fragmentos de improvisação, e delimitadora dos espaços de atuação.
O que está fora do alcance de sua potência, está fora do campo central de atuação, mas não necessariamente está fora de cena.
Este é um jogo do iluminador com os intérpretes, onde ele elege pontos e áreas de destaque para a ação cênica, e nesta eleição cria espaços secundários, com menos luz, mas não os exclui da possibilidade de uso.
Sua operação é bastante sensível ao momento, sintonizada aos jogos que estão em cena, e trabalha com a dinâmica da dança.
Ela atua como uma espécie de sétimo intérprete no espetáculo.
Área de Risco promove o encontro entre corpos muito diversos, dá à iluminação a qualidade de intérprete e assume o risco (no próprio nome) de desenvolver diversidades usando a improvisação como linguagem comum a todos.
É ousada a empreitada.
Esta escolha leva a um corajoso caminho para a comunicação espontânea e ruidosa com o público.
E se articula com tanta desenvoltura quanto uma comunicação planejada.
Sem ser prolixa, ela consegue falar muitas línguas numa mesma linguagem.
Número de frases: 18
Certas analogias podem ser bastante produtivas, contudo, devemos estar atentos para pensar seus limites.
Devemos estar prontos para rir de elas, para sermos irônicos e secar os excessos de nossas metáforas.
Richard Rorty, explicando o seu behaviorismo epistemológico -- ou seja, sua idéia de que o conhecimento advem de necessidades práticas, numa relação de estímulo-resposta -- compara nosso cérebro a um hardware e a cultura a softwares.
Essa analogia me parece bastante frutífera e nesse texto tentarei ampliá-la pensando no fenômeno do software livre e na filosofia de Rorty.
Rorty questiona a crença comum na filosofia em entidades que fornecraim ao filósofo um acesso privilegiado à Verdade.
A Razão não seria mais do que um substituto para Deus:
a necessidade desses termos atemporais e universais sustentaria a pretensão dos filósofos de se colocarem acima da sociedade, «revelando»,» espelhando», «representando» a Realidade Tal como Ela É.
Os racionalistas querem nos elevar, os românticos querem ser profundos:
todos acham que podem revelar a Verdade.
Rorty acredita que a filosofia seria muito mais útil se ao invés de tomar uma perspectiva vertical, tentasse ser horizontal, ou seja, tornar-se conversacional.
Mas ele não pode «provar» isso:
só pode contar histórias sobre as vantagens de sua posição.
Se tentasse provar cairia no mesmo jogo ...
Uma cultura conversacional seria também repleta de narrativas, seria uma cultura literária.
Alguns temem que sem a marca da Razão cairiamos num relativismo sem regras que geraria um colapso, um caos insustentável, onde nada mais teria valor.
Pois bem, transportemos essa situação para outro campo.
Muitos acreditam que sem uma marca paga, sem o padrão-Windows, nenhum software seria confiável:
a idéia de código aberto geraria caos, não haveria qualquer controle possivel sobre os resultados dessa brincadeira irresponsável.
O que dizer então dá idéia de uma enciclopédia aberta e participativa, em que qualquer um poderia mexer em seu conteúdo?
Se não separamos os a (u) tores dos que devem ser iluminados por as luzes da razão -- e do espetáculo -- a própria idéia de conhecimento cairia por terra!
Podemos rir, juntamente com Rorty, dos que temiam que a democratização seria sinônimo de caos.
Podemos aprender a lição que o software livre traz, assim como as enciclopédias abertas (como a Wikepédia), ou mesmo sites participativos (como o Overmundo) e ...
o que mais pode vir ...
Rorty pretende substituir a razão por a imaginação:
essa é a conseqüência principal de pensarmos numa cultura aberta em que ninguém se auto-elege dono da verdade.
A objetividade dos que pretendem que algo seja universal e atemporal, não passa de certa solidariedade profissional dos que são guardiões da Razão, o mesmo tipo de estrutura de crença que manteria uma Igreja funcionando.
Para Rorty poderíamos construir outro tipo de solidariedade conversacional, em que o que chamariamos de racionalidade seria a capacidade de adaptabilidade, tomada em termos darwinianos.
Uma vantagem evidente do software livre é a de que, por ter o código aberto, esse pode ser adaptado para funções específicas de maneira muito mais segura que um programa de código fechado:
se você pretende ter maior segurança sobre o programa que usa, o melhor é conhecer tudo sobre ele e não ficar nas mãos de alguns iniciados.
Pois bem, uma filosofia aberta e conversacional é o que precisamos se queremos ter uma sociedade democrática de cultura aberta.
Os limites dessa analogia são algo que também deve ser destacado.
Nem todos que usam a internet participam ou têm condições de participar do jogo conversacional que ela possibilita.
Sem certas condições econômicas e sociais é dificil pensar em participação democrática.
Mais: a Utopia de Rorty é tomada muitas vezes como conservadora.
Por quê? Por questões de hegemonia:
quem decide onde termina o diálogo e começa a imposição?
Pensemos no nosso sistema de propriedade, que também remonta a Platão, em sua idéia de preservar o que é de cada qual excluindo os outros.
Pois bem, precisamos de outro sistema de propriedade aberto, que permita a conversação ...
Contudo, muitos conversam até certo ponto:
depois se impõe no antigo sistema de propriedade.
Pensemos em cantores que se lançaram a partir do mercado de CD pirata, como a dupla goiana Bruno e Marrone, e hoje fazem sucesso em grandes gravadoras ...
em versões de softwares livres que são vendidas ...
etc.. A questão da hegemonia se apresenta então:
a conversa vai até que ponto?
Onde começa o silêncio?
Quem participa do diálogo?
Garantida a hegemonia quem garante que não trocaremos de «marca» ...
Tenho questões.
Mas acho que o pior é quando não existe nem a possibilidade de abertura.
Precisamos abrir caminhos para construir um futuro melhor.
Número de frases: 50
Conversemos então ...
Em o início da década de 90, durante pouco mais de dois anos, leitores brasileiros de ficção científica viram nascer, prosperar e morrer a mais importante iniciativa para difundir por aqui o que de melhor se produz neste gênero.
Enquanto durou, a edição nacional da Isaac Asimov Magazine trouxe todos os meses a preço acessível e com distribuição ampla alguns dos mais importantes escritores de FC de todos os tempos:
além do senhor que emprestava o nome à publicação, invadiram as bancas gente do nível de Orson Scott Card, Frederik Pohl, Geoffrey Landis, David Brin, Octavia Butler entre muitos outros.
Mais que isso, a revista também abriu espaço para talentos locais que não fizeram feio ao dividir páginas com estrangeiros já consagrados, como Gérson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho, Jorge Luiz Calife, André Carneiro e Maria Helena Bandeira.
Apesar de não chegar a dar prejuízo, os resultados comerciais não foram o esperado por a editora responsável, a Record, uma das grandes do mercado brazuca.
Com o seu fim, toda uma geração de órfãos da Iam passou a se lamentar por a falta de projetos semelhantes.
Em 15 anos o quadro mudou muito pouco, apenas com alguns fanzines impressos e sites tentando manter atualizada a produção de escritores que ainda não haviam realizado o sonho do livro próprio.
Porém, 2008 parece querer se firmar como um ano em que ao menos parte do vácuo deixado por o fim daquele importante marco editorial pode ser preenchido.
Em este segundo semestre, começam a se consolidar iniciativas neste sentido, com projetos coerentes que podem dar novo fôlego à ficção especulativa nacional.
Talvez a proposta mais ambiciosa desta nova fase seja uma revista de título mutante que pretende apresentar, a cada seis meses, uma nova leva de autores, mesclando nomes conhecidos neste meio com outros mais identificados com a chamada literatura mainstream.
Quem está capitaneando o empreendimento é o escritor e ensaísta Nelson de Oliveira, conhecido por organizar coletâneas de qualidade dentro do gênero fantástico -- e que está preparando uma nova para ser lançada ano que vem por a mesma Record da falecida Iam, cujo título será Futuro presente:
dezoito ficções sobre o futuro.
Em a edição de lançamento, a revista recebeu o nome de Portal Solaris, em referência à obra-prima de Stanislaw Lem.
Ao longo dos próximos três anos, a cada semestre, um novo Portal deve ser lançado, sempre com a mesma intenção de homenagear grandes ícones da ficção científica;
por a ordem, são eles Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit.
A idéia por trás desta lista de títulos é simples, mas pode dar um bom resultado:
o projeto pretende despertar o desejo por FC de qualidade em novos leitores, criando uma demanda para ser satisfeita numa fase posterior.
Em este primeiro momento, os autores reunidos se divididem em cotas para bancar a publicação, cuja tiragem reduzida é distribuída entre alguns formadores de opinião por todo o Brasil.
Somente após consolidar o conceito, ao longo das seis edições anunciadas, é que os responsáveis pretendem transferir o Portal para uma editora, incubida da impressão e distribuição, passando assim a remunerar seus colaboradores com os direitos autorais.
«Cada portal é um organismo cibernético multidimensional, sem forma ou conteúdo definidos, acionado por a fantasia e por os desejos de quem o utiliza», escreveu Oliveira no texto de apresentação do número de estréia do projeto.
«Juntos, os seis portais funcionam como o aleph do célebre conto de Borges.
Juntos, os seis portais formam o ponto de onde é possível enxergar todos os pontos do uiverso.
Ou ser por eles enxergado».
A forma com que este primeiro Portal se manifestou é a de uma revista em preto e branco, com 106 páginas e dimensão de 16 por 23 centímetros.
O requinte gráfico se manifesta no belo projeto gráfico, de sobriedade elogiável, e na excelente capa, um estudo caligráfico do título da publicação, assinado Teo Adorno.
Até a revisão, feita por Mirtes Leal, está muito acima da média dos lançamentos nacionais, aí incluídos livros e revistas.
Quanto ao conteúdo, Oliveira reuniu 14 contos de dez autores de nada menos que sete estados do país, dando uma ótima amostra contemporânea, e em escala verdadeiramente nacional, do que se produz em termos de ficção fantástica.
A escolha dos convidados contemplou alguns nomes conhecidos de quem acompanha a FC nacional e outros que se mostram uma boa novidade na área.
O mais veterano, sem dúvida, é Roberto de Sousa Causo, um dos escritores nacionais premiados e publicados por a já citada Iam (a noveleta «Patrulha para o desconhecido» foi impressa no número 14).
Em sua contribuição para o Portal Solaris, o paulista, autor de A corrida do rinoceronte e responsável por uma coluna semanal sobre FC para uma página da internet, apresentou o conto «Rosas brancas» -- dedicado ao americano Philip K. Dick -- cuja temática bélica futurista faz parte de suas marcas registradas.
Ataíde Tartari, morador de Santos, já participou da coletânea de contos de um subgênero da FC, a história alternativa, chamada Phantástica brasiliana e publicou livros originalmente escritos em inglês, como Tropical shade.
Para a revista, ele escreveu um texto que presta homenagem ao clássico Um estranho numa terra estranha, do também americano Robert Heinlein, a começar por o título, que cita quase literalmente o protagonista daquele romance, «Valentim».
O outro paulista do time, Ivan Hegenberg, divide a coordenação do projeto com seu conterrâneo Nelson de Oliveira.
Ele estreou na área da FC com seu segundo livro, a distopia futurista Será, já resenhado aqui no Overmundo, de onde extraiu os dois contos publicados em " Portal Solaris.
«Dia qualquer «e» Mastch» deixam claro, respectivamente, a influência que Clarice Lispector e Friedrich Nietzsche exerceram sobre o jovem escritor.
Os demais colaboradores vieram de todas as regiões do Brasil e de além mar.
Carlos Emílio C. Lima, autor de O romance que explodiu, é do Ceará;
Carlos Ribeiro (Lunaris), da Bahia;
Geraldo Lima (A noite dos vagalumes), de Brasília;
Homero Gomes (Sísifo desatento), do Paraná; Luiz Bras (
A última guerra), mora em Portugal;
Mayrant Gallo (O inédito de Kafka), da Bahia e Rogers Silva (Manicômio, livro ainda inédito), de Minas Gerais.
Porém, como deixou claro naquele editorial, Nelson de Oliveira pretende mudar não só o título a cada edição, mas também variar forma e conteúdo de sua série de portais.
Número de frases: 44
Interessados em participar de alguma maneira desta iniciativa, podem contatar o coordenador editorial por o e-mail oliveira.E.Cia@uol.com.br
há pouco mais de dois anos, a França homenageou o Brasil com o evento «Ano Brasil na França».
Para quem não se lembra ao longo de meses centenas de atrações artísticas brasileiras, entre músicos e artistas plásticos convidados apresentaram-se em solo francês, enquanto exposições e apresentações representativas dos estados brasileiros marcaram presença no chamado Espaço Brasil, no Carreau du Temple, uma construção histórica parisiense.
O Tocantins era um destes poucos estados participantes -- ao todo sete --, já que a organização do Ministério da Cultura não foi das melhores, os valores cobrados para esta participação foram alterados e o retorno real, medido por o sucesso ou não das rodadas de negócios, era incerto, o que afastou estados importantíssimos nos contextos cultural, turístico e econômico, como São Paulo, Bahia, Ceará, Rio Grande do Sul.
Apesar dos estados estarem pagando para participar do evento internacional na Cidade Luz, curadorias tanto do MinC quanto da organização francesa cuidaram para que o Espaço Brasil mantivesse uma mesma linguagem ao longo das participações de cada estado.
Abrigar " diferentes manifestações:
exposições de arte contemporânea, arte popular, arte indígena, espetáculos de música e teatro reunindo artistas de todo o Brasil cujo denominador comum é a força criativa de suas obras».
Esta era a proposta do projeto, ou seja, realizar em outro continente algo que nunca foi feito dentro do próprio País.
Os tocantinenses trabalharam muito para entrar no projeto.
Curadorias regionais foram organizadas para pré-selecionar propostas e artistas, editais para selecionar vídeos e fotos foram lançados, mas a verdade é que o Estado, apesar da pagar para participar do Espaço Brasil, não teve liberdade para definir o que considerava significativo em sua produção cultural, seja popular ou contemporânea.
Subir aos palcos do Carreau du Temple foi privilégio para poucos, e não participar do evento trouxe decepção a muita gente.
O retorno institucional deste grande investimento cultural para o Estado do Tocantins não foi lá essas coisas, e houve uma rala valorização de alguns poucos currículos, todos voltados para o segmento das artes populares e da cultura indígena.
E só.
Mas, como tudo é aprendizado, lembremos que a produção artística contemporânea tocantinense foi a mais prejudicada.
O curador Evandro Salles não selecionou sequer um artista, um trabalho para o Espaço do Tocantins na França.
Segundo ele, a produção local era insipiente.
A reclamação foi geral.
Os artistas plásticos se sentiram excluídos, os gestores culturais da época informaram que pediriam revisão da decisão, mas a coisa parou aí.
Recentemente acompanhei um curso de História da Arte realizado de forma itinerante por o programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais, com parceria local da Fundação Cultural do Tocantins e da Prefeitura de Palmas.
Agora consigo perceber melhor a opinião do curador que provocou tanta revolta.
«Vivemos uma crise de ausência da percepção da realidade», apontou uma das professoras,» Angélica de Moraes.
«É uma questão de entendimento das novas idéias», disse ainda referindo-se a comentários correntes sobre uma suposta crise da arte contemporânea.
E nossa realidade é esta:
quantos artistas -- de qualquer segmento -- que vivem há anos no Estado têm condições de estudar, se reciclar, analisar com clareza os caminhos da arte e buscar uma linguagem que ao mesmo tempo seja contemporânea -- no sentido se sintonia com a produção artística nacional e internacional -- e ao mesmo tempo trabalhar a realidade e as referências culturais tocantinenses neste contexto?
Se levarmos em conta estes dois últimos anos, desde a participação tocantinense no Espaço Brasil, em Paris, é possível que o curador ainda não considerasse a produção regional «consistente».
Ainda falta essa «liga» de maturidade entre o tradicional e o contemporâneo, é lenta a conscientização sobre a necessidade de buscar mais informação.
A participação de artistas, professores, gestores culturais, arquitetos dispostos a dedicar três dias de suas vidas ao conhecimento teórico da arte deve ser vista como positiva, pois é um conhecimento a ser levado para os seus respectivos cotidianos.
Ou não terá valido em nada.
Por outro lado, é importante observar que no contexto das artes visuais tocantinenses, a Fotografia realmente conseguiu conquistar mais espaço nestes últimos dois anos.
O edital lançado para selecionar trabalhos fotográficos para exposição no Espaço Brasil teve pouca procura e o resultado não revelou quase nada das belezas, da cultura, do povo tocantinense.
Depois disso, e não necessariamente motivados por o Ano Brasil na França, um pequeno grupo de fotógrafos radicados em Palmas, a Capital Tocantinense, encabeçados por Manoel Jr, Emerson Silva e Gustavo Sá deixou os meros registros jornalísticos para o dia-a-dia profissional e investiram em trabalhos artísticos, elaboração de projetos voltados tanto para a reciclagem quanto para a formação de público, por meio de exposições.
Exposições como a recente «Tocantins P&B», que além destes três profissionais contou com trabalhos de Tharson Lopes e Viviane Asevedo, demonstram que há um ideal artístico a ser perseguido também na fotografia, mesmo que a maioria dos trabalhos ainda seja documental.
Número de frases: 32
Mas, como me disse recentemente um professor universitário, não se trata se um «fim» a ser alcançado, mas de um novo «processo» criativo a ser adotado, mesmo que o imediatismo bata à nossa porta e exija respostas urgentes.
«Era primeiro de maio e fazia um belo dia ...
A classe trabalhadora, com sua melhor roupa de domingo, havia saído a tomar ar e a observar os efeitos da greve.
Era tudo tão incomum e, sem dúvida, tão pacífico que eu mesmo me sentia satisfeito naquele ambiente."
Jack London A narração inicia com um mau pressentimento.
O personagem desperta mais cedo e tem sua rotina alterada por o falta de pão e leite.
O mordomo entrega o jornal, o último impresso para alertar sobre a greve geral, e avisa que o motorista não está trabalhando, pois é sindicalizado e aderiu a greve.
O protagonista conduz o próprio veículo em busca das pequenas lojas familiares, que não empregam os trabalhadores, para adquirir provisões.
As ruas estão repletas de carros guiados por os próprios donos à procura de mantimentos.
É incrível que, apesar da corrida por gêneros e os boatos decorrentes do desconhecimento, ninguém perceba a gravidade daquele primeiro dia de greve.
Considera-se ridículo o anúncio feito nos jornais por as centrais sindicais.
A tão sonhada greve geral, idealizada por tantos sindicalistas, entre eles Eugene Victor Debs, realizava-se pacificamente ante a incauta classe burguesa, e ainda num primeiro de maio, dia consagrado à luta e à resistência do trabalhador em quase todos os países do mundo.
O personagem vai ao clube e percebe que os alertas se aprofundam.
Os sócios se rebelam na confusão instaurada:
faltam azeitonas nos aperitivos e o serviço é ineficiente.
O general presente mostra sua impotência face à ausência de desordem:
O que pode fazer se não ocorrem manifestações?
Ainda assim, coloca as tropas em alerta em frente aos bancos e em todos os edifícios públicos.
Os sócios do clube tentam definir o movimento:
sedição, revolução ou anarquia.
Alguns tentam minimizar a situação afirmando que nunca se viu plebe tão respeitosa com a lei e que se trata de uma greve geral realizada na mais perfeita ordem.
Os diálogos dos sócios do clube, milionários, a maioria ligada às indústrias, é delicioso:
» ... Vamos ensinar a essas bestas sujas o lugar que lhes corresponde!
Espere que o governo tome pé da situação."
«Mas onde está o governo? ...
Ele bem podia estar no fundo do mar, no que diz respeito a vocês.
Não sabem o que está ocorrendo em Washington.
Não sabem sequer se existe governo ou não."
«Temos feito tudo por o operariado.
Longe de oprimir-lhes, temos dado a oportunidade de viver.
Temos criado trabalho para ele.
Como estaria agora se não fosse por nós?"
A falta de informação se transforma na grande arma da greve geral.
O protagonista começa a se alarmar quando, além do pão, não chega o jornal.
O que estará acontecendo?
As comunicações estavam definitivamente interrompidas.
Poucas notícias circulavam no clube e muitas inquietações.
Será que as outras cidades também estariam reféns da greve geral, da indisponibilidade de alimentos e serviços e da desinformação.
«Os homens de negócios, os milionários e a classe profissional convocaram assembléias e apresentavam propostas, porém não havia maneira de fazê-las públicas.
Nem sequer podiam imprimi-las ..."
A reserva de alimentos era limitada.
As filas começam a gerar conflitos e os operários organizados continuam guardando a mais perfeita ordem.
A violência começa quando a ordem e a lei desaparecem entre os mais pobres e as classes abastadas.
Logo, começam a fugir da cidade em busca da segurança do campo.
Mas o campo já está dominado por o desespero ...
O protagonista, com fome e sem empregados, resolve se aventurar na fuga junto aos sócios do clube.
Em o trajeto, lê o panfleto de um operário:
«Temos mantido uma greve disciplinada e manteremos a ordem até o final.
O final chegará quando se satisfaçam nossas reivindicações, e nossas reivindicações serão satisfeitas quando tenhamos rendido por a fome os nossos patrões, do mesmo modo que nos renderam a nós muitas vezes no passado."
A importância da comunicação é ressaltada em outro panfleto:
«Quando acreditarmos que os patrões estejam dispostos a render-se, abriremos os telégrafos e poremos em comunicação as associações patronais do país.
Porém unicamente se lhes permitirá enviar mensagens relativas às condições de paz."
O desespero se instaura no campo.
O cenário é de devastação:
ricos e pobres lutam lado-a-lado por comida, cadáveres estão estendidos por todo o caminho, medo ...
Enquanto os operários, com abundância de víveres, permanecem tranqüilos em seus lares na cidade.
O protagonista debilitado, depois de muito sofrimento, retorna à cidade.
Uma dona de casa o abriga e informa que a greve acabou à tarde com a aceitação das reivindicações sindicais e com a rendição das associações patronais em todo o país.
O conto finaliza com a reintegração de todos os filiados do sindicato aos empregos antigos, inclusive na casa do protagonista, e com a conclusão de que «a tirania das organizações operárias está se convertendo em algo humanamente insuportável».
Jack London, neste brilhante conto, abordou uma greve sem piquetes, atos públicos ou enfrentamentos.
Uma greve minuciosamente planejada por os sindicatos e que deixou a classe dominante sem meios para alimentar uma resistência.
Vivenciamos os horrores por os olhos de um membro da classe dominante entregue às necessidades.
Uma criação genial do grande escritor.
Em a obra literária costura todos os argumentos para uma bem sucedida greve geral numa sociedade perfeita.
Em momento algum aborda a tragédia operária ou os dilemas da classe social, mas, com uma narração contagiante, envolve o leitor numa ampla reflexão sobre a humanidade.
Jack London (1876 a 1916) teve uma vida repleta de experiências:
começou a trabalhar como jornaleiro aos 11 anos para contribuir com a renda familiar, largou os estudos cedo, sempre foi apaixonado por livros, trabalhou em fábricas nas piores condições, foi para o Alaska em busca de ouro, tornou-se marinheiro, entre tantas outras vivências.
Sua vida atribulada inspirou sua literatura que tem as diferenças sociais e a luta por a sobrevivência como principal argumento.
A literatura foi a marca de sua militância.
O autor compartilhou suas experiências e sempre escreveu sobre o que realmente sentia.
Em 1913, Jack London já era o escritor mais famoso e bem pago do mundo.
Contudo, em 1916, deliberadamente encerrou sua brilhante vida literária com uma grande dose de morfina.
Em o mundo, jamais ocorreu uma greve como a descrita nesta obra literária.
A greve geral sempre foi a grande ameaça aos sistemas capitalistas, pois atingiria as classes dominantes como descreveu Jack London.
Em a realidade, ela sempre permaneceu como munição ideológica.
As greves se desenrolam com conflitos, demissões e medo, além de serem noticiadas de acordo com os interesses mais diversos.
Observamos os movimentos com os olhos angustiados dos trabalhadores e com os fundamentos do que analisamos nas histórias de lutas e conquistas.
O conto «A greve de Jack London, publicado pela primeira vez no Brasil por a Editora Pão e Rosas em 2003».
Greve -- A palavra em francês grève significa terreno de areia e cascalho à beira-mar ou à beira-rio.
O vocábulo é originário do pré-latim grave -- areia, cascalho.
Até 1806, designava a área da praça defronte do Palácio da Municipalidade de Paris (Place de Grève).
Em este local, onde o rio Sena acumulava areia e cascalho, era o ponto de reunião de trabalhadores e operários sem emprego à procura de ocupação e de descontentes com as suas condições de trabalho à espera de novas propostas e possibilidades.
De aí surgiu a expressão fazer greve no sentido de abstenção deliberada do trabalho e do derivado grevista indicando o sujeito que faz a greve.
Ressalte-se que a greve só deixou de ser um delito punido com severas penas de prisão, multa e até enforcamento no correr do Século XIX, quando alcançou a condição de um direito.
O título original do conto «A greve» de Jack London é «The dream», numa clara referência ao famoso sindicalista norte-americano Eugene Victor Debs citado no texto.
Número de frases: 85
O bairro Boqueirão é um pouco mais afastado da região central de Curitiba, mas bem servido de infra-estrutura.
Foi lá que um grupo de amigos, todos com bandas de rock, tomou a decisão de fazer alguma coisa, além de ficar conversando na mesa do bar da esquina.
Esse «alguma coisa» virou um site, uma festa, um zine e uma associação sem fins lucrativos.
Ganhou o nome de Situação e hoje pode ser entendido como um coletivo de artes.
O primeiro encontro, depois da tal conversa, era para ser só a reunião entre amigos num dia marcado para conversar sobre o que poderia ser feito para amenizar as dificuldades de se fazer música na cidade sem grandes aparatos -- a tal da vida independente que prolifera a margem do grande mercado, recriando a cada dia seu próprio circuito de shows, gravadoras, festas, clipes, festivais, discos ...
Só que foi tanta gente naquela reunião, que ela virou uma festa, que virou um evento que se repete uma vez por mês, nas tardes de domingo, que virou um fanzine.
As festas do Situação agora já entraram para a agenda do circuito local de bandas independentes -- a mais recente, a 17 edição, foi dia 31 de julho.
E é muito legal ver pessoas dividindo suas criações com as outras, conversando com gente de diferentes linguagens artísticas compartilhando idéias;
buscando, juntas, caminhos que as torne mais fortes e que permita criar uma trilha que possa ser chamada de mercado -- afinal, todos precisam ganhar o sustento.
Conforme o dia, tem teatro, cinema, artes visuais ...,
mas sempre tem música.
Confesso que a idéia de «movimento» não me atrai, mas desse jeito periga a gente nem se tocar que «tá fazendo um movimento».
Outra coisa interessante do Situação é a disposição para fazer política cultural, atitude que o grupo assumiu desde que virou uma associação, com diretoria e tudo (ainda não tem sede, conta o Rafael Wasmann, um dos integrantes do núcleo central, formado por as bandas X Máquina, Real Sub e Coletiva -- mas isso agora é o de menos).
Os músicos andam envolvidos com questões de articulação política cultural, algumas nem são unanimidade, como a reserva de mercado para os grupos musicais locais nas rádios da cidade e na abertura de shows que passem por Curitiba.
Divergências de opiniões a parte, o importante é que existam pessoas interessadas em abrir picadas também neste lado tão desgastado da trincheira.
Necessário, principalmente no caso da música independente curitibana -- e do pop rock talvez mais ainda, para mostrar aos que fazem leis -- e às empresas, claro, elas precisam acordar!--
que existe vida pulsando bem forte num mundo distante das grandes gravadoras -- e de Sâo Paulo, Janeiro, Brasília, Alegre e Salvador.
Pra mostrar que tudo está diferente na música brasileira, e que há um mercado musical alternativo criando um outro caminho e que ele precisa, sim, de respeito e apoio, tanto quanto as artes cênicas e as visuais -- e que o rock e o pop fazem parte de ele.
Até porque já vem mostrando do que é capaz e a qualidade que tem.
Porque pra mim, o mais importante no momento é que as pessoas que não respiram dentro da bolha «vida alternativa» como a gente saibam o que acontece aqui.
Porque como já andei dizendo por aí, a maioria das bandas -- e seus arredores -- já sabe o caminho das pedras, mas é preciso ir adiante e é isso que a cena curitibana precisa agora, descobrir, nessa encruzilhada em que nos postamos, como andar para a frente de verdade e não ficar patinando em torno de questões que não dependem de nós.
Em Curitiba, tem muitos núcleos de produção fazendo isso.
Novos e velhos.
Músicos, bares, festivais, selos ...
os dias não param.
Alguns dão uma pisada no freio enquanto outros aceleram e é assim que surgem novas empreitadas como os festivais Local, Tinidos, Prasbandas;
o Ponto de Cultura da UPE, o coletivo de intervenções urbanas Interluxartelivre;
bares como o Motorrad -- que se assumiu como uma casa de shows para bandas independentes;
o Porão Rock Club, que surgiu pisando fundo nessa proposta também.
É a vida pulsando na nossa cidade, na nossa rua -- só falta as pessoas se permitirem sentir isso.
Número de frases: 30
Muito se fala de Web 2.0 atualmente.
Especialmente na própria web.
Experimente colocar «web 2.0» no atual guru virtual, o Google.
O que você verá será algo como um Gooooooooogle gigantesco, com diversos «Os».
Serão por volta de 330.000.000 ocorrências.
Muito mais do que outras palavras como Brasil (295.000.000) ou Lula (22.300.000), por exemplo.
Entre essas ocorrências você descobrirá que o termo «Web 2.0» foi utilizado pela primeira vez por Tim O'Reilly e por a MediaLive International em 2004, como nome de uma série de conferências falando de empresas que sobreviveram à primeira grande crise da internet em meados de 2000.
Você já sabia disso?
Eu não.
Descobri na Wikipedia.
Assim como a Wikipedia temos o próprio Overmundo, YouTube, Digg, Orkut, enfim, a lista é extensa.
Atire a primeira pedra aquele que nunca se valeu desses meios para obter e compartilhar informações ou mesmo passar o tempo despretensiosamente.
Contudo, agora se inicia uma nova discussão em torno do assunto.
Começa-se a falar em Web 2.5 por a rede.
Mas o que seria essa evolução da web?
De essa vez o movimento parece iniciado por o iG e trata-se de uma «popularização» da web 2.0.
A questão suscitada é a de que o conteúdo produzido por o usuário ainda mantém-se restrito a um pequeno universo, uma «elite» da informação na web, elite essa a qual fazemos parte, por mais que isso doa para alguns.
A proposta é que com a utilização de um grande portal como o iG mais pessoas possam colaborar e entrar em contato com a web 2.0, ou seja, o nascimento da Web 2.5. Embora ainda não seja uma Revolução tão pouco uma ação de inclusão digital das massas, será isso uma redemocratização do acesso e da produção da informação?
Será esse o próximo passo, uma evolução?
Número de frases: 19
A banda Montage, formada por Daniel Peixoto (vocalista), Patrick Bachi (guitarra) e Leco Jucá (groovebox), fez sua primeira apresentação em janeiro de 2005, no apertado palco do Noise 3 D, reduto indie de Fortaleza.
Trazendo um punhado de canções curtas e irreverentes e uma postura para lá de abusada do vocalista Daniel, surpreendeu muita gente:
revelava-se ali um trio antenado com as sonoridades contemporâneas, electro, pós-punk e rock industrial produzido na capital do Ceará.
Desde o primeiro show, o Montage não parou de colecionar feitos expressivos:
em 14 meses de carreira, comandou, ao lado da cantora Karine Alexandrino, o trio da Parada Gay da cidade, evento com público estimado em 100 mil pessoas (número da Polícia Militar);
amealhou seguidores fiéis no (pequeno) circuito de casas alternativas local, como o próprio Noise e o Fafi Bar, e fez um giro de dois meses e 11 apresentações no Rio e em São Paulo, em lugares bacanas como o Atari (SP) e Fosfobox (RJ).
Participou ainda do Machina Festival, na capital paulista, onde tocou ao lado de nomes relevantes da cena eletrônica nacional.
O detalhe é que conseguiu tudo isso sem ter um único disco oficialmente lançado (a banda costuma vender apenas singles e o primeiro EP, The good boys, em algumas apresentações) e com um punhado de canções disponibilizadas nos sites Tramavirtual e Fiberonline.
A rápida ascensão do Montage, numa cidade com bandas de rock há anos em atividade e pouco reconhecimento, seja artístico, midiático, ou ambos, chama a atenção.
As apresentações da banda são sempre concorridas.
É possível até identificar fãs recém-saídos da adolescência com camisas personalizadas reproduzindo o bordão ecoado por o vocalista nos shows (" Agora sim, é Montage!")
ou garotos que se inspiram na figura andrógina de Daniel Peixoto, visualmente uma síntese de Marilyn Manson e a vocalista Shirley Manson, do Garbage.
Recentemente, o trio estampou as primeiras páginas dos cadernos culturais dos dois principais jornais do Estado.
Mas o que é, de onde veio e como chegou até aqui o Montage?
O aparecimento da banda resulta de um desdobramento dos projetos individuais de cada integrante, como revela o guitarrista " Patrick:
«O Montage, no inicio, foi uma compilação de coisas que a gente tinha já feito, um canto em comum de coisas que nunca tinham saído».
Cada um dos integrantes do trio, porém, apresenta uma versão particular e elabora o próprio mito de origem da banda.
Daniel salienta o projeto de programa de televisão Asterico, na TV União, que rendeu apenas uma edição:
«O Leco era o editor, eu era o apresentador e o Ricardo [Castro, espécie de quarto elemento da banda, dublê de produtor, assessor de imprensa e pau pra toda obra] era o produtor.
Éramos pessoas sem um real no bolso e ainda conseguimos viajar, cobrir festivais, entrevistar pessoas legais.
Tem muita coisa inédita, daí, quando a gente ficar rico e famoso a gente paga alguém pra editar».
O vocalista lembra ainda de encontros ocasionais anteriores ao primeiro ensaio do show de estréia:
«Conheci o Patrick no meio da rua, ele era booker e me convidou para trabalhar.
Eu estava passando por o Dragão do Mar e ele chegou:
oooooi. Ele era modelo de publicidade.
Conheci o Leco no primeiro show d' O Quarto [das Cinzas, projeto de trip hop que também conta com a programação eletrônica de Leco].
O [DJ] Tiago [Guiness] me convidou pra fazer um show de electro no Ritz [casa de rock alternativo, hoje extinta].
O Leco tinha interesse, mas nem existia a banda, era um Live P.A. Aí o Ricardo viu que aquilo poderia ser uma coisa bacana, mas até ele deve ter ficado passado quando viu o resultado».
Com a palavra, " Ricardo Castro:
«Eu cheguei no Dado [Pinheiro, proprietário do Noise], e falei:
quero uma data.
E saiu.
A minha idéia era que o Leco e o Patrick fizessem sets.
Não lembro direito agora por que o Patrick tocou guitarra».
Leco, por sua vez, descreve sua trajetória:
«Eu tocava mais com O Quarto das Cinzas, gostava de produzir trip house, mais lounge.
Produzia essas coisas mais electro, mais rock por gostar, mas nem pensava em tocar.
Tinha até uma idéia de fazer uma parada com o Ricardo com groovebox e guitarra, mais no estilo John Frusciante».
Por fim, a posição de Patrick:
«Daniel participou como convidado e ficou, ia ficar fazendo pose e repetir umas palavras, mas ele surpreendeu todo mundo».
Versões à parte, o primeiro show veio com a reunião dos três num único ensaio.
O público foi receptivo à mistura de rock e eletrônico e, a partir de então, o ataque aos ouvidos e corações dos cearenses partiu de várias frentes.
Novos shows foram agendados e o material produzido por Leco e Patrick no home estúdio começou a aparecer, juntamente com imagens bem trabalhadas do fotógrafo Nicolas Gondim, nos sites Tramavirtual e Fiberonline.
É impossível dissociar os feitos do Montage dos novos canais de divulgação na internet.
Além de disponibilizar canções para download em sites especalizados, os fotologs da banda e de Daniel, juntamente com a comunidade no Orkut, são os canais mais eficientes para divulgar o trabalho do trio.
O vocalista (que, no momento da entrevista, não parou um só instante de atualizar e acompanhar os comentários dos fotologs), ressalta:
«A gente percebeu que dava para articular música com outras coisas, com moda, com imagem.
E a internet teve um papel fundamental nisso.
As músicas da banda têm circulado essencialmente na rede mundial de computadores.
Patrick revela não acompanhar mais como de início o número de downloads, mas acha que tem ocorrido um retorno considerável:
«A cada matéria que sai no jornal, muita gente procura nos sites.
Aí tem piques.
Sai uma notinha e acontece muito download.
Acontece muito por boca-a-boca mesmo».
Daniel comenta a prioridade por a internet:
«Nossa música não toca na rádio porque a gente nunca foi deixar um disco.
A gente nunca se preocupou com isso.
Seria legal se tocasse, mas ...
Aqui em Fortaleza, as pessoas querem que você corra atrás de elas de todas as formas e fique chupando o cu desse povo.
Não é que eu não faça isso, eu faço se eu achar que vale a pena.
Eles querem ser bajulados, babados, tipo implorar para tocarem.
Botei o clipe na internet e teve 1500 acessos numa semana», afirma.
O apelo visual no trabalho do Montage tem sido essencial para a afirmação da banda.
Em o palco, destaca-se a presença de Daniel, ex-modelo e ex-produtor de televisão, com uma performance elétrica e um visual mutante, mas essencialmente andrógino.
Patrick é poser na guitarra e interage bastante bem com o vocalista.
Leco, por sua vez, fica mais escondido por trás do laptop onde comanda as programações, mas nem de longe tem uma presença apagada.
As apresentações têm recebido nos jornais adjetivos como sexual, intensa, agressiva.
Indagado sobre o assunto, Patrick comenta:
«A gente acabou ficando uma banda cheia de feromônios, é mais por a postura do som, do electro.
Nossa música até dá para ouvir trepando, mas não é o que você vai encontrar num motel.
Ah, os três são caras sensuais, eróticos?
Somos, somos caras que, sinceramente, passam uma coisa ...
Não sei o que o Leco teria a dizer sobre isso».
«Nada a comentar», responde.
Dizer, porém, que o Montage seria apenas três rostos inegavelmente bonitos seria injusto.
Se o vocal de Daniel revela-se, ao vivo, ainda limitado, não chega a comprometer (e o bom punk já ensinou que nem tudo que funciona é necessariamente resultado de virtuosismo).
Patrick revela-se bastante competente na guitarra e a atuação de Leco (que participa também do Quarto das Cinzas) na programação das batidas eletrônicas é merecedora de grandes elogios, constituindo mesmo a base sólida para as intervenções de Patrick e Daniel.
As músicas disponíveis na internet aparentam uma ênfase mais acentuada na sonoridade eletrônica, notadamente o electro-punk.
Em as apresentações ao vivo, o equilíbrio com um som mais rock é maior.
«Nosso som é eletrônico mas soa ao vivo como rock, por causa do vocal, da guitarra.
O Montage não tem nada a ver com a cena eletrônica daqui, a gente escolheu outro lado, resolveu fazer outras coisas.
É centrado no rock e na evolução do eletrônico, dar um passo a frente.
Quando eu vi Franz Ferdinand, pensei, caralho, dá pra fazer eletrônico não parecendo ser eletrônico, essas bandas pós-punk, que tem toda uma vontade de ser eletrônico mas é rock», sintetiza Leco.
As letras, por sua vez, são simples e essencialmente irreverentes, algumas em inglês, como I trust my dealer, onde Daniel repete «My life is amazing / because I trust my dealer» e I lost u in the swing club, onde canta «We are a modern couple / I ' m a little gay / I lost u in the swing club», outras em português, caso do hino pancadão-electro Ginastas cariocas.
Em esta, Daniel e Patrick alternam-se nos vocais para cantar os versos «Elas são alongada, elas são esticada, elas são flexível / ela pula ela gira ela dá cambalhota / São as ginasta carioca», acompanhados do refrão» Vai Daiane! Vai Danielle!».
Em Raio de fogo, Daniel evoca uma letra extraída de uma visita a um terreiro de macumba:
«Em a encruzilhada em noite de lua cheia / Raio caía / Trovoada estrondava / Era a pomba gira / Raio de fogo / Que saía do inferno para as sete encruzilhadas».
O espírito desbocado é uma marca que emerge nas canções e na postura no palco, mas os integrantes assumem um tom mais sério quando falam da possível vinculação do Montage a uma nova e emergente cena musical em Fortaleza, celebrada nacionalmente com o aparecimento de artistas de peso como Cidadão Instigado e Karine Alexandrino, com discos vigorosos lançados no mercado e bem mais tempo de estrada.
«Acho que não existe uma cena que cruze rock e eletrônico, por exemplo, porque não existe mais de um núcleo de produção.
Tem um núcleo bem talentoso de DJs voltado só para eletrônica».
E dispara:
«Muita gente fica aqui parado, ' ah, vamos esperar que algo vai acontecer, vai surgir uma cena como a cena de Pernambuco '».
O produtor Ricardo Castro também revela não acreditar numa «cena» propriamente dita:
«Não acredito numa cena em Fortaleza, as pessoas até querem que tenha, mas existe mesmo é uma cooperação.
Tem muita gente que se ajuda, pessoas próximas da gente mesmo.
E isso é legal, as coisas estão acontecendo na cidade, mas é insuficiente para quem vive exclusivamente disso.
Fortaleza vive uma fase de que tudo está para vir e as coisas estão caminhando, mas a banda não está disposta a esperar».
Por não estar disposta a esperar, entenda-se a mudança em breve para São Paulo.
Os integrantes demonstram satisfação com o que colheram em tão pouco tempo, mas traçam novos rumos para o Montage.
Um dos motivos alegados para o estabelecimento na capital paulista é a facilidade de transitar por espaços com público para a banda:
«Promoters não vão querer ficar pagando passagens Fortaleza-São Paulo toda hora», afirma Patrick.
Leco, por sua vez, destaca a existência de mercados mais amplos no Sudeste.
«Estando em São Paulo, a gente pode arranjar um alcance maior.
Aqui a gente fica limitado ao Nordeste, para pessoas ficarem pagando para a gente se deslocar.
E ainda assim isso raramente acontece, só aconteceu uma única vez, uma rádio de Teresina promoveu um evento grande, eram pessoas que tinham grana e bancaram passagens, hospedagem.
Em São Paulo a gente não vai ter esse problema, de lá poderemos ir para Brasília, Minas, Rio, interior de São Paulo», ressalta Patrick.
Em o Ceará, além das apresentações em Fortaleza, o Montage aventurou-se por shows no Crato (onde Daniel morou parte da infância e da adolescência) e em Horizonte, pequena cidade da Região Metropolitana da capital, onde promoveram um inusitado show de Dia do Estudante em conjunto com Karine Alexandrino.
Malas feitas, a banda faz um balanço dos seus feitos até agora e ao mesmo tempo desmistifica quem acha que o burburinho é resultado apenas de glamour e de sorte.
«O Montage não usou nenhum dinheiro, nenhuma tecnologia, nada que não fosse disponível para outras bandas.
Só que somos cabeças pensantes», diz Daniel.
Patrick, por sua vez, ressalta o trabalho feito até aqui:
«Nenhum produtor bateu na porta do meu estúdio ou na do Leco.
A gente foi atrás, se tiver alguém achando ' aconteceu com o Montage, por que não acontece com a gente? ',
que vá trabalhar, porque não foi assim de repente.
Teve muito trabalho meu, do Ricardo, do Leco e do Daniel, conhecer as pessoas, conversar com muita gente, por telefone, por internet.
É um trabalho de auto-promo ção mesmo, de divulgação do material».
Leco concorda:
«Não é pra achar que é fácil.
Pô, aconteceu rápido com o Montage?
Aconteceu, mas em dois meses a gente fez 15 shows entre o Rio e São Paulo.
E a gente tava lá ralando, tem gente que não agüenta isso.
Ficar sem dormir pra passar o som à tarde, ficar na casa de amigos, não somos uma banda com estrutura mainstream», afirma.
E para que os discursos não revelem a impressão de que o Montage seria apenas uma banda «esforçada», os meninos lembram, entre a auto-confian ça e planos futuros:
«A gente tem conseguido por causa da qualidade da banda», diz Leco.
«As pessoas falam, ' ah, mas em São Paulo existem 100 mil coisas iguais a isso ', aí você chega lá e vê que não é bem por aí.
A melhor coisa que vi por lá foi o pessoal do Cidadão Instigado, que é daqui.
Patrick completa:
«A gente tem uma banda única, eu realmente acredito nisso.
Daniel, por sua vez, diz:
«Eu estou disposto a comer quem quer que seja, seja de qual idade for, para fazer sucesso.
E os meninos também, pode colocar isso aí por minha conta.
Quero dominar o mundo como a Banda Calypso».
Não seria um tanto demais?
«Não, não, o fracasso não subiu ainda a nossas cabeças», diz Ricardo, quem Patrick, aliás, define como um «grande inventor de mentiras culturais».
Bem, uma mentira melhor do que muitas verdades estabelecidas por aí.
Montage na Rede:
Trama Virtual:
http://www.tramavirtual.com.br/montage
FiberOnline:
http://www.fiberonline.com.br/artista.php?
id = 1521
Orkut:
http://www.orkut.com/ Community.
aspx? cmm = 1298901
Fotolog:
Número de frases: 145
http://www.fotolog.net/ montage Em 1977, Elvis Costello lançava a música Less than zero como a oitava faixa de seu trabalho de estréia, «My aim is true».
Como reza a lenda do efeito borboleta, todo e qualquer gesto ecoará por os tempos indefinidamente, e traz a reboque conseqüências que não podem ser previstas nem por a Mãe Dinah.
A canção deu nome ao primeiro livro de Bret Easton Ellis, um dos escritores da chamada Geração X americana, lançado em 1985 e que rendeu um filme dois anos depois.
E foi a leitura de uma obra escrita há quinze anos a responsável em sacramentar de vez o nome -- e a proposta musical -- da banda brasileira Abaixo de Zero, na estrada desde 2000.
Se o livro de Ellis se arvora o tempo todo num relato niilista e sombrio de um mundo que flerta com o caos, não dá para apontar a mesma falta de perspectiva com os roqueiros de Niterói.
Em estes quase sete anos de estrada eles acompanharam as grandes mudanças tecnológicas que renovaram o fôlego -- e as forças -- da cena independente musical em escala planetária.
O enterro definitivo das fitinhas k-7, a ascensão de espaços gratuitos e democráticos na internet como o Myspace e o planejamento baseado em modelos de negócios abertos -- onde o que vale é facilitar o acesso à música -- são apenas alguns fatores que fizeram toda a diferença e não eram práticas disseminadas de forma plena no começo desta década.
Em busca de idéias e parcerias para fugir da dependência eterna dos grandes selos, o Abaixo de Zero mergulhou no mundo digital com a meta de sobreviver no disputado -- só para não dizer selvagem -- mercado da música.
A formação atual do quarteto -- que escolheu o livro de Ellis como batismo por ser uma referência aos anos 80 que abrigou as bandas que os influenciaram, além da faceta pop -- tem quatro integrantes.
André Marino, 25, encara a voz e guitarra;
Guilherme Mattoso, 27, é baixo e vocal;
Leonardo Spinardi, 26, é responsável por as baquetas e Vinícius Terra, 25, assume a guitarra.
Tudo começou nos tempos de escola, em Niterói mesmo.
Spinardi participava de uma excursão rumo a Angra dos Reis e, na euforia pós-viagem, escolhe um nome para o projeto musical que tinha em mente:
Usina. Era o embrião do que viria a ser o Abaixo de Zero.
Mudou depois porque era muito caduco.
E a gente queria um nome composto também -- conta Mattoso, ao lembrar logo em seguida que o livro era a leitura do momento de Spinardi, que o sugeriu para nomear a banda.
A estética drogadita-junkie oitentista do livro Abaixo de Zero, aliada ao som de bandas da época como o clássico The Smiths, foi o incentivo para o primeiro trabalho em estúdio dos caras, em 2000.
Hoje em dia a própria banda reconhece o debut precoce;
foram, inexperientes, gravar o EP «Passaporte».
Não sabíamos exatamente o que queríamos, tínhamos a idéia, uma fonte clara, mas a prática esteve distante do que pensávamos.
Até brinco que o primeiro álbum é, para nós, o que foi o filme pornô da Xuxa para ela.
A gente dá uma escondida hoje em dia -- conta, às gargalhadas, Mattoso.
Apenas as canções que sobreviveram ao grau de exigência do grupo estão disponíveis para download.
E, ao contrário da loura, eles não processam nem condenam quem consome as faixas arquivadas -- se encontrá-las, é claro.
Não durou muito tempo para surgir o primeiro trabalho que agradou em cheio a banda -- e começou a abrir portas nos circuitos carioca e fluminense.
«Mas para onde foi o mal», de 2001, gravado com esmero num estúdio em Botafogo, coincide com o período em que o grupo faz os primeiros amigos cariocas, as bandas Leela e Netunos, que os levaram para palcos do Rio.
A proposta do EP incorporava novas fontes em que beber:
o britpop inglês dos anos 1990.
Com as coisas encaminhadas, não era para duvidar que logo um outro trabalho surgiria.
O EP «Poeira Estelar, de 2003», é o que deixa mais de lado a influência dos anos oitenta que motivou a criação da banda.
A retomada às raízes se dá com «Me enveneno de azul», lançado ano passado e gravado num estúdio de Santa Teresa.
É o trabalho mais caprichado do grupo;
pela primeira vez houve uma exaustiva pré-produ ção -- com várias sessões em estúdio para podar músicas e retirar gorduras extras.
Em a ocasião, o site www.abaixodezero.net foi reformulado e o selo do Creative Commons apareceu carimbando todas as faixas, até as que foram lançadas antes.
Faça a máquina andar
É sedutor o fetiche de ser um rockstar, mas, convenhamos, não dá para achar que basta mostrar força no palco e virtuosismo nos instrumentos para garantir sucesso -- são partes indispensáveis de uma banda, mas que não a sustentam sem um planejamento estratégico por trás.
Para segurar a onda, o Abaixo de Zero tem uma parceria com uma empresa de comunicação carioca, a Dala Mídia -- que trabalha com grupos como Eletro e Blitz (aquela do ' Você não soube me amar ') --, encarregada da direção artística e de fazer o trabalho grosso de produção, como agendamento de shows.
Não há riscos de prejuízo na parceria.
Em vez pagar alguma taxa, o grupo rateia o que é arrecadado com as apresentações marcadas:
70 % fica para a banda e o restante segue para a Dala.
E o grupo tem autonomia para marcar shows sem intermédio da empresa.
Para completar, há delegações de funções de acordo com os interesses de cada membro do Abaixo de Zero:
Mattoso, por exemplo, se encarrega de tudo o que se refere à web, como atualização de conteúdos, e Spinardi se preocupa com a identidade visual da banda, ao cuidar de tudo:
dos encartes dos discos à imagem do site oficial.
Sim, apesar de apostar na internet para divulgação do conteúdo, eles ainda prensam CDs.
Só que, ao invés de serem vistos como a fonte final de renda, os disquinhos são uma espécie de investimento.
Você mandar um e-mail com o link para seu álbum completo não é a mesma coisa, para alguns jornalistas, que enviar o disco na caixinha, com encarte.
Ainda dão muito valor à parte física, e prensar discos é uma forma de atingir formadores de opinião -- completa Mattoso.
Outra despesa recorrente para uma banda de rock foi solucionada via uma parceria recém sacramentada com uma loja de instrumentos musicais carioca, a Knob.
O Abaixo de Zero tem uma cota de palhetas e cordas para retirar gratuitamente do estabelecimento comercial, além de desconto na aquisição de futuros instrumentos (a meta atual é um teclado).
A próxima parceria estratégica, em processo de negociação, é com uma loja de roupas.
Ela ficaria a cargo de produzir camisas da banda -- que terá direito a uma porcentagem nas vendas -- e cederia roupas bacanas para o grupo fazer bonito -- bem vestido -- nos palcos.
Esforços em várias frentes para atingir um ponto considerado estratégico:
diversificar o perfil dos ouvintes, e o conseqüente aumento da base.
Pode-se dizer que o público majoritário que acompanha a banda é formado por universitários entre 20 e 30 anos, moradores de Niterói ou da Zona Sul carioca e que tenham alguma identificação com a cena indie rock.
Sem medo de serem pop -- até por considerarem que o fã típico do Abaixo de Zero está anos luz de ser algum xiita do underground.
Atingir os ouvidos de adolescentes entre dez e 17 anos é um dos planos a corroborar com a proposta de uma base de fãs cada vez mais diversa.
A banda usa estratégias consagradas por a cena independente, como distribuição livre de conteúdo e a apresentação em conjunto com outros grupos -- para reduzir despesas e promover um intercâmbio entre ouvintes de bandas distintas;
o que o grupo tenta fazer é usar estas estratégias consagradas de forma própria.
O maior exemplo é o projeto (em andamento) de se criar uma rede de ' embaixadores ' por o país.
A iniciativa é espelhada numa estratégia adotada por a banda Ramirez, que delegou em escolas cariocas a alguns estudantes a função de representantes / parceiros da banda.
O fã em questão ganha material de divulgação, recebe novidades antes dos outros e, em contrapartida, divulga a banda e anuncia as boas novas na sua escola.
O que o Abaixo de Zero quer fazer é transpor esta lógica para uma dimensão nacional, ao procurar representantes em estados estratégicos do nordeste e sul, além de São Paulo.
Seria tudo feito na camaradagem, buscando mais uma relação de amigo / parceiro que de fã passional.
Em o saldo bancário, não dá para ser abaixo de zero
O acesso a quem interessa é bem mais fácil nos dias de hoje.
A gravação de fitas k-7 promocionais, distribuídas gratuitamente para pessoas em shows, é uma prática cara, de menor alcance e que foi enterrada no período pré-internet.
Se no começo da carreira os integrantes tinham que tirar do próprio bolso a quantia necessária para se manter uma estrutura, há um tempo a banda sobrevive do que arrecada.
Não é fácil -- nem de graça -- fazer um trabalho de comunicação, manter um site, viagens, comprar instrumentos (além da manutenção) e desenvolver uma produção bacana (da roupa à cenografia) em começo de carreira e sem nenhum mecenas a bancar caprichos.
Todos os músicos ainda precisam de um trabalho oficial para sobreviver, apesar do Abaixo de Zero se manter com as próprias pernas.
André é arquiteto, Vinícius é técnico de som e Mattoso e Spinardi são jornalistas.
A formação dos dois, aliás, é usada com freqüência para ajudar na produção de releases e materiais de divulgação nos padrões exigidos por as mídias tradicionais, além de terem o know-how de como funcionam as redações e suas idiossincráticas lógicas.
Boa parte da presença obtida em jornais e sites é via agendas culturais e anúncios de shows, em veículos como o JB, Fluminense e a rádio comunitária Pop Goiaba, de Niterói.
A grande meta a ser alcançada, não poderia deixar de ser, é viver exclusivamente da banda e de música.
Mattoso conta que, por depender de uma agenda de shows nem sempre constante, não dá para fixar uma arrecadação.
Mas estima que, nos meses de baixa dá para tirar entre R$ 300 e R$ 500 por mês, e, nas altas, entre R$ 800 e R$ 1 mil.
Ele aponta uma agenda marcada com maior antecedência e um piso de quatro shows mensais como saída para que a banda comece não só a se sustentar como manter seus membros.
E com mais condições financeiras, não dependerão tanto de trabalhos extras e se dedicarão mais à música;
surge um círculo virtuoso.
Dilemas e percalços
Há todo um planejamento em curso para que a banda siga com seu conteúdo da forma mais democrática possível.
A iniciativa de publicar as canções da banda em Creative Commons só reflete uma mentalidade que acredita no livre acesso como arma estratégica.
Optar por o Creative Commons foi saída semelhante ao que ocorre com muitos artistas no mesmo perfil:
o Abaixo de Zero já disponibilizava suas obras, antes mesmo de saber do que se trata o CC.
A preocupação sempre foi maior com a disseminação do que com a arrecadação com direitos autorais.
Os integrantes souberam da licença por reportagens e, em comum acordo, decidiram adotá-la -- na prática, já usavam o Creative Commons.
Jogar-se de cabeça num mundo interativo e aberto se reflete também no uso de uma licença que permita remixagens.
Você, DJ que lê estas linhas, se habilita?
Os caras estão de braços abertos para dialogar.
Sem demagogia, um questionamento não passa em branco:
e se uma gravadora quiser contratá-los, com a exigência de adotar conteúdo totalmente protegido?
-- Já me fizeram essa pergunta e, para ser sincero, eu não sei (como reagir).
Se pintar algo com uma gravadora temos que tentar uma relação de parceria, termos autonomia artística, com a atuação do selo focada em distribuição e mídia.
Nem que a gente dê um jeito de colocar as músicas extra-oficialmente na internet, ou publicar versões exclusivas, como remixes, on-line -- pensa Mattoso, à procura de uma saída conciliável.
Perspectivas futuras à parte, vamos falar do presente.
Para 2007, trabalhar na divulgação do álbum «Me envenena de azul» é prioridade -- apesar de muitas músicas boas terem ficado fora do disco, a serem reaproveitadas no próximo projeto.
Estúdio, então, nem pensar agora.
A próxima parceria será para divulgação e, para isso, buscam uma produtora jovem para a gravação de um videoclipe.
Em os palcos, a ambição é diversificar cada vez mais o portfolio de cidades.
Mattoso conta que teve contatos com novas bandas e soube melhor de algumas cenas deslocadas do eixo Rio-Sampa por causa do Overmundo -- como Mato Grosso, Rondônia e Acre.
Participar de novos horizontes recém-descobertos faz parte dos planos;
festivais como Goiânia Noise e o Varadouro estão entre os objetivos desta temporada de shows.
E que tudo seja feito com descontração, porque ninguém é de ferro.
-- Diversão tem que estar acima de tudo, tem que gostar do que faz.
Em as turnês, a gente viaja e ' por acaso ' tem um show para fazermos, temos que aproveitar os lugares visitados.
Já fizemos um show em Juiz de Fora numa quinta-feira, todos tendo que trabalhar cedo na sexta, nos apresentando por último.
Acabamos às três da manhã e aí voltamos para o Rio -- recorda Mattoso.
As olheiras, neste caso, foram frutos de trabalho, farra e rock na veia.
Número de frases: 109
Um pouco diferente dos olhos fundos dos personagens de Bret Easton Ellis, retratos de pessimismo em excesso e perspectiva em falta.
O Centro de Fortaleza à noite é um órgão da cidade em isquemia.
Sem irrigação sangüínea, vira pântano na selva de pedra;
teto para desabrigados;
ponto de venda de corpos travestidos e prostituídos.
As ruas, barulhentas em horário comercial, calam-se, mas não dormem, apenas espreitam.
Confortável por ali nesses horários, poucos ficam, apenas quem de ali já é íntimo.
A classe média, como os que contam essa história, é cachorro amedrontado, mesmo que seja como nós, apenas uma tensão fina e latente.
A Catedral da cidade, grande, cinza de pontas góticas, se impõe nesse silêncio.
O desavisado que passa por ali mal sabe.
Em as primeiras horas do dia, um burburinho estranho se insinuará sob os olhos do templo católico.
Em um movimento urbano e diário, mercadorias, produzidas em dezenas de fábricas de fundo de quintal, cortam a cidade e são montadas no chão da Praça da Sé em cima de carros, penduradas nos galhos de algumas árvores, no orelhão, nos antebraços de alguns vendedores.
Até mesmo Dom Pedro II faz pose em bronze no meio da praça, como mais um corpo travestido à venda no Centro.
Se você passar um pouco mais tarde, por volta das cinco horas da manhã, verá um emaranhado de gente que de longe se decifra:
é feira.
A Feira da Sé que todo dia, com exceção do domingo, monta acampamento por volta das duas ou três horas da manhã para desmontá-lo às oito, horário em que o «rapa», como todos falam por ali, chega expulsando e ameaçando recolher a mercadoria.
Depois de ameaçar acabar com a feira, o acordo foi feito com a Prefeitura.
O acordo determina:
às oito a feira demonta o circo.
O preço é baixo demais e poderia prejudicar os lojistas que estão, a essa hora, prestes a abrir seus comércios.
A Feira da Sé -- ou o «shopchão», como alguns anunciam aos gritos -- é um dos maiores pontos de comercialização de confecções no Ceará.
As roupas e acessórios, em geral, são produzidos por os próprios ambulantes que as vendem, muitas vezes em suas próprias casas ou em sistema de «facção», no qual a produção é dividida por costureiras autônomas.
Em essa quinta, Nonato, um dos organizadores da feira, espera movimento grande, umas três mil pessoas vendendo;
cerca de 10 a 12 ônibus, vindos principalmente do Rio Grande do Norte (Mossoró), Maranhão e Pará (Belém);
mais ou menos mil compradores -- fora os avulsos de Fortaleza;
tudo isso botando pra rodar uns três milhões de reais.
Números que não podem ser checados.
As segundas-feiras são os dias mais movimentados, é quando chegam ônibus com compradores de quase todo o Nordeste ou mesmo, dependendo do dia, de Cabo Verdade.
Cerca de quarenta ônibus.
As quintas têm o segundo maior movimento.
Em essa que estamos, dia 21 de dezembro, a expectativa é ainda maior.
Domingo, próximo, dia 24 será o Natal.
Miranda e Gracinha estão ali naquela madrugada, oferecendo as camisas bordadas.
O casal fica num pedaço de chão de pouco mais de 1,5 m².
Em o começo da conversa, Gracinha ri e fala um pouco, mas quem explica de tudo é Miranda mesmo.
Gracinha está ocupada em atrair as freguesas.
Volta e meia pede ao marido pra trocar um dinheiro.
Mas ela fala pouco.
Há mais de dois anos eles estão naquele ramo.
Antes de começar a vender na Praça da Sé, já passaram por vários locais de confecção:
Monsenhor Tabosa, Setur (Secretaria de Turismo do Estado), Mercado Central, Beco da Poeira e a Feira de Cascavel (62 km de distância de Fortaleza).
Todos pontos em que o comércio de confecção é forte.
O melhor lugar até agora para eles foi na " Praça da Sé.
«Aqui temos bom movimento.
Vendo à vista.
Tem encomenda certa para a barraca», explica Miranda.
O fato de vender à vista é uma enorme garantia.
De o último negócio, ainda paga dívidas por causa de um rombo levado por problemas com cheque.
Vendendo à vista, eles também podem comprar toda a mercadoria de uma vez e na hora.
Em isso, eles conseguem até 30 % de desconto.
Por mês, vendem até quatro mil peças de blusas que custam entre 10 e 15 reais.
Todas as camisas são bordadas à mão.
Para ajudar nessa empreitada, eles contam com o serviço de 10 bordadeiras e seis costureiras.
Seu Miranda garante que o bom mesmo é trabalhar à noite.
Apesar do dia puxado, às vezes, o casal só termina as peças por volta de 23h, após terminadas as vendas, no máximo às oito da manhã, ele ainda aproveita o dia de trabalho.
Mesmo cansado, as vendas vêm trazendo bons frutos.
Em o último mês, ele comprou um carro zero.
Ainda mais, esse cansaço não é diário.
Eles estão na feira apenas na segunda, na terça e na quinta.
Evangélico, seu Miranda acredita nas mensagens de Deus.
«Aqui é uma porta pequena que Deus me avisou.
Mas essa porta pequena é dentro de uma grande porta que o Senhor me abriu.
Foi uma indicação de Deus».
Eles estão no ramo de confecção há pelo menos 23 anos.
Mas a mensagem de Deus é misericordiosa.
Miranda tem fé que em breve ele terá uma lojinha própria, uma distribuidora de suas peças na sua residência, onde poderá montar uma pequena fábrica.
Mas tudo tem seu tempo.
Chegou ali por indicação dos amigos.
«Em o começo foi um pouco difícil vender aqui.
Mas depois tivemos o nosso local marcado certo melhorou muito».
Enquanto aguarda a vontade e o chamado d' O Senhor, Miranda propaga mensagens de Deus.
Em a hora de fazer as notinhas para os clientes, ele utiliza papéis com textos e mensagens bíblicas.
Em aquele dia, estava escrito «você é importante para mim».
O casal fica num pedaço de chão de pouco mais de 1,5 m².
Em o começo da conversa, Gracinha ri e fala um pouco, mas quem explica de tudo é Miranda mesmo.
Gracinha está ocupada em atrair as freguesas.
Volta e meia pede ao marido pra trocar um dinheiro.
Mas ela fala pouco.
O ramo é competitivo.
Os pedaços de madeira espalhados antes da feira começar servem para marcar os lugares de alguns vendedores.
O ponto é conquistado por o tempo que você o ocupa e existe um respeito aos lugares de cada um.
Se algum novato chegar e quiser ocupar o lugar de outro, não demorará muito para ser expulso.
Muitos ficam ao redor da praça.
Sem lugar pra expor a mercadoria, outros a colocam nos braços e saem rodando a praça vendendo-as, numa imagem literal do vendedor ambulante.
Dona Ana Luiza, de 51 anos, é uma das que ficam sobre o asfalto.
«Dia de quinta feira eu não estava vindo, porque eu não tinha onde botar minha mercadoria.
Dia de quinta-feira eu ficava em casa muitas vezes até chorando porque eu tinha minhas contas pra pagar e não vinha trabalhar porque não tinha onde botar minha mercadoria.
De o jeito que tá ainda, se você chegar com uma sacolinha o povo não deixa você botar não.
Não deixa de jeito nenhum.
Então eu não vinha, ficava em casa, mas aí por o fato de eu ter conta pra pagar, fiquei vindo.
Coloco a sacola no chão, as coisas no meu braço e fico vendendo», conta.
Sua mercadoria é pouca e, por a posição, seus rendimentos também não devem chegar perto dos de Miranda e Gracinha.
Outra faceta dessa competição está na ocupação de Regina.
Deixou seu filho com catapora em casa naquela noite, e veio à praça, perto dos ônibus, tentar convencer os sacoleiros a acompanhá-la às fábricas de tecidos e de calçados em Fortaleza.
A cada pessoa levada à fábrica, Regina ganha dez por cento em cima da venda.
Trabalha todas as madrugadas.
O tempo de Natal é o melhor para ela, pois os feirantes da Praça da Sé vendem com mais ou menos o mesmo preço das fábricas.
Enquanto fala, consegue uma das feirantes de Natal que descia do ônibus, mas o dia foi fraco para a ela.
Ana Lúcia percorre os corredores estreitos.
Em aquela noite, comprou 17 peças de Gracinha e Miranda.
Olhou a lista e ainda tem muito o que comprar.
Cabelo amarrado para trás, preso numa piranha formando uma espécie de coque improvisado.
Toda vestida de jeans, com um casaco por cima da camisa, uma polchete na cintura, uma calculadora pendurada do pescoço e uma grande sacola, também jeans, pendurada no braço.
É a terceira vez que Lúcia vem este mês à Fortaleza.
Veio de João Pessoa, no ônibus próprio que ela freta para outras sacoleiras de sua cidade e cujo motorista é o próprio marido.
O dia certo das compras por lá é na quinta-feira.
Tem 26 anos, viaja desde os 13. Começou acompanhando a mãe.
Hoje, leva confecções para a mãe e irmã.
Ambas revendem numa loja no bairro de Mangabeira, um dos maiores centros comerciais de João Pessoa.
Além da Feira de Sé, Lúcia ainda passará o dia rodando o Beco da Poeira, grande centro com mais de 2.030 boxes, conhecido por sua variedade e preços baixos.
«Aqui na Sé o preço é mais em conta, mas a variedade do Beco da Poeira é bem melhor».
O olhar é atento na lista.
Em aquela noite, ela só poderá levar mil reais de mercadoria.
Vai ser pouco, mas já é a terceira vez na cidade no mês de dezembro.
Além de Fortaleza, ela também passeia por as feiras de Caruaru, Santa Cruz e Toritama, todas em Pernambuco.
Em a volta, existe remota possibilidade da polícia rodoviária parar o ônibus.
As mercadorias não possuem nota.
Tudo clandestino.
«Mas eles só se interessam se for mercadoria de marca.
Essas daqui não têm marcas.
Aí geralmente pedem um suborno.
A gente se junta e paga a eles», diz Lúcia.
As mercadorias então seguirão para João Pessoa, onde muitas vão bater nas praias chiques da cidade por, no mínimo, o dobro do preço.
Número de frases: 123
Os turistas adoram.
Que figura é a dona Maria da Graça.
Portuguesa, da Ilha da Madeira, ela é sogra do Adriano.
O Adriano era um português que eu estava entrevistando «cá» na Alemanha para um documentário sobre imigrantes.
Quando a câmera ligou, focando o Adriano, a dona Maria da Graça puxou a cadeira e sentou do lado de ele.
Ficou em quadro o tempo todo.
Ela não é imigrante, é só turista mesmo.
Em o fim da entrevista, a dona Maria da Graça começa a dar -- ainda mais -- o ar de sua, desculpe o trocadilho, graça.
Ela homenageia a própria terra cantando «Madeiraaaaa, madeiraaaaa ..." ao ritmo de» Sorte grande», o sucessão da Ivete Sangalo que ficou mais conhecido por o refrão «poeiraaaa, poeiraaaa».
Balança os bracinhos e tudo.
-- Eu gosto de novela brasileira.
Com essa declaração, é lógico, a conversa não podia parar.
Dona Maria da Graça disse que gosta de todas.
Agora ela está acompanhando «Bicho do Mato».
«É da Record», diz ela.
Quando perguntei se ela gostava mais das novelas da Globo ou da Record, a resposta trazia a sinceridade no olhar.
«Todas». A preferida ainda é Escrava Isaura, mas a versão antiga.
«Essa nova da Record, eu não gostei não.
Eu gosto da Lucélia Santos, ela é espetacular ...
Agora ela está fazendo outra novela», me informa a simpática senhora.
A filha de Dona Maria explica que as novelas portuguesas também fazem sucesso, mas que, especialmente na Ilha da Madeira, a atenção é mais voltada para o outro lado do Atlântico:
«Em o continente, as portuguesas são mais famosas.
Mas na Madeira, são as brasileiras.
Mas eu não sei por que é assim."
Tentando apontar uma resposta para o sucesso das novelas, Dona Maria da Graça diz que " vocês (brasileiros) são muito românticos.
Muito religiosos."
A paixão de dona Maria da Graça por a televisão brasileira não pára aí:
«Faustão, Caldeirão do Huck, Márcio Garcia ...
Márcio Garcia é espetacular, o programa de ele é muito bom.
O Amir é viado."
A afirmação se refere a um dos integrantes do programa de Márcio Garcia.
Ao contrário do que possa parecer, a afirmação de Dona Maria não vem carregada de preconceito e, sim, de uma boa gargalhada de quem adora o «Amir».
Tanto ela quanto seu genro, Adriano, não têm duvidas em afirmar que a Rede Record tem mais força do que a Globo hoje, em Portugal.
«Os programas da Record te prendem.
Você é obrigado a ver, não consegue parar.
O programa do Márcio Garcia é maravilhoso.
Tem a Eliana também que agora veio à Alemanha fazer matérias na Copa ..." --
testemunha Adriano.
Não demora e Dona Maria toma a frente das atenções de novo.
Seja com um sorriso, seja com comentário.
-- E música brasileira, a senhora gosta?--
pergunto.
-- Todas.
E lá vem enumeração:
«Lucas e Mateus, Leandro e Leonardo, Ivete Sangalo ...
Tem mais música brasileira do que portuguesa lá.
A Ivete esteve na Madeira para fazer um show.
Eu vi por a televisão».
Apesar de não conhecer Tom Jobim, a admiração por esta arte brasileira é grande, em especial por a música sertaneja.
Dona Maria da Graça diz ter família no Brasil:
«Não sei bem aonde, mas sei que tenho».
Tem vontade de conhecer o Rio de Janeiro, mas não sabe dizer exatamente o porquê.
Mas emenda na canção:
«O Rio de Janeiro continua lindoooo», balançando os bracinhos.
E dá-lhe dedinho para a cima!
E dá-lhe sorriso no rosto!
Digo a ela que tenho antepassados portugueses, mas que não sei bem a origem pois meu bisavô foi para o Brasil há muito tempo.
«O Brasil é a terra dos esquecidos.
Muitos portugueses foram embora para lá, não voltaram e não deram mais notícias», diz ela.
De fato, ela tem razão.
Há toda uma história de migração de portugueses para o Brasil perdida por falta de registros civis.
Dona Maria é encantadora.
Diz que sou muito bonito e que sua neta está apaixonada por mim.
A coitada da menina, que nada tinha a ver com a história, morre de vergonha.
Eu também.
Dona Maria, ao final, pede meu autógrafo:
«Quero mostrar o autógrafo do jornalista brasileiro que eu conheci para o pessoal da Madeira».
Não adianta explicar que não sou famoso e que um autógrafo meu não tem valor nenhum.
Ainda assim, ela quer.
Aceito, contanto que ela me dê o autógrafo de ela também.
Ela sorri.
Trocamos gentilezas.
«Quando vais à Madeira?»,
pergunta-me seriamente.
«Vou te dar meu apontamento para que me visites».
Digo a ela que irei, com todo o prazer e que vou guardar o autógrafo de ela com muito carinho.
«Vais guardar aonde?
Em o lixo?»,
e ri.
Claro que não, Dona Maria.
Claro que não.
Número de frases: 81
Sobre o balcão da recepção de um dos principais hotéis de Passo Fundo, uma lista detalha cada hóspede e os números de seus respectivos apartamentos.
O quarto 507, por exemplo, é ocupado por o escritor mineiro Luiz Ruffato.
Dois pavimentos acima, o hóspede ilustre é o jornalista e produtor musical Nelson Motta, autor da recém lançada «Vale tudo -- o som e a fúria de Tim Maia», que como o próprio nome sugere, é uma biografia do cantor.
A o tentar descobrir o paradeiro de outros convidados da Jornada Nacional de Literatura, sou surpreendido com a chegada do desconhecido autor polonês Miroslaw Bujko -- aliás, durante debate no circo da cultura, o romancista sofreu constrangimento ao receber um bilhete de cinco estudantes da Polônia que o aconselhavam a «permanecer calado e parar de envergonhar seu país».
Insisti em saber mais sobre os hóspedes literários, mas fui interrompido por a informação da recepcionista:
«Com exceção do polonês, que chegou agora, todos os escritores estão na Jornada».
Sua voz é uma das responsáveis por os bom dia, boa tarde e boa noite aos autores participantes desta edição.
Mais tarde, conversando com a organização, descobri que aquela é apenas uma das tais vozes.
Os mais de 100 escritores e 200 artistas presentes na jornada lotam quatro dos 15 hotéis existentes no município.
O mais curioso é o transporte desse pessoal de suas cidades de origem até Passo Fundo.
O pequeno aeroporto da Capital Nacional de Literatura -- com certeza, sem os grooving na pista -- só recebe um vôo de São Paulo por dia.
Conseqüentemente, com exceção dos autores da região Sul, todos os outros desembarcam em Passo Fundo sempre às 14h, quando o Focker da OceanAir interrompe a tranqüilidade do aeroporto por quase uma hora (já que, em cerca de 40 minutos, ele decola de volta para Congonhas).
Nilde Fonseca é uma das responsáveis por a estadia dos escritores e o transporte na cidade.
Ela confirma a ausência de uma segunda opção:
«só há esse vôo à disposição.
Se não vier nesse horário num dia, vem só no outro», comenta.
Enquanto aguardava os escritores no circo da cultura, ela detalhou que em cada hotel há um integrante da organização para coordenar esse «vai e vem» e um ônibus à disposição dos convidados.
De o aeroporto, os autores são encaminhados direto para o almoço, num clube no centro da cidade.
«Todos eles almoçam e jantam no mesmo local, mas em horários diferentes», me explica Nilde.
De o clube no centro da cidade, o ônibus segue até o hotel ou ao circo da cultura, conforme a programação.
Curioso, proponho a possibilidade de eu acompanhar um desses percursos.
Convicto de que a minha proposta não foi bem aceita, imploro por a segunda vez.
-- Eu fico calado a viagem inteira, prometo!
Minha frase é seguida por um sinal positivo.
E lá vou eu junto buscar os escritores infantis José Roberto Torero e Letícia Wierzchowski no aeroporto.
Permaneci durante os 15 minutos do percurso no fundo do ônibus.
Sinceramente, os poucos diálogos que ouvi foram sobre o vôo até Passo Fundo e a expectativa sobre a Jornada.
Em os hotéis, a maioria dos convidados opta por um quarto individual, nada de apartamentos duplos.
«Quase todos são individuais, até por a diferença entre os escritores.
Por exemplo, um é aqui do Brasil, o outro de Moçambique», confirma Nilde.
Em o andar da conversa -- quando percebo que consigo certa intimidade com a integrante da comissão organizadora, disparo a pergunta fatal:
-- Agora, esses escritores jantam e retornam para o hotel?
Ou vão para bares ou festas?
-- Olha, sinceramente, pode duvidar, mas esse ano a maioria volta para o hotel (depois de tomar umas taças de vinho, claro!).
Pouquíssimos alongam a noite, responde. (
Realmente, percorri os locais com possibilidade de encontrar escritores na madrugada e praticamente quase não os vi.
A verdade é que só tinha jornalistas, como eu).
Quando me encaminhava para o final do bate-papo, a idealizadora e coordenadora das jornadas, Tânia Rösing -- aquela descrita como «fenômeno da natureza» por o Marcos Vilaça -- interrompeu o assunto.
Ela queria saber o hotel de um escritor que acabara de chegar.
Aliás, movimentos como a Jornada aproximam os autores tanto com os leitores como aos próprios colegas de profissão.
Presentes em várias edições, Ignácio de Loyola Brandão, Alcione Araújo e Júlio Diniz uniram-se e hoje formam um trio de comediantes.
Coordenadores dos debates, eles seguidamente provocam o público -- a maioria professoras -- com comentários bem próximos a piadas.
Desde 2005, eles se intitulam «os três tenores» e cantam -- ou pelo menos tentam -- para descontrair as cerca de cinco mil pessoas sob a lona de circo.
Em esta edição, a interpretação do trio ganhou uma roupagem mais funk.
A adoração aos tenores em Passo Fundo é tanta que há quem questione o porquê dos três ainda não terem sido convidados para apresentar um programa de televisão juntos.
Pelo menos aqui na cidade eles seriam assistidos.
Críticas de bastidores
Se no relato anterior garanti que andar por a Jornada é conhecer histórias -- além daquelas contadas por os livros, perambular por os bastidores dessa movimentação cultural também é ouvir críticas, seja de autor para autor ou para políticos.
Um dos alvos dessa vez é o best-saller Paulo Coelho -- sinceramente, ele já deve estar acostumado a ouvir que seus livros estão «distantes da literatura».
«O Paulo Coelho escreve mal», dispara o crítico literário» Maurício Melo Júnior.
«Sabe qual o problema?
O Coelho faz uma ficção mais perversa.
Ele diz que vai te contar uma história, te abre e joga essa ideologia.
É um tiro de ideologia.
E isso para mim é desrespeitoso», completa o goiano Flávio Carneiro.
No meio dos disparos, uma pergunta permanece:
se ele é tão criticado, como o espiritista é um dos autores com mais obras vendidos no mundo?
Pensativo, o pop Nelson Motta -- como ele mesmo se descreve -- logo busca uma justificativa.
«Peguem um livro de ele no exterior, bem traduzido.
Vocês vão perceber uma diferença:
é mais bem escrito.
Aqui no Brasil, a história pode até ser boa, mas é mal contada.
Ou vocês acham que os mais de 10 milhões de europeus que lêem Paulo Coelho são idiotas?»,
questiona.
A dualidade entre o erotismo nas novelas e a violência nos telejornais também motivou opiniões ácidas na jornada.
Escritora mais assediada na movimentação, a atriz Elisa Lucinda defendeu as teledramaturgias:
«Eu prefiro que meu filho assista a uma boa trepada às 21h do que imagens de tiros, sangue e violência às 19h, nos telejornais».
Aliás, Lucinda é a autora recordes de autógrafos na Jornada -- ultrapassou inclusive a gaúcha Lya Luft, que receitou o cardápio ideal para os dias de hoje:
pão, café, leite e livros.
Em menos de duas horas, Lucinda assinou em mais de 200 livros.
«Gente, não dá mais.
Está subumano», interrompeu a atriz.
Em os corredores da movimentação cultural, a crítica mirava além dos escritores e da mídia.
A decisão do Conselho Estadual de Cultura, contrária à liberação de mais de R$ 1 milhão para o patrocínio da jornada, através da Lei de Incentivo à Cultura, também foi metralhada.
«Cultura não se faz apenas com apoio moral, mas também com dinheiro», desabafa Tânia Rôsing, ao conversamos sobre o parecer do conselho.
«O gesto da LIC é contra o Rio Grande do Sul.
É contra a cultura brasileira.
Esse gesto é mixo diante do tamanho da jornada», repete Ignácio de Loyola Brandão ao longo de suas entrevistas.
Com a voz muito semelhante ao presidente Lula -- como muita gente achou-, Alcione Araújo também propaga discursos de repúdio ao Conselho.
«Essa decisão terá desdobramentos.
De o ponto de vista nosso, que somos do resto do Brasil, a Jornada não é apenas gaúcha.
Todos os participantes têm uma relação afetiva por a proximidade, mas ela é um valor de conquista feita por os gaúchos que serve para todo país».
Onde existem críticas, sempre há alguém que ultrapassa os limites do tolerável e fala demais.
O vilão desta edição foi o escritor cubano Reinaldo Monteiro.
Em entrevista ao vivo a uma rádio local, ele abusou das palavras quando foi questionado sobre as jornadetes -- aquelas meninas responsáveis por acompanhar os autores.
«Jornadete lembra látex, que, por sua vez, lembra camisinha, ou seja, são instrumentos de sexo seguro».
Por falar em jornadetes, algumas reclamam da falta de interação entre os escritores infantis e as crianças, nas quatro lonas coloridas onde acontece a Jornadinha.
Por os comentários que ouvi, os autores estão centrando-se em assuntos pouco relevantes aos pequenos leitores, que preferem a contação de histórias.
Exceção para Ziraldo.
Com a permanência em Passo Fundo reduzida por causa de problemas aéreos, ele era, sem dúvida nenhuma, o autor mais aguardado por a criançada.
E o clássico «Menino maluquinho», 25 anos após o lançamento, ainda é o livro preferido.
Jornada de poesias
Morador de Passo Fundo há quatro anos, essa é a minha terceira jornada, segunda como jornalista.
Em 2002, passei por o Circo da Cultura como participante, para acompanhar os debates.
Em este ano, estou espantado -- e ao mesmo tempo feliz -- com o espaço da programação dedicado à poesia.
Até outras edições, este tipo de literatura ficava mais restrito às crianças, na Jornadinha.
A prova dessa preocupação é a vinda do francês Henri Deluy.
Empolgado, ele está no Brasil justamente para divulgar a poesia contemporânea francesa.
Com a ajuda de um tradutor, a imprensa conseguiu estabelecer um diálogo -- inicialmente confuso -- com o Deluy.
Sentei a menos de dois metros de ele.
Antes de qualquer pergunta, o poeta falou do pequeno público apreciador de poesia.
Quando questiono o que o leva a sair mundo a fora para divulga-lá, ele garante que a poesia é alucinante porque se centra em temas impossíveis de serem expressos na prosa.
«A poesia sempre teve uma ligação muito forte com a resistência, principalmente em épocas de regimes de ditadura», comenta.
Curioso, pergunto qual o período de mais ascensão da poesia na França.
Ele responde que foi entre 1940 e 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, quando o país foi invadido por tropas alemãs.
«Agora, independente dessas épocas de ápice, a poesia ' vai bem ' no Brasil, na França, na Itália ...
Isso porque é necessária para a sobrevivência de uma língua».
O clima já era de final de coletiva quando uma jornalista desafiou o francês com uma pergunta, no mínimo, complicada.
«Quando a poesia é boa e quando é ruim?»,
perguntou a repórter, com um forte sotaque nordestino.
«Difícil a pergunta», exclamou o francês.
Em o país visto mundialmente por o futebol, ele entrou no campo para evitar o silêncio.
«A poesia é como o futebol.
Poucos poetas são realmente bons, assim como poucos os jogadores são craques».
«Quero ser escritora "
Em a sessão de autógrafos, uma das escritoras chama minha atenção de forma especial.
Com os olhos castanhos quase escondidos por a franja e as bochechas rosadas, Laura Paulleto, de apenas 11 anos, lança seu primeiro livro.
A autora mais nova desta edição da jornada autografa o livro «Queria ser ...».
A guria -- como são chamadas as meninas aqui no Rio Grande do Sul -- é do pequeno município de David Canabarro, a 100 quilômetros de Passo Fundo.
Antes, a cidadezinha de quase 5 mil habitantes só tinha como obra publicada sua própria história, contada por o diretor da única escola.
«O meu livro é o segundo», orgulha-se.
Os mais de 30 colegas da 6ª série de Laura viajaram até Passo Fundo para prestigiar o lançamento do primeiro livro e -- claro -- garantir autógrafos na Jornada.
Com 20 páginas, " Queria ser ..." conta a história de uma garota que quando era criança queria ser adulta.
E ao ser adulto, quer voltar à infância.
Ajoelhado no chão para conseguir falar com Laura, pedi se, por acaso, essa menina é ela.
Tímida, a garota que começou a escrever aos seis anos me olha e responde:
«Já quis ser adulto», confessa.
O Livro é ilustrado por um desenhista, também de David Canabarro, e foi escrito em cinco dias.
Em a jornadinha, Laura autografava no mesmo espaço ocupado minutos por Ziraldo, seu inspirador.
«Gosto muito do Ziraldo.
Ele serve de inspiração para mim, assim como eu quero inspirar e incentivar outras pessoas à leitura», conta a menina falante.
Autora de mais de 28 histórias desde os tempos de 1ª série do Ensino Fundamental, ela planeja lançar outras obras e continuar no mundo da literatura.
A o finalizar a conversa com Laura -- interrompida por a música produzida na lata por os meninos de um dos projetos sociais mantidos por o do grupo Afroreggae, do Rio de Janeiro -- lembro de um velho jargão bem apropriado para esse caso:
«quem escreve bem, fala bem».
Com mais um personagem ímpar e escondido no meio dessa dimensão da Jornada, finalizo o segundo relato sobre a movimentação cultural de Passo Fundo, apontada como a maior da América Latina.
Guardo para o próximo texto um pouco sobre o escritor italiano Carlos Ginzburg, considerado o top dessa edição.
Tive acesso à lista dos livros mais vendidos da jornada e também conto na próxima matéria.
Espero que estejam curtindo os relatos «mais bastidores» da Jornada.
Até mais!
Número de frases: 139
Meu amigo,
Você mandou me perguntar se o meu roteiro já está pronto.
Está. Meu roteiro é só essa foto em anexo.
Não estranhe a falta de texto e marcações de câmera.
Explico: Essa foto foi feita num fim de tarde na praia e todo o filme vai ser construído em volta de ela:
35m im, preto e branco.
Uma foto capturada num fim de tarde solitária, de vento suave encrespando de leve o mar.
Uma tarde em que, como o mar, eu me deixava varrer por o vento suave.
Eu e minha câmera olhávamos em volta, atravessadas de vento e brisa marinha, vagueando na areia como guruçás noturnos.
Em a linha que divide o mar e o céu meus olhos viram a foto:
um guarda-sol ligeiramente inclinado e, ao lado de ele, de costas para mim, um homem jovem, alto, movimentando o corpo num ritmo lento de alongamento.
Com a cumplicidade da câmara observei-o mais de perto, naquele fim de tarde suave e ventio.
Ele se inclinou para a direita.
Apertei o botão.
A foto estava ali, latente, dentro da câmera.
(Ai, o corpo do rapaz na tarde solitária do Leblon ...
Eu, voyeur, estudo
As coxas, os ombros,
Seus movimentos na lenta ginástica.
Ah, rapaz ...
que malícia a sua colocar
Seu corpo
Assim, contra o mar e o céu
Em essa tarde solitária
Em o Leblon.)
Esse é meu roteiro.
Ele fala das delícias da solidão num fim de tarde marinha, da liberdade do olhar e do desejo do voyeur.
Não somos todos nós, cinéfilos, uns solitários que prezamos a liberdade do olhar?
Nós não nos escondemos no escuro de uma sala de projeção para observar outras vidas, mesmo que falsas?
Não buscamos, com uma sede que nunca se aplaca, viver outras histórias que não a nossa?
Como o personagem de A Rosa Púrpura do Cairo, estamos sempre lá, na sala escura, esperando, talvez, que o nosso personagem predileto saia da tela e nos transporte para uma outra vida, ou um outro filme.
Número de frases: 31
Após a derradeira apresentação da megalomaníaca pentalogia de Os Sertões, todos começaram a questionar qual seria a próxima empreitada do bom velhinho do Teatro Oficina, o diretor José Celso.
A resposta é o espetáculo que estréia no próximo dia 6 no SESC Araraquara, na cidade natal de Zé, e que teve ensaio aberto dia 1 de maio no Teatro Oficina.
O espetáculo não é exatamente o mais novo trabalho de Zé Celso.
Para ser mais preciso, é o contrário:
Vento forte para um papagaio subir foi o primeiro texto de sua autoria.
O texto apresenta com lirismo e ingenuidade a história de um jovem artista que se desprende de sua cidade que o sufoca para conquistar o mundo, deixando para trás a mãe paralítica, a irmã que sonhara em ser atriz, o melhor amigo, herdeiro de uma fazenda e uma indústria, e sua amada.
Qualquer semelhança com a história do autor, que o escreveu em 1958, logo ao chegar a São Paulo, não é mera coincidência.
A montagem é bastante curta (o ensaio durou aproximadamente 1h30, um contraste para quem já estava acostumado aos espetáculos de até 8 horas de duração), mas mesmo assim ela se torna cansativa e até mesmo um pouco entediante (ao menos o ensaio, que sofreu poucas interferências do começo ao fim).
Particularmente, em nenhum momento das 27 horas de Os Sertões me senti entediado como nesse ensaio.
Morna (será que teria sido mais quente se o teto retrátil e os janelões do Oficina estivessem fechados?),
a montagem tem muito mais importância por a homenagem do SESC Araraquara ao ilustre cidadão da cidade, seus setenta anos recém-completados e ao início de sua obra do que por sua realização em si, que apesar de ser simples e despretensiosa, ainda fica muito aquém dos trabalhos mais recentes do Oficina.
Agora as apostas no Oficina estão na estréia de Santidade, texto de Zé Vicente que deve acontecer logo mais, sob a direção de Marcelo Drummond.
Se o resultado tiver a mesma qualidade da montagem recente de O Assalto, do mesmo autor e dirigido por o mesmo diretor, o resultado deve ser bem mais empolgante do que esta peça do papagaio.
E um último comentário, não menos importante:
a equipe da Bacante continua de olho nos figurinos das peças de Zé Celso.
Com esta montagem eles até tentaram disfarçar, mas ainda sim as atrizes Anna Guilhermina e Sylvia Prado apareceram seminuas, revelando que nossa Campanha do Agasalho para Zé Celso ainda é pertinente (ainda mais com esse tempo frio que tem feito em São Paulo).
Número de frases: 16
Koellreutter educador -- o humano como objetivo da educação musical -- de Teca Alencar de Brito, é um livro que ultrapassa a exclusividade de um campo artístico para revelar um compromisso com a educação humanista, além de nos surpreender com pensamentos preciosos sobre a arte.
O livro é uma descrição dos estudos de uma educadora musical, Teca Alencar de Brito, com o grande mestre que foi Hans-Joaquim Köellreutter.
Um mestre que, desde sua entrada na cena brasileira, nos anos 40 do século XX, modificou parâmetros na formação de nossos artistas e músicos.
Uma revolução silenciosa e musical, expandindo-se por diversas regiões desse país, marcando muitas gerações.
Em o seu livro, Teca apresenta suas questões e experiências sobre a educação musical, sempre com recorrências a Koellreutter, além do relato de uma oficina com o mestre, intitulada arte-jogo Fim de feira.
Educadores e artistas envolvidos com a dimensão humanista dos seus ofícios, com as questões que ultrapassam as fronteiras das linguagens artísticas, podem muito aprender com esse livro de Teca.
O livro apresenta, entre outras coisas, uma preciosidade para os que se envolvem com a formação em arte, que é o conceito de pré-figurativo.
O que vem a ser isso?
Em as palavras de Koellreutter:
«Ensinar a teoria musical, a harmonia e o contraponto como princípios de ordem indispensáveis e absolutos é pós-figurativo.
Indicar caminhos para a invenção e a criação e novos princípios de ordem é pré-figurativo.
Ensinar o que o aluno pode ler em livros ou enciclopédias é pós-figurativo.
Levantar sempre novos problemas e levar o aluno à controvérsia e ao questionamento de tudo o que se ensina é pré-figurativo.
Ensinar a hitória da música com conseqüência de fatos notáveis e obras-primas do passado é pós-figurativo.
Ensiná-la interpretando e relacionando as obras-primas com o presente e com o desenvolvimento da sociedade é pós-figurativo.
Ensinar composição fazendo o aluno imitar as formas tradiconais e reproduzir o estilo dos mestres do passado, mas também os dos mestre do presente, é pós-figurativo.
Ensinar o aluno a criar novas formas e novos princípios de estruturação e forma é pré-figurativo."
O pré-figurativo, um termo emprestado das artes plásticas -- e nisso Koellreutter nos mostra que não há fronteiras entre linguagens artísticas -- é aquilo que é posto como anterior à figuração, precedendo-a enquanto momento aberto à investigação e ao estabelecimento de relações internas.
Em a figuração, como nos esclarece o músico e aluno de Koellreuter, João Gabriel Fonseca, o artista se preocupa em representar um objeto já dado como tal à percepção.
O que significa isso?
Significa que a relação entre percepção e representação não se dá através de uma abertura do campo perceptivo, mas sim através de seu fechamento prévio.
O que o mestre Koellreutter propõe é uma caminho anterior à figuração -- caminho de abertura do campo perceptivo.
A inversão proposta por Koellreutter -- buscar o momento da pré-figura ção -- provoca um grau de atenção maior para as percepções em curso.
Penso que pesquisas em arte-educa ção serão mais potentes, no sentido de tornarem-se mais criativas e livres, se trabalharmos com o pré-figurativo, como propõe Koellreutter.
Quando nos limitamos ao pós-figurativo não só condicionamos o campo da percepção como também limitamos o alcance do conceito de representação.
Em termos de uma pedagogia do teatro, isso significa um adestramento do ser humano, um condicionamento do comportamento e não um caminho para descobertas.
A prática das artes, seja na formação artística em contextos sociais, bem como nas modalidades profissionais, implica sempre na possibilidade de aprender a fazer refazendo.
É preciso ver que a arte contém uma energética.
Assim, quando umacriança quando pega uma argila, ela não pode ser forçada a ir diretamente para a figuração, ela precisa sentir com o seu tônus, com a sua sensorialidade:
ela quer pegar, amassar, socar, sentir enfim ...
Em essa direção e segundoTeca, Koellreutter recomenda que se dê às crianças não necessariamente instrumentos musicais, mas todo e qualquer objeto que ressoe.
Lembro-me de quando entrei para o antigo primário e ficávamos empunhando os instrumentos da bandinha, numa atitude ordenada, mas sem qualquer apropriação.
Ninguém podia fazer ruídos.
Nunca ocorreu um entusiasmo, um transe, o delírio de uma forma sensível tomando a gente.
Ao contrário disso, no pré-figurativo não nos limitarmos ao que é dado e está pronto -- mesmo que seja um procedimento aceito e aprovado nos nichos de desenvolvimento histórico das artes.
Mesmo nessa trilha historicamente desenvolvida, podemos vivenciar relações e nos permitirmos a isso.
Em nossa ânsia por resultados e numa visão de representações como formas prontas, dentro do universo do que já está dado, não deixamos que as crianças e os adolescentes apropriem-se dos caminhos de criação.
Termino com mais um tópico que me chamou a atenção:
os níveis de consciência.
Koellreutter fala de 04 níveis de consciência de espaço e tempo na história da humanidade:
nível mágico (evocativo-vital, não métrico), nível pré-racionalista (de 500 a.C. ao século XIV -- caráter místico, simultâneo e polifônico), nível racionalista (século XIV a início do século XX -- tempo do relógio, formas selecionadas), nível a-racional (emerge na contemporaneidade -- a-métrico, tende a imprecisão, é multidirecional).
Koellreutter mostra, assim, que a arte não pode ser entendida somente na perspectiva racionalista, na qual surge como arte propriamente dita (separada de outros âmbitos da vida), numa visão linear de progresso.
Pois, afinal, o nível a-racional recupera muito do nível mágico e pré-racionalista.
Koellreutter ainda reitera a necessidade de abertura para as outras culturas, não se limitando a um único ponto de vista.
As preciosidades não terminam por aí.
A gente vai lendo o livro e fica agradecido a Teca por se realizar com essa pesquisa e divulgá-la, e a Koellreutter, por os ensinamentos.
Ele, que sempre mostrou a que veio, desde a década de 40, quando sacudiu a formação musical brasileira:
é preciso continuar pensando e transcriando valores.
A obra:
Koellreutterr educador -- o humano como objetivo da educação musical.
Teca Alencar de Brito.
Número de frases: 51
Ed. Fundação Peirópolis, 2001, 192 pg.
A Câmara Viajante é um filme que trata de uma maneira bastante especial a fotografia enquanto atividade profissional, mas indo além disso, mostra o caráter substantivo da fotografia em relação a emoção.
Mais que um documentário, que recebeu críticas por um suposto viés televiso¹ e fala sobre fotógrafos ambulantes de um lugar sofrido como nosso Nordeste, o filme se passa principalmente na esfera dos sentimentos que estão intrinsecamente ligados aquele lugar, ou melhor, nas pessoas daquele lugar, sentimentos tais como saudade, lembrança, perda, alegria, responsabilidade e fé.
Em seu inicio um discurso sobre a construção e eternização da imagem interessante que ao mesmo tempo que fala de beleza, contrasta com seu discursante com o rosto marcado por o sofrimento da vida na seca, que está longe daquilo que costumeiramente o conceito define como padrão.
A fotografia do filme não poderia ser diferente do esperado, é impecável, sensível e atenta aquilo que faz da fotografia o que é, a luz e seu somatório, as cores.
O filme é construído por aquilo que seus cinco principais personagens são, ou seja, dão vida, corpo e alma ao filme.
Em ele, os cinco fotógrafos ambulantes caracterizam um sentimento que cultivam por a fotografia:
enquanto um fotografa e sente a responsabilidade que lhe cabe ao participar das bênçãos alcançadas por seus clientes, outro se entrega a alegria, autonomia e liberdade que o exercício dá, chegando a comparar a fotografia a uma boa cachaça.
Em certo momento, assistimos todo processo de venda e realização de uma foto, o fotógrafo nesse meio, precisa também ser um bom vendedor, persuadir e convencer o futuro cliente da importância da recordação, e nesse momento o diretor parece ter acertado ao ponto de conseguir alguns bons risos dos espectadores.
Em a verdade a narrativa se constrói de forma leve, bonita e livre, sim livre, passando ao espectador mais que um bom retrato da vida de fotógrafos, mas uma mostra que não se prende a um sentido, mas corre até por dramas -- como a morte.
Esse é um tema tratado com bastante delicadeza, que é rico antropologicamente quando é marcada essa diferença cultural do nordestino de fotografar seus mortos.
É interessante perceber essa estranheza que fica no ar -- lá é algo «natural», no sentido que a morte também faz parte da vida, e assim como o nascimento é registrado, a morte também o deve ser.
Mas não é só de flores que vivem esses profissionais, diante da onda de digitalização que invadiu o campo da fotografia, a popularização e o barateamento dos custos se tornaram problemas para a comercialização de fotos.
O filme além disso, nos dá a oportunidade de ver a formação da imagem daquela maneira mecânica, de uma câmera de grande formato, e este talvez seja esse o momento que o filme mais se presta ao papel de documentário à risca, sendo assim um retrato do processo da imagem numa raridade que dentro de alguns anos não encontraremos no país.
A experiência de assistir um filme assim é profundamente marcada por a noção de prazer por aquilo que fazemos.
Em mais de um momento a confissão dos fotógrafos de que não deixariam de fotografar, que só parariam com a morte, nos leva concluir que mais que uma profissão, trabalho ou técnica, a fotografia é feita por prazer, prazer este que só é sentido quando se fotografa, quando se tem a possibilidade de capturar em apenas frações de segundos o sentimento e emoção de um momento ou pessoa que será guardado na lembrança e recordado enquanto aquela imagem durar.
Câmara Viajante. (
Documentário) Direção de Joe Pimentel.
Roteiro de Joe Pimentel, Isabela Veras.
Fotografia de Eusélio Gadelha. Brasil, Trio Filmes, 2007, 20 min, Color.,
35mm. Nota:
1 -- Crítica da revista de cinema Moviola:
«Em muitos momentos parece um programa de TV, desses que Regina Casé apresenta há anos.
E esse é um risco comum quando se busca documentar a cultura popular.
O discurso televisivo é muito presente nesse enfoque.
Número de frases: 25
É difícil para o realizador se afastar dessa forma dominante de representação."
Além de nos despejarem das nossas terras usam este infame Interdito proibitório * lei que impede o índio volta para suas próprias terras.
Será, parente que existe injustiça maior no mundo?
Cacique Akanawa * *
Eu não me entrego nunca,
Eu não cedo um passo
A minha luta é antes
De de eles e do mais nada;
Já esta feita a retomada
Apesar do que foi dito
Apesar de seus interditos,
Os crimes, das doutrinas;
Os juízos sem perdão;
Um filho da deusa mãe,
De ela não esquece,
Um filho da terra
É naturalmente
Natureza viva e terra;
Eu não cedo um passo
Eu falo, assim deixou dito
Tupã Y, eu não me calo
Apesar de vossas leis,
Como chibata que ameaça
Eu sou uma alma gêmea
Junto com outras almas
Filhos mesma mãe
Que é a terra;
Por já ter a vida tímida
A espada não me intimida
Vivo descalço na areia
Vida cheia de amor
Vago sereno olhar
A proteção do cocar,
Não sinto o fado da dor
Somos assim de vida,
De a terra, pássaro e flor;
Repulsa-mas leis
crimes de Atenas
Assim foram
Com as naves pingentes
De almas e gentes
Rios de sangue
Loucas serpentes
Traição nos mares
Oh, podridão que não finda
Oh serpentes das " Flores do Mal "
Vermes retirados
do velho embornal.
Sereia sem cauda
Seres sem ancestral
Quantas leis sem uso,
Leis do uso, do desuso;
Leis que não julga quem julga
O que pune o liberto
E acolhe o condenado *
Lei que proíbe ao índio de voltar para suas terras.
* * Os Payayá são povos considerados extintos por a Funai, este poema no entanto, é certo, não foi feito por um índio extinto.
* * * Cacique da aldeia Barretá, dos índios Pataxó Hãhãhãe, pau Brasil Bahia.
Área de conflito onde os fazendeiros que invadiram ilegalmente as terras dos índios, mesmo depois de julgado e condenado o estado, continuam a receber a proteção da justiça fazendo rolar as decisões de tribunal em tribunal durante 24 anos, durante os quais já morreram 19 lideranças emconflito ou por causa de ele outro foram baleados.
Número de frases: 59
De forma singular, o cineasta Leon Hirszman apresentou ao público, em 1982, os significados do samba carioca por os caminhos do Partido Alto, através de cenas animadas, musicadas e agitadas.
O documentário, produzido em 16mm de 1976 a 1982, oferece 22 minutos de música e aula sobre o Partido Alto.
Com a participação de Candeia, Paulinho da Viola e Manacéia, três símbolos do samba carioca.
A obra, produzida em cores, possui uma linguagem estética a la Jean Rouch, de cine olho.
Em alguns momentos, parece que Hirszman sambava com a câmera, enquanto filmava os personagens.
E, de forma extremamente humilde, o cineasta desaparece do começo ao fim, deixando que a história fosse contada por os próprios participantes.
O documentário segue uma característica particular do cineasta, de valorizar a cultura brasileira, em especial a dos marginalizados.
Leon Hirszman é, sem dúvida, um agente folkcomunicacional, pois desperta no povo a vontade de expor suas idéias, seus desejos e sentimentos.
Ele apenas media, como os mediadores descritos por Luiz Beltrão.
A obra é rara, e não saiu em vídeo.
Mas, para os interessados, o Partido Alto pode ser assistido no site Porta Curtas, gratuitamente (clique aqui e assista).
A qualidade apresentada é boa, levando-se em conta o ambiente Internet e o fato de ter sido produzido originalmente em 16mm.
Leon Hirszman morreu em 1987, vítima de AIDS contraída em transfusão de plasma sanguíneo.
Se estivesse vivo, completaria 70 anos em novembro.
Deixou em sua trajetória obras importantes, como Pedreira de São Diogo, São Bernardo, Abc da greve, Eles não usam black-tie e Imagens do Inconsciente.
Salve, Hirszman.
Se você quer ler mais textos sobre cinema, acesse:
Número de frases: 17
www.ojosenelmundo.blogspot.com Foi por pouco que não pedi pra sair.
O palco do Teatro Fábrica (Rua da Consolação) estava organizado de uma maneira bacana, transformado numa espécie de corredor, com a platéia disposta dos dois lados para assistir a A Exceção e a Regra.
Isso me empolgou, no começo.
Só no começo.
Depois de 10 minutos eu já me perguntava:
«Jesus, o que eu estou fazendo aqui?».
A primeira etapa do espetáculo dá a sensação de que não passa de uma fábula mal encenada, com arroubos de interação constrangedora com o público e atuação mediana, quase descomprometida.
A história apresentada trata de um explorador do ramo de petróleo, que viaja por o deserto em busca de uma concessão.
Leva com ele dois trabalhadores contratados, um guia (sindicalizado e cheio de si) e um carregador (totalmente conformado).
A expedição enfrenta uma série de problemas, culminando com um funcionário demitido e outro morto por o patrão.
O julgamento absolve o homem de negócios, que, corrompendo a Justiça, não precisa pagar indenização à esposa do carregador.
Eu quis ir embora.
Mesmo. Ainda bem que me segurei (até porque teria que passar no meio do palco-corredor e não ia ser lá muito discreto -- será que isso é uma tática?).
O fato é que só na segunda etapa o grupo revela a verdadeira aposta da adaptação do texto de Bertolt Brecht:
o chamado teatro-fórum.
Baseado em concepções de Augusto Boal, a idéia é fugir da catarse de Aristóteles e deixar que cada um faça suas reflexões e tire suas conclusões.
Mas não é só.
Você pode, além de tirá-las, colocar suas conclusões em prática e testá-las, quase quantas vezes quiser.
Eu explico:
ao final da fábula, o público é convidado a discutir se havia maneiras de tudo ter sido diferente, ou seja, descobrir qual personagem, em que momento, poderia agir diferente e evitar a tragédia.
O que se vê daí por diante, é uma platéia que passa rapidamente das pequeninas intervenções tímidas até o desespero de procurar soluções e dividir com os outros, ou impor a eles, as próprias idéias.
Cada pessoa que opinava era convidada a encenar com o grupo sua alternativa que, invariavelmente, não levava a grandes mudanças.
O que começou com uma opinião envergonhada, tornou-se um debate intenso que durou mais tempo do que a própria fábula.
Em o final, chegou-se à conclusão de que não havia nenhuma maneira simples para mudar o ocorrido e que todos os caminhos levam à exploração do homem por o homem, à violência e à corrupção.
Resultado: a gente sai do teatro incomodado e fica dias pensando:
«Porra! O que aquele filho da puta daquele carregador poderia ter feito???"
O mais interessante e diferente é que, mantendo o canhoto da peça, você pode voltar e tentar encenar qualquer idéia genial que você tiver no banheiro da sua casa.
E de graça.
É, os caras querem ter o próprio saco enchido por o público.
Se entregam total e estão superdispostos a encenar todas as propostas, até esgotarem-se as idéias, porque parecem, de fato, em busca de alguma resposta.
O maior problema é que sempre vai ter um chato na sua sessão falando mais do que a boca.
Mas chato tem em todo lugar.
Número de frases: 32
Há 13 anos, Rosane de Almeida Scherer editou e botou nas ruas de Porto Alegre para distribuição gratuita o número 1 do Jornal Fala Brasil, uma folha mensal para falar do que a imprensa ordinária da cidade não publica.
O Fala Brasil trás a agenda cultural os shows dos resistentes artistas locais, as mostras dos fotógrafos de arte, a arte dos sujeitos comuns de Porto Alegre que escrevem prosa, poesia, música, pintam, bordam, agitam o dia e a noite porto-alegrense sem mais dos ordinários diários que o famigerado tijolinho de cinco linhas / coluna de quando e vez, onde e quem, vírgula, comentário algum, pivicas e bulhufas mais.
Sorte do Brasil que essa inhaca embaçante só acontece cá nesse canto frio do país!
Então, o que é isso?
Como pode, se não vende?
O Jornal Fala Brasil, de modo valente e voluntarioso chega como aos 13 anos de circulação ininterrupta?
Por que é zebra, feita por gente fora da casinha, fora de circuito regular.
Se faz com uma pequena ajuda de amigos e amigas da agenda cultural do lado de lá da linha do trem ou do lado de cá do circuito da fama.
Os colunistas fixos escrevem de graça.
O Jornal se paga sem jabá e a paciência infinita de alguns credores do bem.
Viva o Fala Brasil!
Sem conversa mole.
Duro na queda.
Sem matar ninguém, nem morrer mais que o necessário cada dia, cada hora, cada mês, cada ano.
Muitos mais anos de vida e, Rosane Scherer, pra ti e teu Fala querido de tantos, se possível com uma folguinha no orçamento, que ninguém é de açúcar, nem tu és manteiga derretida, mas também não és de ferro!
Ou és e eu e que ainda não sei?
Saravá, louca mulher!
A que está nas bancas desde hoje é a 115ª edição -- de julho de 2007, comemorativa do décimo-terceiro ano de circulação.
Ela traz programações de Teatro & Dança, Música,
Exposições e Literatura;
Festival de Inverno de Porto Alegre;
Depoimentos 13 anos de Fala Brasil!;
A Verdade de um País por Cristovam Buarque;
Sarau no Solar;
Projeto Ouvindo Música;
CCMQ Lança programação especial de inverno;
Ira!
Em turnê " Invisível DJ ";
Bichos em pinturas no Espaço Cultural do TRT-RS;
Mani Fest Ações, exposição de Rodrigo Bello Marroni;
De Boca Aberta e Queixo Caído
E um especial:
Clarice 30 anosdepois, por Affonso Romano de Sant'Anna,
além das colunas permanentes de Zé Augustho Marques;
Danúbio Gonçalves; Daniel Soares, Rosane Scherer e Adroaldo Bauer.
Rosane Scherer
Jornal Fala Brasil!
jfalabrasil@terra.com.br
Porto Alegre / RS
O Fala Brasil está aprovado para captação por a Lei de Incentivo à Cultura do Estado/RS e por a Lei Rouanet.
Jornal Fala Brasil de Cultura -- Rosane Scherer e a comunidade de ele no orkut.
Número de frases: 41
Esta é a segunda parte da entrevista com o músico e produtor William Magalhães, que rememora a história da Banda Black Rio, fundada por seu pai nos anos 1970.
RM -- Como músico, como você definiria musicalmente o som da Black Rio?
M -- Musicalmente eu diria que é um som assim, antropofágico mesmo, é um som que, independente dessa questão da encomenda, que acho que conseguiu dar um patamar de profissionalismo, porque os caras tiveram estrutura, o primeiro disco foi gravado e mixado, mandaram vir dois técnicos dos Estados Unidos só pra gravar o trabalho, por isso que o som do Maria Fumaça é foda!
Eu diria que o som da Black Rio é uma necessidade de universalização de uma música que tem uma essência carioca e, quando eu digo antropofágica, é essa coisa da mistura com o conceito que vinha lá de fora, que era o conceito da Motown (lendária gravadora de soul music dos anos 60 e 70, gravou nomes como Marvin Gaye e Stevie Wonder), da música black americana, acho que casou muito bem.
O meu pai falava isso, porque o samba, tecnicamente, ele é 2 por 4 ou 2 por 2 e o funk, essas músicas são 4 por 4.
Então, um era divisor do outro, matematicamente é possível você ter uma elevada de funk e encaixar um pandeiro por cima.
Então, eu diria que foi um momento de fusão mesmo, assim, onde os caras conseguiram colocar o samba num nível de mixagem e de simbiose com o ritmo americano que, eu acho, resultou numa coisa interessante, numa coisa única e que, infelizmente, é difícil de reconstruir esse painel hoje em dia, até porque eu acho que o samba se afastou muito mais, porque o samba sempre foi uma coisa que tinha assim, mesmo os sambas do Cartola, que é um cara que você fala, tem uma coisa de erudição que se ouvia muito nessa época, Chopin, nas rádios AM, na década de 40, década de 50, se ouvia muito a rádio MEC, que tinha música clássica.
Então você vê que os sambas daquela época tinham um nível de erudição e a década de 70 foi assim o lance pra pirar, assim com o samba, mas, esteticamente, o samba sempre foi uma coisa meio reaça, assim, o samba não se mistura muito, tinha até uma coisa engraçada que um jornalista, o Antônio Carlos Miguel falou num artigo, comparando meu pai ao Silas de Oliveira (o maior compositor do Império Serrano, autor de sambas como Aquarela Brasileira), dizendo que teoricamente eram uma mesma família, mas que eram inimigos estéticos porque a intenção do meu pai era subverter o samba, totalmente, a ponto de misturar ele com a música da Motown ou subverter o baião.
Então, eu acho que a Black Rio tem pouco isso, é uma música que não tem purismo, é uma música que busca uma universalização, uma mistura de línguas, uma mistura de estilo.
Então, na realidade, tinha essa coisa, de subverter a linguagem tradicional do samba, e ao mesmo tempo não deixa de ser samba nunca, passa a ser samba sob uma ótica diferente, inclusive, no próximo disco eu estava pensando em botar o título de «A Nova Ótica do Samba», não sei essa palavra» nova», «nova» porque é uma coisa que sempre soa bem, internacionalmente, mas «Ótica do Samba» é legal, assim, justamente baseado nessa coisa, porque a Black Rio apresentou uma nova ótica do samba, é como se o cara chegasse dentro de um desfile de escola de samba e botasse um sintetizador, sabe, fazer uma subversão mesmo.
Então, eu acho que isso aí foi bem legal e, apesar de ter essa coisa, ao mesmo tempo tem o conceito totalmente tradicional, você vendo hoje que a gente está em 2000, ouvindo o Maria Fumaça, é um disco foda, é muito difícil definir qual o estilo que está rolando ali, é uma coisa que ficou muito rotulada a Black Rio, dessa subversão do samba, é claro que muita gente faz isso hoje em dia de outras formas:
o próprio Max (de Castro, cantor, compositor e produtor, filho do lendário Wilson Simonal), o Jorge Ben (Jor), sendo que o Jorge Ben pegou uma ótica mais do rock com o samba, daí usou a história do samba-rock ...
Já a Black Rio foi pra essa outra praia.
Em a realidade, todos esses samples de música eletrônica, muita gente vai na década de 70, geral, porque ali é que foi tudo descoberto, em termos dessa loucura mesmo ...
Existia um frenesi, uma necessidade de buscar um novo som.
Então, eu acho que isso foi um comportamento social em relação aos artistas e intelectuais da época.
Acho que isso sempre existiu em várias épocas das artes.
RM -- Você via naquela época alguma procura, alguma busca de um engajamento de raça, de problema social, dos caras pensarem que estavam fazendo uma música negra, diferente da música do Roberto Carlos, por exemplo?
WM -- Com certeza.
Totalmente. Eu acho que isso foi uma das grandes razões também.
Ter uma postura dos negros que estavam junto com aquele novo som, uma nova postura ...
Existia muito isso ...
Só que eu acho que o racismo no Brasil é uma coisa tão insana, tão mal compreendida por as próprias pessoas, que naquela época era muito pior.
Então, essa coisa de movimento negro no Brasil é totalmente diluído.
Nunca teve uma coisa, assim, que representasse um ícone, a gente nunca teve um Martin Luther King, não é?
Até nas escolas se passava um pouco isso, que o negro ...
Em a época em que tentaram escravizar o índio, que não dava ...
Que o negro era mais passivo ...
Que ele aceitou a escravidão.
Não, não aceitou a escravidão.
A única foda é que eram várias tribos de vários lugares diferentes da África, que vieram aqui para o Brasil, famílias e tal ...
Então, nego estava distante da sua terra de origem e teve que aceitar aquilo.
Agora, acho que, assim, a visão do herói negro, mais recente da gente é o cara lá do Quilombo dos Palmares, o Zumbi, não é?
RM -- E de encontro ao samba, a Black Rio poderia parecer um postura anti?
WM -- Mas sempre foi acusada de ser anti.
A Black Rio sempre acusada de várias coisas.
Inclusive, nesses jornais, era muito acusada no início de ser americanizada.
E eu não consigo ver, eu diria que tem influência americana, mas já é um terceiro som, não é samba nem funk, é samba-funk, é o resultado de uma simbiose, que, hoje em dia, daí é que eu falo, todo esse valor que está tendo, até o ponto de vocês descobrirem e quererem fazer um documentário, é fruto disso, é uma coisa que tem uma marca, num tempo, numa qualidade, um modernismo, uma ousadia, uma coisa assim que realmente acho que é o que todo artista procura, conseguir, não todos os artistas, mas alguns artistas se preocupam com isso, com a contemporanização.
Eu acho que a Black Rio, na minha cabeça, foi uma viagem, assim, tão profunda ...
Eu diria que se fosse uma banda americana, teria um mérito enorme, e o pior é a postura dos caras de preservação da própria cultura.
Aqui, até hoje, as pessoas conhecem mais ou menos;
quem conhece e quem entende é apaixonado por o lance.
Agora, não é uma coisa que teve um respaldo, assim, como o choro, por exemplo.
Eu tenho a esperança que um dia venha ter.
RM -- O que você lembra, assim, da banda, quando você era criança, do teu pai?
WM -- Era uma memória boa, uma coisa, assim, muito difícil pra mim, porque, desde moleque, a minha família, por ter essa coisa do Silas de Oliveira, do Império Serrano, sempre teve muita coisa de música, muita festa na minha casa.
Então, meu pai também tocava em casa o tempo todo, tocava piano, tocava sax e, de repente, uma coisa que eu me lembro, que era legal, eram esses ensaios no barracão, em Vaz Lobo, na casa da minha avó, que era o espaço que era a oficina do meu avô, que eles usavam pra ensaiar.
Isso foi em 77, em 78.
Em aquela época que eu já tinha uma compreensão, tinha nove, dez anos, mas já tocava.
Então, cara, era uma lembrança muito boa, uma lembrança tão boa que eu acho que uma das felicidades que eu tenho de estar trabalhando nesse lance da Black Rio é até resgatar essa lembrança desse som e é uma coisa que eu já tinha uma emoção, eu já sentia que tinha uma beleza, uma coisa que me atraía no som da Black.
De fato, meu pai tá ali, né cara, meu pai, tocando sax, líder da banda, coisa e tal, era uma descoberta, foi uma grande descoberta da música, ver a coisa através da Black Rio ali, presente.
E obviamente que, depois que eu comecei meus estudos de música, eu fui estudar outros estilos, música clássica, jazz, harmonia, teoria musical.
Então, me distanciei um pouco e meu pai ainda estava vivo.
Mas no momento que ele morreu, parece que essa morte de ele me trouxe de volta ao encontro dessa lembrança, desse passado, que era do caralho, não só por a Black Rio, mas ia muito a show.
Meu pai gravava com todo mundo, gravava com Gal Costa ...
Então, com dez anos, eu estava lá no estúdio, pentelhando todo mundo, pentelhando o técnico, o músico, perguntando o que que é isso, e tal.
RM -- Você começou profissionalmente tocando o que?
WM -- Profissionalmente, tocando contrabaixo, acústico.
Eu estudei com o Sandrinho, na Escola Nacional de Música, depois com Sebastião Tapajós estudei um pouco de violão.
Aí meu pai comprou um piano novo e eu comecei a me atrair por o instrumento, aí fui estudar piano mesmo aos 13 anos, com a Sonia Maria Vieira, que é uma professora que tem doutorado em piano na Rússia, em São Petersburgo, e em Viena, na Áustria.
Estudei com ela muitos anos.
Fiz oito anos de piano, depois comecei meus estudos.
Aí fui também querer estudar sociologia.
O meu pai era químico, né.
Curiosamente, cozinhava pra caramba.
Mas era químico mesmo, formado, mas ele dizia que não dava pra esse xabu, tinha que ter outras visões, e tal, mas ele queria que eu fosse músico, é claro, senão não teria investido tudo que investiu.
Mas aí, cara, me desiludi com a faculdade.
Fiz dois anos de sociologia, achei um saco.
Eu já tava tocando profissionalmente, já estava viajando.
Comecei com Antônio Carlos e Jocafi (dupla de música sertaneja de raiz), 16 anos, piano, aí, depois, toquei com outras pessoas, Tânia Alves, a Marina.
Aí pintou o Gil, toquei com a Gal, Djavan, com Tim, fiz uma substituições, o Tim Maia gravou uma música minha.
Trabalhei com o Cassiano ...
E trabalhando essa coisa do projeto pessoal, que era o negócio da Black Rio, nesse meio tempo também estudando as coisas, escrevendo muito, as partituras, chamando amigos ...
Vamos testar, abrir essa voz aqui pra depois produzir.
Número de frases: 74
Virei produtor, produzi Marina (Lima), produzi uns trabalhos pra Vison também, uns discos coletânea, que são para a Alemanha, trabalhei com Leo Gandelman (saxofonista) uma época, e hoje em dia estou aqui, na minha casa, tocando aí com a banda.
«III Churrasco dos Nerds -- Programa para a sexta!?
Eu vou no Churrasco dos Nerds!!!
Teremos vinte caixas de cerveja grátis lá».
Cartazes com estes dizeres podiam ser vistos espalhados por as dependências do Centro de Eventos FIERGS, durante o 7º Fórum Internacional Software Livre, o FISL, em Porto Alegre.
Infelizmente não pude comparecer ao churrasco, mas imagino que tenha sido bem interessante, assim como as pessoas que circulavam por o fórum.
Era possível encontrar gente de todos os tipos, de cabeludos com camisetas do Blind Guardian a executivos de terno e gravata.
Mas todos estavam lá por um mesmo motivo:
promover e discutir os rumos e usos de software livre, num evento já consagrado e que atraiu mais de cinco mil pessoas.
Paralelamente a isso, havia um povo interessado em mostrar que não apenas software pode ser livre.
Cultura também.
Entre os dias 19 e 22 de abril, aconteceu o Criei, Tive Como!--
1º Festival Multimídia de Cultura Livre, juntando cinema, vídeo, música, arte tecnologia e mídia colaborativa.
Uma iniciativa do FISL, Creative Commons, Overmundo e Tangolomango, o Criei, Tive Como!
trouxe a Porto Alegre artistas de diferentes áreas que produzem trabalhos de caráter livre, numa mistura no mínimo curiosa.
Projetando a liberdade
Em o intervalo entre palestras como O Papel da Universidade na Inclusão Digital e a Caravana da Une e Google And Open Source, os capixabas do Cine Falcatrua troxeram a Mostra de Filme Livre (Mesmo), apresentando vídeos e filmes que permitem a livre distribuição e exibição sem fins lucrativos.
O público pôde assistir a documentários, clipes e reciclagens de imagens de TV que abordam desde projetos totalmente experimentais a críticas sobre a concentração de poder midiático em poucas mãos.
Tudo prezando a liberdade, sempre.
«A gente fez um trabalho básico de curadoria na internet, tanto que na própria programação do evento tem a direção para os filmes na rede.
Então, se você quiser, se você gostou do filme, vai e baixa.
E como ele é livre, não tem nenhum problema judicial de tê-lo no seu computador», aponta o Rodrigo Melo, um dos integrantes do Cine Falcatrua.
Gabriel Menotti, outro integrante do grupo, lembra que vários tipos de pessoas podem se beneficiar da liberdade de licenciamento:
«A idéia é tentar articular como as pessoas que produzem vídeos caseiros usam a internet hoje em dia e como elas podem se utilizar desses mecanismos jurídicos pra facilitar o escoamento dos seus vídeos;
como as pessoas que fazem vídeos profissionalmente podem usar esses mesmos mecanismos pra subsidiar a sua produção e também como as pessoas podem criar a partir da obra de outras pessoas, negociando com os vários tipos de licença que se pode ter atualmente».
Qual o valor de uma obra?
Como alguém que licenciou mais da metade das faixas do seu último disco, o músico Totonho, líder da banda Totonho e Os Cabra, sabe bem o impacto que isso pode causar.
O site de ele na Trama é o mais visitado, justamente em função da curiosidade das pessoas em baixar as músicas.
«Eu tenho oito músicas do disco licenciadas.
Acho que essa é uma linguagem de negócios, em que você busca valorizar o seu produto através do poder de acessibilidade que dá a ele.
E ao mesmo tempo você confia no seu taco, na qualidade da sua produção.
Quem não confia é quem esconde o produto é quer vender ele fechado», provoca o Totonho.
E ainda dispara, sem receio:
«Se a obra só vale 15 reais na prateleira, então ela não vale porra nenhuma».
Tanto é verdade que no próximo CD a idéia do músico é licenciar antes mesmo de começar a gravar.
Assim, nada mais lógico do que a sua presença no Criei, Tive Como!,
apontando caminhos pra outros artistas.
E torcendo por bons frutos daqui para a frente.
«Foi um prêmio ter vindo pra cá.
Eu espero que a partir de agora a gente possa conversar, trocar e construir um instrumento de diálogo pra nossa obra com perspectivas para o futuro».
Todos por o mesmo objetivo
A possibilidade de troca entre os artistas e profissionais de outras áreas é um dos maiores méritos do festival.
Pelo menos é o que empolga o VJ pixel, responsável por a vinheta do Criei e por a abertura e imagens no show do BNegão e do Totonho e Os Cabra na sexta-feira, dia 21.
«É legal estar no meio do FISL porque você vê muita gente que tem o mesmo objetivo, que quer divulgar o software livre, que acredita em liberdade de cultura, não só em liberdade.
Esses programadores que estão aqui pensam «Eu quero que um monte de gente use o meu programa, por isso que eu tô liberando o uso e acho legal que a pessoa venha e modifique».
Então é muito importante que o Criei, Tive Como!
esteja acontecendo dentro do FISL, porque aproxima esses dois grupos, de programadores e artistas.
Ambos têm objetivos comuns.
Isso é legal, todo mundo tá aqui pra isso:
ajudar os outros.
Todo mundo ganha com isso, ninguém perde ajudando ninguém».
E essa preocupação cooperativa pode ser resumida na simplicidade da frase do Rodrigo, do Cine Falcatrua:
«É livre porque é livre, porque é legal».
Legal como sentar no chão Centro de Eventos FIERGS e ver vários grupos de todo o Brasil e do exterior conversando com entusiasmo.
Legal como sorrir tirando fotos com um pingüim gigante num stand de revista.
Legal como participar de um evento que cresce a cada ano e de um festival que já estréia com grandes perspectivas.
Seja falando de software ou de cultura, uma coisa é certa:
Número de frases: 57
o importante é ser livre.
É possível escrever sobre pulhas e nobres, sobre nações e indivíduos.
É possível sondar a alma e também expor as mazelas da vida cometidas por homens contra homens.
E é possível de igual modo divagar sem nada dizer, e ainda assim comover os outros, extrair lágrimas de quem já chora tanto -- vítimas da mesquinhez nossa de cada dia --, gozo dos que já gozam, prazer dos que comprazem, compreensão dos que sabem compreender.
É possível escrever sem enxergar, dizer sem falar, retratar sem máquina fotográfica, sem pincel, mas com palavras, escarafunchando oceanos e desertos, as profundezas do ser e os pântanos que entrelaçam imaginação e realidade.
Em essas aventuras, no entanto, só entram alguns tipos de caracteres imaginativos.
Alguns gênios e outros geniosos.
Mas cada um a seu modo destrinchando o fio da linguagem a tal ponto que chega a tocar o leitor.
E aí entra um novo mundo.
Se é possível escrever tantos universos paralelos, também é possível ler e imaginar, recriando espaços e perfazendo caminhos nunca de antes imaginados, até mesmo por quem supunha ter encontrado o trilho da felicidade na leitura.
O leitor também tem sua vez.
É possível ler o mundo como quem lê um livro.
E o contrário pode acontecer de igual feita:
é possível ler um livro como quem observa a realidade ao seu redor.
Não diria assim o explorado atento, ao ler Vidas Secas?
Não diria assim o sertanejo, ao ler Grande Sertão:
Veredas?; e, ao ler, também não teria algo para dizer o humanista ao conhecer o mesmo Sertão de Rosa?
O fagulho depende do leitor para espalhar o fogo.
Quem escreve acende o fósforo, mas quem lê oferece oxigênio ao vento que carrega a faísca, oferece mais, oferece material de combustão, oferece mais, oferece a eterna hospedagem.
Não seria por isso que o leitor atento, ao ler Dostoiévski, vê na frase «todo homem necessita de um lugar para voltar» uma remissão ígnea ao velho Homero, que fez de sua obra um entendimento dessa premissa?
Ilíada não fora escrito na juventude do poeta?
Odisséia não fora na sua velhice?
Uma era a marcha do herói à guerra.
A outra, a volta para casa, depois de fatigadas lutas.
«Todo homem necessita de um lugar para voltar».
Sábias palavras.
A literatura é como uma volta para casa, porque o leitor pode revolver o espírito e apontar para lugares e caminhos que nenhum outro tipo de escrita é capaz de fazê-lo, e depois retomar a cotidianidade.
A literatura é ao mesmo tempo Ilíada e Odisséia.
É possível escrever sobre tudo.
Mas como se faz, como se faz?
Nem todos conseguem, como não consegue ultrapassar a superfície das letras este que escreve agora.
É possível ler rumo a diferentes paragens.
Mas nem todos são capazes de compreender os mistérios e os fascínios da literatura a ponto de mergulhar nesse pântano de encontros.
Mais vale a descoberta.
E nisso, a literatura não tem igual.
Número de frases: 35
Estou lendo O Livro de Ouro da Amazônia do ambientalista João Meirelles Filho.
O livro denuncia de forma didática e explanatória como tem sido feita a pilhagem amazônica.
Esse é um dos assuntos mais estranhos que vi nos últimos anos, que a produção de carne é feita às custas da destruição do meio ambiente eu já sabia, mas que, por exemplo na Amazônia tem mais bois do que gente, isso foi novidade para mim quando vi o depoimento do João Meirelles no filme A Carne é Fraca.
Dando um giro no google achei alguns textos interessantes, o primeiro do Instituto Akatu, uma ONG de consumo consciente que relaciona o desmatamento e o aquecimento global com a produção de carne, outro texto que encontrei foi publicado no jornal The Guardian e parece alertar o consumo de carne brasileira na europa, alerta que foi levantado por o greenpeace ano passado sobre a soja e pecuária.
O alerta também mostra o problema da grilagem de terras e trabalho escravo, as grandes transnacionais envovidas no esquema são a Cargill, Bunge, ADM e Maggi, não é de se estranhar que são as mesmas produtoras de transgênicos.
Para fechar deixo a provocadora questão:
Você já comeu a Amazônia hoje?
Número de frases: 7
De o blog Gato Negro A permissividade das inovações tecnológicas é uma constante em quaisquer debates acerca dos novos rumos da indústria musical.
E esse fator acarreta sempre na polêmica da legitimidade, do direito autoral e da propriedade intelectual.
A pirataria, presente hoje em todos os produtos no mercado, ataca principalmente os CD ´ s.
Segundo dados da Wikipedia, ela faz com que o Brasil perca cerca de 1 bilhão de reais ao ano.
Ao mesmo tempo, cria uma enorme quantidade de empregos informais.
O faturamento, antes dos artistas e suas gravadoras, passa a ser de camelôs e ambulantes, com suas barraquinhas em cada esquina do país e do mundo.
Em função do aumento cada vez mais evidente do consumo e da produção de «pirateados», foi realizado no Dia Nacional do Combate à Pirataria, em 2005, um protesto em frente ao Congresso Nacional.
O fato interessante é que esse processo de falsificação de material fonográfico -- classificado como pirataria -- não é visto negativamente por muitos artistas, como por exemplo os que criaram o contagiante «tecno-brega», no estado do Pará.
Afinal, seus fãs não comprariam os CD ´ s se eles não fossem piratas, já que nenhum desses artistas têm contrato com gravadora.
É também uma maneira da população ter acesso ao conteúdo, antes confinado em inúmeras marcas de direitos autorais ou com etiquetas de «cópia controlada».
Com o crescimento das novas formas de divulgação e consumo da música através da web, levantamos a questão:
«Se as músicas não forem mais vendidas, como os artistas são retribuídos financeiramente?"
O meio mais direto seria o show.
Pois se antes os fãs compravam os CD ´ s, hoje eles ouvem a música na internet e gastam o dinheiro nos shows, que estão absurdamente mais caros.
Outra forma de lucro seria a venda da imagem do artista, para produtos, programas de TV etc, além é claro de merchandising e o uso da música em trilhas sonoras de filmes ou novelas.
O sucesso vai agora muito além da venda de CD ´ s.
Presenciamos, portanto, a democratização da música.
Ela está livre na internet, e qualquer um que tenha acesso pode ouvir e baixar -- de graça.
Há possibilidade real de fazer música para todos.
Deveríamos rever o conceito de «pirataria» e estudar as outras inúmeras possibilidades de se ganhar dinheiro fazendo música.
Autoras:
Clarissa Lima, Danielle Feno, Juliana Marques e Lara Mateus.
Número de frases: 22
Alunas do 3º período de Comunicação Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro Com melodias bem diversificadas e letras em tom poético a trupe que se originou em Osasco criado por Fernando Anitelli, ator, músico e compositor das canções do show que mistura música, poesia e teatro com a arte circense.
O Teatro Mágico é uma trupe independente a qual, mescla em suas músicas diversos instrumentos como violão, guitarra, baixo, bateria djs, gaita, xilofone e sonoplastia que se somam ao violino, de percussão e instrumentos de sopro.
Onde se aprecia ao mesmo tempo a performance da boneca no pano, trapezista e malabaristas.
A Trupe que o acompanha, foi formada em Dezembro de 2003 por amigos e artistas que acreditaram no projeto.
De forma independente, sem apoio de gravadora ou campanhas midiáticas, já alcançaram números que muitas bandas «consagradas» não conseguiram ainda.
O boca a boca e a Internet foram
fundamentais na divulgação do trabalho, cada vez mais conhecido e respeitado.
Algumas das músicas que se destacam entre as já lançadas do cd «Entrada para Raros» e do mais novo cd 2º Ato que será lançado em junho são:
Camarada d'Água, " Viva a tua maneira não perca a estribeira saiba do teu valor e amanheça brilhando mais forte que a estrela do norte que a noite entregou ...";
Reticências, " Quanta mudança alcança O nosso ser posso ser assim daqui a pouco não Quanta mudança alcança O nosso ser posso ser assim ( ...)
Reciclar a palavra, o telhado e o porão ...
Reinventar tantas outras notas musicais ...
Escrever o pretexto, o prefácio e o refrão ...
Ser essência ...
Muito mais ...
A porta aberta, o porto acaso, o caos, o cais ...
Se lembrar de celebrar muito mais ...;
Brilha Onde Estiver, " Não há de ser nada poius sei que a madrugada acaba quando a lua se põe, o abraço de um vampiro é o sorriso de um amigo e mais nada ...
Não há de ser nada poius sei que a madrugada acaba quando a lua se põe, a estrela que escolhi não cumpriu com o que eu pedi e hoje eu a encontrei ( ...)
Brilha onde estiver faz da lágrima o sangue que nos deixa de pé ...";
Pena, " E quando o nó cegar deixa desatar em nós solta a prosa presa luz acesa Já se abre um sol em mim maior ( ...)
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior! ( ...) ";
Zaluzejo, " quando alguém te disser ta errado ou errada que não vai S na cebola que não vai S em feliz, que o X pode ter som de Z e o CH pode ter som de X, Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz ..."
Anjo mais velho, " O dia mente a cor da noite e o diamante a cor dos olhos, os olhos mente dia e noite a dor da gente ( ...)
Enquanto houver você do outro lado aqui do outro eu consigo me orientar ( ...)
Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você, só enquanto eu respirar ...».
Com letras que motivam e que nos fazem ver o mundo de uma nova forma com outro olhar, essa grande mistura cultural denominada por Anitelli como um «Sarau Amplificado», nos faz pensar sobre gestos e ações que devemos ter no cotidiano, uma mensagem presente na maioria das música é para sermos felizes temos de acreditar em nós mesmos e sermos o que somos.
Como diz em outra música O Criador, «Pra nos tornarmos imortais a gente tem que aprender a morrer com aquilo que somos nós Aquilo que somos nós ...».
Uma alternativa interessante que pode ser utilizada como terapia psicológica motivacional ainda que as músicas contenham uma linguagem simples, seu sentido subliminar atinge o público de forma a contagiar e revitalizá-lo para viver as contradições e dificuldades presentes em seu cotidiano e na «realidade do mundo».
Dados sobre o teatro mágico:
* Recorde de Público na Virada Cultural 2007 (40 mil pessoas em S. Paulo) *
Duas turnês por o Nordeste (reunindo mais de 5 mil pessoas em Recife) *
Consolidação de público no Rio de Janeiro (2 mil pessoas no Circo Voador) *
Site oficial com mais de 120 mil acessos / mês.
* Média de 670 mil downloads / mês das músicas em mp3 (Palco MP3 / Agosto 2007) *
Comunidade oficial no Orkut com mais de 60 mil membros *
mais de 65 mil cópias vendidas do CD O Teatro Mágico:
Entrada para Raros *
Todas as músicas disponíveis gratuitamente na Internet.
* Estados por onde o espetáculo já passou:
São Paulo, Janeiro, Pernambuco, Paraíba, Sergipe, Bahia, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, Gerais, Santa Catarina e Paraná.
fonte: "
target = «blank» \> http://www.xalmer.com/blog/?
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Número de frases: 44
O teatro mágico -- O anjo mais velho As Maiores Riquezas
Pascoalzinho (nascido Alcides Alves da Silva) em Machado-MG, em 1952 é muito conhecido por sua alegria e por o amor às antigas tradições.
O apelido veio do avô, o Sr. José Lourenço da Silva.
A os seis anos perdeu sua mãe -- Rita Alves da Silva -- sendo criado por sua madrasta.
De o pai herdou a profissão de pedreiro e a arte de consertar relógios e sanfonas.
Seu pai lhe deu de presente uma «pé de bode» -- antigo modelo de sanfona.
Aliás, foi graças ao irmão Dionísio -- lassallista que lecionou no Colégio São José -- que Pascoalzinho aprendeu a dominar este e outros instrumentos.
«Meu pai não teve estudo;
aprendeu tudo de ouvido:
na escola da vida», e completou:
«Em a minha infância a gente caçava rãs, saracuras, onde hoje é o campo do Guarani.
Tinha leite à vontade, vendido em carroça e hoje, praticamente, não se vê mais isso."
Em os anos 60 foi carroceiro e, juntamente com alguns amigos dragava a areia do leito do rio Machado com tração de muares.
Em 1968 um triste episódio abalou a cidade:
seu amigo Marcelo estava atravessando o rio com uma tropa, quando inesperadamente todos foram arrastados por a correnteza.
Seu corpo foi encontrado cinco dias depois ...
Casado com Pedrina de Fátima Moura da Silva e pai de quatro filhos, Pascoalzinho vem se dedicando à montagem artesanal de cata-ventos, birutas;
instrumentos de percussão e carros-de-boi feito de madeira.
O amor e a dedicação por as tradições folclóricas o levaram a fazer parte -- como sanfoneiro -- na Companhia de Reis do Jamil.
Número de frases: 19
80 professores e futuros professores de ensino médio e fundamental em Sergipe estão tendo a possibilidade de aprofundar estudos sobre história e geografia da África e sobre cultura afro-brasileira.
O Curso de aperfeiçoamento em História e Cultura africana e afro-brasileira, promovido por o Núcleo de estudos afro-brasileiros (NEAB) da Universidade Federal de Sergipe (UFS), é um passo para a socialização de informações mais específicas sobre o continente africano e a intrínseca relação de seus descendentes e sua cultura no Brasil.
O projeto foi idealizado por o antropólogo e Prof. Dr. Frank Nilton Marcon, do Departamento de Ciências Sociais da UFS, e financiado por a Uniafro, o Programa de Ações Afirmativas para a População Negra nas Instituições Públicas de Educação Superior, do Ministério da Educação, através de seleção pública de projetos.
O curso teve início no dia 16 de setembro e deve terminar em dezembro desse ano.
As aulas acontecem em dois pólos:
um no campus da UFS em São Cristóvão, com 40 alunos, e outro no campus Itabaiana da mesma universidade, com 40 alunos.
As disciplinas ministradas são:
Educação e relações étnico-raciais, África:
cultura e política, História e Geografia da África, Religiões afro-brasileiras, Africanos no Brasil e Metodologia do Ensino de Estudos sobre a África e a Cultura Afro-brasileira.
De entre os ministrantes está o Prof. Dr. Hippolyte Brice Sogbossi, natural do Benin, antigo Daomé.
A presença do professor beninense e de um dos estudantes de Ciências Sociais da UFS, também africano da Guiné Bissau, Abílio, é uma sensação entre os alunos de curso.
Além de deslumbrados com as informações didáticas das aulas, as perguntas curiosas sobre a vida na África são muitas.
A confusão maior é quando alguns alunos tratam a África como um só país, e fazem perguntas muito gerais, como uma das alunas que perguntou se haveria um rei ou presidente para a África.
A explicação é sempre minuciosa e trazendo a luz para o fato de que os países africanos são muitos e possuem informações culturais diferenciadas, mesmo dentro de um mesmo país *.
Essas e outras elucidações estão sendo construídas, e o que mais se comenta entre os alunos é o fato de que tudo é muito novo para eles.
Em o ensino formal, muito pouco da África é passado, e sempre de forma relativa.
«Eu num tinha idéia das coisas eram tão diferentes do que a gente vê na novela, nos livros», afirmou Elialda, uma das alunas do curso.
Cada disciplina é acompanhada por um monitor, que é membro do Neab e estudante de graduação da UFS.
Os monitores passaram por um processo seletivo para ocupar a posição.
Essa que vos escreve é um desses monitores e posso dizer que a experiência é fantástica, tanto como aluna-ouvinte do curso, e como espectadora do processo de desenvolvimento do conhecimento para aquelas pessoas.
A o fim do curso, os alunos deverão produzir um texto com foco num dos tópicos dados e relaciona-los com a prática educacional, ou seja, seria a elaboração de um breve projeto pedagógico abordando a cultura afro-brasileira.
A grande esperança desse projeto é colaborar para a formação de profissionais educadores mais sensíveis e íntimos da realidade de uns dos elementos fundamentais para a cultura brasileira.
Os trabalhos deverão ser publicados numa coleção.
* Isso se deve por conta de que a partilha do continente, feita por os europeus na Conferência de Berlim em 1884, na qual se ignorou a existência dos reinos, ou seja, existem descendentes de um mesmo reino que vivem em países diferentes.
Número de frases: 24
Como reverenciar algo ou alguém que merece nossa atenção?
Basta dizermos bonitas palavras e exprimir significantes atos?
Ou, devemos fazer algo sem muitos alardes e tentar preservar o que nosso objeto (homenageado) tem de melhor?
Falo isso devido a particularidade da cultura popular.
Cultura segundo as suas principais definições pode significar entre o verbo Cultivar, do Latim de cultivare;
à produção do saber, arte, folclore, mitologia, costumes, etc., bem como à sua perpetuação por a transmissão entre gerações;
ou até mesmo, Sociologicamente, podemos dizer que a cultura é tudo o que é aprendido e partilhado por os indivíduos de um determinado grupo e que confere uma identidade dentro do seu grupo.
Já a filosofia diz que a cultura é o conjunto de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural.
Para mim (não sou sociólogo, e sim, um jornalista que se mete em antropologia), cultura tem o nome de um pássaro.
Francisco Bezerra Lima, mais conhecido como Azulão, é o que podemos dizer um vencedor na vida.
Sair de ex-vendedor de picolés para se tornar um ícone do forró Nordestino merece honrarias.
Em a bagagem 16 LPs gravados e três CDs e um recém gravado DVD.
Cantor e compositor, Azulão nasceu a 15 de junho de 1942, no sítio Taquara de Cima, município de Caruaru.
Ainda criança, foi, com a família, morar no centro da sua cidade.
foi carregador de frete, vendedor de fósforo e picolé nos dias de feira.
Começou cantar nos programas de calouros da extinta Rádio Difusora de Caruaru.
Teve como influência em sua carreira de compositor os ídolos Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.
O apelido Azulão teve origem em sua preferência em usar roupa de cor azul.
Suas composições foram gravadas por grandes nomes da MBP, entre os quais Trio Nordestino, Marines, Genival Lacerda e Marinalva.
A crítica nacional lembrou bem do Azulão em comparação ao grande pássaro Azul.
«Sua voz grave e médio-agudo se completam de maneira sublime, como o passarinho que nunca desafina», sendo assim podemos expressar Azulão = Cultura.
Retratando sua cidade natal e seus costumes em sua música ele nos faz viajar por o passado e saber de contos e causos de um tempo que ficou pra trás.
A religiosidade presente em «Caô cabeça e lé» até Caruaru do passado e Dona Teresa, merecem um espaço, pelo menos, nas rádios locais.
Infelizmente, igual a outro post Santo de Casa não Faz Milagres, mas Azulão é ainda é e sempre será Cultura.
Em este artigo, trago minha forma de contribuição à Cultura do meu local.
Reverencio Azulão por ser o Pequeno Grande.
E lembro aos produtores, artistas e todos, enfim ...
Valorizar enquanto vivo é melhor que homenagear depois de partido.
Apanhadeira de Café
Adeus minha rosa, adeus meu amor
Até para o ano se nós vivos for
Adeus minha rosa, adeus meu amor X2
Até para o ano se nós vivos for
O café de josué, apanhadeira apanhou
josué insatisfeito um festejo ele inventou X2
Deu comida a todo mundo, cachaçha ao tocador
Safoneiro animou, puxou o folé com fé Todo mundo arrasta o pé, por que o forró começou
Adeus minha rosa, até para o ano se nós vivos for ...
Azulão
Número de frases: 39
Não houve nem sombra de terça-feira gorda neste lado da estação ferroviária de Marechal Hermes, onde morei nos meus primeiros quarenta e cinco anos de juventude.
Para que não se diga que estou exagerando, vi um bate-bola bastante desanimado no abrigo de ônibus próximo ao Teatro Armando Gonzaga, com a máscara de pano puxada para o alto da cabeça e a bexiga murcha.
Como eu ia passando, ainda assoviei «Índio quer apito» para ver se o desconsolado folião dava uns pulinhos sem compromisso, mas não funcionou.
Com o comércio de portas arriadas por aqui, seis horas da tarde, a dolorosa impressão de bairro-fantasma era atenuada apenas por a presença de um grupo de mendigos no canteiro do jardim defronte à igreja católica e um casal de namorados num banco da praça do teatro.
Curioso.
Um casal de namoradas todo mundo entende, são duas mulheres que se amam.
Mas como, em nossos tempos, dizer um casal de namorados sem cair na ambigüidade?
Em essa, a língua portuguesa continua dançando.
Se um estivesse de pierrô e o outro de colombina, teriam certamente resolvido o falso problema do cronista palpiteiro, em seus devaneios rousseaunianos de passeador solitário.
Mas a grande verdade é que homossexuais saudavelmente assumidos têm horror a essa divisão de papéis ditada ou sonhada, em última instância, por o preconceito burguês (ou pequeno-burgu ês, como queiram).
Reparei que os mendigos ali perto -- homens, mulheres e crianças -- estavam se divertindo um bocado com o namoro dos dois;
os mais embriagados faziam cara de nojo para logo em seguida explodir numa gargalhada.
Ou prorrompiam numa grande vaia sempre que o par romântico entregava-se a um longo e esfomeado beijo de língua.
Mas depois se cansaram da platéia inconveniente, e foram embora assim que um microônibus apontou à esquina da rua Gravatá.
Segui meu caminho.
Lá em casa pelo menos estava mais animado, com minha mãe cuidando de uma coisa ou outra na cozinha e levando à capela os sambas-enredo da Vila Isabel ou, para agradar ao cronista, do " Império Serrano:
«Imperiano de fé não cansa / Confia na lança do Santo Guerreiro ..."
Evoé!
Número de frases: 18
(Eu escrevi este texto em junho de 2006 e o perdi na bagunça do computador.
Hoje, achei.
Estava influenciado ainda por o show de Lulu no Festival América do Sul, em Corumbá / MS.
Lulu provou a ferro e a fogo tudo que escrevi aí embaixo.
Lendo agora percebo que é uma espécie de desabafo depois de ver Ivete Sangalo na capa da Rolling Stone.
Grazi (!), Coldplay, Caetano, Faustão e outros vieram e (francamente) Lulu até agora ganhou uma entrevistinha discreta na revista dos ' manus '.
A minha indigestão e este texto continuam valendo!)
Bom, uma comichão dos infernos vem me acompanhando estes dias.
Mais especificamente depois que li a matéria de Vladimir Cunha (a quem eu admiro como jornalista) na revista Rolling Stone.
Lá estava a Ivete Sangalo na capa com a chamada: '
Rainha do Pop? '. Com interrogação mesmo.
Alguns dias depois abro a revista Trip e tem lá uma matéria com o Sidney Magal, uma foto dos tempos de Sandra Rosa Madalena, e de novo: '
Rei do Pop '. Desta vez afirmando.
Aí já é demais.
Afinal, o que significa música pop nestas alturas do campeonato?
Eu já não to entendendo mais nada.
Ser popular é ser pop?
Basta arrastar multidões para ser considerada rainha pop?
Ou a música também entra nesta jogada?
Eu acho que entra.
Para mim música pop é aquela com uma ' puta ` qualidade, com letras no mínimo interessantes (que tenha uma mensagem que não seja do tipo ' na palminha da mão '), refrões chicletinhos (com mais de três palavras que tenham mais de três letras), músicos tocando bem seus instrumentos, um arranjo fodão ...
e tem que ser estiloso.
O The Police é um exemplo.
Prince outro.
Madonna claro.
Michael Jackson off course.
E no Brasil você deve estar perguntando?
Valei-me Deus!
Enquanto este cara estiver vivo, não dá para chamar mais ninguém de ' sei lá o q ' da música pop.
LULU Santos. Ele sim é Rei do Pop brasileiro.
É o band leader de maior qualidade de toda nata da música popular brasileira.
Guitarrista superior aos melhores das bandas consagradas como Dado Vila Lobos, Tony Belotto, Edgar Scandurra (simm, simmm é melhor), Herbert Vianna, Roberto Frejat (sim o Lulu é mais versátil que o Herbert e Frejat) ...
Superior aos das bandas não consagradas também.
É preciso ser justo.
Não sei.
Olho no horizonte e para começar não me vem um guitarrista da ' nova geração ' na cabeça.
Penso no talentoso guitarrista Bruno Kayapy, do cuiabano Macaco Bong.
Lulu continua na ponta, com talento para conduzir tanto um power-trio matador, o Jacaré com quem fez shows raros, como estabelecer timbres que renovaram e formataram a guitarra pop brasileira.
Ele também é um grande cantor, de não desafinar uma mísera nota em shows ao vivo e ousar, ousar bastante.
Nada de cantar só a melodia padrãozinho ...
E como compositor, bem, quem fez mais hits de qualidade no Brasil do que o Lulu?
Não são apenas meia dúzia.
É uma obra inteira.
E me diga quem é que flerta melhor com a tecnologia do que o Lulu na música popular brasileira?
Quem é que mais rápido incorporou a música eletrônica, dividindo um disco com um DJ (Eu e Memê & Memê e Eu / 1995)?
Quem é que teve a sacada (e coragem) de gravar um videoclipe naqueles aviões ex-URSS que ficam sem gravidade?
Me fala também quem é que tem condições de fazer um show com 100 % de eficiência no vocal, no instrumento, no repertório, na postura cênica e na condução da platéia?
Me fala quem destes figurões faz um solo com slide guitar sem errar uma nota (não é blues não!)
E dinâmica?
Bem esta é uma palavra que definitivamente sumiu do dicionário do rock brazuca e está muito longe (longe messssmooo) dos trios elétricos baianos.
Quem consegue ter a dinâmica do Lulu Santos?
Pois é!
A caminhada de Lulu rumo ao reinado pop começou em seu quinto disco (Lulu), em 1986.
Quem não cantou ' eu não sei viver sem ter carinho, é a minha condição? `
Em 1989 ele lança Popsambalanço (kkkkk ...
muito antes de A Procura da Batida Perfeita, do D2), um marco da música pop brasileira e onde o samba se fundiu ao rock de maneira mais inventiva e perfeita.
As faixas Eu Não e Brumário são sambas-rock-lulusantistas de primeira ...
Acho que este trabalho é tão sofisticado e moderno que antecipou muita coisa e não gerou tantos hits, mas conceitualmente é muito importante.
Em uma das faixas, aliás, ele autoproclama ' Eu sou o rei do iê, iê | O rei do ú, ú | O rei do hey, hey '.
E é mesmo.
Eu acho que foi neste disco, o oitavo da carreira, que Lulu começa a ganhar prestígio como Em 1994 ele emplaca o hit Assim Caminha a Humanidade.
Em o outro ano surpreende dividindo disco o com DJ Memê e reembala vários hits com a música eletrônica.
Antenadissimo. Em 2000 gravou um Acústico MTV exemplar.
Foram 20 discos em 23 anos, praticamente um por ano.
Mas o que sustenta Lulu e prova que ele está cada dia melhor são os shows.
Em a hora do 1 2 3 4 e tomeeeee roooock!
Corta
Lulu está imóvel no palco.
A luz simplesmente acabou pouco depois da metade do show.
A vinda para Corumbá havia sido estressante e Lulu chegou pouco menos de duas horas do evento após percorrer uns 500 desde Campo Grande.
Uma chuva rala caía sobre a platéia, que começa a ficar impaciente.
É a abertura da quarta edição do Festival América do Sul e o Rio Paraguai passa bem ao fundo do local.
O susto tinha sido grande.
Quando descobriu-se em poucos minutos que a causa do blecaute havia sido um dos geradores por falta de combustível, a produção pensou que Lulu iria abortar o show.
O cantor, ao contrário, ficou parado, de costas para o público no fundo do palco apenas concentrado.
A luz se acende.
Lulu tira a capa e volta com passos decididos para o meio do palco.
A banda está a postos e ele empunha a guitarra.
Silêncio. Lulu chega no microfone e fala «agora só ficaram os sinceros».
PS 1 -- Em novembro a revista RS se redimiu (uma pequena parte) dos grandes equívocos que vem elegendo (para mim) para a capa!
Número de frases: 80
PS 2 -- Tudo bem, o último disco de Lulu não é lá esta coisa!
«Dia de luz, festa de sol / E o barquinho a deslizar / Em o macio azul do mar / Tudo é verão, o amor se faz / Em um barquinho por o mar / Desliza sem parar ...».
Sem intenção, Fred Pontes, ao ouvir esta canção no sussuro límpido de um certo João, tomou um susto.
Foi como se um mundo novo saísse do mar ensolarado da TV e beijasse a luz incandecente do barco, este que nos carrega por as veredas da vida.
Era um dia tão azul ...
Depois do susto, veio o desejo de dedilhar no violão a batida sincopada daquele juazeirense que num belo dia resolveu navegar por outras águas, muito além da margem direita do Velho Chico.
Em aquele momento, Fred teve certeza de que queria ir nas profundezas abissais do «barquinho».
Atualmente, em Juazeiro, ele é um dos poucos artistas que ainda levam adiante um repertório essencialmente advindo da Bossa Nova, remando contra a maré da ausência de um retorno artístico, dada a falta de alcance popular, que o anime a continuar cultuando a chama imortal que animou muitos grupos em Juazeiro, no início da década de 60.
Em o tempo em que os carnavais eram feitos com composições de artistas locais e a Bossa Nova, sobretudo por ter seu precursor nascido na região, influenciava os músicos de Juazeiro e Petrolina, contribuindo inclusive para a formação de conjuntos que reproduziam o estilo.
O «Bossa Quatro» e o «Sambossas», por exemplo, foram os primeiros conjuntos criados em homenagem ao novo ritmo.
Decorridos 50 anos, Juazeiro continua ainda muito distante do que Fred chama de «corte epistemológico na música brasileira», possibilitado por a batida diferente de João.
Lamentavelmente, não há espaço nas emissoras de rádio locais destinado a veicular músicas referentes ao estilo musical brasileiro que alcançou maior projeção internacional.
Em a verdade, não há nem como quantificar o número de pedidos que os ouvintes fazem em relação à Bossa Nova, dada a quase inexistência de eles.
Com o tempo, a impressão que se tem é que as lendas em torno da personalidade de João Gilberto e seu jeito recatado criaram uma barreira quase intransponível entre ele e o público-ouvinte.
Uma espécie de bairrismo se formou em Juazeiro contra João, algo que trouxe em seu bojo uma rejeição às suas produções.
Não é de modo algum raro ouvir frases do tipo:
«João não gosta de Juazeiro «ou» João saiu magoado e, por isso, virou as costas para sua terra natal».
Fred tem uma explicação para isto.
Tomando como perspectiva conversas que teve «com os pseudo-intelectuais de Juazeiro, que estabelecem os preconceitos», ele afirma:
«O sujeito acha que é politicamente incorreto não gostar da Bossa Nova porque já disseram a ele que é um negócio bom, genial.
Então, por vergonha disto, ele inventa subterfúgios para apaziguar sua própria incompetência de gosto».
Estes subterfúgios fizeram com que Juazeiro não entrasse oficialmente no circuito de comemorações dos 50 anos da Bossa Nova.
Em o início do ano, Mauriçola, reconhecido cantor juazeirense, lamentava numa entrevista concedida a estudantes de jornalismo da UNEB:
«O Rio de Janeiro decretou o ano internacional da Bossa Nova.
Paulo também.
Em Nova Iorque muitos concertos acontecerão durante este ano.
E na cidade onde nasceu o criador da Bossa Nova não vai acontecer nada!».
Ele ainda tentou uma parceria com algumas empresas da região para realizar um grande show, no qual João Gilberto viria acompanhado de Bebel Gilberto, João Bosco e Caetano Veloso.
Seria o show da vida de qualquer apaixonado por a moderna música popular brasileira.
«Volta do mar, desmaia o sol / E o barquinho a deslizar / E a vontade é de cantar / Céu tão azul, ilhas do sul / O barquinho é o coração / Deslizando na canção / Tudo isso é paz, tudo isso traz / Uma calma de verão "
Então, como o sonho de Mauriçola singrou o mar da realidade e se esvaiu como a solidão de uma tardinha de verão, Fred apresentou o projeto de um show comemorativo dos 50 anos da Bossa Nova à Secretaria Extraordinária de Desenvolvimento Social, Econômico e Cultural (SEDESC) da cidade de Juazeiro.
Vendo um juazeirense nato à frente da SEDESC ele só aguardava o aval para ensaiar.
O projeto não foi aprovado.
Pouco tempo depois, uma gaúcha assumiu a Secretaria e se encantou:
«Que coisa linda Fred!
Um repertório deste cantado por um juazeirense ...».
Em o dia 15 de julho, ao lado da cantora paraense Letícia Seco, ele fará um show de importância internacional:
«Há 10 anos eu comemorei aqui os 40 anos da Bossa Nova, só que este ano eu radicalizei:
quero fazer um show de importância internacional, com as músicas de João Gilberto, na cidade de João Gilberto e no Centro de Cultura João Gilberto.
Ninguém pode fazer isso no mundo inteiro», afirma ele, sorridente.
Fred é filho da historiadora Maria Isabel Figueiredo, mais conhecida como Bebela.
Hoje ela lembra saudosa do tempo em que ia brincar na sombra do tamarindeiro que ficava no meio da rua em que morava a mãe de João Gilberto, dona Martinha do Prado Pereira de Oliveira, a " dona Patu.
«João gostava muito de brincar ali.
Cansei de ficar com ele, Iraci, Zequinha, Lourdes ...».
O pai de João Gilberto, seu Joviniano Domingos de Oliveira, era um próspero negociante da cidade.
Tinha uma barca:
a Lusitânia, que hoje navega em águas sergipanas.
como se vislumbrasse o futuro do filho, comercializava a matéria-prima de fabricação de discos, a cera de Carnaúba.
Mas ele queria mesmo é que o filho estudasse.
Tanto assim que dona Patu resolveu matricular Joãozinho na Escola Operária, da Sociedade Beneficente dos Artistas Juazeirenses.
Professora Lourdes Duarte, hoje com 91 anos, tinha terminado de se formar:
«Um dia me levam dois meninos -- Zé Eurico [irmão de João Gilberto] e João, que era um capeta em forma de guri!
Era um menino muito irrequieto.
às vezes ele botava a cadeirinha assim, um pouco isolada, pra ver se eu podia trabalhar.
Só que eu disse: -- '
Sabe dona Patu, num dá não!
Joãozinho é diferente dos outros meninos!
Arrume outro lugar pra ficar educando ele, que eu não vou enganar a senhora, ele num tá aprendendo nada com mim, porque ele é diferente! '».
Dona Patu, que já tinha inclusive comprado a farda de Joãozinho, não gostou nem um pouco de tirá-lo da escola.
Muito tempo depois deste acontecimento, professora Lourdes diz ter ouvido de João Gilberto numa das famigeradas vindas de ele a Juazeiro:
«Eu dei muito trabalho para a senhora não foi professora?"
O certo é que, todos sabiam, ele se sentia muito mais à vontade com um instrumento na mão.
Ademais, «naquele tempo de Carmem Miranda, toda cidade queria ter um conjunto como o Bando da Lua», afirma Bebela.
O espírito da época -- com os famosos conjuntos musicais que embalavam as audiências das grandes rádios brasileiras, como os Demônios da Garoa, Os cariocas, Quatro ases e um Coringa, Anjos do Inferno, Namorados da Lua e tantos outros -- foi decisivo para que quatro juazeirenses amantes da música se reunissem em torno do serviço de alto-falante da cidade.
Um violão, um tamborim, uma cabaça e muitos sonhos.
Assim surgiu o quarteto «Enamorados do Ritmo», integrado por Pedrito, Alberto, Walter Souza e João Gilberto.
Por incrível que pareça, João Gilberto não era nem de perto o destaque do grupo.
«O solo vocal e o violão eram espaços dominados por Walter Souza -- a voz mais bonita do grupo e o único que dominava a magia do violão», afirma Joselino de Oliveira, autor do livro «De o alto-falante removeme».
Walter Souza, que morreu em São Paulo no dia 29 de maio deste ano, participou do movimento básico que criou a Bossa Nova.
Entrou para a história da música brasileira como Walter Santos.
Em aqueles idos, segundo afirmam algumas pessoas, João Gilberto andava despojado e inclusive concedia entrevista.
Joselino, com sua memória prolífica, lembra de ter visto João antes do lançamento das músicas da " Bossa Nova.
«Ele andava na rua de calça jeans, óculos de grau, cabelo baixinho.
Chegou a dar entrevista ao serviço de alto-falante da cidade».
Joselino ficou surpreso ao saber que João Gilberto fará quatro apresentações em comemoração aos 50 anos da " Bossa Nova.
«Vou dar um jeito de ir pelo menos para Salvador», afirmou ele.
Fred disse que irá para duas apresentações:
São Paulo e Salvador.
«Tem uma música que não pode faltar:
você sabe qual é, né?».
Com certeza Fred, todo mundo sabe ...
Número de frases: 81
Número de frases: 0
Cheio até a borda, o martelinho virou bola de cristal.
Resolvi acordar um monstro verde que estava adormecido.
Ele, assustado, até mais do que eu, cuspiu uma risada de fogo.
Os monstros, Ana, nem sempre queimam a gente por que querem, as vezes, é só susto!
Tinha umas barbatanas coloridas de barata.
Mas não era feio.
Não, não era.
Era um monstro bonito.
Um monstro que eu amava.
Os olhos, Ana, eram quase amarelos, e chorara lágrimas de dor.
Tinha um espinho na pata.
Penso.
Se ele tivesse me pedido.
Se ele quisesse que eu arrancasse ...
Ah, sim, teria arrancado.
Mas ele se achava ' muito monstro ' e não precisava de uma menina boba feita de núvem.
Eu, do jeito que sou, gritei com ele.
Disse que devia engolir o reino, devia comê-lo inteiro.
Sem água!
Trancou-se no armário e nunca mais me ligou, nunca mais falou com mim.
Eu, fiquei do lado de fora, um quanto tanto arrependida ...
Ele não me ligou.
Nem sequer respondeu o email, que tão sofridamente mandei.
Responder seria um sinal, mas ele não fez nenhum.
Então fiquei.
Hoje ele caminhou até a sala, com a pata inchada.
Com a cara toda inchada.
Eu, que já tinha chorado sozinha por a ingratidão do monstro verde, por o egoismo de ele, fui lá e o acordei.
Sim, sim, o monstro era sonâmbolo ...
caminhava, mas, na verdade, dormia (!)
Em o susto, fez o que fazem os monstros:
cuspiu-me fogo.
Me queimei e sai chorando, por dentro.
Por dentro.
Que por fora, chorava ele.
Disse pra mim que sou demais briguenta, e nem reconheceu que amava a menina besta de núvem.
Eu, sim, toda queimada disse na cara de ele:
essa é minha natureza!
Número de frases: 38
(natureza essa, que guarda grande amor por o monstro) Ceará.
O ano é 2007.
Agora. O grupo de hip hop Costa a Costa acaba de lançar sua mixtape, disponível em CD.
É -- não tenho nenhuma dúvida -- um dos documentos mais contundentes, impressionantes e acachapantes sobre a realidade brasileira contemporânea (como se ler jornal não fosse suficiente ...)
É um Sobrevivendo no Inferno traduzido para o Século XXI -- e é preciso constatar:
o inferno piorou muito.
Lá na faixa 21 (são 23 no total), um dos vários interlúdios do disco, o rapper anuncia:
«a prefeita diz que eu tô na cidade do sol."
Uma voz totalmente debochada comenta:
«quem tem boca diz o que quer ..."
Volta o rapper:
«a PM diz que eu tô na cidade do pó."
O deboche:
«fala o que pode ..."
O rapper novamente:
«os gringo diz que eu tô na cidade do sexo».
A resposta é uma gargalhada.
«Eu não queria nada disso."
Resposta: " mas é o que é."
«Eu só queria fazer disso aqui a cidade da grana / Seja bem-vindo / Fortaleza, tá ligado?
/ Isso aqui é dinheiro, sexo, drogas e violência."
Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência -- esse é o título da mixtape.
O título é repetido dezenas e dezenas de vezes durante os 79 minutos e 57 segundos do CD.
Parece um mantra do mal.
Dá um incômodo danado ouvi-lo, o tempo todo, sem que ao mesmo tempo surja a voz da razão para repetir também:
não queremos nada disso (ou o que seria melhor: apontando a solução para tudo isso).
O início do disco chega a ser ainda mais infernal.
Uma voz sintetizada e desacelerada (parece estilo «screwed and chopped» do rap de Houston, Texas) dialoga com um pobre mortal, um guerreiro.
A voz:
«eles estão caçando você / eles estão fugindo da luta."
Resposta: " vou derrubar esses filha da puta."
A voz:
«eles querem que você entre no jogo de eles / não entra!
/ lembra de onde você vem / cê tá na rua / qual a idéia que rola?"
Resposta, como não podia deixar de ser:
«Dinheiro, sexo, drogas e violência em qualquer lugar."
Voz: " eles estão dizendo que você está errado / fala pra eles o que é o bagulho."
Voz repete, martelando, para ficar bem claro:
«Isso aqui é dinheiro, sexo, drogas e violência de Costa a Costa!"
Então alguém grita bem alto:
mixtape! E começa uma mistura poderosa e violenta de hip hop (estilo bounce de Nova Orleans, ou crunk de Atlanta / Memphis) com brega (Sidney Magal!),
salsa, Perez Prado, carimbó e reggaeton, quase tudo muito dançante mas sem perder o ar soturno jamais.
A produção -- acho que assinada por o grupo todo (não consegui ter acesso à ficha técnica -- mas sei que as músicas, com as interferências de barulho bom da mixtape, ficaram bem mais interessantes que quando sairam nos outros CDs) -- é uma das mais criativas da atual safra musical brasileira, em qualquer estilo.
E é também uma injeção de energia / ousadia na sonoridade do hip hop nacional.
A mixtape não segue nenhuma regra, não copia Dr. Dre ou Timbaland, não tenta soar como um CD qualquer da família Wu-Tang.
Fazia falta ouvir algo assim -- tão surpreendente -- por aqui.
Não somente aqui:
lá também.
Sempre achei que as experiências sonoras do rap eram tão radicais politicamente como o seu discurso poético.
Mas lá no início dos anos 90 perdi um pouco o interesse nos novos lançamentos, pois tudo me parecia seguir uma fórmula já testada inúmeras vezes, sem risco nenhum a não ser o de virar o primeiro lugar nas paradas americanas.
Coincidência:
a mixtape do Costa a Costa bateu no meu CD-player no mesmo momento em que estou lendo um livro sensacional, obrigatório para quem se interessa por hip hop (tomara que algum dia ganhe uma tradução brasileira).
Chama-se Third Coast -- Outkast, Timbaland & How Hip-Hop Became A Southern Thing, e foi escrito por Roni Sarig.
Comprei de olho num capítulo sobre o Miami Bass, pois há pouquíssima coisa séria escrita sobre essa música que é a mãe do funk carioca.
Aprendi muito lendo a história de como o subgrave conquistou a Flórida.
Não percebia direito como, nos anos 80, os bailes do Rio eram totalmente atualizados com as novidades de Miami:
o disco saía lá e já era sucesso aqui.
Mesmo o Two Live Crew (que no Rio deu até na Melô da Mulher Feia) ficou famoso aqui antes de ser popular por lá.
Gostei tanto do estilo desse capítulo que passei a ler os outros, que mostram como o hip hop atual está dominado por cidades do sul dos Estados Unidos e não por Nova York ou Los Angeles.
Os números são avassaladores:
em 2006, entre um terço e metade de todas as canções que entraram para a parada Hot 100 da revista Billboard (a parada mais importante dos Eua) é de bandas do hip hop sulista.
Não sabia nada disso.
Não conhecia também a história do rap de Atlanta, Memphis, Nova Orleans e Houston, as principais cidades produtoras dos novos gêneros pós-gangsta.
Fui escutar / ver tudo (ainda bem que existe o YouTube) e me arrependi do tempo que perdi achando que nada de interessante estava acontecendo naquele mundo.
Mas fiquei mais surpreso de ver outra triste história se repetindo em todas as cidades.
Grande parte dos mais criativos músicos dos vários lugares, alguns muito famosos e milionários, morreu de forma violenta, geralmente vítima de tiros.
Realmente é dinheiro, sexo, drogas e violência em todos os guetos.
A crônica cruel de uma juventude que teve vários de seus ídolos exterminados por uma guerra urbana / social absolutamente sanguinária.
Parece o Uivo, do Allen Ginsberg, só que encenado por quem estava «do outro lado».
Alguém se lembra como o poema começa?
«Vi os expoentes da minha geração destruídos por a loucura».
Mas logo no segundo verso aparecem «as ruas do bairro negro» onde esses expoentes iam buscar a «dose violenta».
Agora a destruição acontece «nas ruas dos bairro negro», entre os expoentes negros, e» ninguém " ouve falar de suas mortes ...
Apesar dos milhares de uivos, altíssimos, em todos os raps ...
Mas estou me perdendo na geografia?
Parece que estou muito longe de Fortaleza ...
Em a verdade tudo é tão perto ...
Fortaleza é a Houston brasileira, misturada com a latinidade de Miami / Nova Orleans?
Para o Costa a Costa, o Nordeste é «o gueto do gueto».
O discurso moldado nas periferias paulistanas (mesmo todas as gírias, as centenas de «tá ligado» ou o firmão etc.) chega por lá e passa a ter um outro sotaque, ganhando um outro sentido, onde a luta contra a miséria é muito mais barra pesada.
Qual o sentido do 100 % negro em Fortaleza?
É possível falar de um 100 % nordestino?
Em cotas para os nordestinos?
E os nordestinos ricos, o que fazer com eles, entram para as cotas também? ...
Tudo se complica:
há a tentativa de transplantar para o Ceará a visão do mundo criada no Capão Redondo, mas problemas vão escapando por todos os lados, e novas possibilidades aparecem:
«Ninguém lembrou do Nordeste na fita, e eu tô aqui» (versos de Em o Melhor Lugar).
«Você vem do Nordeste?
/ Você tem a força que eles nunca vão ter / não espera por ninguém / quem é pra tá aqui, já tá " (Interlúdio do Gueto Para o Gueto).
Tô aqui para dizer o quê?
Força pra quê?
Apenas para constatar o fim de tudo?
A capa da mixtape explica:
«faixas extraídas da vida real dunego de 11/2006 a 04/2007».
Realmente: tudo é reportagem da vida cotidiana de quem foi criado no gueto do gueto, e tem que dar um jeito, qualquer jeito, para sobreviver a cada dia.
O personagem principal da maioria das letras é o «caçador de grana rápida», desesperado atrás de onças (notas de 50 reais), o bandido armado, o jovem cheio de energia que sonha em ter imediatamente, nem que seja por um tempo brevíssimo, o que lhe é vendido como o bom da vida.
Quase todas as letras são escritas do ponto de vista desse personagem, retrato / relato do pensamento confuso (como não seria?)
desse personagem.
É «stream of consciousness» de quem não teve escola boa e vive em favela de nova grande cidade nordestina, em época da tal metástase:
«eu também sonho com a Revolução / mas hoje eu tenho a cobrança, meu irmão» (Não é Fácil).
Ou: «às vezes eu penso em parar com esse bagulho / às vezes eu penso em virar o Escobar desse bagulho» (Não é Fácil).
Ou: " eu não quero cozinhar crack, primo / mas eu quero andar de Nike, no style / mas eu quero as gata / eu quero as nêga com várias das de dez / quem não quer?" (
Necessário) O que resta é fatalidade, mas fatalidade descontrolada (se isso é possível ...)
Tá tudo dominado, tudo interligado, e todo mundo é culpado;
ninguém escapa.
O panorama desenhado por o conjunto das letras é sufocante, dá vontade de sair correndo, mas correr para onde?
«Isso não tem a ver com o que você ama / tem a ver com o que não se tem quando não se tem grana» (Necessário).
Mas se você não tem grana, alguém tem:
«qualquer lugar tem lugares pior / no melhor lugar, só vai ter lugar para o melhor» (Em o Melhor Lugar).
E é óbvio:
o melhor só existe porque também existe o pior e vice-versa.
O rap de Necessário fala do traficante de armas, que vende as armas para quem depois vai matar seus parentes.
O negócio é todo «efeito dominó», uma cadeia de problemas:
«a solução do seu problema vira um problema para alguém e assim vai «ou» todo dia tem alguém arrumando um problema que vai virar um problema para mim» (O Mundo é Nosso).
O ouvinte pode pensar:
«não quero escutar isso, isso é apenas a glorificação da falta de possibilidade de transformação:
acaba na justificação complacente da bandidagem."
A intenção do Costa a Costa parece ser fazer denúncia:
esfregar na cara de todo mundo:
olha a que ponto chegamos.
O rap quer repetir o tempo todo:
para mudar é preciso levar tudo isso em consideração, é preciso encarar de frente o emaranhado de problemas brutais, sem ilusões, sem dourar nenhuma pílula.
Essa estratégia é eficiente?
Pode mudar alguma coisa?
Ou apenas sucumbe na indignação por a indignação?
As letras são contraditórias com relação a essa e muitas outras questões (uma hora diz " não entre no jogo de eles!"
para no verso seguinte constatar que não há outro jogo ...)
Segundo o personagem que fala na maioria das letras, não dá para julgar ninguém.
Ele nunca ouviu falar em ética, nunca sentiu o cheiro de atitude ética.
A maneira como percebe a realidade é através do pior, do muito pior:
todos contra todos, no estilo pesadelo de " Thomas Hobbes:
«o que fazer, quando seu irmão quer fuder você / quando o mundão quer fuder você / quando ninguém acredita mais em ninguém» (Justificativa).
Boa Noite Cinderela é a narrativa da estratégia de uma prostituta cearense para roubar um gringo:
«ela é do gueto, mas mexe bem / o que tem de errado?
/ ela usa o que tem / ela gosta quando rola os dólar / ela gosta de coisa boa».
Aqui tudo fica ainda mais explícito, didático:
«a gente não é só crime e futebol / a gente quer as jóia e o brilho do sol / eu não tô falando nada complexo / eu sou jovem e quero grana e sexo / eu tô errado, nêga?
/ eu sou sincero, nêga / eu sei a regra do jogo / não sou otário, nêga / no meio da guerra, o nêgo tira uma onda / é selva, mas tudo por as onça / mesmo lutando e com o mundo inteiro contra / a gente vai pegando uma grana / eu ainda não tenho o carro da propaganda / mas eu saio com a gata da escola de samba " (Ela Mexe).
E quem, no meio de tanto escândalo e corrupção, vai dizer que a regra do jogo da maioria não é essa mesmo?
Se colocado contra a parede, o rap teria a resposta pronta:
«os filha da puta quer julgar você toda hora / eles dizem que não tem justificativa / mas eles têm justificativa para os crimes de ele, né?"
E acrescenta, filosófico, irônico, deixando o interlocutor com cara de tacho:
«eu não tô dizendo que tá certo ou tá errado / quem sou eu?
/ eu tenho mais perguntas que respostas " (Justificativa)
São tantos trechos de letras para comentar, que fico submerso aqui nas minhas anotações.
Como já disse:
sobre cada tema, há muitos exemplos, vários contraditórios entre si.
O início de Ela Mexe também precisa ser citado:
«enchendo de dióxido, de veneno / é o novo milênio / aproveita o fim do oxigênio / tá pra acabar essa porra / mas até acabar, quero tá vivendo legal».
É assim mesmo:
«a vida é puta, mas hoje tá bom / só quero paz e uma grana no banco».
Porque, o tempo todo, tudo pode ficar pior:
«talvez eu esteja na cela amanhã» (Não é Fácil).
O que mais chama a atenção na seqüência das músicas é a briga entre o niilismo dominante das letras e a festa sonora do acompanhamento.
Ela Mexe, por exemplo, é uma inebriante fusão de carimbó com reggaeton.
Mesmo com timbres sinistros, é fácil dançar.
E não é só um clima de baile na Ilha Fiscal.
Há uma opção afirmativa na programação rítmica.
Há também, por parte da banda, a convicção de que o hip hop -- mantendo a sua integridade -- tem que se tornar uma indústria musical tão poderosa quanto o novo forró (Regina Casé aparece na mixtape em trecho sampleado da entrevista com o Costa a Costa no Central da Periferia que fala justamente isso).
E além disso, há aquela espantosa alegria de estar vivo, que pode ser encontrada em todos os guetos, nas situações mais miseráveis.
Então no meio de tudo, aparece uma letra como Vive Agora ...
É um manual de auto-ajuda do gueto, uma mistura dos conselhos mais disparatados (o «bem» lado a lado com o " mal "), de maneira febril e frenética.
Alguns trechos, selecionados ao acaso (pois a letra é quilométrica):
tá na merda, luta
tem um pivete, ama
tem champanhe, beba
tá no jogo, joga
quer ser alguém, estuda
tá sem nenhum, rouba
tá com a bola, chuta
ela é gostosa, chupa
o som é bom, aumenta
quer saber qual é, se envolve
tem problema, resolve
se tem um amor, assume
se decepcionou, dispensa
cê quer um amor, procura
cê tem um valor, lembra
te deixou, esquece
se Deus levou, benze
se o coração não parou, então bola para a frente
cê tá perdendo, vira
cê ainda acredita, insista
cê tá crescendo, brilha
cê curte a vida, vive
cê tá atrasado, corra
tá tudo errado, mova-se
cê foi sincero mas não te levaram a sério, foda-se
Julgar? Há coisas ditas neste disco que vão no caminho totalmente oposto daquilo que acredito e valorizo.
Mas reconheço o desespero (mesmo com o estilo foda-se) e o desamparo (junto àquilo que movimentos sociais globalizados chamam de empowerment ...)
com os quais são ditas.
Entendo também que não representam a visão de mundo do compositor:
são descrições daquilo que ele vê o tempo todo, no seu dia a dia, daquilo que ele ouve muita gente falar.
E mesmo assim:
as músicas nem foram feitas para mim, que sou de fora:
«eu faço a rima que o gueto precisa ouvir» (Em o Melhor Lugar).
Eu não estou no gueto. (
Essa é uma outra novidade na música popular brasileira:
agora há uma música que, intencionalmente, não é feita para toda a «nação» ...)
Mas não posso deixar de perceber que neste disco (nunca houve disco assim ...
até bem pouco tempo, a regra do jogo dizia que pessoas como as que formam o Costa a Costa não tinham direito de falar nada, quanto mais lançar um disco ...
como diz o rap de Mel e " Dendê Remix:
«uns nasce pra fazer regra / e nós nasce pra quebrar ") está a mais cruel descrição de nosso impasse coletivo atual, meio tudo o que a gente não queria que fosse, mas tem que reconhecer que é, e que só com uma luta enorme vai mudar (eu não perco meu otimismo -- e para saber o que me deixa otimista, basta ler muitos de meus outros textos aqui no Overmundo).
Indignado com esse mundo, eu?
Claro. Mas sou também como rapper do Costa a Costa neste verso:
«tenho mais perguntas que respostas».
Depois desta mixtape, minhas perguntas ficaram bem mais longe das respostas.
Sou só perplexidade.
Número de frases: 208
Sem sombra de dúvidas a História veste-se da maior pureza que há para assim tratar de seus processos, pode se questionar como o homem tem manuseado a historiografia, mas, Ela, em sua essência, sempre será verdadeira, criteriosa e sucessiva em seus afazeres, ou seja, causa e conseqüência.
No entanto, sabemos que o homem cria, recria, constrói e infelizmente destrói ao seu bel prazer.
E ai leitor você me questionaria, mas a história sem o homem, não existe, pois é ele objeto da história, parte integrante De ela.
E eu lhe repondo:
a História tem sua autonomia, ela é viva, consciente de seu papel e o homem pode até apropriar-se de ela de forma brutal, mas jamais a história deixará de revelar e cumprir o seu verdadeiro papel.
Ela nunca se omite, no entanto em certos momentos, períodos, os homens não estão preparados para conhecer determinadas realidades e quando estiverem com padrões de conhecimento adequado será oportunizado um instrumento ou acontecimento capaz de esclarecer, apontar, discutir e disseminar tal fato.
Veja bem, no currículo de história, comumente tem sido abordada a questão étnica da formação populacional do Brasil.
Sempre se tratou do conteúdo, no entanto em cada época a visão do tratamento vem moldando-se.
Em o passado, alguns livros didáticos apresentavam o negro de forma severamente preconceituosa, depois passou a ser apresentado de forma mais amena, no entanto com preconceitos camuflados e nos últimos anos temos buscado conscientizar da importância e do papel do negro na história de nosso país, mostrando que independente da cor que temos hoje, somos negros, brancos e índios.
Lembrando que não se pode exigir algo sem antes ter oportunizado o conhecimento daquilo.
Como querer que uma população reconheça o papel fundamental do africano na constituição social, política, econômica e cultural do Brasil, se ele próprio enquanto descendente não se reconhece.
Como exigir de uma população que sempre foi educada com visão preconceituosa por os seus educadores, mudarem de perspectiva de uma hora para a outra, isso leva anos.
Historicamente sempre tivemos uma postura permissiva de descriminação e racismo que atinge toda a população afro-descendente, veja a citação do Decreto nº 1331 de 17/02/1854 -- «estabelecia que nas escolas públicas não seriam admitidos escravos, e a previsão de instrução para adultos negros dependia da disponibilidade de professores e assim sucessivamente», apenas com a constituição de 1988, 134 anos depois, o Brasil busca efetivar a democracia e diminuir o racismo e o preconceito, digo diminuir, pois acabar totalmente é ainda, um tanto utópico.
Com a Lei 10.639, de 09 de janeiro de 2003, institui-se a obrigatoriedade do ensino da História da África e dos Africanos na educação básica.
Teve-se que implantar uma Lei, objetivando que não mais ocorra uma má formação histórica em relação à etnia africana.
Já que o erro foi cometido com nós educadores em nossa formação, e hoje, conscientes de nosso papel, busquemos agir, entendendo a Lei a colocando-a em prática.
Com certeza, os nossos educandos serão cidadãos menos preconceituosos que nós, pois entenderão a história da África, bem como a importância do africano formador de uma nova sociedade, miscigenada de cultura, de cor, de práticas, de raças, de credos e de uma beleza inigualável, Brasil pátria do mundo.
Número de frases: 17
Olhar de Águia
Cada pessoa tem uma história ...
uma longa história tecida com o fio da vida ...
de muitas vidas ...
Em esse tecer vamos fazendo muitas coisas bonitas ...
vamos aprendendo muitas coisas ...
descobrindo sentimentos ...
amor ...
Mas com esse mesmo fio tecemos coisas
não tão bonitas ...
das quais mais tarde nos arrependemos ...
É onde o tecido fica cheio de nós e nos sentimos muito culpados por esses
pedaços da trama ...
Tentamos até arrebentar o fio pra que ninguém saiba desses pedaços que preferimos
esconder até da gente mesmo ...
Só que o fio da vida não pode ser arrebentado ...
ele fica tecido ...
E nem tem como esconder essas partes das quais nos arrependemos ...
não tem como apagar esse pedaço da nossa história ...
Mas existe uma coisa que podemos fazer ...
Se olharmos para nossas vidas e pra todas
as vidas com os olhos da águia ...
que é o único pássaro que olha diretamente
para o Sol e que vê de cima,
com uma visão ampla, o plano maior ...
vamos ver que no tecido das nossas vidas,
existe uma luzinha que está mais
forte em alguns pontos ...
justo naqueles pontos onde demos os nós
que tanto nos fazem sentir culpados ...
É que sempre onde tem sombra,
tem luz esperando pra ser liberada ...
Então ...
ao aceitarmos a nossa humanidade com Amor e Perdão ...
vamos aos poucos e com cuidado ...
desfazendo aqueles nós e tirando o aprendizado
contido naquelas histórias ...
Sempre com Amor ...
E a partir daí ...
com os fios que liberamos ...
vamos tecer uma linda história ...
um bonito tecido de luz e amor com aquele fio
que ficou então disponível pra um novo tecido ...
só que agora ele está enriquecido com Sabedoria e Amor ...
O fio da vida se tornou mais bonito por a certeza de que tivemos a coragem de viver
o que era a nossa história ...
O que vamos construir a partir daqui ...
traz então um gosto de Esperança e um cheiro de amanhecer ...
porque essa nova história é tecida por mãos
que agora relembram os caminhos do Amor ...
Número de frases: 50
(Rubia Americano Dantés)
Há quase uma década, ' pop-rock-quicamente ` falando, Natal não passava de belas lembranças de férias, praias e passeio de buggy nas dunas.
Estrategicamente posicionada:
longe do eixo Rio-São Paulo, porém o ponto das Américas mais próximo dos continentes africano e europeu, a alimentação básica da cidade ainda era a música cover e o que o resto do Brasil conhecia mesmo era a «pulga e o percevejo» do Gilliard e «a Feiticeira» de Carlos Alexandre.
Mesmo a meteórica passagem dos norte-americano por a cidade (durante a Segunda Guerra Mundial), que deixou o nativo sem lenço nem documento e roqueiro, não foi suficiente para tornar o RN um estado exportador de talentos desse tal de ' roquenrou '.
Claro que muita coisa rolou, ótimas bandas foram formadas e desfeitas ao longo dos anos;
a música instrumental já tinha atravessado o Atlântico na carona de nomes como o do pianista Hianto de Almeida (um dos pais da Bossa Nova) e do clarinetista K-Ximbinho, fera do samba, do choro e do jazz brasileiro nos anos 1940 -- a dupla prova que o RN é um celeiro de bons instrumentistas até, e principalmente, nos dias de hoje.
Depois dos primórdios
Essa história começou a mudar nos fim dos anos 1990, quando em 1998 o Festival Música Alimento da Alma (MADA) deu as caras pela primeira vez.
Acanhado em baixo de uma lona de circo, com entrada franca e programação Frankenstein, o Festival Mada promoveu o mais importante:
a interação.
Não que o evento seja o salvador da pátria, longe disso, ia acontecer de qualquer jeito, mas era a primeira vez que a mídia especializada nacional nos dava atenção.
«Em o começo ainda não tínhamos um formato, atirei para todos os lados:
de música regional à hardcore, tudo no mesmo palco», lembra Jomardo Jomas, idealizador do festival.
Em a época o circo era armado no largo da rua Chile, Ribeira, bairro histórico da cidade na zona portuária.
Chegando em sua oitava edição (Jomas só pulou 2000, " por motivos pessoais "), a quinta com patrocínio e seu conseqüente upgrade na programação e na estrutura de som e luz, e a terceira longe da Ribeira, mas devidamente inserido no circuito como um dos festivais de música independente do Brasil:
já passaram por o Mada, antes da fama vamos dizer assim, os Detonautas (RJ), Cabruêra (PB), Sonic Jr. (AL), Eddie (PE) e recentemente a Pitty (BA), que este ano volta como atração principal ao lado de Nando Reis, Cachorro Grande, O Rappa, Pavilhão 9 e Biquíni Cavadão.
Bons contatos e quem sabe ser ' descoberto '
A intensa maratona de 31 shows (contando os seis principais), com bandas independentes de todo o País, mais tenda eletrônica com 18 DJs, irá sacudir a arena do Imirá na Via Costeira -- avenida beira mar onde se concentram os principais hotéis da cidade -- nos próximos 4, 5 e 6 de maio.
«Não é o lugar ideal, aquele que sempre sonhei para o Mada.
Perdemos um pouco em identidade, mas ganhamos espaço.
A rua Chile não comportava mais o evento», garante.
«Meu sonho era fazer numa fazenda, uma espécie de Woodstock organizado», diverte-se.
Este ano as atrações foram escolhidas a dedo:
foram mais de 700 inscrições, muitos escolhidos outros convidados;
um apanhado significativo do pop-rock nacional que ainda luta por um lugarzinho ao sol -- tem banda das bandas do Pará, Acre, Pernambuco, Paulo, Janeiro, Paraíba, Gerais e Rio Grande do Sul, sem falar nas natalenses.
Em o Rio de Janeiro, seletivas locais peneiraram dois grupos no meios de 150.
«Sem dúvida pensamos em expandir para outros lugares, fazer do Mada um evento nacional», aposta Jomardo, que também atua como executivo da revista Laboratório Pop -- por isso a ligação com o Rio.
Entre as escaladas para 2006 estão as cariocas Moptop, Cabaret e Tantra, Cansei de ser Sexy, Daniel Belezza e Banzé!
de São Paulo, Coletivo Rádio Cipó de Belém do Pará, Macaco Bong do Mato Grosso, Volver de Pernambuco e Los Porongas do Acre.
Os potiguares d' Os Bonnies, DuSouto, SeuZé e Agregados repetem a dose e figuram no pelotão principal.
O MC Neguedmundo, com trabalho sólido na cena em outros grupos, promete surpreender no lançamento de sua carreira solo.
The Automatics e Revolver lançam CD no festival, Montgomery marca presença pela primeira vez com seu britpop anos 1980 e o Zero8Quatro também volta a atacar com uma sua pegada rock.
Com a faca e o queijo na mão, resta ao público saborear o cardápio.
As bandas também não tem do reclamar:
Número de frases: 35
tremenda estrutura e um pelotão de jornalistas e olheiros ávidos por novidades.
Uma clareira no meio da selva, uma babel de pessoas vindas de todos os lugares do mundo.
Assunto para a fotografia do norte-americano Dana Merrill.
São de ele os primeiros registros fotográficos em Rondônia, durante a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, entre 1907 e 1912.
Um século depois, um movimento sem nome, espontâneo, como define Luiz Brito, fotógrafo e documentarista, lança seus olhares sobre as pessoas, as atitudes, as paisagens e sentimentos dessas bandas da Amazônia.
Brito é uma verdadeira enciclopédia da arte de copiar a luz num papel.
Ao lado de Beto Bertagna, Mário Vrener e Walteir Costa, é do seguimento artístico da fotografia no Estado, especialmente em Porto Velho, onde há maior agitação cultural.
«Há ainda os fotógrafos do glamour, da publicidade, do foto jornalismo e do cinema», explica ele.
Mas para esse artista, cuja brancura dos cabelos revela algo mais que o simples clicar de uma máquina, mostra o sentimento que pinta o papel em branco e preto, do jeito que gosta, fotografar como arte é uma espécie de sacerdócio.
Não despreza a fotografia digital e sua rapidez, mas vê no P&B o charme e a beleza que não se degradam com o tempo.
Voltando cem anos, lá nas fotografias de Merrill, veremos uma Porto Velho insipiente, tomada por as doenças tropicais, como a malária, a febre amarela e o beribéri, registros esses feitos também nesta época, por o sanitarista Oswaldo Cruz, que aqui não viu mais que «um antro cheio de podridão», como relatou.
As fotografias de Dana foram esquecidas, durante muito tempo não se teve notícia das imagens produzidas por o americano contratado por a Madeira-Mamoré Railway, empresa dos Estados Unidos que executava a obra da E.F.M.M. Foi o jornalista Manoel Rodrigues Ferreira, que ao ter contato com essas fotos, tornou-as conhecidas em todo país com o livro Ferrovia do Diabo (1960).
Negativos, ainda em placas vidro, foram levados para São Paulo por um dos antigos engenheiros da ferrovia, e lá ficaram esquecidos, até serem encontrados por o fotógrafo Ari André, do Jornal paulista A Gazeta, que as mostrou a Manoel Rodrigues.
Beta Bertagna, em 1997, deu o mesmo nome do livro ao seu documentário de 25 minutos, e utilizou muitas das fotografias de Dana para ambientar e ilustrar suas tomadas.
O desafio no inferno verde virou referência em termos de imagens sobre a Ferrovia do Diabo, tudo graças aos centenários registros do nova-iorquino, que teria abandonado o trabalho em Porto Velho depois de ser perseguido por uma onça no meio da floresta.
Luiz Brito reclama da falta de incentivo e de espaços para a exposição dos trabalhos:
«Ainda não vivemos da fotografia», diz.
Ainda assim, o trabalho do fotógrafo já foi exposto na Áustria e na Espanha, além de exposições aqui mesmo em Rondônia, e das fotos no livro Revelando Porto Velho, organizado por Brito, que reune imagens suas e de outros artistas.
A obra foi editada em 2004.
Beto Bertagna também faz exposições e filmes, como o já citado documentário Ferrovia do Diabo e A bailarina da praça (1998) e O número (2004), ficção de 12 minutos, estrelado por Othon Bastos.
Em o ano de 2000, as fotografias de Dana Merrill foram adquiridas por o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDS) e doadas ao Museu Paulista da Universidade de São Paulo (o Museu do Ipiranga), onde a saga da Madeira-Mamoré permanece imortalizada.
Uma certeza há entre os vanguardistas da fotografia em Rondônia:
Número de frases: 22
não há mercado, incentivo e espaços para este trabalho, mas o amor ao que se faz e o empenho em buscar enquadramentos mais adequados, a procura por a luz perfeita, o momento adequado para o clique, o abrir e fechar de lentes, tão rápido, tão sincero, fará ainda surgir um retrato ampliado desta arte em Rondônia, com ângulos maiores, emoldurado por a sensação de que, foto a foto, será contada nossa história num álbum de poesia e beleza.
ao Beto Tristão (palmeirense), Dri Azevedo (corintiana),
Jão (santista), Léo (tricolor) e Kuraudo (japonês!).
«O intelectual brasileiro que ignora o futebol é um alienado de babar na gravata» (Nelson Rodrigues.
à sombra das chuteiras imortais:
crônicas de futebol.
p. 134)
Época estranha esta que estamos vivendo, não?
Ou você já havia se imaginado discutindo nossa provável extinção por conta da destruição da natureza, em todos os sentidos?
Nem os autores dos desenhos animados nem dos filmes que eu assistia na infância eram tão catastróficos.
Mesmo na ficção geralmente achava-se o culpado (sempre único), e a humanidade -- incluindo eu -- podia respirar aliviada.
Agora não, além da ameaça ser real, são seis bilhões de culpados -- incluindo eu, mais uma vez.
Não me sentia tão culpado assim desde o dia 27 de março de 1993, quando entrei no Morumbi para ver o São Paulo Futebol Clube jogar contra o Maradona -- claro, acompanhado de outros dez jogadores do Sevilha.
Lembro que meu tio Miguel, um palmeirense que por volta de 2003 revelou ter visto o Di Stefano como eu vira o Maradona, me levou para assistir o amistoso.
O São Paulo F.C., sob o comando do mestre Tele Santana, havia se consagrado campeão mundial pela primeira vez em 1992, e aquele era o melhor time do tricolor que até hoje (2007) eu vi jogar.
Está claro:
fui ver o São Paulo e o Maradona.
Acontece que quando o craque argentino entrou em campo saudando o público, eu -- novamente eu!--
berrava que a mãe de ele era como uma dessas senhoritas que passam a noite na Rua Augusta, aqui em Sampa, convidando os rapazes a entrar em animados bares ali localizados (como pude verificar pessoalmente alguns anos depois).
Meu tio, sensato, apenas aplaudiu o craque.
Juro que não era minha intenção xinga-lo.
Acontece que, como bem observou Nelson Rodrigues (um profeta, como se verá adiante):
«o sujeito vai para a arquibancada, que além de ser a pátria do palavrão é uma pátria da piada, uma pátria das graças que vêm das profundezas de nosso querido povo.
A pessoa fica criando, inventando até palavrões». [
2] E ainda segundo o mesmo, sem a pornografia e o palavrão, não há a concretização plena do jogo.
Ou seja, aquela era minha pátria, mas a situação era bastante desconfortável.
Mesmo xingando, queria ver uma jogada genial do craque argentino.
Como as que eu tinha visto aos oito anos na Copa do Mundo de 1986.
Seu toque de bola estava perfeito, só faltava o drible.
E eis que de repente, não se sabe de onde, a bola sobra rolando lentamente próximo ao meio campo.
Momento quase silencioso, onde ouvíamos apenas os batimentos cardíacos dos atletas:
o craque argentino correndo de peito erguido e no momento em que ele estava a um milímetro da bola chegou, antes, num carrinho cortador de grama e expectativas, o meio-campista tricolor Pintado, ¼ de milésimo de segundo antes que Maradona conseguisse tocar a bola e dar-lhe um drible desconcertante.
Foi o único momento desde a criação do Universo que torci contra o tricolor -- que na ocasião ganhou por 2 x 1. Pintado matou o drible de forma limpa, providencial, com o bico da chuteira.
Não estivesse ele com um número a mais no seu calçado e não teria alcançado a bola, e hoje seria um mero coadjuvante do lance.
Sei dos detalhes porque estava na numerada inferior, próximo ao escudo do tricolor, rente ao gramado, praticamente cara-a-cara com os jogadores, quase disputando o lance.
Acontece que atualmente estão matando o drible ainda fora do campo.
É só assistir a qualquer programa sobre futebol que o assunto vem à tona.
Trata-se da maior contradição da História:
o drible agora é o anti-jogo e já existem infinitas categorias para ele, com variadas penalidades para quem comete este novo crime hediondo.
Dizem que só terá chance de absolvição quem o fizer com a finalidade comprovada de concluir para o gol.
E quem ousar aplaudir a jogada-crime ou soltar o irresistível oooooolllééé!!!
será preso, enquadrado na lei antiterrorismo e torturado com sessões intermináveis dos campeonatos português, alemão, inglês e japonês, bem ao estilo Stanley Kubrick no clássico Laranja Mecânica -- claro, sem nenhuma referência ao escrete holandês.
Está lá no Código Penal e todos estão empenhados em punir (exceto os gandulas, ainda subversivos):
zagueiros, juízes, bandeirinhas, treinadores, torcedores, pipoqueiros, cambistas, policiais, cronistas etc, etc..
Os cronistas principalmente.
Recorro novamente ao profeta Nelson Rodrigues, em crônica de 1966:
«Amigos, há na Divina Comédia, um lapso indesculpável.
É que no inferno dantesco não aparece um único e escasso cronista esportivo. ( ...)
Mas se Dante o esqueceu, só nos resta esperar que o rapa ou a carrocinha de cachorros o lace na rua». [
3] E mais:
«Estamos ameaçados por uma burrice ( ...)
a burrice dos que querem que o jogador patrício jogue de quatro e também relinche com sotaque. ( ...)
Pois há uma ' gang ' de bobos querendo que o craque brasileiro troque a arte por o relincho, o engenho por o mugido, a beleza por o coice». [
4] Arrisco-ma dizer que nos dias atuais vivemos um aquecimento global e totalitário.
O clima esquenta no globo e também no gramado e nas salas de imprensa se alguém tenta um drible, um mísero drible.
É a ânsia da produtividade, da meta, da massificação e do pensamento único que substituirá o espetáculo por a «docilidade de focas amestradas», em detrimento da originalidade, da criatividade e das dessemelhanças.
E «no dia em que desaparecerem as dessemelhanças individuais -- será a morte do próprio homem». [
5] O fim do drible é o fim do mundo!
Notas:
[1] Todas as citações foram retiradas de Marques, José Carlos.
O futebol em Nélson Rodrigues:
o óbvio ululante, o Sobrenatural de Almeida e outros temas.
São Paulo: Educ / Fapesp, 2003.
Em as notas seguintes faço referência as obras de Nélson Rodrigues para facilitar eventuais consultas.
[2] RODRIGUES, Nélson.
à sombra das chuteiras imortais:
crônicas de futebol. (
Ruy Castro, org.).
São Paulo, Companhia das Letras, 1993, p. 17 [
3] RODRIGUES, Nélson.
Jornal dos Sports, 17/05/1966.
[4] Idem, 01/08/1966 [
5] RODRIGUES, Nélson.
A pátria em chuteiras:
novas crônicas de futebol. (
Ruy Castro, org.).
Número de frases: 76
São Paulo, 1994, p. 130
Ainda era dia quando eu ia para casa por uma das principais avenidas da zona sul de Natal, Rio Grande do Norte, quando parei num sinal com minha moto 100 cilindradas.
Um carro da polícia estava sobre a calçada e um policial com cara de poucos amigos me encarava.
Sem achar que devia algo, olhei para ele, até que o PM me dirigiu um rugido, perguntando por que o farol da moto estava apagado.
Notei que havia esbarrado no interruptor e ele ordenou que eu descesse da moto e apresentasse meus documentos.
Não disfarcei a minha irritação contra aquele sujeito que ainda me perguntava se os meus óculos escuros eram de grau, já que a minha habilitação diz «apto com lentes».
«Os óculos são de grau sim, o senhor quer experimentar?»,
provoquei. Minha atitude excitou o poder de «autoridade» do guarda que me disse que se eu me irritasse, ele apreenderia minha carteira de habilitação, já que, segundo ele, a luz apagada, mesmo inadvertidamente, lhe dava o direito para tal.
Fui «liberado» e mais uma vez senti a raiva impotente que estes confrontos com a polícia (este não foi o primeiro) me provocam.
Alguns poucos quilômetros a frente, quase chegando à Vila de Ponta Negra, bairro onde moro, cruzo com uma procissão que, propositalmente, interrompe o trânsito, carregando dois toscos caixões com os corpos de um casal de jovens, mortos na noite anterior por causa de uma dívida com o tráfico de drogas.
Não pude deixar de comparar a atitude do policial que, minutos antes, me abordava agressivamente por causa de um farol apagado e a permissividade da polícia em relação ao tráfico de drogas que vitima tantas pessoas nos bairros de Natal.
A relação da sociedade brasileira com a polícia autoritária me parece uma séria questão social a ser discutida.
Mas acredito que tem sido varrida para baixo do tapete faz muito tempo.
Em entrevista ao site ComCiência, Jacqueline Muniz, pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, lembra que " ao longo de quase 160 anos da história das organizações policiais no Brasil estas organizações estiveram voltadas para a proteção do Estado contra a sociedade.
Em outras palavras, desde que foram criadas, até mais ou menos a década de 1970, elas foram, por força de lei, forçadas a abandonar o seu lugar de polícia em favor de um outro lugar, que é de instrumento de imposição da ordem vinda do Estado».
Se a polícia de hoje não defende diretamente um Estado, parece defender os seus próprios interesses, afastando-se cada vez mais da idéia de servir à população, e encarando a todos nós como potenciais suspeitos.
Os faróis apagados são apenas uma desculpa para os PMs reforçarem a sua histórica condição de «autoridade».
Jacqueline Muniz diz acreditar numa solução, já que outras polícias estão resolvendo este problema.
Em a prática, desconfio que esta mudança seja efetiva.
90 % dos londrinos acreditam que os policiais realizam um trabalho «muito bom».
Este trabalho irrepreensível não impediu o assassinato, em julho de 2005, do operário brasileiro Jean Charles de Menezes, 27 anos, num metrô de Londres, confundido com um terrorista porque estava com uma mochila.
Um estudo de âmbito nacional feito nos Estados Unidos revelou que 73 % dos americanos classificam o trabalho da polícia como «excelente» e «muito bom» (Wilson Huang e Michael Vaughn, Public Attitudes Toward the Police, 1996).
Mas quem quiser assistir aos extras do DVD A Cor de um Crime (Freedomland, Eua, 2006) com a declaração de um policial norte-americano, que participa de um programa de bom relacionamento com a população em escolas, pode duvidar da pesquisa.
Em a entrevista, o sorridente representante da lei dos Estados Unidos aconselha as crianças à acatar o que os policiais dizem porque «nós sempre estamos certos, mesmo se estivermos errados, estaremos certos» e, nas entrelinhas, você será preso.
As pesquisas no Brasil vão em sentido diametralmente oposto às realizadas na Inglaterra e Estados Unidos.
Em consulta à população entre os dias 3 e 4 de abril de 1997, o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) concluiu que cerca de 70 % dos brasileiros não confiam «nem um pouco» na polícia.
A maioria acha que a qualidade dos serviços da polícia piorou ultimamente e 92 % disseram ter medo que policiais possam fazer mal a algum de seus parentes.
Talvez seja porque, como o policial norte-americano, a polícia brasileira sempre esteja com a razão.
Número de frases: 28
Vou tentar responder rapidamente a uma pergunta que poucas pessoas que ainda gostam de compreender as coisas têm se feito, já que as ciências aplicadas, como psiquiatria, psicologia e antropologia, têm se restringido a retóricas em torno dos temas que abordam, à medida que se concentram em pequenas disputas de poder institucionais e preciosismos pessoais.
A pergunta é:
O que é a loucura?
E, mais particularmente, o que é a loucura no Brasil?
Vou tentar responder usando um documentário muitíssimo instrutivo, de Marcos Prado, chamado Estamira, sobre uma mulher louca (oficialmente esquizofrênica) moradora de um lixão no Rio de Janeiro.
Para começar, esqueçam o lugar-comum:
a crença mundialmente difundida de que a loucura é uma doença do cérebro, de nome esquizofrenia, e a crença de que quem de ela entenderia seriam os psiquiatras ou profissionais da «saúde mental».
Alguns poucos, raríssimos profissionais, sim, ainda se esforçam para não serem apenas cegos num tiroteio, mas a maioria de eles não entende nada sobre loucura.
São apenas práticos, prescritores de remédios ou de terapias vazias, mas sem compreender a essência daquilo com o que lidam.
Também os antipsiquiatras, psicólogos e antropólogos têm se convertido apenas em ilusionistas, ideólogos, às vezes bem intencionados, que querem salvar o mundo, começando por os loucos, mas pouco entendendo daquilo a que se referem.
Apenas tentam arregimentar seguidores, e muitas vezes conseguem.
O Brasil é um país de messiânicos.
Quem atualmente estuda radicalmente a loucura se envolve com a junção de filosofia ontológica, antropologia filosófica e um pouco de antropologia social e de antropologia biológica, ou evolutiva, mas de um modo que não tem aparecido no academicismo brasileiro, e praticamente em academicismo algum, já que este tem se reduzido a disputas por bolsas, vaidades e dinheiro, com muito pouco além disso.
Em esse percurso, a medicina tem sido entendida apenas como uma «ciência» com técnicas para fins específicos, porém com explicações falsas sobre o ser humano -- embora acreditadas popularmente como verdadeiras (do mesmo modo como popularmente se acreditava em demônios e paraísos celestiais na baixa idade média -- e ainda se acredita no Brasil).
Ou seja, a visão psiquiátrica sobre loucura é, em essência, uma questão de fé.
E as demais visões da psicologia e antropologias que se popularizaram, muitas vezes concorrendo com a visão psiquiátrica, nada mais são do que uma espécie de «reforma protestante» da psiquiatria -- apenas dogmas alternativos, porém nada além de novos dogmas.
O Brasil é um país infestado de loucos em hospícios, nas ruas, amarrados em quartinhos de fundo de quintal, trancados nas delegacias ou estendidos nos IMLs.
Mas muito pouco, por aqui (como tudo o mais), se discute seriamente (se é que dá pra levar discussões intelectuais a sério atualmente) o que vem a ser a loucura humana.
Curiosamente, fui surpreendido por o documentário Estamira, que é justamente interessante por não apresentar voz de narradores ou especialistas da psiquiatria, da saúde mental, da psicologia ou da antropologia brasileira abrindo a boca para explicar o que estava sendo mostrado.
O documentário é apenas a voz de uma louca se auto-explicando, e explicando o mundo que a fez ser como é, e no qual ela vive do jeito que é possível:
bruta, enraivecida, solitária, sofrida, que prefere viver no meio do lixo, cercada de outros restos humanos como ela, do que com sua família;
vendo o mundo como um lugar de violência, conspirações, barbaridades, falsidades, genocídio, em que cada um tem que ser seu próprio herói, seu próprio deus, seu próprio mito e seu próprio guia, auto-construindo seu próprio sentido de vida;
porque tudo o mais além do que a própria pessoa pode inventar para si mesma são mentiras que a levarão no máximo a uma vala comum de indigentes, de bandidos ou de loucos humanizados, medicados e intolerados.
Sei que após a década de 1960 loucura passou a ser sinônimo de «rebeldia», de» transgressão», de «desbunde», de» porralouquice», e muitos bem-nascido passaram a ter um certo prazer em se auto-denominar ou se exibir como loucos, diferentes, extravagantes, viajandões, rebeldes, etc..
Mas não é a este deleite burguês que me refiro como loucura.
Também não me refiro aos «loucos-artistas», a associação tipicamente modernosa entre a loucura e a» arte», a contemplação estética burguesa, de vanguardas européias criando o estranho para chocar e para escandalizar, ou mesmo para se expressar existencialmente.
Nem me refiro às ideologias que querem ver no louco, assim como em índios ou em quaisquer outras minorias, um ser de valor cultural que poderia salvar o decadente homem moderno de sua autodestruição.
Nada, portanto, de dar pincelzinho para a meia dúzia de condenados, trancados em hospícios ou lugares similares, ficarem fazendo umas telas ridículas com as quais passam a ser ovacionados como «artistas».
Isso tudo quase nada tem a ver com a loucura dos milhões de loucos brasileiros que andam se arrebentando ou sendo arrebentados em sua loucura.
Tem apenas a ver com utopias intelectuais e humanistas.
Estou aqui falando da loucura trágica, da loucura catástrofe, da loucura fim-de-mundo, da loucura que leva um sujeito a se desesperar e a viver num mundo delirante próprio, solitário, correndo por as ruas e rejeitando a vida com os demais seres humanos, e sendo ao mesmo tempo rejeitado por todos, como seres indesejáveis e insuportáveis.
Loucura esta que a Estamira do documentário expressa aos berros, sem ter sido silenciada por drogas, caridade, psicologias, polícia ou assassinato -- que é o fim que tem levado a maioria dos milhões de loucos reais desse país.
Mas curioso é que, por ser o Brasil um país que não se civilizou, Estamira conseguiu escapar a todas essas armadilhas modernas para os inadaptados, sobrevivendo sem ser silenciada e ainda indo parar num filme.
Trágica contradição deste país moribundo:
apenas no caos a loucura tem voz própria.
A Alemanha não deixou nem mesmo Nietzsche continuar berrando audivelmente depois de ter se tornado oficialmente doido.
Mas aqui os loucos conseguem fugir ao controle dos «normais».
Essa loucura real, de loucos reais, subumanos, e não dos desejosos de serem artistas ou transgressores em suas «modinhas» intelectuais, é a solidão extrema e total a que o ser humano pode chegar;
é quando tudo que existe aos olhos de todos os outros deixa de fazer sentido, só restando à pessoa reinventar solitariamente seu próprio mundo, sua própria crença, seus próprios fantasmas, seus próprios ídolos míticos, sua própria identidade, a par de todos, diferentemente de todos os outros em suas ilusões compartilhadas coletivamente.
A Estamira do filme foi uma mulher brasileira comum até o período da vida em que a sucessão de atos típicos do caos nacional a levaram a não mais conseguir acreditar e sentir o mundo como ela fazia até então, com valores morais cristãos, acreditando num Deus bom, protetor e coerente, sendo boa mãe, cordial, limpa, educada, contida e auto-controlada.
Mas quando a realidade do caos ao seu redor desnudou todas essas suas fantasias morais e ilusões de um mundo que não mais existia, ela tornou-se uma pessoa sem «mundo» no qual acreditar:
perdeu seus valores e suas ilusões necessárias à vida compartilhada com outras pessoas, e não conseguiu ter novas ilusões (crenças, ou sentidos para a vida), no lugar das anteriores.
Ao contrário, em seu mundo anterior à loucura, a brutalidade real da vida brasileira não podia existir, e quando esta brutalidade foi escancarada em sua vida, sucessivamente, com estupros, violências e caos sem coerência, ela tornou-se uma pessoa sem um mundo dotado de sentido.
Ela tornou-se um vazio existencial completo, um ser amorfo, com restos de identidades fragmentadas, com resquícios de valores morais contra os quais agora passava a lutar, por sabê-los irreais, com restos de crenças em Deus e coisas do tipo das quais agora tinha apenas raiva -- por ter se descoberto uma pessoa enganada quanto a si mesma e quanto ao mundo real, brutal, caótico, genocida, no qual o ser humano não tem valor algum, a não ser em jogos de palavras hipócritas, com falsos humanismos -- ou seja, o típico mundo da pobreza urbana brasileira, cercado de violênicia e de intelectuais humanistas.
Assim amorfa, aos olhos dos outros ela tornou-se louca, alguém a quem não se dá crédito, a quem não se compreende, com quem não se consegue compartilhar opiniões e crenças.
Se lhe dessem ouvido, e se compreendessem o que ela fala, somado ao que falam os milhões de loucos brasileiros que não têm voz (por isso são loucos aos olhos dos outros), e sobre os quais não se faz filmes, viria à tona a realidade de um país e de um mundo de que a maioria da população não quer saber -- preferindo todos continuar vivendo em seus estragados castelos de areia.
Viria à tona um país brutal, catastrófico, apocalíptico, um povo se auto-destruindo e ainda tendo que se acreditar alegre, carnavalesco e humanista-crist ão.
Quem quiser ver este país, no entanto, basta apenas parar de assistir a Matrix, de jogar vídeo-game, de fumar maconha, e assistir a Estamira;
e, principalmente, basta abrir os olhos e a mente para o que está ao seu redor -- se conseguir.
O Brasil apocalíptico de Estamira está escancarado.
Pena que os cristãos e humanistas brasileiros vão apenas achar o filme bonito, com boa fotografia, com uma personagem cativante e digna de ser celebrada como pobre e excluída, por quem se deveria lutar ardorosamente por «inclusão social» e dignidade.
Mas isto é apenas parte da ilusão dos que querem coletivamente continuar sonhando com um país que não existe e nunca existirá.
Número de frases: 52
Entrei num ônibus diametral, desses que atravessam Belo Horizonte de ponto a ponto.
Era cedinho e me deparei com um homem e sua viola num dos primeiros bancos.
De o outro lado do corredor, um homem mais gordo, com um vozeirão impressionantemente alto, porém muito musical, falava com o motorista.
Antes que eu passasse na roleta, o ônibus pára no sinal vermelho.
E o que acontece?
O violeiro, uma pessoa indescritível, começa a tocar alguma coisa.
Ao mesmo tempo, o homem gordo sinaliza ao motorista, com malícia, sobre o outro motorista de um ônibus que também pára ao lado.
Eles começam a rir do colega e o homem gordo grita por a janela, numa musicalidade impressionante:
-- Ele tá perguntando cadê a camisola que você rasgou!
O motorista do ônibus ao lado, abrindo um canivete, responde:
-- Vem aqui palhaço, que eu lhe mostro!
Dito assim, parece briga.
Mas não é.
A coisa é tão genial que a resposta mostra-se ameaçadora (" vem aqui palhaço ...),
mas com um tom ao mesmo tempo distanciado -- caracterizando afinal uma grande brincadeira.
É tudo de uma sonoridade musical e de uma cultura de bom humor.
No entanto, não deixa de ter uma ponta de perigo -- num átimo, sabem todos, tudo pode virar muito sério.
Mas prevalece um concerto de rudes delicadezas.
As vozes, quase aos gritos, vão se misturando ao som da viola.
O dois ônibus arrancam.
Já são, agora, pouco mais de oito horas da manhã e o violeiro começa a cantar também.
Tudo isso se mistura ao barulho dos motores, na sua voragem matinal.
O violeiro cantava música sertaneja.
E de um modo que não se ouve por aí.
Aquilo vinha de outro lugar.
E eu fiquei suspenso, entre sons de motores, a conversa aos gritos do motorista com o passageiro, além daquele violeiro cantador e deslocado de tudo.
Uma festa para os sentidos.
E o violeiro, de onde vinha?
Para onde ia?
E ele, parando de tocar e cantar, olha para o lado e suspira:
-- Que saudade de minha terra!
Queria saber mais sobre ele, mas percebi que o ônibus entrara numa pista onde seria impossível descer.
O próximo ponto ficava muito longe de ali.
Pergunto ao trocador se poderia parar e ele me diz que era tarde, mas falaria com o motorista.
Este grita lá da frente:
-- Vai lá e prepara para descer, que os carros vão buzinar atrás de mim!
E parou, subitamente.
Agradeci, surpreendido por a sua generosidade e flexibilidade em meio a um mundo com tanta pressa e tantas normas.
Coisa de segundos, mas os carros já buzinavam atrás, com pressa de chegar a algum lugar.
O ônibus foi embora.
E levou junto seus sons e suas histórias.
Pensei no Brasil, na nossa cultura, em nosso povo e na ignorância de nossas elites.
Número de frases: 42
Cristiano é filho de pescador, teve na lida com o mar a sua experiência primeira.
A lida com a palavra talvez não seja a segunda, mas o aproxima consideravelmente desta que fez de ele um observador / conhecedor de uma espécie de mundo, se assim é possível dizer, ainda, «natural» e de suas intempéries.
É no mar que o pescador busca o alimento do dia-a-dia que é posto sobre a mesa ou comercializado, que, enfim, serve de sustento para a família.
É neste mesmo (nem sempre igual) mar que Cristiano busca o alimento para a sua poesia.
Não das belezas que supostamente a natureza tem para oferecer (enquanto contemplação), mas das ciladas que esta apronta e faz com que as pessoas percebam (ou deveriam perceber) o quanto são pequenas diante de tamanha grandeza (força).
Cristiano não fala do cenário que compõe a costa catarinense, fala das experiências com ela, e lança essas experiências para o jogo das palavras.
Como diz o título do livro:
Rebojo.
O «Rebojo» de Cristiano Moreira é o rebojo do mar, mas é também o rebojo da linguagem.
Mas o que seria então esse rebojo?
Nada mais que a mudança repentina do vento que provoca o repuxe, o solavanco, o balanço brusco do mar;
que pode fazer com que nos desequilibremos;
que pode nos deixar sem a sensação de apoio, para os desavisados o enjôo é inevitável, mas que na linguagem do pescador, simplesmente, pode acabar com a pescaria e fazer com que a baleeira retorne à margem.
Isso evidência que o mar e a linguagem de Cristiano não são diferentes do mar e da linguagem que supostamente conhecemos, talvez o olhar de ele como autor, que comunga com o olhar do pescador, é que faz com que isso os torne diferentes.
O trecho de poema abaixo pode estar apontando para isso:
mover-se cego
leva corpo leve ao cadafalso.
do passo ao fosso
calam verdades
pêndulo em corda rota.
De a mesma forma que a mudança brusca no vento pode tirar o barco de sua rota a poesia é o movimento que pode tirar a linguagem do seu lugar comum, do seu porto firme, porque não do seu ponto de inanição.
A poesia é o que coloca o barco das palavras à deriva, que torna a linguagem escorregadia, resvaladiça, no limite do naufrágio -- um devir de linguagem, que faz com que o texto crie inquietações, e como diz o próprio Cristiano, reafirmando o rebojo:
«se não incomoda fica cômodo».
Cristiano fala que «pensa o texto como um campo de problemas, como se tu estivesses entrando num barco».
O claro é o convés (o aberto), aquilo que nós conseguimos visualizar com facilidade, o escuro, por sua vez, é o porão da embarcação (o fechado), aquilo que a gente tem dificuldade de enxergar, onde permanece «escondido» aquilo que o pescador trouxe do mar durante a pescaria;
que, para quem permanece em terra, surge como uma surpresa no momento que se descarrega a embarcação.
Agora, quando tu entras num barco tu não precisa ir necessariamente até o porão, tu podes permanecer na superfície, da mesma forma que o texto, este, pode entrar na escuridão das palavras, no movediço, no escorregadio ou, simplesmente permanecer na superfície apreciando as «belezas», no lugar comum da linguagem, no lugar onde todas as pessoas conseguem» dialogar «a partir de algo convencionado, em que este diálogo parece não gerar experiência, talvez crie um pacto social do não saber ou, como diz Cristiano,» a falência do lugar comum».
Cristiano Moreira é natural de Itajaí -- litoral norte do estado.
O livro foi editado por a Bernúncia Editora.
A capa foi realizada por o artista plástico Eduardo que é Moreira como Cristiano, mas não apresenta o parentesco convencionado;
a capa foi feita a partir de um quadro de " Eduardo Moreira, O Barco e o Vento nº 3, uma espécie de diálogo entre o trabalho dos dois artistas.
Pra quem se interessar, o contato de Cristiano é:
Número de frases: 32
rebojo@terra.com.br Seja para praticar esporte, seja para morada, seja para passagem, seja para passear ou brincar, a rua assume a dimensão de possibilidades.
Lugar onde se «pode» fazer tudo.
Porque ela é via, é pública, é onde passamos grande parte do tempo.
Trabalhar e manifestar, comer e se divertir.
Partimos daqui:
o lazer na rua.
A rua como lugar de lazer é usada desde os tempos mais antigos, pois nem sempre existiram teatros fechados, cinemas, shoppings e clubes.
Aliás, alguns desses lugares nasceram na rua, justamente por ser aberta e pública.
Peças de teatro, por exemplo, eram encenadas na rua.
Antes da lona as calçadas eram palcos das peripécias dos palhaços.
Mas não podemos reduzir a utilização da rua simplesmente como lugar restrito à passagem.
Ao contrário, as pessoas vão à rua para assistir a uma peça, ver um filme, fazer caminhada, encontrar com amigos, brincar.
A rua demonstra que pode ser usada coletivamente.
Mas será que, em Belo Horizonte, as pessoas usam a rua para se divertir?
Muitos projetos utilizam a rua como espaço de lazer em Belo Horizonte.
O SESC Minas Gerais promove as Ruas de Lazer, um evento artístico e esportivo gratuito, realizado em ruas da região metropolitana de Belo Horizonte e interior do Estado, nos finais de semana.
Shows são cada vez mais freqüentes nas ruas e praças de Belo Horizonte.
«A rua reuni as pessoas.
Existe mais integração quando há uma peça de teatro ou um show na rua, do que em lugares fechados», diz Bárbara Amaral, 20, atriz.
«Quando temos o FIT (Festival Internacional de Teatro Palco e Rua), por exemplo, as pessoas que não têm a oportunidade de ir a um teatro saem dos seus serviços e no caminho encontram um tanto de atores na próxima esquina, daí, param, assistem e participam.
Em aquele momento, aquele acontecimento da rua já ' interferiu ' na vida de ele, finaliza a atriz que já se apresentou nas ruas de BH.
Umas das características mais marcantes do lazer são as brincadeiras de crianças, que ficam mais interessantes quando brincadas na rua.
Em algumas periferias, ou até mesmo em bairros mais tradicionais de Belo Horizonte, notamos crianças brincado de ' pega-pega ', patins, rouba-bandeira e futebol.
Sim! Crianças e jovens ainda fazem dos chinelos traves para marcarem o gol.
Embora isso esteja cada vez mais raro, por alguns motivos como o trânsito, a criminalidade e o medo, muitas crianças e jovens só têm a rua como lugar de lazer.
Warley Pinheiro, 10, diz que se sente mais livre quando brinca na rua.
«Parece que a gente pode fazer mais coisas quando brincamos na rua.
Gritar e jogar bola, por exemplo, em casa não pode!»,
explica o menino.
Grupos inventam o lazer, apropriando-se da rua para o entretenimento e a sociabilidade, imprimindo marcas e disputando o espaço.
Com suas diferentes artes de fazer o urbano, criam um espaço onde se identificam e reivindicam a participação no centro.
Maria Elisa Macedo *
Número de frases: 32
matéria especial para o Jornal da Rua Ed. 2006
Imagine juntar 35 jovens, todos membros de gangues rivais, e colocá-los dentro de um ônibus para uma viagem de cinco horas.
Ressalte-se que, de entre outros «detalhes», eles já tinham inclusive assassinado parentes e amigos uns dos outros, usando uma lógica de vingança que não faz sentido para quem está de fora.
A idéia da viagem de Teresina a Parnaíba partiu do MP3 -- Movimento Por a Paz na Periferia, que sempre acreditou ser possível falar de respeito, amizade e paz usando uma linguagem que o jovem das vilas e favelas entende.
Essa viagem marcou profundamente a vida do Francisco Júnior, coordenador do MP3.
Foram momentos tensos e que exigiram coragem e acima de tudo um grande sentimento de respeito por o outro;
mas o objetivo foi alcançado.
Em o fim do passeio, ao invés das costumeiras ameaças e olhares cheios de rancor, o que havia era um sentimento diferente.
Afinal, como pensar em fazer mal a um cara que há poucas horas estava jogando bola com você?
Todos os que participaram da viagem saíram das gangues.
As rixas entre eles acabaram.
Mais uma semente de paz na periferia foi plantada.
Júnior foi criado no bairro São Pedro, em Teresina, e poderia ter feito parte de uma das gangues que tocam o terror por a cidade.
Preferiu seguir outro caminho, talvez mais dificil, porém mais recompensador.
«O MP3 começou por uma questão de necessidade.
Alguns jovens viram que era preciso trabalhar para transformar a vida de pessoas da comunidade, especialmente de quem era envolvido com as gangues em Teresina.
Usamos a linguagem do hip hop para falar de transformação e para denunciar o que está errado», conta.
Ele lembra que por ter vivido na infância e na adolescência uma situação de exclusão quase total, pode sentir na pele o que passam as crianças e jovens que participam dos projetos do MP3 hoje.
Já são mais de mil, uns chegaram por conta própria, outros por influência de amigos e alguns foram convidados por a coordenação.
«Eu tenho uma relação bem próxima com muitos de eles.
Em o início do nosso trabalho, há cerca de quatro anos, íamos diretamente na comunidade, inclusive nas zonas rurais, em busca daqueles jovens que viviam uma situação mais difícil.
Hoje eles já procuram mais, muitos vêm na sede quando querem mudar de vida.
O que a gente faz aqui é conscientizar, mostrar que o jovem pode lutar contra a droga, o analfabetismo, o desemprego, enfim, contra o abandono».
Cinema e música para transformar pessoas
Quando a kombi do MP3, coloridona, no estilo Mistery Machine, chega nas comunidades, começa o burburinho.
É sinal de que tem programação cultural chegando e a galera começa a se aproximar.
O projeto Cineperiferia já passou por dezenas de bairros de Teresina e chegou a comunidades da zona rural também.
«Nós levamos cinema diariamente a uma comunidade diferente.
Os filmes apresentados geralmente têm mensagens educativas que têm a ver com a vida das pessoas daquela comunidade», explica Júnior.
Mas mais do que o cinema, a cara do MP3 é de música, especialmente rap e hip hop;
é nas rodas, fazendo rimas, que a galera se solta.
Agora no começo de maio foi lançado um DVD com os grupos que participaram do festival de hip hop que aconteceu no ano passado.
«O DVD foi produzido gratuitamente, por uma empresa de amigos, além dos shows, tem entrevistas com as bandas e com o pessoal do MP3.
A distribuição é gratuita e está sendo feita por as bandas», comenta o coordenador.
As oficinas de dança de rua são outro ponto forte.
Dezenas de jovens da Vila do Arame, tida como um dos lugares mais violentos de Teresina, estão participando das aulas de dança.
A Universidade Federal do Piauí, cujo campus é ao lado da vila, disponibilizava transporte para que os adolescentes fossem até a sede do MP3 -- do outro lado da cidade -- para as aulas e ensaios;
mas, percebendo que o trabalho tem dado bons resultados, o reitor cedeu sala e som para que as aulas aconteçam agora dentro da universidade.
Estação Digital -- O acesso à informática e à internet é outro poderoso instrumento de transformação.
O Estação Digital é um programa de inclusão digital feito em parceria com a " Fundação Banco do Brasil.
«Depois de dois anos da Estação em Teresina, conseguimos montar uma na comunidade quilombola Mimbó, em Amarante.
Isso foi importante porque os instrutores, que são da própria comunidade, foram formados por a Estação e agora repassam o que aprenderam.
Eles têm autonomia total», comemora Júnior.
E ele tem mesmo motivos para festejar.
Em o ano passado, o MP3 foi uma das cinco entidades convidadas por a capacitar educadores sociais de telecentros comunitários do BB em todo o país.
O espaço da Estação Digital é sagrado.
Mesmo quem não participa das atividades respeita porque sabe das mudanças que elas têm provocado na comunidade.
Não apenas crianças e jovens participam dos cursos.
Adultos e até idosos que dificilmente teriam acesso a um computador -- e dinheiro para pagar um curso -- também são incluídos nas aulas e o simples fato de saber digitar o próprio nome já faz para eles uma grande diferença;
a auto-estima aumenta, a admiração por o trabalho dos amigos do Movimento também.
Periferia no Ar -- Há quase quatro anos o MP3 tem um programa na rádio Pioneira AM.
É uma das maiores audiências da emissora, e o melhor é pode ser ouvido na internet.
Vai ao ar todo sábado, das 18h às 20h e tem muito rap e hip hop, entrevistas, debates, participação de ouvintes -- muitos adolescentes juntam moedas a semana toda para comprar um cartão telefônico no sábado pra ligar para a rádio, pedem músicas, reclamam, botam a boca no trombone.
Dar voz e vez a quem sempre viveu de sobras é um grande passo para que a cultura de paz seja implantada e enraizada em qualquer comunidade.
Os manos do MP3, mesmo com todas as dificuldades que encontram por a frente, têm feito um belo trabalho como embaixadores da periferia.
Número de frases: 55
O estilo é diferente, mas a batida é inconfundível.
Em seu mais novo trabalho, o roraimense Neuber Uchôa envereda por novos caminhos musicais, «pero sin perder las orígenes jamás».
Em «Eu preciso aprender a ser pop», Neuber aposta numa linguagem universal, fugindo do estereótipo amazônico que sempre permeou suas letras e melodias.
O novo CD, conta Neuber, é fruto de seu trabalho nos últimos cinco anos vividos no Rio de Janeiro, em que se dispôs a ouvir muita música para poder também fazer MPB e entrar nesse mercado.
«Isso é resultado desse tempo, que me colocou de maneira mais universal, junto com todas as tribos, já que o Rio é uma coisa mais ou menos assim, uma esquina do mundo», afirma.
Para ele, essa nova fase procura traduzir esse novo tempo, onde o elemento regional se funde ao beat universal, de forma a ser compreendido em Tóquio ou Paris, tanto quanto em Buritis (bairro de Boa Vista)», explica.
Sobre o título do CD, Neuber diz que a frase surgiu no meio de uma discussão, logo que ele chegou no Rio de Janeiro, «como uma maneira de me auto-justificar que eu tenho de aprender a ouvir, que eu tenho que ser mais popular».
Pop ai, segundo Neuber, é no sentido de ter mais atitude, ter algo mais além de talento.
«Ser popular é isso também, é te colocar à disposição do público que tu queres atingir.
Em o meu caso é fácil porque eu sou um poeta popular.
Eu procuro traduzir o sentimento desse povo que eu represento.
A minha maior batalha é essa, ser compreendido por o meu povo, de uma maneira fácil, singular».
A frase também remete a uma música famosa da MPB que é «Eu preciso aprender a ser só», de Marcos e Paulo Sérgio Valle, lembra o artista.
O trabalho de capa do CD também foi feliz.
O designer Ed Andrade Júnior se inspirou num célebre trabalho de Andy Warhol, o norte-americano que criou a arte pop.
E a foto de Neuber, é em baseada num dos quadros mais famosos de ele que é a atriz Marilyn Monroe com fundo de várias cores, que dão essa tonalidade à obra.
O lançamento oficial do CD acontece na sexta-feira, dia 28 de julho, às 21h30, em show no Teatro Carlos Gomes.
Acompanhado dos músicos Neuber Jr. (violão aço), Hendds Williams (guitarra), Alfredo Rollins (bateria) e Neto Baraúna (contra-baixo), o artista vai apresentar seu novo trabalho.
São 11 músicas inéditas e dançantes, magistralmente produzidas por Ben Charles e Bebeco Souto Maior, em gravação feita em São Paulo.
«Por o pouco que eu tenho visto o disco está tendo uma aceitação legal, porque está sendo visto como um trabalho popular, que se mistura às demais músicas que tocam nesse universo pop», comemora.
Raízes regionalistas
Neuber Uchôa nasceu em Boa Vista, capital de Roraima e, ainda criança, começou a cantar em programas de auditório.
Em a adolescência, descobre o violão e passa a compor as primeiras canções, mas somente aos 21 anos de idade, em 1980, nasce a música que seria um dos seus maiores hits:
Ave, 3º lugar no I Festival de MPB de Roraima.
A canção foi gravada cinco anos depois, num compacto simples, produzido em junho daquele ano no Rio de Janeiro.
Daí em diante, shows e discos são produzidos por o artista que, juntamente com Eliakin Rufino e Zeca Preto formam a «Regionalíssima Trindade» do movimento cultural Roraimeira, que se propõe a traduzir Roraima em sua estética artística e cultural.
De essa fase regionalista, destaque para as músicas Cruviana, Nossa Bossa, além de makunaimando (parceria com Zeca Preto), verdadeiros hinos de Roraima.
Outro momento marcante foi a produção do programa Roraimeira na TV, dirigido e apresentado por o grupo em 1992, na TVE (TV Educativa) e reapresentado em rede nacional naquele mesmo ano, além dos espetáculos realizados na cidade do Rio de Janeiro, durante o projeto «Cantorias Amazônicas, no CCBB, em janeiro e fevereiro de 2000».
Destacam-se ainda os discos e shows produzidos em parceria com Zeca Preto, entre os quais uma pequena turnê por o Norte e Distrito Federal, além de shows na Suíça e Venezuela.
Já nessa fase pós-regionalista, vale lembrar as apresentações no Centro Cultural Carioca e na Lona Cultural de Campo Grande, ambas no Rio de Janeiro, durante o lançamento do CD Muito Prazer (2002).
Em a mesma época, Neuber divide o palco do Olímpia com Sandra de Sá e Elba Ramalho, entre outros, no show de 85 anos do Retiro dos Artistas.
Também fez shows em Niteroi e Cabo Frio, no Rio de Janeiro.
Ouvindo e compondo muito, Neuber acumulou repertório e experiência que se somaram ao swingue forjado na mistura de ritmos afro-latinos com a brasilidade amazônica, nascendo daí uma batida própria.
Discografia
Compacto simples Ave -- solo (RJ-1985)
LP Caimbé -- parceria com Zeca Preto (RJ-1988)
LP Roraima -- parceria com Zeca Preto e Eliakin Rufino (PA-1992)
CD Makunaimeira -- parceria com Zeca Preto (PA-1994)
CD Amazon Music -- parceria com Zeca Preto (PA-1997)
CD O Canto de Roraima -- parceria com Zeca Preto e Eliakin Rufino (RR-2000)
CD Muito Prazer -- solo (RJ-2002)
CD Eu Preciso Aprender a Ser Pop -- solo (SP-2006)
PS: Algumas músicas do artista estão disponíveis na gravadora Trama Virtual.
Número de frases: 43
E-MAIL: edgarcia1@itelefonica.com.br
um local na prateleira?
Nós somos uma banda de New Wave;
palavras de Kurt Cobain.
Eu sempre fiz samba;
palavras de João Gilberto.
Onde foram parar os termos Grunge e Bossa Nova?
De onde surgem os termos?
Como ratos criados a partir da visão comercial da music television, saídos da mediocridade das revistas Pensam por vezes ultrapassar o artista, o criador, numa competição que ele próprio cria, imagem e ação, ele tenta superar o criador naquele momento de transe, o tempo corre, os gritos ecoam, a pressa.
E quem sou eu?
A mesmo lógica do lojista que organiza a sua prateleira, é a lógica do público mediano, ele procura o disco de seu artista preferido naquela determinada classificação.
O artista, coitado, acaba caindo na armadilha que ele mesmo criou, prende-se sozinho à sua camisa de força, e quem há de desatá-lo?
Este texto não passa de mera imagem ação, aqui não há respostas, a palavra ou tem grande significado, não tem significado, me dou a permissão de procurar a palavra crítica num dicionário, eis:
Crítica, s.
f.: Arte de julgar as produções literárias, artísticas ou científicas;
comentário; apreciação (às vezes negativa).
O crítico que se classifica como artista cai na mesma armadilha.
Quem no mundo tem tal poder de definição.
Estou com preguiça de procurar o significado da palavra arte ...
De o momento do nascimento ao suspiro da morte, todo ser sofre influência e influência alguém, todos são mestres e discípulos na vida, o seu discípulo está destinado a lhe trocar por um mestre mais poderoso do que você, ele suga tudo o que pode e depois o larga numa esquina qualquer, mas você não se preocupa, você já largou alguém nos tempos de outrora ...
Não tenho sentença ou conclusão, as estruturas são feitas para serem quebradas, os tabus são leves como plumas, são fáceis de ser esmagados ...
Como disse o músico de uma banda de hardcore que passou por rock e hoje se caminha para o samba (dizem-me), «eu não vou encerrar o meu próprio som» Ou como disse um senhor músico galã (dizem-me), " procurando uma música moderna, os orientais acharam a bossa nova "
Então vos digo:
sou por o não-estilo, por o marco zero eterno.
Número de frases: 24
Introdução:
Ainda estamos em período eleitoral e, apesar dos políticos brasileiros não terem muito por hábito apresentar seus planos e propostas para tentar conquistar o nosso voto, preferindo baixar o nível e chamar um ao outro de ladrão, é assim apresentando suas propostas, idéias e sugestões, que os políticos deveriam pedir seu voto.
Já no overmundo ninguém, que eu tenha visto até agora, escreveu, expressamente, um texto para pedir votos para o próprio texto, e eu tenho consciência do risco que corro em ser ridicularizado por esta ousadia.
Confesso, no entanto, que já se foi, há muito, o tempo em que eu tinha medo do ridículo.
Sei também, que corro um risco um pouco mais sério, a saber, que alguém se irrite com esta minha postura pedinchona e resolva fazer campanha no sentido de «Não vote nos textos do Joca Oeiras!" e que, até, venham a propor que o overmundo crie a coluna do» não gostei!"
só para me desmoralizar.
Mas este é um risco mínimo, afinal as pessoas tem mais (e melhores) coisas a fazer (também já abandonei aquele meu complexo de perseguição).
Queridos amigos e amigas:
Não vou negar:
tenho todos os mesmos motivos que as pessoas, que postam textos no overmundo, legitimamente tem para fazer isso -- vaidade, desejo de transmitir aos outros minhas idéias e sentimentos, necessidade de exercitar meus dotes artísticos, busca da fama, carências afetivas advindas da fase anal, e o que mais lembrarem -- assumo, enfim, todas e cada uma dessas motivações, inclusive de forma axiomática.
Para além disto, no entanto, tenho uma motivação suplementar para escrever a série de textos que estou postando neste portal.
Trabalho na Fundação Nogueira Tapety-FNT (www.fnt.org.br) e nós estamos, desde julho, numa campanha (que não é eleitoral) por a restauração de um monumento de enorme valor histórico que situa o Piauí nos primórdios da historia da industrialização do Brasil.
Inaugurada em 1897, a Fábrica de Laticínios dos Campos, como era chamada, por incúria, peculato e «otras cositas más» deixou de existir e o imponente edifício que a abrigava encontra-se em ruínas.
Por este motivo (além de todos os outros antecipadamente confessados) postei os dois textos anteriores (" Era uma Fábrica de Sonhos «e» Fábrica de Sonhos -- Carta aos Intelectuais ");
para, obtendo bastantes votos, atingir o maior número possível de pessoas no Piauí e no Brasil e isto por a simples e boa razão de que quero muito ver aquele monumento histórico finalmente restaurado.
Se o leitor tivesse, como eu, visto, no dia 15 de julho último, a Fábrica de Sonhos tomada parcialmente por o pesadelo das chamas e o povo da pequena cidade de Campinas do Piauí consternado, alguns chorando em desespero, e, até mesmo um herói «bombeiro» subir, de sandálias havaianas, no telhado do prédio para, com uma mangueira improvisada, apagar o fogo criminoso entenderia com facilidade este meu desejo.
Quem vê as fotos do povo campinense promovendo o abraço simbólico do prédio após o incêndio, não pode deixar de se perguntar:
Por que tanta comoção se são apenas ruínas?
E a resposta, é evidente, porque estas ruínas são muito mais que ruínas e guardam, em si, lembranças de um passado que remonta os primórdios da colonização sertaneja do Piauí, como procuramos mostrar no artigo «Era uma Fábrica de Sonhos».
Recebi, outro dia, no meu caderno do orkut, um recado muito significativo do que acabo de afirmar.
Diz o Valmar:
«Olá JOCA, Tudo Bem VEJA Só:
Fiquei Sabendo Sob Sua Dedicação em Restaurar A Velha Fábrica De Laticínios De Campinas, Sou De Lá, E Sempre Quis Que Aquele Edifício, que não é um qualquer, VOLTASSE A Respirar, Muito Obrigado Por a Sua Iniciativa.
Não Moro Mais Lá, Mas Sempre Tive Vontade De Ver Aquela Fábrica De Pé Novamente, não fucionando, Mas Por o Menos De Pé.
Obrigado Novamente."
Este, do Valmar, é um sentimento enraizado no povo campinense.
E quem, com um mínimo de sensibilidade, se põe diante daquele imponente prédio não pode deixar de reconhecer:
não é um qualquer!
Tenho, no entanto, que lamentar que, passados sete dias da postagem do meu primeiro texto «Era uma Fábrica de Sonhos» no overmundo, ele continue tendo hoje os mesmos 64 votos de há dois dias (estou com apenas 1 overponto).
Confesso a minha decepção com essa chegada, em tão pouco tempo, ao fundo do poço!
O segundo texto que escrevi, denominado «Fábrica de Sonhos -- Carta aos intelectuais», entrou na fila de votação há dois dias e recebeu, até agora, 29 votos.
Hoje não foi votado, e, por o andar da carruagem, tá indo por o mesmo abissal caminho do primeiro (oito overpontos no momento).
Foi por isto que me vi obrigado a voltar ao tema, agora por outro ângulo.
Não se trata mais de contar história nem de pedir o posicionamento público dos intelectuais.
Em a esteira dos políticos bons (de voto) eu apelo à consciência dos (e) leitores.
Vai para o trono ou não vai!
A o votar neste texto, não deixe de votar na farinha do mesmo saco:
Era uma fábrica de sonhos
Fábrica de sonhos -- carta aos intelectuais
beijos e abraços
Número de frases: 40
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Introdução:
A primeira vez que ouvi o Carlos Rubem (Bill) falar na Lagoa do Fidalgo foi quando entregamos ao Governador Wellington Dias, uma carta aberta, em nome da Fundação Nogueira Tapety -- FNT e outras instituições locais, pedindo a abertura de um centro cultural do BNB no Sobrado Major Selemérico que, restaurado há mais de um ano, ainda se encontra, lamentavelmente, fechado.
Em a conversa, Bill referiu-se de passagem à Lagoa -- situada no hoje município de São Miguel do Fidalgo, terra onde viveu o governador e onde ainda reside grande parte de sua família, mãe inclusive -- porque havia se entusiasmado com uma correspondência enviada por o então prefeito de Oeiras, Coronel Orlando de Carvalho que, já em 1943, indicava, ao governo do Estado Novo, aquela Lagoa como uma promissora atração turística.
Conforme Bill me relatou, posteriormente (eu não estava presente na hora), Wellington se mostrou bastante interessado no assunto tendo, inclusive, dito a ele que encomendara, tempos atrás, a um profissional da área de Turismo, um projeto para a edificação de um balneário naquela localidade.
O Projeto Banco de Areia
Tendo entrado em contato, por e-mail, com Enéas Barros, o «Consultor de Turismo e Coordenador do Curso de Turismo da Associação de Ensino Superior do Piauí -- AESPI, entre outras atividades profissionais, obtivemos de ele uma cópia do Projeto intitulado» Banco de Areia, uma intervenção do governo do Piauí em São Miguel do Fidalgo «(Para quem não sabe, a localidade que deu origem a São Miguel do Fidalgo era conhecida como» Banco de Areia ").
Este trabalho tornou-se minha companhia obrigatória às vésperas da viagem que empreendemos à região.
Ele me ajudou muito a enxergar, por outros diversos ângulos, a complexa questão da criação de um pólo turístico (Balneário) na Lagoa do Fidalgo, Voltarei a falar no assunto.
A Viagem
Durante o 5º Festival de Inverno de Pedro II (maio / 2008), Bill voltou a falar no assunto, desta vez com o Secretário de Turismo do Piauí, Sílvio Leite.
Chegamos, até, a marcar uma data, o dia 20 de junho, para -- juntamente com o Secretário -- fazermos uma visita à região.
Alegando compromissos de última hora, o Sílvio não pôde vir no dia 20 e nós acabamos decidindo ir, apenas Bill e eu, (muito bem) acompanhados por a esfuziante fotógrafa Lúcia Vanda, na última quinta-feira, dia 26 de junho de 2008.
Por volta das 15h30 min partimos na direção de Colônia do Piauí, na PI 143, estrada que liga Oeiras a Simplício Mendes a qual percorremos até o km 40, quando entramos numa estrada de piçarra que nos levaria a São Miguel do Fidalgo, 46 km depois.
A estrada estadual, ao menos nesse trecho, já viveu dias melhores e não faz muito tempo.
Já tem gente chamando-a de «paisagem lunar» tantas e tão grandes são as crateras que ostenta.
A piçarra, recém colocada, estava bem menos ruim e pudemos chegar ao nosso destino, sãos e salvos, por volta das 18h.
Apesar de termos sido convidados para nos hospedarmos em casa da prefeita Sianena (Maria Salomé da Silva Cronemberger) nossa intenção inicial era ficar no «Hotel Barroso», eufemismo utilizado para qualificar uma pequena casa de cômodos que -- pasmem!--
encontrava-se com sua lotação esgotada (por o que entendi, de três quartos, dois são ocupados por pensionistas fixos e o terceiro a dona não tinha certeza, até aquela hora, se seria desocupado ou não nesse dia.
A solução, aliás extremamente agradável, foi aceitarmos a hospitalidade da Sianena.
E que hospitalidade!
Mesmo com sua convenção eleitoral marcada para de ali a dois dias, tanto a Sianena, as moças que trabalham com ela como seu filho Paulo, pai «fresco» de um lindo bebê de dois meses não mediram esforços para que nos sentíssemos em casa.
A nota dissonante -- entoada em altíssimos decibéis -- veio de uma pequena casa por a qual passamos e Bill entendeu de informar-se com os moradores a respeito de onde seria dançada uma quadrilha da terceira idade.
De dentro da casa surgiu uma mulher, que, a plenos pulmões, gritou, com um vozeirão apavorante: --
O Que É Que Vocês Querem?
Fosse homem e eu temeria por nossa integridade física, mas, sendo uma mulher, que depois nos contou, era setuagenária, a gente conseguiu acalmá-la e eu até a convidei para dançar quadrilha com mim.
Não aceitou!
Passado o susto, e conformados com o fato de que a quadrilha já tinha sido realizada, dirigimo-nos a um simpático bar onde nos encontramos com uma figuraça chamada Galego de Zeca do Jeep.
O pai do Galego, em sua época, possuía o único jeep da cidade, daí o apelido.
Foi neste bar que fizemos as tratativas para a visita à Lagoa que seria efetivada, por nós, nas primeiras horas da manhã do dia seguinte.
O Passeio na Lagoa
Como não havia nenhum barco a motor disponível, tivemos de nos conformar com uma canoa a remo.
Quando chegamos no local combinado, por volta de seis e meia, o canoeiro contratado já nos esperava, segundo disse, há um bom tempo.
Ele nos explicou que, a partir das 7h30 min da manhã, o vento começa a soprar, formando o que eles chamam de Maretas, com o encarpelamento das águas e conseqüente dificuldade de remar contra a maré, isto é, que teríamos pouco mais de uma hora para um passeio seguro.
Apesar do meu medo, e dos meus 120 kg, resolvi encarar a viagem.
Não me arrependi.
A Lagoa, um verdadeiro mar de água, é de uma beleza difícil de descrever e pudemos flagrar inúmeros e belíssimos pássaros, principalmente garças e mergulhões, mas também marrecos e outros menores.
A vegetação no entorno também confere a ela uma beleza sertânica que nos arrebata e faz a festa da fotógrafa.
Flores multicoloridas, carnaúbas, paus retorcidos;
cada menor detalhe não escapa das lentes da exigente coletora de imagens.
De repente, a revoada de um bando de marrecos.
Esse «Mar» em pleno Sertão possibilita a prática de inúmeros esportes aquáticos como o windsurf, esqui aquático, caiaque, canoagem e muitos outros que a ignorância não me permite declinar.
Em o caminho encontramos dois barcos de pescadores cuja pesca não fôra muito proveitosa:
piranhas em quantidade e um filhote de surubim que a nossa amiga cearense (que tem nos peixes a sua refeição preferida) fez questão de fotografar em close.
Em essa hora e meia navegando, percorremos cerca de dez km entre a ida e a volta e nem chegamos perto do local onde ela ostenta o maior diâmetro, que fica defronte ao «Bar do Luís».
O «Balneário» ou " Bar do Luís "
Depois da aventura, bem sucedida, na Lagoa do Fidalgo, resolvemos ir, de carro, conhecer o «Bar do Luís».
Segundo informações, também era um restaurante que servia os mais variados tipos de comidas, especialmente peixes.
Como nos perdemos, acabamos chegando a um povoado denominado «Fonte de Fátima» e, lá, «contratamos» duas jovens para nos indicarem o caminho.
As nossas «guias», no entanto, por simpáticas e solidárias que fossem (e eram), demonstraram-se totalmente incompetentes na tarefa de nos fazerem chegar no local.
Voltas e mais voltas foram dadas até que, finalmente, com a ajuda de um motoqueiro, conseguimos chegar.
Este «passeio», dado à nossa revelia, possibilitou-nos avaliar que inúmeros esportes radicais com a moutain bike e diversos rallys podem ser, perfeitamente, praticados na região.
Propiciou-nos**, também, a captação de belas imagens de um vaqueiro vestido a caráter, de criações diversas, de paredões de pedra, em tudo semelhantes aos da região de São Raimundo Nonato e da uma rica vegetação típica dos Sertões de Dentro do Piauí.
A o chegarmos, no entanto, ao mesmo tempo em que nos extasiávamos com a paisagem paradisíaca, encontramos -- suprema decepção -- o local fechado e trancado com cadeados desde o portão externo.
Foi aí que o Promotor de Justiça, Carlos Rubem (Bill) cometeu o primeiro ato delituoso em toda a sua Santa Vida.
Quem conhece o Bill sabe que ele não é homem para se conformar, sem luta, a condições adversas.
Alguns minutos depois, incentivado por mim e por a Lúcia Vanda lá estava ele estourando, com uma chave de rodas, o cadeado do portão:
não perderíamos a viagem, estávamos, por assim dizer, no quintal da propriedade.
Ainda não se tratava da conquista definitiva, mas já nos encontrávamos no perímetro do local que almejávamos ocupar.
Se, de direito, o promotor cometia, nesse momento, um ato delituoso, de fato nada havia de criminoso sendo praticado ali!
Faltava, é claro, de nossa parte, qualquer intenção de roubar ou prejudicar a livre fruição da propriedade de outrem, como bem nos explicou o Bill.
Relutamos, no entanto, em dar um segundo passo natural, que seria estourar o cadeado que abriria as portas do Bar propriamente dito, inclusive porque, para chegar ao seu interior, bastava uma pessoa pular um muro não muito alto (o bar se abre para um pátio interno).
Instamos uma das nossas «guias», a Francinete, a pular a cerca e nos provisionar de cervejas e de uma garrafa inteira de Campari, visto que ela não encontrou nem um celular de Mangueira, minha bebida preferida, dentro do bar.
A moça nos informou, também, da existência de uma certa quantidade de peixes congelados, e nós decidimos que faríamos uma refeição ali mesmo.
Foi aí que aconteceu de tomarmos um susto:
quando ligou o fogão, este começou, literalmente, a pegar fogo e a Francinete correu, toda espavorida, para nos avisar.
Foi aí que, já sem cometer nenhum vestígio de delito, por ser evidente o motivo de «força maior» ou perigo iminente, o nosso promotor-herói (Búfalo) Bill arrebentou, numa fração de segundos, o outro cadeado.
O fogo se demonstrou inócuo (tanto que nem fez fumaça) e nós conquistamos mais este território.
Agora o regabofe podia ser completo:
fritar o peixe, jogar sinuca e comer e beber sentados à mesa.
Foi quando chegou o Neto, pessoa que, pelo menos até aquele dia, estava encarregada de tomar conta do «balneário» nas ausências do proprietário, o Luís.
E sem ser, em nenhum momento, indelicado, principalmente quando entendeu que não haveria possibilidade de tomar prejuízo, o homem começou a destilar um mau humor aparentemente atávico, deixando claro, no entanto, que não era com nós, ou por nossa causa, mas que estava, há muito tempo, com o saco cheio.
-- Vou-me embora amanhã!,
repetiu, várias vezes.
Aí ele ainda tentou nos dissuadir de fritar o peixe, alegando, primeiro, que ele estava estragado e depois, dizendo que o «piau» tinha mais espinhas do que carne.
Separamos cerca de oito peixes, evisceramos, lavamos, e eu temperei com sal grosso e uma providencial pasta de alho (aliás, trata-se de um restaurante equipado).
Depois peguei um pacote de farinha de mandioca grossa, passei na peneira e coloquei sobre os peixes, a esta altura, já descongelados, encapando-os.
Fritei os bichos numa frigideira bem aquecida onde misturei óleo e manteiga de garrafa.
Os peixes se demonstraram deliciosos e só quem mastigou espinhas foram os gatinhos.
Nos fartamos, como diria uma amiga lá da Parnaíba, depois de traçar dez cordas de caranguejo regadas com muita cerveja.
O retorno
Houve um consenso entre nós:
a volta revelou-se muito mais rápida do que a ida, o que bem demonstra o quanto nos perdemos no caminho.
Antes do final do dia, já estávamos nos arredores da casa da Sianena e aproveitamos para banhar num dos poços jorrantes de águas quentes (cerca de 32°) e sulfurosas.
Mais que um banho, uma bela farra, muito embora eu esteja convencido de que as palmas das minhas mãos ficaram ressecadas devido ao contato de elas com aquela água com enxofre.
Número de frases: 85
Grupo de jovens rabequeiros da Ong Terramar / Conexão Felipe Camarão seguem os passos dos Mestres e agora representam a cultura potiguar em evento nacional
A organização Terramar / Conexão Felipe Camarão, de Natal (RN), vai representar a cultura potiguar no VI Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros, de 17 a 30 de julho, um festival nacional de cultura popular que atrai centenas de artistas de todo o país à Vila de São Jorge, em Alto Paraíso, Goiás.
Com o patrocínio da Petrobrás, o evento ainda inclui apresentações de circo, teatro, oficinas, feira de oportunidades sustentáveis e rodas de prosa com os artistas populares.
O grupo embarca nesta sexta-feira, 21.
A diretora Vera Santana viaja acompanhada do Conexão Rabeca, uma mostra do grupo de jovens entre 10 e 16 anos qe participam das oficinas musicais e da lutheria de rabeca que a Ong oferece no bairro, localizado na Zona Oeste de Natal.
Em o repertório os 2 rabequeiros e um zambumbeiro e tocador de pífaro de 13, 14 e 16 anos vão apresentar músicas do Alto do Boi de Reis, do Mestre Manoel Marinheiro, como «Menino Jesus da Lapa»,» Jaraguá», além músicas do cancioneiro do Nordeste, «Boi Tungão», de» Chico Antônio», Juazeiro de Luíz Gonzaga e Humberto Teixeira e, no pífaro e percussão, ainda vão tocar «Fuxico de Feira de Carlos Zens», diretor musical do Projeto.
Os meninos rabequeiros têm como mestre Josenilson da Rabeca, um violinista que há 6 anos apaixonou-se por o instrumento e agora ensina aos 35 alunos do Projeto.
É da turma avançada que se formou o Conexão Rabeca, e os mais experientes já vão passar a integrar o Auto do Boi de Reis Mirim.
O Conexão Rabeca é o resultado espontâneo do trabalho baseado na obra dos ícones do bairro, como Mestre Manoel Marinheiro, Mestre Cícero e " Chico Daniel.
«A nossa intenção não é só formar grupos musicais, acho que o Conexão Rabeca é conseqüência desse trabalho;
naturalmente os meninos sentem a necessidade de criar uma identidade para mostrar a música que fazem."
O trabalho musical da Conexão Felipe Camarão, com a lutheria de rabeca, oficinas de percussão, flauta e pífaro é só um dos pilares da Organização no bairro, que envolve ainda a educação dos jovens numa perspectiva de integração social e cultural, com os ensinamentos das tradições do Auto do Boi de Reis, João Redondo e da música da rabeca, além de capoeira e das oficinas de registro fonográfico e documentários, entro do Ponto de Cultura/Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura.
Conexão Felipe Camarão é por o terceiro ano consecutivo apoiado por o Programa Petrobras Cultural / Lei Federal de Incentivo à Cultura e atende diretamente 160 crianças e adolescentes, além de, indiretamente, centenas de pessoas da comunidade.
Estão entre os projetos futuros da Ong a ampliação das atividades musicais com a criação de uma escola de música e de um centro cultural Mestre Manoel Marinheiro.
Em Goiás, os meninos rabequeiros vão dividir o espaço com dezenas de outros artistas e descobrir outras tradições populares, como catira, congo, curraleira e batuque típicas da região do evento.
Entre as atrações do VI Encontro estão Elomar (BA), Caixeiras do Divino (MA), Noel Andrade (SP), Maracatu Estrela Brilhante (PE), Caçada da Rainha de Colinas do Sul (GO), Terno de Moçambique de Perdões (MG).
Número de frases: 16
A universalização do registro civil no Brasil foi imposta por o Decreto nº 9.886, de 7 de março de 1888, que instituiu a obrigatoriedade do registro de nascimento, casamento e óbito em ofícios do Estado, criados e delegados a privados.
Apesar da universalização, o registro civil demorou a ser aceito por a população, principalmente no interior do País, onde o controle religioso da Igreja Católica e a distância das áreas rurais aos cartórios impossibilitavam um maior índice de registros.
O registro civil no Brasil é atualmente regulado por a Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, denominada «Lei dos Registros Públicos», mas ainda é triste a nossa realidade, sendo notório o alto índice de sub-registro, ou seja, muitas crianças não são registradas civilmente nos ofícios de registro civil até os primeiros 45 dias de vida.
Segundo dados divulgados por o IBGS, no Brasil, em 2002, mais de oitocentas mil crianças deixaram de ser registradas no prazo legal;
a maioria nascidas nas regiões norte e nordeste do país, em lares que se encontram em situação de pobreza e analfabetismo.
De acordo com dados colhidos mesmo instituto, de entre os fatores relacionados à omissão dos registros de nascimento, destacam-se o aspecto monetário, a filiação ilegítima, a falta de tempo, a ignorância sobre a importância do registro civil, o desconhecimento das leis, a negligência, a distância do domicílio ao cartório e o grau de instrução dos pais.
A grave situação da abstenção ao registro civil de nascimento sempre causou preocupação aos órgãos de defesa dos direitos humanos, sendo o documento erigido como essencial ao exercício do direito à cidadania;
levando a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, a recentemente organizar projeto de erradicação do sub-registro.
Graças intenso trabalho de articulação de órgãos nos três níveis administrativos com o apoio de várias entidades não-governamentais, foi desencadeado em 2003 um movimento com base no Projeto Mobilização Nacional para o Registro Civil de Nascimento, mediante o lançamento «Dia Nacional de Mobilização para o Registro Civil de nascimento», por via do qual foram estabelecidos um conjunto de regras para orientar as ações a serem desenvolvidas nessa área a partir de então.
As ações orientadas por a Secretaria Especial de Direitos Humanos e as instituições representativas do poder público, dos órgãos delegados de Registro Civil de Pessoas Naturais e dos movimentos sociais de defesa dos direitos humanos foram firmados por meio de um pacto para erradicação do sub-registro de nascimento, nos seguintes termos:
1) Enviar esforços para a efetivação das ações constantes do Plano Nacional para o registro Civil de Nascimento, elaborado de forma participativa com a sociedade;
2) Contribuir, incorporando como sua atribuição, o compromisso de apoiar a mobilização nacional para o registro civil de nascimento, participando das atividades e fomentando ampla divulgação dessas;
3) Auxiliar na organização das campanhas, mutirões e serviços itinerantes a serem efetivados, participar na divulgação dos materiais produzidos, cooperar em ações de capacidade de agentes dessa mobilização, e desenvolver ações continuadas de sensibilização e mobilização social para o registro civil de nascimento.
Ressalte-se que no ano seguinte ao pacto já se verificou uma razoável diminuição do índice de sub-registro no Brasil, passando de 19 % em 2003 para 16,4 em 2004.
É importantíssima a orientação à população quanto à obrigatoriedade e importância do registro de nascimento para que se saiba que é através da lavratura deste documento que advém o reconhecimento jurídico do indivíduo quanto à sua existência, estabelecendo provas familiares perante a sociedade.
Considera-se o registro civil o «passaporte para a cidadania».
Nos termos da Lei nº 6015/73 para todo nascimento deverá ser dado o registro no lugar de ocorrência do parto e que o prazo legal para providenciá-lo é de 15 dias para o pai, prorrogado por mais 45 dias para a mãe, na falta ou impedimento do pai.
Para os nascimentos ocorridos em locais distantes mais de 30 quilômetros da sede do cartório, o prazo para fazer a declaração é de até três meses.
Com a Lei nº 9.053, de 25 de maio de 1995, acrescenta-se, na redação anterior, que o registro pode ser dado também no lugar de residência dos pais.
A partir de 1990, passou a ser necessária a declaração de nascimento para proceder ao registro em cartório;
documento denominado Declaração de Nascido Vivo, impresso fornecida por o Ministério da Saúde e preenchido no local do hospital ou casa de saúde onde ocorreu o nascimento.
A ausência desse documento ou em caso de nascimento em local não servido por casa de saúde, a declaração de nascido vivo poderá ser suprida por documento que ateste o fato, desde que firmado por duas testemunhas.
E para finalizar, é importante que se saiba que a Constituição Federal, de 1988, assegura o registro civil gratuito de nascimento, direito, aliás, reforçado com a promulgação da Lei nº 9.534, de 10 de dezembro de 1997, estendendo a gratuidade a todas as pessoas, indistintamente.
Exerça seus direitos.
Joyce Sampaio Bezerril Fontenelle é juiza da 4ª Vara da Comarca de Sobral
Número de frases: 25
Fonte: O Povo -- CE (27/11/2006)
Abre a caixa de mensagem, escreve 2 linhas, apaga tudo e fica olhando para a tela branca que se ergue no visor.
Minimiza a tela, abre o orkut, vasculha intimidade alheia, responde uma ou outra mensagem no MSN e volta para a caixa de mensagem do overmundo.
Primeira postagem, papai e titio diziam que escrevia bem, participei de um livro, logo depois outro.
Em esse ano, arrisquei, fiz meu o meu próprio, carreira solo de um escritor de garagem, e fui pra três livrarias autografar.
Dá-lhe chá de cadeira, botam-me logo no Belas Artes numa cadeirinha e uma mesa com uma caneta e um copo d' água.
Primeiro autografo, ii rapaz, como que faz?
Em o final tava feito testmonial de orkut, se espremesse saia lágrima, saia saudade.
Mas bota lá, 5 merréis o livro, qualquer um vagabundo, desprovido de condição financeira seria capaz de fazer o financiamento.
Aceitava cheque a prazo, até 30 dias vai, e tem conversa.
Abro o winamp, percorro a lista com os olhos e não encontro nada que quero escutar.
5m il musicas, nada que me faça brilhar os olhos, ou ligar o som no volume mais estrondoso e requebrar feito uma bixa loca no quarto.
Abro o word, tropeço nas palavras feito um bêbado delinqüente perdido na multidão.
Ligo a rádio, Chico Buarque, pois quem diria.
Lutou, saiu as ruas de braços dados com uma geração interessante, que expirava política da mesma forma que a engolia de forma prazerosa.
Agora me soltam Calypso, " vai com sorte embora para o norte."
E que me perdoem os nortistas, mas que se exploda essa merreca.
Bebo uma água, piso no Maquiavel que dança no chão a medida que ando por o quarto.
Maximizo a tela, overmundo, vamos lá escrever.
Escrevo esse texto estúpido, de quem não tem muito o que dizer.
Mas fica a promessa de que nunca fui bom de introduzir, mas bom de desenvolver.
Quanto ao titulo, preferi ficar com esse mesmo, senão seriam mais algumas horas pensando com os meus botões.
Grande abraço,
Número de frases: 23
Bernardo Biagioni A Viagem Sonora De REYNALDO BESSA
O cantor, compositor e violonista potiguar, Reynaldo Bessa nasceu em Mossoró, no Rio Grande do Norte, morou em Fortaleza e já está radicado em São Paulo há mais de 15 anos.
O Artista está lançando o seu quarto disco, «O Som da Cabeça do Elefante» com participação da cantora maranhense, Rita Ribeiro.
De esse cd, duas músicas já foram selecionadas para o mapeamento da música brasileira, realizado todo ano por o Instituto Cultural Itaú.
Já lançou quatro cds autorais.
O trabalho de estréia foi «Outros Sóis (1994)» -- independente).
Em 1996, lançou «O Beco das Frutas (Selo --Alpha Music) e o terceiro, Angico» (2004 -- Selo -- Devil discos) este último, selecionado para o prémio TIM de música de 2005.
Agora lança o seu quarto trabalho
Sua música é fortemente influenciada por a cultura de sua região de origem, o nordeste -- com seus ritmos, cores, folclore, poetas, músicos, -- mas também, sempre está aberta a novos experimentos e tendências da música do mundo.
Em seu disco (Angico) já citado acima, Bessa, utilizou alguns ruídos eletrônicos, e guitarras distorcidas, resultando num disco atual, sem perder a essência ...
Esse disco sou eu ...
define, o artista.
Além dos discos autorais, Reynaldo Bessa já participou de vários discos de outros artistas e cds de coletâneas.
Em um desses projetos, o cd «Cachaça Fina», dirigido ao mercado europeu, teve incluídas duas músicas do artista.
Reynaldo Bessa tem parcerias com diversos outros compositores.
De essas parcerias, a música «Por Amor», de Bessa e Zé Rodrix, foi gravada por o grupo IRA!,
no seu acústico MTV.
De as inéditas, É a única música no disco que não é do guitarrista Edgar Scandurra.
Já tocou ao lado de Rosa Passos, Quinteto Violado, Chico César, Alceu Valença, Moraes Moreira, Zé Geraldo, Geraldo Azevedo, entre outros.
Já participou de diversos festivais de música, sendo premiado diversas vezes.
Manager -- Marília de Lima
imprensa@reynaldobessa.com.br Fones -- 55-11-3263-1182 / 8106-8737
Fax -- 55-11-3263-1182
Número de frases: 23
Quando elegi o livro Ominho, do escritor capixaba Paulo Roberto Sodré, como objeto de análise de um breve ensaio para a disciplina «Literatura infantil e juvenil», do curso de graduação em Letras, nada sabia de sua temática e de como era elaborada sua estrutura formal.
Já na primeira leitura, pude perceber a riqueza de suas figuras de linguagem e a forte contribuição estética para o campo literário.
Logo, equivocadamente, deduzi:
Ominho não é um livro para crianças, é complexo demais, certamente um leitor
inexperiente não alcançaria sua elaboração poética.
Cheguei a esboçar meu ensaio cujo título era:
Ominho: uma história de homem pra homem.
Sim, parecia-me um poema em prosa que, mesmo se tratando de uma publicação editorial voltada para um público infantil, não era senão, uma obra de «gente grande» que deveria ser compreendida por um leitor, digamos, maduro.
Bastaram-me, portanto, dois «puxões de orelha» para que revisse minha impressão anterior acerca da obra analisada.
O primeiro veio da própria professora da disciplina para a qual eu deveria desenvolver o ensaio, «Literatura Infantil e Juvenil» -- que, diga-se de passagem, já traz em si a polêmica dessa denominação.
O segundo, e talvez o mais provocante para minha percepção, veio quando da leitura de um ensaio sobre a recepção da literatura por os públicos infantil e adulto, de Andréia Delmaschio, resultante de uma pesquisa com os dois públicos após as leituras de Ominho, de Paulo Sodré e de Livro sobre nada, de Manoel de Barros.
Em o ensaio, Delmaschio fala de sua pesquisa e expõe as impressões acerca de seu estudo.
Entre outras coisas, ela diz:
«Ominho, por o tratamento formal e profundidade temática, é capaz de agradar a leitores de idades variadas, sendo que para os menores sobressaem os aspectos formal e material».
Não me contentava com tal constatação, o título do meu ensaio anteriormente elaborado me parecia muito pertinente, mas após outras leituras e, em definitivo, ao ler o que disse um menino de treze anos de idade, na pesquisa de Delmaschio, consegui me aproximar de algo que a ensaísta havia concluído:» ...
é possível construir obras literárias de valor destinadas ao público infantil sem cair no vício da linguagem puerilizante, da temática moral e didatizante.».
Certamente era no vício daquela linguagem que eu havia caído e com base em ela traçado um caráter equivocado do livro de Sodré.
Reconheci, portanto, que Ominho era uma história rica do ponto de vista formal -- a maneira como o texto se apresenta, a distribuição das linhas, dos versos -- e semântico -- a capacidade de produzir sentido (s), significado (s), e que poderia ser apreciada por leitores de diferentes idades.
Como disse o jovem leitor de treze anos «ele (Ominho) é de um estilo diferente, mostra a vida de uma criança que vê a vida como uma poesia».
Este livro de Sodré foi o quinto volume de uma coleção voltada para o público infantil.
No entanto, mesmo sendo abordada a infância de um menino -- suas relações e sensações acerca da vida e da natureza -- estas se dão sob o olhar de um homem, o sujeito poético -- isto é, quem fala:
a voz do poema, que recorda momentos de sua infância e da presença materna, descrevendo-as à sua maneira, sem uma preocupação com a linguagem pueril, o que pode nos levar a caracterizar, equivocadamente, sua obra como uma escrita voltada a um público específico, no caso, o adulto.
Uma evidência disso deve-se à riqueza metafórica e à construção poética bem elaborada, que sugerem uma leitura atenta, uma leitura que, preconceituosamente, julgamos ser exclusiva de um leitor mais criterioso, ou, amadurecido.
Mas, uma vez desnudos de tal preconceito e diante do estudo da pesquisadora Delmaschio, pode-se constatar que a leitura de Ominho não exclui o leitor infantil.
E, se a literatura, como afirma «Antonio Candido» é o sonho acordado das civilizações», deve-se admitir imaginar que é desse sonho que Ominho se põe texto, se edifica, para todo aquele que se coloca como seu leitor.
Citando a pesquisadora Glória Maria Pondé, em seu ensaio «Poesia para crianças:»,» a linguagem da poesia é econômica porque opera basicamente com imagens e símbolos, abolindo inclusive, nos tempos modernos, palavras de ligação e tudo o que é supérfluo, para maior identificação do leitor com a emoção do poeta».
Embora apresente cortes, a narrativa de Ominho segue uma certa ordem, que se não é a tradicional, encontrada nos contos de fadas, também não chega a ser aquela típica da linguagem dos sonhos, em que as situações e os espaços surgem sem obedecerem a uma sistemática, ou a uma ordem e coerência lógicas.
Ao que parece, essa ordem, no livro de Sodré, seria a da memória de Ominho.
Esta, a memória, é que torna vivas as lembranças de um tempo outro, e que, de algum modo, faz com que o sujeito lírico -- ou o personagem que expõe seu ponto de vista no poema -- não se desapegue de suas lembranças, nutrindo-se de cada recordação, de cada sussurro do passado que o remete à infância e que, também, por meio das sensações -- gosto, cheiro, tato, visão, audição -- traz a infância para o tempo atual.
A não linearidade dos tempos verbais -- ora os verbos estão no presente, ora no passado, num mesmo período -- denuncia a confluência de tempos distintos na narrativa:
o da infância e o da idade adulta.
Em Ominho, ao que parece, as recordações que tecem a teia poética têm origem no nascimento de Ominho, no colo de sua mãe, e segue por sua descoberta por as coisas do mundo, que caracteriza " a passagem do tempo [ ...]
sempre envolta do mergulho no imaginário, sendo simbolizada por imagens como a do riacho, que marcam o afastamento da mãe».
Mamãe me colocava no colo
que me anoitecia em " era uma vez "
mamãe tinha dedos de avencas
perto de riacho
Essa relação do filho com a mãe aponta para a própria interação da linguagem poética de Ominho com a de textos tradicionais.
Para iniciar sua poesia narrativa, Ominho foge do tradicional «era uma vez», o que supõe uma possível ruptura e inovação formal, no que diz respeito à estrutura narrativa.
Um abandono de uma velha estrutura, retomada apenas por a fala da mãe que o adormecia com tradicionais histórias infantis.
Essa retomada do uso, embora de forma deslocada na estrutura do texto, parece não nos deixar esquecer da tradição dos contos de fadas, ao passo que brinca com isso;
pois, ao lançar mão do «era uma vez», ao fim do segundo verso do poema, o sujeito lírico utiliza a tradição para dizer que a abandonou.
Em um segundo momento, a referência aos tradicionais contos de fada é clara e reforça essa idéia de retomada da tradição como fonte da imaginação do eu lírico, por meio das histórias que a mãe lhe contava:
«eu não sabia que joão e maria juntos / tinham mapas de pão para os doces».
Esta é uma referência explícita ao conto dos Irmãos Grimm.
Se num momento a mãe representa a tradição, em outro, paradoxalmente, é ela quem faz com que o menino enxergue o mundo com outros olhos e, por meio de um olhar
outro, tome decisões, como no verso em que diz Sou cigano desde o dia
Em que mamãe disse
«os jardins estão no bico dos colibris,
Ominho!" Jardins no bico dos colibris e não o contrário, assim como em outro verso em que diz «e o mundo está no passo dos ciganos», em vez dos ciganos estarem submissos ao mundo.
Essa imagem metonímica parece encantar Ominho, o que o faz apreciar o mundo e suas sensações com uma postura diversa da tradicional.
De aí um leque de descobertas se descortina diante dos olhos do menino Ominho e, a partir de elas, ele faz suas próprias escolhas:
eu não sabia que os cheiros diziam cores [ ...]
o som da primavera com o verão
ilumina mais os montes
Por meio de figuras sinestésicas -- cheiros que dizem cores, o som que ilumina os montes -- Ominho constrói sua experiência com o mundo por meio das sensações.
Ricas sensações com as quais orienta seu olhar e tece sua poesia.
Falando da especificidade de uma possível Literatura Infantil, segundo «Glória Maria Pondé,» poucos textos mereceriam destaque, uma vez que a preocupação primordial dos seus autores não era a estética.
De aí a classificação desse gênero como subliteratura».
Aqui, o autor subverte essa tendência tradicional nos contos infantis.
A estética é algo de que se compõe sua poesia e que a torna rica em construções imagéticas.
Assim, Ominho propõe outras alternativas para a literatura infantil e para seus leitores, pois, por meio da poesia, cria «novas linguagens» e respeita «o mundo da criança, que tem uma lógica particular e característica».
Cresci quando ascendi estrelas
Com uma caixa de fósforos vazia.
Em esses versos, a linguagem ricamente figurada aponta para o momento de crescimento do menino por meio de suas descobertas, entre elas a de que as constelações têm luz própria, portanto basta uma caixa de fósforos vazia, ou melhor, não se necessita de nada para que todas as noites as estrelas se ascendam.
Ascender estrelas também remete à possibilidade do menino já ter suas próprias idéias e caminhar sozinho, sem a presença de um adulto para orientá-lo em suas decisões;
ou que já projetava seus anseios pessoais e construía, assim, sua própria liberdade, sua luz própria, conseqüência de seu amadurecimento.
Em o texto em análise, as ilustrações, feitas por o próprio autor, constituem uma obra à parte.
Uma construção tão bem elaborada e artística quanto seu texto.
Pensa-se, com base nisso, na tão discutida problemática da mera ilustração no livro infantil, e, como aborda Regina Werneck, em seu ensaio sobre «A Imagem nos livros infantis», a questão não se deve canalizar no sentido de se» lutar contra os livros ilustrados e sim a favor de livros bem ilustrados, nos sentidos técnico, estético e estimulador do pensamento».
O recurso imagético que, se por um lado, busca reproduzir o texto escrito, por outro, recria um texto pictórico e conduz o leitor a divagar sobre imagens que propõem um mundo peculiar do sujeito poético e, ao mesmo tempo, provoca a projeção de outras imagens tão metafóricas e fantásticas quanto as que sugerem as contidas no livro.
Delmaschio, em seu ensaio anteriormente citado, já observara o posicionamento formal das imagens em Ominho, que vêm dispostas em páginas separadas das de o texto escrito, o que nos sugere o trabalho ilustrativo como uma obra autônoma e paralela ao poema.
Regina Zilberman, em A Literatura Infantil na Escola, diz que " o contato com a literatura infantil se faz inicialmente por seu ângulo sonoro:
a criança ouve histórias narradas por adultos, podendo eventualmente acompanhá-las com os olhos na ilustração».
Em este poema, o título «Ominho», e não» homenzinho», reproduz a sonoridade da fala coloquial, popular, que pode representar tanto à infantil quanto à adulta.
Essa escolha também aponta para uma fidelidade não apenas às recordações das situações e das imagens do sujeito lírico em sua infância, mas, sobretudo, aos recursos da variação lingüística comumente utilizada em situações informais, como as vivenciadas por o sujeito, além, é claro, de remeter a uma linguagem intimista, voltada para as próprias sensações.
Essas opções -- de léxico (escolha das palavras), da composição de imagens estéticas e ilustrativas, de recortes da memória, dos símbolos, e da própria escolha do título -- na construção da obra, a tornam mais próxima da temática da infância, fase da vida em que os diminutivos, no caso do título, estão postos tanto na oralidade quanto na relação da criança pequena com o mundo «gigante» diante de seus olhos.
Aproximam-na, também, do momento em que as descobertas de um mundo mágico se dão na medida em que a criança se apropria de alguns conhecimentos e, por meio da necessidade de novas descobertas, encontra suas próprias respostas e exige da relação com o outro -- o adulto -- uma explicação para suas indagações.
Assim, Ominho se apresenta como uma recomendável leitura, por se tratar de uma obra literária que foge à estrutura tradicional dos contos de fada e propõe uma nova linguagem para a literatura denominada «Infantil e Juvenil».
Sua obra está no universo literário para todos os leitores, de qualquer idade.
Trata-se, sim, da história de um homenzinho que se volta para os momentos de sua infância, recordando as tradicionais histórias da mãe, sob o velho intróito do «Era uma vez ...», ao passo que constrói sua própria história sobre a novidade das descobertas do mundo» real " e do mundo imaginário recriado por ele.
Ominho é uma história para homenzinhos e homenzarrões.
Número de frases: 82
Estou participando, desde ontem, de uma das conversas da seção «Fóruns» aqui do overmundo, convidada por o Benny que lançou a seguinte questão para ser debatida por quem quiser se chegar:
«Há diferença entre ser poeta e escrever poemas?"
Aliás, os comentários lá postados têm muito a ver com a discussão que também vem rolando em outra conversa proposta por o Joca, detonada por a pergunta «Quem fala?».
Ambos os debates me interessam muito e têm me feito pensar sobre a questão da escrita.
Já há alguns anos (muuuuuitos) escrever é o meu ofício.
Vivo escrevendo.
Quando meu filho era pequeno, perguntaram na escola o que seus pais faziam e a resposta foi: "
meu pai é engenheiro e minha mãe escreve».
Quando isso aconteceu, era com lápis que eu enchia as folhas e folhas de papel debruçadas sobre a mesa.
Agora minha escrita mudou de instrumento e prumo, teclo de olho na tela do computador, e escrevo cada vez mais, premida por as circunstâncias.
Mas o que escrevo?
Relatórios de pesquisa, atas de reuniões, pareceres sobre textos que outras pessoas escrevem, observações nos trabalhos dos alunos, artigos, solicitações de bolsas de pesquisa, prestações de conta, questões de provas etc, etc
Uma vez perguntaram a Mario de Andrade porque ele escrevia e ele respondeu que, antes de tudo, era porque amava os homens (falei isso na conversa lá com o Joca e também para a Cida).
Motivo nobre pra escrever que me dá inveja porque, como vocês podem ver, o que escrevo não traduz o amor por a pessoa humana.
Embora até pudesse mas, para isso, eu tenho que aprender a colocar poesia nos meus textos.
E será isso possível:
colocar poesia em textos com a especificidade dos meus?
Bem, a resposta a essa pergunta, que estou perseguindo desesperadamente, principalmente depois que virei overmana, é urgente!!!
Digo isso porque tenho notado que depois que comecei a escrever aqui, tenho tido uma dificuldade enorme de voltar pra minha escrita burocrática, movida à obrigação, prazos e notas.
Curiosamente, é aqui no overmundo que tenho aprendido que escrever por amor ao homem é escrever preenchendo a minha escrita da escrita do outro.
A escrita estabelecendo pontes entre mim e o outro, outro que chego a conhecer como se estivéssemos conversando pessoalmente, ou como se estivéssemos trocando cartas (acho que foi por isso que Mario de Andrade, que escreveu cartas como quem respira, disse que escrevia porque amava os homens).
Confesso que vim parar aqui com o interesse acadêmico de descobrir o que é que essa prática de escrita -- cujo interlocutor é virtual -- tem que seduz tanto os jovens que, diga-se de passagem, em sua maioria odeiam escrever.
E custei muito pra ceder à pressão de eles, achando que isso era coisa de doido, de quem não tem o que fazer.
Um dia, não deu mais pra resistir:
uma aluna chegou na sala, comentando que eu não tinha mais desculpa.
Em a véspera, ela havia assistido a uma palestra do Hermano Vianna -- referência importante no trabalho que desenvolvo sobre culturas juvenis -- e ele havia comentado sobre o overmundo.
Pronto, no mesmo dia me inscrevi aqui, e cá estou hoje, em pleno domingo, escrevendo livre, leve e solta, sem que nada, nem ninguém, tenha me obrigado a isso.
Não só entendo porque as comunidades de jovens que escrevem na internet se multiplicam, como redescobri o prazer da escrita.
Existe coisa melhor do que escrever por prazer?
Pois é esse prazer que tenho que aprender a botar naqueles meus textos.
Até porque, por o andar da carruagem, se não aprendo isso (pelo menos em relação ao que escrevo com o compromisso de formar professores que sejam leitores e produtores de textos), corro já, já o risco de escrever para as paredes.
Alguém poderia perguntar, mas e os votos?
Você não escreve pra ser votada?
Pois então, essa coisa dos votos ainda é um pouco problemática pra mim.
Cheguei até a comentar isso com o Spírito.
De tão deslumbrada que estou, por não ter que escrever com a espada na cabeça, fico correndo atrás de vocês, buscando enunciações que me provoquem a teclar.
Também gosto de ser convidada para visitar textos, assim como acho o máximo as filas de edição e até as de votação.
Em tudo isso tem sempre por trás alguém que precisa da escrita cúmplice do interlocutor.
Acho isso demais.
Em a escola, independentemente do grau de ensino, a escrita, com honrosas exceções, não implica em cumplicidade, muito pelo contrário.
Ela é, na maioria das vezes, contra.
Ela não é como o arquiteto de João Cabral que constrói portas-por-onde, jamais portas-contra.
E é por isso que não tenho postado muito aqui.
Isto é, não em causa própria, pra ganhar votos e karmas.
E é por não produzir tanto, que quando sai um texto eu fico atrás de vocês pedindo voto pra não morrer deskarmada.
Adroaldo até já me pediu:
«Carma guria».
Mas eu já estou começando a entender que aqui escrever para ganhar votos não traz servilidade à escrita.
Não se escreve para ganhar votos.
Os votos são uma estratégia para a escrita crescer e circular.
Tanto que não é demérito não ganhar votos, pelo menos eu não entendo assim.
E também me dei conta que a escrita é o coração do overmundo.
O grande barato desse lugar é a magia da palavra que de ele emana.
A palavra aqui não é imposta, ela vem da experiência dos que fazem de ela matéria de criação e indagação, enfrentando seu mistério -- " trouxeste a chave?" --
exprimindo, encantando, vibrando, denunciando.
Número de frases: 55
É por tudo isso que escrevo no overmundo.
Minutos antes de entrevistar a Ordinária Produções, a seguinte
conversa se deu entre o segurança do Teatro Cândido Mendes e eu:
-- O senhor assiste a muito teatro trabalhando aqui?
-- Assisto, assisto sim ...
-- E o que o senhor acha do ...
-- Antes da peça estrear eu já sei se é boa ou se não é, se vai fazer sucesso ou não ...
-- É mesmo?
Como que o senhor sabe?
-- Ah, é fácil, né ...
Eu vou lá e assisto, se eu rir, é boa, se eu não rir, ninguém vai rir, não vai fazer sucesso ...
-- Ah, bacana ...
O texto desta parte final da série sobre o novo teatro carioca é, em muito, resultado de uma conversa de bar.
Sem pré-produ ção, entrevista do tipo pá-pum no Baixo Gávea, realizada cerca de uma hora e meia depois de mais uma sessão lotada da peça Z.
É -- Zenas Emprovisadas, no tradicional Teatro João Caetano (1200 lugares), no centro do Rio de Janeiro.
Registro feito apenas por o duo iPod + iTalk e por a memória calibrada.
Marcelo Adnet:
O talento de quem não aprendeu a fazer
Apresentação (por Bruno Maia):
Marcelo Adnet é amigo velho.
De colégio primeiro, de faculdade depois.
Hoje em dia, é um dos atores mais promissores do humor no país.
Desde sempre, dono de um cinismo seco e escroto, no melhor sentido que o adjetivo possa tomar, de repente estava arrebentando numa peça de teatro, sendo que eu nunca soubera que ele fazia teatro.
Apesar dessa estranheza, o mais estranho era pensar como aquilo poderia ser estranho.
Conhecendo Adnet, o mais normal era ter imaginado que o seu caminho natural seria os palcos.
Mas não imaginei.
A fisionomia ordinária -- ele carrega no rosto um tipo de brasileiro comum -- está em sintonia com um arquétipo contemporâneo que encarna com facilidade quando está em cena.
Apresentação (por o próprio):
Vou me apresentar mais ou menos sério.
Sou Marcelo Adnet, cidadão do Humaitá, onde eu moro há 24 anos, os 24 anos de vida que eu tenho.
Em a infância eu era bem maluco, bem anti-social, não brincava, não conheço desenho animado nenhum, não conheço história infantil, não conheço porra nenhuma ...
Tive uma infância esquisita e tal ...
não pegava ninguém, era um adolescente espinhento, traumatizado ...
De aí, fui estudar no Santo Agostinho, senti uma diferença daquelas pessoas pra mim.
Eu vindo do Humaitá, no Santo Agostinho, era quase alguém vindo da Baixada, era mais ou menos assim, pessoal todo do Leblon, Ipanema ...
E aí lá, eu tive contato grande com a burguesia, com a nobreza, entendeu?!
Aprendi os hábitos da galera, que era ir para boates caras, jogar boliche no Barra Shopping ...
minha vida deu uma mudada.
E aí, a educação rígida me fez querer sair da educação rígida, sacou?!
Em aquele colégio ali, que se ficava de 7 da manhã até 5 da tarde, no terceiro ano, era uma rotina enlouquecedora.
Então, fui para a PUC.
Lá, finalmente, eu comecei a me achar.
Porque na PUC, a melhor coisa que me aconteceu não foi nem o curso de jornalismo, eu não sabia o que fazer, não tinha idéia sobre o que fazer, pensei: '
Comunicação! ', porque é um curso mais amplo, onde você pega alguma coisa ...
E na PUC, eu não sabia o que fazer e as aulas de Comunicação são qualquer-nota mesmo, sobre porra nenhuma, e aí o que de bom aconteceu foi fazer vários amigos muito diferentes:
a galera careta -- como tinha no Santo Agostinho --, a galera que dava um dois na casinha, a galera do forrózinho, a galera do reggae, a galera que ia para a praia, a galera que viajava junto ...
E muitas pessoas que nem eu, da minha idade, fazendo coisas diferentes da vida.
Um ia para um intercâmbio na Europa -- porra, coisa que eu nunca pensei em fazer --, o outro tinha um negócio -- porra, como assim um cara da minha idade tinha um negócio?--,
o outro não faz porra nenhuma -- que nem eu -- me conforta.
Esse lance ir criando vários amigos foi me ajudando a me achar e desde então, eu sou feliz.
Mas lá na PUC, eu fiz um estágio de jornalismo com assessoria de imprensa e foi uma merda, chato pra caralho, aí, o Fernando Caruso, esse rapaz de olhos saltados, que namorou minha prima, também fazia PUC, Comunicação -- só que ele fazia publicidade.
A gente se encontrava na PUC, se grudava e ficava falando merda sem parar.
Sem Parar.
De aí um dia, ele virou pra mim e perguntou se eu não faria uma peça de improviso com ele.
E eu nunca fui ator, porra nenhuma, só conhecia as pessoas ali do Tablado, via ele ...
Eu disse sim, fomos ensaiar, conheci o grupo, a química bateu.
Eu ainda trouxe um elemento musical porque a minha família -- meu pai e meu irmão são seis, dos quais cinco são músicos -- é dessa área ...
E a gente se encontrou em agosto de 2003, montou o Z.
É, que é a minha base de carreira em que me encontrei.
Por quê? Porque é divertido, porque é flexível, porque você trabalha pouco fixo, não tem horário para a porra nenhuma, não tem colega de trabalho fixo além da galera da peça, então é uma profissão que me deixa feliz por ser uma profissão de autonomia.
E a minha história pára aqui, depois de cinco minutos falando pra caralho ...
* * * * * Falou mesmo.
O impacto que o Z.
É causou no teatro carioca foi muito grande.
Com uma estrutura ínfima, eles não só venceram o Prêmio Shell, na categoria especial em 2004, como estiveram à frente de um movimento forte de peças de humor.
Provavelmente o termo movimento sugira algum tipo de organização e / ou proposta estética semelhante que, na verdade, não há.
Os grupos e montagens têm uma grande independência entre si.
Fato é que, no atual teatro carioca, fazer comédia é quase que condição obrigatória para alcançar-se êxito comercial.
Para os cariocas, teatro virou terapia do riso.
Talvez, uma conseqüência do humor que sempre marcou os habitantes da cidade maravilhosa, talvez uma fuga para a total falta de razões reais para se rir na cidade maravilhosa, talvez as duas coisas juntas e talvez não.
A trajetória peculiar de Adnet, que, como já disse, nunca estudou teatro, faz com que o ator tenho uma visão particular sobre os caminhos para a renovação estética e de público:
«Não sei se é porque eu vim de fora, mas eu acho que o teatro precisa de pessoas de fora, de público leigo.
Porque quem faz teatro, na maioria das vezes, faz a peça para a crítica, para o meio, e não para o público que vai ver.
Então as pessoas que vêm de fora, que fazem parte do mundo real, fazem a comunicação acontecer.
O teatro tem um problema de comunicação e as peças, muitas vezes, são uma merda mesmo, um saco».
Sobre o excesso de comédias, Adnet tem uma visão própria.
«Houve uma necessidade de se dar uma nova cara para a comédia.
Durante um tempo, existia uma espécie de pornô-chanchada, com peças como Trair e coçar, é só começar, Por falta de roupa nova, passei o ferro na velha, que ficaram muito tempo em cartaz, mas que se esgotaram.
Surgiu a necessidade de se fazer uma coisa nova, mais sofisticada para se reaproximar o público.
No caso do Z. É, a gente tem influência de teatro-esporte.
Não é uma peça, é um jogo onde a platéia vê tudo que está acontecendo, de onde surgiu a piada, acompanha o raciocínio, a construção, e não só o produto final.
Mas há outros formatos de comédia no teatro carioca e não há uma linha comum entre isso tudo.
Cada grupo, cada peça, segue uma influência, segue um formato diferente.
Tem os stand-up comedies, que são mais baseados num humor norte-americano, o nosso é mais influenciado por coisas inglesas, tem uma comédia mais tradicional, de tipos ...».
O fato de ter virado ator não alterou muito a visão que Adnet traz do teatro.
Ele, que raríssimas vezes ia assistir a peças, hoje em dia continua não indo muito.
«Vou um pouco mais, umas duas, três vezes no mês, normalmente como convidado.
Pagando ainda é bem difícil», conta, sem esconder o riso e o quê de cinismo.
Não ter formação teórica, faz com que Adnet fuja de alguns caminhos e vícios.
«Eu vou fazer uma cena com a Arlete Salles.
Foda-se.
Eu não vou entrar ' respeitando ' porque eu vou ficar tímido e vai ser ruim para a cena.
Tenho que tratar as pessoas de igual para a igual.
Eu estou aprendendo ao fazer.
Outra coisa é decorar texto, que eu achava que devia ser muito difícil ...
isso é ridículo, qualquer um decora.
O mais difícil é fazer as palavras que você está lendo saírem com naturalidade.
Contruir personagem?
Eu não construo.
A maioria das pessoas faz assim.
Eu, por incompetência ou por inexperiência, não faço.
O que eu faço é dar uma lida, à noite, e imaginar as cenas.
Eu até tento a construção, mas eu não tento ir conviver com o que seria o ambiente natural do meu personagem para aprender como é ...
A minha formação é a de resolver as coisas na hora, no fogo, como um processo bem teatral mesmo."
O humor sacana é a grande marca de Adnet.
Sem constrangimentos, ele demonstra saber que isso é uma faca de dois gumes e que tanto foi responsável por o espaço que o trabalho de ele conseguiu até aqui, quanto pode ser um limitador mais à frente.
«Todo mundo tem uma característica marcante e se cair um personagem com essas características na minha mão, ótimo, eu vou fazer bem.
Se vier outra coisa, é o que o ator chama de desafio e eu estou aí pra isso.
Tem um filme que eu fiz agora, onde eu interpreto um garoto bonzinho e foi foda.
Se eu quisesse entrar em crise, eu entrava, mas eu preferi não entrar.
Preferi falar: '
foda-se, estou trabalhando '.
Isso pode limitar a carreira, sim, mas acontece com todo mundo.
Em principio, eu sou um humorista, mas eu também gosto de ser ator».
O trash-televisivo é outra referência fortíssima e marca demais a personalidade artística de Adnet.
«Eu não me inspiro em nenhum programa de televisão, porque eu não gosto de nenhum de eles, eu acho.
Mas o humor que eu consumo é esse.
É em ele que eu paro a televisão, no que eu acho ridículo, no que eu acho uma merda.
Eu prefiro ver um programa que é muito escroto pra falar ' caralho, que merda ... '
do que um negócio maneiro.
Eu curto mais depreciar do que apreciar».
Correr atrás da base acadêmica, que nunca teve, não é uma prioridade para ele, apesar de admitir que faria um curso de dramaturgia.
«Eu não sei o que o Stanislavski escreveu, porra nenhuma do Brecht, eu não me atraio por isso.
Eu gosto mais do vamo-ver.
Mas isso é um pouco de petulância e eu sei que, em algum momento, pode se revelar e eu me fuder.
Só que eu acho que a gente só aprende mesmo tomando porrada.
Acredito que só vá correr atrás disso quando me for exigido.
Até porque essa é uma carreira em que eu estou por a minha felicidade.
Não me dá prazer estudar».
Se o prazer é um norte, uma pergunta necessária é como se dá a avaliação sobre os convites que aparecem.
Além das peças, Adnet já fez aparições em programas como A Diarista, A Turma do Didi, Sob Nova Direção, além dos três filmes que entram em cartaz no segundo semestre e duas grandes propagandas de empresas de igual porte.
«Primeiro, é a natureza do projeto.
Por exemplo, teatro tem um comprometimento muito grande, vou ter que ficar mais de um ano ali, com as mesmas pessoas, vou acabar brigando com um, etc..
Em a televisão, eu pego um ônibus, vou para a Globo e volto para a casa!
Outra coisa é, lógico, dinheiro.
Se vão te pagar muito bem, como é na publicidade ou no teatro para empresas, aquilo não vai te projetar, nem te dar reconhecimento.
É só um cachê.
Outro critério que uso é o artístico.
Eu estou em três filmes agora e a opção de fazer cinema é para realizar um sonho.
Se eu tiver netos, eu vou poder pegar na locadora e explicar cada cena para eles.
Cinema tem essa magia."
Em o Z. É, o único quadro solo é o «Coletânea de CD», comandado por Adnet, que improvisa letras sobre temas propostos por a platéia imitando famosos artistas da música brasileira.
«Isso surgiu, em parte, da formação musical da minha família.
Graças a ela, eu tenho uma intuição musical, apesar de não tocar nada.
Além disso, eu sempre gostei de imitar as pessoas».
O quadro foi inspirado no programa americano Whose line is it anyway?,
do canal Warner, de onde o grupo tirou alguns dos jogos que compõe a terceira parte do espetáculo.
«A minha sátira aos músicos é baseada nos vícios de cada um, seja na temática ou na imitação.
O Cazuza, por exemplo, -- [nota do editor:
Adnet começa a falar imitando Cazuza] -- fala de coisas pooodres, critica a burguesiiia, enche a cara no baaar e picha o muuuro ...
Ele é assim.
O Renato Russo é um cara que faz versinhos e conta coisinhas -- [n.
e: Adnet passa a imitar Renato Russo] -- e eu estou aqui / com vocês tomando chope / e a cada gole / me sobe à cabeça / eu estou ficando doidãão ...
Mas é tudo muito intuitivo».
O sucesso de Z.
É já faz com que a peça esteja em cartaz há quase três anos, na nona temporada, com esquemas de pausa e retorno.
«O plano é não acabar nunca.
Esse é o nosso projeto maior e a gente tenta conciliar as outras coisas com as pausas no Z.
É. Mas a idéia é ir levando ele sempre adiante».
A o avaliar o novo teatro carioca, Adnet acaba caminhando para falar, novamente, da comédia, e ressalta que até pouco tempo atrás havia um comprometimento maior com um suposto papel político do artista.
«Artista é o caralho.
Eu faço pra me divertir, estou cagando.
Não há uma unidade política, é uma junção de pequenas ideologias baseadas simplesmente na atualidade e que pode, até por isso, acabar sendo político.
Acho que isso está presente nessa nova geração».
Forçando a barra, provoco Adnet para saber que tipo de relação há entre essa galerinha ligada à comédia, da qual ele faz parte, e os outros setores do novo teatro carioca.
Que tipo de diálogo se dá?
As respostas ficam no meio do caminho, entre uma intenção e uma falta de realidade.
«Quem veste bandeira, camisa de galera, se dá mal.
Dentro de grupinhos, você se limita, acaba sendo patrulhado.
O legal é dialogar e circular.
A gente do Z.
É quer saber do que está acontecendo, mas nós mais depreciamos do que ...
gostamos mais de falar mal dos outros do que de falar bem ...
é ... se bem que isso acaba nos tornando um grupinho também ... ...
e também não há uma estética ideal.
Cada um está na sua fazendo seu trabalho, você lá e eu cá.
Me interessa como espectador.
Como profissional, me interessa na medida que eu quero ver o que o outro está fazendo, quais os recursos que ele está usando.
Mas ao mesmo tempo, se rolar a possibilidade de trabalhar junto, me interessaria».
A distância entre os artistas que compõe essa nova cena é evidente.
Ao mesmo tempo, há um constrangimento entre todos que não permite ninguém admitir isso.
Sei, sei que cada um dos personagens vai levantar a voz e enumerar vários outros artistas com os quais se relaciona, mas na verdade, são grandes aglomerados geracionais e de interesses, onde o intercâmbio entre propostas diferentes parece pequeno.
Isso não é em si algo ruim.
A arte retrata a sociedade na qual ela está inserida e estes são tempos individualistas.
O caminhar é cada vez mais próprio e influenciado por referências diversas.
O diálogo não é tão grande e o resultado é mais plural.
As semelhanças por a estética não acontecem.
A dialética também não.
Mas a mobilização é maior.
A articulação até existe, mas é pequena.
Talvez seja desnecessária e até melhor que não exista.
O novo teatro carioca, assim como a cultura mundial em maio 2006, é composta por pequenos fragmentos desconexos, em que a informação é excessiva, despolarizada e mais democrática.
E isso é só uma circunstância.
Número de frases: 193
Com o livro Tractatus Logico-Philosophicus de Ludwig Wittgenstein se dá a virada lingüística que caracterizou a filosofia analítica do século XX.
Mas, muito antes de Wittgenstein, no período da patrística, Santo Agostinho tem um interesse incomum -- mostrar que a linguagem é frágil, que os mestres, professores, não ensinam, apenas incitam, e que Cristo seria uma verdade que ensina interiormente.
Santo Agostinho escreve sobre a linguagem com uma base teológica, mas ele escreve em diálogos, vai incitando a cada frase questões sobre a linguagem -- tema que está também nos versos de Leminski:
«nome dos meus amores, nomes animais, a soma de todos os nomes, nunca vai dar uma coisa, nunca mais."
A relação entre o nome (significante) e a coisa (significado).
Pois, quando falamos, é uma verborragia, para usar palavras de Santo Agostinho -- Verberatio.
Esta verborragia fere os ouvidos de outra pessoa e «comemora», traz a imagem da coisa, a memória -- Commemoratio.
Mas as palavras são frágeis, não expressam a realidade, quando se fala «grama, flores, lírios, tulipas» não surge um jardim em cima das papilas gustativas do falante.
Saem apenas sons.
São palavras, conceitos, nomes.
Como no primeiro verso temos que nem todos os nomes são iguais.
Temos nomes que substituem os próprios nomes.
Não é necessário ser dito «Agostinho», posso me referir a ele como» filósofo " ou como um pronome.
Assim, nós nos afastamos ainda mais do objeto.
Em o terceiro verso Leminski diz que «A soma de todos os nomes, Nunca vai dar uma coisa, nunca mais», a experiência de tocar, ver, sentir o objeto, não vai ser maior do que apenas ouvir o nome.
Mas parece que tem coisas indizíveis:
«que dói dentro o nome, que não tem nome que conte, nem coisa pra se contar?"
Teríamos sinais sem significados.
Como a palavra «Deus»,» Nada», «Se» -- Como alguns sentimentos.
Talvez seja o próprio limite da linguagem, que se transforma na estrutura e modo -- do pensamento.
O poema:
Nome a Menos -- Leminski
Nome mais nome igual a nome,
Uns nomes menos, uns nomes mais,
Menos é mais ou menos,
Nem todos os nomes são iguais.
Um coisa é a coisa, par ou impar,
Outra coisa é o nome, par e par,
Retrato da coisa quando límpida,
Coisa que as coisas deixam ao passar.
Nome de bicho, nome de mês,
Nome de estrela,
Nome dos meus amores, nomes animais,
A soma de todos os nomes,
Nunca vai dar uma coisa, nunca mais.
Cidades passam.
Só os nomes vão ficar.
Que coisa dói dentro do nome
Que não tem nome que conte
Nem coisa pra se contar?
Número de frases: 40
Música, televisão, literatura.
Temas inescapáveis aos tentáculos do mundo informatizado.
Não faltou assunto para o seminário «A cultura além do digital», realizado entre 4 e 14 de dezembro, no Rio e em Recife.
As apresentações foram as mesmas (com algumas exceções) nas duas cidades -- o que foi falado no Nordeste foi abordado no dia seguinte no Sudeste.
Se você perdeu a oportunidade de ficar por dentro do que rolou, não se preocupe:
um mutirão de oito mãos encarou os teclados e escreve aqui o que mais de interessante aconteceu nesta primeira semana.
A proposta é fazer um texto pessoal, uma espécie de diário, onde cada um conta suas impressões do debate em que compareceu.
Lembrando que esta semana o evento continua, portanto, aguarde, vem mais colaboração por aí.
* * * 4/12 -- Recife
Bruno Nogueira A força que pessoas como a professora Heloísa Buarque de Hollanda têm na construção coletiva de nosso conhecimento é tanta, que uma dúvida de ela é capaz de coisas grandiosas.
O seminário «A cultura além do digital» é mais ou menos isso.
Em o discurso de abertura, numa das salas da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em Pernambuco, Heloísa dizia, entre sorrisos:
«comecei a ter esse questionamento.
Como a produção e acesso à cultura vai se transformar agora com o suporte digital?».
Ela juntou o Tangolomango, a Fundaj, e pessoas da área para discutir o assunto.
O Overmundo não tinha como ficar de fora.
Evento simultâneo, acontecendo também no Rio de Janeiro, nos dividimos para acompanhar o processo.
Em o primeiro dia, o americano Seth David Schoen, da Electronic Frontier Foundation, veio falar sobre padrões de TV Digital.
Figura engraçada, mas com um trabalho bem sério.
Ele tenta unir a maneira de unir tecnologia e legislação de modo amigável.
O adesivo com a palavra «Ubuntu» (uma das cópias mais usadas hoje do Linux), mostra que ele é o tipo de cara que leva trabalho para casa.
O recado de Seth, que fez questão de falar em português, foi mais importante do que parecia.
Ele explicou um pouco a história do VHS, da «tv-como-nós-conhecemos», e dos direitos do consumidor.
Segundo sua palestra, existe um problema no padrão que o Brasil optou.
É um totalmente fechado -- o do Japão.
Em este país, onde já está em atividade, não só o acesso como também a produção de conteúdo pertencem a um grupo centralizado.
5/12 -- Rio de Janeiro
Thiago Camelo O dia 5 de dezembro, terça-feira passada, foi o pior de toda história dos aeroportos brasileiros.
Seria o que diriam os jornais de quarta.
Mas, até lá, quem estava no auditório do Senac Copacabana não sabia disso e -- por não saber -- esperava encontrar o norte-americano especialista em tecnologia e legislação Seth David Shoen e a pesquisadora e curadora do evento Heloísa Buarque de Hollanda -- ambos dariam as boas-vindas e falariam um pouco dos assuntos a serem tratados no decorrer da semana.
Falariam. Porque, àquela altura, Seth e Heloísa estavam tentando voltar de Recife, cidade em que no dia anterior inauguraram os debates do «A cultura além do digital».
Se o ditado que diz que há males que vêm para o bem faz sentido, ainda não sei, mas que ele pôde se aplicar à ausência dos dois ...
Isso eu posso garantir.
à mesa, representantes do Minc, do Sesc e de Heloísa tomaram à frente para dizer «oi» às pessoas presentes (devia haver de 30 a 40 na sala) e deixar a palavra para Pedro Paranaguá, advogado da FGV do Rio, e, naquele dia, espécie de bombeiro que deveria salvar o debate improvisado.
Foi bem, já que a palestra que deu sobre cultura livre e tecnologia gerou debate, esclareceu dúvidas e -- como toda boa exposição -- suscitou questões.
Pedro discutiu assuntos muito freqüentes em diversos textos publicados no Overmundo, inclusive o último de Ronaldo Lemos, «O autor coletivo».
A questão central foi:
como a tecnologia pode ser utilizada por todos que fazem parte da cadeia cultural -- produtor, artista e população?
Para responder, o advogado voltou ao século XVIII, mas precisamente a 1710, para contar as origens da primeira legislação de Direito Autoral.
Segundo ele, foi a rainha inglesa Ana quem assinou a primeira medida de proteção a obras, sob influência iluminista e contra a imposição da época, que previa direitos eternos aos donos de qualquer escrito.
O Direito de Ana protegia o autor por 14 anos.
Pedro pulou no tempo para dizer:
«Hoje, a legislação do Brasil protege a obra por até 70 anos depois da morte do autor e, o pior, como a maioria já sabe, o autor nem é mais dono do que produz, quem controla a obra é o titular que, normalmente, é uma grande major».
Adiante, ele apresentou números que comprovam a queda vertiginosa da indústria de mídias convencionais.
Também familiarizou o público a nomeclaturas que seriam ouvidas nos dias seguintes, como o DRM, espécie de trava tecnológica que dita o que o aparelho pode ou não reproduzir ou gravar.
Já para o final, Pedro explicou alguns direitos que poucos sabem que têm, como o uso privado de cópia de pequenos trechos de obras.
Bom começo de evento, num dia em que os aviões tentaram atrapalhar.
* * * 5/12 -- Recife
Bruno Nogueira O susto da informação do primeiro dia -- que a TV digital no Brasil pode ter uma produção controlada -- foi necessário.
Não sei se era intenção, mas serviu de base para a palestra do segundo dia.
Luiz Fernando Soares, da PUC do Rio de Janeiro, é responsável por o desenvolvimento de middlewares.
É algo que fica entre o software e o hardware.
No caso da TV digital, é justamente a mediação para produção e acesso ao conteúdo.
Luiz Fernando está na equipe de criação do Ginga, junto com a Universidade Federal da Paraíba.
Acompanhado por o Mário Teza, da Associação Software Livre do Rio Grande do Sul, ele explicou em detalhes como vai funcionar a recepção de TV digital no Brasil.
O mais importante:
disse que o país ainda não definiu realmente nada no que diz respeito à produção de conteúdo.
Mas deixou claro que, apesar de usar a mesma tecnologia japonesa, não pretende seguir o mesmo formato operacional.
6/12 -- Rio de Janeiro
Saulo Frauches Em o dia em que o tema dos debates foi ' Inovação tecnológica, mídia e processos culturais ', a estrela foi a TV digital.
O professor da Puc do Rio de Janeiro Luiz Fernando Soares fez questão esclarecer à galera leiga um detalhe:
esse papo de sistema japonês, europeu e americano não existe -- melhor dizendo, é uma denominação incorreta.
Mas calma porque o mundo não caiu por causa disso.
A explicação de Soares é simples:
estes três sistemas até usam padrões de compressão comuns para vídeo e sons, como o mpeg2 -- por exemplo, o que muda é a modulação.
Em este aspecto, o Brasil adotará a modulação japonesa -- considerada por ele mais robusta e adequada à nossa topografia multifacetada.
O que não quer dizer que teremos todas as mesmas características da TV digital japonesa.
Só para ficar em mais um exemplo, os vídeos da TV brasileira serão no formato mp4, mais compacto e avançado que o mpeg2 usado por os nipônicos.
Ele deixou claro também que um traço forte da nova TV, além de imagens e sons melhores, está nas possibilidades do middleware -- uma espécie de ' arena ' onde são desenvolvidos softwares e aplicativos para a TV digital.
O middleware a ser adotado por aqui, o Ginga, tem código aberto e foi inteiramente produzido e pesquisado no país.
A ênfase em serviços via TV é apontada como uma saída para o processo de inclusão digital.
Ancorado em estatísticas que mostram 91 % das classes C e D com acesso à TV e 0,25 % desta mesma parcela populacional com acesso a um computador ligado à internet, Soares mostra que formular um sistema capaz de incluir esta população fora da rede é ponto estratégico.
Mas ressaltou que a TV digital não tem como objetivo substituir o PC -- ela terá outra proposta, com textos mais enxutos em relação ao que se vê nos computadores.
Mario Teza, fundador do projeto Software Livre do Rio Grande do Sul, elogiou o fato do Ginga estar disponibilizado como software livre, lembrando que há uma maior autonomia de pesquisas nestes casos.
E para reforçar a tese de que a licença livre é economicamente vantajosa, falou de um estudo do Departamento de Defesa americano que incentiva a adoção de tecnologias livres, e fez uma comparação entre uma versão robusta do Linux com o Windows XP.
O sistema da Microsoft tem cerca de 40 milhões de linhas de dados, enquanto o rival carrega por volta de 55 milhões.
«Se fosse pagar por isso, seria muito caro», conclui.
Já Paulo Bastos Tigre, da UFRJ, mostrou implicações econômicas com a era da TV digital.
Prevê receitas que vão além da publicidade e estima um custo de transição do sistema analógico para digital na ordem de R$ 7 bilhões.
De este montante, R$ 5 bi devem doer só no bolso dos usuários -- entre aquisição de novos aparelhos e compra das ' caixinhas ' decodificadoras.
* * * 6/12 -- Recife
Bruno Nogueira Conteúdo colaborativo nunca foi tão irônico como durante as palestras do «A cultura além do digital».
Em o lugar de assistir às palestras, eu fui participar de elas.
Como o Ronaldo Lemos não veio para o Recife, a organização do evento me convidou por ser representante do Overmundo.
Fui o último da noite a falar, o que acabou sendo uma cronologia interessante.
A advogada e professora Silvia Gandelman, da FGV do Rio, falou como funciona o direito autoral no Brasil.
Trouxe umas explicações importantes.
Nós, por exemplo, já temos alguns artigos na lei que funcionam igual ao Creative Commons, só que acabamos sem ficar sabendo direito disso.
O artista já pode, dentro da própria legislação atual, dizer o que permite ou não ser feito com a obra.
Depois o H.D. Mabuse explicou como o Re:
Combo já fazia isso.
Ele contou a história do coletivo, mostrando como 40 pessoas estavam fazendo intervenções artísticas em várias áreas -- até mesmo em softwares -- usando uma licença própria.
A Lucre (Licença de Uso Comum Re: Combo).
A alternativa a esses dois casos veio com a «web 2.0», o Creative Commons, e o Overmundo, encerrando a noite.
7/12 -- Rio de Janeiro
Thiago Camelo Em este dia, seria finalmente a vez de Seth David Shoen falar.
Conseguiram encaixá-lo na mesa de quinta-feira.
Mas como ele já havia estado em Recife, e, isto, o Bruno já contou aí em cima, não vou me repetir.
Só, a título de curiosidade (porque realmente fiquei bastante curioso), sugiro uma lida nestes dois links sobre Broadcast Flag e DRM.
Também incentivo qualquer comentário e opinião sobre o modelo japonês de TV digital adotado por aqui (em detrimento do europeu, do norte-americano e, mesmo, do brasileiro), uma vez que a questão me pareceu ainda indefinida e -- de certo modo -- obtusa.
Cada um tem uma opinião diferente sobre o tema.
E, é bom lembrar, não há como fugir do assunto:
em poucos anos, todas as TVs do país serão digitais.
Depois de Seth, Silvia Gandelman, Caio Mariano (Re: Combo-SP) e Ronaldo Lemos falaram, seguindo assim a ordem natural da palestra que o Bruno vira no dia anterior, em Recife (exceto Ronaldo, que não pôde comparecer em Pernambuco).
Algumas coisas me chamaram atenção aqui:
a primeira é do Re:
Combo -- um dos maiores expoentes de cultura livre do pais -- pensar e assumir abertamente o lado humano da iniciativa.
A evidência de que a democracia e cidadania são mais plenas agindo ao modo Re:
Combo sugere que se o caso for o de se ganhar menos dinheiro, tudo bem, o risco vale a pena:
«Quem tem uma preocupação industrial esquece a criação.
Em o Re:
Combo, a gente quer ver as coisas acontecerem.
E elas estão acontecendo, a molecada está produzindo», contou Caio Mariano, represente paulista da iniciativa.
Outro ponto sobre o qual desejo jogar luz:
foi a primeira vez, em todos debates de cultura livre em que já estive, que houve discordância entre os palestrantes sobre os caminhos a se seguir.
Acho muito saudável.
Isso aconteceu após a exposição de Ronaldo Lemos sobre a crise das mídias convencionais, a proeminência de novos negócios e a opção de licença autoral neste novo mundo:
o Creative Commons.
Silvia Gandelman, qual Ronaldo, advogada da FGV, pediu licença educadamente para discordar:
«Conheço Ronaldo há muito tempo e ele sabe que eu tenho outra opinião.
Não acho que seja necessário uma nova legislação para lidar com este novo mundo.
Acho que nossa legislação está preparada.
O peso que depositam no Direito Autoral não é tão relevante assim.
A grande novidade é a internet, mas, quando passar a euforia, vamos saber conciliar o coletivo e o individual».
* * * 7/12 -- Recife
Bruno Nogueira não pôde ir neste dia.
Viktor, abaixo, narra exatamente a mesma palestra, ocorrida no dia seguinte, no Rio.
8/12 -- Rio de Janeiro
Viktor Chagas Burburinho.
Em a sexta-feira, um homem atrás de mim anuncia:
«Vai começar, vai começar."
Chegam-se à mesa Sérgio Vieira Branco Jr., Luis Fernando Moncau, Isabela Cribari e André Lemos.
Sérgio, líder de projetos do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Fundação Getúlio Vargas, abre os trabalhos, apresentando rapidamente o Overmixter.
Ele descreve e comenta o concurso Overmix BraSA, de remixes entre Brasil e África do Sul.
Para não tomar muito do tempo, passa logo a palavra a Luis Fernando.
O homem atrás de mim inicia uma conversa com o companheiro ao seu lado.
Eles falam tão alto que eu mal consigo ouvir o que está se passando.
Luis Fernando Moncau é advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, uma organização sem fins lucrativos, que existe desde 1987 e tem, hoje, mais de 20 mil associados.
O IDEC realiza testes de produtos e serviços, ações de marketing social, orienta consumidores e promove ações judiciais de defesa do consumidor.
«Mas o que defesa do consumidor tem a ver com ' redefinindo públicos e novos sentidos das culturas '?»,
pergunta Luis Fernando.
O homem atrás de mim repete a pergunta como se quisesse dizer: "
É. O que tem a ver?
Nada." Burburinho.
Em seguida, Luis Fernando explica que, para promover o acesso a bens e serviços públicos, e sobretudo a partir da convergência tecnológica da cultura digital, o IDEC entrou de cabeça na questão dos direitos à informação e ao conhecimento, citando que uma das principais questões a ser debatidas na área cultural é como balancear o acesso e a remuneração do artista.
E por aí passam estratégias de publicidade por tecnologias bluetooth, o caso abusivo das travas de DRM, e um projeto de lei que proíbe o jabá, em discussão no plenário.
O homem atrás de mim diz:
«Mas jabá algum dia foi permitido?"
É aí que entra Isabela Cribaldi, documentarista e produtora de cinema.
Ela fala da entrada da cultura no reino da economia e explica que o projeto não apenas proíbe como criminaliza o jabá.
Mas o fundamental da explanação de Isabela acaba sendo sua idéia de que, com o digital, há no fundo um retorno à filosofia do uma câmera na mãe e uma idéia na cabeça.
«Uma idéia na cabeça», repete o homem atrás de mim.
E, então, entra André Lemos, professor de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, especialista em Cibercidades.
Ele pede desculpas e diz que, diferente dos colegas de mesa, não usará uma apresentação em powerpoint de fundo.
Também se recusa a mudar de lugar para ser filmado mais em close.
Fica no fundinho, quase meio tímido.
Só quase.
André é comunicativo, como não poderia deixar de ser.
Ele inicia dizendo que vivemos o fim da era da espetacularização, em que não mais apenas assistimos aos meios, mas interagimos com eles.
«Não é mais apenas download, mas upload», diz ele.
E os meios de massa deixam de ser de massa, para serem, agora, «pós-massivos».
«É. Pós-massivos», repete o homem atrás de mim.
Em esse momento, tive uma vontade imensa de levantar e falar com ele:
«Meu amigo, assim não dá."
Mas me segurei.
Burburinho. A mesa estava se encerrando.
Luis Fernando Moncau pediu desculpas por ter de sair um pouco mais cedo, para não se atrasar para seu vôo.
A platéia começou a perguntar.
Perguntar. Sérgio Vieira Branco Jr. anuncia que o evento chegava ao fim naquele dia, já que era tarde e que se mais algum dos integrantes da mesa saísse, a coisa pareceria um Big Brother, expulsando um a um os participantes do evento.
André, então, sugeriu:
«Nós podemos ir e deixar o pessoal aí, discutindo."
Alguém se levanta lá de trás e diz:
«A gente fica fazendo o upload por aqui."
Foi um final apoteótico.
Só então percebi que o homem atrás de mim que repetia tudo o que os palestrantes falavam não estava só assistindo.
Número de frases: 175
Ele estava interagindo.
«As atuais leis de propriedade intelectual são inadequadas para o período histórico em que vivemos.
É preciso rever a questão do tempo de duração das proteções patentárias e do copyright, tendo em vista que o período de proteção ' socialmente justo ' sobre a patente de um novo processo de resfriamento de latas de cerveja talvez não seja o mesmo que o de um medicamento contra o HIV."
A citação inicial, feita por Wilken Sanches, diretor geral do Coletivo Digital, apenas ilustra a amplitude do projeto, que foi iniciado oficialmente no fim de 2004.
Era uma experiência de inclusão digital iniciada na cidade de São Paulo que tomou corpo e se tornou uma organização não-governamental, disposta a disseminar o acesso de todos os extratos da população à internet, aos chamados softwares livres e à cidadania digital.
Como o nome propõe, as ações do Coletivo Digital combinam esta democratização tecnológica à sua aplicação por e para a coletividade.
A tal experiência citada foi o programa dos Telecentros por a Inclusão Digital (TIDs), na gestão Marta Suplicy na prefeitura paulistana.
O projeto, que um dia foi o maior plano de inclusão digital feito por um município brasileiro, hoje enfrenta problemas políticos e é alvo de um jogo de intrigas que, aos poucos, procura desmobilizar e desmotivar aqueles que acreditaram desde o início na possibilidade dos TIDs vingarem.
Para quem não sabe, os telecentros são centros de educação e inclusão digital.
No caso de São Paulo, cada TID possui de dez a vinte computadores:
3/4 para formação da população e 1/4 para o acesso livre de quem procura o local.
O Coletivo Digital, ONG constituída juridicamente em dezembro de 2005, atua hoje em algumas frentes ligadas ao conhecimento colaborativo e ao Software Livre (SL):
desenvolvimento e apoio a políticas públicas de inclusão digital, como os telecentros comunitários;
desenvolvimento e apoio do SL;
auxílio na migração de máquinas para Software Livre;
elaboração de capacitações e seminários para profissionais de telecentros ou grupos que queiram saber mais sobre SL.
Sediado no bairro de Pinheiros, na capital paulista, já realizou projetos em diversas capitais, como Rio de Janeiro, Brasília e Teresina, e cidades do interior paulista, com destaque para o projeto Jovem.
com, em Campinas.
«a natureza de nosso trabalho nos permite elaborar projetos ou apoiar iniciativas de inclusão digital em todo o território nacional», afirma Bianca Miguel, diretora financeira e uma das líderes do coletivo.
De fato, a experiência adquirida com o pioneiro projeto Telecentros, que consistiu na administração e montagem da rede de mais de 120 unidades no município de São Paulo, além da elaboração e manutenção do portal da prefeitura da cidade, foi o que concedeu aos membros do Coletivo Digital o know-how para que se constituísse uma ONG e o grupo prosseguisse com seus objetivos.
Tal grupo, inicialmente de trinta pessoas, hoje tem metade de elas, entre colaboradores ativos e eventuais.
De estes, os líderes do projeto são Beatriz Tibiriçá, Wilken David Sanches, Raul Luiz e Bianca Miguel.
O modelo de negócios
Uma das características mais louváveis do Coletivo Digital é o fato de seu modelo de negócios conviver com a sua compreensão de que o conhecimento deve ser compartilhado e não privatizado, ou seja, deve ser entendido com um bem da humanidade, sendo assim um direito universal.
Tal característica é incentivada em seus projetos, como a criação de uma rede de telecentros em Osasco e o projeto de atendimento a pequenos e médios empresários no interior de São Paulo, visando à inclusão digital, chamado Sebrae na Rua.
Segundo Bianca, não necessariamente o fator monetário dá sustentação ao " Coletivo Digital:
«como entendemos a sustentabilidade de uma forma ampla, que inclui outros recursos além do dinheiro, podemos dizer que todos os nossos projetos de alguma forma nos dão sustentabilidade, se não por o recurso em espécie, por a visibilidade que proporcionam».
Abertos a parcerias com qualquer tipo de associação que possua interesse em aderir ao SL e ao conhecimento colaborativo, o Coletivo Digital vê como potenciais parceiros outras ONGs, OSCIPs (Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público), governos e empresas.
De estes, apenas com os últimos ainda não existe parceria firmada.
De entre os principais parceiros, além dos citados anteriormente, há a Fundação Perseu Abramo (cujo portal foi elaborado por o Coletivo Digital), a RITS (Rede de Informação para o Terceiro Setor, uma OSCIP fluminense) e o grupo Software Livre -- importantes para que se alcance os objetivos de transformação social.
Apesar disso, a captação de novas parcerias é importante, para a própria sustentabilidade (e sobrevivência) da ONG.
E, claro, realizar seus objetivos como instituição:
a democratização do acesso à informação, no caso, tem nas parcerias com as esferas públicas um ponto fundamental.
O coletivo, vale dizer, se profissionaliza na área de gestão para o terceiro setor, possibilitando a criação de um modelo de negócios compatível com a atuação da ONG.
Um dos principais filões da sustentabilidade do Coletivo reside na customização de ferramentas de tecnologia e conhecimento, como softwares e materiais didáticos.
A ONG produziu as apostilas para cursos à distância do Projeto Casa Brasil, do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), autarquia federal.
Elaborou, também, por demanda da RITS (Rede de Informação para o Terceiro Setor), o conteúdo de capacitação utilizado em seminários regionais de capacitação dos telecentros da RITS / Petrobras, além de organizar e dar as oficinas.
Todo o material é licenciado em Creative Commons atribuição-uso-não-comercial-.
Portanto, eles recebem para elaborar o conteúdo que, uma vez publicado, pode ser reproduzido e está liberado para uso sem fins lucrativos.
Em a área de programação, contribuem com o desenvolvimento, manutenção e distribuição do Sacix.
Para isso, não recebem nada.
Mas, quando migram máquinas para software livre, independentemente da distribuição escolhida, eles cobram por o serviço em si.
Por solicitação da Fundação Perseu Abramo, o Coletivo Digital customizou o Xoops, ferramenta de produção e gerenciamento de sites.
O programa está licenciado em GPL (General Public License).
A renda aí veio também do serviço, do trabalho no desenvolvimento da ferramenta.
Feito isso, a ONG enviou para os desenvolvedores do Xoops as modificações feitas a pedido da Fundação, algumas das quais foram incorporadas na atual versão distribuída do software.
Uma das maiores crenças do Coletivo Digital é a de que não é possível realizar inclusão digital com software proprietário (como o Windows, por exemplo):
«Levantamos uma discussão que questiona as escolhas tecnológicas para a inclusão digital;
temos clareza de que a tecnologia não é neutra, mas embebida de significados e interesses», afirma Bianca Miguel, que prossegue:
«nossa meta é fazer emergir o cidadão incluído digital, que tenha, além da autonomia técnica para lidar com a máquina, condições de desenvolver uma visão crítica a respeito de sua atuação na sociedade e como fazê-la por meio das TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação), de forma a melhorar a realidade».
Outra crença fundamental:
sem o envolvimento da comunidade, não há sustentabilidade.
Por isto mesmo, esta é convidada a participar, por exemplo, dos conselhos gestores dos telecentros -- estes convites são, na verdade, medida exigida por o coletivo quando da firma de uma parceria com parceiros dos seus projetos.
A divulgação destes projetos, aliás, se dá, principalmente, por meio de seu site (www.coletivodigital.org.br) e por meio de matérias relacionadas a eventos que contam com a parceria da ONG.
Uma coisa bacana:
qualquer pessoa pode se voluntariar a participar e / ou colaborar com as ações do Coletivo Digital, seja trabalhando efetivamente, seja propondo novas soluções.
Além disso, todos os anos, no mês de abril, há uma assembléia na qual novos membros podem ser aceitos e, desta forma, fazer parte oficialmente do Coletivo Digital.
Outra:
para o Coletivo Digital, as possíveis ações concorrentes, em geral, são parceiras do projeto:
«Nosso modelo entende que a multiplicação das iniciativas de inclusão digital são um ganho para a sociedade e por essa razão vemos com bons olhos instituições que trabalham nesse sentido também», explica Bianca.
Muito coerente com uma ONG que prevê a inclusão e a integração da sociedade.
Tudo o que a ONG produz é licenciado em Creative Commons e está disponível tanto no seu site como no do Portal TID (www.tid.org.br).
De o mesmo modo, só disponibilizam materiais de terceiros também licenciados em CC.
Autores e intelectuais que seguem esta vertente, até por uma questão de coerência, são privilegiados quanto a isto.
Bianca Miguel expõe as razões da identificação com este tipo de licença intelectual:
«Tem relação com nossa forma de ver o conhecimento como algo que deve ser partilhado e distribuído e não aprisionado em licenças que só aumentam a distância entre os pobres e os ricos de conhecimento e dessa forma perpetua um tipo de sociedade excludente e desigual em oportunidades».
Para o coletivo, as novas tecnologias são sua matéria-prima mais importante, pois seu trabalho é desenvolvido a partir de ela, seja a construção de sites, as migrações para SL, os telecentros ou as capacitações.
Sem estas tecnologias, não haveria possibilidade do Coletivo Digital existir.
Porém, é a existência de elas que impulsionam a adição do elemento humano no processo.
A idéia é que a tecnologia deva servir aos interesses das comunidades, fortalecer sua auto-estima e se tornar uma ferramenta para mudanças sociais.
Infelizmente, para o trabalho da ONG com a população, há o reconhecimento de que o acesso a estas tecnologias por uma minoria ainda é um obstáculo, que a ONG, por meio de suas ações, pretende colaborar para superar.
A ONG é, hoje em dia, auto-sustentável, graças exclusivamente aos seus projetos.
Apesar disso, são proventos que geram recursos limitados, mas que mantêm fisicamente a sede e também a equipe, alocada em projetos específicos e composta de coordenadores, monitores, técnicos, programadores e assistentes.
O Coletivo Digital não remunera diretamente seus diretores e todos os seus balancetes estão regularmente disponíveis para os membros do coletivo.
O conhecimento, como interruptor do ciclo de pobreza, é uma das missões do Coletivo Digital, e é isto que se pretende ao se tornar possível o acesso de todos os cidadãos aos TICs, notadamente nos locais mais carentes.
A pressão junto ao poder público, para que a inclusão digital seja considerada um direito básico e universal do cidadão, deve ajudar a tornar este nobre ideal possível:
«Entendemos que a multiplicação de iniciativas como os telecentros, que são de baixo custo e largo alcance, sejam sumamente importantes para que essa meta seja alcançada», completa Bianca.
Uma meta que o Coletivo Digital sabe ser ambiciosa, mas que é almejada mesmo assim.
De entre os projetos futuros da ONG, estão o estudo de novas capacitações, dirigidas especificamente às necessidades de seus parceiros e novos cursos, notadamente profissionalizantes.
A partir de tais cursos, se pretende formar mão-de-obra especializada em Linux, capaz de dar suporte ao usuário final desta plataforma de Software Livre.
A ONG acredita que ser capaz de atender a demandas em todo o território nacional, sem necessidade do deslocamento da sede atual, em São Paulo.
O que foi aprendido, no entanto, de prático desde que o projeto começou, antes mesmo da ONG se constituir oficialmente?
O Coletivo Digital crê que a participação da comunidade em projetos como os telecentros seja um elemento crucial que possibilita a sustentabilidade e a sobrevivência destes.
E que o cidadão deve ter acesso direto à tecnologia que lhe é disponibilizada:
«Projetos que não garantem o acesso individual ao computador no momento da alfabetização digital, não cumprem seu papel.
Entendemos que o indivíduo que está no processo de aprendizado digital, deve adquirir autonomia e operar escolhas individuais, e para isso ele deve ter acesso exclusivo ao micro», enfatiza Bianca Miguel, acreditando que iniciativas que queiram adotar a mesma postura do Coletivo Digital quanto à inclusão digital devam ter uma postura irredutível como a da ONG.
A postura gaulesa do coletivo é justificada:
para eles, o software livre não é apenas um meio, mas sua adoção tem significância que diz respeito à visão do conhecimento como um bem que deve ser distribuído, disseminado, e também como um campo de fortalecimento da inteligência nacional e da própria autonomia tecnológica.
A opinião da ONG sobre a indústria cultural, propriedade intelectual e novas tecnologias também envolve lutas hercúleas.
Afinal, o establishment perdura há muito mais do que décadas, como expõe Wilken Sanches que, além de diretor geral da ONG, é antropólogo:
«o argumento central por trás das atuais leis de patente é a necessidade de se remunerar os autores e inventores.
Para isso, o modelo que vem sendo aplicado há três séculos concede ao autor o monopólio sobre o uso da invenção por um período ' socialmente justo ', para que, depois disto, este conhecimento passe para o domínio público.
à medida que novos conhecimentos fossem passando para o domínio público, aumentaria a matéria-prima disponível para os pesquisadores das gerações futuras, que seriam estimulados a pesquisar por a possibilidade de recompensa, similar à concedida aos pesquisadores do passado.
Por fim o uso racional do crescente volume de produção gerado por a ciência poderia libertar o homem da fome e do trabalho penoso.
«Contudo, desde que a ciência se tornou a principal força de produção do capitalismo, os pesquisadores deixaram de ter como fonte de inspiração a emancipação do ser humano e passaram a ter como norte a eficiência, velocidade, aplicabilidade e a viabilidade dos objetos pesquisados», clarifica Sanches, que acredita que as leis de propriedade intelectual passaram a ser a principal ferramenta de aprisionamento e privatização do conhecimento.
O Coletivo Digital questiona o conceito do ' socialmente justo ', que não é consensual hoje em dia, graças às novas tecnologias.
De um lado, os monopólios de informação querem proteger o acesso a estas a todo custo, inclusive atrasando a passagem para domínio público de conteúdo intelectual (como ocorre nos Eua, com leis estendidas para a proteção do material Disney e, no Brasil, para preservar por mais alguns anos os direitos da obra de Monteiro Lobato).
De outro, há quem queira a flexibilização destas amarras legislativas.
«O debate que deve ser travado, hoje, sobre propriedade intelectual vai além da discussão se os artistas devem ou não receber uma compensação por os arquivos de música que circulam por a Internet.
O que vemos discutir é a que preço se dará essa compensação», questiona Wilkens, que ilustra sua afirmação com um caso recente:
«Por exemplo, no artigo 7 da licença de uso do Windows XP, o usuário deve concordar que, de tempos em tempos, a empresa dona do software poderá fazer um download de seus dados, para verificar se ele não está infringindo nenhuma lei da copyright ao usar um arquivo protegido por o sistema Microsoft DRM.
Pois bem, se o preço a ser pago para que os artistas possam receber uma compensação por as músicas que circulam por a internet é o fim da privacidade e a implantação de um Estado policialesco, então nós achamos que este é um preço muito alto a ser pago por a sociedade.
Não queremos que os artistas morram de fome, mas achamos que é necessário se criar uma outra forma de compensá-los».
A questão, como se vê, é muito mais profunda do que a mera inclusão digital.
E o diretor geral do coletivo prefere deixar algo ainda mais perturbador para que pensemos:
«além disso, vemos com relutância a possibilidade do patenteamento sobre a vida, que está sendo posto em prática e tem como principal conseqüência, práticas como a biopirataria e a pilhagem do conhecimento de comunidades tradicionais e indígenas».
É uma questão de postura, muito bem definida, que mostra que o Coletivo Digital, mais do que incluir o cidadão no universo digital, quer provocar questionamento e debate em relação às relações autorais existentes.
O que só trará, claro, benefícios, e o envolvimento de cada vez mais pessoas em tal debate só é benéfico para todos.
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Basta pensar coletivamente.
Inscrições gratuitas para as oficinas de Produção Cultural, TV & Teledramaturgia e Teatro do Projeto Cine Escola.
O Projeto Cine Escola Premiado por o BNB de Cultura -- Edição 2007 faz parte do Programa Escola Aberta do Governo Federal e da Unesco e é uma iniciativa da Escola Estadual Helena Magalhães e comunidade do Bairro de Tancredo Neves.
O projeto disponibilizará aulas em três oficinas:
Produção Cultural, TV & Teledramaturgia e Teatro.
O objetivo do programa é manter as escolas funcionando nos finais de semana com oficinas profissionalizantes.
O Projeto Cine escola é aberto à comunidade e tem como objetivo preparar jovens e adolescentes para trabalhar no mercado cultural de maneira a que venham garantir a sustentabilidade de produções culturais criadas e desenvolvidas no bairro do Tancredo Neves e círculos vizinhos em Salvador -- Ba.
As oficinas serão finalizadas com a produção de uma peça teatral e um curta-metragem que serão inseridos no mercado cultural soteropolitano no final deste ano.
Local:
Escola Estadual Helena Magalhães -- Rua Direta de T. Neves, Tancredo Neves, Salvador-Ba.
Inscrições:
Nos dias10, 11, 17 e 18 de março de 2007.
Informações:
(71) 3231-8530; (71) 3461-2605 -- Sábados e Domingos.
Contato:
Assessoria de Imprensa do Projeto Cine Escola
Aline Cléa Anderson Soares
Tel: (71) 3494-7820 / 3384-1632 Cel: 9917-4016
e-mail: alineclea@yahoo.com.br
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andersonsoares3@hotmail.com Reproduzo aqui, entrevista concedida ao «Portal do Sertão por o professor Luiz Mott, em 10 de junho de 2006» Quando decidimos criar uma seção de entrevistas no «Portal do Sertão» achei que não poderia haver melhor pessoa para inaugurá-lo do que o professor Luiz Mott.
Cheguei a esta conclusão, em primeiro lugar, porque ele será o palestrante que fará o encerramento das solenidades de lançamento do Portal.
Mas principalmente porque, apesar de ainda muito pouco conhecido em nosso Estado, sua contribuição para o conhecimento de nosso passado é de extrema relevância, como verão abaixo.
A entrevista, feita por
E-mail, encontrou o professor participando, em Florianópolis, de um Congresso GLT (Gays, Lésbicas, Transexuais e Bissexuais) promovido por a Central Única dos Trabalhadores.
Mott confessou:
«não é sempre que gasto tanto tempo assim com entrevistas, acho que a Esperança Garcia e a tal mestiça do sabá me incorporaram ..."
Mas valeu a pena!
Tenho certeza de que vocês vão adorá-la!
Beijos e abraços
De o Joca Oeiras, o anjo andarilho (
Assessor de Imprensa da FNT -- jocaoeiras@hotmail.com.br)
Portal do Sertão:
Paulistano de nascimento, mineiro na adolescência, baiano há um quarto
de século», como você mesmo diz.
O que o levou a interessar-se, há mais de vinte anos, por o Piauí Colonial?
Luiz Mott:
Formei-me em Ciências Sociais na USP, em plena ditadura militar.
Embora tenha me especializado em Antropologia, logo descobri que gostava mais de investigar a vida social no passado, daí ter-me enveredado por a Etno-História, que é um casamento bem sucedido da Antropologia com a Historiografia.
A o realizar minhas primeiras pesquisas sobre a história social do Brasil Colônia nos Arquivos de Portugal, por acaso deparei-me com inúmeros manuscritos interessantíssimos sobre o Piauí Colonial, área que não conhecia mas que se tornou um de meus «xodós» acadêmicos.
A descoberta, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, de um longo documento «Descrição da Capitania de São José do Piauí», dos meados do século XVIII, de autoria do Ouvidor Durão, foi fundamental para que me tornasse» piauiólogo», pois trata-se da mais completa e inteligente descrição setecentista desta Capitania, documento que me serviu de guia para aprofundar a investigação de sua história demográfica e social.
Portal do Sertão:
Conte como e onde se desenvolveram as pesquisas.
Você esteve muitas vezes no Piauí?
Luiz Mott:
Outro fator contribuiu para que me tornasse especialista na etno-história piauiense:
tive a felicidade de conhecer o saudoso Prof. Odilon Nunes, (falecido em 1989) que considero o principal historiador desta região, o qual muito me estimulou a prosseguir as investigações, agora também no Arquivo Publico do Piauí, onde então vasculhei grande parte da documentação do período colonial, tendo a felicidade de encontrar muitos documentos inéditos sobre as fazendas de gado dos Jesuítas, sobre a conquista de diversas tribos indígenas, sobre a vida social dos vaqueiros.
A partir de então, retornei diversas vezes a Teresina, seja para prosseguir as pesquisas documentais, seja para ministrar conferencias.
Em 1985, o Projeto Editorial Petrônio Portela publicou meu livro " Piauí Colonial:
População, Economia e Sociedade», onde reuni cinco artigos divulgados anteriormente em revistas de historia e antropologia.
Foi nesta época que realizei pesquisas na Torre do Tombo em Portugal, coletando documentação sobre a atuação do Tribunal da Inquisição nesses sertões, tema até então completamente descurado por a historiografia local.
Portal do Sertão:
A descoberta da carta da escrava Esperança Garcia ao governador do Piauí fez com que as pesquisas, de alguma forma, mudassem de rumos?
Luiz Mott:
Esperança Garcia foi uma escrava moradora numa das dezenas de fazendas que com a expulsão dos Jesuítas, passaram para a administração governamental, e que em 1770 escreveu uma carta ao Governador do Piauí denunciando os maus-tratos de que era vítima por parte do feitor da fazenda.
Salvo erro, é a segunda carta mais antiga até agora conhecida no Brasil manuscrita e assinada por uma escrava negra, e que revela não só os sofrimentos a que estavam condenados os cativos, como o fato de já nos meados do Século XVIII haver mulheres negras alfabetizadas e suficientemente «politizadas» para reivindicar seus direitos e denunciar às autoridades os desmandos de prepostos mais violentos.
Além da felicidade de ter descoberto documento tão importante e raro, minha alegria foi maior ainda quando, anos depois, esta negra até então desconhecida passou a simbolizar o ideal de liberdade dos negros do Piauí:
foi dado o nome de Esperança Garcia a um hospital em Nazaré do Piauí, em Teresina há o «Coletivo de Mulheres Negras Esperança Garcia» e o dia em que ela datou sua carta, 6 de setembro, passou por lei a ser comemorado o Dia Estadual da Consciência Negra.
Para um historiador é a gloria ter um seu «personagem» ressuscitado e elevado a tantas homenagens dois séculos depois de sua morte.
Portal do Sertão:
Em suas pesquisas há descobertas sensacionais, como a carta já citada e o saborosíssimo depoimento da mestiça Joana Pereira de Abreu.
A que você atribui este resultado?
à sorte, ao método ou ao esforço?
Luiz Mott:
O ofício de historiador é igual dos antiquários e arqueólogos:
a gente vai atrás de pistas, procura aqui, garimpa acolá, e depois de muita labuta, tem a felicidade de se deparar com algumas pérolas preciosas, como esta que achei na Torre do Tombo:
Joana Pereira de Abreu era uma escrava mestiça, moradora na Mocha nos meados dos setecentos, protagonista de um dos episódios mais complexos e insólitos da historia religiosa do Brasil Colonial:
praticou um ritual diabólico, o famigerado Sabá, reunião orgiástica de feiticeiras com Satanás, ritual medieval muito comum na Europa mas até então nunca documentado na a América Portuguesa.
E foi exatamente na Mocha, no Campo dos Enforcados, que ocorreu este «conventículo» de negras e mestiças que socializavam secretamente com um bando de Diabos, exatamente como faziam as bruxas européias perseguidas por a Inquisição.
É uma historia de arrepiar os cabelos, riquíssima de informações sobre os costumes sertanejos nas fronteiras do Piauí com Maranhão, artigo que está no prelo para publicação e que certamente vai causar grande «rebu» na historia da vida religiosa do Piauí Colonial.
Portal do Sertão:
Você me parece uma pessoa que se dedica intensamente a tudo o que faz, seja à militância gay, seja à vida acadêmica.
Como faz para manter tão alto o astral?
Luiz Mott:
Acabo de completar 60 anos e receber o título de Cidadão Baiano, o que me honrou muito, pois vivendo há 27 anos em Salvador já era Cidadão Soteropolitano, mas os deputados recusavam me titular devido ao preconceito à minha militância por os direitos humanos dos homossexuais.
Para mim foi uma vitória importantíssima este título, pois prevaleceu o bom senso e a tolerância, considerando que o ser humano deve ser avaliado por seus méritos, qualidades, honestidade, e não por suas preferências amorosas.
Sofri muitos preconceitos em minha vida acadêmica e social devido à minha condição de gay militante, mas não me arrependo um só minuto de ter-me assumido, pois para mim, ser homossexual foi uma graça divina!
Espero viver muitos anos mais para continuar nessa luta para que se cumpra o ideal sintetizado por o nosso maior poeta moderno, o bissexual " Fernando Pessoa:
«O amor que é essencial;
o sexo, acidente:
pode ser igual, pode ser diferente!"
Portal do Sertão:
Oeiras é a chamada «Capital da Fé no Piauí».
Que reação, você imagina, terá o público da sua conferência?
Luiz Mott:
Visitarei Oeiras pela primeira vez «ao vivo», mas a primitiva Mocha é minha velha conhecida, pois há muitos anos estou por dentro de sua historia, dialogo com seus primeiros povoadores, resgatando a conturbada vida de seus moradores, seja brigando com os índios, devastando os sertões à procura do capim mimoso, pelejando com os jesuítas, amedrontando-se com os visitadores do Santo Oficio da Inquisição, realizando calundus e rituais diabólicos.
As religiões são dialéticas, evoluem, umas nascem, vicejam, outras declinam, murcham e morrem.
As religiões devem ser a escola do amor e da tolerância, do respeito à diversidade, do ecumenismo.
Passou o tempo em que a lei era «Roma locuta, causa finita» (Roma falou, acabou a discussão).
Vivemos num Estado Laico, onde a censura é proibida, onde a Constituição garante a liberdade religiosa mas também o direito ao ateísmo e ao conhecimento da verdade histórica sobre o passado das crenças religiosas.
Passou-se o tempo que os hereges eram apedrejados!
A verdade pode doer, pode chocar, mas a mentira é a mãe de todos os erros!
E a mentira tem um pai:
o Diabo do Campo dos Enforcados!
Número de frases: 74
Veja o discurso do professor Luiz Mott, proferido no dia 29 de novembro de 2006, no plenario da Assembléia Legislativa do Piauí quando recebeu o título de Cidadão Piauiense.
O urutau é um pássaro raro, conhecido como ave-fantasma, é um dos pássaros mais cultuados na literatura fantástica.
Ele também aparece em lendas, poesias e raramente é observado na área urbana.
Espécie em extinção, o urutau existe há pelo menos 20 milhões de anos, muito antes do «Homo sapiens» surgir na Terra.
O urutau foi observado essa semana na área urbana de Natal, em pleno centro da cidade, no final da tarde.
A ave estava imóvel, no alto de um velho poste, na praça Senador Guerra, localizada por trás da Igreja do Galo.
Quando essa ave surge na área urbana causa estranheza tanto por o fato de ser espécie noturna, como por sua aparência:
tem cabeça larga e achatada, bico e pernas pequenas, enormes olhos e penas com coloração especial para a camuflagem.
É a primeira vez que o urutau é fotografado no centro da capital potiguar.
De acordo com David Hasset, membro do Grupo Ornitológico Potiguar, a última aparição dessa ave na área urbana natalense foi no ano passado, quando o urutau foi observado nas matas do Parque das Dunas, nas imediações da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mas ninguém conseguiu captar imagens.
Segundo David Hasset, o avanço das cidades sobre as áreas rurais é que acaba interferindo no local de habitação dos animais silvestres, é também um dos fatores que leva ao aparecimento de aves tão exóticas como o urutau em áreas urbanas.
«É possível que esse exemplar do urutau habite as matas de mangue no Rio Potengi, já que é uma área muito próxima de onde o pássaro foi observado», explicou.
Depois de analisar as fotografias, o ornitólogo afirmou que se trata de uma espécie brasileira das mais comuns:
o «Nyctibius griseu», que vive tanto nas florestas densas quanto nas bordas de mata, capoeiras e até mesmo em árvores isoladas das grandes cidades.
Conforme David, o urutau pertence à família da coruja e é um primo distante do bacurau por ter hábitos parecidos.
«É muito difícil ver essa ave porque ela não voa com facilidade e depende da camuflagem para se proteger dos predadores», disse o ornitólogo, ressaltando que o bacurau se camufla no chão ou numa toca, enquanto as corujas procuram torres de igrejas e copas de árvores para esconderijos.
Conforme David Hasset, o urutau é uma ave rara porque para se camuflar procura uma extremidade de um galho, se adaptando de uma forma que se toma o aspecto de prolongamento do galho.
Possui a cabeça chata, olhos grandes e vivos, a boca rasgada de tal maneira que seus ângulos alcançam a região posterior dos olhos.
Sua cor é parda acanelada.
Isso lhe permite adaptar-se a cor do galho onde pousa.
Esse seu disfarce associado a sua perfeita imobilidade o protegem da vista dos caçadores.
O urutau não constrói ninho.
Em o período de reprodução, depositam um único ovo em alguma forquilha de galho grosso a grande altura ou numa cavidade natural de seu poleiro noturno, onde permanecem em atividade de choco.
O urutau habita o Norte e Nordeste da Argentina, as matas do Paraguai, o Norte do Uruguai e no Brasil, onde toma vários nomes:
«jurutaui «na» Região Amazônica ";
«ibijouguaçú «entre os tupis e» Mãe da Lua» entre os mineiros.
«O urutau é uma ave noturna que, em noites de luar, desliza nas alturas, entretendo-se em perseguir e devorar mariposas e besouros», completou David Hasset.
Mitos de um pássaro mágico
Segundo o ornitólogo, o grito do urutau é um «hu-hu-hu», que se faz ouvir após o anoitecer, quando a ave procura a solidão mais espessa das matas, de onde faz solta um assobio de profunda lamentação.
Para alguns, parece semelhante ao lamento de uma mulher.
Em outras pessoas, o canto do urutau provoca espanto e piedade aos que possam ouvi-lo.
A quase invisibilidade do urutau confere-lho caráter de um ente misterioso.
Muitos não o tomam por uma verdadeira ave, senão por um ser fantástico, inacessível à mão e aos olhos humanos.
Já outros, porém, não duvidam de sua existência, mas consideram-no como um ente enigmático e superior, dotado de muitas qualidades fora das leis naturais, entre elas, a de preservar a pureza das moças.
As qualidades sobrenaturais deste pássaro se destacam nas crendices populares.
As penas e a pele do urutau são milagrosas.
Conta-se que antigamente, matavam um urutau e tiravam-lha pele.
A pele seca servia para assentarem as filhas das famílias influentes, nos três primeiros dias, do início da puberdade.
Em o término deste tempo, a jovem saía «curada», isto é, invulnerável à tentação das paixões desonestas que pudessem surgir.
Apesar de seu grito de lamentação, o urutau não era tido entre os indígenas como uma ave de mau agouro.
Conta-se que os tupinambás consideravam o canto desta ave como saudações de antigos parentes mortos que gritavam para excitá-los à guerra contra os inimigos.
Lenda sertaneja do urutau
Em uma humilde casinha do sertão, vivia com seus pais uma moça muito feia.
Naturalmente, por causa disso, não conseguia arranjar um namorado.
O tempo passava, suas amigas todas se casaram e ela continuava desprezada.
Mantendo ainda alguma esperança de que lhe surgisse um pretendente -- pois, afinal, tinha suas qualidades:
inteligente, trabalhadeira e boa cozinheira -- adquiriu o hábito de sair à noite para passear por os campos e bosques.
Certa vez, num desses passeios, ouviu o ruído de um cavalo que se aproximava.
O coração aos pulsos, imaginou que ali vinha o homem que se casaria com ela.
Em poucos segundos viu descer de um cavalo ricamente arreado, um belo e garboso cavaleiro, um príncipe que se aproximou e perguntou-lhe como podia chegar à estrada principal.
A moça, habilmente, procurou cativar o príncipe por a gentileza e ofereceu-se para acompanhá-lo.
Apesar de feia, era muito inteligente e foi fácil manter uma conversa agradável com o príncipe que, impressionado e não lhe percebendo a feiura, pois não havia luar, pediu-a em casamento.
Mas infelizmente, sua felicidade durou pouco.
A lua surgiu, iluminando o rosto da jovem.
O príncipe, tomado de grande espanto, inventou uma desculpa para se afastar e se foi.
A jovem, que de nada suspeitava, ficou esperando o seu regresso.
Muito tempo depois, uma feiticeira sua conhecida, ia passando e parou para conversar.
A moça contou a ela o que acontecera e pediu para ser transformada numa ave e, assim, poder encontrar logo o príncipe.
A feiticeira não queria, mas a jovem insistiu tanto que ela acabou concordando.
Partiu, então, a jovem, transformada numa ave feia e desajeitada.
Percorreu toda a região por várias vezes e nada de avistar o príncipe, que àquela altura, já estava bem longe.
Desolada, a ave -- que era o urutau -- procurou a bruxa e pediu para voltar à forma humana.
Esta, porém nada pode fazer e a pobre teve que se conformar com seu destino de ave feia e triste.
É por isso que, quando a lua aparece, o urutau solta aquele grito triste que parece dizer «foi, foi, foi», lembrando o príncipe que fugira da moça feia.
Por essa razão, o urutau também é conhecido como Mãe da Lua.
Número de frases: 65
Venci a tentação de colocar o título «Dado vira lobo» nesse texto.
Achei mais correto não jogar sobre o artista tal responsabilidade.
Optei por uma pergunta, a mesma com que o produtor carioca Bruno Levinson introduziu uma discussão sobre a (não) participação do público carioca em eventos culturais da cidade, no blog Jam Sessions.
Essa é a pergunta-queixa freqüente que se ouve de produtores musicais hoje em dia, especialmente no Rio de Janeiro.
Este é o tipo de pergunta que não é feita apenas por Levinson.
Sem querer soar pretensioso, ouso afirmar que, na noite de terça-feira, acho que descobri mais uma parte dessa resposta que parece não ter fim.
Fui ao Jardim Botânico, do Rio de Janeiro, no Espaço Tom Jobim para conferir a primeira apresentação de Dado Villa-Lobos, no lançamento do disco Jardim de Cactus.
Seria um show especial, cheio de convidados bacanas, num espaço novo que eu ainda não conhecia.
Além disso, pra minha surpresa, na noite anterior, eu tinha escutado uma música na MPB FM que me chamara a atenção.
Não lembro do nome de ela, mas lembro que o locutor disse que era do Dado Villa-Lobos com mais alguém.
Quando soube do show, na terça-feira de manhã, por os jornais, resolvi ir.
O horário divulgado era 19hs. Cheguei às 19h15.
Poucas pessoas estavam no lugar.
Muitos seguranças vestiam seus ternos chics.
Uma iluminação bacana indicava um ambiente meio (argh!)
lounge, cara de noite paulistana.
Sem filas.
Procurei a bilheteria.
Já havia três pessoas por lá.
O funcionário me disse para esperar um pouco porque os produtores estavam vendo se iriam liberar mais ingressos para venda, pois já estava tudo esgotado.
«Uau!», pensei.
Vá lá, esperei cinco minutos, até que chegou a produtora.
Ela virou para o rapaz da bilheteria e o instruiu a avisar a quem aparecesse por lá que estava tudo esgotado, que esperassem até uns quinze minutos antes do começo do show (minha cabeça perguntava " ué, mas o show não era às 19hs?
Já são 19h20?")
para ver se alguns dos convidados desistiriam.
Eu, com essa cara de bobo que Deus me deu, só assistia àquilo, enquanto a produtora, seríissima, continuava falando com o funcionário, que só aquiescia.
Dizia ela que não podia fazer nada, que já tinham quase 500 pessoas na casa, que não podia entrar mais ninguém.
O funcionário fez cara de susto com tal número, afinal a casa estava vazia e a capacidade oficial do lugar é de 400 pessoas.
Vendo a cara de ele, a produtora completou, ainda mais séria: "
Ééé! Quase 500: 327 convidados confirmados -- ela enfatizava o «confirmados» --, 40 da MPB FM e mais os 100 ingressos.
Não dá mais ninguém!
Se os Bombeiros aparecerem, fecham a casa.
Tem que esperar quinze minutos antes do show.
Quinze para as nove eu venho aqui e a gente vê se dá pra vender mais algum ingresso».
Aha!
Achei a resposta tão procurada por os produtores.
«Cadê o público??!!».
Cadê?!
Bem, uma parte tá do lado de fora, tentando entrar, chegando no horário previamente estipulado para o evento, esperando os convidados que confirmaram presença e que provavelmente não vão aparecer.
E, por sua vez, cadê os produtores??!!
Estão lá, tranqüilamente, pedindo que você, que quer pagar por um produto cultural, espere mais uma horinha e meia, ali, em pé.
Espera aí, uma horinha e meia, que, de repente, você-mané entra.
Afinal de contas, você-mané já saiu do trabalho direto pra cá, sem nem passar em casa.
Afinal de contas, você-mané já pagou o táxi, ou a gasolina / flanelinha.
O que te custa, você-mané, mais uma horinha e meia que nem um pastel, em pé, do lado de fora.
Aproveita, você tá no Jardim Botânico.
Ganhou uma hora e meia de ar puro como brinde!
Aproveita, você-mané, com essa cara de bobo que Deus lhe deu.
Tudo bem que a crítica de que hoje em dia todo mundo quer ser vip é válida.
Mas o que fazer quando os próprios produtores estimulam esse tipo de postura?
Se você não der um jeito de ser «vip», você corre o risco de não entrar.
E outra coisa.
Em este caso, estávamos falando de Convidados!
Esta foi a denominação dada por a produtora.
Convidados, o nome já diz, são convidados por o dono da festa, certo?
E se confirmaram presença é porque realmente foram contactados por a produção.
Então o Dado vira lobo?
A culpa é de ele?
Sei não ...
Agora me diz o que você acha disso:
Trezentos E Vinte E Sete convidados Confirmados.
Mais os que não confirmaram.
Quantos seriam esses?
Setenta e três, que completariam os 400 lugares oficialmente disponíveis na casa?
Mais 40 ingressos para bancar a «divulJAgaBÁção» da MPB FM?
É isso?
«Ah, mas tiveram 100 ingressos», há de surgir um pra dizer ...
Faça a conta e veja qual é o percentual de cada «faixa de público», para cada» target». (
Não é assim que se acostumaram a tratar os consumidores de música?
«target»?). São esses 100 que vão pagar e viabilizar o evento?
É isso que é ser produtor?
Não adianta reclamar da falta de público assim.
As pessoas tentam ir, saem de casa ou do trabalho e vão direto pra lá.
O horário do show divulgado é falso, afinal, a própria produtora disse que «às quinze para as nove eu volto aqui».
Não há ingressos para quem quer comprar.
Há que se esperar os «vips».
O momento já é difícil, o mercado está retraído.
Quando um episódio desses acontece, desestimula-se ainda mais o processo de recuperação.
E não venham se queixar da falta de espaços, de público, de não sei o quê mais.
O jornal O Globo, de terça, deu destaque para o show no suplemento Megazine.
A MTV colocou chamadas do evento nos intervalos da programação.
O site Globo Online, em certo momento da tarde daquele dia, colocava o show de Dado Villa-Lobos na capa geral (!)
e ainda em destaque na sua seção de cultura.
O Whiplash, especializado em outro público musical, também noticiou.
O portal Terra, idem.
Isso, só para citar os que eu vi.
Como sou jornalista formado e escrevo sobre música há algum tempo poderia ter utilizado o expediente de me «credenciar como imprensa», o que não seria nenhum absurdo.
Mas como era um show pequeno, num lugar (provavelmente) bacana, eu tinha decidido de última hora, e como sempre penso sobre a situação da cena carioca, na qual todo mundo tenta ser vip e dar um jeito de entrar de graça, inviabilizando muita coisa legal, achei que não convinha tentar este credenciamento.
Mesmo sabendo que iria estar pagando para trabalhar (já que era certo que daquela noite surgiriam novas experiências musicais no meu universo particular, principio básico para que surgissem essas linhas no sobremusica), topei ir.
Não quero aqui posar de vítima.
Sei que pagar por entretenimento é justo e correto.
Aliás, 90 % das vezes, sobretudo em eventos pequenos, eu pago meus ingressos e, ainda sim, escrevo sobre eles depois.
Por paixão.
Em o começo do ano, a discussão sobre este tema rolou forte em alguns veículos on-line, com destaque para o blog de Jamari França, no Globo Online, onde houve quase 500 comentários nos textos do produtor Bruno Levinson e da assessora de imprensa Julia Ryff.
Bruno Natal, nosso coleguinha, também se posicionou no Urbe.
Alguns outros textos pipocaram naquela época em outros lugares, mas peço desculpa por o esquecimento de agora.
A situação continua complicada.
O modelo de negócio praticado por parte da indústria musical -- veja que não estou me restringindo apenas à fonográfica -- é velho e desagradável.
Falta coragem para se adaptar a um mundo novo, com um público novo, com uma nova forma de consumo.
Isso vai desde a manutenção das tentativas esdrúxulas de combate ao download de músicas com campanhas de apelo ridículo, passando por o investimento quase-exclusivo de verbas em mídias que já não se mostram eficientes e moldadas por um velho e obsoleto paradigma, por o distanciamento da comunicação ágil e direta das ferramentas instantâneas ligadas à internet, chegando até aos shows que não se bancam, que privilegiam os convidados, que colocam os seus «vips» nas melhores cadeiras do Canecão e deixam o público pagante, consumidor, com a péssima visão lateral, isso quando esse público consegue entrar.
Isso quando ele consegue um ingresso disponível por o qual ele possa pagar e ver o artista que admira num show que vai ter só umas duas horinhas de atraso.
Isso quando ele consegue vencer os maus tratos de seguranças desaforados.
Isso quando ele consegue achar uma vaga para o seu carro e pagar dez realecas para que o flanelinha não quebre o seu vidro.
Etc, etc e etecetera.
A rotina segue a mesma.
Assim como os meninos que morreram no acidente da Lagoa não vão impedir novas irresponsabilidades de jovens no trânsito, esse texto também não vai mudar nada nessa rotina vergonhosa.
Mas é preciso sempre botar a boca no trombone e seguir com a corrente de indignação.
* * * * * * * * * * * * * * * Adoraria saber como foi o show.
Se algum dos convidados puder, conta para a gente.
* * * * * * * * * * * * * * * Mais uma vez, o parabéns à produtora do evento, tããão zelosa em não exceder a lotação do local.
* * * * * * * * * * * * * * * Ai ai.
* * * texto publicado no originalmente no www.sobremusica.com.br
Número de frases: 112
Bruno Maia escreve no site www.sobremusica.com.br Em o dia 29 de julho de 2004, um show no Teatro do Parque, Recife [PE], marcou o fim da Textículos de Mary [TXT].
A banda surgiu em meados de 1993 e teve uma carreira marcada por muita ousadia e polêmica.
Suas apresentações ao vivo chocavam qualquer um, mesmo os menos austeros.
Era um misto de selvageria sexual com um discurso inteligente e debochado.
O som, como não poderia deixar de ser, um punk rock sujo com claras influências de Sex Pistols e Velvet Underground.
Sem contar com a descolada homossexualidade presente também em artistas como New York Dolls.
Após apresentações pra ficar na história, lançamento de disco por uma grande gravadora, videoclipe na MTV, muita curtição com o status quo e também muitas portas na cara, a banda decidiu suicidar o espetáculo.
Cria do bairro dos Milagres em Olinda, a Textículos de Mary marcou uma época na música pernambucana pós-mangue, e depois de seu desaparecimento prematuro, a rebeldia, o desconforto, o pesadelo e a violência moral também acabaram.
Mais um ponto para a hipocrisia.
Após quase três anos do acontecido, fui atrás do ex-vocalista Fábio Mafra, o Chupeta, para que ele relatasse com as próprias palavras o passado da Textículos de Mary e como eles estão vivendo hoje, sem a música e os holofotes que de eles fugiram.
Rodrigo Édipo -- Para quem nunca ouviu falar da banda, como você definiria a Textículos de Mary?
Fábio Mafra -- Bem, tudo começou como uma curtição nas festas dos amigos.
Mas, a coisa foi ficando séria e várias camadas de significado foram sendo agregadas.
Viramos uma banda com shows, gravadora, CD.
Como eu sempre falei, a TXT era uma banda de excluídos.
O fim dos anos 90 foi o período em que os discursos das minorias estavam começando a ter alguma representatividade na mídia:
começou a surgir gay e lésbica nas novelas.
Mas essa representatividade vinha remodelada para não chocar a família brasileira.
Era o que eu chamava de " biba da corte ":
aquela bicha que você podia levar para uma festa, sem perigo de vexame.
Em isso, uma gigantesca parcela dos gays se viam fora do «horário nobre».
E não só os homossexuais, mas também putas, travestis, drogados, cheira-colas, promíscuos, pervertidos.
Re -- Por que a banda incomodou tanto?
FM -- O incômodo era inevitável!
Porque não era só falar sobre o que não devia ser falado.
Era subir na mesa e esfregar o cu na cara da hipocrisia.
Realmente, é um prato para poucos [risos].
Re -- Devido a intolerância do público e até da mídia, a banda passou por algumas situações embaraçosas.
Conta alguma de elas.
FM -- As duas situações mais «embaraçosas» foram em lugares onde não esperávamos:
numa boate gay e no último show do Teatro do Parque [PE].
Foi ridículo!
A casa vazia:
umas cinco mariconas com seus respectivos michês.
As bichas de cara tronxa, talvez por causa das músicas, talvez porque vampiros detestam espelhos.
Abrimos o show cantando Bicha Escrota.
Não deu outra!
As mariconas pagavam as contas e pediram pra parar o show.
Depois da terceira música o som foi cortado.
Fomos embora com metade do cachê.
Salve a produção cultural pernambucana!
-- E no Teatro Parque?
FM -- Em o Parque, o rebu deu até polícia!
Era o Projeto Seis e Meia, no qual a produção resolveu sabiamente juntar Eduardo Dusek e TXT.
Imagine o público:
vovô, vovó, papai, mamãe e a prole toda!
É claro que a platéia se chocou.
A história que a produção do evento espalhou de que tínhamos ultrapassado o tempo é balela.
O show foi montado para meia hora, se passamos muito foram dez minutos.
O público queria ir embora e pegar o ingresso de volta.
De novo, nosso som foi cortado!
Pelo menos pagaram o cachê todo.
Re -- Vocês começaram esse projeto de uma forma kamikaze, já sabendo que não ia durar muito.
Por que durou menos que o esperado?
Nem vocês tinham noção do barulho que iam fazer?
FM -- O barulho não só era esperado, como era meticulosamente calculado [risos].
O problema foi grana mesmo.
A produção cultural pernambucana -- pelo menos para aquilo que não seja um resgate cultural -- deixa muito a desejar.
Nunca tivemos um produtor ou um agente para articular contatos de shows e outras coisas que sustentam uma banda.
às vezes, penso que ninguém tinha coragem de assumir «essa banda de loucos».
Deviam pensar que éramos o que vivíamos no palco às 24h do dia.
Depois que a gravadora viu que não seríamos a versão gay dos Mamonas Assassinas, largou-nos ao relento e cancelou o contrato.
Depois, os espaços que existiam para se montar um show barato, aqui em Pernambuco, foram sumindo.
E manter a TXT era caro!
Roupas, maquiagem, cenários etc..
Chega um ponto que só resta parar.
Re -- Existia uma lenda na época que o público gay não gostava do trabalho de vocês.
Vocês entendem porquê?
FM -- Como eu falei anteriormente, realmente existia uma facção do público gay que detestava a banda!
Eram geralmente bichas da classe média que assumiam os valores da elite e lutavam pelo direito de casamentos católicos entre homossexuais.
Aquela coisa bicha TFP [Tradição, Família e Propriedade, vertente de direita da Igreja Católica].
É muito contraditório para o meu barroco! [
risos]. Mas eles eram o termômetro que me dizia que eu estava no caminho certo.
RP -- Existe algum artista da música pernambucana que está à serviço da contracultura?
FM -- Sei não.
Acho que entramos naquele período que sucede toda efervescência cultural em Pernambuco -- vide o cinema de 20, a década de 70, e outros bem mais antigos).
Ou seja, o nada!
E tenho visto pouca coisa que valha a pena mencionar.
Tem o pessoal que tá tocando com o Grilo [Geladeira Metal], aquelas doideiras.
É divertido, mas não dá pra ficar escutando em casa [risos].
Re -- O que cada um da banda está fazendo hoje?
FM -- Bem, eu estou fazendo doutorado em Arqueologia.
Nada a ver mesmo!
Henrique [Lollypop] e Tony [Cilene Lapadinha] continuam como os garçons mais famosos e requisitados do Anjo Solto.
A Banda d'As seguiram caminhos diversos, alguns longe, outros perto da música e da cultura!
Mas, estamos todos bem, obrigado!
Re -- O que faltou pra recife aceitar o Textículos?
Quando Recife [ou o Brasil] estaria preparado para a banda?
-- Ah, vivemos numa terra de coronéis e cangaceiros!
Acho que existia outro lugar no mundo que pudesse ter gerado algo como a TXT!
Por isso, não podemos dizer que não fomos aceitos.
No entanto, éramos uma nódoa no cartão postal da cidade!
Terminamos trancados no porão, como o filho demente e deformado.
E como todo filho indesejado, só seremos redimidos após a morte!
Quanto ao futuro, não sei!
Não posso nem dizer se vamos ser lembrados daqui a vinte anos.
Re -- Textículos volta?
FM -- Não!
A situação de banda póstuma é mais confortável.
Não agüentava mais calcinhas me esmagando os ovos [risos].
Mas para aqueles que não viram os shows, um consolo:
existem muitas fotos e filmagens de shows, principalmente com o pessoal da Telephone Colorido -- produtora de vídeo aqui do Recife.
Vamos pressionar essa galera para tirar esse material «do armário».
E tem o MP3 do segundo disco rolando por a Internet.
A gravação está ruim, mas dá para ouvir ...
é o jeito, porque acho que não voltamos mais aos palcos.
Número de frases: 106
Afinal, não quero acabar como o " Mick Jagger.
«A imaginação da construção da Nação
brsileira ficou restrita à terra, à sua posse,
sua distribuição e ao seu usufruto por uma etnia dominante ";
Luis Mir.
-- O que é uma pontinha?
-- " Pontinha é uma ponte pequena, uai!" --
Errado. Redondamente.
Lá na frente eu falo.
A integração brasileira só se dará quando a população negra tiver direito à terra.
Não estou falando de meios econômicos para obtê-la.
Estou falando de quebrar o princípio da «anterioridade jurídica» para dar-lho direito de ter a terra.
Vou pegar quatro exemplos, poderia ser inúmeros, e fazer as considerações que seguem.
a) Chica da Silva:
Chica deu aos filhos educação esmerada:
da batina a passagem por academias romanas.
De os quatro filhos homens, de um sendo padre, os outros bacharéis, todos viveram a debaterem-se para ingressar no seio da nobreza -- é tudo quanto se sabe.
De as 9 filhas a maioria tornando-se freiras, não deixaram pegadas direfentes dos rastros das outras quatro, no que pese a educação de proa em colégios internos católicos.
Tudo o mais foi o sem-eira-nem-beira de quem não tem a terra, de sua ou no seio da família.
Todos sabemos o destino e o paradeiro dos Antonio de Allbuquerque, Gov. Minas, 1712, porque tiveram terra, o direito à posse da terra.
Estão entre tesouros e palácios.
Em cada período a Doutrina Militar do Brasil, sorteia um ou outro negro para servir de cala-a-boca, cumprido o papel, os elimina vorazmente.
b) Henrique Dias, Séc.
XVII, " o gov.
dos prestos " e o Gov. Souto Maior, ambos lutaram para destruir Palmares, Henrique Dias, com muito mais destaque e feitos.
De a árvore Souto Maior não preciso falar, ombrea-se à genealogia Almeida.
E os «herdeiros Henrique Dias» -- onde estão?--
Com certeza em alguma favela, ou dizimados, entre o Séc..
XVII e XVIII, talvez nem chegaram ao Séc..
XX e se chegaram, aconteceu na mais absoluta desimportância.
E por que?
Porque não tiveram terra.
Em a família é preciso de entre seus membros uma parte considerável tê-la.
É a referência.
-- Mas por que não tiveram terra, se por conta do episódio Palmares, terras foram distribuídas, de norte a sul, fora as da própria região?
Se o pagamento de tudo era a terra?
Se todos os outros -- de comandantes a soldados, a tiveram?
-- Henrique Dias sendo negro não podia ter terra. (
Ainda hoje, o negro não pode!,
sob mil disfarces, mas não pode).
Há notícias, de que as demandas de Jorge Velho chegaram à República.
Não foi encontrado uma só demanda ou registro veiculando Henrique Dias à terra.
c) PELÉ, que destino está tendo o clã Pelé?
de Pelé a pergunta, sobre a prisão não deve nos interessar.
Mas a resposta:
Cometeu crime, (se cometeu), porque na família não tem terra, não tem quem tenha tido terra.
Quem não tem terra, não tem para onde voltar, não tem onde repousar das turbulências, dos sustos, das mudanças da e na vida.
Quem terá sido Pelé daqui a 200 anos?
d -- Pontinha, o milagre da Terra.
Séc..
XVIII, Chico Rei, alguns dados.
De Chico sabe-se, com certeza tinha irmãos e parentes muitos.
A história do ouro carregado nos cabelos é pura enganação.
Todos os negros tinham cabelo.
E quem viveu em garimpo, quem travou conhecimento com os exploradores, donos, faisqueiros, compradores, sabem a ferocidade
e «esperteza» da quela gente.
Chico Rei, (como Pelé, como Chica e assim por diante) foi sorteado na política da antiga quota, a quota do «cala-a-boca», -- racismo?--
olha o exemplo de Pelé, de Chica ...
Um Endereço:
Há em Minas um lugar chamado Pontinha, antes distrito de Diamantina, até à década de 1970 município de Pompeu.
Chico Rei, como os filhos de Chica, vivia gastando a riqueza fazendo agrados à nobreza -- das pessoas às santidades:
patrocinando festas e construindo igrejas, (a atual Igreja de Sta.
Efigênia, Ouro Preto,
mandada construir por Chico Rei chamava-se Igreja de Em a.
Sra. dos Pretos do Alto da Cruz, (1720, inicial, depois reformada 1785).
Havia, na mesma época, o padre do local, Padre Moreira, diocese enorme, e as Santas Padroeiras, de muitos cabedais, notadamente terra.
Já esvaida a fortuna de Chico, Padre Moreira, por amancebia com uma irmã de Chico Rei, se encarrega de comprar-lhe terra.
Como negro não podia ter terra.
O padre usou do seguinte artifício:
pouco distante da sede a Padroeira tinha Uma Pontinha De Terra, de muito trabalho e pouca utilidade.
«A padroeira vende aquela pontinha de terra a Chico Rei».
(A amancebia foi arma de muita utilidade e valor na vida do Brasil, o que se chama hoje de liberalização sexual, foi magistralmente a amancebia).
Padre Moreira fez os documentos como sendo para uns parentes de ele (padre) chegantes de Portugal, e para não gerar desconfiança deu a todos o nome Moreira:
fulano Moreira, beltrano Moreira.
Pontinha distante da sede, e lugar sem comércio, nem passagem, camuflou os Chicos Rei por um bom tempo desapercebidos.
Assim os Moreiras de Pontinha são a linhagem de Chico Rei.
Antes da «queima de Rui» pegou fogo o cartório onde estavam os acentos das escrituras dos Moreiras ...
Uma certa Dona Mariinha, viúva ainda nova, figuraça do local, por amancebia com um dos Moreiras, tomou-lhas dores, (por o «seu pedacinho de ébano», diziam as más línguas ") ajeitou novos documentos, etc.
Com o advento do Estatuto da Terrá, já na década de 1970, grileiros oficiais (todo grileiro é oficial) quiseram tomar Pontinha dos Moreiras.
Alguns de eles foram levados a Brasilia ...
um outro Padre, dep.
Monsenhor Arruda Câmara, de Pernambuco, os socorreu.
Ainda apareceram falsas escrituras ...
A imprensa, notadamente a alternativa, enganjada, publicou o que foi possível do caso.
Estão lá, espremidos por as políticas agrícolas que não abrangem ao negro.
Porque todo o espírito das políticas agrícolas está fincado no «princípio da anterioridade».
Propositadamente mantido.
Assim, ainda estão lá os Moreira, pé na Terra.
Número de frases: 88
Toshio Ono trouxe para o Japão a semente do samba
Para os simples mortais, ele é somente o pai de Lisa Ono, talvez a mais bem sucedida artista a transitar entre os universos brasileiro e japonês.
Quem entende, porém, um pouco que seja da história do samba no Japão sabe a importância que Toshio Ono, um falante senhor de 83 anos de idade tem.
«Aqui é o berço do samba», diz o percussionista Francis Silva, presidente da Cruzeiro do Sul, a única escola do carnaval de Asakusa criada por um brasileiro. (
Leia sobre o carnaval de Asakusa aqui e aqui.)
O «aqui» a que ele se refere é a Saci Pererê, fundada por Ono e considerada por muitos a primeira casa de música brasileira da capital japonesa.
Antes, porém, de abrir o seu próprio terreiro em terras nipônicas, o pioneiro foi para o Brasil conhecer de perto a música que o encantou.
O ano era 1958.
Toshio Ono era um dos muitos imigrantes que ainda deixava o então empobrecido Japão em busca de oportunidades no Brasil.
Em aquela época, o governo brasileiro aceitava imigrantes japoneses apenas com uma finalidade:
o trabalho na agricultura.
«O Japão era muito pobre e as pessoas não tinham como ir para fora do país», relembra ele num português carregado de sotaque, absorvido no trabalho na noite.
Para atravessar o oceano, o migrante tinha que contar com um empreiteiro que se responsabilizava por a passagem e por o emprego em terras brasileiras.
Ono sabia que, pelo menos em tese, deveria se dedicar ao trabalho na lavoura.
Porém, seu objetivo já era muito claro.
«Eu não sou batateiro, sou negociante», explica ele, que já tinha em mente um plano:
abrir uma casa de shows no Brasil.
A história de Ono com a música brasileira passa por Cuba.
Ou melhor, por o maestro cubano-catal ão Xavier Cugat.
Conhecido como o homem que popularizou a música latina nos Estados Unidos, a música de Cugat chegou até o Japão.
Em uma época em que a América Latina era uma ilustre desconhecida, ritmos como o samba, a rumba, a salsa eram tratados como se fossem a mesma coisa.
Sem nenhum representante brasileiro do estilo a fazer sucesso fora dos limites do país, Cugat acabou sendo, voluntariamente ou não, uma espécie de cartão de visitas do samba no Japão, pelo menos para Ono.
«Aquilo não era samba, claro, mas o brasileiro não sabe vender seus produtos diretamente no exterior», critica ele.
Já no ano que aportou no Brasil, Ono abriu uma casa na Avenida Ceci, zona sul de São Paulo.
«Queria fazer algo diferente da forma tradicional japonesa, com mulheres atendendo, tipo gueixas», conta ele que optou por ter como atração a música.
O carro-chefe era o jazz.
«Eu botei um cartaz na entrada dizendo ' quem não gosta de improvisação, por favor não entre '», relembra Ono.
Rapidamente, a casa se transformou num sucesso, o que fez o empresário mudar para um local mais amplo, desta vez na Álvaro de Carvalho, no centro da cidade, onde dois conjuntos se apresentavam abençoados por um enorme pôster de Miles Davis.
Apesar do jazz ter sido o principal estilo, Ono lembra que o samba também tinha espaço.
A fase brasileira acabou em 1972 quando o empresário recebeu instruções do patriarca da Perfect Liberty -- uma instituição religiosa a qual Ono seria vinculado -- para retornar ao Japão.
Inquieto para apresentar aos japoneses tudo o que aprendeu sobre música brasileira, o empresário abriu o Saci Pererê dois anos depois.
«Me diziam que eu ia perder dinheiro com uma casa brasileira», recorda ele.
Realmente, naquela época, o Brasil estava na moda apenas num assunto:
o futebol.
Porém, era o momento do milagre econômico na pátria auriverde e o próprio Japão já estava se tornando uma potência industrial.
As trocas entre os dois países criaram uma geração de profissionais japoneses que passavam grandes temporadas no Brasil em busca de oportunidades de negócios para suas companhias.
Foi esse o público que, saudoso de sua temporada abaixo do Equador, adotou o Saci Pererê como ponto-de-encontro.
E, claro, além da comida, a música e o futebol estavam presentes na programação da casa.
Foi nessa época que uma grande leva de músicos e dançarinas começou a aportar em massa no país, sob a bênção de Toshio Ono.
Ele estima ter trazido mais de 350 músicos durante os mais de 30 anos da casa.
«A imigração me conhece.
Sempre fiz tudo direitinho», frisa ele.
Além dos eventos musicais, Ono organizou partidas de futebol, uma de elas contou com a presença do Santos de Pelé que enfrentou uma seleção de jogadores do Japão.
Com tanto know-how, foi a ele que o prefeito de Taito -- um dos 23 distritos especiais do distrito federal de Tóquio -- recorreu para dar forma ao carnaval de Asakusa, atualmente o maior do gênero fora do território brasileiro.
Ono conta ter feito parte do grupo que foi ao Rio de Janeiro para estudar o desfile das escolas de samba e erguer o primeiro carnaval no antigo distrito boêmio da capital japonesa.
«Foi bem pequeno», diz, mas impressionou.
«Ninguém tinha visto nada daquele tipo», lembra ele que destaca a evolução atual dos músicos e dançarinos japoneses.
Apesar de tudo o que realizou, Ono ainda tem um sonho:
unir as músicas tradicionais brasileira e a japonesa, que ele acredita terem muito em comum.
«Você ouve certas músicas brasileiras e elas são lamentos, como a enka», conta ele entusiasmado com o que ele chama de samba-enka ou bossa-enka.
«Queria ter feito essa mistura, que é diferente do que a Lisa faz», explica ele, referindo-se à filha que, segundo ele, faz música brasileira.
«Ela é brasileira, nasceu lá», frisa o empresário.
Se, de fato, Ono não conseguiu, ainda, a fusão com que sonha, a música e a cultura brasileira no Japão deve muitos favores a ele.
«O Saci Pererê fez uma revolução com a cultura afro-brasileira no Japão», conta Francis Silva que pontua a importância do resgate da história do samba no país.
Número de frases: 54
«Porque nesses cem anos de relação entre Brasil e Japão, são 27 anos só de carnaval de Asakusa», conclui ele, com a anuência de Toshio Ono, o homem que plantou a semente do samba na terra das cerejeiras.
É só um cigarro na mão de uma mulher de trinta anos com sua cara de quem perdeu um Boeing para o estrelato.
Bem poderia ser um cavalo, uma égua, uma mula.
Em essas alturas, tanto faz.
Ainda que ela esteja politicamente incorreta.
Não faltou a fumaça ordinária soprada no ar cheio de gás carbônico liberado por os carros psicologicamente mais equilibrados.
Morreu Sebastião, morreu Inês, não aquela Inês clássica do chavão Agora Inês é morta.
Era uma outra Inês que você não conheceu e, pelo menos nesta vida, não conhecerá.
Morreu a Violeta e seu tio, o senhor Pitoresco e também o jovem skatista Abel, mais conhecido nas rampas como Kill Dead.
Nunca se viu uma geração tão influenciada por a frase marqueteira American Way of Life.
Ninguém mais queria viver como de antes lá em Santa Cruz das Almas.
Morreu o coveiro Joaquim Soturno, no quarto seiscentos e sessenta e seis, no tradicional hotel Paraíso.
Uma parada cardíaca fulminante, enquanto Clarineide Mortalha, trinta anos mais jovem, ouviu, melhor dizendo, sentiu seu último suspiro bem sobre ela.
Clarineide que exibia todos seus sonhos ingênuos e sua generosa nudez branca, agora amarela feita flor de algodão.
Santo Deus! Havia um homem morto dentro de ela!
Que fazer?
Gritar, fingir-se de louca, sair correndo pelada por os corredores do " Paraíso ";?
Aquele era um problema da Clarineide.
Isso aqui é só a descrição de um céu nevoento expressado em tela a óleo por um pintor aborrecido com a ausência de sol no seu apartamento suburbano, daqueles com elevadores exibindo brasões do tempo do império em suas portas de madeira encerada.
Por eles subia dona Maria, uma nonagenária que viu o cometa Halley atravessar o céu estrelado no seu tempo de menina e teve a honradez de enterrar quatro maridos -- um do norte, um do sul, um do nordeste e um do sudeste -- sem nunca trai-los.
Subia também Jude de seios poderosos, saia mínima, botas brancas e uma pistola na bolsa.
Enquanto ela olhava para um ponto perdido no tempo, rodeada por mais dez pessoas naquela viagem para cima, seu objetivo era o décimo sétimo andar, João mirou seus seios, Claudinho focou suas cochas e Jardel lhe disse quebrando o gelo: --
Eu tenho uma bomba pra te contar.
Você vai cair pra trás!
Ele é que não imaginava a surpresa que ela lhe reservara no apartamento 1707.
A manchete no jornal popular estaria garantida no dia seguinte.
Subia Adélia, a enfermeira.
Ela tinha saído de um plantão, usava óculos escuros e chorava em silêncio.
Ninguém prestou atenção.
Os seios de Jude eram mais atraentes.
A verdade era que Adélia queria sumir.
Por que todos que estavam naquele elevador não morriam logo e lhe deixavam em paz, só, só, para chorar até sumir.
Estava com nojo de si, dos médicos, da medicina.
Sua mãe, cancerígena, cansada de tanta dor, implorou por a injeção letal.
A equipe médica foi conivente.
Nada de prontuários.
Nada de legislações.
Uma injeção levemente alterada.
Adélia matou sua mãe para aliviar seu sofrimento.
Agora restava ligar para sua irmã, Clarineide, lá em Santa Cruz das Almas.
Avisar a familiar.
Velório. Túmulo.
Por que o elevador não sumia enquanto subia?
É só uma mulher ansiosa contando as poucas estrelas visíveis.
Ela espera alguém que subia no personagem elevador e que só chegará vivo ao encontro combinado se Deus quiser.
Espera. Ânsia.
Carros que passam anônimos.
Isso nunca foi um fim!
Lecy Pereira Sousa
Número de frases: 49
www.suitedasletras.uniblog.com.br Pela primeira vez, um curta-metragem baiano foi selecionado para ser exibido no Short Film Corner, uma mostra paralela do badalado Festival de Cannes que tem como objetivo abrir espaço a curtas de novos realizadores.
Dirigido por César Fernando de Oliveira, o filme «10 centavos», que vai para o evento (de 14 a 25 deste mês), pode ser considerado um estímulo a novas criações nacionais neste formato tantas vezes relegado a» cartão de visitas " de novos cineastas.
Isso porque o filme por si só é uma obra completa e bela, apesar das cruezas que incomodam os acomodados que não querem (ou não conseguem) enxergar as vidas abandonadas de nossos garotos -- o futuro do Brasil.
O filme narra o dia de trabalho de um garoto como guardador de carros em Salvador.
Um garoto pobre, que se vira por as ruas do Carmo olhando e lavando carros.
Entre as angústias do jovem, uma em especial:
não se tornar um caloteiro e pagar duas dívidas de 10 centavos honestamente.
O menino não sossegará enquanto não sanar o débito, que se torna moral justamente por a ninharia que representa.
Os planos de 10 Centavos são cuidadosamente pensados, fazendo com que o protagonista do curta, o garoto, torne-se parte de um quadro bem pintado.
A fotografia busca por o lúdico e preza por a poesia da imagem.
A produção, de 19 minutos, aponta para uma cena de curtas baianos que vem crescendo e obtendo destaque em festivais nacionais e internacionais.
César recebeu o convite para participar do evento em Cannes há mais ou menos um mês, mas só começou a divulgar agora o fato, pois aguardava a resposta da Diretoria de Artes Visuais e Multimeios (Dimas) para o patrocínio na viagem.
O apoio saiu, consistindo de duas passagens, uma para César e outra para seu produtor Amadeu Alban, além de R$ 4 mil para alimentação e estadia.
Em contrapartida por o apoio, a dupla deve apresentar no retorno a Salvador uma palestra para contar a experiência no festival.
Fontes:
Jornal Correio da Bahia 1º de maio / 2008
www.coisadecinema.com.br www.cineinsite.com.br
E-mail do Diretor Cesar Fernando: cesar.Fo@gmail.com
Número de frases: 18
CANNES: Em o dia 2 de junho, segunda-feira, estréia no Fiz TV o semanário feito por jovens jornalistas espalhados por as cinco regiões do país.
De que jeito se fala num país de 8,5 milhões de metros quadrados?
De que jeito 183 milhões de habitantes se comportam?
É impossível que para essas perguntas não se tenha na resposta um «depende».
De fato, depende.
Depende da qual pedaço deste gigante Brasil você se refira.
E se é certo que cada região tenha suas peculiaridades, por que as notícias, as informações têm que ter um único sotaque?
Por que o comportamento brasileiro tem que ser medido por cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, quando outros 5.562 municípios existem?
Descentralizar as notícias, aprofundar os diversos temas tratados, assumir os diferentes sotaques e mostrar um Brasil em toda sua brasilidade.
São essas as propostas do Fiz + Sotaques, primeiro programa jornalístico do Canal Fiz TV, do Grupo Abril (www.fiztv.com.br -- veja box).
Por meio de uma equipe de videorrepórteres espalhados por as cinco regiões do país, o programa vai mostrar como os assuntos do dia-a-dia da mídia se manifestam de forma diferente em cada canto do Brasil, encontrando também o ponto em comum entre essas regionalidades.
«É uma forma de nacionalizar a informação a partir de vários pontos distintos dos Brasis», diz Leandro Lopes, diretor do Fiz + Sotaques.
«A idéia é humanizar, mostrar aquilo que a grande mídia geralmente não mostra, diminuir a distância entre a vida real e o que se vê na tevê», diz Augusto Paim, videorrepórter do Fiz + Sotaques.
Leandro concorda:
«existem padrões jornalísticos estabelecidos há anos na TV brasileira que não cabem mais nessa linguagem interativa e nesse momento de invasão do modo televisivo feito na internet».
Os videorrepórteres do Fiz + Sotaques gravam as entrevistas e as imagens com uma câmera fotográfica digital e buscam uma linguagem experimental e documental ao mesmo tempo, sem seguir os padrões restritos do jornalismo convencional.
O atual time de repórteres conta com jornalistas presentes no Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Paulo, Sergipe e Minas Gerais, contando também com participações eventuais de videorrepórteres de outros " Estados.
«Queremos nos sintonizar com as novas possibilidades de se produzir conteúdo jornalístico, usando as ferramentas da web para fazer o jornalismo sério, aprofundado e humano que todos nós queremos», diz Augusto, que completa:
«mobilidade: essa também é uma palavra-chave.
Queremos mostrar como um assunto se desenvolve na metrópole, mas também no interior.
Os videorrepórteres viajam com a câmera e, por isso, não ficam restritos ao lugar em que estão.
Cada nova cobertura será uma surpresa».
Em o www.fiztv.com.br você encontra os dois pilotos produzidos por a equipe do Fiz + Sotaques.
Basta digitar «Motoboys dos Brasis» e " Carnaval, meu nome é ..." no campo de busca.
O programa de estréia, no dia 2 de junho, será sobre o tema:
«sotaques do Brasil».
«O Fiz + Sotaques irá oxigenar a grade do canal por se tratar do primeiro programa de jornalismo colaborativo.
Além disso, esse formato de um jornalismo discutido sob a visão de pessoas espalhadas por o Brasil inteiro é muito semelhante a proposta do canal que busca uma linguagem plural na sua programação», comemora Marcelo Botta, diretor do Fiz TV.
O programa irá ao ar todas as segundas-feira, às 21h15, no canal 16 da TVA analógica e no canal 20 da TVA digital, em São Paulo (capital e interior), Santa Catarina (Florianópolis e Camboriú), Paraná (Curitiba e Foz do Iguaçu), Rio de Janeiro (capital) e Minas Gerais (Uberlândia).
Os programas também estarão disponíveis no site do Fiz TV, para qualquer lugar do Brasil.
Fiz TV
O Fiz é o primeiro e único canal de TV colaborativo do Brasil.
Pertencente ao Grupo Abril, com menos de um ano de vida, o projeto já conseguiu criar uma forte comunidade de produtores de vídeo na web e uma linguagem ousada e inovadora dentro da televisão brasileira.
Em os últimos meses, o canal dedica-se para que produtores de todo o país enviem não somente vídeos, mas também programas formatados e pensados para uma nova televisão.
Número de frases: 34
A criação de um pioneiro sistema de remuneração somado à grande liberdade editorial que o canal dá aos produtores permite que público acompanhe, cada vez mais, o surgimento de novas e boas idéias no universo audiovisual brasileiro.
Uma noite muito estrelada e sem qualquer nuvem no céu foi um complemento espectacular para um dia em que o azul do céu de brigadeiro era forte e contrastava com as casinhas preservadas do centro histórico da cidade.
Que, aliás, estava fechado para a circulação de carros desde a noite anterior.
Afinal, além da apresentação de mais uma rodada de filmes do primeiro ano do projeto Revelando os Brasis, São Luis do Paraitinga também exercia o seu lado devoto, preparando as ruas para a tradicional procissão que ocorre, todos os anos, na santa quinta-feira de Corpus Christi.
São Luis é uma cidade pacata, com cerca de 14 mil habitantes.
Mas, ao contrário da maioria das cidades pacatas, o povo é empenhado em fazer com que a cidade apareça no mapa.
É uma cidade histórica, terra de Oswaldo Cruz, sanitarista que também dá nome à única rodovia estadual que permite que São Luis seja visitada por os seus turistas.
Que não vão lá muito por causa disso, não:
também aproveitam para curtir as trilhas ecológicas, já que o eco-turismo é um dos pontos altos da cidade, e também as diversas festas e manifestações culturais que nominam São Luis como um dos carnavais mais alegóricos do interior do Brasil.
Em o dia 7 de junho de 2006, a cidade amanheceu empenhada em se preparar para as festividades da celebração do Corpo de Cristo.
Para os católicos, o evento é considerado uma festa de preceito e todos os que se declaram da religião devem obrigatoriamente assistir à missa nesse dia.
Oficializada por o Papa Urbano IV em 1264, a data no Brasil reflete, com aspectos regionais, a tradição iniciada por o próprio pontífice, enquanto ainda era arcediago na Diocese de Liège, na Bélgica:
missa seguida de procissão por as principais ruas ao redor da igreja em que havia acontecido o culto.
No caso de São Luis, estes aspectos incluem, basicamente, o empenho dos moradores da criação de tapetes decorados por todas as ruas por onde passará o cortejo.
Em cada uma dessas ruas, os padrões dos tapetes variavam muito.
Todo ano é assim, por um motivo justo:
cada uma das ruas do centro histórico por as quais a procissão passa tem seus próprios moradores como responsáveis por a decoração.
Ilza Guimarães de Carvalho, de 65 anos, conta que, desde que se conhece por gente, as ruas são decoradas.
Mas, antigamente, era bem diferente:
em cada margem da rua eram colocados mastros de bambu, que se arqueavam e, entre eles, eram colocadas sineiras redondas, feitas com arcos de bambu e papel de seda (à moda, por exemplo, das lanternas chinesas).
Por baixo de elas passavam as pessoas.
Mas isso, segundo ela, era no tempo em que as ruas não tinham calçamento.
Depois da pavimentação, feita com bloquinhos de concreto e não com asfalto, os tapetes foram criados.
Em o início, eles cobriam totalmente a rua, lembrando a cidade com chão de terra batida.
Atualmente, estes tapetes ocupam apenas a faixa central de cada rua.
Os tapetes são feitos de diversos materiais.
No caso da decoração que Dona Ilza preparou, foram utilizados calcário, folhas, flores, serragem, café, trato de gado e flor-de-papagaio.
Mas, circulando por a cidade, outros materias eram percebidos, como pedrinhas, tampinhas de garrafa decoradas, terra, areia, outros tipos de serragem e pigmentos coloridos de origens por vezes inusitadas (o azul, por exemplo, era o bom e velho sabão-em-pó).
Toda esta diversidade e a criatividade de cada grupo torna o caminho um belo mosaico de cores e temas.
Isto sem falar que, neste ano, São Luis comemorou também o 2º Congresso Eucarístico Diocesano, iniciando as festividades para o centenário de Taubaté.
Enquanto os tapetes eram preparados e o pessoal que cuida da parte técnica do projeto Revelando os Brasis armava tudo na praça principal, algumas pessoas com instrumentos musicais foram se aproximando.
Será que tocariam no coreto?
Em a verdade, Flávio e Léo esclareceram tudo.
Eles fazem parte da Corporação Musical São Luiz de Tolosa (santo nascido em Toulose, na França, que é o padroeiro da cidade e do qual o nome da mesma deriva), que todos os anos tocam durante as estações da procissão.
Em a verdade, tocam em todas as procissões da cidade.
E não apenas as religiosas.
O que muda de uma para a outra, para eles, é o repertório:
enquanto nas católicas eles tocam hinos, nas outras fazem dobrados.
Atualmente, além de um regente, 35 pessoas fazem parte da corporação, a maioria jovens como os dois.
Flávio Soares Ribeiro Jr., 17 anos, toca trombone, enquanto Leonardo de Campos Couto, 18, maneja um sax.
Os dois estão tocando com o conjunto há quatro anos.
Mas todos, além da música, possuem em comum o vestuário uniforme e impecável:
calça e ternos cinza, sapatos sociais de cor preta, camisa branca e gravata branca acetinada -- roupa que serve tanto para os homens como para as mulheres desta banda mista.
Após a missa, que terminou por volta das seis e meia da tarde, a procissão começou e, enquanto isso, a gurizada tomava as primeiras cadeiras da improvisada sala de exibição de cinema ao ar livre.
Improvisada, mas não por isso ruim:
mais de duzentos lugares sentados, tela grande, embalados por uma noite bonita.
Tão bonita que, por lá, até apareceu Ernesto Paglia e uma equipe do Jornal Nacional, preparando uma matéria especial para a edição do sábado seguinte sobre o projeto e o evento.
Enquanto tudo se ajeitava, Chinica (ou Xinica, para os que não perguntam a grafia de seu nome artístico), fotógrafo de 39 anos e funcionário da Sabesp conta histórias de arrepiar.
E de rir também.
A o ver a equipe da Globo, lembrou-se de uma história tão absurda como verídica.
Tudo veio da crença secular da cidade na existência de lobisomens por aquelas terras.
Muitas casas tinham (e algumas ainda têm) cruzes incrustadas em suas fachadas para espantar estes espíritos malignos.
Uma cidade devota como São Luis do Paraitinga tinha mesmo o que temer décadas atrás.
Mas, com o tempo, a eletricidade e a desmistificação do mundo que acontece em tempos recentes, o mito do lobisomem hoje é apenas uma lenda local.
Só que, em São Luis, como rapidamente se descobre, tudo é motivo para se fazer uma festa.
Foi daí que inventaram, em 2001, de se fazer um festival na localidade chamado Uivo do Lobisomem.
O vencedor seria, claro, o que produzisse o melhor uivo da besta fera, numa eleição popular.
O inusitado da proposta fez com que a afiliada regional da Globo em São José dos Campos, a TV Vanguarda, enviasse para lá uma repórter para entrevistar o campeão.
Hoje não se fala o nome do rapaz, para preservá-lo, mas a verdade é que, em plena transmissão ao vivo para o telejornal regional, a jornalista pergunta como é que foi para o homem vencer o concurso de uivos.
E ele começa a soltar sons guturais por a boca, diante de uma mulher perplexa que, com cara de ué e microfone na mão, nem havia se dado ao trabalho de perceber que o vencedor, na verdade, era uma pessoa muda.
Dizem que foi motivo de piada na emissora por um bom tempo.
Ainda assim, Chinica conta que o famoso Lobisomem não foi páreo para o Saci.
Graças a uma lei municipal recente, de autoria do então vereador Marcelo Toledo, hoje com 43 anos, o dia 31 de outubro é conhecido como o Dia do Saci.
Em este dia, claro, a cidade comemora novamente.
A data municipal, que tem o intuito de ser a versão nacional do Dia das Bruxas norte-americano, foi posteriormente adotada por a cidade e por o estado de São Paulo e, em 2005, se tornou uma data nacional, graças a um projeto de Aldo Rebelo e Ângela Guadagnin.
Sim, a mesma deputada da «Dança da Pizza» -- e também dos direitos a salário-família e salário-maternidade para empregados domésticos.
Enquanto o papo rola solto, a procissão começa a se fazer ouvida ao longe, retornando à Matriz, de onde partiu.
Todo mundo que passa por ela, é claro, vai pisando nos tapetes, destruindo o trabalho de um dia inteiro.
Imagine a sujeirada que vai ficar.
Imaginou? Pois não é nada disso:
logo que as pessoas passam, uma escavadeira adaptada e uma equipe de limpeza recolhem toda a sujeira, varrem e lavam todas as ruas.
Quando terminar o cortejo religioso, a cidade estará praticamente nova (ou preservadamente antiga) em folha.
E já dá para ouvir com mais clareza os instrumentos da corporação musical quando a cineasta da cidade, Vanessa Cristina de Oliveira, chega à praça acompanhada do noivo, Carlos Peixoto.
Fazia certo frio àquela hora.
Vanessa, uma bonita mulher de 26 anos, trajava um sapato com salto baixo, calça jeans, uma blusa de tricô branca, uma jaqueta de couro marrom e, muito bem articulada, conversou com o Overmundo sobre o seu filme e a importância de sua exibição numa cidade que, hoje, não possui mais nenhum cinema -- a antiga sala de exibição, o Cine Teatro São Luis, agora é apenas mais uma agência do Banco do Brasil.
Ela sabe da sua responsabilidade.
Jornalista formada, trabalhando como produtora na afiliada da TV Bandeirantes em Taubaté, soube em 2004 do projeto por a TV Cultura, se inscreveu e decidiu que queria contar a história do padre italiano que, por mais de 50 anos, proibiu o carnaval em São Luis.
A o ser aprovada para fazer parte do grupo de cineastas iniciantes, ela disse que sua principal dificuldade foi se soltar mais, por causa das amarras e vícios jornalísticos.
Também houve um trabalho intenso de pesquisa, que, em sua maioria, foi resgatada por a memória oral dos moradores mais antigos, visto que há pouco registro documentado da empreitada do monsenhor Ignácio Gióia em terminar com a festa profana e suas repercussões ao longo das décadas.
Misturando a narrativa jornalística com a reconstituição da história oral com atores, ela levou aproximadamente um mês e meio para produzir sua obra e uma semana para as filmagens.
Em minutos, a procissão chega à praça e, pouco depois, ela se encerra com uma salva de fogos de artifício e a execução do Hino Nacional, atos sincronizado com a gravação de uma passagem da matéria por o repórter global, que trabalhava numa boa:
afinal, para quem venceu o Prêmio Comunique-se de melhor repórter de mídia eletrônica e cobriu a guerra Irã-Iraque, seis copas e duas olimpíadas, uma matéria como essa certamente era algo pra se tirar de letra.
E o profissionalismo se fazia presente também com a organização do Revelando os Brasis, que iniciou a exibição com mais de 700 pessoas na praça pontualmente às sete e meia da noite, como confirmou mais tarde o Diretor de Cultura da cidade, Galvão Frade, de 48 anos.
O primeiro filme foi o de Vanessa, intitulado «São Luis de Rabo e Chifre».
O título, inusitado para a exibição num feriado religioso, explicava muito sobre o motivo daquela cidade ser tão festeira:
era uma questão de brio.
Afinal, após meio século sem carnaval, uma jornalista da Globo (identificada por Paglia como Maria Christina Pinheiro) foi à cidade, em fevereiro de 1980, fazer uma reportagem sobre a cidade sem carnaval.
Por causa desta matéria é que, a partir de 1981, não tinha mais rabo nem chifre:
São Luis do Paraitinga foi crescendo com aquela que talvez seja a folia de momo mais original de São Paulo.
Hoje conta com mais de 1.500 marchinhas de carnaval da própria cidade, sendo apenas elas tocadas durante os dias de festança.
Muita participação popular, sufocando os chamados bailes de salão e dando lugar a uma nova página na história da cidade, que, a partir daí, não parou mais de criar, como já se disse por aqui.
A autora?
Visivelmente feliz, apesar do pouquinho de nervosismo, e sempre amparada por o noivo.
Já o público aplaudiu bastante a história, que atraiu a atenção de todos.
Os bares ao lado também montaram cadeiras e tanto eles como os sobrados viraram inusitados camarotes para a exibição.
Mas também teve gente como a Dona Dita, proprietária de uma pousada localizada bem atrás do telão, que não ligou muito para aquilo e ficou na sua, vendo a sua novela e servindo o jantar para os seus hóspedes.
Apesar das reações variadas da macharada, das carolas e das crianças quando apareceu uma mulher nua no quinto e último vídeo (chamado «O Quadro», de um autor de Itiquira / MT), o saldo foi altamente positivo.
Principalmente para os pequenos, que nunca tinham visto uma tela grande na vida.
Muitos de eles não conseguiam entender o que estava acontecendo e, numa cidade modesta, uma mãe tentava explicar ao seu filho de quatro anos, de um jeito que este entendesse, a experiência de um cinema numa cidade privada das sensações da sétima arte:
«Ó lá, fio, é a televisão».
É o mais perto que o menino vai, por um tempo, chegar perto de ver as grandes imagens que estão à sua frente.
Número de frases: 101
Isto mostra a grande importância de uma iniciativa como esta, que passará por dezenas de cidades com menos de 20 mil habitantes e terá, ao seu final, dado ao menos uma noite com um brilho diferente para populações sem acesso a este tipo de produção cultural.
O Núcleo Audiovisual do Nós do Morro acaba de produzir o mais novo clipe da banda O RAPPA, que já está circulando na MTV e na internet.
O clipe «Monstro Invisivel», com Roteiro de Gustavo Melo veio celebrar uma parceria que nasceu no clipe» Minha Alma, dirigido por Kátia Lund, no início do ano 2000», que trazia em seu elenco os atores mirins do Nós do Morro, hoje todos com mais de 20 anos, exceto o «gigante» Ramon Francisco que, na época, era apenas um bebê de 4 aninhos.
Desde então todos os clipes da banda que se seguiram também tiveram no elenco integrantes do Nós do Morro.
Em «Monstro invisível» a parceria se dá desde o roteiro, inspirado no filme «Atrocidades Maravilhosas de Lula Carvalho, Pedro Peregrino e Renato Martins (2002)», até a finalização do produto.
Dirigido por Gustavo Melo e Luciana Bezerra, este é o primeiro clipe produzido por a dupla que é bem conhecida dos festivais nacionais e internacionais por direção de curtas-metragem, como Mina de Fé, O Jeito Brasileiro de ser Português e Picolé, Pintinho e Pipa.
Gustavo já ganhou o premio ABD e C (2007) com o curta «Picolé, Pintinho e Pipa Curta» também abriu o Festival de Biarritz/França este ano.
Luciana já ganhou o prêmio de melhor curta com o «Mina de fé no 37º festival de cinema de Brasília em 2004» e esteve em Festivais internacionais:
Clermont-Ferrand (França) e Interfilm Berlin.
A dupla integra a 1ª safra da escola de cinema do Nós do Morro, que tem como professores fundadores Rosane Svartman e Vinicius Reis.
Rosane dirigiu «Como ser solteiro no Rio e janeiro» e «Mais uma vez amor».
Vinicius está preparando o lançamento de seu primeiro longa-metragem de ficção «Saens Pena -- Estação final».
Os grafites e artes dos cartazes são de dois coletivos cariocas intitulados «Nação» e «El Ninho» que são formados por:
Pedro Rossi, Gais, BIG e Mateus Velasco e as artes foram as interpretações de eles para a música Monstro invisível.
Pedro Rossi é co-produtor do Clipe representando a produtora El Desierto.
O diretor de fotografia Andre Lavaquial, que também faz parte da equipe El Desierto, é também diretor do curta brasileiro mais badalado em Cannes esse ano:
«O Som e o resto».
Em o elenco do clipe participam:
Jonathan Azevedo (Negueba) que já trabalhou em vários curtas e também está no curta «7 minutos» do Cavi Borges;
Kikito Junqueira que já fez muitos trabalhos com o Nós do Morro e está no Filme «Era uma vez» do Breno Silveira e Marcelo Mello Jr., que é o «Sandro» do próximo filme de Bruno Barreto que conta a história do ônibus 174.
O clipe já está passando na MTV e concorre a Clipe do Ano VMB. ´
Conheça o Núcleo de Audiovisual do Nós do Morro
Número de frases: 22
Artigo produzido por Luiz Paulo Corrêa e Castro, jornalista, dramaturgo e diretor do Grupo Nós do Morro e publicado originalmente no site www.nosdomorro.com.br
Portas caídas, portão de entrada entregue aos ratos e baratas, moscas arrodeando o lixo que é jogado no local.
É assim que a antiga entrada do Mercado do Ouro se encontra.
O nome pintado de forma artística, hoje está apagado.
Só reconhece o lugar quem já conhecia antigamente.
A porta do fundo agora é a entrada, que fica localizada na Avenida Jequitaia.
A mudança aconteceu devido à decadência do lugar, que tem hoje cerca de 107 anos de existência.
O prédio de numero 02, tinha sua entrada na rua do Pilar, que cerca a praça Marechal Deodoro no bairro do Comércio, Salvador.
O espaço de 7.500 metros quadrados comporta 100 lojas que são divididas em tamanhos diferentes, algumas com frente para rua e outras internas, cada uma com seu próprio banheiro.
Os inquilinos escolhem as lojas de acordo com o preço e a localização.
O que se comercializa em cada box do mercado fica a escolha do locatário.
Mas antigamente o que predominava eram alimentos não perecíveis, cereais, especiarias e ervas de todos os tipos.
Os freqüentadores de antigamente não são mais os mesmos.
Rosilda Santos, 62, vinha antes comprar ervas para preparar seus chás.
Hoje, segundo ela, não se encontra mais quase nada.
«O mercado tá acabando, a única loja em que ainda venho comprar é a loja que vende essências de produtos.
Aqui acho de tudo, talco, alfazema, alecrim e muitas outras.
A vantagem que é mais barato».
Assim como Rosilda, ainda há os freqüentadores antigos e fiéis.
Os jovens, que não conheciam o mercado antigamente, freqüentam apenas as lojas de frente para rua, os restaurantes e as lachonetes.
Mesmo divulgando o comércio interno, as pessoas ficam com receio, pois a entrada, que antes era a porta do fundo, é escura e a pintura da parede está tão decadente, que assusta quem tem vontade de subir as escadas que levam ao primeiro andar.
Segundo Antônia de Jesus, 51, auxiliar administrativa do mercado, hoje tem apenas 26 lojas funcionando, 23 externas e três internas, todas alugadas, inclusive o ponto de Seu Juarez, que tem a fama de oferecer o melhor filé da Bahia.
«Os preços dos aluguéis variam, vão de R$ 300 à R$ 1.000, depende do tamanho e da localização.
Claro que os de frente para rua tem os valores mais elevados», disse Antônia em relação as lojas
Atualmente se encontra uma variedade de lojas no mercado, como loja de produtos químicos, oficina de ar-condicionado, de carro, oficina de pinturas e letreiros, escritório de contabilidade, ponto de café que fornece aos bancos do bairro, restaurantes, lanchonetes.
Antigo
Mercado Fundado no ano de 1879, o Mercado do Ouro, de propriedade particular, recebeu esse nome devido ao local, que era conhecido como cais do Ouro.
Em essa época, o mar vinha próximo ao fundo do mercado.
Lá, se encontrava de tudo um pouco:
cereais, verduras, temperos, frutas, especiarias e ervas.
Os clientes vinham de vários bairros da cidade para fazer compras no mercado.
Segundo pesquisas históricas feitas por membros da família, no ano de 1910, foi leiloado e arrematado por o finado Francisco Amado da Silva Bahia.
Segundo um dos administradores, Carlos Monteiro, 56, bisneto de Francisco Amado Bahia, a cada dois anos é escolhido em reunião quem vai administrar o espaço.
Atualmente é ele quem está no cargo.
Atualmente, a única fonte de renda, que inclusive mantém o mercado, é o pagamento dos aluguéis.
A loja Rosa do Ouro era uma das mais procuradas, segundo " Antônia de Jesus:
«A proprietária vendia ervas, folhas, especiarias, boldo, canela e outras coisas naturais».
Outro ponto que é antigo e não fechou é o restaurante do Juarez, que hoje tem 51 anos.
A loja Sacarias, de Seu Benedito também sobrevive, vendendo sacos de pano de chão, tecido para artesanato e panos de prato.
Famoso
Filé O que ainda leva as pessoas a freqüentar o Mercado do Ouro são os restaurantes.
A comida, caseira e barata atrai pessoas de todos os lugares.
O cheiro irresistível que se espalha no horário do almoço, conquista fregueses que se tornam fiéis, como o cliente Carlos Silva, que trabalha há oito anos no bairro.
«Desde que comecei a trabalhar aqui nessa aérea, que freqüento esses restaurantes.
Ambos tem uma comida muito gostosa, parece comida caseira.
Agora já sou cliente fiel, não troco essa comida por nada», disse Carlos Silva.
Assim como Carlos, muitas pessoas que trabalham no Comércio preferem almoçar nesses restaurantes.
O Filé do Juarez, como é conhecido o restaurante dos proprietários Juarez Silveira, 80, e Felisberto Formigueli, 62, foi fundado em 1955 na parte interna do mercado.
O box de número 110 começou como uma cantina, que servia almoços e ainda não tinha fama de oferecer o melhor filé.
Hoje, com 51 anos, o restaurante funciona na parte externa do mercado.
Os anos de existência foi dando ao restaurante uma fama que atrai pessoas de várias classes sociais, clientes que não dispensam o filé na chapa num sábado a tarde.
Segundo Juarez, há clientes que são fiéis e não demoram de aparecer, sempre procuram por o filé, que ele diz ser o melhor do mundo.
«A clientela é diversificada, aqui come pobres, trabalhadores do local, empresários e muito mais», disse Juarez, sobre a clientela do restaurante.
O sucesso dessa comida, que muitos não dispensam na hora do almoço, vem das mãos da cozinheira Clarisse Pinheiro, 43, que trabalha no restaurante há cerca de 25 anos.
A comida boa e de preço acessível, que varia entre R$ 7,00 e 14,00, é servida todos os dias, exceto domingos.
De as 11h às 15h, o movimento não pára, até a hora em que a comida termina.
Mesmo com 80 anos de idade, Juarez não dispensa participar da administração do local e está sempre recebendo seus clientes.
Apesar de estar decadente, o mercado ainda encanta as pessoas.
Mesmo com tanto descaso, o prédio ainda sobrevive, e seduz os consumidores que vão ao local atraídos por a comida e também por os preços populares das lojas.
Os poucos pontos que restam, não desistem de lutar para manter um patrimônio que hoje se tornou um marco cultural na história do bairro do Comércio.
Número de frases: 60
Em breve, muito breve, o duo Índios Eletrônicos estará lançando o disco HINDUSTRIAL em parceria com o multi-instrumentista especializado em música clássica indiana ANGELO ESMANHOTTO.
A obra é fruto de uma gravação ao vivo, onde os índios usam seu arsenal de pedais + 8 amplificadores e Angelo costura a visceralidade com seu Sarod.
Uma umbanda de space rock.
Música indianda hi-tec.
Possibilidades extra-sensoriais.
Número de frases: 5
A democracia do Overmundo parece ser o local ideal para determinados temas.
Um de eles é o silêncio (nada) obsequioso do povo brasileiro acerca dos inúmeros compatriotas que, cansados de aguardar que o «gigante» desperte do «berço esplêndido» foram buscar oportunidades e reconhecimento em outros países.
Muitos desses brasileiros são artistas e, através de sua arte, constróem uma imagem de como vivem os imigrantes longe de sua terra Natal.
De aí a importância do trabalho de Ricardo Yamamoto, fotógrafo paulista de 32 anos, vivendo há 15 no Japão.
Filho da terceira geração de nipo-brasileiros, Yamamoto chegou na Terra do Sol Nascente da mesma maneira que muitos outros " dekasseguis ":
veio com o visto especial criado por o governo local para receber trabalhadores sazonais nipo-descendentes como forma de suprir a falta de mão-de-obra na indústria local.
Apaixonado por fotografia desde que decidiu por a compra de uma câmera reflex, Yamamoto decidiu junto com a companheira, a cantora Sabrina Shikasho, sair da rotina das fábricas -- onde se trabalha pelo menos dez horas diárias e seis dias por semana -- e da mediana cidade de Hamamatsu para tentar, em Tóquio, oportunidades melhores de sobreviver de suas artes.
Em a entrevista que segue, Ricardo Yamamoto conta sua história, suas influências na fotografia e apresenta o " vídeo-fotográfico Brasileiros no Japão, criado para ser exibido no ShizudaiSai, o festival estudantil da Universidade de Shizuoka, onde ele, ainda, ministrou um workshop com estudantes.
Roberto Maxwell -- Quando você chegou ao Japão e por que veio para o país?
Ricardo Yamamoto -- Cheguei em abril de " 91 com minha mãe e minha irmã mais velha.
Estava cursando o segundo ano colegial [atual Ensino Médio] e não tinha idéia do que queria (e se queria) fazer no Brasil.
Então, foi aquele oba ...
RM -- A fotografia entrou na sua vida depois do Japão, certo?
Como foi que você se interessou por fotografia?
RY -- Tinha uma câmera compacta e ela quebrou.
Resolvi comprar uma reflex que, entre outras coisas, você pode trocar as lentes.
Aí me interessei por aqueles recursos e como eles funcionavam.
Isso n ... ´
99, acho.
RM -- Você chegou aqui para o trabalho nas fábricas como todo dekassegui.
Você ja tinha trabalhado em fábricas no Brasil?
Como essa rotina das fábricas afetou o seu olhar sobre as coisas?
RY -- Em o Brasil só estudava, aquela coisa.
Em o primeiro dia de trabalho aqui fiquei muito cansado por estar em pé parado por tantas horas, e assim fui vendo que vida de peão não é moleza.
E o lado sedutor dessa vida me veio na forma de uma mountain bike linda que comprei com meu primeiro salário.
RM -- Há coisa de um ano você e a sua companheira, a cantora Sabrina Shikasho, decidiram deixar o trabalho na fábrica, a cidade de Hamamatsu que é a de maior concentração de brasileiros no Japão, para viver em Tóquio.
Até que ponto as artes de vocês influenciaram nessa escolha?
RY -- Influenciaram muito, pois nos mudamos porque decidimos o que queríamos fazer na vida e estar num lugar propício para nosso desenvolvimento era (e é) primordial.
Se o plano fosse abrir um escritório de assessoria ou comprar um trailer para vender sanduíche na praia, teríamos ficado por lá.
RM -- O seu interesse por a vida do imigrante brasileiro no Japão é natual na medida em que você, como é bem lembrado no vídeo
Brasileiros no Japão, é um de eles.
Quando você passou a fotografar brasileiros no Japão?
Pareceu-me que muitas das imagens foram fruto de trabalhos que, para outros fotografos, poderiam ser considerados como menores como registros de casamentos ou stills para peças de teatro.
Em que momento estes registros passaram a ter o valor documental que você almeja no seu trabalho?
RY -- Logo que comecei a fotografar por hobby.
Fiz free-la para a revista Look [revista mensal para os assinantes de um serviço telefônico voltado para brasileiros que vivem no Japão] por uns três anos.
Aí, acompanhando a jornalista, fui assistindo às pessoas contarem suas histórias para as matérias e percebi uma riqueza que ainda não consigo definir, algo nos indivíduos que vivem aqui, passam por dificuldades e aquelas coisas.
Então me interessei em registrar um pouco da história de várias pessoas individualmente ou em pequenos grupos.
Nada de grandes acontecimentos, pois sempre gostei de ver mais os bastidores e o cotidiano do que algum tipo de apresentação ensaiada.
E este cotidiano que vivemos hoje em cidades como Hamamatsu é fruto de uma transformação contínua, reflexo da característica da nossa era, que é o movimento de populações e o impacto e transformação que isso implica nas sociedades.
RM -- Você sempre cita como forte influência os trabalhos do Henri Cartier-Bresson e do Sebastião Salgado.
Em que medida esses dois nomes afetam o que você produz quando o assunto é a vida dos brasileiros no Japão?
RY -- Há a parte estética, que é importantíssima para que um trabalho que se comunica através da estética tenha repercussão;
a impressão de intimidade, por parte do observador, do fotógrafo com o fotografado, o que não acontece com o fotojornalismo de consumo e, principalmente no caso do Salgado, a forma de abordar e organizar um tema.
Há outros fotógrafos, mas esses dois já me resolveram muita coisa.
RM -- A esmagadora maioria das fotos que você apresenta como trabalho autoral é em preto-e-branco e todas são em filme.
Por que o foco no preto & branco?
Quanto ao digital, você não tem interesse em ele?
Por quê?
RY -- O preto & branco tradicional tem uma inclinação mais natural à arte por ser manual e por ser subjetivo e indireto, pois no mundo real nada é feito em tons de cinza.
Mas a questão não é a arte.
A questão é a excelência da qualidade e a originalidade que te aproximam do autor e de sua obra de forma intensa.
Esse é o meu ponto de vista, pelo menos.
Por isso trabalho com filme.
Além do mais, com filme, há um respaldo maior em documentários, pois há uma matriz que é a imagem no filme e ali você tem o histórico e autenticidade da foto.
Em o digital o negócio é outro, pelo menos eu acho.
É claro, há o fato de eu curtir o processo todo também.
RM -- Falando em documentário, um de seus projetos é fazer um documentário fotográfico da vida dos brasileiros no Japão.
Onde se encaixa o «video-fotográfico» Brasileiros no Japão dentro dessa idéia maior?
Como você chegou às fotografias que compõem o vídeo?
RY -- O vídeo Brasileiros no Japão é uma forma opcional de apresentar as imagens e muito eficaz para certas ocasiões.
Também foi feito para ser uma mostra prática de parte do material sem ter a responsabilidade de ser apresentado como um documento, mas que pode vir a atrair interesse para o projeto principal.
A escolha das imagens que compõem o vídeo foi baseada por o seu contexto e estética, dentro das opções que tinha.
RM -- Você me entregou um roteiro de edição [nota:
eu editei o vídeo Brasileiros no Japão] bem fechado, no qual as fotografias obedecem a uma rígida escala de tempo.
Como você chegou a esse roteiro?
E a música, como foi construída?
RY -- Pedi para meu irmão [o músico Régis Yamamoto] fazer uma música de uns 3 minutos e com certas características e cadências baseada numa melodia adaptada e tomei a música como base para sincronizar e ordenar a maior parte das imagens.
Aí fiz o roteiro conforme a idéia que já tinha na cabeça há algum tempo, que é muito parecida com um clipe comercial que fizemos para a Aquamare [uma marca de jóias].
RM -- Voltando ao documentário fotográfico acerca dos brasileiros que vivem no Japão, o que você já tem em mente?
Que olhar ou olhares seriam privilegiados nesse trabalho?
RY -- O projeto ainda depende de algumas mudanças que podem acontecer durante a sua produção, inclusive ele ainda não foi oficializado.
Cerca de 70 % das imagens já foram captadas e a intenção é editar em torno de 40 a 50 fotografias, mais o texto.
Exposições seriam, a princípio, a forma de apresentação, mas tanto o projeto finalizado quanto imagens avulsas podem ser publicadas em parcerias com outros projetos, contanto que estejam dentro do mesmo contexto.
A data mais conveniente para a apresentação do projeto seria antes e durante as comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil.
O objetivo sempre foi registrar um pouquinho da comunidade, da nossa história que faz parte da teia de histórias da nossa família humana;
e apresentá-lo de uma forma que promova a informação e a empatia das pessoas, quaisquer pessoas de qualquer parte do planeta, mas, principalmente, da própria comunidade e da sociedade japonesa.
Em a essência somos iguais e estamos sempre na busca por uma vida melhor, sofrendo e influenciando as coisas do mundo.
Para isso, acho que a abordagem tem que ser pessoal e íntima, nada de distância.
Os retratos são tão importantes quanto os planos mais gerais.
Assista a Brasileiros no Japão no link:
http://www.youtube.com/watch? v = OAhwW7viDSk
Veja mais fotografias de Ricardo Yamamoto em http://www.photo.net/photos/ricardoyamamoto
Número de frases: 83
Leia a primeira matéria da série, com o diretor Daniel Florêncio que fez o documentário A Brazilian Immigrant em http://www.overmundo.com.br/overblog/brasis em construcão fora de ox-brasil i Sou um cara avesso à adoração exacerbada de artistas super-afetados, e incluo nesse balaio tanto os medíocres desprezíveis quanto os gênios que eu admiro.
Tem gente que diz que pessoas que têm talentos para as artes são seres diferentes, evoluídos e dotados de grande sensibilidade -- e que por causa disso se justifica suas manias e esquisitices.
Tudo conversa fiada!
Eu chamo isso de frescura e babaquice.
Ilusão que a própria mídia coloca na cabeça dessas pessoas e as fazem pensar que são melhores que os demais só porque pintam quadros, porque atuam na TV ou porque compõem canções.
O artista se torna inacessível ou se cerca de um falso glamour porque um cidadão que o assessora falou no seu ouvido que ele não deve ser tocado e que quanto mais difícil ele for maior será o interesse em torno de ele.
É dessa maneira que muitos de eles se transformam em escravos do sucesso, ficam doentes quando não estão em evidência, fabricam uma imagem que não condiz com aquela refletida no espelho da sua intimidade.
Sorridentes e solícitos diante das câmeras, mas tristes e arrogantes fora de cena.
Eu me lembro do violonista Guinga ter falado, numa visita à uma escola de música em que eu estudei há uns anos atrás (a Villa-Lobos do Rio de Janeiro), que mais importante do que qualquer vaidade ou ego inflado que a arte possa gerar é a graça da criação, a beleza da concepção humana, a vida.
Devemos valorizar tais coisas para que aquilo que nós fazemos com amor seja verdadeiro.
O artista de certa forma é um operário da cultura e o mesmo não deve virar as costas para o povo, pois é o povo o responsável por grande parte do seu êxito junto às massas, o agente disseminador da sua obra, aquele que a imortaliza.
O palco não é o topo do mundo, é apenas a plataforma de comunicação com a platéia que poderá consagrar ou não o tal artista.
Sem gente presente não há show e sem prestígio não há festa, não há o ápice.
Como artista brasileiro, tendo o Onipresente como Maestro Soberano, anseio por um ambiente artístico mais autêntico, sem esquemas, sem glamour excessivo, sem intelectualóides e sem pseudo-heróis.
Já me basta a glamourização da violência e da promiscuidade, quero ser bem representado.
Por:
Gusnob Mac Lou.
Número de frases: 17
Sofremos, eu e os artistas que ousam fazer arte na Amazônia.
A causa de tudo é a inércia de terceiros.
A produção artística e cultural da cidade de Manaus e do Estado do Amazonas como um todo existe, é vasta e não fica aquém da produção de qualquer Estado brasileiro.
Desde os artesãos parintinenses que trabalham em grupos folclóricos e exportam seus conhecimentos na construção de alegorias para as escolas de samba do Rio e São Paulo, até artistas contemporâneos que expõe em galerias por a Europa ou compõe o quadro de bailarinos de grandes companhias.
Temos um pouco de tudo:
dança, artes plásticas e visuais, música e de modo mais incipiente o teatro e cinema.
A produção de qualidade existe, mas nem sempre o trabalho das centenas de artistas amazônidas é devidamente divulgado.
Dezenas de artistas-guerreiros travam batalhas diárias contra a falta de espaços, e não apenas espaço físico, mas ideológico.
Não se fala, não se ouve, não se critica.
Mas, a culpa, ao contrário do que muitos pensam, não é da distância geográfica dos grandes centros nacionais.
Atrevo-ma eleger a principal culpada por o cenário de inércia atual.
Ela é a imprensa amazônida e o seu pseudo jornalismo cultural.
Aqui não se escreve sobre cultura ou arte, somente são publicados releases, salvo raríssimas exceções.
Em a maioria das vezes, estagiários -- leia-se mão-de-obra barata -- são lançados aos leões nas editorias de entretenimento dos jornais e revistas.
Jovens que, em muitos casos, nunca pisaram nem se quer no hall de entrada do teatro Amazonas «escrevem» para os «cadernos de cultura» dos jornais locais.
Não posso esquecer da TV!
Essa então é hilária.
Recordei-me de um fato que ocorreu numa mostra realizada em Manaus no final de 2005.
Eu e outros 14 artistas estávamos reunidos num sábado a noite no Centro Cultural Usina Chaminé para concedermos uma entrevista para a principal emissora do Amazonas.
Depois do atraso de praxe do repórter iniciamos a prévia para entrevista.
Eram três exposições distintas, ambas com trabalhos contemporâneos, reunindo pinturas, arte digital, gravuras, fotografias, objetos e instalações.
A primeira coisa que o repórter fez foi ler o folder de uma das exposições.
Em seguida, ele lançou a pergunta:
o que é instalação?
Eu quis morrer!
Só faltava ele perguntar o que era fotografia, ou confundir pintura de telas com parede.
Não podia me sentir de outro jeito se não ofendido.
O ato de pautar um repórter de esporte para cobrir uma exposição de artes plásticas denota que não se dá o devido valor para arte.
De nada vale a Secretaria de Estado de Cultura do Amazonas -- infelizmente, a única grande patrocinadora e produtora local de eventos artístico-culturais -- promover cerca de 350 exposições anuais de artes e cinema, festivais de jazz, ópera, teatro, entre outros, se a «opinião pública» não fica sabendo ou não está preparada para consumir e criticar o que é produzido.
Por os motivos citados, resta apenas lamentar (esse texto é em verdade um grande desabafo) e fazer todos os releases de todas as mostras, salões e concursos que por ventura eu participe.
Número de frases: 30
A Companhia Teatral Zecora Ura Theatre (www.zecoraura.com -- uma parceria sustentável entre artistas e técnicos do Brasil e do Reino Unido) convida a imprensa, críticos, artistas, produtores e público em geral do Rio de Janeiro para assistirem ao processo da obra Hotel Medea -- 3 performances da meia-noite ao amanhecer (www.medea.tv), nos dias 8 e 9 de fevereiro, no Centro Popular de Conspiração GARGARULLO (www.gargarullo.com), na cidade serrana de Miguel Pereira / RJ -- situada a duas horas da capital carioca.
O objetivo das apresentações, além de aquecer o espetáculo para a estréia na Europa, é expor o processo em fase de acabamento ao público convidado e interessado em contribuir com articulações práticas e crítico-reflexivas para a finalização e jornada de vida de Hotel Medea.
O projeto conta com a parceria entre o Festival Internacional de Salisbury (Inglaterra), o renomado Teatro Aurora Nova (Escócia) e o CPC Gargarullo (Janeiro).
Vivendo a preparação para a turnê mundial agendada para iniciar em agosto, a Cia..
Zecora Ura Theatre está instalada há 1 mês em Miguel Pereira -- no CPC Gargarullo --, depois de um processo longo e intenso de visitas, treinamentos e seleção de elenco e equipe técnica, a partir de encontros e oficinas acontecidos nas cidades de Campinas / SP, Miguel Pereira / RJ, São Luís / MA, e por o estado de Pernambuco.
Assim, o espetáculo é composto por um grupo heterogêneo de naturezas, culturas e experiências cênicas."
Hotel Medea é o ponto médio entre a terra natal e o exílio.
Nosso novo projeto reflete o próximo passo na releitura da identidade brasileira aos olhos do estrangeiro», explica o diretor do espetáculo e membro-fundador da Cia., o brasileiro residente em Londres, Jorge Lopes Ramos.
Além de Jorge, o coletivo de criação de Hotel Medea é formado por o ator, diretor e aderecista Urias de Oliveira (da Cia..
Tapete, Criações Cênicas, São Luís / MA);
por a atriz, performer e preparadora psicofísica Jade Maravala (Cia..
Para-Active, de Londres, www.para-active.com), e conta ainda com o premiado e multi-gênero Dj Dolores (Sergipe / Pernambuco) na composição da trilha sonora.
De o elenco fazem parte atores e atrizes do Brasil, Reino Unido, Nigéria e Yemen.
Baseado no mito grego de Medéia, a montagem da Cia..
Zecora Ura divide-se em 3 capítulos, e apresentará os processos do capítulo 1, Mercado da Zero Hora, e do capítulo 3, Banquete do Amanhecer.
As adaptações envolvem universos urbanos e tradicionais das raízes culturais presentes no trabalho (africanas, indígenas e européias), relendo elementos como o Boi do Maranhão e o Cavalo Marinho, as danças e os ritos afro-brasileiros sem perderem o laço contemporâneo com as tecnologias, as idéias e as situações globais que caracterizam este ambiente provável de junção e fluência entre idiomas, comportamentos e experiências, em torno dos arquétipos da lenda de Medéia.
Em as entrevistas abaixo, o diretor Jorge Lopes Ramos, o ator brasileiro Flávio Rabelo e a atriz inglesa Lisa Lapidge lançam mais detalhes sobre o provocante e articulado Hotel Medea, do processo ao futuro da obra.
(Entrevistas respondidas nos dias 04 e 05.02.08)
Jorge Lopes Ramos.O que é a Cia..
Zecora Ura Theatre?
Jorge É um ponto de encontro internacional para a colaboração multidisciplinar, usando o teatro como linguagem.
Qual foi o ponto de partida do projeto Hotel Medea;
como surgiu a idéia?
Jorge Foi uma reação contra o comodismo da fábrica londrina de entretenimento, prática que se espalha por as capitais urbanas.
Por que a escolha de Miguel Pereira / RJ como o lugar de acolhimento do processo?
Jorge Mais do que simplesmente Miguel Pereira, o Centro Popular de Conspiração GARGARULLO, na região serrana do Rio, vem se comprometendo desde 2004 com apoio integral aos projetos de pesquisa teatral no Brasil.
O GARGARULLO nos oferece um abrigo ideal para os nossos encontros internacionais de criação, investigação e debate artístico.
Quais têm sido as conquistas e os desafios encontrados no processo de preparação dos atores e montagem, tendo em vista as dimensões multiétnica, multicultural e multiterritorial do projeto?
Jorge Como uma das mais valiosas conquistas, vale lembrar como é engrandecedor ser surpreendido a cada dia por outros pontos de vista, e os desafios são o caminho para as conquistas.
Pensando na mistura de arquétipos / estereótipos mitológicos, tradicionais e contemporâneos encontrados no espetáculo, qual é o foco de Hotel Medea?
Jorge A complexidade da identidade brasileira é um foco constante de questões a serem trabalhadas na sala de ensaio e treinamento.
As dualidades mitológicas também oferecem uma linguagem interessante que o espetáculo aborda constantemente.
O que serão as «apresentações em processo» dos dias 8 e 9 de fevereiro?
Jorge Um espaço para se espiar provocações de nosso processo.
Vocês têm uma temporada de 3 meses por a Europa agendada para iniciar em agosto deste ano.
Já estão com apoio fechado para a viagem?
Jorge Necessitamos de todo o apoio que pudermos.
A embaixada do Brasil em Londres tem ajudado muito, mas estamos correndo contra o relógio para fechar a tempo todo o apoio necessário.
Gostaria de dizer mais alguma coisa?
Jorge Estamos Abertos A Propostas Artísticas E Provocações.
Flávio Rabelo
De qual / quais oficina / s você participou antes do encontro com o grupo definitivo em Miguel Pereira?
Como foi a experiência?
Flávio Conheci o trabalho de Jorge e Jade em outro projeto de treinamento intensivo e de cooperação criativa chamado Drift, em dezembro de 2006, aqui no Gargarullo.
Me parece que Hotel Medea surgiu em decorrência desta experiência de eles no Drift.
E fiz a oficina para Hotel Medea em Campinas / SP, no Lume (www.lumeteatro.com.br), e o intensivo aqui no Gargarullo, ambos em setembro do ano passado.
Talvez uma boa imagem para descrever a experiência seja uma jornada coletiva por um lugar perigoso, como a beira de um abismo, numa noite sem lua.
Requer, entre muitos estados, atenção, sensibilidade, inteligência e coragem.
E nem sempre é simples acessar estas qualidades, então estamos sempre próximos de nossos limites, e isto vale tanto para as questões mais abstratas e conceituais, filosóficas e políticas, como as mais concretas e físicas.
Mas o mais interessante é que, como há muita generosidade na condução, e tudo se dá no coletivo, este abismo escuro é muito atraente e sedutor.
Sempre estamos transitando por opostos, por lugares de co-exist ência, onde, por exemplo, dor e prazer podem se misturar e onde somos suscitados a administrar questões como disciplina e espontaneidade, indivíduo e coletivo.
Quais têm sido as conquistas e os desafios que você tem encontrado, tendo em vista as dimensões multiétnica, multicultural e multiterritorial do projeto?
Flávio Quando penso nos desafios e conquistas, a primeira imagem que tenho é a do meu próprio corpo e dos outros atores envolvidos;
é por este território que começamos o trabalho, e é em ele que estão os princípios de todos os desafios e conquistas:
o vazio entre os corpos performadores.
É um trabalho de muita escuta e abertura, um processo muito cuidadoso e gratificante.
Em a sua opinião, qual é o foco de Hotel Medea?
Flávio De o ponto de vista bem pessoal, um dos focos que me interessa destacar deste grande «hotel multicultural» é a arte como um lugar possível de cooperação e agenciamento coletivo de nossas capacidades criativas.
Quem é / são a / s personagem / ns interpretadas por você?
Como está sendo construi-la / s?
Flávio Temos um treinamento intensivo, realizado em parceria entre o Urias e a Jade, direcionado para a construção da corporeidade que o espetáculo precisa.
Não trabalhamos com a noção de personagem, pelo menos, não dentro do senso comum da personagem construída em bases psicológicas de um teatro mais tradicional.
Estamos mais perto, ou pelo menos na busca, do corpo brincante dos ritos da tradição popular ou do corpo do performer, das manifestações mais contemporâneas das artes cênicas.
O Urias trabalha na transmissão desta energia brincante através dos ritmos e figuras do Boi do Maranhão e das danças dos orixás;
e Jade realiza um trabalho voltado para respiração, voz, ritmo e construção de partituras físicas.
É um trabalho que requer muito tempo, ainda estamos em processo, ainda estamos construindo.
Que novidades e impactos sobre a cultura e as artes cênicas dos outros países envolvidos o projeto Hotel Medea te trouxe?
Flávio Acho que ainda é muito cedo para falar sobre isto.
Quais as suas expectativas para a apresentação do processo nos dias 8 e 9 de fevereiro?
E para a temporada de estréia na Europa?
Fr Em a nossa estrutura cênica, a presença da platéia é determinante na construção do acontecimento, já que estamos nos colocando dentro da perspectiva do rito, da brincadeira, da performance e não do teatro ou da representação do mito de Medea.
Estas apresentações do dias 8 e 9 são de grande importância para o nosso processo de criação.
A partir de elas teremos as primeiras impressões sobre o que estamos construindo, e poderemos continuar nossa preparação para a estréia na temporada na Europa.
Quanto a esta viagem, existem muitas expectativas, principalmente porque ainda estamos em fase de fechamento dos apoios financeiros para que ela aconteça.
Somos seis atores brasileiros, de estados diferentes, e precisaremos passar de 3 a 5 meses fora, entre períodos de preparação e temporada, num lugar onde o custo financeiro diário é muito superior ao que temos aqui no Brasil.
Acho uma boa oportunidade, inclusive, para divulgar que estamos mesmo precisando de parcerias, apoios e / ou financiamentos para que a ida dos artistas brasileiros envolvidos seja possível.
Lisa Lapidge
De quais oficinas você participou antes do encontro com o grupo definitivo em Miguel Pereira?
Como foi a experiência?
Lisa Eu participei de várias oficinas relacionadas ao Hotel Medea no Reino Unido, na França e no Brasil.
Minhas experiências foram sempre únicas, cheias de confrontamentos e recompensas.
Quais têm sido as conquistas e os desafios que você tem encontrado, tendo em vista as dimensões multiétnica, multicultural e multiterritorial do projeto?
Lisa Não estou segura de que algo tenha sido definitivamente conquistado, talvez conquistas ocorreram em instantes passageiros.
Há muitos desafios, alguns relacionados a momentos específicos e outros recorrentes.
Já é um desafio simplesmente ser quem você é, no momento e espaço presentes, sem estar atuando.
Quanto ao aspecto multiétnico, cultural e territorial do projeto, um desafio recorrente é a idéia de que as diferenças representam de alguma forma uma barreira, e isso de fato acontece, (a tradução utilizada em alguns momentos desacelera o processo e impede o fluxo do trabalho, lugares estranhos podem apresentar efeito inibidor e desestabilizador, o aprendizado de novas músicas / ações / danças, etc., pode ser difícil), mas tudo isso faz parte de uma escolha que fizemos.
O que acontece então quando eu decido encarar esses aspectos de maneira diferente, rejeitando assumi-los como barreiras?
Desta forma não os vejo tão mais como desafios, mas sim como oportunidades para atingir um campo comum, a essência da experiência, interação e condição humana, -- tanto no reconhecimento das diferenças, trabalhando em seu favor ou contra estas, ou rompê-las para chegar no que está por trás da etnia, cultura e do território.
Em a sua opinião, qual é o foco de Hotel Medea?
Lisa Para mim há muitos temas que permeiam o mito de Medeia e o que contamos por meio do Hotel Medea.
Os temas com os quais mais me identifico são a representação feminina, o impacto da perda, a natureza amorosa em suas extremidades, a sombra e a luz, o prazer e a dor, o êxtase e a fúria, a experiência do estrangeiro, o conflito entre a vida humana regida por a fatalidade do destino e a autodeterminação dos indivíduos, o que tudo isso significa para todos nós em todos os aspectos de nossas vidas.
Hotel Medea também foca a relação entre ator e público.
Busca momentos de contato real, de impacto, procurando por um ato teatral vivo que fale ao seu público no agora.
Quem são as personagens interpretadas por você?
Como foi construi-las?
Lisa Eu interpreto vários papéis no decorrer do espetáculo e o meu processo não busca criar personagens naturalistas e nem caricaturas ou maneirismos.
Busco por algo que sirva à história, que faça uma conexão com o público, algo que me dispa mais do que se adicione ou se construa sobre mim, algo que seja honesto confrontante e verdadeiro.
O treino vocal e corporal é uma parte importante do nosso processo e nos fornece uma base sólida sobre a qual criamos, imaginamos e descobrimos momentos / elementos / ações que possam ser utilizadas em Hotel Medea.
Estou arranhando a superfície do trabalho que é requerido para chegar ao momento em que o público se depara com o espetáculo.
E, na verdade, esse trabalho não termina aí, é algo contínuo.
Que novidades e impactos sobre a cultura e as artes cênicas brasileiras o projeto Hotel Medea te trouxe?
Lisa Creio que aspectos da cultura brasileira tiveram um nítido e definitivo impacto na forma e conteúdo da produção e dos atores.
Nos inspiramos em muitas fontes da cultura brasileira.
Eu me sinto muito privilegiada por estar aprendendo, ainda mais por meio da experiência, uma cultura distinta da minha.
Isso só pode servir para expandir a minha visão do mundo, me conscientizando de suas diferenças, suas complexidades, universalidades, assim como para me ensinar a demonstrar empatia por as coisas e a questionar o meu lugar nesse mundo.
Quais são as suas expectativas para a apresentação do processo nos dias 8 e 9 de fevereiro?
E para a temporada de estréia na Europa?
Lisa Eu espero que a apresentação tenha impacto, que permaneça na lembrança das pessoas, que intrigue e faça coçar as cabeças e entranhas do público.
No entanto, ter esperança não é o bastante.
O resultado virá de um duro trabalho e do deixar esse trabalho transparecer quase que para além de nós mesmos.
As idéias, a história, o trabalho são todos maiores do que eu e são eles que importam.
Minha expectativa é que eu nunca esteja satisfeita e que essa falta de satisfação crie uma espécie de desejo, de motivação capaz de deslocar o Hotel Medeia dos domínios do teatro comum e conduzi-lo a tudo que o teatro possa ser para nós mesmos enquanto atores e para o nosso público enquanto receptores do nosso trabalho.
Gostaria de dizer mais alguma coisa?
Lisa Apenas gostaria de dizer que não acreditem em minhas palavras, mas sim que experimentem vocês mesmos, que decidam vocês mesmos e que pensem vocês mesmos.
Número de frases: 114
Uma boa história nunca acaba.
Ao menos para quem fareja fatos novos ainda desconhecidos.
Por um caminho nunca de antes percorrido, o bairro a princípio é Higienópolis.
Saindo das ruas que na maioria das vezes têm nomes de estados brasileiros, entro no famoso Bela Vista.
Centro de São Paulo.
Ando por ruas cheias de prédios soberbos que depois contrastariam com o lugar que procurava.
Esclarecimento à população:
Seu Salvador e suas inquilinas não são doidos!
Pra dizêr qué, eu, márcia não morava lá, eu um quarto e cosinha sósinha.
Até: morei.
Muitos anos, lá.
Morei 15 anos e 7 meses na pênsão de ele desde 1984 até 1998.
agosto.
O combustível da curiosidade foi a dúvida de quem descobre um lugar mas questiona sua existência.
Com um endereço nas mãos, chego ao pé da rua que começa em outra, Jaguaribe.
Desço atenta à numeração.
O garbo é deixado para trás.
Chego enfim ao endereço riscado no papel.
Rua Barão de Tatuí, 493. A primeira reação foi o espanto.
Causado por a verdade de um lugar que existia, até então, somente em folhas de papel manchadas de tinta de caneta.
Uma pensão marrom, silenciosa.
O lugar possui três portas.
Uma por onde entram as inquilinas, outra comercial ou algo que lembra uma garagem e a terceira que parece dar acesso à casa dos donos.
Em a primeira porta de entrada uma placa:
Aluga-se vagas para moças.
Diminuo a marcha, exatamente à frente do número 493.
De o meu lado, uma janela de onde se é possível ouvir uma música lenta, que não identifico.
Ambientada por uma meia luz suspensa no teto.
As paredes têm cor de tijolo cru.
São Paulo 27 de maio 2006.
Aqui sou eu.
Márcia da pensão de seu Salvador.
Barão de Tatuí 493.
Estou morando na rua desde 09 de agosto de 1998.
Quando puseram energia atômica pra me matar na Barão de Tatuí 493.
Julho Agosto 1998.
Sem saber ao certo o que fazer, entro num bar.
Penso em perguntar algo sobre a misteriosa pensão, mas desisto.
Todos estão muito ocupados assistindo ao futebol na televisão.
Então volto.
Passo na frente do lugar novamente.
De essa vez há uma senhora na porta, que acaba de chegar de seu trabalho.
Sorri para mim.
Ela tem nome de santa e me deixa à vontade.
Pergunto a ela se conhece a Márcia, aquela que escreve e prende seus textos no muro da Avenida Higienópolis.
A senhora responde como quem tem pena.
Conhece e conta que a escritora foi «enxotada» da pensão.
Relata que o dono, cujo nome aparece frequentemente nos textos, não perdoa sequer um aluguel atrasado.
Conta também que ouviu falar que Márcia usava drogas.
A senhora mora ali há quatro anos e meio e não é contemporânea da «louca».
Descubro que no natal do ano passado a poetisa deixa uma carta na caixinha de correio.
Amaldiçoa os moradores e promete vingança.
Em o caminho de volta, me deparo com uma árvore circundada por mais textos de Márcia.
Tiro da árvore e vou embora, cheia de possíveis histórias na cabeça.
Agora, da pensão, ainda mais pulsantes.
Número de frases: 55
Começar o dia com poesia.
Versos entre o café e o pão, versos envolvendo o pão.
Manhãs de descoberta e sonho, de alimento e fantasia.
Pão e poesia.
Pão e Poesia é mais uma das belas miragens que Diovanni Mendonça, o versátil, inquieto e talentoso autor de «poeminhas para matar o tempo e distrair dor de dente», transformou em coisa concreta, boa, bonita.
Ele tem outros, que conto depois.
O projeto de Diovanni, em parceria com uma empresa de embalagens da cidade de Contagem (MG) se destina, segundo o autor, a «dar uma injeção de poesia nas veias da realidade», logo no café da manhã.
Trata-se de estampar os poemas de novos autores, que permutem os direitos autorais por a divulgação de seus trabalhos no saco de pão que as famílias levam toda manhã para suas casas.
Inicialmente serão impressas 300.00 embalagens com poemas no verso.
Já está fazendo sucesso lá em Portugal mais que aqui (!).
Mais detalhes aqui.
Para enviar seus poemas, só até 30/11/2007, entre em contato neste endereço.
Número de frases: 12
pao.Poesia@yahoo.com.br Sexta-feira, 20 de Outubro de 2006.
O «dia» na verdade começou à noite, pois como sou um empregado, tenho que cumprir funções mesmo durante a mostra.
Mas para minha sorte o escritório fica bem acima da Central da Mostra, daí a decisão de aproveitar pra valer desta vez, provavelmente verei mais filmes em duas semanas do que vi durante o ano todo.
Filme 1: A Scanner Darkly.
Espaço Unibanco.
20:10 Tudo começa com A Scanner Darkly, um filme que antecipo a muito.
Há tempo suficiente para respirar depois do trabalho, encontrar os amigos, fazer uma boquinha e então partir para a sala.
A expectativa é grande, ter aquele crachazinho gera uma mistura de orgulho, empolgação e vergonha de parecer esnobe.
Ao mesmo tempo que quero usar pendurado no pescoço, não o faço.
A seção está esgotada, tanto que amigos não conseguiram ingressos e acabei indo sozinho.
Este é o quarto filme da minha vida que vejo sozinho no cinema, e com certeza o primeiro de vários nesta mostra.
Mas o confortável da mostra é que na verdade nunca se está sozinho, as chances de encontrar algum conhecido são grandes, ou mesmo estranhos às vezes se permitem baixar a guarda paulistana costumeira para tecer algum comentário ou pedir a programação emprestada;
num evento repleto de entusiastas, os solitários na verdade são companheiros.
Como é de se esperar, durante a seção impera o silêncio, nem um bocejo é ouvido.
E o Espaço Unibanco ainda tem o trunfo de ter um banheiro dentro da sala, nada de constrangimentos ao ficar saindo e entrando.
O filme satisfaz plenamente e é hora de seguir em frente com a programação.
Filme 2: El Laberinto del Fauno.
Unibanco Arteplex. 00:00
Sou informado de que a projeção de Flandres, no Cine Bombril, foi desastrosa, durante o filme inteiro havia pontos fora de foco na tela e por longos períodos absolutamente nada entrava em foco.
Isso de lado, para chegar ao Labirinto é preciso passar por o labirinto do Shopping Frei Caneca, cujas escadas rolantes foram realocadas.
Já na porta, um café para agüentar o filme todo e avistamos uma amiga engajada demais na conversa para interrompermos.
Também avisto Rubens Ewald Filho, o primeiro de muitos «encontros» com figurinhas famosas.
O filme é sensacional e a projeção corre sem problemas, só me senti incomodado por alguns momentos devido ao som muito alto.
E também por os meus amigos ao lado que conversavam demais, ao menos até receberam um SHHHHH.
Nota cinco unânime entre mim e meus amigos.
Chego em casa bem cansado, mas então resolvo brincar de correspondente e cobrir a mostra para o Overmundo.
Número de frases: 26
O resultado é ir dormir com os passarinhos cantando.
A Produção Independente no Norte De Minas É Uma De as Mais Talentosas De o Brasil.
É Também A Mais Complicada.
E m uma tarde de 1978, o professor Darcy Ribeiro palestrava no auditório da FAMED, antiga faculdade de medicina de Montes Claros, norte de Minas Gerais.
Os poucos alunos que assistiam começaram a sair do auditório, embromados, com aquela cara de desânimo, típica dos adolescentes.
Em o final da palestra, um som de viola ressoa nos ares.
Os alunos que saíram, atentos à música que vinha de dentro da sala, voltaram correndo para ver o que estava acontecendo.
As pessoas que não haviam entrado seguiram atrás.
Assim, aconteceu a primeira apresentação do lendário Grupo Agreste.
Lendário, no sentido maravilhoso da palavra, claro.
O Grupo Agreste, formado por Pedro Boi, Ildeu Braúna, Manoelito, Gútia, Sérgio Damaceno, Zé Chorró e Tom Andrade, foi uma das primeiras bandas independentes de Montes Claros, gravaram dois discos autorais, e tiveram duas de suas músicas (Zumbi e Jaíba) tocando na novela Rosa Baiana, produzida e exibida por a Rede Bandeirantes em 1981.
O grupo parou no início dos anos 80, de entre outras coisas, por causa das dificuldades de se produzir música na nossa região.
O cenário musical alternativo dos gerais nunca foi forte.
Os artistas passam por situações complicadas até conseguirem gravar um cd, ou serem reconhecidos.
Desde os anos 70 até hoje os problemas não mudaram muito.
Aliás, não mudaram quase nada.
A falta de recursos financeiros, de apoio de entidades públicas e privadas e, tecnicamente, de um público mais numeroso, são os principais fatores que condicionam as bandas independentes ao reconhecimento limitado de algumas poucas tribos ligadas à cena indie.
Não que isso seja um aspecto ruim, mas essa situação aumenta as chances de uma banda não dar certo.
Para o bem, ou para o mal, certa arte (ou artista) só se constrói e evolui de acordo com a aceitação do público vigente.
Em Montes Claros e, lamentavelmente, em todo o norte de minas, a cultura underground (uma contracultura, surgida em meados dos anos 60, para questionar e desmistificar os valores impostos por os mass media) é extremamente mal valorizada, e isso implica diretamente no bom desempenho dos artistas independentes.
Aqui no extremo norte de Minas, particularmente, há um caso clássico a se pensar:
as pessoas não gostam das bandas do cenário indie, ou apenas não as conhecem?
Há controvérsias!
Os próprios artistas não sabem qual é a melhor resposta.
As «novas» bandas, principalmente, acreditam que o que falta é espaço para mostrarem sua arte, e que, por isso, as pessoas não têm chance de escutar.
Ou seja, não é que a aceitação do público não existe, é que ela não pode ser vista;
mesmo porque, para aceitar (ou deixar de aceitar), é preciso, antes de tudo, conhecer.
Pode-se dizer, a partir disso, que o desenvolvimento de uma cultura autoral (entende-se uma cultura musical que ultrapasse o simples cover) não depende apenas dos artistas e do público, depende do espaço;
em outras palavras:
apoio.
Como uma contra-proposta às culturas de massa, surge gradativamente em Minas Gerais um cenário alternativo independente disposto a mostrar uma estética cultural diferente da que o público está acostumado a ver e ouvir.
O único problema é que nem todas as bandas estão dispostas a seguir a via-sacra da produção autoral, logrado de uma melhor qualidade e singularidade dos trabalhos.
A produção independente é árdua, requer sacrifícios físicos, psicológicos e, sem dúvida, financeiros.
É por isso que, de entre as dezenas de artistas que existem, a maioria prefere seguir o caminho mais fácil e se entregam à «cultura cover», fomentando, assim, a alienação do público.
Essa história do cenário indie ter se fortificado não é conto-do-vigário.
O fato é que os artistas, hoje, estão correndo atrás do reconhecimento, e as pessoas começaram a acreditar que há muito mais a ser conhecido além das músicas importadas das grandes capitais e, como é o nosso forte, dos ritmos da bahia.
Esse é o ponto positivo.
O negativo é que, mesmo sofrendo pequenas evoluções, a música autoral ainda não é comercializada, e isso diminui as chances de apoio e produção de novos projetos.
De 1970 a 2000, diversas bandas apareceram e desaparecem em Montes Claros com facilidade.
Brucutus, Animal Core, Solução Suicida e Sickness foram as mais conhecidas naquela época.
Hoje existem bandas de qualidade que, inclusive, já conseguiram gravar cds demos e estão correndo atrás de espaço para mostrarem do que são capazes.
Umeazero, Vomer, Bruno e Fabiana, Exorcista, River Raiders, Feeble, Maracutaia S.A. e Ruído Jack (que acabou de participar do Grito Rock em Uberlândia), são exemplos de bandas do cenário independente atual, que produzem trabalhos autorais, já gravaram cds, participam de festivais e tentam, a todo custo, expandir a cultura indie no norte de Minas.
Por falta de apoio financeiro a Internet se tornou a principal ferramenta de divulgação dos seus trabalhos.
Blogs, Orkut, My Space e vários sites de hospedagem gratuita facilitam a distribuição e propagação das músicas e clipes, de uma forma pouco dispendiosa.
O que não se pode negar, no fim das contas, é que o pouco público que existe leva a sério o trabalho desenvolvido por esses artistas.
São pessoas realmente interessadas que entendem o real valor das músicas autorais.
O problema disso é que o público e os locais onde ocorrem os chamados «eventos underground» são limitados, isso faz com que as mesmas pessoas freqüentem sempre os mesmos lugares.
Mais uma errônea forma de se dividir as «tribos», criando barreiras para a expansão de novas culturas e artistas.
Sempre que festivais independentes são realizados, por iniciativa de algumas bandas que se unem ou qualquer outro grupo ligado à cultura regional, a quantidade de pessoas que comparecem é muito pequena.
Os norte-mineiros ainda estão bitolados, aceitam facilmente só o que já é vendido por os grandes veículos de comunicação.
Quando existe um mercado paralelo, logo surgem rótulos e estereótipos.
O caso mais conhecido é o do Rock.
O Rock ' n Roll veio para o Brasil na década de 1950, e no final dos anos 1970 surgiu, em Montes Claros, uma banda de punk rock chamada Lepra.
O movimento não conseguiu se expandir e, no final dos anos 1980, o rock regional praticamente já havia desaparecido.
E quando tudo parecia perdido para o cenário indie (que na época era conhecido apenas como independente), surgem, em 1995, as bandas grunge.
Foi uma época marcada por ótimas bandas cover, e poucas com trabalhos autorais.
Uma das primeiras bandas desse novo movimento cult-musical foi a banda Insanity.
De entre as bandas que surgiram nos primórdios do rock montesclarense, a Fúria é um exemplo de que as dificuldades nem sempre são o bastante para estacionar.
A banda está ativa até hoje e tem trabalhos autorais gravados.
Um dos primeiros coletivos organizados a favor do rock e, conseqüentemente, dos músicos independentes foi a Associação do Rock de Montes Claros e Região (A.R.M.C.R.), fundada em 28 de agosto de 2006.
«É uma Associação Cultural sem fins lucrativos que tem como objetivo fomentar os aspectos sócio-músico culturais do segmento do rock na cidade de Montes Claros e em todo o estado de Minas Gerais;
assessorando bandas, músicos e seus associados de um modo geral, ligados ao mundo artístico.
Tive essa idéia ao vivenciar uma total falta de organização e a exploração das nossas cultura e arte por parte de terceiros, pessoas que só se aproximavam e promoviam eventos em busca de lucro " [Fred Sapulia -- idealizador da A.R.M.C.R.].
Em o segundo semestre de 2007 também começaram a ser desenvolvidos os primeiros projetos do Coletivo Retomada, que nasceu a partir de um encontro com os organizadores do Espaço Cubo, que hoje é um dos maiores grupos organizados ligados ao apoio do cenário independente nacional.
Com o aumento do número de bandas e artistas, quem sabe o número de coletivos e associações aumente e se multiplique o público ativo da música independente em nossa região?
Força de vontade e talento com certeza não são o tempero que falta.
O que será então?
Acredita-se que tudo não passa de falta de organização, por mais incrível que pareça.
Em Montes Claros, Iniciativas como a da Associação, do Coletivo Retomada, do webzine Pirata e do impresso UHU!
fanzine são louváveis, mas não conseguem mudar uma realidade enraizada como a dos gerais.
Não sozinhos.
«Fazemos o nosso trabalho com muito esforço, porque não temos apoio financeiro e, é triste ter que dizer isso, mas esse é o tipo de apoio que faz falta hoje.
Continuamos torcendo e ajudando os artistas, as bandas e as associações, mesmo sabendo que as dificuldades não serão apagadas, simplesmente, de um dia para o outro.
É claro que temos artistas maravilhosos, que merecem o reconhecimento, merecem palmas.
Mas o que a maioria de eles precisa entender é que não se faz uma mudança dessa sozinho.
Mudar uma cultura vigente, como é o caso da cultura cover e baiana em Montes Claros, requer organização, atitude e, acima de tudo, requer que saibamos unir forças para agirmos juntos!
Como seres pensantes!
E não ficar cada um correndo para o seu lado, tentando fazer e acontecer!" [
editoria do UHU!
fanzine]. E que os anjos digam amém!
Número de frases: 80
Ah ...
Dia de ir à biblioteca!
Devolver os livros e, principalmente, pegar outros ...
Não posso dizer que não usufruo nada do estado.
Usufruo-lhe, como posso, a Biblioteca Estadual Celso Kelly -- Av..
Presidente Vargas, 1.261, Centro, Janeiro.
Não é nada, não é nada, lá existe uma edição completa das Memórias de Giácomo Casanova, em 10 alentados volumes, em bom estado.
Há também alguns livros desgarrados de uma coleção das obras de Camilo Castelo Branco, edição recente, portuguesa, em excelente encadernação.
Em meio a alguns milhares de livros que jamais deveriam ter sido escritos -- e muito menos publicados, pode-se encontrar várias obras adoráveis, como por exemplo, os relatos completos de Spix e Martius -- que são pura aventura, escritos em linguagem altíssima, mas, ainda assim, acessível, vários livros dos melhores autores russos, além de uma quantidade bastante razoável de boas biografias.
Entra-se, quando está em funcionamento, por um funil que há na portaria e onde foram cravadas duas roletas de ônibus mesmo:
uma para entrada e outra para saída.
Não há sinalização e ambas giram em ambos os sentidos.
Se você ao chegar escolher a da direita, não haverá o menor problema:
estará já dentro.
Se escolher a da esquerda, idem.
Mas se o guarda, por acaso, estiver em seu posto e você houver «entrado errado», ele te pedirá para sair e depois entrar novamente, por a roleta certa.
Entra-se por a roleta da direita e sai-se por a da esquerda, anotem aí.
Repito: não há sinalização alguma.
Escreveu não leu, não abre.
São " pontos-facultativos surreais, dias feriados estranhíssimos e, principalmente, ele, o fantástico Sistema.
Vamos abrir um parágrafo para o Sistema, porque ele merece!
O Sistema são cinco PC velhos -- três para utilização dos funcionários no registro de empréstimos, cadastros e devoluções -- e dois outros para consulta do acervo, por o público.
Os três primeiros, quando têm lá as suas indisposições, paralizam completamente o empréstimo de livros.
Em essas ocasiões, não raras, o leitor é recebido por uma quase exultante servidora pública, postada no limiar da porta de vidro que dá acesso aos desejados livros.
Não se pode sequer entrar no reduto -- e ela avisa:
«Só devolução, assine aqui e coloque o livro neste caixote!"
Se o infeliz usuário do serviço de empréstimos pergunta a data de normalização do Sistema recebe, invariavelmente, a resposta:
«Semana que vem deve voltar ..." O Sistema é tão fantástico que até já está merecendo outro parágrafo.
E olha que merece mesmo!
Em ele, existe um pequeno menu, à esquerda da tela do PC, e dois campos (box) para a inserção do título ou autor a ser pesquisado, à direita.
Antes de tascar lá, por exemplo, «Gabriel Garcia Marques», é fundamental fazer a escolha correta no menu:
filme, slides, monografia, mapas ... (
tudo coisa que não existe ali!)
e ... onde estará a opção «livro»?
Vai-se então ao balcão, fazer a pergunta à funcionária -- que nunca é a mesma ...
Estou certo que vem gente de Saneamento Básico, Sinalização e Trânsito e sabe-se lá de mais que outras repartições públicas ...
Mas, para honra da casa, há, geralmente presente, lá no fundo, uma senhora idosa -- que parece conhecer melhor o serviço.
Foi dessa senhora que eu ouvi a voz, quase indignada:
«Livro é material não projetável, claro!"
Não posso dizer que odeie o Sistema.
Pelo contrário, já estive a ponto de dar um beijo e um abraço no PC das consultas.
E olhe que eu falo mesmo com objetos, como bebedouros que não vertem água e outros seres aparentemente inanimados ...
Eu havia feito a seguinte pesquisa:
«Miguel Torga». Resultado:
zero Vagando por os escuríssimos corredores de estantes, com minha indispensável lanterna de quatro pilhas, encontrei nada menos que nove livros de Miguel Torga, organizados e colocados no local correto, justiça seja feita!
Em a saída eu disse para o Sistema:
«Grande piadista!
Sempre me proporcionando as mais agradáveis surpresas ...
Malandrão!!" Que felicidade!
Mas isto não foi hoje.
Já faz tempo.
Agora eu somente cumprimento, de longe, o velho e chalaceiro PC, o pândego terminal do Sistema.
O local é um pouco perigoso e já vou dizer porque.
Mas, onde encontrar alguns livros maravilhosos, fora de catálogo, sem esperanças de reedição, senão num lugar onde quase ninguém os lê e estão tão bem guardados, relegados?
Há goteiras em profusão quando chove.
Mas, como Deus é literato, elas geralmente caem sobre os best-seller e corredores vazios.
Problemas mais sérios são os furtos.
Parece -- é o que dizem os guardas, quando perguntados -- que alguns dos estudantes da rede pública, talvez os mesmos que assustam e mantêm sob intimidação permanente seus professores, cometem ali o furto de livros.
Muitos livros.
Para vender.
Também há a proximidade da Central do Brasil, um antro.
Então há um sistema de segurança tosco.
Há escaninhos onde devem ser deixadas bolsas, sacolas e qualquer tipo objeto onde possa ser ocultado um livro.
Deixa-se então, sob a guarda de um desconhecido, que varia de semana a semana, sendo, às vezes, um soldado do Corpo de Bombeiros, tudo o que não seja o livro a ser devolvido -- e recebe-se um retângulo de papelão numerado para resgate dos pertences pessoais na saída.
Há sazões, ciclos, mas são eles aleatórios -- dependendo da maré de rapinagem.
Antes, era um fortão que examinava o livro e a papeleta de empréstimo.
Este «um fortão» também muda amiúde.
Somente o que não muda é o fato de que esse policiamento, quando feito, é centrado mais nos humores do vigilante que na confrontação entre recibo de empréstimo e exame do livro portado por o suspeito.
Fica óbvio que custa a esses homens fazerem as duas leituras:
título do livro e título constante na ficha de saída!
Então, um dia veio o " Fazeno favô, levante a camisa ..."
Ora, papagaios, se levantei!
Hoje estive lá.
Quinta-feira, 9 de agosto de 2007.
Levei a lanterna com as pilhas recarregáveis na carga máxima.
Eu tinha um propósito;
sempre duvido de mim mesmo, sempre!
Não é nada seguro confiar em si o tempo inteiro ...
Examinei, pela enésima vez, os escuros mas bem sortidos corredores onde dormem os livros de autores brasileiros.
Livro a livro, a maioria meus velhos e decepcionantes conhecidos.
Quase todas as lombadas e muitas orelhas examinadas ...
Nada! Sem novidades promissoras.
O que há de novo é frustrante.
Mas não foi de todo inútil a minha busca ...
Descobri ali, nessa garimpagem, um erro meu.
Em uma resposta aos comentários sobre um texto de minha pobre caneta «A Estupidez Letrada», atribuí a escrita de» Os Tambores de São Luis «a Antonio Callado, quando, justiça seja feita, de novo, quem fez enrubescer de vergonha um negro retinto africano foi Josué Montello, neste que é considerado o seu» melhor romance».
Vai aqui o mea-culpa de um imbecil, eu, que faço confusões entre gêmeos e também com os siameses, sempre!
Celso Kelly, que dá nome à biblioteca, foi diretor geral do Departamento Nacional de Ensino do Ministéiro da Educação, no alvorecer dos Anos de Chumbo.
Foi ele o responsável por a criação da primeira " grade-curricular do curso de Comunicação Social, após presidir a Associação Brasileira de Imprensa (cuja carteira de jornalista, categoria sócio-militante, número 3287, a minha, eu rasguei em quatro no começo dos anos 90).
Celso Kelly esteve na ABI, muito antes de mim, é claro, e não cheguei a conhecê-lo.
Morreu quando eu ainda era uma criança de 10 anos de idade.
Mas, vejamos algumas sutis ligações ...
Josué Montello viveu uma vida chapa-branca longuíssima:
diretor vitalício da Biblioteca Nacional (não confundir com presidente!)
e idem, do Serviço Nacional de Teatro.
Amigo de Juscelino e de todos aqueles que o sucederam, sem exceções, até sua morte, em 2006.
Compadre, vizinho, conterrâneo, cupincha e colega de ABL de Callado, quem lê um já tem o outro lido!
Por sua vez, Ana Arruda Callado, esposa de Antonio, chegou ao patamar de Diretora «professora doutora» do Departamento de Comunicação Social da UERJ, de onde, ao que me conste, jamais saiu um jornalista sequer que prestasse!
E assim vai caminhando a Cultura e a Literatura no Brasil, um pequenino grupo de compadres, que não larga o osso e, por outro lado, não produz nada significativo, além de causar malefícios incalculáveis às letras pátrias, já que abiscoitam sinecuras, vantagens, honras indevidas -- pouco se lixando aos verdadeiros talentos que florescem e fenescem nas sarjetas do desconhecimento e do desamparo cultural.
Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna, familiarmente, marido e mulher, abiscoitaram também não poucas benesses dentro deste pequeno círculo de apaniguados.
Não são poucos os casos.
E, por tudo isto, por a tentativa de uma arte-funcionária, de um pequeno grupo de artistas consagrados por os amigos, deu no que deu a nossa pobre literatura.
O maior autor brasileiro de todos os tempos, na minha opinião pessoal, Graciliano Ramos, sempre procurou contribuir com a Cultura e com melhoramentos gerais em nosso país -- mas, um após outro, foi abdicando de cargos públicos, mesmo aquele em que foi eleito por o povo -- prefeito de Palmeira dos Índios -- AL -- por discordar do que via, querer fazer mudanças -- e não haver como ...
Destino final:
cadeia!
E, para que não se diga que não falei de nenhuma flor, Elio Gaspari, o maior nome das letras brasileiras atuais, mesmo não sendo um autor de ficção, nem mesmo nasceu no Brasil, mas sim em Nápoles, infelizmente ...
Escreveu a sua obra notabilíssima com o apoio conseguido fora do de o Brasil, uma bolsa fornecida por o Wilson Center for International Scholars.
O chapabranquismo, torno a repetir, destrói, avilta, empobrece a obra de qualquer artista.
A condição estável, sossegada, de servidor público é uma ofensa a quem lhes paga o salário, através de impostos recolhidos compulsoriamente.
Rio de Janeiro, 9 de agosto de 2007.
Número de frases: 110
Baduh ...
o que o dinheiro pode comprar na arte e a falta de talento não pode sustentar.
E tem a mídia algo a ver com isso?
Milionário iraniano grava no Rio de Janeiro com pompa e circunstância seu sonho de ser astro pop
O evento é insólito, inesquecível em muitos aspectos, menos no principal.
Em a chegada ao aeroporto, os jornalistas se perguntavam quem era o tal Nassiri que os convidara para o lançamento do clipe da música Love Sees no Color no Brasil.
Ninguém sabia dizer de quem se tratava.
Tinha disco na parada, mas o ventilado era só a gravação do tal clipe, com refrão em português, como Nassiri já fizera em outros 12 idiomas.
A poucos dias do carnaval, armou-se uma coletiva de imprensa com apresentação da jornalista Leilane Neubarth, da Globo do Rio.
Estamos num dos mais caros hotéis da capital fluminense.
Vários jornalistas do Brasil, nenhum dos cadernos culturais dos jornais do eixo Rio-São Paulo.
E caberia aqui uma reflexão sobre o já inquestionável esquema dos convites-de-qualquer natureza que os jornais aceitam.
Todos aceitam, se não por a editoria A, vai por a B. Todos, incluindo os do eixo RJ-SP.
Inquestionável para azar dos leitores.
São convites que, não raro, interessam mais ou, na pior das hipóteses, apenas a quem convida.
Imagino que os jornalões não foram porque estariam afogados nas pautas carnavalescas ou mesmo desconfiaram da inexpressividade artística do sujeito.
Meras suposições.
Em o «brunch» servido na coletiva, havia um arsenal de computadores à disposição do repórteres, coisa não vista em muitos festivais culturais prestigiados do país.
De a chegada ao final do encontro rolava com insistência o «hit» Love Sees no Color em alto e bom som no recinto.
Em o púlpito, uma série de cadeiras dispostas ao lado do anfitrião.
Eram para os diretores da Nassiri Music (cujo capo é o próprio filho do dono), o diretor do clipe da música (Larry Jordan, que já trabalhou com Mariah Carey) e o diretor brasileiro Marcelo Machado (da produtora de Fernando " Cidade de Deus Meirelles "), contratado para fazer a versão brazuca do clipe.
Começa a coletiva com Leilane dizendo que «é a primeira vez na história da música pop que um artista grava assim em todo o mundo».
Então tá.
O clima está emocionalmente tomado por a morte do garoto João Hélio, arrastado por as ruas do Rio no carro que fora roubado da mãe.
Nassiri traz uma mensagem de paz com sua música.
Antes das perguntas, dois filmetes mostram as andanças de ele por o mundo.
Já visitou 16 países, sempre incluindo crianças nos clipes.
São cenas típicas de cada lugar, monumentos e crianças:
Taj Mahal, torre Eiffel, clichês escorrem aos borbotões nas imagens.
Há também cenas de ele em encontros por a paz com vários líderes mundiais:
Shimon Peres, Nelson Mandela, um senador norte-americano, Kim Dae-Jung (presidente sul-coreano).
Até o papa Bento XVI o recebeu.
Uma repórter chora ao perguntar como ele via a violência no mundo de hoje, no Rio etc..
Em a grande equipe que o acompanhava, uma moça conversava com os jornalistas nos bastidores para um documentário sobre o encontro e perguntava se a música de Nassiri seria bem recebida no Brasil.
Nosso colega Bruno (colega inclusive deste Overmundo), repórter de Pernambuco, responde que sim, se ele pagasse «payola» (jabá, em inglês).
Rimos uma vez mais do surrealismo da coisa.
Em a coletiva, Bruno tocou no assunto com o próprio Nassiri, que respondeu uma obviedade qualquer do tipo «não vendo minha música» ou «quero que minha música tenha força própria».
O release assegura e ele repetiu na coletiva que entrou no «top ten» norte-americano sem pagar jabá.
Não sei que diacho de «top ten» deve ser esse.
Nem quis descobrir na verdade.
O que ouvia no chique mezanino do Sofitel me bastava.
E quem afinal é o tal Nassiri?
Aos poucos foi se descobrindo.
Fred Nassiri é iraniano radicado há 40 anos nos Estados Unidos.
Ficou milionário como empresário no varejo de confecções.
Conta-se que ele chegou a ser considerado um dos mais ricos do mundo.
Busquei referências de ele na lista da Forbes na net e não achei, mas ele vem bancando sozinho a brincadeirinha de cantar e querer ser astro pop.
Vaidoso, Nassiri reúne a mídia que consegue onde quer que vá e não esconde as estruturas nababescas que costuma montar para seu picadeiro particular.
A assessoria contratada para preparar o esquema no Brasil não revela os gastos, mas a julgar por os US$ 100 mil que ele já doou só para a Fundação Nelson Mandela, não haveria por que economizar num projeto tão pessoal.
Fez questão de ir à favela da Rocinha, filmou no Pão de Açúcar de madrugada e à tarde juntou a criançada na praia de Copacabana.
A música é sofrível, um arremedo do mais insosso new age com sotaque árabe.
Em suas falas, Nassiri parece acreditar piamente que a música de ele tem o poder de mudar o mundo.
A o final, saí com a impressão de que se não cismasse em ser cantor, o milionário excêntrico poderia ser um grande mecenas.
A julgar por os resultados que pretendia em termos de repercussão midiática no Brasil, ele deve ter jogado dinheiro fora.
Sairia melhor na foto (ou no vídeo) se tivesse usado do mesmo expediente, for example, que a Red Bull inventou num parque público de São Paulo no ano passado.
Bobagem da qual também tive o desprazer de acompanhar.
A brincadeirinha da marca de energéticos saiu sábados seguidos no Caldeirão do Huck.
E não me comprometam perguntando a que preço.
Número de frases: 58
Monteiro Lobato, o escritor, talvez tivesse reações improváveis se estivesse naquele sábado, 9 de junho de 2007, na cidade que hoje leva o seu nome, mas que teve origem no antigo distrito de Buquira, na outrora região de Taubaté (e, hoje, micro-região de Campos do Jordão).
Quando escreveu, pouco após ter vendido sua propriedade rural no local, o livro «Cidades Mortas», o aclamado autor tratava e muito do conservadorismo, do marasmo e da inabalável vida estanque dos moradores das cidadezinhas do Vale do Paraíba, destinadas a findarem com o encerramento próximo do Ciclo do Café Paulista.
Quase noventa anos depois, Monteiro Lobato, a cidade, talvez seja o retrato mais contundente desta sua obra.
Com aproximadamente 4000 habitantes, a maioria vivendo na área rural, o quase-lugarejo foi o cenário, na data citada, de mais uma apresentação do projeto Revelando os Brasis, parceria entre Petrobras, Ministério da Cultura, Secretaria do Audiovisual e o Instituto Marlin Azul.
Em a sessão programada para a cidade, o destaque foi o filme «Documentário sobre Chico Abelha», realizado por a moradora Uiara Cunha.
Mas isso aconteceu durante a noite.
Deixe-me contar o que aconteceu até a hora do evento.
Devo iniciar falando sobre a desinformação do pessoal das rodoviárias de São Paulo e Campinas.
Em três guichês diferentes, nas duas cidades, fui aconselhado a me encaminhar até Taubaté, para, de lá, seguir em direção à pequena cidade paulista.
Foi o que fiz logo às seis da manhã, via Cometa.
Cheguei em Taubaté três horas e meia depois e, menos de dez minutos após a chegada, eu já estava embarcando no sentido de retorno, em direção a São José dos Campos:
o pessoal da viação Pássaro Marrom, em Taubaté, me disse que era na outra cidade o acesso ao lugar em que eu precisava estar.
Mais uma hora de estrada e outros vinte minutos de espera na terceira rodoviária do dia, um desperdício de tempo apenas amenizado por a devolução integral do dinheiro da minha passagem de volta, previamente comprada por conta do retorno do feriado prolongado de Corpus Christi.
Embarquei num pequeno coletivo sem qualquer requinte e, a partir daí, foram 50 minutos de embrenhamento por o que há de mais verdadeiro no interior paulista:
as pequenas cidades, afastadas das grandes rotas, que ainda se escondem por as vicinais e fazem bom número nas estatísticas do IBGE.
Cheguei por volta do meio-dia, enfim.
Encontrei prontamente a equipe de produção do Revelando ...,
com a qual fui almoçar.
Em o almoço, além bater papo sobre a vinda de eles de São Luis do Paraitinga para Monteiro Lobato, também perguntei sobre a cidade, visto que eles estavam por lá já havia um dia.
Mas não tinha muito a ser dito:
em pouco tempo eu descobriria, por conta própria, que o que eu vira da cidade era praticamente tudo o que havia para ser visto.
Eu ainda fiquei sabendo que não iria conhecer o famoso Sítio do Picapau Amarelo (pois a distância de ele ao centro da cidade não poderia ser vencida a pé facilmente).
Por motivos muito pessoais, especialmente naquele dia, foi muito bom não ter visto nada que me lembrasse ainda mais da obra maior de Monteiro Lobato.
Mas acabei ficando chateado quando a equipe me contou que o Sítio, que pertence a outra família hoje em dia, preserva pouco das características originais da propriedade.
Alguns móveis e, por o que eles notaram, talvez apenas isto.
E eis aí o principal ponto a se falar da cidade:
após a adoção do nome do escritor para a cidade antes chamada de Buquira, era de se esperar que o comércio local e as forças políticas tentassem alavancar o progresso, bandeira tão familiar do escritor durante toda a sua vida.
Mas o fato é que quase não há referências aparentes à obra de Monteiro Lobato à vista:
um supermercado chamado Visconde (que pode muito bem é se dever ao Visconde de Tremembé, avô de Monteiro e sabida inspiração para o sabugo sapiente), um bar chamado Urupês (única obra do autor escrita por lá) e alguns pequenos comerciantes vendendo Emílias e Viscondes de pano na varanda das próprias residências.
De este modo, a cidade persiste, estagnando, pacificamente envelhecendo, aparentemente avessa ao crescimento.
Enquanto o pessoal da técnica montava o cenário da exibição, na praça defronte ao Paço Municipal, só o que era possível observar era o marasmo, um quase tédio estampado na face da maioria das poucas pessoas que transitavam entre aquela praça e a da rua de baixo -- na qual se concentram a maior parte dos poucos bares, restaurantes e onde fica, também, a única banca de revistas que vi por ali e o ponto final do coletivo intermunicipal.
Quando resolvi andar (após fazer uma fezinha na lotérica, porque coisas como a megasena estavam acumuladas e, afinal, quem não quer R$ 17 mi?),
percebi que a área urbana era mesmo mínima.
Tão pequena que, realmente, creio tê-la percorrido por completo em pouco mais de uma hora.
E não havia o que fazer em relação à desmobilização cultural da cidade:
a aparência era de que seria uma noite de poucas pessoas.
No meio da caminhada, duas coisas me chamaram a atenção.
Uma era o estádio municipal de futebol, no qual rolam as partidas do campeonato amador da cidade.
Completamente fechado, cercado, uma verdadeira mini-Bombonera de aparência muito triste por fora, graças à cor escura do concreto das paredes externas.
E absolutamente nenhum vislumbre possível do gramado provável que há dentro da estrutura.
Mas, ainda mais triste, foi visitar o Cantinho de São Vicente.
Em este asilo municipal, aparentemente amparado por a paróquia local e por a prefeitura, residem 17 pessoas, de idade avançada, num ambiente que, por a própria natureza da situação, é mesmo de entristecer.
Os senhores e senhoras olhavam como se pensassem o que essa gente da cidade grande estava a fazer por ali, observando com olhos de quem vê bichos esmaecidos em zoológicos ultrapassados.
A idéia que tive foi de conversar com a produção do evento e com alguém da prefeitura, para que se levasse estas pessoas até a praça, para assistir ao cinema.
Ter alguma diversão.
Sorrir, sabe?
Afinal, o asilo ficava a uma quadra do local de exibição.
O dia se arrastou até quase o anoitecer, com quase ninguém sequer ficando curioso com aquela estrutura que estava armada na praça.
Os motoqueiros uniformizados que passaram por ali durante a tarde foram a única coisa diferente que aconteceu e, ainda assim, até com eles parecia haver algum tipo de apatia.
De o jeito que eu falo, parece que eu estou falando mal da cidade.
Longe disso:
é um local extremamente simpático, com aquela beleza que só as pequenas cidades tradicionais conseguem ainda manter, ainda mais no interior de São Paulo.
Mas a falta de interesse da população por cultura acaba sendo até natural.
Não há, é claro, nem cinema nem teatro na cidade.
Nem lan house.
Nem jornal.
Como a população fica, então, sabendo do que acontece?
Por exemplo: a notícia da exibição do filme de Uiara, bem como todas as notícias de Monteiro Lobato, podem ser vistas afixadas em cartazes próximos ao Paço ou (de vez em quando) no jornal ValeParaibano, com sede em São José dos Campos.
Uma exceção aparenta ser o noticiário futebolístico:
a tabela e os resultados dos jogos do campeonato da cidade podem ser acompanhados por um letreiro eletrônico colocado também na praça do Paço (que também é, aliás, o maior sinal de tecnologia aparente da cidade).
Por volta das seis da tarde, conheci Daniela de Cássia, Diretora de Cultura da cidade.
Conversando com ela na padaria local, notei que a jovem de 28 anos é uma pessoa bastante esforçada em querer colocar a cultura de modo mais ativo na vida da população, trazendo eventos para a cidade e procurando motivar as pessoas a se interessar.
Em o cargo há um ano (desde a posse de João Bueno da Silva, que assumiu quando o prefeito eleito faleceu), ela sabe que a preocupação com a cultura é difícil inclusive no próprio Poder Executivo:
no site oficial da cidade, sequer consta uma Diretoria de Cultura.
às sete da noite, um friozinho médio, meia hora antes do início da apresentação, seis pessoas apenas estavam na praça, totalmente sem iluminação e dando ao lugar uma aparência erma.
A empresa de energia, chamada Bandeirante, disse, ao desligar a luz dos postes da praça para a exibição, que não os religaria hoje.
E o evento tem a duração aproximada de uma hora, apenas.
O logotipo da Bandeirante é um sorriso, mas ninguém ficou muito feliz ao ouvir sobre a escuridão forçada por toda a noite.
Como os verdadeiros bandeirantes, quem se propusesse a ir ver os filmes da exibição teria que ser um pouco desbravador.
Ainda mais que muitas famílias foram completas:
para muitos, e esta é uma das propostas do Revelando os Brasis, é a primeira oportunidade de assistir a um filme na tela de cinema.
De entre as muitas crianças que começaram a aparecer por lá (como em São Luis do Paraitinga, foram as primeiras a chegar), Gabriel, no alto de seus cinco anos, estava muito curioso para ver o Chico Abelha na tela.
Imaginou um homem enorme com asas de abelha, zunindo por aí.
Fã de videogames, disse que tem um SuperNintendo e que o tio tem um PlayStation 2. Adora jogar Sonic, Mario e acha o jogo da guitarra (Guitar Hero) muito difícil.
Já do jogo do Aladdin ele confessou que não gosta muito, não.
Ficou minutos e minutos descrevendo cenários de jogos de guerra, de aventura e de luta, simulando campos de batalha e um chão feito de fogo, do qual tinha que pular para não morrer.
O jovem detonador de jogos, no entanto, deixou imediatamente suas análises e táticas pra lá para brincar de esconde-esconde com pessoas de sua idade, deixando os mais idosos com seus bloquinhos de anotações.
Com as pessoas chegando bem aos poucos, chega a hora de mostrar à cidade o filme da conterrânea Uiara.
Aproximadamente 50 pessoas ouvem o discurso breve da autora, incentivando outros a participarem das novas edições do projeto cinematográfico.
Há outro motivo para a pouca participação.
Três festas concorrem com o evento, exatamente no mesmo horário:
um junina, um forró e uma festa de tropeiros na vizinha São Francisco Xavier, a vinte quilômetros de ali.
O início dos filmes, a iluminação e o som deixaram mais pessoas curiosas e o fato é que, quando o terceiro filme (o documentário Brilhantino, sobre um senhor que vive numa caverna) estava para começar, o público já era quase o triplo.
Ao contrário da exibição ocorrida em São Luis do Paraitinga, a recepção ao curta-metragem local foi morna.
Aliás, comparar os dois eventos é muito difícil:
enquanto São Luis do Paraitinga é uma cidade turística, voltada para a cultura e os eventos (que, quando não existem, são criados), Monteiro Lobato é voltada para suas tradições, sem envolver pessoas de fora.
Certamente o filme de Uiara fala de um personagem interesantíssimo, mas de pouco contato com a identidade local.
Ainda pesou o fato de Chico Abelha ter ido embora da cidade por algum tempo, por problemas pessoais com seus vizinhos.
Para você que não sabe:
Chico é radialista e também mora na zona rural, num ambiente autosustentável e em contato extremo com a natureza.
Mas as duas cidades (e várias outras, posso apostar) se encontram na cena de nudismo (que é curta, artística e perfeita para a história) do filme «O Quadro».
Desta vez, a reação foi mais contida:
pessoas se levantaram com as famílias e foram embora, outros ficaram com uma cara amarrada (inclusive um senhor na casa de seus 50 anos, que praticamente me fuzilou com os olhos, no momento em que eu estava ao lado do caminhão-projetor) e a Diretora de Cultura veio perguntar, realmente preocupada, se haveria mais cenas como aquela.
É uma preocupação justificada:
muito provavelmente a cidade não está acostumada a eventos tão plurais e Daniela, certamente, está empenhada em colocar Monteiro Lobato no mapa cultural e turístico de São Paulo.
Eventos como este são necessários.
Pois, a cada seleção de filmes mostrados, são expostas as realidades nacionais em forma de painéis populares.
E isto é o importante:
confrontar as culturas, para que o Brasil conheça o Brasil, em todos os tipos de cidades.
Após a exibição e os sorteios de brindes, em dez minutos não havia mais ninguém por ali, além de Daniela, Uiara, a produção do evento e eu mesmo.
E acabamos nos rendendo à festa junina da escola municipal.
Estava mais quentinho (e é claro que para alguns estava mais quentão) e o grande sorteio da barraca de bingo era um celular.
Eu nunca tive um e era a minha grande chance de conseguir.
Se este fosse um objetivo, afinal.
Mas fiz um bom negócio e troquei a jogatina por cachorros quentes e novas amizades.
Ameacei pensar de novo no Reino das Águas Claras, mas, talvez por isto mesmo, eu me prometi voltar a Monteiro em breve.
Afinal, se os ecos do passado se fazem perceber por toda a cidade, é lá que posso encontrar as minhas respostas para continuar a progredir e voltar a perceber novas formas para um viver pleno.
Número de frases: 107
E, sinceramente, creio que isso vale para os lobatenses também.
Em homenagem ao centenário de Samuel Becket, a companhia de teatro Ciasupernova está em temporada, no porão do Teatro das Bacabeiras, por todo o mês de abril, com a peça Esperando Godot.
Essa rapaziada começou o ano de 2006 com toda garra, empenhados na busca de um teatro experimental, denso e inovador para o contexto das artes-cênicas do Estado.
É uma equipe jovem, curiosa e com bons talentos que, ' de cara ', escolheram para sua estréia, um espetáculo de Samuel Becket, ele que completou 100 de nascimento, no dia 13 de abril deste ano.
A direção é de Zeniude Pereira, bacharel em artes cênicas e responsável por as atividades de teatro do Serviço Social do Comércio, Sesc Regional Amapá.
Ela explica que o grupo idealizou uma proposta com marcações não convencionais e que o trabalho não é realista.
A galera topou o desafio, de inspirados no teatro beckettiano criar uma nova abordagem para a obra, «capaz de iluminá-la sob uma nova luz», como diz a diretora.
A dramaturgia de Esperando Godot é centrada em Vladimir, Anderson de Castro e Stragon, Wellignton Douglas.
Eles costuram a história, são dois andarilhos esperando uma pessoa que eles nem se quer imaginam como seja.
O tédio da espera age como um ' peso de viver ' e os dois se ocupam de todo jeito:
dormem, comem, tiram os sapatos, representam e discutem a existência.
Três personagens interferem na mórbida espera dos protagonistas, um de eles é um menino que aparece para avisá-los:
«Seu Godot não vai aparecer hoje».
O menino é a atriz Lorena Pires, o personagem que simboliza a esperança quando não há mais distração ou saída.
«A vida não é mais a mesma depois de Becket.
É um texto maravilho, datado de 1969, demoramos um bom tempo para destrinchá-lo, para facilitar a compreensão, mas depois de todo trabalho o publico vai vê-lo de uma só vez, numa hora e meia de drama», falou Lorena.
Também existem Poso e Luck, que cruzam o caminho de Vladimir e Stragon por duas vezes, de formas diferentes.
«Aí a discussão também passa a ser sobre o tempo e a realidade com toda a dimensão existencialista do teatro Beckteano.»,
explica a Zeniude.
Marina Beckman, interpreta Luck, escravo de Poso, apesar deste insistir em categorizá-lo como «assessor».
Anderson Barroso, Poso, é um tirânico que vem preencher o vazio no encontro com os andarilhos, como se fosse o acaso.
Zeniude assume que outro desafio foi a escolha por montar Esperando Godot com atores tão jovens, mas garante:
«Eles não deixam a peteca cair».
E não deixam mesmo.
Vladimir e Stragon têm em torno de 60 anos de idade, os jovens atores não têm mais de 20, mesmo assim não há caracterização.
A diretora tem larga experiência com teatro e já estava devendo um espetáculo para quem é admirador de seu trabalho.
«Ela aproveita nosso potencial criativo ao máximo, explora tudo e percebe o que de nós serve para o personagem», afirma Wellington Douglas, Stragon, que atua como diretor em outro espetáculo da Ciasupernova, o Pau de Arara.
O clima é intimista, por isso as apresentações são para um público resumido, de no máximo 30 pessoas que são sensibilizadas para encenação.
O grupo tem uma pequena exposição para apresentar Becket e a peça aos espectadores.
A duração é de quase uma hora e meia de dramaturgia, sem muita movimentação, mas repleto de questionamentos e muito bem marcado.
«Godot sugere um teatro pré-clássico agonizante.
A estrutura geral do texto é híbrida, pois corresponde ao momento da passagem do teatro para o classicismo francês.
O texto brinca a um só tempo com o conceito convencional de ação e de reviravolta ou peripécia.
O palco não será lugar de clareza.
Muito pelo contrário!»,
diz a diretora.
Samuel Becket (1906 a 1989) O escritor irlandês tornou-se mundialmente famoso com a peça Esperando Godot, apresentada pela primeira vez em 1953.
Em 1969 Beckett recebeu o Prêmio Nobel, não por uma peça ou por um livro, mas por o conjunto de suas obras que influenciaram uma geração de dramaturgos como Harold Pinter, Tom Stoppard e Edward Albee.
Beckett andou por a Irlanda, França, Inglaterra e Alemanha.
Parou em Paris em 1937.
Durante a Segunda Guerra Mundial, ficou em Paris até mesmo depois da ocupação dos alemães.
Ele uniu o movimento subterrâneo e lutou por a resistência até 1942 quando foi forçado a fugir com a esposa.
Em 1945, voltou à Paris e nos cinco anos seguintes fez Eleutheria, Endgame, Malloy, Malone Dies, The Unnamable e Mercier et Camier.
Mas seu primeiro real triunfo foi Waiting for Godot, de 1951, escrito primeiramente em Francês.
Beckett ganhou fama internacional e seus trabalhos foram traduzidos em mais de vinte idiomas.
Escreveu até a sua morte em 1989.
Número de frases: 46
O Grupo TR.E.M.A. volta a flanar por os terminais de integração dos ônibus de Fortaleza.
A série Cadeira com Rodas continua na busca de boas histórias, para contar, pensar, refletir.
Chegou-se ao terminal da Parangaba.
Em ele, encontramos Paulo.
18 anos, porteiro, gosta de escutar música.
Enquanto isso, Lorena dorme na casa da mãe.
Em a mesma noite, a rádio Cidade toca uma música que agrada Paulo.
Ele não pode ficar muito distraído.
Se bobear, a galera entra por o portão sem pagar.
Aí, ele se fode.
É chamado atenção.
O terminal da Parangaba não possui muros.
De dentro, dá até pra vê os anúncios do show de forró que acontecerá em breve.
Lá o vento sopra mais forte e carrega com si, às vezes, pessoas com a intenção de burlar a segurança.
Paulo precisa pregar os olhos nos dois portões principais.
Um para cada olho.
O suficiente.
Em os finais de semana, principalmente, alguns bebos chatos perturbam para entrar.
Ele precisa dizer não.
Está no emprego há pouco mais de dois meses.
Precisa garantir os 464 reais, os vale-transportes e os vale-refei ções.
E manter a casa, onde mora com Lorena.
Lorena dorme, ou não.
Talvez, perto dos trilhos, a noite esteja mais animada do que os ritmos dos fones de ouvido de Paulo.
Em os trilhos.
Em as trilhas.
Os esquemas, as paradas.
Já faz um ano que aquela história aconteceu.
Há uns três meses, esteve no Fórum Clovis Beviláqua e viu que sua ficha tava limpa.
Ficou orgulhoso.
A história parece estar resolvida.
Foi tão rápido.
E tanta coisa aconteceu no pequeno tempo de um ano.
Paulo Leandro.
18 anos.
Negro. Casado com Lorena.
Cursa o segundo ano do segundo grau no colégio Eduardo Campos, no bairro morro do ouro, perto da sua casa.
Em as terças e nas quintas-feiras, bate um racha com os amigos na escola.
A aula termina mais cedo.
Vigia o terminal de ônibus da Parangaba.
Trabalha um dia sim e outro não das 23h às 5h.
Mora no Beco da Rapousa, perto do Jacarecanga, perto do Hiper Mercantil, onde tem uns trilhos;
perto do Liceu do Ceará, onde vai fazer cursinho para o vestibular.
Quer cursar Administração.
Deseja ter um bom emprego.
Ouviu dizer que na Fanor pode estudar de graça por causa do Prouni.
Vai se informar melhor.
Para chegar ao emprego, ele anda até a Francisco Sá.
Pega o clube dos regatas e segue direto.
Rumo ao terminal.
Em o caminho, os fones não saem do ouvido.
Gosta de reggae, pop rock e hip hop.
Curte Racionais e Mv Bill.
Em as noites em que está fora de casa, Lorena, sua esposa, com medo de dormir sozinha, vai para a casa da mãe.
Espera Paulo chegar de manhã.
Tomam café da manhã juntos.
Eles se amam.
O olhar de ele ao falar de ela não nega.
Estão juntos há quase quatro anos.
Ela tem 15. Ele, 18. Sempre moraram pertos.
As famílias se conhecem.
Quando quiseram dormir juntos, as mães não deixaram.
Paulo não podia dormir na casa de Lorena.
Lorena não podia passar a noite na casa de Paulo.
Saíram de casa.
Arrumaram uma casinha ali mesmo, por as bandas do Beco da Rapousa.
As mães ajudam nas contas.
E eles podem dormir juntos, tranqüilos.
Mas não todas as noites.
Noite sim, noite não.
Paulo trabalha.
Dias desses, Paulo terminou de ler um livro alugado na biblioteca do seu colégio.
Gostou. Chamava-se «O Pensamento».
Era a história de um cara que contava sua própria vida.
Desde o comecinho, quando era moleque e freqüentava à escola.
Depois procurava um emprego, uma mulher.
Era isso.
A vida do cara.
-- E, você, Paulo, não quer escrever sua história também?
Escreve aí, cara ...
-- Não!
Só tem coisa que não presta.--
E enrolava nos dedos os fios que seguram o seu rádio.
Olhos atentos para o chão -- Eu fazia coisas erradas.
-- Que coisas?
-- Coisas erradas.
Drogas ...
-- Você consumia?
-- Consumia e vendia.
E roubava.
Cada vez mais, enrolava nos dedos os fios de um lado para o outro.
Girava de um lado para outro.
O contato era a galera de depois da passarela, ali perto dos trilhos do Hiper Mercantil da Bezerra de Menezes.
Lá tem umas paradas certas.
Os caras encomendam uns modelos de celular.
É só ir atrás e trazer que a grana tá garantida.
Primeiro só no grito.
Um canivete talvez.
Depois veio o toca fita, um 38, seqüestro a mão armada, até atirar nas pernas de alguém que tentou reagir e quis correr.
A mãe ameaçou colocá-lo para fora de casa por causa do silêncio.
Ele não dizia de onde conseguia o dinheiro.
Tinha maconha, tinha pó.
Tinha umas vendas por os lados da Praça da Lagoa.
A Lorena não gostava.
Ele negava.
Mas ela sabia o que acontecia.
Todo mundo sabia.
Até que veio o vacilo pra confirmar.
A Febem pegou duas vezes e soltou.
Em a terceira, ficou 48 dias.
Apanhou sem motivo.
Ficou na tranca esperando sem camisa uma vaga numa das celas.
Depois saiu.
Viu que o esquema era sério.
Já faz um ano.
Se arrepende.
Tem vergonha de escrever, mas talvez goste de contar com o motivo de superação e orgulho.
Paulo conta a história.
Edvaldo, do lado de fora, tenta entrar de graça no terminal.
Não pode!
Deixar eu entrar, aí, mah ...
Edvaldo desiste.
Senta na calçada.
Escuta a história de Paulo.
A tensão arma o cenário.
E o radinho balança ainda mais forte entre os dedos de Paulo.
É Febem, né?--
interrompe Edvaldo.
É! Eu, graças a Deus, nunca fui pego.
Já tou com 17 anos.
Edvaldo pergunta se Paulo conhece uns amigos de ele.
Parece que sim.
A cuspida constante marca cada fala.
Edvaldo tem uma mulher e uma filha.
Para sustento, vende bombom.
Quer entrar naquela noite de graça no terminal.
Mas o terminal só tem vendedor de bombom cadastrado.
São 48.
Quando abriram as vagas para o da Parangaba, ele perdeu a chance.
Mas parece que morreu um cara há pouco, e ele vai entrar nesse esquema.
Edvaldo senta na calçada.
Eles conversam.
Paulo no banco, dentro do terminal.
Número de frases: 143
«O Chupa-Chupa é extremamente risível e todos em Colares sabem muito bem disso hoje».
Com essa afirmação, Roger Elarrat desmistifica todo ar sisudo e a média de terror que assombra o município de Colares (a 50 km de Belém) nos últimos 30 anos.
Junto a Adriano Barroso, a dupla realizou o documentário Chupa-Chupa, a história que veio do céu, exibido no mês de julho no Festcine Belém -- e em junho em cadeia nacional.
O filme foi o selecionado no programa Doc-TV, por a Rede Pública de Televisão, que escolhe um projeto por capital para patrocinar e exibi-lo em rede nacional.
O nome do ET, propício a uma série de piadas, foi dado por os próprios moradores de Colares.
«Nós mesmos fomos os primeiros a fazer piadinhas com o nome.
É irresistível.
Acho até que é um dos charmes dessa história.
É tudo muito sério e ao mesmo tempo hilário», revela Roger.
O fenômeno do Chupa-Chupa apareceu nos céus de Colares em 1977, e diversos moradores do município afirmam ter se confrontado com o objeto metálico, em formato arredondado e que, flutuando, projetava uma luz com um objeto metálico pontiagudo que, segundo relatos, sugava o sangue de suas vítimas terráqueas.
O documentário, no entanto, se desfaz do formato investigativo que o assunto propõe e avança por uma linha mais comportamental e cultural, com momentos divertidos e depoimentos que despertam a curiosidade para a veracidade dos acontecimentos ocorridos ali, ao longo dos últimos 30 anos.
«Sempre soubemos que não queríamos fazer um filme com enfoque em ET's, nada de investigar o caso, mas as pessoas do lugar.
Em uma das visitas ao lugarejo, encontramos um lavrador que compunha músicas sobre o chupa-chupa, era o Mestre Pacau.
Em esse momento, nosso filme ganhava a vida que queríamos.»,
conta Adriano Barroso, que ao longo de todo o processo de pré-produ ção e filmagem contou com o apoio da comunidade que, apesar de tudo, teme que sua cidade fique conhecida por as histórias de contatos extra-terrenos.
Operação -- Em o ano que ficou marcado por as aparições, 1977, a Aeronáutica fez em Colares a maior operação relacionada a Ovni's de que se tem notícia no Brasil.
Denominada «Operação Prata», a operação militar iniciada nesse período mobilizou não só a população local como a de estudiosos do Brasil inteiro.
O episódio chamou a atenção do poder público e das autoridades militares.
Os arquivos, no entanto, estão guardados a sete chaves.
Em este caso, o lado mais «sério» da história acabou entrando como pano de fundo, já que não estava entre os planos dos diretores se aprofundar na questão ufológica.
«Recebemos a doação da entrevista bombástica que o Capitão Holanda deu para a revista Ufo, e desprezamos porque sabíamos que iríamos correr o risco de encaminhar o filme para um lugar que não era a nossa proposta», conta Barroso.
A dupla de diretores Roger Elarrat e Adriano Barroso não pretende enterrar o caso «Chupa-Chupa» no documentário.
«De o roteiro do documentário, sobrou muita coisa que estou desenvolvendo como ficção.
Minha intenção é fazer um roteiro de ficção científica», explica Adriano.
Em o filme, que entremeia atuação e entrevistas, o personagem narrador é um locutor de rádio, que conduz o espectador através de seus «informativos» e entrevistando personagens mais sérios que estudaram o caso a fundo.
E entre os depoimentos colhidos com a comunidade, o de Newton foi o mais convincente para os diretores.
«Ele é a única suposta vítima ainda viva do Chupa-Chupa.
A história de ele é fantástica e crível, mais ainda porque ele ri de si mesmo», comenta Adriano.
Roger confirma que " o depoimento de ele foi o mais comentado por a equipe durante as gravações e o mais difícil de editar.
Ele fala de um grande trauma, mas sem tratar com uma seriedade forçada.
O depoimento de ele exemplifica bem a relação que eles têm agora com o chupa».
E se a história promove bons momentos de descontração, a reflexão sobre os acontecimentos aparece de maneira quase subliminar.
Em Colares, o Chupa-Chupa já virou um fenômeno tão peculiar à cidade, que não há forma de se desvincular dessa imagem.
Seja no carnaval, como no carimbó de Mestre Pacau, o ET é um personagem constante.
Se a possível existência de ele assusta alguns moradores e incomoda os mais conservadores, para outros é motivo de alegria e samba.
Se existe um ET, que ele esteja incorporado na história de Colares.
«Não dá pra negar que foi um acontecimento que mudou para sempre a cara do município.
Essa é a certeza que temos e que fomos documentar:
um lugar e suas pessoas e o quanto a vida e a cultura lá são marcadas por um evento ocorrido 30 anos atrás.»,
finaliza Roger Elarrat.
Número de frases: 40
Assista ao trailler de Chupa-Chupa, a história que veio do céu aqui.
Resgate da cultura popular brasileira.
Palavrinhas bonitas que juntas já se tornaram até uma «expressão», uma bandeira que muitos levantam com tanta convicção.
Certo, mas será que este famoso «resgate» chega mesmo a ser praticado e realmente funciona?
Boa vontade até existe por parte de muitos, mas por outro lado, há também a ignorância e o descaso de outros.
Parece que não percebem o quão é importante valorizar a cultura popular.
Ah! Já sei, você deve estar pensando:
«lá vem a velha conversa sobre a ' valorização da cultura popular regional '!
Acorda, isso já está tão manjado».
E eu respondo assim:
é irônico como um tema que já é «tão manjado» e «velho» ainda não foi resolvido.
Muito pelo contrário, é até um assunto ignorado.
Todos podem até «saber» sobre a necessidade da preservação e valorização de nossa cultura popular regional, mas com certeza não entendem, não enxergam isso de verdade.
Os benefícios que o fortalecimento da cultura popular podem trazer a uma comunidade são muitos.
Estou falando de desenvolvimento territorial, construção da cidadania, formação de consciências e valores.
Um povo que tem sua cultura própria entranhada e viva em seu cotidiano é um povo forte que conhece realmente a sua capacidade e sabe aonde pode chegar.
Imagine o quanto seríamos «vazios» e descaracterizados se não tivéssemos a nossa cultura popular.
Imagine a falta que as lendas contadas por nossos avós, os nossos folguedos e tradições fariam para a construção de nossa história.
É por isso que temos a necessidade de nos conhecer, de encontrar nossas raízes, descobrir a nossa tão falada «identidade cultural».
E não vejo instrumento melhor para nos levar a isso do que a prática da cultura popular.
Incentivar e fortificar essa prática também é motivar as pessoas e despertar em elas um sentido para viver.
Talvez seja esse o motivo da negligência governamental diante das questões culturais em nosso país. Quanto
menos cultura existir, mais alienação e vulnerabilidade haverá.
É isso, a relação é bem simples.
Mas, ressalto que a nossa postura com relação à cultura popular não é culpa só dos órgãos governamentais ou coisa parecida.
Cada um de nós se torna responsável por esta desatenção a partir do momento em que sentimos uma certa «vergonha» de nossas origens, nosso sotaque.
Somos causadores do enfraquecimento de nossa cultura quando abrimos com tamanha receptividade a porta de nosso país para o homo gringo, e ainda dizemos sorrindo de ponta a ponta:
Welcome to BraZil!
E eles agradecem em seu idioma natal, claro!
Afinal, para que aprender português se aqui todos fazem questão de falar o universal Inglês?
Ora, brasileiro adora «inglesificar» tudo!
«É tão bonito nome que tem muito y, w, apóstrofo, não é?!"
Abro parênteses para um desabafo:
nessas horas, tristemente chego a pensar que Raul Seixas estava certo em sua canção Aluga-se:
«Tá tudo pronto, é só vir pegar.
A solução é alugar o Brasil».
Mas não quero acreditar nisso, não.
Por favor, não me faça enxergar que no nosso país gringo recebe tratamento melhor do que o próprio brasileiro.
Fecho parênteses.
Somos «assassinos» de nossa cultura também quando, por ironia do destino, fazemos dos negros e índios, exatamente as principais matrizes de nossa raça e cultura, alguns dos grupos que mais sofrem preconceito no Brasil.
Quanta ingratidão, não?
E nossa «culpa» não pára por aqui ...
atualmente, é comum ouvirmos muitas pessoas dizerem com todo orgulho e firmeza que são «cidadãs do mundo», leia-se» globalizadas», e defendem a «mistura cultural», o intercâmbio e tudo o mais que envolva» troca " (o pior é que geralmente esta troca não é muita justa, sempre tem alguém que dá mais do que recebe).
Tudo bem, nada contra isso.
Só vejo esta «cidadania mundial» como algo preocupante a partir do instante em que ela causa detrimento à nossa cultura regional, à nossa identidade cultural.
Não há nada de errado em conhecer ou gostar de outras culturas, porém, devemos privilegiar a nossa própria, aquela que faz parte de nossa história, nossa origem, aquela que nos concebeu como um povo.
É esta que deve ser preservada e valorizada.
A luta continua ...
Número de frases: 48
Memórias do 3º " Fórum Popular de Cultura
«Um evento cuja temática e palestrantes me surpreenderam por a qualidade das suas experiências e da sistematização elaboradas por eles em cima das práticas artísticas e pedagógicas e por a forma como passaram para nós, de forma clara, sem cansar e com emoção» Essas palavras proferidas por um participante do 3º Fórum Popular de Cultura que aconteceu nos dias 23, 24 e 25 de Novembro sintetizam muito bem a impressão da maioria que estiveram presentes no Gonzagão, local que sediou a edição 2007 do Fórum.
Organizado por a Ong Ação Cultural e contando com o patrocínio do Programa BNB de Cultura o evento contou também com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura e reuniu no horário de maior concentração de público 80 pessoas, que assistiram a mesa redonda «Cultura& Inclusão» e 400 pessoas na mostra «Arte& Cidadania».
Para os organizadores o mérito principal do evento foi fomentar o inicio da discussão a respeito da elaboração de estratégias para trabalhar com arte e cultura junto a crianças e adolescentes da periferia, cujas «mentes e corações» estão ocupadas com os ritmos e sons que estão na moda, em geral esta necessidade é citada por intelectuais, educadores e artistas, mas pouco é realizado neste sentido.
Conforme discutido durante o fórum não se trata de forçar os adolescentes a abandonar os gostos próprios ou «impostos» por os meios de comunicação de massa mas, de conhecer e valorizar outros tipos de música, de movimentos, de sensibilidades.
Em termos práticos isso foi apresentando na mostra artística a partir da apresentação do resultado da oficina de dança desenvolvida por a Caravana Arcoiris, desde o inicio do mês de outubro, no Gonzagão, e que preparou um trabalho coreográfico em forma de colagem, onde os adolescentes envolvidos mostraram o que aprenderam de diferente:
afro peruano, dança do ventre, contemporâneo e aquilo que eles conheciam:
forró e dança de rua.
Essa mesma abordagem também foi destacada na oficina apresentada por Paula Gonçalves e Ketully Costa Leal, da Em Cena Arte e Cidadania, a qual mobilizou os participantes em torno da necessidade de construir coreografias partindo dos referenciais estéticos e históricos de cada um, sem perder de vista, evidentemente, a necessidade de agregar novos conhecimentos aos que eles possuem, reforçando as palavras de Clébio Correia de Araujo que mostrou a necessidade de darmos especial atenção ao processo de trabalho, pois se queremos preparar pessoas com autonomia, não obteremos esse resultado fazendo-os tão somente repetir os movimentos do coreógrafo ou os modelos de arte teatral concebidos por o professor e / ou diretor.
Outras questões também foram apresentadas como a necessidade de organizarmos um programa de formação de agentes culturais para darmos continuidade e aprofundarmos algumas questões levantadas na discussão sobre as identidades, memória histórica e ação cultural nas escolas que foram apresentadas na discussão coordenada por Marcial Araujo Lima e Clébio Correia de Araujo, a propósito da experiência do projeto «A escola como pólo cultural da comunidade», realizado com estudantes de escolas públicas de Maceió.
A propósito da apresentação desse tema o professor João Brasileiro, afirmou a coincidência sobre alguns questionamentos que estavam sendo feitas por ele e por alguns colegas da Escola Albano Franco, no bairro Santa Maria e a abordagem realizada por Marcial que muito o ajudará na condução dos trabalhos junto aos colegas e alunos da escola onde trabalha.
Outra proposta que teve boa aceitação foi a formação de mini-caravanas formada por agentes culturais para visitar-se mutuamente e desta forma poderem trocar experiências e fortalecer os laços de amizade e de cooperação.
Da parte da Ação Cultural a expectativa principal é que encontros com a metodologia do fórum, cuja característica principal é aproximar quem faz e que elaborou / elabora reflexão sobre a prática, de quem já faz isso ou que quer ampliar os seus horizontes nesse sentido, sejam organizados por parte do gestores das Secretaria de Educação, Inclusão Social e Cultura, neste último caso os Encontros Culturais e Festivais de Arte que são realizados em várias cidades do estado, pode ser um espaço onde os temas e a metodologia dos fóruns populares de cultura podem ser incorporados.
A o término do fórum a partir da avaliação com os participantes a opinião predominante é que as pessoas sentem necessidade de mostrar e conhecer experiências exitosas e cujos aprendizados possam ser incorporados por todos, afinal, unir juventude e tradição cultural exige muita disposição para o diálogo, abertura para o novo e / ou diferente, estudo e habilidade, pois como afirmou «Marcial Lima» é simples, mas não é fácil».
Recorte
De Textos Que nos Servem / SERVIRAM De Referência Para A Discussão do Tema DO 3º " Fórum Popular De Cultura.
«Somos mestiços.
Não apenas etnicamente mestiços.
Somos culturalmente mestiços.
Dançando o Toré sob a lua;
rezando numa igreja barroca de São Cristóvão;
curvadas sobre a almofada para bordar;
trocando objetos e valores nas feiras das periferias e do interior;
depositando ex-votos aos pés dos nossos santos;
dançando um gostoso forró pé de serra no Forró do Candeeiro;
contemplando o mar e os coqueirais do alto da colina de Santo Antônio;
dobrando o fole de uma sanfona numa noite de frio, no mês de junho;
tocados por a décima corda da viola sertaneja;
possuídos por o samba de pareia da mussuca e por a dança de São Gonçalo;
enfileirados nas Romarias da Terra e de Divina Pastora;
o coração de tambores percutindo nos desfiles de 7 de Setembro;
girando a cor e a vertigem das danças dos orixás;
digerindo antropofagicamente o hip hop no caldo da embolada ou do repente.
Somos irremediavelmente mestiços.
A lógica da homogeneização nos oprime.
Por isso gingamos o corpo, damos um passo e seguimos adiante como num drible de futebol ou numa roda de capoeira que, sem deixar de ser luta, tem alma de dança e de alegria."
Adaptação para a nossa realidade do texto introdutório do documento «A imaginação a serviço do Brasil» produzido em 2002 por artistas, intelectuais e gestores culturais e que serve de texto guia para os programas e projetos da gestão do Ministro Gilberto Gil a frente do " Ministério da Cultura.
«Como ampliar o trabalho de conscientização da juventude na perspectiva de valorização da cultura popular?
Como produzir com qualidade e fortalecer a identidade cultural de nosso povo para atingir uma população com a mente massificada por a cultura de consumo imediato (a pasteurização cultural)?
Como preparar pessoas competentes para trabalhar com cultura junto a crianças e jovens?
Como incluir mais jovens nas ações culturais com o apoio da sociedade?"
Extraido da Carta Cultural da Periferia, produto final do 1º Fórum Popular de Cultura realizado em 2005 e organizado por a Ação Cultural.
O que queremos atingir através do resultado do trabalho com Arte: " ( ...)
Queremos que nossas crianças saibam valorizar a nossa cultura, que elas tenham historia para contar, para que também não sejam futuramente jovens desregrados, e para que esses jovens não se tornem adultos sem criatividade e sejam vozes de protesto contra o que a mídia joga aos seus filhos.
danças que não constróem, não ensinam, nem os estimulam a pensar, não incentiva a sua criatividade.
Para que não se construam pessoas sem objetivos;
para que crianças que são concebidas não sejam rejeitadas desde o ventre, e para que vidas não mais se destruam. ( ...) "
Extraído do relatório do 2º Fórum de Politicas Públicas do Conjunto Jardim.
Tema: Arte e Cultura nos Rumos da Cidadania
Número de frases: 49
04 de agosto de 2003 -- Organizado por a Ação Cultural.
A Ateliê Coreografico Companhia de Dança representa a segunda etapa do projeto do Ateliê.
Para este desdobramento, selecionamos de entre os integrantes do projeto um grupo de onze bailarinos para formar uma companhia profissional de dança.
Em nossa escolha, procuramos identificar aqueles que possuíssem maior experiência, para poder se aprofundar numa pesquisa profunda e desfrutar de ensinamentos mais desafiantes, que tivessem apresentado maior facilidade para trabalhar em grupo, para conseguir suportar a convivência criativa intensa e crescer com os trabalhos diários, e os que pensamos estar mais preparados para vivenciar uma forma de trabalhar que filosoficamente se fundamenta no conceito de democracia participativa.
Este modelo político, que confere ao cidadão maior espaço para participar em decisões orientadas para desenvolver o bem comum, busca na diversidade e no debate uma política consensual com total respeito e inclusão daqueles cujas opiniões e aspirações raramente encontram eco nos sistemas mais tradicionais.
Essa forma de atuar nos trouxe questões, dificuldades, dores e desafios constantes, mas principalmente nos exercitou numa forma de fazer solidária, que implica em escutar a todos em busca de soluções comuns, ao mesmo tempo em que se atenta para não cair em situações de consultas fatigantes e debates improdutivos que pudessem ferir os objetivos comuns.
Acreditamos que assim, a experiência proporcionada na Ateliê Coreografico Companhia de Dança colabora na formação de bailarinos e coreógrafos mais aptos criativa e tecnicamente para atuar em outras companhias e mais conscientes enquanto cidadãos em atuação no pequeno conjunto social de uma companhia de dança.
Começamos as atividades da companhia perguntando:
o que significa uma companhia que não se identifica por o estilo de seu coreógrafo, mas que também não é uma companhia estatal, embora receba um aporte publico?
Nossa prática incluiu investigações sobre formas de criar colaborativamente e trabalhar simultaneamente em diversas linguagens.
Os estudos em Sistema Laban ajudaram a identificar o estilo de cada um, ao mesmo tempo em que davam suporte para que os bailarinos pudessem achar em si formas de atuar em outros estilos.
Procuramos também desenvolver o compromisso com questões que vão além das artísticas e individuais, para englobar, por exemplo, a questão da responsabilidade de cada um para com a integridade e produtividade do todo.
Assim, ao pensar qual deveria ser o espetáculo de estréia dessa nova companhia, desejei que ele refletisse essas indagações e nossa filosofia de trabalho.
Nos propusemos a criar um espetáculo que integrasse a criatividade coreográfica dos membros da companhia em diálogo com a assinatura cênica de seis coreógrafos distintos e com a intenção da encenação.
Nós, os «outros» é fruto da energia artística e social gerada por o aproveitamento das experiências e capacidades de todos.
Número de frases: 15
Sob sol forte e temperatura de uns 30º C, um homem-estátua, prateado da cabeça aos pés, interrompeu sua performance diária para os pedestres de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Caixa de moedas nos braços, ele assumiu seu lugar na platéia informal, que se concentrava, principalmente, à sombra dos coqueiros plantados de um só lado de uma praça pública.
Em o conforto de um shopping com ar condicionado, sobre os ombros do pai, a pequena Láiza, de 2 anos, tinha os olhos fixos na direção de um palco erguido na praça de eventos.
Assim como ela, dezenas de pessoas nos corredores laterais do espaço, nas escadas rolantes, na porta das lojas, apoiadas nas grades dos pisos superiores e no elevador prestavam atenção à movimentação nada rotineira.
Tanto na Praça Rui Barbosa como no TopShopping, o que atraiu os olhares de crianças, adolescentes em uniforme escolar, donas de casa, aposentados, ambulantes, trabalhadores em horário de expediente ou de almoço e muitos transeuntes mais foi o 14º Festival de Dança de Nova Iguaçu.
Produzido por a bailarina, coreógrafa, produtora cultural e empresária Tereza Petsold, em parceria com a prefeitura local, o festival ocorreu de 22 a 26 de agosto e, como já virou tradição, levou a arte da dança a palcos alternativos, além dos teatros do Sesc de Nova Iguaçu e do Espaço Cultural Sylvio Monteiro.
As performances de grupos de dança de rua, de jazz, de dança contemporânea, de afro, entre outros, encantaram o público, que, em sua maioria, raramente tem a oportunidade de assistir a esses espetáculos.
A programação limitou as apresentações na Praça Rui Barbosa a dois dias e a um horário ingrato:
meio-dia. Em o dia 24, as atrações foram os grupos Arcanjos (dança de rua), Unisuam e Akoni.
Grupo feminino de percussão e dança do Grupo Cultural AfroReggae, o Akoni se apresentou com 11 de suas 18 «mulheres fortes e guerreiras» (significado do seu nome), numa coreografia que incluiu cantos afros e jongos.
Em um intervalo, entre uma exibição e outra, o homem-estátua sumiu da platéia e reapareceu no palco.
A o som de hip hop, ele exibiu um break não muito convincente, mas que agradou o DJ -- que fez ouvidos moucos a uma provável organizadora do evento, que pedia que ele desligasse o som e interrompesse a cena inusitada.
A o final, debaixo de aplausos incentivados por o DJ camarada, ele ainda distribuiu pirulitos às crianças, antes de recolher sua caixa de moedas e, feliz, voltar a sua rotina, sumindo em meio aos pedestres.
Em o dia 25, o homem-estátua não apareceu e perdeu, entre outros, o show do grupo Adrenalina, do Projeto Dança de Rua, da Prefeitura de Santos, em São Paulo.
O grupo participou intensamente do festival, do qual já participara em outras edições:
subiu ao palco do TopShopping, da Rui Barbosa, do Sesc -- na mostra competitiva -- e esteve à frente de uma oficina de house e free style para bailarinos.
Os organizadores do festival estimaram em mil pessoas a platéia na Rui Barbosa.
Um público pequeno se lembrarmos que a praça fica situada no início de um calçadão movimentadíssimo e que a cidade tem quase 845 mil habitantes.
Em a minha opinião, o público reduzido não é sinônimo de desinteresse por espetáculos de dança, mas da falta de uma maior divulgação.
Confesso que, moradora de longa data de Nova Iguaçu, nunca havia prestigiado o festival -- até porque não lembro de ter ouvido falar de ele antes de sair à cata de movimentos culturais para divulgar, recentemente, no Overmundo. (
E me animei a assistir a algumas apresentações por causa do Adroaldo Bauer, que num comentário à nota postada por mim em Agenda, pediu-me para aplaudir o festival por ele e publicar minhas impressões sobre o evento aqui.)
Em o shopping, que tem uma circulação estimada de cerca de 24 mil pessoas por dia, a platéia foi maior.
O que já era previsto, afinal o festival ocupou aquele palco nos seus cinco dias e com mais grupos.
A grande sensação no dia em que lá estive foi uma jovem bailarina de 15 anos desconhecida do grande público e moradora de Nova Iguaçu mesmo.
Integrante do Studio de Dança Simone Rocha, Thaís Carla despertou o preconceito de boa parte do público ao subir ao palco no dia 24.
«Caraca, olha que mulher gorda», comentou de imediato uma adolescente que assistia ao festival, ao lado de amigas, e perto de mim e da jovem Andréia de Castro, no segundo piso do shopping.
Para ser honesta, sua presença no palco também me causou estranheza.
Thaís tem 1,68m e uns 90k.
Em o dueto com uma jovem bailarina mais alta e magra (que depois descobri ser sua irmã), ela chamava mais ainda a atenção.
Mas bastaram alguns segundos, e Thaís mostrou a que veio:
deu um verdadeiro show.
«Caraca, como a gordinha dança!»,
ouvi, pouco depois, da mesma adolescente.
Andréia, uma estudante de 26 anos, do tipo mignon, apaixonada por dança de salão e que praticou balé por seis anos, não resistiu e comentou com mim, mostrando toda sua indignação com o primeiro comentário:
«Pra dançar não tem essa de ser gordo ou magro, feio ou bonito.
Tem de ter jeito e talento».
A o final do dueto, o público, que até então se mostrara econômico nos aplausos, irrompeu em assovios e gritos de incentivo às bailarinas.
Thaís brilhou.
Ela ainda retornou ao palco umas duas ou três vezes (não sei ao certo porque, entre um intervalo e outro, tentava fotografar e observar a platéia).
Em todas, causou comoção -- nas coreografias de street dance, livre e jazz.
Por sua vez, Láiza, a menininha de 2 anos, deu um show à parte.
Desceu dos ombros do pai, passou por baixo do cordão de isolamento para a platéia vip -- onde ficavam os bailarinos e seus pais corujas -- e por pouco não subiu ao palco.
Dançou, bateu palmas, correu, rodou, caiu e vibrou com os bailarinos.
Diante da empolgação da filha, Rutemberg Borges e Nanci da Silva, grávida de sete meses, decidiram adiar a volta para a casa depois das compras.
E ficaram até o final da apresentação dos grupos.
«Acho que vou ter de procurar uma academia para a ela dançar», disse Rutemberg.
Em o final da apresentação, olhei em volta e cadê a Thaís?
Não acreditei que tivesse perdido a estrela do festival.
Mas eis que a reencontrei num quiosque de sorvete, acompanhada por um amigo bailarino.
Cumprimentei-a e ela, de cara, abriu o sorriso, que mostrou ser sua marca registrada até mesmo quando sua sobre o palco.
Thaís dança desde os 4 anos e não se surpreende mais com a reação preconceituosa do público.
«Eu nem ligo.
Em o final das apresentações, o pessoal sempre vem falar isso.
O mal das pessoas é duvidar da capacidade que cada um tem», disse tranqüila, acrescentando que no colégio é conhecida como «a gordinha sexy que dança».
«Quando a Thaís sobe no palco, não tem pra mais ninguém.
Ela é a estrela», resumiu o amigo, que eu, encantada com o carisma da garota, esqueci de anotar o nome.
Com 68 grupos profissionais ou amadores inscritos, num total de 2.200 bailarinos, vindos inclusive de Minas Gerais e São Paulo, e a participação especialíssima de profissionais como Carlinhos de Jesus e o americano Richard Cragun -- estrela do Ballet de Stuttgart durante anos e um dos diretores da companhia DeAnima Ballet Contemporâneo, o 14º Festival de Dança de Nova Iguaçu foi um sucesso.
E, para mim, o homem-estátua, Láiza e Thaís estiveram entre os grandes destaques do evento.
Número de frases: 58
Com suas performances, eles representaram a dança como uma arte verdadeiramente popular -- e digna de todos os aplausos.
O ano é 1974.
O grupo Afro-Sul, formado por músicos que tocam instrumentos africanos, participa de um festival escolar em Porto Alegre.
São incluídos no elenco alguns bailarinos e o grupo passa a fazer apresentações de dança e música afro-brasileira.
Ainda hoje aqueles artistas e um sem número de outros formados na tradição afro-brasileira preservada por o Instituto Cultural Afro-Sul trabalham em espetáculos por todo Brasil e exterior.
Em 1998, O Afro-Sul assume a direção da Escola de Samba Garotos da Orgia e ganha vários títulos e troféus no Carnaval de Porto Alegre.
Desde lá desenvolve também intenso e dedicado trabalho social a partir do eixo preservação e divulgação da cultura negra.
Os Garotos da Orgia são transformados de escola de samba em Bloco Afro Odomodê.
Como aquelas bonequinhas russas que saem umas de dentro das outras, O Afro-Sul gera um sem número de atividades para promover e divulgar a cultura negra no estado do Rio Grande do Sul, no Brasil e no exterior, seus objetivos, através de Música, Dança, Culinária, Vestuário, suas secções de atuação.
O Afro-Sul é uma escola popular de formação artística que age para estimular o pensamento crítico e a auto-estima de afro-descendentes e interessados em cultura afro.
Também propicia a crianças e jovens em situação de rua e de comunidades pobres o convívio para a aprendizagem e a prática da cultura afro-brasileira como se manifesta entre os gaúchos.
O intenso trabalho artístico do Afro-Sul se desenvolve em Porto Alegre e também é levado a do interior do Rio Grande do Sul, já tendo também se apresentado em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador e ultrapassado as fronteiras do Brasil, indo a Argentina e Uruguai.
Incontável quantidade de músicos e dançarinos de alto nível, alguns hoje de popularidade nacional e internacional iniciaram primeiros passos, acordes e batidas com o Afro-Sul.
Enquanto grupo de dança, desenvolve repertório que viaja por a «diáspora Africana» -- ritmos africanos, blues, funk, salsa, reggae, candomblé, afoxé, samba, porongada, levadas afro-gaúchas, congadas ou moçambique.
E também fusões com da música erudita com os ritmos afros.
O Afro-Sul é dos grupos negros mais representativos do Rio Grande do Sul, Razão por a qual, a convite, vem participando de diversos eventos nacionais e internacionais.
Um de eles o «Encontro Internacional de Danças e Religiões Afro, em Cuba, em agosto de 1998».
E do I Festival de Cultura das Três Fronteiras, na Argentina, em 2003.
Em 2004 recebe o Prêmio Açoriano de Dança, maior destaque do segmento em Porto Alegre.
1991
«Alma Negra», no Auditório da Assembléia Legislativa -- Alegre
1993 " Música e Dança:
Linguagem Universal», no Auditório Araújo Vianna -- Alegre
1994 Destaque do jornal do CECUNE (Centro Ecumênico de Cultura Negra), em reportagem que destaca a grife Afro-Sul por a originalidade africana em peças de vestuário masculino e feminino.
1995
«Malandro dono da noite, rei dos cabarés "
1998 «Festa para um Rei Negro» -- coreografia de dança para o filme " Afro! A magia de uma dança ";
Em agosto -- O Grupo Afro-Sul de música e dança participa do «Encontro Internacional de Danças e Religiões Afro», em Cuba.
1999
Desfile de lançamento da coleção primavera-verão da Grife Afro-Sul.
2000
Exposição «25 Anos» Afro-Sul " no Hall de Entrada do Teatro Bruno Kieffer, da Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre.
2002
«Resistência» no Teatro Renascença -- Alegre.
2003
Espetáculo «Resistência» no I Festival de Cultura das Três Fronteiras -- Argentina.
2004
Prêmio Especial Açorianos de Dança.
Em 20 de novembro de 2000, nasce o Instituto Cultural Afro-Sul / Odomodê, com a missão de preservar, pesquisar e divulgar as culturas afro-brasileira e afro-gaúcha e prestar serviço social como uma organização não governamental.
O foco central da ação cultural dos grupos geradores do Instituto e mantidos agora por ele são menores e jovens de rua e comunidades carentes, que têm na a oportunidade de aprender e praticar a cultura afro-brasileira com o trabalho social do Afro-Sul.
Em a área musical, são oficinas, cursos e aulas de percussão, além de exibições artísticas da cultura afro-brasileira em espetáculos públicos.
Além da dança afro e de preservar a Capoeira em oficinas permanentes, Afro-Sul e Odomodê abrigaram os elementos da cultura de rua do hip-hop e desenvolvem também a formação no Rap e no Break.
O Bloco Afro Odomodê participa do desfile de quase todas as escolas de samba de Porto Alegre, em alas constituídas especialmente para cada tema de enredo, chegando a realizar até 30 apresentações distintas -- aguardadas com expectativa por o público do Carnaval porto-alegrense.
O Instituto Cultural Afro-Sul / Odomodê atua em projetos de Ação e Inclusão Social, trabalhando a cultura negra com jovens e crianças de rua e comunidades carentes.
Transformada, a antiga quadra da Escola de Samba Garotos da Orgia, é hoje um centro popular de cultura e ação social em que ainda são desenvolvidos dois projetos do Ministério da Cultura:
o da Escola Cultural Artística e o Ponto de Cultura, que atendem crianças, adolescentes e jovens adultos de três a 24 anos, vulneráveis socialmente na Capital.
Instituto Cultural Afro-Sul / Odomodê
Av.. Ipiranga 3850, jardim Botânico.
Porto Alegre / Rio Grande do Sul.
Brasil
CEP 90.610-000
Número de frases: 51
(51) 3384-3576 " \> afrosul@portoweb.com.br Acidental feito pedra no caminho
Romancista estreante e contista premiado, como leitor ele se define atípico e como escritor de ficção científica diz que o gênero surgiu em sua vida feito uma topada numa pedra.
O primeiro romance de ele, Síndrome de Cérbero -- no qual um homem de meia idade viaja 40 anos ao passado para tentar salvar o idolatrado pai de ser assassinado -- é uma amostra de seus objetivos literários:
um autor que pretende utilizar ferramentas do gênero para tratar das angústias humanas, dos dilemas do indivíduo.
Em a entrevista a seguir, o paulistano comenta os motivos para ter situado o livro num cenário estrangeiro, descreve um pouco do método quase mediúnico de escrita e aproveita a experiência como publicitário para analisar as estratégias possíveis para se popularizar a FC no Brasil.
Com vocês, o sobrinho-neto do escritor e dramaturgo húngaro Zsigmond Moricz (1879-1942), Tibor Moricz.
Você lançou seu primeiro livro com praticamente a mesma idade do protagonista da obra, às vésperas de completar 50 anos.
Mas, nos textos de apresentação de Síndrome de Cérbero, é dito que você escreve desde a adolescência.
Há muitos outros textos seus, quer sejam ou não de ficção científica ou de literatura fantástica em geral, já elaborados e aguardando publicação?
Devo ter escrito ao longo da minha vida centenas de contos.
Todos eles perdidos nas mudanças que realizei ou devorados por as baratas.
Tenho dois romances prontos.
Mas a editora cometeu um exagero quando disse que eles estavam no prelo.
Em a verdade não tenho nenhuma intenção de publicá-los.
Um de eles é uma fantasia medieval que cheguei a reescrever quatro vezes procurando aprimorá-lo;
o outro, um livro de aventura e sobrenatural que, embora seja relativamente bom, está longe de me agradar inteiramente.
E quando não me sinto seguro com algum escrito, não o torno público.
Jamais. Há um terceiro, mas este foi escrito recentemente, tem o título de Fome e se encontra nas mãos de alguns editores conhecidos.
Acredito muito na sua publicação.
O conto que abre o livro está disponível na internet e já foi lido por muitos.
Chama-se «O caçador».
Depois de tanto tempo escrevendo antes de se lançar às livrarias, por que você escolheu a FC como tema do romance de estréia?
De onde veio seu interesse por o gênero e que autores você costuma ler e lhe servem de referência?
Uma vez eu disse que a FC aconteceu na minha vida da mesma maneira que uma pedra acontece na vida de algum passante distraído.
Foi uma topada acidental.
Ocorreu de elaborar uma história cuja temática central era de viagem no tempo.
Resisti muito a aceitá-lo como ficção científica porque meu objetivo era -- e sempre será -- o homem.
O indivíduo.
Suas incertezas, seus medos, suas imperfeições.
Utilizei a poderosa máquina de Barnard Caldwell apenas para dar uma base segura ao argumento principal que era o amor de um filho por o pai.
Com o passar do tempo fui me ajeitando dentro desse novo contexto e comecei a aceitar o fato de ter escrito uma obra de ficção científica.
Justamente por ter sido um evento acidental não posso dizer que fui influenciado por esse ou aquele autor do gênero.
Sou um leitor diferente.
Em muitos aspectos, atípico.
Desde a pré-adolesc ência venho lendo quase tudo o que me cai nas mãos.
Muito mais literatura mainstream que de gênero, embora tenha lido Isaac Asimov, Arthur Clarke, Ray Bradbury, Robert Silverberg e outros.
Considero-me atípico porque não lembro os livros que li, a não ser uma meia dúzia que por essa ou aquela razão me marcaram.
Em esses, incluo Sexus, Nexus e Plexus de Arthur Miller, A insustentável leveza do ser de Milan Kundera, Complexo de Portnoy de Philip Roth, Fome de Knut Hamsun, Os sete minutos de Irving Wallace e outros mais recentes que ainda não foram removidos para o arquivo morto da minha memória (rsrs).
Minha maior influência veio mesmo da TV e do cinema.
Fui um entusiasta de Perdidos no espaço, Jornada nas estrelas, Túnel do tempo, Viagem ao fundo do mar, Star wars e quaisquer outros filmes ou séries nessa temática.
Assim, posso dizer que minhas referências literárias vêm de uma imensa sopa de impressões obtidas com a leitura de livros dos mais diversos gêneros, a esmagadora maioria completamente esquecida por mim atualmente.
Foi feita muita pesquisa para compor a trama de Síndrome de Cérbero, tanto nos aspectos técnicos da viagem no tempo, envolvendo algumas teorias de física; quanto
na construção psicológica do personagem principal, Leonard Cameron;
ou ainda no cenário do livro, que se passa inteiramente em cidades de porte médio dos Eua?
Média.
A construção psicológica do personagem não exigiu pesquisa nenhuma.
Saiu tudo da minha cabeça.
Os detalhes técnicos sobre a viagem no tempo mereceram uma pesquisa básica já que não mergulhei de cabeça no aspecto hard da ciência.
Quanto ao cenário, tive que pesquisar o cotidiano e a geografia dos Eua, mas nada muito exaustivo.
Por falar na ambientação do livro, por que você optou por criar uma história que não tenha nenhum elemento, ou mesmo citação, ao Brasil ou à terra natal de seus pais, a Hungria?
Em relação ao primeiro caso, foi para fugir do mito do Capitão Barbosa, como é apelidado o temor de que soe ridículo o uso de personagens e de temáticas brasileiras num enredo de ficção científica?
Em a ocasião eu não conhecia o mito do Capitão Barbosa, embora tivesse sido exatamente por isso que resolvi ambientar a história do livro num país estrangeiro.
Não conseguia (nem consigo agora) imaginar um cientista chamado Benedito ou um «da Silva».
O cenário brasileiro contemporâneo me remete a outros argumentos ficcionais, todos eles realistas e mais condizentes com a literatura mainstream.
Pobreza, crime e corrupção (vividas tão de perto e intensamente) são referências desestimulantes para quem quer escrever uma boa história de FC.
Pelo menos pra mim.
Sua escolha por utilizar personagens e cenários americanos provocou alguma reação perceptível entre os leitores?
Houve alguma crítica positiva ou negativa por ter feito tal opção?
Poucas reações.
O Fábio Fernandes comentou que perdi uma excelente oportunidade em ambientá-lo no Brasil do golpe militar.
Li alguns comentários sobre o fato em algumas comunidades do Orkut.
Alguns puristas reclamando da «imbecilidade» de um brasileiro ambientar sua história em outro lugar, num país estrangeiro, como se isso fosse um crime de lesa-pátria.
Tudo bobagem.
Mas as reações negativas foram realmente pequenas.
Graças a Deus os elogios suplantam em muito as críticas.
Síndrome de Cérbero pretende ter alguma forma de continuação, seja na forma de uma seqüência da história, seja com uma adaptação para outra mídia, ou você já explorou tudo o que tinha a dizer sobre aqueles personagens?
Em a minha cabeça não há a menor chance de escrever uma continuação para Síndrome de Cérbero.
Quanto a adaptações para outras mídias, acho-as pertinentes.
Mas nem sei como poderia fazer isso.
Gosto de pensar que o livro renderia um bom filme, mas sei que isso é fantasia e estamos falando de ficção científica (rsrs).
Seu livro foi publicado por uma empresa que é conhecida por o lançamento de títulos ligados ao espiritismo -- JR Editora -- que nunca mostrou interesse anterior por a ficção especulativa.
Como foram os bastidores dessa negociação e há possibilidade da editora voltar a lançar outras obras do gênero, de suas ou de outros autores?
As coisas com a JR Editora aconteceram de forma completamente inusual.
Estava batalhando uma editora há dois anos sem nenhum resultado positivo.
Um amigo, escritor do gênero de auto-ajuda, me convidou para uma noite de autógrafos numa livraria Siciliano próxima de casa.
Fui. Lá conheci o editor, para quem enderecei todas as minhas reclamações quanto à capa abominável do livro que se homenageava naquela noite.
Propuseram-me então que apresentasse uma capa melhor, que desenvolvesse um projeto.
Aceitei com a condição de que o editor me auxiliasse na procura de uma outra editora para Síndrome, já que ele estava fora da linha editorial da JR.
Condição aceita, iniciei o trabalho a que me propus.
Duas semanas depois, numa reunião onde apresentei as opções de capa, entreguei ao editor o original de Síndrome de Cérbero.
Ele leu a sinopse e declarou interesse em publicá-lo.
Coisa que acabou acontecendo um ano e meio depois.
Tive muita sorte, na verdade.
Quanto a possibilidade da JR Editora vir a publicar outras obras do gênero, desconheço.
Mas acho que nada impede um bom argumento de ser aceito.
Apesar de se lançar como escritor já com um romance, você tem sido premiado por textos mais curtos que também tratam de temas de FC.
Foi assim com «Ordem Crepuscular» e com «Filamentos iridescentes», respectivamente vencedores dos prêmios Ignácio de Loyola Brandão, no XI Concurso de Contos de Araraquara, e Braulio Tavares, numa competição promovida no Orkut que em breve deverá dar origem a uma coletânea.
Qual a importância desse tipo de incentivo para um autor iniciante?
Acho que para chegar ao ponto de um autor iniciante ser premiado num concurso de contos qualquer que se pretenda sério, é necessário que ele já tenha queimado uma série de etapas anteriores.
Ter escrito bastante para evoluir tecnicamente, poder dizer que desenvolveu um estilo próprio.
Ter sublimado aquilo a que chamamos de talento (desde que ele exista nessa pessoa) e tê-lo transformado em ferramenta constante e não apenas efêmera e ocasional.
Depois de tudo isso, um prêmio num concurso de contos é apenas a ratificação de um trabalho árduo.
O verdadeiro incentivo não está nos prêmios nem nos concursos.
Ele está à nossa volta.
Em nós mesmos.
Em aquilo em que acreditamos.
Em aquilo que queremos para nós e para as pessoas que amamos.
Há alguma diferença marcante entre seu processo de elaboração de um romance e o de um conto?
Poderia descrever como é sua preparação no momento em que resolve criar alguma história?
Meu processo criativo é, de certa forma, entrópico.
Não há, na maioria das vezes, uma elaboração antecipada.
Quanto muito uma idéia básica.
Eu me sento para escrever e deixo o texto fluir.
É quase mediúnico.
Síndrome de Cérbero recebeu de mim uma atenção rasteira quanto à linha geral de raciocínio que nortearia o trabalho.
Resolvi o nome dos personagens, decidi que o filho tentaria salvar o pai sucessivas vezes de um assassinato e o resto foi acontecendo na medida em que escrevia.
Eu era um escritor / leitor privilegiado.
Conto ou romance, ambos sofrem o mesmo processo.
Posso sentar, respirar fundo diante do editor de texto e começar a batucar o teclado.
Colocar palavras a esmo, deixar que elas se sucedam e formem linhas, orações, páginas inteiras.
Em 90 % das vezes fico satisfeito com o trabalho.
Ultimamente tenho permitido que a inspiração me atinja, em vez de simplesmente sentar e escrever.
Deixo a mente aberta até que uma idéia surja e brilhe.
Devo ter um anjo da guarda literato que me sopra as idéias, talvez até um anjo familiar já que meu tio-avô Zsigmond Moricz foi um dos escritores mais importantes da Hungria no século passado (rsrs).
Aproveitando da sua experiência profissional como publicitário, você poderia sugerir alguma estratégia para popularizar a ficção científica entre o público brasileiro?
O que está faltando para atingir maiores mercados consumidores para o gênero?
Essa questão me lembra um cachorro correndo atrás do próprio rabo.
Ou a cobra Ouroboros.
Não há jornalismo literário especializado no país, o que dizer então em relação à literatura de gênero.
Por outro lado, não temos um gênero especializado no país, que dirá um jornalismo que o respeite.
O que quero dizer é que faltam obras verdadeiramente respeitáveis, que chamem a atenção por a inequívoca qualidade.
Trabalhos que, por a virtude técnica, poderiam lutar ombro a ombro com a literatura mainstream.
Trabalhos que valorizem não apenas uma boa idéia, mas também o poder narrativo.
Indo direto ao ponto, precisamos primeiro produzir obras de inegável qualidade para depois reclamar a falta de atenção da mídia.
Claro que campanhas publicitárias ajudariam, mas qual editora investiria num autor brasileiro de futuro ignorado?
Já é uma luta conseguir uma que aceite nos publicar, convencê-las a nos bancar publicitariamente é quase uma alucinação.
Não resta alternativa senão usar e abusar dos recursos que a internet nos fornece.
Divulgar nossos trabalhos e nomes em blogs, comunidades, sites diversos, explorar ferramentas como o Youtube.
E contar com a sorte.
Ela às vezes dá as caras.
Temos que estar atentos para agarrá-la nessa hora.
Este texto encerra um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretendeu traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
O livro Síndrome de Cérbero foi resenhado no Overblog:
Número de frases: 133
http://www.overmundo.com.br/overblog/complexo-de-chronos O projeto da pós-modernidade nos trouxe, por algum tempo, a ilusão de que as narrativas individuais dariam conta de expressar o indizível de uma linguagem aprisionada em metanarrativas.
A o abrimos mão de um ser fundado na representação de uma linguagem nomeadora acabamos por desatar nossas expressões em fragmentos que nos colocam em desamparo ao invés de nos conduzir ao encontro de uma linguagem poética que poderia servir de ponte para os indizíveis dessa linguagem.
Para Benjamin (1985), o homem moderno estaria perdendo a sua capacidade narrativa onde as trocas sensíveis estariam sendo substituídas por vivencias individuais, o que me leva a crer que ao compartilharmos nossas narrativas poderíamos promover experiências coletivas que não nos restringiria a uma linguagem fundante de representações, mas à possibilidade de infinitas alternativas de ser e estar no mundo coletivamente.
Essas reflexões me levam a uma perspectiva teórico-metodológica que se fundamenta na linguagem tomando-a tanto como foco do problema como instrumento de análise deste.
-- Professora o que uma mulher chique, loira e ainda por cima de olhos azuis quer com a gente da favela?
Por que foi se interessar logo por gente como a gente? (
K. estudante de Letras da UFRJ)
Senti na fala dessa aluna, uma possível resposta para minha própria dificuldade em delimitar o problema de minha pesquisa.
Sabia que ali havia algo, uma ponte de interlocução naquilo que ali estava dito, mas que não conseguia visualizar.
Mas, foi lendo um artigo sobre os «Funks Proibidões de Soares (2006)» que algo se revelou ...
» ... Ao invés de nós e eles, do maniqueísmo entre bem e mal, radicalmente separados, emerge um quadro diferente:
eles e nós reunidos, expressões diferentes, mas próximas de uma só humanidade, com suas fraquezas, vaidades, ambições, medos e angústias. [ ...]
O canto triste, cheio de ressentimento, ameaçador, rouco, desafinado e desatinado das vozes jovens que os CDs carregam e balbuciam num português ruim, esse canto ecoa outros cantos e entoam um coro de almas despedaçadas, impotentes e sem esperança.
Há um pedaço de cada um de nós naquelas letras repletas de sangue e desespero, como no inferno de Dante ou nas imagens de Hieronymus Bosch.
As descrições horripilantes de esquartejamentos são expressões de nosso esquartejamento pessoal e social, por isso doem tanto quando as escutamos.
São nossas divisões internas e as divisões de nossa sociedade que ali encontram um retrato catártico e agressivamente feio.
As vozes gravadas nos CD encarnam e encenam o inferno de nossa guerra cotidiana.
Os meninos que grunhem e gritam, esganiçados, representam os pedaços de nossa sociedade que ardem no fogo desse inferno, enquanto nós, os bons, aquecemos o narcisismo na fogueira das vaidades.
Entretanto, estamos partidos.
Partes de nós choram, enquanto outras partes de nós se iludem, tomam Lexotan, bebem e celebram pequenas vitórias nas competições diárias.
Infernal é depararmo-nos com o real, esse mundo real que é o Brasil, País tão vergonhosamente cínico, hipócrita, injusto e desigual."
Não sei se encontrar afinidades com esse texto me trouxe alento ou mais angústia, mas contribuiu para que entendesse o porquê de meu desejo de estar ali.
Junto. Tentando compreender as visões de mundo expressas por jovens estudantes oriundos das classes populares através de suas expressões;
voltar meu olhar para uma estética que não se reduz às formas estetizantes, mas procura despertar sentidos diante das indiferenças.
Sentidos que atendam a uma ética que consiste em dar realce à pronuncia do outro;
ouvir a polifonia presente nos discursos para romper com fluxos de exclusão, considerando o outro enquanto outro, num movimento onde a pluralidade seja instrumento de criação em detrimento dos postulados de desigualdades.
Estabelecer relações entre o dizível e o indizível que possibilita " resgatar o sentido comum ( ...)
resgatar esse viver cotidiano como espaço de produção de conhecimento e como espaço de produção e troca de sensibilidade». (
MARTIN BARBERO, 2002:60).
Em essa direção, tomo como ponto de partida refletir sobre as múltiplas linguagens expressas por jovens, num percurso que se aproxima de Deleuze quando este problematiza a complexidade das relações implicadas na linguagem apontando que muitos autores ao reconhecer três dimensões clássicas da proposição:
a designação, a manifestação e a significação acabam por desconsiderar essas dimensões entre si, formando um círculo fechado que daria conta de explicar as relações lógicas da linguagem, mas não seu princípio de organização o que possivelmente explicaria os efeitos incorporais de superfície (os acontecimentos). (
DELEUZE, 2000).
Assim, este trabalho compreende que a linguagem se encontra na multiplicidade dos gêneros do discurso, na diversidade de «estilos de linguagem» que expõem aspectos de experiências singulares e coletivas, acontecimentos que devem ser fontes imprescindíveis da analise compreendendo-a como espaço estético de criação cultural.
E é nas vozes de jovens oriundos de classes populares, que busco reconhecer ações instituintes que indiquem a possibilidade de rupturas com produções redutoras impostas por «lógicas hegemônicas», camufladas numa fragmentação que reafirma uma ordem esquizóide que parte, reparte,» esquarteja os sujeitos pessoal e socialmente " levando-os a perder o sentido de suas vidas.
Creio no poder dessas linguagens abrirem a possibilidade de vieses que destaquem a inesgotabilidade das produções poéticas presentes nas práticas culturais coletivas de nossos jovens, identificando nessas expressões, argumentos que tenham o poder de se contrapor às linguagens de um poder que, ao se tornar liquefeito produziu -- «um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível -- trazendo com si uma misteriosa fragilidade dos laços humanos» (BAUMAN, 2003)
Apóio-me numa linguagem que se constitui em sistemas simbólicos oriundos dos diversos grupos humanos fornecendo os conceitos, as formas de organização do real, mas também objeto de criação, fruto da mediação entre o sujeito e o objeto do conhecimento.
Por meio de ela se criam espaços de negociações no qual seus membros estão em constante processo de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e significações culturalmente transmitidas.
Com essas considerações espero ter definido o que entendo por múltiplas linguagens de jovens oriundos das classes populares, ou seja, não só as formas como representam o universo de significações que lhes é dado, mas também, como espaço de criação, que se dá a partir de mediações entre os sujeitos históricos e suas inter-relações com a vida.
Acredito que uma escuta atenta das linguagens que expressam práticas culturais desses jovens, pode contribuir para o delineamento de práticas educacionais mais próximas dos sujeitos, assegurando-lhes efetivamente seus espaços e, portanto o lugar de cidadãos em nossa sociedade, construindo espaços de relações mais coletivas.
Mesmo diante da existência de inúmeras pesquisas sobre a importância das culturas ou subculturas juvenis e do papel que esses grupos desempenham na transição da adolescência para a vida adulta, na construção da identidade étnica e de gênero desses sujeitos, constato que os estudos sobre essas práticas culturais, ainda não são suficientes para compreendermos a imensa rede de significados, formas de apropriação e re-elabora ção dos produtos culturais existentes nos distintos contextos sociais já que estamos diante de um universo de produção, consumo e incorporação de diversas manifestações culturais.
Essas manifestações se dão no campo estético seja através de movimentos musicais, corporais, comportamentais, sexuais, etc. e são perpassados, também, por práticas de consumo.
Creio que escutas e olhares atentos para esses estilos de vida podem oferecer contribuições para percebermos as disputas travadas nos processos de negociação das contradições existentes nas culturas hegemônicas revelando resistências ou adesões aos papéis tradicionais atribuídos aos lugares determinados para os sujeitos em nossas sociedades.
Desta forma a juventude passaria a ser compreendida como um devir permeado por experiências que deixam expostas suas marcas não só em seus corpos, mas constroem novas referências socioculturais.
Estas reflexões nos levam à desconstrução de atitudes elitistas que rejeitam os principais meios de comunicação e produção que se constituem no campo das culturas populares juvenis e que, muitas vezes, têm sido olhados e escutados apenas como espaços de estilos e modismos inconsistentes, subculturas.
Proponho aqui, que estas questões promovam um novo olhar que direcione seu foco para as apropriações desses jovens em suas experiências e visões de mundo.
Opto por a linguagem que se permite linguajar por múltiplas línguas.
Línguas que, se contrapondo ao endeusamento do símbolo, se perguntam sobre a demonização de um outro que se torna estranho justamente por apontar a contradição da diferença que está em nós, mas negamos reconhecer. (
CORAZZA, 2001)
Em essa perspectiva, tento priorizar minhas escutas para vozes consideradas passivas, dando realce para sua semântica que pretende «significar o silêncio e dar voz aos que são outro» (CORAZZA, 2001).
Caminho com Martin-Barbero quando, ao se referir a recepção diz que não podemos estudá-la sem analisar os processos de exclusão cultural, ressaltando os modos de deslegitimação e desqualificação do gosto popular.
Para o autor o que agrada aos receptores populares é considerado algo de mau-gosto e deslegitimado.
Corazza (2001), ao resenhar Larrosa e Skliar (2001), nos fala dessas práticas " compostas por sujeitos dispersos, exilados da Ontologia, que não vivem numa cidade nem numa só língua, e agem como signos para nomear os outros.
Comunidade dos que povoam a Terra:
Habitantes de Babel."
Apontando para a importância de estarmos atentos a esses movimentos que nos impedem perceber micro-físicas de poder e resistências.
Com este artigo proponho que tentemos captar, nas vozes de jovens de classes populares, sentidos que continuam obscuros para a escola e que, acredito, podem ser desvelados por suas aproximações e identificações com as linguagens expressas por as culturas jovens, compreendeendendo que sentidos essas mediações podem produzir tanto em relação à vida de um modo geral, como em relação a seus processos educativos especificamente.
Acredito encontrar nessas vozes caminhos que revelem que esses jovens não estão tão submissos à lógica de um sistema capitalista excludente, mas constroem formas criadoras de se rebelar e se oporem ao que «Já É!»,
optando " por falar com a vida em vez de deixar que ela lhes diga:
«qual a paz que não querem conservar para tentarem ser felizes ..."
Por essa via tento estabelecer uma crítica às relações de produção de saber na educação que, muitas vezes, impossibilitam a visibilidade de uma autonomia de seus usuários, em suas produções culturais.
Sob estes encaminhamentos me pergunto:
que mediações estariam ensejando determinadas culturas jovens como forma de expressão cultural coletiva mais ampliada?
Que sentidos essas expressões culturais tomam na relação com espaços educativos?
Penso que ao desvelarmos, através das vozes de seus atores, aspectos significativos das linguagens expressas por algumas culturas jovens podemos contribuir para o delineamento de políticas educacionais mais comprometidas com os interesses dos jovens, além de ampliar o campo de conhecimento e pesquisa sobre práticas culturais de jovens e principalmente, poder afirmar que:
«nem tudo está dominado!"
Referências Bibliográficas
BAKHTIN, Mikail.
A estética da criação verbal.
São Paulo, Martins Fontes, 2000.
BARBERO, Jesús Martín.
América Latina e os anos recentes:
o estudo da recepção em comunicação social, p. 39.
In: Sousa, Mauro Wilton (org).
Sujeito, o lado oculto do receptor, 2ª reimpressão, São Paulo, Brasiliense, 2002.
BAULMAN, Zygmunt, Modernidade Líquida, Jorge Zahar Editor, RJ, 2003.
BENJAMIN, Walter.
Obras Escolhidas I -- Mágia e técnica, arte e política.
São Paulo, Brasiliense, 1985.
CORAZZA, Sandra Mara.
Resenha do Livro: Larrosa, Jorge & Skliar, Carlos (orgs.). (
2001). Habitantes de Babel:
políticas e poéticas da diferença.
Belo Horizonte: Autêntica.
Capturado em:
http://edrev.asu.edu/readrev.html acesso em 12/08/2006
DELEUZE, G. Conversações.
Janeiro: Editora 34, 2000.
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4ª ed., São Paulo:
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GAGNEBIN, J. M, História e Narração em W. Benjamin São Paulo, FAPESP, 1994.
, Walter Benjamin, os cacos da história.
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KEHL, Maria Rita (org.).
Função fraterna.
Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2002.
MURICY, K., Tradição e Barbárie em Walter Benjamin.
Revista Gávea, Janeiro, nº.
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SKLIAR, Carlos.
Otherness and pedagogy:
or ... What if there were no other?
Educ. Soc., ago.
2002, vol. 23, no. 79, p. 85-123.
ISSN 0101-7330.
Soares, Luiz Eduardo.
Uma viagem ao inferno.
Palestra proferida na PUC (Pontifícia Universidade Católica -- RS.,
em: 10/12/2001 capturado em:
http://www.luizeduardosoares.com.br/, ano:
2006.
Número de frases: 111
Luís Bustamante
Em o balcão da padaria, a mocinha comenta com a colega:
«Bah, guria, não tem mais cacetinho!».
A o que a outra responde:
«Capaz!». Para quem vem de outro Estado, principalmente do Norte ou Nordeste do país, o diálogo parece estranho, incompreensível até.
Em a verdade, trata-se de um linguajar característico da cidade de Porto Alegre, uma mistura de expressões interioranas com gírias que vão sendo incorporadas ao dia-a-dia da população metropolitana.
Objeto de pesquisas de estudiosos locais, essa forma de comunicação lingüística recebe o apelido de «porto-alegr ês».
Porto Alegre possui uma cultura rica e variada, que tem contribuições de várias etnias, o que explica em parte a diversidade de expressões idiomáticas e a facilidade com que aqui se criam gírias.
O tema é tão rico e presente que já chega a fazer parte de estudos de linguagem e regionalismo, resultando em publicações como o livro «Dicionário de Porto-alegr removeme» do professor de literatura brasileira na UFRGS, Luís Augusto Fischer, 45 anos.
Lançado durante a Feira do Livro de 1999, o livro reúne centenas de expressões utilizadas na capital gaúcha e na região metropolitana.
«A fala de Porto Alegre é diferente mesmo em relação a outras cidades do Rio Grande do Sul, e disso temos consciência», explica Fischer.
«Tudo o que fiz, depois de extensa pesquisa, foi catalogar essas expressões em ordem alfabética», complementa.
De fato, algumas expressões que fazem parte do dia-a-dia do porto-alegrense parecem mesmo exclusivas daqui.
É o caso de «cacetinho» (pãozinho francês), «abobado» (bobo), «deu pra ti» (chega!)
e as abreviaturas que ainda não constam nos dicionários oficiais, como «findi» (fim-de-semana), «churras» (churrasco), «super» (supermercado), «ceva» (cerveja).
Algumas chegam mesmo a romper as fronteiras geográficas e vão parar em outros Estados, como «viajar na maionese», que já esteve em moda no Rio de Janeiro, e» deu pra ti», nome de uma música de sucesso nacional da dupla Kleiton e Kledir.
Há também aquelas que atravessam o tempo e, de tão antigas, já não se sabe a origem, como «mãe do badanha»,» lá onde o diabo perdeu as botas», «balaqueiro»,» tempo do epa», «ariri pistola»,» lagartear».
Idioma exótico
«Se existe um lugar do Brasil onde, junto ao português, se fala um idioma completamente exótico, esse lugar é Porto Alegre», comenta a promotora de eventos Vera Molina, 43, que veio de São Paulo para os preparativos de uma feira de negócios em Novo Hamburgo.
«Mas falo com respeito e admiração, porque aqui é uma das regiões do país onde melhor se fala o idioma brasileiro», frisa Molina, no que é respaldada por o professor» Fischer:
«Realmente há um cuidado em se falar corretamente, mas que não chega a conflitar com alguns pequenos deslizes, como o uso do tu sem a concordância ortodoxa», observa.
«Costumamos dizer «tu vai»,» tu foi» e não vemos problema nisso.
Quem também não vê problema na ocorrência de pequenos deslizes de expressão oral é o compositor e cantor da noite, Émerson Luís, 36, que já identificou erros gramaticais que passaram despercebidos em composições de Lupicínio Rodrigues, Túlio Piva, Armandinho e até de Roberto e Erasmo Carlos, cujas canções ele é fiel intérprete.
«Mas aí os erros são licença poética», justifica.
Exótico ou apenas diferente, o certo é que a maioria das expressões que formam o dialeto local são faladas há anos (ou «há horas», no bom porto-alegr ês) e se agregam com naturalidade ao cotidiano da população, independentemente de posição social ou orientação cultural.
Não é raro encontrar-se, numa cafeteria por exemplo, um engravatado executivo comentar que seu café está «tribom», embora esteja» triquente «e que ele está» triafim " de mais uma xícara.
Tanto é verdade que mesmo os críticos do fenômeno lingüístico não escapam à sua influência;
«Pra mim esse modo de falar é chinelagem», opina um cidadão que não quis se identificar, fazendo uso de uma expressão típica do dialeto porto-alegr ês.
Número de frases: 28
São realmente invisíveis e desprotegidas as crianças do nosso mundo.
Isso nos é revelado, doce ou amargamente, por os diretores do filme «Crianças Invisíveis».
A divulgação do relatório Situação Mundial da Infância 2006 da UNICEF, intitulado «Excluídas e Invisíveis», constatou e tentou revelar ao mundo a situação de seus menores habitantes, expondo toda a fragilidade a que estão expostas as crianças do planeta.
Foi então que, reunidos por a produtora italiana Chiara Tilesi, oito diretores dos sete curtas que compõe o filme «Crianças Invisíveis» sentiram a necessidade de ampliar a visibilidade do conteúdo desse relatório, chamando a atenção das populações para suas crianças que, se sobreviverem, cuidarão do que chamaremos de mundo daqui a alguns anos.
Sinopses e Impressões
O filme africano, «Tanza», começa logo com crianças de armas na mão, lutando por ideais que talvez desconheçam;
guerras antigas que armam meninos e escondem seus brinquedos em buracos de paredes, onde mora alguma cor.
Os olhos infantis fixam no horizonte e, por mais que haja dor, não há lágrimas.
Só a falta de elas.
Os cinco meninos armados observam uma aldeia repleta de crianças brincando.
São as mesmas crianças que habitam a escola secretamente admirada por Tanza.
A o identificar-se com o universo ali presente e que lhe foi negado, o menino descalça os sapatos demonstrando conforto e se deixa ninar por suas impressões.
A instituição educacional que consola o menino africano maltrata Blanca nos Estados Unidos.
O filme americano de Spike Lee expõe contradições acerca das angústias vividas por uma garota negra, filha de pais viciados em drogas, portadores de HIV e habitantes do subúrbio de Nova Iorque.
A princípio, a garota reclama aos pais objetos como celular pré-pago e tênis da moda, argumentando que suas colegas de escola possuem esses bens.
São as mesmas amigas que escarnecem logo depois, tanto a doença da menina quanto o vício de seus pais.
Desperta assim em Blanca a vontade de viver maior que os caprichos consumistas incentivados por a abundância de propagandas e produtos, ambos esquecidos frente a dificuldade e a vontade que une pai, mãe e filha:
viver.
Sobreviver e comprar tijolos para a construção da casa do irmão é o objetivo de Bilu e João, personagens do curta brasileiro de Kátia Lund, co-diretora de Cidade de Deus.
Bem humorados, os personagens fazem das ruas de São Paulo um ambiente de trabalho onde tudo é possível.
De o jogo improvisado na feira, ao atrevimento de Bilu e a simpatia de João, o cotidiano das crianças vira música nas mãos e bocas dos repentistas na rua.
A criatividade dos irmãos ante as adversidades da distância, da fome, do dinheiro escasso e o amor ingênuo de um por o outro, compõe o que há de melhor na história.
Nada melhor que a utilização da megalômana metrópole para cenário do filme.
Ali estão escancaradas as discrepâncias sociais do país, sobretudo na última cena que destaca arranha céus engolindo favelas já comprimidas em pedaços de rua que restaram da ocupação urbana.
É também nas ruas que Ciro, criança que mora em Nápoles, constrói precocemente sua identidade.
Embalado por uma bela e diversa trilha sonora, ele projeta sua sombra na parede da entrada de sua casa, cria espectros de personagens infantis, voa, simula suicídio, afasta seus ouvidos das discussões que habitam o mundo doméstico no qual se recusa adentrar.
A o sair às ruas, talvez seu verdadeiro lar, rouba um Rolex dourado de um senhor montado num grande carro e distraído ao celular.
Sai para vender o produto do roubo a um dono de parque de diversões.
Quer em troca, além de uma quantidade de dinheiro, algumas fichas que dão acesso aos brinquedos do parque vazio.
Posiciona-se diante de um carrossel, mas não brinca, só observa como quem admira uma caixinha de música a que ele próprio pertence.
Mas, nem só da ocasião se faz o ladrão.
No caso do iugoslavo Uros, o próprio pai, alcoólatra e impetuoso, organiza os furtos realizados por seus filhos.
Um desses roubos cometido por o garoto o levou a uma casa de detenção.
Lá o menino aprendeu a cortar cabelos, ofício que planejava exercer, em sua contígua liberdade, junto ao tio barbeiro por profissão.
Esse sonho é descrito aos seus companheiros de dormitório enquanto acende palitos de fósforo e arremessa-os ao teto, formando pequenos pontos de luz.
Como quem sonha olhando aleatoriamente as estrelas.
Recém liberto, o jovem volta opcionalmente para a casa de detenção, a única espécie de proteção que conheceu durante sua curta infância.
O famoso diretor Ridley Scott, diferencia-se ao escolher um adulto como protagonista de seu filme.
Jonathan, fotógrafo de conflitos, sofre com a lembrança do flagelo alheio que sempre o rondou.
A o sair de sua casa no campo, o fotógrafo vê dois meninos numa floresta.
Sua trajetória até eles desorganiza o tempo e lentamente transforma-o em suas recordações infantis.
Aqui, após a conclusão de uma experiência imaginária, sentindo-se criança novamente, o repórter consegue entender e suavizar sua consternação construída durante seus anos de observação intra-lentes fotográficas.
Quando o assunto é criança, muitas vezes o uso da sensibilidade é uma forma eficiente de chamar a atenção diretamente aos problemas dessa etapa.
John Woo sabe disso e abusa desse recurso ao retratar a história de duas meninas chinesas de classes sociais opostas.
Uma possui muitas coisas que o dinheiro pode pagar, além de pais negligentes e em fase de separação conjugal, outra, encontrada no lixo, possui o amor que seu protetor, um simpático velhinho catador de lixo, dedicou-lhe durante a vida.
O curta mostra todas as adversidades impostas por a pobreza num país de terceiro mundo e a luta obstinada de um avô para juntar miúdos que pagariam a educação da neta.
As histórias são entrelaçadas por uma boneca comum e por a busca da felicidade de ambas.
A o término do filme, após um passeio por realidades tão distintas e tão próximas simultaneamente, tem-se a impressão de que os diretores tentaram conferir o máximo de visibilidade possível para essas crianças;
que olhávamos todos os dias e, simplesmente, não víamos.
Número de frases: 49
A internet, como toda tecnologia revolucionária, possui em si mesma não apenas o efeito de criar entusiastas e visionários, mas também têm o poder de criar mitos e utopias a respeito de seu próprio destino.
Não pretendo abordar sobre as realizações e as transformações que a web trouxe, mas sim comentar um pouco dos mitos que correm sobre ela.
Um de eles, que acho particularmente interessante, é a idéia de que todo o usuário comum vai se transformar num produtor de conteúdo na web.
A idéia me surgiu a mente por conta da lembrança de um comercial da empresa brasileira de internet, IG, que colocava uma personagem (a qual simbolizava o usuário comum), num grande palco de teatro, como o centro do foco de luz e a estrela do espetáculo.
O que parecia um piano, era na verdade um computador e as mensagens que a mulher digitava logo apareciam em destaque num telão imenso para toda a platéia do teatro.
Enquanto ela digitava, todos aplaudiam.
O comercial terminava, não me lembro ao certo, com uma mensagem mais ou menos assim:
«agora na rede você tem o poder, você é a estrela» ...
Sem dúvida, um comercial bem feito, com uma mensagem forte, atual e bem de acordo com o que muita gente pensa.
Porém, após um pequeno período de entusiasmo gerado por a bela produção da propaganda, as idéias chave que o comercial pretende transmitir começam a soar estranhas e sua falsidade vem à tona.
O debate a respeito deste assunto é realmente interessante e sem dúvida imenso.
Não pretendo, de forma alguma, abordá-lo em sua completude.
Vou simplificar vários pontos com minhas próprias percepções sobre o tema.
Em primeiro lugar, do ponto de vista tecnológico, a internet realmente se desenvolveu de tal forma que seria viável pensar que qualquer usuário da rede teria condições de produzir seu próprio conteúdo e disponibilizá-lo na internet, em suas variadas formas, tais como textos, obras artísticas, notícias, informações, compartilhamento de conhecimento e por ai vai.
Mas o contraponto deste mito de que isso pudesse acontecer, por conta da possibilidade aberta por o avanço tecnológico, se desfaz com uma facilidade incrível quando notamos que a questão técnica é apenas um ponto, de entre vários, que compõem todo esse universo intelectual da produção cultural.
Voltando ao exemplo da propaganda do IG, o que o comercial esqueceu (ou preferiu omitir) foi justamente a capacidade que esse usuário comum possui de produzir conteúdo significativo num meio tão hostil como o ciber-espaço.
A idéia que ora exponho é simples:
o ciber-espaço é hostil porque ele reúne (por sua própria capacidade tecnológica), uma quantidade inimaginável, gigantesca e sufocadora de dados e informações.
Sabemos que numa situação na qual temos um excesso brutal de informações e referências misturadas, estamos numa circunstância igual ou pior do que de não dispor de nenhuma ou muito poucas referências a respeito.
De aí dizermos que o ambiente virtual é hostil;
ele sufoca por o excesso de informação.
Em seguida, facilmente entendemos a dificuldade que o usuário comum tem de produzir informação significativa neste contexto.
Por significativa, entendemos simplesmente a capacidade deste dado o informação produzido não ser diluído e absorvido na multiplicidade infinita e anônima que o ambiente hostil da internet produz por o seu volume de informação.
Desta forma, a mensagem significativa, se pudesse funcionar, teria que ao menos encontrar acolhida no seu interlocutor prévio, fato que não ocorre após a sua inevitável diluição neste ambiente.
E vejam, essa dificuldade não é tanto uma limitação do usuário comum, mas sim uma dificuldade gestada por a própria natureza do ciber-espaço (sua natureza hostil, acima discutida) muito difícil de ser superada por a grande maioria dos utilizadores comum.
Falta de criatividade ou falta de interesse, ou falta de tempo e disponibilidade?
Simplesmente não importa.
Fica claro que é absolutamente inviável que todos os usuários se preocupem em estudar e se qualificar para produzir esse material.
A princípio não há nenhuma motivação razoável para isso.
Muito mais fácil e evidente que o usuário comum, ou se preferirmos agora, a massa consumidora de cultura continue atualizando todos os seus hábitos culturais diante da tela do computador conectado.
Voltando então ao exemplo do comercial, quais são as falsidades ali implícitas?
Por o que foi discutido logo acima, não fica muito difícil descobri-las.
O primeiro erro é acreditar que esse usuário comum é capaz de despertar a atenção entusiasmada da platéia, tal como sugere a propaganda.
Se o comercial realmente levasse a sério o próprio mito do usuário estrela, então não teríamos apenas um palco, nem tão somente um foco de luz.
Seria sim uma parafernália de várias luzes, de tamanhos e cores diferentes e máquinas e usuários em planos, tamanhos e graus absolutamente assimétricos.
Não diríamos que seria o caos, mas também não acreditamos que seja o caso de uma bela imagem a cativar os consumidores culturais adormecidos.
O segundo erro foi sugerir que aquelas mensagens exibidas no telão, que correspondem às informações digitadas por a personagem no centro do palco, causariam uma admiração e um entusiasmo certeiro no público espectador.
Ela erra não somente por atribuir uma capacidade que muitas vezes o usuário comum não possui (pode eventualmente possuir, mas sabemos que os talentosos nem sempre são a maioria), mas principalmente por acreditar que a platéia está disposta de forma estática e concentrada com um foco num único lugar.
O que a internet tem mostrado é exatamente o oposto disto.
É praticamente impossível definir o que é o público usuário da rede, mas pelo menos podemos dizer algumas coisas que ele não é:
homogêneo, passivo, determinado.
Não se trata tanto de questionar a capacidade do usuário comum (sabemos mesmo que a sua riqueza é inquestionável), mas sim da viabilidade de que estas referências tenham circulação dentro do ambiente hostil e pasteurizador do ciber-espaço.
Talvez, preliminarmente, se não é esse usuário caricatural e ideológico igual ao do personagem do comercial da IG que irá trazer algo novo na rede, o que a experiência da internet tem ensinado é que ao menos um novo sujeito tem surgido com algumas chances de sobreviver e trazer algo diferencial no monopólio da informação, que são as Comunidades de Usuários.
Inclusive, o desenvolvimento de tecnologias que viabilizam essas comunidades, os CMS (Sistemas Gerenciadores de Conteúdo) têm favorecido esse desenvolvimento.
Número de frases: 44
Ainda existem poucos estudos sobre esse fenômeno e certamente esse assunto demandaria outro ensaio para investigá-lo, mas pelo menos fica a impressão de que o caminho é por aí.
Ouvi muitas pessoas comentarem que, se tivessem dinheiro, pegariam um avião e iriam assistir ao Cirque du Soleil ou O Fantasma da Opera.
Uma outra menor quantidade de gente realmente pegou esse avião e foi ver esses espetáculos, que devem ser lindos, um deleite para os sentidos, imagino.
Nunca assisti, talvez se eu já estivesse por lá no sudeste, ou se houvesse eventualmente apresentações de graça em algum lugar do sertão por aqui por perto, como fez o pianista Arthur Moreira Lima em turnê por as cidades ribeirinhas do Rio São Francisco, aí, talvez eu fosse.
Sabe por que talvez?
Confesso, não sou muito fã de circo nem de opera, e me espanta, por o que conversei com gente das duas áreas aqui em Maceió, que os admiradores dessas manifestações artísticas aparentemente não acompanhem as produções circenses e de música vocal, pra pegarmos esses dois exemplos, aqui em Alagoas.
Claro que vale a pena conhecer o novo através de espetáculos de grande porte, despertando ou não posteriormente um interesse maior por essas modalidades artísticas.
Espero deixar claro que não tenho nada contra esses, como estou chamando aqui, eventos pop, mainstream, ou como queiram.
O ponto que quero chegar não é a produção e a realização desses belíssimos espetáculos (por o que aparece na TV), a questão é:
Por que o pessoal de Maceió (ou outra capital) que vai com a família inteira ver o Cirque du Soleil ou O Fantasma da Opera em São Paulo nunca foi no Circo Pirulito com seus filhos?
Que existe desde que eu era criança na capital alagoana, entre outros tantos circos que sobrevivem e persistem por aqui.
Ou aquele belo coral da sua cidade que às vezes se apresenta de graça, na praça, pra ninguém.
Público:
0 (em quantidade e nota).
Não iria entrevistar aqui alguém que não leva seus filhos no Circo Pirulito.
Primeiro, porque já sei as respostas:
«Tem violência ali, o pessoal é esquisito, não tem segurança».
Segundo, porque ninguém ia querer ser a pessoa que cria toda essa áurea de maldade em cima do pobre Circo Pirulito, exatamente porque o Circo Pirulito é assim, pobre.
Pra reforçar o preconceito, o dono de um desses tantos circos periféricos de Maceió foi assassinado há pouco tempo atrás, e o povo adora transformar exceção em regra, sobretudo em cidades pequenas, vira lenda.
Uma pena.
Circo-escola Guerreiros da Vila
Fui visitar o pessoal do Ponto de Cultura Circo-Escola Guerreiros da Vila, projeto desenvolvido por o Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu -- Ceasb, que trabalha com as crianças e jovens da comunidade de catadores de materiais recicláveis da Vila Emater, mais conhecida em Maceió como Favela do Lixão.
Em o Circo-Escola a garotada recebe aulas de música, capoeira, artes circenses, oficinas de fotografia, de hip hop, entre outras atividades.
Assisti à aula da professora de artes circenses, Fernanda Fassanaro, e dá gosto de ver a alegria dos meninos e meninas.
Creio que qualquer criança e adolescente prefere passar as tardes sobre pernas-de-pau e fazendo acrobacias em vez de catar lixo.
Admiro muito a profissão dos catadores de materiais recicláveis que é fundamental nas gestões municipais de resíduos sólidos, e acredito que a comunidade da Vila Emater também concorda que catar não é trabalho para a criança.
Além desta parte lúdica e essencial das aulas de circo na vida desses meninos, o ideal é que esta formação em artes circenses sirva também para o mercado de trabalho e geração de renda, no circo, não nos sinais de trânsito das grandes cidades do país.
O Circo-Escola dispõe de alguns recursos para manter seu trabalho, claro que toda ajuda é bem-vindo, mas carecem de visibilidade para suas ações e não possuem muito espaço na cidade para apresentarem seus produtos culturais nas áreas de música, artes circenses, fotografia, etc.
No entanto, quando o Circo Marcos Frota vem aqui, a prefeitura disponibiliza um espaço privilegiado no estacionamento do Bairro de Jaraguá, e enche de gente, lotado.
Acho que não preciso repetir que não tenho nada contra o Marcos Frota, ou o Cirque du Soleil.
Minha critica é clara e direta ao respeitável público e ao poder público também, nos estados e municípios, na administração de seus bens culturais.
Por que o Circo Pirulito de Maceió fica com os terrenos baldios?
«Complexo de inferioridade "
Fica essa impressão de «complexo de inferioridade», como comentou Gal Monteiro, cantora coralista e assessora de imprensa do Ponto de Cultura Coretfal, um grupo coral que realiza trabalhos de educação musical na comunidade próxima a sede do ponto, no Centro, e promove o projeto Encantando a Vida junto ao Lar da Menina, no bairro da Gruta.
Gal fala disso, de uma mania em vangloriar o que vem de fora, (não que deva desmerecer) sem valorizar as produções locais ou sequer se interessar em conhecer.
O Coretfal já foi muito aplaudido em todo o Brasil e fora de ele, já cantaram em várias partes do mundo e o grupo encabeça o Encoral, evento internacional de música vocal em Alagoas, mas ainda admitem que seja difícil receber o reconhecimento público aqui no estado.
Recentemente, com muito esforço, conseguiram ajudar o jovem tenor Felipe de Oliveira a estudar canto da Escócia, onde ele recebeu uma bolsa de estudos.
O Circo Pirulito
Voltando para o circo.
Como eu mesmo nunca fui ao Circo Pirulito, Antigo Circo Birinho, resolvi procurar por ele nos cantos da cidade.
Difícil, já que programação dos circos não consta em nenhuma agenda cultural de Maceió.
Encontrei o Pirulito no Bairro do Feitosa, graças à dica da professora Fernanda, do Circo-Escola Guerreiros da Vila.
A noite começou com um concurso de dança da própria criançada do bairro, como disse o mestre do picadeiro:
«O Circo Pirulito é um espaço democrático que abrimos para os talentos locais», e a meninada arriscava uns passos bem invocados de hip hop, ao som de um rap em inglês seguido de um funk batidão.
Um pequenino na frente cantava o playback na moral.
Depois de outras coreografias ao som da banda Magníficos, anunciaram uma atração, uma beleza feminina, «gostosa e popozuda».
Aí pensei «eita, lá vem baixaria».
Então ela entrou no picadeiro, Catarina Bundchen Venâncio Perez, a macaca.
Até que a danada fazia uns truques legais, mas parecia com cara de quem já anda meio a fim de se aposentar dessa vida de circo, pobre Catarina.
Em a seqüência vieram os palhaços, e depois o meu preferido, o mágico, nesse caso, o «Mágico Misterioso», que era muito bom!
Incrível o ilusionismo, desperta algo de muito curioso e infantil, em mim pelo menos.
Uns belos de uns truques ele fez, não entendi nada e fiquei de boca aberta.
Antes do espetáculo conversei com o Senhor Birinho, palhaço que dava nome ao circo anos atrás, e que hoje leva o nome do seu filho, o Palhaço Pirulito, candidato a deputado federal por Alagoas nas eleições desse ano.
Muitos filhos e netos e sobrinhos, uma criançada mesmo, acompanham Vovô Birinho e o Palhaço Pirulito por os bairros de Maceió e fico imaginando uma infância dessas.
De fato, descobri duas coisas sobre o Circo Pirulito, a primeira é que eles não precisam muito mesmo da classe média, já que a noite de sábado estava lotada de gente, muita gente mesmo.
A segunda coisa é que, realmente, não é o maior espetáculo da terra, apesar de divertido, mas poderia ser bem melhor se o circo tivesse acesso a cursos de formação, se a imprensa divulgasse a programação, se o pessoal das artes cênicas interagisse com esses circos, trocando informações.
Acho que o Circo Pirulito teria um espetáculo mais bacana e tão divertido quanto é hoje.
Parece que vivemos num sistema de castas, e existe um abismo gigante entre elas.
O intercambio entre classes sociais /bairros/comunidades dentro das capitais é tão importante quanto uma outra questão muito discutida ultimamente aqui no Overmundo, e muito pertinente, sobre a invisibilidade cultural das cidades do interior do Brasil.
Percebo que temos também vários interiores dentro das capitais, que sofrem com a mesma invisibilidade, o que impede o próprio desenvolvimento cultural e artístico dessas produções periféricas, a expansão dos seus públicos, e o mais importante, sua sustentabilidade.
Número de frases: 60
Um cheiro de pipoca no ar.
Milhares de balõezinhos multicores sacudidos por crianças sacudidas por as mães e pais sacudidos por a multidão em procissão de fé e alegria por o passeio na praça.
É um povo em festa na 53ª Feira do Livro de Porto Alegre.
E tem gente que até compra livro, além de pé-de-moleque, rapadura puxa, refri, ceva, um mate amargo servido da térmica que carregar chaleira é do milênio passado.
Um que outro aparece de chapéu e bombachas.
Uma menininha toda feliz de laço de fita no cabelo, um vestido timão de prenda me atira um risinho cúmplice.
-- Ai meu santo SPC!
Valei-me Santa Serasa!
Ajudai-me nessa hora grave todos os bancos e cartões santificados, piririm, pimpim ...
Também, vê só:
cheque para 20 de dezembro, 20 % de desconto.
Vou ao fundo ...
Para aliviar a barra das pessoas mais aflitas com o angustiante passo de cágado da procissão, as bancas entupidas de leitor de orelha ávidos por o brilho das capas, das ilustrações e mesmo dos autores, Gilmar Johan tira cada risão das crianças -- e também de adultos -- com o brinquedinho da técnica Kirigame, em papel crepom, palito de picolé e papelão, tudo multicor, faz o chapéu de mexicano:
um grito de espanto.
Faz um sorvete com três bolas, um ui de contentamento.
Faz um bocão, lá vem o sorrisão acompanhado dos indefectíveis:
compra, pai!
Compra mãe!
E lá se vão mais dois, três, quatro caraminguás.
Um eterno palhaço enche, dobra balões-lingüiça e faz os mais espertos bichinhos em escultura efêmera de tirar risos e espanto das bochechas rosadas e bocas escancaradas do povinho miúdo (e de muito grandote empolgado também).
E ainda tem livro infantil que abre, toca música e fala, que só lendo para crer.
Tem também o monstro roxo da CEF, que distribui filhotinhos de pano para quem é cliente (do banco oficial da feira, como diz a moça do rádio poste que divulga a programação das sessões de autógrafos, debates, colóquios, música ...).
Dá choradeira quando esvazia a sacola das divulgadoras ou, mais comum, quando o banco do pai ou da mãe não é aquele.
Hã, hã:
nariz de cera é isso.
Mas vai dizer que não ficou bonitão e gracioso, vai?
Bem, a última semana da Feira do Livro de Porto Alegre está em meio, em marcha acelerada para o sucesso de público.
Já, as vendas, dizem os comerciantes livreiros, não estão tão assim como sai por aí dizendo o merchandáisim.
Reclamam que a multidão passeia muito e compra pouco.
Consulte aqui a lista dos mais comprados.
Em o feriado de Finados, a feira quase explodiu de tanta gente em ela, desde que abriu até que fechou, da uma da tarde às nove da noite.
Em o sábado e no domingo foi igual também, pouco menos no domingo que dia seguinte era de São Pega e teve gente que foi para a casa com o cair do sol, ante das 20 horas.
Teve uma breve conversa amistosa do Adroaldo Bauer com o Jacob Klintowitz.
Eles se conheceram pessoalmente num debate que a Feira promoveu sobre Crítica de Arte, quando os demais debatedores e Jacob foram unânimes em confirmar a necessidade desse retorno básico aos autores e fruidores de arte, em qualquer referência que ela se expresse.
A opinião de Jacob Klintowitz é ainda de que se faça a crítica para que se possa reler a sociedade em qualquer tempo, por a pesquisa que se proceda sobre os trabalhos autorais e as peças críticas publicadas de modo regular na imprensa ou mesmo em publicações específicas.
Para Jacob, a generosidade deve presidir o comportamento do crítico.
A conversa sobre a crítica foi das melhores que pude acompanhar, e não acompanhei muitas porque são simultâneas e sou uma só, embora haja quem não creia.
O debate ocorreu entre o patrono da Feira, Antônio Hohlfeldt;
o crítico de música Juarez Fonseca e o artista plástico Danúbio Gonçalves, que escreve para o Jornal de Cultura de Porto Alegre Fala Brasil.
Uma oportunidade rara de concentração de conteúdo de qualidade que se realizou na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul, que engrandeceu ainda mais esta 53ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre.
Os debates e palestras para adultos estão bem freqüentados, os espetáculos de teatro, música, dança, circo, leituras compartilhadas, tudo lota os espaços reservados a cada programa diferente no Museus de Artes, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, no Santander Cultural, no mermorial do Rio Grande do Sul, na Casa de Cultura Mário Quintana, no Saguão dos Correios, em dois enormes armazéns do Cais do Porto, entrando por o portão central com aquele pórtico recuperado lindão e um teatro improvisado chamado Sancho pança.
Até mesmo nas barracas da feira, criadas para programação.
E em qualquer horário que ocorra.
As sessões de autógrafos estão meia-boca, queixam-se os comerciantes livreiros, uma que outra dá fila grande (que para eles é mais de 50, tipo uma hora de dedicatórias, fotos e salamaleques entre leitores e autores).
Acho que todo mundo já percebeu aqui que o calendário oficial da feira, a programação de eventos, que irá até domingo 11 de novembro, aberta que foi em 26 de outubro, e a rotina de cobertura dos mais vendidos não será falada nessa matéria, certo?
É só clicar no linque aí em cima e fazer a visita virtual para saber muito, mais dessa outras partes mais formalizadas.
Lá não constou, no entanto, o Movimento Fala Brasil, que fez um Sarau Artístico na Feira do Livro, com o lançamento mais público de quatro títulos de edição de autor.
O animado programa foi na quarta-feira dia 7 de novembro no Caffè di Trento do Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo.
Autógrafos de Adroaldo Bauer -- O dia do Descanso de Deus, Álvaro Santi -- A aposta dos Deuses, Rosane Scherer -- Brasil Esse País de Bocas Amestradas, volumes 1 e 2, e de Zé Augustho Marques, Verso e Inverso da Paixão.
E apresentações artísticas de Jairo Klein e Magaly Leite, como Lampião e Maria Bonita;
Joca Vergo e Marilice Bastos, dançando lindament;
Elinka Matusiaki cantando, acompanhada ao celo por Thiago, além de Marcos do Sax e Cristiano ao violão.
O mestre Danúbio Gonçalves registrou o Sarau em traços de arte.
Uma prosa prosa poética das boas, no estilo zeroitocentos do Fala Brasil.
O Jornal Fala Brasil!
de novembro circulou a partir da terça-feira, 6/11, com a já tradicional cobertura da Feira do Livro e dos espaços culturais de Porto Alegre.
Número de frases: 56
Consagrou-se hodiernamente uma versão conceitual de poder como algo obscuro, ideológico e antinatural.
Tal perspectiva tem suas fontes nas ainda lastimáveis relações de dominação entre os ditos estados de direito e os seus quintais ou hortas, os estados em formação do ponto de vista econômico e de identidade cultural.
Abre-se, portanto, um abismo, sujeito a permanentes revisões, entre os detentores do poder de fato e aqueles aparelhos estatais tão caóticos quanto submissos, tanto sob a ótica cultural quanto econômica.
O poder, que perpassa todas as relações de troca entre individualidades culturalmente constituídas, não traz necessariamente em seu bojo um viés excludente ou exclusivista.
Desde as sociedades comunais já se admitia a divisão interindividual de tarefas e, portanto, um instrumento disciplinar, uma ordem estabelecida.
O que ocorria:
cada célula do todo social, assim como num organismo vivo, possuía uma função adequada a sua compleição física e aptidões naturais.
Observando, por esse ângulo, concluímos que as sociedades mais primitivas eram, não obstante, muito mais complexas no modo de lidar com o poder e seus tentáculos.
Trazendo para os dias de hoje, temos que levar em conta dois fatores importantes.
Em primeiro lugar não houve uma derivação, de causa e efeito, decorrente de uma espontânea acomodação entre as diversas tribos a ocupar o espaço da biosfera.
O poder se disseminou não, como gostaria Marx, de modo legítimo e não excludente, obedecendo a dogmas comunitários de dignidade e altruísmo.
Em verdade, ocorre ao longo da história, uma concentração de poder nas mãos de uma minoria em detrimento de marginalização gradual de parcelas significativas do ente social.
Acontecem cismas de toda sorte e os meios econômicos acabam por cair às mãos de uma elite extremamente sectária e ambiciosa.
A propriedade torna-se menos uma construção cultural e mais um instrumento de submissão.
De um lado temos a harmonia da natureza, do outro se esgueira faustosamente o caos urbano.
Em o plano das idéias o paradoxo é também visível, se a natureza formulou a diversidade e a individualidade, o homem procura a massificação e a adequação por a coerção.
As intervenções humanas na realidade se sobressaem nas guerras e disputas por mercados.
Contendas estas de cunho muitas vezes ideológico.
Os mercados, na era pós-industrial, sedimentam-se por meio do controle dos veículos de transmissão e decodificação de imagens «lato sensu».
A aldeia global, pensada há algumas décadas por Mcluhan, parece ser uma realidade perversa e autocrática.
Por outro lado, acontece, por as mais diversas vias, uma assimilação e reprodução das pautas comportamentais, de cima para baixo, de modo que há uma aversão generalizada e, historicamente ordenada, a culturas ditas alternativas por se distanciarem dos padrões comumente emulados, isto é, modelos culturais dominantes.
Ergue-se daí uma cultura hegemônica não apenas cotejando-se cada sociedade per si, mas dentro de um mesmo e, aparentemente uno, meio associativo.
Partindo deste raciocínio, passa-se necessariamente a um contingente de individualidades alijadas do mercado cultural e desprovidas de propriedades.
Cidadãos, em poucas palavras, sem poder para decidir.
Podemos, então, definir poder como um degrau na escada hierárquica que segue do solo ao infinito e resulta numa posição de controle por o homem do seu próprio destino.
A predisposição dominante é acreditar e ventilar a crença, de que existem diferenças tais entre os seres humanos que são capazes, por si sós, de sujeitar entes ou grupos a situações de «Esquecimento social».
Forma-se um limbo para onde vão aqueles extraditados por não se adequarem aos conteúdos e valores vigentes, e aceitos por meio de protocolos velados.
O Brasil, é sabido, tem uma estrutura multicultural, não obstante, sem uma linha mestra nesse sentido.
Não há como se falar de agrupamentos destoantes do todo, pois não há frações sem um inteiro.
A identidade cultural pátria é algo ainda polêmico e discutível.
Entende-se no Brasil, como usual e adequado, aquilo que advêm de uma elite, mais ou menos, bem informada e detentora da propriedade, muitas vezes precária ou ilegítima, dos meios de produção.
Sendo tal elite, ela mesma, fruto de relacionamentos clientelistas e oligárquicos, quando não corporativos.
Essa elite, por sua vez, reza nas cartilhas dos países hegemônicos por meio do processo de assimilação e reprodução supra mencionado.
A cara do Brasil é, portanto, a cara de uma elite astuciosa e colonizada em termos culturais.
Há, exemplificativamente, duas formas de manifestação do nosso carnaval:
uma de elas é aquele nascido espontaneamente no seio do nosso povo, outro carnaval é aquele dirigido às elites.
O mundo conhece apenas o segundo gênero, pois apenas este é exportado, por intermédio de veículos e mecanismos próprios para este fim.
Deduz-se então que o poder gera, hoje e particularmente no Brasil, uma espécie de contaminação.
Regras que determinam, entre outros fenômenos, os chamados «modismos culturais».
Além disso, deflagra uma segregação imposta raramente de maneira ostensiva, mas, quase sempre, de forma palatável e digerível.
Qual o brasileiro ainda não sonha com um camarote para assistir o carnaval na Marquês de Sapucaí, ou com um mensalão?
Um anacronismo, aliás, por demais exacerbado e dirigido a uma cultura que padece a ausência de uma espinha dorsal.
Para apor aqui uma conclusão devemos lembrar que o poder sustentado por uma sociedade hierarquizada por estamentos e de difícil mobilidade social, como a brasileira, torna o ser um objeto não atuante e a própria cultura de um povo, algo descaracterizado e, por conseguinte, não qualificado para competir de igual para igual no mercado globalizado.
A questão de como adequar poder e cultura num só monômio não contingente, mas perene, é uma incógnita dentro de uma discussão maior de diversidade cultural.
O que se pode aferir, numa análise primária, é que a solução passa inevitavelmente por uma cultura de reflexão na direção de uma praxe desmistificadora do poder e seus agentes.
«Tudo vale a pena se alma não é pequena» já diria Fernando pessoa.
Número de frases: 46
A alma brasileira é enorme e todas as suas facetas devem ser aproveitadas por os detentores do poder, sob o risco de perder-se a razão de ser de um povo.
«Já me acostumei com seu jeitinho de falar no telefone / Besteirinhas pra me provocar / Quando eu te pegar «cê» tá perdida / Vai se arrepender de um dia ter me tirado do meu lugar».
Morena, costas à mostra e cabelos embebidos em creme para pentear, a moça Delamarqui, 15 anos, acompanhava cada palavra do playback do grupo de pagode com um sorriso enorme.
«Ainda bem que a gente chegou a tempo de ver o Exaltasamba», comemorava ela, acompanhada da prima Regiane, de 17, e a tia Iara, 59.
A alegria de estar a 1 quilômetro dos ídolos parecia fazê-la esquecer, momentaneamente, do calor do meio dia e do aperto que a mantinha imobilizada no meio da multidão composta por 1 milhão de pessoas que foram à festa do 1º de Maio da Força Sindical.
Pena que a fã só escutou mais aquela música.
A o encerrar a concorrida apresentação de cerca de três canções, um dos integrantes do grupo -- cabe aqui um pedido de desculpas da repórter que, ignorante, não arrisca dizer quem era quem -- cumprimenta Paulinho, presidente da Força, com intimidade.
Para sintonizar-se com o lema ambientalista do «maior 1º de Maio do mundo», manda seu recado:
«Evitem comprar móveis com madeira de lei.
Vamos fazer nossa parte», aconselhou.
O palco do Campo de Bagatelle, zona Norte da cidade, por o qual passaria em seguida Zezé di Camargo e Luciano, Daniel, Fábio Jr., Mastruz com Leite, Frank Aguiar e outros não tão famosos como César Menotti e Fabiano, Cezar e Paulinho, Hugo e Tiago, Gino e Geno e Boka Loka, foi compartilhado com personalidades menos aplaudidas como Carlos Lupi (ministro do Trabalho), Luiz Marinho (ministro da Previdência), Gilberto Kassab (prefeito de São Paulo), Cristovam Buarque (senador), Eduardo Suplicy (senador) e Paulo Skaf (presidente da Fiesp).
O time das autoridades bem que tentou apresentar algumas bandeiras políticas de reivindicações dos trabalhadores junto ao Congresso Nacional, como a manutenção do veto presidencial à Emenda 3 -- que elimina o poder de ação dos fiscais da Receita Federal e permite que as empresas contratem trabalhadores sem registro em carteira.
Mas o povo queria mais música.
E queria o sorteio.
Em este ano, a Força sorteou 10 carros Celta e 5 apartamentos de 52 metros quadrados, no valor de R$ 50 mil.
Folha e caneta em mãos, o jovem Daniel era um dos que esperavam o momento do sorteio.
Mesmo tendo se perdido da namorada, manteve, com seriedade, a responsabilidade de anotar os resultados.
Bem perto de Daniel -- e tinha outro jeito?--
o trio feminino continuava imobilizado.
«Aqui não dá para ver nada, vamos lá para a frente», insistia, em vão, a fã do Exaltasamba.
Mas a tia já estava conformada e sabia que, de ali, não sairia nem se quisesse.
Dá-lhe sufoco, suor, sacanagem.
De o alto de seus 59 anos, segurando três mudas de pau-brasil distribuídas na entrada da praça, ela sabia como se defender de homens bêbados e mal intencionados.
«Não vem para passar a mão que eu arranco o pinto fora!»,
gritava, nervosa, para depois virar-se ao palco e cantar, com outro artista, o hino da Farofa.
«Comprei um quilo de farinha / Pra fazer farofa / Pra fazer farofa-fa." --
«Quem são esses caras?" --
pergunta Delamarqui.
-- " Sei lá, nunca vi na vida!
Ah. eu vi uma vez no Raul Gil!" --
responde a prima, que, apesar de jovem, procura emprego há três anos.
«Sempre esbarro na falta de experiência», conta ela, que participa da festa do 1º de maio desde 2002.
«É uma oportunidade para a gente que não tem condição de ver esses shows», explica.
Em seguida, veio o intervalo.
As hordas de jovens sem camisa se movimentavam num violento empurra-empurra, capaz de derrubar quem não entrasse na dança.
Coração de Sampa
Santana à Sé.
De a Sé à República.
Algumas estações de metrô separavam a festa da Força e a da Cut -- Central Única dos Trabalhadores, no histórico cruzamento da avenida Ipiranga com a avenida São João cantado por Caetano Veloso.
Para entrar na área, cercada com grades, a polícia militar fez uma revista mais intensa.
Uma família inteira foi barrada com duas garrafas de vinho Chapinha e com copos de vidro dentro de uma mochila.
Tiveram que beber do lado de fora.
«Eu não quero mais sofrer / Vou provar que sou capaz / Fiz um samba pra dizer / Que eu já não te amo mais."
O clima na região era mais ameno.
Em meio à massa predominantemente jovem, casais e famílias com crianças pequenas assistiam ao show ao vivo de Leci Brandão, que durou cerca de meia hora.
As mensagens da sambista, inclusive, iam além do tema ambientalista, também adotado por a Cut.
«Quero mandar um recado para o Lula e para o Ministério da Defesa:
vamos parar de repreender a galera da juventude, que tá sempre sob pressão!»,
disse ela, sob fortes aplausos, pedindo que o Congresso faça uma reflexão mais profunda sobre a lei da maioridade penal:
«Cuidado para não acabar com o jovem de 14 e 16 anos que precisa ter oportunidade.
Tem que ter acesso, tem que ter inclusão!».
O fato é que o público da Cut abrigava companheiros que -- pasmem -- não foram à festa só por causa dos shows.
Era o caso de Melquíades, 53 anos, ligado ao Sindicato dos Metalúrgicos do Abc, que, como Lula, não compareceu neste ano à tradicional missa na igreja da Matriz, em São Bernardo do Campo.
O homem de olhos claros e pele morena veio da Bahia em 1973, empregou-se numa fábrica da Black & Decker em Santo André e viveu o epicentro do movimento sindicalista que lançaria o presidente no cenário político nacional.
«O 1º de Maio de 80 foi memorável, com o exército cercando as ruas.
Tinha até helicóptero.
Mas todo mundo sentou no chão e eles viram que não tinha jeito», diz ele, lembrando da repressão na época das greves e das assembléias lotadas.
Ganhando dinheiro como trabalhador temporário, Melquíades havia saído de uma empresa na semana passada.
Outros tempos.
Alguns metros à frente, onde o cheiro de maconha era mais forte, Maria da Penha, de 48 anos e desempregada, esperava o show de " Zeca Pagodinho:
«A parte política não me interessa».
Enquanto isso, o mesmo Suplicy, que algumas horas antes figurava no palco da Força Sindical, fazia seu rápido discurso no terreno da Cut.
Em seguida, os telões exibiram propaganda institucional do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, com duração de 3 minutos.
«Deixa acontecer naturalmente / Eu não quero ver você chorar / Deixa que o amor encontre a gente / Nosso caso vai eternizar."
Eis que entra a banda Revelação.
A multidão adolescente se emociona e canta junto.
A turma de cinco jovens de Pirituba, zona Oeste, não quis ficar fora da festa.
Maicon, de 17 anos, é mais direto:
«Vim ver mulher!».
Questionados sobre por que escolheram vir aos shows da Cut e não aos da Força, respondem em coro:
«A festa da Força Sindical é mais longe».
Pelo visto, estarão de volta no ano que vem.
Número de frases: 72
Foi com um entusiasmo enorme que iniciei a minha participação efetiva no Overmundo, mas foi também com uma inesperada sensação de invisibilidade e frustração que cheguei ao «fim» da discussão!!!
Tudo aconteceu durante a instigante (e instigada) discussão desenrolada a partir do texto «A NOVA DECADÊNCIA DA CULTURA PERNAMBUCANA», escrito por Bruno Nogueira e publicado no Overblog no dia 05/11/2006.
Animado com a possibilidade de se construir um debate sobre a situação atual do mercado cultural em Pernambuco, e com a possível proposição de soluções viáveis para os problemas abordados, escrevi 8 (oito) comentários, e considero que pelo menos 5 (cinco) de eles têm bastante relevância para a discussão.
E, ao invés de sentir que minha contribuição era levada em consideração, ocorreu o contrário:
uma estranha sensação de que ninguém (ou quase ninguém) estava sequer lendo minhas colocações.
Em o momento, pensei em tudo:
será que houve algum erro no envio de meus comentários e as pessoas não conseguem vê-los?
Será que o que eu escrevi é muito óbvio?
Será que é irrelevante?
Ou muito ingênuo?
Ou o contrário:
seria mais complexo do que as pessoas gostariam?
Ninguém entendia?
Era muito prolixo?
Não estava claro?
Ou será que as pessoas preferem (inconscientemente) ler e comentar as colocações daqueles que já conhecem?
O fato é que, realmente, ninguém se referiu a nenhum dos meus comentários, seja para concordar, para corrigir, para discordar, ou para meter o pau!!
A única exceção foi a minha esposa Alessandra Leão, provavelmente porque ela conhece bem o empenho e a seriedade que tenho ao abordar o assunto em questão, conhecimento que não pode ser cobrado dos outros debatedores.
Não Quero Ser Vítima Nem Derrotado
E o que fazer com todas essas sensações que me deixaram bem desequilibrado?
Não quero ficar apenas me queixando, lastimando minha invisibilidade naquela situação.
Antes de tudo me dei conta que essa situação é mais comum do que a maioria de nós imagina.
Quem aqui nunca se sentiu irrelevante, invisível, aos olhos dos seus pares, em algum momento da sua vida?
Talvez isso seja corriqueiro para aqueles que trabalham na faxina de um empresa e nunca recebem um bom dia, um obrigado, dos seus patrões.
Talvez isso seja verdade para as domésticas que passam a vida inteira servindo aos patrões que nunca souberam dos seus problemas pessoais.
Talvez isso seja a única via para a grande maioria dos artistas que tentam em vão o «sucesso» durante toda a sua carreira.
E é nesse ponto que eu queria chegar.
A invisibilidade de muitos artistas para além de seu círculo profissional e de amizade.
Talvez sempre tenha sido assim:
não basta criar um obra de qualidade (ou uma obra em que o próprio criador acredite);
não basta divulgá-la ao máximo com todas as suas forças;
é preciso mais do que isso se o objetivo é ser reconhecido por o seu trabalho e poder viver de ele, sem receber nem menos nem mais do que você merece.
Em tempos de Overmundo, de mp3, de download gratuito, de acesso irrestrito a (quase) tudo e a todos (se você foi alfabetizado e tem a oportunidade de se conectar, não vamos esquecer), questionamentos como esse podem parecer bobagem, mas sinto que não são.
É necessário ter consciência de que a isenção e a imparcialidade -- em debates como o citado no início -- talvez sejam inalcançáveis, embora desejáveis, pelo menos em parte.
É da natureza humana.
Dou um exemplo:
o simples ato de -- em meio a uma discussão complexa e com tanta gente envolvida, como a que me referi -- iniciar um comentário dirigindo-se especificamente a uma pessoa já é uma forma (talvez inconsciente) de conferir um status um pouco mais elevado àquele indivíduo;
já o diferência no meio da massa de pessoas que colocam suas opiniões.
E talvez esse comentários sejam direcionados justamente àqueles por os quais sentimos mais admiração, sintonia, ou que nos provoquem a reação contrária de discordar e se contrapor:
é melhor ser contestado do que passar desapercebido.
E talvez não haja nenhum mal em ser assim:
apenas é assim.
O que fazer?
Darei meu exemplo (aquilo que tenho tentado colocar em prática), cada um que ache a sua solução, a que melhor lhe convier, ou não;
afinal de contas isto aqui não é manual de auto-ajuda.
Em primeiro lugar, não abaixar a cabeça e achar que você é que está totalmente equivocado, que deve aderir à visão dos outros;
em segundo lugar, não achar que você é o dono da verdade e que os outros é que são o inferno;
em terceiro lugar, manter a humildade e melhorar a maneira como você se expressa.
Por último (talvez essa seja o ponto mais negligenciado por muitos de nós):
procurar / encontrar e aglutinar no Overmundo (e no mundo lá fora) as pessoas que tenham alguma afinidade com você, que tenham preocupações parecidas, nas quais as suas ações encontrem ressonância.
Não somente para ser elogiado e aplaudido, mas fundamentalmente para ser criticado, avaliado, corrigido;
para ser percebido, enfim.
Temos no Overmundo uma ferramenta extraordinária para construir, desconstruir e reconstruir o Brasil;
e acredito que todos aqueles que se interessam por cultura devem ocupar o seu espaço aqui, trazendo com si seus círculos profissionais e pessoais, contribuindo para diminuir a invisibilidade de um grupo em relação ao outro.
( ...) Já não me sinto tão invisível assim!!
Número de frases: 55
( ...) Talvez eu mesmo tenha deixado outras pessoas na invisiblidade ...
Amantes do «Futebol Arte», hoje esquecido.
Abandonado e desvalorizado,
Trocado por «dez moedas de prata».
Sem amor, pudor, valor ...
Estamos em dor.
Ídolos «escanteados», hoje abandonados.
Aposentados por o novo, substituídos,
Trocados por «dez novos apátridas».
Sem reconhecimento, agradecimento, comprometimento ...
Estamos em tormento.
Pés imortalizados, empoeirados ...
Em templo profanado.
Sem real significado ...
Apenas passado.
País do Futebol ...
Paixão, emoção, coração.
País da amnésia
Depravação, corrupção, mensalão.
Sinto saudade daqueles tempos,
Zico do Flamengo ...
Tempos de Futebol coração,
Dinamite do Vasco ...
Times que eram pátrias,
Pelé do Santos ...
Objetivo, glamour, sonho, auge,
Jogador da Seleção Brasileira ...
Camisa amarela, calção azul, meias brancas,
Seleção Canarinha ...
Seleção de Coração ...
Seleção do Futebol Arte.
Sinto saudade ...
Muita saudade ...
Quanta saudade ...
Ai que saudade.
Número de frases: 35
Sel Fontes
Como resultado da minha origem «terceiromundista», sempre fui atraída por a cultura oriental, em especial a japonesa, e ao mesmo tempo me intriguei com a impressionante capacidade desse povo em conciliar passado e futuro, tradição e tecnologia.
Tenho livros e revistas sobre história e cultura japonesa, sobre a reconstrução do país após a Segunda Grande Guerra, e claro, meu paladar também aprova a culinária japonesa.
E foi feliz da vida que vi o nascimento da «Noite do Yakisoba», uma ação de integração da pequena, porém perseverante e animada comunidade japonesa de Palmas.
De vez em quando lá está uma turma -- cada vez maior e nos mais diversos pontos da cidade, com preferência para a principal feira coberta -- de pessoas na fila do macarrão refogado com verduras, carne de boi ou frango e molho de soja.
Outras iguarias?
Sushi, é claro, tempura, dorayaki -- um doce que eu particularmente adoro.
Com os paladares devidamente conquistados, a turma da Escola de Língua Japonesa, com apoio da Associação Nipo-Brasileira no Tocantins (Asnipo / TO), que atualmente reúne cerca de 80 famílias na Capital tocantinense partiu para uma amostra mais ampla de sua cultura.
Trata-se do Festival Bon-Odori, que teve sua segunda edição realizada no último mês de setembro, para retomar uma antiga tradição:
a celebração do Dia de Finados japonês (15 de agosto).
A tradição é budista, com origens na China, e onde há uma colônia japonesa a festa sempre ganha seu espaço.
Por aqui a organização é simples.
Apenas uma caixa de som para ecoar músicas tradicionais, uma pequena arquibancada para cerca de 30 pessoas, um cercado de 3x3 metros, coberto por bandeirolas, onde ocorrem as apresentações de dança.
De o outro lado do ginásio coberto do Sesc Educare, mesas onde ficam dispostas as iguarias, caixas de isopor com refrigerantes e cerveja e um fogão industrial para o yakisoba e frituras feitas na hora.
O primeiro choque cultural começa com a própria temática da festa.
Enquanto os ocidentais choram e acendem velas para seus mortos nos cemitérios os orientais dançam?
A dança surge como elemento ritual em homenagem às pessoas falecidas e também é símbolo de uma cultura que se caracteriza por a preservação.
Vestidas com seus kimonos, várias mulheres se misturam entre os convidados, na maioria pessoas das mais diversas regiões do País.
Em comum a escolha de Palmas para viver.
É o caso da maranhense Jodalice Nonato, 32, funcionária pública e assídua freqüentadora dos eventos promovidos por a Asnipo.
«Ano passado teve um festival de cinema, gostei muito, os filmes são bem diferentes;
o Bon-Odori também é ótimo», afirma ela, acompanhada por dois filhos e uma amiga.
A I Semana do Cinema Japonês do Tocantins aconteceu ao longo de uma semana, em maio de 2005, numa parceria entre a Asnipo, Fundação Cultural do Tocantins e a Embaixada do Japão, que cedeu os filmes.
Ao longo do Festival Bom-Odori, que dura cerca de 3 horas, os alunos da Escola de Língua Japonesa -- onde além da língua também se aprende a dançar, fazer origami (dobraduras), kirigami (cartões em 3 D) e até cozinhar -- mostram ao público o que andam aprendendo.
Um grupo começa a tocar o taiko (tambor japonês) e é impossível ficar indiferente ao som e coreografias dos jovens e crianças, com passos delicados e as batidas ritmadas do tambor.
Depois, o ambiente é invadido por músicas como Tabibitoyo, Tanabatasama, intercaladas com danças como Soran-Bushi.
A área do cercado é extrapolada, e as moças de kimono fazem roda e convidam o público a participar.
A grande maioria do público presente, mais acostumado com os requebrados do forró, estilo bem popular por essas bandas, se intimida.
Apenas algumas meninas se animam, mas a maioria prefere apenas observar.
É o caso de José Feliciano de Oliveira Filho, 20, que acaba de chegar a Palmas vindo de Uberlândia (MG), e teve seu primeiro contato com a cultura japonesa no Festival Bom-Odori.
Gostou do que viu e comeu.
«Geralmente as pessoas acham que o evento deveria durar mais tempo.
Como é apenas uma apresentação dos alunos e professores da parte, vamos dizer dinâmica da escola, o evento é rápido, por isso termina às 22 horas», explica Lucas Koshy Naoe, atual diretor da Escola de Língua Japonesa, reiterando o caráter de confraternização e integração do Festival.
Sobre a escola, trata-se de uma casa próxima à sede da Ordem dos Advogados do Brasil/TO, onde também está abrigada provisoriamente a Asnipo.
Bem localizada, ela existe há seis anos e a cada semestre recebe cerca de 20 alunos de todas as idades.
Os mais velhos querem aprender a língua -- ou o máximo possível de ela -- por motivos profissionais.
Os professores se revezam a cada semestre, já que desenvolvem um trabalho voluntário.
Sempre há um professor japonês, enviado, também como voluntário, por a JICA (Agência de Cooperação Japonesa) para ajudar no ensino da língua.
Lucas Koshy Naoe, que se desdobra entre o trabalho na escola e o de pesquisador de uma universidade local, a Unitins, conta que cerca de 30 % dos alunos não são de descendentes.
Vários são profissionais prontos a desenvolver projetos ou estudar no país do Sol nascente, via intercâmbio, entre os governos tocantinense e japonês.
Pergunto se ele conhece o Japão, e ele responde que não, por falta de tempo.
Comento que ele é oriundo de uma tradição onde a própria família se incumbe de repassar a língua e os costumes japoneses a seus filhos e netos.
Recebo em troca um sorriso meio zombeteiro, meio condescendente, como se ele me achasse a mais deslumbrada das pessoas.
Bem, realmente acho que os brasileiros poderiam aprender essa lição de não deixarem morrer tradições tão lúdicas e importantes de sua própria identidade cultural.
Já a Asnipo oferece outra importante lição.
O presidente da entidade, Márcio Kajima, explica que é uma tradição das colônias japonesas manter e divulgar a cultura nipônica através do associativismo.
Para tanto, a Asnipo conta com o apoio da JICA e do próprio governo japonês, que inclusive ajudou na construção da sede definitiva de Palmas, que deve ser inaugurada em dezembro.
Por aqui já são dez anos de existência da Associação.
As famílias que a integram, assim como tantas outras de todos os cantos do País vieram para esta região atraídas por as oportunidades oferecidas num estado ainda em formação.
É uma comunidade que conta com respaldo, a ponto de ter atraído, no ano passado, o embaixador do Japão no Brasil, que instalou um consulado itinerante para cadastrar cidadãos nipo-brasileiros e divulgar seus programas de bolsas de estudos.
E então completa-se o ciclo, pois os interessados nas bolsas acabam se integrando a este pequeno pedaço do Japão cravado no Tocantins.
Número de frases: 51
Mais um dia, mais três filmes.
O tempo não ajuda, e sigo debaixo de chuva novamente para o Frei Caneca conferir
Glória ao Cineasta -- Unibanco Arteplex 12:30
Eu e meu amigo, outro fã de Takeshi Kitano, chegamos em cima da hora, e por conta disso acabamos nos sentando nas escadas de uma seção ultra-populosa.
Excelente filme, retrato de um cineasta em crise, cheio de elementos surrealistas e metalingüísticos, o que me levou a pensar se o microfone numa das cenas era proposital ou de fato um erro (do filme ou da projeção).
Outra nota 4, beirando um 5. Assistir a um filme japonês com legendas em italiano e em português foi uma experiência magnifica.
Diversos conhecidos estavam na seção (à qual chegaram no horário), mas logo ao seu final cada um tomou um rumo diferente, e depois de uma pausa tabagista segui para a África do Sul dos anos 50.
Drum -- Unibanco Arteplex 14:30
Creio que até hoje só tinha visto um filme sobre o Apartheid, ou seja, passou da hora de tocar esse assunto novamente.
Drum foi o eleito, e com uma trama excelente ele quase chega lá, mas se perde em alguns momentos, especialmente quando condensa os assuntos mais controversos e enrola com pieguisses e frases feitas dignas de um filme de Hollywood.
Mereceu nota 3.
A cópia era digital, mas felizmente de melhor qualidade que «Solstício de Verão», apenas engasgou duas vezes, mas em ela estavam impressas legendas em português;
espero que isso não signifique uma estréia digital, mas acho difícil.
Fiquei na dúvida Assim, mais uma vez me desloco por a chuva, indo agora à Genebra.
Sombras da Noite -- Espaço Unibanco 16:50
Depois de assistir Glória ao Cineasta, qualquer filme do dia perde a graça (sinto dizer que é preciso ver Glória para entender a piada) e quem mais sofreu com esse novo cinismo cinematográfico foi Sombras.
Entrando para a galeria de bons temas que não chegam lá, esse é o que ficou mais longe do seu potencial, tratando da frieza de uma cidade grande e as questões de isolamento, globalização, sonhos e tragédias, o filme parece não tocar nada tempo o suficiente.
A mensagem é algo que eu já tinha em mim:
O mundo é podre, mas está cheio de pessoas simpáticas.
Número de frases: 19
Fica o convite!
Você é jovem e tem uma rede de televisão nas mãos.
Tem todo o equipamento necessário, inclusive câmeras profissionais, equipamento de edição e equipe de produção.
Além disso, não sofre pressões comerciais.
E tudo o que produzir será transmitido em sinal aberto, alcançando a maioria dos estados do país.
Esse é o terreno perfeito para a experimentação, certo?
Errado.
É só passear por os canais universitários para se desanimar.
Apesar de serem feitos por gente jovem, geralmente estudantes de escolas de comunicação, acabam em sua grande maioria reproduzindo formatos consagrados por a televisão tradicional.
São telejornais (gente sentada atrás de uma mesa, relatando as notícias do dia, muitas vezes de terno!),
talk-shows, ou programas de «variedades» que nada fogem ao jornalismo convencional.
A esperança de que um novo modelo de linguagem televisiva apareça de ali é mínima.
É uma pena.
O grande desafio atual, que representa também uma enorme oportunidade, é encontrar a linguagem das novas mídias.
Quem fizer isso, ganha um doce e captura, ainda que temporariamente, um mercado novo.
A corrida já começou.
A principal mídia em busca da sua própria linguagem é o YouTube.
O melhor exemplo é o caso lonelygirl15.
Idealizado por um grupo de empreendedores Eua, a idéia consistia em abalar os limites entre realidade e ficção, criando uma personagem «real», através dos depoimentos de uma garota de 15 anos chamada Bree (na verdade, uma atriz contratada).
A história causou enorme controvérsia.
Artigos no Wall Street Journal acusavam os idealizadores de terem ido longe demais, rompendo com todas as barreiras éticas.
Outras publicações celebravam o caso como primeira novela das novas mídias, aliás, assistida em seus vários episódios por milhões de pessoas.
Em a cabeça dos idealizadores a idéia era muito clara:
explorar os limites do YouTube, criando o «reality show definitivo».
Mas o YouTube não é a única nova mídia a ser inventada.
Qual é a linguagem do Skype?
E dos mensageiros eletrônicos?
E dos celulares?
Ou ainda, das webcams?
Quais os limites de cada uma dessas «mídias»?
Dois exemplos podem ajudar a pensar melhor nas possibilidades.
O primeiro vem de uma história contada por John Perry Barlow, ex-membro da banda Grateful Dead e um dos principais ativistas digitais contemporâneos.
Barlow relata com entusiasmo uma conversa que teve de Nova Iorque com o empresário japonês Joi Ito, localizado em Tóquio.
Quando o assunto acabou, ambos decidiram manter o canal no skype aberto.
Por várias horas consecutivas, uma janela auditiva permaneceu aberta entre os dois apartamentos.
Era possível ouvir ruídos de passos, louça sendo lavada e conversas paralelas em cada lugar.
Esse uso «não-utilitário» do skype, que vai além da mera idéia de «ligação telefônica», diz muito sobre o potencial midiático ainda não explorado das novas comunicações digitais.
O segundo exemplo tem a ver com a linguagem das webcams.
Inicialmente usadas principalmente para comunicação entre duas pessoas, começam a se tornar ferramentas de comunicação coletiva.
Um rápido passeio por o portal Stickam revela a quantidade de gente que passa o dia transmitindo sua própria imagem ao vivo para toda a internet.
No entanto, uma vez mais, o formato é praticamente sempre o mesmo:
câmera parada, filmando o dono enquanto usa o computador.
Apesar das várias centenas de pessoas online, até o enquadramento utilizado por todas elas não costuma mudar muito:
geralmente a câmera fica colocada em cima do monitor do computador, produzindo o mesmo ângulo em todas as tomadas.
Experimentar com a linguagem das webcams ao vivo (sem tirar a roupa) é algo ainda a ser feito.
Por isso, um apelo às escolas de comunicação do Brasil para abraçarem o quanto antes esse tipo de experimentação.
De outro modo, vão continuar reinando os formatos consagrados de telejornal, ou a experimentação «institucionalizada», que segue o modelo de câmera tremendo na mão e edição rápida, que podia ser interessante em 1992, mas já passou.
É uma chance do Brasil colocar a prova sua vocação antropofágica, deglutindo as novas mídias para produzir formas de comunicação global em áreas que ainda nem foram imaginadas.
Número de frases: 48
* * * Artigo publicado originalmente na minha coluna da revista Bizz, Maio de 2007 ....
Ou perspectivas para um futuro onde a idéia é a existência.
Não sei como se entendem, pois se escolhem viver uma existência quase efêmera, daquelas que só se manifestam em comunidades virtuais, mensageiros instantâneos e, quando muito, rodinhas de bairro ou condomínio e tratam de entender-se basicamente por o que escrevem, como se entendem, como podem entender o que escrevem?
A primeira questão é o jeito dEles de pensar que palavras escritas resolvem tudo, citam desde Machado de Assis, passando por Clarice Lispector até Vinicius ou Ferreira Gullar em seus «nicknames» no msn e programas correlatos, mas o que me pergunto é se uma vez, ao menos uma única vez eles já pararam para ler um desses que citam, ao menos um fragmento que vá além das duas linhas tradicionais de suas citações.
Trocam com tanta facilidade o velho olho no olho por a praticidade das palavras tecladas que me fazem pensar, onde vamos?
Até onde esse tipo de pensamento irá nos levar?
Eis as respostas:
Vamos a um debate sobre o conceito de existência, uma vez que a existência de cada um dos que escolhem existir na grande rede ficará confinada ao campo das idéias -- sendo cada um apenas o que as palavras ou as fotos o descrevem, havendo assim espaço para que cada um seja o que o seu pensamento propor;
Ou vamos daqui para pior e em nada se falará sobre o conceito de existência, sobre o conceito de pessoa-idéia que não ganha existência real, não discutiremos o que é real, e a cultura se perderá numa rede que tem todo o potencial para difundi-la.
Então chegamos ao conceito de Eles que estou tratando.
«Eles «não são governos superpoderosos, ou pessoas que fazem parte de uma rede de conspiração que visa a destruição de valores ou culturas,» Eles» não são as forças do cristão-capitalismo ocidental.
Eles na verdade são muitos de nós, muitos dos jovens e em última análise os adolescentes, quase como um todo.
Pois os mais velhos, os mais experientes têm todo o material intelectual nessesário para que se pense em revoluções sejam elas idealistas-existenciais ou de cunho puramente materialistas, porem os mais jovens é que detem a força vital necessária para pôr-las em pratica.
Uma vez que já se tratam por idéias, uma vez que pesquisam a página pessoal do outro e não a vida do outro, uma vez que deixam de olhar nos olhos do outro para conhecerem-se por álbums de fotos tenho minhas dúvidas se para Eles, ou melhor, se para nós, há algum sentido em se revolucionar o atual modo de pensar sobre a co-exist ência, sobre a sociedade.
Tudo nos é muito cômodo, e as estratégias e previsões são feitas para que tudo torne-se a cada dia mais comodo
Co-existir e pensar numa revolução de idéias, ainda que precocemente, e pensar no que tem sido realmente real para Nós, esse é o caminho, a estrada que nos levará à iluminação, que nada mais é que o conhecimento de nós mesmos, enquanto pessoas, e não enquanto perfis em sites de relacionamentos ou e-mails que são mandados instantâneamente carregados de erros de idioma e linguagem, pois assim nos é mais cômodo.
É preciso não só sentir o que nos incomoda, é preciso vê-lo.
Número de frases: 17
É preciso movimentar-nos, uma vez que não podemos alterar o passado, pensemos melhor em nosso futuro.
Ela nasceu Maria Macaggi, em 24 de abril de 1913, em Paranaguá, no Paraná, mas foi como Nenê que ela entrou para a história da literatura e da comunicação em Roraima.
Nenê Macaggi aportou por terras amazônidas no início dos anos 40, enviada por o então presidente Getúlio Vargas, para fazer um trabalho jornalístico descrevendo a situação dos então territórios da região.
Fixando-se primeiro no Amazonas, em 1941, no ano seguinte veio para Roraima, onde deu continuidade ao seu trabalho jornalístico e literário.
Sim, Nenê Macaggi já era uma escritora renomada quando chegou por aqui.
Entre seus trabalhos de contos, crônicas e romances podemos destacar Água Parada e Chica Banana, ambos da década de 30, e Contos de Dor e Sangue, da década de 40.
Mas a importância de nenê Macaggi para a literatura roraimense se intensificou quando ela começou a escrever sobre o cotidiano da vida da gente daqui.
Seu romance A Mulher do Garimpo, escrito na década de 70, é considerado o marco inicial da produção literária no Estado.
Depois vieram outras obras, como Conto de Amor, Conto de Dor (década de 70), Exaltação ao Verde (década de 80), A Paixão é Coisa terrível (década de 90), entre tantas outros.
Elena Fioretti, membro do Conselho Estadual de Cultura e uma das estudiosas da vida da escritora, afirma que a intenção do órgão é fazer a reedição de todas as suas obras.
«Já conseguimos alocar recurso para a segunda edição de A Mulher do Garimpo, e a primeira edição do livro Nara-Sue Uerená -- O Romance dos Xamatautheres do Parima, que Nenê deixou pronto e ficou por mais de 15 anos esperando para ser publicado», comemora.
Controvérsia
Um fato inusitado abalou a vida de Nenê Macaggi em Roraima.
Explica-se.
Em 1992, quando o governo do Estado inaugura o Palácio da Cultura, dá a ele o nome de Nenê Macaggi.
Meses depois, a Assembléia Legislativa entrou com uma ação, alegando que não era permitida a denominação de logradouros públicos com nome de personalidades ainda vivas.
Então, o nome foi retirado.
«Isso abalou sobremaneira a vida de Nenê, que na época já estava com a saúde debilitada e triste por a falta de incentivo na publicação de suas obras», lembra Fioretti.
Depois do falecimento de Nenê Macaggi, em 04 de março de 2003, o Conselho de Cultura iniciou todo um processo solicitando que o governador decretasse a renominação do Palácio com o nome de Nenê, e assim aconteceu.
Seguindo o trabalho de resgate da história da escritora e como forma de escrever seu nome para sempre na história, o Conselho de Cultura fez uma indicação através da Câmara de Letras sugerindo a criação do Dia do Escritor Roraimense, no dia 24 de abril, data do nascimento de Nenê.
«Essa é uma data muito significativa, primeiro em função da memória da Nenê, e segundo que é uma demonstração de uma iniciativa pública, para se valorizar através de uma data cívica a produção literária do Estado», justifica, garantindo que o Conselho pretende, a partir de agora, estimular a criação de prêmios, exposições e a produção literária, nessa data.
Roraima Entre Linhas
Após tantos anos de vivência com Nenê Macaggi, Elena Fioretti já estava totalmente envolvida com a escritora e sua obra.
Em o início de 2005, surge mais uma oportunidade de eternizar o trabalho de Nenê, desta vez, através da televisão.
Convidada a participar do projeto DocTV, do Ministério da Cultura, ela não teve dúvidas de que aquela seria uma chance muito boa de guardar para sempre viva a imagem daquela mulher tão rica de histórias e realizações.
«Para mim a história da Nenê estava muito viva.
De a época da primeira exposição até a renominação do Palácio, foi um momento de muito envolvimento com a vida de ela, com as coisas de ela e, também, percebendo sua indignação por a falta de apoio, decidi por fazer este documentário sobre ela», explica Fioretti.
Inscreveu seu trabalho para seleção e, após ter seu roteiro classificado, iniciou um árduo trabalho de captação de informações.
O cenário escolhido para o documentário foi a região do Tepequém, no município de Amajari, onde se concentrava grandes reserva extrativistas de minérios, sobretudo diamante e ouro, na primeira metade do Século XX, e onde Nenê Macaggi passou grande parte da sua vida.
«Nós entrevistamos várias pessoas contemporâneas de Nenê e coletamos dados substanciais sobre a sua trajetória em Roraima.
Pessoas como Dorval de Magalhães, Jaber Xaud e Laucides Oliveira proporcionaram verdadeiros relatos de história de vida que foram utilizados no documentário», afirma.
O documentário, que trata da cultura regional e as relações entre os pecuaristas, garimpeiros e indígenas, por meio da obra de Nenê Macaggi, será exibido por a Rede Pública de Televisão (TV Cultura), no dia 30 de abril, às 23h, (horário de Brasília).
«Eu fico impressionada que ainda hoje, mesmo depois de tantas discussões, trabalhos sobre a sua vida, exposições, tanta gente diz que nunca ouviu falar de ela, que não sabia quem ela era», lamenta Fioretti.
Homenagens
Além da renominação do Palácio e da instituição do Dia do Escritor Roraimense, nesta segunda-feira, dia 24, às 19h, também será feita uma avant-premiére do documentário Nenê Macaggi:
Roraima Entre Linhas, vencedor do DocTV II, dirigido por " Elena Fioretti.
«Também estaremos fazendo uma projeção de uma exposição virtual do fotógrafo Orib Ziedson, retratanto todos os locais por onde Nenê Macaggi viveu.
Número de frases: 37
Vamos inaugurar também a Sala de Referência Nenê Macaggi, onde os visitantes poderão conhecer um pouco da biografia e da história da escritora, além de ter acesso a alguns objetos de ela, adianta Fioretti.
Quem passa por a movimentada Avenida Hermes da Fonseca não tem outra coisa a fazer, senão contemplar um gigante Anjo Azul que, de tão imponente e chamativo, virou ponto turístico da cidade.
Construído por o artista plástico José Jordão Arimatéia, 58, para ser a principal peça do marketing de uma galeria de arte homônima, o Anjo Azul, feito, basicamente, de gesso e sustentando uma envergadura de cerca de 10 metros de altura, consumiu pouco mais de dez meses para ser concluído.
Depois que ficou pronto, é comum ver as pessoas pararem para tirar fotografias ao lado da obra, cuja grandeza parece ser a maior virtude.
O autor dessa obra é autodidata.
De origem humilde, filho de lavadeira e cozinheira, muito cedo, ainda com oito anos de idade, Jordão já tinha uma certeza, queria ser artista.
«Eu gostava mesmo era de cantar.
Eu queria ser artista de qualquer coisa, mas não deu pra ser cantor.
Ai um dia, lá no campo do Rio-Mar ...
tinha chovido.
Tava uma planície bonita ...
comecei a desenhar no chão».
Foi exatamente nesse dia que o escultor deu de cara com o labor criativo que o acompanha até hoje.
«Vinha passando dois cidadãos e um disse assim: '
Esse menino é muito bom desenhista.
Parece coisa do artista Newton Navarro».
Com essa frase, Jordão resolveu definitivamente que iria ser àquilo.
Iria ser artista.
De como a gente se torna o que a gente é Depois do singelo desenho na areia do campo de futebol, ele não parou mais.
Em pouco tempo já desempenhava o ofício de Santeiro.
Fazia as figuras divinas com as sobras de cimento da fábrica de pré-moldados onda trabalhava.
«Eu sempre dava um jeito da massa sobrar.
Tinha um quartinho nos fundos da fábrica que foi meu primeiro ateliê.
Ninguém sabia de nada.
Quando o dono descobriu, primeiro levei uma bronca, mas ele percebeu algo e acabou permitindo que continuasse a criar».
Com o tempo, Jordão foi se moldando até se transformar em escultor e entalhador.
Cada tipo de trabalho foi conseqüência do outro.
«Depois do ' entalhe ` foi que eu me soltei.
Comecei a viajar e a fazer exposição ...
a primeira foi numa bienal lá em Fortaleza ...
acho que em 1974.
Levei dois ' entalhe ', duas esculturas e ganhei dois prêmios».
Jordão continuou viajando.
Foi para São Paulo e para o Rio de Janeiro, onde trabalhou para um estrangeiro que lhe arranjou uma viajem para a França.
«Passei 15 dias em Paris, mas acabei nem conhecendo muita coisa ...
sabe como é:
não estava bem enturmado», lembra.
De volta ao Brasil, Jordão confessa que tentou viver de arte na região sudeste.
Ele relata que até conseguiu, mas como a família «não cortou o cordão umbilical», acabou voltando mesmo foi para Natal.
«Quando minha família não quis ir com mim ao Rio preferi não voltar.
Um erro que até hoje me arrependo.
Se fosse hoje não pensaria duas vezes:
iria sem olhar pra trás.
Perdi toda minha inspiração e deixei de produzir», confessa com olhar remoto».
Jordão, o errante
Assim como as viagens que fez por aí, a relação de Jordão com a arte também é repleta de idas e vindas.
Em a sua história de vida, o artesão confessa que o alcoolismo foi uma personagem persistente em várias ocasiões.
«Já deixei muitas vezes a arte.
A bebida faz a gente perder a criação.
Eu trabalhava só pra manter o vício.
Um trabalho que valia quinhentos, eu vendia por duzentos, né ...
a sede era maior».
Mergulhado num poço que parecia não ter fim, Jordão ficou 15 anos no limbo sem criar uma peça sequer.
«Perdi a criatividade, a inspiração.
Por desgosto mesmo!
Vergonha da sociedade».
Depois do período nebuloso de auto-exílio, Jordão deixou de beber e se casou de novo.
Apagou de vez o capítulo dedicado às bebidas.
«A arte me chamou de volta.
Hoje eu vivo para o meu lar, minha esposa e minha filhinha». (
Jordão conta isso segurando a pequena Lua no colo).
Modus Operandi
Como criador de formas diversas, o artesão deixa transparecer certa vaidade em relação às suas obras.
Sobre o colosso angelical, o artista plástico se diz bastante satisfeito com o resultado.
«Ah, eu gostei demais.
Ficou do jeito que eu achava que deveria ficar».
A história da produção da escultura é muito curiosa.
O projeto chegou a mudar algumas vezes.
Inicialmente programado para ter dois ou três metros, a obra ganhou volume de uma hora pra outra.
«Anchieta (Dono da Galeria O Anjo Azul) chegou lá em casa e me pediu pra fazer uma escultura.
Ele disse que queria uma escultura grande.
Eu perguntei:
E o tamanho?--
Ele disse:
uns três metros.
Comecei a fazer.
Depois ele quis que eu aumentasse.
Anchieta disse, " Eu quero uma graaaaande.
Não sei nem de que tamanho».
Como de costume, na hora de elaborar suas obras, Jordão dispensa qualquer tipo de esboço.
Para ele, «a arte não precisa de projeto».
E com o «pequeno detalhe» do tamanho resolvido, Jordão botou a mão na massa, ou melhor, na argamassa.
«Anchieta disse:
«Vamos fazer um desenho».
Ai eu disse:
«Vamo fazer sem.
Com desenho demora muito».
Mesmo com liberdade para fazer do jeito que quisesse, e com o Anjo praticamente ' nas alturas ', Jordão teve que vencer alguns percalços.
«Quanto tava lá em cima, lá se vem confusão ...
a prefeitura chegou alegando que a estrutura podia cair».
Foi preciso, então, arrumar um engenheiro para tocar a ' obra '.
«Aí o engenheiro veio, calculou e disse:
«Vamos botar mais ferragem».
Ai colocamos mais ferragem ...
aí eles (Agentes da Prefeitura) pararam de vir "».
A arte como coisa pública e outras obras
O ensaio ' A origem da obra de arte ' foi publicado pela primeira vez em 1977, por o filósofo alemão Martin Heidegger, considerado um dos mais importantes pensadores do século XX.
Abordando a natureza e o enigma da obra de arte, Heidegger defende que obra se faz a partir de uma tríade:
artista, obra e um terceiro elemento -- o observador, aquele que olha para ao criador e a criatura.
Instintivamente, Jordão acaba confirmando essa teoria.
«A obra tem que ser pública ...
eu gosto de fazer arte para o povo».
Contrariando uma premissa básica de todo artista, que só revela a obra quando o trabalho se encerra, ele oferece o dia-dia de suas invenções de artífice.
Revelando uma sensibilidade rústica no traçado, o Anjo Azul, por exemplo, pôde ser acompanhado durante toda a manufatura por àqueles que transitaram por a Hermes da Fonseca entre os meses de dezembro de 2006 a meados de outubro de 2007.
As obras de Jordão, além da grandiosidade e do labor feito ao alcance dos olhos observadores, carregam histórias que, a cada vez que são recontadas, tomam ares de anedota.
Foi assim também com uma obra que tem como personagem o Rei do Baião e um popular santo brasileiro.
Engendrada ao ar livre, o trabalho compreende algumas alegorias do imaginário e da cultura nordestina como a religiosidade, a música e o povo.
«Chico Brilhante era doido pra fazer um trabalho grande.
Mas o trabalho grande que ele queria era um santo.
Frei Damião». Jordão retrucou logo de cara, dizendo que Frei Damião não fazia.
«Pra fazer só Frei Damião eu não quero fazer».
O artista plástico ainda arrematou com o chiste:
«Bata uma fotografia do Frei e bote aí na parede».
Jordão, defendendo uma obra mais elaborada e contextualizada, se ofereceu para projetar uma coisa diferente.
«Me dê uns três meses para a eu pensar o que é que eu vou fazer, que aí a gente faz».
Com o prazo expirado, Jordão voltou ao encontro de " Chico Brilhante.
«Eu to com o trabalho feito aqui na minha cabeça».
Chico quis saber qual era o projeto do artista.
«Eu vou fazer um Luiz Gonzaga, por que ele gostava muito de Frei Damião.
Aí eu juntei ...
Luis Gonzaga com Frei Damião ...
Luis Gonzaga tocando a sanfona ...
arrastando seu povo ao encontro de Frei Damião, olha que negócio bonito?»,
se diverte Jordão rememorando a resposta que deu à Chico Brilhante.
Para quem tem curiosidade de ver Luiz Gonzaga e sua trupe indo até à presença de Frei Damião, basta um dia, encher o tanque ou calibrar os pneus do carro.
Digo isso porque, Jordão fez tudo esse trabalho em pleno um posto de gasolina, num bairro de Natal.
Mais algumas
E não é só o Anjo Azul e nem Luiz Gonzaga e a trupe de Frei Damião que ostentam um tamanho fora do comum.
A maioria das obras de Jordão apresenta um aparente ' complexo de superioridade '.
Todas elas são enormes, assim como o Pescador que enfeita a Praça da Praia da Pipa desde 2005.
«Eu passei um ano morando em Pipa.
Aí um dia, o dinheiro tava se acabando ...
resolvi oferecer meu trabalho ao prefeito.
Ele queria um santo.
Aí disse que em Pipa tinha muito crente e uma «imagem» poderia dar confusão.
Fiz um pescador ...
pescador não tem religião».
A política da boa-vizinhan ça de Jordão lhe rendeu mais alguns frutos.
Além do pescador, Jordão acabou fazendo a figura de um enorme golfinho que enfeita a frente da Prefeitura de Tibau do Sul.
É de autoria de Jordão o maior painel construído em concreto da América Latina.
Localizado no prédio residencial Rio-Mar, o trabalho, que é uma verdadeira façanha, está devidamente registrado no livro de recordes.
Mas quem vê os 1000 metros quadrados de obra de arte pronta, não imagina o trabalho que deu.
«Quando eu cheguei lá na construtora dizendo que eu queria trabalhar no prédio, acharam que eu era um hippie, um louco.
Depois de um chá de cadeira foi que me receberam e eu disse que queria trabalhar as fachadas do prédio».
Conversa vai, conversa vem, Jordão conseguiu vender o projeto.
Com a palavra empenhada por os representantes da construção, o artista fez algumas exigências.
«Eu disse:
Eu quero uma bancada nova, lápis.
Quero papel bom ...
de diversos tipos ...
só papel de linha pesada».
Os pedidos de Jordão foram atendidos.
Depois de 15 dias projetando, o artista pediu para que fossem buscar o esboço do trabalho.
De volta ao escritório da construtora, pediram para Jordão mostrar o que ele tinha feito.
«Vamos ali na mesa de reunião», disse um engenheiro.
Sem a menor cerimônia, o artista explicou que ali não caberia.
«Tem que ser lá fora, na rua ...
Aí eu saí estirando o projeto no meio da rua ...
do tamanho que era o edifício, era o tamanho do projeto».
Passados mais de 20 anos da elaboração do painel, Jordão acredita que este trabalho foi obra do acaso.
«Foi sorte demais.
Você levar um projeto desses sem trabalhar na firma, foi muita coragem».
Um outro lugar onde é possível se esbaldar com as obras de Jordão, dada a grande concentração de trabalhos realizados por o artista é o Centro de Convenções de Natal.
Ao todo são seis painéis:
o externo, de aproximadamente sete metros de altura por 25 de comprimento, retrata a paisagem costeira com coqueiros, cajus, jangadeiros e deusas das águas.
Em o saguão de entrada, como não poderia deixar de ser, estão dando as boas vindas um enorme pescador e uma rendeira.
Feito com cimento, o material preferido de Jordão, existe ainda um trabalho com motivos indígenas dominando uma das paredes.
Em a ala central, dois painéis de latão:
de um lado um retrato do cangaceiro Lampião, do outro as salineiras de Macau.
«Mas o que eu mais gosto ali no Centro é o Bumba meu boi.
Ficou muito bonito», conta Jordão orgulhoso.
Palavra de mestre
Em as suas andanças artísticas, Jordão teve a oportunidade de trabalhar com nomes consagrados como Newton Navarro e Dorian Gray Caldas.
O maior artista plástico em atividade do Rio Grande do Norte defende que a obra de Jordão ' dispensa adjetivos '.
«Tenho ele como o mais expressivo escultor.
Ele tem uma expressão muito própria.
Não imita ninguém».
Além de considerar Jordão como um bom pintor, Dorian o compara à unanimidades da arte mundial.
«Ele é da mesma linguagem de Michelangelo, Leonardo (De a Vinci).
Tem um traço instintivo ...
vocacionado. Uma pena ele não ter condições de trabalhar com materiais nobres.
Ele merecia trabalhar com mármore ...
bronze ...».
O reconhecimento do valor como feitor de arte de mão cheia, não se restringe à Dorian Gray.
Em o último mês de outubro Jordão desembarcou na capital do país para participar de uma exposição no Salão Negro do Palácio do Congresso.
A entrada solene do Palácio, é destinado à mostras, eventos culturais, lançamento de livros, recepções e celebrações religiosas.
Dividindo o Salão com artistas de várias regiões do país, o artífice nascido no Rio-Mar revela que a oportunidade de ir à Brasília, surgiu à partir do " Anjo Azul.
«A senadora Rosalba Ciarlini passou e viu o Anjo, aí me convidou pra ir á Brasília.
Achei bom, mas o trânsito faz muito barulho.
Prefiro Natal», analisa Jordão.
Produzindo com a mesma freqüência de antigamente, Jordão conseguiu juntar dinheiro e comprou uma casinha simples na Rua do Motor com direito à vista para o mar e quintal íngreme com muitas árvores frutíferas -- no mesmo bairro onde desenhou na areia e vendeu seus santinhos feitos ora de cimento, ora de «argila do padre».
Ele montou um ateliê improvisado nos fundos, onde, cheio de planos, pensa em comprar os terrenos vizinhos para construir sua nova casa e um ateliê maior.
Bem maior.
Tão grande quanto as colossais esculturas que inventa.
Número de frases: 194
Rock se faz sorrindo.
A energia punk ou o psicodelismo e o rock and roll correm vivos embalados por um corpo inteiro.
Falar coisas vivas em letras é tão fundamental quanto um grande solo de guitarra ou bateria.
Essa historia de se fazer um rock dito «refinado» e «experimental» não deve subjugar que o velho rockzinho antigo tenha o perigo de assustar alguem.
Querem criar a faixa etaria musical.
Teria isso a ver com a Nova Ordem Mundial??
Se voce passou dos 30 não deve fazer um rock direto e seco, voce tem que deslizar suavemente para o ye ye ou para o ja citado amor blablabla, enfeitando desnecessariamente um céu que se faz lindo por sua propria existencia.
A questão não e apenas o que se toca, mas incondicionalmente o que se canta, tudo isso sem querer explicar nada ...
Número de frases: 8
«há poetas demais no escuro «-- Alberto Infante,» Diário Austral.
«críticas não são pertinentes, são arte, eu sou uma artista!" --
Barbara Woolfer, Revista de Cinema.
«uma das revelações do site Overmundo!" --
Oscar & Pablo, " Caderno Cultural.
«delicadeza, inocência e alma de trovador." --
Clarice Flor, " Suplemento Palavra.
«viva o grande poeta, abracadabra!" --
Anônimo, " Fã Clube.
«jovens e pretensiosos ..." --
Poeta Anônimo, Clube de Literatura dos Corações Solitários do Sargento Carrero.
O poeta Marcos André Carvalho Lins, recifense, é um dos poetas mais lidos do site Overmundo, também é integrante de um movimento cultural intitulado «abracadabra».
Júlio Rennó:
Se fosse possível, você viveria com o ofício de poeta?
Marcos:
Sim, e me daria por muito satisfeito.
Mas vale lembrar que o poeta não faz apenas versos, e põe letras no papel.
O verdadeiro poeta põe letras na vida, doma a existência, e isso é que é fascinante em ser poeta, apossibilidade de agir com apenas uma caneta ou um teclado, agir através das metáforas, dentro e fora doambiente social, ou seja, o poeta tem que ter a letra dentro de si, também.
Rennó:
Você já recebeu alguma crítica violenta?
Ou gentileza, às vezes, pode machucar mais?
Marcos:
Nunca. Mas não me importo com o que me machuca ou não vai me machucar, todas as críticas são pertinentes dentro do contexto em que se inserem.
Rennó:
Você já lançou algum livro com poemas seus?
Qual o último livro de poemas que você comprou?
Marcos:
Lancei um livro de prosa poética.
Um livro que encerra pedaços de vida de um maneira leve e, até certo ponto, com lirismo, da mesma maneira que começou:
a partir do zero quase absoluto.
Digo quase porque sempre há uma parte de nós mesmos em cada linha escrita.
Mas tentei criar uma obra de ficção, muito embora muitos (entre estes eu) tenham percebido que havia muito de mim (da minha vivência interior e exterior) em toda a obra.
Em demasia, eu diria.
Não lembro qual o último que eu comprei, faz muito tempo, mas troquei um livro meu com um livro de JJ Leandro há algum tempo (por o correio), chama-se «Quase ave».
Rennó:
Você publica os seus poemas, constantemente, e com grande aprovação, no site Overmundo.
Já pensou em publicar um livro inteiro?
Marcos:
Pensar não paga imposto, ainda.
rs. Mas não tenho essa pretensão, editar um livro dá muito trabalho, eu tenho material inédito para compor um segundo livro, porém, sinceramente, eu prefiro me ocupar com coisas mais importantes.
Não que publicar um livro físico não seja significativo, mas há tantos versos a serem escritos ao vento por que detê-los, aprisioná-los no papel?
Talvez na maturidade, um pouco mais adiante, deseje colecionar novamente contos ou versos e publicá-los.
Atualmente me ocupo, como disse acima, com as letras da vida real.
Publico no Overmundo para poder respirar, como qualquer poeta, uma necessidade primária do poeta é escrever, mas principalmente para colaborar, à minha maneira, com o que acho uma iniciativa espetacular e sem precedentes.
Tem muita gente boa sem espaço nas livrarias e que publica no Overmundo (e o melhor, é lido!).
Um poeta vivo, um poeta morto e um livro para salvar da fogueira por Marcos André Carvalho Lins.
JJ Leandro e Benny franklin, ambos, pra mim, dessa geração, da poesia, digamos, «digital» são incomparáveis.
O primeiro por a sagacidade como retrata do cotidiano, aos mais inóspitos rincões da alma humana.
O segundo devido à maneira como se coloca diante das palavras (e diante da vida!),
com um domínio sem igual.
Um poeta morto.
Também citaria dois, caindo um pouco na vala do lugar comum:
Drummond e Fernando Pessoa.
Drummond é o remédio amargo para a alma, e Pessoa, a contemplação do mundo em Pessoa.
Um livro.
Nenhum. Os livros são passageiros, fugazes e efêmeros;
as idéias sim, estas são transcendentes e eternas.
Pode-se jogar na fogueira uma biblioteca inteira mas se, para isso, tiver de se queimar um único ser e suas idéias, melhor não fazê-lo.
Número de frases: 58
Os livros pertencem ao homem, as idéias à humanidade.
Um dos maiores brasileiros está enterrado em sepultura simples, há 139 anos, em território estrangeiro dentro do próprio Brasil.
Ele é o pouco lembrado José Inácio de Abreu e Lima que, ao morrer em Pernambuco, em 1869, não foi levado para um cemitério público sob administração da Igreja Católica, por ordem do bispo Dom Francisco Cardoso Ayres.
Seu repouso eterno foi dado, por caridade cristã, por anglicanos que o recolheram ao Cemitério dos Ingleses, no bairro de Santo Amaro, no Recife, ainda hoje considerado um território britânico.
De acordo com o Tratado de Navegação e Comércio, estabelecido em 1810, entre Portugal e «Inglaterra,» os vassalos de Sua Majestade Britânica, que morressem em territórios de Sua Alteza Real, o Príncipe Regente de Portugal, deviam ser enterrados em lugares designados para este fim."
Mas o que fez em vida esse homem exilado em sua própria terra, que é nome de um pequeno município a 20 quilômetros da capital e que dará, dentro de pouco tempo, denominação à refinaria de petróleo que a Petrobras constrói em Pernambuco com a empresa estatal venezuelana PDVESA, por solicitação expressa do presidente Hugo Chávez ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva?
José Inácio de Abreu e Lima foi, nos anos finais da vida, defensor extremado dos valores republicanos e da liberdade religiosa e um duro adversário de Dom Francisco.
Mas esses fatos consomem poucas páginas de sua brilhante e extensa biografia.
Ele foi muito mais.
Tornou-se um dos generais diletos do Libertador Simon Bolívar, pai da independência da Venezuela e de grande parte da América espanhola.
Abreu e Lima acompanhou o Libertador por rios, vales e montanhas.
Segundo a história que se conta nos países dos Andes, lá do outro lado do continente, o general brasileiro é " llamado el héroe de las dos Américas, tanto la de origen portugués donde nació, como la española donde también luchó por la libertad."
José Inácio de Abreu e Lima foi diplomata a serviço do Libertador, escreveu para ele discursos e proclamações e o acompanhou em campanhas e batalhas históricas como as de Apure, Pisba, Gámeza, Pantano de Vargas, Boyacá, Carabobo, onde foi ferido no peito, e Maracaibo.
Sob as ordens do general José Antonio Páez ele participou do ataque contra Puerto Cabello, em 1823.
Ao lado de outros generais, seu nome está inscrito, em português rudimentar no monumento que os venezuelanos erigiram em honra de Simon Bolívar, em Caracas:
«General Abreu e Lima. Brasilero." Isso mesmo:
brasilero. Outro grande brasileiro, Barbosa Lima Sobrinho, quando governador de Pernambuco, em 1948, homenageou esse herói de muitas pátrias, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, figura histórica precursora do ideário de integração sul-americano e pai do socialismo no Brasil dando seu nome ao pequeno Distrito de Maricota.
Em 1982, Abreu e Lima passou à condição de município, integrando a região do Grande Recife.
Vamos voltar à História.
Como morreu, José Inácio de Abreu e Lima nasceu libertário.
Ele veio ao mundo em 6 de abril de 1794, na mesma cidade onde continua banido e sepultado em solo estrangeiro.
Seu pai era também um revolucionário:
José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, o Padre Roma, líder da Revolução Pernambucana de 1817.
Abreu e Lima cursou a Academia Real Militar do Rio de Janeiro e, em 1816, já capitão de Artilharia, foi preso no Recife como insubordinado e acusado de responsável por desordem pública.
Condenado a cumprir pena na Bahia, ele assistiu, em 29 de março de 1817 ao fuzilamento do pai.
Já dotado de sólida visão crítica do mundo o jovem oficial fugiu para os Estados Unidos, ajudado por a Maçonaria, jurando defender, na América do Sul, os mesmos princípios anticolonialistas e de independência nacional do pai.
Sempre que vem ao Brasil, o presidente Hugo Chávez vai a Brasília e a outra cidade importante mas faz questão de viajar ao Recife.
Lá, como fizeram todos os presidentes venezuelanos que visitaram o Brasil, ele deposita, em nome do povo de seu país, uma coroa de flores no túmulo simples do eterno exilado de José Inácio de Abreu e Lima.
Herói romântico, audaz e destemido o brasileiro ofereceu, em 1818, como conta a história narrada na Venezuela, " sus servicios militares como capitán, grado obtenido en el Brasil, y fue aceptado por el Libertador en Angostura en 1819, durante la vigência del Congreso del.
Luego participó el equipo de redactores del Correo del Orinoco, en el que dio frecuentes noticias de los movimientos brasileños de independência, sobre todo de su estado de origen, Pernambuco."
Intelectual de excepcional cultura, Abreu e Lima logo se tornou um dos favoritos de Bolívar.
Por delegação de ele, o brasileiro viajou à Europa para defender a causa libertária latino-americana dos ataques de Henri-Benjamin Constant.
Em 9 de agosto de 1831, já no ocaso de Simon Bolívar, o general Abreu e Lima foi expulso da Venezuela, em companhia de outros oficiais estrangeiros, viajando para os Estados Unidos e Europa e depois para o Brasil.
Alguns historiadores dizem que sua saída da Venezuela foi motivada por questões pessoais.
Mulherengo, ele se apaixonou por uma sobrinha de Bolívar, desagradando o marido que o desafiou para um duelo.
Abreu e Lima preferiu despedir-se de sua nova pátria, em respeito à figura de Bolívar.
Aqui, logo que regressou, ele deixou de lado seu espírito republicano e passou a defender uma tese polêmica:
a volta de Dom Pedro I ao trono brasileiro, numa monarquia constitucional parlamentar.
Abreu e Lima julgava que Dom Pedro poderia ser um «Bolívar coroado» e líder inconteste da integridade política e geográfica do Brasil.
Esse ponto de vista foi muito contestado no Rio de Janeiro por aqueles que desejavam ver Dom Pedro II coroado, mesmo sendo criança, o que ocorreu em 1840, quando ele completou 14 anos de idade.
Um de seus mais ferrenhos adversários de Abreu e Lima foi o escritor Francisco Adolfo de Varnhagen, um áulico e lacaio da Corte que escreveu uma lastimável história de um Brasil sem conflitos, violência e escravagismo e colonizado por um Portugal admirável e generoso.
Hostilizado e temido e no Rio de Janeiro, José Inácio de Abreu e Lima voltou a Pernambuco, na esperança de eleger-se deputado.
Atacado por usineiros e conservadores, ele perdeu a eleição.
Mas logo seria um dos líderes do último movimento revolucionário contra o Império, a Insurreição ou Revolta Praieira, entre 1848 e 1852.
Ao lado do capitão de artilharia Pedro Ivo Veloso da Silveira, do deputado Joaquim Nunes Machado e de Antônio Borges da Fonseca, militante da ala radical do Partido Liberal, Abreu e Lima -- já denominado por os pernambucanos com o epíteto de «general das massas» -- liderou, em Olinda, uma rebelião que logo se espalhou por a Zona da Mata de Pernambuco.
Era a culminação de uma luta contra a destituição do governador da província Antônio Chichorro da Gama e de ferrenha oposição à aristocracia proprietária de terras, usinas e comércio.
As páginas do jornal «Diário Novo», dos revolucionários, publicavam inflamados protestos contra o poder imperial e os conservadores pernambucanos.
Já se liam textos de Abreu e Lima com forte conotação socialista utópica inspirada na leitura de pensadores como Pierre-Joseph Proudhon, Claude Saint-Simon, Charles Fourier e Roberto Owen, europeus pré-marxistas.
Em a Europa, como em Pernambuco, considerava-se que a Revolução Francesa fracassara, apesar de ter consagrado a liberdade, a igualdade e a fraternidade.
Onde estava a igualdade numa sociedade tão dividida entre ricos e pobres?
Liberdade? Só a de mercado, a do burguês livre para explorar o trabalhador.
Fraternidade? Com tanta desigualdade e escravagismo?
E o «Diário Novo» divulgava as bandeiras de luta do Movimento Praieiro:
defesa do voto livre universal, liberdade de imprensa, fim do Poder Moderador (a corte imperial), quebra do monopólio político das oligarquias agrárias e a nacionalização do comércio, totalmente em mãos dos portugueses.
Donos de engenho de pequeno porte, artesãos, profissionais liberais, setores da classe subalterna e negros libertos aderiram ao movimento.
Sem grande apoio, a Revolução Praieira foi derrotada por as tropas imperiais.
Abreu e Lima foi preso e exilado no Arquipélago de Fernando de Noronha.
O advogado Thomaz Nabuco de Araújo, pai de Joaquim Nabuco, fez a defesa de José Inácio de Abreu e Lima nos tribunais.
Mais tarde ele foi solto e anistiado.
Já eram, então, outros tempos.
Tempos de cansaço físico, mas ainda de forte vigor intelectual.
Lembram os historiadores venezuelanos:
en 1855 publicó los primeros libros brasileños sobre socialismo, en los moldes de Fourier y los socialistas utópicos."
O historiador Manuel Correia de Andrade escreveu:
«Abreu e Lima também foi um precursor do movimento de defesa do meio ambiente, tão em voga nos dias de hoje, de vez que de sua permanência como prisioneiro em Fernando de Noronha, após a revolta praieira, resultou um artigo sobre o famoso arquipélago no qual faz grandes observações de ordem ecológica, que foi publicado na revista do Instituto Arqueológico."
O jornalista e acadêmico Barbosa Lima Sobrinho, uma das maiores figuras da vida brasileira no século passado, fez uma previsão no prefácio que escreveu para a segunda edição do livro «O Socialismo», publicada em 1979:» no dia em que o Brasil se interessar realmente por o seu relacionamento com as repúblicas da América espanhola, Abreu e Lima conquistará a importância que merece, na história de seu país.
Não nos faltam heróis nacionais e figuras de grande projeção.
Mas, por assim dizer, limitadas às fronteiras do Brasil, quando muito às fronteiras de Portugal.
Mas figuras continentais, com serviços prestados a outros países da América Espanhola, são raras, excepcionais.
É verdade que tivemos Hipólito da Costa, no (jornal) Correio Braziliense, defendendo apaixonadamente a Independência de todo o território da América Espanhola, exaltando Francisco Miranda e acompanhando, dia por dia, a ação libertadora de Simon Bolívar, no seu mensário londrino."
Lembrou mais o ex-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e " Academia Brasileira de Letras:
«mas Abreu e Lima não se limitou ao domínio literário.
Incorporou-se ao exército de Bolívar, com a patente de capitão, e tomou parte nas batalhas decisivas, em que estava em causa a liberdade da Colômbia e da Venezuela.
E foi conquistando, com o seu valor e a sua bravura, as patentes que merecia, até chegar a general.
General de Bolívar é um título que pode consagrar qualquer pessoa e dar-lhe direito à gratidão de pátrias a que não pertencia."
O Cemitério dos Ingleses é o monumento de José Inácio de Abreu e Lima.
Lá ele deve ficar para sempre.
Se sua memória continuar sem ser honrada por os brasileiros, pouco importa.
Seus feitos e seu exemplo estão nas páginas da História e algum dia serão resgatados por os contemporâneos da época.
Por ora, bastam o reconhecimento e a honra que lhe prestam a Venezuela e a América de língua espanhola.
Número de frases: 80
Tradição
E Modernidade no Carimbó Urbano De Belém
Autor: Paulo Murilo Guerreiro do Amaral
Periódico: Música e Suas Interfaces, EDUEPA / 2005 (Belém / PA)
Este trabalho constitui um resumo de minha Dissertação de Mestrado, defendida em 2003 no Instituto de Artes da UNESP/São Paulo.
Não consta a bibliografia, pois ultrapassaria o limite de caracteres.
Ademais, figuras musicais existentes no documento original infelizmente não foram reconhecidas neste formato, assim como as tabelas ficaram desconfiguradas.
Para quem tiver a necessidade de obter a versão «sem defeito» (digamos assim), escreva-me um e-mail.
Uma última coisa:
em termos de normas técnicas para escrita acadêmica, vocês perceberão no texto a repetição de autores, em vez do uso dos Id / IBID.
Resumo
A partir da década de 1970, quando o carimbó passa a integrar o cotidiano cultural de Belém como uma modalidade musical «típica» do Pará, emergem e solidificam-se duas correntes distintas de pensamento:
uma o considera música tradicional, enquanto outra, música moderna.
As personagens principais dessa oposição são os cantadores Verequete e Pinduca, respectivamente atrelados à idéia de tradição e de modernidade carimbóticas.
Através de entrevistas e da análise de amostras discográficas da época, incluindo exemplos de um suposto referencial musical de «originalidade» para o carimbó, verificou-se que, no que diz respeito à orquestração e ao ritmo, as músicas dos carimbozeiros citados, em contraposição aos seus discursos, possuem características comuns, algumas de elas identificadas também em gravações onde estariam registradas as estruturas «primárias» da manifestação, e outras sem quaisquer vínculos com o que se imagina ser um carimbó «original».
Em o nível das características musicais estudadas e no ambiente urbano de Belém, tradição e modernidade diluem-se num representante cultural híbrido e proveniente de elementos formadores imprecisos, a exemplo do foco mais remoto do carimbó no Pará, a partir de onde seus traços seriam definidos e confrontados, efetivamente, com tudo o que refletisse a antítese da tradição.
Palavras-chave:
carimbó, música, Belém, tradição, modernidade.
Artigo
De acordo com Vicente Salles (1969:260), a referência bibliográfica mais antiga sobre o carimbó provavelmente consta na obra de Vicente Chermont de Miranda, intitulada «Glossário Paraense», publicada pela primeira vez em 1906:
«Carimbó. s.
m.-- Atabaque, tambor, provàvelmente de origem africana.
É feito de um tronco, internamente escavado, de cêrca de um metro de comprimento e de 30 centímetros de diâmetro;
sôbre uma das aberturas se aplica um couro descabelado de veado, bem entesado.
Senta-se o tocador sôbre o tronco, e bate em cadência com um ritmo especial, tendo por vaquetas as próprias mãos.
Usa-se o carimbó na dança denominada batuque, importada da África por os negros cativos " (Miranda, 1968:20).
O termo carimbó, que originalmente refere-se apenas ao instrumento musical, desmembrou-se também em música e dança.
A música mistura vozes, instrumentos melódicos e percussão, embora haja autores que consideram apenas percussão e voz no som carimbótico.
As coreografias refletem um típico erotismo de danças profanas, traduzida em movimentos sensuais de cortejo, e a sua poesia retrata o trabalho cotidiano e o lazer eventual do amazônida.
A «base do carimbó [referindo-se à música] são os tambores» (Salles, 1969:279).
As diferentes marcações percussivas, norteadas por os tambores artesanais, são realizadas por instrumentos como o reco-reco, os maracás e outros (Guerreiro do Amaral, 2003).
A ênfase na intensidade da execução de ritmos nesse instrumental costumeiramente encobre a voz do cantador e também as linhas de instrumentos melódicos como o clarinete, a flauta e o saxofone soprano, dificultando a análise de certos elementos da estrutura musical.
Com o advento da tecnologia na música do carimbó urbano de Belém, porém, os timbres equilibram-se em termos de volume sonoro.
No que diz respeito à «orquestra» do carimbó, Salles (1969) considera que não existe uma formação instrumental específica, podendo abarcar violões, cavaquinhos ou mesmo violinos.
Em recente pesquisa (Guerreiro do Amaral, 2003), aponto um instrumental bastante variado para o carimbó urbano de Belém, incluindo fontes acústicas e eletrônicas.
Grupos musicais contemporâneos, particularmente nessa localidade e após a década de 1970, utilizam instrumentos como a guitarra, o contrabaixo elétrico, a bateria e o teclado, estabelecendo uma identidade com estilos midiáticos vigentes, a exemplo do rock, da lambada e do brega.
Câmara Cascudo (1972:227), no primeiro volume do seu Dicionário de Folclore Brasileiro, além de descrever o carimbó como música e dança, informa algumas das localidades onde ocorre:
«( ...) Dança negra, brasileira, de roda, em Marajó [ilha do Marajó], arredores de Belém, no Pará ( ...).
A dança do carimbó ocorre na área pastoril de Soure (Marajó), nas zonas de lavradores do Salgado (Curuçá, Marapanim, Maracanã) [zona litorânea do Estado do Pará, a nordeste de Belém], tanto na terra firme, como nas praias, informa Bruno de Meneses ( ...)».
A dança do carimbó pode ser caracterizada como uma suíte, dado o fato de ser formada por várias marcações coreográficas.
Seus movimentos -- " puladinho, de passos miúdos, e dança-se afastado, não havendo nenhum contacto do cavalheiro com a dama ..." (
Tupinambá, 1969:35) -- remetem-se a elementos da fauna amazônica, como o macaco e o jacaré, personificados nos volteios dos dançarinos (Lamas, 1975:60).
Sua coreografia é composta por a reunião de mulheres e homens, em formação de dança de roda, como pares (casais) dançantes.
O fato dos dançarinos coreografarem de maneira totalmente solta, ou seja, sem que entre eles haja qualquer contato corporal, possibilita que realizem movimentos solistas (Salles, 1969:278).
Em a pesquisa «Carimbó -- Um canto caboclo», Maciel (1983) aborda um repertório de temáticas nas letras das músicas, enfocando elementos como o caboclo, a fauna amazônica, o amor, entre outros.
O carimbó teria surgido de uma necessidade cabocla -- historicamente originada de uma necessidade do escravo -- de contrabalançar o trabalho «árduo» (Salles, 1969) do dia-a-dia com momentos de descontração:
«Tôda criatura humana necessita de uma periódica evasão de espírito.
Sente necessidade de compensar as horas de trabalho com horas de lazer.
A lúdica, para o povo, é talvez o momento supremo do lazer.
Pagodes, arrasta-pés, furdunços, ali, como em tôda a parte, significam o melhor meio de fuga, o melhor derivativo das canseiras e monotonias da vida precária e difícil.
Gente do trabalho, ora no campo, ora nas atividades pastoris;
ora nos roçados, nas lides da agricultura;
ora nos barcos de pesca -- o caboclo paraense anonimamente se liga ao complexo da economia regional e contribui, mão-de-obra ativa, para a criação de riquezas " (Salles, 1969:267).
Por volta da década de 1950, a Comissão Paraense de Folclore (hoje Centro Paraense de Estudos do Folclore), através da folclorista Maria Graziela Brígido e do professor de canto lírico Adelermo Mattos, intermediou o contato cultural entre Belém e Marapanim, sendo esta a localidade onde o carimbó teria «nascido» e preservado os seus traços «originais» (Guerreiro do Amaral, 2003:43).
Enquanto Mattos realizara incursões nessa localidade para fazer coletas musicológicas, Brígido levara os conjuntos de música folclórica para se apresentarem em Belém.
Essa interação resultou na incorporação dessa dança e dessa música no cotidiano cultural de Belém, não nos moldes em que acontecia naquele município litorâneo, mas atendendo a uma perspectiva de modernidade, traduzida, por exemplo, na eletrônica instrumental e na mescla do ritmo «puro» com outros gêneros musicais.
Após ser absorvido no ambiente urbano de Belém, o carimbó difundiu-se e popularizou-se.
Em sua difusão estariam presentes as indústrias do disco, dos shows presenciais e do turismo, além do suporte ideológico (nas escolas, por exemplo) e financeiro disponibilizado por o governo (Guerreiro do Amaral, 2003).
Considero a hipótese de que a urbanização, a difusão e a popularização do carimbó em Belém resultam num fenômeno social que reside no sentimento de valorização do elemento regional, a ponto de se considerar essa manifestação como um ícone de identidade cultural paraense.
Imerso no momento histórico da Ditadura Militar, o carimbó encontrara, na década de 1970, e em Belém, sobretudo, terreno fértil para estabelecer-se definitivamente.
Além do forte regionalismo embutido nessa música, nessa dança e nessa poesia, a manifestação mantinha-se afastada dos olhares da censura, uma vez que não aborda temas que agrediriam ao Regime.
Isso talvez explique, em âmbito nacional e sob determinada perspectiva, a larga exploração dos fenômenos culturais regionais por os organismos governamentais, assim como a descomunal circulação de gêneros musicais estrangeiros num país onde o inglês não é a língua oficial.
Em Belém e na década de 1970, os carimbozeiros Verequete e Pinduca destacaram-se, notadamente, por suas produções discográficas, quantitativamente mais representativas do que as de quaisquer outros carimbozeiros ou grupos folclóricos dos quais tenho notícia.
O carimbó de Marapanim, como matriz musical e coreográfica para o carimbó de Belém, teria se organizado em dois tipos distintos, já nesta última localidade:
1º) um carimbó tradicional e 2º) um carimbó moderno.
O primeiro, representado por o cantador Verequete, manteria a estrutura musical do referencial marapaniense de " originalidade ";
o segundo, representado por Pinduca, teria alterado essa estrutura, no sentido de atribuir-lhe uma feição de modernidade.
Essa diferenciação construiu a idéia da existência de duas correntes carimbóticas em Belém, confirmando uma histórica rivalidade entre defensores da tradição e da modernidade.
Um forte discurso emoldura a declarada oposição entre esses cantadores.
Em o que concerne à música do carimbó, as críticas a Verequete e a Pinduca, entre ambos, ou mesmo àquilo que seria tradição ou modernidade em suas práticas musicais, concentram-se nos seguintes elementos:
ritmo e instrumentação.
Enquanto Verequete condena as alterações rítmicas e instrumentais admitidas por Pinduca, este sustenta que o seu carimbó é, propositalmente, diferente do referencial musical de Marapanim e também da música daquele.
Enquanto Verequete defende a manutenção de uma prática carimbótica «original», Pinduca considera que, em tempos de modernidade, não há mais espaço para a tradição difundir-se e popularizar-se.
Em relação à instrumentação, registrei inúmeras orquestras carimbóticas, coletadas tanto dos discursos dos cantadores quanto das escutas de amostras musicais (nove amostras, sendo três do carimbó de Marapanim, três de Verequete e três de Pinduca).
Para efeito de comparação entre as modalidades de carimbó de Belém e o referencial marapaniense de «originalidade», privilegiei as informações retiradas das amostras musicais, ao invés dos depoimentos concedidos por os carimbozeiros que defendem a tradição, dada a natural parcialidade em suas considerações, no sentido de valorizarem as suas habilidades musicais e de manterem acesa a» chama " da preservação dessa manifestação folclórica.
É claro que, embora isso, esses discursos possuem grande importância para a pesquisa, no que diz respeito à constatação da incompatibilidade entre os instrumentais mencionados e as reais orquestras.
Em visita a Marapanim, -- localizada a cerca de cento e oitenta quilômetros de Belém, no litoral do Pará -- entrevistei mestre Ninito, um antigo cantador de carimbó, objetivando buscar informações sobre o instrumental «original» dessa manifestação.
O mesmo deu-se em entrevista realizada com mestre Verequete, em Belém, partindo da idéia de que este cantador manteria em seu grupo folclórico um instrumental também «original».
O instrumental informado por mestre Ninito abarcaria dois carimbós (tambores), uma onça (cuíca), maracas (maracás), xeque (milheiro) e viola (Guerreiro do Amaral, 2003:26), o que difere do instrumental coletado a partir de escutas musicais da época, composto de dois tambores, maracás, saxofone (ou clarinete), flauta e banjo (Guerreiro do Amaral, 2003:38-9).
O carimbozeiro Verequete, por sua vez, cita três formações instrumentais diferentes.
De a primeira participariam os dois tambores, a onça, o clarinete, a flauta, a viola, o pandeiro, o reco-reco (ou reque-reque) e duas baquetas de madeira que servem para percutir o dorso de um dos carimbós.
De a segunda fariam parte os carimbós, o saxofone, o clarinete, o banjo, as maracas, o triângulo e o ganzá (cilindro de metal parcialmente recheado com grãos).
A terceira formação agregaria os tambores, a viola, o pandeiro, o triângulo, o xeque-xeque (reque-reque, reco-reco), a flauta, o ganzá e as baquetas de percussão (Guerreiro do Amaral, 2003:60-1).
Em as três «orquestras» mencionadas coincidem apenas os tambores e o banjo (se entendido como viola).
Em contrapartida, a real instrumentação de Verequete, obtida a partir de escutas musicais e notadamente menos percussiva que quaisquer das formações citadas por o cantador, comporta dois carimbós, banjo, maracas, saxofone e clarinete (Guerreiro do Amaral, 2003:66).
No que se refere ao instrumental, o padrão de «originalidade» carimbótica não foi identificado, tanto na «orquestra» de Marapanim quanto na de Verequete, uma vez que, para isso, deveriam afinar-se, em cada uma dessas modalidades musicais, ambas as «orquestras» ditas tradicionais, seja a real (retirada das amostras musicais) ou a ideal (retirada dos discursos dos cantadores).
Em Pinduca, o instrumental (saxofone, guitarra, teclado, bateria, diversas percussões, pistom e contrabaixo elétrico) descarta quaisquer alusões às «orquestras» de Marapanim ou de Verequete, exceto em se tratando do saxofone.
O quadro abaixo compara o instrumental do carimbó nas três modalidades pesquisadas, a partir de amostragem discográfica da década de 1970:
Instrumento
Bateria Não SIM
Carimbó SIM SIM Não
Clarinete SIM SIM Não
Flauta SIM Não Não
Guitarra Não SIM
Maracás SIM SIM Não
Teclado Não SIM
Percussão (outros) Não Não SIM
Saxofone SIM SIM SIM
Banjo SIM SIM Não
Baixo elétrico Não Não SIM
Pistom Não SIM
Os cantadores também consideram que, através do ritmo, podem ser detectadas diferenças entre uma e outra modalidade de carimbó.
Em os ritmos encontram-se elementos musicais estruturais sobre os quais nenhum dos cantadores comenta, seja para afirmar a tradição, a modernidade, ou mesmo para explicar quaisquer características estruturais dessa música.
Esse fato pode ser explicado por o aprendizado informal adquirido por esses indivíduos, isto é, o conhecimento dessa manifestação se teria dado através da transmissão oral, de boca a boca, imitativa e repetidamente.
Verequete faz críticas a Pinduca, que operaria modificações no ritmo «original» do carimbó.
Mas que ritmo?
Em outra perspectiva, Pinduca tão-somente informa ao pesquisador que costuma enxertar em sua música ritmos «novos», todavia, não os esclarece.
Selecionadas as sínteses dos padrões rítmicos dos carimbós, este pesquisador nota que os de Marapanim também são encontrados na música de Belém, da seguinte maneira:
dos dois padrões marapanienses, um de eles é evidenciado em Verequete, enquanto outro é encontrado em Pinduca.
Esse dado indica um ponto de contato entre os carimbós da cidade grande e o referencial de «originalidade».
Ora, se existem características marapanienses em Pinduca, por exemplo, entendo que, numa concepção mais abrangente, a tradição está sendo reconhecida por a modernidade.
Síntese rítmica
SIM Não SIM
SIM SIM Não
Não SIM SIM
Não SIM SIM
Não SIM SIM
Não Não SIM
Não Não SIM
Não Não SIM
Não Não SIM
Não Não SIM
Outra tipologia de identificação entre a tradição e a modernidade pode ser verificada a partir das células de ritmo coletadas das linhas rítmicas das melodias do carimbó.
Observando o quadro abaixo, afirmo que, das oito células selecionadas, cinco de elas encontram-se presentes nas três modalidades de Carimbó.
Célula rítmica
SIM SIM SIM
SIM SIM SIM
SIM SIM SIM
SIM Não SIM
SIM SIM SIM
Não SIM Não
Não Não SIM
SIM SIM SIM
Com base nas informações e depoimentos coletados, as opiniões em torno da tradição ou da modernidade no carimbó se dão de maneira polarizada, isto é, ou são preservadas suas características «originais», ou são re-caracterizadas em ambiente de modernidade.
Esses posicionamentos encontram-se diretamente ligados à idéia de perenização dessa manifestação, alicerçada na construção da identidade popular do povo paraense e defendida por ambos os cantadores mencionados.
É claro, porém, que os meios para se chegar a esse ideal diferem, dependendo da corrente carimbótica.
A matriz conceitual do carimbó de Belém, seja o de Verequete ou o de Pinduca, consiste na idéia de que tradição e modernidade diluem-se em termos de complementaridade, contradizendo as opiniões coletadas «em campo».
Ademais, compreendo essa integração desatrelada da necessidade de definir quais seriam os elementos carimbóticos tradicionais e modernos, inclusive porque o próprio referencial musical de «originalidade» pode ser questionado.
É verdadeiro que a crítica em torno do carimbó de Belém como anti-preservacionista da tradição reside especialmente na questão da composição instrumental das «orquestras».
A despeito das tantas grades instrumentais idealizadas para o carimbó, porém, verifico, em suas estruturas rítmicas, a possibilidade de melhor compreender a inviabilidade dos embates em torno do «desrespeito» às tradições populares.
Afinal, nenhum dos carimbós belenenses estudados mantém, também sob esse aspecto musical, o exato «padrão» de Marapanim, ou quaisquer dos seus desmembramentos.
A continuidade do carimbó como movimento musical que identifica o Pará depende de uma articulação entre a tradição e a modernidade, traduzida na idéia do seu reprocessamento, ou seja, enquanto a primeira lhe confere, em qualquer tempo, a autoridade de pertencer ao povo, a última o re-adapta às condições da atualidade.
A tentativa de formalizar um pensamento acerca dos motivos que geraram esse histórico confronto constitui, sem dúvida alguma, um dos motivos por os quais pesquisei o carimbó sob o enfoque proposto.
De a mesma maneira, a possibilidade de indicar caminhos para a interpretação da dicotomia tradição versus modernidade também justifica essa escolha.
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No entanto, descortinar «mistérios» dessa natureza poderia, quem sabe, desfazer talvez o mais instigante e mágico aspecto do carimbó, responsável, ao menos numa determinada medida, por sua manutenção na memória popular da atualidade e no cotidiano cultural da região e da localidade.
A parceria criada para sinergizar os programas «Cultura Viva» e «Primeiro Emprego», firmada entre o Ministério da Cultura, o Ministério do Trabalho e 197 Pontos de Cultura, contou com a participação de mais de 10.000 jovens.
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A Drica Veloso publicou no Conversê resultados de uma pesquisa respondida por 66 % dos projetos que participaram.
«Sassaricando -- E o Rio inventou a Marchinha», espetáculo musical de enorme sucesso de público no Rio de Janeiro, sold-out com várias semanas de antecedência, marca um ponto alto na onda da «retomada do samba de raiz» e o início de sua adaptação ao Padrão Globo de produção, ao mainstream cultural brasileiro.
Em «Sassaricando», seis cantores, capitaneados por Eduardo Dusek e acompanhados por uma numerosa e competente banda, cantam marchinhas antigas de compositores como Noel Rosa, Lamartine Babo e Braguinha.
A luz é impecável, assim como o figurino, a afinação e os trejeitos dos seis cantores.
Eles cantam com vozes imponentes e floreios vocais, quase sempre sorrindo com os braços abertos, perfeitos no estilo do programa Fama de cantar e interpretar ao mesmo tempo.
Um fotógrafo que quiser fazer uma imagem de divulgação do musical vai ter centenas de oportunidades de captar o elenco com expressões apoteóticas durante as duas horas de espetáculo.
Dado o esmero da produção e o sucesso de «Sassaricando», o fenômeno deve crescer.
Seguindo este caminho, não demoraremos a ver Sandy vestida de colombina ou Rogério Flausino fazer cover de Noel Rosa.
Se «Sassaricando» fosse realmente um episódio de Fama, meu voto iria para Pedro Paulo Malta.
Ele tem uma cara redonda e simpática e não aparenta ter mais de trinta anos, mas interpreta muito bem o papel de sambista de priscas eras.
O que me cativa em Pedro é a dúvida se ele está sendo irônico ou se ele realmente engraxa seus sapatos e engoma sua gravata todos os dias, antes de tomar uma média com pão com maneiga no botequim.
As marchinhas são legais.
Eu gosto da despretensão e das letras coloquiais.
Todas tratam de temas populares, atuais para o público da época, e esse era seu charme.
Deviam ser mesmo incríveis esses bailes de salão.
Mas eu, como muita gente da minha idade e do Pedro Paulo, nunca fui frequentador assíduo desses bailes, nem consumidor de médias em botequins.
Enquanto o público lota todos os dias a sala para ver Pedro Paulo cantar sobre garrafas de parati, Felipe Schuery, vocalista da banda independente carioca Lasciva Lula, por exemplo, canta em casas pequenas e não muito cheias sobre fangangos mole com coca sem gás.
É um fenômeno estranho.
Os números de público deveriam ser inversos a estes, mais ou menos na mesma proporção da diferença atual do número atual impressões de rótulos de garrafas com as palavras coca-cola e «parati».
Se eu já não via muito sentido nos jovens cariocas freqüentarem desesperadamente a Lapa para dançar choros e marchas sobre sinhás formosas, vi ainda menos sentido em pessoas fazendo isso sentadas num teatro.
Minha incompreensão vai além:
se você sair dos salões da zona sul e do caos carnavalesco, vai ver que muitos dos sambas que hoje embalam a diversão de jovens policamente corretos eram vistos por a intelligentsia de sua época como uma produção popularesca, inferior, tipo um funk ou um brega hoje.
Hoje que os adolescentes das favelas não sabem quem é Braguinha, a tal intelligentsia admite seu valor.
Falta frescor no que querem oferecer como cultura para um jovem brasileiro da zona sul.
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Já para o jovem da zona norte, a forma como o mainstream desvaloriza e depois se apropria de sua cultura é perversa.
Quem conhece vida de roça sabe, o que estou falando.
Era um tempo antigo, em que as mulheres casavam virgens, ou supostamente.
Segundo o que me contaram.:.
Em o tempo em que namoraram meu pai e minha mãe, não ficaram um instante só, juntos sem ninguém por perto.
Rezava a tradição que no casamento, tinha que haver festa da boa.
Papai e mamãe iriam morar na casa de meus avos maternos, onde separaram quarto bom para o casal.
Casa grande de pau-a-pique, mas confortável, vasto terreiro e quintal.
Meu pai trabalharia na lavoura com meu avô.
Véspera de se casarem, tinham que fazer muita comida, arrumar os trem tudo, muito corre-corre.
Papai convidou dupla de violeiros amigos, mais sanfoneiro e, todos diziam que a festa seria simples sem muita chiquesa.
Ocorre que:
Toda família tem sempre uma pessoa marota.
Em a família de minha mãe e pai tinham vários.
Más nesse caso foi um tio meu, o mesmo que me contou essa estória.
Faltavam cinco dias para o casório, e o noivo lá ia todos os dias para ajudar nos preparativos da festa.
Cama, ali naquelas bandas naqueles tempos, era feita assim:
Dois cavaletes de madeira bruta fazendo a cabeceira e os pés, nas laterais, um pedaço de pau roliço de cada lado, as travessas eram feitas de varas mais ou menos aparadas e o leito com varas de bambu ou tabocas escolhidas e aparadas.
O colchão era de pano costurado dos lados com enchimento de palha de milho ou capim, assim como os travesseiros só que em proporção menor.
As mulheres se encarregaram de fazer colchão, travesseiros, bem como lençóis.
A o meu pai, coube fazer a cama como uma das tarefas.
Aconteceu que:
A pequena festa de casamento começou a ser comentada de boca em boca e se cogitar a vinda de muita gente.
Os irmãos de minha mãe vieram trazendo suas mulheres, e todos ajudavam na lida.
Assim, um colhia o milho verde para pamonha, outro fazia o doce de mamão, outro matava o porco para assar, ainda outro preparava o arroz doce, a canjica e etc..
Tinha muito etc.
Cachaça veio não sei quantos garrafões do alambique do seu Venâncio.
Minha avó já tinha
dado um estrilo com todo mundo: --
Os frangos e galinhas só eu preparo.--E
até os netos deixou de lado.
Em o final já cansada, aceitou o auxilio da nora, não sem antes exigir:
A cebola, o alho e o sal sou eu que coloco, você só ajuda a limpar e cortar.
Ao que Nena prometeu obedecer.
Papai chamou Ladico de lado e pediu em segredo:
ô cunhado estou apavorado.
Tenho tanta coisa ainda por fazer!
E ainda preciso ir até a cidade buscar um terno que encomendei.
E que sê quer que eu faça pra te ajudar?
Pode pedir.
Estou às ordens.
Se prontificou Ladico.
-- Não fale pra ninguém, mas a minha cama ainda não esta pronta.
Fiz as cabeceiras, os lados, mas no meio ainda não pus nada.
Vou já para a cidade, você sai por ai, corta bambus
da uma aparada e coloca como estrado.
Pode deixar Jonas, eu arrumo tudo direitinho.
Só vou terminar de cortar as canas para a garapa e depois termino sua cama.
Pede a Nena pra te ajudar na arrumação, o colchão, os travesseiros e lençóis estão com Dona Emilia.
Noivo saiu apressado, na estrada pegou carona no primeiro caminhão, (o que era comum por ali).
Ladico caiu no mato atrás dos bambus para a cama.
Taquarinha aqui, ...
Taquarinha ali,.
De propósito, só pegou taquara fina e seca.
O cunhado ia ter uma surpresa.
Em o dia do casamento, a capela da fazenda toda enfeitada.
O fazendeiro trouxe o pároco da vila, que aproveitando a ocasião batizou várias crianças e ouviu a confissão dos mais velhos.
Chegou meu pai de terno novo, botina tratada com sebo de gado, chapéu Panamá, camisa engomada, barba bem aparada e assim que tirou o chapéu viu-se também que os mesmos haviam sidos tratados com uma espécie de brilhantina que fedia longe.
Esperou mais ou menos meia hora até a chegada da noiva, ia e vinha conversando com um ou outro convidado.--
Ladico sê fez minha cama?
Claro Jonas, ta tudo perfeito, arrumadinho.
-- Esta bem, eu acredito em você.
-- Chega à noiva de braços dados com meu avô, que a entrega ao noivo.
Cerimônia normal, minha avó com lágrimas nos olhos, minhas tias e tios falando gracejos uns aos outros.
O vigário abençoa o casal.
De ali, da capela até a casa de meu avô, onde seria a festa havia um percurso de mais ou menos quatro km de estradinha de lama e buracos que agora eram poças dàgua.
Muitos seguiram a cavalo, outros de carroça, uns poucos de bicicletas, um velho caminhão da fazenda juntou todo pessoal que restou.
Houve os que ainda tomaram outro destino, foram para as próprias casas e etc..
Muitos que só apareceriam na festa à noite.
Já na chegada, o pipocar de fogos de artifícios denunciavam até bem longe, o calor e alegria de festa caipira.
Em o terreiro uma mesa de 05 mts de comprimento por 02 de largura forrada de branco aparava panelas de salgados, travessas de doces, licores diversos e garrafões de cachaça.
Em volta, algumas cadeiras e bancos de madeira rústicos, só deixaram espaço num canto para uma mesa menor e tamboretes, onde acomodaram músicos com seus instrumentos, suas bebidas e comidas arrumadas em bandejas.
O sanfoneiro tímido aguarda a ordem para começar o toque (que é a ordem que um dos donos da festa dá para início ao baile).
Ninguém dá a danada da ordem.
A atenção esta voltada para os come e bebes.
Em o braseiro um quarto de boi, crianças correndo por o quintal, casais de namorados procurando o canto mais escondidinho, mães com cuidado nas filhas solteiras, os homens bebendo cachaça, a mulherada servindo salgados, licores, limonada, doces.
Os mais ousados e chegados à família vão até a mesa e pegam o que querem.
O sanfoneiro começa devagarinho abrindo o fole, o do violão arranha as primeiras notas, o da viola imita e grande quantidade de fogos estouram no ar.
Começa a dança que aos poucos vai esquentando.
Em a maioria, as músicas tocadas são:
Guaraneas, Cateretês, Xote, Baião, Canção Rancheira,
vão entrando noite adentro e refletem, a lida dura, o lamento do roceiro, suas paixões, seus namoros, suas vicissitudes, seus sentimentos de apego a terra.
O noivo toma a noiva por o braço:
Uma valsa por favor.--
Pede e os músicos obedecem.
Ele sai flutuando por o terreiro levando ela nos braços, arrastando a cauda do vestido na terra batida por os pés do dia-a-dia.
A animação era total, meu avô já meio bêbado mandou recolher a mesa de comida do terreiro e rearma-la na cozinha, para que assim sobrace mais espaço para a dança.
Em o que foi prontamente atendido.
A valsa acaba, entra um pandeiro, uma zabumba e um triangulo.
Lá por as tantas meu pai olha para a Ladico e pergunta: --
A cama esta pronta mesmo?
Prontinha, ...
Prontinha.
Abraça a noiva afetuosamente, da um beijo e cochicha aos ouvidos:
-- Vamos descansar um pouco, que eu to muito cansado.--
Pega uma garrafa de vinho.
A noiva olha de soslaio para os convidados e depois mais demoradamente para a mãe.
-- Vamos sim, aproveitamos agora que ninguém ta olhando.
-- Os dois saem sem fazer alarde, passam por a cozinha e vão corredor adentro entre outros quartos, dispensa e depois a grande sala da casa até chegarem ao quarto lá da frente onde seria o refúgio dos pombos apaixonados como duas crianças que vão brincarem de viver e amar.
Festança correndo solta no terreiro.
Ladico, que já havia avisado um pequeno grupo de amigos mais chegados junta os agora e, pé-antepé vão corredor adentro, ficam em silencio ouvindo o que acontece no quarto.
A noiva já havia tirado sapatos, meias.
O noivo já sem palitó, sem gravata, começam a se beijarem e se jogam na cama abraçados.
Ouve -- se um crak prolongado da cama quebrada, seguido da voz do noivo:
Puta que pariu.
Ouviu risadas do lado de fora, ficou mais furioso ainda.
Levantou o colchão e viu a sacanagem do cunhado.
-- Aquele filho da puta me paga.--
Pegou o facão e saiu atrás do cunhado correndo corredor a fora se esquecendo que estava só de cuecas.
A o passar por o terreiro correndo, Ladico gritava socorro.
Quanto ao noivo, precisou seis homens para segurar-lhe.
Me larga que eu vou matar esse corno presepeiro.--
Quando se deu conta dos trajes em que estava e que todo mundo lhe olhava, perguntou em voz alta:
Que foi?
Nunca viram homem só de cueca não?--
Enquanto isso Ladico caia no mundo.
Fora de casa ninguém o acharia, era tudo mato e escuridão.
Os últimos dois homens que seguravam meu pai por os braços falavam alternadamente: --
Olha Jonas, não adianta.
O que foi feito ta feito, e uma tragédia não vai resolver o problema, tenha calma, afinal tudo é festa.
E foram afrouxando os braços do rapaz devagar.
Foi quando Jonas falou alto:
Toque sanfoneiro, a festa continua, eu quero que amanheça.--O
conjunto atacou um pagode ligeiro e os cavalheiros recomeçaram a escolher suas damas.
Voltou ao quarto, a noiva estava tentando arrumar a cama.
-- Vista-se direito.
-- Enquanto isto, ele punha as calças, camisa, botinas e se abotoava.
A noiva pegou um vestido comum, mais muito bonito, de chita branco listado de azul e gola bordada com motivos do campo.
Voltaram ao terreiro.
Se aproximou de um amigo dos quais havia deixado o cavalo arreado no curral.
Havia vários cavalos de convidados que:
Pensando em demorar pouco na festa, não soltavam os animais, se bem que, pasto para isso
havia.
Me empresta seu cavalo?
Não tenho tempo para selar o meu.
-- Claro, pode pegar.
-- Foi com a mulher até o curral, montou, jogou a noiva na garupa e partiu estrada a fora.
Ninguém perguntou, nem ele, nem ela disse nada.
Entre os mais chegados, que ficaram sabendo do acontecido, perguntava-se:
-- Onde será que eles foram?
-- Ah!!!,
sei lá.
Talvez tenham ido para a cidade.
Lá existe vários hotéis.
Ou quem sabe para a casa de um amigo.
-- Não, casa de amigo é que não, há esta hora da noite.
Acho que não.
-- Para a cidade, também não.
É muito longe.
-- Talvez alguma cabana abandonada?
-- Sei não.
Trocaram de músicos, para que os que estavam em atividade, pudessem merendar
e tomar umas e outras.
Ladico, ficou zanzando por o mato, pensando:
Não podia voltar a festa, lá estava o homem nervoso, com um facão na mão.
Não podia ir para sua casa, era longe e em noite escura, a pé, poderia encontrar algum animal selvagem.
Além disso Nena e os meninos estavam na festa, a mulher deveria estar preocupada.
Sua casa ficava a uns 8 km em estradinha ruim, como eram todas as estradas por ali.
Começou a rondar a festa de longe, com cuidado para não ser visto.
Aos poucos ia se aproximando tentando ver alguém, mandar um recado para Nena.
Hora atrás de uma arvore, hora atrás de uma moita e nada.
Já estava bem perto atrás de uma touça de bananeira, quando quase tropeçou num casal semi nus, trepando logo ali na sua frente.
Era Luzia sua prima e Júlio um rapaz da vizinhança.
Os dois se levantaram assustados, iam sair correndo.
Ladico gritou: --
Parem!! A moça continuou correndo, Júlio parou.
Meio trêmulo cabeça baixa: --
Por favor, seu Ladico não fale nada a ninguém.
E levantou os olhos encarando o homem à sua frente, sério.
Os dois estavam nervosos.
-- Pode deixar meu rapaz, não comentarei nada com ninguém.
Más também preciso de um favor seu.
Fale o que é.
Se der eu faço.
-- Não é nada demais.
Você conhece Nena, a minha mulher?
-- Claro que conheço.
Conheço a família toda.-- (
Júlio fingia uma proximidade que na verdade não havia).
-- Ladico falou em tom de brincadeira:
Más você vai casar com minha prima não vai?
-- Espero que, para o ano.
Más não é com isso Júlio que estou preocupado agora não.
Quero que faça o seguinte:
Volte para a festa tranqüilo, e como quem não quer nada aproxime-se de Nena e lhe diga que estou bem, logo pela manhã pego ela e as crianças para irmos para casa.
Faça isso, e eu não conto para ninguém que você anda comendo minha prima.
Tá bom?
E veja também se o danado do Jonas ainda ta de pé com o facão na mão, ou se já foi dormir.
-- O recado será dado sim seu Ladico, mas o seu cunhado ta lá mais não.
Ele montou um cavalo, pegou a noiva e se escafedeu, ninguém sabe pra onde, mas eu prometo ver.
-- Bom, de qualquer forma vou ficar mais um pouco.
Dá de ele voltar.
E você fica de olho.
Qualquer coisa, vou estar atrás do paiol, você finge que vai mijar vem e me avise.
-- Pode deixar, sr. Ladico, eu faço tudo que o sr. esta pedindo.
-- Jonas que havia saído a galope, depois afroxou as rédeas e seguiu a trote lento, a noiva estava assustada.
Essas casas da roça na maioria tinham como tranca uma simples taramela, pois que, toda a Vizinhança era composta de gente honesta e trabalhadora, todos amigos, quando não parentes entre si.
Era raro aparecer ladrões ou malfeitores por ali.
Apeou, foi até a porta e sem dificuldade abriu-a, entrou, acendeu a lamparina.
Só depois voltou, ajudou a noiva descer e nos braços carregou-a até dentro da casa.
Voltou ainda outra vez, tirou a sela do animal e soltou para o pasto.
Em um velho baú, pegou roupas de cama limpas, e ai a cama não quebrou.
Ladico atrás do paiol, acordou do cochilo aos cotucões de Júlio que trazia Nena com o menino mais novo nos braços.
Vamos embora para a festa bem!
O homem não volta mais tão cedo.
-- Será Nena?
Podem ir, que daqui a pouco eu vou.
-- Ladico volta ao baile meio descabriado, todos olham-no com olhar de censura ou curiosidade.
Toma copo cheio de cachaça, procura um canto e senta-se.
É manhã.
Alguns bêbados se acomodam no paiol, outros no barracão onde se guarda o trator e ferramentas, outros ainda se estendem ali mesmo, nos bancos onde antes não sobrava lugar nem para sentar, à não ser que a dança fosse muito concorrida.
As mulheres estendem toalhas, lençóis, sacos de estopa na dispensa improvisando camas para as crianças ou para elas mesmas, umas amamentam suas crias, outras cochilam.
Meu avô se acomodou no velho catre de capim que havia na sala.
Minha avó na cama dos velhos, com os netos e uma sua irmã vinda de longe.
Em o terreiro, com bem menos gente agora, o baile vai raleando, com sanfoneiro e violeiros do inicio, más pouca gente dança e brinca.
São os mais resistentes que não deixam o baile acabar.
Uns contam causos, na maioria mentiras, quando não lendas e crendices que resistem ao tempo.
O sol já entra por a casa adentro lambendo chão, e paredes.
Agora os convidados vão se dispersando, os músicos param.
Aparece três bules de café, chaleira de leite, mais cestas com quitandas das que minha avó fazia.
-- Apruma homem, vamos embora.
Era Nena acordando Ladico que roncava ali estendido na tabua.
-- Vamos, vamos, o sol já ta alto.
-- Despedem-se.
Ladico vai até o curral, atrela o cavalo à carroça e se vão.
A velha carroça segue sonolenta a velha estrada de terra batida, as rodas rangendo, o cavalo
vagaroso parece estar sentindo a ressaca da festa.
O sol esta quente, as crianças dormem no leito do veiculo, sem parecer se incomodar com os solavancos.
De longe, Nena percebe algo de diferente na casa: --
Olha Ladico, Tem coisa lá em casa!
-- Que é mué?--
Acho que ta pegando fogo.
Olha lá a fumaça.
-- Em um ta vendo que aquilo é a chaminé?--
Te o sim.
E você não sabe que já faz três dias que saímos de casa, e o fo.
Não terminou a palavra fogo.
é mesmo muié.
Você tem razão, mas o que será, então?
Apressa os cavalos e vão chegando ao destino.
A porta esta aberta! ...
Em o terreiro, galinhas e patos entram em alvoroço.
Encosta a carroça e desce sozinho, pega um pedaço de pau como arma para se proteger e vai pé ante pé.
Sente o cheiro do café, vai entrando.
Ah! É você?
-- vim fazê um café.
Aceita um gole?--
Pergunta o homem, vestido só de cueca, calçado de botina, enquanto com um tição de fogo acende o cigarro de palha, lentamente.
-- Não, não quero não.--
Ladico quer falar alguma coisa, mas o outro ainda esta com o tição na mão.
Toma um café.
Insiste o homem.
Já disse que não quero.
Então sê da licença que vou lá dentro leva uma caneca pra sua irmã e se quiser, você sua muié e os meninos pode ficar nos outros cômodos da casa, que seu quarto e sua cama nois tamos usando e se ocê não quiser ficar nos outros cômodos, pode voltar e dormir naquela cama que ocê fez pra mim.
Dito isto meu pai se retirou, levando a caneca de café.
De aí nove meses e quatro dias eu nasci.
Número de frases: 256
Em o passado, em vários Sítios Rurais e Cidades do Seridó e do Curimataú era possível encontrar manifestações culturais convidativas e bem freqüentadas.
Existia uma agenda oculta que era passada de boca em boca.
Com o passar do tempo, das secas, da influência da mídia e do incentivo de festas com atrações fabricadas por empresários, a nossa expressão cultural foi embotada, engolida por práticas políticas inadequadas e que muitas vezes deixam de lado nossas próprias tradições.
De acordo com pesquisa sobre a cultura realizada por o IBGE (2006), dos mais de 5.000 municípios brasileiros, apenas 13 municípios (sendo 01 da região Nordeste) procuram garantir a sobrevivência das suas tradições culturais.
Em a Paraíba, nenhum município colocou isso como o principal objetivo da secretaria municipal.
Nossos próprios representantes culturais (quando existem) estão desatentos com a preservação de nosso produto mais autêntico, aquele que aprendemos na vivência de nossos antepassados.
De as formas de expressão popular abaixo, qual você viu ou participou na sua cidade ou sítio nos últimos 12 meses?
* Aboios (aqueles do dia a dia, ou concursos de aboio);
* Repentistas e Tocadores de Viola;
* Novenas [daquelas que depois tinham os Botequins, Leilão, comes e bebes e forró.
Como faziam o Euclides Clemente (Sítio Navio) e o Basto Cesário (na Baixa da Nega)];
* O autêntico Forró do Sítio [Dudu Galvíncio (Sítio Pedra Branca) e mais antigamente dos Caboclos da Serra Baixa];
As Graciosas em Pedra Lavrada e Nova Palmeira.
* Quadrilhas, corridas de saco, corrida de jumento, ovo na colher, pau de sebo, fogos, pular fogueira, padrinhos de fogueira, etc. *
Campeonatos de Argolinha (cordão encarnado versus cordão azul) *
Farra do Judas na Semana Santa (de madrugada), vários Sítios ainda fazem;
* Vaquejadas, antigamente a do Zé Chagas no Lagêdo (que tinha um Bolão de Vaquejada), *
Farinhada nas Casas de Farinha (beijus e tapiocas, medir força na prensa à luz de candeeiros);
O que está acontecendo com nossas tradições culturais?
Existem novos mecanismos de expressão popular?
Será que nosso povo não se expressa mais?
A verdadeira arte nunca rompe completamente com o passado, segue fazendo uma leitura do presente e criando possibilidades para se adaptar às gerações futuras.
Avalie se sua comunidade está seguindo este caminho.
A regra das tradições populares está pautada na comunidade que se junta para organizar seus folguedos.
Todos trabalham e todos se divertem.
Mesmo nas festas em que poucos trabalham na organização, tanto o trabalho durante a festa e o divertimento dos pares termina sendo dividido.
O problema não está em que faz, mas na forma passiva de se participar das festas.
Sem trabalhar na organização ou na apresentação de algo, a participação do povo acaba por ser de expectador e não de agente da cultura local.
O que nos faz concluir que muitas das festas atuais não dão espaço para o povo se expressar.
Por outro lado, mesmo reforçando a cultura de prateleira, em alguns estados e cidades os locais de tradição cultural são tombados como patrimônio histórico, enquanto que em nossa região esses locais são apenas esquecidos e extintos.
Nossos dirigentes municipais de cultura estão mais preocupados com Feiras de Artes e Artesanato, Feiras de Livros, de Agropecuária e de Moda.
Claro, de acordo com o IBGE, na Paraíba, 96 % responderam que não têm secretaria municipal de cultura, os dirigentes trabalham subordinados a outra secretaria do município, sendo que apenas 47,9 % possuem sua própria Política Municipal de Cultura.
Cerca de 80 % dos dirigentes municipais de cultura possuem Nível Superior e / ou Pós-gradua ção, o que pensam essas pessoas sobre a cultura popular local?
Não é só a de falta apoio dos prefeitos, mas sim a falta de uma política de valorização da cultura através do apoio aos nossos pares e conterrâneos mais autênticos.
Precisamos de projetos culturais integrados que atendam às necessidades de expressão popular.
Ou seja, ações que fomentem a integração social através do saber e da prática popular.
É o contato direto com o povo que fortalece a cultura, pois é ele que sabe contar sua própria história.
Assim, não é suficiente que se criem grupos de terceira idade com atividades isoladas de promoção de saúde, mas, que eles sejam agentes culturais fomentadores dos eventos locais.
De esse modo, teremos resultados que irão além da busca por a saúde física, porque também cuidaremos da saúde mental e espiritual.
A rua é nosso palco, chame alguém para ver a banda passar.
Cadê a banda?
Como se pode apoiar uma cultura popular local se as pessoas de lá nem sabem que folguedos são comuns na história de seu povo?
Antigamente, as pessoas saíam de um município para outro a fim de «brincar» daquele jeito alegre que as pessoas do outro município sabiam fazer.
Se não cuidarmos de nossa diversidade cultural agora, vamos transformar o nordeste num saco de gatos, perderemos todas as nossas tradições locais.
Li um artigo muito interessante intitulado «Por o fim do nordestino» que nos leva a uma pergunta interessante:
porque carioca é carioca, mineiro é mineiro, paulista é paulista e capixaba é capixaba?
Enquanto que paraibanos, pernambucanos, potiguares, cearenses, baianos, sergipanos, alagoanos, maranhenses e piauienses são todos nordestinos ...
Não poderíamos chamar os outros de sudestinos?
E continua:
«Esse termo, tão usado, tão comum, o «nordestino», alimenta a preguiça em relação a pensarmos melhor o nosso País, conhecê-lo o mais de verdade possível, sem colocar» aquele amontoado de estados pequenos», seus povos e culturas, sotaques e costumes, na mesma categoria:
«Os nordestinos».
Aliás, porque chamar de cultura popular e não brasileira?
Se o que faz do brasil uma riqueza cultural são as nossas diferenças, então façamos força para mantê-las autênticas!
Vamos voltar a admirar as diferenças dos vizinhos e fomentar internamente algo que seja só nosso, um legado.
A Paraíba sendo um dos quatro menores estados do nordeste, sempre teve uma expressão muito forte no cenário da cultura nacional.
Essa tem sido uma contribuição de cada município, cabe-nos controlar mais as influências do mercado cultural massificante.
«Vamos fazer um tirinete
sair dessa pindaíba
ligeiro que nem coceira de preá,
Número de frases: 59
frexêrar na cultura da Paraíba!"
Em a escola onde trabalhei até maio de 2007, a exibição do programa «Central da Periferia» causou um verdadeiro frisson.
É a segunda vez que um programa em DVD causa tanto alvoroço e interesse por parte dos alunos.
A primeira vez foi o filme «Uma Onda no Ar, de Helvécio Ratton, no ano de 2005», distribuído em todo país, junto com a revista Isto É.
Em esses dois casos, houve situações em que ultrapassamos o tempo normal da aula, mas nenhum dos alunos lembrou que o horário já havia se esgotado;
na última aula, que, em geral, costuma-se contar com poucos alunos, foi possível manter a presença da maioria;
até alguns que moram distante e que normalmente pedem para sair mais cedo na última aula esqueceram dos perigos no caminho de volta para a casa;
houve casos até em que outros solicitaram para assistir ao DVD no intervalo do recreio.
E por que tanto interesse?
A necessidade da maioria da população brasileira negra e / ou mestiça, pobre e que mora nas periferias se ver de forma positiva na tela.
Pois como sabemos, quando essa população aparece na televisão, normalmente a sua imagem é associado a chacinas, guerra do tráfico, invasão policial etc.. e o programa gravado na cidade de Salvador mostra que as favelas e os bairros populares, onde moram a maioria negra e / ou mestiça é cenário também de projetos sociais e iniciativas culturais que apontam para a superação da situação de exclusão, através da troca solidária de saberes e fazeres, da valorização das tradições religiosas de matriz africana, da descoberta e / ou reforço das potencialidades artísticas, do reforço da auto-estima, etc.
No caso do programa citado, percebi como as imagens iniciais, o ritmo e a letra das músicas do bloco ilê-aiyê provocam uma atenção concentrada, difícil de se ver em turma de adolescentes.
Percebo que a edição do programa é muito feliz quando intercala números musicais, efeitos de design gráfico com motivos afro e depoimentos de adolescentes e jovens negros sobre o preconceito racial na Bahia, a tentativa de imposição dos padrões de beleza do branco, tipo cabelo liso e a abordagem policial diferenciada de negros e brancos, o que não é novidade para muitos daqueles que estavam assistindo ao programa.
As gírias e a maneira irônica e até divertida como as diversas situações são descritas provocando uma identificação imediata por parte da garotada.
Outro momento muito importante e significativo foi quando meninos e meninas da Escola Mãe Hilda falaram sobre o que aprenderam a respeito do candomblé, religião de seus familiares e ancestrais, a abordagem do assunto em geral é omitido por a escola, o que abre margem para a invisibilidade dos filhos e filhas de axé, favorecendo o fortalecimento de uma visão negativa propagandeada por segmentos religiosos que disputam o mercado de bens simbólicos.
Fiquei muito feliz em ver crianças e adolescentes de Salvador falando da mitologia dos orixás e de alguns elementos do culto, para outros da mesma idade, de um município da região metropolitana de Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, localizado em Sergipe, um estado cuja população tem demonstrado muita dificuldade para assumir sua herança africana, a despeito da maioria ser formada por afro-descendentes.
A o finalizar a apresentação dos programas da cidade de Salvador me veio à lembrança a iniciativa de um grupo de alunos do ensino médio que, no ano passado, organizaram diversas reuniões para filmar um conto de Graciliano Ramos.
E, para a minha surpresa, descobri que a proposta era fazer com a «cara e a coragem», já que não tinham recebido a formação técnica necessária e nem contavam com financiamento de nenhuma espécie.
Sendo assim, porque o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura, em parceria com as escolas públicas, não promovem um concurso de projetos, como Revelando Brasis, para que iniciativas que mostrem tanto as diferentes visões sobre as pessoas quanto a realidade em que elas vivem dentro da escola possam acontecer, além de democratizar o conhecimento técnico sobre a produção audiovisual, favorecendo a autonomia e o protagonismo juvenil?
Por que o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura não se associam para distribuir a preços populares, junto aos professores e alunos, cópias de DVDs com programas da série Doc TV e Revelando Brasis?
Por que a Funarte, a Tv Cultura, a Tv Câmara, a Tv Futura, a TV Brasil, a Tv Senado e a Tv Globo, com um financiamento garantido por a lei Rouanet e / ou por o Fundo Nacional de Cultura, não se associam para distribuir a preços populares junto a professores e estudantes, documentários, filmes, mini-séries e programas jornalísticos e culturais, nos moldes do Programa Isto É -- Festival do Cinema Brasileiro?
Para finalizar, no momento em que se apresentam os artistas e grupos musicais que tocam na maioria das emissoras de rádio ouvidas por grande parte da população, como Uns Kamaradas, Nara Costa -- A Rainha do Arrocha, e Pagodart, nem é preciso dizer que o clima esquenta bastante, as reações da galera acompanham o mesmo entusiasmo da platéia que participou da gravação e um sinal do alvoroço e que chama a atenção de quem passa ao lado da sala de vídeo, é o coral da sala, somado ao coro de Salvador.
Em termos de opinião pessoal, mesmo não sendo o estilo musical que costumo ouvir (com exceção de algumas composições da banda Calipso, que aprendi a gostar, quando, inevitavelmente, ouvia suas canções ao me deslocar de táxi-lotação, de Aracaju ao Conjunto Jardim, e vice-versa) (1), penso que é uma preferência que merece respeito, no entanto, acho grave a falta de meios de acesso da população dos bairros periféricos, a outros compositores e cantores, mesmo da linha popular como do reggae, do hip-hop, do samba partido alto, da música nordestina tradicional etc.
Para a mudança desse quadro de monopólio musical / cultural é urgente a revisão da legislação, que tem criado imensos obstáculos para a instalação de ' verdadeiras ' rádios e tv's comunitárias.
Outra contribuição que o MEC e O MINC poderia dar nesse sentido é o financiamento de projetos culturais nas escolas, (2) quer sejam de música, de dança, de teatro, ou de audiovisual, como já citado, os quais possibilitariam, conforme pudemos constatar em experiência artística / pedagógica, a descoberta e a valorização da diversidade cultural brasileira, a partir da vivência de professores e alunos com as diversas linguagens e manifestações artísticas.
P.S.:
(1) Entretanto, reconheço que muitas composições da banda, buscam repetir a formula fácil do sucesso e se tornam verdadeiros caça niqueis.
Um dia isso aconteceu com alguns artistas e bandas da Bahia como Mel, Cheiro de Amor, Netinho e tantas outras.
Foi muito bom brincar carnaval ao som de algumas músicas de eles.
Hoje só ouço coletâneas que fiz das músicas mais antigas e originais dos baianos.
Dentro de algum tempo o mesmo se sucederá com a Calypso, caso eles não percebam isso a tempo.
Ao contrário, Daniela Mercury, escapou disso e continua fazendo sucesso, se não como era antes, ao menos sem perder o brilho e a força poético / criativa das canções. (
extraído do texto de minha autoria, Caldeirão Musical Brasileiro, inédito) (
2) Em 2006, resolvermos entrevistar alguns participantes de grupos de dança e de teatro do Conjunto Jardim.
Uma das alunas entrevistadas, Fernanda Almeida, nos disse que as coreografias com as músicas da banda Titãs, Gabriel -- O Pensador, Ivan Lins e Milton Nascimento fizeram com que ela descobrisse a existência de outros tipos de música e com conteúdo mais adequado a quem estava amadurecendo e queria entender melhor o mundo.
Em essa mesma perespectiva, na revista Carta Capital, edição especial de fim de ano (2007), Negra Li uma das protagonistas do seriado Antônia, exibido por a Rede Globo, afirma:
«Nunca ninguém me apresentou nem me ensinou a ouvir MPB, meus pais não tinham bagagem musical, não tinham discos porque são evangélicos.
Meu pai era, minha mãe é.
Eu sempre fui.
Estou aprendendo agora a ouvir Baden Powell, Gilberto Gil, Jorge Ben.
Número de frases: 40
E estou adorando."
Publicado originalmente no " Portal Literal.
«Para cada download feito a partir de lojas on-line devidamente autorizadas, 20 são feitos de forma ilegal."
«As vendas de música digital cresceram 40 % em 2007, tendo movimentado cerca de US$ 2,9 bilhões no mundo.
Em 2006 o faturamento havia sido de US$ 2,1 bilhões.
Com esse registro a música digital passa a representar 15 % das receitas totais da indústria fonográfica mundial.
Em 2006 esse segmento era de 11 % nas vendas de música e em 2003 era praticamente inexistente, o que faz da música o setor mais avançado digitalmente da área de entretenimento, atrás apenas do setor de jogos eletrônicos. [ ...]
Estima-se que, para cada download feito a partir de lojas on-line devidamente autorizadas, 20 são feitos de forma ilegal. [ ...]
As receitas com música digital no Brasil, apresentaram no ano passado, aumento de 185 % em relação a 2006.
As vendas através de telefonia celular cresceram 157 % em 2007 e suas receitas representaram 76 % do total do mercado digital.
Houve também um crescimento notável nas receitas advindas de licenciamentos e vendas por a Internet, que representaram, em 2007, 24 % do mercado digital (Internet e Telefonia Móvel), enquanto este percentual em 2006, era equivalente a apenas 4 %.
Estima-se que 8 % do faturamento total do Mercado Brasileiro de Música em 2007 tenha sido advindo das vendas digitais.
Em 2006 esse percentual foi de apenas 2 %."
Hoje, o país possui 17 lojas on-line para a compra de música digital, quatro de elas surgidas no ano passado.
Ainda assim, 1,8 bilhão de músicas são baixadas por ano no Brasil, sem que se paguem direitos autorais.
Se existe um incremento -- e considerável -- na oferta de música digital «legal», o crescimento em progressão geométrica do conteúdo disponibilizado on-line livremente segue firme e forte.
Para cada música baixada legalmente, outras 20 são adquiridas «fora da lei».
Ainda segundo o estudo do IFPI (sigla em inglês para Federação Internacional da Indústria Fonográfica) mencionado acima, «Estimativas de empresas que monitoram a Internet demonstram que mais de 80 % do tráfego mundial nas redes dos provedores é constituído de distribuição ilegal de arquivos protegidos».
Então a pergunta que logo vem a mente é:
«Tornamo-nos todos criminosos ou é a legislação (que geralmente corre atrás da realidade) que caducou?».
E outra:
«Seríamos mesmo criminosos, ou a legitimação desse discurso é mais uma das manobras que a indústria sempre aplica quando a realidade não lhe apetece, não coaduna com os seus interesses?».
Sabemos que [a indústria] joga pesado.
E a quantidade de atitudes controversas e estapafúrdias que conseguiu tomar nos últimos anos não está no gibi.
Para investigar essas questões, seus desdobramentos ao redor do globo, e alternativas de modelos econômicos periféricos que descartam o direito autoral, três dinamarqueses juntaram alguns trocados de seus bolsos, produziram e lançaram na internet (naturalmente) um bom documentário sobre o assunto.
Good copy, bad copy (veja o documentário no site do filme) investiga a pesada guerra de tribunais que as detentoras dos direitos dos fonogramas têm impingido nos países ditos de primeiro mundo, não somente contra os que disponibilizam gratuitamente conteúdo supostamente «protegido», mas também com aqueles que sampleiam -- e modificam, muitas vezes deixando irreconhecível o que foi sampleado -- sem autorização trechos deste mesmo conteúdo.
Além de apresentar alguns dos principais nomes da (nem tão) nova geração de music makers -- já que muitos dominam somente os softwares e não tocam instrumento algum -- como Girl Talk e Danger Mouse, o documentário traz o depoimento de, entre outros, professores de música da New York University, executivos da indústria fonográfica, como John Kennedy, presidente da IFPI, o advogado Lawrence Lessig, um dos idealizadores do Creative Commons -- sistema de licença que em nenhum momento elimina os direitos autorais (como adoram divulgar seus detratores, ou seja, a indústria), apenas os adequa aos tempos que correm e permite uma maior liberdade para os que de ela se utilizam decidirem como e quando liberar os seus direitos para terceiros --, o pessoal do Pirate Bay, site sueco de trocas de arquivos, vendedores de CDs piratas na Rússia, e o brasileiro Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, onde coordena a área de propriedade intelectual, diretor do projeto Creative Commons no Brasil, atual presidente do iCommons e um dos idealizadores do site colaborativo Overmundo.
Indústria ainda não compreende a mudança irreversível
Danger Mouse, integrante da dupla Gnarls Barkley, remixou músicas do White Album, dos Beatles, com vocais a capela do Black Album, do rapper Jay-Z, e distribuiu para os amigos o que chamou de Grey Album.
Isso foi em 2004.
Instantaneamente o álbum alcançou distribuição mundial por a internet, considerado por muitos o melhor disco do ano.
Mesmo sem ter sido lançado física e oficialmente.
Mouse não pediu autorização, mas alegou que fez isso com o intuito de dilvugar os mash ups e remixes, sem qualquer finalidade comercial.
Mesmo assim a EMI, detentora dos direitos dos Beatles, não gostou nada e tentou -- em vão -- impedir a livre circulação do álbum.
O Grey Album foi um grande catalisador dessa onda dos mash ups, aproveitando-se da repercussão que teve, e que aumentou consideravelmente depois que a EMI tentou impedi-lo de circular.
A atitude da EMI, na verdade, foi mais um tiro no pé da indústria fonográfica.
Outro caso curioso, retratado no filme, é o do site sueco de troca de arquivos Pirate Bay.
Segundo a legislação daquele país, a troca de arquivos protegidos por direitos autorais é permitida, desde que não vise a comercialização e o lucro.
Apesar disso, a IFPI tentou fechar o site e derrubar seus servidores, através da polícia sueca, em maio 2006.
Em a justiça, eles fora absolvidos, e a prepotência da indústria em querer passar por cima da jurisdição da Suécia chamou a atenção para o caso no mundo todo, dando mais popularidade ao Pirate Party, um partido político fundado no começo de 2006 com objetivo de lutar por a reforma da legislação referente à propriedade intelectual, incluindo o copyright, patentes e design, fortalecer o direito à privacidade, seja na internet ou no dia-a-dia, e exigir transparência na administração pública.
Dois dias depois da batida policial, o Pirate Party angariava em torno de 1.500 novos membros, alcançando mais de 3.600 filiados.
Em 2007, depois de contar com 9.600 integrantes, os filiados decresceram para 5.700, o que é normal na Suécia no ano seguinte às eleições.
Em a primeira que disputou, em 2006, conseguiu mais de 34 mil votos, ficando em décimo lugar.
Não elegeu ninguém, mas atualmente arrecada fundos para as campanhas eleitorais para o Parlamento Europeu, em 2009, e para as eleições gerais na Suécia, e 2010.
Além disso, o Pirate Party vem se disseminando por o planeta, inspirado por a iniciativa sueca.
Já existem «partidos piratas» registrados na Espanha, Áustria e Alemanha (onde participou das eleições e obteve 0,3 % dos votos no estado de Hesse, em 2008), enquanto que nos Estados Unidos, França, Argentina e Polônia eles ainda estão em processo para serem registrados, mas ativos e organizados.
Há discussões ainda para a formação de partidos similares na Holanda, Chile, Brasil, Canadá, Suíça, Zelândia, Sérvia, Romênia, Irlanda e Peru.
Nada desprezível.
Novas tecnologias beneficiam cada vez mais produções culturais autônomas
Mas Good copy, bad copy não trata apenas disso.
O documentário, de uma hora de duração, investiga dois dos maiores movimentos articulados que alimentam toda uma cena cultural à margem da indústria oficial e do recolhimento de direitos autorais:
o cinema nigeriano, que atualmente é responsável por a maior produção cinematográfica do planeta, à frente até mesmo do sempre falado cinema indiano, e sua Bollywood, sem falar na própria Hollywood, hoje em terceiro;
e a cena paraense do tecnobrega, que domina o mercado musical no estado e se sustenta sem precisar sair lá.
A questão, como afirma Lemos em entrevista ao site da revista Caros Amigos, é que «essa tecnologia digital de fato gera uma emancipação das produções culturais autônomas».
Em a Nigéria, a produção cinematográfica emprega 150 mil pessoas e a receita chega a um bilhão de dólares anuais.
Em o documentário, lançado em meados de 2007, Lemos menciona os números dos três maiores produtores de filmes referente a 2006: os Estados Unidos lançam, em média, 611 filmes por ano;
a Índia, em torno de 900, enquanto na Nigéria o número chega a 1.200.
Os filmes custam entre 30 mil e 100 mil dólares.
Detalhe: não existem cinemas na Nigéria.
Toda a produção de Nollywood, como é chamada a indústria cinematográfica local, é vendida em DVD ou VCD a três dólares nos mercados e ruas da capital, Lagos, e nas principais cidades do mais populoso país africano, e demais países da África.
Alguns dos 300 produtores chegam a lançar, por ano, algo entre mil e 2 mil filmes.
Em torno de 30 títulos são lançados todo semana, e vendem, em média, 50 mil cópias cada.
Mas há sucessos que chegam a vender de 100 a 200 mil cópias, alcançando receitas de 300 mil, 600 mil dólares -- cinco vezes o valor do investimento.
Hoje também os filmes são distribuídos via satélite por um canal de televisão para todo o continente.
E fazem sucesso entre a população africana espalhada por a Europa e Estados Unidos.
Em a Inglaterra, os filmes nigerianos são considerados ilegais, por não passarem por o departamente de classificação, o British Censor Board.
Porém já é a terceira maior indústria de filmes (e não de cinema) do mundo, gerando US$ 286 milhões por ano para a economia nigeriana.
Dois documentários abordam o tema:
um feito por os produtores de Nollywood, Franco Sacchi e Robert Caputo, This is Nollywood, e outro realizado por o americano Jamie Meltzer, Welcome to Nollywood.
Tecnobrega
Em o Pará as tecnologias digitais têm alterado profundamente a produção e circulação cultural, sobretudo na área da música, e com uma escala inimaginável em qualquer outra região do país.
A cena tecnobrega surgiu em Belém do Pará há alguns anos e inovou sensivelmente a forma de ganhar dinheiro.
A produção de CDs do estilo derivado do brega -- este, nacionalmente conhecido através da Banda Calypso, que, de certa forma, também revoluciou o cenário musical brasileiro, ao vender seus discos diretamente ao público nos shows, sem gravadora formal --, é toda «ilegal», se utilizarmos aqui a noção difundida por a indústria.
Os CDs são gravados e distribuídos para os camelôs, que então reproduzem em massa e vendem por a cidade.
Funcionam como divulgação do trabalho.
Os artistas ganham dinheiro nas festas de aparelhagem e shows.
Em as festas de aparelhagens, tendas com muita luz e potente equipamento de som comandadas por um dj, são lançados os novos sucessos, que então explodem as vendas e tornam o grupo popular, o que rende convites para shows.
Como afirma a pesquisa realizada por a Fundação Getúlio Vargas (FGV), Overmundo e Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Cultura livre, negócio abertos, " o mercado do tecnobrega é multimilionário.
Milhares de CDs são vendidos semanalmente e novas canções são lançadas todos os meses.
A força desse mercado também pode ser medida por as mudanças culturais que tem provocado:
estações de rádio começaram a tocar tecnobrega quando requisitadas por os ouvintes e, se antes esse gênero costumava ser apreciado apenas por as camadas populares, hoje a classe média tem ficado cada vez mais interessada por o estilo musical».
São cerca de 140 bandas, 700 aparelhagens e 860 vendedores de rua.
Tudo é gravado em estúdios domésticos e muitos djs são donos de estúdios e usam seus contatos para divulgação de novas bandas.
A distribuição é informal, os CDs e DVDs produzidos nos estúdios caseiros das bandas e dos djs são reproduzidos e repassados aos vendedores de rua de toda Belém, principais responsáveis por a divulgação do tecnobrega, que é inclusiVe incentivada por a maioria das bandas e aparelhagens, e muitas vezes são eles que levam ao vendedor de rua o CD gravado num estúdio.
Cena auto-sustentável
Este mercado, portanto, " adota um modelo de negócio distinto da maioria de outros mercados musicais:
neste cenário, o direito autoral não representa estímulo à criação de novos conteúdos ou de desenvolvimento do mercado.
Embora o tecnobrega seja um dos principais ritmos musicais do Pará, o modelo de negócio adotado nesse mercado era pouco conhecido " afirma a pesquisa.
Em torno do tecnobrega, realizam-se 3.200 festas e 850 shows por mês na região metropolitana de Belém.
A pesquisa foi realizada com uma amostra dos números totais acima mencionados, ou seja, 73 bandas, 273 aparelhagens e 259 vendedores de rua.
E chegou às seguintes conclusões:
1) o mercado de festas de aparelhagens movimenta R$ 3 milhões / mês enquanto as bandas e cantores movimentam R$ 3,3 milhões / mês;
2) este mercado parece ser muito concentrado, com poucas aparelhagens (apenas 4 %), recebendo cachês muito elevados;
3) as bandas e cantores vendem, em média, 77 CDs ao preço médio de R$ 7,5 e 53 DVDs ao preço médio de R$ 10 em cada show, o que significa um faturamento mensal estimado cerca de R$ 1 milhão com a venda de CDs e outro R$ 1 milhão com a venda de DVDs nos shows para cantores e bandas;
4) o mercado de aparelhagens e as bandas empregam diretamente mais de 5.600 pessoas;
5) estima-se que o valor total da estrutura de todas as aparelhagens seja de, aproximadamente, R$ 16,3 milhões.
Em média, o equipamento das aparelhagens custa R$ 23 mil;
6) 88 % das bandas nunca tiveram contratos com gravadoras ou selos;
51 % das bandas incentivam a venda dos seus CDs por os camelôs;
59 % avaliam positivamente o trabalho dos camelôs para a carreira dos artistas;
7) o faturamento médio do mercado de camelôs com a venda de CDs e DVDs tecnobrega é estimado em R$ 1 milhão e R$ 745 mil respectivamente;
8) para as bandas, a grande vantagem da venda por os camelôs é a divulgação de suas músicas, pois 80 % dos CDs e DVDs vendidos são fornecidos diretamente por grandes reprodutores não autorizados, e não oferecem qualquer vantagem financeira direta por a venda.
A vantagem para as bandas é indireta, por meio da divulgação de suas músicas que lhes rendem shows por toda Belém e até em outros estados.
A lógica é outra, proporcionada por a difusão das novas tecnologias, mas não só.
Parte da idéia, sabida ou intuída, de que a cultura é um bem comum, e esta além e aquém das cadeias produtivas.
Que quem exerce seu trabalho deve ser remunerado, não há dúvidas.
Porém, é impressionante como a indústria insiste em sua força e poder econômico para tentar resisitir num modelo ultrapassado, do século passado.
Como afirma Paulo Henrique de Almeida, na revista Global Brasil, da " Rede Universidade Nômade:
«Os direitos de propriedade intelectual têm sido defendidos com base na tese de que remuneram os indivíduos e organizações inovadoras, garantindo, para o bem comum, a continuidade do progresso técnico e a diversidade cultural.
Ocorre que é precisamente no terreno da cultura que o caráter controverso dessa tese se manifesta, hoje, de forma mais clara.
A resistência da indústria fonográfica às inovações nas formas de produção, distribuição e consumo da música;
a imposição, por as grandes redes de TV, de equipamentos bloqueadores da gravação de emissões digitais;
a opção dessas mesmas redes por a alta definição em detrimento da multiprogramação permitida por a TV digital;
ou ainda, o boicote das editoras à digitalização universal dos livros e à pesquisa para a invenção de dispositivos mais eficientes para a leitura de e-books, são apenas alguns exemplos recentes».
Ameaça à cultura livre
Por fim, fica a ameaça da indústria aos provedores de acesso à internet, meio por onde circula toda essa nova produção cultural.
Com a palavra, Paulo Rosa, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Disco (ABPD):
«Fica claramente demonstrado como a diversificação de modelos de negócio, tanto na internet como na telefonia móvel, está sendo benéfica para criadores e produtores de música, e nos permite vislumbrar um futuro em que as receitas digitais compensarão a redução verificada nos últimos anos no mercado de suportes físicos contendo música.
Entretanto, para que este futuro se torne realidade, segundo aponta muito bem o IFPI, é imperativo que os Provedores de Acesso à Internet assumam um papel muito mais (pró-) ativo e eficaz na proteção dos direitos dos criadores de música, que vem sendo sistemática e flagrantemente desrespeitados em suas redes, em benefício de um mercado on-line sadio e legítimo."
E segundo consta no site da ABPD, " Governos de países importantes no cenário mundial começam a entender que Provedores de Acesso de Internet devem ter obrigação e responsabilidade na proteção da música e outros conteúdos na Internet.
Ações urgentes são necessárias para traduzir isto em realidade, diz o novo relatório da industria fonográfica internacional».
Censura na web
O perigo de censura a internet é recorrente.
Aconteceu no caso YouTube vs.
Daniela Cicarelli, e, mais recentemente, também com o YouTube no Paquistão, quando o bloqueio ao site naquele país, interrompeu o tráfego de 2/3 do site de vídeos em todo o planeta.
Hermano Vianna, em entrevista ao Portal Literal quando do surgimento do Overmundo, no começo de 2006, comentou:
«O que me mete mais medo é a questão das telefônicas mesmo.
O nosso acesso ao conteúdo.
Ontem a Velox caiu no Brasil inteiro, por exemplo.
Fico louco, pois não posso trabalhar, não posso fazer nada.
A gente tem que estar mais preocupado hoje em dia em encontrar caminhos que não sejam ditados por cinco empresas de telefonia que tenham o monopólio do nosso acesso à rede.
Talvez o caminho seja criar sistemas de telefonia públicos controlados democraticamente, e não por companhias.
Se todas essas empresas de telefonia disserem hoje que nós não teremos mais acesso à internet, nós não vamos ter, tudo passa por linha de telefone ou por o cabo.
É uma questão de segurança nacional.
Posso estar falando besteira e sendo ingênuo, mas tenho mais preocupação quanto ao caminho de acesso do que às coisas que vamos acessar».
Número de frases: 135
[Continua ...]
Pedi emprestado a figura de linguagem do título aos cariocas, porque a matéria é pra mostrar que nessa família real, há uma outra princesa que não deve nada à sua irmã mais famosa.
Eu poderia até deixar essa postagem para o verão, mas uma nostalgia acaba de me acometer junto com essas primeiras chuvas de inverno e já bate uma saudade.
Que pernambucano é bairrista, todo mundo sabe, mas vamos combinar que poucas praias do Brasil têm tanta personalidade quanto a nossa Boa Viagem (pra começar, aqui se diz praia «de Boa Viagem», e não» da Boa Viagem ").
Mas o que é mesmo que essa praia tem que até hoje tanto apaixona os recifenses e os forasteiros também?
Será o cordão de arrecifes enfeitado de espumas brancas quando as ondas em eles se quebram?
Ou deve ser o cheirinho de sargaço que toma conta até da avenida?
Ou aquele mar verde-água tão lindo?
Como pode uma praia urbana ter um mar desses?
E morno!
E limpo!
Está certo que no inverno tudo muda, mas também no inverno ninguém vai à praia!
Mas lá se foi o tempo em que o bairro era um pacato balneário, com muitas casas e coqueiros, freqüentado por a aristocracia recifense.
Hoje, a orla da Avenida Boa Viagem, com seu calçadão e seus quiosques de cobertura de palha, abriga enormes arranha-céus que realmente arranham os céus (alguns têm mais de 40 andares!).
São jóias da arquitetura moderna, como o Castelinho, o Porto Seguro ou o Beach Class.
Por o fato de serem muito altos, tem quem reclame da sombra que fazem lá por as duas da tarde, mas depois de tanto sol, uma sombrazinha nem faz tanto mal assim.
Esses prédios são verdadeiras galerias a céu aberto, pois graças a uma bendita lei municipal, são obrigados a colocar uma obra de arte nas suas dependências, e como a maioria opta por as esculturas, então já viu:
é Brennand pra cá, Abelardo da Hora pra lá, e assim caminha o recifense ...
Servem até pra sinalizar a sua turma!
Aqui se marca praia assim:
às 10h na frente do Acaiaca ou às 9h em frente ao Edifício Portugal ou às 11h em frente ao Recife Palace ...
Os jardins da orla (o 1°, o 2° e o 3°) se encarregam de embelezar ainda mais a avenida de 7 km, com grandes esculturas de Brennand, os leões de Mestre Nuca e ainda as carrancas do São Francisco.
Também tem história:
lá na pracinha do bairro, ergue-se a singela igreja dedicada à Nossa Senhora da Boa Viagem, construída em 1707.
Nossa praia, que é programa obrigatório dos sábados e domingos, tem hoje trechos demarcados por todas as tribos:
de descolados a farofeiros, de gays a turistas, de esportistas aos que preferem tranqüilidade.
Sim, porque a cidade tem apenas duas praias e aí todo mundo quer o seu quinhão.
E há uma espécie de troca de turno:
de manhã cedo vão as famílias com as crianças, os mais velhos e o pessoal da malhação.
Lá por as 10 horas chega o povo que gosta da ferveção e a bagaceira.
A diversidade de tipos é tão grande que dava uma tese de antropologia:
barraqueiros, vendedores ambulantes, ciganas, repentistas, índios, pescadores, salva-vidas, esmoleres, surdos-mudos, hippies, músicos de orquestra de frevo, batuqueiros de maracatu, políticos em época de eleição, fiscais da Prefeitura, pessoal do Programa Praia Limpa, gays, garis (que limpam a praia todo fim de tarde), farofeiros (que sujam a praia durante todo o dia), atletas, patricinhas e mauricinhos, surfistas, trombadinhas, policiais, artistas, turistas, estudantes em gincanas, La Ursas, entregadores de panfletos, voluntários de projetos (como o Recifes Costeiros, o ProTuba, etc.), ciclistas, prostitutas e garotos de programa, pessoas aferindo pressão ...
Ufa!
Depois da chegada dos tubarões, os surfistas são um tipo quase extinto por essas bandas.
Eles fugiram daqui e agora pegam onda em praias como Maracaípe, Itapuama, Cupe ou Gaibu.
Mas tubarão que é bom não tem atacado mais ninguém.
A convivência entre as espécies não poderia estar melhor.
Também pudera, há placas de «Perigo Ataque de Tubarão/Danger Shark Attack» por toda a praia (essas placas viraram atração turística e todo mundo quer ser fotografado ao lado de elas!)
e guarda-vidas equipados que parecem estar nas praias da Austrália ou da África do Sul.
E ninguém mais ousa nadar além dos recifes!
Como toda praia com tubarão que se preze, Boa Viagem elegeu seu esporte alternativo, a nova febre aqui é o «skimboard» (uma evolução do nosso antigo «sonrisal» que antes era feito de uma tábua de compensado).
Em o «skimboard», a prancha estreita também desliza na onda que quebra na areia.
Novidade também neste verão, e que ainda persiste, são as orquestras de frevo itinerantes, coisa acertadíssima da prefeitura para divulgar o nosso ritmo mais famoso.
Coisa rara (igual a surfista) são as maria-farinhas (pequenos caranguejos que se escondem na areia ao menor sinal de perigo), outrora habitante da praia, foram expulsas por os banhistas.
Tão saudosas quanto o cheirinho de Coppertone e Rajito de Sol!
E ainda se pode ver jangadas trazendo peixe fresco nos limites com a praia do Pina!
Não posso deixar de registrar que Boa Viagem deve ser o último reduto das maravilhosas cadeiras de náilon no Brasil, que agora está tomado por as horríveis cadeiras brancas de plástico!
E a nossa princesinha do mar é cheia de leis.
Aqui não pode:
bares (estilo praias de Salvador), futebol, moto na areia, som, cachorros e surfe.
Aqui pode:
shows (em áreas delimitadas), gincanas, reveillon, blocos de carnaval, barracas móveis (na verdade, são carrinhos com caixa de isopor, sem cozinha e sem som), ambulantes, frescobol e vôlei.
Mas o mais sensacional está por vir:
a quantidade de coisas que se vendem nessa praia é de embasbacar.
De a obrigatória cerveja gelada ao inusitado oiti-coró, a lista parece não ter fim.
Talvez seja a nossa herança mascate.
E aí vão 110 coisas que se podem encontrar à venda na praia de Boa Viagem (com sorte, tudo no mesmo dia!):
caldo de cana, chapéu, pipa, coco, aviãozinho de isopor, caldinho, sururu, marisco, caldeirada, peixe fresco e peixe frito, camarão, bronzeador, CD e DVD piratas, óculos (pirata também!),
cachorro-quente, queijo na brasa, picolé, sorvete, periquito, bola, canga, catavento, amendoim, castanha, lupa, algodão-doce, cachorro / cavalo da cabeça mole, ostra, sanduíche natural, empada, coxinha, pastel, arrumadinho, rói-rói, colar, tatuagem, banho de piscina, raspa-raspa, salada de frutas, abacaxi, melancia, artesanato hippie, brinquedos, Ai titia!,
cerveja, cachaça, bolsa, mealheiro, caranguejo, ovo de codorna, oiti-coró, codorna assada, espetinho, coquetel de frutas, blusa, cocada, porta-fósforo, revólver de açúcar, taça, cavaco, capa para celular, casquinha de caranguejo, escondidinho, batata frita, sarapatel, água oxigenada, cigarro, dobradinha, relógio, cabeça de galo, rede, tapete, quadros e telas, escultura de barro, pitomba, serigüela, jambo, caju, sushi, saia, pipoca, refrigerante, caipifrutas, revestimento de volante e poltrona de carro, água mineral, pirulito, óleo de amêndoa, rolete de cana, frutas cortadas, japonês, artesanato indígena, maconha, bóia, lagosta, agulhinha frita, salgadinho, brinco, caipirinha, isqueiro, boné, águia de conchas, chiclete, chaveiro, quibe, porta-copo para cachaça, limonada, mate ... (
na semana passada, vi até revólver de açúcar, uma relíquia da minha infância!).
Esta matéria teve a participação de Fernando Tavares, praieiro de Boa Viagem como eu, e de Junior, que sentado nas maravilhosas cadeiras de náilon, enumerou com mim todos aqueles itens.
Número de frases: 62
Em o ano passado, «zapeando» os canais de TV, me deparei com a figura de Sérgio Sant'Anna numa entrevista em que falava de seu livro O Vôo da Madrugada.
Fiquei ligada na conversa, que peguei por a metade, mas que despertou meu interesse por conhecer o autor mais profundamente.
Em a manhã seguinte não resisti e procurei informações sobre ele na Net e é claro, encontrei seu e-mail.
Não resisti, escrevi falando que tinha visto a entrevista e tinha prometido a mim mesma a comprar o livro para ler e que, depois de lê-lo, gostaria de conversar com ele novamente.
Talvez fazendo uma entrevista para o Jornal do Cerrado, da Universidade Estadual de Goiás (http://www.ueg.br), que tem uma edição eletrônica.
Escrevi o e-mail assim, como se fosse metade jornalista e metade fã.
Sérgio foi super simpático.
Disse que estava viajando para o interior de São Paulo para visitar uma filha e que devia ficar por lá uma semana.
Mas que eu podia mandar as perguntas que ele me responderia.
Uma semana e «O Vôo da Madrugada» «devorado», escrevi para o Sérgio, perguntando se ele se lembrava de mim e reforçando meu desejo de entrevistá-lo.
Mandei as perguntas pela manhã, ainda no jornal e, para minha surpresa, quando cheguei em casa, por volta das 15 horas, ele já tinha respondido minhas perguntas.
Sem me aprofundar muito em analisar o livro, reproduzo abaixo a conversa com Sérgio e aproveito o espaço para agradecer de público a sua simpatia.
A seguir a entrevista, publicada originalmente no Jornal do Cerrado.
Prosa com a força da melhor poesia
O mundo só é verdadeiramente vivido quando pode ser narrado.
Este bem podia ser o mote da obra de Sérgio Sant'Anna, escritor que, desde a sua estréia com O Sobrevivente, em 1969 (que lhe valeu a participação no International Writing Program, da Universidade de Iowa, Eua), vem quebrando regras, ampliando contornos, questionando agudamente os limites do conto, em busca de uma nova experiência do narrar.
Um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, Sérgio Sant'Anna, embora já tenha publicado poesia, peças de teatro, novelas e romances, se considera um contista.
E foi justamente o livro de contos O Vôo da Madrugada que me levou a entrevistar o escritor carioca que já teve alguns de seus trabalhos levados às telas de cinema.
O livro em questão valeu a seu autor o prêmio Jabuti e em ele Sérgio Sant'Anna constrói uma escrita da busca apresentando ao leitor contos concisos em sua estrutura, mas que se bifurcam em múltiplas leituras.
Como a literatura se beneficia da transposição de suas obras para a tela?
Ela ajuda a vender cópias de suas obras, por exemplo?
No caso de A Senhorita Simpson -- Bossa Nova não houve benefício algum, até porque a história que o Bruno (Barreto) filmou quase não tem a ver com minha novela.
Não me identifico nem um pouco com o filme.
Já Crime Delicado, de Beto Brant, adaptado de meu romance Um Crime Delicado, além de ser um filme belo e perturbador, tem muita coisa em comum com o livro, com o seu espírito, é claro que com algumas diferenças.
A crítica, em geral, tem sido extremamente favorável à obra de Brant e sua equipe.
A Companhia das Letras lançou uma nova edição junto com o lançamento do filme e, por o que sei, está vendendo bem.
Também no festival de Sundance, nos Estados Unidos, no final de janeiro do ano passado (2005), havia um filme, La muerte es pequeña, adaptado de um conto meu, Estranho s (incluído em meu Contos e Novelas Reunidos), e filmado por Fellipe Barbosa, um jovem de vinte e cinco anos que estuda na Columbia University, Nova York.
Um ótimo curta-metragem.
Você ficou seis anos sem publicar.
Foi esse tempo que você levou para escrever Vôo da Madrugada ou fez outras obras neste período?
Eu demoro mesmo muito tempo para escrever, não tenho pressa.
E os contos foram saindo muito devagar.
E no meio desses seis anos, trabalhei numa reedição de meu livro de poemas, Junk
Box, uma máquina de versejar, lançado por a Dubolso, MG, com belíssima programação visual e ilustrações de Sebastião Nunes.
O Vôo da Madruga tem certos contos que parecem exemplares da tão propagada literatura fantástica apreciada por os autores latino-americanos.
Você os escreveu conscientemente ou eles foram sendo criados instintivamente?
Em a verdade não gosto de literatura fantástica, e por o que me lembro apenas o conto título, O Vôo da Madrugada, além de A Barca na Noite, têm essa característica.
Mas talvez essa impressão tenha sido causada por o tema da morte e pode ser que eu tenha me esquecido de algum conto que possa se enquadrar no gênero.
Mas é um gênero que não cultivo.
Fui apenas seguindo a minha luz.
O conto que dá título ao livro impressiona por a incursão que você faz à alma do personagem e da sua tremenda e desesperada solidão.
A bela que viaja ao lado de ele na madrugada é fruto desta solidão?
Ou ela realmente esteve lá?
Deixei em aberto essa questão da identidade da mulher.
Talvez eu não goste do termo fantástico porque está muito ligado a um estereótipo latino-americano.
Digamos que esse conto tem a ver com as histórias extraordinárias de Edgar Allan Poe, um autor que aprecio muito.
O Vôo da Madrugada tem os mais diversos tipos de personagens.
No entanto, a gente percebe pontos comuns entre eles, como as obsessões com temas como morte e angústias.
São suas obsessões que você transporta para os personagens?
Esse foi um livro particularmente cheio de angústias e obsessões com a morte.
A morte como tema esteve muito presente na primeira parte do livro.
Já na parte final, a que mais gosto, Três textos do olhar, é Eros que predomina, a arte, a visualidade, a paixão por a figura da mulher.
O que lhe dá mais prazer escrever:
romance, contos?
Como você avalia as limitações dos romances nacionais atualmente?
Ou isso é mera análise do mercado editorial, ou seja, das próprias editoras?
Eu gosto mais de escrever contos, porque estão mais de acordo com certas experimentações com a linguagem que gosto de fazer.
Gosto também de histórias de tamanho médio, e atualmente rascunho uns três que têm esse formato.
Aliás, publiquei dois livros com esse formato de histórias de tamanho médio:
Breve História do Espírito e O Monstro, ambos por a Companhia das Letras.
E, decididamente, não sou um cara de escrever romances longos, com muitos personagens.
Nem posso dizer se há crise do gênero romance no Brasil, não parei para pensar sobre isso.
Quais são os principais recursos de um ficcionista?
O que não pode faltar numa boa obra de ficção?
Penso que não podem faltar a imaginação e o trabalho com a linguagem.
Lendo O Vôo da Madrugada a gente tem a impressão de que você está tentando exorcizar alguma coisa ...
Talvez uma fase da carreira literária para dar início a uma outra.
Isso é verdade, quer dizer, você faz exorcismo pessoal no livro?
Eu não sei se quis exorcizar alguma coisa, escrevi o que havia em mim.
Mas algo é certo:
o que estou escrevendo neste preciso momento é muito diferente de O Vôo da Madrugada.
Até porque o humor está de novo muito presente, como em outros livros meus, ainda que, várias vezes, humor negro.
Em O vôo ...,
esse humor (negro) está presente principalmente na novela O Gorila.
Alguns de seus personagens fictícios se apresentam como narradores, tomando a pena nas próprias mãos e escrevendo seus relatos.
Em outras vezes, você parece se expor apresentando-se como o contista e dando um tom íntimo, por assim dizer, ao texto.
Como é fazer essa transição?
Em a ficção o narrador é muitas e muitas vezes um personagem.
Falar na primeira pessoa não quer dizer que a pessoa está escrevendo uma história real.
às vezes o autor pode até esconder com a terceira pessoa um acontecimento real.
Quando eu me refiro ao contista, creio que estou me referindo a mim mesmo na terceira pessoa.
O que não quer dizer que eu tenha de ser absolutamente fiel à realidade.
Uma das coisas boas da ficção é que você pode inventar o que quiser, até um outro eu para você.
Fiquei muito impressionada como Um Conto Abstrato, que você apresenta como «Um conto de palavras que valessem mais por sua modulação que por seu significado».
Como é isso?
E qual a diferença entre Um Conto Abstrato e Um conto obscuro?
Eu sempre quis escrever um conto abstrato.
Um conto formal e bonito, em que as palavras tivessem o peso que as notas têm na música.
Talvez seja o conto que eu mais goste na primeira parte do livro.
A frase que você escreveu na pergunta define bem o conto.
Já Um conto obscuro são muitos temas, que vão surgindo na história, ligados, creio, por um fio poético.
Dá para você fazer uma análise mais profunda de uma afirmação sua, que dá conta de que a literatura não é capaz de interferir imediatamente na realidade.
Ela lida com a realidade em médio e longo prazo, criando realidades com sua liberdade?
Não me lembro mais em que contexto eu disse isso.
Suponho que quis dizer que não se muda a realidade social e política com a literatura, sua contribuição para isso é muito modesta.
Mas cada obra de arte é uma realidade nova, uma contribuição à cultura de um país, e talvez seu maior papel seja esse.
Número de frases: 96
A música norteia a vida do brasiliense Alexandre Dias.
A os 23 anos, sua rotina se divide em duas partes:
uma ampla pesquisa, informal e pessoal, sobre a obra de Ernesto Nazareth (1863-1934), e o mestrado em Biologia Animal, onde estuda o canto das aves (" Uma maneira de juntar o ouvido à biologia, não?»,
pergunta ele, divertido).
O contato mais forte com o estudo da vida e da natureza começou aos 17 anos, quando entrou para a graduação desta área de conhecimento.
O com Nazareth começou antes, aos 14, quando ganhou um CD dedicado ao pianista que criou uma forma brasileira de compor.
Desde então, mergulhou fundo num hobby que virou trabalho sério:
buscar toda e qualquer referência sobre o acervo do ídolo criador de Odeon, Brejeiro e outras pérolas.
Por muitos anos, grande parte do acervo de Nazareth esteve num sítio em Teresópolis, cidade serrana do Rio, sob os cuidados de um herdeiro honorário e apaixonado, Luiz Antonio de Almeida -- que, como Alexandre, também se interessou por a obra do mestre na adolescência e demonstrou tanto interesse ao longo da vida que recebeu da família o acervo de presente.
Há anos os fãs de Nazareth esperam que Luiz Antonio lance a biografia do pianista, que escreve há tempos.
Em 2005, duas boas notícias mexeram com o universo «nazarethiano».
A chegada da data em que a obra passou a ser considerada domínio público e a venda de parte do material do sítio para o Instituto Moreira Salles.
Não seria exagero dizer que o despertar de Alexandre e sua determinação em pesquisar o autor é um outro turning point, ainda que mais discreto, na disseminação da música do compositor.
Seja num trabalho de formiguinha para encontrar toda a obra -- hoje ele tem boa parte das 1960 gravações que catalogou e também as 211 partituras existentes, seja no desejo de escoar esse material e discutir sobre ele.
Em ambas as atividades, a internet é fundamental.
O rapaz é responsável por a lista de discussão O Malho -- sobre choro -- e por o site www.chiquinhagonzaga.com/nazareth, onde disponibiliza publicações raras escaneadas.
Em o site musical Sovaco de Cobra, está fazendo uma série sobre obras raras do compositor.
E participa sempre que pode de palestras, concertos, programas de rádio, etc.
Descobri a série navegando por a internet e propus uma conversa por email, que resultou numa longa entrevista, onde Alexandre conta a história toda.
Para completar, ele reflete sobre a relação do pesquisador de hoje com a web e ainda dá várias dicas bacanas de instituições de memória brasileiras que dispõem acervos importantes on line.
1) Como surgiu seu interesse por a obra do Nazareth?
Desde a primeira vez em que ouvi o Odeon (Tango Brasileiro) me senti imediatamente relacionado e atraído àquele tipo de música que ainda não conseguia tocar (eu devia ter cerca de 12 anos quando entrei em contato com a obra do Nazareth conscientemente).
A mesma sensação aconteceu quando ouvi o Maple Leaf Rag de Scott Joplin pela primeira vez, foi amor instantâneo.
A partir daí comecei aos poucos a ir atrás de partituras e gravações de ambos esses compositores para satisfazer minha própria curiosidade.
2) Qual foi o momento em que o Nazareth deixou de ser apenas um dos compositores que você tocava nas aulas de piano e passou a ser tema de pesquisa?
Em 1998, no meu aniversário de 14 anos, ganhei de presente um CD que se revelaria crucial:
Sempre Nazareth (Kuarup Discos KCD-095, de 1997) tocado por a pianista Maria Teresa Madeira com o bandolinista Pedro Amorim e participação do percussionista Oscar Bolão em algumas faixas.
O modo como a Maria Teresa interpreta Nazareth é único.
Gradualmente esse passou a ser o disco que eu mais ouvia.
Fiquei tão entusiasmado com a energia das interpretações de eles que resolvi conhecer outras músicas do Nazareth, além das 14 no disco.
Conheci então as gravações do Arthur Moreira Lima, que é atualmente a pessoa que mais gravou Nazareth na história (são mais de 100 faixas diferentes).
Depois Eudóxia de Barros, que é a segunda pessoa que mais gravou Nazareth.
Tenho um espírito de colecionador forte dentro de mim que de repente deu um estalo.
Resolvi colocar no computador todas as gravações que já tinha conseguido até o momento de músicas de ele.
Vi que já tinha algumas dezenas, isso me motivou a tentar conseguir, quem sabe, eventualmente todas as gravações já feitas de suas peças.
Comecei a pesquisar em sebos, contactar pesquisadores, vasculhar toda a internet, fazer compras de CDs e LPs, etc, sempre com o apoio de meus pais e avós.
Quando viajei para o Rio de Janeiro em 2001, fui à Divisão de Música da Biblioteca Nacional, que é um paraíso de partituras e gravações.
Não podendo xerocar o verbete «Ernesto Nazareth da Enciclopédia» da Música Brasileira da Publifolha (devido a regras internas de eles), copiei à mão todos os títulos das obras de ele, com as respectivas datas (depois meus pais me deram essa enciclopédia).
Cada nova gravação que eu conseguia era acompanhada de uma sensação de grande satisfação.
Cada uma era transformada em mp3 e catalogada no micro.
Assim é até hoje, só que o catálogo hoje está no programa Access, numa tabela gigante com 11 colunas e quase 2.000 linhas.
Eventualmente contactei grandes pesquisadores que muito me ajudaram, e fiquei amigo de eles, como o Luiz Antonio de Almeida (biógrafo e herdeiro-honorário do Nazareth), o prof. Aloysio de Alencar Pinto (exímio pianista e musicólogo, talvez hoje a única pessoa viva que tenha conhecido o Nazareth -- ele nasceu em 1911), o José Silas Xavier, grande colecionador e pesquisador, de entre muitos outros.
Muitos amigos me ajudam também a procurar gravações «obscuras» de músicas do Nazareth, seja em CDs independentes lançados a todo momento, seja em LPs americanos ou mesmo 78-RPMs.
A partir de 2001 comecei a mandar e-mails para donos de gravadoras e para a Maria Teresa sugerindo que ela gravasse mais Nazareth.
Considero ela a maior intérprete de Nazareth da história até hoje.
Hoje somos amigos, e em 2003, para minha enorme felicidade ela lançou dois CDs por a Sonhos & Sons contendo exclusivamente peças do Nazareth:
Ernesto Nazareth (1) (Mestres Brasileiros Vol. 3) (Sonhos e Sons SSD051) e Ernesto Nazareth (2) (Mestres Brasileiros Vol. 4) (Sonhos e Sons SSD052).
O primeiro foi dedicado a mim, e o segundo foi indicado ao Grammy Latino.
3) O que faz além da pesquisa do Nazareth?
Depois de me formar nos cursos de bacharel e licenciatura em biologia, na UNB, entrei no mestrado em Biologia Animal para me especializar em cantos de aves (uma maneira de se juntar o ouvido à biologia, não?).
Em paralelo, há 6 anos que trabalho profissionalmente transcrevendo gravações para partituras, algo que me dá muito prazer, não por o dinheiro (que é pouco), mas por o desafio.
Cada gravação oferece uma ampla gama de obstáculos a serem transpostos, e quando alcanço um resultado final em que a partitura escrita é idêntica à gravação, a satisfação é grande.
4) Quais são as reações quando vêem um jovem pesquisando a fundo a obra de um compositor antigo?
Algumas pessoas achavam curioso o fato de um garoto de 16 anos pesquisar músicas do início do século XX e final do século XIX fanaticamente.
Lembro-me que quando contactei o José Silas Xavier pela primeira vez (especialista em discos 78-RPM da fase mecânica, os mais difíceis de se conseguir), ele ficou surpreso quando falei a minha idade.
Mas acho que, em geral, a maioria das pessoas não se importa muito com música instrumental, e menos ainda com as daquela época.
Então às vezes é difícil falar sobre minha pesquisa, pois sei que a cultura musical das pessoas em geral, especialmente as mais jovens, não abrange músicas do passado.
Isso eu acho que seja em grande parte por não existir mais educação musical nas escolas.
Hoje alguém só aprende música se buscar por conta própria.
5) Quando você começou as buscas, como estava o estado do acervo do Nazareth?
Bom, o acervo se resume a meu ver, às seguintes partes:
1) todo os milhares de objetos e documentos que o Luiz Antonio de Almeida herdou na década de 80.
2) seus manuscritos originais
3) suas partituras editadas.
4) gravações
Quanto ao item 1, tudo estava no sítio de ele em Teresópolis (isso é do conhecimento de todos, já foi publicado em jornal impresso).
Eu nunca visitei o acervo de ele pessoalmente, mas creio que o Luiz Antonio era muito cuidadoso com esse material, mesmo sem ter os recursos necessários.
Explico por que estou escrevendo os verbos no passado.
Por volta de 2004 ele vendeu uma grande quantidade de itens de seu acervo ao Instituto Moreira Salles.
De entre eles documentos, fotos, manuscritos.
Infelizmente o IMS nunca divulgou a listagem de tudo que foi comprado, e nada ainda foi disponibilizado ao público, coisa que ainda está na promessa.
O que não foi vendido para o IMS continua no sítio do Luiz Antonio, e em sua residência no Rio (ele ainda manteve para si boa parte dos manuscritos originais).
Portanto no que diz respeito ao item 1, ele ainda se encontra indisponível ao público, mas o futuro é promissor.
Quanto ao item 2, ele está distribuído em três locais:
Biblioteca Nacional (que possui cerca de 115 manuscritos «autógrafos», ou seja, escritos por o próprio Nazareth), Instituto Moreira Salles, que possui pelo menos 13 manuscritos, e Luiz Antonio de Almeida, que possui pelo menos cerca de 30 manuscritos.
De todos esses, apenas os manuscritos da Biblioteca Nacional estão disponíveis para consulta pública, e mesmo assim você precisa ir lá pessoalmente.
Apenas uma pequena parte do acervo está catalogada digitalmente.
Os manuscritos estavam catalogados em fichinhas impressas de um sistema antigo.
Foi um sufoco pra conseguir achar as tais fichinhas.
Solicitei cópia de absolutamente tudo, cópias que valorizo como se fossem um tesouro (o sistema da biblioteca requer que, para cada cópia solicitada -- 50 centavos cada página -- você preencha uma fichinha com muitos dados.
Tive que preencher isso para todos os 115 manuscritos (hahaha).
Coisa de doido!
Quanto ao item 3, quase toda a obra do Nazareth já foi publicada comercialmente em partitura.
Cerca de 27 músicas permanecem inéditas em publicação (não confundir com inéditas em disco).
Mas ocorre que grande parte das partituras que foram editadas hoje não é mais vendida.
Não sei dizer exatamente quantas músicas de ele exatamente estão à venda atualmente, mas certamente são menos de 100. Sempre que alguém me pede uma partitura específica, mando com prazer.
O item quatro é bem mais difuso, e por acaso é a minha especialidade.
Acho que o único lugar onde você encontrará um número bastante grande de gravações de músicas do Nazareth é aqui em casa.
6) O que sentia que podia melhorar em relação ao acesso à memória de ele quando começou a pesquisa?
O que mudou?
Oficialmente, pouca coisa mudou, pois nunca publiquei nenhuma parte da minha pesquisa, nem vendi meu acervo para nenhuma instituição.
Porém informalmente tenho feito algumas coisas.
Por exemplo, há mais de 5 anos que tenho uma lista de discussão na internet exclusivamente dedicada ao choro e à música da «belle époque» brasileira (O Malho).
Sempre que possível, conversamos sobre o Nazareth por lá.
Em 2003 fiz uma palestra na UnB fazendo um apanhado histórico sobre a discografia de ele, e organizei um recital só com peças do Nazareth, intitulado «Ernesto Nazareth -- Bis e Inéditos» que teve participação de vários professores e alunos.
Em esse mesmo ano participei do programa «Música e Músicos do Brasil da Rádio» MEC no Rio de Janeiro.
Em julho de 2007, irei por a quarta vez.
Colaboro sempre com pesquisadores e músicos que precisam de algum material sobre ele.
Fiz um recital com o Gustavo Trancho de Azevedo só com músicas raras e inéditas do Nazareth aqui em Brasília, organizado por a professora Neuza França, que lotou a platéia.
O que precisa melhorar, inicialmente, são três coisas:
1) que toda a obra de ele esteja em partituras disponíveis comercialmente.
2) que toda a obra de ele seja gravada, de preferência as 211 obras de ele em seu original para piano solo, interpretadas por a Maria Teresa Madeira (é preciso lembrar que embora existam 61 músicas que nunca tenham sido gravadas absolutamente, uma outra boa parcela já foi gravada, mas nunca em seu original para piano solo)
3) que o Luiz Antonio de Almeida finalmente publique a biografia que ele vem escrevendo há 30 anos.
É uma obra de importância inestimável, que ele já declarou estar pronta, (talvez só dependa de uma revisão) e agora só esta esperando uma editora que a publique.
7) Hoje a internet é um meio interessante para a divulgação de acervos.
Você faz bom uso de ela para divulgar suas pesquisas.
Mas parece que parte das pessoas físicas ou jurídicas que detêm acervos não tem intimidade com a net, ou muitas vezes a vê como uma ameaça à questão dos direitos, por o medo de «perder o controle» sobre a obra.
Isso em parte ocorre sim, mas há algumas instituições que realmente são de se tirar o chapéu.
O Instituto Moreira Salles é comprador de acervos, e aos poucos vai disponibilizar tudo via internet.
Assim já foi feito com os acervos do Humberto Franceschi e do José Ramos Tinhorão.
Somados eles constituem mais de 20.000 gravações de discos 78-RPM que já foram inteiramente catalogados, digitalizados, remasterizados com qualidade excelente, e disponíveis para ouvir online em streaming gratuitamente a um clique.
Que eu saiba, isso não existe em nenhum outro país do mundo.
Nem mesmo a Biblioteca do Congresso americano, que é a maior do mundo, disponibiliza gravações em seu site dessa forma.
Outras instituições estão chegando a um alto nível também.
Por exemplo, a Discoteca Oneyda Alvarenga, do Centro Cultural de São Paulo, possui dezenas de milhares de 78-RPMs e LPs.
Por o que sei, todos os 78-RPMs já foram catalogados e digitalizados, para consulta instantânea nos terminais do local.
Não estão disponíveis via internet, infelizmente.
A Fundação Joaquim Nabuco possui um acervo gigantesco de 78-RPMs, disponíveis para consulta.
Esse link vem com um bônus:
lá estão listados não só os 78-RPMs que eles possuem, mas sim toda a listagem presente no catálogo «Discografia Brasileira 1902-1964» lançado por a Funarte na década de 80, hoje esgotado, que constituiu a primeira tentativa de se listar todos os discos já gravados no Brasil em 78-RPM.
É possível encomendar cópia dos discos por o correio, que eles mandam em fita k 7.
A Biblioteca Nacional também detém um acervo fabuloso de LPs e 78-RPM.
Nada está digitalizado, e o serviço lá poderia ser mais eficaz.
Mas pelo menos eles fornecem cópias em fita-k 7. Há muitos outros pequenos acervos fonográficos públicos distribuídos por o Brasil.
Há colecionadores que possuem milhares de 78-RPMs e LPs e não divulgam isso publicamente.
Esse não é o caso do Nirez, um dos maiores colecionadores da América Latina, que vende cópias em CD a partir de seu acervo.
Ele conseguiu um patrocínio da Petrobras para digitalizar todo seu acervo.
8) Em a sua opinião, como a internet pode ajudar a tornar pesquisadores menos «colecionadores» e mais «democratizadores» da informação?
Ou ela diminui a importância da figura do pesquisador?
De forma alguma.
Se agora há um jeito fácil dos pesquisadores trocarem informações é por a internet.
Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido, para que haja integração das pesquisas feitas.
Existem sites que democratizam o conhecimento de forma maravilhosa.
O site mais impressionante, com maior número de registros fonográficos (listagens) disponíveis para consulta é o Jornal Musical, do Instituto Memória Muscial Brasileira.
Eles possuem um mecanismo de busca que abrange 78-RPMs, LPs e CDs em toda a história do Brasil.
É a maior e mais completa discografia que já vi.
Outros sites com menos registros, mas igualmente impressionantes são:
Sombras;
Cliquemusic e Discos do Brasil (a Maria Luiza Kfouri, autora desta discografia, chegou a preciosismos fantásticos de listar cada um dos músicos para cada faixa, e seus respectivos instrumentos)
E há outros sites que não são especializados em discografias, mas constituem boa fonte de consulta:
Answers.
com; Collector's Studio Ltda;
Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira e eBay.
9) Conhece outros jovens que vão a fundo em pesquisas assim?
Conheço, há jovens que com 14 anos já se interessam por pesquisa de compositores brasileiros antigos.
Com alguns de eles converso por o MSN e trocamos idéias, muitas gravações, partituras.
Tenho um amigo, o Wandrei Braga, que é apaixonado por a Chiquinha Gonzaga.
Ele que fez o excelente site www.chiquinhagonzaga.com e gentilmente cedeu o espaço para fazer o meu site www.chiquinhagonzaga.com/nazareth, ainda em construção.
Em ele disponibilizei textos e livros raros sobre o Nazareth, todos escaneados por mim e disponíveis em PDF.
10) Você já catalogou mais de 1900 gravações comerciais do Nazareth.
O que significa exatamente?
Venho tentando listar todas as gravações já feitas na história de músicas do Nazareth.
É uma pesquisa sem fim, pois a toda hora descubro novas gravações em todas as décadas do século XX.
E o Nazareth vem sendo bastante gravado atualmente.
Em o ano de 2005 por exemplo foram lançados 5 CDs inteiramente dedicados a peças de ele!
A listagem desses CDs pode ser encontrada na discografia de site www.chiquinhagonzaga.com/nazareth.
Lá coloquei apenas os LPs e CDs que contêm exclusivamente Nazareth, e são aproximadamente 50, desde 1951!
11) Você tem todas as gravações e partituras?
Possuo todas as 211 partituras.
Gravações, tenho boa parte.
De todas as 1.960 gravações comerciais que tenho listadas até agora, possuo 1.680. Não conheço discografia de nenhum outro compositor brasileiro que chegue a 2.000 gravações, e o Nazareth está quase lá.
Talvez Villa-Lobos, Ary Barroso, Tom Jobim sejam fortes concorrentes, mas não conheço discografias feitas exclusivamente para esses compositores, de modo a esgotar todas as gravações feitas no mundo.
12) Em um mundo ideal, qual seria a melhor forma de disseminar esse material?
Vejo duas formas:
1) comercialmente, em álbuns de partitura à venda em lojas e CDs contendo gravações feitas em estúdio.
2) gratuitamente, via internet, em partituras disponibilizadas para download, e gravações amadoras como as que estou fazendo e colocando no Sovaco de Cobra.
Essas duas vias não são excludentes a meu ver.
As partituras do Nazareth precisam ser extensamente revisadas, coisa que uma edição comercial pode fazer, gerando partituras de qualidade, incluindo pesquisas musicológicas comparando-as com o manuscrito, por exemplo.
Existem projetos com este objetivo.
Desde 2005 a obra do Nazareth está em domínio público, isto quer dizer que qualquer um em qualquer parte do mundo pode gravá-la e publicá-la sem se preocupar mais com direitos autorais.
Isso certamente abrirá muitas portas para que o Nazareth finalmente tenha a sua obra considerada em toda sua importância, como é feito com Chopin no mundo todo.
* * Em o final, uma mensagem inesperada de Alexandre com uma espécie de PS:
«Fiquei pensando nas motivações que me levaram a esta pesquisa.
Tão difícil de responder ...
Mas achei um poema que se encaixa perfeitamente à questão do ' por que gosto disso? '.
É a penúltima estrofe do poema que começa com o verso «O meu olhar é nítido como um girassol» assinado por Alberto Caeiro, um dos pseudônimos de " Fernando Pessoa:
«Eu não tenho filosofia;
tenho sentidos ...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Número de frases: 181
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ..."
A permanência da palavra e a finitude humana
Por um exercício de masoquismo nostálgico, ele -- que odeia máquinas de escrever -- programou o computador de casa para imitar o mesmo som que ouvia da velha Olivetti do pai enquanto datilografava, há duas décadas, seu primeiro romance.
De o final dos anos 80 para cá, houve mais mudanças na vida de ele que a simples evolução tecnológica na hora de redigir seus textos.
O gaúcho de Porto Alegre, morador da capital fluminense desde pouco antes da virada do milênio, se tornou um renomado roteirista de TV e um dos raros sucessos comerciais e de crítica da literatura fantástica nacional.
Em a entrevista a seguir, o escritor fala das motivações por trás de seu livro mais recente, Zigurate;
de como, mesmo aprendendo no curso de Direito a não confiar cegamente em ela, criou uma homenagem à perenidade da palavra escrita;
dos planos para levar tal obra ao cinema;
e ainda dá dicas para escritores novatos de FC.
Com vocês, o advogado que não aprendeu a dar nó em gravata, Max Mallmann.
Podemos começar por uma breve retrospectiva da sua carreira de autor, tanto de textos literários quanto dos feitos para TV?
Desde sua estréia, há quase 20 anos, já foram quantos textos escritos, mesmo entre os ainda não publicados, como contos, e roteiros de programas de televisão?
Quantos prêmios decoram sua estante?
Cara, quase vinte anos.
Isso me assusta.
Quando encasquetei que iria ser escritor, eu rabiscava historinhas com caneta Bic nos cadernos da escola.
O primeiro romance que publiquei foi metralhado a muito custo na Olivetti do meu pai, com muitos retoques em Liquid paper, que era uma tinta branca que a gente, nos tempos jurássicos, usava para corrigir erros de datilografia.
Eu odiava Liquid paper, cujo fedor de querosene me dava náuseas, odiava a Olivetti do meu pai, e não só ela, odiava máquinas de escrever em geral, quase tanto quanto odiava escrever em cadernos espirais desbeiçados.
Começar a redigir no computador foi uma libertação.
Mesmo assim, hoje tenho um programa que reproduz, no teclado do PC, o barulho de uma máquina de escrever.
Deve ser uma espécie de nostalgia masoquista.
Enfim, perto da geração blogueira, sou um matusalém.
Tenho quatro romances publicados.
E dois inéditos que jamais irei publicar.
Sim, isso mesmo.
Dois trabalhos da juventude, um com cento e tantas páginas e outro com mais de trezentas, que acho que não merecem ser lidos.
Eles nem existem em versão digital.
São datilografados.
Estão perdidos em algum armário aqui de casa, sendo lentamente devorados por as traças.
Dois ou três contos que escrevi foram publicados em coletâneas, mas nunca fui bom contista.
Devo ter meia dúzia de contos inéditos que nem sei mais onde estão.
Escrevi alguns poemas, naquela idade em que é perdoável escrever poemas, entre os dezesseis e os vinte e poucos.
São todos inéditos, felizmente.
Inéditos e desaparecidos, a menos que algum daqueles cadernos antediluvianos tenha sobrevivido em alguma gaveta.
Não serei eu que irá procurá-los.
Publiquei quatro romances, como já disse.
Os dois primeiros lá em Porto Alegre, os dois mais recentes aqui no Rio, por a Editora Rocco.
Você falou em prêmios.
Não são muitos.
Meu primeiro livro, Confissão do minotauro, foi um dos ganhadores do prêmio «Nova literatura» do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul.
Meu segundo trabalho, Mundo bizarro, foi selecionado por o Fumproarte, da prefeitura de Porto Alegre, e ganhou o prêmio Açorianos de melhor romance publicado no Rio Grande do Sul em 1996.
O terceiro, Síndrome de quimera, foi um dos dez finalistas do prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.
Como roteirista de TV, escrevi para Malhação por dois anos, trabalhei na equipe de uma novela das seis, Coração de estudante, fiz Carga pesada por um ano e, desde 2005, sou da equipe que escreve A grande família.
Sua formação acadêmica é o direito, mas você estreou como escritor muito jovem, com Confissão do minotauro sendo lançado quando mal tinha completado 20 anos.
O que o levou a essa escolha na atividade profissional e como foi sua preparação para ela no início?
Participou de muitas oficinas e cursos de literatura ou é mais autodidata mesmo?
Sempre digo que adoro aprender, mas detesto que me ensinem.
Prefiro correr aos livros a perguntar a alguém.
É meu velho conflito com a autoridade, que me faz desconfiar dos professores.
Apesar dessa neurose, sou obrigado a reconhecer que não sou autodidata.
Mesmo fugindo dos mestres, acabei tendo bons interlocutores, com quem aprendi bastante.
Mas nunca tive um aprendizado formal na literatura, salvo um semestre que fiz no curso de Letras da UFRGS.
Não gostei.
Meus colegas se dividiam entre os que estavam dando um tempo até passar em outro vestibular e os que haviam desistido de fazer outro vestibular.
Quanto aos professores ...
Eram bons, admito.
Infelizmente, como já mencionei, adoro aprender, mas detesto que me ensinem.
Desisti.
Sou bacharel em Direito (ainda me assusta escrever isso, mesmo depois de tantos anos) formado por a UFRGS.
Tenho o diploma, sou inscrito na Ordem dos Advogados, porém jamais exerci a profissão.
Meu maior orgulho é ter concluído o curso sem jamais ter aprendido a dar o nó na gravata.
A única matéria que me despertava algum interesse era o Direito Romano.
Acho que o Direito me ensinou a não confiar nas palavras.
O texto, mesmo que seja o texto da lei, jamais existe pos si só.
Depende sempre da interpretação.
Seus primeiros dois livros saíram por pequenos projetos editoriais e com modalidades de incentivo cultural.
Qual foi a importância desses apoios para um autor iniciante, ainda mais um que tratava de temas pouco ortodoxos como ficção científica e fantasia?
Qual a importância?
Foi fundamental.
Concorri com muita gente e fui selecionado por o Instituto Estadual do Livro.
Depois, concorri com mais outros tantos e fui selecionado por o Fumproarte.
Isso me fez acreditar que eu não estava tão errado em querer ser escritor.
E foi assim que me tornei profissional.
Hoje, francamente, acho que esses dois primeiros romances eram bem ruinzinhos, mas, de qualquer jeito, eles me abriram muitas portas.
Aliás, devo dizer que nunca sofri preconceito por escrever ficção científica e fantasia.
Talvez nem exista esse preconceito.
Ou, se existe, não é exatamente contra o gênero.
É contra o pastiche.
A cópia da cópia nunca é bem vinda.
O que eu faço pode até não ser bom, mas também não é pastiche.
A outra metade de sua obra literária já saiu por uma das grandes editoras do país, a Rocco.
Ter o livro lançado com o selo de uma empresa de porte é o grande objetivo dos escritores de FC nacionais, que vivem, em sua maioria, uma realidade de autopublicação dos títulos ou de participação em coletâneas.
Você poderia contar um pouco sobre sua experiência até chegar a essa editora e, se possível, dar algumas dicas aos interessados em tentar repetir o feito?
Quando vim morar no Rio, em 1999, eu tinha dois romances publicados, tinha ganho concursos e tinha recebido críticas favoráveis na imprensa do Rio Grande do Sul.
Achei que podia arriscar um contato com uma editora grande.
A primeira, e única, que procurei foi a Rocco, que é a mais aberta a novos autores.
Telefonei, marquei uma hora e fui lá, com o meu currículo e o Síndrome de quimera debaixo do braço.
Três meses depois, assinei o contrato de publicação.
Síndrome de quimera foi lançado em 2000.
Fácil?
Vamos fazer as contas.
Em 1987, terminei de escrever Confissão do minotauro.
Em 1989, a Confissão saiu por o IEL do Rio Grande do Sul.
Meu primeiro contrato com a Rocco foi assinado em 1999.
Dez anos.
Minha lição aos novatos?
Dêem um passo depois do outro.
E não tenham pressa.
Podia ser pior.
Jogadores de futebol estão acabados antes dos quarenta.
Escritores são mais longevos.
O rótulo de «jovem escritor» gruda na pele até aí por os cinqüenta e cinco, pelo menos.
Sobre Zigurate:
ele parece ser o livro em que você mais levou a sério as possibilidades de se trabalhar dentro do gênero da FC.
De onde veio a idéia inicial e quanto tempo você levou entre a pesquisa dos vários tópicos desenvolvidos em ele e na produção do texto em si?
A idéia vinha voejando por a minha cabeça desde 2000.
Eu queria escrever um romance que falasse da permanência da palavra escrita em contraposição à finitude humana.
Queria falar de morte e imortalidade.
E queria, por nenhum motivo lógico, só por fetiche, uma personagem que fosse uma pesquisadora francesa.
A base de Zigurate é a epopéia de Gilgamesh, o texto literário mais antigo de que se tem notícia.
Comecei a reunir material e a pesquisar só em 2002, e concluí o romance em 2003.
Tentei, na medida das minhas forças, costurar realidade e ficção de forma que ficasse difícil distinguir uma da outra.
Muitos leitores vêm me dizer que foram pesquisar no Google datas, nomes de pessoas ou de lugares, acontecimentos históricos citados no livro.
E encontraram quase tudo ...
Os protagonistas de seu livro são dois personagens tão carismáticos e com tanta riqueza de detalhes em seu passado que vale a pergunta:
você já pensou em fazer uma continuação da história?
Seja a partir do ponto em que o livrou parou ou mesmo alguma aventura anterior da dupla?
Pensei, sim.
Mas não a sério.
Por enquanto, não tenho nada de novo a dizer sobre o universo de Zigurate.
Um dia, talvez, quem sabe?
De qualquer modo, é bom ver que deixei em alguns leitores essa sensação de «quero mais».
E quanto a adaptações?
Trabalhando com roteiros de TV há tanto tempo, paralelamente à atividade de escritor de FC & F, já pensou em transformar algum de seus livros num projeto audiovisual, seja como série, especial ou mesmo filme?
Já chegou a discutir a possibilidade de adaptar Zigurate ou Síndrome de quimera com alguém da direção da Globo?
Sempre vi como atividades diferentes a escrita de roteiros e a escrita literária.
Para mim, a diferença é análoga à que existe entre a escultura e a pintura.
São duas especialidades distintas dentro de uma mesma arte.
Assim, tenho o «modo roteirista» e o «modo escritor».
Mas, veja só, Zigurate está a caminho de virar filme.
Um produtor comprou os direitos e já existe um roteiro pronto.
Fazer cinema é um processo lento, então acho que daqui há uns dois ou três anos talvez possamos ver Zigurate nas telas.
E além dos seus livros, na sua opinião que outras obras da ficção científica nacional poderiam render boas adaptações para o cinema ou para a TV?
Há espaço para esse tipo de proposta atualmente?
E essa seria uma maneira viável de despertar o interesse do brasileiro para produções nacionais do gênero?
Acredito que haja espaço para muita coisa.
A TV brasileira investe cada vez mais em novos seriados.
E o cinema nacional também está se diversificando.
Temos muitos trabalhos nacionais que poderiam render boas adaptações para TV ou cinema.
Só para citar alguns, assim, de estalo:
o projeto Intempol, capitaneado por o Octavio Aragão, o álbum O Instituto, da dupla Osmarco Valadão e Manoel Magalhães, os contos do Carlos Orsi Martinho, o romance Quintessência do Flávio Medeiros, a história brasileira alternativa do Gerson Lodi-Ribeiro e vários outros.
Agora, sinceramente, não sei responder se há uma maneira viável de despertar o interesse do leitor brasileiro por a literatura fantástica brasileira.
Meu conselho a quem escreve literatura é:
não escreva pensando no público.
O público é uma abstração.
Escreva para você mesmo, e seja um crítico selvagem do seu próprio trabalho.
Quais são suas maiores influências, nacionais e internacionais, aquelas que são marcantes em seus trabalhos?
E quanto a novos autores, dentro do gênero fantástico, há alguma novidade que tenha lhe chamado a atenção?
Minhas influências?
Ah, muita gente.
Sou muito «influenciável».
Vamos ver ...
Monteiro Lobato, Machado de Assis, Erico Verissimo, Jorge Luiz Borges, Luis Fernando Verissimo, Mario Quintana.
Muitos mais.
E, não posso deixar de mencionar, Carl Barks, meu primeiro mestre.
Quanto a novos autores, tem muita gente boa.
Alguns já publicados em livro, como o Flávio Medeiros, e outros que, por enquanto, só publicaram na internet, como a Ana Cristina Rodrigues, que é um dos nomes mais promissores da nova geração.
Você já tem algo planejado para o futuro, algum novo projeto de livro ou de trabalho na televisão que possa comentar?
Em a TV, continuarei, na temporada de 2008, na equipe que escreve o seriado A grande família.
Tenho muito orgulho desse trabalho e me sinto privilegiado por trabalhar numa excelente equipe de roteiristas (somos nove profissionais escrevendo o programa), e por escrever para um elenco de primeira linha.
Em o cinema, há esse projeto da adaptação do Zigurate.
Julio Uchoa, o produtor, queria que eu mesmo escrevesse o roteiro, mas eu disse a ele que só sabia contar a história de um jeito:
o jeito do livro.
Assim, o principal responsável por a adaptação foi o roteirista Sylvio Gonçalves (que, além de ser meu amigo, também é autor de ficção científica).
Claro que eu colaborei, e não só eu.
Também fazem parte da equipe os roteiristas Adriana Lunardi e Bruno Garotti.
Em a literatura, venho trabalhando desde 2005 num romance novo, que será lançado em 2008, por a Rocco.
É uma história que se passa no século I, em Roma ...
Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
O livro Zigurate foi resenhado no Overblog:
Número de frases: 170
http://www.overmundo.com.br/overblog/mocos-daA-pele-dourada ...
Madam will book, it took me years to write, will you take a look."
¹ Em 2003, um amigo beatlemaníaco, Victor Lapa, me emprestou uma biografia de McCartney, escrita por Barry Milles, de 744 páginas, chamada «Many years».
Demorei mais de um ano para devolver a ele.
Isso porque eu sempre lia outra coisa na frente, como se estivesse esperando a hora certa para ler a biografia.
E, quando finalmente comecei, não parei mais.
Devolvi a ele, que recebeu como um presente, pois achava que nunca mais a veria.
Quando li a biografia de «Kurt Cobain, Mais pesado que o céu», 450 páginas, escrita por Charles R. Cross, fiquei bastante impressionado com alguns detalhes, principalmente por o fato do autor fundamentar o comportamento de Cobain com base na sua infância.
Reli essa mesma biografia após alguns anos e tive sensações mais profundas ainda.
Interessante é que, pouco antes de cometer suicídio, Cobain já tinha acertado fazer um disco junto com Michel Stipe, do R.E.M. Estava tudo certo, inclusive Stipe já tinha mandado as passagens, isso para incentivar, pois sabia ele, por intermédio de Courtney Love, que Kurt estava muito mal.
Curioso nisso é que o disco encontrado no toca-discos de Cobain após seu suicídio foi Automatic for the People, do R.E.M. Imagino que músicas incríveis Kurt faria ao se inspirar ouvindo aquele disco, para depois ir mostrar no estúdio a Stipe:
-- Fiz umas músicas -- diria ele.
De repente, «Find the River» foi a última música ouvida por Kurt, já que é a última música do disco.
«I have got to leave to find my way.
Watch the road and memorize this life that pass before my eyes."
² Seria um registro fantástico.
Em as biografias de alguns artistas que li, sempre fica evidente que a inspiração vem de tudo.
A vida é inspiradora.
O seu vizinho chato é inspirador, a barata que aparece é inspiradora, o elevador quebrado, a fila do banco, a criança malabarista no sinal de trânsito ...
tudo é inspirador.
Quase quatro anos depois que li a tal biografia de McCartney, passeando numa livraria, achei um exemplar de ela na prateleira.
Comecei a folhear e ler algumas passagens e percebi que eu não lembrava de nada.
Era muita coisa.
744 páginas.
Ou lembrava, mas via tudo com outros olhos.
Ler sobre os Beatles é muito mais do que ler sobre uma bandinha de rock.
É uma história bastante humana e complexa.
Ali tem sociologia, psicologia, filosofia, hipocrisia, sonhos ...
tudo que uma humanidade tem direito.
Não conheço um beatlemaníaco burro.
Chatos e pedantes, talvez, mas burros, não.
Em os quadrinhos de Mafalda, feitos por o argentino Quino, Manolito é o único da turma que não gosta dos Beatles.
Odeia. Manolito é filho de comerciante e é o capitalista da trama.
-- Quer dizer que você não gosta dos Beatles, Manolito?--
perguntou Mafalda.
-- Só de ouvir falar em eles me dá uma febre de quarenta graus -- respondeu furiosamente.
-- Como assim?
Você não admira os milionários?
Os Beatles são milionários -- insistiu Mafalda.
-- E daí? ...
Você acha que isso vai mudar minha opinião sobre os Beatles?
Hein?-- desdenhou ele.
-- O que é que tem os Beatles?--
perguntou Filipe, que acabara de chegar e pegou a conversa no meio.
-- Só de ouvir falar em eles me dá uma febre de trinta e sete graus!--
esbravejou Manolito.
Fiz questão de transcrever esse diálogo de Mafalda aqui para meio que me vingar.
Quando estava fazendo o encarte do disco da ZecaCuryDamm, «Sessões da Primavera», tive a idéia de colocar três ou quatro tirinhas de Mafalda para ilustrar o encarte.
Como respeito muito a personagem e seus ideais, assim como o seu criador, entrei em contato com a editora, pedindo a permissão para usar e explicando o conceito da banda, que tinha a ver com Mafalda, pois falávamos da primavera, dos Beatles e blá, blá ...
Mandei em português e recebi a resposta em espanhol, negando a permissão.
Alegaram que a imagem de Mafalda só é liberada para «coisas» no formato livro.
Aceitei na boa, mas fiquei puto quando fui à Argentina e vi a imagem de Mafalda em camisas, canecas, canetas ...
Eu mesmo comprei um chaveiro, que, por sinal, era vagabundo e já quebrou.
Bem diferente do encarte do disco, que foi em papel reciclado e tinha ficha técnica completa.
Lá, Mafalda estaria devidamente creditada.
Manolito é constantemente chamado de burro por os seus colegas de quadrinhos e por o seu criador, Quino.
Achei que seria interessante reler a biografia de McCartney e a comprei.
Até para ter a minha.
E mais uma vez, a deixei na estante.
Fiquei boicotando.
Um dia, então, comecei a levá-la para onde eu fosse e soubesse que haveria espera, como filas de banco, DETRAN, cartório ...
E, um dia, eu não achei mais a tal biografia.
Perdi. Procurei no carro, revirei minha casa, a casa de minha mãe, de meu pai, da mãe de Cris, fui em lugares por onde passei, e nada.
Perdi mesmo.
E estava na página 92.
Faltavam 652.
Oito meses depois, ainda na banda, fui à Biblioteca Central registrar algumas músicas novas que estariam no próximo disco.
Ali, sempre rola espera.
Uma longa espera.
Longa demais.
E o motivo não é a quantidade de pessoas na fila, pois nesse dia não tinha ninguém na minha frente, e sim a demora para entender a quantidade de informação passada por a atendente, para que se possa registrar qualquer composição autoral.
Música, letra, poesia, textos, roteiros ...
Dizia ela:
-- Você vai tirar uma cópia de cada folha, assinar todas as folhas, se forem dois compositores tem de preencher esse espaço também, se forem os mesmos compositores para todas as obras é um classificador só, e se for mais de três composições tem que fazer um sumário e o título deste é o de uma composição qualquer do autor que esteja sendo registrada, aí depois você vai nesse site, clica em Guia De Recolhimento da União, vai em Impressão GRU -- Simples, preenche os campos obrigatórios, digita o código 28830-6, em Unidade Favorecida você digita 344042-Gestão 34209 Fundação Biblioteca Nacional.
Aí depois você vai ao Banco do Brasil e paga.
Após o pagamento, tira uma cópia e traz também a original.
Depois de tudo isso, você compra um classificador e um envelope de papel pardo e volta aqui, alguma pergunta?
-- É ...
péra ... Tiro uma cópia de cada folha, e ...?
Aí ela explicava tudo de novo.
Era a quarta vez que eu ia ali e era sempre a mesma coisa.
Minha primeira vez também foi dolorosa.
E, na hora, agradeci por ela me explicar quatro vezes sem um pingo de impaciência, mas ali eu já estava nervoso com ela explicando para o cara por a sexta vez.
O pior não era ser a sexta vez, e sim a paciência de ela.
Hora nenhuma ela mostrou irritação e isso era o que mais me irritava.
É a funcionaria perfeita para esse trabalho.
«Quem dera estar com a biografia de McCatney aqui pra ler» -- pensei.
Em a sétima vez, o cara fingiu ter entendido tudo e saiu.
-- Qualquer dúvida, você liga pra esse número.
É o meu -- disse ela, antes de ele sair.
Era minha vez.
Eu já estava com tudo certo.
Toda a papelada pronta.
Comecei a pegar os papéis, colocar em cima da mesa, e reparei que ela me olhava de um jeito um tanto intrigado.
-- Você já veio aqui?
-- Eu?
Já ... acho que é minha quarta vez.
-- Como é seu nome?
-- Ricardo.
-- Ricardo de quê?
-- Cury.
Ela balançou a cabeça afirmativamente e se levantou da cadeira.
Foi em direção ao armário, abriu, puxou um pacote de dentro e veio em minha direção.
-- Por acaso você esqueceu esse livro aqui?
Recebi como um presente.
Achava que nunca mais o veria.
Eu não ia comprar outra biografia de McCartney.
Ainda estava marcada na página 92.
Agradeci a ela uma, duas, três, quatro vezes, e agradeceria mais quantas vezes fossem necessárias, porém tinha gente esperando para ser atendida.
-- Mas tem uns oito meses que eu vim aqui ...--
disse eu.
-- Eu sei -- disse ela -- mas, aqui, tudo que esquecem, eu guardo.
Tem um guarda-chuva (ela foi até o armário e me mostrou o tal guarda-chuva) que está aqui tem dois anos.
Um dia, o dono vem.
Eu espero.
Tenho paciência.
-- Vou escrever uma crônica sobre isso -- disse eu, me despedindo.
-- Escreva mesmo.
Escreva e traga aqui para eu registrar -- disse Dona Sônia (xará da minha saudosa madrinha), que foi quem registrou o meu livro.
Sim, o livro ficou pronto.
Muita gente achava que era lenda, mas ele ficou pronto.
Em Fevereiro de 2007, comecei, ainda sem noção do que iria enfrentar, a montagem do livro.
-- Vou lançar em Maio -- dizia eu.
Depois mudei o lançamento para Junho, e depois para Julho, e depois Agosto, Setembro, Outubro, Novembro ...
-- Tem que lançar antes do Natal, tem que lançar antes do Natal -- diziam todos.
Tentei lançar antes do Natal, mas não consegui.
Para onde eu ia, quem eu encontrava na rua, perguntava «e o livro?».
Entrava no MSN:
«e o livro?».
Recebia algum e-mail de um amigo e depois da mensagem, tinha a pergunta «e o livro, sai quando?».
O motivo da demora, além da diagramação e editoração caprichosa, era que cada vez que eu lia o livro, eu mudava alguma coisa.
Teve um texto que começou com quatro páginas, em Junho estava com quinze, e em Dezembro caiu para três.
Por essas e outras, agradeço muito a esse atraso.
E agradeço a esse surto de noção de que um livro é um livro.
Vai ficar ali pra sempre.
É bem diferente de um blog.
Porém, durante um tempo, passei a achar que nunca conseguiria terminá-lo.
Desconfiei que eu podia estar boicotando o meu próprio livro.
Também desconfiei que se eu fizesse um doutorado sobre o trabalho e as dificuldades de se fazer um livro, que eu acabaria antes do próprio livro.
Dezembro chegou e o livro não estava pronto.
O Natal passou.
«Se fudeu, não vai vender nada», disseram muitos.
Até que em Janeiro, o livro ficou pronto.
E, no momento de mandar para a gráfica, via FTP, o computador do design que fez o livro disse:
-- Tá pensando que vai ser fácil assim, é?--
e travou.
Travou e nunca mais ligou.
O HD simplesmente morreu.
E a última versão definitiva do livro, que estava indo para a gráfica naquele instante, não estava salva.
Fiquei tão traumatizado que quase pensei em abandonar a idéia do livro e montar uma banda.
Tivemos que olhar a versão antiga e ir mudando até chegar na versão final, com as devidas correções.
PUTAQUEPARIU.
Já foi.
Já era ...
Foi para a gráfica no início desse mês e chega dia vinte e cinco, próxima segunda-feira.
Agora que já tenho as datas definidas, pude marcar o dia do lançamento do livro.
E como não tenho poder de síntese, escrevi isso tudo só para convidar o leitor do blog para o lançamento.
Vai ser dia 05 de Março, quarta-feira, na Galeria do Livro, Boulevard 161, Salvador-BA, a partir das 18h.
É só ir.
O livro iria custar 25 reais, mas aí o investimento seria muito arriscado, e um dia encontrei com o escritor Nivaldo Lariú, que me disse que a média do preço de um livro é de 10 centavos por página.
O livro tem 320 páginas, então decidi que, no dia do lançamento, o preço do livro será de 27 reais.
Eu nasci num dia 27 e o número 27 é um número enigmático para o rock.
Janis, Jim, Jimmy, Jones, Cobain se foram com 27. Depois do lançamento, o livro vai custar 30 reais.
Idade que completarei esse ano.
(1) Paperback Writer, de Lennon e McCartney.
(2) Find the River, de Berry, Buck, Mills e Stipe.
Número de frases: 166
Se por um capricho qualquer eu quisesse hoje descobrir quando foi que aprendi a ler, poderia recorrer a alguns velhos documentos.
Lá estariam meu nome completo, ano, nome da escola e outras informações mais ou menos técnicas.
Ou então poderia perguntar a minha velha.
Quem sabe ela não se recordaria do momento exato em que o bacana aqui leu a primeira frase?
O instante preciso em que eu, cheio de autoconfiança, li algo do quilate como «Vovó viu a uva» -- sim, claro:
ou tem algum esperto aqui que começou com Sócrates ou Shakespeare?
Ia ser difícil.
Mesmo que eu esteja sem trampo, minha velha tem mais coisas pra fazer que tentar responder a esta minha indagação.
Apesar de aposentada, ela anda mais ocupada que eu.
Também seria desnecessário.
Simplesmente por não me interessar em saber como tudo começou.
Assim, dessa forma excessivamente formal.
Eu sempre recorro a lembranças pra formar a minha breve história pessoal.
Sou muito ruim em datas e momentos;
nunca tive saco pra fotos nem para aparições em eventos familiares.
Caso alguns de vocês queiram dar uma olhada nos álbuns de família, verão uma multidão de tios embriagados -- e muito ruins de piadas -- e tias simpáticas -- que riam das piadas se seus maridos;
creio que por conta da educação católica.
Eu raramente apareço.
Além do mais, quando pequeno fui quieto, ensimesmado e meio desligado das coisas do mundo prático.
Um cara meio esquisito, até concordo.
Mas dono de alguma inteligência.
Portanto pra mim fica fácil afirmar categoricamente que sei o momento exato, o dia em que realmente decifrei um conjunto de letras e entendi o que diabos estava colocado no papel:
foi nas primeiras frases do livro A Serra dos Dois Meninos, de Aristides Fraga Lima.
Um dos livros da série Vaga-Lume, criada por a editora Ática na década de 70, mas que teve seu apogeu nos 80, sendo até hoje utilizada em escolas e tendo seu catálogo constantemente ampliado.
Posso falar que foi uma espécie de «divisor de águas».
Em aquela tarde meio nublada o que eu mais queria era ficar ali, de bobeira.
Lendo aquele livrinho simplório e esquecendo de todo o resto -- incluam aí meus tios chapados.
Dava pra sentir a aflição e o medo de Ricardo e Maneca andando na mata.
Totalmente perdidos e sem rumo;
ansiosos, porém destemidos.
A aventura narrada de forma tão simples, se colocarmos do nosso ponto de vista atual, já que nos damos ao luxo de ler coisinhas mais especulativas e cabeçudas, era algo realmente fabuloso.
De ali em diante entrei numa sorrateira rotina de furtar os livros de meus irmãos e primos -- afinal tinha descoberto alguma utilidade pra esse troço de parentesco.
Estava enfiado numa sucessão de atos ilícitos;
vasculhava as mochilas alheias;
visitava as estantes da casa dos outros e, numa ação rápida, enfiava um outro exemplar embaixo do braço sumindo sem deixar rastros.
Eu não passava de um gatuno de tênis Conga e cabelos à la Paul Mc Cartney.
Tudo bem que o tal roubo tinha a duração do livro;
ou seja, o fruto do delito sumia ao meio-dia e reaparecia, milagrosamente, lá por as dezessete horas.
Isso porque o meliante em questão poderia levar um tabefe caso fosse desmascarado.
No caso de flagrante, seriam dois.
A justiça não era cega.
E tinha uma pegada forte e uma mão pesada.
Obras tais como Spharion e O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida e o comovente Tonico, do pernambucano José Rezende Filho, passaram por minhas mãos criminosas.
Um cadáver Ouve Rádio e O Rapto do garoto de Ouro, de um dos mais representativos escritores brasileiros, Marcos Rey, paulistano que, além de se dedicar à dramaturgia, à literatura «adulta» e ao rádio, foi um dos autores que mais alimentaram minha imaginação pra lá de delinquente, também passaram por mim.
Isso sem citar os escritores que não li, como o Marçal Aquino.
De a série da Ática é de ele A Turma da Rua Quinze.
Atualmente, além de fazer roteiros como o do filme O Invasor, escreve um tipo de literatura que vale a pena dar uma olhada.
Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios e Faroeste são dois exemplos -- mas acho que muita gente aqui já sabe.
Apesar da resistência das professoras de minha época que queriam -- sei lá com que propriedade, já que o esporte preferido de elas era bocejar em frente à classe, enquanto escreviam bobagens inúteis no quadro negro -- adotar Eça de Queiroz, por exemplo, os livros da editora Ática ampliaram o imaginário de muitas crianças.
Que estão hoje na casa dos trinta e têm alguma boa lembrança relacionada à série Vaga-Lume.
Estes livros foram para mim o que chamo, obviamente com outro sentido, de Romances de Formação (o plural é de minha responsabilidade;
o uso indiscriminado e tresloucado do termo também).
Em uma utilização literal das duas palavras -- «romance» e «formação», arrisco dizer que fui» formado " por eles.
Minhas referências inicias de fantasia, criatividade, sentimentalismo e aquele tipo de ética entre os humanos, muito além das meras regras de educação, conduta e amizade, surgiram daquelas tardes em que eu, sossegado da vida, fechava a porta do quarto e lia.
Enquanto meus tios e tias ...
bem, vocês já sabem do resto.
E, em tempos de rede mundial, blogs, velocidade desenfreada, bytes, DVD, games e outras ondas, a coleção ainda continua a fazer sua parte.
Não pecando por o saudosismo tolo -- aquele suspiro melancólico, dos tempos em que não havia internet e etc.-- mas se renovando e tentando manter atuais seus temas e autores.
Em um país onde se vive reclamando de que pouco se lê, é legal ver alguns guris passando com seus livros na mão.
Concentrados, enquanto mastigam aquele pãozinho com queijo meio ressecado sem muita convicção.
Lendo e deixando a imaginação dar uma volta.
Por mais que alguns ainda defendam a tese de que este tipo de literatura é menor, creio que não há melhor forma de iniciar alguém no hábito da leitura.
Aliado aos quadrinhos, que são outra fonte de inspiração;
uma arte em si.
Não se trata de defender um país somente» ...
feito de homens e livros», como diria o Monteiro Lobato.
Um monte de garotos e garotas enfileirados, com dicionários nas mãos e uma puta vontade de bater uma bolinha não seria lá meu ideal de felicidade.
E sei que o Lobato também tinha um grande respeito por eles e elas.
Só que o excesso leva a alienação.
Seja ele a sistemática leitura de Dostoievsky ou a tal bolinha no fim da tarde.
Crianças precisam de referências fantasiosas, não ficarem enfiadas em igrejas remoendo o pecado e aquilo que chamam por aí de expiação;
necessitam de livros fundamentais, mas não moralizantes -- o tipo de moral parcial e limitadora.
Tanto o Harry Potter, quanto o Menino Maluquinho, do grande Ziraldo, são importantes.
Ver aquelas filas imensas de meninos e meninas quietos e cansados, cantando o hino nacional -- prática ainda muito comum nas escolas públicas, para depois irem pra suas salas e apenas repetir fórmulas, regras e medos, é ter a certeza de que estamos podando-os.
É detonar potenciais artistas, escritores, jogadores de futebol, gamers, programadores -- e nem vou entrar na discussão da qualidade educacional no velho Brasil;
deixo para especialistas e estudiosos.
Convertendo-os em meros macacos de circo.
Então, por que não trazer para eles um pouco das fábulas?
Qual o problema nisso?
Mesmo que depois os quadrinhos viessem fazendo uma verdadeira devassa, com Conan à frente dessa invasão bárbara.
Ainda que, com o passar do tempo, outros livros mais cabeças, esclarecedores e supostamente instrutivos surgissem e tomassem de assalto minha velha estante de ferro, tenho boas lembranças daqueles livrinhos finos.
Com suas capas coloridas e suas ilustrações magistrais.
Que, por o que vejo por aí, continuam a fazer seus estragos nas novas cabecinhas.
Ao menos nas dos guris que gostam, apesar das telas iluminadas e sedutoras do word, de livros.
Número de frases: 84
Tecnologia
A Serviço da Cultura
Ministério da Cultura aprova projeto de estudantes sobre novas mídias
Aprovado por a Lei Rouanet do Ministério da Cultura, o projeto Putzgrilo -- Podcast Cultural já tem motivos de sobra para comemorar!
De os famosos bate-papos no fundão da sala de aula, três alunos do curso de Comunicação em Jornalismo e Produção em Comunicação e Cultura da UFBA deram vida a este projeto inovador, que consiste na criação de uma página na internet para abrigar informações sobre o cenário cultural baiano;
divulgação de entrevistas com professores, produtores culturais e patrocinadores da cultura;
veiculação da agenda cultural semanal;
além de uma boa programação musical.
Todo o conteúdo será produzido por uma equipe formada por um jornalista, um produtor cultural e um estagiário de produção, e será disponibilizado no formato de Podcast.
Durante 11 (onze) meses, serão veiculados dois programas semanais de uma hora cada.
Para quem não conhece ainda a nova tecnologia, o site Wikipedia.
com (maior enciclopédia do mundo) define Podcast ou Podcasting sendo uma forma de publicação de programas de áudio, vídeo e fotos por a Internet que permite aos usuários acompanhar a sua atualização.
A palavra «podcasting» é uma junção de iPod -- um aparelho que toca arquivos digitais em MP3 -- e broadcasting (transmissão de rádio ou tevê).
Assim, podcast são arquivos em áudio que podem ser acessados por a internet.
Estes áudios podem ser atualizados automaticamente mediante uma espécie de assinatura.
Os arquivos podem ser ouvidos diretamente no navegador ou baixados no computador.
Apesar de ter conquistado um importante passo, a materialização do Putzgrilo ainda depende de um incentivador fiscal -- etapa em que, infelizmente, muitos produtores culturais adiam o sonho de colocar em prática suas idéias.
Por isso, pedimos o reforço da imprensa baiana nesta empreitada jovem, mas bastante madura e criativa.
Embarquem nesta viagem com a gente!
Atenciosamente,
Marcus Vinicius Aragão Barreto Ferreira Produtor Cultural
Produção em Comunicação e Cultura / Universidade Federal da Bahia.
Número de frases: 22
pankjones@hotmail.com
Ou Crash:
a Kombi da família da pequena Miss Sunshine
trombou com a globalização.
«Pequena Miss Sunshine «e» Crash» têm em comum não só o fato de serem bons representantes do cinema independente americano contemporâneo.
Os dois filmes têm o mérito de desconstruir a imagem fabricada de uma (Norte) América vencedora e pretenciosamente superiora, mas isto não é inédito.
O cinema americano sempre produziu bons exemplos de filmes alternativos que criticam o «american way of life» e que, correndo por fora do esquema das grandes produções, conseguem se tornar sucessos relativos de bilheteria.
Isto pode explicar o aumento de produções deste gênero, o que antes de ser sinal do crescimento de um movimento crítico, pode ser simplesmente uma estratégia de marketing.
Aliás, o capitalismo, do qual os americanos são os melhores representantes e reprodutores, sempre acaba transformando em «money» até as críticas a si mesmo.
Mas há algo mais em comum nos dois filmes e que se relaciona também com outros fatos trágicos, que infelizmente não são ficção.
As pequenas e grandes tragédias diárias de imigrantes pobres em países desenvolvidos e o crescimento da faixa de excluídos e pobres nestes países, que outrora pareciam imunes às mazelas do Terceiro Mundo, são dois exemplos mostrados nos filmes citados.
Além do aspecto estritamente material do empobrecimento de percentual crescente da população mundial, poderíamos falar do crescimento dos sentimentos de frustação, impotência, apatia, indiferença, também retratados nestes dois filmes.
Sentimentos que nascem da constatação de que as oportunidades (transformadas em ilusões vendáveis) se restringem cada vez mais (mesmo no país das oportunidades) e se tornam praticamente inexistentes nos países onde tradiconalmente sempre foram restritas a uma pequena parcela da população.
E depois se transformam em sentimentos de revolta, frieza, desamor, crueldade e barbárie, cujos exemplos são frequentes.
O mundo, observado por o aspecto econômico, andou para frente nos últimos anos.
Crises econômicas da década de 1990 superadas;
economias em grande expansão;
comércio mundial aquecido;
avanço tecnológico fantástico;
comunicações cada vez mais rápidas e baratas;
grande mobilidade de mercadorias, serviços e pessoas;
empresas com lucros fantásticos, euforia nas bolsas de valores, saldo econômico final positivo, mesmo com alguns maus resultados ali ou acolá.
Mas no aspecto social o mundo nunca andou tão rapidamente para trás.
Grandes contingentes de pobres nas cidades, aumento explosivo de favelas, sub-habita ção, carência de saneamento mínimo, violência, caos na saúde, reincidência de doenças já consideradas erradicadas, degradação ambiental, poluição da água, do ar, do solo, etc..
Uma sucessão de problemas socioambientais que se interrelacionam num ciclo vicioso que se expande tal como uma espiral de tragédias sociais, que os poderes públicos, mesmo embuídos de boa vontade, seriedade e competência (o que já é muito raro) não conseguem enfrentar.
Sem falar nos conflitos étnicos e religiosos que misturados às tragédias sociais pre-existentes e aos interesses políticos e econômicos criam uma sinergia de problemas que resultam em imensos desatres sociais, econômicos, ambientais e psicológicos.
Sim, é o emocional da maior parte das pessoas que é afetado por esta mistura de êxtase e tragédia mostrada diariamente nos noticiários.
Desequilíbrios emocionais que alimentam as estatísticas de crimes, loucuras e barberidades crescentes.
Uma cena assim só parece ser compatível com o inferno.
Mas é o nosso mundo, criado por Deus e por Ele regido (ou seria apenas por Ele observado?).
Uma situção próxima a do Apocalipse.
E quantas vezes o mundo pareceu estar próximo ao Apocalipse?
As grandes guerras mundiais do Século XX;
as grandes epidemias;
as guerras santas da Idade Média;
a queda do Império romano;
a era glacial.
Todas estes e outros momentos cruciais da humanidade tinham jeito de Apocalipse e, de um certo modo, foram.
Geraram transformações profundas, novos mundos, novas civilizações, humanidade renovada.
Talvez também as atuais dores existenciais do mundo sejam sinais de uma grande transformação em curso.
Quanto tempo ainda durará, no entanto, não se sabe.
Não sabemos, inclusive, em que ponto da onda de dor estamos.
Podemos estar somente começando a experimentá-la e sequer atingimos o seu pico para depois começar a descê-la.
Ou talvez, não seja nada disso.
Desde que o mundo é mundo está em permanente transformação, assim como todos os seres viventes e não-viventes se transformam continuamente.
Esta é a lógica da vida e também da não-vida.
Pedra que se transforma em vida, vida que se transforma em pedra infinitamente.
Talvez ..." tudo não passe dos sinais iniciais desta canção ...
retirar tudo o que eu disse ...
reticenciar que eu juro ...
censurar ninguém se atreve ...
luar tão cândido».
Em a verdade, eu só queria comentar uns filmes que eu ví ultimamente.
Número de frases: 53
Uma casinha, pequenina mesmo, que mais parece um desses desenhos de criança.
Sabe aquela idéia de casa?
Que todos os meninos e meninas rabiscam num pedaço de papel?
É assim a aparência da Casa da Arte quando se vê pelo lado de fora.
Mas ao entrar lá, com todas aquelas crianças pintando, lendo, rindo, tudo ali exalando liberdade e vida, é possível perceber que o tamanho da Casa da Arte não é menor que o infinito.
Bem na beirada do mar, na bela praia de Garça Torta, bairro periférico no litoral norte de Maceió, se encontra este lugarzinho mágico.
Galeria de arte, centro de estudos, espaço aberto para a reflexão, produção e interação cultural.
Porto seguro para as obras de artistas de todos os lugares e para os olhares curiosos da comunidade local, que dificilmente encontraria oportunidade de vivenciar a experiência artística através de outros canais.
É a Casa da Arte de Dona Edna, uma mulher cativante e dedicada que deu inicio a este projeto há vinte e um anos e que hoje é um dos Pontos de Cultura do estado de Alagoas, dentro do Programa Cultura Viva do Governo Federal.
A Casa da Arte atende atualmente 100 crianças e jovens entre 5 e 18 anos de idade em aulas de música, pintura, teatro, e dispõe de um laboratório de línguas (português, inglês e espanhol).
Dona Edna Constant conta um pouco da história do lugar.
«Já vínhamos há um longo tempo utilizando a casa para exposições, aberta para a comunidade daqui.
Foi quando, a partir do natal de 1999, resolvemos mudar um pouco, expandir as atividades, incluir a comunidade e seus meninos e meninas como protagonistas dessa história, eles já viviam sempre por aqui mesmo, mas como espectadores, a partir deste momento eles passaram a ser atores."
«Retiramos tudo de dentro da casa e levamos pra minha casa aqui atrás (Dona Edna mora na Própria Casa da Arte, é como uma casa anexa) e pintamos aquele espaço vazio todo de branco.
Era um manifesto, estávamos entrando num novo milênio, os anos 2000, e aquele branco representava um ovo, o renascimento, um momento de mudança, de compartilhar e produzir cultura com a comunidade, principalmente os meninos, através das aulas e oficinas».
Lá na Casa da Arte, acompanhei a aula de pintura da professora Tayra Mendes, que levou seus alunos por as ruas do bairro de Garça Torta recolhendo galhos e garrafas pet, jogadas indiscriminadamente na rua, e que viriam a se tornar flores decorativas e lindos enfeites natalinos nas mãos dos meninos.
Em o caminho de volta, observei a conversa entre um aluno e a professora Tayra.
Jorge Araújo Batista, 13 anos, os últimos quatro na Casa da Arte, falava sobre conceitos de desenvolvimento sustentável, sobre a diferença entre material reciclável e reutilizável, sobre o processo de reciclagem etc..
Jorge também toca pandeiro e pífano nas aulas de música do professor Juca Araújo, onde aprende ritmos da cultura popular como o guerreiro, o boi, o pagode alagoano e o baião.
Em a volta, sentei ao lado de Dona Edna e ficamos conversando e observando a garotada trabalhar, quando a primeira peça ficou pronta, e foi colocada pra secar na área perto de onde estávamos, ela disse " lindo não é?
Ficaria bonito em qualquer casa, e tem gente que paga uma fortuna em trabalhos bem piores».
Realmente era uma bela peça de decoração de autoria do pequeno Madson Roberto.
As pinturas dos meninos e meninas da Casa da Arte foram escolhidas para ilustrar o calendário oficial de Maceió por dois anos consecutivos.
Além desse importante trabalho social, a Casa da Arte continua abrindo espaço para artistas exporem suas obras ali, na casinha de desenho de criança à beira-mar, sobretudo os artistas iniciantes e (ou) que não possuem espaço nas galerias convencionais da cidade.
«A Casa da Arte foi trampolim pra muitos artistas daqui, o próprio Suel, hoje um dos mais reconhecidos em Maceió por seu talento, fez sua primeira exposição aqui.
Lembro que vivia cheio de gente na casa apreciando o trabalho de ele."
Dona Edna faz uma crítica aos hábitos do pessoal da capital alagoana em relação ao consumo das artes produzidas aqui, segundo ela " não existe uma cultura de se ir a galerias e exposições nos fins de semana em Maceió, os museus são fechados nos sábados e domingos, o que temos aqui é a cultura do boteco.
Acho bom que tenham bares e a praia aqui por perto na Garça, afinal, quem sai atrás desses roteiros termina passando por aqui pra conhecer».
Um dos maiores xodós de Dona Edna é a biblioteca da Casa da Arte, que vive de doações e possui cerca de 3.000 livros de literatura alagoana, brasileira e mundial, além de livros técnicos, diz ela que «tem gente aí lendo o dia todinho, de manhã de tarde e de noite».
Número de frases: 29
A alimentação deixou de ser algo vital.
Suas funções ritualísticas, sua descoberta, seu cultivo, sua apreciação, tudo isso deu lugar a apenas saciedade e satisfação.
Perdemos qualquer contato com alimento, em última instância nem mesmo sabemos seus ingredientes e como foi seu preparo, não temos tempo pra isso.
A indústria em contrapartida, tem muito tempo para isso, tempo e dinheiro para dispor de uma equipe de PHDs, burocratas, químicos e pessoas especializadas em seu paladar e satisfação.
Pouco se sabe sobre as embalagens coloridas repletas de ideogramas químicos e código de barras, que nem de longe nos remetem à maçã sendo colhida do pé.
Se irá nos nutrir, nos alimentar ou trazer algum bem à saúde, pouco importa.
Importa é estarmos «cheios» rápido o bastante.
Vivemos no tempo do rápido e do descartável.
Entretanto, esses não são fins, mas sim mais um dos meios de se alcançar determinadas «metas».
Se o mundo é fast food?
Arriscaria dizer que sim.
Mas não só fast food, como também fast life, fast thinking, fast talking, fast connection, fast em seu sentido amplo, rápido, superficial, vendável e descartável.
A indústria alimentícia, em especial, não vive só de comida rápida e descartável.
Burger King, McDonalds e KFC são Deuses trazendo novas religiões para o ocidente, seus negócios nunca foram sanduíches e sim o fast food life style, o estilo de vida fast food.
Naomi Klein, no seu livro Em o Logo, demonstra como o Branding, tática do marketing moderno, faz de pessoas comuns cegas defensoras de marcas, adotando estilos de vida vendidos com propósito de conseguir adeptos para suas novas religiões.
Hoje não importa se o estilo de vida da sua marca é melhor ou mais benéfico, mas sim se ele ganha mais adeptos e vende mais.
Se ele for uma unanimidade, não importará o quão ruim, antiético, destrutivo ou perverso ele é.
Coca-Cola é uma dessas unanimidades desse mundo vendido, que engloba qualquer estilo de vida à moda antiga.
Se o indivíduo é roqueiro, playboy, favelado, comunista, rabino ou assassino, não importa ele bebe Sempre Coca-Cola.
Assim são feitas as unanimidades.
Como os fins parecem sempre justificar os meios dessas novas religiões, a indústria alimentícia e fast food criou também o fast animal.
Animais que vivem em fazendas-fábrica alimentados com grãos, em sua maioria soja e milho, ganha quem os transformar mais rapidamente em fast food.
Para a indústria, esses animais deixaram de ser seres sencientes, seres sensíveis capazes de sentir dor e medo, e se tornaram objetos.
Se por um lado os animais já eram tratados como objetos por o pensamento cartesiano por séculos no ocidente, por outro a indústria conseguiu potencializar ainda mais essa condição miserável, tornando-os fast animals.
Animais aqui são chamados de máquinas de produzir leite e as referências são sempre quantitativas «colocamos uma quantidade X de ração aqui» e no final teremos uma «quantidade Y de carne».
Vivem em péssimas condições e são submetidos à estímulos artificiais, uma semana no escuro e uma semana com as luzes acessas são o bastante para fazer com que as galinhas voltem a botar ovos.
Esses métodos já são relatados em diversos filmes como A Carne é Fraca e livros como Libertação Animal.
Se não importa as intenções e vontades do cliente, não podemos dizer algo melhor sobre a vida desses animais.
O fast animal não vive, nem sobrevive, ele é sobrevivido, o uso de hormônios os faz crescer rapidamente -- é necessário colocar logo o produto no mercado;
o uso de anabolizantes os faz ter mais carne -- é necessário «encher» as pessoas;
as doenças se espalham por as péssimas condições de higiene e pouco espaço, então resolve-se o problema com antibióticos -- isso tudo que vai para o seu prato depois;
pesticidas e outros químicos também.
Vivem muito pouco, é claro esse é o objetivo, a carne de vitela é como chamam a carne do filhote, bezerro, anêmico que vive poucas semanas.
O Brasil tem se orgulhado de ter encontrado uma saída economicamente lucrativa para os bezerros machos que nascem das vacas leiteiras (vaca não dá leite sem estar grávida), transformando-os na carne de vitela.
Tudo isso para conseguir mais em menos tempo.
Essa é a visão dos que produzem não só para as fast foods, mas para os cidadãos exigentes por uma vida rápida e eficiente.
As novas religiões que pregam a vida rápida e descartável sabem muito bem de suas mazelas, mas fazem um bom trabalho de marketing social.
A grande maioria das vezes elas conseguem sair como heroínas no trabalho de «reeducação» por a publicidade.
E não pára por aí ...
Quem viu o filme A Corporação tem um pequeno apanhado.
Destruição de culturas nativas, grilagem de terras, assassinato, racismo, exploração animal, abuso sexual, destruição da natureza, biopirataria, trabalho escravo, são tantas que não conseguiria enumerar com a certeza de faltar algo importante.
Usar a bicicleta ou andar à pé no lugar de andar de carro, diminuir o consumo de água ou reciclar a água, utilizar uma fonte de energia limpa, permacultura, agroecologia, agricultura urbana, agroflorestas, ecoarquitetura são formas concretas de fugir da velocidade mortal dos dias atuais.
Ser vegetariano (a) ou em última instância vegano (a) é uma das mais fáceis maneiras de mudar nosso ritmo, de dar uma freada a cada refeição e pensar no direito intrínseco desses seres sencientes.
Essa escolha fica ainda mais fácil para quem não quer ir tão longe, hoje algumas fast foods, não tão sacrossantas e fundamentalistas como as já citadas, já possuem alimentos vegetarianos / veganos disponíveis.
Número de frases: 44
Esse texto foi apresentado no último 4º encontro do MARP (Movimento de Arte e Reflexão Política) do Grupo Oficcina de Multimédia
Tratado da violência e sua natureza.
«Tropa de Elite» teria muito o que aprender com o filme-tese dos irmãos Coen.
Enquanto Padilha prefere usar a violência para nitidamente vibrar com seu Capitão Nascimento, os irmãos norte-americano criam um melancólico e sério panorama do que vem a ser uma natureza violenta e toda a irracionalidade e destruição que ela carrega.
O problema de todo o universo «Tropa de Elite» ainda vem sendo justamente o discurso de José Padilha.
Ao mesmo tempo em que ele se refere ao filme como uma crítica a polícia e seus métodos;
na prática, toda a mise-en-scène de Padilha no filme vibra com essa mesma polícia.
Isso é, a força e o movimento do BOPE «cativam» e divertem.
Conseqüentemente o filme serve não para a população desaprovar o método e a imagem do BOPE, mas para incentivá-lo e ver como uma possível única esperança.
Para complicar existe a pessoa de Harvey Weistein, que sabe muito bem do caráter divertido e inconseqüente do filme e o vende feito um filme do Tarantino.
Qualquer tipo de celebração dentro desse contexto, seja por o Urso de ouro em Berlim, sejo por a grande sucesso nas bilheterias, é bastante lamentável.
Já em «Em o Country for Old Men», encontramos a mesma violência, não em seu contexto, mas em seu estado de natureza -- violência é violência em todo lugar -- tratada e mesmo estudada de uma maneira muito mais madura e mesmo útil do que o filme de José Padilha.
Aqui, os irmãos Coen não estão atrás de vibração, de criar um fenômeno contagiante, mas sim de compreender (ou simplesmente concluir) toda e qualquer irracionalidade que isso envolve.
Não existe um lado, quando o jogo nem mesmo é pensado, mas apenas imposto.
Quando Anton Chigurh (Javier Bardem) nos propõe o cara ou coroa, que melhor resposta senão a da esposa de Llewelyn Moss em recusar o jogo?
Porque não existe jogo, está tudo nas mãos de Anton.
Ele impõe seu jogo sádico e irracional, e usando do cara ou coroa, tenta se distanciar um pouco da possível culpa de uma morte.
Mesmo que evidentemente ele seja um homem sem culpa, o cara ou cora ainda é seu ponto fraco, porque é aonde ele mesmo tenta negar sua própria natureza irracional, transformando tudo numa simples brincadeira de acertar ou errar.
Existe culpa em «Tropa de Elite»?
Se Anton Chigurh trabalha por conta própria, tendo apenas sua mente doentia como motor, o Capitão Nascimento tem todo um aparato político e supostamente justo de trabalho.
Ele sobe o morro e mata, sem julgamento, por que não seria isso mesmo o que os traficantes merecem?
Claro que na realidade é um trabalho extremamente condenável e sinceramente tão irracional quanto o de Anton, mas na situação extrema que se encontra o Rio de Janeiro, será mesmo que o espectador vai concordar com isso?
Para ajudar, existe toda uma humanização do Capitão Nascimento.
Sua suposta preocupação por o filho que vai nascer e todo um ambiente familiar que somos apresentados de quando em quando.
Anton, por outro lado, não é um ser humano, é um animal violento e irracional.
Não existe expressão em seu rosto e nem mesmo reação.
O Capitão Nascimento, um homem da polícia e pai de família, é uma contradição real no meio policial do Rio de Janeiro.
Ou seja, ele não é inventado, a contradição em Tropa não está dentro do filme, mas sim em seu diretor.
O filme é apenas imaturo, Padilha é oportunista e ainda paga de bom moço.
A violência em «Tropa de Elite» é tão injustificável quanto a praticada em «Em o Country for Old Men».
Porque estamos diante de crimes e apenas uma coisa é certa em ambos os filmes:
as leis não valem mais nada.
Mas enquanto o Capitão Nascimento pensa que faz justiça por as próprias mãos, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), o xerife no filme dos Coen, apenas aceita a inevitabilidade da situação.
Talvez o que «Tropa de Elite» precisasse era simplesmente de um xerife como Ed Tom Bell.
Não para resolver a situação, que supostamente não tem solução.
Mas para concluir que a falta de solução tem motivo numa criminalidade tanto dentro do tráfico, como dentro da polícia.
É um ciclo vicioso.
O documentário «Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles» e Kátia Lund, faz esse trabalho quando não toma nenhum dos lados, porque de novo, não existe lado para se tomar numa guerra, quando a própria guerra não deveria nem existir.
Em a metade para o fim do filme dos Coen, nós nem mais vemos os assassinatos de Anton, porque não é mais necessário.
A tese já está feita, o trabalho agora é da natureza inevitável que rege todo o ambiente.
Enquanto em «Tropa de Elite», a última cena é justamente a celebração principal dessa violência, porque ela envolve uma vingança pessoal.
O policial André vinga a morte de seu companheiro Neto por um motivo pessoal, quando todo o contexto em que eles se inserem nada mais é do que dois lados diferentes numa guerra impessoal.
Sendo assim, «Tropa de Elite» é um filme anti-humanista porque torce por uma «justiça» de medida extrema, tomando o partido de um lado dentro da guerra.
Número de frases: 43
Enquanto «Em o Country for Old Men» compreende que a guerra -- violência contra violência -- é irracional em todos os seus sentidos.
As historinhas em quadrinhos japonesas, mais conhecidas por mangás, a cada dia ganham adeptos em todo o mundo.
O mesmo acontece com os animes, desenhos animados.
Por essa razão, a Associação de Defesa do Anime e do Mangá (Adam) colocou no ar o Wikimangá, portal similar à Wikipedia, com muita informação sobre os dois populares produtos da arte nipônica.
A diferença básica entre o Wikimangá e a Wkipédia é que o primeiro só aceita artigos, fotos e vídeos, sem direitos autorais.
A maioria fala dos autores de mangás, a exemplo do célebre Hayão Miyazaki, criador de Heidi, Marco e outros heróis do gênero.
Em o Japão, os mangás são comumente classificados de acordo com seu público alvo.
Em a roda dos meninos, eles são chamados de shounen (garoto jovem).
Versam, em geral, sobre aventuras guerreiras.
Em o clube da Luluzinha, os mangás são conhecidos como shoujo (adolescente).
Seu tema mais comum são as histórias de amor.
Existem tambem os mangás pornográficos, batizados de hentai, e o geiká, destinado ao público adulto.
Número de frases: 12
Os traços típicos do mangá são olhos grandes e expressões caricatas
Para aonde a música vai?
Não estou falando da arte em si, mas do seu suporte físico.
Há tempos, principalmente para os fãs de rock, existe a mítica do álbum.
Poderia ser um disco conceitual ou apenas um apanhado de músicas boas sem conexão temática entre si, havia ali um produto comercial, mas que almejava ares de arte.
Menciono rock em especial porque a relação dos apreciadores de música pop sempre foi mais efêmera.
Não existia uma ligação com os discos, mas sim com músicas (ou singles, em outros países).
Com o tempo, evoluía a qualidade do produto (passando por vinil, fita cassete ou CD), mas sempre a música tinha uma conexão «tátil» com os consumidores.
Agora, o suporte tornou-se desnecessário com o advento do mp3.
Hoje em dia, o disco que todos têm é o mesmo:
o disco rígido.
Um álbum que prima por a quantidade, não por a qualidade.
Gravar CDs nunca foi tão fácil.
Antes, existia todo um fetiche em ficar horas e horas nas lojas de discos.
Namoravasse várias horas antes de escolher o título.
Muitas vezes, a operação era feita em companhia.
Cada amigo compraria um disco de uma banda distinta.
Assim, ampliaria a discografia coletiva, essencial para emprestar discos e aumentar o conhecimento musical.
A falta de dinheiro (afinal, viviasse de mesada) também forçava um maior apuro na seleção.
Hoje em dia, no afã de sempre ter tudo, discos bons disputam espaço na HD com coisas pífias, e tudo tem de fazer sentido em poucos segundos.
Se não soar interessante numa primeira audição, o disco -- ou o simulacro de ele -- fica relegado, ou é sumariamente apagado.
Imagine «OK Computer» sem passar por várias audições?
Será que, por isso, muita gente acha de cara um disco ruim, mas depois volta atrás e descobre que existe um bom material ali?
Isso quando se baixa o disco inteiro.
Curiosos procuram os singles mais quentes, ou que por ventura irão estourar.
Pior: o grupo que irá salvar o rock (fenômeno cada vez mais recorrente nas críticas musicais).
Muitas vezes, uma boa música serve como convite para a audição das demais faixas de um disco.
Todavia, se vai atrás de elas procurando mais do mesmo, o que muitas vezes causa descontentamento.
É como se todas as músicas do Killers tivessem de ser similares a «Somebody Told Me».
A pluralidade é morta.
E assim se vai, sempre atrás de algo mais novo (coincidência com o fato de bandas durarem tão pouco?
Alguém pode dizer que sempre foi assim, mas arrisco-ma dizer que nunca foram alardeados tantos nomes que não passaram da síndrome do segundo disco como agora).
Não estou dizendo que gravar CDs é errado (esse texto não é financiado por os produtores de discos).
Até porque gravar faixas avulsas sempre fez parte da rotina de quem gosta de música.
Difícil não se identificar com o processo de escolha e a gravação de fitas da personagem principal de Alta Fidelidade.
Todavia, a tecnologia potencializou a ação, ao ponto de muitas vezes propiciar a frivolidade.
E informação em demasia não quer, necessariamente, significar conhecimento.
Alguém poderia retrucar dizendo que esse texto segue uma linha «como era verde o meu vale».
Pode até ser, mas há diferenças entre escutar um disco ou simplesmente baixar faixas.
Claro que nem tudo merece ser comprado, obviamente, mas há discos que merecem uma atenção maior.
Há discos que escutei tantas vezes que são, na verdade, «greatest hits» pessoais, como «Up», do R.E.M.
Além disso, não devemos esquecer a arte gráfica dos trabalhos.
Alguém poderia simplesmente falar que você pode baixar o álbum inteiro e também sua capa.
Agora, imagine um disco como «Mellow Collie and the Infinity Sadness», do Smashing Pumpkins, dissociado da arte visual?
Um disco é um produto cultural manufaturado, mas ainda sim artístico.
Por mais que adore e aprecie as vantagens de se baixar músicas na web, nem sempre facilidade necessariamente é sinônimo de qualidade.
Ou melhor, de apego, palavra que é o cerne de tudo que está nesse texto.
Muitas vezes, o que vem fácil, não se dá valor.
A tecnologia, nesse caso, deveria servir de suporte para a arte e não ser um fim em si.
De o contrário, o contato mais próximo que se tem com a música se perde.
Sobra algo similar ao ato de colecionar figurinhas. Quanto mais,
melhor.
Número de frases: 52
Índios e «brancos» numa grande dança de comemoração.
Foi assim que os Jogos Indígenas do Tocantins foram encerrados, na noite deste sábado, 2, com uma grande confraternização entre os «povos do Tocantins».
Durante quatro dias, mais de 400 indígenas das sete etnias que habitam o Estado mostraram sua força, sua cultura e suas crenças, na praia do Prata, em Palmas.
A cerimônia de encerramento contou com a apresentação de cada uma das etnias.
O guerreiro Yuraro karajá foi homenageado por o trabalho que realiza entre os jovens das aldeias da Ilha do Bananal, de fortalecimento da cultura do povo Karajá e também conscientizando e prevenindo sobre problemas como drogas e prostituição.
Ele agradeceu a homenagem e pediu a todos os pais e mães, de todas as etnias, que incentivassem os filhos a perpetuar a cultura do seu povo, «para continuarmos mantendo e construindo a cultura indígena».
E foram os karajá que encerraram a festa, depois dos índios apinajé, num ritual, apagarem as tochas que circundavam a arena.
Os karajá dançaram ao redor de uma grande fogueira no centro da arena, apagando a última chama dos jogos, num ritual em que os pés enterravam o «fogo sagrado» (que iluminou os quatro dias de jogos) devolvendo-o ao centro da terra.
Premiação
Todos os indígenas foram premiados com medalhas e cada etnia levou um troféu para sua tribo.
A cerimônia de premiação contou, ainda, com a presença de autoridades como o secretário nacional de Esporte Educacional, João Ghizoni.
Ele elogiou a realização dos jogos por o governo do Estado, ressaltando «a convivência harmoniosa e pacífica entre os indígenas e a população local, numa festa em que todos saíram vencedores, por o aprendizado cultural».
O secretário estadual interino do Esporte, Ricardo Silva, também participou do encerramento e anunciou que os jogos agora fazem parte do calendário anual da secretaria.
Últimas competições
As últimas competições dos jogos indígenas foram marcadas por a força dos guerreiros.
A canoagem foi a primeira prova da tarde.
As canoas foram construídas por os índios xambioá, com uma madeira que eles chamam de mangue.
São utilizadas no dia-a-dia das aldeias para pesca, lazer e transporte.
Os xambioá e javaé disputaram a final da prova sem demonstrar muita dificuldade, afinal estão acostumados a grandes rios.
As duas etnias habitam as margens do rio Araguaia.
Mas foram os Javaé que venceram a prova e comemoraram com um canto de festa.
Robson Ximauré, um dos remadores, não escondia a satisfação de ter chegado na frente.
«Estamos acostumados a remar nessas canoas.
Faz parte do nosso dia-a-dia», disse.
Os indígenas ainda disputaram uma corrida de quatro mil metros e o cabo de guerra, onde a platéia pode observar a força física e a determinação destes «guerreiros».
Etnias do Tocantins
Apinajé -- localizados na região do município de Tocantinópolis
Krahô -- localizados na região do município de Itacajá
Krahô-Canela -- localizados na região do município de Lagoa da Confusão.
Xerente -- localizados na região do município de Tocantínia.
Karajá Xambioá -- localizados na região do município de Santa Fé do Araguaia, Javaé -- localizados na região do município de Formoso do Araguaia
Número de frases: 31
Karajá -- localizados na Ilha do Bananal
O Município de Almas foi descoberto por Manoel Ferraz de Araújo no dia 29 de setembro de 1734, e o inicio de sua primeira povoação provem de milhares de escravos trazidos e sob o comando do bandeirante português Bernardo Homem, isso quando o Brasil ainda era colônia de Portugal.
O Bandeirante Bernardo Homem usou seus escravos nas pesquisas que resultaram nas descobertas das minas de «ouro» em muitos locais do município de Almas, aqui ele e seus escravos mantiveram anos a fio nos trabalhos de garimpagem, em virtude do grande sucesso nesta peregrinação, registrada com a extração do ouro altamente surpreendente, escolheram esta localidade, que caracterizou o útero de onde nasceu o nome de «Arraial São Miguel de Almas».
Uma das provas deste passado são as escavações nos arredores da cidade e no município e a construção do velho templo católico por os escravos em honra a São Miguel, exaltaram a sua imagem e a colocaram sobre o imponente altar a fim de ser venerada e adorada como nosso padroeiro.
O nome São Miguel de Almas tem a sua origem lendária de que São Miguel é o pesador dos pecados das almas quando das chegadas destas à porta do céu, e que só depois de passarem por este crivo, têm ou não a permissão de sua entrada no «Paraíso».
Com o evento da independência do Brasil, o português Bernardo Homem e seus escravos garimpeiros foram obrigados a abandonar as minas de ouro do Arraial São Miguel de Almas e regressarem por ordem da Corte de Portugal, conduzindo somas altíssimas de arrouba de ouro, e este ouro que deveria nos pertencer foi todo arrebatado por o Império Britânico, tal fato ocorreu através de inventos industriais pesados e vendidos aos portugueses.
Isso devido ao atraso deste.
Com o passar dos tempos, surgiu a primeira mudança, o esquecimento foi dominando, passando a se chamar São Miguel de Almas e, com o desenrolar da historia, desprezaram o nome São Miguel, e tanto que, com a criação do Distrito subordinado a Natividade, ficou absorvido o nome de São Miguel, legalmente e juridicamente ficando conservado apenas o nome de Almas e o nome de São Miguel foi escolhido como nosso santo padroeiro.
Ainda quando Distrito, outro fato marcante da historia foi caracterizado com a descoberta das jazidas de Diamante nas margens do ribeirão Gameleira, entre este e o córrego Recantilhado, onde aglomerou presumidamente uns (três) mil garimpeiros por vários anos, não só do município de Almas, como também vindo de vários Estados da Federação à procura deste mineral precioso nº.
1, registrando o sucesso de muitos garimpeiros.
Quando a liberdade abriu suas asas sobre nós, com o evento ocorrido em 14 de novembro de 1958, caracterizado por a emancipação do município de Almas e em 01 de janeiro de 1959 a instalação do mesmo, teve como seu primeiro Prefeito nomeado para um período transitório, o Sr. Manoel Nepomuceno Lopes, conhecido por (Nezinho);
seguido por o segundo Prefeito nomeado para um período de um ano, o Sr. Ary Pereira Borges, prosseguindo com a nomeação do terceiro Prefeito para um período de seis meses, o Sr. Valdomiro Soares, conhecido por Váva.
Em a primeira eleição que se processou neste município, foi eleito o quarto prefeito para um mandato de cinco anos, sendo que ele foi o primeiro prefeito eleito em nosso município -- o Sr. Ary Pereira Borges;
na segunda eleição, foi eleito o quinto Prefeito para um mandato de quatro anos -- o Sr. Francisco Araújo de Carvalho;
na terceira eleição, foi eleito o sexto Prefeito para um mandato de três anos -- o Sr. Sisenando Pacini Filgueira;
na quarta eleição foi eleito o sétimo Prefeito para um mandato de quatro anos -- o Sr. Joel Lopes Soares;
na quinta eleição, foi eleito o oitavo Prefeito para um mandato de quatro anos e mais dois anos de mandato tampão -- o Sr. Sisenando Pacini Filgueira;
na sexta eleição, foi eleito o nono Prefeito para um mandato de seis anos -- o Sr. Hugo Araújo Filgueira;
na sétima eleição, foi eleito o décimo Prefeito para um mandato de quatro anos -- o Sr. Goianyr Barbosa de Carvalho, porém, com uma interrupção de um ano e quarenta e cinco dias, foi afastado por decreto estadual assumindo em seu lugar o interventor Lindomar de Souza;
na oitava eleição, foi eleito o décimo primeiro prefeito para um mandato de quatro anos o Sr. Hugo Araújo Filgueira;
na nona eleição, foi eleito o décimo segundo Prefeito para um período de quatro anos de 1997 a 2000 o Sr. Osmar Lima Cintra;
na décima eleição, foi eleito o décimo terceiro Prefeito para um mandato de quatro anos -- o Sr. Osmar Lima Cintra de 2001 a 2004;
e na décima primeira eleição, foi eleito o décimo quarto Prefeito para um período de quatro anos -- do ano de 2005 a 2008 -- o Sr. Manoel Midas Pereira da Silva, atual prefeito.
Todos os prefeitos eleitos tiveram paralelos as Câmaras Municipais de Vereadores.
Até 1988, as Câmaras eram compostas de apenas 07 vereadores, porém, com a nova Constituição Federal sancionada em 05 de outubro de 1988, as Câmaras Municipais dos menores municípios passaram a ser compostas de 09 vereadores.
O Município de Almas, na sua história, teve o Ouro como o ponto de partida da sua economia, seguida por a pecuária que sempre foi o potencial, em segundo lugar a agricultura.
De dez anos para cá, a lavoura mecanizada ganhou um galopante espaço muito além a manual do velho costume, constituindo um considerável reflexo de progresso, mas com a desastrosa política agrícola e juros altíssimos adotada por o governos de presidentes anteriores aos atuais as lavouras foram por água abaixo.
Há poucos anos foi implantado o Projeto da Vale do Rio Doce, que ficou em nosso município até o ano 2000, com esse projeto a cidade acelerou sua economia com dinheiro correndo solto no comércio local, quando o Vale deixou o município, o mesmo entrou novamente em crise, vindo a recuperar com a chegada do Projeto Tamborá, que construiu um frigorífico e está importando para outros estados e ainda gerou empregos aqui em nosso município, o que contribuiu para a chegada desse projeto foi o asfaltamento da TO 040 construída na gestão do ex-governador José Wilson Siqueira Campos no seu segundo mandato, fazendo a ligação da Belém-Brasilia, passando por Almas ligando ao estado da Bahia.
Número de frases: 28
O ano era 1970, o mês, fevereiro ...
Lembro-me que, após as despedidas chorosas de meus pais, os abraços dos meus irmãos (somos sete e eu sou o mais velho) e das mil recomendações de minha mãe, peguei a minha mala e embarquei no trem da antiga Sorocabana que fazia o ramal Botucatu-SP a Bauru SP.
Destino: -- Colégio Técnico Agrícola Estadual Dona Sebastiana de Barros, São Manuel-SP -- distante apenas 20 km de Botucatu, cidade onde eu residia.
Fora aprovado no exame de seleção para o ingresso no curso de Técnico Agrícola.
Concluíra a quarta série ginasial (correspondente à oitava série, atualmente) e, após uma tentativa frustrada de ingressar no curso de Técnico Industrial (cheguei atrasado às provas), por sugestão de um primo que era inspetor de alunos numa outra escola agrícola (Cerqueira César -- SP), fiz as provas da seleção (Português e Matemática) e fui aprovado.
Tornei-me um «agricolino!» ...
O colégio funcionava em regime de internato e em tempo integral (como de praxe em todas as escolas agrícolas da época).
Alojamento amplo com beliches de madeira ...
Cedo aprendi que era mais seguro ocupar a parte de cima, pois quem dormia embaixo sujeitava-se, às vezes, a receber jatos de resíduos alimentares não digeridos, principalmente às quintas-feiras, dia da semana liberado para irmos à cidade, distante cerca de 2 km do colégio.
Os nossos pertences eram guardados em armários de madeira, trancafiados com cadeado, cuja chave trazíamos pendurada em cordão preso ao pescoço (existiam alguns gatunos e todo cuidado era pouco).
Cada armário era usado por dois alunos e a convivência diária os tornava tão íntimos que passavam a se tratar, reciprocamente, de «sócios».
Por três anos (período de duração do curso) compartilhei o armário com o meu sócio «Buri» (Buri-SP, era a cidade de sua procedência), desfrutei dos seus doces e refrescos (Q Suco) que ele não deixava faltar.
Acordávamos às seis da manhã sob o canto estridente da sirene e após a higiene pessoal tomávamos o café (pão francês com margarina, café com leite) servido em canecas de plástico.
O período matutino era destinado às atividades teóricas, aulas das disciplinas específicas (culturas, criações, máquinas agrícolas, agricultura, etc.) e das disciplinas do núcleo comum (português, matemática, química, biologia, etc).
Pontualmente as onze horas soava a sirene encerrando as atividades letivas da manhã e anunciando o almoço (carinhosamente chamado de " boião ") que era servido no refeitório, das onze ao meio-dia.
Aprendi, também, que quem deixasse para almoçar (boiar) já no final do horário estabelecido, além da vantagem de não ter que enfrentar fila era favorecido com a repetição, por nós denominada de «rebote» e que nem sempre ocorria.
Comíamos e ficávamos ansiosamente esperando que o Sr. Tutu (inspetor de alunos) bradasse, em alto e bom tom, a frase: --
Olha o rebote! ...
Corríamos, então, em alvoroço, em direção ao local onde os cozinheiros serviam as refeições para sermos agraciados, às vezes, apenas com uma concha de feijão ou mais uma colher de arroz, já que as misturas (geralmente saladas e carne) cedo esgotavam.
Vegetariano, desde aquela época, a minha presença no refeitório era sempre aguardada com certa ansiedade por alguns colegas com os quais estabelecera o hábito de trocar o meu bife por as suas saladas (a troca era sempre muito concorrida) Tornei-me integrante da «turma do rebote», um grupo de dez a quinze alunos cuja presença era constante em todos os» rebotes», e o engraçado, é que assim agíamos não por necessidade mas por o simples prazer de participar daquele momento, tido como «sagrado» para alguns dos integrantes do grupo.
Havia também boatos que o «boião» era enriquecido com «salitre» para amenizar os «ímpetos» da rapazeada, fato que nunca foi confirmado ...
Após o almoço descansávamos no alojamento, que permanecia aberto até as treze horas, quando partíamos para as atividades práticas nos diversos setores (pomar, horta, estábulo, pocilga, aviários, etc) de acordo com a escala da semana previamente elaborada por o setor pedagógico da escola.
Filho de pai ferroviário e sem nenhuma tradição «ao campo» a princípio tudo aquilo era para mim novidade (a maioria dos alunos era de procedência rural, filhos de fazendeiros ou de trabalhadores da zona rural) e foi ao contato com aquelas práticas que comecei acalentar o sonho de vir a ser um dia Engenheiro Agrônomo.
Sonho que começou a se realizar em 1973 quando fui aprovado no vestibular do CECEA (hoje, FUVESTE) para o curso de Agronomia da UNESP-Botucatu (àquela época Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu -- FCMBB).
Após o jantar, onde o ritual do «rebote» era sistematicamente repetido, caminhávamos por o asfalto vendo a noite cair e surgir no céu as primeiras estrelas, fazíamos isso diariamente, eu o Alfredo e o Armando, amigos inseparáveis unidos por a mesma cidade de origem.
às 22:00h a sirene, em longo e estridente grito, avisava-nos que era chegado o momento do silêncio, as luzes se apagavam, todavia, as conversas, as guerras de travesseiro, as sacanagens de todos os tipos continuavam ...
até bem mais tarde.
Sábado era o dia mais feliz da semana, era o dia de voltar para casa, rever a família.
Já pela manhã arrumávamos as nossas roupas (sujas) na nossa mochila e com ela aos ombros partíamos para o trevo (Rodovia Marechal Rondon) em busca de carona.
Viajar de carona era moda entre os agricolinos e fazíamos isso nem sempre por necessidade, mas por prazer.
Era comum ver na segunda feira alguém se vangloriando por ter viajado de «galaxie»,» dodge dart «ou» opala», que eram os carros mais luxuosos da época.
Ainda hoje relembro a minha época de «agricolino» e, com emoção, passeio mentalmente por as dependências do Colégio revendo, em cada canto, colegas, professores, funcionários e cenas do cotidiano, a saudade que sinto faz-me afirmar sem nenhuma sombra de dúvida, que ...
aqueles foram os meus melhores anos ...
Número de frases: 33
«Fazia tempo que não via um bate-papo tão interessante na rádio», palavras do cineasta Bruno Sales que reuniu amigos em casa na sexta-feira para conferir por o rádio o lançamento do site Overmundo na Paraíba dentro do programa Aumenta Q É Rock!,
na 98 FM em João Pessoa.
O programa especial de lançamento do site teve como convidados JESUÍNO ANDRÉ, fanzineiro eletrônico e responsável por os selos MUSICLAND e JUNKMAIL, FÁBIO Queiroz, músico, jornalista e responsável por a revista Pessoa (www.revistapessoa.com.br), Carlos DOWLING, cineasta, VJ e integrante do núcleo Urbe da Associação Brasileira de Documentaristas -- seção Paraíba, e EDMUNDO GONZAGA, colaborador Overmundo na Paraíba.
«Não temos muito o hábito de ligar o rádio, apesar de ser um meio tão popular.
Foi a primeira vez que me peguei fazendo isso, só por causa do programa», comentava o universitário Saulo Ferreira, que também viu uma conexão forte entre a proposta do site e a do programa.
«Todos têm uma atitude meio anárquica, isso torna o ambiente propício para o lançamento de uma proposta como essa», afirma.
Para o lançamento do site foi organizado um debate com os convidados sobre Cultura e Novas Mídias, onde foram debatidos as influências da cultura digital nos vários segmentos de cultura, novas formas de divulgação, pirataria e o direito autoral na rede e a proposta colaborativa do site, tudo isso com uma trilha sonora à base de bandas que conquistaram respeito e destaque a partir da internet.
O bate-papo foi muito divertido e gerou muitos comentários dentro do circuito cultural.
Parabéns a todos que idealizaram, realizaram e apoiaram essa proposta.
Número de frases: 9
Sonho.
Fazer através da palavra seu sinal de vida, sua luz, seu caminho.
O poeta que vive da poesia, a tem como uma espécie de bola de cristal.
Antes do acontecido, já estava lá escrito.
Talvez o poeta seja uma espécie de Nostradamus do seu dia-a-dia.
Ou os profetas, na realidade, foram grandes poetas.
E quando falamos de poetas, sempre soa como algo descriminadamente antigo e fora de lugar.
Exemplo:
«ao sair para um sábado agradável com minha companheira, me deparei com um casal de colegas dos meus amigos que já estavam no bar.
Foi uma daquelas apresentações que reforçam o caráter demagógico de só se ter para poder ser.
Eles tinham títulos, se apresentaram como engenheiro e a outra arquiteta.
A o me perguntarem o que fazia da vida, falei, sou poeta.
De pronto ouvi:
e que dia você vai virar homem?
Não respondi a pergunta descabida, deixei meus parcos dez reais na mesa e fui embora."
Um sonho " irreal "
Ser poeta é estar fora de lugar para um número expressivo de cidadãos.
Mas a escrita vai muito além.
Nos diz quem são e que a matéria da vida dos escritores está necessariamente ligada às suas letras.
Também nos ensina que a descoberta da escrita pode ser uma necessidade absoluta para tornar a vida possível de ser realmente vivida.
É o passo para o outro lado, o da loucura, da imaginação plena dos sentidos e sentimentos.
A pragmatização de um sonho " irreal ":
poesia.
Drummond e grande parte dos poetas ou, pelo menos, aqueles que se assumem de verdade, já vivenciaram essas inqualificadas colocações que o mundo escarra.
Em seu poema a Flor e a Náusea¹, os primeiros cinco versos são alentadores:
«Preso à minha classe e a algumas roupas, / vou de branco por a rua cinzenta.
/ Melancolias, mercadorias espreitam-me.
/ Devo seguir até o enjôo?
/ Posso, sem armas, revoltar-me?"
O poeta então, veste sua armadura de palavras.
Sai de um bar aos prantos pois assassinaram sua arte.
Destruíram o que mais ama, lhe sustenta sobre os pés e o faz flutuar.
Fico com Ítalo Calvino quando disserta sobre a leveza²:
«Se quisesse escolher um símbolo votivo para saudar o novo milênio, escolheria este:
o salto ágil e imprevisto do poeta-filósofo que sobreleva o peso do mundo, demonstrando que sua gravidade detém o segredo da leveza, enquanto aquela que muitos julgam ser a vitalidade dos tempos, estrepitante e agressiva, espezinhada e estrondosa, pertence ao reino da morte como um cemitério de automóveis enferrujados."
¹ANDRADE, Carlos Drummond.
A Rosa do povo.
Rio de Janeiro: Record, 1995.
²CALVINO, Ítalo.
Seis propostas para o próximo milênio.
São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Número de frases: 41
Ir a Superagui e não conhecer seu Alcides, tomar uma cataia e curtir um fandango é o mesmo que ir para a praia e não se molhar.
Figurinha carimbada, desperta sorrisos e ganha admiradores a cada dia que passa.
Superagui, é uma ilha, localizada no litoral paranaense, pertence ao município de Guaraqueçaba.
Há pouco tempo existe luz elétrica na comunidade de Superagui e ainda há famílias que moram mais distante e vivem ainda a «luz de velas».
Quase tudo que é consumido na vila vem de Paranaguá, viagem que dura em média 3 horas.
Os barcos fazem a ligação com o mundo, levam crianças para a escola, transportam turistas e geralmente vem lotados de comida, eletrodomésticos, material de construção, tudo comprado na cidade.
Se alguém precisa de atendimento médico, lá estão os barcos novamente, além é claro do papel fundamental na pesca.
Isolada do mundo por uma questão geográfica e esquecida por o poder público, a comunidade de Superagui foi sobrevivendo e preservando suas raízes.
Em a década de 80 a Companhia Agropastoril Litorânea do Paraná tentou tomar posse das ilhas das Peças e do Superagui para a criação de um pólo turístico, mas Felizmente a Compania não conseguiu.
Em 1985 a ilha de Superagui foi tombada e em 1998 a Reserva Nacional de Superagui foi intitulada por a Unesco como Sítio do Patrimônio Natural da Humanidade.
Em a última década o turismo cresceu e a comunidade que vivia exclusivamente da pesca passou a ter outra fonte de renda, mas com isso vieram as preocupações ambientais e a busca por um desenvolvimento sustentável.
Questões como a coleta de lixo, escola, atendimento médico e dentário ainda são extremamente preocupantes e merecem maior atenção.
No meio dessa maravilha da natureza, que vive uma gente simples e hospitaleira, vive seu Alcides.
A os 89 anos, esbanja energia, dá um baile em qualquer garotão, é o primeiro a chegar no fandango e o último a sair.
Muitos devem estar perguntando, mas o que é fandango?
O Fandango é uma manifestação cultural do litoral paranaense, dança-se aos pares ou em rodas.
Uma curiosidade é que os fandangueiros utilizam umas tamancas, produzidas por eles mesmos, que juntadas ao som de rabecas, formam a batida ideal para uma dança de pura energia.
Em Superagui, ela é comandada por o mestre Alcides, conhecido e respeitado por todos como «Seu Alcides».
Seu Alcides desperta a atenção até dos menos atentos, pois, faça chuva ou sol, ele aparece no Akdov -- um estabelecimento botequício -- freqüentado por a comunidade que se diverte com as histórias dos pescadores, que saboreia uma cataia e ainda desfruta das belas manifestações do fandango.
A cataia é uma bebida típica, na real é uma pinga curtida com folhas de uma planta nativa, que misteriosamente deixa a pinga com um cheiro e um sabor super agradável.
Segundo Laurentino, que cuida do bar há mais de trinta anos, o bar se chama Akdov, em homenagem a bebida vodka, só que escrita de tráz para a frente.
Ele conta que no início era mais que um bar, era uma venda do tipo secos e molhados, que vendia de tudo um pouco, mas que devido a algumas dificuldades, hoje só vendem bebidas e alguns docês.
Entre uma pesca e outra, Laurentino divide os cuidados do bar com a esposa e o irmão «Caçula».
Os freqüentadores continuam sendo atendidos nos moldes de antigamente, lá a «palavra» tem valor, não existem comandas ou fichas e até os turistas anotam na caderneta, tudo na base da confiança.
O encanto da ilha não é apenas expressado por as belezas naturais, mas principalmente por o seu povo, pois não há como pensar em Parque Nacional, em preservação, em Cataia, em Fandando, sem pensar no povo maravilhoso que lá vive.
Também na confiança e no galanteio brilha seu Alcides, que logo após o anoitecer, chega no Akdov, todo arrumadinho, convidando as mocinhas pra dançar.
É inacreditável como dança, suas pilhas parecem não ter fim e ele só para, quando a festança chega ao fim.
Seu Alcides tem até comunidade de fãs no orkut e diz que o segredo da longevidade e de toda essa energia é se alimentar bem e não beber, ou melhor, tomar só uma cervejinha.
Ele fala por si só, como pode ser visto no vídeo, deixando uma mensagem de respeito e amor por a vida.
Número de frases: 29
Assisti em 2004 em Aquidauana à peça «O Pequeno Príncipe no Mar de Xaraés», um trabalho ecológico do Grupo Teatral Sul-Mato-Grossense Minas da Imaginação, baseado na obra consagrada da literatura mundial» O Pequeno Príncipe», do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) e dirigido por Expedito Montebranco.
O espetáculo se deu no Centro Cultural Décio Corrêa (antigo Cine Glória), onde, incluindo-me, havia apenas quinze pessoas, entre adultos e crianças, que se mostraram todos «cativos» dessa viagem através do deserto humano e das riquezas do nosso Pantanal.
Em o palco, a performance impecável dos atores nos envolvia em pensamentos entre fauna e flora representadas por as telas dos artistas Humberto Espíndola, Teca Rosa e Rosana Bonamigo.
Como na apresentação realizada na vizinha cidade de Anastácio, no dia anterior, o número de público fora ainda menor, convém dizer que o total de quinze espectadores de Aquidauana foi um verdadeiro recorde de público a lotar as primeiras cadeiras do antigo cinema.
Ali, entre enigmas e espinhos da flor da arte, o vazio e o silêncio da cultura exumaram a presença de outro renomado personagem, um dos maiores dramaturgos brasileiros, o aquidauanense Rubens Alves Corrêa, o décimo sexto espectador.
Ele estava em qualquer das cadeiras, vindo, talvez, do Pequeno planeta onde o mistério da infância ensina no ministério dos adultos a paz e o amor universal.
Colocou-se entre nós seu espírito audaz como se fosse o próprio Saint a aplaudir o pequeno príncipe na versão pantaneira, olvidando o mar de cadeiras vazias.
Rubens assistia calado, como anfitrião solitário e invisível, saudando em sua centenária Aquidauana os cem anos da despedida do piloto-escritor de Lyon.
E naquele monólogo mágico, o décimo sexto espectador anotou em seu «Diário de um louco» que o «Futuro dura muito tempo».
E num «Ensaio Selvagem» subiu «A Escada» para ganhar «O Beijo da Mulher aranha».
Deixei a antiga casa de cinema, com suas lembranças de Décio, Rubens, palcos e sombras, e carreguei com mim as lições do Pequeno Príncipe de Xaraés que veio ensinar as pessoas a se humanizarem, a se cativarem e a se tocarem, mesmo que na platéia só estivessem quinze espectadores e um provável décimo sexto, pois foi Antoine de Saint-Exupéry que disse:
Número de frases: 11
«É apenas com o coração que se pode ver direito, o essencial é invisível aos olhos."
Piauí é um dos estados mais pobres do Brasil.
Também é uma palavra de 5 letras e 4 vogais.
João acordou com esse nome na cabeça e decidiu que esse seria o nome da sua revista.
A piauí tem 64 páginas, poucas, mas cheias de linhas de artigos.
Em uma época de «snack culture», causa estranheza ver páginas inteiras cobertas por uma grande quantidade de palavras e poucas imagens.
Textos de nomes consagrados do jornalismo, escritores iniciantes e até sem nenhuma assinatura.
Ela fala de tudo.
E como eles mesmos dizem, " valem todos os temas, desde que tratados com inteligência:
esporte, saúde, política, arte, odontologia, telenovelas.
Até a tolice, se tratada com inteligência, melhora um pouco».
Em a edição de março, tem um texto falando de uma estranha doença que mata de insônia os membros de uma família italiana quando chegam à faixa dos 40 anos.
Também tem os quadrinhos do Art Spiegelman, o único quadrinista a ganhar o Pulitzer de literatura.
E o perfil da família Gomes, do Ciro, o deputado federal mais votado do Brasil.
Uma verdadeira oligarquia.
Apesar disso, a piauí não tem posicionamento político.
Ela apenas quer contar histórias com bom humor.
Histórias de gente anônima ou conhecida, bacana ou velhaca, inteligente ou mentecapta.
De o trabalho de elas, dos seus amores, das suas alegrias e das coisas que lhe interessam.
Pra ler, guardar e lembrar sempre.
Texto completo em:
Número de frases: 21
http://adrulez.blogspot.com/ 2007/03/ cantiga-de-acordar.html
Em a entrada do teatro, ficamos sabendo por o rapaz da bilheteria:
«Essa peça é a mais concorrida.
Até já acabaram as reservas.
Todo mundo quer ver o Gustavo pelado».
Gustavo Haddad é um ator mais conhecido por suas aparições na TV.
Já participou de produções da Globo, da Record e SBT, como Malhação e Chiquititas.
Gustavo também está na Wikipédia.
Em «Hoje é dia do Amor», Gustavo vive um michê de luxo que celebra com sua dor a Quinta-feira Santa, depois de saber que um antigo amor se suicidou na mesma data.
Para isso, ele permanece no palco o tempo inteiro nu e acorrentado numa cruz.
Para o michê, a data é o Dia do Amor porque Jesus entregou sua vida por a humanidade inteira.
Assim, ele comemora a data com o maior amor possível, sendo capaz de sentir prazer durante a dor.
Escrito por o colunista da G Magazine João Silvério Trevisan, o monólogo aborda angústias da vida pós-moderna, em que o homem vive constantemente de dor -- por existir, por sentir prazer em atividades socialmente questionáveis ou por querer ter algo que não tem.
Como algumas práticas são moralmente condenáveis, os personagens precisam entrar no submundo para conquistar seus desejos e tentar suprir a própria dor, mesmo que seja com mais dor.
A figura do juiz -- membro socialmente respeitável -- aparece como um dos clientes do michê que gosta de ser dominado por ele durante sessões sadomasoquistas.
Um policial é o responsável por acorrentar o protagonista na cruz.
O próprio rapaz tinha estudado para virar padre, porém, se realizou como puto.
Acaba sendo um jogo inspirado na realidade, porém, com os personagens interpretando livremente os papéis que desejarem, sem amarras sociais.
Assim, se você pretende assistir à peça apenas para ver o Gustavo pelado, não assista.
Porque, mesmo que consiga se satisfazer por 15 minutos, a estrutura do Espaço Satyros 1 não permite que o espectador saia no meio da peça sem passar por o palco.
Pra aqueles que não gostam de monólogos, podem exercer a metalinguagem sentindo um pouquinho de dor.
Para os que gostaram do que leram, assistam.
Número de frases: 22
Para os que não, façam o que quiserem -- sejam sadomasoquistas ou vivam nas regras da sociedade.
Escravidão e morte:
mão de obra indígena e infantil a serviço do desenvolvimento colonial brasileiro
Cristiano Navarro, Cimi MS
Em setembro de 2006, quando o menino Guarani Kaiowá de 15 anos, Pedro da Silva * anunciou a decisão de largar a escola para trabalhar no corte de cana, seu pai, o viúvo José da Silva *, se viu contrariado.
Não queria que o filho, um bom aluno da 6ª série da escola Loide Bonfim, da terra indígena Tey Kue, sofresse da mesma sina que o afastou prematuramente, com 32 anos, do trabalho no campo por um desvio na coluna cervical.
Assim, seu José escondeu os documentos do filho para que ele não fosse passar 10 semanas cortando cana na Fazenda Santa Cândida, da Destilaria Centro Oeste Ltda (Dcoil), de propriedade do médico do trabalho Nelson Donadel.
Ignorando os conselhos do pai, o garoto acertou com um «cabeçante» indígena da aldeia de Dourados, identificado por o nome de Jorge, o pagamento de R$ 1.200 reais para o trabalho de 70 dias.
A falsificação da ficha de Pedro junto a Dcoil foi feita de forma grosseira.
Além de receber o nome de Devir Fernandes e a idade de 24 anos, não constava na ficha a sua foto.
Um rapaz tímido e bastante esforçado, que freqüentava as aulas regularmente e, fora do horário escolar, fazia parte do projeto de criação de mudas de árvores para o reflorestamento da terra indígena Tey Kue ligado a Universidade Católica Dom Bosco.
Com estes adjetivos, a irmã Anari Nantes, diretora da escola em que Pedro estudava, o descreve.
Apesar de ser ilegal, o aliciamento de menores indígenas com documentos falsificados para o trabalho no corte de cana-de-açúcar é comum no " Mato Grosso do Sul.
«A procura por a mão de obra [do trabalhador indígena] é muito grande, por seu bom desempenho e baixo custo.
Com a grande demanda, os adolescentes são freqüentemente aliciados», atesta o procurador do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul, Cícero Rufino.
Depois de prestar os primeiros 70 dias de trabalho, Pedro voltou para casa sem receber nada.
O «cabeçante» informou que Pedro deveria voltar para a usina e trabalhar por mais um mês, até que o valor do pagamento atingisse a quantia de R$ 1.600,00 reais para receber o valor integral.
Em o início de dezembro, Pedro voltou ao trabalho nas terras da usina do médico, Nelson Donadel.
Doze dias depois, na noite do dia 15 de dezembro de 2006, dentro de um caixão simples, que por debaixo ainda escorria sangue, o corpo de Pedro foi entregue de surpresa na casa de sua avó.
Pedro havia sido degolado na manhã do mesmo dia dentro da usina onde trabalhava.
Seu corpo foi encontrado por policiais militares por volta das 14 horas, sobre um descampado de chão queimado próximo a um monte de cana-de-açúcar que acabara de cortar, como consta em inquérito policial.
Mortos que andam
Mesmo com as evidências físicas do cadáver e a flagrante falsificação nos documentos apresentados por a usina, o boletim de ocorrência foi registrado na delegacia de Naviraí com idade e nome adulterados.
Portanto, para a polícia quem estava morto não era Pedro, mas sim Devir Fernandes.
Em a busca por pistas sobre o caso, nem a Fundação Nacional do Índio (Funai), nem a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), nem o Ministério Público do Trabalho tinham qualquer notificação da morte de Pedro, mesmo com o nome Devir Fernandes.
Em a região de Dourados (MS), a forma que a Funasa tem de registrar os óbitos é através do oferecimento gratuito do caixão às famílias dos falecidos.
«É freqüente a troca de documentos e falta de registro de mortos», confirma o médico coordenador da Funasa em Dourados, Zelick Trajber.
Desde o enterro de Pedro, envolto de muita comoção na aldeia Jaguapiru, pairam inúmeras perguntas.
A que mais aflige seu pai, José da Silva, é de uma objetividade cortante:
«meu guri foi trabalhar vivo e voltou morto.
Quero saber:
quem vai responder por isso?».
Dias depois do funeral, após juntar provas como o resultado do exame de corpo delito que apontou a idade de 16 anos para a vítima e os depoimentos do autor confesso do crime e de testemunhas, seu José da Silva provou que de fato o corpo enterrado era de seu filho.
De posse destes documentos, o pai de Pedro foi à gerência da usina para pedir que lhe pagassem ao menos os R$ 2 mil reais por o tempo de serviço do filho.
Mas a reposta do gerente da usina, segundo o pai da vítima, foi categórica:
«eles disseram que não devem nada para mim, que a quem deviam já pagaram.
E que se eu quisesse qualquer dinheiro procurasse a justiça e a polícia».
Ainda hoje seu José da Silva procura por alguma resposta para a sua pergunta.
Em português e castelhano, duas das três línguas faladas nessa região de fronteira com Paraguai, a palavra devir quer dizer futuro.
Devir está morto, mas ele não morreu ainda.
Apesar da polícia ter dado Devir Fernandes como morto, ele continua vivo.
Devir, de carne e osso, mora na aldeia de dourados e trabalha de 12 a 14 horas por dia para transformar sangue, suor e cana-de-açúcar em álcool combustível para outra ponta da cadeia produtiva abastecer discursos políticos desenvolvimentistas e automóveis que rodam por as ruas, estradas e avenidas com etiquetas ecologicamente corretas com o nome de total flex.
(colaborou André Campos, da Agência Repórter Brasil) *
nomes fictícios foram utilizados para não expor a vítima e a sua família.
Exploração de mão de obra indígena é premiada com isenção de impostos no MS
A Destilaria Centro Oeste LTA (Dcoil) não é apenas uma empresa que permite o aliciamento de menores de idade para o trabalho exaustivo do corte de cana.
Pouco mais de 4 meses após a morte do garoto Pedro, a mesma Dcoil foi flagrada, no dia 27 de março 2007, por uma diligência do Grupo Especial Móvel de Fiscalização do Ministério Público do Trabalho numa ação em que 498 trabalhadores foram libertados, sendo que destes, 150 eram indígenas dos municípios de Amambai, Dourados e Coronel Sapucaia.
Todos os 150 estavam alojados num barracão sem janelas que comportava, no máximo, 90 pessoas, sendo que 30 dormiam no chão.
Faltavam equipamentos de trabalho adequado e havia pagamentos atrasados.
«Entre os trabalhadores das usinas é altíssimo o índice de doenças respiratórias.
São muitos os casos de tuberculose.
Imagine: 50 pessoas dormindo num barracão em condições deploráveis.
Se um estiver contaminado pode contaminar todos os outros», alerta o coordenador da Funasa, Zelick.
Após a diligência, a Dcoil teve de pagar multa e assinou um termo de ajustamento de conduta no qual se compromete a melhorar a situação dos trabalhadores.
Empresas irmãs
A ocorrência de assassinato e a escravidão de trabalhadores indígenas não são delitos registrados somente nos limites da Dcoil.
Segundo o relatório de violência 2006/2007 do Conselho Indigenista Missionário, em Mato Grosso do Sul, dos 53 assassinatos ocorridos no ano de 2007 com vítimas indígenas na Região de Dourados, três foram ocorreram dentro de usinas.
A Usina Debrasa, localizada município de Brasilândia, é outra empresa que tem em seu currículo assassinatos e trabalho degradante dentro de sua propriedade.
Entre 2006 e 2007 foram dois assassinatos dentro dos limites da Debrasa.
Além disso, em novembro último foram libertados 1.011 trabalhadores indígenas.
A Debrasa, uma das sete usinas da Companhia Brasileira de Açúcar e álcool (CBAA) -- pertencente ao grupo José Pessoa, um dos maiores do setor no país -- é descrita por os trabalhadores indígenas e por o Ministério Público do trabalho como um «verdadeiro inferno».
Em decorrência da autuação, as empresas do grupo foram suspensas do Pacto Nacional por a Erradicação do Trabalho Escravo e o empresário José Pessoa de Queiroz Bisneto foi afastado do Conselho Consultivo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.
Foram flagradas inúmeras irregularidades:
como atrasos nos salários, comida de péssima qualidade e instalações totalmente inadequadas.
Em o banheiro, não havia água, fezes estouravam o cano e os trabalhadores tomavam banho no rio.
«Além de toda a precariedade, logo ao lado da usina se constituíu o distrito Debrasa, onde se encontram bares, prostituição, consumo de drogas e todo tipo de exploração humana que você possa imaginar», relata o procurador Rufino.
Isenção de imposto
Como prêmio aos usineiros por sua «contribuição ao desenvolvimento» de Mato Grosso do Sul, o governador André Puccineli, em meados de dezembro último, concedeu isenção de 67 % do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) para 44 usinas no Estado -- 11 em funcionamento e outras 33 em construção.
Enquanto José da Silva luta para receber os R$ 2 mil reais da Usina Dcoil por os dias trabalhados por seu filho, outras cifras saltam os olhos.
Segundo o Sindicato dos Agentes Tributários do Mato Grosso do Sul, a isenção de ICMS deve diminuir em 20 % a arrecadação do Estado, fazendo com que o governo deixe de arrecadar cerca de R$ 1 bilhão de reais.
Devido à isenção dada às usinas de álcool, o Estado deixará de receber, em 2008, R$ 394 milhões.
Para este ano, o IBGE projeta um crescimento da área de plantio de cana-de-açúcar de pelo menos 30 %, aumentando a área de 199,7 mil hectares, em 2007, para 260 mil hectares.
Em o caminho do " desenvolvimento "
Visando diminuir os impactos ambientais das queimadas para o corte da cana e a vergonhosa mancha do trabalho escravo, em agosto do ano passado a Câmara Municipal de Dourados aprovou projeto de lei que prevê o fim das queimadas em plantações de cana-de-açúcar até o ano de 2009.
Assim, as usinas que estiverem nos limites do município deverão mecanizar a colheita dispensando a mão-de-obra indígena.
De o dia para noite, pelo menos 2 mil trabalhadores indígenas sem terra deste município perderão seus postos de trabalho.
Em a avaliação do vereador Elias Ishy (PT), que propôs a lei, o trabalho de cortador de cana é degradante e expõe o trabalhador a uma série de problemas de saúde.
No entanto, nem o vereador, nem nenhum dos apoiadores da proposta respondem sobre o que farão tantos trabalhadores depois da mecanização da colheita de cana-de-açúcar.
A mudança da lei municipal vai de encontro ao interesse de transnacionais, como a estadunidense Cargill, a francesa Louis Dreyfus e a japonesa Mitsui, que chegam para investir no promissor mercado do álcool combustível, sem a intenção de ver seus nomes ligados ao trabalho escravo ou com a poluição do meio ambiente, e que, assim, devem pressionar por a mecanização da colheita.
Boca que mastiga vidas
O otimismo dos latifundiários e das transnacionais é a desesperança do povo Guarani Kaiowá.
Quanto mais avançam a monocultura e a concentração fundiária, mais este povo vê distante suas terras, solução definitiva para os problemas da violência e extrema exploração.
Para além do lucro com as culturas da cana, do boi, da soja e do milho, outras facetas do uso da terra por os latifundiários têm se revelado no Mato Grosso do Sul.
Em recente matéria publicada por a agência de notícias sul matogrossense, Campo Grande News, o juiz federal Odilon de Oliveira classificou as atividades do agronegócio como sendo uma «lavanderia de dinheiro para o crime organizado».
O dinheiro sujo, de atividades ilícitas, como o tráfico de drogas, seria «lavado» com falsos números de produtividade na pecuária e agricultura.
Segundo a assessoria de imprensa do juiz, só no Mato Grosso do Sul, 205 mil hectares estão sob ordem de desapropriação por servirem ao crime organizado para «lavagem» de dinheiro.
Ou seja, o crime organizado no Estado teria cinco vezes mais terra do que os cerca de 40 mil Guarani Kaiowá -- que possuem apenas 40 mil hectares.
Número de frases: 87
Por:
Priscila Silva Falar da cultura sergipana é englobar diversos fatores num único povo.
Danças, lendas, músicas, comidas típicas, roupas e em especifico a literatura do cordel.
Esta que é um tipo de poesia de origem popular, que no seu início foi difundida oralmente para depois aparecer em folhetos dependurados em cordas ou cordéis, vindo daí a origem do nome cordel, que vem lá de Portugal, que tinha a tradição de pendurar folhetos em barbantes.
Chegando ao mercado central de Aracaju, atravessa-se um corredor de flores, que irá acabar na Praça João Firmino Cabral, e lá, está o poeta do povo com sua simplicidade e atenção em meio a cordéis, visitas de amigos, turistas e passantes num ambiente acolhedor e familiar, como se fosse a sala de sua própria casa.
Firmino é um senhor de olhar curioso, que traz na «ponta da língua» um cordel para falar, onde quem pára na sua banca ouve com atenção o que é lhe dito.
Ele é o João Firmino Cabral, 68 anos e com muito amor ao que faz confessa que tem 52 anos de cordel.
«Estou completando 52 anos de poeta, comecei a escrever cordel aos meus 16 anos."
A vida do poeta não foi somente de letras e rimas.
Em a infância, o ilustre itabainense, ajudava a sua mãe Dona Cecília da Conceição, na tarefa de fazer panelas de barro.
«Comecei o trabalho cedo, carregando lenha para a minha mãe fazer panelas de barro.
A os 14 comecei a ler cordeis, por causa da minha mãe que comprava para eu ler.
E foi através do cordel que aprendi a ler e escrever». Quando
perguntado qual cordel ele mais gosta, de maneira simples como seu próprio jeito humilde de ser, diz gostar de todos.
«Meus cordéis são como meus filhos, eu gosto de todos.
Desde o meu primeiro que eu escrevi em 1956 até os mais atuais sobre a dengue e o caso Pipita.
Mas tenho um carinho por «Heróis do destino» e " A coragem de uma vaqueiro em defesa de um amor "
O cordelista é referência de pesquisa para estudantes de todas as séries, inclusive das crianças do interior, como é o caso do Colégio Imaculada Conceição da cidade de Capela, onde os alunos da 4 série vieram conhecer o ícone da cultura sergipana.
«Gostei muito do João Firmino, ele escreve poemas legais, eu comprei três livrinhos, o monstro sem alma, corruptos do Brasil e As peripécias de João Grilo», disse contente a estudante Calyane Gomes, 11. O que deixa João Firmino Cabral orgulhoso do que faz, não é somente as constantes visitas de curiosos, estudantes e pesquisadores mas também a difusão do cordel em todo território brasileiro.
«A literatura de cordel está mais divulgada porque já tem em vários estados e muitas pessoas vêm para minha banca conhecer o que é cordel».
Como forma de retribuição, o cordelista assume a cadeira de número 23 na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC).
«Este ano vou fazer parte de uma das cadeiras.
Em junho estarei seguindo para o Rio de Janeiro, tomar posse, aliás essa cadeira já pertencia a um ancestral meu, Manuel de Almeida Filho.
Isto é bondade do povo, é uma alegria pra mim, porque eu sou o segundo poeta sergipano, teve o Gilmar Santana, que é meu discipulo, ele foi o primeiro e eu fiquei honrado.
Ele dizia nos jornais e revistas que a cadeira não era para ele e sim para mim e eu sempre falava a ele que um dia iria chegar a minha vez», lembra.
Proseando
O poeta nunca imaginou escrever algo diferente de cordel.
«Nunca escrevi nada além do cordel a não ser uma cronicazinha com a minha língua matuta, prefiro ficar nesse estilo» A respeito da procura dos leitores de cordel, Firmino se entristece quando reconhece a falta de interesse da população do interior.
«Eu recebo as escolas.
E infelizmente o público que lê menos é o povo do interior de Sergipe.
Os interiores de outros estados estão sempre por aqui, Alagoas, Pernambuco e Bahia «e ainda acrescenta» O sergipano, estudante que tem uma formação, ele continua admirando a cultura, o cordel, a rima.
Já o interiorano acha que o cordel é algo do passado, o povo gosta é de bandas musicais, gosta de lapada na rachada e chupa que é de uva "
A banca de Firmino é bastante movimentada, de criança a poetas consagrados, um de eles é o poeta Ronaldo Dória Dantas que chega à banca sem economizar elogios ao amigo.
«Já virou vício estar aqui, meu dia só começa depois que eu passo por aqui para pedir a benção ao meu mestre que me incentivou a escrever e a ser o poeta que sou hoje» e também para Dória a cultura é pouco apreciada por o público sergipano.
Já o poeta e pesquisador Clenaldo que também é amigo de longa data, não dispensa sua visita diária ao João.
«Eu brinco com ele dizendo que ele é um poço de qualidades e ele como sempre, com seu jeito humilde e modesto, me retribuiu com os mesmos elogios» e também considera Firmino um irmão, porque quando ele mais precisou, estava presente.
«Quando para mim já não havia mais nenhum um sopro de esperança de vida e a medicina já havia me dado como perdido busquei nos amigos a força e o positivismo para dar voltas e ressurgir das cinzas como uma fênix.
Curei-me de um câncer do pulmão, que os médicos diziam que eu tinha apenas 5 % de chance de sobreviver e agradeço a este meu amigo-irmão que tanto me deu forças para que eu não desistisse de lutar por a vida», relembra o amigo e emocionado Firmino com os olhos rasos d' água o abraça, disfarçando, adianta «Estou atrasado, hoje vou dar uma entrevista a Valadão na TV Caju».
Este é o nosso João Firmino Cabral.
Número de frases: 39
De DJ para DJ, amante para amante, colecionador para colecionador, algumas coisas que sei sobre:
Como conservar discos de vinil, toca-discos e equipamentos:
Muitas pessoas me perguntam com o que limpar os discos e como, bem, este é o principal passo de um DJ, amante e colecionador de discos (digger).
Bem, pra mim, a pior coisa ao escutar um disco são os arranhões profundos, aqueles que causam arrepio e dor de barriga, pois os pequenos chiados e arranhões fazem parte desta estrutura e cultura, ou seja, aqueles arranhões que não passam por as agulhas, ou simplesmente fazem um «ploc» horrível ao passar por ela, ou aqueles que ficam repetindo a parte da música ou pulam para outra linha do disco.
Quando encontramos um disco e este está todo arranhado, sem a mínima condição de escutá-lo, me corta o coração, quando encontramos o disco que procurávamos a tempos, e quando tiramos este da capa, está simplesmente horrível, nem com muito esforço conseguimos recuperá-lo ...
Para conseguir uma qualidade de áudio boa, já que muitas das vezes os discos nacionais são mal prensados, devido à falta de qualidade da matéria prima (mistura-se acetato e até mesmo papelão ou outros plásticos), somente com alguns cuidados poderemos alcançar esta boa qualidade.
Para os DJ ´ s fica difícil trabalhar sem o contato físico, da mão no próprio vinil, deixando uma marca de suor e uma substância oleosa constante da pele humana sobre o disco que com o tempo pode se tornar irreparável, ao termino de uma session (sessão de mixagem) lave seus discos com algodão limpo e umedecido com água até tirar toda a gordura dos discos, sempre no sentido do sulco (linhas) do disco.
As agulhas utilizadas nem sempre são as recomendadas Shure, Stanton ou Ortofon sendo estas de diamante, durando até 1.000 horas, danificando e machucando bem menos os discos de vinil, os preços variam entre R$ 150,00 a 850,00 (Shell, capsula e agulha).
Já uma DAT 2 ou Axis de fabricação nacional são de safira e ficam mais em conta entre R$ 15,00 e R$ 30,00, sendo de fácil acesso, tem uma qualidade de áudio inferior, machucam os discos e os deixam chiando (principalmente no caso dos DJ ´ s que precisam marcar a faixa para mixar, ou fazer Scratch que no caso danifica e muito os discos) e duram cerca de 500 horas (Obs: 500 horas são 83 bailes de 6 horas).
O peso do braço do toca-discos é outro fator importante, coloque quanto mais leve possível o contra-peso do braço de seu toca-discos, assim irá danificar o vinil muito menos, o contato ou atrito da agulha no disco será menor, a posição da agulha influência na longevidade de seus discos, sempre reta, nunca de lado, ao colocar a agulha no disco muito cuidado, nunca solte-a em cima do disco, arranhões de agulha quase nunca são recuperáveis, para isto serve a parte mais preta do disco e que não tem nada gravado servindo também para manusea-lo e colocar a agulha sobre ele, sempre com muito cuidado!
O scratch danifica muito os discos, o movimento de vai e volta faz com o atrito da agulha no disco seja bem maior, dando a um disco de vinil vida útil de no máximo 6 meses de uso.
Mesmo porque os discos de vinil não foram criados para tal ...
Agora imagine uma agulha das inferiores com o braço do toca-discos pesado e uma agulha de lado?
Adeus discos de vinil ...
Os discos de vinil influenciam no áudio e variam de acordo com sua gravação, os discos de 33/1/2 Rotação Por Minuto são mais baixos devido a suas linhas de microgravação serem mais juntos e finas, os de 45 Rpm são geralmente mais altos por suas linhas serem mais espaçadas e grossas, tornando-os mais altos ...
A poeira existente nos discos de vinil, chamada de estática, gruda e quase nunca sai, esta poeira (uma espécie de pêlo) pode atrapalhar o desempenho das faixas e também pode causar danos com o tempo as linhas dos discos, sendo uma ameaça para o disco microgravado, causando danos as agulhas caso não sejam limpas de acordo, assim toda vez que for ouvir um disco, limpe-o antes ...
Os discos devem ser guardados na posição vertical, sempre, se guardados deitados com certeza vão empenar.
Nunca deixe seus discos com o papel celofane (os discos importados quase sempre vem com este papel envolvendo-os), tire-o imediatamente pois ele normalmente vem esticado e pequenas variações de temperatura podem provocar a dilatação e contração do papel, podendo empenar o disco, coloque apenas um plástico para proteger do papelão da capa do disco, que sem proteção também se danificará, nunca o deixe sem plástico.
Tanto interno quanto externo.
Nunca guarde seus discos em locais mofados, fechados, tome cuidado com as traças e fungos (mofo), pois eles comem os discos, limpe sempre o local de armazenamento dos discos, sempre dê uma analisada para verificar se a algo de errado.
Tenha sempre um feltro (pequeno pedaço de pano no formato do toca-disco, facilmente encontrado nas casas de aparelhagens para DJs) nos pratos do toca-discos, nunca coloque um disco sobre o outro nos toca-discos, isto danifica o aparelho devido ao peso e seus discos no atrito de um com o outro, mantenha sempre limpo seus toca-discos, evite tirar os discos do toca-disco em movimento, bem como quase todos já sabem, sol nem pensar (temperatura superior a 55º nunca), banho só em ultimo caso com sabão neutro, esponja muito macia e muita água para enxaguar.
Temos até uma receita para quem quiser lavar seus discos, tome muito cuidados com os rótulos (são de papel) e tome nota:
2 colheres de sopa de Lisoform (anti-fungo) e 1 colher de sopa de detergente neutro para uma quantidade de ½ litro de água, não use produtos a base de silicone, álcool e diluentes.
Fica o meu toque, Bruno Ventura, um colecionador (digger) para todos os DJ ´ s, colecionadores e amantes da cultura do disco de vinil, seguindo estas recomendações seus discos de vinil durarão em media mais 20 anos ...
Em algumas horas «perdidas», dando continuidade às minhas pesquisas por melhor conhecimento, relacionado a equipamentos.
Descobri algumas coisas interessantes relacionadas a toca-discos, cápsulas e agulhas.
Há alguns meses escrevi um texto sobre conservação de discos, agulhas e toca-discos, hoje vejo, de um modo diferente certas afirmações que fiz.
No caso dos discos ao que vejo, quanto mais usados mais agradável sua sonoridade se torna, no caso das cápsulas da Shure quanto mais uso mais resistente a saltos ela se torna, e assim vai numa seqüência de informações que irei novamente postar ...
tudo relacionado ao mundo dos toca-discos, discos de vinil, Grooves, Funk, Soul, Break-beats, Hip-Hop ...
Levando em consideração que cada DJ usa seus discos e equipamentos de um jeito, as agulhas Shure são sem dúvida as mais utilizadas hoje por os DJ ´ s da cultura Hip-Hop, sendo aprovada 100 % por quem a utiliza ...
Vejam esta parte do texto, (esta parte do texto foi traduzida e adaptada a partir de um artigo original publicado por a revista «Stereo Review, Volume 42, nº 6, de Junho de 1979».
O título original do artigo é «Keeping It Clean: Record Hygiene», de autoria de George Alexandrovich, técnico da empresa» Stanton Magnetics», fabricante de cápsulas para toca discos.)
«Há não muito tempo atrás estivemos testando a vida útil de um mecanismo de desligamento automático de um toca discos.
O braço do mesmo foi regulado para tocar a última faixa do disco, levantar-se e então retroceder ao inicio da mesma faixa e tocá-la inúmeras vezes, indefinidamente.
O toca-discos já tinha passado por 80.000 ciclos deste teste para comprovar a confiabilidade do mecanismo acima, quando então repentinamente nos ocorreu que tínhamos acabado de tocar parte de um mesmo disco 80.000 vezes, sucessivamente!
Nós corremos para ouvi-lo e para nossa admiração, ele na verdade soou melhor do que alguns de nossos discos menos tocados."
Vejam que fascinante, enquanto nós nos preocupávamos com o desgastes dos nossos discos, a Stanton em 1979, já havia realizado um teste, meio que sem querer, onde tocava um mesmo vinil cerca de 80.00 vezes, e este muito ao contrario do que muitos pensam, soava melhor do que os que tinham algumas poucas horas de uso ...
Por outro lado, as agulhas e cápsulas da Shure precisam ser amaciadas ...
Amaciamento de agulhas?
Não é bem assim, vamos a explicação:
Acelerando o Amaciamento (M 44-7 -- agulhas e cápsulas -- Shure):
-- O amaciamento normal leva cerca de duas semanas.
O cantilever passa por dentro de uma espécie de coxim de borracha, chamado bearing em Inglês.
Essa é uma parte crítica do sistema de suspensão da agulha, por dar resistência ao cantilever e, em conseqüência, o ajuste específico da força de trilhagem prôpria de cada cápsula.
Quando sai da fábrica, essa peça é rígida, daí a necessidade de seu amaciamento.
A resistência a saltos (Skip) aumenta com o uso.
-- Para acelerar o processo de amaciamento de sua nova cápsula, deixe-a apoiada sobre o sulco do disco, com o toca-discos desligado, durante duas horas a cada noite.
A natureza (gravidade) se encarrega do resto.
Conclusão:
Cai por terra algumas das «bobeiras» que temos com relação a equipamentos de DJ e discos de vinil ...
Falo assim, pois já escutei muitos DJ ´ s dizerem que não tocam com medo dos discos se desgastarem, e ficarem sem suas raridades ...
Pode ficar a vontade, tocar com bastante cuidado com os vinis, sem deixar cair líquidos estranhos, como, cerveja (isso em boate é quase normal) ou suor mesmo do rosto, pois estes sim, destroem o sulco dos discos de vinil!
Valeu ...
Bruno Groovy -- bruno deejay@yahoo.com.br para saber mais:
Número de frases: 54
Humberto Firmo
Em o ano do centenário de Niemeyer, de Manuel de Barros, do Teatro Municipal, umas das mais importantes atrizes do Brasil está esquecida e um dos mais claros reflexos disso é o seu teatro no centro do Rio, fechado e caindo aos pedaços.
Tudo por conta de politicagem e má administração.
Hoje o Teatro Dulcina é administrado por a FUNARTE, à época de seu fechamento era a prefeitura quem o administrava.
Com um projeto de 500 mil reais a prefeitura pretendia restaurar o teatro e deixá-lo exatamente como foi construído no século passado.
Foram conseguidos 400 mil reais para o projeto, faltaram 100 mil.
A obra não foi feita e no inicio desse ano a prefeitura devolveu a administração para a FUNARTE, que recebendo o teatro nessas condições, processou a prefeitura por o estado do espaço.
Por conta desse processo ninguém entra nem sai do teatro, nada acontece e ele continua com suas portas fechadas.
Já passamos o meio do ano do centenário e nada foi feito.
E as duvidas que ficam são:
É certo que um teatro tão importante como esse (foi lá que Dulcina iniciou a primeira faculdade de artes cênicas do Brasil), num local igualmente importante culturalmente para o nosso país como a Cinelândia, esteja fechado por o descaso de suas administrações?
É certo que numa obra de restauração para deixar o teatro como era, com seu palco italiano antigo, que hoje não reflete mais as necessidades das criações contemporâneas, custe 500 mil reais, enquanto uma obra emergencial para liberar o espaço para uso custaria muito menos?
E claro, onde estão os 400 mil reais conseguidos por a prefeitura?
Ontem, dia 20 de julho, um grupo de artistas que levanta a bandeira do Movimento DULCINELÂNDIA iniciou sua homenagem à atriz ocupando artisticamente a calçada da rua Alcindo Guanabara em frente ao teatro fechado.
Segundo seus organizadores, a ocupação de ontem pretende ser a primeira de uma série de cem, onde serão apresentadas performances, leituras, peças, filmes, shows, entremeados por informações sobre a atriz e sua história de quase cem anos de atuação no teatro brasileiro.
O Movimento pretende abrir a discussão sobre a situação do teatro junto a FUNARTE, inclusive sobre o projeto arquitetônico de restauração / reconstrução.
A organização, que em seu núcleo tem exclusivamente atores, cenógrafos, iluminadores e pessoas de teatro, diz que a FUNARTE e o seu diretor Sr. Celso Frateschi já foram contactados por duas vezes na tentativa de marcar uma reunião do movimento com a instituição.
A comunicação foi cortada quando souberam que o movimento queria colocar em pauta a abertura do teatro, sua reconstrução, sua arquitetura, e discutir sobre o teatro no Rio de Janeiro.
A reação do Movimento ao ser ignorado por a FUNARTE foi imediata -- Se o teatro está fechado e a instituição não responde, faremos na rua, em frente ao teatro.
Se aqui é um lugar pra se ter cultura e isso não acontece porque está fechado por descaso, denunciemos isso do lado de fora com cultura -- diz um de seus organizadores.
Primeiro Chute
O Ato-Manifesto de ocupação intitulado «Primeiro Chute -- 100 anos de Dulcina» iniciou com os atores colando imagens de Dulcina na fachada do teatro e pintando a porta de branco (onde mais tarde usariam como tela para projeção).
Quando a porta estava quase toda branca o segurança do teatro saiu para ver o que estava acontecendo, se deparou com a porta pintada de branco e foi buscar a policia.
Dois atores foram conduzidos para a 5ª DP juntamente com o segurança para esclarecimento.
Em a delegacia foram recebidos por a delegada de plantão Daniela que ouviu o relato do segurança e dos atores.
Percebendo que não se tratavam de pichadores e delinqüentes e que o objetivo era produzir um evento cultural a Del.
Daniela liberou todos, inclusive se comprometendo com o segurança em falar com seu patrão para que ele não fosse responsabilizado.
Resolvida a questão na delegacia e com a porta já pintada de branco o evento-ato-cênico-pôde continuar sem interrupções, recebendo grupos e artistas diversos, numa programação que ora parecia ser definida e roteirizada, ora parecia incluir as manifestações momentâneas de artistas e pessoas que se achegavam à roda.
Uma grande ágora, no mais grego termo da palavra, foi instaurada na rua Alcindo Guanabara, onde havia a participação das pessoas daquele lugar, das pessoas do centro da cidade, dos policiais, dos moradores e trabalhadores da cinelândia, e dos moradores da Ocupação Manoel Congo do Movimento Nacional de Luta por a Moradia, que ocupa há nove meses um prédio abandonado do INSS em frente ao teatro Dulcina.
A Ocupação Manoel Congo, com suas famílias e suas crianças participaram ativamente do Ato-Cênico apresentando o ensaio de sua quadrilha junina e ajudando a preparar o bolo que foi dado a todos presentes por o aniversário de 100 anos de Dulcina, feito em parceria com o Movimento Dulcynelandia.
Pessoas chegavam e ficavam.
Outras paravam por um tempo e iam embora.
Houve uma circulação, uma movimento de pessoas muito mais intensa do que aquele trecho de rua está acostumado numa tarde de domingo, pois há muito tempo o teatro Dulcina não abre as suas portas.
Os funcionários do bar ao lado do Dulcina confirmaram que se não fosse o evento eles não estariam abertos, pois não haveria para quem vender.
Com o som do dj e da música ao vivo as pessoas da Cinelândia foram se aproximando, se juntando às pessoas que estavam ali claramente por saberem do evento.
Presença importante de ser citada como a do poeta Guilherme Zarvos que foi até a pilha de livros-refer ência que estava à disposição do público e ficou bom tempo lendo e folheando informações sobre Dulcina, nos livros e textos que havia sobre a atriz.
O Movimento DULCYNELANDIA conta com apoio de diversos artistas que assinaram juntos a primeira carta que foi enviada ao diretor da FUNARTE.
Em as assinaturas dessa primeira carta, que conferi no blog do Movimento, constam nomes como os da cineasta Ava Rocha, do fotógrafo Cafi, e da atriz e cantora Mariana de Moraes.
Em o blog encontra-se também a segunda carta mandada para a FUNARTE, juntamente com belas fotos do Primeiro Chute e com textos sobre o movimento e esse primeiro dia de ocupação.
Fica claro, que a antropofagia impetuosa do Movimento Dulcynelandia de comer Dulcina e essa situação do seu teatro, acaba engolindo o tempo da burocracia e das respostas institucionais.
Percebe-se que a FUNARTE e o seu diretor ficarem ou não sabendo do que está acontecendo não impede nem atravanca as coisas de acontecerem, pois o tempo da arte e da resistência é mais urgente.
A ágora é movimentada por aqueles que a freqüentam, por aqueles que vivem de ela, por aqueles que se preocupam com seu entorno.
Se os diretores e dirigentes de órgãos e instituições culturais são os responsáveis por essa e outras ágoras da cidade é inerente, para que realizem um bom trabalho, que estejam presentes nessas ágoras para entender seus movimentos e se inserir trabalhando junto.
Afinal de contas os personagens da ágora:
o polícial, o artista, o comerciante, os moradores, os trabalhadores, o segurança;
cada um, na sua função social, possibilita e trabalha para realização do espetáculo.
Que no caso desta ágora é o encontro de todos para celebrar os cem anos de uma importantíssima atriz brasileira esquecida, em frente ao seu teatro igualmente esquecido e fechado.
Em o que depender de mim, darei toda ajuda que puder para que o grito desta ágora dulcynelândica chegue aos ouvidos dos responsáveis por o sucateamento que vemos atualmente na rede cultural da cidade e do país.
Dulcina foi uma importante personagem na luta por um novo Teatro e por a profissão do Ator.
Vamos comer Dulcina.
Ainda temos metade do ano.
Blog Movimento Dulcynelandia:
www.movimentodulcynelandia.blogspot.com Email Movimento Dulcynelandia:
Número de frases: 53
dulcynelandia@gmail.com Odilon Carneiro Quem escrever na busca do Overmundo o nome Paulo Simões vai encontrar dezenas de posts relacionados ao compositor de Mato Grosso do Sul.
Em abril de 2006, uma entrevista com este carioca por acaso e sul-mato-grossense por opção foi postada por a jornalista Gisele Colombo.
Mesmo assim, decidi postar a recente entrevista que fiz com «Paulinho» aqui no Overblog por acreditar que ele fala de coisas que podem gerar uma reflexão não só no leitor de MS, mas de todo o país.
Encontrei o Simões em seu apartamento, numa bela manhã campo-grandense.
Praticamente não falamos nos projetos que ele está tocando no momento.
A idéia foi contar os primórdios da cultura de MS, explicar algumas histórias e refletir sobre o momento cultural do Estado.
Paulo Simões é autor de muitos hits sul-mato-grossenses.
Um de eles, Trem do Pantanal, já virou hino não oficial do MS.
Outros, como Sonhos Guaranis, são verdadeiras aulas de História.
Jornalista formado -- na Puc / RJ -- chega aos 55 anos com apenas quatro discos lançados, mas a sua obra é extensa.
Com vocês:
Paulo Simões!
Rodrigo Teixeira -- Misturar o urbano com o rural é quase uma obsessão na música de MS ...
Paulo Simões -- Não pra mim.
Mas não é algo que despreze.
Como a música de raiz foi importante no início das minhas atividades fiquei com esta marca de gostar de mesclar as duas coisas.
Quando era garoto em Campo Grande, eu era roqueiro e as opções musicais não eram muitas.
Guri não tinha disco, nem acesso a dinheiro.
Então tinha que escutar discos dos pais ou irmãos.
E meus pais tinham um gosto eclético e eu escutava Ary Barroso, Noel Rosa ...
Meu pai é carioca e escutava os primórdios da Bossa Nova.
As minhas irmãs mais velhas, que tinham aulas de violão, conseguiam uns discos de Elvis Presley e Pat Bone.
E aí eu descobri o rádio.
O que Campo Grande oferecia de música ao vivo?
Limitava-se a três vertentes:
música paraguaia e latina nas churrascarias e festas em fazendas e, eventualmente, em festas aqui em Campo Grande;
grupos de baile que tocavam pot-porri de tudo e música sertaneja, que se se limitava a alguns programas de rádio ao vivo.
Era um programa dominical.
Eu ia à missa cedo, para ficar desobrigado, e passava na PR-7 ou Educação Rural.
Assisti a muitos shows de Délio e Delinha.
Esta música local de Délio e Delinha, do final dos anos 50, chegava aos jovens?
Qual era a relação?
O rádio era muito importante, porque não havia tevê.
Todo mundo ouvia rádio.
Uma das lembranças mais vivas disso era acordar.
Quando acordava já se ouvia o rádio em volta.
Porque não tinha transito, barulho ...
Eu ia até a escola (Dom Bosco) a pé e ouvindo os programas sertanejos.
A rua vazia, passava a carroça vendendo leite ...
Era o streaming radiofônico até a escola.
Ia escutando música sertaneja.
Gostava de ouvir música.
Não sabia o que era aquilo.
A música sertaneja e paraguaia têm tanta importância no trabalho e na musicalidade dos músicos que foram criados em MS por o fato de que você, quando escuta música nos primeiros anos de sua vida, não racionaliza, apenas ouve.
É totalmente sensorial.
E esta música penetra fundo.
Não importa se é moderna, boa ou ruim.
Pode ser que o patamar esteja diminuindo, certamente está porque tudo é mais precoce, mas na minha idade até os 8 ou 9 anos escutava música como escuta hoje motor.
Era algo que estava em volta.
O que está no cerne da musicalidade é aquilo que é o que se escutou quando criança mais o que se escutou e gostou.
Nunca é uma coisa ou outra.
A minha base musical é música popular urbana, mais alguma coisa de música internacional e mais um pouco de rock, até porque se distinguia do resto e era obviamente música para gente mais nova.
Tipo, isto aqui é mais para nós.
Eu ia ver Délio & Delinha, Amambaí e Amambaí porque tinha esta relação de público e palco.
Era música ao vivo no formato show, com aplausos e aquela relação de público e palco.
Não era grupo tocando para nego dançar ou comer.
Era autoral.
Eram aonde estes shows?
Me lembro mais dos que eu vi na Educação Rural na época que era na Rui Barbosa, entre Dom Aquino e Cândido Mariano, na Casa do Bispo que era grande.
A rádio funcionou lá uma época e tinha um auditoriozinho.
E também tinha o auditório da PR-7, que era na Calógeras.
Você venceu o festival em dezembro de 68 e foi para o Eua?
E em janeiro de 69 fui para os Eua, na Grande Detroit.
No meio disso passei por o Rio e presenciei de perto a edição do Ai-5, que foi dia 13 de dezembro.
Estava no Rio, minhas irmãs estudavam Direito e sabiam o que estava acontecendo.
Eu lia jornal diariamente.
Um belo dia, o jornal veio esquisitão.
Só viajei no início de janeiro, sentindo uma transição de sair daqui de Campo Grande como uma promessa de músico com uma carreira por a frente e passar por o Rio de Janeiro e tomar um choque de realidade brasileira.
Foi um cascudão.
E estava indo para os Eua, onde os horizontes estavam todos abertos.
1969 foi o ano de Woodstock, Altmont, o homem pisou na Lua ...
Assisti à posse do Nixon por a tevê assim que cheguei.
Foi quando os Eua pisaram no acelerador na guerra do Vietnã.
E lá, ao contrário daqui, a informação estava totalmente aberta.
Eu era o único da minha família americana que lia jornal, o resto fazia palavra cruzada.
Como era ler o que estava acontecendo no Brasil sem censura?
Era tão estranho que chegava a duvidar.
«Será que é isso mesmo?"
Até porque os Eua têm um absoluto desconhecimento, até hoje, do que acontece no resto do Mundo.
O Bush não se cansa de demonstrar isso.
E aí eu só tinha um jeito de saber:
escrevendo cartas.
E como burro eu não era, o meu pai tinha sido juiz da justiça militar.
Eu sabia o que estava acontecendo politicamente.
Por isso escrevia cartas meio cifradas, jogava verdes, iscas e recebia respostas em que tinha que somar o quebra-cabeça.
Ninguém queria arriscar.
Você fez duas viagens a Machu Piccho.
A segunda foi a mais famosa, quando você e o Roca compuseram Trem do Pantanal, em 1975.
Quando foi a primeira?
Um ano antes, com o Antônio João Figueiredo, filho do Coronel Afrânio de Figueiredo, então chefe do SNI do estado do MT, que era filho Arnaldo de Figueiredo, ex-governador do Estado.
O Afrânio era amigo do então presidente Garrastazu Médici, que tinha servido em Campo Grande e eles jogavam baralho quase todas as noites.
A gente foi em março de 1974, o ano da minha formatura.
Nos convenceram que era perigoso ir por terra.
Fomos para o Rio de Janeiro esperar uma carona do avião militar e esta carona não se concretizou.
Saímos no dia que começavam as aulas.
O Tão também fazia PUC.
Foi tudo de ônibus, do RJ até Campo Grande.
Depois de trem até Corumbá e de trem até Santa Cruz La Sierra, na Bolívia.
De ônibus até La Paz e Peru.
Depois trem até Cusco e Machu Piccho.
Tivemos que fazer a viagem clandestinamente não só para as nossas famílias como para o SNI, que depois do sumiço nosso do Rio começou a nos procurar.
E a segunda, com o Roca, em 1975, foi o mesmo trajeto?
Primeiro teve um ensaio da viagem, que foi em abril.
O meu parceiro de viagem Geraldo Roca teimou com mim, que já havia feito à viagem, de que não era necessário o passaporte.
Acho que aí fomos até Corumbá e voltamos para Campo Grande por a teimosia do Roca.
Em a verdade, eu estava foragido do mercado de trabalho jornalístico no Rio.
Me formei e não tinha interesse em trabalhar em jornalismo.
Primeiro porque estava acreditando na minha carreira musical.
E segundo porque era governo Médici e não era muito engraçado ser jornalista, ainda mais na área cultural.
Era tipo escrever e ter que reescrever porque cortavam tudo.
Então eu viajava o máximo que podia, para o MS também, só para não ficar no RJ e a minha família me arrumar trabalho.
Em que momento da viagem nasceu Trem do Pantanal?
A música nasceu em abril de 75, algo entre o dia 17 e 21.
A gente acabou ficando dois meses lá.
Mas onde exatamente vocês estavam?
Em o trem em Campo Grande.
Exatamente na primeira noite de viagem, depois da minha mãe ter ido tentar me convencer a não viajar.
Enfim, eu e o Roca fomos para o restaurante comemorar a viagem e tomamos um monte de cerveja quente e fomos para a cabine.
Os violões estavam em cima da cama e o Roca começou a cantarolar a melodia e saiu a música e algum dos versões.
Fomos completando a música por a viagem.
Inclusive muitas coisas foram deixadas de lado.
O nome original era Todos os Trilhos da Terra!
O que representou para você a Liza Bogallo, uma cantora paraguaia, ter gravado em castelhano o Sonhos Guaranis?
É uma maneira de reconhecer este discurso da letra em que fala da Guerra do Paraguai que sangra até hoje?
Tem um significado cultural importante.
Porque esta música rende uma homenagem merecida ao tributo que a gente tem como povo e nação com o Paraguai e os nossos vizinhos latino-americanos.
O Brasil é uma potência e naturalmente levado a dar um chega para lá nos menores.
Isso é mediado por a evolução da história e da cultura de um povo.
E esta música foi feita num momento em que também se havia uma cicatriz se formando que foi a Guerra das Malvinas.
Por coincidência o Almir tinha lido o livro Genocídio Americano e comentado com mim, eu peguei emprestado e estava lendo quando a Malvinas estourou.
O livro me interessou porque os livros didáticos sobre a Guerra do Paraguai sempre tratam de uma forma sempre simplista, tipo heróis de um lado e bandidos de outro.
Uma batalha era descrita como o momento em que a Tríplice Aliança tinha passado a fio de espada os soldados paraguaios, onde a maioria era criança.
Esta frase não cola no contexto do heroísmo.
Como é que um exército de heróis liderado por o grande Caxias está lutando e derrotando crianças, passando a fio de espadas?
O livro do Chiavenatto não é perfeito, mas faz pensar.
Um raio cósmico fez com que a gente começasse a música com versos contundentes.
Poderia ter sido uma guarania romântica.
Era delicado mexer com o assunto da Guerra do Paraguai.
O Almir e eu conhecemos o Sylvio Back e ficamos sabendo que os paraguaios chamam de Guerra do Brasil.
A letra indica que a fronteira era algo em comum.
A grosso modo eu não sei o que o povo paraguaio pensa desta música.
Em a única vez que fui ao Paraguai acabei tocando Sonhos Guaranis numa festa e estava um dos músicos que são considerados os criadores da guarania.
No meio da música percebi que ele estava passando mal.
A mulher de ele saiu e colocou um isordil sublingual.
Ele se emocionou realmente.
O Almir tinha ido uma vez a Assunção, e o que quer dizer esta música é algo tão profundo e misterioso, que ele não tocou no show de ele.
Ainda estou curioso para saber como é que vou me sentir ouvindo uma cantora paraguaia cantando Sonhos Guaranis.
Pode ser que precise de um isordil sublingual também.
O Roca fala que Trem do Pantanal é uma música não entendida.
Qual é a sua interpretação?
Ela usa a natureza como cenário, no sentido do que o John Ford usava as paisagens do oeste americano para fazer faroestes.
De a mesma forma, a gente captou o cenário do Pantanal com uma mente de certa forma angustiada com alguma coisa.
Ou comovida ...
Eu não me atreveria a dar uma visão acabada.
Porque é bem possível que a gente não soubesse o que estava fazendo.
Se for verdade que um artista pode ser uma antena para captar as coisas, e acredito nisso, a gente captou coisas que não são nossas.
Como responsável maior por a letra, comprimi nesta viagem que estava começando, mas que continuou com elementos também da primeira viagem.
Mas a música não precisa ser entendida e sim ser sentida.
E as pessoas acabam se apropriando e acrescentando interpretações que não estavam na cabeça de quem fez e que não quer dizer que não sejam verdadeiras.
Esta música é um retrato emocional da nossa geração, o que não impede que outras gerações tenham interpretações semelhantes.
Porque a história é cíclica.
O diferencial de MS, que é esta característica sul-americano, torna-se a maior dificuldade em penetrar na alma brasileira.
Concorda?
O nosso perfil não foi ainda definido.
Então o resto do Brasil também tem problemas em perceber este perfil e aglutina-lo.
O máximo que «eles» conseguem nos ver é como pantaneiros.
Até que ponto você acha que isto tem a ver com o nome do Estado?
Tem tudo a ver.
Você é a favor de mudar o nome para Estado do Pantanal?
Totalmente e digo por quê.
A divisão, que eu conheço desde garoto, porque meu pai é divisionista, batalhava por uma causa justa.
Havia motivos sociais, culturais, políticos e econômicos que justificavam a divisão.
Mas o Norte não queria por achar que sairia perdendo.
Isso foi indo até o momento que o governo militar falou «chega destas quexúnculas locais e nós vamos fazer a divisão porque é bom para o Brasil».
O que poderia ter acontecido de uma forma democrática acabou sendo imposto.
Mas aí os nossos irmãos do Norte -- e adoro Cuiabá e tudo mais -- até por eles centralizarem o poder e o palco político do Estado, e por o temperamento cuiabano, demonstraram mais habilidade política do que os do Sul.
Quando o Geisel disse:
«Decidam como vão se chamar porque vamos dividir de qualquer jeito."
O pessoal do Norte falou:
«Nós não queremos mudar o nosso nome.
Queremos continuar Mato Grosso.
Vocês podem se chamar como quiserem.
Estado de Campo Grande, Estado de Maracaju ...».
Os políticos do Sul e as lideranças culturais não estavam atentos para a boa técnica federativa republicana.
Este processo de divisão de estados grandes acontece cedo ou tarde.
O modelo brasileiro tenta imitar o modelo norte-americano, que é o mais bem-sucedido no mundo.
Só que lá todos que são divididos ou mudam de nome ou fica do Sul e do Norte.
E aqui se inventou esta história de só um dos Estados botar do Sul.
Isso foi aceito por os políticos e por a sociedade.
Se tivessem não aceitado teria acelerado o processo da criação da identidade no Sul.
Teria sido o correto:
Mato Grosso do Norte e Mato Grosso do Sul. Não foi feito.
Os prejuízos são imensos para o Sul.
Não aconteceu por comodismo, medo, conformismo e preguiça de sacudir as coisas.
Em vez de ficar mendigando para o governo federal, vamos começar de novo e fazer a coisa certa.
Está errado, mas vamos deixar se perpetuar até quando?
A grife Mato Grosso tem importância e um peso histórico, inclusive internacionalmente.
Roosevelt veio ao Brasil e queria caçar no Mato Grosso com o Marechal Rondon.
Mato Grosso é uma palavra poderosa.
Que inclusive não tem mais a ver tanto com a realidade do Sul.
O mato grosso já é quase nada.
Mas nós temos outra grife valorizada que é Pantanal.
E como a maior parte fica em Mato Grosso do Sul, nada mais justo que mudar para Pantanal.
E quando eles (o Norte) quiserem se referir ao Pantanal de eles, podem chamar de Pantanal do Norte.
Não é birra.
É equilíbrio.
Mas isso é coisa que artista fala porque sente, mas duvido que nosso povo tenha esta coragem de reconhecer o erro que está causando prejuízos e pode ser cada vez maiores na medida em que a indústria do turismo se sofistica e cresce.
Você foi um dos primeiros a fazer música urbana aqui em Campo Grande no final dos anos 60 com a banda Bizarros.
Como você analisa a evolução desta música na Capital?
Vejo uma vitalidade.
Pelo menos em número.
Uma coisa difícil de imaginar.
Trabalhos roqueiros se proliferando tanto.
Algumas bandas tem linhas definidas e soam diferentes das bandas que aparecem na mídia Rio-SP.
E menos barulhentas, do que o mainstream do rock atual, que segue fórmulas bem definidas.
E que abrem espaço para a grande arma para ir mais adiante.
Que é aproveitar as jóias e pepitas, os metais preciosos, que são as criações dos compositores que os precederam, esta geração que faço parte com Roca e Geraldo Espíndola, compositores que conseguiram chegar a uma identidade musical que existe e não se mistura.
É a forma destas bandas terem uma penetração maior do que teriam investindo apenas em material próprio.
Em todo o mundo, como os Beatles e Rolling Stones, na fase de fixação, interpretavam as músicas de Chuck Berry, Jerry Lewis, Little Richards ...
Abrindo o leque do repertório você atinge mais público.
O governo lançou o Kit Musical para incentivar que as rádios do Estado toquem música regional.
Mas a rádio do próprio governo toca apenas uma música de MS a cada hora.
Como você vê a questão das rádios em Campo Grande para o espaço para a música autoral de MS?
A rádio do governo não fala os nomes dos compositores das músicas.
O que é obrigatório por lei.
Mas sou realista o suficiente para achar que algo vai mudar substancialmente em pouco tempo ou até em médio prazo.
Por mais elogiável que o Kit seja.
A idéia é boa e já teve iniciativas semelhantes.
O próprio Prata da Casa era um meio para chegar às rádios.
Este kit é um neto do Prata da Casa.
Mas aí entra o choque da realidade.
Rádios são negócios, embora sejam concessões.
O meio político não achou ainda vontade, até porque ainda não foi pressionado por os eleitores a fazer valer certo equilíbrio.
Se uma rádio é uma concessão pública, o governo tem o direito de exigir que, para a renovação da concessão, os empresários que resolvem explorar aquele negócio dêm em troca um espaço.
Pode ser até pequeno para não prejudicar, tipo de 5 % do tempo para produção local.
Isto seria fazer valer a lei.
A Constituição diz isso.
Uma questão que foi abandonada e foi uma decepção para mim é que a rádio Educativa, que é do governo e do povo, teria a obrigação constitucional de dar o crédito não só dos cantores, mas dos compositores também.
Isso sim seria fazer política cultural.
Para que o compositor não seja um eterno desconhecido.
E para completar falta o principal.
Que é a atitude do nosso público.
Falta nível cultural e mental para que as pessoas em vez de reclamar da programação nos barzinhos, façam valer o direito de consumidor.
Ligar para a rádio ou mandar e-mail para as rádios e fazer acontecer o feedback, que é o que faz a Globo matar o personagem em determinado ponto da novela.
É a hora de falar:
«Escuta, por que a Rádio não toca a música de MS?».
Fazer valer a outra ponta.
Sem isso não tem Kit, benção divina ou maldição dos infernos que irá alterar este cenário.
Por que não se forma um mercado regional em MS?
O que parece é que a nossa fronteira com São Paulo é invisível.
Deixam que os paulistas tratem de ele.
Por que Três Lagoas não é tratada como Corumbá?
Sendo que está ao lado de São Paulo e teria uma força grande?
Falta de visão estratégica dos envolvidos.
Autoridades da área cultural também.
Sempre faltou um clique.
Os artistas populares também não planejam.
Pensam em shows e discos para teatros.
Isso a grosso modo.
O repertório é voltado para platéias que não existem nem aqui em Campo Grande.
E se não querem fazer shows para cá para que morar aqui.
Tem que ter uma estratégia que enfoque o estado em que você mora.
Quem não faz concessões?
O Chuck Berry sempre procurava agradar as platéias.
Falta uma maturidade intelectual maior.
Falta os músicos estudarem a sua profissão.
Não só música, mas sobre a sua profissão.
Ler histórias e biografias.
Comparar experiências.
Ter parâmetro.
E isto não existe.
Dizem que o Trem do Pantanal vai voltar.
O fato do Trem não poder chegar mais na sua estação original no centro de Campo Grande, metaforicamente, tem alguma relação com o momento atual que a cultura de MS passa?
As transformações que foram feitas no cenário e no entorno da estação ferroviária acabaram amputando uma boa parte da história de Campo Grande.
Como artista e como cidadão não vejo lucro nisso e sim prejuízos.
Eu viajo bastante e conheço lugares aqui e no Exterior que são valorizados em função da história que podem apresentar.
Como Campo Grande cresceu em função do trem e da ferrovia você descaracterizar este cenário significa uma amputação de elementos históricos.
Que seria impossível de acontecer em lugares que pessoas de Campo Grande vão visitar e babar e quando voltar criticar dizendo que " Campo Grande não tem nada.
Eu fui a Amsterdã, em Veneza e como são maravilhosas».
Mas isso é uma ação nefasta que acontece em todo o Brasil e não só aqui.
Primeiro se livra do passado em função de um futuro que não chegou e pagamos o preço do presente empobrecido.
Não posso concordar com isso e nem ver lucro para gerações presentes e muito menos para as futuras.
Número de frases: 282
* Parte desta matéria foi publicada no jornal O Estado de MS!
O texto do dramaturgo e jornalista gaúcho Caio Fernando Abreu é o ponto de partida para a pesquisa e criação dos atores Aline Meyer e Leandro Valle de Florianópolis -- SC, eles pretendem montar a peça Zona Contaminada, apresentando uma adaptação inédita com somente dois atores em cena, o texto original traz 4 personagens e um coro, onde Caio os denomina de «coro dos contaminados».
Zona Contaminada, como diz o próprio autor «pode ser tanto uma comédia negra, modesta, ou um espetáculo alucinado» e partindo desta «autorização» Leandro Valle segue na adaptação que começou em 2004 e está sendo finalizada agora neste semestre.
O espetáculo será montado a partir do 2º semestre de 2007 com estréia prevista ainda este ano.
A proposta central e através deste trabalho, tornar as obras de Caio F. mais evidentes em SC, PR e mais intensas ainda no RS, estado natal de Caio, que pouco o conhece.
Claro que graduandos em artes cênicas e artistas interessados em dramaturgia conheçam algumas obras de um dos maiores contistas do Brasil, mas nunca é demais citar e apresentar Caio para todos, sobretudo para os veteranos que normalmente buscam na Itália de Dario Fo, na Irlanda de Beckett ou na Rússia de Tchekov, propostas de montagens, que com certeza contribuem e muito para o teatro brasileiro, mas que ao contrário, poderiam contribuir ainda mais com Caio e outros grandes nomes da dramaturgia nacional.
É importante lembrar que não há erro em exaltar e difundir textos internacionais, óbvio que a cultura é universal e deve atingir a todos, interessados ou simplesmente o público em geral, sempre de forma atraente e inovadora.
Mas tratando-se de Caio Fernando Abreu, é uma grande honra torná-lo acessível cada vez mais.
Participando da montagem do texto Sarau das nove as onze no ano de 2001 no Teatro Metrópole (Teatro Municipal) em Taubaté -- SP, Leandro teve a certeza de que o texto de Caio estava contaminado, não por o vírus HIV, que infelizmente levou nosso dramaturgo em 1996, mas sim de emoção, protesto e mensagens de Basta!
para uma sociedade com uma arrogância atemporal, e sem limites para a auto-exposi ção da (des) graça humana, provando que o ser humano deixou de ser «humano» há muito tempo, tornando seus textos um verdadeiro presente para qualquer interprete!
Mas além de emocionar, Caio fala, mesmo após o início de seu eterno silêncio, nos fala com suas crônicas, contos, textos, resenhas e reportagens.
Com mensagens que valorizam a arte, a amizade e o respeito (principalmente o respeito às diversidades sexual e cultural no Brasil e no Mundo).
Procure saber mais sobre Caio Fernando Abreu, e descubra a emoção daquele que nos seus 47 anos de vida, amou a vida, sem limites!
Links para conhecer Caio:
www.pt.wikipedia.org/wiki/ Caio Fernando Abreu
www.mixbrasil.uol.com.br/cultura/panorama/caio/caio. shl
www.releituras.com/caioabreu menu.
Número de frases: 17
asp Uma triste realidade encontra-se presente no Rio Grande do Sul, a falta de esclarecimento e de um debate público acerca da vinda de empresas de celulose para a nossa região podem ocasionar diversos danos ao meio ambiente e serão responsáveis por a, falta de água, a desertificação do clima, o ressecamento do solo e a diminuição da biodiversidade, além de atenderem apenas aos interesses financeiros da classe dominante aliada ao capital estrangeiro.
A investida das empresas de celulose no Rio Grande do Sul é antiga, durante a década de 1970, com o apoio da ditadura militar, o capital sueco e norueguês trouxe as fábricas de celulose para o Brasil, na época, se apoderaram de 18 mil hectares de terras, desalojando indígenas, quilombolas e camponeses.
Foi no ano de 1989 que a realidade pôde ser sentida mais de perto por os gaúchos, o município de Rio Grande era o alvo das fábricas de celulose, onde seria construído um pólo de celulose próximo ao Balneário do Cassino, porém, devido uma série de pesquisas e denúncias por parte do Centro de Estudos Ambientais (CEA), Fundação Universidade Federal de Rio Grande (FURG), sindicatos e a população em geral, foi possível barrar a vinda dessas empresas para " Zona Sul do Estado.
«Em aquela época fizemos um abaixo assinado com 30 mil assinaturas» disse Luiz Rampazo, um dos fundadores do CEA.
Em o final dos anos 1970 a situação era menos dramática, havia uma fiscalização dos ganhos de quem plantava essas árvores exóticas.
Eram contratadas pequenas e média, empresas, entre elas:
Trevo florestal, Flopal, Santa Úrsula, Pró-sul e Petropar, para fazer o plantio de pinus de eliótis e eucalipytus e acácia negra, hoje é apenas a Votorantim Celulose e Papel (VCP), que está plantando aqui na metade sul, sendo a única a lucrar com esse investimento.
Essas empresas, com o passar do tempo começaram a estudar a região sul e perceber que é um lugar onde o crescimento de espécies como o eucalipto, é três vezes mais rápido, devido ao clima, a qualidade do solo e a abundância de água.
O eucalipto é nativo Australiano, ocorre em regiões mais úmidas da Austrália, porém não é só o clima que facilita a vinda dessas fábricas para nossa região.
«A fiscalização ambiental e a cidadania ambiental são falhas.
Embora a nossa legislação ambiental seja a mais avançada do mundo, a comunidade não tem conhecimento da legislação e das questões ambientais para que possa cobrar " disse Luiz Rampazo.
O Governo do Estado do Rio Grande do Sul já demonstrou sua posição favorável as empresas de celulose.
Através da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM) foi concedido uma Licença de Operação para que as fábricas continuem plantando sem o estudo de impacto ambiental.
A Votorantim Celulose e Papel está em processo de estudo aqui na região, porém, já está plantando e comprando hectares de terra.
«Em primeiro lugar deveria se fazer o Estudo de Impacto Ambiental (Eia), onde aponta-se todas as conseqüências do empreendimento e se traduz para uma linguagem mais popular, depois se faz um Relatório de Impacto Ambiental (Rima), e isso tudo tem que passar por uma audiência pública onde a comunidade vai poder contestar e dar opiniões sobre o estudo «disse Cíntia Barenho, membro do CEA, e argumentou,» Isso não aconteceu e esperamos que aconteça para que agente também possa ser ouvido por as empresas "
A ONG Amigos da Terra, entrou com pedido no Ministério Público Estadual para que as empresas de celulose que estão plantando no estado do Rio Grande do Sul parassem o plantio imediatamente, essas empresas são:
A Votorantim na região sul do Estado, A Stora Enso na Zona Oeste e a Aracruz que está instalada no município de Guaíba.
A direção do Ministério Público Estadual concedeu um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) a essas empresas, no qual elas obtiveram um prazo para apresentar o Eia e o Rima sem ter que parar com o plantio.
«As empresas de celulose não estão passando por nenhuma audiência pública e estão tendo uma licença para degradar o meio-ambiente» disse Rampazo.
Rateio do ICMS -- Todos querem uma fatia do bolo
Em a quinta-feira déia 24 de Agosto de 2006, a Câmara de Vereadores da cidade de Pelotas, aprovou o projeto que dividirá o valor do Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), referente a planta industrial da VCP.
Essa repartição do valor do ICMS é a prova de que os prefeitos da Região Sul:
Pelotas, Rio Grande, Capão do Leão, Cerrito, Arroio Grande e Pedro Osório, tem apenas um interesse, distribuir os lucros que serão gerados por a Votorantim, sem se preocupar com os verdadeiros investimentos que a nossa região tanto carece, como o incentivo ao turismo e à agricultura familiar.
Estes teriam resultados muito melhores para o desenvolvimento da nossa região.
As monoculturas de eucalipto geram apenas 1 emprego a cada 185 hectares de terra, enquanto a Agricultura Familiar, gera 5 empregos por hectare.
O avanço do eucalipto é uma séria ameaça a diversidade, aos animais e ao pampa gaúcho podendo provocar muitos danos a biodiversidade.
A aprovação do rateio do ICMS foi a prova de que justificativas como, a estagnação econômica e a falta de empregos na região, dadas por os representantes do Governo local para a instalação da fábrica de celulose da Votorantim aqui na metade sul, são apenas parte da defesa de interesses ideológicos aliados ao capital internacional e com objetivos bem claros, pretendem amenizar a crise econômica da região sul temporariamente, sem pensar nos danos futuros que esses empreendimentos irão gerar.
Número de frases: 27
Não é um desperdício a TV pública produzir conteúdo semelhante ao da TV comercial?
Tiro por a culatra, já que por a defasagem e abandono recorrente em boa parte das 1.885 emissoras do tipo (Abepec, 2005), o mais provável de se assistir é uma programação enfadonha e burocrática.
A o apresentar o Sopa Diário aqui no Overblog, coloco «na roda» um exemplo local perfeitamente replicável de acordo com as diversas realidades do país.
Experimental, bem-humorado e críticamente contextualizado com as discussões do momento, a Sopa está na telinha todo dia, das 12h às 13h, ao vivo por a TV da Universidade Federal de Pernambuco (TVU -- Canal 11).
Mistura de programa de música, entrevista e debate, há mais de três anos o Sopa Diário está no ar trazendo «a visão do prato por a ótica da mosca».
Em o mesmo horário sofrido daqueles insuportáveis programas do tipo porta de cadeia, onde a periferia só se vê morta ou enjaulada.
Feito na hora, «como caldo de cana», o programa incorpora o improviso e os problemas técnicos como recurso de linguagem.
mais de 500 bandas brasileiras e estrangeiras subiram em seu palco.
Tudo isso, somado à figura do apresentador Roger de Renor, faz do Sopa Diário um programa vivo, imprevisível, conectado com a cidade, e acima de tudo, independente.
«São três anos no ar.
Faustão ou o Luciano Huck não agüentam nem dois minutos sem ibope, Bope, ou vender celular», brinca Roger, cujo termômetro para medir a audiência consiste de uma " gréia ":
quem trouxer uma mosca feita de material reciclado, ganha uma camiseta dos três anos de programa.
Durante algumas semanas, todo dia tinha fila na porta do estúdio.
A festa de aniversário foi mês passado, no Nascedouro de Peixinhos, espaço cultural situado num bairro com tradição de movimentos culturais (taí outra bela história pra contar no Overmundo).
O convite virtual não poderia ser mais inusitado:
uma chamada televisiva narrada por o apresentador do vizinho ao Sopa na grade de programação, «Samir Abou Hana,» o secretário da cidade».
Não pude estar lá, mas só por a programação o momento deve ter sido memorável:
shows de Lula Queiroga, Mestre Galo Preto e Tronco da Jurema, e Mundo Livre com participação especial de Cannibal (Devotos), Pácua (Via Sat), e Lamento Negro, sendo este último grupo uma das inspirações que levaram Chico Science a formar a Nação Zumbi.
Soube que deu tanta gente que faltou cerveja.
«A programação foi feita da forma mais democrática possível», garante o apresentador.
Ele explica que a escolha por o Nascedouro tem a ver com a próxima etapa do projeto, que pretende produzir o programa 100 % fora do estúdio, em bairros da periferia da cidade, como a Bomba do Hemetério, Alto José do Pinho, " Roda de Fogo.
«Quero mostrar a melhor parte desses lugares».
Roger é bastante popular na cidade, e não só porque aparece todo dia na TV.
Antes mesmo de ser eternizado por a voz de Chico Science e Gilberto Gil na canção «Macô», do álbum Afrociberdelia, ele já agitava a noite o Recife dos anos 90 com o bar Soparia, sede» lúdica, etílica e sentimental " da biodiversidade que formou o manguebit.
Em fevereiro de 1997 Roger fechou a Soparia, alegando ser impraticável conviver com a violência e o tráfico de drogas ao redor.
Insistiu com o Pina de Copacabana, em outro endereço.
Quando encerrou definitivamente a carreira de dono de bar, há seis anos, começou como comunicador.
Primeiro, com o programa Sopa da Cidade, que inclusive transmitia ao vivo os shows do Abril Para o Rock.
Depois, com o também radiofônico Cidade de Andada, transmitido de algum ponto da cidade com uma banda ao vivo e interação com o público.
Em meados de 2002, estreou na TV comercial com o Som da Sopa, para migrar em 2004 para a TVU como Sopa Diário.
Desde o começo do ano, Roger ataca também na internet, inclusive no Overmundo (perfil e textos aqui).
O próximo projeto on line é transmitir um programa de entrevistas no bar da Francinete, tradicional prostíbulo na frente dos armazéns portuários do Recife Antigo.
Entrevistei Roger numa terça-feira, minutos após o programa terminar.
Em o camarim, ele falava compulsivamente enquanto trocava a roupa:
«Programa ao vivo é assim, depois que acaba tem que dar uma acalmada, senão eu falo três horas sem parar».
A conversa foi quase toda sobre o programa, feito em parceria com a turma da TV Viva de Olinda e o OmbudsPE, projeto que discute a mídia sob o ponto de vista dos direitos humanos.
Como nasceu o Sopa Diário?
Quando tinha o programa de rádio, as pessoas diziam que ele poderia muito bem ser feito para a TV.
Então fiz um projeto para a prefeitura, mas era muito verde, tinha o objetivo de mostrar que a gente podia produzir aqui um programa com a mesma qualidade dos feitos no Sul.
Para isso chamei a produtora Luni, de Lula Queiroga.
Fizemos dois programas primando por a qualidade técnica, com as principais bandas de Pernambuco, como Mundo Livre, Nação Zumbi, Mestre Ambrósio.
Programa de estúdio, feito com apresentador, programa de música mesmo.
Eu arrumado, estúdio montado, pessoal técnico, som vindo de São Paulo ...
Gastamos 40 contos nesse programa -- foi barato para o que se gasta num programa gravado.
A gente provou que podia fazer, mas provou também que a qualidade técnica não adianta nada.
O problema realmente é a falta de uma visão mais aberta da parte de quem faz televisão aqui.
A TV Guararapes (que retransmite a Band) veiculou o programa aos domingos, 10h30 da manhã.
Nem eu mesmo via a porra do programa.
O que eles vendiam, repassavam para a gente.
Mas eles não vendiam nada, a gente não vendia nada.
A gente estava lá há mais de um ano, mas ninguém sabia quem eu era.
Um dia chegou alguém lá que pagou 1 real a mais -- a gente não pagava nada -- e na quinta-feira disseram que no domingo não teria mais programa.
Aí a gente ofereceu à TV Universitária.
Eu já estava mais conhecido porque tinha feito quatro episódios do «Brasil Total» com a Regina Casé, em rede nacional no Fantástico, e isso abriu as portas aqui.
Depois, com o apoio do Funcultura quis fazer diariamente, pra provar que a gente tem condição de fazer ao vivo, com banda tocando.
Decidimos fazer a banda de âncora, e eu pagando de DJ, para um papo «mais reto» que a gente quer ter com a galera.
Mais chegado com a moçada.
Porque música por a música não dá pra ter nessa cidade.
Deixa para os caras da MTV e seus patrocinadores fortes.
Com o Funcultura, queremos usar a música para tentar melhorar as coisas de alguma forma.
Tentamos compensar essa falta técnica de edição, de imagem, de estética, com a informalidade, com a abordagem regional, com a minha forma íntima de lidar com as pessoas e a cidade.
Desde quando vem a parceria com a TV Viva?
A parceria entre eu e Duda (Homem de Melo, diretor da TV Viva) vem do tempo da Soparia, em 1991.
Já conhecia a TV Viva antes, por conta das coisas que eles faziam em Olinda, mas nem sabia que eram feitas por eles.
Porque eles eram personagens da vida boêmia de Olinda, por estarem tomando alguma atitude.
Quando começou o bar, como as bandas tocavam lá, eles chegaram e fizeram os primeiros clipes das novas bandas.
O clipe do «Mestre Ambrósio Forró Pé-de-calçada» foi feito por a galera.
Isso já faz 11 anos ...
Eles têm um histórico de clipes com praticamente todas as bandas dessa geração.
Em essa época, era uma relação de «brodagem».
Qualquer coisa precisasse, telão, imagens, idéias, festas, era com a TV Viva que a gente contava -- e eles também contavam com a gente.
Por isso, sempre tive a idéia de trabalhar de uma outra forma com eles.
Não que a «brodagem» tenha acabado, mas a gente partiu para a profissionalização.
Quando apareceu a história de fazer um programa não só de música por a música, ou apenas mais uma revista cultural, a TV Viva foi o caminho natural.
O Sopa Diário é hospedado numa TV universitária.
Como o programa se posiciona com relação à educação?
Abordamos assuntos de uma forma direta com a galera.
E isso contribui para mostrar que não é chato entender certos assuntos.
Essa semana teve, por exemplo, os caras que mataram em São Paulo um cara num guichê de pizza, e saiu em todo o canto que eles eram três punks.
Os caras estavam de jaqueta com símbolo anarquista no braço, e eles se diziam punks.
Assassinaram um cara que talvez fosse muito mais punk do que eles acham que é o movimento punk.
Eles não entendem o que é o anarquismo, nem o punk.
O sistema dominou até isso de pregar Raul Seixas, Bob Marley e Chico Science.
Só que não é isso.
Chico não é só uma camiseta.
O sistema quer isso aí, todo mundo na Rua da Moeda, dizendo «é isso aí, Chico Science, aí Roger, Macô», e fumando um e tomando um vinho de 1 real, dizendo que assim está contestando o sistema.
Porra nenhuma, esse cara é um idiota, tá cheirando loló, enchendo a cara de maconha, e no outro dia não sabe o que vai dizer.
Então não está contestando nada.
Em termos de educação, é dizer isso:
«Não tenho educação, não tenho cultura, não tenho segundo grau completo, mas eu estou aqui para dar um alô.
Estou com o poder na mão.
O poder do microfone».
Eu me considero um MC, não me considero um professor.
Apesar de estar na universidade, porque isso aqui é uma televisão da universidade.
Outra guerrilha deve ser fazer o programa ao vivo, todo dia.
Você usa a limitação técnica como forma de experimentar na linguagem da TV?
Isso é uma coisa muito doida.
Eu não tinha idéia de como seria fazer o programa diariamente, nem a liberdade que se tem numa televisão como essa.
Tem todos os problemas de uma TV pública brasileira, mas também uma série de vantagens, porque aqui pode experimentar à vontade.
Um cara no programa da TV Cultura não pode falar «xixi».
Em a TV pública daqui a realidade é outra.
A gente parte do princípio que acabaram as fórmulas.
Eu vou seguir quem?
O Jô Soares?
O tipo do cara da MTV?
A gente vai fazer o que aqui?
Eu fiz um tempão o programa vestido com short e camiseta sem manga.
Eu queria chamar atenção, que as pessoas olhassem e dissessem " porra ...
quem é esse filho da puta aí?
Tatuado, de camiseta, sem o menor estilo na televisão».
É, eu tenho o direito, porque o cara de terno e gravata está abusando de menor de idade, sendo processado.
Tá lá, Denny Oliveira de terno e gravata -- o programa da família brasileira.
Eu não quero ser o programa da família brasileira.
Quero ser o programa do tatuado, camisa rasgada e short, pra dizer que eu não dependo de eles.
E fiz um tempão assim.
Hoje eu já acho que, depois de três anos nessa TV carente de tanta coisa, acho que preciso pelo menos me arrumar pra dizer para a galera «hoje eu me arrumei pra você».
As pessoas já me conhecem, e sabem que eu posso me arrumar.
Mas como é que eu vou me maquiar para a testa não brilhar, quando a banda toda veio de longe, de ônibus, suado pra caralho?
No máximo, uso um paletó comprado na loja de crente pra fazer uma graça.
Amanhã eu canso disso e invento outro negócio.
Visto uma farda.
Eu acabei lembrando do Chacrinha, que todo programa fazia uma roupa diferente.
Em uma matéria de revista, o jornalista te chamou de «Chacrinha de esquerda».
Você se sente à vontade com isso?
Não quero ser de lugar nenhum.
João Paulo é esquerda, Lula é esquerda?
Então não sou de esquerda.
Não que seja contra eles, mas não sou a favor cegamente.
Não sou a favor da questão partidária.
Desta forma, não sou de esquerda de jeito nenhum.
O que me aborrece é esse negócio de todo o dia estar reclamando.
Existe uma diferença entre reclamar e informar.
Reclamar é quem perdeu.
Se a gente tivesse perdido, não tava aí, com a moral do Funcultura, a prefeitura não tava apoiando a gente, não vinha galera tocar música.
Assumimos a total parcialidade do programa, através da TV Viva, do conceito que a gente busca com o Centro Luiz Freire para não ter de pagar de imparcial aqui.
Sem essa hipocrisia que a TV comercial tem:
somos a favor da legalização das drogas e da liberalização do aborto, amparada por quem tem experiência, porque trabalha há tempo com direitos humanos.
Em o meu caso, que estou falando, às vezes dá um sentimento de que falei demais, de que não poderia ter dito isso ou aquilo ...
Fudeu: é ao vivo.
O que pega é o todo.
Alguém vai entender um negócio, outro vai entender outro.
Alguém me encontra na rua e diz assim:
«dou o maior valor ao teu programa.
A mulher falou lá, botou pra fuder.
Aí você falou e botou quente também».
Esse programa é a continuidade do bar que eu neguei lá no Pólo Pina e na Rua da Moeda.
Eu não queria que a representatividade e a credibilidade que eu ganhei com o bar ou com a minha história dentro da cidade, ou com a música de Chico Science fosse transformada num folhetim.
De «aí Roger, esse cara é muito doido» ...
Sou muito doido mesmo, mas porque tô fazendo esse programa.
Eu poderia estar com um restaurante em " Porto de Galinhas:
«Cadê Roger».
Ou com um programa de clipes, botando o dinheiro do Funcultura no bolso.
Ou poderia ter ido embora para a MTV.
Número de frases: 153
Segunda Parte
E o Natal na família continuou, mesmo com buracos, stress e a vida que vai ficando mais dura.
Em a verdade a vida sempre foi dura, a gente que amadurece e enxerga isso.
Felizes são as crianças que brincam correndo em volta da casa (ou com o playstation), alheios a esse tipo de coisa.
Em os anos que se seguiram até agora decidimos criar um salão de festas na garagem;
juntamos grana e mandamos fazer e esse ano ficou pronto.
O lugar tem mesas grandes, banheiro privativo, piso cerâmico, pia, churrasqueira, muitas cadeiras etc.
Mudanças? Sim, há algum tempo não como carne vermelha e esse ano decidi abolir a carne de ave de vez.
Então para mim uma das tradições vai ficar somente na memória:
o Peru.
Minha mãe e meu pai?
A saudade de eles aqui é a mola mestra do Natal, é por eles que esse verdadeiro espírito de união permanece na família.
Ninguém se reúne por causa dos presentes ou da comida.
As pessoas sentem falta uma das outras e esse tempo é ótimo para definir laços, colocar assuntos em dia, chorar, rir, se encontrar.
Essa é a idéia.
Eu fui punk no final dos anos 80, como fruto da minha rebeldia (?)
adolescente. Mas era a mais hipócrita das criaturas, com cabelo arrepiado e cheio de alfinetes espetados nas roupas e coturno no pé, lá estava eu na festa de Natal, alegre junto com minha família, ganhando presente e atenção.
Meus amigos odiavam o Natal, mas era um ódio verdadeiro, o meu era bobagem e porque eu achava a musiquinha dos Garotos Podres engraçada.
«Papai Noel velho batuta ...».
Conheci pessoas que tinham completo asco da época Natalina, pessoas que não foram criadas na mesma tradição que eu, iam dormir no horário em que outros comemoravam e até riscavam a data no calendário.
Mas quem está certo?
Eu e minha tradição familiar de décadas ou pessoas como uma amiga que tem horror de tudo isso?
A discussão (se há alguma) não vai poder partir do que é certo ou errado ou o que importa.
Nem se a pessoa que a gente ama gosta ou não.
Em a verdade nem adianta muito saber o porquê de cada caso.
Devo me concentrar no respeito por a individualidade, de gostar ou não, de sentir que é uma data miserável, ou que é especial.
Com posicionamento político ou apenas como tradição familiar.
Ontem na MTV no programa «Tribunal das pequenas causas musicais», o assunto era:
Músicas Natalinas.
Dois defendiam, dois metiam o pau, uma era indiferente (mas que parecia se importar mais que a que supostamente " gostava ") e uma juíza = Penélope Nova e seu cabelo ridículo de Playmobill.
A MTV é ridícula.
Mudaria de canal na hora se o assunto fosse outro.
Música de Natal é chata mesmo, mas não era esse enfoque que eles estavam debatendo, se perderam no meio da discussão e acabaram por julgar o Natal como festa capitalista.
Nossa, que novidade ...
Lembrei-me da minha adolescência.
Ah, sim a MTV é canal de adolescente.
Esqueci. Mas um bando de adolescente que odeia o Natal por questões políticas de capitalismo americano, deveriam odiar a MTV porque é obra de lá, ué.
Odeie seu Ipod porque não é daqui, oras!
Aproveita e se torna nacionalista, bairrista, nazista.
Tenha ódio da sua calça jeans, do seu corte de cabelo copiado de alguma bandinha americana e sobretudo odeie a Internet.
É sim!
Pregue a globalização e depois separe tudo por causa das questões «capitalistas dos Eua».
Então não tome mais refrigerante da marca líder, cuspa no prato que comeu, não use cotonete, não faça mais nada.
Se mate, então!
Os Eua nem estão mais com essa bola toda, nem são mais a grande potência mundial.
Esse status já era desde 11 de setembro, pô!
Poucas pessoas param pra pensar, avaliar o pensamento coletivo.
As pessoas sequer imaginam que o verdadeiro espírito natalino é o amor, somente ele.
Estar junto de quem a gente ama, mesmo que vc já tenha estado nos 364 dias.
Mas há, também, aqueles que são indiferentes ou que não se importam.
Preferem dormir, ler um livro, ver tv, fuçar na internet ...
Não há como enfiar dentro da cabeça de uma pessoa assim que existe alguma importância na confraternização, na data, nas coisas relacionadas.
A cabeça funciona de outra maneira, alheia a «bobagens» como festas natalinas, reunião de amigos, festas de aniversários, amigo-secreto, comunidades, etc..
Assim como eu gosto de natal eles têm o direito de se lixar.
A ausência de sentimento com relação a isso não pode ser discutida.
O negócio é se conformar.
Pra mim, independente de conceitos, de posicionamento político, da roupa vermelha de Santa Claus, de neve que não existe aqui, de presentes, de peru / chester e qualquer outra coisa que venha a ludibriar minha cabeça contra a importância do Natal, tenho só algo a dizer:
Amor. Gostaria de passar o Natal do lado das pessoas que amo e de meu amado mór.
Quero me sentir feliz e mesmo que blá blá, blá nos 365 dias.
Feliz Natal!
Número de frases: 60
A festa estava bonita, a vizinhança se mobilizou toda.
O «Arraial dos Namorados» enfeitou a rua com bandeirinhas coloridas e palhas de coqueiro.
A beleza maior, no entanto, estava nas crianças correndo com roupas juninas, moradores sentados nas suas portas olhando a movimentação.
Pequenas barracas de comidas juninas exalavam os perfumes de seus sabores.
Canindé do São Francisco (SE) já está recebendo as bênçãos dos santos festeiros dessa época.
E, desde início de junho, Santo Antônio, São João e São Pedro olham a cidade em festa.
Os moradores do município que fica na beira do Rio São Francisco têm o hábito fazer os arraiais de rua ou de bairro.
Estimuladas por o projeto «Minha rua é 10» da prefeitura, as ruas disputam prêmios para a maior animação e beleza do arraial.
«Já estamos no terceiro ano fazendo este projeto.
O custo é baixo e é aí que está o verdadeiro São João, moradores se organizam para fazer as comidas, arranjar os tocadores», comenta José Pedro, secretário de turismo de Canindé.
As origens dos festejos juninos no nordeste estão muito ligadas à religiosidade e também à celebração da colheita.
Mesmo com os processos de urbanização, os arraias são mantidos como forma de brincar em comunidade e festejar os meses mais chuvosos.
Quem conhece as diferentes paisagens das regiões do agreste e sertão nordestinos sabe que tudo se modifica no inverno, a paisagem seca e árida das caatingas retorcidas cede espaço para um verde forte e vivo.
É quase como uma espécie de natal do sertanejo que vê o verde renascendo e junto com ele uma maior fartura.
Festa na rua
O «Arraial dos Namorados» estava cheio.
Em o comando da sanfona Gilson e seu trio Os pestinhas do Forró.
O nome da rua?
Algumas meninas têm dificuldade de informar, apontam para um senhor que observa atentamente o trio fazendo suas evoluções na zabumba, triângulo e sanfona.
O senhor estufa o peito e fala:
«Rua Errrcílio Porrrrfídio de Brito» (assim mesmo com os ' erres ' bem puxados como os locutores da antiga era dos rádios).
O sanfoneiro Gilson, que é do município vizinho de Poço Redondo, além de tocar o fole distribui sua simpatia tirando uma graça, no meio da música, com a desenvoltura dos casais de dançarinos.
Após algumas músicas uma pausa:
alguém no microfone anuncia a entrada da quadrilha Pé no Salão.
Todos vestidos de cangaceiro e maria-bonita:
não podia faltar também as figuras do noivo, da noiva e do padre.
Amplificados por a caixa de som, somente a zabumba, o triângulo e o microfone do «puxador».
As sandálias batidas na rua de paralelepípedos fazem o resto da percussão que é acompanhada por o coro de vozes dos integrantes da própria quadrilha.
A Pé no Salão foi campeã num concurso de quadrilhas realizado em Canidé no ano retrasado.
Tem como uma de suas especialidades a dança do xaxado (1) que ajudou o grupo a levar alguns campeonatos.
Quem traz essas informações é Odom, de 12 anos, que ao perceber que estou tomando algumas notas, sobe no meio fio da rua para tecer, no pé do meu ouvido, alguns comentários de especialista.
«Esse passo é muito bom» ( ...)
«aquela menina dança muito bem» ( ...)
«o outro puxador é bem melhor» ( ...)
«aquele outro é muito bom no xaxado» e fala apontando um sujeito magro de camisa laranja.
Realmente o cangaceiro vai para o meio da roda atrás de sua dama, e tome xaxar.
Sua perna parece de borracha, mas bate firme no chão.
E haja fôlego para cantar e dançar ao mesmo tempo.
Odom me fala que a quadrilha está com outra formação e que já foi bem melhor.
Após afirmar que ele é uma especialista pergunto se ele também dança quadrilha.
Ele estufa o peito e solta um suspiro, dizendo que está «dando um tempo» e eu acrescento:
«por enquanto». No meio da rua a dança continua faiscando:
as damas vão uma a uma para o meio da roda e seus pares saem «à caça» xaxando.
Empolgados os jovens da Pé no Salão cantam:
«Óia eu aqui de novo, xaxando / óia eu aqui de novo, para xaxar ...
vou mostrara para esses cabras que eu ainda dou no coro / isso é um desaforo que eu não posso levar.." (2).
Com alguns integrantes roucos de tanto cantar a quadrilha segue «o caminho da roça» e faz sua despedida.
Zabumba e forró
Mais uma pequena pausa, alguém anuncia que o projeto Revelando os Brasis está na cidade.
A festa segue.
O sanfoneiro Gilson e seus Pestinhas do Forró retomam a festa.
Já tarde do forró, um sujeito de camisa vermelha e boné se aproxima por trás do zabumbeiro como quem não quer nada.
Aí que aparece um momento interessante da festa ...
a transição de um tocador para o outro.
O cabra de camisa vermelha começa a pegar a zabumba e o outro entregando o instrumento não pára de dar sua batida.
A destreza do novo tocador é claramente perceptível nos belos solos percussivos, «castigando» a zabumba.
Gilson, que não é besta, percebe a mudança de zabumbeiro acelera sua sanfona e solta:
«Ói. esse cabra que pegou a zabumba é bom!».
O centro da rua agora é ocupado por as performances dos casais cada qual com seu estilo peculiar.
Seu Zé Grande, sujeito alto, como a alcunha já diz, porte elegante, camisa de botão aberta no peito, chapéu de massa, na faixa de seus 70 anos e pai de nove filhos é um dos mais animados.
Não deixa seu par descansar uma música.
Uma moça baixinha que é animação em forma de dança está no mesmo nível de desenvoltura, trocando de parceiro toda hora, mas nunca ficando parada.
Encostados na mesa de som, três amigos gaiatos soltam gritos e dão suas gargalhadas ao observar os casais levantando a poeira do arraial.
É mais uma noite da época de São João, na rua de uma cidade na beira do rio São Francisco e o forró segue arrastando pé na madrugada.
1. Xaxado é dança de trabalho e de celebração da colheita.
A batida do pé no chão imita ao puxado da enxada (também chamada de xaxado) no roçado arrastando a terra para fortificar o pé de milho, feijão ou fava.
In: Paulino, José.
Vozes e Toques Sergipanos -- Forró, Toadas e Aboios
2. Óia eu aqui de novo -- Feita no final da década de 70 por o compositor Antônio de Barros e presenteada ao rei Luiz Gonzaga.
A música foi um desabafo e ao mesmo tempo uma bela resposta de Gonzagão para aqueles críticos que diziam que ele estava velho demais para cantar seu forró.
Número de frases: 70
Primeiro dia:
marchinhas e sambas de enredo.
Segundo: bailão a céu (e sol) aberto.
Terceiro: marchas-rancho, maxixes e afins.
Quarto (ufa!):
frevo comendo solto.
Resumindo bastante, esta foi a trilha sonora do meu carnaval.
Este ano peguei leve.
Fui a no máximo dois blocos por dia (e estou mesmo ficando velha, pois mesmo assim fiquei exausta).
Perdi vários bons, por o que me disseram, mas a vida é assim.
Como rolou a pilha de se fazer pauta nacional sobre a festança, resolvi colocar aqui o meu roteiro básico.
Que não tem nada demais, de diferente, mas foi muito bom.
Pode ser divertido para quem esteve nos mesmos lugares, pode ser útil para quem quer passar o carnaval no Rio nos próximos anos, pode saciar uma curiosidade distante para os que querem saber de carnaval só assim, por as linhas de um texto.
E pode ser apenas uma leitura na ressaca da quarta-feira de cinzas.
Então, aí vai:
Sábado:
Cordão do (a) Bola Preta ou Caótico Maravilhoso!
É possível que você já tenha ouvido falar em ele.
E tenha, inclusive, ouvido as mais diversas opiniões sobre ele.
Então dou a minha:
é muvucado.
É caótico.
É maravilhoso.
Sou daquela turma que acha que o Cordão do Bola Preta (ou dA Bola Preta, como dizem que é o certo mas eu não consigo falar de jeito nenhum) deveria ser considerado Patrimônio da Humanidade.
Há 89 anos, ele transforma Cinelândia e adjacências num imenso tapete em branco e preto.
às 9h do sábado de carnaval, milhares de pessoas estão por ali abrindo a primeira cerveja.
É um festival de roupas engraçadas e -- o que acho mais lindo -- camisas feitas exclusivamente para o Bola daquele ano.
Então você vai andando e vê uma família inteira com a blusa «Comunidade do Irajá -- Bola Preta 2007» ou vizinhos em grupo como uma ala identificada como «Turma do Funil de Cascadura».
O Bola é sinônimo de festa democrática e me parece que em nenhuma outra manifestação popular se reúne gente de tantos cantos da cidade (e de Niterói, e de Nova Iguaçu, e de Nilópolis etc) num mesmo lugar -- talvez no desfile do Cacique de Ramos, que infelizmente perdi.
Tudo isso, ao som das marchinhas mais clássicas e dos sambas de enredo mais consagrados de todos os tempos.
É verdade que isso tem em quase todo bloco do Rio, mas nenhum tem naipe de metais e cantores mais figuras que o Bola.
Mas peraí.
Se você não é do Rio, está lendo este texto, ficou empolgado e já pegou o calendário para se programar para vir no ano que vem, calma.
É preciso explicar.
A alegria e a diversidade é proporcional ao caos que se forma.
É gente que não acaba mais.
É um calor que não acaba mais.
Tem que comer muito arroz com feijão (combinação gastronômica que se alinha às cores do Bola) para ter saúde e entrar na muvuca.
Ou então ser phD em folia como as velhinhas da foto que abrem esse texto (não são a coisa mais linda???
Podem acreditar:
elas estavam na parte mais cheia).
Minha dica é a seguinte:
fique na periferia do bloco.
Ele vai por a Rio Branco, então ande por a paralela (a Rua México) e vá entrando nas transversais que conseguir.
Quem não chora não mama e, se o objetivo é se divertir com a «fauna» local, os figuraças do Bola estão no raio de uns cinco quarteirões para todos os lados da Cinelândia.
Foi na Nilo Peçanha, por exemplo, que encontrei os dois figuras da foto 3. Nunca tínhamos nos visto na vida mas viramos amigos de infância depois do clique.
Descobrimos que aquele que fez pose de bailarino era realmente bailarino (!),
pelo menos de carnaval.
Ora, ora, quando acho que não tem nada mais que possa me surpreender no Bola ...
Rouco de tanto gritar no ensaio, Zen (calma, este é apenas o apelido de capoeira que ele usa como nome artístico) contou que à noite estaria no Sambódromo, liderando uma ala coreografada do Arranco do Engenho de Dentro, escola do Grupo de Acesso. (
Pausa, corre o filme para frente:
por acaso fui assistir ao grupo de acesso à noite e pude registrar Zen em seu momento de glória.
Confira no foto 4.
Em o mesmo desfile pude testemunhar a beleza da Império da Tijuca, escola que visitei -- contei aqui -- e adorei).
Voltando ao Bola:
nem só as fantasias causam gargalhadas por lá.
Comprar uma cerveja no camelô da Evaristo da Veiga, por exemplo, rendeu bons momentos:
-- Tem cerveja?
-- Tem.
E você ainda concorre a um carro e à casa própria.
Sorteio na quarta.
-- Ahn ... Tá gelada, moço?
-- Vê aí.
Reclamações só em horário comercial e no departamento pessoal.
* * * Domingo:
Cordão do Boitatá ou Sem fantasia não dá (rima rica de matá)
Não deu outra:
domingo às 10h já estava no centro rodeada por gente fantasiada.
Arrisco dizer que o Cordão do Boitatá é o bloco que coloca mais gente fantasiada por metro quadrado -- mas é no risco mesmo, porque é impossível conhecer todos os blocos desta cidade.
É daquele tipo em que você se sente deslocada se está à paisana (foi o meu caso).
Como o Bola Preta, ele era um cordão que vivia a andar por as ruas do centro, só que numa formação mais radical:
sem carro de som, aparelhagem ou corda.
Acontece que, a cada ano, foi ficando mais cheio.
Passar por as ruelas do trajeto original começou a ser tarefa de risco.
Passaram então a desfilar de manhã cedo, mas mesmo assim o tumulto se formava.
Há uns anos, a turma do Boitatá resolveu fazer mistério sobre dia e hora do desfile.
A atitude gerou críticas de muita gente.
Ano passado, então, eles encontraram uma solução intermediária:
montaram um grande palco na Praça XV.
Isso não significa que tenham aberto mão do desfile:
ele acontece às 8h da manhã, quando só os guerreiros e as crianças estão por lá.
Depois, é bailão em praça pública.
E uma alegria só, embalada a marchinha, samba de enredo e de terreiro e tudo mais.
* * * Segunda:
Rancho Flor do Sereno, eu te dou grau dez!
É segunda-feira de carnaval.
A esta altura você já está exausto.
E olha que só passou metade da festa.
Tem um monte de bloco por aí, mas você não consegue se mexer.
Como se recusa a ficar em casa, vai pegar uma praia.
Mas guarde as energias restantes, porque à noite tem rancho.
E não estou falando do carnaval do começo do século XX, quando esse tipo de manifestação popular era comum na cidade.
Rancho é uma espécie de pai dos blocos e avô das escolas de samba.
Mistura a espontaneidade dos primeiros com as alas e fantasias das segundas.
De o Rancho que se apresenta às segundas de carnaval, posso falar de camarote.
Meus irmãos fazem parte do grupo que fundou a brincadeira.
Um de eles, o Pedro, é o regente da Orquestra Flor do Sereno, que reúne excelentes instrumentistas e cantores da cidade.
A idéia surgiu em 2000 da cabeça de Elton Medeiros, provavelmente no meio de alguma roda no Bip-Bip, bar do coração de sambistas e chorões cariocas.
O pé-sujo de Copacabana abrigou as primeiras reuniões para a criação do grupo.
Freqüentei algumas e lembro do discurso muito mais para o lado de reavivar e compor no gênero marcha-rancho do que para a nostalgia dos carnavais que passaram.
Em os primeiros anos, o Rancho saiu na praia de Copacabana com carro de som, fantasias, alas, marcha-rancho, samba e marcha-regresso, compostas especialmente por nomes como Elton e Aldir Blanc.
Foi bonito.
Com o passar do tempo, ficou difícil conseguir dinheiro para tudo isso.
Primeiro porque pré-carnaval é uma das épocas em que esses músicos mais trabalham em bailes e também porque, cá pra nós, é dureza para eles fazer a parte burocrática do negócio -- mesmo com a ajuda incansável do Alfredinho, dono do Bip.
A saída foi improvisar um baile em frente ao bar.
Assim tem sido o rancho nos últimos anos:
sem alas nem desfile, mas com toda a variedade musical que lhe cabe.
Tem as marchas todas, inclusive as clássicas.
Mas convenhamos:
a esta altura ninguém agüenta mais ouvir A Cabeleira do Zezé e Mulata Bossa Nova.
Então eles salpicam algumas consagradas, ao lado de outras meio esquecidas e outras tantas composições inéditas, feitas para o primeiro disco do Rancho, que vai sair em abril.
Este baile de 2007, como tudo no carnaval carioca, estava lotadíssimo.
Tinha os velhinhos típicos de Copacabana, mas tinha também muito mais jovens que as edições anteriores e diversas caras conhecidas:
consegui identificar o violonista Yamandú Costa, o sambista Moacyr Luz e o compositor Paulo César Pinheiro que nem pinto no lixo na multidão.
Terça:
Bloco da Ansiedade ou Pãrãrãrãrãrãrã Cem anos de frevo, né.
Por conta disso, Todos os blocos trataram de fazer sua homenagem ao som saltitante de Pernambuco.
E como o objetivo é alegrar a galera e não ser original, pôde-se ouvir Vassourinha (ou Pãrãrãrãrãrãrã, para os menos íntimos) quase -- eu disse Quase -- com a mesma freqüência que Cabeleira do Zezé nos blocos cariocas.
E mesmo no Bloco da Ansiedade -- que faz o bairro de Laranjeiras ' frever ' todo ano -- lá estava a fatídica marcha instrumental intercalada a cada quatro ou cinco frevos.
Sempre fazendo as pessoas pirarem.
Peloamordedeus, não interpretem com isso que não gosto de Vassourinha.
É o máximo, claro.
Ainda mais com a maravilhosa orquestra do Ansiedade, que capricha nos improvisos e faz a música ficar ainda melhor.
Eu e os bonecões de Olinda freqüentamos este bloco há algumas edições e ficamos embasbacados, pois ele nunca esteve tão cheio como neste ano -- sei que essa frase já está virando chavão deste texto, mas é verdade!
Sei não, mas apesar de achar que todo mundo fica muito feliz com samba e marcha, a alegria ao som do frevo parecia ainda mais contagiante.
E olha que ali a maioria era sem letra.
Quem disse que o pessoal hoje em dia não gosta de música instrumental?
* * * E cá estou eu, na quarta-feira de cinzas e ressacas, encerrando essas linhas e ensaiando uma constatação.
Ou melhor, duas.
A primeira é sobre repertório.
Todo mundo adora as marchinhas consagradas, mas há um consenso de que não dá para ouvir o mesmo setlist em todos os blocos (os que cantam marchinhas, claro, porque há muitos que cantam samba-de-bloco.
O que não resolve muito, porque aí é o mesmo samba bloco inteiro ...)
Acho que esse foi o estímulo para se criar o Concurso de Marchinhas de Carnaval da Fundição Progresso, que teve segunda edição bem sucedida este ano mas, ao mesmo tempo, ainda está longe de conseguir levar as novas composições para as ruas.
Parece que a solução passa mais por os próprios organizadores dos blocos que, ao meu ver, podiam criar e ousar mais.
A segunda constatação é mais para o lado estrutural:
o gigantismo e a falta de apoio são os dois maiores problemas desses blocos bacanas hoje em dia.
O Boitatá teve alguma ajuda privada para montar o palcão, mas só.
O Rancho este ano saiu sem patrocínio algum.
Há alguns anos fiz uma matéria sobre o Bloco da Ansiedade e fiquei impressionada com o esquema -- o pessoal produz e vende máscaras de carnaval em todos os blocos pré-folia para pagar os músicos.
Boa parte dos organizadores que conheço até se chateia com a escassez de patrocínio, mas me parece que isso é até menos grave, dado a empolgação que faz o bonde sair mesmo sem dinheiro.
O pior é não conseguir contar com o poder público:
há uns policias por ali (ou seria gente fantasiada?),
há uns banheiros químicos acolá ...
Mas se sai uma confusão, uma briga, um arrastão, a culpa é de quem?
A pergunta é complexa, mas não é difícil imaginar que vá sobrar para quem idealizou a festa, mesmo sem poder adivinhar quem vai aparecer.
Por tudo isso, tiro o chapéu para os bravos foliões-chefes que comandam essa farra mesmo com alguma adversidade.
E nos vemos nos blocos de 2008!
* * * O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país.
Número de frases: 149
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo.
Gabriel Alexandre dos santos, 62 anos, ou Gabriel Brasileiro, como é conhecido, viajou por diversas cidades mineiras e alguns estados brasileiros.
Somente no ano passado foram mais 8600 quilômetros percorridos.
Você leitor deve estar se perguntando:
qual a relevância disso, afinal, milhões de pessoas viajam longos percursos por estradas brasileiras todos os dias.
O diferencial está no meio de transporte que ele usou para percorrer essas distâncias:
uma bicicleta!
Gabriel Brasileiro é um ciclista amador desde a década de 90, e a partir daí já percorreu grande parte de Minas gerais além de alguns estados brasileiros como São Paulo, Goiás e Bahia.
Apaixonado por bicicletas desde os sete anos de idade, quando ganhou, em troca de serviços prestados aos vizinhos, sua primeira bicicleta.
Gabriel fez de ela seu principal meio de transporte.
Quando criança utilizava-a para ir à escola, mais tarde para se locomover rumo ao trabalho, e assim viu sua história se desenvolvendo sobre duas rodas.
Morador de Belo Horizonte, ele participa de passeios ciclísticos realizados na cidade desde 88.
Quando percebeu que as distâncias que percorria estavam se tornando curtas, decidiu ampliar seus horizontes.
Passando a pedalar inicialmente na Grande BH, em cidades como Sete Lagoas, Vespasiano e Lagoa Santa, posteriormente em cidades do interior, como Ouro Preto, Oliveira e Juiz de Fora.
Em 1999 realizou sua primeira viagem para fora do estado, saindo de Belo Horizonte indo em direção a Brasília, para participar da comemoração de aniversário da capital Federal.
Ele também esteve presente em Cabrália -- Bahia, na festa de comemoração dos 500 anos do Brasil.
Gabriel é folclorista além de muito patriota, pois, carrega um mastro com as bandeiras do Brasil, do estado de Minas Gerais e de Belo Horizonte desfraldadas na bicicleta Seu calendário está estritamente ligado às datas comemorativas, por isso suas viagens são programadas de acordo com os dias de aniversários e as datas culturais das cidades.
Recentemente ele realizou a sua maior viagem, saindo da capital mineira em direção a Porto Seguro -- Bahia, ele pedalou um total de 2.852 quilômetros.
Sua Viagem durou 47 dias, sendo 13 dias na ida e 14 dias na volta.
Durante os 20 dias que permaneceu na cidade ele percorreu cerca de 600 quilômetros para divulgar seu projeto antidrogas em escolas e entidades comunitárias.
Suas principais metas são divulgar a cultura brasileira, manter uma vida saudável e fazer novas amizades:
«meu principal objetivo ao realizar minhas viagens chama-se intercâmbio cultural de pessoas, conhecer lugares e o folclore de cada região, pois nosso país possui uma diversidade cultural muito rica."
Conclui o aposentado.
Preparada para percorrer grandes distâncias, sua bicicleta é equipada com peças de durabilidade maior, além de faróis, retrovisores e velocímetro.
Ciente dos riscos do esporte, Gabriel utiliza os principais equipamentos de segurança, como capacete, luvas e joelheiras.
Os roteiros de viagens são preparados previamente, a partir de informações coletadas junto às empresas de transportes, que ressaltam sobre o estado de conservação das rodovias e possíveis pontos de apoio.
Sem muito conforto, ele pernoita em paradas de caminhoneiros, borracharias e postos de gasolina.
Gabriel carrega com si um caderno que lhe serve como um de diário de bordo, em ele é registrado qual a quilometragem percorrida por dia, os pontos de paradas e por diversas vezes, é preenchido por recadinhos carinhosos deixados por os amigos que ele conquista ao longo da viagem.
Sem patrocínio, ele conta com a solidariedade das pessoas que encontra por o caminho:
«o povo brasileiro é o mais solidário do mundo, graças a Deus sempre encontrei pessoas boas no meu caminho», ressalta Gabriel.
São muitas as dificuldades para realizar as viagens, devido à falta de incentivo, ele não recebe nenhum tipo de orientação profissional, seguindo uma dieta a base de frutas, como maçã e banana, e muita água.
A o se preparar para as viagens, o aposentado realiza exames de rotinas como, hemograma completo e a medição da pressão arterial.
Número de frases: 32
E apesar da carência de um acompanhamento profissional mais adequado, Gabriel Brasileiro realiza suas viagens tendo a determinação e a fé como suas principais aliadas.
Estupros, pedofilia, assaltos, assassinatos, incesto.
Os submundos e esgotos da alma humana a céu aberto, ou melhor dizendo, desenhando círculos em volta de um mesmo inferno trazido à cena obra após obra.
É mais ou menos isto o que pode ser esperar de Macho não Ganha Flor (Record, 2006, 126 pgs.) do escritor Dalton Trevisan.
Algo de surpreendente no novo volume de contos?
Não. De início têm-se a impressão, na leitura dos primeiros textos, de que estamos assistindo ao mesmo exercício virtuoso de autoplágio e ecoa aquela impressão de deja vù estalando nos tímpanos.
Apesar disso, a mesma limpidez na linguagem, com seus cortes, o mesmo furor da língua, com expressões chulas e saídas da fala comum, orquestradas de modo original e único.
Tudo isto associado aos tiques e cacoetes narrativos e à mitologia escatológica do Vampiro de Curitiba.
É possível encontrar desvios de rota, novidades num escritor de 81 anos?
Meio difícil.
Mas, quem disse que a repetição é, em si mesma, um mal?
Apesar de já ter lançado sua contribuição individual para renovação da contistica brasileira, Trevisan continua seu expediente de exímio narrador.
Seus livros podem ser muito parecidos, as estórias orbitarem em torno do mesmo universo temático, as construções narrativas se valerem de mecanismos semelhantes, expressões, palavras, personagens e lugares podem estar se repetindo, mas, não há dúvidas de que estamos diante de um excelente contista, entre os mais expressivos e significativos da literatura nacional.
Mas, algo se renova.
Em meio à conjuntura já conhecida uma ou outra gíria nova, um termo diferente aparecem nos textos.
Como já é de seu costume, Trevisan põe um conto nas orelhas do livro, de sugestivo título:
«Ei, Vampiro, qual é a tua?». Desta vez $, a narrativa pode ser entendida
mais como uma auto-análise ou anti-manifesto do que como obra de ficção.
Este conto é, de cara, o que se tem de mais «diferente» no volume.
Em este texto temos um valioso depoimento de Trevisan sobre sua obra, mesmo que seja dito em tom de deboche, meio que de ironia ou sob o prisma e a licença da ficção.
Em o conto, o Vampiro faz um auto-exame.
Logo no início o escritor diz:
«Buscando se livrar da pecha de repetitivo, o contista agregou ao seu conhecido circo de horrores uma nova galeria de monstros morais.
Perdido entre a tautologia e a platitude, se pendura sobre o oco do seu próprio coração ( ...)».
Em a sequência do mesmo conto, é possível entender que o autor esteja mandando um recado ou alfinetando os novos escritores aprendizes de «transgressores».
Vejamos o que Trevisan diz:
«Invertendo o axioma de que com bons sentimentos se faz a pior literatura, ele (no caso o próprio Trevisan) escreve direito.
mas pensa oblíquo.
Claro nas palavras, tortuoso no significado.
Ora, não bastam maus pensamentos para cometer boas letras».
O conto é encerrado com supremo deboche, com direito a intertexto com poema de ninguém menos que o esquecido e odiado " Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac:
«Ora, direis.
Um mestre do passado.
De o passado, sim.
Mestre, nunquinha.
Ai de ele, sem presente.
E o futuro?
só cinzas».
Era como se Dalton Trevisan, avesso a entrevistas e fora da fogueira das vaidades da vida literária, fizesse alguns apontamentos sobre a sua obra.
Nada de ser líder de ninguém, referência ou qualquer coisa que o valha.
Compromisso nenhum com o presente, nem com a vanguarda.
É o melhor conto de todo o livro.
Número de frases: 42
Doc:
Além do Cidadão Kane é um documentário produzido por a BBC de Londres -- proibido no Brasil desde a estréia, em 1993, por decisão judicial -- que trata das relações sombrias entre a Rede Globo de Televisão, na pessoa de Roberto Marinho, com o cenário político brasileiro.
-- Os cortes e manipulações efetuados na edição do último debate entre Luiz Inácio da Silva e Fernando Collor de Mello, que influenciaram a eleição de 1989.
-- Apoio a ditadura militar e censura a artistas, como Chico Buarque que por anos foi proibido de ter seu nome divulgado na emissora.
-- Criação de mitos culturalmente questionáveis, veiculação de notícias frívolas e alienação humana.
-- Depoimentos de Leonel Brizola, Chico Buarque, Washington Olivetto, entre outros jornalistas, historiadores e estudiosos da sociedade brasileira.
Número de frases: 6
«Todo brasileiro deveria ver Além do Cidadão Kane» Enquanto os trabalhos de perícia eram realizados Cooki Suzuki aproveitou para dar uma olhada no terreno.
Desde sua chegada, há pouquíssimo tempo, ele aproveitou para levantar algumas hipóteses, mas internamente já tinha suas próprias conclusões.
«Trata-se de uma tentativa de furto mal sucedida» -- imaginou conclusivamente.
Ele não conseguia aceitar a possibilidade de um matador de aluguel deixar a arma no local do crime.
A janela do quarto aberta também era um elemento que reforçava esta tese.
«Provavelmente o assaltante se assustou quando viu a vítima sair do banheiro» -- resmungou ele enquanto procurava na cerca elétrica algum vestígio por onde o bandido poderia ter passado.
O Detetive também não conseguia compreender os motivos que levaram pessoas tão importantes e influentes a ligarem pra ele no início da noite numa missão num lugar que ele só conhecia por os livros de geografia e um ou dois documentários.
Ele praticamente fora colocado a força num jato particular que fez pouquíssimas escalas e em menos de três horas já estava no Amapá.
«Desvendar o caso de um indiozinho de 25 anos que foi morto por um comedor de açaí sem granolas!
Este só poderia ser coisa de um inimigo meu " -- esbravejou.
Ele aproveitou e foi até a parte externa que dá na saída da janela da sena do crime, pois «era o único lugar onde o criminoso, assustado, poderia ter saído».
Não queria pensar em muitas possibilidades, pois estava quase certo de suas conjecturas.
Só aguardava o resultado dos exames para formalizar tudo.
Olhando para o piso ele não conseguiu ver marcas que, no caso, poderiam ter sido criadas por o peso do assassino em sua fuga, viu apenas umas rachaduras nada recentes.
Estranhou também o fato de não ter encontrado marcas de rompimento dos fios da cerca elétrica e nem arrombamento nos portões.
Mas para isso existiam dezenas de explicações.
Distante em seus pensamentos que hora variavam entre suas curiosidades de investigador e hora por o seu desprezo por a situação ele é chamado por um policial que se encontrava no interior da casa.
A o entrar o Detetive se depara com uma senhora que aparentava ser a mãe da vítima.
Ele já a havia visto na chegada, mas não deu maior atenção, pois ela estava dando depoimento.
-- Estamos encerrando nossas perguntas, o Senhor gostaria de tirar alguma dúvida com ela?--
perguntou o Policial que estava com a prancheta.
-- Não, estou certo que ela apenas escutou o barulho do tiro, não foi?
-- Foi!--
respondeu a mulher soluçando.
-- Ok, me passe este depoimento gravado depois -- disse Suzuki ao Policial -- A senhora tem onde ficar hoje?
-- Sim, tenho -- respondeu.
-- Então já pode ir.
A mulher, Luíza Juçara Santana, olhou para todos aparentando esperar mais perguntas, ao mesmo tempo em que parecia meio triste por não poder ajudar na busca do responsável por a morte de seu único filho.
Sem perder mais tempo ela levantou e dirigiu-se para seu quarto a fim de arrumar uma mala quando foi interrompida por a voz grossa do Detetive:
-- Só mais uma coisa, os portões costumam ficar abertos?
-- Em momento algum -- respondeu firmemente -- mas temos dispositivos nos quartos que abrem o portão menor.
Pablo sempre usava quando chegava algum amigo ou quando saía por a janela sem ser visto.
-- E desde quando ele saía desta forma?--
continuou, interessado, o Detetive.
-- Em a verdade, quando instalamos os dispositivos há três anos ele fazia isso muitas vezes, segundo o vizinho, mas de uns seis meses pra cá ele mal saía.
Recebia os amigos em casa.
-- Obrigado então, Dona Luíza Júlia, descanse e fique certo que resolveremos este caso facilmente -- afirmou tentando parecer cortês.
-- É Juçara -- corrigiu -- E muito obrigado por ter atendido ao pedido do meu marido -- disse ela e se dirigiu finalmente para o quarto.
Número de frases: 38
* (continua nos próximos dias) Localizada a 60 km de Juazeiro do Norte, no Ceará, a Fundação Casa Grande não se propõe a formar comunicadores, mas sim, futuros gestores do país.
Nordestina era uma cidadezinha desse tamanho assim, da qual se dizia:
«eita lugarzinho sem futuro».
Antônio ouviu dizer isso desde pequeno, e deu por certo o fato.
Para chegar em Nordestina, tinha que se andar bem muito.
É claro que ninguém fazia isso:
o que é que a pessoa ia fazer num lugar onde não tinha nada para fazer?
(Trecho do livro " A Máquina, de Adriana Falcão ")
Quando pequeno, morando em Tocantins, Alemberg Quindins era um menino fora do mapa.
Sabia do mundo por quem passava por a cidade de Miranorte, e mais não tinha.
Se virou como podia e por volta dos nove anos, montou uma pequena editora, cineminha, tudo improvisado para dar alguma diversão a seus colegas, também fora do mapa.
De a primeira infância, em Nova Olinda, Sertão do Cariri, no Ceará, lembrava-se de uma índia que lhe contava histórias e de uma estátua de indiozinho em sua casa.
Quando voltou para lá, já crescido, foi atrás destas lembranças.
Conheceu uma moça do Crato, Rosiane Limaverde.
Por essas coincidências da vida, haviam nascido no mesmo dia e ano:
19 de dezembro de 1965.
Casaram-se na mesma data, em 1983.
A parceria também era musical.
Saíram sertão afora, estudando a música pré-histórico da região.
Deparavam-se com objetos arqueológicos, que iam recolhendo.
Formaram um acervo.
Em 1992 nasceu oficialmente a Fundação Casa Grande, no mesmo dia 19 de dezembro.
Para abrigar o tal acervo, escolheram a mais antiga edificação de Nova Olinda, que havia pertencido ao avô de Alemberg, Neco Trajano.
Ali foi instalado o Memorial do Homem Kariri, ao qual foi incorporado o indiozinho da infância, guardado até então por a velha senhora que lhe contava histórias.
Ele hoje é personagem de revista quadrinhos feita por os meninos.
De forma natural, as áreas de atuação da Fundação foram aumentando, conforme o casal sentia a carência cultural da cidadezinha.
Memória, Comunicação, Artes e Turismo são hoje as áreas de abrangência da Casa Grande, que está no coração de Nova Olinda, cidade a 540 quilômetros de Fortaleza, com cerca de 12 mil habitantes, três mil na área urbana.
Em 1998 foi anexado o prédio da primeira escola da cidade, o Educandário.
Tornou-se a Escola de Comunicação da Meninada do Sertão.
Em 2002, foi a vez do Teatro Violeta Arraes -- Engenho de Artes Cênicas ser inaugurado.
O fluxo de curiosos foi aumentando e a necessidade de um programa de turismo surgiu.
Foram criadas pousadas domiciliares no fundo das casas, administradas por a Cooperativa de pais e amigos da Casa Grande (Coopagran).
Criancices
Gerência, Conselho Fiscal e Conselho Cultural:
nada disso falta à Fundação Casa Grande.
Mas o que a diferência das demais instituições é um pequeno detalhe:
ela é totalmente gerida por as crianças e jovens de Nova Olinda.
E essa afirmação vai muito além do discurso:
simplesmente não há adultos na Casa Grande durante a semana.
O escritório administrativo, onde trabalham os coordenadores e duas secretárias, fica no Crato, cidade a 40 quilômetros de distância.
Alemberg e Rosiane estão sempre em contato com os meninos, e presentes todos os fins de semana.
Mas, na prática, quem coloca a casa em ordem é a molecada.
Eles se organizam na limpeza, na gerência dos laboratórios e na produção dos programas de rádio e de tevê, assim como das revistas da Editora.
O projeto de rádio «de criança para criança» já foi parar na África, implantado por o próprio Alemberg, em viagem feita por Moçambique e Angola com apoio do Unicef.
Quase uma mocinha
A os 14 anos de existência, a instituição chega à adolescência.
Os primeiros meninos da Casa Grande já são adultos, trilham seu caminho mundo afora e começam a levar seus filhos para brincar no parquinho da Fundação.
Os mais velhos ensinam os mais novos, sempre dispostos a ouvir.
A princípio, as crianças chegam para brincar.
Ficam por lá, participam da escolinha, pulam corda, amarelinha, e divertem-se nos computadores.
Mais adiante, vão se aproximando naturalmente das áreas de maior interesse.
Mostrando dedicação e bom desempenho escolar, ganham o uniforme, que utilizam de quarta a domingo.
Segunda e terça-feira são os dias de lavar a roupa.
A Casa Grande não fecha.
Pode ser freqüentada 24 horas por dia por os «alunos».
Por ser o único pólo de cultura da região, está sempre cheia, principalmente nos fins de semana.
A os domingos, no Teatro Violeta Arraes, há duas sessões de cinema:
infantil e adulta, e regularmente, peças e outros espetáculos aportam ali.
Mais do que uma escola de comunicação, um centro cultural, ou uma instituição para crianças, a Casa Grande é um laboratório de convivência social onde aprende-se a ter responsabilidade sem perder a alma infantil.
«Não queremos formar comunicadores, e sim futuros gestores do país», define Alemberg.
E o mundo foi parar em Nova Olinda
Muita gente ouve falar e quer conhecer de perto o trabalho da Fundação:
estudantes de comunicação, políticos, músicos e até atores em laboratório.
Foi o caso de Mariana Ximenes e Gustavo Falcão que, para viverem Karina e Antônio no filme A Máquina, foram até Nova Olinda.
Não por acaso, a história contada no longa-metragem, baseado em livro homônimo de Adriana Falcão, fala de uma cidade deste tamanhozinho ":
Nordestina. Seus moradores vão pouco a pouco deixando a região para ir para «o mundo».
Karina quer fazer o mesmo, mas Antônio, por amor, depois de um plano engenhoso, leva «o mundo» a Nordestina.
É exatamente o que fizeram Alemberg e Rosiane, por amor a seus meninos e meninas, e a meninos e meninas que nem chegarão a conhecer.
Costumam dizer que o projeto foi feito para o Joãozinho, que um dia nascerá em Nova Olinda.
O diretor Guel Arraes também passou por lá, quando filmava O Auto da Compadecida.
Pegou emprestada a risada de Alemberg, que foi parar na boca de Selton Melo, o Chicó.
Em a época, Guel assistiu os vídeos feitos por os meninos e elogiou sua qualidade técnica.
Andando por os corredores do antigo prédio do Educandário, onde hoje funciona a Escola de Comunicação, é possível acompanhar por as fotos a quantidade de ilustres visitantes que passaram por lá.
Cada um deixou sua contribuição.
Como num porto, quem passa deixa sua marca.
Em este caso, acrescenta um conhecimento a mais para a meninada.
Acervo surpreendente
Se o bem-sucedido exemplo de gestão descentralizada chama a atenção, o mesmo pode ser dito do acervo multimídia e da qualidade dos produtos produzidos nos laboratórios de comunicação.
Computadores de última geração com monitores LCD e gravador de DVD são a grande paixão da molecada.
A gibiteca, completíssima, financiada por a Fundação Kellog, foi a mais recente conquista da Fundação.
Xodó particular de Alemberg, grande fã de quadrinhos desde pequeno, é um bom retrato do que o projeto da Casa Grande representa para ele:
«precisei deixar de ser menino para poder trabalhar e ter condições de implantar aqui essa gibiteca e, assim, voltar a ser menino».
O acervo da dvdteca não pára de crescer.
Hoje possui mais de mil títulos, a maioria clássicos do cinema, em prateleiras organizadas por nome do diretor.
Eles podem ser assistidos na cinemateca, outra das salas no prédio da Escola de Comunicação.
A cdteca está anexada à rádio, e dá suporte para a programação de 16 horas diárias.
Há também biblioteca e brinquedoteca, que estão sendo reestruturadas.
Quando era pequeno, Alemberg Quindins sonhava em ter um quarto de brinquedos e conhecer o mundo.
Com a Fundação, o mundo veio até ele e o almejado quartinho materializou-se numa bela e ampla casa, onde ainda há lugar para tantos sonhos quanto puderem ser sonhados.
Hino
Essa casa
Moraes Moreira
Essa casa é tão bonita
como a gente que habita
Desde a rua até a porta,
até a sala de visita,
até o fundo do quintal.
Todo mundo acredita
no objetivo igual.
Tudo que se reza e pede
é que Deus seja seu hóspede principal.
Essa casa é tão bonita
quando a inspiração visita
o coração do cantor.
Tem amor no jardim,
tem a flor do amor perfeito.
Tem um banco que foi feito
só para namorar.
Tanta coisa, e advinha
como eu me sinto feliz.
Alguma coisa me diz que essa casa é a minha.
Conheça as áreas de atuação da Fundação Casa Grande:
Memória
Lembranças de quem chegou primeiro
Memorial resgata mitos, lendas e história dos índios Kariri e reproduz costumes da casa nordestina
A casa azul que deu origem à cidade de Nova Olinda e hoje abriga o Memorial do Homem Kariri já é, por si só, uma parte da história.
Foi construída no século XVIII, em forma de tapera, por comboeiros.
Mais adiante, reformada, virou sede de fazenda.
Foi comprada em 1932 por Neco Trajano, avô de Alemberg, e sessenta anos depois, restaurada para abrigar a Fundação.
Os cômodos receberam nomes, como o «quarto de dona» Santana (esposa de Neco), onde funciona a sala de arte rupestre.
Em este quarto, que pertencia às mulheres, a falta de janela tem explicação:
era uma medida de segurança, para evitar que as jovens fossem levadas por algum forasteiro.
O museu trabalha em duas frentes:
mitologia e arqueologia.
Em a primeira, são resgatados os mitos e lendas dos índios Kariri, primeiros habitantes da região.
Seja por meio de desenhos feitos por os próprios meninos, ou de fotos mostrando os sítios mitológicos, os visitantes podem entender um pouco da relação daquele povo com a natureza, e de como ele buscou em ela as explicações para os fenômenos do cotidiano.
Exemplo disso são as muitas pedras que, devido a seu formato, eram consideradas elementos vivos -- como a Ponte de Pedra, em Nova Olinda.
Segundo a lenda Kariri, ela é a porta de entrada para um jardim que rodeia o Castelo Encantado, outra formação rochosa mais adiante.
Também faz parte do programa de memória, já se aproximando do de Artes, o resgate das músicas e instrumentos pré-histórico que deram origem ao espetáculo A Lenda.
Em arqueologia, é estudada a trajetória dos Kariri.
Sabe-se que a etnia originou-se da junção de povos nômades que ali ficaram, atraídos por o clima e vegetação propícios da Chapada do Araripe.
Em o museu estão expostos objetos cerâmicos, pedras, ferramentas antigas e imagens de inscrições rupestres.
Recepcionistas mirins
Todas estas explicações são dadas por as recepcionistas do Memorial.
Elas têm em média 12 anos de idade e passam por uma sabatina para poderem ocupar o cargo.
É comum ver alguma das crianças andando por os cômodos, falando sozinha, estudando cada objeto.
Logo Rosiane a chamará e fará perguntas.
Aprovada, ela guiará os visitantes e será responsável por o cuidado com o acervo, incluindo sua limpeza.
O trabalho de campo é permanente.
Acompanhada de Rosiane, que é arqueóloga formada por a Universidade Federal de Pernambuco, regularmente uma equipe sai para os sítios em busca de mais elementos de pesquisa.
Todo material encontrado é informado ao Instituto de Patrimônio Histórico Nacional (Iphan).
As indicações são dadas por os próprios moradores que, vez ou outra, esbarram em inscrições rupestres ou pedras polidas.
Ossadas também são encontradas e há suspeitas de que a cidade abrigue, a exemplo do Crato, um cemitério indígena.
Comunicação
Quem não se comunica ...
Os equipamentos impressionam.
A qualidade da produção também A Casa Grande possui um verdadeiro pólo de comunicação, com TV, Editora e Rádio.
O objetivo é que as crianças e jovens aprendam a linguagem dos diversos meios, sem necessariamente tornarem-se comunicadores:
«É para que, através da comunicação, eles tenham noção da diversidade de formas de ver as coisas e encontrem o espaço que cabe a eles dentro do mundo», explica Alemberg Quindins.
Alemberg, que quando criança montou uma editora na pequena Miranorte, em que desenhava revistas e pôsteres à mão, pôde dar condições para que os meninos de Nova Olinda tivessem meios profissionais para criar.
A Escola de Comunicação da Meninada do Sertão funciona no prédio do Educandário, onde funcionou a primeira escola da cidade.
Estrategicamente localizada ao lado do Memorial do Homem Kariri, foi doada por o Governo do Estado em 1998, após a Fundação ter apresentado um projeto diferente ao governador:
todo feito em quadrinhos.
Tudo começou com a Rádio, no final de 1993.
Os meninos colocaram um amplificador -- doado -- em cima do telhado da Casa Grande e passaram a transmitir programas nos fins de semana.
Quando o Unicef conheceu o trabalho, deu o apoio necessário para a criação da Escola de Comunicação.
Rádio Casa Grande FM
Tem licença para funcionar como rádio comunitária e, assim como todos os outros laboratórios da Fundação, é totalmente gerenciada por os jovens.
São 16 horas de programação diária:
das 6h às 22h.
Em o acervo da CDteca, centenas de títulos servem de apoio ao programas.
As músicas são selecionadas cuidadosamente por os meninos, que buscam oferecer alternativas de qualidade ao conteúdo da outra rádio da cidade.
Forrós descaracterizados, que incentivam o uso de álcool e a sexualidade precoce em suas letras, são comuns nas rádios da região, que chegam a desrespeitar a lei, divulgando propaganda de motéis no período da tarde.
Os programas «de criança para criança» atravessaram o oceano:
o Unicef levou Alemberg Quindins para a África, mais especificamente a Moçambique e Angola, onde ele ajudou a implantar o projeto.
Só em Moçambique são 31 programas inspirados na Casa Grande FM.
Editora Casa Grande
Cariuzinho é um índio que leva os meninos numa viagem por o tempo.
Personagem da revista em quadrinhos Turminha da Casa Grande, ele pode ser visto no centro da Sala do Coração de Jesus, no Memorial do Homem Kariri.
Outra revista, criada em 2007, é Os Kariri, em que uma arqueóloga guia as crianças por descobertas nos campos da Chapada.
Desenhada por Valeska Cordeiro, essa é uma das publicações da Editora Casa Grande, que também edita mensalmente o Jornal Mural.
Notícias, resenhas de filmes e livros, poemas e ilustrações feitas por a garotada preenchem as páginas do jornal, que fica no mural da biblioteca.
TV Casa Grande
Ela já foi uma TV de verdade.
O primeiro canal de televisão brasileiro feito de criança para criança durou três semanas, até ser lacrado por a Anatel.
Alemberg foi processado e impedido de sair do país durante três meses, até que tudo fosse arquivado.
Mas os meninos não perderam o rebolado.
Criaram o programa 100 Canal:
além de ser uma piada com a própria situação, eles homenageiam o Canal 100, programete que passava antes das sessões de cinema antigamente.
E, da mesma forma, também está na grande tela:
vai ao ar antes dos filmes exibidos para a população de Nova Olinda aos domingos, no Teatro Violeta Arraes.
O mote do programa são depoimentos individuais, ou de personalidades, ou de pessoas falando sobre o lugar onde vivem, entre outros temas.
Um dos documentários, Pingo -- o filme, de Samuel Macedo, foi vencedor do 2º Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul.
Artes
Hoje tem espetáculo?
Tem sim, senhor!
Cine-teatro e produção musical são os destaques do programa de artes
Em a minúscula Nova Olinda (que, dizem seus moradores, é uma cidade de primeira, porque se você engatar a segunda marcha, passa), impossível não notar o Teatro Violeta Arraes -- Engenho de Artes Cênicas.
Todo em tijolo aparente, destaca-se das outras construções.
Foi inaugurado em 2002, com show de Arnaldo Antunes, que foi até lá por conta própria se apresentar.
Em o belo edifício acontece o projeto de formação de platéias.
Sessões de cinema e espetáculos de música, dança e teatro são atrações constantes.
A os domingos, já é tradição:
às 9h e às 19h, uma música soa em toda cidade, emitida por o velho amplificador durante bons minutos, avisando que a hora da sessão de cinema se aproxima.
A seguir, uma gravação avisa que as portas serão abertas e informa o filme do dia.
Pela manhã, sessão infantil.
à noite, é a vez do público adulto.
Durante a semana, filmes são exibidos para alunos de escolas da região, que visitam regularmente a Casa Grande.
Durante a Mostra Sesc de Artes, em novembro, o teatro fica efervescente.
Fora de temporada, regularmente é palco para shows, que são gravados e editados no estúdio de TV.
Recentemente, o forrozeiro Chico Pessoa escolheu o Violeta Arraes para a gravação de seu DVD.
Sons de Casa
A música é um das oficinas de maior sucesso.
Não é de estranhar, já que os coordenadores e fundadores da Casa Grande são músicos.
Ali existem quatro bandas para diferentes faixas etárias.
As crianças começam brincando na Bandinha de Lata.
Com instrumentos construídos por elas mesmas, reproduzem a formação de bandas profissionais, com tudo a que têm direito:
bateria, contrabaixo, guitarra.
E espetáculo ensaiado:
Som in Banda de Lata, que já levou os pequenos a se apresentarem na capital do estado.
Depois, há a banda dos «médios».
Eles apresentam o show Casa Grande FM, onde começam a tomar contato com instrumentos de verdade.
Quem os ensina são os meninos mais velhos que já passaram por todas as etapas, até chegarem à banda principal.
Em setembro de 2006, quatro Franciscos rumaram para a Alemanha:
Francisco Alemberg, coordenador;
Francisco Aécio, Francisco Hélio e Francisco Samuel, da banda Os Meninos da Casa Grande.
Foram apresentar o show Trilhas'U'Som na Popkomm, feira de música de Berlim.
A banda é formada por os meninos mais velhos, na faixa dos 20 anos.
É instrumental:
toca jazz com influências da música regional nordestina.
Além da Alemanha, para onde devem voltar em 2008, os meninos se apresentam constantemente em diversas capitais brasileiras, como São Paulo, Fortaleza e Recife.
Por fim, o espetáculo A Lenda, apresentado por Rosiane e Alemberg com a participação dos meninos, retrata, através da música, um pouco do universo mitológico dos primeiros moradores da Chapada do Araripe, os Kariri.
Turismo
Lar, doce lar
Demanda turística possibilitou a criação de um programa que dá formação e renda aos pais e amigos da Casa Grande
É gente que chega de todo canto, por todo motivo.
Uns vão por curiosidade, para conhecer o trabalho da Fundação.
Há quem vá com o objetivo específico de ministrar oficinas para os meninos.
Outros se apresentam no teatro.
O fato é que, com essa gente que vem de cá e de acolá, a Casa Grande começou a receber uma média de três mil visitantes por mês -- e a demanda por uma estrutura turística logo apareceu.
A solução foi criar um quarto programa, de Turismo, que é administrado por a Cooperativa de pais e amigos da Casa Grande (Coopagran).
Foi uma forma também de inserir as famílias dos meninos dentro do projeto da Casa Grande.
O carro-chefe do programa são as pousadas domiciliares, nos fundos das casas das famílias.
Cada casa possui um quarto com dois ou três beliches, banheiro, frigobar, televisão e som.
As refeições são as mesmas dos moradores.
Café da manhã, almoço e jantar estão inclusos na diária, que custa 40 reais.
De este dinheiro, 80 % vai para a família, 10 % para a manutenção da Cooperativa e 10 % para o transporte de alunos que cursam faculdade no Crato.
O programa é via de mão dupla:
auxilia na formação e geração de renda dos moradores locais e, ao mesmo tempo, permite que o turista conheça os costumes do sertanejo, vivendo sob o mesmo teto, comendo sua comida e, principalmente, puxando uma cadeira para bater um bom papo na calçada depois do jantar.
Em a Casa Grande, uma loja de artesanato e uma lanchonete também funcionam sob supervisão da Coopagran.
Em a sede da instituição também é possível se informar sobre os roteiros da região, contratar o serviço de um guia e alugar uma van para conhecer as outras cidades.
Graças a essa iniciativa, a cidade de Nova Olinda recebeu o selo de cidade turística, conferido por o governo do Estado do Ceará e por a Embratur.
Confira de perto:
Fundação Casa Grande -- Memorial do Homem Kariri
Rua Jeremias Pereira, 444 -- Nova Olinda -- CE
Tel. (88) 3546-1333
Como chegar:
De avião:
o aeroporto de Juazeiro do Norte recebe vôos da BRA, Ocean Air e Gol vindos de Fortaleza e São Paulo, diariamente.
De ônibus:
o acesso mais fácil é por Fortaleza, de onde saem ônibus de hora em hora para o Crato.
São cerca de 8h de viagem por a empresa Guanabara, em execelentes veículos.
Também há ônibus saindo de todas as outras capitais do Nordeste e diversas do Sudeste.
Entre em contato com a Casa Grande, que eles providenciarão seu transporte até Nova Olinda.
Ou então, pegue um táxi até o ponto de Topics no Crato.
Número de frases: 255
São R$ 4 reais até a porta da cidade.
É importante realizar um movimento contra a corrente com tantos problemas e cegueiras no mundo.
Para quem sonha com uma sociedade melhor, é essencial criar logo as suas bases.
Sinto essa necessidade de reciclar, de transformar a vida, e me alegra encontrar outros que pensam o mesmo.
A reciclagem de papel já acontece em indústrias e é ótimo que seja, para que ajude a diminuir o impacto da humanidade no planeta, que destrói e / ou prejudica ecossistemas.
Uma atividade muito agradável, devo dizer, é a reciclagem em casa.
Já tentou?
Se não, tente.
É uma atividade relaxante, quase anti-estresse, e ligada a princípios de vida, de ação «eco-amigável».
Como fazer?
Bem, vamos lá!
Material:
-- bacia;
-- revista que se ia jogar fora;
-- um pouco de água;
-- tempo;
-- vontade;
-- materias de superfície lisa;
-- rolo.
[tela / moldura ~ caso tenha / queira]
Arranque, por exemplo, 8 páginas de uma revista e pique o papel numa bacia, que receberá água de modo que os pedacinhos fiquem molhados.
Deixe 24 horas.
Em o outro dia, la la, volte a dar atenção à bacia.
Coloque porções de papel picado e água no liquidificador para obter uma massa, ou então mãos à obra, pegando tudo com a mão e amassando, até virar aquela coisa legal de sentir.
Pegue porções e coloque em superfícies lisas e planas.
Um exemplo é a bandeja de isopor, daquelas de supermercado (uma dica eco-amigável: quando forem comprar queijo e presunto, peçam só no plástico, sem isopor).
Pode usar da moldura também pra definir bordas.
Com o rolinho (ou algo cilíndrico, como desodorante), espalhe a massa para que o papel fique fino, mas cuidado pra não ter buracos na massa úmida esticada.
Quando estiver do seu agrado, coloque as superfícies no sol, para que os papéis sequem e fiquem bons para os usos que queiram fazer.;)
Um site bem legal para reciclagem é o [www.recicloteca.org.br].
Vale muito visitá-lo!
Número de frases: 31
Dica do tio.
Porto Velho cresceu à beça e, dizem, já está encostando em Candeias do Jamari (município a 30 quilômetros da Capital).
A expansão acelerada deve-se à ocupação de uma grande região da cidade, a Zona Leste.
Diversos bairros que surgiram -- e continuam surgindo -- por ocupações provocadas por o desemprego e por a migração logo se transformaram numa área discriminada.
A violência não demorou a aparecer e gente boa passou a ser rotulada.
Morar além da avenida Guaporé -- uma espécie de linha divisória entre o Norte e o Leste da Capital -- é quase sinônimo de ser marginal.
Paradigma preconceituoso que começou a ser quebrado com a chegada de um missionário, um quase salvador daquele povo discriminado.
Em 1992, o padre italiano Enzo Mágano idealizou a Escola de Arte Profissionalizante Téos e, em meio a poucas oportunidades de educação e lazer, crianças e adolescentes conheceram o artesanato.
A mente quase vazia, as mãos antes desocupadas, começaram a criar.
E foi assim que Rosinaldo Alves, 29 anos, morador do bairro JK I, que «não fazia nada da vida», como ele mesmo diz, começou sua trajetória profissional.
Há 13 anos, ele é o instrutor do curso de cerâmica da escola e já ensinou a arte de modelar argila a mais de 400 pessoas.
«Comecei a fazer o curso assim que a escola abriu, com o instrutor Ramos, e fiquei lá como estudante até 1994», lembra o agora profissional, que começou a ganhar uns trocados trabalhando ainda com o seu professor na confecção de peças.
Ele conta que se sente feliz ao ver a dedicação dos alunos no curso e acredita que em muitos casos o que falta é opção para os jovens.
«É muito gratificante ver os alunos interessados em aprender a lidar com cerâmica, fazendo vasos e outras peças.
Talvez se eles não tivessem aqui estariam praticando crimes, e é justamente esse o nosso objetivo:
resgatá-los do caminho da criminalidade».
Todas as tardes, das 14h às 17h, Rosinaldo dá aulas para 15 crianças e adolescentes que participam do curso de cerâmica, que é dividido em três etapas.
Aprendem, na primeira etapa, em máquinas manuais, técnicas básicas de manusear a argila e desenvolver peças, como vasos e jarros.
A segunda etapa do curso consiste em pinturas e estampas (modelagem).
Finalmente, os aprendizes se dedicam à cerâmica porcelanizada e presépios.
A Téos é a única escola na região Norte, segundo Rosinaldo, que trabalha com cerâmica porcelanizada e já recebeu convite para expor na embaixada italiana em Brasília.
Oportunidade para seguir novo caminho
O estudante da sétima série do Ensino Médio Arilton Ribeiro, 13 anos, mora no bairro São Francisco e sai de casa meia hora antes de começar o curso.
É o mais «agitadinho» da classe e também um dos que mais se destacam, segundo ele próprio.
«Já tenho dois diplomas do curso e sei fazer, até agora, vasos, pratos e jarros para flores», diz o menino que sonha em ser advogado ou soldado do Exército.
Ele diz que não teme a violência que há no bairro onde mora, mas confessa que os pais pensam em se mudar para o Maranhão.
«Perdi as contas de quantas vezes confundi barulho de foguete e tiroteio.
Tem dias que começa cedo e prefiro não arriscar sair de casa.
Fazer o quê, né?».
As histórias são parecidas e servem de bom exemplo para os colegas.
É o caso do porto-velhense Iuri Ribeiro Silva, 18 anos, que se inspirou no tio que trabalha com cerâmica e resolveu se matricular no curso.
Ele diz que seus colegas começaram a vê-lo de forma diferente.
Interessado nas aulas, passou por uma mudança quase que radical de comportamento.
Projetos
Iuri conta que já foi tentado várias vezes a entrar na vida do crime e acredita que pode servir de exemplo para seus colegas.
«Tenho um colega que estava envolvido com drogas e resolveu largar o vício quando conversamos sobre projetos para o futuro.
Foi aí que eu disse que estava fazendo um curso e ele resolveu começar a freqüentar o de culinária.
É muito melhor que estar na rua», acredita.
Iuri aprendeu, em quinze dias matriculado, a fazer vasos pequenos e recebe o apoio da família para continuar freqüentando as aulas.
Ele sonha em ser policial militar, pois pretende garantir a segurança do bairro onde mora e defender a cidade onde nasceu.
O endereço da arte
Localizada na rua Mané Garrincha, no bairro Socialista, no centro da zona Leste, a Escola Profissionalizante Téos tem como principal objetivo dar oportunidades a crianças, jovens e adultos carentes de opções.
Assim, ao invés de correr o risco de ser seduzido por o dinheiro fácil da criminalidade, eles têm chances de se profissionalizar gratuitamente, ou ocupar o tempo de forma saudável e segura.
É um lugar onde os jovens, principalmente, passam grande parte do tempo estudando e aprendendo habilidades em cursos até então desconhecidos, como o de cerâmica, por exemplo.
A instituição oferece também os de informática, pintura em tela e de corte e costura.
A escola sobrevive das colaborações feitas por os associados, das vendas de peças e conta com o apoio de instituições italianas.
As peças podem ser adquiridas na própria instituição e têm preços que variam entre R$ 5 e R$ 90.
Segundo Rosinaldo, falta divulgação dos trabalhos realizados na escola.
Número de frases: 48
Quem quiser colaborar pode entrar em contato por o telefone (69) 3214 7443.
Pois que está acontecendo em Blumenau a Feira do Livro.
Sobre este assunto, gostaria de poder escrever mais tarde e especialmente sobre ele.
No entanto, é necessário dizer que alguma utilidade cultural teve.
E foi na mesa-redonda com romancistas catarinenses que a Feira do Livro de Blumenau, mesmo depois de quatro dias acontecendo, tomou corpo finalmente.
Integraram a conversa os autores Maicon Tenfen, de Blumenau e Carlos Henrique Schroeder, de Jaraguá do Sul, mediados por o historiador e escritor blumenauense Viegas Fernandes da Costa.
O terceiro participante, Rodrigo Schwartz não pôde aparecer.
Sob o tema Romance Contemporâneo, os dois escritores debateram não somente o gênero literário, mas também mercado e projeto literário, aquele que permite ao aspirante a escritor sê-lo ou procurar outra coisa para fazer.
Sobre os dois escritores, é preciso apresentá-los.
Maicon Tenfen, de 32 anos, é natural de Ituporanga, no interior catarinense.
Doutor em Literatura por a UFSC, leciona Literatura Brasileira na FURB, em Blumenau, e tem oito livros publicados.
Contista de fôlego, Tenfen é quem nos tira o fôlego com suas histórias de suspense em que o inusitado beira o previsível.
Em a região, é bonito comentar sobre o escritor e receber de resposta um «Eu já li!», comentário tão caro a autores blumenauenses.
Sem dúvida, Tenfen tem grande responsabilidade no enaltecimento da literatura local e do gosto por ler que provocou em centenas de estudantes com suas histórias.
Carlos Henrique Schroeder, 31 anos, é natural de Trombudo Central, no Alto Vale, e agora vive em Jaraguá do Sul.
Com Rosa Verde, seu mais famoso romance, Schroeder conta a história do movimento integralista e suas ações, tendo como pano de fundo a Jaraguá dos anos de 1960.
Se formos pensar na importância de se ter um romancista e / ou contista de peso numa região em que a literatura mais consumida é a das dicas de Veja, o que se pode dizer de quem ainda ousa fazer, através da literatura, o resgate histórico de uma época sombria e pouco lembrada como a que antecedeu a ditadura militar no Brasil.
SCHROEDER
A fala de Schroeder beira o intimismo.
A o falar sobre o Romance Contemporâneo, apresenta seus livros falando do leu primeiro, quando ainda guri.
«Comecei por Camus, Kafka ...
Não comecei lendo poesia, como a maioria das pessoas.
Leio romances desde os 12 anos».
Teorizando, Schroeder explica que existem dois tipos de romancistas, os de enredo e os de linguagem.
Sobre isso, o escritor explica que há romances que tentam conquistar o leitor através de palavras, de como elas chegam ao leitor, de como dizem o que se poderia dizer de outra forma, mas dizem de forma rebuscada.
Quanto aos romancistas de enredo, estes estão mais preocupados com os fatos, com o decorrer da história:
a surpresa, a curiosidade, o suspense.
«O bom escritor tem que ter dos dois;
precisa ser tão bom na linguagem como no enredo que ele leva para o leitor», diz o escritor.
E em relação aos diversos escritores que surgem de tempos em tempos, Schroeder argumenta:
«Só vão ficar os escritores que tiverem um projeto de literatura».
Ou seja: fica por cima o escritor que escreve o que sabe que está escrevendo e consegue passar isso ao seu leitor.
Colocando na prática sua fala sobre os tipos de romance, Schroeder explica os dois livros que tinha em mãos durante a conversa.
Enquanto para escrever Rosa Verde precisou do apoio de uma folha A3 (onde desenhou o mapa do enredo), em Ensaio do Vazio mistura a linguagem neo-barroca com linguagem contemporânea.
«É um livro para escritor ler», diz ele, contrapondo a densidade literário de Ensaio do Vazio à tensão de Rosa Verde.
TENFEN
Maicon Tenfen, por a natureza acadêmica, tratou de ser mais didático, por assim dizer.
Citando romancistas catarinenses, inclui numa lista de importância os nomes de Dionísio da Silva, Cristóvão Tezza, Godofredo de Oliveira Neto, Urda Kluger ...
Apontando para Flaubert e seu Madame Bovary, Tenfen coloca esta obra francesa como de primordial importância para se entender o romance contemporâneo.
«Qualquer romance que se leia depois de Madame Bovary tem alguma semelhança, ainda que inconsciente, com este livro».
Flaubert mudou o rumo da literatura ao colocar no papel (na época, quem lia romances eram as senhoras burguesas) os podres da burguesia francesa.
De ali em diante, o romance nunca mais foi o mesmo.
No entanto, Tenfen atenta para as dificuldades que o romance contemporâneo enfrenta.
Tanto ler -- mas principalmente escrever -- um romance é um grande investimento.
Investe-se tempo, investe-se emoção e o retorno ...
«Não há retorno, senão o aprendizado;
quando você lê, você aprende e quando escreve é isso ao quadrado».
Para explicar a diminuição do interesse por o gênero romance, Tenfen cita Moacyr Scliar, para quem a tendência da literatura é diminuir de tamanho -- basta perceber os últimos livros de Scliar, que envolvem da mesma forma, mas não são mais tão grandes:
vivemos na modernidade de um mundo que nos exige tempo o tempo todo.
A Crise Ou A Hora do Romance?
Quando é aberto o espaço para perguntas, essa questão aparece melhor.
Afinal, a literatura está em crise e estaria em crise o romance?
Para Schroeder, o que está em crise é a «mídia romance», o livro em si, que tem perdido cada vez mais espaço para outros meios midiáticos, como o rádio, o cinema, a televisão.
É mesmo difícil para uma forma de comunicação tediosa (no que diz respeito a não falar, não se mexer etc) competir com o fluxo de informações que os eletroeletrônicos são capazes de transmitir.
Tenfen vê de outra forma.
Demonstrando a imersão do ser humano contemporâneo na Informação ou na quantidade de informações, o escritor mostra que os grandes romances ou as grandes épocas para esse gênero literário foram momentos de crise.
Sendo assim, " se o romance reflete uma sociedade em crise, esse é o grande momento do romance.
Surgem grandes romances porque a crise é profunda».
Uma Feira do Livro Vazia
Uma professora de Ensino Médio presente na platéia questiona com os dois escritores a ausência de interesse por leitura e de pessoas na visitação à Feira do Livro de Blumenau.
Schroeder causa alvoroço ao livrar o Estado de responsabilidade.
Para o escritor, o que «falta iniciativa da sociedade civil», lembrando que a educação vem de casa, embora não tenha sido criado num ambiente de leitores.
Tenfen sugere que tem que se trabalhar por um ambiente propício à leitura e cita o PROLER como um bom exemplo de trabalho junto a professores e alunos.
«No entanto, o PROLER é direcionado para o Ensino Fundamental, mas que tipo de trabalho se faz com o Ensino Médio?».
O escritor e professor lembra que nas séries iniciais do Ensino Fundamental é realizado um trabalho de incentivo a leitura que perde toda a força com a chegada da puberdade:
«Em esse época, o nível de leitores chega a zero».
Para Maicon Tenfen, é necessário que seja feita uma transição entre as leituras da infância para a puberdade, e que esta transição sirva de ponte entre os dois períodos, a fim de não se perder leitores.
Afinal, As Vendas Aumentaram
Como última pergunta para fechar esta conversa de quase duas horas, um espectador faz a ressalva de que existe boa literatura sendo comercializada, que existe fomento e que há a Internet a fazer o seu papel.
Schroeder, em contraponto, mostra que as vendas aumentam porque a população aumenta -- e hoje o número de pessoas alfabetizadas é maior do que, por exemplo, no século XIX.
No entanto, a crise se vê não somente relação escritor x mercado, mas também na relação com a própria literatura.
«Tem-se escrito muita coisa ruim por aí».
No que diz respeito à Internet, Schroeder questiona o valor da Grande " Rede.
«A Internet somente serve para o mercado, não para a Arte».
Sua fala é contraposta por a fala de Tenfen, para quem a Internet tem a grande propriedade de permitir que escritores que não conseguem espaço no mercado editorial possam mostrar seus trabalhos e seus nomes.
Com o fim da conversa entre os autores, o que ficou foi uma enorme sensação de saciedade.
São raros, por aqui, os debates abertos entre escritores.
Este só conseguiu público porque estiveram presentes alunos de Letras da FURB e um ou outro escritor agremiado de alguma instituição literária blumenauense.
Em o mais, às 21 e pouco, quando se findava a interessante e rica conversa, já nem todos compunham a platéia.
Se a Feira do Livro de Blumenau tomou forma, foi nesta noite, quando a Literatura passou a ter o devido destaque.
Ninguém melhor para falar sobre o livro do que alguém que tem o contato mais direto com esse objeto instigante.
Ninguém melhor do que quem os escreve.
Maicon Tenfen e Carlos Henrique Schroeder sem dúvida sanaram dúvidas e elucidaram um ponto importantíssimo:
existe uma literatura contemporânea sendo produzida em Santa Catarina que, apesar dos pesares, vai muito bem, obrigado!
Número de frases: 84
Eu tinha pensado em ver o jogo de estréia do Brasil num boteco da Ceilândia, cidade-satélite de Brasília.
Não tinha idéia de que boteco, mas sabia bem como ele deveria ser:
uma tv de 14 " pegando meio mal e pendurada na parede, e um balcão recheado de quitutes de procedência duvidosa que incluem, claro, o ovo cor-de-rosa e aqueles suspeitos miúdos de galinha, ou algo que o valha.
Em a minha imaginação, eu assistiria ao jogo em pé, encostado nesse mesmo balcão, dividindo uma prosaica cerveja com algum amigo que se aventurasse a ir com mim.
Quando saíssem os muitos gols esperados, abraçaria pessoas que nunca tinha visto e nunca mais voltaria a ver, num emocionante exercício antropológico / sociológico / patriótico.
Tipo político em ano de eleição, que come até buchada de bode para convencer o povo de que é «gente como a gente».
Daria uma baita matéria.
Mas confesso que não foi nada disso que aconteceu.
Ninguém topou ir com mim, apesar das inúmeras insistências e das promessas de que até pagaria a conta.
E aí me restaram três opções.
A primeira era ver na casa de um amigo, que estreava uma semi-dinossáurica televisão, no tamanho e na tecnologia.
Mas não via interesse em relatar isso para os leitores do Overmundo.
Talvez pudesse me ater às características técnicas de tal aparelho, comprado de 2ª mão de seu sogro, que aproveitou uma promoção nas Casas Bahia para adquirir uma TV novíssima de plasma.
Esperto, passou a velha adiante para meu amigo.
A segunda era assistir num shopping, que tinha promoção de chope barato.
Sinceramente, essa idéia não me seduziu nem por um segundo.
Não gosto de shoppings.
Dá aquela idéia de ser sempre a mesma hora do dia.
Aí, quando você sai de lá, sempre tem alguém que fala:
«Nossa, já é tarde.
Nem percebi».
Curto não.
A terceira, e de longe melhor, era ver na casa de Laurent, com mais alguns amigos franceses, em rodada dupla:
primeiro, o jogo da seleção de eles;
depois, o da nossa.
Le barbecue
Churrasco feito por franceses sempre é uma experiência diferente.
Há pouco tempo fui a um em que estava tudo muito limpo e previamente organizado.
Os espetinhos (brochettes, para eles) já empilhados e decorados com pimentões verdes e amarelos, em homenagem à seleção.
Merci beaucoup. Cétait très gentil.
O do dia do jogo foi também curioso:
a Skol, super gelada, quase não era tocada por os compatriotas de Napoleão, que preferiam degustar fartos pedaços de picanha acompanhados de uma taça de, claro, vinho tinto.
Fora isso, são como os brasileiros.
Torcem, pintam os rostos, exibem bandeiras, vestem camisetas, gritam palavras de ordem e xingam o juiz.
Em francês.
O jogo dos «les bleus», ou» os azuis», como é conhecida a seleção de eles, foi fraco.
Zero a zero miúdo, miúdo.
Decepção geral.
Mas estava quase na hora do Brasil entrar em campo.
Então, mais vinho tinto, pra renovar os ânimos.
Ronaldô, Adrianô, Ronaldinhô
«Como é amarelo em francês?»,
perguntei." Jaune».
Então soltei um «allez les jaunes» meio tímido, rapidamente correspondido por um «allez Daniel».
Simpáticos esses franceses.
De o jogo, não preciso falar muito.
O Galvão Bueno já falou demais.
Ele sempre fala demais.
Mas a partida estava tensa.
De vez em quando alguém gritava um «vai, Ronaldinhô»,» passa, Adrianô», «corre, Ronaldô».
Por instantes, chegava a me esquecer de que não eram brasileiros, tal o interesse e a torcida por a seleção canarinho.
Mas logo me recordava das suas origens, ao ver o vinho ser por eles fartamente sorvido.
A catarse conjunta se deu no gol de Kaká.
Os brasileiros, sentados quase colados à TV, pulavam e se abraçavam.
E logo os carrascos de 98 se juntaram à festa, com mais bandeiras, apitos, cornetas e muito, muito barulho.
De repente, até me esqueci dos dois gols de Zidane e do de Petit naquela final.
Cabe dizer que o do Petit é o que mais detesto.
Dois a zero tava bom, não precisava de mais um.
Apesar do gol, o jogo continuou morno.
«Robinhô» entrou e deu um certo trabalho.
Um jornal daqui de Brasília deu nota 6 pra ele, com a sentença cravada ao lado:
«entrou, mas não teve tempo de fazer muita coisa».
Engraçado como a imprensa esportiva adora essa frase.
Não devem ter tempo de fazer uma resenha mais inteligente.
Fim de jogo.
«Les bleus «e» les jaunes» se confraternizam e lamentam mutuamente o jogo ruim das duas seleções.
A gente ainda levou a melhor, pois ganhou.
As garrafas vazias de vinho e o balde ainda cheio de Skol entregam quem teve a maior dor de cabeça da tarde.
* * * " O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A idéia é relatar a diversidade de manifestações que ocorrem em torno da Copa do Mundo por o país afora.
A proposta é contar como foi a estréia do Brasil no torneio em diferentes locais.
Número de frases: 71
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo."
Wander Antunes dedica uma vida aos quadrinhos, seja criando, editando revistas ou simplesmente filosofando sobre o tema
Entre tantas tintas, entre textos, paginações do imaginário, argumentos loucos, bem humorados, épicos, montanhas, faroestes, Stan Lee, Moebius, legendas, lendárias figuras, Edgar Rice Burroughs, Tarzan, Zorro, Batman o eterno Cavaleiro das Trevas, subterrânea criatura dos escuros mundos das trevas, Marvel, estantes prateadas do surfista, Antonio das Mortes, Jean Girou, que também é Moebius -- em meio a tudo isso, alguém brada com a força de todos os pulmões juntos:
«Meu projeto de vida é HQ».
O que leva algumas pessoas a se diferenciarem de outras quando seus projetos de vida estão em xeque?
«Mate-me se puder!"
dizem alguns desafiadoramente.
Destemidos como heróis que se desmancham e se recompõem com as porradas da vida.
Diferente daquele anti-herói, o personagem Pessoa, sim, o poeta Fernando que diz se abaixar, tão reles, tão vil, ante a possibilidade do soco!
«Ora, homem que se preza tem que aprender a levar porrada!»,
diria um herói desses qualquer da Marvel, por exemplo.
Mas HQ é uma coisa, poesia é outra, dirão os incautos.
O outro responde:
«A atitude é poética quando você ultrapassa os limites da vida comum e abraça as santas tragédias que darão uma dimensão épica para sua vidinha tão normal, tão banal, tão comum que faria corar o mais reles dos heroizinhos que a indústria americana incutiu em nossas cabecitas de cucarachas tontas."
Tontas tintas.
Vamos organizar o roteiro dessa história?
Afinal, cadê o herói?
Wander Antunes está à beira dos quarenta anos, leva uma vida que ele diz ser muito linear, tudo certinho, tudo normal, sem grandes aventuras, sem grandes tragédias.
Isso é o que ele diz, mas ouso afirmar que do meu ponto de observação percebo que esse discurso parece fazer parte de mais um de seus argumentos que viajam por estradas já bem longínquas, muito além daquele quarto-mundo que ele vive e utiliza como um banker, gueto, caverna, sei lá o quê.
Depois de tantas idas, voltas, revoltas, vindas, vida se esvaindo na boca do tempo, com seus eternos dentes a triturar carnes, espíritos, memórias, histórias e pré-histórias, Wander Antunes está com sua carreira em franca ascensão rumo a um profissionalismo sem fronteiras.
Escreve para uma editora suíça, que fica em Genebra, a Paquet, que tem um editor-empresário, Pierre Paquet, um visionário segundo nosso herói, que vive de revelar e juntar talentos de países periféricos.
Wander, por exemplo, escreve para os desenhos do Walther Taborda na Argentina, Toni Sandoval no México, Tirso Cons na Espanha, José Aguiar no Brasil, e por aí vai.
As publicações da Paquet são sofisticadíssimas, álbuns de luxo, coloridos, papel de primeira, capas grossas, em língua francesa, distribuídas em países como Dinamarca, França, Suíça, Canadá e Bélgica.
Ele foi premiado na França com o álbum Big Bil est, história de sua autoria com desenhos de Whalter Taborda.
Faturaram o Prix Marlysa:
Le Coup de Coeur, Chambery BD, um importante prêmio francês.
Conversando com ele, antes mesmo de minhas primeiras provocações sobre o fato de escrever histórias ambientadas em outros lugares, já engatava justificativas, como um motor ritmado, pronto para avançar sobre visões restritivas, sobre temas como regionalismos, nacionalismos -- não consigo deixar de provocar e pergunto:
«Como é isso de escrever para geografias como o sul dos Estados Unidos, por exemplo, histórias que se passam em outros territórios, outras paisagens ...?"
Ele rebate de pronto:
«Escrevo para qualquer lugar, o homem é o mesmo em qualquer lugar, minha imaginação constrói histórias a partir de minhas referências literárias, como Ernest Hemingway e William Faulkner;
cinematográficas como John Ford, James Stewart, Henry Fonda;
dos quadrinhos como Tarzan, Batman.
Meus heróis de todos os tempos me dão a noção precisa de outras realidades.
Os sentimentos são os mesmos aqui ou em qualquer outro lugar.
Já escrevi muitas histórias ambientadas em Mato Grosso.
Meu maior herói no Brasil é Nelson Rodrigues, tenho um personagem que é reincidente, o policial Zózimo Barroso que é pura inspiração livre a partir do Rio de Janeiro dos anos 50, com um olhar a lá Nelson Rodrigues, com o Rio como cenário».
Emenda de forma definitiva:
«O que eu não aceito é ficarem me cobrando um compromisso com um país que não tem compromisso com mim!"
Calo-me, fico meio sem jeito.
Inquieto, fico pensando naqueles roteiristas que se profissionalizam de verdade e que escritores podem viver no mundo da lua e inventar histórias em qualquer lugar ou circunstância, que é um exercício-ofício maldito de suprema liberdade e que não existe verdade maior que qualquer outra no campo da imaginação.
Penso também que a questão não é tão simples assim, que Nelson Rodrigues escrevia crônicas cariocas cotidianas, das quais ele fazia parte, seja como participante ou como voyeur, que ele transpirava aquilo tudo, que ele respirava os dramas da Tijuca, as tragédias do Méier, de Copacabana, que acho difícil (nunca disse a palavra impossível) deslocar o eixo imaginativo para outras torres, outros mares ...
Que a alma passeia por os contornos dos lugares em que vivemos, comemos, defecamos ...
Sei lá, cada louco com sua escrita.
Relembro de seus projetos culturais como a publicação da revista Vôte!,
com uma linha editorial que misturava HQs, contos, poesias, crônicas.
Uma publicação de muita qualidade mas que não sobreviveu às sangrentas batalhas de um mercado frágil, que não produz condições de auto-sustenta ção, sempre dependendo de alguma coisa, de recursos principalmente, de distribuição que é o'nó do gargalo ' de qualquer produto.
Ele era um grande chorão, mas fazia!
Isso é o mais importante.
Aliás, continua fazendo, é o editor da Estação Leitura, que tem uma tiragem de 15 mil exemplares, segue uma linha editorial semelhante à Vôte!
e é patrocinada por a Lei Estadual de Cultura, através do Fundo de Cultura.
Falei na lata:
«Você melhorou demais, antes você era quase insuportável de tanto reclamar».
Riu e disse do alto de seus quase 40 anos:
«É a idade, é a idade."
Wander foi editor também, entre 2000 e 2001, da revista Canalha, quadrinho para quem não torce por o mocinho, que considero uma das boas edições de HQ no Brasil, publicada por a editora Brainstore em parceria com a Plural, que levou o mais importante prêmio brasileiro dos quadrinhos, o HQMix.
Wander Antunes sonha em levar o personagem Zózimo Barroso para as telas do cinema.
Desenha muito bem, mas agora só quer escrever.
Cara de bom moço e criador de personagens transgressores.
Vida e arte bem separadas, nada de imitações.
Imaginar não paga passagem.
Nosso herói é resoluto:
«Não tenho nada para contar sobre minha vida!"
Fim.
Número de frases: 63
A grande confusão em torno das obras de Cecília Meirelles parece que vai tomar novos rumos este ano.
Obras da escritora já podem ser editadas e reeditadas graças a uma decisão judicial do ano passado que, ao que tudo indica, deve acabar com 20 anos de brigas entre os herdeiros envolvendo direitos autorais.
Em esse tempo, a autora praticamente sumiu das prateleiras e o público leitor foi privado de seus livros.
Em a matéria do Estadão que li domingão, o professor de Direito Sérgio Branco, da Fundação Getútio Várgas (FGV) do Rio, mata a charada sobre as causas desse mafuá todo:
«O problema é que o direito (autoral) dura demais, 70 anos contados a partir da morte do autor, um prazo excessivamente absurdo.
São três gerações que brigam, e a obra deixa de circular, cai no esquecimento, a sociedade não tira o seu proveito."
Essa situação não é incomum -- nem aqui no Brasil nem em outros países.
Em o que dependesse da indústria e de alguns como Paul McCartney, suas obras nunca entrariam para o domínio público.
São fontes seguras de lucros.
A continuar nesse passo, a indústria de entretenimento deixará pouco ou quase nada para o domínio público -- mesmo tendo ela se alimentado durante anos desse caldo geral de mitos, lendas e personagens que habitam a nossa história desde sempre e estão à disposição para serem remixados quantas vezes forem necessárias.
Vampiros, múmias, heróis da Antigüidade, lendas, etc, estão aí pra não me deixar mentir.
E mesmo as criações protegidas por direitos autorais, como Mickey Mouse, acabam nesse balaio porque a ânsia criativa de muitos simplesmente transborda os prazos e regras draconianas do copyright.
Isso é ruim?
Muitos autores e toda a indústria acham que sim, mais por temerem o que disso pode sair do que por dados concretos.
A indústria da música sofre hoje com os downloads em redes P2P porque não percebeu a oportunidade antes daquele moleque espinhento do Napster e insiste em dar soco em ponta de faca colocando boa parte de seu público-alvo contra a parede.
Em vez de surfar a onda gigante, que bater de frente.
Vai tomar caldo.
A indústria japonesa de mangá entendeu a parada do lance e já surfa a onda.
Um embrionário modelo que atua entre a lei de direitos autorais e a pirataria desmedida vai de vento em popa na terra dos samurais e está inclusive salvando a indústria, conforme constatou a revista Wired em sua edição de novembro passado.
Basicamente, é o seguinte:
o mangá é a base da cultura pop japonesa, das revistas em quadrinhos a filmes, animações de TV, brinquedos, jogos eletrônicos.
É gigantesca, mas está em decadência.
As vendas caem ano após ano.
No entanto, uma outra indústria cresceu no paralelo, a dos mangás feitos por fãs, que pegam personagens famosos e remixam com outros, às vezes alterando até suas características originais -- algo como um Cebolinha serial killer contracenando com um Bob Cuspe convertido ao islã.
Esse pessoal se reúne em mega-conven ções e vendem milhões de cópias de suas obras piratas, tudo pulverizado entre milhares de autores amadores.
A indústria oficial até tentou bater de frente, mas acabou vendo que aquilo era um enorme campo de teste gratuito para seus títulos, além de fonte quase que inesgotável para garimpar novos autores.
Então, em vez de tentar eliminar essa concorrência, formou uma parceria implícita, às franjas da lei.
Os amadores não fazem muitas cópias do seu trabalho, para não canibalizar a indústria oficial, e esta faz vista grossa aos piratas, usando-os como termômetro do mercado.
Enquanto dá certo, todos ganham.
Se começar a dar chabu, voltam ao que era antes.
Lawrence Lessig, professor de Direito da Universidade de Stanford e um dos criadores da licença Creative Commons, afirma que o caso exemplifica bem a incompatibilidade das atuais leis de propriedade intelectual com a cultura moderna.
Se antes vivíamos numa era de leitura apenas, em que a passividade era regra, hoje com as inúmeras ferramentas que a tecnologia da informação nos oferece, podemos ler, editar, reescrever, alterar, transformar.
Basta querer e ter a criatividade necessária.
Não é a mesma coisa que fotocopiar páginas e distribuir, é recriar.
As leis, criadas na era anterior, não previam isso e não conseguem lidar com esse novo cenário.
No máximo, enxugam gelo.
Cecília Meirelles foi engavetada por culpa da lei de direitos autorais que deveria promover sua obra.
A briga de seus herdeiros por seu espólio é apenas um dos efeitos colaterais desse regramento anacrônico.
Se seus livros estivessem livremente sendo publicados, reeditados, comentados e, sim!,
recriados por fãs, todos estaríam ganhando -- a autora e sua família, os leitores, a indústria.
Em o caso, seguir a lei foi a pior opção.
A quem interessar possa:
as obras da escritora Cecília Meirelles estarão sob domínio público em 2034.
As primeiras gravações dos Beatles e de Elvis Presley, em 2012.
As de Noel Rosa estarão livres ainda neste ano de 2008.
Número de frases: 45
fonte:
Este relato poderia ter um tom de lamento e pesar.
Afinal, dois dias antes deste texto ser escrito, o estado de Sergipe perdeu um de seus maiores compositores, o versátil Ismar Barreto.
Perder não é o verbo mais adequado.
Afinal, seu humor e sua personalidade histriônica são imortais estão registradas em suas composições, que vão ficar para as próximas gerações de sergipanos.
E o que se passou logo após a sua morte não dá para ser descrito exatamente com a melancolia que costuma cercar as cerimônias fúnebres.
Ismar vinha lutando contra um câncer diagnosticado quase um ano antes de sua morte, vindo a falecer na manhã do dia 02 de junho.
Tive o privilégio de estar presente na última vez que cantou em público.
Era o aniversário de uma de suas irmãs, Marlene.
Mesmo já bastante abatido por a doença, tocou e cantou com o filho Netinho e seu grupo de samba para uma platéia de amigos e parentes.
Foi um desses momentos mágicos, em que a emoção foi suplantada por a alegria de ver pai e filho em comunhão musical não planejada.
Velando Ismar
Foi um dos funerais mais animados em que já estive.
Um sorriso maroto estampava o rosto do defunto, era o comentário geral.
Em o início, a tristeza tentou dominar o ambiente.
Foi então que, logo no início da tarde, Pantera, um dos grandes intérpretes da noite aracajuana, tratou de afugentar a maldita com a música de Ismar.
É óbvio que todos lamentavam sua partida, mas de um jeito especial, mais adequado a sua personalidade.
Para início de conversa, ele havia pedido para ser enterrado vestido de travesti.
Não foi atendido, já que os amigos e a família acharam melhor que estivesse elegante, com o seu característico chapéu panamá, bem do jeito malandro e boêmio que lhe era peculiar.
Aliás, o fino da bossa aracajuana foi ao funeral despedir-se do compositor:
«boêmios e analistas, loucos e bichas, palhaços e compositores ...
petistas e otimistas, ricos e artistas, urologistas, sapatões ...».
Exatamente como na canção «Madrugada», mil vagabundos contrabandeavam corações.
Choravam a fauna e a flora que ele descreveu tão bem.
No entanto, como a mesma canção preconizava, a melancolia ali não tinha vez.
Alguém chega com um CD contendo gravações caseiras, que é imediatamente tocado e ouvido com atenção.
Um telão foi instalado no local para exibir a gravação de uma homenagem em que vários intérpretes executavam suas músicas.
Políticos de todas as facções, autoridades, familiares, doutores, músicos de vários estilos, amigos e amigas lembravam de suas «armadas», de sua verve indolente, seu jeito meio bruto.
Seu tio, Milson Barreto, contava que ele havia ligado do hospital dez dias antes, para dizer que fecharia uma rua para comemorar o aniversário do tio no mês de junho.
Como o senso de humor é predominante na família, ele dizia que Ismar, apesar de não ter vivido para fazer a comemoração, havia lhe dado um «presentão» de aniversário:
seria enterrado no túmulo da família do tio, então este não poderia morrer durante três anos.
Em o bar da esquina próxima ao local onde o corpo foi velado, seu parceiro João Alberto e uma roda de amigos bebiam cerveja em sua intenção.
Um copo (cheio) para o falecido era mantido na mesa.
A bebida era regularmente trocada, «porque Ismar não bebia cerveja quente».
Após secarem a bebida do primeiro bar, dirigiram-se a um segundo do outro lado da rua.
Ainda mais boteco do que o primeiro, o pequeno estabelecimento da Rua Itaporanga, centro de Aracaju, parecia adequar-se até mais ao boêmio homenageado.
Os camaradas já agendavam outro encontro.
«Vamos nos encontrar para falar mal de Ismar», combinavam eles em meio a risadas.
Uma das esposas sintetizou bem a cena:
um bando de homens rindo e bebendo, mas segurando o choro.
Sabiam que a perda era irreparável para eles, para a cidade, para a música popular sergipana, mas procuravam manter vivo seu espírito, recordando as peripécias da juventude, o bom coração e suas tiradas inspiradas.
Não satisfeitos, estacionaram um carro e ligaram o som bem alto para ouvir a voz do amigo nas composições que todos cantavam divertidamente.
O grupo foi crescendo e já ocupava a calçada até a esquina da Rua Siriri, com algumas das figuras mais expressivas e atuantes da vida cultural da cidade.
A vizinhança deve ter estranhado a movimentação, animada demais para um velório.
Em o dia seguinte de manhã, houve cantoria antes do corpo ser levado num carro do Corpo de Bombeiros para o cemitério Santa Isabel, também no centro da cidade.
Em o caminho, mais piadas eram disparadas por os amigos:
«segura o Ismar que ali tem um cabaré e ele pode querer fugir pra ir lá».
Não se pode dizer que o ambiente no cemitério era exatamente festivo.
A tristeza e a dor predominavam e o talento do músico foi exaltado em discursos emocionados, mas sempre havia alguém que falava algo engraçado, quebrando a tensão.
As mulheres, um capítulo à parte na biografia do artista, capricharam no visual:
estavam elegantes e especialmente belas.
O preto não foi o básico.
Pareciam ter combinado que usariam roupas coloridas.
Sem excessos, mas atraentes, numa produção especial para o adeus ao famoso mulherengo.
Em a saída, ao invés de mais choro e lamento, uma certa leveza parecia ter tomado conta dos corações.
«Chegamos em casa bem dispostos e ficamos lembrando do meu tio e rindo das histórias de ele.
Parecia que todos haviam sido abençoados, foi um dia leve e muita gente ligou para a gente comentando isso», testemunhou sua sobrinha Ananda.
A o ouvir isto, fiquei pessoalmente surpreso e confessei a ela que também tivera um dia ótimo depois do enterro.
Fui caminhando para casa cantarolando «Viver Aracaju», que Ismar compôs quando viveu longe dos bares e recantos da capital de Sergipe e é considerada o hino informal da cidade onde o artista viveu a maior parte de seus 52 anos:
( ...) comer muito siri
andar de pé no chão
descer a Laranjeiras
entrar no calçadão
ir para Pirambu
beber lá no Dedé
pegar uns aratu
tirar bicho de pé voltar para a Aracaju
tomar um murici, então
à noite eu vou lá no Fan's
tomar chopp com o Pascoal
papo vai papo vem
fofocar não faz mal ( ...)
e quando o dia raiar
vou ver a vida nascer
te amo, Aracaju
resolvi te viver!
Trajetória
Mesmo com apenas dois CDs gravados, Ismar produziu um enorme repertório, do qual algumas canções são bastante conhecidas em sua terra.
Seguindo a tradição de mestres como Braguinha, passeava por estilos aparentemente antagônicos.
Suas bem-humorado composições são célebres, algumas com críticas bem mordazes, mas também soube escrever versos que beiram o lirismo, apaixonados por a vida e por os amores que teve.
Descreveu becos e bares por onde andou e chegou a compor em parceria com nomes como Antônio Carlos & Jocafi, Xangai, Dominguinhos, Paulo Diniz, Eliezer Setton e Zinho.
Em a área publicitária compôs mais de 1.200 jingles comerciais, institucionais e políticos que caíam na boca do povo.
Olhava bastante para o seu próprio umbigo e o de sua terra.
São freqüentes as referências a amigos -- como no chopp da letra acima com o jornalista e produtor cultural Pascoal Maynard, companheiro de muitas rodadas.
Recheou seus versos com regionalismos que são verdadeiros registros etnográficos da oralidade nordestina, a exemplo de «Coco da Capsulana», vencedora do Festival Canta Nordeste de 1993 na voz de Amorosa, a itabaianense que é uma de suas mais notórias intérpretes.
Em outra canção vencedora do mesmo festival em 1994, «Salada Tupiniquim», satirizou popstars com uma certa verve antropofágica:
( ...) Quando Pero Vaz de Caminha escreveu
Que aqui plantando tudo dá
Muita gente na Europa até deu
Vontade de se mudar pra cá ( ...)
E quem veio de lá pode ver
A Madonna dançando chen-nhen-nhen
Rolling Stones garçom em Olinda
Michael Jackson na Febem de Belém
Príncipe Charles catando caranguejo
Lady Di descascando aratu
Gorbachev enfermeiro em João Pessoa
Mike Tyson porteiro do Olodum
Maradona chofer em Maceió
E o Rambo gari em Aracaju ( ...)
O duplo sentido, a malemolência e a picardia, tradicionais na música popular nordestina, também eram o seu forte.
Em a minha humilde opinião, algumas de suas composições assumidamente bregas -- «Porteiro de Cabaré», por exemplo -- são mais criativas e musicalmente ricas do que muitas outras que exploram este filão.
Um velhinho de vermelho, cercado de veadinhos e que gosta de anões, na visão ferina de Ismar virou «Papai Noel Boiola».
Em esta última em especial, seu escracho beira o sublime ao utilizar um arranjo jazzístico para uma tremenda gozação com o bom velhinho.
É certo que a cultura sergipana perdeu um de seus expoentes.
Mas está eternamente premiada com o talento acumulado da obra de Ismar.
Os botecos e a boemia de Aracaju também sentirão sua falta, mas seu espírito farrista e festeiro vai perdurar.
E creio que esta onipresença deve fortalecer a cultura, pois alimenta não apenas a história musical, mas também a memória emotiva.
Mais do que uma personalidade, Ismar é personagem legítimo deste estado;
música, voz e verso do povo que habita a faixa de terra entre os rios Real e São Francisco, um povo que ele soube retratar tão bem através de sua música.
Mesmo tendo sido tão timidamente reconhecido em nível nacional -- por alguma razão que só a lógica do mercado deve conhecer -- acredito que perde também a cultura brasileira, considerando que esta é fruto da fusão das diferentes culturas regionais.
Que viva para sempre Ismar Barreto, nos corações e na música que pulsam em Sergipe.
Visite o site do jornalista Osmário Santos e ouça algumas canções de Ismar Barreto.
http://www.infonet.com.br/osmario/mp3.asp
Número de frases: 114
Conheça mais detalhes sobre a vida e a obra do artista.
O homem, ou mulher, cochilava debaixo dos benjamins pendurado ao pescoço de Rachel, a escritora, enquanto, num banco próximo, seu Galdino, elegantemente vestido para um início de manhã, respondia as perguntas de um estudante.
Em outra quina da praça, o Valdeci, senhor apequenado e tímido que cuida da General Tibúrcio juntamente com outros três idosos participantes do projeto Encanto das Praças -- e que, por isso, recebe a bagatela de R$ 150 da prefeitura de Fortaleza --, acendia um cigarro na brasa do outro.
A poucos metros, o amigo falante de seu Valdeci dava informações a um grupo de estudantes de jornalismo.
Ele, no seu cantinho, apenas observava.
«Seu Valdeci, o que foi aquele prédio torto ali?»,
perguntava apontando a construção inclinada para a esquerda e cuja pintura descascava em muitos pontos.
«Pergunte ao outro, o Francisco, que ele sabe.
Eu não sei».
«Ali, meu filho, funcionou o comitê do PMDB, eu trabalhei por lá durante muito tempo, hoje só tem um vigia que vive colocando a molecada pra correr do prédio», explicava um Francisco solícito.
Enquanto os vendedores vendiam, os engraxates engraxavam, os devotos rezavam e os vagabundos vagabundeavam, o estudante ouvia atento seu Galdino.
Haviam chegado à praça quase juntos, ele, atrasado para a aula de campo;
Francisco Galdino Neto, na hora exata.
à distância, o professor-orientador apenas farejava -- esperava que, posteriormente, um dos alunos escrevesse sobre o episódio da estátua.
Ou sobre qualquer outra coisa, desde que escrevesse.
De a Praça General Tibúrcio ou De os Leões, sobressai-se a imagem pré-estabelecida:
prostituição e insegurança.
Em aquela terça ou quarta-feira, porém, não se viam as meninas -- ou, pelo menos, nenhuma que correspondesse ao perfil que se espera de uma «mulher da vida» -- e, das quatro esquinas da praça, pelo menos uma estava ostensivamente ocupada por viaturas da " Guarda Municipal de Fortaleza.
«Hoje tem até um policiamento por aqui.
Acho que já é o projeto do governador eleito, o tal da ronda do quarteirão.
Deve ser isso», estranha seu Galdino.
E, num movimento de memória cuja razão espanta, relembra também o nome dos guardas que por ali se abancavam nos idos de 1940.
«Eram dois, um chamado Cordeiro Neto e outros dois, Cosme e Damião.
Aliás, tinha só dois não.
Eram uns quatro».
O Pega-pinto do Mundico
Era, sem sombra de dúvida, terça-feira.
O mês, outubro.
Fazia sol, o tempo abafado nesta época do ano.
Em seguida, uma chuvinha fina.
Em a praça, a passarinhada dava o seu show particular.
Em bandos, papagaios, ou louros, azucrinavam o juízo de uns;
para outros, amainavam o ruído do trânsito ainda lerdo na rua Sena Madureira, umas das quatro que demarcam um dos quadriláteros mais prenhes de memórias, individuais e coletivas, do Centro.
Em verdade, se aquele miolo de cidade fosse uma penteadeira, certamente a Praça dos Leões ocuparia, ao lado da Praça do Ferreira, lugar de destaque.
A propósito de uma pergunta que lhe fizera o menino-repórter, seu Galdino, sem pressa, enfia a mão no bolso traseiro da calça rigorosamente engomada.
Entre os documentos, salta à mão o registro da habilitação, exibido com orgulho.
«Preciso de lente para a nada, sei dirigir muito bem.
O médico é que não recomenda», confessa.
Antes disso, já havia dito da peleja que fora a vida, as idas e vindas entre Cascavel e Fortaleza, o casamento, à beira de completar sessenta anos, com Maria Margarida M. Galdino e o tal do pega-pinto do Mundico, a dois quarteirões de onde estavam agora.
Em os finais de semana, a diversão era vir até aqui, engraxar os sapatos com o Jacques -- à época, o único engraxate nas redondezas -- e depois apanhar o bonde ali na esquina.
Sim, ali mesmo ao lado do prédio da assembléia.
É. Por ali passava uma linha de bonde.
De ali seguíamos até a Praia de Iracema.
Chegando lá, era tomar banho e voltar."
«E o pega-pinto?"
«Sim, era uma mistura que o Mundico, dono de uma lanchonete aqui perto, fazia e dava para a gente».
Ajudava, de acordo com seu Galdino, a fazer descer garganta adentro «meio-pão sem manteiga».
Depois, era ir embora.
Eis o barato de outrora:
praia de Iracema e pega-pinto do Mundico.
A os 82 anos e morando no bairro Edson Queiroz, seu Galdino enfrenta a distância e, de ônibus, desembarca na Praça dos Leões diariamente.
Procura, sem pestanejar, um banco.
De ali a pouco chegarão os amigos de dominó, cerca de quatro ou cinco rapazes, contemporâneos seus, que varrem a manhã encurvados sobre uma tábua gasta por o arrastado das pedras.
Valdeci, agora decidido a falar, atesta:
«Eles jogam todo dia aqui, a manhã inteira».
E jogam mesmo.
A o erguer a cabeça do bloco -- o maldito bloco de notas --, encontra seu Galdino, já de pé, lhe estendendo a mão.
Cumprimentam-se:
viesse mais vezes, que estavam ali quase todos os dias, dizia o senhor.
O «quase», claro, é um baita eufemismo -- a verdade é que, dia sim, os meninos levantam vôo de seus lares, largando os seus e, dentes na fresca, reúnem-se em torno do tabuleiro.
Efeito dominó
Já distante, a trupe de jogadores inveterados de dominó se prepara.
Armam o ringue.
Começam a partida.
Logo caem respingos de uma chuvinha que deixa qualquer um esbaforido com o mormaço subindo e, sem pedir licença, invadindo as narinas de quem ali estava.
Era o jeito mudar, banco era o que não faltava.
Foram arranjar-se ao lado de umas plantinhas espinhosas.
Escorregasse a perna do banco e, de costas, seria o adeus.
A postos, começa, finalmente, o game.
Em pouco, seu Galdino dispara com três vitórias consecutivas, mas logo é alcançado.
Em o encalço, o páreo mais duro, senhor empertigado e metido a galanteador.
A sorte, pelo visto, lhe vira as costas, e permanece cinco ou mais partidas sem vencer.
àquela altura, todos, à exceção do mais novo entre eles, emparelham-se com mais de seis pontos cada um quando, as pernas estalando de dor, o menino-repórter desiste de assistir e vai embora.
Antes, tivera o cuidado de anotar expressões, pensamentos e lances da vida mirabolante de seu Galdino, que prefere não contar.
Ou, por outra, achou por bem aguardar.
Afinal, são, como gosta de dizer o amigo, mais de 60 anos «pastorando vento» na praça dos Leões ou General Tibúrcio.
Quando, de posse do retrato inteiro, e não apenas dos pedaços, diz como foi.
Em o caminho, esbarra nos colegas de sala.
Fulano enfiara-se na igreja:
o pároco tinha permitido a visitação extemporânea.
De modo que, encimados na torre, tinham visto a praça coberta de benjamins e, ao lado, após terem procedido às mesmas explicações -- a saber, de que eram estudantes e outras coisas --, conseguiram permissão para subir ao último andar do velho Hotel Brasil.
De lá, descortinaram boa parte do centro de Fortaleza e o mar e o céu azul que doía na vista.
Em baixo, o menino-repórter.
Número de frases: 83
Ele, sim, tinha voado pra longe nas memórias de um velho.
Antes de sair para ir à faculdade, Ana Elisa Vianna, de 22 anos, deixa tudo preparado em seu computador.
Lost, 24 Horas e Jericho -- três dos seriados favoritos de ela ¬ -- já estão engatilhados no seu programa torrent, que irá baixar em cerca de 40 minutos os últimos episódios de cada um de eles.
Aninha, como gosta de ser chamada, pode ser considerada por muitos como uma aficcionada por séries.
Conhece tudo o que passa e o que já passou no canal Sony, tem caixas e mais caixas de DVDs de seriados de todos os tipos.
Um verdadeiro sonho de consumo para os canais a cabo que transmitem essas produções americanas, não fosse o fato de que, dos oito seriados que acompanha semanalmente, apenas um ela vê por a TV.
A prática de download de séries vem se tornando cada vez mais comum na internet.
Depois do estrondo do download e do compartilhamento de músicas, o aumento da capacidade dos discos rígidos e as velocidades estelares a que as conexões chegaram permitiram a troca que arquivos mais pesados e complexos via web, como os vídeos.
O princípio é o mesmo, e os impactos legais também.
Há quase um ano, Aninha baixa episódios por a internet, tática que aprendeu com amigos.
O acesso via web aos capítulos veio cair como uma luva para uma fã como ela, acabando com empecilhos como horários restritos, indisponibilidade e, claro, a ansiedade.
«Comecei a baixar por a impossibilidade de ver por a TV, nos casos em que a série não é transmitida no país, e por a falta de tempo para assistir nos horários da televisão.
Depois, mesmo que a série venha a ser exibida, eu continuo baixando, pois sempre estou numa etapa mais avançada dos capítulos e não quero esperar meses por episódios novos na TV paga», explica.
Para os canais a cabo e as produtoras dos seriados, o download está virando uma questão séria, à medida que vai conquistando mais adeptos.
Além da evidente preocupação com a pirataria ¬ -- quando os arquivos baixados são gravados em DVDs e revendidos sem autorização -- os capítulos chegam à internet sem intervalos comerciais (maior fonte de renda dos canais de TV) e passam por cima dos caros royalties que os canais nacionais pagam para ter direito à transmissão das séries.
Isso torna o download ilegal?
Para Aninha, não.
«Eu não considero que o download sem fins lucrativos seja ilegal.
Baixar, gravar e revender, é outra história», diz.
E a legislação brasileira concorda, em partes, com ela.
Segundo o artigo 184 do Código Penal, constitui crime oferecer, com a intenção de lucro, produtos protegidos por direitos autorais.
Já própria Lei dos Direitos Autorais, em seu artigo 46, estabelece que a reprodução de trechos de obras para uso privado não é considerada infração.
Fica então para a interpretação de quem aplica a lei, a definição de «trecho».
Como funciona
É verdade que a maior parte dos sites que disponibilizam episódios inéditos de seriados o faz gratuitamente, de forma voluntária, sem aparente incentivo, a não ser o gosto por o entretenimento.
São verdadeiros mutirões de fanáticos por séries que fazem com que seja possível assistir a um episódio de Herões com legendas em português, apenas um dia após sua exibição nos Eua.
A rapidez desse processo é possível graças ao desenvolvimento e disseminação de tecnologias sofisticadas, como programas de captura digital de sinais de televisão e sistemas de compartilhamento de arquivos via web.
O princípio é o mesmo do vídeo-cassete, só que, ao invés de emprestar para o seu vizinho a fita VHS, você disponibiliza o conteúdo para milhões de pessoas ao mesmo tempo, na rede mundial de computadores.
Trata-se de uma atividade de grande alcance, porém extremamente simples, de forma que qualquer um pode participar.
Para produzir legendas para os capítulos inéditos, por exemplo, basta ser bom em inglês e entrar em contato com alguns dos sites que disponibilizam essas traduções, como o www.legendas.tv.
«Atualmente eu participo de uma equipe que faz a legenda de Lost «-- conta» Aninha --» Como estudante de licenciatura em inglês, tradução é uma atividade que me interessa e a legendagem me permite praticar."
Substituição da TV?
Toda essa comodidade dos downloads -- rapidez, eficiência, horários flexíveis -- pode levar a pensar que a exibição de seriados por a TV está com os dias contados.
Mas não é bem assim.
Essa prática, apesar de estar em expansão, depende muito de conexões rápidas e de computadores velozes, recursos ainda restritos a uma pequena parcela da população brasileira.
Além disso, ainda é limitado o número de pessoas que baixam episódios por a web, se comparado ao número de assinantes de TV a cabo que não o fazem.
Bem ou mal, o download ainda é uma atividade ligada a um público fã mais engajado e conhecedor de internet.
E mesmo para os canais de TV, o download não é de todo mau.
Em uma recente entrevista ao jornal Agora São Paulo, Stefania Granito, gerente de marketing dos canais Sony, AXN e Usa, disse acreditar que o download ajuda da divulgação das séries.
São inúmeros os blogs e sites especializados que acompanham passo a passo o desenvolvimento das tramas, gerando discussões que não seriam possíveis sem o download.
Muito se comenta na comunidade online sobre seriados que ainda irão estrear na TV a cabo brasileira, o que gera um marketing viral precioso para os canais.
O caso mais recente foi o do super aclamado Herões, série que movimentou intensos debates na internet antes mesmo de ser exibida por a Usa, gerando grande expectativa para a estréia.
Para muitos fãs como Aninha, se a TV ainda quer mesmo garantir a sua parte com a exibição de séries, ela deve melhorar seus serviços ao invés de condenar o download.
A chave é investir na rapidez com que trazem essas produções para a telinha, além de privilegiar as novidades do ramo e repetir menos capítulos de seriados antigos e temporadas velhas.
Número de frases: 44
O povo fala que «Agosto» é o mês do desgosto.
Talvez seja folclórico.
O tempo pode apagar uma história ou estória?
A poeira não cobriu os fantasmas brasileiros e as incoerências de uma geração ...
1.
A Imprensa Não É SPAM ...
O que é a imprensa?
Ela está acima de críticas?
Não é hora de uma reavaliação interna no coração da própria imprensa?
Onde está o erro?
O erro é por ação ou omissão?
A isenção de preconceitos e lavagem de roupa suja nas próprias redações é uma atitude necessária, para que se ponha, a casa da mídia em ordem!
Todos os dias as tvs, rádios, blogs, jornais e revistas (pessoas e pessoas da própria mídia) criticam a «própria mídia», esquecendo-se da reflexão interna!
Algumas informações diárias da «própria mídia» são contraditórias, parciais, maldosas e sensacionalistas!
Onde está a verdade?
Onde estão as verdades?
A imprensa tem que ser livre, equilibrada, consciente e imparcial.
Não pode ter simpatias por partidos políticos!
Deve ser isenta de ideologias!
Tem que estar a serviço da verdadeira informação ao cidadão!
Não pode ser comprada, vendida, trocada ou ultrajada!
Precisa passar por cima dos governos, do poder econômico, dos patrocinadores, das redes de comunicações e das próprias linhas editoriais!
A imprensa tem que ser a imprensa!
Simplesmente livre e responsável!
Imprensa sem investigação ou seriedade é apenas spam ...
«Olhar o próprio rabo é o segredo de não ser mordido por um predador ...
É biologia!
É o segredo da sobrevivência ..."
2. O Tempo Absolve Ou Condena Um Cidadão ...
O Brasil passou e passa por vários processos de adaptação política e o aprendizado, requer etapas e conscientização de crescimento moral de todos os cidadãos.
Não se imagina que o país possua «santos ou heróis perseguidos» de um lado, e do outro:
«carrascos ou perseguidores».
Foram momentos históricos adaptados ou não aos anos conhecidos como «Guerra Fria» e «Nacionalismo Exagerado», e comandados por a mão de ferro de uma repressão -- muitas vezes sem qualquer teor de inteligência ou planejamento nacional.
De o outro lado, meninos e meninas estudantes, parte das forças armadas, intelectuais, operários e grandes pensadores, lutando por uma ideologia ou utopia às vezes visionária -- outras vezes:
cega!
O tempo é amigo da calma (amante da alma) e a história deve ser contada sem rancor ou qualquer indício de revanchismo.
Aconteceram erros de ambas as partes envolvidas nas mudanças políticas da época.
Tortura nunca mais!
Censura desmontada!
Choques ideológicos ultrapassados!
Alguém acha que isso é coisa do passado?
O tempo absolve ou condena um cidadão e o poder às vezes corrompe as almas (e corpos) bem intencionadas -- com pouca estrutura moral e cultural.
Sabe-se que a violência está embutida na consciência humana.
Algumas pessoas conseguem domar a violência:
a maior doença do ser humano.
Em outros indivíduos, ela permanece latente.
Uma pequena parcela utiliza a comentada «violência» de forma bruta (porrada mesma!)
ou suave (a morte em doses homeopáticas), através do desvio de verbas dos setores básicos do Governo.
Qualquer livro didático mostra as brutalidades cometidas por supostos líderes, pensadores, ou batalhões de soldados, que pregaram ou pregam a moral e os bons costumes.
A sociedade brasileira e mundial está descartando qualquer radicalização de esquerda, direita ou centro, ou modelos políticos feitos por poucos -- para serem utilizados por a maioria!
Ideologias burras ou demagógicas:
Nunca Mais!
A democracia no Brasil foi construída com a morte de brasileiros civis e militares, e estrangeiros simpatizantes das causas sociais.
Ambos os lados envolvidos no aprendizado de convivência pacífica e respeito às idéias políticas, erraram e acertaram na ótica do momento.
Por isso -- remover a poeira que o tempo demorou em cobrir -- é tentar despertar emoções guardadas por décadas e que estão sendo julgadas por a história!
3. Que Seja Dito ...
O Brasil Não É Sério!
O Brasil é um país ímpar quando comparado a qualquer outro!
Em os primeiros anos da formação escolar, as crianças -- aquelas que conseguem estudar -- aprendem que sua nação é " gigante por a própria natureza, bela, forte, e o futuro espelha grandeza ..."
É ufanismo exagerado!
O Hino Nacional soa como propaganda enganosa.
Os pais desses meninos e meninas devem procurar o PROCON e exigir o cumprimento total dos «Direitos do Consumidor».
O «Brasil-Brasileiro» pode ser comparado a uma empresa de porte colossal:
impávido e colosso!
Ele vende, compra, cobra e fornece serviços à sociedade.
A «Elite» dos consumidores é contemplada com serviços de qualidade.
O «Povão» fica ao «Deus Dará».
O faturamento da citada «Empresa-Brasil» ocorre na forma de arrecadação de impostos.
Vários tributos são injustos, e lembram cascatas progressivas.
Outros são necessários à sobrevivência da máquina empresarial e sua perfeita engrenagem.
Indivíduos competentes e éticos na direção da «Empresa-Brasil» podem fazer diferença na valorização das «ações sociais», cotadas em bem-estar na» Bolsa de Valores de Brasília».
O cidadão que habita esta terra -- às margens plácidas -- possui um contrato especial que lhe dá direitos como acionista e cliente na «Brasil Brasileiro».
Este documento chama-se «Constituição».
Em ela, constam as regras comerciais e políticas, com direitos e deveres para serem cumpridos e iguais para todos.
A «Constituição Brasileira» é simples, objetiva e moderna.
Os dirigentes da «Empresa-Brasil» são eleitos por o voto direto de todos os acionistas:
o povo. Os problemas que ocorrem nas mudanças dos cargos administrativos precisam de solução.
As trocas de funções -- muitas vezes por ambição política -- ocorrem com tanta freqüência, que parecem «prostituição».
A falta de respeito é tão gritante, que familiares dos citados dirigentes, dão seqüência na escala empresarial -- muitas vezes administrada com total incompetência.
Eles se julgam donos absolutos e acionistas majoritários.
Vale lembrar que os rios, a costa marítima, o ar, as riquezas minerais (petróleo, ouro, ferro e outros), e toda fauna e flora, pertencem aos nascidos ou naturalizados nesta nação -- garantia do contrato maior:
a «Constituição».
Quem vê algumas filiais da «Empresa-Brasil», fica boquiaberto!
As torres dos prédios são luxuosas;
os pisos em mármore e a organização física e empresarial -- quase perfeitos!
Seus gerentes e diretores têm à disposição, motoristas particulares, jatinhos e uma legião de subalternos.
Geralmente moram em mansões ou apartamentos de condomínios fechados nas melhores áreas urbanas.
Comem e bebem nos melhores restaurantes e não percebem a variação do câmbio, ou mesmo, quando a inflação promete uma guerra de nervos!
É estranho ...
Não acham?
Qualquer brasileiro pode solicitar uma auditoria nos setores públicos do país.
Os descrentes perguntam:
de que jeito?
O que se vê é desastroso!
Os olhos críticos percebem que a «Elite» tem seus direitos preservados na «Empresa-Nação».
Em contrapartida, o «Povão» recebe suas «cotas» em forma de salários mínimos, cestas básicas e outros benefícios sociais -- de valores indiscutíveis para o atual momento -- mas que não resolvem e nunca resolverão os problemas na «Empresa-Brasil».
Esses benefícios lembram as «porções ou rações» alimentares, distribuídas aos seres humanos nas senzalas do passado.
Algo está errado na forma como se pratica a Administração na «Empresa-Brasil».
Ter consciência política não é só subir e falar em palanques de políticos!
É a discussão dos rumos da nação e a prática diária da cidadania.
É a fiscalização das «cotas empresariais» na «Empresa -- Brasil».
Você é um acionista ...
Defenda o que é seu!
4. Companheiros E Companheiras ...
Conheço o Brasil, seus problemas, e o que precisa ser feito ...
Não vou prometer o que não posso cumprir e nem vou cumprir o que prometi para ser eleito.
O companheiro e companheira sabe que política é a arte da incerteza e uma ciência não exata.
Prometo aos companheiros que se eleito, serei sempre um aliado companheiro.
Prometo que todos os companheiros que cometeram deslizes serão investigados por os companheiros da Polícia Federal.
Prometo que, os novos e antigos companheiros sempre estarão no coração deste velho companheiro, inclusive terão a mão companheira na distribuição de verbas companheiras da saúde, educação e bolsa-família ...
Companheiro e companheira!
Vote num companheiro que sabe proteger os companheiros!
Não importa se falam que sou um companheiro cego ou míope!
A verdade é que eu sou um companheiro leal!
Até os velhos companheiros de luta, estão sendo investigados por outros companheiros e serão punidos por os companheiros do partido ...
Companheiros e companheiras ...
Sei que já não fazem companheiros como antigamente, mas, continuo sendo um companheiro que sabe reconhecer os verdadeiros companheiros, por isso, sou o candidato dos companheiros!
Textos Publicados nos Sites:
* Jornal de Debates *
Blog do Zé Dirceu * Diário do Caramujo *
Número de frases: 120
Blog do Internauta Oi Maria,
Oi Seu Fernand.
Mas o Lula tava demais ontem não?
Tava?
Nossa, ele foi bom!
Foi
Pouco depois:
Você viu o debate?
Vi.
O Geraldo foi incisivo.
Foi?
Ele destruiu o Lula.
Destruiu.
Quem aqui lembraria de um único googleplex apavorante vomitado ao longo do debate?
Quem sabe quanto um investiu nisso ou o outro naquilo?
Quem pagou quanto de propina para quem?
E quem é mesmo que queria resposta para as perguntas?
Aliás, quem é que ouviu as perguntas?
E as respostas?
Um rubro-negro e um tricolor no mesmo estádio, no mesmo dia, no mesmo jogo.
Em o mesmo jogo?
Era não.
Flamenguista: «O Flamengo arrasou».
Fluminense: «O Flu destruiu».
O ou contrário, mas o certo é que não estiveram no mesmo jogo, mesmo estando.
Então quem ganhou o jogo?
Detalhe. Quem ganhou o debate?
Detalhe. Ninguém convenceu ninguém.
E também quem estava interessado em convencer?
Era o prazer do debate por o debate, do jogo por o jogo.
Era só prazer de arrumar desculpas para as derrapadas do seu candidato e anabolisar os seus ataques.
O prazer de mangar das incoerências do adversário e injuriar-se com suas acusações.
Então quem tinha razão?
Mas o que a razão tem a ver com isso?
Coitada, a razão é tão lenta!
Quase burra.
A emoção é rápida, envolvente, tão mais inteligente!
A razão até convence, mas leva um século.
Ou quatro.
Mais por o cansaço do que por a verdade.
A verdade é uma nuvem de fumaça.
E as escolhas, inclusive políticas, pouco têm a ver com reflexões ponderadas.
Em o fim, a gente vota na emoção.
A gente também se defende na emoção e até se arrepende na emoção.
Quem mudou seu voto, no debate, mudou por o sorriso ou por a careta, por a violência ou afago, por a pena ou paixão.
Decisão política é coisa do coração, de crença, de fé.
Cogito ergo sum, uma ova!
Número de frases: 47
O pior do Brasil é o brasileiro.
O brasileiro que faz promessas para chegar ao poder e esquece quando chega.
O brasileiro que gosta de levar vantagem em tudo.
O brasileiro que faz tudo por dinheiro.
O brasileiro que contemporiza sempre.
O brasileiro que vive de dar jeitinho.
O brasileiro que promove briga de galo.
O brasileiro que joga papel no chão.
O brasileiro que passa no sinal vermelho.
O brasileiro que anda no acostamento.
O brasileiro machista.
O brasileiro preconceituoso.
O brasileiro que bate em mulher.
O brasileiro que sonega impostos.
O brasileiro racista.
O brasileiro que ganha uma concessão de tv e promove baixaria e mundo cão.
O brasileiro que assina uma lei num dia e a estupra depois.
O brasileiro que acha que o Brasil é assim e não tem jeito.
O brasileiro que diz que ética é coisa de filósofo.
O brasileiro que imagina que utopia é coisa de românticos.
O brasileiro que garante que não dá para incluir os excluídos.
O brasileiro que é a favor da pena de morte.
O brasileiro que só olha para o próprio umbigo.
O brasileiro que não quer saber de onde vem o dinheiro.
O brasileiro que rouba, mas faz.
O brasileiro que faz de Miami a melhor cidade do país.
O brasileiro que faz qualquer aliança para ganhar.
O brasileiro que faz qualquer aliança para ficar.
O brasileiro que dá um parecer de um jeito e outro que o nega.
O brasileiro que faz um diagnóstico de um modo e outro que o contradiz.
O brasileiro que trai o povo.
O brasileiro que finge não ver.
O brasileiro que mente.
O brasileiro que corrompe.
O brasileiro que se deixa corromper.
O brasileiro que joga no bicho.
O brasileiro que vende drogas.
O brasileiro que as compra.
O brasileiro que não distingue moralidade de moralismo.
O brasileiro que tem saudade da ditadura militar.
O brasileiro que tortura.
Ou o brasileiro que vai embora para rir do Brasil e de nós, brasileiros.
Texto retirado da coluna «A CARA DO PAÍS» escrito por o jornalista e escritor «Juca kfouri» para o jornal esportivo Lance, ano de 2004.
Número de frases: 43
Uma conversa com o poeta, tradutor, ensaísta e editor Floriano Martins abre uma série de entrevistas que serão feitas até setembro próximo, colocando em destaque a literatura, e visando a realização da Literamérica 2006. Floriano, na edição anterior do evento, informalmente, colaborou no processo de escolha dos convidados, o que implica em dizer que foi responsável direto por o ótimo nível de escritores que vieram à Feira, especialmente, em se tratando dos escritores Sul-Americanos, vindos dos países vizinhos.
Para este ano o poeta desenvolve uma participação oficial nesse processo seletivo e também vai atuar no Fórum de Integração Cultural Sul-Americana.
Floriano é natural de Fortaleza (CE) e traz na bagagem mais de 20 livros, nos quais participou como autor, tradutor, organizador, editor e por aí vai.
Uma de suas últimas empreitadas foi organizar e prefaciar «Obra Poética de Carlos Drumond de Andrade», que será publicada no segundo semestre deste ano por a Fundação Biblioteca Ayacucho, da Venezuela.
Ele é também editor e criador do site Agulha, um dos principais veículos de divulgação literária da América do Sul.
Checar o que Floriano Martins tem a dizer sobre a literatura e seus desdobramentos é sempre uma bela oportunidade para ampliar nossos horizontes do conhecimento.
A entrevista foi feita por e-mail ao longo de três dias, com perguntas e respostas indo e vindo, o que lhe confere o tom mais de conversação espontânea ...
E quem ganha com isso é o leitor.
-- Você teve uma participação estratégica na primeira edição da Literamérica.
Seu poder de articulação, suas relações e o conhecimento que tens de literatura, em especial, nas letras latino-americanas, são providenciais.
Começo nossa conversa, então, pedindo pra você falar sobre sua expectativa em relação a Literamérica 2006, com foco na sua função.
-- Não dá para antecipar um mapa das mesas para o Fórum, porque sua composição dependerá da receptividade das embaixadas dos diversos países sul-americano de língua espanhola.
Em um primeiro momento, listei quatro nomes de cada país, considerando representatividade e atuação, além da afinidade e experiência com este tipo de evento, em seguida verificando a agenda de todos, para não haver conflito de datas.
As expectativas são sempre no sentido de realização de um trabalho mais intenso e expressivo, mais coeso e substancioso.
-- Escritura Conquistada, obra sua, traz entrevistas, poemas e informações sobre 24 poetas latino-americanos contemporâneos.
O que você acha mais importante registrar sobre a representatividade coletiva dessa arte nos países da América Latina?
-- Este livro, publicado em 1998, teve o que se pode chamar de circulação mágica, considerando a inexistência de comercialização e distribuição.
O projeto é mais amplo e ainda persiste a idéia de concluir sua trajetória editorial, ou seja, abrangendo a totalidade dos países latino-americanos.
Não se pode falar em representatividade coletiva, porque estamos tratando de distintas culturas.
De qualquer forma, o livro permite um contato inicial com algumas das principais vozes da poesia em todo o continente.
-- Você diria que há certa identidade literária exclusiva, convergente, em relação à poesia e a prosa que são concebidas por autores da América Latina, ou mesmo da América do Sul?
-- Mesmo se considerarmos a presença do Surrealismo na poesia ou o registro do chamado realismo fantástico na prosa, mesmo assim, não se pode falar em identidade ou sinais de convergência, pois as diferenças são imensas, quer pensemos em poetas como o peruano Jorge Eduardo Eielson -- que acaba de falecer --, o chileno Ludwig Zeller e o boliviano Jaime Saenz;
ou prosadores como o cubano Cabrera Infante, o peruano Manuel Scorza e o brasileiro Guimarães Rosa.
Temos aí seis vozes bem particulares, distintas entre si, e não se pode falar em criação artística de outra maneira.
Espectros como América Latina ou mesmo tua menção a América do Sul, atendem a interesses de outra categoria, não são aplicáveis à identificação de poéticas.
-- E em relação à produção literária dos países europeus, que têm toda uma sedimentação cultural já milenar, enquanto nas Américas, isso é coisa de pouco mais de 500 anos.
Como você compararia as literaturas dos países dos Velho e Novo Mundos?
Você diria que há muitas diferenças significativas?
-- Este tipo de comparação é, senão impraticável, de todo infrutífera, e só poderia interessar ao mundo acadêmico para justificar sua sanha classificatória.
São fatores individuais e intransferíveis os que definem uma poética -- recorra-se a talento, domínio de linguagem, experiência existencial, percepção etc.--,
de maneira que um escritor paquistanês que acaso apresente uma obra mais densa e expressiva que um brasileiro não o faz justificado por sua cultura milenar e sim por sua capacidade de lidar com este dado -- e outros tantos mais, claro.
Mas essencialmente é infrutífero, sob o aspecto que mencionas, comparar Borges e Dante, por exemplo.
-- O Brasil é o único país que, embora tenha grande população e extensão territorial, fala um outro idioma dentro de um contexto geográfico específico.
Até que ponto esse fato atrapalha, em sua opinião, a integração e a própria cristalização de uma identidade cultural, que possam ancorar resultados práticos e positivos para os países do continente americano que ainda não conquistaram o status de nações desenvolvidas?
-- É preciso não esquecer a presença dos países francófonos em todo o continente americano -- onde tecnicamente existem apenas duas nações desenvolvidas --, pois eles também constituem o que chamamos de América Latina.
É já um lugar-comum falar da desagregação latino-americana, do quanto que esses países estariam em melhor posição internacional hoje se, a exemplo da União Européia, manifestassem ao menos visão estratégica em termos de economia e política.
Basta tomar a UE como referência para ver que o idioma não constitui absolutamente um problema no caso da integração cultural nem mesmo entre países de distintas famílias lingüísticas, o que não é nosso caso.
Agora, me parece que termos como integração e identidade cultural não são apropriados, porque sugerem um tipo de interferência ou limitação que difere de uma condição de diálogo natural entre culturas.
Um bom começo seria nos livrarmos de uma arrogância histórica, que sempre foi bastante explorada por os Estados Unidos, por exemplo, a de acharmos que somos superiores em tudo aos demais países vizinhos.
Não me refiro unicamente ao Brasil.
Ainda que o fôssemos, mais uma razão para que buscássemos uma cumplicidade que, sob todos os aspectos, nos fortaleceria ainda mais.
-- Você terá uma participação importante como articulador no Fórum de Integração Cultural Sul-Americana, que vai acontecer durante a Literamérica.
Ano passado vários escritores e adidos culturais sul-americano demonstraram muita simpatia para com essa proposta de integração, apesar desse tema não ter, digamos, evoluído muito.
Acredito que você tenha sugestões para que essa suposta integração desenvolva estratégias mais pragmáticas durante o evento em 2006, o que seria interessante para todos os países participantes.
Fale sobre isso.
-- Insisto em preferir falar em diálogo e não em integração.
Os ganhos em tal relação se verificam dos dois lados e é importante ter sensibilidade para livrar-se do sentimento danoso de arrogância em relação aos vizinhos que sempre adotamos.
A contribuição maior que se pode dar reside justamente na escolha dos convidados, buscando nomes que não se sustentem apenas no prestígio -- cujo prestígio seja uma decorrência do trabalho -- e que disponham de condições de articular desdobramentos, porque nada se resolverá através unicamente do Fórum ou de qualquer outra ação isolada.
Não há uma mágica possível para fomentar esse diálogo de maneira substanciosa e duradoura.
Ter na Literamérica poetas e narradores que desempenham alguma função crítica, jornalística e editorial, por exemplo, é já um parâmetro inicial para se propor uma conseqüência do diálogo, inventariando planos de produção e difusão da produção cultural em toda a América do Sul.
Evidente que todo evento requer as suas figuras circenses, as vedetes com seu ego cintilante, porém me parece que se deva apostar a menor quantidade possível de fichas em tal artifício.
Convidar editores e adidos culturais, por exemplo, para verificar perspectivas de convênios editoriais, é outro aspecto a requerer definição.
-- Vamos mudar o foco da nossa conversação.
De acordo com a sua vasta experiência literária, como poeta;
tradutor; ensaísta, peço que mencione alguns aspectos que considera mais prejudiciais para o mercado editorial brasileiro.
-- Já de muito o comércio de livro tem quase nenhuma relação com a literatura.
Aspectos danosos que podem ser referidos incluem tanto o fato de editoras funcionarem como gráficas, cobrando dos autores para serem editados -- o que elimina qualquer critério estético na definição de um acordo editorial --, como a completa inexistência de programação definida e confiável em favor de autores nacionais e estrangeiros.
Completa o quadro a recente denúncia de livrarias que cobram de editoras para expor livros em sua vitrine.
-- Você tem atuação multifacetada na literatura.
Poeta, tradutor, ensaísta, jornalismo ...
É óbvio que todas essas atividades lhe são prazerosas.
Mas, sinceramente, qual dessas funções literárias costuma deixar Floriano Martins mais extasiado?
-- Como não traço distinções de gozo entre essas atividades, eu vibro sobremaneira com os desdobramentos e com as boas condições de concretização de projetos, que é algo bastante precário dado o desestímulo que enfrenta qualquer um que se atreva a trabalhar com literatura em nosso país.
Mas não há dúvida quanto ao fato de que sou essencialmente poeta.
-- E agora o território da poesia.
Você acha que a máxima do Mallarmé «o poema se faz com palavras» ainda está valendo, ou essa arte literária já galgou conceitos que têm também muito a ver com a visualidade?
-- O próprio Mallarmé já sabia que o poema também é feito com silêncios, considerando a ênfase que deu aos espaços em branco na página.
Vivemos sob o mais amplo domínio das imagens, porém no poema não há como a imagem se verificar sem a presença da palavra.
Contudo, vale frisar sempre -- e é impressionante como este tem sido um dado facilmente esquecido a todo instante -- que o poema não se realiza somente na forma, mas sim na maneira como concilia forma e conteúdo.
-- Poetas, escritores, críticos, leitores costumam ter definições bastante pessoais em torno do que é poesia.
Você mesmo já «encostou na parede» muitos poetas em suas entrevistas, ao solicitar conceitos sobre poesia ...
Chegou a sua vez de expor uma definição particular.
-- Jamais fiz esta pergunta a nenhum de meus entrevistados, a começar por o fato de que não me interessa este tipo de definição que pode ser preenchida por qualquer artifício retórico.
É plenamente possível definir a poesia como um veículo em louca disparada ou como um corpo esquivo ao qual nunca se tem acesso.
Geralmente indago ao poeta o que ele crê que a poesia tenha alcançado através de ele.
É uma singela armadilha, para medir o grau de relação do poeta com si mesmo, até que ponto, por exemplo, a vaidade interfere na criação etc.--
A poesia de Floriano Martins parece se apresentar (me corrija se estiver errado) com uma forte carga racional, embora não dispense o lado emocional.
Fale, explique de onde vem e como nasce a poesia desse nordestino.
-- Eu não vejo motivo para separar tais elementos.
Não o separamos em nenhum instante de nossas vidas, de maneira que fazê-lo em relação à identificação de uma poética é contribuir para o afastamento entre arte e vida.
A poesia nasce sempre de um atrito, é fruto de uma zona conflitante do ser em seu convívio com o outro que traz com si.
Se estamos a falar do poema e não da poesia, ou seja, como surge este objeto mágico, em meu caso há certa complexidade, porque geralmente crio interiormente, como se fossem esboços, embriões, todo um traçado imaginário de um livro inteiro, ou quando menos de um largo poema, que sempre se mostra como capítulo de um livro e de tal forma se articula com os demais trechos, de maneira a estabelecer uma unidade.
Mas evidente que este riscado originário vai se modificando, consciente e inconscientemente, até que chega um momento em que se decide a saltar para o papel, a assumir um corpo.
Este segundo momento é medido por certa volúpia da escrita, quase uma possessão, onde simplesmente deixo que jorre toda aquela matéria ígnea que vinha se desenhando em meu íntimo.
Desconfio que esta descrição mínima dê para se fazer uma idéia acerca do estalo da criação em mim.
-- Sei que é meio clichê, mas vai lá ...
Quais poetas vivos brasileiros fazem a sua cabeça e por quê?
Faz favor de citar pelo menos uns quatro ...
-- Mesmo concordando com ti, temo muito mais por a condição de clichê das respostas do que das perguntas.
Tenho imensa identificação com a vertente barroca do José Santiago Naud, a concentração erótico-mística de Marco Lucchesi, a volúpia existencial do Roberto Piva, a pedra filosofal que busca Rodrigo Petronio, a meditação memorialística de Dora Ferreira da Silva, estes são poetas de meu convívio e identificação, em amplo sentido.
Evidente que há outros mais, incluindo os vivos apesar de mortos.
-- Chegou a hora do seu comercial.
Vamos encerrar com você falando do ótimo trabalho da revista Agulha, na qual você é uma espécie de criador e criatura.
E mande um abraço aqui para o povo de Mato Grosso que vai estar em peso na Literamérica.
-- Acaba de sair a edição & 50 da Agulha, o que atesta a dimensão de nossa teimosia.
Há 6 anos que estamos realizando este trabalho editorial, tanto ao lado do Claudio Willer, com quem divido o cuidado editorial, como do Soares Feitosa, considerando todo o apoio logístico do Jornal de Poesia, onde inclusive desmembramos o projeto da Agulha em torno da Banda Hispânica, sítio onde damos ênfase à difusão e reflexão em torno da poesia de língua espanhola.
Melhor do que fazer comercial é indicar sua visita -- www.revista.agulha.nom.br --, para que sejamos brindados com novos leitores.
Quanto a Literamérica, confesso que estou ansioso por a chegada de setembro, por a realização em si do evento e também por o meu retorno a Cuiabá.
Número de frases: 98
Por Lorenzo Falcão Após o carnaval os sinaleiros de cruzamentos movimentos das cidades são tomados por jovens de caras pintadas e roupas manchadas de tinta, que disputam espaço com pedintes e vendedores de balas, os quais já estavam ali pedindo, o que estes jovens «caras pintadas» também pedem, porém por um curto espaço de tempo:
dinheiro.
Mas se todos estes diferentes personagens nós abordam querendo a mesma coisa quando paramos o carro no sinal vermelho, qual a diferença entre eles?
Simples, os jovens de cara pintada são BIXOS, jovens que acabam de ingressar numa faculdade e são submetidos a «torturas» por os veteranos.
Então a pergunta é:
Por quê?
A antropologia irá responder esta pergunta com precisão.
O fato de entrar na faculdade irá mudar para sempre o papel destes jovens na sociedade.
Os pequenos pestinhas do colegial se transformarão, após o período da faculdade em médicos, advogados, engenheiros, enfim em profissionais, que espera-se sejam bem diferentes dos pequeninos pestinhas de antes.
Então o que separa o colegial da faculdade, algo tão grande e sério que transformará estes jovens em outras pessoas?
É um curto espaço de tempo onde tais jovens perdem sua identidade pessoal, suas vontades, seu nome, e todos serão reconhecidos por o mesmo chamado:
Bixo!
É uma separação, uma ruptura com a rotina, um período onde este «bixo» não será nada, não existe tempo ou espaço para ele, somente existe a marginalização.
É uma fronteira entre o período que este jovem pertencia ao mundo sem responsabilidades do colegial, para ingressar numa outra vida, a da faculdade que o conduzirá para uma carreira profissional.
Ou seja, um jovem sai da condição de colegiando para a de graduando (a), vira bixo, despoja-se de seu nome, é pintado, é separado, fica à margem (b) para depois poder retomar seu nome, sua nova rotina da faculdade, assume seu novo papel (c).
O mesmo ocorre com o casamento, por exemplo, primeiro a pessoa é solteira (a), casa-se e vai para a Lua-de-mel, ou seja, fica separada, à margem dos outros (b), para depois retornar a sua rotina, mas com um novo estado civil, casado (c).
Estas três etapas: (
a) migração de uma situação social a outra; (
b) separação, marginalização e por último (c) ressurreição com novo papel social.
Esta tríplice é chamada de rito de passagem, é uma marcação no tempo para se preservar a ordem social e ao mesmo tempo para que o individuo através da dramatização identifique seu novo papel e estado dentro da sociedade, para assim entender as mudanças e conflitos decorrentes deste situação.
Nossa sociedade está repleta de ritos de passagem, que são tão incorporados na nossa rotina que nem os percebemos.
Para e pense um pouco e você achará diversas situação que são marcações temporais, indicadores de mudanças.
E a próxima vez que encontrar um bixo no cruzamento, lembre-se que eles está passando por um Ritual de Passagem e, se tiver, dê uma moeda!
Marialba Maretti
Para saber mais
Leach, Edmund.
Cultura e Comunicação -- a lógica da conexão dos símbolos Introdução ao uso da analise estruturalista em antropologia social.
Rio de Janeiro: Zahar, 1978 Evans-Pritchard, E. E. Antropologia social da religião.
Rio de Janeiro: Campus, 1978 Frazer, J. G. O ramo de ouro.
São Paulo: Circulo do Livro, 1982 " M. Mauss,.
«Ensaio sobre a natureza e a função do sacrifício» in M. Mauss Ensaios de Sociologia.
Paulo, Perspectiva, 1981, pp. 143-227.
E. Durkheim, As formas elementares da vida religiosa.
Introdução e «Conclusão in Durkheim, Os pensadores».
Paulo, Abril cultural, 1978, pp. 205-245.
Número de frases: 35
Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes
«O Neguinho gostou da filha da ' madame '
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ' madame ' tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ' Colina '
Com o Neguinho
Que hoje é compositor." (
Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)
Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial).
Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.
A primeira -- e mais óbvia-analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ' quebrar os ovos `.
É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam.
A outra, mais ' light ' é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade.
Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém:
A Salada Mista.
Em ela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos.
Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.
Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas por as culturas ditas ' hegemônicas ` sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia).
Em este ' conversê ` sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ' cultura popular ', ainda chamada por alguns de ' Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ' Cultura do povo ').
Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?).
Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?).
Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.
O tema, passeando cada vez mais por as entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira:
Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ' mato sem cachorro ', vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.
A conversa passeia também -- e principalmente até-por as centenas de subterfúgios e ' panos quentes ` que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ' inteligentsia ', para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.
Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta:
Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (
O garçom mais próximo pode fazer a pergunta:) '
Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês? '
A Vitamina
Descrevendo as receitas ...
«Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002).
Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada por os intelectuais.
Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre?
Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira.
Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em «democracia social» com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à " democracia racial ";
ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima «democracia étnica» apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.
(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães Departamento de Sociologia / Universidade de São Paulo)
De os anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil á década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada:
Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:
' A vitamina, senhor!
Vitamina para todos! '
É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos:
desaparecer com aquela ' mancha negra ' transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).
A história da tese que ficou conhecida como ' elogio á mestiçagem ', irmã dileta desta outra tese controversa, a ' Democracia Racial ' é antiga.
Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores).
Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre.
Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou por o mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.
Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:
«O homem brasileiro não é um factor do progresso:
é um híbrido.
E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores " ( ...)
«Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização.
Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas.
Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio ( ...)
Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos».
A o Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ' elogio da mestiçagem ':
«O tempo da África chegará.
As raças civilizam-se por a fusão;
é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização " ( ...)
Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida "
O mito do homem mestiço:
Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento.
A quem interessaria tamanha utopia?
A inexistência total de diferenças biotipicas ou (' estético-raciais ') seria cientificamente possível?
A simples padronização ' racial ' das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais?
Se não, para que serviria então?
É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação -- ou a diluição -- de uma raça por a outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado.
Assim, propor ou sugerir a ' mestiçagem ' como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim.
Menos mal.
É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)
O Omelete (
Pobres dos pintinhos)
Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos por o garçom responderiam excitados:
' Omeletes, senhor! '
De sobremesa, Vitaminas! '
É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ' superiores ', os ' puro sangue ', os de ' pedigree ` e desaparecer com o resto, inclusive os ' vira-latas ', transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.
Para outros contudo, o desaparecimento dos ' inferiores ` deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ' humanitários ':
Um liquidificador genético resolveria o problema.
Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).
(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem.
É preciso -- me permitam -- fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).
Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30.
Não foram idéias Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ' científico ' para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.
Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiu para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique e Guiné Bissau e Príncipe denominado ' Lei do Indigenato ', código similar aquele engendrado por os africâners, na África do Sul, que dispensa comentários:
o insidioso ' Apartheid'.
O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado por a Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:
«O indigenato, institucionalizado por o regime salazarista (' Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique ') era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ' à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais '.
Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava ...» ..."
repudiada a prática assimilacionista, Portugal engendrou, então, uma nova fórmula, o integracionismo, teoria baseada no luso-tropicalismo do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre e que, não era mais do que a forma capciosa que o regime colonial usava para esconder o verdadeiro assimilacionismo."
As afirmações não são de forma alguma novas.
Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido.
As idéias originais de ele no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro -- e os pobres-de o Brasil, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.
Não é possível portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de " O Ovo da Serpente "
Em o Haiti não existem ' brancos '.
Lá, a classe média ' mulâtre ` oprime os ' mais ` negros.
O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas:
um nariz mais adunco, olhos pretos, etc..
Claro que racismo não tem nenhum fundamento ' científico ` ou ' biológico '.
Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas. '
Mitos ' em suma.
Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.
Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam:
Grosseiros equívocos.
É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:
' Cuidado!
Abra a válvula que estamos prestes a explodir '.
A Salada Mista
e a sabedoria dos gibis
Há também, pode se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ' nacionalismo retrógrado ` (de novo a xenofobia) e a ' admissão de que há racismo no Brasil '.
Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ' ultrapassado ', ' de modè, expediente muito usado como uma -- muito eficiente inclusive-tática para se desqualificar discursos antagônicos.
Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão:
Afinal, porque será que em certos setores de nossa ' inteligentsia ', se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil?
Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?
Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.
É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos).
O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo.
Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável.
Vamos combinar, francamente:
Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade.
A sociedade brasileira é altamente excludente, certo?
Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui.
Bingo para quem disser Racismo.
E vamos acabar também com esta falsa dicotomia:
Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes.
Um é a carne, o outro é a unha.
Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.
Para qualquer um que sofre racismo ' na pele ` fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar:
É fácil:
Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ' deficiência '.
O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto.
De o ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ' negros ` serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ' brancos '.
Em o exercício da discriminação não existem ' mulatos ', ' mestiços ', ' pardos ', todos são ' marrons ', inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ' não são brancos '.
Ponto Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ' marrons ', a hierarquização das ' cores ` passa a ser muito proveitosa para a ' raça ` hegemônica (a que está no poder).
Pura política.
A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ' nativo '.
É uma prática recorrente demais para não ser notada.
Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.
Quem não sacou isto na função dramática do índio ' Tonto ', amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ' Lotar ', guarda costas do Mandrake.
Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ' Espirito-Que-Anda ' para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?
Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma freqüência.
Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino -- tanto faz-mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ' no morro ', na selva ou no sertão.
Em o processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa.
É bom.
É politicamente correto.
Dá a você um certo charme democrático, uma espécie de certificado de ' responsabilidade social ' mas, e daí?
O problema é que ' Ele ', o'Outro ', continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão.
Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ' Cultura negra sem negros ' e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar.
Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.
Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?),
A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma.
E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ' raciais ' no Brasil.
Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor:
Redistribuem valores culturais, garantindo a um certo grupo certas vantagens de eles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide.
Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda.
É a lógica fria de nossa elite predadora.
A lei do mais forte.
Qual é a novidade nisto aí?
(Agora, sem maniqueísmos, por favor)
Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente mas, é um procedimento, praticado por a grande maioria dos ' brancos ' do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.
E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não.
É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ' democracia racial ' e seus sucedâneos:
dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.
(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: A o propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o'negro ', o'branco ` também desapareceria?
Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ' raça ' não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)
Teorias ... Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.
Como sempre -- e pra finalizar-o melhor é dizer isto tudo com um Samba.
«Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!
Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel
Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu».
Número de frases: 185
(Samba muito popular nos anos 70) Em três anos de existência, o netlabel Conteudo Records, pioneiro na seleção de artistas e distribuição de suas músicas gratuitamente recebeu cerca de quinze mil downloads.
Hoje, após um ano sem atualizações, o selo volta à ativa, investindo em novo site e catálogo.
O que era antes apenas um selo gratuito (netlabel), agora é, também, um selo digital voltado para o mercado fonográfico internacional, através da venda de músicas em formato mp3.
A nova plataforma continuará abrigando o antigo catálogo gratuito, que é composto por 14 eps de vários artistas, e ainda receberá
lançamentos constantes.
A novidade fica por conta do desenvolvimento de um catálogo pago, que estará disponível nas principais lojas virtuais de conteúdo digital do mundo.
Em a intenção de desenvolver o selo, foi criado o catálogo pago.
O foco é o mercado profissional de venda conteúdo digital para djs e público em geral.
As músicas estarão à venda em mais de 30 lojas virtuais e operadoras de celular.
O catálogo pago consolida a profissionalização do selo possibilitando aos seus artistas a inserção no tão disputado mercado fonográfico.
Para isso, foram estabelecidas duas parcerias com distribuidoras.
Em o Brasil a Imusica, fará a distribuição de todo o conteúdo digital para os canais MSN Brasil, Itunes, entre outros além do próprio portal de venda Imusica.
Em o Exterior, o trabalho fica por conta da Sympnhonic Distribution, que irá disponibilizar as musicas no MSN, Itunes, Amazon, Raphsody, Beatport, Track it down, Juno download e Mixmag entre outras.
Netlabel (
catálogo free)
O intuito do netlabel continua sendo apresentar à todos o trabalho de novos talentos da produção musical.
A divulgação de seus trabalhos continua sendo realizada da mesma forma, através de download gratuito diretamente no site.
Número de frases: 17
Uma novidade no netlabel é a preferência para projetos experimentais em seus futuros lançamentos, uma vez que esses trabalhos tem pouco espaço no mercado fonográfico atual.
Ai, acordar cedo.
Quem gosta?
Eu não gostava, mas acaba me acostumando depois de algumas semanas.
Eu dormia tarde, herança dos meus pais, que ficavam na sala assistindo tevê até altas horas da madrugada.
Aí o relógio do meu pai despertava e na porta do meu quarto eu podia ouvir três batidas «toc, toc, quinze para as sete!».
A rotina se repetia cinco dias por semana.
E eu não gostava nem um pouco.
Eu morava á poucos quilômetros da escola e por isso acordar quinze minutos antes da aula começar nunca foi um problema.
Eu e meu irmão levantávamos, tomávamos um copo com leite e achocolatado, comíamos qualquer coisa e meu pai já estava dentro do carro à nossa espera.
Escovávamos os dentes e em três minutos estávamos na sala de aula.
Já chegamos atrasados várias vezes, nada preocupante, mas minha agenda continha alguns carimbos de atraso.
Em a hora de ir embora era diferente.
A aula terminava e ficávamos esperando por muito tempo alguém vir nos buscar.
A mamãe era menos enrolada, mas como fazia o almoço, raramente vinha nos buscar.
Meu pai era muito mais enrolado.
Não sei porque, mas nós sempre ficávamos vinte, trinta minutos à sua espera.
Por várias vezes presenciamos crianças do turno vespertino chegando à escola.
Eu ficava muito nervosa, mas com o tempo desenvolvi algumas atividades para me tirar do tédio.
Ficava na biblioteca ou conversando com alguém que também esperasse o pai ou conversava com o porteiro.
Passei por essa rotina vários anos e sempre reclamei, sempre fiquei com a cara feia e meu pai perguntava «para que essa tromba de elefante na cara?».
Eu dava uma risadinha e dizia «até parece que precisa dizer».
O dia que o sino da escola tocava e eu descia para o pátio à espera de ele e ele já se encontrava lá na porta, eu ficava irradiante.
Mal podia acreditar e dava um abraço dizendo «milagre!».
Estudei em várias escolas até terminar o Ensino Fundamental.
Durante a 7ª e 8ª série, fiquei na mesma e pude me adaptar bem a meus colegas.
A escola era privada e se chamava Atual 2000 (depois que passou o ano 2000 eles mudaram o nome da escola para Atual) e ficava na Vila Rezende, bairro da grande Goiânia, capital do Estado de Goiás.
Esse pequeno episódio que agora conto para você, aconteceu no ano de 1999.
Eu era um estudante feliz da 7ª série e tinha 13 anos.
A aula em questão era de Língua Portuguesa e a professora se chamava Ialba, se não me falha a memória.
A sala não tinha mais do que 25 alunos, o máximo permitido na escola.
Mas os poucos que tinham eram capazes de fazer bagunça por os 50 das escolas públicas.
Eu não era muito de fazer bagunça.
Gostava de me sentir «a estudiosa» e prestava atenção.
Fora os momentos em que ficava conversando a mil por hora, como tagarela, com a minha melhor amiga, Nádia.
Mas nesse dia acho que não estávamos sentando perto uma da outra.
Me lembro que a professora escrevia algo no quadro enquanto a turma toda jogava giz uns nos outros.
Eu não estava participando da brincadeira.
Os líderes de sempre eram o Gabriel Garcia, o Sandro, o Mário, o Eurípedes Neto e mais alguns que não me lembro o nome.
De repente vi que vários pedaços de giz me acertavam.
Em o início eu não quis revidar, mas quando vi que estava repleta de eles próximo aos meus pés, não hesitei.
Peguei um e joguei em direção ao Eurípedes.
Em a mesma hora que eu estava jogando, a professora olhou para trás e disse:
«Bruna, Eurípedes, Nádia, Gabriel e Sandro, já para coordenação».
Eu me levantei e disse que não estava brincando, que aquele havia sido o único pedaço que eu jogara.
Ela foi relutante e disse:
«Desçam todos, agora!».
Pela primeira vez levei uma Advertência.
Ouvi uma bronca enorme e fui para casa com um carimbo enorme na agenda «advertido por bagunçar na sala de aula».
Número de frases: 49
Nunca mais eu brinquei com giz.
Ouvir «Até Sangrar», segundo disco da cantora Áurea Martins -- mas primeiro a ser lançado por uma major, a Biscoito Fino, num esquema mais profissional -- é praticamente uma viagem em alguma máquina do tempo que nos leva a uma época passada.
Mais precisamente, à época das grandes cantoras do rádio -- Elizeth Cardoso, Zezé Gonzaga, Emilinha Borba, Aracy de Almeida, Dalva de Oliveira ...
A voz de Áurea, como as grandes divas daqueles tempos, exala elegância e uma certa melancolia bonita (isso sem contar o timbre aveludado, impecável), que não se encontram facilmente nas cantoras de hoje, chamadas de «divas», muitas vezes, por imprudência ou por total desconhecimento das caracteristicas que tornam uma artista diva de verdade.
Áurea não teve até hoje o reconhecimento merecido, apesar da carreira longeva -- iniciada ainda na década de 1960 -- e do reconhecimento dos colegas da música -- " Lembro quando Jamelão me cochichou, quando você foi convidada pra cantar numa reunião caseira: '
Essa aí sabe das coisas '.
Deu pra entender porque a Divina Elizeth saía de casa à noite (coisa rara!)
pra ouvir outra cantora.
E essa cantora era você», escreveu Hermínio Bello de Carvalho, no encarte de «Até Sangrar».
Aliás -- e tomara!,
que o novo disco, já que lançado com o suporte da Biscoito Fino, cumpra com a missão de apresentar a um público mais amplo o calibre de Áurea Martins.
Bons atributos para isso o lançamento tem:
beleza nos arranjos -- assinados, em maioria por Francis Hime ou por o Terra trio, interpretação emocionante de Áurea e repertório que, ao misturar canções de «Lupicínio Rodrigues (Um Favor» e «Volta "), Herivelto Martins (" Edredon» Vermelho "), Herbert Vianna e «Paula Toller (" Nada por Mim ") e Chico Buarque e» Francis Hime " (Embarcação) dialoga perfeitamente com a trajetória da cantora das boates da antiga boemia do Rio de Janeiro.
Outro ponto alto de «Até Sangrar» é o time de amigos que Áurea trouxe para compartilhar desse trabalho.
Em os bastidores, ela contou, por exemplo, com o dedo de Olívia Hime na direção artística.
Em a hora de entrar em estúdio, recebeu músicos do naipe de Cristóvão Bastos, João Donato, Alcione, Francis Hime e Emílio Santiago -- os quatro últimos emprestam suas vozes em faixas que fazem o ouvinte entrar numa dor de cotovelo gostosa, até mesmo por essa evocação de um passado que faz lembrar de uma época em que música se fazia mais com o coração que com o bolso.
Número de frases: 16
Almir Sater e Denise Stoklos são atrações do 7º Festival de Inverno de Bonito
Cito a frase da canção de Gilberto Gil, menos por o ' melhor lugar do mundo é aqui ` e bem mais por o ' e agora '.
Escrevo isso porque estamos falando da sétima edição do Festival de Inverno de Bonito, que teve de ser adiado em praticamente um mês para finalmente ser realizado.
Para o público chegar a assistir à oitava edição do festival, em 2007, o evento vai ter de superar a dificuldade dos patrocínios e contar novamente com o apoio governamental, sendo que existe a possibilidade de troca de partido no comando do Estado, já que teremos eleições para governador este ano.
Apontado por alguns, assim como o Festival América do Sul, como parte de uma política de eventos grandiosos equivocada do Governo do Estado de MS, o fato é que o Festival de Inverno de Bonito inseriu finalmente o Mato Grosso do Sul no mapa das produções culturais do Brasil.
Como o futuro é nebuloso, o melhor mesmo é curtir todos os momentos do Festival de Bonito, bem ao estilo ' aqui e agora '.
De 23 a 26 de agosto mais uma vez uma celebração cultural acontece às margens de rios cristalinos, grutas e cachoeiras espetaculares.
O fato de agregar as atrações artísticas a possibilidade de conhecer uma natureza exuberante, diferente de outros lugares do país, torna o Festival de Inverno de Bonito um biscoito fino gostoso de saborear.
Dá para conhecer a Gruta do Lago Azul pela manhã, tomar um banho de cachoeira no Balneário Municipal a tarde e curtir os shows a noite.
O bate-papo e a confraternização depois nos bares e restaurantes com gente de todos os cantos do Brasil fecha com chave de ouro os dias de festival.
Gosto também do festival agregar diversas áreas culturais.
É delicioso poder conhecer a obra dos artistas plásticos do Brasil Central, assistir ao documentário A Saga da Erva Mate, ver em cena Denise Stoklos em Calendário de Pedra e encerrar a jornada com a música planetária do sul-mato-grossense Antônio Porto tudo num só dia.
Absorver tudo isso e toda a ' carga ' ecológica que Bonito emana faz pensar nos benefícios que o turismo e a cultura juntos podem trazer para a cidade e toda região.
Um progresso não só revertido em dinheiro para os comerciantes e população, mas um lugar para se fazer cultura de qualidade e encontros que só a arte pode gravar em nossas retinas.
Eu, como vou chegar apenas na sexta no festival, vou perder o encontro de Almir Sater com seu filho Gabriel.
Em o mesmo palco vão estar Gisele e Rodrigo, irmãos de Almir, e com certeza vai rolar um bonito e emocionado encontro de uma família que, assim como os Espíndola, já virou referência do estado.
Vai ser emocionante também a sessão gratuita na praça da cidade, reunindo o público para ver o filme-documentário sobre a vida da violeira Helena Meirelles, falecida em 2005 e uma respeitada ' filha da terra '.
Não vou perder, no entanto, a dobradinha Jerry Espíndola e Vanessa da Mata.
Não me importo em assistir ao novo show do Caçula dos Espíndola por a terceira vez, até porque tem uma parceria nossa no repertório.
Mas a curiosidade é mais para ver a performance de Vanessa da Mata, esta mato-grossense que emplacou algumas canções nas rádios e tevês.
É imperdível também conferir as obras de Evandro Prado, o artista plástico revelação de MS, e a exposição com os bugrinhos de Conceição dos Bugres, que sempre é uma ' experiência '.
Abaixo a programação comentada do festival:
Quarta (23/08)
18 H -- Abertura do Festival
Grupo Som Pantaneiro | MS
Praça Festinbonito
19 H -- Abertura das Exposições *
Mostra Brasil Central de Artes Plásticas
Adir Sodré | MT
Mato-grossense de Rondonópolis, Adir de Souza Sodré é de família de origem nordestina.
Em o final da década de 70 mudou para Cuiabá, no bairro Pedregal, ao lado da Universidade.
É integrante da 2ª geração de Artes Plásticas de Cuiabá.
Irreverente, admira Henri Matisse e emprega cores puras e elementos decorativos em obras nas quais o erotismo também é muito presente, como em Falos e Flores (1986) ou Orgia das Frutas (1987).
Produz retratos de personalidades conhecidas, partindo da reprodução fisionômica fiel, mas utilizando de humor.
Benedito Nunes | MT
Cuiabano, Benedito Nunes começou sua carreira no III Salão Jovem Arte Mato-grossense em Cuiabá, em 1978.
Integrante de uma geração de grandes artistas de Cuiabá e de Mato Grosso.
Sua obra tem estilo próprio e personalidade.
Benedito, o Zé cuiabano, menino oriundo da periferia que, com seu traço e pinceladas, conquistou um lugar no cerrado brasileiro.
Evandro Prado | Neide Ono | MS
O campo-grandense Evandro Prado é o principal representante da nova geração de artistas sul-mato-grossenses.
Com a série de pinturas Habemus Cocam constrói várias situações de poder do mundo globalizado.
O conjunto de pinturas tratado de forma bastante realista imita a visualidade de comunicação da linguagem publicitária.
Já a campo-grandense Neide Ono faz peças de cerâmica que ganham a dureza da pedra através da queima a 1200 graus.
Marcos Freitas | GO
Nascido em Brasília, Marcus Henrique Neiva de Freitas (1979) é graduado em Artes Visuais com habilitação em Design Gráfico por a Faculdade de Artes Visuais -- UFG.
Atuante no circuito de arte, recentemente onze de seus trabalhos foram adquiridos para a Coleção Gilberto Chateaubriand do MAM-RJ.
Suyan de Mattos | DF
Licenciada em Artes Plásticas por a UnB (1986), Suyan Santanna Baptista de Mattos é Mestre em Artes Visuais por a Academia de São Carlos/UNAM -- México, doutorada em História da Arte por a Universidade Nacional Autônoma do México e pós-doutorada em Artes por a Universidade de Buenos Aires -- Argentina.
Seu trabalho com objetos cinéticos, como o «Coração-Monumento», propõe intervenções urbanas e pretende questionar a noção de representação, diferenciando o monumento tradicional (fixo, estático) e o contemporâneo (móvel, dinâmico, flexível).
Antonio Netto | Te o
Natural de João Pessoa, Antonio Rodrigues Netto (1972) é pintor e desenhista autodidata.
Freqüentou ateliês de artistas plásticos paraibanos, onde estudou as diversas técnicas do desenho e da pintura, tendo como professores J. Carlos, Fred Swendsen, Rômulo M. e Pádua Lucena.
Reside no Estado do Tocantins desde 1996.
* Exposição Conceição dos Bugres *
Concurso Nacional de Fotografia -- A Imagem do Meio Ambiente
20H30 -- Artesanato *
Artesanato Indígena | MS
Exposição e comercialização de peças com características únicas de etnias indígenas sul-mato-grossenses e de outras regiões do Brasil:
Kadiwéu e Terena, do Mato Grosso do Sul;
Karajá, do Tocantins;
Juruna, Kayabí, Tapirapé, Kaiapó, Bororó, do Mato Grosso e Txucarramã, do Mato Grosso e Pará.
Praça
De o Circo do Festival *
Projeto Sapicuá Pantaneiro | MS
O projeto nasceu da convivência com os pantaneiros e da vontade de criar ações que colaborassem para manter viva e devidamente registrada a cultura do Pantanal.
A exposição apresenta peças de argila, tear e couro e o público poderá vivenciar a experiência de produzir algumas peças durante o Festival.
Praça
De o Circo do Festival *
Artesanato de Bonito | MS
Exposição e comercialização do que há de mais significativo da produção artesanal do município de Bonito.
Praça
De o Circo do Festival
21 H -- Música *
Carlos Colman | MS
Acompanhado por um trio que inclui Jorge Gastão no violão de 12, Capim na sanfona e Néio na percussão, Carlos Colman abre oficialmente na quarta-feira, dia 23, às 21 horas o 7º Festival de Inverno de Bonito no palco do Circo Festival.
* Almir Sater | MS
O maior nome da música de MS traz seu carisma e sua musicalidade num show onde novas canções se contrapõem aos grandes sucessos de sua carreira.
O ponto alto vai ser a participação de seu filho Gabriel.
Circo
De o Festival -- R$ 6,00 E R$ 12,00
Quinta (24/08)
9 H às 12H -- Oficinas
De 24 A 26 / 08 *
O Artesanato Manual como Linguagem Decorativa para Figurinos | Telumi Helen | SP
A figurinista e cenógrafa de grande personalidade e reconhecida carreira traz ao festival uma curiosa oficina.
Público Alvo:
Artesãos, figurinistas e público interessado -- 20 vagas
Local: Espaço Cultural Brazil Bonito *
Oficina de Criatividade | Júlio César Alvarez | MS
Com o objetivo de experimentar materiais, a oficina oferece ao participante a possibilidade de expressar-se plasticamente.
Público Alvo:
Artistas e professores do ensino fundamental -- 18 vagas
Local: A Confirmar *
Oficina de Contação de Histórias | Maurício Leite | MS
O diretor, ator e contador de histórias faz um delicioso mergulho literário para desvendar os mistérios das estórias contadas através das imagens.
Público Alvo:
educadores, pedagogos, bibliotecários, guias de turismo, atores e diretores de grupo, grupo de atores para trabalhar em hospitais, creches e pessoas interessadas na arte de contar histórias -- 25 vagas.
Local:
Inst. De Ensino Superior De a Funlec -- Iesf
9 H -- Palestra E Lançamento De Livro *
Inocência -- Romance Símbolo de Mato Grosso do Sul
Apresentada por o historiador e filólogo Hildebrando Campestrini, a edição traz um bem elaborado referencial histórico-geográfico do romance símbolo do Estado.
Composto por fotos, mapas e ilustrações, a obra apresenta 226 notas, mostrando que o livro é o aproveitamento de figuras e cenários sul-mato-grossenses reais reunidos numa história, com um mínimo de ficção.
Palestrante:
Hildelbrando Campestrini | Instituto Geográfico e Histórico de Mato Grosso de Sul (MS)
Auditório De o Hotel Marruá -- Entrada Franca
10 H às 22H -- Exposições
Galeria De o Festival -- Entrada Franca
10 H -- Mostra Nacional De Vídeo Ecológico
Para os cinéfilos e videófilos em geral, o 7° Festival de Inverno de Bonito está reservando, com muitas surpresas, trabalhos inéditos dentro da Mostra Nacional de Vídeo Ecológico, que no segundo dia de Festival, a partir das 10 horas da manhã e se estende até o sábado, no Hotel Pirá Miúna, com entrada franca.
A Mostra é competitiva e serão escolhidos os dois melhores vídeos.
* Peixe Frito | GO
Animação | Dir:
Ricardo George De Podestá | 2005 | 19'
Um avô ensina seu neto a pescar e a partir daí, peixes, gaivotas e anzóis se misturam numa verídica estória de pescador.
* Entretecidas | PB
Experimental | Dir:
Elisa Maria Cabral | 2005 | 4 minute41"
Uma expressão poética sobre o trabalho milenar das tecelãs.
* Asterisco o Princípio | PB
Ficção | Dir:
Laurita Caldas | 2006 | 4 minute41» ...
na música Asterisco o princípio do grupo Sol da Meia-noite, as nuances musicais acompanham as imagens do universo infantil com a natureza ...
* Ecos | PB
Experimental | Dir:
Elisa Cabral e Laurita Caldas | 2006 | 6 minute30"
Uma síntese dos processos de criação das forças da natureza.
* Rio Acari | RJ
Documentário | Dir:
Gisele Cardoso, Josias Pereira | 2006 | 15'
Os problemas de um rio que fica no meio de uma comunidade carente.
Hotel
PIRÁ MIÚNA -- Entrada Franca
11 H -- Mostra De Filme Sul-MATO-GROSSENSE
CAA -- A saga da erva mate
Documentário | Dir:
Lu Bigatão | 2005 | 50 min
O documentário registra parte da história da formação de Dourados e outras cidades, através de depoimentos de mineiros, cancheadores, urús, barbacuazeiros, carreteiros e outros trabalhadores.
O resgate oral se torna importante por os poucos registros de uma época fundamental para o surgimento de inúmeras cidades do antigo sul de Mato Grosso e para a compreensão da identidade cultural do Estado.
Hotel
PIRÁ MIÚNA -- Entrada Franca
16 H -- Teatro
Calendário de Pedra
Denise Stocklos | SP
Orgulho do teatro brasileiro, Denise Stocklos, traz a Bonito um espetáculo envolvente, onde a personagem discute a própria existência do Ser.
Praça
Festinbonito -- Entrada Franca
19 H -- Cinema
2 Filhos de Francisco
Drama | Dir:
Breno Silveira 2005 | 132'
Elenco: Ângelo Antônio, Dira Paes, Márcio Kieling, Thiago Mendonça, José Dumont, Paloma Duarte, Natália Lage, Lima Duarte
A saga dos cantores Zezé Di Camargo e Luciano, da infância difícil à consagração musical ao se transformarem numa das duplas sertanejas de maior sucesso do país.
Praça
Festinbonito -- Entrada Franca
19 H -- Artesanato
Praça De o Circo do Festival --
Música * Clarice Maciel | MS
A soprano Clarice Maciel é diretora do Centro Arte Viva.
Nasceu em Montes Claros (MG) e começou seus estudos musicais no conservatório Lorenzo Fernandes.
Graduou-se em canto por o Conservatório de Música do Rio de Janeiro.
* Antônio Porto | MS
Nascido em Campo Grande, Antonio Porto é participante ativo do circuito musical campo-grandense desde meados dos anos 80.
Seu sangue nômade o levou a morar na Áustria em 1988, onde ficou até 1998.
Em terras austríacas, tocou em bandas de jazz, de reggae e teve contato com músicos da África, que acabaram o influenciando definitivamente.
Voltou a morar em São Paulo no final da década de 90.
Chegou a acompanhar Pena Branca e Xavantinho.
Com a morte de Xavantinho em 1999, retornou em 2000 para Campo Grande.
Circo
De o Festival -- Entrada Franca
Sexta (25/08)
9 H às 12H -- Oficinas
10 H às 22H -- Exposições
Galeria De o Festival -- Entrada Franca
10 H -- Mostra Nacional De Vídeo Ecológico *
Liberdade para quem? |
BA Documentário | Dir:
Salete Maso | 2006 | 20 minute30"
O documentário aborda o trabalho de conscientização e luta por a preservação do meio ambiente em situações vividas por a ambientalista engenheira agrônoma Telma Lobão.
* Costa dos Corais | RJ
Documentário | Dir:
Márcia Paraíso | 2005 | 27'
O documentário revela além das belas imagens do litoral entre Recife (PE) e Maceió (AL), suas águas cristalinas, fauna e a biodiversidade dos corais brasileiros, a riqueza cultural do povo da região presente nos folguedos, na culinária e no jeito de ser da população.
* O Homem que não pode responder por sua própria existência | ES
Documentário | Dir:
Gui Castor | 2005 | 10'
Elenco: Wera Kwray, Tupã Kwray
Uma alusão à condição atual dos Ameríndios.
Hotel
PIRÁ MIÚNA -- Entrada Franca
10H30 -- Teatro
O Romance do Vaqueiro Benedito | Mamulengo Presepada | DF
Em uma divertida brincadeira para todas as idades o Mamulengo Presepada apresenta os personagens da cultura popular envolvendo a platéia com teatro, música e dança.
Escola
Municipal Profª Durvalina Dorneles Teixeira -- Bairro Marambaia -- Entrada Franca
11 H -- Mostra De Filme Sul-MATO-GROSSENSE
Tió e a Árvore -- Vida e Obra de Zacarias Mourão
Documentário | Dir:
Conrado Roel | 2006 | 40'
Documentário trata a vida e obra do artista sul-mato-grossense, Zacarias Mourão, orgulho da cultura sul-mato-grossense e um dos mais importantes nomes da música sertaneja no país.
Hotel
PIRÁ MIÚNA -- Entrada Franca
16 H -- Teatro
O Auto do Lampião do Além
Grupo Senta que o Leão é Manso da UCDB | MS
O premiado grupo sul-mato-grossense apresenta a comédia da luta por o poder, quando Lampião expulso do céu cai no inferno e dá um golpe de estado, tirando o trono de Lúcifer.
Praça
Festinbonito -- Entrada Franca
18 H -- Teatro
A Sombra do Limoeiro
Trupe Teatral Brazil Bonito | MS
A Trupe Teatral Brazil Bonito narra através da magia do teatro de sombras a curiosa estória do Sinhozinho, figura lendária da região de Bonito.
Praça
Festinbonito -- Entrada Franca
18 H -- Lançamento De Livro
Artes Plásticas em Mato Grosso do Sul
A obra é um desenho da pluralidade cultural de um estado onde convivem diversas identidades, línguas e culturas.
Idara Duncan (MS) | Maria da Glória Sá Rosa (MS) | Yara Penteado (MS)
Galeria De o Festival -- Entrada Franca
19 H -- Cinema
Helena Meirelles, a Dama da Viola
Documentário | Dir.:
Franscisco de Paula | 2004 | 75'
Elenco: Helena Meirelles;
Rubens de Falco Violeira do Pantanal, talento original do Brasil, ela passou boa parte da vida tocando em bordéis em Mato Grosso.
Além disso, foi lavadeira e bezendeira.
Helena, com seu instrumento, traduz a alma do sertão brasileiro.
Praça
Festinbonito -- Entrada Franca
19 H -- Artesanato
Praça De o Circo do Festival --
Música * Jerry Espíndola | MS
Nascido em Campo Grande, irmão caçula dos Espíndola, Jerry Espíndola mostra no Festival de Bonito seu mais recente show, com repertório que vai integrar o novo disco solo.
* Vanessa da Mata | MT
Quando subir ao palco na penúltima noite do Festival de Bonito, Vanessa da Mata estará voltando às suas raízes ao se apresentar em Mato Grosso do Sul, que já foi uno com o seu Mato Grosso Natal.
Ela vai mostrar porque é considerada uma das grandes promessas da nova geração da Música Popular Brasileira.
Circo
De o Festival -- R$ 6,00 E R$ 12,00
Sábado (26/08)
9 H às 12H -- Oficinas
10 H às 22H -- Exposições
Galeria De o Festival -- Entrada Franca
10 H -- Mostra Nacional De Vídeo Ecológico *
Humano Mar | RJ
Documentário | Dir:
Juliana Loureiro | 2006 | 52'
Um documentário de aventura que retrata a dinâmica da pesca na região petroleira da Bacia de Campos, o cotidiano da atividade e as diferentes artes de pesca.
Um filme onde o pescador é o protagonista.
* Bahianimada | BA
Animação | Direção:
Caó Cruz Alves | 2006 | 5'
Monumentos e paisagens pitorescas da cidade de Salvador da Bahia ganham vida e se movimentam com desenvoltura, humor e lirismo.
Hotel
PIRÁ MIÚNA -- Entrada Franca
10H30 -- Teatro
O Auto do Lampião no Além
Grupo Senta que o Leão é Manso da UCDB | MS
Escola Municipal Profª Durvalina Dorneles Teixeira -- Bairro Marambaia -- Entrada Franca
11 H -- Mostra De Filme Sul-MATO-GROSSENSE *
Nanquim Ficção | Dir:
Maurício Copetti | 2005 | 17'
Elenco: Bianca Machado, Buba Marques, Rubem Dario e Tatiana Santiago.
Uma imersão onírica do mundo das formas.
Premiado na Mostra de Vídeos de Mato Grosso do Sul, no 3º Festival de Cinema de Campo Grande.
Hotel
PIRÁ MIÚNA -- Entrada Franca
13 H -- Mesa Redonda
Bonito Conquistando o Turista com Deficiência
Superando Barreiras Atitudinais e Arquitetônicas | Unais | CAS | CAP
Instituto De Ensino Superior De a FUNLEC -- IESF
16 H -- Teatro
O Romance do Vaqueiro Benedito | Mamulengo Presepada | DF
O Mamulengo é a forma mais popular e tradicional de teatro de bonecos no Brasil.
Transmitido através de gerações, ao longo dos séculos por teatristas ambulantes, o mamulengo é hoje um legítimo herdeiro da Commedia Dell'Arte e sobrevive, ainda, por o interior e nos centros populares das grandes cidades.
Praça
Festinbonito -- Entrada Franca
17 H -- Música
Quinteto Haendel | MS
Um dos grupos eruditos mais populares de Campo Grande, o Quinteto Haendel é formado por músicos que tocam instrumento de sopro.
Com dois trompetes, uma trompa, um trombone e uma tuba, o quinteto consegue reproduzir em sua música uma riqueza harmônica e timbristica inigualáveis, através da execução de variados estilos musicais.
Praça
Festinbonito -- Entrada Franca
18 H -- Lançamento De Livro
O Trem da Vida
Composta por 124 crônicas, a obra comenta o cotidiano de maneira leve, sutil, às vezes com ironia e outras com assombro, mantendo o lirismo e o humor.
Thereza Hilcar -- Jornalista (MS)
Galeria De o Festival -- Entrada Franca
19 H -- Cinema
Tapete Vermelho Comédia | Dir:
Luiz Alberto Pereira | 2006 | 100'
Elenco: Matheus Nachtergaele, Vinícius Miranda, Gorete Milagres, Rosi Campos, Aílton Graça, Jackson Antunes, Paulo Betti, Débora Duboc, Paulo Goulart, Cássia Kiss
Quinzinho mora numa roça.
Decidido a cumprir uma promessa, ele leva seu filho Neco, de 9 anos, para assistir a um filme estrelado por Mazzaropi numa sala de cinema.
Praça
Festinbonito -- Entrada Franca
19 H -- Artesanato
Praça De o Circo do Festival
21 H -- Música *
Bibi do Cavaco | MS
O show de Jair Rodrigues no encerramento do 7º Festival de Inverno de Bonito vai ter a abertura de um representante da ala mais nobre do samba campo-grandense:
Bibi do Cavaco e seu grupo.
* Jair Rodrigues e Luciana Mello | SP
A história da Música Popular Brasileira deve um enorme tributo a Jair Rodrigues.
Seja por a sua trajetória iniciada nos anos sessenta, seja por a parceria inigualável com Elis Regina em «O Fino da Bossa», seja porque, ainda na ativa, o Cachorrão, como é carinhosamente conhecido por os amigos, atravessou décadas levando com competência e musicalidade o seu trabalho inigualável.
Número de frases: 305
Vai cantar várias músicas sua filha Luciana Mello no show.
Uma velha com Parkinson está sentada numa cadeira de plástico.
O plástico está rachado numa das pernas.
Uma bolota de Durepox impede que a velha caia no chão.
Bolotas mal feitas;
talvez ela mesma tenho feito aquilo;
e seu marido, ganhando 400 reais, querendo comprar uma geladeira nova, pois a da cozinha está podre, pingando rios de água;
um navio enferrujado na cozinha.
Ela já tentou se matar duas vezes.
Era vaidosa, sorria nas fotos.
Depois da doença, quis morrer;
tinha vergonha dos tremores.
Ela sobreviveu às tentativas de suicídio.
Hoje, parece conformada.
Essa é parte da estória.
E voltarei à ela.
Quero dizer que irei passar um tempo calado no meu blog de mini contos;
tenho alguns sonhos pra realizar.
E vou contar.
Resolvi registrar algumas angústias;
fim-de-ano é assim, sentimentos estranhos.
Voltemos à estória.
Uma velha com Parkinson, trêmula, sentada numa cadeira de plástico.
Cadeira remendada.
Um perigo.
E a geladeira na cozinha está podre, pingando rios de água;
um navio enferrujado.
Então você pensa, eles têm comida, ao menos.
Tudo bem.
E atenção?
Reconhecimento?
Os filhos, cada um cuidando de sua vida;
parece que apenas uma filha se importa, parece que apenas um neto consegue enxergar a cadeira;
todos já passarm as férias ali, ganharam esperança, elogios, foram amados;
e hoje, ninguém se importa.
Os filhos, em sua maioria, fazem visitas obrigatórias.
Desejam um feliz-natal hipócrita;
a obrigação que a mídia nos faz lembrar;
feliz natal;
feliz ano novo, mãe.
O senso comum é hipócrita e demagogo.
É um interesse de consumo.
Mas isso é outro assunto.
Em a casa da velha, o cupim comeu tudo.
Só plástico resiste.
E plástico rachado, remendado;
um risco.
É assim, somos usados, sempre;
o tempo engole nossos carinhos.
A casa me parece pequena;
o muro ridiculamente pequeno, transponível facilmente.
Consigo ver o fim do terreno;
as laranjeiras morreram.
Só as flores resistem na cerca.
A estante está podre.
Eles não conseguem alcançar a última prateleira.
Encolheram. As revistinhas estão lá em cima.
O avô queria lê-las.
A radiola não toca mais.
Permanece como objeto de decoração.
Somos objetos de decoração;
velhos, figurantes.
Feliz ano novo, pai.
Então escrevo pra tentar eternizar na memória de alguém, virar uma conversa de boca;
sei lá;
pensei. Voltei para a casa.
Prometi a mim mesmo que cuidarei de meus pais.
Fiz promessas pessoais, ficaria chato e melódico dizê-las.
Vou comprar umas cadeiras novas, simples, baratas.
Fazer um carinho naqueles cabelos brancos.
Precisava registrar;
dividir segredos com os leitores daqui.
Escrever é cumplicidade.
Dor dividida.
E por aqui, revelei esse segredo.
A os que passaram em ele, Ana Paula Maia, a musa venal, escritora visceral, escreve-pensa muito bem, Tarantino mulher, prosa sensacional, maldita-estrela guia;
Claudio Eugênio Luz, professor, escritor, prosa sutil;
nessa solidão de escrever, só falou quando gostou;
Ivã Coelho, vizinho, em sua prosavulsa;
um abraço, continuem vivos, sorte pra vocês.
Surpresas e mais surpresas.
Anderson Dantas, fonte de pesquisa;
um poeta que diz o que a gente precisa dizer.
É isso cara, apesar da província, sobrevivo.
Aqui, táxi não troca 50 reais;
quase ninguém tem 50 reais;
essa grana não circula;
essa grana esquenta poucos cofres;
é canudinho;
é nota enrolada pra cheirar cocaína.
Nova Lei de Tóxicos; agora, usuário não será preso.
Nossos filhos estão usando;
só eles podem comprar cocaína, por isso humanizaram o usuário;
agora são os nossos.
Dostoiévski ainda está certo, mas, não temos Raskolnikovs;
os nossos matam porque gostam, talvez.
Um abraço ao editor Edson Cruz, onde dei a cara a tapa;
um sonho realizado, esse, de ser publicado no Cronópios;
uma língua mastigada, uma noite com Led Zeppelin e uma Sharon Stone de cabeça raspada;
tenho que ficar em silêncio, retido;
pensando nos amigos que aqui passaram, lendo essa gente que fica na cabeça e fala para a cacete;
«matar»,» como matar?";
«beijar»,» como beijar?";
necessidades humanas.
Sex Pistols. Lan Houses.
Prazer rápido.
Morte virtual;
nossos filhos são espancados na rua e matam pra relaxar;
eles gostam de matar, de preferência, na cabeça;
eu não gosto de vídeo-game;
nunca matei ninguém, sou humanista, não tenho amigo imaginário, e não tenho filhos;
só dois cachorros, vira-latas.
A os meus amigos pessoais, caras, estamos num Teatro dos Vampiros, Renato Russo;
Vento no Litoral meus amigos, de tarde eu quero descançar;
o vento vai levar esse merdaçal embora.
Desejo esperança e sorte.
Desejo realizar uns sonhos possíveis.
Abraço a todos.
Número de frases: 118
http://ochaoquematava.blogspot.com Quinta-feira, 06 de dezembro, em meio a uma tarde quente no bairro do Derby, no Recife, o Re:
combo aportou na Fundação Joaquim Nabuco para a primeira rodada do debate sobre o tema:
«Cultura Digital é Cultura Livre?»,
como parte do evento «A cultura além do digital» (a segunda rodada se daria no dia seguinte, no Rio de Janeiro com a presença de Caio Mariano), depois do debate chegamos a conclusão que seria importante a documentação das idéias apresentadas, seja por cristalizarem nossas atenção nos últimos meses, seja como exercício para clarear temas debatidos no dia.
Então vamos lá, antes de mais nada é importante começarmos com a nossa resposta para o questionamento da mesa:
acreditamos que a cultura digital é livre na medida em que todos nós (a sociedade) desejamos que ela seja.
Mais ainda:
acreditamos no potencial de reconstrução constante da cultura digital e no seu poder transformador da realidade social.
Para exemplificarmos o que acreditamos que seja o modelo ideal de atuação dentro da cultura digital para transformar a realidade lançamos mão de um recurso emprestado da ciência:
a representação através de uma equação matemática dos elementos envolvidos nesse processo.
É importante notar que não existe aí um rigor cientifico (longe disso!),
o uso da fórmula matemática é para tentar organizar os processos mentais dentro da nossa cabeça, e observar, de uma forma estruturada, o que acreditamos que seja o estado das coisas hoje.
a3 + µi = x a3 significa acesso, autonomia e autoria.
Aqui o foco na nossa equação é o sujeito, o ser humano que é ator nessas transformações que estamos passando.
O seu poder de ação é definifo por a combinação dos 3 tópicos citados:
acesso mais irrestrito possivel às redes, não só à Internet, mas às redes de convívio social, escola, familia, trabalho, esse cenário é construído com ferramentas que vão do acesso à Internet nos Pontos de Cultura até as Lan Houses de periferia de R$ 1,00 / hora, passando por ensino em tempo integral.
autonomia para produzir informação, arte, cultura.
E através dessa autonomia, ter instrumentos para propagar mudanças na realidade, isso passa por o ensino de linguagens de programação para que cada vez mais jovens possam recombinar a sua interface com o mundo digital e é tambm a autonomia de encontrar saídas fora dos padrões das indústrias de produção em massa.
A autonomia para ocupar as ruas.
autoria:
o re:
combo entende que vivemos numa época em que as amarras da proteção do direito intelectual não atendem mais a uma primeira necessidade do homem, que é ter livre acesso às obras intelectuais.
Esse é um processo vivido atualmente por os produtores de cultura que sofrem por o tratamento desigual na remuneracão do seu trabalho, mas tambem é um processo conhecido por a cultura popular, que na sua essência tem trabalhado com conceitos dos mais diversos como a produção coletiva e colaborativa e o sampling.
A compreensão da generosidade intelectual como instrumento para distribuicão do seu trabalho é um padrão seguido naturalmente por os cantadores de feira com o orgulho de serem «sampleados» por outros cantadores mais famosos;
Fazemos nossa a frase de Bakunin:
«A Liberdade do outro amplia a minha ao infinito».
µi significa micro-indústrias
Entendemos que a pirataria é um reflexo negativo da propriedade intelectual hoje em dia.
Só isso.
Para falarmos sobre as micro-indústrias precisamos refletir sobre o seguinte ponto:
para que de fato serve a indústria?
Para atender a demandas de massa por determinados produtos de consumo.
Em o momento em que não há demandas de massa por determinados produtos, podemos dizer que não há necessidade de manutenção e fortalecimento de uma indústria nos moldes atuais.
Há sim o surgimento de pequenas indústrias, voltadas a atender as necessidades de pequenos nichos.
Pequenas indústrias atendendo a pequenos nichos de pessoas interessadas em determinadas áreas, agentes produzindo independentemente da «visualização» ou pretensão em fazer parte deste cenário.
A exemplo, podemos citar o surgimento de novos autores, que vêm se firmando no mercado única e exclusivamente graças à disponibilização de conteúdo via web.
Este fenômeno, por exemplo, nos mostra que há proveitos a serem tirados desta nova ferramenta de distribuição e produção de conteúdo por uma série de pessoas que nunca estiveram ligadas à indústria ou se imaginaram autores algum dia.
A exemplos, podemos citar os blogs, fotologs, flickers, net labels e afins produzidos por uma série de pessoas que jamais imaginaram que um dia produziriam algo protegível por direito de autor.
De o ponto de vista prático há uma série de novos autores que querem que suas obras fiquem disponíveis na internet -- procurando inclusive meios legais para que o acesso seja legítimo e a cadeia de direitos autorais e conexos seja respeitada no âmbito da utilização da obra.
No entanto, enquanto discutimos as pessoas estão criando e re:
criando novos modelos de negócio relacionados a esta realidade ou desenvolvendo novas culturas relacionadas ao meio digital que ultrapassam o objeto da discussão ora observada.
A realidade é que, enquanto discutimos saídas legais ou modelos de negócio viáveis para solucionar estas questões, a dinâmica do fato social sobrepõe-se a qualquer definição que venhamos a criar ou aceitar como consenso.
a3 + µi = x Por fim, qual o resultado dessa equação?
Essa é uma pergunta que, para nossa felicidade, continua em aberto, uma lacuna para que nós mesmos possamos preencher com as nossas soluções e combinações emergentes.
Mas para encerrarmos o texto de um modo mais didático podemos dar dois exemplos atuais desse fenômeno:
a) o teconobrega do Pará:
através da produção autônoma dos compositores do tecnobrega, em pequenos estúdios com a distribuição por conta da micro-indústria de CDs «pirata» (termo que não se aplica a esse genero, onde não há outra distribuição " oficial "), o artista lota apresentações na sua aparelhagem, realimentando o processo de criação
b) a cobertura jornalistica das ultimas manifestações populares em Oaxaca, México.
Em meio a uma crise política de proporções inéditas desde o levante Zapatista em Chiapas não tinha se visto nada como em Oaxaca, e se dependessemos do mercado de notícias das grandes redes de comunicação continuariamos sem ver nada, mas os fotógrafos que tiveram acesso, autonomia e empenharam sua autoria num caráter jornalístico das manifestações utilizaram todos os meios possiveis, inclusive a micro-indústria da web 2.0 representada por o Flickr, para mostrar para o mundo o que está acontecendo lá.
Através desse exercicio acreditamos que um agente (ou conjunto de agentes) com acesso, autonomia e poder de autoria, juntando-se A micro-indústrias emergentes pode modificar a realidade atual da forma que desejar.
Em a verdade é apenas o início da discussão sobre como podemos manter nossa cultura digital livre.
h.
Número de frases: 52
d. mabuse e Caio Mariano
Em destaque, as cores dos chapéus de guerreiro:
e quem é rei, como faz para manter a majestade?
Quem já viu, não esquece:
é simplicidade unida à alegria das cores e brilhos de fantasias e chapéus e à vitalidade dos mestres, senhores e senhoras, em sua imensa maioria já idosos, que dedicam parte de sua existência a coordenar as brincadeiras, como eles se referem aos autênticos folguedos alagoanos.
As danças e músicas já serviram de inspiração a vários artistas, os quais colhem pérolas populares e as revestem com novos arranjos.
O cantor e compositor catarinense / alagoano Wado, por exemplo, deu nova roupagem à composição Grande poder, de Mestre Verdelinho, que anteriormente já havia sido gravado por o então grupo Comadre Florzinha (hoje Comadre Fulozinha).
Bom, mas da mesma forma que parece quase unanimidade que essas manifestações expressem a alma do povo -- sua história, suas crenças, sua forma de ver o mundo -- assim como se configuram em fonte de inspirações para arranjos, digamos, antropofágicos, é possível afirmar que mantê-las vivas em sua forma mais autêntica se torna um desafio cada vez maior em tempos pós-modernos.
E sendo Alagoas o estado que detém, segundo pesquisadores, a maior diversidade de folguedos do País, quais iniciativas vêm sendo tomadas no intuito de manter vivas as tradições da cultura popular?
Como manter acesa essa chama se o interesse do público por estas manifestações já não é o mesmo?
Freqüentemente, Alagoas é tido como um estado que não tem o mesmo culto à cultura popular como, por exemplo, acontece em Pernambuco e no Maranhão.
Mas para o pesquisador e folclorista Ranilson França, uma das maiores sumidades de Alagoas no assunto, a questão vai mais além.
«Acredito que Alagoas é o único estado do País que ainda mantém vivos os grupos em seu habitat.
Com essa onda de espetacularização do folclore, as manifestações acabam sendo incorporadas por pessoas que não vivenciam aquela realidade, e os grupos tradicionais acabam sendo isolados», afirma.
Em a sua opinião, ações são necessárias por parte do poder público, mas se deve ter cuidado para não cometer ingerências, direcionando a forma como os folguedos devem se apresentar.
Não que o pesquisador seja contra a influência dos guerreiros, por exemplo, na produção musical da atualidade.
É que uma coisa não substitui, nem deve substituir, outra.
«Eles não precisam de resgate, mas de estímulo e incentivo.
Basta um lugar para ensaiar, roupas para dançar e instrumentos para tocar que eles levam a brincadeira adiante», enfatiza.
Realmente.
Basta observar que, na programação preparada por a Associação dos Folguedos Populares de Alagoas (Asfopal), para o Natal do ano passado, se apresentaram em Maceió diversos grupos que já estavam quase desativados, como o Reisado de Olivença (município alagoano).
Outros, como o Fandango do Pontal (ao que consta, o último do gênero em atividade no país), os Caboclinhos de Passo de Camaragibe (outro município do Estado) e o samba de matuto de Zé do Pão também voltaram à ativa através de incentivo, inclusive através de articulação da Asfopal junto às prefeituras.
A própria criação da entidade, há 20 anos, que conta atualmente com 30 grupos, representando 1.500 dançadores, foi uma forma de tentar incluir novamente os folguedos no calendário natalino do Estado, uma vez que a maioria tem nesta festa seu momento áureo.
Ainda hoje, os grupos de guerreiro saem em peregrinação por o interior do Estado para apresentar sua arte.
Vai a família inteira de dançadores nos ônibus, sem saber ao certo se serão bem recebidos nas cidades que visitam.
Em o caminho, vão se arrumando, recebendo uns trocados para seguir com suas apresentações.
Registros
Reconhecidamente, a Asfopal tem cumprido um importante papel ao colocar em destaque as questões pertinentes aos folguedos e organizar suas apresentações.
Mas esse processo de valorização das manifestações populares em Alagoas não teve início com a sua fundação.
Em a década de 40, o pesquisador e colecionador Théo Brandão (que teve seu riquíssimo acervo de cultura popular doado ao Museu que hoje leva seu nome), iniciou uma campanha nacional em defesa do folclore brasileiro.
Assim, baianas, guerreiros, fandangos e cocos tiveram seu registro em disco, lançado em 1970 em todo o País.
Depois disso, não mais se gravaram os folguedos in natura, e até pouco tempo houve uma espécie de silenciamento geral no que se refere à divulgação da cultura popular alagoana através de registros sonoros.
A retomada foi em 1998, com o professor Davi Gatto, que lançou o projeto De as Lagoas e investiu para gravar em CD os principais grupos do Estado, como a chegança de Rio Largo (cidade localizada próxima à Maceió), Mestre Venâncio, Fandango do Pontal (bairro maceioense), Pagode da Mestra Hilda e o Bumba-meu-Boi de Maragogi (município do litoral norte de Alagoas).
Foram mais de 30 horas de gravação que resultaram num disco indicado ao Prêmio Sharp de música tradicional brasileira, merecendo destaque nos cadernos de cultura do Brasil inteiro, como relata Ranilson França.
Outro projeto que contribuiu para colocar novamente em evidência essas manifestações foi um mapeamento musical no Brasil, coordenado por Hermano Vianna.
De Alagoas participaram grupos como as baianas de Santa Luzia, Mestra Virgínia, Hilton de Capela (cantador de coco e palhaço de guerreiro), Mestre Verdelinho, Mestre Venâncio, os torés das tribos indígenas de Palmeira dos Índios, entre outros.
Posteriormente, foi a vez da própria Asfopal lançar um disco com registros novos e antigos, trazendo inclusive a histórica mestra Joana Gajuru cantando.
O médico alagoano Gustavo Quintella foi outra figura que contribuiu para que os personagens principais dessa história tivessem vez e voz:
levou aos estúdios os grupos e conseguiu um material que totalizava mais de 50 horas de gravação.
Um CD com quatro pastoris também foi lançado ao público, desta vez por as mãos da assistente social e pesquisadora do folclore alagoano, Carmem Omena.
Projetos
Não é somente no que se refere ao registro sonoro de CDs que (sobre) vive o folclore alagoano.
O programa musical Balançando o Ganzá, na rádio Educativa FM, é uma iniciativa pioneira:
criado em setembro de 1987, desde então vem sendo coordenado por Ranilson França, tendo como foco, claro, o folclore alagoano.
As gravações com os grupos devem resultar em mais outro compact disc, a ser lançado em breve.
Outra ação foi o reconhecimento dos mestres como patrimônio cultural por parte do governo do Estado.
Mas pouco tem sido feito em relação à manutenção desse patrimônio:
apenas nove de eles recebem a ajuda mensal da Secretaria Estadual de Cultura, no valor de um salário mínimo, e ainda aguardam a construção de uma vila de casas as quais seriam doadas a eles.
Em a verdade, essas ações contribuem para a divulgação e maior conhecimento das manifestações folclóricas, mas, sozinhas, não são capazes -- aliás, o que seria?--
de manter os grupos em atividade.
Também são eficazes em relação à aproximação da juventude, uma vez que, até pouco tempo, eles eram vistos apenas como coisas exóticas e distantes da realidade da população urbana, quando não ignorados.
Um dos principais projetos que busca botar novamente nas ruas os grupos folclóricos, assim como criar um público cativo de admiradores da cultura popular, é o Projeto Engenho de Folguedos.
Mesmo sem incentivo governamental, o projeto leva todas as quintas-feiras, às 20h, no Museu Théo Brandão, no bairro do Jaraguá, em Maceió (local onde a Asfopal se reúne quinzenalmente) os mais diversos grupos de folguedos do Estado.
A partir do momento em que a entidade ganhou mais credibilidade, mais pessoas e instituições resolveram apostar na viabilidade da iniciativa, que hoje tem o apoio da Universidade Federal de Alagoas e da Cooperativa dos Usineiros.
Promover a familiarização dos jovens estudantes com os grupos foi também a preocupação do projeto Folguedos nas Escolas.
Como coordenador de ação cultural da Secretaria Executiva (estadual) de Educação de Alagoas, Ranilson (sempre ele!)
sugeriu a contratação de mestres e mestras, assim como violeiros e flautistas, como agentes culturais.
O trabalho que eles desempenham é, basicamente, passar seus conhecimentos para alunos da rede estadual.
Até o ano passado eram 12 mestres, atuando em 12 escolas e no Núcleo de Expressões Artístico Culturais, localizado no maior complexo educacional do Estado, em Maceió.
Entretanto, com a finalização do contrato, os mestres foram dispensados e estão no aguardo de uma nova convocação -- que deve ser feita caso haja a aprovação do secretário de educação.
Com dois anos de trabalho, os grupos para-folclóricos ou de projeção de folguedos, como são chamados, já somam mais de 10, e já se apresentaram ao público em diversas ocasiões.
«Tem gente querendo chamar os grupos das escolas em detrimentos dos originais, mas este não é o papel de eles.
A função com a qual foram criados é didático-pedagógica», explica o pesquisador e idealizador do projeto.
Além disso, vem crescendo o número de pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal de Alagoas, cujo foco é esta temática, a exemplo do site guerreiros por natureza.
Recentemente, dois ícones do folclore alagoano -- Mestre Juvenal Leonardo e Mestre Venâncio, foram agraciados com a Comenda do Mérito Educativo, distribuída anualmente a 10 personalidades que contribuem para o avanço da educação no Estado.
«São ações de reconhecimento, mas ainda passam longe da importância que eles têm para a nossa cultura», acredita Ranilson.
Diversidade
A diversidade dos folguedos identificados em Alagoas (mais de 30, sendo 27 de eles catalogados) é decorrente da própria história e localização do Estado.
Recebendo a influência da Bahia e de Pernambuco, o povo alagoano foi criando e recriando danças e jornadas, dando-lhes características próprias.
O guerreiro, por exemplo, surgiu no final da década de 1920, numa fusão de reisados alagoanos, do auto dos caboclinhos, da chegança e dos pastoris.
É acompanhado por sanfona, tambor e pandeiro.
Em sua própria composição, personagens que, à primeira vista, não teriam algo em comum:
rei, rainha, embaixadores, general, Lira, índio Peri e seus vassalos, Mateus, palhaços, Catirina, sereia, estrela de ouro, estrela brilhante, estrela republicana, banda de lua e figuras.
A influência dessas composições é, notadamente, européia.
«A cultura do dominante acaba sempre se sobressaindo», destaca Ranilson França.
Já para o professor Abelardo Duarte, que também pesquisou o assunto, a influência da cultura negra também é muito forte.
De acordo com esta visão, ao chegar ao Nordeste brasileiro, as danças européias encontraram-se com raízes negras e indígenas e foram reinterpretadas.
No caso dos maracatus pernambucanos, é inegável a influência afro-brasileira, de forma que chegaram a ser chamados também de candomblé de rua.
Em Alagoas, essa manifestação ganhou outras formas, dando origem às cambindas, baianas, samba-de-matuto, negras da costa e caboclinhas.
A reinterpretação que deu origem à grande variedade de folguedos também está presente nas composições, que apesar de serem constantemente modificadas por os mais de 150 grupos do Estado, são peças de domínio público.
Partem freqüentemente de um tema popular, e devem ser apresentadas como tendo sido recolhida por o mestre / mestra.
«Em essa correria atrás do ouro que é a cultura popular, tem havido muita apropriação indevida», denuncia Ranilson França.
A autoria, o surgimento e a reinvenção podem até ser questionados, mas o fato é que a diversidade dos folguedos alagoanos e a criatividade de músicos e mestres que fazem da arte popular sua razão de existir ou sua fonte de inspiração, é mais uma prova da riqueza cultural brasileira.
E ainda há muitos tesouros encobertos por aí, na cultura popular ou em qualquer outro lugar ...
tesouros que não precisam de rótulos para existir.
Precisam de olhos, ouvidos, narizes:
sentidos, enfim, que os observem e os percebam.
Número de frases: 87
Para que não virem peça de museu ou nomes de praças quando sua existência já pertencer a outros planos ...
O reality show Big Brother 7, exibido diariamente por a Rede Globo de televisão, vem trazendo à baila algumas discussões bem interessantes sob o aspecto da visão que o público tem dos personagens reais, à medida que assiste à compilação de imagens levada ao ar por a emissora.
Bem e mal nunca estiveram tão presentes nas discussões em torno de quem deve vencer a disputa por o prêmio de R$ 1 milhão.
Esta edição, alvo de duras críticas por setores especializados da imprensa, começou com baixas expectativas de audiência e participação.
A escolha dos participantes, por os critérios da estética e dos estereótipos que alguma pesquisa pode ter mostrado como «vendáveis», estava no alvo do bombardeiro feito por a crítica especializada.
A questão que se mostrou nítida ao longo das semanas de exibição é que nunca se reuniu tanta gente vazia, mesquinha, «plastificada» e insossa numa só edição.
Em meio ao desfile de músculos, caras, bocas e bundas, a edição do programa foi tentando emplacar suas novelinhas sem nexo.
Em uma sacação a partir da leitura das edições anteriores pseudocasais foram se formando.
Afinal, é bom para o jogo e na sua lógica frágil, alguns participantes imaginaram que formando casais conseguiriam atrair os olhares e as preferências.
Carol, uma das mais fracas participantes, deixou isto claro para as amigas após a saída do mineiro Bruno.
Tentou formar com ele um casal, que não vingou, de olho em como isto poderia lhe garantir sobrevida no jogo.
A suposta homossexualidade de Analy, e seu envolvimento com Fani, também não passou de algumas tentativas de edição mais «picantes».
Nada disso colou.
E eis que em meio a tanta bobagem, a crueza de sentimentos mesquinhos foi a saída para alavancar a audiência.
Mostrar Felipe Cobra (onde encontraram esse poço de rudeza, grosseria, machismo e preconceito?)
fazendo pacto de sangue, armando complôs e denegrindo a imagem das meninas abriu um leque de possibilidades.
Em esta mesma linha, um mineiro quieto, que definitivamente não se encaixou no típico «cowboy», salvou a audiência do programa.
Com suas armações e maquinarias, liderou a preconceituosa Analy, a vacilante Carol, a ensimesmada Bruna, o instável Airton e de quebra levou Fernando numa cruzada contra o que a própria Globo batizou de «Triângulo Amoroso» (pura jogada de marketing).
Como resultado, a mais autêntica das participantes, Irislene Stefanneli foi à arena três vezes, para indignação de um público que chegou ameaçar boicote ao vê-la na berlinda com seu affair, Diego Alemão.
Finalmente os brasileiros se reconheciam em alguém.
Em a sacoleira lutadora, sincera ao extremo, que não conseguia conter o que queria dizer, nem mesmo para evitar prejuízos à imagem.
à custa de supressões e muita trilha sonora, a emissora deu seu empurrãozinho para tornar o loiro Diego Alemão, do grosso que levou um fora numa festa e xingou a mocinha, em galã defensor das fracas e oprimidas.
Justiça seja feita:
o playboizão mostrou que tem alma e sentimentos, e foi salvo por Íris de ser mais uma passagem insossa por o programa.
E deu ele no paredão de 57 %.
Escolhidos os heróis por os próprios «bandidos», havia que carregar nas imagens de mau de Alberto, Negão e cia.
Volto a dizer que nunca houve tanta gente vazia numa edição só do BBB.
O próprio Airton disse a um exagerado e quase insuportável Bial que sabe que não tem muitas chances de levar o prêmio por não se considerar carismático, nem popular.
E está fazendo o que então, num programa destes?
Relendo as notícias dos sites de fofoca sobre a reação da família de Alberto, que não assiste mais ao programa, fica a pergunta:
será que ele é tão ruim assim?
A verdade é que o público elege seus preferidos, sem dúvida alguma, sob a influência da edição.
E Alberto salvou a audiência do programa ao mostrar claramente, e cruamente como é, como pensa e como age quem passa por cima de tudo para se dar bem.
O Brasil pode até gostar do tipo cafajeste, que leva a melhor no final, mas não viu no «Cowboy» este perfil.
Ao contrário, se encantou com o romance da sacoleira e do surfista.
Romance sem beijo!
Também se indignou contra as armações de quem não floreia para mostrar que está aí para ganhar, custe o que custar.
Em o fim das contas, tenho que concordar com o ex-campe ão Dhomini, que disse numa entrevista que a campeã do BBB & é Íris.
Saiu amada por o público, e sua presença causa frisson, em qualquer lugar onde vá.
Por o andar da carruagem, o «justiceiro» Diego deve ganhar R$ 1 milhão.
Mas defendo, aqui, que a Globo junte as moedinhas que sobrarem de sua participação no faturamento das teles que contabilizam os votos.
Juntem uma grana boa e paguem o Alberto.
Sem ele, não haveria audiência para esta edição do BBB7.
Bom ou mau, ele salvou esta edição do jogo.
Número de frases: 44
Havia tempestades constantes por ali.
E sempre que as havia, ela parecia perder-se entre as gotas violentas de água sedenta.
É que ela mesmo parecia ser uma grande gota d' água, só que do mar ...
Sim, tinha sal em ela.
Um sal triste que fazia arder seus olhos, não como o fogo arde, mas como remédio arde.
Ela se feria muito e quando esquecia, outros vinham e a feriam.
Ardia como arde o sol de meio dia.
Perdida entre gotas tão fortes, ela tentava ser forte também.
Tentava esquecer a dor do ardor e das outras coisas.
Tentava esquecer das violências contra seu ouvido.
Tentava esquecer as marcas do olvido.
Há algum tempo, houve um temporal.
Todas as suas roupas voaram, como se quisessem que ela se trocasse em outro quarto.
Ela obedeceu, porque sempre obedecia os comandos do tempo.
Quando foi, parecia que aquele temporal fora somente sua imaginação durante um sonho desses sem pé nem cabeça, ou de cabeça para os pés, sei lá.
Um sonho distante ...
Talvez o sonho seja justamente a distância de tudo.
Ela já sabia que sonhava com distâncias, mas não sabia que a distância do sonho que achava sonhar era apenas um sonho, se é que alguém me entende.
Era triste isso.
Mas ela não sabia e por não saber, não sentia tristeza.
Simplesmente sorria, acreditando na distância dos temporais.
Só que houve um dia nostálgico.
Os dias passados pareciam infestados por uma praga de gargalhadas, e ela passou a sorrir por dentro também.
Como podia?
Era tanta graça que sentiu vontade de tentar.
Até porque, acabara percebendo que cada canto tem seus próprios temporais e que talvez o canto de ela fosse outro, porque assim parecia ser.
Inocentemente, cerrou os olhos e o medo e foi.
Foi porque sentia amor e porque sonhava.
Se não sonhasse, certamente não iria e talvez nem mesmo sentisse esse amor.
Foi e não sabia o que a esperava.
Durante todo o caminho ela percebeu as oscilações da temperatura.
Ora sentia muito calor, ora sentia muito frio.
Mas sentia-se bem.
Nada que a acordasse demais.
Porém, um dia sentiu uma gota em seu ombro.
Não muito forte, mas também não muito fraca.
E, pela primeira vez em tanto tempo, sentiu medo.
Todo mundo sabe que elas sentem o cheiro de medo e adoram, mas ela não sabia e começou a tremer, como se quisesse adiantar o futuro.
Mas na verdade, tremia apenas de medo.
E as gotas se tornaram seguras ao sentir que eram temidas, ganharam força e coragem.
E caíram.
Caíram gradativamente, durante dias, até que ficaram mais fortes do que nunca ...
Agora ela era uma gota novamente, bem maior e mais salgada.
E seus olhos agora estavam abertos e marejados e o ardor tomara o lugar de tudo, inclusive daquele amor que sentia.
Ela já sabia o que era sonho, mas não sabia o que não era.
Ela já não queria saber muito.
Ela já não podia pensar muito.
Apenas mantinha os olhos bem abertos, como se acreditasse na sacralização do ardor.
Número de frases: 48
E queria os olhos bem abertos para não cair no sonho de sacralizar o amor ...
Há 10 anos um acidente de avião interrompia a trajetória do maior fenômeno de vendas da música pop brasileira, o grupo Mamonas Assassinas.
O único disco lançado por eles tornou-se o álbum de estréia mais vendido na história da indústria fonográfica no país.
O quinteto apareceu e arrebentou com todo e qualquer referencial do qual uma banda nova pudesse se valer para atingir o sucesso.
Depois de anos no ostracismo musical de Guarulhos sob o nome de Utopia, os cinco rapazes trocaram de nome, de estilo e, em menos de 6 meses eram a principal banda do país.
«Eu dizia para eles que o som do Utopia não tinha nada de novo, que eles deveriam fazer algo mais original.
Quando eu ouvi ' Robocop Gay ', pirei na hora e aconselhei que aquele era o caminho " -- conta Rick Bonadio, produtor da banda, que nos anos seguintes produziria ainda os discos de estréia do Charlie Brown Jr, do CPM22, do Rouge, do Br ' oz, entre outros.
Era fim de junho de 1995.
Momento promissor para o rock nacional, que vinha se reestruturando.
Chico Science e Nação Zumbi, Raimundos, mundo livre s / a e Skank tinham lançados seus primeiros discos.
A vendagem de estréia dos Raimundos já beirava as 100 mil cópias -- número, na época, pra lá de animador para qualquer artista de rock.
Aí vieram os Mamonas e venderam 1 milhão de discos só naqueles seis meses restantes do ano.
«Os caras chegaram zoando tudo!" --
lembra o produtor «Carlos Eduardo Miranda --» Todo mundo foi muito acolhedor com eles, mas era um momento em que o rock estava se reorganizando, apontando novos caminhos e os caras confundiram geral.
De repente, passou-se a achar que fazer rock era só tirar sarro!
As rádios só queriam ouvir aquilo».
O humor e o carisma do grupo fizeram com que muitas outras virtudes passassem batidas.
A mais evidente de elas era o talento musical dos cinco, todos grandes músicos.
Algumas letras também tinham valor como retratos da época.
Um bom exemplo era a que abria o álbum, «1406», uma crítica ao consumismo burro desenfreado da classe média brasileira, impulsionado por a ilusão do início plano Real.
Quando fizerem o'almanaque dos anos 90', ninguém poderá esquecer de citar vários produtos descritos ali.
O serviço telefônico-televisivo «zero onze catorze zero meia» (quem não se lembra?!!?),
que vendia seus ambervisions, masterlines, facas guinsu, e outros balangandãs, é um dos ícones da década passada.
Muito antes dos caras do Massacration saírem de Petrópolis para avacalhar com o estereotipo do heavy metal, os Mamonas já o tinham feito.
O pagode, a música brega, o sertanejo, o vira, o hard core e o próprio rock ' n roll também tiveram seus clichês ridicularizados por eles.
Ao todo, foram 182 shows em 190 dias, marca impressionante.
Em esse meio-tempo, toda uma geração de pré-adolescentes se forjou ao som do grupo.
Pais e mães foram carregados por os filhos para casas de shows em todo o Brasil.
Faustão e Gugu disputaram avidamente a presença da banda em seus auditórios.
O quinteto garantia audiência.
A Globo chegou a oferecer um contrato de exclusividade para tentar impedir as participações da banda no canal rival.
Em uma das vezes em que tocaram no Rio de Janeiro, Faustão colocou um link ao vivo, direto do Metropolitan, para transmitir um pedaço do show no seu programa, algo inimaginável para os padrões dos dominicais-canarinhos.
O acidente que interrompeu a carreira meteórica do grupo, no dia 02 de março de 1996, serviu para imortalizá-los.
A piada poderia perder a graça com o passar do tempo, mas os caras tinham potencial para se reinventar.
Experimente, hoje em dia, tocar qualquer música de eles numa rodinha de violão e veja como trazer a atenção de todos seus amiguinhos para você.
A piada era boa, durou mesmo.
Desde a tragédia, o disco passou a vender ainda mais.
Atualmente está na marca de 2,7 milhões de cópias vendidas.
Número de frases: 38
Bruno Maia escreve no www.sobremusica.com.br
Existe, sim, alguma massa cinzenta nos programas da onipresente Globo
Apesar da avalanche de programas e novelas que não acrescentam nada de valor cultural ao nosso intelecto.
A televisão brasileira está lotada de programas supérfluos, que ajudam a entreter sem informar a massa brasileira, acostumada a assistir, sem o menor esforço mental, a inúmeras situações que, se analisadas a fundo, trazem a tona a total falta de interesse dos que controlam a tevê em contribuir de alguma forma com um conteúdo pertinente e elucidativo a população brasileira.
Acredito que não precisamos mais de programas especializados em encher lingüiça.
Se acha que exagero, tente observar algum dos programas de fofoca que invadem a televisão diariamente.
Com raríssimas exceções, assistimos a um «fast-food» para o cérebro, onde o espectador fica extremamente passivo, e, para usar um clichê já batidíssimo, alienado.
Mas, como nem tudo na vida é completamente bom ou ruim, com certo esforço conseguimos encontrar algo pertinente neste limbo que nos cerca.
Uma boa dica, pra quem chega da balada do sábado cedo, é acompanhar o Altas Horas, do bom e velho Serginho Groissman.
O cara realmente sabe como aumentar o nível com conversas inteligentes, entrevistados bacanas, e conteúdo de grande relevância.
O melhor programa da Globo hoje em dia, sem sombra de dúvida.
Não digo com isso que o famosérrimo programa do Jô seja sem conteúdo.
Muito pelo contrário, é uma excelente opção para os notívagos de plantão, só que, por a arrogância que nosso maior apresentador estampa, fica difícil deixar que os entrevistados exerçam sua vital função, a de simples entrevistados, tendo sempre que brilhar acima de um ego do tamanho de um colosso (ou seria elefante?).
Sem querer ser crítico por demais, mas o programa era bem melhor no começo, no SBT, quando ele ainda estava mais preocupado em fazer uma coisa nova com muita coragem e pioneirismo, sem se preocupar única e exclusivamente com a forma, e sem imitar tanto o David Letterman, famoso entrevistador americano.
Achei também bastante relevante um especial de dentro do Jornal Nacional, a caravana nacional.
Em épocas de eleições, achei bastante justo ouvir todas aquelas pessoas, nas mais distantes cidades de todas as regiões do nosso país.
O que para mim não foi surpresa, mas que pra muita gente se tornou uma, foi o fato de que o desejo de quase todas as pessoas que apareceram na matéria serem basicamente o mesmo, o que nos mostra que os problemas enfrentados são os mesmos, a muito tempo.
O que falta realmente é vontade e comprometimento político para mudar esta realidade.
Tomara que com essa iniciativa, e com a consciência coletiva que, graças a Deus está melhorando muito, consigamos de uma vez por todas tornar nosso país mais justo de verdade, sem maquiagem.
Até as novelas, as danadas das novelas, ditadoras da moda nacional, estão encaixando um conteúdo muito bom, de fundo social bastante sólido e honesto.
Refiro-me, claramente, a novela das oito Páginas da Vida, onde vemos a todo instante dilemas do nosso cotidiano sendo encarados com a devida responsabilidade, e ensinando a todas as faixas, seja de renda, seja de escolaridade, a como proceder com um pai alcoólatra, uma filha com down, ou uma filha que namora com um rapaz casado.
Vale a pena dar uma conferida então nestas atrações da gigante Global, que, ultimamente, vem acenando com sopros de vitalidade em sua grade.
Lembre-se:
quem faz sua programação é você, não se deixe manipular.
Número de frases: 24
Organizar um evento internacional de artes cênicas numa capital como Maceió, sem nenhum apoio do setor público ou privado, é prova da vontade de fazer da doutora Nara Salles e dos bolsistas e professores do Núcleo de Artes da Universidade Federal de Alagoas -- Ufal.
Com uma longa trajetória de atuação na educação popular, a professora, atriz, diretora e pesquisadora vêm desenvolvendo importantes projetos no estado de forma que é impossível falar no ensino da arte em Alagoas hoje sem esbarrar no seu nome em algum momento.
Nara Salles é coordenadora da Escola Técnica em Artes e do Núcleo Transdisciplinar de Pesquisa em Artes Cênicas e Espetaculares, o NACE.
É idealizadora do novo curso de dança contemporânea da Ufal e responde por o projeto Pólo Arte na Escola no estado.
Com tanto serviço, Nara conseguiu um tempinho para conversarmos sobre educação, políticas de cultura e mercado de trabalho em artes no estado.
Marcelo Cabral -- O que é o NACE?
Nara Salles -- É o Núcleo Transdisciplinar de Pesquisa em Artes Cênicas e Espetaculares, ou seja, pesquisa em teatro e a dança integrando também as linguagens da música e das artes visuais ou outra disciplina.
O NACE Surgiu na época da minha tese de doutoramento, na ocasião não havia nenhum núcleo de pesquisa em artes no estado.
M -- Fale sobre a implementação do novíssimo curso de dança da Ufal.
Como vai a primeira turma?
-- O curso era mesmo uma necessidade em Alagoas.
Oferecer formação superior em dança contemporânea.
A primeira turma está bem empolgada, é uma turma grande de 35 alunos.
Agora no segundo semestre já receberemos uma nova turma.
Estamos satisfeitos, professores e alunos.
M -- Vida de artista não é fácil.
Como lidar com as expectativas dos estudantes em relação ao mercado de trabalho nas artes?
Como você avalia este mercado no estado?
-- Olha, vou te dizer uma coisa, nós temos hoje 250 alunos e não temos nenhum, entre os que querem trabalhar que esteja desempregado.
Estão todos trabalhando.
O pessoal de licenciatura tem um mercado de trabalho grande, desde que o ensino de teatro nas escolas se tornou obrigatório por lei, eles precisam contratar professores com formação para dar essas aulas.
-- O mercado de filmes publicitários em Maceió absorve muitos atores?
-- Sim, muito também.
Além disso, eles montam grupos de teatro e vendem seus espetáculos para instituições como o Sebrae, o Sesc, ou recebem apoio de projetos de incentivo do Governo Federal.
M -- Como foi a experiência, ousada e embrionária, do 1º Congresso Internacional de Artes Cênicas em Maceió?
-- Muito boa!
O pessoal do grupo Fontibón de Bogotá, na Colômbia, veio até aqui se apresentar e oferecer oficinas de teatro experimental.
Eles vieram com o apoio do governo de lá, enquanto que a Secretaria de Cultura daqui sequer apareceu no evento, apesar de ter sido convidada.
Conhecemos o pessoal do Fontibón durante o Entepola, Encontro Internacional de Teatro Popular no Chile, quando viajávamos com o espetáculo «Em Branco», uma pesquisa sobre violência urbana cotidiana.
Apresentamos na Argentina, Chile, Colômbia e Rio Grande do Sul.
M -- Você Acha possível que um evento internacional nos moldes do FIT, em Minas Gerais, possa existir no calendário turístico alagoano, despertando a atenção da mídia nacional para as produções locais?
-- Acho muito difícil porque dentro de Alagoas não existe interesse político no desenvolvimento das artes.
Todo apoio que nós já tentamos, ou convênio, ou qualquer parceria com qualquer órgão de cultura da esfera pública municipal ou estadual não funciona.
Eles não apóiam.
Com exceção da Fapeal (fundo do Estado para a pesquisa).
A impressão que eu tenho é que eles encaram como «coisa da Universidade», ou seja,» a Universidade lá e nós aqui», ou «A Universidade tem dinheiro».
O que não é a realidade e acredito que não podemos partir desses princípios.
É preciso unir forças para que as coisas possam acontecer.
Além disso, é incrível o tratamento e o cachê mais alto que oferecem aos grupos de fora enquanto que o pessoal daqui mal tem água pra beber no camarim.
M -- Mas o Congresso vai ter uma segunda edição?
-- Sim, claro, bem provável que faremos ano que vem, mas continua pequeno, feito aqui por nós, por nossos bolsistas maravilhosos, que ganham pouco, mas trabalham muito e muito bem.
M -- O setor privado não compra a idéia de viabilizar espetáculos ou mesmo um festival que movimente a cidade?
-- É possível sim, mas nós não temos tempo de sair batendo de porta em porta atrás de recursos.
Ter que dar aula, coordenar, correr atrás dos eventos, e ainda ter que ir lá conversar às vezes com alguém que provavelmente não entende nada de arte.
Não.
Se for para fazer nós fazemos aqui, com nosso pessoal, nossos recursos, com o pessoal da Colômbia, com quem quer fazer.
O Sesc tem sido um grande parceiro.
Nós vamos continuar aqui trabalhando ...
-- E o público?
Muitas vezes escuto artistas reclamarem que se apresentam pra platéias esvaziadas ...
-- Não existe um público porque até então não existia formação de platéia nas escolas, trabalho que estamos realizando atualmente com o Pólo Arte na Escola em Alagoas, mas enquanto não mudar, enquanto não houver um novo olhar sobre as artes cênicas, sobre a dança contemporânea principalmente, vamos ter essas dificuldades.
É preciso uma educação para a formação de público.
-- O que é o Pólo Arte na Escola?
-- O Arte na Escola é um grande projeto que está em quase todos os estados, promovida por a Fundação Iochpe, que procura melhorar a qualidade do ensino da arte nos estados.
Eles oferecem material e incentivo através de convênios com instituições que já trabalhavam a educação popular nas cidades.
Com a criação da pós-gradua ção em ensino da arte, podemos oferecer qualificação para professores que já ensinavam arte na rede pública, mas que nunca receberam formação para o ensino de nenhuma das linguagens artísticas:
música, teatro, artes visuais ou dança.
Este é o público do curso, fizemos uma pesquisa e identificamos essa carência.
Contamos com um grupo de estudos continuados, onde os professores de arte da rede pública participam e discutem questões sobre o ensino.
Temos também uma videoteca e uma pequena biblioteca à disposição dos professores.
Um material muito bom.
Número de frases: 61
Projeto
„OFF Copa "
O Brasil de quem está „fora "
A mostra „OFF Copa " que inaugura em junho na galeria
Berlin am Meer no Kollwitzplatz em Prenzlauerberg / Berlim é a resposta
que alguns brasileiros encontraram para participar dos eventos culturas
durante o mês da Copa do Mundo na Alemanha, mesmo estando fora da programação oficial da „Copa da Cultura».
Assim como existe a Off
Bienal de São Paulo, agora existe a „OFF Copa ":
um evento paralelo que
reúne artistas brasileiros que vivem na Alemanha.
Esses artistas não tem em comum só o fato de viverem no estrangeiro,
mas todos buscam um espaço mais representativo para suas obras.
Não só os artistas brasileiros deste evento, mas todos aqueles que residem na Alemanha, acambam deparando-se com a questão da identidade e da nacionalidade, o que os levam a estratégias diferentes em suas
produções artísticas.
De um lado está o caminho tradicional ligado às referências mais
conhecidas da cultura brasileira, que não precisam ser citadas, pois já estão impressas no inconsciente coletivo.
De o outro, está um caminho menos convencional, que busca fragmentar as referências mais conhecidas em prol de outras que ainda não foram
suficientemente trabalhadas.
É exatamente a esse Brasil menos popularizado que a mostra „OFF Copa "
quer oferecer um espaço, revelando o brasileiro que está fora.
Em o
exterior, mesmo participando indiretamente dos acontecimentos de seu
país de origem, o artista brasileiro não nega sua identidade, inclusive é aqui onde se vê diante da necessidade de escolher ao qual dos muitos
Brasis que existem, quer pertencer.
O Brasil da „OFF Copa " é um lugar
atemporal, poético, miscigenado, mágico, contraditório e extremamente
contemporâneo.
Um país desconhecido do grande público, tanto no próprio Brasil, quanto
na Alemanha.
Programação --
02.07 Exposição:
Claudia Medeiros, Eduardo Raccah, Flauberto, Fita Chagas,
Guilherme Galarraga, Helio Barros, Silvia Marzall, Sonia, Zaine
Barbosa.
11.06
16h Vernissage:
Performance Nathalie Fari + Paulo Hartmann
14.06 18h Palestra:
Eder Santos 21.06
18h Videos:
Ricardo de Paula, Rita Glória-Curvo, Hugo Fortes e Sissi
Fonseca.
20h Performance:
Marco Antonio Queiroz
Intervenções: Fernanda Guimarães, Sonya Cipriano.
28.06
17h Prêmio Jovem „OFF Copa " + Documentário Eduardo Lopes
20h Documentários:
Roberto Malhães Reis, Zé do Rock.
29.06
Show 19h Daniel Arruda, Rainhas do Norte.
22h naurÊa.
Endereços:
Show:
basso / Köpenickerstr.
187-188 / Berlin / Schlesisches Tor (U1)
Todas os demais eventos:
Galerie Forum Berlin am Meer / Kollwitzstr.
54 / Berlin / Senefelder
Platz (U2)
Horários de funcionamento:
Qua / Qui / Sex 14 -- 20h
Sáb / Dom 12 -- 18h
Organização e Produção:
Eduardo Raccah + Nathalie Fari
Design:
kfofo / info@kfofo.com
Para maiores informações:
eraccah@kfofo.com
nat@nathaliefari.com ou consulte o release em anexo
Arial Deutsch
nat@nathaliefari.com ou consulte o release em anexo
Como vive a comunidade negra da Igrejinha de São Benedito, formada por descendentes da rezadeira e, dizem, milagreira Tia Eva:
na foto os bisnetos Seu Michel e Senhora Narzira com o busto de Tia Eva ao fundo
Chegar lá é relativamente fácil.
Difícil é esquecer.
A verdade é que este repórter nunca havia ido à Comunidade Negra da Igrejinha de São Benedito, localizada a uns 15 km do centro de Campo Grande.
O local, que abriga umas 60 casas, é reduto dos descendentes de Eva Maria de Jesus, mais conhecida como Tia Eva.
Benzedeira, rezadeira e, muitos acreditam, milagreira, a ex-escrava veio numa comitiva em 1905 para estas bandas.
Nascida em Mineiros, no interior de Goiás, foi uma das primeiras a chegar no que hoje chamamos de Campo Grande.
Tinha 45 anos e três filhas.
De cara impressionou:
sabia ler e escrever.
Para quem foi escrava, não era pouca coisa.
A história começa, porém, em 1910, quando decide pagar a promessa a São Benedito por a ter curado de uma ferida na perna.
Constrói uma capela em agradecimento ao santo e conclui a igrejinha em 1912, demolida e substituída por uma de alvenaria em 1919.
Tia Eva está enterrada dentro desta pequena igreja, a mais antiga da cidade.
Calcula-se que existem 2 mil descendentes de Tia Eva espalhados por as comunidades negras do Estado.
O contato para realizar a matéria foi Eurides da Silva, mais conhecido como Bolinho.
Sua esposa atendeu o meu telefonema no orelhão comunitário, em frente ao Bar da Dona Rute.
Rapidinho o achou, liguei num celular e marcamos para o dia seguinte cedo.
Fui recebido por Bolinho e seu pai, Sérgio Antônio da Silva, o Seu Michel.
O senhor de 70 anos, cabelos já meio embranquecidos, simpático e de gestos lentos é bisneto de Tia Eva.
Em a verdade, ele é o responsável por ter se tornado tradicional a festa de São Benedito, sempre em maio, a mais antiga da cidade também.
Foi ele que entrou com a petição do Uso Capião para a legalização dos terrenos da comunidade.
O IPTU vinha em nome da escrava, que era dona de toda a área.
Após seis anos, ganhou na Justiça.
Hoje cada descendente que reside na comunidade pode requerer a escritura de seu terreno mediante quitação do IPTU.
O problema é que a maioria não tem condição de pagar o imposto.
O próprio Michel está devendo quatro anos de IPTU, que atinge a soma de R$ 6 mil.
Assim como muitos na comunidade.
Reclama que em vez de asfalto, as ruas do bairro deveriam ter recebido paralelepípedos.
Com isso, o IPTU seria mais acessível e o ambiente menos modificado.
A comunidade não foi consultada.
Mas o sonho mesmo e a luta de Seu Michel e seu filho Bolinho é que a comunidade vire uma quilombola urbana para ficar isenta de impostos.
É o que acontece nas quilombolas rurais, como a Chácara Buriti, que fica a 40 km de Campo Grande e abriga 37 famílias, e a Furnas Dionísio, uma área de 900 hectares a 45 km da Capital em que vivem 80 famílias.
Em a verdade, vários descendentes de Tia Eva já correm o risco de serem expulsos da comunidade por falta de pagamento de impostos.
Segundo Bolinho e Michel, só com a criação da Associação Beneficente dos Descendentes de Tia Eva, em 1996, houve melhorias.
Antes, tudo era feito no local onde aconteceu a entrevista:
embaixo das árvores do quintal da casa de Seu Michel.
Hoje em dia, além da igrejinha, existe um salão social para realizar as reuniões e eventos.
Um grupo de música afro, uma escola, um campo de futebol ...
Conseguiram um orelhão comunitário e uma lombada em frente à igrejinha.
Uma linha de ônibus que passa por o bairro.
Visitaram a comunidade a sambista Leci Brandão e o embaixador da África do Sul, Mambulena Hakena.
O governo estadual, através da Agência Estadual de Habitação, construiu no local 20 casas e ajudou mais 32 famílias nas reformas.
Além de Tia Eva ter recebido o Título de Cidadã Campo-Grandense em junho de 1996.
Mas muito ainda precisa ser feito na comunidade.
Resgatar a história de Tia Eva, descobrir qual dialeto africano ela falava e de que parte da África sua família tem ramificação são coisas que ainda precisam ser reveladas.
Para fazer finalmente o busto de Tia Eva, exposto em frente à igrejinha, foi preciso basear-se em descendentes, como uma tia e sobrinha do Seu Michel.
Bolinho lembra que tem o projeto de fazer uma biografia de Tia Eva e que não conseguiu ainda apoio para concretizá-lo.
O projeto de R$ 30 mil não foi aceito por o Fundo de Investimentos Culturais de MS (FIC).
Bolinho reflete sobre o porquê de alguns políticos negros não terem ajudado a comunidade quando chegaram ao poder:
«Subiram ao topo, mas esqueceram a base, mesmo tendo no início da carreira política a bandeira da negritude.
Então a comunidade em si precisou lutar para trazer suas benfeitorias.
Conseguir parcerias como a que fizemos em 2005 com a Fundação Ford para o projeto Negra Eva, que apóia afro-descendentes para ter acesso ao ensino superior.
Além de alguns profissionais liberais que lutam junto com a gente e acreditam na causa.
Temos também o apoio da Fundação de Cultura na festa de São Benedito e alguma ajuda esporádica da prefeitura.
Mas fica por aí."
A boa recepção de Bolinho e Seu Michel continua e sou levado até a igrejinha.
Ouço que na reforma muita coisa original da construção se perdeu, como o piso e a parte de alvenaria do teto.
Lá dentro, um pôster do Papa João Paulo II me chama a atenção.
Encontro então a senhora Narzira Caetano de Barros, irmã de seu Michel.
Ela tem 82 anos e poderia ser apontada como a substituta de Tia Eva.
Narzira emociona-se:
«Tomo conta da igreja e também sou benzedeira.
Temos que manter a tradição.
Mas com os mais novos tudo muda.
Meus filhos estão virando crentes e aqui somos católicos.
Fico chateada.
A minha filha Neusa pode dar continuidade ao que faço, mas ninguém quer mais benzer, porque dá muito trabalho, além de precisar ter o dom.
Devemos tudo a Tia Eva.
Uma santa que curou muita gente.
E acho que a comunidade está melhor hoje, tem coisa que não tinha e agora tem."
Sinto uma energia grande vindo de Narzira e vou pra fora me despedir do Seu Michel.
Encontro então o professor universitário Sebastião, que estava conversando com Seu Michel em frente ao busto de Tia Eva e é morador de outra comunidade negra.
Escuto: " Mesmo com mais de 100 anos de libertação continuamos presos ao sistema.
Nos sentimos escravos ainda, dependentes do poder público.
Esta comunidade da Tia Eva é um marco histórico para sempre de Campo Grande, deveria servir de exemplo e ser bem mais reconhecida.
O problema é que somos uns 30 mil negros no Estado e não temos união."
Subo novamente para a casa de Seu Michel.
Bolinho me entrega alguns textos e sai para seu compromisso.
Sentado na varanda da casa de Seu Michel, fico sabendo que ele tem 12 filhos (um falecido), casou três vezes e por muito tempo vendeu doce de leite caseiro.
Ele me explica que os quilombos sempre eram instalados em pontos estratégicos para facilitar a fuga dos escravos.
E me mostra que a Tia Eva fez o mesmo.
De a igrejinha, pode-se ver com facilidade quem está chegando dos quatros cantos da cidade.
Me despeço com vontade de ficar e dou carona para mãe e filha, também descendentes de Tia Eva.
Dirijo e penso que o bairro deveria ter a vitalidade cultural de um Pelourinho, que a sociedade campo-grandense desconhece o lugar e como é a situação real dos negros no nosso país.
Prometo a mim mesmo que vou tentar ajudar para que a biografia sonhada de Bolinho sobre Tia Eva se concretize.
Acelero!
Abaixo, entrevista com Sérgio Antônio da Silva, o Seu Michel, bisneto da Tia Eva:
Por que a Tia Eva decidiu sair de Goiás?
Terminou a escravidão e ela quis sair de lá.
Chegou aqui com as filhas Joana, Lazara e Sebastiana.
Escrava não tinha marido.
Por isso, uma era mais escura e as outras claras.
As três casaram e foram multiplicando.
Em aquele tempo as pessoas abusavam dos escravos.
Eram tratados como se fosse uma criação qualquer.
Então, a Tia Eva foi uma grande liderança.
Era parteira, sabia ler e escrever.
Receitava remédio de médico alemão.
E as pessoas curavam.
Em uma época que Campo Grande não tinha nem padre.
Isso aqui não tinha nada.
Só era mato.
Passagem para boiada.
Ela pagou por esta terra 85 mil réis.
Em a época, era difícil ter este dinheiro.
Por isso, a gente admira como conseguiu isso.
A minha avó Sebastiana continuou fazendo os mesmos trabalhos de parteira e benzedeira.
A Tia Eva veio conscientemente ou não sabia da existência destas bandas?
Ela sabia para onde estava vindo com certeza.
Veio em comitiva, não chegou sozinha.
Primeiramente, ela construiu uma igreja de madeira em 1912.
E depois desmanchou e fez outra.
Como foi a reação da comunidade naquela época?
Todos a admiravam.
Por causa da inteligência de ela se tratando de uma pessoa escrava.
Porque ela fazia o trabalho do sacerdote.
Tudo era ela.
Mamãe falava que quando ela faleceu em 1926 a cidade toda parou e pessoas de destaque a reverenciaram.
Tia Eva chegou aqui com 45 anos.
A comunidade encara a Tia Eva como uma santa?
A gente nunca diz isso.
Mas tem muitas histórias.
Teve uma senhora que estava com um problema de espinha e que se curou.
Ela comprou uma creche e colocou o nome da Tia Eva.
Em 1998, a gente estava entregando um troféu, porque mexemos aqui com esporte também.
Chegou uma dona, me pegou por o braço e falou:
«Tem uma pessoa muda em minha família».
O menino começou a falar aqui.
Tenho um cunhado que é pastor e que chegou a conhecer a Tia Eva.
Ele disse que a viu benzer e curar as pessoas.
A Tia Eva era milagreira.
Minha mãe contava também que ela era muito gorda.
Que uma vez não conseguiu escapar e neutralizou um touro só com o pensamento.
Conta que cada oração que ela fazia realmente dava certo.
Ninguém sabe a causa da morte de ela.
Foi uma doença desconhecida.
Ela sabia que iria morrer.
Minha mãe contava que ela dizia isso.
Quando foi o auge da Tia Eva.
Em a década de 20?
Por aí.
Mas a Tia Eva continua interessando.
Tivemos um encontro em 1998 que 15 países participaram.
Sobre a rota dos escravos.
Fui escolhido para fazer parte da mesa do Senado representando todas as comunidades negras do país.
Não por mim, mas por causa da Tia Eva.
A gente vê que o pessoal lá fora tem interesse em saber da história de ela.
Existe alguma imagem da Tia Eva?
Não tem foto de ela.
O busto, por exemplo, foi baseado numa tia minha.
A gente também tinha uma prima muito parecida.
Tudo baseado em depoimentos familiares.
A Tia Eva não era magra.
Era baixa e gorda.
Colocaram um foto no jornal que não era ela.
Por isso o valor de termos o busto da Tia Eva desde 2004.
Mas talvez a própria comunidade não dê importância para esta questão.
Quais pessoas lideraram a comunidade após a morte de Tia Eva?
A minha avó, dona Sebastiana.
Depois ficou minha mãe, a Catarina Rosa.
Minha mãe morreu e fiquei eu.
Comecei a fazer as festas aqui na época da lamparina.
Montei esta associação.
Todo ano a gente guardava um pouquinho de dinheiro para construir o salão.
Mas para eu agora produzir a festa é muito cansativo.
Estou com osteoporose.
Qual o desejo que o senhor possui ainda?
Que nossas famílias fossem mais unidades.
O resto realizei.
Primeiramente, era fazer o inventário de tudo isso aqui.
Consegui. Se não faço isso, podíamos ter perdido tudo.
Depois era um sonho ter a festa da família e realizei.
Quis fazer esta festa para manter todos unidos.
Vários descendentes começaram a vir.
Então, se os novos conseguirem 10 % disto, está bom.
O que falta para a comunidade se desenvolver mais?
Os negros se unirem.
Número de frases: 180
* Os interessados em entrar em contato com a comunidade devem ligar para o fone (67) 3365-1223 Como falar de uma experiência coletiva de transformação humana, sem incidir numa teorização vazia?
Como fazer jus ao brilho nos olhos de quem de ela participa?
Será que valerá a pena se isso por si só não transformar, a mim que tento descrever e a você aí que me lê?
Aviso desde já que ao ler esse artigo, se você for como eu, ao final da leitura será outra pessoa.
Apesar de soar tão desgastada nos slogans de televisão, nas campanhas políticas e nas letras de música, ainda podemos fazer alguma coisa para mudar o mundo.
A Eletrocooperativa é a realização de um sonho de transformação social através da música e da tecnologia.
Alguma coisa diferente está acontecendo na atmosfera mental (noosfera) do mundo e a Eletrocooperativa faz parte disso.
Uma forma diferente de entender o valor das coisas, privilegiando muito mais as relações e os links sociais, do que a acumulação e o isolamento social.
Empreendendo a aproximação entre vários setores da sociedade, envolvendo artistas, empresários, profissionais liberais e órgãos públicos, através de um laborioso trabalho de articulação.
Experiências como a Eletrocooperativa buscam respostas para as perguntas que o nosso medo ou egoísmo não nos deixa ouvir.
Sim, existem saídas para o caos, para a violência, para a desigualdade, para o individualismo e para a falta de sentido de nossas vidas.
Alguém já ouviu falar em solidariedade?
Pois é, ela existe e assume múltiplas formas, uma de elas é o cooperativismo.
Co-operar e co-laborar são palavras irmãs, o sentido é de estar juntos.
É um fazer coletivo que desenvolve nossa consciência social, nos faz ver o mundo de uma outra forma e isso por si só já é uma mudança importante.
Uma obviedade que nossa razão até aceita, mas que dificilmente consegue nos mover na direção de uma nova prática social.
Talvez porque a razão não baste, saber o que é certo não é suficiente para começar a fazê-lo.
Pode parecer paradoxal, mas só conseguimos compreender de fato a força transformadora do trabalho coletivo, quando trabalhamos coletivamente.
A experiência de co-operar contamina o corpo e o que mais você tiver aí por dentro.
Nos envolve de uma tal forma que fica difícil não ter esperança num mundo melhor depois disso.
Epifania
A iniciativa de criar um centro de colaboração estético-social foi de um grupo de jovens da classe média, em sua maioria bem nascidos e apaixonados por música, mas preocupados com o rumo da convivência humana nas grandes cidades.
No caso de Salvador, uma importante matriz cultural para o que chamamos de Música Popular Brasileira, é na luta contra a concentração de renda desproporcional, a falta de perspectiva de muitos jovens talentosos ou mesmo contra a ganância de muitos empresários da indústria local de música, que se insurge a proposta da cooperativa de música e tecnologia.
Os baianos Reinaldo Pamponet e Fernando Ferrel e os paulistas Marcio Zorzella e Dudão Melo deram os primeiros passos, mas nada conseguiriam se já não ouvissem as demandas dos jovens excluídos.
Segundo Reinaldo, que atualmente está à frente da instituição, o projeto era criar uma ong com o objetivo de promoção social através do acesso aos meios de produção musical, auxiliando de forma colaborativa no desenvolvimento da autonomia financeira de jovens de baixa renda.
Situada no centro histórico de Salvador, Pelourinho, nº 34 da Rua João de Deus, pretende em breve expandir o alcance de suas realizações com a abertura de sedes em Arcoverde (PE) e São Paulo (SP).
A Eletrocooperativa é uma ong (organização não-governamental da sociedade civil, sem fins lucrativos) que trabalha preferencialmente com jovens de 15 a 25 anos que tenham interesse na área musical e artística.
Foi inaugurada em 2003 com uma grande festa, onde o dj Patife tocou junto com percussionistas dos blocos afros (essa epifania foi registrada e está disponível no podcast Soteropaulistano).
A estratégia inicial foi conseguir jovens com aptidão a partir do contato com os blocos, depois foram realizadas oficinas de capacitação.
Segundo o site do projeto, desde o início das atividades 579 jovens foram beneficiados nas diversas atividades existentes:
Inclusão Digital, Produção Musical, Técnicas de estúdio, Teoria Musical, Oficina de Djs, Formação Cidadã, Apoio Psicológico, Empreendedorismo e Cooperativismo, Desenvolvimento do Plano de vida individual, Modelo de Geração de Renda (em fase inicial).
São jovens que estão aprendendo a fazer business cultural, de maneira mais horizontal.
Também estão aprendendo a produzir bens culturais que privilegiam a circulação e a troca, já que não restringem as possibilidades de cópia e compartilhamento de sua produção.
Estes jovens artistas optam por não adotar as clássicas regulamentações de copyright, mas não abdicam de assumir a responsabilidade por suas criações.
Já foram produzidos 8 CDs, 10 CDs estão em finalização e já são mais de 10 mil downloads de música no portal.
Também é possível disponibilizar músicas no portal da iniciativa, mesmo sem ser aluno, como fizeram os artistas Lucas Santtana, Chico Correa e as bandas Diamba, Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, tara code e Lampirônicos.
Atualmente existem 35 artistas cadastrados no portal.
Pesca de rede
A originalidade da Eletrocooperativa está em sua proposta de fomentação cultural, estimulando uma perspectiva colaboracionista de produção e difusão de bens culturais.
E aliando a isso a oferta de produtos específicos como jingles, ringtones, células rítmicas para loops e um portal na internet que oferece espaço para que se disponibilize músicas licenciadas em Creative Commons.
Assim, a principal forma de distribuição da produção musical da instituição é através do portal.
Aqui está a sua ponte com o modelo de negócios abertos, chamado Open Business.
As músicas produzidas na Eletrocooperativa também podem ser adquiridas comprando-se os cds que são vendidos por os próprios meninos ao preço de R$ 5 nas ruas do Pelourinho.
No entanto, a participação dessas vendas na sustentação do projeto ainda é pequena.
Até o momento (nov / 2006), foram vendidos um pouco mais de 4 mil cópias, o que significa algo em torno de R$ 20 mil.
A disponibilização das músicas no portal amplia a visibilidade do que é produzido na Eletrocooperativa, a estratégia é chamar a atenção para a forma de produção e distribuição.
Em esse contexto pode se entender a venda de cds físicos como uma forma de adesão ao projeto, ou seja o comprador antes de mais nada está contribuindo para a manutenção da iniciativa.
Os demais produtos, como rigtones e jingles, serão negociados enquanto prestação de serviços às empresas interessadas.
A mídia local ainda não deu a devida atenção, mas o público de artistas como o grupo de rap Império Negro, formado por alunos da cooperativa, já demonstra que essa equação pode mudar.
Segundo Marcos Vinícius dos Santos, o MC Xarope já são vários os convites para show, alguns inclusive são pagos.
Não preciso citar aqui o exemplo de bandas como a Cansei de Ser Sexy, no portal Trama Virtual, ou a banda Arctic Monkeys, no MySpace (vale ler a matéria do Alexandre Matias sobre isso).
Guardada as devidas proporções, não são poucos os casos de bandas e artistas que conseguem furar a parede do sucesso financeiro usando a Internet.
Essa é uma das apostas da estratégia de auto-sustenta ção da Eletrocooperativa, além de ser uma possibilidade muito interessante para os próprios artistas.
Um outro caminho, que não se opõe, nem exclui o uso da Internet, tem sido a comercialização de produtos como ringtones e jingles que estão começando a ser produzidos na Usina de Produção:
Juventude e Trabalho, o novo projeto da Eletrocooperativa.
Em ela estão 21 jovens com carteira assinada, ganhando um salário mínimo, num projeto que prevê três anos de trabalho integral, com a previsão da geração de uma poupança coletiva, com mais de R$ 100 mil.
A idéia é que os jovens aprendam a trabalhar como músicos e como produtores.
A cada seis meses serão integrados ao projeto mais vinte jovens.
O projeto, que conta com o apoio da Fundação Avina e do Instituto ibi, parte do princípio que entende que é melhor «ensinar a pescar, do que dar o peixe».
Carteira assinada, experiência profissional e fomentação cultural são ingredientes poderosos e podem significar a promoção social desses jovens.
Além, é claro, de ampliar o leque da própria Eletrocooperativa.
Oferecendo ao mercado mais uma possibilidade de colaboração, espera-se assim que o empresariado abra os olhos e veja que a ganância de alguns pode levar todo o sistema produtivo para o buraco.
A incubação de empresas leva ao jovem a oportunidade de aprender fazendo.
Por outro lado, contratar uma empresa como a Usina de Produção estimula a responsabilidade social do mercado, além de ser um diferencial que pode trazer grandes surpresas, por ser uma resposta alternativa, que não esquece e nem precisa esquecer, muito pelo contrário até estimula, o desenvolvimento do mérito e da qualidade.
Cria (r) ação
como se não bastasse, a importância social do trabalho de inclusão e educação promovido por a Eletrocooperativa, ela ainda se configura como uma promessa relevante de renovação do cenário cultural popular da cidade, multiplicando as possibilidades para os profissionais da área musical.
Para isso foi fundamental a articulação com blocos afros como Olodum, Ilê Aiyê, Didá, Cortejo Afro, Malê de Balê, Filhos de Gandhy entre outros que ajudam e identificar jovens com interesse na área musical.
Ou mesmo a parceria com coletivos alternativos com os Djs do Pragatecno ou os Vjs do Mote.
Tudo isso faz a atmosfera criativa do Eletrocooperativa fervilhar de idéias novas.
Cds como EletroErê, com cantigas infantis remixadas, ou o Eletropercussiva, banda que mistura diversas referências em seu liquidificador sonoro, ou o Afrogueto, que inclusive foi indicado ao prêmio Hutuz como melhor grupo de hip hop Norte-Nordeste, além do já citado Império Negro.
Esses são apenas alguns exemplos dentro de um universo rico de possibilidades estéticas, que pode ir do arrocha ao pop-rock, do forró ao samba-funk e música eletrônica.
Colaborador e Coordenador Artístico do projeto, o músico Gilberto Monte frisa a importância de saber conviver com as diferenças estéticas.
Tudo é discutido democraticamente, nada pode ser imposto num ambiente de criação coletiva.
De a mesma forma que seus alunos, a instituição antes de começar a andar com as próprias pernas tem contado com a ajuda de alguns parceiros.
Um de eles é o Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia), autarquia vinculada à Secretaria da Cultura e Turismo da Bahia, que cedeu a casa usada como sede do projeto e financiou a compra de equipamentos.
Outro é o MinC (Ministério da Cultura) que ampara o projeto por a Lei Rouanet de incentivo à cultura, vale lembrar que a Eletrocooperativa também é Ponto de Cultura (Os Pontos de Cultura são a principal ação do programa Cultura Viva, uma rede de produção e gestão cultural, lançada por o Ministério da Cultura.
Além de apoio financeiro e patrocínio para projetos culturais, instituições e agentes culturais que articulam e estimulam uma série de ações em suas comunidades.
O programa respeita a autonomia de cada artista, entidade ou local).
A Philips, a Fundação Avina e a Natura também contribuem financeiramente com a ong e recentemente foi firmada uma parceria com o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), resultado da atuação conjunta do Sebrae-SP e de diversas entidades com a finalidade de fornecer suporte técnico para o desenvolvimento do portal da ong.
Pode parecer arriscado ter tantos apoios quando se busca a auto-sustentabilidade, mas não se pode ser ingênuo, pois ainda não há como se prescindir dos aliados.
Estamos falando de uma grande retomada do sentido solidário no mundo, então porque não ter parceiros?
Pode-se, sim, ser seletivo e estipular contrapartidas inteligentes.
O caminho da auto-sustenta ção não é fácil, não existe uma receita de bolo, mas não é uma meta impossível, a sua viabilidade está justamente na aposta que a imensa maioria da humanidade faz de um futuro melhor.
Eu não tenho dúvida de que quanto mais pessoas conhecerem propostas como a da Eletrocooperativa e entenderem que este é um caminho possível de alavancar a qualidade de vida desse planeta, a sustentabilidade será atingida com a tranqüilidade e a naturabilidade de um passo a frente.
«Manter a consistência com a proposta e entender a demanda coletiva, sem medo de encarar os desafios» segundo Reinaldo Pamponet, é o caminho das pedras.
Não é possível fazer um trabalho como esse sem saber ouvir, pois todos os parceiros são importantes.
Mas a principal sustentação é a própria sociedade quem dá, por isso a transparência é fundamental.
Segundo ele, o Open Business é um modelo de negócio, de relação social e um modelo corporativo que opta por o desenvolvimento do capital social, valorizando a importância da meritocracia, da ética e do respeito;
coisas importantes para nortear o consenso social.
Criatividade é criar e colocar em atividade.
A criação é um processo da realização, ação que cria.
O mercado de trabalho está muito fechado, mas não existem «excluídos», só os que ainda» não foram inseridos».
Segundo ele, é preciso abrir a porta do mercado, pois sem estabilidade social o próprio mercado perde espaço.
Por isso hoje crescem as empresas que enxergam que o lucro tem que ir além do valor monetário, o chamado Triple bottom line, onde os resultados de uma empresa são medidos em termos econômicos, ambientais e sociais.
O lucro é importante, o problema é a apropriação individual, o lucro tem que circular para ser realimentado e gerar desenvolvimento.
O mundo de Jocemar Pereira, aluno da cooperativa, já mudou e nada pode apagar o brilho de seus olhos quando olha para o futuro.
Não deixe de conhecer o portal da Eletrocooperativa:
www.eletrocooperativa.art.br, o hotsite da instituição:
www.eletrocooperativa.org e suas colaborações no overmixter.
Número de frases: 99
11:00
Eram 11:00 da manhã quando cheguei de Maceió até Piaçabuçu (única palavra que conheço com dois ç), nas margens próximas da foz do Velho Chico, rio que nasce mineiro e morre no mar meio alagoano, meio sergipano, e serve de divisa natural entre os dois estados.
Ali na beirada do São Francisco, onde as mulheres lavam as roupas da cidade nas escadas banhadas de água salobra, olhei para o rio e lembrei que tinha saudade de ele, das suas ilhas logo ali, de ver Sergipe do outro lado, e as dunas brancas do seu final.
Pensei " eu gosto muito mesmo daqui.
Em as águas do São Francisco passou um desses barcos que chamam por lá de Borboletas, por o formato quadricular de suas duas velas, e que deu nome ao filme da Professora Vicentina Dalva Lyra de Castro.
«Dalvinha», como muitos a chamam, é a realizadora em Piaçabuçu de um dos filmes do projeto Revelando os Brasis, que leva o cinema pra cidades com menos de 20.000 habitantes, desde a sua concepção até o circuito de exibição que realiza uma caravana por vários municípios selecionados em todo o país.
A história do filme conta o interesse de um menino, Pedrinho, por a construção dos barcos que navegam por aquele rio, levando gentes e coisas e pescando peixes e mariscos.
Pedrinho procura mestre Galego, artífice fazedor de barcos da região que pratica e repassa este ofício na zona rural de Piaçabuçu.
Um filme com uma linguagem poética simples e bonita, onde a estética e as cores do lugar foram captadas de forma muito verdadeira.
Um artesanato ribeirinho áudio-visual.
12:30
Depois de comer uma arabaiana com pirão no Santiago, fui para o hotel tirar o pó da estrada do couro e encontrar o pessoal do projeto Revelando os Brasis.
Eles estavam num animado clima de montar o cinema ao ar livre na praça e conhecer e registrar o máximo que o tempo permitisse daquela cidadezinha tão cheia de coisas pra ver.
Folclore, personagens, paisagens, música, artesanato ...
Enquanto esperava por eles na pracinha em frente à pousada, restaurante, pizzaria e churrascaria Portal 2000, vi uma cena bem urbana, uns garotos entre 12 e 19 anos caminhando embaixo do sol escaldante do meio-dia da cidade, carregando um monte de instrumentos, teclados, contrabaixos e violões.
«Ei, espera aí» gritei.
Fui caminhando com eles, que estavam no rumo do ensaio, eram integrantes do grupo Caçuá, que produz música autoral e realiza trabalhos de pesquisa sobre os sons e o folclore ribeirinhos daquelas «bandas» das Alagoas banhadas por o São Francisco.
Os rapazes iam ensaiar um projeto paralelo, chamado «Casa de Taipa», formado para tocar nos bailes juninos da cidade.
Para minha surpresa, Ninho, o baixista, me contou que o grupo Caçuá, em sua investigação da cultura regional, deu origem ao Ponto de Cultura Olha o Chico, cuja coordenadora é Vicentina Dalva, a diretora do filme «Borboletas» que seria exibido naquela noite.
Josimar dos Anjos, que toca violão e canta, foi também o condutor do barco que fez as imagens do filme.
Completavam a banda Maxwel Leão dos Santos, o baterista, o saxofonista Antonio Carlos, chamado por os companheiros de maestro, e o caçula Jadson Túlio, de 12 anos, na percussão, um dos alunos de música de Edcledson Nunes, o Ninho, que trabalha há 7 anos com Dalva no «Olha o Chico».
Surpreso também fiquei, ao saber que Dalva não estava em Piaçabuçu naquele dia, e perderia a exibição do seu filme para a sua cidade.
Dalva faz um curso em Maceió, em que ela precisa estar uma vez por mês na capital, e calhou de cair justo na data da apresentação.
Mas como eu iria perceber no correr das horas, seu trabalho e seus pupilos a representariam muito bem naquele dia e noite de personagens, imagens e luz.
14:00
Voltando para a pousada, vi o movimento do pessoal em volta de um menino na calçada, todos o cumprimentavam, era Luis Henrique, ator mirim que interpreta o personagem Pedrinho em «Borboletas», todo sorridente com os elogios sobre sua atuação.
Segui com ele e o pessoal do Revelando os Brasis até o Ponto de Cultura Olha o Chico.
Em a sala, estavam reunidos diversos mestres dos saberes e fazeres populares, e lá atrás, um sem numero de crianças jogava e brincava e gritava de um jeito que nem incomodava a conversa dos adultos por ali.
Sentamos.
Conhecemos ali contadores de histórias e mestres do folclore, sanfoneiros e todo tipo de artista e poeta que se possa pensar, uma verdadeira corte.
Um de eles me chamou especial atenção, Seu João Francisco dos Santos, ou Mestre Ferrete, que coordena o Guerreiro formado por crianças do Projeto.
Em aquela prosa toda, Mestre Ferrete falou o seguinte " Chamar o guerreiro pra se apresentar como muitos fazem por aí, por 50 reais e um punhado de arroz doce, eu não vou.
Não paga nem os músicos.
Pra ser assim prefiro brincar de graça na porta das figura (referindo-se aos personagens que compõem um Guerreiro)».
E continuou, " A gente junta, uns dão o arroz, outros o açúcar, de ali a pouco ta pronto e é só cada um trazer sua vasilha.
Obrigado, mas não estou morrendo de fome».
Honorável Mestre Ferrete do Guerreiro dos Meninos, um exemplo de artista.
Ele também produz toda a vestimenta do grupo, " papelão, arame, espelho, tiro as medidas das cabeças do pessoal e faço.
Estou oito meses fazendo esse guerreiro».
Mestre Ferrete ensina o folguedo natalino Auto do Guerreiro, endêmico de Alagoas, para 20 crianças bem animadas.
Um verdadeiro trabalho de preservação de recursos, onde a lógica ambiental se aplica nesses casos de fortalecimentos de raízes culturais através da educação complementar.
Saímos do Olha o Chico, perseguidos por uma turba de pequeninos recém alimentados com um bom lanche e que queriam ganhar uma caneta (que era linda mesmo) do projeto Revelando os Brasis, e durante o resto da viagem sempre aparecia um menino sorrindo pra nós, «o povo de fora», dizendo somente» me dá uma caneta, me dá uma caneta».
Um sucesso, e como eram canetas de várias cores, eles queriam ter o máximo de cores possíveis, alguns desfilavam com elas penduradas no pescoço, como medalhas.
16:30
Seguimos para a casa de Dona Lourdes, artesã que tece lindas bonecas de pano que podem ser compradas no Mercado Arte, que comercializa o artesanato produzido na região.
Infelizmente Dona Lourdes não se sentia muito bem, com problemas de coluna, mas nos recebeu mesmo assim, e com muita simpatia e hospitalidade nos mostrou sua produção.
17:00
Visitamos uma das locações das filmagens de «Borboletas», o estaleiro onde Mestre Galego constrói barcos com seus ajudantes aprendizes.
Trabalho duro, e também cheio da beleza do artesanato.
Mestre Galego contou que começou a aprender o ofício com seu pai, depois observando outros barqueiros, e hoje ensina aos mais jovens, como na história do filme.
O sol já estava se pondo no oeste e o rio ficou com uns reflexos alaranjados, linda paisagem.
Fomos descansar para a exibição logo mais a noite.
19:00
Faltava meia hora para a exibição, e o pessoal do Revelando os Brasis e do Olha o Chico unia esforços para trazer os meninos do Guerreiro do Seu João para a exibição, eles resolveram aproveitar a oportunidade e se apresentar para a cidade.
Fui com eles.
Espero que as fotos consigam traduzir um pouco a beleza pura que são esses meninos em suas vestimentas de guerreiro.
Estava ansioso pra vê-los na apresentação, e realmente foi lindo.
Antes da exibição na telona, o grupo brincou com entusiasmo, e tinha uma galeguinha bem pequenininha que cantava também e arrasava!
Nesse meio tempo, o temor do pessoal da caravana cinematográfica se concretizou, São Pedro não ajudou, e o céu começou a cair em água.
Tanto tempo até chegar uma tela de cinema naquela cidade tão pequena, toda aquela gente ansiosa pra assistir aos filmes, participar daquele momento.
E chuva.
Pois foi a chuva que proporcionou o momento mais bonito desta passagem por Piaçabuçu.
Quando chegamos à praça onde seriam exibidos os filmes encontramos uma concentração tão grande de guarda-chuvas que mal cabiam em todas as cadeiras disponíveis para a platéia.
E não eram poucas.
Risadas e aplausos.
Silêncio. Olhos na tela grande.
Quantos nunca foram ao cinema?
Gostaria mesmo de saber.
Um casal de velhinhos sentou com seu guarda chuva um pouco mais distante do restante da platéia, no próprio banco da praça, acho que pra namorarem tranqüilos.
«Borboletas» estava por começar, e o ator Luis Henrique, hoje uma celebridade em Piaçabuçu, sorria meio acanhado, meio orgulhoso, mas ele me contou mais tarde que era mais orgulho que acanhamento.
Quando perguntei o que queria ser quando crescer não pensou duas vezes e respondeu:
«Ator».
Luis assistiu ao filme em pé, com seu guarda chuva que dividia com uma amiga ...
ou seria uma fã?
Estavam também sua mãe, tios e primos.
Durante a exibição todos suspiravam e aplaudiam ao reconhecer os conterrâneos na tela grande.
Uma beleza.
Para mim pessoalmente foi como ver uma síntese poética daquele dia em Piaçabuçu na tela do cinema.
Depois dos outros dois filmes produzidos em Alagoas, «Nelson», de Capela, dirigido por Thalles Gomes, e» Cadê Calabar?», de Japaratinga, dirigido por Joaquim Alves de Oliveira Neto, teve fim a exibição do circuito de apresentações do Revelando os Brasis em Piaçabuçu.
Os guarda-chuvas foram embora devagar, as pessoas embaixo de eles estavam um pouco molhadas, mas se ficaram até o fim gostaram mesmo de ir ao cinema na praça, de graça.
Em este momento, a chuva foi embora também, como se estivesse ali pra ver os filmes, e o céu ficou cheio de estrelas.
Esse São Pedro ...
Número de frases: 82
Affonso Romano é o mais revolucionário dos nossos reacionários.
Autor de diversos livros de poesia e crítica, Romano, que esteve na vanguarda da experimentação artística dos anos 60, agora resolveu postular, assim como Ferreira Gullar, uma verdadeira «cruzada contra a arte contemporânea», dedicando integralmente sua vida intelectual ao combate do dadaísmo institucionalizado.
«Não se trata de traição», argumenta o publicitário «Marcelo Noah,» o que aconteceu é que o homem se casou com a Marina Colasanti».
Com efeito, sua obra acaba registrando, voluntária ou involuntariamente, todos os conflitos e descaminhos da poesia brasileira do século passado.
Prova disso são os dois volumes de suas Poesias Reunidas, lançados recentemente por a L&PM, que constituem um verdadeiro almanaque da produção poética tupiniquim.
Em a última Feira do Livro de Porto Alegre, Romano esteve a celebrar sua originalidade, e acabou concedendo uma longa entrevista ao programa Prefácil.
No entanto, por motivos judiciais, somente agora fomos autorizados a disponibilizar o material.
Segue, então, um trecho da conversa, que teve a participação de Ramiro Breitbach, Marcelo Noah e Fabio Godoh.
Affonso Romano:
Bem, eu já vou dizendo, rapazes, que sei da ligação de vocês com a Poesia Concreta.
Saibam, portanto, que a Poesia Concreta não passou de um equívoco.
E digo mais:
um equívoco do qual os seus poetas já se arrependeram.
O próprio Haroldo de Campos voltou fazer poesia com versos, e também o Décio Pignatari.
Com a exceção do Augusto, é claro, que é um caso patológico.
Fabio Godoh:
Mas o senhor encara isso como arrependimento?
Paulo Leminski costumava dizer que a Poesia Concreta era o «serviço militar obrigatório» da poesia brasileira ...
Affonso Romano:
Verdade. Tive diversas discussões com o Leminski sobre isso.
Eu sempre dizia que tomasse muito cuidado, pois, uma vez seduzido por o discurso do concretismo, se transformaria em repetidor, e não teria espaço algum no cenário da literatura.
Em a realidade, os concretos tinham um sério problema edipiano com Joyce, Mallarmé e Pound.
Era tudo muito óbvio ...
Fabio Godoh:
O senhor acha que o poeta é a «antena da raça», como dizia Pound, ou» apenas um homem», como defendia Carlos Drummond de Andrade?
Affonso Romano:
É apenas um homem, claro.
O Ezra Pound era um sujeito muito pretensioso.
Ramiro Breitbach:
Disse Martim Heidegger, na introdução à sua Metafísica, que apenas os poetas e o filósofos são capazes de interpretar o sentido profundo do seu tempo ...
Affonso Romano:
Sim, e por isso minha obra é um exercício de descentramento, ou seja, um exercício de questionamento das chamadas «verdades».
E isso vale tanto para a minha luta dentro da poesia, quanto para a minha «cruzada contra a arte contemporânea».
Por exemplo, o meu livro sobre Duchamp:
de repente, se estabeleceu uma religião em torno de Marcel Duchamp, e em torno da arte contemporânea.
Mas trata-se de uma farsa, rapazes, e eu desconstruo esta farsa no meu livro!
É como a arte conceitual, que não passa de uma artimanha discursiva que jamais poderá ser aceita como dogma.
Fabio Godoh:
Então o senhor não considera a arte como uma incerteza ontológica?
Affonso Romano:
Não. A arte é a resposta!
Trata-se, na verdade, de um mito explicativo, embora nada possa ser explicado ...
Fabio Godoh:
E a Poesia Concreta não seria um mito que tentou explicar-se a si mesmo?
Affonso Romano:
Não. A Poesia Concreta, repito, foi um equívoco.
Não passou de uma vanguarda retardatária, ligada a 1909, a Tommaso Marinetti.
Ou seja, eu, Affonso Romano, estou pra lá de Marrakech!
Enquanto as pessoas estão adorando Pound e Duchamp, eu estou no século 21!
A melhor homenagem que você pode fazer ao desconstrutor de ontem é desconstrui-lo hoje.
Os revolucionários não querem ovelhas.
O dadaísmo, rapazes, é uma coisa velhíssima!
Fabio Godoh:
O senhor não considera que a única maneira de rompermos com a «tradição da ruptura» seja exatamente não rompermos com a «tradição da ruptura»?
Affonso Romano:
O problema é que as vanguardas chegaram a um ponto de autofagia completa.
Quer dizer, «menos mais menos é igual a mais» ...
Não se trata, portanto, nem de fazer essa ruptura, nem de voltar ao passado.
Temos que inventar algo novo.
Fabio Godoh:
O senhor costuma celebrar a pluralidade de estilos da poesia contemporânea.
Não seria esta pluralidade uma herança das vanguardas que o senhor tanto crucifica?
Affonso Romano:
Pesquisa não é formalismo, rapaz, não é delírio ...
É polifonia!
Marcelo Noah:
Bem, a gente sabe que o poeta Ferreira Gullar também assume esta postura crítica em relação às vanguardas ...
Affonso Romano:
Olha, rapazes, se vocês quiserem saber a diferença entre a minha postura e a do Gullar, é simples:
o Gullar dá uma no cravo e outra na ferradura.
Número de frases: 70
E ponto final.
Quase nada, um minuto imóvel no tempo
Por aproximadamente um minuto apresentou-se no meu pensamento sessenta anos passados.
Vi cenas de procedimentos que não foram corretos.
Eu vi que tinha praticado procedimentos errados e foi dessa forma que eu me compreendi.
«Como corrigir os erros cometidos?»,
foi a minha pergunta, de imediato, mas o tempo não podia voltar e as pessoas não estavam presentes e aquele minuto era o momento final.
Senti-me completamente triste, com vontade de corrigir tudo.
Achava muito fácil não ter cometido aquelas falhas mas naquele momento não tinha mais como repará-las.
Era responsável por o que tinha praticado e minha consciência falava baixinho:
meu desejo era que você não tivesse praticado essas ações e ficasse com mim, mas infelizmente não posso fazer nada, você poderia ter agido de outra forma e teve muitos minutos para corrigi-los.
A tristeza é total e as portas estão fechadas.
Tanto tempo passado e eu nunca pensei nesse momento.
Imóvel no tempo, acordo-me e penso que tenho que tomar algumas decisões;
rever todas as ações que pratiquei erroneamente e corrigi-las, se possível, e de hoje em diante não praticar procedimentos sem questionar a sua necessidade, sempre me sentindo seguro de sua prática, fazendo o bem a quem está próximo e desejando o bem e a felicidade a todos que estão na caminhada com mim.
O tempo necessário para rever os procedimentos maus que praticamos é curto e de forma incisiva.
«Esse foi o ato, porque agiu dessa forma?».
Sentimos com muita clareza que agimos errados.
Não temos o que fazer, até porque nos apresentamos como imóveis no tempo e nos é dito:
você teve tanto tempo para atentar para esses procedimentos errados, não é agora que não existe mais tempo que você irá corrigi-los.
A responsabilidade em relação a nossos procedimentos é transcendente e precisamos ter plena consciência disso.
Não é que vamos ser julgados por outra pessoa, vamos ser julgados por nós mesmos.
Porque somos os únicos responsáveis por as nossas atitudes e o que é correto está escrito em nossa consciência como um fruto do bem e a atitude errada como o fruto mau.
A perspectiva de ser perdoado está condiciona a um pedido de perdão e um arrependimento.
O perdão é sentido na consciência da pessoa que pede o perdão.
Funciona como se o pedido de perdão e o arrependimento apagasse todas as atitudes praticadas com relação ao fato perdoado.
Paulo Andrade Oliveira.
Número de frases: 27
LibNews, vários formatos mas sempre o mesmo tema:
divulgar os artistas do extremo sul do Brasil.
Em o intuito de suprir a falta de um canal de divulgação voltado ao se produz em termos de arte no extremo sul do Brasil surgiu o LibNews, que começou como uma coluna musical do Jornal Liberal, o mais antigo de Santa Vitória do Palmar (73 anos!),
depois saiu em formato de suplemento com 4 páginas e encartado no mesmo jornal, voltou a ser coluna e agora website:
www.libnews.com.br.
Em o site, que passa a documentar outras artes, além da música, o internauta encontra várias matérias e conteúdo exclusivo, incluindo material multimídia.
Em a seção Arquivo, está a maior parte do que já saiu impresso.
Esperamos que dê resultado, pois a região, que compreende Santa Vitória do Palmar, Balneário do Hermenegildo, Barra do Chui e Chui, é rica em talentos -- como um turista disse certa vez:
«tchê ... parece que aqui têm um artista em cada esquina!!».
O que não deixa de ser verdade.
Tanto é que a famosa Jerra, tradicional festival nativista gaúcho, é um dos principais cartões de visita da região.
Em Santa Vitória do Palmar há também o Theatro Independência, considerado um dos melhores do Brasil, no qual há sempre eventos agendados, seja com artistas locais ou oriundos de outros lugares do Brasil e do Uruguay.
Em o Balneário do Hermenegildo, que conta com a maior praia do mundo, há eventos durante toda a temporada de verão.
E há ainda vários outros eventos, em todas as estações do ano.
Outro fator importante que levou o LibNews optar por o formato website é a variedade de culturas e estilos que há na região.
Por aqui se encontra gaudérios conversando sobre literatura com roqueiros, pintores discutindo filosofia com poetas, brasileiros com uruguaios num interessante portunhol e por aí afora.
Como o site é multimídia e em cores se pode mostrar com mais riqueza de detalhes o trabalho de cada um de eles.
Visite o site e conheça um pouco dos artistas do extremo sul do Brasil.
Mesmo em fase de construção já dá passar um bom tempo na frente do monitor ...
Aproveite e deixe sua opinião no formulário que é encontrado em todas as páginas do site.
Número de frases: 20
Zaqueu Soares, editor.--
Cara, eu tenho que matar o dragão.
Que que eu faço?
-- Usa o mago e dá a magia de gelo.
-- E como eu seleciono a magia?
-- Olha o menu.
Seleciona a terceira palavra da coluna do meio.
Aperta o botão.
Depois seleciona a segunda palavra da quarta coluna, indo de baixo para a cima.
Viu? Funcionou.
Agora, pra matar o outro inimigo precisa da magia de trovão, e eu não lembro onde ela está.
O diálogo acima foi presenciado numa locadora de games que oferece consoles conectados à TV para jogar na hora -- coisa típica de se ver por aí.
Tratava-se de um RPG para Playstation 2 que tinha um agravante para os garotos que aparentavam 12 anos de idade:
estava totalmente em japonês.
Selecionar itens e golpes nos menus era quase um jogo de adivinhação e memorização -- além de ser um desafio extra que não estava na concepção original do game.
Tudo bem, jogos em inglês são infinitamente mais fáceis de serem compreendidos por nós, mas a questão do idioma não deixa de ser uma barreira.
E não é nenhum equívoco supor que, se fossem lançados por aqui mais games falados (ou legendados) em português, o potencial de pessoas seduzidas por uma jogatina teria um incremento.
Aí é que entra a boa constatação:
se a indústria nacional de games anda corroída por a pirataria e impostos mastodônticos, um esboço de reação é notar que não se via um panorama tão instigante para a tradução e localização de games no Brasil há pelo menos uns dez anos.
E que parece caminhar por uma trilha híbrida pouco usual.
Misto de esforços da indústria oficial (como Microsoft e Eletronic Arts) embolados às traduções feitas por fãs apaixonados -- que seguem uma estrutura colaborativa organizadíssima, os caminhos usados, longe de serem inimigos, acabam se complementando para a criação de um acervo de jogos que falam nossa língua.
Sem prolongar com a de que, nos Eua, a indústria de entretenimento eletrônico movimenta há anos mais grana que Hollywood (só para destacar a importância dos jogos na cultura contemporânea), percebe-se que no Brasil games ainda encarnam o patinho feio.
Se livros e filmes gringos sempre passam por o pente fino das traduções /dublagens/legendagens para atingir o maior público possível, por aqui, quando o assunto é videogame, a coisa trava.
Ou travava.
O último console lançado no Brasil que apresentava regularmente alguns games traduzidos em português foi o Mega Drive, um videogame de 1988.
Lançamentos esporádicos ocorreram após o finado console, mas apenas com o x-box 360, da Microsoft, voltamos a ter uma perspectiva de games localizados em nosso idioma fora do universo PC.
Até o momento a estréia foi promisora:
além de games para computador que já foram localizados por a empresa -- como a série Age of Empires -- Viva Piñata e o recém lançado Halo 3, ambos do x-box, chegaram ao país próximos do lançamento gringo.
Vieram até dublados.
-- Temos experiências muito boas com jogos localizados em gêneros muito diferentes.
Viva Piñata faz sucesso com adultos e crianças e apresenta personagens e vozes muito carismáticas.
Já Halo 3 nos mostrou que a localização com dublagem também teve grande impacto num jogo de ação épico -- conta Guilherme Camargo, gerente de marketing de Xbox 360 da Microsoft Brasil, por e-mail.
Já que Camargo usou o termo localização, vale aproveitar o gancho para explicar a ligeira diferença entre tradução e localização de games.
A localização é adaptar de forma geral um game para determinado idioma / cultura.
Inclui desde caixas e manuais até, nos casos completos, falas dentro do jogo -- e a tradução está dentro deste balaio.
E não é só traduzir ao pé da letra não, tem que ter manha e saber o que se passa por aqui -- pra não soar artificial.
Um exemplo raro e duradouro é a série de futebol Fifa, que chega em português aos PCs por aqui há nove anos seguidos, trazida por a produtora e distribuidora Eletronic Arts.
-- O primeiro foi o FIFA 99, com narração de Milton Leite [atualmente no canal Sportv], comentários de Orlando Vigiane e participação de Antonio Moreno.
Há também outros produtos que o Brasil localiza, como a série Harry Potter, The Sims (toda família) e SimCity -- explica por e-mail Ivan Kako, gerente de produtos da Eletronic Arts Brasil, que também revela táticas da versão brasileira de Fifa.--
Em o Brasil não usamos uma tradução do texto original que é redigido no Canadá.
Temos total liberdade de reescrevê-lo, adaptando-o à linguagem do futebol no Brasil.
Também damos total liberdade ao locutor e comentarista para adicionar seu próprio estilo, colocando bordões e palavras características durante a gravação.
Bacana, mas dá trabalho.
Ivan não comenta cifras, mas colocar cada edição de Fifa em português demanda tempo e gente.
O trabalho é feito por uma empresa terceirizada, a Quoted, leva de seis a oito meses e abarca 15 profissionais.
E qual critério para escolher quem está na locução e comentarios?
Vários.
-- Temos aqui muitos locutores e comentaristas incríveis e que poderiam trabalhar no FIFA.
A escolha se dá por uma junção de fatores, entre eles indicação dos profissionais envolvidos, o profissional não ter impedimentos contratuais dos veículos para os quais prestam serviço, disponibilidade de tempo, sugestões da comunidade FIFA, enfim ...
uma grande soma de variantes nos orientam nessa escolha -- justifica Kako.
A força colaborativa dos fãs
Existem iniciativas super-simpáticas (e bem sucedidas) da indústria oficial na tradução de games.
Só que ela não dá conta de tudo.
É aí que entram as comunidades de fãs que traduzem os textos de outros games de sucesso para nossa língua.
Uma das maiores referências nacionais é o site GameVicio.
Criado em 2003 por Marcos Said -- hoje diretor geral do portal --, o endereço abriga notícias e informações sobre o universo gamer, mas o carro-chefe são mesmo as traduções disponíveis para download -- até o final do ano o site deve atingir a marca de três milhões de traduções baixadas para diversos games.
Todas feitas de forma colaborativa por os membros da comunidade.
As traduções para PC são arquivos de texto que devem ser substituídos por os usuários no game em inglês -- mas o site da GameVicio, por exemplo, possui um instalador que facilita a tarefa até para leigos que não manjam nada de computador.
Vale ressaltar que os arquivos disponíveis no GameVicio são só para colocar na língua pátria os jogos favoritos, não dá para baixar game nenhum de lá.
-- As traduções podem ser usadas em games originais, não é pirataria -- ressalta Marcos, explicando que nem sempre é possível fazer as traduções.--
Um exemplo foi numa das edições do jogo Tomb Raider;
algumas empresas fecham o produto para ninguém traduzir.
Tem outras que liberam mods, e, em cima dos mods, fazemos as traduções.
Tem traduções que não são textos, são imagens, então demora mais ainda pois precisa mexer no Photoshop ...--
enumera Marcos.
Os trabalhos de tradução são organizados por um gerenciador de tarefas, uma ferramenta que o portal oferece para projetos de traduções que muitas vezes começam numa conversa em fóruns do site.
Há moderadores e coordenadores que delegam tarefas para usuários de confiança -- toda essa hierarquia acaba sendo resultado da convivência no portal.
Aí, de forma resumida, o funcionamento é o seguinte:
o texto em inglês de todo game é picado em vários pedacinhos, e estes pedaços são oferecidos na página de tradução do jogo escolhido.
Com o trabalho diluído, usuários se oferecem para traduzir estas partes, e enviam o material de volta para aprovação e compilação dos coordenadores.
Quando todas estas partes estão traduzidas e revisadas por os coordenadores, a tradução está terminada.
Para garantir a qualidade, medidas foram tomadas, como o organizador da tradução ter o direito escolher se um usuário pode ou não participar de determinado projeto.
-- Tinha gente que pegava o texto, jogava no tradutor (internet) e jogava de volta.
Ficava horrivel.
Por isso criamos mecanismos pra evitar tais problemas -- reclama Marcos.
A inspiração para montar um gerenciador de projetos e viabilizar as traduções veio de fora.
-- Estava acompanhando na internet grupos de Portugal, Hungria e Rússia, que também são marginalizados no mercado de jogos.
Esse pesssoal pegava versões inglesas ou espanholas e tentava traduzir.
Por falar na nossa ex-Metrópole, Marcos conta um caso que revela certa implicância nas traduções.
Vinda dos dois lados.
-- Eles (portugueses) não gostam do texto daqui e nem a gente gosta do português de eles.
Então temos um português na equipe para participar das traduções também -- conta, democrático.
Se as traduções oficiais seguem cronogramas rígidos, não dá para cobrar o mesmo de pessoas que oferecem parte do tempo livre num trabalho voluntário -- existem projetos que levaram até dois anos para ficarem prontos.
Mas há casos de rapidez para deixar os tradutores de livros do Harry Potter morrendo de inveja.
-- Em o jogo Medal of Honor:
Airbone nós descobrimos que a versão de demonstração em inglês tinha os textos do game inteiro.
Trabalhamos em eles e a tradução do game saiu de forma simultânea ao lançamento no país -- conta um orgulhoso Marcos.
Provavelmente a indústria oficial não daria conta -- por restrições provocadas por a pirataria ou de orçamento -- de traduzir tantos games quanto os que encontramos em comunidades como a da GameVicio.
E provavelmente as comunidades de fãs não teriam grana nem a aparelhagem necessária para traduções que envolvam dublagens, narrações e gravações em estúdio -- tal como vemos em alguns games que já chegam de fábrica falando português.
Parece que é sugando o que há de melhor em cada um desses universos que o jogador brasileiro pode se sentir cada vez mais em casa com um teclado ou um joystick na mão.
Número de frases: 90
Com um jogo que fala sua língua.
Sangue, súor e putaria.
Em o palco do Palafita, Samliz e Daniel Belleza se esgoelam em nome do rock ' n ' roll.
O que ainda pode ser dito sobre o rock?
Em mais de 50 anos ele já nos divertiu, fascinou, chocou e decepcionou de todas as formas possíveis.
Difícil é, a essa altura, ainda conseguir enxergar algo de novo na velha fórmula dos três acordes e quatro compassos.
Talvez Daniel Belleza & Os Corações em Fúria, que estiveram em Belém no último dia 24 de junho, saibam disso.
E ainda assim estejam pouco se lixando.
Sem maiores constrangimentos, pilham cinco décadas de cultura pop e dessa forma constróem o seu arsenal sonoro:
riffs que remetem a Eddie Cochran, esporros de guitarra saídos direto dos amplificadores do MC5 e dos Sex Pistols e a auto-destrui ção passional dos Stooges e dos New York Dolls.
Mas Daniel, o Iggy Pop de Caruaru, o faz com emoção e honestidade, como se ali, em cima do palco, estivesse pronto para ser sacrificado vivo.
Seu legado para a Humanidade é o ultraje e a fúria, o som desgovernado de suas guitarras distorcidas e cozinha precisa temperado com letras sobre noitadas, desilusões amorosas e causos do submundo boêmio de São Paulo, de onde Os Corações em Fúria extraem a matéria-prima de seu imaginário lírico.
Em cima do palco, Daniel seus corações furiosos promovem, junto com os fãs, uma grande catarse rock ' n ' roll, se jogando no chão, chamando o público para cantar e dançar e incitando rituais de auto-flagela ção.
Em um determinado momento, um garoto de pouco mais de 18 anos sobe no palco e agarra por trás Rangel, o baixista da banda e uma espécie de Dee Dee Ramone GLS Antes que a segurança possa fazer alguma coisa, os dois se engatam num profundo beijo.
A platéia, a essa altura dominada por a figura carismática do vocalista e de seus músicos, reage com gritos e aplausos entusiasmados.
«Velho, onde tava a minha garrafa de vodca?»,
pergunta Daniel a um dos membros da produção enquanto bebemos depois do show.
«Quando me jogaram aquela lata de cerveja na cabeça me deu vontade de quebrar ela e me cortar todo».
«E tu acha que eu não sei?
Foi por isso que eu a escondi», responde, rindo, o produtor.
O show termina às quatro da manhã, a banda vai dormir às dez e ainda encontra forças para se apresentar ao vivo num programa de rádio local na companhia da turma da produtora Dançum Se Rasgum Produciones, responsável por o show.
Pouco depois, estamos em cima do palco do Palafita, bar à beira do rio no centro histórico de Belém, cantando Glamourosa, Melô da Popozuda e Faz o T (hit da faceta ultranervosa do tecnobrega e hino da aparelhagem Tupinambá) sobre o riff de I Wanna Be Your Dog, tocado por os Corações em Fúria.
É domingo, fim de tarde, chove um bocado e a banda resolve subir ao palco do bar e mandar algumas músicas, transformando o que seria apenas uma canja num show de quase uma hora.
Trata-se do mesmo repertório da noite anterior no Afrikan Bar, misturando músicas próprias, como De o Amor de Morte e Aonde (sic) Estão As Flores da Sua Cabeça, com versões punk rock para Frevo Mulher, de Zé Ramalho;
Preta Pretinha, dos Novos Baianos;
e Cowboy Fora da Lei, de Raul Seixas.
Em A Caixa, Sammliz, vocalista do Madame Saatan, repete a dobradinha do show de sábado e canta com Daniel Belleza e Camilo, da banda Turbo, membro honorário do grupo que foi convidado para fazer a segunda guitarra na apresentação do Palafita.
Em a platéia, um tiozinho pra lá de Bagdá insiste em pedir por o clássico gospel Oh Happy Day.
A banda finge que não é com ela e ataca com uma versão meio desatinada para Blitzkrieg Bop.
Ao lado dos amigos, tão ou mais velhos que ele, o sujeito começa a dançar, só para depois se juntar a nós no coro de " hey ho!
let's go!"
que abre a música.
Animado, Daniel se joga cerveja, rebola, se agita e faz o minúsculo palco balançar, Rangel sente o perigo se aproximado, pula para cima de uma mesa e continua a tocar.
Exausto, o vocalista termina o show com um protesto.
«Isso aqui é para quem acha que a gente só funciona com plumas e paetês», diz ele se referindo às críticas de que os Corações em Fúria seriam mais um evento de moda do que uma banda de rock.
Longe das câmeras, dos holofotes e tocando para uma platéia de pouco mais de 30 pessoas, a banda fez um show tão bom, ou talvez até melhor, que o da noite anterior.
Assim são Daniel Belleza e os músicos d' Os Corações em Fúria.
Sujos, abusados, pornográficos e inconseqüentes.
Como todo bom rock deve ser.
* Colaborou Rafael Guedes
Número de frases: 40
Publicado originalmente no blog Ressaca Moral.
Com o compromisso de incentivar à produção e edição de obras que contribuam para o ensino e a construção de conhecimento da comunidade da região e acadêmica do país, a Editora Argos, mantida por a Unochapecó, programou seis lançamentos de livros para este mês.
As obras programadas são «Sociologia e Conhecimento»,» Mídia, Educação e Cultura», «Há uma Gota de Sangue em Cada Museu», Disputas e Ocupação do Espaço no Oeste Catarinense»,» O Protagonista do Abuso Sexual:
sua Lógica e Estratégias «e» Acesso à Justiça e Cidadania».
A obra " Mídia, Educação e Cultura:
Múltiplos Olhares sobre a Comunicação Regional», organizada por o professor da Unochapecó Dirceu Hermes será lançada no Regiocom 2006, que acontece de 9 a 11, em São Bernardo do Campo.
Esse livro é composto por artigos que enfocam mídia, educação e cultura nas identidades regionais.
«Disputas e Ocupação no Oeste Catarinense», livro do professor da Unochapecó Alceu Antônio Werlang, que trata sobre o processo de colonização do Oeste Catarinense, será lançado no dia 19, na Escola Básica Dom Pedro II, em Caibi.
Já o lançamento do livro «Há uma Gota de Sangue em cada Museu», do professor Mário de Souza Chagas, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que trata sobre questões referentes ao pensamento museológico de Mário de Andrade, será no dia 27, no Ceom.
A obra " O Protagonista do Abuso Sexual:
sua Lógica e Estratégias», de Catarina Schmickler, professora do Programa de Pós-gradua ção em Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina, será lançada na Semana Acadêmica do curso de Serviço Social da Unochapecó, que acontecerá de 23 a 27. Esse livro faz uma incursão nos domínios de um tema tabu:
o abuso sexual intrafamiliar contra crianças.
Em o dia 27 de outubro será lançada a segunda edição da obra " Acesso à Justiça e Ci-dadania removeme, na XV Semana de Estudos Jurídicos e I Congresso de Direito e Cidadania, na Unochapecó.
O livro, de autoria da professora da Unochapecó Maria Aparecida Lucca Caovilla, trata da responsabilidade do Estado no cumprimento de suas obrigações cons-titucionais.
Número de frases: 14
Hugo Paulo de Oliveira-Jornalista / MTbRS4296 -- 6/10/06
Assisti ontem durante a programação do FAM, festival de cinema de Florianópolis, dentro da Mostra de Longas do Mercosul, ao filme de estréia de Philippe Barcinski, que é lançado hoje nos cinemas do país, chamado «Não por acaso».
Mesmo com nome de romance espírita, o longa não tem tema espiritualista e mostra como um acidente transforma a vida de dois homens que não se conhecem, o marceneiro que fabrica mesas de sinuca Pedro (Rodrigo Santoro) e controlador de trânsito Ênio (Leonardo Medeiros, de Cabra Cega).
Pedro perde sua namorada e acaba encontrando sua subsituta na analista de investimentos vivida por Letícia Sabatella.
Já Ênio descobre que tem uma filha de 16 anos (Branca Messina), que ficou órfã de mãe.
O filme, feito em co-produ ção com a Globo Filmes (sempre ela!)
e O2 (Cidade de Deus) é simples, bem acabado, calcado na atuação contida dos atores.
A cena do engarrrafamento monstro que o engenheiro de trânsito causa para conseguir impedir que sua filha chegue no aeroporto para ir para um programa de intercâmbio no exterior é fantástica.
Se fosse obrigado a fazer a cotação do filme, daria 3 estrelas.
Não perca.
Número de frases: 10
Vencedor de 4 prêmios (Melhor Ator para Leonando Medeiros, Atriz coadjuvante para Branca Messina, Montagem e Fotografia) no Festival de Cinema de Pernambuco.
Roupas decotadas, saias curtas, cabelo escovados e assessórios da moda.
O look descrito, típico de mulheres adultas, é o que veste um manequim de uma loja de roupas infantis.
Ele reflete o comportamento atual das meninas pré-adolescentes, oriundas de famílias de classe média de centros urbanos.
Essa indústria movimenta R$ 10 bilhões ao ano, o correspondente a um terço de toda a roupa consumida no país.
Segundo a Psicóloga e Psicanalista do Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual (GTPOS), Maria Cristina Domingues Pinto, a erotização da criança está se dando muito precocemente.
«Alguns adultos têm a tendência de projetar nas crianças a sua sexualidade adulta genital, que nada tem a ver com a das crianças.
O que resulta, em termos de vestuário, são crianças parecem um arremedo do adulto», observa a especialista.
Ela chama a atenção para as conseqüências nocivas de tal atitude.
«Essa forma de se vestir pode provocar adultos não muito estruturados, o que, no limite, pode resultar em abuso sexual», alerta.
Ela diz que as crianças precisam viver o desenvolvimento sexual de forma natural:
ninguém precisa incentivá-los, mas orientá-los de acordo com o que sugere a demanda natural.
Mas até o que era natural têm mudado.
Pesquisas feitas no Brasil, Estados Unidos e Europa comprovam que a idade média da primeira menstruação, que no começo do século XX variava entre 14 e 15 anos, hoje acontece entre os 10 e 11 anos de idade.
Número de frases: 14
O ginecologista Jonathas Soares acredita que esta geração de meninas recebe tantos estímulos sexuais que o cérebro acaba produzindo hormônios mais cedo.
Primeiro devemos saber o que é beleza.
O dicionário nos diz, na terceira opção:
coisa muito agradável e muito bonita.
A beleza, apesar de tudo, é relativa.
Isso vale para qualquer coisa, seja para um objeto, seja para um ser humano, qualquer coisa.
Mas, neste caso, seria agradável usar o ser mulher.
Ó, as mulheres!
As opiniões sobre a beleza de uma mulher variam, de acordo com o interprentante:
um diz, " é bela ";
outro diz, " não é bela ";
e, ainda, um terceiro diz, «é bela à sua maneira».
Aqui estão apenas três possíveis opiniões sobre a beleza.
Há ainda muitas mais.
Deve ficar claro que a beleza tratada, neste momento, é apenas física.
Entremos agora num outro conceito:
a aparência.
O dicionário traz, exatamente, aquilo que quero transmitir:
2. disfarce;
3. aquilo que parece, mas não é realidade.
A aparência nem sempre retrata aquilo que se realmente é.
Há estratagemas suficientes para moldar uma aparência de acordo com a necessidade.
Uma espécie de camaleão.
Talvez aqui se encaixe, ainda, o simulacro (simulação do real).
No entanto, é outra história, pra ser abordado em outra hora.
Enfim, a aparência é apenas uma casca, na qual está o que se quer que as pessoas percebam.
O que nas pessoas é, por mim, tido como mais importante, e nada valorizado, nestes dias, é a essência, aquilo que está no âmago de cada um.
Esses valores internos são dificilmente conhecidos, devido à efemeridade das relações humanas.
Há um contrasenso aqui, como conheceremos a essência, se, em primeiro plano, está a aparência?
A aparência deve ser deixada de lado?
Creio que não, as duas devem estar aliadas, trabalhando em perfeita união.
Então, afirmar que a beleza está nas impossibilidades do corpo é negar a aparência como fator principal da beleza.
A essência de cada pessoa, os valores que regem sua vida (desde que não sejam valores consumistas, materialistas) é o que importa.
A essência pode ser formada, também, nos livros.
Nos moldamos a partir de eles, da vida, das experiências da vida.
Agora, alguns não têm como valor primordial a beleza interior, a negação do corpo, e sim a beleza física, a beleza da manipulação, do falsete.
A beleza, a verdadeira beleza, está naquilo que faz a pessoa ser aquilo que ela é:
sua essência.
Lanço o desafio de me apresentarem uma pessoa que admira por sua essência.
Número de frases: 39
És possível de fazê-lo?
Matingueiros, assim se chama o grupo que se formou em maio de 1999 e tornou-se a maior manifestação pára -- folclórica do Vale do Rio São Francisco.
Matingueiro é uma a expressão sertaneja, que significa «cabra do mato», ou seja, fiel às raízes regionais.
O grupo Matingueiros é formado por oito músicos.
Sete bailarinos completam as apresentações que já foram vistas, inclusive, por o público da China e África.
O grupo tem uma preocupação em repassar o conceitos da cultura popular para as gerações mais jovens.
«Queremos estimular crianças e jovens a se interessar por o que há de mais genuíno em nossa cultura.
Assim, estaremos propagando nossas raízes», acredita.
Com som de muita qualidade, baseada em matizes culturais do Norte e Nordeste, consegue, eficientemente, misturar música, dança, figurinos e cenários com folguedos como a ciranda, côco, samba de véio, maracatu, caboclinho, xaxado, frevo, afoxé, maculelê, baião, xote e muitos outros.
Experimentei pela primeira vez dessa mistura cultural no último dia 21/06, no São João de Irecê-Ba.
Não que a região seja aversa à este estilo musical, mas aqui prevalece muito o forró elétrico, em detrimento de estilos musicais como o apresentado por os matingueiros.
Mesmo assim, não foi surpresa os gritos e aplausos que apresentação do grupo arrancou ao fim do show.
Foram fortemente aplaudidos por os quse 40 mil foliões presentes na praça naquele dia.
O grupo já tem três trabalhos publicados, com particiapções ilustres de Geraldo Azevedo, Dominguinhos, Quinteto Violado, Naná Vasconcelos, Jessier Quirino, Lia de Itamaracá, Sá grama, Genaro (trio nordestino), Genival Lacerda, Siba (mestre Ambrósio), Jorge Mautner, Hermeto Pascoal entre outras grandes figuras da música brasileira.
O grupo se caracteriza por o universo cultural do nordeste brasileiro, traduzida numa lingugem globalizada, incorporando elementos contemporâneos sem descaracterizar os folguedos tradicionais.
O terceiro e mais novo CD dos Matingueiros tem composições que contemplam 12 ritmos, que valorizam o folclore e as raízes populares.
«Vamos falar dos sentimentos das pessoas, do que vivemos na sociedade contemporânea.
Quem acompanha o trabalho do grupo vai perceber uma maturidade», acrescenta o vocalista.
O espetáculo traz toda a riqueza musical da cultura nordestina, somada aos movimentos e evoluções do balé Matingueiro que ao longo do show se veste com mais de trezentas peças de um exuberante figurino composto a partir das manifestações folclóricas tradicionais:
Os bordados e o brilho dos Maracatus, os godês das cirandas, o rendado e os crochês, a cestaria e arte plumária indígena e as fibras orgânicas das palhas do afro.
As canções e os figurinos são criados e produzidos por o próprio grupo;
Sem esquecer de que os elementos primordiais do sincretismo e da alquimia matingueira têm suas origens sobretudo na Bahia e Pernambuco, Petrolina e Juazeiro, moradas do grupo.
Além da produção de música de qualidade, o grupo se preocupa muito com a transformação social da sua região e mantém a ONG Maracatu Nação Matingueiros que atende uma média de 250 jovens de famílias que ganham até um salário mínimo.
Com os integrantes da banda, eles aprendem percussão, literatura de cordel, dança popular e composição de músicas.
As aulas acontecem em bairros como João de Deus, Dom Avelar, Quati e José e Maria na cidade de Petrolina-Pe.
Blog Matingueiro:
Número de frases: 26
http://www.matingueirosblog.com/ Musicas p / Download:
Grupos independentes fomentam o hábito da leitura e investem em novas linguagens de fusão entre literatura e música
Como fomentar a literatura num estado com 13 milhões de habitantes e menos de seis bibliotecas públicas?
Esta é uma questão que ultrapassa a carência de casas editorias na Bahia, e esbarra nas políticas educacionais públicas e no próprio acesso à literatura.
Enquanto o governo do Estado investe em publicações e selos próprios, grupos independentes tecem uma teia de palestras, oficinas, eventos e até apresentações envolvendo poesia, prosa, música e conscientização sobre a importância de ler.
Para o poeta Douglas de Almeida, 50 anos, é preciso aumentar o número de bibliotecas, principalmente as escolares, e incentivar a leitura literária.
«Você só pode estimular o hábito da leitura através do prazer na atividade.
Uma questão é publicar e distribuir livros -- na Bahia, até que se publica, mas não se distribui, às vezes o Estado publica o livro mas não manda para o interior, para as suas próprias bibliotecas.
É preciso levar os escritores para as escolas, especialmente no ensino fundamental, criando um contato entre o autor e o público."
Douglas é um dos organizadores da Biblioteca Prometeu e da Biblioteca Bety Coelho, no bairro da Boca do Rio, com um acervo de 6 mil livros voltados para a literatura baiana, principalmente, e também infanto-juvenil.
A trajetória da biblioteca começou em 1994, com apoios sazonais da prefeitura.
O objetivo era levar poetas e atores para as praças públicas e as praias, facilitando o acesso à literatura e a arte com recitais de autores novos e consagrados, como Ildásio Tavares e Guido Guerra.
Em 1999, sem uma sede fixa, o projeto entrou em crise, mas voltou à ativa com apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviços, ligada a igrejas cristãs mais progressistas.
Em 2004, o apoio da Petrobras permitiu o aluguel de um espaço fixo na Rua Gustavo Santos, n. 38 (Boca do Rio).
Antes, conta Douglas, a demanda era de crianças e adolescentes, mas também de adultos.
Atualmente, o trabalho está voltado mais para os jovens, com convites para visitas de escolas e a iniciativa Viva Poesia Viva, que escolhe poetas para ciclos de leituras e discussões.
«Trabalhamos a questão do livro, mas achamos importante também a oralidade, como uma estratégia.
às vezes a criança não tem um hábito de leitura, mas através do recital, sente-se mais próxima, e isso também humaniza a relação, quebrando as barreiras entre leitores e autores», conta Douglas.
Os poetas do mês de junho foram Fernando Pessoa e Allen Ginsberg, entre outros.
Em Irará (128 km ao norte de Salvador) o estudante de Produção Cultural da UFBA Roberto Martins, 28 anos, ajudou a organizar em março de 2005 o Colóquio de literatura.
O evento de quatro dias, na Casa de Cultura de Irará (associação civil sem fins lucrativos), enfocou o cordel com apresentações, palestras e oficinas.
De entre as atrações musicais, Roberto chama a atenção para a banda Solo Pedregoso.
Parte de seus integrantes é originária do Piauí, e a proposta é misturar sons regionais com rock, blues e reggae.
O nome da banda, explica, é uma analogia ao difícil mercado musical para músicas mais elaboradas, ao cotidiano duro do sertanejo e uma expressão do Piauí -- quando uma música é boa, é «pedra».
O evento teve a participação de cerca de 300 pessoas e contou com patrocínio do edital de cultura do Banco do Nordeste, que renovou o financiamento para o projeto em 2006.
«A semana ajudou a chamar a atenção da população para um tema pouco discutido, mas é preciso dar prosseguimento», diz Roberto, reclamando da falta de recursos para a construção de uma nova sede da Casa de Cultura em Irará.
Um amplo terreno, doado em 1985 para a associação, está com o IPTU atrasado e a organização da Casa de Cultura é difícil -- um pequeno retrato da situação da cultura no interior do Estado da Bahia, onde o investimento em bibliotecas e literatura, segundo o poeta «Daltro,» não dá visibilidade aos políticos».
O grupo Poesia P / B, de Salvador, oferece um pouco de vivacidade ao mundo acadêmico e empoeirado da literatura, através da fusão de poesia e prosa com música ao vivo, um «Recital Poético Musical Instantâneo».
O estudante de História da Faculdade Jorge Amado e poeta Glauber Albuquerque, 23 anos, conta que a idéia foi gestada num primeiro grupo, «As flores mortas do palhaço, em 2002»."
«A proposta era reunir as pessoas, nos finais de semana, para tomar umas e fazer alguma coisa produtiva.
Mas também queremos valorizar a poesia e a literatura " diz Glauber.
Após o fim de «As flores ...», Glauber formou com a ajuda de outros colaboradores o grupo Poesia P / B, que fez sua primeira apresentação na abertura da Semana de Letras da Universidade Católica do Salvador (Ucsal).
Em o dia 3 de junho, realizaram a segunda apresentação no Café Ateliê JC Barreto, n. 491, no fim de linha de São Caetano, bairro periférico de Salvador.
Número de frases: 33
Participam do Poesia P / B, além de Glauber Albuquerque, os jovens Harrison Luis, Pedro Pã, Rafael França e Thiara Lotus.
Gostaria de saber, além do dinheiro, o que leva um advogado criminalista a defender com unhas e dentes um criminoso que ele sabe perfeitamente que é culpado do crime de que é acusado?
Seriam estes advogados pessoas sem consciência?
Seriam estes advogados pessoas com tendências criminosas?
Há advogados criminosos ou simplesmente gananciosos?
Há uma linha tênue que divide amor e ódio.
Acho que a espessura da linha que divide os advogados criminalistas dos criminosos, é a mesma.
Sabido é que todo cidadão, mesmo culpado de algum crime, tem todo o direito a defesa.
Isso é imprescindível para uma sociedade Democrática e justa.
Dentro destes princípios, há porém, advogados que usam de qualquer expediente para livrar a cara de seus clientes, sejam eles culpados ou inocentes.
Se forem culpados, usam de qualquer artifício para torna-los inocentes às vistas da Justiça, inclusive muitos conseguem transformar agressor em vítima.
Não sou advogado, graças a Deus, não conheço muito de ética de Justiça, mas tenho certeza, como cidadão, cônscio e cumpridor dos meus deveres, atento a todos os problemas sociais nacionais, que a classe dos advogados criminalistas exagera na sua atuação, colocando nas ruas, criminosos de alta periculosidade, que logo cometem novos crimes e novamente são defendidos por os mesmos advogados, criando-se um círculo vicioso e muito lucrativo.
Fica muito difícil para o cidadão comum acreditar, e, bem que gostaríamos de ter esta crença, que estes esforçados advogados, que se empenham com afinco na defesa de criminosos declaradamente perigosos, como é o caso de traficantes, homicidas, estupradores, parricidas e muitos outros «cidas» da vida, ou melhor da morte, pois, costumam ceifar vidas humanas, não acabem com o tempo, por a banalização do ato criminoso, por a defesa de seus clientes, por o prazer de burlar a Lei e com isso, humilhar o seu oponente, que é o promotor, por a satisfação da vitória, identificando-se com a criminalidade.
Estes profissionais, em muitos casos expostos na mídia nacional e mundial, acabam por imiscuir-se e envolver-se com a criminalidade e com os criminosos, pensando e agindo como eles.
Acabam ficando a serviço de gangues e facções criminosas, ao invés da Justiça.
Em o ano passado, mesmo, tivemos casos expostos na mídia.
Fica no ar a pergunta ...
Serão estes profissionais criminalistas ou criminosos?
Grande parte da culpa desse desvio de conduta de certa classe de advogados é do órgão controlador da classe, a OAB, que não pune rigorosamente os advogados envolvidos com criminalidade.
Outro culpado é a nossa Justiça, que não atualiza nosso Código Penal, que dista de meados dos anos 40 do século passado.
Isso é imperdoável, há crimes que nem são previstos em nossas Leis, daí os advogados inteligentes e inescrupulosos, aproveitam esses furos para absolver seus clientes, sejam culpados ou inocentes.
Some-se a tudo isso, a corrupção instalada nos altos escalões do Judiciário, a compra de sentenças, as facilidades de todo tipo, proporcionadas por funcionários de todos os níveis, a falta de estrutura operacional, tecnológica e de pessoal, que leva os processos a arrastarem-se por anos a fio, alguns até caindo no esquecimento.
Inclua-se também os benefícios, a que tem direito os delinqüentes, que causa o caos no Sistema Judiciário.
Outro dia em São Paulo, soltaram um homem com o benefício de visitar a mãe para comemorar o dia das mães, só que a mãe de ele havia morrido há oito anos.
Isso é zombar da Justiça, quem proporcionou este episódio hilariante foi um desses «advogados».
A única maneira de acabar um pouco com essas vergonhas da Justiça, seria alguém ter a dignidade e a coragem de mudar algumas Leis.
Exemplo:
Bandidos perigosos, envolvidos com tráfico de drogas, seqüestros, mortes violentas, assaltos à banco, crimes contra o patrimônio e outros que não me lembro agora, só poderiam ser defendidos por Defensores Públicos.
Que estes bandidos tivessem seus bens imediatamente a prisão, seqüestrados, para que não pudessem usar o dinheiro ganho ilicitamente para sua própria defesa.
Como papel aceita qualquer coisa que se escreva, escrevi isso, mas sei, que essas idéias nunca serão nem cogitadas por as «autoridades», é o medo.
Medo de que a casa lhes caia na cabeça.
Número de frases: 31
Morro Agudo é um dos bairros mais populosos de Nova Iguaçu, município fluminense.
Tem poucas opções de lazer e atividades culturais.
É de lá que um foco de arte engajada vem chamando atenção.
O Movimento Enraizados é identificado por seus membros como «uma rede de auto-ajuda».
Um auxilia o outro, ensinando o que sabe e colaborando para o conhecimento coletivo e para a conscientização cada vez maior via elementos do hip hop:
rap, break e graffiti.
Claro que isso não quer dizer que hoje em Morro Agudo todo menino sabe rimar e por todo canto há gente com colorjet grafitando os muros.
Em a comunidade, a iniciativa vai mostrando força aos poucos, atraindo interessados e o poder público.
Em a internet, Morro Agudo tem status de iniciador do Movimento Enraizados, que hoje já conta com representantes em 16 estados brasileiros:
Acre, Rondônia, Amapá, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí, Bahia, Alagoas, Tocantins, Brasília, Mato Grosso, Santa Catarina, Paulo, Gerais, Santo e Rio de Janeiro.
A rede tem um portal de notícias, promove eventos e oficinas, lança coletâneas e camisas, participa de fóruns sociais e musicais e tem linha direta com prefeituras e Governo Federal (é Ponto de Cultura do Ministério da Cultura e Ponto de Presença do Ministério das Comunicações).
Faça a experiência de jogar «Morro Agudo» + Nova Iguaçu " no Google e confira:
uma das primeiras coisas que aparecem em destaque é Dudu de Morro Agudo.
Este é o apelido e a identificação como rapper de Flávio Eduardo da Silva Assis, jovem morador do bairro que um dia resolveu transformar inquietação em ação.
Em 1999 ele já era entusiasta do hip hop e leitor voraz de revistas sobre o movimento.
Sua empolgação contrastava com a cena local e mesmo do estado do Rio que, segundo ele, não tinha unidade.
Resolveu então mandar cartas (isso mesmo, por o Correio) para grupos de São Paulo, da Paraíba e do Piauí a fim de trocar informações.
Para sua surpresa, as respostas começaram a chegar aos borbotões e a conversa se intensificou no decorrer dos meses.
Tanto que em 2000, Dudu, que sempre foi autodidata, concluiu que aquela comunicação só iria para frente se eles começassem a usar a internet.
Encarou o Html e criou o Portal Enraizados -- nome que tem alguma influência do reggae, ao mesmo tempo que, segundo Dudu, «tem tudo a ver com o hip hop».
A partir daí a rede só fez crescer.
Em termos, digamos, «macro», apresentou o povo do Rio a grupos que já estavam alguns passos à frente.
«Fiquei muito impressionado com o nível de organização e envolvimento político do pessoal do Nordeste.
Se não fosse o contato com eles, talvez a gente não tivesse ido tão longe», conta Dudu.
Esse «tão longe» é metafórico e envolve também a esfera «micro», que não deixava de ser o objetivo inicial.
Dudu percebeu que existia gente apaixonada por hip hop em várias periferias do estado no Rio, como K2, de São Gonçalo, Neném, de Barra do Piraí, e Fiell, paraibano que veio morar na Cidade de Deus.
O primeiro desafio foi tentar integrar cada vez mais gente no estado do Rio -- e não só por a internet.
«Aqui o hip hop é muito favela e em favela há facção.
Mesmo que o cara não seja do crime, ele pode se indispor com as pessoas da facção inimiga.
Foi por isso que a gente resolveu promover o Boladão, um futebol que junta gente de várias comunidades.
É uma tarde só de alegria», explica Dudu.
Em os últimos anos, o evento foi realizado em Praça Seca e na Vila Operária, em Caxias.
A idéia é levar para outras áreas.
Já em 2001, o Enraizados lança seu primeiro produto:
uma coletânea que reúne grupos e rappers de seis estados brasileiros.
Segundo o portal, «esta foi a primeira coletânea de rap independente a nível nacional, onde os grupos se conheciam apenas através da internet».
Em 2002 veio a segunda, «Dudu de Morro Agudo apresenta A Banca», sendo a banca um conjunto de grupos que ele valorizava em quatro estados.
Foi nessa época que o movimento se consolidou, expandiu seus trabalhos e eventos, envolveu-se na militância.
Aos poucos, algumas pessoas de Morro Agudo perceberam e estimularam o esforço da rapaziada.
Uma mulher da comunidade ofereceu o quintal de sua casa para a realização de oficinas de rap, break e graffiti aos sábados.
Em 2003 a visibilidade foi ainda maior:
passaram a organizar festas e realizar oficinas contratadas, além de viajar para fazer shows e reuniões em outros estados e agenciar grupos de hip hop.
Em essa época o Enraizados se filiou ao Movimento Hip Hop Organizado Brasileiro (MH2OB) e Dudu passou a cumprir a função de coordenador de comunicação da entidade nacional.
O amadurecimento culminou com a realização do evento Raiz do Hip Hop, em 2004, na Cerâmica de Nova Iguaçu.
Foi a primeira vez que fizemos um evento desse porte na nossa comunidade-berço.
Já tínhamos algum reconhecimento nacional graças à internet, mas o alto grau de exclusão digital na nossa área não dava possibilidade de comunicação alternativa», conta Dudu.
Palestras, exposições, batalhas de break e freestyle permitiram a integração dos jovens de Morro Agudo com gente de diversas cidades do Rio de Janeiro.
2005 foi um ano chave para os Enraizados.
Para integrar mais a comunidade, eles passaram a produzir o Zine «Voz Periférica», com periodicidade mensal e tiragem inicial gratuita de 200 a 300 exemplares.
A coletânea «Raiz do Hip Hop» foi lançada com os artistas (praticamente todos de Morro Agudo) que se apresentaram no evento do ano anterior.
Começaram a ser realizados os Encontrões, eventos mensais feitos na rua para escoar a produção dos oficineiros e para oferecer internet para a população -- num de eles, promoveram a grafitagem da pequena praça de Morro Agudo.
Tudo feito na camaradagem:
Dudu botava seu próprio computador na rua, uma empresa de internet do bairro dava o suporte tecnológico, um tio de Caxias emprestava a tenda para dias de chuva e pronto.
Hoje em dia, a coisa cresceu.
O Encontrão recebe gente de vários estados e deixou de ter periodicidade fixa.
O próximo será em maio e terá como tema os problemas da comunidade.
Ainda em 2005, Dudu reuniu rappers, bboys, grafiteiros e quem mais aparecesse para articular a consolidação do movimento, a partir da conquista com um canal direto com o Governo Federal e a possibilidade de criação de um Ponto de Cultura.
Foi nessa reunião que apareceu uma figura que até então nada tinha a ver com o hip hop, mas acabou virando pessoa-chave na organização:
Luiz Carlos Dumontt é ator e presidente da Cia..
Encena de Teatro.
Com ele e os outros membros da organização, Dudu alugou uma sala em Morro Agudo, recebeu quatro computadores e alguns equipamentos de áudio e vídeo.
A articulação com o Governo Eletrônico -- Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac), programa do Ministério das Comunicações que promove inclusão digital em comunidades de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), permitiu a chegada da internet por satélite.
«Aqui o pessoal praticava hip hop dentro de casa, de qualquer jeito, tirava até o leite das crianças.
Agora a gente recebe as ferramentas em estado meio bruto, mas não ficamos reclamando e esperando ajuda.
Fuçamos até botar tudo funcionando», garante Dudu.
O upgrade na internet e a articulação de Dumontt fazem a rede agigantar.
E o portal também.
Hoje ele tem músicas em MP3, clipes, entrevistas, colunistas, fotos, links dos parceiros de vários estados e banners pagos.
Quem quer ouvir o som dos Enraizados deve se preparar para absorver todo tipo de mensagem.
Dudu explica:
«Nunca vi tanta diversidade dentro de uma organização.
Tem preto, branco, homo, hetero, kardecista, evangélico.
Um dos melhores rappers que conheço diz que está no movimento para passar a mensagem de Deus.
Uma vez veio um ônibus de Minas para um Encontrão que tinha evangélico e um grupo de presos em regime semi-aberto que tiveram autorização para viajar.
A gente tem que estar junto no que nos une.
Isso não é mérito do Enraizados e sim do hip hop».
Espírito CC mesmo antes de conhecer
Desde a primeira coletânea lançada, os Enraizados estimulavam a venda e distribuição sem limites.
Só depois de alguns anos foram ouvir falar pela primeira vez de Creative Commons.
Desconfiado como sempre, Dudu foi pesquisar.
E percebeu que era só um nome para o que já praticava há tanto tempo:
a disseminação livre da mensagem do hip hop.
Aí eles abraçaram para valer projeto CC, como fica claro no texto do portal sobre a última coletânea, gravada no Sexto Encontrão, em novembro de 2006: " Todos esses grupos aceitaram disponibilizar essas músicas para livre comercialização, sob a licença Creative Commons, desde que estejam todas juntas neste CD.
Liberaram para disponibilizá-las na internet e em outros meios, inclusive sampleá-las, desde que as novas obras derivadas destes samples estejam sob a mesma licença.
Pronto, nasceu mais um projeto Livre!!!"
Os discos lançados são vendidos por membros dos grupos e levados para os camelôs copiarem.
Dudu explica:
«Em o hip hop ninguém recebe cachê.
Mas você pode vender camisa e até discos dos outros.
A idéia é fazer o produto para o pessoal poder ganhar algum dinheiro.
Por isso a idéia da coletânea, pois aí o sujeito tem que vender a coletividade.
Quando botamos a música na internet, estamos assumindo que não é nossa prioridade ganhar dinheiro com a venda.
Mas não tenho nada contra o fato do camelô ganhar um dinheirinho com o disco.
Pelo menos vai ajudar alguém.
Hoje minha música é ouvida em Angola, em Portugal.
Mas o tiozinho aqui da rua não ouvia.
Então não vejo outra forma de chegar até a comunidade que não seja por meio do camelô».
Por isso, eles dizem que fazem «o primeiro CD pirata totalmente original do país».
Sendo ou não o primeiro, trata-se de um exemplo consciente e radical de Open Business (Negócio Aberto).
De tão aberto, fica difícil quantificar as vendas e volta e meia rolam situações curiosas.
Quando foi ao Fórum Social Mundial de 2003, em Porto Alegre, Dudu viu uma das coletâneas sendo vendida numa barraca.
Não faz a menor idéia de como o material chegou lá, mas ficou feliz.
Em Morro Agudo, quando soube que um camelô tinha copiado e estava vendendo uma coletânea, foi até a barraca conversar.
Em a hora, o rapaz escondeu os discos.
Dudu perguntou e o vendedor negou.
Depois de insistir, viu o disco e falou, sorrindo:
«Poxa, a gente tem o maior trabalho para fazer uma capa bonitinha e você faz uma cópia vagabunda dessas!
Vê se da próxima vez faz uma xerox melhor».
Com isso, a demanda aumentou.
Tanto que não é mais tão fácil definir o público-alvo:
«Há cinco anos eu diria que era gente de 14 a 30 anos.
Hoje mudou.
Tem gente de 50 ouvindo rap."
Agora, eles se preparam para lançar a quinta coletânea e o primeiro DVD dos Enraizados.
Rotina de trabalho
O Movimento Enraizados tem dezenas de membros por o país, mas atualmente há oito pessoas que trabalham no escritório do movimento, uma pequena sala num prédio de dois andares em Morro Agudo, alugada desde que o Ponto de Cultura foi concretizado.
Lá há cinco computadores e alguma aparelhagem de som e vídeo.
O grupo tem uma escala de trabalho, cada um com uma função:
produção de áudio, vídeo, internet, etc..
Não há remuneração fixa e sim a partir do que conseguem vender.
O único que vive do Enraizados é Dudu.
Os outros encaixam este trabalho com os seus " principais ":
tem camelô, profissionais em suporte de informática, donas de casa e muitos estudantes.
Luiz Carlos Dumontt leva seu trabalho com teatro em paralelo e duas vezes por semana trabalha no projeto " Nós do Morro.
«A gente quer fazer as coisas do jeito certo.
Eu podia extorquir alguns moleques, botar para trabalhar e pagar uma merreca.
Mas não quero criar seguidores e sim líderes, quero pensar no crescimento de eles, raciocina Dudu.
Os custos de manutenção fixos são baixos:
apenas o pagamento de aluguel e conta de luz.
A manutenção dos computadores é feita por os próprios membros da iniciativa.
«Se no fim do mês vemos que não vamos ter o dinheiro para pagar o aluguel, juntamos a galera para vender CD e completar a grana», explica Dudu.
Os CDs são vendidos por R$ 5.
O dinheiro fica todo para o vendedor, a não ser que use a estrutura do Enraizados para imprimir as capas e pegar CD virgem.
Aí R$ 2 da venda volta para o escritório.
Há também as camisas do Movimento, que levam a logo com três carinhas de óculos escuros e fones de ouvido.
«Nosso sonho é que vire uma marca forte que nem uma Nike da vida.
Que as pessoas vejam as três carinhas e já saiba que é o Enraizados», conta Dudu.
O preço sugerido é de R$ 15, dos quais R$ 12 devem voltar para o movimento.
Nada impede que a pessoa venda por R$ 30, contanto que a parte fixa volte para os produtores.
Os CDs e blusas também são enviados via portador ou correio para pessoas de outros estados venderem.
Em os eventos do movimento as vendas aumentam.
«Em um show vendo 50 CDs fácil, fácil», garante Dudu.
Mesmo sem saber quanto exatamente os discos venderam, há números referentes ao que o escritório conseguiu distribuir.
A coletânea «Raiz do Hip Hop» vendeu 3 mil cópias.
«Dudu de Morro Agudo apresenta a banca» vendeu 5 mil.
Os Enraizados também faturam com o agenciamento de grupos de hip hop, ganhando 10 % do lucro gerado nos shows.
Para divulgar todas as empreitadas, O Movimento Enraizados conta com um mailing com 10 mil endereços eletrônicos e com banners em sites de entidades parceiras.
Sem internet, dificilmente teria dado os primeiros passos.
«Tudo é graças à rede.
Para você ter uma idéia, quem me ensinou a fazer projeto de patrocínio foi um cara do Acre», exemplifica Dudu.
Eles são alvos constantes de matérias em revistas especializadas e, mesmo sem buscar, foram tema de uma matéria de cinco páginas do jornal O Dia, um dos mais populares do estado do Rio.
O grupo tem um quadro de 15 minutos na Rádio Tropical Solimões, de Nova Iguaçu e os jornais da cidade também noticiam nas novidades.
A divulgação visa a popularização:
«Queremos ficar conhecidos por os camelôs».
Hoje, segundo eles, a prefeitura de Nova Iguaçu não realiza um evento cultural sem entrar em contato com o grupo.
O reconhecimento oficial alegra a todos, mas eles querem mais.
Estão se preparando para abrir um telecentro em Morro Agudo, mas dependem da chegada de computadores para serem reciclados.
«O telecentro vai desesperar os donos de lan-houses por aqui», diverte-se Dudu.
Enviaram um projeto para o Programa Petrobras Cultural com o objetivo de bancar os encontrões e pagar os grupos participantes.
«Hoje o pessoal nos vê organizados e vai seguir o exemplo para se organizar também, como fizemos quando conhecemos o povo do Nordeste.
E aí vai.
Número de frases: 161
De aqui a alguns anos todo mundo da periferia vai aprovar projetos por aí».
O músico trocou o Brasil por Nova York há exatos 40 anos.
Já naquela época, era conhecido por cravar o nome como arranjador no disco de muita gente boa da música brasileira.
Em o exterior não foi diferente.
Seu currículo foi engordando com participação na carreira de gente como Tom Jobim, Elis Regina, Milton Nascimento.
Frank Sinatra, Aretha Franklin, Bjork.
E muito mais.
A constelação de estrelas na sua órbita não pára de crescer.
E os números?
Participação em mais de 500 discos, mais de 25 milhões de CDs vendidos, diversas trilhas sonoras para Hollywood.
Mas, vai entender, uma das coisas mais difíceis do mundo era ver o músico talentoso por aqui.
Pelo menos, fazendo show.
Eumir Deodato não tocava no Brasil há mais de década.
Em o Rio de Janeiro onde nasceu (" no Catete», faz questão de frisar), provavelmente desde que resolveu transportar seu piano junto com mala e cuia para Nova York. (
Inevitável fazer um paralelo com outro brasileiro «norte-americano», o Sérgio Mendes, que também é figurinha rara por aqui e tocou no réveillon de Copacabana junto com o Black Eyed Peas -- que, para boa parte do público, era a única coisa que importava).
A ausência de Deodato nos palcos cariocas virou coisa do passado nesta semana.
Terça e quarta últimas, lá estava ele na Sala Cecília Meireles arrancando solos animados de seu teclado.
E mais:
gravando CD e DVD ao vivo!
Ufa! Foi por pouco.
Até outro dia, o que ressoava era sua lamentação por estar no Brasil e não conseguir se apresentar na sua cidade natal.
Em a capa do Segundo Caderno d' O Globo na semana passada, fez um chororô legítimo.
Em seu site, o carregado cronograma de apresentações -- que incluiu França, Alemanha, Noruega e Turquia -- acabava com os dias 5, 6 e 7 de abril dedicados ao Mistura Fina.
Mas Deodato (ou melhor, o Rio) deve ser pé-frio, pois a única casa tradicionalmente dedicada ao jazz na cidade fechou as portas recentemente.
Então, ao lado da programação aparece -- até hoje -- um frio «Cancelado».
Mas o choro fez efeito (graças a Deus!).
Quando tudo parecia perdido, entrou em cena Luiz Paulo Conde, ex-prefeito agora é secretário de cultura do governador Sergio Cabral.
Em sua primeira aparição chamativa desde que assumiu a pasta, Conde bancou os dois dias de concerto e cedeu a Sala, que é do Estado.
Mas parece que tudo foi resolvido no fim de semana.
Por mais que fosse uma atração esperadíssima, não havia assessoria de imprensa que pudesse fazer milagre em poucos dias.
Resultado: corria-se o risco de se fazer um show às moscas (ainda mais com ingressos a R$ 80).
Mesmo com muita gente querendo vê-lo.
Coisas de Rio de Janeiro?
Pode ser ...
Em a terça ouvi falar que estava mesmo meio vazio.
Em a quarta, um esquema de distribuição de ingressos (os sites de música Sobremusica e Urbe, por exemplo, fizeram promoção relâmpago dando ingressos) ajudou a garantir o sucesso da noite:
casa cheia, animada, misturando cabeças brancas com muitos jovens curiosos.
E o show?
Esse preâmbulo todo foi só para fazer entender o contexto:
nada é fácil.
Para ficar bem claro que estávamos no Brasil, houve um atraso de meia hora (provavelmente porque às 20h30 parte da platéia nem tinha chegado, ou estava fazendo social no saguão).
De calça e sapato branco e blusa azul com detalhes brancos, ele entrou no palco fazendo caras e bocas.
Brincou com Marcelo Mariano (baixista sensacional, filho de César Camargo e, portanto, meio-irmão de Maria Rita) e Renato Massa (baterista, também feríssimo) e foi logo para o teclado.
O show começou animado e bem poderia ter virado um bailão se não fossem as sisudas cadeiras do teatro.
«Rhapsody in blue», do Gershwin, por exemplo, ganhou versão ultra-suingada.
As composições próprias também fizeram as cabeças acompanharem o ritmo.
Deodato toca, rege, bota e tira os óculos, ajeita as mangas da camisa como num tique, bate palmas durante os solos dos colegas.
E fala.
Como fala.
Não sei se é sempre assim.
Deve até ser.
Mas ontem ele estava mesmo contente e querendo bater papo.
Selecionei algumas frases de efeito:
«Não abandonei o Brasil, estou sempre por aqui».
«Gosto mais de vocês do que vocês de mim».
«Ontem pediram Garota de Ipanema, eu falei que ia tocar» Garoto do Leblon "
«É um prazer estar na minha terra e ver que o público está mais atualizado.
Em 60 as pessoas só sabiam coisas de 60.
Agora sabem coisas de 2007.
Incrível como o calendário passa!" (!!)
«Tô pensando na morte da bezerra.
Tadinha, tão pequenininha ..." (!!!!)
Assim deslocadas da cena parece coisa de gênio excêntrico.
E ele parece ser mesmo.
A platéia (eu incluída) se divertiu.
A cada risada ou salva de palmas, ele respondia:
«Como são gentis!"
Não foi gentileza gratuita, foi retribuição.
Porque essas frases, nonsenses ou não, eram intercaladas com a volta ao teclado e à exibição de seu lado genial.
Apesar de ele insistir que não é instrumentista e sim arranjador.
Os exageros das caras e bocas se transformam em sutileza com os dedos nas teclas.
O pedaço do show dedicado à bossa nova foi de fazer gosto.
De Tom Jobim teve as clássicas «Wave»,» Dindi «(com» Aloysio de Oliveira), Samba de uma nota só " (com Newton Mendonça).
Teve também «Berimbau», de Vinicius e Baden.
E várias outras.
As histórias que vinham a reboque também eram boas.
Antes de tocar «Sabiá» em homenagem aos dois autores -- Tom e Chico Buarque, contou que trabalhou 15 anos seguidos com Tom e fez o arranjo para a apresentação vencedora no festival da TV Globo de 1968.
Depois, arranjou a canção para Sinatra.
Ou seja, quando contou que o belo arranjo que ouviríamos a seguir estava «fresquinho, só para vocês», o povo teve a dimensão de que estava longe de ser pouca coisa.
Eu, que nem sempre tenho disposição para ouvir solos intermináveis, curti muito os momentos de destaque de cada músico.
Solos com criatividade, muitas vezes com começo, meio e fim.
Que ganhavam muito com a acústica favorável (dizem que é a melhor em espaço fechado do Rio) da sala.
Minha única ressalva -- e aí é uma coisa muito pessoal mesmo -- é o teclado.
Sobretudo quando se usa efeitos.
Não consigo ouvir teclado com efeito (mesmo tocado por o Deodato!)
sem me remeter a música ao vivo de churrascaria.
Deve ser bobeira da minha parte, mas acho que ia curtir mais se o show tivesse sido no piano.
Se bem que, se não houvesse os efeitos de teclado, pelo menos uma música sairia bastante prejudicada.
Sua consagrada versão para «Also sprach» (Assim falou Zaratustra), de Richard Strauss, que fez parte da trilha sonora do filme «2001 -- Uma Odisséia no Espaço», ficou ainda mais suingada na formação do trio.
E assumo que ali os efeitos eram mais do que justificáveis.
Seria um encerramento apoteótico.
Mas vieram os bis.
Assisti a pelo menos três repetecos.
A esta altura, já tinha gente dançando lá atrás.
Alto astral.
Um bom fim para uma festa que demorou para sair, mas foi bem celebrada.
Número de frases: 96
Agora é torcer para que a espera para a próxima vinda não seja novamente de décadas.
O autêntico boi-bumbá do parintinense não está nos espetáculos das três noites na arena mágica do bumbódromo.
Essa verdade pouco difundida não desmerece as apresentações conhecidas no mundo inteiro realizadas no último final de semana de junho, ao contrário, exalta a essência de uma dádiva cultural criada e mantida por este povo há quase 100 anos, que é revivida religiosamente com a manifestação da brincadeira do Boi de Rua.
Todo dia 12 de junho é aguardado como um dos mais importantes eventos no calendário da Ilha.
É o dia, ou melhor:
a noite, em que o Garantido sai de seu curral na Baixa do São José para percorrer as ruas resgatando uma carga de emoção que os habitantes da cidade tão bem conhecem.
O Boi de Rua do bumbá vermelho e branco revive a promessa de criação e perpetuação deste brinquedo de São João, idealizado do compromisso estabelecido na gratidão por a cura de seu fundador Lindolfo Monteverde, nos idos de 1913.
Mais que isso, traz para o presente a lembrança do boi do tempo das chamas das lamparinas misturadas ao luar, dos tambores feitos com latão e couro, das cantorias e do desafio em forma de improviso acompanhado por o bater ritmado das palmas.
Em 2006, a celebração do Boi de Rua do Garantido encontrou a Parintins das luzes elétricas, da modernidade dos instrumentos de percussão atuais e dos megawatts das caixas de som, mas nem por isso este boi do presente deixa de despertar lembranças em cascata por o seu formato simples de uma passeata que vai arrastando a multidão que o exalta como símbolo maior de sua cultura.
«Não perco de jeito nenhum, e se eu estiver doente venho assim mesmo e ainda volto boa para a casa», garante dona Jacira Silveira, 59, caminhando com a irmã, a filha e o casal de netos para esperar o boi passar na rua» Armando Prado.
«Venho brincar desde cunhantã -- modo como o parintinense se refere ao feminino de criança -- lembro quando meu pai me levava pra dançar no boi, brinco com meus netos e é uma alegria só», explica.
às nove da noite, a rua Armando Prado já concentra grande presença de pessoas que se juntam aos afortunados moradores que também aguardam a passagem em frente das suas casas.
O vermelho das roupas domina o cenário, como na família de Ademar Souza, 37." Essa é a tradição do povo parintinense mostrada na origem», orgulha-se, enquanto divide algumas cervejas e alegria com vizinhos, esposa, filhos e o pai, seu Avilmar de Souza, de 70 anos.
Com a rua cheia de fogueiras, que aos poucos começam a ser acesas à medida que o som dos fogos de artifício fica mais forte, é da autoridade de tantos anos vividos que seu Avilmar explica o costume.
«Onde tinha fogueira o boi parava para brincar e as velhas acompanhavam com as lamparinas na cabeça», lembra, se referindo à poronga levada por as idosas.
Desde o surgimento da brincadeira na cidade, o boi pára nos lares onde os moradores demonstram euforia ao recebê-lo, seja por meio das fogueiras feitas por os donos das casas, ou como antigamente, homenageando quem ajudava o boi com contribuições em dinheiro.
Alguns chegavam ainda a arrumar o próprio quintal com um círculo no centro, o boi o visitava e em seguida entravam os personagens Pai Francisco e Catirina com a gaiatice que arrancava gargalhadas da platéia, esta acompanhava com palmas dançando o tradicional dois pra lá, dois pra cá no ritmo da batucada.
A o comando do Amo, com toadas simples e versos de improviso, o Auto do Boi era realizado e ao final a língua era vendida para o dono da casa.
Lembre-se que no Auto do Boi, o animal é morto por o Pai Francisco que trai o Amo, de quem é empregado, para atender ao desejo de sua esposa Catirina, que está grávida e quer comer a língua do boi.
A quantidade atual de pessoas não permite mais essas visitas, mas quando o Garantido chegou na rua, vieram com os brincantes todos os sentimentos despertados por a tradição de deboche ao contrário;
na homenagem às pessoas queridas;
na cantoria de toadas antigas e no resgate de versos tirados ainda por o fundador Lindolfo Monteverde misturados ao lirismo das toadas mais atuais, na batida cadenciada marcada por o compasso em dois por dois da Batucada -- nome dado ao conjunto de ritmistas do bumbá vermelho e branco -- e toda a diversidade de pessoas no comovente desfile de gerações.
A passagem de 2006 Este ano a gozação iniciou a festa.
Em cima de um bugre vermelho, uma alegoria mostrava o contrário com cabeça e asas de urubu num corpo metálico na forma de barril, a mensagem estava clara, pois tratava de devolver duas toadas de desafio feitas por o boi azul e branco nos últimos dois anos.
Em a primeira, o Garantido era chamado de «boi de lata», insinuando a baixa qualidade das alegorias parando no tempo em que os bois eram feitos de latas de manteiga.
A segunda dizia que um urubu iria comer o bumbá, o problema era o duplo sentido pouco elegante do verbo.
Um grande balão flutuava sobre os brincantes ostentando o coração como o grande símbolo, embaixo, o boi evoluía com os chifres enfeitados nas suas cores.
A vaqueirada o acompanhava cumprindo sua atribuição de guardiões e abrindo espaço para o bumbá dançar a cada fogueira para os gritos e aplausos dos presentes.
Em repetidos momentos de emoção, o Garantido levava uma rosa na boca para as donas da casa, geralmente as mais idosas que estavam firme esperando sua passagem.
Todas estas senhoras manifestavam uma adoração comum, cercadas por os parentes em festa, pegavam a flor com indisfarçável emoção para depois acariciar e beijar o touro como se fosse de verdade (e por que não seria?).
Os torcedores do contrário se dividem, alguns se rendem à brincadeira como Onélia Vieira, de 70 anos.
Mesmo com a casa azul, roupa azul e bandeira azul devidamente levantada no quintal, todo ano ela vai à frente da casa ver o oponente passar.
«O negócio é brincar, eu gosto muito do boi», comenta.
Onélia afirma não sentir vontade de ir ao bumbódromo, mas cultiva um sentimento inverso em relação ao " Boi de Rua.
«O de lá eu prefiro assistir por a TV, aqui eu todo ano ganho uma rosa e é quando eu vejo e pego em ele, conclui.
A poucos metros, uma casa em azul e branco mantém as portas e janelas fechadas com um recado afixado escrito numa folha de papel:
«Caprichoso Campeão 2006».
Não demorou muito para o papel sumir.
Criatividade e apoteose
Com uma vara de pescar, um brincante vestiu um boneco de astronauta com uma bandeira do boi na mão, acendendo fogos de efeito visual, brincava com o boneco que parecia flutuar.
Um proprietário de triciclo decorou o veículo com uma inimaginável quantidade de motivos do bumbá e da Copa, e um homem comicamente vestido de cunhã-poranga -- índia mais bela da tribo -- promovia performances nada sensuais.
O Garantido entrou por a avenida Amazonas e seguiu até a Catedral de Nossa Senhora do Carmo trazendo a Batucada e sua torcida organizada oficial, Comando Galera, para se juntarem à multidão que aguardava sua apoteose, em frente à igreja, numa armação metálica em forma de coração e um espetáculo final em fogos de artifício.
Todo ano é assim:
o povo testemunha mais uma passagem do Boi de Rua, enquanto o folclore promove o encontro sorridente de gerações e fabrica momentos inesquecíveis no imaginário popular, para assim, se perpetuar.
É mês de junho, Parintins está em festa!
E como diz a toada:
Número de frases: 46
O Garantido é a alma quando faz a evolução.
É fato.
O espaço da poesia é limitadíssimo.
A mídia tem seus ícones.
Grande parte das livrarias acaba refém dessas escolhas e as prateleiras ostentam sempre os mesmos poetas, sem se abrir para outros autores.
O desapontamento dos poetas é grande.
Mas eles, em sua maioria, nunca desistem e procuram divulgar seus poemas na Internet, grande aliada de quem quer visibilidade e aplauso.
Mas também não desistem de publicar seus poemas, considerando sempre que estão fazendo amigos no meio literário a partir do seu trabalho, e não o seu trabalho a partir de amigos.
O chamado descaso da mídia e das grandes editoras levou o jornalista e poeta catarinense a escrever Poesia não ve nde, livro que, segundo seu autor, nasceu para denunciar e questionar o descaso público que a poesia sofreu nas últimas décadas e protagonizar uma verdadeira revolução literária junto à sociedade.
A idéia, segundo ele, é fazer com que a poesia volte a ser popularizada e valorizada como antigamente.
Rodrigo sugere ainda a utilização do conceito de letramento como uma das soluções para que a poesia cumpra o seu papel social e ajude a gerar um Brasil mais poético e, conseqüentemente, mais culto, com pessoas mais conscientes do seu papel social.
Poesia não vende é o quarto livro de Rodrigo Capella e o primeiro de poesia do jornalista, que tem 26 anos e começou a escrever aos 12, incentivado por a avó.
O primeiro livro foi publicado aos 16 anos, Enigmas e passaportes (Forever Editora, 1997).
Depois vieram:
Como mimar o seu cão e Transroca, o navio proibido, ambos por a Zouk Editora, em 2005 ";;
Este último vai ser levado às telas por o diretor Ricardo Zimmer.
Mesmo com a agenda lotada por conta do lançamento de Poesia não vende em várias cidades brasileiras, Rodrigo conversou por e-mail com mim por e-mail.
Confira abaixo a conversa.
Criou-se um ciclo para a afirmação ";;
poesia não vende ";;
Vinicius de Moraes não vendeu?
João Cabral de Mello Neto, Moacir Félix, Leminski, Manoel de Barros, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade não venderam e não vendem?
Por que agora poesia não vende?
Só vende poesia quem tenha pelo menos quatro dessas cinco características:
fama, engajamento literário, aporte de uma grande editora, relação com outra esfera artística e persistência literária (que pode ser traduzida em descoberta de novas técnicas e estilos lingüísticos).
Esses autores que você citou venderam porque, de certa forma, se enquadraram nesse perfil.
A poesia, por si só, não vende e nunca vendeu.
Quem vende poesia é o artista-poeta e não o poeta-artista.
Você acredita realmente que haja má vontade das editoras, e muita, quanto a publicar o gênero poesia?
O problema está na qualidade dos poemas?
A linha que divide a poesia boa da ruim é muito tênue?
Existe, na verdade, um complô contra a poesia.
As editoras simplesmente ignoram esse gênero literário como se pegassem um calhamaço de folha podre e sem conteúdo.
Criou-se um ciclo vicioso:
as editoras não publicam poesia, os poucos livros que chegam às livrarias ficam escondidos em estantes empoeiradas, o leitor não encontra a obra e acaba não comprando, por isso as editoras não publicam poesia.
Poesia não vende porque as pessoas, em sua maioria, estão acostumadas com histórias com começo, meio e fim, que não exigem muita reflexão, sendo que com a poesia acontece o contrário?
Há esse lado também.
As editoras não são as únicas culpadas, embora contribuam bastante para a poesia não vender.
A população precisa valorizar mais a poesia, precisa ler um verso e questioná-lo.
Só dessa forma a poesia pode ser compreendida.
Qual a saída para quem está iniciando?
Bancar a publicação do bolso?
E, depois, como fica a distribuição?
Grandes poetas tiveram que arcar com a publicação de suas obras.
Augusto dos Anjos teve a ajuda de seu irmão para pagar Eu e outras poesia, e Manuel Bandeira arcou com Carnaval.
Os exemplos são muitos.
Acho que eles fizeram a escolha certa.
Atualmente, é muito mais fácil publicar livro, embora o mercado editorial esteja um pouco estranho e arredio.
Eu, por exemplo, nunca tive que pagar para publicar os meus livros.
E nunca farei isso, embora não condene quem faça.
A gente percebe que muitos poetas procuram refúgio na Internet para publicarem seus poemas e se tornarem conhecidos.
Mas a Internet ajuda a vender poesia?
De que forma?
Existem, atualmente, muitos poetas bons que utilizam os blogs para se comunicar e expressar sentimentos.
A qualidade existe e só não é melhor porque faltam incentivos.
Precisamos valorizar os poetas da Internet.
Sem dúvida!
Publicar na Internet é uma grande saída.
Há muita gente boa atrás dos blogs, expressando sentimentos e mostrando seus versos.
Muitos poetas conseguem sensibilizar editoras através de seus blogs.
Isso tem ocorrido muito e é uma saída.
Agora, os poetas precisam se mobilizar mais, precisam sair para as ruas, protestar, organizar mais saraus, fazer uma verdadeira revolução poética.
Nós estamos precisando disso!
O meu livro Poesia não vende, por exemplo, surgiu no meu blog Poemas e Delírios de Rodrigo Capella.
Confira em Outra questão que, se não é crucial, pelo menos é irônica.
Se poesia não vende, por que você fez um livro de poesia?
Essa é a própria contradição do poeta.
O claro e o escuro, o seco e o molhado.
Mas, acima de tudo, é um desabafo social.
Essa questão precisava ser levantada, nós precisamos discutir:
afinal, poesia não vende?
Por quê? O que ocorre?
Nós não podemos ficar calados.
Temos que agir, nos movimentar e brigar para que esse contexto se inverta.
Espero, algum dia, nem que seja daqui a 50 anos, escrever um outro livro chamado Poesia vende sim!
Há livrarias que nem contam com prateleiras específicas para o gênero poesia.
O que fazer para mudar essa situação?
Isso é complicado demais!
Mas, está, aos poucos, mudando.
A livraria começou a perceber que precisa vender um pouco de tudo.
E está colocando mais livros de poesia, embora misturados aos demais gêneros.
Vai chegar uma hora em que, para organizar melhor as coisas, eles vão precisar abrir prateleiras específicas.
Isso vai acontecer em breve, pode apostar!
Qual é o poeta contemporâneo que mais vende atualmente no Brasil?
Alguém vende bem?
Eu, sinceramente, não conheço.
A maioria dos poetas com quem tenho convívio sempre reclama de grana.
É, a situação está complicada.
Precisamos nos unir, antes que a poesia brasileira vá para o fundo do poço.
E ele está logo ali, mais uns passos e caímos dentro.
Porém acredito na reviravolta.
Estamos começando.
E, como todo processo, esse também é lento e gradual.
Torná-la leitura obrigatória nas escolas seria uma forma de fazer as pessoas lerem poesia?
Dificilmente se vê um livro de poemas ser recomendado por professores.
Não gosto de tornar nada obrigatório.
A poesia deve ser uma leitura livre, como seus versos.
Se obrigarmos alguém a ler poesia, estamos desvirtuando a coisa.
Poesia é sinônimo de alegria e entusiasmo, e não de obrigação.
Ela deve ser incentivada e não obrigatória!
Seu livro tem depoimentos de poetas, escritores, cineastas.
Todos falam da relação da poesia com a sua (de eles) arte.
Como foi conseguir esses depoimentos?
Foi simples, todos foram muito atenciosos e gostaram da idéia do livro Poesia não vende.
Alguns se empolgaram tanto e me perguntavam quando o livro ia ficar pronto.
Achei formidável!
Foi uma experiência incrível, você pode acreditar.
O que você chama de letramento
É a solução.
Incentivar jovens e adolescentes a desenvolver uma atividade a partir de um verso poético é, simplesmente, plantar a semente para termos um país mais poético.
Além do letramento, eu sugiro visitas freqüentes às editoras, nas quais os alunos conheceriam os procedimentos de confecção de um livro.
Como é possível introduzir esse conceito nas escolas?
Apenas introduzindo.
Não há segredo.
É preciso boa vontade do governo e das escolas.
Sabe, algumas pessoas estão muito acomodadas.
O governo está acomodado, as editoras também.
Não querem fazer nada.
Então, temos que plantar a semente nas escolas.
E ... bingo!
Teremos, sem dúvida, um Brasil mais poético.
Quais os elementos que você oferece ao leitor para que ele reflita e questione a existência da poesia no contexto literário?
Todos os que existem:
momento infinito, alegria, correlação artística, necessidade de mudança e, principalmente, a função da poesia dentro da própria sociedade.
Mudar pequenas coisas e despertar grandes sorrisos.
Essa é a grande função da poesia.
Você já sorriu hoje?
Leia um verso e experimente!
Número de frases: 128
Bati um papo bem legal com o precursor do grafite em Boa Vista, Max Delly Melo Correia, o Max «Perna».
Um Pernambucano de 27 anos -- daí o apelido «Perna», que chegou em Boa Vista em 1999 e desde então não parou mais de grafitar toda a cidade.
E os dedos sujos de tinta não me deixam duvidar disso.
«Perna», Pernambuco, sua terra natal e local onde tudo começou.
Quando adolescente, ele já curtia sair para pichar muros.
«Era algo subversivo, eu era menor, queria mesmo ser do contra.
Tudo coisa de adolescente», afirma Max, que naquela época já mandava nas suas pichações alguns desenhos.
Ele sempre gostou de desenhar, desde criança.
O grafite como arte e sobrevivência surgiu mesmo em Boa Vista.
Max lembra que tudo começou de repente.
«Era época de eleição e um candidato a vereador que tava apoiando os skatistas, eu falei com ele que fazia grafite.
Em a verdade eu até menti pra ele, sugeri que fizesse um grafite lá na pista e o cara acreditou.
Aí eu tive que fazer.
Ele me deu 10 latas de spray e eu disse -- caramba, vou ter que me garantir ...».
Ele foi para o Parque Anauá, no half (pista vertical de skate) e ficou das nove da noite até às quatro da manhã.
Grafitou uma paredona enorme, com mais de 3m.
de altura.
«Eu fui lá.
Estourei o dedo todo.
Foi quando eu senti a pressão do spray continuado.
Você perde até a força na mão», diz Max.
Em essa época ele ainda não tinha a menor pretensão.
Max «Perna» estava envolvido num movimento jovem, de grafite, de skate.
A partir daí é que começaram a surgir pessoas interessadas no seu trabalho.
A princípio elas lhe davam as latas de spray e ele mandava os grafites.
«Depois de 1 ano é que começou a rolar grafite pago, as pessoas queriam me contratar», diz Max.
Assim como o grafite começou para Max em Boa Vista, o grafite em Boa Vista começou com ele.
Aos poucos percebeu que o campo era propício, não havia a cultura da pichação e com isso a população associava seus grafites à arte.
Ele lembra que nessa época o grafite já tava na mídia, já era uma coisa legal.
«A população não ofereceu rejeição como nos grandes centros, no qual o cara tem que ser um grafiteiro reconhecido pra não ser discriminado», diz Max.
Logo em seguida o chamaram para participar de uma obra da Prefeitura de Boa Vista.
Deram a ele um muro gigantesco e lhe pediram orçamento.
Sem experiência, Max não tinha a menor idéia de como cobrar o seu trabalho.
Ele levou quase um mês grafitando a parede.
Depois desse trabalho, as pessoas de loja começaram a procurá-lo e com as sobras de spray dos trabalhos, Max fazia os seus grafites nas ruas de " Boa Vista.
«Não tinha a menor idéia que eu ia ganhar grana com isso, e eu pensei:
Por que não?
Tô fazendo algo que gosto e ainda tô ganhando grana com isso.
Fui contratado por três anos por a Prefeitura Municipal de Boa Vista como grafiteiro, pintei vários painéis.
Trabalhei na Secretaria de Obras com um arquiteto e aprendi as manhas.
Perspectiva, isometria, eu fui passando esse conhecimento para os meus desenhos " diz Max.
Em 2003 ele saiu da Prefeitura, e como já estava reconhecido na cidade, conseguiu ficar por conta própria e assim está até hoje.
Ele já deu umas voltas por Manaus e por São Paulo.
Em São Paulo trocou experiências e aprendeu novas técnicas.
Teve na escola de aprendiz, com o «Nóis», o» Ema «e o» De os, grafiteiros de lá.
Ele esteve no Beco do Aprendiz, que é um beco enorme e todo grafitado em Sampa e que tem uma escola de várias artes, inclusive o grafite.
Em Manaus esteve com o Árabe, que é muito conceituado na cidade.
Quando começou a estudar na UFRR, Ciências Sociais (Antropologia), acabou ficando mais próximo do Reitor, que também é de Ciências Sociais e sugeriu a ele que eu fizesse uns grafites na Universidade.
«Eu até me surpreendi, num ambiente padronizado, uma coisa acadêmica e ele abriu espaço pra essa arte contemporânea, legal», diz Max.
Ele começou a fazer os grafites, ganhou até uma grana e com o que sobrou fez uns grafites por a cidade.
«Foi sempre assim, é como se fosse um dízimo.
Eu faço um trabalho, recebo por aquilo, não é bem um grafite, eu não considero como um grafite aquilo que tu diz assim -- Max, eu quero que tu faça dessa forma.
Eu vou lá, uso a técnica mas não é grafite.
Eu não tô tendo a liberdade de criar.
Então, com as sobras das tintas eu vou e faço o que quero», completa Max.
Quanto aos temas, ele não segue nenhuma tendência.
Depende muito da situação, do contexto em que esteja vivendo.
Em as eleições fez um grafite que retratava a corrupção.
Como diz, " eu procuro retratar o cotidiano, umas críticas, uns alertas.
Em a verdade são fases.
Em o começo eu queria fazer bonito, não interessava o tema, mas com o tempo eu fui adquirindo minhas técnicas.
Não tinha ninguém pra me ensinar.
De esse jeito eu tive que ir descobrindo com o passar do tempo.
Os primeiros grafites saíram um monte de borrão e aos poucos eu ia vendo que aquele borrão, eu poderia ajeitar aqui, ali, acolá e ia modificando.
Depois que eu fui pegando mais experiência, eu comecei a tematizar a coisa».
Geralmente ele faz o desenho antes, o projeto, o esboço, mas teve casos em que foi direto para parede.
«Não sigo uma linha, eu sempre faço dessa forma, meus temas são sempre esses, o estilo de letras de bonecos, eu não segui tendência, talvez se eu estivesse em Manaus ou São Paulo, onde o pessoal já tem um ritmo, uma tendência, uma seqüência a seguir, mas aqui eu fiquei isolado».
Ele não tinha ninguém, era só ele.
Somente quando conseguia sair de Boa Vista e ir para Manaus ou São Paulo, é que ele conseguia absorver novas visões sobre esta arte, de como os grafiteiros viam e qual a atitude de eles com relação ao grafite, mas sempre tendo consciência de que são contextos diferentes.
Em Manaus ou São Paulo e em outros grandes centros tem a questão da pichação, do vandalismo, do preconceito.
Em Boa Vista já não tem, é bem peculiar em relação ao resto do Brasil, não tem a pichação.
Em 2003 apareceu uma turma, eram dez, pedindo a ele que os ensinassem e Max não deu as costas.
De esses dez, ficaram três e depois entraram mais dois, que acabaram juntando a equipe que tem hoje.
«Esta turma ficou firme, adquiriram estilo próprio.
Eu não fico mais dizendo, faz assim ou daquele jeito, já pegaram a manha " diz Max.
Max, hoje, se encontra na fase de fazer temas com críticas sociais, talvez devido ao curso que freqüenta na UFRR.
«Tô utilizando o grafite como veículo, uma forma de linguagem de intervenção mesmo, pra mim não basta só fazer pra ficar bonito.
Eu quero passar uma idéia, é como aquele grafite que tem ali no Parlatório e que tem a crítica ao capitalismo total, sem nada escrito.
O cifrão na cabeça do planeta terra chorando lágrimas de sangue», diz Max orgulho de sua cria.
Quanto as perspectivas, Max comenta que está super animado.
Ele diz que começou uma oficina de grafite na UFRR.
O MEC está financiando.
«A gente tá por a pró-reitoria de extensão e com a parceria com o Museu do Estado de Roraima, tem uma galera nova, umas 15 pessoas, a tendência é expandir, o mercado tá crescendo, Ninguém mais quer aquelas letrinhas de máquina, eles querem seus letreiros personalizados», afirma Max.
à partir de 2007 estará montando junto com a sua equipe uma cooperativa de grafiteiros, pessoa jurídica mesmo.
Assim, ele acredita que conseguirá participar de licitações públicas e pegar trabalhos maiores.
Já até criaram a sua marca:
Muita TRÊTA SKATEBOARD Graffiti E Arte.
A marca foi lançada num campeonato de skate, na periferia em dezembro de 2005.
Eles fizeram uma «vaquinha» e compraram material pra grafitar umas camisas.
Gastaram R$ 8,00 e venderam a R$ 5,00.
foi só para divulgar a marca.
E venderam tudo.
«O pessoal da periferia sabe quem somos nós.
As meninas se amarram nos estilos, Muita Treta Girl.
A idéia é que as pessoas identifiquem mesmo, o povo já tá cobrando mais camisetas», diz Max entusiasmado.
As camisas são feitas com pistola, com decalques e recortes.
Os desenhos são mais minuciosos, o que atrai bastante ao público consumidor, pois é totalmente fora do padrão.
«O grafite é o que tem de mais contemporâneo em artes plásticas.
Não é elitizado, tá na rua, porém é efêmera, não dura mais que 4 anos.
Depende mesmo do sol, do tempo que fica exposto a ele», diz Max.
Max «Perna» encerra o bate papo com duas frases que não tira de sua cabeça:
«Você é aquilo que pensa «e» Você é aquilo que faz».
Ele não sabe se foi ele que inventou ou ouviu em algum lugar, como disse, " é tudo colagem.
O pós-moderno é assim».
Serviço:
Max " Perna "
Tel: 95 XX 9113 -- 1016
Número de frases: 107
www.flogao.com.br/muitatreta288 Movimentos geralmente são definidos por características singulares, ímpares e bem definidas.
Refletem uma tendência de idéias mais ou menos unificadas e homogêneas, predominantes em determinada época.
A corrente dos tropicalistas, que completa quarenta anos em 2007, no entanto, foge um pouco a essa definição padrão, ao abraçar várias tendências e influências aparentemente incompatíveis, sem um sentido único.
Como o movimento aparentemente desordenado dos elétrons.
Caetano Veloso, um dos fundadores do movimento, até diz preferir o nome Tropicália a Tropicalismo, entre outras razões, justamente por a idéia limitadora e de enquadramento associada ao sufixo ismo, muito utilizado para denominar movimentos nas mais diversas áreas.
Sabemos, das aulas de eletricidade, que tensão gera corrente e a tropicalista, embora Gil e Caetano tenham-se destacado no festival de música da TV Record de 1967, com «Domingo no parque» e «Alegria, alegria» (segunda e quarta colocadas), respectivamente, provocou choque e não foi logo bem aceita.
A Tropicália, cujo nome foi sugerido por o produtor de cinema Luís Carlos Barreto, baseado numa obra do artista plástico Hélio Oiticica, surgiu num clima de rivalidade e discórdia entre dois grupos antagônicos.
De um lado, os politizados, estudantes, artistas, intelectuais, contrários ao golpe militar de 64 e, por conseguinte, ao chamado imperialismo vindo dos Estados Unidos ou a qualquer influência de eles, ou dos estrangeiros em geral, na nossa cultura.
De o outro, os não politizados, que queriam apenas se divertir, sem maiores questionamentos sobre a situação do país.
Havia, então, correntes alternadas, em sentidos contrários:
o primeiro grupo era simpatizante e adepto da Bossa Nova e das músicas de protesto, de cunho político, e o segundo, da Jovem Guarda, influência dos Beatles e outros grupos de rock na música nacional.
Os tropicalistas tornaram-se, então, um campo neutro, sem uma polarização definida de forma simplória entre positiva e negativa.
Uma energia mais nova que a Bossa Nova, mais jovem que a Jovem Guarda.
Em vez do sistema monofásico vigente, onde só se podia apreciar um ou outro estilo, propuseram uma fonte geradora de energia trifásica, com as três correntes interagindo através de ondas harmônicas e em ressonância, em circuitos paralelos.
De a Jovem Guarda, buscaram um som mais universal, mas sem copiar o rock estrangeiro.
Em relação à Bossa Nova, sugeriram uma mudança de tom:
em vez do Jobim, o Zé.
De João Gilberto, ficou o Gilberto, que se reproduziu e virou " Gilberto Gil.
«É proibido proibir».
Então, podia-se valorizar a cultura brasileira sem menosprezar as influências estrangeiras:
«sobre a cabeça os aviões, sobre os meus pés os caminhões».
Podia-se exclamar «viva a bossa» ou «viva a banda», mas também» ouvir aquela canção do Roberto».
«Que tudo mais vá para o inferno, meu bem».
Podia-se contar uma história com princípio, meio e fim, como em «Domingo no parque» ou ser concretista, como em «Batmakumba» *, com sua letra visual, em forma de K, ou ainda das asas de um morcego, universalizando a macumba.
Podia-se cantar em inglês:
«baby, baby, I love you», em espanhol:
«soy loco por ti, América, soy loco por ti de amores», em português, ou ainda criar uma nova língua, juntando todas:
«batmakumbayêyê batmakumbaoba».
«Não sei.
Leia na minha camisa».
Afinal de contas, o som é universal e tropical é tropical em várias línguas.
Mas, por a lei de Ohm e por a lei dos homens, toda corrente gera resistência e uma alta resistência impede que a corrente se propague.
O movimento chegou ao fim com a decretação do Ato Institucional nº 5 (Ai-5), em dezembro de 1968, por parte do governo militar (a trupe carlista não gostava de tropicalista), os baianos Caetano e Gil foram presos e depois seguiram em exílio para a Inglaterra, onde permaneceram por quase quatro anos.
Pouco antes disso, lançaram um disco coletivo de nome «Tropicália ou Panis et Circenses», que consagrou o movimento e contou também com a participação de Tom Zé, Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes, Torquato Neto, Capinam e o maestro e arranjador Rogério Duprat.
Entre acordes nada dissonantes de guitarra, Caetano sintetizou bem o espírito do movimento em sua canção «Alegria, alegria», que retratava os acontecimentos da época de forma fragmentada, como notícias de jornal, forma essa que caracterizava também a postura neutra (no sentido de imparcialidade, não de impassibilidade), mas ao mesmo tempo marcante dos tropicalistas.
Golpe militar, movimento hippie, guerra do Vietnã, conquista da lua, exibiam-se nas manchetes da letra, por entre fotos e nomes, repartidos em crimes, espaçonaves, guerrilhas, entre caras de presidentes e grandes beijos de amor, bomba e Brigitte Bardot.
Sem livros e sem fuzil, nada no bolso ou nas mãos, caminhando contra o vento.
É proibido proibir e vocês não estão entendendo nada!
* Batmakumba (Caetano Veloso -- Gilberto Gil)
batmakumbayêyê batmakumbaoba
batmakumbayêyê batmakumbao
batmakumbayêyê batmakumba
batmakumbayêyê batmakum
batmakumbayêyê batman
batmakumbayêyê bat
batmakumbayêyê ba batmakumbayêyê
batmakumbayê batmakumba
batmakum batman
bat ba
bat batman
batmakum batmakumba
batmakumbayê batmakumbayêyê
batmakumbayêyê ba batmakumbayêyê bat
batmakumbayêyê batman
batmakumbayêyê batmakum
batmakumbayêyê batmakumbao
Número de frases: 56
batmakumbayêyê batmakumbaoba
«Nação não é bandeira / Nação é união / Família não é sangue / Família é sintonia».
Os versos da canção «R.A.M», presente no disco de estréia d ´ O Rappa, explicam bem o sentimento que corre nas veias dos grafiteiros que compõem a Nação Crew.
Atuando juntos desde 2000, o grupo de jovens oriundos do subúrbio carioca utiliza a linguagem artística do grafitti para dar novos sentidos à paisagem do Rio.
Ment, Bragga, Preás, Chico, Gais, Stile, Ocrespo e Machintal.
Talvez eles não sejam conhecidos por os nomes ou apelidos.
Mas se você circula por o Rio de Janeiro com certeza já se deparou com algum grafitti desses caras.
Os trabalhos da Nação estão espalhados por a cidade de ponta a ponta.
De a Zona Oeste a Zona Sul, passando também por a Baixada Fluminense.
Atualmente a crew ocupa espaço de destaque na cena do grafitti nacional, chegando até mesmo a realizar incursões artísticas na Holanda e Espanha.
Tudo isso é fruto de um trabalho intenso, concretizado com ações que ao longo dos anos visam fortalecer o grafitti na cidade.
A história da Nação começa em meados dos anos noventa e gira em torno da cultura Hip-hop, do Skate e das festas de Rap que aconteciam no Rio.
Os grafiteiros circulavam nesses espaços, se encontravam e trocavam idéias.
A aproximação aconteceu de forma mais intensa nas oficinas de grafitti que desde aquela época já rolavam em algumas comunidades cariocas.
Foram nessas oficinas que os integrantes do que futuramente se tornaria a Nação perceberam que existia uma série de afinidades entre seus trabalhos.
Em o início, a marca «Nação» já era visualmente trabalhada por o Chico que estampava camisetas usadas por o pessoal do skate no bairro do Méier.
Conforme a rapaziada passou a pintar junto a marca começou a ser utilizada para assinar os graffitis, " A gente saia pra pintar e colocava o símbolo lá do lado, meio que no automático mesmo.
A gente se identificava com a parada.
Mas não tinha a pretensão de ser uma empresa, um grupo», explica Ment.
A partir daí as coisas foram acontecendo de forma natural, o grupo continuou pintando e conquistando cada vez mais espaço.
O que mudou foi a percepção de como o grafitti poderia ser utilizado para construir um canal de comunicação que ajudasse a costurar alguns rasgos dessa cidade partida.
«Eu já fazia alguns trabalhos educacionais em escolas, mas não tinha essa noção da força que o grafitti tem como ferramenta de levar a arte para pessoas que não tem acesso.
É uma ferramenta muito direta, você fala diretamente para as pessoas de igual para igual, sem diferenciação de classe».
Através das palavras de Ment percebemos que a Nação conjuga sua produção artística com engajamento social e político de uma forma leve, sem ranços e rancores, porém bastante efetiva.
A proposta do grupo minimiza as fervorosas discussões que acontecem em torno de questões como:
grafitti das ruas X trabalhos comerciais.
A polêmica é posta por os que acreditam que o grafitti se define estritamente como arte da rua, que só pode ser realizado de maneira informal, nunca pode ser comercializado, encomendado, ou receber qualquer tipo de incentivo financeiro.
Em a contra-mão desta postura a rapaziada da Nação, muitas vezes, encontra nos trabalhos comerciais o caminho para viabilizar as ações na rua.
Ment nos explica como o esquema funciona:
«A gente faz um trabalho, pede uma quantidade X de tinta, a gente já sabe que vai sobrar.
Então nada mais justo que a gente reverta aquelas tintas que ganhamos comercialmente para a rua.
Que é de onde a gente veio e onde a gente sempre vai estar».
Galeria Severo 172
Um passo importante na caminhada da Nação foi a criação da galeria Severo 172, o espaço é o primeiro local no Rio de Janeiro totalmente dedicado a arte de rua.
A idéia principal é fazer da Severo 172 um ponto de referência para arte de rua na cidade.
Em um ano de atividades a galeria já abrigou exposições de grafitti (em diversos suportes) de artistas de outros estados e países, o lançamento de um livro sobre grafitti, já foi palco de algumas festas de Hip-hop, entre outras ações.
Estes eventos contribuem para a manutenção do espaço que é totalmente gerenciado por o pessoal da Nação.
Grafite + Rap + Poesia = GRAP
Em novembro de 2006 a galeria Severo 172 recebeu o projeto GRAP, uma parceria entre a Nação e a poetisa Claudia Roquette-Pinto.
A proposta foi a abertura de um diálogo artístico entre a linguagem visual do grafitti e a linguagem literária da poesia.
Aproximadamente quinze poetas foram convidados por Claudia, cada poeta teve uma de suas obras reconstruídas por os grafiteiros da Nação.
O resultado do projeto pôde ser visto numa noite na Severo 172, além da exposição das telas, o evento contou com a participação do rapper João Xavi e projeções de vídeo.
O DJ, e grafitteiro, Machintal produziu uma música com trechos da leitura de algumas das poesias.
O resultado você pode conferir aqui.
O próximo passo do projeto é realizar uma resposta no sentido inverso:
os poetas irão escrever tendo os grafittis como base.
De os muros às telas de cinema
Ment nos conta que a trajetória da Nação começou nas ruas, " Todo mundo do grupo se identifica com a rua, vem da rua, aprendeu o que sabe na rua.
Ninguém tem formação acadêmica, todo mundo é autodidata.».
Este tipo de atuação rapidamente chamou atenção dos olhares mais atentos.
Em 2004 as atividades da crew foram registradas por Erick Maximiliano Oliveira, que dirigiu o vídeo «Nação».
O documentário de 16 minutos ganhou alguns prêmios em festivais de cinema por todo Brasil.
No meio de um mar de informações que criam a chamada poluição visual, a arte urbana insiste em trazer propostas diferenciadas para cobrir os espaços da cidade.
A rapaziada da Nação vai deixando suas marcas por ai, embelezando o mundo entre a tentativa de viver do grafitti e viver para o grafitti.
Quando perguntado sobre a importância do grafitti em sua vida, Ment responde:
«Eu, hoje em dia, tomo café, almoço e janto grafitti.
Número de frases: 56
É a minha vida mesmo e não sei o que eu faria se não fosse isso».
Campo Grande (MS) -- Foi através do teatro que Américo Calheiros consolidou a sua paixão e percorreu os caminhos da arte sul-mato-grossense.
Atual diretor-presidente da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, é uma personalidade que está há anos em cena nestas terras pantaneiras.
É pernambucano de nascimento, mas foi em Aquidauana, na época estudantil, que tomou gosto por a arte e cultura.
É formado em letras por a Faculdade Dom Aquino de Filosofia, Ciências e Letras (Fucmat) e fez especialização na Escola Martins Pena de Teatro, no Rio de Janeiro.
Reside há cerca de 30 anos em Campo Grande, e durante 18 destes, lecionou em escolas de 1º e 2º graus da Capital.
Homem determinado, Calheiros introduziu o teatro na Rede de Ensino Municipal de Campo Grande.
Trabalhou ainda como editor do caderno cultural Arte-Revista, do extinto Jornal da Cidade e recebeu o prêmio de jornalismo Van Jaffa, como menção especial por ter escrito uma série de artigos sobre o teatro sul-mato-grossense.
Foi um dos criadores do Grupo Teatral Amador Campo-Grandense (Gutac), um dos grupos mais premiados do Estado, onde atuou como diretor e produtor durante 16 anos.
É sua cria também o extinto Grupo Teatral Infantil Campo-Grandense, que apresentou durante anos, espetáculos na Rede Estadual de Ensino de Campo Grande.
Em o âmbito da política cultural, Calheiros desempenhou a função de presidente da Fundação Municipal de Cultura em Campo Grande, de 1997 a 2006, trabalhando sempre por o fortalecimento da identidade e da cultura sul-mato-grossense no Estado e além fronteiras.
Depois de arrumar a «casa da cultura» e ver o público do Estado prestigiar em número expressivo os eventos organizados por a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), órgão que preside desde o ano passado, Américo solta o verbo, no dia mundial do teatro, comemorado em 27 de março, e conta sua relação com o teatro, sua paixão por a escrita e peculiaridades do trato com a cultura sul-mato-grossense.
Acompanhe a entrevista exclusiva:
Qual foi o acontecimento que marcou o início do seu interesse em trabalhar com a cultura?
Américo Calheiros -- Desde muito criança, vi que tinha uma inclinação para trabalhar com a arte e com a cultura.
É vocação pura, é uma coisa nata.
Desde os 3 anos de idade eu fazia painéis nas paredes.
Gradativamente, fui fazendo um pouco de tudo.
Para mim na arte e na cultura não há nada que seja distante da minha pessoa.
Pintei, desenhei, trabalhei com cerâmica.
Desde criança cantei em programas de calouros, fiz teatro, aulas de dança, participei de espetáculos, escrevi.
Sempre tive um trato muito próximo das coisas da arte e da cultura e que sempre foram muito familiares.
Fazem parte da minha própria personalidade e da minha própria formação.
Eu aprendi sempre a enxergar o mundo sob a lente da cultura.
Como se deu o início de sua relação com o teatro?
Américo Calheiros -- Eu já havia participado de alguns grupos de teatro no ginásio, lá em Aquidauana.
Em a época, participei de pequenos papéis em esquetes e curiosidades.
Em a década de 70 vim para Campo Grande, com 16 anos para fazer o curso de letras e através da professora Maria da Glória de Sá Rosa tive a oportunidade de ver meu talento despertado para o campo do teatro.
Ela, como minha professora de literatura, me deu a tarefa de escrever um texto teatral, montar um espetáculo e participar do Festival Mato-Grossense de Teatro, como se chamava na época.
A partir daí, não parei mais.
Sempre escrevendo, produzindo, dirigindo, atuando, mexendo com todas as áreas do teatro.
O teatro é um tipo de arte que congrega todas as demais.
Porque através de ele você pode trabalhar com artes plásticas, com a música, com o cenário, com a literatura, ou seja, todas as formas de expressão artística.
Isso me agradou muito.
Eu comecei fazendo de tudo um pouco, me especializei mais na direção, pois no teatro é isso que mais gosto de fazer.
Mas abri meu coração, a minha mente, a minha vontade e minha realização para o teatro na educação.
Eu penso que o teatro é um instrumento valiosíssimo para educar as emoções e os sentimentos e ele é muito pouco utilizado infelizmente na nossa educação.
A gente vê verdadeiras transformações nas crianças e adolescentes quando eles têm a oportunidade de se aproximar e praticar o teatro como uma forma de expressão mesmo.
É possível você transformar e transformar-se através do teatro.
Como surgiu a idéia de introduzir o teatro nas escolas municipais de Campo Grande?
Américo Calheiros -- Eu era professor de língua portuguesa.
As pessoas sempre pensavam que eu fosse professor de educação artística porque eu trabalhava o texto sempre, depois de ler o seu significado, discutir as palavras e fazer todos aqueles exercícios rotineiros, de forma criativa.
Eu inventava, eu gostava sempre de encontrar formas criativas para ensinar e acabava sempre utilizando o teatro como instrumento.
Transformava os textos em espetáculos de teatro, criava exercícios e jogos dramáticos, de tal forma que praticamente todos os meus alunos tiveram a oportunidade de uma forma ou de outra, de experimentar o fazer teatral.
E dentro da educação, tanto da rede municipal quanto na rede estadual -- trabalhava nas duas redes, eu apaixonado que estava por o teatro, procurei introduzir a técnica teatral dentro das aulas e depois criar festivais de teatro nas escolas.
E isso tomou um tal volume que a gente acabou fazendo o festival de teatro da rede municipal de ensino e depois eu comecei a ministrar cursos.
Eu acabei indo fazer a Escola de Teatro Martins Pena no Rio de Janeiro, por meio de uma bolsa de estudos que consegui aqui através da prefeitura, com o compromisso de voltar e repassar isso para os meus colegas professores na área de educação artística e língua portuguesa.
Foi uma experiência muito boa e muito rica onde eu pude constatar que a arte é realmente capaz de renovar a vida.
Qual era a sua intenção quando ajudou a criar o Grupo Teatral Amador Campo-Grandense (Gutac)?
Américo Calheiros -- A criação do Grupo Teatral Amador Campo-Grandense foi em decorrência do meu exercício teatral, que iniciou na Faculdade Dom Aquino de Filosofia, Ciências e Letras (Fucmat).
à medida que eu fui expandindo este fazer teatral, viajando e participando do movimento teatral.
Em aquele tempo tinha um encontro que se chamava Tempo de Teatro que acontecia em Cuiabá anualmente, onde todos os grupos do Estado participavam, ficavam duas semanas vendo só teatro, fazendo cursos e oficinas discutindo teatro e tendo contato com nomes reconhecidos do teatro do país todo.
à medida que eu fui conhecendo os atores e autores de expressão nacional, fui ficando cada vez mais apaixonado e decidi canalizar estas tranformações, este gosto, este prazer por meio do Gutac.
Eu o criei em 1971 junto com a Cristina Mato Grosso e outros colegas nosso da época e este grupo, além de fazer teatro, era um grupo de estudo, de elaboração de textos teatrais, de discussão sobre o teatro que representou o Estado no projeto Mambembão em 1979, apresentando-se com um bom resultado perante a crítica nacional, em São Paulo, Brasília, Janeiro e Goiânia.
Foi uma experiência muito interessante.
Depois disso, o Gutac foi para outros lugares do Brasil mostrar seus espetáculos, e após 16 anos trabalhando ininterruptamente, nas escolas e também com o Gutac, eu me afastei para me dedicar a outros rumos na minha vida.
Mas realmente o teatro é muito encantador.
Eu penso que todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de ter contato com o teatro no mínimo para ficarem menos inibidas, menos fechadas e com um olhar mais atento para o mundo e para as pessoas.
Porque você criou o Grupo Teatral Infantil Campo-Grandense (Gutic)?
Américo Calheiros -- O Gutic era o filho do Gutac.
Ele foi criado oficialmente numa proposta feita para a Secretaria de Educação do Estado naquela época.
Era um grupo que fazia espetáculos infantis para crianças das escola da nossa Capital.
A idéia era que este grupo atendesse os municípios do Estado.
Foi criado um aqui, outro em Três Lagoas e em Cuiabá.
Nós montamos quatro espetáculos.
Foi o maior sucesso junto à criançada.
Foi muito bom.
Se este trabalho tivesse tido continuidade, levar espetáculos para as escolas, a gente teria hoje um público formado.
Acredito que essa é uma idéia que ainda não é velha.
Ela pode ser trabalhada junto com a educação.
Porém ele não é um projeto que fica barato, é um projeto de vulto.
Em aquela época o número de escolas era bem menor.
Mas vale a pena investir nas informações e na formação artística e cultural para nossa criançada.
Como você vê o cenário teatral de Mato Grosso do Sul?
Américo Calheiros -- Penso que tem boas coisas acontecendo.
Tem um pessoal que trabalha com muito gosto, corre atrás daquilo que quer, faz o que gosta independente da participação ou não do governo, ou seja, o teatro tem sobrevivido.
É importante nós agora na Fundação de Cultura investirmos num projeto voltado à circulação teatral.
Trabalhamos ano passado com um projeto interessante voltado para a formação de diretores de teatro.
Trouxemos a Lúcia Pereira Vaz e diretores de renome nacional para trocar experiências.
Queremos investir mais na circulação, formação na divulgação e apoiar também festivais de teatro como já fizemos o ano passado.
Porque percebemos que está vindo um público bem interessante nestes festivais.
Um novo público.
E isso dá um novo ânimo para quem faz teatro.
Porque quem faz teatro quer que as pessoas vejam o que ele produz.
Então tudo que pudermos fazer para incentivar a produção de qualidade, conseqüênte e criativa, faremos.
Em que momento você percebeu seu talento como escritor?
Américo Calheiros -- Eu nunca me julguei um escritor.
Porque normalmente quando você chega na adolescência você vai desenhando na sua cabeça, suas possibilidades de profissão.
Eu achei que um dia eu seria um pintor, um artista plástico, um cantor ...
Mas eu jamais imaginei que eu me dedicaria à escrita com o prazer que eu me dedico hoje.
Eu sempre escrevi certinho, mas não achava que tivesse nada de especial nas coisas que eu escrevia.
Em o meu exercício profissional eu fui aprimorando o ato de escrever por o simples fato que as pessoas não gostam de escrever.
Então como em toda minha vida eu sempre fui muito impaciente com as coisas, quando se precisava de um texto, de um ofício, a pessoa que devia fazer demorava tanto que eu pegava e resolvia fazer.
Aí eu fui pegando o gosto através deste tipo de necessidade.
Então escrever para mim foi um ato prático, utilitário.
Não era um ato de sonhar, de ficcionar, de viajar por as entranhas das palavras de significâncias e significados.
Era um ato de necessidade e acabava que tudo vinha para a minha mão, nas escolas e em todos os lugares que eu trabalhava.
De aí para pular ao livro foi um passo.
Toda a vida eu escrevi, em todos os lugares que eu estava eu acabava escrevendo, a experiência no Jornal da Cidade também foi muito boa, eu acabei escrevendo também para algumas revistas de renome nacional artigos sobre teatro e acabava colaborando com um jornal e outro.
A escrita entrou de uma forma na minha vida que hoje ela é uma das atividades que me proporciona mais prazer.
Não quero dizer com isso que me transformei num escritor, mas gosto de escrever, escrevo praticamente todos os dias e se tem uma coisa que quero fazer, com ainda mais cuidado, mais interesse e quando eu tiver a possibilidade de me dedicar integralmente a isso, é escrever.
Como apareceu a oportunidade de trabalhar como editor do caderno cultural Arte-Revista?
Américo Calheiros -- O Pietro Tolentino, que era o proprietário do Jornal da Cidade, um jornal que infelizmente foi extinto porque foi o pioneiro aqui em Campo Grande na divulgação da arte e da cultura.
Foi o primeiro jornal que abriu de ponta a ponta um espaço para os artistas da terra, os fazedores de cultura, os animadores culturais.
Em ele tinha um caderno que o Pietro me convidou para editar e eu trabalhei neste caderno chamado Arte-Revista onde fizemos inúmeras matérias.
Lá, por exemplo, foi publicada a primeira matéria que se fez sobre a comunidade Tia Eva.
Uma matéria de minha autoria e que depois compôs um livro com uma série de matérias dessas.
Fiz um condensado e publiquei um livro chamado " Memórias de Jornal.
Estas matérias depois deram muitas pistas para pesquisadores das nossas universidades sobre temas culturais.
Como a festa da Santinha do Cocho, como já disse, a comunidade Tia Eva e o que ela representa para Campo Grande e para Mato Grosso do Sul, Glauce Rocha, Beth e Betinha, Délio e Delinha, Amambay e Amambaí, de entre outras.
Este livro mostra um panorama do que estava acontecendo naquele momento na arte de Mato Grosso do Sul.
O que significou para você receber o prêmio de jornalismo Van Jaffa.
Em que ano aconteceu isso?
Américo Calheiros -- Foi nesta mesma época, entre 1979 e 1980.
Foi um prêmio de âmbito nacional, dirigido à matérias sobre teatro.
Quem tivesse um conjunto de matérias sobre teatro, as mandava para participar do prêmio.
E como eu tinhas as minhas matérias publicadas no Jornal da Cidade, enviei e fui agraciado com o prêmio de menção especial.
Como você consegue equilibrar na escolha da programação dos eventos da FCMS, as atrações que o público gosta e aquelas que ainda necessitam formar público?
Américo Calheiros -- Você tem que trabalhar em cima da criação popular.
Está tudo aí à mostra.
Tem que botar o sentimento para funcionar, o feeling, tem que estar atento para tudo o que está acontecendo, tem que ter o despojamento necessário para você não trabalhar apenas com aquilo que você gosta e que você quer, tem que estar numa audição permanente com as pessoas e você vai também recebendo sugestões e trabalhando em cima daquilo que é o desejo das pessoas.
Até porque elas dizem ou individualmente, ou em grupos, ou em associações, entidades ...
De a forma como elas trabalham, elas se manifestam trazendo projetos e sugestões.
Por outro lado, você não pode esquecer daqueles projetos que têm um número maior de pessoas envolvidas, como a música por exemplo, que é o carro chefe da cultura sul-mato-grossense e da cultura brasileira e aglutina um número grande de pessoas em torno de ela.
Mas você não pode esquecer também da literatura, num país que tem um índice baixíssimo de leitura, chega apenas a 2.1 livros lidos por ano, você não pode esquecer da música erudita também, que é uma vertente menos divulgada da música, não pode esquecer da poesia, que está dentro de literatura mas é um viés muito específico, das artes plásticas no campo da informação, das artes visuais como um todo, como o cinema com toda a sua capacidade de formar uma visão crítica da nossa sociedade e outras manifestações que precisam ser acudidas que estão buscando público junto às escolas, às comunidades e no nosso caso, buscando o público dos municípios do interior do Estado.
De as expressões artísticas, qual é aquela que você tem mais xodó?
Américo Calheiros -- Eu gosto de todas.
Tudo me dá prazer.
Tudo que é produto de um trabalho feito com competência e sensibilidade.
Porque não adianta só você gostar.
Você tem que correr atrás do conhecimento.
Você tem que estudar, pesquisar, saber do que você está falando e fazendo.
às vezes a pessoa tem um grande talento, nasce um grande ator ou atriz, mas você tem que aprimorar sua técnica vocal, cuidar mais do seu corpo que é um instrumento de trabalho no teatro, tem que conhecer a história do teatro.
Você pode ser um bom artista, mas se você não correr atrás das técnicas, você vai ficar ultrapassado.
Então eu gosto de todo trabalho artístico que é bem feito e produto de intuição, conhecimento, sensibilidade e educação.
Qual é a diferença em administrar uma Fundação de Cultura do Município de uma Fundação de Cultura do Estado?
Américo Calheiros -- A do Estado tem uma abrangência maior, que obriga a enxergar numa dimensão mais ampla.
Você precisa estar voltado para o Estado como um todo e é por isso que nós buscamos a trabalhar a cultura aliada à questão do desenvolvimento.
Porque a cultura hoje no mundo, gera emprego, gera renda, as indústrias produtivas estão vendendo milhares de eventos mundo afora, baseadas nas manifestações de arte e cultura dos diversos países do mundo.
Estão exportando seus produtos culturais, que já colocou os Estados Unidos na vanguarda destas exportações nesta área desde a década passada.
Embora em Mato Grosso do Sul, esta realidade ainda seja tímida, nós temos a confiança e a esperança que nós possamos um dia, melhorar o nosso patamar de desenvolvimento cultural em consonância com o desenvolvimento econômico.
Qual foi o espetáculo feito por artistas sul-mato-grossenses que mais te emocionou?
Américo Calheiros -- Já passei tantas emoções, como diria Roberto Carlos.
Porque cada um, a seu tempo, a seu momento nos provoca uma reflexão, uma emoção.
Porque a emoção nunca está destituída da reflexão.
Você é tocado por o sentimento e por o pensamento.
Todo espetáculo provoca sua mente, sua alma, seu corpo.
É um estado total de alteração quando você vê um bom espetáculo.
Você vê que tem muita coisa boa no Estado e tem coisas que ainda têm que alcançar um patamar maior.
Mas tanto na música, como no teatro tenho visto grandes espetáculos.
Se eu for citar apenas um, eu não estaria fazendo jus a todos.
Como você definiria a cultura sul-mato-grossense?
Américo Calheiros -- Ela é uma cultura produto dos distintos povos aqui existentes.
De as influências destes povos fantásticos que fazem parte da nossa miscigenação étnica e cultural ao mesmo tempo.
O Brasil de um modo geral teve a presença de muitos povos desde a colonização, mas aqui em Mato Grosso do Sul, a gente vê uma presença mais concentrada tanto dos libaneses, italianos, japoneses que aqui plantaram raízes e se juntaram impregnando a nossa terra, o nosso sonho, a nossa cultura, a nossa vivência, o nosso modo de ser, tudo isso interligado com este solo novo que estava pronto para receber isso.
Mais ainda, porque nós temos duas fronteiras secas aqui, uma com o Paraguai e outra com a Bolívia, e nós não podemos desconsiderar a influência destes dois países, que eu me lembro muito bem quando criança, que a força da influência paraguaia e boliviana era muito grande na música, na gastronomia.
A resultante de todas essas influências, somadas à cultura pantaneira é o que retrata uma cultura que está em crescimento e formação.
Nós somos um Estado novo e hoje estamos com uma fisionomia sendo construída, mas percebemos estas marcas fortes incluindo também a cultura indígena que está muito esquecida.
Número de frases: 158
Testemumha Ocular agita o rap goiano valendo-se das tradições culturais do Cerrado e fazendo música com Marcelo D2 e a turma do novo rap paulista
Em Pernambuco, foram artistas com pendores ao rock que buscaram nas tradições um amálgama que deu no mangue bit.
Em Goiás, antes mesmo do rock, foi o rap que absorveu a catira, folia de reis, a moda de viola e outras tradições do Cerrado.
O grupo Testemunha Ocular iniciou o artifício em 2000 (o rock, com os CarasLegais, só a partir de 2002), com um EP de seis músicas que apresentava o movimento Bate-Cabeça do Cerrado (UBC2).
Agora, o grupo (na verdade um trio, formado por os MCs Claudim e Lethal e o DJ Eduardão) aprofunda a busca em Frutos da Rua, primeiro disco «cheio» em que trazem Marcelo D2 e o rapper paulista Paulo Napoli para integrar o experimento que une a cultura nativa do cerrado com o cosmopolistimo rimado.
É pequi com scratch.
«É experimento mesmo, passamos mais de um ano construindo as músicas, sampleando os trechos das tradições para costurar nas bases e não sabemos bem onde vai dar isso», explica Cláudio Roberto dos Santos, o MC Claudim.
São 15 faixas em que o grupo entremeia no canto-fala palmadas de catira, acordes de viola caipira e risadas de Geraldinho Nogueira (1915-1993), figura que fez história em Goiás nos anos 80 por o jeito naturalmente jeca e carismático de contar «causos».
Algumas músicas são de feliz construção, como em União Enfumaçada, um freestyle (rima instantânea) com Marcelo D2, outras nem tanto.
«Fazer samba com rap é fácil, o problema é fazer rap com tradições de frágil notação e conhecimento formal», acha Claudim, comparando as misturas do Testemunha Ocular com a experiência de samba-rap de Marcelo D2 que deu no disco à Procura da Batida perfeita.
Em a União Enfumaçada com os rappers goianos, o carioca cita frases do disco de ele (de 2003, Sony).
MC Claudim explica que a parceria com D2, gravada em setembro de 2003, surgiu nas primeiras vindas de ele à extinta casa de música eletrônica Pulse Club & Lounge, bem antes, portanto, do crescimento da fama de D2, do disco com a MTV e de shows para grifes de moda.
Além das tradições, o Testemumha Ocular flerta com gêneros e músicos de paragens diversas.
Dom Divino exibe samples de folia sob base hip hop com rasgados riffs de hardcore do grupo Corja.
É a trupe roqueira do selo Two Beers or Not Two Beers, espécie de lado B do rock independente goiano.
E tem mais rock no disco, reprocessado numa Sociedade Quase Alternativa evocando Raul Seixas.
O produtor do álbum do Testemunha (que saiu por o selo Two Beers ...)
também é roqueiro, Edson Cruzorff (líder da banda " Cruzorff).
«Lançamos o CD por um selo de rock por falta de alternativas no movimento hip hop daqui.
Mas o Bate-Cabeça quer mesmo ampliar as possibilidades do rap, mostrá-lo com irreverência e outra visão dos conflitos sociais», recita o Mestre de Cerimônias enumerando parceiros dentro e fora do disco Frutos da Rua:
o grupo percussivo Coró de Pau, Som Ativo (que funde rap e capoeira), o violeiro folião Domá da Conceição, o grupo de reggae Mamma Jamma.
Co-assina com eles no álbum os Rimadores Pekizeiros, grupo de rap formado por 12 pessoas incluindo pesquisadores acadêmicos.
MC Claudim bota o movimento Bate-Cabeça no contexto do novo rap nacional.
Puxado por os rappers de São Paulo, o hip hop brasileiro busca se desvencilhar do arremedo norte-americano incutindo coisas do Brasil no som e novas nuances na prosa violenta que costuma caracterizar a rima.
«A gente canta o que a gente vive, mas queremos evitar o caminho único que o rap vinha tomando», resume ele, que mora no Setor Norte-Ferroviário.
Em as regiões norte e noroeste, as mais pobres da capital, estão os principais personagens do rap goiano.
Mesmo com suas diferenças (mais de execução do que ideológicas), os diversos grupos de rap de Goiás movem-se juntos para «criar a cena», nas palavras de MC Claudim.
Um destes principais pontos de convergência, os grupos de cultura de rua de Goiânia encontraram no evento batizado de Hip Hop Rua.
Em duas edições ampliadas já realizadas, rappers, MCs, DJs e b-boys se irmanam para celebrar a caminhada que cada qual vai fazendo em seu bairro ou região de atuação.
Essa movimentação foi registrada para virar um documentário em DVD, preparado com apoio da turma do Centro de Mídia Independente em Goiás (CMI).
Em esse esforço de organização (que começa a ter também um ponto de referência comercial na Hocus Pocus, outrora sebo-trincheira de roqueiros), a aproximação com os pares paulistas é um salto que tomou novo impulso há pouco.
Testemunha Ocular e o Doxsoul integraram uma coletânea que foi lançada por Paulo Napoli, um dos produtores de proa do underground paulista (é parceiro de, entre outros, Parteum e Rappin'Hood).
Raps de verão, disco produzido de forma independente, reúne em 16 músicas de grupos, rappers e MCs de vários cantos do Brasil.
O Testemunha Ocular mandou a faixa-título do novo disco, enquanto Doxsoul (projeto do MC Geibson) abre a coletânea com Depois da Primavera.
O som de todos eles (tem gente do Rio, Blumenau, Curitiba, etc.) busca driblar a rima dura das favelas e as monocórdicas bases (tem trompete e flugel puxando uma melodia jazzy em A Cartilha, do grupo A Filial).
O Testemunha Ocular vai mostrando Frutos da Rua em praças públicas, em festas sempre recheadas de outros «crews» (grupos) de break e rap.
Um segundo álbum-colet ânea já está sendo programado, agora todo feito em Goiás e só com «manos goianos».
Número de frases: 37
Eles nunca se movem sozinhos e esse parece ser o principal trunfo.
Em um imenso galpão com estruturas metálicas, acontece todo ano um evento que prima por a liberdade.
É o Fórum Internacional Software Livre, o fisl, que chega a sua oitava edição cada vez maior.
E mais diversificado.
Diferentes tipos circulam por o local em harmonia.
E não haveria por que ser diferente.
Todos estão lá por um motivo em comum:
o uso de ferramentas livres, baseadas na colaboração.
E dentro desse evento, ocorre outra manifestação de liberdade:
o Criei, Tive Como!,
Festival Multimídia de Cultura Livre do Brasil, que acontece por a segunda vez.
Se no ano passado o festival tinha um estande acanhado, num dos cantos do Centro de Eventos da Fiergs, em Porto Alegre, agora as coisas foram bem diferentes.
E Como!
Um estande central foi montado, com direito a banquinhos brancos e cortinas feitas com tubo de plástico, o que garantiu o resultado mais bonito entre todos os estandes, sem dúvida.
Mas não ficou só por aí (e não mesmo!).
O espaço contou com um estúdio de rádio e um estúdio de TV em pleno estande, que projetou vídeos o tempo inteiro, chamando a atenção dos participantes.
Comandadas por Gabriel Menotti, do Cine Falcatrua, as projeções não seguiam uma programação prévia.
«Ano passado a gente preparou um mote especial pra cá, que passava num horário determinado.
Em esse ano, a gente tá controlando a transmissão 24 horas», conta.
Foi feita uma grade de programação de 36 horas, com materiais da internet e enviados através de uma convocação especial para o festival, mas o que se viu por lá foram pessoas levando seus vídeos para passar sem marcar hora, bem no espírito colaborativo da cultura livre.
«Naturalmente, você fazendo a programação do lado do espaço de exibição, as pessoas têm acesso não só a tela como ao dispositivo de controle e também a nós, que estamos controlando a estrutura.
Então você tem um diálogo muito maior entre os projecionistas e o público», completa.
Sem dúvida, houve uma evolução no comparativo com o ano anterior.
Quem confirma isso é o Vj pixel, que viu o festival crescer:
«Esse ano a gente tem uma estrutura bem maior, que não atinge só o público que tá circulando por o fisl, mas atinge as pessoas que acessam o site do fisl na internet também, porque a gente tem uma TV e uma rádio que tão sendo exibidas aqui internamente.
A gente tem um telão e uma caixa de som com a programação da rádio, mas tem também streaming desse material que a gente tá produzindo, que é onde tá a maior parte do público».
Mas a evolução não ficou só na estrutura do estande e dos conteúdos.
O famoso show de abertura do festival também cresceu e se diversificou.
Realizada no Teatro do Sesi, local ao lado do espaço do fisl, a noite começou com os gaúchos da Bataclã FC, que entraram no palco com uniformes do DMLU, o Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre e abriram o show com o clássico Amigo Punk.
A certa altura, o vocalista Richard Serraria chamou o público que dançava na fila do gargarejo a subir ao palco, com o comentário «É software livre, é palco livre», mas acho que a cara feia dos seguranças não motivou o pessoal a se arriscar.
Não que isso tenha sido problema:
Richard acabou o show no meio da massa, cantando com as mãos para a cima, para a alegria de todos.
A segunda atração foi o DJ Dolores, que antes de tocar comentou que muita gente considerava que fazer música no computador era como enviar um e-mail, uma atividade burocrática e sem vida.
Pra fechar o seu discurso, largou um «Então me dêem licença que eu vou ali passar um e-mail», sob os aplausos do público.
O ponto alto foi o dueto com a rabeca do Maciel Salustiano, filho do Mestre Salustiano, que fizeram uma performance de arrepiar.
Em a seqüência, vieram os DJs Lucio K e JC, ganhadores do Overmixter, Concurso de Remixes Brasil-áfrica do Sul.
O sul-africano JC abriu os trabalhos com o seu remix vencedor e convidou o público a bater palma enquanto a mistura sonora invadia o recinto.
Em seguida, foi a vez do Lucio K, com o seu remix vencedor Tudo Vem da África e com uma faixa do seu último disco, que mistura carimbó com música eletrônica, agitando a platéia.
Pra valer:
«Em o final, ainda recebi de um espectador um dos melhores elogios possíveis:
«fiquei impressionado com o groove que você tem, mesmo sendo branco assim!»,
diverte-se o Lucio.
Encerrando a noite, os pernambucanos do Mombojó fizeram um ótimo show, com o público cantando junto e dançando.
Em o final, o vocalista Felipe S. convidou o povo pra subir ao palco, e ao contrário do show da Bataclã, o convite foi aceito, com uma galera invadindo o palco e pulando muito, pelo menos até a hora em que os seguranças começaram a tirar todo mundo de lá.
Mas foi uma bela forma de terminar a festa, com alegria e empolgação, características que marcaram não só os shows como os três dias de Criei, Tive Como!
E no que depender do Vj pixel, que por a segunda vez fez a ambientação visual do show (esse ano ao lado do inglês Salsaman), o Criei tem tudo para melhorar cada vez mais empolgante:
«A gente gostou muito da estrutura que tem aqui, todo mundo tá adorando fazer.
Nossa intenção é, terminando o evento, refletir sobre isso e escrever um relatório sobre o que foi bom e o que foi ruim, pra no ano que vem fazer uma estrutura semelhante, mas ainda melhor».
Número de frases: 48
Por o que vi nos três dias de evento, tenho certeza que esse objetivo vai ser alcançado.
Memórias do mundo intermediário (entre a Novela e a favela)
Fiquei chocado ontem, ao ver Casseta e Planeta.
A Folha havia comentado que a tendência seria perder o humor, perdendo Bussunda.
Achei forçado, na época.
Mas convenhamos:
primeira piada-o Lula de pé enfaixado com a faixa presidencial, perguntando se a faixa vai ficar com chulé;
depois carros, barulho e um cara que diz fazer jardinagem como terapia, fala no divã com girassóis (está bem mais engraçado nesta linha);
um campeonato de «adolescentes» baderneiros que cantavam " daqui para o Carandirú ..."
e por aí vai ...
Ah, teve também a que dizia que o sósia de Lula não teve permissão de pousar por causa dos controladores de vôo ...
Piada sobre o Lula ainda, que saco!
A Marinete também achou muito engraçado um monte de carne que cai no chão, «é cordeiro ao chão».
Huahaha.
Conversa simplificada, para o povo entender, claro.
Meios de Comércio Social. Mas não exagerem ...
(Povo, que povo?
Fazendo como cidadão comum uma carteira de identidade descobri que se leva uma hora na fila;
tem um cartaz que diz:
«Para ser isento de taxa tem de comprovar renda de menos de 400 reais, não ter dinheiro na hora não significa ser carente».
Como é?
Para ser carente têm de estar de carteira assinada?)
Hoje, no Correio, uma senhora na minha frente dizia:
«Quero zento».
«O que?»,
perguntou a funcionaria.
«Zento Ah, declaração de isento." A moça disse que seu nome no CPF não correspondia ao seu nome na identidade, era preciso ir na Receita Federal, ela saiu dizendo» eu lhe digo que tenho CPF desde antes de meu marido falecer, ora essa, não tenho CPF ..."
Depois a moça comentou como é difícil lidar com as pessoas, " Eu não sabia que o povão era assim, levei um susto, esse é o mundo em que eu vivo?
Eles não entendem que CNPJ e CPF são diferente, ou que Isento é diferente de Imposto de Renda.
Era para ser algo simples, mas leva meia hora."
Conversa simplificada, formação simplificada, conversa simplificada.
Educação também não tem a ver com viver:
você fica aí nessa escola-lixão e espera 8 anos para começar a comer.
Uma amiga minha, professora do Estado do RS, comenta que há quatro meses não recebe ...
Salário? Por quê?
Vejo na TV:
«De acordo com a pesquisa da Universidade das Nações Unidas, Roger e Amanda -- com um patrimônio de mais de US$ 500 mil -- fazem parte dos 2 % mais ricos do planeta.
São pessoas que detêm mais de 50 % da riqueza que está nas mãos das famílias».
http://jg.globo.com/ JGlobo / 0,19125, VTJ0-2742-20061205-255759,00.h tml
Estamos fadados a viver entre uma aristocracia universitária, com suas fórmulas abstratas herdadas da tradição e incapaz de resolver coisas simples, com idéias simples e uma incapacidade brutal dos herdeiros da invasão de partilhar a cultura dos centros de poder e informação e de criar a sua própria?
Lembro que ao ver um filme francês absolutamente subjetivo, silencioso, «O Filho», um cara disse na saída do cinema:
«Foram os seis reais pior gastos em toda minha vida».
Número de frases: 42
« (Re) lendo Bandeira, o Manuel de todas as deliciosas horas entre procuras e prateleiras, as lombadas de letras douradas, da modesta biblioteca do Colégio Estadual Professor Pedro Gomes, que me encheu os olhos de uma febril cobiça.
Entre química orgânica, fisico-química, trigonometria, matrizes, tabela periódica, números atômicos, camadas de cebola no microscópio, a biblioteca, o rito de delícias quase secretas, a minha imensa Alexandria!
Aqueles corredores de aço sustentando o vôo de Pégaso, a inscrição que acredito, com toda a nitidez da memória -- até faço uma oração se for preciso, ali, no pátio.
Tomara que perdure ainda hoje, tomara, aguçando a pinotes minha imaginação, algo como Pégaso transportou os deuses à fonte da sabedoria.
Meu Deus, que momento sublime!
Ainda hoje não consigo uma palavra, uma imagem que dê a real e imaginária dimensão daquela sensação de estranha leitura fazendo cócegas na minha alma querendo aquelas asas, aquela fonte, aquele olimpo, aquela viagem, aquela força!
E nos últimos dias, mergulhada conscientemente em Bandeira, o poeta de rosas e estrelas, o que ria mais porque era dentuço e que amava de devoção Carlos Drummond de Andrade -- ao ponto de dizer categoricamente que quem não concordasse que este sim era o maioral favor nem cumprimentá-lo ...
O poeta que dava valor à inspiração e acreditava na reabilitação do lugar-comum.
Novamente, a lombada dourada do livro de capa encarnada, Estrela da Vida Inteira, atiçando a fome de todos os meus sentidos.
Fecho o livro, fecho os olhos, e recito mentalmente poemas inteiros, que se apossaram definitivamente da minha alma naquelas manhãs e tardes da primeira biblioteca da minha vida -- e era o máximo, para quem cresceu numa casa desprovida de livros e num tempo que boa literatura não se comprava em banca de revistas.
E lá vem Bandeira, todo faceiro, irreverente, modernoso como muitos mesmo hoje, no tempo de todos os experimentalismos e possibilidades, não ousariam.
Rabisco -- a lápis, pois jamais cometeria a heresia de uma esferográfica na página de um livro.
Rabisco e rabisco, sublinhando inusitadas construções.
E fico ali, minutos afoitos, de queixo caído.
Bandeira, o poeta que pintava musical e afinadamente paisagens surreais, febris, as suas palavras ali, vigorosas com pinceladas geniais comendo nossa emoção e nossos ouvidos.
E nem fico embasbacada nos poemas-emblemas, passando ao largo do Itinerário de Pasárgada e nem ousando entrar naquele consultório do médico maluco que habitava o poeta e receitava sem cerimônias um tango argentino ...
Não, fico com o Bandeira dos becos e dos mangues de Recife, das festas populares e das ruas frenéticas, da geometria do corpo das mulheres, que tirava poesia de comerciais, como a Balada das três mulheres do sabonete Araxá, do Capibaribe numa transposição musical de vogais, curva sonoramente perfeita acariciando os ouvidos, Capiberibe ... (
Evocação do Recife). O Bandeira na folia da poesia que se travestia de moço na gandaia, que tomava alegria como quem toma éter, pedindo às moças ...
Em a boca, na boca ...
Em a boca, na boca, não resisto às palavras de Bandeira.
Penso no aeroporto com poesia.
Aviões que chegam, aviões que saem, que cortam os ares e as almas, nos dando as lições da partida.
Penso, profundamente, no forro da mesa posta, no campo lavrado da labuta diária e na minha mãe, às portas do nunca mais, preocupada em que colocássemos água no filtro, e a indesejada das horas chegando.
Penso, no silêncio das cinzas da fogueira apagada das festas juninas sobre as quais caminho na poesia de Bandeira e nos terreiros varridos nos junhos perdidos da devoção dos santos da minha avó.
Penso e aspiro o perfume de todas as pétalas da rosa poética de Bandeira e na estrela luzindo alto no firmamento de suas palavras encantadas ...
Penso, amorosamente, no meu primeiro encontro com Bandeira, no labirinto divino da biblioteca em que descobri a meada do fio de Ariadne e naquele instante mágico que suas palavras construíram em mim outros sentidos e encadeamentos, e tome poesia na minha cadeia atômica ...
Moléculas de oxigênio, carbono, hidrogênio, ácido, base, fórmulas ...
Hidroxila! Que palavra mais linda!
Poeticamente, cheia de Bandeira, ouso os encontros inesperados da poesia ...
E solto sem medo as rédeas de Pégaso e Bandeira tremula dentro de mim com a amplidão sempre virgem e inexplorada da sua poesia.
Por mais que a habitemos e por mais que ela perpetue em nós a devoção de um espaço sagrado, ela vem fresquinha, como uma brisa nova por uma fresta de palavra mais nova ainda ...
E tem aquele sabor de primeiro amor, sedução de ângulos e sentidos e sons e irreverência.
Mesmo naquela levada de tristeza, quanto humor rangia fundo dentro do espirituoso Manuel.
E a poesia de Bandeira eu quero sempre na boca, como um esguicho de alegria de palavra recém-brotando da fonte, estalando na ponta da língua, mesmo que nos tortuosos e sombrios caminhos das dores da alma que não têm cura.
Tremula Bandeira, tremula!
As suas palavras poéticas habitam o mar aberto e o porto de passagem das almas onde inexiste a possibilidade de âncora.
E o Capibaribe de sua poesia deságua em Alexandria de todos os tempos futuros e a fonte jorra e Pégaso transporta suas rosas e estrelas para a eternidade dos deuses.
E sempre haverá uma estrela luzindo no fim do dia, no começo de tudo, com alumbramento, cada vez que alguém abrir um livro de Manuel, o Bandeira de uma vida inteira.
Número de frases: 38
Em a última quarta-feira, faleceu, na cidade do Recife, a escritora Maria do Carmo Barreto Campello de Melo.
Vítima de um AVC hemorrágico, estava internada desde o último dia 14 e havia completado 84 anos recentemente.
Maria do Carmo, ou simplesmente Carminha, como costumava ser tratada, nasceu no Recife em 21 de julho de 1924.
Foi escritora, jornalista, formou-se em Letras, ocupou cargos ligados à educação e à cultura, foi membro de instituições literárias, entre elas a Academia Pernambucana de Letras -- APL, a Academia de Artes e Letras do Nordeste, da qual era acadêmica emérita, e a União Brasileira de Escritores -- UBE-PE.
Publicou doze livros de poesia:
Música do Silêncio -- 1º Momento:
Os Símbolos;
2º Momento:
Os Sobreviventes (1968);
Música do Silêncio -- 3º Momento:
Ciclo da Solidão (1971);
Música do Silêncio -- 4º Momento:
O Tempo Reinventado (1972);
VerdeVida:
O Tempo Simultâneo;
Música do Silêncio -- 5º Momento:
As Circunstâncias (1976);
Ser em Trânsito (1979);
Miradouro (1982);
Partitura Sem Som (1983);
De Adeus e Borboletas (1985);
Retrato Abstrato (1990);
Solidão Compartilhada (1994);
Visitação da Vida (2000);
e A Consoada (2003).
Carminha desenhou um rastro indelével de palavras por onde circulou.
Em ela, a poetisa e a mulher estavam inextrincavelmente misturadas.
Teve uma dedicação praticamente integral à literatura e à vida cultural.
Participava de quase tudo que acontecia nos meios literários do Recife.
Eram palestras, lançamentos de livros, encontros, congressos, comissões de prêmios literários.
Quando o fazia, não atuava de forma acomodada, que o tempo e o prestígio poderiam lhe proporcionar.
Tinha sempre um papel verdadeiramente ativo.
Nunca se colocou em posição destacada que a afastasse do labor e do prazer do contato com as pessoas.
Recentemente, havia participado do Projeto Arte e Vida, como coordenadora de literatura.
O objetivo da iniciativa era tirar crianças e adolescentes da convivência com a violência e o tráfico de drogas em favelas da cidade.
Como pessoa, era uma mulher serena e intensa.
Como escritora, é uma das mais importantes da literatura contemporânea de Pernambuco.
A família busca, agora, apoio para publicar suas obras completas, por meio do Funcultura, fundo estadual de cultura de Pernambuco.
Confiram o poema Lição de Amor, do livro Solidão Compartilhada.
Para ler mais, clique aqui
Nota: Conheci Carminha em 1995, quando coordenamos o I Congresso Nacional dos Escritores em Pernambuco, promovido por a União Brasileira de Escritores -- Secção Pernambuco -- UBE-PE, à época sob a presidência do Escritor Flávio Chaves.
O evento foi realizado no período de 15 a 17 de novembro e contou com palestras de Nélida Piñon, Ariano Suassuna, José Castelo, João Silvério Trevisan, Domingos Carvalho da Silva e Bruno Tolentino, entre outros.
Ela fez o prefácio de meu segundo livro, A Pulsação Repleta, lançado por a Fundarpe / Cepe.
Lá estava, «poesia contida, despojada, limpa como o linho, sem excessos nem acessórios».
Número de frases: 44
Foram as palavras mais bonitas que eu já havia ouvido sobre a minha poesia.
Em o ano passado participei de uma mesa de discussão dentro da programação do FUCA -- Festival Universitário de Cultura e Arte, promovido por o DCE da UFMG, e ao meu lado estava o jornalista Rodrigo James, especialista em cultura pop.
Nossa discussão teve o tema sugerido por a comissão organizadora, que tinha o imponente título de «Produção Musical e Indústria Cultural».
Em a ocasião estavam presentes estudantes, músicos e uma colega / amiga do mestrado em estética e filosofia da arte na UFOP, a estudante de Adorno Adriane Pisani.
Retomando a problemática que inspirou Benjamin e Baudelaire e, para «esquentar» logo a discussão, coloquei a iminente questão:
É possível fazer arte no capitalismo?
Inspirado por a terminologia adorniana que o título de nosso debate continha, quis verificar como a platéia reagiria à minha provocação e, se concordassem com o autor do conceito de Indústria Cultural, como eles usariam os argumentos de Adorno diante da produção musical contemporânea.
Para Adorno a Indústria Cultural desenvolveu-se de tal maneira que nosso próprio modo de sentir, fruir, perceber e entender o mundo estariam sendo «padronizados» aos moldes da indústria cultural que segue a lógica do sistema capitalista e toda arte que afirme os elementos deste sistema seria heterônima, ou seja, estaria subordinada às regras do sistema e portanto não poderia ser considerada arte autêntica.
A arte propriamente dita teria de dar a si mesma suas próprias regras, ou seja, teria de ser autônoma e negar o modo de vida imposto por a indústria cultural, na medida em que esse modo de vida estaria reprimido por as amarras da lógica capitalista, essa negação buscaria um modo de vida menos repressivo.
O argumento de Adorno é imbatível, mas me parece estar numa esfera distante da vida prática.
Se partirmos de Adorno, nenhum produto da indústria cultural poderia ser considerado arte e, nenhum tipo de produção musical contemporânea seria validado, poderíamos agrupar todos os trabalhos musicais atuais «no mesmo saco», de Calypso a Chico Buarque.
E não há como negar que, por mais clichê que uma canção pop seja, os sentimentos, lembranças pessoais, identificações e prazer que ela pode despertar são muito mais complexos do que a própria indústria cultural.
Tanto eu, quanto o Rodrigo James defendemos a possibilidade de arte no capitalismo.
Em minha fala usei dois conceitos para embasar meus argumentos.
Comecei por Hakim Bey e seu livro intitulado «Zonas Autônomas Temporárias» no qual ele sugere uma forma de fazer arte dentro do sistema capitalista utilizando-se dos elementos do próprio sistema, criando zonas autônomas temporárias que se desintegrariam antes que o sistema as incorporasse como mercadoria ou reprimissem a idéia.
As zonas autônomas temporárias sugerem intervenções efêmeras que manteriam sua autenticidade por garantirem o caráter transgressor e, ao mesmo tempo, dar a si mesmo as regras de sua execução, sem se submeter à lógica do mercado, mas utilizando-se dos recursos do próprio sistema.
O segundo conceito que utilizei se refere ao filósofo italiano Luigi Pareyson, que concebe a arte como pura formatividade, ou seja, um fazer que ao mesmo tempo inventa as próprias regras para sua execução, no qual a obra é entendida como um organismo que dialoga com o artista e este, inserido em seu tempo e espaço, com toda sua história pessoal, faz a obra de arte.
Portanto, a partir da teoria da formatividade, podemos falar de presença da arte nas demais atividades humanas, na medida em que toda atividade tem um caráter inventivo (formativo), e da presença dos demais valores e atividades na arte, já que a arte está impregnada do mundo do artista.
Mas o aspecto artístico de toda operação humana não consiste em suprimir a possibilidade de conceber a arte propriamente dita.
Segundo Pareyson, Fazer com arte é diferente de fazer arte.
O conceito de formatividade permite compreender a gradação infinita que vai do mais humilde e subordinado fazer com arte ao fazer arte mais elevado e autônomo, sem acarretar comprometimento dos valores.
A autonomia da arte, para Pareyson, está justamente na própria especificação da forma artística.
Esta consiste precisamente em não querer ter outra justificativa que não a de ser um «puro êxito», uma forma que vive de per si.
Portanto seu êxito pode não estar subordinado a fins externos e a obra tem de estar direcionada apenas para seu êxito enquanto forma artística e para sua adequação com si mesma.
Em alguns casos uma obra de arte pode ter em mira algum fim externo, como um jingle, por exemplo, mas o que garante sua autonomia é o fato de seu êxito como forma artística não depender deste fim.
No caso da produção musical o êxito pode ficar comprometido por os fins mercadológicos.
Um jingle publicitário tem diversos fins externos, como, vender um produto, provocar identificação com determinado grupo de possíveis consumidores, adequar-se a um determinado padrão de gosto, etc..
Mas mesmo com todos esses fins ele pode ter como elemento axial, ou seja, que garante seu êxito enquanto forma artística, um fim em si mesmo.
Como exemplo citarei uma gravação que consta no álbum «Mutantes» de 1969, no qual foi incluída a canção «Algo Mais» como uma música comum e esta vigorosa canção sobrevive de per si, pois independentemente da finalidade que guiou sua composição, ela tem como sustentação e garantia de seu êxito, elementos independentes do fato de ter sido um jingle para a Shell.
Nelson Mota, no encarte do disco Mutantes de 1969 nos diz " Com raro sentido de invenção e liberdade eles (Os Mutantes) compuseram um jingle para a Shell.
É preciso ter coragem de ouvir claro e saber com certeza que aquele som é novo, limpo, inventivo e livre. [ ...]
A intenção com que foi feita, pouco importa, o que vale é o som final.
Além de cumprirem os objetivos de promoção de vendas, de imagem pública da Shell e de divulgação de uma marca, eles estão colaborando para a música brasileira contemporânea com grandeza e competência." *
matéria publicada originalmente no jornal O Cometa Itabirano em outubro de 2007.
Número de frases: 34
Ali sentado na calçada, passando cola no solado, costurando bico, remendando uma sandália, pitando outra, Seu Alves, o sapateiro, conta os anos que se passaram.
Toim, filho mais novo e herdeiro do ofício do pai, avisa:
«rapaz, você vai dormir, acordar, e ele ainda ta falando."
Deboche de filho.
De história em história, virou reportagem, dessas de televisão, jornal, rádio, até a tv a cabo, mas essa ele não assistiu, " é tv de gente rica."
«Ei menino.
Leva esse bilhete na casa do Zé Pereira que na volta eu te dou um pedaço de rapadura e uma mão chêa de farinha ..."
Honorato era menino véi, coisa de 8, 9 anos.
Saiu rodando Flecherinha na cata do destinatário.
«Né aqui não viu ...
É bem ali «E tome Honorato a andar debaixo do sol quente, o suor descendo e da poeira da piçarra subindo, indo e voltando feito besta,» tá bem pertim ...»,
e mais um apontava tangendo Honorato.
Em a porta da casa de uma senhora de idade é que o bilhete chega ao dono:
«Meu filho, vá simbora para a casa que você num vai ganhar nada não.
Aqui tá escrito: '
bote esse burro pra andar '."
Honorato Alves Pereira nasceu 1930 em Tauá (349 km de Fortaleza), mas ainda nos braços da dona Maria chegou em Flecherinha, onde passou infância.
Menino aperriado, com 12 já tava em Fortaleza, no ofício de engraxar sapato.
Aperriado é pouco, dizem por aqui que essas pessoas têm um frivião no cu, e é bem capaz de ele aos 76 anos se espalhar numa risada quando ouvir isso.
Com 20 e poucos, tava no Rio de Janeiro, trabalhando no Aeroporto Santos Dumont, pra mais na frente tá carregando peso na tal da Brasília de Kubitschek, o JK.
Goiânia, Anápolis, Fortaleza -- só de passagem!--
sobe! que o pau de arara tá saindo, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Minas, construção civil, ajudante de topógrafo, na roça plantando feijão, arroz, milho ...
Pra depois voltar fastiado, porque «quem anda só no mundo não tem valor».
Saudade da mãe.
1962.
De a primeira vez que inventou de ir para o Rio, foi de navio, mas sem pagar a passagem.
Clandestino, escapou fedendo de uma baldeação numa das paradas.
«Era quando os homi iam checar de um por um quem tava clandestino no navio».
Pois nessa, ficou na terra mesmo, nem tentou subir de novo.
Ouviu das margens de Recife o navio apitando rumo a capital do Brasil daqueles tempos.
Mas não o navio ou essas andanças que do Seu Alves história contada em jornal.
Nem foi o pandeiro tocado nos forrós ou as tantas mulheres em que ele «passou o pavil».
O que fez Seu Alves, o sapateiro, reportagem, foi a arrumação de sair pintando a calçada do seu ponto, ali na beirada da Av..
Engenheiro Santana Junior, perto do Terminal de Ônibus do Papicu.
Quem passa por ali recebe um «Feliz Natal ou» «Feliz Ano Novo», testemunha do amor (ti-amo mãe) e da fé (" A porta que Deus abre ninguém fecha ") do homem «amigo do pobre e conhecido do rico», mas que sabe que quando a Cherokee pára do lado, o preço vai ser maior um pouquinho.
Explica o ocorrido.
Fala que quando chegou naquele ponto, há 12 anos, não tinha cliente, ai foi começando a pintar, colocar uns banquinhos, plantou esse castanhola onde estamos sob a sombra, ai foi indo ...
Começou a chegar cliente, mais um aqui, outro aculá.
O certo é que o homem é notícia e não pára de chegar gente de pé ou no carro que encostar rapidinho pra deixar o serviço.
Veio a prefeitura também, pra botar pra fora que não é coisa de se admitir a privatização de uma calçada pública!,
mas um vereador que passava por lá, na intenção de recauchutar o calçado, resolveu os problemas.
Os horários do expediente estão lá no muro.
Vai das 8 às 18 em dia de semana.
Em o sábado é só até a metade do dia.
Pode aparecer, mas tem que ser com o calçado em mãos para a avaliação ser precisa, na hora.
E leve o adiantado, porque se o serviço for pra mais de 8 reais, metade do pagamento você deixa junto com o sapato.
Atenção. Se não vier pegar o calçado em trinta dias, vai para a revenda
«Traga o pandeiro».
Magnaldo, que tá aprendendo a transformar sapato velho em novo, corre na casa do seu Alves, ali pertinho, na Travessa Paredes, pra buscar o instrumento.
Mal chega a morena com o cabresto da «sandalha» rebentado, ele já vai se aprumando, mete a mão no pandeiro, galanteador, malaca ...
Canta Morena Dengosa de Roberto da Silva.
Quando começa a cantar, ele encarrilha uma, duas, três músicas.
Alegre, canta pra quem passa indiferente na avenida.
A voz desafinada e o pandeiro é que o consolam nos dias tristes.
Só não agrada muito a senhora que resmunga contrariada com o bico de seu tênis ainda descolado, feito uma língua pra fora de tanto anos de caminhada.
De mulher e música ele entende, pelo menos é o que diz.
É bruto, " minhas mulher é tipo táxi, eu pego e mando sair fora."
Mas na verdade é muito é mole.,
«música que esculhamba mulher eu não gosto não, do valô a música que baba mulher».
Sem falar nos 19 anos e 10 filhos que ele passou rodando no táxi da dona Francisca Ferreira Alves, mãe do Toim.
Pra ficar com a comparação de ele.
O burro rodou anos, aprendeu a ler e escrever ainda no Rio, na sua passagem por lá.
O bilhete?
Em a época, um envelope por o correio com um tanto de C$ cruzeiros para a mãe.
«A letra é uma comunicação oculta sabe.
O caba pode ser calado, falar nada, mas escrevendo ele diz o que quer».
Não fale muito não seu Alves, que é capaz de um dia o senhor encontrar um rapaz bem parecido, de paletó e sapato impecável, querendo carregar o senhor pra ir dar palestra de marketing por o mundo.
Olha que o senhor já tem 76, não ta mais em tempo ficar com essas putarias.
* mais fotos *
esse texto faz parte da proposta do blog:
Número de frases: 70
www.grupotrema.blogspot.com Principal banda independente do Brasil é grande demais para o formato CD
Para quem acompanha o Bonde do Rolê desde seu surgimento na internet, o CD Bonde do Rolê With Lasers chega velho e um pouco desgastado.
Não que a mistura de funk carioca, rock e não sei mais o quê do trio curitibano tenha perdido seu impacto.
Porém, a produção «profissional» e o atraso no lançamento parecem ter enquadrado a irreverência de uma das mais interessantes coisas que aconteceu no pop brasileiro desde o surgimento do manguebeat.
O Bonde ...
surgiu em 2005 e rapidamente se tornou um dos maiores hits do então recém-nascido MySpace.
A banda chegou com uma proposta que mixava o rock com a batida do funk do Rio de Janeiro e umas pitadas de música brega.
Os neofunkeiros não precisaram ir muito longe para beber numa boa fonte.
Pouco tempo antes, o instigante artista gaúcho Edu K (DeFalla) lançou sua primeira fusão entre o funk carioca e o rock que ficou registrada no álbum Frenetiko.
Em a verdade, o Bonde do Rolê está na ponta do iceberg que levou o funk das periferias até as boates freqüentadas por os queridinhos da classe média, numa reprodução do que aconteceu nos anos 70 com o chamado Movimento Black Rio.
No entanto, desta vez os moleques da zona sul carioca (e de outras " quebradas ") se juntaram à rapaziada da periferia carioca para produzir juntos, o que pode ser visto em trabalhos como os do coletivo Apavoramento Sound System, criador do quadrinho inspirado numa música do Bonde Neurose, o Break do Cavera -- que pode ser baixado no site de eles -- e de outras obras que promovem o diálogo entre o funk carioca e outras influências eletrônicas.
Bonde do Rolê With Lasers é, na verdade, uma inútil tentativa de registrar em disco o imenso repertório de colagens pop que o grupo construiu quando ainda era uma experiência na internet.
Em entrevista durante a passagem do grupo por o Japão, Pedro D' Eyrot destacou a inviabilidade financeira do uso comercial samples de outros artistas.
E essa é a primeira perda do registro em CD:
o Alice In Chains que pululou ali e o Luiz Caldas que surpreendeu aqui foram silenciados.
É o business sufocando a cultura, um preço alto que o tal direito autoral -- leia-se $$ -- cobra a quem se atreve a fazer mash-ups, remixes, citações e tudo o mais que englobe obras do alheio. (
Aliás, vale ressaltar que não sou contra remunerar os autores com parte justa dos lucros obtidos por o uso de suas obras.
Porém, inviabilizar a utilização através de cobranças antecipadas absurdas é contraproducente com a própria cultura.)
Vídeos ousados como o da música Tieta o qual mesclava imagens de Betty Faria em sua melhor fase no cinema nacional com uma tosca animação de Joana Fomm caracterizada como a Perpétua da novela global também foram banidos.
Vide o bobinho Solta O Frango, onde eles soam alienígenas num ambiente completamente externo a seu habitat.
Aliás, mesmo seu sucessor Office Boy, abusa da computação gráfica, mas não atinge o cerne da proposta do Bonde.
Em este sentido, a cantora e artista gráfica M.I.A. vai mais longe com seu Boyz.
Em esse sentido, o Bonde prova realmente a que veio no palco, onde estão lá a irreverência, as colagens e os samples que foram impedidos de entrar no álbum.
Isso tudo não quer dizer que Bonde do Rolê With Lasers é dispensável.
As faixas Caminhão de Gás e James Bonde valem o álbum.
No entanto, ao invés de vir com a alegria da finalmente-estréia em CD, Bonde do Rolê With Lasers chega com a tristeza de se ver que mais uma vez o negócio sufocou a arte.
Número de frases: 26
Publicada originalmente em Alternativa.
A primeira coisa que reparei quando Rodrigo Linares abriu a porta foi o chão.
Madeira brilhando com um sinteco que, segundo o dono do apartamento, era novo.
Também notei a ausência de móveis.
Em a sala, apenas uma escrivaninha para o computador e uma mesa redonda para duas pessoas comerem ou tomarem café, além de uma televisão no chão.
Rodrigo pediu um minuto, pois teria que colocar o filho José Solano, de dez anos, no banho (Ernesto, de oito, ainda não havia chegado com a mãe, Dani).
Em o minuto seguinte, ele foi ao computador e fechou o vídeo que estava vendo no YouTube.
«Era o vídeo de um show da Mallu Magalhães, adoro a Mallu, ela é impressionante».
Fui apresentado a Rodrigo Linares num show da Mallu aqui no Rio.
Conhecia pouco o seu trabalho de poeta.
Sabia que ele cortava jornais, fazia estudos das letras, tinha cadernos e mandalas com recortes de notícias do dia-a-dia.
A curiosidade de convidá-lo para um bate-papo veio dos efusivos elogios na internet dos poucos que já tinham visto o seu trabalho e, também, da recomendação entusiasmada de meu irmão, fã de várias obras suas.
Quando sentei na pequena mesa redonda para tomar um café não sabia ao certo o que encontraria.
Nem que era assim que Rodrigo preferia expor suas obras.
Então se eu estava ali conversando com um café na mão, estava já também participando de seu processo artístico:
o de sentar, papear, ver e folhear os trabalhos.
Antes de abrir as enormes mandalas e os cadernos que ele próprio costura, o mais importante ali, estranhamente, parecia ser a conversa.
Que, óbvio, começou com a única pessoa que tínhamos em comum além do meu irmão -- a Mallu.
Um pretexto, no entanto, para falar de uma certa necessidade de se expor de alguma maneira, uma vocação que não necessariamente tem de ser o meio de subsistência:
«A idéia de você viver de sua arte pode ser fundamental.
Mas a vida é complexa.
É importante recuperar este sentido de arte como o fazer do próprio homem.
É anterior ao comércio e se mostra de muitas maneiras».
Assim, Rodrigo, de 33 anos, ganha dinheiro com a profissão que escolheu ao entrar na faculdade.
É jornalista, formado na PUC do Rio.
Fez pouquíssimas exposições públicas de seu trabalho.
Por uma de elas, ganhou o Prêmio Ibeu de Artes Plásticas, importante reconhecimento no mercado de arte não-comercial carioca.
Em outra rara incursão no meio, teve seu trabalho elogiado por o artista plástico Tunga e adquirido por o célebre colecionador Gilberto Chateaubriand.
Mas o cuidado -- para quem está de fora, às vezes, excessivo -- com aquilo que cria parece sobrepujar qualquer tipo de vaidade.
É claro que o reconhecimento o envaidece, mas o receio de apadrinhamentos ou chancelas serve como ponto de reflexão para continuar fazendo o que faz -- em última análise:
ver as pessoas vendo o seu trabalho.
Mas nada é assim tão claro e a postura muitas vezes soa também como defesa, um possível medo de reprovação, talvez.
Ele nega.
«Eu não quero colocar este trabalho na mesa de negociação com ninguém.
E no momento de negociá-lo, no que seria um mercado de arte, preferi fazer um projeto a longo prazo.
Tive até algumas experiências de estar em coleções, participar de mostras, salão.
Mas foi uma maneira de conhecer essas dinâmicas que permeiam o fazer artístico que, para mim, é uma relação intrínseca.
Eu, em nenhum momento, pensei ' vou criar uma obra para virar artista e viver da minha arte ', não foi por aí».
Um dos fatores que fazem o trabalho de Rodrigo ser tão especial é justamente esse:
a linha tênue que divide o " por favor mostre esse trabalho para as outras pessoas agora!"
do «muito generoso da sua parte expor suas obras apenas dessa maneira, de modo tão intimista e pessoal».
Eu, confesso, fico no meio do caminho entre os dois argumentos.
De aí este texto.
Mandalas
A obra de Rodrigo é extensa e não parece caber apenas nos armários do apartamento.
Mais de uma vez, ele lamentou não saber onde está tal caderno, determinado poema.
E logo se percebe por quê:
são caixas e gavetas de cadernos e papéis com frases, letras, desenhos de letra.
Todas as colagens são feitas com recortes de jornal.
Depois de dois cafés e uma hora de conversa, Rodrigo busca no quarto suas mandalas.
Abre-as no chão e, de cara, explica -- sem falar -- o motivo por o qual sua sala tem tão poucos móveis.
São vários pedaços de periódico unidos em forma geométrica e circular.
Em o chão, formam um caminho de estrelas gigantes que engolem o cômodo.
Discos de recortes e manchetes sobrepostas, tiras do branco do jornal e pedaços coloridos do classificado são um relevo da poesia que poucos notam na vida comum.
Manchetes quaisquer lidas com o olho que dá relevância à banalidade, sem, no entanto, torná-las mais importantes do que o próprio fato de ser banal.
Talvez este seja o motivo para que nenhuma manchete ganhe destaque no círculo.
Não é possível lê-las com facilidade.
A paciência da simetria parece ter a intenção de misturar tudo, fazer confusão com a própria dualidade da arte x papel do jornal, da perenidade da obra x efemeridade das manchetes -- a vida é ali uma coisa só.
Cadernos
As mandalas continuaram espalhadas no chão enquanto Rodrigo abria e mostrava os cadernos.
«Pode abrir mesmo as duas páginas com vontade, é o teste para ver se o caderno foi bem costurado», avisa.
Mas tudo parece tão artesanal e delicado que é impossível não virar cada página como se fosse de seda.
Os cadernos são uma versão em menor escala de toda a obra de Rodrigo.
Agora, pequenas mandalas formadas com as letras «A» estão na página.
Tipografia, claro, tirada sempre do jornal.
O «A» também ganha asa.
E chora, quando uma vírgula cai.
Recortes de palavras no jornal viram poesia.
O «Ela» que abre o título de uma matéria se une ao «a primavera» do texto corrido, formando, num bloco homogêneo recortado, «Ela, a primavera».
De este modo, o «dia-a-dia» torna-se «ia-a-dia», assim, sem o» d».
«Sempre quando vejo uma tipologia bonita de ' dia-a-dia ' corto e guardo para mim», conta Rodrigo.
Então um muito provável «Curtindo a vida adoidado» ganha uma outra leitura:
«a vida adoida».
Os poemas de recorte, muitos haicais, também estão nos cadernos.
As frases foram dispostas no jornal daquela forma, num contexto quase impossível de recuperar.
Removidas do seu lugar e ligadas a outras sentenças inventam uma gramática própria:
Com os pé do mundo
Ando conforme a rua
Fértil entre as inteligência
Rodrigo tem mais poemas.
Alguns escritos à máquina, outros à caneta.
Para guardá-los, editou livros que, assim como os cadernos, foram costurados (ou xerocados) e diagramados por ele.
Estes livros, na verdade, fazem parte das suas primeiras experiências artísticas, ainda nos pilotis da PUC.
Como não queria vendê-los, oferecia uma troca por qualquer criação do interessado.
Um livro por outro livro, um livro por um desenho.
Anos depois e já fora da Universidade, Rodrigo descobriu as mandalas.
Elas, provavelmente mais do que qualquer outro trabalho, aproximam-no do fazer de um artista plástico, rótulo com o qual ele não corrobora:
«Sou, antes de tudo, um poeta.
Um poeta trabalhando linguagem num meio plástico», afirma.
Por o apreço que tem por a informação que está na rua, por aquilo que é do dia-a-dia, Rodrigo sempre tem em mãos uma câmera fotográfica portátil.
O que não pode ser fotografado com a câmera, ele «fotografa escrevendo» em blocos ou, mesmo, em sua carteira (que ele também costurou).
Algumas fotos suas estão no blog Cadernos Brancos, para o qual parou de contribuir este ano.
Mas é como poeta que Rodrigo se define.
Sem pompa alguma, conta seu apreço desde novo por caligrafia, por a tipologia, por as notícias do jornal -- o caminho que trilhou até chegar à maneira como lê as notícias atualmente.
Um olhar que parece ir em direção àquilo que ninguém dá muita importância.
Antes de ir embora, ainda ganhei um caderno de capa verde e páginas laranjas feito por ele.
Deixei, sem querer, meu guarda-chuva em sua casa.
Número de frases: 97
Se para Rodrigo um modo de negociar a arte é a troca, num dia chuvoso como aquele o guarda-chuva até me pareceu um bem valioso em retribuição ao presente e ao tanto que tinha acabado de ver.
Toda época tem uma questão.
Lá na Grécia, do Aristóteles, por exemplo, a questão da catarse.
O filósofo grego analisou a tragédia e concluiu que o grande barato de tudo era a purificação do espectador.
Sofrendo as dores do personagem, a platéia fazia uma limpeza geral na alma e ia para a casa aliviada e re-humanizada.
O personagem, como na tragédia O Prometeu Acorrentado, ia no limite entre o homem e o divino.
Prometeu queria roubar o fogo dos deuses e por isso foi punido.
Ficou acorrentado numa montanha.
como se não bastasse, um abutre ia roendo pedaço por pedaço, dia após dia, o seu fígado.
A platéia se via humana em Prometeu.
A os deuses o que é dos deuses;
ao homem, o que é do homem.
Esse reconhecimento do humano é a grande questão do mundo grego da Antigüidade.
Já na virada do século XIX para o XX, o buraco é mais embaixo.
Com Freud, o homem se descobre com uma parte alheia à razão, o inconsciente.
Essa besta quadrada, o inconsciente, é o que rege a sua vida.
Tanta inteligência, tanta razão, para uma parte meio manca, meio infantil, ser a dona do pedaço.
Com Freud, se descobre uma outra estrutura, invisível.
Modelo semelhante se tem com Marx.
O cara descobre que a infra-estrutura, ou seja, as condições econômicas, só descritas em abstrato, determinam a super-estrutura, que são as idéias, os conceitos de amor, de belo ...
Tudo que se pensa e se faz é determinado por as relações de grana, de poder, que correm por baixo.
Entramos no século XX com a noção de estrutura profunda.
Há uma outra estrutura que nos rege, seja econômica, seja inconsciente.
Em o movimento hippie, o comportamento é posto em questão.
Se o mundo governado por o desejo inconsciente e por a grana só traz caretice, repressão, ganância e infelicidade, vamos cair fora.
Vamos experimentar.
Não ter um ponto de chegada, só de partida.
As gerações que ficaram adultas na década de 80 fizeram o balanço da geração hippie e viram que não é fácil viver em outro mundo ideal sem grana, cabeleireiro, tênis importado ...
Bem, a questão era como, ao mesmo tempo, construir um caminho próprio, mas dentro do mundo constituído.
Isso foi a semente das tribos.
O «cada um na sua» foi assimilado por a indústria de consumo.
Vendemos revistas, cds, programas de tvs, emissoras de rádio, roupas para a tribo dos skatistas.
Incenso para os esotéricos.
Prancha e bermuda para os surfistas.
Tatuagem para todos.
Só a tatuagem os une!
A questão de hoje, que parece ainda não estar em questão, é a seguinte.
O raciocínio de que tudo é mercado transforma todo mundo em consumidor e vendedor.
Em esse contexto, as relações todas viram negócio.
Ser aceito é a regra, adequar-se ao outro é o que conta.
Em termos de linguagem, o receptor é quem manda.
O emissor não emite mais.
Primeiro pergunta e repete o que o receptor diz.
A música que os ouvintes mais pedem.
A programação, que segundo pesquisas, vai dar mais ibope.
A questão é essa:
cadê o eu?
O eu com toda sua diferença, sua complicação, sua novidade.
O Ministro Gilberto Gil disse num discurso mais ou menos isso:
«o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe».
Quem vai propor?
Número de frases: 51
(texto veiculado na minha coluna do jornal Zero Hora de Porto Alegre) Corumbá (MS) -- Quando subiram ao palco Manoel de Barros, abrindo a programação musical do segundo dia do 4º Festival América do Sul, os músicos do Choro Opus Trio encararam um público desconfiado.
Afinal, o que músicos que navegam entre a música clássica e o chorinho fariam num Festival de apelo popular?
Fizeram chorinho, atacaram de Villa-Lobos, mandaram rasqueados de polca paraguaia e finalizaram com Brasileirinho, acompanhados de outros grandes brasileirinhos corumbaenses.
Surpreendente para alguns, cativante para todos.
O grupo, formado por Eduardo Martinelli, Jairo Lara e Chico Simão, encheu de emoção a Praça Generoso Ponce.
A cada chorinho, Eduardo Martinelli apresentava uma história.
Explicou a formação e a criação do estilo e apresentou as semelhanças entre os ritmos brasileiros.
Cada «aula» era, em seguida, acompanhada por a apresentação prática.
Aos poucos o público foi tomando grandes proporções com a apresentação do grupo e os «causos» de Martinelli.
Em a polca paraguaia, o Trio colocou para dançar brasileiros, bolivianos e paraguaios.
O ritmo da integração foi seguido da apresentação de Brasileirinho, que contou com a apresentação especial de crianças da Escola de Artes do Moinho Cultural Sul-Americano.
E elas, literalmente, botaram para quebrar.
Acelerando a música na hora certa, fizeram com que experimentados músicos seguissem o compasso, cativando e tomando conta do palco.
«É importante mostrar o trabalho dessas crianças que desenvolvem a música brasileira.
São os nossos brasileirinhos», afirma Martinelli.
Resultado:
As crianças e o Choro Opus Trio voltam aos palcos, mostrando que popular mesmo no Festival América do Sul é colocar no mesmo palco música clássica, Villa-Lobos, chorinho, polca e brasileirinhos cativantes.
Número de frases: 17
A proposta da banda cearense Bolacha Preta é trazer as músicas das décadas de 60 e 70 para o século XXI.
Conectados com as possibilidades que as tecnologias trazem para o mercado da música nesse novo século, os membros da banda tramaram a gravação do primeiro videoclipe com base no trabalho colaborativo.
Os amigos Rodrigo Mattos e Mariana Pimenta, da Nenhum destes, empresa dedicada a atividades de comunicação, cultura e lazer, se disponibilizaram para fazer a gravação durante apresentação da Bolacha Preta no Festival de Cultura da UFC Ecos de 68, no dia 28 de maio de 2008, em Fortaleza / CE.
Assim, Luiz Alberto Zoo (voz e guitarra), Roque Ney Mota (voz e bateria), Caio Chagas (guitarra), Ed. Júnior (teclado) e Kalil Calíope (baixo) aproveitaram a estrutura de palco oferecida por o Festival para fazerem o registro em audiovisual das releituras criadas coletivamente para as músicas «Baião», de Luiz Gonzaga e» Cidadão da Mata, de Chico Anísio».
Três câmeras de alta resolução na mão de três bons cinegrafistas:
Leandro Gomes Pinheiro, Philipi Bandeira e Rodrigo Mattos completaram a produção.
O registro em vídeo contou ainda com apoio e co-produ ção da Rede Olhar e da Vila das Artes, entidades da Prefeitura de Fortaleza que, através de edital, cederam uma das câmeras para as filmagens.
As imagens foram gravadas em três momentos.
A primeira durante a passagem de som e duas vezes durante o show, sendo o áudio utilizado no videoclipe referente à terceira gravação, captado por um laptop conectado a mesa de som, uma cortesia do amigo Antônio.
A primeira versão do videoclipe, feita por Rodrigo Mattos, entrou na net dia 11 de junho, no site FizTV (link: http://fiztv.abril.com.br/tv/?
areaAtualId = 2 & videoId = 11034) e já tem mais de 230 visitas.
Essa versão também está no Youtube (link: http://www.youtube.com/watch?
v = C 3MU0Y-D7 W8) desde o dia 23 de junho, onde, em dois dias, foi assistida por mais de 70 pessoas.
Todo o material audiovisual gerado foi disponibilizado para também para Leandro, que chamou o seu amigo Clóvis Markan Sousa da Silva, que é editor, e fizeram mais uma versão de clipe para a banda.
A edição de Clóvis e Leandro foi para a internet no dia 24 de junho, no site FizTV (link:) e em menos de um dia foi assistido 60 vezes.
O trabalho desde o início foi pensado para divulgação no canal FizTV, que tem a grade de programação toda produzida por colaboradores que são remunerados por a divulgação de seus vídeos na TV.
Mais sobre a Bolacha Preta
Com menos de um ano de trabalho, já que a banda iniciou os ensaios em fins de 2007, a Bolacha Preta pode se orgulhar do caminho trilhado até agora.
Participou de dois festivais, o II Rock Cordel e o Ecos de 68, esteve em programas locais de TV, gravou um CD Promo e fez shows em casas tradicionais de Fortaleza, como Maria Bonita, Órbita e Ponto de Luz.
Em breve, colocam no ar o website www.bolachapreta.com.br. Fotos, videoclipe, informações e um pouco do som da Bolacha Preta já podem ser vistos no MySpace (link: www.myspace.com/bolachapreta) ou na comunidade no Orkut (link: http://www.orkut.com.br/ Community.
aspx? cmm = 44368078).
Número de frases: 21
De o baú de vinis para internet, que rode a Bolacha Preta!
André Deak Durante muito tempo se convencionou dizer que havia apenas dois tipos de jornalismo:
o bom e mau jornalismo.
Entretanto, o bom e velho jornalismo, puro e simples, está cada vez menos simples e mais velho.
As novas tecnologias já começam a obrigar -- e até há pouco o verbo era possibilitar -- mudanças na forma como as notícias são produzidas.
Recentemente, num seminário em São Paulo -- o MediaOn -- Michael Rogers, futurista do New York Times (uma espécie de estudioso de novas mídias) disse uma dessas verdades absolutas que poucos costumam perceber.
Hoje em dia, disse ele, pode não ser comum que um jornalista seja capaz de produzir ou editar texto, foto, áudio e vídeo.
Mas os jovens jornalistas já fazem isso.
E são esses jovens que, em 20 anos, estarão nas chefias das redações do mundo.
O mesmo raciocínio -- apesar de mais contundente -- segue Julian Gallo, editor do blog Mirá e um dos finalistas do prêmio da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano 2007 com um texto publicado no La Nacion chamado «Um novo jornalismo».
Ele diz que " na essência, uma história publicada hoje na internet segue sendo produzida da mesma maneira que se fazia historicamente nos meios impressos.
O autor faz o importante (escreve) e outras pessoas se dedicam a ampliar ou enriquecer o texto com desenhos e conteúdos.
Esta forma de trabalho concebe um autor com um só talento:
escrever. Assim, se impõe que outro alguém fará a diagramação, outro fará fotos, outro escolherá as fotos, outro fará vídeos e áudios para que outro edite para que, finalmente, um técnico coloque tudo junto.
Uma estrutura desse tipo confere a um jornalista menos habilidades do que tem um adolescente de 16 anos que faz seu blog».
É claro que ser capaz de produzir em várias mídias não quer dizer que o jornalista será obrigado a produzir em várias mídias.
Américo Martins, editor-executivo para as Américas do serviço mundial da BBC, diz que houve um tempo, há alguns anos, em que se imaginava que isso seria comum, mas as redações descobriram que é impossível mandar um jornalista para o campo com uma «maleta multimídia» e esperar que ele mande textos em tempo real, grave uma áudio-reportagem e ainda apareça no noticiário da noite, na TV, com uma reportagem contextualizada.
A idéia de que um jornalista fará o trabalho diário de três (rádio, online e TV) já se mostrou inviável.
Entretanto, o próprio Américo lembra que a BBC enviou um «multi-homem» para cobrir a guerra no Líbano e teve um bom resultado.
Eles apenas não cobraram matérias diárias -- o enviado fazia entradas diárias apenas no rádio e online, mas gravava para a TV em intervalos de alguns dias.
Em o Brasil, a experiência do repórter multimídia ainda está no início.
A Agência Brasil é das poucas redações cujos mesmos repórteres produzem tanto para as rádios da empresa quanto para o online, em tempo real.
As dificuldades não são poucas -- mas o resultado é que temos uma equipe de repórteres perfeitamente capacitada para executar pautas diárias em ambos veículos (e alguns poucos fazem inclusive TV -- não diariamente, claro).
O resultado de repórteres capacitados para várias mídias é benéfico em vários níveis.
Uma operação jornalística multimídia pode oferecer uma história no melhor formato possível, seja ele qual for.
Pode-se, por exemplo, gerar um tipo de reportagem que é a soma de vídeo, áudio, texto, foto e infografia, oferecendo ao cidadão a compreensão mais completa possível de um assunto -- como tentamos fazer com a reportagem especial sobre o Rio Madeira.
Mas o verdadeiro desafio é criar não apenas a soma das plataformas, mas a fusão de elas.
Isso significa criar um tipo de reportagem que não é mais simplesmente vídeo, texto ou áudio, mas a mistura disso tudo.
O uso do recurso conhecido como hipervídeo é uma das experiências que fizemos nesse sentido, na reportagem sobre consumo consciente. (
E quem quiser ler sobre esse processo pode acessar esse texto aqui)
E já há quem exija mais, pelo menos para testar alguns limites.
A BBC terminou no início de julho o que chamou de «experiência turca».
Enviou o jornalista britânico freelancer Ben Hammersley para cobrir as eleições legislativas da Turquia.
Além de gravar para a BBC World e BBC News 24, ele fez um teste utilizando ferramentas da web 2.0, colocando suas impressões no seu blog, Flickr, YouTube, del.
icio. us e Twitter.
«A idéia é expandir a reportagem e possivelmente alcançar novas audiências de novas maneiras», diz o editor Richard Sambrook.
Ainda Sambrook:
«Não é algo que todo repórter da BBC pode ou deve fazer.
Ben é particularmente experiente no uso da internet e sites sociais desse tipo».
A BBC considerou interessante testar o limite do repórter, verificar o quanto ele é capaz de oferecer além de reportagens comuns.
Todas as notas, métodos, entrevistas e problemas da apuração foram colocadas online.
Em o YouTube, você descobre como um mal-contato num cabo do satélite quase acabou com toda a transmissão.
«Esperamos que isso abra uma janela sobre como as reportagens internacionais são feitas.
Não é perfeito, mas quebra o molde tradicional dos correspondentes internacionais», diz o editor.
O modelo homem-multimídia pode não ser o ideal, mas o antigo modelo de reportagem está acabando.
Para citar outro exemplo:
a Agência Brasil decidiu fazer a cobertura do Seminário Internacional de Diversidade Cultural num blog, e não somente com reportagens tradicionais.
A avaliação geral é que o resultado foi muito melhor.
Tendo esse novo passo em vista, muitos dos grandes grupos de comunicação estão unificando inclusive fisicamente suas redações.
Jornais como o Daily Telegraph -- exemplo mundial de integração multiplataforma -- se organizam agora para receber e produzir notícias, independente do veículo.
Você não tem mais os jornalistas da TV ou os jornalistas do rádio, você tem jornalistas.
Arthur Sulzberger, dono do New York Times, disse em Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial, algo que elucida um pouco o futuro do qual estamos falando.
Perguntaram a ele se, com a constante erosão da imprensa escrita, ele achava que em cinco anos o New York Times ainda seria publicado.
«Não sei, mas sabe o quê?
Eu não me importo», disse.
Ele explicou que está focado na melhor maneira de fazer a transição para a internet.
O Times já tem mais assinantes online (1,5 milhão por dia) do que assinantes do jornal impresso (1,1 milhão).
Sulzberger disse que o New York Times começou uma longa e dura jornada que irá terminar no dia em que a empresa decidir parar de imprimir jornais.
E então o ciclo estará completo.
Muitos se recusam a enxergar, mas é fato:
a velha mídia e a velha maneira de fazer jornalismo está morrendo.
Número de frases: 61
Cabe a nós ajudá-la a morrer mais rápido, ou sermos enterrados juntos.
Existe uma falsa ilusão sobre a produção cultural pernambucana.
Em a nova onda de centralizar as periferias nacionais, o estado ocupa posição de destaque.
Em parte, bem justificado por o exagero que foi a década de 90, onde tudo que era plantado se colhia.
A intensidade disso foi tanta, que dura mesmo até hoje.
Hoje que a cidade foi abandonada, esquecida e debandada do circuito cultural.
Em os últimos três anos, simplesmente não existe o que fazer nos fins de semana.
Uma camada bem grossa de obras de visibilidade esconde isso.
Recife tem sete festivais de música, um de cinema, um de teatro e um de dança.
São os eventos pontuais.
Entre dezembro e abril, a cidade fervilha.
Em os outros seis meses, deixa de existir.
Parecem afirmações exageradas ou apocalípticas, mas são as mais próximas da realidade.
O Abril para o Rock deste ano, com uma de suas melhores programações e maior atenção da mídia, fechou no vermelho com um dos dias -- atrações como o DJ Diplo e a dupla Stereo Total -- atraindo menos de mil pessoas.
O estado perdeu seu caráter multicultural e descentralizador.
O que significa numa grande oferta de barzinhos com shows de MPB cover na zona sul (a parte rica), uma segmentação das atividades de ONGs em periferias e um grande vácuo na classe média.
O bairro boêmio, o Recife Antigo, está desativado.
Luzes apagadas, casas fechadas, sem taxistas, boates ou até vendedores de rua.
Três ou quatro focos de resistência acabam virando pretexto para sucessões de assaltos.
Em a zona norte, os bairros de Casa Forte e Casa Amarela também perderam suas opções.
Pernambuco não tem mais casa de espetáculos.
Apenas dois teatros em atividade.
Um auditório e uma casa de shows com estrutura muito grande.
Como resultado, não tem lugares para as bandas locais se apresentarem.
Uma curiosidade à parte é o público.
Resistente e desconfiante, o pernambucano parou de prestigiar sua cultura.
Festivais de música recebem menos de 700 pessoas.
Peças de teatro menos de 400.
Festivais de vídeos locais menos de 100. O Spa das artes oscilava entre grupos de curiosos que não passavam de 20 pessoas a apresentações maiores para um pouco mais de 100. Ninguém reconhece mais o valor do bem cultural.
Recusa-se pagar R$ 10 para assistir a um show.
O bar tido como «cool» na cidade é um trailer que invadiu um espaço vago, fez um macaco na eletricidade e serve a cerveja quente mais barata da região metropolitana.
Chama-se Garagem e, durante muito tempo, foi ponto de encontro da cena punk / hardcore.
Agora que virou moda, toda semana recebe uma batida por apreensão de drogas.
A cada mês, uma pessoa é atropelada por os carros que passam desavisados em frente a ocupação.
Um colega meu ainda está internado.
Uma das raízes dessa fase tenebrosa de Pernambuco está na política.
Historicamente, nunca existiu iniciativa privada para a produção cultural.
Discos, shows, peças, filmes e livros, todos são feitos com patrocínio dos governos estaduais e municipais.
Acostumada com uma seqüência de dobradinhas partidárias, sempre com a direita no comando das duas esferas, pela primeira vez Pernambuco teve -- há dois anos -- a ruptura através de uma nova prefeitura da esquerda.
Uma das conseqüências é o êxodo.
2006 foi o ano que mais viu os produtores e artistas locais da cidade ir embora.
Até a banda que mais dava certo na cidade, com certeza de shows lotados, a Eddie, decidiu sair.
Curadores de arte, cineastas, atores, dançarinas, bandas, produtores de festas, todos estão com uma ponta de sotaque a menos hoje.
E não existe nenhuma previsão de melhora.
Opiniões
Em o centro de todo esse furação de acontecimentos preocupantes, estão os personagens principais da história, produtores e artistas.
Um dos guerrilheiros desse novo tempo é Leo Salazar, que criou sua Salazarte.
De a produção de discos -- da banda Eddie, do DJ Bruno Pedrosa -- a shows e festas, ele já tentou de quase tudo.
E continua tentando, agora com a adição de cursos que decidiu fazer fora da cidade.
«Existe um nicho de eventos no Recife que gera dinheiro.
É o circuito das boates e bares da zona sul.
Mas nesse nicho, o caráter do contratante não é muito bom.
Geralmente são exploradores que não querem dividir o bolo com os artistas.
Manipulam a concorrência, estabelecem baixos pisos, e os usam como regra. '
Se você não quiser, tem outra banda que queira ', ameaçam eles.
O cara que monta o palco ganha dinheiro, o dono do som ganha dinheiro, só quem não ganha dinheiro são os artistas (enorme contradição, porque sem o artista não existiria motivo para haver o palco e o som).
Se você colocar um artista para se apresentar, sem palco e sem som, mesmo assim vão se ajuntar uns 100 curiosos para assistir.
Desafio alguém juntar 10 pessoas para ficarem paradas olhando um palco e um som por mais de 10 minutos."
Já cada artista aposta em sua própria teoria.
«Recife nunca foi uma cidade roqueira», comenta Bruno Souto, da Volver, sobre sua fatia especifica da história.
«Nada dá certo naquela cidade», foi mais enfático o DJ Dolores, num papo rápido durante um vôo para o Rio de Janeiro.
«Aqui se diz tão produtivo e não tem nada que sustente a cultura mesmo», opina a produtora» Ana Garcia do Coquetel Molotov.
«Agora mesmo vamos fazer uma turnê que não tem como passar por o Recife», completa.
«Recife perdeu, na década de 90, a oportunidade de criar um mercado.
Vivemos o reflexo deste desleixo, com muita gente picareta com muita grana», comenta o jornalista Hugo Montarroyos, do site RecifeRock.
Por acompanhar excessivamente todo evento mentor da cidade, é este site também quem traz o melhor recorte de público da cidade.
Mesmo com os shows da moda, das bandas emos, espaços para 3 mil pessoas não chegam nem a 1/4 deste total.
Covers
Resultado mais absurdo desta situação:
as bandas, que não conseguem mais palco e público, se apresentam com projetos paralelos de covers.
Nação Zumbi com o Los Sebosos Postisos (Jorge Ben), Mombojó com Del Rey (Roberto Carlos), Silvério Pessoa com o Sir Rossi (Reginaldo Rossi), Volver com Ordinários (Renato e Seus Blue Caps), Mula Manca com Seu Chico (Chico Buarque), e uma lista que não pára de crescer.
Todos começaram no tom de brincadeira e encerraram como sendo a atividade mais lucrativa das bandas.
A minha leitura desta situação é uma bem negativa.
É claramente a resistência que o público pernambucano tem ao novo e a busca por o óbvio.
Mas deposito minha esperança neste espaço aberto do Overmundo.
E desafio novas visões a serem trazidas e publicadas também aqui no overblog. =)
PS: Para evitar alardes.
A foto eu tirei antes de começar os shows.
Número de frases: 78
Não estava tão vazio assim.
Joaquim Mulato é um homem calmo, de pele fina, queimada por o sol, com marcas do vitiligo nas mãos.
Espirituoso, de voz baixa, mas forte.
Decurião da Ordem dos Penitentes em Barbalha, munícipio da região do Cariri, sul do estado do Ceará.
O posto significa ser líder da Ordem e conduzir, com a cruz na mão, cerca de 15 homens no acoite, na purgação da carne por as lâminas de ferro do cacho, instrumento de suplício.
A autoflagelação é feita sob a entoação de benditos cantados por Joaquim e Severino, segundo na hierarquia da Ordem, com trechos respondidos por os que estão se penitenciando.
A autoflagelação pode ser feita em cruzeiros (que podem representar devoção ou sinalizar o lugar onde alguém morreu), nas portas de capelas (nunca dentro para não sujar as paredes de sangue) e no cemitério, à noite, longe de qualquer visibilidade.
A penitência tem que ser oculta para ninguém ver.
As lâminas cortam até que Joaquim ache que já cai muito sangue.
Isso pode durar até meia-hora.
Então canta com Severino:
«O sangue era tanto, o sangue era tanto, que corre no chão.
O sangue era tanto, que corre no chão.
Perdoai senhora esse coração."
E depois emenda:
«Era uma vez o pecado.
Tu não me ofenderão e eu vos peço chorando.
Ai ai filho, não se acoite mais».
-- «Aí eu vou, tiro uma folhas de mato lá no cemitério e passo nas costas de eles pra tirar o sangue», fala Severino.
«Qual é a planta?»,
pergunto.
«Qualquer folha do mato».
«E se tu pegar um pé de urtiga?»,
pergunta brincado Joaquim.
Urtiga é planta que arde.
(risos)
Com 86 anos, o decurião é penitente desde os 16." Em o tempo que meu pai era vivo minha vontade ele não deixava, já com medo podia deixar e nós se atrapaiar (se refere a responsabilidade de ser penitente).
Ele não deixava não.
Quando ele morreu em 35, em 36 entrou um, depois entrou outro, depois outro (irmãos).
Os outros já morreram, eu que tô aqui ainda.
O chefe (antigo decurião) já tava idoso, morenão, mas idoso.
Era um homem bem acochado, um homem de uma memória boa, trabaiadô.
Quando ele não pôde mais, eu tomei de conta, aí aqueles mais de eras: '
Não vou andar mandado por um menino não '», fala sentado na sala de sua casa onde mora só, solteiro como sempre foi, apesar dos penitentes não precisarem fazer voto de castidade.
Os penitentes não negam totalmente o prazer, podem ter relações sexuais no casamento, mas não podem beber ou ir a festas.
Joaquim virou decurião novo, ainda na primeira metade da década de 40.
Tinha menos de 25 anos.
Como disse, alguns penitentes relutaram em acompanhar um menino, mas depois Joaquim foi ganhando respeito.
Hoje, continua como decurião, mas não se penitência mais.
Não com o cacho, mas ainda jejua na Quaresma e pede esmola durante a Semana Santa como dita a tradição.
É um dos Mestre da Cultura, título concedido por a Secretaria de Cultura do Estado.
Tìtulo emoldurado, pendurado numa parede da casa de Joaquim ao lado de um retrato pintado de ele entre Frei Damião e Padre Cícero.
Severino já está desde os oito anos.
«Meu pai era penitente também, mas nós de casa não sabia.
Só quem sabia era ele e mãe.
Os filhos não sabia.
Aí quando eu fiquei com 8 anos ele me levou para a mode eu andar também.
Aí eu entrei e graças a Deus não me dei mal não que tô até hoje.
Já fiz foi aprender os bendito tudim que eu não sabia de nada», conta.
Severino tem dois filhos que hoje moram no estado de São Paulo.
Diz já ter feito 16 viagens pra lá.
«Quando vou, volto cheio de dinheiro e roupa».
Severino tem a voz mais alta que a de Joaquim.
Parece ter mais fôlego.
É cinco anos mais novo.
Ao lado de Joaquim, fazem um dueto com a voz arranhada típica dos cantos religiosos do nordeste, sejam feitos por homens ou por mulheres.
Ouvindo Joaquim, sente-se uma paz que vem de sua simplicidade e espirituosidade, nada da imagem de um fanático a proclamar os perigos do demônio que um desavisado ateu tão acostumado com os pastores evangélicos neopentecostais, como eu, poderia fazer.
A relação popular com o sagrado ganha no corpo franzino de Joaquim uma força que supera o culto à imagem de Padre Cícero em Juazeiro do Norte.
Não sei explicar, mas ouvindo os benditos algo;
que prefiro chamar de forte do que de transcendente;
me faz ter profundo respeito.
Desde Padre Ibiapina
A autoflagelação é uma tradição medieval mas é forte na região do Cariri, principalmente por a atuação de Padre Ibiapina na segunda metade do século XIX.
Os jornais davam conta de um padre que arrastava pra mais de 10 mil pessoas sertão cearense adentro, em missões que, dependendo da cidade, demoravam até doze dias com pregações, procissões, missas cantadas, penitências públicas e discursos dos ricos e poderosos da cidade.
O nome do missionário:
José Antônio Pereira Ibiapina.
Ex-advogado, ex-deputado federal e ex-delegado de polícia, cearense, nascido em Sobral, ordenado padre em 1853, em Olinda.
Logo depois começaram suas missões por as províncias de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, até chegar, no final de 1860, no Ceará.
Por aqui ficou.
Homem de fala eloqüente que via na moral dos sertanejos vícios que deveriam ser corrigidos através de orações e penitências.
O padre arregimentou milhares de pessoas e influenciou religiosos como Padre Cícero e Antônio Conselheiro.
O Padre foi figura polêmica e ambivalente, como retrata a pesquisadora Josiane Ribeiro em seu livro " Penitência e Festa:
as missões do Padre Ibiapina no Ceará».
Josiane busca fugir de reflexões unilaterais que tratem o padre apenas como um articulado religioso a favor dos poderosos.
Se em suas missões o padre pregava a ordem social, reforçando relações paternalistas entre trabalhadores e proprietários, por outro elas eram momentos em que os sertanejos poderiam se reapropriar, como nas festas após as penitências, quando aproveitavam para beber, namorar ou mesmo acertar contas como no caso de um delegado de polícia que riu de uma oração.
Foi açoitado e depois expulso da comunidade.
Retaliações, em alguns casos, incitadas por o próprio Ibiapina.
Em trecho do livro:
«A religiosidade da gente sertaneja abriga, sem maiores problemas, a dor e a penitência, ao lado da alegria e do prazer. [ ...]
O que pretendo deixar claro é que existe uma ambigüidade estrutural no que concerne a penitência e prazer na doutrina católica que, por sua vez, se configura na experiência religiosa da gente do sertão».
Apesar dessa ambivalência, os planos do bom e do mau são bem delimitados numa visão maniqueísta que tem origem na Contra-reforma, com base em Missão Abreviada, do padre português Manoel José Gonçalves Couto, livro que dava os subsídios para a pregação.
Em as palavras de " Joaquim Mulato:
«A reza é o seguinte, ela é que ensina o bom caminho se o camarada quiser, se não quiser tem duas estradas:
uma esquerda e outro direita.
Quem quiser seguir na direita siga, quem quiser seguir na errada siga.
A reza é pra saber que há um Deus que nos protege.
Canta os benditos da Paixão de Cristo, reza os terços e oferece as almas do purgatório.
Para a defesa do nosso espírito, nós só pode alcançar de Deus se tiver penitência e tombém se pedir muito a Deus».
A penitência também foi reforçada por um surto de coléra e as grandes secas no final do século XIX.
Em Barbalha, a Ordem de Joaquim Mulato (que afirma que seu cacho pertenceu a Padre Ibiapina) reinvidica a tradição de Ibiapina.
Existem muitas outras ordens de penitentes no Cariri.
«A renovação é pequena, mas o fato de assegurar uma manutenção já denota que a prática não foi de toda largada, agora o que a gente tem percebido é que os grupos de penitentes de outros municípios abriram mão da autoflagelação, então eles cantam, pedem esmolas, fazem uma série de outras práticas, mas eles têm aberto mão da autoflagelação», avalia o professor Gilmar de Carvalho, estudioso da «cultura popular», ou, como prefere chamar, da» tradição».
«Se eu chegar a morrer e esse aqui (Joaquim), acabou-se penitência, porque não tem um que saiba, não tem um que saiba (cantar os benditos)», diz Severino.
«Você não fica preocupado com isso não?"
«O que que eu vou fazer?»,
responde com lucidez Severino.
Número de frases: 96
Brasileiro tem nome extraordinário para colocar nos filhos.
Nomes que marcam por toda a vida.
E aqui vou contar de um de eles interessantíssimo que andava meio no ostracismo mas ganha destaque com a ida de Marcos Pontes ao espaço -- o primeiro astronauta brasileiro.
Em 1969, lá no interior, nascia mais um filho de amigos de minha família.
O pai, aviador que não conseguira ser piloto na campanha da FEB na Itália, durante a Segunda Guerra, esperava o nascimento da criança para se realizar e vingar-se do sonho frustrado.
Os americanos iam dar os primeiros passos na Lua.
A Apollo 11 ia realizar o «grande salto para a humanidade».
Seu Hermenegildo, também entusiasta da corrida espacial, tinha o nome em segredo se o filho fosse homem.
Dona Cotinha, a esposa, com o filho na barriga mas sem autonomia sequer para compartilhar a escolha do nome com o marido, gravitava a sua volta como um satélite artificial em busca de desvendar o segredo.
Mas nada.
Os amigos faziam aposta.
Os nomes mais previsíveis eram Collins, Armstrong e Aldrin, dos tripulantes da nave.
Mas seu Hermenegildo, com ares de quem possuía um grande trunfo, dava de ombros a cada investida.
Era um túmulo!
Só quando a nave americana pousou na Lua, em 20 de julho, e o menino nasceu no dia seguinte, seu Hermenegildo correu ao cartório -- ludibriando quem o desejava seguir para conhecer o segredo em primeira mão -- e pimba!
Registrou o garoto:
Apollo 11 da Silva.
Em casa dona Cotinha quase foi ao céu e voltou antes mesmo do Marcos Pontes, como já ocorrera com o tabelião que tentou fazê-lo desistir da idéia.
Não conseguiu.
«O filho é meu», foi o argumento irrefutável.
O menino cresceu e de tanto ouvir o nome acostumou-se à alcunha.
Sim! Os desafetos de seu Hermenegildo tinham em conta que isso não era nome de gente, mas alcunha.
A mãe, resignada, tratava-o com um eufemismo.
Chamava-o somente Apollo.
Mas na escola, nas raras vezes em que Apollo se sentia no alto, os colegas eram cruéis:
«Apollo 11!
Apollo 11!».
E entre alegrias e tristezas, a vida foi passando para Apollinho.
Quando tinha 17 anos tentou ser jogador.
Entusiasmou-se e foi aos testes.
Primeiro na zaga:
era admirador do Oscar da seleção.
Tinha até algum jeito nas bolas altas, mas era sofrível nas baixas.
O técnico, condescendente, talvez para que não se sentisse excluído por culpa do nome -- ou melhor, da alcunha, tentou encaixá-lo como centroavante.
Em essa posição também ainda não estava no estágio adequado.
Em as bolas altas talvez valesse um tostão, mas seus chutes erravam o gol por a simples razão de teimarem entrar em órbita.
Nova frustração.
Tentou realizar-se no amor.
Fracasso sobre fracasso.
Vivia no mundo da lua.
As meninas queriam alguém com os pés no chão.
Vê lá se alguma mulher ia tolerar um homem -- talvez estimulado por a alcunha -- que dizia querer ser o primeiro astronauta brasileiro.
E ainda mais num tempo em que sequer se sonhava com isso.
Elas sorriam e despediam-no com um simples:
«Apollo, desce!
Apollo, desce!».
Profissionalmente também dava tudo errado.
Era fraco o seu desempenho em qualquer profissão, literalmente eclipsava-se.
Quando Marcos Pontes virou celebridade e transformou-se no primeiro astronauta brasileiro, eu liguei para o Apollo.
Alguém havia roubado o seu lugar.
-- E aí, rapaz, tudo bem?
-- Beleza.
-- Esse lugar do Pontes, por direito era seu, não?
Ele me surpreendeu por a simplicidade e conformismo:
-- Qual nada.
-- Claro que sim.
Até o nome daria certo.
-- É aí que você se engana.
--??
-- Apollo 11 não seria bem aceito por os russos.
Mesmo sem guerra fria eles não se sentiriam à vontade divulgando para o mundo um mito americano.
-- É, parece lógico -- concordei contrariado.
-- Ficaria melhor se fosse o meu primo.
Intriguei-me.
Não conhecia o primo de ele.
-- Seu primo??
-- Sim, o Sputnik.
Não o conhece?
O pai de ele invejou o meu.
Mas lhe faltou criatividade.
Número de frases: 70
(ou simples desabafo de mãe)
Tenho um compromisso com meu filho desde que soube de ele em mim, prometi ser sincera, sempre.
mais de uma década se passou e mantenho minha palavra.
Não houve até aqui pergunta de ele que me recusasse a responder, todo pensamento que me ocorreu e considerei relevante lhe foi comunicado.
às vezes ele me diz que falo demais, sobre muita coisa ...
Prefiro morrer de qualquer excesso a me arrepender de qualquer falta.
A o longo desses anos falamos de tantos assuntos quantos surgiram em nosso cotidiano, de política a geografia, de futebol a coerência, nada passou em branco.
Em esses tempos de campanha eleitoral falamos também dessa coisa que é ser político.
De o fato de eu me recusar a votar em gente que não me inspira nem confiança nem ideologia, gente pra quem ética é mais uma palavra bacana do dicionário pra se aplicar em discursos e promessas ...
Tivemos nos últimos dois anos problemas com escolas.
Questionei a qualidade do ensino e a capacidade de professores diante dos conteúdos e situações que vinham a cada aula.
Mudamos de colégio esse ano, persisti nos questionamentos em prol de uma educação qualitativa.
Me estarrece ver professoras graduadas (sim, com curso superior no currículo) que escrevem e falam errado.
Há coisa de duas semanas a criatura chega da escola e me diz:
«Mãe, você tem que escrever uma redação."
No meio da rotina, pedi que não me deixasse esquecer.
E por duas ou três vezes o pequeno me lembrou.
Em a véspera da data final de entrega ele me intima:
«Mãe, você tem que escrever, é um concurso e o primeiro lugar vale uma viagem para Porto Seguro!"
Peço o tema e esse garoto (outro dia um cisquinho de gente) me mostra cheio de ânimo:
A Incentivo à Leitura no Enriquecimento da Cultura.
Começo a escrever ...
Primeira versão, 28 linhas.
«Mas, mãe, tem que ter 15 linhas ..."
me diz acabrunhado.
Reescrevo mais duas vezes até atingir o limite imposto por a folha impressa da escola.
Satisfeito ele leva o rascunho e o texto final.
Dias depois, um sábado (30 de setembro de 2006 mais exatamente) sigo com o pequeno para a escola.
É a VII Mostra Cultural.
Cada turma apresenta sua pesquisa, falam de artes (a bárbara Lídia Baís), de inclusão social, matemática, influências dos imigrantes na cultura regional ...
Visito todas as salas, me emociono ao ver o moleque apresentando seu saber, fotografo, aplaudo.
Coisa de mãe.
Em o intervalo já me incomodo.
Enfrento um fila lascada pra comprar sucos na cantina e vejo um monte de meninos quase da mesma idade do meu querendo furar a fila.
Implicante, argumento da injustiça disso, da falta de respeito com todos que pacientemente aguardam sua vez e por aí vai.
Coisa de quem não se conforma com a práxis da desonestidade, com o fato de cada vez mais ser comum e pacífico prejudicar o outro em benefício próprio.
Chega o momento final.
Tinha saído do prédio da escola para fumar um cigarro.
Volto e o filho está agitado me chamando e dizendo que a premiação do concurso de redação será anunciada.
Acalmo o bichinho e me sento para ouvir.
Terceiro lugar para uma aluna da 5ª série, segundo lugar para outro.
Confesso que não imaginava ganhar, nunca fui boa em concursos, sorteios e que tais.
Primeiro lugar, dizem o nome do meu filho que se levanta sob aplausos e emocionado me chama para receber com ele o prêmio.
O menino chora de emoção, meu olho se enche de lágrimas ao ver tanta intensidade num ser tão jovem, meu filho.
Ganho uma camiseta e uma assinatura mensal da Folha, ele recebe um pequeno envelope.
Serenadas as emoções, recebidos os cumprimentos, saímos felizes para a casa e a criança abre o envelope.
Um pequeno pedaço de papel diz que ele tem direito a um ingresso de cinema e um lanche da MC Donalds, entre surpreso e atordoado ele me diz que deve ser um prêmio a mais.
Procuro acalmá-lo dizendo que ao chegarmos em casa ele pode telefonar à escola e esclarecer o ocorrido.
Ele telefona e a professora responsável por a Mostra lhe diz que falará com ele na terça-feira.
Hoje quando cheguei do trabalho encontrei o filhote dormindo.
Quando acordou perguntei como tinha sido a conversa com a professora.
Ela lhe disse que a viagem era brincadeira.
Passei a tarde pensando em que atitude tomar.
A avó é advogada, daquelas que dá o boi pra não entrar na briga e a boiada pra não sair.
Me pergunta mil coisas, telefona para um colega, quer reunir provas e testemunhas.
Eu quero apenas registrar a que ponto chegamos.
Em a escola que me foi tão recomendada ensinaram a meu filho o que é ser enganado, que é comum ser ludibriado, ensinaram que promessas são feitas apenas no calor da hora e seu cumprimento não é, de forma alguma, conseqüência ...
E se é isso que a escola de hoje tem a ensinar não cabe mais defender a cultura e sua importância, o respeito e a ética.
Era desse mundo que eu tinha medo quando ainda jovem afirmava que não teria filhos.
É nesse mundo que, a despeito dos métodos anticoncepcionais, meu filho nasceu e cresce.
Noite adentro me pergunto como é que vai ser a vida dessa criaturinha se na instituição onde aprendi a escrever e gostar de ler ele aprende tudo que menos prezo na sociedade que temos ...
Número de frases: 61
Diz a lenda que Catita, personagem real, malandro véio e sambista, chegou na pequena praia que se formou após o aterro que liga a Ilha do Boi à Ilha de Vitória e, percebendo o formato do corpo de uma cabocla típica, mandou:
«São as curvas da Jurema».
E aí pegou.
Tá lá até hoje a Curva da Jurema, com seus bares, restaurantes e visual alucinante.
A Curva fica na Enseada do Suá, próxima à Praça dos Desejos.
É só seguir por a Avenida Américo Buaiz e entrar por trás do Shopping Vitória.
Recomendo ir e sentir o vento nordeste soprando na nuca.
Experimentar cabelo que voa, saia que sobe, e o pôr do sol que comove tanto quanto o sabor da comida da Sônia, na barraca do JB.
Em o cardápio, moquecas de siri, sururu, peixe e camarão, arroz de polvo, caldos, cerveja gelada e satisfação garantida.
Um bom almoço, com um bom preço e vista para o mar.
De dia, o sol castiga e deixa as folhas das árvores mais verdes, a água mais azul, e uma culpa enorme por morar numa cidade tão linda.
Durante a semana, os moradores da Ilha do Boi, bairro vizinho chiquérrimo, fazem seus exercícios matinais nas calçadas e ciclovias da Curva.
Paradoxalmente, os moradores dos bairros da periferia invadem as areias, os quiosques e as águas do lugar, no carpe diem com data marcada do fim de semana, mesmo com a precariedade do sistema público de transporte.
Anoitece
E a lua deixa um rastro na água.
Fica aquele brilho etéreo ondulado te convidando a olhar pra ele, com trilhas sonoras variadas, dependendo do dia da semana.
Em as noites de segunda-feira, ouve-se jazz.
Trios, quartetos e quintetos executando à beira-mar a música criada no leito do Mississipi.
O corpinho da Jurema torna-se uma filial de New Orleans.
Os músicos acreditam nisso, o público embarca na viagem, e está armada a festa.
Por mais tímido que você seja, alguma parte do seu corpo se torna cúmplice da mágica agregadora chamada jazz.
Música, liberdade e o barulho das ondas ao fundo, bem ao fundo.
Em a quarta-feira, é a vez do reggae.
Ritmo que se instalou por aqui no fim da década de 90, incentivado por o extinto Movimento na Curva.
Um evento semanal que reunia artes plásticas, dramaturgia, literatura e música.
E o som da Jamaica lenta e gradativamente foi ocupando seu espaço nas jam sessions enluaradas, resultando na proliferação dos filhos de Marley.
Se você é integrante ou simpatizante da tribo de Jah, vá.
O movimento acabou, as bandas procriaram.
A música eletrônica toma conta na quinta-feira, com o projeto Gazz que rola em dois quiosques (Plataforma 16 e Duda's).
De a vitrola, saem electro, lounge, drum ' n bass e house, entre outros.
E o trance, que percebo como um som tribal, ritmado que combina especialmente com os contornos da cabocla Jurema.
DJs residentes:
Rike, De essa e Kalunga.
Entre os DJs convidados:
Sybel, Fuka, Zeela, Josh e os meninos do Zé Maria com seus live P.As.
Um luxo. (
www.fotolog.com/antimofo) Em as sextas-feiras, você entra no túnel do tempo.
Lá por as 10 da noite, calçadas lotadas, areias também, e o Stones Cover a tocar.
Mesmo que você não seja fã da banda inglesa, vale a pena conferir por a divertida performance exuberante e sensual do vocalista Edésio, também conhecido como Mini Jagger.
O mesmo vale para a banda Xamã do Raul, cover do maluco beleza que arrebata multidões de cabeludos, e que também conta com músicos excepcionais e um vocalista performático que, fiquei sabendo, ficou nu num show realizado na Curva, no mês de janeiro.
Sim, na Curva da Jurema acontece de tudo.
Farofa cultural com menu variado.
São 800 metros de extensão e diversas opções de lazer.
Mas, se nenhuma das opções te agradar, recomendo o visual maravilhoso, e a paciência tibetana que vai se instalar em você após cinco minutos de contemplação.
A luz é linda na Curva.
Sempre.
Número de frases: 46
Há um ano e oito dias atrás, a torcida do Clube Náutico Capibaribe viveria um inferno.
Literalmente. Dependendo só de si para alcançar a tão sonhada primeira divisão do Campeonato Brasileiro, o alvirrubro pernambucano foi eliminado por os gremistas numa sucessão de fatos inacreditáveis até para os mais experientes no futebol.
Não bastassem os quatro jogadores adversários expulsos e um pênalti a favor perdido, a torcida ainda teve que agüentar o Santa Cruz galgando os degraus para a elite do futebol brasileiro.
Eu lembro que a torcida, atônita, ficou nas arquibancadas mesmo após o término da partida.
Cerca de vinte mil torcedores estavam lá, sentados.
Chorando. A torcida inteira estava num estado completamente inacreditável de tristeza e solidão.
Porque não adiantavam os abraços e os afagos dos outros torcedores, só as lágrimas resolviam.
Os refletores foram apagados numa tentativa inútil de tirar a torcida do estádio, mas nem isso adiantava.
Catástrofe talvez comparável a um Manchester United x Bayern München ou o Brasil x Uruguai de 1950.
Virou filme.
O gremista Beto Souza fez questão de documentar tudo aquilo na chamada «Batalha dos Aflitos» e de chamar o filme ironicamente de «Inacreditável», para a ira dos pernambucanos.
Vi muita gente querendo a cabeça do diretor, em acessos de fúria.
2006 começou com muitas dúvidas, um Náutico desestruturado e um campeonato pernambucano medíocre.
As finais foram dos rivais, Santa Cruz e Sport.
Chegou-se ao ponto de faltar dinheiro para o pagamento da luz e da comida dos juniores.
Para desespero da torcida, o Campeonato Brasileiro estava mais difícil do que nunca.
Afinal, o grande desafio de uma competição de pontos corridos é a regularidade.
Enquanto existiam os quadrangulares, um azarão que conquistasse a oitava posição ainda poderia subir.
Agora era preciso ter uma base, alguma salvaguarda para as lesões, derrotas e crises financeiras.
Depois da saída de dois treinadores -- um de eles que teimava em escalar o time num irracional 3-5-2 -- Hélio dos Anjos assumiu com moral.
O time beirava a quarta colocação da série B e sofria as investidas do Coritiba, Paulista e América (RN).
Em as partidas que faltavam, corriam bichos e dinheiro, muito dinheiro.
R$ 150.000 foi o presente que os paranaenses deram ao Gama, de Brasília.
Depois foi a vez de ajudarem o Ituano.
Nada feito.
Parecia que a aura do alvirrubro estava diferente hoje.
Os 19800 ingressos colocados a venda na segunda feira se esgotaram na quarta.
Os de estudante, em poucas horas.
A cidade estava coberta de bandeiras brancas e vermelhas e a torcida do rival Sport esnobava com a já consagrada classificação.
Enquanto isso, os jogadores do Santa Cruz amargavam três meses de salários atrasados e uma torcida furiosa.
Mas havia confiança.
A torcida do Náutico sempre foi conhecida por nunca acreditar no time fielmente e em todas as situações.
Sempre há um pouquinho de dúvida, incredulidade e medo.
Impulsionados por a chance única, os torcedores invadiram o estádio.
Exatamente assim.
Foi uma invasão.
Muita gente da velha guarda, que dava para ver nos olhos o desespero do purgatório da segunda divisão e milhares de torcedores novos.
Futebol é uma coisa engraçada.
Contagia. Eu nunca fui alvirrubro na minha vida -- meu time é Botafogo -- mas o sentimento de vitória que a torcida passava era nítido.
Fiz questão de ir ao estádio.
Faixas, cartazes, papel picado, cerveja sendo jogada para o alto, radinhos de pilha gritando as escalações e o torcedor do lado te abraçando de ansiedade.
É a coisa mais democrática do mundo.
Todo mundo vira amigo desde pequenininho.
Quando a bola começa a rolar, os gritos de «vamos subir Náutico» e várias declarações de amor por o time são ecoadas.
A torcida canta numa espécie de mantra apaixonado por os heróis vestidos com as camisas listradas.
É tão irracional que não há por que procurar razões naquilo.
Basta estar ali, no momento.
Seja ele qual for.
O primeiro tempo foi difícil.
O time do Ituano marcava bem e o Náutico não tinha saída pelo meio de campo, o que deixava o ataque isolado, sufocado.
A lateral esquerda do time pernambucano também sofria com a falta de experiência de seu jogador.
Com várias sucessões de erros e riscos de gol do adversário, os gritos de «sou alvirrubro de coração» eram facilmente substituíveis por os de «filho da puta!»,
«juiz ladrão!"
e «meudeusdocéu».
Futebol é o único lugar onde Deus e puta ficam juntinhos.
Em a mesma frase, muitas vezes.
E foi nesse misto de religiosidade e instintos primitivos que saiu o primeiro gol.
Catarse. O vendedor de cerveja, o pai nos seus quarenta e poucos, a menina que vai ao estádio pela primeira vez, todo mundo se abraça.
É cerveja pra todo lado, copos voando, fumaça vermelha, sorrisos.
Haja sorriso.
E haja abraço.
Futebol devia ser a solução para os corações destruídos, para os incrédulos da vida.
Porque o amor que a torcida tem por o time extravasa para a pessoa do lado.
Paixão e ordem.
Porque não basta torcer, é preciso organizar, dar instruções, pedir ao jogador que vá para a esquerda.
Putaquepariu, por que ele não vai para a esquerda.
Não faz sentido, ele não tá me ouvindo.
E esse treinador?
Pára de gesticular desse jeito e faz alguma alteração!
Olha o time adversário ganhando corpo.
Meu deus, a cerveja desse cara do lado está transbordando nas minhas costas.
Chuva de cerveja.
E chuva do céu também.
Começou a chover.
Uma chuvinha que depois se transformou em chuva torrencial, para molhar o torcedor e dar um clima mais romântico ainda ao futebol.
Porque futebol é uma coisa romântica.
Ainda mais embaixo d' água, suor e água se misturando.
Suor e Lágrimas, mas com o sangue lá dentro, quente.
Quando o segundo gol sai, o mundo vem abaixo.
«É a classificação!».
O torcedor parecia não acreditar que agora não existia mais o fracasso diante do Grêmio.
Muitos simplesmente começaram a chorar como meninos.
Marmanjos de trinta anos, barba na cara, chorando.
Abraços efusivos e depois de doze anos o Náutico de volta a elite do Campeonato Brasileiro.
Explode tudo.
Não há mais estranhos.
É como uma guerra, estamos todos no mesmo uniforme, basta isso.
Basta isso.
E o torcedor que reclamava do treinador agora o colocava no pedestal mais alto possível.
«Hélio dos Anjos para presidente!».
Bandeiras começam a serem jogadas dentro do campo e os jogadores as levantam, em volta olímpica.
Depois mergulham na água.
De o gramado.
Carnaval na sede.
Sorrisos e mais sorrisos.
Quem foi que disse que o futebol é triste?
Ninguém lembra mais de Náutico x Grêmio.
Ninguém quer saber de mais nada.
Quem disse que eu tenho problemas, meu time subiu para a primeira divisão.
Chuva de palavrões em carreata.
Palavrões que dignificam e ampliam um sentimento que nem sempre pode ser descrito.
E depois falam que o futebol é irracional.
É mesmo.
Mas quem disse que o amor é racional?
Número de frases: 104
Música de improviso, com arranjos abertos e ritmo livre.
Quem são os músicos radicados em São Paulo que se dedicam a este tipo de som?
Tente imaginar uma canção onde o ritmo não é fixo.
Ou sem um tema musical definido.
É difícil, né?
Nossos ouvidos são acostumados a canções com repetições e com alguns desenvolvimentos harmônicos.
Variações e solos, um tanto de progressões melódicas.
Com algum empenho, pensar em algo fora desse campo é possível.
Agora, então, imagine tocar com estes parâmetros.
Alguns músicos radicados em São Paulo estão se dedicando à música de improviso, com arranjos abertos, construídos no momento em que a música é realizada.
Sem composições fixas, e com resultados sonoros instigantes.
Rubens Akira já tocou em tudo quanto é tipo de banda.
Metal, hardcore, MPB, Rap, e a lista continua.
Autodidata, acrescentou gradualmente ao baixo elétrico, seu primeiro instrumento, uma bateria.
«Era uma vontade.
Quando pude, comprei a primeira peça».
Depois veio um clarinete baixo, adiante um trompete.
Em um dia triste, numa dessas sinucas da vida, Rubens iniciou a gravação de improvisos com um microfone ligado a um som doméstico com toca-fitas duplo.
Acrescentou outros improvisos, ao vivo na fita, com teclado, bateria, baixo e os sopros, que normalmente vinham primeiro.
Juntou seus sons num cd-r, fez uma capa, batizou sua banda de um homem só de Trio de Dez e seu álbum de Analfajazz.
Um ano depois, em 2003, com o mesmo processo e mais conhecimento do aparelho de som e das propriedades acústicas de seu quarto, gravou Juntando as letras, que tem doze faixas.
O disco foi realizado em três sessões ao longo de um mês, sempre partindo do mesmo princípio.
Alguns momentos de concentração, um improviso livre, uma audição do resultado e outro improviso em cima.
Os nomes das canções foram definidos depois, e algumas homenagens também.
O final abrupto de Apenas um momento definiu a dedicatória para Itamar Assumpção, Tem de tudo no Bom Retiro é um tema muito visual -- pouco mais de seis minutos de um dia agitado numa área de compras populares da cidade.
Atualmente Rubens diminuiu o ritmo de seu projeto coletivo individual (" eu tentava tocar cada instrumento como se fosse uma pessoa diferente "), e se juntou ao saxofonista Kazi e à trompetista Ana Ceres, que têm formação jazzística.
Não há composições definidas nos ensaios, que Rubens enxerga como uma linha de montagem, onde cada um dá contribuições para o resultado final.
Ele considera sua música uma expressão ritualística de emoções, realizável somente através da improvisação livre.
Eles ainda não fizeram shows, mas você pode escutar algumas gravações nesse link.
Abaetetuba significa «encontro de gente boa» em tupi, nome escolhido por a orquestra de improvisação formada atualmente por Antônio «Panda» Gianfrantti, Renato «Meganha» Ferreira e Rodrigo «Couve» Montoya.
A iniciativa foi do percussionista Panda e do saxofonista Yedo Luiz Gibson, que atualmente está morando na Europa e tocando com improvisadores como Márcio Mattos e Eddie Prévost.
Também na procura de uma música aberta, as referências do grupo foram gravitando ao longo do tempo do free jazz para a improvisação européia e música erudita, com o uso de escalas dodecafônicas (as doze notas são tocadas sem repetição).
Ambas as vertentes estão presentes na formação de Meganha, que toca contrabaixo acústico, sax tenor e clarinete.
Eles praticam uma intensa pesquisa, que vai de timbres a significados:
«Você tocar um acorde de dó maior não é só isso.
Cada acorde tem uma história na música ocidental do século XX, que é a nossa base», diz ele.
Panda tem 57 anos, e nos anos 1960 tocou com Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa, Jorge Ben, Paulinho Nogueira, Célia, Vera Brasil e Taiguara, até que, nos anos 1970, foi para os Eua estudar Percussão Afro-Jazz na University South Florida, a convite de Sérgio Mendes.
Desenvolveu para o Abaetetuba um kit de percussão melódica com 60 peças, que incluem surdo de samba, sinos, vibrafone e um berimbau eletrônico.
O trio é completado por o sax soprano de Rodrigo Couve, e eles realizam ensaios de 2 a 3 vezes por semana, sempre gravados para posterior avaliação.
Em esse espaço, assim como nas apresentações, eles buscam autonomia nas improvisações, rejeitando conscientemente os clichês praticados por músicos em geral.
O importante aqui é a interação dos instrumentistas de uma maneira dinâmica, o que já rendeu alguns discos com as diferentes formações.
Recentemente, lançaram um álbum duplo e um DVD ao vivo no Mis de maneira independente.
Para adquirir e saber a respeito de futuras apresentações do grupo, mande um e-mail pra renatodecferreira@bol.com.br.
Thomas Roher é um suíço radicado no Brasil desde 1995, que se dedica à improvisação livre, jazz, música regional brasileira e música medieval tocando rabeca, violino e saxofone.
Tem discos gravados com o grupo Interchanges e em trio com o percussionista Fabio Freire e o contrabaixista Célio Barros, cujo selo PMC (Produção de Música Contemporânea) edita sessões de improvisação gravadas em CD-Rs e DVD-Rs.
Essa foi uma saída para a viabilização de um catálogo amplo, com baixíssimas tiragens e grande variedade, à margem dos meios convencionais de produção.
Para conhecer acesse
http://www.celiobarros.com.br/pmc/pmc.html.
Número de frases: 48
Não fosse Machado de Assis, por definição e ' tradição ', o mestre do mistério, do enigma -- tantas são as manifestações dessas ' artes ', assim como do subterfúgio, da dissimulação, em sua obra ficcional e não-ficcional.
É conhecido o fato de ter se valido à larga de pseudônimos -- foram mais de 30 -- tanto nos contos quanto nas crônicas, da mesma forma que o criptônimo e o anonimato -- do qual exemplos marcantes estão na série de crônicas «Bons Dias!», publicadas na Gazeta de Notícias entre 1888 e 1889,s omente descoberta autoria efetiva de Machado na década de 1950 (!)
por o pesquisador e biógrafo Galante de Souza, ou na célebre obra Queda que as mulheres têm para os tolos, seu primeiro livro publicado, em 1861, que aparece como «uma tradução do sr. Machado de Assis» -- sem expressar o nome do autor original -- mas que revela-se incontestavelmente ter sido criação machadiana.
Por isso, nada de excessivamente surpreendente, em se tratando de Machado, a existência durante os últimos 129 anos de um conto que, publicado originalmente em seis folhetins -- isto é capítulos -- a 30 de julho, 15 e 30 de agosto, 15 e 30 de setembro e 15 de outubro de 1879 na revista A Estação, tinha-se conhecimento de apenas três de eles, os demais completamente desaparecidos e dados como «perdidos», daí o conto jamais ser incluído em qualquer antologia, coletânea, seleta ou edição em volume, ignorado em todas as em torno de Machado de Assis, e apenas referenciado por José Galante de Sousa, em sua monumental Bibliografia de Machado de Assis, de 1955, e por o pesquisador francês Jean-Michel Massa, que publica seus únicos três capítulos até então conhecidos na obra Dispersos de Machado de Assis, de 1965.
Não surpreendente em excesso, mas digno das maiores significância e relevância o fato -- histórico -- de resgate dessa peça faltante na formidável galeria contística de Machado.
O conto em apreço intitula-se «Um para o outro» e sua recuperação se deu graças a um incansável trabalho de investigação -- com todas as tintas, matizes e nuances «sherloqueanas», diz o pesquisador -- pesquisa e recolha levada a cabo ao longo de seis anos por parte de Mauro Rosso, professor e pesquisador de literatura brasileira, ensaísta e escritor, e organizador da edição Contos de Machado de Assis:
relicários e raisonnés, em vias de lançamento por a editora PUC-Rio e Edições Loyola.
A edição contém ainda, e nisso mais um elemento de diferenciação, um conjunto de matrizes dos contos de Machado, a se constituírem certamente em valioso instrumento de pesquisa e estudo, não só para profissionais mas também para admiradores e cultores de Machado de Assis e todo tipo de leitor.
Essas matrizes abrigam um completo histórico bibliográfico-editorial de toda a produção contística machadiana -- que Rosso acredita possa vir a moldar um modelo genérico de historiografia bibliográfico-literária.
Essas matrizes nunca antes construídas, estão organizadas, como verdadeiros raisonnés, sob distintos vieses, que se cruzam e se reportam umas às outras, remissivas entre si, retratando, para cada um dos contos, suas respectivas seqüências de publicação e ao mesmo tempo aspectos problemáticos inerentes a edições levadas a efeito, ou não realizadas como o deveriam ser.
Acompanham essas matrizes um também inédito raisonné completo -- inédito porque até então não objeto de levantamento e catalogação integral, como agora feito -- dos pseudônimos, anônimos e criptônimos de Machado de Assis.
Em tempo:
Rosso conclui a preparação da antologia Machado de Assis e a política:
Número de frases: 13
crônicas, numa edição do Senado Federal a ser publicada meados do segundo semestre, e informa que nesse seara também encontrou textos inéditos, e de ela farão parte raisonnés completos.
É um privilégio, em qualquer lugar do mundo, ter um instrumento criado, projetado e produzido num determinado local, que seja utilizado para expressar sua música, criando com isso uma sonoridade específica, que traga elementos que ajudem a traduzir e contar um pouco da história deste lugar.
Espera-se com isso que aos poucos este instrumento seja valorizado, difundido, e permita que várias formas de expressão musical de ele se utilizem, ajudando a firmá-lo como elemento da cultura local.
Em a Bahia temos muitos exemplos, principalmente na área da percussão, de instrumentos que foram criados, e / ou adaptados, e que se incorporaram à cultura local, criando uma identidade.
Com outros instrumentos de sopro e cordas, por exemplo, no geral foram instrumentos que já existiam e que foram incorporados à nossa música, com a exceção de um instrumento:
a guitarra baiana.
Nascida na década de 40, fruto das experiências musicais e tecnológicas de dois amigos, a guitarra baiana surgiu inicialmente como um protótipo, que ficou conhecido como «pau elétrico», que nada mais era que um braço de cavaquinho com um captador preso na ponta.
Dodô, violonista e técnico em eletrônica, e Osmar Macedo, que tocava cavaquinho e era uma espécie de professor pardal, ambos figuras conhecidas da península Itapagipana, região da Cidade Baixa de Salvador, buscavam formas de eletrificar seus instrumentos para tocar para um número maior de pessoas, impressionados com uma apresentação de um violonista, Benedito Chaves, onde viram pela primeira vez um violão «eletrificado».
O próprio Benedito mostrou aos dois curiosos como funcionava o tal captador, ressaltando o problema dos «apitos» indesejáveis que apareciam quando se aumentava o volume.
Dodô conseguiu, com sua experiência de radiotécnico, reproduzir um modelo de captador, e depois de testar várias possibilidades em instrumentos, resolveu colocar o captador em cima de sua bancada sólida de madeira, e esticou uma corda de uma ponta a outra, conseguindo um som alto e cristalino como um sino.
Depois os dois partiram para conseguir apenas os braços de instrumentos e «eletrificá-los».
Bom, resumindo esta história, o invento teve a maior repercussão, foi evoluindo, até que a «dupla elétrica», como ficaram conhecidos Dodô & Osmar após a criação do pau-elétrico, resolveu colocar alto-falantes num velho Ford e sair tocando por as ruas durante o carnaval de 1950, inspirados no impacto que tiveram ao ver uma orquestra de frevo do Recife arrastar uma multidão por o centro da cidade.
O sucesso desta iniciativa foi além das expectativas.
A dupla virou trio com a entrada de mais um violão, e logo surgiram percussões, carros maiores, mais som, e o trio elétrico se transformou num dos maiores fenômenos de massa de que se tem notícia, influenciando vários artistas e modificando a maneira de se fazer e produzir arte, num contato direto com as ruas e com o que se absorvia nessa troca com um número inimaginável de pessoas.
Sem entrar na discussão sobre as distorções que foram provocadas por a indústria que se criou em torno de tudo isso, o fato é que por pelo menos três décadas, a musica instrumental tocada de guitarra baiana, foi a cara e a criação de toda uma estética, se reproduzindo em dezenas de duplas de guitarristas que eletrificavam frevos, baiões, chorinhos, rocks, sambas, músicas clássicas e tudo mais que viesse por a frente.
Mesmo depois de aparecer a figura do cantor, lá por a metade da década de 70 com Moraes Moreira, a guitarra baiana ainda se manteve um tempo como principal instrumento dos trios, responsável por a sonoridade característica vinda das cornetas (tweeters), que realçavam e distorciam seu timbre agudo, e criavam uma sonoridade e uma atmosfera particular.
Inicialmente estas guitarras tinham quatro cordas como o cavaquinho, mas afinadas como bandolim (Mi, Lá, Ré, Sol).
Em a década de 80, Armandinho desenvolveu o modelo de cinco cordas, criando mais possibilidades harmônicas e trazendo um timbre mais grave.
Incrível também na história deste instrumento é o fato de ser uma tecnologia genuinamente regional, criada a partir de experiências rudimentares, sem muitas ferramentas ou componentes à disposição, que coincide historicamente com a criação da guitarra elétrica nos Estados Unidos, sem que um tivesse conhecimento do que estava acontecendo no outro lugar.
Vale lembrar que estamos falando da década de 40, onde as informações custavam a circular, e «seo» Dodô e «seo» Osmar, com certeza não tinham conhecimento dos experimentos de Leo Fender, nem dos protótipos da Gibson pra tentar resolver os mesmos problemas de microfonia que tinham quando ligavam um instrumento acústico num amplificador.
O corpo maciço de madeira foi o pulo do gato, eliminar a caixa acústica que realimentava as freqüências sonoras, e isto foi descoberto num daqueles momentos de inspiração simultânea, onde diferentes pessoas em diferentes lugares do mundo, chegam a soluções semelhantes na mesma época.
Acontece que os americanos sabem muito antes de nós, que a propaganda é a alma do negócio.
Toda essa história de marcas, patentes, registros (o trio elétrico é registrado na França), marketing e tudo mais que na verdade serve pra vender melhor seu peixe e garantir sua próxima pescaria, são ferramentas que eles usam muito bem, e o peixe de eles parece sempre maior, mais bonito e mais pesado, mesmo que o ponteiro da balança esteja no mesmo lugar.
Junte a isso também a falta de valorização que é dada no Brasil às pessoas envolvidas nos processos criativos e revolucionários, artísticos ou não, por parte do governo, da imprensa, das empresas e por uma população que herdou uma forte cultura de «colonizados», e entenderemos porque mundialmente não é dada a real importância a nomes como Santos Dumont, Vila Lobos, Pixinguinha, Cláudio César Dias Baptista, Mestre Vieira das Guitarradas, Dodô e Osmar, e vamos parar por aqui pra não ficar cansativo e voltar ao ponto.
O ponto é que a guitarra baiana é um instrumento brasileiro, com linguagem própria, sonoridade, tecnologia e um histórico suficiente para ser caracterizada como uma escola, uma linha de guitarra tipicamente brasileira.
Então, resgatar este valor histórico é de fundamental importância para que possa ficar claro seu papel, para que se abra o leque de possibilidades sonoras, e acima de tudo, se aponte para o futuro.
Extrapolar seus limites iniciais e permitir que guitarra baiana se recoloque no cenário, faça parte das referências e anseios de novos músicos, interagindo assim com novos formatos e gêneros musicais, é fundamental para mantê-la viva.
Para isso é preciso tentar entender também o que aconteceu neste caminho, o que levou a este afastamento e desinteresse por um instrumento que já foi tão representativo para nossa cultura.
Porque também ficou tão restringida à forma e ao conteúdo de seus criadores e herdeiros?
O que ela tem hoje pra oferecer às novas gerações?
Todas essas dúvidas e informações trazem a certeza de que no mínimo, a guitarra baiana merece ser ouvida e repensada, ou que pelo menos alguém pergunte carinhosamente a alguma de elas:
o que é que a «baiana» tem?
Número de frases: 32
Brasília -- Os brasileiros precisam conhecer mais sobre a diversidade cultural do Brasil por o cinema produzido no país.
A afirmação é do secretário geral do Conselho Nacional de Cineclubes, João Baptista Pimentel, que participa hoje (29) do último dia do Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural.
Ele lembrou que praticamente todos os filmes produzidos no país são financiados com recursos públicos, devido às leis de Audivisual e Rouanet, que prevêem renúncia fiscal.
«É um absurdo o povo brasileiro ficar financiando um cinema que ele próprio não pode ver porque não tem onde passar o filme».
Segundo ele, atualmente existem mais de 150 longas-metragens nacionais inéditos por não terem espaço para serem exibidos.
«Hoje, todo cinema alternativo sobrevive por a exibição em festival de cinemas e no circuito de cineclubes».
Em esse sentido, Pimentel criticou o fato de mais de 80 % dos filmes exibidos nas salas de cinemas convencionais serem norte-americano.
Para ele, é preciso mudar a legislação para estimular o cinema nacional.
Ele disse, ainda, que o conselho de cineclubes está analisando um levantamento de todos os filmes e espaços de exibição alternativos, número de expectadores, entre outras informações.
«A partir dessa base de dados, vamos construir propostas alternativas de exibição no país», afirmou.
Até agora, já se sabe que são 301 pontos de exibição alternativos no país.
Pimentel acrescentou que a legislação que regulamenta a exibição não-comercial de filmes em cineclubes está em desuso por causa da extinção Conselho Nacional de Cinema (Concine), que havia regulamentado as apresentações sem fins lucrativos.
Número de frases: 12
De acordo com ele, na próxima semana haverá uma reunião na Agência Nacional do Cinema (Ancine) para discutir sobre a edição de uma portaria que regulamente esse tipo de exibição.
Este texto foi escrito para o «Jornal Musical», site editado por Tárik de Souza, que encerrou suas atividades no ano passado.
Foi publicado em fevereiro de 2007, mas não está mais no ar.
Darcy da Mangueira morreu no último dia 19.
Posto o texto aqui no Overmundo para ficar disponível na internet como uma última homenagem.
Guia de cego, jardineiro, operário, bombeiro hidráulico.
Feirante, camelô.
Técnico em segurança no trabalho, restaurador.
Motorista de táxi, lotação, ambulância, ou, para ser mais direto, «tudo que é veículo».
Resumindo bastante, essa é a lista de profissões que Darcy Fernandes Monteiro, o Darcy da Mangueira, já realizou.
«Fiz de tudo, menos roubar».
Claro, não é o único sambista que teve que se desdobrar em diversas tarefas para cobrir despesas enquanto compunha para sua escola de coração.
Mas não deixa de ser irônico que logo esse servidor exemplar tenha feito talvez o que seja o conjunto de versos mais elogiativos à vagabundagem, o " Samba do Trabalhador ":
«Em a segunda-feira eu não vou trabalhar
Em a terça-feira não vou pra poder descansar
Em a quarta preciso me recuperar
Em a quinta eu acordo meio-dia, não dá
Em a sexta viajo pra veranear
Em o sábado vou para a mangueira sambar
Domingo é descanso e eu não vou mesmo lá Mas todo fim de mês chego devagar
Porque é pagamento eu não posso faltar ( ...)
Letra e música surgiram inteirinhas numa viagem de ônibus para o interior de São Paulo.
Poderia ser considerada a melô de (certos) funcionários públicos.
Darcy prefere classificar como «Samba do trabalhador ocioso».
Coisa que ele nunca foi.
Em todos os lugares onde trabalhou, em pouco tempo se tornava chefe.
«Gosto de me destacar logo, de fazer e acontecer."
Em o samba não foi muito diferente.
Já nasceu no meio de bambas, na Rua 18 de Outubro, que dá acesso ao Morro da Formiga, na Muda, Zona Norte do Rio.
Seu pai foi um dos fundadores da escola Unidos da Tijuca, onde o pequeno Darcy viu o primeiro campeonato ser ganho em 1936, aos quatro anos de idade.
Ainda criança, começou a fazer «versinhos, boizinhos com abóbora», influenciado por os sambistas que freqüentavam sua casa.
Mas foi arrebatado mesmo por um desfile da Mangueira na Praça Onze.
Ficou alucinado e pediu para o pai para virar mangueirense.
A resposta foi direta:
«Cala a boca, você é Unidos da Tijuca».
A ordem não pegou.
«Com 9, 10 anos comecei a ir na Verde e Rosa e conhecer a galera."
A aproximação foi ainda maior quando, aos 14 anos, mudou-se para a Favela do Esqueleto (onde hoje fica a Uerj), vizinha da Mangueira, para trabalhar numa fábrica de tecido nas redondezas.
Foi crescendo acostumado à rotina de trabalhar, trabalhar, aprender a tocar violão olhando os mais velhos e compor ...
para a " Unidos da Tijuca!
«Eu freqüentava a Mangueira, mas tinha medo de compor para lá.
Em aquela época a Ala dos Compositores era fogo na roupa, tinha Cartola, Pelado, Padeirinho ...
Os caras eram bons demais, já tinham fama pra caramba.
Eles me consideravam compositor mas eu não me sentia assim.
Ficava jogando na retranca.
às vezes até ajudava nuns sambas, mas não queria assinar».
O receio não o afastou da escola.
Em 49/50, fundou uma ala de violonistas, a Ala dos Diferentes, que tinha participação de uns 30 instrumentistas.
Por ele ficava quieto por ali, mas Nelson Sargento não deixou.
«Foi em 1950.
Ele veio um dia falando que eu era compositor da escola e que tinha que participar da reunião naquela tarde.
Como ele era o presidente da ala, eu não podia recusar».
Ingressou onde mais temia, mas continuou discreto, ajudando nos versos dos outros, até assinar seu primeiro samba-enredo em 1966.
O homenageado era Villa-Lobos e ele conquistou de cara um honroso em segundo lugar.
Em o ano seguinte, veio a consagração.
Com Luiz e Batista, compôs «O mundo encantado de Monteiro Lobato».
Deu o campeonato para a escola e foi gravado depois por Eliana Pittman e Elza Soares.
De aí, passou a ser chamado de Darcy da Mangueira por a imprensa e não parou mais.
Em o ano seguinte, o vitorioso foi «Samba, festa de um povo» (com Luiz, Batista, Dico e Helio Turco) e em 1969, conquistou o segundo lugar no desfile com «Mercadores e suas tradições» (com Helio Turco e Jurandir).
1969 foi um ano marcante para Darcy.
Foi quando se mudou para o Conjunto da Ordem dos Músicos, que ajudou a construir em Inhaúma (e onde mora até hoje).
Foi também quando Darcy foi preso por subversão à ditadura.
Em a época, trabalhava com restauração, ofício que mais lhe dava prazer.
«Restaurei algumas igrejas, até em Ouro Preto.
Trabalhava com o Doutor Rodrigo de Mello Franco, diretor do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Gostaria de ter algum documento que provasse todos esses restauros que fiz, mas todos voaram, porque se você guardasse tava ferrado».
Não teve jeito:
com ou sem documento, ele amargou uma passagem na cadeia.
«Fiquei só um dia no xadrez do Ministério da Guerra, mas nunca esqueci."
Apesar desse episódio, pelo menos em termos de samba aqueles anos estavam sendo muito bons para Darcy.
E ele sabe se valorizar.
Cantarola «Mercadores» batucando na mesa e diz:
«Isso que era samba, né.
Antigamente a gente estudava história para fazer a letra.
Mas já tinha uma base, porque na escola se você não soubesse história o professor logo mandava virar a cara para a parede.
Em a segunda-série eu tinha que estudar francês e latim, cantar o Hino Nacional, rezar.
Não existia tanta bandidagem na favela porque era outro tipo de educação».
Os tempos mudaram e o samba também.
«Os caras hoje não criam nada.
Colocam palavras que já passaram por mil sambas, não há poesia, as melodias são muito iguais."
Começa a bater rápido na mesa, inventa uma melodia e exemplifica:
«Aí você ouve ' Mangueira na Sapucaí! '.
Depois vem a Portela e é: '
Portela na Sapucaí! ',
Depois, ' Salgueiro na Sapucaí! '.
Ninguém agüenta!"
Mais do que o samba-enredo, o que Darcy lamenta mesmo é o quase desaparecimento do samba de terreiro das quadras.
«Nada contra hip hop, funk.
O que mais faz falta nas nossas escolas são os sambas que começavam a festa.
As reuniões tinham samba de terreiro até o final de dezembro, só em janeiro começava samba-enredo.
Não tinha essa coisa de samba-enredo começar no meio do ano, de 50, 60 sambas-enredo disputando.
Cinco são suficientes!
Se você cantar 3 sambas bons, que pesam na balança, faz muito mais efeito para o público».
Um livro, uma ópera e uma candidatura
Depois de assinar três sambas de enredo seguidos no fim da década de 60, Darcy ainda foi responsável por mais dois:
em 71 (" Modernos Bandeirantes», com Helio Turco e Jurandir) e 85 (" Abram alas que eu quero passar», com a mesma dupla).
Chegou a gravar alguns LPs e compactos (como «Darcy da Mangueira -- a história do samba», no fim dos anos 60, e o» pau de sebo " " Roda de Samba n 1, que reunia diversos artistas).
Além disso, tocou no conjunto de Heitor dos Prazeres na Rádio Nacional, fez turnê de quatro meses na Europa e shows por todo o Brasil.
Apesar do desânimo com a politicagem que, na sua opinião, invadiu as escolas, desfila todo ano e está sempre presente nas festividades da Velha Guarda e da " Ala dos Compositores da Mangueira.
«Só não fico no ensaio de sábado, porque a Mangueira está bombando demais, virou moda."
Hoje vive da aposentadoria, dos poucos trocados de direito autoral e dos cachês de shows que pintam vez em quando (no carnaval, por exemplo, vai cantar no palco da Lapa).
De o Samba do Trabalhador, roda que tem feito sucesso no Clube Renascença, no Andaraí, nas tardes de segunda-feira, está distante.
«Participei no começo, mas depois pararam de me convidar.
Hoje tem CD e DVD gravados e eu nem fiquei sabendo».
Mas Darcy não desanima.
Em as horas vagas, escreve um livro sobre a história do samba (" há muitos por aí, mas não escrito por gente de dentro "), incrementa a ópera (!)
que escreveu há anos e sonha ver encenada, vai a shows de colegas.
Ano passado, candidatou-se a deputado estadual por o PSOL, na tentativa de ser um representante da música popular na Assembléia.
Não foi dessa vez que entrou, então retomou a rotina.
Quando tem tempo livre, vai para a Associação Brasileira de Imprensa, onde é sócio -- fez questão de marcar a entrevista por lá -- e gosta de passar as tardes lendo jornal e proseando com os amigos.
Número de frases: 110
Pintura verde, janelas grandes, salas amplas e cadeirinhas também verdes.
Em a entrada, um portão gradeado e uma área que, tenho certeza, já tinha sido uma garagem.
Era ali eu que esperava, por mais de uma hora, meus pais me buscarem, brincando com massinha e fazendo os mais estranhos desenhos, rolando no chão.
Chamava-se Primeiros Passos, um nome bem característico de escola para crianças.
Foi nesse espaço que começaram os meus estudos, no então chamado Jardim II, em 1991.
E até à oitava série do Ensino Fundamental foi assim:
Bruna e seu irmãozinho mais novo, quase sempre, ficavam esperando seus pais até a hora em que os alunos do período vespertino começavam a chegar.
A Escola era particular e localizava-se no setor Itatiaia III, próximo ao aeroporto de Goiânia, cidade, para mim, maravilhosa, capital do Estado de Goiás.
Tia Zizita, a diretora, e tia Lílian, a professora, estão na minha memória até hoje.
Em um passado não muito distante chamávamos, aqui em Goiás, as nossas professoras de tias.
Aliás, acredito que no Brasil inteiro era assim.
Não se usa mais isso.
O edifício escolar ficava num lote de esquina.
à direita havia um pátio enorme onde eu passava os períodos de recreio brincando e pulando.
Foi neste lugar que ocorreu um vexame infantil que insiste em não sair da minha memória.
A escola toda preparava-se, com antecedência, para homenagear as mães no seu dia.
Vários esquetes foram montados para permitir a apresentação de muitas crianças -- os pais adoram ver o desempenho dos próprios filhos (e criticar os dos filhos dos outros).
Fui escolhida para ser a mãe numa peça teatral.
Meu papel consistia em dizer em frente a um tanque imaginário «Lava a roupa todo dia, que agonia».
Muito treinei, ensaiei e representei no palco mais aconchegante do mundo -- a sala da minha casa.
Meu pai e minha mãe adoraram (os pais sempre adoram, não é?)
Acho que passei semanas ensaiando.
Eis chegada a hora.
O pátio (aquele, à direita) todo lotado por pais e mães de alunos sentados em cadeiras cuja cor não me lembro (sei que não eram verdes), o palco montado em frente a todos e o locutor (ou locutora?)
chamando a «mãe Bruna» e o restante dos atores daquela peça.
Eu estava vestida com uma roupa qualquer e um avental da minha mãe.
Entrei. As mãos suadas e o rosto abaixado indicando que eu estava morrendo de vergonha.
Depois de explicado o que seria a peça -- que era um homenagem e tal -- foi dado o toque para que eu começasse a cantar enquanto fingia lavar roupa.
Travei!!!
Não consegui cantar.
Não consegui falar.
Não me mexi.
Só pensava em sair correndo.
Não sei dizer quanto tempo demorou aquele constrangimento.
Só sei que minha mãe deve ter rezado para eu soltar alguma palavra.
Coitada!! Ainda bem que em casa eu tivera a coragem de representar a pequena fala e o presente, para ela, já havia sido dado.
Consegui sobreviver e até superar, bastante, a timidez.
Fiz amigos e consegui me socializar.
Mas o trauma relativo ao Teatro permanece.
Já me arrisquei a subir nos palcos algumas poucas vezes, mas nenhuma de elas com muito sucesso.
Número de frases: 40
Prefiro mesmo é assistir peças e depois contar como foi o desempenho dos atores, tornar-me escritora ou jornalista!
Muito se especulou do que seria (e como seria), o quarto Cd da banda, que recebeu o singelo nome de 4.
Quando saiu, foi um espanto, uma velha madrugada sonora rotulada de MPB tomou à frente, e todo mundo se perguntou?
É rock, é MPB, é samba?
Em a verdade, a influência dos grandes mestres brasileiros sobre a banda, que agora todo mundo percebia, vinha desde muito cedo, cedo até de quando eles ainda nem eram os hermanos, o negócio é que ninguém percebia.
O máximo que chegava era vez ou outra uma revistinha qualquer colocava a foto na capa dos 4 desengonçados, com um título bem grande em cima:
O rock intelectual brasileiro, ou coisa assim.
Mas no 4, todo esse modo de fazer música saltou, lento e conciso.
Visceral, porém, doce.
Tudo veio à tona, para a mídia especializada, e para os «cri-cri» (mais conhecidos como joselitos, caxias, pirracentos, picuinista, dependendo de sua região) que ali moram, num certo canto da música brasileira.
O resultado disso?
Isso mesmo, como disse, espanto.
Aí sim, depois que caiu a ficha " de todo mundo, alguns se viram e se debatem:
-- Cara, Los Hermanos é só um cópia frustrada do Chico Buarque, você não percebe?
Quer ver um som melhor, então escuta logo o Chico. (
já ouvi isso uma centena de vezes)
Em certos pontos eu concordo.
Acho que a banda busca, na verdade, uma sonoridade semelhante àquela usada nos tempos dos festivais, porque isso os influenciou na época.
Igualmente um jovem na década de 80', que escutava Pet Shop Boys, Duran Duran e Cindy Lauper.
Mas a proposta se faz com um jeito de produzir essa sonoridade com declives mais modernos.
Não entendo o mal de se juntar uma grande influência, como os elementos do seu cotidiano, ou equipamentos (digo equipamentos musicais mesmo), para se construir um som que se gosta, e isso não quer dizer, necessariamente, que quer construir algo novo, nem tão pouco, mudar a historia da musica brasileira, como alguns insistem dizer que é o objetivo.
Que besteira.
É como gostar de Pink Floyd e Cansei de Ser Sexy, e querer fazer uma música que junta as duas bandas, que mal há se são duas grandes influências?)
Lembro agora do início da carreira do cantor folk norte americano, Bob Dylan.
Ele nasceu em Duluth, numa cidadezinha que talvez nem no mapa existia, logo, sua influência maior foi a folk music, semelhante a um jovem que nasce no interior de Goiás, e se apaixona por as violas sertanejas.
A os 20 anos, ainda no início, foi morar em Nova York, que já era uma cidade grande, nisso escutou o rock ' n ' roll, e se apaixonou novamente.
Mais tarde, ele juntou sua paixão, sua influência maior (folk), com o seu cotidiano, com seus elementos atuais (Rock).
Assim, já se imagina o que aconteceu, quando juntaram a musica folk com uma guitarra elétrica.
O resultado disso:
Duas turnês com vaias em todos os shows!!
E foi isso mesmo.
Hoje, depois de 40 anos, temos a pequena noção, de dizer que ele mudou a historia, e foi um grande futurista, dinâmico, inovador.
Mas o que importa?
Em a época, ele foi chamado de louco, hipócrita, mercenário e, claro, uma cópia frustrada de algum grande nome do rock ' n ' roll da época. (
mais detalhes, você pode ver no documentário Em o Direction Home, dirigido por Martin Scorsese)
Em a terceira parte, falo sobre outras bandas que também trouxeram uma nova sonoridade, sem buscar uma originalidade.
Mas que de alguma forma trouxe ciumeira no meio musical.
E ainda, e as influências de Chico Buarque?
Será que ele também um dia não foi chamado de cópia?
Primeira parte:
Número de frases: 40
http://www.overmundo.com.br/overblog/los hermanos uma copia de chico buarque parte 1 O Jornalismo Literário:
Espaço
De Crítica E Divulgação
Aníbal Beça © Historicamente, o jornalismo literário tem contribuído para abrigar a produção de escritores e, consequentemente, a divulgação de suas obras.
Exemplos singulares, desde o início do século XX, primeiramente na Europa, os suplementos se popularizaram como elemento de discussão crítica e geradores de polêmicas.
Quer no campo artístico:
música, dança, teatro, cinema e artes plásticas e no literário:
poesia, conto, novela, ensaio e romance.
A divinização da figura do crítico chegou a um ponto de importância, sendo capaz, inclusive, de selar o sucesso ou o fracasso de um livro ou de um espetáculo.
Mas foi nos Estados Unidos, que uma nova rota se delineou, dentro das próprias redações, os jornalistas se atiraram à aventura literária.
Hoje, assistimos, por todo o mundo, lançamentos de livros de jornalistas, em sua maioria, de reportagens, (Olga, Bossa-Nova etc.) mas com um tratamento de linguagem mais elaborada.
É fato, também, que o estilo direto do jornalismo, em muito influenciou a prosa de ficção e de ensaios.
Aqui em Manaus, destacaria, economicamente, três fases importantes do jornalismo e dos suplementos literários.
Em a década de 30 o tablóide do jornalista «Clóvis Barbosa A Selva», abrigando as notícias do modernismo de 22 e as primeiras produções dessa escola entre nós, através de Pereira da Silva e Violeta Branca, de entre outros.
A página «Madrugada» da década de 50/60 e início de 70, publicada em «O Jornal» e posteriormente em «A Crítica», destacando-se a figura de Aluisio Sampaio como diretor.
Em a década de 70, no Jornal do Comércio, a UBE (União Brasileira de Escritores), à frente João Bosco Evangelista e eu, com a página «Literatura UBE».
Depois, muitas outras tentativas, mas sem durar um veranico sequer.
Ao contrário dos «jornalões» do circuito Rio-Sampa, hoje não temos mais suplementos literários como o Mais, Idéias, ou Prosa & Verso.
Os suplementos cobrem mais o lazer, as ditas variedades e o colunismo social.
Apesar de algumas tentativas de alguns jornais em publicar crônicas e ou resenhas de livros.
Fazendo um exercício com o meu leitor, embarco no terreno da suposição para me transportar e me transformar na figura de um pauteiro, de um repórter a me auto-entrevistar.
«O que é ser escritor no Amazonas?
Como publicam os seus livros?
De que vivem?
Quem os lê?
Seus livros são vendidos em outros estados?
Eles (os escritores) recebem auxílio do estado, do município, de algum mecenas?
Como se relacionam com a mídia?
Precisam pedir para publicar os seus escritos?
Os jornais lhes pagam ou isto é tido como um grande favor?
São naturalmente estudados ou é preciso «convencer» a universidade a pôr algum de seus livros nos cobiçados vestibulares?
Enfim, coisas de interesse para a categoria de escritores.
Vale a pena ser membro de academia?"
AB Acho que vale, sim.
As academias, da brasileira às estaduais e municipais, têm o seu prestígio mítico:
quem está longe de elas e não as conhece bem lhe dá um valor «sobrenatural», como se estando em ela o escritor estivesse por cima do bem e do mal, estando por isso mesmo» consagrado " como o melhor.
Mas não é bem assim:
o valor literário não conta, e sim o relacionamento que ele tiver com os acadêmicos.
Quem está perto sabe da relatividade das academias e sabe que, isoladamente, os acadêmicos às vezes não valem grande coisa, mas agremiados, são muito fortes, tanto cultural como politicamente.
Há uma espécie de auto-ajuda acadêmica.
Depois dessa catarse, declaro que este artigo foi motivado por a notícia que correu na cidade da extinção do estudo da literatura aqui produzida na Ufam.
Parece que retrocederam.
Meno male.
Número de frases: 43
Em o final do ano, parece que as pessoas fazem pequenos balanços de suas vidas.
Por instantes, a introspecção as invade, sentem-se incomodadas por a liquidez a qual estiverem submetidas nos últimos tempos, pensam e tentam não quere-las.
Mas a recaída introspectiva logo cede lugar à liquidez do contemporâneo somada à liquidez do final de ano.
Aquele pequeno incômodo de não saber o que se pode fazer para não se viver assim, somado à ausência de ferramentas para que se possa viver de maneira diferente, e o grito de uma suposta felicidade que todos entoam viver a toda virada de ampulheta, logo se esvai.
Número de frases: 4
A felicidade dita ainda serve mais ao ego do que um incômodo bem pensado e vivido.
«Atravessar a barreira do underground é o que todo mundo espera.
É um processo que exige tempo, perseverança.
O mais importante é fazer com que as pessoas acreditem no seu recado.
Em um determinado momento vai acabar dando certo."
Fábio Massari, jornalista.
«Vai acabar dando certo."
Essa é a frase que todo artista independente gostaria que se concretizasse em algum momento da sua carreira.
Alguns chegam lá mais rapidamente, outros nem por a esquina passam, e ainda há aqueles que são atropelados no meio do caminho.
Então, afinal, como atingir um público maior, ganhar reconhecimento e andar com passos firmes nesse terreno pedregoso?
Computadores, softwares, bons instrumentos musicais nacionais são alguns dos itens que vêm facilitando a produção de CDs dos independentes.
Tudo ficou mais rápido e barato.
Para Alejandro, guitarrista e vocalista da Detetives, a maioria dos grupos atingiu um nível satisfatório no que se refere à gravação dos seus discos.
Mas ele reclama que é difícil viabilizar uma boa divulgação com pouco dinheiro.
«Todo mundo está gravando bem.
O que falta é grana para o marketing em rádio, TV e em outros meios.
Algumas rádios dão uma força aqui e ali, mas, infelizmente, para aparecer mesmo tem que pagar», lamenta.
Para o guitarrista e tecladista da também paulistana Ludov, Mauro Motoki, as bandas não devem ficar paralisadas diante da omissão das rádios e de uma suposta falta de lugares para a realização de shows.
«Os grupos têm que trabalhar com afinco e bem para poder se destacar."
As palavras de Motoki encontram reforço na própria situação atual do Ludov.
Após mudar de nome -- antes se chamavam Maybees, passar a cantar em português, trabalhar intensamente com a internet e lançar o bem-sucedido EP Dois a Rodar, em 2003, a banda foi contratada por a Deck Disc, uma espécie de prima rica das gravadoras indies.
Em a nova casa, lançaram em 2005 o CD O Exercício das Pequenas Coisas.
Bandas como o citado Ludov, Gram e Astronautas (foto) -- do Recife, atualmente radicada na capital paulista -- fazem parte de uma parcela de artistas que abandonaram aquele desgastado pensamento de se preocupar apenas em tocar.
«O cara que pensa assim está pensando com uma cabeça velha, vai sempre depender dos outros e é muito provável que se ferre.
Tem que administrar, saber usar a grana, reinvestir na banda e ir com calma, sem essa corrida desenfreada por o sucesso."
A opinião é de um expert no assunto:
Carlos Eduardo Miranda, produtor e ex-comandante da Trama Virtual, que entrou para o mundo «real» lançando CDs do Cansei de Ser Sexy, Rock Rockets e Zefirina Bomba.
Falando em selo, a Distribuidora Independente e a Tratore -- ambas instaladas em São Paulo -- são duas das maiores aliadas das pequenas gravadoras.
A primeira é, assim como a Trama Virtual, um dos braços da Trama e foi criada em 2002.
Os primeiros álbuns distribuídos foram Contraditório?,
de DJ Dolores, e Lunário Perpétuo, de Antônio Nóbrega.
Em 2005, esse número pulou para 290 CDs, além da parceria com 52 selos e 137 artistas.
A Tratore também começou em 2002.
Segundo Maurício Bussab, um dos seus sócios e integrante da banda Bojo, no início, eles distribuíam 20 discos.
Hoje, trabalham com 100 selos e 470 discos distribuídos.
Bussab comemora essa notável expansão, mas diz que ainda é preciso acertar alguns pontos para que os selos cresçam em termos qualitativos.
«Falta uma mentalidade mais empresarial e um comprometimento maior com prazos, cronogramas.
Pensar mais no que é necessário investir ' antes ` de gravar um disco."
De acordo com o músico e empresário, um dos grandes pecados cometidos por os selos e artistas independentes é o pouco investimento na promoção dos discos.
«Ainda existe uma mentalidade ingênua no nosso meio de que ' o disco vai vender porque é bom '.
Claro que ' ser bom ' é um pré-requisito necessário.
Número de frases: 41
Mas não basta», assevera.
Sempre achei que a palavra «impossível» devia ser dividida em duas:
uma quando é Realmente impossível, Teoricamente Impossível, que nunca vai acontecer, com probabilidade Zero!,
e não adianta esperar 298375289459284752984752984752894³ de anos que não vai acontecer e pronto;
a outra quando é impossível só na Prática e, embora seja possível, também nunca vai acontecer, com probabilidade menor que conhecida matematicamente como Zero!
Não sei se me fiz entender.
Para o primeiro caso.
É teoricamente impossível alguém desenhar um triângulo de 4 lados.
É impossível e pronto.
Ninguém vai conseguir, assim como não é possível nem imaginar isso acontecendo.
É teoricamente impossível misturar azul e amarelo e resultar em preto.
É teoricamente impossível um gato cruzar com uma vaca e nascer um cachorro.
Para o segundo caso.
É impossível alguém pular por sobre um prédio de 200 andares.
Sim, é impossível.
Mas não é teoricamente impossível.
Pode-se pular?
Pode-se.
Mas vão pular?
Não. Quais as chances?
Zero. É impossível.
Mas não teoricamente impossível.
É impossível alguém saber todas as obras de Shakespeare de trás para a frente.
Mas não teoricamente impossível.
É impossível algum macaco treinado digitar todas as obras de Shakespeare num teclado escondido embaixo de um monte de cocô de girafa doente no sul do Afeganistão.
Mas não teoricamente impossível.
Percebem a diferença?
Número de frases: 27
Hã? O que há por trás da fala dos jogadores de futebol?
«Sabemos que o adversário é muito difícil, mas vamos dar tudo de si para ajudar nossos companheiros a conseguir a vitória».
Frases como esta viraram chacotas folclóricas no futebol brasileiro e espalharam o senso comum de que todo jogador de futebol fala sempre as mesmas coisas e invariavelmente com um português torto.
Mas essas frases são ao mesmo tempo reveladoras de fatos e desveladoras de mitos do que se dá dentro e fora das quatro linhas que demarcam o mais popular esporte no Brasil e no mundo.
Boa parte dos jogadores brasileiros de fato não parecem exibir na língua a mesma habilidade que tem nos pés.
Em a maioria vindos do andar de baixo da pirâmide social, os jogadores brazucas repetem uma sina secular que os confina numa situação de baixíssima representatividade lingüística que beira um preconceito de classe (e por extensão, linguístico).
Ainda que hoje, bem diferente de seus pares do início do jogo no país, sejam ícones midiáticos e encham os bolsos de dólares e euros.
Mas esse repeteco de frases feitas e erradas para o padrão culto da língua, muito mais do que falta de formação, tem lastro no contexto que os cerca.
É o que mostra o jornalista Elder Pereira Dias, que se aventurou em fazer análise do discurso de jogadores de futebol para uma dissertação de mestrado no programa de pós-gradua ção em Letras e Lingüística da UFG.
Em esse estudo, concluído em novembro passado, o jornalista põe o dedo na própria ferida.
Segundo ele, o próprio repórter que lida constantemente com o jogador ajuda neste confinamento lingüístico de sua fonte.
Elder Dias lembrou no estudo uma passagem de um repórter de campo com Sócrates, ex-jogador do Corinthians e da seleção brasileira.
O jornalista perguntou a Sócrates por que os jogadores davam sempre as mesmas respostas nas entrevistas.
Sócrates devolveu na bucha:
«É porque vocês sempre perguntam as mesmas coisas».
Elder adiciona outros elementos neste papel preponderante da mídia na relação quase sempre passiva que os jogadores com ela mantêm.
«O repórter condiciona porque tem uma imagem prévia do jogador, de que ele tem pouco estudo, que não adianta perguntar outras coisas de outra forma porque ele não vai entender.
E o jogador condiciona-se a responder obviedades também por precaução:
muitas vezes, receia ferir o técnico, o companheiro de equipe ou a torcida», completa o jornalista.
Para ele, há também hierarquias nesta relação.
«O repórter trata diferente um Sócrates [que é médico], um Leonardo [ex-Flamengo, jogou fora do Brasil e aprendeu outras línguas] não por causa da escolaridade.
Há aí uma relação de poder entre repórter e jogador que faz um Romário, por exemplo, ser entrevistado diferentemente de um jogador comum», pondera o jornalista-pesquisador.
Para ele, há uma diferença também entre ouvir o jogador à beira do gramado e no estúdio da emissoras, nas acaloradas «mesas redondas».
Em a pesquisa " O jogador de futebol diante do microfone:
discurso e interdiscurso nas entrevistas esportivas», Elder Dias recolheu 81 entrevistas gravadas de jogadores de Goiás e outros Estados para emissoras goianas de TV.
Em os depoimentos, que bem podem ser comparadas a quaisquer outros Brasil afora, ele destacou seis tipos de discursos freqüentes na fala dos jogadores:
o discurso militar, o pedagógico, o familiar, o operário, o religioso e o artístico.
Para cada um desses discursos, há motivações subjacentes e pouco perceptíveis aos jogadores, e não só para eles.
«Em qualquer discurso, a tendência é a repetição, o que os teóricos da análise do discurso chamam de ' marcas discursivas '.
E isso geralmente é imperceptível para o médico, o advogado ou o jornalista.
O fato é que o discurso do jogador é mais massificado do que qualquer outro e cercado de preconceitos», analisa e completa:
«Não me parece crível que o discurso de um político ou um economista e seu economês sejam menos repetitivos do que o dos jogadores."
Em o capítulo três da dissertação, Elder Dias detalha como se dão estes «(inter) discursos» (grifo do pesquisador).
Em um resumo rápido, é assim:
o discurso militar no futebol é enfatizado o tempo todo no «vamos lutar por a vitória», frase que remete o esporte à competição como uma» guerra».
O discurso «pedagógico» é aquele em que o jogador vê no técnico a autoria e sapiência de um «professor» (nas entrevistas, não raro, os jogadores tratam assim os seus treinadores).
A «grande família» é reforçada nas concentrações em épocas decisivas.
Para ilustrar esse discurso, Elder Dias lembrou o episódio da Copa de 2002, que teve a seleção pentacampeã apelidada de «Família Scolari», termo criado por a própria imprensa em alusão ao fato do treinador ter levado o grupo, desacreditado no país, a se fechar como uma» família " e ganhar o Mundial.
O quarto discurso mais recorrente no «corpus» da pesquisa de Elder Dias foi o do futebol «operário», aquele em que o jogador conjuga o verbo» trabalhar " e suas variantes para referir-se à sua atividade (" estamos trabalhando duro para conseguir os três pontos ").
O pesquisador chama atenção aqui a outro aspecto histórico importante do jogo.
«O futebol, assim como as modalidades artísticas, sempre tiveram uma resistência social para ser reconhecido como profissão.
Ainda hoje é comum ouvir das famílias para seus filhos coisas como ' quando você vai largar esse violão ou essa bola e arranjar um trabalho '?»,
disse o jornalista.
O quinto discurso tem a ver com religiosidade, outro tema de forte ascendência sobre os jogadores.
O imponderável do jogo, o «Sobrenatural de Almeida», personagem sensacional criado por Nelson Rodrigues, explicaria esse apego dos jogadores ao discurso religioso na hora do gol ou da vitória.
Assim, tudo aconteceria de bom ao artilheiro ou ao time «graças a Deus».
Elder Dias lembra neste aspecto a predominância da tradição católica brasileira, mas bem que poderia lembrar também que até no futebol houve uma contra-reforma com os chamados «Atletas de Cristo».
O sexto (não o último) discurso mais encontrado foi o discurso artístico, ou seja, o estádio como palco de «espetáculo».
«Como o ator diante da platéia, o músico no palco e o bailarino no tablado, o jogador de futebol vê, a seu modo, também a sua atividade com uma arte», anotou o jornalista-pesquisador.
Elder Dias se valeu de horas de fita VHS gravadas dos jogadores goianos entre o segundo semestre de 2003 e o primeiro de 2004, abordando tanto o Campeonato Goiano, quanto a participação de clubes goianos em campeonatos nacionais.
Em a pesquisa, Elder Dias lembra o tempo todo de livros e autores fundamentais para a compreensão da história do futebol no pais, com maioria de autores brasileiros que não são da academia e têm publicações recentíssimas -- de 2000 para cá (a exceção são os autores que embasaram especificamente a Análise do Discurso, teoria em que se fundamentou o trabalho, como Michel Foucault e Michel Pêcheux, entre outros).
E aí, o jornalista faz uma observação que bem serviria de mea culpa à universidade.
Em pese o futebol ter se tornado um grupo lingüístico importantíssimo para o País, não existem estudos de fôlego sobre ele fora campos da sociologia e antropologia.
«Durante as leituras, descobri um fato interessante sobre a negligência nacional com a pesquisa do futebol:
um escritor e jornalista inglês, Alex Bellos, observou que o único livro publicado sobre a seleção brasileira tricampeã mundial de 1970 foi escrito por um britânico e ainda não está disponível no Brasil», anotou o jornalista no rodapé da introdução da pesquisa.
Enfim, o estudo de Elder Dias mereceria virar livro.
Além dos momentos saborosos, lembra que nem todo papo de bola é o que parece ser.
Aqui «treino é treino e jogo é jogo», parafreseando o impagável ídolo Didi (do Botafogo e seleção brasileira dos anos 50 e 60).
Número de frases: 58
Cordel:
do sertão nordestino à contemporaneidade da Internet
Gustavo Dourado * www.gustavodourado.com.br/cordel.htm
Os Doze Pares de França, O Pavão Misterioso, Juvenal e o Dragão, Donzela Teodora, Imperatriz Porcina, Princesa Magalona, Roberto do Diabo, Côco Verde e Melancia, João de Calais, O Cachorro dos Mortos, A Chegada de Lampião no Inferno, Viagem a São Saruê ...
São livros do povo (alicerçado no pensamento do mestre Luís da Câmara Cascudo e deste poeta cordelista).
Fontes da Poesia Popular do Nordeste do Brasil. Alguns são adaptações e recriações do romanceiro europeu.
Quintessências da Literatura de Cordel.
Origens do Cordel
Cordel. Vem de corda, cordão, cordial, toca a alma e o coração.
Os folhetos eram expostos em cordões, lençois, esteiras, nas feiras, praças, portas das igrejas, bancas e nos mercados.
Literatura de cordel, poesia de cordel, romance, folheto (s), arrecifes, abcs, «folhas volantes» ou «folhas soltas»,» littèratue de colportage», «cocks» ou «catchpennies»,» broadsiddes», «hojas» e «corridos» ...
São nomes que a poesia popular recebeu ao longo do tempo, na Europa e nos países latino-americanos, com mais destaque no Brasil, principalmente no Nordeste.
Em o Brasil, o termo cordel foi consagrado como sinônimo de poesia popular.
O cordel apresenta-se em narrativas tradicionais e fatos circunstanciais, em folhetos de época ou «acontecidos».
As origens da literatura de cordel estão na Europa Medieval.
Tem suas bases na França (Provença), do século XI e posteriormente na Espanha, Portugal, Itália, Alemanha, Holanda e Inglaterra.
Chegou ao Brasil Colônia com os navegadores portugueses, depois incorporou a poética nativa do índio, a criatividade e o ritmo da poesia do negro, dos vaqueiros e tropeiros (o aboio).
Tornou-se um ritmo sertanejo-tropical, integrando-se a outros ritmos como o baião, o xote, o xaxado e o forró.
Ganhou uma característica especial com o advento da xilogravura, na ilustração das capas de milhares de folhetos.
Alguns xilogravurisatas se destacaram:
J. Borges, Dila, Samico, entre outros.
Polêmica e complexidade dos ciclos temáticos.
Os principais temas e ciclos do cordel abordam assuntos diversos (síntese de classificaçãoes):
abcs;
pelejas, cantorias e desafios;
religiosidade; costumes;
romances; história (estórias);
circunstância (s), heroísmo (façanhas, grandes feitos);
cavalaria (vaqueiros, bois, cavaleiros, tropeiros);
valores, moral e ética;
atualidades; fatos e acontecidos;
sociais e noticiosos, propaganda;
louvações; conselhos e exemplos;
fantasias (fantástico, maravilhoso);
profecias, apocalipse e fim do mundo;
biografias e personalidades;
poder, estado e governo;
política e corrupção;
intempéries e fenômenos da natureza (secas, inundações, maremotos, terremotos, furacões, tempestades);
crimes; coronelismo;
cangaço; valentia e bravura;
banditismo e jagunçagem (Lampião, Maria Bonita, Antônio Silvino, Corisco e Dadá, Sinhô Pereira, Jesuíno Brilhante, Quelé do Pajeú, Lucas de Feira, Volta Grande, Horácio de Matos);
Padre Cícero (Coronel e " Santo do Juazeiro ");
Frei Damião; Getúlio Vargas (Estado Novo, conquistas trabalhistas);
Antônio Conselheiro (Canudos);
Coluna Prestes e Revoltosos; Juscelino Kubitschek (construção de Brasília);
Lula; papas e santidades;
televisão e cinema;
artistas e personalidades;
ciência e tecnologia;
Internet; crítica e sátira;
espertezas; humor;
obscenidade, putaria e sacanagem (pornocordel);
assombração; terrorismo (atentados) e guerras (guerrilhas);
modernidade e contemporaneidade;
entre outros menos conhecidos e ainda não catalogados etc.
Classificação temática do cordel, por Ariano Suassuna:
Erudito:
1) " Ciclo heróico, trágico e épico;
2) Ciclo do fantástico e do maravilhoso;
3) Ciclo religioso e de moralidades;
4) Ciclo cômico, satírico e picaresco;
5) Ciclo histórico e circunstancial;
6) Ciclo de amor e de fidelidade;
7) Ciclo erótico e obsceno;
8) Ciclo político e social;
9) Ciclo de pelejas e desafios."
Popular:
1) Romances de Amor;
2) Romances de Safadeza e Putaria;
3) Romances Cangaceiros e Cavalarianos;
4) Romances de Exemplo;
5) Romances de Espertezas, Estradeirices e Quengadas;
6) Romances Jornaleiros;
7) Romances da Profecia e Assombração.
Os cinco temas mais freqüentes na classificação popular da literatura de cordel são so seguintes:
romance, desafio, valentia, encantamento e gracejo.
Ariano Suassuna classifica sinteticamente a literatura de cordel nos seguintes ciclos temáticos:
histórico, heróico, moral / religioso, satírico e maravilhoso, entre outras variações.
Gilmar de Carvalho, pesquisador do cordel e professor da Universidade Federal do Ceará opina sobre os ciclos temáticos da literatura de cordel.
Segundo ele:
«a divisão em ciclos não é a forma mais adequada para se encaixar esta fértil produção cultural -- além de reducionista, a classificação empobrece a compreensão real do cordel.
Para efeito didático, no entanto, é possível apontar alguns dos temas presentes com maior intensidade nos livretos, bem como os mais representativos para o Estado:
a religiosidade, o cangaço e a seca, por exemplo, além de personalidades recorrentes como Padre Cícero e «Antônio Conselheiro».
«São temas que refletem a nossa realidade, contaminados por a nossa visão de mundo», explica o pesquisador.
Classificação de Liêdo Maranhão:
I -- Folhetos:
1) de conselhos
2) de eras
3) de santidade
4) de corrupção
5) de cachorrada ou descaração
6) de profecias
7) de gracejo
8) de acontecimentos
9) de carestia
10) de exemplos
11) de fenômenos
12) de discussão
13) de pelejas
14) de bravuras ou valentia
15) de Abc
16) de Pe.
Cícero 17) de Frei Damião
18) de Lampião
19) de Antônio Silvino
20) de Getúlio
21) de política
22) de safadeza e putaria
23) de propaganda
II -- Romances:
1) de Amor
2) de Sofrimento
3) de Luta
4) de Príncipes, Fadas e Reinos Encantados
Análise do professor Eduardo Ditahy
Sobre a temática do cordel o professor Eduardo Diatahy, da Universidade Fedral do Ceará, foi enfático:
«A quase unanimidade dos que se debruçaram sobre a Literatura de Cordel -- ou «Literatura Oral», como querem Câmara Cascudo e outros folcloristas nas pegadas do estudioso francês Paul Sébillot -- propôs uma classificação por temas do material que compõe esse gênero de produção da cultura popular nordestina.
Ditahy explicita que «uma das raras exceções nesse domínio foi a de Mário de Andrade que, em seu curto ensaio» O Romanceiro de Lampeão», limitou-se a constatar, nisso porém simplificando demasiadamente as coisas:
«O cantador nordestino tem duas formas principais de poesia cantada:
o Desafio e o Romance."
Complementa o mestre cearense " Eduardo Ditahy:
«nesse terreno, tudo se passa como se, à primeira vista, o estudioso quisesse demonstrar a sua competência rejeitando as tipologias dos demais e construindo a sua própria classificação mediante alguns arranjos e acréscimos.
Ditahy conclui citando vários pesquisadores:
«assim, vamos encontrar classificadores em Leonardo Mota, Câmara Cascudo, Manuel Diégues Jr., Alceu Maynard, M. Cavalcânti Proença, Orígenes Lessa, Roberto C. Benjamin, Carlos Alberto Azevedo, Hernâni Donato, Raymond Cantel, etc..
E ainda posso destacar dois outros casos curiosos.
Um, o de Liedo Maranhão de Souza, que tomou a sábia decisão de dar a palavra, na matéria, aos poetas e agentes da Literatura de Cordel, produzindo algo que tem o mérito de apresentar a linguagem e a visão do povo, mas que é pouco útil como instrumento de análise por sua extensão e inconsistência lógica (e, talvez, eu dissesse melhor: por sua redundância)», arremata Ditahy emn sua análise sobre os ciclos do cordel.
Mitologia e Trovadorismo ...
A Literatura de Cordel, mais que centenária no Brasil (ultrapassou cem mil títulos publicados, segundo Joseph Luyten), tem suas origens ocidentais e pré-medievais, no universo poético de Provença, França, com os trovadores albigens (com destaque para Arnaud Daniel, Bertran de Born, Guiraut de Bornelh e Rimbaud Daurenga).
Entre os trovadores portugueses, precursores da Literatura de Cordel e do Repente, vêm-me à memória Martim Soares e Paio Soares de Taiverós, além dos célebres reis-trovadores Dom Diniz e Dom Duarte.
As influências sobre o cordel e a poesia popular contemporânea são multidiversas:
desde a poesia mesopotâmica árabe-fenício semítica, mediterrânea, hindu e persa, à poética egípcio -- caldaica -- hebréia -- greco -- latina e afro -- indígena ...
Não se pode esquecer a influência bíblica (Salmos de Davi, Provérbios de Salomão, Cântico dos Cânticos, Apocalipse), do Lunário Perpétuo, enciclopédias, dicionários, almanaques, dos grandes livros religiosos e belos cânticos de todos os tempos, presentes nas diversas civilizações ao longo do processo histórico.
Os chineses e indianos devem ter tido significativa influência nas origens e desenvolvimento da poesia popular, por sua antigüidade e por tantos escritos primordiais como os Vedas, Gita, Upanishads, Mahabarata, Ramayana, I Ching, o Zen e o Tão -- Te -- King, via Confúcio, Lao-Tse, Buda, Krishna, Rama e outros sábios do velho e mágico Oriente, tão incompreendido por a cultura ocidental.
A Poesia de Cordel demonstra a sua força e pujança na expressão ibero-lusitana -- afro -- brasilíndia e galego -- castelã ...
Sem esquecer da verve provençal e italiana (latina).
Os romanos com suas epopéias fecundaram a semente da poesia ocidental, herdada dos gregos, etruscos, celtas, gauleses, bretões, normandos, nórdicos e dos povos bárbaros da antiga Europa, Ásia e África.
Foi nesse espaço mitológico que surgiu a poética mágica de Dante e a verve inventiva do mestre Leonardo da Vinci e dos grandes artistas italianos.
Entretanto, foi na Espanha de Quevedo e Cervantes (Quixote) e em Portugal de Pessoa, Camões e Gil Vicente, que o cordel ganhou feição popular e postura lítero-poética.
É na poesia cavalheiresca e trovadoresca que o cordel se inspira e alimenta-se de forma histórica, principalmente a partir dos Doze Pares da França (que retrata os tempos do Imperador Carlos Magno), das gestas e epopéias, dos bardos, apodos, Templários, da Távola Redonda do Rei Arthur, de El Cid, O Campeador, dos cavaleiros e cruzadas e da obra monumental de Camões e Cervantes, ambos influenciados por Dante Alighieri e por toda a tradição popular da oralidade Os trovadores foram os principais precursores e alicerces para a futura Literatura de Cordel nos países de língua portuguesa, principalmente no Nordeste do Brasil, a partir de Salvador-Bahia, dos portos marítimos e do Rio São Francisco, até chegar em Campina Grande, Caruaru e Juazeiro do Norte, onde criou raízes e imortalizou-se na verve dos poetas cordelistas e cantadores repentistas.
Não se pode esquecer o papel do boi (ciclo do gado), dos bandeirantes, dos jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, do negro (batuque, orixás, terreiros, candomblé), dos índios, caboclos, mamelucos, cafusos, mulatos, garimpeiros, aventureiros, lavradores, vaqueiros e tropeiros:
disseminadores de costumes, falas e dialetos por o vasto Sertão, da poesia regional e universal.
Os poetas cantam a sua aldeia e desencantam os uni.
versos.
A Literatura de Cordel foi enriquecida por a criatividade e maestria de Gil Vicente, Camões, Rabelais, Gregório de Matos, Bocaje, Castro Alves, Gonçalves Dias, Cervantes, José de Alencar, Tobias Barreto, Catulo da Paixão Cearense, Juvenal Galeno, Ascenso Ferreira, além da contribuição incomensurável dos trovadores provençais e do romanceiro medieval.
Pesquisa, influências e confluências ...
O cordel ganhou o mundo por meio do estudo, pesquisa e divulgação de mestres, leitores, amantes e pesquisadores da cultura popular, nomes como:
Luís da Câmara Cascudo, Leonardo Mota, Manuel Diégues Jr, Ariano Suassuna, Rodrigues de Carvalho, Gustavo Barroso, Átila de Almeida, José Alves Sobrinho, Manoel Florentino Duarte, Rogaciano Leite, Jorge Amado, Glauber Rocha (pai do Cinema Novo), João Cabral de Melo Neto (Morte e Vida Severina), Rachel de Queiroz (O Quinze), José Américo de Almeida (A Bagaceira), José Lins do Rego (Fogo Morto), Graciliano Ramos (Vidas Secas), Mário de Andrade (Macunaíma), Sebastião Nunes Batista, Veríssimo de Melo, Sílvio Romero, Tobias Barreto, Vicente Salles, Alceu Maynard, Cavalcanti Proença, Roberto Benjamin, Carlos Alberto Azevedo, Hernâni Donato, Liêdo Maranhão de Souza, Téo Azevedo, Orígenes Lessa, Mário Lago, Américo Pellegrini Filho, Jerusa Pires Ferreira, Sebastião Vila Nova, Ruth Brito Lemos, Gilmar de Carvalho,
Raymond Cantel, Joseph Luyten, Mark Curran, Paul Zumthor, Candace Slater, Ria Lemaire, Silvie Raynal, Silvie Debs, Martine Kunz, Ronald Daus, Silvano Peloso, Zé Ramalho, Soares Feitosa (Jornal de Poesia), Ribamar Lopes, José Erivan Bezerra de Oliveira, Fausto Neto, Teófilo Braga, J. de Figueiredo Filho, Eduardo Diatahy de Menezes, Francisca Neuma Fechine Borges, Antônio Augusto Arantes, Ruth Brito, Maria de Fátima Coutinho, Rodrigo Apolinário (Cordel Campina), Maria Edileuza Borges, Alda Maria Siqueira Campos, Alícia Mitika Koshiyama, Maristela Barbosa de Mendonça, Mª José F. Londres, Patrícia Araújo, Doralice Alves de Queiroz, Esmeralda Batista, Viviane de Melo Resende, Márcia Abreu, Assis Ângelo, A.M Galvão, V.M Resende, Shirlley Guerra, Maria Julita Nunes e tantos outros destaques do mundo culturaliterário.
Renomados criadores das artes e da literatura brasileira foram influenciados por o cordel.
Saliento os principais que me recordo:
Ariano Suassuna, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Dias Gomes, João Ubaldo Ribeiro, Orígenes Lessa, Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Freire, José Nêumane Pinto, Francisco Carvalho, Gilberto Mendonça Teles e tantos outros criadores significativos.
Em a música, além de Villa-Lobos, a presença do cordel é marcante em Luiz Gonzaga, Elomar, Zé Ramalho, Raul Seixas, Antônio Nóbrega, Quinteto Violado, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Ednardo, Xangai, Fagner, Elba Ramalho, Belchior, Caçulinha, Mário Zan, Zeca Baleiro, Lenine, Chico Science, Chico César, Amelhinha, Juraíldes da Luz, Chico Buarque, Geraldo Vandré, João do Vale, Jackson do Pandeiro, Jorge Mautner, Tom Zé, Dominguinhos, Oswaldinho, Clodo, Climério e Clésio (Os Irmãos Ferreira do São Piauí e de Brasília), Sivuca, Zé Gonzaga, Marinês, Hemeto Paschoal, Pixinguinha, Cartola, Noel Rosa, Ary Barroso, Vital Farias, Genival Lacerda, Diana Pequeno, Roberto Correia, Nando Cordel, Cordel do Fogo Encantado, Castanha e Caju, Cegas de Campina Grande, Jorge Antunes, Anand Rao, Argemiro Neto, Genésio Tocantins, Paulinho Pedra Azul, Beirão, Waldonys, Robertinho do Acordeon, Zé Calixto, Arlindo dos Oito Baixos, Gérson Filho, Pedro Sertanejo, Furinchu, Chiquinho do Acordeon, Torquato Neto, Capinan, Pessoal do Ceará, Gilberto Gil, Jorge Mautner, Maria Betânia, Vinícius de Moraes, Milton Nascimento, João Gilberto e Caetano Veloso.
Só para lembrar alguns nomes expressivos.
A lista é quilométrica.
Mitos e precursores
Convém ressaltar figuras de destaque, mistura de cordelistas e cantadores como o lendário «Zé Limeira», fabuloso e fantástico Poeta do Absurdo, de Orlando Tejo e o inesquecível mestre Patativa do Assaré, da Triste Partida e tantas chegadas ...
Há ainda os semeadores Ugolino de Sabugi (primeiro cantador que se conhece), Nicandro Nunes da Costa, Silvino Pirauá, Germano da Lagoa, Romano da Mãe D ´ Água, Cego Aderaldo, Cego Oliveira, Zé da Luz, Fabião das Queimadas, Zé de Duquinha, Caraíba de Irecê, Otacílio e Lourival Batista, Ivanido Vilanova, Pinto do Monteiro, Pedro Bandeira, Raimundo Santa Helena, Oliveira de Panelas, Azulão, Franklin Machado Nordestino e Cuíca de Santo Amaro.
São símbolos que me vem de repente à memória.
Não posso esquecer de figuras mí (s) ticas do universo sertânico do cordel:
Lampião, Maria Bonita, Corisco, Antônio Silvino, Jesuíno Brilhante, Quelé do Pajeú, Lucas de Feira, Sinhô Pereira, Antônio das Mortes, os dragões da maldade, os santos guerreiros, beatos, jagunços, coronéis, cabras da peste, personagens glauberianos e cinematográficos ...
Presença no Brasil:
do sertão às grandes cidades
Em o Brasil, o cordel ganhou estatura poética na Região Nordeste do Brasil, por as bandas do Polígono das Secas, Vale do São Francisco, Sertão do Cariri, dos Inhamuns, do Pajeú, Serra de Santana, Serra da Laranjeira, a mítica Serra do Teixeira (Olimpo da Poesia), Campina Grande (Capital do Cordel), Pessoa, Vales do Jaguaribe, Parnaíba, Gurguéia;
Chapada Diamantina, Chapada do Apodi, Serra da Borborema, Chapada do Corisco, Caruaru, Juazeiro do Norte, Crato, Crateús, Limoeiro, Recife / Olinda, Fortaleza, Salvador, Serra Talhada, Quixadá, Qixeramobim, Cabrobó, São José do Egito, Patos, Piancó, Umbuzeiro, Penedo, Aracaju, Oeiras, Picos, Imperatriz, Pedreiras, Catolé do Rocha, Monteiro, Sumé, Serra Branca, Bezerros, Surubim, Mossoró, Caicó, Aracati, Paulo Afonso, Feira de Santana, Juazeiro, Petrolina, Teixeira, Irecê / Jacobina, Barra, Morro do Chapéu, Bom Jesus da Lapa, Senhor do Bonfim, Uauá, Chorrochó, Maceió, Natal, São Luís, Cachoeira dos Índios, Terezina, Parnaíba, Belém, Ilhéus, Itabuna, Canindé, Arapiraca, Palmeira dos Índios, Ingazeira, Quebrângulo, Santarém, Ipirá, Irará, Canudos, Monte Santo, Sertânia, Jequié, Vitória da Conquista, Ibititá, Canarana, Lapão, Recife dos Cardosos, Pirapora, Anápolis, Montes Claros, Rio, Paulo, Campinas, Diadema, Brasília / Ceilândia / Taguatinga / Gama e por a vastidão das metrópoles, dos campos, fazendas, roças, lugarejos, povoados, arraiais, arrabaldes, vilas, vielas, pés de serra e cidadelas da caatinga e do agreste.
Francisco Chagas Batista publicou um folheto, no ano de 1902, em Campina Grande, que está catalogado na Casa de Rui Barbosa -- no Rio de Janeiro.
É registrado como o primeiro folheto de cordel brasileiro publicado.
Muito outros anteriores, se perderam na poeira do tempo.
Por muitos desses caminhos andaram e foram lidos poemas dos vates -- poetas fenomenais:
O condoreiro Antônio Frederico de Castro Alves (uma espécie de precursor do cordel erudito e do improviso), Silvino Pirauá de Lima (o introdutor do folheto de cordel no Brasil, segundo Luís da Câmara Cascudo), Agostinho Nunes da Costa (um dos pais da poesia popular no Nordeste), Leandro Gomes de Barros (um dos principais cordelistas de todos os tempos, pioneiro-mor, publicou centenas de folhetos), Ugolino de Sabugi (primeiro cantador), Francisco Chagas Batista, Nicandro Nunes da Costa), Germano da Lagoa, Romano de Mãe D ´ Água, Manoel Caetano, João Benedito, Manoel Cabeleira, Diniz Vitorino, José Duda, Antônio da Cruz, Joaquim Sem Fim, Manuel Vieira do Paraíso, Romano Elias da Paz, Manoel Tomás de Assis, José Adão Filho, Lindolfo Mesquita, Arinos de Belém, Antônio Apolinário de Souza, Laurindo Gomes Maciel, Rodolfo Coelho Cavalcante, Francisco Sales Areda, Manoel Camilo dos Santos, Minelvino Francisco da Silva, Caetano Cosme da Silva, Expedito Sebastião da Silva, João Melquíades Ferreira da Silva, José Camelo de Rezende, Joaquim Batista de Sena, Gonçalo Ferreira da Silva, Teodoro Ferraz da Câmara, José Albano, João Ferreira de Lima, José Pacheco, Severino Gonçalves de Oliveira, Galdino Silva, João de Cristo Rei, Zé Mariano, Antônio Batista, José Alves Sobrinho, Manuel Pereira Sobrinho, Antônio Eugênio da Silva, Severino Ferreira, Augusto Laurindo Alves (Cotinguiba), Moisés Matias de Moura, Pacífico Pacato Cordeiro Manso, José Bernardo da Silva, Cuíca de Santo Amaro, João Martins de Athaide, Apolônio Alves dos Santos, José Costa Leite, Antônio Teodoro dos Santos, José Cavalcante Ferreira (Dila), Francisco Gustavo de Castro Dourado, Manoel Monteiro, Abraão Batista, J.Borges, Zé da Luz, Paulo Nunes Batista, Arievaldo e Klévisson Viana, Zé Soares, Zé Pacheco, João Lucas Evangelista, Amargedom, João de Barros, Zé de Duquinha, Carolino Leobas, Elias Carvalho, Zé Maria de Fortaleza, Audifax Rios, Adalto Alcântara Monteiro, Cunha Neto, João Firmino Cabral, José Antônio dos Santos, Pedro Alves da Silva, José Marins dos Santos, Manoel Serafim, Francisco Queiroz, Ary Fausto Maia, Toni de Lima, Bráulio Tavares, Téo Azevedo, Stênio Diniz, Josealdo Rodrigues, José Hélder França, Elói Teles, Luiz Augusto Bitu, Antônio Lucena, Geraldo Gonçalves de Alencar, Hélvia Callou, Edmilson Santini, Eugênio Dantas de Medeiros, Jomaci e Jandhuir Dantas, Francisco de Assis, Paulo de Tarso, Francisco Morojó, Pedro Osmar, Geraldo Emídio de Souza, Olegário Fernandes, Zé Antônio, Pedro Américo de Farias, Marcelo Soares, Jair Moraes, João Pedro Neto, Francisca Barrosa, Lourdes Ramalho, Tindinha Laurentino, Maria da Piedade Correia -- Maria Diva Guiapuan Vieira, Vânia Diniz, Lilian Maial, Vânia Freitas, Cora Coralina, José Leocádio Bezerra e diversos nomes recorrentes no fantástico cosmos cordelista.
Poetas significativos do passado e da atualidade, entre tantos baluartes da Poesia Popular e do Romanceiro do Cordel.
Cordel na Internet.
Amargedom, Almir Alves Filho, Anízio Guimarães, Benedito Generoso da Costa, Daniel Fiuza, Domingos Medeiros, Francisco Egídio Aires Campos (Mestre Egídio), Gonçalo Ferreira da Silva, Guaipuan Vieira, F.G C.Dourado, Jesssier Quirino, Jandhuir Dantas, José de Souza Dantas, Lenísio Bragante de Araújo, Rubênio Marcelo, César Obeid, Walter Medeiros (Todos os últimos citados são publicados constantemente na Internet).
Divulgam seus trabalhos nas páginas da Web com relativa freqüencia e constantes atualizações.
Número de frases: 174
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O Grão da Imagem -- Uma antologia de Vera Chaves Barcellos
A obra, e a exposição sobre a obra, de Vera Chaves Barcellos é cheia de predicados e superlativos.
São poéticas visuais -- e uma antologia de elas -- que caminham, ao longo de quatro décadas de trabalho, entre paralelas e perpendiculares entrecruzadas.
Existem ali, compiladas num espaço, instalações, vídeos, desenhos, fotografias, pinturas e gravuras, que dialogam através de um trabalho de análise curatorial que envolveu uma equipe diversa, cuidando da seleção das imagens, da montagem, da museografia, da iluminação, do seguro, da divulgação, das peças gráficas da divulgação e também de um vídeo sobre a artista e a mostra.
O time de curadores foi composto por Fernando Cocchiarale, Agnaldo Farias e Moacir do Anjos, num projeto que tem a consultoria executiva de Ana Albani de Carvalho e Neiva Bohns.
Os adjetivos são garantidos por os curadores, que por vezes beiram a adulação, já que eles (e o público) estão em frente de um trabalho que é universal por a qualidade estética.
A mostra é um tributo, uma antologia, uma retrospectiva, o alinhavo de uma trajetória.
É a possibilidade de valorizar e colocar os holofotes sobre a produção brasileira nos movimentos culturais e artísticos contemporâneos.
Um projeto que a superintendente do Santander Cultural, Liliana Magalhães, quer dar continuidade, abrindo espaço para outros artistas brasileiros, como fez questão de destacar na abertura da exposição de Vera Chaves Barcellos.
Mas «O Grão da Imagem» é, acima de tudo, o desafio de conectar o espectador com a multiplicidade artística de Vera Chaves Barcellos.
Artista com campo de atuação ampliado por a capacidade de perceber o que lhe circunda, ela é referência da arte contemporânea.
Em uma breve análise do há que de informação disponível sobre sua carreira, é notável que tenha iniciado numa rotina artística repleta de formalidade, que passa por a educação musical ao piano e por a pintura de influência modernista.
Em o vídeo que a exposição apresenta, Vera destaca o começo por a música e a descoberta de que poderia comunicar através da arte plástica os sentimentos que afloravam por a música.
A pesquisadora Mônica Zielinsky, no seu estudo de percepção, elenca fatores de interferência no processo artístico, como, por exemplo, as experiências passadas.
A o fazer seu relato de pesquisa, Zielinsky pondera que o fazer artístico é «a exteriorização de uma maneira de ver o mundo, a partir de valorações, pensamentos e condicionamentos que pertencem à história pessoal do artista, estruturados ao longo de uma interação social».
E interação pode ser considerada uma palavra de ordem na obra de Vera.
Quando ela direciona seu trabalho para o questionamento e a provocação do espectador, ela se torna pioneira no «cenário» das artes do Rio Grande do Sul, inclusive dando o pontapé inicial para a consolidação dessa cena, com o referencial «Espaço N.O.», feito entre 79 e 82, e seus desdobramentos.
Fernando Cocchiarale destaca esta atuação, que marca a descentralização da produção contemporânea longe do eixo entre Rio e São Paulo.
Provocação é um meio de fazer valer essa interação.
Em a série Testartes, feita durante da década de 70, perguntas instigam a imaginação:
o que está logo ali?
E ainda há o sensorial, na seqüência de Visual-Táctil:
«tente senti-las?»,
pede a artista.
Isso acontece, porque ela considera que a palavra surge colada com o trabalho fotográfico, e é o que a distancia da gravura.
Em a obra, Vera Chaves dá o depoimento:
«estou interessada em processos mentais.
E para desencadeá-los, uso imagens.
Algumas colocadas com a finalidade de uma leitura, numa reconstituição mental de tudo o quanto foi necessário para a existência do objeto representado».
E diz ainda «memórias e conteúdos de diversos níveis afloram nas respostas das perguntas formuladas, dando-nos ' as imagens da imagem '».
Estas indagações ficam cheias de significados quando ao lado da proposta de trabalho de " Leonardo da Vinci.
«Não deixarei de incluir nestes preceitos um novo método de especulação, que ainda que pareça insignificante, e quase faça sorrir, nem por isso deixa de ser de grande utilidade para avivar o engenho a várias idéias."
A confluência de informações mexe com o espectador, que tem a seu dispor a foto, o texto, a pergunta, um teste projetivo que trata de conteúdos personalizados.
O público é convidado a participar e ser artista.
A série de arte postal que nos anos 70 Vera espalha por o mundo, é um estímulo para que de assistente se passe a ator da realização.
O destinatário é o remetente, e faz isso com a propriedade investida por a artista, que irá se apropriar dos trabalhos recebidos.
E sempre através de indagações -- o que há nesse cofre?
Em a retrospectiva apresentada, vê-se esse questionamento em outros momentos.
Quem olha uma peça gráfica tem um enquadramento visual que se estrutura automaticamente.
O jogo aqui, neste trabalho da década de 80, é que a interpretação de leitura da imagem faz parte da obra de arte.
Isso a torna única para cada um dos espectadores.
E afinal, qual a primeira coisa que lhe chama a atenção?
O Grão da Imagem
A antologia que se constitui a exposição «O Grão da Imagem» é um fio condutor de 114 obras.
Como destaca a curadoria, é o recorte entre uma ruptura e a fase atual de Vera, ou seja, da pintura e da gravura até o experimento das sensações e da percepção, num fazer híbrido de influências.
Em entrevista, ela confessa o receio por a variedade do trabalho, temia que ficasse diante de uma mostra que tivesse ares de uma mostra coletiva.
Contudo, para sua agradável surpresa, compreendeu que o segmento do processo está coerente.
Em esta exposição, distanciada do universo do atelier, ela pode perceber «diferenças que aqui estão unificadas».
As pinturas e gravuras selecionadas trazem a estética da forma e da cor e são classificadas como excelentes por os curadores-admiradores.
São apresentadas num interessante jogo de exibição.
Elas, modernistas dos anos 60, namoram com a informalidade do abstracionismo que marca a ruptura referida por a curadoria e que fazem na obra da artista um «corte radical entre a tradição modernista e os primórdios da produção contemporânea no país».
Seguindo o olhar por um dos caminhos que a exposição possibilita, deixa-se a apreciação das gravuras e das pinturas e se apresenta uma das criações mais representativas para a inquietação imagética da artista e de grande vinculação com os objetos estudados no curso de poéticas visuais:
os «Cadernos para Colorir, de 1986».
Em este trabalho, que suscita a reflexão sobre significado da imagem, Vera faz a seleção de diferentes fragmentos da representação.
Uma imagem inicial que é recortada, trabalhada, copiada, fotografada, fotocopiada, e que ganha cor, ganha textura e volume e depois volta a ser lisa.
Questionam os curadores nas contextualizações expostas entre estas obras:
«Então estamos diante do que mesmo?».
E eles mesmos refletem que isso não é o primordial para a percepção, uma vez que esses retalhos de imagens dão ritmo ao olhar, e é muito pessoal sentir se será uma valsa ou um rock.
Entre os quadros de pinturas e gravuras dos anos 60 e «Cadernos para Colorir», feitos nos anos 80, está toda a renovação estilística a que Vera se propõe.
Ela afirma que «quando eu dominava uma coisa, procurava mudar» 6, alertando que com o domínio da linguagem existe o risco de que o artista se repita.
Mas, como revela a pesquisa de Mônica Zielinsky, a criação artística passa por a influência da origem e por o ambiente cultural.
Mônica cita Puig:
«as experiências anteriores guardam percepções anteriores e armazenadas na memória, e atuam de forma intensa no ato perceptivo mais recente».
Assim, Vera se dispõe a iniciar um regresso artístico, que concentra ali toda a influência, poética e técnica desenvolvida até então.
Em depoimento à época do lançamento dos «Cadernos», ela relata as dúvidas que tinha quanto ao trabalho, naquele momento muito próximo de ela.
Hoje, mais distanciada, a artista pôde conceituar o processo, ao dizer que ele marcava sua volta à pintura, feito a que ela, com sua dupla nacionalidade, dá um adjetivo espanhol, chamando de artesania seu trabalho visual.
Ainda sobre «Cadernos de Colorir», é esclarecedor o conceito de originalidade que ali se explora.
Cada imagem dos trios é original, apesar do resultado final ser reproduções de «uma foto, de um negativo, de um pedaço de negativo, de um positivo que é um detalhe de uma imagem maior».
Um trabalho original na feitura e original no conceito.
Uma repetição temática que enquadra uma nova idéia a cada reprodução.
A antologia de «O grão da imagem» conta também com uma obra inédita, que é «Em o a la guerra, de 2007».
Em este vídeo, que teve início em 2003, durante a invasão das tropas espanholas ao Iraque em apoio ao governo norte-americano, Vera apanha, é agredida por as imagens do conflito.
«Estou como se recebesse tapas, uma sensação visceral, triste, irritada, violentada» 9, conta ela.
O processo criativo advém do envolvimento.
Ela, declaradamente contrária à atuação militar no Iraque, se juntava ao povo espanhol ao fazer panelaços nos telhados das casas, em Barcelona.
Irritada, como se define, buscou então imagens da guerra em jornais, que foram escaneadas e se transformaram na agressão.
O curador Moacir dos Anjos enaltece o aspecto da obra de Vera Chaves no qual ele nota que é ela mesma quem se relaciona com a realidade, transmitindo para o trabalho não só uma representação dessa realidade.
E a própria artista acredita que " somos o que somos dentro.
E somos aquilo que nos rodeia».
Em as suas temáticas há impureza, existe a influência que contamina.
O vídeo «Em o a la guerra» pode ser considerado sua mais recente interação social, termo empregado por Zielinsky.
«O mundo está no vídeo do Iraque «10, ressalta Vera, que cita ainda o filósofo espanhol Ortega y Gasset, dizendo que» o homem é suas circunstâncias».
Museu Para O Público
As exposições do Santander Cultural são estruturadas a partir de projeto arquitetônico feitos por uma empresa paulista.
Arquitetos e artistas estiveram envolvidos no projeto museográfico, auxiliando na dimensão que a obra de Chaves Barcellos toma ao dominar o ambiente do Santander.
O espaço é preenchido por a história de uma produção em arte.
Vera e sua equipe, juntamente ao time de curadores, participam de maneira ativa da montagem.
Eles embalam e desembalam as obras, e conferem se tudo está de acordo.
No caso da instalação «O Nadador, de 1993», a proporção espacial de origem é, por exemplo, maior do que a disponível no museu.
Em o vídeo que integra a retrospectiva, pode-se perceber que lá estava a artista, encaixando os «aquários» de maneira que o significado da obra estivesse mantido.
A obra de Vera Chaves Barcellos preenche os espaços, e a visão do alto possibilita uma nova leitura de ângulos, que diminui o vazio da imponência arquitetônica, que este centro cultural transmite em determinadas ocasiões.
Isso permite que a arte ali apresentada em «O Grão da Imagem» seja inserida no contexto da ação educacional a que o Santander se dispõe, sendo mais vista, mais comentada e refletida, envolvida por a percepção crítica da assistência.
Cristina Freire acredita nesse papel da instituição museu, que «agência uma oportunidade para que esse se torne um lugar privilegiado de reflexão sobre o mundo contemporâneo e de educação da sensibilidade».
Os trabalhos de Vera Chaves, apresentados num museu, com uma unidade para o trabalho variado, vêm como um «dispositivo que opera na organização de um conjunto de idéias e proposições».
Essa é a forma que Freire fala do arquivo, aquele que investiga os conceitos do que é «arte, estilo, gosto, exposição, museu» e «altera paradigmas, sentidos e práticas de arte».
Uma mulher e um conjunto de obras, que pôde criar e gerenciar uma Fundação, dando seu nome para ela, e que tem preocupações com seu relacionamento com sua própria obra e de sua obra com seu público.
A leitura de cada um dos 114 trabalhos selecionados rende frutos, porque eles estão repletos de significados e provocações, onde o público é agente.
Em este conceito está o poder que Vera se investiu ao produzir arte:
cada vez mais imagens, mais repetição e a cada novo fragmento, um pensamento, uma metáfora.
O estímulo é feito.
E cada indivíduo o reveste de significado.
Então Vera Chaves Barcellos equaciona:
«Em as imagens, quanto mais margem você dá ao espectador, mais possibilidades de interpretação ele têm».
E assim ela faz.
Vera Chaves Barcellos é uma das mais destacadas artistas de arte contempôranea do RS e do Brasil.
Agindo na vanguarda, nos anos 70 seu trabalho visual abrange técnicas como a gravura, pintura, fotografia, instalação e vídeo-instala ção.
Ela dirige a Fundação Vera Chaves Barcellos, www.fvcb.com.br dividindo-se entre Viamão, no RS e Barcelona, Espanha.
A exposição «O Grão da Imagem» fica exposta no Santander Cultural de Porto Alegre, até o dia 29 de julho, com entrada franca.
Mais informações em www.santandercultural.com.br
Número de frases: 110
Esta matéria foi originalmente produzida para um trabalho de arte contemporânea do Pós-gradua ção em Póeticas Visuais da FEEVALE, RS.
Mídia. Como é?
São dois os cálculos possíveis.
O primeiro é otimizar o dinheiro que tenho, o segundo é descobrir quanto dinheiro é preciso para alcançar os objetivos.
Como não poderia deixar de ser, ambas as alternativas são regidas por a lei do custo X benefício onde benefício significa «quantas pessoas serão impactadas».
Para cálculos são necessários números e para números são necessárias pesquisas.
Para pesquisas é necessário controle e para ter controle é necessário isolar variáveis -- coeteris paribus.
Quanto mais variáveis, menos controle e quanto menos controle, menos idéias e quanto menos idéias, menos inovação e quanto menos inovação, menos ação e quanto menos ação, menos dinheiro e quanto menos dinheiro, menos tudo.
De aí a gente tem que explicar para a propaganda que não existem mais meia dúzia de veículos com força suficiente para impactar os públicos, mas milhões.
De aí a gente tem que explicar para a propaganda que os veículos são feitos por os próprios públicos que queremos impactar.
Tilt 1: a mídia é o target e o target é a mídia.
E a mensagem?
Como é?
São dois os raciocínios.
O primeiro é dizer o que as pessoas dizem.
O segundo é dizer o que as pessoas vão dizer.
Como não poderia deixar de ser, ambas as alternativas são regidas por a lei do mínimo denominador comum, sendo que esse mínimo aí é o que todos os públicos vão entender.
E para encontrar esse mínimo aí, precisa de pesquisa.
Em esse ponto o raciocínio volta a ser o mesmo.
Pesquisa tem que ter controle, para ter controle tem que ter poucas variáveis e por aí vai.
De aí a gente tem que explicar para a propaganda que a mensagem que melhor funciona com nosso público é aquela que o próprio público faz.
E a mensagem que o público faz é um monte de mensagens.
E esse monte de mensagens é um monte.
E se é um monte, tem um monte de mínimos denominadores comuns.
De aí a gente tem que explicar para a propaganda que o mínimo denominador comum não impacta o máximo de pessoas possíveis.
Tilt 2: a mensagem é o target e o target é a mensagem.
E a esses dois tilts, como é que o mundo do marketing reage?
O mundo do marketing reage de duas maneiras:
como uma avestruz ou como um hiena.
Enterra a cabeça e espera que a manada faça greve ou se regala com a carniça e gargalha.
Mas que jeito a gente dá então para explicar que está cheio de tilts no circuito?
Número de frases: 31
Em sua terceira edição, o Festival Pré Amp, promovido por a Articulação Musical Pernambucana -- Amp, reuniu mais de vinte bandas em quatro dias.
O evento que contou com a apresentação do Roger, e do Fórum de Comunicação-PE, antecipando o carnaval, fez a festa para um grande público na semana pré, na rua da Moeda no bairro do Recife Antigo.
E todas as tribos, vindas de todos os cantos, tiveram seus momentos de muita folia, muita música e diversão com informação conscientizadora.
Em o palco onde já passaram bandas como a Monbojó, Bonsucesso Samba Clube, Cascabulho e Siba e a Fuloresta, este ano foi feito um misto de renovação mais atrações consagradas por o grande público como o Mundo Livre, que numa inusitada segunda-feira fez um dos melhores shows da carreira da banda.
Mas antes da ML teve Parafusa, e essa banda vai dá o que falar.
Ainda na segunda, a banda Sinhô Pereira, Choro Brasil, Camerata Brasileira e a revelação Izidro, com trabalho consistente de MPB.
Em o outro dia, na terça-feira, veio de Goiás a banda Senhor Blan Chu, com boa presença da vocalista Débora di Sá.
Fechando a noite, tivemos a peformance de Lula Queiroga, que se faz assim:
adicione a celebração dos encontros que ele faz com seus convidados (Zé Brown do Faces do Subúrbio e China), e mais músicas inspiradas somada as grooves de sua banda, e multiplique o padrão de euforia do público -- foi assim mesmo.
Terceiro dia do evento, uma quarta-feira, e a expectativa do pessoal que desceu o Alto José do Pinho pra ver o Matalanamão.
Mas a noite começava e Tonino Arcoverde mostrou as influências ibéricas na música nordestina.
Caboclinhos têm a sua vez, e a Tribo Canindés dá o tom e o brilho na rua da Moeda.
Ainda na mesma noite -- outro lançamento no Pré Amp -- desta vez, Helio Mattos tocou seu primeiro CD de nome Dia a Dia.
Com banda azeitada, e participação do Bactéria da Mundo Livre, chegou e mandou bem.
Depois, vinda do Ceará, a Alegoria da Caverna conquistou o público, deixando em aberto o intercâmbio regional entre as bandas.
Mas a noite pegou o público no «pongo» com a Matalanamão, que fez todo mundo girar, mesmo a polícia não entendendo bem aquela manifestação da galera, que sempre acaba na paz.
A banda lançou CD Quem é o Pai?
e está pronta para correr o mundo com muitos shows.
Já na quinta-feira, noite bonita, público idem e shows em cima, do Cruzeiro do Forte, do Baião de Viola, do instrumental do Treminhão, aí chegou a hora do Arlindo dos 8 baixos, que mostrou sua genialidade no instrumento -- não era por acaso que Luis Gonzaga afinava com ele sua sanfona.
Depois de uma chuva, que mesmo assim manteve o público na rua, Ortinho fechou a noite com chave dourada.
O Junio Barreto, seu conterrâneo de Caruaru, fez da sua participação aqueles momentos que rolam só de vez em quando -- quem não viu, paciência.
O ex-Querosene Jacaré mandou música nova, que vai estar lançando no seu novo CD ainda este ano.
A programação também busca a renovação e inclusão, e foi construída a partir de uma articulação com os mais diversos movimentos que rolam na cidade e no Brasil.
De o Alto Zé do Pinho a ONG Alto Falante indicou o Matalanamão, «banda punk».
Quando pensamos em chamar alguém do hip hop, pensamos logo na Associação Metropolitana do Hip Hop do Recife, e o Tiger -- o rapper do Faces do Subúrbio junto com a diretoria da entidade, indicou a banda Confluência do DJ Big, que mandou pesado na fusão que faz do hip hop com a embolada.
Houve também pela primeira vez uma articulação com o Fórum Nacional da Música e contamos com a participação de Makeli K e Maísa Moura (MG), Alegoria da Caverna (CE), Sr. Blan Chu (GO) e a Camerata Brasileira (RS), todos vieram no compromisso de estabelecer intercâmbios.
É importante também que bandas de Pernambuco circulem por esses outros estados do país.
Todos os shows tiveram a participação dos VJs Retinantz, e participação dos Vjs Alex Twin e Yellow (re-combo) e foi documentado por a Capta Vídeo que irá produzir DVD com os principais momentos.
A Amp vem participando de fóruns e feiras, como o Mercado Cultural de Salvador, a Feira da Música de Fortaleza, o FMI de Brasília, e participa da Câmara Setorial da Música do MinC/Funarte através do Fórum Permente da Música de Pernambuco.
Nossos objetivos estão no site www.amp-pe.org.br.
O evento é todo patrocinado por a prefeitura do Recife e hoje faz parte do calendário oficial do período carnavalesco.
Em a ocasião do festival tivemos também a participação do movimento «TV Digital eu também quero discutir», que tem comunidade no Orkut, para quem quiser conferir.
Aconteceram muitas coisas nos quatro dias em volta daquele palco, mas, por hora, fico por aqui.
Número de frases: 33
Ah, uma mesa de Samba Autoral só de compositores pernambucanos fez a terra do maracatu rebolar.
A partir do dia 12 de fevereiro de 2007, o graffiti baiano vai mostrar sua cara para o mundo.
Com o objetivo de divulgar o projeto Salvador Graffita, desenvolvido por a Prefeitura de Salvador em parceria com 43 grafiteiros, os artistas de rua Eder Muniz e Denis Sena irão a Nova Iorque, Unidos, onde divulgarão, em oito universidades, o trabalho iniciado em 2005.
A o contratar os grafiteiros para pintarem o cenário urbano de Salvador, o projeto busca promover a inclusão social de jovens moradores de bairros populares da cidade e reduzir a pichação, prática considerada transgressora e ilegal, de riscar nomes e mensagens aleatórias em locais sem permissão.
«A proposta de transformar as pichações espalhadas por as ruas em arte é inovadora e deu um grande estímulo aos grafiteiros em Salvador», conta Denis Sena, que irá representar, junto com Eder Muniz, os autores das pinturas que hoje colorem diversos bairros da cidade e até mesmo os trens da Estação da Calçada, no Subúrbio Ferroviário.
Entre fevereiro e março de 2007, eles farão seminários sobre o Salvador Grafita nas universidades nova-iorquino, seguidos de workshops de graffiti e mostras de alguns trabalhos de sua autoria, apresentados em telas e outros suportes artísticos.
Denis Sena, operário cultural
Um dos nomes que estarão levando o graffiti baiano para fora é Denis Sena.
Artista plástico e educador social, desde 1996 experimenta diversas linguagens artísticas para expressar sua identificação com a cultura baiana, marcada por as raízes negras africanas, e um discurso em defesa de valores como liberdade, paz e consciência social.
Autodidata e operário cultural, como ele gosta de se denominar, Denis Sena é um artista inquieto, que usa a rua e materiais incomuns, como lixo reaproveitado, como suporte para suas obras.
Autor de trabalhos artísticos feitos em lojas, empresas, escolas e até em terreiros de candomblé, também faz performances em diversos eventos culturais, como shows, festivais e seminários acadêmicos.
Em o campo da arte-educa ção, vem desenvolvendo oficinas e cursos de graffiti em escolas públicas, particulares e organizações não-governamentais.
Entre suas experiências, foi instrutor de graffiti no Projeto Abrindo Espaços, da Organização das Nações Unidas para a educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), no ano de 2002.
Atualmente, é facilitador da oficina de artes plásticas do Projeto Cidadão, no qual dá aulas a crianças e adolescentes moradores do bairro do Cabula I, onde cresceu e vive até hoje.
Também atua como educador em escolas públicas municipais e no Liceu de Artes e Ofícios, organização não-governamental de Salvador.
Como mais recente trabalho artístico, está sua parceria com o fotógrafo baiano Marcelo Reis, que resultou na exposição Processo Instantâneo.
A mostra consiste em fotografias feitas durante uma oficina de graffiti, realizada por Sena para meninos e meninas de sua comunidade, dentro do Terreiro de Candomblé Ibê Ojí Tundé, no Cabula I.
Eder Muniz, Calangos
Responsavél por o movimento Calangos, reúne do graffiti a outras linguagem artísticas.
Além de ser um grande interventor urbano, Muniz vem desenvolvendo oficinas de graffiti nos bairros periféricos de Salvador.
Recentemente desenvolveu uma ação social com crianças e adolescentes na comunidade da Rocinha, Pelourinho.
Vale ressaltar que o artista Eder Muniz transformou seu bairro numa galeria de arte e pode contribuir com a estética local e auto-estima da comunidade do Castelo Branco, periferia de Salvador.
«target = «blank» \> http://www.flickr.com/photos/calangosderua/
http://www.denissena.com New york os esperam!
Número de frases: 24
Bolinha de gude.
Não sei quanto a você, mas essa brincadeira foi parte ativa da minha infância em Bauru -- ainda que, devo confessar, preferisse jogar futebol, mas isso não vem ao caso agora.
O fato é que, com o passar dos anos, a bola de gude foi perdendo força, por os menos nos grandes centros, que não deixaram muito espaço para a prática do jogo com as pequenas esferas.
A origem é incerta, confunde-se com a da própria civilização:
escavações arqueológicas de, pelo menos, 4.000 a.C., no Egito e Oriente Médio, apontaram que, na época, a bolinha de gude já era popular.
Em a Roma antiga, o imperador César Augusto tinha o costume de parar nas ruas para assistir as partidas.
Alguém poderia até dizer que o computador e os videogames contribuíram para relegar ao (quase) esquecimento as bolinhas de gude.
Porém, SLotman, apelido do programador José Lucio Mattos da Gama, um carioca de 31 anos, viu na tecnologia dos games uma forma de preservar a brincadeira.
Com a cara e a coragem -- leia-se:
sem verba do governo ou a ajuda de uma equipe -- ele criou o game Bola de Gude.
SLotman adorava jogar bolinha de gude quando criança, principalmente com os colegas da escola que estudou, na Tijuca.
Recentemente, ele retornou ao local para votar e, qual ingrata surpresa, o que encontrou, no lugar dos campinhos, ideais para a prática da brincadeira, foi asfalto.
Frustrado, SLotman resolveu pôr a mão na massa.
«Muitas crianças, atualmente, não têm onde jogar ou sequer sabem que jogo é esse», explica SLotman.
Como ele não tinha grana para bancar a produção, fez absolutamente todo o trabalho, da modelagem dos gráficos tridimensionais à captação do som da colisão das esferas, com o auxílio de um microfone, batendo uma bolinha na outra.
O programador bem que tentou arrumar verba, inscrevendo-se no concurso JogosBR, promovido por o Ministério da Cultura e o Educine, mas sua proposta não foi selecionada entre as vencedoras.
«Mesmo assim, resolvi prosseguir com o desenvolvimento.
Foi um ano inteiro de madrugadas em claro, ralando e ainda tendo que levantar no dia seguinte para ir ao ' trabalho '», conta.
O resultado é, por assim dizer, um jogo casual.
Ou seja, mesmo quem não tem muita prática com o universo dos games, se verá «tecando» as bolinhas em poucos instantes:
basta manejar o mouse, escolhendo direção e força, para se divertir com Bola de Gude.
É uma estratégia inteligente, afinal, este é o típico jogo com apelo amplo, então, quanto menos complicado, melhor.
Contudo, Bola de Gude guarda seus requintes:
vários cenários -- um, inclusive, numa favela -- e modalidades de jogo, com direito a multiplayer, via rede local ou internet, para até quatro participantes.
A física das colisões das bolinhas é muito coerente, assim como os desafios da inteligência artificial, que consegue deixar você enrascado, de vez em quando.
Foi assim, de forma descompromissada, mas movido por um ideal firme e sincero, que Bola de Gude nasceu e, para a surpresa de seu criador, vem se destacando até internacionalmente.
O Bytten, um popular site de jogos independentes, deu nota 98/100 ao jogo, que também tem conquistado prêmios em eventos acadêmicos no Brasil.
Epa!
Espere aí:
jogos independentes?
Sim, são aqueles que fogem ao esquema tradicional de desenvolvimento e comercialização -- algo parecido com o das bandas e CDs independentes.
SLotman vende o Bola de Gude por R$ 15 através do site de sua produtora, a ICON Games, mas ainda não conseguiu ganhar dinheiro com o jogo.
Para o programador, as vendas estão baixas porque as pessoas têm medo de comprar por a internet, de um site que não conhecem.
«É questão de trabalhar e divulgar a ICON Games, e mostrar que é algo sério sendo feito aqui», acredita.
Falta de dinheiro, pirataria e distribuição são três grandes pedras no sapato de qualquer criador de jogos no Brasil.
Ainda que Bola de Gude não tenha alcançado o sucesso comercial, reflete a realidade das circunstâncias que envolvem o desenvolvimento de muitos jogos no país, driblando os obstáculos à base da obstinação e superação.
«Ter uma idéia é apenas a primeira etapa.
Além da idéia, ainda é preciso muito trabalho, para desenvolver, divulgar e distribuir o produto final.
E muita insistência e determinação, para não deixar os obstáculos que aparecem lhe abater».
SLotman tem novos projetos em mente, que espera poder colocar em prática logo.
Ele participou do concurso JogosBR (desta vez, a edição 2005/2006), mas sua idéia, outra vez, não foi selecionada entre as vencedoras, que receberam uma verba de R$ 30 mil, para a produção de demos jogáveis, e R$ 80 mil, para jogos completos.
Tudo bem.
Faz parte do jogo (e nem foi a primeira vez).
O que importa é que, no final das contas, quem quiser se divertir com a bolinha de gude moderna, já sabe como fazer.
Número de frases: 44
Experimente: o demo, cujo download é gratuito, pode ser baixado neste link.
Fiz uma incursão de bicão à Bienal de São Paulo.
Como sempre, tem de tudo:
instalações que desconjuntam o pescoço, outras cujo texto explicativo é melhor que a obra, e mais outras experiências.
Mas tenho que admitir que tive pertubações de sono ontem à noite.
Portanto, se alguém se interessar em fazer uma incursão desavisada à Bienal de SP, aí vai minha seleção que vou fazer consciencemente sem referências, sem veleidades de crítico e tampouco sem dar nome aos bois.
-- Em primeiro lugar, o enorme painel chines.
Me pareceu uma citação artística da Grande Marcha de Mao.
São centenas de recortes de papel vermelho representando animais, ornamentações, fantasias malucas.
Além da singeleza do trabalho e da quase mórbida ficha técnica, é como uma rede invísivel, uma infinita colaboração artística, a anônima expressão planetária da opressão.
-- Depois as fotos do Peter Hugo.
Quase dispensa descrição (foto) mas o efeito daqueles bad-boys africanos com seus pitt bull de estimação -- que são hienas acorrentadas -- é como que uma baforada de ingênua, desprovida, desesperada violência.
-- Também quero destacar as fotos de índios devidamente numerados.
Me lembrou os massacres de Pol Pot documentados com esmero sádico.
-- Tem um artista inglês -- só me lembro da nacionalidade de ele -- que faz uns mapas malucos com colagem meticulosa de palavras e frases.
A organização é temática e cheia de, por vezes óbvias, por vezes surpreendentes, verbatins morais.
Mais um mapa maluco para a enciclopédia do Alberto Mangel.
Me lembrou o Calvino que anotava o que passava por a sua cabeça e organizava tudo em enormes pastas por assunto.
Assim ele escreveu «cidades invisíveis» como resultado concatenado da pasta «cidade».
-- Finalmente, para não dizer que tudo é políticamente engajado (embora quase tudo pareça), tem a sala das pranchas de flores e plantas artificiais.
Um «gabinete de curiosidade» não naturais.
Muito divertido.
A Bienal de um neófito vale a pena.
Vá sem expectativa, sem ansiedade, com uma curiosidade infantil.
É garantia de muitos sonhos malucos.
Número de frases: 25
Você já ouviu falar de Cacá Carvalho?
Segundo a Wikipédia, ele interpretou o Jamanta na novela Torre de Babel e o mesmo personagem em Belíssima -- mais nada.
Para a maioria das pessoas, essa informação é mais que suficiente (afinal o trabalho de um ator se mede por a sua participação na tevê, não é mesmo minha gente?).
Mas quem vai além da mediocridade televisiva sabe (ou precisa saber) que além do personagem Jamanta, o ator paraense é possivelmente um dos maiores nomes do teatro brasileiro contemporâneo.
Atualmente ele assina a direção do espetáculo O Homem Provisório, em cartaz no décimo primeiro andar da unidade provisória do SESC Avenida Paulista.
A obra partiu de uma proposta de resgate dos personagens Riobaldo e Diadorim, do universo de Guimarães Rosa.
A angústia de entender melhor essas figuras em seus espaços geográficos levou o diretor e seu elenco a um retiro artístico de um mês no sertão do Cariri.
Mais do que resgatar os jagunços, o grupo (ou será que a essa altura já não seria mais adequado chamá-los de bando?)
deu de cara com a riqueza da cultura popular, da música local, da literatura de cordel, de Lampião e seu bando, das imagens do xilogravurista Nilo, do universo imortalizado por Glauber Rocha e suas Cabeças Cortadas.
Além, claro, de toda a riqueza de detalhes, sentimentos e sentidos que apenas os artistas dispostos a uma imersão como essa conseguem definir.
Todas estas impressões se condensam num espetáculo que incorpora, além de toda a riqueza e sonoridade dos cantos do sertão, uma dramaturgia baseada em 120 sonetos de cordel de Geraldo Alencar -- grande parceiro de Patativa do Assaré -- escritos especialmente para este projeto.
Contudo, o que mais impressiona na montagem são as imagens:
a cenografia não se utiliza de nada além de cortinas transparentes que, somadas à iluminação precisa e criativa e à entrega de todo o elenco, constroem com um belo teatro de sombras a atmosfera deslumbrante de um sertão que dificilmente sairá do imaginário do público.
A o sair do teatro após uma hora de viagem ao mundo de Grande Sertão:
Veredas, a platéia passa por os oito atores que, assim como Cacá Carvalho faz ao receber o público, agradecem a todos, um a um, por a presença.
Mas agora o espectador está sem reação:
é o silêncio de uma digestão que poucos espetáculos em cartaz são capazes de estimular em suas platéias.
Adendo:
Este projeto é promovido por um órgão de cooperação internacional da região da Toscana.
Número de frases: 19
Afinal quem mais promoveria uma viagem tão rica e tão intensa às entranhas do sertão brasileiro se não fosse o governo italiano, não é verdade?
As mulheres do meu pai, último romance Eduardo Agualusa, além de ser um livro de viagens é também um livro-viagem:
além da narrativa percorrer o continente africano, a narração percorre a literatura, compreendida aqui não como seqüência de eventos temporais, mas como instância produtora de linguagens.
Assim, como livro-viagem, As mulheres do meu pai passeia por diferentes gêneros ou modos de contar:
entrevista, carta, diário, diálogos, monólogos, descrições.
Diante da multiplicidade e da inconstâncias das coisas, a escrita também se fragmenta, aproximando-se da heterogeneidade absurda do real e evitando um ponto de vista estático para a compreensão do que lhe escapa.
Digamos que, na escrita de Agualusa, a indecisão é um método.
Não decidir significa, então, evitar o corte, deixar a escrita contaminar-se da pluralidade para devolvê-la ao leitor em sua potência máxima, ativadora de uma consciência que se deve passar longe da simplificação, da facilitação, da escolha prévia (do preconceito, portanto).
A indecisão põe em evidência, por outro lado, a dificuldade de análise do escritor que ambiciona um projeto em que não se perca de todo o que se poderia chamar de «realismo».
A indecisão porém, não se esgota numa espécie de mimetismo, de aproximação do que está fora da escrita.
Assim, ela é, na escrita de Agualusa, uma atividade criadora que refaz a realidade, que a redimensiona, que dá a ver o conjunto de funções e mecanismos do escritor e da literatura como um todo.
Segmentação e arranjo são algumas das principais atividades do método-indecis ão.
Pensemos em nós mesmos, quando, numa viagem, munidos de nossas cada vez menores máquinas fotográficas, escolhemos determinados instantes, determinadas paisagens, determinados ângulos, e montamos um álbum fotográfico para exibir aos outros e para nossa recordação.
E, então, refazemos na memória, ou na narrativa para outrem, uma viagem reconstituída às custas de inúmeros corte, recortes, vazios, redundâncias, acasos, falhas, num conjunto de gestos que, mais ou nos inconscientemente, aproxima nosso prosaico álbum de fotografias de um filme.
Lembremos ainda que, antes desse trabalho de «edição», ocorrera a própria escolha de locações e roteiro, que em nossas viagens-filmes costumam obedecer a contingências várias, impostas por, exemplo, por a quantidade de luz, por a possibilidade de termos ou não um bom ângulo, de estar chovendo ou fazendo muito sol, de termos esquecido ou não a máquina no hotel, de haver ou não uma pessoa por perto para lhe pedirmos que, por favor, faça uma foto que nos inclua no cenário, e assim por diante.
Um livro-viagem, como As mulheres do meu pai, utiliza-se de um mecanismo de edição bastante semelhante.
Mas na escrita já não pode haver ingenuidade.
O escritor não pode desconhecer o quanto cortes, recortes, vazios, redundâncias, acasos, falhas, desvios e toda sorte de escolhas são partes de uma atividade ficcionalizante.
Em este novo livro de Agualusa, o personagem-narrador descobre, em sua viagem, que aquilo que o movera era uma ficção, não a verdade de uma explicação, como imaginara no início.
O que o romance chama, nessa altura, de «a verdadeira história», é apenas a elucidação de que o mundo se move por a ficção.
A reconstituição da história paterna, que não deixa de ser a procura do pai e de uma família, mostra-se, nesse desfecho, sob uma luz irônica, perturbadora, cabendo ao leitor saborear o grão amargo que denuncia a memória como maquinação, fábula, engenho, engano, ou ainda, como mentira.
Não por acaso, já na primeira página de As mulheres de meu pai deparamo-nos coma seguinte pergunta:
«Com quantas verdades se faz uma mentira?"
A provocação borra os limites entre o que chamamos utilitariamente de verdade e mentira e, mais que isso, empresta a ambas o valor maior da ficcionalidade.
E se, nesse mesmo gesto, traz para dentro da ficção o dado histórico e / ou biográfico, também questiona o valor da história como verdade.
Tudo desaba e se refaz em outros moldes sob a força da «indecisão».
E é aí que a escrita se ilumina como projeto ético e político.
A cada livro, Agualusa como que reafirma e define com maior nitidez e capacidade de fabulação o que chamei de projeto:
distante dos mitos raciais, da xenofobia, da intolerância, do par vencedor / vencido, a escrita reivindica para a história a multiplicidade, a contradição, as significações cambiantes e a disponibilidade imaginativa que definem a literatura.
Em Nação Crioula, O ano em Zumbi tomou o Rio, O vendedor de passados, Manual prático de levitação e agora em As mulheres do meu pai deparamo-nos com a idéia de que a história é também ficção, que todos nós somos igualmente invenção e que, sendo assim, é possível escrevermos nossas vidas de maneira livre e libertadora.
Não há dúvida de que Agualusa está sempre às voltas com o «tema» da memória (questão, de resto, fundamental num processo de escrita da história através da ficção), mas é fundamental registrar, igualmente que Agualusa põe em cheque os estatutos da literatura e do registro histórico, daí resultando, de saída, a dissolução do fato e, por outro lado, a abertura do ficcional à dimensão histórica.
E, ainda, o acontecimento como verdade e a memória como instância abonadora são objetos preferenciais da ironia do autor, que desqualifica toda e qualquer ilusão.
A memória surge, então, como metáfora, não como verdade a ser reconstituída.
Em esse processo de desqualificação das ilusões, o que mais me chama atenção e emociona em As mulheres do meu pai é que neste romance está superada o que se poderia chamar de concepção psicológica da cultura.
Explico: para esta, relações culturais e políticas explicam-se em termos psíquicos, por mecanismos individuais e universais.
Sob tal visão, Portugal é pai do Brasil.
Definindo-se a história nesses termos, temos aí uma relação de autoridade, de carinho, e, por outro lado, um desejo de negação, ou de superação movido por uma espécie de impulso parricida.
Em ambos os casos, relações de independência e de igualdade seriam impossíveis.
E, decerto, enquanto a cultura e a política forem compreendidas em termos psicológicos, continuaremos limitados ao trauma e às suas conseqüências, e sejam estas a imobilidade ou o desejo de saltar por sobre ela, permanece o trauma como princípio de tudo.
Sob o ponto de vista psicológico da cultura, a África, por exemplo, é a «mama» África, e as necessárias relações políticas entre Estados limitarão-se-a gestos circunscritos ao âmbito edipiano:
amamos a África?
Esquecemos a África?
Libertamo-nos da África?
Crescemos e, portanto, a África não nos interessa mais?
Qual é, de fato, a nossa dívida com a África?
Temos obrigação moral de amar a África?
Ora, tais perguntas, no âmbito da política, simplesmente não fazem sentido.
A maturidade política exige relações baseadas em interesses comuns, tendo por base o direito, a justiça, a economia, e não uma vaga fantasmagoria que funde afeto, culpa, piedade e mágoa.
Em este novo romance de Agualusa, a procura por o pai, e por a família, acaba desembocando numa grande ironia, numa espécie de abandono.
A figura do grande civilizador -- pai dos povos -- é jogada ao chão como um ídolo frágil, que já não serve para manter nossa ilusões de há uma origem a nos resguardar.
Por fim, registro a presença do erotismo no romance.
Recuperando uma linhagem aberta por Jorge Amado, na qual pode-se ver uma espécie de elogio antropológico do sexo, a obra de Agualusa -- não só o seu último romance -- move-se longe da culpa e do moralismo das ideologias de direita ou de esquerda, bem como do puritanismo religioso ou da frigidez pseudo-intelectual.
O sexo aparece livre, e no âmbito do que chamei de projeto ético-político, pode ser entendido na sua dimensão civilizatória e libertadora, pois é ele que está na origem da miscigenação.
Sem os gestual fraco da didática ideológica ou estética, As mulheres de meu pai, como os outros livros de Eduardo Agualusa, tem uma clara dimensão pedagógica.
Há que aprender com ele sobre nós mesmos, homens de agora, quando sairemos de sua leitura mais maduros e mais livres.
Número de frases: 55
Após uma partida de sinuca com meus amigos, resolvi pensar a seguinte questão:
por qual motivo eu estou aqui?
Será que é por a competição?
Ou será que é por o prazer?
Ou então quem sabe, para passar o tempo?
Quando jogamos sinuca (ou bilhar), nem sempre pensamos em competir.
O que nos motiva a gostar desse simples jogo é a sociabilização ocorrida ao redor das mesas.
Entre uma tacada e outra, conversamos com os amigos, contamos piadas, falamos besteiras.
A sinuca é um «jogo da vida social», um momento lúdico e de prazer, que é distinto da nossa vida social.
Esquecemos os problemas, o trabalho, a faculdade, as adversidades da vida.
Buscamos um encantamento do mundo por meio de uma prática esportiva.
E a competição fica pra segundo plano.
Contudo, apesar do jogo ser um jogador contra o outro, essa «rivalidade» propicia a chamada relação jocosa entre os participantes.
A sociabilidade que ocorre, pode derivar formas agressivas de interação, ou seja, a chamada «zoação» ou «zombaria».
Este tipo de interação, o antropológo Radcliffe-Brown (1989) denominou de relações jocosas.
Com esta jocosidade, um participante zomba do outro em certos momentos do jogo, porém, sem haver um clima de hostilidade.
Todos levam estas brincadeiras na esportiva.
Número de frases: 17
Após um dia cansativo de trabalho ou de estudo, nada melhor que entrar num bar, pedir uma cerveja e algumas fichas de sinuca, e esquecer o «mundo lá fora».
Quero compartilhar com vocês alguns dados *, para após isso, iniciar um debate.
* -- Dados de Eric Alterman, o repórter de mídia da revista semanal New Yorker.
Informação colhida no Observatório da Imprensa.
Publicado inicialmente em www.fabioricardo.wordpress.com
As editoras de jornais cujas ações são negociadas em bolsa perderam 42 % do seu valor de mercado nos últimos três anos.
O patrimônio acionário da New York Times Org diminuiu 54 % desde o fim de 2004.
A contar de 1990, 25 % das vagas na imprensa diária americana foram fechadas.
O tempo médio gasto na leitura dos jornais nos Estados Unidos não chega a 15 horas por mês. (
Portanto, nem 30 minutos por dia.)
Oito em cada dez americanos entre 18 e 34 anos nem batem os olhos num jornal.
O leitor típico tem 55 anos -- e tende a ficar ainda mais velho.
Quase 40 % das pessoas com menos de 35 anos ouvidas numa pesquisa disseram que esperam usar a internet no futuro para se informar.
Só 8 % falaram em se informar por os jornais.
menos de 20 % dos americanos acham que se pode acreditar em todos ou na maioria dos relatos da mídia.
Será que chegamos realmente naquilo que eu já havia mencionado numa série de posts, conversas de botequim e reuniões de negócio?
O jornalismo como conhecemos realmente acabou?
O mundo é dos nerds blogs?
Minha opinião é bem explícita:
o jornalismo mudou faz tempo, a gente que não se toca.
Estamos trabalhando com um grande zumbi, que mexemos com varetas tal qual um boneco.
Mas ele está apodrecendo, e já começou a feder.
Daqui a pouco a decomposição fica tão grande que ele se despedaça todo.
E aí?
O que os nossos dinossauros jornalistas de nariz empinado vão fazer?
Proibir os blogs?
Censurar a internet?
Já foi, não tem mais volta.
Ou você se atualiza, ou vai ser deixado para trás.
E aí?
O que devemos fazer para entrar de cabeça no futuro da informação?
Folha, Santa, Radios ...
A RBS já sentiu a água batendo na bunda, já sei que algo está acontecendo ali e é pra logo.
A Folha pensa no assunto mas ainda não se definiu (torço para que não seja tarde demais), algumas rádios já estão buscando atualizações, fazendo tomada de preços e se preparando para a evolução.
E você, jornalista?
Vai ficar parado?
Número de frases: 36
Agora vai!
Depois de um tanto de pesquisa, trabalho, reuniões de pauta e técnicas, finalmente foi lançado o primeiro site acadêmico sobre Jornalismo Colaborativo, chamado Digga.
O lançamento oficial ocorreu no dia 14 de novembro, no terceiro dia do V Seminário sobre Convergência Digital e Cibercultura, na Universidade Fumec -- oficial porque a bagaça já estava no ar, num período de testes;
uma espécie de «o ensaio é aqui».
Apresentar Digga ao distinto público ficou a cargo de Felipe Torres, Mariana Celle e Ana Paula Condessa -- os dois primeiros, bolsistas do projeto de pesquisa que desembocou no site e a última, bolsista do projeto de extensão que realiza os seminários.
Sim, tudo se liga, o universo é uno -- não estamos a falar de conexões por aqui, ô?
Mas, dirão os detratores -- porque este sempre existirão e, ai ai, se reproduzem, pra que outro site de Jornalismo Colaborativo, meu Deus?
E eu lhes respondo, distribuindo bofetadas aos borbotões:
leiam aqui, relapsos, e entendam que tratamos, neste site, «a implementação do Jornalismo Colaborativo como prática e objeto de estudo».
E, por entendermos que é preciso também mostrar aos alunos de Comunicação Social a importância das práticas jornalísticas colaborativas, a matéria especial que se encontra no ar fala justamente sobre Jornalismo Colaborativo -- divididas aqui e acolá.
O que ganhamos com isso?
Primeiro: a pesquisa -- que se encontra em seu segundo ano -- evidenciou formas do jornalista lidar com audiência num processo colaborativo, portando-se como o que chamamos de «cartógrafo da informação».
A seguir, elaborou categorias de análise para avaliar de forma os processos colaborativos ocorrem, de modo a orientar a função wejornalística voltada à colaboração.
E foram este processos que definiram a formatação de Digga:
um site de experiências webjornalísticas que procura provocar -- em vários sentidos -- o trabalho conjunto entre equipe de redação e audiência.
Número de frases: 15
E estamos somente começando.
Primeira Parte Desde que me conheço por gente minha família, que é grande, se reúne para a confraternização.
Somos em 7 (irmão e irmãs), juntando cunhados, cunhadas, sobrinhos netos, namorados e namoradas dos sobrinhos e mais outras pessoas que aparecem por saber que aqui em casa é tradição.
Dá umas 30 pessoas no mínimo.
Meus pais, que já são falecidos, é que faziam questão de reunir todos, minha mãe tomava conta dos quitutes com minhas irmãs mais velhas, meus irmãos e meu pai cuidavam das bebidas e das «carnes», bem como do tradicional jogo de truco, que muitas vezes, acabava em briga.
à noite, meu pai ou meu tio se vestia de Papai Noel (eu já desconfiava quando tinha uns cinco anos ...)
e entrava com um saco cheio de brinquedos e presentes para todos.
Depois todos se deliciavam naquela mesa farta, as gostosuras que minha mãe preparava e em especial o peru.
Ah! O peru que D. Alzira preparava ...
Sempre tinha um que bebia demais, alguém insistia em nascer no dia (meu sobrinho Alexandre nasceu no dia 25!),
alguém que queria uma coxa do peru também (o pobre peru teria que ter umas 13 coxas!)
Todo mundo caprichava no visual:
nos anos 70 minhas irmãs faziam escova «para cima» e usavam vestidos esvoaçantes, os homens aquelas golas pontudas e calça meio agarradinha.
Bigodes, sim havia bigodes na cara de todos os homens.
Minha mãe com seus bobs no cabelo correndo por a casa de meia calça para cuidar do peru que estava no forno, o «pinheirinho» que era prateado, com bolinhas metálicas que tanto me deixava sem fôlego quando chegava a hora de montá-lo.
A criançada tinha que passar por o crivo de minha irmã mais velha e era o boletim escolar que definia se o Papai Noel vinha gordo.
Era sempre muito emocionante o Natal nessa época.
Em os anos 80 meu pai já tinha falecido mas a tradição continuava, nasceram mais crianças, eu já não era mais criancinha, mas ainda comia na «mesa das crianças».
Já tinha que ajudar na cozinha lavando muitos pratos e meus presentes já eram livros e jogos.
Minha mãe já não era mais a mesma, sentia falta do meu pai e sempre sorria amarelado.
Nunca mais foi a mesma.
Mas nunca deixou a peteca cair.
Casou-se de novo.
A festa foi se seguindo por as décadas seguintes, já ninguém mais se vestia de Papai Noel porque as crianças já eram mais espertas.
As tentativas eras frustrantes, pois eles reconheciam o cheiro ou a voz de seus pais e tios.
Ora essa!
Mas no finalzinho dessa década para mim o Natal tinha um gostinho especial:
eu tinha conhecido meu grande amor e a gente começou a morar junto.
A partir de 2000 o Natal começou a ser diferente pra mim, minha mãe mudou-se da «casa da família» para uma casa menor e devido a seu estado de saúde (artrose e reumatismo) a minha irmã mais velha assumiu o controle das panelas para fazer o rango no Natal.
A casa era «minha» e do meu marido, agora.
A árvore de natal era imensa, caprichadona, todo ano comprava mais enfeites e a casa começou a ficar pequena pra tanta gente.
A mesa da ceia imensa.
Ah! A tradição da mesa das crianças ainda existia!
Pessoas se divorciaram, casaram-se novamente, meu sobrinho agora era pai.
Mas infelizmente no início do novo século minha sogra e minha mãe faleceram.
Falecimentos assim repentinos atordoaram a família toda.
Elas se foram em anos seguidos e no mesmo mês.
Em aquele ano imaginei que o natal seria um desastre, que agora a tradição iria para o beleléu.
Foi de muita tristeza, apesar de tudo, as coisas aconteceram conforme o costume, crianças novas, baralho, árvore de natal, comilança, etc, mas os discursos antes da ceia eram mais emocionantes.
O medo da tradição acabar pairou sobre todos.
Mas «nada como um ano inteiro» para mudar a idéia:
em agosto já estavam combinando o Natal do ano seguinte.
E como a família era muito grande, decidiram fazer amigo secreto para todo mundo ganhar presente.
Em 2004 casei-me no civil, no dia 24 de dezembro e a festa de Natal pra mim tinha mais importância.
Muito bom ter a família reunida num dos dias mais especiais da sua vida!
Número de frases: 45
(continua ...)
O Parque das Esculturas de Francisco Brennand, situado no molhe dos arrecifes, em frente ao Marco Zero, será restaurado.
Foram os recifes de coral existentes na área que deram nome à cidade e foi exatamente ali, no local formado por um porto natural, que ela começou, daí o nome Marco Zero.
Serão recuperadas as esculturas, a Coluna de Cristal, as placas de bronze, o piso, o píer, o cais de embarque e desembarque e a iluminação.
O trabalho será dividido em duas fases.
A primeira prevê a recuperação das obras de arte e será feita por o artista plástico Jobson Figueiredo, o mesmo que moldou as peças no início da década.
A segunda etapa incluirá a parte física do local.
O espaço possui cinqüenta esculturas em bronze, representando ovos, tartarugas, maçaricos e pelicano;
a Coluna de Cristal, que mede 32 metros de altura e foi feita em concreto, cerâmica e elementos esculturais de bronze;
e cinco esculturas em cerâmica, entre sereias e uma meia coluna.
Após a conclusão das atividades, parte das esculturas de bronze serão transferidas da parte baixa do molhe para locais mais protegidos, visando evitar o desgaste provocado por a exposição à água do mar
As obras têm início no próximo dia 04 e estão orçadas em R$ 1,5 milhão, oriundos do orçamento da prefeitura.
O artista -- Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand é um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros vivos.
Nasceu em 11 de junho de 1927, no Recife, Pernambuco.
Trabalha com diversos suportes, sendo mais conhecido por o seu trabalho como escultor e ceramista.
Possui trabalhos espalhados por o Brasil e por o exterior.
Número de frases: 16
Quem chega ao Recife por o Aeroporto Internacional dos Guararapes é recebido por um grande painel do artista existente no local.
Você leu certo.
A manchete em questão é de uma reportagem publicada no site em português da BBC sobre uma tragédia ocorrida na cidade de Mombassa, no Quênia.
Ela é apenas uma da coletânea de notícias pitorescas que circulam na comunidade do Orkut «Anão vestido de palhaço mata oito», atualmente com mais de 72 mil membros, que reúne matérias jornalísticas bizarras descobertas por internautas do país inteiro.
Com sucesso estrondoso, o criador do espaço foi procurado por uma editora (a Rocco) para lançar um livro com o melhor da comunidade -- e algumas coisinhas inéditas.
O autor em questão é Marcos Barbará, 27 anos, bancário, moreno, alto, capricorniano, adora azul e polpas (eu pedi para ele confirmar dados pessoais por e-mail).
A notícia do celular, aliás, foi a campeã de popularidade na primeira CopAnão promovida por a «comunidade do anão», com mais de 56 mil votos.
Divididas em chaves, as notícias precisavam ser as mais votadas nos respectivos grupos para avançar à próxima fase -- até chegar a grande final e alcançarem a glória.
Em a competição, destacaram-se ainda em segundo lugar a manchete «Chinês fracassa em 100ª» e a medalha de bronze, «Kiwis vândalos matam ovelha e molestam cachorro».
Vale fazer menções honrosas às briosas participações de títulos como «Cão-guia salva esquimó engasgado com a tecla ESC»,» Mike Tyson quer entrar para a boy band Westlife «e» Pulgas são acusadas de abduzirem cidadão turco».
Todas as bizarrices publicadas em algum lugar do planeta.
Sobre a manchete que dá nome à comunidade e ao livro recém lançado, Barbará faz uma ressalva.
-- A ' notícia ' do Anão não consta no livro por o simples fato de eu não saber se ela existe mesmo ou se é apenas uma invenção da minha mente doentia.
Em a época da criação (da comunidade), essa frase era bem marcante em minha cabeça, mas, sinceramente, não sei de onde surgiu, fato que não foi solucionado mesmo com o advento do Google -- conta, em entrevista por e-mail.
Uma curiosidade do livro é que a editora foi quem procurou Barbará, interessada na publicação.
-- A Rocco, por meio de seus capangas bem treinados, me contactou oferecendo um contrato, obviamente recusado, conforme prega R. Shiniaszshi no seu best-seller «Negociação para idiotas».
Por o fato de eu não ter experiência literária, eles me ludibriaram com facilidade.
A névoa do mistério encobre as surpresas contidas no livro que não estão na comunidade.
-- Posso adiantar que há algo envolvendo o destino da humanidade e uma cinta modeladora de abdômen.
Qualquer coisa além disso será negada por mim perante o júri.
Ver transformado em livro uma brincadeira que começou no mundo on-line leva ao questionamento:
dá pra dizer que sair numa mídia ' antiga ' como o livro sirva para legitimar ou confirmar um sucesso virtual como a comunidade no Orkut?
A resposta de Barbará é esclarecedora:
-- Não.
O autor destaca que há propostas distintas entre o que se lê no livro e o que se faz na comunidade.
-- Em o livro não há a interação do leitor, que é a principal marca da comunidade.
Eu não quis fazer uma simples coletânea de notícias (no livro) para não frustrar o membro da comunidade, mas também penso naquele que nem sabe o que é o Anão.
Em outra comunidade no Orkut criada por o próprio Barbará há um romance, em eterno processo de desenvolvimento, que conta uma provável saga do anão assassino.
O começo é promissor:
«Croácia, verão de 1999.
Nevava. Era mesmo um verão estranho.
Zagreb amanhecia escura, sem saber que Josef, o Anão, amolava sua faca com um carinho todo especial ..."
Mas o autor ressalta que o conto do Anão jamais terá fim, pois «serve apenas para irritar a crítica especializada». Barbará
em livro, ao menos por enquanto, só no «campo jornalístico».
Número de frases: 34
Saiba como comprar o livro no site da editora.
Acabo de traduzir a carta aberta do recente amigo virtual Gerd Leonhard, conhecido futurista, visionário, escritor, palestrante e consultor que passou mais de 25 anos na indústria de tecnologia e entretenimento tanto nos Estados Unidos quanto na Europa e recentemente na Ásia.
Gerd é considerado um expert no que diz respeito às dramáticas mudanças que ocorrem nas empresas de mídia e conteúdo em consequência das novas e irrestritas tecnologias.
Em 2005, Gerd Leonhard foi co-autor do livro «The Future of Music» que se tornou referência importante para profissionais da indústria fonográfica em todo mundo e já foi traduzido para o japonês, italiano e alemão.
Gerd Leonhard também é um empreendedor que trabalha nas áreas de música digital e mídia.
É co-fundador e CEO da SONIFIC, empresa sediada em São Francisco que provê widgets musicais e aplicativos para blogs, redes sociais e comunidades online.
Algumas das informações contidas nesta carta referem-se ao mercado fonográfico americano e europeu (na verdade essa colocação não faz muito sentido, pois sabemos que são as majors que dominam o mercado fonográfico dentro e fora do Brasil), mas grande parte de seu conteúdo refere-se à estrutura de negócios da indústria musical e apresenta alternativas para aqueles selos independentes que, como diz a própria carta, conseguirem «resistir à tentação de se tornar apenas outro cartel da música».
Agradeço a Gerd por as idéias e a oportunidade de difundi-las.
PS:
O texto é longo e excede o limite de palavras do Overblog, portanto vou disponibilizar um PDF para download ou você pode ler o texto completo Aqui.
PS2:
Alternativas, sugestões e correções da tradução são bem-vindo.
Carta aberta de Gerd Leonhard para a Indústria Fonográfica Independente:
a Música 2.0 e o Futuro da Música são seus -- se você conseguir resistir à tentação de se tornar apenas outro cartel da música.
Original English version
Portuguese translation / Tradução para o português:
Juliano M. Polimeno
Hoje eu quero apresentar minha visão daquilo que gosto de chamar de «Música 2.0» -- a próxima geração da indústria musical que está sendo criada enquanto conversamos.
Este novo modelo é dramaticamente diferente:
muitas maneiras velhas de fazer as coisas, muitos relacionamentos antigos e muitas tradições obsoletas não podem e não irão sobreviver.
Eu quero seduzi-los, líderes da indústria fonográfica independente, para trilhar esta nova estrada com mim, lançar-se, deixar algumas de suas concepções e de suas «religiões» de lado e ousar uma mudança -- porque isto é necessário para poder virar o barco.
Scott Fitzgerald, o famoso romancista, disse:
«O teste de excelência da inteligência reside na habilidade de manter ao mesmo tempo duas idéias opostas na cabeça e ainda assim guardar a habilidade de agir».
Este será claramente o desafio da indústria fonográfica para avançar.
Em os últimos 10 anos, inovações técnicas e econômicas desnudaram muitas tradições, hierarquias sociais e econômicas e monopólios na indústria fonográfica, e se há uma coisa que possamos dizer com certeza é que agora é hora do show:
a indústria fonográfica está finalmente atingindo seu ponto alto de inflexão;
10 anos depois que as primeiras empresas pontocom chocaram-se com o chão.
Levou muito mais tempo do que todos nós pensávamos, mas agora elas estão apanhando com muito mais força:
a venda de CD's caiu de 20 a 40 % de um ano pra cá e as vendas digitais não estão fazendo grande diferença -- e a corrida de um cavalo só com o iTunes é claramente um beco sem saída.
Estamos rapidamente nos aproximando de um ponto no qual seremos forçados a mergulhar naquilo que gosto de chamar de «Música 2.0» -- um novo ecossistema que não é baseado na música como produto, mas na música como serviço:
primeiro vendendo acesso, e somente depois vendendo cópias.
Um ecossistema baseado na onipresença da música, e não na escassez.
Um ecossistema baseado na confiança mútua, não no medo. ( ...)
Número de frases: 33
Faça o download completo da carta Dizem que a vida é curta, mas não é verdade.
A vida é longa pra quem consegue viver pequenas felicidades.
E essa tal felicidade anda por aí, disfarçada, como uma criança traquina brincando de esconde-desconde.
Infelizmente às vezes não percebemos isso, e passamos nossa existência colecionando " nãos ":
a viagem que não fizemos, o presente que não demos, a festa que não fomos, o amor que não vivemos, o perfume que não sentimos.
A vida é mais emocionante quando se é ator e não espectador, quando se é piloto e não passageiro, pássaro e não paisagem, cavaleiro e não montaria.
E como ela é feita de instantes, não pode nem deve ser medida em anos ou meses, mas em minutos e segundos.
Número de frases: 7
O espetáculo chama-se Educação Sentimental do Vampiro, mas não vá pensando que se trata de uma peça sobre morcegos e vampiros porque não é.
Ao menos não sobre aqueles caras esquisitos que moram na Romênia e chupam sangue.
O vampiro em questão mora muito mais perto do que nos Cárpatos e é adepto de algo mais limpinho e menos démodé do que sair chupando sangue por aí:
nosso vampiro suga almas.
O novo espetáculo da Sutil Companhia de Teatro é inspirado nos contos de Dalton Trevisan, também conhecido como Vampiro de Curitiba, apelido recebido por viver recluso e escrever contos com base em suas observações (e chupadelas das almas) das pessoas da cidade.
Sua obra lhe rendeu a consagração como um dos maiores contistas da literatura brasileira.
O formato da nova peça em muito se assemelha à produção anterior da companhia, Avenida Dropsie, inspirada nas graphic novels de Will Eisner:
os atores se desdobram em dezenas de personagens em esquetes curtas e independentes.
A grande diferença é que enquanto Dropsie era alegre e ingênua, a Curitiba retratada no novo espetáculo é cruel e sombria.
Como já era de se esperar, a cenografia é da Daniela Thomas e é deslumbrante.
Um jogo de espelhos confere uma profundidade peculiar ao palco, e permite à encenação uma série de jogos de imagens que não é desperdiçada e tampouco subutilizada.
A iluminação e o figurino sóbrio constroem um universo em preto-e-branco (mais para as trevas do que para o branco) tão perturbador que nos remete a um mundo de histórias sombrias ...
e de vampiros.
O uso da projeção também está presente, mas desta vez não se sobrepõe à cena como ocorre em Nostalgia, Avenida Dropsie ou A Vida é Cheia de Som e Fúria:
em Educação Sentimental do Vampiro, não há a tradicional tela de filó separando o palco da platéia, a projeção serve sobretudo à cenografia, possibilitando efeitos gráficos de fazer inveja a todas as produções que insistem em utilizar projeção achando que é fácil como fazer uma apresentação com retroprojetor (essa gente tem muito o que aprender sobre esta sobreposição de imagens e linguagens que a Sutil faz com maestria).
Também merece destaque o trabalho de todo o elenco, que mais uma vez está afinadíssimo.
Aliás, fica aqui a teoria conspiratória levantada no nosso blog:
teria a Sutil feito a oficina dos Satyros para aprenderem a tirar a roupa e utilizar um pinto de borracha com maestria?
Mistério.
Todos os contos de Trevisan selecionados para a montagem trazem histórias tristes e amargas de personagens do subterrâneo de uma Curitiba que talvez nem exista mais, ou que talvez nunca tenha existido, ou que ainda existe e a urbanidade progressista faz questão de esconder.
Histórias de violência doméstica, crimes, abusos sexuais e tudo mais que as pessoas preferem fingir que não acontece.
E o espetáculo nos joga na cara esse universo imundo e perverso, durante duas horas sem pausa para fôlego em nossas zonas de conforto.
Nem mesmo os momentos humorísticos dão uma trégua à platéia:
as piadas são de um humor obscuro e corrosivo.
Outra grande peculiaridade do espetáculo é a não-transcri ção do texto para a linguagem teatral:
salvo alguns pequenos monólogos, a montagem é feita integralmente com o texto original em terceira pessoa, em formato de prosa, com o narrador quase sempre presente em cena, representado por os atores que se alternam.
Uma experiência ousada que, apesar de na maioria das cenas funcionar muito bem, em algumas ajuda a tornar o espetáculo um pouco cansativo.
Assisti a este espetáculo duas vezes (um ensaio e uma apresentação na semana da estréia), e em ambas as vezes senti novamente a mesma sensação que tive ao ver pela primeira vez uma peça da Sutil companhia, há aproximadamente sete anos, quando vi naquele mesmo Teatro do SESI o espetáculo Nostalgia:
Número de frases: 28
um desconforto que se misturava com a empolgação de presenciar um espetáculo inesquecível.
Contribuir para ampliar conhecimentos de professores, acadêmicos, bibliotecários, recreadores e demais interessados por espaços, atividades, debates e reflexões sobre a literatura infantil.
Essa é a finalidade da quinta edição do Encontro Estadual de Lite-ratura Infantil, organizada por a Unochapecó através do Centro de Ciências de Comu-nicação e Artes e do curso de Letras.
O evento, que tem as inscrições abertas, ocorre-rá de 6 a 10 de novembro.
Tem como tema «A formação de leitores na sala de aula» e as áreas de conhecimento envolvidas são Lingüística, Letras, Artes e Educação.
Entre os argumentos para a escolha da temática do evento, está o fato de que a formação de leitores inquieta docentes, pesquisadores e outros profissionais por estar intimamente ligada à educação.
Com base em análise quanto aos problemas na for-mação de leitores, o trabalho com a literatura exige que seja mais eficaz, porque os alunos passam anos na sala de aula e no ensino médio não conseguem ler e compre-ender textos simples.
Essa capacidade de ler é imprescindível para o processo de emancipação cultural e só ocorre através da leitura, na qual o leitor interage com o texto e constrói sua própria concepção critica, o que deveria ocorrer desde os primei-ros anos de estudante.
De esse modo, é necessário escolher o que se lê e para que se lê.
O Encontro de Literatura Infantil terá a presença de escritores como Elias José, Glória Kirinus, Heloísa Coin Bacichette, Jane Tutikian, Márcio Vassalo e Ricardo Aze-vedo, o contador de histórias Toni Edson, a ilustradora Márcia Cardeal e as professo-ras e Rona Hanning.
Eles discutirão temas como os aspectos ins-tigantes da literatura infantil e juvenil, a poesia na formação de leitores, a leitura como questão de paixão.
O programa do encontro também prevê abordagens sobre a for-mação de leitores em relação às políticas públicas de leitura, à ilustração e por a escrita e apresentações da companhia Trip Teatro de Bonecos, com «O velho lobo do mar», dirigida por Willian Sieverdt, e» Era uma vez um pequeno príncipe», por a Cia das Artes e Espetáculos Muiraquitã.
Para esta edição, que também inclui oficinas e socialização de trabalhos de pes-quisa, estima-se a participação de 500 pessoas ligadas às áreas e interesse.
Haverá, ainda, encontro com representantes de editoras.
As inscrições de apresentação de trabalhos e para a participação nos eventos do Encontro Estadual de Literatura Infantil podem ser feitas por o site www.unochapeco.edu.br, no link inscrições.
Todo o deta-lhamento da promoção está em www.unochapeco.edu.br/encontrodeliteratura.
Número de frases: 16
Hugo Paulo de NA Porto Alegre De a Continental
A rádio subversiva de Roberto Marinho
Uma rádio botou Porto Alegre pra ferver nos anos 70.
A Rádio Continental, a 1120, fez a trilha sonora de centenas de milhares de jovens gaúchos durante os anos de chumbo da ditadura militar.
De 1971 a 1980, a Rádio Continental ousou afrontar o governo, sofreu punições, mas ganhou a simpatia e a cumplicidade de uma geração.
Os noticiários tinham a audácia de tratar os generais Médici, Geisel e Figueiredo com ironia e deboche.
Em as entrelinhas, é claro, porque a ação da censura era implacável.
Mas o público, formado principalmente por universitários, entendia o recado.
Tudo isto numa rádio que integrava o Sistema Globo de Rádio, de Roberto Marinho.
Sim, Roberto Marinho teve uma rádio subversiva durante toda a década de 70, auge da ditadura.
Não estranhe.
Nem mesmo o todo-poderoso dono das organizações Globo soube.
Uma rádio que debochava dos militares e falava mal de todas as ditaduras possíveis.
Uma emissora que recebia cartas ameaçadoras do Movimento Anti-Comunista (MAC) e cujos diretores e jornalistas viviam na Polícia Federal dando explicações sobre os noticiários.
A análise abaixo, feita por o Serviço Nacional de Informações (SNI), mostra o quadro da dor:
«a..
De as emissoras de rádio de Porto Alegre / RS, a Continental é seguramente, a única que não tem dado apoio às obras e realizações da Revolução de Março de 1964.
Em seus noticiários procura sempre fazer citações com sentido dúbio, num vernáculo miserável, entremeado de insinuações jocosas às autoridades constituídas.
Deixa transparecer uma linha de ação pré-determinada, no empenho de uma luta doentia contra tudo e todos que por qualquer motivo se engajarem com o Governo Revolucionário.
Muito embora para seu expediente mórbido e excuso, utilize as franquias da radiodifusão que lhe foram concedidas por o próprio governo do país.
b.
Luis FERNANDO VERISSIMO, filho do escritor Erico VERISSIMO, ocupa cargo de Produtor da Rádio Continental.
Sua linha de conduta, através dos órgãos de comunicação, é de um antagonismo à obra da Revolução de Março de 64, facilmente identificado.
Anexo 5 Xerox que poderão dar uma idéia da linha ideológica do nominado, integrante do quadro de funcionários da Rádio Continental de Porto Alegre/RS."
Dirigida por Fernando Westphalen, o Judeu, a Continental também teve papel fundamental na história da música do Rio Grande do Sul.
Em o final de 1974 começam a rodar gravações feitas na própria rádio por Almôndegas e Hermes Aquino.
Em 1975, com um programa comandado por Júlio Fürst, veio a avalanche:
Utopia, Inconsciente Coletivo, Hermes Aquino, Nelson Coelho de Castro, Fernando Ribeiro, Mantra, Cláudio Vera Cruz, Hallai Hallai, Byzarro, Gilberto Travi e Cálculo IV, Toneco, Bobo da Corte, Wanderlei Falkenberg, Status Quatro e Simbiose foram alguns dos músicos e grupos locais que se tornaram conhecidos graças à Continental.
As gravações, que ainda habitam a memória de muitas pessoas que viveram aqueles tempos, foram preservadas durante mais de 30 anos por o técnico de som da rádio, Francisco Anele Filho, o monsieur Anele, como era chamado.
Para contar a história da Rádio Continental, mais de 80 pessoas foram ouvidas.
Muitas de elas várias vezes para o cruzamento e checagem de informações.
Os entrevistados vão de ex-diretores, ex-funcionários, músicos, ex-censores a ex-ouvintes.
Também foram obtidos documentos como os recados da censura à redação de notícias, ameaças do Movimento Anti-Comunista e as análises feitas por o SNI.
A pesquisa resultou no livro-reportagem Em a Porto Alegre da Continental -- A rádio subversiva de Roberto Marinho, que será publicado até outubro de 2007.
Encartado, virá um CD com as gravações da rádio.
Após 30 anos, abre-se o baú com grande parte da história da música de Porto Alegre dos anos 70.
O site www.naportoalegre.com.br pretende complementar o livro de diversas formas.
Uma de elas é na busca de novas informações ou documentos sonoros ou escritos.
Tudo para contar da melhor maneira possível uma das mais incríveis histórias do rádio brasileiro.
Em julho de 2007 estaremos no ar!
Lucio Haeser -- Jornalista
Número de frases: 41
Informações: contato@naportoalegre.com.br
Vanguart retoma agenda de shows para 2007
A última vez que a Vanguart esteve na estrada, mais precisamente em São Paulo, foi para encerrar a sua bem sucedida «Cachaça Tour» 2006», que celebrava a indicação do videoclip homônimo ao prêmio de melhor clip independente do VMB 06.
Por falar em 2006, a Vanguart além de ser indicada ao VMB, também foi indicada na categoria Revelação no prêmio Dynamite, e foi eleita banda Revelação e melhor música do ano (semáforo) por o site do programa Alto-Falante (Rede Minas), melhor banda indie por a coluna do jornalista Lúcio Ribeiro e melhor show do ano e melhor música (semáforo) por o site Scream & Yell.
Essa turnê percorreu boa parte do Brasil -- tocando em quase todo o Nordeste (dentro da tour independente da MTV, que também levou outras 5 bandas: Zefirina Bomba, Rock Rocket, Daniel Belleza & Os Corações em Fúria, Ecos Falsos e Faichecleres), além do Sul (Curitiba, Balneário Camboriú e Florianópolis), Rio de Janeiro, Niterói, Belém, Cuiabá, cidades do interior paulista:
Bragança, Sorocaba, Rio Preto, Mogi etc.
A Vanguart, também em 2006, participou de alguns eventos que merecem destaque.
Tudo começou quando em março de 2006, a banda foi convidada e participou do programa MTV Banda Antes.
Convites para shows foram mais freqüentes e mais pessoas puderam conhecer o folk rock «nervoso» desses 5 garotos -- de uma certa forma -- petulantes.
Sim, porque não é fácil peitar fazer folk rock do jeito que eles fazem, cantando em variantes perfeitas de inglês, português e espanhol, numa terra quente como Cuiabá, onde a cena independente se baseia num rock mais pesado.
A Vanguart pegou a «contramão no fluxo», se assim pode se dizer e aproveitou para» abocanhar " todos os tipos de público.
De olho nisso, a marginal produções convidou a banda para participar de seu projeto Tour Independente (Festival Itinerante com 6 bandas viajando num ônibus por 7 cidades do Nordeste), que aconteceu em julho.
Em Agosto a banda tocou de forma consagradora no festival Calango, em Cuiabá.
Em o começo de setembro foi a grande surpresa do Festival Se Rasgum no Rock (Belém / PA) e no fim do mês teve seu primeiro videoclip concorrendo ao VMB 06.
Depois disso, a banda ainda participou do Festival no Capricho e de programas especiais como Canja IG, Studio Showlivre, Multishow (tramaVirtual), Ya!
dog, Combo:
Fala + Joga.
Depois de tudo isso, a Vanguart se enfurnou num estúdio, entre novembro e dezembro de 2006 e gravou seu primeiro CD, que deverá se chamar VANGUART.
esse trabalho foi produzido por a própria banda e gravado nos estúdios Inca, em Cuiabá.
O disco está pronto, conta com 13 faixas, sendo 11 inéditas e duas regravações dos singles de maior sucesso:
«Semáforo «e» Cachaça».
E 2007 já começa com tudo para a Vanguart.
A banda foi convidada para tocar em dois festivais importantes no Carnaval, o Grito Rock (Cuiabá) e o Rec Beat 2007 (Recife), além disso, aproveita que vai estar no Nordeste e emenda mais alguns shows em João Pessoa, Natal, Aracaju e Salvador.
Depois do Nordeste, a Vanguart muda de vez para São Paulo (onde passa a residir em 2007) e segue com shows dia 09 no Inferno Club e dia 10 na Casa Belfiore.
Segue abaixo agenda completa da Vanguart:
17.02 -- Cuiabá / MT -- Grito Rock Festival
19.02 -- Recife / PE -- Rec Beat Festival (show começa as 20:30h)
23.02 -- João Pessoa / PB -- Galpão 14
24.02 -- Natal / RN -- De o Sol Rock Bar -- com Superoutro (PE), Bugs (RN) e Memoria Rom (RN)
02.03 -- Aracaju / SE -- ATPN
04.03 -- Salvador / BA -- Boomerangue -- com Ronei Jorge (BA) -- abertura:
Starla (BA).
09.03 -- São Paulo / SP -- Inferno Club
10.03 -- São Paulo / SP -- Casa Belfiore
obs.: mais datas estão a confirmar!
em 2006 a VANGUART foi eleita:
-- melhor banda indie nacional -- coluna Lucio Ribeiro (portal IG);
-- Revelação Nacional -- programa Alto-Falante, Rock Press;
-- Melhor show de rock independente -- coluna Revolution (Portal IG);
-- Melhor música 2006 -- Coluna Revolution e programa Alto-Falante.
...
...
Quer Marcar Shows De VANGUART
55 11 9176 0036
ou me passa um email e vamos conversar:
Número de frases: 45
marginalproducoes@gmail.com
É com grande prazer que participo desse maravilhoso site
Fico me perguntando como é maravilhosa a internet e colabora em tantos sentidos principalmente com a não poluição do ambiente
e como poderemos ainda bolar ideias para melhorar a qualidade da vida
alguns bons exemplos
1-o cd os dowloads de musicas evitam a fabicação de cds e poluições e industrialização = diminue a poluição
2 os dowloads de livros e programas menos poluição
3-resolver a maior quantidade possivel de coisas por a net menos gasto com combustivel
Maravilhosa internet
Número de frases: 9
www.zigbr.com É o de sempre, sexta-feira pega o carro, pega a gata, nessa época pega um casaco se não quiser pegar uma gripe também.
Tudo pronto é só sair pra ver no que dá.
Em especial na noite de ontem já sabia o que fazer, mas para não perder a expectativa que costumo sentir, não sabia o que iria dar, sabia que três bandas estariam lançando seus EPs no Galpão 14.
Nublado, Gauche e Sem Horas.
O Largo de São Pedro estava lotado, mas era de carros.
Não vi a barraquinha que fica de frente, não tinha ambulante, estranhei bastante.
Até aquelas velhas figuras que sempre aparecem e nunca entram pra curtir as bandas e ficam por as escadarias da igreja, que sempre são tão fiéis em não assistir ninguém, e são muitos, mesmo esses não estavam tantos por lá.
Para mim era sinal de que alguma coisa legal estava rolando e eu não sabia, ou por os menos iria, acendi um cigarro e perguntei pra alguém:
«tem algum outro show rolando cara?».
A resposta negativa veio acompanhada dos acordes de Purple Haze vindos de dentro do Galpão.
Olha lá que o que tem de legal vai começar.
Paguei o ingresso, paguei a cerveja, e me preparei, quem iria começar era a Nublado.
A banda é animadíssima, mas sem exageros, sem palhaçadas, rock direto e sincero.
Com melodias belas, mas sem perder o «punch», conseguiram fazer um mix entre Toxic de Britney Spears e Lost Art of Keeping a Secret do Queens of the Stone Age, parecer legal.
As influencias ficam muito claras em suas musicas, Travis e Foofighters (principalmente por parte do baterista Rayan Lins) foi o que consegui perceber.
De as três faixas do EP, Disfarce Insônia e Amanhã, esta ultima era a mais pedida por o público e os rapazes guardaram-na para o final, junto com uma do Artic Monkeys para fechar a participação de eles na noite.
Rápido, direto, discreto, e no alvo.
Sem maiores firulas nem blá blá jogado fora.
Uma banda enérgica e direta como o bom rock tem de ser.
A segunda banda da noite é a Gauxe ou «goxe», palvra francesa que significa esquerdo, mas também pode significar estranho, desajeitado.
De fato os rapazes não fazem o estilo «rocker», carinhas de CDF, óculos na cara, eles fazem um som igualmente goxe, pop folk com letras pisicodélicas.
Sobem no palco uma passadinha no som bem breve e já dão início, meio de repente, com a puxada no violão de Bruno Sérgio.
Em o myspace da banda um dos contatos me chamou atenção, Kula Shaker, e pode acreditar tem muito haver.
Um som que me lembrou Kleiton e Kledir, só que mais vitamenado, puxado para os Byrds.
Fendas para o mar, mar de atlântida, Gigantes astrais no teatro de serafins.
E a coisa vai longe.
O som para curtir numa boa, na paz, prestando bem atenção nas batidas cadenciadas, setentonas, como a última musica do repertório pode traduzir.
Um rock adulto, para adultos, para quem abre bem a mente para sacar melodias as mais diversas.
Depois de mais algumas cervejas, bate papos, nem notei que a ultima banda já estava posicionada, fui pego de surpresa por um ataque na guitarra, rockabilly, mas banda eu já conhecia, faz uns dois anos.
Eles não eram exatamente esses caras que estavam ali puxando o ultimo gás da platéia para rebolar e pular.
O lançamento do EP é uma decorrência de todo o crescimento que a banda tem mostrado, tudo culpa de uma personalidade muito marcante na banda, Carlos Kobal, que atua quase como um maestro enquanto Igor Tadeu, leva o publico.
Não é especialmente o tipo de música para qualquer momento, é a banda certa para se fazer uma farra, para agitar o esqueleto, com letras cheias de «tchuaps, tchuap»,» uhuuuuuus».
Para se tomar cervejas e rir enquanto eles comandam o agito.
Iê iê.
Acabaram-se as bandas, fiquei feliz por saber que a noite de sexta-feira, a primeira sexta-feira do mês, foi tão deliciosamente nova assim.
Tenho dois CDs novos no bolso, um cigarro na boca e quando sai do Galpão 14 e olhei para a noite, conhecidência ou não, essa foi uma noite de céu Nublado, de clima Estranho e Sem Horas para acabar, poi a senhorita Adloff está com mim e eu ainda estou nas espectativa.
Amo sempre a primeira noite de sexta-feira do mês.
Número de frases: 37
Muita gente ainda não sabe, mas em Minas vivem pelo menos oito nações indígenas.
São elas:
Maxakali, Pataxó, Krenak, Xacriabá, Xucuru-kariri, Pankararu, Aranã e Kaxixó.
Os Maxakali surpreendem por ainda preservarem língua, religião, costumes e outros aspectos tradicionais de sua cultura como nenhum outro.
Pouco mais de mil pessoas, sendo a maioria da população de crianças, eles falam a língua Maxakali, do tronco lingüístico Macro-Gê, família Maxakali.
Vivem em reserva no Vale do Mucuri, no nordeste do estado, abrangendo dois municípios.
Em o município de Bertópolis fica a aldeia de Pradinho.
Em o de Santa Helena de Minas, a de Água Boa.
Povo tradicionalmente semi-nômade, caçador e coletor, é comum alguns grupos de poucos indivíduos abandonarem a reserva para longas peregrinações, muitas vezes chegando até Governador Valadares (onde há um centro de assistência aos índios mineiros), distante mais de trezentos quilômetros de suas terras.
Seus ancestrais costumavam vagar por uma extensa área que abrange, além do nordeste de Minas, o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo, até acontecer o contato com o colonizador europeu, e a conseqüente diminuição de seu território, para enfim acabarem confinados em reserva.
A primeira notícia que se tem destes índios é do século XVII, quando, aliados aos Patachós, lutam contra seus inimigos ancestrais, os denominados Botocudos, termo que abrange vários outros povos que habitavam o mesmo território, de entre eles, os atuais Krenaks.
A afinidade com os Patachós vai além.
Suas línguas se parecem em muitos aspectos, sobretudo no vocabulário.
Guardam semelhanças também nos traços físicos.
Além do mais, em língua maxakali há a palavra pataxó que quer dizer «papagaio», sendo que a organização social deste povo se dá em clãs totêmicos.
Sendo assim, conjetura-se se o povo Pataxó não seria um antigo clã maxakali do Papagaio que em tempos muito remotos se teria separado e dado origem a outro povo com características próprias, mas ainda mantendo alguns traços de identidade.
Eis uma questão.
Os Botocudos haviam formado, associados aos Bantos africanos, a Confederação dos Guéren (Guéren era outra denominação dos Botocudos) na intenção de defender suas terras da invasão dos bandeirantes.
Lutando do lado do exército, os Maxakalis se abrigam nos quartéis, se tornam soldados ou canoeiros entre Belmonte e Araçuaí.
Só mais tarde dão as costas aos militares e retornam às matas.
Perambulam por a região, sofrem massacres, até que no começo do século XX fixam-se no território que ocupam até hoje.
Aqui não cabe aquela visão idealizada de índios nus vivendo isolados no meio das matas sem contato com a chamada «civilização».
A maioria de eles vive próxima a cidades do interior e mantém contato constante com a população envolvente.
Mas a cultura indígena resiste com vivacidade.
Atualmente os povos indígenas de todo o Brasil realizam uma revolução educacional.
Desde a Constituição de 1988, que assegura às comunidades indígenas «a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem», os governos estaduais deram início a programas educacionais diferenciados direcionados a estes povos.
Em Minas em 1995 teve início o Programa de Implantação de Escolas Indígenas, que já formou turmas de professores indígenas em nível de magistério, dos quais 130 foram aprovados em dezembro no primeiro Vestibular indígena da UFMG.
Como conseqüência dessa nova proposta educacional para os índios, sua cultura está se transformando em livros, CDs, filmes, até mesmo para que as crianças índias tenham material didático a ser usado nas escolas.
A literatura maxakali
Os Maxakalis possuem um rico e extenso acervo literário composto de narrativas tradicionais, cantos, causos, depoimentos, anedotas, piadas etc..
Tradicionalmente oral, essa literatura agora ganha as páginas de livros bilíngües e ricamente ilustrados.
A língua Maxakali possui escrita.
Em a década de 1960 missionários norteamericanos viveram entre os índios, aprenderam sua língua, instituíram uma escrita alfabética e alfabetizaram alguns índios.
Este foi o germe da literatura que surge hoje em dia.
Os professores das escolas indígenas, que normalmente são os autores dos livros, cartilhas, atlas e outras publicações, usam a língua escrita maxakali para contarem suas histórias e transmitirem seus conhecimentos às novas gerações, ao lado do tradicional e eficiente método oral.
É uma produção literária inédita em que pela primeira vez os próprios índios são os responsáveis por o registro de sua tradição, visão de mundo, e formas artísticas.
Assim, surgem obras como O livro que conta histórias de antigamente, o primeiro livro maxakali, que apresenta narrativas mitológicas, depoimentos históricos e sobre o cotidiano nas aldeias, receitas de comida e remédios.
Ou o Livro de cantos rituais maxakalis, que registra cantos tradicionais, os yãmiy (fala-se " iãmi "), como são chamados, celebrados em suas cerimônias religiosas, chamadas yãmiyxop (" iãmichop ").
Verdadeiros hinos à natureza, seus elementos e processos, tais cantos são poemas singelos.
Cantados durante toda a noite em rituais que incluem dança e música, e em que os participantes usam pintura corporal e comemoram com a ingestão de bebidas e alimentos, os yãmiy (sendo esta a palavra que designa também os espíritos de sua religião) são homenagens aos deuses indígenas:
animais terrestres, aquáticos, pássaros, insetos, espíritos de ancestrais, etc.
Uma mostra do Livro de cantos rituais:
Canção
De o MARTIN-PESCADOR Pequeno
Mãm xexex Mîm tappo tu xip
Nûixokã xip Mõ kuk
Mãm yok xi nûy mõh
Mãm yok hã xip
Kuk puma ãmep
Nûy kuko Nûy kuk
Peko xomã Kuk xeka tu nû îxox
Tradução:
O martin-pescador pequeno
Está na árvore seca
Ele desce no rio
Mergulha na água
Pega um peixe
E o come pousado
Corta caminho entre morros
Vai rio abaixo
Vai rio acima
Voa entre o céu e a terra
Desce no rio grande
A língua e cultura maxakali é um patrimônio não só dos índios, mas de Minas e do Brasil.
Sua literatura é um rico registro, não apenas artístico, mas também histórico e social.
Pesquisadores de várias instituições atualmente se debruçam sobre este ainda pouco conhecido aspecto de nossa cultura, transformando assim uma realidade, pois é comum que o saber gerado por pesquisas sobre as raízes brasileiras se origine de mãos estrangeiras.
Número de frases: 66
A produção do conhecimento, as coisas e valores de nossa terra devem ser domínio do povo que aqui vive.
Trevo Digital é uma palataforma para comercialização de música em MP3.
É mais do que um site, explicam os donos da empreitada, os curitibanos Luiz Eduardo Tulio e Eduardo Carvalho Junior, ambos da banda Celestines, o primeiro formado em Engenharia Civil e o segundo um professor de História que também atua como representante comercial.
Com um comprometimento musical que vai muito além do hobby para ocupar as horas vagas, a dupla se deu conta que chegou ao mercado com sua proposta musical no meio do olho do furacão, quando ainda tontos, todos -- artistas, alternativos ou não, e empresas -- tentam achar novos meios de fazer sua música chegar o mais longe possível.
Missão mais dificil quando se fala de música autoral alternativa, em cujo universo não se conta com grandes orçamentos.
«Pegamos justamente uma fase de transição do CD físico para o digital e quando os espaços para distribuição física começam a se fechar», comenta Tulio, por telefone.
Constatação feita, mangas arregaçadas, foram pesquisar sobre caminho a serem desbravados.
«Notamos que fora os grandes sites, UOL, IG, Sonora, não existe nada para o artista chamado independente», observa.
De o sistema de download remunerado do Trama Virtual, por exemplo, a dupla concluiu que não dá para sustentar uma banda.
A gravadora Trama tem dois grandes patrocinadores que disponibilizam entre R5 e R$ 10 mil mensais, que são rateados entre quem fizer uma cota mínima de download.
«Fizemos um acompanhamento e dava na média de 10 centavos por música.
Quer dizer, com a venda de 10 mil downloads, o que não é pouco para este nosso universo, a banda ia ganhar R$ 100.
Não vimos como isso pode levar uma banda adiante.
É melhor para o site, que recebe muita visita, mas a banda não sobrevive», observa Luiz.
Por os comentários correntes, os músicos parecem estar gostando da idéia, que está tendo seu lançamento oficial este mês.
«A gente não pertence a nenhuma mega corporação, do tipo UOL, ou Terra, é uma plataforma feita por músicos para músicos», observa."
bem simples participar, basta a banda ou selo fazer um cadastro, que vai ser aprovado por a diretoria da plataforma -- a equipe prefere chamar assim e não de site.
Depois disso, ele vai poder criar sua própria página -- como se faz em portais como My Space -- e ter sua própria loja de venda.
«O interessado não preciso ir só na página da Trevo, porque o usuário vai poder colar o ícone da loja nas páginas que já tem na internet e fazer a venda normalmente», explica Tulio.
A banda define tudo, preço, se vai vender por faixa ou a obra completa e só paga uma taxa anual de R$ 30.
O site entrega 80 % do que receber para a banda.
«E não temos nenhum tipo de exclusividade», completa o empreendedor, com sua lista de vantagens.
Tulio e Carvalho Junior não sabem ainda se vão, com isso, conseguir ganhar dinheiro.
«É tudo muito incerto, e sabemos que para ter alguma chance, temos que implantar melhorias.
Pensamos por exemnplo, em vender o disco físico também, no futuro.
Mas, no momento o interessante é ser um distribuidor de música digital.
E este é o único, neste sistema no Brasil», garante ele, que continua a todo vapor também com a banda.
Importnte dizer, segue, ele que «não somos gravadora, não vamos fazer divulgação e lançar artistas».
Portanto, o bom desempenho no Trevo depende do empenho da banda, como sempre.
Além de apresentar aos clientes a certificação digital 128 bits SSL de compra segura por a internet, a Trevo Digital oferece o Trevocard, um cartão virtual em que o consumidor abastece seu crédito e utiliza da maneira que quiser, sem restrições quanto a tempo, formatos, selos independentes, gêneros ou intérpretes.
Estarão disponíveis ainda para o internauta entrevistas com os artistas, parada com os dez nomes mais acessados, sistema de recomendação de cantores e bandas como sonoridades similares e áudio com trinta segundos de cada música sem qualquer custo para o ouvinte.
Adriane Perin
Número de frases: 32
Serviço http://www.trevodigital.com.br/
Nem parece, mas já faz dezoito anos que Brasília viveu seu dia de Altamont.
Para quem não conhece a história, o Festival de Altamont reuniu, em 1969, bandas seminais como Jefferson Airplane, The Flying Burrito Brothers e os Rolling Stones.
E foi no show do grupo de Mick Jagger que a confusão rolou:
durante uma briga, os motoqueiros Hell's Angels, que cuidavam da segurança, espancaram um fã até a morte.
Em Brasília, em 1988, o tumulto não chegou a esse extremo.
Mas também não ficou muito longe.
E as conseqüências foram semelhantes.
O cenário era a Capital Federal, estádio Mané Garrincha.
E a banda era a Legião Urbana, comandada por o redentor Renato Russo e seus três apóstolos.
Juntos, lideravam uma turba de 50 mil pessoas.
50 mil fanáticos.
50 mil dispostos a dar o sangue por o salvador.
E foi o que acabou acontecendo.
Analisada em perspectiva histórica, dá pra dizer que essa noite mudou a trajetória do mais famoso grupo de rock brasileiro em todos os tempos.
E eu estava lá.
Faroeste Caboclo
Tinha 14 anos.
Era o primeiro show de rock que assistia na vida.
A Legião Urbana era amada na cidade mais ou menos como os Beatles em Liverpool.
Todo mundo foi ao Mané Garrincha.
Todo mundo mesmo.
Os 50 mil presentes compraram ingressos, ou não, e lotavam o gramado, as cadeiras e as arquibancadas do estádio.
Foi uma noite tensa.
A polícia montada avançava com os cavalos sobre as transamazônicas filas que se formavam do lado de fora.
A cidade estava extasiada.
Ninguém queria perder a volta do ídolo, um ano e meio depois.
O caos era tão grande que tiveram a brilhante idéia de liberar as roletas.
Quem tinha ingresso entrava.
Quem não tinha entrava também.
A aparição da banda no palco pareceu a volta do messias.
E, de certa forma, era mesmo.
A multidão gritava enlouquecidamente, e o show começou, triunfal, com Que País é Esse?,
música de mesmo nome do recém-lançado disco, que até então já tinha vendido mais de 400 mil cópias.
O que aconteceu naquela noite muita gente ainda se lembra:
bombinhas explodiram no palco, um louco agarrou Renato Russo no meio de Conexão Amazônica, brigas por toda parte, o cantor xingou a platéia, a platéia xingou o cantor.
Um clima de quase guerra civil.
A banda saiu do palco depois de 50 minutos de apresentação.
O público, indignado, iniciou um quebra-quebra.
Eu estava nas arquibancadas.
E dava para ver a multidão correndo de um lado para o outro no gramado do estádio.
A polícia, claro, não conseguiu controlar a catarse coletiva.
Em o dia seguinte, prometi pra mim mesmo que ficaria 10 anos sem ouvir as músicas de eles.
Fiquei uma semana.
E a Legião nunca mais tocou em Brasília.
Geração Coca-Cola
Antes da Legião Urbana, nenhuma banda da cidade tinha conseguido projeção nacional.
Outras vieram depois.
Mas a diferença é que o quarteto tinha Renato Russo, um professor de inglês que gostava de Bob Dylan, Beatles, Stones e Sex Pistols.
Em aqueles anos, ninguém mais estava a fim de ouvir Absyntho, Metrô, Sempre Livre e outros grupos que, felizmente, apareceram e desapareceram na década de oitenta.
Era hora de escutar músicas que contavam o que acontecia no dia-a-dia da gente.
Renato sabia o que dizia.
E sabia o que o seu público queria que ele dissesse.
Suas letras iam da desilusão amorosa entoada em Ainda é Cedo à revolta em ver a pátria sem rumo, gritada em Que País É Este?
Ele tinha a poesia dos trovadores.
Foi o maior letrista do rock brasileiro em todos os tempos, mas com alma punk.
Quando parava pra falar, todos ouviam.
Por isso mesmo falava o que queria.
Uma mistura explosiva do poeta francês Baudelaire com Sid Vicious, o polêmico baixista dos Pistols.
Será?
Em aquela noite de 18 de junho de 1988, isso tudo veio à tona.
A idolatria por a Legião e especialmente por o vocalista estavam no auge.
A expectativa era muito grande, tanto do público quanto do grupo.
A banda prometia revolta e energia em suas músicas e foi isso que levou 50 mil pessoas ao estádio.
Quando as coisas começaram a dar errado, ficou impossível controlar os ânimos.
Assim como a tragédia de Altamont marcou a transição dos sonhadores anos 60 para a barra pesada dos anos 70, o show do Mané Garrincha foi também um divisor de águas na carreira do grupo e na história da cidade.
A partir daquele momento, o quarteto passou a evitar longas turnês e deixou de lado o discurso político.
As letras tornaram-se mais introspectivas.
Brasília nunca mais juntou tanta gente numa apresentação de uma só banda e a segurança da platéia passou a ser levada mais a sério nos shows (ou você acha que 700 policiais e seguranças dariam conta da multidão?).
Renato Russo também deixou de lado o discurso messiânico.
Não queria mais mudar o mundo.
Passou a querer apenas cantar suas próprias aflições e angústias.
Em aquela noite Brasília perdeu um punk.
E muito da inocência também.
Número de frases: 74
Flávio Herculano
É jornalista
fherculano@yahoo.com.br Verificando a lista dos discos mais vendidos, numa revista semanal, me deparei com uma realidade óbvia mas que me passava despercebida:
pela primeira vez, em mais de uma década, não há nenhum modismo predominando na música brasileira nem uma banda arrasa-quarteir ão atraindo para si todos os holofotes da mídia.
De repente, um estalo:
tem tudo a ver com a crise no mercado fonográfico, gerada por a pirataria generalizada e por a fácil acessibilidade à música via internet.
Juntando as coisas, concluí que essa crise pode ser a redenção do próprio comércio musical.
Em a lista dos mais vendidos, uma salada.
O primeiro colocado é um tal Caio Mesquita -- para mim, um total desconhecido.
Em outras épocas, seria um ser onipresente nas rádios, capas de revista e programas dominicais de auditório.
Segue-se na lista dos mais artistas-resquícios da moda sertaneja, do forró eletrônico e do brega paraense, além de discos que têm suas vendas impulsionadas por a mídia em TV.
São os famigerados discos ao vivo e coletâneas, além da trilha da novela das 21 horas.
Graças à MTV, emergem na lista Ivete Sangalo e Lenine.
Graças aos comerciais freqüentes na Rede Globo, Milton Nascimento e até Nelson Gonçalves voltam a constar entre os músicos mais populares do país.
E com as vendas em baixa, artistas que têm público cativo em determinada região conseguem chegar à lista dos mais sem causar grande barulho.
É o caso da banda paulista Inimigos da Hp (para mim, mais um ilustre desconhecido).
E o grande público?
Em este primeiro momento, sem se ver empurrado a adotar um ídolo para a atual estação do ano, tem mesmo se apegado a nomes de um passado recente.
Aí, valem também a pop Ana Carolina e os sertanejos Bruno & Marrone.
Agora, enfim, explico o que considero uma redenção no comércio da música.
Atordoadas com as baixas perspectivas de vendas, as grandes gravadoras não se sentem seguras para fabricar novos modismos e astros populares, com todos os custos que isso implicaria.
Assim, não interferem no processo, deixando as águas seguirem seu fluxo natural.
E isso é bom.
Muito bom!
É como se as gravadoras, sem saber como se adaptar à realidade da pirataria e sobretudo da popularização da música via internet, tivessem jogado a toalha.
Hoje, já não praticam suas tradicionais artimanhas comerciais.
Com o público ditando os rumos do mercado, há uma pulverização de artistas.
Não há mais o ídolo do momento.
Há uma sensação de que todos os músicos estão em pé de igualdade.
Todos podem chegar «lá», embora sabendo que seu sucesso não será mais supremo.
Tentando enxergar à frente, tenho a impressão que, num futuro muito breve, os discos serão meros instrumentos de divulgação.
Com a acessibilidade tecnológica, cada artista poderá produzir suas próprias músicas e disponibilizá-las via internet, gratuitamente ou a preços módicos.
O que valerá é se fazer notório em meio a tantas opções musicais, cativando um determinado público para manter uma agenda de shows e obter sua renda.
Assim, poderemos continuar apreciando ídolos nacionais e mundiais, mas teremos mais chances de conhecer a banda de rock do filho do vizinho.
Espera! Mas isso já vem acontecendo, num processo que não deve ter mais recuo.
É. Realmente vivemos um momento de transição.
Oxalá a tecnologia.
Oxalá a democratização da cultura.
Número de frases: 38
Em nossa época, testemunhamos uma profusão sem precedentes de mídias, gerando inúmeras especulações sobre o futuro da tecnologia e suas conseqüências sobre o ambiente humano.
Em o caso específico da prática musical, talvez uma das situações mais interessantes (e perturbadoras) geradas por a presença maciça de meios eletrônicos e computadorizados seja a relativização das distinções entre compositor-executante ouvinte (bem como uma expansão das possíveis interações entre estes).
Tal relativização está diretamente ligada ao surgimento do registro fonográfico, como podemos exemplificar a partir de uma concepção do compositor norte-americano Jonathan Kramer.
Para este autor, um equipamento de reprodução (enquanto uma tecnologia que proporciona ao usuário um controle considerável sobre o contínuo sonoro) não difere significativamente de ferramentas composicionais eletrônicas.
Ao contrário da partitura tradicional (um meio com base na visualidade), o registro fonográfico faculta aos compositores criar suas obras diretamente sobre um suporte definitivo, o que vem estimulando a interdisciplinaridade e permitindo que leigos desempenhem um papel que vai além da condição de ouvinte.
De forma semelhante, as interfaces de softwares musicais não apresentam necessariamente grandes contrastes em relação a interfaces de programas de uso mais geral (editores de texto, navegadores, etc.), o que facilita o acesso de usuários comuns à criação musical.
Assim, práticas distintas acabam por compartilhar recursos semelhantes para criação e reprodução (por exemplo, DJs e compositores de música eletroacústica), o que favorece o intercâmbio de contextos e referências (por sinal, um dos principais desafios da nossa época).
Em nossa opinião, a faixa de produção habitualmente chamada de música popular apresenta características afins com o acima exposto, dada sua permeabilidade às influências mais diversas.
Segundo o antropólogo Rafael José de Menezes Bastos (no artigo Músicas Latino-Americanas, Hoje: Musicalidade e Novas Fronteiras), a música popular (para ele, conseqüência direta do advento do registro fonográfico) configura uma linguagem dialógica e desterritorializada, capaz de incorporar o passado e postular o futuro, e cujas relações se dão tanto por contraste quanto por inclusão, favorecendo uma grande conversa mundial de sistemas musicais.
Em tais contextos de hibridizações sonoras, a tecnologia (seja ela qual for) já não pode ser considerada apenas enquanto ferramenta, sendo urgente perceber sua influência sobre o pensar composicional.
Este quadro de redefinição de papéis vem revelando oportunidades insuspeitas de composição e interpretação.
Vive-se uma época de transição, e, como é característico de tais períodos, as possibilidades ainda são emergentes, não sendo de todo perceptíveis.
Para Kramer, tal transição se completará apenas quando as pessoas estiverem aptas a confrontar o impacto total da revolução tecnológica.
Em acordo com tais idéias, o projeto ElectroQwerty funciona como um laboratório com a proposta de criar obras que atuem como um recurso de sondagem do ambiente, contribuindo no processo de criação de novos referenciais e na observação de suas conseqüências (ou seja, uma atitude experimental frente a novos desafios, uma vez que as forças atuantes no atual contexto tecnológico ainda não estão de todo claras).
Com ênfase no estímulo a novas percepções e cognições, é estabelecido um ambiente de criação pleno de possibilidades e de descobertas pessoais.
Produtores de diversas áreas (DJs, roqueiros, programadores, músicos acadêmicos, designers, professores) configuram uma oficina voltada para a pesquisa de resultados sonoros diferenciados, onde atividades lúdicas e prática especializada se complementam (inclusive com a participação de leigos e crianças).
A partir de um núcleo de coordenação (Marcelo Birck, Antônio Nunes e Luciano Flores), são propostas estéticas demonstrativas do potencial da tecnologia na experimentação de sonoridades inéditas, e que raramente se encaixam nos meios habituais de difusão e comercialização.
O processo inclui áudio-games, instrumentos virtuais, algoritmos, remixes, colaboração à distância, licenciamento alternativo e interação com outras artes.
Noções de finalização e autoria são incorporadas a um contexto mais amplo através de técnicas de criação coletiva, onde computadores são usados como catalisadores para um intercâmbio de práticas e recursos (pop / música eletroacústica, ruídos / freqüências, ritmos / texturas, digital / analógico, base gravada / execução ao vivo, intuição / mensuração, escrito / gravado).
Número de frases: 19
Os resultados estão sendo disponibilizados no perfil do projeto no MySpace.
Em a semana passada, fui ao Museu da Língua Portuguesa pela primeira vez, depois de semanas negando-ma entrega da espera em longas filas dolorosas à margem da Estação da Luz.
Fui e gostei.
Gostei principalmente da abertura e da aula de história das línguas no segundo piso.
Como em quase todo museu, o acesso à exposição do de a Língua Portuguesa se dá num viés contrário ao de uma entrada convencional, é de cima pra baixo, como poderia ser de trás para a frente, ou algo assim.
Subi, portanto, ao terceiro andar, para depois ir ao segundo e por fim apreciar as instalações sobre Grande Sertão:
Veredas, no primeiro, porta de saída.
Tudo muito bonito.
Uma beleza de encher os olhos, de lágrimas e contentamento.
A apresentação do museu é feita numa sala escura, com abóbada hightech que projeta imagem de vários poetas e a leitura de seus versos, numa deliciosa apreciação da língua portuguesa.
Começa com Fernando Pessoa, Camões, e segue na verve de Drummond, João Cabral de Melo Neto, entre muitos outros.
Termina com a trova interessante do repente de Caju e Castanha, uma dupla de versadores populares, que aparece ali mais como manifestação viva da língua, a pulsação do verbo.
Mas uma pulga atrapalhou meu encanto por um segundo.
Em uma cadeia de homenagens de poemas-citação a partir de Canção do exílio, de " Gonçalves Dias (Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá / As aves que aqui gorjeiam / não gorjeiam como lá "), apareceram paródias de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e até a de um sujeito que assinava com o pseudônimo de Juó Bananère e que fazia versos num português macarrônico, à la ítalo-brasileiro, nas primeiras décadas do século XX.
Há uma também de Murilo Mendes, o poeta que não fazia questão de ser popular.
Com exceção de Mendes, todos os parodistas da sudade e do exílio são paulistas.
Por que não ouvi a deliciosa paródia de Mário Quintana «Minha terra não tem palmeiras / e em vez de um mero sabiá / cantam aves invisíveis / nas palmeiras que não há»?
Por que não?
Seria porque se trata de homenagem aos paulistas?
Mas por quê?,
se o autor dos versos originais era maranhense?
Mário Quintana fez falta.
Aliás, não me lembro tê-lo ouvido em momento algum da apresentação.
O Museu está prestes a retirar a instalação de Grande Sertão:
Veredas, o melhor livro da literatura brasileira de todos os tempos, e fazer uma de Clarisse Lispector.
Quem sabe num futuro próximo não apareça alguma coisa de Quintana, poeta leve, de delicadas plumas, de uma sensibilidade sem igual.
Número de frases: 26
A proposta de popularização da televisão via internet que a Participatory Culture Foundation oferece através do software livre democracy nasce apoiada em tecnologias de compartilhamento e distribuição de conteúdo já testadas e aprovadas e por a comunidade on-line.
Para organização e distribuição dos conteúdos dos canais audio-visuais o software utiliza RSS, que permite ao usuário, antes mesmo de copiar o conteúdo multimídia, saber mais sobre o vídeo que assistirá.
Alem do RSS, o Democracy utiliza o protocolo de compartilhamento de arquivos Bittorrent.
É essa tecnologia que vai facilitar a vida dos produtores de conteúdo que não possuem os recursos de rede necessários para deixar o canal de televisão online e disponível para download 24 horas por dia.
Como os arquivos de vídeo são grandes, costumam ocupar um bom espaço em disco, o consumo de tráfego da rede onde o material é disponibilizado aumenta consideravelmente.
Com a tecnologia bittorent incorporada, todos os usuários que assistirem a um canal de iptv por o democracy estará disponibilizando para outros usuários do aplicativo o mesmo conteúdo, diminuindo assim o tráfego da rede onde o vídeo estará sendo armazenado inicialmente.
Fascinante né?
Para consolidar mais ainda sua base de apoio tecnológico, o software utilizado na visualização do conteúdo multimídia suporta todos os formatos de vídeo, ou seja, você assistirá televisão através de arquivos mpg4, quicktime, windows media player, divx, etc, etc ...
Além de ser um software livre, o democracy vem estimulando os mesmos conceitos de direitos autorais utilizados aqui no overmundo, o creative commons.
Número de frases: 9
Com a fusão de tantos conceitos interessantes, é uma questão de tempo para o democracy se consolidar na web com a principal proposta de webtv.
De olhos azuis e com pinta de galã de novela, Nilson Xavier, 37 anos, prestes a completar 38 em dez de dezembro, é um aficionado em teledramaturgia.
Ele é o criador e dono do site mais completo sobre novelas atualmente na rede e já concedeu entrevistas, participou de debates e deu workshops a respeito, mas parece não quer ingressar no meio artístico.
«Fora de cogitação, nunca almejei trabalhar com isso», diz categórico, o técnico em informática.
«Ganho relativamente bem e não pretendo mudar de profissão».
Xavier faz programas de computador para a seguradora Porto Seguro e é formado em Administração de Empresas por a Univille, Universidade da Região de Joinville.
Ele começou essa atividade aos dez anos de idade, em Joinville, Santa Catarina, sua cidade natal, onde viveu até os 34." Anotava a ficha técnica dos programas num caderninho:
atores, diretor, autor, etc.»,
explica. Mas não contava sobre os registros para os amigos porque eles não concordavam com o hobby, fato que acontece até hoje, pois o chamam de maluco por perder tanto tempo com novelas.
A paixão, devidamente catalogada, começou com a novela «Marron Glacé» de Cassiano Gabus Mendes, exibida por a Rede Globo entre 06.08.1979 e 1º.03.1980.
A partir de então não parou mais.
A imagem mais distante de uma novela brasileira que lembra é de «O Semideus (1974)», de Janete Clair, mas a primeira que a família assistiu reunida foi» Éramos Seis, de Silvio de Abreu, exibida em 1977 " às 19 horas na TV Tupi.
As novelas preferidas do catarinense são «Roque Santeiro» de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, que foi ao ar em 1985, e «Vale Tudo, escrita por Gilberto Braga e Leonor Bassères, de 1988».
No entanto, acredita que o período mais fértil da teledramaturgia aconteceu nos anos 70.
«Tudo o que veio depois foi cópia ou adaptação desse período», explica.
Já os autores prediletos de ele são o já citado Cassiano Gabus Mendes, responsável por sucessos como «Locomotivas (1977)» e «Brega& Chique (1987)», e Ivani Ribeiro, de» A Gata Comeu «(1985),» Mulheres de Areia (1993) «e» A Viagem (1994)».
Xavier não costuma falar mal das novelas «por uma questão de ética», mas confessa que não as acompanha com a mesma freqüência:
«elas não me atraem tanto».
Deixou de assistir, no ano passado, a problemática «América» de Glória Perez, para ver «Xica da Silva», sucesso de Walcyr Carrasco, exibida originalmente por a extinta TV Manchete, que foi reprisada por o SBT no mesmo horário da novela global.
A idéia do site surgiu quando pesquisava sobre novelas e não encontrou nada de convincente na Internet.
Isso até acessar o site português www.gilbertobragaonline.com, de " Hugo Costa.
«Era bonito e completo», diz.
Xavier entrou em contato com Hugo para saber porque ele não desenvolvia um site sobre todos os autores e obras televisivas.
«Porque não tenho as informações sobre os demais», respondeu Hugo.
«Mas eu tenho», devolveu.
De essa maneira, com a ajuda do novo amigo, eles criaram o então ' telenovela.
com ', em outubro de 1999.
A página cresceu rapidamente.
De o início com apenas novelas da Rede Globo, Xavier incluiu as tramas de outras emissoras, as trilhas sonoras, bastidores.
E em 22 de julho de 2003, ele registrou o domínio atual, mais abrangente:
www.teledramaturgia.com.br, no mesmo dia em que se comemorava os 40 anos da estréia da primeira telenovela diária no Brasil: "
2-5499 Ocupado», exibida por a TV Excelsior, em 1963, e que reuniu pela primeira vez o casal Glória Menezes e Tarcísio Meira.
Com o sucesso de seu site, Xavier deu entrevistas, participou de programas de TV e de rádio e teve a oportunidade de conhecer algumas atrizes famosas como Eva Wilma, Glória Menezes, Laura Cardoso e Regina Duarte.
Além disso, celebridades o contataram para elogiá-lo.
«Já recebi mensagens de Manoel Carlos, Daniel Filho e Miguel Falabella», comenta, orgulhoso.
«Recordei de novelas antigas, obrigado», disse Manoel Carlos.
Já Falabella pediu para que ele acertasse o elenco de «Salsa e Merengue, novela do autor exibida por a Globo em 1996», que estava incorreto na página correspondente.
O teledramaturgia.
com. br apresenta material sobre 842 programas entre novelas, séries, minisséries e seriados apresentados por ordem alfabética e cronológica.
Mesmo tendo todo esse rico acervo sobre o produto de cultura nacional mais vendido no exterior (" Escrava Isaura, de Gilberto Braga, de 1976», é até hoje a mais exportada no mundo, são mais de 80 países), as redes de televisão não exercem nenhuma influência, tampouco colaboram para mantê-lo.
«As emissoras não me ajudam em nada, consegui tudo desde os logotipos até as informações sozinho.
Tenho muitas revistas antigas, minhas anotações, além de meus colaboradores», declara.
Quem acredita que ele está ganhando rios de dinheiro, engana-se.
Xavier não tem nenhum retorno financeiro com o site.
Ao contrário, paga uma taxa mensal por o provedor e uma anual de R$ 30,00 por o domínio do seu endereço na rede mundial de computadores.
«É meu hobby e não me incomodo em gastar nisso, diz, categórico.
Mas quando dá workshops sobre o assunto, recebe.
Atualmente, o site é referência para pesquisas, já que está na bibliografia do ' Dicionário da TV Globo ` sobre dramaturgia, lançado em 2003, por a Jorge Zahar Editor.
Também é citado em dois dos livros mais vendidos, de acordo com os rankings das revistas semanais, nos últimos dois anos no país:
o'Almanaque dos Anos 80' (Luiz André Alzer e Mariana Claudino) e o'Almanaque dos Anos 70' (Ana Maria Bahiana), ambos publicados por a Ediouro.
Agora, ele próprio terá o seu livro sobre teledramaturgia.
«Almanaque da Telenovela Brasileira «tem previsão de lançamento para o segundo semestre de 2007 por a Panda Books, a mesma que editou» O Doce Veneno do Escorpião», autobiografia da ex-prostituta Bruna Surfistinha, e a série «Guia dos Curiosos», do jornalista Marcelo Duarte, que foi o responsável por a editora interessar-se por o livro.
«Adorei o tema, esse formato de almanaque será um sucesso», garantiu Duarte.
Xavier já está com o contrato em mãos e muitas expectativas.
«O mais provável é que seja lançado em julho e a editora acredita que será um dos best sellers do ano que vem», profetiza o autor.
Como também adora música, Xavier coleciona trilhas de novelas desde os 13 anos, quando começou a freqüentar os sebos em busca de discos antigos, hábito que mantém até hoje.
Ele chega a comprar um LP que já tem porque encontra outro com a capa mais conservada.
«Para completar minha coleção de antigos só falta ' O Rebu ' nacional (novela de Bráulio Pedroso, Rede Globo, 1974)», diz.
As capas que estão na seção «Trilha Sonora» do site foram escaneadas uma a uma de seus discos.
O colecionador só compra as trilhas depois que a novela sai do ar.
Por isso, ainda não tem as de ' O Profeta ` e ' Páginas da Vida ', atualmente exibidas.
«Não pago mais que 10 reais num CD de novela», confessa.
A quantidade nem ele mesmo sabe ao certo -- afirma ter mais de 300 discos de vinil e de 150 CDs das trilhas sonoras lançadas no Brasil de todas as emissoras.
«Tenho até os LPs de algumas novelas estrangeiras como os da versão original de ' Os Ricos também Choram ', apresentada por o SBT (na época ainda TVS), no início dos anos 80».
A fixação em ter todos os títulos é tão grande que ele chega a comprar o mesmo disco em vinil e em CD, como no caso das minisséries «Anos Dourados» e «Anos Rebeldes».
Já DVDs não tem muitos.
Comprou títulos como «Hilda Furacão»,» A Muralha», Dona Flor e seus Dois Maridos «e» Memorial de Maria Moura».
Como as novelas não saem em DVD, procura gravá-las, mas não inteiras.
«Costumo gravar o último capítulo de cada novela, tenho um bom acervo», garante.
Solteiro convicto, mora sozinho desde os 20 anos de idade, hoje num apartamento alugado na Consolação, região nobre de São Paulo.
«Vendi meu apartamento em Joinville e no ano que vem pretendo comprar um aqui em São Paulo, nos arredores».
Namora há dois anos e meio, desde que se mudou de Santa Catarina para a capital paulista, mas não revela com quem e diz não pensar em casamento nem em viver com alguém.
O pai aposentado, o irmão engenheiro projetista e os sobrinhos moram em Joinville, a mãe é falecida.
«Sou o único diferente da família», explica.
Também não pretende ter filhos:
«Não me vejo pai».
Em contrapartida, Xavier mostra-se caseiro.
Não costuma viajar, conhece o Sul (Joinville, Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre) e o Sudeste (São Paulo, Janeiro e os litorais dos dois estados).
«Tenho vontade de ir ao Nordeste e ao exterior, mas não está entre minhas prioridades, quero comprar meu apartamento antes», esclarece.
Quando não está diante da tela do seu televisor nem do seu computador, gosta de estar em frente a uma bem maior:
a do cinema.
Adora os filmes europeus:
franceses, italianos, espanhóis e não aprecia muito os títulos americanos.
«Não assisti ' Senhor dos Anéis ` nem ' Harry Potter '.
Ainda não vi ' Volver ', mas gosto do Almodóvar, adorei ' Fale com Ela ` e ' O que fiz para merecer isto? ',
também gostei muito de ' Caché ', com Juliette Binoche, que está gorda no filme, parecendo uma matrona italiana, mas continua linda», diz ao alfinetar a musa do cinema francês e mundial.
O também cinéfilo aprecia ainda os clássicos.
«Em Joinville, sempre ia à prateleira dos antigos e assistia a filmes de Hitchcock, Luchino Visconti e Fellini.
Adorei a maioria de eles.
Hoje, moro próximo aos melhores cinemas de São Paulo:
Reserva Cultural, HSBC Belas Artes e Espaço Unibanco, mas só vou aos fins de semana, pois gosto de seguir um ritual:
sair de casa tranqüilo, comprar o ingresso e a pipoca e curtir o filme sem sono», filosofa.
De tela em tela, o catarinense garante que não pretende se tornar um crítico de TV, mas está muito empolgado com o sucesso do seu site, com o pré-lançamento do seu livro e com a dúvida se participa ou não de um programa da Rede TV!
sobre trilhas sonoras, de novelas, é claro.
Número de frases: 94
Por Fernando Almeida
às quatro e trinta, quando as peças de carne do Mercado São Sebastião ainda estão sob a luz amarelo manga de algumas lâmpadas incandescentes, seu Antônio Honório e dona Antônia Queiroz estão apertados no box 226 de nove metros quadrados, divididos entre a pia, um fogão, um freezer e alguns engradados de refrigerante.
São os primeiros a abrir nesse domingo.
Em o fogão industrial de quatro bocas, panelas grandes de alumínio.
Lá, mergulhado em muito caldo e temperos, um pedaço da culinária nordestina.
Quando o sol começa a subir, a noite e a farra vão se acabando.
Alguns homens, um tanto bêbados, se não acabam a noite em alguma lanchonete com seus sanduíches gigantes em pão árabe e maionese temperada, rumam para o Mercado São Sebastião.
Em o cardápio do café da manhã, a preferência é por o cozido das víceras e do mocotó do boi:
a panelada.
Pra cozinhar tudo, demora.
Quase sempre dona Antônia deixa de um dia para o outro.
Esse tempo também serve para aprumar mais o gosto.
Fora a panelada, o Restaurante Iguatu, do casal, serve ainda caldo de mocotó, porco guisado, carneiro, carne moída e sarrabulho, um cozido dos miúdos do porco:
fígado, bofe, sangue, garganta e toicinho.
«Abre o porco em banda e arrasta tudo que tem dentro», descreve Antônia.
Tudo entre três e quatro reais, servido com arroz, feijão, macarrão, cuscuz, cheiro verde e uma pimentinha, se for do agrado.
Os acompanhamentos vêm servidos à parte.
Em outra tigela, vem a carne mergulhada no caldo.
O caldo é despejado, sem cerimônia, sobre os acompanhamentos, misturando tudo, fazendo a argamassa.
Em esse simples PF, para o antropólogo Roberto da Matta, está um forte traço da cultura brasileira:
«Nós, brasileiros, sempre privilegiamos comidas nacionais e preferimos sempre os alimentos cozidos.
De o cozido à peixada e à feijoada.
De a farofa ao pirão e aos molhos, guisados e mexidos, às dobradinhas e papas.
Parece que temos especial predileção por o alimento que fica entre o líquido e sólido, evitando o assado, alimento que não permite a mistura», escreveu no «O que faz o brasil, Brasil?».
E a Cabeça de Carneiro, De a Matta?
O prato custa R$ 3,00 no Restaurante São Francisco, da Dona Neusa, há trinta e cinco anos no serviço de cozinha no Mercado, desde o mercado velho, demolido há nove anos e deslocado para esse prédio atual.
Em a cabeça do carneiro, o principal são os miolos.
A cabeça não pode quebrar, se não vaza.
Tira-se o couro, os ouvidos e os olhos.
Bota pra cozinhar.
Então, pronto, pode ser servido.
O que diria nosso antropólogo do cozido da Cabeça de Caneiro?
Dona Neusa tem uma teoria:
«Aqui ninguém quer perder nada, né?
Aqui todo mundo quer aproveitar tudo.
Nordestino come é tudo.
Eu passei um mês em São Paulo, ninguém comia nada dessas coisas não.
É bifezim, não tinha nada disso.
Não gostei de São Paulo não.
Vou ficar aqui mesmo que a gente já tá acostumado».
Café da manhã ou Pequeno Almoço
Não completou ainda a quinta hora do domingo, Junior chega ao Mercado São Sebastião para o café da manhã.
Cafezinho, suco de laranja, torradas e geléia de morango.
«Suco de laranja?!" --
Bota uma panelada pra mim hoje.
Que eu tou feliz porque eu voltei para a mulher!
-- Foi você que voltou para a ela, ou foi a mulher que te aceitou de novo?--
fresca seu Antônio com o freguês já conhecido.
-- As duas coisas, eu acho.
Junior não tomou o Engov.
Não tem problema.
Pra que coisa mais apropriada para um fim de farra, do que chegar no Restaurante Iguatu, comer uma panelada com arroz, cuscuz e pimenta.
«Com essa aqui você acorda zerado.
Não tem um pingo de álcool no meu corpo quando eu acordo.
Vou dormir feito uma jaca pôde».
-- E vocês tão fazendo essa pesquisa pra que mesmo?
-- Em a verdade é uma matéria prum site chamado Overmundo.
-- Pense numa matéria esculhambada.
Comé que pode?
Cinco horas da manhã entrevistando um bêbo.
É muita boa vontade.
Só não me identifica muito pra não comprometer com a mulher.
Em os tempos em que está solteiro, toma o pequeno almoço -- termo português mais apropriado -- de quarta a sábado, sempre depois do pagode ou do forró.
Quando volta para a mulher, só de sábado pra domingo -- como hoje.
E Junior vai embora.
Terá que acordar mais cedo nesse domingo, às 9h, para ir com a esposa à praia.
Zé Branquinho, o mais antigo dos cozinheiros
Lá mais embaixo no mercado tem o box do Zé Branquinho.
O cozinheiro mais antigo daquele mercado.
«Se eu for contar todo o tempo que tou aqui dá uns 40 anos, eu acho.
Cheguei em 65.
Antigamente era muito mais melhor.
Em um tinha Ceasa, nem muitos restaurantes ...
mercantis ... Aí só tinha o mercado, né?
Aí a negada abriu os olhos e tá chei de restaurante aqui por perto», ele explica, com a fala de quem pede o complemento do entrevistador.
O seu ponto vende a mesma coisa que os outros:
frango, cozido, panelada, sopa.
Sopa? É.
Zé Branquinho. O rei da sopa.
Conhece, não?
Tem de carne moída, ossada (carne com osso) e canja.
E se você perguntar o que tem a sopa de especial, ele responde com a pausa de sempre.
Macarrão, arroz ...
Não, Zé Branquinho!
Qual é o segredo para você ser o rei da sopa?
Diz nada, que ele não é nem otário.
Os temperos de Seu Zé Branquinho são segredos de estado.
A mulher cochicha no ouvido do home:
-- Conta Zezinho, o moço não vai querer montar um restaurante não.
Mas Zezinho faz de conta que nem escuta e prossegue nas suas teorias.
-- Não!
Aqui é o seguinte.
Em todos os boxes tem panelada, tem as mesmas coisas, mas cada uma tem seu segredo e um gosto diferente, tá entendendo?
Cada mão, cada sabor.
O sucesso de Zé Branquinho, hoje com 61 anos, é hereditário.
Ganhou aquele negócio do pai, que o ensinou a cozinhar, como ainda hoje faz.
Pra ajudar no serviço, que não é pouco, Dona Aparecida, sua esposa, dá uma força.
Já são mais de 25 anos que eles tão juntos, ou melhor, casados, porque juntos eles já estão faz muito mais tempo.
E diz aí que eles se casaram por causa do bendito do box no Mercado São Sebastião.
Em a verdade, há controvérsias nas versões de cada um.
Para não causar briga no casal e o repórter arrotar imparcialidade, eis que vão as duas.
Dona Aparecida é direta.
Tanto Aparecida quanto Zezinho foram criados por o mesmo pai adotivo.
Quando o véi tava pra morrer disse que só dava para o Zezinho o box se ele se casasse com a Aparecida.
«Ora, porque o caba era namorador demais.
Era preciso uma mulher pra botar ordem.
Aí ele se casou com mim, esse caba safado», conta morrendo de se abrir da história.
Zezinho responde com o mesmo sorriso honesto.
Não foi bem assim não!
«Em a verdade, o pai, quando tava perto de morrer, disse assim ...
Meu filho, cuide dessa bichinha, ela não pode ficar só.
Ela precisa de alguém pra tomar de conta de ela.
Aí eu fiquei cuidando de ela, né?».
E cuide bem, mesmo, Seu Zé Branquinho!
Dizem por aí, que, quando um casal briga e vai para a cozinha, a comida desonera.
Número de frases: 115
Sábado amanheceu ensolarado, depois de mais de uma semana de chuva durante todo o dia.
Pegamos os skates, colocamos no carro e seguimos para a praça JK, em Belo Horizonte, onde existe uma pequena pista para o esporte.
Paramos o carro logo no começo da praça e fomos caminhando em direção a pista.
Estranhamente havia muitos garotos em torno do bowl -- pista em formato de uma bola no chão lembrando muito as piscinas californianas dos anos 70 -- Chegando mais perto ainda, nos surpreendemos com a cena, dezenas de garotos nus, ou quase, nadavam na água suja inserida na pista.
A Praça JK é localizada frente a favela Acaba Mundo, que abriga cerca de 200 moradias.
Em a sua lateral corre uma rede de esgoto aberta, separada da praça por pequenas cercas que já pedem por reforma.
Entre as opções de lazer do local verifica-se um campo de areia para futebol, um espaço de academia, uma grande pista de cooper e um extenso jardim bem cuidado.
A água que ocupou o bowl, segundo mesmo os «nadadores», era uma mistura de água da chuva, areia do campo de futebol, terra do jardim bem cuidado e uma pitada da rede de esgoto que passa por ali.
Perguntamos ao jovem Zeumar, 10, que observava seus amigos nadando na água completamente suja, o que ele achava daquilo tudo.
«Ah, na região não tem nenhum lugar que a gente possa nadar, quando chove bastante corre todo mundo pra cá e fica se jogando."
Tentamos alertar os garotos sobre as possíveis doenças que se pode contrair nadando numa água daquele estado.
Obtivemos como resposta um belo mortal pra trás de um jovem negro loiro.
Minutos depois chegaram dois caminhões pipa da prefeitura para retirar a água da pista.
Segundo o motorista de um de eles, " Quando chove muito entope o ralo, ou mesmo os garotos aqui da favela dão um jeito para impedir a vazão da água para poderem nadar."
O jovem Zeumar confirma o que o motorista disse, e ainda ressalta:
«aqui na favela um ou dois tem condições para comprar um skate, então a gente tenta aproveitar isso aqui de outra forma."
Ha seis anos atrás a prefeitura havia mandado colocar areia em toda a pista, para evitar que situação semelhante acontecesse.
Em o ultimo mês foi realizado um campeonato no local, sob a campanha «Amo BH Radicalmente», e a pista foi reaberta.
Resta agora saber se prefeitura ama a cidade tão radicalmente a ponto de suar a camisa para achar uma saída para a situação, porque a sensação que os praticantes de skate da cidade carregam é a de que essa pista esta com seus dias contados.
Número de frases: 19
Bernardo Biagioni Novo site do Conteúdo e novo lançamento!!
Olá amigos, djs, produtores e consumidores,
O netllabel conteúdo lança a segunda versão do seu site.
www.conteudorecords.com.br. Melhor navegação, visualização e agora tem streaming.
Ou seja, você pode ouvir todas as faixas antes de baixar.
Também tem mais informação e mais conteúdo no link media para baixar, como videos e ringtones.
Esperamos que gostem!
Para abrir o novo site lançamos o EP do dj mimi (sp).
Confiram!
Conteúdo apresenta:
Artist:
Mimi Title:
Synthetic crowd EP
Cat: CTDO & F8
Release Date:
27 nov. 2006
Mimi é um dos djs de house e tech-house mais ativos do Brasil.
Construiu carreia sólida como dj em São Paulo onde apresenta seus sets maduros, animados, e inigualáveis.
A habilidade como produtor é mais um de seus talentos.
Dono de uma discografia já extensa no Brasil, Mimi apresenta ao conteúdo sua versatilidade, trazendo seu lado masi techno com a faixa tema do «EP synthetic».
Confira o EP do grande dj e amigo houseiro!
Disponível diretamente no site para download gratuito!
Número de frases: 22
www.conteudorecords.com.br/conteudo/catalog.htm
Você já ouviu falar de São Cristóvão?!" ( ...)
é a quarta cidade mais antiga do país e foi a primeira capital de Sergipe.
Cidade tombada por o patrimônio histórico nacional desde 1939 ( ...) " (
Wikipédia). Ruas antigas, cheirinho de cidade de interior, calmaria ...
ops, falei em «calmaria»?!
Só se for até surgir a The Baggios!
Banda minimalista em sua composição, guitarra e bateria, nada mais.
Porém, não se enganem:
é puro blues roquístico, ou rock blusado, só prá tentar ser tão original quanto eles.
Energia pura, vibração em alta ...
Eu os ví pela primeira vez num festival de covers, em Aracaju.
Nem sei se já era a formação atual, confesso que não lembro.
Tocando The White Stripes, como chamavam a atenção!
O vocalista fazia voz aguda, estiloso na sua magreza, chapéu negro.
Em a hora de votar, não vacilei:
é a banda do cara que parece com Jon Secada.
Oh, sorry, Julio Dodge!
Em a hora do resultado, não deu outra:
estavam eles lá, classificados!
Fiquei muito satisfeita de ter tido esse olho clínico, pois, todas as vezes em que votei, nas várias eliminatórias do festival, sempre acertei.
E não foi diferente com eles.
Bingo! Ou ...
Baggio!
De aí fui a shows em que eles já eram The Baggios.
Ah, são aqueles, pensei ...
como só dois podem fazer o som de muitos?!
E vieram mais apresentações, em bares e afins, com e sem a participação de outros músicos.
Um ilustre, gaita vinda das mesmas paragens (salve, Matheus!)
é quase o terceiro Baggio!
Som de primeira, parece dialogar com a guitarra nervosa de Julio.
E, o que dizer da bateria forte de Elvis?
Não faço aqui análise técnica, ou o que seja, porque não é essa minha praia.
Mas é inquestionável que eles mandam muito bem.
Ninguém fica parado.
Arrisco um palpite:
o CD é bom, mas nada como vê-los ao vivo e a cores, prá utilizar uma expressão bem clichê!
Julio tem cara de bom menino.
Simples, simpático, nem parece aquele que se atirou ao chão, ontem, num duelo com a guitarra, em sua última música da apresentação no Prata da Casa.
Quando no violão, intimista, emocional, beirando a melancolia.
Em a guitarra, a transformação.
Arranca viagens sonoras com dedos precisos.
O gestual é contido (permite-se jogar-se ao chão em algumas ocasiões.
Em outras, só cai de joelhos ...)
mas expressivo o suficiente para marcar a cumplicidade com Elvis.
Por falar neste, há uma troca de olhares em determinados momentos, uma emissão de códigos que só eles entendem, mas que fazem a platéia ir ao delírio, apreensiva por a próxima tirada ...
Sintonia pura, fina, perfeita.
E esse Elvis?!
Com nome de roqueiro, cheio de trejeitos faciais, faz o estilo badboy, no melhor sentido do termo!
Em o show de ontem, o magrão sem camisa, colar grosso à mostra, estava acompanhado de uma inseparável garrafa, que podia chocar aos mais desavisados, mas que em nada atrapalhou sua tão sempre intensa performance.
Era um retrato fiel do seu pensamento.
A o finalizar sua apresentação, como que querendo explodir (ou seria implodir?!)
num êxtase total, joga-se ao chão, por detrás de sua bateria, ficando imóvel por alguns segundos.
A platéia, gritando por ele, por a banda, num misto de êxtase e uma pontinha de preocupação, surpreende-se quando ele levanta e filosofa:
«o negócio é viver, beber, se divertir»!
Esses são os baggios ...
garotos que só querem fazer arte!
E, como essa frase lembra as mães, é claro, elas não foram esquecidas.
Tiveram direito a agradecimento especial (" só as mães são felizes», já disse Cazuza!).
A galera de São Cri também se fez presente, trazendo uma carga extra de energia.
Familiares, amigos, admiradores (nos quais me incluo!)
todos estavam na grande festa de sons.
O vídeo que antecedeu ao show, contando a história da vida do «padrinho involuntário» da banda (!)
é muito gostoso de se ver, até porque, nas entrelinhas, lá estão eles.
Sentí a falta do Elvis nas imagens -- será que nosso badboy é um tímido?!
Voltando ao clima do evento, eles pareciam estar em casa.
Afinal, são prata da casa.
Ou já seriam ouro?!
Em essa minha tietagem explícita, divido o prazer de encontrar vida pensante e produzente para além das capitais!
Aproveitem para conhecer um pouco de São Cristóvão, berço criativo dessa banda que promete.
E cumpre.
Longa vida ao The Baggios!!!
Salute!!!
Número de frases: 73
«Farol é fruto de uma decisão política afinada com a criação de instrumentos que possibilitem o encontro de diferentes grupos sociais e territoriais.
Projeta-se sobre a cidade polifônica, lugar da humanidade plena, do cruzamento de distintos espaços e tempos, da troca de narrativas que dão sentido à vida e das inúmeras formas de reinventá-la».
E por aí vai ...
à guisa de lead (ou parágrafo introdutório contendo as informações mais relevantes para o leitor)
Lançada por a Prefeitura Municipal de Fortaleza no início de outubro, a revista Farol tenciona, segundo entrevistas que pipocaram nos cadernos de cultura dos principais jornais da cidade, fazer incidir seu cone de luz sobre essa zona em penumbra que é a periferia de Fortaleza e demais grotões de miséria encravados nas chamadas «áreas nobres».
Não uma luz permeada de néon.
Absolutamente. A luz a que se propõe Farol é de natureza diversa da que se encontra geralmente refratada nas páginas dos veículos de comunicação de massa.
Assim reza o editorial da revista;
assim, ao longo de suas cinqüenta páginas, podemos conferir através de textos e imagens belíssimos.
De sua leitura, um alento.
Exceto quando se exagera nas pinceladas, deixando à vista de todos certo lirismo água-com-açúcar ao retratar personagens ou buscar o espírito, sabidamente fugidio, da «alma encantadora das ruas».
De publicação bimestral e inteiramente gratuita, os mais de 20 mil exemplares de Farol deverão alcançar, por força da mobilização das comunidades e do próprio interesse coletivo em dispor do veículo, os mais variados rincões de Fortaleza.
Aqui tem início o texto propriamente dito
Tem gente que faz isto:
pára e pensa no sentido das coisas, para que servem, como nasceram.
Diante da revista, matutei:
farol serve pra quê?
Acertou quem respondeu orientar, dar sentido de direção, etc..
A revista também cumpre esse papel, mas não apenas isso.
Afinal, onde podemos encontrar o tal farol?
Defronte ao mar, à faixa litorânea, mesmo que, com o passar das eras, tenha perdido importância, tornando-se anacrônico.
De aí, veio a conclusão:
Farol desvirtua o farol, construção cuja razão de ser é orientar a navegação no mar.
A resposta é, a bem dizer, ordinária:
ao invés de se voltar para a faixa litorânea -- a faixa que, bem-entendido, amiúde ocupa os espaços nos meios de comunicação --, Farol projeta seu cone de luz Fortaleza adentro, iluminando-a e, dessa forma, trazendo à baila a periferia da cidade.
Farol bizarro, mas necessário.
É o que dizem;
e eu confirmo.
Noite de lançamento no entorno do Farol do Mucuripe.
Farol Velho, diga-se.
Comunidade presente, participante.
Em o palco, mistura boa:
capoeira, rap e o cancioneiro popular encarnado na Caninha Verde, presente igualmente nas páginas da revista.
A gente chega, aproxima-se.
Ao fundo, uma massa líquida clareada por a noite de lua.
Sobre nossas cabeças, o farol.
Em as mãos de moleques brincantes, revistas.
Algumas amarrotadas feito qualquer papel.
O andar no meio de tantas pessoas favorece o surgimento de alguns pensamentos.
A cidade, a relação com a cidade, é a mesma que se tem com as gentes:
dia a dia, azeita-se, estreita-se.
Ou, pelo contrário, deteriora-se, até alcançar a ruptura.
Assim tem sido.
Nunca tinha ido ao farol novo -- muito menos ao velho, onde estávamos agora.
Surpreso, gostosamente surpreso.
É bonito, imponente até.
Nova iluminação, as sombras dos meninos e meninas projetada contra os muros do farol:
verdadeiros gigantes em roda.
Quem viu isso?
Eleuda de Carvalho. A o lado, escutei.
«A dobra no olhar», é o que Eleuda sempre busca.
E acha.
Revista em punho, após alguns minutos, vamos embora.
A vontade de ler é maior.
Um pouco invejosos, confesso.
Mas inveja boa, se é que há.
Horas depois, no conforto de casa.
Abro a revista novamente.
Em as páginas, o areial do campo do América.
Não apenas o campo, mas o que viceja no entorno, nas casinhas caiadas cujo sossego interior é freqüentemente invadido por ...
bolas. De essas de couro com parte dos interstícios emergindo entre as costuras.
Ainda nas páginas coloridas do campo, uma foto destaca-se -- ou eu a destaco entre as demais:
dois meninos assistem à partida entre o Azul e o Vermelho;
final de campeonato.
Os times arranjados ali mesmo na comunidade.
Em o centro do campinho, dão início à peleja com um toque na bola.
Ao fundo, farejando uma das traves, um vira-latas ergue a perna traseira direita e, sem-cerim ônia, espirra o seu jato de urina.
Outra igualmente viva.
A menina.
O sorriso da menina.
Como a nos premiar, ao folhearmos a última página, sorri encantada com algo que nos escapa.
Entretida, espraia os dentes muito brancos.
A boca é toda bagaço de milho-verde cozido.
«Farol quer contar histórias de vida atemporais, operar com um conceito de cultura ligado à vida e não apenas às manifestações artísticas consagradas, apostar na volta da grande reportagem feita de narrativas».
Entre os dois instantes flagrados por fotógrafos de Farol, muita coisa a rolar:
o Passeio Público por ele mesmo -- a repórter faz as vezes de médium e, incorporando o lugar, deixa às claras o que lá sucede.
O logradouro emerge, portanto, prenhe de meninas, alegres e tristes, e velhas senhoras a vender, não o corpo, mas alguma comida que lhe sustente as carnes.
O mesmo acontece com a Comunidade das Quadras e os personagens em ela implicados;
lá, meninas querem ser jornalistas e mudar o rumo da vida, alheia e própria.
Têm esperança, seguem na luta ao lado de tantos outros em situação semelhante.
A mesma coisa com o bairro do Mucuripe, seus pescadores, suas histórias, suas mulheres.
Agora, porém, o olhar volta-se, inquieto, para o que já foi e lamenta:
o ser humano degrada, sim;
mas também cria.
De essa forma seguem-se tantas outras narrativas, como a do " Homem de Branco.
«Quem faz a revista acredita, assim como o escritor Ítalo Calvino, que as palavras têm que lutar sem descanso contra a dureza e impermeabilidade da paisagem urbana e que cabe a elas retirar peso do mundo, construindo imagens de leveza».
O que fica de sua leitura:
Farol busca, grosso modo, «desafinar o coro dos contentes».
Ou, por outra, afinar o dos descontentes, levando e trazendo auto-estima, diversidade e devolvendo a cor multifacetada de nossa gente às páginas de Fortaleza.
Número de frases: 89
Que, ao primeiro número, se sucedam muitos outros.
Acaba de sair da gráfica o primeiro número do Ressonância:
informativo das ações da Fundação Carlos Gomes.
Responsável por a área de ensino da música no estado do Pará, a instituição possui uma longa história de reconhecimento nacional e internacional.
A publicação é uma iniciativa da nova gestão administrativa da Fundação, e teve uma tiragem inicial de 1.500 exemplares.
O informativo tem o objetivo de ser um veículo interno de comunicação, levando informação, cultura e entretenimento aos alunos e demais interessados.
A publicação terá uma periodicidade bimensal, disponibilizando sempre informações relevantes para os estudantes de música erudita.
Em este número foram abordados temas como o 1° Concurso de Canto da Amazônia, o Projeto de Interiorização Musical, A Amazônia Jazz band, entre outras pautas.
Número de frases: 8
Quem assina o design e os textos do Ressonância é a RKE Design e Comunicação.
Matéria publicada no jornal Extra Notícias, em Palmas-To.
Inauguração
Em o último dia 03 de outubro, foi inaugurada em Palmas a Escola de Tempo Integral Padre Josimo Morais Tavares (membro da CPT -- Comissão Pastoral da Terra, assassinado em maio de 1986), localizada na Quadra 301 Norte.
Uma realização do sonho de muitos palmenses, que agora têm a oportunidade de estudar numa escola com excelente infra-estrutura e educação de qualidade.
O dia da inauguração foi marcado por muita comemoração.
De o lado de fora da escola, muitas crianças, adultos e idosos aguardavam a presença do Prefeito Raul Filho, do Ministro Fernando Haddad, do Governador Marcelo Miranda, presidentes de associações, presidentes de sindicatos, secretários municipais, deputados estaduais de entre outros.
De o lado de dentro, professores e alunos se preparavam ansiosamente para a apresentações culturais que fariam depois do corte da faixa que simbolizava a inauguração.
Seleção dos alunos
Ana Lúcia Tavares, secretária geral da escola, possuía em seus olhos um brilho de felicidade.
Perguntada sobre como foi feita a seleção dos alunos, afirmou:
«A seleção foi feita em julho.
Cadastramos todas as crianças possíveis.
Ficamos na Escola Municipal Beatriz Rodrigues, colocamos faixas falando da escola de tempo integral, aí as famílias interessadas inscreveram todas as crianças que tinham em casa na idade de ir para escola.
Foram inscritas 2050 crianças.
A princípio seriam 2 crianças por família, mas a procura foi tão grande que selecionamos somente uma de cada.
Caso por caso foi analisado.
Fomos de casa em casa, visitamos todos os inscritos de segunda à segunda.
Depois da seleção, 1150 crianças foram orientadas a fazer a matrícula.
E graças a Deus, todas já estão matriculadas."
A escola
Em seus 8 mil metros quadrados de área construída, a escola de tempo integral Pe.
Josimo Morais Tavares encanta quem passa por lá.
As 20 salas de aula, ao invés de serem numeradas, possuem nomes de plantas típicas do cerrado.
Em as paredes, quadros com a letra do Hino Nacional Brasileiro e bandeiras do Brasil, Estado e município.
Todas são equipadas com um quadro branco e um quadro negro que serve como mural de recados, uma pena não possuírem ventiladores nem ares-condicionados, o que deixa as salas muito quentes.
No entanto, uma professora da escola disse que em breve as salas já estarão climatizadas.
Possui 05 laboratórios (físico-químico, ciências, multiuso, informática, línguas), banheiros organizados, uma sala de descanso, um refeitório com cadeiras coloridas e quadros com motivos tocantinenses.
O complexo esportivo conta com 02 quadras cobertas, 01 campo de futebol, 01 pista de atletismo, enfermaria, salas de dança, música e lutas marciais, duas piscinas, sendo uma infantil e uma semi-olímpica.
Possui também um auditório climatizado e uma biblioteca, que para o porte da escola é muito pequena.
Entretanto, possui sala de vídeo, computadores, quatro estantes com livros e o que mais chama atenção por a criatividade:
o guarda-volumes, situado na entrada da biblioteca, que ao invés de números, tem nomes de escritores famosos como Machado de Assis, Gabriel García Márquez, Leo Tostói, Dostoievski.
Assim o aluno não tem que gravar o número de sua chave e sim o nome de um escritor.
Um bom incentivo para a leitura.
Tempo Integral
Os 1.150 alunos, divididos em dois grupos, passarão nove horas na escola e receberão três refeições diárias, cerca de uma tonelada de alimentos por dia.
Pela manhã assistirão aula e por a tarde farão outras atividades esportivas e culturais.
Haverá também atendimento a outros alunos da região norte da cidade, que participarão das atividades complementares como estudo de línguas, informática, leitura, literatura e esportes.
A comunidade em geral poderá, nos fins de semana, utilizar os espaços de lazer e convivência social.
Isabella Gabriel Silva, oito anos, estava presente no dia da inauguração.
Ela é uma dos 1.150 alunos que foram selecionados para estudar na escola.
«Achei aqui muito bonito», comentou.
Feliz, não conteve a emoção de ter sido selecionada.
«Minha aula começa na segunda e eu venho de qualquer jeito», completou.
Até o dia 29 de outubro todas as séries (do 1º ao 9° ano) já terão começado suas aulas.
Expectativas
«A nossa expectativa é que tudo dê certo, que seja mesmo um ensino diferenciado e de qualidade», confirmou Ana Lúcia Tavares.
Raul Filho, conclui " A escola dará aos alunos seguramente o que uma escola convencional não oferece."
A comunidade agradece e espera que a outra escola de tempo integral localizada na região sul da capital, fique pronta logo.
Número de frases: 49
Sabe aquelas pessoas com uma história instigante, que você descobre sem querer?
Tudo começou em mais um fim de noitada.
Grogue de sono, resolvi me dar ao luxo pequeno-burgu ês de rachar um táxi com um amigo na volta para casa -- estava sem forças para esperar o primeiro ônibus ao amanhecer.
A maioria dos taxistas não queria nos levar porque propusemos um preço pré-acordado em vez do taxímetro convencional.
Eis que aparece um cara por volta dos 30 anos, de papo bem-humorado, que topou fazer a corrida numa boa.
Dentro do carro, certas idiossincrasias começam a saltar aos olhos.
Ele aumentou o som (potente) do veículo.
Começo a acordar.
Pergunta se não tem problema, se a gente curtia.
Dissemos que podia continuar.
Olhe para trás!
Olhe para trás!--
pedia, com uma cara de felicidade daqueles que se sentem prestes a pregar uma peça.
Foi só virar a cara para o vidro traseiro e ...
Flash. Fiquei cego.
Havia duas fontes de luz estroboscópica coladas na altura do vidro.
A luz começa a piscar no ritmo do som, que estava altíssimo;
não teve jeito, o sono se dissipou.
E ' ele ' ganha nome, apresenta-se e começa a falar dos planos de tocar numa boate carioca.
Anderson Rodrigues, 30 anos, é DJ desde os 16 anos e há dez trabalha como motorista de táxi.
Tudo conciliável.
Liguei depois desta noitada para Anderson, a idéia era combinarmos um bate-papo;
feliz, ele aceitou na hora.
Fomos para um posto de gasolina na Lagoa a pedido do DJ.
Aqui é o meu ' point '.
Onde lavo meu carro, tomo uma cerveja ...--
diz, ao comprovar a intimidade com as pessoas do pedaço cumprimentando os vendedores de salgadinhos chamando-os por um carinhoso ' morcegos da noite '.
As pistas e o táxi parecem ter uma relação simbiótica na vida de ele.
Até o horário de ação das duas atividades é o mesmo:
a noite, a madrugada, o clima anti-dia.
Se o carro foi uma saída financeira para seguir em frente, a discotecagem também colaborou na época de vacas magras nas ruas do Rio.
Em uma época de crise, com poucos clientes para o táxi, pensei em transformar o carro de forma bacana.
Percebi que se fizesse no carro coisas que copiavam o clima de boate, o pessoal gostava.
Os passageiros gostam de músicas legais -- conclui.
E a proposta foi criar um carro que não deixe o pique da balada cair.
A destreza com que Anderson fala de correntes elétricas e voltagens revela as noções básicas de eletrônica obtidas num curso.
Sabendo como mexer com fios e munido de idéias na cabeça, ele mesmo é o autor das intervenções feitas em seus veículos para transformá-los em boates móveis.
Em o carro atual, prestes a fazer um ano, ainda falta uma turbinada na iluminação e colocar fumaça.
Isso mesmo, fumaça.
Projeto que ele mesmo bolou e executou no carro anterior.
Um veículo com luzes estroboscópicas, tocando house e soltando fumaça com aroma de morango não se vê em qualquer lugar, admita.
Eu que inventei a fumaça para botar no carro.
Bom, pelo menos não conheço ninguém aqui no Rio que faça isso.
E foi um sucesso total.
Os gringos adoravam -- lembra, orgulhoso.
Dá para dirigir com o carro todo esfumaçado?
Não é muito funcional, mas dá.
Você joga só um pouco de fumaça e deixa a galera curtir -- conta, mostrando-se cauteloso ao voltante ao destacar que nunca deixava a fumaça ligada direto.
O carro atual é um Fiat Brava da cor vinho.
Desta vez, ao contrário dos outros veículos que teve, Anderson abriu mão do amarelo tradicional dos táxis cariocas e preferiu trabalhar como ' car service ', prestando serviços avulsos.
Além do som calibrado e das luzes piscantes dos carros anteriores, o destaque do modelo atual são duas fontes de luzes coloridas piscantes, que simulam aqueles globos pretos que soltam diversos feixes de cores.
A iluminação nababesca -- que Anderson ainda pretende turbinar -- só tem freios estéticos.
Se colocar coisas demais vira árvore de Natal!
O DJ garante que não gastou mais de R$ 1 mil para equipar o carro.
A receita é adotar soluções caseiras.
As luzes coloridas são tiradas de lâmpadas de brinquedos japoneses.
Você acha em camelô mesmo.
Eu comprei numa dessas ' lojinhas de japonês ' que vendem essas coisinhas loucas que piscam para lá e para cá -- diz para exemplificar que investimentos baixos podem causar boa impressão nos clientes.
Em as pistas
A carreira do DJ deu os primeiros passos na Zona Norte do Rio, no começo dos anos 90, quando Anderson tocava em discotecas improvisadas.
Apresentação oficial em boate mesmo, foi em Duque de Caxias.
E quase que sem querer, apesar da paixão por a música ser coisa antiga.
Tem uma boate em Caxias que se chamava Turnê Discoteca, que hoje ainda existe com o nome de Pirâmide.
Lá tinha um clima a mais, eram cinco ambientes.
Comecei a freqüentar a matinê para paquerar as meninas.
Até que teve um concurso de DJ.
Eis então um dos episódios da própria vida que Anderson conta com indisfarçável orgulho.
Na matinê do concurso o Memê (Marcelo Mansur) foi tocar.
E ele elogiou o meu set, me indicou para seguir em frente na disputa -- destaca, quando só pára a euforia para reclamar do final da história -- Mas eu não ganhei, fiquei em segundo lugar -- conta, intercalando um tom de voz entre o'puto da vida ` e a risada do tipo ' deixa pra lá, agora já passou '.
Em Caxias o sonho de trabalhar como DJ deixa de ser uma realidade distante.
Logo depois começa uma peregrinação por casas noturnas e festas cariocas.
Anderson conta que já tocou em lugares como Melo Tênis Clube, Trigonometria -- em Ramos -- e na Meli Melo.
Em o momento, o projeto que consome a maior parte das energias é uma festa para a boate Breeze, em Ipanema, onde o DJ afirma que será apresentação fixa da casa às quartas-feiras.
A previsão é de que a festa estréie dia 2 de agosto.
Além de tocar em casas noturnas, o homem de mil e uma habilidades também está preparado para fazer festanças particulares.
Para as empreitadas de produtor e dj de festas, ele conta com um sócio, Guilherme Von.
Onde eles se conheceram?
É claro, Anderson conheceu o parceiro nas pistas num ponto de táxi.
-- Ele tem um Santana equipado, como meu carro anterior.
Para as festas feitas a pedido de clientes, ele se orgulha da aparelhagem.
-- Temos amplificadores, luz, tudo de primeira!
Temos equipamento de som que dá conta de uma festa para 3 mil pessoas em lugar aberto e 5 mil para locais fechados -- comemora, para em seguida contar que já tocou em festas de lançamentos de programas de televisão como a novela Kubanacan e a série A Casa das Sete Mulheres;
ele só tem receio de divulgar as festas particulares de atores globais que já discotecou e expor momentos privados.
Fã?
Anderson revela admirar duas figuras das pistas, os DJs Leo Janeiro e Memê -- o que explica bem a empolgação de ele ao contar da noite em que tocou na mesma boate que o ídolo.
Em a hora de fazer o próprio trabalho, revela que não gosta de usar o PC na música.
-- Quando não dá para usar vinil, eu mesmo mixo o CD e levo para o lugar.
Não tem graça com o PC fazendo tudo ...
Em as ruas
Dez anos trabalhando como taxista -- atualmente, para ser mais exato, como ' car service ' -- renderam histórias memoráveis.
Anderson conta que curte dirigir por as ruas, mas, se pudesse optar, o caminho seria outro.
O carro é mais para segurar as contas no final do mês.
-- Vou sentir saudades (se um dia parar de dirigir), mas meu negócio é night, pista, globo espelhado -- ri.
Sob o volante, a fama com a música também surge quando menos se espera.
Quando um turista grego chamou o então táxi do DJ, veio uma das melhores histórias.
-- Teve uma festa na Rio Branco com vários DJs, e o cara chamou um táxi.
Ele ouviu o som do meu carro, disse que era parecido com o que tinha na rua.
Mostrei fotos de umas festas que fiz, aí ele me pediu uma foto autografada, quem nem artista.
O Gringo queria falar que fez amizade com um DJ do Rio -- lembra.
Passageiro que quis se matar por ter sido abandonado por a mulher, casal que decide se estapear e baixar barraco sem se importar com o motorista à frente.
O portifólio de casos é vasto.
-- Parei o carro e pedi para continuarem a porrada lá fora -- recorda.
Evitar flagelações corporais não é o único motivo capaz de levar à expulsão de passageiros.
-- Teve um casal que me pediu para dar uma volta, porque queria conhecer o Rio.
Mas eles estavam quase transando no banco de trás!
Prejuízos também marcam presença.
Um dos que Anderson mais lamenta foi o rádio / som que acabara de comprar -- caríssimo -- para um antigo táxi.
-- A menina chamou o Raul dentro do carro.
Parecia o filme do Exorcista, foi um jato de vômito que acertou exatamente o meu som.
Sem contar que o carro ficou imundo, não pude trabalhar o resto da noite.
Se as histórias a serem conhecidas ficam restritas aos papos no carro, o som do DJ está em todas.
Pode conhecê-lo dando uma voltinha por a cidade ou encarando a pista de dança.
Ecletismo é a palavra principal para um cara que se vira jogando nas onze.
Número de frases: 113
Como todos que acompanham minha coluna semanal, o texto da última semana de cada mês vem sendo dedicado a contar histórias marcantes da teledramaturgia.
Tudo surgiu após uma sugestão de Thiago Camelo, que pediu para que fossem contadas histórias sobre a novela Anastácia, a mulher sem destino.
Decidi então passar a contar histórias de novelas marcantes no cenário televisivo brasileiro, atendendo a sugestões (como a de ilhandarilha, que sugeriu falar de Os ossos do barão) ou escolhendo através de pesquisas.
Caso algum de vocês queira ler sobre uma novela específica, é só escrever nos comentários, que atendo na medida do possível.
E, desde já, quero agradecer aos muitos comentários e aos elogios que venho recebendo em meus textos.
Em virtude da comoção causada por os vilões de Paraíso tropical, atual novela das 21h da TV Globo, hoje destinamos este espaço a recordar um momento anterior no qual um dos autores da trama principal da emissora do Jardim Botânico teve de lidar com os interesses do público e com outros valores designados por o «código de ética» dos espectadores.
E a teledramaturgia contou ...
O dono do mundo.
* * * Dono de um talento peculiar para criar vilões memoráveis da teledramaturgia brasileira (são de sua autoria a Yolanda Pratini da hoje distante Dancin ' days e a Laura da mais recente Celebridade), Gilberto Braga arriscou colocar em sua novela que estrearia em 20 de maio de 1991 no horário das 20h um protagonista malvado.
Em um molde que resiste até os dias de hoje, convenciona-se colocar a maldade como antagonista, pois os bons devem sempre protagonizar a história.
Não foi o caso de Felipe Barreto (vivido por Antônio Fagundes), cuja arrogância fazia com que ele se achasse o título da novela de Gilberto:
O dono do mundo.
As características de sua prepotência apareciam logo nos primeiros capítulos:
ao descobrir que Márcia (papel de Malu Mader), noiva de Walter (funcionário de sua clínica de cirurgia plástica, e interpretado por Tadeu Aguiar), ainda era virgem, Felipe fazia na igreja uma aposta com o amigo Júlio (a cargo de Daniel Dantas) de que a possuiria antes do noivo.
Para isto, ele oferecia ao casal passagens para uma lua-de-mel no exterior, no mesmo país onde ia viajar com a esposa Stella (interpretada por Glória Pires).
Mas o fato de ele conseguir vencer a aposta trazia conseqüências para os recém-casado:
Walter se matava, e Márcia se apaixonava por Felipe (mas era destratada por o vilão).
O autor não sabia que em plena década de 1990 a questão da virgindade (em especial antes do casamento) ainda era considerado um tabu para a sociedade brasileira.
Em vez do público se solidarizar com a mocinha Márcia, ela foi vista como uma mulher «fácil» por se entregar a outro durante a lua-de-mel.
Outra questão que comprometeu a idéia inicial de Gilberto Braga foi em relação a Felipe Barreto:
sua criação foi inspirada no arquétipo dos vilões das décadas de 1940 e 1950 (que se caracterizavam por não terem escrúpulos mas serem charmosos).
Só que, mesmo com todas as artimanhas do personagem, a imagem do ator Antônio Fagundes não despertava o ódio do público a Felipe.
Vendo sua audiência despencar da média de 40 pontos do horário para minguados 18 pontos (com direito a consagrar a novela infantil Carrossel, folhetim mexicano que era exibido no mesmo horário no SBT) em poucas semanas, a solução foi reformular a história.
«Márcia tem de ser amarrada num tronco e apanhar por o erro que cometeu», comenta-se que foi o conselho do dramaturgo Sílvio de Abreu, convocado para ajudar nas alterações de O dono do mundo.
A primeira mudança foi dar um jeito de fazer Márcia sofrer na cadeia -- depois de tentar agredir Felipe com um bisturi, ela era presa.
Depois viriam outras alterações, e, aos poucos, a personagem conseguiu ter credibilidade diante do público.
E, não podendo competir com a fama de «bom moço» que Antônio Fagundes manteve no decorrer de sua carreira, Felipe Barreto deixou de lado as vilanias para se tornar um malvado arrependido.
Outro personagem que mudou de perfil diante da reação do público foi Guilherme, o Beija-Flor (vivido por Ângelo Antônio).
Em o início da trama, ele era um «surfista de trem» (termo usado para pessoas que, para não pagarem passagem, se equilibravam na parte de cima do veículo) próximo da marginalidade.
Mas, após uma cena em que recusava uma comissão para fechar um negócio, o personagem recebeu o aplauso do público e passou a ser associado à honestidade.
Seu romance com a prostituta Thaís (estréia de Letícia Sabatella) se tornou uma das tramas que mais agradaram os espectadores -- o que não deixa de ser uma contradição, afinal, o mesmo público que «puniu» Márcia apoiava uma personagem ligada à prostituição.
Adequando a cada capítulo sua novela às respostas dos espectadores, o autor conseguiu recuperar os pontos perdidos de O dono do mundo, evitando um perigo que vinha desde o ano anterior, quando Pantanal (novela de Benedito Ruy Barbosa exibida por a TV Manchete) ameaçou a então consolidada audiência da TV Globo no chamado «horário nobre» (causando estragos na novela Rainha da sucata, escrita por Sílvio de Abreu).
Entretanto, na última semana da história (que teve seu ponto final em 4 de janeiro de 1992), Gilberto Braga reservava uma surpresa ao público.
Felipe Barreto mostrava sua verdadeira face, e revelava ser o mesmo canalha dos primeiros momentos de O dono do mundo.
A figura de «dono do mundo» foi alegoricamente mostrada na abertura da novela, que usava as imagens de Charles Chaplin no filme O grande ditador, mas dentro do globo terrestre com o qual brincava o ditador interpretado por Carlitos foram acrescentadas imagens de mulheres sensuais -- uma das mais bem feitas criações de Hans Donner para aberturas de novelas.
Mas a vingança de Gilberto Braga foi além:
nem mesmo as maldades e as humilhações com as pessoas e o fingimento de caráter durante tantos capítulos recebeu a punição dos autores.
Felipe terminava a trama num altar, se casando com uma mocinha filha de um rico fazendeiro, tendo como padrinho de casamento o amigo Júlio, para quem direcionava triunfalmente uma afirmação:
«é virgem!».
E, num close, o personagem piscava o olho e dava um sorriso cínico para milhões de espectadores.
15 anos após seu final, a discussão de O dono do mundo prossegue no universo da teledramaturgia brasileira.
O questionamento de quem é o «dono do mundo» contado durante meses, de segunda a sábado, na telinha.
Fontes consultadas:
Livros
O autor na televisão -- Lisandro Nogueira
A Hollywood brasileira -- Mauro Alencar
Memória da telenovela brasileira -- Ismael Fernandes
Número de frases: 47
Site Teledramaturgia -- www.teledramaturgia.com.br Depois de levar cinco prêmios das sete indicações que teve no Feste (Festival Nacional de Teatro de Pindamonhangaba) em 2005, com a peça Vem Vento, o diretor e encenador Márcio Pimentel se prepara para estrear, este mês, seu mais novo e ambicioso projeto:
Simulacro." Esse trabalho é o meu ápice», afirma.
O espetáculo, que vem sendo pesquisado há quatro anos, mistura o teatro contemporâneo de Bob Wilson e o estudo da mandala, além de técnicas de xamanismo, yoga, tai-chi-chuan, kung fu, meditação e Gestalt (teoria da percepção visual baseada na psicologia da forma, segundo a enciclopédia virtual Wikipédia).
«É um trabalho que se baseia em imagem, repetição, off e plasticidade, com muito pouco verbal.
O simbolismo é o mais importante.
O inconsciente aparece muito.
Os atores sonham e vamos materializando esses sonhos no trabalho», diz.
Pimentel vem realizando em Bauru um «work in progress» do espetáculo nas oficinas de teatro que ministra com os performers (o diretor não usa o termo atores) do grupo Sylvia que Te Ama Tanto, que criou no fim dos anos 80.
Densidade e desconforto -- Simulacro é um trabalho denso, nos moldes de Morada, espetáculo que teve destaque no Fringe (mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba), em 2002.
Morada foi encenada em casas desocupadas, por as cidades por onde passou.
Tinha duas horas de duração e começava com o público pegando um ônibus coletivo junto com alguns performers até o local da encenação.
Já na casa, o público se deslocava por os cômodos para acompanhar as cenas, muitas vezes, desconfortantes por a frieza com que mexia com o inconsciente.
«Em a terceira cena, que tratava da libido, da condição feminina dentro de um relacionamento em rompimento, muitas mulheres da platéia desmaiavam», lembra.
«Fui tentar saber o porquê e elas diziam que se viam naquela cena."
Simulacro faz sua estréia dia 18 deste mês, com apoio do SESC Catanduva, no Armazén Café, espaço cultural à beira da linha férrea da cidade, onde antigamente fazendeiros da região estocavam produções do grão.
O espetáculo terá 4h30 de duração, com dez minutos de intervalo (também parte da encenação).
Pimentel pretende com isso ir mais fundo nos conflitos humanos e discutir relação do homem com o sistema.
«Trata de simulação e poder.
E com certeza é mais denso (que o Morada)."
Falando assim assusta.
Parece -- e é -- difícil acompanhar por tantas horas um espetáculo de um diretor que cutuca o ser humano o tempo todo.
Mas também é difícil sair de seus trabalhos do mesmo jeito que se entrou.
Serviço:
Simulacro, com o grupo Sylvia que Te Ama Tanto
Armazém do Café
18 a 23 (terça a domingo), 20h30
R$ 10,00; R$ 5,00 (usuário matriculado no Sesc).
R$ 2,50 (trabalhador no comércio e em serviços matriculados e dependentes).
Número de frases: 28
Mais sobre o diretor e o grupo Sylvia que Te Ama Tanto.
Por Def Yuri
Ítalo Lopes dos Passos, 29 anos, integrante do grupo Setor B.F, tornou-se no último dia 15 de setembro parte das estatísticas de mortes violentas na Baixada Fluminense, região metropolitana do município do Rio de Janeiro, um dos maiores aglomerados urbanos da América Latina, constituído por 13 municípios que são um resumo das contradições vivenciadas em todo o Brasil.
Antes de falar sobre a morte do Ítalo, é necessário situar você, leitor, sobre essa região que vive à margem de muitos direitos e à sombra dos «grupos de matar», coloco dessa forma, pois com um olhar mais atento é possível constatar que os famigerados» esquadrões da morte ou grupos de extermínio " não estão restritos somente a policiais corruptos, como comumente é divulgado.
Foi-se o tempo de uma milícia escorada no aparato de segurança pública, na verdade o leque é muito mais abrangente e promíscuo, e seus interesses não são o de somente combater o crime e / ou seus praticantes com objetivo de fazer uma limpeza social.
Mas, na verdade, os interesses em jogo são muitos:
articulações políticas (partidárias ou não) e questões financeiras.
Além de pontos principais estes exemplos são bases de sustentação desses grupos, independente do «ramo de atuação».
Para piorar o quadro, muitos desses grupos conseguem através do voto popular levar seus representantes aos círculos de poder constituído, fazendo assim com que seus tentáculos consigam se expandir de maneira cada vez mais forte, diferente de um passado puramente opressor, mas, agora de «forma democrática».
Provando assim que esses esquadrões carregam uma forte aceitação sócio-cultural, ou seja, se estão protegendo tudo bem, agora se vitimam um ente querido ou conhecido ...
O circo dos horrores se apresenta diariamente e várias pessoas tombam vitimadas por esses grupos e suas armas de fogo.
Porém o número no varejo não é levado tão em consideração como no atacado, vide a trágica chacina que ceifou as vidas de 29 pessoas nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados em março de 2005, e que por um tempo chocou todo o Brasil, simbolizando a impunidade e o quão atroz são as atitudes de indivíduos inaptos a viver em sociedade.
Será que você que lê esse artigo se lembra desse absurdo?
Lembra dos seus desdobramentos?
Essa foi a maior numericamente falando, porém outras ocorreram e ocorrem, porém a repercussão não é a mesma, seja entre o grande público, seja entre as parcelas mais atuantes da sociedade onde estão inseridos os «movimentos sociais» (como o Hip Hop) que em sua maioria agem de forma reativa, isso quando agem.
E assim, diversas pessoas, sejam militantes ou não, vão tombando como foi o caso do Ítalo, ou simplesmente Ita, como era chamado por os conhecidos e principalmente familiares.
Ele recebeu oito tiros à queima-roupa dos dez que foram disparados dentro de uma festa que era realizada na cidade de Mesquita, e mesmo diante do grande número de pessoas no local, os matadores certamente movidos por a sensação e / ou certeza de impunidade, agiram de forma fria, de cara limpa e sem maiores preocupações.
Em a ação um outro jovem também foi atingido e sobreviveu ao ataque, no momento este se encontra sob proteção policial.
Diferente de outros casos, em que prevalece o silêncio forçado e / ou o desconhecimento dos autores.
Em este caso, além do grande número de pessoas que testemunharam o ocorrido e em seguida chamaram a polícia, os matadores foram presos por dois policiais militares que tinham saído do serviço e suspeitaram de um carro branco com a placa dobrada, segundo informaram os mesmos alertaram o batalhão para iniciar um cerco no município e resolveram eles próprios iniciarem uma perseguição, que resultou na prisão dos supostos matadores.
E estes últimos eram também eram policiais militares, ou melhor, esses eram dois bandidos fardados, no momento da fuga.
Em o momento eles se encontram presos no batalhão prisional à disposição da justiça e em vias de serem expulsos.
As motivações para esse ato ainda não são conhecidas e / ou esclarecidas, o único fato concreto é o carinho e respeito que a população tinha por a vítima e o reconhecimento por os trabalhos sociais por ele desenvolvidos como o projeto Estilhaços, evento Coréia na Cultura, e também por as participações numa rádio livre, além de diversas ações por justiça, fato que o levou a participar de um curso de vídeo que o motivou a fazer um documentário sobre as vitimas da violência na região.
Grupo do qual agora ele faz parte.
Um fato que chama atenção é como diferentes correntes da cultura Hip Hop e seus aficionados se portam diante de atos como esse e tantos outros que ocorrem por o nosso Brasil.
É possível ver com nitidez que a indignação contida nas letras e discursos fica diluída sob o «ruído do silêncio» e da não participação, posturas que acabam por expor o quanto somos frágeis na verdade, e que em alguns casos conseguimos beirar a omissão e por que não dizer conivência.
Até quando teremos que vivenciar ou ser fiéis portadores dessas contradições?
Afinal, não somos nós do Hip Hop que temos o monopólio da palavra e consciência?
Não somos nós que falamos a verdade?
Então se faz necessário que estejamos atuantes na prática.
Não quero incitar ações transloucadas por direitos, porém se esmiuçarmos nossas posturas chega-se à conclusão que o mínimo, seria algum tipo de organização com intuito de se evitar mais derramamento de sangue, cobrar justiça ou um maior empenho das autoridades competentes, seja em casos como esse ou qualquer outro, sejam as vítimas desconhecidas, conhecidas ou mesmo integrantes de algum coletivo, e propor mudanças no que diz respeito às políticas que beneficiam positivamente ou negativamente nossos iguais.
Vamos procurar nos informar sobre os mecanismos e instituições que temos para nos defender e / ou nos ajudar na árdua tarefa de nos organizarmos.
Conseguindo assim compartilhar fundamentos e informações, afinal ninguém sabe o dia de amanhã e principalmente se seremos nós as próximas vítimas.
Número de frases: 33
Por:
Priscila Silva «São Cosme mandou fazer duas camisinhas azul, no dia da festa de ele, São Cosme quer caruru».
Esta é uma das canções mais famosas para homenagear os santos gêmeos, Cosme e Damião.
Em o Brasil, o dia 27 de setembro é dedicado a esses santos.
Em a igreja de São Cosme e São Damião, no bairro da Liberdade, em Salvador, celebram-se missas durante todo o dia 27.
Mas como o candomblé também é muito praticado na Bahia, torna então o elemento principal da festa o caruru.
Os santos no Candomblé e na Umbanda são conhecidos como os orixás Ibejis.
Em o candomblé Cosme e Damião são filhos gêmeos de Xangô e Iansã.
Os santos gêmeos possuem muitos simpatizantes e devotos, estes que todo ano fazem caruru para eles, chamado também de «Caruru dos Santos e Caruru dos sete meninos» que representam os sete irmãos (Cosme, Damião, Dou, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi) cita em seu livro «Cosme e Damião, O culto dos santos gêmeos no Brasil e na África» o antropólogo Vivaldo da Costa Lima.
O caruru está presente no calendário de festas populares baianas, neste mês as pessoas enfeitam as suas casas.
Os devotos preparam comidas como:
caruru, vatapá, feijão fradinho, xinxim de galinha e outras comidas de origem africana.
Depois de tudo preparado, o devoto passa por um ritual onde incensa com defumador o interior de sua casa e todos que moram em ela.
«É de grande importância em nossos rituais, pois tem como função retirar todas as cargas negativas do ambiente e desprender cargas positivas.
Em o defumador o carvão tem a função de puxar as cargas negativas do ambiente e as essências ou ervas de emanarem as cargas positivas.
Todos os rituais umbandistas devem começar por a defumação.
As essências e ervas mais usadas no defumador são incenso, alecrim e alfazema», cita em seu texto «Pontos de Defumação» a astróloga, terapeuta vibracional e taróloga Marilda Bourbon.
São Cosme e Damião são padroeiros e protetores dos gêmeos e das crianças.
Nascidos no século III na Arábia, estudaram medicina e não recebiam pagamento em troca de seus serviços médicos por que tinham o objetivo de converter os pagãos para a fé cristã.
Foram perseguidos e mortos (degolados) por o Imperador Diocleciano, cita em seu artigo «São Cosme e Damião» a terapeuta holística Rute Moabita
Mês de setembro na Bahia, as feiras e os mercados são bastante concorridos, os feirantes ficam satisfeitos com o alto índice de fregueses.
«É uma das datas que mais vendo aqui, não troco esse ponto por nada.
Quiabo e camarão é o que mais vendo», comemora o feirante que trabalha na feira do bairro de Mussurunga, Antônio Luís.
Alegria, é caruru na Bahia
A comerciante Delci Santana, 45 anos, residente do bairro Mussurunga, é devota dos gêmeos.
«Já tenho 22 anos de caruru, faço com muito prazer, virou uma data importante aqui em Mussurunga.
O povo daqui adora», relata.
O caruru de Delci é bastante freqüentado no bairro, começa a preparação na véspera, no dia 26.
Todos em sua casa trabalham muito, cortando muitos quiabos e preparando outras comidas.
«Tenho prazer em ajudar minha mãe, todos os anos estou aqui ao lado de ela firme e forte», brinca a estudante Joilza Santana, 24.
Já no dia do caruru, são escolhidos sete meninos de rua para comerem o caruru, é sempre motivo de euforia para as crianças.
Aquelas que não são escolhidas recebem bombons e doces.
Em o início, a pessoa responsável por o caruru, arruma um lugar no chão e estende uma toalha grande para colocar os sete meninos para comerem e junto ao prato colocam-se muitas balas e pirulitos.
Os sete meninos aguardam ansiosos a ordem do devoto para comer.
«Todo ano eu troco os sete meninos, esse ano foi difícil escolher, porque os meninos todos daqui queriam participar», relata Delci.
As crianças por tradição no caruru comem com as mãos, lambuzam-se com tantas comidas saborosas e nem notam estarem sujas de dendê.
Delci além de fazer o caruru, também ajuda as crianças e adultos que passam necessidades.
«O pouco que tenho divido com os que têm menos ainda.
Eu tenho dó das pessoas que vêm todo ano aqui em minha casa pedir comida, seria bom se todas as pessoas que fazem o caruru ajudassem as pessoas que passam fome», disse.
«Eu gosto de Cosminho e Damião, são dois santos que além de proteger traz muita alegria.
Hoje é dia de festa!»,
exclama o ajudante de pedreiro Silvoney Santos.
Número de frases: 42
Em o caruru existe também a tradição de que se alguém encontrar no prato um quiabo inteiro, terá que fazer no próximo ano um caruru para São Cosme e Damião.
Madrugada. Em o terreiro do quintal banhado em luz amarela, uma mulher atarracada vai, um a um, abatendo os frangos reunidos num cercado feito de arame trançado.
Morte seriada, indolor.
Dispersos, os animais aguardam a sua vez:
a lâmina desliza pelo pescoço fino, e eis o sangue a correr viscoso e quente através das penas.
Há outras alternativas, de entre as quais uma é, de longe, a mais espalhafatosa:
torcer-lho pescoço com as mãos e, em seguida, assistir impassível às piruetas e volteios do animal.
Dona Socorro dispensa o espetáculo, preterindo-o em favor de uma morte sorrateira, evanescente:
morrer por falta de sangue.
De aí, seguir, faca em punho, em direção ao cercado.
Depois de mortos, o destino é o panelão de água fervente.
O passo seguinte é os despir de suas penas.
As vísceras são retiradas através de um corte profundo na base do frango.
à espera, gatos multicores.
Roçando-se em suas pernas ou empoleirados nos muros, acompanham, ao longo da noite, o desenrolar do abate.
Em algum momento da conversa, dona Socorro confessa:
era uma amadora quando começou.
«Nunca tinha matado um frango na minha vida», uma ponta de culpa nas palavras.
Depois, não que fosse tomando gosto, mas, rosto carregado enquanto relata, não demorou a aprender o ofício.
E foram, mais ou menos, dez anos abatendo animais e distribuindo-os, tão logo o dia raiasse, entre sua clientela, que incluía hospitais e escolas próximas.
O nome completo é Maria do Socorro Carneiro de Moraes.
Tem 63 anos e há 43 mora na Parquelândia, bairro de Fortaleza cuja história se confunde muitas vezes com a de ela.
Em esse tempo, como ela mesma diz, fez de tudo um pouco.
Atualmente, mantém uma banca de revistas e livros novos e usados, a Antiquário, bem ao lado da Igreja Redonda, uma das mais tradicionais da cidade.
Dona Socorro, como é conhecida de todos, não se surpreende quando, numa quarta-feira de dezembro de 2005, entre livros folheados ao acaso e perguntas desconcertadas, revelo a finalidade da visita.
O termo entrevista certamente causaria desconforto, daí a variante empregada:
«posso dar uma palavrinha com a senhora?».
O largo sorriso abria-me ótimas perspectivas.
A tarde inteira desfiando o novelo de uma vida inteira.
Em a hora de ir embora, um forte abraço.
A esta visita seguiu-se mais uma, feita há dois ou três meses.
Desta vez, fui recebido como um velho amigo a quem dona Socorro há muito não via.
Sentamos nos mesmos bancos de madeira, agora à esquerda de Antiquário.
«É que de manhã o sol bate lá daquele lado», explicou.
O trânsito na Avenida Jovita Feitosa fluía, àquela hora, tranqüilo.
Aliás, era por ali, descobriria depois, que dona Socorro seguia, no finalzinho de tarde, até a casa da mãe, no bairro de Fátima.
Antes, a extensa avenida não passava de uma estradinha de terra vermelha a perder de vista.
A tarde apenas começava.
Foi relembrando um pouco esses dias de ontem e hoje que reatamos as pontas de uma conversa perdida no tempo.
Um exercício cuidadoso, amarrar as pontas e descobrir outras nuances num quadro banhado em cores fortes.
A conversa arrastava-se em alguns momentos;
em outros, ganhava fôlego escorregando sobre a planície de uma vida inteira vista de agora.
Entre um momento e outro, erguia-se a custo do banquinho para atender um cliente ou, ainda, catadores de lixo que lhe traziam pilhas de Cláudia, Veja e Caras esfarrapadas.
«Se não fosse por mim, estas revistas iriam para o lixo.
Também compro pra ajudar», explicou-se depois que um negro esquálido, curvado sobre um carrinho-de-mão cheio de papelão, foi embora.
Há 15 anos à frente da banca, dona Socorro é dessas que fincam pé quando querem alguma coisa.
De essas de querer difícil, imorredouro.
Quando pensou em trabalhar, foi como se tivesse entrado, sem querer, em rinha de cachorro grande.
Em um recuo tático, fingiu esquecer a idéia para, anos depois, filhos crescidos e com as contas no vermelho, abraçá-la.
Agora, não mais por obstinação:
era a vida que lhe exigia uma atitude.
«Sempre quis trabalhar, o pai é que nunca permitiu.
Mulher para ele era da cozinha para o quarto, e só.
Quando casei e vim morar aqui na Parquelândia, em 1962, a cabeça do marido era a mesma;
a discriminação contra a mulher, também.
Queria estudar Direito, mas acabei me submetendo», diz entre risos.
Entre uma atividade e outra, ela garante que fez de tudo:
foi costureira, sacoleira, proprietária de uma agência de publicidade e transportou, ainda, alunos de escolas da vizinhança.
Catou alimentos em feiras livres da capital.
Em esta época, a cabeça, segundo ela, «já tinha parado de funcionar».
Tudo por causa dos frangos abatidos ao longo da madrugada no quintal de casa.
«Fornecíamos frangos ao Hospital Antônio de Pádua, que hoje nem existe mais.
Nunca tinha matado um frango na minha vida.
Comecei mesmo por necessidade.
Foram quase dez anos abatendo frangos.
Como tínhamos de entregá-los de manhã muito cedo no hospital, passava quase toda a madrugada abatendo», relembra.
«A partir de certo momento, percebi que morria a cada animal abatido.
Foi a pior coisa que já fiz em toda a minha vida».
Dona Socorro esclarece.
Após cerca de dez anos trabalhando como açougueira, caiu numa espiral de crises:
financeira, psicológica, religiosa, emocional.
«Minha vida era um conflito.
O Walter, meu marido, foi embora pra São Paulo no final dos anos 70.
Fiquei sozinha».
O episódio funcionou como uma espécie de divisor de águas em sua vida.
Mudou radicalmente os seus hábitos alimentares, passando a não comer mais carne animal, e descobriu na doutrina Espírita um refúgio.
A banca, encontrou-a pouco depois, quando estava à procura de trabalho.
«Era o que eu precisava.
Depois de conseguir a concessão para trabalhar na banca, fui para lá sem nada, porque as distribuidoras não queriam fornecer revistas para outro estabelecimento, sendo que já havia um na praça.
Então comecei só com as revistas que tinha em casa, e foi quando descobri a verdadeira razão da minha vida:
os livros».
Os primeiros recolhidos na vizinhança mesmo.
«Saí pedindo de casa em casa, e todo mundo contribuiu com alguma coisa», relembra.
A partir daquele instante, segundo dona Socorro, sua vida transcorreu sobre dois eixos:
«a necessidade de trabalhar e, antes de tudo, a paixão por o que fazia».
E assim continua até hoje, quando completa, em meio a dificuldades financeiras, quinze anos de Antiquário.
Entre as razões do aperto, dona Socorro aponta a " recessão que vive o País."
«Infelizmente, livro não é artigo de primeira necessidade.
As pessoas passam em frente à banca e apenas olham.
Seguem direto para a Frangolândia, um supermercado logo ali.
A comida é mais importante», brinca.
Antes de ir embora, uma grata surpresa.
Dona Socorro enfurna-se num compartimento da banca que não sabia existir.
Em poucos minutos, retorna com um exemplar de O Livro dos Espíritos, de " Allan Kardec.
«Este livro me salvou», diz olhando-me demoradamente.
Número de frases: 95
Hoje, encostado na estante de casa, o terceiro numa pilha que reúne ainda O apelo da selva e O feijão e o sonho.
Ouve-se dizer por aí, em alto e bom tom, que o rap está ganhando a mídia, indo aos canais de tv, virando filmes, documentários, discos ...
Onde se encaixa o rap carioca nesse quadro??
Hoje podemos contar o filme «Fala Tu», que participaram os rappers Thogun, Combatente e Macarrão, documentários de rap, hummmm ...
A Re.
fém e a galera da na Mira Produções fez o «Rap de Saia», aparecem na tv para falar de rap / hip hop ...
hummmm ... Mv Bill? ...,
lançam discos de rap ...
hummmmm ... Marcelo D2, Gabriel o Pensador e Mv Bill ...
Em 2003 a Revista Rap Brasil fez uma matéria com 39 (trinta e nove) grupos de rap do Rio de Janeiro, e acredita-se que não entrevistaram todos os grupos da época, hoje temos, com certeza, mais de 100 grupos no estado, de todas as regiões, adivinhem quantos lançam discos, fazem filme, aparecem na TV ou mesmo fazem uma apresentação por mês??
Ainda hoje contamos nos dedos de uma de nossas mãos as pessoas que ganharam a mídia convencional, mesmo que por um curto período de tempo, e os outros «artistas da periferia» ainda continuam em sua árdua luta, aos trancos e barrancos tentando se organizar da melhor forma possível, ou dá forma que dá.
De 2003 pra cá, muita gente desistiu por causa das dificuldades encontradas, jovens com um potencial monstruoso não conseguiram sequer colocar um CD na rua e alguns que conseguiram, não o conseguiram distribui-lo, mas mesmo assim cada vez mais jovens ingressam na difícil batalha de se cantar rap no Rio de Janeiro.
Enquanto isso a cultura é abduzida por empresários maliciosos que usam de má fé para ganhar dinheiro com o rap, ofuscando a arte diversificada criada por MCs do Rio de Janeiro.
O que se precisa ter no Rio de Janeiro para fazer com que o rap carioca dê lucro?
Será que uma rádio que tenha um programa diário de rap adiantaria?
Será que mais eventos pagos?
Será que mais produtos (CD / DVD)?
Será que mais oficinas de rap?
Tudo isso junto, de forma organizada e democrática!!
Uma rádio democrática, que dê espaço a todos, para formar mais público de rap, para dar devido «o valor» aos grupos de rap carioca.
Hoje, por falta de acesso às mídias convencionais para expor os seus trabalhos, os grupos de rap espalhados por todo o Rio de Janeiro utilizam sites como o MySpace e Youtube para distribuir suas obras e se fazerem conhecidos, tornando-se verdadeiras agulhas em palheiros.
Porém hoje, se houver um pouco mais de reflexão, poderemos ver que existem outras «diversas» formas de se ir de encontro a sustentabilidade.
Desde o momento que um grupo disponibiliza sua música no Myspace, ou em qualquer outro site, para download gratuito, automaticamente e indiretamente o autor está dizendo que qualquer um pode obter a obra sem pagar por ela, porém não se abre mão do direito autoral, (que são direitos inalienáveis, isto é, não se pode abrir mão de eles), pois espera-se que centenas ou milhares de pessoas baixem os arquivos, ouçam e passem para seus amigos, parentes ou qualquer outra pessoa que se interesse, o autor deseja apenas que sua obra seja conhecida em diversos cantos do Brasil e do mundo se possível.
É hora de se pensar no que se tem na mão, é hora de olhar ao redor, fazer uma releitura de mundo, veja os camelôs, seria ilegal o camelô vender um disco com uma ou duas músicas do seu grupo, que ele encontrou na internet, disponível para download no Portal Enraizados, por exemplo??
A resposta é sim, seria!!!
Mas existem formas legais de permitir que o camelô comercialize sua obra, por exemplo, existem varias modalidades de licencas creative commons e que o autor pode escolher a que lhe melhor convier, inclusive permitindo a cópia e apropriacão do direito patrimonial, como é o caso do DVD / CD do Sexto Encontrão ao Vivo, que o Movimento Enraizados acabou de lançar.
Mas se você é daqueles que está esperando a EMI bater na sua porta????
Boa sorte!!!
Leia a matéria na íntegra no portal enraizados!!
http://www.enraizados.com.br/ Conteudo / MateriasDetalhes.
Número de frases: 30
asp? ID = 78 Tetê Espíndola.
Este é o nome da mais fantástica cantora do mundo.
Pode parecer exagero para quem só lembra de ela soltando seus agudos na balada Escrito nas Estrelas, vencedora do Festival dos Festivais da Globo em 1985. '
Aquela que canta estridente, gritando ... `
já cansei de escutar.
Em o YouTube tem vários posts com os mais diversos tipos tentando atingir os agudos de Tetê.
Ela é uma das preferidas dos imitadores de plantão.
Virou personagem popular.
O potencial raro de voz (ela é contralto-sopranissimo) da campo-grandense Teresinha Maria Miranda Espíndola já entusiasmou muitas figuras.
Arrigo Barnabé reagiu ao escutar o som de Tetê: '
Sertanejo lisérgico! '.
Anos depois o concretista Augusto de Campos poetizou: '
Esta menina tem pássaros na garganta '.
...
Tetê é isso.
E mais um pouco.
Está em constante evolução.
Não canta do mesmo jeito ou em determinado tom disco após disco como, por exemplo, Maria Bethânia e Marisa Monte.
Mas, Atenção, insisto que se você é daqueles que só escutou Tetê cantando Escrito nas Estrelas vamos dar uma parada estratégica.
Está na hora de atualizar!
Que tal uma olhada no videoclipe da música Indiu, do disco VozVoixVoice, que provavelmente você nunca ouviu falar, até porque realmente passou ' invisível ' por a mídia (a) cultural brasileira.
Clique Aqui.
Opa, visto este videoclipe proponho um vôo radical, mas indispensável para entender porque afirmo com a maiúsculo que Tetê é a mais fantástica (por que não escrever logo ' a melhor '?)
cantora do mundo.
Confira algumas canções de Babelyes, disco ainda inédito de Tetê.
Clique Aqui.
...
Quem assina embaixo das produções VozVoixVoice e Babelyes é Philippe Kadosch, apresentado a Tetê por Arrigo Barnabé.
Radicado em Paris, arranjador, multinstrumentista, ligado ao dodecafonismo, o'arrigobarnabé-franc ês ' revela ao mundo uma Tetê Espíndola soltando seus mais profundos graves até os registros mais agudos.
São os tais pássaros na garganta de Augusto mesclados ao sertanejo lisérgico de Arrigo que resulta nesta fantástica viagem da cantora com Kadosch.
Um vôo musical rasante pra lá de universal.
Uma world music inclassificável.
Em VozVoixVoice Tetê faz 128 vozes diferentes.
Imita baleias, golfinhos, pássaros ...
O único instrumento além da cantora é o contra-baixo de Harry Gofin.
A maioria das faixas é instrumental, outras têm letras em português, inglês, francês ...
VozVoixVoice não ganhou nenhum destaque no Brasil.
Saiu na Europa por o selo MCD World Music em 2001 e no Brasil apenas em 2006 num esforço da própria Tetê com apoio do governo de Mato Grosso.
São músicas e arranjos incríveis de Philippe Kadosch, têm letra de Arrigo Barnabé na surpreendente Cronos, composições da própria Tetê, o encarte luxuosíssimo, fotos estonteantes de Greg Vanderlans e figurinos / arte de Gringo Cardia.
Tetê chacoalha a nossa cabeça no primeiro trabalho com Kadosch, mas o segundo da dupla é puro sacolejo na moleira.
Se você não viu o vídeo que indiquei ali em cima, ainda dá tempo!
O'bate-papo ' vai fluir mais fácil.
O que não pode nestas alturas do texto é insistir que Tetê é aquela cantora de Escrito nas Estrelas.
O novo trabalho com Kadosch está no forno há dois anos.
Chama-se Babelyes!
Leva o experimentalismo a nível extremo.
É a semente que germinou de outros tantos trabalhos de Tetê em 30 anos de carreira.
O som ' muito louco ' que produziu no início da década de 80 com os instrumentistas Stênio Mendes e Theophil Mayer, embora não tenha virado disco (a TV Cultura exibiu um especial), é prova disso.
Tetê integrou a banda Sabor de Veneno de Arrigo Barnabé, quando o Brasil ainda assimilava discos como Clara Crocodilo.
Ou seja, Tetê é caipira com muitos quilômetros rodados na estrada do experimentalismo.
A campo-grandense enfrenta em Babelyes arranjos e melodias dificílimas de Kadosch.
Algumas letras são numa língua criada por o próprio músico francês.
Kadosch está demorando anos para dar o ok para a mixagem final do trabalho.
E se você viu os clipes de Babelyes no YouTube, pelo menos um, eu desafio: '
qual cantora brasileira com estofo para segurar a barra de um trabalho como este com tanta naturalidade? ' ...
Além de intérprete sensacional, Tetê é instrumentista.
Foi a artista brasileira que mais abraçou um instrumento pouco usado na música do Brasil, criado por o violonista Paulinho Nogueira, a craviola.
Tetê e sua craviola valem por uma orquestra inteira.
Em o disco Canção de Amor, em que comemora duas décadas de relação com a craviola, é evidente o domínio da cantora sobre o instrumento.
É como queijo e goiabada.
Dupla perfeita.
...
Intérprete, instrumentista e, sim, compositora.
Zélia Duncan já assumiu que quase ' furou ' o LP de Tetê lançado em 1982, Pássaros na Garganta, quando a nova cantora do Mutantes ainda se chamava Zélia Cristina.
Em a capa do disco, Tetê está nua em frente a uma exuberante cachoeira.
É o disco em que começa a mostrar o seu lado compositora.
Amor e Guavira (parceria com Carlos Rennó) é um clássico.
Uma pré-polca rock.
Um grito pop de um cerrado que é universal.
A influência de Arrigo Barnabé está escancarada.
Aliás, Tetê foi a primeira a gravar Arrigo Barnabé:
a estranha valsa Londrina (melhor arranjo no MPB Shell, da Globo, em 1981)!
Em Pássaros na Garganta o compositor se faz presente com Canção dos Vaga-lumes e a parceria Sertão, com Tetê.
Aliás, o novo CD de Tetê já está saindo do forno e vai ser lançado aqui em Campo Grande em agosto.
Finalmente chegamos ao que interessa.
O novo trabalho de Tetê:
eVAporAR. Em ele, Tetê se assume como compositora.
Este CD é especial realmente.
Foi todo gravado (ao vivo) em Campo Grande.
Todos os músicos são campo-grandenses.
A mixagem foi feita em Big Field.
E o repertório é todo de músicas inéditas de Tetê, com exceção da regravação de Sertão.
É por estas e outras que afirmo sem medo de errar que Tetê está em constante evolução.
E não é figura de linguagem.
É real.
Ao mesmo tempo em que está na vanguarda mundial com Philippe Kadosch é a representante do sertanejo-caipira que pulsa na Sul-América.
É a porta-bandeira do Brasil centro-oestino.
Em vez de empacar, Tetê produz cada vez mais e solta seu grito amazônico-pantaneiro.
...
Em a conversa transcrita logo abaixo, a cantora fala da ' nova cria ', dos projetos que estão na gaveta, da ansiedade em querer conciliar diversos trabalhos ...
Também se remeteu ao começo da carreira com os irmãos Geraldo, Celito e Alzira e o final precoce do grupo Lírio Selvagem.
A cantora não esconde a loucura que virou a sua vida após vencer o Festival da Globo e a falta de estrutura que tinha para segurar a barra da fama.
Comemora o lançamento da primeira coletânea por a Universal reunindo pérolas de seu repertório.
Vamos à entrevista!
Rodrigo
Teixeira -- O Seu Disco Mais Autoral Foi Pássaros Em a Garganta.
Evaporar É Uma Retomada deste Seu Lado Compositora?
Tetê Espíndola -- Nunca tinha feito um só autoral.
Pássaros na Garganta e o Canção do Amor misturavam coisas minhas e interpretações.
Só com músicas minha este é o primeiro.
Mas o eVAporAR é uma partida e não uma retomada.
Um começo.
E Por Que Demorou Para Você Dedicar Um Disco Exclusivo Para Suas Músicas?
Tudo tem a sua hora.
A gente tem que amadurecer.
Agora saquei que sou compositora.
Caiu a ficha.
Está me dando prazer em fazer e estou compondo bastante.
Abriu de novo o canal.
Antes era muito pouco, duas músicas por ano.
Sou intuitiva.
Só componho quando tem um sentido.
Acontece alguma coisa.
São 30 anos de carreira.
como se fosse uma homenagem a mim mesma como compositora.
Auto-homenagem. Porque já homenageie vários compositores.
São várias fases.
Está abrindo um novo ciclo.
Gravar este disco mexeu com mim.
Com a loucura da compositora.
Foi em novembro de 2004.
E aí iniciei o ZenCinema em março de 2005.
Já estava naquele processo.
ZenCinema para mim foi o meu disco mais trabalhoso de todos.
Por Que?
Porque entrei só como intérprete.
E foi difícil para mim porque adoro fazer tudo.
O ZenCinema demorou dois anos até acontecer.
Foi um processo doloroso.
Como É Administrar Tantos Projetos?
Você Fica Angustiada?
Não sei como com si.
Tem hora que me sinto dividida em milhões de pedacinhos.
Está começando a pesar depois de uma certa idade.
Começando a encher um pouco.
Esta Superprodução Começou De Uma Década Para Cá?
De um tempo para cá sim.
Mas, na verdade, sempre fui repartida.
Sinto claramente na minha vida que vou para um lado e tem um outro me chamando.
Então me reparto, um pouco para cada lado.
E consigo viver assim.
Equilibrando isso.
Tem hora que se fica mais de um lado e é a hora de concretizar aquele negócio até o fim.
Mas veja só:
já estava no eVAporAR com tudo encaminhado para terminar e pintou o projeto Água dos Matos.
Pirou a minha cabeça.
Chegou uma hora que queria largar tudo e só fazer o disco do Água dos Matos.
O Jerry que me segurou e disse para terminar o que já tinha.
Aí entrei este ano de 2007 com este espírito.
Acho que é a maturidade.
Estou começando a domar isto depois de tanto tempo.
Então este ano vou concretizar tudo o que está pendente.
Por exemplo, me preocupo com em finalizar o DVD do Espíndola Canta.
Quero ajudar e resolver.
Porque é uma coisa que está pendente.
Aí tem o lançamento do eVAporAr.
Tem também a minha perninha com o Kadosch lá em Paris.
Que sofrimento que é aquele negócio.
O Babelyes já tem três anos e não foi lançado ainda.
O Kadosch fala que não existe perfeição.
Mas existe o extraordinário.
Por Isso Que Ele Não Acaba O Disco?
É.
Eu falo: '
manda uma cópia do extraordinário para mim.
Não agüento mais.
Você tem que me mandar que eu vou começar a agitar '.
Você pensa que a minha vida é um ' ah que legal ' ...
que nada.
Então este ano é o auge desta loucura minha.
Em julho devo ir tocar na França e o Kadosch quer vir lançar em agosto o Babelyes.
Então tenho que fazer o lançamento do eVAporAR e depois cuidar do Babelyes.
Aí vem a história do Água dos Matos em novembro.
Mas a partir do ano que vem só vou começar a fazer uma coisa por vez.
O Mercado De Música no Brasil Comporta Isto Tudo Que Você Faz?
O Próprio ZENCINEMA, Ele Percorreu O Caminho Que Tinha Que Percorrer?
Ou Estes Discos Estão Ainda Para Serem Descobertos?
Acho que serão descobertos sim.
Faço um trabalho de pesquisa.
De aqui a muitos anos, depois que eu morrer, talvez as pessoas irão pesquisar o que fiz.
O meu trabalho é tipo ' o que se pode fazer em torno de uma voz '.
Porque pega-se uma cantora maravilhosa como a Gal Costa.
Você põe CDs do início da carreira de ela e depois os atuais e você vê que ela manteve a voz num mesmo lance.
Ela canta ' naquele ` tom.
Quando encontro com as outras cantoras é aquele papo ' ah este tom não é meu.
O meu tom é dó ' e não tenho isto.
Pra mim é qualquer tom.
Isto aí pode dar pano para manga para uma pesquisa.
Os meus trabalhos serão descobertos neste ponto.
Porque um outro ponto não existe e não é importante.
Como É Para Você Ser Imitada Por Causa De Seu Agudo?
Ficam Tirando Sarro, Como SE Fosse Algo Mais Circense do que Um Potencial Vocal Raro Em o Mundo.
Eu rio disso.
Tem gente que reconhece.
Minha voz é experimentalista.
É uma voz muito grande, atinjo as três oitavas.
Depois descobri o lance das emissões ...
Mas no fundo tenho também esta coisa circense.
Então porque não?
Gaiola
Foi O Último Disco Mais Pop E Depois Você Caiu Para A Experimentação.
Gaiola foi alta produção, tinha produtor envolvido ...
Por exemplo. Por mais que tenha participado do ZenCinema, participado dos momentos, esta coisa do Arnaldo ser meu marido e estar perto de mim, não produzi o Zen e não foi fácil para mim.
É diferente.
O Gaiola também.
O Mazzola fez o que ele queria neste disco.
Chamou quem ele queria para tocar.
Podou a música principal do disco Escrito nas Estrelas, que era para estar lá, para lançar o Mix. (
o disco Gaiola foi lançado logo depois de TT ganhar o Festival da Globo com a música Escrito nas Estrelas.
A canção vencedora não está no Gaiola porque foi lançado um Mix, o primeiro do Brasil, com Escrito nas Estrelas de um lado e Linda Flor (Ai, Ioiô) do outro).
Você Queria O Escrito nas Estrelas no Gaiola?
Queria.
E isto foi um erro grande do produtor.
Tinha que ter colocado, mesmo se eu não quisesse.
Ele fez um monte de coisa que não quis.
De toda a minha carreira é a única coisa que acho que podia ter sido melhor é aquele momento.
E sou uma pessoa de sorte, porque apesar de tudo, todas as coisinhas erradas que deram naquele momento, deram muito certo, porque até hoje, 22 anos depois, o negócio está aí.
Vivo. Ninguém esquece.
Mas claro que ficou um pouco mais difícil para fazer as coisas, minhas experimentações, porque o pessoal ficou com o agudo na cabeça e acabou.
Então as pessoas estranham quando encontram outra coisa.
Como, por exemplo, a versão para O Meu Amor, do Chico Buarque, que gravei há sete anos e tocou em Vidas Opostas da Record.
Gravei esta música para o último SongBook que o Almir Cheddiak fez.
Eram sete discos.
Ficam pensando ' quem será está? '
até sacar que sou.
E Como Aconteceu A Coletânea da Universal?
Saiu em novembro de 2006.
Foi legal porque participei como produtora também.
Foi nesta coletânea que os caras da novela acharam O Meu Amor.
O repertório teve que ser basicamente o que estava na gravadora, que era Lírio Selvagem, Piraretã, Escrito nas Estrelas, Ioiô e Gaiola.
Existe
Uma MPB De o MS, Uma Música Que Vem De o Centro-OESTE Com Um Sotaque Determinado?
Acho que a gente faz isso.
Tem um monte de gente fazendo.
O som de MS tem uma cara sim.
Em São Paulo, quando a gente escuta os discos que vêm daqui, têm um ar diferente.
Um andamento, este ritmo em 3, o sotaque do cantor também.
Acho que ainda vão reconhecer.
Mas E Em aquela Época, 77, 78?
Quando Os Baianos Estavam SE Destacando?
Não tinha nada naquela época por aqui.
O Mato Grosso era visto mais como música sertaneja e só.
E a gente foi um dos primeiros.
Por isso foi difícil.
Quando a gente chegou lá estava a discoteca rolando.
Imagina! Então acho que tem que ser feito um livro contando tudo isso.
Sempre
Insisto Que Vocês Fundaram Uma Vertente Dentro De a Mpb Que Não É Reconhecida.
E O Renato Teixeira, Que É De esta Linha da Mpb Caipira, Também Não É Reconhecido Como Deveria.
Você É Tão Importante Para A Música Brasileira Quanto A Gal Costa E A Maria Bethânia.
Só Que A Grande Mídia É Viciada.
A mídia é panelinha.
Acho que este lance da Bahia virou uma panelinha.
E as pessoas da Bahia tomaram conta do Rio também.
Se o negócio tivesse rolado mais em São Paulo acho que a gente estaria dentro da panelinha.
Você vê o Ney (Matogrosso), querendo ou não, ele está dentro da história toda.
Todo mundo que mora no Rio acontece mais e tem mais chance de estar dentro.
Porque, por exemplo, a Vanguarda Paulista marcou uma época, mas o negócio não aconteceu nacionalmente.
O Renato Teixeira Diz Que Vocês São Os Cantores De Uma Nova Era ...
Talvez.
Mas tem a ver com o nosso lugar, muita natureza, Pantanal ...
É uma linha que ninguém explorou.
O pessoal baiano, por exemplo.
Por que não fizeram uma música de natureza com aquela Chapada maravilhosa que eles têm lá?
Ninguém se preocupou com isso porque estão envolvidos com a raiz de eles, que é mais carnaval, o negro.
A gente está no sertão.
Aqui é índio e fronteira.
É Verdade Que Vocês Não Queriam Aquela Roupagem Mais Roqueira Em o Primeiro Disco De o TT E Lírio?
Era um mundo à parte aqui.
Não sabia de nada que estava rolando lá.
A gente não afinava nem no diapasão.
Quando chegamos lá a gente assustou com aquilo que ' tinha que ser tudo afinado igual ` e ' no diapasão '.
E aí a minha voz ficou mais aguda ainda porque a gente afinava meio tom abaixo do diapasão.
Quando botou meio tom mais alto aí é que ficou mais agudo ainda.
Falavam: ' mas será que ela vai agüentar cantar? '
E eu ia numa boa.
Acredito que era mesmo para a gente fazer aquele disco e começar uma carreira.
Podia nem ter chamado os meus irmãos e ter feito solo.
Porque a oportunidade pintou para mim.
Quem cavou fui eu.
E Por Que Você Decidiu Chamar Seus Irmãos?
Porque já conhecia o Cláudio Leal Ferreira, que me levou para conhecer o Arrigo Barnabé.
Aí que o Arrigo falou que o meu som era ' sertanejo lisérgico '.
E aí ele ouviu as músicas do Geraldo naquela afinação e tudo e começou a criar um interesse e uma loucura em cima dos meus irmãos.
Eu cantava músicas dos meus irmãos.
Aquela época não compunha ainda nada significativo.
A Alzira morava em Campinas e a gente se encontrava em Sampa e mostrava o som da Alzira.
Começou a pintar um interesse grande por a Tetê e seus irmãos.
Aí o Cláudio me levou na casa do maestro Luiz Roberto de Oliveira.
O Luiz tinha o contato com o Marcão da PolyGram.
Eu falava: '
Eu e meus irmãos temos um som pronto!
É só entrar no estúdio e gravar! ',
mas eles nunca tinham escutado.
O som era supersimples.
Mas ' que som é este? ',
eles perguntavam.
E dizia ' a gente faz som acústico! '.
E eles ' mas para a gravadora querer fazer tem que ser mais vendável, mais pop, porque a época agora é Dancing Days '.
Aí rejeitaram o nome LuzAzul porque estavam lançando a cantora Lady Zu que explodiu em popularidade com todo o investimento da gravadora.
E Aí Vocês Apresentaram O Som E Eles Falaram Que Era Para Botar Uma Banda Em Cima.
É Isso?
É.
Nos fomos para uma garagem e gravamos.
Nós quatro, tinha o Carlinhos no bongô e fizemos aquilo.
E nós mesmos, quando gravamos pela primeira vez, sentimos que precisava de mais coisas ali.
Todo mundo concordou com isso!
Eram duas craviolas, um violão de 12, um baixo acústico e era tudo muito agudo, aquele monte de cordas.
Quando a gente tocava acústico soava de um jeito, era toda uma magia que envolvia.
Quando chegou no estúdio, não era bem aquilo.
Aí todo mundo decidiu que precisava de banda mesmo e tipo ' então tudo bem! '
E os caras fazendo a nossa cabeça.
Ficou um disco bem diferente do que a gente fazia de LuzAzul.
A gravadora e o produtor decidiam tudo.
Sem a banda tudo teria sido diferente.
Mas este disco tem um vocal superestruturado.
O maestro aproveitou as vozes e ninguém lia uma bolinha.
Os vocais eram feitos juntos.
E o cara ficava enlouquecido com isso.
Tinha tudo para acontecer.
Era o som do Mato Grosso.
E O Que Aconteceu Com O Lírio Selvagem Afinal?
O Lírio não agüentou a barra.
A gente era muito caipira.
Não tinha estrutura nenhuma para agüentar São Paulo.
Os meninos voltaram e eu e a Alzira ficamos.
Ninguém agüentou a barra mesmo do negócio.
A gente não estourou para ganhar dinheiro, para comprar uma casa, onde cada um tivesse seu canto.
Não teve nada disso.
Era tudo muito louco.
A gente tinha feito o Fantástico e acabamos não comparecendo a um Chacrinha que estava marcado.
Aí dançou tudo com a gravadora e os irmãos se separaram.
Lembro de fazer Piraretã com o Celito, uma das primeiras músicas do Brasil a falar em bicho, e que ele pegou as malas e foi embora de São Paulo.
O nome da música acabou batizando meu primeiro disco solo.
É Verdade Que O POLADIAN Quis Fechar Com ti E Você Optou Por Ficar Independente?
E Com A Negativa O POLADIAN Resolveu Boicotar Os Seus Shows Colocando Artistas Famosos Também SE Apresentando Em as Cidades Que Você Estava Tocando?
Não rolou diretamente com mim não.
Nunca vi o Poladian.
Mas Após Ter Ganhado O Festival da Globo Era Natural Ter Um Empresário Como O POLADIAN ...
Era para ter ele.
E Por Que Não Teve?
Não fui atrás.
Era muita loucura.
Programa de televisão quase todo dia.
E para aparecer no Chacrinha e qualquer lugar tinha que fazer um outro negócio para eles.
Era tudo cobrado, um negócio absurdo.
Você encontrava naqueles lugares de periferia todo mundo.
Lulu, Marina, Simone ...
Todos passavam esta situação.
A gente vivia enlouquecido.
Vivia fazendo as coisas para a gravadora e não tinha tempo de pensar na vida.
Era uma troca, uns jabás e a gente tinha que ir para a periferia fazer uns shows medonhos para 2 mil pessoas na base do play-back.
O povo queria me pegar e saia carregada.
Era isso direito.
Então a hora que explodiu o negócio fiquei três meses envolvida nesta loucura.
Direto. Fui para o Chacrinha com 39 de febre.
O pessoal da gravadora dizia tipo: '
Não quero nem saber, você tem que levantar desta cama e pegar este avião agora ... '
Chegou A Ganhar Dinheiro?
Imagina o quanto de disco que não vendi?
Eles falaram que eu tinha vendido apenas 100 mil do Mix do Escrito nas Estrelas.
Quando fui para o Nordeste encontrei uma pessoa da distribuição que tinha vendido 500 mil discos só lá no Nordeste.
Com o prêmio do Festival a gente comprou uma geladeira, um microondas e o carro do Arnaldo, que depois foi roubado.
Foi isto que a gente teve do festival, além da fama para o resto da vida.
Em a história da música brasileira fui a artista que teve a maior mídia da Globo.
Ganhei um festival de eles e então me promoviam.
Mas iria ganhar dinheiro mesmo com os shows.
Mas não ganhei.
Faltou
Experiência?
Faltou claro.
Se tivesse tido uma estruturinha.
Eu não tinha ninguém.
O próprio Arnaldo.
Hoje ele tem uma puta experiência.
Mas naquela época para ele foi uma cacetada.
De repente ganhei um festival com a música de ele.
Aquilo foi uma bomba.
Ele era arquiteto e, de repente, era o mais famoso compositor do momento.
Foi chocante.
Então quem tinha mais perto era o meu irmão Sérgio.
O telefone não parava de tocar.
Número de frases: 382
Não sabia o que fazer.
Só sei que está doendo.
De onde vem a força para a peleja?
A vontade de lutar vem de ideais, não de sonhos pequeninos, sonhos que todos têm.
Mas e a vontade de amar, de onde sai essa maldita?
Pode um sofrimento de amor realmente embaçar os ideais -- ou não era amor, ou não era ideal?
Serão coisas bobas de mulher ou coisas bobas humanas?
Minha gana de vencer só pode ser por os outros, resta testar se sou altruísta a este ponto.
Não quero saber o porquê das coisas, por que não há porquê que me convença, não.
É impossível.
O que é possível é arrastar meus dias procurando algum encanto, alguma beleza.
Derramando minhas energias sobre esses buraquinhos do chão -- não aprendi a deslizar por sobre eles.
Eu escorrego consciente.
Me jogo, amolecida.
Ah, como ainda anseio ganchos que me prendam!!!
Eu suplico!
Ventos me movam desse martírio sem fim!
Mas de dentro de mim eles não podem vir ...
que composição contenho eu para expelir tamanha magia?
Como disse, são os outros.
O inferno e o céu são os outros, e são principalmente a salvação.
Vou despindo as minhas cascas por vocês, e o miolo delgado que resta ao final tem uma única função:
alimentá-los de uma vez por todas, até a morte.
A minha morte será a vida de vocês.
E no fundo, todos sabemos que não há porquês.
O desamparo é um raio de sol que a tudo trespassa.
Feliz daquele que crê.
A fé não é coisa que se aprenda, é inata, inventar para si não dá.
Número de frases: 28
Não dá.
Uma das personalidades mais fascinantes que eu conheci em toda minha vida, o humorista João Cláudio Moreno que, como poderão comprovar no texto abaixo, mobiliza corações e mentes de pessoas as mais variadas, como Vanessa Lobão, personagem dessa que estou chamando de «primeira» das histórias que pretendo contar a respeito dessa figura.
Aliás, foi ele quem me confessou, o João Cláudio não gosta de ser chamado de «figura».
A Clarinha, sua filha, que escreveu, aos oito anos, um livro sobre o pai, o considera uma «fonte inesgotável de inspiração» e eu fecho 100 % com ela.
Então, sem prazo para escrever a próxima, considero estar abrindo com chave de ouro, visto que o Blog da moça é por demais informativo, esta série de «Histórias sobre o humorista do Piauí», para mim, um dos melhores do mundo!
Biógrafa aos 16 anos
Uma admiradora que ilustra o admirado!
É, sem dúvida, difícil de acreditar sem ver, mas é muito fácil concluir que é verdade:
o humorista João Cláudio Moreno é um privilegiado por possuir uma tão competente e diuturna biógrafa de apenas 16 anos de idade.
O que a jovem Vanessa Lobão faz com seu blog é muito mais do que o simples baba-ovo que a gente está acostumado a ver em adolescentes que idolatram artistas de projeção nacional ou internacional.
A partir da pessoa que ela escolheu como ídolo, que, por maior projeção que tenha, não está na mídia televisiva nem nas listas nacionais e internacionais de «famosidades», a moça já demonstra sua personalidade incomum.
Em uma idade em que os jovens costumam se utilizar de diários e blogs para tentar entender a si mesmos e o lugar que ocupam no mundo, a Vanessa resolveu dedicar-se a retratar, com a maior riqueza de detalhes possível, o seu ídolo, João Cláudio Moreno.
E o faz não porque ele é, para ela, bonito e gostoso, como, em geral, ocorre, mas porque " nosso artista é tão grande.
Grande no que pensa, no que faz, na humildade, no respeito, no amor.
Então é uma homenagem justa, não?"
como escreveu no e-mail que me mandou, acrescentando que «cada pessoa que vê o blog, conhece um pouco mais nosso artista» deixando claro para mim que seu entusiasmo não advém, apenas, de uma paixão adolescente, mas de ponderações a respeito do comportamento profissional e moral do ídolo, embora tamanha dedicação não se possa explicar apenas por motivações racionais.
E quem navegar, alguns minutos, no seu blog vai perceber que a menina é uma percuciente pesquisadora, atenta a cada espaço palmilhado por seu ídolo, garimpando fotos que o próprio João Cláudio Moreno confessa não possuir, o que faz de seu blog uma referência imprescindível a alguém que deseje saber algo sobre o artista.
Ela diz que quer ser psicóloga e jornalista.
Psicóloga, " porque eu quero entender a cabecinha dos homens, dos seres.
Como é difícil, eu sinceramente me esforço, mas tem horas que tenho vontade de desistir, como desistir não é com mim ...
Eu continuo».
E jornalista " porque eu acho interessante a televisão, eu queria mesmo ter o profissionalismo da Virgínia Fabris ou da Luiza Gonçalves ...
Eu queria.
Tenho curiosidade em saber como é cada detalhe de uma rede de tv.
Como os jornalistas chegam, se tem uma direção certa para a câmera, falar para a câmera como se fosse um grande público numa só pessoa.».
Em a minha opinião ela tem tudo para ser jornalista e historiadora.
Jornalista, não «âncora» de jornal de TV, mas repórter daqueles que realizam grandes reportagens, que é o que ela já faz, com incrível competência, do seu blog pesquisando «pari-passu» a carreira de seu talentoso ídolo.
Historiadora, também já o é, por o mesmo motivo:
ela não se contenta em olhar os fatos por um único ângulo, mas se interessa em esgotar o assunto, ir fundo mesmo.
É, como eu disse, e repito, uma percuciente pesquisadora.
E agora eu quero dar um recado para o João Cláudio:
-- João, ter uma fã como a Vanessa, se, de um lado, aumenta a sua responsabilidade, de outro agrega um valor inestimável ao seu já inestimável valor, algo para figurar no seu currículo:
«o Humorista João Cláudio tem como fã a jovem Vanessa Lobão».
E eu, que já era fã de um, agora sou fã dos dois!
Beijos e abraços
De o Joca Oeiras, o anjo andarilho
Mais Fotos do Humorista!
Número de frases: 37
José Luiz Benício é um dos maiores ilustradores brasileiros do século XX com atuação destacada na área editorial, publicitária bem como a dos cartazes de cinema.
Em as décadas de 60/70, Benício ilustrou uma série de espionagem, a ZZ7, que saía nas bancas do país e que vendiam 250.000 exempalres a cada quinzena.
Esse sucesso editorial contava as aventuras da espiã Brigitte Montfort, que através dos traços de Benício se transformou em ícone de sua época.
O documentário «O Encontro de Benício com Brigitte Montfort» marcará esse reencontro entre artista e sua personagem, através de uma atriz representando Brigitte, que revelará a carreira e a obra do artista através de relatos e depoimentos.
O documentário está em fase de captação de patrocinadores e se encontra aprovado por as leis de incentivo.
Para maiores informações ou interesse em apoio / patrocínio consulte o blog do documentário:
Outra fonte indispensável é o livro «Benício -- Um perfil do mestre das pin-ups e dos cartazes de cinema» de Gonçalo Junior.
Número de frases: 7
Em o blog estão postadas várias ilustrações do artista e informações variadas.
Chego a um sebo e fico perdido entre os milhares de livros que nunca poderei ler.
Procuro obras raras de autores maranhenses.
Passeio entre as estantes.
Abro alguns volumes.
Leio algumas linhas.
Acaricio algumas capas enrugadas por o tempo ...
Um pequeno livro amarelecido por o tempo e de aparência frágil chama a minha atenção.
Decido comprá-lo.
Em a capa rústica, o nome do autor:
Carvalho Guimarães, seguido de uma indicação de que ele fizera parte da Academia Maranhense de Letras.
Emoldurado por um desenho assinado por o artista Orestes Acquarone Filho, está o título da obra:
Jurema e o Cajueiro.
Em uma falsa folha-de-rosto, deparo-me com um autógrafo do autor, datado de 31 de outubro de 1969.
Logo abaixo, um dos possíveis proprietários do livro deixou suas impressões a lápis:
«Lido. Por curiosidade.
E, sobretudo, evanescentes lembranças do autor! ..."
Uma assinatura ilegível e a data de 24 de janeiro de 1995 encerram meu passeio por a página inicial da obra.
Manuseando com cuidado o volume, descubro que se trata de uma edição de 1963, impressa no Rio de Janeiro por a Gráfica Tupy.
Leio atentamente o prefácio, de quatro páginas, assinado por Maria da Providência (da Associação Brasileira de Imprensa) e sou iluminado com importantes informações sobre o poeta.
Descubro sua relação com a cidade de Passagem Franca, seu amor por as letras e sua importância para o jornalismo escrito na primeira metade do século XX.
Começo a ler o poema.
O «Era uma vez» inicial me remete aos velhos e sempre úteis contos de fada, e o encanto dos versos bem construídos levam-me à sombra do velho Cajueiro apaixonado por a Jurema, «outra árvore do sítio, a que ele amava, / E a quem loas teceu num longo poema».
Encanto-me com as divagações do Cajueiro, com seus dias de glória e me entristeço com sua decadência e com a certeza de que seus dias estão em contagem regressiva.
Em a segunda parte do belo poema de Carvalho Guimarães, entro em contato com as angústias de Jurema.
Ela também, reconhece seu fim próximo, uma morte sem jamais conhecer «o segredo / De a volúpia de amor dos vegetais» e espera, ao lado do Cajueiro, seu eterno noivo, que se cumpra o destino inexorável das velhas árvores:
a derrubada.
Em a última página, descubro que o poema foi escrito em Passagem Franca, em 1908 (há quase um século, portanto).
Um belo poema ...
Fecho o livro e vêm à minha memória as palavras do professor, crítico e poeta Antônio Carlos Secchin, que certa vez disse que «as noites de autógrafo se transformam em rituais simultâneos de batismo e de óbito de um livro».
Lembro também as sábias palavras de Sebastião Moreira Duarte ao lembrar que «no Maranhão, de tantos valores literários, consegue-se o prodígio de ser publicado e de continuar inédito».
Em o fim de tudo, além da beleza e das belas mensagens expressas nas quarenta e três páginas do livro, resta também a certeza de que ainda temos muito o que descobrir nas tão esquecidas letras de nossa fértil literatura ...
Número de frases: 32
Bom, pedindo desculpas a todos por a demora, eis então -- e finalmente -- a parte 3.
Em a parte anterior (a dois), havia falado sobre a primeira vinda de uma banda independente renomada à Cuiabá, o Autoramas.
E que depois de eles, vieram ainda " Dance of Days (" SP), Mechanics (GO), Magaivers (PR), MQN (GO), Carbona (RJ) ...
entre vááárias outras».
E continuando, a explosão mesmo veio com a super-programa ção (insuperável?)
do Calango 2005.
Êi-la.
Dia:
29/07/2005 (Sexta)
02:00 Deceivers (DF)
01:30 Fuzzly (MT)
01:00 Pata de elefante (RS)
00:30 Zagaia (MT)
00:00 Bois de Gerião (GO)
23:30:00 Macaco Bong (MT)
23:00 Strauss (MT)
22:30 Camilots (MT)
22:00 Volver (PE)
21:30 High-School (MT)
21:00 Ressonancia Mórfica (GO)
20:30 Jihaad (MT)
20:00 Lorde Prole (MT)
19:30 Dragsters (MT)
19:00 Humanoides (MT)
Dia: 30/07/2005 (Sábado)
01:30 Autoramas (RJ)
01:00 MQN (GO)
00:30 Vanguart (MT)
00:00 Hang the Superstars (GO)
23:30 Walverdes (RS)
23:00 Revoltz (MT)
22:30 Irmãos Rocha! (
RS) 22:00 Self-Help (MT)
21:30 Mechanics (GO)
21:00 Zefirina Bomba (PB)
20:30 Lazy Moon (MT)
20:00 Resistentes (GO)
19:30 Lord Crosroad (MT)
19:00 MDC (MT)
18:30 Asthenia (MT)
31/07/2005 (Domingo)
00:30 Forgotten Boys (SP)
00:00 Relespublica (PR)
23:30 Caximir (MT)
23:00 Daniel Belleza e os Corações em Fúria (SP)
22:30 Detetives (SP)
22:00 Donalua (MT)
21:30 Violins (GO)
21:00 47 Cromossoomos (MT)
2030 Rollin'Chamas (GO)
20:00 The Melt (MT)
19:30 Baco (RJ)
19:00 Du Souto (RN)
18:30 Mezatrio (AM)
18:00 Contingente Imigrante (MT)
17:30 Coveiros (RO)
17:00 Guinit (MT)
Em a ocasião, o Espaço Cubo havia chamado para si a responsa da produção do então pequenino e bienal Festival Calango.
Resolve-se montar uma programação cavalar, promover debates com vários produtores e comunicólogos alternativos, e discutir políticas públicas, coisa que já vinham fazendo há um certo tempo, tendo conseguido várias conquistas e investimentos no setor cultural.
Aí explodiu.
Hell City surgiu, recebendo reconhecimento nacional como pólo cultural e exemplo a ser seguido.
Paralelo ao acontecido, um tal de Vanguart ia ocupando cada vez mais espaço.
Olhos em Cuiabá!
Todos se surpreendiam com a banda folk e o Festival independente fomentador de discussões, surgidos do estado «menos promissor» do centro-oeste.
Em 2006, Cuiabá se torna também a cidade propulsora do Circuito Fora do Eixo, que hoje movimenta a cena dos estados a priori situados no fora do viciado eixo-rio-são paulo de bandas.
E como o Fora do Eixo não tem caráter geográfico, acaba contribuindo também com a movimentação até mesmo desses estados situados «no eixo».
E tome bandas cuiabanas sendo conhecidas nacionalmente, fazendo shows fora e chegando à MTV, com o Vanguart e o clipe de Cachaça.
Um bom exemplo disso tudo é o que aconteceu no carnaval desse ano em 20 cidades do país:
O Grito Rock Brasil.
Pra quem não sabe, o Festival começou em Cuiabá e foi fundamental para a alavancada de bandas que hoje rodam o país como Vanguart, Revoltz, Macaco Bong, Fuzzly, e agora, Claudias Parachute, recém selecionados para o Festival MADA -- Música Alimento da Alma, que ocorre em Natal (RN).
Comparada com a épocas passadas, a de hoje apresenta lá seus avanços e seus retrocessos.
Como avanço, vale ressaltar a intensa movimentação que hoje ocorre na cidade com o surgimento de dezenas de bandas, produtores e agitadores culturais, comunicólogos e etc.
Como retrocesso, existe a acomodação de alguns daqueles «agentes» de outras épocas.
Os chamados «pseudos» ...
que até não são dispensáveis.
São bem divertidos, na verdade.
Outra diferença são as matérias no jornal.
As do início do século eram mais críticas e vinham com coberturas dos eventos.
As de hoje, são mais propagandísticas, neutras e todas pré.
Limaram as coberturas.
Evento, peça teatral, ou lançamento de livro nos jornais daqui é só no formato «vai rolar» e nunca no formato «rolou e foi assim:».
Cuiabá tem apenas três jornais de grande circulação.
E é fato que ninguém aqui compra jornal por causa do caderno de cultura.
São fracos, se colocados lado a lado com a demanda cultural que já rola por aqui ...
mas a coisa tá mudando para a melhor.
Por os menos dois de eles Diário de Cuiabá e Folha do Estado contam com editores que acompanham a cena, de certa forma.
Salvo alguns excessos de assessoria de imprensa, rola sempre umas matérias legais por lá, ressaltando a cena, cultura cuiabana, etc..
O DC Ilustrado (caderno de cultura do Diário de Cuiabá), por exemplo, há tempos publicou uma entrevista bacaníssima com o Senhor F.
E a Folha do Estado também vem visualizando a importância do processo e dando uma abertura cada vez maior à cultura cuiabana.
Seja ela cena rock, ou qualquer outro tipo de arte ou movimentação.
O momento que se sucede a esse é ainda mais promissor.
Hoje em Cuiabá, já rola a perspectiva da Volume -- Voluntários da Música, uma ong criada com o intuito de fortalacer ainda mais o cenário musical.
O interessante é que a Volume é dividida em quatro comissões específicas:
distribuição, comunicação, sonorização e produção de eventos.
E mais interessante ainda é que o pessoal que a integra é formada por jovens de 15 a 25 anos e mais quarentões que participavam ativamente da cena nos anos 80.
Só no mês de março, a Volume lançou EPs de cinco bandas cuiabanas.
A saber:
Macaco Bong, Dragsters, Claudias Parachute, Pleyades e Lazy Moon.
Uma outra novidade é a Casa Fora do Eixo, inaugurada há duas semanas.
Um espaço voltado à produção independente de bandas, literatos, produtores, estilistas e suas grifes alternativas e por aí vai ...
uma infinita gama.
Já está agendado para o dia 12 de maio, inclusive, um show com a banda músico-cênica Porcas Borboletas, de Uberlândia (MG);
banda essa, aliás, que já se apresentou por aqui nos Festivais Calango e Grito Rock.
E mais..
o Macaco Bong foi confirmado essa semana na décima edição do Festival Porão do Rock, que acontece em Brasília.
É a primeira vez que uma banda do Mato Grosso vai ao Porão.
O Macaco toca ao lado de bandas como Nação Zumbi (PE), Moptop (RJ), Rock Rocket (SP), Superguidis (RS) e a atração gringa Mudhoney.
Sim, aquele ...
um dos primeiros representantes do grunge de Seattle.
Fala procê, rapais..
Encerro essa série de textos contando as horas por aqui ...
Leia também as outras partes:
Breve Histórico do rock em Cuiabá -- parte 1
Breve Histórico do rock em Cuiabá -- parte 2
Fonte: Um amontoado de jornais cuiabanos dos ano 80 e 90 fornecidos por Eduardo Ferreira, videomaker, baixista do Caximir, escritor e Overmano + depoimentos de agentes de ontem e de hoje da cena + diagnósticos e leituras pessoais feitas a partir de um íntimo acompanhamento do processo político de contrução do cenário «hellcytense» a partir do último ano.
Número de frases: 115
O barulho de pequenas mandíbulas aumenta o tormento do protagonista Naziazeno.
Os ratos roem os fragmentos do que lhe resta, talvez o menino tenha deixado uma migalha de pão na mesa ao lado do maço de notas.
O pensamento espiral avança na noite de insônia:
encontros, negativas, buscas, necessidade, jogo, fome, fracasso, cansaço, lembrança do semblante tristonho da mulher, dor no corpo, a doença do menino, o resultado do bicho, inaptidão, negativas, impotência ...
Até que nas cores esmaecidas do entardecer, o protagonista consegue o dinheiro para pagar a conta do leiteiro e retorna para casa.
O desenrolar do drama do funcionário público endividado e ainda com vergonha de olhar os credores que passam no cotidiano atravessa os capítulos e nos traspassa de angústia.
O dinheiro do leite, a doença do menino, a fome do protagonista ...
Enfim, um empréstimo.
Percebemos, na vida de Naziazeno, que ter conseguido o dinheiro para quitar a conta do leite é apenas o início de uma nova dívida, a expectativa de mais um dia caminhando em busca de uma solução.
Paliativos!
O livro «Os ratos», do escritor gaúcho Dyonélio Machado, inicia com a advertência do leiteiro de que cortará o fornecimento de leite caso não receba o pagamento até o dia seguinte.
Apenas vinte e quatro horas ...
Naziazeno sente o desespero da mulher, a vergonha diante dos olhares da vizinhança que presenciam o ultimato.
A mulher lamenta todos os cortes:
a manteiga, sapato novo ...
Mas leite é fundamental para o desenvolvimento do filho de quatro anos já tão abatido por a doença.
Vinte e quatro horas ...
Naziazeno sai para o trabalho com a obrigação de trazer o dinheiro, observa os passageiros do bonde, tenta em vão esquecer do leite.
Mas como?
Os olhares dos vizinhos, a voz da esposa, o filho ...
Naziazeno tenta pedir um empréstimo ao diretor da repartição, o que é negado na frente dos outros funcionários.
Sai em busca dos amigos, não os encontra, joga os trocados no bicho e na roleta.
A sorte não está ao seu lado.
Continua por as ruas, visita os agiotas, desvia dos credores ...
Carcomido por a fome e cansaço, escuta apenas negativas ...
A o fim do dia, numa operação complicada com um anel penhorado, consegue o dinheiro emprestado do amigo Alcides.
Retorna para casa com dinheiro suficiente para pagar o leiteiro, tirar os sapatos da mulher do sapateiro, comprar um vinho, um pedaço de queijo e um pequeno mimo para o filho.
Conta as notas e as moedas para o pagamento do fornecimento do leite e, novamente, percebemos a precariedade da situação econômica do protagonista.
Ele se deita na certeza de que o leiteiro encontrará o dinheiro de madrugada e tudo estará solucionado com a continuidade do fornecimento, mas toda a inquietação e a angústia que dominaram seu dia num corpo faminto e fraco, agora ganham força com a modesta refeição.
Tenta dormir, fecha os olhos, finge não perceber a luz amarelada ao lado da cama, reclama com a mulher que ronca, escuta os pequenos movimentos do filho, mas o pensamento costura seus passos, as imagens dos olhares reprovadores, a sensação de vergonha, inaptidão e impotência, a repartição, os funcionários e os vizinhos que o observam em cada negativa, testemunham a cristalização do seu fracasso e murmuram que ele não paga as contas.
Tudo retorna e as vivências são retalhadas numa intensa noite de insônia.
O leitor se aprisiona na narrativa, torce para que o personagem relaxe na conquista do possível, mas também está preso demais às angústias presenciadas e à certeza de que é apenas mais um dia.
E quantos dias?
O bonde passa de madrugada, a mulher ressona alto, o filho ensaia um choro ...
Não há relógio na casa de Naziazeno, porém as horas passam lentas enquanto ele não consegue se libertar de seu drama diário.
O que poderia sonhar?
Não consegue pensar em nada que não sejam os passos, as negativas, o diretor da repartição, sua inaptidão para conseguir uma renda extra, o azar no jogo, as contas que não pagou ...
Observa o rosto gorducho e apático da esposa.
Ela dorme ...
Ouve pequenos ruídos de mandíbulas de ratos.
São os ratos a devorar o que lhe resta.
O dinheiro posto em cima da mesa, ao lado da panela do leite, deve estar sendo devorado por os roedores.
Tenta se levantar, mas a noite o prende à cama ...
Os ratos devoram o leite do filho, lembra-se do rapaz do bonde que almoçava leite, a mulher que reclama e diz que sem leite não pode ficar ...
O leite e os ratos, talvez uma migalha de pão ...
O avançar das horas o aflige.
Como pode não dormir e despertar para trabalhar?
Será que não dormiu em algum lapso de pensamento?
A mulher e o filho continuam dormindo ...
Abruptamente, a porta da cozinha é aberta.
Barulho de passos e de leite derramado com abundância.
O leiteiro ...
Naziazeno adormece antes que a porta se feche.
O leitor é invadido por a espiral das angústias do fim do romance.
O descanso de Naziazeno não é verdadeiro e não convence.
Sabemos que amanhecerão novas inquietações e dívidas para o funcionário, novas cobranças para o chefe de família e novos olhares reprovadores.
A mediocridade do papel do protagonista no mundo se contrasta com a forma brilhante como Dyonélio Machado desenvolve a trama e nos envolve no drama do protagonista com diretas reflexões inseridas em nossas rotinas.
A reviravolta na narrativa ocorre quando, ao anoitecer, pensamos que o caso está encerrado e percebemos que as vivências ecoam e retornam em ousadas lembranças dos movimentos do dia sob novos olhares.
Sentimos com força a angústia de ser e de permanecer próximo do protagonista do escrito literário.
Talvez neste momento incorporemos suas vivências nas lembranças de cada capítulo consumido.
A ficção está eivada de realidade.
O pensamento espiral nos consome nas tantas vinte e quatro horas que compõem nossas vidas.
O fornecimento de leite é apenas uma metáfora.
O leitor, em cada pausa, poderá se confundir com a trama, lembrar do cheque especial, do resgate do penhor, da conta atrasada ...
Afinal, poderá compor também suas necessidades e, como Naziazeno, se perguntar qual sua aptidão.
Questionar suas funções na repartição.
Observar sua representação no mundo no olhar dos outros funcionários
Certamente, o livro «Os ratos» não é uma leitura recomendada para quem sofre de insônia, ou para quem administra o cotidiano no empate de seus rendimentos e dívidas.
Podemos ainda ouvir as mandíbulas dos vorazes ratos devorando nossos rendimentos:
a pesada carga tributária, os aumentos constantes das taxas públicas e da gasolina, os juros do especial ...
Em a esfera de uma noite insone, podemos remontar nossos passos, julgar nossas ações e nos culpar por algumas omissões e comodismos.
A viagem literária proporciona uma visão mais ampla da trajetória.
O destino ainda é uma expectativa e é previdente que possamos analisar a viabilidade de novos rumos sem ficarmos presos às urgências diárias de nossas necessidades.
Dyonélio Machado se destacou na segunda fase do modernismo na literatura brasileira, com uma prosa intimista ou de sondagem psicológica, com a abordagem da relação do «eu» com o contexto inserido.
Além de escritor, Dyonélio foi médico psiquiatra e conheceu as obscuridades do psiquismo dos indivíduos comuns, percebeu o limiar das possibilidades, medos e anseios e, numa narrativa original, envolveu-nos definitivamente na condição de seus leitores.
Espero que a memória e a obra do escritor permaneçam imunes às mandíbulas da alienação e do esquecimento.
«Os Ratos» ganhou o Prêmio Machado de Assis em 1933.
Número de frases: 77
O que uma jovem cantora de jazz americana faz no Overmundo, que se propõe a promover a cultura brasileira?
Assim, eu mesmo me questionei antes de escrever este texto sobre Esperanza Spalding, uma americana de 24 anos, que toca baixo acústico e canta de uma forma que encanta na primeira audição.
E surpreende não só por tocar muito bem seu baixo, quebrando um tabu de que este é um instrumento essencialmente masculino no circuito do jazz, mas por também ter uma bela voz para ninguém botar defeito.
Além disso compõe e faz arranjos como uma profissional madura apesar da pouca idade.
Para completar, ela canta em três línguas diferentes:
o seu inglês nativo, o espanhol, que lhe batiza o primeiro nome, e o português.
Sim, um português com um leve acento, mas perfeito.
E aí entra a cultura brasileira.
Em o seu tão festejado segundo disco, Esperanza (o nome é simplesmente Esperanza) canta em português duas músicas brasileiras:
Ponta de Areia (Milton Nascimento e Fernando Brandt), que abre o disco, e Samba em Prelúdio (Baden Powell e Vinicius de Moraes), que o fecha.
A música brasileira, de fato, emoldura seu trabalho e nas suas composições e arranjos se percebe claramente esta influência.
Mas até aí, qual a novidade, diriam alguns?
Músicos americanos (e do resto do mundo) encantados com a música brasileira não é novidade desde os tempos de Carmem Miranda e mais ainda depois do célebre concerto de bossa nova no Carnegie Hall em 1962.
Divas do jazz americano, como Ella Fitzgerald (da qual Esperanza herdou o gosto por o " scat ") também já cantaram em português.
Então o que me despertou atenção nesta cantora que tem se tornado a nova sensação do jazz americano e já é presença confirmada no Tim Festival em São Paulo e no Rio de Janeiro em outubro deste ano?
A resposta é pura especulação e não tem a pretensão de ser verdadeira.
Esperanza Spalding é um exemplo musical (e aposto que devem haver outros) de uma interessante fusão cultural que aproxima a outrora dominadora cultura norte-americano da cultura hispano-americano e da brasileira.
O imperialismo cultural dos Estados Unidos tem perdido força na mesma medida em que o seu imperialismo político baqueia e a sua economia e moeda definham.
Em contrapartida os Eua ficam cada vez mais hispânicos e estão prestes a eleger seu primeiro presidente negro.
A cultura norteamericana, que na verdade nunca foi fechada e sempre absorveu em graus diferenciados influências estrangeiras, nunca esteve tão fortemente influenciada por a língua, costumes e modos de vida de mexicanos cubanos, porto riquenhos, brasileiros e latinos em geral.
Esperanza, mulher e negra, canta em todas as línguas americanas e compõe e toca sob a influência de estilos musicais que extrapolam a fronteira de seu país.
Esperanza traduz um lado interessante da globalização, o movimento inverso ao da dominação cultural.
Culturas consideradas dominadas invadem o domínio dos seus dominadores.
Há quem acredite que isto não muda o sentido da dominação, pois o que se exporta daqui como influência cultural é devolvido repaginado em produtos culturais ainda importados.
Mas talvez esta discussão já não importe tanto, pois tal como a miscigenação racial, a miscigenação cultural vai nos tornando cada vez menos diferentes.
E se com isto há o risco de perdermos diversidade há a esperança de que nos tornemos cada vez menos apartados e menos desiguais.
Como diz Esperanza:
«Meu nome significa «esperança» e por ela quero viver».
Número de frases: 28
Em o caldeirão de uma escritura em absoluta liberdade,
a literatura como alquimia abole as fronteiras entre a prosa e a poesia, funde o natural e o sobrenatural, o profano ao sagrado, e se lança em intensa busca do sentido metafísico do ser e da vida.
Em 1979, com A asa e a serpente, iniciou uma longa obra que até hoje continua criando:
Viagem a Andara, o livro invisível, em que transfigura a sua região natural, a Amazônia,
em Andara:
uma região-metáfora da vida em que o sobrenatural emerge em epifania.
É onde ambienta todos os seus livros.
Andara sendo a Amazônia vista com olhos
mágicos, como já foi dito, também é literatura fantástica, mas à medida que individualmente os livros visíveis de Andara vão sendo escritos, de eles surge o livro invisível, que já é literatura fantasma, segundo o autor, o não-livro, que não é escrito:
corpo de um corpo que se sonha.
Em 1980, o segundo livro individual de Andara, Os animais da terra, recebeu o Prêmio Revelação de Autor da Apca -- Associação Paulista de Críticos de Arte.
Em 1981, A noite do Curau, primeira versão do terceiro livro de Andara, Os jardins e a noite, recebeu Menção Especial no Prêmio Plural, no México.
Em 1988, Viagem a Andara, o livro invisível (
Editora Iluminuras, Paulo) reunindo os 7 primeiros livros de Andara recebeu o Grande Prêmio da Crítica da Apca.
Em 1995, Cecim publicou Silencioso como o Paraíso (Iluminuras, Paulo) reunindo mais 4 livros individuais de Andara.
Em 2001, quando a invenção de Andara
completou 22 anos, publicou Ó Serdespanto (Íman Edições, Lisboa) com 2 novos livros de Andara, apontado por a crítica portuguesa como um dos melhores livros do ano.
Em 2004 relançou, em versões finais, transcriadas, os 7 primeiros livros de Andara
reunidos nos volumes A asa e a serpente e Terra da sombra e do não (Editora Cejup, Belém).
Em novembro de 2005, publicou seu primeiro livro em Iconescritura, também em Portugal:
K O escuro da semente (Ver o Verso, Maia).
Em 2006, saiu a edição nacional de Ó Serdespanto (Bertrand Brasil, Rio).
Por ocasião da publicação dos seus primeiros livros, o autor declarou:
Prefiro interrogar os limites
e a existência da própria literatura.
E insinuar, para além da literatura fantástica,
o advento de uma literatura fantasma.
E, em recente entrevista, disse:
O natural é sobrenatural, o sobrenatural é natural.
Foi o que o Andara me revelou.
Já não faço Literatura:
faço Escritura.
O passo mais recente de Cecim em Andara, através da carência das palavras,
que o levou a eleger a forma híbrida de escritura e imagem que denominou Iconescritura,
resultaram também os livros ainda inéditos oÓ:
Desnutrir a pedra & Breve é a febre da terra.
Número de frases: 36
IRMA VAP
A Vampira que suga o sangue do próprio umbigo
A o que tudo indica, um novo nicho de mercado parece estar surgindo no cinema brasileiro, que, a rigor, tem sua história marcada por os ciclos temáticos e regionalistas.
E emprego aqui o termo «nicho» no seu sentido figurativo, qual seja o de sinônimo de " emprego rendoso e pouco trabalhoso;
uma sinecura».
Essa idéia me vem à mente depois de ler hoje no «Estadão» que a Diler & Associados (de sucessos como «Dom»,» Coisa de Mulher», Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida», entre outros) está levando para a telona, sob a direção de «Moacyr Góes (Irmãos de Fé ', ' Xuxa Abracadabra» e «Maria, Mãe do Filho de Deus "), o sucesso do palco» Trair e Coçar é só Começar», e de assistir ontem a «Irma Vap -- O Retorno», de Carla Camurati, baseado na peça que ficou em cartaz 11 anos e teve três milhões de espectadores.
Orçado em R$ 6,2 milhões e produzido por Diler Trindade, que tem planos audaciosos de produzir oito longas-metragens só neste ano e está prestes a se tornar um dos produtores mais ativos que o cinema nacional já teve, «Trair e Coçar É só Começar», que deve estrear em agosto, é uma adaptação da consagrada peça de Marcos Caruso em que Adriana Esteves vive o papel da espevitada Olímpia, a empregada doméstica que já levou mais de quatro milhões de brasileiros ao teatro.
Corroboram com essa idéia do surgimento de um novo nicho a informação também recente de que o novo filme de «Bruno Barreto, Caixa 2, cujas filmagens têm início previsto para maio próximo, será uma adaptação de outra peça, esta escrita por Domingos de Oliveira, e o lançamento igualmente recente de outra peça readaptada,» A Máquina», de autoria da mesma Adriana Falcão que assina o roteiro do filme dirigido por Camaruti, ao lado de Melanie Dimantas.
Há de se ressaltar, ainda, nessa bizarra triangulação entre o cinema, o teatro e a televisão, mas numa outra vertente, o criativo, instigante e quase experimental «Um Crime Delicado», de Beto Brant, que procura refletir sobre o teatro, a vida e o cinema.
É interessante notar que nem sempre a idéia dos produtores brasileiros de que os sucessos de palco irão se transformar em êxitos cine-cênicos de bilheteria se dá na proporção desejada.
Veja-se, por exemplo, o caso de «A Máquina», dirigido por João Falcão, que não está correspondendo às expectativas de público, tendo atingido até o momento pouco mais de 40 mil espectadores.
Aliás, isso lembra a equivocada teoria de Luiz Carlos Barreto, o Barretão, quando do lançamento de «O Casamento de Romeu& Julieta», segundo a qual a torcida do Corinthians e do Palmeiras retratadas no filme por ele produzido atingiria, fariam com a produção atingisse, por baixo, 10 milhões de espectadores.
Atingiu pouco mais de 1 milhão.
O surto do tele-teatro projetado em 35mm traz em seu bojo também o namoro entre cinema e televisão.
E isso não apenas no sentido de buscar apoio de mídia para alavancar maiores bilheterias, mas também na própria linguagem, na estrutura narrativa desses filmes."
Irma Vap -- O Retorno " é singular nesse sentido.
Guarda semelhanças com «A Máquina» e com «Se Eu Fosse Você» em vários aspectos.
No caso do primeiro, em que um programa de auditório no estilo «Caldeirão do Huck» serve de gancho para cooptar a simpatia da platéia, «Irma Vap» repete a fórmula através da inserção gratuita de um talk show com Pedro BBB Bial.
No caso do segundo, além dos atores globais, há a semelhança na repetição da já gasta piada de homens travestidos de mulheres, que não consegue tirar mais gargalhadas nem do mais descontraído dos espectadores.
Há, em «Irma Vap -- O Retorno», uma clara e derramada declaração de amor do cinema por o teatro.
Logo na cena de abertura, atores consagrados, como Marieta Severo, Diogo Vilela, Paulo Betti e Louise Cardoso, encarnando seus ' personagens ' na vida real, em participações pra lá de afetivas, desfilam em frente ao caixão do produtor -- que, atolado em dívidas, acaba de morrer, fulminado por um enfarte, frases emblemáticas de peças-símbolo dos mais variados gêneros teatrais.
Se não bastasse, o filme conta ainda com grandes comediantes em papéis praticamente simbólicos, como Arlete Sales e Francisco Milani (participações especiais), Guida Vianna, Miguel Magno, Analu Prestes e Flávia Guedes.
«Irma Vap -- O Retorno «começa com uma razoável estrutura narrativa calcada no clássico» O Que Teria Acontecido a Baby Jane?" (1962), de Robert Aldrich.
A trama norte-americano envolvendo as duas irmãs artistas e decadentes (Bete Davis e Joan Crawford, que vivem sozinhas, uma como a dominadora e outra anulada como vítima, numa relação sustentada por a loucura) é transportada para uma São Paulo de atmosfera gótica, onde os irmãos Tony e Cleide (interpretados por Marco Nanini), ele um dramaturgo numa cadeira de rodas e ela uma ex-crian ça prodígio que fez sucesso na infância com canções de Celi Campelo e hoje uma matrona controladora (e controlada por o uísque), se digladiam.
A essa trama central, superpõem-se várias subtramas, como o arremedo do Complexo de Édipo vivido por o ator e diretor Darci Lopes e sua mãe Odete (interpretação dupla de Ney Latorraca).
Com meia hora de projeção, porém, o público já percebe que o filme não vai repetir a fórmula de sucesso da peça, escrita, encenada e estrelada originalmente em 1984 por Charles Ludlam, o fundador da Companhia Teatral do Ridículo (Ridiculous Theatrical Company) -- que fez história e consolidou um gênero na Nova Iorque dos anos 70 e 80 do século passado.
Um dos trunfos da peça original estava no fato de dois atores se revezarem em oito papéis masculinos e femininos, sendo obrigados, no mais das vezes, a trocar de roupa em questão de segundos.
Uma graça que, evidentemente, só funciona no «tempo real» do palco.
Outro aspecto que fez com que esta e outras comédias de Ludlam estabelecessem uma empatia imediata com a platéia consistia em parodiar de maneira escancarada histórias de enorme popularidade no teatro, no cinema ou na literatura.
No caso de «Irma Vap», a pretensão era chegar próximo do clássico do cinema de suspense» Rebecca, A Mulher Inesquecível " (1940), de Alfred Hitchcock.
A pretensão apenas tangencia ...
A inepta narrativa do filme de Carla Camurati não honra a tradição do seu objeto de paixão, tornando-se uma obra híbrida de narrativa linear, sem o experimentalismo anagramático sugerido por título, que não honra nem o teatro nem o cinema.
A mise-en-scène beira a pieguice.
Falta fluidez à narrativa, já que não há uma perfeita concatenação dos planos, dispostos de forma confusa.
Assim, a Vampira de Camurati resulta num filme que olha mais para o próprio umbigo dos seus atores / produtores, que fizeram a história bem-sucedido da peça, ficando o espectador de fora, exposto a uma série infernal de quiprocós digna de uma Gaiola das Loucas, em que não faltam os obrigatórios planos de reação da platéia, que aparece na tela como se estivesse num picadeiro de circo.
Em o enterro do produtor, Ney Latorraca, no papel de mãe, irrompe em cena em lágrimas e, enquanto Marieta Severo, Diogo Vilela, Paulo Betti e Louise Cardoso recitam falas célebres de peças de Tennessee Williams, Shakespeare e Calderón de La Barca, ele / ela diz a frase que é uma demência:
«Eu li, leio, lerei, sou uma mulher lida."
A rigor, como bem observa Érico Fuks, a melhor cena de «Irma Vap -- O Retorno» ocorre fora do filme.
Antes dos créditos iniciais, um take deslocado do núcleo da trama mostra Carla Camurati numa sala de cinema entre Marco Nanini e Ney Latorraca, que, com os roteiros em mãos, agradecem aos patrocinadores que tornaram o trabalho viável.
E é justamente essa simplicidade cênica com cara de metalinguagem didática que dá graça a esse conteúdo introdutório.
Não se sabe se eles acabaram de fazer o filme / peça, ou se entrarão no camarim para se trocar.
A naturalidade despejada nessa cena de pouca inspiração interpretativa é desproporcional ao restante do filme. (
Número de frases: 42
Por Beto Leão)
A Bossa Nova festeja 50 anos de existência.
O ritmo, tombado como Patrimônio Cultural Carioca através do decreto 28552, por o Prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, em 2007, foi considerado, à época do seu nascimento, como uma nova forma de tocar samba, incorporando música popular brasileira aos acordes dissonantes comuns ao jazz.
Dizem que o grande «inventor» dessa mistura foi João Gilberto.
Há controvérsias.
O filme «Os Desafinados» de Walter Lima Jr., o consagrado diretor de «A Ostra e o Vento» e «Inocência», em parceria com Susana Macedo e direção musical de Wagner Tiso, mistura romance, música e a visão romântica de cinco jovens amigos brasileiros que sonham com a fama.
A fotografia belíssima mostra o Rio de Janeiro na década de 60, uma cidade cheia de encantos, onde sonhar era fácil, as pessoas circulavam por as ruas com tranquilidade, as praias eram limpas e Copacabana estava no auge com suas famosas calçadas em ondas de pedras portuguesas.
Turistas e artistas do mundo todo vinham se hospedar no Hotel Copacabana Palace.
Era uma época em que a música, a literatura e o teatro fervilhavam no Rio.
Os amigos embarcam para uma aventura em Nova York, a fim de mostrar que a música brasileira estava muito além do samba e dos balangandãns de Carmem Miranda, até então, a única referência da nossa cultura para os gringos.
Em os bares do Village, misturados aos músicos de jazz, os acordes brasileiros e americanos se fundem e se harmonizam.
Nascia a New Bossa.
Com Rodrigo Santoro, Selton Melo, Cláudia Abreu, Alessandra Negrini, Jair de Oliveira, Ângelo Paes Leme e um ótimo elenco de apoio, o filme foi premiado em Festivais de Cinema.
Em o Ceará, levou prêmio de melhor trilha sonora e um troféu especial do júri.
Em Paulínia, ganhou prêmio de melhor atriz (Claudia Abreu) e de melhor ator coadjuvante (Ângelo Paes Leme).
Em o Festival de Guadalajara, no México, recebeu o troféu de melhor fotografia, assinada por " Pedro Farkas (Não Por Acaso ").
Misturando ficção e fatos históricos, Walter fez um belo trabalho.
Sem esquecer-se de inserir a Ditadura Militar dos anos 70 no contexto, que azedou o sonho dos seus personagens e quase anulou uma geração inteira de artistas, músicos e cientistas no Brasil, obrigados a encarar anos de exílio, perseguição política, prisão e morte, o filme não perdeu a doçura.
Número de frases: 18
Afinal, falando em Bossa Nova, tudo é muito natural ...
Impulsionada por o engenho de duas artistas plásticas na Capital gaúcha a revista incentiva, promove, articula e mostra artes plásticas há quase uma década desde Porto Alegre para todo o Estado e o Brasil.
É fruto da iniciativa de Gessy Geyer e Angela Menezes, que dirigem a publicação e o Mundo Dartis, um sem número de convidados, colaboradores, apoiadores, incentivadores, fãs incondicionais de carteirinha, tais os serviços que a cada trimestre a revista promove com e para os artistas da capital e interior, entre eles cursos, mostras, workshops ...
Suas realizadoras circulam há 30 anos no mercado de artes, «complexo no mundo todo e mais neste nosso país, rico de produções artísticas por vezes desconhecidas!»,
destaca a apresentação da publicação no sítio próprio www.dartis.com.br que vale visitar e conhecer a obra de Gessy e Angela, e de artistas focados por a revista especializada.
Depois de editarem vários catálogos de rara qualidade, Gessy e Angela decidiram-se " movimentar este mercado que por vezes parece estagnado, mas que ferve, com artistas ansiosos de mostrar suas obras e poder dizer:
estou vivendo do meu trabalho artístico».
E o fizeram com reconhecidas e aplaudidas " ousadia, força e coragem ":
-- A o editarmos a Dartis, pretendemos movimentar, mudar, acontecer, tirar das mesmices este mercado que pode e deve ser de participação de todos os artistas, cada um no seu segmento sem medirmos e julgarmos suas obras.
Aberta a todos, nossa iniciativa pretende se estender por este país, suas várias culturas e atravessar fronteiras, declaram por princípio
Dartis tem sido editada trimestralmente, com qualidade e originalidade.
A revista é distribuída como cortesia em eventos culturais, galerias, de arte, museus, cafés e também por assinatura a interessados.
Por tratar da arte em geral, não querer simplesmente a atualidade novidadeira, Dartis busca ser permanente, atemporal e assim quer interessar artistas, leitores em geral, assinantes e colecionadores.
A Dartis tem sede na Rua Dario Pederneiras, 668/203
Cep 90630-090 em Porto Alegre.
Número de frases: 15
Fale com a revista por o e-mail revistadartis@dartis.com.br
Voltar aos anos 20 não é nada ruim, ainda mais quando se trata da mulher.
Uma época em que o mundo era eufórico e as mulheres ainda tinham o posto de moderna sem levantar às 7:15 da manhã.
Tinham os pés no mundo e o mundo nas mãos.
Elas não poderiam imaginar a verdade de uma mulher moderna.
Enquanto os maridos lutavam para encher a geladeira, elas lutavam para encher o coração -- de eles -- se enfeitando.
E era em alto estilo (Coco Chanel) que marcavam a elegância e silhueta.
Em os bailes os maridões esbanjavam suas melindrosas ao som do Jazz.
Não bastasse tanto luxo e o tempo caminhou.
Mas caminhou junto as agonias, ansiedades e consquistas do «eu também posso, eu também sinto, eu também degusto».
Precisou queimar soutien em praça pública pra alarmar tudo e todos que as estavam rebeldes e queriam ser as musas da sociedade.
Os anos 20, 30, 40, ...
passaram. Te a aí, estamos nos anos dois mil e mais alguns sem entender muito.
Chegamos num posto grande (coloca Grande lá no alto) mas não saímos do lugar (continuamos sensíveis, frágeis e sonhadoras).
Somos escravas do tempo sem espaço.
E hoje é assim, ser moderna é acordar todo dia pulando da cama já devorando o jornal e café.
Com volante nas mãos, salto no acelerador e coração queimando radares, chegamos ao trabalho;
mil ligações, mil vozes, mil pensamentos.
Ainda temos que permanecer lindas, cheirosas e gostosas.
Unhas bem feitas, cara pintada e alma todo dia sendo lavada.
Hoje mais que mulheres somos artistas.
Precisamos saber todo «beabá», de culinária a cabeça dos homens, de sexo seguro e delicado a sete artes.
Permanecemos (Ainda com tanta briga) num mundo preconceituoso, maldoso e infinito de mistérios.
E pior que tudo isso, é não saber aonde vamos chegar.
Conquistamos nosso espaço, continuamos em busca de direitos, deveres iguais e reconhecimento.
Então é isso aí, precisamos saber tanto e montar um machão pra falar que não sentimos.
Mas sentimos sim!
E sentimos exageradas.
A gente sente dor de depilação, dor de cólica e dor de coração.
Precisamos ser psicólogas do marido, dos filhos, dos cachorros.
Temos que trabalhar, estudar, correr e ainda fazer social.
Agora você concorda que voltar aos anos 20 não é nada ruim?
Ao contrário, seria muuuuuuuuuuuuito bom se tudo fosse como antes.
Mesmo sabendo que estou longe dessa realidade, deixei aqui meu discurso marcado, não me conformo com essa dimensão que a mulher fez do mundo de ela e hoje nada mais que vítima desse caso, estou aqui fazendo descaso enfrente ao computador (do meu trabalho) da mulher que sou.
E será que alguém mais se habilita deixar discurso?
Obs:
Hoje é sexta-feira, final de expediente, você acredita que eu vou sentar ali no bar com as amigas pra tomar um chopinho gelado e jogar confissões para os ouvidos?
que nada, depilação marcada ...
Número de frases: 38
hahahahaha. Contaminados por o mainstream é comum nos considerarmos senhores do mundo, detentores de todas as fontes possíveis de conteúdo, suficientes em nós mesmos.
E aí ouvimos o que cai em nossas mãos através dos canais convencionais.
Só que o melhor da vida é não ser convencional.
Como, por exemplo, o CD que ouvi outro dia, o «An Afro-Portuguese removeme», da Putumayo World Music.
Ele propõe uma leitura dos diversos dialetos de antigas colônias que professam a língua portuguesa como seu idioma pátrio.
Terras como Cabo-verde, Angola, GuinéBissal, Moçambique e outras que ao misturarem elementos africanos, europeus e brasileiros produziram sons e experiências entre as mais curiosas.
O que me fez gostar deste CD (além de voltar a ouvir um CD nestes tempos de mp3) foi a possibilidade de aprender muito sobre nós mesmos, a saber, ouvintes de música brasileira.
Por exemplo, como não entender o lamento do Samba quando se ouve Zé Inácio, na voz de Paulo Flores, nos contar a história de um encontro improvável que termina bem?
A os mais apressados que levantem um «Eduardo e Mônica», vale a advertência:
isso é coisa mais antiga.
Tem a ver com aromas de periferia, de tempo que passa em outro ritmo, que histórias que se contam e se passam como tradições orais.
Sinta-se, antes de num novo lugar, apenas levado de volta.
É esse sentimento que devemos ter ao ouvir artistas como:
Jorge Palma, Carlos Paredes e Danae, esta última cubana, criada em Cabo Verde e lançada em Portugal.
Vale a pena ouvir alguns trechos:
Número de frases: 15
http://www.carreirasolo.org/archives/an afroportuguese o.html Texto de Flávio Herculano
fherculano@yahoo.com.br De tempos em tempos, a Ditadura Militar retorna às telas do cinema nacional, como uma ferida que nunca cicatrizou e volta a pulsar.
Zuzu Angel, de Sérgio Rezende, é o mais novo representante desta seara de filmes.
Contudo não é apenas mais um entre tantos outros, como tenta subjulgar parte da crítica especializada.
É, sim, um ótimo filme, que tem como mérito um roteiro e uma direção eficientes, somados a atuação magistral de Patrícia Pilar no papel título.
O filme retrata o período de vida em que Zuzu Angel, uma costureira de classe média, desponta no mundo da alta costura e vê as portas do mercado internacional se abrirem à sua produção.
Isto, enquanto seu filho Stuart Angel Jones (Daniel Oliveira) se descobre revolucionário e vai às ruas, lutar contra por o restabelecimento da Democracia e contra o imperialismo americano.
Zuzu faz vestidos floridos para esposas de militares enquanto Stuart vive o negror da perseguição política.
O distanciamento ideológico evolui ao distanciamento físico, até que a morte nos porões da Ditadura separa, definitivamente, mãe e filho.
É a perspectiva da narração que faz de Zuzu Angel um grande filme, comovente quando poderia ser apenas panfletário.
O roteiro de Marcos Bernstein e Sérgio Rezende mostra uma mulher que se vê impelida a lutar contra todo um sistema político -- não por convicções pessoais, mas para ter o direito natural de sepultar o corpo do filho.
E toda a aflição da personagem pode ser sentida por o espectador, gradativamente, o que faz de Zuzu Angel um filme tenso e emocionante.
A estilista vai até as últimas conseqüências em sua luta por Justiça.
Toma para si a coragem do filho e usa de todos os métodos para se fazer ouvir em meio à censura generalizada.
Quando a indignação por a morte de Stuart evolui a uma consciência da repressão que assolava o Brasil, Zuzu emprega a moda como instrumento para divulgar sua indignação.
As cores alegres dos vestidos que faz cedem espaço aos tons escuros;
as estampas floridas são substituídas por grades e pássaros aprisionados.
Impossível não compartilhar seu choque com a realidade brasileira de então.
Impossível não sentir repulsa por a frieza e arrogância dos militares, que enxergam na personagem um inimigo e nunca uma mãe em desespero.
Em Zuzu Angel, política e emocional são dosados na medida certa.
Impossível também não causar estranheza a posição dos críticos negativistas.
Vivemos uma democracia recente, que muitos não aprenderam a valorizar por desconhecer o que representou seu lado adverso.
É válido, sim, que o cinema retorne ao tema da Ditadura;
melhor ainda se em bons filmes.
Número de frases: 24
Gabriela é uma linda jovem.
Simples. Gentil, amável, amiga.
Ela dança balé como poucas que já vimos.
O mais técnico, o mais suave, o melhor balé que você pode querer ver.
Ela desliza, parece pairar em algum lugar que constrói no ar.
Flana. Projeta-s passarinha.
É forte e firme também.
Meiga, suave, uma pluma que voeja.
O chão de asfalto da passarela do carnaval a bela no caos da comissão de frente da União da Vila do IAPI ou o palco mais cômodo do melhor teatro parecem não existir para ela.
São seu domínio.
Suas nuvens.
Gabriela é um sonho dos céus, vívido, doce, e existe.
É real.
Duramente real, no entanto.
Durante os dias, há muitos e muitos dias, demasiados dias já, Gabriela se multiplica entre aulas que dá para crianças em escolas de Porto Alegre e Alvorada, cidade vizinha da capital, tomando até oito ônibus diferentes diariamente.
É como ajuda a pagar os estudos, as despesas não pequenas dos vários festivais, das muitas viagens, além das inestimáveis aulas técnicas de dança, os custos da vida de trabalhadora da arte que é.
Que fazer?
A bailarina gaúcha Gabriela Vieira Xavier, de 19 anos, foi aceita para cursar uma das melhores companhias de balé clássico do mundo:
a American Ballet Theatre.
Ganhou uma das apenas duas vagas reservadas para bailarinas brasileiras.
Ela vem despertando a atenção em festivais de dança diversos no Brasil e sendo reconhecida por mestres do balé em nosso país e na América Latina como uma das melhores bailarinas da nova geração.
Em 2007, Gabriela foi primeiro lugar no Festival Interamericano de Dança (CIAD), em Buenos Aires.
Dança desde 1998 no Ballet Elizabeth Santos, de Porto Alegre, se apresenta em espetáculos anuais desde criança, quando inicia intensa e vitoriosa jornada aos dez anos idade.
Interpreta clássicos.
Já foi Gisélle (em Gisélle), Swanilda (em Copélia) e Aurora (em A Bela Adormecida).
Le grand Jeté an Avant ...
no escuro
Gabriela vive um intenso drama.
Dar continuidade a essa linda e brilhante trajetória de oferecer a ternura, a paixão mesma, o encantamento, o belo ao público.
Ela não tem patrocínio.
A família se esmera, a incentiva, a ampara.
Tem parcas posses.
Elizabeth Santos, uma orientadora exemplar e dedicada de Gabriela, professora bailarina competente, extremosa, incentivadora, lutadora desprendida como raras, calcula os gastos de taxas e passagens e despesas para obter o visto na embaixada dos Estados Unidos em São Paulo e a passagem para a capital paulista no dia da viagem para os Eua e lá permanecer na temporada do curso.
Algo em torno de US$ 10,100 (Curso no American Ballet Theatre: U$ 2,750. Hospedagem: U$ 2,250. Material e alimentação: U$ 2,200. Passagem: U$ 1,100.
Avalia Elisabeth, crédula e firme, que o talento, a dedicação, a perseverança e o amor da jovem por a dança clássica, principalmente o notabilíssimo desempenho da menina merecem a oportunidade.
Gabriela encanta com técnica precisa e preciosa interpretação.
A os 14 anos, era aprovada na seletiva do Balé Bolshoi do Brasil.
Foi primeiro lugar em quase todos os festivais de que participou:
o Porto Alegre em Dança, o CIAD, o Festival de Joinville, o São Leopoldo em Dança, entre outros.
A os 15, recebeu o prêmio de destaque no Porto Alegre em Dança.
A os 17, começa a preparar a carreira internacional, iniciando árduo trabalho técnico.
Um cotidiano de duas horas de ensaio pela manhã, duas à noite, além de quatro a cinco horas de ensaio e aulas nos finais de semana.
Em 2006, esta nossa prima ballerina vê o árduo trabalho recompensado.
É selecionada para o maior festival de dança da América Latina, o de Joinville, em Grand Pas de Deux La Fille Mal Gardeé.
Em 2007, em junho, conquista o primeiro lugar do Festival de Dança de Buenos Aires, consagrada por a crítica como melhor bailarina daquela programação.
Era a única representante do nosso país na competição.
O prêmio:
duas passagens para os Estados Unidos.
Em São Leopoldo, foi aclamada como melhor bailarina do festival por a unanimidade do júri, por melhor performance clássica.
Em o Festival Bento Gonçalves em Dança, em outubro, conquista o primeiro lugar em todas as categorias que participa:
melhor conjunto do festival e melhor pas de deux com o partner Kauê Kaleshi.
Eu não sou além de apreciador de dança.
Apenas me extasio com ela.
Eu não sou conhecedor em profundidade da arte, mas é belo desempenho de Gabriela.
Eu não posso fazer muito por essa digna bailarina brasileira, tão difícil quanto a vida de ela e da família de ela é a minha, mas eu a admiro por o esforço, por a garra, por a técnica e por a beleza.
E a louvo.
E grito aqui a plenos pulmões:
Bravo, Gabriela!
Bravíssimo!
Para contatar Elizabeth Santos ou Gabriela Vieira elizabethsantos.Rs@ig.com.br
Número de frases: 60
bielavieira@yahoo.com.br Gostaria de deixar bem claro que eu sou uma pessoa que se considera meio atarefada demais (talvez mais confusa do que atarefada, mas o argumento é o mesmo);
que eu nunca remixei nada na minha vida além de pepino com cenourinha no mixer Walita lá de casa;
e que eu não fui na apresentação do Tiesto na Praia de Ipanema ou na do FatBoy Slim no Recreio.
Logo, eu sou como você.
Com a diferença que eu dei o primeiro passo.
Nunca tive ouvido absoluto.
Acho que todos os metais têm sons praticamente iguais e que na música clássica ter mais de dois violinos na orquestra é um retumbante exagero.
Músico portanto nunca foi uma opção no teste vocacional.
Mas eu sempre gostei de música.
Em a adolescência eu flertei com a dance music (antes de ela virar música de academia) e vi crescer a cena clubber.
Em o início achava estranho uma música prescindir de um bom refrão e viver só daquela batida meio arrastada.
Depois veio do drum-n-bass, o trip-hop e eu aos poucos enchi a paciência disso tudo e comecei a gostar desse tal de indie rock.
Essa pequena biografia musical serve para mostrar que eu não entendo nada de música.
Mas serve também para deixar claro que lá em casa nada se faz se o som estiver desligado.
Sempre fui um «usuário» de música, um apreciador de um estilo qualquer, mas sempre à distância das músicas que gostava.
Nunca pensei em música como estrutura até ouvir direito o «Love Theme», do Barry White, num programa de música romântica para casais separados no sábado à noite.
Já reparou como na harmonia da música tem um barulhinho meio arrastado lá no fundo que se repete a cada dois segundos?
Pois é, isso mudou a minha concepção de mundo.
De aí para a frente eu comecei a prestar atenção na estrutura das músicas.
A música eletrônica, é claro, foi a primeira a se mostrar por dentro, com os seus loops e arranjos pré-programados.
Mas essa percepção ainda estava muito longe da experiência de efetivamente fazer qualquer coisa que assemelhasse a um remix.
Com a expansão da Internet e o desatrelamento da música com relação à cópia física, eu percebi que já existiam uns programas que permitiam ao usuário doméstico brincar com a estrutura das músicas.
Sabia que alguns artistas estavam licenciando suas músicas, ou até mesmo os samples que as compunham, na Internet.
Achava tudo muito interessante, mas a exibição da semifinal do Vale Tudo na TV a cabo ou a entrega de um prazo na faculdade nunca me permitiram uma dedicação maior a esse novo tipo de relacionamento com a música que a tecnologia abriu para o usuário comum.
Até que apareceu o Overmixter.
O primeiro passo que dei nesse negócio de remix foi descobrir que no site do Overmixter (tá, eu sei que você conhece o link) existem diversos samples de diversas músicas de diversos artistas.
Desde músicas inteiras até apenas uma linha de baixo, uma percussão, uma batida, um vocal a capela e etc..
Baixei alguns arquivos para o meu computador e então pensei:
legal, e o que eu faço com isso?
Um amigo me indicou o Audacity, um programa muito amigável de gerenciamento de arquivos de áudio (audacity.
sourceforge. net).
Com o Audacity, fica muito fácil recortar uma parte de uma música e misturar com samples retirados de outros arquivos de som.
O primeiro projeto de remix, chamado «Bimbala Bimbolo», tinha uma batida funk, um tambor africano e um vocal de desenho animado.
Ficou parecendo uma música, uma música ruim, diga-se de passagem, mas ainda assim valeu a pena.
Como todo poeta de colegial, músico de porão e pintor de prancheta, eu logo quis mostrar a minha obra de arte aos amigos.
Se você não tiver talento para remixar, vale a pena usar os samples do overmixter para testar a fidelidade dos seus amigos.
Os meus disseram que estava o resultado era engraçado (nunca soube se engraçado era o fato de uma pessoa com ouvido torto como eu ter remixado alguma coisa ou o remix em si).
Passados alguns meses desde a minha primeira experiência, eu fiz outras coisas.
Aprendi a usar alguns efeitos bem legais do Audacity como inverter um trecho de música, gerar o efeito de eco, de fade in ou fade out etc..
É impressionante o que a lógica do CRTL-C / CTRL-V pode fazer com pedaços de áudio.
Vale a pena experimentar alguns samples do site do overmixter e com um programa de áudio como o Audacity em mãos começar a colocar uma coisa por cima das outras, a cortar e colar e a preencher os silêncios com efeitos dos mais diversos.
Nada muito diferente do que se fazia nas aulas de artes plásticas no colégio.
Ainda ensinam artes plásticas no colégio?
Agora deveriam ensinar a remixar.
* Esse texto possui o único e exclusivo objetivo de mostrar às pessoas em geral as maravilhas do mundo do remix.
Número de frases: 45
Quanto mais pessoas tentarem remixar maior será a probabilidade da minha tentativa não ter sido a pior.
Como muita gente já sabe, embora até alguns piauienses ignorem, Oeiras foi, durante 93 anos (1759/1852), a primeira capital do Piauí.
Por a seriedade, pompa e circunstância com que comemora o seu calendário religioso, atualmente ostenta, com méritos, o título de «Capital da Fé».
Mas o maior herói de Oeiras, apesar de incensado e, mesmo, adorado por alguns oeirenses, e, ainda que católico praticante, não era nenhum líder messiânico.
Penso muito em como deve ter sido a sua juventude, que não há vivente que dê conta de ela, mas Possidônio Queiroz (1904/1996) tornou-se, nos últimos 50 anos de sua vida e até hoje, um exemplo e uma referência para todas as pessoas que com ele conviveram e, mesmo, as que, como eu, não desfrutaram deste prazer.
Negro, intelectual autodidata, Possidônio, numa visão apressada (e certamente preconceituosa) poderia parecer a quem não o conheceu, uma espécie de «Pai Tomás», um» preto de alma branca " que abandonou as referências étnicas para assumir a ideologia dos senhores de escravos.
Cidadão exemplar, respeitador das leis e das autoridades, apaixonado por Oeiras, membro do Rotary Clube da Cidade, flautista de grande talento, compositor de lindas valsas, discursador incansável, professor emérito, rábula (advogado não diplomado), sócio fundador do Instituto Histórico de Oeiras -- IHO, Possidônio, que chegou a ter uma livraria em pleno Mercado Municipal de Oeiras, atendia a todos que o procuravam com a mesma atenção e respeito, fosse um matuto que lhe pedia para escrever uma carta, fosse um político que encomendava um discurso.
Dava especial atenção às crianças, a ponto de largar tudo o que estava fazendo só para atendê-las, o que, muitas vezes, exasperava os adultos que disputavam sua atenção.
Em 1987, Oeiras recebeu as visitas de Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, e de sua filha (com Olga Benário), Anita Leocádia.
Em 1926 a Coluna Prestes havia passado por Oeiras e o jovem Possidônio Queiroz confraternizara com os revoltosos.
Coube a ele, como era de se esperar, o discurso de boas vindas aos ilustres visitantes.
Em seu agradecimento Prestes disse que não estava acostumado a ser tão bem recebido como o foi em Oeiras.
Anos depois, Anita Leocádia escreveu uma carta rememorando o episódio e falando da profunda emoção que se apossou de ambos, pai e filha, diante do discurso de Possi, como muitos o chamam, até hoje, carinhosamente.
Uma das coisas de que posso me orgulhar, com toda a certeza, é de ter tido a sensibilidade de editar um número do tablóide «O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil inteiramente dedicado a Possidônio Queiroz em 2004», ano em que se comemorou o centenário do seu nascimento.
Quando, ainda hoje pela manhã, me dispus a escrever sobre ele, um ícone oeirense de primeira grandeza, não imaginava o quanto é complicada a tarefa que me impus, pois, quanto mais escrevo, mais sinto necessidade de contar histórias que demonstrem outras das múltiplas facetas de sua personalidade.
A ponto de eu estar convencido de que não obterei mais que uma pálida descrição de pessoa tão radicalmente incomum e do papel que ele representa no imaginário coletivo dos oeirenses, ainda que gaste milhares de palavras.
Mesmo esta pálida imagem, no entanto, considero reveladora de um grande vulto da nossa história, não sómente de Oeiras, mas do Piauí e do Brasil.
Mais do que isso, a existência de Possidônio Queiroz, sem sombra de dúvidas, valorizou sobremaneira a tão (e por tantos) enxovalhada Humanidade.
«Possidônio Músico
«Eu o defino como um músico de extremo talento, um talento extraordinário, uma inventiva fora de série.
Porque você vê uma pessoa que viveu a vida toda aqui em Oeiras, longe dos meios de comunicação, sobretudo naquela época, há 40/50 anos ele conseguiu fazer uma obra duradoura.
Possidônio não teve estudo, foi autodidata com a música, então posso dizer que a obra de ele é de um grande aspecto intuitivo.
Ele produziu uma obra pequena, o que a gente conseguiu recolher foi pouco, mas como ele mesmo nos disse, os cupins comeram muitas coisas.
O que a gente conseguiu resgatar é de extremo valor.
E tenho certeza que é uma obra que merece ser conhecida até no exterior e, chegando lá.
vão dar o devido valor."
Maestro Emmanuel Coelho Maciel O herói de Oeiras foi um eximio flautista e, no final da vida, teve reconhecida sua obra musical enfeixada no CD «Valsas Piauienses», mas eu sempre reluto em ressaltar seus dotes musicais por receio de empanar, aos olhos dos leitores, os demais aspectos de sua personalidade fascinante.
Afinal, grandes músicos há inúmeros, muitos, inclusive, até com maior talento do que o de ele, musicalmente falando.
Possidônio, no entanto, é exemplar único em termos de caráter e formação, também autodidática, humanista.
Em 1973, aos 69 anos, já deixara de tocar sua flauta há mais de dez anos, mas ainda conservava o instrumento com si.
Um de seus filhos, Francisco Queiroz, também músico, residente no Rio de Janeiro, pediu-lha flauta.
A carta, abaixo transcrita, de autoria do, como ele se auto-intitulou, «Pai Amigo», transmite bem a sua emoção ao desfazer-se do instrumento:
«Oeiras, 11 de fevereiro de 1973 Querido filho, Francisco Queiroz
Abraços Recebi seu telegrama há dias.
Ciente. Estou remetendo a flauta por o nosso bom amigo Ferrer.
Vai aos cuidados do Queiroz Neto porque não tenho o seu endereço novo (mande-o) e porque ao Raimundo é mais fácil do Ferrer encontrar.
Há muito tempo não via a nossa flauta.
Parece que ainda está boa.
Creio mesmo que as sapatilhas não precisam ser mudadas por já!
Não sei.
Aí você verificará.
Antes de embalá-la, os meninos todos fizeram uma festa de despedida.
Cada qual queria dar uma sopradinha.
O Carlinho foi o mais interessado.
Depois de dar um banho de álcool nas duas cabeças entreguei a eles.
Carlos queria tocar sem nunca haver estudado antes.
E quando pus o instrumento na caixa e fechei, ele tratou de fazer uma flautazinha com um pedaço de cano que encontrou.
Gostaria que Carlos estudasse flauta, ou outro instrumento e até fizemos um «Contrato» hoje de ele estudar um pouco de música pra depois a gente ver o que se pode fazer.
O estudo da música tem caído aqui.
Peço-lhe, quando tiver tempo, indague o preço de um bandolim nas casa do ramo.
Já falei com Ceiça e Vanda para que elas também estudem um pouco de música.
Em o momento da despedida, tentei arrancar algumas notas mas, a contragosto, verifiquei que a flauta já não me conhecia, ela que outrora foi uma amiga inseparável.
Que sons bonitos, maviosos ela me fornecia! ...
Ficava, muitas vezes, noite velha a dentro a manejá-la encantado com o que ela me dizia.
Doce ao extremo, requeria um sopro suave, fraco, porque do contrário ela gritava magoada.
Em os graves uma beleza encantadora.
Notas cheias redondas, magníficas.
Em os médios uma riqueza de doçura que se assemelhava ao violino.
Em os agudos afinadíssima e agradável sobremaneira ao ouvido.
Hoje me não quis satisfazer.
Também, há mais de doze (12) anos não tocava.
Assim mesmo pude arrancar-lhe quase a contragosto de ela, umas cromáticas e uns trenos saudosos que constituíam os meus estudos dos tempos de mocidade.
Estude e quando vier por aqui, traga-a, ou então alguma gravação de trechos tocados em ela.
Quero ouvi-la, como outrora.
Não mando um método porque não encontrei.
Não sei se ainda possuo algum.
Isso é fácil encontrar por aí.
Tome um curso de flauta.
Pode muito bem adquirir neste instrumento que Márcia criou, a virtuosidade que possui na clarineta.
Escreva.
Nada de novo por aqui, só a posse do Dr Pedro Freitas no cargo de Prefeito Municipal, como sucessor do Dr. Juarez Tapety."
Agora um forte abraço.
Os meninos todos mandam muitas lembrança.
Mãe Chiquinha vai bem, todos vivendo.
do Pai Amigo
Número de frases: 75
Possidônio Queiroz Presente em diversos países, o carnaval é uma celebrações de múltiplas facetas.
O povo ganha as ruas e lugares das cidades.
Muitos portam fantasias e adereços (apenas alguns se vestem como em seus dias cotidianos).
A música soa por toda parte, e não raramente, diferentes músicas se sobrepõem umas às outras.
Há cor, riso e alegria no ar, além do perfume de bebidas alcóolicas e do suor das pessoas que se aglomeram para celebrar.
A descrição acima se encaixa perfeitamente nos diversos tipos de festas carnavalescas existentes por o Brasil afora.
Mas, se de um lado, diz o dito popular que o Brasil é a terra do samba, por outro, quase todo o planeta é terra de carnaval.
Desde as Américas, passando por a Europa, Oceania e, mais recentemente, até algumas tímidas encenações na Ásia, o carnaval é -- ao lado do Natal e do Ano-Novo -- uma das grandes celebrações da humanidade.
Mas talvez nenhuma de elas superem o carnaval e em termos de festa e de alegria:
em suas diferentes facetas, o carnaval é definitivamente a celebração que mais energia dispende de seus participantes.
A festa e suas origens
Mundialmente conhecido como carnaval -- com apenas poucas variantes, tais como carnival, em inglês, e carnavale, em italiano -- o termo tem sua origem do latim carnem levare que literalmente significa «abstenção da carne».
Em princípio sem nenhuma conotação metafórica, o abster-se da carne refere-se ao período de penitências e sacrífícios do cristianismo (em especial, o católico), isto é, a Quaresma, que se inicia na Quarta-Feira de Cinzas e termina na Sexta-Feira da Paixão.
Tradicionalmente, o carnaval é comemorado na terça-feira que antecede a Quaresma:
tendo em vista o aspecto sóbrio -- inclusive dietético -- que se instalará durantes estes quarentas dias, a véspera da Quarta-Feira de Cinzas é o dia do «bota-fora».
Durante a Idade Média, esta terça-feira foi a ocasião na qual toda e qualquer carne presente numa determinada casa deveria ser consumida de uma só vez e numa grande festança (por isto ela é batizada como Terça-Feira Gorda).
Este fato é parte da explicação para o caráter orgiástico que o carnaval tem em alguns lugares.
Outra explicação possível da festa, apesar de carecer de fundamentação histórica, é que o carnaval tem suas origens na cultura romana da Antigüidade, onde certas festas populares (como chegada da primavera, as saturnais e o culto a Apolo) giravam em torno de uma espécie de totem móvel chamado carrus navalis.
Tal como ocorreu com o Natal, o carnaval pode ter sido uma festa tipicamente «pagã» assimilada durante os primeiros séculos da era cristã.
Sua possível ascendência na cultura greco-romana é, inclusive, a explicação de um personagem-símbolo do carnaval brasileiro:
o Rei Momo.
Tido como a personificação do sarcasmo, tanto na Grécia como na Roma antiga, Momos (ou Momus) era uma divindade que surgia em festas e comemorações.
Apesar do termo carnaval se referir especificamente à Terça-Feira Gorda, o período carnavalesco muda conforme as diferentes tradições.
Se no Brasil comemoramos o carnaval desde a noite de sexta-feira que antecede a Quaresma (e nos últimos tempos, como na Bahia, já adentrando na própria Quaresma), a festa tem sua extensão máxima, ao menos religiosamente, entre o Natal e a Quaresma.
Em Colônia, na Alemanha, há um curioso carnaval no dia onze de novembro (11/11) que começa às 11h11 min, e em Munique a celebração é, por sua vez, realizada no dia da Epifania (6 de janeiro).
O carnaval mundo afora
Seja qual for a origem do carnaval, uma coisa é certa:
seu berço encontra-se sob solo europeu.
Sua ligação com o cristianismo fez de ela uma celebração que pode ser encontrada em diferentes países, cada qual festejando de um modo que pode ser entendido como um reflexo do inconsciente coletivo de sua sociedade.
De entre as diversas festas encontradas no Velho Mundo as mais globalmente conhecidas são as de Cádiz, na Espanha, e o de Veneza, na Itália.
De um lado, o carnaval de Cádiz mantém-se como uma festa do presente, viva e que ainda hoje mobiliza sua população.
Por outro lado, o famoso carnaval de Veneza atém-se a tradições seculares, promovendo seus desfiles de mascarados à la século XVIII, apesar de outros tipos de atrações que a prefeitura promove para segurar o turista na cidade após o sumiço dos elegantes travestidos.
A origem cristã-européia é a chave para a compreensão da disseminação do carnaval mundo afora.
Praticamente todo país que viveu sobre a influência de nações católicas desenvolveram, em maior ou menor medida, o hábito de comemorar o carnaval.
Isto explica, por exemplo, o famoso Mardi Grass (ou Terça-Feira Gorda) de New Orleans, cidade norte-americano berço do jazz e que sofreu uma forte influência da colonização francesa.
Em a América Latina o carnaval é uma festa presente em países como a Bolívia (e seu " Carnaval Oruro "), México, Colômbia, Honduras e Trinidad e Tobago, todas elas com suas origens em festividades espanholas.
Com o Brasil não foi diferente, e apesar das múltiplas manifestações do carnaval ao longo dos tempos e do território brasileiro, é historicamente clara as origens portuguesas de nossa folia nacional, entre as quais, o entrudo, que tem suas origens na corte portuguesa do século XVII.
Considerado um tanto brutal -- pois as pessoas eram alvejadas por bixigas de animais recheadas dos mais diferentes tipos de líquidos -- a tradição do entrudo é ainda presente nos dias hoje, na forma dos modernos sprays de espuma, serpentidas e pistolas d' água.
E é por a soma entre a tradição de hábitos imemoriáveis e o anseio presente de celebração e desforra que o carnaval mantém-se mundo afora como uma das mais contagiantes manifestações de alegria da humanidade.
Número de frases: 39
Sempre fui encucado com a África.
Isso acontece por razões que partem do pessoal e extrapolam a curiosidade inerente ao ser humano.
Desde bem pequeno vivia perguntando pra minha mãe como era possível aquela mistura na nossa família.
Ela branca, meu pai preto, meus irmãos e eu «moreninhos».
Nunca fui muito parecido com meus primos de um lado ou do outro.
E isso, pra uma criança, é algo muito estranho.
Cresci pensando nessas coisas e comecei a desvendar o mistério da negritude através da música.
O rap, o funk, o bom e velho pagode.
Sons que sempre me cercaram e que traziam algumas informações das terras além-mar.
Nunca soube de nada através da escola.
A maioria dos professores de história só se lembra da África graças à escravidão, triste referência.
A gente cresce sem menor ligação com nosso passado e segue assim caso algo especial não aconteça.
A tal coisa especial pode vir de várias formas, em diferentes níveis e diversas vezes.
A minha mais recente aproximação com a terra mãe da humanidade aconteceu de forma inusitada.
Recebi um telefonema me convidando pra cantar na festa de independência de Cabo Verde.
A data, comemorada dia 5 de julho, acaba de completar 33 anos.
Uma história muito recente, e exatamente por isso, cheia de possibilidades.
Minha surpresa foi descobrir que a data era comemorada aqui no Rio de Janeiro.
Sabia que existia um número considerável de Cabo-verdianos morando na cidade, mas não fazia idéia da articulação dessa rapaziada.
Também não entendi o porquê, mas muitos de eles estudam na Universidade Santa Úrsula.
O evento aconteceu na última sexta-feira, no teatro da faculdade, onde a platéia pode assistir apresentações de dança, música, poesia e um desfile de moda.
Já havia participado de outros eventos ligados à cultura africana, principalmente festas religiosas.
Mas o que torna esta festa especial é ser toda feita por cabo-verdiano para cabo-verdiano.
Tive o privilégio de ser o único brasileiro a pisar no palco aquela noite, e era um dos pouquíssimos que estavam na platéia.
Cantei rapidinho, três músicas, e desci pra assistir as apresentações de Funu nu e Kuduro -- que eu pensava ser exclusividade angolana.
Conforme as músicas iam tocando, nas apresentações ou nos intervalos, a platéia cantava, dançava e interagia com toda euforia possível.
Eu me sentia cada vez mais ignorante, não sabia quem eram os artistas, muito menos as letras das músicas ou a forma de dançar.
E parecia que eu era o único a não saber de nada!
Mas consegui perceber que muita coisa do que tocou lembrava música brasileira.
Eram sons cheios de sintetizadores eletrônicos, timbres e levadas que cairiam perfeitamente numa Lambada ou num Calipso.
Por um instante acreditei que a ligação entre Brasil e Cabo-Verde acontecia por uma ponte que passava por o Caribe.
O desfile de moda foi um dos pontos altos da festa.
Os modelos, homens e mulheres, causavam frisson!
Não eram profissionais, mas amigos do pessoal que estava ali na festa.
E essa foi a grande fórmula de sucesso do evento.
Eram eles por eles, e pronto.
A noite foi coroada com a apresentação de uma banda (deixei escapar o nome, não tinha pretensões jornalísticas naquela noite) formada por os organizadores da festa.
A platéia cantava as letras em coro.
O show começava no palco e invadia o teatro inteiro.
A última surpresa surgiu no repertório deste show de encerramento.
Em meio a uma variedade de sons os músicos atacaram com um fado.
Talvez tenha sido o tal fado a música mais festejada da noite.
Confesso que era a última coisa que esperava escutar naquela festa.
Mas a situação me fez lembrar que a nossa ligação com Cabo-Verde tem a colonização portuguesa como ponto comum.
Em o fundo, no fundo, vivemos nesse caldo cultural no qual não se sabe muito bem quem influenciou quem.
E a abertura pra esse diálogo é a grande graça
Em o fim das contas, com fado e tudo mais, percebi que a independência comemorada ali ia muito além da política.
Era a festa de uma galera muito bem resolvida.
Que enxerga o Brasil como referência e oportunidade para uma formação bacana, mas que de tempos em tempos alimenta suas raízes.
Sem crise, sem cerimônia.
Número de frases: 50
É independência sem morte, pele preta sem corte, cintura sem porte, mais talento do que sorte.
Vizinho Mamute Nada pior do que ter um imbecil como vizinho.
Aquele homem gordo, alto, feio e extremamente mal-educado era tudo o que não se quer aturar num domingo à tarde.
Trabalhava por a madrugada e logo pela manhã chegava incomodando a todos com aquela voz alta e com um sotaque carregado que fazia doer os nervos.
Ele gritava por outros vizinhos (quase tão chatos quanto ele), pedia a mulher (que heroina!!)
pra trazer mais uma cerveja e outro prato de tira -- gosto.
Algumas crianças que ficavam por ali tinham quase certeza de que ele em algum momento de sua vida, provavelmente bêbado, havia engolido um microfone ...
Como era irritante ouvir aquele mamute vibrar por ter vencido uma emocionante partida de dominó ...
Eu odeio dominó!!
Certo dia desses, lá por as 6 da tarde, o paquiderme gritava como de costume só que com um ar de violência, queria espancar um comparsa de sua laia por discordarem no futebol.
Eu ali calado no 3 andar assistia ao show de horrores de mais um domingo com uma angustia terrível.
Lá embaixo seres bizarros, na tv um outro gordo insuportável falando Oh loco meu, e no outro canal um débil mental dançando a dança do passarinho ...
Só o que se podia fazer naquele momento era acender um cigarro, tomar umas cervejas e aumentar meu som com um rock and roll antigo que abafasse o som do carro no volume máximo oriundo da profundeza daquele abismo e, pra piorar, eles ouviam brega, pagode, forro da calcinha preta e outras tantas baboseiras que pessoas simples são obrigadas a agüentar devido à má educação que desfila sorrindo por ai.
Um dia eu ainda compro uma espingarda ...
vocês vão ver!
Número de frases: 15
O Dicionário da Música Popular em Santa Catarina se configura como um dicionário virtual elaborado a partir do projeto desenvolvido por o Núcleo de Estudos Poético-Musicais (NEPOM) do Centro de Comunicação e Expressão (CCE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
O dicionário é fruto de um projeto da Profa..
Dra. Tereza Virginia de Almeida firmado, em 2004, durante a Mostra Floripa em Composição (evento promovido por o NEPOM), entre o NEPOM, criado e coordenado por a mesma Profa..
Dra. Tereza Virginia de Almeida, e o Instituto Cultural Cravo Albin (ICCA), sediado no Rio de Janeiro, sendo realizado, no entanto, por o trabalho de bolsistas de iniciação científica da UFSC.
Atualmente, os verbetes são produzidos e assinados por uma equipe de pesquisadores ligados ao NEPOM.
A despeito do fato de que essa relação resultou pouco produtiva, o Dicionário da Música Popular em Santa Catarina foi elaborado mais ou menos segundo o modelo do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, exceto quanto aos critérios de registro dos nomes que informam os respectivos dicionários:
o Dicionário da Música Popular em Santa Catarina tem como critério para a inclusão de verbetes de artistas agentes atuantes ao menos um ano na cena musical catarinense, desde de que se acentua o processo de massificação assistido no Estado a partir principalmente dos anos 80.
Essa diferença se justifica por os mesmos motivos que influenciaram a criação do Dicionário da Música Popular em Santa Catarina.
De acordo com a coordenadora do NEPOM, as transformações culturais correntes a partir dos anos 1960, permitem «rastrear uma história da música popular brasileira intimamente relacionada com a complexificação dos meios de comunicação massivos».
Este processo implica na «crescente complexidade das questões relativas aos processos de circulação de bens culturais entre os grandes centros urbanos e os diferenciados espaços que lhes são periféricos, bem como na divisão desigual entre os territórios no que diz respeito aos papéis de produtores e consumidores de bens culturais».
Desta forma, «a criação de bens simbólicos se torna dependente de aparatos tecnológicos restritos aos grandes centros urbanos e, mais especificamente, ao eixo Rio-São Paulo», ocasionando uma invisibilidade histórica de diferenciadas formas de manifestações culturais, a exemplo da música, cuja produção enfrenta a concentração das gravadoras nas grandes metrópoles.
Portanto, «a idéia é produzir, através de verbetes, um mapeamento do cenário musical no momento em que se dá em Santa Catarina um nítido processo de desenvolvimento e profissionalização dos meios massivos de comunicação».
Isso sem ignorar que, com a consolidação da Internet como forma de divulgação e circulação musical e seu acesso crescente, o Dicionário da Música Popular em Santa Catarina testemunha a possibilidade de circulação nacional e internacional da produção musical catarinense.
Para tanto, o projeto, que surgiu com a percepção de música popular de qualidade no Estado, ou pelo menos, de formas de recepção criativa dos produtos do eixo Rio-São Paulo, sem visibilidade, contudo, no Brasil e mesmo em Santa Catarina, depende do desenvolvimento de entrevistas e consultas realizadas por os pesquisadores para a confecção dos verbetes, bem como para o enriquecimento do acervo do NEPOM, detentor de uma quantidade significativa de depoimentos de agentes em torno do campo musical e de suas condições de circulação no Estado.
A proposta consiste em desdobrar o projeto em pesquisas e reflexões que possibilitem a visibilidade de uma história ainda muito pouco conhecida.
Número de frases: 15
Quando se fala em Boi-Bumbá no Amazonas, o que vem à mente é o Festival Folclórico de Parintins, com a peculiar rivalidade entre o Garantido e o Caprichoso, o boi branco e o preto, respectivamente, e seu espetáculo grandioso, televisionado, que atrai turistas do mundo inteiro.
Nem os próprios manauaras sabem que a tradição do boi no Estado começou aqui mesmo, na capital, trazida por maranhenses ainda no século XIX.
O curta-metragem em vídeo «Bois-Bumbás de Manaus -- Brinquedo de São João», de Sérgio Ivan Gil Braga, chega com uma proposta didática, para mostrar o passado e o presente dessa tradição popular no Amazonas, mas também é um exemplo de como a Universidade pode -- e deve -- dialogar mais com as comunidades que a cercam.
Em a verdade, esse trabalho de pesquisa já vinha sendo desenvolvido por Sérgio, professor do Departamento de Ciências Sociais e do Mestrado em Sociedade e Cultura da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mas acabaria se transformando num estudo cujo alcance ficaria limitado à Academia, como acontece com a maioria dos projetos de pesquisa das universidades.
Em o ano passado, entretanto, ao se deparar com um edital para projetos culturais da Fundação Villa-Lobos (FVL), o professor teve a idéia de transformar a pesquisa num documentário e inscreveu o projeto.
Acabou sendo selecionado.
«Está sendo uma experiência muito boa, porque dá mais visibilidade à Universidade, a aproxima mais da comunidade», resume o diretor.
Para realizar o documentário, Sérgio convidou a Bacamarte Produções, do videomaker Danilo Egle, aluno do curso de Comunicação Social da Ufam, que ficou empolgado com o projeto, o primeiro documentário de que a produtora participou.
«O vídeo está bem embasado, e traz imagens diferentes de Manaus, uma realidade nua e crua», argumenta.
O contato com a cultura popular e as idiossincrasias da periferia manauara são os grandes atrativos do documentário, no registro dos grupos em festas de rua, feijoadas na calçada, o povo dançando, e o sentimento de revolta contra os grupos da cidade que tentam imitar o boi parintinense.
Espetáculo e folclore
Imitar o boi praticado em Parintins, para esses grupos que defendem a tradição folclórica, significa se render ao mercado dos grandes espetáculos, ceder diante de exigências que às vezes subvertem valores importantes para a identidade dos bumbás.
A música, por exemplo, foi abandonando seu caráter mais percussivo, cru, para ganhar efeitos de teclado, linhas de metais e trejeitos de guitarradas.
Outro exemplo é a escolha da tonalidade das cores de alegorias e da iluminação pautada por as exigências técnicas de uma transmissão televisiva.
Eu já presenciei uma reunião entre os dirigentes do Garantido e do Caprichoso com o governador Eduardo Braga, o secretário de Cultura, Robério Braga, e representantes da Rede Calderaro, filiada ao SBT e responsável por a transmissão do Festival Folclórico para a Região Norte.
Para melhorar a qualidade das imagens televisionadas, o pessoal da TV queria que os dois grupos folclóricos não utilizassem as cores vermelha e azul na iluminação do bumbódromo.
Para quem não conhece o Festival de Parintins, essas são exatamente as cores que caracterizam o Garantido e o Caprichoso, respectivamente.
Voltando a discussão para Manaus, alguns dos personagens dos bumbás da capital lamentam o fato de que dos nove grupos da cidade, seis já estejam se tornando «clones» do boi parintinense.
Durante muito tempo, a principal crítica em relação ao boi amazonense era a de que ele estava se tornando muito parecido com o carnaval, devido a essa transformação do brinquedo em espetáculo, mas o professor Sérgio Ivan garante que esse lado do espetáculo não vai conseguir tirar a identidade da festa, que ainda mantém personagens, batidas e narrativas tradicionais.
Passado e presente
O boi-bumbá chegou a Manaus ainda no século XIX, trazido por os imigrantes maranhenses, e tinha nos bairros da Cachoeirinha e Beco do Macedo seus principais núcleos de atividades.
A pesquisa de Sérgio conseguiu resgatar registros que datam de 1859, com anúncios que mostram, por exemplo, a venda da língua do boi, uma das tradições da brincadeira.
Uma particularidade do boi da capital é a circulação de pessoas entre as agremiações, algo impensável na rixa entre o Garantido e Caprichoso parintinenses.
Atualmente, são nove bumbas e seis garrotes (bois mirins) em atividade em Manaus, e há personagens como Zé Preto -- que possui 70 anos de boi -- que já passou por diversos de eles.
Depois de meados dos anos 90, quando o Festival Folclórico de Parintins começou a ganhar destaque nacional e internacional, tornando-se um dos principais atrativos turísticos da região, os bois manauaras amargaram um período de quase total ostracismo, sem recursos para garantir um festival de qualidade e vendo-se obrigados até a mudar a tradicional data em junho para não entrar em conflito com o de Parintins.
De acordo com Sérgio, entretanto, essa situação está mudando e os grupos estão voltando a realizar apresentações em bairros e com os novos investimentos do poder público, o festival está garantido num espaço de grande porte, o Centro Cultural Povos da Amazônia, na antiga Bola da Suframa.
Didatismo
O vídeo terá duração de 25 minutos e será lançado neste mês.
O objetivo do professor Sérgio é levá-lo aos bairros, realizar exibições em locais públicos e em escolas, sempre com o acompanhamento de professores, para reforçar o aspecto didático do material.
O calendário dessas exibições ainda não está fechado, mas Sérgio já enviou 25 cópias do vídeo para a Prefeitura, que distribuirá o trabalho para bibliotecas e centros culturais diversos.
Trata-se de uma importante iniciativa advinda da Ufam, e um exemplo de como a Universidade pode transformar suas pesquisas num veículo de diálogo com as comunidades.
Número de frases: 31
Agora, Sérgio já deu início a um outro projeto de documentário, desta vez sobre Santa Etelvina, uma santa que na verdade nunca fora canonizada.
De: saulofrauches @ xxx
Para: jufigale @ xxx
Data: 31/10/2007
Assunto: proposta indecente
Oi meu amor, como você está?
O motivo desse mail é pra te fazer uma proposta indecente -- pensei agora e acho que deve curtir.
É pra escrever junto com mim uma matéria para o Overmundo -- ou, se preferir, escrever sozinha.
Qual o tema?
Rola semana que vem um festival de filme etnográfico (siiiim).
Já que você tem planos de fazer seu próprio filme etnografico para conclusão do mestrado, acho que seria ótimo para você manter um contato com o que tem sido produzido hoje em dia.
Se vc topar eu dou meu jeito pra te acompanhar hehehe.
Me dá um retorno assim que puder.
bjao
De: jufigale @ xxx
Para: saulofrauches @ xxx
Data: 31/10/2007
Assunto: Re:
proposta indecente
Tô com ti!
Tem um site com a programação pra ver o melhor horário?
Manda aê e te ligo pra conversarmos!
Pra mim tb vai ser super legal!
Bj grande!
De:
saulofrauches @ xxx
Para: jufigale @ xxx
Data: 4/11/2007
Assunto: Re:
proposta indecente
Ju, te repassei aquele e-mail com a programação em anexo.
Vamos na sessão de quarta-feira mesmo?
Eu te dou outra ligada para confirmar, mas já tô preparado pra irmos no último dia da mostra.
De:
saulofrauches @ xxx
Para: jufigale @ xxx
Data: 14/11/2007
Assunto: Re:
proposta indecente
Adorei ter ido com ti na mostra.
Pena que a sessão que nós escolhemos não teve debate no final.
Deve ter sido porque foi a última sessão do úlimo dia, sei lá ...
Agora a gente podia escrever para o Overmundo sobre os filmes que vimos ou até fazer uma reflexão mais ampla, botar em palavras nossas impressões sobre filme etnográfico ou que tipo de olhar nós aguçamos ao ir no festival -- acho que só de retratar os efeitos de uma mostra de filmes etnográficos numa galera que não é etnógrafa (a gente hehe) já vale a pena pra mostrar a importância desta iniciativa.
Será que isso rende?
Me manda por e-mail o que passou por a sua cabeça.
A gente pode associar nossa ida à mostra com seu projeto de filme -- quem sabe eu não fui a uma sessão com uma futura participante das próximas edições?
:) De:
jufigale @ xxx
Para: saulofrauches @ xxx
Data: 19/11/2007
Assunto: Re:
proposta indecente
Alô!
Também adorei!
Pena mesmo não ter tido o debate.
Renderia idéias interessantes para a matéria ...
mas gostei dessa possibilidade de botar impressões como «curiosa».
Quem sabe não estimulamos outros igualmente curiosos?!
hmm ...
sobre a etnografia, tô aqui pensando que o interessante -- em especial numa videoetnografia -- é reconhecer seus limites e possibilidades.
Em o meu caso, que pretendo estudar construção de subjetividade dos cegos, acredito que o recurso da etnografia tem barreiras importantíssimas quanto às reais possibilidades de conhecimento do outro.
Como falamos depois dos filmes, não basta ' botar uma venda nos olhos ` para se reconhecer cego.
Ou seja, a história do não visual filtrada por os olhos quem vê (ou pensa que vê) versa tanto sobre o'estudado ` quanto sobre o'estudioso '.
Mas nem de longe acho que uma etnografia pode ser desqualificada por esta limitação.
Porque é justamente por aí que se desvenda o próprio objetivo da metodologia, que é, em última instância, experimentar o outro, se inserindo até onde possível num grupo ao qual você não pertence.
Pra mim, é sim uma questão de (re) conhecer a si mesmo.
E o uso do vídeo, além de ser um bom recurso de veiculação do produto final, é uma alternativa criativa a essa forma tradicional de se fazer pesquisa.
De:
saulofrauches @ xxx
Para: jufigale @ xxx
Data: 19/11/2007
Assunto: Re:
proposta indecente
Acho que os filmes vistos por nós, apesar de só falarem de tribos indígenas -- por mais que tenha uma proposta de realizar um filme urbano, valeram a pena pra pensar nesse sentido que você está falando mesmo.
Eu vi aqueles índios aqui do lado, no quintal da minha casa -- caso ela tivesse tal área de lazer hehe.
Foi difícil não imaginar uma tia-avó reaça que nem aquela índia de idade avançada no filme Pen Cahoc, sobre o ritual de inicialização que tem o mesmo nome.
Sempre tem uma figura pra reclamar da dessacralização das boas e velhas tradições, de acusar uma juventude de valores frágeis se vender pra quem vem de fora e estes outros papos de quem acredita (coitado) num mundo imutável.
Só que lá ela trocou a coca-cola, videogames e músicas gringas por o homem branco.
Tudo que era o erro para a velhinha era coisa de homem branco imitada por os indiozinhos -- que, aliás, usavam umas bermudas fluorescentes de taquitel super ' estaile '.
De:
jufigale @ xxx
Para: saulofrauches @ xxx
Data: 21/11/2007
Assunto: Re:
proposta indecente
Ahahaha É isso mesmo!
E as nossas idéias são apenas efeitos do produto final da relação " relator-relatado que, de fato, não nos pertence.
Você levou para a casa uma índia travestida de tia-avó reaça.
E eu acabei ficando com o problema da venda nos olhos pra solucionar.
De:
saulofrauches @ xxx
Para: jufigale @ xxx
Data: 22/11/2007
Assunto: Re:
proposta indecente
Ju, já passou mó tempão que a mostra acabou e a gente ainda não fechou um texto.
Mas foi tão bacana que não queria que o registro passasse em branco.
Até porque toda essa nossa conversa pode interessar a alguém, por que não?
Aí pensei:
o que você acha da gente publicar nossa troca de e-mails?
Até pq chega a ser um contra-senso escrever um texto num formato mais caretinha sobre uma mostra de filmes q buscam justamente mostrar uma faceta de uma realidade diferente.
É a revolução, vamos ser os índios de bermuda de taquitel:)
De: jufigale @ xxx
Para: saulofrauches @ xxx
Data: 22/11/2007
Assunto: Re:
proposta indecente
Acho ótima a idéia!
Vamos subverter a forma e torcer para que isso já seja um atrativo na matéria.
Se tivermos adesões, quem sabe não formamos uma nova tribo de índios de bermuda de taquitel?!
hehehe Adoro!
Número de frases: 111
Beijo grande!
Em todo o mundo, há uma imensa diversidade de culturas, é verdade.
Em o Brasil, em meio a nossa enorme miscigenação resultante de todo um processo histórico, nada mais comum do que ter a mera sensação de que está numa realidade cultural totalmente diferente apenas ao atravessar a fronteira de um Estado à outro.
Isso é curioso e ao mesmo tempo, fascinante!
Nós temos essa maravilhosa mistura, que se revela em variadas formas.
Mas vamos falar de algo mais específico e que é também marca do brasileiro:
a dança.
Em meio aos que a analisam ou à ela se dedicam por esta ou aquela razão, o consenso é que, de um modo geral, a dança é a expressão corporal de uma idéia, de uma mensagem a ser transmitida.
Ela é uma arte!
Temos um «caldeirão» de variedades culturais, e consequentemente, um imenso «alfabeto coreográfico» espalhado por cada pedacinho do nosso chão.
Muitos e muitos grupos de dança existem no nosso «Brasilsão», cada um com suas características próprias ...
Alguns já notáveis, outros nem tanto, além daqueles que estão se formando ainda sem um propósito concreto.
De entre os grupos que estão se aperfeiçoando e com a grande idéia em mente de passar toda uma dinâmica social e questionamentos sobre conceitos étnicos nas suas apresentações, peço a atenção para falar especialmente num:
Grupo Afoxé Oba Orun formado em Crato.
Isso mesmo, Afoxé no interior do Ceará, para surpresa daqueles que sofrem de meros «deslizes de opinião» do tipo, «cada qual com seu cada qual», quando o assunto é cultura e tradição no Brasil!
Criado em setembro de 2007 a partir dos planos dos seus idealizadores Linconly Alencar e Ridalvo Félix em ampliar a discussão sobre a Afrodescendência nas escolas, nas comunidades, nas instituições públicas e privadas, etc., o Grupo de Dança Afoxé Oba Orun, já é formado por mais de vinte integrantes que, ao som das músicas cantadas em iorubá e regidas por tambores, envolvem a platéia em toda a magia rítmica daquela dança, que na verdade, todos nós herdamos do povo africano, mas excluímos da nossa realidade.
Durante as apresentações, muitas pessoas ficam um tanto curiosas, comentando acerca dos detalhes do espetáculo.
Algumas outras, mesmo fascinadas sentindo um «chameguinho na espinha» da vontade súbita de cair na dança com o êxtase do som hipnótico que sai, olham e apenas tecem comentários como «ah, é música africana»,» é coisa de carnaval da Bahia «ou ainda,» isso é macumba, é?"
como se aquilo fosse uma imposição de crença ou herança cultural que pertence, apenas, a um Estado Brasileiro, não lhes dizendo respeito sob nenhum aspecto ...
Mas esse é outro tipo de debate que não cabe aqui, já que o foco é somente a dança ...
é o Afoxé!
Em o Grupo Afoxé Oba Orun, alguns integrantes se vestem e se portam no palco como um Orixá específico, em atenção tanto nos movimentos originados do próprio contexto histórico daquele ser mitológico, como na expressão de onipotência que aquele personagem comporta.
Xangô com seu tom de quase total superioridade sobre os demais Orixás, por exemplo, age com os movimentos típicos do «deus da justiça e senhor das tempestades», sendo ao mesmo tempo,» um homem sedutor " que envolvia muitas mulheres.
O dançarino que o interpreta, tem o desafio de passar toda essa dinâmica à platéia, através não só da roupa usada e dos objetos que leva nas mãos, como principalmente, da sua expressão corporal que deve ser fiel ao que ele representa dentro da mitologia africana.
Iemanjá por sua maternidade como característica marcante, dança sobre o palco como se estivesse embalando uma criança, interagindo também com as formas das ondas do mar, sempre em movimentos lentos e suaves.
A dançarina que representa «a rainha das águas e mãe de muitos filhos», em poucos minutos da sua atuação solo, tem a missão de demonstrar, apenas com a dança, os aspectos aparentemente opostos dessa Orixá que mistura ternura e bravura em todo o seu contexto mitológico.
E assim, vários outros Orixás também têm a sua particularidade coreográfica, do qual, o Grupo respeita cada detalhe nas apresentações:
as cores das vestimentas, os objetos, a música, o giro do corpo, a interpretação de algum fato daquela determinada estória, etc.
Em todos esses aspectos nas cenas, é interessante se observar exatamente a sua intensidade teatral, onde a platéia, mesmo desconhecendo o mito atribuído àquele Orixá representado no palco e o que significam as palavras em iorubá faladas nas músicas, passam a entender algo a partir do que estão vendo com a interpretação -- apenas física -- dos dançarinos.
E esse é o fascínio por trás do significado da dança!
Composto de pessoas que se desconheciam de início, o Grupo é harmônico e já emana uma energia própria, apesar de alguns procurarem essa dança unicamente sob a ótica de saúde física e mental, e outros, que tendem a utilizá-la especialmente para um fim ideológico.
As aulas gratuitas e ensaios para as apresentações estão sendo ministrados por Ridalvo Félix, e, por enquanto, são realizados em pátio aberto da Faculdade de Pedagogia da Universidade Regional do Cariri -- URCA, que cedeu espaço para qualquer um assistir e participar.
Todo um estudo sistemático foi feito no sentido de montar o espetáculo -- que ainda não está totalmente completo por falta de recursos financeiros -- primeiramente com a teoria, conhecendo os Orixás e por fim, indo aos terreiros de Candomblé, onde a dança africana é realmente difundida e cujo espaço físico lembra as senzalas onde os escravos africanos dançavam também como forma de esconder o sofrimento e a saudade da sua terra.
Em a intenção de seguir adiante com os planos de estender a compreensão sobre nossa Afrodescendência, também com os ritmos africanos, o Grupo faz improviso não somente quanto aos espaços inusitados utilizados para preparação das apresentações, como também, nas roupas e objetos que usam nas mãos (particular de cada Orixá), que os próprios integrantes fabricam, aproveitando retalhos e material reciclado.
Para chegar aos locais onde são convidados, os dançarinos pegam carona, transportes públicos ou vão à pé mesmo ...
E, jamais desistindo diante de quaisquer obstáculos, que são muitos, porque indiscutivelmente, mais do que a própria fala, o corpo é capaz das mais variadas formas de comunicação.
As palavras -- apenas -- muitas vezes são o caminho mais árido e menos eficaz para se chegar num objetivo.
Dancemos, sob todos os ritmos do mundo ou sob nosso próprio «leque musical»!
A diversidade natural do ser humano pode alcançar objetivos inimagináveis, e a dança, sendo a dinâmica corporal na sua mais intensa expressividade, é a forma universalmente democrática que temos como meio de comunicação e de elo às mais variadas culturas mundiais.
Não importa de onde vem o som, de como ele é, ou, se genuinamente é nosso ou não.
O importante é o movimento do corpo para dizer tudo o que se pretende dizer sem pronunciar uma só palavra, ou simplesmente, para dançar, dançar e dançar, independentemente de conceitos obsoletos de divisões culturais e geográficas.
Em Notas:
As aulas e ensaios acontecem nas tardes de sábado (início 14h30 min) no pátio aberto da Faculdade de Pedagogia no Campus Pimenta da URCA, à rua Cel.
Antônio Luiz, nº 1161, Crato-CE.
Contatos com o Afoxé Oba Orun podem ser feitos diretamente com Ridalvo Félix.
Cel.:
(88) 9907-2996 E-mail:
Número de frases: 47
rivuscrato@yahoo.com.br " Não é de uma hora para outra que vai surgir um movimento como a Tropicália, que jogou merda no ventilador.
Aquilo era tão ousado que não durou muito -- mandaram Caetano e Gil embora do país."
Rogério Duprat em entrevista recente.
Sobre o Álbum
Duprat sempre foi um integrante do movimento tropicalista que me chamou bastante a atenção por algum motivo que aparentemente desconheço.
Eu mantinha certo respeito perante ele, provavelmente por não saber bulhufas sobre seu trabalho com maestro e arranjador até então.
Ou talvez, fosse por o simples fato de ele ser o mais velho de entre as crias do tropicalismo.
Por sinal, eu só fui descobrir que ele tinha um disco próprio, tropicalista, há uns três ou quatro meses atrás, pouco antes de pensar em fazer a resenha sobre o disco de Caetano.
Até então, Duprat só era o rapaz intelectual que segurava o penico, simulando uma xícara bem chá das cinco, na capa de «Tropicália ou Panis et Circenses».
E mal passado algum tempo, já estou eu aqui, escrevendo uma pseudo-resenha sobre.
Quanta pretensão, meu Deus.
De qualquer forma, procurei fincar uma base teórica e histórica quase sólida, através de uma rápida pesquisa, que me ocupou por alguns dias.
Vale ressaltar o quão pouco se escreve sobre certas figuras da música brasileira.
E não digo só o Duprat, mas até conjuntos que eu considerava um tanto «conhecidos» (e até reverenciados) como o «Ave Sangria».
Minha mãe, por exemplo, nunca tinha escutado falar em eles, mesmo que estivesse iniciando a sua vida adulta quando a banda lançou seu disco em 1974.
Vai saber o que ela estava fazendo naquele ano.
Espero que isso não tenha nada a ver com o fato de minha irmã ter nascido em 75.
Enfim, após peneirar informações e informações me tornei pseudo-apto a falar sobre Duprat, podendo dar uma opinião crítica sem soar tão hipócrita, podendo eventualmente falar mal e me satisfazer sem grandes pesos na consciência.
E vale (vale?)
ainda ressaltar que estudar o passado é, invariavelmente, estudar a história a partir do ponto de vista de alguém.
É perigoso e infelizmente pessoas como eu não têm opção.
Não demorou muito até eu descobrir algumas coisas bem importantes (e não sei se tão interessantes).
Resumindo:
Duprat possui uma formação erudita, que a partir da segunda metade da década de 60, se aproximou da música popular, criando um produto híbrido.
O maestro estava cansado de compor obras que terminavam destinadas a uma pequena elite e passou a praticar a fundo todo seu conhecimento musical, o que resultou na fusão de diversos estilos, muitas vezes, num só arranjo.
É o que dizem por aí, pelo menos.
Duprat foi o arranjador de diversas canções tropicalistas, de discos inteiros, inclusive assina os carros-chefes do movimento:
«Domingo no Parque «e» Alegria, Alegria» de Gilberto Gil e Caetano Veloso respectivamente.
Além disso, o arranjador trabalhou em muitos dos discos dos Mutantes e foi decisivo nas experimentações usadas por a banda.
Ficou conhecido como o George Martin da Tropicália (só não sei se durante a própria Tropicália, já que essas definições-compara ções só aparecem depois).
Em a década de 70 gravou com Walter Franco e Chico Buarque, mas com a perda gradativa de sua audição, se afastou do meio musical.
É de uma tristeza imensa, mas a imagem de um maestro e arranjador perdendo a audição, gradativamente, também pode ser extremamente poética.
Melancólica, mas poética.
Em a década de 90, abriu uma exceção para fazer alguns arranjos para Rita Lee e Lulu Santos.
E realmente podia ter morrido sem essa (não, ele ainda não morreu;
essa só foi mais uma das minhas piadas sarcásticas e sem graça).
Segundo Tom Zé, que conviveu de perto com o maestro, um arranjo de Duprat era algo como escutar «Jackson do Pandeiro manejando uma orquestra de Beethoven».
Em o mínimo sugestivo, mas um tanto exagerado.
Entretanto, talvez nada disso importe e o tal do resumindo tenha se estendido por demais.
Para falar a verdade, eu tenho uma opinião engraçada sobre «
Até vale a pena.
Banda de rock que mistura violoncelo, pífano e bandolim, apontada como uma das revelações da música popular do país em 2007 por a revista Época e gravadora Trama inicia turnê nacional.
Arrumar as malas e mochilas, reunir e guardar o violoncelo, o bandolim, o baixo, o pífano, o trom-pete, parte da bateria e guitarras para seguir viagem.
Em os próximos meses este será novamente o dia a dia do Dilei.
Grupo musical formado por cinco músicos de quatro estados do Brasil que enfrentarão novamente a rotina de «olhar o mundo com os pés».
Desta vez para a turnê de lançamento do primeiro cd que sai por o selo Baritone.
Formado no Ceará e radicado em São Paulo há três anos, o quinteto escreveu as canções e poesias de «Olhar o mundo com os pés» em viagens por o interior do nordeste e agora pretende novamente cair na estrada, desta vez por todo o país, para levar o show a um público cada vez maior.
Cada vez mais destacado no cenário independente brasileiro Dilei tem chamado a atenção tanto por a qualidade das letras, quanto por a sonoridade pop misturada as influências de ritmos de raiz e ainda novas linguagens e elementos que se destacam num palco de banda de rock.
O violoncelo, o pífano e o bandolim dialogam com samplers, bateria, trompete e guitarras.
Além das apresentações os músicos serão responsáveis por um Programa de WebTV, em parceria com o site Myspace, que registrará o cenário musical e cultural de cada cidade visitada por a banda.
«Encaixotando versos» será também uma forma de acompanhar a banda e suas aventuras e conhecer um pouco mais dos cenários e movimentos culturais que se espalham por o Brasil.
Dilei fará o lançamento da turnê «Olhar o mundo com os pés» no próximo dia 22 de julho a partir das 20h na choperia do SESC Pompéia em São Paulo.
Confira as datas confirmadas no site oficial do grupo www.dilei.net
Sobre O DILEI
Conhecer o mundo com os pés.
Retratá-lo por música.
Por Sérgio Vinícius
Em setembro de 2007, a banda Dilei foi considerada uma das três melhores revelações musicais do Brasil.
O festival Mente Aberta, organizado por a revista semanal Época e por à gravadora Trama, contou com um júri composto por grandes nomes do meio artístico nacional como Tom Zé, Lúcio Maia (Nação Zumbi), João Marcelo Bôscoli, Miranda entre diversos outros que aclamaram o quinteto como uma das novas promessas da música brasileira.
O grupo foi formado em Fortaleza em 2002, e possui músicos de distintos estados do Brasil, misturando rock com samba, ritmos regionais e instrumentos pouco comuns ao estilo, como violoncelo, bandolim e pífano (flauta nordestina artesanal).
O quinteto tem apresentações importantes em seu currículo, como Palco principal do Circuito Banco do Brasil (CE), SESC Pompéia (SP), ClubeOUTs e Berlim (SP), Festival Rock em 2 Turnos (RN), Virada Cultural de São Paulo (SP), Teatros Ceu (SP), Carnaval das Culturas (RJ), Feira da Música de Fortaleza (CE), Teatro Municipal de ITU (SP), Programa Câmara Ligada (DF), entre outros.
Esse mesmo show, que recebe o título do CD «Olhar o mundo com os pés», foi selecionado em 2007 por a Secretaria de Cultura de São Paulo, no Programa de Ação Cultural, de entre diversos artistas do estado.
Ainda no mesmo ano, a banda participou do festival Toshiba Planet Banda Antes, promovido por a MTV Brasil com vídeos de suas músicas disponíveis para votação popular.
E, para começar bem o ano de 2008, em março a banda foi destaque nos portais TRAMAVIRTUAL e MYSPACE Brasil, e ainda participou do PODCAST da rádio UOL.
Durante o segundo semestre de 2008 o grupo estará em Turnê por 30 cidades do Brasil divulgando seu primeiro CD.
E, como lançamento desta jornada, a banda foi convidada por o renomado SESC Pompéia, a realizar um show no projeto Prata da Casa -- evento que destaca os novos artistas da atualidade que possuem um trabalho de qualidade e conteúdo.
Além de, em agosto, ser convidada para uma apresentação na Feira da Música de Fortaleza 2008, principal evento musical do Nordeste.
Paralelamente a isso tudo, os músicos seguem realizando o programa «Encaixotando Versos» que mostra um panorama da produção independente realizada em cada cidade visitada por a turnê.
Tal programa é exibido no MyspaceTV.
Número de frases: 29
Mais informações sobre esse programa e a banda Dilei no site oficial www.dilei.net Quem chega à aparentemente pacata cidade de Maués, interior do Estado do Amazonas, não imagina a movimentação do lugar, nem de perto as histórias que ele esconde.
A cultura do guaraná se manteve ao longo dos anos como a principal alternativa econômica do município e, por isso mesmo, tem lugar de destaque no Museu de Maués, o único na região a abrigar bens arqueológicos e ambientais dos povos da região.
Maués é uma das cidades mais belas do Amazonas, conhecida como cidade do guaraná porque mesmo os seus primeiros habitantes, os índios mundurucus e maués, já o cultivavam.
Sendo ainda hoje, e até por a valorização nacional do produto, o mais cultivado na região.
Além das praias, há várias outras opções em atividades de lazer e culturais:
esportes, passeios de barco, igarapés, além do contato direto com a cultura de algumas civilizações indígenas ainda presentes, estas responsáveis por uma variedade de artesanato e lendas, destacando-se o artesanato Saterê-Maué, grupo étnico que habita um trecho do rio Urupadi, sob a jurisdição da Funai, e a lenda do guaraná.
Como toda a Amazônia, Maués produz história e tem memória.
Em as comunidades da região, as pessoas «tropeçam» em material arqueológico.
É muito comum ouvir a frase:
«Ah! você está falando daqueles cacos que a gente encontra no chão?»,
referindo-se à cerâmica e artefatos arqueológicos da região.
Apesar dos moradores terem consciência de que não foram os primeiros habitantes daquelas terras, são poucos os que conhecem a história e zelam para mantê-la viva.
Não é o caso do artesão Valdo Mafra Monteiro, que de apaixonado por História passou a colecionar de artefatos antigos, alguns mais antigos do que ele (os mais velhos podiam identificar), o que os tornava ainda mais valiosos -- ao menos para Valdo.
Então, em 1999, sem apoio do Poder Público, o professor de educação física inaugurou o Museu de Maués, para reunir essas peças tão valiosas e ainda valorar o patrimônio imaterial da comunidade -- terminologia que passou ser comum desde então.
A «abertura» da casa vem fazer justiça à região que produz história e, por isso mesmo, tem memória.
Como diz Valdo, se pudéssemos fazer como certas culturas indígenas, que quando dançam fazem a terra contar histórias, ouviríamos as diferentes vozes que habitaram a região de Maués há mais de mil anos.
A nossa cultura, porém, prefere recorrer à arqueologia para desvendar os mistérios da história.
O fato é que o museu não foi feito só por pesquisadores.
A idéia era contar com a participação popular.
«Os alicerces são as histórias contadas por o pessoal daqui, diz Valdo Mafra, que ficou responsável por traçar o perfil do Museu de Maués.
A participação dos moradores da cidade vai desde a doação de fotografias, desde o início do século ao período atual, à produção artística com guaraná.
Bens arqueológicos e ambientais, um recorte bem feito da cidade da época de sua expansão -- como a chegada de uma usina da Ambev no município, há 40 anos, vão pontuando o trajeto dos visitantes desse museu.
Há pinturas e artefatos de pedra, quadros que retratam a região e um rico acervo de instrumentos e máscaras usadas em rituais indígenas.
«Em geral, a arqueologia é tratada separadamente da história da cidade.
Isso impede que as pessoas possam interagir com o material arqueológico», comenta Valdo, que continua:
«Quisemos fazer um museu tal o qual as pessoas se sintam responsáveis».
A sede do Museu de Maués é na avenida principal da cidade, rua São Sebastião.
O rio Maués-Açu que passa em frente à cidade tem seu merecido destaque, em fotografias recentes e antigas, com ribeirinhos e os animais aquáticos (várias espécies de tartaruga empalhadas, por exemplo).
Número de frases: 28
Uma maravilha assistir a «Cartola -- Música para os olhos» no Cinema da Fundação.
Sala lotada, prazer compartilhado em silêncio, ou nem tanto:
alguns cantaram baixinho as músicas do mestre.
Enquanto esperava na fila, me veio a pergunta que fiz desde quando soube da produção, em 2004, enquanto Lírio Ferreira e Hilton Lacerda (também autores de Baile Perfumado) disseminaram delírio e poesia com " " Árido Movie ":
«um carioca não contaria com mais propriedade a vida de Angenor de Oliveira?"
A dúvida, estendida por três anos, acabou em poucos minutos.
Fica claro que este não pretende ser «o» documentário sobre o sambista;
será muito melhor aproveitado se entendido como «um» olhar que extrapola o personagem, aqui reconstruído de forma bem subjetiva, em imagens de arquivo, trechos de filmes nacionais, entrevistas para TV e rádio, e na fala dos amigos e familiares.
A montagem é um grande mérito:
hipertextual, caótica, imprevisível e entrecortada, aos poucos recria o contexto social, político e cultural do período vivido por Cartola (1908-1980).
Verbalmente, não há novidade -- e nem precisa.
A história de Cartola já está bem contada e recontada, da juventude boêmia para compositor e fundador da Mangueira, os anos de ostracismo, o resgate cult nos anos 60, a importância da família e a lamentada morte por câncer.
Por outro lado, o material de arquivo informa mais do que a escrita pode revelar:
os modos de falar, vestir e se expressar;
os ambientes, as locações onde se deu boa parte da história do samba.
A abordagem é outro caso à parte.
O bairro da Mangueira, por exemplo, chega através dos fios de eletricidade, as casas saindo do quadro, fora de foco.
Os arcos da Lapa entram em cena por a sombra projetada nas ruas.
O próprio Cartola se faz presente assim, sutil e enviezado.
Em a primeira parte, ele surge aos poucos, numa ou outra foto, com falas dispersas, um centro invisível em que giram os demais elementos.
O uso de quadros dramáticos para preencher a falta de registro dos primeiros tempos lembra o excelente «The Soul of a Man», onde Wim Wenders faz o mesmo para recuperar trechos da vida de Blind Willie Johnson.
Blues, samba, música negra.
«Música para os olhos» é também um diálogo com o cinema brasileiro.
Em ele, imagens do enterro de Cartola conversam com «Di», de Glauber, proibido no Brasil por a família do pintor.
Trechos de «Brás Cubas», a adaptação de Julio Bressane para o clássico machadiano, clama por a liberdade de criação frente à importância de um ícone cultural do samba.
Mário Reis arremessando discos no mar e cantando em estúdio foram pinçadas de «O Mandarim», outro filme de Bressane aqui invocado, cujas cenas exibidas ao contrário com certeza inspiraram a sequência de imagens da ditadura militar.
Em meio a tantas referências e documentos antigos, surge um recado maior do que a importância de Cartola:
a necessidade de cuidar melhor de nossa memória coletiva.
Fitas VHS amassadas, películas deterioradas e depoimentos desmagnetizados são problemas que poderiam pesar contra a qualidade do filme, não fossem usados a seu favor.
Solução bem conhecida do cinema periférico, acostumado a transformar limitação técnica em recurso de linguagem.
São essas infinitas citações, aspecto tão instigante aqui quanto a figura de Cartola, o elemento gerador de algumas críticas negativas.
Isso porque, neste documentário, o cinema tem uma carga poética tão grande quanto àquela contida em Cartola.
Equilíbrio mantido até os últimos quinze minutos, quando a montagem ágil e inteligente cede espaço para a exagerada e quase submissa reverência ao compositor.
Um deslize que não tira o brilho deste filme atípico entre as recentes cine-biografias nacionais.
Por fim, é muito bom constatar que, em nenhum momento, a produção pode ser considerada «pernambucana».
Seu olhar não tem origem, é simplesmente «estrangeiro».
Número de frases: 36
Número de frases: 0
A despeito de todos os pernambucanismos e carioquismos, «Música para os olhos» é, antes de tudo, brasileiro.
Viola-de-cocho: são cinco cordas, cinco continentes.
A súmula dos judeus, árabes, mouros, africanos, portugueses e indianos.
Em a verdade, a viola-de-cocho é uma autêntica Arca de Noé onde estão reunidas todas as culturas em harmonia.
Vieram nessa verdadeira caravela que é a viola-de-cocho."
Abel Santos.
Vou iniciar esse texto confessando uma indignação que senti naquela época e agora volto a sentir, sobre um episódio que aconteceu em Cuiabá há cerca de dez anos atrás.
Considerei-o como absurdo, kafkiano, grotesco e ridículo.
O maestro Abel Santos, mineiro de Uberaba, descendente de portugueses, pacato cidadão do mundo, músico desde os cinco anos de idade, desenvolvia um trabalho seríssimo de pesquisa sobre a viola-de-cocho e suas origens, movimentos históricos, influências, cruzamentos com outras culturas, desenvolvimento de suas possibilidades, entre outras buscas.
Buscou ampliar o campo harmônico da viola-de-cocho aumentando dois trastos no braço do instrumento que originalmente é todo baseado em três, passando para cinco trastos, o que aumenta bastante as possibilidades do instrumento.
Em a época, em 1996, Abel abriu uma empresa-produtora cultural com o nome de «Viola de Cocho, produções artísticas».
Tudo certinho, tudo registrado conforme as leis vigentes e pronto:
o céu desabou sobre sua cabeça.
Gritaram os cegos:
ele roubou a marca para ele, ele patenteou a viola-de-cocho, ele registrou para seus domínios o nosso patrimônio histórico, ele surrupiou de nós a viola-de-cocho debaixo dos nossos narizes, ele é um Anjo mau, (desculpando o trocadilho) um enviado do demo!
E pronto, sua caveira estava feita, na feira, nos bares, nas rodinhas que se formavam na praça do centro, nas casas dos ribeirinhos, na casa das madames que dirigiam a cultura, os intelectuais de plantão, o prefeito, o delegado, o padre, a crítica de arte, o governador, todos saíram berrando cegamente aos quatro cantos da cidade.
Criavam assim, um ambiente perfeito para a crucificação de mais um artista brasileiro.
Abel relatou um fato grotesco que aconteceu naquele período quando foi abordado por um senhor na Feira do Porto, que o afrontou, perguntando agressivamente:
«O Sr. é aquele que nos roubou, não é?"
A o tentar se explicar o homem passou a berrar com ele chamando-o de ladrão da cultura alheia, de safado!
Passou a gritar com ele, enquanto chamava outros amigos feirantes, e deram uma carreira atrás de ele, que se lançou desesperadamente para dentro de sua Caravan (que conserva até hj!)
em busca de proteção, de um abrigo, «pelo amor de Deus!»,
fechando o carro com muita pressa, ligando-o rapidamente, enquanto os chutes batiam fortemente em sua porta, amassando-a, e ele se mandava, fritando os pneus.
As pessoas parecem não ter noção de determinadas acusações públicas.
Uma falta de bom senso imperou na época.
Eu sempre me perguntava.
Meu Deus, quanta estupidez, até quando teremos que aturar tudo isso?
Qual o problema do cara abrir uma empresa com o nome Viola-de-Cocho?
Qualquer um poderia ter feito isso.
É legal, não tem nada a ver, ele não tem como patentear a viola-de-cocho, ninguém pode fazer isso:
ele até brincou dizendo:
«Já pensou se eu patenteasse o ganzá, que muitos dizem ter sido inventado em Cuiabá?
Ora, Cuiabá tem 287 anos, o ganzá tem 40 mil anos!"
Trajetória Em 1986, Abel Santos chegou a Cuiabá e iniciou seu trabalho com a viola-de-cocho.
De lá para cá, não parou mais:
adotou o instrumento como um modo de tocar a vida.
«Não faço música para vender.
Nunca tive uma preocupação capitalista com a música.
Música é demanda da alma».
Ele diz ainda que, para chegar onde chegou, teve que trabalhar muito, estudar muito, se esforçar bastante.
Nada vem de graça, lembrei do Ezra Pound com sua máxima:
arte é noventa por cento de esforço e apenas dez por cento de inspiração.
Um dos seus mestres na UFMT, que conheceu assim que chegou em Mato Grosso, foi o professor (Phd) Leônidas Querubin, que, de cara, saiu com essa máxima:
«Quanto mais sábio mais simples."
A vida acontece aos poucos, o aprendizado é uma constante quando se está atento para os fenômenos que nos cercam e quando abrimos corações e mentes para receber novas informações de forma simples, direta, sem afetações.
Fora do círculo acadêmico, outros mestres deram o tom do conhecimento que buscava a sabedoria popular, a capacidade de observação do ser humano diante dos fenômenos naturais:
Manoel Severino, Caetano, João Batista Rodrigues, Euclides Maia (o Bugre), Chico Salles, esses são os nomes dos mestres fazedores da viola de cocho e organizadores dos grupos que resistiram ao tempo -- de Siriri e Cururu, que o maestro Abel viu, muitas vezes, vaiados nos eventos que participavam, folclorizados, quando aqui chegou.
Abel afirma que esses sim são os verdadeiros «doutores» de toda essa história.
Para exemplificar Abel cita um episódio que envolveu o " Mestre Manoel Severino:
«Certa vez, ele, diante de uma árvore, olhou, arriscou e disse, calculando mentalmente, que a árvore teria cerca de 90 anos.
Ele conhece a ' pele ' das árvores.
Coisa que os engenheiros florestais e agrônomos, utilizando meios científicos, concluíram surpresos, que o Manoel estava certíssimo."
É interessante observar como a história é recheada das mais absurdas contradições.
Esse interesse das elites cuiabanas por o siriri e o cururu é recente demais.
Em o ano de 1880, o Código de Postura de Cuiabá, no capítulo 17, em seu artigo 65, parágrafos 1º e 2º, diz:
De os jogos e reuniões ilícitas, vozerias e ofensas à moralidade pública.
Art. 65º -- Fica expressamente proibido: §
1º -- Fazer bulha ou algazarra e dar altos gritos à noite.
§ 2º -- Fazer sambas, cururus e outros brinquedos que produzam estrondo dentro desta Cidade.
Encerrando a peleja, Abel é inapelável:
«A obra de um homem fala mais que suas palavras."
Para ele, " executar arte exige uma grande preparação, não basta só o impulso!"
Diz sempre aos seus alunos:
«Sou um ser material que quer ascender ao espiritual.
Apesar de toda a tecnologia, tocar na viola-de-cocho me aproxima da essência humana."
A partir dos estudos e de uma pesquisa arqueológica em busca dos caminhos que a viola percorreu, o maestro escreveu um livro, «Uma melodia histórica», acompanhado de CD, já esgotado, onde busca encontrar elos musicais entre a viola-de-cocho matogrossense e a viola portuguesa.
Uma espécie de busca das próprias origens:
«Não há como tirar de Cuiabá o influxo português.
Em a arquitetura, nos instrumentos."
Ele se diz apaixonado por o canto gregoriano, por o alaúde, por a história da música, dos instrumentos musicais.
Além do mais é compositor e intérprete, edita CDs com suas canções que têm muito de influência da música medieval.
Ele me garantiu que estará postando suas músicas aqui no Overmundo, só está resolvendo «problemas pessoais» com seu computador.
Abel é um obsecado por o poder da viola de cocho:
«Diante da carência de recursos, o homem toma iniciativas que, bem ou mal, atendem às demandas profundas do seu espírito.
A viola de cocho é a prova dessa essencialidade.
A o encontrar esse instrumento me encontrei como ser humano, como pai, nesse grande útero.
Número de frases: 76
Eu renasci desse útero que é a viola."
«Mainha, olha o cristo rebentô."
Religião, política e futebol não se discutem.
Por isso mesmo, não vou tecer aqui comparações elucubrativas entre o Cristo Redentor e os Budas de Bamiyan -- que Deus os tenha!
Vou apenas provocar.
E, já provocando, começo meu insidioso artigo a colocar a minúscula no cristo, em parte provavelmente por mero capricho, mas, claro, não sem alguma reverência ao substantivo comum que o tornei.
O cristo rebentô aí de cima era como, criança, eu apontava da janela a estátua, no topo do Corcovado.
Recém-chegado ao Rio de Janeiro, na tal aurora da vida, que as colegiais adoram plagiar do Casimiro de Abreu, eu, de sotaque apegado nordestino, não chamava minha mãe de outra coisa.
Mainha para lá, mainha para cá.
Não por questão de preconceito, mais de pendor, até hoje ela se lembra com algum desgosto do apelido.
Voltávamos do Recife.
Quer dizer, ela voltava.
Eu vinha.
E o cristo, o Cristo lá no topo do Corcovado, me olhando.
Que diabo ele teria rebentado?
Só quando vi pela primeira vez, num carro, o adesivo de Jesus é fiel e tive minha primeira aula sobre art déco é que fui me dar conta:
o Cristo que estava lá em cima não era cristão. (
Também não era um jesuscristinho, que é como o Darcy Ribeiro carinhosamente chamava o seu amuleto.)
O Cristo Redentor estava acima de toda e qualquer religião -- embora, claro, o monumento em si tenha seu direito de imagem tutelado por a " Mitra Episcopal do Rio de Janeiro.
* * * " Mainha, olha o cristo rebentô."
Nunca fui católico, evangélico, essênio, budista.
Mas minha fascinação por aqueles 37 metros de concreto sempre foi tamanha.
Quando cresci um pouco mais e descobri meu primeiro segundo cristo é que fiquei encucado.
Estava lá.
Bem em Poços de Caldas, no sul mineiro, a nove horas da Cidade Maravilhosa.
Uma réplica da estátua que eu achava única.
Um Cristo Redentor.
Não foi exatamente uma desilusão, mas é como se fosse ...
Depois de ali, veio Itaperuna, ainda dentro dos limites do Rio, portanto, na provável jurisprudência do meu cristo rebentô.
Eu fiquei me remoendo.
Mais adiante, tomei conhecimento de um Cristo meio caricato, que levava sobre o ombro um sombreiro, um frisbee, uma circunferência esquisita.
Me disseram que era um holofote, e só aí fui entender porque aquele Cristo Redentor era chamado de Cristo Luz.
A verdade é que, guardadas as devidas proporções, cada Cristo tinha o seu tamanho, a sua forma, a sua graça.
E, queira ou não, há muitos por aí.
O primeiro mapeamento dos rebentores de que tive notícia catalogou 111 filhos pródigos, mais a semente original.
A pesquisa foi organizada em 1984, por a Faculdade de Belas Artes de São Paulo, e resultou numa exposição, cujo catálogo e alguns slides são as poucas reminiscências, depois da enchente que destruiu boa parte do material abrigado na faculdade.
Pouco mais de uma década depois, por ocasião do septuagésimo quinto aniversário do Cristo Redentor, foi a vez da Estrada de Ferro do Corcovado (esfeco) homenagear o ilustre anfitrião, realizando nova pesquisa, com base nos dados da primeira, e chegando à impressionante marca dos 185 Cristos somente no Brasil.
A exposição já saiu de cartaz, e esse texto pode parecer meio fora de propósito, meio frio, meio não-sei-o-quê.
Mas não é.
Para falar do Cristo, posso tirar de cor mil e um subterfúgios, quantos ganchos eu quiser:
seja a capa do RioShow da última sexta, seja a tal eleição para as novas sete maravilhas do mundo que serviu de pretexto para a matéria dO Globo, ou mesmo os pênis feitos de terços da Márcia X.-- que andaram sendo censurados por aqui.
Mas vou tocar nesses assuntos apenas de relance.
Até porque, se quisesse confusão, apontava de vez um link para o Cristo Mendigo do Joãosinho Trinta e pronto.
O fato é que o cristo rebentô que tanto admirei não é e nem nunca foi único.
E eu -- que naquela época não compreendia -- o enxergava apenas como um monumento turístico, quiçá uma marca da fé cristã.
De os 185 Cristos para diante, percebo que, mais do que isso, as estátuas são também parte do imaginário coletivo do brasileiro -- sem bairrismos à carioca -- espalhado do litoral aos sertões.
Os outros valores, claro, continuam manifestos.
Mas ainda procuro o que mais faz do Cristo um monumento onipresente.
Em Alagoas, por exemplo, tem um Cristo.
O nome da cidade que o abriga?
Pão-de-açúcar. Pois Pão-de-açúcar das Alagoas se orgulha de ter belas praias, um calor de 40 graus e o nome tirado de sua semelhança com a vila carioca.
O Cristo fica no alto do Morro do Cavalete, donde se avista a cidade inteira.
Nem todos os Cristos encontrados por a pesquisa, no entanto, sobem alto nos picos das montanhas.
Alguns se contentam com pedestais mais baixos, nas pracinhas das cidades.
Outros estão a postos em locais mais mórbidos, como é o caso da estátua em Angelina (SC), junto ao cemitério municipal.
A estátua de Crato (CE), adorna a torre de um relógio.
E por aí vai, num sem-número de pontos e posições, que fazem a via-sacra parecer um pouco provinciana -- com o perdão da palavra.
As curiosidades seguem ainda por as circunstâncias em que foram erguidas as réplicas.
Em Juiz de Fora (MG), a estátua marca a vitória da cidade contra uma epidemia que a assolou.
Em Rio Preto (SP), cuja região é a que tem o maior índice de Cristos -- mais de 32, no total --, o monumento tombou para o lado e desabou, no que precisou ser reconstruído.
É um Cristo, mas podia ser a Torre de Pisa.
E, por falar em Torre de Pisa, deixo o meu etnocentrismo de lado, e comparo as pesquisas do Corcovado com uma rápida olhadela nas réplicas da Estátua da Liberdade.
Não sei se por os ideais da Revolução Francesa não estarem tão em voga ultimamente, ou se por a falta de apelo na figura de uma mulher incógnita, a liberdade não me pareceu (ou não me apareceu) tão plagiada quanto o Cristo.
Sim, há uma em Washington, uma no Alabama, duas na França, uma na Itália, na Argentina, em San Marino, e até, pasmem, na Lituânia.
Há, claro, a mal-falada Estátua da Liberdade da Barra da Tijuca, prova de que mesmo os cariocas abrem seu espaço aos concorrentes estrangeiros.
Mas as -- vá lá -- 13 réplicas da liberdade americana, não chegam nem perto dos 185 cristos rebentores.
E não estou nem contando o Cristo projetado na Catedral de Notre Dame, em Paris, durante as comemorações do ano do Brasil na França.
Esse fica por conta ...
* * * A polêmica entre brasileiros e franceses sobre a autoria da peça já foi, aliás, objeto de um documentário.
A maior escultura art déco do mundo vive em constante conflito de nacionalidade, mas, segundo o falecido João Paulo II -- que Deus o tenha --, não há dúvidas:
Ele é brasileiro.
E nesse caso, é bom esclarecer;
o papa, além de carioca, era polonês;
e, portanto, não saiu à nossa megalomania.
A nossa megalomania, diga-se a propósito, deve contribuir em parte para as tantas e mais diversas explorações da imagem cristã.
O Redentor de Cornélio Procópio (PR) é a maior estátua em bronze da América Latina;
o de Guaçuí (ES) é o primeiro feito com material e mão-de-obra totalmente nacionais;
o de São Cristóvão (SE), por improvável que possa parecer, é o mais antigo -- de 1924.
O original foi pensado em 1921, mas posto em prática -- isto é, inaugurado -- apenas em 1931.
Nem a eterna rixa entre paulistanos e cariocas permite que eu levante falso testemunho.
São Paulo é o estado com mais Cristos espalhados, 90 ao todo.
Atrás dos paulistas, vêm os mineiros (31), os baianos (11), os paranaenses (10) e os goianos (8).
De o outro lado da fila, estão os paraenses, com o seu único representante.
O Rio de Janeiro, dono da matriz e mais três filiais, não é primeiro, nem último, só está no bolo.
Em a ala dos internacionais, há pelo menos seis Cristos, catalogados por a pesquisa pioneira da Faculdade de Belas Artes de São Paulo.
Entre eles, está o nosso lusófono Cristo Rei, em Lisboa.
De aí, tiramos duas conclusões:
a primeira, que não só a Estátua da Liberdade tem réplicas fora do continente;
e a segunda, que o cristo rebentô está longe de ser o primeiro e único, seja em que quesito for, e mesmo em escala planetária ...
Ainda assim, o que faz do cristo tão especial para nós, cariocas, fluminenses, brasileiros?
* * * " Mainha, olha o cristo rebentô."
Religião, política e futebol não se discutem.
E eu não sei por que diabos trocava o D por o B -- talvez fosse por a quantidade de rebentos do cristo, talvez por a necessidade de verbalizá-lo, porque o verbo, vocês sabem, se fez carne.
Não sei por que o cristo sempre me despertou esse fascínio, e sei menos ainda por que ele parece fascinar a tantos outros.
Só sei que até hoje minha mãe não gosta quando eu a chamo de mainha.
Número de frases: 95
Por que será?
O relato de um quase sobrevivente.
O dia de finados começou como qualquer outro.
Despertei com a mesma missão de sempre:
Sobreviver. Para isso teria que fazer o trabalho sujo de sempre e matar zumbis a torto e a direito.
Me dirigi ao vão livre do MASP, onde fontes me disseram que haveria uma concentração desses seres pútridos, chegando lá por volta de 15h30.
à primeira vista era um grupo modesto, de não mais que 40 mortos-vivos, e não aparentavam representar ameaça -- alguns até bebiam cerveja e conversavam normalmente.
Depois de uma longa tocaia o grupo cresceu, e somente às 17h20 foi dada a partida para uma caminhada macabra.
Os mais de 700 cadáveres ambulantes (segundo estimativas policiais -- alguém pode desmentir esse número) dominaram a calçada e uma das faixas da Av..
Paulista no sentido Consolação, e nada poderia impedi-los.
Caminhavam espalhando sustos, risadas e olhares intrigados por onde passavam.
Não demorou para que eu fosse dominado por a massa em decomposição e me tornasse um de eles.
Não havia apenas zumbis:
Jason, Freddy e até Blade estavam presentes -- creio que o herói foi mal informado pois não havia vampiro algum por lá.
Parte da força dos filmes de zumbi está no fato de que cada um era algo diferente antes de ser infectado, de preferência alguém que não fosse um fã do gênero;
assim, pessoas cabeludas com camisetas de metal ensangüentadas meio que derrotavam o propósito.
Mas para compensar tínhamos exemplares dos mais diversos:
enfermeiras, pacientes, famílias, princesas de baile, freiras, maratonistas, executivos, Elvis, Quico, Mia Wallace e vários outros tipos anônimos e famosos.
A procissão foi sempre bem-humorado e de maneira geral pacífica.
A o passar diante de uma igreja, aqueles que eram amaldiçoados, e não infectados, se sentiram mal.
Pouco depois disso um bando agrupou-se para devorar um motoqueiro, que aparentemente não gostou da piada, arrancando com ferocidade -- apesar de respeitar motoqueiros mais do que a média paulistana, não deixo de apreciar a ironia dessa situação.
Já quase na rua da Consolação um pequeno incidente:
Um carro começa a ser balançado por a horda faminta.
Assustada a motorista chama a polícia, que já tinha um carro próximo e logo acionou sua sirene.
O bando dispersou e em seguida a vítima avisou os fardados de que não havia problemas, assim seus novos amigos mortos-vivos voltaram a assediá-la, tudo com bom humor.
Em a continuação do trajeto, próximo ao cemitério da consolação, a excitação do local pareceu injetar nova energia nos cadáveres, que decidiram engolfar um ônibus, e a polícia, agora com reforços, mais uma vez colocou-os em seu devido lugar com sua sirene.
A entrada do metrô Consolação também não foi poupada e seus vidros ficaram manchados de sebo e sangue.
Entre os cânticos entoados estavam «imhotep»,» vida de gado " e adaptações macabras de cânticos populares.
Com suas viaturas manchadas de sangue, havia pouco que os homens da lei podiam fazer.
Para os mortos não há lei, especialmente quando eles estão em maior número do que qualquer manifestação sindical.
Um dos zumbis, munido de um machado, ameaçava defenestrar uma viatura quando foi repreendido por um motoqueiro fardado, com o qual posteriormente fez amizade depois de ouvir a frase " sou jovem como vocês."
Para minha decepção não entramos no cemitério, continuamos apenas caminhando na direção do centro, que tremeria ante nossa horda.
Mas um pequeno desvio à direita passando diante de uma delegacia da polícia civil acabou por levar-nos à cura em frente à Outs.
Assim findou a caminhada.
Como nenhum dos meus conhecidos morféticos iria participar da celebração, acabei por juntar-ma eles num bar, assim encerrando o dia mais nefasto de minha vida.
Vivos, preparem-se:
Este é apenas um gostinho do que está por vir.
O dia em que os mortos se levantarão e se virarão contra nós é apenas uma questão de tempo.
A Zombie Walk é a oportunidade para nos prepararmos, e o cansaço do meu corpo pode atestar que sobreviver não é uma tarefa fácil.
A pergunta ao final é:
Qual é o seu plano para quando os mortos chegarem?
Material de estudo:
Site Zombie Walk SP
Site Zombie Walk Porto Alegre Site Zombie Walk Internacional
Site Zombie Walk Brisbaine Teste para avaliar suas chances de sobrevivência
Lista de livros sobre o assunto
Vídeos 1 | 2 | 3 | 4
Em a Imprensa
G1 Último Segundo
Terra Notícias (Zombie Walk RJ)
Érika Palomino Fotos no flickr:
Dani Davanso
Mariana Rolier Lu Hueso
Diego Alex Elisa Mafra
Grupo de fotos
Zombie Walk 2007 por o mundo
BH Relato por Camila Cortielha
Fotos de Fabiano Aguiar Fotos de Vinícius
RJ Seattle
Boise Canada
Número de frases: 60
Toronto Vancouver
Entrevistas Com ALLAN De Oliveira
Como foi que surgiu a idéia da produção do documentário (vídeo etnográfico)?
De o desejo de realizar um trabalho com vídeo -- uma experiência nova para ambos -- e articulá-lo com questões relativas à formação de antropólogo e com questões advindas de pesquisas anteriores (tanto eu quanto Patrícia trabalháramos com temas relativos à cultura popular).
O que motivou vocês dois a apresentarem o projeto para a FCC?
O poder atrativo do edital do patrimônio, que nos pareceu mais adequado para uma proposta de curta-metragem.
Qual a vinculação dos dois com a música caipira?
A minha é pura curiosidade com um tema que sempre pareceu fascinante e instigante no sentido de apontar para questões importantes da sociedade brasileira.
Além disso, há aí um componente biográfico, haja vista minha ascendência mineira, por a qual tomei contato com o universo da música caipira.
Esta foi a música da infância e juventude de meus pais, tios e avós.
O que cada um faz hoje como atividade profissional?
Eu sou professor do Departamento de Ciências Humanas da FAP -- Faculdade de Artes do Paraná, onde ministros disciplinas de humanas (sociologia, história, antropologia e folclore) para estudantes de artes.
Além disso, estou concluindo meu doutorado em antropologia social junto à UFSC.
Como foi a experiência de produzir e dirigir o documentário?
Muito enriquecedora no sentido de permitir a vivência da produção de material audiovisual:
as dificuldades, os problemas, a organização.
Trouxe também a percepção do trabalho em equipe e instigou uma série de reflexões sobre a articulação entre cinema e antropologia, as quais pretendo retomar mais tarde.
Algum fato curioso marcou o período de gravação do documentário?
A mudança de sede da Canja de Viola (o que esvaziou o evento e nos exigiu uma mudança de foco) na semana em que começamos os trabalhos.
Que comentários podem fazer sobre o produto final do documentário (o vídeo etnográfico)?
Que ele pretende contribuir para revelar ao público, práticas culturais com as quais convivemos e não percebemos sua existência.
O Canja de Viola está há 20 anos no centro de Curitiba e muitas, muitas pessoas, já me revelaram nunca ter notado.
Sabiam que algo rolava no TUC -- Teatro Universitário de Curitiba (onde o Canja de Viola se apresentou durante quase 20 anos), mas não que era um encontro regular.
Além disso, espero que o vídeo convide as pessoas a pensar sobre a importância social de um tipo de música muitas vezes definida como «pobre esteticamente e brega».
Entrevista
2 Em a sua visão, a cidade de Curitiba tem preconceito com a música caipira ou a música sertaneja?
O preconceito, se houver, é velado ou pode ser verificado mais claramente?
O preconceito com a música caipira ou sertaneja aqui é o mesmo, penso, do que ocorre em todo o país.
Não há uma especificidade da cidade com relação a isto.
Ou seja, aqui não é diferente de São Paulo ou Belo Horizonte, por exemplo.
Quanto a este preconceito, ele é, salvo raríssimas exceções relativas a discursos de determinados grupos sociais muito específicos (ex.: fatias das classes média e alta), velado e está mais atrelado a outros preconceitos (de origem e de classe social).
O máximo que se escuta é que se trata de uma «música brega».
Os bairros mais afastados (citados como periferia, bairros populares, bairros de trabalhadores) produzem e reproduzem cultura muito distinta do que se verifica em outros bairros tidos como mais nobres?
Onde a diferença é mais acentuada?
Estes bairros mais afastados produzem uma cultura que lhe é específica, mas que não pode ser considerada distinta, à medida em que é difícil perceber uma exclusividade cultural.
De um modo geral a música sertaneja está onipresente.
Ela pode ser escutada no Bigorrilho, no Jardim Social, quanto no Bairro Novo ou Tatuquara.
O que muda é o estilo das músicas sertanejas ouvidas.
Elas são diferentes, de fato, mas há entre elas uma proximidade que fica difícil apontá-las como culturas distintas.
A grande diferença entre as culturas destes bairros são os elementos envolvidos na produção cultural:
as bases são as mesmas (a música sertaneja, o samba, o futebol), mas os discursos sobre eles e os elementos aos quais eles aparecem misturados são diferentes.
Os bairros (e suas populações) de faixas econômicas mais altas discriminam as demais faixas -- e os bairros -- em termos culturais?
Os ricos também gostam de música caipira e música sertaneja?
O preconceito aqui é algo ambíguo:
grupos sociais mais favorecidos tendem a ouvir na música sertaneja ouvida por grupos mais pobres, elementos que consideram «bregas».
Contudo, estes mesmos ricos também escutam música sertaneja, e muito.
Vale lembrar que a música sertaneja, junto do axé music e do pagode, é um dos tripés da indústria fonográfica no Brasil a partir dos anos 90.
Ou seja, hoje, conforme apontei acima, há uma onipresença do caipira e do sertanejo entre todas as classes sociais.
O que muda é o estilo deste caipira e sertanejo.
A não citação do termo Caipira por os entrevistados do documentário mostra algum tipo de preconceito com a temática caipira nas músicas?
Aqui em Curitiba não.
Isto ocorre mais em cidades do interior paulista onde se evita o termo caipira para fugir do estereótipo criado por Monteiro Lobato.
Aqui em Curitiba o termo não aparece porque o público que mostramos no documentário é de uma geração (anos 60, 70) que praticamente nunca usou o termo música caipira.
Vale lembrar que essa expressão, de uso restrito nos anos 30 e 40, foi adotado por uma crítica musical dos anos 50 e 60 (ligada ao Partidão e daria nos CPC's) que procurava criticar os produtos da indústria cultural.
Assim, a música considerada «mais pura» seria música caipira, conquanto aquela ligada à grande indústria seria «sertaneja».
No entanto, entre os músicos e público da música caipira / sertaneja esta divisão nunca foi operante.
Assim, as pessoas usam sertanejo e caipira de uma forma próxima.
Há diferenças, obviamente, mais não tanto quanto aparece nos discursos de diversos críticos musicais.
Os grandes clássicos da música caipira não aparecem (ou apareceram) na lista das músicas apresentadas por as duplas e cantores nos vários shows que vocês documentaram.
Há um desconhecimento da importância histórica e cultural das duplas genuinamente caipiras por parte do público focalizado ou ele se liga às novas duplas sertanejas por motivos que não são tão aparentes?
Quais seriam esses motivos?
Não, não há um desconhecimento da importância histórica das duplas mais antigas.
Pelo contrário, a maioria do pessoal conhece Alvarenga e Ranchinho, Tonico e Tinoco e conhece, mais ainda, os grande clássicos caipiras.
A questão é:
como eles gostam que estes clássicos sejam apresentados?
De aí é que as duplas mais antigas não aparecem.
É uma questão de geração:
o público do Canja de Viola, por exemplo, nasceu entre as décadas de 40 e 60. Alvarenga e Ranchinho, para eles, é apenas uma dupla antiga.
Não significa muita coisa, não aciona questões de memória afetiva, por exemplo.
Ao contrário do Chitãozinho e Xororó dos anos 70: muitos devem ter conhecido esposas, namoradas, ouvindo-os em bailes.
É uma questão de afeto.
Para eles, Milionário e Zé Rico, Chitãozinho e Xororó, Teodoro e Sampaio e outras têm mais significado afetivo.
Não interessa se a música é boa, ruim, se é da TV e se não é.
O ponto é:
afeto.
A presença de público com faixa etária 40-65 anos e, as mulheres, em boa parte, sem acompanhante, podem justificar a temática «sertaneja» onde há predominância (será?)
de temas como abandono, traição, solidão, tristeza, amor não correspondido, romantismo nostálgico?
As mulheres sem acompanhante, não.
Isto nada tem a ver:
as mulheres desacompanhadas, ali, são, em grande número, viúvas.
Porém, a faixa etária sim.
Por uma razão simples:
é a geração de brasileiros que assistiu a invasão da música brasileira por o bolero, a partir dos anos 40.
Invasão esta que esteve presente em todos os gêneros da música brasileira.
Veja os temas:
não são os temas de Lupiscínio, Antônio Maria, Dolores Duran, Maysa e outros nomes do samba-canção?
Com a música sertaneja seu deu o mesmo.
O bolero trouxe o tema e ele foi apropriado com as roupagens características.
Aqui, cabe um adendo.
Em a história do samba houve a Bossa-Nova, que extirpou a estética do bolero.
Em a música sertaneja não houve um movimento de renovação estética neste sentido.
Repare quando volta o uso da expressão «música sertaneja» de forma depreciativa:
uma crítica musical contemporânea à Bossa-Nova (Sérgio Cabral, Tárik de Souza, José Ramos Tinhorão e outros).
Este pessoal percebeu esta renovação.
O clima dos espetáculos registrados tem que características principais?
Há mais alegria ou mais tristeza?
Embora seja um espetáculo musical, as pessoas focalizadas estão mais alegres ou tristes ao cantarem e / ouvirem as músicas apresentadas?
São espetáculos marcados por a informalidade, antes de tudo.
Alegria ou tristeza?
É difícil definir nestes termos.
Eu diria por a alegria, mesmo que a letra seja triste.
Penso no meu pai, com seus amigos, cantando «Cabelos Brancos» (Herivelto Martins) num churrasco.
A letra é tristíssima, mas todos cantam alto e com dramaticidade.
É difícil, ali, ver uma alegria ou uma tristeza.
Tristeza por a música.
Alegria de cantar com os amigos.
O mesmo se dá nestes lugares do documentário (Canja, 3 Fazendas, Bar do Valdo, Bar do Paineira, Recanto da Viola) que são, com exceção do Canja, lugares onde as pessoas vão beber, comer e ouvir música.
Pense numa pizzaria com MPB ao vivo e onde se presta atenção nas músicas enquanto se come.
Esses lugares são assim.
Quanto ao Canja, de fato, ele é um evento onde as pessoas ficam muito paradas, silenciosas.
Apenas ouvindo.
Mas isto porque, normalmente, ele ocorre num teatro escuro (o TUC).
Ali tem a idéia de espetáculo mesmo.
Mesmo quando a música é animada, o público fica sentadinho escutando (no máximo, canta junto).
A diferença é a informalidade do entra e sai.
Como o evento é gratuito, as pessoas entram e saem o tempo todo.
Esta informalidade está ligada a outra coisa que marcou a vida deste público:
os circos.
Algum curitibano nato apareceu no documentário?
Quem?
Houve sim curitibanos nos eventos que acompanhamos e não foram poucos.
O Pedrinho, aquele senhor com quem começamos o documentário (no ônibus) é daqui.
O espaço onde as apresentações focalizadas são realizadas pode ser descrito como:
O lugar de música sertaneja?
O lugar onde eu escuto a música da nossa terra?
O lugar onde sou igual aos demais participantes?
O lugar das boas músicas de antigamente?
Ou o lugar onde posso ser o que realmente sou sem ser recriminado ou criticado negativamente por o que demonstro gostar?
Os espaços focalizados podem ser considerados como «ilhas de história» ou ilhas da memória?
Em os lugares que fomos, escutamos:
a) lugar da música sertaneja;
b) lugar do som da terra.
As outras perguntas apareciam em algumas falas, mas de forma velada.
Alguns participantes elogiavam o Canja por ali «todo mundo estar no mesmo nível, ser igual».
Outros, em conversas, diziam que as músicas boas eram as de antigamente (porém, este antigamente se refere ao Chitãozinho e Xororó dos anos 70).
Outros falaram, sim, que no Canja é o lugar onde se está entre amigos e ninguém é recriminado.
Mas estas eram falas pontuais.
O normal era «aqui é lugar da música sertaneja» ou «o lugar onde você pode escutar o som da terra».
A música «sertaneja» é essencialmente uma música de migrantes?
Sim.
Mas isto não quer dizer que você não tenha nativos, e muitos, fazendo.
Quer dizer mais que para o público e músicos da música sertaneja a idéia de transitoriedade na vida está mais presente.
É um público que não tem aquele ideal burguês do século XIX de estabilidade.
A vida toda tem um caráter temporário.
Mora um tempo aqui, um tempo ali.
Trabalha seis meses num lugar, um ano em outro.
Viver em movimento.
Mesmo os que nasceram em Curitiba contam histórias e histórias de deslocamentos.
Até os arranjos familiares são provisórios:
casa com uma mulher, cria os filhos do irmão, depois migra, mora com um tio, volta, mora com o irmão.
Tudo é provisório.
Ou seja, é um fatia da população em constante movimento.
Só migrante faz música sertaneja?
Como afirmei acima, não.
Mas a maioria dos produtores deste tipo de músico tem sua vida marcada por a transitoriedade.
Em a questão dos «mitos», os focalizados se identificam mais com os mitos do passado caipira (era do rádio) -- Tonico e Tinoco, Alvarenga e Ranchinho, Vieira e Vieirinha, Tião Carreiro e Pardinho -- ou com os mitos mais recentes da música sertaneja (era da TV) que é produzida por Chitãozinho e Xororó, Leando e Leonardo, Milionário e Zé Rico, ou Bruno e Marrone?
Os mais recentes, porque esses são os que eles viram e ouviram de forma mais próxima.
Vale a pena, porém, refinar.
Para eles, Leandro e Leonardo e Bruno e Marrone são de outra geração, mais nova, e que não lhes causa muito interesse.
O mais importante é a geração anos 60, 70 e 80, sobretudo Léo Canhoto e Robertinho, Teodoro e Sampaio, Milionário e José Rico.
Em a Canja de Viola, estas são as três duplas mais presentes.
Em o 3 Fazendas e no Bar do Valdo, mitos mais antigos aparecem:
duplas nos anos 50 como Zilo e Zalo, Zico e Zeca, Liú e Léo, Pedro Bento e Zé da Estrada e Tião Carreiro e Pardinho.
O ponto de inflexão da atual música sertaneja é um período que vai de 1982 a 1990, quando ela entra na agenda cultural da classe média.
1982 é o ano do lançamento do «Fio de Cabelo» de Chitãozinho e Xororó.
Esta canção ainda não provocou o boom da música sertaneja, mas fez tanto sucesso entre as classes populares que chamou a atenção da grande mídia.
Mesmo assim, o público de classe média torcia o nariz.
Porém, a gravação que virou o barco foi o «Entre tapas e beijos do Leandro e Leonardo, em 1990».
O sucesso desta música não foi somente entre as classes mais populares:
ela foi parar na Globo.
Para o público do Canja, esta geração de Leandro e Leonardo não diz muita coisa.
Eles preferem o som produzido antes disto.
E aí acontece algo muito interessante:
trata-se de um público, de um tipo de música, que não interessa nem à Inezita Barroso (na sua valorização de uma verdadeira música caipira) e nem ao fã do Leandro e Leonardo.
Eles não estão nem no rótulo «caipira de raiz» (que é o xodó dos intelectuais) e nem no sertanejo-pop dos anos 90 que toca na Globo e nas FM's.
O Canja de Viola e os outros lugares do documentário estão no meio disto.
Não são nem os «puros» e nem os «degenerados».
Não tocam no Conservatório de MPB, no Paiol e nem nas FM's locais.
Música sertaneja é música caipira também?
As duas são diferentes, porém estão profundamente imbricadas de tal forma que a história de uma não pode ser contada sem a outra.
Porém, esta é uma pergunta que eu, como pesquisador, procuro não responder (e nem saberia como).
Quem deve responder isto são os próprios agentes envolvidos na produção das duas (músicos e público).
Será que para eles as duas são iguais?
Bem, aí é que se começa a perceber as divisões dentro deste universo musical.
Se perguntarem para Inezita Barroso ela vai responder que não, a partir de determinados critérios.
Se perguntarem para Zezé di Camargo e Luciano, eles, provavelmente, vão responder outra coisa, baseados em outros critérios.
Quem tem a verdade ai?
Existe uma música caipira?
Qual seria sua essência?
Inezita Barroso, certa vez, disse que a «música caipira ' é aquela que fala da terra, dos bichos e que o» sertanejo " é a dor-de-cotovelo.
Bem, se for assim, «Cabocla Tereza» não é música caipira.
O que nosso trabalho tentou fazer (e o que eu faço na tese) é descrever estas diferentes opiniões sem resolvê-las, dizendo que uma é verdadeira e outra é falsa.
O meu pressuposto é que qualquer universo social é marcado por discursos divergentes.
Se perguntarmos num encontro de jornalistas «o que é jornalismo?»,
vai dar briga.
Isto faz parte da vida social.
A mesma coisa para a música sertaneja e caipira.
Assim, me parece que o trabalho mais rico é aquele que descreve sem condenações.
Eu procuro inverter?
Por que Zezé di Camargo e Luciano não são música caipira?
O que há em eles que impede isto?
Já me responderam:
«porque sua música não fala do homem da terra, das coisas tradicionais».
Mas quem disse que este é o critério?
Quando fiz minha pesquisa de campo em Piracicaba (SP), escutei de vários senhores de 60, 70 anos, que Zezé di Camargo e Luciano eram música caipira porque cantavam em duplas.
Olha aí outro critério.
Para eles, não interessa se tem guitarra, bateria, teclado.
Cantou em duplas, em dueto de terça, é música caipira.
Estes critérios variam de lugar para lugar e o meu trabalho, na tese, é descrevê-los.
Eu também fiz esta pergunta em campo, e as respostas foram muito variadas.
Mas, de um modo geral, o público e os músicos separam menos as duas do que a gente imagina.
Número de frases: 211
Em uma rua recém-asfaltada no bairro Bandeirantes, predominantemente residencial em Nova Iguaçu, o vai e vem das pessoas no início da noite é pequeno.
São trabalhadores voltando para a casa.
Crianças aproveitando para brincar um pouco mais antes de ir para a cama.
Mas, embora poucos saibam, um endereço naquela vizinhança servirá de cenário, dentro de poucos minutos, para mais um ato de resistência de escritores da Baixada Fluminense.
Lá ocorrem os «Encontos», evento que reúne, quinzenalmente, há mais de um ano, um grupo de amigos em rodas de leitura de contos, próprios e de autores já consagrados. (
Vale explicar que a grafia do nome do sarau está correta, ou melhor, o segundo n é invertido, mas não sei como digitá-lo assim.)
Em a cozinha, o anfitrião Moduan Matos está às voltas com o preparo de um caldo de feijão carioca, com batata, cenoura e lingüiça calabresa, que será o aperitivo da noite -- a cerveja fica por conta dos que ainda vão chegar.
Sua esposa Sil se ocupa de colocar a pequena Marília, de 3 anos, para dormir.
Em poucos minutos, o portão do enorme quintal é aberto e a roda de leitura vai se formando.
Em aquela noite, os presentes são J. Marujo, Lafayette, William Sertório e Sandro Marschhausen, além do casal anfitrião.
Um advogado, um médico, um vendedor de material de construção, um engenheiro, um técnico em Contabilidade e uma programadora visual, todos apaixonados por a arte de escrever.
Já houve quarta-feira, em que o quintal, um verdadeiro pomar com pés de acerola, fruta-de-conde, mamão, banana, cajá-manga, coco etc., recebeu até 12 pessoas.
«Hoje nossa maior dificuldade talvez seja reunir pessoas comprometidas com a literatura», avalia Moduan.
Sob uma aroeira e uma goiabeira, sentados em cadeiras de plástico e ao redor de duas mesas no quintal, os escritores se preparam para mostrar os contos criados especialmente para aquela noite:
Eclipse. Em os Encontos, o grupo sempre escolhe um tema específico para o próximo sarau.
Pode ser uma frase, um personagem, uma situação corriqueira -- O velho do cemitério, O mundo vai acabar amanhã, Jogo de xadrez entre o velho e a criança, O sapato de bico fino, Saiu pra comprar cigarros -- e por aí vai.
Apesar do título único, a criatividade não é cerceada.
Há eclipses tradicionais, há eclipses subjetivos.
Um pouco de poesia, de comédia, de nonsense, de crítica social.
E, acima de tudo, o prazer da literatura.
Em a seqüência, Moduan serve seu caldo de feijão, que acompanha a cerveja presente desde o início da leitura.
J. Marujo aproveita e comenta que pretende lançar, ainda este ano, o primeiro livro nascido a partir do projeto: "
25 Contos», reunindo textos de sua autoria.
Pronta para ir para o forno, a obra só não tem data de lançamento ainda porque seu autor terá de arcar com todos os custos da publicação.
Logo depois, os amigos passam a ler contos de autores já consagrados.
Em a mesa, um volume de «Aquarelas do Brasil», de Flávio Moreira da Costa, e de» Seleta em Prosa e Verso, de Aníbal Machado».
Assim, as vozes do sarau ecoam até a meia-noite, naquela quase silenciosa vizinhança na Baixada.
Após ouvir as histórias do anfitrião, percebo que mais do que morar no bairro Bandeirante, ele é, de certa forma, um bandeirante -- no sentido de precursor.
Em os anos 70 e 80, Moduan «publicava», com giz, seus poemas em portas de aço das lojas comerciais no centro de Nova Iguaçu.
Logo, fundou o grupo Caco de Vidro, com dois amigos.
A idéia ganhou novos adeptos e chegou a reunir 15 poetas.
Em o início dos anos 90, surgiu o fanzine Desmaio Públiko, iniciativa dos escritores Eud Pestana e Cezar Ray para divulgar a obra de poetas iguaçuanos e com distribuição gratuita em bares da cidade.
Moduan participou ativamente do projeto, já a partir do segundo número.
Eles tinham como seu reduto principal a antiga Casa de Cultura de Nova Iguaçu, na Rua Santos Dumont, palco de inúmeros «Encontros com a poesia», evento criado por Moduan, que reunia amantes da literatura de Nova Iguaçu e teve entre os convidados escritores de outras cidades, já consagrados, como Salgado Maranhão e Flávio Nascimento.
Também marcaram presença nas mesas dos já extintos Daniel ` s Bar e Bar Raízes (do próprio Moduan e Sil, que se conheceram há 15 anos num desses " Encontros com a poesia ").
Autor de 13 livros, com crônicas, contos e poemas (" Vermelho -- um século de poesia " traça a trajetória da poesia no século 20), publicados com a ajuda de amigos (a doação de R$ 100 dava direito a 10 exemplares), Moduan sonha com a criação de um selo da Baixada para publicação de obras de escritores da região.
«O que me move é manter essa bandeira desfraldada.
A única coisa que sei fazer é escrever», diz ele, que trabalha na Biblioteca Municipal Central Cial Brito, anexa ao Espaço Cutural Sylvio Monteiro, e não tem um escritor favorito.
«Eu leio Gregório de Matos, Paulo Leminski, Cora Coralina, Drummond, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Ulisses Tavares ...
Sempre gostei de ler».
Talvez seu poema «Energético», publicado na revista comemorativa dos 10 anos do Desmaio Públiko, resuma melhor seu amor por a literatura:
«Arte é ter sensibilidade
Deixar correr uma lágrima
Mesmo invisível
Deixar cair a máscara
Diante do público
Sem representar
Ser dono da emoção
Que não se encontra em outro lugar.
Arte é saber viver
É se aproximar
Sem saber amanhã
Número de frases: 52
Onde vai estar."
Cinema E Realidade
Reflexões da professora
que vê (parodiando
Bertolt Brecht) Qual não foi minha surpresa -- pra ir entrando logo de sola no assunto -- quando vi, no HULK 2008, produção norte-americano, o exército dos Estados Unidos invadindo uma favela brasileira para capturar seu monstrengo verde produzido em laboratório;
cujo General comandante deseja transformar aquele tipo de mutação em super soldiers, armas humanas, super soldados, etc., e assim tentar dominar outros Afeganistãos, Iraques, Vietnãs, quiçá Amazônias, quiçá Brasis ...!!!
Em o filme, é como se não existissem Forças Armadas no Brasil, não existisse nem governo no Brasil, na verdade eles consideram o Brasil como um quintal de eles, lugar comum onde eles podem entrar e sair impunemente conforme sua própria vontade!
Afinal o filme nem sequer cogita uma comunicação com o Exército Brasileiro ou com o Governo do Brasil.
Tive a impressão de que se deseja semear essa idéia, torná-la comum no inconsciente coletivo:
que é possível aquilo que acontece lá -- a invasão-interven ção que fere os princípios de paz entre as nações, desrespeitando fronteiras, ameaçando a paz continental.
E então, no dia em que acontecer, já estará banalizado entre nós, será considerado como uma coisa corriqueira-mais ou menos o que a Colômbia fez no Equador para matar os guerrilheiros das FARC, ajudada por as intelligentsia do FBI e da CIA.
Aliás,. essa é a justificativa do General o tempo inteiro:
que ele é um fugitivo!
Então ele ser um fugitivo justifica a invasão?
Será que é isso que estão preparando para nós?
Uma desculpa, uma justificativa, para ratificar ações de desrespeito à soberania nacional?
Não vou fechar questão.
Estou abrindo o questionamento, estou colocando a dúvida na mesa, porque Hollywood só nos traz certezas e convicções!
O fundamento destas certezas e convicções é ideológico, mas depois de Foucault não se pode mais falar de ideologia que se é logo taxado de xiita, radical e outros rótulos mais que o capitalismo inventou e instaurou como verdade para reduzir seus críticos e minimizar aqueles que questionam suas práticas xenófobas e genocidas.
A indústria bélica que financiou a campanha do Presidente dos Estados Unidos, George W Bush, vem sendo muito bem remunerada nestes anos de seus governos (Governo para os norte-americano e des-governo para os povos do Oriente Médio, da América Latina e algumas nações do Extremo Oriente), com a perseguição a Osama Bin Laden, ao terrorismo como um todo, -- já que os Eua combatem o terrorismo com terrorismo de Estado -- a invasão ao Iraque e tantas outras ações imperialistas comandadas por esse lunático que mata crianças, destrói hospitais e mesquitas, financia golpes de Estado nas democracias da América Latina e manda seus jovens à morte nas trincheiras para salvar a própria pele e defender os interesses dos arqui-bilionários empresários da indústria de armamentos pesados.
Não é à toa que a indústria cinematográfica -- serviçal da burguesia capitalista internacional produziu nesse período, em Hollywood, tantos longas-metragens cuja temática principal foram as armas, a violência, as chacinas, o tráfico de drogas, genocídios e fratricídios, sempre com a justificativa de que se está retratando a realidade -- mas até onde o cinema e as artes áudios-visuais não re-criam elas mesmas uma nova realidade a partir do que forjam em suas histórias, nas telas dos cinemas?
Até que ponto o cinema é influenciado e até onde ele influência no imaginário do inconsciente coletivo?
Deixo essas questões com o leitor, para que observe, analise, teça suas próprias considerações e mantenha bem abertos os olhos.
Leia as entrelinhas, as letras e palavras que não foram escritas, as imagens que não foram gravadas, escute o silêncio, tateie o inalcançável e esteja alerta pois assim como o Iraque e a Bolívia têm petróleo, nós temos aqüíferos, nós temos o Pantanal e nós temos a Amazônia!
Número de frases: 24
O projeto A Cara Alegre do Piauí completa 30 anos este ano.
Trata-se de um grupo de amigos que viaja por todo o Estado levando arte e cultura para quem não tem acesso, como as comunidades das cidades mais pobres.
Gente que nunca foi a um teatro, nunca assistiu a um show e conhece apenas o rádio e a TV como formas de entretenimento.
Para festejar a longevidade -- coisa rara num projeto cultural sem remuneração, sem fins lucrativos, sem regras e sem chefe -- e principalmente a amizade que mantém o grupo unido há tanto tempo, está sendo preparado cuidadosamente um CD que de já dá água na boca.
Artistas do quilate de Vanda Queiroz, Luzia Miranda, Rosinha Amorim, Luciana Libório -- donas de algumas das mais lindas vozes do Piauí, Erisvaldo Borges, Gilvan Santos, Wilker Marques, Ferdinand Melo, Gilson Fernandes e Agostinho Ferraz, que fazem parte do Cara Alegre, já estão com repertório selecionado, só com músicas do Piauí.
O professor Cineas Santos, um dos fundadores do projeto, conta que vê com alegria o fato da idéia de um grupo de amigos apaixonados por arte e cultura ter conseguido chegar tão longe.
«Acho que o segredo é que, ao longo de todo esse tempo, mudaram algumas pessoas, mas a filosofia do Cara Alegre não muda.
A nossa filosofia desde o início foi ensinar, aprender, compartilhar e conviver.
Agora virou slogan».
O Cara Alegre tem conseguido feitos inimagináveis.
Entre eles, um dos que mais emocionam é a transformação provocada por o grupo em Guaribas, a cidade do interior do Piauí que ficou famosa por sediar o programa piloto do Fome Zero.
Em meio à pobreza das pessoas, a generosidade dos artistas que participam do projeto tem feito a diferença.
Crianças que nunca tinham tido brinquedos aprenderam a magia de brincar com tinta e pincel, com argila e com música.
A cidade ficou mais colorida depois que os muros ganharam desenhos e pinturas, as tardes ficaram mais alegres com o som das flautas dos meninos que se revelaram nas oficinas.
A jornalista Paula Danielle acompanhou o grupo em algumas das viagens a Guaribas e sempre tinha histórias bonitas para contar quando voltava.
Era a menina que nunca tinha tido chinelos e começou a andar calçada, a família que não tinha o que comer mas ficava sentada de noite na porta de casa, contando histórias e estrelas, a outra menina que não sorria e mudou completamente ao ganhar a primeira boneca ...
Os artistas que fazem o Cara Alegre estão entre os mais famosos e conceituados do Estado.
Um exemplo é o maestro Aurélio Melo, regente da Orquestra Filarmônica do Piauí, conhecido por o rigor com que orienta seus alunos, jovens músicos.
Em as ações do projeto, ele ensina, cuida, ajuda.
«Quem imagina o Aurélio Melo acompanhando amadores?
Em o Cara Alegre ele faz isso», comenta Cineas, um professor de Língua Portuguesa e Literatura apaixonado por a cultura do Piauí que faz as vezes de mecenas para muitos artistas do Estado.
O grupo viaja por todo o Piauí, de Corrente (extremo sul do Estado) a Parnaíba (extremo norte) levando arte, cultura e alegria.
Nada de grandes estruturas, o que conta é só a vontade de participar.
«Já dormimos todos numa sala, porque não tinha quarto para ninguém.
Já viajamos de todo jeito, de carro, de ônibus, de carona;
a gente come o que tiver, bebe o que tiver e ninguém reclama.
Em todo esse tempo, nunca adotamos regras do tipo ' só viajamos se for assim ou assado '.
Não temos dentro do grupo um estatuto, um código de postura, nada que reja o projeto, mas mesmo assim nunca tivemos problemas», diz o professor.
O nome do grupo é uma resposta a quem diz que o Piauí é triste por causa da pobreza, do calor ou de problemas de qualquer ordem.
«Quem sugeriu esse nome foi o Fernando Ferraz, há uns dez anos, em Parnaíba.
Ele comentou que o Piauí já fez cara triste a vida inteira e que estava na hora de mostrar a cara alegre, que era essa que levávamos a todos os recantos do Estado», lembra Cineas.
O grupo hoje tem cerca de trinta pessoas entre músicos, jornalistas, professores, artistas plásticos e bailarinas.
«As pessoas se aproximam por afinidade, é todo mundo voluntário.
Cada um vai na viagem que quer e que pode ir».
Cineas, um homem de extremos, do tipo ame ou deteste, afirma, com todas as letras, que o Cara Alegre do Piauí é o que o mantém vivo.
Quando se trata de planos, o grupo segue a filosofia do «Deixa a vida me levar».
Se surge uma oportunidade de viagem, um liga para o outro, combinam rapidinho como vai ser, que horas é a saída e pronto.
O que acontece na estrada e na cidade a ser visitada é surpresa, depende do que vão encontrar por lá.
E é assim que dá certo.
Cada um faz a sua parte, cada um ensina o que sabe, aprende o que pode.
Com um sorriso no rosto.
Número de frases: 41
Em o dia 15 de março de 1990, Fernando Collor de Mello assumiu a presidência do Brasil.
Em o rock nacional havia uma entressafra dos medalhões enquanto milhares de bandas ensaiavam em garagens.
A moeda era o Cruzeiro.
Ou melhor, o Cruzado ...
quer dizer, Cruzado novo ...
Ah, vai saber, o assustador era que existia em circulação notas meio milhão de cruzados.
E gravar um compact disc naqueles anos era coisa de mega popstar!
Qualquer banda de garagem que quisesse fazer sua música circular precisava ter uma fita cassete demo.
Além disso, «as gravadoras não queriam mais contratar bandas de Rock, relembra Gabriel (na época no Little Quail e hoje líder do Autoramas)» as demos foram a maneira de cada banda circular e ser comercializada».
Em a época o Brasil era o 7º maior mercado fonográfico do mundo.
E pasmem, isso se refletia nas demos, como lembra Gabriel:
«Algumas bandas venderam bastante, às vezes até milhares de cópias, reproduzidas uma a uma em casa.
As demos d' Os Cabelo Duro, Little Quail, Raimundos ...
Eu mesmo acordava um pouco mais cedo antes de ir para o colégio pra gravar fitas.
Enquanto tomava banho, gravava uma, enquanto almoçava gravava mais outra."
Internet ainda era assunto de geeks e o modem mais rápido mal alcançava 2.400 bps de velocidade.
Se você gravasse uma demo, o melhor caminho era divulgá-la entre os fanzines (o equivalente aos blogs de hoje).
Os zines eram os mais interessados, escreviam matérias a respeito e ajudavam a distribuir milhões de papéiszinhos para divulgar sua demo.
Qualquer carta que você enviasse ou recebesse estava cheia de pequenos panfletos divulgando demos e shows (o equivalente ao spam de hoje).
Alguns zines começaram a incorporar a função de gravadoras por a óbvia posição de destaque que possuiam nesta cadeia.
Como a K7 se tornou «o» suporte daquela cena, verdadeiras obras-primas sairam apenas neste formato e jamais veriam o brilho do CD.
Cada uma destas demos trazia ao menos 1 hit daquela banda, músicas que não poderiam ficar esquecidas.
Então, Gabriel, com a inestimável ajuda de Bacalhau (Autoramas) e Rafael Gonzalez, montou uma coletânea com os hits em fita K7 da década de 90.
Chama se Fim De Século, e este é apenas o volume 1.
Em o processo de digitalizar e preservar suas fitas-demo, os 3 escavaram clássicos como «Carro forte» do Raimundos, com uma bateria eletrônica;
a primeiríssima versão de «Quando a Maré Encher do Eddie», Oz, banda de Brasília que deixou vários sucessos em apenas 1 demo e 1 CD;
além de versões pioneiras de músicas do Pato Fu, Acabou La Tequila, Maskavo Roots e Graforréia Xilarmônica.
Alguns ilustres anônimos também merecem lembrança, como Neguinhos Nojentos com a desbocada «Sua puta», a hilária Carnal Desire com» Profissão peão " além de gente que ainda está ai na correria, como Meldas do Claudão, baixista da mineira Estrumen ' tal, Gangrena Gasosa, o Doiseumimdoisema de Diego Medina ...
-- 1 será lançada dia 1º de maio no site www.mmrecords.com.br e em K7 de tiragem limitada.
A K7 traz apenas 22 músicas, mas no site estão as 30 músicas em MP3, com 128 kbps para download e streaming gratuito.
Também no site, a capa em formato K7 pode ser baixada gratuitamente.
O importante é não deixar que estas músicas sejam esquecidas.
Afinal, não se esqueceram Collor ...
Número de frases: 33
O Bonde do Mal
e o Bondinho do Bem
Tenho trabalhado há dois anos com crianças bem novinhas, entre os 8 e os 12 anos, moradoras de um destes mui complexos agrupamentos de favelas aqui do Rio.
Faço musicalização com eles.
Construtivista que sou, desde criancinha, o método pedagógico que utilizo é ensiná-los a fabricar seus próprios instrumentos (um montão de coisas podem ser ensinadas durante o processo) e a tocar uma música possível, extraída do universo cultural de eles mesmos, com estes instrumentos.
Não é difícil de prever que, a música possível para o repertório destes meninos, envolve o Samba e o Funk (não este Funk do mainstream, falsamente engajado e violento, para inglês ver, mas, o Funk, como eles dizem ' Pesadão ').
É óbvio que trabalho muito a partir dos textos de um repertório formado por letras criadas por os próprios garotos, mas também, muitas vezes, de letras extraídas do que podemos chamar, precisamente, de folclore urbano local (é só lembrar dos schotisches e os quase-baiões cantados por o bando de Lampião e tirar a expressão ' folclore ' do mofado invólucro que a encobria no passado).
Então, com vocês, um Funk ' proibidão ', cantado com fervor cívico por um grupo de crianças negras e faveladas, de 8 aos 12 anos.
O tema, gravado num CD clandestino com uma coletânea de funks idênticos, é um hit dos bailes nas favelas e até em festas de condomínio, de bairros de classe média baixa do Rio de Janeiro.
(Nota: Atenção Galera, estou ' mandando ' este Funk para o meu amigo Duda Valle, por a justa indignação com o famigerado Caveirão.
A canhestra conceituação eu mando para as gentis damas Ize e Helena Aragão, parceiras na inspiração)
O Bonde
Funk ' proibidão ' -- Domínio público, Rio de Janeiro, século 21
Já veio o'toque ' da cadeia
convocando os irmão
Pra invadir ' de bonde '
a favela dos ' alemão '
O patrão já deu o papo
Que quer ' geral " reunido
Mas só vai partir para a guerra
Os ' braço ' que são bandido
E na madruga o bonde parte
cada um portando um ' kit '
preparado pra ' D20 minute
Meteram bala nos ' verme '
Explodiram o'caveirão '
Detonaram a cabine
Mataram 5'alemão '
O primeiro tomou na cara
O segundo tomou nos peito
O terceiro ficou fudido
O quarto morreu de medo
O quinto pediu perdão
O Bonde não perdoou
tacou dentro do latão
Boladão, pesadão
Isso é Comando Vermelho
Mas se bater de frente
Toma logo tiroteio '
Glossário:
' Toque ' Aviso, ordem '
Bonde ' Comando, escolta '
Geral ' -- Todo mundo '
Alemão ' Inimigo '
Braço ' membro do grupo '
Kit ' Equipamento (fuzil e munição) '
D20 minute -- Viatura policial tipo ' Blazer ' '
Verme ' Policial militar '
Caveirão ' -- Blindado da polícia militar '
Latão ' -- Container de lixo '
Boladão ' -- Concentrado, decidido '
Pesadão ' -- Forte, compacto, implacável
A ambigüidade nos trilhos
Em o bonde de nossa realidade, os passageiros mais comuns são a Iniqüidade, a crueldade e a ambigüidade, características típicas da sociedade brasileira.
O único passageiro com alguma coisa de aproveitável para o nosso papo, talvez seja a ambigüidade.
Em este sentido, entre o bem e o mal do conturbado contexto social em que vivemos, a quem interessar possa, algumas breves informações podem ser acrescentadas, assim, como luz no fim do túnel, balão de oxigênio, bonança.
O Caveirão nem acabou de atirar ainda, mas, já sei que alguém perguntará, por exemplo, no que consiste o método de musicalização aplicado neste caso.
Em a busca de um conceito, fomos logo, a grosso modo, lá em cima, associando nosso método ao Construtivismo mas, a partir daí a conversa podia sair, totalmente, do seu foco humanista, para cair no território pantanoso da tergiversação teórica, acadêmica.
Não pretendemos entrar, exatamente, por aí.
Mais elucidativo, talvez seja aquele significado expresso por o dístico que costumo usar como slogan do projeto Musikfabrik do qual o trabalho com esta meninada é um elemento crucial, o fio da meada:
' Cuide dos sentidos que os sons cuidarão de si mesmos '
O autor é Lewis Carroll, o livro é o famoso ' Alice no país das Maravilhas ', e o personagem que fala a enigmática frase, só poderia ser a Duquesa.
Vários sentidos podem ser atribuídos à frase (e é esta curiosa ambigüidade que me fascina), a pedagogia criada -- como método sim -- a partir do imponderável, dos estímulos vividos naquele instante, sem referência bibliográfica alguma em que se apoiar, sem rede de segurança, aprendida ali, na hora mesmo em que se ensina, estas coisas todas que a gente leu num livro do Paulo Freire, do Vigowsty, mas, que só aprendeu mesmo quando o queixo caiu diante de uma criança cantando, eufórica, um funk que fala do cadáver do inimigo, jogado num latão de lixo.
Não gosto, nem um pouco, de fazer citações e referências bibliográficas.
Arrotos de erudição, para mim, são sempre sinal de pouca educação (ou pouca inteligência para criar suas próprias frases e conceitos).
Mas tenho sim, devo confessar -- entre outros, é claro-um ídolo que merece ser amplamente citado aqui, como referência metodológica (até por que se enquadra perfeitamente nos amplos significados da frase da Duquesa, de Lewis Carroll):
Ele é o lingüista norte americano Noam Chomsky.
Acho que ele, à sua maneira, é o educador insuperável, porque nos ensinou que o ser humano é uma coisa simples, como tudo na natureza.
Um pobre ser comum, que só é capaz de aprender por meio de seus sentidos básicos mais elementares:
Ver, Ouvir e Sentir, ou seja, se exprimir e compreender apenas a partir daquelas mensagens transmitidas por meio dos Sons, das Formas e Cores e dos Afagos (do contato direto com outras coisas).
De aí, tudo se transformando, ' magicamente ', em Emoções, que foram configuradas, instantaneamente, em Endorfinas, Adrenalinas, Dopaminas e todo este fantástico mistério bioquímico que é a vida.
Educação poderia ser isto.
Para todos.
O resto, pode ser firula elitista, com todo o respeito e se me permitem.
É esta enfim a natureza do tal método, a mágica que se materializa quando os meninos batucam seus tambores e cantam o seu Funk Pesadão.
O método tem a função de gerar uma energia que contém em si mesma, atributos, conteúdos muito fortes para motivar estes meninos a ansiar por conhecimento sobre tudo que os cerca, a fim de se tornarem menos frágeis e indefesos, poderosos portadores (para o bem ou para o mal) de uma irresistível sede de liberdade.
Isto tudo pode ser música
A percussão é a linguagem mais recorrente para eles, mas, como muitos devem saber, a maioria dos instrumentos musicais, que o ser humano inventou é de algum modo, de percussão (inclusive o piano).
O leque de opções é, portanto, enorme.
Logo de início, se deve apresentar as diversas possibilidades existentes, para que eles possam demonstrar a que mais lhes interessa.
Qualquer motivo é um bom motivo (e esta é uma regra determinante do método).
Não é difícil deduzir, no entanto, que o fascínio de eles por tambores é preponderante.
Em qualquer caso, contudo, há que se motivá-los, usando o gancho da pobreza evidente e do acesso quase nulo que eles têm a recursos, estimulando-os no uso de materiais de fácil acesso na rua, reutilizáveis, recicláveis, estas soluções até bem recorrentes hoje em dia.
Esta parte é a mais fácil porque, afinal, criar, imaginar, inventar é pura paixão para crianças em geral.
A tarefa, no entanto, é muito difícil para muitos educadores porque, nesta hora, é preciso desencarnar a criança que eles carregam, aprisionada, dentro de si (e esta é uma regra indispensável ao sucesso do método).
Em o processo, as crianças precisam aprender a operar máquinas e ferramentas comuns, destas que os adultos usam (e com as quais, invariavelmente, brincam, simulando fuzis e pistolas).
Precisam aprender também a medir coisas, a raciocinar quantidades, calcular medidas e proporções, compreender noções complexas da física tais como tração, pressão, tensão, elasticidade, etc..
Precisam também calcular áreas a partir de diâmetros (compreender para que serve o " Pi ', lembram?).
Para construir um simples instrumento musical eles precisam aprender, em suma, quase tudo que a escola deveria lhes ensinar, mas, não ensina.
A escola brasileira não foi criada para ensinar a todos.
Só a alguns.
Como ali não é aquela escola hostil, brincando eles aprendem, constroem-se a si mesmos, apesar de tudo.
E sendo música, é Linguagem
Em a decoração dos corpos dos instrumentos podemos usar muita coisa, às vezes até folhas de revistas velhas, desde que, coloridas.
Enquanto as imagens são escolhidas e coladas, muitas questões podem ser debatidas.
Pré-adolescentes que são -- precocemente, muitas vezes -- podemos debater com eles, por exemplo, sobre sexualidade, livremente, num papo descontraído (os meninos, escolhem sempre mulheres lindas, seminuas, mas, são inocentes de dar pena.
As meninas preferem galãs da TV e imagens românticas, mas, podem já estar, em alguns casos, expostas ao aliciamento adulto para se tornarem prostitutas).
A idéia básica do método é abrir janelas de diálogo, sejam elas quais forem, e daí espiar a realidade de eles que, depois de compreendida, vai alimentar o processo de aprende-ensina aprende, sempre em duas vias (como tem que ser na vida real)
Simples assim:
Abertas as janelas, é só participar, dialogar em cima da realidade, sem meias palavras, sem hipocrisia e sem censura.
Pronto, o instrumento musical, por a sua forma, seu som, seu timbre, etc. passa a conter uma História, no sentido sociológico, antropológico mesmo do termo, ou seja, a técnica de tração (afinação), de execução, o tipo de música característico, os ritmos ou escalas mais recorrentes, para este ou aquele instrumento, tudo isto nos remete para uma cultura determinada, uma época, um lugar qualquer do mundo (a África, por exemplo, ou o Nordeste do Brasil, a índia, o Japão), alguma Geografia, portanto.
De aí surgirá um mundo de outras possibilidades.
O caso do repertório possível também é importante porque, se poderá discutir a realidade dos meninos, a partir de conceitos palpáveis, concretos (os pais da maioria de eles, por exemplo, neste local em especial, foram, em sua maioria assassinados por a polícia ou mortos em confrontos com comandos rivais).
Os textos também podem nos remeter a outros aspectos metodológicos interessantes, desde motivação para a transmissão de códigos de escrita ' culta ', até a valorização de códigos de linguagem ' errada ` que podem adquirir relevância literária, se compreendida como ' dialeto ', linguagem simbólica, com valor artístico particular (os idiomas estão vivos, certo?).
Um mundão de coisas largadas para a gente ir pegando, desde que não se tenha a arrogância de pensar que dá para pegar o bonde andando.
Até porque, a fila anda.
Spírito Santo
Número de frases: 107
Julho 2007 (Mais coisas sobre o Musikfabrik aqui nestes links.)
Olhando de forma apressada, até parece que a Trama Virtual presta um excelente serviço para os iniciantes.
É uma forma de divulgar o trabalho de novos artistas.
Marcel Mauss talvez tenha sido o primeiro a apontar o «esquema» da dádiva.
do que se trata?
Bem, os presentes carregam com si a obrigação de retribuição -- o que nos leva a inúmeras indagações.
Primeiro: seria o presente um presente?
Segundo: seria uma pulsão de amor inerente a todo ser humano?
Terceiro: seria uma forma de agregar as pessoas através de relações de troca?
do que se trata a dádiva.
Acho irônico a Trama Virtual ver uma série de artistas excelentes desfilando virtualmente por sua página e, ao mesmo tempo, insistir na promoção do filho de Jair Rodrigues, Max de Castro e Wilson Simoninha.
Será que o esforço que a Trama faz em promover esses nomes é o mesmo que faz para promover as bandas que desfilam por o mundo virtual da mesma?
Ironicamente, ao abrir a página da Trama, percebemos constantemente a presença de propagandas desses mesmos artistas.
Em a barra esquerda, logo ao lado das «novas» revelações da cena musica, há uma notinha:
«Conheça o Novo CD do Max de Castro».
Mas afinal, é exigir muito, não?
Querer que a trama dê espaço para novos artistas sem promover os da casa, é uma certa ingenuidade.
Eu concordo com vocês, é ingenuidade.
Mas vamos aos pontos.
Imaginem agora a quantidade de bandas de garagem que postam suas sinceras canções no Trama Virtual.
Agora imagine a quantidade de amigos dessas bandas e parentes que abrem a página para baixar uma de suas músicas.
Imaginem agora que todos eles olham a notinha «Conheça o Novo CD do Max de Castro».
Alguém já viu alguma dessas notinhas que não fossem relativas a nomes consagrados?
Ou será que alguém abre o site da Trama Virtual para observar os novos artistas que lá postam suas músicas?
Imagino que todos que postam suas músicas no Trama Virtual, vão lá por, a priori, saber que alguns dos seus conhecidos colocou lá suas canções.
Não conheço muitos indivíduos que abram a página atrás de novos artistas.
Se assim o fizer, será barrado por a mensagem:
«Conheça o Novo CD do Max de Castro».
Através dos dédalos virtuais dos links clicados, o sujeito adentra na engrenagem da Trama Virtual.
Que, através de uma boa iniciativa, acaba exercendo -- acredito que sem querer, uma imposição do:
«Conheça o Novo CD do Max de Castro».
Corram lá agora na página e façam esta experiência.
Número de frases: 32
Um abraço do Ganso Gracioso.
Estou em nítida fase cearense.
Mais especificamente:
ando imerso em projetos musicais baseados em Fortaleza.
Em a semana passada não parei de escutar o Costa a Costa;
esta semana é a vez do Ceará Original Soundfashion.
Quem diria!
Eu tinha uma certa implicância com o rápido desenvolvimento urbano fortalezense dos anos 90, aquela aparência de Miami nordestina que não escondia as evidências de descontrolada injustiça social, com prédios e shopping centers de luxo duvidoso na Aldeota e outros novíssimos bairros «ricos», lado a lado com favelas barra-pesadíssimas diante das quais Vigário Geral ganhava ares de condomínio cinco estrelas.
Achava que aquilo só poderia terminar muito mal (o tráfico de crack e a prostituição internacional provam que eu não estava totalmente enganado ...)
Mas eis que a modernidade fake e de fachada dá lugar a um vigor cultural realmente moderno, no sentido crítico que sempre acompanha o verdadeiro modernismo.
O Ceará Original Soundfashion, que apresenta música nova -- ou outras mais tradicionais, só que gravadas recentemente -- conectada com moda e artes visuais, é apenas uma amostra da vitalidade artística de Fortaleza e outras cidades do Ceará -- indo felizmente até o sertão do Cariri.
Mesmo sendo uma amostra pequena, é uma amostra que se escuta com entusiasmo.
Em as minhas primeiras viagens para Fortaleza nos anos 2000, percebi que muita coisa interessante estava pipocando em todos os lugares.
Também pudera:
tive como cicerones a Ana Quezado e o DJ Guga de Castro, que me apresentaram a uma pá de gente bacana por a cidade.
Minha primeira parada foi o Alpendre (pena que não tem site), uma usina de transformação artística e social que se tornou para mim exemplo de atuação cultural repensando arte e tecnologia também com a participação da garotada da favela Poço da Draga, que fica escondida ali no fim da Praia de Iracema (a garotada tem aulas sobre vídeo-dança, Nam June Paik ou Nietzsche -- pois não é porque eles vêm de ambientes pobres que precisam conhecimentos pobres ...)
Depois fui conhecer lugares, pessoas e cenas tão diferentes quanto o Noise 3-D, o núcleo Gerador Cultural ou a Farra na Casa Alheia, esta capitaneada por o próprio DJ Guga de Castro (e também por o DJ Marquinhos), um evento que faz o povo se acabar na pista de dança ao som tanto de guitarrada dos anos 70 quanto de hip hop de agora.
Guga de Castro, da Farra na Casa Alheia, e Thaís Aragão, do Gerador Cultural, fizeram a curadoria musical do Ceará Original Soundfashion.
O resultado não poderia deixar de ser eclético -- mas não é nada aquele ecletismo flácido, que justifica a inclusão de porcarias por respeito à «diversidade».
Aqui o negócio é só filé, mas que desnorteia qualquer padrão de bom gosto dominante ou de purismo estético.
Só para dar um exemplo sonoramente perturbador para quem gosta ou se refugia em enfadonhos guetinhos musicais:
a faixa 11 apresenta o grindcore extremo (nem sei como classificar direito) do Facada;
a música seguinte é o balanço pra ninguém ficar parado da brihante sanfona de 8 baixos solo (sem nenhum acompanhamento, mas ela sozinha basta para fazer a festa) de Chico Paes;
e logo em seguida entra o carimbó /reggaeton/rap Ela Mexe, do Costa a Costa, a música mais animada da mixtape Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência (não resisto em citar outra parte da letra: " bota o dedo na boca / que eu tô sentindo o aquecimento global ").
Eu sempre escutei música assim, cruzando fronteiras estilísticas o tempo todo.
Mas era difícil encontrar quem acompanhasse minha aventura rítmica, já que muita gente ainda acha que para gostar disso ou daquilo temos que achar um lixo todo o resto.
Ainda bem que no Ceará tem uma turma cada vez maior que combate esse tipo emburrecedor (e pior: anti-divers ão) de mesmice.
Então quem coloca a compilação no toca-disco esperando apenas sons nordestinos típicos, ou somente novos discípulos de Fagner, Belchior e Ednardo (nada contra esses nomes: vi uns shows do Fagner com Robertinho do Recife nos anos 70 que foram magnificamente alucinados, e estão entre os concertos que lembro com mais saudade -- há algum registro daquilo?),
toma logo um susto.
Foi no Ceará Original Soundtrack 1, lançado em 2005, que tive o prazer de escutar pela primeira vez a sensacional Ginastas Cariocas do Montage e a não menos surpreendente Ascatimbalacobaco do Idson Ricart, uma das grandes canções brasileiras de Século XXI, uma embolada-techno de protesto.
Agora a Soundfashion abre com Inóspito, do George Belasco & O Cão Andaluz.
Onde eu andava que nunca tinha ouvido falar dessa banda?!!!
O CD é para apresentar a nova galera cearense, mas quando começa parece que você está em Berlim, ouvindo um pós-electroclash ou disco-punk bem eletrônico.
Fui imediatamente descobrir o MySpace do Cão Andaluz e tudo que escutei por lá me deixou mais contente, pois aponta outros caminhos artísticos que Inóspito nem sugeria.
Em o seu blog, George Belasco diz que é influenciado por Suicide e Can no estúdio e Clash e Pere Ubu ao vivo -- dá para entender?
Não precisa entender:
o ecletismo continua estimulante.
Então o CD continua com o big beat disco house etc. muito divertido do Hérlon Robson, passa por o Montage jogando amarelinha com a pomba-gira Raio de Fogo, chega ao Baião da Saudade tocado só na rabeca por o mestre Antônio Hortêncio (que, segundo diz na introdução da faixa, tem amigos em tudo que é lugar), e revela a delícia que é O Pinto dos Peitos, do Cidadão Instigado, canção que tinha passado meio batida quando escutei as muitas pérolas de E o Método Túfo de Experiências (mas como passou batida -- pergunto-me agora -- se é justamente a que fala «no entendimento sobre as coisas absolutas»?)
Puxa: aqui só vou conseguir falar batido de tudo ...
Senão o texto fica Enorme (mais do que já está enorme), e ninguém lê nada.
Mas há ainda dois rocks instrumentais, um mais blues (obviamente) do Blues Label, e outro mais inundação agradável de guitarras distorcidas do Fossil.
Tem também o rock-bossa de O Sonso, o balanço árabe-nordestino teatral do Dona Zefinha, o minimal do DJ Fil, o chorinho de Herivelto Porto, o forró mais MPB de Geraldo Júnior, a dance music cantada do DJ Natal, o som pós-cabaçal (tocado com rabeca e percussão) dos Zabumbeiros Cariris.
Mas nessas primeiras audições outras faixas que me chamaram muito a atenção foram a Se For, do Macula, um rock bem contemporâneo com vocais elaborados e não-óbvios, e a já muito querida Mulher Ioiô, da diva-anti-diva Karine Alexandrino, com seu solene clima orquestral meio anos 60 e uma letra perfeita anti-clima:
«sou seu ioiô vagabundo / brinquedo vulgar / de cores berrantes».
Uma música curtíssima merece um prêmio de originalidade no meio de tanta coisa original.
Trata-se de Intervalos, assinada por A Pessoa Bob (nas pouquíssimas menções que encontrei a essa pessoa na internet vi o nome grafado também com A. Pessoa Bob, com ponto depois do «A», algo certamente» pontual " -- como detesto a moda dessa palavra!--
mas que me deixou ainda mais ultra-hiper curioso).
É um quase «nada» eletrônico, mas um nada suculento, do qual sou fã, e do qual também encontro ecos em trabalhos muito especiais como o da Colleen ou do Yuchiro Fujimoto.
Mas não posso saber se estou na trilha certa, pois só escutei essa Intervalos ...
Se alguém conhecer mais alguma coisa sobre A Pessoa Bob, com ponto ou sem ponto depois do A, que faça o favor de colocar as informações nos comentários.
E voltando ao Soundfashion como um todo (que ainda inclui como bônus a faixa de Dona Maria que abria o Ceará Original Soundtrack de 2005, a pungente Ida do Padim para o Céu, descrevendo seu caminho para o paraíso «acompanhado por 10 mil anjos», nos deixando aqui na Terra» como gado sem pastor "), o importante é dizer isto mesmo:
apesar de cada faixa ter qualidades sozinha, o mais essencial é o todo, a relação poderosa e improvável entre diferenças que compõem o todo (só sinto falta de um forró-pop, estilo Felipão, do Forró Moral, ou mesmo algo bem caliente dos Aviões do Forró).
Até porque o todo não é só música, tem muito mais.
A parte fashion ficou a cargo do estilista Mark Greiner, que -- por o que a pesquisa no Google deu a entender -- é filho de mestiço chinês-escoc ês que foi parar em Fortaleza.
Suas roupas refletem essa mestiçagem e muitas outras mais.
Em Ceará Orginal Soundfashion, as criações de Mark inspiraram os trabalhos de fotógrafos e xilogravuristas, e muita gente mais (mais, mais e mais e assim por diante), cuja colaboração resultou em cartões-postais de uma Fortaleza que ainda não faz parte de nenhum roteiro turístico, mas que pode muito bem vir a fazer.
Muita gente trabalhando junta, colaborando na produção de visões cada vez mais ecléticas sobre o que é ser cearense hoje, ou o que deve ser o Ceará de hoje, ou que lugar o Ceará e os cearenses ocupam -- e podem vir a ocupar -- no Brasil e no mundo.
Diante de tantas boas idéias, acho estranho ver uma outra certa moda soturna e deprimida fazer sucesso por aí, dizendo que o Brasil é um lugar acabado, onde mais nada de interessante ou bom acontece.
Não consigo deixar de pensar:
só não encontra entusiasmo no país quem não sabe procurar.
Xô depressão!
Estou aqui -- um dia paraense, outro gaúcho etc., e hoje cearense -- para dar força para o que está dando certo e o muito mais que pode ainda dar certo, e que seria muito bom que desse certo logo.
Número de frases: 62
A problemática da famosa ' taxa do garçom ', facultativa, é um grande reflexo do mau atendimento dos serviços cariocas.
Acho que todo mundo sabe que os estabelecimentos comerciais são proibidos de cobrar, obrigatoriamente, os famosos dez por cento por os bons serviços prestados por garçons e funcionários em bares e restaurantes.
Se você parar para pensar, é algo bem lógico, já que o local está cobrando por o que você consumiu e a obrigação de todo bom estabelecimento é o bem servir.
Condicionar o bom serviço, no entanto, à cobrança dessa taxa adicional é algo que já se tornou parte de uma espécie de tradição.
Tanto que é de praxe que as pessoas paguem os tais dez por cento sem nem ao menos dar um pio.
Por lei, os estabelecimentos têm que informar ao consumidor de que ele não é obrigado a pagar esta taxa.
Alguns nem isso fazem.
Mas, até aí, isso é no país inteiro que acontece.
Porém, como consumidor, eu nunca reparei tanto neste detalhe como no Rio de Janeiro.
Alguns me dizem que, por eu ser novo na cidade, eu ainda não me acostumei com a atitude.
Mas com o que é que eu tenho que me acostumar, mesmo?
Em diversas cidades, quando eu informava que não pagaria os dez por cento, por causa da não-obrigatoriedade, quase sempre houve respeito por a decisão.
Porém, na capital fluminense, parece que os lugares acham isso uma espécie de ofensa.
Como eu acho isso um problema generalizado da cidade, notadamente na Zona Sul, não vou aqui ser indelicado com os locais que me foram indelicados.
Mas acredito que isto seja um problema cultural e, como é de cultura, em todas as suas formas, que se pretende falar aqui no Overmundo, vou contar alguns dos problemas que já enfrentei por aqui.
Um de eles foi num tradicional restaurante do Flamengo.
Eu estava junto com a minha mulher, o amigo João Paulo Cuenca e sua esposa, Rosana Caiado.
Eu ainda não morava no Rio e combinamos neste lugar, o qual eu queria muito conhecer, para beber um pouco e conversar.
Ficamos por horas, num ambiente verdadeiramente agradável e descontraído.
Quando fui fechar a conta, no entanto, fui ao caixa para pagar sem os dez por cento.
Seguiu-se o seguinte diálogo:
-- Então, eu gostaria de pagar a conta, mas sem os dez por cento.
-- O senhor não foi bem atendido?
-- Sim, mas ...
-- Se foi, qual o motivo de não pagar?
-- Porque não é obrigatório.
-- O senhor foi bem atendido?
-- Sim, mas ...
-- Então, vai de sua consciência, não é mesmo?
Esta última frase foi dita já com a máquina do cartão de débito à minha frente, pronta para digitar a senha, com o valor acrescido do extra não-obrigatório.
Que, sim, acabei pagando.
Ainda ficamos mais uma hora por lá, pois o JP e a Rosana chegaram um pouco atrasados e estavam comendo.
Durante toda esta hora, mesmo tendo pago os tais dez por cento, os garçons sequer dirigiram a palavra a mim enquanto estive por lá.
Quando tentei pedir um chopp adicional, por o qual pagaria, o senhor que atendeu a mesa simplesmente deu de ombros e meu chopp, claro, nunca chegou.
Como diria um amigo meu de Campinas, era a lama.
Óbvio que nunca mais fui lá.
O que eu não sabia, naqueles dias, é que diversos outros estabelecimentos seriam riscados do meu caderninho de lugares para se ir na cidade.
Outro de eles, já com mim morando aqui, é pertinho de casa.
Mesma situação:
eu, minha mulher e meu enteado.
Quando fui pagar sem os dez por cento, o rapaz do caixa simplesmente me disse:
«Está errado, a conta deu tanto».
Eu expliquei, ele fez que não entendeu e, apenas após dez longos minutos, consegui fazer valer meus direitos.
Mas, quando fui lá de novo, sozinho, fiquei quase meia hora sentado, esperando ser atendido.
E nenhum garçom (eram quatro, se não me engano, e o bar estava vazio) veio me atender.
Acha incrível?
Como eu disse, é um problema cultural.
Em geral, a parte de serviços no Rio de Janeiro é pior do que a de outras capitais que conheci.
Há um pouco o sentimento de que, se o cliente está ali, ele tem que aceitar as coisas como são, inclusive o atendimento, bom ou ruim.
Mais ou menos assim:
isso é o que tem, se estiver bom, tá, se não estiver, vá pra outro lugar.
Poucos lugares dão ênfase ao bom atendimento.
É uma tendência que, acredito, tenda a mudar com o passar dos anos.
Mas, é claro, isso leva tempo.
Acho que o pior de todos os abusos foi num bar que pertence aos mesmos donos de uma rede de bares que suporta uma minicervejaria aqui do Rio, cujo nome remete a uma mulher fogosa.
Lá, o absurdo se torna tão absurdo que, ao invés de se cobrar 10 %, eles têm a petulância de taxar o usuário em 12 por cento!
Este bar, no Recreio, é superagradável, não me entendam mal, mas basta chegar a este ponto para todo mundo ficar em polvorosa.
Em este dia, o garçom chamou o gerente, que estava na entrada do local, e ficaram confabulando por uns cinco minutos.
Eu fiquei me indagando o que conversavam:
sobre minha ousadia, minha atitude ou sobre alguém ter exigido um direito cumprido?
Em esse caso em particular, pedi até o último centavo do meu troco (pois, às vezes, arredondam, e nem sempre com a vantagem para o cliente, como reza nosso atual mundo do fair play comercial).
Há também o caso de uma pizzaria, na rua mais cool do Leblon:
rodízio bom de bola, um dos melhores do Rio, mas na qual decidi nunca mais entrar porque, quando os garçons me vêem, fazem questão de me servir de um modo demorado, por saberem que eu exijo o direito de pagar os 10 % apenas se eu quiser (ou se puder, que é um fator que eles não costumam levar em conta).
Porém, devo admitir que nunca reclamaram do pagamento apenas da conta, sem a taxa opcional extra -- apenas atendem mal a posteriori.
Isto também me basta.
Em a mesma rua, houve um caso em que o que me indignou foi a malandragem do garçom que atendeu a minha família, em outra pizzaria.
Fazia uma semana que eu tinha me mudado e era meu primeiro sábado na cidade.
O restaurante, pertecente a uma rede local, tinha pouquíssimas opções em seu rodízio, uma massa ruim e um preço salgado, além de um chopp apenas mais ou menos.
Em o cardápio do local, estava, no entanto, claro como água, que lá não se cobravam os dez por cento.
Portanto, quando fui pagar, para mim foi natural este pequeno diálogo que o garçom teve com mim:
-- Oi, a gente não cobra dez por cento.
Pode ser?
-- Claro!
Fiquei feliz por mais ou menos um minuto.
Um lugar que, além de não cobrar a taxa, ainda informa sobre isso?
Perfeito! Mas, quando a conta veio, lá estava aquela quantia abaixo do valor da conta, ainda por cima destacada.
Quando fui perguntar ao garçom, ele disse:
-- Ué, eu perguntei ao senhor e o senhor disse que podia ser!
Percebe a malandragem no uso das palavras (aliás, reconheça-se, muito bem escolhidas)?
Não paguei, é claro.
E, novamente, mais garçons indignados.
É mole?
Diga, então:
quem será que se indigna mais?
Creio que, se os consumidores tivessem mais postura, a lei seria cumprida e, então, o atendimento dos lugares teria que melhorar -- ainda que, em princípio, isso fosse provavelmente usado para novamente condicionar bom atendimento a taxa extra.
Mas mudanças culturais interessantes geralmente começam com rupturas, não?
Número de frases: 86
Talvez seja hora de romper este ciclo vicioso e, sem os dez por cento, torcer para que a área de serviços e atendimento da cidade se torne, mesmo, 100 %.
Circo Voador, 31 de maio de 2008 Lembro perfeitamente do dia em que, ouvindo rádio, pensei:
«Perdi! Nunca mais vou ouvir música daquele jeito».
Um músico passa tantas horas com a música, tentando se misturar àquela massa de sons e tempos e alturas e durações e silêncios e emoções, que dificilmente vai conseguir ouvir música como um não-músico.
A intimidade muda os melhores relacionamentos, para a melhor ou pior.
Com a música não é diferente.
A intimidade faz com que vc nunca mais seja capaz de ser tocado por uma música diferente daquela que vc considera boa.
Nunca mais ouvir uma balada açucarada e se emocionar, nunca mais chorar com uma canção boba que toca no rádio, mas que desarma a gente.
Adquirimos conceitos demais, julgamentos, imagens, um monte de besteiras e de coisas sérias.
Viramos uns guardiões chatos da música que achamos que é a música boa.
Achamos, pretensiosamente, que agora sabemos o que é música, que estamos do lado de lá.
A intimidade faz a gente perder a emoção fácil, o encantamento do início da paixão.
A proximidade faz a gente ver os defeitos de um quadro conhecido, quase sempre igual a mil outros.
Déja vu, clichê, mesmice.
A intimidade cansa.
Nunca mais a embriaguez fácil dos primeiros encontros, nunca mais o gozo múltiplo regido por solos hiper técnicos, notas difíceis, malabarismos musicais, notas jogadas fora para a nada, pra se varrer do palco ao fim do espetáculo, notas em vão.
Mas a intimidade também faz com que a música vire um delicioso prato exótico, colorido, perfumado, cheio de texturas e temperaturas diferentes, dado aos paladares treinados para o detalhe, para os jardins secretos que a música esconde.
Jardim de delícias íntimas, intransmissíveis a não ser por música.
É o nosso segredo, nosso prazer solitário, nossa extra-sístole, nossa micro-circula ção, nossa linfa.
A musica do Hamilton de Holanda é uma música bioquímica.
Ela se mistura aos humores do ouvido, entra por os sete buracos da cabeça, por os sete chacras, penetra os confins do cérebro e dispara circulação adentro como um tiro entorpecente, uma poção poderosa que toma e eleva todo corpo em poucos minutos.
De ela brotam todos os velhos choros e risos.
Em ela moram todos os encantos do descortinamento da beleza.
Os olhos pedem pra fechar, mas também querem ver aquele gigante mitológico empunhando a arma hipnótica com o qual laça e arremata a platéia embevecida, incrédula e apaixonada.
Bocas abertas, olhos fechados, casais abraçados, meninos calados.
Todos se curvam ante a postura entregue, sem afetação, do Quinteto.
Músicos que tocam música, esporte de equipe, frescobol.
Não há adversários, só comparsas, correligionários supra-partidários.
Todos jogam para a música ganhar.
De os olhos brotam lágrimas, o coração palpita.
Podemos sorrir outra vez.
A música do Hamilton de Holanda Quinteto lavou a minha alma num sábado à noite.
Número de frases: 32
A minha e a de todos nós que amamos a música e todo o seu universo de maravilhas e que, humildemente, suplicamos que ela nos aceite em seu colo generoso e nos embale a vida pra sempre.
A Serra do Pai Pedro
Dia 13 de outubro.
Durante três horas, das duas da tarde, até as cinco horas, eu, meu primo Jonathas Mamede, o cunhado de ele, o biólogo Gustavo Soares e o argentino, também biólogo Juan Pablo Aldatz tentamos subir a Serra do Pai Pedro, no município de Acari, região do * Seridó norteriograndense.
A serra, que acredito ser uma formação rochosa de alguns milhões de anos, era composta basicamente de granito.
Em a verdade, na subida da serra, todo granito era sintetizado por mim como simples pedras e digo mais:
pedras quentes, ásperas, traiçoeiras e repito.
Muito quentes.
Antes da subida, chegando à Fazenda Carnaubinha, lugarejo que dava passagem para o'Pai Pedro ', procuramos por algum morador que nos levasse até o pé da serra.
Encontramos o Seu Zé de Lino.
Aparentando uns 60 e poucos anos, Zé de Lino se prontificou em nos deixar na «porta» da serra, como ele bem disse.
Chegando na tal porta, Zé de Lino nos alertou:
«Se dé cinco hora e vocês num tivé lá in cima, pode tratá de descê, porquê senão vocês se lasca».
Em essa hora, o argentino, que já mora por estas terras há mais de quinze anos perguntou a seu Zé:
«Essa serra é malvada mesmo?"
E Zé de Lino sentencia:
«Essa aí é».
«E vocês num tão levano nenhuma arma de fogo não?
O povo diz que aí por cima aparece umas onça de vez em quando vindo da banda da Paraíba».
Não sei se Zé de Lino disse isso por puro folclore regional, ou se de alguma maneira era possível haver alguma onça na Serra do Pai Pedro.
Em se tratando de arma, tínhamos apenas o canivete do meu primo e se fosse o caso, alguma pedra que encontrássemos na hora.
Começamos a subir e foram surgindo os primeiros Cardeiros, Chique-chiques, Juremas, Pereiros e sem falar nos Catingueiros, planta essa que libera um odor semelhante a ovo podre.
Em a primeira meia-hora de subida, éramos tangidos por uma trilha que, apesar de pouco delineada, estava nos servindo muito bem.
O «vamos por ali, vamos por aqui, o cuidado com essa pedra que tá solta», era entrecortado por um sem-número de outros assuntos.
De posição do país ' no contexto geopolítico do pós-guerra, à Tropa de Elite, naquela subida, resolvemos todos os problemas do mundo.
Depois da meia-hora tranqüila e da prosa descompromissada, a trilha se desfez.
Aí o jeito foi apelar para a sorte na escolha do melhor caminho.
Com tantas pedras pra pular, mata fechada e espinhosa pra abrir, a respiração passou a se tornar mais exigente e chegava a hora de darmos os primeiros goles d ´ água.
Vez por outra, parávamos um pouquinho para tomar um novo fôlego e tentar apreciar a bela vista que ia se formando a cada passo.
Sobre o nome da serra, não sei dizer ao certo a origem.
Se tivesse que apostar, eu diria se tratar de uma homenagem a algum ' preto velho ' da região;
algum líder quilombola.
O fato é que constatamos a afirmação de Seu Zé de Lino.
A serra era mesmo malvada e não nos deixou alcançar o seu topo.
Descemos às 16h30 min e chegamos lá em baixo já na boca da noite.
Mais meia hora ali em cima e estaríamos mesmo «lascados», pois a descida teria sido bem mais cruel.
O Plano B
Mesmo cabisbaixos, sabíamos que o conselho do seu Zé de Lino era de bom grado e, sobretudo, muito sábio.
Morador da região desde que se entende por gente, ele sabia do que estava falando.
De volta ao sítio ele foi logo dizendo:
«Ói, eu num disse a vocês.
A serra é caxão nego véi».
Ouvimos os aforismos de Zé de Lino e Gustavo esboçou um pensamento.
«Subimos de novo amanhã e sem equipamento.
O que vocês acham?».
Pensei um pouco e dei uma segunda opção.
«Olha só, o grande lance de subir essa serra, é acampar lá em cima.
Se for pra subir e descer, eu prefiro deixar pra outro dia.
Que tal irmos pra Acari e amanhã a gente sobe aquela serra que fica por trás da pousada».
A resposta do resto do grupo foi positiva.
Dormimos em Acari, «cidade limpa e amiga» como diz a placa de boas-vindas na entrada do município.
Considerada a ' cidade mais limpa do Brasil ', Acari já passou até mesmo no Fantástico.
O município é abastecido por o açude Presidente Marechal Dutra.
Construída por o DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca) e inaugurado no dia 27 de abril de 1959, com capacidade de 40 milhões de metros cúbicos, a represa é mais conhecida por Gargalheiras e o local foi cenário de alguns filmes nos últimos anos.
Um de eles foi «O Homem que desafiou o Diabo», com Marcos Palmeiras e mais alguns atores globais.
Pela manhã, fomos em direção ao açude Gargalheiras, distante cerca de 4 km do centro de Acari.
Em o pé da Serra do Minador, nosso novo desafio, existe uma capela erguida por os trabalhadores que construíram o Gargalheiras em homenagem a Nossa Senhora de Lourdes.
Antes da subida, podes para fotos e até uma reza se fez necessária.
Cerca de dois anos antes, eu havia enfrentado a Serra do Minador com sucesso.
E lá estava eu de novo.
Mas dessa vez com outro grupo.
Acabei sendo o guia nessa nova empreitada;
não poderia ser diferente.
Apesar da serra não ser muito grande, a subida exige um esforço excessivo das pernas, pois o terreno e íngreme e, de certo modo, traiçoeiro.
O caminho era um misto de arbustos cortantes, areia e, sobretudo, pedras.
Pedras soltas, na verdade.
Que eu lembrava, existia um fio que ia do pé da serra até o topo.
E realmente o fio estava lá.
Mas para minha surpresa, até a metade do caminho, apenas.
Que chiste.
«Quem foi o filho da puta que arrebentou esse fio»?
Essa a pergunta que não saía da minha cabeça por uns 20 minutos.
O jeito foi recorrer á sorte mais uma vez e tentar achar o caminho.
' Lá para as tantas ', achamos o danado do fio e a subida até o topo ficou mais acertada.
Eu só lembrava que chegando lá em cima, ou melhor, pra chegar lááá em cima, era preciso passar por uma fenda no meio de umas pedras.
Acontece que chegando quase no pico, não conseguíamos ver a tal fenda.
«Poxa, devem ter fechado a passagem.
Essa fenda ficava por aqui», eu dizia para o pessoal, que já estampava uma certa frustração no semblante.
Era literalmente o tal do «tão perto e tão longe».
Quando já estávamos conformados com a ' segunda derrota ', eis que a minha curiosidade me levou a botar a cabeça dentro de uma pequena abertura entra umas pedras.
Era de fato a tal passagem.
De certo modificada, não sei se por a força da natureza, ou se por algum gaiato ...
Luz. Vi uma luz e voilá.
Alcançamos o platô da Serra do Minador e pudemos, finalmente, admirar a beleza que é a cordilheira do Seridó.
Uma beleza cortante e agressiva como os poemas de João Cabral de Melo Neto, só vendo e lendo pra crer ...
Era uma vez Acary ...
Habitado primitivamente por os índios Cariris, o município de Acari foi fundado, na condição de povoado, por o sargento-mor Manuel Esteves de Andrade, vindo da Serra do Saco.
Manuel Esteves ergueu em 1737 a capela no novo povoado, consagrada à Nossa Senhora da Guia.
Em 11 de abril de 1835, foi criado o município de Acari, por resolução do conselho de Governo.
Em este mesmo ano, ou seja, na época do império, já dizia o «Código de Postura da Intendência Municipal da cidade de Acary» cujo autor é desconhecido, «Em toda a cabeça de casal será obrigado a ter limpado as frentes de suas casas nas povoações, nas quatro festas, principalmente de cada um ano, sob pena de pagar por cada vez que faltar a limpeza, duzentos réis para as despesas da Câmara».
As pessoas eram obrigadas a manter a limpeza na cidade.
Assim a legislação no Império e na Velha República previa que todos os habitantes mantivessem suas casas e ruas bem conservadas.
* Seridó:
O Seridó abriga a caatinga, bioma único no mundo, exclusivamente brasileiro.
A caatinga é um tipo de formação vegetal com características bem definidas:
árvores baixas e arbustos que, em geral, perdem as folhas na estação das secas.
A o caírem as primeiras chuvas no início do ano, a caatinga perde seu aspecto rude e torna-se rapidamente verde e florida.
Mais fotos dessa aventura:
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http://www.flickr.com/photos/ 15063861 @ N 03/ Desde o segundo semestre de 2007, atores, diretores e produtores de Teatro de Cuiabá e Várzea Grande vêm realizando reuniões periódicas para debater a situação do mercado teatral.
Assim, surgiu o Movimento de Teatro que articula esses profissionais em torno do fomento e difusão das artes cênicas.
As reuniões do Movimento propiciaram, em primeira instância, o intercâmbio de idéias e conceitos acerca das políticas culturais e a necessidade latente de organização por parte do segmento teatral fez com que os profissionais se unissem para pensar e elaborar ações que viessem ao encontro de suas reais necessidades.
Assim surgiu o primeiro projeto encabeçado por o Movimento, a Mostra Curto Circuito de Teatro, que objetiva, entre outras coisas, a formação, inclusão e potencialização de um novo público consumidor de bens culturais, justamente aquele público que ainda se encontra à margem dos processos culturais mais elaborados.
Assim o projeto tem como diferencial ser uma mostra teatral para pessoas de baixa renda.
Pretende proporcionar uma aproximação e maior estreitamento de laços entre artistas e comunidades, acarretando conseqüentemente, o desenvolvimento de potencialidades sociais e artísticas e fomentando a discussão sobre o fazer teatral e a realidade sócio-econômica e cultural nessas comunidades.
Espera-se ainda que a união do setor proporcione o planejamento e execução de ações conjuntas que resultem no desenvolvimento e expansão de um mercado profissional de teatro.
De essa forma, através da mostra, ao incentivar a produção local, o projeto divulga o trabalho das companhias e fazedores de teatro da região.
A idéia é que Cuiabá e Várzea Grande vejam o teatro produzido aqui e, a partir disso, o Movimento de Teatro tenha condições de sistematizar uma agenda anual de espetáculos criando oportunidades de trabalho e geração de renda para as companhias e demais profissionais.
Em esses quatro meses de reuniões sistemáticas, o Movimento de Teatro conseguiu reunir número expressivo de companhias teatrais, amadoras e profissionais, que atuam nas cidades de Cuiabá e Várzea Grande.
Através do Curto-Circuito de Teatro espera-se ainda, um maior intercâmbio entre as companhias de teatro, produtores e demais profissionais, para a troca de conhecimentos e experiências, proporcionando assim, um maior valor agregado ao projeto e vantagens tanto para a classe artística como para a comunidade.
Há pouco tempo, entrou no ar a Rede Social do Movimento, que tem por objetivo de diminuir as distâncias entre os artistas do estado e do país.
O espaço virtual é destinado a exposição, debate e intercâmbio de idéias, conhecimentos, projetos, etc.
Visite:
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www.movimentodeteatro.ning.com
Brasa Adormecida
Anibal Beça © Dizer que o Brasil é um país de poetas é mais que uma tautologia.
Virou tema de poema na conta affonsina com seus 999.999.999 poetas, e objeto de ensaio, sobre a expressão amazonense, em que Marcio Souza afirma:
«em Manaus, há um poeta em cada esquina.
«Causa estranheza, o fato de sermos um país de poetas e, ao mesmo tempo, um grande muro de lamentações, de Norte a Sul, com tanto chororô dos bardos brasileiros.
De os novos e dos calejados.
Tem queixa para todos os lados e para todos os gostos.
Uns dizem que foram expulsos dos suplementos literários, que perderam o espaço para medíocres escritores norte-americano e franceses, em sua maioria.
Apontam uma acachapada e vergonhosa postura colonizada.
Invocam até a figura de Platão, que expulsou os poetas de sua República.
As queixas também resvalam nas editoras, com sua política editorial sempre fechada à poesia.
Alicerçada na famigerada desculpa de que poesia não vende.
Como não vende?
Será mesmo verdade que poesia não vende?
Ou estamos diante de uma falácia mercadológica?
Pressupõe-se que todo poeta é um consumidor de poesia.
Ora, se somos um país de poetas, o gênero nunca deveria estar em crise.
Mas a realidade espelha máscara nada atraente.
A coisa é feia, mesmo.
Creio que foi o poeta Donizete Galvão quem revelou a equação:
«os novos poetas não querem ler poesia, querem escrever poesia."
Sem falar nas velhas cassandras anunciando mais uma vez o desaparecimento da poesia.
Por o que se vê e se escuta, sua morte é iminente.
Será? Creio que não.
Essa morte anunciada é bem antiga.
E a poesia, contra tudo e contra todos, resiste.
Mesmo enferma de tantos males:
o afastamento da gramática poética, a frouxidão dos versos, a licensiosidade modernosa, o desaparecimento da palavra em troca a muletas visuais, os excessos ditos pós-modernos Esses dogmas em nome de uma vanguarda que tanto mal fez a, pelo menos, duas gerações.
Salvados desse flama concreta, desse incêndio insidioso, resta-nos o rescaldo.
As sobras são poucas, e apontam para uma postura mais consentânea, com muito trabalho e sem amadorismos.
Afinal, se de fato fazemos parte dessa indústria cultural temos que enfrentá-la em pé de igualdade e com o mesmo liquidificador com que ela nos espreme para o suco da tribo.
Tenho apreciado belas manifestações, saídas a serem seguidas em todos os quadrantes do país.
Caminhos para a popularização da poesia.
Nada de novo sob o sol.
Mas um retorno saudável à poesia falada.
Sou daqueles que se ressentem do desaparecimento dessa prática.
Cresci ouvindo e dizendo poesia.
Tempo que pontificavam por aqui Farias de Carvalho, Hélio Azaro, Hemetério Cabrinha entre outros.
Que, atores, faziam fila nos cursos de Pedro Bloch, e se encantavam com os recitais de Rodolfo Mayer, Sergio Cardoso, Paulo Autran e Madame Morinneau.
Todos tínhamos, de cor e salteado, ao menos 5 poemas.
Íamos de Castro Alves, Bilac, Jorge de Lima, passando por Bandeira com «Vou me embora pra pasárgada», Augusto dos Anjos, Vinicius e Cecília.
Acompanhei a cruzada, na década de 70, do poeta catarinense Lindolf Bell.
Vejo que seu esforço não foi em vão.
Em todas as capitais há apresentações de poetas e atores lendo poesia.. E na internet?
Ah, amigos, isso é assunto para outro artigo.
Os poetas tomaram de assalto o espaço sistêmico.
São os cyberpoetas.
A brasa pode estar até adormecida, mas aqueles que se dispuserem à soprá-la saberão que a chama da poesia jamais se apaga.
Anibal Beça é poeta, autor, entre outros, do livro «Suíte para åos», vencedor do VI Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira.
Número de frases: 50
Suel é um sujeito magro e alto, de cabelo bem comprido, vários brincos nas orelhas e umas camisetas lindamente pintadas por ele mesmo, e como é obra de arte, tem sua assinatura no cantinho inferior direito.
Você olha pra ele num balcão de bar e diz «esse cara é artista, claro».
Acertou, é mesmo, artista gráfico dos bons, apesar de jovem já tem seu nome reconhecido na comunidade artística alagoana.
E no empresariado também, que, quando precisa de um belo visual para os seus empreendimentos sabem quem chamar.
Suel Mario consegue atrair a atenção dos olhos de qualquer humano com suas artes.
Não falta serviço para a Suel, e ele consegue o que é um sonho para muitos brasileiros:
viver da sua arte, " Troco arte por coisas, está vendo esse móvel?
Troquei por arte, bonito ele não?"
me disse apontando para o tal móvel quando fui visitá-lo (e era bonito mesmo, aliás, todo o apartamento do cara é, como não poderia deixar de ser).
Artista plástico /desenhista/pintor desde que se entende por gente, Suel participou do efervescente cenário artístico e musical dos anos 90 em Maceió, seja desenhando capas de discos, painéis e cenários, ou mesmo cantando com bandas como o Ball ou o lendário Living in the Shit, onde se arriscou também nas pick ups.
Lá estava Suel e suas tintas, pintando a cena local.
Autodidata
Desde criança, Suel desenha e pinta o mundo em volta e as coisas da sua imaginação compulsivamente.
Nunca teve uma educação formal em artes e, no entanto, consegue aplicar técnicas complexas e criar universos visuais que impressionam um leigo como eu.
Corro o risco de estar enganado, mas tenho pra mim que o artista autodidata, como o Suel, tem algo a mais de especial, tende a ser mais genial e autêntico, não sei.
Em a música, que é a minha praia, canso de ouvir algumas pessoas comentarem que estudar demais estraga a autenticidade e a espontaneidade, impedindo o sujeito de ousar e avançar na quebra de padrões, essencial para tentar criar o novo.
Perguntei pra ele o que pensa disso:
Suel -- A coisa de estudar pode ser muito boa, aprender as técnicas e a lidar com todo tipo de material, isso é muito bom, mas por outro lado perde um pouco de tempo de prática.
Pessoalmente não tive muito tempo de estudar, claro que tenho um livro ou outro em casa, mas aprendi fazendo, experimentando no decorrer da minha trajetória de trabalho, e claro, observando outros artistas.
Marcelo -- Quais são as suas influencias?
-- Várias, não são apenas artistas gráficos, tenho influência de muita coisa, na música o Tortoise é uma influência, música eletrônica experimental também, dependendo do tipo de trabalho um Sonic Youth, ou Ministry, Fear Factory.
Em o cinema a dupla Giger / Scott na concepção visual no filme Alien me impressiona bastante ainda hoje.
Adoro arte de rua, grafite.
Tem um artista austríaco bem incrível que admiro muito, Hundertwasser, o pintor rei das cinco peles, que tem umas artes de manifesto e umas concepções de arquitetura sustentável que é bem louco, no bom sentido claro.
Também gosto muito de alguns caras dos quadrinhos como Dave Mackean e Frank Miller, que é o cara.
Meus gostos não são ecléticos, são epilépticos.
M -- Até por causa do tempo mesmo, o trabalho de mercado, sob encomenda, não inviabiliza um pouco a produção autoral do artista?
O que acha disso?
Existe essa diferenciação pra você?"
possível viver de arte autoral?
S -- Hoje em dia, o que me pedem sob encomenda é exatamente o meu próprio trabalho autoral, os clientes procuram por que conhecem meu estilo e normalmente me deixam livre pra produzir minha arte, ou seja, meu próprio trabalho autoral mesmo.
Mas é claro que até chegar aí tive que pintar muito letreiro de escola «grupo escolar fulano de tal» sabe assim?
E até hoje às vezes pego uns trabalhos do tipo feira de ciências em colégios, pagam as contas também.
M -- Com isso sua arte fica espalhada por todos os lugares, uma pintura de painel num interior de casa particular, um restaurante bacana da cidade, ou uma galeria de arte, e me parece que você não diferência o suporte ou a «função» da sua arte e imprime ali sua marca autoral.
Estou errado?
S -- Está certo, o suporte é só um detalhe realmente, tanto faz, é uma produção minha e tem o mesmo valor eu acredito.
Mas de fato, acontece, chegar em casa cansado de ver pincel e tinta e não conseguir pintar um quadro «meu», nesse sentido autoral que a gente está falando, isso realmente ocorre, principalmente depois de um dia de trabalho cansativo, mais ainda se for um trabalho que não gosto muito, acontece também, claro.
-- Você é um operário da arte.
S -- É, o bom que atualmente eu estou vencendo por aqui, fazendo meu caminho, pagando minhas contas e vivendo de arte, não por ter o sobrenome certo ou qualquer outro tipo de lobby do meio artístico, é algo que conquistei gradualmente com esforço e trabalho.
M -- E talento.
-- Obrigado.
-- Suel, você pretende sair de Maceió para os grandes centros de arte do país?
-- Pode ser, pra trabalhar, expor, mas acho que volto pra cá.
Pretendo continuar vivendo em Maceió por enquanto.
Número de frases: 44
A gravadora Trama coloca no mercado por a segunda vez em cd o famoso disco Tim Maia Racional vol. 1.
Existiu um lançamento extra-oficial em cd só que com um detalhe, os dois volumes em 2 LP ´ s num só cd.
A Trama dividiu em 2 e não convém analisar o porquê disso.
Criou-se um mito em cima destes discos, muitos de eles por conta de gente querendo faturar em cima, poucas cópias editadas, recolhimento por o rompimento de Tim com a Cultura Racional, etc..
Também criou-se o mito de que eram os melhores trabalhos de Tim.
Quem conhece realmente a obra de Tim Maia sabe que não é bem assim, «Azul da cor do mar»,» Padre Cícero», Ela partiu», não são do Racional.
Tive a sorte de adquirir os dois volumes do Racional em LP antes de atingirem os absurdos valores que vão de R$ 100 à R$ 500!!!
Bem, os discos são muito bons, algumas composições já tinham sido compostas e até gravadas, como é o caso de «Que beleza», e as letras foram adaptadas para a Cultura Racional.
Fala-se da riqueza dos arranjos e instrumental, a interpretação de Maia.
Como disse seu filho, Leo Maia, Tim estava em estado de plenitude espiritual, cantando mais ainda com a alma, como sempre fez.
Então sua interpretação é fascinante, emociona, apesar da pregação em todas as canções.
É claro que o instrumental tem qualidade, todos os músicos se doaram, fora a notória linha dura a lá James Brown de Tim com a banda.
Mas tudo aquilo era apenas pano de fundo para sua mensagem, pois muitos arranjos eram baseados em arranjos de bandas de funk americanas, como War, Mandrill, JB ´ s, etc..
É só conferir as datas anteriores dos gringos e o Racional.
Estava mais do que na hora colocar estes discos no mercado.
Trepudiando em cima de quem não está aqui para se defender
Também é muito provável que se Tim estivesse entre nós, não poderíamos adquirir este cd.
Um dos motivos de até agora não ter sido relançado era o próprio Tim.
Já se falou muito sobre isso por aí, suas entrevistas quando lhe perguntaram a respeito, seu desencanto com aquele universo envolto de goma e resina.
Agora que ele está num lugar melhor, pode-se deitar e rolar em nome de ele.
Artístas que estavam numa sopa morna, regravando porcamente suas canções de pregação, gravadora lucrando com o suor alheio.
Só discordo do Tim na questão de não liberar o relançamento por o simples fato de ser boa música.
Mas entendo completamente o porquê disso e respeito.
Ele poderia ter refeito a poética das músicas, lançado um grande disco.
Mas como Tim era um grande Artísta, não tinha apego as suas criações a ponto de se expor ao ridículo e contradizer a si próprio.
Agora me aparece a banda que toca o Racional em homenagem à Tim Maia ...
Até seu filho entrou nessa!
Como diz a expressão popular, «Tim deve estar rolando no caixão».
Para as pessoas de plástico ou da «sala de jantar», pode ser um momento de alto nível da música brasileira.
Mas é aquela coisa, teremos um produto bem acabado, de qualidade, mas ...
sem alma.
Aquilo não pertence a nenhum músico envolvido, nem para o Carlos Dafé que participou da Cultura Racional.
Aquilo é bom simplesmente porque é uma pessoa cantando com todo seu sentimento, acreditando em cada palavra cantada.
De os membros alí presentes para esse revival, quem por acaso dormiu na rua, quem pediu ajuda?
Número de frases: 34
Talvez continuem a fazer coisas erradas.
Um estado e duas culturas.
Melhor, várias.
Esse é um dos mais característicos aspectos de Rondônia.
Antes de começarmos essa viagem por o Estado, é bom ter em mente algumas palavras.
Marechal Rondon, Br-364, Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, Ditadura Militar, Floresta e migração.
Pois bem, tudo isso vai ser necessário para entender por que dois estados moram num só.
Não se preocupe, isso não vai ser aula de história.
É só um jeito de explicar como ao cruzar a Br-364 você vai passar por lugares que parecem não estar no mesmo lugar.
A Br-364 é a rodovia que corta todo o Estado de Rondônia, é a única ligação terrestre com o Brasil.
Essa rodovia, como muita coisa importante daqui, foi construída na época do governo militar.
Os generais queriam e conseguiram povoar a Amazônia e para isso convocaram famílias de vários lugares, principalmente do sul do país.
Elas vieram.
Com seus costumes, tradições e muita vontade de conquistar o sonhado eldorado.
Bem antes disso, atrás desse mesmo eldorado, no início do século XX vieram para cá os trabalhadores da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
Vieram da Europa, do Caribe, dos Estados Unidos, de todo lugar.
Depois da construção eles foram ficando, ficando e acabaram fundando o que hoje é a capital do Estado.
Depois de eles, ainda vieram os soldados da borracha, na época da Segunda Guerra Mundial e os garimpeiros de ouro nos anos de 1970 e 1980.
Alguns galegos, como chamamos os sulistas, também aportaram por aqui, principalmente os que não queriam a lida no campo.
A economia dessas duas Rondônias bem diferentes não poderia ser igual.
O interior é forte e pujante, pecuária e agricultura sustentam o Estado.
Em a capital, só o contracheque é que salva o comércio.
Esse é um dos motivos de muitas das arengas entre o povo de Porto Velho e do interior.
Quer ver briga?
Ligue o som.
Se estiver em Porto Velho é forró.
Aqueles bregas dos bons.
Mas se for para o interior, não se esqueça de levar uma boa música country na bagagem.
Sertanejo sim senhor.
As festas agropecuárias nessas cidades são os acontecimentos do ano e reúnem gente de tudo que é lugar perto.
É claro que outros ritmos e culturas podem ser vistos nesses lugares, mas um ali outro mais adiante e nada muito conectado.
É como em Porto Velho, onde tem gente que nega que o forró seja a cara da cidade, mas rock não tem sexta, sábado e domingo com casa cheia, sempre.
Em o futebol a peleja também é grande.
Só um time da capital conseguiu vencer o campeonato estadual.
E o CFA até já foi extinto.
Ji-Paraná é nome do papa tudo do futebol daqui.
Mas sabe como é, futebol é melhor nem discutir.
Em a política também a distinção é bem grande.
O primeiro governador eleito era da capital, seu sucessor também.
Mas desde então, só políticos do interior chegam ao Executivo no Estado.
Bem, as mulheres também têm suas diferenças.
Para quem gosta de loiras, branquinhas com sotaque de porrrrrrta, não há nada melhor que uma voltinha por Ji-Paraná, Cacoal, Vilhena, Jaru ou Ariquemes.
Mas se o negócio for morena, então vem pra Porto Velho, aqui elas são quentes como o sol e bravas com o Rio Madeira.
Foi em homenagem ao marechal Cândido Rondon que puseram o nome daqui.
Isso mesmo, justo ele, um pacificador e coisa tal.
Talvez seja também em sua homenagem que as diferenças entre capital e interior ficam só na gozação.
Não tem guerra.
Número de frases: 47
O respeito a cada cultura ainda mais forte que o preconceito ou soberba étnica.
Divulgação nos dois principais jornais do Estado (A Notícia e Diário Catarinense), no DC, por exemplo, matéria de capa do caderno de variedades falando do saite, mas chamando para o show e dando todas as informações necessárias;
cartazes na rua, flyers, divulgação por a Internet (chamadinha no Clic RBS, mais alguns blogs, orkut ...),
um lugar legal (no centro da cidade), três bandas legais que prometiam incendiar a noite e o resultado da festa foi o seguinte:
não deu Ninguém.
(diálogo: eu com mim mesmo)
Ninguém, fala baixo!
Falar baixo nada, não precisa botar a merda no ventilador, talvez somente repensar o evento.
Não acredito que tu vais falar de uma festa que não foi ninguém?
Claro, quem foi se divertiu, pelo menos essa foi a minha impressão.
E quando eu falei «ninguém», isso foi uma força de expressão, não estou querendo dizer que não tinha no bar (absolutamente) nenhuma alma viva, apenas é que dava até para contar quantas pessoas tinham, e olha que passava, contando com os garçons, os porteiros e o pessoal das bandas, de setenta e duas pessoas.
mais de setenta e duas?
Então parecia campeonato de canastra!
Não avacalha também!
Mesmo que o público não tenha comparecido em quantidade como esperávamos (quem é que ia sair de casa com o tempo agradável como estava para ficar trancado num bar assistindo shows de bandas?
Só tu mesmo Demétrio!),
considero que a badalação nos veículos de comunicação e o próprio evento em si serviram para divulgar o OVERMUNDO em Santa Catarina, fazer circular a idéia do saite em vários lugares e criar reações das mais diversas.
Algumas de surpresa diante da iniciativa por considerá-la, no mínimo, audaciosa, mas todas elas apostando na idéia, por perceber a possibilidade de ver o Estado aparecendo para o país, mas também por a possibilidade que o portal gera de acessar todos os estados brasileiros e ter contato com a produção cultural que nem sempre circula nos veículos tradicionais de comunicação.
Os shows
Os shows começaram pouco depois da meia-noite e a discotecagem, no intervalo entre uma banda e outra, ficou a cargo do DJ Caccioro.
A primeira banda a se apresentar foi a Pipodélica.
O show, além das canções conhecidas dos discos anteriores, como Blá blá e, contou com canções novas que devem integrar o próximo projeto fonográfico da banda.
Foi um show de pouco mais de quarenta minutos acompanhado com bastante atenção por os olhares do público presente.
Em o meu caso, que não via um show de eles há muito tempo, que ainda não tinha escutado ao vivo as canções do EP virtual lançado por o selo senhorf virtual (Pipodélica Volume 4, ainda disponível para download na página da banda), fiquei impressionado com a resposta que as músicas deram no show.
Talvez essa seja uma das grandes preocupações da banda, isto é, que as canções executadas nos show se aproximem (ao máximo) da roupagem dos discos, acrescidas da energia natural de uma apresentação.
Depois que a Pipodélica deixou o palco, não demorou muito -- apenas um pequeno tempo para alguns ajustes, afinal de contas, toda a aparelhagem foi levada por os integrantes das bandas que já se conheciam de outras oportunidades, o que facilitou a mudança no palco -- para os Lenzi Brothers entrarem em ação.
Era a primeira vez que estava assistindo a um show dos Lenzi Brothers, os conhecia através de algumas músicas baixadas do Trama Virtual, ou ainda, algumas canções disponíveis na página da própria banda.
O trio tem uma pegada e um entrosamento muito bom -- conquistado por a quantidade de shows que fizeram, não apenas no circuito catarinense, recentemente (a banda vinha de uma apresentação na Festa de Premiação do London Burning no Rio de Janeiro).
Vale lembrar que os shows divulgam o CD -- qualquer cor -- lançado no fim do ano passado.
Para encerar a noite subiram ao palco Os Ambervisions, com uma surpresa de última hora, o mega pop star Zimmer empunhando, além de um charuto, as baquetas numa espécie de retorno aos primórdios da banda (Zimmer foi o primeiro baterista).
Foi o momento em que a noite tomou ares de festa, muita gente em cima do palco.
Dá pra dizer que tinha (quase) mais gente em cima do palco do que na platéia, além dos integrantes, só os confirmados, Lucas, Marco, Loli, Xuxu, Cachorro ...
entre outros.
Cachorro, baterista da Pipodélica (mas que já tocou nos Ambervisions), assumiu as baquetas da metade em diante do show e deu números finais ao placar.
Número de frases: 34
O maior susto não está mais no cinema de terror.
Aqueles que demônios visitam a terra para atormentar a vida de uma inocente família.
O que perturba hoje não está mais no cinema, mas ao nosso lado, nos noticiários, na rua, a nossa volta.
Quem vive numa grande cidade insiste em achar comum a miséria que «agride» os nossos olhos.
Estamos «espertos» para não sermos surpreendidos por a violência que está ao nosso redor.
O filme de terror nunca esteve tão presente em nossa rotina como está atualmente.
Sempre fiquei perturbado com filmes que narram fatos e causos que pode acontecer com qualquer um.
São histórias do horror causadas por uma pessoa para outras pessoas.
Claro que no cinema tudo é planejado para o inesperado acontecer.
Muitas vezes os personagens provocam situações.
Em a «vida real» tentamos tomar alguns cuidados, porém, naquele segundo de bobeira, pode nos acontecer alguma coisa.
Pouca gente pegaria uma estrada deserta para apenas apreciar a paisagem.
Muito menos seguiríamos a orientação de um cavernoso frentista como acontece no filme «Viagem Maldita» (The hills have eyes, 2006), remake de «Quadrilha de Sádicos».
Falo desse filme porque foi o mais recente dessa linha a que assisti.
Existem ainda exemplos como «O Albergue»,» Rejeitados do Diabo», «O Iluminado»,» Irreversível», além de tantos outros.
O que choca não são as cenas sangrentas, produzidas para atingir o público que gosta de ver o sangue dos outros jorrado na tela.
O que incomoda é que entre nós existem psicopatas e estupradores que fazem o mesmo.
Agora, neste momento, em alguma parte do mundo pode estar acontecendo algo similar.
Andamos na rua e vemos crianças catando papel para sobreviver, pedindo esmola para dar aos seus pais que estão na esquina, esperando para receber o «suado» dinheirinho.
Vemos na televisão o noticiário dizendo das pessoas que morrem de fome.
E não é só na África.
Em o Brasil centenas de pessoas morrem por falta de oportunidade, por a falta de perspectivas.
Voltamos aos pontos fortes do filme.
É um filme de terror, muito mais sanguinário que o original, mas existem algumas metáforas que podem ser adaptadas à nossa realidade.
Para quem não assistiu à «Viagem Maldita», o filme é dirigido por o francês Alexandre Aja, estreante no cinema estadunidense.
A família Carter está em férias e viajam por o deserto dos Estados Unidos (o longa-metragem foi rodado em Marrocos).
A o parar num posto o frentista recomenda um atalho:
«Vocês ' ganharão ' umas duas horas», diz.
Em o atalho um «acidente» estoura os pneus.
A região em que a família se encontra foi utilizada em décadas passadas para testes nucleares e não possui sinal de celular ou de rádio.
A partir de então seres mutantes atacam a família em busca de sangue.
Em as entrelinhas do filme percebemos as diferenças ideológicas entre Democratas e Republicanos quando o genro não quer pegar uma arma.
O filme também nos faz lembrar os excluídos, aqueles que de alguma maneira são esquecidos por a própria sociedade.
A diferença entre eles e o «nosso mundo» é que na cidade, pelo menos creio eu, não temos seres mutantes como os do filme.
Os personagens da vida real também são sobreviventes, que lutam da melhor maneira para ter um amanhã.
O filme termina, o horror cessa e o projetor pára.
Já na vida real a história é outra.
Número de frases: 37
A o sairmos na rua logo voltamos a realidade, pois, ali, perto daquela porta, tem um homem lhe pedindo uns trocados para comer.
Tempo, Memória E Preservação
Bem-vindos ao Museu Histórico do Estado do Pará.
Em ele, a memória faz renascer a necessidade de se preservar o passado e o que ele representa para o presente.
Aqui, o tempo «corre devagar» e contempla as diferenças humanas e o que se pode fazer na construção de um homem cada vez mais comprometido com sua História e com seu Patrimônio.
Sem memória, o homem caminha para um lugar obscuro, pois não conhece seu passado, não tem consciência de seu presente e não determina metas para o futuro.
O homem deve, à luz da História, retomar suas memórias e refletir sobre sua existência.
A restauração do Palácio Lauro Sodré, que abriga o Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP), faz parte do Programa Estadual de Preservação da Memória, Identidades e Diversidade Cultural do Estado do Pará na Ação de preservação e de reabilitação do patrimônio cultural paraense.
Esse palácio, tombado por o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 1974, contou com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o Sistema de Segurança, cujo monitoramento eletrônico e iluminação ressaltam os elementos decorativos das janelas e das portadas em lioz das entradas principais, além de controlar de temperatura.
A atual administração do Governo do Estado do Pará, através da Secretaria Estadual de Cultura foi responsável por 51 % do valor total da obra de restauração e teve, em seu projeto, a preocupação de inserir conceitos contemporâneos de acessibilidade com a inclusão de rampas e elevador, além de estabelecer parceria com professores da Universidade Federal do Pará (UFPA) na elaboração da nova concepção expográfica das salas permanentes e temporárias.
De entre as salas abertas à visitação pública, o MHEP contará com uma inovação para o estado do Pará:
a exposição da tela A Conquista do Amazonas, do artista Antonio Parreira, durante seu processo de restauração, na sala chamada Atelier Aberto, sob a responsabilidade técnica de Renata Maués, Restauradora e Diretora do Sistema Integrado de Museus e Memoriais (SIM) -- do qual o MHEP faz parte.
Esta exposição vai proporcionar a interatividade entre a obra e o público visitante.
A Conquista do Amazonas receberá especial atenção por se tratar de uma obra de grande importância histórica e por ser considerada a maior tela do Pará, com 8 m de largura e 4 m de altura.
O Atelier Aberto durante o ano de 2008 também fará alusão ao centenário de Antonio Parreira.
O MHEP salvaguarda um acervo variado de telas, de objetos e de mobiliário com datações que vão desde o Período Colonial até a contemporaneidade.
Número de frases: 16
Vindo lá das bandas do Antônio Bezerra, com o sol quente torrando o juízo, o homem pergunta:
«Onde é a casa da mãe da Neguinha?».
De a comunidade indígena Tapeba, em Caucaia, todo mundo sabe dizer.
«Em a rua do orelhão, segue em frete, depois do bar.
Uma casa sem reboco com a parede cinza do chalpisco das britas».
«Ô de casa!». Maria de Lurdes arregala os olhos.
«Ô, mãe, tem um homem aqui com um recado da Neguinha».
Dona Neide vem às pressas.
«Valha-me Deus, o que foi?».
Mais cedo, Neguinha deixou o filho Maicon em casa.
É uma peleja ter que deixar o menino aos cuidados da sogra pra ir comprar sementes embaixo do viaduto da Mister Hall.
Nunca o deixa só.
Temem que levem o garoto.
Não que não confie na sogra, ao contrário ...
A índia tem medo é do lendário ser Tupi.
A Caipora, uma diabinha que tem como travessura esconder menino novo.
Tira-o da mãe até quando ainda dentro da barriga.
Que dirá sozinho num canto.
O medo piorou quando uma vez escutou o assobio.
Tremeu, caçou o menino e nada.
Minutos depois, lá estava Maicon, tranqüilo na rede, mas na hora parece que a Caipora bota-lhe um venda no olhos.
E nada de menino.
Mil recomendações depois, um beijo na criança que dormia ao balanço da rede.
Pegou a bicicleta novinha da mãe e o corpo franzino e anêmico da menina de 16 anos pedalou alguns quilômetros até o lugar dos negócios.
São as sementes coloridas, que não dão em terras Tapeba, para fazer os colares, que são uma das principais fontes de renda dos indígenas de Caucaia.
Vai pegar as sementes que não dão em terras Tapeba e depois dos colares prontos, não é o Centro Cultural que encontra o principal comprador.
Nada, lá já tem colar demais.
E ainda mais porque tem um dos que estão à frente do Centro que não deixa todo mundo colocar colar lá não, porque se não superlota.
Neguinha também nem faz mais questão.
Vai para o Mercado Central, para o Centro e ainda tem uns compradores certos, que compram o cordão de três voltas de semente por R$ 2,00 vende por R$ 10,00.
Dona Neide se aperreia com a notícia.
Junto a De o Carmo, pega o primeiro ônibus que vai bater naquelas bandas.
à sombra do viaduto, encontra Neguinha branca como tivesse visto alma.
«Como era o caba?».
O tremor e os soluços não deixa ela responder.
Engolido o choro, a menina aponta para o beco.
«Ele foi para a banda de lá».
Neide, então, se embrenha na ruela em busca do rapaz loiro da descrição da filha.
Com a boca de quem vai muito além de Roma, bate palmas em frente ao casebre.
Um rapaz vem.
«Foi esse?».
Soluços." Foi esse, neguinha?».
A cabeça afirma.
Dona Neide agarra o rapaz por o colarinho.
«Homi, você me dê minha bicicleta».
«Fui eu não, fui eu não».
«Ande, ande, me dê logo».
Sem saber com que forças, Neide lança o loiro no meio da pista, quando uma viatura da polícia pára e vê a cena.
«Esse malandro aqui roubou a bicicleta da minha filha», diz dona Neide, sem esperar a possível pergunta das autoridades.
«Ele tava com as mãos debaixo da blusa, não sei se tava armado», emenda a vítima.
Acusado levado, cria protegida.
«Mas quêde minha bicicleta?».
Em o outro dia, bem cedo, alguém grita que tem ligação do orelhão para ela.
Em a linha, a mãe do possível ladrão.
«Olha, eu dou 50 conto na sua bicicleta».
«Como é que é?
Seu filho me rouba a bicicleta e tu ainda quer que eu te venda?
Vendo de jeito nenhum!
Vou é aí buscar».
E numa manhã de sábado, em mais um dia de visita na casa da família de marisqueiras que Maria Lucineide Teixeira Rodrigues, a Dona Neide, mostra o seu troféu.
Embora tenha voltado incompleto.
Depenada. Tiraram-lhos pára-lamas e a garupa.
«Tava bem novinha, a minha bichinha».
«Mas inda bem que a senhora recuperou, né?».
«Pois é.
Pior tivesse perdido tudo».
Em a beira da fumaça
Maria do Carmo, filha de Dona Neide tinha saído para vender os pescados colhidos no decorrer da semana na mangue.
Juntou várias cordas do caranguejo e foi por as bandas da Jurema, distrito de Caucaia.
Saiu cedo para pegar a feira ainda em organização.
As duas, mãe e filha, pescam no mangue, mas só De o Carmo vai vender os mariscos.
É que Neide fica em casa com o filhinho da De o Carmo, o neto de sete meses Ivo e ainda tem que fazer o almoço.
Flaviana, a filha mais nova de Neide, ajuda nos afazeres, na maior parte do tempo tomando conta do Ivo, o menino gordo e sorridente.
«Ô, Guga, dê um baizim no menino que ele ta todo mijado».
Guga? É, na casa de Maria Lucineide Teixeira Rodrigues só De o Carmo é chamada por o nome.
Um costume Tapeba?
«Todo mundo aqui tem apelido, tem minha a Lucicleide que eu chamo Sinhá, o nome da Neguinha é Francisca."
Os cabelos presos sem muito cuidado deixam à mostra o rosto redondo de Neide.
Os olhos puxados e as bochechas salientes, De o Carmo puxou de ela.
A índia Tapeba se atrapalha ao falar da idade, mas garante que é pouco mais de quarenta.
De a beira do fogão a lenha, de onde sai o cheirinho do feijão mulatinho e do coentro, dona Neide desembesta a falar de si.
O sorriso largo mostra os fios de ouro entre os dentes da chapa.
«Era moda quando eu fiz a minha».
Os dedos, qual cigana, mas banhados de micheline.
«A senhora está sempre com todos esses anéis, «dona Neide?».
«Nunca tiro não».
Os anéis se misturam com o tempero que prepara.
E a refeição é assim, com muito condimento.
Corta coentro e cheiro verde, amassa o alho, mistura no feijão.
A fumaça impregna nos cabelos, na pele, nas roupas, mas é mais barato que usar o gás.
O fogão de quatro bocas só é usado quando vai preparar um mingau para o Ivo ou esquentar uma água.
«Mulher, gás é muito caro.
E na lenha eu acho que fica mais gostoso», diz Neide, que, a um metro de nós, fala pra quem está do outro lado da rua, com a voz gasguita, animada de receber visita.
Oito filhos e 40 e poucos anos.
Oito que vingaram.
A primeira menina veio quando Neide ainda despontava na adolescência, estava perto dos catorze.
Em a época, morava com a mãe, dona Raimunda, e os irmãos bem à beira do mangue, numa casinha de barro construída por as mãos dos pais.
Em esse tempo, a vila onde hoje mora a família de Neide nem tinha sido construída por um dos prefeitos de Caucaia.
Gostava muito mais da antiga casa.
Mesmo sendo longe de tudo?
É, mesmo assim.
Tava perto do rio mais limpo, catava pichuletas na areia do seu quintal.
Fresquinho, o bicho que vem em duas conchas compridas era aberto e jogado na água quente.
A carninha que saía de dentro era misturada com farinha, feito o capitão e metida na goela.
Neide aprendeu cedo a mariscar.
Raimunda, a mãe, hoje líder comunitária dos Tapeba, levava Neide novinha e os irmãos pra tomar banho de rio e já ensinava como armava o fojo e ficar na espreita da armadilha.
Antes, era muito mais fácil os caranguejos entrarem na lata de óleo sustentada por uma liga de borracha e um pau.
Hoje, são menos e menores e os índios e os «brancos» os pescam de todo tamanho.
As saudades são muitas do tempo em que morava no meio da vegetação do mangue.
Em a croa, lugar onde o rio seca no final de todas as tardes, os tapeba se reuniam.
Enfeitados de palha, com cocá, saiotes e dos cordões feitos das sementes do próprio lugar.
Só eles e Deus faziam o círculo e a menina Neide no meio, já sabendo todas as músicas do ritual, mesmo sem saber ler uma palavra.
Os chocalhos e os tambores anunciavam o início do toré, a dança da guerra, mas também de oferenda religiosa indígena.
A menina não sabia direito o que significava, talvez até hoje não a compreenda bem, só lembra que gostava.
A meninada seguia os mais velhos que comandava as letras, ora batendo palma, ora com as mãos nas costas.
Em a canção, a menina moça que quer se casar, o índio guerreiro pronto para a batalha, os pássaros do céu do Ceará.
De vez em quando, perto do Centro Cultural, tem Toré.
Em a visita de um grupo, no lançamento de um livro, na chegada de uma autoridade.
Dona Neide vai às vezes, mas se pudesse, voltava para a casinha de barro e dançava o toré todo dia, não somente para turista ver.
Foi ainda à beira do mangue que conheceu o primeiro companheiro, um pedreiro na construção da ponte do rio, à beira da pista que leva às praias de Caucaia.
Ele já tinha família quando conheceu a menina-mulher com os seus treze anos recém feitos.
Apaixonado, ficava nas idas e vindas, até que ficou de vez.
«Casar, assim, casada mesmo, eu nunca fui não».
A primeira filha veio quando Neide ainda era menina, ainda mais nova que Neguinha, tinha quase 14." Mas eu converso com minhas filhas, para que elas não fiquem de barriga muito novas».
As três mais velhas lhe deram netos antes dos 18, costume comum na comunidade.
A cirrose levou o primeiro companheiro.
De os 10 anos de vida de Flaviana, a Guga, só um foi com o pai biológico.
O pai que conheceu por os outros nove foi o Francisco Honorato, que foi para nos Tapeba também por a construção civil.
De os enteados, só as duas mais velhas, De o Carmo e Lucicleide, a Sinhá, o chamam o padrasto de seu Chico.
De os outros, saiu o sufixo e ficou apenas pai.
Apegada ao mangue, apegada aos filhos e ao Neto Ivo, Neide não sabe como é viver sem esses três.
A sorridente índia se transfigura quando lembra que De o Carmo promete que, ganhando um dinheirinho por o nascimento do filho, compra uma casa para a ela e para o filho.
A Funai (Fundação Nacional de Apoio ao índio) garante uma ajuda de custo às mães de cerca de R$ 1,3 mil para cada filho nascido.
Neide num quer nem saber dessa conversa de ficar longe do menino.
«Sei como ia ser não.
Porque a gente se apega, né?».
Ivo retribui o sorriso da avó.
Parece entender as palavras daquela que também é sua mãe.
Com o Maicon, o filho da Neguinha, nem é tão apegada, porque não o vê todo dia.
Mas a nenhuma falta os mimos da avó.
O trabalho no mangue é cansativo, desgasta.
Se Neide pudesse, faria outra coisa, um trabalho menos pesado, e ia pescar de vez em quando.
Abandonar os mariscos, ah, isso não ia fazer não.
Número de frases: 143
Mas se questão de escolha fosse, ficaria com o toré sempre e o mangue de vez em quando.
A Rota Norte, região turística de Mato Grosso do Sul formada por os municípios de Alcinópolis, Bandeirantes, Camapuã, Cassilândia, Chapadão do Sul, Costa Rica, Coxim, Figueirão, Pedro Gomes, Rio Verde de Mato Grosso, São Gabriel do Oeste e Sonora foi contemplada com o projeto «Expedição Fluvial Folguedo das Monções& Festa das Monções» aprovado por o Fundo de Investimentos Culturais de Mato Grosso do Sul -- FIC / MS.
O projeto foi o mais caro para o exercício do respectivo Fundo este ano, batendo inclusive o Festival Nacional de Teatro de Campo Grande.
A proposta visa o resgate e a projeção da identidade cultural ribeirinha e monçoeira, bem como a história de ocupação da região norte do estado, gerando também emprego, renda e novas oportunidades para as famílias extrativistas, principalmente de pescadores, com o advento do turismo temático e o escoamento de suas produções artísticas, culturais e artesanais como os trabalhos em cerâmica, fibra e trama de buriti, couro e pele de peixe, além da valorização do saber secular dessas comunidades.
O projeto também promove e incentiva as diversas manifestações artísticas e culturais ligadas à identidade regional dentro do contexto monçoeiro, sensibilizando com isso os produtores culturais e os gestores públicos de cultura e subsidiando-os com informações possíveis de aplicação em suas áreas de atuação, buscando sempre a transmissão de conhecimentos em forma de canções, poesias, literaturas diversas, peças teatrais, cantorias, alegorias, fantasias e outras manifestações culturais.
Segundo um dos idealizadores da proposta, o turismólogo Ariel Albrecht, este é o melhor momento para se agregar valor em prol da consolidação efetiva da Rota das Monções como um produto turístico diferenciado e inédito no mercado nacional, mas para isso faz-se necessária a união efetiva dos diversos agentes institucionais promotores e incentivadores do turismo em Mato Grosso do Sul.
A Open Door, uma operadora de turismo binacional (Brasil / Holanda) sediada em Campo Grande, deverá ser a agência credenciada para viabilizar a incursão no meio natural, que deverá durar três dias, e percorrerá as evidências histórico-culturais do Rio Coxim, desde a Ponte da Matinha, na região do Correio Monçoeiro, em São Gabriel do Oeste, passando por o Letreiro Monçoeiro, já em Rio Verde de Mato Grosso, e finalmente chegando ao Arraial do Beliago, povoado mais antigo do estado, datado de 1729, e que originou a cidade de Coxim.
Garimpo de diamantes, ninhais de araras-azuis, cachoeiras, palhoças de pescadores, ilhas fluviais, corredeiras e todo um cenário exuberante repleto de usos e costumes nativos serão amplamente apreciados por os participantes.
Já a Festa das Monções será realizada no município de Camapuã, cidade que foi originada a partir da primeira benfeitoria -- Fazenda Camapuã -- no que hoje é o território de Mato Grosso do Sul, em 1723, e que possui fortes evidências do período em questão, tendo inclusive a respectiva festa implementada por o prefeito, senhor Moisés Nery, através do Decreto Nº 1.692 de 29 de agosto de 2003, bem como o Memorial das Monções, logradouro público em memória do movimento histórico que expandiu o Brasil e a América do Sul rumo ao Oeste no século XVIII.
O trabalho é capitaneado por o COINTA -- Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento Sustentável da Bacia Hidrográfica do Rio Taquari, cujo presidente é o prefeito municipal de São Gabriel do Oeste, senhor Adão Unírio Rolim, e conta com uma equipe-executora multidisciplinar nas áreas de turismo, biologia, geologia e história, além de ambientalistas engajados, comunidade ribeirinha, artistas, colaboradores e simpatizantes de um modo geral.
O projeto, que utilizará os serviços de pescadores, artesãos, músicos e poetas da terra, entre outros, promete ser um novo marco dos novos tempos do turismo em Mato Grosso do Sul.
Número de frases: 11
Trata-se de história, cultura e natureza juntas utilizando o turismo como ferramenta de desenvolvimento sustentado, promovendo a transformação de uma realidade estagnada Matou o Cinema e Foi ao Governador -- Entrevista -- 2ª parte
Aqui a 1ª parte:
Renato Turnes -- Rosa BB é minha primeira direção oficial (junto com a Loli, com quem trabalho muito bem em parceria).
Sendo ator me preocupei com a escalação do elenco, procurei atores com excelente desenvoltura cômica mas que pudessem fornecer aos personagens as nuances necessárias para não torná-los unidimensionais.
Em a construção dos personagens centrais, enfatizei suas contradições, suas canalhices e farsas, mas também suas fraquezas e frustrações.
Encontramos para isso os atores perfeitos e estou orgulhoso de eles.
Rosa BB é uma farsa tropicalista e um drama patético.
Loli Menezes -- As referências vieram muito de todo o universo latino.
Cuba, Almodóvar, muitas cores, Brasil, Guantanamera, suor, bronze, camisas estampadas ...
O chique sujo e brega, uma república fictícia tropical, quem quer bananas?
O tempo é meio anos 80, demodê.
Ombreiras, cabelos armados, mangas bufantes, maquiagem pesada.
A Barbie também foi uma referência fundamental para compor o universo da Rosa.
Todos os brinquedos eram meus, fizeram parte de minha infância e também dos meus sonhos.
Ajudaram a construir a Rosa, deram a ela um tom infantil e quase ingênuo, de sonho, solidão e romance.
O Renato foi fundamental em todo o processo.
Escreveu o roteiro com mim, compreendeu logo de início quem era a Rosa, demos muitas risadas criando os personagens e o universo do filme.
Num momento de aperto, onde quase tive que desistir do projeto, ele segurou as pontas, tocou a produção e assumiu o rojão.
Por sorte pude realizar e acabamos dirigindo juntos.
O elenco foi um presente.
De os protagonistas ao elenco de apoio, todos arrasaram e deram um toque muito especial à nossa história.
A Grazi (Rosa) e o Álvaro (ditador) dispenso comentários.
Não com si nem imaginar o filme sem eles.
A equipe trabalhou exaustivamente para cumprir uma única diária de filmagem, com 5 locações e muitos planos a serem rodados.
Tivemos limitações por a falta de dinheiro, mas tudo se resolveu com criatividade.
Maiores detalhes, depois que o filme estiver pronto.
ainda não sei bem no que tudo isso vai dar!
Chico Caprario -- O Povo da Corte é uma paródia deste e outros governos nestes últimos 30 anos em Santa Catarina que prevaleceu a política do «coronelismo», onde o funcionário público eleito denominado de governador, acredita ser um verdadeiro Rei, achando que suas mentes iluminadas por Deus em sua infinita sabedoria, são capazes de decidirem tudo.
Espero que a crítica do filme sobre a forma como foi modificada para Pior a Lei de incentivo à cultura sirva de inspiração para uma revisão do absurdo que foi feito em prol do velhaquismo, do fisiologismo burocrático invisível em que somente os Bobos do Povo servem estatísticas para fraudarem projetos da Lista pessoal do Rei.
Os atores foram ótimos para compor a atmosfera cômica, pois certamente não me sinto único roteirista, todos deram idéias enriquecedoras e engraçadas para esta pseudo-ficção Imperial.
Claudia e Rafa -- Nosso filme contou com a direção de Rafael Schlichting, roteiro de Cláudia Cárdenas, direção de fotografia de Rafael Schlichting, assistência de direção de Cláudia Cárdenas, direção de arte de Cláudia Cárdenas, câmera de Rafael Schlichting, assistência de câmera de Rafael Iriê, som direto de Milena Boch, maquiagem de Fabiane Arcoverde, assistência de maquiagem de Bianca Passarela, Figurino de Cláudia Cárdenas, produção de objetos de Cláudia Cárdenas, assistência de figurino de Mônica Puppo, assistência de produção de alimentos de Antonio Viana.
Nossa equipe foi reduzidíssima, como podem constatar, o que nos trouxe algumas dificuldades extra, contornadas por a maestria como o filme foi editado por Rafael Schlichting e por as características do roteiro de Cláudia Cárdenas.
O elenco foi de uma total entrega ao projeto, generosidade e brilhantismo nas atuações sob a batuta do diretor Rafael Schlichting.
A cooperação dos proprietários da locação, da empresa de aluguel do fraque do maestro, das mãos habilidosas de Nani Pederneiras, das pessoas que emprestaram figurino como Gladis, Antonia de Oliveira, Mariana Schmitz foram imprescindíveis à realização do filme.
Todo o equipamento, câmera hdv, fresnéis, set lights, equipamento de som, etc foram cedidos por a Câmera Olho Filmes e Produções.
A alimentação foi gentilmente cedida por a pizzaria Turma da Pizza nas duas noites de gravações.
Breno Turnes -- Spray é uma pequena pincelada sobre minha geração e seu conteúdo-cultural absolutamente duvidoso, sobre como uma mente criada por a comunicação em massa e por os famigerados pré-vestibulares se porta numa situação de indignação popular perante ao governo e suas «politicagens culturais».
«Jéferson Lima -- Os Vazio» é um panfleto.
É a narrativa sobre uma das últimas áreas verdes de uma cidade e está sob a ameaça de concreteiros e asfalteiros.
Ficha Técnica:
Os Vazio
Direção e roteiro:
Jéferson Lima Montagem, desenho de som e assistência de direção:
Marco Martins
Direção de foto e câmera:
Felipe Vernizzi Assistência de câmera:
Breno Turnes Direção de produção:
Valeska Bittencourt Com Paulo Vasilescu, Luiz Christiano e Jéferson Lima
Participação especial de Carol Christiano.
Jéferson Bittencourt -- A idéia de APEIROKALIA é muito simples:
uma conversa entre um diretor de teatro e uma atriz sobre o que é e qual a importância da beleza.
A conversa inicia sobre o termo título que é uma doença que existia na época dos gregos:
a impossibilidade de ter experiência com a beleza.
Sobre esse mote simples a conversa se desenvolve buscando questionar os valores essenciais do fazer artístico.
Claro, cineastas como Woody Allen, Domingos de Oliveira, Paul Thomas Anderson, foram referências como exemplo da potencialidade que uma simples situação cênica como essa pode suscitar.
Marco, que fez a fotografia, procurou valorizar uma câmera documental, expondo sensações mais finas através de planos bem fechados.
Um café no centro de Floripa foi nossa locação e essencial para a cor e textura do filme.
Em o elenco estão, debatendo com toda a sinceridade, este que aqui vos escreve e minha esposa, a atriz Gláucia Grígolo.
Maria Estrázulas -- Nosso filme é para ver e ouvir.
Valeska Bittencourt -- O processo de criação do delírio teve uma abordagem anárquica, e o roteiro se construiu a partir de idéias livres propostas na beira da praia, durante uma madrugada de delírio.
Primeiras idéias definidas, sentamos os quatro para escrever o roteiro.
Os próprios diretores seriam os protagonistas, e também editariam o material.
As idéias de cada um foram transformadas em seqüências independentes, que podiam estar em qualquer lugar.
A idéia era subverter qualquer tipo de construção narrativa convencional.
Fabio Brüggemann -- Sobre o roteiro, está descrito na resposta cima.
A produção foi dez e a equipe (Marco no som e na assistência geral, Sandra Alves na fotografia, Renato Turnês na assistência geral e na «mãozinha» e a Val na produção do Edson Ancinho foi maravilhosa) integradadíssima.
O Rafael Pereira Oliveira e o Chico Caprário no elenco também deram um banho, principalmente o Chico como Ancinho.
4.
Como você vê a produção de cinema / vídeo em SC hoje?
E como a experiência do Cine Anti-Campanha se relaciona com essa sua visão?
Marco Martins -- ...
Existe, há muito tempo, atitudes isoladas.
Existe duas universidades com curso de graduação em Cinema e Vídeo, a Cinemateca e o Funcine.
Algumas produtoras tentando trabalhar com produção cultural e alguns grupos que produzem por conta própria, como o pessoal de Chapecó, por exemplo.
Mas na verdade não existe um mercado, não existe uma postura séria dos Governantes e não existe classe.
Ou se existe, está completamente desarticulada.
Então vira uma esculhambação:
artista de fora tentando captar grana aqui, projetos parados por completa incompetência de quem avalia, uma cegueira tremenda e cada vez mais difícil de contornar.
E falando do nosso longa:
reunimos uma galera que estava P da vida com toda essa palhaçada, que possui senso-crítico e criatividade e que topou o lance de fazer o filme sem grana nenhuma.
O filme teve um custo que saiu do bolso dos realizadores.
Não tivemos o apoio de nenhuma lei de incentivo, de nenhum partido e de nenhum sindicato.
É independente na veia.
Renato Turnes -- A produção catarinense de cinema e vídeo vem crescendo e parece prometer um futuro de bons artistas e de bons filmes, mesmo no ambiente pouco fértil que as políticas oficiais promovem.
Hoje temos cursos superiores que jogam num mercado inexistente turmas de formandos que sabem muito de tecnologia, pouco de arte.
A maioria não coordena uma prática com os atores que eleve o nível artístico de suas produções.
Me parece que falta comunicação entre as artes, parcerias sólidas e criativas.
O projeto do Cine Anti-Campanha mostra que a parceria entre artistas é possível e que não se faz cinema apenas com grandes aportes financeiros em produções grandiosas com elencos globais, mas que idéias genuínas e talentos somados podem criar filmes sinceros, viscerais e urgentes.
Loli Menezes -- Vivemos um momento onde se produz, porém ainda com muita dificuldade e desordenadamente, não existe um mercado, não somos tratados profissionalmente, parece que sempre estamos pedindo favor.
O processo de um filme leva muito tempo desde a idéia no papel, até a realização.
às vezes dá até vontade de desistir!
Dependemos o tempo todo da boa vontade do governo, de políticas culturais mal estruturadas, ou de iniciativas privadas mal-orientadas.
Ainda é muito difícil viver com tranqüilidade, trabalhar e ser valorizado por o nosso ofício.
Passamos às vezes tanto tempo envolvidos com burocracias, tentando viabilizar um simples projeto que falta tempo de produzir, de filmar, de botar a mão na massa.
Vejo o Cine Anti-Campanha como uma saída, a possibilidade de fazer algo, apesar de tantos pesares ...
Pular alguns obstáculos que nos impedem de nos expressarmos e mostrar que não estamos parados.
Nossos projetos estão nas gavetas das repartições públicas, mas a gente resiste e produz mesmo assim.
Chico Caprario -- A produção de cinema / vídeo em SC está crescendo com a criação de novos núcleos de produção e escolas formando profissionais.
Só o mercado ainda não cresceu no estado.
O potencial de produção audiovisual regional é grande diante das novas possibilidades, como a possível entrada da lei de produção regional nas TVs, televisão digital, internet e jogos e programas interativos.
O Cine Anti-Campanha é protesto abrangente à todas as áreas culturais e quanto ao audiovisual se refere muito mais à arte do cinema / vídeo que não tem como ser mantido nos dias atuais sem alguma forma de apoio da própria sociedade e do governo.
Claudia e Rafa -- A produção de cinema / vídeo em SC hoje encontra-se a mercê das iniciativas individuais e particulares.
Sem uma política de governo coerente e responsável e sem uma formação de agentes culturais capacitados a transformarem a produção de cinema / vídeo em SC uma realidade, trabalhamos sem honorários, apenas por a necessidade de desenvolvimento da linguagem e do ofício e dependemos de editais públicos anuais para a manutenção de nossas vidas.
Trabalhando para o desenvolvimento e ampliação da produtividade na área, lançamos cursos básicos de cinema digital buscando a formação de equipe especializada e capaz de construir pensamento e linguagem cinematográfica.
Breno Turnes -- A produção de cinema / vídeo em SC me parece mais freqüente nestes últimos anos, porém, a pequena circulação dos materiais dificulta a formação de um «cenário» sólido no cinema catarinense.
A falta de seriedade do governo em relação às suas políticas culturais contribui em grande parte para o enfraquecimento do cinema no estado, forçando os realizadores a produzirem seus filmes independentemente.
O Cine Anti-Campanha me mostrou como a produção independente é complicada, ainda mais com um trabalho deste porte.
Um longa sem orçamento custa muito mais caro do que se entende por essas palavras, afinal, «não existe almoço grátis».
Jéferson Lima -- Eu não vejo, eu procuro.
Tento encontrar filmes significativos, mas acho pouquíssimos.
O Cine Anti-Campanha é uma maneira de provocar a estética estabelecida, comportada, e inofensiva.
Jéferson Bittencourt -- Por ser mais próximo das áreas de teatro e música, talvez eu não seja a pessoa mais indicada pra falar no assunto.
Como espectador tenho visto o número de produções crescer, mas isso não significa que a qualidade dos filmes tenha melhorado.
Faltam bons diretores e pensadores (no sentido da concepção de uma obra de arte).
Temos muitos bons atores, mas poucos bons diretores.
Penso que antes de se ter uma câmera na mão seria mais interessante se ter uma boa (e precisamente boa!)
idéia na cabeça.
Vejo que o maquinário no cinema, muitas vezes, desvia a real preocupação de um diretor.
E a consistência é transferida:
vê-se uma bela produção com um roteiro frágil e más interpretações.
Maria Estrázulas -- Vivemos um caos maravilhoso, graças aos casos de desvios de dinheiro, de não aprovação de projetos relevantes, de preferências por queridinhos ...
Perfeitos para gerar indignação coletiva e fazer nascer um grupo como este, pessoas que se pretendem livres para criar e precisam de recursos para produzir.
O caos (entropia) é o primeiro passo para o estabelecimento de uma nova ordem (negentropia), num novo tempo e novo contexto.
Valeska Bittencourt -- A produção de cinema / vídeo caminha de forma lenta, requerendo de seus realizadores uma guerra para que sejam vencidas todas as etapas de produção.
Vejo uma grande dificuldade de se viver fazendo cinema / vídeo em SC.
Um mercado consolidado parece um sonho distante, apesar das possibilidades que surgem com as novas mídias.
O publico é bem restrito, dificultando a venda direta de cotas a empresas.
Sujeitos à relação de poder imposta por o Estado ficamos de mãos atadas.
O Cine Anti-Campanha uniu artistas em nome da luta por o fomento à cultura, que é obrigação do governo.
Fabio Brüggemann -- Precisaria de mais tempo pra responder essa.
5. Em esta última pergunta, sinta-se à vontade para falar sobre as políticas culturais que norteiam o Estado de Santa Catarina e como elas interferem no seu trabalho.
Marco Martins -- Politicagem cultural???
Funciona assim:
você tem que ser amigo do Rei.
Até o Bobo da Corte tem que puxar o saco, senão cortam a cabeça de ele.
É o esquema do pistolão, sabe como é??
Eu pretendo ir embora desse Estado.
Acho que o trabalho do artista aqui é muito pouco prestigiado e muito mal pago.
Talvez eu volte quando for bem velhinho, se ainda houver alguma praia limpa ...
Meu plano de aposentadoria é uma casa em Santo Antonio de Lisboa.
Agora, enquanto funcionar dessa forma, com política de balcão, essa putaria toda, tô fora.
Não quero descolar outra úlcera antes dos trinta anos.
Eu gostaria de me orgulhar de ser catarinense, mas isso muitas vezes não acontece.
Renato Turnes -- Vive-se em SC a política do evento megalômano, do marketing deslavado, da falcatrua institucionalizada, do compadrismo mais hipócrita.
Os dirigentes culturais sofrem de pobreza de espírito, de provincianismo barato e burrice congênita.
Sobre as sapatilhas de ponta dançam corpos esqueléticos, acéfalos, meio mortos.
O dinheiro público é moeda corrente para transações exclusas, enchendo os bolsos de divas estrangeiras decadentes, falta de decoro e de vergonha.
A o artista ingênuo resta a fome e o aeroporto (ou rodoviária mesmo).
Loli Menezes -- Precisamos de políticas culturais sérias para podermos trabalhar com dignidade.
Precisamos de um fundo onde realmente exista dinheiro recolhido por o governo e destinado aos artistas e não captado por nós artistas e retidos por eles governo, como se o dinheiro fosse de eles.
Precisamos de muitos editais, que premiem bons projetos e estimulem a produção.
Precisamos de decência nesse estado, nesse país onde a roubalheira e a cafajestagem imperam!
Chico Caprario -- Acredito em fazer um trabalho independente de financiamento do estado, mas infelizmente esta possibilidade ainda não está próxima.
Acho que a migração gradativa para a criação de um mercado de consumo de arte, ainda não aconteceu.
Enquanto o público está em formação e o mercado não se torna independente é preciso manter uma produção ininterrupta para não se perder o trabalho já feito, pois é um processo cumulativo e gradual com apoio do estado.
Infelizmente, com a união da área da Cultura no Estado para uma Secretaria comum ao Esporte e Turismo demonstra a ignorância e a importância que a Arte tem para este governo.
A criação de um comitê gestor formado por 3 membros do conselho é uma aberração democrática, uma arbitrariedade administrativa e de uma traição enauseante.
Isto permitirá, finalmente que projetos «aprovados» por o governador possam ser aprovados dentro do conselho.
Claudia e Rafa -- Nunca entramos com nenhum projeto junto ao conselho de cultura da secretaria de cultura, fomos escaldados e esclarecidos por colegas e amigos antes que nos dispuséssemos a gastar com impressão de projetos, orçamentos, etc neste sentido.
Conhecemos conselheiros que abandonaram o grupo devido às irregularidades cometidas e aprovadas no conselho.
O caso que recentemente mais mobilizou o grupo de artistas catarinenses foi o da concessão de verbas públicas ao projeto de Vera Fischer que não reside no estado, quando uma das condições a concorrer era exatamente esta.
Nossa indignação perante estes dois aspectos gerou o roteiro deste nosso episódio do longa coletivo.
Vencedora em primeiro lugar do edital de desenvolvimento de roteiro de longa-metragem da cinemateca, 2005, eu, Cláudia Cárdenas, encontro-me, hoje, vivendo deste prêmio, já que não conseguimos atingir nem a visibilidade de nosso trabalho na mídia televisiva que sequer nos deu satisfação nas duas vezes em que concorremos à exibição do nosso Curta Ilha na RBS.
Rafael Schlichting, meu sócio e marido, operou steadcam num vídeo com verba captada via lei estadual e não conseguiu receber por o seu trabalho pois o seu salário e o de outros membros da equipe ficou congelado por o governo estadual mesmo após haver sido integralmente captado.
Sabemos que nossos problemas pessoais são os da classe inteira de artistas e técnicos do estado e solidários a eles nos manifestamos neste episódio do longa coletivo com o nosso Lula Adoré.
Breno Turnes -- Infelizmente as políticas culturais do nosso estado necessitam, prioritariamente, de politicagem.
Sem ela é complicado conseguir algo.
E esta é uma característica que, para mim, inexiste (ou pelo menos deveria inexistir) na essência do artista (afinal não tratamos apenas de cinema).
Jéferson Lima -- Não há política cultural onde o governo nem ao menos cumpre as leis previstas para fomentação da arte.
Se o mercado de arte é restrito há menos trabalho para o artista, mas talvez essa seja a sua sina:
andar na contramão.
Jéferson Bittencourt -- As políticas culturais são inexistentes.
São na medida em que a inteligência necessária pra supri-las é débil.
Sem inteligência um Estado, um País nunca sairá do lugar.
Ela á única fonte.
A classe intelectual (e aqui incluo alguns artistas também) patina em visões igualitárias de distribuição de renda para a arte.
A arte é a mais desigual das atividades do homem.
Ela não se filia a nenhum programa e nenhuma ideologia ' socializante '.
Ela depende exclusivamente dos seus próprios parâmetros pra sobreviver:
parâmetros de qualidade, profundidade, transcendência e, principalmente, experiência interior.
Ela é a potencialidade do que um individuo pode fazer antes de desaparecer.
E nossos governantes sequer são homens que reconhecem isso ...
como realizar, então, um programa que possa difundir a importância da arte?
Se no imaginário dos nossos homens políticos está a idéia do evento artístico, fetiche primeiro de todo político que gosta de aparecer?
Maria Estrázulas -- Em a verdade acho que dentro do estado, apenas está sendo reproduzido as políticas nacionais de incentivo a cultura.
Para mim é grave o marketing cultural ter mais importância do que a qualidade e genialidade das produções.
Mais grave ainda é o Estado financiar produções artísticas e oferecer gratuitamente propaganda para empresários.
Como disse " Glauber Rocha:
«O Cine-imperialismo comercial é o assassinato do cinema!».
Valeska Bittencourt -- É preciso que a arte se consolide como mercado independente.
Para isso é preciso público que a consuma.
Para que haja público é preciso que existam produtos artísticos disponíveis.
E para que se fomente a produção cultural, é preciso que o governo financie os artistas.
Fabio Brüggemann -- Também já escrevi bastante sobre isso, e precisaria de mais tempo para «copiar» e «colar» de mim mesmo.
Número de frases: 194
Oscar Niemeyer tem praticamente a mesma idade de Campo Grande.
Ele completa 101 anos no próximo 15 de dezembro.
A Cidade Morena atingiu 109 primaveras no último 26 de agosto.
Uma história curiosa, que começou no início da década de 50, liga Niemeyer à Capital sul-mato-grossense:
a construção da Escola Estadual Maria Constança Barros Machado!
Em a verdade, a obra é um «clone» com a assinatura do mais renomado arquiteto brasileiro.
Outros casos parecidos podem ter acontecido em todo o Brasil e até mesmo por os quatro cantos do mundo.
A história da escola campo-grandense começa em Corumbá (435 km de Campo Grande) e tem a ver com a realidade política que o governador Fernando Corrêa da Costa (médico e fazendeiro, que foi prefeito de Campo Grande 48/51;
duas vezes governador de MT 51 / 56 e 61/66;
duas vezes senador 59/61 e 67/75) tinha de enfrentar com o estado mato-grossense ainda uno e três cidades disputando a sua atenção:
Cuiabá, Campo Grande e Corumbá.
A Cidade Branca não tinha uma escola secundária no começo dos anos 50 e os políticos do município e pecuaristas importantes pressionaram Fernando Corrêa.
Em uma visita ao Rio de Janeiro, o governador encontrou Niemeyer e, aproveitando a oportunidade, pediu ao arquiteto o projeto de uma escola corumbaense.
Oscar Niemeyer aceita a empreitada e manda logo em seguida o projeto para a obra em Corumbá sem cobrar nada.
Detalhe: batizada de Escola Maria Leite de Barros, a escola de Niemeyer tem a forma de um livro aberto, um apagador e um giz.
Nem precisa dizer que construir isso no começo dos anos 50 em Corumbá foi mais do que aventura.
Mágica!
É claro que a notícia de que Corumbá -- na beira do Rio Paraguai -- iria ter uma escola secundária chegaria rapidamente aos ouvidos dos políticos de Campo Grande -- bem no centro do Estado.
É bom lembrar que Oscar Niemeyer fez seu primeiro projeto individual em 1937.
Dez anos depois desenvolveu a Sede das Nações Unidas, nos Eua, com Lê Corbusier;
em 1951, já famoso internacionalmente, começou a construção do Edifício Copan e de sua residência Casa das Canoas, hoje onde fica a Fundação Oscar Niemeyer.
Azucrinado por os vereadores e deputados ligados à política campo-grandense, Fernando Corrêa da Costa resolve fazer uma réplica da escola em Campo Grande.
O «clone» teve o mesmo projeto bolado para Corumbá, o que quebra uma constante de Niemeyer que é nunca fazer a mesma obra duas vezes, assim como Charlie Parker e Jimi Hendrix nunca tocavam uma música da mesma maneira.
Jair Valera, arquiteto que trabalha há 30 anos no escritório de Niemeyer no Rio, confirma:
«O Niemeyer dificilmente repete um projeto».
E quanto a escola ser um «clone» e outros casos como este terem acontecido no Brasil?
«Que eu saiba este é o único caso de um projeto do Niemeyer ser feito duas vezes.
Atualmente, são 600 obras catalogadas no mundo inteiro», ressalta.
«Mas eu não duvido nada do próprio Niemeyer ter dado autorização para o governador fazer o mesmo projeto em Campo Grande.
Vai saber ...»,
completa.
Pois é.
Mas isto é só a ponta do iceberg!
O governador teve que realmente «fazer» as escolas.
«Em Corumbá o terreno foi doado por o município e em Campo Grande precisou acontecer uma desapropriação no bairro Amambaí, um dos mais populares da cidade na época, para a construção do colégio», afirma o arquiteto Ângelo Arruda, o responsável por levar ao conhecimento do escritório de Niemeyer no Rio a existência da escola em Campo Grande.
Até então, ela não estava catalogada nas obras oficiais listadas por a Fundação.
«O Oscar só ficou sabendo oficialmente da escola em Campo Grande quando publiquei o livro contando a história da construção e detalhando o projeto na Capital», garante o arquiteto.
«Este projeto da escola está bem dentro do estilo e do padrão Niemeyer.
As duas escolas agora estão registradas na Fundação», confirma Jair Valera.
Mas o fato é que mais de 50 anos depois de tudo começar, a situação das duas escolas não é de comemoração.
Em Campo Grande, a Escola Estadual Maria Constança Barros Machado começou a ser construída em quatro de novembro de 1952 e foi inaugurada em 26 de agosto de 1954 (aniversário de Campo Grande, uma boa data para um político inaugurar uma obra!).
A partir de então começa uma história que com os anos se tornou indigesta.
A escola de Campo Grande passou por três reformas e o projeto de Niemeyer foi alterado de diversas maneiras mesmo após o colégio ter sido tombado em 1995 como Patrimônio Histórico Estadual.
O contra-senso é que a escola «original» em Corumbá não foi tombada.
Só a «clone».
Para Ângelo a situação da escola corumbaense também é preocupante.
«A população de Corumbá não dá muita bola para a escola, até porque ficou numa região longe do centro.
A escola de lá mantém mais as características originais, mas está bem menos conservada», avalia o arquiteto.
Aparece então uma personagem importante, a professora de Educação Física, Marisa Sanches Rodrigues!
Ela é a diretora da escola em Campo Grande há 26 anos.
Apaixonada por o colégio, Marisa garante que faz o que pode para tentar conservar e conscientizar os alunos que eles estudam numa escola especial, com a assinatura de um dos arquitetos mais importantes de todos os tempos.
«Mas é difícil.
Muitos alunos não entendem o que representa a escola e escrevem nas paredes e picham os muros», lamenta a diretora.
Diversas alterações no projeto original de Niemeyer já aconteceram e os problemas de conservação do local continua.
A primeira alteração foi quando pintaram as paredes de salmão, em vez de manter o branco com detalhes em azul originais de Niemeyer.
É claro que o branco tem tudo a ver com os efeitos incríveis no conjunto da obra, pois não estaria no original do arquiteto por acaso.
Salmão é de matar!
Um corredor interno da escola, que possuía vãos laterais, recebeu tijolos parecidos com os originais e também bebedouros e portas extras.
«O motivo desta alteração no corredor foi por segurança.
Pois com os vãos era possível entrar na escola», explica a diretora.
Infelizmente a falta de consciência cultural dos próprios alunos está provada nas portas originais de um dos banheiros internos do colégio.
Rabiscado nas portas, que foram pintadas de vermelho e algumas trocadas, muitas frases e palavras feitas com pincel atômico.
Em o refeitório do colégio, que ostenta um balcão curvilíneo típico de Niemeyer, mais uma mudança evidente no projeto original.
A parede, que era toda de vidro, foi trocada por uma armação de ferro.
«Os adolescentes de hoje não se apegam a estas coisas.
Não temos mais alunos como antigamente», lamenta.
Algo que chama a atenção é que o colégio de Campo Grande por muito tempo não teve nenhuma imagem, espaço ou uma homenagem sequer a Oscar Niemeyer.
Depois da comemoração de seu centenário, a faixada da escola ganhou um banner indicando que «aquilo» tem o «dedo do homem».
Estudam na escola 900 alunos de várias regiões da Capital.
O orçamento anual, segundo a diretora, em 2007 foi de R$ 12 mil que vem do estado do MS e R$ 2.900 que vem do Governo Federal.
São 60 pessoas que trabalham na instituição, sendo 43 professores.
«Em 2006 nossa verba era ainda menor, de R$ 8 mil por ano.
É muito pouco para manter uma escola especial e valiosa como esta.
Nós precisaríamos o dobro de verba que recebemos pelo menos», afirma a diretora.
Uma carta da professora para o escritório de Niemeyer, no Rio, acaba criando uma certa esperança ...
«Eu mandei uma carta para eles no final de 2006 explicando que a escola ficou pequena para as nossas necessidades.
O próprio Oscar entendeu, se dispôs a ajudar nas alterações.
Claro que vai haver um debate com as instituições que regulamentam isso.
O que queremos é deixar a escola mais bonita e recuperar muita coisa original», garante Marisa.
Segundo a professora, a Escola Maria Constança precisa de uma quadra coberta, de uma biblioteca, uma sala de tecnologia e um laboratório de ciências.
Um desejo de Marisa é construir na escola um espaço dedicado a Niemeyer, com fotos, projetos e informações sobre o arquiteto.
Seria uma maneira de conquistar os alunos e manter viva a idéia de que o local foi construído por um arquiteto aclamado.
«Seria muito importante termos a história da construção aqui na própria escola, com fotos e tudo mais.
Espero que isso aconteça e que ocorra uma reforma o quanto antes para ficarmos com uma escola mais perto do original», torce a diretora.
No entanto, apesar de confirmar que o escritório recebeu a carta da diretora e que Niemeyer está disposto a ajudar, Jair Valera frisa que até agora está «aguardando as informações da escola para fazer um levantamento das reivindicações».
Ou seja, o projeto está empacado, esperando que o próprio município de Campo Grande dê andamento.
O arquiteto do escritório de Niemeyer frisa que a recuperação da escola vai seguir o padrão do projeto original, mas modernizar a obra para atender as necessidades da atualidade.
«É preciso atender além do pedido por a diretora, as questões de acessibilidade para deficientes e adequação do auditório», pontua Jair.
Ele ainda lembra que o fato da escola em Campo Grande não ter nenhum local em que relaciona Niemeyer à construção é questão de opção.
«O próprio Oscar não exige que tenha.
Mas normalmente este interesse vem do próprio Estado», argumenta.
Para Ângelo Arruda, que é presidente da Federação Nacional dos Arquitetos, é preciso muita calma nesta hora.
«A população e as autoridades de Campo Grande e Corumbá têm que entender que são privilegiados por ter escolas projetadas por Niemeyer.
Para fazer as alterações não basta ter o apoio do pessoal da Fundação do Niemeyer e sim dialogar com o Conselho da área, pois o que está em risco são os direitos autorais do Niemeyer, que criou os projetos há 50 anos.
É a história das próprias cidades que estão em jogo», alerta.
P.S:
Enquanto «vão levando» a escola-livro, um mega-complexo assinado por Niemeyer vem se desenhando.
Será o Teatro Municipal e Observatório do Pantanal (Niemeyer queria o nome de Observatório e Museu Interativo do Pantanal).
Terá um teatro municipal para 1,2 mil pessoas, um museu interativo, um observatório, uma praça para eventos a céu aberto com capacidade para 50 mil pessoas e espelho d' água com espécies de peixes nativas do Pantanal.
«Entregamos o estudo e estamos aguardando a proposta.
É uma oportunidade única, um projeto interessante e que vai dar retorno para a cidade, pois vai virar um ponto turístico também», argumenta Jair.
Número de frases: 101
A conta demora, mas sempre acaba chegando ...
Partindo de uma acepção de cultura no sentido mais amplo possível -- ou seja, cultura não só como o produto ou construção cultural, mas também as relações e as diversas maneiras de pensar realidade -- chegaremos a uma primeira conclusão inequívoca:
toda cultura é, por definição, popular.
Expliquemos melhor.
Popular, segundo o Aurélio, guarda cinco possíveis variantes, sem que, entretanto, nenhuma de elas lhe esgote o conteúdo em definitivo.
Vejamos:
Popular
1-Do, ou próprio do povo;
2-Feito para o povo
3-Agradável ao povo, que tem as simpatias de ele;
4-Democrático;
5-Vulgar, trivial, ordinário, plebeu.
Infere-se que o adjetivo popular, quando adotado em parceria com o vocábulo cultura restringe, aparentemente, o teor desta, toldando-lha própria abordagem conceitual.
Em outras palavras, podemos situar cultura popular apenas como uma cultura relacionada ao povo.
A palavra povo, por sua vez, possui diversas implicações ideológicas.
Pode-se compreender povo como nação e até mesmo, como querem alguns, como sinônimo de plebe ou simplesmente multidão.
Ora, o mais usual, quando nos dirigimos à expressão cultura popular, é um olhar tencionando desprestigia-la, isto é, torná-la mais próxima de cultura proveniente das classes menos favorecidas (não que estas sejam desmerecedoras, apenas não é o caso).
Essa observação, porém, é uma das muitas falácias próprias ao terreno movediço de quem lida com arte no seu cotidiano.
Separar uma cultura popular de uma lendária cultura de elite é seccionar algo naturalmente atomizado.
Não existe cultura impopular, ou pertencente a uma única casta ou estamento.
Por mais que se equipare o termo popular ao seu viés plebeu ou vulgar, não subsiste cultura sem adesão de uma parcela significativa do meio social.
Isto porque o próprio pensar é impregnado de fatores e substâncias histórico-sociais, as quais operam na formação cultural e implicam aceitação tácita de costumes e valores que permeiam as populações politicamente organizadas.
Há, em qualquer criação cultural, algo de subjacente que lhe delineia as formas e lhe estabelece «limites».
O ato de criação cultural, por conseguinte, não está livre de intercâmbios e trocas, pois não se isola o criador de influências externas.
O todo se sobrepõe à parte.
Assim, a cultura pode tomar esta ou aquela direção, mas sempre deverá seu respaldo a uma fatia indefinida do todo social pois terá sempre origem nos «andrajos» sociológicos de um povo.
A cultura popular, em verdade, mistura-se com a própria noção inesgotável de identidade nacional.
O teatro, por exemplo, dentro da atual conjuntura brasileira, encontra-se cada vez menos acessível a maioria da população.
Podemos dizer que trata-se de cultura menos popular por este motivo?
Não, se entendermos o povo como os entes nacionais e a cultura como algo diverso do seu veículo.
A cultura sempre privilegia a democracia, pode-se configurar uma nação a partir dos vínculos culturais que untam os diversos segmentos de sua pirâmide social.
Os veículos, não obstante, podem ser mais ou menos populares, de acordo com a dimensão que atingem em relação ao meio populacional.
Um objeto de arte, em si mesmo, como produto cultural, tanto pode servir a esta ou aquela camada da população.
Se exposto graciosamente, temos uma repercussão.
Se em exposição num museu, posto que se cobre um ingresso, temos uma menor acessibilidade.
Mudou o veículo, o intermediário.
Porém, não se perde, na alteração de um veículo para um outro, a sua essência popular.
Afinal, ocorreu a intenção de se exteriorizar uma idéia ou conteúdo ideológico, determinado por uma demanda difusa, independentemente do alcance.
Quando se pensa cultura, não se pensa em se formular algo inatingível pois do contrário não há veículo disponível.
Os veículos, entendidos como os meios ou instrumentos adequados ao livre trânsito cultural, são nutridos a partir de um planejamento segmentado.
Podem portanto, se dar ao luxo de serem mais ou menos populares, ou até elitizados.
A cultura, por seu turno, traduz sempre algo que conecta criador e criatura.
Logo, um poeta escreve um verso assim como um legislador formula uma lei.
Em o intuito de exteriorizar, verbalizar, desenhar traços culturais, cujo matiz ideológico pode se aproximar mais deste ou daquele segmento pensante do todo social.
Sem nunca, entretanto, despojar-se completamente de vínculos viscerais de afinidade com o aglomerado populacional no qual (ou para o qual) é forjado.
Apenas para frisar, em cultura, há sempre o braço do grupo social maior orientando as mãos do criador.
O principal veículo de um escritor, por exemplo, é a palavra.
A linguagem portanto determina se aquele conteúdo vai ser mais ou menos difundido, mas uma vez concebido em determinado idioma, por um autor desta ou daquela nacionalidade, o texto se incorpora definitivamente ao patrimônio cultural daquele conjunto de cidadãos.
Logo, chegamos a duas conclusões basilares.
Um estado para fomentar, de modo positivo, a sua veia artística popular, não há de se preocupar com a criação em si, mas primeiramente com os veículos através dos quais esta ou aquela manifestação é absorvida.
Assim, a cultura gerada no seio deste ou daquele estamento deverá atingir os recantos mais impensáveis, culturalmente falando, desde que se abra atalhos e fendas por onde esta possa trilhar com segurança.
De aí, a importância de estruturação e regulação de veículos, para que todos eles assumam a sua postura participativa e o seu comprometimento com a divulgação cultural abrangente.
Por outro lado, o pleonasmo cultura popular nos serve de anteparo no caminho de uma cultura mais resguardada de influências vis e de dominação.
Auxilia-nos nas veredas sinuosas de um mosaico cultural inerte ou não engajado.
E por fim, desperta a consciência dos artistas, políticos, líderes e formadores de opinião para aquilo que é o próprio sustentáculo de uma nação:
a sua diversidade cultural.
Número de frases: 56
Ela nasceu no Rio de Janeiro, morou em Goiânia e atualmente reside em Várzea Grande, cidade vizinha da capital matogrossense, Cuiabá.
Já ganhou inúmeros prêmios em diversos salões de arte.
Vive do que cria e produz.
Sua casa parece um museu de arte.
De o Universo Inquieto de Vitória Basaia -- Arqueologia Urbana, é o título de sua última exposição na UFMT.
O artista plástico, historiador e doutor em Comunicação e Semiótica (PUC / SP), Serafim Bertoloto, curador da Mostra, é parceiro de 12 anos e é assim que ele vê a casa de Basaia:
«Em a casa, nada escapa à sua interferência, que vai desde tapetes, sofás, móveis da cozinha, demais utensílios, até os lustres.
Tudo tem o sabor, o odor, o bolor Basaia."
Carregar a vitória no próprio nome há de imprimir uma certa responsabilidade em quem o leva, afinal nomes não são impunes, nomes mexem com as pessoas.
Vitória Basaia é assim, vitoriosa, porque é uma artista que se entrega de corpo e alma.
Calma, sei que isso é um clichê insuportável, mas ela é assim mesmo.
Faz parte de um time de artistas que abraça seu modo de vida como quem se agarra à última tábua de salvação:
se é que existe salvação nesse mundo louco.
Mas louco é quem me diz, que não é feliz, já cantou Arnaldo Baptista.
Mas esses artistas, (ben) ditos loucos, que vivem com tamanha carga visceral todos os momentos de sua vida é que tocam o imponderável, atingem um lugar especial na história humana.
Quando é assim, tudo em volta se torna motivo e motivação.
A casa da Basaia, por exemplo, é mais que uma casa, é suporte para suas criações também, é uma instalação em estado de mudança constante, é exposição permanente.
A casa expõe sua vida, como ela é, como alimenta o cotidiano, que é totalmente entregue à arte como se tudo fizesse parte do divino.
Parte dos seres que criam e recriam as coisas.
Dá outras finalidades a objetos descartados.
E por aí adiante.
A cada passo nos corredores da casa, a cada transição de um ambiente para outro, um espanto!
Em todos os recantos uma entidade surge como ser elemental -- parece que ela só revela o que já está aí, como uma fotógrafa de almas -- seres impressos nos suportes invisíveis que carregam marcas dos tempos.
Fala Basaia:
«Dia a dia vamos aperfeiçoando.
Aquilo que fiz ontem já não é mais nada.
Aquele aprendizado de ontem possibilita uma coisa maior hoje."
Conheci Vitória Basaia numa situação semelhante à que ocorre hoje, aqui, agora, ao elaborar essas linhas, onde tento filtrar seus assombros -- vejo-a percrustando mundos silenciosos e fantasmáticos.
Semelhança como espelho invertido, na época (por volta de 1996), ela estava como jornalista, ela me entrevistou a partir de uma obra conceitual (uma quase-escultura) que expus num evento coletivo na época.
Ela saiu do jornalismo e mergulhou nas profundezas abissais da alma, da arte, do fazer, em constante ebulição, mudou de rumo, mudou de prumo, mudou a forma de se equilibrar no lodoso terreno da linguagem visual -- pictórica, pois ela já estava produzindo pinturas e outras experiências.
Sem retóricas, ela é uma espécie de bruxa aos olhos singelos dos mais simples dos mortais.
Nada de fogueiras agora, a bruxaria agora é outra espécie de comportamento, mais inofensivo, menos capaz de abalar sistemas religiosos ou a moral baseada em valores conservadores e medrosos.
Nem a vaidade ela cultiva, ela é bastante despojada, assim mesmo:
simples, direta, tranquila -- um olhar bovino comovente, uma paz interior que se expressa nesses olhos com verdade inabalável.
Ela recebe as pessoas com o coração aberto, a mente tranquila, com o costumeiro despojamento, como se tudo fosse a coisa mais normal do mundo, e acaba que é.
O que o crítico, ensaísta e escritor José Castello diz:
«Observamos os seres misteriosos de Vitória e podemos pensar numa tela de Braque como o «Grande nu», guardada no Centre Pompidou, em Paris.
A aparência primitiva é a mesma.
O esforço para se limitar ao essencial e ao mais antigo, também.
O gosto solar, a falta de medo do infantil, a liberdade extrema de quem faz o que quer."
Nada de misticismos.
Mágico é quem vê, quem apura o olho -- e todos os demais sentidos:
a epiderme, o velho coração que bumba gravidades, o arrepio da arredia alma, as vozes que emitimos, os sintomas que revigoramos todos os dias quando a chama se acende para o novo.
O mundo está aí com todas as possibilidades.
Assim, vamos brincando de desvendar, vamos abrindo os brinquedos até suas entranhas e descobrindo que o grande barato é -- o Tao (tal) d-o vazio, que não adianta buscar nada além das superfícies, dentro só cabe a semente para renascer um dia, mas ninguém consegue mergulhar nas profundezas mais abissais.
Então é preciso morrer para nascer, morrer todo dia -- nascer no dia seguinte, como o sol, como os sorrisos que emitimos quando sentimos o calor da vida se espalhando por a superfície rugosa de nossa pele exposta ao sol.
Palavras de Ludmila Brandão, arquiteta e historiadora, doutora em Comunicação e Semiótica por a PUC / " SP:
«Basaia está entre aqueles que se lançam no projeto de inventar o mundo, do começo ao fim.
Como máquina de criar universo (o único paralelo que temos é o divino), concebe seus elementos, forja criaturas, constrói-lhes moradas e, ao fim de tudo, sopra-lhes no rosto, instintos e narrativas.
É assim que compreendemos o projeto poético de Vitória Basaia."
Nada de novo no front, tudo de novo no nada de novo no front, as mesma coisas todos os dias em seu estado bruto, o olhar é que muda, o jeito de ver, de sentir, de viver.
Vitória Basaia me interessa, aguça meu olhar, aguça meus instintos, emoção, razão, causa espanto e admiração.
Suas inquietações são nossas inquietações de ver um mundo tão perdido em conturbações.
Nada se resolve, tudo se esvai como matéria morta.
Parece que sentimos uma urgência em fazer as coisas quando nos deparamos com sua obra.
Ela transmite essa urgência como uma mensagem cifrada, impressa em cada objeto que transforma:
seja esculpindo, montando, torcendo e retorcendo ao fogo;
cortando com tesoura;
moldando; sempre com as mãos, nossa primeira ferramenta, extensão básica, natural demais.
Ela utiliza metais, plásticos de garrafas pet, bonecas velhas, trapos, mouses inutilizados, periféricos de diversos aparelhos eletro-eletr ônicos, latas, enfim, de todo tipo de material, de onde vai tirando formas, (re) criando seres do lixo cotidiano produzido por a sociedade contemporânea que exacerba em consumismo desenfreado.
Ela parece dizer:
«Gente, calma, pra quê essa pressa toda? ..."
Ela diz:
«Acho que tudo é passível de se tornar arte.
É uma questão de aguçar o olhar, é o encontro que reside daí.
Me fascina muito poder trazer beleza da desordem de todo caos."
Para ela, não existe limites, a imaginação pode transportar para infinitas formas e conceitos.
Com sua aguçada criatividade, tudo pode se revelar à luz da arte, tudo pode se transformar em formas belas, grotescas, mágicas, carregadas de sentido e sentimentos.
O mundo é o próprio suporte, pois sobre toda superfície cabe um conceito artístico, uma forma de transcendência.
Esse é o ponto em que Basaia supera qualquer desconfiança:
será arte?
Aposto que ela não está nem aí.
Sabe o que faz, faz o que não consegue deixar de fazer, faz por que sua arte se afirma com tranquilidade nesse mundo ultra poluído e que sofre com a banalização da imagem.
Ela baliza de outra forma:
suas inquietações dialogam com os mundos ditos invisíveis.
«O suporte não tem limite.
Em a verdade a minha arte acontece, ela não é pré-elaborada.
De repente eu estou aqui fazendo, está acontecendo.
Um material está ali, jogado há anos e de repente aparece outro, então rola um encontro, o lugar exato onde ele pode ser encaixado.
Agradeço a Deus todo dia que eu possa ser esse canal, energético, de comunicação com as pessoas, de comunhão.
Isso, pra mim, é criação."
Ponto final? Não!
De repente ela está lá, agora, em sua casa mágica, fazendo, fazendo ...
Número de frases: 83
Você não pode perder essa oportunidade:
adquira seu exclusivíssimo apartamento no céu, com vista privilegiada e tudo que você precisa para desfrutar da «vida eterna» com o máximo de conforto que você merece.
Um apartamento por andar, com elevador, circuito interno de TV, heliporto e hangar.
A MZZ Empreendimentos ajuda você a planejar o seu futuro, com os apartamentos do Edifício Ascensão.
Garanta já o seu!
Não, isso não é uma campanha publicitária fajuta levada a cabo por alguma dessas igrejas neo-pentecostais que surgem em qualquer esquina ou canal de TV.
Estamos falando aqui de um trabalho de artes visuais.
A MZZ é uma criação da capixaba Maruzza Valdetaro, e seus «empreendimentos», na verdade, compõem uma série denominada Aquisições do impossível, que a artista vem desenvolvendo nos últimos quatro anos, desde que realizou o pioneiro Loteamento do Céu, em março de 2002.
De lá pra cá, Maruzza vem desenvolvendo uma das mais bem-sucedido trajetórias no campo das artes visuais no Espírito Santo.
Premiada em vários salões de arte locais e nacionais, ela tem apresentado obras bastante curiosas, em especial seus «Loteamentos» (do Céu, do Ar, do Aroma, da Feminilidade).
Cada um de eles é uma instalação, seja em espaço interno ou externo, com direito a planta de localização e escritura, assinada por a MZZ Empreendimentos, empresa fictícia responsável por a «comercialização» dos lotes -- sim, as instalações são comercializadas em partes menores, que o comprador pode levar para a casa, como os «terrenos» de espelhos trapezoidais do Loteamento do Céu (2002), as «mudas» de plantas serigrafadas no Loteamento do Aroma (2004) ou partes do canteiro de balões brancos do Loteamento do Ar (2003), cada qual com sua respectiva escritura de compra e venda.
«Em esse sentido, podemos ver muito presente as transações comerciais que nos permeiam em quase todos os momentos, seja através de uma nota fiscal até a escritura de um imóvel.
E o interessante é que o papel é que garante a propriedade da coisa adquirida, o que é simbólico e valorado como nosso dinheiro que é do mesmo material», declara Maruzza.
Cada instalação conta, inclusive, com a atuação de um «corretor de plantão», que dá mais detalhes sobre o produto a ser adquirido, persuadindo o consumidor a adquirir um bem de vital importância.
«Em cada um de meus trabalhos busco lotear o inatingível, seja o céu em sua amplidão, sua constante mutabilidade e seu significado religioso de conforto espiritual (Loteamento do Céu), ou o perfume, a memória, as sensações, o afeto (Loteamento do Aroma)», diz a artista.
A o lotear e comercializar o que não se pode tocar, traduzindo tais situações em suportes materiais, a artista busca materializar espaços imaginários, possibilitando uma interação entre espectador e obra.
Entre as referências com as quais seu trabalho dialoga, Maruzza destaca não só artistas plásticos (no Edifício Ascensão, especificamente René Magritte), mas também escritores que abordam esse mesmo desejo de quantificar o intangível, como Saramago e Italo Calvino, em especial no livro As cidades invisíveis.
Escrituras, panfletos, outdoors, VTs publicitários e outros elementos do universo comercial são recorrentes em seus trabalhos, que discutem a mercantilização da subjetividade, do afeto, do tão presente na sociedade contemporânea.
Em a internet, podemos encontrar fotos e informações sobre os «Loteamentos» no endereço da MZZ Empreendimentos.
Em 2005 (mesmo ano do Loteamento da Feminilidade), a MZZ ampliou sua área de ação para outros espaços urbanos:
Vende-se sossego, que consistia numa série de placas adesivas espalhadas por logradouros, chegou a ocupar diversos quarteirões da Avenida Paulista, em São Paulo, dentro do projeto Eia (Experiência Imersiva Ambiental).
Os anúncios apenas anunciavam a venda desse bem (tão escasso no cotidiano frenético daquela avenida que nunca pára para respirar) e para saber maiores detalhes, os passantes tinham como canal de informação o e-mail da corretora:
mzzempreendimentos@terra.com.br. A mais recente empreitada da MZZ, apresentada (simultaneamente aos trabalhos de Orlando da Rosa Farya), de agosto a outubro na Galeria Matias Brotas Arte Contemporânea, em Vitória, foi o Edifício Ascensão.
Um edifício situado no céu, representado por uma maquete de encher os olhos dos potenciais compradores.
A parte «comercializável» da obra consistia numa série de fotografias do céu, correspondendo às vistas da varanda de cada apartamento, expostas nas paredes da galeria.
Completando o «show room» montado dentro da Matias Brotas, temos a exibição de um VT comercial, apresentado as facilidades e vantagens de se adquirir o bem.
Mais uma vez, Maruzza lança mão do humor e da ironia para debater o consumismo, a mercantilização da espiritualidade e a descontrolada especulação imobiliária deste início de século, sem deixar de lado o jogo entre o imaginário do espectador e a experiência estética proporcionada por a obra:
«E por que não podemos penetrar em espaços fictícios e permitir que a fantasia se faça também presente, nessa mercantilização tão usual na nossa sociedade contemporânea?»,
arremata.
Depois desse breve passeio por o portfolio da «corretora», fica a pergunta:
qual será o próximo empreendimento?
Depois de verticalizar o céu, o que ainda haverá no «impossível», no» intangível», que a MZZ ainda irá nos permitir levar para o conforto dos nossos lares?
Número de frases: 32
Pump tv é um projeto desenvolvido por a empresa Footsteps Design Studio.
Com uma proposta inovadora, e pioneira, o Pump tv ultiliza a melhor tecnologia de vídeo e áudio para Internet, proporcionando e disponibilizando para os usuários da Internet o melhor do entretenimento musical, com os melhores vídeo clipes já produzidos em todo o mundo, de uma forma fácil e simples, basta entrar no site e assistir à melhor programação selecionada por profissionais experientes no mercado musical, e principalmente tendo um canal de comunicação direto com o público, que poderá opinar e pedir seu vídeo clipe preferido.
Para inovar, o Pump tv traz também os programas específicos para cada tipo de público, criando os programa Pump Pop, Pump Soul, Pump Rock, Pump Club e o Pump Brasil, fazendo com que o público possa assistir aos vídeos dos seus artistas e estilos preferidos.
Enfim, seja bem-vindo, fique à vontade e curta a melhor programação de vídeo clipes já vista, ou melhor, nunca vista na Internet.
«Os melhores vídeo clipes do jeito que você nunca viu», só aqui no Pump tv.
Número de frases: 5
Acesse já PUMP TV Dia 27 de agosto, será exibido pela primeira vez ao público o vídeo mato-grossense «Banheiros, Bosques e Afins».
A produção tem roteiro e direção assinados por o videomaker J. Tomaz.
Em seus 7 minutos de duração, «Banheiros, Bosques e Afins» trata de um assunto ainda delicado -- homossexualidade.
O vídeo narra a história de um homem (propositalmente sem nome) que reprime seus verdadeiros valores para ser aceito nos padrões moralistas de uma sociedade preconceituosa.
«Ele surgiu da minha vontade de mostrar uma realidade vivida por muitos homens que não têm coragem de assumir a sua verdadeira identidade.
Revelar sua face perante a nossa sociedade machista e paternalista», revela J. Tomaz.
Além de ocasionar a discussão, o videomaker ainda lembrou que o vídeo ganha maior mérito por ser resultado de um projeto promovido por alunos e ex-alunos do Curso de Comunicação Social da UFMT.
Tomaz, integrante do Núcleo de Práticas Audiovisuais (NPAV) 3 Tabelas, apresentou o roteiro para o grupo que logo aceitou a empreitada.
O processo de captação de imagem foi realizado ao longo dos finais de semana do mês de maio e concretizado com maior agilidade que os anteriores.
Logo em seguida, o material foi encaminhado para pós-produ ção.
«Foi bem rápida esta produção.
Resultado da experiência que vem sendo adquirida por o 3 Tabelas», comenta o diretor e roteirista.
Superação
Sobre as dificuldades, a financeira se destaca como a principal, porém não tem impossibilitado as produções do grupo.
Para «Banheiros, Bosques e Afins» foram aproveitadas locações públicas, como o Morro da Luz e o banheiro da própria UFMT.
O elenco, assim como toda equipe, trabalhou gratuitamente para o projeto.
De a mesma maneira, têm sido realizados os roteiros do NPAV 3 Tabelas, nos seus quase quatro anos de existência.
Este ano, o grupo intensificou o trabalho.
Já são dois vídeos finalizados, outros dois em processo de pós-produ ção, um sendo produzido e mais cinco roteiros em estudo.
Quanto a aceitação do polêmico vídeo, Tomaz diz torcer para todos agirem com naturalidade ao assisti-lo, mas sabe que pode causar estranhamento.
«Não se vê todo dia dois homens se beijando num parque no centro da cidade», ironiza.
Para aqueles que quiserem conferir o interessante trabalho, «Banheiros, Bosques e Afins» será exibido a partir das 18 h, no auditório da Livraria Janina do Shopping Pantanal.
A entrada é gratuita e os presentes terão a oportunidade de assistir à curtas do acervo do Cine Coxiponês.
Sobre o Diretor
J. Tomaz é fotografo profissional há 6 anos.
Participou do XXII Salão Jovem Arte Mato-grossense, como artista integrante.
Como fotógrafo trabalhou no Festival de Cinema Feminino Tudo Sobre Mulheres (2005), nos vídeos «Alves de Oliveira», de Caroline Araújo, e» Uma Viagem Por a Estrada, de Ana Claudia Simas».
Já dirigiu dois vídeos:
«Saias «e» Por Aí» -- este participou do 13º Festival de Cinema de Cuiabá.
Número de frases: 29
A pintura é simples e direta, feito um quadro primitivista.
Pinceladas fortes, rápidas e irregulares registraram, sempre em marrom, a silhueta de estruturas cilíndricas que podem ser conjuntos habitacionais padronizados, chaminés industriais ou torres de comunicação.
A impressão geral é de tédio e de imutabilidade.
O espectro da cor única é, no conjunto, desagradável.
Começa com tons claros, semelhantes aos da terra seca e sem vida;
passa por uma tonalidade pouco mais escura, que lembra a cor de excrementos;
com algo de vermelho, parece ser o marrom de uma casca de ferida em processo de cicatrização;
tendendo ao preto, aparenta ser a crosta de matéria em putrefação.
O quadro, pintado por Ivan Hegenberg, artista plástico formado por a USP, acabou servindo de capa para o romance de estréia de ele próprio, lançado no final de 2007: Será, uma estranha e niilista ficção científica nacional.
Distopias são um dos temas mais recorrentes na tradição da FC mundial e renderam algumas das melhores obras do gênero em diversas mídias.
Historicamente, a palavra parece ter sido empregada pela primeira vez, com seu sentido literal de lugar mau -- e em oposição à utopia, o lugar nenhum, por o filósofo e economista inglês John Stuart Mill, num discurso no Parlamento Britânico, no ano de 1868.
Estamos às vésperas do aniversário de 140 anos de sua criação, portanto.
Quando o mundo das artes se apropriou do termo, em reação aos sonhos de futuros idealizados, tecnologicamente avançados e socialmente justos, começaram a ser produzidos livros como 1984, de George Orwell;
quadrinhos do nível de V de vingança, de Alan Moore e David Lloyd;
e um sem-número de filmes que se passam em tempos pós-apocalípticos como a trilogia Matrix dos irmãos Wachowski.
Todas obras marcadas por o autoritarismo dos governantes, humanos ou não, ou por grandes catástrofes globais, sejam causadas por o homem, sejam naturais.
O paulistano, com seu segundo livro -- o primeiro foi uma coletânea de contos, A grande incógnita, publicada em 2005 por a editora Annablume, pode ser incluído nesta lista de autores desesperançados com os dias que virão.
Em o início de Será -- para ser exato, em seus dois primeiros capítulos, «História do mundo» e «Água» -- o cenário geral é traçado.
Apesar do longo histórico internacional deste subgênero, tais trechos da obra do iniciante lembram mesmo a mais famosa e bem sucedida distopia já produzida no Brasil, escrita por um veterano conterrâneo de ele, em 1981.
Não verás país nenhum, livro mais conhecido de Ignácio de Loyola Brandão, antecipou há mais de 25 anos muitas das preocupações ambientais que vivemos nesta primeira década do século XXI.
Será também mostra a tentativa de sobrevivência de personagens que vivem as consequências do abuso dos recursos naturais do planeta.
A maior diferença é que, na obra da década de 80, a narrativa ficava circunscrita ao Brasil, mais que isso, a São Paulo, e tinha um protagonista claro, Souza;
no livro lançado em 2007, a abrangência é mundial e há uma profusão de personagens sem uma hierarquia clara entre eles na ordem das coisas.
Datas não são definidas com muita precisão ao longo do texto, mas uma brincadeira quase oculta nas últimas páginas faz supor que estejamos por volta do ano de 2348.
A população mundial praticamente triplicou em relação à de nossos dias, são 15 bilhões de pessoas disputando o mesmo espaço.
Se número já assusta, ele poderia ser ainda maior, se não houvesse ocorrido cerca de 6 bilhões de mortes por doenças virais, um século antes dos eventos narrados no livro.
Para respirar, a solução foi retirar oxigênio diretamente dos oceanos, o que faz um dos personagens se perguntar se é o consumo desse «ar para peixes» que os faz se sentirem tão «desadaptados».
É uma boa questão, pois o clima de apatia é dominante neste futuro amarronzado, em que as necessidades mínimas de todas as pessoas, de moradia à alimentação, são atendidas em pé de igualdade.
Se no livro de Brandão havia um poder por trás de tudo, o Esquema, aqui há o Sistema, uma forma de democracia direta mediada por softwares.
Tudo é motivo para consultas plebiscitárias à população adulta para que os sistemas de inteligência artificial -- que são sempre citados, mas não exercem uma presença física nas páginas do livro -- tomem as providências executivas.
Novamente a exemplo de Não verás país nenhum, a água potável se tornou um artigo raro.
Se no primeiro livro, eram os civiltares que exerciam um controle coercitivo da população, em Será existe uma milícia chamada Comando Água para fazer o serviço sujo.
Aparentemente, os programas governantes imaginados por o brasileiro seguem a famosa legislação proposta por Isaac Asimov que os proíbe de matar pessoas.
Isso não os impede de tentar fazer passar uma lei para promover a esterilização em massa da humanidade e ainda permitir que os agentes do tal comando executem todos aqueles considerados inaptos para continuar a viver.
Sim, essa é a impressão gerada por as primeiras 40 das 240 páginas totais de Será, com o dilema de Ganton e William, dois velhos amigos separados por as escolhas que fizeram.
Um a de servir indiretamente ao Sistema, matando sem culpa os indivíduos mais fracos, os que de certa forma desistiram de resistir, para garantir a existência da coletividade.
O outro, um integrante da Sobrevivência Unida, tem como norte moral a certeza de que a humanidade deveria sucumbir junta, de que «morrer com suprema beleza é bem mais digno do que matar com avidez».
Mas a aparência é falsa, pois no restante do livro -- a cada capítulo primeiro;
a cada página em certos momentos;
a cada páragrafo em certos casos, as sensações, os climas, os estilos, os ritmos vão se alterando, se confundindo, se mesclando, apesar de seguirem aquele esboço inicial.
É como se o leitor fosse convidado a acompanhar a feitura de um quadro momento a momento:
a confusão de pinceladas e raspagens aparentemente caóticas que acabam dando origem a uma pintura figurativa, ainda que expressionista.
Para exemplificar tal alternância estilística, podemos seguir o sumário dos capítulos.
«Dia qualquer», o terceiro, tem um quê de absurdo à Kafka;
já a personagem principal de «Passagem», o seguinte, a garota Seda, lembra as crianças superdotadas de Orson Scott Card, autor de livros de FC como o Jogo do Esterminador.
É no quinto, «Zeitgeist», que a coisa se complica ainda mais.
Hegenberg se utiliza de outra modificação que introduziu em seu mundo ficcional -- através de métodos não explicados, a humanidade desenvolveu e difundiu um certo nível de telepatia -- para de fato passar aos leitores o espírito da época daquele cenário.
Helmut, um homem centenário, se utiliza de seus dons para bancar o voyeur telepático.
O resultado é uma colagem de curtas sequências de pessoas vivendo suas vidas, praticando sexo casual, casamentos sendo desfeitos, resumos de sonhos, trechos de aulas, conversa de mãe pra filho ...
Uma autêntica cacofonia em meia centena de páginas.
Possivelmente, uma pista das intenções do autor pode ser encontrada no sexto capítulo, «O Supremo Esteta».
Logo de início, aquelas páginas se destacam por apresentar uma editoração diferenciada, com as letras em negrito.
O motivo por trás de tal recurso só fica claro ao final do curto capítulo, que se revela uma montagem intertextual pós-moderna do escritor.
Além da forma, o que «O Suprem Esteta» tem a oferecer em termos de conteúdo é uma especulação sobre a principal visão religiosa do futuro de Será, o Esteticismo-maior.
Dois terços da população do planeta parecem ter substituído do panteão universal os deuses com uma visão moralista de mundo, com a divisão entre certo e errado, bom e mau, por uma noção baseada na estética acima de tudo, tanto nas relações naturais, quanto nas ações humanas.
Não parece tanto que o objetivo do novo romancista seja o de propriamente lançar as bases de uma nova religião.
Mas aparenta ser uma declaração de princípios de uma autor em relação à sua forma de expressão e, quem sabe?,
com a vida.
O fato é que, apesar de tantas outras leituras possíveis, é difícil ler aquelas páginas, ou mesmo evocar em termos literários a expressão supremo esteta, e não pensar num dos maiores defensores da arte por a arte.
Em um dos prefácios mais conhecidos de todos os tempos, aquele que Oscar Wilde redigiu para O retrato de Dorian Gray, ficou resgistrado:
«A vida moral do homem forma parte do argumento e do material do artista.
Mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um instrumento imperfeito.
Nenhum artista pretende provar o que quer que seja.
A própria verdade não pode ser provada.
Artista algum tem preferências éticas.
Uma preferência moral, num artista, é imperdoável maneirismo de estilo
Não há artista doentio.
O artista pode exprimir tudo».
Essas palavras escritas no século XIX poderiam bem resumir o manifesto do Esteticismo-maior se for feita uma leitura puramente estética da obra, levando-se em conta que o artista é o deus de seu mundo criativo.
Escolhas estéticas em detrimentos dos julgamentos morais parecem ser um dos pontos fortes de Será.
Em as páginas seguintes, na segunda metade do livro, o efeito permanece e até se amplia.
A sucessão interminável de personagens e de situações parece seguir tais critérios, segundo a vontade do criador, sem se submeter a um roteiro linear, um destino traçado e coerente.
Em «Explorações», um dos melhores capítulos do livro, por exemplo, a narrativa se divide em três momentos para contar simultaneamente a visita de um filósofo ao show de um comediante, os bastidores de um filme pornográfico e, numa rara concessão a temas mais típicos da FC, um empreendimento científico ousado:
um grupo de pesquisadores é encolhido a nível microscópico para desbravar o interior de uma célula.
O livro lançado por a editora Ragnarok, da qual Ivan Hegenberg é um dos sócios, é em boa parte a fusão dos autores que mais reconhecidamente o influenciaram, uma criatura com o esqueleto de Friedrich Nietzsche e as carnes de Clarice Lispector.
A obra acaba servindo para coletar uma série de relexões filosóficas do escritor a respeito de diversos aspectos da vida.
Em alguns casos, as falas e pensamentos dos personagens chegam a soar algo ingênuo, como nas críticas constantes feitas ao capitalismo -- que fariam o já citado John Stuart Mill dar boas risadas liberais.
Porém, em certos pontos, o livro consegue um efeito bastante interessante, ainda mais levando-se em conta que ele foi escrito por um autor tão jovem -- o paulistano nasceu em 1980.
Quase sempre o resultado é bastante incômodo, o que faz voltar a lembrar daquele prefácio de Wilde:
«Não existe livro moral nem imoral.
Os livros são bem ou mal escritos.
Eis tudo».
E Será, com sua narrativa sobre tédio e imutabilidade, sobre a terra seca e sem vida, sobre feridas que podem cicatrizar e outras que já apodreceram, é um livro bem escrito.
Serviço:
O livro custa R$ 30 e se encontra à venda por os sites da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com), Devir (www.devir.net.com) e em outros endereços listados no blog do autor:
www.ivanhegenberg.blogspost.com Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
Número de frases: 86
Para entender o início do cooperativismo devemos focar o momento em que nossos ancestrais saíram da irracionalidade para a racionalidade.
Esta passagem, que ocorreu atrelada com a evolução do raciocínio, foi sem dúvida alavancada por os processos de caça.
Os caçadores, sempre em busca de alimento para a tribo, se uniam, formando a mais primitiva forma de cooperativismo humano conhecida.
De o passado remoto até os dias de hoje podemos denotar uma quantidade enorme de iniciativas cooperativistas que auxiliaram a evolução humana em todas as esferas:
Caça, pesca, obtenção de frutos da natureza e formas rudimentares de agricultura, como postulam atualmente os antropólogos, detinham aspectos de cooperativismo.
A arte rupestre nos proporciona um registro comprobatório significativo destas rudimentares formas de cooperativismo.
Em o inicio da história, com a descoberta da escrita, há registros de formas de cooperativismo.
Em a Antiga Babilônia, berço da civilização humana, formas de cooperativismo eram prática corrente.
Isto pode ser abstraído de textos cuneiformes e mesmo na primeira epopéia humana conhecida na sua forma «tardia» (século VII A.C.) como é difundida no Ocidente:
«A Epopéia de Gilgamesh».
Em o Livro de Enoque, texto apócrifo contemporâneo à Bíblia, existe exemplos de cooperativismo na pecuária.
Em a Bíblia em diversas passagens vemos menções a práticas cooperativas por vários povos.
Em a Índia antiga textos em sânscrito da epopéia Mahâbhârata, de que faz parte o Bhagavad-Gîtâ, os quais foram compilados para a forma atual entre os séculos 5 e 1 a.C., nos trazem indicações de cooperativismo.
Em o Egito Antigo encontramos exemplos cooperativistas na construção de algumas das pirâmides e monumentos, bem como na produção da agricultura e de artigos artesanais de consumo.
Em a Grécia Clássica já existiam formas de cooperação nos campos de trigo e no artesanato devidamente registrados.
Aristóteles acreditava que a atividade filosófica cooperativa era capaz de conduzir ao verdadeiro conhecimento.
Em a Alta Idade Media a Ordem dos Templários, embora norteada por escopo religioso, gerenciava parcialmente seus bens de modo cooperativista.
Em a Baixa Idade Media e inicio do Renascimento, os artesões com suas confrarias que impulsionaram o renascimento do comércio eram essencialmente cooperativistas.
Em as Américas as antigas civilizações Asteca, Maia, Olmeca, Tolteca e outros grupos indígenas (mesmo alguns que subsistem na atualidade) formavam cooperativas de agricultura, caça e pesca.
As Missões Jesuítas na América Latina, inclusive no Brasil, desenvolveram posturas cooperativistas na produção agrícola e mesmo na produção de cultura com suas orquestras, corais, escultores, atores e pintores.
Em as artes temos durante o período Parnasiano o nascimento das Academias, que eram na verdade unidades educacionais voltadas a ensinar das artes a seus alunos.
A administração de algumas destas Academias seguiam critérios cooperativistas.
Outro aspecto das artes que teve origem cooperativista são os vernissages.
Estes, na sua origem, ocorriam na noite anterior à abertura de uma exposição.
Os artistas que iriam expor se reuniam e, com ajuda de outros artistas, davam a última passada de verniz sobre as obras que deveriam ser expostas no dia seguinte.
Ajuda mútua é cooperativismo.
O Cooperativismo Moderno, depois de vivenciar uma vasta tradição humana de mais de 10 milênios de historia amplamente documentada, reaparece como uma reação a alguns aspectos da primeira revolução industrial.
Surgiram na França e Inglaterra sociedades com características de cooperativas.
Tais movimentos foram conduzidos por idealistas, como Robert Owen, Louis Blanc, Charles Fourier, entre outros, que defendiam propostas baseadas nas idéias de ajuda mútua, igualdade, associativismo e auto-gestão.
Estes são os mesmos princípios que norteavam as cooperativas da Baixa Idade Média e início do Renascimento.
Em 1844 28 tecelões na Inglaterra criaram uma sociedade de consumo, baseada no cooperativismo puro, chamada «Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale».
Esta sociedade fundamentou os chamados «Princípios Básicos do Cooperativismo».
Em a batida do tempo tais conceitos se aperfeiçoaram.
Entretanto, no seu cerne manteve:
adesão livre e voluntária, gestão democrática por os cooperados, participação econômica dos membros, autonomia e independência, educação, formação, informação, inter-coopera ção e interesse por a comunidade.
Número de frases: 35
Considerações sobre " QUASE NADA ..."
Em se tratando de livros ' Quase Nada ..."
será a primeira publicação deste Autor, embora já tenham sido lançados em edição artesanal (nxero) os livretos «Palavras ao Vento --de poesias, com 200 cópias, em Belém, 1985/87» -- e um «Quase Nada» com variados textos (músicas, crônicas, poemas, contos, ilustrações), este último com tiragem de 80 exemplares, entre 1988/1990.
Minha obra atual contém apenas contos, englobando o que de melhor produzí nos últimos dez anos, boa parte de eles com pitadas de non-sense e de absurdo, mas algo também baseado em minha vivência no que ainda resta da outrora exuberante Amazônia, em 24 anos de convivência com suas coisas, pessoas, hábitos e ...
tradições.
Os originais de " QUASE NADA ..." se compõem de 95 laudas com 36/38 linhas datilografadas em espaço 2, papel ofício A4, com 70/74 toques por linha.
Constam do futuro livro os 25 contos abaixo discriminados em breve Resumo, além de prefácio do próprio Autor e uma Apresentação (ou Crítica), estando previstas capa / contracapa em policromia.
Sumário
01 -- Manjar Celestial -- os primeiros missionários que povoaram o Brasil enfrentaram muitos inimigos;
pajés invejosos, costumes adversos, as tentações da carne e também fiéis ...
canibais. Frei Barnabé Tello lutou para superar tudo isso.
02 -- Um Presente Especial -- a vida nos garimpos pode mudar de um dia para outro mas, mesmo assim, sorte e azar são como irmãos siameses ...
andam sempre juntos!
03 -- O Impasse -- o terreno atrás da igreja-matriz era só um brejo, contudo os dois fazendeiros mineiros viviam às turras por causa de ele.
Nem o vigário local conseguiu resolver a pendenga.
Foi preciso contratar um Juiz de Paz de outra cidade para desfazer o impasse.
04 -- Tiro E Queda / Queda E Tiro -- a partir de fatos e notícias do dia-a-adia, principalmente de jornais, surgem minicontos onde o inverossímil impera e a fantasia é mais real que a própria realidade.
05 -- A Última Chance -- jogos de azar são a única oportunidade que a maioria tem de mudar de vida.
Um jovem nissei também teve, com a Lotomania, sua derradeira chance.
Só mesmo um terremoto (no Brasil?!)
poderia arrasar sua sorte.
06 -- Mercadoria De Natal -- dezembro é tempo de visitar amigos e parentes que não se vê durante o ano inteiro.
É Natal ...
tempo de vender quase tudo, inclusive um filho!
07 -- O Fantasma do Sino -- estradas, à meia-noite, são terreno propício para o surgimento de almas penadas, bruxas e fantasmas.
De essa sina não escapam nem as rodovias amazônicas.
08 -- O Labirinto -- «quem tem um, não tem nenhum», diz velho ditado popular.
O aposentado Orinaldo pensava assim, quando invadiu o lote desocupado de um seu vizinho de posses.
Recebeu em troca uma lição i nes que cí vel.
09 -- MINIDRAMA EM 2 ATS -- temas distintos em dois minicontos com um pé no fantástico e final-surpresa.
10 -- Um Sinal do Além -- os deuses sempre escrevem certo mas nos negamos a ver seus sinais.
O «médium» Dr. Nicolau cometeu o maior êrro da sua vida ao desdenhar o jovem pivete «Didi».
Ah, se arrependimento matasse!
11 -- O Sal da Terra -- finalmente a centenária castanheira tombou, ferida por machados e serras elétricas.
Morreram com ela os sonhos e os devaneios sentimentais de meia cidade, soterrados sob cimento e pedras.
12 -- O Último Pesadelo -- curtindo a sesta debaixo de frondosa mangueira o caboclo parauara sonhava feliz.
Acordou apenas para assistir ao maior pesadelo de sua existência.
14 -- Solução Criativa -- definitivamente, o Céu estava uma bagunça e nem o Criador conseguia dar um basta naquela baderna.
Então, Deus convocou São Pedro, que intimou São Benedito, que reuniu o pessoal ...
daí, surgiu a solução!
15 -- Manchete Fatal -- êle «bolara» e executara o crime perfeito.
Houve apenas um senão ...
a manchete fatal!
16 -- O «Rabo» De o Tatu -- uma curiosa estória sobre caçadas, tatus, caboclos, seus patrões da cidade e de como preconceitos arraigados influenciam a vida de quase todos, no interior.
17 -- Cinema De Vanguarda -- êle foi prestigiar o cinema nacional, nos anos 70, num pulgueiro em Botafogo.
Quase apanhou do «lanterninha» e acabou sendo atropelado por a «carrocinha».
18 -- O Eterno Combate DOS Vencidos -- breve alegoria a respeito da medicina, sobre médicos e sua luta para salvar vidas.
19 -- A Última Ceia -- o imperador Nero estava intrigado:
seus magníficos leões recusavam-se a devorar escravos africanos.
Sua Majestade ordenou que descobrissem porquê!
20 -- Paisagem Amazônica -- todos se foram, só êle ficou ali, entre matas e águas.
Mas, a bem da verdade, nem êle estava lá!
21 -- BENÉ, O «DENTE DE OURO» -- nas Minas Gerais dos inconfidentes «Bené» era somente um jovem escravo a serviço do ideal de libertar seus irmãos de côr.
Até que seu senhor descobriu ...
22 -- O Olhar Penetrante da Noite -- a Noite na floresta tem alma, olhos hipnóticos, mãos geladas e sussurra convites aos mais incautos.
23 -- Revelação do Ano -- o marceneiro desesperançado decidiu mudar de ramo e de vida.
Por as mãos de seu casal de filhos de 10-12 anos virou pintor, artista de renome nacional e, por fim, criou uma ONG milionária para formar no morro outros tantos «gênios» mirins.
24 -- Um Assassino em Potencial -- os passarinhos da garotada do vilarejo estavam sumindo misteriosamente.
Era preciso achar o ladrão o mais rápido possível ...
e matá-lo, se necessário.
25 -- Jardim De Sonhos -- metáfora lírica que versa sobre os amores (platônicos ou verídicos) do Autor quando jovem.
26 -- «Contos» De Um Canto ...
Só!-- mantendo o «estilo» iniciado em Tiro e Queda, trata de re-visões do dia-a-dia do homem comum, além de textos nascidos das notas & notícias (re) tiradas de jornais e revistas.
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Nelson Hoffmann Como foi não me lembro, mas contaram-me, há tempos:
-- Olha!
Tem um cara, lá no Pará, que é fã de tuas letras.
Fã?
Essa era boa ...
Quem seria?
Passaram-me nome e endereço.
O nome, Cincinato Palmas Azevedo, era-me estranho;
mais estranho ainda ficou-mo nome da cidade:
Ananindeua. Em todo o caso ...
É tão difícil encontrar leitor!
Escrevi-lhe.
E foi o desate de um turbilhão.
Senti-me, de repente, num redemoinho.
Fui envolto em rodopio, eu não sabia o que estava acontecendo.
Parecia-me alucinação, eu estava sendo arrastado, tragado, para um mundo inexistente.
Sobre mim desabaram informes, informações, notícias, panfletos, recortes, jornais, revistas, excertos, desenhos, cartuns, fotos, cartões, um mundo fantasmagórico.
Velho barranqueiro do Ijuí, eu não concebia o mundo que se me apresentava.
E vieram poemas, poesias, trovas, reportagens, crônicas, contos, tudo instruindo-me sobre uma Amazônia que não viajava na mídia oficial.
E tudo era-me enviado por Cincinato Palmas Azevedo, grandíssima parte de sua própria autoria.
E o que não era, confirmava o autor.
Cincinato Palmas Azevedo é escritor e assina como Nato Azevedo.
Carioca de nascimento, perambulou por este país quase inteiro.
Vida de andarilho e alma de cigano, tanto rodou por aí que, um dia, foi dar com os costados na longínqua Belém do Grão-Pará.
Lá, por endereço, fixou a cidade de Ananindeua, na região metropolitana, onde reside.
A formação literária de Nato Azevedo é de mundo e não de academia.
Suas leituras são de revistas em quadrinhos e de aventuras e nada têm de canônico.
De nossa elite intelectual, simpatiza com Monteiro Lobato, Aluísio Azevedo e alguma coisa de Coelho Neto.
Prefere Jorge Amado a Machado de Assis.
De este, no dizer do próprio, pode ser que vá levar alguns volumes em meu esquife, talvez assim ...
Assim é Nato Azevedo, um escritor brasileiro.
Veterano de mil peripécias literárias, e outras nem tanto, o autor está lançando «Quase Nada ...», um livro de contos.
Este é uma reunião de alguns dos seus melhores trabalhos, muitos já publicados, acrescidos de um bom número de inéditos.
Os contos de " Quase Nada ..." espraiam-se por o Brasil e não são todos rigorosamente contos.
Alguns ingressam no terreno da crônica, outros tecem comentários, terceiros adentram o relato de experiências vividas.
Mas, todos são histórias que prendem o leitor até o fim.
Esta, aliás, uma característica muito forte:
o suspense dos textos, sempre com um impacto final.
As histórias de Nato Azevedo podem ser distribuídas por três cenários:
a) de fundo histórico, b) de ambientação urbana e c) de paisagem amazônica.
Alguns outros extrapolam a divisão, o que serve para confirmar a base.
As histórias que visitam a nossa História desenvolvem-se em períodos bem diversos e focam assuntos os mais diferentes.
Assim, temos o canibalismo e a atuação missionária dos padres em «Manjar Celestial», o surgimento do nome da cidade mineira de Juiz de Fora em» O Impasse», a escravidão e a mineração em «Bené, o Dente de Ouro» e outros.
E é de chamar a atenção para «O Sal da Terra», um belo relato da simbiose terra-gente do Grão-Pará, centrada na árvore-símbolo, a castanheira.
Já na ambientação urbana, as histórias acontecem, de preferência, em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo.
A ação de «Manchete Fatal» desloca-se, em movimento de vaivém entre as duas cidades, o que é fundamental ao desfecho.
«A Última Chance», por sua vez, acontece inteira em São Paulo e foca um problema tão nosso conhecido:
a febre das loterias, horóscopos, cálculos, rezas, palpites, benzeduras, mandingas, tudo por uma chance na sorte grande.
Mas, «Um Sinal do Além e Cinema de Vanguarda» são destaques da vida urbana carioca.
Situadas na década de 70, tem-se reflexos, conseqüências e produtos do regime político implantado em 1964, do início da tevê, da agonia do cinema nacional.
A proliferação de seitas religiosas, a massificação da comunicação, a resistência por uma arte nacional é um pouco do muito que aparece.
E a total ignorância de nossas elites na apreciação de uma obra artística é desmascarada em «Revelação do Ano».
O melhor da obra de Nato Azevedo, porém, está nas histórias que envolvem cenários amazônicos.
Ali o autor é vigoroso e está em casa.
Como vem do Sul, tem olhos para ver e ouvidos para ouvir e nariz para cheirar e tato para apalpar e gosto para sentir nuanças que o caboclo da aldeia não percebe.
Como tem vida e mundo no lombo e muita argúcia na cabeça, o autor nos conta histórias que raiam por o absurdo e são de pura humanidade.
A gente sente uma gratificação toda especial com o final feliz de " Um Presente Especial ";
participa da epopéia dos transportes rodoviários em plena selva amazônica, com " O Fantasma do Sino ";
e sofre a angústia de quem mora nessa «Paisagem Amazônica».
E o ser humano integra-se / desintegra-se, funde-se inteiramente com a selva, a natureza amazônica, em «O Olhar Penetrante da Noite».
A Amazônia é um redemoinho, um turbilhão que arrebata, prende e engole.
Toda essa temática é trabalhada em estilo intencional do autor.
Nada de inovações ou pirotecnias.
Sempre um modo narrativo tradicional, naturalista:
a interação meio x homem, homem x meio.
A realidade é subvertida de forma irônica e, por vezes, acusatória.
Mas, é sempre muito brasileira, com seiva de Brasil.
Ainda, um último detalhe:
o curioso processo de metalinguagem que atravessa todos os textos.
O processo diverte e chama a atenção, servindo de esclarecimento, alerta ou questionamento.
É uma bem-humorado e inteligente maneira de prender o leitor e instigá-lo a reflexões não previstas.
Nato Azevedo arrastou-me para o seu mundo.
Fui sugado como por um redemoinho.
E mergulhei numa Amazônia devastada, sofrida, explosiva, primitiva, exuberante, selvagem, judiada, desmatada ...
Hoje, Nato Azevedo tem um fã em mim.
Autor de Eu Vivo Só Ternuras * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
C O N F I T E O R (trechos do Prefácio original) ( ...)
Sinceramente, não sei porque escrevo!
Alguns dos grandes nomes de nossas letras já afirmaram que o fazem por angústia.
Outros mais, quando o momento de inspiração os invade e a vontade de escrever se torna irresistível.
Affonso Romano de Sant'Anna deixou para a posteridade definição magistral:
«quem escreve, o faz para não morrer;
quem lê, lê para imaginar que vive»!
De minha parte, o que me move são dois sentimentos tanto opostos quanto indistintos.
O intuito, mesmo velado, de apontar êrros, de corrigir o Mundo e, paralelamente, um desejo sutil de «vendetta» diante da impotência (ou inconsciência) geral frente aos fatos da Vida.
Escrever se torna bem menos prazer e lazer do que desabafo indignado (e, por vezes, virulento) por tantos «sapos» e «pepinos» que o Destino nos põe no prato da existência, mesmo quando se está farto. ( ...)
Por que escrevo ...
quando na realidade deveria estar procurando um trabalho ou uma ocupação que me desse o sustento?
Por que escrevo ...
se acredito, como o personagem de William Shakespeare, que «palavras são palavras e nada mais que palavras»?
Por que escrevo ...
se sei que os livros não mudam sequer as pessoas, quanto mais esse vasto e miserável Mundo?
Por que escrevo ...
se ninguém (exceto eu mesmo) me lê, como sucedeu a tantos antes de mim, como sucederá «per omnia saecula» se o Mundo continuar seguindo seu imutável curso?
Sinceramente, não sei porque escrevo!
Há, é claro, a satisfação do texto bem escrito, do conto bem acabado, com comêço e meio ...
que o fim é sempre uma incógnita, mesmo para o escritor, acreditem se quiserem.
Pode existir até uma pontinha de inútil vaidade, quando momentâneamente se atinge a tão almejada perfeição, mas tudo acaba logo que se fecha a gaveta, assim que guardamos a pasta de originais, registro & memória que só o Tempo tocará de ali por diante, com seus dedos apodrecidos. ( ...)
Para o bem ou para o mal a Amazônia -- seja lá o que o têrmo signifique -- fez de mim um escritor.
Em uma terra com raras empresas de porte e cujo comércio é essencialmente familiar (com emprêgo de parentes próximos e seus agregados) nos sobra a todos um imenso tempo para não se fazer nada.
Quem não é empregado de alguma entidade oficial (federal, estadual ou municipal) está literalmente «na rua da amargura», vivendo de expedientes, com ou sem aspas, muito embora numa terra tradicioanlmente» de meio expediente «o» dolce far niente «é geral depois da» meia hora», como se diz por aqui. (
Bem, após os dois parágrafos acima, sei que já perdi quase todos os leitores fanáticamente paraenses!)
De qualquer forma, bom, razoável ou ruim, sou um escritor ...
que me importa se isso pouco ou nada signifique?
E, no coração da Amazônia, cuja «capital» é toda arborizada com exemplares que a floresta original não possui, faço destas páginas meu «confiteor», numa visão que pode parecer a alguns parcial ou apressada mas que é visceral e legítimamente minha, sem empréstimo de opiniões (ou de obras) alheias.
Um trabalho quase tão árido quanto esta devastada Amazônia, decantada em prosa e verso, cuja exuberância se imagina mas não se vê.
Sou um escritor amazônico, quer isso me agrade ou não, mas (ainda) não amazônida porque esta agradável vivência próximo (ou dentro) de um pará-íso se transforma, graças a um regionalismo equivocado, numa existência onde as decepções, como as chuvas locais, são diárias, com hora marcada e não falham jamais. ( ...)
Aqui estou ...
e, este livro, que camufla em despretenciosos «contos» muito mais da minha vida (e dessa estupefaciente experiência) do que eu gostaria, tem a decidida intenção de registrar o sucedido.
Claro está que, como criador, é meu dever moldar o real, dar-lhe nova roupagem e «com a liberdade que o devaneio proporciona» (obrigado, João de Jesus Paes Loureiro!)
redirecionar uma realidade mesquinha e por vezes angustiante para o terreno da arte literária, da metáfora, do imaginário.
É do poeta insígne de «Altar em Chamas», mais amazônida do que nunca, a explicação definitiva:
«Em a cultura paraense-amazônica o ilógico explica o lógico, o possível revela o real, o devaneio torna-se meditação, a relação maravilhada com as coisas converte-se em método criador.
A arte no Pará é o lugar privilegiado dessa TRANSREALIDADE, que está no âmago de nosso pensamento, como coincidência de opostos:
do real e o imaginário. ( ...)
A realidade torna-se incrível e o imaginário credível.
Vivendo no particular, temos o prazer do desmedido». (
in " Arte e Desenvolvimento, pag. 20, Cadernos IAP, vol. 2, Belém/1999 ")
QUASE NADA ..." é um modesto escrito, sem pretensão à grande obra literária, de um Autor que só estudou até o 2º ano do antigo Curso Ginasial (agora, 6ª série).
Entretanto, nem por isso deixou de aprender na «universidade da vida», que dá conhecimentos mas não confere diplomas.
Hoje, sou espécie de coruja de olhos arregalados para os seres (e os fatos) da Vida, tentando se possível fazer alguma prêsa.
Se você vai aventurar-se por entre estas «espinhosas» páginas esteja atento mas, mesmo assim, chegará ao fim da jornada com alguns «arranhões».
Em certos casos, deixará por o caminho algum pedaço ...
do cérebro ou do coração.
Siga em frente!
Contudo, cuidado com os cachorros ...
êles costumam ser mais humanos que seus donos e isso é insuportável!
«ANANINDEUA, Pará, Brasil, dezembro de 2000 Nato Azevedo Continuação "
De Comunicação e Mundo em Transformação -- PARTE 1
Saímos de Vitória e fomos conhecer a Soul City, da África do Sul.
O nome nasceu com um programa de TV, mas fez tanto sucesso que até batizou uma nova favela, algo assim como Roque Santeiro, que hoje é o maior mercado de Angola.
O que surpreende é que Soul City é um programa que pode ser chamado de educativo -- e isso prova que boa educação pode ser aliada de bom divertimento e altos índices de audiência.
A fala de Harriet Perlman, produtora executiva senior do Soul City, partiu de uma crítica contundente das tradicionais campanhas de saúde que dizem «não fume» ou «use camisinha» -- «se não fizer o que eu ordeno, você vai morrer».
Esse tipo de intimidação simplista não funciona em lugar nenhum, em cultura nenhuma.
As culturas são complexas, os indivíduos são complexos.
Por isso as campanhas de saúde devem levar em conta essa complexidade.
A boa dramaturgia, colocando em cena personagens com pontos de vistas distintos, torna possível que os temas sejam discutidos em profundidade, sem tratar o público como um território virgem, onde as verdades devem ser plantadas à força.
Outra experiência extremamente inovadora em termos de comunicação para a saúde está sendo realizada nas margens do rio Tapajós, perto de Santarém, no Pará, com o projeto Saúde e Alegria.
Em o Seminário, Fábio Anderson Rodrigues Pena, o coordenador do Programa de Educação, Cultura e Comunicação do projeto, traçou um panorama geral de suas múltiplas atividades, incluindo a incrível Rede Mocoronga de Comunicação Popular.
Além de programas de rádio e fanzines em várias vilas ribeirinhas, todos feitos por jovens locais, a Mocoronga está implantando telecentros em muitos lugares, todos abastecidos apenas por energia solar.
O Fábio prometeu e vou ficar cobrando (aqui é assim: promessa de seminário é mais que dívida):
ele vai convidar os usuários dos telecentros mocorongas para se tornarem colaboradores do Overmundo.
Estamos ávidos por notícias culturais aí do Tapajós!
Minha mesa, a última do evento, seria dividida com Hanan Ayari, apresentadora de um programa da TV para crianças da Al-jazeera.
Mas ela teve problemas de saúde e não pode fazer o vôo Qatar-São Paulo.
Pena: eu estava curioso para conhecer melhor o projeto infantil da Al-jazeera, uma rede de comunicação que não brinca em serviço e parece ter várias respostas para o futuro da TV na era da internet (tanto que fez recentemente acordo comercial com o YouTube).
Também queria saber como a programação para crianças lida com os ensinamentos religiosos:
na semana passada, quando dei olhada no site para me preparar para o Seminário, a maioria dos programas falava sobre o jejum do Ramadan.
Se houvesse a mesma presença religiosa numa TV educativa «ocidental», sem dúvida haveria protestos variados ...
Mas esse debate fica para um próximo Seminário?
Quem substituiu Hanan Ayari na mesa foi Marcela Benavides, do Ministério da Cultura da Colômbia, órgão responsável por a coordenação da programação cultural da TV pública colombiana.
Marcela é especialista em uso de novas tecnologias para a educação, e isso dá para se perceber na nova programação do canal Señal Colombia que acaba de estrear:
inclui revistas como a Sub30, com edição rapidíssima, uso de câmeras DVs, e um real espírito de experimentação que faz falta em muitos programas educativos.
Eu fui convidado para falar da minha experiência no Central da Periferia, que para mim é sobretudo um projeto de reflexão acerca do lugar possível da televisão tradicional (a chamada grande mídia) nesta nova realidade onde a produção de comunicação eletrônica se descentralizou e está sendo apropriada das maneiras mais diversas por grupos sociais diferentes.
Tudo o que o Central da Periferia mostrou, mesmo os sucessos musicais cantados por as multidões, não precisou da TV de massa para existir e se difundir nacionalmente.
Fizemos um programa de auditório que tinha que ir para as ruas, para as favelas, para encontrar o que era realmente popular e que não tinha mais visibilidade dentro dos cômodos estúdios de TV.
A estrutura de realização era até mais cara do que a de um programa de estúdio:
mas era como se todo aquele aparato contemplasse sua insignificância e obsolescência:
com muito menos, um estúdio de periferia faz sucessos nacionais que a TV hoje tem dificuldade de produzir ou reconhecer.
O Central da Periferia nunca quis falar em nome dessas novidades (ou pior, ser porta-voz dessas novidades -- essas novidades todas já têm vozes possantes):
queria apenas discutir a nova situação.
Mesmo com todo seu poder, sua grana, a TV deixou de ser o centro, ou vai deixar de ser o centro cada vez mais rápido.
A TV é a periferia?
Agnaldo Silva comentando (para a coluna Outro Canal, da Folha de S. Paulo, 04/10/07) a baixa audiência dos primeiros capítulos de 2 Caras, sua nova novela, sentenciou:
«O problema não é com a novela, é com a televisão.
Em uma terça-feira, o total de ligados em São Paulo foi de 64 %, ou seja, 36 % dos televisores estavam desligados.
As pessoas estão comprando TVs de plasma para deixarem desligadas ou para verem filmes.
Hoje, qualquer banca vende DVD pirata a R$ 5 [ ...]
E ainda tem o Messenger e o Orkut.
Agora até as criancinhas estão viciadas em Orkut.
O Orkut virou novela, as pessoas escrevem suas próprias histórias."
Quem visita os camelódromos de todas as capitais brasileiras sabe:
entre os DVDs à venda não há só piratas, mas muitas gravações de shows das bandas que apareceram no Central da Periferia -- elas liberam os DVDs autoproduzidos para os piratas venderem:
é a construção de um mercado audiovisual paralelo, sem passar por o centro, por o «formal».
São só esses shows que vejo passando nas TVs de 29 polegadas que agora estão em muitos bares de periferia, TVs que antigamente estariam ligadas nas novelas.
É uma transformação social e tanto, produzida por a tecnologia de comunicação, mas não por os meios de comunicação de massa.
Conversando com os componentes da Banda Calypso, eu afirmava que eles não precisavam mais da TV.
A resposta foi algo mais ou menos assim:
«precisamos sim, mas não para ganhar dinheiro, não para fazer sucesso, mas para ter o selo que prova que o que fazemos é cultura, ou que nós existimos, e assim descobrimos que o nosso sucesso estrondoso não é uma alucinação."
Mas isso é muito pouco:
vão aparecer rapidinho novas formas de comprovação de «realidade».
Não são só bandas como a Calypso que inventam trajetórias de sucesso independentes da grande mídia, do centro.
Penso em grupos como o AfroReggae, que é apenas um dos mais bem-sucedido numa enorme rede de coletivos «periféricos» que trabalham com cultura como arma contra a injustiça social.
Em a platéia do Seminário vários desses grupos estavam presentes.
Tive a alegria de reencontrar o Alemberg Quindins, da Fundação Casa-Grande.
Como entender o novo sertão nordestino sem entender o que está acontecendo na Fundação Casa-Grande, sem aprender com suas crianças-produtoras de TV a refazer a TV?
Como pensar a crise constante das favelas cariocas sem a mediação do AfroReggae?
Eles precisam da TV, ou é a TV que precisa urgentemente de eles?
E além disso, Aguinaldo Silva está bem certo:
a garotada está nas lan-houses, no MSN e no Orkut e em muitos outros sites mais (aqui um link para artigo que comenta a lei cuiabana determinando que não pode haver lan-houses a menos de 400 metros das escolas!).
Em pesquisa recente feita por a F / Nazca e o DataFolha descobrimos que 42 % dos internautas brasileiros (são 39 % da população) afirmam já ter publicado seus próprios conteúdos na internet, quase sempre para «relacionar-se com outras pessoas».
Isso só tende a crescer, e não tem volta.
Em o filme exibido por Warren Feek na abertura do seminário, há uma profecia:
em 2015 a TV aberta, fora da internet, desaparecerá.
A o me encontrar, também no Seminário, com pessoas ligadas à nova TV Pública que vai ser inaugurada em breve no Brasil, tive que dizer em tom exaltado / influenciado por todas essas questões que reapareceram em muitas palestras:
se for para ser uma TV tradicional, não faz o menor sentido, é dinheiro público desperdiçado com um modelo comunicacional obsoleto, é investimento em algo que é passado, enquanto o dever deveria ser criar o futuro.
Digo com certeza:
qualquer canal novo hoje tem que ter seu centro na internet.
Se for copiar o formato já existente, com telejornais com bancadinhas ou mesmo documentários educativos bem intencionados, ninguém vai ver, o pessoal todo vai para o bar da esquina dançar ao som do DVD do Cavaleiros do Forró ou vai criar suas novelas no Orkut.
A nova TV Pública brasileira tem que partir do Ginga, da interatividade, do game online, da realidade virtual imersiva, do jornalismo-cidad ão, da Web 3.0 (pois a 2.0 já é coisa também superada), e de outras experiências comunicacionais ainda mais imprevisíveis e ousadas.
Em a van indo para o aeroporto que me traria de volta para o Rio de Janeiro, comentei com a Elke Schlote que tinha visto no site da IZI textos sobre o consumo de animês como Pokemón e Dragon Ball Z entre a criançada alemã.
Disse que é a mesma coisa no Brasil:
os garotos baixam esses desenhos da internet, e eles mesmos têm o trabalho de legendar, pois os episódios que chegam oficialmente no Brasil têm cortadas suas cenas «violentas».
Falei que há uma subcultura formada por milhares de adolescentes em todo o Brasil que se unem em torno dos desenhos animados japoneses, tendo uma dieta comunicacional totalmente independente da mídia oficial / tradicional.
Elke lançou uma pergunta que para mim é a principal para qualquer pesquisador em comunicação:
diante dessa fragmentação toda, não vai haver mais conversas comuns unindo toda a sociedade?
A sociedade vai virar um conjunto de mundos culturais diferentes, sem contato uns com os outros?
Improvisei uma resposta, na qual não sinto muita firmeza, mas foi o que me veio a mente naquele momento, o que confirma meu otimismo incurável:
acho que dessa cacofonia de vozes, de mundos separados, de milhares de sites de relacionamento, de YouTubes e Justin.
tvs, de twiters e mensagens instantâneas, de pescadores indianos vendendo peixes via SMS, de novelas pop-educacionais nicaragüenses ou sul-africano, de memorandos internos do dono da EMI elogiando o Radiohead, de grupos de vídeo formados por o Kinoforum, de redes de produção de conteúdo audiovisual para celular que podem surgir do Revelando os Brasis, de estúdios que gravam kuduro nos musseques angolanos (e das candongas -- as vans angolanas -- que cuidam da divulgação do kuduro), de telecentros movidos a energia solar da Floresta Amazônica (como diz o Otávio Velho, e eu não me canso de repetir: «não há mais grotões no Brasil» -- e acrescento: nem no mundo ...),
de ilhas de edição do anarcopunks colombianos etc. etc.-- de tudo isso, tudo misturado, conectado por os robôs do Google / Technorati ou por links de todos os blogs, vai surgir -- quase que por auto-organiza ção (a linda autopoeisis de Varela e Maturana) -- um novo «entendimento», uma nova possibilidade de conversa, mas em outro nível, bem mais complexo do que a trama comunicacional, dependente ainda de» centros», na qual estamos submersos agora.
A questão será:
como conectar tudo?
Como dar sentido para essas bilhões de mensagens clamando por atenção, num momento em que atenção é artigo cada vez mais raro?
De uma coisa eu tenho convicção:
qualquer iniciativa de comunicação, grande ou pequena, que não aceitar o desafio posto por esta nova realidade tecnosocial está fadada a desaparecer (tal qual o modelo de negócios tradicional da indústria fonográfica já desapareceu -- aquele papo de " você viu?
a Madonna pulou fora da WEA» ...).
O que não deixa de ser excitante.
É uma boa hora para países periféricos como o Brasil inventarem a nova onda.
Número de frases: 283
Lá longe, bem longe de tudo, depois de horas de rio, fica uma comunidade.
Ela tem farinha, borracha e madeira, moeda de troca de uma antiga prática comercial típica da região amazônica:
o regatão, barco que transporta bens de todas as espécies a esses locais mais remotos e os troca por produtos como os mencionados anteriormente.
Também lá longe, bem longe de todos os recursos públicos, depois de apenas alguns minutos de carro, ficam as comunidades da periferia manauara.
Elas têm artistas desconhecidos, acesso à arte ou à formação artística, especificidades culturais?
É isso que o Regatão Cultural quer descobrir ...
e fomentar.
O Conselho Municipal de Cultura foi criado em 2003 e efetivado realmente em 2004, com o objetivo de gerir o Fundo Municipal de Cultura e de ser o cérebro de políticas culturais para o município.
Era uma reivindicação antiga do movimento artístico organizado da cidade (ligada ao modelo do Fundo), que descentralizaria o acesso dos artistas aos recursos públicos e possibilitaria uma participação maior do movimento nas ações culturais da prefeitura, pois ele é formado majoritariamente por representantes eleitos de cada segmento artístico.
O restante das vagas é preenchido por os indicados por alguns órgãos municipais, responsáveis por as pastas de Educação, Turismo e Esportes e Lazer.
O Regatão Cultural é fruto dessa iniciativa, e foi proposto por o Conselho à Fundação Villa-Lobos (FVL), braço cultural da prefeitura que está em período de transição para se tornar a Secretaria Municipal de Cultura, como forma de começar a corrigir o abismo entre a periferia e o centro manauara, que abriga a quase totalidade de teatros e espaços culturais da cidade, todos mantidos por o Estado.
As comunidades não conhecem seus próprios valores e inclinações artísticas, não sabem de seus talentos ou vocações;
não há palco nem escola.
Formação
De acordo com o escritor Aníbal Beça, atual presidente do Conselho e um dos mentores do Regatão, o projeto seria tocado em parceria com as associações de bairro, escolas da rede pública e núcleos paroquiais, que, devidamente assessorados, seriam responsáveis por as inscrições e seleção de artistas para o Regatão, que contará com uma espécie de ônibus-palco para a realização dos eventos.
Esse é o embrião do projeto, a primeira fase, limitada a levar um artista de renome do Estado para se apresentar ao lado do pessoal dessas comunidades, só para movimentá-las mesmo, despertar o interesse.
A partir desse ponto, o Regatão pretende auxiliar no «mapeamento cultural» da cidade, para então chegar na parte principal do projeto, que é levar a formação artística a esses locais a partir de suas próprias especificidades.
«Não pode ficar só no evento, senão seria mais um ' Praça Iluminada '», argumenta Aníbal, referindo-se ao projeto da Rede Amazônica de Televisão que há duas décadas leva shows gratuitos de artistas da região a logradouros públicos dos bairros mais distantes de Manaus.
A formação artística é o foco principal do Regatão, pois no entender do Conselho -- e de qualquer pessoa que se interessa por arte em Manaus -- esse é o ponto fraco quando o assunto é cultura na região.
Política cultural no Amazonas é sinônimo de produção de eventos, pois o interesse real do poder público sempre foi a mera propaganda.
Essas são as entrelinhas mais óbvias da história.
Para se ter uma idéia da situação, a Secretaria de Estado da Cultura (Sec) possui uma extensa programação cultural em seus espaços, de maio a dezembro, com um sem número de peças e espetáculos de dança, por exemplo, sendo que a maioria dos grupos nem sabe o que está fazendo.
Em o fim das contas, o Estado tem um número excelente para o balanço do governo, três mil espetáculos disso, quatro mil daquilo, os artistas recebem um cachê bacana por cada apresentação, e todo mundo fica feliz.
E estagnado.
Em a parte de formação, a Sec possui o Centro Cultural Cláudio Santoro (CCCS), com diversos núcleos e cursos de teatro, dança, música e artes plásticas, mas a política é a mesma:
números. Não importa que um jovem que estude violino, por exemplo, só possa passar quinze minutos por semana com o instrumento na mão, devido à demanda.
O importante é anunciar que o CCCS possui não sei quantos milhares de alunos matriculados.
Quando o assunto é a Cultura do município, a situação é pior, porque quase não há números para anunciar.
Até o início deste milênio, não havia um órgão específico da prefeitura dedicado à Cultura:
ela ficava dividida entre a Secretaria de Educação e a de Turismo, que faziam projetos de arte-escola no ensino fundamental e eventos como o Boi Manaus, uma micareta ao som do bumbá que parece axé.
A FVL, que agora se transforma em Secretaria Municipal de Cultura, foi criada na transição dos anos 80 para os 90, mas só de 2000 pra cá foi responsável por ações culturais do município.
O carro-chefe foi o projeto Valores da Terra, que lançou disco de todo mundo (novamente os números) entre 2001 e 2003.
Mapeamento
O mapeamento mencionado no tópico anterior servirá de complemento a um outro projeto do Conselho, que está sendo realizado em parceria com o departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas.
O trabalho consiste em formar uma espécie de «censo» sócio-econômico cultural de Manaus com o objetivo de detectar nos bairros a incidência de artistas, espaços culturais, e possíveis vocações para determinados tipos de arte nessas localidades.
O estudo serviria de base para as futuras ações da Secretaria Municipal de Cultura.
Em o papel, uma nova maneira de se encarar a arte na região;
mas repetindo:
por enquanto ... é só papel.
Número de frases: 39
Ainda é preciso esperar por a vontade política da Secretaria, cuja primeira administração começa a trabalhar no próximo mês.
É possível paises que se localizam em continentes diferentes terem fronteiras em comum?
A resposta afirmativa pode ser dada na relação entre o Estado do Amapá e a Guiana Francesa, colônia francesa que fica fora do território da França Européia.
De o lado brasileiro contamos com uma cidade muito citada quando o assunto é o início do Brasil na expressão «do Oiapoque ao Chuí», mas quem sabe o que está acima do início do Brasil?
A região foi palco de diversas disputas por o lado brasileiro e francês a ponto de uma área que hoje é território brasileiro ter sido chamada de contestado franco-lusitano, o impasse histórico só foi definido em 1900, quando Barão do Rio Branco, ao apresentar provas e argumentações sobre a verdadeira localização do Rio Oiapoque, provou que o mesmo se localiza onde é hoje (mais ao norte) e não onde é o Rio Araguari, como diziam os franceses.
Algumas décadas depois o contato ocorre em inúmeros âmbitos dos dois lados do Rio Oiapoque, que é a próprio limite entre o Município de Oiapoque (antiga cidade de Martinique, onde se formou o primeiro destacamento militar para receber presos políticos, em sua maioria anarquistas e socialistas do sul e sudeste do país.
Estes logo passaram para a prisão de Santo Antônio, mais tarde chamada Clevelândia do Norte) e a Colônia Saint ´ George, porta de entrada para cidades mais importantes como Kourou e Caiena.
Em a atualidade esta interação se dá através da circulação de garimpeiros, mercadores e turistas.
Percebe-se um fluxo enorme de pessoas dentro de barcaças indo e vindo.
Este movimento aumentou bastante depois da adoção do Euro como moeda francesa e seu aumento na taxa de câmbio, além do acordo feito entre o governo brasileiro e o francês, que visa construir uma ponte entre as cidades do Oiapoque e Saint ´ George.
Tal medida fez com que iniciativas públicas e privadas passassem a voltar seus olhos para a localidade.
Em este sentido a Guiana segue normalmente o sistema de administração francesa, atuando com o mesmo peso de uma unidade Estatal da França Européia, uma das poucas diferenças está na cor da população, que é mais negra, e na linguagem onde se fala um tipo de francês crioulo, chamado de Patuá.
Esta influenciou bastante a aplicação da língua francesa na rede pública e privada de educação de todo o Estado amapaense, sendo mais valorizada até mesmo que o inglês.
Também é comum ver pessoas que moram na capital Macapá irem até Oiapoque na esperança de montar negócios, tendo em vista a precariedade da Cidade brasileira em contrapartida às potencialidades do local.
Por ser uma região de garimpos e de pessoas que vão a busca de ganhar dinheiro e retornar a seu local de origem é notória a presença de diversas casas de prostituição e bares, o que faz o movimento cultural transitar na fronteira em sintonia com os trâmites econômicos e movimentos migratórios.
Um ponto bastante desagradável é a constante presença de pessoas do lado indevido da fronteira sem a documentação necessária fazendo com que polícia francesa tenha muitos problemas, chegando a ponto de ter que mandar extraditar imigrantes ilegais, eles são mandados pra Belém do Pará.
A maioria começa a sua viagem de retorno para o lado francês assim que chega na cidade paraense, de tão acostumados que estão com tal procedimento.
Alguns reclamam da diferença de tratamento com brasileiros do lado francês para o agradável e receptivo tratamento dado aos franceses no lado brasileiro.
É dentro deste contexto muitos estão abrindo negócios nas mais diversas áreas e especialidades, assim como novos mecanismos de comunicação que tratem a relação internacional não mais separadamente e sim como relação entre um meio cultural comum.
Assim surge o Jornal O Elo.
É através de ele que iremos compreender melhor a referida realidade naquele local.
A idéia partiu de Geraldo Magela, que há quase 12 anos iniciou um serviço de representação comercial chamado «-- M -- idéias & Marketing», o qual prevalece até os dias de hoje, mas reformulada em conjunto com um plano de mídia, tal idéia se concretizou no Jornal A Fronteira, projeto este que foi abandonado e recriado numa proposta mais bem construída, o Jornal O Elo.
Magela diz que o Jornal " tem por intuito a prestação de serviços de propagandas em geral pra atender a exigente clientela dos dois lados da fronteira.
Em a versão anterior (A Fronteira) era elaborado para um retorno positivo às expectativas do cliente e do público e logo em seguida colocados à venda de porta em porta.
Mas poucos saíram das prateleiras por o fato do meio empresarial local ter os olhos baixos e não ousar levantar a vista ao horizonte», afirma Magela.
Recentemente Geraldo Magela decidiu tirar um projeto que há muito estava na gaveta, O Jornal o Elo, que irá às bancas nos primeiros dias de maio.
Tem como meta principal à informação bilíngüe (português / francês), ligando o Amapá com o Platô das Guianas, produzindo o intercâmbio nas áreas de entretenimento, saúde, educação e cultura buscando parcerias com as demais localidades.
O Jornal terá periodicidade quinzenal, sendo que nesta primeira edição 3 mil exemplares serão colocados à disposição nas cidades de Macapá, Santana e Oiapoque (AP), Kourou e Caiena (GF).
«A tendência é que o jornal ganhe cada vez mais visibilidade e amplie o número de edições, de cidades onde circulará e o número de interessados em anúncios, tendo em vista que ele é de fácil acesso em bancas de revistas, livrarias, salões de beleza, bares, restaurantes, secretarias, terminais rodoviários e ferroviários, portos e aeroportos», diz Magela, bastante satisfeito com os primeiros resultados.
O Jornal O Elo também acredita que viabilizando o anúncio nos dois países ficará mais fácil fazer uso das vantagens de se trabalhar com duas taxas de câmbio.
«Fica bem mais fácil um turista ver o preço numa loja em Real lá na Guiana e se interessar em comprar, pois ele vai pagar em Euro e não ficará tão caro pra ele.
Será uma vantagem para o vendedor daqui também, já que suas vendas também crescerão bastante com este tipo de clientela, tendo em vista a grande quantidade de pessoas que vão trabalhar do lado francês».
As vantagens das taxas de câmbio são usadas como marketing para patrocinadores do jornal, já que muitos franceses terão acesso ao mesmo, fazendo com que eles procurem justamente as lojas, clínicas especializadas, pontos turísticos e todas as referencias do Brasil presentes no Jornal e vice-versa.
O interessante é analisar como um povo que mistura influência européia tanto dos franceses como dos portugueses consegue hoje manter um sistema cada vez mais harmônico com a descendência crioula e indígena, tendo em vista a herança escravagista no lado Francês e a reserva indígena do Uaçá, no lado brasileiro, que abriga as etnias Galibi, Palikur Waiãpi e Karipuna.
Os índios também têm privilegio para escolherem morar do lado francês ou brasileiro, este continua sendo uma estratégia para a ocupação do território.
A influência não é pouca, exemplo disso é que um dos prefeitos do Oiapoque era um índio da tribo karipuna.
Sendo assim o Jornal O Elo já surge como uma poderosa ferramenta que promoverá uma relação mais estreita entre os dois países, não só no uso das suas linguagens e no tratamento deste universo multicultural, mas também na formatação de notícias e eventos de interesses comuns aos diversos grupos dois lados da fronteira e permitirá que o leitor se conecte de uma maneira mais satisfatória a respeito das diferentes formas de lidar com a informação.
E-mail:
Número de frases: 38
o-elo-redacao@hotmail.com Sempre gostei de cartões virtuais, especialmente por o fato de que posso enviá-los sem grandes justificativas.
No entanto, na mesma proporção, sempre me foi frustrante encontrar sites de cartões que não disponibilizavam nada relacionado à literatura e filosofia, por exemplo.
Foi por esse motivo que criei, em parceria com um colega, o meu próprio site, chamado Distincards (www.distincards.com).
Trata-se de um site com cartões «distintos», baseados em arte, fotografia, literatura e filosofia.
Em meio ao nosso acervo há cartões baseados nos trabalhos de Monet, Cervantes, Nietzsche, Oscar Wilde, entre outros nomes.
Entre as coleções que disponibilizamos, há, por exemplo, uma sobre Dom Quixote.
Além do conteúdo em si, temos uma política pró-cultural, isto é, temos como um de nossos objetivos servir à comunicação da arte e da cultura.
Procuramos parcerias com sites e instituições que tenham afinidade com nossa proposta cultural.
Também procuramos novos artistas para confeccionar nossos cartões (então se conhecer algum bom artista, por favor peça para que ele entre em contato com nós).
Número de frases: 9
Espero encontrar no Overmundo pessoas que estejam dispostas a colaborar com nosso projeto, seja com sugestões, seja com conteúdo.
A história começou com um papo informal -- quase todos os bons projetos começam assim.
Elton Medeiros falava dos ranchos de sua infância, da produção musical feita para aquele estilo de festa carnavalesca que deu origem a muitas das características que vemos hoje nas escolas de samba.
Tudo que ele contava soava como marcha-rancho de alta classe no ouvido dos músicos cariocas presentes:
enredo pensado para o desfile, fantasias temáticas, bailes preparatórios e um timaço de compositores que, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX, compuseram pepitas tão inesquecíveis que resultaram num gênero musical conhecido até hoje:
a marcha-rancho.
Como seria um rancho nos dias de hoje?
A pergunta logo virou ação, motivando reuniões no Bip-Bip -- tradicional pé-sujo e reduto de samba em Copacabana -- para pensar a criação de um novo rancho, cerca de 60 anos depois do declínio do movimento original graças à ascensão das escolas de samba.
Participei daquelas primeiras conversas, no ano 2000, na carona da empolgação do meu irmão Pedro, que é um dos idealizadores da brincadeira e o regente da orquestra que se criou a partir de ali.
Foi lindo:
a votação que elegeu o nome Flor do Sereno, a decisão das cores -- verde, azul e prata, o planejamento e a produção para desfilar na Avenida Atlântica em 2001.
Sugestivo: a virada do século viu emergir a volta de uma bela festa, em moldes adaptados aos novos tempos.
Agora, sete anos depois, o Rancho Flor do Sereno, quem diria, já tem uma história.
E ela acaba de ser resumida num belo disco (do qual vou falar no fim deste texto).
Mais uma vez, a data é sugestiva:
em 2007 o Ameno Resedá, um dos mais emblemáticos ranchos cariocas, faria 100 anos.
A trajetória do Flor do Sereno é feita de muita paixão e pouco dinheiro, como tantas celebrações carnavalescas da cidade.
Mas tem particularidades e desenho próprio por se tratar de um movimento que se espelha numa manifestação que morreu há mais de meio século.
Logo se notou que era importante ver o que os tais novos tempos pediam.
Por exemplo:
ranchos antigos tinham cavalos, clarins (!!),
coreografia, desfile.
Os cavalos e clarins de cara foram descartados, mas por que não tentar o desfile no formato ida (marcha-rancho), parada (samba-amaxixado) e volta (marcha-regresso)?
Assim foi tentado em 2001.
Rapidamente grandes figuras se engajaram no processo:
Elton escavou a memória e a gaveta de fitas para encontrar a marcha-regresso que compôs no início dos anos 80 com Maurício Tapajós e Cacaso.
O etnomusicólogo Samuel Araújo criou a marcha-rancho «Flor do Sereno e Aldir Blanc» fez letra para o samba-amaxixado de «Jayme Vignoli, Regresso da Flor».
Quer lembrar quem eram os 171 em evidência nos anos 00?
«Já a prata se nos falta é barata e não amola.
Ninguém no Rancho é Nicolau ou é Cacciola ( ...)
Feito arroz de butiquim,
Unidos venceremos:
Com nós ninguém phodemos!"
O desfile saiu, graças aos esforços de Alfredinho.
Caminhãozinho de som modesto com a orquestra, alas fantasiadas, cantores animados.
Foi bonito e um tanto improvisado, como toda primeira vez.
Para o segundo ano, já se percebiam mudanças:
caminhãozão de som, vários cantores, mais estrutura e, conseqüentemente, mais gente.
Cresceu demais e assustou um pouquinho.
Percebeu-se que não fazia sentido ir e voltar como os ranchos de antigamente (eles voltavam para suas sedes).
Então, para o terceiro ano, também por causa da grana escassa, ficou resolvido que o rancho ficaria parado, em frente ao Bip-Bip, promovendo um grande baile.
É o modelo que vale até hoje.
Dá tão certo que todos os personagens típicos de Copacabana se espremem na mínima rua Almirante Gonçalves para dançar aquelas músicas cadenciadas, em ritmo inversamente proporcional ao cada vez mais acelerado andamento dos sambas-enredo que estão sendo executados a alguns quilômetros de ali, no Sambódromo.
Em 2003, 2004, dava para ver velhinhos levando cadeira de praia para assistir ao show sossegados, e levantar apenas para aquelas canções que mereciam um miudinho.
De uns anos para cá, como tudo no carnaval carioca, a coisa bombou.
Até demais.
Então, o pessoal do rancho está convivendo com as dúvidas de boa parte dos blocos:
como fazer para não crescer mais do que é razoável?
Como meus dois irmãos fazem parte da parada, observo tudo de perto e posso dizer:
dá muito trabalho e gera muitos dilemas, que envolvem as responsabilidades de atrair uma multidão sem ter garantias de segurança por o poder público.
Veremos cenas do próximo capítulo no carnaval de 2008.
Seja como for, os bailes continuam inesquecíveis.
Para mim e para a senhorinha muito, mas muito velhinha que «é descida» em sua cadeira de rodas para a portaria do prédio vizinho ao palco.
Ela fica ali, quietinha, do lado de dentro da grade, com a acompanhante, que sorri quando alguém as nota e manda beijos.
Todo ano olho para o prédio e, enquanto a vejo lá, sinto que o Rancho continua indo muito bem, obrigado!
Disco verdee-azul-prata
O disco do Flor do Sereno tem projeto gráfico com desenhos de Paulo Villela, pai do cavaquinista / compositor Jayme Vignoli.
Tem uma flautista japonesa, a Naomi, um clarinetista português, o Rui (que divide a direção musical do disco com meu irmão Pedro) e um percussionista, o Bolão, que tem pinta do Leôncio do Pica-Pau (que já seria suficientemente figura parado, mas ainda assim dança e sorri o tempo todo no palco).
Não dá para citar todos, mas tem também músicos de bandas de sopro do interior, figurinhas fáceis de outros blocos, cantores de samba com perucas chamativas, chorões de estirpe.
Tem pais e filhos, irmãos e irmãs, bem-te-vis e rouxinóis.
Essa família se reuniu no disco para apresentar a marcha-regresso do trio Elton-Mauricio Cacaso (que estava inédita até então);
a polca Ameno Resedá, de Ernesto Nazareth (um clássico do gênero, em arranjo-gafieira do meu irmão Paulo *) e o choro Flor do Abacate, do rancho de mesmo nome que, em outras épocas, rivalizava com o Ameno Resedá.
De resto, são onze músicas feitas especialmente para os desfiles, de gente como Cristóvão Bastos, Paulo César Pinheiro, Maurício Carrilho, Luiz Cláudio Ramos, Luciana Rabello e o já citado Aldir Blanc, entre outros.
Tem letras arrojadas, melodias de tirar o fôlego (no bom sentido) e arranjos modernos.
Deixando claro que modernidade aqui não tem nenhuma relação com scratches de DJs e sons eletrônicos (nada contra eles!),
mas sim com ousadia harmônica aliada à busca incessante do que pode funcionar bem nos bailes do século 21.
Dá gosto de ver que o surgimento do rancho estimulou gente nova a começar (e gente veterana a voltar) a compor em estilos variados para o carnaval.
Nostalgia? Só se for a do futuro, desejo de todo e qualquer carnaval de qualquer tempo, vontade de botar o povo para «cantar em paz», como diz uma das faixas.
E, claro, de fazer a velhinha da cadeira de rodas ter uma nova serenata todo ano à sua porta.
* * * Infelizmente, não vai dar tempo do texto ter votação antes do show de lançamento, dia 7 à noite, na bat-rua de sempre, em Copacabana.
O Egeu foi mais rápido no gatilho!
:) * * * * Adoraria colocar todas as músicas do disco por aqui, mas ainda não é possível.
Fico contente de poder mostrar esta Ameno Resedá, a única em domínio público, que afinal é um ótimo link passado / presente.
Dá para ouvir mais uma aqui.
* * * * * Uma última história, que só ouvi ontem.
A música Santo Amaro (Franklin da Flauta, Luiz Claudio Ramos e Aldir) levou um tempão para ser completada.
Era um choro, mas neste disco entrou com arranjo de marcha-rancho.
Franklin ficou surpreso e foi conferir a gravação.
Caiu em prantos no estúdio, como se reencontrasse um filho que não via há tempos.
como se não fosse suficiente a emoção, alguém levou uma gravação -- a única de que se tem notícia, segundo o pessoal -- do Rancho Ameno Resedá, justamente de 1907.
Assim que acabou a execução de Santo Amaro, perceberam que a faixa do rancho antigo estava exatamente no mesmo tom (Dó Menor) e no mesmo andamento da gravação que acabava de ser feita.
Santo Amaro emendou no trechinho de 100 anos atrás do jeito mais natural do mundo.
Número de frases: 82
Mais uma coincidência?
De as 10:58 até às 11:42. Esse foi o tempo que eu demorei para tirar um pedaço de fio dental preso entre 2 de meus dentes.
Maldito Carrefour. Podem cobrir os preços de qualquer supermercado, podem servir de estacionamento para as pizzarias vizinhas, podem ter o melhor logo (aquilo é um ' C ').
Mas fazem um fio dental que é uma Bosta.
Fizeram eu enfiar uma Agulha (com um fio amarrado em seu buraco) entre meus dentes, até esta sair por o outro lado.
Fiquei tanto tempo com a boca aberta que minha mandíbula tá doendo até agora, 3 dias depois.
E desculpem-me, estagiários da fábrica de fio dental -- eu sei que a culpa não é de vocês.
Sei Que Não.
Depois de comprar o fio-dental da Oral B, limpar os dentes se tornou muito mais divertido!
Ele já vem com um sabor de menta Embutido.
Inclusive, isso é uma vantagem pra quem não gosta muito de escovar os dentes, como o meu irmão.
É passar o fio-dental e pronto:
a boca está cheirosa, e o hálito Bom.
Ótimo para Viagens.
Aliado a isto, troquei de escova de dentes (R$ 7,90 num Palito de plástico com cerdas o.
O). É só quando se usa uma escova nova que se percebe o quão horrível era a anterior.
Por fim, comprei um tubo novo de pasta de dente.
Assim, não preciso mais gastar minhas forças apertando o tubo até o final para conseguir um milímetro cúbico de pasta.
Mas uma coisa é fato:
com disposição, pode-se apertar o tubo Eternamente, pois a pasta não acaba Nunca.
Número de frases: 20
Era a entrega de um prêmio por o Ministério da Cultura.
E, enquanto esperava o que viria, dormi.
Desculpem-mos premiados.
Mas fui à Sala Villa-Lobos ver Quinteto Violado e Elba Ramalho.
Tão logo o início do show foi anunciado dei, como diria na minha terra, um pinote na cadeira e acordei prontamente.
Acordei para ver um momento belo, que me encheu de alegria e inspiração.
Quuinteto Violado -- perfeito.
Tocando frevos com a roupagem de eles.
Eu fui viajando nos instrumentos.
Prestei muita atenção na bateria.
Baseada em Mauro que toca este instrumento, tem uma batera em casa e ensaia numa banda e depois me faz ouvir a gravação dos ensaios.
Fiquei pensando que seria bom que ele acompanhasse um disco do Quinteto.
Aí, entra Elba Ramalho.
Deixei tudo o mais de lado.
Não conseguia tirar os olhos de ela.
Admirá-la.
Amá-la.
Tietá-la.
Ela errou a letra da primeira música.
Esqueceu outras partes.
Mas que nada.
A mulher é, para mim, o maior talento da música brasileira.
Por a beleza que conseguiu construir em si, por a voz, por a potência da voz e a capacidade, que parece tão fácil, de fazer graves e agudos, gritos e calmaria ...
Tem uma energia, um jeito de menina pulando de lá pra cá.
Nossa ... E eu só arrepios ...
Ela gravou a música que começou a fazer sucesso com Santana -- o cantador.
É daquelas que a gente nunca sabe o nome ...
«Se avexe não ...
que amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada ..."
Aí, sobe ao palco Gilberto Gil.
Cantando Esperando na janela e Procissão.
Outra figura cativante.
Com sua dança bonita, seu corpo fininho, esbelto ...
Voltam Elba e Quinteto.
A essas alturas as pessoas já invadiam o palco, fazendo uma fila dançante puxada por quem?
Gil. Gil e Elba.
Os fotógrafos devem ter captado uma bela imagem.
Única. Ímpar.
Os flashes outrora proibidos espocaram afoitos.
O momento.
Não se pode deixar escapar o momento.
Elba falou em Campina Grande, na Paraíba.
E me deu imenso prazer ouvir os nomes das minhas terras.
Falou do seu início no Rio de Janeiro para onde foi acompanhando o quinteto, que a descobrira em 1974.
«Eu era apenas uma atriz bem simples», disse.
Eles partiam para o Nordeste, de volta.
Ela e sua mala resolveram ficar.
«Mas você conhece alguém aqui?"
«Não. Mas vou ficar».
Era sua predestinação, sua convicção, sua disposição de encarar sofrimentos e as glórias que viriam e vieram.
Uma noite mágica.
Banhada por chuva.
Encontrada por amigos.
Fez-me muito bem.
E o fim desta história não podia ser outro.
Está virando meu bordão.
A arte como redenção.
A arte.
A minha redenção.
Número de frases: 59
A rotineira queixa de produtores sobre a dificuldade em se fazer filmes no Brasil acaba por ofuscar outra faceta cruel -- e tão determinante quanto:
de quê adianta ter o filme pronto se não há salas para exibi-lo?
Em uma realidade de duas mil salas de exibição comerciais para atender a uma população de 190 milhões de pessoas, a ambição da Programadora Brasil chama atenção.
O projeto pretende trazer de volta ao circuito cerca de 250 filmes nacionais fora de catálogo, em exibição sempre em locais sem fins comerciais -- como cineclubes e pontos de cultura, com a meta de se criar um circuito alternativo de cinema equiparável à quantidade de salas comerciais que temos por aqui.
Iniciativa da Secretaria de Áudiovisual do Minc, da Cinemateca Brasileira e do Centro Técnico Áudiovisual, a Programadora Brasil consumiu R$ 1,2 milhão para implementação e tem um orçamento para 2007 de R$ 1,5 milhão.
De forma resumida, o funcionamento é o seguinte:
o projeto, por meio de uma curadoria, faz uma seleção de filmes nacionais fora de circuito e os compila em sessões / programas em DVD.
Cineclubes e demais pontos de exibição sem fins lucrativos (como escolas) se inscrevem no projeto e compram os DVDs -- quanto maior o pacote de filmes, maior o desconto na aquisição.
Para Frederico Cardoso, que coordena o projeto e também faz a gestão executiva, a escolha por os discos atende a uma popularização necessária.
-- Se você levar em consideração que maioria dos municípios não tem sala de cinema, o DVD funciona como ferramenta democrática pra difundir -- conta ele, que espera fechar o ano com 600 pontos de exibição e que em 2009 a meta de duas mil salas seja atingida.
O retorno de Jedi ...
ops, dos cineclubes
Um projeto, em andamento, de regulamentação da atividade dos cineclubes é uma bandeira que interessa à Programadora -- com a extinção do Concine em 1990, no Governo Collor, caíram todas as resoluções do órgão, entre as quais a que regulamentava a atividade dos cineclubes.
Leopoldo Nunes, diretor da Ancine e um dos responsáveis por a Programadora, defende a regularização para acabar com distorções.
-- A importância da atividade ser regulamentada é distinguir o que é comercial e o que não é.
Não há o foco de cobrar ingresso para viver que nem indústria.
O não-comercial tem outro tipo de registro e estatuto;
tem o objetivo de discutir o filme.
O não-comercial não pode ser fiscalizado como se fosse comercial.
Um filme cumpre curto período de vida comercial e depois vira estoque, vira capital simbólico, de responsabilidade dos órgãos de cultura de um país.
Temos que disponibilizar esse conteúdo para a sociedade e os cineclubes são uma forma de fazermos isso.
Em o momento estão disponíveis em DV D38 programas, que podem ser solicitados por telefone ou por o site da Programadora.
Novos lançamentos serão feitos em outubro (20 programas), dezembro (mais 20) e março de 2008 (40), chegando a um total de 250 filmes fora de catálogo disponíveis ao público.
-- É muito simples se registrar na Programadora.
Você só precisa de um CNPJ comum.
Após regulamentação isso vai ter que ser caracterizado como cineclube.
Ou você pode se servir de uma escola, por exemplo, pegando uma carta de um responsável e inscrevendo ela na Programadora -- estimula Leopoldo.
Um programa pode ser encomendado por R$ 25.
Comprar o pacote com os 38 DVDs ganha desconto e sai por R$ 600.
Caio Cesaro, coordenador de comunicação e circuitos da Programadora Brasil, explica que o objetivo é democratizar o acesso.
-- O custo leva em conta gastos com direito autoral, Correios e alguns custos de material de consumo.
O envio por os Correios é o maior percentual, a variável que mais interfere.
Todos os envios são feitos por sedex, se deixarmos esse custo por conta do ponto de exibição não seria democrático pois alguém do Amazonas pagaria muito mais que gente do Rio e São Paulo.
Por isso foi criado um valor médio (R$ 25).
Custos de envio acima disso, para locais distantes, são subsidiados por o projeto -- explica Cesaro.
Para consolidar o circuito de cineclubes, foi fechada uma parceria com o Sesc e outra com o Mec está em curso, o que, de cara, apresenta um universo de 14 mil escolas que poderiam ser pontos de exibição.
-- A gente sempre quis uma parceria com a educação.
É um projeto de fácil replicabilidade e alto valor agregado, sem contar que estimula a organização de alunos de ensino médio.
Uma das maiores razões da evasão é o desinteresse na escola, e os cineclubes podem ajudar a mudar isso -- conta Nunes.
Vantagens para quem faz filmes
Se há o estímulo em se formar um público habituado a consumir filmes feitos por aqui, uma das conseqüências do trabalho da Programadora Brasil é também atingir o produtor.
-- O foco principal é o publico.
Mas, abrindo um leque maior de possibilidades de exibição, o produtor, sabendo que terá janela de exibição para o filme de ele, terá maior chance de financiamento -- explica Cardoso.
Elaborar uma rede parruda de pontos de exibição levanta uma dúvida:
não seria interessante aproveitar o público criado para, além dos filmes em catálogo, apresentar produções independentes inéditas?
Afinal, as condições para se formar uma rede independente e acessível aos produtores nacionais está sendo criada.
-- O cineclube é a última etapa da cadeia econômica, o lance do cineclube é digitalizar catálogo.
Mas nada impediria que um produtor de filmes local usasse o espaço para passar a obra de ele também -- fala Nunes.
A cereja do bolo que pretende celebrar a integração nacional promovida por a Programadora Brasil será o site reformulado do projeto, com previsão para novembro.
O site, hoje estático, se tornará um ponto de encontro de redes cineclubistas espalhadas por o país.
-- Vai abrigar as agendas destes pontos de exibição.
E o cineasta passa a ter acesso a informações como onde o filme de ele é exibido no momento -- destaca Cesaro.
Custos de um cineclube
De modo geral, é uma prática comum cineclubes montarem suas programações alugando filmes em locadoras ou conseguindo cópias cedidas de coleções particulares, mas Caio Cesaro esclarece que alugar um DVD de locadora viola regras de exibição.
-- O filme que você aluga na locadora não tem licença para fazer uma exibição pública.
É uma permissão apenas pra uso doméstico -- explica, para emendar outro argumento em defesa da Programadora -- Sem contar que na locação você paga por dia, enquanto na Programadora o valor pago permite ao cineclube exibir os filmes durante dois anos quantas vezes quiser.
Além da questão da legalidade, outro argumento é o reconhecimento do produtor.
-- Existe um recurso que vai para o realizador, paga-se direito autoral.
E o realizador sabe que essas cópias distribuídas por a Programadora são licenciadas para exibição pública.
De contrapartida, exigimos de um associado (cineclube) o envio das exibições agendadas e relatórios das sessões.
A gente usa isso pra informar ao realizador onde o filme de ele está circulando e qual perfil de publico que o assiste.
E se a idéia é usar os filmes para estimular o debate, uma estratégia adotada por o projeto é colocar nos extras de cada DVD uma ficha técnica completa das obras e um texto, escrito por algum crítico de cinema, sobre os filmes da vez.
O pontapé está dado e a meta de atingir dois mil pontos de exibição sem fins comerciais segue em curso.
Algumas questões em aberto -- como se os pontos de exibição terão condições de pagar regularmente por a licença das obras e sair da ilegalidade -- devem ser respondidas não por a Programadora, mas por a própria massa de cineclubes espalhada por o Brasil.
Número de frases: 64
Para o final feliz dessa história acontecer em breve, a gente precisa assistir a mais alguns takes.
O Brasil é um país de dimensões continentais que tem variações magníficas da Língua Portuguesa.
A diversidade de sotaques e de vezos dialetais existentes em nosso território é um desafio não apenas para os estrangeiros procurando aprender a língua, como também aos seus próprios falantes nativos.
As mudanças ortográficas previstas para vigorar em 2008 em todos os países lusófonos, podem se circunscrever apenas ao terreno da teoria, porque na prática diária do idioma tudo ficará na mesma.
As mudanças normativas no vernáculo de Camões em nada alterarão as várias nuances do português mestiço do Brasil em toda a sua gama fantástica de variantes e significações castiças de lugar para lugar.
Continuaremos ouvindo os «uais» dos mineiros com os seus sonidos característicos, os gingados vocabulares dos cariocas com toda a sua manha e malandragem típicas, os «ô chente» dos nosdestinos e os «tches» e «tri-legais» pitorescos dos gaúchos em toda a sua originalidade.
Estas mudanças propostas por os linguistas em nada alteram a realidade vivencial regionalizada de uma língua em seu cotidiano.
Sendo a língua viva, ela ao longo do tempo vai sofrendo as metamorses próprias do idioma que se dá a partir do dinamismo cultural em que ela está inserida e por a influência de outras culturas que vão se misturando a nossa.
Em o mundo globalizado onde constantes mudanças estão se dando em ritmo acelerado, e os vínculos de comunidade se tornam mais intesificados e abragentes devido a derrubada de barreiras sociais, políticas, econômicas e ideológicas;
se torna cada vez mais difícil que o nosso Português não sofra as conseqüências desta transformação sócio-histórica de nosso tempo.
Os gramáticos normativos de nossa língua e os filólogos de plantão esquecem-se da mobilidade linguistica e da diferença vocabular existente entre os vários países de fala lusitana.
Assim como o Inglês falado nos Estados Unidos difere em muito do falado no Reino Unido e na Austrália, não podemos nos esquecer que o português falado em Portugal está à leguas de distância do português falado no Brasil.
Enquanto nós brasileiros pendemos para o vocalismo os nossos antigos colonizadores se inclinam para o consonatismo.
Por exemplo:
Os portugueses dizem c ' roa;
nós coroa.
Eles dizem esp ' rança;
nos esperança.
Em alguns aspectos da fala lusitana ficariamos perdidos para compreender o significado de seus vocábulos e a estranheza de suas expresões comparadas as nossas.
Por esta razão eu considero um imbecialidade a tentativa de uniformização de um idioma tão vasto de ramificações e recursos fonéticos como é o nosso.
Número de frases: 20
Em suma, deveríamos ao invés de tentar torná-lo uniforme, aprender a conviver com o mesmo em sua multiformidade e diversidade ímpar, o que seria mais coerente e culturalmente correto, salvaguardando-se e respeitando-se as diferenças que fazem da Língua Portuguesa singular em seu multifacetado universo de possibilidades infinitas de uso vocabular
Há dezoito anos, Fátima Manzi iniciava um trabalho utilizando-se da arte para suprir as necessidades da criança com dificuldades de aprendizado, crianças que simplesmente não tinham prazer no estudo, dispersas ou alheias ao conteúdo ensinado na sala de aula.
Fez diversos cursos e pesquisas no intuito de melhor ajudar crianças com défict de aproveitamento escolar.
Observou que a arte é um canal importante no melhor aproveitamento do potencial infantil em todos o campos de desenvolvimento, trazendo mais tarde benefícios também para aquele ser enquanto adulto.
Ela narra um acontecimento interessante:
quando sua mãe teve a amputação de uma das pernas diagnosticada como necessária, ela escutou apenas uma voz entre os médicos destoar da maioria, essa pessoa acabou por minimizar a intervenção e através de uma micro-cirurgia tornou a amputação desnecessária.
Buscando respostas para aquele fenômeno, ela descobriu que aquele médico também era artista plástico.
A o seu ver, a experiência artística permitiu uma melhor avaliação do quadro de debilidade da sua mãe, pois o artista, para ela, desenvolve uma plasticidade cerebral que lhe permite um melhor exercício de suas funções não artísticas.
Há três anos atuando no Paço Alfândega, Fátima exerce num espaço cedido por o shopping gratuitamente, um trabalho com crianças de todas as faixas etárias e também com aquelas denominadas especiais.
O trabalho se desenvolve em forma de cursos, sempre aos sábados, de uma às sete da noite, ou aleatoriamente, por meio do que ela chama de vivências (às sextas, sábados, domingos e feriados).
Cada curso tem a duração de seis horas e ocorre durante um mês de acordo com disponibilidade dos pais das crianças, que podem optar por fragmentar a carga horária em dois, três ou quatro sábados.
As vivências, por sua vez, têm a duração de uma hora e custam dezoito reais.
Em esse projeto Criança no Paço, Fátima Manzi procura despertar na criança o engajamento nas mais diversas formas de arte, utilizando de materiais por vezes requintados, tais como argila, mosaicos, telas, espátulas, etc..
O objetivo, segundo ela, é fazer a criança se sentir um artista de verdade, com todo um arsenal a mão, para que ela mesma defina, de que maneira, e qual o material mais lhe apetece.
A criança se sente estimulada e desafiada em contato com uma gama tão variada de objetos, texturas e cores.
Os ganhos, num trabalho como esse, e quando há um mínimo de continuidade, são imediatos e são logo percebidos por os próprios pais, em termos de aprendizagem, estudos, concentração, redação, etc..
A criança especial, por seu turno, é, principalmente, estimulada, segundo Fátima, contando com, além de todo um aparato artístico, uma orientação pedagógica da própria Fátima de modo a conhecer ambientes e materiais aos quais ela não tem acesso no seu cotidiano.
«Ninguém entrega um pedaço de pedra sabão para uma criança especial esculpir, por exemplo, aqui nós fazemos isso."
diz Fátima Manzi.
O sonho de Fátima Manzi é levar a arte para todos e desmistificar o seu aspecto elitista.
Hoje os adultos são atendidos apenas em cursos específicos, com hora marcada.
Há oito anos ela experimentou o fascínio e a surpresa de crianças de rua por o seu trabalho artístico durante um curso numa grande livraria.
Desde então, a sua busca incessante é de transmitir sua arte nos recantos menos favorecidos e trabalhar a criatividade também das crianças mais carentes.
O grande problema é o custo operacional do empreendimento:
«você levar um papel para uma criança, não vale a pena, de papel a criança está cheia.
Mas leve para a ela uma tela, a reação será outra!
conclui Fátima, reafirmando sua vontade de tornar o mundo de crianças de todas as classes sociais mais cheio de vida, pleno em oportunidades, em arte e artistas para todos os gostos.
Fátima Manzi é artista plástica e pedagoga
Criança no Paço
por Fátima Manzi
De sexta a domingo, das 13h às 19h
Cursos especiais para adultos
Festas de aniversário
Curso de férias, em janeiro, de quinta a domingo.
Rua Alfândega, 35 -- Bairro do Recife.
Recife -- PE
Telefone: 81-3419-7500
Número de frases: 37
www.pacoalfandega.com.br por Ronald Augusto
O Plano-piloto para poesia concreta, a Tropicália, o teatro de José Celso Martinez, o Antunes Filho da consagrada e transgressiva montagem teatral do Macunaíma (derivação canibal da linguagem do outro Andrade) da década de 1980, a XXIV Bienal de 1998, cujo tema oficial foi a «Antropofagia», são exemplos consumados e objetivos que por si mesmos já se revelariam suficientes para comprovar, para o bem e para o mal, a efetiva permanência do pensamento-arte do poeta Oswald de Andrade no panorama das reflexões e fatos culturais brasileiros que atravessam o anterior e alcançam, inclusive, o presente século.
Com efeito, a álacre vivacidade sintético-crítica da ensaística do movimento concreto da primeira hora, é haurida na doutrinação cubo-futurista da prosa por justaposição dos Manifestos de Oswald.
De outra parte, a canção popular a partir das décadas de 1950/60 ganha outras dimensões com as radicalizações da Bossa nova e da Tropicália.
Evoco aqui o trocadilho intertextual de «Jardes Macalé,» a bossa nova é o luxo da tropicália», que, por seu turno, parece reverenciar, com essa equação verbal, o vietcong concreto Augusto de Campos.
O virtual xadrez oximoresco luxo-lixo vislumbrado na tirada do compositor, representa para todos os efeitos um pouco do que seria o diálogo mixado entre alto e baixo repertórios no embate potencialmente antropofágico da música popular.
A «geração mimeógrafo» dos anos 70, objeto de estudo e de culto de Heloísa Buarque de Hollanda, vive seu desbunde poético-existencial sob a égide do autor de Serafim Ponte Grande que em algum lugar refere o gênio como «uma grande besteira».
O campo estético das artes contemporâneas, que dissipa fronteiras sígnicas e identitárias, expandindo, quer por a apropriação, quer por a expropriação críticas, a imagem do legado cultural universal, aponta para a questão de fundo da «Antropofagia» oswaldiana:
o instinto, ou melhor, a «razão» antropofágica, como prefere referir Haroldo de Campos, pensa a identidade e o verismo nacionais em diálogo com os insumos «inimigos», mas na perspectiva da invenção.
Isto é, o que importa é a margem de liberdade e de apetite com que trabalha a persona do canibal cultural na re-acomoda ção dos dados do outro ou da herança universal visando à criação original.
Para Oswald de Andrade é graças a isso que «o instinto antropofágico» de carnal se torna eletivo e cria a amizade:
«Afetivo, o amor».
Este «mau selvagem», macunaímico até o tutano, paradoxalmente, observa a sua comida que se aproxima pulando, mas a contrapelo da» baixa antropofagia " submetida por sua vez à moralidade simplista do catecismo.
Ele não simpatiza com " a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato ";
o antropófago oswaldiano se aplica na absorção amorosa do inimigo sacro.
Segundo consta no Manifesto Antropófago foi o barroco Antonio Vieira, o padre do sermão das «madrugadas de amor», quem» nos trouxe a lábia».
A cabeça do antropófago deglutidor de signos, metaforizada por Machado de Assis como um «bucho ruminante» (apud Haroldo de Campos), não pára de funcionar porquanto visa a sintetizar sempre uma renovada resposta dialógica como «reação a todas as indigestões da sabedoria» (Manifesto da Poesia Pau-Brasil).
Em o poema «Câmara de ecos de Waly Salomão (Algaravias, 1996)» vislumbro essa mitológica «cabeça de bucho» em que se transforma o aparelho de assimilação do antropófago-tipo.
E ele bem poderia dizer, dublando e expropriando o poeta baiano:
«Agora, entre o meu ser e o ser alheio / a linha de fronteira se rompeu».
A lembrança, ainda que de passagem, desses eventos -- e de outros aqui omitidos apenas em respeito à paciência do leitor, e de sua importância na formação da nossa mitopoética, afirma por um lado, que as representações do alto modernismo experimentam um processo muito amplo e profundo de canonização.
Em outras palavras, a visão de mundo do modernismo se historiciza -- se a afirmação no fosse um pouco absurda -- de uma maneira bastante ágil e surpreendente, inclusive porque, não podemos nos esquecer, os registros ou o fabulário da resistência, seja ao modernismo, seja aos seus estilemas que vão moldar os movimentos subseqüentes, formam uma pequena história à parte.
E tal resistência, devido ao forte teor arrivista assumido por suas posições e contraposições, não dava sinais de pacífica assimilação ou trégua.
Toda a controvérsia em torno dos dilemas em causa contribuiu, ao fim e ao cabo, para fazer da recusa conservadora e alarmista, aceitação incondicional.
Cedendo, o senso comum ofereceu as condições necessárias para que o alto modernismo viesse a se tornar «uma das manifestações mais oficiais da cultura ocidental».
Oswald de Andrade, tal como uma série de poetas modernos, se volta para o futuro numa simulação, pois na verdade, seu escrutínio de caráter enviesado, irônico e burlesco se projeta -- a contragosto e em fim de contas -- para o presente, mesmo.
A bem da verdade, os iguais modernistas do autor de Os condenados mergulham por meio de suas obras nos sambaquis, nas tumbas e nos despojos do passado em busca da valência original ou primitiva.
Abro aqui um parêntese.
Com efeito, mesmo nos discursos da história, da antropologia e da sociologia adjacentes ao período, encontramos também esses traços, por assim dizer, problematizadores ou pessimistas, não obstante utópicos, com que os «modernistas» extra-literários acabam configurando suas linhas de investigação apontadas para a formação da paidéia brasileira.
Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Paulo Prado, entre outros, estruturam seu pensamento a partir de tal enfoque.
Fecho parêntese.
O presente dos autores do alto modernismo, assentado sobre os destroços de duas guerras, se resolve parcialmente na pureza férrea de um futuro opaco.
A mitopoética moderna conhece os exílios de tempo e lugar.
Também como outros nomes do alto modernismo, cujas análises e realizações artísticas denunciam uma pulsão contraditória na afirmação de suas narrativas e de seus discursos fundadores, Oswald de Andrade tenta o seu «lance de dados» utópico.
Em os anos 50, com a tese A Crise da Filosofia Messiânica, procura recuperar em tom mais filosófico os temas que no Manifesto Antropófago estão como que em estado bruto ou de esboço, e participando mais da provocação e da polêmica reativa do que da elaboração de um corpus conceitual capaz de oferecer uma leitura consistente a propósito das condições ideológicas de seu tempo.
O Manifesto Antropófago (1928), tanto no que diz respeito aos aspectos de linguagem (o telegráfico de sua prosa cubo-sintagmática, por exemplo) quanto às questões de fundo do plano filosofal que informam o «conteúdo duro» da sua falação, representa a tradução ou a transculturação do Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924).
Um está enovelado no outro.
A face estética da poética pau-brasil e o avesso ético da pilhagem intelectual antropofágica compõem os dois lados da moeda.
Assim como o sentido de um poema está no anterior, no posterior ou mesmo no poema lateral a ele, o sentido de um Manifesto está imbricado no outro.
A relação entre eles é menos diacrônica que sincrônica.
O mais remoto não se trata apenas de um ensaio prospectivo ao lance mais arrojado do segundo, levado a efeito quatro anos depois.
O que resulta do atrito dialético entre os Manifestos Antropófago e da Poesia Pau-Brasil é uma di-versão, isto é, algo que envolve duas mensagens equivalentes em dois códigos que se encontram no plano de fuga das suas diferenças.
Em o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, o que está em causa não é nem tanto a afirmação pura e simples do primitivismo, mas sim a instauração de uma oposição ao pensamento cultivado e domesticado da Europa colonizadora, e de modo a tencionar a sensibilidade moderna do período que, por sua vez, se apresentava em conflito com a hibridez das identidades culturais brasileiras.
Algo da «razão antropofágica» já está, portanto, anunciada na poética pau-brasil.
A razão e o instinto antropofágicos rasuram a idéia de pureza sem mestiçagem;
a presunção da tela em branco.
O continuum dos gestos culturais se estabelece a partir do dilema permutacional entre a cópia e o original, o próprio e o alheio, o eu e o outro, o individual e o dúplice do antagonista canônico.
A cópia (ou a versão paródica), como topos, representa o nutrimento necessário para a figuração do original, e a recíproca pode ser reclamada aqui sem receio.
Inventores e diluidores mantêm, assim, uma relação inextrincável de mútua devoração.
Estranha cadeia alimentar cuja metáfora apropriada seria a da serpente que morde a própria cauda.
No entanto, o que garante ao Manifesto Antropófago essa situação curiosa de ser um jovem clássico de 80 anos é a sua condição de objeto verbal produtor de lugares " arte-feitos.
Não obstante esse panfleto tenha servido de plataforma de lançamento para uma série de investigações relativas, por exemplo, à diferença, às identidades nacionais, à intertextualidade, ao sincretismo estético-religioso, à filosofia dos trópicos, etc., ele não é senão uma obra de invenção.
E, portanto, se o Manifesto for submetido eventualmente a algum juízo de valor, antes de tudo, ele deve ser considerado a partir da sua realidade de objeto estético construído seja lá sob que motivação social, individual ou metafísica, mas, enfim, desde os contornos de uma objetividade definida ou, ainda, desde uma subjetividade tornada precisa ou encarnada numa orgânica estrutura de signos:
sua irredutível materialidade literária, verdadeira assemblage de fundo-forma.
A alegria construtiva é a sua prova dos nove.
Em o Manifesto Antropófago o poeta-pensador dispõe dos efeitos de linguagem de maneira a que eles sugiram certas idéias ou assuntos mais por as relações paratáticas e imprevistas que os ligam do que por a argumentação derivada de eles, que desdobra uma rosácea de significações (às vezes anuladas por a rapidez equívoca com que vão acabar à superfície do discurso) ou por os sentidos dicionários apreendidos de modo mais fácil por o afeto do senso comum.
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista, editor e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e Em o Assoalho Duro (2007).
Dá expediente no blog:
Número de frases: 60
www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com Feira KRAHÔ De Sementes Tradicionais
A Feira Krahô de Sementes Tradicionais acontece dentro da terra indígena Krahô, próxima à Itacajá, cidade localizada a 295 quilômetros de Palmas, no Estado do Tocantins.
Essa reserva indígena congrega cerca de 2.200 habitantes num território de 320.000 hectares de cerrado.
Esse trabalho é uma realização da Associação União das Aldeias Krahô -- Kapey, com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com apoio do Governo do Estado do Tocantins.
O objetivo da feira é o intercâmbio de sementes técnicas tradicionais de plantio com exposições, assim disseminando e conservando a variedade de grãos.
É um evento que começou em 1997, e a segunda versão em 1998 foi premiada por a Fundação Getulio Vargas, Fundação Ford com o apoio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) por a participação do programa de gestão pública e cidadania com o projeto «Recuperação da Agricultura».
A última feira em outubro de 2007 ofereceu uma premiação Agrobiodivesidade Krahô para a aldeia que apresentasse maior variedade genética de milho, fava, arroz, batata-doce e inhame.
O objetivo dessa premiação, segundo a pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Terezinha Dias, é «incentivar os povos indígenas a cultivarem espécies tradicionais, garantindo assim a variabilidade genética dessas espécies».
O que me chamou atenção nessa premiação, foi o fato da aldeia premiada ter a maioria das espécies apresentadas cultivadas por uma senhora viúva e doente, que mesmo após a falta do marido, com a ajuda dos filhos e filhas continua cultivando a roça todos os anos.
Essa feira contou com a iniciativa do indigenista Fernando Schiavini que trabalha com os krahôs há vinte anos e também do desejo da tribo em resgatar e manter sua cultura.
Schiavini ao saber que a Embrapa guardava sementes coletadas nos territórios indígenas, procurou a empresa juntamente com um representante krahô e receberam grãos de milho Pohnybpey, uma espécie que havia desaparecido da cultura dos índios há muito tempo.
Esses grãos foram o começo do plantio das sementes tradicionais nas aldeias krahôs.
E desde então, num acordo com a Associação Kapey, a Embrapa se responsabilizou em fortalecer a agricultura tradicional e introduzir novos cultivos.
Em essa empreitada, a população krahô conta também com a atuação de uma escola agroambiental denominada Catxêkwyj.
Essa escola promove cursos no sentido de efetivar o resgate da agricultura tradicional dos índios e também incentivar a educação ambiental, discutindo temas referentes à reserva krahô.
Os cursos são ministrados por profissionais qualificados da Embrapa, Universidade Federal de Goiás e de algumas organizações não governamentais.
O nome da escola tem origem na lenda krahô que acredita ter uma deusa em forma de estrela que traz a sabedoria para a terra.
Segundo essa lenda, no começo do mundo as tribos se alimentavam da caça, de frutos e de plantas coletadas na natureza.
Um dia, a estrela se apaixonou por um jovem índio e transformou-se em mulher, a Catwêkwyj, que desceu a terra e ensinou as formas de cultivo, tendo inicio a agricultura.
Durante a Feira de Sementes acontecem oficinas de farinha de batata-doce, artesanato em capim dourado, pintura em tecido, beneficiamento do lixo industrial, arquitetura indígena, entre outras.
Em esse evento se misturam pesquisadores, curiosos, antropólogos, universitários e políticos.
O costume de se enfeitar para a festa se estende aos visitantes, a maiorias tem o corpo pintado por as índias.
Em essa 7ª. Feira houve o batizado em ritual tradicional indígena, do deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), ele que é um dos defensores da proposta de emenda constitucional (PEC) elevando o Cerrado à condição de Patrimônio Nacional.
O parlamentar foi preparado para o ritual decorando o corpo com penas e tinta de urucum.
Foi carregado por os índios recebeu o nome indígena de «Krowajô» que quer dizer tocos e palmito de buritis.
Essa evento também é uma amostra da cultura indígena de forma geral, destacando o rico artesanato e as apresentações culturais.
Em o artesanato há variedade de colares, brincos, sandálias, instrumentos musicais, enfim, de tudo pode se encontrar um pouco nessa movimentada feira.
Os espetáculos culturais são alternados com a dança, canto, esporte e rituais.
A tradicional corrida de toras é realizada todos os dias da feira.
Pintados com tintas naturais como jenipapo e urucum, mulheres e homens correm em grupos separados carregando toras de até 60 quilos.
Os corredores se dividem em dois grupos.
De acordo com o ritual variam os times que disputam a corrida, são grupos chamados de metades e são assim distribuídos:
A. Wakme (n) ye x Katamye
B. Khöikateye x Harãkateye
C. Khöirumpekëtxë x Harãrumpekëtxë
D. Papa-méis x Abelhas
E. Papa-méis x Muriçocas
F Papa-méis x Gaviões
G. Marrecos x Gaviões
H. Lontras x Peixes
As apresentações dos representantes das tribos visitantes com demonstrações típicas de cada etnia, complementam o espetáculo.
Já chegaram a participar até doze etnias indígenas de várias partes do Brasil como os Wapixana (RO), Krikati (MA), Apinajé (Te o), Xerente (Te o), Carajá (Te o), Desano (AM), Kariri-Xocó (AL), Guató (MS), Macuxi (RO), Kaxinawá (AC) e Guarani-Kaiowá (MS).
Assim, essa iniciativa além de resolver o problema da fome nas aldeias, resgata as tradições e promove um momento de confraternização entre os indígenas e comunidades.
Com o sucesso da experiência Krahô, outras tribos também aderiram ao projeto e participam todos os anos da feira, buscando apoio para desenvolver esse trabalho em suas reservas.
Número de frases: 44
«O saber deve ser como um rio, cujas águas doces, grossas, copiosas, transbordem do indivíduo, e se espraiem, estacando a sede dos outros».
Discurso de formatura no ensino médio, Gilberto Freyre aos 17 anos.
O trajeto e a expectativa eram os mesmos de quando fui visitar a exposição sobre Clarice Lispector, no Museu da Língua portuguesa, no centro de São Paulo.
Era ansiedade e o impulso de poder desvendar e poder entender todos os caminhos percorridos por mais um grande ícone do nosso país.
Ele quebrou diversos paradigmas, onde grande parte da população da época em que viveu tinha diante da formação da sociedade brasileira.
E por sinal ainda hoje persiste em livros didáticos usados nas escolas públicas e particulares.
A exposição sobre o Sociólogo Gilberto Freyre teve início no dia 27 de novembro e vai até o dia 04 de maio no Museu da Língua Portuguesa.
O museu atualmente é o mais visitado na América Latina.
A curadoria da mostra ficou com Elide Rugai Bastos (Professora titular do Departamento de Sociologia do IFCH-UNICAMP), e em sua segunda colaboração em curadoria no museu, Julia Peregrino junto a Pedro Karp Vasquez.
Diante do meu entusiasmo desenfreado, preferi pegar o horário do almoço já antevendo a fila que na última exposição era quilométrica.
Pois bem, subindo as escadarias da estação da luz que dá acesso ao museu o coração batia mais forte e incentivava diversos outros sentimentos.
Logo ao terminar a subida, percebi que não tinha movimento algum e assim rápido e direto entrei no recinto cultural.
«Parece ser a sala de uma grande-casa.
Nossa é bem diferente a parede nem tem chão." --
meu priminho de 11 anos, já instigado do início que nos deparávamos.
Era uma sala com parede rústica e branca, de detalhes por todo seu traçado.
Várias gavetas também que trazem documentos específicos do grande mestre de Casa-Grande & Senzala -- a sua carteira Nº 173 da câmara dos deputados, seu passaporte, sua carteira profissional, entre outros tantos e raros.
Um outro ambiente com tudo branco e uma luz irradiante cercava os lados da ' Casa-Grande ' por dentro.
As divisórias totalmente inusitadas e diferentes.
Os cômodos totalmente inovadores entre um jogo de luz, uma cor diferente de quarto, sala e cozinha.
A frente um sofá com malas, que abertas traziam mais documentos e cartas dos amigos para o Sociólogo.
Muitas frases fortes, dedicatórias em algumas entrevistas de Gilberto para vários veículos de comunicação traçavam a divisa entre o lado do Pesquisador, do Pintor e do Amigo.
«Aprendiz, sempre aprendiz ( ...)
De vez em quando sou acusado de saudosismo, se como saudade fosse uma coisa vergonhosa." --
citação de uma das muretas que dividem os cômodos, que seria uma entrevista concedida a Elide Rugai.
Os quadros de Freyre sempre foram pintados com simplicidade e na exposição era nítida essa percepção.
Uma simplicidade gostosa de admirar de se envolver com a causa.
Retratos de Igrejas, pessoas, Senhores de Engenho, casas bem diversificadas, crianças, era grande a variedade, que se desfrutava." ( ...)
eu pinto escrevendo e acho que um pouco escrevo pintando " -- frase de uma das muretas próximas aos quadros na exposição.
Grande parte do primeiro bloco da mostra é dedicada aos quadros e documentos.
Depois de totalmente envolvido com as deliciosas pinceladas, fui me aproximando das outras partes da mostra e para minha surpresa vejo meio inerente àquela situação três grandes geladeiras, provavelmente da década de oitenta por o modelo.
O público as abria com um ar desconfiado e para não ficar atrás fui saber do que se tratava.
Mesmo que o mistério rondasse sobre o objeto a minha intenção era sempre a do estomago vazio e de encontrar algo delicioso.
Pois bem, o organismo agradece e a cultura também.
Deliciosos manuscritos de receitas dentro das geladeiras onde as pessoas até anotavam os ingredientes e suas características, algo totalmente inusitado.
Traduzindo a grande importância que a ' miscigenação ' das iguarias e tradições culinárias dos índios e dos negros.
De a cor branca na parede do primeiro cômodo e do azul forte do segundo me deparo com uma luz sendo direcionada e irradiada aos documentos expostos, já num terceiro local.
Um quarto com mesas e escrivaninhas, juntando-as em gavetas e contendo do lado esquerdo ao fundo duas camas pequenas de crianças só com as molas.
Em a parede, quadros e ursinhos de pelúcia já instigavam a imaginação do público presente.
Era o cantinho dos ' anjinhos ' como chamava Gilberto Freyre, as crianças num dos de seus livros.
Entre tanta informação e desmistificação me atento a reverenciar duas grandes introduções na mostra que me tocaram.
Uma é a carta de «Carolina Nabuco --» Meu caro Gilberto, este peso de papel esteve sobre a mesa de meu pai nos últimos vinte anos de sua vida no Brasil, em Londres e em Washington.
E por qualquer mistério, você preferiu um livro ou uma gravura, diga-me francamente que será muito fácil.
Tua muito amiga, Carolina Nabuco», carta da filha de Joaquim Nabuco, um dos tantos documentos importantes cedido por a Fundação Gilberto Freyre.
Juro que nessa minha entrada em mais um dos recintos da exposição, que tentei saber de qual documento e do que se tratava o tal assunto da carta de Carolina, conversei com os monitores que infelizmente também não souberam dizer.
Mesmo assim, fiz questão de escreve-la e trazer para todos este grande momento.
Um outro espaço chamava muito a atenção das pessoas.
Miniaturas de bois, provavelmente feitos de argilas todos enfileirados envoltos de uma proteção de vidro e grãos de areia.
Provavelmente doze boizinhos pequeninos e cada um com uma chamada, que logo denominava uma citação de mais um dos livros de " Gilberto Freyre.
«Creio que
cada um deve ficar
o mais possível no lugar
onde nasceu.
Nada de muita imenda
ao soneto
da vida:
ou do destino
que é o mesmo».
A o sair do transe dos olhares diante das pequenas obras e da dúvida que insistiu em me rondar por causa da carta de Carolina -- deixo isso bem claro, pois sou fã incondicional de Joaquim Nabuco, já encantado com tanta história, entro no penúltimo trecho.
Logo, me deparo com uma mulher (boneca) de mais de dois metros, uma referência aos bonecos de Olinda e as Senhoras de Engenho, segundo um dos monitores.
Por dentro de sua grande e larga saia, frases fazendo mais referências as Senhoras da época.
É um cômodo enorme, que do lado direito tem um tom azul na parede misturado com várias frases e citações de vários livros do autor.
«Uso as palavras instrutivas sem repelir as lógicas.
As cotidianas sem repudiar as raras.
As populares sem deformar as eruditas, as sensíveis sem repelir de todo as abstratas " -- manuscrito do livro De Menino a Homem.
Um telão passa uma de suas últimas reportagens na TV Cultura, cedida também especialmente para a exposição e de frente para este telão um mosaico montado com muitas fotos em várias épocas da vida do pesquisador.
A última parte da mostra continha, além das diversas citações demonstrando toda importância que Freyre dedicava aos seus estudos, vários exemplares de livros antigos e raros e também recortes de jornais e edições antigas do livro Casa-Grande & Senzala.
O entusiasmo da exposição anterior não era o mesmo, porém um ar diferente rondava os visitantes.
Pessoas que pela primeira vez mantinham contato com as obras de Gilberto Freyre e se debruçavam diante de muita novidade, que infelizmente não tiveram contato nas escolas brasileiras.
«Todo brasileiro, mesmo o alvo de cabelo louro traz na alma, quando não na alma e no corpo ( ...)
a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro».
Casa-Grande & Senzala.
Número de frases: 72
Dona Maria sempre me disse para não comer carne vermelha na Sexta-feira Santa.
Mas não me lembro do dia em que fiz isso por espontânea vontade.
Essa semana, dona Maria me perguntou se eu sabia qual era o período que estávamos vivendo.
Respondi que sabia:
a Quaresma.
Até ai, tudo bem.
Depois, me perguntou o que significava a Páscoa.
Agora, ela me pegou.
Mesmo assim, respondi:
depende. A face materna ficou um tanto confusa.
Continuei: só sei que é Domingo de Ramos, segunda, terça, quarta-feira do Consumo, quinta-feira da Paixão, Sexta-feira Santa, Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa.
Ela rosnou.
Mas eu menti?
Em as ruas da cidade, vejo cores do comércio, ovos de chocolate nas vitrines, vinhos em destaque (mas não em promoção), peixes com pesos irregulares, mesmo depois da visita dos fiscais, além dos papos nas esquinas: --
«Já comprou os garrafões de vinho?--
E o meu ovo de chocolate?--
Onde você vai passar o feriado da Páscoa?"
Viajar ou não viajar, eis a questão.
O problema é enfrentar os aeroportos.
Imagina o cheiro de bacalhau no chão dos salões de embarque!
É a via sacra moderna.
Todos sendo chamados a Cristo, diz-se.
Para a tradição cristã, a Páscoa é o momento mais importante, depois do nascimento de Jesus.
Ou será o mais importante?
Afinal, Jesus sofre 40 dias no deserto tentado por o demônio;
é perseguido por os sacerdotes romanos;
é traído, com um beijo, por um de seus seguidores (que ironia);
Morre, ressuscita, mas, desta vez, ao lado de Deus, pesquisei.
Tentação, carregar cruz, coroa de espinhos, traição, perseguição, tudo, faz sentido.
Reunião de família para a Páscoa.
Não sei por que, mas sempre é na minha casa.
Tio Ezequiel chega, ainda sem as cadeiras organizadas na sala.
Vai faltar cadeira, pensei.
Ele é sempre o primeiro a chegar e, como de costume, trouxe vinho para beber à vontade.
O vinho não é dos melhores, mas, entre beber e não beber, fico com a taça sempre cheia.
A circunstância me deixa imaginando com que roupa a Janaina vai chegar.
Ela sempre compra roupas novas e me faz sair da linha.
É uma tentação.
A prima mais desejada.
Aliás, a única.
Antes de ela, infelizmente, chega o tio Jordão.
Ele bem que poderia ser o Pôncio Pilatos.
Já chega lavando os pés de todo mundo e julgando os inocentes.
Pilatos reclamava do cheiro forte do bacalhau.
Ainda bem que já havia me acostumado.
Desde ontem, dona Maria preparava o rango, a bóia.
A festa só começa de verdade, quando a vovó Madalena chega.
Ela não teve uma vida tão regrada, mas soube criar os filhos e muitos dos netos.
Por isso, era respeitada.
Também por que estava com um tumor no estômago.
As pessoas morrem por a boca.
Ela já caiu três vezes e foi para a UTI.
Foi difícil, mas conseguimos uma vaga.
Maria, minha mãe, me chama na cozinha pra levar refrigerante aos convidados.
Como assim?
Só tem gente da família!
A geladeira estava aberta e me espantei com a quantidade de comida e bebida.
O que não me assustou foram as marcas de chocolate das pequenas mãos.
Eram dos pivetes da tia Verônica, os verdadeiros soldados romanos.
Levava a bandeja lotada de refrigerante e comida, escoltado por eles.
Estava pesada, mas o primo Simão se ofereceu para me ajudar.
Após servir a todos, só me lembro de ter tomado umas taças de vinho e, depois de quatorze passos, cai quase crucificado na cama.
Acordei ao lado de meu pai Josué.
A vida havia voltado ao normal.
Agora, tudo em promoção.
Ovo de chocolate, vinho, bacalhau, etc, etc..
Ah! A prima Janaína foi ao encontro familiar, deu-me um beijo, e foi embora com o namorado, traindo-me.
O verdadeiro Judas.
Voltando à pergunta de dona Maria, continuo sem entender o sentido da Páscoa pós-moderna.
Mas, uma coisa é certa:
a economia está aquecida e a cidade também.
Número de frases: 71
Como tinha prometido a algumas pessoas, aqui está o Manifesto Comunista Anti-Multiplex.
É isso aí!
Boicote aos ingressos abusivos!
Por que pagar (aqui em Pernambuco, pelo menos) R$ 15,00 numa sessão, se podemos baixar as películas livremente por a internet?
E quer saber?
Assumo publicamente esta campanha.
Para começar, abrirei uma página na web, disponibilizando milhares de downloads.
Depois, entrarei nos cinemas, um pouco antes do término das sessões, e contarei quem é o vilão (claro que eu não esquecerei o plano de fuga e o meu capacete).
Simularei uma convulsão após comer a pipoca «jumbo» (outro absurdo!).
Tenho tudo preparado.
Aos poucos eu vou revelando a lista para os que quiserem seguir nesta luta.
Deixando um pouco esta revolução de lado, vejamos algumas verdades.
O preço é muito alto para o poder aquisitivo da classe média brasileira.
O que dirá das camadas mais desfavorecidas?
Só para vocês terem uma idéia, vamos fazer algumas contas matemáticas.
Uma família de cinco pessoas (pai, mãe e três filhos) pagando dois ingressos de inteira e três de estudante, numa bela tarde de domingo.
Só de entradas já se vão R$ 60,00.
É claro que os «pimpolhos», desconhecendo as taxas de juros, os impostos e a inflação, não deixarão de choramingar por doces, pipoca e refrigerante.
Em o mínimo, mais R$ 25,00.
Acrescentando o estacionamento e a gasolina, chegaremos ao incrível resultado de cem «mangos».
Cem.
Dá pra acreditar?!
Sem condições.
E isto em aproximadamente duas horas.
Imagine se, depois de todo o investimento, o filme for ruim, a pipoca vir sem sal e você pegar um engarrafamento daqueles no trânsito?
Uma saída para estes problemas são os circuitos alternativos de produções exibidos em diversos locais, como exemplo, o Cinema da Fundação.
Começarei a freqüentar estes lugares.
E será bom para mim, pois tenho certeza que lá encontrarei muitos adeptos das minhas idéias subversivas.
Mas, quer saber?
Tem uns filmes chatos pra «caramba».
Aquela produção paquistanesa que fala sobre a essência da vida.
Ou sobre como os aborígines fazem para sobreviver às tempestades na Austrália.
Claro que é bom conhecer novas culturas e assistir algumas obras mais cult.
Mas, às vezes, queremos ver Van Damme batendo em todo mundo ao redor, observar monstros, macacos gigantes.
E isso só passa nos multiplex.
O que fazer?
Eu tenho uma solução.
É simples ...
vamos protestar.
Abaixo os preços abusivos dos cinemas!
Boicote!
Vou terminar por aqui.
Tenho umas «coisinhas» para fazer ...
deixa eu ir ali pegar meu capacete.
Número de frases: 44
Rodolfo Bourbon Primeiro ato de " A Gaivota, de Tchekhov ":
Trepliov -- ( ...)
Quando sobe o pano e esses grandes talentos, os sacerdotes da sagrada arte, iluminados por a luz artificial imitam entre três paredes como as pessoas bebem, comem, amam, caminham, como envergam seus casacos;
quando dessas cenas e frases vulgares tentam arrancar uma moral -- uma moral ao alcance de todos, superficial, destinada a uso doméstico;
quando apresentam em mil variantes sempre o mesmo ( ...)
Sorin -- No entanto o teatro tem de existir.
Trepliov -- Precisamos de novas formas.
Novas formas, e se elas não existirem, é preferível que não haja nada ( ...)
Em essa peça escrita em 1896, o médico e dramaturgo russo Anton Tchekhov já apontava a decadência do teatro em decorrência da mesmice e superficialidade correntemente exibidas naquela época.
O tom irônico de suas palavras -- além de ridicularizar a burguesia do século XIX -- constituía uma crítica metalingüística, questionadora do fazer teatral e, por conseqüência, da função social exercida por ele.
Hoje, 111 anos depois, os clamores de Tchekhov permanecem atuais.
Inúmeras peças dizem (ou apenas pretendem) assumir um papel vanguardista, mas se perdem na mera tentativa de construir algo diferente a partir do mesmo.
Não há inovação.
As raízes permanecem fincadas nos mesmos cânones.
Por outro lado, há outros caminhos a serem percorridos.
Um de eles, embora sofra grande resistência, é o teatro digital.
Uma grande parcela de atores, diretores e escritores sequer conhecem este modo de expressão.
No entanto, se perguntados a respeito, logo refutam a idéia e dizem que se trata de uma «arte impossível».
O argumento central diz respeito ao jogo cênico.
Poucos acreditam que haja a troca de energias típica das montagens convencionais, ou seja, crêem que artifícios digitais prejudicam a sensibilidade tanto por parte dos atores como em relação ao público.
Por outro lado, diversos grupos brasileiros e internacionais reportam-se aos adventos tecnológicos como fatores enriquecedores da produção teatral.
Defendem a utilização de recursos técnicos digitais com vistas a uma ampliação da capacidade de expressão artística nas várias dimensões em que consiste uma peça, como voz, corpo, luz, cenário, texto e, claro, atores.
Em este sentido, há nove anos, despontava na Europa a trupe La Fura dels Baus, responsável por uma releitura da obra Fausto, do romancista alemão Johann Wolfgang von Göethe.
A produção, intitulada Fausto 3.0, colocou em cena uma composição que superou -- e muito -- a estética tida por nós como tradicional.
Em o palco, atores e projeções contracenavam em pé de igualdade, numa concepção que tratava luzes e sombras como personagens relevantes do drama, bem como as imagens lançadas sobre uma enorme tela postada atrás do campo de ação.
Tal visão do teatro coaduna-se com o pensamento de McLuhan (1964), que já tratava os meios comunicacionais como extensões do homem.
Em a verdade, este conceito pode ser sofisticado, uma vez que a tecnologia passa a protagonizar os espetáculos juntamente com o humano.
Projeções dialogam com atores, que exercitam seus corpos e vozes diante de contornos não necessariamente reais, porém despertadores de sentimentos e sensações dramáticas típicas do mundo da representação.
Em o ano passado, esteve em cartaz no mundo a montagem Play on Earth.
Dirigido por o brasileiro Rubens Velloso e executado por a Cia..
Phila 7, não se pode efetivamente dizer que o espetáculo esteve em apenas um local, pois ele transcorria simultaneamente em três diferentes países:
Brasil, Inglaterra e Cingapura.
Em cada um de eles, havia a estrutura comum, formada por palco ao molde italiano e platéia disposta à moda corriqueira.
No entanto, as arenas estavam conectadas por streaming, que possibilitou a integração de todas as localidades em tempo real via internet.
As cenas não ocorriam isoladamente:
havia, sempre, um diálogo múltiplo entre os países -- os quais podiam «ver-se» por telões que ocupavam o posto do cenário.
Além de um exercício de conectividade, tal experiência deve ser considerada também como um experimento estético, que perpassa outras especialidades, como a dramaturgia, iluminação, direção, sonorização e, claro, ação cênica.
Um dos símbolos mais marcantes da montagem ocorre quando dois atores -- um em São Paulo e outro em Newcastle -- juntam as metades de seus respectivos rostos num telão, formando uma única face.
Os dois representavam o mesmo personagem.
Esse novo patamar foi aprimorado por a mesma companhia, que em 2007 colocou em cartaz no tradicional Teatro Sérgio Cardoso a peça A Verdade Relativa da Coisa em Si.
Em essa peça, os espectadores são convidados a não desligar o celular.
Em cena, os atores dialogam por Skype e câmeras de segurança mantêm viva a chama do jogo de espelhos durante todo o enredo.
A proposta da obra -- escrita por Marcos Azevedo e Beto Matos -- suplanta o tratamento metalingüístico, ou seja, já não discute a validade da introdução do teatro no universo digital.
Eles vão além e fazem uso das variantes proporcionadas por a virtualidade para explorar criticamente a questão das verdades construídas por os meios de comunicação, bem como as fantasias que pautam a rotina «classe-média» contemporânea.
Hiperdrama
Mais do que encenar junto a projeções online e offline, ou mesmo entregar-se a handhelds, smartphones e notebooks durante a ação, os atores lidam, ainda, com mais um horizonte que se abre para a dramaturgia:
o hiperdrama.
O conceito, introduzido por Charles Deemer, consiste na idéia de que a linearidade das montagens teatrais pode dar lugar a uma plena relativização, em que espaço, tempo, atores e espectadores podem fluir por um universo dramático de paralelas possibilidades.
Em este cenário, as histórias podem tomar um ou outro caminho, independentemente da conclusão.
Quem assiste é quem determina como deseja ver a história e, desta forma, molda o espetáculo a partir das alternativas oferecidas por o texto.
O espetáculo deixa de ser plano e ganha relevo perante o público, que passa a ter a chance de dialogar mais efetivamente com a obra com a qual mantém contato.
Um de seus experimentos, curiosamente, diz respeito ao drama A Gaivota -- o mesmo citado no início deste artigo.
Voltando ao Brasil, é possível assistir até o dia 08 de julho, em São Paulo, à montagem O Kronoscópio, de Ricardo Karman.
O dramaturgo e diretor -- que já criou memoráveis instalações como a realizada sob o rio Pinheiros na década de 90 -- inspirou-se no conto The Dead Past, de Isaac Asimov, para construir um espetáculo rico em projeções, animações e efeitos especiais.
Além de fazer chover literalmente em cena, Karman enriquece a peça ao proporcionar diálogos em que um dos atores está presente apenas por meio de uma projeção bidimensional.
Entretanto, a força dramática não se perde em momento algum.
Não apenas a história caracteriza-se como um experimento de ficção científica, como também a montagem em si.
O que se pode perceber de tudo isso é que existe, sim, um forte movimento em torno do teatro digital.
Embora os mais nostálgicos sejam refratários à terminologia -- e ainda mais à prática, trata-se de um caminho absolutamente natural.
Desde a Grécia, com o Deus Ex Machina, a técnica está presente como um elemento que expande o valor da orquestração cênica.
Atualmente, nada mais se vê do que uma evolução deste processo.
A relação homem-máquina transforma-se velozmente e a arte, na condição de legítima expressão humana, não pode render-se a conservadorismos e postar-se atrás de qualquer vanguarda.
Virtual e digital, embora não-palpáveis, figuram como vastos campos para que o teatro redescubra e renove a sua função social, bem como desperte no público uma nova onda de atratividade.
Se a base desta expressão artística é a dualidade -- relembrando Antonin Artaud e, mais para trás, Hegel, por que não vinculá-la ao conflito dramático da pós-modernidade, centrado no choque binário entre 0 e 1?
Número de frases: 64
* Publicado originalmente no site Webinsider.
Em o dia 17 de agosto de 2006, uma quinta-feira de sol e chuva, a cidade da Marechal Deodoro, primeira capital de Alagoas e berço do proclamador da república, foi tombada por o Patrimônio Histórico Nacional.
O ministro da cultura Gilberto Gil esteve presente na solenidade para assinar o documento e participar das festividades.
Em o palco montado às margens da Lagoa Manguaba, o ministro falou com os deodorenses, e, ao lado do artesão luthier e músico Nelson da Rabeca, afirmou que estava ali «corrigindo um erro», em relação ao atraso no reconhecimento da cidade.
Gil tocou algumas notas na rabeca presenteada por Seu Nelson e arriscou um repente de improviso.
Em a ocasião falou sobre o programa de mestres dos saberes populares, do Ministério da Cultura, que é o reconhecimento institucional dos mestres, e afirmou que «Nelson da Rabeca é um mestre dos saberes e fazeres populares, e se é reconhecido assim por o povo, que seja também institucionalmente via órgão estadual de cultura».
Nelson é um senhor humilde, um ex-cortador de cana que aprendeu sozinho a fazer seu instrumento musical.
Em a estrada que dá acesso à cidade de Marechal Deodoro, tem uma estátua do Seu Nelson, como todos o chamam, sentado ali tocando sua rabeca, com aquele sorriso encantado que só quem já viveu muito uma vida simples sabe sorrir.
Já não era sem tempo para Marechal Deodoro, com suas igrejas caindo aos pedaços, que resistiu a invasões holandesas (e portuguesas?),
mas quase não resistiu à burocracia do Governo Federal.
Que bom que ainda é tempo para o Seu Nelson, nada como a homenagem em vida, e viva o patrimônio imaterial do Brasil!
Depois de oficializado o tombamento, o ministro foi conhecer a casa / museu onde nasceu Marechal Deodoro da Fonseca, e seguiu para a coletiva de imprensa no Museu de Arte Sacra, onde foi recebido por o Coretfal -- Associação de Coralistas do Centro Federal de Educação Tecnológica de Alagoas.
Esse pessoal fez uma apresentação realmente bonita, aquelas vozes ecoando no pátio daquele convento barroco foi uma coisa linda de se ver e ouvir.
Em a coletiva, Gilberto Gil disse que " comunidades de municípios como Marechal Deodoro, com características históricas e culturais similares, devem mobilizar politicamente sua população para que pressione o governo através de abaixo-assinados ou outros instrumentos, visando o reconhecimento das suas cidades.
Não esperar somente o garimpo do Estado, que deve sim, atender às demandas dessas comunidades».
O presidente do Iphan, Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Luiz Fernando de Almeida, também estava presente e afirmou que os primeiros recursos emergenciais serão destinados a reconstrução do teto da Igreja Santa Maria Madalena, depois disso serão criadas as equipes de restauração dos altares e interiores.
A festa do povo e a música das crianças
Logo pela manhã, Marechal Deodoro colocou as bandas filarmônicas de suas tradicionais escolas de música nas ruas de casario secular, cada qual com suas cores e seus meninos tocadores, marchando ladeira abaixo rumo à Lagoa Manguaba.
Durante a tarde inteira, as bandas de fanfarra das escolas do município se apresentaram por as ruas da cidade.
Além dos mini-músicos locais, vários Pontos de Cultura do estado apresentaram os produtos dos trabalhos desenvolvidos, como os Grilos da Garça (foto), pequenos da Casa da Arte em Garça Torta, e a banda percussiva dos Guerreiros da Vila, jovens catadores e filhos de catadores de materiais recicláveis da Vila Emater.
De o sul do estado veio o grupo Caçuazinho, versão mirim do Grupo Caçuá, município de Piaçabuçu, que canta as coisas das beiras do Rio São Francisco.
E foi assim, um sem fim de crianças fazendo música, no dia em que Marechal Deodoro, 370 anos depois, foi reconhecida como Patrimônio Histórico do Brasil.
Número de frases: 22
a poesia propõe coisas inviáveis.
a música popular (mp) é toda vias e acessos.
a mp não faz doce.
quem permanece por muito tempo na linha, o trem termina pegando.
o que vem, vem bem.
se não, vejamos.
uma, mais natural, outra, tendendo para o artifício.
perto de uma o sucesso, no calcanhar da outra o fracasso.
por outro lado, englobando essas diferenças autorizadas por o específico projeto sígnico de cada, importa lembrar que ambas são, em suma, faces complementares da sobrevida da linguagem analógica ou poética exercendo seu papel de intransigência e de crítica contra o excludente pensamento linear.
o samba não é privilégio nem se aprende no colégio.
aqui nasce uma outra disciplina:
vontade analógica, interdisciplinar.
paulo leminski:
«poesia é algo como filatelia ou caça à raposa», e, mais, a poesia corre o risco de se transformar num subproduto da indústria de diversões da casa-grande acadêmica.
borges: «certas pessoas têm dificuldade em sentir a poesia, daí dedicam-se a ensiná-la», siete noches.
dante para chegar à divina commedia devorou quase tudo e mais os cantores provençais.
pound sinalizando com uma frase do poeta florentino:
«uma canzone é uma composição de palavras postas em música».
uma aproximação à idéia de beleza:
adequação ao objetivo.
esta «adequação» ou funcionalidade comunicativa, para pound, dependeria do maior ou nenhum contato da poesia com a música.
fazer, pois, um poema como se fosse para ser cantado solucionaria, a princípio, encrencas como:
o uso de palavras demasiadas ou sem crédito funcional, que só obscurecem o significado.
a melodia (estrofação e metro) trabalharia então como uma sorte de condão concentrador.
controle do acaso.
tudo para manter a nitidez, a precisão, a eficiência da linguagem.
e, naturalmente, para acabar de uma vez por todas com o discurso nebuloso dos literatos trapaceiros, discurso forjado para ocultar o pensamento.
pound fez crítica via música testando experimentalmente as palavras de guido cavalcanti e françois villon em composições musicais.
sete noites.
borges, jorge luis:
«quando lemos versos que são realmente bons e admiráveis, tendemos a lê-los em voz alta.
um verso bom não pode ser lido em voz baixa -- ou em silêncio.
se isso for possível então o verso não vale a pena, pois um verso sempre exige sua pronúncia.
o verso nos faz lembrar que antes de arte escrita foi uma arte oral:
o verso nos lembra que inicialmente foi um canto."
joão da baiana sabia uma penca de coisas.
tinha os preceitos.
música é linguagem, escritura ou caligrama corporal.
joão da baiana está inscrito:
«eu era carioca e venci meus irmãos que eram baianos.
eu discutia com as minhas irmãs e dizia, ' sou carioca e vou te escrever nas pontas dos pés ', fazia umas letras, uns passos e elas ficavam malucas " (roberto moura in tia ciata e a pequena áfrica no rio de janeiro).
por estar mais próxima da língua, a mp está sempre à disposição.
é quase uma terra de ninguém.
beira o domínio público.
a poesia se situa mais para os lados de uma waste land.
muitas vezes o improviso, o pagode.
quem tiver coragem que entre na roda e desamarre o ponto.
todos podem cantar o poema sem dar a mínima ao poeta.
a paródia (canto paralelo, haroldo de campos dixit) não estanca um instante sequer.
toda a quizila a respeito da autoria do samba-maxixe «por o telefone» de donga, ou seja lá de quem, reflete um certo desconhecimento a propósito do caráter macunaímico da mp.
diluição:
destribalizar a informação.
críticos superciliosos denunciaram plágio em alguns poemas de gregório de matos.
gregório é um poeta barroco.
o barroco constitui um código bastante específico de fatura / fratura poética.
a coesão do movimento barroco no que toca às suas figuras de linguagem, aos seus contrapontos paradoxais ou ao seu imagismo grosso-fino é exemplar.
o idioma poético barroco avançava por mutirão.
liam-se;
havia um repertório comum.
san juan de la cruz, sor juana inés de la cruz, góngora, gregório.
o de matos, façamos justiça, também capitão do mato, era músico popular.
tocava viola.
um dos primeiros poetas brasileiros a se questionar sobre o (in) sucesso e a sucessão.
mp, música pop.
jimi hendrix, itamar assunção, arrigo barnabé, titãs.
sangue novo, signovo.
a diluição elevada a uma outra potência.
«singing each morning out of each night» (cummings, e.).
tudo acaba num disco.
tudo acaba em samba.
cantando a alvorada no advento da madrugada.
quanto às radicalizaçães da bossa nova e da tropicália, fico com o trocadilho paronomástico de macalé que, por sua vez, parece reverenciar, com este coleio relacional, augusto de campos (o vietcong concreto), quando diz:
«a bossa nova é o luxo da tropicália».
a amarelinha oximoresca luxo-lixo, representa bem em cima do lance o que é o diálogo mixado entre alto repertório e baixo repertório no pf antropofágico da mp.
domingos caldas barbosa, poeta e compositor popular negro do período colonial, nas quadras comunicativas de um lundu que moteja panos e pratos de um triângulo amoroso, traduz estocasticamente o drama imaginário, todo comprimido na palavra «angústia», por a domingueira, suculenta e, ao mesmo tempo, indigesta referência do vocábulo» angu».
diz assim:
«amor com mim é tirano / mostra-me um modo bem cru / tem-me mexido as entranhas / qu ' estou todo feito angu».
xarapim tenha dó de mim, leia a minha autopsicografia.
estrategicamente, o projeto diluidor só aceita a metafísica em termos de logopéia.
relacionar os signos de uma maneira especial ao costume;
no contexto em que o leitor-ouvinte espera ou está habituado a encontrá-los, dar-lhes uma feição ligeiramente deslocada e auto-reflexiva.
fernando pessoa, jorge luis borges, paulinho da viola.
angústia, angu.
amor, humor.
ele: pedir-lhe ciúmes;
ela: sapatos e meias.
redundância:
a áfrica é a fábrica.
aniceto da serrinha se inscreve por a vez primeira:
«o jongo é pai de tudo isso, ou mãe.
o jongo é muito respeitado.
o jongo mata.
o jongo carece até cabeças maduras por o seguinte motivo, o jongo é deitado no meta-metá, o linguajar de caboclo, é eu falar com si dirigindo-ma ele.
e tem que saber desamarrar, desatar aquilo;
entender que é com si o que estou falando " (roberto moura in tia ciata e a pequena áfrica no rio de janeiro).
pai e mãe.
a palavra injusta.
pua. puya.
ímã. é eu dizer metá-metá, mas dirigindo-me à metalinguagem.
jongo é jongo, mata.
até que ponto minhas palavras, minha fabulação coxa, reduzem a maravilha do jongo?
o jongo mata por sua abertura semântica, por sua abreviatura estrutural.
sua simbólica imediata, extraída do referente mais contíguo.
o símbolo clássico, por característica, necessita, para uma fruição adequada, de um pernoite diacrônico em certa medida longo, demorado (tempo para testes melífluos de aplicação e receptividade, em outras malditas palavras), até que ele inicie a se desfazer do seu contorno de arestas, perfil fibroso, e permita um contato com o mínimo de ruído possível.
com o jongo o negócio já é diferente, a semiótica do jongo não se presta a detalhes semelhantes.
jongo é símbolo por ligação direta, símbolo provisório, precário;
específico para a situação-figura ção que lhe diz respeito naquele momento.
antiaristocrático. não quer o universal, isto é, consumar-se como interpretante final.
patamar homologador de uma almejada predominância, permanência de leitura.
quem sabe, descartável o símbolo do jongo?
porém, não.
nem. neste pé, o jogo semiótico do jongo é que está mais perto da arbitrariedade inventiva, porquanto híbrido, brusco, e algo tosco.
o símbolo universal, de matriz européia, ideológico, clássico, é justamente o contrário:
tradição monolítica, sedimentação, progressiva elusão do referente até o acabamento retórico do seu conteúdo-funcionamento cosmopolita, vestido em seguida de familiar unanimidade no que respeita à sua eficácia comunicativa.
hóspede sem áspide.
(*) Fragmentos de um texto apresentado em painel dentro da programação do II Perfil de Literatura Negra, SP / RJ, 1987.
Ensaio de ensaio, sua redação se deu na primavera daquele ano.
Em a versão atual, a alteração mais significativa diz respeito à pontuação, que antes não havia.
à época me limitava a usar parênteses, dois-pontos e ponto-final.
Mantenho o layout original:
texto todo em minúsculas.
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e Em o Assoalho Duro (2007).
Número de frases: 124
Despacha no blog www.poesia-pau.zip.net
Em 1976, a estadounidense JVC criou o VHS (Vídeo Home System, Sistema de Vídeo Caseiro), o aparelho de videocassete que permite a gravação, em fitas magnéticas, de informações de vídeo e áudio.
Em o mercado brasileiro, essa tecnologia só chegou em meados da década de 1980.
Agora veja o que ocorreu de 30 anos para cá:
fabricantes chineses substituirão o DVD por sistema próprio, o EVD (Sigla de Enhanced Versatile Disc -- Disco Versátil Aprimorado), que possui cinco vezes mais qualidade de imagem que o DVD.
É impressionante, mas a tecnologia continua surpreendendo com uma velocidade como nunca se viu na história do homem.
É claro que isso tem suas razões.
A tecnologia sempre existiu no processo de evolução da Humanidade, o que mudou foi a maneira como ela passou a ser empregada.
Desde os primórdios da Humanidade havia a necessidade do homem de criar maneiras e utensílios para sua sobrevivência.
Graças a esta necessidade, hoje temos a oportunidade de criar inúmeras ferramentas.
Um dia, por exemplo, foram criados utensílios com lascas de pedra e madeira;
no outro houve a invenção da roda;
um dia depois descobriu-se que com o atrito entre dois gravetos era possível obter o fogo;
um dia, Grahan Bell criou o telefone;
e assim chegamos até os nossos dias.
Vivemos na era da informação.
Há uma grande mudança na tecnologia, que deixou de ser criativa.
Após um momento de saturação de idéias e criatividade, a tecnologia deixou de «criar» para copiar ou melhorar o que já foi criado, como é o caso que nós citamos no início do texto.
O VHS criado por a JVC em 1976 foi melhorado na versão DVD, que agora já ficará melhor na versão EVD.
E não são somente essas as inovações.
Já temos hoje o desenvolvimento da nanotecnologia, que tem se tornado cada vez mais evidente, da robotização e criação de andróides, conforme publicado na 1º edição da Revista Núcleo Online.
A empresa japonesa Kokoro Company criou um andróide com movimentos e reflexos bem próximos dos seres humanos.
Nós, brasileiros, somos suspeitos para falar em tecnologia.
Infelizmente, o que chega para nós como novidade já se tornou obsoleto em países de Primeiro Mundo.
A tecnologia tem suas vantagens e desvantagens.
Um exemplo é a internet.
É de extrema importância saber utilizá-la, caso contrário ela pode se tornar uma arma ao invés de ferramenta que proporcione benefícios.
Uma das desvantagens da tecnologia é limitar a criação do ser humano.
O trabalho manual e as invenções já não repercutem como antes.
É importante que o homem saiba conciliar tecnologia e criação e não deixar de utilizar um dos maiores dons que foi-lhe dado, o dom de «criar».
Número de frases: 30
gustavo.Pacete@revistanucleo.com.br
«Ô de casa, ô de fora, menina vem ver quem é Ô menina vem ver quem é São os ' tirador ' de reis
Em a barquinha de Noé
Ô na barquinha de Noé».
Só quem já viu, ouviu ou participou de um Reisado sabe a delícia que é essa música.
Assim como só sabe o que é um Baião Sapateado quem já viu ou dançou um.
Não adianta tentar explicar porque qualquer explicação não vai chegar nem perto da belezura que é ver os ' caretas ' chegando, as saias rodando, o povo cantando, o tocador batendo o pé.
Ruim é que essa mágica está se perdendo no tempo, como tantas outras manifestações culturais brasileiras.
Começa a ser estilizada, a ser misturada e no futuro ninguém mais vai saber como foi que tudo começou.
Incomodado com isso, o sanfoneiro, tocador de pífano e professor de música Agenor Abreu botou na cabeça que ia fazer um registro das cantigas do folclore nordestino, em especial do Piauí.
Há quase dez anos ele começou, junto com o professor Noé Mendes (in memorian), a visitar comunidades do interior onde as tradições ainda eram mantidas, por obra e graça dos mais velhos.
Procurou, conversou, ouviu histórias, aprendeu músicas, aprendeu danças e sentiu que tinha a missão de passar isso para a frente, revelar ao mundo o que restava de algumas das manifestações folclóricas e culturais mais bonitas do Brasil.
Em o povoado Cruzes, interior de Curralinhos, no interior do Piauí, Agenor encontrou Diolino, Louro Preto, Zefinha do Louro, Chico Honório, Macimino, Dona Sinêga, Luís Roque, Zé de Deus, Abdião das Cruzes, Zé Lázaro, João Princesa e Zé Teófilo, que contaram em detalhes e mostraram com cantos e danças como se fazia Reisado, Baião Sapateado, Pisa na Fulô, Roda de São Benedito e " Roda de São Gonçalo.
«Eles já eram bem velhinhos, mas era uma animação danada quando eu chegava com a sanfona.
Queriam logo ir para o terreiro para dançar e fazer a cantoria.
Só tenho a agradecer a generosidade com que me passaram toda a história, e me sinto privilegiado por ter conseguido os depoimentos porque todas essas pessoas já morreram nestes quase dez anos, desde que eu comecei a pesquisar».
O professor conta que mesmo lá no interior do interior as manifestações estão se perdendo.
«Elas só são praticadas por pessoas idosas, e eles estão no fim da vida.
Não percebem a importância de passar para as novas gerações até porque os mais jovens querem saber mesmo é de televisão, de dançar e cantar só o que aparece na televisão», critica.
Cantoria-cassete CD
As cantorias e histórias contadas em Cruzes, Olho dÁgua de Dentro, Água Boa e outros povoados do interior do Piauí foram gravadas em fitas cassete.
Quando voltava para casa, em Teresina, Agenor ouvia várias vezes até que aprendia a tocar e cantar.
«Como eu sou músico há muito tempo e meu pai também era músico, eu cresci convivendo com isso e pego muita coisa ' de ouvido ' mesmo.
Eu fui colocando as músicas uma a uma em partituras e depois estudava, ensaiava, até que montei um grupo de forró pé-de-serra, chamado Forró de Candeeiro», lembra.
Com um projeto completo debaixo do braço, o professor começou a peregrinação em busca de apoio para registrar o material.
Com a morte do professor Noé Mendes, seu grande incentivador, as coisas ficaram mais difíceis.
De porta em porta, depois de muitos nãos e algumas promessas não cumpridas, chegou à Fundação Cultural Monsenhor Chaves e apresentou o trabalho ao professor José Reis, que de imediato ficou interessado.
«Ele mandou eu gravar, eu disse que era caro ir para um estúdio, ele disse que dava um jeito, que ia atrás de parcerias, só que não achou quem quisesse ajudar e resolveu que a Fundação faria o trabalho sozinha mesmo».
O resultado é o delicioso «Candeeiro no Folclore», e é impossível não dançar.
Junto com o CD vem um livreto que explica o que é, como se dança, qual o figurino e quais os personagens do Reisado, do Baião Sapateado, do Pisa na Fulô, da Roda de São Benedito e da Roda de São Gonçalo.
O CD está à venda na Escola de Música de Teresina, na Fundação Cultural Monsenhor Chaves e na Tocatta Discos, em Teresina.
As músicas estão tocando direto na programação das rádios Cultura de Teresina, Pioneira e algumas FMs comunitárias da capital e do interior.
Dandiê dança
Além do Forró de Candeeiro, Agenor Abreu coordena junto com a filha Rejane o Dandiê, um grupo de dança formado por dezesseis crianças e adolescentes, especializado em danças folclóricas.
Os meninos são seu grande orgulho e qualquer um percebe a emoção do professor ao contar a história dos dançarinos.
«São meninos muito pobres, moram nos bairros Risoleta Neves, Água Mineral e Real Copagre (periferia de Teresina), pertencem a comunidades que tradicionalmente só aparecem na mídia nas páginas policiais.
Com os meninos do Dandiê, essas comunidades estão ganhando auto-estima, estão se vendo mais valorizadas e respeitadas, já aparecem nos cadernos de cultura.
Os pais vêem seus filhos dançando e ficam orgulhosos», conta.
Quando o Dandiê se apresenta em alguma festa na zona norte de Teresina, uma verdadeira multidão segue o grupo, aplaude, incentiva.
«Para os meninos, só estar dançando, ser bem tratados, bem recebidos em qualquer lugar já é uma vantagem.
Eles ficam felizes com tão pouco!
Com o ônibus que vai buscá-los em casa, com o lanche que ganham depois da apresentação e principalmente com os sorrisos e aplausos que recebem das pessoas.
Ficam orgulhosos de ser recebidos com respeito em grandes eventos».
O sucesso do grupo tem provocado uma reação nas crianças das comunidades envolvidas.
Todas querem dançar, todas querem participar.
«Infelizmente eu não tenho como ampliar o grupo porque não temos ajuda oficial, o Dandiê é da comunidade e todo mundo lá é carente.
Com o dinheiro que eu apuro nos shows do Forró de Candeeiro é que eu providencio as roupas e calçados dos dançarinos».
Os meninos e meninas do Dandiê aprenderam a valorizar as danças folclóricas e se mostram orgulhosos de poder divulgar essas manifestações.
Cada um quer dançar mais bonito que o outro, cada menina quer rodar mais a sua saia.
«Teve um caso engraçado uma vez.
Temos uma coreografia chamada ' Nêga Bonita ', e tem um momento em que todos sentam e a nêga bonita vai dar seu show.
Foi uma confusão na hora de escolher quem faria a personagem, porque todas as meninas queriam.
Eu expliquei que tinha que ser a mais negra, mas elas reclamaram», diverte-se o professor.
O trabalho continua dando frutos.
Um dos ex-alunos de Agenor montou um grupo de música e dança folclórica com colegas da escola e tem acompanhado o mestre em algumas apresentações.
«O Fernando foi meu aluno, depois saiu do grupo, montou um de suingueira.
Acho que viu que não era bem aquilo que ele buscava e voltou, disse que queria mesmo é continuar no caminho das manifestações folclóricas e montou o Culturarte.
Tenho procurado levá-los com mim para que se tornem mais conhecidos, o trabalho de eles é muito bom», comenta Agenor, todo orgulhoso.
O trabalho de ele também é motivo de orgulho para todos os piauienses.
Número de frases: 59
Não sou um habitual leitor de jornais e revistas.
Também não sou daqueles que acham que é preciso ver TV «para estar informado».
Apesar disso, há alguns dias atrás, comprei a edição de julho do Le Monde Diplomatique Brasil para ler na praia do Leme, aqui no Rio de Janeiro, onde estou morando desde abril.
Fiquei surpreso ao conhecer o conteúdo desta revista, que completou um ano de publicações no Brasil, por a pluralidade dos temas, numa perspectiva ampla e com entendimento da complexidade que permeia a organização social de nosso país.
Cito este fato pois foi a partir do contato com a matéria «O impacto sobre o meio ambiente», de Jean Pierre Leroy, publicada nesta revista, que fiquei pensando sobre as relações entre a produção cultural independente e o meio ambiente.
O subtítulo da matéria diz o seguinte:
«Enquanto a maioria da população brasileira deseja entrar na sociedade de consumo, parte significativa pretende ascender ao padrão da classe média alta.
Concretizar essas aspirações, porém " tem um alto custo:
a superexploração do trabalho e a subestimação dos custos ambientais».
Então fiquei pensando que talvez a maioria dos produtores culturais independentes ou de pessoas que se lançam a trabalhar na área cultural, por fazerem parte desta mesma população, estejam aspirando «entrar na sociedade de consumo» ou «ascender ao padrão da classe média alta», porém sem perceber os impactos ambientais disso.
Em um país em que uma parcela considerável da população não usufrui de seu direitos culturais mínimos, que o Estado está começando a dar os primeiros passos para organização de políticas públicas, que 62,9 % dos profissionais culturais estão na informalidade, pode parecer um exagero preocupar-se que as pessoas reflitam sobre seu ingresso na sociedade de consumo ou ascensão a padrões mais altos, dentro de um modelo de desenvolvimento que tem se mostrado insustentável para o planeta.
Mas não é.
Vejamos dois olhares iniciais sobre o tema.
A Cadeia Produtiva da Cultura e a Economia Solidária
Produtores independentes, músicos e outros profissionais da área cultural têm refletivo que para o desenvolvimento da cadeia produtiva da cultura é necessário se entender a dimensão econômica da atividade e compreender as relações de mercado.
Contudo, se conseguíssemos apenas «incluir» todos que estão excluídos do mercado cultural no país, de uma hora para outra, todos os profissionais recebessem uma remuneração mais elevada, que muitas pessoas passassem a consumir os produtos culturais aos quais não têm acesso, teríamos também de imediato impactos ambientais, que trariam efeitos colaterais econômicos e sociais que não têm sido discutido nas feiras independentes e em importantes espaços de discussão sobre a produção cultural brasileira.
Penso que se passarmos a integrar as pessoas que estudam as cadeias produtivas da cultura com as pessoas que estão organizando iniciativas de geração de trabalho e renda através da Economia Solidária, iremos começar a perceber o meio ambiente como uma variável fundamental a ser avaliada no planejamento e gestão das atividades culturais.
O Desenvolvimento Humano
O alto índice de informalidade dos profissionais culturais e a precarização de suas relações de trabalho parecem, para muita gente, somente estarem associados a grande concentração dos meios de comunicação e dos investimentos dos agentes financiadores do mercado cultural.
Se ampliássemos os canais de distribuição dos conteúdos culturais e repartíssemos de forma mais equilibrada o investimento dos recursos, teríamos novamente um aumento na remuneração de muitos profissionais, oriundos de uma grande maioria que está acostumada com a dificuldade de sustentabilidade, mas que não necessariamente significaria aumento do desenvolvimento humano.
Acho que todo mundo deveria ter condições de acesso a conteúdos de revistas, filmes, livros, espetáculos teatrais, shows musicais, performances de dança, viagens para conhecer a nossa diversidade cultural.
Mas não consigo imaginar todo mundo consumindo todos estes produtos culturais como alguém que vai a um McDonalds, come um hambúrguer e joga fora uma embalagem.
Imagine milhares de livros, CDs, DVDs, etc, sendo jogados fora após serem consumidos.
Em este sentido, acredito que é preciso que os profissionais da cultura, em especial os produtores culturais independentes, busquem informações de como podem desenvolver suas atividades buscando impacto negativo mínimo no meio ambiente.
Assim, pensando na geração de trabalho e renda de forma solidária, através de um mercado socialmente construído e do planejamento de atividades culturais sustentáveis, podemos começar a aproximar a produção cultural do meio ambiente.
Número de frases: 25
A miséria cultural tão propalada nas grandes cidades freqüentam o dia-a-dia das emissoras de TVs e Rádios dos quatro cantos do País.
Não raro, topamos com manifestações de exaltação á industria cultural que com um misto de selvageria e arrogância assumem um papel de donos da verdade do gosto popular ou cinicamente se defendem se eximindo da responsabilidade por o lixo cultural, pois afirmam tocar e exibir o que povo gosta. (
sic) Essa farsa está posta!
No entanto, basta alterarmos o nosso foco de ação para descobrir que o potencial público consumidor, e aqui falo de jovens que não se dão por satisfeitos em reproduzir tais modismos, sejam eles quais forem!
E isso, fica claro quando a sociedade (todos nós) propomos projetos de ação socio-cultural que se desvinculem dos formatos tradicionais (modelo escolar ou de qualificação para o «suposto» mercado de trabalho), e partam para uma construção de valores culturais de forma coletiva e inovadora.
Aqui, em São Miguel Paulista, periferia da São Paulo, cujo os índices de mortalidade entre jovens por armas de fogo superam países em conflitos étnicos ou religiosos, onde questões como saúde, lazer, moradia, mercado de trabalho, educação de qualidade, espaços culturais públicos e aberto à comunidade não fazem parte da ideologia de bem estar social, apregoada por governos e governantes, e situação muita parecida de várias períferias dos grandes centros do Brasil, jovens desenvolvem um projeto de memória do bairro, em que principal foco está na resignificação do local, por meio da história de vida dos seus moradores, reconstituição de imagens por meio de fotografias antigas do moradores em que revelam os hábitos, costumes e modo de vida.
Todas as ações buscam favorecer a cidadania, o reconhecimento da identidade individual e grupal e de valores simples, como trabalhar em equipe, desenvolver habilidades artisticas e culturais, resgatando história de vida e construindo relações de sociabildiade que vai contra uma corrente individualista, onde o «ter» é mais importante que o «ser», ditada por o modelo de capitalismo selvagem impostos ao países em eterno desenvolvimento.
E em contrapartida a tudo isto temos como resultado jovens que se comprometem na busca de soluções para o bairro, na vivência da diversidade, na composição de novos objetivos individuais e coletivos e sobretudo na construção de postura cidadã diante dos fatos do dia-a-dia.
Essa construção pode ser traduzida no lema criado por o grupo que é Resgatando nossa história, ampliamos nossos horizontes.
No entanto, esses resultado não são méritos do projeto, mas sim na confiança que cada jovem depósita em si mesmo, pois basta criarmos as situações adequadas para que o «salto qualitativo» na atuação de cada jovem ocorre, pois em matéria de enfrentar desafios de forma criativa, não existe fase melhor do que a juventude.
Mauro Bonfim
Projeto São Miguel e Brasileiro
Número de frases: 12
julho 2006
Simpáticos, sorridentes, criativos e conversadores, os pescadores têm muito o que contar.
Profissão antiga, que aos poucos foi se modernizando, tornando-se difícil para quem não consegue se adaptar.
Sujeitos à chuva, sol, ventos fortes, correntezas, dias sem dormir e saudades da terra, tentam manter o riso.
Em esta minha busca em conhecer mais a profissão, percorri algumas colônias de pescadores e uma extensão.
Fiz entrevistas com presidentes, diretores e com os próprios pescadores.
As conversas na beira do mar e piadas enquanto jogavam baralho e dominó colaboraram tanto quanto as pesquisas e entrevistas.
De entre as colônias visitadas estão à Colônia do peso Z1 (Rio Vermelho), A Mariquita união dos pescadores filiada Z1 (Rio Vermelho), Colônia de pescadores COOPY Z6 (Itapuã) e a extensão da colônia de Itapuã, que fica em Piatã.
Todas diferenciadas em vários aspectos e integrantes cheios de história para contar.
«Quem inventou o náilon merece ser enforcado em ele, brinca o pescador da colônia Z6, Nilson sobre a substituição do fio de linha por o náilon.
Apesar de seus benefícios e duração eterna, o náilon queima muito mais a pele do que a linha.
Mas o náilon não foi o único instrumento que possibilitou uma pesca moderna.
Sondas e barcos motorizados deram início a pescas mais lucrativas.
Se antes a comida era esquentada numa fogueira no interior do barco com muito cuidado para não queimar as linhas, hoje fogão e gás facilitam a preparação:
«Em aquele tempo era fogão de pedra.
Tinha que jogar água logo para apagar, porque ia fogo pra tudo que é lado, ainda mais com ventos fortes», diz Nilson.
«Os barcos têm medicamentos, rádio, coletes, bússolas.
Não é como antes, a base de remo.
Quase todos são motorizados.
Não tem mais precisão de sair de madrugada.
A rotina é 6h, 7h da manhã.
Levantam, pegam seus equipamentos, pegam o barco e vão à luta», completa o presidente da colônia de Itapuã, Nelsom dos Santos, apelidado de Pai Velho.
Uma outra realidade
Mas nem todos conseguem acompanhar a modernização.
Com poucos barcos motorizados, a maioria a vela, peças deteriorizadas, sem apoio ou dinheiro para reestruturação, a colônia Z1 se encontra abandonada.
Com mais de 100 barcos parados, o silêncio e a tranqüilidade do local escondem o sofrimento de uma colônia fantasma.
A falta de peixe, o mau tempo, as correntezas fortes e as embarcações inapropriadas são problemas freqüentes enfrentados por os pescadores da colônia:
«Quando chegamos numa posição com condição para pegar o peixe, vêm embarcações melhores de outros lugares e levam.
O pescador coitado fica com o dedo na boca esperando que aconteça o bom tempo para voltar ao mar.
A situação é essa», desabafa o presidente da colônia Z1, Eulirio Menezes, 80 anos.
Caiu na rede, é lucro?
Depende de como é feita a divisão.
Isso diferência numa associação, extensão de colônia ou conta própria.
Para os não modernizados, o trabalho na busca por o peixe tem dado é muito prejuízo.
Um barco geralmente sai com dois, três pescadores e os gastos com gelo, mantimento, óleo, isca, náilon são relevantes.
Além das despesas e a fiscalização de peixeiros, existe o chamado quinto, que é a porcentagem dada ao dono do barco.
«Os pescadores saem hoje.
Gastam seis sacos de gelo, R$ 40 de mantimento, mais R$ 40 com óleo.
Volta daqui a três dias com 20 kg de peixe.
Vende por R$ 10 para o peixeiro que vende por R$ 18.
São R$ 200.
R$ 100 de despesa.
Tira o quinto fica R$ 160,00.
R$ 40, R$ 60,00 pra cada homem.
Não paga nem a noite perdida, dormindo sentado, sujeito a chuva», diz Eulirio.
Para quem tem peixaria junto à colônia, no caso da colônia de Itapuã, a situação é benéfica.
Sábado de manhã, muitos pescadores voltam do mar.
A o som de cortes de faca, música baiana e gritos de compradores, as notícias velhas e propagandas políticas são usadas para enrolar o peixe.
Depois da jornada em alto mar, o peixe conseguido é pesado, vendido, despesas paga e chega a hora de ratear o lucro.
Diferente da extensão da colônia de Itapuã ou da colônia Z1 que precisa vender os poucos peixes conseguidos, sabendo que os peixeiros lucraram mais.
Porém conscientes de que estes também têm suas despesas:
«Mas é isso mesmo.
Porque eles têm prejuízo, tem que comprar gelo, material de limpeza», diz um dos diretores do núcleo das Mariquitas, José Silva.
A divisão nos peixes em Piatã é bem diferente.
Gritos e vozes ecoam na busca por o peixe.
O remador, calandeiro e puxador, a depender da posição hierárquica obtém uma porcentagem diferente do lucro.
A colônia de peso apesar de ter a peixaria junto à colônia, aluga o espaço para que a colônia sobreviva:
«Vem caindo, levantando ...
caindo, levantando, mas vem se erguendo», diz Eulirio.
Caiu na rede, é peixe?
Nem sempre.
A poluição das águas tem causado o afastamento e morte de muitos peixes, prejudicando a renda do pescador.
A sujeira encontrou seu lugar na rede e indignação é geral " O pessoal que mergulha, puxa a linha, vê a isca toda amarela, rede escorregadia, uma altura enorme só de pó.
Peixe nenhum come uma isca desta, desabafa Nilson.
As reclamações são baseadas na fábrica perto da colônia, lixo jogado por os moradores e por as plataformas:
«Mês passado eu estava passando por aqui e vi duas toneladas de peixes boiando por causa do gás liberado na retirada do petróleo.
Mas ninguém diz nada, abafam.
Isso não sai no jornal, mas a verdade é essa», diz Eulirio.
Sem apoio ou solução ...
mais difícil do que achar agulha no palheiro, só resta ao pescador se aventurar.
Para quem tem barcos motorizados o jeito é adentrar na imensidão do mar.
Para os que não têm ou mudam de profissão lutam por uma solução.
O barco nomeado «Vou e volto com Deus» encostado na areia da praia do Rio Vermelho vai ficar com Deus por mais tempo, até que o milagre da multiplicação de peixes aconteça.
Ou até que a conscientização em relação à poluição, ajuda do governo e a modernização alcance de uma vez por todas as colônias sem exclusão.
Milagres acontecem, mas é preciso que o homem faça sua parte.
O pescador e seus amores
Deixar a família, filhos e esposas na terra para navegar livres de paredes, presos apenas por o mar que os cercam, parece ser uma vida solitária.
Mas a volta sempre compensa, ainda mais sabendo que existe mais de uma mulher esperando.
O pescador não se conforma com um amor, se entrega a várias paixões e acaba colocando a culpa no peixe, que não tem voz para se defender:
«uma mulher queria porque queria peixe.
Eu disse que não podia dar, que depois dava outra coisa (risos).
Com uma mulher eu tenho 12 filhos, em Pernambuco, dois, ao total são 28.
Mas no meu tempo é menos, meu pai tinha três mulheres», conta um pescador.
Seu amigo aproveita a situação para fazer uma piada " É por isso que morreu cedo, não agüentou.
A mulher pediu peixe, voltou com 12 filhos.
Nunca pessa peixe a pescador», me aconselha.
Festa de Iemanjá
Em 1923, 25 pescadores foram presentear a mãe d ´ água devido a escassez dos peixes em busca de melhoras na pesca.
A partir de então, todo ano, no dia 2 de fevereiro adeptos do candomblé, turistas e pescadores passaram a reverenciar Iemanjá com flores, jóias, batons e perfumes.
A festa acontece no Rio Vermelho tanto na terra quanto no mar, com músicas baianas e fogos de artifício animando e engarrafando as vias estreitas.
Filhinho de peixe, gafanhoto é Geração a geração, filhos de pescadores têm seguido o mesmo caminho.
Quando não se tornava pescador, seguia o rumo de peixeiro, mas sempre permanecendo na mesma linha.
Mas a história tomou outro rumo.
A profissão difícil, ainda mais para quem não se moderniza, tem causado sofrimento:
«Já tem 10 anos que não tem um filho de pescador que queira ser o que o pai é.
Porque eles enxergam o sofrimento.
Ou vão procurar outra vida ou não fazem nada.
Porque sabem que se vir para aqui vai ser pior», diz Eulirio.
História de pescador
«Eu vou te contar uma que você não vai acreditar», assim começam todos os pescadores antes de contar algo que só eles acreditam.
Como o ditado diz, é tudo história de pescador.
Verdade ou não, foi divertido escutar todas elas.
«Meu cachorro vinha trazer comida para mim na beira do mar.
Eu amarrava um prato na cabeça de ele e ele trazia.
Acredite se quiser», diz o pescador Paulo Roberto, 30 anos «Eu já estava sem isca alguma, quando peguei o peixe boi de mais de 22 kg», conta outro.
As histórias seguem recheadas de criatividade:
«Profissão difícil.
Já teve momentos de alegria, mas hoje em dia quase tudo é tristeza», desabafa Eulirio.
As colônias e extensões
Colônia Z1 (Rio Vermelho) -- A primeira organização da colônia foi fundada em 1923.
Reconstruído em 1972 por a prefeitura municipal.
Poucos barcos motorizados, falta de dinheiro para reestruturação, também têm sidos prejudicados com a poluição no mar.
Mariquita união dos pescadores filiada Z1 (Rio Vermelho) -- O núcleo foi fundado por seis amigos.
«Quando desmancharam o mercado velho, não tinha como guardar o aviamento, tínhamos que guardar em casa.
Apareceu um amigo nosso, hoje falecido com as piaçabas e madeiras.
Compramos a madeira na mão de ele e ele deu as piaçabas e fundamos a associação», diz um dos diretores do núcleo, José Silva.
Em o dia 28 de janeiro a colônia faz 20 anos.
Sem fins lucrativos, ou ajuda de prefeitura «vão tocando a vida», construindo e reformando seus próprios materiais.
Têm barcos a vela, alguns motorizados e pretendem construir três peixarias no local, tendo mais lucro.
Colônia de pescadores COOPY Z6 (Itapuã) -- Colônia com mais de dois séculos e muita história pra contar.
«Depois dos índios, nós, pescadores, fomos o primeiro a pisar nesta terra», diz o presidente da colônia Pai Velho.
Uma associação com cerca de 3800 integrantes, mas apenas 780 pescadores profissionais.
Os outros são contribuintes e amadores.
Barcos motorizados, pescaria conjunta e financiamento do governo.
«Deus nos deu esta casinha, antes era de palha, agora está bem melhor», diz o pescador Paulo Roberto, 30 anos.
Extensão da colônia de Itapuã -- Canoas, pesca rápida.
A maioria pesca para o próprio consumo.
O peixe conseguido é vendido ao peixeiro, depois rateado entre puxadores, remadores, calangueiros e donos dos barcos.
Número de frases: 128
www.soteropolitanos.com.br Eu tinha 20 anos de idade quando entrei pela primeira vez num Sesc (Serviço Social do Comércio).
Tinha acabado de chegar a Bauru para fazer faculdade de jornalismo na Unesp.
Morava até então em Cotia, cidade que se confunde com a própria periferia de São Paulo.
Estava saindo da aula, lá por as 22h, e encontrei um grupos de amigos recém-conhecidos dizendo que Zé Celso Martinez faria um ensaio aberto de Hamlet.
Eu, que praticamente era um paulistano e vivi tanto tempo na maior capital da América Latina, nunca tinha visto Zé Celso de perto.
Ouvia falar, mas não sabia exatamente o que ele fazia, quem era.
O público ficou durante quase seis horas acompanhando o ensaio.
Aquela experiência foi para mim uma das mais esclarecedoras (e estarrecedoras) do que era acesso à cultura e à informação e do quanto o lugar onde você está não é o que importa, mas sim como você lida com ele.
Foi ali que percebi o quanto estar na Capital ou no Interior não fazia tanta diferença para a formação cultural, mas sim as condições em que você está nesse ou naquele lugar.
Afinal, como um jovem de 20 anos saído da capital de São Paulo, que oferece «tantas opções e vantagens», poderia imaginar que precisaria viajar quase quatrocentos quilômetros Estado adentro para conhecer o teatro de Zé Celso, que ironicamente quase sempre se deu na Capital?
Um motivo foi crucial:
a apresentação, que em São Paulo custaria um preço nada leve, em Bauru era de graça!
Eis aí uma descoberta tardia (mas em tempo):
o acesso à cultura e às artes proporcionado por o Sesc São Paulo.
Apesar das diversas unidades existentes também na Capital, até hoje, meus amigos que viveram a vida toda em São Paulo não se tornaram freqüentadores assíduos como eu e meus amigos que moram no Interior (ou viveram no Interior e hoje moram em São Paulo).
A explicação para isso, ao meu ver, é simples.
A oferta caótica de opções culturais na Capital, ainda que não tão ace$$íveis, muitas vezes acaba ofuscando a programação tão rica e mais ace$$ível do Sesc.
Já no Interior, o Sesc é, para quem gosta de arte e cultura, a salvação da lavoura, o que nos torna associados quase dependentes da entidade.
A falta de teatros, cinemas, casas de espetáculos na maioria das cidades de pequeno e médio porte é freqüentemente suprida por eventos no Sesc, nas cidades onde está instalado.
E não se trata de salvação apenas para o público, na condição de assistente passivo.
O Sesc promove cursos, seminários, oficinas e workshops das mais diversas áreas do conhecimento a preços baixos, sempre abertos à comunidade.
Artistas e produtores locais também têm espaço garantido para mostrar seu trabalho.
Foi assim que conheci artistas e grupos das mais diferentes áreas, como Antunes Filho, Hermeto Pascoal, Tom Zé, Quasar, Sganzerla, Nação Zumbi, Antônio Nóbrega e muitos outros.
Sempre, sempre, a preços populares.
Participei de seminários internacionais, fui parceiro em eventos e toquei em várias unidades / cidades (Bauru, Taubaté, São Carlos, Araraquara, São José do Rio Preto, Ribeirão Preto, Campinas e até São Paulo, entre outras), sempre recebendo tratamento de «artista» de primeira linha (apesar de estar bem longe disso), com minha banda Mercado de Peixe.
Por isso, ainda me espanto quando chego a outro Estado, pego os jornais e vejo (às vezes, nem vejo) uma programação bem mais discreta do Sesc.
Amigos na Bahia e Rio de Janeiro já me olharam com cara de dúvida quando perguntei:
«Não tem nada rolando no Sesc?».
Não sei se é assim em todos os Estados (mesmo porque não conheço todos).
Mas ter um Sesc atuante como o Sesc São Paulo, especialmente para quem mora no interior, é quase um privilégio.
A atuação do Sesc, aliás, muitas vezes supre a lacuna deixada por o poder público, que pouco tem feito por a cultura no interior paulista, o que levanta uma discussão mais profunda.
Mesmo assim, tomara que, cada vez mais, sua atuação cultural se amplie, inclusive para outras regiões do País.
Número de frases: 32
Nem que seja para continuar sendo a salvação da lavoura.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos." --
Manoel de Barros Loucura -- falta de discernimento;
irreflexão; absurdo, insensatez, doidice, louquice.
Do Aurélio.
Essa poderia ser uma história de uma menina trazida do Rio Grande do Norte, da pequena cidade de Canguaretama.
A os sete anos foi levada com o incentivo dos pais ao Rio de Janeiro.
A os 15, foi trazida de lá para a capital paulista.
Mas poderia ser, não se sabe se é.
Seu Paulo eu não sou maluca nem sensitiva.
Nada de paranormal.
O senhor com sua família me trouxe sim.
De o Rio de Janeiro quando eu tinha 15 anos todos éraram.
Meu pai errou mandando me buscar de Canguaretama cóntra minha vontade.
Vocês eraram me trazendo do Rio para São Paulo.
Por que? Não se rouba gente.
Nem nada.
Grita-se nos muros da Avenida Higienópolis, localizada no suntuoso bairro homônimo, palavras de uma tal Márcia ou Tereza que, todas as manhãs faz da escrita sua cachaça.
Estende-se nos portões de um clube luxuoso dezenas de folhas repletas de poesia.
Há quem conteste seu lirismo, há quem não acredite em ele.
Talvez por não entendermos ou por procurarmos lucidez em tudo que nos cerca, torcemos o nariz para os delírios reais dessa personagem urbana.
A primeira descrição física da chamada louca de Higienópolis poderia ser esta -- uma mulher loira que faz suas próprias roupas -- mas talvez isso lhe fosse insuficiente.
Existe algo de lúdico na construção de suas formas.
Olhos cansados, às vezes assustadores, em meio aos fios loiros de cabelo.
Ela abusa das fitas, de tecidos brilhosos e de um rádio que vive pendurado em seu pescoço emanando Bethovem, Mozart ou Strauss.
Poderia-se-pensar numa boneca espalhafatosa andando por as ruas.
Não. A organização dos elementos é de uma simplicidade quase doída.
Uma Macabéa paulistana cuja hora de estrela são seus textos afixados sistematicamente com galhos nas grades do tal clube.
Esclarecimento à população:
eu márcia aqui:
morando na rua saia verde camiseta verde blusa rosa loura.
A descrição subjetiva é impossível de se delinear.
Embora se comunique por o olhar, por a fala às vezes rude, seus manuscritos comporiam o que de mais importante ronda a história de vida dessa mulher.
Embora com a pontuação complicada, algumas palavras mal alocadas, há uma consciência de mundo que cerca as obras.
Nomes de instituições, governantes, mesmo usados de forma hostil, saltam do papel a todo instante.
tá pensando que eu sou sensitiva de gáris josé serra?
Vigaristas da prefeitura pé de chinêlos.
tá pensando que eu sou doida prefeito de são paulo?
Irão de arrepender eu juro!
Sou vingativa pagarão.
Odeio.
Outro fator curioso, agora quase mágico são nomes de seus possíveis amores, familiares, anfitriões e personagens desconhecidos.
A curiosidade maior é de quem a lê e pára para averiguar na internet a verdade detrás dos títulos.
Se a teoria de que só se existe se estiver na rede, encoraja desbravadores.
Digita-se um nome em sites de busca e lá está ele.
Homem, aprovado com a maior nota num concurso para a vaga de carcereiro em São Paulo.
A descoberta acaba por aqui.
Outro nome, mulher, empresária que promoveria um leilão de jóias em Sergipe.
Através de ela se chega à outra pessoa de mesmo sobrenome.
Nascida em 56, sem curso superior, é babá, artesã e mora no Jardim Paulista.
Um número de telefone aparece na tela.
Os curiosos perseguem as pistas como quem ronda ou descobre grandes fatos acerca de uma suposta grande história.
Durante a ligação e do outro lado da linha identificada por o endereço, uma voz feminina balbucia e afirma não haver ninguém com o nome exposto no currículo.
Balde de água fria.
O melhor seria não procurar lógica em algo que existe por si só.
Jamais colocaria um palito na minha boca jamais tirei comida dos meus dentes com á línguá, não sou porca.
Usava nos meus dentes fio dental.
Nunca pús minha línguá na minha bochécha nunca usei dentadura nunca tive tic, nervoso na boca.
Todas as manhãs, perseguimos os textos deixados por a escritora que faz da rua, sua mídia.
Provavelmente o faremos até que existam por lá.
Há dias em que somem, penso se não há mais algum fã, além de mim e dos que já conheço.
Encantados por uma história que poderia ser a da vida de alguém, caçamos densidade em algo leve e impalpável.
A existência.
Ela que desconstrói seres humanos, seus caminhos e trata de impor lógica aos mais sensíveis.
Número de frases: 64
Creio que talvez não amemos suficientemente à vida.
Será que alguém já notou que nossos sentimentos só são despertos atualmente através da morte?
E tem que ser morte brutal!
Morrer de fome já não causa mais espanto em ninguém.
É uma morte, digamos assim, sem apelo dramático.
Morrer de fome perdeu a graça.
Já é matéria requentada.
Não surte mais efeito sobre a voraz sede de notícias do público.
O público quer sangue.
Como já dizia Camus, " É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte.
E viva, pois, os enterros!».
O grande tópico agora são as mortes cinematográficas:
garotinhos esfolados vivos, arrastados por carros em alta velocidade;
meninas dilaceradas por as mãos do próprio pai, que tenta depois o suicídio e não consegue, enfim basta abrir o jornal na página policial e lá está o menu.
Já vi gente comentando a página policial como quem comenta jogo de futebol, ou filme policial americano.
Tem gente que só lê a página policial, de preferência aquela que escorre sangue quando espremida.
É como se houvesse uma necessidade de tragédia instalada.
E no meio de tudo isso, ressurge a velha discussão sobre pena de morte e diminuição da maioridade penal.
É preciso que apareçam culpados, que soluções sejam dadas, mesmo que sejam soluções ilusórias.
Será que a pena de morte já não existe?
Por acaso já não foram condenadas à morte as pessoas assassinadas brutalmente?
Ou os que estão vivendo em condições subumanas sobre fossas nas periferias?
Já não estão condenadas as crianças famintas, desnutridas, sem educação, sem uma perspectiva sequer?
Não quero ser mal interpretado.
Claro que devemos ser solidários à dor dos que tiveram seus parentes assassinados.
A perda de uma vida humana é algo irreparável.
Precisamos sim protestar e nos mobilizar para que isso acabe.
Mas não podemos fazer uma leitura unilateral do problema.
Em este exato minuto seis crianças estão morrendo de fome no mundo.
Será que só aprenderemos a ter respeito por a vida através da barbárie?
Por que é que não vejo manifestações nas ruas pedindo por os que morrem de fome?
O que é mais cruel morrer de fome, ou arrastado por um carro?
Número de frases: 32
O Ponto de " Cultura Nos Caminhos de São Paulo, ação do Grupo Urucungos de Campinas-SP é uma das 200 iniciativas avaliadas por o Prémio Escola Viva do Ministério da Cultura em 2007.
Inscrito inicialmente para o Prémio Cultura Viva, a iniciativa é uma ação da entidade para manter e divulgar o Samba de Bumbo Campineiros nas escolas e comunidades de baixa potencialização cultural.
Este samba antigo é uma manifestação típica do estado de São Paulo, com grande expressividade em Campinas, Bom Jesus de Pirapora, Santana do Parnaíba e Tietê.
Ele surgiu nas áreas rurais na metade do séc..
XIX por os afros-descendentes paulista e aos poucos migrou para as áreas urbanas, onde se tornou fonte de referências para outras modalidades musicais como:
a sertaneja de raiz e os sambas de quadras das agremiações carnavalescas de São Paulo.
Ao lado do Jongo de Guará e do Batuque de Umbigada de Tieté, o Samba de Bumbo e o Samba Lenço Rural Paulista compõem a trilogia de manifestações negras que teve a sua origem durante o regime escravocrata e o seu papel foi fundamental para a resistência e a continuidade dos valores comunitários dessa população na elaboração de conteúdos e da cosmovisão africana no Brasil.
O Urucungos foi fundado em 1988, na UNICAMP através de um curso de extensão ministrada por a Profª de cultura popular Raquel Trindade que o batizou de Urucungos (Berimbau), Puítas (Cuíca) e Quijêngues (Tambor), instrumentos musicais africano proveniente de Angola e muito difundido no Brasil.
O projeto «Nos Caminhos de São Paulo» foi elaborado para ser desenvolvido à partir do olhar e das experiências desse Ponto de Cultura sobre as manifestações afro-caipira paulista e suas ramificações urbanas para construir ações positivas na manutenção e construção da identidade brasileira nas áreas da cultura e cidadania.
Tem como missão:
«pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte» (Solano Trindade), para formar multiplicadores em ambientes de conhecimentos livres, solidariedade e fomento sócio-cultural.
O nome deste projeto faz referências a esse tipo de samba antigo, a Estrada Velha de Campinas e também a todos aqueles que moram do outro lado da Via Anhanguera, estrada essa que separa socialmente duas Campinas.
Este Ponto de Cultura é um canal direto entre a comunidade do Residencial Cosmos e seu entorno, na região do Campo Grande em Campinas e a sociedade organizada para facilitar ações entre parceiros e grupos potencializadores de oportunidades.
Funcionamento:
Música, Teatro, Dança, Cultura Digital e Meio Ambiente.
Onde?
Residencial Cosmos (vários lugares do bairro), Campinas-SP.
Contato:
Número de frases: 18
(19) 32417489 -- noscaminhosdesaopaulo@gmail.com
Para ver o samba passar, até o calor escaldante deu uma pequena trégua naquele 25 de agosto.
O dia lindo e a batucada ao fundo fizeram parecer que estávamos todos nas ruas do Rio de Janeiro.
Em o bairro mais tradicional de Tóquio, a alegria do carnaval brasileiro nunca parece deslocada, apesar do comedimento dos japoneses que assistem a tudo bem quietinhos, em contraste com a empolgação quase interativa da audiência do Sambódromo carioca.
Em a avenida, estão lá, mesmo que em pequena escala, o colorido das fantasias, os rodopios do mestre-sala e da porta-estandarte, as baianas, passistas em seus trajes mínimos e a tradicional batidinha no peito representando o amor por a escola.
Sim, a ginga dos dançarinos não é a mesma e, por vezes, o samba atravessa nas dificuldades de se cantar na língua de Cartola.
Porém, o sorriso no rosto daqueles que defendem a sua agremiação, nos carros ou no chão, não deixa nada a dever.
Ajustes de última hora e nervosismo também são parte do ritual.
Afinal, como nos carnavais carioca e paulistano, cada passo fora da harmonia pode custar pontos à escola.
De o lado de fora, o público se aperta nas calçadas.
É gente munida de câmeras e lentes poderosas para não perder nenhum detalhe da festa.
Brasileiros?
Também estão lá, mais na audiência do que na avenida.
Mesmo assim, a Nação Canarinho se vê bem representada por passistas nikkeis (descendentes de japoneses), belas mulatas e puxadores de gogó afiado.
De um dos mais tradicionais redutos do samba fluminense, o Neguinho da Beija-flor faz uma performance discreta, mas nem por isso menos emocionante, no desfile da escola de samba Liberdade.
É um momento de troca cultural entre Brasil e Japão que deveria ser estendido aos outros dias do ano.
O vermelho forte do Kaminarimon e das ruas de Asakusa criam a impressão de que não há fronteiras entre a cultura japonesa e o carnaval carioca.
Aliás, pensando bem, o que são os matsuris, tradicionais festivais japoneses, senão carnavais à moda local?
A resposta a esta pergunta pode ajudar a entender por que uma manifestação tão fortemente caracterizada como brasileira teve uma aceitação tão rápida entre os japoneses.
Em Asakusa, conclui-se que o samba pode até ser nosso, mas o carnaval é realmente universal.
Maior carnaval do mundo fora do território brasileiro, o Asakusa Samba Festival traz a cor e o suíngue do Brasil para o coração da capital japonesa
Em 27 anos, o maior do mundo fora do Brasil
A explicação para o Carnaval de Asakusa ter se tornado, em menos de 30 anos, o maior do mundo fora do território brasileiro é um mistério.
Foi no início dos anos 1980 que o administrador de Taito, um dos 23 distritos especiais que compõem a Região Metropolitana de Tóquio, decidiu revitalizar a área de Asakusa, considerada a mais descolada da cidade nas eras Meiji e Showa.
Foi lá onde brilharam os grandes atores do teatro tradicional japonês e das comédias.
O novato cinema chegou ao Japão, em 1903, também por aquelas bandas.
Com os braços abertos para tantas novidades, não foi à toa que o carnaval brasileiro encontrou espaço nas cercanias do Senso-ji, o templo mais famoso da capital japonesa.
«Tudo o que chegava de novo no Japão entrava por Asakusa», conta K. Umemiya, do Grêmio Recreativo Escola de Samba Nakamise Bárbaros.
Juntamente com Minoru Morohashi, vice-presidente da agremiação, ele relembra o início do carnaval de Asakusa.
«As pessoas não tinham mais interesse por a área», conta Morohashi.
«Então, um ator japonês que tinha feito uns filmes antigos, procurou os maioriais do distrito de Taito e fez a proposta de um carnaval brasileiro», prossegue ele.
Em o grupo de pioneiros, registra-se a presença de Toshiro Ono (pai da cantora Lisa Ono) que imigrou para o Brasil anos antes com o intuito de fazer negócios na área de espetáculos.
Ono, fundador da lendária Saci Pererê, a primeira casa de música brasileira de Tóquio, também foi o homem que levou os primeiros artistas brasileiros que se fixaram na Terra do Sol Nascente, de entre eles os percussionistas Francis Silva e Damião D' Souza.
Afinal, «por que samba?»,
pergunto a Morohashi.
«Não podia ser algo igual aos festivais que já existem no Japão», responde o vice-presidente da escola 17 vezes campeã.
«Para trazer as pessoas de volta, tinha que ser algo novo, diferente», completa ele.
E foi tudo tão novo que não havia quem pudesse fazê-lo.
«Eu não posso nem dizer se gostava de samba.
Eu, simplesmente, não conhecia samba.
Eu gostava de música brasileira, bossa nova.
Mas não sabia nada sobre samba», conta Morohashi às gargalhadas.
«Só me disseram o seguinte: '
monte aí grupo porque vamos fazer um carnaval brasileiro '.
E eu respondi: '
hai, wakarimashita ' (sim, entendido)», prossegue ele, divertindo-se com suas memórias.
Os primeiros carnavais
Em 1981, saiu oficialmente o primeiro Carnaval de Asakusa, para o qual um grupo do Brasil foi convidado e, claro, acabou levando vantagem sobre os carnavalescos de primeira-viagem e o prêmio de 1 milhão de ienes oferecido à época.
Os grupos japoneses eram pequenas agremiações, algumas com cinco pessoas, sem qualquer conhecimento sobre samba ou carnaval.
As «escolas» desfilavam no quarteirão ao redor do Senso-ji e, ao final, se apresentavam num palco armado na frente do Kaminarimon, o famoso portal do templo.
«Nós não recebemos nada, nem um certificado de nossa participação», lembra o veterano» Morohashi.
«Achávamos que nem iria haver outro carnaval», prossegue.
No entanto, o grupo montado por ele e por Takahashi, o atual presidente da escola, foi convidado para sair no ano seguinte e conquistou seu primeiro campeonato.
«Em o segundo ano, não teve brasileiros», lembra ele aos risos, «assim, a competição ficou mais equilibrada».
A escola reuniu um grupo de mais de 100 pessoas em cada um dos dois primeiros desfiles e até hoje é a mais popular do carnaval de Asakusa.
«Havia pessoas que montava grupos com cinco ou dez para que cada um ganhasse uma boa fatia do prêmio», relembra Morohashi.
«Nós não nos preocupávamos com isso, nós queríamos por gente na rua», conclui ele.
Em o ano seguinte, a Bárbaros -- ou melhor, a Enko, seu nome original -- venceu novamente e ganhou como prêmio algumas passagens para os integrantes conhecerem o carnaval carioca.
Aliás, a primeira denominação da agremiação é uma história a parte.
Enko, no melhor estilo da boemia da Lapa carioca, era como as pessoas se referiam aos malandros de Asakusa nas eras Meiji e Showa.
A palavra é a inversão das sílabas de «koen» (parque).
«Em aquela época, os caras não muito legais andavam vadiando por os parques e as pessoas do local se referiam a eles como ' enko '.
Era uma gíria bem local, que só as pessoas de Asakusa conheciam», rememora o vice-presidente da Bárbaros que mudou de nome por causa do " presidente Takahashi.
«Ele não gostava.
Vimos a palavra «bárbaros» na contra-capa de um LP de samba, pesquisamos o significado e adotamos», completa ele.
A forma atual e os bambas japoneses
Em os anos seguintes, o número de grupos foi diminuindo, mas o de participantes aumentou.
O sucesso dos primeiros carnavais acabou consolidando o evento de Asakusa que, atualmente, conta com 20 escolas oficiais divididas em dois grupos.
A quantidade de foliões chega a mais de 4000 e a platéia que se aperta nas calçadinhas do bairro é estimada em 500 mil pessoas por a organização do evento.
O amadorismo, também, ficou para trás.
Se, no começo, os carnavalescos nada entendiam do riscado, o evento de Asakusa ajudou a reunir aqueles que se dedicavam a ouvir e a cultuar o samba, um dos ritmos genuinamente brasileiros.
Isso abriu porta para a formação de mais grupos e rodas de samba e incentivou que os interessados em carnaval procurassem intercâmbios com os bambas do Brasil.
Em as reuniões das agremiações, não é difícil escutar gente falando um português diferente e cavaquinhos, cuícas e pandeiros tocados por músicos que estão à altura de seus colegas brasileiros.
Aplicados, os ritmistas japoneses praticam várias horas por dia e, muitos de eles, já atravessaram o planeta para aprender com os mestres.
O samba entre na história de vida dos japoneses das formas mais diversas.
K. Umemiya, membro da bateria da Bárbaros, queria se tornar percussionista profissional porque se apaixonou por a música cubana.
Porém, quando procurava informações sobre o assunto, ele acabou sendo apresentado a um dos ritmistas da Bárbaros e seus planos foram alterados.
«Comecei a aprender a percussão brasileira e não parei mais», conta ele.
Já Masão, violonista e cavaquinista, puxador auxiliar da mesma escola, conheceu o samba através de uma amigo da escola que foi treinar futebol no Brasil.
«Ele trouxe vários CDs de axé da Bahia e eu gostei dos vocais.
Muita gente cantando», conta ele atropelando no português.
Depois disso, Masão foi para os Estados Unidos onde viveu por cerca de 4 anos e, de lá, partiu para uma viagem de 1 mês por o Brasil, onde conheceu melhor os ritmos locais.
Poucos anos depois, o rapaz foi novamente para a América do Sul e, num período de seis meses cruzou o Peru, a Bolívia e entrou no Brasil por o Pantanal, indo em seguida para o Rio, São Paulo e Bahia onde procurou escolas e grupos de samba onde pudesse aprender o português e o jeito brasileiro de tocar.
«Me apaixonei por uma brasileira», conta ele.
«Eu queria falar», prossegue mesclando a língua materna e a de Noel Rosa.
De volta ao Japão, ele acabou conhecendo o Alvorada, um dos muitos locais onde se toca música brasileira em Tóquio e passou a conhecer outros músicos interessados em samba.
A disputa é acirrada no carnaval de Asakusa.
Apesar de ter levado o galardão em mais da metade dos desfiles ocorridos e ser a escola que mais se aproxima da forma do carnaval do Rio de Janeiro, a Bárbaros tem concorrentes de peso.
É a escola que leva mais componentes para a avenida e a mais popular, uma espécie de Portela de Tóquio, com suas cores azul e branco.
Sua maior rival é a vermelho-e-branca União dos Amadores que levou o caneco neste ano de 2007.
A escola é formada por estudantes de música latina de várias universidades da região.
É gente que leva a música a sério e investe pesado em formação.
«Eles estão sempre no Brasil», conta o mestre de capoeira Paulo Axé, que defendeu a camisa da Liberdade, escola que ficou em terceiro lugar este ano.
«Toda vez que eu vou ao Rio de Janeiro encontro um ou dois de eles na bateria de uma escola», prossegue.
A escolha da campeã ocorre como nos desfiles de Rio e São Paulo.
Jurados atribuem pontos às escolas nos quesitos tema (enredo), performance musical, conjunto, empolgação da escola (evolução), fantasia e dança.
São distribuídos cerca de 3 milhões de ienes em prêmios.
Há, ainda, louros extra-oficiais oferecidos por os patrocinadores e uma votação aberta ao público que escolhe a melhor agremiação de cada grupo através do telefone celular.
Cabe às escolas a escolha do tema.
O samba-enredo também é inédito e não há regra que obrigue que este seja cantado em português ou em japonês.
As escolas maiores saem com comissão de frente, carro abre-alas, dois casais de mestre-sala e porta-bandeira, ala de baianas e, é claro, alas, bateria, naipe de cordas e puxadores.
As escolas têm até rainha da bateria e a paradinha funk, que casou sensação há alguns anos no carnaval carioca, já apareceu por aqui, ainda que de forma discreta.
Tem brasileiro no samba japonês?
Com tantos japoneses bambas, há espaço para os brasileiros no Carnaval de Asakusa?
A resposta é sim.
Os brasileiros, aliás, são muito bem-vindo e há muitos envolvidos nas escolas locais como a famosa Tia Isabel do Acarajé, um dos mais famosos restaurantes brasileiros de Tóquio.
Era ela, que foi uma das primeiras mulatas a fixar residência no Japão como dançarina de samba há cerca de 30 anos, quem cuidava da harmonia na preparação do Grêmio Recreativo Escola de Samba Alegria, que alcançou o quarto lugar na votação do grupo S1, o mais importante, além do prêmio do público que votou por o telefone celular.
O já citado Damião D' Souza é o fundador da Império do Samba e Francis Silva foi o primeiro brasileiro a criar uma escola de samba no Japão, a Cruzeiro do Sul.
Além de brasileiros residentes na Terra do Sol Nascente, bambas do Rio de Janeiro e de outros estados também colaboram compondo sambas-enredo, enviando know-how, trocando experiências e fazendo pesquisas sobre o carnaval japonês.
Aliás, 2007 foi o ano em que uma das maiores estrelas do carnaval carioca passou por o Carnaval de Asakusa.
Neguinho da Beija-flor, cantor e puxador da campeã do Grupo Especial do Rio de Janeiro, foi coadjuvante em sua passagem por a G.R.E.S. Liberdade.
Se não soltou a voz na avenida, Neguinho esbanjou simpatia e, é claro, deixou sua marca registrada:
no começo do desfile, ecoou por os ares de Asakusa o esperadíssimo «olha a Liberdade aí, gente» que levou o público brasileiro que estava próximo ao delírio.
O Carnaval de Asakusa é tão globalizado que a rainha da bateria de uma das escolas não era nem brasileira nem japonesa.
A belíssima Tati, estreante na função, é peruana de Madre de Dios, departamento (estado) que fica na fronteira com o Brasil e foi selecionada num concurso entre as passistas da escola.
«Em a minha cidade, a cultura brasileira é muito forte», conta ela, «por isso eu gosto de samba», diz, com a simpatia exigida por o cargo que ocupa.
Sem fronteiras, o samba de Asakusa abre portas para a integração entre as muitas culturas que interagem no Japão pós-moderno.
A platéia
Se há um quesito no qual o Carnaval de Asakusa passa longe de seus correspondentes no Brasil é a atitude da platéia.
Enquanto a empolgação toma conta do sambódromo em cidades como Rio e São Paulo, a posição da platéia japonesa é quase sempre passiva.
O espetáculo é gratuito e as pessoas chegam cedo para garantir um espaço no meio-fio.
Os primeiros a chegar são, em sua maioria, senhores desacompanhados munidos de câmeras e lentes possantes para registrar «detalhes» de uma das poucas situações públicas na qual a sensualidade da mulher está em primeiro plano na recatada sociedade nipônica.
Nos matsuri (festivais) japoneses, o masculino é quase sempre o destaque.
As mulheres são vistas em quimonos enquanto, em alguns de eles, os homens vestem o mawashi, onde pode-se muito mais do que uma mulher japonesa comum sonhou mostrar em público.
O restante do público é misto e famílias inteiras aparecem para assistir o festival.
O número de estrangeiros é grande provando que o Asakusa Carnaval é, também, uma fonte de renda para o distrito de Taito, atraindo os turistas que costumam visitar seu tradicional templo e suas ruazinhas estreitas cheias de izakayas (pubs no estilo japonês) e bares.
O comércio local lucra com suas banquinhas no estilo camelô, onde se pode comprar água e chá verde gelado para refrescar e comer o yakitori, espetinhos de frango ao estilo oriental.
Há também banquinhas de cozidos e a tradicional cerveja fica por conta dos konbini, corruptela em japonês para convenience store (loja de conveniência).
Porém, o envolvimento da platéia com o espetáculo é mínimo.
Essa é uma das queixas de Nao Yoshida, lingüista japonês que morou no Brasil durante alguns anos.
Para ele, é necessário que as população se envolva mais para que o carnaval de Asakusa se torne um evento popular.
«O desfile acabou e as pessoas foram embora.
Ninguém se importa com o resultado», reclama ele em frente do local onde os V.I.P.s assistiam o anúncio dos premiados.
«Seria importante que se distribuíssem panfletos explicando melhor sobre o evento, as letras da músicas e se criassem mais formas do público participar da festa», sugere ele.
Den, ritmista do Balança Mais Não Cai, um dos mais conceituados conjuntos japoneses de samba, faz coro com Yoshida.
«É preciso saber se o Brasil é apenas moda no Japão», questiona ele.
«Samba está na moda, falar português está na moda, mas não é isso que faz uma cultura do samba», completa.
Ele, aliás, tem uma série de questões que levam à reflexão sobre o futuro do Carnaval de Asakusa.
Tendências futuras
Para um carioca-da-gema no carnaval japonês, a derrota da Bárbaros no desfile realizado no último dia 25 é bastante estranha.
Isso porque, na avenida, a escola foi a que mais se aproximou daquilo que se convenciona como «desfile perfeito».
A bateria estava afiada, as puxadoras japonesas -- sim, as mulheres têm esse espaço no carnaval japonês -- levaram o samba no gogó e os componentes, se não apresentaram a mesma ginga brasileira, também não fizeram feio cantando, na medida do possível, a letra em português.
Fantasias, alegorias e o desenvolvimento do tema eram visivelmente superiores aos apresentados por as concorrentes.
Portanto, por que a vitória não veio?
Den, que seria um dos jurados da disputa, pode dar uma pista.
«O Carnaval de Asakusa cresceu, o nível está mais equilibrado, mas é preciso achar um jeito japonês de fazer carnaval», opina ele.
«Cadê a criatividade japonesa?
Não devemos perder as raízes, mas não podemos mais ficar copiando o carnaval do Rio de Janeiro», sentencia.
De fato, uma busca por um carnaval mais japonês foi o que, timidamente, apresentou a campeã União dos Amadores.
Suas baianas não imitavam o rodopiar das brasileiras.
Elas bailavam como gueixas japonesas na avenida.
O mesmo se podia ver em outras alas da escola e nas fantasias onde o comedimento imperava no lugar do luxo da arqui-rival.
A sexta colocada Unidos do Urbana trouxe um carro alegórico semelhante aos utilizados nos festivais Neputa -- que ocorre durante o mês de agosto na cidade de Hirosaki -- e Nebuta -- que acontece em Aomori -- cidades do norte do Japão.
Ambos são desfiles como o das escolas de samba e já estão servindo como inspiração genuinamente japonesa para o Carnaval de Asakusa.
O samba-enredo também é ponto de discussão.
A língua é apontada por alguns carnavalescos como fundamental para o entendimento do enredo por o público japonês.
Minoru Morohashi discorda.
A sua Bárbaros segue firme na opção por o samba em português e na escolha de temas gerais, que não sejam ligados apenas ao universo japonês.
O sambista Den, por sua vez, acha a mistura o ideal, com o samba sendo cantado parte na língua de Cartola e parte na de Tanizaki.
Como se vê, mesmo que longe dos olhos do público, o momento do criativo do Carnaval de Asakusa é de ebulição e de revisão de conceitos.
É difícil para um estrangeiro com tão pouco tempo de Japão saber se o evento conseguiu atingir seu objetivo inicial de atrair os olhos da cidade para a então combalida Asakusa dos anos 80.
Todavia, é inegável que o desfile consolidou a cultura do samba no Japão e abriu um portal de intercâmbio inter-cultural entre este e o Brasil jamais imaginado quando a primeira leva de japoneses aportou no território brasileiro em 1908.
Nem mesmo os 20 anos de fluxo dekassegui não conseguiu criar um movimento cultural brasileiro de tanta influência.
Pelo contrário, pode-se dizer que o caminho aberto por o Carnaval de Asakusa para o samba no Japão ajudou muitos nikkeis brasileiros a encontrar raízes do seu país natal, mesmo estando na terra dos seus ancestrais.
Ligeiramente corrigido do publicado originalmente em Alternativa.
Links
Matéria sobre o Carnaval de Asakusa 2006 publicada por Ricardo Yamamoto.
Clipe do desfile da 3a.
colocada de 2007, Liberdade.
Clipe do desfile da vice-campe ã de 2007, Bárbaros.
Clipe do desfile da campeã de 2007, União dos Amadores.
Número de frases: 171
Performance do sambista japonês Den no bota-fora do carnaval de 2006, o momento em que as ruelas boêmias de Asakusa viram a Lapa.
O trabalho de Elisa Queiroz caracteriza-se, há mais de uma década, por levantar discussões, de forma bastante intensa e coesa, em torno de uma não-identifica ção da artista com os padrões estéticos da cultura de consumo contemporânea.
Em suas obras predominam imagens do corpo obeso (principalmente o feminino), cujas fartas adiposidades assumem um subversivo significado de sensualidade, contrariando a hegemonia das formas esguias, alongadas e siliconadas, tidas como padrão único de beleza.
Essa investigação acerca de uma «adiposidade sedutora» começou em meados dos anos 90, quando Elisa, na época estudante de Artes Plásticas na Ufes, percebeu que a presença de formas arredondadas e amplas nos trabalhos artísticos produzidos durante sua pesquisa de iniciação científica eram na verdade uma tradução das formas presentes em seu próprio corpo.
Ela passou, então, a pesquisar, dentro da história da arte, representações de beleza feminina que fugissem aos padrões estéticos do século XX, como as gordinhas da pintura barroca e os seios, nádegas, barrigas e vulvas exuberantes das esculturas paleolíticas (como as Vênus de Tan-Tan, de Berekhat Ram e, principalmente, a de Willendorf).
A partir daí, Elisa encontrou um fértil terreno para aplicar sua experiência e seu universo pessoais em sua produção artística.
Em 1997, uma exposição dividida com Lecko Magri, no Centro Cultural Palácio do Café (Vitória-ES), apresentava objetos acolchoados que lembravam gigantescos seios e nádegas.
Objeto obeso, individual realizada no Espaço Universitário (também situado em Vitória) em 1998, ampliava esse discurso então nascente, ao costurar ampliações fotográficas de partes do corpo da artista (transferidas para tecidos) em almofadas e biscoitos doces, contando ainda com intervenções de miniaturas plásticas de cavalos trotando ao redor de um mamilo, por exemplo.
O texto do catálogo da exposição, assinado por a artista, traduz essa profusão de planos detalhes de protuberâncias e reentrâncias:
«Construo peças para discutir minha identidade e meu poder de sedução, usando a ludicidade para reler a percepção do desencaixe que minha corpulência sugere à sociedade contemporânea ocidental, recondicionando o olhar do espectador."
Em 1999, Elisa participa da coletiva Sedução, realizada no Espaço Universitário, com curadoria de Neusa Mendes.
A instalação Namoradeira consistia num par de cadeiras de madeira, anatomicamente esculpidos a partir das formas obesas masculina (nádegas, genitais) e feminina (inclusive com um apoio para seios fartos) dispostas sobre um tapete rendado arredondado, repleto de estampas de botões de rosas vermelhas de onde, vez por outra, surgiam imagens eróticas capturadas de páginas da internet.
Há ainda um pequeno banco de madeira, sobre o qual repousa um pote com dezenas de balas de canela.
Namoradeira percorreria o Brasil, nos anos seguintes, com a seleção da artista no mapeamento realizado em 2001 por o Itaú Cultural, dentro do projeto Rumos:
Artes Visuais.
Essa obra já demonstrava uma clara intenção de Elisa em aliar a sensualidade ao paladar, no que a crítica de arte Kátia Canton classificaria como uma «equação de encantamento e erotização».
Ainda segundo Kátia:
«A artista conjuga desejo e necessidade de abrigo.
Constrói uma sala onde formas, cores e sabores prometem aconchego e gozo eterno».
Essa predileção por as formas amplas ainda seria explorada de maneira bastante surpreendente em trabalhos como Odor de Femina (apresentado na coletiva 5031, também no Espaço Universitário, em 2002), no qual calcinhas e soutiens vestem manequins obesos, dispostos numa arara, recortados em couro de vaca (com direito ao quase nauseante odor característico, parte essencial da obra), ou na instalação Wonderbra, apresentada na individual realizada na Galeria Homero Massena (Vitória, 2003).
Em essa ocasião, todo o teto do espaço expositivo foi revestido por uma grande rede de 74 soutiens interligados, com 148 bolas de futebol ocupando o lugar dos seios.
Em uma sala anexa, um televisor, revestido com pelúcia imitando estampas de vaca, exibia um vídeo, em que um grupo de homens (alguns obesos, outros magérrimos), vestidos com espartilhos e peças íntimas femininas, praticava um inusitado jogo de futebol, entremeado com imagens de animais aos quais são associados alguns estereótipos femininos (vaca, galinha, gata, cachorra, piranha) e por uma trilha de samba-rock setentista, enquanto busca-se o caminho certo para um gol perfeito.
De essa forma, Elisa explora uma explosiva conjugação de dois fatores predominantes no imaginário popular brasileiro:
mulher e futebol.
Uma outra série de trabalhos explora essa subversão de padrões através da associação entre paladar, adiposidade e sedução sugeridos anteriormente por as balas da Namoradeira:
trata-se de um conjunto de imagens em que as figuras de Elisa e de pessoas obesas ligadas a ela (amantes, ex-amantes, amigos) são utilizadas em releituras irônicas de obras clássicas da história da arte, devidamente fotografadas e transferidas para suportes comestíveis e, portanto, tão perecíveis quanto o corpo humano (por mais sedutor que ele seja).
Essa presença inexorável do tempo, contudo, é dissimulada tanto através do humor escrachado quanto de uma dimensão lúdica proposta ao espectador.
Sirva-se, instalação apresentada na coletiva Desiderata (Museu Ferroviário Vale do Rio Doce, Vila Velha, ES, 2002), vinha acompanhada das respectivas " instruções de uso ":
numa caixa de acrílico, encontramos um gigantesco mosaico formado por saquinhos de chá (perfumando levemente o ambiente), que juntos compõem a imagem de Elisa deitada numa cama, acompanhada de seu poodle de estimação e vestida com roupas sensuais, semi-transparentes, oferecendo-se em meio a uvas, numa espécie de banquete erótico.
Em esse convite à luxúria, cada espectador escolhe uma de entre várias chaves disponíveis, e tenta abrir a caixa.
Se acertar, tem como prêmio a oportunidade de sorver o saquinho de chá de sua escolha (completam a instalação xícaras e uma chaleira com água fervente).
Essa evocação de uma antropofagia sinestésica ainda seria desdobrada numa série de outras imagens protagonizadas por a artista, transpostas para superfícies comestíveis através de impressão em transfer ou em papel de arroz, sempre em gigantescos mosaicos formados por os alimentos, como em Álbum de retratos (2002, obra vencedora do I Salão de Arte de Vitória), em que uma variação da imagem de Sirva-se -- que, por sua vez, é uma releitura das figuras femininas de Jean Ingres -- é almofadada por os biscoitos recheados com maria-mole (os «colchões de mola» do universo gastronômico infantil).
Piquenique na relva com formigas (2004) mantém os biscoitos para apresentar uma releitura do Almoço na relva de Manet;
enquanto que Macarrão aos frutos do mar (2002, segundo lugar no IV Salão Capixaba do Mar) apresenta, sobre pedaços de massas para lasanha, uma debochada cena de uma sereia sendo resgatada por um pescador, enquanto Netuno surge do mar, enfurecido, na tentativa de reaver o objeto de seu desejo.
Ai, meu Deus, obra de 2002, novamente explora o lúdico:
parte-se aqui da fotografia de uma tatuagem feita por um ex-namorado no próprio púbis -- uma letra «E» (inicial do seu nome) inscrita no corpo como espécie de prova de amor (e que é reconstituída através de um mosaico de chicletes cujas embalagens são dispostas lado a lado).
Elisa propõe um novo jogo de erotismo e desejo, no qual o espectador deverá tatuar em si esse mesmo desenho, reproduzido na figurinha do chiclete, acompanhada das respectivas instruções de uso.
Essa conjugação de guloseimas e luxúria também está presente em Sexo Animal (2003), onde porquinhos de plástico em miniaturas e inocentes balas de goma, em forma de ursinhos e jacarés coloridos -- dispostos em grupos de dois, três ou mais espalhados numa série de escaninhos transparentes -- reconstituem diversas posições do milenar Kama Sutra.
Elisa também ironiza o culto à própria imagem, através de intervenções bem-humorado como a realizada na coletiva Plágio (Centro de Artes, Ufes, 2002), em que distribuiu faixas para os visitantes amarrarem em seus próprios corpos (especialmente na fronte), com os dizeres " Eu sou amigo de ela, e uma seta indicativa apontando para uma reprodução do rosto sorridente e gordinho da artista.
Outro suporte muito utilizado por Elisa Queiroz nos últimos anos tem sido o vídeo.
A releitura cômica de ícones cinematográficos da sedução feminina é explorada em Free Williams (2004, inspirado na atriz-nadadora Esther Williams) e n A novilha rebelde (2005).
Free Williams chegou a receber uma menção honrosa no XI Vitória Cine Vídeo.
Já Comelância (2005) é uma vídeo-instala ção:
através de um orifício em forma de coração, existente numa melancia, vemos seu interior -- na verdade, um pequeno monitor de vídeo que exibe imagens da artista devorando toda a polpa da fruta, até restar somente a casca.
E é nessa mescla saborosa entre gula e luxúria que Elisa continua seu instigante percurso.
É como ela já dizia, em 1998, no texto de Objeto obeso:
«Excedo em tudo».
Número de frases: 47
Olhando na foto, será que você consegue dizer de que lugar é?
Se é do Rio, de SP, de Salvador, Pernambuco? ...
ou se é da Jamaica, ou de qualquer outro pais da África?
Difícil não é?!
Muitas vezes eu penso no porque da música americana ser tão ruim hoje, o rap estilo «bling bling» [essa era nova para mim até poucos dias], com alguns caras criados no gueto fazendo música que vale no máximo 50 centavos, e se bobear ainda tem que voltar o troco de tão ruim, desfilando de Mercedes e Ferraris nos clips, só curtindo em boates de boy com varias vadias, bom, nada contra ou a favor das vadias, que elas um dia pensem em mudar de vida, senão vão para o fogo mesmo, e nada contra o dinheiro, quando nascemos ele já tinha sido inventado e implantado há tempos, eu sou contra essa ostentação idiota de grana, que na verdade frustra muito quem está no gueto, algumas vezes leva a um pensamento de «por que esse cara tem, e eu não?!» ...
Bob disse uma frase muito real:
«enquanto a filosofia de uma pessoa ser superior a outra não for dizimada, haverá a guera."
Onde eu quero chegar é, será que ainda tem músicos que fazem uma música de protesto hoje em dia?.
eu ainda tenho meus plays das antigas guardados, alguns novos, mas ...
ainda prefiro algumas coisas das antigas, que eu já postei aqui, Poor Righteous Teachers, com um discurso político e extremo, gosto de Sizzla, mas não tudo, às vezes ele fala umas paradas, que eu penso que nem ele mesmo vive o que ele fala, Capleton eu já gosto mais, praticamente todas as letras, um pouco mais centrado, Anthony B é o melhor dessa trindade, letras inteligentes, equilibradas, sabe a hora de falar de festa, a hora de tacar o fogo mesmo, música de gente grande, mas nenhum desses é um africano de verdade, nascido na África.
Um dos primeiros discos de reggae que eu comprei foi de um cara chamado Mutabaruka, dessa geração dos Bobo Shantis, se você ouvir Mutabaruka e prestar atenção, tentar entender as letras, esse é o cara, poeta, músico, depois de ele você com certeza, vai chegar a Linton Kwesi Johnson, o «Professor», que também é um dos melhores poetas do reggae.
Agora também tem o 2 ban, que gravamos com ele enviando músicas daqui de o Brasil para a Londres, o que mais me chamou atenção no 2 ban não foi à musicalidade de ele, foram as letras, que são históricas, sem mentiras, sem ladainha, " serious music ...
no jokeh sounds» ...
eu particularmente prefiro assim.
Se for pra fazer «bling bling» e tocar só para os playbwoys eu prefiro ficar curtindo um som na minha casa, chamar um irmão, mostrar os discos das antigas que não tocamos mais nas festas, contar as histórias dos bailes de quando era moleque, muito mais prazeroso.
Espero um dia poder apresentar um disco de dub pra um cara aqui do gueto, da Serra da Cantareira e ele preferir ouvir Jah Shaka do que o 50 Cents ...
quem sabe um dia não entendam um pouco mais, compreendam um pouco mais, e quem sabe um dia não possamos evoluir um pouco mais rápido também e voltar a ter o controle da música que saiu do gueto, mesmo sendo de Kingston 12, de Londres, de NY, ou da CDD ou do Capão.
gueto é gueto em qualquer lugar, música do gueto, não é música de estante de playbwoy.
Falei!!!!!!!!!
RAS
Aqui você lê uma entrevista com RAS Wellington no Reggaemovimento, falando sobre um monte de coisas:
Número de frases: 21
http://www.reggaemovimento.com/identidade.htm Programação especial da TV Educativa Regional de Mato Grosso do Sul homenageia o poeta Manoel de Barros.
A o completar noventa anos, neste mês de dezembro, o mais premiado dos autores nacionais, o cuiabano, pantaneiro e campo-grandense, Manoel de Barros, terá pelo menos sete programas exibidos no especial de férias da TVE Regional de Mato Grosso do Sul, que neste ano leva o nome de «Fora do Eixo».
Serão mais de oito horas no horário nobre da grade da TVE Regional, incluindo dois programas com entrevistas exclusivas e inéditas, pois arredio como ninguém, o poeta não gosta de dar entrevista e muito menos de aparecer em televisão.
A exceção foi feita aos jornalistas Bosco Martins e Douglas Diegues e resultou no programa Mídia Total Especial e O Outro Lado de La Fronteira, também especial.
Somadas as duas horas de entrevistas que são exibidas com o poeta, estão outras oito horas de programas, que compõem o restante da homenagem, como Poesia Total I e II, o reprise de dois documentários sobre sua obra, Caramujo Flor, de Joel Pizzini, e O Poeta é Ente Que Lambe As Palavras, de Arlindo Fernandes, além de um especial sobre o Pantanal, cujo fio condutor narrativo, são os versos do poeta Manoel de Barros.
Desta forma, aqueles que preferirem passar o Natal e o Ano Novo com seus familiares diante da televisão, terão sua ceia recheada, não só dos sabores natalinos, mas de muita poesia.
Segundo o diretor-presidente, Bosco Martins, a programação «Fora do Eixo», praticamente encerra o ciclo de produção única fora do eixo central do Brasil, graças a tenacidade dos produtores regionais, parceiros e ao heroísmo dos funcionários das emissoras públicas.
«A produção da TV brasileira está centrada no eixo Rio-São Paulo, ficando de fora importantes manifestações artísticas e culturais.
Quais os prejuízos causados por este tipo de concentração?
Em o Brasil vivem 180 milhões de pessoas com as mais variadas origens e sotaques e que cultivam suas tradições presentes na história, na culinária, na dança, no artesanato e na religiosidade.
Somos um povo multicultural, com diferentes culturas e a TV pública tem que refletir isso», finalizou Martins.
Por isso, além de um material considerável e único em relação à homenagem ao poeta Manoel de Barros, a TVE Regional jogará outras quinze horas de produção local na programação especial deste final de ano.
Acompanhe o que irá ao ar na TVE Regional e que poderá ser visto por todo Brasil, através do site www.tveregional.com.br de dezembro a janeiro em três horários.
Homenagem ao Poeta
Poesia Total I e II -- dois programas com atores do grupo teatral Cia. da Terra e convidados, sobre a poesia de Manoel de Barros, Douglas Diegues, Raquel Naveira, Bosco Martins, Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, José Régio, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes e autores incidentais.
Um momento especial para aqueles que apreciam poesia e literatura.
Produção TVE Regional e Cia. da Terra.
-- Arredio e avesso a entrevistas, Manoel de Barros conversa com os jornalistas Bosco Martins e Douglas Diegues, com exclusividade para TVE Regional.
O poeta rememora a infância, sua mocidade no Rio de Janeiro, a vanguarda primitiva e fala do seu próximo livro «Memórias da Terceira Infância», entre outros assuntos.
Produção e edição TVE Regional.
Caramujo
Flor -- um poema visual exibido pela primeira vez por a TVE Regional em 1989, quando transformada em geradora.
O filme traz o itinerário da poesia de Manoel de Barros através de uma colagem de fragmentos sonoros e visuais.
Em o elenco, Ney Matogrosso, Rubens Correa, Aracy Balabanian, Almir Sater e Tetê Espíndola.
Produção de 1988, direção de Joel Pizzini.
Fora do Eixo / Entrevista Manoel De Barros -- especial, produzido por a TVE Regional, traz uma entrevista exclusiva com o poeta.
Mostra ainda Manoel de Barros declamando um de seus poemas, numa produção do jornalista Luiz Taques.
Tem também poema inédito, «Um Songo» feito para a revista Caros Amigos em matéria de Bosco Martins.
-- vencedor da primeira edição do DocTV.
O documentário gravado nas cidades de Corumbá, Campo Grande e Rio de Janeiro, traça a trajetória da vida e obra do poeta Manoel de Barros num exercício compartilhado entre o documentarista e o próprio poeta.
Roteiro e direção de Arlindo Fernandez.
Pantanal --
Um Olhar Sobre O Patrimônio Natural da Humanidade -- são 5 episódios que abordam temas que vão desde a formação geológica até o desenvolvimento sustentável da maior planície alagada do planeta.
Os vídeos têm como fio condutor narrativo versos do poeta Manoel de Barros.
Realização VBC, com produção da jornalista Eliane Nobre e direção de Pepe Favieri.
Documentários
Folia DOS Malaquias / O Divino NA Pontinha De o Cocho -- a Festa do Divino, realizada por a Família Malaquias no município de Camapuã e Figueirão, completa 100 anos em 2008 e é uma das mais tradicionais do Estado.
Conhecidos por a dança da Catira, os Malaquias chegaram na região em 1901, vindos de Minas Gerais.
O documentário foi realizado com apoio do Ministério da Cultura e tem a direção da jornalista Lu Bigatão.
-- filmado e dirigido por os irlandeses Kim Bartley e Donnacha O'Briain, este documentário apresenta os acontecimentos do golpe contra o governo do presidente Hugo Chavez, em abril de 2002 na Venezuela.
Com bastante propriedade é mostrada a permanente campanha de mentiras urdida por os meios de comunicação contra Chavez, as relações da grande mídia com a elite econômica e a articulação dos Eua na manipulação dos fatos.. O ponto alto é a força das massas exploradas que derrotam os golpistas e restituem o governo a Hugo Chavez
Arigatô -- Imigração Japonesa -- um olhar sobre a imigração japonesa em Campo Grande.
O documentário traz depoimentos de imigrantes que aqui chegaram em 1914, seus descendentes e modo de vida:
sua música, dança, culinária e economia.
Produção e direção de Maristela Yule.
-- A Força da Erva -- a erva mate foi responsável por a ocupação do sul do antigo Mato Grosso.
Diversas cidades foram fundadas neste período como Ponta Porá, Porto Murtinho, Caarapó, Rio Brilhante, Dourados, entre outras.
Os trabalhadores dos ervais eram paraguaios, pois eles dominavam as técnicas de preparo da erva.
O documentário faz um resgate da história oral dos trabalhadores que participaram do Ciclo da Erva Mate em Mato Grosso do Sul.
Reportagem e direção de Lu Bigatão.
Entrevistas --
entrevista com o governador Zeca do PT e o governador eleito André Puccinelli.
Um debate franco com os dois principais nomes da política de Mato Grosso do Sul.
A situação atual da administração e as perspectivas para o ano de 2007 são assuntos abordados neste Roda Viva Especial com a participação dos editores dos principais veículos de comunicação do estado.
Documento Regional
Geraldo ESPINDOLA / Enquanto Encantar -- verdadeira preciosidade com interpretações únicas e raras do Menestrel Pantaneiro.
Gravado em VHS na década de 80 por o jornalista Bosco Martins, o show, realizado num circo em Campo Grande, traz Geraldo Espíndola numa das suas melhores fases e reúne um time de primeira linha de músicos sul-mato-grossenses como Zeca do Trombone, Miguelito, Pedro Ortale, Almir Sater, Paulo Simões entre outros.
Música
E Dança -- dois programas que traçam um mosaico da produção musical do Estado e um registro das danças e ritmos que compõem nosso folclore.
E um Som do Mato Especial -- 12 anos, com muitos dos principais artistas da nossa história musical.
Festas
Populares -- são três programas realizados em parceria com a Fundação de Cultura de MS:
Festa de São João de Corumbá, Festa do Divino Espírito Santo, em Coxim, e a Festa de São Benedito, em Campo Grande.
Esporte --
dois documentários, um de eles é o Operário 77, de 1996, que narra os momentos de glória do Operário Futebol Clube.
O outro é sobre a 1ª Olimpíada Indígena de Mato Grosso do Sul, de 1995, evento que deu origem a Olimpíada Indígena Brasileira.
-- série com seis documentários, gravados em 1996 e 97, em parceria com a Guató Vídeo, que mostra os rios Miranda, Aquidauana, Coxim, Taquari Rio Negro e Paraguai.
Você vai conhecer toda a extensão da nascente até a foz e ver suas belezas e seus problemas ambientais.
-- o documentário aborda o padrão de programação local da TV Educativa Regional de MS, diferenciando do eixo central do país.
Vamos conhecer um pouco dos 22 anos de implantação, daqueles que fizeram sua história e os 35 anos do profissional que inicou a produção de programas locais nas emissoras públicas do estado.
Musicais
Tradição -- mistura de ritmos e muita alegria que são a marca do grupo conhecido nacionalmente, com origem nos bailes de " Campo Grande.
A o Vivo II " gravado no Parque das Nações Indígenas, traz a primeira gravação do DVD em 2005.
É este show com entrevistas inéditas que exibiremos, na íntegra, com a participação especial da cantora baiana Carla Cristina.
Filho
DOS Livres -- Guga Borba e Guilherme Cruz são artistas genuínos de Mato Grosso do Sul, reconhecidos por várias gerações por o respeito e carisma, assim como por a simpatia com o público.
Um repertório de canções autorais que demonstram uma simplicidade rica de harmonias e letras de um romantismo contemporâneo.
Show especial gravado no Festival América do Sul em Corumbá, em 2006
Lutano -- show inédito da banda Lutano também gravado no Café Moinho, em outubro de 2006.
Formada por Camilo Venâncio (vocais), Kleber Nogueira (vocais), Eduardo Lopez (guitarra), Maycon Kleber (baixo) e Heverton Silva (bateria), apresenta músicas de autoria própria caracterizadas por um forte cunho político em suas letras.
Produção TVE Regional. Direção Cláudia Trimarco.
Gerações --
reúne a música de Mato Grosso do Sul em seus mais diferentes formatos.
O show tem a participação de mais de 25 artistas locais e marca o encontro de três gerações.
O projeto foi idealizado por o músico Márcio de Camillo e o vídeo é uma parceria da TVE Regional e TV Pantanal-Uniderp em setembro de 2006.
-- gravação em vídeo da banda Olho de Gato no Café Moinho em Campo Grande, em outubro de 2006, estreando novos integrantes:
Marcelo Oliveira (vocal), Christian Holz (guitarra), Gabriel Basso (baixo), Anderson Rocha (guitarra) e Fernando Bola (bateria).
O show teve participações especiais de Rodrigo Teixeira e Celito Espíndola.
Produção TVE Regional e TV Pantanal-Uniderp.
Direção Cláudia Trimarco.
Arte E Cultura
Cultura E Arte em Mato Grosso De o Sul -- o projeto reúne artistas, produtores culturais, professores e técnicos da Universidade Federal de MS e resultou na produção de Kit-pedagógico compostos por várias peças, entre elas um DVD interativo, com entrevistas, fotos, músicas e documentário sobre a cultura e arte em MS.
Idealizado por a Fundação de Cultura, tem parceria com a TVE Regional.
Cirandando --
é uma viagem por o Brasil através da música e da poesia.
O texto é de Artur Monteiro de Barros e a encenação ficou por conta de Laís Dória.
Em o palco, 100 crianças do Projeto Experiência 2006 da Casa de Ensaio.
Beto Lima / O Intérprete das Flores -- um video-documentário em homenagem a Beto Lima, mostrando toda a alegria desse artista que sabia mexer com as cores e os traços como ninguém.
Especialista em flores, gatos e bicicletas, sua obra compõe um grande acervo na cultura local.
-- um homem retrata o seu povo, a natureza, o cotidiano das pessoas e através desses retratos faz registros importantes da memória do Estado.
São mais de 3 mil obras espalhadas por o mundo.
Vídeo-ANIMA ÇÃO --
curta de animação em 3D que mostra o dia a dia de um traficante de animais silvestres e seus desdobramentos.
Em contraponto são apresentadas estatísticas que denunciam a ação do tráfico.
Com direção de Heron Zanatta, o curta foi realizado com incentivos do FIC -- Fundo de Investimentos Culturais-MS, Fundação de Cultura, Secretaria de Estado de Cultura e Governo Popular de Mato Grosso do Sul.
Turismo Científico --
programas com 30 minutos de duração que mostram os diferentes aspectos da cultura regional e nacional.
Pesquisas, entrevistas, importantes dados referentes à Paleontologia e Geologia;
aspectos históricos e culturais, não só de Mato Grosso do Sul, bem como do Brasil e países vizinhos, promovendo assim uma integração entre os povos da América.
Número de frases: 109
Direção e Produção de Waldeck de Souza.
Celeiro nato de bons instrumentistas, Natal também está se transformando numa das principais vitrines da música fabricada nas garagens [no melhor sentido da palavra] de todo o País.
Paradoxalmente, o frisson causado por os festivais de música independente é inversamente proporcional à nossa ' exportação ' artística, e se depender do Festival do Sol essa é uma história que pode estar com os dias contados.
Chegando em sua segunda edição, o filho mais novo da família De o Sol ganha corpo de gente grande e promete sacudir a tal cena ' indie ' nos próximos dias 4, 5 e 6 de agosto.
O epicentro da maratona sonora finca bandeira no largo da rua Chile, Ribeira -- serão mais de 35 bandas de 11 estados brasileiros.
O Festival é conseqüência de um trabalho que vem sendo acalentado há mais de 15 anos por o produtor Anderson Foca, 32, idealizador do Selo do Sol (criado em 2002) -- pedra fundamental para o crescimento da marca, que atualmente também engloba o Estúdio do Sol, o De o Sol Rock Bar, a De o Sol Image (braço publicitário responsável por a imagem da coisa toda).
Ninguém melhor para contar a escalada da ' holding ' solar que o próprio Foca, nascido em Manaus, morou 10 anos em Belém e há mais de uma década adotou Natal como porto seguro.
Por aqui já integrou as bandas JAM 97, Ravengar, Superboy e Officina, hoje dedica-se ao Allface.
Há oito anos vive exclusivamente de rock:
«Digo que não tive outro emprego», orgulha-se.
Entre 2001 e 2002, chegou a trabalhar no setor promocional de uma rádio FM local.
Vale registrar que Anderson não bebe, não fuma, não faz dieta e acorda todos os dias às 5h30 da manhã -- «Enquanto os outros estão dormindo eu já estou produzindo», garante.
Em tempos de mp3 e iPods, qual o real papel dos selos?
Foi-se a época do selo só gravar e vender.
Hoje CD é apenas o cartão de visitas de uma banda e o grande desafio é ter uma boa distribuição, saber lidar com as possibilidades de comunicação e cuidar para ter sempre shows agendados.
Distribuição é sempre um problema ...
É o calo de 95 % dos selos.
Estamos fechando uma parceria com a Alvo Discos (ligada à Monstro Discos de Goiânia) que por sua vez trabalha em conjunto com a distribuidora Tratore.
Áudio, meu velho, não é e nunca foi nosso carro chefe.
Não conto um lançamento que tenha coberto os custos de produção (gravação / prensagem).
O estúdio foi criado justamente para amenizar esses custos.
Então qual o carro chefe?
A proposta é formação de público, quanto mais a informação circular melhor para nós e pra todo mundo.
Quantas bandas fazem parte do Selo do Sol atualmente?
Sabe que não sei direito, algumas estão em fase de transição, mudança na formação, novo nome, como o Base Livre que está virando Phonograma.
Em a ativa temos o Allface, Calibre, Karpus, Revolver, Memória Rom, Fliperama, Doris, Experiência Ápyus, Uskaravelho, Mad Dogs e Simona Talma (esses dois últimos os mais novos integrantes do time).
Espero que não tenha esquecido ninguém!?!-- [
conferindo no site, ainda contabilizei Peixe Coco, Pots, A Válvula e Arquivo].
E como essas bandas entram no selo?
Não chego e convido, chamo para gravar, para ver se funciona, se tem potencial no estúdio.
Não precisa ser agora, mas temos que testar, apostar na molecada.
Gravar um CD não é mais uma coisa inalcançável, só que não adianta pagar horas de estúdio se a banda não tiver noção do que quer.
O próprio General Junkie (power trio atuante nos anos 1990, hoje dois músicos integram a festejada DuSouto) ia parar sem gravar.
Eu que insisti muito na época.
Eles já tinham experimentado com produtores de outras cidades, mas percebi que a banda não funcionava com os músicos gravando separados.
E essa proliferação de pequenos selos?
São concorrentes?-- [
em Natal os principais selos do ' submundo ' indie são a Solaris Discos, o De o Sol e a Mudernage Diskos, e o caçula da turma Xubba Musik]
Definitivamente ninguém é concorrente de ninguém.
Só se for por alguma banda, coisa rara de acontecer.
Precisa ser rock para ser De o Sol?
Não, de jeito nenhum.
A Simona Talma por exemplo, sempre curti o som de ela e é o momento de lançar um CD.
Já está com tudo na mão:
recursos e conceito, só temos que cuidar da produção.
Quando percebeu que não poderia mais ser apenas músico, que teria que cuidar da produção da própria banda?
Em 1999, quando o Ravengar estava rodando em pequenas turnês por o Sudeste e outras capitais nordestinas, vi que não podia me dedicar integralmente.
Por isso optei por o Officina, pois tinha mais liberdade para exercitar esse lado produtor:
hoje, quase sete anos depois, sei exatamente qual o público de cada show, consigo fazer uma projeção certeira de 80 % dos eventos que produzo.
O Officina cresceu justamente por nosso (ele, a vocalista e parceira Ana Morena e o guitarrista Eduardo Passaia) trabalho como empreendedor, foi uma escola.
Recebemos muitas críticas por sermos uma banda que ganhou destaque tocando cover, mas temos umas 50 músicas próprias gravadas e três CDs autorais lançados, muito mais que muita banda por aí.
Acha algumas críticas chegam a atrapalhar seu trabalho?
As críticas sempre vão existir, e muitas vezes infundadas.
Garanto que o índice de rejeição com meu nome não é maior que minha capacidade de agregar.
Lembro de uma vez ser acusado de monopólio por um músico de outra banda:
oras, se tenho uma banda, produzo meus shows, toco na rádio, dou entrevista na TV e nos jornais a culpa é minha se não te dão o mesmo espaço na mídia.
As pessoas têm que sacar que o problema não está no outro, não adianta querer transferir a responsabilidade.
Vou fazendo.
Antes tinham bandas que não tocavam no De o Sol Rock Bar por pura picuinha sem fundamento, hoje águas passadas.
E esse papo de que essa é a terceira edição do Festival do Sol?
É verdade.
Em 2003 rolou uma versão pequena no Blackout Bar (rua Chile, Ribeira), com as bandas Vaca Loka, General Junkie, A Máquina, Officina e Jane Fonda.
Em o ano seguinte enquadramos o projeto na Lei Municipal de Incentivo à Cultura Djalma Maranhão, mas não conseguimos captar.
Em essa época o De o Sol Rock Bar estava ainda estava abrindo as portas, e era um espaço para as bandas do selo tocar.
Inclusive combinamos do Officina não tocar lá justamente para não haver a associação da imagem, queria mostrar para as pessoas que ali era um lugar para bandas autorais.
Ano passado lembro de uma história que o De o Sol seria em março / abril, antes do Festival Música Alimento da Alma -- Mada?
Conversei com muita gente na época, inclusive com Jomardo Jomas (produtor do Mada).
Era doideira querer disputar atenção com o Mada, a mudança para o segundo semestre foi a melhor decisão.
E logo na primeira edição já gerou uma grande repercussão ...
Pois é, não sabia que tinha tantos amigos no rock, sou do tempo que o pessoal trocava panfleto por o correio.
Outro dia ligou o Gustavo «Mini» Bittencourt, vocalista da banda gaúcha Walverdes, falando da expectativa para tocar no festival.
Essas coisas é que valem a pena a nossa batalha!
Um dos diferenciais do Festival do Sol é bancar a passagem terrestre das bandas desde o começo ...
Só nós e o Porão (do Rock, em Brasília), que depois de oito edições também passou a pagar passagem de ônibus para a galera.
Acho que essa é a tendência.
As bandas estão percebendo que o foco de qualquer festival são elas, e que não dá para ficar bancando passagem pra cruzar o País para tocar meia hora.
Esse ano será marcado por uma participação maciça das bandas locais ...
E por incrível que pareça muitas ainda não atentaram para o Festival.
Recebi pouquíssimo material, e boa parte das escaladas foram convidadas pois sabiam quem estava produzindo, lançando CD e fazendo show.
Quem se movimenta tem prioridade.
Com relação a 2005, quais as principais mudanças para este ano?
A melhor coisa, além da própria programação, foi a renovação do patrocínio do Banco do Brasil e a aprovação na lei sem restrições.
Vamos melhorar o visual, o som e a iluminação também serão melhores.
Mas a grande mudança é o dia a mais.
Em 2005 fizemos na raça, perdemos dinheiro, dessa vez estamos menos ' aperriados ', mas ainda confiamos na bilheteria para cobrir custos. [
Em 2005 o Festival do Sol custou R$ 100 mil, este ano o orçamento bateu na casa dos R$ 130 mil].
E a novidade do Ciclo de Palestras Pensando Música?
Comprova que nosso foco é alimentar a cena, movimentar a produção musical do RN.
O Pensando Música foi uma idéia proposta por o selo Mudernage, que já tinha uma parceria com a Agência Cultural do Sebrae-Sesi.
Não é um evento do Festival, é uma iniciativa paralela que anda com as próprias pernas, apenas aproveita o mesmo período.
O grande lance é deixar todo mundo informado, que se peque por preguiça mas não por falta de informação.
E a parceria com a Agência Cultural tem tudo a ver com essa abordagem da qualificação profissional, do emprendedorismo.
Também fecha o ciclo:
tem convidados que vem participar das palestras e ficam para o Festival.
Você acredita que a tecnologia anda de braços dados com o rock e a cena independente?
Sem dúvida.
É essa articulação do pop e do rock que puxa a tecnologia, estamos usando muito bem a Internet e os resultados estão aparecendo, e o Pensamos Música deve atingir em cheio músicos, produtores e jornalistas da área.
A vinda de revistas como a Bizz e Outracoisa ganha novo sentido, fortalece a troca de experiências e o contatos das bandas / produtores locais com essas figuras só acrescentam.
Diferente do camarada chegar, ver os shows, sugar informações e levar tudo embora.
Agora não, ele vai deixar um pouco para nós também.
Pra encerrar:
a Ribeira ainda é o melhor lugar para se fazer um evento?
Sim, o que falta é uma política pública efetiva para transformar de vez a Ribeira num espaço atraente para o lazer de eventos e entretenimento noturno.
O Largo da rua Chile passa por um bom momento, tem coisas rolando todas as semanas, bares e casas noturnas funcionando.
Se não tem gente por lá é outro papo. [
Um dos problemas mais graves, identificado por a reportagem, é a falta de um sistema transporte eficiente.
Ninguém merece ficar sem ônibus após às 23h30!].
\> \> programação completa Festival do Sol \> \>
Ciclo de Palestras Pensando Música / Inscrições (doação de um livro) por o email mudernage@yahoo.com.br \> \>
Número de frases: 109
Contato: (84) 3642-1520 ou assessoria@dosol.com.br Os Poetas Elétricos (Carito e Michelle Régis) abrem festival:
«um lago, um largo, doce lar».
Foto: Nicolas Gomes / DoSol Image
Música na beira do rio Potengi entre muros e casarios antigos.
Assim surge mais um festival em Natal.
Em a terra fecunda das margens Ribeira.
Em o largo da rua, da rua Chile.
A primeira noite da segunda edição do Festival DoSol começou com duas estréias.
Quem deu as boas vindas foi o som experimental d ` Os Poetas Elétricos (RN), exclamando suas ' poemúsicas '.
Em o palco eles mostraram alguns trabalhos do primeiro CD ' poemas eletrificados ' com novas leituras e outros que estarão no próximo «CD Estirado no Estirâncio», com previsão de lançamento em meados de dezembro.
«Nós não temos um estilo, temos um estalo, idéias que vão criando formas, daí vamos contruindo as poemusicas», conta Carito, compositor e vocal do trio (+ Edu Gomes, guitarra, e Michelle Régis).
Outra estreante foi a cantora potiguar Simona Talma.
Cantando blues ela encantou o público que chegava timidamente por causa de uma chuva fina que insistia em cair.
Sobre a participação no festival, a cantora que costuma fazer shows mais intimistas em teatros e bares comenta:
«Sempre tive muita vontade de participar.
Essa foi uma boa oportunidade.
Gostei, quero mais!"
Com um público chegando de mansinho perto do palco, foi a vez do Parafusa (PE) se apresentar.
Mas a banda teve problemas no som.
«O teclado da banda ficou mais de metade do show sem funcionar.
A estrutura de som oferecida por o festival tem alguns problemas.
Mas como hoje é o primeiro dia, acho que as coisas ainda estão se acertando», diz Marcílio Moura, técnico de som do Parafusa vindo do Recife.
Upgrade, termômetro e suingue
Palcos à parte, seguiu o blues rock do Mad Dogs (RN) com o show do CD «Bar doce lar» (de novo).
Depois SeuZé (RN) com um show redondinho só que muito parecido com o que fez no Mada este ano.
A banda é boa, mas está precisando dar uma variada e uma circulada!
Outros pernambucanos na área mas dessa vez mostrando as misturas que dão no samba.
Os olindenses do Bonsucesso Samba Clube (PE), mostraram o trabalho do segundo «CD Tem arte na barbearia».
Embora o som também tenha prejudicado o inicio do show a galera dançou e cantou junto.
«Esse é o termômetro de um show», conta Rogério Homem, vocalista e compositor da banda.
«Um festival como esse é importante porque mobiliza atenção do público e da mídia com mais força.
E como tem muitos estilos temos a oportunidade de tocar pra quem não iria ao nosso show ou não conhece o nosso trabalho, mas acaba gostando, por exemplo», revela.
Games, Fanta e fronteiras
Já era madrugada de sábado quando Dusouto (RN) começou a fazer um som pra não deixar ninguém parado.
Em o telão, as imagens do VJ Julio Castro casadas com o ritmo frenético da groovebox do DJ Gabriel Souto.
Muito bom!
Com o CD relançado por a Nikita Music a banda está se preparando pra começar um tour por o sul do país depois de emplacar música no game Fifa 2006 e coletânea lançada no Japão.
Fiquem atentos!
Há quem aposte que eles serão a primeira banda potiguar a se destacar no cenário nacional.
Depois se apresentaram Experiência Ápyus (RN) e Ludov (SP) com um ' pop-Fanta bonitinho '.
E para encerrar a primeira noite Mundo Livre S / A fazendo todo mundo ' mexer ' e com a novidade que estarão participando de numa coletânea de um selo de Nova York com a música «Maroca».
É a música atravessando os muros invisivéis das fronteiras nacionais e internacionais ...
Número de frases: 42
Salve, salve!!
A longa carreira de Luís Gonzaga produziu um fato curioso.
Gerações mais jovens tiveram chance de entrar em contato com um forró (e ritmos associados) mais cadenciado, baseados no trio triângulo, zabumba e sanfona, instrumento do qual Gonzaga era mestre.
Mas em curto espaço de tempo, «o dois pra lá e dois pra cá» deixou de ser suficiente.
«Carolina» teria que ter folêgo aeróbico para dançar o xenheinhein.
E se antes se podia fazer «Forró no Escuro», com candeeiro apagado, guitarras e teclados se tornaram indispensáveis em qualquer banda do ritmo nordestino.
«A Asa Branca bateu asas "
Fauna e flora sertaneja (asa branca, assum preto, mandacaru), a seca, «a triste partida» dos nordestinos (para a Amazônia, Brasília ou o Sul do país) são referências distantes para este forró.
O mundo rural ainda estava presente em bandas que fizeram sucesso na década de 1990, como Mastruz com Leite e o hit «Meu Vaqueiro, Meu Peão».
Mas na fase atual, forrozeiros preferem converter para o ritmo músicas como as do compositor «sertanejo» Ewerton Assunção, que ameaça as amadas com «exclusão no orkut e bloqueio no MSN».
Antropofagia Forrozeira
Em a verdade, mesmo bandas de forró de mais sucesso costumam colocar em ritmo de forró os principais sucessos brasileiros.
E melodias internacionais também, gerando parcerias no mínimo inusitadas.
É o caso da Calcinha Preta (PB) tocando ao lado dos «metaleiros» do Scorpions, na versão «O Navio e Mar».
Este é apenas um ponto da constelação de musicalidades e acontecimentos que é o forró atual.
Quando uma vocalista da banda Cia do Calypso grita «alguém me segure», ela não está só eufórica.
A exclamação é literal.
Isto porque elas costumam descer de bang-jumping para dar início às apresentações.
A estrátegia não é só para impressionar a platéia.
Serve também para apimentar os DVDs dos shows, superproduções feitas com este padrão bem peculiar.
Para além do risca-faca
Este «forró moderno» extrapola o mundo musical.
É moda, cujo designers são os cantores e dançarinos.
É uma visão das relações entre homens e mulheres, com destaque para traições e abandonos.
É mídia, com programas dedicados exclusivamente ao ritmo e um «starsystem» composto por personalidades como Felipão, da banda Forró Moral, e Joelma, da Calypso.
Também é indústria, com «holdings» reunindo várias bandas de forró com integrantes mal-remunerados e extenuados.
Os albúns são prensados de forma volátil, e a rotatividade de sucessos e de bandas no topo desta carreira costuma ser grande.
«Carniças», «gato-véi» e «patricinhas» são alguns dos personagens das festas de forró, que em cidades como Fortaleza costuma reunir pessoas de distintas camadas sociais.
Mas o calor da dança parece ainda ser igual ao tempo do Gonzagão.
Número de frases: 29
E para quem não conseguiu acompanhar sempre corre o risco de tocar um forró pé-de-serra, que é como se chama agora o que sempre se chamou forró.
A praga das esperanças
Passei o dia, hoje, pensando na forma de cometer alguns assassinatos necessários.
Esperanças insuportáveis assolam meu coração e preciso dar um jeito de livrar-me de elas ...
Esperança Dicionário Aurélio:
Bras.. Inseto ortóptero da subordem Tettigoniodea, de antena setácea, geralmente mais longa que o corpo, pernas espinhosas e ovipositor ensiforme.
Tem, de ordinário, cor verde.
Ou seja, a esperança é uma espécie de barata verde.
Em o caso, mais de uma.
O equivalente a uma praga bíblica das mesmas.
Frente ao problema urgente, assumi, faz pouco tempo, a missão de exterminadora.
A cada, dia, mato impiedosa e friamente os insetos que chegam ao meu alcance.
Apesar do nojo, apesar da pena.
E confesso que, às vezes, não consigo ser impiedosa ou fria.
às vezes, as esperanças me emocionam, me conquistam com sua cor de jardim, seu ar de planta comum, sua carência de inseto rejeitado, seus olhos de cachorrinho batido.
E as deixo se alimentar de meu coração.
O fato é que, quando mato algumas, surgem outras.
O pobre coração, logo depois de voltar a respirar, torna a ser sugado por as encantadoras baratinhas verdes ...
Pior, quando mato uma de elas, um pedaço do coração é arrancado, pois prendem-se a ele como carrapatos.
A cada uma que morre, a dor se torna lancinante, para muito depois amenizar, logo antes de chegarem as novas esperanças, que reiniciam o processo interminável de dor / renovação.
E o coração permanece sangrando.
Assim, embora seja necessário livrar-se das esperanças, é insuportável continuar a matá-las, num paradoxo desarticulador da luta ...
Como fazer para estancar o sangramento, permitindo a nova dor de um coágulo, a regeneração necessária da cicatriz e a posterior quase inofensiva memória da tatuagem?
Entre a dor do assassinato das esperanças e a dor de sua intolerável infestação, me veio a idéia de matá-las de forma mais sutil:
de fome.
Deixá-las morrer à míngua, sem agressão exterior, mas também sem recurso extraordinário de sobrevivência.
O único problema do raciocínio é que o alimento de elas é o meu coração, que eu precisaria sacrificar ...
Novamente, a solução mostra-se impraticável e o coração, cansado, eternamente comovido, se abre outra vez para as esperanças ...
Talvez a única forma de superar o momento atual seja agir de maneira totalmente oposta ao que a lógica ordena, mesmo:
deixar que as esperanças se alimentem até a exaustão, até se sentirem fartas e decidirem partir por conta própria.
Encarar a sina de meu coração como necessária e nobre, o «dar de comer aos que têm fome».
E, talvez, apenas talvez, depois que a última de elas;
pequenina mas redonda de satisfação, levantar vôo, hesitante, ainda restem forças para um coração exaurido voltar a viver.
Será que a única forma de sobreviver a esse sentimento é entregar-se completamente a ele?
Número de frases: 34
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * texto publicado originalmente em www.sobremusica.com.br Escrevi este pequeno texto, a pedido de minha amiga, a poeta Graça Graúna.
Humildade
Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
Que eu possa agradecer a Vós
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.
Cora Coralina
A cidade de Goiás, mais conhecida por Goiás Velho, foi fundada às margens do rio Vermelho, em 1722, por o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o «Anhanguera» (palavra indígena que significa " diabo velho ").
Foi capital de Goiás (o Estado) até 1933.
Hoje, tombada por a Unesco, principalmente por a arquitetura característica da época colonial, é um dos principais atrativos turísticos da regição centro-oeste.
Suas ruas, seu casario, os prédios públicos e as igrejas, conservados, recebem milhares de visitantes todos os anos.
Em este cenário, às margens do rio Vermelho, foi construída, na segunda metade do século XVIII, uma casa em pedra e adobe destinado a ser o escritório da cobrança do Quinto, imposto sobre todo o ouro extraído na região.
Há aproximadamente 200 anos, esta casa foi comprada por antepassados de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985), poetisa e doceira, conhecida como Cora Coralina, que a cantou em verso e prosa.
Atualmente, a casa de Cora, também chamada de Casa da Ponte, abriga um museu permanente com objetos pessoais da poetisa, além de um miniauditório.
A casa apresenta características típicas da arquitetura colonial brasileira.
Composta por duas residências unidas por um único telhado, a construção de madeira tem paredes de pau-a-pique e adobe, usadas como proteção das enchentes do Rio Vermelho.
Por falar em enchentes, em 31 de dezembro de 2001, dezoito dias depois do seu tombamento por a Unesco, a cidade de Goiás foi inundada por o Rio Vermelho que destruiu parte do seu patrimônio, vitimando também a Casa da Ponte, danificando os móveis, o piso e muro, mas que, felizmente, manteve sua estrutura.
Porém, como diz o ditado popular, há males que vêm para o bem.
Foi o que se deu com a casa de Cora.
Depois da enchente, a parte física, o mobiliário e os documentos iconográficos foram restaurados, a um custo de R$ 150 mil, pagos inteiramente por uma operadora de telefonia.
Os governos, de qualquer esfera, não destinaram um centavo para a reconstrução (1).
Após a recuperação, o museu instalado na Casa da Ponte passou a adotar os conceitos sugeridos por o Conselho Internacional de Museus visando à valorização da personalidade de Cora Coralina.
Em este sentido, estão em evidência os objetos pessoais de Cora, como os manuscritos e as fotografias (recuperados por técnicos da Imprensa Nacional no Rio de Janeiro), a mobília original, a máquina de datilografia, a máquina de costura, os registros fotográficos e os prêmios.
Além da parte interna, o quintal de Cora também foi renovado, com a recuperação das hortas, das árvores (resedá, mangueira, cuité, jabuticabeira, guariroba, jaqueira, laranja-da-terra, cajazinha) e da pequena bica d' água existente no porão da Casa Velha (3).
Localização:
Rua Dom Cândido (Rua dos Mercadores), n.
º 20
Telefone: (62) 3371-1990
Visitação: terça a sábado, de 09h às 17h, e domingo de 9h às 16h.
Minha casa velha da ponte ...
assim a vejo e conto, sem datas e sem assentos.
Assim a conheci e canto com minhas pobres letras.
Desde sempre.
Algum dia cerimonial foste casa nova, num tempo perdido do passado, quando mãos escravas a levantaram em pedra, madeirame e barro.
Esquadrejaram tua ossatura bronca, traçaram teus barrotões na cava certa e profunda dos esteios altos, encaixaram teus linhamentos, cumeeiras, pontaletes, freixais, arrochantes e empenas, duras aroeiras, lavradas a machado, com cheiro de florestas, arrastadas em carretões de bois. (
Cora Coralina).
Referências (
1) Correio Basiliense
Inclusive o mapa da localização da cidade de Goiás.
Número de frases: 47
(2) ATÍLIO AVANCINI
Manuel Apolinário da Silva, o Tororó do Rojão, 70 anos, quatro discos, dois LPs e dois CDs, muita história na bagagem, e muita fuleiragem também.
Como o nome sugere, Tororó é o pipoco do trovão, uma força da natureza, o elemental do forró.
Em sua trajetória, foi parceiro-irmão de Jacinto Silva, personagem importante na sua história, «eu e ele, a gente era nó que ninguém desatava», diz Tororó.
Também foi zabumbeiro de Luiz Gonzaga e até motorista do grande Rei do Baião.
Conta que já se apresentou em tanto lugar por esse Brasil afora que nem lembra mais por onde passou.
Sobre os companheiros acima citados e sobre o Rei do Ritmo ele diz «Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Jacinto Silva nunca cantaram nada feio na vida».
Forró, xote, maxixe, xaxado, samba, coco, Tororó é um artista eclético e completo, representante autêntico dos ritmos construídos no nordeste do Brasil, compositor inteligente, de letras de duplo sentido, engraçadas, acidas, sensuais, por vezes melancólicas ou incomodas, por outras, somente belas canções, da mais inspirada poesia popular.
Algumas de suas músicas mais conhecidas apresentam refrões como «Seu Cuca é eu» em «Seu Cuca», ou» Forró Gay», onde ele tira uma onda com o preconceito em seus versos, o que causou repercussão na comunidade gay local, produzindo reações e opiniões diversas.
Assim é Tororó, polêmico, cômico, desbocado, boêmio, poeta, querido por todos, e todos os adjetivos são poucos.
Fui visitar Tororó em sua casa azul no bairro do Poço, região conhecida em Maceió como Bomba da Marieta.
Fui acompanhado de Railton Sarmento, o Rato, rimador e flautista da banda Xique Baratinho, conhecedor e fazedor do verso popular alagoano, e amigo de longas datas do Tororó do Rojão.
A o bem da verdade, Rato é outra figura e tanto, uma cruza de Ian Anderson com Didi Mocó e Caju & Castanha.
Tororó nos recebeu com a alegria de sempre, apesar de alguns problemas de saúde recentes, mas que segundo ele «foi só uma dor aqui e ali, já fui ao médico e estou me tratando, estou bom já, só não pode tomar cachaça», avisou antes que convidássemos.
Fazia calor naquela tarde que anunciava o verão e fomos para o quintal da sua casa, onde estava mais fresco.
Tororó contou sua história.
Menino de Engenho
Nascido em Matriz do Camaragibe, norte de Alagoas, o pequeno Manuel Apolinário perdeu seu pai muito cedo, entre oito e nove anos de idade, ele e sua mãe viúva, Maria, foram trabalhar numa usina da região.
«Eu limpava cana, colocava na esteira, fazia de tudo, mas o que eu gostava mesmo era de jogar futebol» conta Tororó.
Sua paixão de menino por o futebol o levou a jogar bola com os filhos dos usineiros e se tornaram amigos.
Em certo momento, surgiu uma pessoa que mudaria para sempre seu destino de menino do canavial.
Dona Nadir Pantaleão foi como uma segunda mãe para o pequeno Manuel Apolinário, ele conta que a senhora chegou pra ele e perguntou " quer ir viver em Maceió com mim?"
e ele, nervoso e confuso, foi pedir chorando para que a mãe o deixasse ir.
Com muita dor, Maria o deixou partir com dona Nadir, quem sabe encontrava um destino melhor na capital.
E encontrou, chegando a Maceió, Tororó descobriu as letras, foi para a escola alfabetizar-se, " estudei até o quarto ano, quando vi, já sabia ler, pegava o jornal e lia tudo, ' Rio de Janeiro tal e coisa ', ' em São Paulo isso e aquilo ', pronto, depois que já sabia ler, ia comprar pão e depois jogar ximbra (bola de gude)."
Mas Tororó era bom mesmo no futebol, ele conta «tem gente das antigas aqui em Maceió que me conhece mais como jogador que como cantor, eu fui camisa 10 tricampeão antes do Pelé nessa porra, por o Sport Clube Alagoas, de Maceió».
Quanto à música, Tororó conta que surgiu na sua vida «ainda menino», escutando sua mãe cantar coco» com os cabras " em Matriz, e ele cantava junto também, e de lá até hoje sem parar, feito cantiga de grilo, como se diz por aqui.
Depois de alguns anos morando em Maceió, Tororó recebeu uma carta de sua mãe Maria, ela contava que estava pedindo esmola para comer na cidade natal.
Compadecida, Dona Nadir trouxe a mãe do agora jovem rapaz Manuel para viver em Maceió, e alugou uma casa próxima a sua para eles viverem.
«Gente muito boa, muito boa mesmo» repete Tororó com a voz carregada de gratidão.
Em a época da chegada de sua mãe a Maceió, Tororó saia de casa para trabalhar num posto de gasolina, e depois desenrolou seu caminho profissional como servente, mecânico, assistente, e claro, cantor.
Tororó e o palco, um artista performático
No meio da conversa, Rato comentou sobre o episódio ocorrido durante a turnê Alagoas em Cena, quando artistas alagoanos de diversas linguagens viajavam para apresentar suas produções em outros estados.
Em esta espécie de caravana, quando da ida a cidade do Rio de Janeiro, alguns destes cantores e bandas foram escalados para tocar na Feira de São Cristóvão, também conhecida como Feira dos Nordestinos, ou ainda Feira dos Paraíbas.
Segundo Rato, os artistas se apresentaram na praça com todas as suas sofisticações roqueiras e jazzísticas, inclusive o Xique Baratinho, sua própria banda, sob os olhares desconfiados do público que fazia questão de demonstrar seu descontentamento.
Os dois contam, rindo, que um comerciante local chegou a pedir para um artista parar, que aquilo estava arruinando seu negócio.
..." Mas quando esta encomenda subiu ao palco «disse Rato apontando para a Tororó que ria orgulhoso,» foi uma comoção só, tanta gente dançando que mal cabia no lugar, e todos aplaudiam o cabra, negócio da gota!».
Tororó interrompe.
«Os lindos lá num canto (se referindo aos outros artistas alagoanos), teve um que quase leva uma cadeirada pra sair do palco».
E ria com vontade aquele sorriso de Tororó.
Realmente, é impressionante como um sujeito tão pequenino em estatura, se torna um gigante no palco, impossível ignorá-lo.
Seu gestual, na interpretação das músicas, é uma marca registrada, cada palavra acompanha um gesto para descreva-la, capaz de fazer o mais mal humorado dos sujeitos estampar um grande sorriso no rosto, daqueles irrefreáveis.
Acompanhado de seu trio, Os Inseparáveis do Forró (Vavá dos Oito Baixos, o zabumbeiro Tainha e Aluizio no triangulo), o cantor pula, faz pirueta, dança e anima seu público lá de cima, do alto dos seus 70 anos.
É por isso que muita gente em Maceió ficou espantada com a ausência de Tororó do Rojão na programação oficial dos festejos juninos de 2007 na capital alagoana, onde o cantor sempre reinou absoluto.
Artistas, público e imprensa pressionaram e questionaram a prefeitura sobre a ausência de Tororó nos palcos, já que o cantor é convidado até para eventos com um perfil mais rock / pop como foi o caso do Festival de Música Independente de Maceió.
Mas não adiantou reclamar, Tororó ficou de fora, e sem a renda com a qual contava durante o período do ano mais fértil para sua música.
Algo semelhante a perder a colheita.
Questionado sobre este episódio, Tororó respondeu, " o prefeito é um forrozeiro muito bom (Cícero Almeida, prefeito de Maceió, é cantor de forró de longas datas), convidou-me pra tocar no São João de 2006, e eu fiz o show num ginásio enorme, topado de gente que teve parente meu que não conseguiu entrar, de rocha mesmo rapaz, no dia seguinte, tava cheio de Tororó do Rojão na Gazeta ..."
Interrompi pra perguntar se no jornal impresso ou na emissora de TV.
Ele gritou " Tudo!
Globo porra!
Teve uma vez que eles foram com mim até Matriz, me atrapalhe não», e continuou, " Depois que fiz esse show pra cá, ele (o prefeito) não contrata mais ninguém.
Vê isso?
Foram fazer fofoca de que eu tava falando mal de ele, e eu falo mal de ninguém?
Inclusive o acho um prefeito muito bom, que está cuidando da cidade e pagando o pessoal em dia.
Ele disse que não toquei no São João por não ter procurado a prefeitura, procurei tanto que furei o sapato de tanto procurar, ele não devia escutar o que o povo diz e deixar de bronca com mim, finaliza.
Sem nenhuma apresentação na agenda, o artista vive com uma pequena aposentadoria que coloca comida na mesa de uma família que, por o que pude observar, trata Tororó com grande respeito e admiração que ele merece.
«Artista aqui só serve pra votar e pagar IPTU»!
Dispara bravo.
Antes de nos despedirmos, Rato perguntou ao amigo, " Tororó, tem alguma coisa que você deixou de fazer e ainda gostaria de realizar?"
«Eu quero tocar no programa da Xuxa.
Fiz uma música linda para a ela e queria ir com meu time cantar por lá."
Discografia:
LPs
Tororó do Rojão e Nelson do Acordeom -- Aqui Tem Forró (1979)
Segura Menino (1981)
CDs O povo não quis acreditar (2004)
Sem Retoque (2007)
Contatos para shows e venda de discos:
Marcos Sal -- Produtor -- (82) 8821-7727
Tororó do Rojão -- (82) 9314-4534
Local de venda dos discos do Tororó em Maceió:
Número de frases: 72
Banca Zumbi (82) 9305-5311
Camila (Leandra Leal), protagonista do novo filme de Murilo Salles, é blogueira.
Inspirado em Máquina de Pinball e Vida de gato, dois livros de Clarah Aver buck (blogueira: http://adioslounge.blogspot.com/), «nome próprio» tem tudo para agitar a blogosfera.
É intenso, indefinível e despudorado como todo blog que se preze.
Leandra Leal, atriz que já nos surpreendeu muito bem em outros papéis (a menina de «A ostra e o vento» é inesquecível), dá carne, sangue quente e sentimento à sua personagem de modo quase assustador.
Feita justiça à sua interpretação, me reservo o direito de partir para os elogios ao diretor.
Fazer um filme de palavras, quero dizer, transformar palavras em imagens de mesmo peso já não é tarefa fácil para os diretores que se aventuram nas adaptações literárias cujos textos são a grande força da obra, não a história.
Murilo enfrentou o desafio de filmar palavras, porque Camila (tanto quanto a grande maioria dos blogueiros) é o que escreve.
Não é possível dissociar texto de pessoa.
Aliás, não seria esse o motivo de tanta gente falar de si nesses diários pessoais e serem lidas e questionadas, comentadas?
Então, vemos palavras na tela.
Muitas. E ouvimos o tec tec do teclado, seguimos a setinha do mouse ...
e Camila vai se desnudando até nos causar dó, ou ódio, ou um nó na boca do estômago.
Ela é só sentimento, mundanidade e ...
palavras. Penso agora que um dos maiores méritos do filme é não adocicar essa personagem tão controversa, desagradável aos olhos de alguns, irresistível aos meus.
Sem meias-palavras, é preciso dizer:
Camila é terrível!
Mas a sua disponibilidade para o mundo, a sua entrega descabelada aos apelos do amor e do corpo me fazem vê-la com os olhos da paixão.
E é esta paixaõ que sustenta a opção feita por Murilo Salles.
Honesto, entregue, revirado nas emoções.
Ele captou tudo e nos deu um presente.
Espero que as pessoas o recebam.
Por último, a grande sacada da divulgação.
O filme «nome próprio» tem blog.
Por meio de ele, o internauta pode fazer seu próprio trailer, organizar pré-estréias, postar comentários, ouvir músicas, etc.
Número de frases: 25
nome próprio: estréia nacional no dia 18 de julho.
Acompanhem meu raciocínio e depois me digam se não tenho razão para levantar um grito de alerta, pedindo aos administradores do site que deixem de tanta atitude democrática santa.
É preciso, sim, urgentemente, decepar algumas cabeças insanas que estão brincando de acumular pontos de karma, numa farra desenfreada, turbinando assim os karmas de outros membros e ameaçando jogar por terra a credibilidade do Overmundo.
Acessem a lista de perfis do Tocantins e vejam as posições por pontos de Karma.
A lista é liderada por dois colaboradores comprovadamente idôneos, que publicam trabalhos no site e participam do processo de construção e seleção do conteúdo.
Isso pode ser notado por o volume de comentários publicados e de votos dados e recebidos por eles.
Logo abaixo dos dois, entretanto, está um garoto cuja fisionomia arregalada salta aos olhos.
É o Felipão120, um papa-karma que logo chegará ao topo da lista, ameaçando seus «rivais» tocantinenses e até mesmo os do topo do ranking nacional.
Te cuida, Hermano Vianna!
Olho vivo, Sérgio Rosa!
Depois de acessar a lista de perfis, entrem no perfil do Felipão120 e reparem.
Ele é membro recente (fez cadastro em 11/10/2006) e tem uma única colaboração (feita em 31/12 e não publicada) no site:
Radical E Volúvel.
O título é mesmo sugestivo.
O conteúdo do texto revela a sua personalidade de frenético colaborador.
Detenham o «fenômeno!».
Uma vez no perfil, é hora de «viajar» no histórico das últimas colaborações votadas por o hilário overmano infanto-juvenil.
Somente nos primeiros quatro minutos (de 00:34 a 00:38) deste ensolarado dia 3 (êpa!
era noite-madrugada quando o sujeito votou), o célere colaborador do Overmundo disparou nada menos que 78 votos aleatórios, carimbando deus e o mundo, provavelmente numa corrida louca para comer por as pernas os nossos ilustres overmanos da cabeceira.
Cruz credo!
Salta de banda, Glês Nascimento!
Quem é o conterrâneo, jjLeandro?!
Viajar em exemplos como o de Felipão120, seguramente, será um ótimo exercício para que overmanos de todo o país liguem de uma vez o desconfiômetro.
É preciso entender, definitivamente, as razões por as quais levantei recentemente a «lebre» dos membros de conduta duvidosa e das overpanelinhas.
Ainda sobre a análise de perfis, convém chamar a atenção para cadastros de colaboradores que se identificam apenas por siglas ou nomes fictícios e que têm karmas consideráveis.
Gente que não publica nada de conteúdo no site está interferindo decisivamente no processo de votação e elevação de outros karmas.
Serão estes leitores responsáveis, com condição de avaliar realmente os trabalhos?
Fastasminhas camaradas agindo de forma estratégica e reprovável?
Podem ter o mesmo peso de quem se propõe a colaborar de forma construtiva, dentro daquilo que está em discussão para o futuro do Overmundo?
Francamente, gente.
Vamos pôr luz nessa escuridão!
Com esta publicação «cavernosa» (será mesmo?),
espero despertar um debate mais acirrado a respeito da aferição de cadastros no site e, sobretudo, da conduta de muitos dos seus colaboradores.
A proposta essencial do Overmundo é mostrar e destacar com lisura o que se produz de cultura no Brasil.
Mais que nunca, como disse o Tom Dammata acidamente, é preciso identificar e dar um basta na atuação dos «overmanés».
Em Tempo:
Perdão se volto a tocar neste assunto.
É que costumo mergulhar fundo em tudo que faço.
Talvez este texto ficasse melhor se publicado no Observatório.
Um link para o perfil do turbinado Felipão:
Número de frases: 40
http://www.overmundo.com.br/perfis/felipao120 Thiago tem pouco mais de um quarto de século.
Estatura média de um brasileiro médio, usa óculos, fala rápido, ofegante e nervoso.
às vezes, não se entende o que ele fala.
Em a infância e na adolescência, freqüentava com fervor a igreja local.
Em aquela época, a mãe de ele ainda sonhava que ele fosse ser um pastor, talvez tão bom quanto Dortas.
Thiago cresceu e seguiu um caminho diferente da maioria dos jovens revoltados.
Nada de sexo, drogas ou rock ' n ' roll.
Música eletrônica e brega -- isso sim é rebeldia.
Letras irônicas e batidas «mais anos 80 impossível» são a marca do trabalho desse cara.
O destaque das músicas de Thi Thi, para os íntimos, é mesmo o refrão.
E o é por três razões simples.
A primeira é que são deliciosamente pops.
Grudam como chiclete.
Depois, o que eles dizem.
As letras são verdadeiras afrontas ao bom senso, coisas como «pequeno protestante filho de uma puta», repetido à exaustão ou o mantra» Como eu te amo, como eu te amo».
A terceira, e a mais importante, é o sentimento de feliz imbecilidade que cantar esses refrões pegajosos e descaradamente bregas a pleno pulmões proporciona.
É uma sensação de liberdade, como um louco que assume sua insanidade para o mundo com orgulho.
Sem medo de ser feliz.
Sem medo de ser meloso, obsceno e muito, mas muito demente.
Faça seu espírito mais leve, entre no site e escute o homem que sonha em ser Bryan Ferry.
Número de frases: 20
A pergunta é simples.
A resposta nem tanto (se é que existe uma).
Antes de qualquer coisa, você, que está lendo esse texto, sabe porque o faz?
Sabe porque insiste em adquirir conhecimento, buscar desesperadamente por informações?
Aliás uma pergunta fundamental, seria a seguinte:
Você leu o título do texto?
Com certeza que sim, ouso afirmar que você inclusive só o continua lendo porque ao ler o título interessou-se por o comando inicial.
Acertei? Pois bem;
a questão que envolve a atração humana por o proibido foi só um simples método de chamar a atenção para um assunto bem simples, porém, que passa despercebido por a maioria de nós.
Caro leitor, por algum instante você parou para pensar na quantidade de informações que são geradas por a relação do homem com a natureza?
Pois bem, é dessa relação que surge o tão desejado, e com certeza inalcançável «conhecimento» (me refiro aqui ao conhecimento geral);
com certeza que não usarei desse espaço para afirmar teorias conspirativas a respeito da produção de conhecimento da ciência, mas pretendo nesses poucos caracteres expressar a asfixia causada ao homem por a quantidade de informações.
De acordo com os preceitos filosóficos científicos, a nossa espécie passa a produzir e reproduzir conhecimento a partir do primeiro contato do homem com a natureza, e vai permanecer assim até este exato momento em que você, meu caro leitor, decodifica as informações contidas nesses inúmeros símbolos, formando idéias sobre o texto apresentado.
A quantidade de informações produzidas no mundo atualmente é tão grande que seria impossível de ser assimilada por um indivíduo da idade média.
Não sei se o senhor ou senhora leitor (a) já parou por um instante e se viu cercado por informações que são atualizadas de tal modo que seria humanamente impossível alcançá-las, mas o homem tem sede de conhecimento, e para sustentar esse vício de produção de informações o homem inventa a ciência.
A ciência é utilizada atualmente para designar uma gama de explicações humanas em relação ao universo em que vivemos, mas deixemos os conceitos de lado e aprofundemo-nos com relação ao produto dessa ciência.
A produção científica da espécie extrapolou todos os limites, chegando a ponto de ser necessária a criação de novas teorias para explicar fatos que já tinham uma explicação, mas que devido às exceções, acabam por serem sucateadas por uma nova onda de teorias.
Com certeza vocês leitores cultos sabem em que modelo de criação do universo, ou sabe com certeza quantas teorias atômicas já superamos;
pois se pararmos um momento para refletir, iremos descobrir que essas teorias ou esses modelos só são substituídos por novos devido a existência de exceções, sim, é isso mesmo, não sei se você leitor já reparou que em todas as áreas desde a linguagem até as questões físicas existem exceções, exceções essas que provam a quantidade de informações que não foi desmascarada, e que provavelmente não será, pois se assim o for, aparecerão novas exceções.
Nós humanos temos a necessidade de nos afirmarmos sobre algo que provavelmente nunca será estável, e se for, seria lógico pensar que pararíamos de construir conhecimento pois esse já estaria completamente acabado.
A ciência que funciona para nós, sociedade moderna (digo moderna em relação as sociedades que nós, conceituamos como sociedades antigas e ultrapassadas) é apenas um modo de afirmação, ora pois seria plausível afirmar que a ciência funciona para explicar a sociedade moderna como as teses religiosas serviram para explicar o mundo, teses estas que nós insistimos em negar e afirmar que as superamos.
Pois se é assim, não seria digno de que talvez, e enfatizo o talvez, a nossa «ciência» fosse derrubada por uma nova teoria no futuro?
Teoria que poderia jogar por terra tudo o que levamos séculos para erguer?
Surgindo uma nova era de conhecimento, e que talvez não possa ser atualmente assimilada por nós?
Pois bem, o conhecimento produzido por a nossa espécie é tão grande que poderíamos desenvolver uma tese que seria infinita, mas que não nos levaria a lugar algum, pois com certeza haveriam exceções e exceções.
Se você nesse momento está refletindo sobre esse texto, meu esforço já foi suficiente então para que você entenda a idéia de ele, a produção de informações atingiu um patamar tão alto que até eu, um mero garoto que acaba de completar dezessete anos, utilizando um meio de comunicação simples, posso «criar» algum tipo de informação, que com certeza não será lida por toda a humanidade, mas que acaba de completar um pouco mais do oceano de informações existentes.
Número de frases: 26
Obrigado por a atenção!
Crônica DOS Belos Tempos " Em todo os tempos os homens lutaram por a igualdade, liberdade e fraternidade.
Hoje estas palavras estão inscritas nas fachadas de todos os prédios públicos mas acabaram perdendo o sentido."
ROSSELLINI (in Jornal do Brasil -- RJ, 1977)
Considerando que meus pais -- neste (fim de) ano da graça de 2004 -- com 87 e 91 verões estão vivos e bem, posso calcular que já passei do que seria (ou será?)
a metade de minha modesta existência ...
e continuo não gostando nada do período natalino.
Quando trabalhava, jovem ainda, em butiques e grandes magazines cariocas, eu o detestava ainda mais.
Lembro-me de uma passagem engraçada com referência à Ceia de Natal, esbanjamento absurdo e espantoso de alimentos e bom-senso.
Um grupo de quase 15 rapazes trabalhava em 2 sapatarias, na Galeria Menescal, a mais antiga de Copacabana.
Os irmãos-proprietários vivam às turras e uma das «diferenças» era com relação à hora de liberar os empregados na véspera do Natal.
O pequeno e raquítico «seu» Alberto queria dispensar mais cedo, enquanto o balofo «seu» Luís Carlos segurava o pessoal até o último freguês.
Nós, doidos para ir para casa, atendíamos os retardatários com visível mau-humor, «fuzilando» compradores e acompanhantes com olhares furibundos, pouco se importando com as comissões.
Em o meu primeiro Natal na loja «Só Crianças» sucedeu o inusitado:
devido ao adiantado da hora, mais de 9 da noite, «seu» Luís decidiu promover uma ceia de Natal no restaurante de um amigo, na própria Galeria.
Felizes como passarinhos nos abancamos na série de mesas ajuntadas e esperamos os «comes & bebes».
Bandejas abarrotadas pousaram solenes para nos dar um susto inesquecível:
ao invés de churrasco e arroz à grega, nos desafiava os estômagos ocos uns pastéis enormes sem nada dentro, bolinhos de carne (quase) crua, bolos esquisitos lambuzados de mel e um bocado de «comidas» árabes que nunca vimos.
Foi o maior desperdício de alimentos que o restaurante viveu pois, aliando protesto à decepção, o grupo inteiro debandou.
De minha vivência no Morro onde nasci não me lembro de uma só ceia, nem de visita aos barracos vizinhos e, considerando que nossa vida lá não era um mar de rosas, acho ótimo que a memória me falhe agora.
Restam-mos dias de infância passados na casa dos tios, em Rio Negro / PR, em meio aos gritos dos fãs da Jovem Guarda e dos londrinos «Reis do yê-yê-yê» enquanto Jânio distribuía Brasil afora a cobiçada vassourinha dourada (um broche) com que varreira as mazelas & problemas da Pátria amada e idolatrada.
Belos tempos aqueles!
O enorme presépio que ocupava boa parte da sala começava a ser montado nos primeiros dias de dezembro.
Parece-me que tinha que estar pronto dia 6, sem falta.
E tudo iniciava com um longo piquenique aos banhados próximos ao cemitério, num local de mata virgem denominado «potreiro».
Com bambus retirávamos as «barbas de pau» das velhas árvores e, 3 ou 4 horas depois, voltávamos felizes, tendo deslizado de «trenó» por os morros de grama lisa.
Tia Anita já estava às voltas com caixas enormes, retirando dezenas de estatuetas enroladas em jornais, além de bolas, estrelas, guirlandas prateadas e lâmpadas multicores.
Vez ou outra uma bola espatifava-se no assoalho, com o desastrado sendo brindado com um longo assobio de desgosto e o olhar condenatório da mais beata das moradoras da Rua Benjamim Constant.
Quase uma engenheira, dona Anita construía a «cidadezinha» em 2 tempos, prática adquirida ao longo dos anos.
Tio Nato conseguira um motorzinho de aquário que tornava o nosso presépio especial.
O único da cidade a ter «cachoeira» e um monjolinho, com roda d' água e tudo, inclusive um «laguinho».
Descia-se um papel grosso desde o teto, pregado ou colado à parede em vários trechos, «enrugado» para parecer pedreira.
Disfarçava-se com «barba de pau» e folhas verdes, pintando até, se fosse preciso.
Areia e seixos, pedras lisas dos rios, tudo o que transformasse o presépio em paisagem natural.
A imagem do Menino-Deus era a derradeira, introduzida com solenidade e respeito em noite de orações e festa, com salgadinhos e alegria genuinamente natalina.
Mas, no fundo -- no Passado distante ou nesse exato momento -- quase todos só pensam em si mesmos, nos presentes que ganharão, nas roupas que hão de comprar, no que vão comer e beber antes & depois da Santa Ceia.
O Natal exacerba vaidades e um triste egoísmo.
Ainda não conheci uma só casa que se preocupasse em diminuir a fome e a precisão alheias.
Eu e meu irmão gêmeo «torcíamos o nariz» para os natais passados com os tios, sem sequer a presença de nosso «sumido» pai.
Trabalhando em afazeres diversos boa parte do ano, os presentes do Papai Noel soavam como mera paga por serviços prestados.
De aí o mal-estar que nos afligia.
Em um dos primeiros natais contrataram exímio «faquista» para dar cabo de um porcalhão (?!),
imenso exemplar da espécie, com voz de Rita Pavone e pulmões de mergulhador profissional.
-- Afastem as crianças daqui ...
com essas «pestes» por perto o porco não morre!
-- Qual o quê, amigo!
Imagine se com um facão desses o bicho «não bate as botas»?!
I sso é superstição boba!
Ficamos ...
lacrimejantes e morrendo de pena do «bichinho», amarrado e amordaçado.
Quatro certeiras facadas e nada.
Mais homens para segurar a fera, outras duas lançadas e o monstro resistindo.
Morreu na sétima estocada, mais furado que calça de estudante.
Abancado numa mesa improvisada, o banho de água fervente para começar a depilação do bruto.
Eis que de repente o animal esperneia aos berros, ventre aberto, sangue por todos os lados ...
ninguém ficou por perto, debandando como ratos por os cantos da casa.
A Vida passa como um trem e nós, passageiros de ela, gravamos na retina imagens indeléveis de muito do que vemos (e vivemos).
Pessoas, fatos, coisas, vozes e sons ...
mas os momentos de Natal dentro de uma família estável, quando a situação de todos ainda permite sorrisos, é uma rara ocasião de felicidade que sempre merecerá ser lembrada.
Só por isso a época já vale!
E essa reunião de homens e mulheres de boa vontade ainda justifica crença na Humanidade e fé no futuro.
«Já nasceu o Menino-Deus ...
vinde, cantemos, oh pastores!
Celebremos os louvores!"
«Nato» Azevedo (
ANANINDEUA, Pará, dez.
/ 2004) * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Exército da Salvação Quando se vai envelhecendo dizem que a lembrança de fatos & coisas do passado se torna mais viva e presente no que resta de nossos dias.
E, como diria a canção, «um dia a mais, quem sabe pode ser um dia a menos» no meu caso, que já vivi 55 outubros sem ter muito do que reclamar.
Como minha memória anda mais ativa do que nunca, acho que estou ficando velho.
Toda minha infância e juventude foi passada, sem intervalos, entre internatos variados e casa alheias.
O barraco num morro de Copacabana -- onde nasci e no qual vivi até os 6 ou 7 anos -- só voltou a ver meus ossos aos 15 anos e pouco, quando tornei a ter família, mãe e dois irmãos meio desconhecidos.
Mas, pulemos essa parte, que esta crônica não tem a intenção de servir de muro de lamentações.
Embora carioca, se eu tivesse um pouco do hiper-ufanismo de paraenses, baianos e (porque não?!)
de gaúchos elegeria Rio Negro, no extremo sul do Paraná, como «minha» terra.
Em a cidadezinha (à época, 1959 ou 60) com imenso rio de águas marrons e belas pontes de ferro nadei, fiz «caçadas» de coisa nenhuma, roubei uvas no potreiro de um idoso que morava longe de tudo, capturei dezenas de vagalumes que ficavam em potes de vidro até a morte por asfixia e fiz tudo o que qualquer menino (guri ou piá, como se dizia) do interior faria.
Em as férias, quando meu irmão gêmeo e eu não estávamos em algum colégio interno, passávamos os dias na casa dos tios, trabalhando um bocado nos afazeres domésticos para compensar as despesas.
Comíamos como esfomeados, nas primeiras semanas «demos fim» na adorada coleção de compotas de pepinos, pêssegos e maçãs da tia Anita -- depois trancada a sete chaves no armário da dispensa -- e devorávamos colheradas de banha de porco, de uso muito comum naqueles belos tempos.
Bem, estas mal traçadas linhas têm por objetivo falar da principal figura da casa, 1,90m de massa e energia conduzindo uma enorme cabeça já com alguns cabelos brancos.
Era impossível ignorar aquele caixeiro-viajante -- espécie de «prestação» nos dias atuais, mas que só portava um mostruário -- quando êle estava em casa.
O «golias» CINCINATO Figueiredo, de quem herdei o esdrúxulo nome -- que passou para um dos meus sobrinhos (e espero que pare por aí!) --
virava a casa do avesso nos poucos dias em que lá ficava.
Adorava um «buraco» ou canastra, não passava sem cerveja e fumava como uma locomotiva.
Entretanto, era na cozinha que mostrava todo seu talento.
De tudo êle entendia um pouco:
de assados a ensopados, de beringelas fritas a uma suculenta macarronada.
Tempêros perfeitos, comida no ponto, feijoada engrossada no liquidificador, com uma pitada de maizena.
Eu mantinha o fogão a lenha no máximo, as 4 bocas cuspindo fogo, com as paredes de madeira da casa «suando» no calor infernal.
Tio Nato, como nós o chamávamos, só não fazia pão, especialidade da beata esposa, a qual nunca vi chamá-lo por outra coisa que não fosse «meu velho».
A cada almôço ou jantar a casa jamais tinha menos que 6 ou 7 pessoas à mesa, o mais velho puxando oração de agradecimento «por o alimento que vamos receber».
Com as travessas postas na mesa, tio Nato não dispensava a chance ...
abria a bocarra e estrondava o bordão costumeiro, o som da voz a estremecer paredes:
-- Exército da Salvação ...
a «gororoba» está na mesa!,
enquanto nós e o primo Osmar (o «reizinho» da família) avançávamos até as cadeiras.
às vezes, outros primos que moravam mais adiante também se apresentavam.
O «seu» Nato era pessoa absolutamente tranquila, cordata e delicada, exceto quando jogava baralho.
De aí, virava um leão enjaulado.
Já entrava no jôgo excitado, nervoso, falando alto e fumando desbragadamente.
Em época em que 8 da noite «era hora de guri estar na cama» -- víamos «O Sheik de Agadir» ou «A Ponte dos Suspiros» por as frestas da parede, porque criança não podia ver novela -- o tal jôgo de baralho ía até quase meia-noite.
Tio Nato era um excelente jogador e, exímio com o lápis, incumbia-se de anotar as intermináveis contas do «buraco» ou canastra ...
que até hoje não sei se são a mesma coisa.
Sempre errava a seu favor, detestava «gente de saia» como parceiro e deixava tia «Nica» (como êle carinhosamente a tratava) uma «arara» com seu costume de levantar a ponta da carta de baixo para ver o naipe de ela e quem a pegava.
Dona Anita enchia os pulmões, dava um longo assobio sob o discreto «bigodinho» e disparava a metralhadora:
-- Meu velho, assim não é possível ...
você está rrrrrrrroubando!
Tio Nato parecia um castor encurralado!
Com os 4 dentões de baixo a morder com força o lábio superior, a mãozarra batia forte na mesa fazendo tilintar os copos:
-- Vocês, mulheres, não são de nada!
Só prestam para cuidar da casa ...
baralho é coisa de homem!,
e perguntava aos demais convidados, bastante constrangidos, se tinham visto algo errado.
Os parceiros eram quase sempre os mesmos:
as vizinhas meio japonesas, filhas da dona Nadir, meu sisudo tio José, o comerciante José Comte -- que fornecia o café e as cervejas -- e quem mais estivesse por as redondezas.
Rio Negro está cravado em meu coração como aquelas flechas de filme de índio americano e a imagem de meus queridos tios resplandece no quarto escuro, em longas noites, insone.
Se, hoje, escrever é um dos meus raros prazeres entre tantos dissabores, devo isso à minha tia Anita (nascida Ana), primeira incentivadora (e leitora) de meus versos.
Felizmente saí da cidade antes que estes e outros entes queridos -- como o enjeitado (alcoólatra?!)
primo Joãozinho -- virassem lápide no cemitério local.
Não tive o desgôsto de vê-los hirtos e frios num caixão, tão mortos quanto as flores que os enfeitaram.
Guardo de eles as melhores recordações, vivos e sãos a meu lado.
Ainda garoto, buscaram-me no colégio interno para ver minha avó paterna num esquife na sala, surpresa macabra ocultada durante toda a longa viagem.
Desmaiei no instante em que a vi e acordei na cozinha, cercado de biscoitos e curiosos.
Que me perdoe quem está me lendo, mas considero cemitérios um equívoco, pois deveríamos recordar os que se foram Vivos em nossas lembranças e não como pó ou cinzas.
Antes de partir «desta para a melhor» espero retornar à cidade de Rio Negro, onde deixei meu coração e quase toda a felicidade de minha solitária existência.
Ao menos para rever com emoção os verdes campos do lugar», no dizer do poeta, embora já não haja trens e nem sequer Estação.
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publicado em Letras Contemporâneas nª 6, da Igaçaba Produções Culturais, de Roque Gonzales, RS / 2003 * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
A seguir, trecho dos «rabiscos» iniciais (o 3º no caderno) tendo como tema Rio Negro, escrito em 15-12-1967, para as festas de natal:
Saudade E Solidão I
Em uma pacata cidade
a infância toda passei.
Anos de felicidade
aqueles em que lá morei.
III
Em estes dias tórridos, quentes,
para aí minha mente voa.
Co' a lembrança de meus parentes
meu coração mais forte soa.
IV
Muito, agora, me enlouquece
este «Rio» de maldades ...
Relembro quem não me esquece
e, de eles, tenho saudades.
V
A os queridos tios, parentes ...
à êles e a tod' os presentes
desejo «Paz e Felicidade».
VI
Sinto o coração doente
por saber:
vocês contentes ...
e eu não estar nesta Cidade!
Número de frases: 152
Eu fui ao Maranhão no mês de Junho e vi o quanto ainda precisamos crescer.
Um outro Brasil é possível.
Um país único, justo, em que as diversidades étnicas, econômicas e sociais dançam de braços dados o ilustre carnaval que Deus nos presenteou.
Era mês de junho.
Desembarcava no Aeroporto Nacional de São Luis do Maranhão eu, meu irmão e minha mãe.
Ainda lembro bem do primeiro desembarque na cidade quando era pequeno:
«Mãe mas que bafo, é muito quente aqui fora."
Pegamos um táxi porque o homem sentado na bancada de informações turísticas não sabia bem explicar como que chegava ao destino desejado.
«Aí doutora, com o ar condicionado ligado a gente tá cobrando um teco mais caro."
Optamos por o vidro aberto, mesmo porque nunca me relacionei bem com o ar.
Chegamos na praia depois de poucos 15 minutos de trajeto.
O taxista alertou que a maré do mar era bastante oscilante, e mencionou algo do tipo " a segunda maior do mundo!"
E de fato é verdade, nas primeiras horas da manhã o mar avança sobre toda a areia, cobrindo-a completamente.
Por volta de meio-dia ele recua para sua posição original, para mais tarde chegar a desaparecer dos primeiros 200 metros.
O chalé em que nos hospedaríamos era logo por ali, sem muita dificuldade para encontrá-lo, tendo em vista que existiam poucas edificações à beira-mar.
Conversando com os habitantes ficávamos sabendo dos pontos turísticos que não poderíamos deixar de visitar.
Primeiro é claro o Centro Histórico da cidade, o pouco que sobrou das edificações da colonização francesa.
Casarões com fachadas tímidas, azulejos característicos aos montes e de diversas cores e tamanhos.
Em o segundo dia ficamos sabendo como que se chegava aos famosos lençóis maranhenses.
Alugamos um carro no aeroporto para não perder a chance de conhecer o famoso «deserto» brasileiro.
Eram duas horas de viagem até Barreirinhas, uma cidade pequena de pouco mais de 3 mil habitantes.
Por o centro do município se espalhavam homens oferecendo transporte até os lençóis, visto que o caminho era restrito aos conhecedores e credenciados a agencias de turismo.
Embarcamos numa «Bandeirante» de uma agência e fomos embora.
Por o caminho uma paisagem típica do Norte brasileiro que se conhece através de filmes e fotos.
Os vários cactos figuravam entre uma árvore típica da região, a chamada Jatobá.
Depois de cerca de 1 hora de trilha titubeante o motorista deu cabo à aceleração do veículo.
Olhamos para os lados e tudo que víamos eram árvores e mais árvores, nada de areia.
O guia desceu do banco do passageiro e pediu que o seguíssemos.
Atravessamos um riacho com água até na altura do peito e chegamos ao pé de uma pequena montanha.
Apoiando numa corda íamos escalando o morro, sem claro deixar de fornecer a um menino de poucos 10 anos uma quantia inválida de 10 centavos (ele sorriu quando recebeu a moeda).
Pois quando chegamos ao cume do morro, uma imagem extraordinária arrancou lágrimas de nossos olhos.
Uma vastidão de areia, ora seca e ora preenchida por água límpida, florescia bem frente às nossas almas.
Minha primeira reação foi a de deixar o corpo escorregar para o chão, e ajoelhado agradecer aos céus por aquilo.
Era feito um presente divino, uma imensidão de beleza e paz.
O guia vinha atrás da gente com a indiferença de quem vê a imagem todos os dias.
Carregava em seu dorso garrafas d' água e sombrinhas para o sol.
Depois de mergulharmos na água e seguirmos o passeio por as dunas, fui em direção ao homem para oferecer minha ajuda para carregar os utensílios.
O rapaz me olhou surpreendido, como quem se sente ofendido ou surpreso com algo.
Em aquele momento eu percebi que ele se colocava como um escravo, mísero ajudante, indigno de desfrutar do paraíso em que pisávamos.
E daquele momento até a hora em que chegamos a São Luís, não pude desvincular da minha memória o olhar do homem.
Em o inicio da viagem me surpreendi com a ausência de edificações a beira-mar, mas foi fácil achar uma resposta para isso depois.
O Norte brasileiro é uma região esquecida, e da mesma forma que é ausente de edificações, é inabitada de idéias modernas.
O escravismo ainda reside na mentalidade de muitos homens por lá, assim como muitos grandes proprietários da região cultivam esse triste termo.
As donas de casa não presenteiam seus empregados nem mesmo com a sobra do jantar do dia anterior, e mesmo os empregados nascem com a crença de que é assim que deve ser feito.
Eu fui ao Maranhão no mês de Junho e vi o quanto ainda precisamos crescer.
Um outro Brasil é possível.
Um país único, justo, em que as diversidades étnicas, econômicas e sociais dançam de braços dados o ilustre carnaval que Deus nos presenteou.
Lutemos.
Número de frases: 48
Bernardo Biagioni Embalado por tantos relatos dos colegas do Overmundo, resolvi publicar também meu diário momesco.
Para mim, o carnaval de 2007 teve um sabor muito diferente.
Não caia na folia no Rio de Janeiro / Niterói desde 1991 (quando tinha só 11 anos!).
Desde então sempre viajei para outros cantos.
Em esse ano resolvi me reconciliar com o carnaval carioca e, sem dúvida, digo que foi um dos melhores que já passei.
Não rolou aquela peregrinação por os blocos, mas junto com a patroa e meus fiéis amigos, conseguimos fazer um carnaval bem dosado entre a pressão dos blocos e a calmaria das praias niteroienses.
Confira meu tardio diário de bordo:
Sexta-feira:
começou mal
Partimos de Nikiti para a Lapa na maior tranqüilidade.
Como a cidade fica mais vazia!
Azar de quem pegou a Ponte no sentido Rio-Niterói.
Nossa programação seria o Monobloco, na Fundição Progresso.
O Carmelitas, em Santa Teresa, foi dispensado, pois não nos arriscamos com a multidão que se formou para acompanhar o bloco.
Em a Lapa, o clima de festa já estava instaurado num mix de parque de diversões e festas folclóricas, puro encanto ...
que durou pouco.
Antes mesmo de entrarmos uma amiga passou mal (pressão baixa) e a carteira do seu namorado (e também meu amigo) foi furtada.
Um banho de água fria para um início de bagunça.
Sábado:
Agora sim!
Seguindo os conselhos de uma amiga trocamos os clássicos -- e bombados -- blocos por os mais «undergrounds».
Nosso destino foi o Empolga às 9, bloco sensacional que sai das imediações da Casa da Matriz, passa por a Real Grandeza e sobe a Visconde de Caravelas, deixando as ruas de Botafogo bem mais coloridas.
Adorei! Rolaram todos aqueles sambas clássicos e as eternas marchinhas onde todo mundo canta junto.
O único problema foi uma certa falta de logística por parte dos ambulantes e bares que não se programaram bem.
De repente ninguém conseguia encontrar mais cerveja, água ...
até os bares ficaram «secos».
Mas como num passe de mágica outros ambulantes apareceram para repor a energia dos foliões.
Domingo:
a praia!
Em o domingão optamos por a praia e abrimos mão dos blocos.
Poderíamos conciliar, mas valeu mais à pena nos dedicarmos totalmente ao sol e ao mar.
Fomos para Itacoatiara (sem engarrafamento e com vaga de sobra!)
e passamos o dia por lá.
O mar, sempre perfeito para os surfistas, estava mais convidativo para os banhistas.
Água limpinha, céu azul, bastante espaço na areia, melhor praia não há!
O almoço foi no quiosque Onda Natural e te digo:
chamar aquele PF de sanduíche parece até mentira.
Voltamos quando o sol se foi de vez.
Segunda-feira:
slow motion
Parte da turma que estava com mim optou por um «retiro» em Teresópolis, mas resolvi ficar, claro.
Novamente não atravessei a Ponte.
Tirei o dia para a casa e a noite fui dar um confere no carnaval do Centro de Niterói, mas preferi o olhar estrangeiro a me jogar na folia por lá.
O policiamento não estava tão presente assim e o clima de insegurança estava no ar ...
ainda mais para quem estava sozinho, como eu.
Só tomei umas cervejinhas e ponto.
Fiquei feliz por ver muitos «bate-bolas» ...
achei que estivessem em extinção.
Terça-feira:
Caçadores dos blocos perdidos
Depois de uma segunda em slow-motion é natural que no último dia eu quisesse me arrasar.
A programação inicial dos blocos era:
Se melhorar ...
Afunda, Meu Bem Volto Já e Vem Ni Mim Que Eu Sou Facinha.
O saldo foi:
peguei metade do Se melhorar ...
Afunda. O bloco que sai de Niterói, atravessa a baía de barca e termina feliz no Centro do Rio tem seu auge, é claro, na barca ...
que eu mais a patroa perdemos!
Porém, chegamos a tempo de pular com todo mundo por as ruas do Centro.
Paramos para almoçar num boteco e depois seguimos para Copa.
Quando saímos do metrô, as ruas do bairro estavam um caos.
Desistimos do Meu Bem Volto Já e partimos para Ipanema.
Por conta do trânsito acabamos perdendo também o Vem Ni Mim ...
Curtimos um final de praia no Arpoador e pegamos a rebarba da Banda de Ipanema.
Quarta-feira de cinzas:
mais praia
Pouca bagunça e mais praia.
De essa vez fomos para Camboinhas, em Nikiti.
Que beleza ...
espaço de sobra na areia, água calma e gelada, solzão ...
De tarde assisti à apuração e meu coração dividido (entre Mangueira e Viradouro) ficou triste, mas tipo, nem sou torcedor fanático ...
Já comecei a fazer planos para o carnaval de 2008.
Ano que vem pretendo peregrinar realmente por os blocos (e deixar a praia só para a quarta-feira!)
e assistir a algum dia de desfile na Sapucaí.
Fiquei quase 15 anos sem o melhor carnaval do mundo.
Agora vou correr atrás do prejuízo!
O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país.
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo.
Número de frases: 79
A menor TV do mundo e o jornal que já foi considerado o mais rápido do Brasil ficam em Minas Gerais.
Quase três décadas separam o Jornal do Poste da TV Muro, mas eles possuem muito em comum.
O Jornal do Poste é lido, até hoje, nas ruas de São João del-Rei.
Em momentos de efervescência na cidade, a tiragem já chegou a três edições diárias, dando ao jornal o título do mais ligeiro do país.
A TV Muro, por sua vez, recebeu o apelido de «menor» por o alcance da sua audiência remota:
no total, são dez residências que recebem o sinal.
João Lobosque Neto, vulgo Joanino, figura lendária e criador do jornal, em 1958, era fiscal fazendário e proprietário do bar Bife de Ouro.
A história começou a ser escrita lá mesmo:
ele afixava no mural de madeira do boteco notícias que escutava no rádio, durante a madrugada, e as conversas que ouvia por as esquinas da cidade.
O bar fechou, mas o jornal persiste até hoje, em sua terceira geração, coordenado por Cláudio Monteiro.
A «invenção» atual de Francisco dos Santos, ou simplesmente Chiquinho, não é muito diferente.
Fundador da TV Muro, em Sabará, ele nunca ouviu falar sobre inclusão digital e a internet ainda é algo distante, mas sobre o propósito da sua criação, responde prontamente:
«Só queria ficar famoso.
Todo mundo que é aficcionado por televisão sonha em estar do outro lado», afirma.
Professor de artes na rede municipal, ele é conhecido em toda a cidade.
A sra..
Eva, umas das primeiras telespectadoras e anunciantes da TV Muro, afirma que Chiquinho está sendo desperdiçado numa cidade do interior como Sabará.
«Ele é inteligente demais para ficar aqui.
Ele faz tudo na TV e aprendeu sozinho», elogia."
E o marmitex de ela é o melhor da cidade.
Eu sempre anuncio para todo mundo comprar», devolve o produtor /diretor/apresentador.
Joanino era um são-joanense de comportamento insólito.
Em a redação do jornal, criava cobras num cômodo anexo.
Entrevistados eram surpreendidos, vez ou outra, com uma jibóia cruzando a sala.
Como fiscal alfandegário era impiedoso.
Comerciantes ricos e criadores de galinhas, todos sofriam com as suas apreensões.
\ \ " Uma briga num bar é mais importante do que uma revolução no Chile \ \ "
Essa era a frase que Joanino costumava utilizar como sua linha editorial.
Falar, principalmente, sobre temas que envolvem a comunidade local é o objetivo principal do Jornal do Poste e da TV Muro.
Com um linguajar familiar e facilmente reconhecido por os leitores / espectadores.
«Era a \ \ «linguagem de esquina \ \» utilizada por Joanino, a qual procurava reproduzir a conversa de bar.
Em as sextas-feiras, quando as pessoas da zona rural vinham fazer suas compras na cidade o texto era bem coloquial e popular, já de segunda a quinta-feira havia um maior apuro linguístico " explica Eliana Tolentino, pesquisadora do Jornal do Poste.
Devido aos muitos erros ortográficos cometidos por a redação, em 1962, Lobosque recebeu o título de \ \ «o único jornalista da Associação Brasileira de Imprensa que não sabia o Abc \ \».
A TV Muro fala aos vizinhos da " Rua São Francisco.
«A transmissão começa quando o sol some.
As crianças voltando da escola, e os adultos do trabalho:
muita gente vai passando na frente do meu muro e fica assistindo», afirma Chiquinho.
A programação que começou com uma única atração -- o Jornal Legal -- hoje é diversificada.
Em o «Domingo do Fuxico», as últimas fofocas da cidade são reveladas ao público, já o» Muro Espetacular " fala dos campeonatos de futebol de rua e de queimada.
Outra característica em comum aos dois é a necessidade de deslocação do público.
É ele quem deve ir ao local onde as notícias estão sendo exibidas.
A TV Muro fica logo ali, na rua de trás da Igreja de São Francisco.
Já os murais do Jornal do Poste estão espalhados por diferentes pontos:
Campus da Universidade Federal, Sapataria Islã, papelaria A Colegial, Terminal Turístico, Rodoviária (de São João del-Rei e Tiradentes) e na Drogaria São Camilo.
O que uma vez foi peculiar ao Jornal do Poste acabou se tornando uma prática do jornalismo de São João del-Rei.
Em os últimos anos, os murais proliferaram intensamente, por força de interesses políticos ou financeiros.
Alguns tiveram curta duração e a maioria sobrevive com uma periodicidade irregular», afirma Guilherme Rezende, professor da Universidade Federal de São João del-Rei.
A distribuição do espaço de fixação dos jornais segue a posição política do dono.
Número de frases: 48
Jornais de oposição não frequentam os muros próximos à prefeitura e os governistas não estampam páginas no «território» da oposição.
Estou sendo moralista e preconceituoso, ou a imagem acima é um atentado contra os direitos humanos?
Esta semana estive em Floresta, sertão de Pernambuco, e dei de cara com esse cartaz logo no posto de gasolina que serve de rodoviária de lá.
Depois vi que estava espalhado em toda a cidade.
Em a montagem, as quatro mulheres ostentam nas nádegas o símbolo do artista, marcadas a ferro como gado.
Faço a pergunta não como retórica, mas para ter um retorno:
quais são as opiniões dos overmundanos?
Já abordei o assunto antes, com muito mais certeza do que agora.
Volto ao tema porque realmente fiquei atordoado.
É bom deixar claro que não conheço o tal Mano Walter -- parece que ele é de Alagoas, nem tenho nada contra a música e a dança desse forró lambadeado.
O que pra mim, um sulista radicado em Pernambuco há quase dez anos, fica difícil de aceitar é a institucionalização de um universo que gira em torno da «raparigagem», cornudos e demais baixarias.
Tendo em vista a popularidade de tais grupos, em que nível estarão as relações humanas?
Dizem que nas cidades do interior a qualidade de vida é maior, mas não foi isso o que ouvi de pessoas que moram no sertão nordestino.
Uma menina me disse que na sua cidade não existe lei, e que os homens, inclusive os casados, podem forçar uma mulher a ter relações sexuais, isso é natural.
Louco não devo estar.
«Baixio das Bestas», o próximo longa de Cláudio Assis, confirma essa miséria social retratando a truculenta forma de se relacionar, no caso, a de um avô que escraviza sexualmente a neta numa cidade da Zona da Mata Pernambucana.
Semana passada, a revista Carta Capital ostentou na sua capa a manchete «Grotões no Ocaso», se referindo ao fim dos bolsões de miséria e atraso no interior do nordeste.
Penso que economicamente isso pode ser uma verdade mas, voltando à questão inicial, será que à cultura de muitos lugares falta tolerância e cumprimento dos direitos humanos, ou sou eu quem precisa rever meus valores?
Número de frases: 18
O melhor meio de uma pessoa refletir sobre sua língua e cultura é deslocar-se:
mudar de cidade, estado, região ou país.
Infelizmente não tive ainda a oportunidade de morar fora do Brasil para o ver com «outros olhos», de que tanto falam os que moram no exterior por algum tempo.
Em termos de língua, viver 500 km longe da cidade natal é o suficiente não apenas para observar algumas diferenças nítidas, na fala principalmente, mas para sentir como a língua do dia-a-dia mexe com a gente.
Conviver com as palavras e passar a utilizá-las não é o mesmo que tirar férias e se admirar com o jeito de falar dos nordestinos, dos cariocas ou dos manezinhos, por exemplo.
Morando em Chapecó (SC) há três anos, fui obrigada a mudar algumas expressões empregadas na minha fala:
não espero mais ônibus na parada, e sim no ponto (ainda que esse termo não me agrade por as associações que suscita).
Aliás, não espero mais ônibus;
espero lotação, ou «lotcha», caso queira dar um ar mais informal ou jovial à minha fala.
Não subo mais lomba (e custei a me dar conta disso!).
Depois de comentar duas a três vezes com uma colega sobre a vontade de realizar caminhadas próximo à universidade, com o porém de que havia lombas, percebi que ela simplesmente não estava me entendendo.
Então chegamos à conclusão de que tinham subidas, ou ladeiras.
O mais triste, entretanto, é não poder pedir cacetinho na padaria.
Pãozinho não é a mesma coisa ...
Até hoje não sei exatamente como me referir, pois a palavra pãozinho compreende outros tipos de pães (sovadinhos, doces, etc.), e pão francês ou pão d' água são termos mais abrangentes que pão de 50g.
Felizmente aqui em Chapecó, por a proximidade com o Rio Grande do Sul, não o olham de cara feia ou assustada se ouvirem a palavra cacetinho no balcão, mas prefiro não arriscar.
Quando vou a Porto Alegre, tenho o prazer de pronunciar com todos os fonemas:
«Seis cacetinhos, por favor!»,
além do que eles são muito mais gostosos lá do que aqui.
Que prazer tomar café com cacetinho e nata ...
Ainda sobre a lotação, outro dia uma colega contava sobre sua primeira experiência como motorista depois de tirar a carteira:
o carro parou numa subida [lomba para mim] com uma lotação atrás, pois ela estava com o freio-de-mão puxado e não sabia.
Imaginei a cena, mas com um microônibus vermelho, como os táxi-lotação de Porto Alegre.
Bem diferente dos ônibus municipais amarelos de Chapecó.
Número de frases: 24
Toda vez qu ' eu vou ao Brasil uma das coisas que mais me cham ' atenção, principalmente em São Paulo, e a quantidade de marcas e anuncios publicitarios que poluem a cidade.
Cada metro quadrado foi sequestrados por os publicitarios e todo mundo acha lindo.
A invasão do espaço publico por a publicidade parece pouco criticada.
Ninguem se importar com essa invasão, com esse sequestro.
Uma total falta de critica por parte dos cidadãos e dos profissionais da area levaram a saturação total do panaroma urbano.
Onde se coloca o olho se se ve marcas.
Teve um amigo meu publicitario que pra se defender disse:
«isso serve para preencher a necessidade de consumir do cidadão "
Talvez voce não saiba, mas voce eu e seu vizinhos temos algo em comum:
a necessidade de consumir, consumir, ate acabar.
Imaginem 5 bilhões de pessoas com esse mesmo intuito?
Agora eu entendo porque as reservas naturais estão indo para o beleleu!
Eu não posso deixar de ficar decepcionado com a falta de reação dos meus compatriotas.
Por toda a Europa e Usa existem pessoas que preocupada com a invasão do nosso espaço publico e privado por as publicidades e tambem por a influência nefasta que as marcas exercem sobre o espirito e sobre o inconsciente do cidadão resolveram agir.
Um bom exemplo e a Brigada anti-pub na França, a The anti-advertising agency nos US e o internacional adbuster.
Número de frases: 15
O otimo video Kapitaal feito por os designers The m5 mostra bem o que seria uma cidade bela como Amsterdam privada de sua paisagem e substituida por marcas, nada mais que marcas.
Definitivamente, o mundo dos games tem produzido pérolas no esquema de produção colaborativa / independente ... ...
E iniciativas até mesmo da Microsoft no estilo ' faça você mesmo ` sinalizam uma futura ' era punk ' dos joysticks.
Será?
Minhas divagações começaram quando tive uma comoção -- para não dizer uma síncope chorosa-emotiva -- ao ler sobre os 15 anos do Sonic, comemorados agora em junho.
Pode rir, eu deixo.
O pior foi me sentir o Matusalém nessa hora, porque vi, molequinho, o porco-espinho azul nascer, fazer a fama e afundar na lama com uns games caça-níqueis deprimentes nos últimos anos.
Acompanhei tudo.
Nem assim saio do fã-clube de ele, Super Mario que me perdoe.
Para quem não sabe, Mario e Sonic foram uma espécie de Marlene e Emilinha Borba dos consoles de videogame nos anos 90.
Como cada jogo era exclusivo para uma plataforma -- Sonic era da Sega, Mario, da Nintendo -- e ninguém podia ter um videogame que tivesse os dois jogos ao mesmo tempo (game pirata não conta!),
as intrigas eram inevitáveis.
A rivalidade era uma farofada que não deveria ser muito levada a sério, porque, na prática, os dois personagens estrelavam jogos viciantes;
só que poucos admitiam curtir o mascote ' rival ' do console que tinham (você está conversando com as lembranças de um garoto de 10 anos, aceite o discurso fatalista).
Quem acompanha a história sabe o desfecho:
a Sega, quebrada, parou de fabricar videogames -- limitando-se a produzir jogos -- e Sonic está sempre dando as caras nos consoles da Nintendo;
e com muito sucesso.
Voltas da vida.
Aí você me pergunta:
qual a ligação entre um porco-espinho azul criado no Japão com o universo cultural brasileiro?
Achei minha resposta, inicialmente, neste site.
O endereço eletrônico simplesmente abriga uma série de fan-games -- jogos elaborados por os próprios jogadores e distribuídos gratuitamente por a rede.
Um dos destaques é um game -- de um brasileiro -- intitulado Neo Sonic Universe, que segue a mesma estrutura das versões em 2D da série nipônica.
Fuçando mais a página -- e outras do mesmo gênero por a rede --, você descobre uma tonelada de games do Sonic -- tem até RPG com o porco-espinho -- e também do Mario.
Todo mundo parece ser um potencial criador.
Tudo bem que fazer um game é abissalmente mais difícil que criar um blog, mas não faltam sites a incentivar os gamers mais apaixonados, com tutoriais e sugestões de programas para se elaborar o próprio jogo.
E a quantidade de versões de jogos feitos por brasileiros, sem compromisso comercial, apenas por o prazer de criar e compartilhar a diversão com os outros, rende projetos inusitados.
O Brasonic é um exemplo de galhofa ambulante travestida em jogo de computador.
Em o bojo das quase-infinitas versões de games ' sonic ' criadas por fãs, esta se destaca por fazer um Sonic brasileiro.
A cor azul do herói é trocada por o verde-amarelo, os postes espalhados por o cenário -- quem servem como marcadores de fase -- dão lugar a birutas de posto de gasolina.
E um dos chefões a ser derrotado é um homem barbudo com 9 dedos na mão que ocupa a tela inteira (uau!).
Se o similar japonês faz as aventuras em busca das esmeraldas do caos, o pé-rapado daqui corre atrás das raras notas de R$ 100 espalhadas no jogo.
Quem disse que não dá para fazer crítica social com jogos eletrônicos?
Ah, não comentei uma ilustre participação:
o hermano Diego Armando Maradona faz uma ponta no game, que homenageia a fase mais fofa do desportista.
Brasonic é uma das melhores sacadas feitas por fãs nos últimos tempos;
uma continuação está em andamento, inclusive com fase carioca.
De os fan-games existentes, entretanto, a produção brasileira mais famosa de todas é inspirada ....
no México.
Mas é sobre um mito digno de nota.
Quiçá um patrimônio nacional, perdoem-mos colegas lá de cima.
Street Chaves, de 2003, deu tão certo que recebeu várias atualizações e novos personagens ao longo do tempo -- uma das vantagens dos games feitos por jogadores-fãs é que constantemente são aperfeiçoados e ganham novas versões, ao contrário dos antigos jogos de consoles.
Já deu para imaginar do que se trata?
É um jogo de luta mano a mano, inspirado no clássico da pancadaria Street Fighter.
Só que Ryu, Sagat e cia cedem vez a Dona Florinda, Nhonho, o hors-concours Seu Madruga e todos os outros do seriado criado por Chespirito -- e reprisado desde os 40 minutos antes do nada na tela do SBT, como diria Nelson Rodrigues.
É catártico para quem sempre sonhou em dar uma coça na Bruxa do 71 ou fazer o Seu Madruga (Rei!)
devolver todos os tapas que levou da mãe do Quico.
Ver os caras dando voadoras giratórias e atirando bolas de magia azul é, no mínimo, pitoresco.
Um jogo brasileiro estrelado por mexicanos dando golpes ninja-japoneses pode ser encarado como uma ode tropicalista.
Foi um sucesso absurdo na época -- os gráficos são legais e os comandos respondem bem, ponto essencial para um game colar.
Criado por o grupo CyberGambá, a turma do Chaves -- principalmente o (Rei!)
Madruga -- é personagem principal das produções feitas por eles.
O pai de Chiquinha, aliás, corre sério risco de se tornar o maior mascote desta geração brazuca de fan-games -- sem dar brechas para italianos bigodudos e porcos-espinhos de semblante cool.
É estrela desde jogos de plataforma -- no maior estilo Mario -- a adventures e RPGs.
Uma continuação da pancadaria gamística da turma do Chaves, agora com gráficos 3 D, está em curso.
Fan-games em três dimensões são mais escassos por a maior complexidade que envolvem.
Ainda em estágio inicial, existem apenas dois personagens jogáveis -- Chaves e Seu Madruga -- e um cenário, a vila.
Como ninguém ganha dinheiro para fazer estes games, nem é bom cobrar prazos.
Eles simplesmente ficam prontos, assim, do nada, quando você menos espera.
Pelo visto, o trabalho destes desbravadores indica um caminho futuro:
criar um jogo para videogame não será tarefa impossível.
A Microsoft, por exemplo, anunciou recentemente que lançará uma ferramenta doméstica para a criação de games, voltada para PC e X-
Box 360 -- o último console da companhia.
O público-alvo ainda é de pessoas com conhecimento especializado -- nada receptivo à galera leiga, mas aponta o fato de que um criador independente, cada vez mais, terá oportunidade de executar e exibir suas idéias ao público.
De graça, o programa só coça no bolso do usuário que quiser integrar uma espécie de clube de desenvolvedores, com anuidade de U$ 99.
Em troca, será possível trocar informações com outros criadores, além de facilidades para a elaboração do jogo.
É possível deixar o produto final disponível na Xbox Live, rede que integra jogadores das duas versões do X-
Box, com milhões de usuários cadastrados -- fato que hiperboliza mais a chance de atingir um público específico.
Se tal iniciativa é o estágio embrionário para um Youtube dos videogames, só tempo dirá.
Número de frases: 69
Gente disposta a criar é que não falta.
Quem mora em Riacho Doce certamente conhece, quem trafega na AL-101 norte já a viu alguma vez, com certeza.
No meio da calçada, numa banca improvisada, isopor do lado, balança do outro lado e peixe fresquinho, está a dona Maria ou, como é mais conhecida, «Galega do peixe», com sua banca armada na margem da rodovia de entrada e saída de Maceió, por o litoral norte, do Estado de Alagoas.
Típica brasileira, com traços marcantes, fruto da mistura étnica que aconteceu em nosso território, dona Maria é a cabocla e seus traços indígenas são inconfundíveis.
A região foi a dominada por os Tupinambás -- Caetés e a «Galega do peixe» traz, em suas marcas e sua coragem, a espírito dos silvícolas -- apesar do apelido de «galega».
Não precisa de grito para convencer a clientela, os peixes expostos à beira da estrada são por si só a maior atração para a venda.
A movimentação na estrada é intensa e dona Maria não pára;
ora está atendendo a freguesia, ora está tratando os peixes para serem vendidos.
As mãos habilidosas deixam evidente a experiência obtida com a prática de vários anos na atividade.
Diz ela:
«Graças a Deus, com esses peixes eu criei quatro filhos, já tenho neto e vivo da venda aqui na estrada».
Trata-se de um desabafo metafísico com todo o saber que é próprio dos nordestinos simples, filhos da miséria e da exploração secular, financiada por a aristocracia rural e promovida por o Estado brasileiro ao longo de nossa história.
O ambiente é composto de vários outros ambulantes que comercializam também os quitutes de herança indígena e africana à beira da rodovia.
Tem «pé-de-moleque»,» beiju», «tapioca»,» bolo de fubá», «bolo de macaxeira»,» brasileira», «grude» e outras iguarias da culinária nordestina com raízes nos povos historicamente explorados -- negros e índios.
A região é lindíssima e foi o cenário que inspirou o escritor José Lins do Rego em seu livro «Riacho Doce».
A localidade é histórica e, inicialmente, era habitada por os tupis.
Com a colonização surgiram os primeiros núcleos de povoamento composto por pescadores;
o desenvolvimento de Riacho Doce é fortemente marcado por a pesca, que é a principal atividade desenvolvida por os moradores da região e que se mantém bastante importante ainda hoje.
A região que compreende os distritos de Garça Torta e Riacho Doce, localizados na grande Maceió, também foi palco das primeiras iniciativas de exploração petrolífera no Brasil e, ainda, da primeira vítima na batalha por o reconhecimento oficial da existência de petróleo em solo brasileiro.
A vítima, o engenheiro alemão José Bach, trabalhava na empresa Andrade Auto & Compainha e foi o primeiro a estudar a região;
depois de sustentar a existência e a viabilidade econômica do petróleo alagoano, contrariando os interesses dos Estados Unidos, Bach faleceu em circunstâncias estranhas em 1918 -- ele foi encontrado morto.
É nessa região histórica, cortada por rios e limitada por o mar calmo e cristalino de Maceió, que a «Galega do peixe» escreve sua própria história;
ela também é personagem importante do cotidiano de " Riacho Doce.
Número de frases: 23
«Trazer a peça para Quixeramobim é Tropicália.
É uma coisa impossível de voltar atrás.
De saber que hoje, aqui, 20 de novembro [2007], é 68».
(Zé Celso Martinez)
Os Sertões acabou.
A temporada, quero dizer.
Tudo o mais que veio ficou.
Ficará para sempre.
Escrevo eu.
Quinta-feira, 22/11/2007.
Esse texto precisa ser em primeira pessoa.
Mas que pessoa?
que eu?
Todos os pronomes nunca conseguirão dar conta de agir em verbos, adjetivos e expressarem o que se passou em Quixeramobim durante a permanência e intervenção d' Os sertões ...
Fomos todos agentes e agidos.
Atores e atuados.
Devorados por a linguagem, por o silêncio, por Dionísios, Oswald de Andrade.
Devoramos, antropofagicamente, todas as carcaças que recobriam os desejos.
E o corpo Oficina cantando:
«Ah! Sertão / tão sem ser / sertão / Rocha Viva / Voando, ando / Ser estando, ser estando ...
/ Serestando ...
Tão sem ser ..."
E cá uma febre me dilacera a carne hoje.
Tempo-Marcel tinha razão!
é memória e carne.
E vivo um tempo multideterminado.
A partir de tudo que vivi (emos) naquele teatro.
Século XXI, Séc..
XIX, 2000 a.
c. 1968, Renascimento, Galileu, Antônio Conselheiro, SecXX, Império Romano, Baco, Overmundo, Luiz Gonzaga, Teatro, Cinema, Helenas, Psicanálise, Quixeramobim.
Terra. Terras.
Pele. Corpo-mãe.
Terra-mãe." Tô nos braços de mamãe, para a ela me acarinhar / apareça valentão para me tirar de lá, nos braços de ela eu vou morar».
Palavra, Rosa, nonada, Diadorim entra em cena n ' Os Sertões de Zé Celso.
Euclides fica o tempo todo.
Glauber Rocha Viva dirige a cena da Morte de Conselheiro.
É de pirar, Rosa.
É lindo, overmanos.
Não tem platéia.
A gente fica dentro o tempo todo, porque não há fora.
E lá no sertão soprava um vento durante a peça ...
Meu deus!!! (
Deus há ou Deus é?
Ou não há?
Apenas sendo?)
E esse vento participava do espetáculo.
Só com a presença de ele, Rosa.
Sem ensaios, claro.
Em o dia da Terra, ele espalhou o Mar por o Teatro.
Todo mundo se emocionou, Rosa.
Improviso do vento!
Nonada. rsrsr rsrsrsr rsrsrsr Ssssss ssss.
Aracati, o nome de ele.
O vento e o mar no meio do Sertão.
Foi lindo.
Sopra as poeiras de dentro da gente.
O desejo fica nuzim.
Parecendo criança de cinco anos.
Como devemos ser.
As carnes das gentes se revolvem.
Muitas vezes dói.
Mas vale uma vida aquilo.
Imagine, Bandeira de Manoel, tudo isso naquele sertão pra onde você viajou pra curar a tuberculose.
Se fosse hoje, poeta, tu tava bomzim só de ver Os Sertões com nós.
E era tudo lá, no «miolo do vulcão».
Fez jorrar epifanias.
A os borbotões.
Novecentas pessoas completamente tocadas.
Algumas com angústia.
Mas a maioria, poeta, era que nem tu:
deslumbramento, sideração, canto, alegria, sedução.
Depois, Carlos, tudo fica no gerúndio:
a vida vidando ...
o ser sendo ...
o tempo tempando ...
a gente gentando ...
desejando ... amando ...
gargalhando ... doendo ...
voando ... cantando ...
revolvendo ... re-existindo ...
move ment ando ...
«Ah! Sertão ...
tão sem ser ...
sertão ... Rocha Viva ...
Voando, ando ...
Ser estando, ser estando ...
Serestando ... Tão sem ser ..."
O lugar Quixeramobim virou o universo.
Une Verso, Di Verso.
Tanta gente lá, tanta coisa lá.
«Meu amor que será de mim?
Quixeramobim? Eu acho graça é da cachaça que vc me deu ..."
Cachaça Sertões: Condeleeza Rice na Guerra de Canudos, Pastores de Igrejas S / A, Sílvio Santos, Dança do Siri.
Ah! A participação das crianças do Assentamento Recreio.
Puro deslumbre.
Crianças que descendem de Canudos mas têm terra, amor, arte e alegria.
Que enredo.
Que trama.
Trancelim, como diz no Sertão.
O tempo do Oficina é outro, é kairós, não é chronos.
Tempo das re-voltas, das virações.
Isso faz doer também.
Mas que assim seja.
Amor fati?
Tempo espiral, tempo serpente, Século XIX de braços com o XXI.
Um tempo Brasil, de mistura, de em-laços.
N ' Os Sertões.
Brasileiro." O brasileiro / tipo abstrato, tipo abstrato que se procura / e não se acha / loucura.
/ Aqui / Aí / Aqui tem o homem brasileiro típico?
/ Tipo brasileiro tem tipo?
O tipo brasileiro não tem tipo.
Tipo brasileiro é um típico sem tipo."
E uma vontade danada de gritar:
Graciliano sei de você, a pátria é um orangotango!
E pensar que tudo isso cabe em meia hora de espetáculo.
Um professor de história ao meu lado bradou:
minhas aulas não terão mais graça.
A história de ele ficou outra ...
Ficar outra, ficar outro, alter, alterar, alteridade.
É o que mais se ouvia em filas, na padaria, nos bares:
«Quixeramobim nunca mais será a mesma depois disso.
Também acho.
Ky era mo bi.
Tupy x Tapuya.
Quixeramobim abriu-se ao estrangeiro, ao Outro;
descobriu que o Outro, em verdade vivia em ela.
O estrangeiro, que tudo seduz, também estava lá.
Intimamente estranho.
Estranhamente íntimo.
E alguns ainda quiseram atacar os corpos que aparecem nus e em liberdade de gestos.
Que bobagem.
Corpo sagrado é o corpo que se toca e toca o outro.
Corpos colonizados, adoecidos em mangas longas e saltos altos bradando contra corpos livres, em pele, em festa, em prazer, em ligação.
Tudo cabe no mundo Ser tão:
«Ah! Sertão / tão sem ser / sertão / Rocha Viva / Voando, ando / Ser estando, ser estando ...
/ Serestando ...
Tão sem ser ..."
Nota: todas as citações entre aspas são canções do espetáculo, citadas como quis minha memória.
Há um trecho da canção «quixeramobim», de nonato luís e fausto nilo, que também foi cantada na peça.
Número de frases: 139
Nota 2: na seqüência, publicarei texto em molde mais próximo do " jornalismo O maior festival de rock em Cuiabá até aquele momento aconteceu no dia 23 de novembro de 2002.
Até então não ocorrera nada com tais dimensões envolvendo bandas locais, afinal foram praticamente 4000 pessoas, e ainda mais num local atípico como o Museu do Rio Cuiabá, local pitoresco, mas que até então não havia recebido evento dessa natureza.
Era o tempo de trazer à tona todo um movimento, e tocar na Mostra Rock Cidadão foi uma das melhores oportunidades que os músicos de MT tiveram, pra fazer de sua arte, realmente arte, e isso foi possível com o festival, por o seu alcance e dimensões.
Havia muita gente excitada por as possibilidades do evento, artistas e público.
Os estúdios de ensaio e gravação da Cuia City estiveram bem movimentados naquele ano (site rock, bandas novas aparecendo, bandas veteranas se desenvolvendo), e especialmente naquele semestre, e tudo conspirava para que o evento fosse bem sucedido.
Mas, as bandas, essas sim tiveram bons resultados da mostra, especialmente no quesito popularidade.
Era hora de sair das garagens e dos estúdios de ensaios, as bandas cuiabanas estavam prontinhas pra tomar o que era de elas, e obter reconhecimento, processo esse que está em pleno crescimento atualmente.
O festival mostrou que em Cuiabá havia Rock N ´ Roll do bom, de qualidade, de prima.
São muitas as histórias envolvendo a Mostra Rock Cidadão.
As seguintes bandas participaram da arriscada e audaciosa empreitada:
Zorato, Strauss, Donalua, Noise Jam (atual FUZZLY), Lynhas de Montagem, Durangos, Dupla Face, Zagaia, Alicia Jones, Causa Nova, Rotação 45, Nação (atual Lopes), Tubo de Ensaio, Papo Amarelo, Higpnose, Deefor, e outras tantas como The Breeze (Please A Name, High School) e Contingente Imigrante.
A equipe que faria a sonorização e palco deu pra trás na última hora, nos obrigando a lutar contra o tempo pra agilizar todos os pontos.
De cara um prejuízo:
não haveria como obter a tempo dois palcos iguais, gerando assim um dos motivos de reclamação das bandas, pois ficou um palco enorme e outro médio.
Mesmo as bandas que tocaram no palco menor tiveram grandes performances, tocando pra muito mais gente que o habitual.
Um aspecto bacana é que o som rolou ininterrupto por mais de 8 horas, mal terminava um show num palco, e já se iniciava outro show no outro palco.
Bandas como por exemplo Contingente Imigrante até hoje se lembram e comentam que foi ótimo tocar no cidadão.
Mesmo com os contra-tempos foi o primeiro evento a contar com shows em dois palcos e som sem parar.
O evento teve caráter beneficente, e arrecadou mais de uma tonelada de alimentos não perecíveis que foram destinados à doação pra carentes.
O Rock Cidadão aconteceu simultaneamente com o lançamento de uma nova fase no MT Rock, reformulando não só o layout, mas tornando o site dinâmico através da linguagem PHP.
A sessão teleguiados (na semana seguinte ao cidadão) pipocou com opiniões diversas, de muita gente que havia gostado do evento, e de alguns insatisfeitos, que sempre existem.
Isso sem mencionar a pioneiríssima rádio mtrock do portal, catapultando os sons das bandas cuiabanas para todo o planeta.
As bandas vestiram a camisa, fazendo de tudo para o sucesso do evento, e parceiros diversos também colaboraram bastante.
Em a equipe estavam, entre outros, Jeanbass Moraes, Dênis Figurante, Fernando Ralado, Klebem Ricardo Filsinger Kunze, e outros colaboradores diversos.
Agora, aos mitos pop!
Como já dito, são muitas as histórias desse dia, mas como é difícil lembrar de tudo, vamos à alguns aspectos, ou pérolas, se preferir:
-- Show / Passagem de Som da Strauss ...
Mal anoitecia e a Strauss já estava em cima do palco, com o auxílio luxuoso de Lopez, nas regulagens e afins, que sempre tem que rolar.
Foi, além de ótima apresentação, elemento fundamental para o festival, pois foi o que fez as pessoas começarem a se aproximar, curtir, e isso foi se ampliando ainda mais.
Pérolas do cancionário cuiabano como ´ A Lua ´ tiveram vez ao lado de sucessos próprios como ' Nada Não Ninguém ` e ' Pão Seco ', e porradas de Led Zeppelin e Rage Against The Machine.
Facchini e Sardinha, parceiros e pau-pra-toda-obra, como sempre.
-- Dossiê dos 80/ Contingente ...
Apesar, de tocarem no palco menor, causaram um dos maiores estragos do festival, no bom sentido, um showzão, principalmente pra quem curte clássicos dos 80 como Plebe Rude e Legião, e mais que isso:
o contingente mostrou que já tinha público, e que esse público conhecia algumas de suas músicas, por exemplo: '
República do Adeus '.
-- Possibilidade Grunge:
Deefor e Noise Jam ...
Foi no cidadão que essas bandas apresentaram seu grunge para as massas, e foi a partir daquilo que se cogitou a possibilidade das bandas apontarem para o futuro, pois tiveram boa recepção.
-- Cátarse ou Loucura?
Os dois:
Donalua ao vivo ...
Um grupo no apogeu de sua forma criativa ensaiada ...
rolos de papel higiênico pra limpar a alma, e.. hits!
Mundo Banal! Entrou para o imaginário pop.
Esse foi um dos bons shows resultantes da parceria com o Espaço Cubo, uma das instituições cuiabanas que acreditou na proposta da mostra.
-- Veteranas X Novatas??
Empate. Bandas veteranas como Rotação 45, Lynhas de Montagem e novatas (pero no mucho) como Causa Nova e Nação comprovaram serem grandes bandas ao vivo para shows com grandes platéias, causando impacto por o entrosamento, e por a reação das pessoas.
Em aquele momento ficou claro que hits locais como ' Mulher de Brinde ', ' Afeganistown ', ' Gato Entre os Pombos ', ' Esquecer ' estavam cada vez mais conhecidos no cenário.
-- Pop / Dance / Black ...
Diversidades de estilos ...
Papo Amarelo apresentou sua mistura black dance pop, resultando num excelente ponto de destaque da mostra, os músicos estavam no auge da forma, e as músicas já tinham vida própria, como ´ O Boi ´ e ´ Paraíso Guimarães ´, já bem conhecidas.
Farinha (atualmente DJ Faras), Dudi, Lehr e Godoy tinham um espetáculo conciso e divertido, e talvez tenha sido um dos maiores públicos da banda.
Ótimo.
-- Estilos, Tendências ...
Bandas como Zorato, Alicia, Zagaia, Gabiroo e Durangos, por exemplo, confirmavam a superioridade das bandas daquele período, estilos distintos, apresentações bombásticas e profissionais, confirmando que a salada rock quando temperada com parcimônia, funciona.
Número de frases: 55
Diante da câmera de TV local e ao lado de sua mais recente engenhoca, o protótipo do «primeiro carro fabricado no mundo, movido a pedal», a peleja de Evaldo remonta aos seus tempos de catequese, quando ensinava levas de meninos e meninas a manter o autocontrole e a desenvolver o senso de justiça.
Fosse retirando-se montinhos de feijão de um lugar para outro ou procurando-se, de entre muitas chaves, a única que abriria uma porta que poderia ser a do banheiro, as brincadeiras desenvolvidas por Evaldo tinham uma única finalidade:
«Moldar o caráter das crianças».
Em aquela manhã, em frente ao Theatro José de Alencar, no miolo da urbe fortalezense e cercado por uma ciranda de curiosos, Evaldo saracoteia para lá e para cá com a bola grudada nos pés.
O som de cordas sendo arranhadas não vem da equipe de sonoplastia, mas do violão, manuseado por ele mesmo, conferindo ritmo às suas piruetas, regendo aplausos e gritos de apoio.
Longe de atingir a marca de 10 mil, alcançada há menos de um mês, as embaixadas, agora com bolas de verdade, apenas ilustram a polivalência do «artista popular», como ele mesmo se define.
«O artista tem de fazer de tudo pra viver, ser um cara amplo».
Em poucos minutos, a apresentação se encerra, os curiosos dispersam e as luzes se apagam.
Os cabos da câmera são desligados e a parafernália da reportagem é recolhida para dentro de um veículo, que segue, quase a cantar pneus, rumo à próxima pauta.
Sob a muralha de 37° C, Evaldo «Bola» Rodrigues, 49 anos, se despe do multiartista, deposita o violão no banco do carro e pedala de volta para casa, no bairro Rodolfo Teófilo, onde mora com a mãe, um irmão e o sobrinho.
Lá, na garagem, volta a remexer nas velharias que sempre mantém ao alcance da mão.
Sonha com o próximo invento:
um carro motorizado.
Avisa que é para breve, mas hesita diante das dificuldades:
«A gente não conta com o apoio de ninguém».
Breve história do tempo
De as constantes e imprevistas viagens de Zacarias, pai de Evaldo, falecido aos sessenta e cinco anos, uma conseqüência imediata:
para cada irmão dos nove que lhe nasceram, Evaldo pode contar uma cidade diferente.
«A gente viajava bastante, nunca ficávamos muito tempo numa cidade.
Foi assim que ele conheceu a minha mãe e, depois, cada irmão foi nascendo num lugar, eu em Caucaia, outro em Tejuçuoca», diverte-se.
Após cessar o rebuliço do pai, telegrafista e chefe de estação, a conexão Caucaia-Fortaleza foi realizada, de forma definitiva, quando Evaldo contava apenas dez anos.
Sem residência própria, a família fixou-se a princípio no Couto Fernandes, bairro próximo à estação ferroviária.
Foi lá que Evaldo conheceu o «velho» Dias, homem hábil e generoso.
Era a ele que o menino recorria quando a professora lhe impunha uma tarefa insolúvel.
«Hoje, faço a mesma coisa:
ajudo os pequenos que me procuram», revela.
De o contato freqüente com o velho artesão, Evaldo herdou o gosto por o manuseio de materiais como madeira e ferro, o mesmo utilizado na fabricação de peças e maquinário pesado para as locomotivas.
«Era fácil conseguir material.
Como meu pai trabalhava lá, podia andar e, nas andanças, voltava com alguma coisa para a casa».
Em sua formação, Evaldo separa os passeios que a família realizava com destino ao aeroporto e ao cais do porto daqueles que pai e filho, sozinhos, empreendiam à " Oficina dos Urubus.
«Não sei por que se chamava assim.
Antes do meu pai, já era dos urubus».
Em seguida, arrisca:
«Talvez porque, muito perto, tinha um frigorífico».
Foi lá que Evaldo conheceu a sua primeira grande paixão:
uma Maria-Fumaça.
Em o aeroporto, pedia autorização da administração.
«Entrava nos aviões para ver como era por dentro, o desenho, a forma», diz Evaldo.
Em o cais, o mesmo procedimento:
visitava navios ancorados para, em seguida, reproduzi-los numa escala centenas de vezes menor.
«O meu pai também gostava de levar a gente para assistir às corridas de carro», acrescenta Evaldo.
Houve, igualmente, tempo para a religião.
Ainda jovem, pensou:
serei padre.
A rotina eclesiástica logo o demoveria desse plano, jogando-o no mundo.
E, para ser exato, foi o que Evaldo fez:
aproveitando os seus 185 centímetros de altura, defendeu, como goleiro, os principais clubes cearenses, sempre na categoria amador.
Mas foi no extinto Calouros do Ar, mantido por a Aeronáutica, que Bem-Te-Vi se destacou.
Pelo menos até fraturar o punho e deixar, de forma precoce, o mundo futebolístico.
O tempo passou.
Muitas, as profissões e ocupações, antigas e atuais, seguem num jato:
catequista, seminarista, vendedor de bombons e outros quitutes, mímico, músico, imitador de Patativa do Assaré e Charles Chaplin, Noel de ocasião, professor de piano e tantas outras ainda.
Aguarda o início do campeonato cearense, em 2007, com ansiedade.
Motivo: fará apresentações com bola e violão nos intervalos de alguns jogos.
Hoje, quando ligam para sua casa, no Rodolfo Teófilo, à procura de gás de cozinha e garrafões d' água, Evaldo dependura-se na bicicleta e se dana no oco do mundo, fazendo entregas.
Em as parcas horas de folga ou quando está pedalando durante os quarenta minutos entre sua casa e o centro da cidade, planeja a construção de um Centro Cultural.
O nome, Evaldo Bola, serviria principalmente para atrair crianças.
«Acho que tenho de investir nessa geração mais jovem e nas crianças.
Dar o que não pude ter», encerra.
Making of de um sonho
Foram necessárias, inicialmente, três bicicletas usadas, uma carcaça de geladeira e a cabeceira de uma cama tubular para a construção do «calhambeque», modelo inspirado numa carruagem do século XVI estampado nas páginas de um livro de História e adaptado ao sol de Fortaleza.
«Em o projeto original, ele não tinha capota.
Agora, com esse sol daqui, tive que inserir», afirma Evaldo.
Hoje, nas ruas e avenidas da capital, o carro, movido a pedais, chama a atenção ao desfilar entre Corollas, Gols e Pajeros.
«As pessoas sempre param para me dar preferência, seja por admiração, seja por acharem que sou deficiente físico», conta.
A proeza já lhe rendeu breves inserções nas principais redes afiliadas de televisão.
Em uma, aparece ao lado do calhambeque recém-construído, violão em punho e bola no pé -- Evaldo também é, na capital, recordista de embaixadinhas.
«Comecei treinando em casa mesmo, com um coco e alguns limões», relembra.
«Nunca tinha feito embaixada.
Um dia, resolvi começar e não parei mais».
Um causo, um conto, uma novela de horror
Diz-que Evaldo Bola, o multiartista, em sua busca incessante por patrocínio oficial (digna desse Prometeu abrasado por o sol nordestino) -- que, segundo ele, poderia vir na forma de uma bola de futebol ou mesmo na de um par de sapatos, achou um dia de ir até a sede da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará -- Secult.
«Chegando lá, uma moça, atrás do balcão, me atendeu.
Fiquei logo contente.
Afinal, tinha ido umas duas vezes e nada.
Pedi para fazer um cadastro na secretaria».
«O senhor tem algum troféu?»,
pergunta a atendente.
«Como assim?», estranha Evaldo, devolvendo, sem pestanejar, a pergunta.
«Um troféu?" "
Sim, um troféu!
O senhor já ganhou algum troféu?!"
Evaldo sabia que nunca ganhara, ao longo de sua vida, um único um troféu.
Não se premiavam com troféus os melhores professores da catequese e a carreira de goleiro tinha sido prematuramente interrompida, não lhe permitindo a conquista de títulos e, por conseqüência, troféus.
Bem-te-vi, porém, não se deu por vencido.
Com alguma malícia nas palavras, pediu para voltar no dia seguinte.
Em aquela mesma tarde, juntou algumas pratas que tinha em casa e desatou rumo a uma loja de artigos esportivos.
Número de frases: 87
Após alguns minutos, saiu de lá com um troféu na mão e o cadastro entre os artistas de rua do Governo do Estado do Ceará garantido.
Se o governo decidir por o sistema anticópia, caberá às emissoras decidir se o consumidor tem o direito de gravar os programas da TV
Uma decisão importante está para ser tomada por o governo federal.
Ela irá definir se a TV digital brasileira adotará ou não o sistema de restrição anticópia.
Parece questão menor, mas não é.
Se esse sistema (chamado DRM) for implementado no Brasil, o direito de decidir como usar o sinal da televisão sai da mão do consumidor e passa a ser das emissoras.
Em outras palavras, caberá às emissoras decidir se o consumidor tem ou não o direito de gravar os programas que passam na TV.
Elimina, na prática, uma liberdade que sempre existiu.
A medida tem um impacto negativo que não pode ser ignorado.
O primeiro é econômico.
Para incorporar a tecnologia anticópia, os fabricantes dos conversores da TV digital deverão pagar anualmente para usar a tecnologia, que pertence a um consórcio internacional de empresas.
Esse valor é repassado para os consumidores ou contribuintes na forma de subsídios fiscais concedidos aos fabricantes.
No entanto, o custo não se reverte em benefício.
O consumidor ou contribuinte acaba financiando um sistema que não lhe interessa, que, na verdade, reduz a utilidade da TV digital.
Paga para levar menos.
Mesmo que os fornecedores do produto se disponham a subsidiar os custos da medida, estão comprando uma liberdade que não foi negociada e que não está à venda.
Isso leva ao segundo impacto, que é jurídico.
Em os Estados Unidos, país no qual a TV digital se encontra mais disseminada, a adoção do sistema anticópia foi firmemente repelida, inclusive judicialmente, sob o argumento de inconstitucionalidade.
Em o Brasil, a inconstitucionalidade é a mesma.
A televisão aberta é um serviço que compete à União.
A nossa Constituição Federal utiliza as palavras «livre e gratuita» para qualificá-la, concedendo inclusive isenção fiscal quanto ao imposto sobre comunicações.
De essa forma, com a instalação do sistema anticópia, a televisão pode até continuar a ser gratuita, mas deixa de ser «livre».
Além disso, a lei de direitos autorais permite expressamente modalidades de utilização legítima da programação de TV.
Com o sistema anticópia, a tecnologia não tem como distinguir a natureza da utilização a ser feita dos programas.
Os bons e os maus usos são tratados da mesma forma:
são igualmente impedidos.
O terceiro e talvez mais importante impacto é político.
Mecanismos de restrição tecnológica, como esse que se propõe adotar para a TV digital no país, são sabidamente ineficazes.
O sistema que impede a cópia de DVDs é resultado de um consórcio de empresas que investiu vários anos e vultosos recursos em sua criação.
Foi eliminado por um garoto de 16 anos.
E a história se repete agora com a nova geração de discos de alta definição (Blu-ray e HD DVD), cuja proteção também já foi quebrada.
Por isso, empresas de todo o mundo estão abandonando a utilização desses mecanismos, por perceberem que se trata de dinheiro jogado fora.
Em outras palavras, quem de fato deseja distribuir conteúdo ilegalmente com fins comerciais continua a poder fazê-lo.
O consumidor de boa-fé acaba sendo o único afetado.
Em o Brasil, o serviço de televisão é regido por o interesse público.
Um sistema político que permite a adoção de um sistema sabidamente ineficaz, que implica custos para o consumidor e nenhum benefício a ele é um sistema político defeituoso.
Ou, ao menos, está dando importância demasiada a poucos interlocutores.
Em tal situação, caberá ao Poder Judiciário decidir sobre a legalidade da medida em eventuais ações propostas por consumidores e contribuintes.
Artigo publicado originalmente na Folha de São Paulo, edição de 3 de junho de 2007 (e mais atual do que nunca).
Mais informações e detalhes sobre o tema podem ser obtidas no seguinte link:
O Bloqueio de Cópias na TV Digital:
Número de frases: 41
Estudo Técnico-Jurídico Atendendo à sugestão feita no final do mês de maio por ilhandarilha, daqui de o Overmundo, a seção " E a teledramaturgia contou ..." retira da história da telenovela brasileira uma trama muito bem sucedida da década de 1970.
Caso o leitor queira fazer o mesmo, e ver neste espaço alguma história específica da teledramaturgia brasileira, é só dizer nos comentários, que atendo as sugestões a cada publicação do final do mês (excepcionalmente, não pude escrever semana passada, em função de compromissos pessoais).
Bem, mas vamos à história pedida por ilhandarilha.
E a teledramaturgia contou ...
Os ossos do barão.
* * * O escritor paulista Jorge Andrade já era um consagrado autor de teatro (em peças como A moratória, sua primeira peça, datada de 1954, Vereda da salvação e Pedreira das almas) quando foi chamado por a TV Globo para fazer parte de sua equipe de teledramaturgia.
Três décadas atrás, a emissora tinha hábito de «buscar» autores no teatro e na literatura -- ao contrário dos dias de hoje, no qual a cúpula global dá espaço apenas a quem é aluno de sua «oficina de autores».
Em sua estréia na dramaturgia para televisão, Jorge Andrade recorreu a histórias que já havia contado nos palcos para entreter os espectadores que, em vez de aplausos, davam audiência às obras exibidas na telinha.
Em 10 de outubro de 1973, no horário das 22h, a TV Globo estreou Os ossos do barão, uma mescla feita por o autor de duas de suas peças -- a que deu nome à novela e A escada.
De Os ossos do barão, foi mostrada a história de Egisto Ghirotto (papel de Lima Duarte), um descendente de italianos e ex-empregado da fazenda de propriedade do Barão de Jaraguá, e que havia feito fortuna com a Revolução Industrial em São Paulo.
Entretanto, embora fosse dono de tudo o que no passado pertenceu ao Barão (inclusive os ossos de sua cripta mortuária), Egisto não possuía um título de nobreza.
De o outro lado, o herdeiro direto do Barão de Jaraguá, o já idoso Antenor (feito por Paulo Gracindo), vivia das lembranças do passado, ignorando a falência do pai e a decadência do ciclo do café.
Antenor fez parte da trama inspirada na peça A escada:
seus filhos conviviam com o dilema do colocar (junto com a esposa Melica, vivida por Carmem Silva) num asilo.
Através desta história, Jorge Andrade colocava em cena a discussão da hierarquia familiar.
O decorrer da história (que teve seu ponto final em 31 de março de 1974) mostrou uma prática feita entre as famílias quatrocentonas de São Paulo e os ricos emergentes depois que a Revolução Industrial passou por a cidade.
Para que os nobres não continuassem falidos e os atuais endinheirados recebessem o título de nobreza, a solução era fazer a união matrimonial dos herdeiros de ambas as partes -- no caso de Os ossos do barão, representados por Martino (filho de Egisto, vivido por José Wilker) e Isabel (bisneta no Barão de Jaraguá, interpretada por Dina Sfat) -- atitude que Egisto se empenhava em fazer.
Outro dado polêmico mostrado por Andrade em sua história foi o amor proibido entre Zilda e Omar (vividos por Sandra Bréa e Gracindo Júnior, respectivamente).
Ela, uma moça de origem aristocrática, e ele, um mulato (o ator teve a pele escurecida para fazer o personagem).
Mais um retrato do tema que permeou a obra deixada por Jorge Andrade -- que faleceu em 1984, aos 62 anos -- no teatro e na teledramaturgia brasileira:
o reconhecimento social (em sua busca ou na tentativa em mantê-lo), mesmo que seja através das aparências.
Os bastidores da novela das 22h da TV Globo trazem alguns dados curiosos.
Uma parcela do público que gostou da interpretação de Otelo Zeloni para Egisto Ghirotto na montagem teatral de Os ossos do barão protestou porque o ator não foi escalado para o papel -- mas, dois meses depois da novela ter estreado, Zeloni veio a falecer.
No meio da trama, o escritor Jorge Andrade sofreu um infarto, e não pôde escrever alguns capítulos.
A trama foi seguida por Bráulio Pedroso -- mas, recuperado, o dramaturgo escreveu sua novela até o fim.
Os ossos do barão é considerada a melhor novela assinada por Jorge Andrade.
De acordo com o pesquisador Ismael Fernandes, a fusão das peças A escada e Os ossos do barão tornou possível a criação de uma trama bem ajustada, na qual uma completava as indagações da outra e criava uma obra «estruturada, crítica, intelectualizada, sem os habituais esticamentos».
Fernandes completa dizendo que esta foi a primeira vez em que o público aprovou uma novela escrita por um autor considerado intelectual.
Entre abril e agosto de 1997, Os ossos do barão foi reeditada por o SBT, cerca de 15 anos após a morte de Jorge Andrade.
Em a adaptação da história, feita por Walter George Durst, a trama sofreu uma mudança considerável:
em vez de ser ambientada no tempo atual, ela se passava na década de 1950.
Também foram acrescentadas tramas e personagens de duas outras novelas assinadas por Andrade:
Gaivotas (exibida originalmente na TV Tupi em 1979) e Ninho da serpente (no ar em 1982 por a TV Bandeirantes).
Egisto e Antenor foram vividos, respectivamente, por Juca de Oliveira e Leonardo Villar, e o casal Martino e Isabel teve a interpretação de Tarcísio Filho e Ana Paula Arósio.
Embora tivesse uma produção bem cuidada e um elenco bom, a novela passou despercebida por a audiência.
* * * Fontes consultadas:
Site
Teledramaturgia www.teledramaturgia.com.br
Livros A Hollywood brasileira, de Mauro Alencar
Número de frases: 39
Memória da telenovela brasileira, de Ismael Fernandes
Junto com os primeiros discos de punk rock -- e tudo o mais que caía nas mãos, naqueles verdes anos -- vieram as histórias por detrás da música.
Informação que ia além das faixas e me fazia torrar meu parco dinheiro com revistas e jornais -- na verdade o caderno cultural de algumas publicações.
O objetivo:
sentir o mundo que aquela música representava.
Quase tanto quanto os poetas e romancistas, os críticos de música me faziam sonhar.
Lendo as revistas da época eu me instalava na Oxford Street, em Londres, e me imaginava atirando pedras na polícia, me sentia parte das orgias de sexo e drogas -- inventadas, diga-se de passagem -- por o maluco Ezequiel Neves ou me indignava com o conservadorismo americano como Ana Maria Bahiana fez numa memorável resenha para The Bells, de Lou Reed.
O tempo passou e conheci Bia Abramo, colaboradora da Bizz e Folha de São Paulo no auge das minhas descobertas adolescentes.
Logo depois dos cumprimentos de praxe, disparei:
você sabia que grande parte da minha coleção de discos foi influenciada por sua opinião?
Ela ficou séria e respondeu que já havia pensado sobre isso, sobre a responsabilidade que se tem ao opinar sobre um livro ou um disco.
Fui educado por alguns bons jornalistas imersos na cultura de massa.
Não quero parecer nostálgico -- apenas tratava-se de uma boa safra -- mas quando leio alguns artigos nos cadernos de cultura penso no estrago que um texto, do alto de sua arrogância -- todo ignorante tem certeza que é um sábio -- pode fazer numa cena.
A lei obriga os jornalistas a terem diploma.
O que é um diploma?
Um pedaço de papel que diz que você teve paciência -- ou astúcia para driblar os professores -- e concluiu seu curso.
Você sabe escrever uma sentença mas de onde vem sua opinião?
Viajou? Gastou horas se informando?
Acompanha a obra do autor?
Conhece a origem daquela música?
Tem parâmetros comparativos para julgar o objeto de crítica?
Tantas vezes percebemos que é puro «achismo», o pão com manteiga do lar que se leva até a redação.
...
Não deveria acontecer mas acontece com muita freqüência.
O jornalista vem me entrevistar e não sabe absolutamente nada sobre o meu trabalho.
É incapaz de me questionar e se torna um mero porta-voz das besteiras que esse DJ é capaz de falar.
Há alguns dias atrás uma moça irritou-se porque sugeri que ela desse uma olhada no Google antes de prosseguirmos, visto estava que ela não sabia nada a respeito do meu trabalho ou mesmo de música eletrônica.
Indignada ela retrucou:
«sou jornalista e não preciso conhecer o assunto pra escrever sobre ele.» ...
As relações entre as assessorias e os jornalistas são tão viciadas que as notas já vêm prontinhas para serem publicadas!
Bom para quem está na redação, são algumas linhas a menos para se dar ao trabalho de pensar;
bom para quem envia pois está lá sua publicidade com o aval do jornal.
Ruim mesmo é para nós, leitores.
Número de frases: 33
a Hollywood e os outros sonhos de Bernadete Beserra.
Com uma linguagem direta e ensaística, na primeira pessoa, comparo a linguagem de Bernadete Beserra com a linguagem de Isak Dinesen, pseudônimo de Karem Blixen.
Mas isso me faz cair num abismo, mesmo porque uma trata da experiência na África em seu livro «Sombras na Relva», enquanto a outra, Bernadete Beserra trata da desigualdade e da luta de brasileiros que vão aos Estados Unidos em busca de um» conto de fadas».
O livro «Brasileiros nos Estados Unidos, Hollywood e outros Sonhos» desmistifica o tabu do sonho americano.
Tratando, palmo a palmo, a realidade de brasileiros numa «luta de espada» entre brasileiros e americanos.
Um choque de culturas, a luta do Terceiro mundo, os valores e a hierarquização e racismo do primeiro, e a vontade (saudade) da terra natal -- Brasil.
É no seu próprio êxodo e experiência como estudante que a autora lança o seu olhar crítico ao sonho americano.
E é também na sua «objetivação» antropológica onde encontraremos a sua avaliação social, dando base para o desenrolar do livro.
O livro, com sua linguagem empolgante, faz com que o leitor esqueça que esta debruçado sobre um livro científico.
É quase um livro de contos, quando a autora passa para o campo da entrevista, fazendo surgir personagens imigrantes.
Bernadete Beserra esquadrinha o outro (imigrante) como um detetive, talvez, neste sentido, encontra-se o segredo da boa narrativa.
Mas a avaliação e investigação é mais importante quando nos indagamos:
«o que separa um povo do outro senão a língua que se fala."
Então meu caro aventureiro, o abismo se torna mais profundo.
E nos relata:
«Estava num café, entrevistando um amigo brasileiro para pesquisa preliminar sobre imigração brasileira em Riverside, quando uma jovem alta, magra e branca, vestindo uma saia preta de couro, curta e apertada, estilo punk, aproximou-se perguntando em português, se éramos brasileiros.
Ela tinha ouvido partes de nossa conversa.
Respondi sim e lhe falei sobre minha pesquisa perguntando se ela não conhecia outros brasileiros.
Ela disse:
«eu acho que minha tia Lúcia seria muito importante para sua pesquisa, porque ela conhecia mais de cem brasileiros por aqui."
É nesse tom de prosa que a autora cativa o leitor do início ao fim, há momentos tristes como o caso de uma professora do ensino médio que abandona o Brasil para trabalhar de domestica.
A xenofobia está presente e bizarra nos relatos da primeira entrevista com a imigrante Marta, presidenta do grupo de brasileiras, que diz não entender como ainda se pode viver no Brasil devido à tamanha violência e miséria e chega a criticar os surfistas que, segundo a mesma, vão a Califórnia não para construir o sonho americano, mas sim, para explorar a América.
Acrescento que este que hoje escreve praticou surfe durante 20 anos e o único interesse dos surfistas na Califónia são as boas ondas.
Esse é só um caso dos tantos que Bernadete vai desenrolando nas entrelinhas do livro que ora me debruço.
Revelando a americanidade dentro da cultura brasileira.
A fuga etnográfica em busca do sonho longe de casa e dentro do império capitalista americano.
Portanto, «Brasileiros nos Estados Unidos, Hollywood e outros Sonhos», é um achado.
Livro pra ser livro de cabeceira.
como comprar o livro:
Número de frases: 29
Sei, o nome é engraçado, mas em Vassouras e região todo mundo conhece o Pim.
Tudo começou quando o Maestro Claudio Moreira, de uma família de músicos na cidade de Vassouras, RJ, que participava da banda da Sociedade Musical N. S. da Conceição, criada por seu pai, Anecy Duarte Moreira, seus irmãos e outros músicos em 1981, percebeu que as atividades da Banda diminuíam e a transmissão do conhecimento musical estava se rareando.
A falta de incentivo do poder público, as dificuldades financeiras para compra de instrumentos e manutenção, bem como a avançada idade de parte de seus componentes, trazia a Banda para uma encruzilhada.
O Maestro Claudio junto com sua mulher Célia tomou a direção certa:
Percebeu que nos jovens estava o melhor caminho, tanto para preservar o acervo musical da banda como para injetar sangue novo nas atividades.
Era preciso levar a música aos jovens.
Com apenas 39 crianças e um professor voluntário surgiu o Pim -- ainda como Projeto (depois virou Programa) Integração por a Música no ano de 2000.
Em os primeiros anos não havia nem sede e os contatos, por telefone ou email, eram feitos através do gabinete da Secretária de Cultura e Turismo do município, Marta Fonseca, que junto com a diretora do Escritório do IPHAN na cidade, Isabel Rocha, abraçaram o projeto desde os primeiros momentos.
Um parceiro de primeira hora foi também o Colégio Estadual Santa Rita, através de sua diretora Jane Mara Castilho Barbosa que cedeu as salas do Colégio aos sábados para os alunos terem aulas.
O primeiro apoiador financeiro veio em seguida, o Instituto São Fernando, ligado a fazenda histórica do mesmo nome localizada no distrito de Massambará.
Quatro anos depois o Pim já contava com mais de 300 alunos e uma amplo repertório de atividades que haviam se consolidado em torno de várias ramificações:
uma orquestra, um coral, e vários pequenos conjuntos de formações variadas.
A demanda era crescente tanto para apresentações dos grupos do Pim por a região quanto na outra ponta com a chegada de novos alunos e interessados.
O Pim já era maior do que sua idéia inicial.
A administração de todo aquele universo de instrumentos, alunos, professores era feito por Celia Pinheiro Moreira, esposa do maestro Claudio, ajudada por muitos voluntários em todas as áreas e momentos.
Músicos professores voluntários vinham do Rio de Janeiro, pagando a viagem do próprio bolso para dar aulas no Pim.
Com a criação do Festival Vale do Café, o Pim ficou responsável por a coordenação das oficinas musicais que acontecem durante o evento e que dá aulas de harpa, violão, canto, violino, piano, violoncello, contrabaixo, flauta, fagote, clarinete, oboé, saxofone, trombone, percussão, prática de banda, trompa, percussão sinfônica.
O Pim, hoje atendendo a cerca de 800 jovens em 3 municípios, é um caso especial de sucesso com o envolvimento de uma cidade num projeto de cultura e inclusão social, através da sociedade civil em geral, da comunidade vassourense, da escola pública, dos meios de comunicação, da iniciativa privada e de músicos da capital e do interior.
Recebeu em 2004 o Prêmio Cultura Nota Dez do governo do estado e foi em seguida selecionado como Ponto de Cultura através do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, além de ter seu trabalho chancelado por a Unesco.
O segredo do sucesso do Pim parece estar na maneira como os jovens alunos encaram o Programa.
Segundo «Celia Pinheiro Moreira» o Pim é de eles.
A flautista Vanessa Paim, de 19 anos, hoje monitora do Programa, confirma:
«Aqui todo mundo é dono, todo mundo é gestor disso aqui.
Não tem essa coisa de organograma.
De você é meu subordinado.
Não sei quem é subordinado seu, eu acho que é um trabalho que é de todo mundo e que todo mundo faz a sua parte, e o resultado é isso que o Pim se tornou hoje.
Não é bagunçado e nem por isso a gestão é centralizada.
Nós temos cerca de 800 gestores no Pim.
É o empoderamento.
Você se empoderar de uma coisa que é sua.
E isso aqui é nosso."
Se os alunos resolvem produzir uma festa junina eles assumem o controle, realizam a festa e resta a coordenação dar todo o apoio que lhe for solicitado por os jovens.
Celia e Claudio descobriram depois que isso tinha um nome;
gestão compartilhada.
O grande alicerce do Pim são seus multiplicadores.
Alunos mais adiantados (hoje cerca de 20) que repassam seus conhecimentos aos iniciantes, ajudando também em todas as tarefas.
Em uma das visitas que fiz ao Pim a recepcionista era uma jovem musicista que parecia não ter mais que 10 ou 11 anos de idade.
Completamente à vontade com o telefone ou com as visitas, tinha a autoridade de quem parecia estar recebendo amigos em sua casa.
O Maestro Claudio nos diz:
«É uma coisa que eles vão pegando uns dos outros.
É uma coisa natural.
Elas nem entendem o que é isso, não sabem nem que existe esse método dentro do Pim, mas automaticamente vão se transformando em multiplicadores».
O Pim foi inventando internamente diversos sub-projetos que se articulam entre si, se rearranjam e se transformam.
Um de eles é o CopperPPIM, uma cooperativa que tem como principal objetivo garantir renda para as famílias dos alunos.
Participam atualmente cerca de 10 pais e mães, que trabalham em recepções, encontros, confecccionam bolos e doces, etc.
O Pim Digital é uma cooperativa de produção audiovisual formada por jovens, sob a orientação de produtores audiovisuais e gestores culturais com a intenção de registrar as atividade do Pim e mais tarde gerar produtos profissionais.
O Pim Cultural tem objetivos semelhantes mas voltado para a produção de eventos.
O projeto Arte & Vida incentiva e valoriza um trabalho voluntário em conjunto com apresentação dos grupos de Câmara do Pim em hospitais e asilos da região.
Com o crescimento e expansão das ações do Programa foi criado o Pim em Toda Parte que tem o objetivo de levar as atividades do programa aos outros municípios, através de parcerias com as prefeituras das cidades vizinhas e com o Ministério da Cultura.
Celia Pinheiro Moreira se graduou este ano em Administração na Universidade Severino Sombra, de Vassouras, e seu trabalho foi justamente sobre o Pim e o conceito de Multi-Empreendedorismo Cultural Cooperativo.
Citando Gilberto Gil ela diz:
«Mais que gestão participativa, é gestão colaborativa, por meio do qual se fortalecem os atores sociais da cultura».
Celia tem uma visão crítica em relação a um empreendedorismo puramente capitalista."
Em o seu contraponto temos que fortalecer o empreendedorismo social».
Suas idéias vão ao encontro do que diz a socióloga Livia De Tommasi, integrante da Rede e Juventudes:
«Ser empreendedor significa ter uma atitude positiva, propositiva e crítica com relação ao mundo que nos entorna».
Ela acredita que, na prática, o Pim representa um modelo de transição, dentro do processo de descoberta de novos caminhos para o gestão do terceiro setor.
Mas a melhor resposta é a de Juliana Dias de 12 anos:
Pim
Você mudou a minha vida, me ensinou a curtir as pessoas, a compreender as pessoas.
Eu me sinto muito orgulhosa por estar no Pim.
Todos aqui são legais.
Pim você é:
Tudo de Bom
Você é D +
Para entrar em contato com o Pim:
(24) 2471-9320,
celular da Celia (24) 9222-2111
e o e-mail:
Número de frases: 69
celia.Pim@uol.com.br Lá onde o Brasil torce o rabo, e uma linha que não existe resolve a partir de que ramo d' água, de folha ou de bicho já se é Colômbia, a mesma distância amazônica que, por um lado, não impediu o quase fim de aldeias -- início de cidades -- impede, por outro, que de lá saia qualquer coisa.
Cidades chegam em aldeias, mas quando é que aldeias chegam em cidades?
Ou por um acaso, alguém já sabia que entre as mulheres indígenas de diversas etnias da região do Alto Rio Negro há uma tradição de canto que tanto guarda belezas melódicas bem características quanto propõe uma interessante -- e coincidente -- relação com o repente nordestino?
«Acalanto:
As Canções das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro», do pesquisador e musicólogo Ricardo Franco de Sá, foi o único projeto do Amazonas aprovado por o programa Petrobras Cultural 2005, e apresentará, em forma de disco, um pouco dessa arte perdida entre os caminhos tortos de «progressos» e igarapés.
Antes que eu seja acusado de leviano, entretanto, é bom esclarecer que a comparação com a tradição dos repentistas não tem nenhuma relação com o trabalho de Ricardo;
trata-se apenas de uma observação pessoal sobre a espontaneidade com que as cantoras criam suas próprias letras a partir de melodias tradicionais.
Explicando:
as linhas melódicas são uma espécie de «assinatura» de um clã ou família, e são passadas através das gerações a partir do movimento cotidiano, nas tarefas do dia, nos rituais e nas festas.
Desde crianças, as mulheres vão aprendendo com suas mães e avós essas melodias, e a partir de elas vão criando letras próprias, «de repente», encaixando-as na estrutura da música.
«Há uma grande riqueza de interpretação», afirma Ricardo, o que, aliado às inflexões rítmicas bastante peculiares da região, cria uma espécie única de canto.
«Nós vamos mostrar como existem cantos bonitos em lugares sem estudo de música, sem formação», observa.
De acordo com o músico, o registro deverá abranger entre cinco e oito etnias, tendo como certas, canções dos Tukano, Dessana, Baré e Tariano.
O CD sairá com 12 canções (gravadas in loco, sem acompanhamento de instrumentos), e encarte com letras das canções (no original e traduzidas) e detalhes sobre cada etnia presente no projeto.
Trabalhar com possibilidades faz parte do método da equipe de Ricardo, que ainda inclui a antropóloga Andréa Prado, da Fundação Estadual de Política Indigenista, um técnico de som e um fotógrafo.
Com a ajuda da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), o grupo partirá -- entre novembro e dezembro próximos -- para São Gabriel da Cachoeira, aproveitando para visitar comunidades próximas, e em seguida rumam para Yauaretê, na divisa com a Colômbia.
Durante esse trajeto, o que aparecer será lucro.
«Tudo é descoberta em campo», resume o músico.
Festa e trabalho
Como fora de itox anteriormente, os cantos das índias são aprendidos no dia-a-dia, passados através de gerações.
O disco será composto, portanto, por canções entoadas enquanto as mulheres ralavam macaxeira, trabalhavam em roçados, ninavam suas crianças ou serviam o caxiri (bebida alcoólica fermentada da macaxeira) durante as festas, no intervalo entre as músicas tocadas por os Bayas (instrumentistas).
«Elas cantam para eles uma espécie de cortejo, um agradecimento por a música», explica Ricardo.
Como se sabe, entretanto, aldeias são organizações cada vez menos freqüentes na atualidade.
Algumas dessas cantoras ainda vivem em malocas comunitárias, mas a maioria mora na cidade, e apesar de conhecerem as melodias, «talvez nem tenham visto ritual algum», lamenta o pesquisador.
Encontrar um ritual mesmo, para realizar a gravação dos cantos das mulheres, é uma possibilidade um pouco remota, mas não impossível, pois muitos dos representantes do movimento indigenista estão tentando resgatar a cultura indígena retomando essas práticas.
Caso o grupo não encontre algumas destas manifestações, «Acalanto» será um exercício de memória.
Idéia e projeto
O projeto de «Acalanto» surgiu a partir de antigos discos da coleção do Padre Alcionilio e do biólogo Ettore Biocca, que continham gravações provenientes do " Alto Rio Negro.
«Ouvindo esses discos me inspirei em fazer o registro do canto das mulheres», revela Ricardo, que já havia trabalhado com canções indígenas num CD anterior, intitulado «União dos Povos», em que reunia índios de diversas etnias moradores da capital.
Em a época, Bernadete Andrade, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) -- onde o pesquisador trabalha --, o incentivou a tocar essa nova empreitada, inscrevendo um projeto no programa «Petrobras Cultural».
«Acalanto» foi aprovado em agosto de 2005, e desde então vem passando por todos os trâmites burocráticos para o recebimento da verba.
Se correr tubo certo com o cronograma das gravações, previsto para o fim do ano, o disco será lançado em abril de 2007.
Número de frases: 32
(ou " Estive no Rio -- Primeiras impressões de um paulistano sobre a Cidade Maravilhosa ")
Sempre senti que o Rio de Janeiro representava a epítome daquilo com o qual eu não me identifico, um lugar que eu não me interesso, com uma cultura por a qual não me interesso cheio de pessoas que não me interessam.
Grande parte disso é sim birra de adolescência, turbinada por um orgulho paulistano (não confunda com paulista: um grupo muito mais amplo).
Sempre fiz piadas de cariocas e de argentinos, a rivalidade com esses dois tipos é muito presente no meu humor.
Tudo começou a mudar depois que cresci, conheci alguns exemplares cariocas digníssimos e bons amigos se mudaram para a cidade supostamente maravilhosa.
Uma vontade de conhecê-la foi plantada (e as tirações de sarro provocativas ficaram no reino puramente humorístico) e brotou apenas recentemente, na última páscoa para ser preciso.
Após anos rejeitando-o, encarei o Rio de peito aberto, ansioso a conhecer os maiores clichês e menores buracos.
Estava disposto a tudo, sem reservas.
Tudo dependia de meus guias.
Sendo um paulistano orgulhoso, adoro levar meus hóspedes a diferentes lugares e improvisar tours por a cidade;
não me sinto bem como um turista de excursão, dá a impressão de um zoológico invertido, um bando de branquelos bobos e desavisados tirando zilhões de fotos de qualquer porcaria enquanto pagam caro por bugigangas.
Prefiro descobrir sozinho ou ser apresentado por nativos.
Qual a graça de fechar um pacote e ir nos lugares pré-determinados por um estranho cujo objetivo final é pegar seu dinheiro?
Quero me divertir com os amigos, socializar com estranhos, ficar perdido e descobrir um lugar só meu.
Assim, tentei observar o máximo desde a chegada do ônibus de manhã cedo até minha banal visita à praia.
Os arredores da rodoviária parecem um cenário de filmes bestas de ação tipo " Velozes e Furiosos ";
Santa Teresa é um bairro incrível, as ruas e as casas são fascinantes, uma cidade paralela à que vemos correndo por a orla em Ipanema e Copacabana;
o centro é complexo como o de São Paulo;
A Barra da Tijuca é um pesadelo, tenho pavor de comunidades fechadas onde tudo é novo, artificial e coisas práticas ficam longe;
o Cristo não é tão grande quanto parece, mas vale por o mito e por a vista;
no Leblon o mar é violento e as ruas agradáveis e calmas.
Há carros estacionados em todo e qualquer espaço da cidade, a CET de São Paulo faria a festa em apenas um quarteirão.
Foi o quesito em que a expressão «carioca folgado» fez mais sentido pra mim, paguem um estacionamento ora bolas, quem tem que sofrer é quem tem carro, não quem já está andando como um camelo -- curiosamente, por as ruas do Leblon (onde me instalei) vários automóveis tinham o limpa pára-brisa levantado, um carioca talvez possa esclarecer esse mistério.
É interessante perceber a diferença na ocupação, vivi apenas em cidades onde o acesso à terra era livre e desimpedido.
Em o Rio não é tão simples, em alguns casos é preciso literalmente cavar espaço, mover montanhas e conquistar morros.
Mas mesmo nesse confinamento havia grandes espaços vazios que descansavam a vista e permitiam o ar correr, algo que em São Paulo é muito raro.
Uma vez debati com um conhecido carioca o orgulho de nossas respectivas cidades.
Industrialista que sou, reclamei do excesso de valor que o carioca dá à praia em detrimento de conquistas humanas (o que explica o estado de vários prédios que vi no Centro e na Lapa);
ele, carioca que é, reclamou de nosso orgulho excessivo e comentou que se sente confinado num lugar em que olhando ao redor tudo que vê são prédios, que o mar dá uma sensação de que há algo além da cidade.
Mas eu não com si cair fora por o mar;
é libertador para os olhos, mas uma barreira física para o meu corpo.
Em São Paulo, há saídas e estradas para todos os lados;
se entendi direito, para sair do Rio tenho que seguir um caminho específico, pois de um lado está o mar e do outro estão morros e pedras colossais, isso pra mim é confinante.
Entendo o apelo e aprecio as águas, mas não o suficiente para me instalar ao lado de elas.
O único item culinário que conhecia previamente sobre o Rio era o tal Biscoito Globo (que inclusive aparece em Bossa Nova, aquela apresentação de novela do Manoel Carlos disfarçada de filme).
Fiz questão de comer -- mesmo sendo avisado por minha anfitriã (mineira) de que era uma droga;
algo que gerou debates fervorosos num encontro interestadual Minas-Rio-São Paulo.
Não tinha nada demais na verdade, meio insosso, mas bom pra comer na praia e não sentir sede.
Algumas coisas, mesmo que bobas, entram para o folclore e valem a pena experimentar.
Ainda no ramo culinário recomendo a dica Overmundiana do café da manhã no Café do Alto, infelizmente não tive tempo de conferir mais dicas, como a da Rocinha, ficará para a próxima visita.
Aliás, em SP é difícil ser forçado a passar por uma favela por falta de opção já que a maioria de elas está nos arredores da cidade (a não ser que você se perca em alguma via expressa).
Já no Rio, azar de quem mora na Zona Sul e trabalha na Barra:
tem que dar um oi para a Rocinha (eu dei).
Elas são uma parte inexorável do cotidiano.
Em a Glória ocorreu o único momento da temida violência carioca:
policiais munidos de fuzis enquadrando um táxi superlotado -- que em retrospecto posso dizer que não foi novidade, já vi inúmeros motoqueiros abordados da mesma forma por aqui.
Momento esse que gerou a expressão «estive no Rio», usada sempre que um pré-conceito ou clichê se confirmava.
Felizmente ela se repetiu apenas duas vezes.
Meu anfitrião disse uma vez apreciar muito São Paulo, um dos pontos positivos seria a receptividade das pessoas, sempre fazendo «amigos descartáveis» -- um elogio que achei surpreendente.
Admito que fiquei bastante acanhado em interagir com as pessoas que esbarrava por o Rio, imaginando que seria aloprado por ser paulista por toda e qualquer pessoa.
E na verdade notei um grande contraste:
as pessoas com as quais interagi realmente eram muito receptivas e simpáticas, já entre si elas eram extremamente agressivas e de pavio curto, cheguei a ver dois guardadores de carro quase saírem no tapa por causa de um cliente.
Mesmo sendo constantemente bombardeado por imagens novelescas, tudo era novidade.
A partir disso conclui que a Globo tem muito que aprender.
O Rio de Janeiro que eu visitei não é o que aparece no horário nobre, uma visão estreita e pobre de algo extremamente complexo.
É mesmo uma cidade maravilhosa (não diria que «A», se gostar de prédios é ser orgulhoso demais, o que dirá se auto-intitular dessa maneira).
Tem várias qualidades e vários dos mesmos defeitos que vejo por aqui, manifestados de diferentes maneiras, ainda não é uma cidade na qual moraria, mas é uma que pretendo visitar novamente, pois ainda há muito que quero fazer e muito que ainda vou querer.
Minha visita foi afortunada por ter sido na páscoa, quando a cidade fica tranqüila e pouco habitada, um contigente menor do que esperaria do carnaval ao menos;
além disso a temperatura estava agradável e tolerável.
Mesmo com toda a rivalidade Rio / SP, eu recomendo a visita ao menos uma vez na vida.
Portanto, ficam aqui minhas desculpas por o atraso de 25 anos e por as inúmeras piadas (que continuarão sendo feitas), e um pedido por mais dicas de coisas a conhecer, além de um convite aos cariocas a escreverem um texto «Estive em São Paulo».
Número de frases: 61
Ter assistido à XIª edição do Festival das Tribos do Alto Rio Negro -- Festribal, no município de São Gabriel de Cachoeira, em setembro, foi experimentar primeiro um misto de decepção, silêncio, observação e reflexão, para logo depois, alcançar o entendimento de uma festa que reúne não somente as mais diversas nuances de manifestações culturais compreendidas entre tradição e folclore, mas um evento cujo formato exibe uma metáfora perfeita da complexidade sociocultural da cidade.
A geografia e os custos da viagem fazem de São Gabriel da Cachoeira um destino distante das aspirações turísticas do manauara, fato que o poder público local tenta reverter com uma divulgação tímida da festa, se comparada ao Festival de Verão, em Maués, realizado na mesma data e sede de um delírio turístico para quem mora em Manaus.
O problema da acanhada divulgação do Festribal é ainda manter no imaginário do potencial visitante a idéia da reunião das 23 etnias que habitam a região do Alto Rio Negro, um evento de encontro entre representantes destas populações como um grande kuarup local.
A o chegar na cidade e se deparar com a programação diante da expectativa inicial, um sentimento de decepção chega a ser solene e inevitável.
Cheguei no segundo dia do evento, perdendo a abertura que contou com a apresentação dos Daw (pronuncia-se dou), índios nômades do rio Tiquié que foram os grandes homenageados do Festribal 2006." Procuramos evidenciar esta etnia que historicamente estava esquecida, então aproveitamos o Festribal deste ano para mostrar sua cultura, dança e chamar a atenção para o fato de que estão quase extintos», afirma o coordenador Gilliard Henrique, referindo-se à população de apenas 100 indivíduos.
Também houve a escolha da rainha do Festribal, a Kuña Muku Poranga (fala-se cunhã mucú poranga).
O concurso reuniu meninas entre 13 e 16 anos de acordo a concepção do ápice da beleza feminina considerada por os sábios da tribos.
«Pesquisamos junto àqueles que possuem o conhecimento tradicional na comunidade, os pajés e anciãos, que nos disseram que a beleza maior está na mulher em transformação», diz Gilliard.
A vencedora foi a estudante Kelle Castro Andrade, 14 (foto em destaque à esquerda), que se intitula uma descendente Baré e se mostrou modestamente surpresa.
«Entrei por a brincadeira junto com algumas amigas, não esperava», revela, ao mesmo tempo em que mostra alegria e a curtição do reinado.
Apresentações da segunda noite
Em a segunda noite, a atração foi os alunos da Escola Municipal Indígena Dom Miguel Alagna, que fica em São Gabriel da Cachoeira e contou com cerca de 90 estudantes entre 12 e 17 anos.
As 23 etnias foram representadas por alguns alunos que traziam um objeto, quando chamada a tribo específica, o estudante exibia o produto ao público que ouvia origem, utilidade e seu significado, cada grupo étnico era ainda identificado tanto por o nome imposto por os colonizadores como por suas autodenominações -- por exemplo, os índios chamados Tarianos, na verdade se reconhecem como Taliaseri.
Logo em seguida, foi apresentada a Dança do Inajá.
A integração com os países vizinhos teve lugar na apresentação de El baile del Sebucán, onde crianças venezuelanas de San Carlos, vila com aproximadamente 1760 habitantes no município indígena autônomo Rio Negro, inovaram a indumentária dos cocás substituindo as penas for finas folhas de madeira com o patriotismo pintado no rosto.
«Foram dois dias de barco até chegarmos aqui, mas é um grande prazer», conta o professor Melquier Ril da Silva, 40, que acompanhava o grupo da escola bolivariana Antonio Jose de Sucre, que encerrou a noite com uma nova leitura para a brasileiríssima» Dança do Tipiti.
«A dança foi levada ao nosso país e incorporada à região, a coreografia é a mesma, somente dançamos com as nossas músicas», explica o jornalista venezuelano Gérson Granda, 26.
Uma inusitada dança gaúcha executada por o grupo Dançart, composto por estudantes locais, fechou as apresentações de pista mostrando a influência dos muitos gaúchos que habitam a cidade servindo ao exército, cujas esposas em geral viram professoras na cidade e aproveitam para transmitir o folclore do sul.
A o final de cada noite, o Festribal abria espaço para shows musicais onde banda cover Tríades animou a platéia com sucessos de FM, mas foi o grupo musical da Associação Cultural Baré que levantou o público com músicas de exaltação à cidade e sua cultura.
Lições da Escola Ye ' pa Mahsã
Em a noite seguinte, a movimentação de crianças com indumentárias de tucum (fibra resistente de palmeira típica) era grande do lado de fora do tribódromo, aparentemente mais um centro de ensino se apresentaria me fazendo questionar onde estava o Festribal que eu esperava, ao mesmo tempo que procurava lembrar as razões da minha expectativa.
Depois de um texto de apresentação em português ser lido para o público sem reação, minha atenção foi arrebatada por o mesmo texto lido na língua tukano que ao final recebeu os aplausos dos presentes que lotavam o tribódromo.
O município mais indígena do Brasil mostrava sua identidade na apresentação da Escola Indígena Ye ' pa Mahsã (pronuncia-se iepá massá) com crianças vindas das comunidades de Santa Teresinha, Cumuri e Monte Alegre, todas situadas às margens do rio Uaupés.
Cada unidade apresentou uma dança tradicional com a visível importância do significado daquele rito visto em cada semblante, a harmonia daquele conjunto de crianças e jovens era a melhor surpresa do dia a traduzir-se naquela imagem de Festribal que pessoalmente esperava.
Os vizinhos voltaram à cena para duas apresentações, Baile Venezuela e Baile Venezuela Viva e a apresentação de um grupo local de capoeira distraíram o público antes dos shows no final da noite.
Sabrina Santos & Banda foi o destaque, mas a cantora entrou com máscara e sem banda fazendo uma performance teatral com alguns participantes caracterizados com farda escolar, era uma crítica sobre uma suposta postura hipócrita da roqueira Pitty que teria sido explorada numa revista nacional como uma «rebelde sem causa».
De máscara, Sabrina ao mesmo tempo que fazia referência ao fato, utilizou-se de quatro sucessos da cantora para fazer o público dançar, encerrando o ato com a pompa satirizada de concursos de miss na colocação de uma faixa com a inscrição «Rainha da hipocrisia».
Somente depois decidiu mostrar sua proposta de trabalho com músicas próprias em português, tukano, e nheengatu -- língua de unificação criada por os portugueses.
Com sua temática voltada à exaltação do índio e da natureza, com fortes críticas à cultura do branco, a cantora mostrou-se uma novidade de grande potencial mesmo cantando sobre os arranjos pré-gravados.
«Desculpem por a ausência da banda, foram algumas confusões de última hora, mas o importante é que eu não desisto», disse Sabrina, que aos 21 anos mostra a vontade de desenvolver um trabalho crítico.
O embate das tribos:
Baré X Tukano O Festribal reserva as duas últimas noites para as suas maiores atrações.
Um desafio inspirado na fórmula de sucesso parintinense envolvendo duas associações folclóricas.
«É inspirado, mas temos nossas especificidades», justifica o coordenador Gilliard.
Disputando a preferência do público e dos jurados, Baré e Tukano têm uma noite específica com duas horas e meia para apresentação.
Quem se apresentou na quarta noite de festival foi a Associação Cultural Tribo Tukano sob o tema A origem do povo Tukano.
A arquibancada estava decorada com alegorias, bandeiras e balões nas cores da associação, amarelo e preto, mas até o início oficial da apresentação os preparativos demoraram e tornaram-se enfadonhos, até que os módulos da primeira alegoria começaram a ser posicionados.
Depois de uma hora de espera, a apresentação começou com luzes apagadas e velas na parte onde se concentrava a torcida tukano.
A dramatização contou a saga de um povo que viveu no centro da Terra, originário do Lago de Leite e que está prestes a emergir à superfície por meio de uma boiúna, a cobra-grande, para transformar a Terra, povoá-la para tirar a tristeza e os males que reinavam.
A alegoria (foto maior) traz um componente no alto simbolizando o Deus da Terra, Doetiró, sobre uma cobra que percorreu o ginásio.
De sua enorme boca começaram a sair os primeiros índios que formaram todas as etnias pertencentes ao tronco lingüístico Tukano:
os Dessano, Wanano, Tariano, Piratapuia e os Tukano propriamente ditos.
A partir daí a apresentação saiu da encenação fantástica da mitologia e passou a retratar a organização dos indígenas em suas novas moradias, com o roteiro elaborado para exibir os itens da disputa previstos em regulamento.
Em um local de reunião das etnias chamado Casa das Mulheres (item alegoria), a Cunhã Poranga foi escolhida e encaminhada ao Pajé, que iniciou a preparação da vida na Terra.
O Ritual do Pajé (foto em detalhe superior direito) foi encenado com pé no chão e dramatizado sem pirotecnias.
A o final da apresentação, as etnias unidas ocuparam todo o espaço de pista do tribódromo para uma grande evolução final coreografada.
A ousadia Baré
Com o tema Fatos e Lendas do Alto Rio Negro, a tribo Baré pintou o tribódromo de amarelo e vermelho com visível superioridade estética em relação à rival, da decoração das arquibancadas e indumentária das tribos ao tamanho das alegorias, que inclusive foram responsáveis por o atraso de 40 minutos devido a dificuldade de entrar no ginásio.
Iniciada a exibição, seguiu-se um roteiro com a preocupação de mostrar o dia-a-dia do indígena e a origem mitológica da fibra presente na vida de todas as etnias da região, o tucum.
A Tribo Baré começou com alegorias e participantes simulando a vida nas aldeias, numa coreografia intitulada O Índio, celebrando a unidade étnica e a fraternidade mantida por meio dos rituais.
Em o refrão, a ênfase:
«Sou Baré, da Tribo Baré eu sou».
Em destaque, personagens simbolizavam a Rainha do Artesanato, a Mãe-Natureza, a Cunhã-mucu-e até a formação rochosa da Bela Adormecida, monumento natural da cidade.
Com simplicidade na ambientação do cenário, a dramatização da lenda emocionou o público.
A Lenda do Tucum retratou a inveja da madrasta Aiba -- filha de um pajé -- que resolveu aproveitar a ausência do pai verdadeiro da menina, um índio guerreiro, para enterrá-la viva.
Quando o pai retornou, a madrasta contou que uma cobra surucucu a havia mordido.
O guerreiro chorou e foi embora para nunca mais voltar.
Dias depois a assassina morreu de febre.
A encenação continuou com a leitura de textos por o apresentador alternando com a dublagem dos «atores» sob vozes pré-gravadas.
Quando a velha índia Guaibí se dirigia para a roça de mandioca, teve a visão fantástica de uma palmeira, um tucunzeiro gigante.
Vendo a qualidade das folhas, teceu a mais bela rede para seu neto Baiá, um índio querido por todos por cantar e tocar flauta como ninguém.
A o dormir na rede pela primeira vez, Baiá sonhou que estava enraizado à terra, e à sua frente, um tucunzeiro gigante se transformava numa linda índia, que se aproximou e disse:
«Baiá, toque para mim».
Em cena, índio e índia protagonizavam o encontro final sob aplausos, e uma grande coreografia encerrou a apresentação da agremiação.
Veredicto e contestação
Em a tarde do dia seguinte, torcedores e integrantes das associações folclóricas Tukano e Baré ocupavam as arquibancadas à espera da abertura dos envelopes.
Os jurados votavam segundo os itens alegoria, letra e música, originalidade, cunhã-mucu-poranga, ritual do pajé, coreografia, leitura do histórico e evolução.
A agremiação vencedora levaria para casa o troféu Daw -- Gente -- Caçador, uma arte em ferro fazendo referência à etnia homenageada do Festribal.
A leitura das notas e a declaração da Tukano como vencedora estarreceu os integrantes da Baré e surpreendeu até a torcida campeã, que demorou alguns segundos para vibrar e descer as arquibancadas para comemorar.
Em pauta, a mesma discussão dos resultados do Festival de Parintins:
a Baré teria sido julgada sob o critério do excesso de ornamentações que comprometeu a originalidade da exibição.
Em contraposição o questionamento:
Como pregar de forma tão rígida o conceito de originalidade dentro de uma festa desenvolvida sob a ótica do espetáculo?
O XIº Festribal abriu em São Gabriel da Cachoeira a discussão que vigora em Parintins desde a segunda metade dos anos 1990, entre os bumbás Garantido e Caprichoso, e que está até hoje sem solução.
Depois do choque, a torcida Baré invadiu a pista para comemorar com os sentimentos do dever cumprido por a boa apresentação e de injustiça.
«Cabeça de jurado é igual a urucum, a gente nunca sabe o que tem dentro», bradou um dirigente ao microfone se referindo ao fruto em forma de ouriço.
E tudo acabou assim, com Tukanos comemorando desconfiados e Barés comemorando com raiva, mas juntos e respeitando-se mutuamente.
O XIº Festribal chegou ao fim dando início a uma discussão enigmática:
Número de frases: 78
ao importar também a polêmica parintinense, Barés e Tukanos impõem-se a necessidade de sua solução conceitual, em prol da transparência dos seus critérios e preservação da lisura de seu resultado, para não repetir o erro de quem o inspira e não cair no mesmo notório descrédito dos resultados de Parintins presentes nos últimos dez anos.
Edição de Autor, Processo de Criação, Literatura e a linguagem não sexista serão conteúdos do programa Conversa Com A Pessoa Que Lê que o escritor e jornalista Adroaldo Bauer fará a partir de sua novela recém-lançada O dia do Descanso de Deus.
A estréia do programa será às 19 horas do dia 26 de junho, no Plenarinho da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, uma promoção do Mandato da deputada estadual e ex-prefeita da cidade de Alvorada, na Região Metropolitana da Capital, Stela Farias (à esquerda na foto com presidenta da Câmara de Porto Alegre, vereadora Maria Celeste).
A ênfase desse encontro será dada ao conteúdo Linguagem não sexista, uma sugestão do gabinete da deputada.
Em o dia 27, às 18h30 min, a Conversa será na Câmara de Vereadores, onde Adroaldo já exerceu dois mandatos (1989/1996).
Esse encontro é promoção do Coletivo do Mandato da Vereadora Margarete Moraes, primeira mulher a presidir a Câmara de Vereadores da Capital Gaúcha.
As personagens femininas d' O dia do descanso de Deus têm força e destaque na trama da novela a ponto de debater com o próprio autor, numa licença prosaica, a escrita da narrativa, questionando em pleno andar da carruagem a submissão do gênero feminino ao masculino por os vocábulos comuns de dois.
O tema ganhou atualidade também por a publicação no dias 2 e 16.6 no Caderno de Cultura do Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, de dois artigos de Cláudio Moreno, professor e doutor, comentando exatamente a submissão de gênero na língua portuguesa.
Moreno afirma que a língua portuguesa, como a de qualquer povo, é elemento de estrutura e não muda, ou não mudaria facilmente nesse aspecto e que, o mais correto, em razão das regras existentes é afirmar que o feminino é que discrimina e exclui.
Como a história tem exemplos de que as estruturas mudam, inclusive as línguas, mesmo o Português, a Conversa será um bom momento de reflexão.
O debate também abordará a proliferação avassaladora do internetês, que Adroaldo Bauer confronta já na dedicatória que faz da novela às pessoas que lêem.
O autor pretende dar continudade ao programa em escolas, associações de moradores, sindicatos de trabalhadores e bibliotecas de bairros, públicas ou comunitárias, na cidade de Porto Alegre.
Para Adroaldo, não é uma invenção ou modismo pretender um texto literário que não imponha ou reproduza o machismo: "
a literatura no Brasil e no mundo tem inúmeros exemplos dessa possibildiade, no passado e na atualidade.
É uma necessidade, uma conduta de quem ao escrever, reflete respeito àss pessoas independente do gênero, o que vale também para a etnia ou a circunstância etária.
Número de frases: 15
Somos todas pessoas humanas, que habitamos a mesma casa, o planeta Terra».
Eu caí de pára-quedas nesse mundo, ou melhor, num encontro de pessoas que constróem esse mundo.
E o meu pouso foi lá no boteco Opção, atrás do Masp, sabe aquele?
Um sábado à tarde, um calorão, cerveja, frango a passarinho ao alho frito, fritas e muita conversa.
Os mundanos:
Higor Assis, Érika Morais, Letícia Lins, e o meu amigo e xará, Fernando Mafra.
Ele já estava há muito me enchendo o saco para eu ser uma mundana, mas só conseguiu mesmo me pegando no laço.
Sim, isso pq muito democraticamente, eu, a estreante no circuito, fui a escolhida -- sem me candidatar -- a escrever o relato sobre a «reunião».
E aqui estou.
Muita coisa sobre o encontro, confesso, ficou perdida na minha memória.
Mas o mais importante que me lembro foi o seguinte:
o pessoal está a fim mesmo de fazer isso aqui ser algo muito legal.
Cada um, ao seu estilo.
E foi o que de verdade me empolgou a fazer o meu login valer para alguma coisa nesse mundo.
Cada um levantou questões interessantes.
Um dos mais discutidos foi a forma como o status dos participantes aumenta.
Eu não entendo muito bem ainda as regras de edição e avaliação aqui, mas deu para perceber por os relatos que há uma certa injustiça.
Parece que o critério principal que está predominando é o fator quantidade e não qualidade.
Se a pessoa não publica mas vota adoidado, fica com um chakra (brincadeira, karma) turbinado.
Então, aqui vai um puxão de orelha e alerta para os administradores:
aqui tem gente que pensa e não só clica, e quer ser reconhecido por isso.
É preciso melhorar os filtros!
Mas todos também concordaram que, como este meio não é comercial e sim público, há uma certa morosidade até compreensível para a evolução das ferramentas.
Só que não é por isso que a gente vai deixar de cobrar.
Essa camisa eu já vesti e me serviu.
Um dos melhores exemplos disso, vindos no nosso caro Higor, foi o seguinte:
ele disse ter publicado dois textos premiados que não saíram da fila de edição.
No entanto, outros textos do qual ele tem menos orgulho saíram no site com maior facilidade.
Onde está o critério?
Cadê? Não se sabe ...
Aliás, o Higor é a figura engajada do grupo.
Ele quer, além de mostrar suas produções, mudar o mundo, não só o Overmundo.
E vamos lá, Higor, vc consegue, a gente te ajuda.
Ainda sobre o tema votação, a Letícia, que é conselheira, levantou uma questão bem interessante.
Disse que depois q seu peso de voto foi elevado a 8 (ou 9?),
ela passou a olhar mais criteriosamente para os textos e a votar apenas no que realmente é bom.
Isso mostra q um status alto não só dá poder, mas tb pode fazer com que o participante aumente seu grau responsabilidade e envolvimento com o site. (
quer vender voto?)
A Érika se destacou por a articulação.
Jornalista, quer ajudar a difundir a sua paixão:
o jornalismo literário.
E mostrar seu trabalho.
Além disso, ela é a favor da divulgação dos posts, mandar e-mails, avisos sobre cada vez que tem um texto na fila de edição / votação.
Para ela, essa é uma ferramenta do site que deve ser usada para que as pessoas divulguem suas idéias e o mundo.
Já o Mafra é contra tanta poesia na fila de edição do Banco de Cultura.
Aliás, parece que tem gente por aí -- não fui eu q vi -- que anda publicando obra que não é sua no Overmundo.
Que feio, hein?
Mas como tudo é novo, o grupo perdoa quem ainda não sabe disso, mas desde que corrija isso o quanto antes, leia e entenda as regras.
Pq eles prometem cobrar e puxar orelhas nas filas de edição.
Número de frases: 49
Eu tb vou ler, e logo, antes que me mandem também.
Você sabe qual é o salário inicial de professor de escola municipal em Uberaba (MG)?
É inacreditável.
Quando trabalha 20 horas por semana, ganha algo em torno de R$ 400 por mês.
E não há dúvidas que essa é a realidade da maioria das cidades do Brasil.
Professores estão sendo humilhados com esse salário.
Como convencer os alunos que eles devem estudar para ser alguém na vida, se o próprio professor ganha R$ 400?
Esse salário desmoraliza o docente e desautoriza seu discurso à favor do estudo.
Os alunos se convencem que não vale a pena estudar, e eles têm razão!--
Estudar para quê, se você que estudou tanto, e até tornou-se professor, ganha só R$ 400?
Como o professor ganha muito mal, tem muito profissional na cidade trabalhando 60, 70 ou mesmo 80 horas por semana em salas de aula, numa tripla jornada de trabalho similar aos piores momentos da Revolução Industrial.
Atenção: uma sociedade que desvaloriza o conhecimento de forma tão explícita jamais superará o atraso.
Professores não podem ser maltratados.
Eles são os fundamentos intelectuais de nossa sociedade.
Maltratar o professor primário é corroer as bases de nosso futuro.
Para manter a cabeça aberta e desenvolver continuamente o espírito de aprendizagem, professores precisam comprar livros, assinar jornais e revistas, participar de congressos, ir ao cinema, viajar à Bienal de Arte, assistir aos festivais de música e teatro ...
Tudo isso é caro.
Por isso, esses trabalhadores precisam gastar muito dinheiro para alimentar continuamente a inteligência, ou tornam-se repetitivos, mecânicos e antiquados, num prejuízo intelectual que dividirá com os alunos.
Para o docente, cultivar a cabeça não é luxo;
é imperativo profissional.
Professores devem entusiasmar os alunos, devem tornar-se referências sólidas para que eles interpretem criticamente a realidade.
Profissionais desestimulados, desinformados e desinteressantes fazem com que os alunos passem a detestar a escola.
Com razão. Humilhados com esses salários, os professores estão tristes.
E o que os alunos mais precisam é de professores entusiasmados, inteligentes e felizes.
Uma distorção histórica agrava ainda mais as condições de trabalho do professor.
Em a regra geral este profissional recebe apenas por o período em que está dentro de sala de aula, sendo que o momento em que mais trabalha é quando está preparando aulas, pesquisando textos, elaborando exercícios, revisando tarefas e corrigindo trezentas, quatrocentas avaliações.
Esse trabalhador passa madrugadas e fins de semana exercendo seu ofício sem receber qualquer remuneração.
Essa aberração na organização do trabalho do professor foi incorporada por a sociedade e ganhou ares de naturalidade.
Mas é preciso consertar essa distorção bizarra:
trabalhadores têm que receber para trabalhar.
É preciso ficar claro:
para cumprir bem a função de educar as novas gerações, os professores precisam estar satisfeitos financeiramente;
precisam sentir-se confortáveis materialmente;
precisam de um salário que os leve a trabalhar em apenas um emprego, por não mais que 40 horas semanais, para ter tempo de ler jornais, comprar livros, viajar nas férias e de viver a vida com suas famílias.
Professor não deve ter vergonha de reivindicar um salário do tamanho do valor social de sua função.
O primeiro passo para aumentar de fato a qualidade da educação é aumentar o salário dos professores.
Número de frases: 36
Reformar escolas e comprar computadores também é importante, mas tendo em vista o salário do professor, todo o resto é secundário.
É com um Exu, o mensageiro dos orixás, que Anísio Augusto Pimenta Silva, mais conhecido como Pimentinha, recebe todas as segundas-feiras os seus clientes.
Após uma longa espera para estacionar, os clientes são recepcionados por um banho de sete folhas, «para dar sorte e tirar o mal olhado», como afirma o dono do bar, e encaminhados para o local que desejar, ou dentro do bar, junto às obras de arte de Pimentinha, ou na rua, onde as fileiras de cadeiras ocupam os dois passeios.
Durante as segundas-feiras, a Rua Dom Eugênio Sales, na Boca do Rio, é tomada por mesas, vendedores ambulantes, barracas de churrasco, muita gente dançando no meio da rua, ao som de uma banda de Forró Moderno, que começa a tocar a partir das 21h.
Dentro do bar, uma outra banda toca salsa peruana, num palco que mais parece um quarto, feito de barro batido e decorado com placas de madeira com nomes de artistas baianos.
A festa só termina às 2h da madrugada, e o bar só fecha às 4h.
A parte interna do bar tem dois andares, que são divididos em quatro praças:
a das Lésbicas, das Virgens, dos Cornos e dos Viados.
O local é freqüentado por diversas tribos e muitos turistas, que ficam impressionados com a irreverência do bar e de seu dono.
Cestas, chapéus de palha, telefones, monitores de computador, CDS, discos de vinil, tiras de tecido, televisão, máquinas de datilografar, bonecos e muitos outros objetos participam da decoração do ambiente.
Os tira-gostos servidos no bar têm nomes de artistas da música baiana, como o bolinho de bacalhau Márcia Freire, o de charque, que é Durval Lélis, e os pratos têm nome de mandingas, como o frango na brasa, mais conhecido como ', que é servido com uma vela acesa.
O local é incensado sempre e um funcionário é responsável por preparar os banhos de folha e jogar milho branco e pipoca.
O local tem dois altares, um de Santo Antônio e o outro com diversas imagens, como Irmã Dulce e São Lázaro.
Dono
A os 58 anos, Pimentinha conta que a idéia de ter um bar onde as pessoas viessem se divertir e tomar um banho de folha para se purificar, surgiu há 21 anos, com uma brincadeira entre amigos, onde ele preparou o banho de folhas na virada do ano e trouxe bastante sorte.
Ele só abre as segundas-feiras por que é devoto de São Lázaro e Omolu, e acredita que abrindo o bar às segundas os orixás lhe trarão bons fluidos e paz.
Quando nenhum bar abria às segundas-feiras, Pimentinha já fazia sucesso, com freqüentadores assíduos.
«A segunda-feira é o dia dos velhos, da alma.
O pessoal antigamente tinha medo de abrir nas segundas, e era o dia de descanso do pessoal do Pólo, eles vinham então para cá, e tudo começou assim», conta Pimentinha quando foi perguntado sobre como começou o sucesso do bar.
«Toda segunda-feira eu venho tomar o meu banho de folha que só pode ser dado por Pimentinha, para me dar sorte e para que tudo ocorra bem no resto da semana», conta a servidora pública Maria das Graças, 48 anos.
Todos que chegam ao bar recebem um banho de folha de Pimentinha, que faz uma reza secreta que ele mesmo criou.
Ele diz que é dadaísta, não é pai-de-santo e nem freqüenta casas de candomblé.
«Esse dom foi deus que me deu», explica.
Pimentinha recebe seus clientes todo de branco e descalço, para «pegar energia da natureza».
Todos no bar falam com ele e pedem o banho das sete folhas.
Supersticioso, só abre o bar após as 18h, depois da Ave-Maria.
Católico, devoto de São Lázaro e Santo Antônio, e filho de Omolu com Ogum, todas as segundas-feiras toma café da manhã com os mais necessitados na Igreja de São Lázaro e, nas terças, distribui cestas básicas no Hospital Santo Antônio.
«Carnaval
«Eu nasci e vou morrer no carnaval», conta Pimentinha, apaixonado por o carnaval, nascido em 6 de fevereiro de 1949 e criado na cidade baixa, no Jardim Cruzeiro.
Admite ser um pipoqueiro nato e odeia os blocos.
Foi a sua paixão por o carnaval que o fez colocar o nome dos artistas nos pratos do bar.
Antes, artistas como Daniela Mercury e Xanddy freqüentavam muito o seu bar, «mas depois da mídia pararam de vir», conta.
Em a decoração de seu bar, muita coisa lembra a música baiana.
Nomes de artistas estão talhados em madeira por todos os lados, fotos e caricaturas de diversos artistas estão expostas no mural logo na entrada do bar e há ainda alguns instrumentos musicais pendurados, como pandeiros.
«Um dia desses vou levar toda minha folia para o carnaval, e não volto mais», conta Pimentinha.
Arte
A casa, que hoje é o bar, era a casa de veraneio da sua mãe.
Antes do bar, Pimentinha ganhava sua vida fazendo móveis rústicos e construía instrumentos musicais.
Adora a arte:
«Sou artista, entalhador e criativo».
Todos os enfeites do bar foram confeccionados por ele, «tudo que tem aqui é uma gozação, uma brincadeira», afirma.
Tudo na vida de Pimentinha cheira a arte.
A porta do seu bar de madeira foi entalhada por ele, e até o carro, tem um boneco em cima que é uma caricatura sua, que segura nas mãos um penico e um ramo de folhas.
Pimentinha circula com seu carro excêntrico por as ruas da Boca do Rio e Imbuí, e com outros diversos bonecos, criados por ele, fazendo festa por as ruas.
São a excentricidade e a irreverência, que atrai o público de classe média a alta ao bar.
Além de se divertir, dançar, beber, azarar, os clientes ainda saem do bar abençoados e preparados para dar continuidade aos outros dias da semana.
Número de frases: 46
Você é capaz de afirmar, sem receio de erro, qual o maior ídolo da música popular do Brasil no momento?
Há alguns anos seria mais fácil responder esta pergunta.
Bastaria lembrar qual artista conseguia estar presente, praticamente ao mesmo tempo, nos programas dominicais de auditório.
Aquela música tocada no rádio a exaustão, que você não agüentava mais, daria mais segurança ao seu palpite.
Mas, se você quisesse total certeza na resposta, bastaria ir à banca mais próxima e ver que um mesmo rosto estava estampado em metade das revistas expostas.
Era o rosto insistente dos programas de auditório da TV, o rosto do dono do grande sucesso musical do momento.
Mas, neste período de aparente ausência de um grande ídolo, como apontar quem é a cara da música popular do país?
Nos últimas décadas, a indústria do disco fabricou um modismo após o outro, se apropriando de ritmos que faziam sucesso em alguma região e os apresentando (ou impondo) ao grande público nacional.
Isto após certo capricho visual e sonoro, pasteurizando o produto ao gosto do freguês.
Foi assim com o sertanejo romântico, a axé-music (e seu subproduto, a bunda-music), o forró eletrônico, o calipso e, em menor proporção, com o funk.
Para cada ritmo, um grande ídolo em exposição, até que a fórmula se esgotasse e fosse prontamente substituída.
Hoje, a indústria fonográfica parece ter perdido a força e não se mostra tão disposta quanto antes a investir em novas ondas musicais -- isto certamente devido a pirataria, que ganha as calçadas e que se mostra irreversível com a popularização da internet.
Assim, no mercadão da música, reinam ídolos já desgastados e cambaleantes, mas que são as apostas mais viáveis em época de crise.
Segundo pesquisa de opinião do instituto Datafolha, encomendada por a agência publicitária F / Nazca Saatchi & Saatchi, o maior ídolo atual do Brasil atingiu seu auge de sucesso há 2 anos.
Com a Banda Calypso, do Pará, quem dá cara ao gosto musical do brasileiro é a vocalista Joelma -- com seu cabelo tingido e alisado e suas roupas coladas e cheias de penduricalhos, que deixam sempre à mostra suas pernas e sua barriga lipoaspirada.
Em segundo lugar na pesquisa está a dupla Zezé di Camargo e Luciano, que impulsionou a moda sertaneja nos primeiros anos da década passada, a partir do sucesso «É o amor (1991)», alcançando o auge comercial em 1995 (2 milhões de discos vendidos).
Ano passado, mal atingiram a marca das 400 mil cópias.
Em tempos de bonança, a dupla já teria sido escanteada por a indústria do disco, preterida por nomes em maior evidência.
Mas, na atual conjuntura, são artistas viáveis, por sua popularidade testada.
Por este motivo, todos os nomes seguintes da lista são remanescentes de modismos da música popular (ver relação abaixo), à exceção de Roberto Carlos, Amado Batista e da banda pop Jota Quest.
São ídolos de duas linhagens básicas:
do romantismo fácil e da música feita para agitar o corpo.
Massificação
Independente da região pesquisada, há poucas variações na relação de nomes apontados por o público, o que ressalta a massificação do gosto do brasileiro médio e o achatamento da música regional.
No geral, os nomes apenas se alternam nas colocações da pesquisa.
Em as regiões Sul e Sudeste, Zezé di Camargo e Luciano lideram a preferência do ouvinte, enquanto no Nordeste, Norte e Centro-Oeste, a Banda Calypso é mais popular.
Em seu blog, o crítico musical Mauro Ferreira lamenta que o resultado da pesquisa não reflita a pluralidade de um Brasil que, por suas dimensões continentais, são vários Brasis.
Cita que são excluídos artistas mais apurados como Chico Buarque, um cantor que, mesmo sem aparecer em programas de televisão, comprova sua popularidade ao provocar filas nas bilheterias das casas que anunciam seus shows.
De a mesma forma, cita que Marisa Monte também é popular «em seu país».
«E isso é que é triste, pois, em décadas passadas, o próprio Chico era capaz de unir esses vários Brasis numa só voz.
Como bandas como Legião Urbana fizeram nos anos 80», comenta Ferreira.
A pesquisa Datafolha ouviu 2.166 pessoas com idade a partir de 16 anos, em março último, questionando qual o cantor, cantora ou banda elas mais têm escutado.
Nacionalismo
à parte a qualidade das letras, brasileiro gosta mesmo é de entender a canção que ouve, pra se emocionar com mais propriedade e para poder cantar junto.
Somos um dos países que mais consome música nativa.
Entre os 11 nomes apontados na pesquisa, nenhum é estrangeiro.
Fato que se confirma também na lista dos 50 discos mais vendidos no país.
Em este ranking, os internacionais surgem apenas a partir da 33ª posição (Linkin Park).
Além da banda americana, estão presentes outros seis nomes:
Ferguie (42ª), Ben Harper (44ª), Marron 5 (45ª), Vanessa Hudgens (46ª), Bom Jovi (47ª) e Amy Winehouse (50ª).
Os mais populares
Banda Calypso Zezé di Camargo e Luciano
Bruno e Marrone
Roberto Carlos
Daniel Leonardo
Ivete Sangalo Calcinha Preta
Amado Batista Aviões do Forró
Número de frases: 47
Jota Quest + ou-1640, houve uma revolta de escravos na então capital do brasil salvador, e os negros tomaram o poder.
seus lideres foram eleitos.
então foi o primeiro governo negro nas americas.
antes do toussaint l ' overture.
no formato republica foi a primeira do mundo.
como republica negra foi a primeira do mundo.
começa assim:
todo porto tinha um diario, eram anotadas coisas como oq embarcou, oq desembarcou, e fatos extraordinarios.
o diarista anotou q uma revolta tinha começado.
nos dias subsequentes foi anotando q a revolta progredia.
por fim não havia mais nada anotado.
suponho q o diarista saiu correndo.
naquele tempo os negros superavam os brancos em 10 pra um.
o brasil passou para o dominio da espanha, a qual não dava a menor bola para o brasil pq ja vinha muito ouro e prata dos outros lugares, e do brasil só vinha açucar.
então o dominio negro no brasil seguiu tranquilo por uns belos quarenta anos.
com a independência portuguesa da espanha, portugal sim tinha muito interesse no brasil.
e mandou uma esquadra q derrotou os negros.
naturalmente q os portugueses não tinham interesse nenhum em q a historia registrasse alguma vitoria negra, então apagaram toda e qualquer menção ao fato.
mas em salvador, o solar do unhão tinha um porão, q o diarista tapou ao sair correndo, e permaneceu oculto por belos quatrocentos anos.
um dia o solar do unhão perigou desabar por muita infiltração de agua.
a prefeitura nomeou engenheiros pra ir ver se salvava o predio historico, e eles descobriram o porão, e os documentos.
tenho a impressão q a universidade da bahia contatou a lloyd's da inglaterra e a ' companhia das indias ocidentais ' holandesa pra assuntar acerca de possiveis registros referentes a este fato.
então fica assim:
Número de frases: 23
o brasil ja foi linda republica negra iorubá.
Toda pessoa tem seus momentos destinados ao entretenimento e, para isso, nada mais acessível nos dias de hoje que a TV.
É um aparelho que revolucionou nossa era, pois, junto com a internet, proporcionou a qualquer ser humano o acesso irrestrito a qualquer universo, tanto da informação, quanto da cultura e do lazer, com todo o conforto e facilidade nunca antes imaginados décadas atrás.
Com isso, nossa época é considerada a era da Revolução das Comunicações.
E com o avanço recente da implantação da TV digital e interativa, além da telefonia, essa revolução toma formas incomensuráveis.
Mas, como toda revolução tem seu lado negativo (como aconteceu na Revolução Industrial -- degradação do meio ambiente, Revolução Sexual -- AIDS, Revolução Digital desemprego, entre outras), a Revolução das Comunicações acabou gerando a chamada «Manipulação das Massas».
Desfaça-se o mito de que existe uma conspiração sistematizada dos setores governamentais para aumentar seu poder sobre a população, isso é bobagem.
O motivo para essa manipulação é muito simples:
Dinheiro. Parece uma tremenda besteira, mas é só isso.
Com o avanço das comunicações, gerou-se a explosão da divulgação de produtos das mais variadas procedências, com destaque para a moda, setor automobilístico, estética e sexo, exatamente o que a maioria das pessoas mais anseia.
Com o sufocamento da sociedade por toda essa indústria, inconscientemente o indivíduo passou a buscar com mais afinco esses complementos para suas vidas.
Quem não gostaria de ser lindo (a), bem sucedido e ter certa notoriedade perante a sociedade?
Nunca se vendeu tanta revista de fofoca de atores de novela, sinal de que a fama é atraente para a grande maioria.
Rapidamente, os meios de comunicação perceberam o filão e investiram pesado.
E nenhum lugar pode ser melhor para isso que a indústria do entretenimento.
É aí que entra, entre outros artifícios, o BBB.
Pessoas desconhecidas que, de uma hora para outra e em tempo recorde, ficam famosas e de quebra, podem ficar ricas.
Isso gera essa comoção.
Inicialmente, pode parecer mais uma inofensiva atração de TV.
Pessoas competindo entre si, trancafiadas dentro de uma mansão cenográfica, disputando uma boa quantia em dinheiro.
Diversão garantida, sem dúvida.
Mas, o que preocupa é a dimensão que essa competição toma na vida das pessoas.
Parece que isso se tornou a solução de qualquer problema:
participar de um reality show.
Se a garota tem um rostinho bonito e um corpo definido, se sente uma forte candidata a participar e, às vezes, vende sua alma (ou dignidade) para isso.
Se um rapaz é malhado, bonitão e popular, acha que tem também seu lugar garantido nessa casa.
E as prioridades, valores, formação, tudo isso é sacrificado em função de um pouco de notoriedade (mesmo que momentânea) e um punhado de reais.
É claro, pode-se retomar sua vida depois de tudo isso.
Mas é aí que vem o maior problema.
Poucos sabem lidar com suas vidas depois que a fama acaba.
Simplesmente não se conformam.
E alguns apelam.
Não se conformam que terão que voltar a trabalhar, como faziam antes, retomar aos estudos, ralar, para serem, de fato, alguém na vida.
Descobrem que são apenas pessoas bonitas, mas não têm talento e carisma suficientes para permanecerem na mídia.
Claro, alguns se revelam até portadores de certo talento e conseguem perdurar por algum tempo, mas mesmo assim, acabam vítimas da exigentíssima, rotativa e perversa indústria da mídia.
Número de frases: 35
Acabam descartados e substituídos por os novos ganhadores do posto, ou seja, os que acabaram de sair da Casa ...
Todos brasileiros os xingam por acharem que a capital do Brasil é Rio de Janeiro ou Buenos Aires, ou por acharem que aqui só tem macaco na rua.
Em primeiro lugar, eu pergunto:
qual a capital do País de Gales?
Pra quem chutou Cardiff eu dou meu Pc.
Ninguém sabe.
Nem por isso os galeses vão ficar dizendo «que brasileiros burros, não sabem nem a capital do nosso país».
Pergunta pra tua mãe, vê o que que ela vai responder.
Também pergunta a capital da Austrália.
Tu vai ouvir Sidney, talvez Melbourne.
tudo menos Canberra.
Até a capital dos Estados Unidos metade vai falar Nova Iorque ou Los Angeles.
Aí vão dizer ...
«ah, mas Buenos Aires fica em outro país ..."
E tu acha que isso importa pra eles?
Pergunto de novo:
Trípoli é a capital da Líbia, da Argélia ou de Marrocos?
Katmandu é capital da Tailândia, do Nepal ou de Laos?
Ninguém sabe.
Porque ninguém se importa com o que é inferior.
E é simplesmente assim que eu vejo a ignorância dos americanos sobre o Brasil.
E eu não os culpo.
E sobre os macacos ...
ah, quem nunca imaginou cangurus atravessando a rua na Austrália e fazendo lutas de boxe proibidas??
Número de frases: 24
Quando descobri o violão magnífico de Baden Powell já não era mais nenhuma garotinha.
Estudava jornalismo, embora ainda duvidasse que teria coragem para escrever sobre música brasileira.
A temática era sagrada demais para mim.
Sempre lia sobre a parceria de Baden e Vinicius de Moraes e ficava cada vez mais curiosa para ouvir os afro-sambas, que estavam reunidos num disco histórico, lançado em 1966 -- portanto, dez anos antes do meu nascimento.
Fui às lojas.
Importado do Japão, o álbum custava em média R$ 80 e essa quantia representava cerca de 15 % do meu salário de estagiária do Jornal do Brasil.
Uma boa solução era procurar o título na feirinha ao ar livre que funciona diariamente na Rua Pedro Lessa, Centro do Rio.
Em uma tarde, encontrei um rapaz que me faria uma cópia do disco por ótimos R$ 10.
Surpresa: voltei para buscar a gravação de ali a um par de dias e não reconheci o vendedor.
Resignada, amarguei mais alguns anos à espera da audição dos oito sambas inspirados nas raízes africanas, que flertaram com os sambas-de-roda baianos.
«Essas antenas que Baden tem ligadas para a Bahia e, em última instância, para a África, permitiram-lhe realizar um novo sincretismo:
carioquizar, dentro do espírito do samba moderno, o candomblé afro-brasileiro, dando-lhe ao mesmo tempo uma dimensão mais universal», sentência, no encarte do disco, Vinicius de Moraes, poeta, diplomata, boêmio.
Em cada linha, o parceiro cai de amores por a criação do violonista, a quem chama de ' duende da floresta afro-brasileira de sons ':
«Em o ' Canto de Ossanha ', Baden a meu ver atingiu o máximo de profundidade em sua carreira de compositor.
É um samba ' advertente ' e muito revolucionário em seu contexto».
Diz também:
«É esta, sem dúvida, a nova música brasileira e a última resposta que dá o Brasil -- esmagadora -- à mediocridade musical que se atola no mundo».
Profético, apesar do fatalismo que -- ufa!--
não se confirmou.
Em abril de 2003, o relançamento de 13 discos do violonista reunidos em caixa -- Baden Powell (Universal, produzida por Tárik de Souza e Carlos Alberto Sion) -- abriu-mas portas da obra deste músico singular.
E, apaixonada por violões e cavaquinhos, venho estes anos todos pesquisando as sutilezas da interpretação de Baden, um dos melhores alunos de Jaime Florence, o legendário Meira dos regionais do Benedito Lacerda e do Canhoto, também professor de Raphael Rabello e Mauricio Carrilho.
A coleção traz discos que foram lançados no Brasil entre 1959 e 1972 através dos selos Elenco, Phillips e Forma e é um alento tanto para quem já conhecia a sonoridade de Baden dos vinis e dos palcos mundo afora quanto para a garotada que está descobrindo agora o violão melódico do artista, que conciliava a técnica erudita e a interpretação popular como ninguém.
Você sabia que a primeira gravação de ' Luz negra ` -- clássico de Nelson Cavaquinho, famoso depois na voz de Nara Leão --, está no disco Um violão na madrugada, lançado por Baden em 1961?
Em este mesmo LP, ele gravou uma valsa de Alfredo Vianna, filho de Pixinguinha, e a autoral ' Luar de agosto ', apontada como um prenúncio dos afro-sambas.
Já nos Estudos, de 1971, o músico revela versatilidade ao assinar o solo no contrabaixo na faixa ' Baixo de pau (um abraço, Ernesto) ', de própria lavra.
Em o ousado É de lei, de 1972, Baden escoa quatro instrumentais sem parceiro e três canções co-assinadas por Paulo César Pinheiro -- ' Até eu ', ' Violão vadio ` e a faixa-título (embora gravadas sem letra neste disco, que conta com vocalises improvisados por a francesa Jeannine de Walleyne).
A cantora foi apresentada ao violonista por o produtor Jacques Lubin e virou parceira de ele no descontraído ' Blues a volonté '.
Para fazer uma imersão completa no universo do violonista, devorei em poucos dias O violão vadio de Baden Powell (1999, Editora 34), biografia escrita por a jornalista francesa Dominique Dreyfus.
Uma boa história:
inquieto e ágil como um menino, Baden costumava gravar um disco inteiro de uma só vez ou em poucas sessões, também motivado por o cachê.
Aliás, ele foi um dos últimos músicos a receber apenas por a gravação, sem atentar aos direitos autorais.
Ele ganhava um dinheiro fixo, mas a gravadora bancava as horas de estúdio, que nunca foram baratas.
O álbum 27 horas de estúdio ganhou esse nome por causa do diretor financeiro da Elenco.
Reza a lenda que mal o executivo olhou para a fatura da gravação, exclamou, boquiaberto:
«Puxa, só 27 horas de estúdio!».
Baden simplesmente varou a madrugada para registrar aquelas doze faixas, a maioria composta por ele.
Muito já se discutiu sobre o músico nascido em Varre-Sai, distrito de Itaperuna, e criado entre Vila Isabel e São Cristóvão, bairros do subúrbio carioca.
Baden viveu 63 anos para o instrumento e para a música popular brasileira, mesmo nas temporadas em que morou fora do país.
Em o livro supracitado, o também violonista Turíbio Santos diz que o violão de Baden " é uma invenção de ele.
Ele construiu um universo musical de extremo bom gosto, espetacular, com uma noção de sonoridade fora de série.
É capaz de tirar um som muito bonito de qualquer violão.
Em todas as músicas de ele, a melodia é forte.
Por isso é muito difícil para outro violonista tocar as músicas de Baden Powell, a não ser que seja uma música formal.
Se não ele sai em cima de uma melodia e faz pequenos contratempos, muito maliciosos e bonitos, que só ele consegue».
A benção, Baden Powell.
Número de frases: 45
«Meu Deus do céu!
Meu Deus do céu!
Quem tiver um bom apetite vai lá na Tia Lili que o sanduíche é deste tamanho!"
Assim o folclórico comunicador parintinense, Gil Gonçalves, concedia em seu programa de rádio a primeira mídia espontânea ao X-Pio logo depois de seu lançamento.
Um sanduíche com a cara da cidade, criado sob medida para o bolso do parintinense que procura um lanche barato como um confortável refúgio financeiro.
Nasceu da precisão dos cálculos do comerciante Paulo César Matos da Luz, 47, e saltou para o gosto popular apenas naquele espaço de tempo que uma grande novidade leva para se tornar pública, por o eficiente boca-a-boca de uma Parintins onde até hoje, praticamente todos se conhecem.
à princípio, este texto deveria ser jornalístico, no sentido mais puro do termo, mas insisto novamente na observação de que, as coisas que acontecem em Parintins me provocam a extrapolar a frieza do cumprimento da pauta para contar a experiência de fazer a matéria como um todo.
Tudo na cidade tem uma grande explicação, mas quando perguntei pela primeira vez a origem daquele nome peculiar do sanduíche minha expectativa ruiu diante do sarcasmo espontâneo, ou não, de um chapeiro -- designação amazonense sobre quem produz sanduíches utilizando chapa.
Respirando o ar rarefeito de quem explica em tom didático-infantil algo aparentemente óbvio, ele mandou pausadamente:
«Bem, o sanduíche leva um ovo, o ovo gera um pinto ...».
Deixando as reticências no ar como uma pá de cal psicológica, a mim restou apenas completar mentalmente aquela lacuna quase platoniana com o brilhante desfecho:» ...
e o pinto faz piu».
Frase que me faz recordar até hoje do seu eco produzido.
Pra mim havia acabado a esperança de uma boa história, o X-Pio se resumiria a uma simples dica onde descreveria os ingredientes de um sanduíche barato feito com pão bola, queijo, presunto, alface, tomate, pepino, repolho, batata palha e no papel principal dando nome ao espetáculo, ele, sua majestade:
o ovo.
Fui comer o X-Pio que havia pedido para ajudar a digerir a leve frustração que por pouco não me tirou a vontade de, ao menos, procurar o inventor do sanduíche para uma conversa curta previsível.
Muitas pessoas em Parintins atribuem ao ex-amo do boi Caprichoso, Rey, a criação do X-Pio, mas com poucas perguntas junto aos membros da família é possível chegar ao seu cunhado, Paulo César, como o verdadeiro inventor.
Aliás, ambos são proprietários de lanches vizinhos, tipo parede com parede, que produzem o peculiar sanduíche.
A insistência em procurar informações mais substanciais logo foi recompensada por a revelação da verdadeira história e significado do nome X-Pio, com uma complexidade muito maior do que a versão onomatopéica do chapeiro.
Uma gozação devolvida
Paulo César nasceu em Parintins, e sua vida foi desenhada em circunstâncias de idas e vindas por a região Norte.
A os dez anos foi morar em Belém, no Pará, mas aos 18 estava de volta ao Amazonas servindo ao exército em Manaus.
Conseguiu estabilizar-se nos anos 1980 ao retornar à Belém, onde conseguiu emprego numa agência bancária.
«Lá comecei de baixo como todo mundo, trabalhando como caixa», conta.
Em esse período, havia um outro Paulo César na mesma agência, tornando freqüentes os equívocos de comunicação.
«Era um problema, muitas vezes interrompia o meu trabalho para atender ligações que não eram para mim e o mesmo acontecia com o outro», comenta.
Era necessário estabelecer uma diferenciação, mas Paulo nunca ia imaginar que ela nasceria do contra-ataque de uma gozação feita por ele mesmo a um colega.
«Fui chamar um amigo do banco de piu-piu, mas ele virou-se, deu uma gargalhada e disse que eu era quem parecia com o personagem, todo mundo riu e embarcou na brincadeira de ele, até que começaram a me chamar de Paulo Pio», lembra com bom humor.
Quando foi promovido a supervisor de caixa, Paulo, ao receber seus novos cartões de visita percebeu o quanto sua nova identidade estava indo longe.
«Estavam impressos com o nome Paulo Pio, e ficou quase como um nome artístico.
Ligavam pessoas de outras praças como funcionários de agências do Maranhão e Osasco já perguntando por o Paulo Pio», revela, afirmando que o melhor foi ter parado de atender telefonemas que não eram para ele.
O nome tomou conta e Paulo considera o auge da abrangência do apelido, a ocasião em que foi chamado para realizar um seminário em São Paulo e se surpreendeu com a placa na mesa do evento o identificando como Paulo Pio.
De o banco para a lanchonete
O início dos anos 1990 marcou a vida dos brasileiros por a rígida recessão econômica do governo Collor.
Em o banco em que trabalhava, Paulo sentiu-se na iminência de entrar para o rol das vítimas dos chamados planos de reestruturação -- eufemismo empresarial utilizado até hoje para amenizar a repercussão das demissões em massa como seu principal efeito.
«Tinha três férias acumuladas, então me chamaram para comunicar que eu estaria entrando de férias por três meses».
Contrariado, viajou para Fortaleza, mas com um mês já estava sentindo falta de trabalhar quando um amigo, dono de uma lanchonete em Belém, ofereceu o negócio para que Paulo tomasse conta enquanto ele viajaria de férias com a esposa.
Paulo topou e começou a aplicar o minucioso conhecimento financeiro adquirido no banco em seu novo e até então temporário ramo.
Como resultado, alavancou em três vezes o faturamento em apenas 15 dias de administração, tomou gosto por o negócio e quando voltou das férias resolveu pedir demissão do banco.
«O bom é que fui demitido, recebi uma ótima indenização e comprei o ponto».
Em 1995, acompanhando as notícias de Parintins e a repercussão crescente em torno dos bumbás Caprichoso e Garantido no Festival Folclórico, percebeu a oportunidade de voltar à terra natal.
«A gente via nas matérias as cifras de investimento em milhões de reais, o grande movimento de turistas na cidade, então não foi difícil tomar a decisão», explica.
Resgatando o lanche barato
Em Parintins o nome da lanchonete homenageava sua mãe, Tia Lili, mas em 2000 vivenciou outra forte recessão econômica que fez desaparecer da cidade os lanches que custavam um real.
«Tinha muita gente desempregada e pouco dinheiro circulando, pensei como poderia fazer um sanduíche barato, mas bem cheio, e fui calcular ingrediente por ingrediente», lembra.
A o final de sua conversa numérica com a calculadora durante toda uma madrugada, a habilidade bancária de Paulo César alcançou um valor aparentemente improvável naquele contexto econômico.
«Queria chegar a um real e consegui um sanduíche por R$ 0,80 centavos, isso já calculado o saco do transporte», orgulha-se.
Para batizar a invenção, recorreu aos anos que tornaram possíveis construir o seu mais novo diferencial.
«Coloquei o nome de X-Pio para personalizar a invenção».
Mesmo desconfiados no início, os clientes foram seduzidos por o preço.
«Foi um começo pra estourar, no primeiro dia vendi 8, no segundo 30 e depois nunca mais abaixou de 300 à 400 por dia», revela, momento em que causou furor na cidade ao ponto de virar notícia no rádio.
«Também mudei o nome do lanche para X-Pio pra acompanhar a repercussão», recorda, segundo ele utilizando-se de um recurso usado por as lanchonetes de Belém para destacar a prata da casa (note que o amazonense utiliza o termo lanche para designar o ponto comercial).
Em a opinião de Paulo, melhor ainda do que o sucesso da invenção foi perceber o quanto ela influenciou a concorrência e a cidade.
«Fui criticado no início porque ninguém usava tomate e verduras nos sanduíches feitos em Parintins, mas o meu movimento fez a concorrência aderir aumentando os ingredientes», conta, chamando a atenção para o impacto econômico deste consumo em feiras e mercados.
«Em uma cidade com pouco dinheiro, qualquer coisa que o faça circular é boa, creio que 90 por cento dos donos de lanche passaram a comprar verduras desde então».
Hoje, completando seis anos de criação, o X-Pio é vendido à R$ 1,25 reais e ainda desfruta do título de sanduíche mais barato e consumido na cidade.
Teve sua receita copiada por outros comerciantes de Parintins e até de municípios próximos, mas seu nome foi mantido.
O original pode ser degustado no X-Pio Lanche, na avenida Amazonas, número 1471.
Pensando na primeira explicação do chapeiro, parece que o pinto que sairia do ovo que foi parar dentro do sanduíche, teria muito mais a dizer do que piu, se pudesse, talvez preferiria contar a história de um sanduíche e das oportunidades numa cidade renascidas de suas entranhas culturais e desenvolvidas na iniciativa de tantos outros exemplos de empreendedores que elas atraem.
Respostas para um Brasil dentro do próprio Brasil, e um país dentro cada um de nós.
Número de frases: 60
Onde você guarda a sua resposta? (
«Gringo Cardia de todas as tribos --Palácio das Artes --Belo Horizonte/MG --Março de 2008 ") A o visitar a exposição «Gringo Cardia de todas as tribos» me ocorreu aquela pergunta que não quer calar, apesar de já encontrar muitas respostas, todas que servem é claro, mas que deixam sempre algo incompleto, uma incerteza, afinal o que é Arte Contemporânea?
Se a pergunta anterior, o que é arte já não encontrava uma única respostas, essa então.
Talvez a arte contemporânea se exprima mesmo nesta falta de certeza e esta seja sua marca.
A questão me ocorreu enquanto tentava entender o que poderia vir a ser uma artista multimídia, achei que o melhor era partir do que é arte contemporânea para entender se a exposição dizeria-se-de um artista multimídia ou se apenas um artífice bem sucedido da indústria cultural.
Não encontrei resposta à partir da arte contemporânea, mas insisti em entender porque Gringo Cardia era apresentado, primeiro como artista e segundo como um artista multimídia.
A expressão Arte Contemporânea parece explicar tudo e ao mesmo tempo não explicar quase nada, uma paradoxo contemporâneo, mesmo porque algumas vezes não se quer é explicar mesmo nada, tudo está para ser interpretado, ou sentido, ou experimentado.
Gringo Cardia é apontado como um artista multimídia, artista gráfico, cenógrafo, diretor de arte, diretor de videoclipes, de teatro e desfiles de moda.
Há, e isso não se discute, em suas obras uma apurada união de estética e de técnica, mas há também um convencionalismo próprio dos objetos interpretados.
A o se criar uma capa de disco, há que se trabalhar todos os aspectos inerentes a boa realização de um trabalho gráfico com tal finalidade, contudo, me pergunto, a arte se propõem a isso?
A obra de arte, fruto da ação do artista presta-se a reduzir-se a um produto da indústria cultural, ou é antes um trabalho da genialidade do artista que guarda vínculo apenas com sua própria obra e ao que ela se propõe, o que seria, estimular os sentidos, instigar o intelecto?
Ainda que historicamente muitos artistas se propuseram a trabalhar e viver de sua arte colocando-a a serviço de todo tipo de interesse, havia na arte um sentido que extrapolava a órbita da pura sobrevivência, buscava-se um ideal de recriar a natureza, de interpretá-la.
Os figurativos buscavam a capturar um momento fugaz da natureza ou da representação do ser humano.
A arte moderna se desvincula da representação fiel e inicia um questionamento sobre questões de natureza da arte.
Mesmo o contemporâneo descola-se das questões puramente artística e agregam questionamentos sobre a condição humana, ora meramente filosófica, ora de natureza psíquica, ora de crítica a própria cultura.
Muitos diriam, mas a capa de CD é senão o veículo, o suporte de concretização daquela arte.
Não podemos desmerecer, mais uma vez repito, a elaboração do conceito, da escolha do tema e o tratamento dispensado, a expressão da individualidade do indivíduo na formalização do objeto.
Contudo, isso é arte?
O resultado é para mim puramente comercial.
Prossigo a visita à exposição, e logo no primeiro ambiente, um texto muito bem elaborado me faz uma apresentação do «artista».
Há também uma curiosa exposição de objetos pessoais intitulada «referências do artista».
Expostos estão livros, anotações, croquis, brinquedos, revistas em quadrinho, miniaturas etc..
Eu logo me perguntei, será que isso é necessário?
Será que não nos contentaríamos apenas com as obras, para posteriormente nos concentrarmos nas referências do artista, curiosos estaríamos, após conhecer as obras, da personalidade do autor e de sua história.
A inversão é de certa forma uma característica desses tempos de incertezas na arte.
Logo me ocorreu que na arte contemporânea a mitificação do artista é quase que necessária, ela deve acompanhar a obra sob pena de que esta se perca por a falta de conteúdo, é óbvio que isso não se aplica a todos os artistas, mas aqui pareceu necessária.
Vi que é preciso antes de tudo que se reconheça o artista, que se conheça sua trajetória, como ele vivia, e suas referência, mesmo que estas não sejam capazes, de justificar qualquer ato impresso em suas obras.
Pensei ainda:
suas referências se resumem a isso?
Mas tudo pode ser uma leitura rápida ou equivocada e que outras leituras seriam possíveis, e sempre são.
Para que não pareça uma má vontade premeditada, acredito até ser possível aplicar-se uma leitura semiótica, mas isso também é uma simplificação desnecessária.
Em o segundo ambiente a expectativa é grande, pois estaria diante dos cenários elaborados por o artista, mas a decepção é do tamanho das imensas fotos dos esperados cenários.
A o observar as grandes fotos uma questão logo me ocorreu, qual o grau de interferência do fotógrafo sobre aquela obra?
O mérito estaria na tradução, no recorte, na qualidade do equipamento, no olhar do fotógrafo, na revelação e impressão primorosa ou realmente se tratava de uma representação fiel de um cenário realmente impressionante?
Antes que me tomem por apressado, ou desinformado, sei bem que isso não se trata de um problema unicamente do «artista», questões de natureza prática dificultam a apreciação da obra, muitos artistas contemporâneos registram suas obras por a impossibilidade de reprodução ou da espontaneidade com que elas ocorrem no momento e no lugar onde se propõe acontecer, ocorre nestes casos um registro, que acompanha o sentido da obra.
As fotografias dos cenários não são registros e sim uma tradução que transfigura a obra original.
Mas o problema não me parece apontar apenas nesta direção, cenografia é arte?
Cenografia é um elemento de uma arte maior, um espetáculo, assim como é todos os outros elementos, como a iluminação por exemplo.
Destacar um elemento como uma obra em si, é para mim, desconsiderar outros que tornam uma obra completa, sem falar nas dezenas de pessoas que estão envolvidas num espetáculo que propiciam o sucesso do mesmo.
E a visão da direção geral do espetáculo, não ocorre interferir no resultado final de um cenário?
Passo a achar que o equívoco está na minha expectativa e não no que se propõe a exposição e por isso prossigo mais cauteloso.
Outros fragmentos de outras obras vão aparecendo e eu vou me adentrando neste mundo particular do «artista» (espero até o final desta reflexão remover estas aspas), em que a virtualidade predomina, até que me deparo com as capas de cds, dvds, a arte gráfica propriamente dita.
Minha incerteza quanto a proposta da exposição aumenta e começo a chegar a algumas conclusões.
A primeira é que há realmente um equívoco ao intitular Gringo Cardia como um artista, a segunda é que o equívoco maior é intitula-lo um artista multimídia, é lógico que um decorre do outro.
Gringo Cardia é sem dúvida um excelente profissional, criativo e ousado, mas suas criações são em última análise um produto, mesmo que um produto da indústria cultural, que guarda uma relação de referência com a arte, mas não poderia figurar com um trabalho puramente artístico, o vínculo com o comercial a distingue por oposição.
A obra de arte poderia ter um valor comercial que a posteriori-lhe é apontada, mas não teria a princípio a função de ser um produto.
Gringo Cardia e todas as tribos, ou de quase todas, uma tribo com certeza não o admitiria sob pena de não mais reconhecer seus estatutos, a dos artistas.
Prefiro terminar por aqui e não me aprofundar no interior da exposição, para não me desapontar por completo, não com o Gringo Cardia, mas com a concepção equivocada da exposição, que poderia ser mais comedida e reservar um título mais adequado, algo como:
«exposição dos trabalhos do profissional multimídia Gringo Cardia».
Por:
Adilson Bernardo Silvestre e-mail:
Número de frases: 51
bhtdk@hotmail.com Não sou nenhuma expert em história das políticas culturais no Brasil, mas me consta que poucas vezes o governo federal (ou de qualquer outra instância) nesse país banque formação de gente.
O usual é a doação, seja de grana ou de equipamento e «se vire».
Pois bem:
eu trabalho na ONG Cria -- Centro de Referência Integral de Adolescentes, de Salvador, que é Ponto de Cultura e vivenciei essa semana uma série de oficinas do Cultura Digital, projeto encabeçado por o Ministério da Cultura, que promove a implementação de softwares livres (mais precisamente a distribuição Ubuntu, do Linux) nos Pontos.
Pra quem não sabe, cada instituição ou projeto agraciado com o programa ganhou um Kit Multimídia, com alguns equipamentos como ilha de edição, servidor + terminal burro, Md, câmera fotográfica, filmadora, impressoras, aparelhagem de som etc..
O Kit é realmente muito bacana e vai possibilitar às intituições uma documentação e produção de material audio-visual com qualidade.
Foram 4 dias trabalhando os programas básicos de editoração gráfica e edição de vídeo -- Inkscape, Gimp, Cinelerra, além de resolvendo os famosos «paus» (sim, linux também dá pau ...)
e tirando dúvidas, para os que já haviam metido as caras e montado e usado o Kit como nós lá no Cria.
Migrar de forma brusca de uma cultura Windows, na qual o usuário é, em geral, refém da máquina, se encontra diante de uma ferramenta fechada em que, basicamente, você faz o que ela lhe permite, sem muita contestação, não é fácil.
É mesmo a quebra de um tipo de relação de poder, na qual o computador pode mais que o usuário, sempre.
E a fobia tecnológica impera mesmo.
Ter acesso à tela preta, autonomia para baixar e atualizar os programas que se quer e trocar idéias sobre como trabalhar melhor com eles é uma coisa, ao mesmo tempo fantástica e trabalhosa.
Para esse diálogo, uma ferramenta de grande importância é colocada à disposição dos usuários, o Estúdio Livre, um ambiente virtual colaborativo, aberto e dinâmico que permite a troca de idéias e a divulgação de mídias produzidas com softwares livres.
Além do Estúdio, o Conversê é outro espaço de troca constante e colaboração mútua de usuários livres de todo o Brasil.
Acho que um grande diferencial desse projeto é que ele forma pessoas, multiplicadores dessa nova cultura.
Essa foi a segunda oficina por a qual passei -- a de antes foi regional.
Em termos práticos, o processo, apesar de rico, possibilita apenas uma aproximação com os programas, não é suficiente para que se domine os softwares confortavelmente.
É preciso uma pesquisa mesmo por parte dos pontos no sentido do aprimoramento.
Número de frases: 18
O que fica mesmo é a sensibilização quanto à importância do software livre, a apropriação desse discurso, dessa filosofia.
Recentemente foi lançado em DVD «Quarto 666», média-metragem dirigido por Win Wenders, por ocasião do Festival de Cannes de 82.
Wenders convida alguns diretores para falar a respeito de temas como o «futuro do cinema»,» o cinema e a tevê», entre outros.
Spielberg faz um questionamento de ordem industrial, dissecando a ganância crescente das grandes produtoras e requerendo mais liberdade artística;
Herzog despreza a questão, e demarca uma divisão radical entre cinema e tevê;
um cineasta filipino afirma que, para ele, as perguntas de Wenders são absurdas, pois «perguntar por o futuro do cinema nas Filipinas é perguntar por o futuro das Filipinas» ...
Entretanto, as previsões mais otimistas não chegaram a cogitar a seguinte situação:
um filme de curta-metragem, realizado sem gastos, atinge a surpreendente marca de 160 mil espectadores em 3 meses.
Após o estrondoso sucesso do divertido «Tapa na Pantera», O paradoxo da espera do ônibus», desanimação escrita e dirigida por Christian Caselli, é mais uma micro-produ ção a bater recordes de público no Youtube.
Junto aos camelôs nigerianos que produzem e vendem seus próprio filmes, à proliferação de salas e modos de exibição alternativas, ao download irrefreado de filmes, entre outros fenômenos, o blockbuster digital indica um novo ciclo de reviravoltas na produção e difusão cinematográfica.
Em conversa por o MSN, fizemos ao diretor Christian Caselli algumas questões parecidas com aquelas que Wenders propôs aos diretores em 82.
Christian, trabalha, junto com o empresário Guilherme Whitaker, no portal / produtora Curtaocurta, que além de promover a já tradicional Mostra do Filme Livre, no CCBB / RJ, tem implementado formas inteligentes de produzir e distribuir curta-metragens por o Brasil.
Em o momento, Christian finaliza sua vigésima sexta «coisa audiovisual» (expressão alternativa à palavra «filme», que ele afirma não saber mais o que é ...):
«A equação do tempo x dinheiro», continuação do «Paradoxo», que também está sendo produzida sem dinheiro algum.
A que fatos e fenômenos, mundiais e nacionais, você credita o sucesso do «Paradoxo»?
Seu filme pode ser considerado um blockbuster digital?
Bom, eu gostaria que você entendesse que é arriscado eu, sendo o autor da parada, afirmar uma coisa destas.
Pode parecer presunçoso.
Acho também que não é o caso -- ainda pelo menos -- de comparar com o «Tapa na Pantera».
Se tiver o mesmo sucesso no futuro, não se pode ainda prever, embora eu torça pra isso ...
No entanto, noto que não existe uma fórmula certa para se agradar ao público crescente da internet.
E é muito interessante perceber que são dois filmes nada óbvios falando de coisas, no mínimo, peculiares.
Afinal, o «Tapa» não é estrelado por uma mulher gostosa, mas sim por uma atriz brilhante (e desconhecida!)
falando de maconha.
E o meu é uma «desanimação», ou seja, um desenho que não tem movimento nenhum, em que nada acontece ...
um acontecimento banal, nada a ver com Hollywood.
Mas é bacana ver como as pessoas se identificam com tais coisas simples e diretas.
Acho que a grande revolução do Youtube é dar oportunidade a quem quer que seja de se expressar e estamos colhendo frutos pouco óbvios.
Quais frutos pouco óbvios você enumeraria?
Acho mais fácil falar do que é considerado óbvio ou o que era óbvio até então, que é o padrão «Global», Hollywood essas coisas ...
Em a verdade, o que eu chamo de pouco óbvio deriva de uma percepção do que nos é empurrado na mídia.
Agora, é imprevisível se um filme será um sucesso.
Nunca esperaria isso do meu ...
Quando você percebe que as pessoas querem se ver na tela com vídeos «caseiros» isso nos leva de volta lá para os tempos do Neo-Realismo (e movimentos afins), onde os autores procuravam retratar a vida cotidiana.
Só que havia um elemento ideológico intelectualizado que truncava um pouco o diálogo.
Creio que no Youtube não tem esse elemento e a comunicação flui melhor.
Durante muitos anos acreditou-se que o cinema tinha um forte apelo ideológico, violentando a cultura nacional ...
E você agora, me diz que as pessoas gostam de se ver nos videos caseiros, e gostam de temas cotidianos, trabalhados com simplicidade ...
O que mudou?
O espectador?
O cinema?
O que eu acho é que esta realidade simplemente não é tão imposta assim.
Isso não é tão maquiavélico.
Uma coisa vai sempre interferir na outra.
Por exemplo: se a novela da Globo não agrada o povão, ela não dá certo.
Não é a toa que existem várias pesquisas até pra mudar o rumo de uma novela.
Talvez o que esteja acontecendo agora é um equilíbrio melhor.
Mas veja bem:
não estou querendo dizer que o Youtube é formado por uma série de santos que querem o bem da humanidade.
Pode até ser que eles queiram, mas estão interessados em tutu também.
Creio que o acesso maior que muitas pessoas estão tendo a meios de expressão, sobretudo o digital, está mudando nitidamente muitas coisas.
Ou seja, não podemos marcar touca e nos deslumbrarmos com a tecnologia, mas temos que usá-la em nosso favor.
E também tem o seguinte:
o próprio mundo mudou junto com o cinema.
O tal «fim das utopias» pode ter sido uma dádiva e muitos dos «revolucionários antigos» parecem não querer ver isto.
Preferem o modelo romântico e dualista (comunismo x captalismo) de antes.
Agora, eu acho que fudeu ...
As coisas estão vindo de forma vertiginosa, o que também é muito interessante.
O melhor que temos a fazer é nos certificar que estamos todos meio perdidos e aproveitar esse momento único para nos expressarmos e marcamos uma diferença.
A hora é essa! (
risadas) Quanto custou o filme?
Não dá pra dizer em termos concretos, porque não se contabilizou coisa alguma.
Pra não dizer que não foi «nada», temos que contar com alguns termos.
Com mim:
minhas horas gastas na edição (contar energia elétrica) e na tinta e no papel que imprimi para o Chico (Chico Serra, narrador) ler.
Com o Renner (Gabriel Renner, desenhista):
o nanquim que ele usou e na energia elétrica que ele escaneou e mandou pra mim por internet.
Com o Chico: ...
hmmm, acho que nada, a não ser a passagem de ônibus, mas ele iria pra perto da produtora onde estamos de qualquer maneira ...
Ou seja ... sei lá!
menos de 10 reais (detalhe: não usei nem sequer uma fita mini-dv).
E a minha força de trabalho não conta, pois fiz por lazer.
Aliás, confundo o tempo todo minha atividade autoral com o meu lazer, o que eu considero quase uma bênção.
Indústria ou baixo orçamento:
um dos dilemas mais discutidos do cinema brasileiro.
Esta não é sua primeira produção sem orçamento.
Você pensa que este é um caminho próprio, ou tem alguma perspectiva política sobre esta modalidade de produção?
Acho mais honesto até para o próprio brasil a coisa do baixo (baixíssimo de preferência) orçamento.
Particularmente, eu acho uma afronta o governo deixar de pegar um milhão de impostos pra fazer um longa.
A produção de baixo orçamento não só pode gerar uma expressão mais autêntica de uma cultura como pode ter, inclusive, um fluxo de capital espontâneo e singular.
Você citou o caso da Nigéria, mas tem também o caso da banda Calipso, um fenômeno extremamente natural, embora eu não goste.
Tem várias maneiras nunca antes pensadas que ainda podem acontecer.
Está tudo em potencial por aí.
É só incentivar isto.
Eu não sou a favor da destruição de um cinema mais «certinho» feito no Brasil.
Mas temos que ficar de olho se este modelo está ficando demodê.
E mudar um pouco a maneira de se realizar grandes produções.
Por exemplo: o filme fica pronto sendo totalmente pago.
Tudo bem, mas tem que fazer com que a grana volte para o governo, já que o cachê de todos já foi pago.
Um filme tem que ser visto como um investimento para que nenhuma parte tenha prejuizo.
Não é indústria que eles querem?
E não é assim que funciona, ou seja, quem dá a grana quer retorno?
Ou querem só mamar na teta?
Filmes como «Cão sem dono», Cidade baixa» e «Baixio das bestas» indicam que o baixo orçamento está vencendo a batalha?
O que você pensa desses filmes e do cinema brasileiro atual como um todo?
Penso também que grandes cineastas, ligeiramente esquecidos, se beneficiaram do barateamento dos equipamentos e da producão cinematográfica e retornaram com força total, como o Tonacci e o Edgard Navarro.
Você acha que todo esse contexto pode auxiliar ou atrapalhar os diretores mais antigos?
«Cão sem dono», «Cidade baixa» e «Baixio das bestas» São De Baixo Orçamento???
AHAHAHA, não me faça rir.
Cara, até devem ter sido baratos, mas nos moldes ainda da película.
O problema é que a projeção de vídeo ainda não está no top da coisa, mas está se encaminhando.
Vide a Rain (empresa de exibição digital), que ainda é cara, que brevemente terá vários concorrentes.
Eu acho que o Navarro e o Tonacci não vieram com força total, não em termos de reconhecimento, embora tenham produzido coisas ótimas.
Mas acho que eles fazem parte do pensamento da antiga, embora o Tonacci tenha filmado em vídeo grande parte do filme.
Não estou dizendo que isso é ruim, mas creio que os parâmetros estão indo por outro caminho ...
Esse contexto pode auxiliar muitos diretores, tanto os recentes quanto os mais antigos.
Não teria como não auxiliar.
E não só diretores não.
Quer ver um caso mais exemplar e complicado?
Os músicos.
Ninguém precisa mais de gravadora, que era uma paquiderme branco vestido de sereia dizendo:
«vem cá gostoso», mas que, no fim das contas, te comia.
A coisa está toda mudada e precisamos saber a melhor forma de viver de arte.
Mas pelo menos não estamos dependendo dos tubarões pra produzirmos nossas coisas.
Mas será que essa é uma realidade ainda sem mercado?
Quero dizer, você afirma que confunde trabalho e lazer, mas será que esta nova realidade trará um mercado auto-sustentável, ou o cinema continuará sendo a maior diversão, desta vez como prática?
Sim, é claro que essa é ainda uma realidade sem mercado.
Eu não vivo dos filmes que eu fiz, mas de coisas muitas vezes pentelhas que sou obrigado a fazer.
Se eu tenho algum tipo de sorte, é o fato de estar pelo menos trabalhando no audiovisual e não precisar ter emprego em McDonalds ou em loja de roupa.
O que eu acredito é que se pode incentivar um tipo peculiar de mercado -- não me pergunte qual, pois não se eu soubesse estaria rico -- que pode ser auto-sustentável.
Taí a Nigéria e o «techno Belém» (sic) que não me deixam mentir ...
Quanto a mim, de vez em quando me inscrevo nos editais do Minc e da Petrobrás (nunca ganhei nada), mais por experiência.
Realmente quero saber como as coisas acontecem -- e, claro, pra ganhar alguma grana, pois às vezes não tenho dinheiro nem pra um ônibus.
Porém pretendo investir o dinheiro e a experiência ganha pra continuar a linha que venho seguindo, que me parece muito mais provocadora e fecunda.
Cada vez mais tenho restrições ao chamado «Cinema», ó esse cinema com» C " maiúsculo, de que quero me distanciar.
Mesmo filmes ditos mais alternativos como os que você citou, estão muito próximos de um cinema narrativo tradicional, o que cada vez menos me interessa.
Um bom exemplo de uma outra linha de cinema possível e acessível, mais ainda do que o «Paradoxo» (que é interessante em termos de roteiro, pois nada acontece), é o meu segundo filme mais visto, o «Cinco poemas concretos».
Um filme totalmente abstrato, e que teve uma aceitação muito boa, pra minha surpresa total.
Resumindo: sim, de uma forma ou de outra, quero entrar na pseudo-indústria brasileira, mas com o intuito de sair o mais rápido possível.
Ou criar novos caminhos (estou falando em termos utópicos).
Podendo ajudar mó galera a pertubar o status quo, vou ficar feliz pra caralho!!!
O cinema sempre foi considerado «arte de massas», embora tenha sido produzido por grandes indústrias, e mesmo em países como o nosso, é uma arte daqueles que detém o capital.
Portanto, ainda que destinada ao consumo geral, espelha uma perspectiva de classe.
Entretanto, algo está mudando:
os filmes produzidos em oficinas de vídeo realizadas em favelas do Rio, o mercado nigeriano, o download desenfreado de filmes industriais, e agora a exibição digital ...
você acha que o cinema finalmente se tornou «popular»?
O capitalismo está mordendo o rabo?
SIM!!!!
Eu acho muito isso.
Mordendo o próprio rabo.
O capitalismo tem mecanismos muito inteligentes (temos que admitir isto), mas entra em contradição o tempo todo.
Ou seja, os consumidores de CD preferem hoje fazer downloads a comprar discos, o que gerou um certo colapso da indústria fonográfica ...
Mas acho que no cinema estamos ainda engatinhando;
talvez, no máximo, aprendendo a andar nas esferas da independência.
Mas pelo menos não estamos mais nos colos dos nossos patriarcas, que nos levavam pra onde eles queriam.
Espertos do jeito que eles são, pode até ser que mudem o curso a favor de eles.
Mas várias coisas já são incontroláveis, como, por exemplo, os downloads.
Mas é fundamental pensar na exibição digital.
E talvez, em conseqüência disso, vários filmes baratos tenha a sua vez.
Exemplo concreto:
«Tapa na pantera».
Fui testemunha ocular de uma situação sensacional.
Viajei para muitos festivais no Brasil e afirmo taxativamente:
as sessões com o «Tapa» eram as mais cheias!!
Ou seja, as pessoas ficam com vontade de ver um filme do Youtube em tela grande, mesmo tendo assistido milhares de vezes.
Quem sabe esse não é um caminho?
Diante desta nova realidade de produção e difusão, podemos ainda falar de um «futuro do cinema»?
Podemos falar de uma linguagem especificamente cinematográfica?
Ou, como você acaba de dizer:
tudo se misturará?
Será que a técnica cut and paste trará uma confluência de estilos e objetivos artísticos absolutamente novos em relação aos que vigoraram até agora?
Eu acho que infelizmente as pessoas ainda estão muito moldadas por modelos antigos de cinema.
O problema é que a tal «sétima arte» virou uma coisa careta e dogmática, anunciada por os críticos hegemônicos.
Ou seja, eles que definem «o que é» e «o que não é» cinema, como se fossem autoridades.
Ora, já vi videoclipes melhores do que muitos longas!
Até quando se desconstrói a linguagem clássica, e mesmo quando se elogia essa desconstrução, percebe-se uma citação ao modelo clássico.
Isto acontece com as novas gerações, que se preocupam com roteiro, atores, etc, que, tudo bem, são importantes, mas existem outros caminhos.
Por exemplo: muitas coisas que eu fiz não usaram nem câmera nem atores.
E estão lá, existem!
Eu acho que a grande dica, que eu modestamente ponho nesta entrevista, é que as pessoas pensem mais em áudio + visual do que, ó, Cinema ...
isso é uma libertação!
Ou seja, você não precisa contar uma história, necessariamente ...
tem vários outros modelos a serem usados, e ainda mais baratos, originais e criativos.
É só botar a criatividade pra funcionar e ver o quanto o somatório destes dois elementos, o auditivo e o visual, pode ser explosivos e mandar bala.
Opa, mandar bala não.
Isso é muito Hollywood ... (
risadas) Você considera então que o Cinema, com C maiúsculo se transfigurou numa modalidade de algo mais amplo, o audiovisual?
Quer dizer, o próprio contexto do qual Win Wenders parte para entrevistar os diretores em «Quarto 666» já não vigora mais?
O cinema virou um subdivisão pífia do audiovisual.
Mas teve uma força tamanha que produziu uma antipatia generalizada a qualquer outra coisa que não seja contar historinha.
E fez isso através do marketing.
Hoje, tanto o cinemão quanto o dito «cinema de arte» são tributários do cinema narrativo clássico ...
Eu não vi o «Quarto 666» então não posso dizer com precisão, mas a atitude do Win Wenders é sensacional até hoje.
Já o que se diz e o resultado do filme, não sei falar ...
Tavez o ideal -- e mais interessante e bastante realizável hoje -- seria pôr os diretores falando ao vivo em várias instalações por o mundo.
Mas já tá bom o que ele fez ...
Mas veja:
Wenders propõe questões muito abrangentes aos diretores ...
ele os questiona em termos de «futuro do cinema» ...
há, portanto, ainda, uma visão do Cinema com C maiúsculo ...
Sim, eu acho que sim ...
Mas entendo, pois nos anos 80 não se imaginava o que está acontecendo agora.
E muito menos que o muro de Berlim iria cair ...
As utopias e esperanças eram outras.
Mas deve ter questões e respostas pertinentes e atuais.
Por exemplo: gostei do que o diretor filipino falou.
Algo parecido com o que eu disse aqui, da afronta de se dar um milhão pra um filme enquanto tem tanta merda acontecendo ...
Godard afirma que o cinema, em sendo uma arte majoritariamente projetada atrás da câmera, é portanto a arte de mostrar o invisível ...
Os filmes são pensados e projetados por trás da câmera, mas no fim das contas, se mostra algo em frente à câmera ...
O grande barato do audiovisual é talvez a concretização de um pensamento, muito mais que nas outras artes.
Buñuel achava que o cinema era a arte que mais tinha a ver com o inconsciente.
Mas seguindo por esta linha, aprofunda-se o que eu disse:
se é a arte do pensamento, então ela tem muito mais potencialidade do que a forma que se tem usado até hoje.
Até porque nós não pensamos somente em histórias certo?
E viva Norman McLaren!
Certamente este assunto evoca Norman MacLaren ...
Mas podemos lembrar também de outro MacLaren, o Malcom, que era, segundo o livro Mate-me por favor, um tremendo pilantra, né?
Como você acha que ficam os aspectos jurídicos desta questão toda?
Porque o digital permite uma manipulação da obra alheia nunca experimentada antes ...
Em a verdade, acho ele um tremendo irônico e os punks não sacaram isso.
Mas vamos mudar o assunto ...
... na verdade, não mudamos de assunto.
Estamos ainda falando do «do it yourself», desta máxima punk que na verdade diz respeito a todos nós hoje em dia ...
Sim, estamos entre a cruz e a espada em vários sentidos:
tanto mercadológicos quanto jurídicos.
A questão da propriedade intelectual nunca foi tão debatida e, não à toa, por agora ...
Tudo está se misturando e você vê o quanto as coisas são complexas.
O direito autoral, que era uma coisa tão óbvia e irretocável, está sendo questionada por o creative commons e o copyleft, o que é Maravilhoso!
Afinal, qual é o valor de uma obra de arte?
Sempre se questionou isto, mas agora a coisa tá se problematizando ao máximo.
Em a verdade, arte e capitalismo nunca se entenderam direito, o que é ponto para a arte ...
Então, talvez a grande contradição do fazer artístico seja o fato de se precisar ganhar dinheiro utilizando a expressão de um autor (o que é, no fundo, a grande característica da arte).
Então, quando se define que «só é obrigado a pedir autorização de algo que eu fiz se estiver ganhando algum dinheiro», isto é uma coisa mais que interessante.
Se não for com fins lucrativos, pô, deixa a galera usar tudo meu a rodo;
só não pode distorcer o que eu disse, isto é, usar pra algo racista, nazista;
o resto pode.
E o que foi feito antes, pertence ao mundo.
Principalmente se não há herdeiros, coisa e tal (que muitas vezes são muito pentelhos).
Uma coisa que ninguém discute:
A Televisão Aberta É Uma Concessão Pública!!!
Ou seja, deduzo então que posso usar Qualquer Imagem TRANSTRANSMITIDA Por a Rede Globo.
Por que não poderia?
As marcas de comerciais invadem sua vida sem pedir licença.
Quando você usa uma marca ao seu favor, eles te processam?
Não, temos que usar tudo isto, até para questionar essa opressão toda.
Quando eu disse que não acredito tanto nesse papo de «intervenção cultural», que tudo se mistura muito, é claro que tenho ressalvas.
Por exemplo, por que nós nunca vimos um filme nigeriano?
Ou quase não se tem acesso a cultura argentina?
É claro que existe uma imposição.
Mas creio que o que nos enviam por goela abaixo sempre acaba sendo regurgitado de uma forma ou de outra.
Pra finalizar, que outros fenômenos «digitais» você indicaria para as pessoas que estão lendo essa entrevista?
Olha, acabei de pensar no Tom Zé com o disco «Jogo de armar», que disponibilizou um CD com extras para as pessoas fazerem o que quiser com o que foi gravado.
Aliás, a Trama é uma das poucas gravadoras que pensam num sentido diferenciado, como o disco do Cansei de ser Sexy que eles davam de graça um CD virgem para a vc copiar pra quem quisesse.
Mas vamos parar de elogiar gravadoras ...
hmmm ... deixô ver ...
Parece que a trama recusou o último disco do Tom Zé por excesso de hermetismo, ou algo parecido ...
Bom, creio que o próprio Youtube está quase ficando defasado, pois outros sites estão nascendo e a tendência é que possamos ver os vídeos disponíveis numa resolução maior.
Mas por enquanto, acho que o barato é usar softwares livres e ficarmos antenados tanto na discussão tecnológica quanto na jurídica.
É uma coisa que eu mesmo tenho que correr mais atrás, pois acredito que seja «O» futuro das artes em geral.
Número de frases: 249
Acho esse processo muito mais instigante do que ficar correndo atrás desse Cinema, com «C» maiúsculo ...
O documentário Resistência.doc, dirigido por a jornalista goiana Carolina Paraguassú, reuniu, na manhã do último sábado (10 de fevereiro), várias personalidades da História de Goiás que presenciaram, ou são contemporâneas, à Intervenção Federal de 1964 no estado.
As gravações ocorreram na Praça Cívica e no interior do Palácio das Esmeraldas, no salão Dona Gercina Borges.
Gravação
A produção do longa-metragem mobilizou a Policia Civil, a Polícia Militar, e o Corpo de Bombeiros para que os convidados, da sacada do Palácio, relembrassem a data de 26 de novembro de 1964, quando a Praça Cívica foi palco de momentos de grande tensão, com a movimentação de tropas e tanques Sherman em torno da cidade e os estrondosos rasantes de aviões de caça a jato, enviados por a Força Aérea Brasileira.
Em a praça, uma multidão apoiava o então governador Mauro Borges.
Em aquela data, foi cumprido o Decreto de Intervenção Federal em Goiás, assinado por o então Presidente da República, Castello Branco, e aprovado autoritariamente na Câmara, que colocava o interventor Carlos de Meira Mattos no governo do estado no lugar de Mauro Borges, acusado de manter um governo com tendências comunistas e subversivas, incondizentes com a orientação da «Revolução de 31 de Março».
O helicóptero Com a da Polícia Civil, de onde a diretora Carolina Paraguassú coordenou as cenas de simulação dos rasantes dos aviões da FAB, sobrevoou a cidade de Goiânia, mostrando vários órgãos construídos durante o governo de Mauro Borges, tais como EFOMARGO, DERGO, antiga Estação Ferroviária de Goiânia, Palácio Pedro Ludovico Teixeira, Centro Administrativo, entre outros.
Cenas aéreas dos convidados reunidos na sacada do Palácio das Esmeraldas também foram realizadas.
«A equipe de produção do documentário está de parabéns por a organização e mobilização de personalidades únicas na História de Goiás.
A lida com as memórias dessas pessoas foi feita com muito cuidado, ouvindo todos os lados envolvidos, independentemente de opções partidárias.
O espectador terá condições de assistir ao filme e tirar suas próprias conclusões.
Queremos que os goianos tenham ferramentas para olhar e interpretar sua própria História», afirma a diretora.
«Até o dia da Intervenção, eu nunca tinha visto uma multidão chorar.
Hoje é uma alegria ver que todo o nosso sofrimento e toda a nossa luta não serão esquecidos», comemora o ex-governador Mauro Borges.
Entre as demais personalidades convidadas, estiveram presentes três de seus filhos, Mauro Borges Teixeira Júnior, Ubiratan Estivallet Teixeira e Rodrigo Borges;
Maria Dulce Estivallet Teixeira; Antônio de Pádua Fleury Curado;
o jornalista Armando Calheiros Acioli;
o folclorista Bariane Hortêncio;
Cláudio Leda Amacedo; Eurico Barbosa;
o presidente da Academia Goiana de Letras (AGL), Geraldo Coelho Vaz;
o ex-prefeito de Goiânia, Hélio de Brito;
Hélio de Oliveira e Leonardo de Oliveira; Hélio Rocha;
Irineu Borges do Nascimento, ex-secretário do governo MB;
João Silva Neto; José Elias Fernandes;
José Eliézer Penna; Juber Oliveira Castro;
Juvenal de Barros; Manoel Messias;
Nelson Agnol; Pedro Ludovico Teixeira Neto;
o ex-secretário de Educação do Governo MB, professor Ruy Rodrigues;
o advogado e jornalista Tarzan de Castro;
ex-secretário de Segurança do Governo MB, Rivadávia Xavier Nunes;
o jornalista Valterli Guedes e Laerte Leite Guedes.
Muitos dos convidados deram seu depoimento sobre o período da Intervenção em Goiás no filme Resistência.
doc.. Durante essa semana, foram entrevistados o ex-governador Ary Ribeiro Valadão;
o ex-vice-governador José Luiz Bittencourt;
Rivadávia Xavier Nunes e Geraldo Coelho Vaz.
Documentário inédito
Em mais de 60 horas de material gravado, Resistência.doc resgata a Intervenção, o Movimento da Legalidade de 1961 e outros momentos políticos que marcaram a primeira metade da década de 1960 em Goiás, tendo como eixo condutor o governo de Mauro Borges e seu Plano de Desenvolvimento do Estado (Plano MB).
O objetivo do filme é apresentar ao povo goiano, em aproximadamente uma hora e meia de duração, um período importante de sua história, ainda inédita no audiovisual.
Além de parentes e políticos do governo de Mauro Borges, participam do documentário historiadores, opositores e personagens de renome nacional.
A trilha original do filme está sendo criada por o compositor e músico goiano Bororó, que trabalhou ao lado de grandes nomes da Música Popular Brasileira, tais como Gal Costa e Beth Carvalho.
As lacunas de divulgação da História de Goiás motivaram a diretora Carolina Paraguassú a trabalhar com o maior cuidado no levantamento do acervo literário e iconográfico para realizar o filme.
O resultado é um valioso acervo, obtido por meio da extensão da pesquisa -- iniciada em 2005 -- a arquivos como o do Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional e Jornal do Brasil no Rio de Janeiro, onde foi encontrada uma iconografia sobre esse período em Goiás que não foi encontrado aqui, até o momento.
Com a habilitação do projeto na Lei Municipal de Incentivo à Cultura, foi possível buscar recursos junto às empresas goianas, conseguindo patrocínio do Laboratório Padrão e da Tropical Imóveis.
Além dos patrocinadores e do apoio da PUC-Rio, o documentário recebe apoio da família de Mauro Borges, da Associação Brasileira de Documentaristas -- Seção Goiás, do Museu da Imagem e do Som de Goiânia, C.A.R.A. Produtora, Restaurante Chão Nativo-Bueno, dos fotógrafos Evandro Teixeira (RJ) e Orlando Brito (DF), do Pepperoni Studio de Design, entre outras empresas, pessoas e instituições de Goiânia e de outras cidades.
O lançamento do filme Resistência.doc está previsto para o final do mês de março e prevê a distribuição gratuita de 290 cópias em DVD para instituições da rede pública de ensino, bibliotecas e museus, além de exibições gratuitas para alunos de escolas públicas.
Assessoria de comunicação -- Geórgia Cynara (62 9112 3393)
Responder para -- imprensa@resistenciadoc.com.br
Direção Resistência.doc -- Carolina (62 8119 6369)
Número de frases: 49
contato@resistenciadoc.com.br Poltergeist cibernético
Em esta entrevista, após longo período sabático, um dos melhores escritores de ficção científica (FC) do Brasil --;
e colaborador assíduo do Overmundo --;
faz um retrospecto geral da carreira e revela detalhes sobre trabalhos que estão por vir nas diversas áreas artísticas em que atua.
Ele ainda comenta alguns aspectos do livro que acabou de tornar disponível no banco de obras deste site:
Interface com o vampiro, premiada coletânea de contos que pode ser considerada uma das mais importantes contribuições à literatura de gênero já lançadas no país.
Com vocês, Fábio Fernandes:
Você está na ativa produzindo textos literários --;
tanto em prosa quanto em verso -- e teatrais, desde meados da década de 1980.
Em um balanço rápido:
já foram quantas peças escritas e encenadas;
quantos livros lançados;
quantas traduções de romances e de contos publicadas e de quantos autores diferentes;
quantos prêmios recebidos nestas primeiras duas décadas?
Nunca parei para fazer uma contagem exata:
crashes em discos rígidos de vários computadores e a perda lamentável de impressos de alguns textos foram em parte responsáveis por isso.
Mas creio que é mais ou menos o seguinte:
tenho três peças de teatro (Polêmicas, de 1985, peça de três esquetes que ganhou um prêmio em 1986 e que teve um de seus esquetes reescrito em 1998, tornando-se a peça Vestidos brancos, encenada no Rio de Janeiro sob a direção de Luiz Armando Queiroz;
Com açúcar, sem afeto, monólogo cômico encenado por mim mesmo e dirigido por Anja Bittencourt;
e A o fim do longo inverno, ainda inédita.
Esta última peça é a única que tem uma temática de ficção científica (inverno nuclear), e foi adaptada para o cinema por mim, Anselmo Vasconcellos e Marco Schiavon, para ser dirigida por Emiliano Ribeiro (As meninas).
Esse filme está na fase de captação de recursos.
Livros:
apenas o Interface com o vampiro, em 2000 e, mais recentemente, minha dissertação de mestrado, A construção do imaginário cyber (2006).
Tenho uma coletânea de microcontos completa, o Pequeno dicionário de arquétipos de massa, composto de contos escritos entre 1998 e 2003, e que, embora tenha tido vários contos publicados em várias revistas (inclusive as brasileiras Cult, Et Cete ra e Ficções e a portuguesa Periférica) e sites (inclusive o Overmundo), tem sido sistematicamente recusada por editoras.
Publiquei vários contos em coletâneas e uma novela meio em formato fanzine, ";
A revanche da ampulheta ";
Interface e Revanche ganharam dois prêmios Argos, concedidos por a Sociedade Brasileira de Arte Fantástica.
Traduções:
algo entre 60 e 70, mas realmente não tenho a conta, até porque alguns desses livros (como Bird lives, uma biografia de Charlie Parker) nunca foram publicados.
Contos, entre 20 e 30, todos para a extinta Isaac Asimov Magazine, entre 1989 e 1991.
Autores, muitos e variados, de Kurt Vonnegut e Gore Vidal até William Gibson e Philip K. Dick, passando por nomes menos conhecidos dos brasileiros como George R. R. Martin e Frederik Pohl.
Em este momento, estou terminando a tradução de Snow crash, de Neal Stephenson, um autor pós-cyber que ainda não é conhecido do grande público, mas que é o responsável por a introdução do termo «avatar» no jargão internético e cujo Metaverso ficcional serviu de inspiração para o Second Life.
Interface com o vampiro, o livro que você acaba de tornar disponível na internet, segue o caminho de flexibilização dos direitos autorais do copyleft.
Em o ano 2000, a obra teve uma encarnação anterior, também eletrônica, porém o acesso era cobrado e intermediado por uma antiga editora virtual.
Mas, antes disso ainda, alguns dos contos já haviam saído impressos na década de 90, em fanzines.
Ou seja, seu livro passou por praticamente todas as fases de uma revolução no acesso ao conhecimento.
Qual é o futuro que você imagina para a indústria editorial e para os escritores, principalmente os ligados à literatura de gênero, como fantasia e FC?
Toda previsão em termos de tecnologia é perigosa, e não pode ser levada a sério -- talvez por isso gostemos tanto da ficção científica, que é um território de experimentações onde podemos deixar a imaginação correr solta.
A experiência com a editora digital não foi boa, porque acho que esse sistema já nasceu falho:
se todo mundo pode baixar uma imensa quantidade de conteúdo de graça, por que é que vai se dar ao trabalho de pagar o que seja (e lembro que, na época, o livro custava 18 ou 20 reais, o que ainda é muito caro) por um PDF?
Por melhor que seja o conteúdo, não vale tanto.
O interessante é que, pouco depois do lançamento do livro, entrei no mundo dos blogs -- e percebi que a maioria dos blogueiros queria era, no fundo, publicar livros de papel!
Ou seja, ainda não nos libertamos do papel.
Mas eu não acho isso ruim, porque a literatura é uma mídia cujo melhor suporte ainda é o papel.
Quando ela sai do papel, ou vira hipermídia ou game --;
até porque, se não virar, fica muito chata e malfeita --;
dá a sensação de que foi subaproveitada.
Cheguei a pensar em fazer hipermídia há algum tempo, mas sei que ainda não explorei todas as possibilidades que as palavras têm para oferecer no simples suporte bidimensional do papel.
Basta vermos o que tem sido lançado em literatura brasileira.
O que tivemos de realmente revolucionário depois de Guimarães Rosa e de Paulo Leminski?
Ainda existe muito chão, e, como disse Antero de Quental, é ideal ocupar estes espaços.
Em oportunidades anteriores, você já disse que pensou em voltar ao universo de alguns dos contos que formam a coletânea, especificamente o de «Um diário dos dias da peste» e «Interface com o vampiro».
Tal retorno chegou a ser escrito?
Existe a possibilidade de outros temas da coletânea serem revisitados, como o do conto «Em camadas»?
Esse retorno chegou a ser escrito em parte -- um conto com o título provisório de «File not», mas não cheguei a terminá-lo.
Tive recentemente uma proposta para publicar um livro, e ofereci uma revisitação desse universo, onde eu reescreveria os dois primeiros contos e finalizaria o terceiro, mas a idéia não agradou.
Quanto a outros temas da coletânea, ainda é muito cedo para falar, mas tenho pensado seriamente num livro que explore caminhos abertos não por «Em camadas» (que é um dos meus contos favoritos) mas por " M.U.A." Algumas idéias têm surgido na minha cabeça e acho que alguma coisa interessante pode surgir daí.
Há uma certa semelhança na situação vivida por seu personagem Ivan, do conto ";
Em camadas ";,
e na que vitima o protagonista de «A escuridão» de André Carneiro.
Essa foi uma referência real ou a influência para o texto partiu de outras fontes?
E ainda:
num comentário você chegou a dizer que a idéia para o conto partiu de uma experiência real.
Poderia detalhar como foi esse ponto de partida?
Quando escrevi «Em camadas», eu tinha em mente as histórias de Robert Sheckley e os episódios de Além da Imaginação, mas não o conto do André Carneiro, apesar de eu gostar muito de» A escuridão».
E o que deflagrou todo esse processo foi uma situação vivida por mim em meados da década de 1990, quando tinha acabado de me mudar para um apartamento em Botafogo, no Rio, e instalado minha primeira TV a cabo.
Em uma madrugada, eu estava assistindo a um filme (A vida segundo Garp) e, pouco antes do fim, a imagem simplesmente sumiu e foi substituída por outro filme (Asas do desejo, de Wim Wenders).
A troca dos filmes e dos temas foi tão súbita que me deu um susto.
Claro que tudo não passou de um erro da operadora, mas me deu o que pensar.
Em aquela semana lembro que havia acabado de escrever o conto «O artista da carne», e tinha lido pouco antes um conto muito bom chamado» In numbers», do escritor australiano de FC Greg Egan.
Todos esses fatores conjugados acabaram gerando «Em camadas».
Ainda sobre experiências de vida aproveitadas para a produção literária: quem
lê «Um diário dos dias de peste e» " Interface com o vampiro " pode imaginar que se deparou com um expert em informática.
A impressão se fortalece por o fato de você ter se formado como técnico em eletrônica antes de cursar Jornalismo.
Mas consta que sua experiência real com hardware não é bem assim, tanto que chegou a receber um apelido de um colega escritor de FC, Braúlio Tavares, para expressar a falta de jeito:
cybergeist (literalmente, cyberespírito, mas também pode ser compreendido como " poltergeist cibernético ").
O resultado prático dos textos citados são a prova da importância da pesquisa para todo escritor de FC que pretenda publicar algo mais hard, mais ligado ao mundo das ciências exatas e da tecnologia aplicada?
Em a verdade, hoje eu até que aprendi um pouquinho de informática, o suficiente para não fazer mais jus ao grande e elogioso apelido do Bráulio.
Mas na época, eu realmente pouco entendia do assunto:
inclusive me identifiquei muito com o Gibson quando ele descreve suas reações ao usar seu primeiro computador para escrever Count zero (porque Neuromancer foi escrito em máquina de escrever).
Como tradutor, aprendi uma coisa que me ajudou e me ajuda muito na hora de escrever meus próprios textos:
é muito importante pesquisar e aprender os termos corretos do que você vai traduzir -- mas tão importante quanto, ou talvez mais, é conhecer bem seu próprio idioma, para que o texto pareça ter sido escrito por um brasileiro.
A o escrever uma história que exija pesquisa, mais importante que entender os mínimos detalhes do assunto é trabalhar bem a história, a linguagem e os personagens, para que a narrativa flua como se você estivesse, por exemplo, ouvindo alguém contar uma história que aconteceu de verdade.
Quando você está numa roda de amigos ouvindo uma história verídica, os detalhes podem até ser fundamentais para você entender o que se passou, mas a maneira de contar é mais importante, porque se a história for boa mas o narrador for chato, não rola, não dá liga.
Acho que, primeiro, o escritor de FC precisa ler muita literatura brasileira, de todo tipo, de Machado de Assis a Ana Maria Gonçalves, passando por Clarice, Jorge Amado, Paulo Leminski, Nelson Rodrigues, enfim, é um universo incrível e maravilhoso.
Agora, se esse candidato a escritor for daquele que só curte ler FC, então é bom nem começar, porque não vai sair um bom trabalho.
Para encerrar o assunto sobre esses contos:
num de eles aparece uma referência à companhia fictícia que se tornou marca registrada de seus textos:
a Wells-Kodama.
De onde veio a idéia para a concepção de ela?
A junção dos nomes remete mesmo ao fundador da FC moderna, H. G. Wells, e à viúva de Borges, Maria Kodama, ou há algo mais?
É exatamente o que você falou.
A idéia foi um trocadilho, uma homenagem-brincadeira.
Que pretendo utilizar ainda mais algumas vezes.
Por falar em Borges, ele parece ser uma referência clara em seus textos mais voltados ao fantástico.
Que outros autores fizeram e fazem parte da sua lista de influências assumidas?
Entre eles todos, qual a importância de William Gibson, o criador da cultura cyberpunk e que chegou a ser tema de sua pesquisa na pós-gradua ção?
São muitos autores.
Sempre gostei de ler de tudo.
Uma lista rápida, pensada de cabeça, sem ordem de importância:
Borges, Cortázar, Thomas Pynchon, Donald Barthelme, William Gibson, Alastair Reynolds, David Zindell, Gene Wolfe, Machado, José de Alencar, Martins Pena, Marçal Aquino, Clarice, Jorge Amado, Osman Lins, Guimarães Rosa, Erico Veríssimo, Luis Fernando Veríssimo, e.
cummings, Sylvia Plath, John Donne, Paulo Leminski, Yeats, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Martins Pena, Campos de Carvalho, Patricia Melo, Rubem Fonseca.
Sobre Gibson:
a leitura de ele, em 1989, foi um divisor de águas na minha cabeça.
Eu já gostava muito de FC, mas até então eu era meio que um nerd, um legítimo nerd que, apesar de já ler bastante coisa em inglês e de curtir muita coisa que não era lida no Brasil, não entendia a FC como algo que pudesse ser realmente revolucionário.
Claro, já existia a New Wave britânica, mas eu só fui ler esse pessoal depois de ler os cyberpunks.
Eu me identifiquei de cara com a atitude punk sem deixar de ser inteligentes:
era possível ser um nerd punk sem ser um geek, era possível fazer algo que não se limitasse a robôs e espaçonaves (coisa que, aliás, a leitura dos cyberpunks me travou para fazer;
confesso que sempre quis escrever uma space opera ambientada no futuro distante, mas nunca vi futuro para isso no Brasil e não sei se vou conseguir escrever isso algum dia).
Quanto ao seu relacionamento com a academia, como a produção de escritores de FC, nacionais e internacionais, é encarada hoje no mundo acadêmico brasileiro?
Você teve alguma dificuldade em propor seu tema para dissertação de mestrado na universidade e, principalmente, em encontrar outros pesquisadores para orientá-lo e para participar de sua banca?
Felizmente, não tive nenhuma dificuldade.
Gibson e Stephenson são escritores lidos na academia, pelo menos no círculo de acadêmicos que estuda novas tecnologias.
Minha orientadora de mestrado, a net artist Giselle Beiguelman, me deu muito apoio para escrever sobre Gibson.
Não encontrei nenhuma dificuldade, pelo contrário:
antes de mim, já trilharam essa seara pesquisadores incríveis, como Gilbertto Prado, André Lemos e Adriana Amaral, com os quais tenho o prazer de travar ótimos diálogos.
E, por o que pude conferir a partir da publicação da minha dissertação, vem mais gente por aí com material interessante para discutir FC.
Em a minha tese de doutorado, que devo defender até o final de 2007, continuo um pouco desse diálogo com a FC, mas não tratando especificamente do Gibson, e sim autores que exploraram a questão do pós-humano no futuro de diferentes maneiras, como Arthur C. Clarke, Stanislaw Lem, Richard K. Morgan, H.G. Wells e mais alguns.
Você acompanha o que vem sendo escrito atualmente em termos de FC no Brasil?
Infelizmente, não tenho acompanhado a produção atual.
Parei na época da Intempol, porque foi justamente quando optei conscientemente por fazer uma espécie de «sabático» de ficção científica brasileira, basicamente porque eu precisava me aprofundar nos cyberpunks e em William Gibson para o mestrado.
Praticamente não escrevi FC nesse período:
o que fiz foi terminar o Pequeno dicionário e batalhar por a sua publicação em revistas e como livro em editoras.
Depois me formei no mestrado e atualmente estou dando aulas e traduzindo.
E tive de mudar o eixo das minhas leituras de forma radical, o que inviabilizou um contato com publicações independentes.
Para finalizar:
quais são seus projetos para o futuro nessas áreas todas em que atua?
Traduções:
acabo de terminar uma tradução de ficção científica mas não estou autorizado a dar o nome do livro;
deverá sair no segundo semestre.
Agora estou traduzindo Snow crash e até o ano que vem tenho programada uma nova trilogia de fantasia de Shannara, de Terry Brooks, a sair por a Bertrand Brasil.
Traduzi uma trilogia do mesmo autor há alguns anos e parece que ela está fazendo sucesso entre os fãs brasileiros.
Livros:
uma editora me encomendou um livro de ficção científica, e comecei a escrever uma história que está com cerca de 120 páginas, mas ainda não fechamos contrato, por isso não posso falar mais a respeito.
Os projetos mais concretos que tenho no momento são uma noveleta de 30 páginas que escrevi para o site mojobooks baseada em Charlotte Sometimes, uma história a la Neil Gaiman que publiquei no ano passado num número especial de ficção científica da revista Ficções.
A noveleta tem a ver com um dos álbuns da minha vida, Staring at the sea, da banda The Cure (mas não tem nada a ver com ficção científica, apesar de Charlotte Sometimes ser ambientada num universo fantástico).
Essa noveleta ainda não recebeu a aprovação dos editores, mas se eles toparem, pode ser que saia (em PDF gratuito) até o final do ano.
Se não toparem, tudo bem;
o original tem mais de 100 laudas e tenho a intenção de batalhar publicação assim que terminar a história.
Por outro lado, estou finalizando um livro de não-ficção para a Editora José Olympio:
trata-se de um pequeno dicionário de verbetes sobre personagens marcantes da literatura brasileira.
É um projeto que durou dois anos e me deu muito prazer -- e me fez voltar a ler literatura brasileira em profusão, algo de que eu estava sentindo saudades (aliás, foi por isso que acabei criando o blog O Viajante Imóvel para o Overmundo).
Além disso, estou finalizando minha tese de doutorado, que tratará do modo de ser na cibercultura, com um foco sobre o pós-humano.
Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
O livro Interface com o vampiro foi resenhado no Overblog:
Número de frases: 146
http://www.overmundo.com.br/overblog/sangue-e-silicio Desde que me entendo por gente já me divertia com as trapalhadas do negro Baltazar, com as ordens descabidas e absurdas do Capitão João Redondo, que fazia tudo para manter as aparências para o padre Biapino, as bordoadas, piadas interrompidas por risadas do próprio boneco que por si só já eram outra piada.. sem falar na paródia da música Jesus Cristo (Roberto Carlos) que ficou gravada na minha lembrança:
«Tem mosquito, tem mosquito não posso dormir / Olho para o céu e vejo uma nuvem preta de urubu / Olho para o chão e vejo um grupo tomando (glup!)
coca-cola ( ...)», e outras rimas que nunca eram pronunciadas!!
E dá-lhe risada da molecada de todas as idades, com histórias de temática religiosa e piadas populares transformadas em ' besteirol ` educativo.
Momentos deliciosos que poderiam ser degustados em qualquer lugar onde o'paninho do palco ' pudesse ser montado.
Em praça pública ou teatro, em feiras ou festivais, lá vinha seu Chico Daniel com sua indefectível mala abarrotada de bonecos (mamulengos, fantoches, títeres) -- cerca de 40 personagens -- pronto para aprontar.
Mestre mamulengueiro
Sapateiro e artista.
Potiguar de Assu e adotado por o bairro de Felipe Camarão, em Natal, há quase 15 anos, Francisco Ângelo da Costa -- filho de Daniel Ângelo da Costa -- era dessas sumidades incontestáveis.
Descendente de uma linhagem de mestres mamulengueiros, o Chico de Daniel deixou saudades, fãs e personagens como Baltazar, filho adotivo do capitão João Redondo, órfãos.
Dia 3 de março último, pronto e cheiroso pra mais uma apresentação, perguntou se todos já tinham se arrumado que ele estava «pronto pra partir», relatou Keyla Elói da Silva, 23, filha do coração e espécie de secretária geral do mestre ' bonequeiro '.
Pouco depois um ataque fulminante no coração derrubou nosso Chico Daniel, que sabia que tinha problemas cardíacos e seguia à risca todas as recomendações médicas.
A última apresentação de Chico Daniel aconteceu um dia antes, dia 2 de março, no Largo da Cabocla, Felipe Camarão.
Em a mesma semana, dia 26 de fevereiro, Hermano Vianna, mesmo sem saber, presenciou um momento histórico em sua rápida visita à Natal.
Canto de parede
«A primeira vez que vi um mamulengo foi andando mais meu pai.
Ele andava de fazenda em fazenda e a gente mais ele.
A gente era tudo menino pequeno.
Eu achei bom aquele trabalho.
Foi o tempo que eu aprendi a bater no pandeiro.
Era um cara no fole, eu no pandeiro e meu irmão no triângulo.
A gente tocava para os bonecos do meu pai», diz Chico, lembrando que foi naquela época (anos 1950-60) que ele sentiu vontade de aprender a arte dos mamulengos:
«Mamãe fez um paninho para mim e eu armava assim num canto de parede e meu pai fez uns bonequinhos da cabeça pequena.
Foi assim que comecei a praticar», resumiu o Mestre, em depoimento registrado no livro «Chico Daniel -- A Arte de Brincar com Bonecos», lançado em 2002 por as jornalistas Ângela Almeida e Marize de Castro.
Imã de Mestres
Felipe Camarão, típico bairro de periferia, parece ter um imã no subsolo que atrai mestres como Manoel Marinheiro, mestre do Boi de Reis (considerado Patrimônio Imaterial por a Unesco e MinC), Mestre Cícero da Rabeca, em plena atividade, e o já saudoso bonequeiro.
Essa peculiar realidade local despertou na educadora Vera Santana o desejo de ver, ou melhor, de não ver essa arte ser esquecida:
em 2003 criou o Projeto Conexão Felipe Camarão, que já é Ponto de Cultura chancelado por o Ministério da Cultura -- MinC, e hoje referência de projeto social bem sucedido.
O trabalho de valorizar a cultura que pulsava espontaneamente no bairro há décadas, levantou a moral e devolveu a auto-estima da população:
Felipe Camarão saiu das páginas policiais direto para os cadernos de cultura.
Quem já participou de eventos no bairro, percebe o orgulho à flor da pele!
Uma vibração comunitária real, profunda e sem preço ...
Como resultado desse sonho concretizado, Vera e os Mestres podem ficar tranqüilos que o legado terá continuidade:
além do grupo de Boi de Reis Mirim do Mestre Manoel Marinheiro e o Conexão Rabeca, os filhos de Chico Daniel -- Toinho e Josivan -- já provaram que tem cacife pra construir bonecos, continuar as brincadeiras e ensinar outras pessoas a arte do mamulengo.
Número de frases: 34
Vamos aguardar os próximos capítulos na praça mais próxima, e ficar atentos para ver se Baltazar e o Capitão João Redondo aparecem no ' paninho ' e acabam com essa saudade!
Romaria De o MUQUÉM
A Romaria do Muquém existe desde o século XVIII do período da mineração e da escravidão.
É tradição há mais de 200 anos, desde 1748, é considerada uma das maiores do mundo e a celebração religiosa a mais antiga de Goiás.
Os romeiros fazem o percurso de 45 quilômetros carregando a imagem de Nossa Senhora da Abadia saindo da cidade de Niquelândia seguem por a Rodovia da Fé fazendo o percurso com início na Igreja Matriz da Paróquia São José, passando por a Paróquia Nossa Senhora da Abadia e terminando no Santuário de Muquém.
A procissão ocorre durante toda a noite e termina com a chegada dos romeiros ao Santuário, dando início à romaria que prossegue durante 10 dias.
Ao longo da Rodovia da Fé há as estações da Via Sacra com monumentos que representam o calvário de Cristo.
Essa Rodovia é um cenário de peregrinos que percorrem muitos quilômetros a pé, a cavalo, motocicleta, ou de carros pagando promessas.
Essas pessoas vão pagar suas promessas por as graças alcançadas de Deus por intercessão de Nossa Senhora D'Abadia.
Agora em 2008, segundo a Diocese de Uruaçu passaram por o Muquém cerca de 180 mil pessoas.
Em o inicio da Romaria uma cavalgada com centenas de cavaleiros de Uruaçu, Niquelândia, São João da Aliança, Sitio da Abadia, Cavalcante e outros cumprem a tradição percorrendo a rodovia da Fé formando um espetáculo à parte.
Seja a cavalo, a pé ou de carro todos seguem o caminho de fé ao encontro da Santa.
O santuário do Muquém no morro Cruzeiro acima 100 metros do chão, foi inaugurado em 2004 e tem capacidade para 27 mil pessoas sentadas.
Esse santuário forma uma imagem belíssima contrastando com o verde das matas e o azul do céu entre os morros.
Muitos romeiros sobem a escadaria do santuário de joelhos até o altar pagando promessas.
A o final da procissão começa a romaria que conta com a Santa Missa, confissões, ofício de Nossa Senhora da Abadia, oração de Intercessão na Capela do Santíssimo, missa por os Enfermos, missa com Novena em Louvor à Nossa Senhora da Abadia e cerimônias de Batismo e Casamento.
A maioria dos romeiros são de Goiânia, Brasília e de cidades do interior goiano como Colinas do Sul, Niquelândia, Uruaçu, Jaraguá, Alto Paraíso e varias outras.
Para alguns já é tradição acampar por vários dias e têm uma área reservada e há também os acampamentos comunitários onde várias famílias se reúnem.
As dezenas de mendigos chamam a atenção durante a romaria e existem casos excêntricos como leprosos sem mãos, pessoas que andam de cócoras, muitas crianças aleijadas, enfim é um grande número de pedintes com as mãos estendidas formando uma imagem deprimente.
Fica uma interrogação:
de entre esses pedintes alguns são pessoas moradoras das cidades próximas e são aposentados e têm casa própria:
seria também uma forma de penitência?
Durante os dez dias de festa milhares de pessoas pagam suas promessas no povoado, fazem suas preces e se ajoelham em forma de agradecimento aos pedidos atendidos.. Essas promessas são pagas de várias formas desde subir de joelhos a escadaria, levar cabelo cortado, levar dinheiro aos mendigos que são centenas de todo o pais e tantos outros rituais.
Dentro do Santuário a fila de romeiros é enorme para beijar uma fita que se estende dos pés da Santa.
Uma senhora de Anápolis -- Goiás, paga uma promessa por a cura do filho de epilepsia.
De joelhos a criança equilibra um prato cheio de velas acesas na cabeça enquanto rezavam um terço.
Diz:
-- Meu filho não tinha cura ia tomar remédio por o resto da vida, mas Nossa Senhora fez o milagre, então tenho que cumprir a promessa!
Jonas Bernardes reside em Alto Paraíso Goiás, tem 49 anos de casado e 75 anos de idade.
Sempre vai ao Muquém que fica à 146 quilometros de distância.
Com orgulho conta:
-- Eu venho aqui há muitos anos, de primeiro vinha a cavalo e ficava até 8 dias na estrada.
Ai fiz uma promessa que se a Santa me ajudasse a comprar um carro eu não perdia um ano sequer.
Sorridente diz:
-- Oia só, comprei minha camionete e todos os anos venho aos pé da Santa agradecer!
Acontecem manifestações de fé exageradas como alguém que se deita ao pé da escada para ser pisado e muitas outras.
Padre Crésio Rodrigues de Uruaçu explica sobre esses exageros:
-- A Igreja não exige, aconselha a não exagerar, porém eles não consultam antes e depois se sentem na obrigação de pagar o que prometeram.
Quando a Igreja tem oportunidade ensina que Deus quer a misericórdia e não o sacrifício.
Durante a festa há os cursos de evangelização para formação espiritual.
Porém pe Crésio considera os benefícios da Romaria:
-- A Romaria do Muquém traz como maior benefício a vivência da fé e o esclarecimento dessa fé com a superação das superstições, do sentido mágico do sacrifício, ou seja, a formação da consciência espiritual e sobretudo a defesa da família e ainda os romeiros podem conviver com a arte, cultura, educação ambiental e formação política.
Há um projeto da liderança da Igreja Católica em transformar a área da Romaria numa Reserva Particular do Patrimônio Natural -- RPPN, uma unidade de Conservação Permanente preservando o meio ambiente, porque a cada ano aumenta o numero de romeiros e maior possibilidade de impacto ambiental.
Em o período da Romaria o IBAMA promove a educação ambiental com teatros, festival de música, circo e outras atividades como orientação na forma a utilizar os recursos naturais para montar as barracas, o destino do lixo e outros.
A origem da Romaria tem muitas versões.
Que foi um quilombo é certo, pois o povoado do Muquém é um espaço rodeado por morros por isso o local propício para construir esconderijos ou quilombos.
A topografia entre montanhas permite uma visão ampla de todos os lados.
A história mais contada é dos milagres religiosos acontecidos nessa época, porém é certeza que o local foi um antigo quilombo.
Até por o nome «Muquém», cujo significado é um fogo em brasa para assar carne como os escravos usavam.
Moquém, oriundo do tupi ou nheengatu (mboka ' i, moka ' em mokai ' e, moquê, mocahen, muquém), é técnica indígena, primitiva, -- grelha alta, de varas verdes, -- para assar carne, ou peixe, ou aves, sobre o lume.
Utensílio com que se assa alguma coisa.
Essa Romaria é contada no livro «Ermitão do Muquém de Bernardo Elis, escrito em 1858» e publicado em 1869 que discute sua origem a partir dos depoimentos de um romeiro no ano de 1840..
Segundo o romeiro um jovem chamado Gonçalo depois de matar um amigo por o amor de uma moça fugiu para a tribo dos xavantes e se casou com uma índia se tornando um líder guerreiro.
Em uma batalha matou por engano a própria mulher com uma flechada.
O irmão da vítima indignado lança uma flecha contra Gonçalo que é salvo por uma medalha de Nossa Senhora que trazia no peito.
Depois disso Gonçalo se tornou um ermitão dedicando sua vida a Nossa Senhora do Muquém.
Bernardo Elis diz:
Lá bem longe, no coração dos desertos, numa das mais remotas e despovoadas províncias do Império, existe uma das mais notáveis e concorridas dessas romarias, notável, sobretudo, se atendermos ao sítio longínquo e às enormes distâncias que os romeiros têm de percorrer para chegarem ao solitário e triste vale em que se acha erigida a capelinha de Nossa Senhora da Abadia do Muquém na província de Goiás, cerca de oitenta léguas ao norte da capital e a sete léguas da povoação de S. José de Tocantins, à margem de um pequeno córrego que tem o significativo nome de Córrego das Lágrimas.
De as mais remotas paragens acodem romeiros a essa isolada capelinha para implorar à santa o alívio de seus padecimentos e trazer-lhe preciosas oferendas.
Durante alguns dias do ano aquele lôbrego e escuro sítio transforma-se numa ruidosa e festiva povoação;
o Muquém é sem contestação a romaria mais concorrida e a mais em voga do interior.
Existem outras versões como a dos negros foragidos que presos por os soldados, nenhum foi morto, atribuindo o milagre a Nossa Senhora da Abadia.
Há a versão do português Antonio Antunes garimpeiro clandestino e quando descoberto fugiu de um processo que poderia resultar na sua morte. Segundo
narrativas locais ele foi salvo por milagre de Nossa Senhora da Abadia e por isso ergueu uma capela no local.
Os depoimentos são diferentes, o bispo Dom Prada Carrera pesquisou concluindo que a versão mais correta é a do português que ameaçado por as leis fez a promessa de trazer a imagem da anta de sua terra natal.
A imagem foi trazida com festa e começou o culto no dia 15 de agosto no povoado do Muquém, mas ele não descarta as outras versões firmando também na do livro de «Bernardo Elis, O ermitão do Muquem».
O tema da festa em 2008 foi «Somos Todos Missionários em Maria».
Em esse ano houve show com a dupla Rick e Renner e de mais duas bandas católicas.
Todo o período da festa é uma seqüência de apresentações como a orquestra «Sinfonia do Cerrado» de Niquelândia, shows com artistas da terra nas barracas, artistas de rua e outros.
Além da religiosidade da festa, nesta época o Muquém se transforma num local de oportunidades de negócios comerciais e políticos, recebendo a presença de autoridades, como do governador, de senadores, autoridades judiciais, entre outros, que junto com o povo se misturam mostrando que são iguais, pelo menos na Romaria.
O discurso do Bispo da Diocese de Uruaçu Dom Messias dos Reis Silveira foi eloqüente, um apelo pedindo o fim nas urnas dos políticos corruptos que respondem processos na justiça e que os fieis ficassem atentos no momento de votar.
A Romaria do Muquém é um exemplo de fé e humildade do povo que ainda busca nas orações e promessas uma sustentação para suas vidas.
As centenas de mendigos com mãos estendidas, milhares de romeiros com velas acesas ao por do sol se misturam ao som da música Sacra e os gritos dos vendedores das barracas que vendem de tudo.
Esse momento se contrasta com a paisagem de morros azuis refletindo uma imagem mística e contagiante.
Número de frases: 74
O selo / produtora de rock independente Monstro Discos completou dez anos em 2005.
A comemoração se deu na prática (por o palco do festival que lhe deu origem, o Goiânia Noise) e na teoria, com o lançamento do livro do jornalista Pablo Kossa que contou a saga do selo (10 Anos de Goiânia Noise, edição da Contato Comunicação/UCG).
Uma década depois de construir uma cena musical alternativa na capital goiana, a Monstro vê crescer filhotes diretos desta experiência.
Goiânia tem hoje quatro selos roqueiros organizados sob inspiração da Monstro Discos, um de eles surgido de divergências conceituais com a produtora.
«A diferença é ideológica, nada pessoal, quanto mais a cena estiver unida melhor, não sou sectário», defende Wander Segundo, baixista do Corja e criador do primeiro dos filhotes «monstro» há quatro anos:
o selo Two Beers or Not Two Beers.
Segundo, como é mais conhecido no meio roqueiro da cidade, foi o primeiro e único dos polemistas com a Monstro Discos.
Para ele, os sócios da principal produtora roqueira de Goiás (e uma das mais significativas do país) trabalham com a mesma lógica da indústria cultural.
«Eles querem ser major, mas não dão conta.
Fazem um som indie de butique para a classe A, nós não, fazemos som para a molecada pobre que vai lá [nos shows] e vomita», cospe a crítica que repete desde o nascimento da Two Beers.
Segundo diz que o selo de ele nasceu para dar guarida às bandas da cidade que não tinham espaço junto à Monstro.
Leonardo Ribeiro, um dos quatro sócios da Monstro, responde que nunca tiveram a intenção de segmentar o rock da cidade e muito menos copiar a indústria.
Afirmam que incluem, nos festivais, bandas até do selo de Wander Segundo e que o principal objetivo dos festivais é fortalecer a cena, seja através da inclusão de bandas locais ou do intercâmbio entre artistas de fora e de Goiânia.
Segundo diz que a relação com a Monstro «melhorou muito» desde o início da " Two Beers.
«A gente não é inimigo, eles me ajudam e eu ajudo eles sempre que posso.
Este ano mesmo eles me convidaram para montar banca da Two Beers no Banadada [o outro festival organizado por o Monstro] e duas bandas do meu selo tocaram no festival», disse Segundo sobre as bandas WC Masculino e Ressonância Mórfica.
O selo de Segundo, cujo título-trocadilho com o aforismo shakspeariano ele tirou de uma camiseta dos Simpsons, completou cinco anos em setembro.
Por o Two Beers or Not Two Beers já passaram cerca de 50 bandas, a maioria de Goiânia.
As meninas dos olhos de Segundo hoje são Ressonância Mórfica (banda que vem ganhando projeção em outros estados) e Desastre e Eternal Devastation, grupos punk e metal que estão com EPs sendo distribuídos na Europa.
O esquema de trabalho do selo, explica Segundo, é prensagem, distribuição e divulgação porque a gravação é da conta das próprias bandas.
O primeiro CD da banda de ele, «um quarteto crossover» (segundo define), saiu com o sugestivo título de Al Qaeda ´ s Gratest Hits.
Outros três selos vão tocando o barco à sombra da Monstro:
On Voice (mais voltado a bandas hardcore), Anti Records (para grupos que navegam por a praia emocore) e o Fósforo Records (selo surgido há pouco do fim do Be Acid que junta os indies, grunges, stoners e que tais), todos mais apaziguados com sua influência direta.
O Be Acid durou quatro anos e surgiu de dentro dos festivais da Monstro.
Pedro Henrique fazia camisetas roqueiras para vender nos festivais Goiânia Noise e Bananada e João Lucas tinha uma pequena produtora de shows na capital.
Resolveram unir forças para fundar o selo Be Acid.
O elo do encontro e os planos conjuntos, relembra Pedro Henrique, começaram no Orkut.
«Assumimos a influência da Monstro, mas pegamos um público diferente do de ela, mais adolescentes, a garotada que está se iniciando no rock, ouve nossas bandas e gosta.
Outra diferença é que a Monstro não agrega o público que gosta de metal e nós sim», conta Pedro, que atua como produtor musical enquanto o parceiro canta numa das principais bandas do selo, a Johnny Suxxx n ´ the Fucking Boys.
Desfeita a parceira há três meses o Be Acid virou Fósforo Records numa nova empreitada de João Lucas com o jornalista Pablo Kossa, o que escreveu a história da Monstro Discos.
O Fósforo Records herdou do Be Acid o casting de 10 bandas, a maioria de Goiânia.
As únicas duas «estrangeiras» da lista vieram de Belo Horizonte:
Enne e Moldest.
A primeira já conta com um «CD» cheio " gravado em Minas e lançado com a antiga chanchela Be Acid;
Moldest vai no mesmo caminho.
Os novos lançamentos do selo já saíram com o carimbo Fósforo, casos do EP da garageira Bang Bang Babies (stoner rock à moda da paulista Thee Butchers ´ Orchestra), o grunge Lake e Johnny Suxxx, que funde punk e glam rock.
A relação com a Monstro, contou Pedro Henrique, é a melhor possível.
«Temos bandas do nosso selo nos eventos Monstro», conta.
E o selo aposta no circuito independente de festivais para crescer.
E escalada de Johnny Suxxx vem crescendo em show tanto em Goiânia quanto em outras cidades.
Com a Technicolor, foram os únicos de Goiás escalados para a última edição do Porão do Rock (de Brasília).
Para o Calango, festival de Cuiabá (MT, que realizou sua quarta edição em agosto), a Be Acid deve enviou três representantes (mais do que a Monstro e a " Two Beers).
«O caminho é esse, temos que nos unir», diz Pedro Henrique.
Em os sites dos selos, dá para ter uma boa visão das bandas, inclusive com MP3.
Número de frases: 44
Quando eu comecei ainda não havia computadores nas redações.
Era a década de 80, eu tinha 16 anos e muitos sonhos na cabeça.
Um de eles era mudar o mundo.
Outro era conhecer o mundo.
Para mudar o primeiro, queria dar voz aos miseráveis inspirada em Cazuza e sua balada " Blues da Piedade:
«agora eu vou cantar para os miseráveis, que vagam por o mundo derrotados / essas sementes mal plantadas, que já nascem com cara de abortadas».
Para conhecer o mundo que eu antevia nos livros devorados na velha Biblioteca Municipal de Jataí, só viajando.
Assim, amante da leitura, da escrita e da aventura, ávida por lutar contra injustiças sociais, fui ser jornalista.
Esta era a minha paixão, e achei que podia também ser profissão.
Para tanto, coloquei meu pé pela primeira vez numa redação de jornal antes dos 18. Um mês no departamento comercial -- que era a vaga disponível -- me fez chegar onde eu queria:
a redação.
Ah, a mágica redação onde tudo acontecia.
Onde o fato virava notícia, do crime à política, revelando histórias da vida das pessoas.
Gente e mundos novos que eu não conhecia.
Em a redação da Folha do Sudoeste tive meu primeiro professor:
José Renato.
Editor e meio dono (sócio) do jornal.
Lá aprendi o básico:
lead, pirâmide invertida (naquele tempo tinha isso).
Foi ali também que aquele rapaz jovem, cheio de sonhos, jornalista dono de jornal me aguçou o faro, o correr atrás da informação completa, da história não contada por detrás de cada notícia.
As velhas Remington não tinham ainda ouvido falar de Bill Gates.
De ajudante a repórter, das notas da coluna social, até a sub-editoria foram dois anos.
O tempo que levei para desistir do curso de Pedagogia e arrumar as malas para tomar o rumo da capital, Goiânia.
A trajetória toda me volta à cabeça após ler um artigo, muito bem redigido do overmano Deak, sobre as mudanças na notícia, na formação do jornalista, no avanço que as novas tecnologias estão provocando nos jornalistas e nos jornais.
Bah!-- como diria um colega jornalista gaúcho, ácido nas críticas -- mas naquela época não tinha isso.
Para trabalhar em redação de jornal tinha que ter mais que o dom, vocação ou um diploma.
Tinha que ter ânimo, faro, saber escrever ou disposição para aprender.
Tinha que se submeter a uma carga horária estressante.
Mas que nada!
Eu era jovem e estava disposta.
Em Goiânia, uma vaga no caderno 2 do Diário da Manhã me recebeu depois de um teste disputado com um jornalista quase formado.
Ele era estudante em fim de curso, mas eu consegui superá-lo, nos critérios todos que a editora, eterna Cejane di Guimarães exigia.
E com ela aprendi mais uma lição:
«não escreva coisas descartáveis.
Escreva com paixão, dê todas as informações que puder.
Faça a pessoa ter gosto por a leitura, a ponto de recortar a matéria e guardar».
Grandes lições as do Diário da Manhã do fim da década de 80 e começo da década de 90.
Lá migrei por várias editorias, liderando jovens e nem tão jovens repórteres, formados ou não.
Foi lá que me toquei da necessidade de cursar a UFG e fazer jornalismo.
Também nesta época fui apresentada, na década da transição, ao bichinho estranho e ágil chamado computador.
Ele já estava nas grandes redações.
Ele chegava com a promessa de tornar tudo mais fácil (ah, a autocorreção!),
e muita gente resistia.
Mas, bah!
Eu era jovem, tinha o mundo por a frente, e podia fazer qualquer coisa:
desde pular muro de hospital, acompanhada por o meu fiel fotógrafo e escudeiro para flagrar lixo hospitalar em local inadequado, até furar a segurança e entrar por a porta da frente para entrevistar o primeiro caso de AIDS em Goiânia.
Bons tempos, e novos professores.
Com Batista Custódio, editor geral do diário, que rasgava laudas e lançava o papel amassado por a redação aprendi o que era notícia, e que tinha que ficar perfeita.
Já se vão duas décadas.
Não que eu esteja envelhecendo, sorry!
É que comecei cedo.
Assim, neste artigo meio autobiográfico, busco entender onde foi que o bom e velho jornalismo, simples e bem feito se perdeu.
Em os novos modos de fazer?
Acredito que não.
Lá, no velho diário em transição, se ouvia muito uma frase:
«pensem bem, e investiguem direito antes de publicar uma matéria.
Cuidado com o nome e a honra dos outros.
Espalhar uma notícia é o mesmo que sair por a cidade despejando um saco de penas de galinha.
Depois não há como apanhar todas de volta».
E nós, um grupo de meia dúzia de jovens editores trabalhávamos das 11h da manhã às 11h da noite (naquele tempo tinha isso), buscando a excelência.
Assim, aprendi de fotografia a diagramação, para riscar minhas páginas em folhas de papel com paicas e dizer ao Fu Manchú, como era exatamente que eu queria.
Furos, manchetes, tragédias se sucederam na minha vida de jornalista enquanto o computador era aperfeiçoado, o velho gravador dava lugar ao pen drive e ao mp3, as belas máquinas fotográficas e os mágicos laboratórios escuros eram sucedidos por as potentes digitais.
Mas aprendi tudo.
Com a sede de quem tem tempo, e vontade.
Já naquele tempo sabíamos de algumas coisas que nunca mudariam:
que não se aprendia a fazer jornalismo nas escolas e que não se aprendia a ter caráter nas redações.
Sobre isso ouvi e tive que concordar com mais um editor / professor, José Sebastião Pinheiro, do " Jornal do Tocantins:
«caráter não se ensina, nem se aprende.
Ou o sujeito nasce com, ou nasce sem».
E um mau caráter numa redação estraga a vida de muita gente.
Assim, com a evolução dos tempos e do jeito de fazer comunicação evolui por os meus empregos, e sonhos que me levaram a outras fronteiras:
as que escolhi.
De aqui, do centro do país, coração do Brasil, assisto e me integro às novas tecnologias da informação às vezes com saudades do bom e velho jornalismo.
Não por romantismo.
Faz tempo que descobri que não seria o jornalismo a mudar o mundo.
Talvez uma combinação entre educação e informação.
Ainda não tenho a fórmula.
Só sei que hoje, de volta à universidade posso perceber que muita coisa mudou, e muita coisa se perdeu na ânsia por dar muita informação em pouco tempo.
O bom e velho jornalismo -- percebo -- resiste.
Ele está nas boas e bem levantadas matérias, investigativas ou não.
O bom caráter continua fundamental, e a abertura para aprender sempre também, mesmo que os patrões de hoje nas grandes empresas queiram que o jornalista vá além do seu papel.
Tudo bem.
Vamos nos equipar ainda mais e fazer tudo:
filmar, fotografar, e escovar o cabelo em algum canto do mundo, para depois de enviar a notícia via lap top, aparecer com a cara boa na reportagem que vai ao ar.
Mas será que isso é jornalismo?
Sinceramente, quero manter a capacidade de aprender tudo sempre.
Bah! Afinal ainda sou jovem, e o espírito de aventura nunca morre.
Anos depois de ter pisado na primeira redação de jornal, sou mais jornalista do que nunca, antenada em tudo que acontece neste começo de século.
E independente do rumo para o qual as novas tecnologias nos levarão, acredito, piamente, que o bom e velho jornalismo vá sobreviver.
Para, quem sabe, ajudar o mundo a se ver no espelho, e aí talvez querer mudar.
Estas notas curtas sobre coisas bizarras, a espetacularização da notícia em blogs ou na TV, vão continuar.
Há mercado e demanda para isto.
Mas por favor, não me digam que os jornais vão morrer.
Que os bons e belos textos do cadernos de cultura vão morrer.
Que o espírito jornalístico vai morrer e que vamos todos produzir pequenas mercadorias descartáveis de oito ou 10 linhas.
Me recuso a acreditar nisto.
Mesmo que para alguns possa parecer jurássica.
Que o bom e velho jornalismo sobreviva, e conviva com o novo.
Este novo em mutação que tem tanto a aprender.
Número de frases: 99
Conversando ontem com o Valdir Batone e com a Gabi Andrade, participantes da conversa sobre o Manual de Auto-Publica ção na Rede para Músicos Independentes que está rolando no Fórum de Conversas do Overmundo, integrantes do excelente projeto musical independente Lixo Extraordinário e, como prefiro chamá-los, meus novos amigos, senti que a idéia de escrever um Manual de Auto-Publica ção para Músicos e Músicas Independentes é não apenas possível, mas também uma necessidade deste momento.
Sim, este é o momento!
Várias bandas e musicistas, assim como vários artistas de várias mídias, já estão descobrindo não apenas que as mídias tradicionais não mais representam a realidade da cena artística em que estão inseridos (" cenas artísticas se criam, se inventam», diria o Valdir) como também que é possíver criar vias alternativas, mais verdadeiras e democráticas, para a difusão e discussão de seu trabalho.
É neste cenário (ou nesta cena) que surge a conversa sobre a auto-publica ção de conteúdos na rede.
É neste cenário que se intensificam estas conversas, que se tornam fundamentais as constribuições dadas por tantos artistas que estão descobrindo os caminhos da auto-publica ção (e que tem muito a nos ensinar a este respeito) e, sobretudo, é neste cenário que se fazem necessários manuais práticos e diretos de como fazê-lo, coligidos em cima das experiências bem sucedidas de tantos colegas e adicionados dos conhecimentos de internet e «doA-it-yourself» já tão difundidos em outros meios criativos, como o do pessoal do Software Livre.
Aliás, já era tempo de que os dois «grupos» (os artistas independentes e a galera do software livre) se apercebessem de que existem muitas semelhanças entre seus trabalhos e entre as dificuldades que encontram e, portanto, que soluções podem ser trocadas entre as duas galeras.
Um manual, um «ráu-tu», é uma das bases de conhecimento que potencializa a produção e a difusão de mais conhecimento, métodos e práticas, que são fundamentais aos novos tempos de produção e difusão de conteúdo (seja código ou arte, se é que o código não é também arte, afinal» code is poetry ").
Aproveito então este momento para chamar a todos os interessados, todos os que acreditam na importância e na possibilidade de se escrever um manual como estes, para que se juntem a nós no papo que está rolando a este respeito no Fórum de Conversas do Overmundo.
Em estes novos tempos em que «você» é a personalidade do ano da revista Time (mesmo que no fundo isso tenha sido só uma jogada de marketing para disfarçar a vitória de Hugo Chávez na votação), somos nós que temos que fazer acontecer o presente e o futuro que almejamos para nossas vidas e nosso mundo.
Número de frases: 9
Que tal dar uma mãozinha para os novos tempos, tempos melhores, que buscamos alcançar?
Ronald Augusto O poema ultrapassa essa necessidade humana -- sempre interessada em dar sentido ao entorno do real -- de nomeação ou de justificação das coisas.
Esta é a leitura provisória que desentranho do poema «Hoje», que integra o volume Matiz de Estação (1983) de» Dione Veiga Vieira:
«Hoje / O poema me existirá / antes que se dê nomes / às coisas».
Já há algum tempo, observo o poema como algo que se acrescenta ao mundo, isto é, um objeto (estético) entre outros objetos, uma coisa entre outras;
porque o poema, este ser de linguagem, não faz referência senão a sua própria realidade.
Ele não cumpre, a rigor, a função que todo signo, por sua natureza, deve cumprir, a saber, representar por analogia ou na ausência, o mundo e as coisas em ele contidas.
O poema é um hipossigno, ele é tão-só a representação de si mesmo.
Pelo menos teoricamente, todo poeta deveria se dar conta dessas contradições, mas a maioria ainda é muito «inspirada» para atentar para questões do tipo.
Por outro lado, o caso de Dione Veiga Vieira, não sei se devido a essa condição privilegiada de criadora ambidestra -- haja visto ser poeta e artista visual, ou que outra explicação se tente, torna-se instigante, pois, sua confiança na autonomia da linguagem poética se revela tão jubilosa em sua luminosidade, que não é justo mostrar indiferença frente às imagens que povoam Matiz de Estação, infelizmente, seu único livro até agora.
O apetite demonstrado por Dione Veiga por o poema na pele de coisa encarnada, em detrimento da tradição livresca que o apresenta como sublimação seja dos humores da emoção, seja dos labirintos da razão, talvez se explique por o viés da porção artista visual de sua personalidade.
Ou seja, todo artista, em que pese a fase inicial de concepção da obra, quando são encarecidos aspectos mais intelectuais e especulativos, mantém, em geral, uma relação mais física ou corpórea com os materiais através dos quais sua criação se presentifica.
Portanto, produto de uma dialética entre o febril e o fabril, quando a obra alcança um lugar ou se materializa, mesmo que de maneira fugaz, ela inaugura seu ser tangível de linguagem.
Assim, nos poemas de Matiz de Estação, não há confusão entre o imaginário e o real.
Mais do que uma representação do mundo, eles se configuram como a invenção de um mundo à parte, sem margens precisas, que obedece à gravidade e leis próprias: " ( ...)
Uma tarde roçando a margem de um mar / interno.
O dia inteiro e orgânico virava / coisas sem ruído ..." (
«Começo», pág. 9).
Cada poema se abre como uma lacuna, um intervalo carrolliano.
Feito Alice, a viagem de queda a que o leitor é submetido rumo ao fundo insondável de tal linguagem, detona todo um jogo de leituras desejosas, festa à boca pequena, sussurro à beira da argila, da carne:
«O corpo e as coisas.
profundar." (" Dânae», pág. 26).
O leitor cai, mas sem se recusar ao prazer desse corpo que (lhe) cai (bem), em câmera lenta:
«O corpo lua / do cheiro / A madrugada / a madrugada / a madrugada «(" Melodia», pág. 12).
Notar a queda, materializada na repetição em abismo de «a madrugada» que se aprofunda em si mesma.
Os poemas de Matiz de Estação, tanto os verbais, quanto os não-verbais (folhas num gestual ideográfico, metonímico preto no branco), formam a cartografia equívoca, indecidível, desse mundo de signos cuja existência deita raízes nas conjunções e disjunções sensório-estéticas de " Dione Veiga:
«nenhum universo de noites / nenhum cordão de anil / ( ...)
/ nenhum nenhum / nenhum húmus de terra / nenhum musgo sobre as pedras ..." (
«Sensitivo», pág. 20).
Em cada poema-mundo, a poeta convida o leitor a fruir a sempre efemeridade do acabar-começar da linguagem: " ( ...)
ao finito aos traços aos fios aos trilhos ao.
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004).
Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature:
a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore:
The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring -- Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2002, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de.
Artigos e / ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura:
Babel (SC / SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno de Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS);
Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e.
cummings (MG);
Revista AT (MG);
Revista Roda -- Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG);
www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org;
entre outros.
Assina os blogs:
www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.zip.net.
Ministra oficinas de poesia e é integrante do grupo os poETs www.ospoets.com.br.
E-mail:(dacostara@hotmail.com).
Número de frases: 49
Ali está uma coluna acimentada com dois São Francisco incrustados -- um pelo meio, outro no topo -- olhando para a Igreja que lhe dá as costas, mas nada de desavença, apenas por o motivo das imagens e a igreja estarem no alto de um monte, em Canindé, olhando daqui a cidade, segundo maior destino de romeiros no Ceará, perdendo apenas para Juazeiro do Norte de Pe.
Cícero.
Por trás dos São Francisco, uma casa.
Quando você entra, passa por uma sala que lhe dá acesso a um quintal inclinado, e quando se desce uma escadinha, encontra a verdadeira morada, com fogão, uma varandinha e no dito quintal um forno de tijolo e barro, para o serviço de queimar um pote, uma cuscuzeira, uma imagem de São Francisco ou essas estranhas cabeças tortas de nariz grande, orelha deformada, olhos esbugalhados e boca que ora tenta gritar, ora é sorriso contido.
Professor Gilmar de Carvalho, do curso da Comunicação Social da UFC, chegou ali ano passado e parou quando viu a tal coluna de alvenaria com as duas imagens de São Francisco.
Entrou e foi ver quem era o homem que tinha feito aquilo, ainda não escultor, artista ou outras palavras que damos às coisas quando começamos a entendê-las.
«Ele começou a dizer que havia potes, panelas, mostrou algumas dessas peças que ele fazia pra vender e também pra usar na casa de ele.
Disse que um dia resolveu fazer um São Francisco e botou esse São Francisco na porta da casa de ele e quebraram a imagem.
Então resolveu numa remontagem de São Francisco incrustá-lo na alvenaria», conta Gilmar.
Hão de dizer com propriedade que São Francisco, mesmo de barro e não de gesso, é só o que tem, tanto em capital como interior.
É verdade, sim o é, mas o de Antônio Cunha é diferente, às vezes tem dente ...
«São Francisco ali rapaz, eu sonhei fazendo ele, aí veio um caba aqui chegou e disse ' rapaz eu nunca vi São Francisco de dente ', mas naturalmente que ele pussia dente.» ...
às vezes é só a cabeça, sem pescoço.
«Enjoei de fazer os potes que é um bicho pesado.
Aí peguei e fui fazendo as cabeças de São Francisco, aí eu disse agora eu vou fazer é de gente mesmo», fala Antônio quando perguntado sobre o início da feitura dessas cabeças.
«Eu não posso ver nada, eu tô bem aqui, se eu vejo uma coisa aculá eu vou direitinho fazer, vou bater lá e faço tudo.
Essa é um meninozinho que morava ali, era mesmo que tá vendo ele.
Ele era até meio abestadinho», fala pegando uma das cabeças.
Gilmar se impressionou principalmente com as cabeças ordinárias deformadas.
Conta que na primeira visita elas ainda tinham pescoço.
Já na segunda, Gilmar reparou a falta do pescoço que servia como sustentáculo e que dava melhor visibilidade às peças.
Também percebeu maior deformação.
O professor aponta que a deformação do nariz principalmente vem sendo construída historicamente como um dos elementos que trazem comicidade.
«Quando mais deformada a peça melhor.
E essa deformação claro que não se dá só no nariz, ela se dá também nas orelhas, nos olhos, mas a peça pra fazer rir tem que ser deformada», diz Gilmar.
Mas para quem rir, já que as peças até a chegada do professor, não estavam expostas em nenhum lugar e nem mesmo à venda como diz o próprio Antônio Cunha?
A o segurar uma peça Antônio passa os dedos por os contornos do nariz, olhos, boca, e revela uma grande satisfação de fazer as cabeças, numa produção que tem muito a ser desvendada, para quem o quiser, mas que tem algo de primordial, de simples, de alguém que faz algo sem saber direito o quê e como.
Cunha não domina nem as técnicas de acabamento, nem do controle do forno.
Várias de suas peças, principalmente as maiores, quebram ou saem queimadas.
Em a fala, informações que às vezes se confundem, dizendo ter começado a trabalhar com o barro há 4 anos apenas, em outro momento dando a entender um tempo maior de experiência.
Seu Antônio Cunha já completou os 88 anos, que começaram em Itatira, passaram por o sertão de Santa Quitéria até Canindé.
Lavrador, homem da roça de formação humilde, da fala simples, alguém que sabe que é pouco no meio das coisas, que talvez seja temente a Deus, mas mostra uma intimidade tanto com Nosso Senhor, quanto com São Francisco, como quem que põe a mesa para a ocasião de visita do amigo.
Quando acorda às 6 horas da manhã, vem, abre a porta, faz o sinal para igreja e para as duas imagens que ficam do lado de fora.
Confere se não aconteceu nada a elas e entra pra tomar o café.
Conta: " Eu tava ali na minha rede, aí a muié me chamou para a eu almoçar, aí eu disse vô já.
E ela disse: '
Desata a rede '.
Não vou desatar a rede não, quando eu der fé, não sei se eu tô pecando, pode ser que nosso senhor vai e se deita em ela cansadinho ..."
De São Francisco se valeu em duas ocasiões.
A primeira quando " eu escapuli de um telhado mais alto que aquela igreja assim, numa distância assim de quatro quilômetros de cabeça abaixo.
Eu ia morrer em cima de pedra dessa grossura.
Anoiteceu, era 12 horas, anoiteceu pra mim, eu com um facão na mão, com as alpargata em outra, ai me vali de São Francisco, cai lá embaixo, bem devagarzinho, não houve nada com mim, conta Antônio, que estava numa caçada de catitu -- porco do mato, na Serra do Céu, no município de Canindé.
A outra foi pra parar com a mania de beber uns golinhos de cachaça.
«Deixei de tudo, tenho nojo da catinga da cachaça.
Ave Maria». Hoje, passa o dia na função de amassar o barro, modelá-lo e levar ao forno, mas sem pressa, devagarzinho, como ele mesmo ressalta.
Só não trabalha de noite, que faz mal para a vista.
Obrigado seu Antônio.
Número de frases: 47
«De nada bixim».
Caso estivesse vivo, o poeta Renato Negrão estaria completando um século de poesia e lirismo.
Como contudo ainda não morreu, ele comemora solitário alguns míseros anos de sobrevivência e intensa atividade poética.
Aliás, nunca soube de outro poeta que tenha chegado vivo à comemoração de seu centenário, seja em caso de vida ou de morte.
O indivíduo em questão constitui assim um paradoxo aparentemente insolúvel dentro dos parâmetros pragmáticos da biologia moderna;
grande poeta que é e consciente, ele próprio, da importância de seu cadáver no mausoléu da melhor tradição poética em língua portuguesa, sabe que não pode abrir mão disto que alguns vão considerar mera formalidade, vaidade ou capricho, a saber:
sua morte incondicional.
Por outro lado, vivo da silva e ainda por cima produzindo como um louco, bradando a cores e ao vivo seus poemas nos ouvidos surdos de seus contemporâneos, o dito cujo sequer pode ser considerado poeta, muito menos um bom poeta.
O fato de estar vivo, e o que é ainda pior, em atividade, impossibilita portanto qualquer tentativa de distanciamento crítico, exclui quase que por completo a viabilidade de uma tese acadêmica e enfim, invalida qualquer investimento no sentido de uma avaliação mais objetiva de sua vida e obra.
Fica o vivente dessa forma, por justa causa, ausente de toda e qualquer antologia de poesia dentro do panorama literário atual, devendo contentar-se com uma ou outra nota, ainda que depreciativa, no segundo caderno de algum jornal local de circulação diária.
Já morto, o inconveniente seria continuar escrevendo poemas a esmo.
Desnortearia por completo a crítica.
Ora, um poeta no final das contas não precisa ter deixado uma obra volumosa para que seja considerada grande.
Veja-se por exemplo o caso de um Isidore Ducasse ou de um Georg Trakl.
Também não precisa ter sido reconhecido por seus contemporâneos e pode até mesmo ter sido ignorado por várias gerações consecutivas, como um Sousândrade, um Yi Sáng.
Pode inclusive ter morrido praticamente inédito, como um Kilkerry, um Fernando Pessoa da vida, mas sobretudo, tem de estar morto.
A obra tampouco necessita estar acabada, nem carece coerência interna, unidade temática, e pode também apresentar altos e baixos, seja lá o que esses critérios de avaliação representem nas mais diversas épocas e contextos.
Agora, algo realmente inaceitável é o abandono radical da atividade poética em vida.
Mesmo Rimbaud, retirando-se estrategicamente para a Abssínia num momento fulcral de suas atividades poéticas, não escapou ao distanciamento crítico de seus contemporâneos, à exceção de Verlaine é claro, e o fato tornou-se somente um dado curioso de sua biografia póstuma.
Portanto, o abandono puro e simples de uma carreira literária não garante reconhecimento imediato e muito menos apaga a existência literária de um poeta.
Ora, se suas atividades pudessem ser consideradas estanques, definitivamente concluídas, poderia se pensar em algum tipo de reconhecimento mórbido em vida.
Mas, por o simples fato do cidadão, sem qualquer cerimônia, num dia qualquer, sem mais nem menos cometer inadvertidamente um poema tudo estaria perdido.
A mera possibilidade de que isso aconteça provoca uma violenta reação involuntária no mundo literário.
Só de pensar que alguém pode, com um simples poema, por a perder todo um arsenal argumentativo consolidado, toda uma empresa corroborada em congressos e comunicações públicas, todos os homens de letra tremem e babam.
Por isso, uma tal atitude de tamanha irresponsabilidade e total falta de consideração para com o trabalho de pessoas sérias é severamente repudiado por todos os homens de bom senso.
Em esses casos nem adianta um juramento de pés juntos lavrado em cartório, com o poeta dando sua palavra de que nunca mais cometeria um verso sequer, pois sabe-se que esse tipo de gente não merece a menor confiança.
Há casos documentados.
Pois bem, retornamos ao ponto inicial;
estando Renato Negrão tão morto quanto vivo, concederia-se-a o poeta a condição limite de um mortovivo.
Diante de tal contra-censo, resta ao leitor por fim, por a saúde de nossas letras, dar seu parecer definitivo:
deve-se matar o poeta que ainda vive ou ressuscitar o poeta morto?
Cartas à redação.
Escrevi esse texto há algum tempo para a orelha do livro inédito, ou melhor, de Renato Negrão.
Número de frases: 33
Quando estávamos preparando o dossiê para a Revista de Autofagia me lembrei de ele e sugeri sua publicação como introdução à entrevista.
Projeto Pixinguinha em Floripa
Recado a quem passar por aqui:
o texto está em gestação.
Durante as próximas 47 horas este espaço deixará de ser alvo (no sentido de brancura e também de objeto de olhares que caem no vácuo).
Aqui começa a se desvanecer a brancura:
Encontros casuais.
Coincidências significativas.
É a tal da sincronicidade?
O batuque está presente.
Diz Hermeto Pascoal que é «o som percussivo da vida».
Se batuca na roda de samba, na mesa de bar, bebendo cachaça e cerveja.
Ou também em palcos, onde a relação é outra e existe a reação do público.
Vi estes dias «Fabricando Tom Zé», e tem um trecho no qual ele diz que sempre percebeu a existência de um acordo tácito na maneira do público receber o que vem do artista.
Diz também que não tem mais saco pra ver espetáculos assim, baseados nesse acordo.
E que se não suporta mais ver / ouvir, também não faz mais.
Estabelece um novo acordo tácito «jogando um anzol no cognitivo da platéia».
Mas Tom Zé é outra praia, outro oceano, outras águas, uma navegação mais vanguardista.
O que vi anteontem foi, nas palavras de Monarco, «samba sem agrotóxico».
Dentro do Projeto Pixinguinha, já renomado, vieram a Floripa dois grupos:
o de Paulo Padilha e o de Monarco, da Portela.
Quer dizer que foi a junção de um compositor jovem, paulista, com um legítimo integrante da velha guarda carioca.
Monarco é da época em que, segundo palavras de ele, «o samba era muito perseguido por a polícia».
Lembro do diálogo com o público, em que à sua maneira também pesca a atenção de todos:
«O gringo quando vem para o Brasil quer ver isso.
Vai para a França, para a Itália, e é o samba o que eles querem ver.
Esse samba, não aquele.
Falo o samba sem agrotóxico».
É claro que ele brincou e disse «agrotóxico» pronunciando o xis como a questão exige.
Um equivalente ao sh que em inglês inicia a palavra «show».
Que é o que fui ver por acaso não tão casual.
Primeiro uma menina me avisou «ó, hoje às sete vai rolar Projeto Pixinguinha, ali no elefante branco» (O elefante branco é o Centro de Convenções e Eventos da Ufsc, que recebeu essa alcunha por ter ficado muitos anos a meio construir, abandonado, e por as dimensões faraônicas do prédio também, claro.).
Depois, cruzei com um amigo que, durante o café, disse que também estava indo.
Liguei, me desvencilhei de obrigações e fui também, sem saber o que vinha.
Então, Monarco e Padilha, cada um com seu grupo, no mesmo palco, que tinha uma mesa no centro.
Não vi cerveja, só água.
Quem sabe por isso mesmo tenha cruzado com um percussionista chamado Samba e outros músicos numa mesa de bar, mais tarde.
Mas isso bem antes de ter mais álcool do que sangue correndo nas veias.
Nunca estudei muita matemática.
Então não escrevo de uma maneira coesa, geometricamente harmônica ou simétrica.
E lembro do Tom Zé de novo:
«Vá tomar no verbo, seu filho da letra».
Relações
Entre Os Papos na Mesa De Bar E O Que Se Viu Em o Palco
Fui fumar o último cigarro antes do início do espetáculo e ouvi o som começar.
Apaguei e entrei logo.
Gostei de descer o corredor rumo à primeira fileira, onde sentei, com a música já acontecendo e as luzes apagadas.
Quem cantava era Paulo Padilha, que se mexe bastante e parece ter uma abordagem bioenergética da música.
Calafrios do bem, aquela história.
Acabou de lançar um disco, chamado «Samba Deslocado, Descolado Samba».
Também estava na mesa de bar, mais tarde.
Tem um sorriso bom.
E cantava quando sentei.
Em o grupo de ele, violão na mão, um cavaco, percussão e mais percussão.
Em o de Monarco, também percussão, sopros clarinete, flauta transversa-e outro violão, este de sete cordas.
Precisaria agora fazer uma pesquisa e listar nomes.
Mesmo sabendo que os músicos que acompanham os «principais» devem também ser iluminados, vou deixar isso pra depois.
Agora quebraria o ritmo.
E ritmo é samba.
E samba, com maiúscula, Samba, era o nome do cara (alto, grandão, do tipo que «Era um prato cheio para a polícia naquela época», segundo Monarco brincalhão) que fez valer o show pra mim.
Ele estava rodeado de uma caixa, um atabaque, um mineiro e outras geografias percussivas.
Em o mapa sonoro, fez uma trajetória colorida.
Em o bar, me disse que «ganharia mais dinheiro continuando com o grupo que eu toco lá, mas aqui com o Padilha é muito bom».
Projeto Pixinguinha é o que há.
Giram o Brasil todo, a estrutura é boa e nada como fazer música em trânsito.
Temporadas em locais fixos são como ir à praia de guarda-chuvas (isso pensei agora, não sei se faz sentido).
Inveja de eles.
Porque o que me resta é beber e pedir um pandeiro emprestado.
Foi o que pude fazer na mesa de bar.
Coloquei o pandeiro entre os joelhos e toquei com as duas mãos.
O dono do instrumento me corrigiu «Pandeiro não se toca assim».
E eu:
«É que estou acostumado com djambê». (
Mentira, batuco no violão mesmo).
Ah, também me proibiram batucar no violão.
Acho que tinha bebido demais.
Mas lembro de ter dito que qualquer instrumento pode ser tocado de muitas maneiras, não existe uma certa.
Em a Portela, seria linchado, tenho certeza.
E Monarco foi outro ponto alto da noite.
Senhor Monarco. Sua Majestade.
Vozeirão, postura de bamba, nada que o passado de ex-parceiro de Candeia e afins não autorize.
Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas jovens que conhecem mais sambas do que eu.
Atrás, ouvia o coro que atendia aos pedidos do sambista.
Conheci músicas novas.
Em a mesa de bar também ouvi do proprietário do pandeiro «somos uma das últimas gerações».
Eu: " Como assim?
Mais livres?».
Ele: " É.
Sem tanta tecnologia e essas coisas».
Ah, sei ...
sem e-mails e tubos de ensaio imagético, serviços de busca e publicidade no contexto ...
sei.
Bom ...
Ser aleatório demais pode espantar leitores.
Tomara que alguém tenha lido até aqui.
Deixo mais verbo guardado pra depois.
Quando tomar uma cerveja, talvez.
Dois textos da Helena Aragão, do ano passado, sobre o Projeto Pixinguinha:
Palmas para a platéia camaleônica
Caravana Hig-Tech
A velha guarda da Portela (formação antiga e formação atual)
Site oficial do músico Paulo Padilha
Acontece.
Coisas caem.
Barulho na hora errada.
A porta de entrada é também o caminho de volta.
A bebida fermentada, misto de lúpulo, cevada e cereais não-malteados, com teor perto de cinco por cem, desceu.
Abro de novo, por dentro, o ovo.
Renasço numa madrugada sem asas. Quanto
menos os vegetais forem expostos ao calor, mais preservam as propriedades vitamínicas.
O que estava esquecido:
Uma cuíca cu.
í. ca
s. f. 1.
Zool. Nome comum de certas espécies pequenas de gambás.
2. Mús.
Espécie de tambor rústico, usado para marcar ritmo de samba.
Eita definição besta.
De tambor cuíca tem pouco ...
até onde lembro não se batuca em ela.
O percussionista chamado Samba usava bem a que teve nas mãos uns momentos.
E serve pra bem mais que marcar ritmo:
cria clima.
Sejamos sintéticos, então, evitando os pesticidas:
As canções de Paulo Padilha têm uma coisa muito boa, são composições de ele, próprias.
De ele próprio.
E todas bem sacadas, com humor.
Descobri nessas pesquisas-relâmpago que ele fez parte do " Aquilo Del Em isso, quase vi numa ida a São Paulo, mas acabei não indo.
Hoje está em carreira solo.
Também descobri que tem outros por o menos-dois discos, com nomes simples:
«Cara Legal», ou algo assim, e «Certeza».
Agora fiquei na dúvida, já não sei se era legal ou quê ...
Achei ele legal, falo do nome do disco.
É tudo um risco.
Em o disco, às vezes.
E por isso escondi os ruídos.
A parede que ruiu.
A proteção que não chega a ser máscara mas nos protege no cotidiano.
E que se esvai ao beber além da conta. (
Paguei a soma monetária direitinho, meu corpo ainda paga a conta celular até agora, mesmo que não tenha feito ligações naquela noite).
Associações bestas.
Uma ida ao banheiro feminino porque o masculino estava ocupado.
Inconveniências de bêbado ...
Agradeço a quem não me bateu.
Qualquer erro ou salto precipsíquico deve ser atribuído à carência neurológica que experimento.
Última coincidência significativa:
Ouço, enquanto escrevo esta última parte, desarte derradeira, quase desastre, Maria Preá, um deleite.
E acabo de consultar o encarte, já que é o último cedê que comprei (quase tudo o que tenho é mp3).
Faixa 9, ficha técnica da música que mais me cativou do álbum todo (Avesso é o nome), por a energia da versão de Caxangá, de Milton Nascimento e Fernando Brant:
Voz ...
Laeticia Violões ...
Rodrigo Bragança Percussão ...
Samba (Nunca teria sabido que é o nome do cara se não tivesse ido ver o Projeto Pixinguinha.
Nem vou conferir, só pode ser ele, por o som).
E vale a citação (se apareceu, é pra usar):
«Luto Para Viver Vivo Para Morrer
Enquanto A Minha Morte Não Vem ...
Em Volta do Fogo Todo Mundo Abrindo O Jogo
Conto O que Tem Pra Contar
Casos E Desejos Coisas De essa Vida e da Outra
Mas Nada De Assustar
Quem Não É Sincero Sai da Brincadeira Correndo
Pois Pode SE Queimar».
...
E o samba é muito bom.
Tanto a pessoa ritmista quanto o outro, que já virou patrimônio cultural brasileiro (copyleft: ONU / Monarco).
Número de frases: 166
Quem pensa que jovens rurais não discutem temas como educação, esporte e cultura, por morarem na roça, está enganado.
O 1° Festival Nacional da Juventude Rural, realizado em Brasília no período de 26 a 29 de março, prova que o jovem do campo tem muito a dizer.
O evento, organizado por a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), reuniu mais de cinco mil jovens de todo o país.
E Rondônia não poderia ficar de fora.
A juventude rural de Rondônia foi representada por mais de 200 pessoas, segundo Fábio Menezes, coordenador da Comissão Estadual de Jovens da Fetagro (Federação dos Trabalhadores na Agricultura).
São os jovens que se destacaram no Festival Estadual da Juventude Rural, ocorrido no ano passado em Cacoal, como é o caso de Alessandro Alves, de Jaru, que, em Brasília, foi o vencedor do Hino Nacional da Juventude.
Apesar de não contar com a ajuda de patrocinadores, os jovens mostraram que também têm sua força.
«O jovem tem saído do campo em busca de educação porque falta escola, infra-estrutura e benefícios», afirma Fábio.
O que acaba acontecendo, na maioria das vezes, é que os jovens que precisam estudar são obrigados a se deslocarem do campo até a cidade até para não largar os estudos.
Para ele, o Festival Nacional é um reflexo da organização da juventude rural nos Estados.
Em o último dia do Festival, após debates e apresentações culturais, os manifestantes fizeram uma caminhada até o Congresso Nacional para entregar à Comissão Parlamentar da Juventude o documento final do encontro e a Carta da Juventude ao Presidente Lula.
Número de frases: 11
Uma evolução da Soma, de Roberto Freire.
Com a biologia do conhecer, Rui Takeguma, reestruturou a teoria somática:
bioenergética + gestaterapia + antipsiquiatria + capoeira angola + anarquismo.
A Somaterapia é uma vertente dos processos terapêuticos que opta em priorizar uma visão holística no meio da psicologia.
A Psicologia nasceu e mantém uma visão de que o pensamento (cérebro e processos mentais) são hierarquicamente superiores ao corpo (corporalidade).
Assim as somaterapias fazem parte de um arcabouço cultural das Somatologias.
Em a década de 1970.
Roberto Freire começou a desenvolver uma somaterapia que recebeu o nome de Soma, Uma Terapia Anarquista.
Desde então formou vários somaterapeutas de Soma, houveram várias dissidências, pessoas que trabalharam com Freire, e depois buscaram seus próprios caminhos.
Rui TAKEGUMA fez Soma em 1990, e formação de 1990 a 1993.
De 1993 em diante atuou como Somaterapeuta de Soma em várias cidades e Estados brasileiros.
Participou da criação do Coletivo Anarquista Brancaleone em 1991, e após 10 anos atuando junto a outros somaterapeutas, resolveu experimentar um caminho solo, no final de 2000, onde se afastou do Coletivo Brancaleone (ver Observação no final desse texto).
Em o ano de 2001, mantinha o Espaço Cultural Tesão (remanescente das Casas da Soma anteriores) e era supervisionado por Roberto Freire.
Após um ano de intrigas e fofocas, resolve no início de 2002, se separar também de Roberto Freire, que estava preferindo os caminhos do Brancaleone, que também supervisionava nessa época.
Assim, em 2002 nasceu a Soma-IÊ, ou seja, a Soma que Rui Takeguma pesquisava.
Adotou esse nome para homenagear a Soma e Roberto Freire, e agregou o IÊ como uma referência ao ambiente da cultura popular:
a capoeira.
Em 2003, retira o hífen e mantém o nome SOMAIÊ desde então.
De essa forma, a SOMAIÊ existe há 7 anos (2002/2008), mas sintetiza o percurso prático e teórico de 19 anos (1990/2008) de Rui Takeguma dentro da Somaterapia.
Hoje em dia, há mudanças Prática e Teóricas da Soma que Takeguma praticou na década de 1990.
Em a parte Teórica, a maior mudança é a contribuição da Biologia do Conhecer de Humberto Maturana, neurocientista chileno que propõe uma nova forma de se perceber a realidade.
Além de uma radicalidade que Rui Takeguma aprendeu com Freire no aspecto ideológico e que o fez se separar de outros somaterapeutas que rumam ao academicismo e as instituições, como forma de adequações da Soma a atualidade (OBSERVAÇÃO 2).
Em a parte Prática, Takeguma mantém vivas as experiências em Pedagogia Libertária que o Brancaleone desenvolveu na década de 1990, inclusive incorporando a técnica pedagógica e terapêutica que é a SOMAIÊ.
Os Manifestos recentes são formas de entender as propostas da SOMAIÊ na atualidade deste final da primeira década de um novo milênio.
A Somaiê é uma coisa vagabunda?
Somaiê, uma vivência libertária
Carta aberta à Humberto Maturana
Por um anarquismo somático radical
Observação 1 -- Mais importante se torna a saída de Rui Takeguma do Coletivo Brancaleone, onde por insatisfação pessoal ele propôs sua saída (secessão) e que foi consensual na época, e hoje o Coletivo Brancaleone ensina a seus novos formandos que expulsaram Takeguma.
Para isso é ver os debates que o somaterapeuta Stéfanis fez dentro do ORKUT nas comunidades da Soma e depois se afastou deixando os link anônimos.
Observação
2 -- Em outubro de 2006, Roberto Freire reedita o primeiro volume do Livro da Soma, que era A Alma é o Corpo e agora, se chama O Tesão por a Vida.
Em esta atualização ele anuncia esses novos caminhos para a Soma.
Como Funciona a Somaiê?
O objetivo da Somaiê é promover experiências num grupo de pessoas entre 12 a 21 meses, criando um microcosmo de relacionamento, convivência e produção em três níveis de produção:
-- Com O SOMATERAPEUTA:
são as atividades conduzidas por o somaterapeuta de Somaiê responsável por o grupo.
No geral são 4 Vivências Corporais mensais (VC).
Sendo que a primeira metade (1h30) é voltada para atividades corporais lúdicas, e a segunda metade (1h30) para a avaliação e trocas de informações sobre a primeira metade.
Em essas 4 vivências, o produtor de Somaiê seleciona as atividades (exercícios de Soma, capoeira angola e pedagogia libertária) em função da dinâmica do grupo.
3/5 dos meses seguem essa prática, porém 1/5 são adaptados a vivências junto a natureza (MC) e 1/5 dentro de cursos abertos de pedagogia libertária (Encontros de Te & So).
Mais detalhes abaixo no mapa geral.
-- Com O Grupo:
são as atividades sem a presença do produtor de Somaiê:
o Grupão, momento fundamental para o grupo construir uma dinâmica própria e autogestiva, seja para oa membros aprofundarem suas relações, adquirir fundos para o pagamento da Somaiê, ou ainda pesquisas em pedagogia libertária.
E o Capoeirão momento em que os membros do grupo trocam experiências do seu aprendizado na capoeira pois, normalmente treinam em grupos variados de capoeira na cidade (o Capoeirão começa a acontecer depois da primeira vivência de campo).
-- Individualmente:
são as atividades desenvolvidas por membros do grupo de forma individual:
a prática semanal da Capoeira Angola, que durante a existência da Somaiê, necessita acontecer em qualquer grupo da linhagem de angola, no mínimo um treino por semana e o ideal com 3 a 4 treinos semanais.
No decorrer da Somaiê, há indicações de leituras e pesquisas feitas individualmente.
Essas atividades mensais fortalecem a dinâmica do grupo, as pessoas se conhecendo numa prática de situações diferentes.
As atividades tem um caráter pedagógico e diagnóstico, ao nos mostrar os bloqueios e libertarismos, como ao vivenciar estes momentos, vem o caráter terapêutico.
Em os últimos meses, as vivências corporais (VC) são transformadas em vivências dedicadas a cada membro do grupo.
São as cadeiras quente (CQ), onde toda a técnica e dinâmica é voltada para cada um.
A passagem por a SOMAIÊ, é um marco na vida de seus participantes, e quem chega ao final, completando as cadeiras quentes, a última vivência de campo, e a produção do Jornal Tesão, obtém um material sobre si e seu viver que modificam sua estrutura autopoiética de uma forma definitiva.
A passagem por a SOMAIÊ é uma forma de desconstruir a percepção do Universo numa realidade e aceitar a constituição biológica do MULTIVERSO e suas infinitas realidades possíveis;
é uma forma de expandir sua corporalidade através do desenvolvimento de suas Potencialidade Múltiplas no viver ...
Número de frases: 57
Não é fácil produzir arte no Brasil.
Creio que este comentário já superou a simples condição de lugar-comum, clichê de crítica, e se tornou quase uma regra.
Mas existe no brasileiro uma capacidade criativa que, apesar dos percalços, sempre supera o desânimo.
Em o plano editorial, principalmente, temos uma grande defasagem de produção (e venda).
Muitos bons livros poderiam ser produzidos, ótimos escritores revelados, se houvesse alguma saída adequada para que estes pudessem editar suas obras, e colocá-las à mercê não de críticos ou analistas editoriais, mas do público direto.
Em 2006 eu tive a chance de ler uma pequena matéria num pequeno site brasileiro de notícias.
A notícia falava de uma empresa americana com o inusitado nome de «Lulu», a qual oferecia condições para que qualquer um pudesse editar o seu livro, de qualquer assunto, com qualquer número de páginas, através de um sistema simples de cadastramento e auto-produ ção gráfica.
Mais ainda, a empresa oferece o serviço de graça, e permite que o próprio autor realize revisões, alterações e comercialização.
É óbvio que a Lulu recebe por a impressão do livro e sua venda, mas as porcentagens não são absurdas.
Além disso, não há número mínimo de impressões.
Em a verdade, o livro não existe fisicamente até o momento em que alguém o compra.
Quando isso acontece, o arquivo da obra (em doc convertido em pdf) segue para a gráfica e será impresso apenas na quantidade vendida, seja uma cópia ou duas mil.
Os direitos autorais são mantidos, seja a partir de um padrão americano de direitos, ou se o autor julgar mais seguro (eu mesmo fiz isso), pode-se comprar o ISBN e o registro da obra através do site da Biblioteca Nacional http://www.bn.br/.
Achei a iniciativa ótima, e me cadastrei no site da empresa.
Tendo já uma produção literária razoável, e sendo eu mesmo artista plástico e gráfico, produzi quatro títulos até agora.
A qualidade gráfica chega a ser superior a muitas publicações brasileiras, e o trabalho de impressão é completamente profissional.
Quais são os contras?
Eles sempre existem.
Primeiramente, a espinha dorsal da dinâmica de criação em arte é a sua distribuição e divulgação;
a Lulu não faz nada disso, exceto se vc resolver contratá-la para tal -- mas o fato é que esta facilidade da empresa (que não tem filial no Brasil ou América Latina) somente funciona bem para obras em inglês, ou de países europeus ocidentais.
Obras em português se perdem no triste e lamentável vácuo de consumo cultural que infecta nossa sociedade, onde uma parcela pequena da população possui interesse e iniciativa para comprar livros em português que não tenham sido incensados por a crítica e / ou mídia ou que já não sejam fenômenos de venda.
Em segundo lugar, embora o preço de um livro fique dentro do padrão comum (entre 20 a 50 reais, em média e dependendo do número de páginas e margem de lucro do autor -- que ele mesmo decide), a venda e postagem são feitas em dólar, via cartão de crédito.
Claro que o autor pode investir em seu próprio trabalho, comprando uma quantidade e revendendo no Brasil para os interessados, ou distribuindo a produção em livrarias alternativas.
Finalmente, se o autor não tiver o dom de saber criar layout de capa e diagramar corretamente, será obrigado a usar os templates do site, que não chegam a ser ruins -- mas são exatamente isso:
padrões genéricos, e portanto sem apelo visual -- ou então contratar um artista para fazer o trabalho, o que pode ser custoso.
Como se sabe, a apresentação de um livro conta muito;
se vc criar um ótimo trabalho e mostrá-lo sob um layout de capa mal-feito, com certeza muitos interessados potenciais irão desanimar em adquirir o seu livro.
Apesar destas sérias limitações, ainda assim sugiro a todos analisar com cuidado a iniciativa, visitando o site http://www.lulu.com/.
Até mesmo para aqueles que simplesmente gostariam de ver seus escritos publicados em formato de livro -- uma forma de se sentir parte do mundo literário real, e não apenas virtual -- para que possam dar alguns exemplares de presente aos amigos, a empresa é uma ótima opção.
Infelizmente, no Brasil esta é uma iniciativa que não tem respaldo igual.
Existem algumas poucas editoras virtuais, mas não gratuitas (se alguém souber de alguma que se iguale ou supere a estrutura da Lulu, por favor a divulgue), e nenhuma com uma proposta editorial «on demand» que cause muito interesse aos autores que não possuam condição financeira suficiente para arriscar investir muito dinheiro numa produção de centenas ou milhares de obras, sem garantia de venda.
Para que todos possam ter uma idéia do modo de editoração da Lulu, gostaria de divulgar dois títulos meus apresentados na página da empresa:
O Hóspede da Caverna -- Uma coletânea de ensaios meus sobre filosofia zen buddhista e humanismo
http://www.lulu.com/content/ 585251
O Bosque de Bambus -- Minha coletânea de poesias Haiku (tradicionais na cultura japonesa)
http://www.lulu.com/content/ 630312
Portanto, eis a minha dica para todos.
Espero que ela seja útil para despertar «energias» de auto-publica ção em alguns dos autores do Overmundo.
:) Em o Dharma,
Número de frases: 39
Claudio Miklos Não sei quantos foram os que se indignaram nem quantos deixaram de perceber o artifício da Rede Globo de Televisão de tratar das novas regras de classificação indicativa para a programação de TV.
Pelo menos eu não vi a questão ser debatida por aqui.
Para quem não está por dentro do assunto, foi publicada no dia 12 de fevereiro deste ano uma Portaria do Ministério da Justiça (264/07) que regula a classificação indicativa de programas, filmes ou qualquer obra de audiovisual exibidos por as emissoras de televisão.
Ela substitui a portaria 796/00 e traz como principais novidades o uso de símbolos para indicar as faixas etárias e a exigência de adequar a programação ao fuso horário local.
Para mais informações sobre a Portaria, veja aqui.
Acontece que a Globo, como sempre faz quando pode entrar em vigor algum tipo de regulação que contrarie os seus interesses, apressa-se a taxar a referida regulação como um mecanismo de censura.
O cenário montado geralmente é o seguinte:
-- Artistas globais dando declarações e levando cartas para ministros ou mesmo o presidente;
-- Os programas de jornalismo da emissora repetidamente veiculando matérias altamente tendenciosas sobre a pauta;
-- Deputados e senadores «amigos» fazendo discursos veementes e severas críticas à questão;
-- às vezes, uma ou outra organização da sociedade civil dizendo que «não houve debate» sobre o assunto.
Já vimos o estrago que essa movimentação é capaz de fazer.
A ANCINAV, iniciativa do Ministério da Cultura, foi simplesmente fuzilada por todos os lados.
Outro exemplo é o Conselho Federal de Jornalismo, uma provocação que, inclusive, o governo havia recebido da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).
Embora concorde com o grosso das duas propostas, não gostaria nem de entrar no mérito de elas.
Para mim, o que importa é que ambas foram publicamente execradas sem que sequer houvesse -- aí sim -- um debate público consistente sobre o assunto.
Para mim, tachar qualquer proposição de censura é um mecanismo extremamente autoritário, que tem como único objetivo encerrar o diálogo sobre o assunto e não discutir o cerne da proposta.
Mas desta vez a Globo se superou e mandou às favas o respeito à sociedade brasileira.
Pôs no ar, parece que já há algum tempo, uma campanha contrária às novas regras da classificação indicativa, só que sem referir-se claramente ao tema.
E ainda incluiu a campanha naquela série «Cidadania. A gente vê por aqui.», como se estivesse prestando um serviço à sociedade!
Novamente, a emissora esforça-se para legitimar causa própria como se fosse algo de interesse da sociedade.
E faz isso da pior forma possível, tentando conquistar, através da repetição exaustiva de mensagens subliminares, a audiência para a sua -- e somente sua -- causa.
Há um texto no observatório da imprensa que considero bastante esclarecedor sobre o assunto.
Por favor, prestem atenção na programação da TV e nessa campanha.
E talvez vocês fiquem tão indignados quanto eu.
Quem quiser equilibrar um pouco a situação, pode ver a campanha feita por o Ministério da Justiça e veiculada nas TVs públicas.
Finalmente, o texto do Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, posicionando-se sobre a questão.
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Vassouras com seus cerca de 35 mil habitantes tem, nos últimos anos, procurado aplicar investimentos no Agroturismo e no Turismo Histórico-Cultural como forma de buscar um desenvolvimento sustentável para a região, já que se localizam no seu município a maioria das antigas fazendas imperiais remanescentes do riquíssimo Ciclo do Café acontecido no Vale do Médio Paraíba no século 19.
A própria cidade de Vassouras, a mais importante da província fluminense no período, teve seu centro histórico tombado por o IPHAN em 1958, propiciando um programa de visitas turísticas centradas no seu patrimônio arquitetônico.
A principal iniciativa nessa direção tem sido o Festival Vale do Café que aconteceu agora em julho de 2007, em sua quinta edição consecutiva, e que durante dez dias trouxe música, principalmente instrumental, para Vassouras e as cidades vizinhas de Piraí, Valença, Barra do Piraí, Mendes, Paulo de Frontin, Paty do Alferes e Rio das Flores.
O Festival, uma idéia da harpista carioca Cristina Braga e do violonista maranhense radicado no Rio Turíbio Santos, os dois com renome e carreiras internacionais, tem sido um sucesso de público desde a sua primeira edição em 2003.
A favor disso conta o extremo cuidado com a programação escolhida trazendo sempre nomes de qualidade da música instrumental brasileira (bem como também alguns cantores) como Leo Gandelman, Duo Fel, Carlos Malta, Arthur Moreira Lima, Daniela Spielmann, Guinga, Paula Santoro, Victor Biglione, Quadro Cervantes e muitos outros.
Cristina Braga, desde o início, embora com pouco conhecimento, fez questão de abrir algum espaço para os grupos ligados as manifestações das tradições populares, que eram pouco conhecidos fora de suas comunidades.
Excetuando-se a Folia de Reis, extremamente popular em Vassouras (e de grande alcance por todo o interior fluminense) e a Capoeira (organizada nacionalmente), o Jongo e Caxambu (que na verdade são a mesma coisa), o Maculelê, a Caninha Verde e o Calango não tinham, fora de seus redutos, qualquer visibilidade e mesmo no seu interior sofriam um processo de esvaziamento, por conta, entre outros motivos, da cerrada oposição das igrejas evangélicas que se espalham por as comunidades em todo o estado.
Em 2005, durante a terceira edição do Festival, o evento tentou incluir algumas dessas manifestações populares utilizando o amplo espaço da praça e até mesmo a torre da igreja com canhões de luz num roteiro teatralizado que buscava um grande impacto visual.
O que se observava era a tentativa de trazer esses grupos para uma proposta de show musical, consoante todos os outros artistas contratados, mas completamente afastada do que os grupos consideravam sua linguagem e seu espaço de atuação.
Procurando-se um contato mais de perto, até mesmo para identificar as manifestações dessas comunidades para sua inserção no Festival, chegou-se a André Jacques Monteiro, estudante de História e professor de terapias corporais em Vassouras, que atuava muito próximo a elas por conta do projeto Movendo Saúde, da Secretaria de Saúde que lhe permitia manter um contato estreito e constante (desde 2002) com mais de uma dezena de Unidades de Saúde da Família por todo o interior do município.
André tornou-se o interlocutor inicial para o contato com essas comunidades.
Para dar visibilidade ao conjunto dessas manifestações, a direção do Festival foi buscar no carnaval carioca um formato que pretendia atender a essas necessidades:
o desfile.
O que se percebeu é que, ao contrário do samba-de-enredo, estávamos falando de elementos musicais totalmente diversos e diferentes entre si, e com suas danças e instrumentos completamente inadequados a um desfile nos moldes carnavalescos.
Um formato híbrido acabou surgindo, experimentado na edição anterior e aprimorado este ano com a participação das produtoras culturais Vânia Mattos e Marina França, do jornalista local José Luiz Medeiros Jr., de André Jacques Monteiro e da cantora, compositora e percussionista Girlei Miranda que ajudou a coordenar o trabalho musical:
Um Cortejo único, o Cortejo das Tradições (idéia de André, inspirado nos trabalhos de sua mãe, Lena Martins da Cooperativa Abayomi) onde todos os grupos desfilam em «alas» tendo a frente as Rezadeiras (também conhecidas em outras regiões como benzedeiras), saindo do Memorial de Manuel Congo em direção a praça principal da cidade, cantando em conjunto uma mesma «música-enredo» (composta por Ricardo Medeiros e Cristina Braga) com o suporte de uma banda de percussão (ao estilo bloco carnavalesco) organizada por os alunos do Programa Integração por a Música -- Pim, ong de Vassouras.
A o final desse cortejo os grupos ocupam, todos ao mesmo tempo, espaços pré-determinados na praça onde realizam apresentações simultâneas.
A o cair da tarde e já entrando por a noite, com a ajuda de spots de iluminação, as rodas causam um grande efeito fazendo do encerramento do Festival Vale do Café um belo espetáculo visual.
Turistas e visitantes, bem como a população geral de Vassouras, se deparam ali com danças, cantos e músicas com as quais pouco contato têm durante o ano.
Mestres da tradição popular tem ali um espaço de visibilidade que é raro em outras ocasiões.
Mesmo assim, esses Mestres percebem que o caminho para o seu reconhecimento efetivo ainda não se confirma totalmente.
A própria forma do Cortejo encontra alguma resistência.
As roupas são o elemento mais visível dessa inquietude.
Os figurinos produzidos por uma experiente dupla de figurinistas e carnavalescos, Samuel Abrantes e Suely Gerhard, embora de grande apelo visual, carecem de traduzir totalmente as necessidades simbólicas desses grupos, até por não terem sido por eles discutidas e questionadas em profundidade.
A Caninha Verde de Ferreiros (um dos distritos de Vassouras) inclusive nem chegou a utilizá-los.
O Cortejo, enquanto desfile por as ruas, parece deixar pouco à vontade alguns dos grupos, embora de modo geral todos tenham gostado do evento, por a oportunidade do congraçamento.
A solução para a «apresentação» inicial desses grupos, caso seja mantida, talvez tenha que buscar algum outro formato.
Em a cidade de Cordeiro, assisti a um encontro de vários grupos de Folia de Reis que assomavam a praça principal vindo de diferentes direções, todos cantando e dançando seu próprio repertório.
Mas conciliar grupos tão diversos como Calango, Jongo, Maculelê e Capoeira será sempre problemático.
No entanto, o que parece estar em jogo, de um lado é o modo como o Festival enxerga e determina a participação desses grupos na sua programação, e de outro as reais necessidades e aspirações desses grupos.
A primeira e visível determinação é a de constranger todos os grupos, num só dia, no espaço inclinado da praça, numa espécie de «reserva indígena» que nada tem a ver com a organização territorial que originalmente os grupos utilizam.
Se para a Capoeira isso não é problema, acostumados historicamente a improvisar espaços onde fosse possível, a Caninha Verde, por exemplo, se ressentiu de um «chão» firme onde sua dança possa ressoar e se expressar com mais autoridade, conforme comentou Telma Barbosa Sant'Anna, uma das líderes do grupo de Caninha Verde de São Sebastião dos Ferreiros.
Para Nilton Dias da Rosa, o «Seu Filhinho Santana», um dos mais antigos cantadores da Caninha Verde de Vassouras o saldo foi positivo.
João Henrique Barbosa, jornalista local, em comentário aqui mesmo no Overmundo, é quem melhor expressa essas dúvidas:
«( ...) Ficamos no fio da navalha.
O Cortejo dá visibilidade a manifestações que muitos vassourenses mesmo não conheciam. ( ...)
Cabe aos atores envolvidos garantir que este risco seja sempre um risco calculado.
E que o Festival se esforce para não perder a ligação com a comunidade.
Se este elo não for intensificado, todos sairemos perdendo."
Eis a lista dos Grupos participantes do Cortejo das Tradições
no encerramento do Festival em 2007:
Rezadeiras (de Vassouras)
Caninha Verde de Ferreiros (Vassouras)
Capoeira e Maculelê Abadá (Vassouras)
Arte Rasteira Capoeira (Vassouras)
Caxambu Renascer de Vassouras Grupo de Calangueiros (Vassouras)
Folia de Reis de Vassouras Jongo de Pinheiral
Jongo de Arrozal (distrito de Piraí)
Jongo de Barra do Piraí Folia de Reis de Valença
Folia de Reis de Paulo de Frontin Folia de Reis de Vassouras --
Programa Integração por a Música (
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Vassouras -- comunidade participante)
Em dias ocupados por telas virtuais ainda há quem prefira o impresso.
Principalmente quando se fala de fanzines.
O termo que nos faz lembrar de recortes, colagens e jornalismo instintivo, há tempos está mais amplo:
nas páginas mais HQs, poesias, contos, colagens, experimentações gráficas, enfim, assuntos que circulam fora do circuito comercial.
Com a Internet apareceram versões on-line dos impressos e os que só circulam na rede -- os ' e-Zines ' como Peqeno Mudo.
Mas quem acredita no fim dos fanzines exclusivamente impressos?
Tem ' fanzineiro (a) ' que não troca a magia do papel e processo original por nada!
A passagem por Natal dos editores Renato Silva (Colateral, SP) e Carolina Morena (Zona Zine, PB), inspirou um bate papo gravado para o primeiro programa da Rádio [R], braço sonoro do fanzine local Lado [R] com 3 edições publicadas.
A dupla mantém fanzines fora da web e acha que esse é verdadeira essência da coisa.
Sob uma lua nova em Ponta Negra, bairro praiano da zona sul de Natal, no alto de um prédio, a conversa fluiu e as palavras escaparam para esta dimensão:
::: Dimetrius Ferreira -- O fanzine por ser uma mídia underground, tem que falar só sobre esse meio?
::: Carolina Morena -- De forma alguma!
Até porque hoje os zines não circulam só nesse mundo.
Só acho que zine é o meio que mais conhecemos por underground porque é uma maneira barata de ser publicar alguma coisa.
Mas não precisa necessariamente falar sobre isso ou aquilo, basta ser fã de alguma coisa e escrever sobre o que gosta.
::: Renato Silva -- Um zine não deve só tratar de assuntos ligado ao underground.
Até porque eu tenho uma posição um pouco estreita sobre esse conceito.
O que é underground hoje?
Onde está?
O caráter do colateral tem um pouco da de essa contestação.
A internet trouxe tudo para superfície, então não consigo enxergar esse ' underground'.
Hoje todo mundo tem acesso a tudo então acho que não existe mais underground!
::: Renata Marques -- Em a visão de vocês, os blogs são fanzines virtuais?
::: Carolina Morena -- Se pensarmos na estética, conteúdo e na linguagem é sim.
Mas fanzine não é só conteúdo é um meio de produção, é um ideal.
Existe uma página na Internet, que falam sobre assunto que também os zines falam, mas no meu ponto de vista eles não são fanzines porque já encontraram outro meio de divulgar:
a Internet.
Zine de verdade é zine é feito na mão e no papel.
::: Dimetrius Ferreira -- Qual a fase mais saborosa da produção de um fanzine?
Renato Silva -- O fanzine só é feito com paixão!
Pra mim o tesão maior é ver o conteúdo e o feed back da galera.
::: Carolina Morena -- Eu adoro a montagem e também do último passo do fanzine, que é quando você não fala mais sobre ele com uma pessoa que você conheceu por conta de ele.
::: Renata Marques -- Como surge uma edição?
Renato Silva -- Geralmente quando acaba um já tem material para o outro.
São coisas que chegam depois do fechamento e você já separa para a próxima edição, muitas vezes até por questão financeira.
No caso do Colateral a vida de cada colaborador também interfere na criação do zine:
desde o cara que desenha os quadrinhos até a pessoa que ajuda a digitar e divulgar o material.
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Por isso digo que o Colateral não acaba no papel, também está nas rodas que falam de ele.
Em maio, as guitarras vão gritar no meio da selva amazônica.
E aí?
Você vai ficar fora dessa?
Acho que não.
Então é melhor se adiantar e enviar um CD com três músicas de autoria própria, fotos (CD ou papel), release completo e vídeo (que não é requisito) até o dia 30 de abril para a rua Major Amarante, 871, bairro Arigolândia, CEP:
78902-180, Porto Velho, Rondônia.
Trata-se do Madeira Festival 2006, o maior festival de rock na região Norte, que será realizado em maio deste ano, na capital de Rondônia.
Ricardo Erse, um dos organizadores do evento, disse que todas as informações para as bandas estão disponíveis no site oficial do Madeira Festival (www.madeirafestival.com.br), onde também é possível ver a estrutura do festival nas edições anteriores e sacar o tamanho do evento.
O sucesso Madeira pode ser visto também nas páginas da internet, seja na comunidade do festival no site de relacionamentos Orkut, que já tem mais três mil internautas, seja no flog do evento (www.fotolog.net/madeirafestival), «Acho que é maior comunidade do Estado», arrisca Erse, referindo ao Orkut.
Madeira Festival
Reunir bandas de vários Estados e fazer rolar rock ' n roll durante três dias na terra do Rio Madeira.
Não é à toa que o evento tem esse nome, tão forte quanto a correnteza deste rio, é o Madeira Festival.
Desde sua primeira edição, em 2001, o festival cresce, tanto em público, quanto em estrutura e qualidade das apresentações.
Colocar no mesmo palco bandas locais e artistas de nome nacional é uma das características do evento.
Titãs, Pitty, Ls Jack, Detonautas, Tihuana e O Rappa já pintaram por aqui e muito mais surpresas são preparadas para 2006.
Além de ser único o evento local que já teve a cobertura nacional da MTV, em 2004 e 2005.
O Madeira Festival é organizado por a ONG Anjos da Cidadania, e cobra, junto com o ingresso, um quilo de alimento não-perecível por dia de evento.
O festival não é um concurso, o maior prêmio é a participação dos artistas da terra e do circuito alternativo diante de um público que não teriam em outro evento.
Ano passado, mais de 20 mil pessoas prestigiaram o Madeira.
Número de frases: 20
Sabe a roda de pogo?
Aquela que o pessoal sai girando ensandecido no meio do show?
Durante o do Forgotten Boys tinha uma perna que girava no meio das cabeças.
Não pergunte como.
O sábado do Abril para o Rock foi louco, e a banda de São Paulo, os Forgotten (garotos esquecidos, na tradução), é ótima.
Voz no timbre certo para o tipo de música que eles tocam.
O tipo de música que faz uma perna aparecer no meio da roda.
Diversão pura.
A noite começou com um atraso saudável.
Pouca gente se disponibiliza sair de casa às 17h para um show de rock.
Então, quando a banda bahiana Lou subiu no palco às 18h, já tinham consideráveis 200 pessoas de platéia.
Complicado olhar elas tocarem e não pensar em Pitty.
De a mesma cidade, com um som tão parecido.
A graça da Lou fica mesmo com a personalidade distinta de cada uma das integrantes.
Uma guitarrista toca como se fosse o fim do mundo, a outra como se estivesse se escondendo de alguém.
E tudo casa direitinho com a cara da banda.
Um dos momentos mais legais de todo dia viria na seqüência, com o já citado show da Forgotten Boys.
Rock direto e instigante, cantado em inglês, com quase mil pessoas na frente do palco.
O clima favoreceu a novata Medulla, que se apresentou na seqüência no palco 2.
Em a linha O Rappa/Charlie Brown, os gêmeos (que são do Recife) mandam muito bem no palco.
Ficam distante apenas do restante da banda, mais velha, numa pose de profissional.
A parte hardcore da noite encerrou com o Cólera.
«Ainda estamos comemorando os 25 anos da banda com esse show», comentou depois o vocalista Redson.
Comemoração bem arquitetada, porque no palco eles tocaram apenas músicas do último disco, deixando os clássicos apenas para o encerramento.
O público não se incomodou.
Cantavam juntos todas as letras, explicando o motivo da celebração da banda.
Não é fácil ser uma banda punk no Brasil e sobreviver tanto tempo, sempre renovando os fãs.
Apesar dessa divisão clara nos gêneros da noite, o público era bem unido.
Camisas do Ramones passeavam com umas do Cradle of Filth e outros nomes complicados do metal.
«Eu vim aqui só para ver até o Cólera, agora vou ficar assistindo de longe», disse Felipe Melo, 22, estudante.
Ao lado de ele, o colega Pedro, 21, também estudante, se preparava para tomar a frente dos palcos.
«Agora sim vão começar os shows legais», se empolgava.
Era hora do Terra Prima.
A banda de Pernambuco entrou no segundo lugar para show mais legal da noite.
A verdade é que esse tipo de som não exige um público tão empolgado quanto o hardcore.
Foi a transição dos shows anteriores para os próximos.
Atrocity e Leave's Eye (pacote dois num do festival, já que são a mesma banda), chegou mais carregados de clichês, poses e muito cabelo.
A apresentação era bem pré-formatada, incluindo o playback de alguns instrumentos.
Dispensável foi o show da Ungodly.
A banda da Bahia conversou com o público em inglês e nem mesmo um cover de Slayer salvou a pretensão.
A noite fechou com o Angra, que tocou pela primeira vez no Abril para o Rock.
Novidade para o festival, mas não para o público, que já conhecia aquele mesmo repertório da noite.
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Com tanta diversão no inicio, o sábado merecia um encerramento com mais estilo.
«Evolution» era o som que ecoava dentro do compartimento central da nave, e numa altura tal, que parecia que toda a energia musical fosse a força motriz que impulsionava a espaçonave por o espaço afora;
e quem prestasse atenção naquele objeto luminoso e brilhante em contraste com o céu azul e límpido, cortando os limites do horizonte, perceberia que estranhamente, ele ia avançando de um lado para o outro, como um pêndulo, e, às vezes, estancava no meio do movimento, permanecia parado, completamente imóvel por um curto período, para depois retornar à sua viagem no embalo inusual, excêntrico.
Mas, de vez em quando, continuava dando suas paradas de formas contínuas e freqüentes, parecendo que o piloto ficava perdido na rota a seguir ...
O que era visto de fora dava a impressão de problemas de direção;
internamente, o piloto estava apenas mexendo no aparelho extravisão, buscando no canal galáctico uma estação de comunicação terrestre que tivesse músicas para ouvir, enquanto testava a sua nave na atmosfera do planeta.
O som do Pearjam fluía através dos filtros cristalinos, numa sonoridade tão especial, repleto de luzes multicoloridas, que vibravam ao ritmo da guitarra e da bateria.
E, M'Ewbar apreciava muito aquele tipo de música, pois mexia com o seu corpo, ativava o seu nível melanínico, lhe dando uma aparência e comportamento mais jovial.
E por causa disso, atravessava quase a distância de dois parcecs, do seu mundo até ali, somente para ficar «curtindo» aquelas estranhas melodias, além do que sentia uma enorme atração por aquele planeta, contudo, o regulamento o impedia que realizasse quaisquer tipos de contatos que fossem.
Nunca se aventurara em sequer pousar, por alguns instantes, lá embaixo.
A sua rotina de trabalho era estafante e perigosa, mas muito agradável e prazerosa ...
Ainda mais quando seguia as regras.
Conhecia aquele mundo apenas por o que escutava e via através do seu extravisão ...
E tanto mexeu no condutor seqüencial, que um solo de guitarra ecoou como um grito de liberdade por todos os cantos;
acentuou os filtros cristalinos novamente, e deixou o som do Aerosmith penetrar por o seu capacete tubular, criando ondas de minúsculas faíscas coloridas ao redor.
Os seus movimentos eram precedidos de cargas eletrostáticas, e o seu corpo envolvido por um escudo furta-cor de energia.
M ' Ewbar, naquele exato momento, terminava de programar a sua espaçonave para iniciar testes que seguiam uma metodologia já preestabelecida por os engenheiros construtores.
Acertou o heptandro de ablação, suprimindo a potência eletromagnética a um nível médio, estabilizou o rotor propulsor de partículas iônicas, ajustou o canal extravisão num filtro azulado, pressionou com os tendões dos seus três dedos um botão à sua esquerda, e o que parecia ser um assento se alargou criando um espaço vazio, um vácuo, em seguida, desceu uma espécie de redoma semitransparente repleta de filamentos de diversas cores.
M ' Ewbar se acomodou dentro de ela e, logo depois, a cabine foi bombardeada de partículas cósmicas, atraídas por a reação indutora da força de sublimação interna da espaçonave.
M ' Ewbar estava tão absorto e envolvido por o ritmo da música que nem percebeu uma carreira de luzes piscando freneticamente à sua direita no controle.
Lá fora, no espaço exterior, a nave era cercada por três aviões de caça terrestres, que procuravam a todo custo, acompanhar o objeto voador em sua trajetória.
E, de repente, a espaçonave despencou no vazio, deixando um vácuo perigoso entre os aviões que quase se chocaram em virtude da onda de sucção ocasionada.
Os pilotos experientes rodopiaram e escaparam para uma distância segura, depois, acompanharam a nave naquela queda vertiginosa em linha reta, contra o solo do planeta.
Houve uma certa intranqüilidade por parte dos pilotos ao perceberem a iminente tragédia.
A tal velocidade, e naquele ângulo, era impossível fazer o processo de reversão dos motores e escapulir daquela fatalidade, criando uma rota de evasiva.
Faltando alguns metros do chão, a nave, completamente embicada, estancou.
Sem levantar poeira ou mexer na vegetação ao redor.
Em seguida, se elevou silenciosamente em rodopios suaves sobre si mesma, dentro de um eixo invisível, depois se estabilizou num ângulo de 45 graus e partiu em alta velocidade, sumindo no horizonte.
Os pilotos das aeronaves terrestres estavam ficando confusos.
O objeto voador se transformara naquele momento numa imensa bola de luz amarela, laranja, vermelha, indo até ao azul e se confundindo com o céu.
Depois, camuflado entre as nuvens que se formaram ao redor, foi descendo até o meio do oceano e novamente, sobre a superfície, partiu em disparada, deixando atrás de si, um canal de quase 20 metros de altura dividindo as águas.
Após todas as reviravoltas, acrobacias e manobras radicais, ficou estática no espaço.
As aeronaves terrestres se aproximaram com muita precaução, pois não sabiam quais as intenções do piloto do objeto voador.
Até aquele momento não dera a menor importância à presença de eles, nem parecia estar muito preocupado com isso.
Em certo momento, chegaram tão próximos da nave alienígena que se abrissem a carlinga e estendessem os braços, para fora, poderiam tocar na sua estrutura.
Enquanto ela permanecera estacionada em pleno céu, os pilotos rodopiaram, tiraram fotos, observaram cada detalhe daquela magnífica tecnologia, até que receberam uma mensagem da Torre de Controle, a respeito de um som que capturaram vindo do interior do Ovni.
Estariam querendo manter contato?
Aquele som seria uma espécie de comunicação?
-- Aqui é a Mamãe Ganso, alguém poderia identificar que barulheira é essa?--
perguntou o líder aos pilotos.
Silêncio.
-- Mamãe Ganso, você não vai acreditar!--
respondeu um dos pilotos, cheio de surpresa.
-- Não vou acreditar em quê?
-- Rock!--
exclamou o piloto.
-- O que você quer dizer com Rock?--
indagou Mamãe Ganso, impaciente.
-- O que estamos escutando:
WhiteDuk! O piloto daquela espaçonave está em sintonia com alguma estação de rádio da Terra ...
E, sabe do que mais?
-- Não!
-- O Danado Gosta De Rock In ROLL!
Novo silêncio.
-- Então?
O que a gente faz?--
indagou outro piloto que se mantivera calado.--
Vamos tentar um contato?
Vamos convidá-lo para uma cerveja, conhecer nossas mulheres?
Carregá-lo para um show de rock ao vivo?
Silêncio.
Mamãe Ganso estava pensando.
Pensa em todos os relatórios que teria que fazer, aos questionários que sua equipe responderá ...
Pensa nos exames e testes psicológicos que todos serão submetidos ...
Pensa nisso tudo ...
Em o descrédito como profissionais, em suas carreiras ...
Serão chamados de loucos, expostos à imprensa e a um bando de cientistas idiotas e gentes piores do que eles ...
Pensa ... Pensa ...
Um lindo e brilhante Balão Meteorológico!
É isso!
-- Vamos embora!
Ninguém vai acreditar mesmo ...
Rock in Roll ... Onde já se viu?--
murmura o Líder.
-- Mamãe Ganso ...
Relaxa, hoje é domingo!
E as três aeronaves de caça abandonam a presa.
M ' Ewbar observa a luzes piscantes do alarme e percebe, apenas ao longe, três objetos voadores batendo em retirada.
É tarde de domingo, o céu está límpido e o sol aos poucos vai se escondendo no poente, refletindo seus raios sobre a fuselagem prateada da espaçonave.
Enquanto M'Ewbar mexe nos filtros e canais do extravisão, da Terra, vê-se apenas uma linha fina e esbranquiçada cortando o firmamento, e que vai se perdendo no infinito ao som eletrônico do Kraftwerk.
Nota do Navegador:
Pode parecer estranho, mas alguns pilotos de prova gostam de testar suas naves na gravidade do Planeta Terra.
Atravessam, às vezes, grandes distâncias só para desfrutar dos efeitos paradisíacos do pôr-do-sol terrestre, enquanto regulam seus bólidos aéreos.
E fazem-no tranqüilamente, pois sabem que não existe nenhum perigo iminente por parte dos habitantes daquele mundo, assim como das suas máquinas de defesas, bastante primitivas.
Eu, particularmente, prefiro as acomodações lunares com vistas para o entardecer terrestre.
Número de frases: 85
Os jovens integrantes da Rede de Hip Hop Enraizados estão dando o que falar novamente.
Depois de criarem seu próprio jornal (Voz Periférica), seu portal na internet (www.enraizados.com.br), sua Radio Web e no Dial ...
ou melhor ...
sua própria maneira de se fazer ouvir sem depender das mídias convencionais, agora atacam no Cinema, isso mesmo, no Cinema.
Primeiro vamos por parte para você entender melhor o que é Movimento Enraizados.
O Enraizados foi criado em 1999, com o intuito de unir os jovens praticantes da cultura hip hop de todo o Brasil, começou com humildes cartas enviadas por Dudu de Morro Agudo.
Passaram-se sete anos, apenas sete anos, e os meninos estão no olho do furacão, produzindo de tudo, com o lema de trazer «tudo» o que tem de melhor nos grandes centros para as periferias onde estão inseridos, por isso são Enraizados, alguns chamam de bairristas, mas milhares de bairristas em 16 estados brasileiros e 10 países, onde contam com um Estúdio De Gravação, Equipamento Profissional De Audiovisual E Cinema Para Exibição De as Produções, Equipe De Produção De Eventos, Produtores Musicais, Portal COM 600.
000 Acessos Mensais, Jornal Impresso DE 10.
000 Tiragens Mensais, Um Ponto De Cultura, Projetos De OPENBUSINNES e agora se preparam para um projeto ainda mais ousado O Espaço Cultural Enraizados, no centro da comunidade, onde implantarão uma biblioteca comunitária, telecentro, loja, lanchonete, estúdio e oficinas de teatro, rap, break, graffiti, capoeira, imprensa alternativa.
Os Enraizados têm hoje um humilde escritório em Morro Agudo (Comunidade da Baixada Fluminense) onde a rede é administrada, os projetos são elaborados, o vídeos são editados, as músicas são produzidas e gravadas, etc ...
aos sábados têm uma reunião aberta, onde qualquer pessoa pode participar, inclusive muita gente têm aparecido nas reuniões, pessoas de outras cidades, universitários, jovens a procura de ocupação ...
e muito mais ...
Em estas reuniões abertas rolam dinâmicas, oficinas, música, etc, e numa dessas dinâmicas surgiu mais um filme batizado de «Simplesmente Joana».
Agora Começa A História Que Comecei A Contar Acima
Um jeito Enraizado de fazer cinema
«Simplesmente Joana» é um filme que nasceu da integração de duas oficinas do Movimento Enraizados, que são as de teatro e Audio Visual, os jovens criaram a história de Joana através de uma dinâmica e a interpretação foi toda em cima do improviso, que é aprendido nas aulas de teatro.
O mais maneiro é que tudo foi feito em apenas um dia, ou melhor no dia 29 de setembro, das 09 às 12 horas.
Assim como o filme Bem que Te Avisei (também do Movimento Enraizados), o Movimento Enraizados vem trazendo a tona uma nova maneira de fazer cinema, onde o dia a dia é mostrado através de fatos vivenciados por a juventude periférica brasileira, onde cada um expõe aquilo que pensa e sente, e compartilha com outros jovens e depois compartilham com o bairro, a cidade, o estado ...
o mundo, através de canais próprios.
Os jovens do Enraizados sabem que tudo é possível, basta querer fazer e eles fazem tudo De Um Jeitinho Enraizado!!!
Assita ao filme:
Número de frases: 21
http://www.youtube.com/watch? v = p4TzpTSqLTY
Essa matéria foi escrita em setembro de 2006, para o jornal da universidade onde sou assessora de imprensa, mas, para começar, acho que vale a pena posta-la.
Cenário:
X Feira Pan-Amazônica do Livro, setembro de 2006.
mais de uma hora antes da aula-espetáculo, uma multidão, formada em sua maioria por jovens, já se acotovelava para garantir seu lugar.
Segurar as rédeas do público não foi fácil ...
E então, depois de uma tumultuada espera, ele chegou, Ariano, o famoso Suassuna, todo de branco e lançando beijos para o público que, mesmo antes de escutar qualquer palavra, o aplaudia de pé.
Passada a euforia, o deleite.
O polêmico escritor, nascido na Paraíba, no dia 16 de junho de 1927, sentou-se ao lado do filósofo Benedito Nunes, que o apresentou à platéia.
Bastaram alguns minutos para Ariano surgir como o personagem falastrão Chicó, de O Auto da Compadecida, e desatou a falar sobre poesia, cultura popular, literatura e a contar causos, do alto de seus 79 anos, com um ímpeto e um saber de fazer inveja.
«Um dia, lá no Recife, uma mulher que não gostava de mim, perguntou, já com a resposta pronta: --
De que signo você é?
Respondi que sou do signo de gêmeos.
E ela disse: --
Você sabe que as pessoas que nascem sob o signo de gêmeos têm duas caras?
Eu disse: --
Oxi, a senhora acha que se eu tivesse duas caras, teria o mau gosto de usar essa?».
Ariano é assim, espirituoso, naturalmente engraçado, e, ao mesmo tempo, uma figura controversa.
Muitos o idolatram, outros zombam de sua resistência às influências estrangeiras.
Não gosta de rock, acha Elvis Presley um idiota, nunca viajou para fora do Brasil e é avesso a qualquer elemento da cultura norte-americano.
«Chamam-me de ultrapassado porque eu defendo a cultura brasileira.
Se para defender a cultura de meu povo, preciso ser chamado de arcaico, então eu assumo».
Mas o escritor faz questão de explicar que tradição não pode implicar em rotina e diz que o perigo dos chamados tradicionalistas é cair na repetição.
«Não cultuo as cinzas dos antepassados, mas a chama imortal que os animaram».
Não por acaso, esse apaixonado por a tradição da cultura popular brasileira fundou o Teatro Popular do Nordeste e o Movimento Armorial, na década de 70, que buscava criar uma arte erudita brasileira baseada nas raízes da nossa cultura.
Em toda sua vida de romancista, dramaturgo e poeta, Suassuna retratou em suas obras, de forma universal, essa tradição.
Sua vida de escritor, aliás, começou cedo.
A os 12 anos de idade escreveu seu primeiro conto que considera «horroroso», mas que já indicava sua tendência para o trágico, justificada por um problema difícil que diz ter passado na infância.
Provavelmente, a morte de seu pai, assassinado durante a Revolução de 30, quando tinha apenas 3 anos.
«Meus irmãos até brincavam com mim.
Eles diziam que eu era um assassino horrível porque quando eu não sabia o que fazer com o personagem, o matava».
Com peculiar poesia nas entrelinhas, Suassuna disse que sua veia cômica foi descoberta apenas mais tarde, aos 17 anos, graças ao encontro com Zélia, sua esposa, que começou a namorar no dia 20 de agosto de 1947, conforme sua memória prodigiosa faz questão de lembrar.
Foi o encontro com Zélia que me desatou para a alegria, para o riso e para a beleza do mundo».
E continuou a contar sua história de amor, digna de um de seus belos romances, e eternizado no livro «Fernando e Isaura», que inicia com as primeiras palavras com as quais Ariano se dirigiu à Zélia.
«Eu a vi na rua e pensei que não poderia perder essa oportunidade.
Então, eu disse assim:
você se incomoda de me conhecer sem ninguém nos apresentar?
Ela disse que não e até hoje estamos juntos».
Embora só tenha sido lançado nacionalmente em 2006, o romance «Fernando e Isaura» é um livro de 1956.
Ariano conta que o escreveu como um exercício já que, até então, só tinha escrito poesia e teatro.
A obra é uma versão brasileira da estória de «Tristão e Isolda, de Joseph Bédier».
Mesmo assim, acredita que sua essência como escritor está na poesia.
«Minha poesia é a força profunda de tudo o que eu escrevo».
-- Apesar de visivelmente incomodado com as luzes, flashes e a roda de jornalistas que se formou em sua volta ao terminar a palestra, Ariano Suassuna não deixou a simpatia de lado e aceitou dar uma entrevista coletiva.
Apesar de reconhecido como um dos maiores escritores brasileiros, Ariano nunca tinha provado do sucesso até ter a sua peça «O Auto da Compadecida» adaptada para a televisão e o cinema.
Ele revelou, no entanto, que não considera a obra como a mais importante da sua vida literária.
Diz que, na verdade, nem no teatro é a sua predileta.
«De tudo o que eu escrevi até agora, se eu tivesse que salvar uma só obra salvaria A Pedra do Reino».
O romance, inclusive, será a próxima obra adaptada para a TV por as mãos do diretor " Luis Fernando Carvalho.
«O universo do teatro é muito limitado e foi em ele (o romance) que expressei de modo completo meu universo interior».
E, então, depois de duas perguntas, ele recuou, deixando claro que a entrevista estava encerrada.
Apenas um detalhe em se tratando de Ariano Suassuna ...
Número de frases: 52
Em o último domingo 25, caminhando por o Parque do Ibirapuera em direção ao palco do Motomix, começo a ouvir ininteligivelmente um anunciante e logo em seguida sons de música eletrônica chegam à mim antes que eu possa ver o local.
Chegando de fato pouco depois das 14:30 fico contente em saber que assim como o Planeta Terra, as coisas no Motomix estão seguindo o horário.
Depois do fiasco do TIM Festival, me parece que os organizadores de eventos brasileiros finalmente tomaram vergonha na cara.
Diante de uma platéia modesta e esparsa, o Coletivo Interligados Soundsystem se apresenta.
Basicamente um Supergrupo de produtores e DJs, o Interligados consiste de uma grande mesa onde os membros executam uma jam session sem compromissos.
A imprensa e organização parecem estar em maior número que o público, ainda em grande parte composto por transeuntes do parque, com suas famílias, bicicletas e cachorros.
Acanhadas, as pessoas preferem ficar sentado ou conversando, apenas meia-dúzia dança.
Com seus notebooks aliados a armas analógicas (como uma simpática maraca), o Coletivo faz seu trabalho bem, embora as pausas sejam longas demais.
Apparat e sua live band, a atração principal, se apresenta diante de um público maior (mas longe dos recordes do parque) e mais solto, mas igualmente relaxado e civilizado -- elogiado por a organização.
Apesar do som não estar na melhor qualidade possível, a banda mais que compensa com uma performance impecável.
Como bons alemães não se dão muito a frivolidades com o público, falando mais em Alemão do que no universal Inglês não dispensam o «obrrigado».
Terminado Apparat, Dudu Marote anuncia os vencedores do concurso «Novos Sons», Janete & Clair, de Belo Horizonte -- cidade ovacionada por alguns membros da platéia.
Cumprindo sua promessa de buscar «aqueles que trabalham em casa com poucos recursos», o curador Marote selecionou uma dupla de guitarra e computador (sequer um estiloso notebook Macintosh -- tratava-se de uma torre genérica de PC).
Embora seja prematuro dizer isso, tal formação parece estar em ascensão, como Montage, UDR e Arrebite.
Com um som diferente, agradável e sem muitas firulas, algo como um loveliescrushing apimentado;
Janete & Claire foi prejudicado por o estranho line-up do evento.
Após a saída dos alemães o público raleou um pouco e a cobertura da imprensa foi-se quase por completo.
Ainda sim conseguem agradar, mesmo com um set modesto.
Composta por Lucas Miranda e Tiago de Macedo, a dupla ganhou força esse ano, tendo se apresentado já na Casa do Baile de Belo Horizonte e abrindo o Festival de Arte Digital, também em BH.
Além da apresentação, a dupla seguirá essa semana participando de workshops e produzindo uma faixa em estúdio.
Durante o show do Apparat houve reclamação quanto à presença dos fotógrafos e cameramen no palco.
Assim não foi autorizado a subir durante Janete & Claire para fotos melhores -- o que me confundiu, pois entendi que era uma reclamação da banda, se a banda era outra, qual era o problema?
Para fechar o dia, Nego Moçambique sobe ao palco para arrancar o último suspiro de um dos públicos mais variados que já vi.
Reclamando da não-passagem de som, ele ganha em simpatia ao anunciar que está um pouco envergonhado e espera estar agradando -- o que o público calorosamente confirma.
A o badalar das 18:00 o show é forçosamente encerrado, apesar dos protestos do público.
E assim terminou o primeiro dia do festival.
Bem-organizado, o Motomix acabou se provando uma bela intervenção no parque.
O grande erro mesmo foi colocar Apparat como a segunda, e não a última atração.
Com consultoria de Camila Cortielha, Sérgio Rosa e Rafael Teixeira
Número de frases: 29
Recebi singela notícia de Janete Schneider, uma colega minha de trabalho:
-- Vamos dar teu livro de presente a pessoas que lêem braile, falou-me alegre, com muito entusiasmo.
Fiquei emocionado.
Fiz com Janete Schneider o curso de monitoria para a formação em informática de pessoas com deficiência visual.
Já formamos, ela como principal orientadora de alunos, por compreender melhor o universo imaginário de pessoas com deficiência visual como ela, com retaguarda minha e de colegas do Cibernarium da Procempa, 21 pessoas em quatro turmas que concluíram o curso de Windows, Word, Excel, Internet e Correio eletrônico, de 120 horas de duração, oferecido gratuitamente a interessados.
Janete lera O dia do descanso de Deus com o auxílio do programa leitor de telas Virtual Vision, o mesmo que a fundação Bradesco, por convênio, disponibilizou cópias gratuitas para a prefeitura de Porto Alegre em 2005.
Em o mesmo convênio, foi doada uma impressora braile, que reproduz na língua para deficientes visuais cópias em papel de textos produzidos em computador.
Em conseqüência, há também no Cibernarium, que funciona no quarto andar do Espaço Cultural do Trabalho Usina do Gasômetro, um programa de impressão pública e gratuita de textos em braile.
Janete é coordenadora de Inclusão Social da Secretaria de Acessibilidade e Inclusão Social, onde sou técnico em comunicação.
Ela tem sido incansável na difusão dos programas para pessoas com deficiência visual, indo às feiras em que a empresa de informação e dados do município disponibiliza a estrutura informatizada.
Demonstra a possibilidade de acesso a ambos os serviços, de formação em informática e impressão em braile.
Foi assim na Globaltech, na Expointer, já por dois anos, e também em 2006 e 2007 na Feira do Livro de Porto Alegre.
Em esses espaços, quando demonstrava o potencial do leitor de telas e da impressora braile em 2007, Janete ia fazendo também a costura paciente da transformação de 104 páginas impressas em tinta nas 430 páginas que resultaram em três volumes impressos em braile.
Nos abraçamos.
Eu penso que chorava e ria ao mesmo tempo, feliz e comovido com a surpresa agradável de minha colega.
Decidimos na hora doar a publicação à Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães, que funciona no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues, na Avenida Erico Verissimo, Esquina Avenida Ipiranga, no Bairro Cidade Baixa.
Estava há algum tempo para contar essa pequena história de um gesto que muito me ensinou e até agora me emociona.
-- É que lendo em braile, eu percebi, criam-se as cenas e as imagens se formam de um modo diferente do que escutando a narração por o programa leitor de telas.
E ainda se pode retornar no texto com muito mais facilidade e rapidez.
Eu acho que li dois livros muito diferentes, confessou-me Janete bem contente.
Por certo, eu também fiquei muito feliz.
Número de frases: 21
Confesso minha ignorância:
até pouco meses não tinha a mínima idéia de que o culto dos animês (desenhos animados de origem japonesa) havia deixado de ser uma atividade solitária diante das TVs e tomado conta de um circuito de festas em centenas de cidades brasileiras.
Foi o Overmundo que me deu as primeiras dicas de que algo bem interessante estava acontecendo.
O texto sobre a Pandora no Hako, banda de j-rock (aprendi ali que essa sigla -- falada em inglês: jei-rock -- significa rock japonês com preferência clara por a trilha sonora de animês) criada no Rio Grande do Norte, ficou por meses no topo da lista das colaborações mais lidas aqui no site.
Por o Overmundo também tive notícias de encontros de fãs de animês realizados por todo o Brasil:
no Ceará, no Espírito Santo, em Sergipe, no Amapá.
Fiquei então com uma pulga-pokemon atrás da orelha, com minha antena farejadora de «novidades culturais divertidas» ligada em alerta máximo:
tem festa boa acontecendo no Brasil, e eu ainda não fui convidado!
Resultado:
na primeira oportunidade apareci de penetra:
ontem aconteceu o festival de aniversário de cinco anos da Anime Center, que é uma empresa de eventos de animês e mangás, aqui do Rio (para vocês verem como as coisas são bem organizadas: essa empresa já tem cinco anos, e não é a única no Brasil -- sinal também que o negócio dá certo), realizado durante o chuvoso fim de semana no Centro Cultural da UERJ.
Cheguei atrasado, o cosplay já tinha começado.
O que li no site não me tinha preparado para o que ia enfrentar ao vivo.
Cosplay (como Ronaldo Lemos, companheiro de penetragem, me explicou) é outra abreviação nativa, desta vez para «costume play» -- brincadeira de fantasia ou peça (no sentido teatral) de fantasia.
Claro que eu sabia que ia encontrar um concurso de gente que se fantasia de personagens de animês.
Mas não estava esperando tanta gente, no palco e na platéia.
Quase não consegui entrar no teatro.
Fui abrindo caminho à força na multidão (penetra é assim mesmo ...),
mas só consegui um cantinho na escada de entrada, e tive que passar por uma torturante sessão de alongamento para enxergar alguma coisa.
Valeu a pena.
O que acontecia na platéia era até mais interessante do que as apresentações no palco.
Uma balbúrdia ensandecida, como se todo mundo estivesse vendo o melhor espetáculo de suas vidas.
Várias pessoas gritavam comentários, mas muita gente tinha umas plaquinhas brancas onde escreviam suas observações sobre o que estava acontecendo.
A visão era a de um blog ao vivo, ou chat em três dimensões, com inúmeros «comments» surgindo aqui e ali em dezenas janelas de pop-ups simultâneas.
Ou parecia uma história em quadrinhos, encenada por todos, cada personagem falando em seus respectivos balões. (
Essas plaquinhas são muito comuns em outros eventos?
É um fenômeno internacional?
Por favor: quem souber mais responda essas minhas perguntas escrevendo um comentário abaixo!)
Em o palco iam desfilando várias personagens de animês que eu nunca tinha ouvido falar e outros mais conhecidos no mundo online (como os de Ragnarok).
Havia várias etapas e categorias no concurso:
desfile comum, encenações de trechos de desenhos animados, criações teatrais livres em cima das tramas dos desenhos animados etc..
O mais bacana era a seqüência, um acontecimento atrás do outro:
as cenas iam ganhando significados diferentes, produtos do acaso do que vinha antes e depois.
Era como se todo mundo estivesse sampleando seus trechos preferidos dos animês, e a mixagem final fosse uma obra coletiva, feita ali na hora por muita gente, em interação com o público.
Alguns trechos, deslocados de sua história original, ganham impacto estranhíssimo.
Vocês sabem como são as narrativas dos animês, muitas vezes elas beiram o total esoterismo, com misturas alucinadas de mitologias de todas as procedências.
Imagine tudo isso misturado no palco, em tom de chacota constante, mas que em determinados momentos adquire uma densidade metafísica digna dos melhores palcos de ópera (eu e meu relativismo sem-noção: óperas -- ou qualquer outra manifestação cultural -- também possuem um lado mico bem acentuado ...)
Quem chega de fora, desprevenido, vai logo condenar tudo como uma pagação de mico coletiva.
Eu mesmo, depois do cosplay, fiquei um pouco melancólico.
Mas era uma melancolia também densa, um desconforto com a maluquice constante do ser humano (identificada também como minha maluquice -- não estou tirando o corpo fora não, por isso a leve e doce tristeza que sentia ...),
capaz de se agarrar em qualquer coisa para ter instantes de felicidade, para construir seus paraísos artificiais.
Desenvolvi na hora uma nova teoria da natureza humana, na qual a pagação de mico é necessidade fundamental.
Então: toda cultura precisa criar espaços onde o mico é liberado -- ninguém consegue viver com saúde física e mental se não pagar mico (de preferência na frente de um monte de gente) de vez em quando ...
Mas o que acontecia no Anime Center era bem mais interessante do que uma simples pagação de mico coletiva.
Ninguém ali era bobo:
todo mundo parecia perceber o lado meio ridículo daquilo tudo (como percebemos o lado meio ridículo em quase tudo que fazemos, basta olhar para qualquer pista de dança ...)
Mas isso não impedia da diversão ser «autêntica», e de muita gente levar aquilo tudo a sério, como se fosse a coisa mais séria do mundo (e diversão é mesmo uma das coisas mais sérias do mundo!)
Uma vez o próprio Dorival Caymmi (ele mesmo, uma divindade na Terra) me deu sua receita para a felicidade:
«é só a gente fingir que está alegre -- vai fingindo, fingindo e quando vê está alegre mesmo!"
Como discípulo, aprendi que essas palavras contêm o segredo prático para tudo, não só para a alegria.
O pessoal no Anime Center estava fingindo muitas coisas:
fingindo ser personagens de animê, fingindo estar no melhor espetáculo do mundo (" temos aqui nosso Cirque du Soleil particular!"),
fingindo estar se divertindo com nunca etc..
E não é que dá certo?
Poucas vezes vi tanta gente se divertindo tanto!
E a diversão ficou boa mesmo quando fomos para o ginásio e o Anime Daiko começou a tocar.
Também não sabia que isso já era uma febre, mas acho (apenas por o que vi ontem na UERJ) que os daikos -- grupos que tocam aquele tambor asiático chamado taiko, e fazem espetáculos de extrema energia -- devem estar se espalhando por o mundo como as rodas de capoeira (a procura que fiz agora no Google me deu de volta links para 556 mil páginas que contêm a palavra daiko -- para taiko são quase 3 milhões, para capoeira são 6 milhões).
O Anime Daiko é um grupo de Londrina, Paraná (alguém pode escrever algum texto sobre o grupo aqui no Overmundo?),
e mistura a música percussiva tradicional com os hits dos desenhos animados japoneses.
O resultado é contagiante.
A primeira música do seu show é bem tradicional.
A segunda serve de base para uma coreografia animê executada só por quem é do grupo.
Mas já na terceira música, o pessoal da platéia vai para o palco (que ontem era a quadra de futebol de salão da UERJ), forma uma roda em torno dos tambores (que tocam em cima das trilhas de animê que saem dos alto-falantes), e dança com coreografias coletivas diferentes para cada música -- que todos sabem cantar em japonês.
Não estou ficando louco:
aquilo era bonito demais!
Parecia uma quadrilha pós-moderna.
Parecia uma micareta de ETs.
Parecia terreiro de ciber-umbanda onde baixam entidades do Yu-Gi-Oh!,
misturadas com nintendogs e outros replicantes.
Mas no fundo era só isto mesmo:
Muita gente se divertindo pra valer.
Dava uma vontade louca de largar a pose e cair na roda (a mesma vontade que senti quando entrei no meu primeiro baile funk, 21 anos atrás), cantando e dançando como se não houvesse amanhã, ou como se o amanhã fosse o mais perfeito mundo de animê.
O mais impressionante era que ninguém parecia estar bêbado de nenhuma droga -- não foi preciso nenhum empurrãozinho para a dança começar:
a apresentadora só disse:
«agora todo mundo pode vir dançar».
E todo mundo foi dançar.
Se eu encontrasse aquelas pessoas num dia comum na rua -- garotos e garotas normais, bem grandinhos, mais para o estilo metal, meio emo ou indie também, muitos tons de pele e classes sociais diferentes (mas aparentemente mais Zona Norte que Zona Sul), nunca diria que seriam capazes (ou teriam a coragem) de entrar numa roda animê para fazer aquelas coreografias (algumas quase «ridículas» na sua infantilidade).
Mas ninguém parecia ligar para olhares externos.
Até porque eram pouquíssimos olhares externos.
Todo mundo ali era da mesma tribo, e o que cada um fazia não poderia ser mais «normal».
Todo mundo estava fazendo a mesma coisa:
como diria meu querido amigo e também mestre Fausto Fawcett:
destruiam seus egos na matéria em movimento.
Se eu fosse um profissional dos estudos culturais ou antropólogo pós-modernista (estou brincando, gente!),
tentaria «defender» o ritual animê dizendo que é «desconstrução», ou» apropriação «da linguagem da mídia, ou tática de» resistência».
Seriam palavras pomposas, politicamente corretas, que dariam respeitabilidade para a brincadeira.
Mas não acho nada disso:
aquela festa não é nada anti-mídia.
Pelo contrário: é celebração de amor à mídia, à mídia mais mainstream (apesar de estar sobretudo na TV a cabo) do mundo hoje, ou que vai ser cada vez mais mainstream.
É amor à mídia tal como ela existe, que torna possível a existência de fenômenos planetários como os mangás ou o metal.
Os cosplayers não parecem querer uma outra mídia -- querem mais mídia, querem inventar seu cantinho na mídia, para fazer mais festa.
Querem complementar e não criticar.
E que complemento bacana criaram!
Que festa boa!
Por isso, para terminar, um conselho de mais velho maluco:
alô garotos e garotas do animê:
não acreditem em pais e professores que nunca ouviram falar no Naruto:
vejam muita televisão!
Leiam muito mangá!
Por ali vocês vão aprender rapidinho, se já não aprenderam, quem foi Osamu Tezuka, ou quem é Grant Morrison.
E suas festas vão ficar cada vez animadas!
Só quero ser convidado:
o Overmundo está aberto para anúncios das festas, para dicas sobre lugares nas várias cidades brasileiras onde os cosplayers se encontram, para textos sobre os eventos.
Espero ver todo mundo sempre por aqui.
PS:
Se tiver algum antropólogo estudando essas festas, por favor entre em contato.
Se não tiver nenhum, que alguém se anime!
Número de frases: 107
Vai ser tráegico assim lá em Tebas:
«A vida é breve, e um erro traz sempre um erro.
Desafiado o destino, tudo será destino.
E aos mortais não cabe evitar as desgraças que o destino traz."
O coro, ao proferir essas últimas palavras em Antígona, de Sófocles, resume o bem o sentido da tragédia para os gregos na antiguidade:
Não se pode fugir do destino.
Por mais que se tente, que se fuja e se esquive, ele estará lá, no final, rindo da sua cara.
É na esquina da falência que ele te pega por o pé.
Édipo, por exemplo, que era um sujeito esclarecido, ao ouvir a profecia oracular de que mataria seu pai e comeria sua mãe, deve ter dado umas boas gargalhadas.
E um belo dia, ao andar por as quebradas tebanas, dá de cara com um sujeito mal educado e sai um arranca rabo.
Após matá-lo -- seu pai!--
vai a Tebas, dá um xeque-mate na Esfíngie e casa-se com a rainha -- sua mãe!
Horror, Desgraça, Infortúnio!
Pois é.
O destino, inexorável, lhe prega a peça final e tudo termina em lágrimas e sangue.
Consumimos hoje tragédia em escala inustrial, ainda que sem a sofisticação dos gregos, com suas frases lapidares e seus personagens infinitamente densos -- na verdade, cada um de eles é a matriz de toda uma tradição litarária ocidental.
Milhões de pessoas assistem, na novela das oito, personagens sórdidos da classe média alta carioca comenetendo os atos mais vis e baixos.
E quanto mais baixaria, mais sobe o ibope.
Enquanto o destino não nos prega a peça final -- a morte -- rimos da cara de ela e recheamos nossa desprezível existência com as maldições que inventamos para nos emocionar e nos entreter.
Há, na verdade, uma adoração secreta por o criminoso, uma curiosidade mórbida por o barraco -- desde que o assistamos de um lugar relativamente seguro, onde não voem os cacos de vidro da garrafa estilhaçada.
Número de frases: 20
Ele me pareceu um tanto arredio.
Também, o que deve ter sido chamado de louco país afora ...
É uma espécie de ermitão.
Porém, ao invés de ficar recluso em algum recanto da natureza, este peculiar senhor, de cabelos brancos, com cara de marinheiro, ou caminhoneiro, talvez, escolheu viajar.
E ali estavam ele, com sua protuberante barriga e sua indispensável companheira de viagens, sua bicicleta.
Goiano, segundo ele, residente na cidade mais tranqüila de todo o país, Goiânia.
Não era caminhoneiro, tampouco marinheiro, mas é um viajante.
Conhece as estradas federais e estaduais tanto quanto um caminhoneiro, e carrega em seu peito o espírito aventureiro dos antigos homens do mar.
«O senhor está indo para onde?"
«Para casa."» E está vindo de onde?"
«De o Brasil todo.
De o Oiapoque ao Chuí."
Realmente. E ele carrega pastas recheadas de fotos dos lugares visitados, das pessoas conhecidas.
E lá estava ele, subindo a BR 101, para o Nordeste.
Várias fotos com as divisas dos estados brasileiros.
Pensei eu então:
«porque não uma foto aqui, neste posto de gasolina, em Conselheiro Josino, Campos -- RJ?"
Mais que rapidamente, saquei minha câmera da mochila e disparamos três «clics».
A galera do skate se divertiu ao ver aquela bicicleta tão peculiar quanto seu dono.
«Mas isso o senhor faz como esporte, promessa ...?"
Pergunta um morador local.
«Para mim, isto é vida!"
E ele preparava-se para ir embora, vindo do Espírito Santo, parada em Campos, rumo à Minas Gerais.
Não sei se já chegou em casa.
Talvez ele esteja de passagem na sua cidade.
Trate-o bem, ele é uma boa pessoa.
Se perguntar o nome de ele, ele sempre responderá «Pedal Solitário».
Número de frases: 27
Dez homens, dez histórias entremeadas de poesia.
Dez vidas que se foram rapidamente, dez obras que marcaram para sempre a literatura do Piauí.
Em «Sociedade dos Poetas Trágicos» (sim, a inspiração para o título veio do filme do Peter Weir), o jornalista Zózimo Tavares traça perfis de dez poetas piauienses que viveram pouco mas deixaram obras intensas, belas, atemporais.
Quando li as biografias e alguns dos poemas do livro, só de imaginar o sofrimento daqueles homens senti lágrimas nos olhos.
Pensei na dor de um cara de 19 anos que sente a vida ir embora a cada tosse, a cada escarro.
Me refiro a José Newton de Freitas, morto aos 19 anos, vítima de tuberculose.
Sua poesia é cheia de tristeza, desespero e urgência.
Tavares comenta que a literatura brasileira reconhece Álvares de Azevedo como o poeta que morreu mais jovem, aos 21 anos.
«Mas José Newton já é considerado por alguns críticos como o mais jovem porque morreu aos 19, deixando um trabalho marcante.
O que acontece é que sua obra ficou muito aqui, quase não é conhecida fora.
Tem especialistas que o vêem como o introdutor do Modernismo no Piauí, reconhecem em seus versos todas as características da poesia moderna».
O livro é resultado de uma longa pesquisa e o autor diz que foi encontrando tantas histórias trágicas de poetas que teve que achar um critério de limites.
«Os poetas trágicos do Piauí não são só dez, temos muitos mais, inclusive vivos.
Nosso maior poeta vivo, o H. Dobal, convive há anos com o mal de Parkinson, que é uma tragédia na vida de ele.
Outro grande nome da poesia piauiense, Da Costa e Silva, viveu 16 anos sem saber quem era, por causa do Alzheimer.
Resolvi então delimitar o livro por a idade, escolhi dez poetas que morreram antes dos 40 anos, quando estavam no auge de sua produção literária».
Morte que assusta e fascina
É curioso perceber um certo fascínio por a morte na obra dos poetas escolhidos por Zózimo Tavares.
Todos eles, ao menos uma vez, escreveram inspirados por a ' indesejada das gentes '.
Mário Faustino, por exemplo, no seu «O homem e sua hora», parece pressentir:
«Sinto que o mês presente me assassina, há luto nas rosáceas dessa aurora, há sinos de ironia em cada hora (na libra escorpiões pesam-ma sina).
Há panos de imprimir a dura face, à força de suor, de sangue e de chaga».
Faustino morreu num acidente de avião no Peru, aos 32 anos de idade.
A tuberculose, grande mal dos séculos passados, foi a responsável por as mortes de boa parte dos poetas citados por o jornalista.
Alcides Freitas, morto aos 23 anos, tinha acabado de se formar em Medicina e de publicar seu único livro, Alexandrinos.
Também ele fala de morte, e a sensação que passa é a de que a dor que sentia se transformava em versos, lindamente passados para o papel.
«Morte, sombra do amor que os meus sonhos deslumbra!
Abre os braços a mim, velha caveira triste!
Que eu não fique mais no horror desta penumbra ...
Ai, no grande pesar da minha alma de monge, a dor, somente a dor, impassível, persiste ...
a dor de uma saudade ...
a morte que vem de longe ..." (
Trecho do soneto Meus Olhos).
Seu irmão Lucídio Freitas, fundador da Academia Piauiense de Letras, morreu aos 27, também vítima de tuberculose.
A doença parecia rondar a casa da família, como bem disse Zózimo Tavares.
Em «Perscrutadoramente», o poeta se mostra revoltado com a iminência da morte, por já ter visto o sofrimento dos pais no momento da perda de Alcides.
«Homem, parcela humilde, humilde e obscura, que anda perdida e desapercebida, buscando os vermes de uma sepultura.
O que foste?
O que és?
Para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida foi a maldita angústia dos teus pais».
Ainda por tuberculose, morreram Zito Baptista, aos 39 anos -- é o autor de «Chama extinta e» Harmonia Dolorosa», obras que encantaram o poeta Olavo Bilac;
e Nogueira Tapety, aos 27. Este deixou um diário onde relata o avanço da doença.
Sua produção passou décadas dada como perdida e somente foi publicada em 1990 por o Instituto Histórico de Oeiras e Academia Piauiense de Letras.
O livro «Arte e Tormento» celebrou o centenário de nascimento do poeta.
«Façam soar as trombetas da morte e anunciem nossa passagem "
Torquato Neto é certamente o mais famoso dos poetas trágicos do Piauí.
O anjo torto deu fim à própria vida depois de comemorar seus 28 anos numa festa com amigos no Rio de Janeiro.
Em as semanas anteriores ao suicídio, Torquato doou sua coleção de literatura de cordel, queimou vários de seus textos e destruiu a máquina de escrever.
Em a madrugada fatídica, se despediu dos amigos com abraços e beijos.
Em seu «Poema do aviso final», pediu esperança.
«É preciso que alguma coisa atraia a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado e na procura da vida a morte virá na frente e abrirá caminho».
Licurgo de Paiva, morto em 1877 aos 33 anos, vítima dos seus próprios excessos e das noites boêmias regadas a álcool, é citado como o introdutor do Romantismo no Piauí.
Em o dia de sua morte, ele mesmo vestiu o paletó com o qual queria ser enterrado e esperou chegar a hora.
Sinistro, não?
E sinistras também foram as circunstâncias das mortes dos poetas Ramsés Ramos, aos 35 anos e Paulo Veras, 30. O primeiro bateu a cabeça ao cair no quarto de um hotel em Moscou e o segundo teve um ataque cardíaco fulminante e caiu por cima de uma panela onde preparava uma caranguejada para festejar seus 30 anos.
Ramos é o autor de «Vida, nossa quimera», da qual retirei a frase que intitula este último trecho da matéria;
e também foi jornalista, músico, tradutor e crítico de arte.
Zózimo Tavares, que também é professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Piauí e cordelista, conta que por várias vezes teve que interromper os trabalhos de produção do livro por se emocionar com as histórias.
«Não foi um livro fácil de escrever, em muitos momentos fiquei realmente muito emocionado, mas acho que ele cumpre seu papel de falar um pouco sobre esses grandes poetas que infelizmente se foram muito cedo».
Contato:
Número de frases: 62
zozimotavares@ig.com.br Cenário:
mesa de um padaria / café.
Em cima de ela, um livro parece ter sido esquecido ou perdido.
Nada disso.
A cena é comum para os participantes da campanha Perca um Livro.
Apesar do nome negativo, a idéia é libertar um exemplar para que ele encontre outros leitores, fazendo com que uma mesma obra seja lida por muitos.
Para aplacar a curiosidade dos perdedores de livros, um site cadastra a obra através de um código e assim é possível rastreá-lo por onde passa e saber quantas pessoas estão aproveitando a leitura.
A idéia é antiga.
Desde 2001, o bookcrossing organiza uma comunidade reunida para que os livros saiam das prateleiras e ganhem as ruas mundialmente.
A rede virtual conta com 669.102 participantes e tem 4.734.614 livros catalogados.
Agora a idéia chega ao Brasil, capitaneada por uma editora, a Zeis.
A empresa deixou 150 exemplares do livro A Unidade dos Seis -- O Herdeiro Especial por aí.
Quem encontra um exemplar, acha uma etiqueta que orienta o sortudo a cadastrá-lo no site e indicar onde está.
Todavia, a iniciativa não é só uma ação de marketing.
A pretensão é estimular a leitura no Brasil e fazer com que um mesmo livro seja lido por várias pessoas.
Com os sites de relacionamento em alta no país, o boca-a-boca já conseguiu reunir mais de 1600 participantes na comunidade do Orkut.
Em Porto Alegre, Rita Marques, uma contadora baiana que mora há seis meses na cidade, conheceu o projeto e se engajou.
Há um mês, perdeu o livro o Como comprar mais gastando menos, de Rafael Pascharelli, no banheiro feminino do shopping Praia de Belas.
Até hoje quem achou não se manifestou na internet.
«Até o momento, não obtive notícias de ele.
Não sei se foi encontrado ou se está ' morando ' em algum achados e perdidos.
Pode ser também que a pessoa que o encontrou não tenha acesso à internet ou simplesmente resolveu ficar com o livro e pronto», imagina Rita.
Isso não a fez desistir.
«Ainda não perdi outros, mas penso em perder, talvez algum com um título mais atraente."
Para participar, dê uma olhada na sua estante, escolha algumas obras que você já devorou e cadastre no site.
O registro gera uma etiqueta com um código que permite o acompanhamento do volume e convida quem achá-lo a continuar a corrente.
Os veteranos da prática recomendam que os livros sejam deixados em cafés, restaurantes, perto de livrarias, museus, teatros, cinemas, salas de aula, salas de espera ou bancos de parques.
Outra instituição que arregaçou as mangas e criou uma campanha própria foi a PUCRS.
Com o professor e jornalista Vitor Necchi e os alunos de Relações Públicas, a faculdade pôs em prática o Leia e passe adiante.
Em o saguão da unidade da Famecos, uma estante acolhe os exemplares (também vale levar as revistas) e coloca uma etiqueta identificando-o como parte da iniciativa.
As publicações ficam disponíveis para o público que pode pegar qualquer um de eles e levar para a casa.
Se quiser acompanhar o livro de Rita e torcer para que seja achado, vá ao site e digite o código pra rastreamento:
4D8ZBH2 YMW2O1.
Número de frases: 33
«As influências recebidas no falar de Porto Velho podem ser explicadas através dos vários ciclos de ocupação que Rondônia passou e a origem dos migrantes que ajudaram na formação e ocupação das cidades e municípios nos respectivos ciclos e através da observação lingüística».
«A variação nos falares de Porto Velho» -- Nair Ferreira Gurgel do Amaral
Falar de Porto Velho sem lembrar da fala cantada do porto-velhense é deixar uma lacuna.
O falar do povo do rio Madeira é marcado por um sotaque melodioso e alegre, cheio de palavras herdadas do Nordeste brasileiro que, claro, passaram por transformações em seu significado, como provocar (= desafiar, Dicionário Aurélio), que em «portovelhês» significa vomitar.
Expressões genuinamente porto-velhenses ganharam simpatia e, até mesmo, maior carga de sentido do que o termo do qual seria sinônimo.
Um exemplo emblemático é:
«Hoje está quente ' quissó '».
Para quem ainda não conhece, ' que só ' significa algo muito mais que demais.
Coisa de Porto Velho.
Ou seja, não está quente demais, está muito mais do que quente.
«O'quissó ` é uma marca do falar porto-velhense, afirma a doutora em Lingüística, professora Nair Ferreira Gurgel do Amaral, do Departamento de Línguas Vernáculas da Universidade Federal de Rondônia (Unir).
Em 1999 ela começou uma pesquisa sobre ' a variação nos falares de Porto Velho ', que ainda não foi concluída.
O motivo não foi outro além da impossibilidade de se fazer um levantamento diante de tanta diversidade.
Uma verdadeira colcha de retalhos.
Para se ter idéia da trabalheira, um grupo de lingüistas da Universidade de Campinas (Unicamp) está há cinco anos debruçado sobre palavras, sotaques, expressões ...
e nada!
Os estudiosos querem fazer o mapa lingüístico não apenas de Porto Velho, o objetivo é traçar o de Rondônia.
«Isso é impossível», decreta Nair.
Toda dificuldade está centrada na grande misturada de falares no Estado.
Tem gente do Sul, do Centro-Oeste, do Nordeste, do Sudeste e do Norte.
Especificamente na Capital, as colaborações lingüísticas vieram dos Estados nortistas, principalmente do Pará e Amazonas, e do Nordeste.
O sotaque local é, sem dúvida, herança dos nordestinos, especialmente os cearenses.
Uma expressão coloquial com som característico do Ceará:
«Ramupubanhu (= vamos para um banho).
A palavra banho é um caso do vocabulário porto-velhense (ver box).
Para quem não conhece, tem o mesmo significado de balneário.
«Não há dúvida que a maior contribuição na linguagem de Porto Velho é dos nordestinos», confirma a lingüista Nair Gurgel.
Beiradão sem cantigas de roda
A professora Nair Gurgel é orientadora do projeto Alfabetização de Ribeirinhos, da Unir, e diz ter ficado decepcionada com o que encontrou.
«As crianças do beiradão falam exatamente como as crianças da cidade.
Não há diferença», lamenta.
Ela conta que esperava encontrar crianças apaixonadas por nadar, pescar, subir em árvores e, claro, por cantigas de rodas.
«Não encontramos nem uma criança que conheça uma única cantiga!»,
relembra. A tradição corre o risco de se perder.
As musiquinhas de brincadeiras infantis não foram passadas a cada geração e a criançada do beiradão de São Sebastião só conheceu os versos de «fui no tororó beber água e não voltei» por meio das estudantes de Letras da Unir.
E lá se vai uma página da Porto Velho bucólica.
Um pouco do peculiar vocabulário porto-velhense
Baladeira -- estilingue
Banho -- balneário
Benjamin -- dispositivo que serve para ligar vários aparelhos elétricos numa só tomada
Bregueço -- coisa qualquer
Caba -- maribondo
Capitão -- bolinho de comida amassado com a mão
Esculhambar -- destruir /quebrar/falar mal
Nome -- palavrão
Papagaio -- pipa
Pipocar -- aparecer
Pisero -- festa
Provocar -- vomitar
Expressões usuais
Tu é leso é?
Iche, tá demorando que só!
Toma!
Não disse que tu ia te lascar?
Maninho do céu!
As crianças e adolescentes porto-velhenses também têm um vocabulário próprio.
A brincadeira mais rica em palavras é a peteca, que em Porto Velho é o jogo de bolas de gude.
Abirobado -- doido
Abofitar -- pegar (roubar) as petecas e sair correndo
Aluguel -- mentira
Bolô -- peteca de maior tamanho
Catar -- movimentar a linha do papagaio, fazendo-o ganhar altura
Escalado -- sujeito intrometido, que se oferece para ser convidado
Fona -- último a jogar (no jogo da peteca)
Imbiocar -- inclinar o papagaio para baixo
Marcando -- vacilando
Morcegar -- pegar carona nas traseiras de automóveis, principalmente ônibus
Número de frases: 67
Queidar -- derrubar papagaio
Tem que ir, tem que ver, tem que ouvir, tem que respirar fundo e se deixar penetrar por aquela mágica:
um homem, um instrumento e a voz do deus da música falando através de ele.
Adoro ir a salas de concerto, ainda mais quando o tempo fica assim, chuvoso e friozinho.
Homens grisalhos usam golas rolê pretas e calças pretas.
Mulheres usam écharpes de seda, brincos antigos, casacos de couro fora de moda.
Botas com saias, batons cor de vinho, pérolas.
Pra ouvir aquela música, há que se vestir bem.
Lindo isso ...
Jovens estudantes de música levam seus instrumentos e sentam na parte mais barata da platéia.
Celulares tocam durante o show, uma mulher reclama com a dona do telefone, que retruca, ríspida:
«Você tem filhos?"
A o que a outra responde com uma gargalhada cheia de sarcasmo, porém muda, pra não atrapalhar o concerto.
Deveriam ser proibidos os perfumes doces em salas de concerto, aliás em todo o mundo.
Ter mi nan te mente proibidos!
Quanto mais clássicas as mulheres, mais doces seus perfumes?
Em o intervalo, a gente compra balinha do lado de fora, na rua da Lapa, onde já tem um carro de xis-tudo aberto, tocando um funk batidão e por onde os vendedores de cachaça -- a metro, e cruelmente flavorizadas com abacaxi, hortelã e morango -- já circulam esperando o movimento da noite.
Termina o intervalo.
Voltamos à Sala, passando por o foyer lotado demais, cheio de fumaça de cigarros e cheiro de café.
Sinto pena do Rio de Janeiro, pena do Brasil, pena de mim.
A sala é novamente envolta por a sublime música e por a respiração dos ouvintes educados, que esperam pra tossir entre os movimentos e sabem exatamente quando acabou a peça e já é permitido aplaudir.
Mas pena, mesmo, eu sinto, sobretudo, quando vejo aquele rapazinho magro, gay, solitário, barbudo, feio, excluído do mundo das bichas fortonas, das barbies lindonas, depiladas e perfumadas com o último lançamento das importadoras.
Imagino-o voltando para casa, sozinho, tomando um copo de leite morno com biscoitos em frente à TV, até que chegue a hora de dormir.
Para isso serve a música de Bach.
Para provar que a beleza é privilégio de todos ...
* este texto foi publicado em 2005, qdo aconteceu esse concerto.
Mas como a música é imortal, esse tempo não conta ...
Número de frases: 27
História em Quadrinhos já não é uma mídia exclusivamente infantil há uma porção de anos.
Alguns néscios, por puro preconceito e desinformação, insistem em torcer o nariz para HQs, rotulando quem as lê, de «infantilizado».
Esses, infelizmente, estão parados no tempo, sem saber;
os verdadeiros alienados da história.
Pergunto eu para quem já ao menos folheou um quadrinho de Moebius, Jodorowski, Alan Moore, Frank Miller, Grant Morrison, Brian K. Vaughan, Bill Willingham, Garth Ennis, Warren Ellis e Brian Michael Bendis, citando apenas alguns dos mais populares roteiristas da atualidade, se dariam Incal, Watchmen, Sin City, Preacher, Fábulas, Planetary ou Y -- o último homem, para alguma criança se entreter numa tarde de verão.
E olha que nem estou falando de «quadrinhos adultos», como os de Milo Manara e de Robert Crumb, nos quais há até cenas de sexo explícito.
Outro preconceito que está bem visível hoje, com a ascensão do mangá por o mundo, é o de que mangá não é quadrinho.
Ora pois, mangá é um quadrinho feito no Japão.
O problema é que as pessoas generalizam o gênero «comics» (quadrinhos de super-heróis), como se todo quadrinho fosse sinônimo tão somente de histórias de homens e mulheres com algum super-poder.
E nem todo mangá, é bom lembrar, destina-se ao público infantil, vide Crying Freeman e Lobo Solitário, que são bem violentos, ainda que poéticos.
Se você curte uma boa arte seqüencial, seja ela um comics, um mangá, uma banda desenhada, um fumetto ou uma historieta, já tem um lugar para ir e ser bem acolhido, em Natal (RN):
a Garagem Hermética Quadrinhos, ou GHQ.
Em a Garagem Hermética, colecionadores e desenhistas se encontram para trocar idéias sobre quadrinhos, literatura, cinema, séries de TV e música.
Também, exposta nas paredes da loja, há uma pequena mostra do trabalho de artistas potiguares, como:
Wendell Cavalcanti, Márcio Coelho, Williandi, Wanderline Freitas e Flávio El Filhote (e suas pinturas feitas com a técnica da aerografia).
Sem falar nos títulos independentes e nos fanzines produzidos por o Brasil afora, que faço questão de trazer para cá:
Belém Imaginária e Encantarias -- a lenda da noite (ambas do pessoal do estúdio Casa Velha, de Belém), Destino Oeste (Cuiabá), Passos Perdidos (Recife), Domínio Público (Recife), Gervásio e Jandira -- humor e amos aos pedaços e Oficina de desenho (ambos do Zappa, conterrâneo do Ziraldo), Cometa (Chapecó), Garagem Hermética (São Paulo), Revista Cão (São Paulo) e vários livros teóricos da editora paraibana Marca de Fantasia (do Prof. Henrique Magalhães);
e os nossos:
Guerreiros das Dunas -- vol. 01 (Emanoel Amaral, Márcio Coelho, Gilvan Lira e Watson Portela), Brado Retumbante (vários), The Negão (Eduardo Kowalewski), Eni Guimá:
o diamante Vale Ouro (Wanderline), Humor Diário (Ivan Cabral) e Lula Ano Um (Cláudio de Oliveira, para quem não sabe, Cláudio foi o mais jovem colaborador do Pasquim).
Livros teóricos, romances, crônicas e poesia de artistas potiguares têm igualmente vez:
Em as Trincheiras da Cultura (José Soares Junior), A escrita dos Quadrinhos (Moacy Cirne), O Segredo de Leuzza e Selva Negra (José Severino Neto), O Perfil da águia e Prometeu Livre -- um outsider no Olimpo (dessa poeta que lhes escreve).
Como não poderia deixar de ser, na GHQ você encontra os mais variados títulos, todos novos, das grandes editoras nacionais, como:
Conrad, Opera Graphica, Pixel Media, Devir, Panini, Mythos e HQManiacs.
E ainda, a cada dois meses, há o Saldão de HQs Usadas, quando colecionadores de todas as idades se reúnem para vender e / ou trocar verdadeiras relíquias e HQs mais convencionais.
Em um Estado que se orgulha em ter como filho o Prof. Moacy Cirne, bem como em ter o GRUPHQ (um dos primeiros grupos de estudo e produção de quadrinhos, do Brasil, criado em 1971, e que chegou a ter a colaboração do saudoso Henfil, na revista Maturi) renovado e em plena atividade, não se pode deixar morrer a verve quadrinística.
Além dos artistas supracitados, anotem esses dois nomes:
Tati Viana e Victor Negreiro.
Então, se você faz parte dos que querem reaprender a ler quadrinhos ou se já aprecia essa mídia e não sabe onde encontrar algum título bacana, venha nos fazer uma visita real ou virtual.
Fique Ligado
A partir do mês de março, a GHQ está com uma promoção imperdível, fruto da parceria com a rede de cinemas Moviecom:
a cada R$ 60,00 em compras à vista, o cliente ganha um ingresso para assistir a qualquer filme, em qualquer sessão, seja em dias úteis ou em fins-de-semana, no Moviecom do Praia Shopping, em Natal.
Garagem
Hermética Quadrinhos AV.
Engenheiro Roberto Freire, 2951 CCAB Sul -- BLOCO 3 -- LOJA 3
Capim Macio
CEP: 59078-902
Natal-rn Fone /
Fax: (84) 3217-3270
Site: www.ghq.com.br
Loja Virtual: www.ghq.com.br/lojas/lojaVirtual
Horário de funcionamento:
Segunda à Sexta:
das 13:30 às 19:00 horas
Sábado: das 14:00 às 18:00
Comunidade GHQ no Orkut:
http://www.orkut.com/ Community.
aspx? cmm = 4577488
Para saber mais sobre quadrinhos, consultem os sites:
Universo HQ
http://www.universohq.com.br HQManiacs
http://www.hqmaniacs.com.br Omelete
Número de frases: 52
http://www.omelete.com.br A segunda peça do jornalista, roteirista, dramaturgo, cineasta, escritor e diretor teatral Fernando Bonassi resenhada essa semana também é um monólogo.
Ele realmente está engajado na sua procura da aposentadoria precoce.
De essa vez quem dirige é ele próprio, no alto do 13º andar da unidade «provisória» do Sesc Avenida Paulista.
Tomo a liberdade do parêntese aqui:
em texto publicado no Caderno 2, Marcelo Rubens Paiva critica as demolições que o Sesc faz para construir novas unidades.
Imagino que a administração da unidade «provisória» da Avenida Paulista não seja algo fácil e que por isso a adaptação do prédio seja necessária.
Mas o que será que farão ali?
Por favor, não façam outros teatros italianos como o do Sesc Santana.
E, bem, é foda mais uma vez falar desse cara.
Agora eu tô falando do Bonassi novamente.
Ele teve a cara de pau de fazer um espetáculo inteiro com um único ator imóvel, imitando uma fotografia.
De longe foi a peça mais chata de toda a minha curta vida.
E o pior é que isso não é um grande problema.
Os fluxos de pensamento de O Incrível menino da fotografia não dão conta da atenção do espectador.
Há, sem dúvida, um crítica exacerbada à inatividade de toda uma geração que cresceu do meio para o final da ditadura (aquela dos militares, não a do consumo) e que até hoje parece presa na fotografia de um tempo burro da nossa história.
Com esse problema estrutural posto na dramaturgia, todos os outros elementos parecem querer gritar pra você «olha pra mim, olha pra mim».
A iluminação quer fazer daquela imagem algo que vai do mais angelical até o mais diabólico:
naufraga, entretanto, por conta da quantidade de sombras que gera e por atrair demasiadamente a atenção.
A trilha é bastante criativa ao juntar recortes que vão de sons da paisagem, até temas da década de setenta:
estaria perfeita não fosse um arroubo de humor que bateu em Marcelo Pellegrini (que assina a dita cuja) ao colocar no início do espetáculo uma narração quase integral da tradução da música «I started» por um locutor de rádio, numa chave extremamente cômica, mas que nada tem a ver com a peça.
A direção de arte reconstrói a fotografia, com o ator suspenso no ar.
Basicamente chega ao limite do literal.
O fato da peça ser chata não se apresenta, então, como um grande problema, na medida em que o Bonassi (jornalista, roteirista, dramaturgo, cineasta, escritor e diretor teatral) sabe que quer passar essa sensação de tédio e inatividade do seu personagem, como forma de representar uma geração.
O problema está nos outros elementos da montagem que não estão afim de corroborar com o espetáculo chato.
Como diz o ator César Figueiredo, ao final de Eu não sou cachorro, do mesmo Bonassi (jornalista, roteirista, dramaturgo, cineasta, escritor e diretor teatral) em cartaz no studio 184: «Divulguem este espetáculo, pois a mensagem de ele tem que ser ouvida por muita gente», definitvamente o conteúdo de O incrível menino na fotografia é pra ser ouvido por muita gente e ensinado nas escolas primárias (ops, desculpem o autoritarismo momentâneo).
Número de frases: 25
Pena que a forma seja tão monótona e não tenha sido totalmente radicalizada.
Moro em Pernambuco faz oito anos, e ainda não tinha visto um show de Nação Zumbi na praia.
Tive a oportunidade agora há pouco (10/09), quando fui com uma amiga para o Pólo Pina, um pontal perto de Boa Viagem.
Só não foi melhor porque perdi minhas chaves na areia ...
Só fui pra ver Nação, em show da turnê Futura, também inédito pra mim.
Logo de cara, Jorge Du Peixe soltou:
«é muito legal um evento assim, de graça, pra todo mundo.
Tem que ter também quando não rola eleição».
Ponto para a Nação.
O evento, Recife ConVida, foi promovido por a Cia. de Eventos (da qual nunca havia ouvido falar até então) e Prefeitura do Recife.
Tinha também Jorge Ben Jor, Mombojó e outros na programação.
Tinha muita gente na praia, muita gente mesmo.
Uma ou outra bandeira do PT também.
Mas nada que fizesse concorrência com uma enorme bandeira negra dizendo:
Vote Nulo!
Ponto para o povo.
É incrível o poder de convocação que a Nação tem, mesmo sem tocar em rádio, entre as periferias e a burguesia local, ambas bem representadas na ocasião.
Vez ou outra, perigava uma roda de pogo mais destruidora, logo contida por os «da paz» e os músicos, sempre ligados na galera.
Mas foi só a banda tocar os primeiros acordes de Quando a Maré Encher que o bicho pegou.
Muitos dos que estavam lá vieram das favelas ao redor (principalmente do Coque) pra assistir seus ídolos e, claro, reverenciar o ícone que Chico Science se tornou, ao lado de Raul, Che e Bob Marley.
Outros, que não dançavam nunca, vieram pra dar porrada mesmo.
Finda a canção, tranqüilamente, Lúcio Maia reverte a situação:
«peraí moçada, ó esse espaço vazio aí, todo mundo quer curtir o show.
Fica só homem aí se batendo, e tá cheio de menina bonita em volta, cês tão batendo em elas, tão marcando bobeira!»,
disse o guitarrista, entre palmas e risadas.
E o bate acabou na hora.
Nada como um diálogo em vez do cassetete.
Mais adiante, o guitarrista soltou:
«Se você tem amigo racista, tá na hora de acabar essa falsa amizade».
Ponto pra Lúcio.
Foi muito bom ver a Nação tocar às vésperas dos 10 anos de morte de Chico (ele morreu num acidente de carro, em fevereiro de 1997).
Os caras nem querem falar no assunto, preferem comemorar -- com razão -- o dia do nascimento do artista.
O fato é que praticamente tudo mudou.
As músicas antigas estão muito diferentes (Praieira virou ragga, Manguetown ficou bem mais lenta).
Será que isso é só no Recife, pra não instigar demais a moçada da pancadaria?
Acho difícil.
De uns anos pra cá, os shows da Nação estão meticulosamente ensaiados, do solo de guitarra até o último spot de luz.
Resultado de um conceito muito bem pensado antes de cair na estrada.
Hoje, cada músico tem seu espaço definido (Toca Ogan continua fazendo duas músicas, Lúcio Maia canta uma, só faltou Gilmar Bola Oito, que desta vez não pegou no microfone).
A prova disso é que o elemento surpresa veio de fora no show da praia.
Lá por as tantas, um caboclo de lança (de flor na boca e tudo) insistiu tanto, que subiu ao palco e dançou a clássica Salustiano Song!
Com exceção deste momento, foi tudo bem diferente do que rolava dez anos antes, quando Chico Science improvisava e fazia transbordar tudo e todos.
Ninguém sabia o que iria acontecer no momento seguinte.
A Nação um dia foi anarquista, celebrava Dionisío;
Hoje, como tudo o que vive, muda e experimenta:
está mais para a Apolo.
Continua uma das melhores bandas do mundo.
Número de frases: 47
É pra ser uma resenha.
De um dos livros mais geniais que li até agora.
E não porque o escritor é meu irmão e chapa, parceiro de noitadas, biritas e similares.
De os bons tempos.
A afirmação vem junto com a certeza de que os escritos que tenho com mim agora são verdadeiramente raros.
Digo raros, pois entendo que, num mundo de escritores muito formais, ou de outros que se engajam em falsas vanguardas -- um chute nos bagos em métrica e rima, estes poemas funcionam como providenciais coquetéis Molotov.
Esse tipo de arte anda meio esquecida, já que cada vez mais os leitores preferem à prosa.
como se a velha matrona literatura jogasse pra escanteio a poesia furiosa, bela e inflamável.
Os textos que leio neste exato momento são aqueles que acordam os excessivamente metódicos.
Em seus escritos e, por que não dizer, em suas vidas.
Não que eu tenha nada contra os melancólicos de olhar tristonho e os filósofos de plantão -- alguns donos de textos inspiradores.
O que eu não tolero é o sujeito fingir que implode toda vez que escreve algo, enquanto não passa de um babaca enclausurado.
Até ter a capacidade de diferenciar um do outro, vai um logo caminho.
Mas a gente percebe a falsidade e a fraqueza explícita em cada ponto e vírgula depois que pega a manha.
Então, sendo isso aqui uma suposta resenha de um livro, sou obrigado a dar algumas informações didáticas e necessárias, antes de divagar um pouco.
Lupeu Lacerda, artesão e escritor, nasceu em Juazeiro do Norte.
Passou bravamente -- e com bêbado louvor-Y pelos anos setenta e de lá tirou suas melhores referências.
Em a verdade, longe das débeis cronologias, o escritor sacou que muita coisa hoje considerada eterna -- Helter Skelter, dos Beatles;
o disco Aqualung, Robert Crumb, Leminski, entre tantas outras ondas -- surgiu naquela época.
Tornando-se o seu lastro.
Além de ser o tipo de cara que vislumbrava atrás de um muro, ou de qualquer vastidão seca, árida e meio desesperançada, um mundo de possibilidades, certamente o ar, a famosa resposta soprada por o vento do Dylan, também deve ter feito lá seu estrago.
E ele caiu fora.
Viajou, montou bandas, tomou todas, escreveu pra caralho.
Principalmente em fanzines, num momento em que isso implicava em datilografar os textos, recortar fotos e montar tudo com cola para, depois, tirar umas fotocópias.
Quando não era feito no jurássico e extinto mimeógrafo.
Seus textos foram «publicados» em diversos desses bravos redutos de literatura, tais como Séquiço Sacro e o Art Pop Zine, antológico zine que sacudiu a velha Juazeiro natal do sonolento João Gilberto.
Viveu com a intensidade digna dos escritores que tanto admira -- e esqueçam aqui o peso «clichê» da frase;
se conhecerem um dia o cara verão do que falo:
suas aventuras e viagens estão gravadas em seus olhos.
O livro Entre o Alho e o Sal -- um petardo de 136 páginas, de qualidade gráfica indiscutível -- começou a ganhar corpo no início da década de 90.
Ao menos como projeto, algo que pudesse se transformar em livro.
Foi nesse período que a coisa tomava um outro rumo para o poeta.
Não em suas convicções, mas no mundo em si -- ou alguém esqueceu que foi a partir de 1990, mais ou menos, que as nossas velhas crenças começaram a sumir com a chamada revolução tecnológica?
O livro, assim como a tal revolução de bytes, teclados, chips e todo o resto, veio sem data pra terminar.
Entre uma noite e outra, Lupeu enchia garrafas com gasolina e ácido sulfúrico, colocava um velho pano nos gargalos, acendia seu cigarro e esperava:
ou seja, escrevia.
Em a época ele já tava morando na terra natal do suposto gênio da Bossa Nova.
Foi por aí que o conheci.
A cidade não era mais tão sonolenta quanto seu filho desafinado e temperamental.
Aqui e acolá, rolavam shows de bandas locais.
Peças de teatro eram montadas no peito e na raça.
Muita gente boa andava por as estreitas ruas de pedra com Kerouac, Ginsberg, Henry Miller e Murilo Mendes debaixo do braço.
Além de contar com um sebo, heroicamente comandado por Hélio, Dom Roncalli e Uberdan -- nobres desconhecidos para vocês, mas fundamentais pra caras como eu.
O sebo ficava numa sala pequena e acolhedora, em frente à igreja principal.
E estava sempre lotado de clássicos da literatura mundial, livros Beat, quadrinhos verdadeiramente undergrounds e vinis raríssimos.
Foi lá que eu vi, pela primeira vez em minha vida, um exemplar do Pasquim, da década de setenta.
Também foi ali que Ângelo Roncalli, amigo, autor do livro Orbitais e editor, teve o primeiro contato com o que seria Entre o Alho e o Sal.
E gostou, batizando o tal com o título.
Então, convertido numa espécie de Lawrence Ferlinghetti do São Francisco -- não confundam com San Francisco, começou a batalhar para que a obra pudesse ser publicada, muitos anos depois.
Mas a falta de grana, recurso motriz de qualquer porra neste mundo confuso, jogou o projeto por água abaixo.
Apesar do esforço eminente a coisa não vingou para o nosso Dom Roncalli.
Foi aí que outro cara, Sidney Rocha, amigo de longa data, sujeito nascido na Juazeiro inicial, a do Norte, topou a parada.
E,» ... se apaixonou por o projeto», como afirma o autor.
Tomando para a si a iniciativa de publicar aquelas verdadeiras e ferventes sacações de mundo.
E foi ele quem deu as caras e correu atrás -- e deu a cara ao livro.
O projeto gráfico, que contém alto relevo, ilustrações fabulosas de Leugim, colagens de Spirit, Crumb e etc -- num merecido revival dos bons tempos dos zines -- é algo que complementa o livro.
Digo, sem risco de errar, que o editor e idealizador da Kabalah Editora tratou com todo o respeito à obra do cara.
Coisa de parceiros.
* * * É comum, quando alguém faz uma resenha, rolar aquele tipo de comparação fundamental com algum escritor antigo e de maior visibilidade.
Geralmente, esses críticos de literatura fazem o que eles próprios chamam de «traçar um paralelo» entre o autor «x» e o «y» -- na maioria dos casos o «y» é novato e tem sua obra diminuída por a comparação malfadada.
E, na concepção inicial deste texto, enquanto organizava mentalmente as idéias, não foi diferente.
Tive a pretensão vaga, que logo virou fumaça, de compará-lo ao Waly Salomão e Leminski.
Ou até mesmo ao Gregory Corso.
O que para Lupeu, creio, seria motivo de orgulho.
Porém, tanto eu quanto o Roncalli e o próprio Sidney, que escrevem no livro, não caímos nesse expediente;
um puta esparro.
Por compreendermos tanto o livro.
E por sabermos que as condições, contexto, história, vida, vontades subentendidas e escancaradas, biritas, fodas, madrugadas heróicas e outras coisas mais que fizeram surgir os poemas, foram tão diferentes e únicas, resolvemos impor nossa vontade.
Colocamos Entre o Alho e o «Sal ao lado» dos grandes.
Em uma boa, sossegados.
Em as palavras -- ou seriam tiros?--
do Sidney:
«Não que eu catalogue o trabalho de Lupeu Lacerda com vanguardista ou romântico.
E não o faço temendo outros críticos, que sabem muito bem que estas categorias carecem de significações mais profundas ( ...).
Não o faço só porque não aprecio a catalogação das espécies ( ...) ";
no que Roncalli arremata:
«Entre conhecimentos que ainda não temos, entre coisas que temos e ainda não conhecemos.
Lupeu é lupa e telescópio ...
ao mesmo tempo ( ...) " Lupeu é lupa e telescópio ...
Ou seja, os «molotovs» -- dei esse nome por a carga explosiva contida em cada linha -- deram conta do recado e incendiaram essa minha vontade de compará-lo a quem quer que fosse.
E acho que eles também foram por esse caminho.
Não dá para simplificar uma obra desse quilate, quando leio, por exemplo:
«uma mulher / é uma tempestade de verão / uma mulher / é uma bala perdida / na madrugada do sábado / uma mulher é um grito de gol anulado».
Por enxergar beleza demais nas palavras;
por ver, sutilmente entre uma letra e outra, além da influência dos já citados poetas, resquícios de um Murilo Mendes e de um Maiakosvky -- meio chapado, de sarro e carregado de genuína esperança.
Ou então, quando mudo a página e vejo algo como:
«A verdade / é que eu me amarro / Quando você me olha / Com essa cara de quem entrou / Em o banheiro errado.
/ Eu, eu entro por as frestas / Eu, eu entro por as saídas».
Típico texto de quem já varou diversas madrugadas tontas -- e eu tava em algumas de elas;
os dois embriagados e divertidos pra caralho, tomando todas e mais algumas, tentando ver qual era a do próximo bar, se estava aberto ou se já tinha entregado as pontas e baixado as portas.
Outra garrafa incendiária:
«quem quiser mais verde engole a serra.
/ quando vai falar, / cospe duzentas e trinta gramas, de bobagens coloridas.
/ o luar salta do bolso descorado / do mendigo em chamas / e solicita uma água tônica gelada.
/ o presidente cerra os dentes / e se auto-prolifera.
/ as feras comem a pinacoteca / do palácio da alvorada».
Fogo, explosão.
Uma espécie de» ...
alta temperatura anarquista ( ...) "
como diz o editor e projetista gráfico do livro.
É por isso que não devo fazer a tal comparação, pura e simples.
Recuso-ma «traçar» o tal «paralelo» tão comum aos críticos de verdade -- nunca fui chegado a retas, paralelas ou não;
sempre preferi parábolas e outras curvas que não sabem aonde vão chegar.
Não sou jornalista, catedrático, ou coisa parecida.
Sei que se fizer isso, muita coisa se perde.
A essência de todo o livro -- algo não linear, que detona a tal linha reta -- se corrói, desaparece.
Injustamente. Cada vez que leio Entre o Alho e o Sal, acredito que ele tem o direito de reivindicar seu espaço e sua existência nas estantes desse tal mundo louco e entediado, como sendo uma obra particular e nova.
Mesmo que de vez em quando a gente suponha, preguiçosamente, reconhecer uma ou outra coisa parecida com esse ou aquele escritor «estabelecido».
Mas um livro não é inventar a roda;
talvez reinventá-la, atear fogo à dita cuja ...
A minha «crítica» surge da sorte assumida de poder ler essa obra, que se disfarça de pequena e casual;
algo feito entre amigos numa mesa de boteco.
Este meu texto começou por conhecer e admirar o cara, o autor do livro.
E de poder dizer, com aquele raro orgulho, que ele é meu irmão;
meu bróder, um dos escolhidos.
Sem desmerecer, caindo numa espécie de descrédito ou da mais deslavada picaretagem, a qualidade de seus textos.
Nem diminuir esta minha tentativa de explicar o que não tem tanta explicação assim.
Notas:
Contatos com o escritor:
1 -- lupeulacerda@gmail.com
2 -- (87) 8812 9504
3 -- (74) 3612-5264 / (74) 3614-2142
Onde comprar o livro:
1 -- Livraria Cultura
2 -- com o autor:
Número de frases: 125
lupeulacerda@gmail.com O nordestino cantou aos seus também no ato da morte.
Os Bem-Ditos cantados em louvor ao morrer é dos cânticos mais belos que existem.
A recepção aos mortos se doída, indesejada, não encerrava tristeza.
O crer na Vida Eterna não dava margem ao velar.
Prestava-se, ao que partia, corpo presente em Sentinela, exatamente com o significado do verbo sentir.
De os cânticos do sertão nordestino:
o aboio;
os Bem-Ditos;
as ladainhas;
as ' incelências», são sem dúvida -- siameses.
O aboio, o mais loquáz e geral dos cânticos humanos;
os Bem-Ditos, dos mais sublimes;
as ladainhas dos cantares mais chamativos;
e os Bem-Ditos por excelência, (ou as incelências), a comunicação com melhor sentido de transcedência. (
Tocante, e não triste).
A Primeira INCELÊNCIA
Uma incelência -- minha Virgem da Vitória,
Despeça desta alma que ela hoje vai s ' embora;
Ela hoje vai s ' embora -- vai com dor no coração:
Despeça de seu povo e diga adeus seus irimãos -- (voz por dentro);
Despeça de seu povo e diga adeus seus irimãos -- (voz por fora).
Em ordem crescente ...
Sete incelências minha Virgem da Vitória,
Despeça desta alma que ela hoje vai s ' embora;
Ela hoje vai s ' embora -- vai com dor no coração:
Despeça de seu povo e diga adeus seus irimãos -- (voz por dentro)
Despeça de seu povo e diga adeus seus irimãos -- (voz por fora).
Este canto por excelência apresenta o falecido aos seus amigos, aos seus parentes, aos seus familiares.
É a notícia, a confirmação, o atestado de óbito.
O irreversível.
Cantada em ordem crescente (não pode ser interrompida, quebrada) (2).
Até final do séc..
XIX era de doze repetições cada incelência.
Em o Sec.
XX, desde fins do primeiro quartel, passou a ser de sete.
Cantada a qualquer hora durante a sentinela.
As sete repetições atuais eu próprio atribuo ao já decrescente numero de filhos, já visível no início do Sec.
XX.
Em um primeiro instante ao redor do catre improvisado onde repousa o corpo na espera do caixão confeccionado ali mesmo ou nas imediações, para logo os presentes irem se acomodando no espaço e no tempo, conforme o grau de parentesco e também dos interesses, das idades.
Principalmente das idades.
Em a espera do tempo universal de 24 horas que dura a sentinela.
As rezadeiras entoam o aviso, o chamamento.
A incelência avisa a proximidade da partida, a saída do corpo:
A Antepenúltima Hora
Os carregador já chegou,
Esta alma já vai s ' embora.
Uma incelência da virgem -- Senhora dai boa hora! (
voz por dentro)
Uma incelência da virgem -- Senhora dai boa hora.. (voz por fora)
em ordem crescente
Os carregador já chegou,
esta alma já vai s ' embora,
sete incelências da virgem -- Senhora dai boa hora! (
voz por dentro)
sete incelências da virgem -- Senhora dai boa hora ... (
voz por fora)
Lamentavelmente os dicionaristas do Brasil, todos, ignoraram o vocábulo Sentinela, com o sentido que ela teve no sertão nordestino, ainda tem.
De os intelectuais escritores Silvio Romero, Euclides da Cunha, Câmara Cascudo, Gilberto Freyre lhe fazem referência.
Trazidos alguns dos versos de Portugal, (1), de pontos diversos a sentinela cultivada aqui, é enriquecida por a cultura indígena.
Criou asas ao fundir com o hábito africano de cantar seus mortos.
A melodia foi enriquecida ainda em Portugal, por o Sec.
XV, com as primeiras levas de escravo negros.
Chega no Brasil já modelada.
Em o nordeste pastoril, impulsionada por a ausência das senzalas e por a distância do Poder de Estado, cria asas.
Aqui, sedimentada, ainda por a presença espiritual do Cristianismo misturado com as crenças quer do indígena quer do africano, ganha a plástica da mistura do sentimento:
a perda do falecido, é motivo para encontros, as oportunidades para o namoro, ponto alto para a alcovitice, em tudo o entrelaçamento social.
Assim é a sentinela -- dor e alegria.
Me arrisco a dizer, mais alegria que dor
Em toda a vida social do Brasil quatro atividades de mulheres fizeram a nossa matriz social / familiar:
a) A parteira, sempre esperada por confiança e amor;
b) a rezadeiras de terço -- buscada com referencial quase de eleita;
c) as rezadeiras de sentinelas e d) as condutoras de sentinela.
Para estas duas últimas não havia convite, chamado.
Estava claro, implícito:
considerações e dever.
Enquanto as rezadeiras cuidava da alma do morto.
A condutora de sentinela geria a vida dos vivos e ultimavam a permanência do falecido.
Como uma máxima:
«Vamos gente, está na hora, só se tinha 24 horas.
Acabaram, se não for enterrado fede».
Dito, seca e placidamente.
O Adeus, A Descida à Terra.
Éramos sete irimãos juntos -- que ganhei lá no Paraíso,
Adeus irimão adeus -- adeus, até dia de juízo (voz por dentro)
Adeus irimão adeus -- adeus, até dia de juízo, (voz por fora).
Em ordem decrescente (a única)
Éramos dois irimãos juntos -- que ganhei lá no Paraíso,
Adeus irimão, adeus -- adeus, até dia de juízo -- (voz por dentro)
Adeus irimão, adeus -- adeus, até dia de juízo -- (voz por fora).
Com o falecido eram enterradas muitas malquerenças, inimizades;
por outro lado a Sentinela dá margem ao nascimento de muitas e de tantas amizades novas.
Tantos entrelaçar de famílias via casamento, nascidos ali, sob auspícios do morto.
Em a sentinela, em seus bem-ditos, nas suas incelências não cabiam instrumento outro, nem mesmo a rebeca tão presente em tudo, não cabia na Sentinela.
A sentinela era um ato solitário ...
E assim a sentinela plantou a pessoa no sertão ...
...
...
(1) Em Os Sertões Euclides se mostra surpreso com o rezar nas sentinelas;
Cascudo faz referência aos bem-ditos, mas não se refere à sentinela, as considerações estão no vocábulo «velório».
Gilberto em Casa Grande e Senzala até dar-lhe certa plástica.
(2).
Aqui posto as incelências, entre reticências, na verdade não sei se poderia eu fazer isto.
Em o texto rascunhado elas estão inteiras, com todas as repetições.
Dia 31 de maio, deste ano de 2008, nas comemorações do encerramento do Mês de Maria, festividade realizada na sede da UCRAN, (União dos Cantadores Repentistas e Apologistas do Nordeste), no Cambuci, em São Paulo, Capital, conversando com o Dep.
Aldo Rebelo este me falava ter ficado uns 30 anos sem ter estado presente numa sentinela.
E para sua felicidade, ainda naquele mês de maio, em sua terra -- Alagoas estivera presente na Sentinela do pai de um amigo de infância.
E Aldo me sugeriu a escrever algo, do que me lembrasse sobre as Sentinelas ...
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Número de frases: 108
Andre Pessego Colaborador do www.portalcapoeira.com Faltam dois meses para o Carnaval e aqui no Recife e em Olinda já começou o corre-corre das agremiações, escolhendo temas e preparando fantasias, maracatus ensaiando, blocos se apresentando em festivais ...
É Pernambuco mais uma vez falando para o mundo!
«Vou relembrar o passado
De o meu carnaval de fervor
Em este Recife afamado
De blocos forjados
De cor e esplendor.
Em a rua da Imperatriz
Eu era muito feliz,
Vendo o bloco desfilar
Escuta Apolônio o que eu vou relembrar
Os Camponeses, Camelo e Pavão
Bobos em Folia do Sebastião
Também Flor da Lira com seus violões
Impressionava com suas canções." (
Relembrando o Passado, de João Santiago)
O Carnaval multicultural do Recife e Olinda é famoso por a diversidade de ritmos e de agremiações de rua, que vão desde os maracatus rural (de baque solto) e nação (de baque virado) às troças e clubes de frevo, passando por os «caboculinhos», bonecos, La Ursas, bois, afoxés e até escolas-de-samba.
Porém, uma de elas se destaca por a beleza do seu conjunto, por o ritmo compassado dado por seus instrumentos e por as melodiosas letras de seus frevos:
os Blocos Lírico s.
Também conhecidos como blocos de pau-e-corda, os blocos líricos são agremiações incomparáveis, famosas por as fantasias bem-elaboradas, que saem nas ruas ao som de uma orquestra de instrumentos de cordas e sopro, composta por banjos, bandolins, violões, cavaquinhos, flautas, saxofones e clarinetas (alguns blocos maiores trazem ainda violinos, bombardinos, trompetes e tubas);
além de uma percussão formada por surdo, pandeiros, caixa e, às vezes, ganzá e reco-reco.
Em os frevos-canção e de-rua, a orquestra é dominada por os metais.
São acompanhados de um coral feminino e de cordões de pastoras, pastores e crianças.
à frente vai o abre-alas do bloco, chamado «flabelo», feito de material firme (diferentemente dos estandartes) e que traz o nome da agremiação e a data de fundação, sempre empunhado por uma pastora, a flabelista.
Em os blocos mais antigos ainda em atividade, como Madeira do Rosarinho (1926), Banhistas do Pina (1932) e Batutas de São José (1932), é um homem com um traje de pajem à Luís XV quem carrega o símbolo do bloco, como nas troças e clubes.
«Chora bandolim
Chora violão
O meu coração
É assim ...
Ah, linda pastora de voz tão macia
Canta meu verso minha melodia
Enquanto há tempo para se cantar
Ah, viver assim não é sonhar à toa
Eu faço parte dessa gente boa
Que ainda voa
Atrás de luar
Vê! O meu Recife se enfeitou demais
Olha! Até o rio parou de correr
Só pra ver meu bloco de recordações
Com um flabelo feito de ilusões
Me levando de volta pra você." (
Flabelo das Ilusões, de Heleno Ramalho)
A música tocada é um tipo de frevo mais arrastado, dolente, romântico, saudosista ou exaltador da cidade, chamado frevo-de-bloco ou marcha-de-bloco, como preferem os compositores tradicionais, e que guarda certa semelhança (e inúmeras diferenças) com a marcha-rancho carioca.
As letras são riquíssimas, cheias de palavras incomuns ou de pouco uso na nossa língua.
Os desfilantes fazem evoluções mais leves e sem pulos, ao contrário dos frenéticos passistas de frevo-de-rua com suas sombrinhas.
Um apito seguido de um acorde em uníssono de toda a orquestra dá o sinal de início de execução de cada canção.
Próximo ao fim da música, novamente um apito se encarrega de preparar a orquestra e os desfilantes para o seu encerramento.
à saída do bloco, entoa-se o hino e ao final do desfile, quando o bloco se recolhe, canta-se o «regresso», que é a marcha de despedida, com temática triste em alusão ao fim do Carnaval.
Os foliões do bloco cantam as músicas com um sorriso no rosto, chamando o público para acompanhá-lo, mesmo que seja uma canção triste ou melancólica.
Conforme a pesquisadora Cláudia Lima, os visitantes desavisados podem não entender e confundir o significado dos Blocos com aqueles grupos de foliões fantasiados e improvisados que saem atrás de uma batucada e que existem em outras partes do país, inclusive em Pernambuco.
Os blocos do Recife possuem formato único.
Cantam os sucessos dos carnavais passados para que o público que os acompanha forme um gigantesco coral, embora sempre introduzam novas composições.
Os blocos possuem um enredo no seu conjunto de fantasias, todavia as músicas cantadas por os foliões não têm relação com esse enredo e com as fantasias, como nas escolas-de-samba.
«O apito avisou
Que o bloco vai sair
Cantando por a cidade
Fazendo todo povo
Mexer e se bulir
Quem não sabe vai saber
O molejo como é Você vem no seu gingado
Fazendo o sincopado
E arrastando o pé.
Agora não dê pulinho
Se não eu lhe digo benzinho
Isto é frevo-canção
O bloco é diferente
Relaxa o corpo da gente
E arrasta o pé no chão." (
Se Não Arrastar o Pé, Não é Marcha-de-Bloco, de Dimas Sedícias e Bráulio de Castro)
Muitos compositores pernambucanos famosos tiveram sua obra dedicada ao frevo-de-bloco e suas agremiações, devendo-se destacar os irmãos Raul e Edgard Moraes, este fundador de vários blocos, Nelson Ferreira, João Santiago, «Lourenço da Fonseca Barbosa Capiba», Levino Ferreira, os Irmãos Valença (João e Raul), de entre muitos outros, todos autores de clássicos do gênero gravados, como» Evocação n° 1, «Marcha da Folia», Valores do Passado»,» Sabe Lá o que é Isso «e» Madeira que Cupim Não Rói».
Ao contrário do que se fala, novos compositores mantêm a tradição renovando o repertório a cada ano.
Em esse sentido, podem ser citados Getúlio Cavalcanti, Romero Amorim, Antônio Madureira, Edson Rodrigues, Fernando Azevedo, Fred Monteiro, Bráulio e Fátima de Castro.
Outro detalhe é que muitos blocos possuem o seu próprio grupo de compositores, o que garante sempre a inclusão de novas canções nos repertórios, de modo que pode-se ouvir tanto os clássicos da década de 20 como canções fresquinhas compostas para o Carnaval do ano.
Além disso, grandes músicos e instrumentistas pernambucanos também fazem parte das afinadas orquestras dos blocos, que ensaiam e realizam prévias nos meses que antecedem o carnaval, são os famosos «acertos de marcha» em bares e clubes da cidade.
Atualmente, vários discos de frevo-de-bloco estão disponíveis no mercado, desde os de cantores e compositores conhecidos, como Getúlio Cavalcanti, Romero Amorim, J. Michilles, Heleno Ramalho, o afinadíssimo Coral Edgard Moares e a Orquestra e Coral Levino Ferreira, até os discos dos próprios blocos, como os quatro lançados por o Bloco da Saudade, o disco «Tempo de Bloco» com músicas de Bráulio e Fátima de Castro do Eu Quero Mais, o de marchas-de-bloco do Cordas e Retalhos, o «Vem Dudu do Flor da Lira de Olinda», o do Flor da Vitória Régia, o de composições de José Moraes gravado por o Pierrôs de São José, e vários outros.
«A o som dos violões
A mocidade alegre sempre a cantar
A nossa canção que faz o coração
Sentir uma vontade de chorar
A o relembrar os velhos carnavais
Que não voltarão jamais.
Recordar é viver
Tudo enfim que passou
Eu não posso esquecer
Quem saudades deixou
Dentro do meu coração
Que hoje vive a sofrer a recordação." (
Recordar é Viver, de Edgard Moraes)
Segundo o pesquisador Júlio Vila Nova, notável conhecedor da história dos blocos e autor do livro " Panorama de folião:
o carnaval de Pernambuco na voz dos blocos líricos " (de onde retirei muitas informações) e presidente do Bloco Cordas e Retalhos (1998), no passado, os blocos alimentavam uma grande rivalidade entre si, como por exemplo, entre Madeira e Inocentes do Rosarinho (1946, atualmente extinto) ou entre Batutas e Banhistas, ou ainda entre o Bloco das Flores s (1920) e Apôis Fum (1925).
Hoje essa rivalidade desapareceu, dando lugar a um espírito de confraternização entre eles.
Há quem diga que, embora velada, a rivalidade ainda exista.
«Madeira do Rosarinho
Vem a cidade sua fama mostrar
E traz com seu pessoal
Seu estandarte tão original
Não vem pra fazer barulho
Vem só dizer ...
e com satisfação
Queiram ou não queiram os juízes
O nosso bloco é de fato campeão
E se aqui estamos, cantando esta canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto que a injustiça dói
Nós somos madeira de lei que cupim não rói." (
Madeira que Cupim Não Rói, de Capiba.
Hino do Madeira do Rosarinho) Os blocos carnavalescos líricos (B.C.L.), antes chamados blocos carnavalescos mistos (B.C.M.), apesar de muitos ainda manterem essa denominação, tiveram origem nas festividades natalinas dos ranchos de reis e pastoris, assim como nas serenatas do começo do século XX, nos bairros do Centro do Recife (São José, Santo Antônio e Boa Vista), espalhando-se depois para os seus arredores (Torre, Rosarinho, Tejipió, Madalena e outros).
Até hoje, pode-se notar alguns passos semelhantes entre o frevo-de-bloco e o pastoril.
Em os blocos, participavam as famílias da classe média e, pela primeira vez, as mulheres puderam brincar abertamente no Carnaval de rua.
Era nesses blocos que se distribuía um tipo de confeito enfeitado em papel prateado e tiras, chamado «jetom» ou «jetone», ainda hoje praticado por alguns foliões, e ao lado dos tradicionais confetes e serpentinas, um dos poucos costumes remanescentes dos carnavais passados.
O primeiro bloco de que se tem notícia foi o Bloco das Flores Brancas, depois simplesmente denominado Bloco das Flores, fundado na rua Imperial, em 1920, por Pedro Salgado Filho, tendo o grande Raul Moraes como seu compositor maior e diretor de orquestra.
O bloco foi reativado por um grupo de foliões em 2000 (www.blocodasflores.org.br).
«Bloco das Flores por onde passa.
Semeia com tal graça ao som de lindas canções.
E os esplendores dessa alegria
Que as almas extasia
E apaixona os corações
Viva a folia do carnaval
Intensa alegria sem outra igual
Que olvidar faz a dor ferina
E nos ensina a sorrir e amar
Temos na vida só dissabores
Tristezas, amargores e a desilusão final
Mas de vencida o mal levemos
E esqueçamos que sofremos divertindo o carnaval.
Viva a folia do carnaval
Intensa alegria sem outra igual
Que olvidar faz a dor ferina
Que nos ensina a sorrir e amar." (
Marcha da Folia, de Raul Moraes, 1924.
Hino do Bloco das Flores) Muitos outros surgiram logo após (as datas de fundação ainda são controversas ou desconhecidas), como o Bloco Concórdia (que tinha Nelson Ferreira como compositor), um de nome esquisito e rival do Bloco das Flores chamado Bloco Saúde da Mulher, o Batutas da Boa Vista (1920) criado no Pátio de Santa Cruz, Turunas de São José (1923), Andaluzas em Folia (com Guilherme de Araújo na direção), Pavão Dourado, Galo Misterioso, Camponeses em Folia, Lira do Charmion, Se Tem Bote, Um Dia de Carnaval, Lira das Liras, Lira do Amor, Camelo de Ouro, Crisântemos, Sem Rival, Corações Futuristas (1923), Bebé, Bobos em Folia, Cartomantes, Jacarandá (1923), Flor da Magnólia (1924), Rebeldes Imperial, Dirigível do Torreão, Diversional da Torre, Lobos de Afogados, Sabido não Grita, e vários outros, conformando a primeira fase dos blocos de pau-e-corda, de acordo com Vila Nova.
A história desses blocos merece uma nova pesquisa.
De essa época, além do Batutas de São José, criado no Pátio de São Pedro, Madeira do Rosarinho, Bloco das Flores e Banhistas do Pina já mencionados, ainda são vistos no Carnaval, porém sem o esplendor de outrora, o Pirilampos de Tejipió (1923) do saudoso Guilherme de Araújo, Príncipe dos Príncipes, Apôis Fum [fundado no bairro da Torre, e segundo Leonardo Dantas da Silva, autor do livro «Blocos carnavalescos do Recife: história social», o bloco mais famoso de todos os tempos, tendo à frente Felinto de Moraes e Fenelon Moreira de Albuquerque], Lira da Noite e Flor da Lira do Recife (1930), que parou de desfilar em 1937, mas ressurgiu em 2000.
Esses blocos também participam da competição oficial de agremiações realizada no Carnaval, anteriormente na passarela da avenida Dantas Barreto, e hoje na avenida Nossa " Senhora do Carmo.
«Felinto ...
Pedro Salgado ...
Guilherme ...
Fenelon ...
Cadê teus Blocos famosos?
Bloco das Flores ...
Andaluzas ...
Pirilampos ...
Apôis Fum ...
De os carnavais saudosos!
Em a alta madrugada
O coro entoava
De o bloco a marcha-regresso
Que era o sucesso
De os tempos ideais
De o velho Raul Moraes
Adeus, adeus, minha gente
Que já cantamos bastante ...
E Recife adormecida
Ficava a sonhar
A o som da triste melodia ..." (
Evocação n° 1, de Nelson Ferreira)
Em as décadas de 50 e 60, esse tipo de agremiação entrou em decadência, por o novo formato do Carnaval do Recife e mudanças no centro da cidade.
Porém, na década de 70, surgiu o Bloco da Saudade (1974), que resgatou novamente essa tradição, dando impulso ao aparecimento de outros blocos, como o Flor da Lira de Olinda (1975), o Pierrô de São José (1978) e depois, nos anos 80, o Olinda Quero Cantar (1984, fundado por Laura Nigro, a maior foliã de Olinda e que faleceu recentemente) e o Bloco das Ilusões (1985).
Essa consiste na segunda fase da história dos blocos líricos.
«Bloco das Flores, Andaluzas, Cartomantes
Camponeses, Apôis Fum
e o Bloco Um Dia Só
Os Corações Futuristas, Bobos em Folia
Pirilampos de Tejipió A Flor da Magnólia
Lira do Charmion, Sem Rival
Jacarandá, a Madeira da Fé
Crisântemos, Se Tem Bote e Um Dia de Carnaval
Pavão Dourado, Camelo de Ouro e Bebé
Os queridos Batutas da Boa Vista
E os Turunas de São José
Príncipe dos Príncipes brilhou
Lira da Noite também vibrou
E o Bloco da Saudade, assim recorda tudo que passou." (
Valores do Passado, de Edgard Moraes, 1962.
Hino do Bloco da Saudade) Ainda segundo Vila Nova, a terceira fase se inicia nos anos 90, e é aí que aparece a maior parte das agremiações que hoje desfilam não somente no Carnaval do Recife e de Olinda, mas também em outras cidades da região metropolitana.
São dessa época o Nem Sempre Lili Toca Flauta (1989, diz-se que um outro bloco com o mesmo nome existiu em 1915), O Bonde (1991), Eu Quero Mais (1992) de Olinda, Cantolinda (1992, não desfilando mais hoje), Cordas e Retalhos (primeiro a usar a nova denominação B.C.L.), Flor da Vitória Régia (1998, desfilou até 2005) do bairro de Casa Forte, Pára-quedista Real (1999) do Poço da Panela, Bloco da Amizade (2000), Confete e Serpentina (2001), a Trupe Lírico-Musical Um Bloco em Poesia (2001), Valores do Passado, Esperança de Campo Grande, Pintando o Sete, Aurora de Amor, Alvorada dos Clarins, Cadê Mário Melo (hoje extinto), Seresteiros de Salgadinho (2003) e Me Apaixonei por Você (2005), este fundado por dissidentes do Bloco das Flores.
Em Moreno, surgiram o Flor do Eucalipto (2000) e, recentemente, o Com Você no Coração (2006);
em Paulista, o SintAzul e Menestréis do Paulista;
no Cabo de Santo Agostinho, o Fantasia da Juventude Lírica do Cabo;
e em Paud' alho, o Linda Flor da Mata.
Em essa onda, surgiram também os blocos líricos infantis, com destaque para o Sonho e Fantasia e o Eu Quero Maizinho.
A maioria dos blocos é fiel às suas cores, e nas fantasias, sempre confeccionadas em veludo, cetim, bordados e plumas, procura inserir o máximo de detalhes que identifiquem a agremiação.
Por exemplo, o Cordas e Retalhos traz o vermelho e branco como símbolos, assim como n ' O Bonde e Menestréis do Paulista;
as cores do Eu Quero Mais são amarelo, azul e vermelho;
o Confete e Serpentina é branco e preto;
Um Bloco em Poesia é vermelho e amarelo;
o Bloco da Saudade é vermelho, azul e branco;
o Nem Sempre Lili Toca Flauta é vermelho e verde;
o Flor da Lira de Olinda é azul e amarelo;
o Esperança e o Flor do Eucalipto são verde e branco.
«Quando nosso bloco sai às ruas
Com suas cores de luta e de paz
Reúne foliões, espalha alegria,
Evoluindo com graça e harmonia.
O Cordas e Retalhos é assim
Desperta líricas emoções
Revela o romantismo das paixões
Misturando pó-de-arroz e carmim
Somos Cordas e Retalhos
Coração que não parou
Atado por os nós, as cordas somos nós
Retalhos é o povo, assim Diego Rocha falou." (
Rouge et Blanc, de Airton Rodrigues, Leila Chaves e Eliane Chaves)
A cada ano, um novo tema é tratado nas fantasias dos blocos, que são guardadas no maior segredo.
Em 2007, por exemplo, pôde-se ver o Bloco da Saudade homenageando a Espanha, e aí seus desfilantes vieram fantasiados de toureiros e dançarinas de flamenco;
o Flor do Eucalipto trouxe seus componentes vestidos de ciganos;
o Me Apaixonei por Você homenageou a Rússia;
o Bloco das Flores, o mar;
o Cordas e Retalhos, os 100 anos do frevo e seus compositores;
o Eu Quero Mais fez uma nova leitura das colombinas e arlequins;
e os Pierrôs de São José vieram com seus maravilhosos pierrôs que são renovados a cada ano.
Em a segunda-feira de Carnaval, é realizado o Encontro dos Blocos Líricos no Recife Antigo, que, no início, não passava de uma despretensiosa confraternização realizada no pequeno palco na frente do bar Gambrinus, na avenida Marquês de Olinda.
O bar foi fechado para a reforma do edifício Chanteclair e a prefeitura tomou conta de vez do evento.
O Encontro passou a ter dimensões maiores e muitos blocos reclamam a falta de espaço nesse novo formato, pois somente alguns são selecionados para o palco principal, que agora localiza-se na praça do " Marco Zero.
Recife, Recife
Ouço ao longe você me chamar
Recife, me espera
Que outros blocos também vão chegar
Sou um poeta que chorar
A o ver o teu renascer
Ilusões de outrora
Verdades de agora
Jamais vamos deixar você morrer.
Trouxe com mim Banhistas
Saudade também vai tocar
De essa vez Lili só vai tocar
A sua flauta pra não mais parar.
Madre de Deus, toca os sinos!
Abre tuas portas, Gambrinus!
Que os blocos do Recife querem entrar." (
Recife Antigo, de Fernando Azevedo)
Isso fortaleceu dois grandes encontros que vêm se mantendo nos últimos anos.
O primeiro, realizado duas semanas antes do Carnaval, é o Aurora dos Carnavais, organizado por o compositor Romero Amorim, no cais da rua da Aurora, no Recife.
O segundo ocorre no final de semana posterior ao Carnaval e é promovido por o bloco Eu Quero Mais nas ladeiras de Olinda.
Deve-se ressaltar que alguns encontros também foram realizados nos primeiros anos deste século em diferentes bairros da cidade e há uma tendência em se dar continuidade a esses eventos.
Inventaram até o Blocalhau, que é o «bacalhau» dos blocos líricos que desfila por as ruas do Recife Antigo na quarta-feira de cinzas (bacalhau, pra quem não sabe, é uma denominação nova para os blocos que saem na quarta-feira à semelhança do Bacalhau do Batata, famosa troça de Olinda).
Hoje, existem cerca de 30 blocos líricos responsáveis por a preservação de uma das mais belas e autênticas manifestações culturais do " Estado de Pernambuco.
«Em a madrugada do terceiro dia
Chega a tristeza
Vai embora a alegria
Os foliões vão regressando
E o nosso frevo, diz adeus à folia
A noite morre, o sol vem chegando
E a tristeza vai aumentando
A gente sente uma saudade sem igual
Que só termina
Com um novo carnaval." (
Número de frases: 247
Terceiro Dia, de José Menezes e Geraldo Costa)
Quem já assistiu a uma apresentação de Bumba-meu-boi, dança folclórica que se originou no Maranhão e tornou-se tradicionalíssima nas regiões Norte e Nordeste, sabe bem a história.
A moça Catirina está grávida e tem desejos de comer a língua do boi preferido do dono da fazenda.
Tanto pede e implora que consegue convencer o marido a arrancar o pedaço de carne.
O boi não resiste ao ferimento e morre.
Com medo que o dono da fazenda fique bravo, o pobre homem chama um pajé para ressuscitar o animal.
Ele dança e canta para que o boi viva novamente.
Quando isso acontece, começa uma grande festa.
Bull Dancing -- Urro de Omi Boi, antes de ser uma adaptação do Bumba-meu-Boi, é uma desconstrução.
Em mais de uma hora de apresentação, seis artistas são bois, são homens, morrem e matam.
Assisti ao espetáculo e vi que os artistas ali no palco não queriam apenas os aplausos da platéia quando tudo findasse.
Os elementos tradicionais estão lá:
o boi, o pajé, a moça, o homem com o facão.
Mas o roteiro vai além, e busca desnudar confrontos individuais e sociais do ser humano.
O corpo é usado para mostrar desejo, dor e dúvida.
Mas também para mostrar alegria e força.
Para o jornalista Eugênio Rego, bailarino de formação, Bull Dancing faz uma analogia entre o corpo do boi, vendido aos pedaços para muitas pessoas, e o corpo do homem ou mulher que se prostitui, também vendendo seus pedaços a preços diferenciados.
«Quando a Monika entrou no palco perguntando quanto custa cada pedaço do seu corpo, me veio à mente um balcão de açougue».
O esquartejamento que o boi sofre na dança tem seu paralelo nos esquartejamentos que o ser humano se impõe na vida real:
de caráter, de personalidade, de sonhos.
Também há música -- criada e tocada por três músicos piauienses que fazem parte do elenco:
Josh s. (do Lado 2 Estereo), Fábio Crazy da Silva (do Eletrosilva) e Sérgio Mattos (da Orquestra Filarmônica do Piauí).
Em diversos momentos do espetáculo, a batida folclórica do boi se funde com beats eletrônicos, ritmos tradicionais eslovacos e arranjos eruditos -- também um renascimento, só que metamorfoseado.
É uma novíssima personalidade para uma conhecida criatura.
Essa busca por novas roupagens é explicada por o diretor geral do espetáculo, " Marcelo Evelin:
Bull Dancing tem o bumba-meu-boi como ponto de partida, reconhece elos comuns entre povos, inspirando-se no imaginário popular brasileiro e deflagrando nosso papel no mundo atual», comenta.
Bull Dancing é uma co-produ ção entre o Teatro João Paulo II e o Teatro Hetveem, de Amsterdam, Holanda.
O elenco inclui ainda os mímicos Monika Haasova, da Eslováquia e Fabian Santarciel, do Uruguai.
A assistência de direção e dramaturgia é da holandesa Lões van der Pligt.
O artista maranhense Urias foi convidado para criar os adereços e a produção é de Klayton Amorim e Regina Veloso.
O espetáculo estréia dia 02 de setembro em São Luís, e deve seguir para outras capitais brasileiras ainda este ano.
Em o início de 2007, será apresentado na Holanda.
Mas o elenco está mesmo ansioso é para sentir a receptividade dos maranhenses.
Que, afinal de contas, são os verdadeiros donos do boi que eles desconstruíram.
Número de frases: 34
Nem sempre uma cidade com vocação turística ou potencialidades econômicas em setores da economia tal como o comércio e outros é terreno fértil para um cena independente produtiva e dinâmica.
Florianópolis ou floripa, como carinhosamente é lembrada, é um destes exemplos de caso.
E é no contrapé deste panorama que Luciano Vítor, produtor cultural e colunista da Revista Dynamite, abraçou a idéia do Circuito Fora do Eixo, adentrando a cidade numa das maiores ações em rede já vistas no país, o Grito Rock Integrado.
Em entrevista, Luciano Vítor apresentou os paradigmas envoltos ao cenário florianopolitano, contando também quais os planos Grito Rock Florianópolis.
MR -- Como você ficou sabendo da ação integrada e como surgiu o interesse em integrar Florianópolis?
Luciano Vitor -- Fiquei sabendo em Londrina através do Ynaiã Benthroldo, do Espaço Cubo, e da Revista Dynamite, onde sou colunista, e quando vi o banner, não pensei duas vezes, quero fazer parte disso.
O espaço é muito organizado, um modelo a ser copiado.
Por isso me interessou.
E Florianópolis nunca teve um festival (por menor que fosse) que tivesse a repercussão que o Grito tem, por isso apesar das dificuldades que eu sei que vão acontecer, decidi me oferecer e o Pablo me aceitou (ehehehe)
MR-Como é a cena aí em Florianópolis?
Luciano Vitor -- A cena aqui é ruim, festival de um dia dentro de um bar na minha opinião não é festival, existia um bar que era referência para toda cena do estado inteiro, o Underground, mas a polícia tanto incomodou o dono, que ele fechou e mudou-se para Porto Alegre.
Existem bons festivais aqui no estado, mas na minha opinião, são mal divulgados e carecem de uma mídia de fora do estado.
Temos o rural rock, o orquídea negra, o tchumistock, mas falta divulgar mais, trazer bandas com vários festivais na bagagem, e por conta de todos eles ocorrerem em outros municípios, nem sempre eles tem a mídia a favor.
Eu respeito o trabalho dos produtores desses festivais, mas não entendo por que o Demosul, por exemplo, tem mais repercussão que todos eles juntos, entendeu o que falei?
Falta por parte dos produtores um direcionamento externo.
MR -- Você se refere a integração mesmo com outras cenas, né?
Luciano Vitor:
Sim Imprensa Fora do Eixo -- Há um circuito profissional?
Luciano Vitor -- A coisa aqui é muito mais na base da vontade das bandas do que pressupõe a existência de um circuito.
Posso citar umas quatro bandas por exemplo que sempre estão correndo atrás de locais para tocar e saindo do estado com o próprio dinheiro:
Ambervisions, Dellamarck, Pipodélica e Lenzi Brothers, essas bandas fazem o que fazem porque são do rock, mas dizer que existe um circuito aqui é ser otimista ...
existem locais para tocar ...
e agora ...
depois de uns 3 anos que o underground fechou ...
as coisas começam a ser mais profissionais.
MR -- Quais locais?
Luciano Vitor -- Em a realidade temos uns oito picos no máximo para as bandas tocarem ...
se muito, temos também o espaço fios e formas, mas nada realmente com a cara das bandas..
Imprensa Fora do Eixo -- E o público?
Luciano Vitor -- É estranho o público daqui.
Como eu te falei, existe mais uma tendência do pessoal sair de casa para uma festa com um nome estabelecido do que pagar R$ 7, R$ 10 reais para ver uma banda de fora.
Existe muita aquela coisa de:
«ah, é festa tal!
vamos sair» ...
e não existe esse esforço de que temos bandas legais de fora e até mesmo locais.
MR -- E as perspectivas para o grito:
já definiram alguma coisa?
Local, se será de bandas locais ou também de outros estados ...
Luciano Vitor -- Em dois dias depois da confirmação já fechei com duas bandas locais, mas com uma boa história dentro da cena independente:
a The Royal Ass Shakers conta com Calvin na bateria (ele é musico independente há dez anos ou mais), o Rafael que era baixista da b-driver, outra boa banda que acabou, e o Marcos Butcher, que é fundador do Butchers Orchestra e mora aqui.
E temos também os Flamejantes.
Originalmente a banda acabou e foi reconstruída em Floripa por o Zacani com músicos daqui.
Para o local, até a próxima segunda-feira quero definir, mas tudo leva a crer que será na Lagoa da Conceição ou no centro da cidade, não tem muito o que fugir disso, o carnaval bomba de verdade nesses dois bairros.
Estou mantendo contato com algumas bandas de fora como:
o Last Pain (SP), e Identidade (banda de apoio do Júpiter Maçã e que tem uma carreira paralela).
Existem bandas que sonho trazer como:
Pata de Elefante, Laranja Freak, Detetives, Biônica.
Por enquanto estou indo devagar, pois não fechei nada em termos de patrocínio, nem de custos.
MR -- E qual a expectativa de público?
Luciano Vitor -- Olha essa é a pergunta mais difícil de responder.
Se o carnaval for como sempre foi aqui, em torno de 300, 400 pessoas por noite.
Floripa não tem uma casa que comporte mais que isso e dê uma estrutura boa para quem vá assistir a vários shows.
Quero começar devagar e ir crescendo aos poucos.
MR -- Você tem acompanhado o Circuito fora do eixo?
Qual a sua avaliação sobre essa ação integrada?
Luciano Vitor -- Olha tenho acompanhado de longe na verdade, tomo conhecimento através das colunas online do Pablo e do Finatti na Dynamite online, mas sei que as ações são muito louváveis e de certa forma inspiradoras, pois são um exemplo pra quem está de fora.
Eu conheci o trabalho mais a fundo no último Demosul, quando o pessoal do Espaço Cubo deu uma palestra.
A ação integrada é uma ótima forma de divulgar o maior número de bandas possíveis em vários lugares ao mesmo tempo, e como também faço parte do Loaded (radio on line), fico sabendo de novidades através do espaço que o Cubo tem lá.
Número de frases: 58
«A música é a alma da geometria."
Paul Claudel, poeta e diplomata francês.
E que geometria é essa que rege a música contemporânea erudita?
Falar sobre música sem ser músico.
Falar sobre música a partir do ponto de audição.
Adentrar a música contemporânea deixando-se levar por suas ruas estreitas e largas avenidas onde desfilam sentimentos.
Raiva, amor, dor, solidão, multidão ...
A música contemporânea, erudita, parece-me uma confirmação da pós-modernidade.
Uma construção em platôs, em fragmentos, superfícies de contato múltiplo.
O rizoma de Deleuze e Guattari.
Vejo que o compositor explora a sonoridade dos instrumentos além do básico.
Usa-se do tambor não só a pele, mas as bordas.
Baquetas se transformam em instrumentos percussivos, o serrote é tocado como o violino.
Os fragmentos são colados numa (des) ordem única que nos deixa uma dúvida quanto a possibilidade de repetição da peça.
Será que eles conseguem fazer isso de novo?
Risos.
Em o concerto do grupo PIAP tive a resposta sem perguntar, quando o maestro John Boudler, procurando ser didático explicou:
«aqui na frente temos os instrumentos com alturas determinadas, ou seja, aqueles cuja afinação e notas são fixos.
Ali atrás, temos os instrumentos de altura indeterminada, ou seja, mais ou menos graves, mais ou menos agudos, mas que não possuem uma afinação precisa, uma determinação da altura.
Por exemplo, determinados são xilofone, vibrafone, marimba e não-determinados são caixas, tambores, tantã (ou tam-tam).
Acompanhei até agora quase todos os concertos.
Vi o primeiro dia com o grupo Sextante e a OCDA, magistralmente regidos por Flávia Vieira, Roberto Victorio e Murilo Alves e toda a produção, vasta produção aliás, dos jovens compositores mato-grossenses.
Perdi-me entre tanto Movimento, andei sem Rumo e me deparei, Famigerante, com Dissoluções, Perceptus e Seul um urubu solitaire.
Que maravilha!
Êxtase! e com Transeuntes Transitamos.
Foi um concerto surpreendente, pois que já tinha visto tanto a OCDA, quanto o Sextante em outras apresentações e não esperava me surpreender.
O segundo dia veio com os metais.
Um quinteto de seis:
Brassil. São 25 anos de história que começou com um brasileiro e quatro estrangeiros, por isso a brincadeira com o nome, Brassil.
O grupo já se apresentou na Europa, Estados Unidos e em todas as regiões brasileiras.
Infelizmente poucas pessoas compareceram para inebriar-se com a composição / saudação, Evoé, da grande compositora brasileira homenageada nesta bienal, Marisa Rezende e que teve a sua primeira audição mundial aqui em Cuiabá.
Não pude comparecer ao terceiro dia, eletroacústica, e ao sexto, Duo Paulo Passos e Joaquim Abreu.
Contudo, me encantei com a delicadeza da Nova Camerata, apesar do som do espetáculo do Correio, do outro lado do Centro de eventos do Pantanal, quase estragar a noite.
Felizmente o regente Maurício Dottori, contornou a situação com diplomacia e executou todo o concerto inclusive repetindo uma música que não tinha sido audível.
O silêncio fala, comunica, incendeia a imaginação dos ouvintes atentos à música contemporânea.
E neste dia sem dúvida faltou silêncio.
O Quarteto Aroe fez uma apresentação delicada como as flautas.
Com o auxílio de Odette Ernest Dias, uma das maiores autoridades da flauta no país, com a sapiência dos seus 70 anos, nos brindou com um solo chamado, Oriens III, singelo e doce.
A peça Aroe Enogware do maestro Roberto Victorio, fechou a noite desvelando os mistérios Bororos e clamando às almas indicando-lho caminho correto na sua nova morada.
A primeira metade da Bienal já foi.
E junto com ela saudade de peças que dificilmente ouviremos por aí.
Será que não está na hora das nossas rádios abrirem espaço para a música erudita.
Seja contemporânea, seja barroca, faz-se necessário ampliar os horizontes.
Multiplicar os canais e caminhos cerebrais, explorar as emoções, transpor as fronteiras e ir além.
Sinto como se a música auxiliasse as conexões nervosas e, como já disse um pensador, «a música absorve o caos e o ordena», mesmo que a nós pareça que o caos permanece e a criação frutifique.
Número de frases: 45
A semana do potiguar começou triste nesta última segunda-feira, 22 de maio.
Uma das figuras mais cativantes da música nordestina, o forrozeiro de primeira grandeza Elino Julião, 69 anos, resolveu nos deixar órfãos de seu contagiante bom humor e de suas letras não menos divertidas.
Foram mais de 50 anos de carreira, dezenas de discos lançados, sucessos nacionais e grandes parcerias.
Elino passou mal em sua casa e faleceu na noite do sábado dia 20/5.
Difícil escrever sobre alguém que esbanjava vitalidade e entusiasmo, o cantor e compositor estava com exames médicos todos em dia e nenhum problema havia sido identificado.
O melhor mesmo é pensar que -- nada a ver com religião, OK -- Elino Julião está em algum lugar acompanhado de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, seus parceiros mais famosos.
Autor de sucessos como «Xodó do Motorista» (gravado por Jackson), «Puxando fogo» (também registrado por o Trio Elétrico de Dodô e Osmar) e «Meu saudoso Ceará» (gravado por o rei do baião Luiz Gonzaga), Elino fechou muitos anos na década de 70 como um dos principais artistas contratados e entre os mais populares (inclusive em termos de venda de discos) da gravadora CBS.
Seria redundante descrever como um humilde nordestino que saiu das brenhas da cidade de Timbaúba dos Batistas (RN) para alcançar seu sonho de ser artista, com certeza Julião gostaria que lembrássemos das melhores partes de sua história.
Parceria de peso
Depois de tomar gosto por a música, influenciado por seu pai que tocava cavaquinho, o jovem Elino resolveu cair no mundo quando, aos 18 anos, foi convidado por Jackson do Pandeiro para se integrar ao grupo que o acompanhava.
Não pensou duas vezes e zarpou para o'sul maravilha ' (Rio de Janeiro) -- Elino conheceu do Pandeiro na Rádio Poti, na capital potiguar, onde cantava versões do próprio Jackson e do mestre Gonzagão.
Compositor e instrumentista, logo seguiria carreira solo -- primeiro na Philips / Polygram e depois na CBS (hoje Sony Music).
Seu ciclo na CBS encerrou em 1986, com a chegada de Michael Jackson e Julio Iglesias no mercado brasileiro.
A redescoberta
Após alguns anos no ostracismo, uma nova geração de artistas ' redescobriu ' a música do forrozeiro através do Projeto Nação Potiguar (que lançou coletâneas com os principais sucessos de Elino), e o sorridente potiguar de Timbaúba dos Batistas voltou a ser pop:
gravou discos e a agenda de shows voltou a ficar lotada.
Sempre ativo, passou a lançar praticamente um disco por ano -- incluindo compilações de músicas inéditas e hits do passado.
Os últimos dois CDs lançados foram «A mulher é quem manda» (2005) e «Dentro do Movimento (2006)», ambos independentes.
Cheguei a entrevistá-lo na época do lançamento de «A mulher é quem manda», uma clara alusão ao seu amor ' submisso ' (no melhor sentido da palavra) por a esposa e produtora Veneranda Araújo, e lembro que tirou de letra a pergunta sobre o título do CD:
«Mas não é mesmo?!».
Esse é o Elino Julião que ficou e deve ficar guardado em nossas lembranças:
sempre bem humorado e atencioso.
E viva Elino Julião!!
\> \> leia mais::
site oficial Elino Julião::
blog Alma do Beco, de Eduardo Alexandre::
matéria no DN Online assinada por Raquel Souza::
matéria no jornal Tribuna do Norte::
verbete no Dicionário Cravo Albin de música::
Número de frases: 29
artigo do poeta e compositor Bráulio Tavares no Jornal da Paraíba Atualizado com os novos tempos, diretor gaúcho lança filme em quatro mídias diferentes simultaneamente
Carlos Gerbase faz parte de uma geração de cineastas que apareceu em Porto Alegre nos anos 90, com a intenção de colocar o Rio Grande do Sul no mapa nacional da Sétima Arte.
Através da Casa de Cinema de Porto Alegre, esse grupo produziu obras-primas como o curta-metragem Ilha das Flores e apresentou para o país cineastas como Jorge Furtado, considerado um dos mais interessantes realizadores do cinema brasileiro atual.
Gerbase faz parte desse grupo e, mantendo a tradição, coloca mais uma questão para a produção nacional ao lançar seu novo filme 3 Efes simultaneamente no cinema, na TV, na internet e em DVD.
«Só faltou a versão rádio», brincou ele, bem-humorado, com a reportagem do jornal fluminense O Globo.
Segundo a sinopse oferecida por a produção do filme, " 3 Efes é uma comédia dramática que aborda as dificuldades -- afetivas, financeiras e culturais -- enfrentadas por um grupo de personagens que circula em torno de Sissi, uma jovem universitária que sustenta, a duras penas, o pai viúvo e o irmão pequeno.
Em essa situação de dificuldade, Sissi recorre aos conselhos de sua tia, Martina, uma dona-de-casa entediada que, em meio a uma crise no seu casamento com o publicitário Rogério, fica irresistivelmente atraída por William, um simples catador de papel.
Rogério também está em apuros:
sua última campanha publicitária deu errado, e agora ele precisa dar um jeito de salvar seu emprego -- de qualquer jeito.
Assim, sob todas essas pressões do cotidiano, os personagens acabam tomando importantes decisões que vão mudar muita coisa entre eles -- e também provocar algumas situações inusitadas».
O filme, que chegou ao público no dia 7 de dezembro, já pode ser visto por o site www.
3 efes.
com. br.
Confira a entrevista exclusiva com o diretor Carlos Gerbase:
Roberto Maxwell -- do que fala «3 Efes» e como ele se conecta (ou não) com sua já relevante carreira como cineasta, músico e pensador de cinema?
Carlos Gerbase -- Fala de 3 coisas básicas na vida de todos nós:
a fome, o sexo e o fasma.
Fasma é a nossa capacidade de representar o mundo por as linguagens.
«Sal de prata», meu último filme, era sobre a dificuldade que às vezes temos de distinguir os fasmas da realidade.
Este 3 Efes tenta mostrar como as linguagens estão estreitamente relacionadas com nossos instintos mais «animais», de modo que, às vezes de forma engraçada, às vezes de forma trágica, tanto a fome quanto o sexo nos levam a tomar atitudes difíceis.
RM -- Em que a opção por o mini-DV afetou no processo de criação do filme?
Além da viabilidade econômica, que «viabilidades estéticas» o suporte ofereceu a você, um cineasta com histórico de filmes em película?
CG -- As tecnologias digitais, de modo geral, tornaram possível a realização deste filme.
Desde a adaptação (com uma câmera Panasonic mini-DV que trabalha com pouca luz), passando por a edição (em ilha Final-Cut), até chegar à distribuição nas salas de exibição (no sistema Rain, que é totalmente digital).
Se eu tivesse que captar, finalizar ou exibir em película, o filme simplesmente não existiria.
Além disso, só com uma câmera digital é possível trabalhar com uma equipe tão pequena (8 pessoas no set) e filmar tão rápido (20 dias, no total).
RM -- A estratégia de lançamento de 3 Efes chega pouco depois de toda a polêmica gerada por o vazamento de Tropa de Elite na internet antes do lançamento oficial nos cinemas.
O filme teria vendido milhões de DVDs e, portanto, sido prejudicado nas bilheterias.
Por outro lado, é tentador comparar a sua estratégia com a de Steven Soderbergh no projeto Bubble que foi boicotado nos Estados Unidos e, de algum modo, foi considerado um fracasso.
De que modo essas três experiências -- Bubble, Tropa de Elite e 3 Efes -- se conectam?
CG -- Não vejo uma conexão direta.
Tropa de elite custou 10 milhões de reais e foi distribuído por a Warner.
Seu sucesso não está ligado à pirataria, e sim à temática e às suas qualidades cinematográficas.
Bubble é um filme norte-americano, não sei seu orçamento, mas com certeza é muitíssimo maior que 3 Efes, que foi filmado com 30 mil reais e finalizado (total da produção) com menos de 100 mil reais.
3 Efes é um pequeno filme autoral, que está sendo distribuído em todos os veículos que demonstraram interesse e se mostraram economicamente interessantes.
Sei antecipadamente, que o circuito das salas não dará lucro significativo.
O filme fica uma semana em cartaz e pronto.
Não vou ficar chateado quando ele sair.
As pessoas vão poder ver na TV, na internet, ou em DVD.
Pra mim, já é um sucesso.
RM -- O jornal O Globo declarou, em sua edição on line, que o filme chegou ao público já pago e que, por isso, estará disponível gratuitamente no portal Terra.
Num momento em que se fala da viabilidade do cinema brasileiro enquanto indústria, podemos dizer que o senhor fez um bom negócio?
CG -- É ao contrário.
Ele chega ao público já pago porque foi comprado por o Terra, por o Canal Brasil e por a TV-COM.
Acho que fizemos um bom negócio, para todas as partes envolvidas.
Mas isso só foi possível por o baixíssimo custo da produção.
O mesmo esquema não se aplicaria a um filme de orçamento normal.
Ou até se aplicaria, se, em vez do Canal Brasil, o comprador fosse a TV Globo.
RM -- Para terminar, a «versão rádio» continua sendo uma opção descartada?
CG -- Foi uma brincadeira durante a entrevista.
Mas depois fiquei pensando nisso e faz sentido:
não tem versão de filme para deficientes auditivos, com aquelas legendas especiais?
Quem sabe no futuro não fazemos também filmes para deficientes visuais, ou simplesmente para quem quer «ver» um filme enquanto dirige?
É uma boa ...
Número de frases: 54
Publicado originalmente em Alternativa.
Depois de George Romero, outro grande nome do terror mundial volta à atividade.
Trata-se do brasileiro José Mojica Martins, o Zé do Caixão, que está em cartaz com Encarnação do Demônio.
A saga do coveiro em busca de uma mulher para gerar o filho que vai perpetuar seu sangue maligno continua com o novo filme.
Sem dispensar as indefectíveis cartola e capa preta, Zé do Caixão é uma presença teatral, com voz declamatória, uma espécie de Fausto espúrio lidando sempre com os extremos da natureza humana.
O filme tem excelentes soluções visuais e não decepciona os fãs de uma bom grindhouse movie:
muito sangue e flagelos dignos dos gêneros gore e exploitation.
Outra coisa interessante de Encarnação do Demônio é o uso bem-sucedido da estética das pornochanchadas, que sempre foram um peso incômodo para o cinema nacional.
Em a nova aventura de Coffin Joe, a volúpia vulgar encontra seu lugar, e apesar da forte ambientação contemporânea, o filme é também uma evocação ao passado inglório e heróico do cinema brasileiro.
Tanto que exertos dos antigos filmes de Mojica Martins povoam a produção inteira, dedicada ao diretor Rogério Sganzerla.
como se não bastasse, o filme traz duas participações muito especiais.
José Celso Martinez Correia, mais rocambolesco que o próprio Zé do Caixão, faz um diabo que ciceroneia o coveiro por um purgatório trash tropicalista, que não deixa nada a dever ao espetáculo Os Sertões.
O filme também é o último registro cinematográfico de Jece Valadão, outra marca do antigo espírito do cinema nacional que segue redivivo na obra deste original diretor brasileiro.
Número de frases: 13
Com Fabiana Mesquita
O distinto «boa noite» de William Bonner parece até piada.
Isto porque lá fora o sol ainda brilha, embora o Jornal Nacional esteja no início.
São 17h e o dia na rua corre solto.
Logo, às 18h, começa a novela das 21h.
Antes, uma advertência:
«Senhores pais, o horário de vocês é diferente do horário de Brasília.
Também nos preocupamos com a sua família, mas a palavra final é sua».
Enquanto o aviso é dado, um ponteiro de relógio imita uma viagem no tempo e regride algumas horas.
Em o Acre é assim:
quando o sino da Catedral Nossa Senhora de Nazaré bate às 18h, é a deixa para que Duas Caras entre no ar.
Aliás, desde o dia 18 de fevereiro, a novela global das 21h vem começando uma hora mais tarde, às 19h.
A data marcou o término do horário de verão no Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil.
Ou seja, o Acre, que não alterou o seu relógio durante o período, voltou a ficar com duas horas a menos em relação ao fuso de Brasília.
Em o horário de verão, o Estado enfrenta três horas de diferença.
O que isto significa?
Ligações de parentes de outros estados na madrugada, bancos funcionando das 9 às 13h, concursos públicos nacionais às 5h e, claro, novela das 21h iniciando quando ainda se vê luz do dia.
Com a defasagem de uma hora corrigida, o sol ao menos já se pôs quando a novela entra.
Mas o fato de já ser noite ainda é pouco para apaziguar o ânimo dos donos das retransmissoras locais de TVs abertas, que vêm fazendo malabarismo para adequar a programação da rede à realidade do tempo acreano.
E se agora as emissoras já têm de rebolar para não deixar o prato cair, o pior ainda está por vir:
dia 7 de abril começa a vigorar a Portaria 1220/07, que regula os programas por meio de classificações indicativas.
Discutida aos quatro ventos por a imprensa e opinião pública, a medida foi implantada no país no ano passado em substituição à Portaria 264/07, que, entre outros itens, responsabilizava o Ministério da Justiça (MJ) por a classificação prévia dos programas.
Durante boa parte de 2007, assistiu-se a uma enorme chiadeira de artistas e emissoras de televisão acusando o governo de reviver os tempos de censura.
Manifestação que fez o governo repensar e, segundo suas próprias palavras, dar «um voto de confiança» aos canais -- na Portaria atual, os produtores de conteúdo passaram a ser responsáveis por apontar a faixa etária e o horário adequado de exibição dos programas.
Assim, o MJ acalmou a parcela mais exaltada sem, contudo, ceder e perder um de seus focos principais:
a garantia da liberdade de expressão e de escolha da população, seguindo prática adotada em grande parte dos países democráticos.
Além disso, também bateu o martelo e confirmou que a medida deve respeitar os diferentes fusos horários do país.
Em o Acre, a Portaria 1220/07 era para estar valendo desde janeiro.
Caso não fosse uma nova portaria, que deu mais três meses para os estados com fusos diferenciados se adequarem, boa parte das emissoras locais estaria atualmente em situação irregular.
Por exemplo: a novela Duas Caras passa no horário livre das 19h, mas é indicada apenas para maiores de 14 anos.
Segundo os defensores da Portaria, a medida é uma questão de isonomia:
por que, afinal, as crianças do Rio de Janeiro mereceriam ser protegidas de conteúdos inadequados e as do Acre não?
De fato, é uma discussão intensa, que mexe com todo o funcionamento de uma emissora.
É complicado à beça montar uma grade de programação:
cada minuto é colocado na ponta do lápis.
Não há tempo (nem dinheiro) a perder.
As retransmissoras dos estados periféricos recebem da sede uma grade fechada com a ordem do que será transmitido.
Em o Acre, acontece o mesmo, mas ninguém se entende direito -- vira e mexe ocorrem inacreditáveis desencontros:
«Mas eu falei 21h daí e não daqui!»,
reclama um programador.
Nasce uma estrela
Alheia à confusão, Léa Lima está feliz da vida.
Ela é apresentadora do Acontecimentos, programa de variedades que passa aos domingos, 22h, na TV Rio Branco, retransmissora do SBT na região.
Há dois meses no ar, ela não chega a ser uma celebridade, mas já colhe os frutos de exibir seu rosto no horário nobre:
não são poucas as pessoas que a reconhecem na rua.
Acontecimentos é um programa sobre quase tudo:
numa semana, Léa está no estúdio entrevistando uma personalidade.
Em a outra, está no interior do Estado mostrando uma cidade que outrora era desconhecida para os próprios acreanos.
Ela ainda dá receitas gastronômicas, visita clínicas de estética, indica lojas de grife e acompanha desfiles de moda.
Uma mistura de Ana Maria Braga com Glória Maria.
Muito dificilmente um semanal como o de Léa teria espaço na programação de rede do SBT.
Esta hora, para a maioria do Brasil, está passando o Oito e Meia no Cinema (programa que vai ao ar, no Acre, às 18h30!).
O curioso é que o mesmo fuso horário que torna possível o sucesso de Léa vem enlouquecendo empresários do ramo televisivo, mobilizando políticos -- o senador Tião Viana tem projeto de lei para diminuir o fuso do Estado numa hora -- e causando dor de cabeça a todos que tentam se adequar à nova Portaria.
Devido a esta diferença no tempo, alguns canais vêm, aos poucos, entendendo a necessidade de gravar programas da rede para retransmiti-los mais tarde no horário nobre local.
Além de já se precaverem de uma possível guerra judicial, eles ainda cobrem a demanda por atrações em diferentes faixas do dia.
Todas as séries e novelas da TV Gazeta / Record são gravadas e veiculadas em outro horário, prática conhecida como time delay (atraso do tempo) por os profissionais da área.
A TV Rio Branco/SBT assumiu comportamento parecido, ainda mais depois de perder, temporariamente, o finado Programa do Ratinho (as piadas do apresentador não se adequavam ao horário).
A TV Acre / Rede Globo, que também já foi obrigada por a Justiça Federal, em 2005, a exibir o seu Zorra Total mais tarde, é curiosamente a emissora que menos vem mostrando preocupação até agora.
Os jornais locais passam em sincronia com o restante do país.
Se em São Paulo a primeira edição do Bom Dia São Paulo já é cedo, às 6h30, a versão do jornalístico acreano -- às 4h30 -- mais parece direcionada aos insones ou a quem acorda antes do galo cantar.
O canal só agora se mexe para não ser pego desprevenido por a Portaria.
-- A Globo quer que os programas feitos ao vivo entrem ao mesmo tempo no Acre.
A programação não será mais engessada, aquilo que não é ao vivo será gravado e irá ao ar mais tarde.
O mais provável para as quartas de futebol, por exemplo, é que os jogos ao vivo passem entre a novela das 21h e o Jornal Nacional -- explica Ivan Félix, chefe de operações da TV Acre / Rede Globo.
De um fato, ao menos, não há dúvida:
com a Portaria, abre-se um hiato nas programações, preenchido por programas feitos por as emissoras locais e, também, por produções absolutamente independentes -- como é o caso do Acontecimentos, de Léa Lima.
Mercado promissor
Loira, 1,70m, cabelo repicado na altura dos ombros, a apresentadora é vaidosa.
Tem um corpo bonito.
Não revela a idade, mas parece beirar os 35. Fala com uma voz de veludo, feita para TV, embora a dicção não seja tão boa.
Léa tem um dos programas independentes mais bem feitos do Estado.
Só no SBT, são mais de dez produzidos quase no mesmo esquema:
apenas uma câmera, apenas um apresentador.
Não há produtora -- tudo é feito na raça.
No caso de Léa, foi seu marido, Marcelo Costa, quem bancou a aventura.
Ele, em dado momento, cansou de pagar edição e cinegrafista.
O resultado não lhe satisfazia e, ainda por cima, custava caro.
A solução foi aprender sozinho a filmar e montar.
Para receber convidados, os dois fizeram um cenário com uma bancada, plantas e quadros ao fundo.
A câmera de Marcelo não pára, procura todo o corpo do entrevistado, enquadra-o na diagonal -- uma linguagem «jovem».
Como todo programa independente do Acre, e o de Léa não é exceção, é o próprio apresentador quem anuncia os produtos dos patrocinadores.
Não raro, ouvem-se alguns deslizes, como um «se você gosta de ação e entretendimento» ou um «isso é perca de tempo».
No caso de Léa, o escorregão foi no «leite pausterizado».
Nada que a faça perder a pose.
Nem tampouco o orgulho.
Léa gosta tanto do programa que acredita que alguns concorrentes locais já imitam o seu estilo.
-- Os outros programas independentes não são tão bons.
Há falhas, os enquadramentos são errados, as legendas são cortadas, áudio e imagens são ruins.
Em o meu programa tem coisas que só eu faço, frutos da minha criatividade -- conta a apresentadora.
O cuidado de Léa com o espaço que construiu é até compreensível;
falta recurso para a produção independente acreana e, mesmo com a ajuda do fuso do Estado, ainda não são todos que conseguem destaque na grade imposta por as emissoras.
A partir do mês que vem, com a nova Portaria, é possível que os canais não vejam outra solução senão investir em novos conteúdos.
Em o Acre, apesar dos eventuais escorregões, alguns programas já têm usado a criatividade e feito a sua parte -- eles apontam o caminho num mercado televisivo tão complicado quanto promissor.
E para quem acha que já está de bom tamanho os quatro horários do Brasil, cabe a lembrança:
Número de frases: 94
a Rússia tem 11 fusos.
Eu sou da turma que acredita que é «preciso» assitir a pelo menos «um» programa eleitoral da tv.
Ou para se decidir se o jeito é mesmo votar nulo, ou para ver e ouvir o que os candidatos têm a dizer e a mostrar, ou para ficar ainda mais furioso (a) porque o voto não é facultativo, e você vai votar mais por obrigação que por consciência cidadã -- o que, na minha humilde opinião, já é uma rachadura na democracia.
Se bem que, aqui no Brasil, desde o seu nascimento como colônia de Portugal, que se ouve falar de corrupção, e talvez por isso, o voto -- ao menos por enquanto -- deva ser mantido obrigatório, até para o próprio bem da democracia.
E assim, quem sabe um dia, para os nossos netos, bisnetos ...
quem sabe através dessa geração que está se formando com um pouco mais de entendimento sobre o que vem a ser um «cidadão democrático», o voto possa vir a ser facultativo sem riscos para uma eleição» limpa». ´
E nesta ´ fúria, você quer mesmo é anular «conscientemente» seu voto, ou em burra e silenciosa vingança, ou protesto, sei lá.
O fato é que a gente «deve» perder um pouco do seu precioso tempo para assistir.
Tem de tudo um pouco.
do hilário ao hediondo, do arbitrário ao incomcebível.
Hoje ví os escandâlos envolvendo partidos e políticos sendo usados, apesar de já ser mais do esperado o uso desses escandâlos no horário político, eu me pergunto:
«Para quê?"
Isso já está mais do que batido, e por incrível que pareça o povo brasileiro começou a usar a memória, até porque a mídia não deixa ninguém esquecer quase mais nada.
Para mim -- independente do (a) candidato (a) e do partido ao qual este pertença -- que usa escandâlos dos seus adversários no seu horário político «gratuito», está desperdiçando o horário que seria para ele (a) dizer a que veio, o que tem de original e verdadeiro, plaúsivel e possível para fazer -- ou que já tenha sido feito -- por nosso país e todos os nossos pequenos-grandes problemas, que são muitos, mas são simples, bastará que um dia, alguém escolhido por nós, contratado por nós -- já que sai dos nossos bolsos saturados de impostos, os salários que lhe serão pagos por todo o mandato e mais sua aposentadoria precoce, quando é o caso -- tenha garra e um pouco de desapego por prestígio e auto-promo ção, e de uma mínima, uma sutil ganância e uma boa dose de honestidade e integridade para comandar esse país que sempre foi» ...
Um país que vai prá frente ..."
Uma pessoa politizada que realmente queira tirar o Brasil desta incômoda e já caquética posição de «País do Futuro», isso soa igual à País Sub-desenvolvido.
Aqui é o País das Maravilhas, ótimo, nós amamos esse País das Maravilhas, mas nós queremos que a Rainha de Copas com as suas garras -- seja ao menos mantida afastada da nossa pobreza inflingida, das nossas misérias que enchem a sua cartola, já que de forma alguma podemos decaptá-la.
E queremos participar do chá, da festa, comer a nossa parte do bolo.
Queremos o que eles já estão cansados de saber e prometer -- e por seja lá qual for o motivos -- sempre deixam que fiquem no ar como repetitivas promessas de campanha.
Bem, eu vou votar.
Mas candidatos são apenas dois -- presidência e senado -- os outros possivelmente serão anulados conscientemente por falta de opções verídicas e confiáveis Mesmo!
Número de frases: 21
Desculpem-mo atrevimento, sou apenas uma mera e humilde auxiliar administrativa, uma cidadã democrática, não uma cientista política ou algo que valha como respaldo para tudo o que disse aqui.
Com uma vontade obstinada de fazer teatro sob o sol do cerrado brasileiro, grupo está fazendo uma revolução nos palcos matogrossenses
Quando me convidam para ir ao teatro assistir a uma peça sempre fico meio desconfiado e sempre me recordo de uma camiseta do pessoal do Casseta com a seguinte inscrição:
Vá ao teatro, mas não me chame!
Maldade pura, mas o teatro é uma arte a que raramente assisto, acho quase tudo muito chato.
Mas quando vi o Teatro Fúria pela primeira vez fiquei absolutamente extasiado com o tipo de teatro que estavam realizando.
Não imaginava que estivessem fazendo um trabalho tão maduro, competente, profissional mesmo, com bom texto, boa direção e principalmente atores locais sem nenhum ranço de amadorismo.
É uma arte muito difícil, que requer muito trabalho e muita preparação de ator, muita técnica, coisa complicada nesses lados de cá.
O teatro matogrossense parece agora se elevar para outras esferas, outros palcos.
Arte de celebração e comunhão com divindades.
Uma referência de qualidade teatral autoral que me recordo produzida em Mato Grosso foi a montagem de O capote, de Gogol, realizada por o Grupo de Risco, liderado por Chico Amorim, nos idos anos 80.
Teatro ousado, inventivo, experimental, com soluções inteligentíssimas que o Chico foi buscar nos gregos, nas ruas, nos quadrinhos, na cultura popular.
Depois disso só consegui me extasiar com os ' furiosos ' quando assisti à peça Nepal, de autoria própria e primeira montagem do grupo.
Formado por, Giovanni Araújo, Bruna Menesello, Caio Matoso, Rodrigo Toledo e Péricles Anarcos, o Fúria, que em sua formação original tinha Eduardo Espíndola, nasceu há sete anos com a determinação de fazer do teatro um modo de vida, estabelecendo uma relação visceral, orgânica, definitiva.
Giovanni era vendedor de medicamentos, Eduardo funcionário de um laboratório de análises, Péricles trabalhava com o pai, que o controlava por a disposição anárquica e Toledo, desempregado, também era infernizado por os pais para que largasse mão do teatro e se dedicasse aos estudos.
Inventava mil histórias para poder ensaiar, até o dia em que venceu seus medos e encarou a mãe decidido a tudo.
Está até hoje na ativa.
Furioso e vencedor.
Interessante a postura do grupo onde todos fazem de tudo, como dizem:
«É uma trupe multifacetada, multidisciplinar, com uma vontade obstinada de fazer teatro sob o sol do cerrado brasileiro».
Dividem tarefas, cumplicidade e confiança.
Todos são atores, diretores, autores, produtores, iluminadores e cenógrafos.
Depois de Nepal, que abordava o apocalipse, com o encontro dos dois últimos sobreviventes da Terra condenados à morte que se sentem no dever de reinventar uma nova convenção social.
Experimental, inventiva, crítica, a montagem revelava uma lucidez que inaugurava um novo modo de fazer teatro em Cuiabá.
Cenário mínimo, texto certeiro, direção segura, bons atores, algo de novo surgia no cenário matogrossense.
De lá para cá já foram sete peças montadas, mais de 700 apresentações em mais de 50 cidades de 20 estados brasileiros, participações destacadas nos festivais, de Curitiba (2001), Londrina (2001 e 2004), Rio Cena Contemporânea (2004), projeto Palco Giratório do SESC Nacional (2003) e Caravana Funarte (2005).
O Fúria atingiu, seguramente, uma maturidade estética singular e tem potencial para se consolidar como presença e referência do que há de melhor nas artes cênicas nas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil.
Eles desenvolvem também alguns projetos de oficinas, acreditam que é possível formar cidadãos através do teatro, ou mesmo, formar técnicos e artistas para trabalharem com o teatro.
Estão adaptando o espaço físico de uma casa bastante grande, onde trabalham hoje, para transformá-la num Centro Cultural, com teatro de bolso, arena, salas para oficinas e uma biblioteca básica, com acervo direcionado para o teatro.
O Fúria ampliou suas ações e produziu em 2006, o primeiro Festival Nacional de Teatro de Cuiabá, o evento aconteceu em julho.
Invadiram ruas, espaços não convencionais, salas de teatro, criaram uma efervescência para agitar a cena local.
A idéia é consolidar o Festival que foi um sucesso em seu primeiro ano de realização.
Certos trabalhos nos fazem repensar as relações que travamos com a vida.
É possível fazer teatro com qualidade estética e autoral em Cuiabá.
Os caras estão mostrando isso com muita determinação e dignidade.
Já posso ir ao teatro com a certeza de que, como disse o poeta:
Número de frases: 36
«Tudo vale a pena quando a alma não é pequena."
Cooperativa de teatro MS!!!
Conhecemos a lição dos Gansos??
Se vc não se enquadra, por favor não atrapalhe!!
O que é uma Cooperativa
Associação de pessoas que se unem, voluntariamente, para satisfazer aspirações e necessidades econômicas, sociais e culturais comuns, através de uma organização de propriedade comum e democraticamente gerida, realizando contribuições eqüitativas para o capital necessário e aceitando assumir de forma igualitária os riscos e benefícios do empreendimento no qual os sócios participam ativamente.
O papel da Cooperativa
A cooperativa visa organizar e aproximar seus cooperados de suas atividades.
Ela coordena e cria condições para que seus sócios possam desenvolver suas habilidades.
Por delegação, a cooperativa negocia os contratos de fornecimento de serviços eliminando o intermediário e atendendo às demandas e necessidades do cliente.
A cooperativa busca a qualificação técnica e o desenvolvimento do seu sócio cooperado.
Declaração sobre a Identidade Cooperativa
Valores Cooperativos As cooperativas baseiam-se em valores de ajuda e responsabilidade próprias, democracia, igualdade, eqüidade e solidariedade.
Em a tradição dos seus fundadores, os membros das cooperativas acreditam nos valores éticos da honestidade, transparência, responsabilidade social e preocupação com o próximo.
Princípios Cooperativos
Os princípios cooperativos são as linhas orientadoras através das quais as cooperativas levam à prática os seus valores.
1º Princípio:
Adesão Voluntária e livre
As cooperativas são organizações voluntárias, abertas a todas as pessoas aptas a utilizar os seus serviços, e dispostas a assumir as responsabilidades como membros, sem discriminações de sexo, sociais, raciais, políticas ou religiosas.
2º Princípio:
Gestão Democrática Por os Membros
As cooperativas são organizações democráticas controladas por os seus membros, que participam ativamente na formulação das suas políticas e na tomada de decisões.
Os homens e as mulheres eleitos como representantes dos outros membros são responsáveis perante estes.
Em as cooperativas de primeiro grau os membros têm igual direito de voto (um membro, um voto), e as cooperativas de grau superior são também organizadas de forma democrática.
3º Princípio:
Participação Econômica dos Membros
Os membros contribuem eqüitativamente para o capital das suas cooperativas e controlam-no democraticamente.
Pelo menos parte desse capital é, normalmente, propriedade comum da cooperativa.
Os membros recebem, habitualmente, e se a houver, uma remuneração limitada ao capital subscrito como condição da sua adesão.
Os membros aplicam os excedentes a um ou mais dos seguintes objetivos:
desenvolvimento das suas cooperativas, eventualmente através da criação de reservas, parte das quais, pelo menos, será indivisível;
benefício dos membros na proporção das suas transações com a cooperativa;
apoio a outras atividades aprovadas por os membros.
4º Princípio:
Autonomia e Independência
As cooperativas são organizações autônomas, de ajuda mútua, controladas por os seus membros.
Se estas firmarem acordos com outras organizações, incluindo instituições públicas, ou recorrerem a capital externo, devem fazê-lo em condições que assegurem o controle democrático por os seus membros e mantenham a autonomia das cooperativas.
5º Princípio:
Educação, Formação e Informação
As cooperativas promovem a educação e a formação dos seus membros, dos representantes eleitos, dos dirigentes e dos trabalhadores de forma a que estes possam contribuir, eficazmente, para o desenvolvimento das suas cooperativas.
Informam o público em geral -- particularmente os jovens, os líderes e os formadores de opinião -- sobre a natureza e as vantagens da cooperação.
6º Princípio:
Intercooperação As cooperativas servem de forma mais eficaz os seus membros e dão mais força ao movimento cooperativo, trabalhando em conjunto, através das estruturas locais, regionais, nacionais e internacionais.
7º Princípio:
Interesse por a Comunidade
As cooperativas trabalham para o desenvolvimento sustentado das suas comunidades através de políticas aprovadas por os membros.
Origem:
ICA News, No. 5/6, 1995. (
www.coop.org/ica/pt/ptprinciples.html) A Lição dos Gansos
Em o outono, quando se vê bandos de gansos voando rumo ao Sul, formando um grande V no céu, indaga-se o que a ciência já descobriu sobre o porquê de voarem desta forma.
Sabe-se que quando cada ave bate as asas, move o ar para cima, ajudando
a sustentar a ave imediatamente de trás.
A o voar em forma de V, o bando se beneficia de pelo menos 71 % a mais de força de vôo do que uma ave voando sozinha.
Pessoas que têm a mesma direção e sentido de comunidade podem atingir seus objetivos de forma mais rápida e fácil, pois viajam beneficiando-se de um impulso mútuo.
Sempre que um ganso sai do bando, sente subitamente o esforço e resistência necessários para continuar voando sozinho.
Rapidamente, ele entra outra vez em formação para aproveitar o deslocamento de ar provocado por a ave que voa imediatamente à sua frente.
Se tivéssemos o mesmo sentido dos gansos, manteríamos-nos-em formação com os que lideram o caminho para onde também desejamos seguir.
Quando o ganso líder se cansa, ele muda de posição dentro da formação e outro ganso assume a liderança.
Vale a pena nos revezarmos em tarefas difíceis, e isto serve tanto para as pessoas quanto para os gansos que voam rumo ao Sul.
Os gansos de trás gritam encorajando os da frente, para que mantenham a velocidade.
Que mensagens passamos quando gritamos de trás?
Finalmente, quando um ganso fica doente ou é ferido por um tiro e cai, dois gansos saem da formação e o acompanham para ajudá-lo e protegê-lo.
Ficam com ele até que consiga voar novamente ou até que morra.
Só então levantam vôo sozinhos ou em outra formação, a fim de alcançar seu bando.
Se tivéssemos o sentido dos gansos, também ficaríamos um ao lado do outro, lutando por o bem comum e com o mesmo ideal.
Fonte
http://www.use.org.br/o papel da cooperativa.
Número de frases: 67
php Cena 3 -- Deu certo.
» ... O Cineamazônia hoje é tão grande que não cabe mais numa só sala, nunca quis caber.
Quem não pode chegar às salas de cinema do centro não perde nada.
A mostra também é itinerante.
Um projetor, uma lona e cadeiras percorrem os bairros periféricos de Porto Velho enquanto rola o festival.
«Não adianta nada restringir a mostra a cem pessoas, nós temos que incluir, que agregar, somar, crescer», fala Jurandir com empolgação, sobre a proposta social da mostra ..."
O Adriel Diniz é um dos colaboradores daqui de o Overmundo.
É de ele esse trecho sobre a terceira edição da Mostra Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o Cineamazônia, em 2005.
Em este ano, dando continuidade, a quarta edição do Cineamazônia reuniu nos dias 15 a 18 de novembro amantes de curtas e filmes de um minuto.
A abertura da Mostra aconteceu no CineVeneza, em Porto Velho.
mais de 150 filmes foram inscritos e exibidos na tela, vindos do Brasil inteiro e exterior, além, é lógico, de produções locais.
Vai vendo.
Entre as cidades que mais se destacam em colaborações estão Porto Alegre, Pará e Rio de Janeiro.
Itália, Alemanha, Unidos e Peru também estão inseridos.
Todos concorrendo ao disputadíssimo troféu Mapinguari.
O tema deste ano foi Terra e Gente, que abriu um grande espaço para discussões sobre fatores que envolvem problemas agrários, ocupações e seus resultados.
Mas foi a construção da Hidrelétrica de Furnas o principal assunto a ser questionado.
Inclusive por a jornalista Paula Saldanha e o biólogo Roberto Werneck, que são parceiros no Instituo Cultural Ecológico Terra Azul e também foram homenageados durante a Mostra.
Também foram homenageados os produtores cinematográficos Zelito Viana, Ruy Guerra, além do ator Antônio Pompêo.
Um dos organizadores do Cineamazônia, Paulo Arruda, vê com entusiasmo a participação de pessoas envolvidas no projeto, sejam em debates ou divulgando seu próprio trabalho.
«É cansativo, mas é prazeroso ver tanta gente falando em cinema, e, melhor ainda, produzindo sua obra de arte», conta.
Tanto é verdade, continua Paulo, que as vagas disponíveis para Oficinas de Planejamento de Produção, Criação e Direção Audivisual foram rapidamente completadas.
Em as oficinas, nada mais ou menos que a produtora da Record Filmes e professora da Fundação Getúlio Vargas, Clélia Bessa e a diretora Betse de Paula -- do filme O Casamento de Louise.
Tudo isso, explica Paulo, graças a parceria com Centro Técnico Audivisual do Ministério da Cultura -- o CTAV.
«A cidade pára, durante o Cineamazônia, não só para falar de cinema, mas no objetivo de aprender com os trabalhos apresentados.
Pra nós aqui, em Porto Velho, é uma oportunidade quase única», desabafa o estudante Vinicius Almeida.
Quem deve ter aprendido, ou pelo menos sentiu o cinema mais de perto, foram os adeptos do terreiro que tiveram a oportunidade de assistir ao filme Cidade das Mulheres, do cineasta Lázaro Faria, apresentado pela primeira vez num terreiro de candomblé em Porto Velho.
No entanto, segundo Paulo, não foi a primeira vez que o Cineamazônia alcançou pessoas que geralmente não têm acesso ao cinema.
«Em a segunda edição, levamos as apresentações para o povo que mora no Lixão.
Lá, apesar da dura realidade, a maioria não desgrudou o olho da telinha.
Foi fantástico», lembra.
Durante os três dias da Mostra, aproximadamente mais de 3 mil pessoas prestigiaram o Cineamazônia.
Quem não pôde ir ao CineVeneza, conferiu as apresentações itinerantes nos bairros Esperança da Comunidade, Floresta, São Francisco e São Sebastião, na periferia de Porto Velho.
Número de frases: 33
Quem se interessou e quiser mais informações, pode acessar o site www.cineamazonia.com
Agora, sim, estou entendendo o significado da expressão internet sem limites.
Não sei se isso é um problema exclusivamente meu ou se outros usuários do referido plano encontram a mesma dificuldade.
O fato é que desde o dia em que resolvemos aderir a esta promoção, diga-se de passagem, tentadora, a nossa internet nunca mais foi a mesma.
Toda hora cai.
Principalmente durante o dia e coincidentemente após a meia -- noite funciona que é uma beleza.
Sem contar da cobrança ilegal que nos foi feita outro dia, ou seja, se é sem limites por que cobraram os meus pulsos?
Tudo bem.
Reclamei e tive meu direito atendido.
Fico pensando na quantidade de usuários que não reclamaram.
Que lucro!
Mas não pára por aí, tenho percebido a presença estranha de uma caminhonete no início da minha rua.
Vocês podem até achar paranóia minha, mas o fato é que desconfio que estou sendo monitorado.
Lógico, sempre fui um internauta adicto, daqueles que tem a marca da cadeira bem na bunda.
Provavelmente ao aderir a esta tentadora promoção, sem dúvida nenhuma causei prejuízo.
E em épocas de grampos, rastreamentos em celulares, por que não monitoramento do tempo que eu fico na internet?
Sem limites.
Realmente é uma expressão tentadora.
Ainda mais para um internauta assíduo como eu.
Observo que qualquer coisa associada a expressão sem limites fica praticamente impossível de não aderir.
Por exemplo, cartão de crédito sem limites, isso é tudo que qualquer mulher já sonhou na vida.
Qualquer mulher?
Pensamento machista, qualquer pessoa na verdade adoraria um cartão de crédito sem limites.
E aquele namoro saído da infância, sem limites, já pensou?
Mão na mão, pé no pé, dedo no dedo, nunca conseguíamos juntar peças diferentes.
Qualquer movimento em falso era caracterizado como uma ameaça a perda de uma vigiada virgindade.
Uma verdadeira luta marcial.
Por outro lado, sem limites associado a outras questões pode ser completamente maléfico à vida humana.
Por exemplo, crianças sem limites, já pensou?
Sogras sem limites, que desgraça!
Vizinhos sem limites, ninguém merece ...
No que se refere a minha internet começo a compreender a expressão.
Sem limites para tentar a conexão, sem limites de vezes que a maldita cai, sem limites de desculpas que recebo sempre que ligo para o SAC, sem limites de mensagens alertando que a linha está ocupada, sem limites, sem limites ...
Marcelo Perez
wwwsextascronicas. blogspot.
Número de frases: 35
Dezembro de 2006.
Rodoviária de Belo Horizonte. Milhares de passageiros passam apressados rumo aos guichês das empresas de ônibus ou ao terminal de embarque.
No meio do caminho, uma orquestra.
No meio da orquestra, uma moça.
Ela não parece regente, mas os músicos seguem seus comandos.
Ela está se divertindo, o público também.
Ela não é regente.
Ia viajar, estava na rodoviária, foi convidada a participar, topou e adorou.
O público também se divertiu.
Essa é uma das experiências musicais que o Encontro Musical promove.
Coordenado por a Orquestra Uirapuru, o projeto tem como objetivo principal levar a música erudita onde o povo está.
«Poucas pessoas conhecem, entendem e gostam da música erudita.
Quando mostramos o que é, como funciona, o público perde o medo e aproxima-se da gente, procurar assistir às apresentações, valoriza o nosso trabalho», destaca a violinista que também é regente da orquestra.
O projeto Encontro Musical foi criado há cerca de um ano por meio da Lei Municipal de Incentivo a Cultura.
Em esse período, foram realizadas três apresentações, sempre com grande público.
Restam três concertos que Marisa pretende realizar n, preferencialmente, em igrejas e escolas.
Ela acredita que esses espaços favorece a interação, pois, o formato difere dos tradicionais.
«São feitas execuções separadas, com apenas um tipo de instrumento, esclarecemos o que está acontecendo, a função de cada instrumento, depois juntamos tudo para que percebam o resultado», conta a regente.
As apresentações didáticas têm espaço também para perguntas do público e duram enquanto existirem dúvidas.
«Queremos promover a percepção diferenciada da música erudita, muitas vezes classificada como chata por puro desconhecimento», destaca a regente.
Patrocínio
Para a próxima fase do projeto, Marisa Moraes sonha em ampliar as apresentações para cidades próximas de Belo Horizonte, contudo, depende de patrocinadores.
Encontro Musical 2, também já aprovado por a lei municipal, não conseguiu prospectar a verba necessária.
«De os R$ 42 mil previstos, faltam ainda R$ 19 mil.
Por se tratar de incentivo do município, nosso campo de ação fica muito restrito», destaca a regente que, ainda neste ano, quer inscrever o projeto na Lei Estadual de Incentivo à Cultura.
Bichinho feio
Fundada em 2003, a Orquestra Uirapuru tem como objetivo principal ser um «palco» para os músicos mineiros.
A professora de violino Marisa Moraes vivia a procura de uma orquestra para que seus alunos pudessem praticar, contudo, as únicas opções de Belo Horizonte eram a Orquestra Jovem do Palácio das Artes, que não está sempre em atividade, e a da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), restrita aos alunos da universidade.
Por incentivo do maestro Sérgio Magnani -- morto há quatro anos, de quem foi aluna de regência, Marisa Moraes encarou o desafio de montar uma orquestra.
Esvaziou o quarto onde dormia, passando a ocupar um muito menor, e transformou o cômodo da própria casa numa sala para ensaios.
Até hoje, é lá que os músicos se reúnem para treinar e decidirem o futuro do grupo.
«Criei a orquestra mas não mando em ela.
Decidimos tudo em conjunto», conta a regente.
Foi lá que decidiram batizar a orquestra com o nome do pássaro brasileiro, por sugestão de " Marisa Moraes.
«Nunca tinha ouvido o canto o Uirapuru.
Assisti a uma reportagem sobre ele e encantei-me ao ouvi-lo cantar.
O bichinho é feio, parece um pardal, mas executa uma frase longa inteira, com princípio, meio e fim.
Parece um instrumento musical imitando um passarinho.
Tem tudo a ver com a nossa orquestra.
Somos feinhos, quem nos vê não dá nada por nós, mas quem nos ouve se encanta», relembra emocionada a regente.
É lá também que decidem como resolver impasses comuns na rotina dos músicos, por exemplo, como apresentar-se sem determinados instrumentos ou estantes.
«Nossa luta é grande, mas é gratificante.
Quando o problema parece sem solução, surge uma saída», destaca Marisa Moraes.
Recentemente, o grupo vivia uma dessas situações «sem saída».
Precisava de um Xelofone de Tubo para executar «Dança do Sabre», de Gayné, contudo faltavam recursos para a aquisição do instrumento.
A saída veio por meio de uma empresa local que não só comprou o Xelofone como equipou toda a orquestra por meio de doação.
«E assim vamos sobrevivendo e divulgando a música erudita.
Meu sonho é montar um repertório só com música erudita brasileira, pois temos peças lindíssimas que são pouco conhecidas», finaliza Marisa Moraes.
Número de frases: 48
Em estes tempos sisudos em que vivemos as leis do mercado se atrevem a tudo e todos, inclusive as apoderando dos sentimentos, inundando as relações pessoais e amorosas.
Como todo relacionamento é relativo, pois tudo depende de tudo, das circunstâncias, do ambiente cultural, financeiro, social, profissional e etc., percebe-se que a sociedade está incorporando a liquidez (\") amorosa com mais abertura do que imaginamos.
Evidentemente que a era do amor platônico, do amor sem toque, sem cheiro, sem «sal» já se vai longe, graças à evolução da informática.
Mas a contribuição da mídia acentuou ainda mais a liquidez (\") amorosa e arremessou o homem moderno no mercado de consumo criando relações sem vínculos, muito embora conectado.
Essa liquidez acerbada minou conceitos, preceitos e convenções sociais a muito enraizadas e consideradas o porto-seguro dos relacionamentos.
Entretanto, todas as convenções e conceitos conhecidos sobre o que seja o amor podem ser considerados como sólidos?
Há garantia expressa de amor eterno, que dure «para sempre» ou «até que a morte os separe» baseados em leis jurídicas?
Procedimentos legais, formalidades, convenções sociais são vulneráveis às leis do amor.
Não serão elas nem a duração do relacionamento no tempo que o solidificam, há de se considerar a intensidade e a capacidade de entrega total ao ser amado e no exato momento em que acontece.
Há os que defendem um amor baseado nas leis regidas por o coração, não se submetendo a convenções ou formalidades legais, outros ainda, não abrem mão dos rituais religiosos e legais por acreditarem que tais procedimentos solidificam o amor.
Amor sem vínculos legais, ou mesmo o Amor Líquido, ditado por o mercado de consumo, vem modificando o conceito de Amor Sólido, baseado em formalidades e leis com a idealização de que o relacionamento será «eterno» ou «para sempre» só porque está firmado em documento ou porque a igreja assim o determina.
Cabe aqui uma indagação:
Há regras ou convenções para ser feliz?
A mídia e o mercado de consumo são os responsáveis por o descompromisso vivido nas relações amorosas ou só exploram algo que já está latente no seio da sociedade moderna?
Número de frases: 14
Pensava que já tinha esgotado todos meus argumentos para elogiar o trabalho de Leandro Lehart.
Mas o cara me surpreendeu novamente, e tenho que recomeçar tudo do zero.
Então imagine a cena:
sábado de tarde em São Paulo, mais precisamente sob um toldo armado ao lado da piscina de uma casa do Jardim São Bento, perto da ponte da Casa Verde, que cruza o rio Tietê.
Em a platéia, uma reunião eclética de nomes influentes na cena pop-festeira da cidade:
Xis, DJ Patife, Aline Willy (ex-Rouge), Simoninha, a drag Salete Campari, o sensacional puxador Royce do Cavaco (entre membros de todas as escolas de samba paulistanas) e até o sumido -- só escreve para a Rolling Stone?!!!--
overmano André Maleronka (que me disse ter disco pronto para ser lançado, tudo sampleado -- estou curiosíssimo).
Quase todo mundo negro, ou quase negro -- e certamente todo mundo mestiço.
Em o palco improvisado, a mestiçagem (também com tendência declarada para o afro) revelava-se ainda mais curiosa:
os instrumentos escalados para a percussão eram um repenique;
um cajón (que é muito usado em várias música afro-latinas, mas aqui é tocado como um tarol de escola de samba), um tambor alfaia de maracatu (tocado como surdo), um timbal de madeira e um pandeiro (tocado à maneira do samba de roda do Recôncavo Baiano).
Além de bateria, baixo, sintetizador, computador e muito cavaquinho (que tem som de banjo de Dança do Lelê!)
Tudo comandado, é claro, por Leandro Lehart, que pesquisou vários ritmos de Norte a Sul do país e misturou tudo (no disco ele toca tudo) para inventar um novo estilo de samba que apelidou, muito apropriadamente, de Mestiço, também título de seu próximo disco -- cujo lançamento foi a desculpa para a festa.
Em o vídeo que acompanha este texto dá para ouvir o resultado.
É realmente para não deixar nenhum esqueleto parado.
Soa mais lento e encorpado, diria até mais heavy, que as várias batidas do pagode recente, mesmo quebradeiras baianas (que muitas vezes são tão perfeitamente aceleradas, que chegam a ter a «leveza» da música barroca).
Claro que o «mestiço» bebeu na fonte de novidades mais contemporâneas da história percussiva nacional, do samba reggae dos blocos afro de Salvador ao ritmo dos bois de Parintins.
Mas talvez por afinidade «genética» sua levada lembra outros ritmos menos divulgados, como os dos blocos carnavalescos de São Luís do Maranhão (entre eles, o belo Os Foliões), ou alguns ainda mais antigos, como os do boi paraense gravado em 1938 por a Missão de Pesquisas Folclóricas.
Parece papo cabeça, não é?
Parece não:
é mesmo.
Mas quem disse que papo cabeça tem que ser chato?
A cabeça de Leandro Lehart é pop, e então transforma logo a pesquisa em hits instantâneos, que a platéia aprendia a cantar e dançar imediatamente, como se conhecesse aquela formação instrumental desde que o samba é samba.
E dançava bem pra caramba, elegantemente (e o código indumentário dominante era certamente derivado do hip hop -- longe estão os tempos em que os pagodeiros de São Paulo vestiam ternos mauricinhos).
De vez em quando passos de break abriam clareiras entre músicos e platéia.
Isso ao lado de tiazinhas (entre elas estava Dona Gê, mãe de Leandro, que foi diretora de harmonia da X-9) mandando ver no miudinho.
Novo quilombo de Zumbi?
Não sei ao certo ...
Em o lugar das camisetas 100 % Negro, de ambiente mais «racional», os músicos traziam no peito a seguinte declaração de princípios:
«sou pagodeiro, sou mestiço, sou brasileiro».
E as músicas trocavam de batidas mais velozmente que carnavalescos trocam de escolas de samba:
o «mestiço» virava soul, depois pagode carioca estilo anos 80 (Almirzinho, filho de Almir Guineto, cantou Caxambu, um de meus sambas preferidos), depois samba-rock, depois ragga e assim por diante.
Leandro, que como um DJ remixava a batucada em tempo real, com efeitos «naturais» que lembravam o dub, cantou acho que todas as músicas que fazem parte do Mestiço, o CD.
As letras deixam claras todas as suas intenções.
A faixa que abre o disco, Vem Dançar o Mestiço, é bem explícita:
«quero ver o som de Bob Marley / sacudindo o partideiro / o reggae da Jamaica na embolada / eu vou mostrar para o mundo inteiro».
O reggae reaparece em Vai Chover (que conta com a participação do Alexandre do Natiruts) e pode ser ouvido como uma declaração de independência:
«não vá dizer qual é / o que eu devo fazer / do jeito que devo sambar / o samba também é de Jah».
E na próxima estrofe:
«do subúrbio eu vim / pra dizer que não vou parar de sambar».
Outra canção inventa uma nova categoria de ser humano, desde o título:
Mesticeiro. E pode comprar briga, mas boa briga:
o ritmo -- que é «de branco e negro» -- " tem sambeiro que não vai entender / tem sambeiro [ ...]
que nasceu velho do coração / mas eu sou novo, sou jovem / o Brasil tá querendo diferença / vou diferenciar».
E é diferenciando que vamos nos organizar?
Identidade é feita de novidade, da busca por novidade?
Que identidade é essa, fundamentada por diferenças?
O samba, sempre em transformação, mesmo nonagenário, ainda é uma boa liga (ou -- na minha humilde opinião -- a melhor liga) para tantas diferenças nacionais.
Há músicas mais populares em algumas regiões brasileiras.
Mas não há outra música que possa competir com o samba por o título da música mais popular em Todas as regiões.
O projeto do Mestiço vai além do disco para provar direitinho que o Brasil ainda é o «reino do samba».
Leandro Lehart está organizando uma caravana que percorrerá 14 capitais brasileiras fazendo festivais onde competem bandas de pagode locais.
mais de 100 grupos se inscreveram.
A primeira etapa já foi realizada e imagens de ela também podem ser vistas no vídeo disponibilizado aqui no Overmundo junto com este texto.
Bom ter Leandro Lehart coordenando essa movimentação toda.
Bom especialmente por ele ser paulistano.
Gosto de ver a cidade de São Paulo na liderança da união dos sambas brasileiros.
Misturando tudo.
Mestiçagem geral.
Demorou.
PS1:
Em o CD, as faixas bônus são batucadas mestiças instrumentais -- tesouro para DJs e samplers.
Leandro bem que poderia colocar os instrumentos separados no Overmixter, para facilitar a nossa vida mesticeira / sampleira.
PS2:
Só posso ficar contente (e por isso perco até o recato):
Leandro me disse que uma das motivações para fazer o Mestiço foi a leitura de meu livro O Mistério do Samba.
Só isso já justificaria os anos que passei pesquisando.
Bom ver que meu trabalho não ficou isolado na academia (nada contra a academia, nem contra trabalhos que são lidos apenas na academia) e se mostrou útil para tantos músicos bacanas.
Marcelo D2 já declarou que sua leitura foi importante para o desenvolvimento de seu samba-hip-hop.
E Fred Zero Quatro já compôs uma música também chamada O Mistério do Samba.
Número de frases: 70
O que uma tese sambista pode querer mais?
Por " Bosco Martins *
«Fora do eixo», programação especial de férias da TV Educativa Regional de Mato Grosso do Sul homenageia os noventa anos do poeta Manoel de Barros, que serão completados em 19 de dezembro de 2006.
A poesia será o principal destaque da grade e na contramão do global «tudo a ver», levaremos em conta o conteúdo e a originalidade dos cenários sul-mato-grossenses e nada melhor que Manoel de Barros para representar a» universalidade da aldeia».
O bordão «Espelho de Mato Grosso do Sul» se distingue das programações do eixo central do Brasil, graças aos nossos parceiros e funcionários das emissoras públicas, que com talento e heroísmo, fogem dos parâmetros comercias que norteiam as TV no país, dando espaço para experimentação e buscando novos formatos.
Diversificação, independência de opinião, criatividade, educação e comprometimento com o público, são os pilares de nossos projetos, com o objetivo de cada vez mais construir a cidadania e a visão crítica dos nossos telespectadores.
A professora Maria Adélia Menegazzo, na revista Cultura & Arte, projeto que traz um vídeo que será exibido no «Fora do Eixo», introduz bem a questão da regionalização.
Diz ela:
«A arte sul-mato-grossense em todas as suas linguagens não precisa ser uma arte sobre o Mato Grosso do Sul, mas necessariamente a que se impor frente às noções ingênuas da representação regional, atualizando mecanismos como a metalinguagem, a ironia e o jogo.
Impõe-se à linguagem regional os elos de uma diversidade estruturada sobre o universal.
Um modo antropofágico de apropriar-se e de ultrapassar o caráter multifacetado de nossa cultura».
Mesmo anacrônico, conteúdo e padrões éticos e estéticos com suas singularidades tornam um desafio contemporâneo refletir o Mato Grosso do Sul na tela da TVE Regional.
Essa visão que ainda se tem de TV, do eixo central do país, colonizando o resto do Brasil, tem mudado, principalmente por os aspectos tecnológicos, como a internet, que em principio é descentralizada, ou mesmo questões como só produzir TV quem tinha muito dinheiro.
Atualmente os equipamentos, mesmo os de transmissão, estão cada vez mais acessíveis.
Claro que isto não significa garantia de qualidade.
Muita produção em perfil independente pode se tornar mais conservador ou resultar mais baixaria ainda, do que parte da programação que está no ar nas grandes redes.
Acrescentamos que a produção de programas dedicados a diferentes segmentos da população, valorizando a cultura e a arte do nosso estado, respeita os valores éticos e sociais da pessoa, contribuindo para a formação do individuo e da coletividade.
A discussão sobre a qualidade da tevê é quase tão antiga quanto a própria TV.
Há desde os analistas que desqualificam a programação por inteiro até os adeptos da retórica de que as emissoras mostram o que o público deseja ver.
O que queremos mostrar é que a TV local tem frestas nas quais cabem bons programas em sua grade.
Desta forma não é desqualificação nenhuma destacar que o reflexo daquilo que é o espelho de Mato Grosso do Sul está na grade da TVE Regional.
Submetemos esta programação à avaliação dos nossos telespectadores, sugerindo ainda uma reflexão da atual criação cultural do estado.
Se cada vez mais as mudanças tecnológicas determinam o surgimento de um novo telespectador fora do centro, nada mais oportuno que discutirmos nosso papel impulsionado por estas mudanças.
Ao invés de telespectador cativo ou receptor passivo, sem acesso e poder de escolha, um telespectador emancipado.
Número de frases: 24
Continuação da parte 2)
Chamava-nos a atenção a figura daquela senhora, alegre e assoviante, movimentando-se a cuidar mimosamente de suas flores, deitando-lha água fresca que havia acabado de tirar do poço.
Ajeitava aqui um galho de flor, alí um vaso verdejante de folhas, molhava um pouco mais a trepadeira que serpenteava a casa e assim se entretinha nos deixando à vontade.
Os dois anciões mantinham-se sentados e calados.
Um com expressão dócil e outro de cabelo ouriçado, sisudo e ligeiramente contrariado com a nossa presença.
As crianças pareciam encantadas com a vista de dois brancos amarelados.
Sorriam correndo espevitadas nos lançando olhares curiosos.
Capitão Manoel, também sentado, permanecia tranqüilo e calmo, olhar baixo, pouca conversa, porém, parecendo-nos mais receptivo àquela inesperada visita.
Ambrósio foi quebrando o gelo e esquentando a conversa enquanto a senhora, depois de pentear seus longos cabelos negros, agora se ocupava em fiar algodão, sempre assoviando.
Em dado momento capitão Manoel cedeu e nos deixou ligar o gravador para iniciar a seguinte entrevista:
Nome:
«Manoel Roberto».
Filiação:
«Miguel Roberto e Cecerina Moreira».
Local de nascimento:
«Eu nasci aqui na aldeia no ano de 1960».
Etnia:
«Kinikinawa».
Atividade na aldeia:
«Já faz bastante tempo que sou Cacique tribal da Aldeia São João».
Como é escolhido o cacique?
«A escolha é da comunidade, que elege uma pessoa».
Quantas famílias Kinikinawa existem nesta região?
«40 famílias, a maioria é Kinikinwa, tem Terena e 2 família Kadiwéu.
Nós convivemos aqui nessa área mas não é área do Kinikinawa, é área dos Kadiwéu».
Como é esta relação entre as etnias?
«Em o início era meio complicado para a gente, nós lutamos bastante;
e agora está mais fácil para a gente».
Como é a relação entre a cultura do branco com a cultura Kinikinawa?
«Cinco anos atrás nós começamos a ter algumas pessoas como o seu Ambrósio morando na cidade, aí foi onde ele teve um meio de entrar em contato com os brancos, pra nós ter outros artesanatos um pouco diferente».
De onde vieram os ancestrais dos Kinikinawa?
«Quem disse isso foi meus avós, que existia a guerra nos outros Municípios onde eles começaram a perder as áreas para os fazendeiros.
Ouvi falar que era no Município de Miranda, num lugar chamado Limão Verde, que hoje está ocupado por os Terena."
Qual o artesanato Kinikinawa?
«Vaso, pote, gamelinha de madeira e colar».
Existe alguma cerimônia que vocês cultuam durante o ano na aldeia?
«Nós temos o dia 19 de abril que nós apresentamos as nossas danças indígenas aqui na sede.
Vem todas as famílias e até gente branca de fora pra tirar foto e filmar».
Como é a relação dos habitantes da aldeia com o município e as autoridades de Murtinho?
«Aqui nós temos pouco apoio do nosso Município, mas apoio vem mais de Bonito.
Porto Murtinho é bem pouco.
Tem também o problema da distância, Bonito fica mais perto».
Vocês recebem turistas aqui?
«Aqui é aberto e de vez em quando os turista vem aqui para a gente vender o nosso artesanato e nossa cerâmica».
Quais os artesãos Kinikinawa mais conhecidos?
«Dona Zeferina, Dona Flaviana e Dona Agda».
Quais os lugares mais bonitos que existem aqui na " Serra da Bodoquena?
«A cachoeira do rio Aquidabã, que tem 120 metros de altura.
Todo final de semana a gente ta indo pra lá, porque está entrando muita gente de fora na cachoeira sem participar com a gente aqui da aldeia, tá sendo explorada por o turista sem a participação da nossa comunidade».
Qual a mensagem que o Sr. passa para a juventude " Kinikinawa?
«É que a gente continua a lutar e pensar na nossa etnia».
A o final da entrevista, nosso guia fez sinal indicando hora de partir.
Antes da despedida aceitamos o convite para prestigiar a produção artesanal da família.
Compramos alguns colares e uma gamela entalhada em madeira de pequi.
Despedidas feitas, partimos no Land Rover por o mesmo caminho de nossa chegada.
Resumindo nossa breve passagem por a aldeia São João, pouco podemos relatar além do óbvio.
Formada por algumas habitações rudimentares espalhadas em meio ao cerrado, constituídas de madeira, em duas águas, ora cobertas com telhas de barro, ora com fibra de amianto, lona ou folhas de palmares, apresenta-se nos moldes dos povoados brasileiros mais modestos.
Em o centro da aldeia havia uma casa de alvenaria onde morava a professora brasileira e seu companheiro.
A o lado cinco outras de madeira onde residiam nativos.
Esse núcleo tinha abastecimento energético provindo da captação de energia solar através de equipamento específico.
Em o agrupamento funcionava também a Escola Indígena Municipal Extensão Aquidabã (composta de uma sala de aula improvisada sob uma choça sem paredes coberta de folhas de palmares), pertencente ao Município de Porto Murtinho, operando sob a tutela da Funai, tendo como professores João Moreira (Kinikinawa), Inácio Roberto (Kinikinawa) e Rosane Gabriel (brasileira).
Fora do núcleo, espalhadas por os campos, havia outras habitações onde residiam nativos de três etnias.
Todos aparentavam ter o mesmo modo de vida, sobrevivendo do cultivo de pequenas roças e do trabalho em fazendas, mantendo uma incipiente relação de comércio com a cidade de Bonito através da venda de artesanatos e produtos da terra.
Economicamente, pareciam bastante dependentes do sistema monetário.
A produção artesanal estava em processo de reestruturação.
Produziam e comercializavam colares, entalhes, cerâmicas e pinturas em couro.
Lutavam para resgatar a cultura perdida no tempo, buscando sinais de uma antiga iconografia destruída nos conflitos com a sociedade envolvente.
Notamos também que os nativos da aldeia São João buscavam formas de participar do fluxo turístico que adentra a reserva de forma aparentemente descontrolada.
De um modo geral, os nativos dessa aldeia não possuem conhecimentos sobre suas origens, costumes ou crenças, encontrando-se em estado de ostracismo histórico e cultural.
Vestem-se nos moldes brasileiros mais simples e a comunicação é bilíngüe, falando-se mais o português do que a língua nativa.
Como não possuem mais as tradições de seus antepassados, comemoram apenas o Dia do Índio, em 19 de Abril.
No entanto, estão conscientes de que se trata de uma data inventada por os brancos.
Segundo o cacique, o importante é comemorar à maneira de eles, inventando rituais e emprestando significado próprio aos mesmos.
O fato é que estão dispostos à reverter o quadro e lutar por a reafirmação de sua identidade.
Embora alguns fossem católicos ou protestantes, mantinham ainda conhecimentos naturais que lhes permitiam uma considerável simbiose com o meio.
Ainda eram portadores de traços do misticismo xamânico, motivo por o qual percebe-se, mesmo em meio a outros objetos, signos de uma cultura ligada aos elementos da natureza.
Entre os Kinikinawa nota-se maior adaptação ao contato com a cultura envolvente.
Embora monetariamente pobres, suas habitações são mais zeladas, suas fisionomias mais alegres e seu ânimo mais disposto.
Mostravam-se entusiasmados com a perspectiva de um fortalecimento cultural que os levasse a uma existência digna, sem a perda de sua referência nativa.
Como disse um Kinikinawa:
«nem que seja preciso a gente inventar nossa tradição».
Notamos que entre as três etnias presentes, Kadiwéu, Kinikinawa e Terena, embora não houvesse hostilidade aparente, transparecia o receio comum contra os Kadiwéu, pois o convívio muito próximo constituía-se em motivo para constante insegurança entre os Terena e Kinikinawa, não apenas porque a reserva territorial pertence aos Kadiwéu, mas também por o histórico das relações intertribais.
Já conhecemos a estratificação social dos Kadiwéu e é bem provável que ainda hoje existam cativos em algumas aldeias, fato que não pudemos constatar, mas que chegou ao nosso conhecimento através de fonte segura.
Politicamente, internamente parecem estar organizados através de um cacicado patriarcal sobre o tronco Aruwak, mantendo relativa unidade tribal mesmo em face às constantes rupturas e migrações forçadas.
A inexistência de um território fixo demarcado para cada etnia contribui para a instabilidade desse quadro.
Externamente, não estão completamente inseridos no contexto político e democrático brasileiro, representando inexpressivo coeficiente eleitoral, motivo por o qual, talvez, recebam pouco apoio das instituições públicas.
De maneira generalizada vivem como a maior parte da população nativa no Brasil, lutando por o reconhecimento de seus direitos, e como a maior parte da população brasileira, sem ter a quem recorrer.
Imbuídos destas análises complexas e sempre incompletas, partimos rumo à aldeia Tomásia.
Queríamos um contato direto com os Kadiwéu.
Nosso guia ficou, recusando-se definitivamente a nos acompanhar.
Foi inútil insistir, sendo impossível dissuadir Ambrósio.
Despedimo-nos e partimos.
Número de frases: 92
(Continua)
Quando digo que sou de Dois Córregos, logo, querendo elogiar-me como poeta, dizem:
«Só podia ser!"
Tudo isso por causa do meu amigo José Eduardo Camargo, que inventou uma Usina de Sonhos para produzir poesia, elemento em falta no mundo de hoje.
Não vou explicar o que é a Usina de Sonhos porque não sou a pessoa mais indicada para fazê-lo, sou até a menos indicada, tanto que impliquei com o seu onirismo.
Porque não posso conceber que poesia seja sonho, eu que a quero tão real, concreta, viva.
Implicâncias.
Mas a Usina de Sonhos do José Eduardo, sem me deter em explicá-la, pretendia levar os jovens a produzir poesia, depois os mais velhos, depois os detentos, as detentas, e as paredes e muros que os prendiam, como as paredes e os muros dos cidadãos livres da cidade, floriam e cantavam com as palavras de poemas.
Palavrões pichados, gestos obscenos?
Não; poemas.
A poesia é a linguagem da liberdade.
O sonho floresceu, as crianças voaram com asas de anjos, os adultos tornaram-se crianças, as grades não doíam tanto, a imaginação passava além, sonhando com um mundo melhor, de mais alegria, onde tudo é possível, porque a poesia é possível.
Implicâncias minhas, repito.
Implico até com o verbo " produzir ":
poesia deve ser criada, embora o poeta não seja Deus, e não produzida, que é próprio da máquina, e o poeta certamente não é uma máquina.
Mas eu orientei uma oficina (olhem como a língua é traiçoeira: «oficina», coisa de máquina) de poesia no Sesc aqui de Bauru e, seguindo as sugestões de meus textos, o coordenador cultural da entidade montou um cd muito bonito expondo os resultados do trabalho, os poemas criados por os discípulos, com ...
Uma máquina!
Sim, senhores:
as engrenagens de uma máquina fazendo saltar as letras, as palavras, os poemas -- não criados, mas produzidos em série.
Ficou bonito -- e qualquer um pode ver que os poemas são formas autônomas, que nada ficam a dever às máquinas.
Nasci em Dois Córregos, com muito orgulho, e no Matão, uma zona rural do município, onde vivi os primeiros anos de minha vida, meus primeiros verdes anos, e o contato com a natureza fez-me poeta, e me sinto cada vez mais poeta, se isso é possível, quanto mais me sinto ligado à terra.
Eu já disse:
o mal do homem contemporâneo é ter perdido as suas raízes.
As minhas estão lá, no Matão da minha infância.
Lá enterrei o meu umbigo, que floresceu e floresce com o sol e com a chuva.
Quando dizem -- o umbigo do mundo!,
penso logo no meu Matão.
Quando dizem que alguém só olha para o próprio umbigo, penso no meu -- florescendo na terra vermelha do Matão.
O José Eduardo fez tanto que Dois Córregos ganhou o mundo.
Foi reconhecida por a Unesco como a Cidade da Poesia.
Por isso me dizem:
«É de Dois Córregos?
Por isso é poeta -- veio da Cidade da Poesia."
Usina de Sonhos!
Eu digo que não basta sonhar, que fazer um poema é um árduo trabalho com as palavras.
Que um poema não é fruto da inspiração, mas é construído como se constrói uma peça material.
Não é à toa que João Cabral insistia na materialidade da palavra.
Vamos falar também da materialidade do poema, que não é nuvem etérea, mas forma, mas coisa.
Vamos falar da materialidade do sonho.
Não vou negar mais que a poesia é sonho, mas insisto que existe uma materialidade do sonho.
Como? Oras, no poema.
Eis uma bela definição de poema:
O poema é a materialidade do sonho.
É piegas, concedo.
É piegas, mas o sonho faz falta na vida.
Como o sonho é abstrato, vamos materializá-lo no poema.
Entre versos, palavras, imagens, a poesia continua.
«Nem todos se libertaram ainda», disse Drummond;
por isso a poesia é necessária.
E quando todos tiverem se libertado?
Então tudo será poesia.
Piegas, mas belo.
Depois de Auschwitz a poesia não é mais possível?
Então é que se torna mais necessária.
O desespero do abismo transcendental, mais do que qualquer coisa, precisa ser cantado.
Depois que as cidades explodiram, transformaram-se em metrópoles, não é mais possível a poesia?
O homem chega à transcendência da banalidade da vida por a poesia.
A poesia é a transcendência da coisa -- ou do sonho -- no poema.
Usina de Sonhos?
Usina, porque tratamos de coisas concretas.
Sonhos, para que a realidade não nos sufoque.
Certo que Dois Córregos não é nenhuma grande metrópole, mas, por isso mesmo, lugar para a emoção recolhida na tranqüilidade, como queria Wordsworth ao trabalho do poeta, Dois Córregos pode muito bem ser chamada -- Capital da Poesia.
Número de frases: 62
Grita-se por socorro no Pelourinho, mais uma vez.
Alguém aí, por favor, saberia me dizer o que está acontecendo com o Pelourinho?
Esqueceram absolutamente daquele lugar.
Nunca concordei plenamente com a forma em que a senhora Tânia Simões e o extinto Pelourinho Dia & Noite administravam a programação do Pelourinho, mas, o que está acontecendo agora é ainda mais preocupante.
Nunca tinha visto uma terça-feira sem a Benção no Pelô.
Agora, junto com a Bênção também se foi o resto da programação e o novo Pelourinho Cultura e Arte até agora não disse pra quê veio.
Os comerciantes, sobretudo aqueles das praças Pedro Archanjo, Quincas Berro DÁgua e Tereza Batista, estão simplesmente indignados em terem que assumir a programação cultural da noite no Pelourinho.
O que acontece é que as praças estão sendo fechadas para cobrança de entrada e couvert artístico por estes comerciantes.
A medida vem sendo tomada na tentativa de compensar a contratação das atrações por os comerciantes destas praças, o que não estou certo de que seja a melhor solução.
Contudo, certamente está servindo para gerar o debate.
São taxistas, baianas de acarajé, restaurantes, lojistas e vendedores ambulantes, que estão condenados a conviver com os pedintes de esmola, as garotas de programa, ladrões e recuo da clientela.
Os visitantes do Pelourinho já tinham que tolerar o incomodo, a cada dez minutos, por os vendedores de rua ou pedintes de esmola.
Agora está difícil saber o que esperar ao optar o Pelourinho para se tomar um cravinho.
Os bares que estão fora das praças do Pelô também já contratam artistas para atrair mais clientes.
E são bons artistas, diga-se de passagem, como é o triste caso de assistir a uma das melhores vozes da Bahia sendo desperdiçada em barzinho, como é a de Marcionílio.
Um grande artista, cantor e compositor que, certamente, não se encontra em seu lugar adequado.
Mas, o que acontece com Marcionílio, um dos grandes artistas do começo da Banda Eva (e o a axé music não é o seu lugar) é a mesma saga de tantos outros artistas que precisam sobreviver da música.
Cantina da Lua, Estação Pelô, Cravinho do Carlinhos, Samba do Mestiços, Sankofa (antigo Lugalegal), Bar do Reggae (Zitares), Colonial 17, The Dublinners Irish Pub, Escadaria de Santo Antônio (Gerônimo nas terças), Banda Didá e Swingue do Pelô (percussão), são alguns dos locais e atrações que ainda permanecem no Pelô.
Lá estão ainda o Theatro XVIII, o Cine XIV-Sala de Arte, Museus, Galerias, Fundações, ONGs, o Olodum e outras sedes de cultura de Salvador.
Muitas figuras também continuam por lá, como o próprio Jayme Figura, Romilda e sua máquina fotográfica, Menino Caldas e seus bonés coloridos, Selma a guardadora de carros do Maciel, a anã que só anda chapada, Iuri e sua bateria, os negros que procuram se dar de bem com as gringas (e vice-versa), só não vi mais o Michael Jackson da Bahia, que sumiu depois de dividir as atenções com Ivete Sangalo no Carnaval, de aparecer em «Ó Pai ó», e depois que a fonte luminosa da Praça da Sé secou, não ascendeu mais e teve os seus autofalantes levados.
Depois de aglutinar boa parte dos ensaios do Carnaval deste ano, como do Olodum, Cortejo Afro, Vixe Mainha, Terra Samba, Motumbá, Tribazum, Cor de Mel, o Pelourinho pode ter o mesmo destino dramático do Aeroclube e ficar entregue à moscas, aos pedintes e à prostituição.
Vamos aproveitar o embalo do filme «Ó pai ó» e lembrar que o Pelourinho não é mais aquele.
Número de frases: 22
É um absurdo como os autores da tele-dramaturgia brasileira se abraçam ao preconceito camuflado.
Em uma cena em que os protagonistas têm que fazer um tipo ignorante ou ridiculo, logo o sotaque recai para o nordeste do nosso pais tropical.
Começa então o circo ao contrário.
Fica a pergunta sobre o que há de engraçado numa pessoa que não teve acesso à educação, e leva sua vida na simplicidade inversa que é sobreviver??
São trejeitos forçados.
Caretas e boquetas, um estereótipo que vem dar um soco na imagem já tão distorcida dessa imensa multidão que vive nas beiradas e escuros sociais.
Isso é visto quase que freqüentemente nas novelas e principalmente nos ditos ' humorísticos», onde mais uma vez impera o mau-gosto associado a piadas tão infames que deveriam ser cortadas de qualquer con (texto).
Ao menos os atores poderiam reparar nesse horror e olhar para os próprios umbigos com sotaques mineiro, paulista o exxxxtremamaente carioca.
Sem preconceito!!
Número de frases: 9
Em abril de 1897, em plenos «Sertões de Dentro do Piauí», foi inaugurada uma Fábrica conhecida com» Fábrica de Laticinios dos Campos " equipada com o que havia de mais moderno em termos de máquinas para a elaboração de derivados do leite.
O equipamento foi transportado desde Berna-Suiça.
O dono do negócio, o engenheiro e cientista Antonio José de Sampaio (1858/1906), foi quem, pessoalmente, organizou a expedição que trouxe as máquinas até o local onde a fábrica fora construída e inaugurada.
De o porto fluvial onde hoje se localiza a cidade de Floriano (PI) até o local da fábrica, 180 Km foram percorridos em carros de bois e sem que houvesse qualquer estrada préviamente contruída.
Para edificar o prédio e ajudá-lo na estratégia de transporte das máquinas, o Dr Sampaio contratou os serviços do engenheiro alemão Alfredo Modrack.
A fábrica produziu manteiga de excelente qualidade e chegou a ser a maior da América do Sul.
A inauguração da Fábrica coroou um processo iniciado poucos meses antes da proclamação da República (15/11/1889) com a assinatura, no dia 26 de abril de1889, de um contrato de arrendamento de terras de propriedade da nação brasileira (uma parte das chamadas " Fazendas Nacionais ") entre o Doutor Sampaio e o Tesouro Nacional.
Em ele estavam previstas cláusulas que incluiam outras obrigações por parte do arrendatário, tais como o aproveitamento da mão de obra escrava remanescente, o aprimoramento genético do gado e o desenvolvimento da lavoura.
Esta história de aventura sonhadora insere o Piauí na História dos primódios da industrialização do Brasil.
O predio que abrigou a Fábrica, imponente edifício de construção sólida, encontra-se em ruínas e se localiza no município de Campinas do Piauí.
Sua restauração é objeto de uma Campanha por a movida por a Fundação Nogueira Tapety -- FNT.
Como um dos instrumento desta campanha, a FNT decidiu pleitear, junto ao Programa BNB de Cultura, versão 2007, o financiamento para a exposição histórico-pedagógica de um farto material iconográfico -- fotos, mapas, textos, tabelas e uma maquete.
Este é o conteúdo do projeto «Era uma Fábrica de Sonhos», apresentado ao BNB no último dia 28 de setembro, entre dezenas de outros.
Número de frases: 13
Por a relevância do tema, e por termos demonstrado, assim julgamos, nossa capacidade de realizá-lo, a FNT está confiante na aprovação do mesmo.
Uma misteriosa e desagradável prática tem ocorrido com uma certa freqüência na vida cultural de São Luís.
Em os últimos dois anos vários shows foram anunciados e «na hora h» cancelados, por motivos diversos, geralmente não cumprimento do contrato por os produtores locais.
A maioria das apresentações foi de rock e reggae, de renomados artistas nacionais e estrangeiros.
Só nos últimos nove meses foram quatro:
Nação Zumbi (novembro), Ponto de Equilíbrio (janeiro), Eric Donaldson (julho) e Andrew Tosh (julho).
Os dois últimos não aconteceram por absoluta falta de público, apesar da cidade ser considerada a «Jamaica Brasileira».
Por este motivo, a credibilidade do público em relação às produções de eventos do gênero em São Luís vem sendo abalada.
Mas o problema não é de hoje, não somente cancelamentos como produções mal realizadas têm sido constantes.
Eu mesmo testemunhei várias apresentações «inacreditáveis».
Por isso, fiz um levantamento histórico dos principais shows que não deram certo, por uma razão ou outra nas últimas décadas, na capital maranhense.
Amadorismo, falta de profissionalismo ou puro azar.
Tire as conclusões.
Os nomes dos produtores foram omitidos para evitar conflitos.
A idéia foi relatar os fatos, sob o ponto de vista da história cultural.
Anos 80
O primeiro importante show cancelado em São Luís, que eu consigo lembrar, aconteceu na década de 80.
Em meados de 1988, o cantor Cazuza se apresentaria no galpão do Espaço Cultural, na época, o principal espaço de shows da cidade.
Ele tinha lançado o disco «Ideologia» e estava no auge da carreira.
No entanto, o país ainda não sabia que o poeta do rock estava com a saúde muito debilitada em decorrência da AIDS.
O cancelamento da apresentação foi anunciado com uma semana de antecedência, numa chamada televisiva feita por a produção local.
Em aquela mesma fatídica semana, o cantor «revelaria» ao Brasil -- com direito à apresentação no Fantástico ao lado de Sandra de Sá -- que estava bastante doente.
O motivo do cancelamento do show de Cazuza, portanto, foi justo, apesar de uma legião de fãs ter ficado «a ver navios» para sempre.
É importante lembrar que a única vez que ele esteve em São Luís foi em 1984, ainda com o Barão Vermelho, dos tempos de «Para o Dia Nascer Feliz».
90
Em os anos 90, com a definitiva ascensão do reggae em São Luís, tendo a cidade passado a ser conhecida como «Jamaica brasileira», apresentações de antigos astros jamaicanos na ilha se tornaram rotineiras, mas ao mesmo tempo viraram sinônimo de shows mal produzidos e duvidosos.
Alguns chegavam a atrasar mais de cinco horas ou simplesmente não aconteciam.
O primeiro evento do gênero foi logo apresentando inúmeros problemas de organização.
A história toda renderia um livro ou um longa metragem.
Mas como o nosso espaço precisa de limite, vamos resumir o episódio.
Em 1991, subiu ao palco do Estádio Nhozinho Santos (o segundo da cidade, que estava completamente lotado), o cantor Gregory Isaccs, com direito a um atraso de mais de três horas e playback de fita K7.
O cantor foi trazido da Jamaica para São Luís num jatinho fretado especialmente para este fim.
Chegou de madrugada, quando o horário do show já estava extrapolado, tendo seguido direto para o estádio.
Como o cantor não trouxe os integrantes de sua banda, no local, os produtores armaram um verdadeiro disfarce teatral, digno das piores comédias.
Ele subiu no palco com integrantes de uma obscura banda de reggae da Guiana, Universal Youth -- que na época passava uma temporada em São Luís -- para simular uma performance, sob uma forte fumaça de gelo seco.
O problema foi que a fita K7 do playback tinha sido gravada especialmente para as radiolas (os sound systems locais) e estava cheia das famosas paradinhas «toca de novo».
Não houve tumulto, mas ao perceber a farsa, o público começou a vaiar incessantemente o cantor.
Em a terceira música com a paradinha que entregava o «crime», não deu mais para continuar.
Gregory Isaccs ainda permaneceu em São Luís por mais alguns dias, tendo realizado mais dois shows.
Somente o terceiro deu certo.
Em o intervalo dos eventos, chegou a ser preso por a Polícia Federal, acusado de forma injusta, de que não teria pago o hotel onde estava hospedado.
Mais tarde, o cantor jamaicano ainda voltaria a São Luís em outras ocasiões.
Inclusive, no último mês de julho ele se apresentou por aqui com total sucesso.
Dois anos depois, outra das lendas do reggae, Dennis Brown, hoje falecido, estava em turnê no Brasil, tendo passado de forma pomposa por Curitiba e São Paulo.
Aproveitando a estadia no país, ele se apresentou na cidade numa noite de sábado, no Espaço Cultural.
O show estava marcado para às 21h, mas o cantor foi subir somente às 4h da madrugada, para um público de pouco mais de 50 pessoas.
Aliás, naquela altura o portão já estava liberado.
Eu fui um dos poucos resistentes que testemunhou o cantor executar nove músicas.
Outro evento fracassado com astros do ritmo jamaicano foi o show de Julian Marley, um dos filhos de Bob Marley, que aconteceria em 1994, num ensolarado domingo, numa arena na Praia do Calhau, uma das mais movimentadas de São Luís.
A festa estava marcada para começar às 17h.
Por volta das 21h foi anunciado ao público jovem e bronzeado, que o cantor não se apresentaria mais.
Eu estava lá também.
Detalhe: quem comprou o ingresso teve o dinheiro devolvido.
O motivo da ausência de Julian Marley nunca foi revelado.
2000
A mais recente onda de shows cancelados sem aviso prévio começou de fato com a lendária apresentação da banda de rock Sepultura, que aconteceria na Associação Atlética do Banco do Brasil, localizada no bairro da Ponta do Farol, na área litorânea de São Luís.
O ano era 1999 e o show foi marcado para uma noite de sábado.
Por falta de pagamento de uma mesa de som adequada para a grandiosa sonoridade da banda, o grupo seguiu para Belém, onde se apresentaria no dia seguinte.
O anúncio do cancelamento «em cima da hora» rendeu matéria numa TV local.
No entanto, centenas de jovens desavisados, religiosamente vestidos com camisetas pretas, tomaram as redondezas da Ponta do Farol, desde o período da tarde.
A loja, que era ponto de venda dos ingressos, devolveu o dinheiro de quem comprou o bilhete.
O nome do produtor ficaria muito conhecido posteriormente, por causa dos shows anunciados que não deram certo.
Seis anos depois, como principal atração de uma festa rave, a banda Nação Zumbi tocaria pela primeira vez em São Luís, oito anos após a morte de Chico Science.
A data era 3 de dezembro de 2005, mas o grupo nem chegou à cidade.
Quem comprou o ingresso teve que se satisfazer com a festa eletrônica e com uma atração local.
Não houve desconto no valor do bilhete, apesar da ausência da principal atração.
Segundo a produção local, a banda pernambucana, de quilate internacional, teria perdido o avião ...
Um ano depois, a produtora da Nação Zumbi informou que a organização local nunca comprou as passagens, apesar de ter pago o cachê, o que impossibilitou a vinda do grupo.
Em o mês de abril de 2006, o cantor de reggae Alpha Blondy, apresentou-se em São Luís, no espaço intitulado Arena Roots, no Calhau.
Além do africano, subiram ao palco a banda paulista Planta e Raiz, o cearense Andread Jó e o grupo Kazamata, de São Luís.
Anunciado para as 23h, o show da atração principal só foi começar às 4h da madrugada, sob um forte temporal.
O público exausto e encharcado teve que se contentar com a execução de apenas seis músicas do artista da Costa do Marfim.
É importante lembrar que este evento foi um dos vários shows de reggae realizados ano passado, na época das fortes chuvas, em espaços descobertos.
E São Pedro não colaborou em nenhum de eles.
Outro exemplo de produção fracassada foi o show da banda Tribo de Jah, que tocaria na Arena de Beach Soccer, da Lagoa da Jansen, num domingo, no final do mês de julho.
Por falta de um documento que liberaria o local do show para o evento, o começo da apresentação foi atrasado por várias horas, o que culminou com a desistência da banda.
O grande público que compareceu ao local só foi saber da ausência da Tribo de Jah por volta da meia-noite.
A produção devolveu os ingressos.
Ainda em 2006, no mês de setembro teve a dobradinha da banda Sepultura, que foi anunciada novamente para um evento batizado de Sepulfest que aconteceria num grande espaço, no bairro do Cohafuma.
Organizada por a mesma produção do show anterior da banda e por a apresentação da Nação Zumbi, o evento que aconteceria na mesma semana em Teresina, São Luís e Belém foi abortado.
Vale ressaltar que a mesma produção era responsável por as apresentações nas três capitais.
Segundo testemunhas, o ingresso que custou R$ 25 nunca foi devolvido para quem comprou de forma antecipada.
Para fechar o ano, no dia 3 de novembro, teve outra dobradinha, desta vez do grupo Nação Zumbi, também sob a responsabilidade da produção anterior.
A banda novamente nem aportou na capital maranhense, por a mesma razão anterior:
não foram compradas as passagens do grupo.
Para piorar, o cancelamento não foi informado de forma prévia e muita gente se deslocou até a área do evento, que aconteceria no espaço de uma associação, no bairro litorâneo da Ponta D' Areia.
Segundo testemunhas, somente aqueles que foram prestar queixa na delegacia central da cidade tiveram o valor do ingresso ressarcido por a organização.
Fora desse contexto, como exemplo de imprevisto e de boa conduta da produção local, vale lembrar do cancelamento do show da cantora Maria Rita, filha de Elis Regina, que se apresentaria em São Luís, em 2004, como parte da turnê do primeiro disco de ela.
Um dia antes do evento, Maria Rita, que estava grávida, apresentou problemas de saúde e não pode chegar a São Luís.
A notícia pegou de surpresa o produtor, que foi pessoalmente para a porta do ginásio prestar esclarecimentos ao público.
O dinheiro de quem comprou o ingresso antecipado foi devolvido.
Anos 70
Mas há registros de shows cancelados também nos longínquos anos 70.
A informação veio através do cantor e compositor Chico Saldanha, 59, que faz parte da geração de artistas locais que despontou naquela década.
Portanto, não é de hoje que alguns eventos de música deixam de acontecer «na hora h» ou carecem de comprometimento e responsabilidade.
O primeiro episódio que ele lembrou foi uma apresentação de Caetano Veloso, marcada para uma certa noite de sábado, entre o final dos anos 60 ou começo dos 70, no Ginásio Charles Moritz, do Serviço Social do Comércio (Sesc), na Praça Deodoro, área central de São Luís.
Em a época, o movimento tropicalista estava no auge e Caetano Veloso era um dos responsáveis por a transformação que ocorria na musicalidade brasileira.
Ele já tinha alcançado fama em todo o país também porque participava de um programa de TV chamado «Esta Noite se Improvisa», no qual sempre ganhava a disputa com outros artistas.
Segundo Chico Saldanha, o ginásio estava completamente lotado e a expectativa do público era grande para ver um dos articuladores da Tropicália cantar «Alegria, Alegria».
«De repente apareceu um cidadão no palco, informando o cancelamento do show, porque Caetano Veloso teria passado mal, estando internado naquele momento no Hospital Português», lembrou Saldanha.
Ele acrescentou que o público ficou perplexo e de certo modo comovido com a situação do artista, o que encobriu temporariamente a má fé da produção.
No entanto, um dia depois, o produtor teria sido preso no município de Bacabal, interior do Maranhão, com uma mala cheia de dinheiro.
Mesmo assim, ninguém teve o ingresso ressarcido.
«Sabe-se que Caetano Veloso estava, de fato, em São Luís.
Mas a verdade nunca veio à tona.
Os jornais chegaram a divulgar o ocorrido, mas logo este episódio caiu no esquecimento», completou.
Caetano Veloso voltou a São Luís outras vezes, com absoluto sucesso.
Inclusive, a mais recente vinda do baiano por aqui aconteceu em abril deste ano.
Outro caso famoso foi o show de Milton Nascimento que ocorreria no Teatro Arthur Azevedo, numa sexta-feira do ano de 1978.
O cantor mineiro estava em turnê por o Brasil, divulgando o antológico disco " Clube da Esquina nº 2, considerado um dos melhores registros da carreira de ele.
O público também depositava expectativa na banda do artista que devia contar com nomes como Wagner Tiso, Toninho Horta, entre outros.
«Desta vez o público foi informado do cancelamento ainda no horário da tarde e o dinheiro dos ingressos, pelo menos, foi devolvido», afirmou Chico Saldanha.
No entanto, como sempre acontece, a verdadeira razão do cancelamento nunca foi explicada.
Para piorar, Milton Nascimento jamais voltou a se apresentar em São Luís.
Por último tem uma curiosa performance protagonizada por o pianista erudito Arthur Moreira Lima, no Teatro Arthur Azevedo, principal de São Luís.
A data é incerta, mas sabe-se que ocorreu nos idos dos anos 80.
Em aquele momento perdido na história, estava marcado um concerto solo do músico no TAA, mas por razões nunca explicadas, na hora da apresentação, Arthur Moreira Lima subiu no palco com uma bandeira do Brasil.
Sentou no piano e tocou somente alguns acordes do Hino Nacional, retirando-se em seguida, não retornando mais.
«Provavelmente deve ter ocorrido um desacordo de contrato», observou Saldanha.
Número de frases: 119
Concedi esta entrevista ao portal acessepiaui há pouco mais de dois anos, no dia 2 de outubro de 2004.
Em a época ainda morava em São Paulo (hoje resido em Oeiras).
Como gostei muito de tê-la concedido e, principalmente, do resultado, resolvi compartilhá-la com os overmanos
Joca Oeiras que se auto intitula «o anjo andarilho» é um artista plástico paulistano de 57 anos que, há menos de dois anos (dez / 2002) apaixonou-se por Oeiras.
Esta figura, pra lá de excêntrica, adotou, poeticamente no dizer de ele mesmo, o Estado do Piauí que considera «o mais charmoso do Brasil».
E para proclamar esta paixão criou um grupo virtual, a Confraria de Oeiras e até um resolveu editar um tablóide intitulado «O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil».
Veja o que ele tem a nos dizer nesta entrevista exclusiva.
Acessepiauí -- Você poderia fazer um comparativo de como você acredita que estaria Oeiras, hoje, se ela pertencesse a outro Estado como Rio de Janeiro ou São Paulo?
Teria outra estrutura?
Joca Oeiras -- Se Oeiras pertencesse a outro Estado que não o Piauí não seria Oeiras.
Aliás, da mesma forma se Oeiras tivesse permanecido a capital, os oeirenses que me perdoem, certamente Oeiras não seria a Oeiras que eu amo.
É a historia que fez Oeiras bonita -- ter sido, deixar de ser, o sertão de dentro, o próprio Mafrense, o Visconde da Parnaíba, a figura emblemática de Possidônio Queiroz:
negro, autodidata, músico, compositor, grande intelectual e ao mesmo tempo a mais acessível das pessoas;
os loucos de Oeiras, figuras mitológicas cuja historia pode ser contada por o DNA.
Quanto à questão de estrutura, acho que ela é perfeitamente adequada ao (baixíssimo) fluxo de turistas que a cidade recebe.
Sinceramente eu acredito que investimento turístico prioritário em Oeiras hoje tem que ser em propaganda da mágica e bela antiga capital do Piauí.
Modéstia inclusa, tenho feito a minha parte ...
Criada a demanda, os próprios agentes se darão os meios de garantir a estrutura, tenho certeza disto.
Agora, o que eu acho que não dá pra esperar é aquele turismo engravatado ou, sei lá, turistas de hotéis cinco estrelas.
Porque Oeiras é justamente um convite a um turismo de pessoas que, vivendo a vida em Shopping Centers, querem conhecer um Brasil diferente deste universo globalizado.
Um lugar de resistência, o que me fascina muito.
Acessepiauí -- Você, como turista, valoriza a cultura como um segmento a ser explorado como um referencial turístico?
Joca Oeiras -- Não sei se devo aceitar o rótulo de turista.
Não por nada, mas porque sou um turista completamente atípico.
Sempre desejo ir aos lugares onde o turismo ainda é pouco ou nem é explorado.
Foi assim que descobri Oeiras, por exemplo.
Aliás nisto me identifico com um amigo meu, o cineasta Douglas Machado.
Ele esteve em Paris e conheceu todos os bares e brechós das vielas próximas à Torre Eiffel.
A Torre, simplesmente ignorou!
Adorei esta história por que define um comportamento:
o interesse por as pessoas e não por os monumentos.
Mas não consigo conceber turismo sem cultura.
O tesão de viajar é esta troca de informações entre pessoas de hábitos diversos.
Sei que tem gente que quer ver um cartão postal e dizer, todo orgulhoso «Eu estive lá» mas eu estou convencido de que existe um grande potencial para o turismo de apelo cultural.
Acessepiauí -- Você vem fazendo uma campanha para ser entrevistado por o Jô Soares.
Qual o seu objetivo nesta empreitada?
E o que está faltando para dar certo?
Joca Oeiras -- Se existe algo que eu quero muito deixar claro nesta minha entrevista é que eu adotei como profissão, embora ainda não suficientemente remunerada, falar bem do Piauí.
Mais do que isto:
quero ser ouvido!
Mas não é algo que eu faço «a la louca» atirando pra tudo quanto é lado.
Tenho objetivos e persigo metas, pois preciso adquirir uma credibilidade tal que me torne uma referência indispensável (ainda bem que pretensão é o que não me falta) quando se tratar do Piauí.
Então chegou um momento em que ser entrevistado por o Jô Soares seria um passo à frente nesta caminhada e este é o meu único propósito:
continuar, dentro ou fora do Jô, falando bem do Piauí.
Quanto à forma que encontrei -- uma campanha pública -- é bem ao feitio das coisas que eu gosto de aprontar:
mobilizar as pessoas de tal forma que, no limite, a campanha se torne mais importante que a própria entrevista.
Já disse, e repito, a campanha já é vitoriosa.
Não sei o que falta para ela dar certo mas tomara que seja esta nossa entrevista.
Tô botando fé nisto.
Acessepiauí -- Em estas idas e vindas de andarilho você deve ter passada por várias situações diferentes, entre engraçadas, tristes, constrangedoras, etc..
Gostaríamos que você nos relatasse algumas destas histórias, demonstrando as suas sensações quando estes fatos ocorreram:
alegria -- espanto -- tristeza -- decepção -- constrangimento -- surpresa -- raiva -- indisposição.
Joca Oeiras -- Não me lembro de nada negativo, mas tenho histórias bem interessantes pra contar:
A que ainda vou escrever com detalhes um dia, é sobre uma viagem que fiz de pé, o único turista do ônibus, num microonibus que ia de Parnaíba ao Cajueiro da Praia.
É a história de um verdadeiro herói chamado Marcelo, eu acho.
O Marcelo é o cobrador do tal microônibus que parte às 11 horas de Parnaíba com destino ao Cajueiro.
Muito mais do que isto, o Marcelo é a pessoa mais importante e requisitada neste veículo.
É ele que consegue acomodar uma pá de gente com muuitas compras, sacos e sacos de compras do pessoal do Cajueiro que passou a manhã fazendo compras na Parnaíba.
E faz tudo isto -- tira sacola daqui, põe prá lá, acomoda a senhora com a criança no colo, enfia dez sacos debaixo de um banco -- com um «joie de vivre», um bom humor, espantoso.
O mais impressionante é que, quando as pessoas vão chegando em suas casas toca o Marcelo a ajudá-las a descarregar as coisa na porta.
E é Marcelo prá cá Marcelo prá lá, um verdadeiro ídolo que atende a todos com o mesmo alto-astral.
E eles deixam todo mundo em casa, tanto que fui o último a descer do ônibus.
Fiquei encantado com a figura!
Mas também tenho uma historia de constrangimento:
foi a minha entrada «triunfal» num barquinho que faz a travessia da Barra Grande para Macapá.
Com 106 kilos não conseguia, de jeito nenhum, subir no barco e só entrei em ele porque fui literalmente carregado, puxado por o braço e por as pernas, por três homens.
Um vexame!
Acessepiauí -- O que é a Confraria de Oeiras?
Joca Oeiras -- A Confraria de Oeiras é um E-grupo criado por mim no yahoogrupos.
Reúne atualmente 141 (179 em nov / 2006) piauienses e amigos do Piauí.
Mas, para mim, a Confraria de Oeiras é muito mais do que isto!
É a possibilidade de ser ouvido por pessoas as mais variadas.
São jornalistas como Efrém Ribeiro e Zózimo Tavares, poetas como Chico Castro e Fred Maia, músicos como Emerson Boy e Machado Jr, professores como Fonseca Neto e Feliciano Bezerra, escritores, magistrados, estudantes, fotógrafos como André Pessoa, artistas plásticos como Edmo Campos e Zuleika Tapety, enfim gente da melhor qualidade.
É também uma maneira de me manter em contato diário com o Piauí.
Para mim é isto.
Adoro a Confraria!
Ela é, na definição de um confrade, o iluminador Roberto Saboia, uma instituição feita só para somar e não para dividir, avis rara no Piauí, segundo ele.
Só acho que ainda não exploramos nem 1 % das suas potencialidades.
Acessepiauí -- Depois de conhecer o mundo, por que Oeiras e por que o Piauí?
Joca Oeiras -- Não conheço «o mundo» e nem faço questão de conhecê-lo.
Mas do Piauí eu quero conhecer os 223 municípios, inclusive Gilbués antes que acabe.
«Se queres ser universal, retrata a tua aldeia», dizia o grande Tolstoi e eu digo:
se queres conhecer o mundo, conheça o Piauí.
Mas não se trata apenas disto:
quero aprender história do Piauí, sua geografia, ler literatura piauiense porque levo meu amor a sério!
Você pergunta -- Por quê?
E eu respondo -- porque quis!
Por um ato de pura e genuína vontade!
Mas nem por isto um ato impensado.
Apenas não imaginava que ia ser tão bom!
Aliás, considero a decisão de colocar o Piauí na minha vida como um ato genial!
Acessepiauí -- O que você acredita que mudou no mundo, hoje, após alguns fatos e fenômenos históricos que ocorreram e vem ocorrendo, tais como:
11 de setembro;
eleição do Lula;
globalização; eleição do W Busch;
eleição de Wellington Dias no Piauí.
Joca Oeiras Acho que Bush e Bin Laden são cúmplices:
um justifica as atrocidades do outro contra os povos.
Mas não quero falar de política.
A única bandeira política por que me disponho a lutar no momento é para que não dividam o Piauí.
E já tenho até um palavra de ordem:
«O Charme não se divide»!
Acessepiauí -- Qual o melhor lugar que você já visitou e qual o pior?
Por que?
Joca Oeiras Acho que o que dá pra rir dá pra chorar e o melhor lugar do mundo num momento pode se tornar o pior no momento seguinte.
Se eu estiver bem física e mentalmente, qualquer paixão me diverte.
Uma vez, em 1979 fui a Santa Maria da Vitória, cidade baiana próxima às fronteiras de Goiás e Minas.
A gente tomava um ônibus em Salvador, onde eu morava e ia para Bom Jesus da Lapa.
Depois de atravessar o São Francisco de barco, aguardava uma carona paga até Santa Maria, cidade situada à beira do Rio Correntes.
A carona que eu e mais umas doze pessoas -- homens mulheres e crianças -- pegamos era a carroceria de um caminhão descoberto.
Caiu um toró e nós todos nos escondemos, juntinhos, debaixo de uma lona!
Foi para mim inesquecível, me diverti muito e a recordação que eu trago daqueles 40 minutos de viagem é enternecedora.
Será que pode haver lugar melhor no mundo que embaixo de uma lona de caminhão com mais doze pessoas e a chuva caindo em cima?
Duvido muito!
Acessepiauí -- Você acredita nas potencialidades turísticas do Piauí?
Joca Oeiras -- Tem um amigo meu aqui em São Paulo, o Alemão, que é dono de uma empresa de turismo receptivo, a Daytur Travels, cuja clientela é majoritariamente constituída de estrangeiros.
Ele diz não ter dúvidas de que o Piauí é a próxima bola da vez do turismo brasileiro.
Tanto que, por meu intermédio, estabeleceu uma parceria com a Ecoadventures Tour, da Parnaíba, do também meu amigo Marquinhos Fonteles.
Aliás, sob o patrocínio de ambos, pretendo contar esta história, da ponte que fiz entre eles, na próxima edição de «O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil» jornal que edito em São Paulo e que é atualmente o carro chefe da minha campanha por o reconhecimento público do Estado mais charmoso do Brasil!
E eu, sem ser especialista, concordo com ele!
Além disto eu acho que pra «comer e coçar é só começar», isto é, que quando os turistas começarem a chegar e a conhecer o Estado mais charmoso do Brasil isto vai virar uma febre!
Acessepiauí -- Como você observa o envolvimento das pessoas com as potencialidades turísticas da região e se você sente que isso é efetivamente importante?
Joca Oeiras -- Sem ser especialista em turismo, nem como ciência, nem como negócio, eu acho que a pessoa mais adequada e envolvida com o turismo do Piauí é a antropóloga Niéde Guidon.
O Parque Nacional da Serra da Capivara, criado por a sua equipe, um lugar de um astral magnífico, onde estive recentemente, é um exemplo internacional de algo que valoriza sobremaneira a presença de um turista.
E, para mim, não é à toa que isto acontece.
É justamente porque o Parque não foi feito para ser apenas uma atração turística.
Isto sem falar do carisma desta mulher, que calcula em três milhões de pessoas a potencialidade turística da região da Serra da Capivara!
Acho que o governo, secundado por o Sebrae, apesar de ter tentado, ainda não conseguiu estabelecer a melhor relação custo-benefício em suas ações em prol do Turismo.
Agora, o povo em geral, este se envolve com o Turismo, quando o turismo existe.
Afinal, potencialidade não enche a barriga de ninguém, nem «potencialmente».
Eu acho que a gente precisa entender, gostemos ou não, que o Piauí ainda vive os (espero) derradeiros dias da pré-história do seu turismo.
E considero que isto pode até ser um handcap a nosso favor poi uma experiência ainda não viciada tem muito maiores possibilidades de seguir um melhor caminho.
Joca Oeiras -- Quando achar que é a hora pretendo escrever um livro de memórias, aliás o único gênero literário em que confio no meu taco.
Por via das dúvidas, no entanto, já tenho biógrafos oficialmente nomeados.
Acho que a minha história merece ser contada.
Em Tempo:
Contraponto:
Deu no orkut
Número de frases: 138
comunidade Joca no Jô Joaquim de Sousa Andrade nasceu em Guimarães, estado do Maranhão, em 1833.
Sua obra só se tornou conhecida por volta de 1970 com a publicação de «Inéditos», aos cuidados de Frederick G. William e Jomar Moraes, São Luis, Departamento de Cultura do Estado, em São Luís, capital do estado do Maranhão.
Sousândrade formou-se em Letras por a Universidade de Sorbone, em Paris, França e foi naquela cidade que estudou, também, Engenharia de Minas.
Durante o período em que estudou na França, viajou muito por a Europa e por as repúblicas latino-americanas indo fixar-se, finalmente, nos Estados Unidos onde editou «Obras poéticas» e alguns cantos do «Guesa Errante».
Sua longa passagem por a Europa e a residência americana por muitos anos abriram seus horizonte para o mundo capitalista no grande desenvolvimento industrial da época.
Isso o contrastava com a grande maioria dos escritores brasileiro que não tinham conhecimento tão amplo do mundo exterior.
Durante o tempo que morou nos Estados Unidos, o poeta viveu em na grande metrópole Nova York em plena época escandalosa de Wall Street e dos jornais montados e dirigidos para a grande população.
O escritor sentiu o peso de uma democracia fundada no dinheiro e a competição comercial entre os habitantes da cidade grande e teve a chance de comparar todo aquele desenvolvimento e competição com o regime brasileiro ainda de Império e é dessa época o poema narrativo «Guesa Errante», composto ao longo de dez anos.
Com esse trabalho, Sousândrade recebeu de Humberto de Campos o título de «João Batista da poesia moderna».
Em essa obra o autor narra a jornada de um adolescente que depois de peregrinações na rota do deus Sol, acaba nas mãos de sacerdotes que lhe extraem o coração e recolhem o sangue nos vasos sagrados.
O poeta teve uma intuição dos tempos modernos, onde imagina o Guesa que após escapar dos sacerdotes refugia-se em Wall Street onde reencontra seus carrascos disfarçados de empresários e especuladores.
Sousândrade era uma pessoa muito original em seu modo de ser especialmente se for levado em conta à época em que viveu.
Era um escritor atento às técnicas da dicção e com facilidade utilizava os clássicos e os jargões yankees que aprendera nos Estados Unidos e fazia ousados conjuntos verbais na montagem de sua sintática.
O poeta não conseguiu ser assimilado em seu tempo por isso passaram-se mais de cinqüenta anos após a sua morte para que sua poesia começasse a aparecer.
Em o crepúsculo da vida Sousândrade, inteligente, viajado e culto, retornou a São Luís, no Maranhão, onde viveu na pobreza dando aulas de grego e fazendo parte da política da República da época, não chegando a ser conhecido dos literatos do início do século XX.
E foi em São Luís que morreu em 1902.
O Guesa / Canto Terceiro
As balseiras na luz resplandeciam --
oh! que formoso dia de verão!
Dragão dos mares, -- na asa lhe rugiam
Vagas, no bojo indômito vulcão!
Sombrio, no convés, o Guesa errante
De um para outro lado passeava
Mudo, inquieto, rápido, inconstante,
E em desalinho o manto que trajava.
A fronte mais que nunca aflita, branca
E pálida, os cabelos em desordem,
Qual o que sonhos alta noite espanca,
«Acordem, olhos meus, dizia, acordem!"
E de través, espavorido olhando
Com olhos chamejantes da loucura,
Propendia p ' ra as bordas, se alegrando
Ante a espuma que rindo-se murmura:
Sorrindo, qual quem da onda cristalina
Pressentia surgirem louras filhas;
Fitando olhos no sol, que já s ' inclina,
E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.
-- Está ele assombrado? ...
Porém, certo
Dentro lhe idéia vária tumultua:
Fala de aparições que há no deserto,
Sobre as lagoas ao clarão da lua.
Imagens do ar, suaves, flutuantes,
Ou deliradas, do alcantil sonoro,
Cria nossa alma;
imagens arrogantes,
Ou qual aquela, que há de riso e choro:
Uma imagem fatal (para o ocidente,
Para os campos formosos d' áureas gemas,
O sol, cingida a fronte de diademas,
índio e belo atravessa lentamente):
Estrela de carvão, astro apagado
Prende-se mal seguro, vivo e cego,
Em a abóbada dos céus, -- negro morcego
Estende as asas no ar equilibrado.
Número de frases: 55
10 anos de Substation:
na noite de Natal, a festa que ajudou a desfazer preconceitos e construir a cena eletrônica em Maceió
há pouco mais de dois anos, falar de música eletrônica em Maceió era se referir a possibilidades, na visão mais otimista.
Apesar do pioneirismo de alguns -- que o diga o grupo Pragatecno, hoje espalhado por o Nordeste -- a capital alagoana parecia ainda fechada a toda e qualquer novidade que não fosse o hit novo das rádios (preferencialmente axé e forró eletrônico).
Ainda assim, iniciativas isoladas buscavam construir um outro cenário -- e conquistar um novo público -- para o gênero, indo além dos modismos instantâneos que surgem e se alternam a cada nova estação.
Não foi um caminho fácil, que o digam os que apostaram nessa cultura quando ela já estava se consolidando em outros lugares do Brasil (e já estavam consolidadas no planeta).
Mas hoje, a batida da música eletrônica começa a ecoar em toda Maceió, e as festas de e-music já fazem parte do calendário da cidade, mesmo que poucas tenham dia certo para acontecer.
E o crescimento da cena parece ganhar ares de «estilo de vida» com o aumento no número de fãs (principalmente adolescentes), e DJs envolvidos com essas produções.
E, além de eles, diversos outros profissionais vêm fazendo das raves na capital alagoana um novo espaço de expressão cultural na era cibernética.
Os desbravadores
Um exemplo desse fenômeno é a Substation, a maior festa de música eletrônica de Maceió.
A rave, que é realizada no prédio histórico (e em funcionamento) da Estação Central de Trens de Maceió, neste Natal comemorou 10 anos em pleno vapor.
Foi uma década de construção de uma cultura eletrônica numa cidade com pouca receptividade para inovações.
Mas, mesmo para se firmar, não foi apostando unicamente no ramo que eles garantiram o espaço:
o palco do rock estava sempre lá, convidando os adeptos do gênero a entrar na festa, com bandas de renome no Estado e até fora de ele, como Wado e Xique Baratinho.
Ano passado, a Living in the Shit, que fechou as portas por um tempo, retornou para animar o palco que, segundo os organizadores da festa, não deve se repetir no próximo gingobell.
Atualmente, a festa conta com um público cativo de aproximadamente três mil pessoas, que se reúne a cada badalada de um novo natal.
Depois da meia-noite, do amigo secreto e da ceia, fica difícil não correr para lá.
O grande mérito da Substation, além de fortalecer a cena eletrônica em Maceió, é o reconhecimento nacional e internacional.
O que nos primórdios começou a partir de um gueto, hoje é o espaço de confraternização da galera que curte a música eletrônica como um estilo de vida e mesmo daqueles instigados por deixar a noite, realmente, feliz.
Para o DJ Bacana, um dos produtores da Substation, a festa rave natalina é tida como referência ao se falar da cena eletrônica alagoana.
Além desta festa, Bacana participou direta e indiretamente de outros projetos, e atesta o crescimento da cultura eletrônica na capital alagoana.
«Agora posso dizer que de fato está crescendo e acho isso muito bom.
Mas ainda tem muita coisa a ser absorvida, principalmente quanto à cultura», ressalta.
Mas é impossível apontar alguns desbravadores sem falar do grupo de música eletrônica Pragatecno.
Criado em janeiro de 1998 em Alagoas, funciona hoje como um núcleo de e-music no norte-nordeste.
Entre suas proposta está a de dar visibilidade às novidades da cultura experimental e não-comercial da música eletrônica e cibercultura.
Para isso, o Pragatecno promove a troca de informação entre os DJs e produtores nas regiões.
O grupo é formado por DJs das cidades de Belém do Pará, Fortaleza, Pessoa, Maceió, Aracaju e Salvador, além da cidade do Rio de Janeiro.
Em Maceió, as produções do Pragatecno remontam aos primórdios da cena eletrônica local.
As festas atraiam ravers iniciantes e veteranos, e foram responsáveis por a formação de DJs reconhecidos na cena local e nacional, a exemplo do próprio Bacana.
Quem conhece a origem dos beats de Maceió certamente já foi ou ouviu falar das festas no Beco da Garça, na praia da Garça Torta, litoral norte da capital alagoana.
Novos atores
O desbravamento promovido por a rave natalina e por os visionários e-music abriu caminhos para ampliar os palcos para a cena eletrônica local.
Outras iniciativas foram surgindo e Maceió conta atualmente com diversos produtores:
empreendedores culturais, patrocinadores e público são os novos atores dessa história, que já está mudando a face da vida cultural no Estado.
O caso da relações públicas Aline Baralho é emblemático.
Ela trabalha com a produção de eventos culturais há pelo menos três anos.
Somente em 2005, passou a investir na realização de festas da cultura eletrônica.
Juntamente com seu companheiro, o músico e guitarrista da banda Xique Baratinho, Aldo (Jones) Gonzaga, executam o projeto Energy.
Esta empreitada pretende ser um referencial na realização de festas eletrônicas na capital alagoana, introduzindo o projeto na movimento de música eletrônica nacional.
O projeto já teve duas edições, ambas consideradas um sucesso por os promoters.
A primeira, o Energy Light Circus, realizada em 13 de agosto de 2005, proporcionou dez horas de festa com DJs de Maceió, Recife e Salvador.
Contabilizou a participação de 800 pagantes.
Já na segunda edição, a Energy Private Trance Beach, ocorrida em 15 de setembro do ano passado, na praia de Garça Torta, contou com 400 pagantes.
Além dos alagoanos, a festa teve também a presença dos adeptos de Pernambuco, que vieram conferir as festas por essas áreas.
Outros eventos como o Skol Beats, o Projeto Atehumazora e o Vagalume Records Party, trazem a percepção da amplitude que a cultura eletrônica começa a ocupar em Maceió.
Novos DJs aparecem para revitalizar a cena, especialmente de Trance e Psytrance, como os Txu, Valgreen e Fê, Ganham os maceioenses, que têm disponível mais uma opção de diversão e cultura;
e também outros atores envolvidos, como os patrocinadores -- principalmente cervejarias e grifes de roupas e acessórios -- que conseguem aliar seus produtos ao crescente público da e-music.
Romper barreiras para a cultura eletrônica de Maceió
No entanto, produtores de festas eletrônicas em Alagoas são unânimes em afirmar que uma das principais dificuldades para a execução dos projetos é a reunião de patrocinadores.
A mentalidade dos agentes financiadores ainda está começando a mudar quanto ao retorno que pode ser conseguido.
Somente aqueles empresários com público diretamente ligado à cultura eletrônica possuem verbas direcionadas a essas estratégias de marketing.
Apesar da fidelização do publico alcançada em 2005, há muito por se fazer consolidar a e-music em Maceió.
Em a opinião da promoter do Projeto Energy, a principal barreira a ser superada é com certeza o apoio financeiro, que até inviabiliza a realização de festas com intervalos menores.
«O custo para realização de uma rave é muito alto.
Como a maioria dos produtores está começando agora e com recurso próprios, fica difícil produzir as festas num período mais curto entre uma e outra», confessa Aline Baracho.
Outras barreiras a serem derrubadas são os mitos que existem em torno da cultura eletrônica.
Alguns são bem retrógrados -- mas ainda embrenhados nas mentes alagoanas mais atrasadas -- como os que afirmam que as raves são festas exclusivamente gays.
Há ainda a informação corrente de que as festas de e-music são locais de consumo livres de drogas.
Esses mitos atrapalham a seriedade com que produtores, DJs e demais profissionais trabalham e terminam por afastar aqueles que têm interesse em pulsar ao som das batidas eletrônicas.
Para esses que temem participar da cena eletrônica maceioense, o DJ Bacana dá um recado.
«Eu acho que desde que o mundo é mundo as pessoas bebem e se divertem da maneira que gostam e querer isso de fato é problema de cada um.
Quanto de fato as pessoas souberem respeitar o limite de cada um, teremos uma menor hipocrisia.
MUSIC Is The ANSWER», finaliza o DJ.
* Com a colaboração de Bruno Silva Para possibilitar que etnias diferentes possam trocar experiências, demonstrando suas tradições, rituais, cantos e cultura, o VII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros propôs unir várias tribos indígenas numa só Aldeia.
Para isso, foi construída uma Aldeia Multi-étnica na Pousada Aldeia da Lua, próxima a São Jorge, onde etnias indígenas de vários regiões do Brasil estão reunidas.
Em uma cerimônia única, a festa de abertura uniu as etnias e seus representantes no centro da aldeia para, um a um, demonstrarem seus rituais e costumes.
Kamayurá, Xavante, Karajá, Xerente, Krahô e Kayapó deram um exemplo de união e respeito.
Esperando para poderem se apresentar, observavam seus irmãos (como gostam de ser chamados por acreditarem que, independentes das diferenças de raças, cor ou etnia, são todos iguais) admirados e curiosos, que mostravam a beleza e tradição dos primeiros habitantes de nosso país.
O último a se apresentar foi Raimundo Tukano, o «médico físico e espiritual» de sua aldeia, único representante dos Desana, etnia da Região do Rio Negro (AM).
Raimundo foi ao centro e abençoou a todos.
«Pedi proteção individual para todos os presentes, que essa união possa trazer alegria e paz para todos nós», concluiu.
Durante uma semana, oito etnias se juntam para se conhecer melhor, trocando experiências e conhecimentos.
O público que visitar a Aldeia Multi-étnica terá a oportunidade de conviver e conhecer essas etnias no seu dia-a-dia, exatamente como são em suas aldeias.
Além da vivência com os índios, os participantes também poderão aprender nas oficinas de Capim Dourado, Tear Chileno, Aproveitamento de Lixo Industrial e Aproveitamento da Biodiversidade para Produção de Artesanato Regional -- Biojóias, e ver a exposição fotográfica da Funai.
Nova Realidade
Uma das grandes preocupações das etnias presentes na aldeia Multi-étnica é a de se descobrirem.
É perceptível a «curiosidade» de uma etnia com a outra.
«Nunca havia saído da minha aldeia, então surgiu essa oportunidade.
Eu quis vir e estou muito feliz porque nem sabia que existiam tantos outros», revela Omilda Xerente, dos índios Xerente do estado do Tocantins.
A generalização de etnias na palavra «índios» não é costume só dos brancos.
«Por nos tratarem todos como índios, aqui será possível ver a diferenças, que não só o branco generaliza, mas nós também.
Percebemos que a língua, os rituais, as danças são diferentes.
Estamos nos redescobrindo, como foi feito por os portugueses há mais de 500 anos», declara o cacique Mokuká Kaiapó.
Paixão x Escolha
A Aldeia Multi-étnica reúne, além das etnias, histórias de vida parecidas de pessoas que, ao entrarem em contato com o universo indígena, acabaram se apaixonando e escolheram seguir rumos diferentes em suas vidas.
Ulisses Gozzo, publicitário que, há dez anos atrás desenvolveu um trabalho com os índios Krahô, é hoje o mediador da etnia com a sociedade externa.
Ulisses se mudou para a aldeia e hoje é o representante da ONG União das Aldeias Krahô Kapey.
A Kapey organiza e mantém projetos de Escolas Ambientais e Rádios Comunitárias nas aldeias.
Outra história de amor por a cultura indígena é da baiana Sônia de Paula, que em 1971 foi trabalhar como professora por a Funai e, desde então, nunca mais deixou o contato com os povos indígenas.
«Estou há 36 anos na Funai e poderia me aposentar se quisesse, mas independente da insistência da minha família para que eu faça isso, se depender de mim, eu vou estar velhinha, de bengala na mão, mas estarei lá no meio de eles, porque eu amo esse povo», afirma.
Mas há casos como o de Ivanesse Pires Tanonê, da etnia Kariri Xocô, no nordeste brasileiro, que mora há 14 anos em Brasília (DF).
Ela foi à capital para tratamento médico e, devido a complicações, acabou ficando.
Ivanisse revela que, mesmo distante, faz questão de manter seus costumes.
É na sua casa, em formato de oca, que ela faz artesanatos para vender e à noite, como nos rituais de sua aldeia, ela canta e dança antes de dormir.
Para reforçar seu contato com a terra mãe, todos os anos ela retorna à sua aldeia por três meses.
«Dizem que quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral, mas o que eu sei é que, quando eles chegaram aqui, nós já estávamos.
Sendo assim, descobrimos primeiro e temos que manter a nossa cultura " declara.
Cores, cantos e sorrisos tímidos de quem têm tanto a mostrar e curiosidade de aprender.
A o final da cerimônia, era fácil andar por a Aldeia e encontrar pessoas emocionadas ao ver todas as etnias, de mãos dadas, cantando e dançando numa grande comemoração da igualdade e da paz.
por Luciana Castro Por comodidade de minha mãe fui para a escola aos 6 anos.
Aprendi a ler (sem soletrar), também antes dos 7." Escola «" aberta» na minha casa.
A casa de farinha enorme, foi partida no meio para abrigar a escola, 1954/55.
Gilbués fica no extremo sul do Piauí, no centro da trempe de ligação entre os estados do Maranhão, Bahia e o hoje Tocantins.
E pode-se dizer de ele mesmo, já que dista 980 km de Terezina.
Região históricamente agro-pastoril, mais pastoril que agrícola.
Um dos sinais acentuados de matriarcado do Brasil -- característica necessária da zona agro-pastoril, de criação extensiva. (
2) Mestre Benício, garimpeiro negro, letrado -- dos liames das doutrinas religiosas às do direito, bamba das culturas populares, naquele ano propos à minha mãe, a «abertura» da escola.
Minha casa ficava numa boa equidistância das casas dos demais parentes e próximo da currutela dos garimpeiros, atendendo, com vantagem aos dois núcleos.
Minha mãe não titubeou.
Ficou radiante!
E já aviou as mudanças.
Não tinha formalidade alguma para a matrícula.
Nem documento nem retrato.
De pai e mãe analfabetos, como de resto os familiaes, salvo um tio que escrevia e lia as cartas, fui para a escola:
-- " tão miudinho!"
Diziam as tias, com pena, mas sem reprovação.
-- «Que mal tem!?»,
justificava-se minha mãe, sempre com a razão.
Em a escola de Mestre Benício os pais exigiram o instrumento pedagógico Palmatória, contrariando ao «africano».
Me desarnei rápido, para satisfação de meu pai e martírio próprio:
tinha de ler sempre para os visitantes ou parentes ora as cartilhas;
ora os livretos de cordel.
Afilhado de Dona Maria Corado, e graças às considerações entre os compadres, Dona Antonio Corado, (a mãe), viúva do Cel.
Fausto Lustosa, (3) ofereceu residência e estadia para eu ir estudar em Gilbués, escola oficial, convênio igreja / estado.
Morar com aquela familia, nobre, de costumes e ritos totalmente diferentes da minha vivência quase de indígena, foi terrível.
De tão assustador, hoje não me recordo dos primeiros dias.
Mas foram torturosos:
como se estivesse engolindo a própria língua.
De menos angustiante contava somente com o momento do sono.
Como estava esquartejada a sociedade em Gilbués estava mais ou menos a vida dos meninos das escolas.
A) -- aqueles mandados para outras cidades -- escolas famosas:
ou de padres ou dos protestantes, via de regra americanas.
Retornavam a Gilbués ocasionalmente, férias ou festividades -- «se tornavam» importantes, poderosos, bonitos.
B) -- dos que estudavam em Gilbués
B. 1 -- aqueles que os pais moravam na cidade.
Super protegidos, importantes, uns até bonitos, também;
B. 2 -- os que moravam nas roças, -- os «forasteiros» -- esprimidos, desprotegidos, sentiam-se sem importância alguma.
Eu estava neste último grupo.
Eu, se para os olhos dos adultos e das professoras tinha um mérito -- já entrei alfabetizado.
Já sabia tabuada " na ponta da língua ";
para com os demais meninos:
débito enorme, impagável.
Era de tal ordem a rixa que eu evitava de dar resposta certa, do que sabia.
Não me convinha -- ficava mal visto, não ia ter com quem vadiar.
O recurso mais usual era fingir que não sabia.
mesmo correndo o risco de pegar algum castigo, os usuais (copiar tantas vezes, não sair para o recreio, etc).
Um ano depois, acho que por o crédito das leituras, fui para o colégio dos padres -- «Colégio Divina Pastora» -- «bolsista» não sei de quem.
-- Minha mãe, impassível, «tá lá pra estudar mesmo», dizia -- não se movia por qualquer coisa -- hoje a vejo assim.
-- Meu pai saiu contando para todos os parentes e conhecidos.
Felicidade enorme.
Acho que foi a única satisfação que lhe dei, (se não a maior), -- que sinto que lhe dei.
Anos depois, acho que 1958, as moças, professoras (filhas de Gilbués) foram substituídas por moças de Terezina, Floriano, Salvador, formadas de anel no dedo e diploma na parede, emoldurado.
Exigência da Ordem Católica, de origem espanhola, não sei qual..
Nova divisão social.
A) -- As moças da cidade não faziam amizade com as forasteiras, os rapazes não as namoravam por «medo de rixa entre as famílias», já que aquele» não pode», soou-lhes como uma desmoralização;
B) -- as professoras (novas) foram para o rol dos «desimportantes», dos forasteiros.
O «alto», na frente da igreja, nas noites de calor, e lua clara, (dificil não ter calor), era o lugar onde reuniam moças e rapazes.
Lá estavam elas -- isoladas.
Quase sempre nos chamavam a todos, via de regra só os meninos «forasteiros» se chegavam.
Enquanto na casa de meus pais o tormento eram as leituras dos livretos de cordel, na casa de Dona Antonia Corado o «suplício» era a sala de leitura -- todas as noites, rigorosamene todas.
Depois do jantar, e antes de dormir.
Dona Maria Corado recostada numa preguiçosa, vigilante, lendo as revistas «O Cruzeiro» que lá chegava com meses de atraso.
Um dia achei, li a biografia do Marechal Lott, minha madrinha, sempre tão distante, passou a mão na minha cabeça, fiquei feliz:
Ela gostara, aprovara.
Ficamos íntimos daí por diante, até sua morte, em 1983, nos sentimos assim, tenho certeza. (
4) Aprendi e me acostumei a encontrar nas professoras o amparo, a amizade, a companhia, a proximidade, a intimidade.
Assim Professora para mim, no meu imaginário não é adjetivo, não é pronome.
Não, Professora para mim é nome próprio.
Fui para o exame de admissão ao ginásio.
Já tinha deixado de ajudar nas missas, nos casamentos. (
5) -- «A túnica do Rei do Congo feita de diamantes», contava Vó Ursa com detalhes, como furavam o composto mais duro da terra.
-- «Reino do Congo não existiu, miragem», re-ensinavam os padres, nas aulas de História ou nas pregações das Santas Missões.
Me insurgia, sem conhecimento, só por amor a Vó Ursa, por gostar de Mestre Benício.
Fui «ficando antipático», sabia eu mesmo. (
6) Uma soma de tres fatores me impediram de entrar no ginásio:
-- falta de recursos financeiros, éramos cinco irmãos;
-- perda da simpatia para com o Diretor, o baiano Pe.
Paulo;
-- a doença de Dona Antonia Corado.
Não convinha continuar;
não podia bancar o ginásio.
Deixei Gilbués e comecei a correr mundo.
Não deixei em nenhuma das tres escolas nenhum retrato.
De nenhuma de elas tenho retrato;
dos meus colegas, das minhas turmas -- nenhum retrato.
Mantemos contato, amizade.
De os meninos que moraram na casa de Dona Antonia Corada:
netos, afilhados, filhos de agregados, num ano éramos 14, mantemos amizade, troca de informações.
De os 13 ainda vivos, a maioria mora em Brasilia, alguns em Goiás, eu em São Paulo e poucos em Gilbués.
(O ginásio fiz em Brasilia, o Técnico Industrial em S. Paulo).
...
Nota do autor.
(1) A casa de farinha não mais existe.
A escola ficava bem de frente a essa árvore um «pé de rocas».
O terreiro era sombreado por ela.
(2) Cel Fausto Lustosa, cearense, militar, de familia de militares, da árvore Castelo Branco.
Militar, fazendeiro e boticário.
(3) -- O criatório extensivo de gado exigia viagem constante, (dos homens: maridos, pais, filhos adultos), demoradas, quer para os cuidados;
quer para a comercialização.
As mulheres ficavam zelando dos afazeres familiares e dos negócios.
Se viam obrigadas a tomar toda e qualquer decisão.
De volta os homens, desinformados das «coisas» recentes, recorriam a elas de tudo e por tudo.
Para logo outra viagem ...
Assim elas se tornavam, obrigatoriamente,
«donas e senhoras».
Por outro lado -- casavam cedo, 14 a 16 anos, via de regra com homens velhos, ficavam viúva, cedo.
De carona na importância do falecido, por força das necessidades da criação dos filhos, de gerir a fortuna herdada, também a tudo assumiam ...
por as posses assumiam autoridade. (
Por isto minha mãe;
por isto De a.
Antonia Corado; De a.
Maria Corado ...) (4) Dona Maria Corado não teve filhos.
Confessava-se feliz, por o fato de que dos «meninos» que viveram às suas expensas, sob sua guarda, nenhum perdera-se na vida. (
14 a um só tempo).
(5) Deixei até de ir à missa, mas não sofri reprimenda quer dos meus pais, que de Dona Antonia, ou mesmo do Diretor, padre.
(6) A perda de simpatia, a rebeldia, ficam por conta da minha
entrada na puberdade.
Todos entendiam, mesmo o Diretor, tenho certeza.
Número de frases: 220
A Cidade de Linz, na Áustria, tem uma tradição tecnológica de alguns séculos.
Foi ali que em 1571 nasceu Kepler, o físico que elaborou as primeiras fórmulas das órbitas elípticas do sistema solar.
Em os dias de hoje, se você passar por o Rio Danúbio à noite, com certeza verá um sofisticado edifício de vidro, iluminado de dentro para fora por lâmpadas fluorescentes que mudam de cor lentamente.
Ali é realizado um dos maiores e mais importantes eventos de Cultura & Tecnologia do mundo, o Ars Electronica, responsável por divulgar e disseminar o que há de mais recente na produção cultural em meios eletrônicos em Artes Visuais, Música e Sociedade.
Muito longe de ali, na América do Sul, Brasil, Estado do Alagoas, cidade de Campestre, Betânia Buarque senta na frente de uma casa de tijolo queimado, na frente de uma câmera, relatando como foi seu primeiro contato com a tecnologia:
«Meu primeiro contato com as máquinas foi de espanto.
Vinda da cidade de Campestre, onde nem se falava em Internet ou computador, e onde nem as fotos chegaram direito ainda."
Campestre é uma das cidades que abrigam um telecentro do projeto Cyberela, e já sentiu muitas mudanças depois da chegada da Internet e dos equipamentos de informática.
A Prefeitura, por exemplo, já emite todos seus documentos por esse telecentro que é essencialmente gerenciado por mulheres.
A capacitação e profissionalização tecnológica feminina sempre foi a preocupação principal da ONG Cemina, que iniciou o projeto Cyberela há 5 anos.
O grande objetivo da iniciativa é criar telecentros em comunidades pobres sem acesso comercial à Internet, monitorando e educando mulheres e homens que nunca tiveram contato com a linguagem eletrônica.
As cyberelas, mulheres responsáveis por o telecentro, após adquirirem um conhecimento mínimo, já podem criar redes de troca de informação com outros telecentros de outros Estados do Brasil, estabelecendo um intercâmbio de estratégias de auto-sustentabilidade e experiências.
Esta rede de comunicação acontece por programas de rádio transmitidos na Internet no site www.radiofalamulher.com.br, e nas rádios comunitárias das cidades do projeto que também veiculam a produção regional dos telecentros.
«Quando eu cheguei na rádio universitária com aquele computador e falei ao conselho diretor que aquela descoberta que eu tinha feito podia fazer a vida da gente muito mais fácil, nós resolvemos fazer uma mudança e digitalizar toda nossa estrutura.
Mas o chefe da operação era um homem muito preconceituoso e não gostava de mulher nenhuma mandando em nada na rádio.
Não gostou da idéia ter sido minha, não gostou da idéia ter sido aceita e proibiu a entrada de qualquer computador no estúdio de ele.
Era ou ele ou o computador.
E ele terminou tendo que sair porque o computador teve que entrar."
conta orgulhosa, a cyberela Leogivilda Bezerra, de Fortaleza CE.
As rádio comunitárias e os telecentros têm um trabalho conjunto no projeto Cyberela.
Para a população criar uma intimidade maior com os termos «estação digital»,» telecentro " e nomenclaturas simples da informática, as integrantes do FalaMulher criam programas educativos com este conteúdo.
Desta forma, o conhecimento digital chega às casas da comunidade por qualquer rádio de pilhas.
Estes programas visam encurtar o caminho de homens e mulheres necessário para a inclusão digital, que não é só feita por a simples compra de equipamentos, coisa que as cyberelas sabem muito bem.
A ONG Cemina obteve apoio da Fundação Kellogg, Microsoft, Mundial, Unesco e do governo brasileiro para levar o acesso à Internet via satélite e equipamentos para as comunidades.
* * * Voltemos à Áustria.
Em o site do Ars Electronica é possível ver a lista dos contemplados por a premiação anual.
De entre eles, muitos projetos artísticos que usam de sensores hiperdesenvolvidos, programação computacional avançada e rede de comunicações complexas.
Um dos premiados, por exemplo, foi um grupo de universitários que desenvolveram um peixe-robô capaz de avaliar diversas propriedades da água onde está nadando.
Mas uma categoria que premia projetos exclusivamente voltados à sociedade, olhou com admiração o projeto liderado por Silvana Lemos, que não possui todo esse aparato tecnológico.
O comitê da premiação concedeu à ONG Cemina, o «Distinction Award» por o projeto de inclusão social.
O festival de exibição dos projetos premiados acontecerá ao final de Agosto a início de Setembro, na cidade de Linz, e será prestigiado por pessoas do mundo todo.
A cidade de Campestre, que não foi berço de nenhum físico que pode se encontrado nos livros de História, nem é sede de eventos mundialmente reconhecidos, está provavelmente vibrando com o feito.
As pessoas que vivem ali, como em outras diversas cidades do projeto, não são artistas digitais ou sequer foram tocados por as mesmas preocupações homem-tecnologia que atingem suecos, alemães ou japoneses.
O que o Ars Electronica reconheceu nas cyberelas foi a brilhante execução do dedicado trabalho envolvido na resolução de problemas quotidianos, questões de todo dia como a comunicação;
e talvez as mais difíceis que mulheres e homens possam ter.
Número de frases: 35
É assim que ainda se pega ônibus em Belém.
Em frente ao Shopping Iguatemi o caos diário.
O que é mais revoltante em Belém não é exatamente o descontrole das coisas, mas o nosso costume e achar que cenas como essa são naturais.
Montanhas de pessoas se amontoando na metade de uma avenida sob sol e chuva para pegar o coletivo.
Minha sugestão:
Em aquele terreno enorme na frente do Shopping deveria haver uma estação de ônibus bem feita e planejada, no granito (não como aquelas horríveis do Marex) e o shopping poderia fazer o que quisesse na parte superior, vários outros andares, estacionamentos, utilizando benefícios da lei de uso do solo negociados com a prefeitura.
Uma espécie de troca.
Justa não?
Isso seria benéfico ao shopping, sem falar o bem e a boa ação que faria à Belém.
Número de frases: 9
O shopping e outras empresas devem participar da responsabilidade por a cidade, sendo parceiros do governo.
Até prova (real e convincente) em contrário, foi o repórter que vos fala que inventou o ...
«golzinho», minitraves, golito ou «gol de plaquinha», como dizem lá nos pampas.
A afirmação no título admite contestações, embora reportagem na TV Globo por volta de 1996/97 informasse sobre a existência de «peladeiros» nas areias do Leblon que começaram a usar «minitraves» no início dos anos 80.
Posso garantir que nosso «Golzinho» foi criado logo após eu servir o Exército, no azíago ano de 1976.
Aliás, o serviço militar (?!)
daquela época daria um interessante e inacreditável artigo neste megaportal OVERMUNDO, não fosse o Brasil ainda hoje uma «democracia cubana», onde só os poderosos têm voz e vez.
Se eu contasse o que vi & vivi no quartel por quase dez meses o leitor teriauma pálida idéia do desperdício de tempo, juventude e dinheiro que era o «serviço» militar nos «anos de chumbo», durante o qual dei exatos Três Tiros num alvo a 50 metros e aprendi ...
a «tomar banho» em menos de 3 minutos, debaixo de um cano d' água de 50 mm de boca e em meio a 91 outros paus e bundas ensaboados no «banheiro» de 5x8 metros de área.
«Peladas «sem goleiro nas praias do Rio usavam como» traves» 1) chinelos em pé sobre montinhos de areia;
2) copinhos de mate cheios de areia ou 3) simples embalagens de picolé sobre a areia.
Resolvi inovar providenciando ripas com encaixe dentado que se quebraram com poucas boladas.
Substituí então por os canos de PVC apenas encaixados.
Continuaram a soltarem-se com as boladas.
Usar cola não era a solução!
De aí, surgiu a idéia de unir as junções com pregos (depois, parafusos) amarrados com fios.
Em os fins-de-semanae feriados descia eu o Morro (1) parecendo um encanador.
Adiante, o futuro oficial da Marinha Armando, que morava no prédio em frente ao Posto 3, passou a guardar os 6 canos na garagem do edifício, na esquina da Rua Siqueira Campos com a Av..
Atlântica.
O primeiro campeonato «oficial» de «Golzinho» também é criação minha, de fins de 1981 ou meados de 1982.
Foi filmado por um japonês que passava por o local e assistiu a discussão do severo juiz da peleja (eu, no caso) com o exaltado jogador do «Panelinha FC», o botafoguense roxo Antônio» Gordo».
O atleta foi suspenso por 1 minuto -- até isso eu «inventei», que o Futsal moderno incorporaria -- e o time ficou com apenas 3 jogadores em campo.
Em aquele dia participou do torneio DARREN DUNCAN, um inglesinho de 10 anos natural de Hants e que passava férias no Rio.
Jogava futebol muito bem o «pestinha»!
Em o jogo não havia laterais mas, curiosamente, havia escanteio e até pênalty.
Finas linhas de nylon, saindo dos «pés» de cada trave delimitavam o campo e, quanto ao pênalty, um jogador imóvel se fazia de «goleiro», com a cobrança a 7 passos do gol e valendo rebatidas.
Metódico e organizado, registrei tudo do primeiro torneio, que teve 2 chaves com 3 times cada, menos a data exata.
Ficaram apenas os têrmos «sábado / domingo».
Quem foi o campeão?
Também não sei!
A final aconteceu entre os 2 times ...
da quadra de voleibol, para vergonha dos fanáticos por futebol.
Nosso grupo de amigos, embora pequeno, se «dividia» em atletas que só jogavam voleibol, no minúsculo grupo (a «Panelinha ") que só queria saber de» peladas «e uma meia dúzia -- eu, entre êles -- que iniciava no volley e, após às 13 horas, ia para o» racha «na areia escaldante usando» meiões " de lã quase sempre.
Quem não tinha, cavava buracos na areia e «aguardava» (?!)
a bola se aproximar de ele.
Para fins de registro histórico, fizeram parte do torneio o time juvenil do EC Juventus (organizado por Carlos Tetéo), 2 quadros do Lança FC no qual eu tinha amigos, o «Panelinha FC» e 2 quadros do nosso volley.
O pessoal do Juventus, devido a compromissos, abandonou a semifinal por a metade e acabou eliminado por WO.
«Tempo bom que não volta mais ...»,
cantava o comediante «Lilico», na mesma época.
Restou disso tudo a Saudade sem fim dos amigos que lá deixei.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Graças ao técnico «Augusto» -- seu nome real era outro!--
herói injustiçado e incompreendido que dedicava todas as horas vagas ao futebol infantil (de praia) tornei-me «treinador» sem entender «chongas» de futebol, táticas, posicionamento, etc.
Com o codinome de «General» (ou Celso, nome de batismo) eu mandava muito mas ninguém me obedecia em nada.
Dirigi o mirim / infantil do EC Juventus, depois os garotos do Fôrça Jovem, adiante os do Lança FC por pouco tempo e voltei ao Juventus, já com o «Augusto» sendo espezinhado por «marmanjos» do temido time.
Guardo carta ao presidente da época, sr. Alfredo, em 22/10/83, mostrando minha atuação junto ao time (30 camisas do Banco Econômico / torneios em outros bairros / incentivo para amistosos na praia, etc) e pedindo ...
«à Diretoria que procure controlar um grupo que tem nos ameaçado e agredido seguidamente ( ...)».
Mas cartas não faltaram em minha trajetória «praieira», a primeira de elas de 08/ fev.
/ 1981 para Onze boutiques do shopping Rio Sul, onde eu era fiscal de loja da Mesbla (com o salário de Cr$ 9.300,00) desde fins do ano anterior.
Em geral minhas cartas tinham um leve tom de estelionato, eu pedia «rios de dinheiro» para realizar meus projetos.
Em o caso em pauta, eu sugeria a criação da «primeira quadra de voleibol Feminino das praias cariocas», é claro que com as belas atendentes das lojas do Shopping e muito marketing adjacente.
Eu só queria uma «ajuda» mensal para cuidar do material (rede /barraca/fitas, etc).
Foram, sem nenhum exagêro, centenas de cartas, boa parte manuscritas e eu passava horas nas empresas (após o expediente) datilografando-as. (
OBS.: leia o artigo www.overmundo.com.br/banco/a-mulher maravilha) Trago no meu arquivo carta sem data nem destinatário -- era para poder fazer cópias diversas -- na qual peço Cr$ 130 Mil cruzeiros para oficializar na FEPERJ -- Fed.
de Esportes de Praia do RJ três times, suponho que do Juventus.
O presidente da Federação era Jorge Emiliano, o famoso juiz «Margarida», gay assumido que» peitava " nas partidas os machões locais. (
Comeu uma «maniçoba» aqui no Pará e morreu logo depois ...
a culinária daqui é «fogo»!)
Como o endereço para contatos era o Jornal Balcão -- que merece um capítulo à parte -- onde entrei em março de 1982 (com registro em agosto na CTPS) fica fácil calcular o período da carta.
Em 01/m arço / 1983 dirigi carta ao Depto de Marketing do Banco Econômico (sr. Petrúcio) pedindo patrocínio para material esportivo e mais a oficialização de 3 times na federação, Cr$ 350 Mil cruzeiros no total.
Em 03/ out.
/ 83 ofício a Cupim Minas Restaurante (espécie de «fastfood» recém-inaugurado em Copacabana) pedindo Cr$ 150 Mil para comprar 3 jogos de uniformes completos para os times de base do EC Juventus.
O texto mais interessante, de 22/s et.
83, mereceria uma reprodução total.
Em ele, eu dava parabéns ao dr. Hélio Andrade, da Bradesco-Atlântica Boavista de Seguros, por a realização da IV Maratona, no dia 2/ julho, um sábado, 15 horas.
Participei da Corrida, depois de jogar «pelada» por mais de duas horas na praia.
Ainda assim fiz 28 quilômetros, tive febre e suores frios a noite toda, urinei sangue durante 3 dias e senti dores nas pernas por dez dias.
A carta continha 4 sugestões, todas referentes ao futebol de praia, e mais 3 sub-itens, um de eles o «ANO-NÔVO BRADESCO».
num palco desmontável próprio para shows musicais e ...
teatrais (?!), para ser utilizado todas as noites por dezenas de colégios da Zona Sul carioca.
Em o item 3, eu propunha um convênio com o time do «Bairro Peixoto» -- dirigido por o humorista «Tião Macalé», da TV Globo -- para uso do campo de eles na praia ...
d " para todo tipo de evento promocional, como por exemplo:
a) jogos de voleibol, futebol de salão e basquete, que só exigirão a montagem de um tablado desmontável de madeira (de rápida construção) e pago por os próprios times.
Quem diria ...
também fui eu que «inventei» as superquadras de praia atuais! * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Aviso A os «Navegantes»!
Antes que alguém conclua que fiquei rico com as tais cartas, declaro que só consegui mesmo as 30 camisas do Banco Econômico e mais 15 camisetas da UNIJOVEM para o infantil do EC JUVENTUS (vide foto ao lado).
A empresa me doou enorme barraca de praia com sua logomarca, mas não fui buscar e deixei a critério da Diretoria do Juventus fazê-lo, pois eu estava de viagem marcada para Belém e também muito aborrecido com acontecimentos anteriores junto aos rapazes do infanto-juvenil.
A o que tudo indica, as fotos aqui expostas são todas de junho ou julho / 1982, embora uma de elas, revelada no laboratório da Kodak traga impressa a data de set.
Número de frases: 78
1982. É que eu revelava em laboratórios comuns, daí a cor vermelha de algumas fotos.
«O estado de Roraima ainda será uma referência teatral da região norte», Márcio Sergino (Diretor teatral da Cia..
Arteatro / RR).
Sempre quando sentamos para discutir política cultural no estado, nosso amigo Márcio Sergino não deixa de soltar esta pérola.
É verdade que nesses dois últimos anos a cena teatral em Boa Vista tem apresentado um crescimento surpreendente.
Por aqui existem hoje cinco grupos com produção regular:
«Malandro é o gato»,» Cia..
Arteatro», «A Bruxa Tá Solta», Criart Teatral» e a «Cia. do Lavrado», lembrando que a regularidade se restringe ao segundo semestre de cada ano, pois ainda não conseguimos produzir mais de um espetáculo por ano em cada grupo, prejudicando assim o processo de formação de platéia.
A falta de políticas públicas de fomento a cultura eficazes, também é outro agravante.
Hoje, apenas o estado mantém uma lei de incentivo a cultura e que, talvez, por ser nova ainda, esteja tão cheia de problemas.
O Município mantém um projeto nas praças de Boa Vista, iniciativa até interessante se não fosse desorganizada e completamente descuidada no trato com os artistas.
E com um resultado nada profissional, a imagem dos artistas fica cada vez mais desvalorizada por o público.
Isso também interfere no processo de formação de platéia.
O SESC por aqui funciona como uma Secretaria de Cultura, pois o estado ainda não tem uma.
O Projeto Palco Giratório, que funciona em todo o Brasil, tem dado a oportunidade do público roraimense assistir a espetáculos de primeira.
E é a nossa grande chance de trocarmos experiências com artistas de todo o Brasil e até mesmo de nos capacitarmos.
Platéia para o Palco Giratório não falta.
Dizem até que é devido a divulgação, mas ainda acho um argumento insuficiente.
A verdade é que o público deste estado não valoriza os artistas locais.
E isso não acontece só no teatro.
Dança, música, artes plásticas ...
arrastar literalmente a população para um evento local é de dar inveja a qualquer um dos trabalhos de Hércules.
Talvez as produções teatrais do passado não tenham deixado boas recordações por aqui, mas o fato é que hoje a história é outra.
Alguns grupos estão mais preocupados com a qualidade do que é apresentado.
Já existe uma consciência do papel a cumprir como artistas.
Todo ano o estado é representado em diversos festivais de teatro por o Brasil.
Esse ano a Cia..
Arteatro (" O Santo Inquérito ") e a " Cia. do Lavrado (A Farsa do Advogado Pathelin ") estiveram no III Festival de Teatro da Amazônia participando da mostra competitiva, onde fizeram ótimas apresentações, tendo inclusive a Cia. do Lavrado conseguido duas indicações:
melhor ator, Kleber Medeiros e melhor atriz, Cora Rufino.
Em o ano passado, através do Ministério da Cultura, criamos o Fórum Permanente de Teatro.
Estivemos presentes na Conferência Nacional de Cultura e conseguimos em 2006 realizar a nossa Conferência Estadual.
Somos o único segmento artístico organizado nesse estado.
Nos reunimos semanalmente para discutirmos ações de melhoria na nossa área e após uma dessas reuniões bati um papo com o Diretor Teatral Márcio Sergino, que há mais de 10 anos mantém um grupo nesta capital (Cia..
Arteatro):
Marcelo -- Márcio, você que já faz teatro há mais de 10 anos em Boa Vista, como era fazer teatro naquela época?
Márcio -- Bom, na verdade eu faço teatro há treze anos em Boa Vista, pelo menos do período em que eu comecei até hoje houve uma mudança que não acontece sempre, porque ao se falar em dez anos, ou até mesmo em quatro ou cinco anos atrás, a gente não tinha se quer perspectiva de produção, nós tínhamos que juntar nossos trapos e fazer um trabalho que não criava expectativa e nem perspectiva de bom resultado, de boa produção, porque nós tínhamos que fazer um trabalho de garimpagem mesmo, tanto na questão de pessoal quanto na própria produção.
Moro em Boa Vista há quase três anos, percebo que o público que freqüenta os espetáculos locais ainda é pequeno.
Nós poderíamos atribuir à qualidade do que é produzido aqui ser o fato agravante para o público ainda pequeno que freqüenta os espetáculos locais?
Não.
Hoje nós já temos uma consciência do processo demorado de formação de público, nós já temos uma platéia cativa, pequena, mas dentro de uma perspectiva em que nós recebemos grupos de fora, como no Projeto Palco Giratório e esse público acaba sendo pulverizado para os espetáculos locais.
As produções realizadas em Roraima já têm um teor extremamente significante, porque nós fazemos comparações com outras companhias do norte em eventos que acontecem e nós percebemos que somos páreos.
Nós temos uma produção extremamente considerável em termos de qualidade mesmo, uma vez que o que nós recebemos de capacitações, a possibilidade de fazermos intercâmbio é muito difícil, a questão de deslocamento para fora do estado ou de trazermos técnicos que possam acrescentar no nosso conhecimento é muito difícil.
Esse trabalho de safári cultural que nós fazemos aqui ele acaba tendo um resultado bastante satisfatório.
Qual o investimento que a Cia..
Arteatro tem feito pra melhora da qualidade dos seus trabalhos e desempenho dos seus atores?
A Cia..
Arteatro, nesses últimos três anos, vem fazendo um investimento muito grande na capacitação e o melhor caminho que nós encontramos é levar o nosso trabalho pra fora, para a apreciação de um outro público e também nos misturando com outros grupos que têm mais experiências.
Bebendo dessa fonte naturalmente a qualidade do nosso trabalho se transforma.
Já há três anos nós saímos e participamos da Mostra SESC Cariri de Teatro no Ceará, por exemplo, um evento maravilhoso que envolve muitos grupos do Brasil todo.
Participamos também do Festival de Teatro da Amazônia, desde 2004, com grupos de teatro de toda a região norte e convidados de outros estados do País.
A gente acaba entrando num processo de autocrítica muito bacana.
O legal é que depois nós trocamos com os parceiros daqui as nossas experiências, e serve até de incentivo pra que os outros grupos saiam do estado e se mostrem também.
Em esse semestre de 2006, quatro das cinco produções que estrearam no estado obtiveram patrocínio ...
Márcio -- Então, eu acho que as perspectivas para o crescimento da cena teatral no estado são as melhores.
Agora com a Lei de Incentivo Estadual acontecendo, mesmo capengando, a Lei Municipal que está pra sair em 2007 e a consciência de que temos que buscar potenciais financeiros fora do estado acaba criando uma expectativa muito maior para as próximas produções, para as produções em 2007, para a gente poder pensar numa melhora na qualidade do trabalho, com incentivo pra poder produzir sem ficar garimpando, sem ter que ficar buscando meios de se tirar da terra, do suor.
O suor ele já ...
a gente se arrasta na dificuldade da arte, que é uma dificuldade de Brasil, mas aquela dificuldade que trazíamos antes, na verdade as expectativas, as perspectivas nós mesmos é que criávamos, hoje nós já temos uma visão melhor para o futuro.
O que falta pra esse cena teatral dar um impulso maior no estado?
Nós temos um time que está ganhando.
Que acreditou na força dos grupos, na união, na consciência de coletividade, de categoria, quando nós nos unimos e criamos o Fórum Permanente de Teatro.
O Fórum surgiu de uma forma mais do que significante até pra unir esses grupos mesmo.
O que está nos faltando é que o Fórum chegou no seu limite e nós precisamos abrir outras portas e na minha visão, o primordial nesse momento é a criação da Federação de Teatro.
E que essa Federação possa trabalhar como um agenciador do movimento teatral aqui em Roraima e também como aglutinador, se estendendo por todo o estado em busca de outros grupos, de outras produções e criações.
Desta forma nós vamos poder dar uma perspectiva melhor para o futuro do teatro aqui.
Eu acredito demais nisso e tenho certeza que nós vamos conseguir uma unidade nesse pensamento e realmente a federação é o nosso caminho.
Quando você fala em Federação eu lembro logo de política (risos).
Essa Federação teria também esse objetivo, reivindicar no estado maiores incentivos ao teatro?
Me lembro agora do III Festival Teatro da Amazônia onde o Governo daquele estado subsidiou todos os grupos do estado que participaram do Festival com uma verba de R$ 15.000,00 pra cada grupo.
Bom, é ...
sempre que nos reunimos pra falar em Federação, se vê a necessidade básica da politização dos nossos artistas.
É preciso que haja uma consciência de classe, pra que a gente possa pensar em trabalhar por o coletivo, como a exemplo de outras categorias aqui do estado mesmo, existe uma desagregação muito grande.
Cada um trabalha por o seu cachê, por a sua criação, mas não pensa no coletivo e se pensarmos assim, não vamos conseguir fazer com que a Federação crie uma unidade.
Nós temos aqui um governador que não comunga das mesmas idéias, que não comunga da idéia e da importância da cultura no estado.
Esse estado tem um potencial cultural muito forte, mas é preciso que se dê condições pra que essa criação aconteça, mas também não podemos esperar que amanhã de manhã ele acorde com a mente aberta e possa nos dar condições.
Nós temos que buscar, fazer acontecer e temos condições pra isso.
Então a politização desse grupo que trabalha é extremamente importante.
Nada vai acontecer se não existir essa união de idéias, essa sincronicidade pra que a gente possa fazer acontecer o que a gente acredita.
Marcelo Perez
Número de frases: 78
Diretor da Cia. do Lavrado Publicado no blog Ator Desmensurado
Estava eu, esperando que a atriz Kéroly Gritti se sentasse calmamente em sua cadeira.
Ela se sentou.
Passou a olhar sensualmente a todos os homens da platéia e algumas moças apertaram os braços de seus cônjuges / namorados.
Black-out. Eu comecei:
-- Você é uma louca!
O grito na escuridão inicia uma profusão de palavras, uma discussão acalorada entre a minha personagem, o homem que reclama das atitudes de sua namorada, e a personagem da Fernanda Tsuji, a namorada que vai justificando tudo.
Os dois, em meio a ironias e acusações, começam em alto tom e terminam gritando.
E a luz não volta.
Fica a discussão acontecendo em meio ao escuro e a curva dramática dá uma guinada.
Ela diz que ele sabia que ela era assim, desde quando começaram.
E ele admite, incrédulo de que sabia, se auto-punindo e querendo que aquilo tudo acabe.
A platéia se identifica.
Todas as discussões de casais, em geral, são assim.
Gritos, acusações, ironias e coisas como «você sabia disso desde quando a gente começou!».
Até certo ponto que os dois gritam demais.
As paixões não podem ser contidas.
Pelo contrário, elas explodem.
A o final, depois de muita gritaria, a luz se acende e capta o momento em que a namorada mete um belo de um tabefe na cara do namorado.
Também, pra quê ele foi dizer que não a amava mais ...
O tabefe seria um desfecho triste de um relacionamento duradouro.
A imagem de uma baixaria em sua acepção menos pejorativa e popular -- o desnivelamento de dois seres humanos, a redução de seu respeito mútuo a um nada e a constatação de que, sim, aquele é o fim.
O tabefe, cenicamente, por se tratar de uma peça que é encenada muito próxima da platéia, não pode ser truque.
Não pode ser uma batida de palmas dada fora das vistas da platéia, nem um constrangedor tapinha que não dói em ninguém.
Mas existe truque.
Este consiste em mirar bem a maçã do rosto e espalmar bem as mãos, para que o som saia.
A platéia exulta com o som.
Se a mira não está certa, o som não sai, quase sempre.
Não se trata de força, mas de jeito.
A força, entretanto, tem que aparecer de alguma forma.
Por causa disso, a Fernanda Tsuji mete a mão.
E eu deixo.
Faz parte do jogo.
Mas nem sempre ela acerta direito.
E certas partes do corpo produzem sons diferentes.
Em Pindamonhangaba, num festival de teatro no ano passado, Tsuji me desferiu um golpe violento.
E produziu um enorme som.
O golpe se deu perto do meu ouvido.
Sabe-se que ali fica a cóclea, o nosso labirinto.
E que vários fluídos correm por ali, para afetar a audição e o equilíbrio do corpo.
Também se sabe que a cóclea está ligada intimamente ao humor humano.
Então, não foi por acaso que eu dei um passo para trás, tal foi a força do tapa.
Cerrei os punhos, senti tudo se misturar, o mundo, eu, a minha raiva crescente, o esquecimento do espetáculo.
Me perdi.
Subiu à cabeça uma completa vontade de sentar a mão na cara daquela japonesa.
Não era mais minha colega de cena.
Não era mais um espetáculo.
Eu fora atacado e, como qualquer besta, queria contra-atacar.
Por uns três segundos, cogitei pular em cima da Tsuji e enchê-la de porrada.
Mais tarde, fiquei sabendo que ela sentira que foi forte.
E que percebera que eu havia saído de mim e estava temendo que eu realmente a atingisse.
Não foi só ela.
Meus outros colegas de cena ficaram despertos e atentos o suficiente, na ponta de suas cadeiras, prontos para me segurar caso algo acontecesse.
Mas eu respirei.
E a respiração é tudo para o ator.
Expirei tudo, deixei a besta se ir e me coloquei de volta ao meu lugar.
Soltei os punhos, abri os olhos, tonto, firmei os pés e dirigi o olhar para ela.
«Use a favor», é aquela famosa lei.
E usei toda a minha raiva para mirá-la no olho com o ar mais gélido deste mundo.
E a cena foi tudo-de-bom.
A platéia ama quando eu levo o tapa, mas a platéia masculina delira quando eu a meço da cabeça aos pés e dou um pequeno e discreto meio-sorriso, zombando, e vou-me embora.
Ela fica.
Solitária.
Tsuji ganhou Melhor Atriz nesse festival.
A gente brinca que foi o tapa-soco.
Em o último domingo, Tsuji novamente me desferiu um golpe violento.
Mas não perdi a cabeça.
Não tive como.
Meus olhos se encheram de água, não houve estralo, a platéia achou que foi um tapinha mais ou menos, mas a verdade é que cortou.
O tapa deve ter feito a pele se dilacerar contra os dentes.
Sangrei, engoli o sangue, engoli o choro, tremi.
Era dor.
Muito intensa.
E uma dor-de-cabeça sobreveio.
Passei o resto do espetáculo mal.
Mudei marcações, gestos, intenções, fiz de tudo para não sair de cena, não cristalizar, trazer um frescor de volta.
Tive que resolver o problema ali, na hora.
E depois curti bem a dor-de-cabeça, fiquei bem mal.
Mesmo assim, amo essa cena.
Quero repeti-la.
Sempre que der.
P.S.:
Este último final-de-semana será (ou na publicação, se for publicado, já terá sido) o último do Amores Dissecados nos Satyros II.
Número de frases: 83
Que dor.
Diálogos de fácil entendimento, piadas rápidas e rasteiras e altas cenas de sensualidade (em especial homens sem camisa) sempre foram característica de tramas assinadas por Carlos Lombardi no horário das 19h.
Quatro por quatro, Uga uga e Kubanacan são alguns dos exemplos de novelas que vivem «ao sabor da piada» na grade da TV Globo.
Entretanto, Pé na jaca, sua atual novela das sete traz um diferencial:
um destaque para carga dramática, com direito a temas sobrenaturais e até a insinuação à pedofilia.
A expressão «pé na jaca» parece perfeita para as novelas de Lombardi.
Por isto, o folhetim de mesmo nome do dito popular prometia trazer mais explicitamente ainda as características que consagraram o autor paulista na escrita de comédias globais.
Só que, numa aventura de alto risco, o novelista resolveu meter o pé em outra área que não a linguagem de histórias em quadrinhos.
O carregar das tintas recaiu justamente sobre Marcos Pasquim, ator designado por Carlos Lombardi para fazer o «mocinho» de suas tramas nesta década de 2000 (na década anterior, o protagonista era Humberto Martins, e nos distantes anos 80, o papel cabia a Mário Gomes).
Além de fazer o «super-herói» de sempre, com suas manobras arriscadas, seu carisma e sua característica de ter todas as mulheres aos seus pés e todos os maridos nos seus encalços, Pasquim tem em seu Lance (ou Tico, outro «codinome» para Antônio Carlos Lancelotti) muitas situações que não despertam riso.
Além de problemas com o alcoolismo (perfeitamente abordada tanto em texto quanto em atuação), Lance foi acusado de estuprar uma menor de idade -- surpreendente questão abordada num horário em que não há tantos adultos em frente à TV (mas era inocente) -- e, alguns capítulos atrás, passou a conviver com outra situação delicada:
a paranormalidade.
O personagem descobriu o poder de transmitir para si a dor de uma pessoa -- o que, inclusive, fez com que quase morresse, ao curar o pai de um enfarte.
A transformação fez com que Lance deixasse de lado as cenas de perseguição por as ruas da cidade de Deus me Livre para freqüentar durante vários capítulos um quarto de hospital.
Após mais de duas décadas fazendo o público enfiar o «pé na jaca» nas suas histórias rocambolescas, Carlos Lombardi agora faz os espectadores caminharem também por a trilha do drama.
Espera-se que, com sua experiência em folhetins, Lombardi saiba por onde sua escrita está pisando.
Número de frases: 16
A entrevista do escritor «Marcos Ferreira, Um Operário das Letras», na Revista de Humor e Cultura do Rio Grande do Norte, Papangu, foi o que de melhor aconteceu no campo das letras potiguares nesse ano de 2006.
Nada gerou tanta polêmica e controvérsias quanto essa entrevista, concedida ao jornalista Alexandro Gurgel.
O poeta, autor dos livros «Um Poema de Presente» e «Encantamento», que ele considera dois abortos mal planejados, moveu sua metralhadora giratória, com munição que acumulou desde o tempo de sapateiro, passando por as revisões de textos infames que geraram livros para serem elogiados por os colunistas dos jornais de Mossoró e do Estado.
Mas a munição pesada que Marcos Ferreira conseguiu acumular nasceu do tempo em que atuou na imprensa mossoroense, esta que ele diz ser formada por «jornais de negócios».
De aí porque alguns editores o acusam de querer ser o James Joyce mossoroense.
Com isso, o poeta deixou de atuar nos diários da cidade, debaixo de uma saraivada de balas, e jamais voltou a colaborar com esses veículos.
Encontrou na iniciativa de Túlio Ratto uma trincheira perfeita para combater os inimigos.
O que ele não esperava eram certos ataques relacionados com o meio político, tendo assim que abandonar as suas atividades na trincheira literária da revista, onde assinava o espaço «Escrivaninha».
Em seu recente depoimento na edição de número 30 da Papangu, onde foi o entrevistado do mês de julho, o escritor não contou conversa:
É aqui que vou gastar minha munição».
E o que se viu foi uma saraivada de balas que atingiu a todos os letrados, demonstrando que a palavra escrita só é respeitada se concebida através de muito labor e compromisso com a arte literária.
Marcos Ferreira deu um testemunho à altura da revista, batendo a poeira da mesmice literária das nossas revistas bem-comportadas, como bem escreveu em sua coluna o também escritor Vicente Serejo.
O que digo é que todos leram a entrevista.
Os que não foram citados resmungam, reclamaram da ausência do nome.
Mas a verdade é que não houve esquecimento.
É o que afirma o próprio entrevistado:
«Os demais, cujos nomes prefiro não citar, justamente por estarem no mesmo nível embrionário em que me encontro, ainda não podem ser vistos a olho nu."
Agora, pegando a deixa, vou à carta do editor Abimael Silva, publicada no Espaço do Leitor, nesta Papangu de número 31.
Diz Abimael rebatendo a entrevista de " Marcos Ferreira:
«Depois, faz umas comparações sem futuro, dizendo que o RN não tem nomes que se comparem com Pernambuco, Ceará e Paraíba."
A resposta a essa afirmativa, o próprio Câmara Cascudo é quem assevera:
«Natal não consagra nem desconsagra ninguém».
E, confirmando o que disse o entrevistado, basta ler a edição especial da Bravo!,
que traz a seguinte chamada de capa: "
100 livros essenciais».
A revista apresenta um ranking da literatura brasileira em todos os gêneros e em todos os tempos, onde não figura nenhum autor potiguar.
Certo que em nosso Estado existem muitos bons escritores, mas a política partidária sempre acaba por nutri-los com empreguinhos, presentes e festas, e a maioria perde-se na cozinha dos coronéis da política potiguar.
Quando muito, conseguem apenas reunir as suas crônicas em forma de livro e daí já querem tornar-se imortais.
Já o autor de «O Dia das Moscas», Nei Leandro de Castro, em texto publicado na edição do último dia 11 de agosto na Tribuna do Norte, coloca o entrevistado à altura do melhor de Agripino Griecco, especialmente quando Marcos se refere à academia de letras potiguar como» academia norte-rio-grandense de lesmas, cuja única atividade se concentra na política funerária em volta do seu morto rotativo».
Nei achou isso ótimo.
É que ele próprio já foi vítima da política partidária da Academia.
Mas, se existe esse «mossoroísmo» a que Nei se refere, «ou seja, a eterna viagem em volta do umbigo de Mossoró», existe também o natalismo, ou seja, a eterna volta em torno do cu do elefante.
Então, enquanto os literatos estiverem dando voltas em torno de si mesmos, e os jornalistas adulando os coronéis que estão velhos por demais, e tentando dar empregos aos filhinhos incompetentes para uma vida mansa, seremos eternamente um Estado que se limita a festejar o ataque de Lampião ou a tomar whisky admirando o Morro do Careca.
Número de frases: 33
Gustavo Luz -- Diretor da Editora Queima-Bucha
Todo mundo já amou.
Ou pensa que.
As pessoas confundem esse sentimento com outros.
Ficam todas atrapalhadas.
Amor nem sempre é amor.
Em o duro.
às vezes, é apenas paixão.
E paixão não é amor.
Simples. Há quem acredite nisso, eu sei.
Mas, para os prevenidos, basta aceitarem essa simples constatação:
se você são consegue dançar com a outra pessoa, o que você sente não é amor, e sim, paixão.
É fácil entender a máxima quando se sabe o que é uma coisa e outra.
Paixão é fascínio.
É uma forte atração, até irracional, entre você e ela (ou ele, hoje em dia até árvore entra na história).
Ninguém controla porque é unilateral.
O «apaixonado» é incapaz de ver sua condição.
E, se vê, nem se importa.
A paixão não esclarece, pelo contrário:
pode até nublar a mente do mais racional dos homens.
Sorte que a paixão tem data de vencimento.
De acordo com uma universidade britânica, o vencimento de ela é depois de três anos.
Já o amor é bem diferente.
Amor é jogo.
Mas não «joguinho», termo cunhado para designar as ações de gente um tanto indecisa ou sádica.
Você me entende.
Jogo é um acerto prévio entre duas pessoas (ou mais, já que os múltiplos são tão comuns hoje em dia nos relacionamentos) que conhecem bem as regras do jogo, desejam se divertir e confiam que ninguém na mesa irá roubar.
É uma decisão, até certo ponto, racional.
É uma intenção movida tanto por sentimentos quanto por expectativas pessoais.
Mas é claro, envolvida em todo aquele charme sem o qual não conseguimos viver.
Depois disso, tente convidar sua paixão para uma dança.
Dançar é bem parecido com o ato de amar.
Precisa de parceiros que, até certo ponto, devem conhecer as regras básicas do estilo musical em questão.
Quando não sabem nada de música, devem confiar um no outro ou, na melhor das hipóteses.
se divertir pagando um pequeno mico no salão.
Assim como no amor, há tantas possibilidades que só o tempo, a curiosidade e a confiança conseguem tornar reais.
O casal apaixonado (no caso de paixão mesmo) não consegue dançar.
Seu interesse é outro.
A fascinação é tão grande, a atração é tão irresistível, que a mente sempre estará em algum outro lugar.
Se a paixão é carnal, interessa o corpo e nada mais.
Ninguém dança.
Estudam possibilidades para matar o desejo (seja ali mesmo, ou em qualquer outro lugar).
Mas ninguém dança.
Se a paixão é matrimonial, ou seja, um dos dois quer de qualquer forma casar na Igreja, a opinião dos amigos, parente ou do parceiro sobre o «como você dança» é mais preocupante do que o passo seguindo o compasso.
É, talvez, uma vida menos rica, mas bem mais intensa.
Tudo depende, é claro, do que você quer.
Não que seja fundamental acreditar que um dos dois, amor ou paixão, seja melhor do que o outro.
Ambos têm seu valor.
São é diferetens, só isso.
As suas expectativas é que devem estar adequadas ao sentimento.
Ou isso, ou haverá corações partidos, brigas terríveis e um chororô dos diabos.
Reduzindo em miúdos:
se você quer um parceiro, ame.
Se quer só o sentimento, apaixone-se.
Depois, não venha reclamar que o namorado nem nota que pisa no seu pé, ou que a menina não quer ficar mais tempo na cama como você quer.
As pessoas acham o que procuram, por isso é bom saber o que se quer antecipadamente.
Número de frases: 56
Não dia que eu não avisei.
Solidariedade não se compra em supermercado.
É necessário superarmos nosso egoísmo e fazer ao outro o que gostaríamos que nos fosse feito, caso estivéssemos na mesma condição.
Empatia. Este poderia ser o outro nome deste encontro de uma espécie em extinção, massacrada por o individualismo que alimenta e é retroalimentado por o estilo de vida atual.
Ali se tentava sensibilizar os demais para o altruísmo.
Pratique APAE!
O cenário
É inegável a vocação do bairro Santa Tereza de Belo Horizonte para ser o centro cultural ao ar livre da cidade.
É a versão mineira da Lapa do Rio.
É a nossa Cidade Baixa de Porto Alegre.
Cá quanto lá, o bairro concentra intelectuais, boêmios, artistas e revolucionários em seus inúmeros bares e restaurantes.
A Praça Duque de Caxias foi e continua sendo palco de inúmeras manifestações artísticas nacionais e internacionais em sua história.
E agora, com o concurso de projetos para transformar o Mercado Distrital em espaço cultural, a comunidade está em festa!
Especialmente por ter ficado livre de ver seu tradicional mercado se transformar no quartel de mais um batalhão da polícia, desta feita da Guarda Municipal, com o efetivo de 2.000 pessoas.
Tudo isto foi fruto da organização e luta popular contra um poder público incapaz de dialogar com a sociedade, antes de tomar suas decisões.
Isto até encontrar reação firme da comunidade, exigindo um relacionamento de mão dupla sobre este assunto.
Nunca, na histórida desta capital, o prefeito tinha sido obrigado a voltar atrás numa decisão, como neste imbróglio.
O evento
Dentro deste cenário, ocorreu o 1o.
Amigos da Inclusão, promovido por a APAE-BH, SESC-MG, Associação Comunitária do Bairro Santa Tereza e outras entidades.
Carregando ainda a preguiça do almoço do sábado, o público foi chegando, devagarzinho ...
Enquando isto, ainda eram feitos os últimos ajustes no sistema de som do palco, alguns artesãos arrumavam seu mostruário e mercadorias para serem vendidas ao público eram carregadas rapidamente.
O sol também preguiçoso do inverno não incomodava a folga do público que, aos poucos, lotou completamente a praça.
Excepcionais de todos os tamanhos, idades e graus de deficiência sentiam-se em casa!
Excepcionais em superar suas limitações, num extraordinário exemplo de que podemos nos esforçar mais para também superarmos as nossas.
O número de cadeira de rodas também saltava aos olhos.
Umas com as mães empurrando e outras, movidas por a força do próprio cadeirante.
A garotada se esbaldava em oito barracas com monitores que ensinavam as artes artesanais e pintavam o rosto e braço de quem assim o desejasse, com teias de aranha purpurinadas e outros inúmeros motivos.
Um futebol com bola de um metro diâmetro exigia que fosse jogado com as mãos, muitas das vezes, incapazes de levantar uma carga tão pesada.
Era um empurra-empurra!
Quase um cabo de força, até que a lei do mais forte decretava a entrada forçada da bola e dos adversários por uma trave apenas um pouco maior que ela.
Um jogo de dama gigante, cujas casas deveriam ter meio metro de lado, utilizava como pedras cones com meio metro de altura.
Tinha também totó, futebol de botão e ping-pong.
E ainda o pula-pula, campeão disparado do interesse da meninada.
Enquanto isto, outras oito barracas vendiam guloseimas tradicionais em eventos desta natureza.
Não faltaram banheiros químicos e coletores seletivos de lixo.
Dois massagistas cuidavam do corpo e do ego de quem enfrentasse uma pequena fila de uma meia dúzia de pessoas.
Apresentações artísticas
As apresentações foram de 14 até as 22 horas, sob a coordenação de palco de Yé Borges e Paulinho Ramos:
-- Fanfarra do Colégio Tiradentes da Polícia Militar de MG, que fica em frente à praça, onde a organização tinha estabelecido seu quartel general e recebia os artistas --
Banda da APAE-BH -- Coral da APAE-BH --
Grupo de Dança Axé Quebra Tudo --
Adolescentes surdas dançaram Bolero de Ravel apenas sentindo a vibração provocada por o som no piso sob seus pés --
Grupo de Dança da Terceira Idade -- Banda Pois É --
Banda Dezoo -- Lô Borges e banda foi o ponto culminante do evento, cujo entusiamo do público cantando suas músicas acrescentava sinergicamente uma outra dinâmica ao consagrado artista, num crescendo magistral
Mas estas foram apenas algumas de entre outras atividades que não anotei ...
Campanha eleitoral
Cabos eleitorais de candidatos a prefeito e a vereador distribuíam folhetos e abanavam suas bandeiras, dando um colorido ainda maior ao evento:
PC do B, PV, PT e PTB.
De entre os candidatos a prefeito, somente Sérgio Miranda ali compareceu para prestigiar o evento e, certamente, mostrar ao eleitor presente a prioridade que dá à causa dos deficientes.
Nenhum de eles utilizou do microfone ou subiu ao palco.
Responsáveis por o sucesso
Está de parabens toda equipe da APAE-BH na pessoa de Sanderléia Rodrigues e Sibele Fossi, as quais tive o privilégio de conhecer e de alimentar meu ego com a deliciosa alegria de elas por a repercussão do evento, em função da divulgação que promoví na internet.
Não há forma mais eficaz de ser feliz que fazendo as pessoas felizes!
Ação que multiplica.
A verdadeira luta por um mundo melhor acontece dentro de cada um de nós.
Algumas fotos
Eduardo Tófani, do Buffet Santa Ceia, registrou em foto alguns momentos deste faustoso dia e os disponibilizou para acesso público, donde extraí a que introduz este texto:
http://www.flickr.com/photos/ 29826152 @ N07 (*)
Heitor Reis é engenheiro civil, militante do movimento por a democratização da comunicação e em defesa dos Direitos Humanos, membro do Conselho Consultor da CMQV -- Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (www.cmqv.org) e articulista.
Nenhum direito autoral reservado:
Esquerdos autorais (" Copyleft ").
Número de frases: 62
Contatos: (31) 3243 6286 -- heitorreis@gmail.com Depois de décadas viciando seu público em histórias bobas baseadas num maniqueísmo primário, alavancadas por carinhas bonitas e sustentada por a autopromoção do seu império de Comunicação, a Rede Globo lança um programa de alta qualidade dramatúrgica, com direção e elenco impecáveis.
Observando isso me ocorreu a seguinte questão.
Será que exibindo uma atração com tanta qualidade como esta, que mostra um Brasil bem distante do paraíso tropical, dispensando galãs sem camisa e seu habitual elenco estrelar, achava a Rede Globo que o eu público poderia tolerar tamanha ousadia em horário nobre sem a devida punição?
Não sei o que se esperava da «Pedra do Reino» em termos de audiência, mas, certamente, entregar o primeiro lugar à Record, não estava nos planos.
Parece que a política da atual direção Globo de, de vez em quando, trazer de volta o Padrão Globo de Qualidade, pode estar indo por água abaixo.
Não por a queda do padrão, ele, embora guardado para raras ocasiões, está altíssimo como mostra a «Pedra», mas talvez por um erro básico de avaliação da programação, proposital ou não, que colocou esta atração no horário nobre, e na desgastante forma de uma microsérie, agora, de 5 capítulos.
Essas experiências radicais de tele-dramaturgia na emissora nunca foram tão longe, e desta vez a «A Pedra do Reino», ignorou um dos elementos do tripé que sustenta a audiência da Globo, o elenco.
Não paira a menor dúvida sobre a qualidade do casting da microsérie, mas isso não faz a menor diferença para a grande maioria do publico global, ele não quer qualidade, o público da Globo quer ver gente famosa, ou se tornando famosa na tela.
Como o tempo da atração é curto, pelo menos comparado a outras atrações emfamadoras, como o Big Brother que ocupa a mídia massivamente por várias semanas, e das novelas, que além de meses no ar, ainda são puxados por elencos de celebridades, esta máquina que dá notoriedade a Ban-Bans e Alemães do nada, e torna ator famoso a qualquer Pasquim da vida, não deverá ter tempo de celebrizar o batalhão de nordestinos desconhecidos que desembarcam na telinha.
Irandir Santos o protagonista e os demais atores da microsérie não terão tempo de ficar famosos, e a atração deve manter a baixa audiência até o final, porque o público da globo, repetindo, não está mais acostumado com qualidade, seu perfil mudou.
A Microsérie certamente será um grande sucesso em DVD, deve ganhar inúmeros prêmios no Brasil e no exterior, e vai ser vendida por o mundo afora aproveitando as marcas da diversidade cultural brasileira, mas o grande público, esse, ficará ausente, zapeando em busca atrações do seu nível.
A direção de programação da Globo deve ter tido seus motivos para programá-la neste horário, a pressão do Departamento Comercial é, certamente, um de eles.
O grupo de anunciantes que banca a microsérie gosta de ver seu nome vinculado às atrações de excelente nível cultural, uma atração como esta não gera tanta audiência, mas gera dinheiro para quem a produz e prestigio a quem anuncia.
Enfim, a Globo, que não é boba, acertou de novo, e como se fosse um pecador em martírio, sacrifica sua pele com sulcos de baixa audiência, purgando o pecado de oferecer o que o publico deseja, e desta oferta colher os seus melhores frutos.
Parabéns à Globo por a microsérie a «A Pedra do Reino», só lamento estar parabenizando por uma exceção.
Número de frases: 15
O Brasil teve vários ciclos econômicos cujas riquezas ficaram materializadas na paisagem urbana colonial de muitas cidades.
Além do ciclo do ouro de Minas Gerais, cujas cidades históricas são muito conhecidas e fascinam os turistas por a beleza e opulência que ficaram daquela época, o ciclo do açúcar no Nordeste Oriental também deixou suas marcas visíveis na paisagem urbana.
Saindo de João Pessoa, Paraíba, por a Br-101 na direção sul, fui em busca das cidades esquecidas do tempo da opulência do açúcar no Nordeste Oriental, uma região comandada por o Porto do Recife cuja rede urbana ia do Rio Grande do Norte até Sergipe e a navegação de cabotagem era o principal meio de transporte até que o assoreamento dos rios litorâneos e a chegada das ferrovias acabaram com esse meio de transporte no final do século XIX.
São elas:
Goiana e Igaraçú, em Pernambuco;
Marechal Deodoro em Alagoas;
Laranjeiras e São Cristóvão, em Sergipe.
Goiana fica na beira da Br-101 entre João Pessoa e Recife.
De a estrada a impressão que se tem não é muito agradável, devido à pobreza urbana, mas ao entrar na cidade, na direção de seu Centro Histórico, percebe-se logo alguns monumentos e um casario colonial interessante na beira do rio.
As Igrejas são os monumentos mais ricos e conservados na maioria das cidades históricas.
Goiana fica na beira da estrada, foi atraindo muita gente e hoje tem muita favela e pobreza, o que é comum nas antigas cidades coloniais nordestinas.
O viajante tem que adentrar por a periferia até chegar na área histórica e uma vez lá, lapidar o olhar, garimpando a beleza histórica e arquitetônica, exercitando o olhar e aprendendo a ver a beleza esquecida por trás da pobreza e da falta de preservação.
Em Igaraçú, o Centro Histórico é mais preservado e a cidade também está situada na beira da Br-101, de onde não se vislumbra a beleza do patrimônio ali escondido, onde aportou Duarte Coelho, naquela que se transformaria na Capitania mais próspera da colônia:
Pernambuco. Lá estão a primeira Igreja do Brasil e o convento de Santo Antônio, com uma exposição permanente e espetacular de arte sacra e de pinturas à óleo, em tamanhos enormes que retratam os primórdios da colonização do Brasil naquela região.
De a antiga Casa da Câmara, que fica numa colina, tem-se uma vista dos manguezais, que beiram a cidade, em seus diversos cursos d' água, onde circulavam as barcaças de açúcar.
Pernambuco foi muito rico na época do açúcar, recebeu vários cronistas estrangeiros e começou a decair na segunda metade do século XIX.
Além de Olinda, a cidade mais conhecida dos turistas, Igaraçú e Goiana também contam essa história.
Algumas capitais nordestinas foram fundadas distantes do litoral por questões de segurança e de defesa contra piratas e invasores, sendo posteriormente transferidas para outras cidades como é o caso de São Cristóvão, em Sergipe, transferida para Aracajú e Marechal Deodoro, em Alagoas, transferida para Maceió.
Tombada por o Patrimônio Histórico Nacional, a cidade de Marechal Deodoro encanta não só por o alto nível de preservação dos monumentos e casario, mas por o número de associações musicais.
Ouve-se música instrumental por onde se caminha.
Existem também muitas casas de artesanato local e um museu, onde nasceu e se criou o Marechal Deodoro, nosso primeiro presidente da república.
É uma cidade à beira da Lagoa do Manguaba.
O estado de Alagoas tem três grandes lagoas e por isso a pesca é responsável por parte da sobrevivência de seus habitantes.
Lá diz-se que quando nasce uma criança joga-se barro na parede.
Se o barro ficar, vai ser pescador e se cair, vai ser músico!
Ainda em Alagoas, partindo por a via litorânea para Sergipe, chega-se em Penedo, na beira do rio São Francisco.
O patrimônio construído de Penedo evidência a importância histórica do rio São Francisco.
A sua riqueza é comparável às cidades históricas de Minas Gerais e de Olinda, em Pernambuco.
São Igrejas riquíssimas, sobrados de até três andares e edificações públicas grandiosas.
De Neópolis, do outro lado do rio, já em Sergipe, a viagem seguiu por a Br-101 para Aracajú, atual capital do estado e de lá para as cidades de São Cristóvão e Laranjeiras.
A cidade de São Cristóvão não é tombada, mas apenas alguns de seus monumentos, como os conventos, as Igrejas e algumas edificações públicas, a exemplo do antigo palácio do governo do século XIX, que hoje abriga o Museu Histórico de Sergipe e que conta a história do Estado através de utensílios, mobiliários, armas, fotos e documentos, sendo a maioria do Brasil Império, excetuando-se a ala sobre o cangaceiro Lampião e seu bando e as obras de arte de artistas contemporâneos.
O casario em São Cristóvão já está bastante modificado e a cidade, como um todo, descaracterizada do seu passado colonial.
Mas havia ainda uma parada em Sergipe:
Laranjeiras e suas colinas de onde se observam as Igrejas e o casario bem mais preservado que em São Cristóvão.
Em o centro comercial, os sobrados antigos foram adaptados para atender a economia local, onde o artesanato se destaca, assim como as manifestações de cultura popular.
A cidade abriga anualmente um grande evento de cultura popular que atrai profissionais da área de cultura de toda a região nordeste.
Número de frases: 36
Durante a Aula Inaugural da Escola de Comunicação da UFRJ, intitulada «Democracia online e novas mídias», uma garota levanta a mão para fazer uma pergunta ao palestrante Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ).
Para introduzir a questão, ela conta que o seriado «Lost», fenômeno de audiência também no Brasil, é transmitido por a televisão norte-americano às quartas-feiras e, menos de 24 horas após a exibição, já está disponível para ser baixado na Internet, com legenda em português.
Por fim, ela pergunta a seguinte pérola:
-- Você acha que isso, e também o fato de muitas pessoas hoje em dia estarem baixando programas de TV na Internet, aponta para o fim da televisão?
Aproveitando a ocasião de estarmos na Semana da Inclusão Digital (de 26 a 31 de março), seria bom lembrar a pessoas como essa moça algumas informações alarmantes de nosso país que, provavelmente, responderão àquela pergunta.
Já são de conhecimento público os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad / 2005), divulgados por o IBGE, de que 79 % da população brasileira acima de 10 anos não é usuária de Internet, o que equivale a cerca de 120 milhões de pessoas.
Ainda, segundo o Comitê Gestor da Internet, 67 % da população brasileira nunca utilizou a Internet, e 54 %, nem o computador.
Esses dados colocam o Brasil na 62a posição no ranking de nível de acesso no mundo, e em 4o lugar na América Latina, atrás de Costa Rica, Guiana Francesa e Uruguai.
Tudo bem, chega de estatísticas.
Mas elas são pelo menos ilustrativas de que o «fenômeno da Internet», a» democratização da informação " não está acontecendo bem assim como se acredita.
Principalmente se prestarmos atenção em outros dados da pesquisa do Pnad, definindo o perfil do usuário brasileiro:
jovens entre 15 e 17 anos (33,9 %), com uma média de 10 anos de estudo (contra 5 de quem não usa), habitantes da região Sudeste (26,3 %) ou Sul (25,6 %), com um rendimento domiciliar per capita médio de mil reais.
Ou seja, pessoas que já têm acesso à cultura e à informação normalmente -- e que tinham mesmo antes da Internet.
Esse perfil também traz uma complementação do assunto da semana passada, a produção de conteúdo online por a própria população.
Por um lado, iniciativas como o Overmundo ou o Ohmynews -- jornal online com matérias produzidas por qualquer pessoa no mundo -- ou mesmo outros sites de produção coletiva de conteúdo podem chegar a ser ferramentas midiáticas revolucionárias;
por outro, seus usuários e produtores são as mesmas pessoas que não só já têm acesso à informação via outras mídias, como também as controlam.
Isso mesmo:
quem são os detentores e produtores de conteúdo na TV, no rádio, nos jornais e revistas impressos?
As mesmas pessoas que têm mais de 10 anos de estudo, moram no Centro-Sul brasileiro e pertencem às classes A e B;
as mesmas que acessam à Internet e baixam «Lost» e " American Idol ";
as mesmas que estão lendo essa matéria agora;
nós.
E qual seria a solução?
Depois de todas essas graves constatações, resta perguntar:
e os outros 120 milhões de brasileiros, onde ficam?
Eles não estão fazendo parte dessa «festa da democracia online».
Estão excluídos do controle de qualquer tipo de ferramenta de geração de informação.
Eles apontam como principais motivos para essa marginalização, segundo o Pnad, a falta de acesso ao computador, e mesmo a falta de interesse e o fato de não saberem utilizar a Internet, ou seja, falta de conhecimento mesmo.
Sem esquecer que mais de 30 % das famílias brasileiras não tem a menor condição de comprar e manter um computador com Internet.
Então, o que deveria ser feito para que essas pessoas também fossem incluídas digitalmente?
Bem, o governo e outras entidades, como empresas e ONGs, já estão mexendo alguns pauzinhos no sentido de levar o acesso às populações desconectadas.
Há as iniciativas do Comitê para a Democratização da Informática (CDI), ONG que organiza a Semana da Inclusão Digital, e que possui projetos em andamento como as Escolas de Informática e Cidadania e a reciclagem de peças de informática usadas;
da Fundação Oi Futuro, da Oi (projetos Tonomundo e Kabum!,
que promovem o acesso à Internet a jovens carentes);
e do Governo Eletrônico -- Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac), programa que visa levar a inclusão digital a populações carentes.
Há ainda projetos do Ministério das Comunicações não saídos do papel com a aplicação das verbas do atravancado Fundo de Universalização das Telecomunicações (Fust).
Mas não basta só levar computadores e Internet àqueles que não têm acesso, pois de nada adiantaria para o objetivo maior da inclusão digital, que é tornar os internautas participantes, e não meros usuários da Internet.
Esse processo tem de vir acompanhado de medidas educativas, que não só aproximem a rede da realidade das pessoas como as incentive a ser, também, atuantes nessa nova mídia.
Cabe aqui citar a fala de Rodrigo Baggio, diretor executivo do CDI, quando ele diz:
-- Inclusão digital é mais que computador.
É formação de produtores de conteúdo, é fazer com que a tecnologia seja usada como ferramenta cidadã.
Por isso, nosso slogan da semana da inclusão digital este ano é " Mais do que computador."
Só assim, os Overmundos e Ohmynews da vida poderão cumprir seu verdadeiro papel.
E a pergunta?
Bem, respondendo à pergunta do início, acho que já está claro o ponto aqui:
como falar em fim da televisão numa sociedade em que mais da metade das pessoas não pode baixar «Lost», ou qualquer outro programa, mas em que a televisão está presente em mais de 90 % dos domicílios?
E isso, porque estamos falando de Brasil.
Ronaldo Lemos ainda tentou responder dizendo que o fato das pessoas hoje baixarem programas de TV na Internet aponta sim para um fim da televisão como a conhecemos (entende-se que ela terá de se modificar e receber novos atributos para não tornar-se ultrapassada), mas num longo prazo.
Longo mesmo.
Para a infelicidade daqueles que vêem a televisão como um instrumento vil de manipulação e emburrecimento das massas, parece que ela ainda vai nos acompanhar por muito tempo.
Para conferir a programação da Semana da Inclusão Digital acesse:
Número de frases: 51
(19) 3579-2207 / 3295 3633 ou (19) 9126 2201
A edição mensal 123, de julho de 2008, vai comemorar os 14 anos de circulação ininterrupta do Jornal Fala Brasil.
Os 10 mil exemplares de cada edição são distribuídos gratuitamente nos pontos culturais de circulação popular do Centro e dos bairros Cidade Baixa e Bom fim, além de enviados por o correio ao custo do selo.
Sou um convidado colaborador do «Fala», como o chamamos carinhosamente.
Tenho uma coluna no mensário, o Retorno Imperfeito, mesmo nome de meu blogue e grande orgulho de poder fazer companhia a um mestre das artes, colega de coluna no Fala, o intelectual e artista plástico Danúbio Gonçalves.
Feliz aniversário e longa vida ao Jornal Fala Brasil.
Em circulação a edição 122, traz a instigante análise de Danúbio sobre a expressão massiva da expansão das artes plásticas da China.
Publico também minha coluna do mês.
Os que têm livros, mesmo e-books ou tenham blogues em que publiquem seus escritos literários em prosa ou verso, se quiserem, podem enviar-me exemplares das publicações ou os endereços dos sítios para divulgação no Fala, a agenda cultural impressa mais completa de Porto Alegre.
A edição de junho tem:
Programações de Teatro & Dança, Música, Exposições e Literatura, Para que serve um jornal?,
por Tetê Catalão --
Pobre Cultura Gaúcha, por Sérgio Becker --
Sarau no Solar e os 50 anos da Bossa Nova --
Espetáculos Nacionais e Internacionais -- Espaço Cultural do TRT-RS --
Programações de Música do Santander Cultural --
Sarau no Solar --
St. Petersburg Ballet -- Porto algre m Cena em Cena 15 anos --
Marco Araújo lança o CD Mar de Dentro --
Wander Wildner -- Cansei de 1968, por Affonso Romano de Sant'Anna.
E os colunistas colaboradors:
Zé Augustho Marques, Danúbio Gonçalves, Daniel Soares, Adroaldo Bauer editados por Rosane Scherer, que ainda fotografa, diagrama e distribui a publicação.
Contatos com o Fala Brasil
51. 3225.4588 / 9144.3426 " \>
jfalabrasil@terra.com.br ASSOCIALIZADO Capital Pirata
Danúbio Gonçalves A China evidência o enigma futuro da supremacia imperialista?
Superando o capitalismo das potências dominantes, através de um «socialismo» que explora a mão de obra remunerada a baixo custo.
Aperfeiçoando a esperteza dominante da bolsa de valores, nesta altura dos acontecimentos um tanto desgastada e incapaz para competir com o novo surto oriental.
China alicerçada em 23 séculos, neolítica culturalmente.
Inventora: da pólvora, do papel, da seda, da porcelana, da impressão em relevo, do macarrão e mais.
Está prometendo, com certeza, consolidar sua supremacia.
Atrevo-ma opinar, ou deduzir neste texto, através de informação e pesquisa no campo da internet e YouTube (passada por um amigo).
Ou em depoimento, por a TV, de estrangeiros que lá residem por um ou dois anos, recentemente, após Mao Tse Tung.
A conveniência mercadológica apela para o «made in China», atraída por o preço vantajoso e cobiçado por a ganância insaciável do capitalismo global.
Aderindo à conveniente oferta de fabricação pirata, somada à sua habilidade manufaturada, nutrindo ao dragão consumista, com o prenúncio de um híbrido sistema social desconhecido.
Iniciando por o controle natalício, direcionado para o machismo populacional.
Vamos, pois aos fatos conclusivos:
«A partir da tradição de Confúcio, o gosto de copiar define e caracteriza o verdadeiro artista.
Para a estética chinesa aquilo que é belo não é o objeto artístico e sim o gesto (do) artista no ato de reproduzir a cópia.
A reprodução ou repetição transforma o gesto em algo eterno e acredita que a verdadeira humildade se encontra no artista que copia, pois contém o espaço por a aprendizagem constante».
Em a atualidade temos o exemplo da cidade de Dafen, onde existem cerca de 700 galerias e lojas de arte.
Pequeno vilarejo nos subúrbios de Shenzhen, no sul da China.
Copiando os girassóis de Van Gogh (o esfomeado holandês que após seu suicídio alimenta fortunas parasitas à custa de sua obra genial ...).
Podendo negociar os de Dafen cópias que agradam aos gringos ocidentais, a preço de 150 yans (U$ 20).
Cópias bem feitas, também réplicas do David de Miguel Ângelo, motivos egípcios, etc.
Ofertando uma salada de estilos apreciados por o nível estético do adquirente.
Shopping de arte barata.
Afirmando eles que 10 % das pinturas produzidas em Dafen são fruto da imaginação criativa e talentos dos pintores «associados» ...
Também lá residem os que produzem reduzido número de pinturas, ganhando cerca de U$ 1.282 por mês.
Quando formado na Universidade de Artes de Guang-dong, trabalha de oito a nove horas diárias, pintando cerca de 10 quadros por mês.
Metade sendo de sua autoria e o restante reproduzido sob encomenda.
Diz ele:
«ganho dinheiro com trabalho de cópia e sobra-me tempo para o de criação».
O mesmo acontece com o estudante de arte Wu Jiang Zun, de 19 anos, um dos «pintores operários» da fábrica Art Lover.
Imenso galpão de três andares, onde funciona a fábrica pictórica.
Telas também pintadas simultaneamente, alternadas em sua fatura, por diversos artistas jovens.
A Art Lover produz anualmente cerca de 400 mil quadros, sendo 300 mil para a exportação!
Logicamente seria preferível uma boa reprodução digital, mais fiel ao original, desde que com permanente resistência ao U.V..
Dando continuidade à minha informação, através da revista Vogue, emprestada por minha amiga Lise, complemento-a com a existência dos artistas chineses, não copistas, e participantes da arte internacional.
Nomes como o de Zhang Xiaogang que está conquistando preços estratosféricos.
Recentemente foi adquirida uma obra de ele por U$ 3 milhões.
Quando garoto, nos anos da Revolução Cultural, seus pais foram mandados para um «acampamento de estudos».
A seguir criado por uma tia dedicando-se ao desenho, depois mandado a um «acampamento de reeducação».
Após a morte de Mao, em 1976, conseguiu entrar no Instituto de Belas Artes de Sichuan.
Entretanto encontrou outro obstáculo, pois as autoridades consideraram suas pinturas inadequadas para exibição pública.
Mais tarde as galerias de Pequim começaram a mostrar seu trabalho.
Grandes e assombrosos retratos com olhos vazios.
Tornando-se um dos artistas mais bem pagos da China e adquirido por o Museu Guggenheim de Nova York.
Tendo um galerista londrino comprado sua «A Big Family» por U$ 1.5 milhão, num leilão da Cristie's em Londres.
Condição para permanecer em seu país, onde pinta constantemente para atender solicitações milionárias.
Xangai e Pequim preparam-se pra virar capital da cultura mundial?
Expansividade inusitada do surgimento de artistas chineses atraindo colecionadores com muito dinheiro, além de seu território.
Em 2002 havia apenas começado a desenvolver o bairro de arte contemporânea.
Factory 798, em Pequim.
Local em estilo Bauhaus atraindo centenas de artistas e marchands.
O escultor Huang Young Ping que viveu por doze anos em Nova York, fugindo da repressão Maoísta, com gigantescas obras cotadas no mercado de arte.
Yue Minjun com auto-retratos risonhos pintados ou esculpidos há mais de uma década, também regiamente remunerado.
Fundamentado nesta coleta informativa, penso não estar distante da realidade desta China surpreendente, de noite para o dia, que nos levará para Onde?
Retorno Imperfeito
Adroaldo Bauer Adeus às Andorinhas -- Armindo Trevisan -- Editora AG.
O livro se divide em três partes:
Amor, Amores, Cesta Básica e Caminhos Cruzados.
Trevisan definiu a publicação da sua poesia como «uma lucidez enternecida» e alerta que o livro poderá se surpreender com a temática dos poemas.
Adeus às Andorinhas a distorção de valores na sociedade.
Trevisan diz isso um pouco mais ácido, à moda jocosa e irônica do scherzo, sem perder o lirismo que o consagrou.
Play -- Ricardo Silvestrin.
Livro reúne 16 contos breves e uma quase novela que dá título à obra.
O poeta buscou as palavras certas para «contar coisas em contos».
Quer dizer, o contista soube ser econômico e fazer-lhe obedientes as letras.
Submeteram-se também às suas vontades, dóceis imagens metafóricas.
Delícias de serem lidas, assegura Mayra Kopp, que nos apresenta a publicação, presente que esteve no lançamento da obra.
Moacyr Scliar assina a apresentação do livro.
O conto presta ou não serve ...
Não é para qualquer um.
É para grandes escritores, como o Ricardo Silvestrin que possui o domínio da forma, e que, além de autoridade no assunto, veste-se de sua experiência poética produzindo assim esta excelente peça literária, diz Scliar, citado por a poeta Mayra Kopp com carinho e exclusividade aqui para esse nosso espaço compartilhado.
Roberto Carlos, Xuxa e os barões da mídia -- Estudos sobre fama, sucesso e celebridade no Brasil -- Francisco Rüdiger (organizador), Alexandre Nervo, Mariana Baierle Soares e Felipe Faraco.
Editora Gattopardo. A publicação de ensaios faz uma análise crítica da carreira de protagonistas da cultura de consumo e do negócio da comunicação no Brasil.
O entretenimento infantil de consumo no Brasil enfoca a apresentadora Xuxa.
Publicidade e Propaganda versa sobre Roberto Carlos.
A comunicação aborda Assis Chateaubriand, Roberto Marinho e Sílvio Santos.
Paulo Freire e Educação Popular -- Edição IPPOA e Atempa.
Lançamento aconteceu com sessão de autógrafos na Programação do X Fórum de Estudos:
Leituras de Paulo Freire, ocorrido na Unisinos em 16 de maio último.
Essencial de Paulo Freire, li e recomendo, Pedagogia do Oprimido, A educação como Prática da Liberdade e Conscientização, sempre e muito atuais para quem não quer ser objeto do saber do outro e quer trocar saberes em espaço democrático.
A II Maratona de Contação de Histórias de Porto Alegre vem aí.
A preparação para que ocorra em outubro já está a pleno.
O grupo, aberto a interessados voluntários e diletantes vem se reunindo para definir quem conta quem debate quem palestra quem interpreta ...
Reuniões mensais, na primeira quarta-feira, às 18h oras, no Teatro de Arena.
Falem com a Eveline e a Carmem.
Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul pede socorro!
Elisandro Migotto.
Livre pesquisador da imigração ítalo-germânica nas regiões central e serrana do Rio Grande.
Há quatro anos freqüenta arquivos e museus no estado em busca de fonte primária (documentos, mapas, códices, etc.) Em os últimos meses, redirecionou pesquisas aos documentos do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.
Surpreso diz que o que encontrou:
péssimo estado de conservação de inestimável material (livros originais sobre entrada de imigrantes, entrega de lotes coloniais, com lista de imigrantes, obras públicas, correspondências oficiais ...)
Vários códices se encontram há anos fora de acesso por estarem em situação deplorável de conservação, sem a mínima condição de manuseio e pesquisa.
Reminiscências da Escola -- Ineditismo e modernidade de uma Proposta.
Um total de 25 autores e um tema comum:
se alguém resumisse, desta maneira, o livro não haveria como desautorizá-lo, diz o responsável organizador da publicação, alertando que «esse resumo não daria conta de um aspecto fundamental do livro, a saber, a absoluta diversidade do tal ' tema comum '».
Engendrado num site que apostou fundo nos aspectos mais positivos da internet do ponto de vista humanitário, o livro colaborativo não existiria, na sua ampla diversidade, fora dos marcos do Overmundo (www.overmundo.com.br).
Os participantes do projeto não se conheciam (nem se conhecem) pessoalmente e, apesar de uma ou outra experiência de vida mais próxima, a regra geral é a absoluta disparidade de experiências e projetos de vida, a começar por os 12 Estados e 19 cidades onde ocorreram as reminiscências.
Há muitas outras diferenças a considerar:
colégios noturnos, escolas rurais, escolas pré-fabricado, colégio religioso feminino, seminário menor, enfim, uma infinidade.
E isto dá um sabor todo especial a este verdadeiro mosaico.
Pode-se afirmar, enfatiza o organizador Joca que o livro «Reminiscências de Escola» é mais, muito mais do que 25 autores escrevendo sobre um tema comum.
Número de frases: 125
Severino (
Paralamas do Sucesso, 1994)
Uma Análise Estética-
Severino é mais um daqueles discos lançados dez anos à frente de seu tempo (tal como ocorreu com Selvagem?,
1986, também dos Paralamas), portanto são necessários pelo menos dez anos para uma melhor compreensão do mesmo.
Severino, assim como Selvagem?,
é um disco revolucionário, entretanto, este foi um sucesso de vendas e aquele não repercutiu tanto no mercado.
Não que Selvagem?
Tenha sido um disco mais comercial, mas o fato é que 1986 foi um ano mais aberto a novas idéias e revoluções.
Imperava o pensar coletivo e o desejo de mudança, e Selvagem?
Falava de um Brasil recém liberto da ditadura militar, com todos os vícios que a dita cuja poderia deixar numa nação.
Fazer com que o público sentisse orgulho de ser brasileiro, mesmo vivendo num país cheio de contradições e misérias, foi o grande trunfo de Selvagem?
que apesar de ter causado um certo espanto, todo mundo quis ouvir.
Severino
nasceu numa outra época, quando o individualismo falava mais alto e os jovens só pensavam, como o alquimista de Paulo Coelho, em abrir caminhos para suas realizações pessoais, esquecendo-se de que são importantes para a construção de um mundo melhor para todos, para eles e para seus filhos.
Não havia mais lugar para utopias, e sem idealismo não se faz revolução.
As leis do mercado não permitiam que os infortúnios de uma nação de origens escravista e subdesenvolvida fossem expostos ao público por uma banda.
Ninguém estava a fim de pensar, principalmente nesse tipo de coisa.
Severino
não é um disco que agrada muito numa primeira audição, não tem o mesmo suingue dos outros trabalhos dos Paralamas, e, por isso, assustaria até mesmo um fã desavisado do trio.
O álbum tem como principal característica uma sonoridade no mínimo exótica, marcada com a inserção de instrumentos não convencionais como cano de PVC, latão de óleo, serrote e outros.
Também conta com as participações especiais de Tom Zé, Linton Kwesi Johnson, Fito Paez, Brian May, Egberto Gismont e Reggae Philarmonic Orchestra.
Sua temática antropológica e social surge de uma reflexão sobre a constituição do homem (considerado universalmente) e sua inserção no meio ambiente (aqui, o Brasil dos degredados, dos retirantes, dos proletariados e dos Severinos).
Este fato já se denuncia na capa, onde vemos o desenho de um homem envolvido por os nomes de vários órgãos do corpo humano e com a legenda: '
eu preciso destas palavras escritas ' (aliás, não só a capa, porém, todo o material gráfico do álbum foi inspirado na obra de Arthur Bispo do Rosário, que ao morrer em 1989, numa colônia, deixou um impressionante acervo, composto de estandartes costurados a mão, dando o testemunho da importância do ato artístico-criador e sua relação com a afirmação da dignidade humana.
Arthur não se considerava um louco.
Dizia-se, às vezes, preso político.
Era sem dúvida um retrato fiel dos Severino ...).
O título Severino carrega com si duas referências:
a primeira ao Rio São Francisco, que para sabermos de sua importância basta que nos recordemos de nossas aulas de geografia (que é sinônimo de vida para as populações ribeirinhas), e a segunda, à obra de João Cabral de Melo Neto, ' Morte e Vida Severina.
Logo na primeira faixa nos deparamos com o conflito e a contradição, em «Não me estrague o dia» os Paralamas retomam o diálogo como narrativa musical e apresentam o embate entre o proletário e o patrão;
as diferenças sociais;
o antagonismo entre os privilégios e a exclusão.
Em «Navegar Impreciso», o álbum se torna bem atual nestes dias em que se comemora os 500 anos do descobrimento do Brasil.
É uma saudação aos que foram abandonados por as naus portuguesas com a árdua missão de colonizar uma terra já habitada.
Em «Varal», encontramos o lirismo, a poesia explícita e a sensualidade implícita, ainda na contra-mão do mercado.
A música fala do amor, da vida em gestação, do homem que nasce e se torna homem, ' rebenta a bolsa, revela ao mundo a cabeça quem a tiver que mereça a coroa '.
É nessa faixa que encontramos um dos mais belos arranjos dos Paralamas.
Vale conferir.
«Réquiem do pequeno» contém versos que a si mesmo se explicam.
É uma ode aos severinos que, ao invés de viverem, sobrevivem com alegrias compradas a prazo.
«Vamo batê «lata» é o funk da lata, é a linguagem das ruas, o ranger de dentes dos pobres diabos no inferno urbano, a nova língua de Brown no balanço funk do ônibus lotado.
Em «El vampiro bajo», uma belíssima balada de fito Paez, os Paralamas contam, como num tango argentino, as desventuras de um vampiro debaixo do sol que diz em sua fuga desesperada:
«los que me siguen no me alcanzarám».
É mais uma proclamação do amor a vida e a esperança.
«Músico» é a canção que mais fala de vida e reafirma a temática da composição do homem.
A letra de Tom Zé traduz a maravilha que somos numa visão estrutural microscópica.
Diz: " cadeia de gens, somos um trem, um trem que tema ignição de ser ..."
«De os margaritas», é um coquetel de ritmos e de idéias, é Funk, é Jazz, (e é um blues em ' SANTORINI Blues ', o segundo trabalho solo de Herbert Vianna), é um drink para relaxar as tensões do e as angústias do cotidiano.
«O Rio Severino» é a música mais planfetária do álbum.
A narrativa em forma de diálogo da primeira faixa retorna com mais agressividade, em frases incômodas:
«me diz o que você tem» (com duplo sentido);
«quem não tem Abc, não pode entender HIV, nem cobrir, evitar ou ferver ";
«É muita gente ingrata reclamando de barriga d' água cheia, são maus cidadãos, é essa gente analfabeta interessada em denegrir a boa imagem de nossa nação;
«és tu Brasil, ó pátria amada, idolatrada por quem tem acesso fácil a todos os teus bens.
«É a radiografia de um país doente, infectado por a fome, por a corrupção, por o descaso das autoridades, por a falta de consciência política, onde os Severinos, nordestinos, brasileiros vivem à espera da assistência que não vem, orando nas contas de um rosário que é um rio, um rio que trás a morte e a vida.
«Cagaço «é a redenção, é o ultimo despertar de quem» bateu de frente com o trem social» e quer libertar o seu pensamento burguês, é o constrangimento, o desconforto de quem tem a mania de pesar de mais.
«Quando o amor dorme» é oficialmente a única faixa romântica do álbum, uma bossa despretensiosa que fala de partidas e reencontros, de momentos e lembranças.
Severino
ainda conta com duas faixas bônus, «Go back» e "
Mazagão também era o nome do domínio português, localizado no Norte da África, de 1514 até 1769.
Este mesmo povo foi deslocado, segundo os relatos históricos, por volta de 1770, para a Amazônia, no norte do Brasil.
Ali, a política de ocupação colonial, do senhor Marquês de Pombal, estava sendo implementada.
Por suas heranças culturais e históricas, Mazagão Velho, distrito do município de Mazagão, nos meses de julho, se transforma num grande palco, para hospedar uma encenação que retrata as batalhas entre cristãos e mouros, que disputavam na África a hegemonia da fé no continente africano, sob domínio português.
Este é um dos momentos mais importantes da tradicional Festa de São Tiago.
As ruas da pequena localidade do interior amapaense ficam cheias de gente de todos os cantos, brasileiros de outros estados, amapaenses, estrangeiros etc..
Todos vão assistir aos espetáculos que tem como atores os moradores de Mazagão Velho, a maioria de eles sem técnicas teatrais.
A tradição nos remete a 1777, seis anos após a chegada das 163 famílias deslocados para a localidade.
A manifestação tem caráter religioso e folclórico e explora a lenda de São Tiago, que seria um soldado misterioso que apareceu nas batalhas no continente africano, lutando ao lado dos cristãos e de grande importância para sua vitória.
Além do santo, a manifestação evoca outras figuras como, entre eles, Atalaia, Jorge, Bobo Velho e o Menino Caldeirinha.
O lado religioso acontece durante as celebrações de missas, novenas e procissões etc.
Dentro deste contexto histórico e em função da carência de documentos, o Projeto Mazagão se propõe a preencher uma lacuna sobre a temática no campo audiovisual através da realização de um filme documental.
O projeto tem o de um conjunto de instituições portuguesas e brasileiras, entre elas o Cineclube Amazonas Douro, o Governo do Estado do Amapá, a Associação de Universidade Amazônicas, a Universidade federal do Pará, a Universidade Jean Piaget de Cabo Verde, a Associação de iniciativas culturais e artísticas e o Projeto Cinema Pobre.
O objetivo é resgatar Mazagão para a História da humanidade, destacar seu significado estratégico para a consolidação da política de expansão pombalina, compreender melhor a miscigenação cultural e religiosa originada entre o povo português e o povo muçulmano, mas também entre portugueses, índios e africanos.
Outras atividades
O documentário será filmado parte em Marrocos, Norte da África, na cidade de El Jadida, antiga Mazagão portuguesa e, o restante, no Brasil, no Estado do Amapá.
Após cinco meses de pesquisas, a equipe realizadora do projeto veio ao Estado do Amapá, entre os dias 15 de Julho e 3 de Agosto do ano passado.
Em Mazagão, foram captadas as primeiras imagens.
Além da captura de imagens, realizaram em Macapá, entre 27 de Julho e 2 de Agosto de 2005, uma oficina de cinema, que teve como resultado o curta-metragem Paraíso Precipício.
Em seguida, realizou atividades em Belém, no Pará.
Entre os dias 11 e 29 de fevereiro, aconteceu a segunda etapa das filmagens.
Estava prevista a captação de imagens na mais resistente fortaleza construída por os portugueses no Norte de África, além de entrevistas com os pesquisadores Laurent Vidal e Katy Motinha.
A terceira rodada das filmagens do Projeto Mazagão será realizada, novamente, em Mazagão Velho em julho.
Também haverá o Seminário Internacional Mazagão História e Mito, organizado por a coordenadora da Associação das Universidade Amazônicas, Unamaz Rosa Azevedo Marin.
Durante o evento, será lançado o DVD piloto do Projeto Mazagão, que trará as imagens gravadas em Mazagão e El Jadida, além de imagens do filme «Paraíso Precipício».
As conferências do seminário serão editadas num livro, sob a chancela da Associação das Universidades Amazônicas, Unamaz.
O livro deverá ser lançado quando do lançamento do documentário.
Para informações sobre o Projeto Mazagão e seus realizadores acesse http://mazagao.com.sapo.pt/mazagao. html
Equipe do Projeto Mazagão Coordenador geral:
Zenito Weyl, professor e realizador brasileiro, poesofia@sapo.pt
Coordenador de pesquisa:
Ricardo Leite, professor e realizador português, ricardoleko@hotmail.com
Coordenadora de arte:
Simona Di Maggio, fotógrafa e artista plástica italiana, simonadimaggio@yahoo.com.br
Coordenador de audiovisual:
Jorge Quintela, fotógrafo e realizador português, jorge.R.Quintela@gmail.com
Coordenadora de produção:
Helga Roessing, arquitecta e fotógrafa brasileira, helgaroessing@gmail.com
Assessor de Imprensa:
Número de frases: 39
Aroldo Pedrosa, jornalista brasileiro, aroldopedrosa@yahoo.com.br
O documentário «O Caminho da Escola» aborda a vida de estudantes em isolada região do Paraná
Uma região rural chamada Castelhanos, incrustada na Serra do Mar paranaense, é o cenário do documentário «O Caminho da Escola Paraná».
Dirigido por a premiada Heloisa Passos, com recursos do I Prêmio Estadual de Cinema e Vídeo, o documentário aborda a história dos filhos de trabalhadores rurais que enfrentam uma verdadeira maratona para chegar até a sala de aula.
É lá que vive uma família chamada Barth.
Sobrevivendo com o pouco que ganha na produção da banana, economia local, a família deseja melhorar as suas perspectivas lançando nos filhos a oportunidade que não tiveram de estudar.
Janete, a mãe, explica que a vida no campo é sofrida por causa da falta de estudo.
É por isso que faz questão de ver seus filhos estudando.
Todos os entrevistados sabem a importância da educação para as suas vidas, como Ricardo Lamberg, que acorda às 4h para ir à aula.
Ele estuda porque quer «ser alguém na vida».
Pena que o menino na sua ingenuidade não saiba o que isto significa.
Os desafios para esses estudantes são muitos.
Além de acordar cedo, muito cedo, e caminhar bastante até o ponto para pegar a condução que o levará até a sala de aula, Caio Estevan explica a impossibilidade de ir para a aula nos dias de chuva, «porque o motorista do ônibus escolar não deixa entrar molhado».
A batalha por a sobrevivência diária é árdua.
Muitos jovens da região desistem dos estudos para ajudar no orçamento familiar.
O estudo pode esperar, o trabalho de subsistência não.
Afinal, por que estudar se a perspectiva é trabalhar na roça como seus pais?
Em o início de outubro os moradores conferiram em primeira mão a projeção da obra.
Em tela montada no pátio da igreja local, os protagonistas riram e se emocionaram ao verem a sua realidade na grande tela.
A sinopse da obra está nas palavras do aluno " Caio Estevan:
«O caminho da escola é difícil, cheio de buraqueira e é longe até chegar o ponto de ônibus».
Em seus 55 minutos, o documentário escorrega apenas nos momentos em que tenta retratar o cotidiano dos protagonistas.
A vida na família e as brincadeiras de crianças estão lá, porém essa rotina parece fabricada.
Os «atores» das suas vidas são pessoas simples.
É pedir muito para eles agirem com naturalidade em frente a uma equipe de filmagem.
Mas isto não prejudica em nada o documentário.
Como não se encantar com as imagens da natureza existente na Serra do Mar paranaense?
Outro ponto favorável ao documentário são as questões levantadas:
Vale a pena todo o sofrimento para estudar?
A divisa social cairá apenas com a educação?
Como o ensino suprirá as carências do homem do campo?
A diretora Heloisa Passos, formada em Sociologia por a Universidade Federal do Paraná e fotografia em Londres, se encantou com o Castelhanos por a proximidade com a capital paranaense, apenas 70 km, e por a simplicidade dos seus habitantes.
Heloisa dirigiu diversos trabalhos cinematográficos como «Viva Volta» e «De o Tempo que Eu Comia Pipoca».
Como diretora de fotografia realizou, entre outros, os premiados «O Fim do Ciúme», de Luciano Coelho, e» Paisagem de Meninos», de Fernando Severo.
Como diretora ou fotografa conquistou inúmeros prêmios, tais como Gramado, Festival Ibero-Americano de Cinema e Vídeo do Ceará, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Prêmio Aquisição Canal Brasil no " Festival de Cinema de Brasília ...
«O Caminho da Escola Paraná», realizado em vídeo digital, foi um dos vencedores do I Prêmio Estadual de Cinema e Vídeo na categoria telefilmes.
Este Prêmio foi instituído por a Lei Estadual nº 14.279/2004 e objetiva fomentar a produção cultural de cinema e vídeo no Paraná.
Além de «O Caminho ...», o primeiro edital premiou ainda, na categoria telefilmes,» Made in Ucrânia», de Augustinho Pasko, e «O Coro», dos irmãos Schumann.
Número de frases: 38
Além desses selecionados, o I Prêmio Estadual, realizado em 2004, selecionou um projeto de longa-metragem, «Corpos Celestes», de Fernando Severo e Marcos Jorge, este em fase de finalização.
Charlene Byankha sempre sonhou em ser uma celebridade.
Nascida em Vala do Albuquerque, interior do Maranhão, foi candidata a todos os títulos de beleza da região.
De os 12 aos 18 anos foi Rainha do Leite Condensado 1992, Segunda Princesa da Jaboticaba 1993, Miss Ecologia Mirim de Umbuzeiro do Oeste 1993, Miss Buritizal 1994 e Rainha Motoclube de Santa Cruz do Morro Aberto 1995.
De tanto ver transbordar de sua televisão um mar de loiras apresentadoras infantis, dançarinas de axé e namoradas de jogadores de futebol, Charlene chegou à conclusão de que o destino de cada um de nós estava inexoravelmente ligado à cor do cabelo.
Escondida da mãe, Dona Miranda, que nos anos 70 foi fiscal da Benfan, comprou uma quarta de água oxigenada e 100 ml de amoníaco no armarinho e se mandou para o Salão Star Vyzion's, de propriedade de Wilcley, o único cabelereiro e revendedor da Avon da cidade.
«Nosso compromiço é sua belesa», dizia a placa pintada à mão em frente ao salão de Wilcley.
Atarefadíssimo, o cabelereiro ouvia uma fita pirata do Double You enquanto arrumava o penteado de Jéssyka Renata, filha de Carlinhos Boqueirão, prefeito, fazendeiro e dono do posto de gasolina de Vala do Albuquerque.
Jéssyka fazia 15 anos naquela noite e, por conta disso, Wilcley não ia poder dar atenção a mais ninguém, já que o prefeito havia prometido lhe capar caso fizesse alguma besteira no cabelo da filha.
Mas Delson, um rapaz que Wilcley criava, podia.
Com pressa e ansiosa por mudar o rumo de sua vida, Charlene aceitou ser a sua cobaia.
Seu coração batia apressado enquanto o via misturar os ingredientes, vislumbrando um mundo de festas, camarotes Vip e fotos na Ilha de Caras.
O problema é que, ainda meio inexperiente na arte do manejo capilar, Delson errou na hora de dissolver a água oxigenada e o amoníaco.
O resultado foi uma mistura devastadora que acabou por queimar o couro cabeludo de Charlene, que saiu correndo aos gritos por a Praça Matriz de Vala do Albuquerque com a cabeça fumegando.
Traumatizada com o acontecido, e cansada de ser ridicularizada cada vez que saía de casa, Charlene roubou um dinheiro da mãe e fugiu para o Rio de Janeiro.
Chegando lá, foi empregada em casa de família e diarista até arrumar um trabalho como sósia de Carla Perez no grupo É O Tchan Cover.
Finalmente Charlene estava com a vida que pediu a Deus.
Tinha engatado uma bem-sucedido carreira no show-business e o seu namoro com Romildo, que trabalhava como segurança numa boate de Copacabana, estava às mil maravilhas.
No entanto, queria mais.
Queria aparecer na televisão em rede nacional, queria provar ao povo de Vala do Albuquerque, que havia lhe ridicularizado alguns anos antes, que era uma vencedora.
Charlene queria aparecer no Big Brother.
Com a ajuda de um amigo de Romildo, que era motorista da emissora, durante a madrugada Charlene conseguiu pular o muro e se esconder na despensa da casa do BBB.
Passou três dias se alimentando de salsicha em lata, insetos e uns fungos que cresciam debaixo da prateleira.
Até que, durante a prova do líder, foi descoberta por os participantes do programa.
Sua imagem sendo arrastada da casa por os seguranças foi transmitida ao vivo para todo o Brasil.
Em Vala do Albuquerque foi uma comoção, o salão Star Vyzion's vivia lotado de meninas que queriam ser a nova Charlene, turistas das cidades vizinhas viajavam até lá para conhecer a casa da «moça da televisão» e o prefeito declarou feriado local em homenagem a «primeira BBB do Norte».
A o voltar para Vala do Albuquerque, Charlene foi recebida com festa e desfilou em carro aberto por as oito ruas da cidade.
Sua foto fazendo as pazes com Delson e Wilcley saiu no TV Fama e ela se transformou numa espécie de celebridade local.
Hoje em dia é casada com Seu Santinho, dono do armarinho.
No entanto, de vez em quando Charlene se pega pensativa, suspirando sempre que lembra de quando fazia parte do show-business.
Número de frases: 30
«A primeira BBB do Norte», diz ela revirando os olhinhos.
«Lanceiro Novo, Eu sou de Minas Gerais!"
Foi com estes versos que o Mestre Afonso incendiou a platéia de Belo Horizonte, presente ao concerto do Palco em Obras, após ser convocado por os nossos queridos padrinhos, para iniciar o cortejo do Maracatu Carnavalesco Leão Coroado, no grande encontro da Cultura Popular do Brasil, imaginado e executado, brilhantemente, por a SPPC / MINISTÉRIO De a Cultura do Brasil.
E era no caminho de Minas, que se escutavam estas toadas, transmitidas oralmente, durante os últimos séculos, como diz bem os versos do Jongo da Serrinha (também presente no Teia, com muito sacrifício, devido ao acidente recente envolvendo a querida " Tia Maria):
«Dentro de uma senzala,
Em um caminho pra Minas,
Vozes de Jongueiros se ouvia ..."
Após o cortejo do Maracatu Leão Coroado, a Banda Afro Leão Coroado encerrou a noite, executando músicas nordestinas numa fusão rítmica muito interessante, mostrando como a tradição e a modernidade podem conviver harmônicamente.
O Saber Tradicional que vem sendo conduzido com sabedoria por o Mestre Afonso, desta maneira, é conservado intacto e o desejo de mudança de seus jovens Batuqueiros, saciado.
«Palco em Obras:
Com a curadoria de Jorge Mautner, grandes shows de artistas consagrados ao lado de grupos musicais dos Pontos de Cultura fizeram a programação do Palco em Obras.
Jards Macalé, Fagner, Martinho da Vila, Alceu Valença, Rappin Hood, entre outros, estiveram ao lado de Maracatus, Violas, Tambores e Pick ups de artistas representantes de Pontos de Cultura de todo o Brasil.
Os shows aconteceram durante os cinco dias da Teia, encontro nacional de todos os Pontos de Cultura, num palco especialmente montado na Praça da Estação, em frente do Museu de Artes e Ofícios, um dos mais belos cenários culturais da capital mineira.
O acesso foi livre e gratuito.
Dia 07:19h30
Ponto de cultura Humbiumbi -- MG
Padrinho -- Clube da Esquina
21h30: Ponto de cultura vila Augusta -- SP
Padrinho-Rappin Hood Dia 08:19 horas
Ponto de cultura Fund.
Raimundo Fagner -- ce Padrinho -- Fagner
21 horas:
Ponto de cultura inst.
Martinho da vila -- RJ
Padrinho -- Martinho da vila
Dia 09:19 horas
Ponto de cultura Arraial do Pavulagem -- PA
Padrinho -- George Israel
21 horas:
Ponto de cultura Balcão de Artes e cultura viva -- SP
Padrinho -- Pereira da viola
Dia 10:19 horas
Ponto de cultura conexão Felipe
camarão -- Rn
Padrinho -- Jards Macalé
21 horas:
Ponto de cultura Maracatu Carnavalesco
Leão coroado -- Pe Padrinho: --
Alceu Vale nça
Dia 11:15 horas
Ponto de cultura culturando -- SP
Padrinho -- netinho de Paula " (fonte: www.
teia 2007.
org. br)
obs.: Agradecemos, especialmente, à nossa «fotógrafa» Vera Athayde, pesquisadora e companheira do Ponto De Cultura Oca, de Carapicuíba, dando continuidade ao nosso intercâmbio cultural, iniciado em 2002, com as Oficinas de Afoxé e Dança Afro-Brasileira que realizei em Carapicuíba com músicos Pernambucanos.
Essa parceria entre 2 Pontos de Cultura, que já trocavam experiências, muito antes do MINC inventar o programa Cultura Viva, daria uma oportuna colaboração.
Quem sabe voce a escreve, Vera?
Obrigada, de coração!
Ficamos, agora, no aguardo da análise e aprovação por o MINC, do Festival da Herança AFR0-BRASILEIRA (Pronac 067093), para podermos concretizar a vinda dos nossos convidados especiais-Jongo De a Serrinha, FANTA KONATÊ (Guiné), EDWIN PITRE Y SON Caribe (Panamá), Paulo RAFAEL e da Oca de Carapicuíba-a a comunidade do Maracatu Carnavalesco Leão Coroado, projeto proposto desde 2005 e ansiosamente esperado!!!!!!!!!
Viva a Cultura Popular Brasileira!
Agradecemos, também, a toda a equipe do Mercado Criativo-Ana, Maria Alice, Willi, Paula, Edinéa (desculpem se estou esquecendo alguém) -- que nos receberam com muito carinho e empenharam-se para que as vendas do Ponto C. Leão Coroado fôssem um sucesso!
Sem esquecer as equipes altamente profissionais De o Brasil (responsável por a coordenação do Palco em Obras) e a do transporte entre o SESC Venda Nova e o Circuito Cultural.
Acessem:
Número de frases: 53
http://www.youtube.com/watch? v = P5 WYe7pjBGs Sentia calafrios ao adentrar o Studio 184. Eu, que ali assisti, ainda nos meus mais tenros tempos de faculdade, a montagem da Filosofia na Alcova (será que o pessoal do Satyros lembra disso?),
agora só guardava lembranças assustadoras do espetáculo Heleny, Doce Colibri, que até resenhei pra cá.
Mas logo na entrada tudo mudou.
Ao invés das poltronas da platéia que nos distanciam da peça, somos levados ao palco, onde o chão está forrado de jornais e o público é acomodado em cadeiras de papelão.
Lá também nos aguarda o dono do espetáculo, aquele que vai nos mostrar as profundas semelhanças e diferenças que existem entre cachorros e seus donos (o autor fala também dos cachorros sem dono).
O texto é de Fernando Bonassi que, segundo o rilise, «é jornalista, roteirista, dramaturgo, cineasta e escritor» (eles esqueceram diretor) e como é complicado falar das montagens com textos desse cara.
Um autor que vai desde O Mundo da Lua (lembra da Mira Haar e do Fagundes?),
passa por Apocalipse 1,11, do Vertigem, Carandiru no cinema (que segundo ele, só faz " por dinheiro "), monta também como diretor Centro Nervoso no Sesc Consolação (peça de que gostei, mas que não me parecia teatro) e está em cartaz também com o espetáculo O Incrível Menino na Fotografia.
Bonassi declarou há pouco tempo que quer ter algumas dúzias de monólogos como Eu não sou cachorro.
Disse ser sua perspectiva de aposentadoria.
Um foco típico de gente absolutamente chata.
Parece a equipe da Bacante, que resolveu falar o que der na telha de teatro (admitimos, somos chatos).
Esse foco nos monólogos traz algumas limitações fundamentais, que são desafios tanto pra quem escreve, mas principalmente pra quem atua.
Como compor um personagem sem diálogos?
O que fazer para representar em cena alguém que é só fluxo de pensamento?
César Figueiredo aceitou o desafio e realmente pesquisou o corpo do cachorro para ilustrar as diversas relações estabelecidas no texto.
Então vale tudo:
rosnar, mijar de perna para o ar, coceirinha na perna, carinho da platéia, comer no potinho, tudo isso encenado por um ator enorme, que se fosse mesmo cão seria desses Filas Brasileiros que só povoam sítios e casas de campo.
O trabalho de interpretação convence, o uso do espaço é criativo.
Algumas rebarbas ficam nos detalhes:
a iluminação não colabora em nada para a criação de novas relações entre humanos e cachorros;
tá dito no rilise que a trilha é uma «pesquisa de sons experimentais de grupos contemporâneos», bem, eu nem me lembro da trilha.
Mais uma vez o texto de Bonassi é uma alegoria para falar de algumas situações do nosso tempo.
É angustiante assistir ao espetáculo, pois não se sabe até onde essa alegoria consegue exemplificar o quanto de cachorro somos, ou gostaríamos de ser no nosso cotidiano.
Número de frases: 24
A o fim e ao cabo, ela vale muito mais, graças à entrega total e absoluta daquele dono do espetáculo, citado lá no começo da resenha.
Falar de artistas da América Latina no Brasil é tarefa complicada, em especial porque a gente mal considera fazer parte de ela.
É como se existissem duas Américas Latinas distintas:
a que abranje nós brasileiros que falamos a língua portuguesa, e o resto.
Essa exclusão e / ou negação se manifesta das mais diversas formas e preconceitos.
Em a música, isso reflete num mercado fechado onde as pessoas podem até conhecer as bandas «latinas», mas que dificilmente se converte em vendas significativas ou mídia.
É preciso primeiro fazer sucesso em escala global para conseguir colocar uma música em espanhol em nossas rádios comerciais, como é o caso da Shakira na atualidade, e do Julio Iglesias há alguns anos.
Em geral, para ter visibilidade e, quem sabe, virar moda, o caminho mais fácil é ter a música vinculada a algum programa de TV.
Foi o que possibilitou o fenômeno Menudo nos anos 80 e é o que sustentou a RBD até pouco tempo.
Comentar qualquer coisa a respeito de Julieta Venegas é fogo.
A maioria das pessoas te olha com cara de interrogação ao mencionar o seu nome.
E mesmo depois de você «rezar a missa», elas continuam com cara de interrogação.
Mas isso tem melhorado.
Agora quando você fala em ela, alguns poucos já dizem:
«é aquela moça que cantou com o Lenine no acústico?».
Que venham os fogos de artifício!
Quem sabe esse não seja um ponto de partida para a entrada de Julieta em nosso mercado.
Não seria difícil e só traria coisas boas porque se trata de um trabalho de muita qualidade.
Boa parte dos brasileiros já a ouviu de algum modo.
O programa Fantástico, da Rede Globo, coloca com freqüência pequenos trechos de sua música para servir de trilha das reportagens, em especial as de comportamento.
Sei que isso não é muito elucidativo, mas é um exemplo de que, ao mesmo tempo em que seu nome é ainda desconhecido para a grande massa, há sim pequenos grupos que gostam e se tornaram fãs.
Alguns de eles ainda se dispõem a fazer um trabalho de divulgação a passos de formiga usando os meios que lhes cabem.
De aí vem as vinhetinhas na TV, as rádios comunitárias, a divulgação boca a boca, e as matérias nos fanzines.
Sem mais delongas, vamos partir para a missa.
Isso aqui é um texto de apresentação que, espero, possa despertar o interesse para o trabalho dessa cantora fantástica.
O título da matéria a trata como musa internacional, o que de fato ela é em vários sentidos.
Julieta nasceu em solo estadunidense, mas é mexicana que cresceu e foi criada em Tijuana.
Estudou piano e sabe tocar diversos outros instrumentos, inclusive acordeom, que tem presença marcante em sua música.
Antes de partir para a carreira solo, teve passagens no teatro e foi integrante de duas bandas:
Tijuana Em o e Lula.
A primeira era de ska / reggae que ficou conhecida por o cunho político em suas canções.
Julieta participou da primeira formação, mas já estava de fora quando o primeiro disco foi lançado.
Depois de fazer parte de dezenas de projetos, em 1996 ela assinou contrato com a BMG e no ano seguinte lançou o seu primeiro solo, Aquí.
O tempo que trabalhou o disco foi importante para a entrada no mercado europeu, na América Latina que fala espanhol e nos Estados Unidos.
Ela também abocanhou seus primeiros prêmios de artista revelação e de interpretação feminina.
Em a verdade, o que eles viram -- e nós não -- foi o desenvolvimento de uma cantora pop diferenciada e não descartável, cuja música prima muito por a melodia e que gosta de brincar com sonoridades diferentes.
É possível identificar inclusive alguma brasilidade em certas faixas do disco.
É só ouvir a música Como Se para sentir um cheirinho de MPB.
Ao passo que segundo disco, Bueninvento, consolidou a carreira de Julieta, foi com o Sí que ela foi alçada ao «primeiro time» de artistas latinos, embalada por a boa venda de discos, elogios da crítica, e seu primeiro Grammy Latino de Rock Vocal (!).
E vale destacar nesse terceiro trabalho os megahits Lento, Andar Conmigo e Algo está Cambiando.
As duas primeiras são mesmo especiais e, de certo, já eternizadas como parte da história da música pop latina.
É bom acrescentar que boa parte dos brasileiros conheceu Julieta a partir desse disco.
O mais recente trabalho de Julieta Venegas é o Limón y Sal, outro sucesso que é disco de ouro e platina em vários países como Estados Unidos, Espanha e Argentina.
É também responsável por o segundo Grammy Latino da cantora, mas dessa vez na categoria de melhor álbum pop.
Há vários hits nesse disco, sendo que o maior de eles é a adorável Me Voy.
Julieta Venegas, em suas canções, roupas e nas cores fortes presentes em boa parte dos projetos visuais que envolve o nome de ela, passa um clima e uma sensação que remete a obra de Frida Kahlo (mas sem bigode e monocelha).
Frida é um dos maiores ícones da cultura mexicana por causa de uma história de vida incrível, mas, sobretudo, por uma obra artística singular, forte e vibrante.
A música de Julieta Venegas também é singular, forte, vibrante e cheia de cores.
É algo que fazendo o seu gosto ou não, vai te marcar de alguma forma.
Não é isso que distingue os grandes dos demais?
O zine Elebu teve o prazer de fazer uma entrevista com Julieta.
Elefante Bu -- Você fez algumas participações especiais em discos de artistas brasileiros.
Uma foi com a Érika Martins e Telecats onde você cantou o seu próprio hit Lento, e a outra com Lenine na canção Miedo do disco acústico MTV de ele.
Qual a história dessas participações?
E você curtiu cantar com os brasileiros?
Julieta Venegas -- Conheci a Érika por meio de amigos meus.
Ela tinha ouvido a canção e a gravado.
E como estava visitando o Rio, nós pudemos cantar juntas.
Eu amo essa versão.
Sobre o Lenine, eu o conheço e sou admiradora de ele há muitos anos.
Pude encontrar com ele em 2000.
Nós tocamos em Madri com Pedro Guerra, com quem ele compôs Miedo.
Então, quando ele estava por fazer o acústico, me convidou para cantar, e eu fiquei, muito, mas muito feliz.
Elebu -- E tem alguma outra banda ou artista brasileiro que você gostaria de cantar ou trabalhar junto?
Julieta -- Tem muitos artistas brasileiros que amo.
Fiquei muito feliz por ter trabalhado com o Lenine.
Em a Pressão é um dos meus discos favoritos.
E eu também amo o Caetano Veloso.
Ele tem sido sempre uma grande influência.
Los Hermanos, Marisa Monte, Pedro Luis e a Parede, etc.
Elebu -- Sei que você toca diversos instrumentos musicais, mas o acordeom é aquele que é relacionado a sua imagem.
Isso é por algum propósito, o acordeom é o seu instrumento favorito?
Julieta -- O Instrumento que mais gosto é o piano e é com ele que mais componho.
Mas adoro usar o acordeom em shows.
Comecei a tocá-lo mais por curiosidade, e com o tempo esse foi um instrumento que sempre recorria.
Acho que as pessoas vêem mais o acordeom por ser estranho ver uma cantora com um na música pop.
A combinação é estranha, eu suponho, mas eu amo.
Elebu -- É admirável o modo de como você casa a música pop com experimentos de diferentes sons, timbres e arranjos.
O que você procura exatamente quando está compondo e gravando?
Julieta -- Para mim o mais importante em escrever uma música é gostar de uma melodia que possa contar a história liricamente.
E a partir daí deixo me levar, seja lá o que possa considerar um bom som, qualquer combinação ou estilo.
Apenas deixo rolar e isso é divertido.
Elebu -- Os últimos três discos foram lançados em espaços de três anos.
Alguma razão especial?
Julieta -- Sempre prefiro pegar o tempo que precisar.
Com a turnê, e às vezes preparando as canções, procurando alguém para trabalhar com mim, então acho que preciso de tempo extra.
Mas mal é o suficiente.
Essa matéria foi publicada originalmente no fanzine Elefante Bu: http://elefantebu.poraki.com.br
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Confira A Programação:
www.seuestrelo.art.br O Festival irá acontecer entre os dias 11 a 14 de setembro e volta a ocupar os gramados da Funarte.
Realizado por o grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro em parceria com a Pichaim Produções, o festejo vem pra conquistar definitivamente seu lugar no calendário cultural da cidade.
Ano passado, mais de 15.000 pessoas circularam por o Complexo Cultural da República que abrigou os três dias de festa.
A festa acontece para a comemoração do nascimento do calango voador, figura principal do mito criado para a cidade e que conta o nascimento do cerrado e de Brasília.
Para a abertura do Festival é esperado a passagem do calango.
«Este ano o calango passara voando por o festival», promete o artesão Marcelo Chamoschine que está há mais de 6 meses construindo o boneco
Um festejo candango tipicamente candango, completamente ligado ao cerrado e a Brasilia, celebra seus elementos e suas figuras, oferece para o Brasil uma festa singular reverenciando seres fantásticos como a Caliandra, o Elefante da Tromba D' água, o Gavião, o Guará e o Calango Voador, figuras modernas criadas para povoar ainda mais nosso incrível imagianario popular brasileiro.
Outra característica da cidade está em destaque no Festival, a sua diversidade.
O Festival já trouxe para a cidade manifestações tradicionais nacionais e internacionais.
Entre eles Mestre Salustiano de Pernambuco, Petit Mamady Keita da Guiné, o Quixabeira da Lagoa da Camisa da Bahia, Caiana dos Crioulos da Paraíba, bem como artistas e grupos locais.
O Festival também reúne vários tipos de manifestação como mamulengo, circo, capoeira ...
Em 2008, a grande festa da capital conta com o encontro afoxés Filhos de Gandhy da bahia e Alafin Oyó do Pernambuco, com a bela voz de Renata Rosa e Alessandra Leão além de forró, catupé, coco, maracatu, cavalo-marinho e samba pisado.
Serviço:
Festival
Brasília De Cultura Popular Dias:
11 a 14 de setembro.
Dias 11 e 12 a partir das 20h
Dias 13 e 14 a partir das 15h
Local: Gramado da FUNARTE (atrás da Torre de TV)
Entrada Franca Classificação:
livre Outras informações:
Stéffanie Oliveira
Coordenadora de Comunicação (61) 8556 4362
Número de frases: 24
pichaimproducoes@gmail.com www.seuestrelo.blogspot.com
De o ato de humilhar, esse famigerado verbo, consite em constranger o outro, a ponto de ele ficar sufocado, por não poder se expressar.
Para quem é tímido, ou não consegue se expressar direito, esse ato, passa do constrangimento e gera enfraquecimento.
Os ossos doem, a garganta cansa, as olheiras aparecem, a vida se torna mais sombria e doente.
E a pergunta, que nunca quer calar, o que nós ganhamos com isso?
Nada, exercer o seu poder, em cima daquele que é aparentemente mais fraco ou não pode reagir, gera sentimento de ódio e angústia, porque como dizia Luis Fernando Veríssimo."
Número de frases: 6
o tímido sofre duas vezes, a primeira porque ficou calado e a segunda por achar que disse pouca coisa».
Ouvindo o ufanismo de Galvão Bueno, o telespectador desavisado pode ser levado a acreditar que o Brasil é uma potência injustiçada no esporte e uma fábrica de heróis olímpicos.
Nada mais equivocado.
O olhar solitário e reflexivo de Marily do Santos, 51ª colocada na maratona, diz muito mais de nosso país do que as lágrimas incontidas do medalhista do ouro na natação César Cielo.
É o olhar de um país triste e inseguro que, diante de tantas dificuldades e desafios, reluta em acreditar que chegou tão longe e não sabe ao certo o que esperar do futuro.
O Brasil não investe em esportes.
Dizer que o faz é mascarar a realidade.
Prova disso é que os investimentos em ginástica olímpica não se reverteram em medalhas.
Os resultados de nossas atletas nesta modalidade estão longe de serem motivo de deboche, mas revelam que mesmo quando há investimento eles são insuficientes ou mal empregados.
O desempenho dos atletas é muito mais resultado da determinação e esforço individual, mesclado com uma dose considerável de sorte e casualidade.
Estes atletas são heróis, mais ou menos anônimos, de um país em que as aulas de educação física são medíocres e não disciplinam seus jovens para a prática do esporte.
Inexistem investimentos em esportes de qualquer modalidade.
Basta notar que, no país do futebol, os clubes de cidades pequenas estão à míngua por falta de investimento.
Se empresas locais não se interessam por investir em times de futebol de suas próprias cidades, quem acredita que haverá investimentos para esportes sem espaço na mídia diária e cujas provas duram segundos ou no máximo minutos?
Talvez eu esteja enganado e o Brasil seja realmente um celeiro de heróis olímpicos.
Pois conseguir participar de uma competição de nível internacional e ainda se destacar entre tantos atletas de nível profissional, depois de passar quatro anos exercendo funções como cortador de cana, motorista de caminhão, doméstica, gari e tantas outras profissões não qualificadas, e ainda competir em nível olímpico com atletas garimpados e lapidados entre milhares de talentos é realmente uma tarefa hercúlea.
Mas nosso Brasil é o país do futuro!
E mesmo depois do déficit de um malfadado Pan-americano.
Depois de assumir o peso de organizar uma copa do mundo do futebol (não se engane, é mais fácil e muito mais barato que organizar uma olimpíada).
Depois de uma campanha pífia (como representatividade do potencial esportivo nacional e não da coragem dos atletas brasileiros), ainda querem assumir o compromisso de sediar uma Olimpíada.
Então sejamos sensatos e trabalhemos para o futuro.
Mas para um futuro possível.
Se começarmos agora a investir de fato no esporte, em doze anos seremos capazes de realizar algo parecido com a façanha que a China realizou com seus atletas.
Quem sabe então este país possa conquistar umas 30 medalhas.
Enquanto não tivermos competições estudantis regulares.
Enquanto não forjarmos campeões esportivos em abundância.
Enquanto não investirmos o suficiente para que nossos atletas possam treinar aqui sem precisar migrar para outros países.
Enquanto isso, e quem sabe quanto mais não for feito, sejamos humildes e reconheçamos, estes homens e mulheres que vestem verde e amarelo são heróis!
Número de frases: 28
Mas são heróis apesar do Brasil.
A mundialização é um processo bastante controverso.
Ao mesmo tempo em que a tecnologia melhora a vida das classes mais ricas, exclui os mais pobres do processo de cidadania:
a medicina que cura eficientemente todos os males é uma ciência para quem pode realizar gastos altíssimos com a mesma;
a cultura, ao mesmo tempo que atinge alcance global, tende a destruir culturas locais menores e apagar as tradições cultivadas por cada povo.
E, infelizmente, os meios de comunicação têm, somente, a face mais limpa da moeda, a mais lucrativa, a mais alienadora:
a vitória do capital sobre as necessidades humanas.
Através da mistificação em torno da tecnologia, a globalização conseguiu unir o útil ao descartável, o necessário ao supérfluo, o racional ao irracional, o humano ao espiritual (como já afirmava Marx).
É um fenômeno capaz de aumentar as diferenças sociais, de diminuir os Estados nacionais, de apagar as tradições regionais, de deteriorar economias em vias de desenvolvimento:
tudo isso em nome da felicidade do homem.
De o homem rico, obviamente ...
Seria interessante se conseguíssemos obter, dos meios de comunicação, uma maior gama de informações úteis à nossa vida e ao nosso equilíbrio mental -- e não ao equilíbrio institucional -- para a formação de uma sociedade mais justa e igualitária.
Através do discernimento sobre a práxis política e social é que o cidadão tem a capacidade de se entender em sua condição de agente transformador da vida, de si mesmo, e do meio-ambiente.
Contudo, antes de simplesmente condenar a globalização -- espero que minhas palavras não sejam vistas como tal -- devemos abrir os olhos e admitir as comodidades que foram criadas para a vida.
Então, o ponto é:
devemos ser firmes e sensatos para entender que esse fenômeno deve, antes de tudo, servir para a inclusão social e a melhoria geral das condições vitais em todo o planeta.
Os efeitos desse processo devem ser reconhecidos como um direito a todo e qualquer cidadão do globo, e não apenas à ínfima minoria detentora do capital.
E os meios de comunicação?
Antes de alienar, devem questionar os valores propostos por a globalização, por a mundialização das técnicas sociais e dos padrões comportamentais (aliás, um grande avanço é dado com os projetos da Web 2.0).
Antes de reprimir, devem incentivar o crescimento das culturas locais, através da «antropofagia» proposta por os pensadores da Semana de 22.
Não podemos relegar o uso dos massa media a uma mera reprodução dos padrões de vida a serem aspirados:
devemos também fazer com que esses meios de comunicação ofereçam caminhos para a concretização das nossas aspirações e nossos desejos.
A comunicação deve servir à liberdade a que o homem está destinado.
Um exemplo de como a comunicação pode contribuir para o engrandecimento cultural, Charles Chaplin foi um homem canonizado por um dos mais populares meios de comunicação de massa:
o cinema.
E, para ilustrar a atual posição do homem frente à globalização e seus avanços técnico-científicos, faz-se mister citar um trecho de um dos mais célebres discursos da sétima arte, proferidos por um dos maiores gênios da sociedade industrial:
«Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro de ela.
A máquina, que produz abundância, tem nos deixado em penúria.
Nossos conhecimento fizeram-nos céticos, nossa inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos muito pouco.
Número de frases: 30
Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade».
suassuna no teu corpo
couro de cor compadecida
ariano sábio e louco
inaugura em mim a vida
pedra de reino no riacho
gumes de atalhos na pedreira
menina dos brincos de pérola
palavra acesa na fogueira
pós os ismos tudo é pós
na pele ou nas aranhas
na carne ou nos lençóis
no palco ou no cinema
o que procuro nas palavras
é clara quando não é gema
até furar os meus olhos
com alguma cascata de luz
devassa quando em mim transcende
lamparina que acende
e transforma em mel o que antes era pus
Artur Gomes http://jurassecretas.zip.net
http://arturgomes.zip.net Concurso Nacional de Poesia
tema: o vinho na cultura das civilizações
e Festival de Poesia Falada de Varginha
regulamentos aqui:
http://almadepoeta.com/fulinaima.htm Em a secção Agenda fotos do histórico show de Engels Espíritos
Número de frases: 26
Em o Pátio Brasil Shoping -- Brasília-DF -- 2/12/2006
Um coletivo que começou sem a menor intenção de ser um coletivo.
É o que se tornou o Aumenta que é Rock, a principio um programa de rádio que surgiu apenas (?)
para ocupar um espaço inexistente no estado, transmitindo uma programação voltada para o rock, com atenção especial para a produção independente, discutindo, questionando e informando, ao vivo, tudo que diz respeito a esse mundo.
Marcos Thomaz e Eliseu Lins são as figuras responsáveis por todo o movimento.
«Era de praxe a cerveja do fim de semana e, conseqüentemente, as intermináveis conversas sobre música e toda essa carência de eventos e ações ligadas ao rock ' n roll.
Não tínhamos sequer um programa de rádio que servisse de vitrine para o que estava acontecendo na cidade e fora do mainstream musical, não tinha um selo que lançasse e desse suporte aos artistas ligados a esse tipo de música.
Mesmo com algumas movimentações, nós notávamos que era tudo sem muito suporte e periodicidade», conta Marcos, justificando essa inquietação pra fazer algo que realmente movimentasse a cidade e fosse algo concreto, não apenas ações esporádicas.
Eles eram jornalistas e trabalhavam no sistema Correio de Comunicação, umas das grandes empresas do Estado que tem o maior jornal impresso, maior emissora de rádio e televisão local, ou seja, eles já estavam inseridos no meio, e a possibilidade de realizar o projeto do programa de rádio que eles tanto sonhavam não era tão impossível assim.
Decidiram tentar:
Fizeram um projeto escrito e apresentaram à direção da rádio assim que souberam de uma brecha na programação e, há um ano atrás, foram aprovados.
«Nós nem acreditamos.
Entraríamos no ar em menos de 15 dias e não tínhamos nenhuma experiência diante dos microfones.
Foi uma correria só pra fazer vinheta, entrar em contato com as bandas da cidade e divulgar.
Mas deu certo e no dia 18 de novembro de 2005 entramos no ar».
Principalmente por a inexistência de um outro programa e efetiva participação do público, já era de se esperar que a programação desse certo e virasse referência.
Tudo aconteceu muito rápido e sem muitas pretensões.
O envolvimento de Marcos e Eliseu nas produções culturais veio como uma conseqüência do espaço alcançado, despertando em eles cada dia mais a necessidade de ultrapassar o espaço do rádio, principalmente com a carência de iniciativas fortes e de impacto na cidade, além do surgimento de novos produtores.
«Mas a coisa deu certo mesmo porque vimos que existia um público, mesmo que pequeno.
O momento que o rock vive no país, impulsionado por a internet e acessibilidade irrestrita às coisas junto ao anseio de quem faz música na cidade, deixaram evidentes que para a coisa funcionasse mesmo bastava só um tanto de organização e coragem para arriscar.
Por que não atuar também em outras frentes?».
Foi assim que o Aumenta passou de programa de rádio para também produtora de shows.
A idéia foi agir olhando para a produção musical de outros estados que estavam dando certo e trazer para a cidade, dando assim visibilidade ao local.
«Não há cena se não há auto-estima e valorização de bandas da cidade, mas elas também não se consolidam sem apresentá-las ao público, o que é propiciado por a vinda de bandas grandes, que atraem pessoas».
E é assim que tem funcionado.
Pra fazer um show que atraia mais de 300 ou 400 pessoas aqui em João Pessoa, a banda principal tem que estar fortemente inserida na mídia de alguma forma, ou, no mínimo, cair no gosto popular comum.
O público atraído por a «banda de destaque», assim, acaba também sendo induzido a conhecer o que é produzido no seu estado, havendo a possibilidade de criar gosto por aquilo e, quem sabe, gerar uma sustentabilidade futura sem depender unicamente do externo.
Com estratégias como estas e uma popularização no meio do programa, em agosto deste ano eles deram um pontapé fundamental para a história do coletivo.
Um grande festival, com dois dias de programação e bandas maiores como Forgotten Boys, Autoramas e Relespública, intercaladas com bandas locais, fez tudo ganhar mais consistência e credibilidade.
Algo como o que faltava pra acreditar que o negócio não é brincadeira e fazer com que até os próprios organizadores acreditassem mais em si mesmos, comprovando que basta saber fazer.
As coisas precisam mostrar resultados para gerar um próximo investimento.
É como o Marcos falou, auto-estima é fundamental num meio que muito tem de trabalho, mas tem muito também de ideal.
como se não bastasse, o próximo projeto do grupo é fazer o primeiro selo de música da cidade.
E parece que estão realmente trabalhando pra viabilizar isso.
A ótima banda Motherhell será o primeiro lançamento, e a preocupação é que haja realmente uma consciência de profissionalização das bandas lançadas.
«Acho que essa história do selo hoje é o maior obstáculo do Aumenta.
Todos sabem que CD independente não dá dinheiro, já que nem as majors se sustentam mais.
Mas também achamos importante tocar os projetos e assumir responsabilidades na marra mesmo, porque se esperarmos sucumbir as dificuldades, tudo estagna de novo e a cena não sai do lugar», diz Marcos.
E a idéia nesse ramo é mesmo essa.
Como disse é mais que um negócio, é um ideal.
Entre programa de rádio, show, festival, selo e a maior comunidade no orkut sobre rock local, o que mais se destaca com certeza é a relação de tempo envolvido nisso tudo.
A o contrario de muitos estados que tem algum coletivo similar, tudo com o Aumenta foi muito rápido.
Há um ano e meio ninguém sabia quem era Marcos Thomaz, por exemplo, e nem sabia quando teríamos algo vinculado num veiculo de comunicação acessível a todos sobre rock e a produção local e regional.
Tínhamos apenas o iniciante Festival Mundo como o festival do gênero da cidade e nenhum grupo regular e homogêneo de produção do que move a música:
shows. O Aumenta que é rock fez um sábio uso de um espaço que faltava e fez a cidade ter um maior movimento e até mesmo união entre os envolvidos na cena, isso passo por passo, servindo como exemplo para articulações em outras cidades que sofrem de uma mesma carência de produção e engajamento.
Muito ainda está por ser feito, obviamente, mas acredito que estamos, aqui em João Pessoa, passando por uma fase maravilhosa, por dar perspectivas.
Isso, claro, não é mérito apenas do Aumenta que é Rock, mas de todos os envolvidos e interessados, dos músicos que apóiam, do público que dá de certa forma retorno e que está sendo construído.
É ainda um caminho que está sendo erguido para uma consolidação de outros coletivos ou até mesmo um só grande grupo.
O que vai ser?
Se vai dar mais certo ou vai acabar amanhã por um motivo qualquer?
Deus sabe.
É tudo muito inesperado nesse mundo, mas uma coisa é certa:
todas as ferramentas estão na mão e só anda pra trás se quiser mesmo.
Número de frases: 53
O personagem principal de Miguel de Cervantes, ' Dom Quixote de la Mancha ' tem um grande representante nacional, o cantor e compositor Tom Zé.
Dia 14 de julho (sábado) o cantor abriu o 7 º Festival de Inverno de Paranapiacaba, apresentando ao público músicas do seu último trabalho, o cd Dança-êh-sá.
Acompanhado por a sua banda, seis músicos que cabem no papel de Sancho Pança, mostram toda a qualidade de instrumentistas, mas ficam de lado perto de todo o carisma e surrealismo que é a figura de Tom Zé.
O músico começou o show conversando com o público, falou sobre a sua vida em Irará (interior da Bahia), as suas passagens por o sertão nordestino.
As caminhadas que realizou por o Mundo.
Cantou músicas novas do ' Dança-êh-sá ', composições que realizou com o poeta Augusto de Campos e uma música que realizou com a cantora Rita Lee (época de Mutantes) ' 2001'.
Tom Zé não perde em nada para Dom Quixote, pára, fala seus pensamentos, expõe o descaso que o governo têm para com os necessitados.
A o término do show, o público em êxtase pede o bis para o cantor, que volta com os seus fiéis escudeiros «Sanchos Panças».
Com essas palavras retorna ao palco:
«Já que vocês pediram para eu voltar, vocês se foderam» (sic).
Número de frases: 10
Cantou mais duas músicas, ' Companheiro Bush ' e Xique-Xique, fechando este primeiro dia do festival com chave de ouro, podendo pegar o seu cavalo e seguir a caminhada.
Arquiteto por profissão, poeta por vocação e matuto por convicção.
Assim se autodefine o poeta, escritor e declamador paraibano Jessier Quirino, que lançou o livro / «CD Bandeira Nordestina», dentro do programa Literato, no Centro Cultural Banco do Nordeste, na noite do último dia 25, em Fortaleza.
A presença viva do carisma de Jessier Quirino atraiu público de 250 pessoas ao Centro Cultural.
Superlotou a capacidade do cineteatro e foi necessário instalar um telão adicional em outro auditório do Centro Cultural para acolher mais gente que queria ver e saborear a poesia e a verve do artista.
A diversidade era a marca da identidade da platéia.
Um amálgama social que reunia, em harmonia, desde o presidente do BNB, Roberto Smith, e o diretor Emílio Gazzana, até estudantes jovens e adolescentes e apologistas da cultura popular regional, passando por funcionários do Banco, jornalistas, radialistas e cosmopolitas com raízes fincadas no interior nordestino.
«Antes do poeta, nasceu o declamador», rememora o início da profissão artística.
E desembesta a falar sobre o seu gosto por a deformação das palavras e o processo de criação:
«o poeta mato-grossense Manoel de Barros e o escritor mineiro Guimarães Rosa, ambos mestres na desconstrução das palavras, são autores que me são muito caros;
sabe, aquelas expressões que normalmente as pessoas consideram erradas, para mim são acidentes poéticos onde posso desenvolver idéias.
Por exemplo, hoje mesmo alguém falou ' canal de som para violino ', mas eu entendi ' carne de sol para violino ';
na mesma hora anotei a idéia, e já estou pensando em construir um poema a partir dessa expressão aparentemente errada.
É assim que eu trabalho, por isso dou muito trabalho à mulher que revisa os textos dos meus livros».
Festa no seu trabalho é o encontro com matutos nas andanças por o interior, dizendo poesia.
De eles recebe os elogios mais sinceros e efusivos, que embora emitidos à temperatura da pureza d' alma, mais pareceriam palavras desrespeitosas no idioma da cidade grande.
«Uns chegam, abraçam e batem forte nas costas, e dizem ' poeta, tu é um arrombado! ',
outros dizem ' poeta, tu é um fila-da-puta! ';
teve um que disse ' tu vale uma ruma de poeta;
se te desmanchar, faz três poeta porreta, a pedaceira que sobrar, faz mais catorze poeta safado! (
sic)».
Sal na sua poesia é o tempero do humor, que, no seu estilo de cozer arte popular, é o que acende a reflexão e dá liga à educação.
A uma pitada de humor, Jessier Quirino mistura uma porção de crítica social, que pode aguçar a consciência política do leitor.
«Um texto engraçado pode conquistar a atenção de um aluno adolescente;
aí é que a professora entra e ensina ' olha, essa palavra inventada aqui se chama neologismo, essa comparação aqui é uma metáfora, e por aí vai», exemplifica.
A o responder uma pergunta sobre a presença de termos pornográficos na poesia matuta, ele é categórico:
«o único palavrão que nunca ninguém deveria pronunciar é Fome!».
Agora declamando poemas, Jessier Quirino, além de revelar sua espirituosidade hilariante, gestualidade de ator e memória extraordinária, desfere um olhar preciso, detalhista, tal a nitidez com que descreve os itens à venda numa bodega sertaneja (" uma rodilha de fumo dando o bote / e um trinchete enfiado no sabão / e o bodegueiro despacha ao artesão / um parafuso de cabo de serrote ") ou o panorama de uma cidade do interior (" um fole de oito baixo / pitomba boa no cacho / um canário cantador / caminhão de eleitor / com os voto tudo vendido / isso é cagado e cuspido / paisagem de interior ").
Em o antológico «Vou-me embora para o passado», título pasargadamente parafraseado ao poeta pernambucano Manuel Bandeira, o artista se refugia no túnel de um tempo onde viver mais tranqüilo:
«vou-me embora para o passado / pra não viver sufocado / pra não morrer poluído / pra não morar enjaulado / lá não se vê violência / nem droga, nem tanto mal / não se vê tanto barulho / no passado é outro astral».
Já no final, Jessier Quirino arrebata gargalhadas da platéia ao contar o causo «O matuto no cinema», a história de um roceiro» analfabeto de pai, mãe e parteira " que narra, numa roda de amigos (estes, também sem instrução primária), o enredo de crime e castigo de um filme de Arnold Schwarzenegger (naturalmente, em Inglês, e legendado).
Tradução fiel dos diálogos ásperos e ameaçadores naquela língua estranha:
«Em um sei-que-lá, num sei-que-lá!».